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ATUALIDADES EM QUÍMICA

Sérgio M. Sanches, Carlos Henrique Tomich de Paula da Silva e Eny Maria Vieira

A água destinada ao consumo humano deve preencher condições mínimas para que possa ser ingerida
ou utilizada para fins higiênicos. No Brasil, a desinfecção da água para consumo é usualmente realizada com
a adição de cloro, nas formas de gás cloro e hipoclorito de sódio. Estudos recentes demonstraram que a
desinfecção da água com cloro pode trazer certos inconvenientes, como a formação de trihalometanos, que
são substâncias cancerígenas. Neste artigo, discute-se o uso de agentes desinfetantes alternativos para
tentar minimizar a formação de trihalometanos.


trihalometanos, desinfecção da água, agentes desinfetantes alternativos

Recebido em 19/8/02, aceito em 27/3/03

É
8 fato notório, reconhecido pela no rural. Em outras palavras, o controle caso de águas de qualidade inferior, co-
Organização Mundial da Saúde de qualidade da água deve ser consi- mo o são as poluídas, a cloração pode
(OMS), que o fornecimento de derado em todas as etapas do serviço ser empregada com um objetivo adicio-
água em quantidade suficiente e de boa de abastecimento, nal, aproveitando a
qualidade é uma das medidas prio- desde o manancial, a A água destinada ao ação oxidante do
ritárias para a saúde de uma comuni- captação, o recalque, a consumo humano deve cloro.
dade. O homem necessita de água de adução, o tratamento e preencher condições Na água, o cloro
qualidade adequada e em quantidade a distribuição, termi- mínimas para que possa ser age de duas formas
suficiente para as várias atividades que nando na torneira. ingerida ou utilizada para principais: a) como
desenvolve; não só para atender às suas A desinfecção da fins higiênicos, o que se desinfetante, des-
necessidades físicas, mas também para água é um processo em consegue através dos truindo ou inativando
o seu desenvolvimento econômico. que se utiliza um agen- processos de uma estação os microorganismos
A água destinada ao consumo hu- te, químico ou não, e no de tratamento patogênicos, algas e
mano deve preencher condições míni- qual se tem por objetivo bactérias de vida li-
mas para que possa ser ingerida ou a eliminação de microrganismos pato- vre; e b) como oxidante de compostos
utilizada para fins higiênicos, o que se gênicos presentes na mesma, incluindo orgânicos e inorgânicos presentes.
consegue através dos processos usa- bactérias, protozoários e vírus, além de Quando o cloro é adicionado a uma
dos em estações de tratamento. É ne- algas. No Brasil, a desinfecção da água água isenta de impurezas, ocorre a se-
cessário realizar o controle da qualida- para o consumo humano é usualmente guinte reação:
de da água para que se possa asse- realizada com a adição de cloro ativo nas
Cl2(g) + 2H2O(l)
gurar a saúde da população, pois a formas de gás cloro e hipoclorito de
água é considerada como um veículo sódio, apresentando como vantagens o HClO(aq) + H3O+(aq) + Cl–(aq)
de muitas doenças. É importante baixo custo e o fácil manuseio. Dependendo do pH da água, o áci-
relembrar que são muitos os prejuízos do hipocloroso (HClO) se ioniza, for-
econômicos que podem advir da má Utilização do cloro
mando o íon hipoclorito (ClO–), segun-
qualidade da água de consumo. O A desinfecção pode ser o principal do a reação a seguir:
controle da qualidade é uma atividade ou único objetivo da cloração quando a
de caráter dinâmico e que deve ser água a ser tratada não recebeu qual- HClO(aq) + H2O(l)
exercida, tanto no meio urbano quanto quer forma de poluição. No entanto, no H3O+(aq) + ClO–(aq)

A seção “Atualidades em Química” procura apresentar assuntos que mostrem como a Química é uma ciência viva, seja Estudos realizados demonstraram
com relação a novas descobertas, seja no que diz respeito à sempre necessária revisão de conceitos. Neste número a seção que, para valores de pH superiores a
apresenta dois artigos 6, a quantidade de HClO é menor e a

