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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriarrt)
APRESENTTAQÁO
DA EDIpÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
' visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questoes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
¡L vista cristáo a fim de que as dúvidas se
, - dissipem e a vivencia católica se fortaleca
""" no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico ■ filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO XXXV

FEVEREIRO

1994

en SUMARIO

(O
UJ A Cruz Gloriosa

"O Esplendor da Verdade"


ai
Infalibilidade Papal e Definipoes "Ex-Cathedra'
O

Lavagem de Cránio e Seitas

Juventude e Sexo
UJ
_i
m Batismo da New Church (Nova Igreja)
s
Q. Trabalhár no Domingo .
PERGUNTE E RESPONDEREMOS FEVEREIRO 1994
Publicacao mensal N°381

Diretor-Responsável SUMARIO
Estévao Bettencourt QSB
Autor e Redator de toda a materia A Cruz Gloriosa 49
publicada neste periódico
A nova Encíclica:

Diretor-Administrador:
"O Esplendor da Verdade" 50

D. Hildebrando P. Martins OSB Em que termos?


Infalibilidade Papal e Definicóes
Administracao e distribuicao: "Ex-Cathedra" 62
Edicoes "Lumen Christi"
Estupro da Mente:
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5? andar - sala 501 Lavagem de CrSnio e Seitas 75
Tel.: (021) 291-7122
Fax (021) 263-5679 Dados impressionantes:
Juventude e Sexo 85

Endereco para correspondencia: Batismo da New Church (Nova Igreja). . 94


Ed. "Lumen Christi"
Trabalhar no Domingo 95
Caixa Postal 2666
Cep 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ

ImprcsSiíoe Encademopoo

"MARQUES SARAIVA "


GRÁFICOS E EDITORES S.A.
Tels.: (021) 273-9498/273-9447

NO PRÓXIMO NÚMERO:

A Cruz, Símbolo Pagao? — A TelevisSo e suas Influencias. — Ainda o Caso Ga-


lileu. — 0 Papa e o Comunismo.

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

ASSINATURA ANUAL PARA 1994


(12 números) CR$ 4.500,00 - n? avulso ou atrasado CR$ 450,00

.O pagamento poderá ser á sua escolha:.


1. Enviar EM CARTA cheque nominal ao Mosteiro de Sao Bento do Rio de Janeiro, cruza
do, anotando no verso: "VÁLIDO SOMENTE PARA DEPÓSITO na conta do favoreci
do" e, onde consta "Cód. da Ag. e o N? da C/C". anotar: 0229 - 02011469-5.
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tó do Rio de Janeiro, enviando a seguir xerox da guia de depósito para nosso controle.
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Sendo renovacao, anotar no VP nome e endereco em que está recebendo a Revista.
A CRUZ GLORIOSA