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do íon ClO– é maior. O pH das águas (CHBrCl 2 ), dibromoclorometano a muito boa, dependendo da fração de
naturais encontra-se normalmente na (CHBr2Cl) e bromofórmio (CHBr3). O tri- matéria orgânica natural existente na
faixa em que há presença tanto do halometano que se apresenta em água. Uma segunda estratégia no con-
ácido hipocloroso quanto do íon hipo- maiores concentrações é o clorofór- trole de trihalometanos é a remoção
clorito. Por exemplo, mio, mas existem ex- dos compostos precursores (matéria
para um pH igual a 8, A cloração de águas ceções. Quando o teor orgânica) antes de sua reação com o
tem-se cerca de 22% contendo matéria orgânica de brometos na água cloro, impedindo assim a formação de
de HClO e 78% de favorece a formação de do manancial é consi- trihalometanos.
ClO–. Ambos os com- trihalometanos (THMs), derável, eles são oxi-
postos possuem ação assim denominados por dados pelo hipoclorito Uso de desinfetantes alternativos
desinfetante e oxi- apresentarem em sua a hipobromitos, e ain- Atualmente, tem havido um cres-
dante; porém, o ácido estrutura molecular um da há a reação deste cente interesse pelo uso de desinfetan-
hipocloroso é mais efi- átomo de carbono, um de último com os precur- tes alternativos que minimizam a for-
ciente do que o íon hidrogênio e três de sores para formar os mação de trihalometanos. Entre eles
hipoclorito na des- halogênios. Alguns THMs, trihalometanos bro- estão o ozônio (O3), o permanganato
truição dos micror- tais como o clorofórmio, mados. A Figura 1 de potássio (KMnO4) e o dióxido de
ganismos em geral. têm sido identificados apresenta a estrutura cloro (ClO2), entre outros.
O íon ClO – tam- como substâncias molecular dos princi-
bém pode estar em cancerígenas pais trihalometanos
Dióxido de cloro
equilíbrio com os íons formados durante o A primeira aplicação de dióxido de
H3O+ (o que depende do pH) e, por- tratamento de água de abastecimento cloro como desinfetante e oxidante
tanto, uma parcela do cloro disponível público. ocorreu em 1944, na estação de trata-
tende a reagir com a água para formar mento de água da cidade de Cataratas
o ácido hipocloroso, o íon hipoclorito Tratamento de água para remoção do Niágara (EUA). A aplicação do
e o ácido clorídrico. Os íons hidrônio dos THMs dióxido de cloro para o tratamento de
formados reagem com as hidroxilas Os processos mais utilizados para água de abastecimento tornou-se pos-
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presentes na água, influindo dessa a remoção dos THMs são a aeração e sível devido à disponibilidade comer-
forma no pH, o qual, por sua vez, altera o uso do carvão ativo em pó. O pro- cial do clorito de sódio, a partir do qual
a ionização do ácido hipocloroso. cesso de aeração, entretanto, não é efi- todo o dióxido de cloro para tratamento
A cloração de águas contendo ma- caz na retirada dos precursores. Por de água normalmente é produzido. Em
téria orgânica natural (MON) favorece a serem voláteis, os THMs tendem a eva- estações de tratamento, o dióxido de
formação de trihalometanos (THMs) e porar-se quando a água clorada é ar- cloro é gerado a partir de soluções de
outros subprodutos da desinfecção mazenada por algum tempo. Se a água clorito de sódio (NaClO2), segundo as
(SPDs). Levando-se em conta a possí- é armazenada a temperatura ambiente reações a seguir:
vel presença de íons brometo na água em recipientes abertos, por exemplo 2NaClO2(aq) + Cl2(g)
em tratamento, a reação de formação por um período de três dias, ocorre a
2ClO2(aq) + 2NaCl(aq)
de THMs pode ser assim representada: volatilização completa dos trihalome-
HOCl(aq) + MON(aq) + Br–(aq) → tanos. A ressalva que se faz a este pro-
cesso é em relação ao seu caráter prá- 2NaClO2(aq) + HOCl(aq)
THMs(aq) + outros SPDs(aq)
tico, que deixa muito a desejar, pois fa- 2ClO2(aq) + NaCl(aq) + NaOH(aq)
Alguns trihalometanos, tais como o vorece a recontaminação da água.
clorofórmio, têm sido identificados co- Além disso, o uso de aeradores é des- 5NaClO2(aq) + 4HCl(aq)
mo substâncias cancerígenas, segun- cartado, em função do custo e da ma- 4ClO2(aq) + 5NaCl(aq) + 2H2O(l)
do dados do Instituto Nacional de Cân- nutenção dos equipamentos necessá-
cer dos EUA. De acordo com as nor- rios para uma aeração mecânica. Pode ocorrer a formação do íon clo-
mas e o padrão de potabilidade da água Na remoção dos trihalometanos rato (ClO3–) como subproduto indese-
para o consumo humano vigentes no através de carvão ativo em pó, obser- jável, através da seguinte reação de
Brasil, a concentração máxima permitida vou-se que a eficiência varia de pobre competição:
de trihalometanos é de 100 µg L-1.
Os trihalometanos são assim deno-
minados por apresentarem em sua es-
trutura molecular um átomo de carbo-
no, um de hidrogênio e três de halogê-
nios. Dentre os trihalometanos, quatro
ganharam destaque nas águas trata-
das, devido à sua ocorrência em con-
centrações mais significativas: clorofór- Figura 1: Fórmulas estruturais dos quatro trihalometamos que ocorrem em concentrações
mio (CHCl 3), diclorobromometano mais significativas nas águas tratadas.

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NaClO2(aq)+ Cl2(g) + OH–(aq) para a oxidação de uma grande varie- e inorgânicos na água, os quais exer-
NaClO3(aq) + HCl(aq) + Cl–(aq) dade de compostos orgânicos e inor- cerão uma demanda do oxidante an-
gânicos, principalmente de Fe e Mn, tes de ocorrer a desinfecção. Por se
Há, portanto, dois métodos comer- especialmente quan- tratar de um gás instá-
cialmente disponíveis para a geração do esses metais en- O dióxido de cloro vel, a sua produção
de dióxido de cloro a partir do cloro e contram-se comple- apresenta vantagens tem de ser feita no pró-
clorito de sódio: o sistema cloro aquo- xados com a matéria quando comparado aos prio local de aplica-
so/clorito de sódio e o sistema cloro orgânica natural. Ele demais compostos ção. A técnica mais
gasoso/clorito de sódio. também é utilizado no clorados. Ele possui maior comumente emprega-
O uso do dióxido de cloro é restrito, controle de algas em estabilidade em soluções da na geração de ozô-
em função dos problemas de estoca- decantadores. O per- aquosas, hidrolisa nio é a descarga em
gem e manuseio e por exigir capacita- manganato de potás- compostos fenólicos plasma frio ou descar-
ção técnica para sua utilização, em de- sio é altamente reativo (diminuindo a possibilidade ga corona, na qual o
corrência de seu efeito explosivo, o que sob condições encon- de sabores e odores) e ozônio é formado pela
leva à sua produção no próprio local tradas nas estações reage em menor decomposição do oxi-
de uso. Estudos realizados demons- de tratamento de intensidade com a matéria gênio molecular e pos-
traram que o dióxido de cloro apresen- água. Em condições orgânica terior combinação de
ta vantagens quando comparado aos ácidas, suas reações um átomo de oxigênio
demais compostos clorados. Ele pos- parciais são (potenciais padrões x radicalar com uma molécula de oxi-
sui maior estabilidade em soluções EPH): gênio, como apresentam as reações a
aquosas, hidrolisa compostos fenó- seguir:
licos (diminuindo a possibilidade de sa- MnO4–(aq) + 4H+(aq) + 3e–
MnO2(s) + 2H2O(l) E0 = 1,68 V O2 O• + O•
bores e odores) e reage em menor
intensidade com a matéria orgânica,
O• + O2 → O3
apesar de ser cerca de 2,5 vezes mais MnO4–(aq)+ 8H+(aq) + 5e–
oxidante do que o gás cloro. Mn2+(aq) + 4H2O(l) E0 = 1,51 V O ozônio decompõe-se na água,
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O dióxido de cloro é um desinfe- espontaneamente, por meio de meca-
tante eficiente e, com baixos valores Em condições alcalinas, a reação nismos complexos que envolvem a
de tempo de contato, é efetivo para o parcial é: geração de radicais livres hidroxilas
controle de sabor e odor e para a oxi- MnO4–(aq) + 2H2O(l) + 3e– (•OH). Os dois mecanismos de reação
dação de ferro e manganês, não sen- do ozônio na água são:
MnO2(s) + 4OH–(aq) E0 = 0,60 V
do exercida demanda adicional desse • oxidação direta dos compostos
composto se a água bruta contiver As taxas de reação de oxidação dos pelo ozônio, em valores de pH neutros
amônia. O dióxido de cloro não produz constituintes encontrados em águas ou ácidos;
quantidades significativas de subpro- naturais são relativamente rápidas e • oxidação dos compostos pelos
dutos da desinfecção (ácidos haloacé- dependem da temperatura, do pH e da radicais livres hidroxilas produzidos du-
ticos, halocetonas e haloaldeídos), ex- dosagem. rante a decomposição do ozônio, em
ceto a formação de íons clorito e clorato Este reagente pode inativar várias valores de pH básicos.
em determinadas faixas de pH, pois bactérias e vírus; entretanto, não é em- O ozônio se decompõe com rapi-
cerca de 50% a 70% do dióxido de clo- pregado como desinfetante primário dez, principalmente em temperaturas
ro consumido é reduzido a clorito. ou secundário quando aplicado em do- relativamente elevadas. Na sua aplica-
As principais desvantagens de sua ses comumente utilizadas em trata- ção, perde-se cerca de 10% por vola-
utilização são: mento de água. Altas doses têm ele- tilização. As principais vantagens do
• a desinfecção com dióxido de clo- vados custos; além disso, resíduos de uso do ozônio são:
ro produz subprodutos, como cloritos KMnO4 deixam a água rosada. Não há • reduz sabor, odor e cor;
e cloratos, cujos padrões de potabili- estudos sobre a formação de subpro- • é um poderoso oxidante, com
dade brasileiros são 0,2 mg L-1; dutos com esse método de tratamento. atuação rápida sobre a matéria orgâ-
• altos custos são associados ao nica;
monitoramento de cloritos e cloratos; Ozônio • tem ação rápida sobre bactérias;
• a luz solar decompõe o dióxido O ozônio foi utilizado pela primeira • não apresenta riscos à saúde hu-
de cloro; vez no tratamento de água em 1893, mana em casos de doses excessivas,
• pode produzir odores repulsivos na Holanda, não tendo sido muito utili- já que o seu tempo de meia-vida é de
em alguns sistemas. zado no Brasil. O ozônio é uma forma apenas alguns minutos;
alotrópica do oxigênio, apresenta odor • destrói fenóis, detergentes e pig-
Permanganato de potássio peculiar e irritante, é muito volátil e pou- mentos;
O permanganato de potássio é um co solúvel em água, sendo pouco está- • tem rápida ação desinfetante,
oxidante eficiente para o controle de vel. O ozônio é um potente oxidante, sendo suficiente um tempo de contato
sabor e odor da água de consumo e capaz de oxidar compostos orgânicos de 5 a 10 minutos;

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• seu uso pode ser combinado com O3(aq) + H2O(aq) + 2e– praticamente nenhum efeito desinfe-
a pós-cloração para eliminar proble- O2(aq) + 2OH–(aq) E0 = 1,24 V tante.
mas organolépticos decorrentes da Para a aplicação das cloraminas
existência de material orgânico produ- O valor do tempo de contato para como desinfetantes primários em uma
tor de gosto e odor. o processo com peroxônio não pode estação de tratamento de água, o amô-
Como empecilhos ao uso mais in- ser medido, apesar do alto poder de- nio e o cloro são adicionados à água
tenso do ozônio, prin- sinfetante, pois não simultaneamente ou em sucessões
cipalmente no Brasil, As cloraminas são uma boa se tem certeza da ge- próximas.
citam-se: escolha como desinfetantes ração de resíduo na As cloraminas são uma boa escolha
• é um gás veneno- secundários, pois são rede. como desinfetantes secundários, de-
so, de odor irritante, menos reativas com a vido às seguintes vantagens:
matéria orgânica do que o
Cloraminas
sem cor perceptível, • são menos reativas com a matéria
tendo como concentra- cloro (minimizando a Uma outra classe orgânica do que o cloro, minimizando
ção máxima permissí- formação de de desinfetantes al- a formação de trihalometanos e ácidos
vel na atmosfera trihalometanos e ácidos ternativos é a das clo- haloacéticos;
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0,1 mg m , necessitan- haloacéticos),são de fácil raminas, obtidas a • são de fácil obtenção e baixo cus-
do de mão-de-obra es- obtenção e baixo custo, e partir da reação do to;
pecializada para sua minimizam o surgimento de cloro residual com a • minimizam o surgimento de pro-
manipulação; problemas de gosto e odor amônia. Podem-se blemas de gosto e odor.
• não existem técni- formar três tipos de Algumas das suas desvantagens
cas analíticas suficientemente especí- cloraminas, a partir das reações se- são:
ficas ou sensíveis para o controle de qüenciais ilustradas a seguir. • têm menor poder de desinfecção
seus resíduos de forma imediata e efi- Monocloramina: que o cloro, o ozônio e o dióxido de
ciente após sua aplicação; NH4+(aq) + HOCl(aq) cloro, e o tempo de contato para con-
• os custos operacionais, nos quais trole bacteriológico deve ser muito lon-
NH2Cl(aq) + H2O(l) + H+(aq)
estão incluídos energia elétrica, insta- go; 11
lação e operação, são altos, em torno Dicloramina: • não oxidam ferro, manganês e
de 10 a 15 vezes os do uso de cloro. sulfito;
NH2Cl(aq) + HOCl(aq) • devem ser produzidas in situ.
Ozônio/peróxido de hidrogênio NHCl2(aq) + H2O(l)
No processo ozônio/peróxido de hi- Conclusões
drogênio, há um acréscimo na concen- Tricloramina:
Qualquer que seja o desinfetante

tração de OH em relação ao processo NHCl2(aq) + HOCl(aq) alternativo, deve-se garantir que:
de ozonização, aumentando o potencial a) seja efetivo na inativação de bac-
NCl3(aq) + H2O(l)
de oxidação e desinfecção. Nesse pro- térias, vírus e protozoários, entre outros
cesso, a eficiência de oxidação é au- A formação dos três tipos de clora- organismos patogênicos;
mentada pela conversão de moléculas minas é dependente da relação cloro/ b) sua aplicação seja confiável e
de ozônio em radicais hidroxila e pelo nitrogênio, do pH, da temperatura e do feita por meio de equipamentos sim-
aprimoramento de transferência do ozô- tempo de reação, sendo que a dimi- ples, tendo em vista o grau de desen-
nio da fase gasosa para a líquida, au- nuição do pH e o aumento da relação volvimento socioeconômico da comu-
mentando as taxas da reação em geral. cloro/nitrogênio favorece a formação nidade;
Ambas as reações do ozônio ocor- de produtos mais clorados. Em pH 8,5, c) não produza qualquer composto
rerão e competirão pelo substrato. Por- a monocloramina encontra-se em secundário que cause risco à saúde
tanto, a principal diferença é que a ozo- maior quantidade. Em pH 4,4, virtual- pública;
nização depende em alto grau da oxi- mente toda cloramina se encontra na d) apresente atributos similares ao
dação direta da matéria orgânica pelo forma de tricloramina, cuja presença é do cloro, tais como fornecer resíduos
ozônio, enquanto o peroxônio depende responsável, em parte, pelo odor e persistentes na água;
principalmente da oxidação do radical gosto desagradáveis na água. Na faixa e) tenha sua concentração facil-
hidroxila. de pH 4,5 a 9,0, monocloramina e mente medida, não acarrete sabor e
Os potenciais de redução do ozônio dicloramina coexistem em proporções odor, e seja disponível no mercado a
e dos radicais hidroxilas são apresen- variadas. Por exemplo, entre pH 4,5 e custos razoáveis.
tados nas reações a seguir (potenciais 5,5, existe quase que somente diclo- No Brasil, não se tem feito uso de
padrões x EPH): ramina. Essas quantidades de mono, agentes desinfetantes alternativos tais
di e tricloramina são relevantes, já que como ozônio, dióxido de cloro, per-
•OH(aq) + e– OH–(aq) E0 = 2,8 V apresentam entre si diferente poder de manganato de potássio e peroxônios,
desinfecção: a dicloramina tem maior sendo que estes vêm sendo utilizados
O3(aq) + 2H+(aq) + 2e– efeito bactericida, seguida da mono- somente em universidades, para fins
O2(aq) +H2O(l) E0 = 2,07 V cloramina; a tricloramina apresenta de pesquisa.

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Não tem havido investimento em fetantes não clorados deverão ser cres- Para saber mais
desinfetantes alternativos ao uso do centemente utilizados, de forma com-
DANIEL, L.A. Processos de desinfec-
cloro, por este apresentar o mais baixo binada e até substitutiva ao cloro, de ção e desinfetantes alternativos na pro-
custo, mantendo ainda alguma efici- acordo com o desenvolvimento socio- dução de água potável. Rio de Janeiro:
ência. A utilização de tal agente aumen- econômico da comunidade e com os RIMa, ABES-PROSAB, 2001. p. 27.
ta os riscos à saúde pública, principal- custos envolvidos no tratamento de DI BERNARDO, L. Métodos e técnicas
mente quando a água apresenta uma de tratamento de água. Rio de Janeiro:
água.
coloração muito escura, o que geral- ABES, 1993. v. 2.
DI BERNARDO, L. Algas e suas influ-
mente é devido a uma grande quanti- Sérgio M. Sanches (smsanches@iqsc.sc.usp.br), quí- ências na qualidade de águas e nas tec-
dade de matéria orgânica (substâncias mico, formado pela Universidade Federal de Uberlân- nologias de tratamento. Rio de Janeiro:
húmicas). O controle tem sido realiza- dia, mestre em Química Analítica pela USP, é aluno de ABES, 1995.
do principalmente através de dosagem doutorado em Ciências da Engenharia Ambiental, na
MACÊDO, J.A.B. Determinação de
USP, em São Carlos - SP. Carlos Henrique Tomich de
da quantidade de trihalometanos for- trihalometanos em águas de abasteci-
Paula da Silva (tomich@if.sc.usp.br), químico pela Uni-
mados na água. camp, mestre pelo Instituto Militar de Engenharia,
mento público e de indústria de ali-
Em países desenvolvidos, tais co- doutor pela USP, faz atualmente pós-doutorado no mentos. Viçosa, Universidade Federal de
Instituto de Física de São Carlos da USP. Eny Maria Viçosa (tese de doutorado), 1997.
mo França, Alemanha e Estados Uni- USEPA - U.S. ENVIROMENTAL PRO-
Vieira (eny@iqsc.sc.usp.br), química formada pela
dos, tais agentes alternativos já vêm Universidade de Alfenas, mestre e doutora em Química TECTTION AGENCY. Alternative disinfec-
sendo empregados no tratamento de Analítica pela USP, é docente do Instituto de Química tants and oxidants guidance manual.
água pública. Futuramente, os desin- de São Carlos da USP. Washington, 1999.

Abstract: Alternative Disinfectants for Drinking Water Treatment – Water for human consumption must meet minimum requirements in order to be ingested or used for hygienic purposes. In Brazil the
disinfection of drinking water is usually done by the addition of chlorine, in the forms of chlorine gas and sodium hypochlorite. Recent studies demonstrated that the disinfection of water with chlorine can
bring certain inconveniences, as the formation of trihalomethanes, which are carcinogenic substances. In this paper, the use of alternative disinfectants is discussed in order to minimize the formation of
trihalomethanes.
Keywords: trihalomethanes, water disinfection, alternative disinfectants

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Notas
Elemento 110: Darmstádtio? Revista Enseñanza de las Ciencias textos informais. Assim, dar prioridade
A descoberta do ele- Publicada desde à publicação de estudos, relacionados
110 mento 110 (vide Química 1983, a revista ao ensino e à aprendizagem de conteú-
dos científicos e matemáticos, que ana-
Ds Nova na Escola, n. 5 , p.
12, 1997) foi confirmada
por um grupo de trabalho
Enseñanza de las
Ciencias (http://
blues.uab.es/rev-ens-ciencias) é ponto
lisem a gestão da aula (trabalhos em
grupos pequenos ou grandes, coope-
ração e trabalho individual, etc.), o grau
conjunto da IUPAC (União Internacional de referência entre os profissionais do
de Química Pura e Aplicada) e da IUPAP campo do ensino de Matemática e das de envolvimento do estudante na apren-
(União Internacional de Física Pura e Ciências Experimentais, na Espanha e dizagem, sua autonomia ou dependên-
Aplicada), em 2001 (vide Química Nova na Iberoamérica. cia, a atenção à diversidade de interes-
na Escola, n. 14 , p. 45, 2001). Agora os Publicada pelo Instituto de Ciências ses e níveis dos alunos de um grupo/
descobridores do elemento, pesquisa- da Educação da Universidade Autô- classe, o preparo e aplicação de ativi-
dores do GSI - Centro de Pesquisas noma de Barcelona (UAB) e pela Pró- dades de diferentes tipos, a correção de
sobre Íons Pesados, em Darmstadt, Reitoria de Pesquisa da Universidade de erros no processo de aprendizagem etc.
Alemanha, propuseram nome e símbolo Valência (UV), tem como objetivos: • Incentivar análises críticas sobre os
para esse elemento: darmstádtio e Ds. • No campo do ensino de Ciências, trabalhos em desenvolvimento na atuali-
Esta proposta está de acordo com a tra- aprofundar-se na base teórica dos estu- dade.
dição de elementos serem nomeados dos e pesquisas publicados, propician- A revista, cuja editoria é compartilha-
com base no nome do local em que fo- do reflexões fundamentadas sobre a si- da por docentes da UAB e da UV (lidera-
ram descobertos. A aceitação dessa tuação e perspectivas das diferentes li- dos por Neus Sanmartí e Carmen Azcá-
proposta está sendo recomendada ao nhas de investigação prioritárias na atua- rate, da UAB), dispõe tanto de assina-
Conselho da IUPAC pela sua Divisão de lidade, e fomentar trabalhos interpre- turas em papel (com acesso via Internet)
Química Inorgânica. O conselho deverá tativos que permitam o avanço na com- ou só para acesso via Internet (com re-
analisar a proposta durante a 42ª preensão de problemas significativos cebimento de um CD, ao final do ano).
Assembléia Geral da IUPAC, prevista relacionados à aprendizagem científica. Cabe destacar que os números pu-
para ocorrer de 9 a 17 de agosto de • Promover estudos que atendam às blicados no período 1998-2001 estão
2003, em Ottawa, Canadá. necessidades do professorado de Ciên- disponíveis para acesso gratuito no en-
Para mais informações, vide: http:/ cias/Matemática e que aprofundem-se dereço http://www.bib.uab.es/pub/
/www.iupac.org/publications/ci/2003/ no impacto sobre diferentes práticas ensenanzadelasciencias.
2503/pr1_corish.html. educativas, em sala de aula ou em con- (RCRF)

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