O mes de fevereiro é marcado pelo inicio da Quaresma, período de


quarenta dias de preparado para a celebrado da Páscoa ou da obra da
RedencSo: Cristo morreu e ressuscitou a fim de obter para o género huma
no a vitória sobre o pecado e a morte.
Olhando para as imagens do Crucificado, algumas pessoas perguntam:
Por que o Cristo é representado como o homem das dores pregado á Cruz,
quando na verdade Ele ressuscitou e já nao morre mais? — A propósito
convém observar:
A imagem da Cruz é indispensável á contemplacao do cristao, pois foi
■ o instrumento da Redencao. Sao Paulo mesmo nos diz: "Nao aconteca glo-
riar-me senao na Cruz de Nosso Senhor Jesús Cristo, por quem o mundo
está crucificado para mim e eu para o mundo" (Gl 5,14). O Apostólo lem-
bra aos Gal atas que, pela pregacao do Evangelho, "aos olhos dos fiéis foi
desenliada a imagem de Jesús Cristo crucificado" (Gl 3,1).
Todavia é preciso nao esquecer que a Cruz foi transfigurada pelo fato
mesmo de que Jesús pendeu déla e pela sua morte venceu a morte. Por isto
os antigos representavam o Cristo fixo á Cruz revestido de urna túnica de
Rei, com mangas largas e um diadema na cabeca; era o Senhor que con-
quistou a realeza mediante a Cruz e fez desta o seu trono de gloría. Tam-
bém cravavam na Cruz pedras preciosas, para indicar a gloria da Cruz. Fa-
zendo eco a estes dados iconográficos, a Oracao Eucarística n? 1, que data
do sáculo IV, refere-se á "bem-aventurada Paixáo (beata Passio) de Cris
to". Através do Cristo dolorido o cristao percebe o Cristo triunfante e Rei.
Na Idade Media é que a piedade crista se voltou mais para os aspectos
humanos e arqueológicos da Paixao de Cristo. Sim; os cruzados e os pere
grinos que voltavam da Térra Santa, traziam aos seus irmaos as imagens
dos lugares santos e das cenas históricas da Paixao do Senhor. Intensificou-
se entao a devocSo á Via Sacra e á figura ensangüentada de Jesús Cristo;
dai' a re presentacao de Cristo pregado á Cruz com toda a atrocidade do
suplicio. Esta imagem se foi transmitindo de sáculo em século até nossos
dias, tomando mais e mais o lugar da anterior, transparente á vitória de
Cristo. Pode-se desejar a restauracáo da imagem de Cristo-Reí fixo á Cruz,
que, alias, ná"o desapareceu por completo de nossa arte sacra.
É indispensável, porém, a reflexao sobre a Paixao de Cristo... Em par
ticular, a figura de Cristo prostrado sobre os joelhos no horto das Oliveiras
vem a ser.poderoso estímulo para o cristao: Antes de ser crucificado (coisa
rara hoje), Ele sbfreu dores físicase moráis (coisa muito freqüente entre
nos), e quis dizer o que todo horneen espontáneamente diría: "Pai, se pos-
sível..., mas faca-se a tua vontade e nao a minha!" (Me 14,36). E Ele foi
atendido, porque era da vontade do Pai que Ele frory^
nos, sofrendo e morrendo corn Ele, possamos tai n¡;
ressurreicSo gloriosa.

49
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
ANO XXXV - N? 381 - Fevereiro de 1994

A nova Encíclica:

"O ESPLENDOR DA VERDADE'

Em síntese: A Encíclica Veritatis Splendor, a décima do pontificado


de Joao Paulo II, nao versa sobre questoes particulares de sexualidade
(como noticiava a imprensa), mas trata dos principios fundamentáis da
Moral Católica, tendo em vista as tendencias subjetivistas que ameacam
a auténtica compreensao da Ética. 0 Papa reafirma a existencia da leina
tural incutida em todo ser humano, com suas normas universais e imutá-
veis: nao matar, nao roubar, nao adulterar, nao caluniar... Por conseguinte,
nao é a yontade do homem que define o bem e o mal, mas é o próprio
Deus, Criador da natureza humana. Disto se segué que há atos intrínseca
mente maus, isto é, pecaminosos por sua índole mesma. Á consciéncia
compete levar em conta o teor objetivo dos preceitos moráis e aplicá-los
á situacao concreta do individuo; para tanto, requer-se que a consciéncia
se/a bem formada, evitando escrúpulos doentios e laxismo frivolo. A En
cíclica lembra ainda que a rigidez da Igreja Católica em Moral é um servico
prestado ao homem e a sociedade, visto que a grave crise sócio-econdmico-
politica de nossos días, em última análise, é urna crise ética. Somente a
fundamentacao em Deus e nos seus preceitos permitirá a sociedade con
temporánea superar seu momento difícil e proporcionar maior bem-estar
aos seus cidadaos.

* * *

O Papa Joáo Paulo 11 assinou a décima Encíclica de seu pontificado


aos 6 de agosto de 1993, após quase seis anos de paciente e atenta prepa-
racSo. A imprensa, já mesmo antes da publicacao desse documento, que se
deu no dia 6/10/1993, comentava a Encíclica, apresentando-a como ex-
planacao da moralidade sexual... Este tema parecía ser o assunto dominan
te da Veritatis Splendor. — Ora quem lé o texto, verifica que pouco se de-
tém em casuística ou em problemas particulares de Moral; vem a ser, antes
do mais, urna refiexao sobre a Moral Fundamental ou os grandes princí-

50
"O ESPLENDOR DA VERDADE"

píos da Moral frente ás teorías de Ética contemporánea, que tendem a fa-


zer da vontade do homem o criterio absoluto da Moralidade. Os aspectos
particulares da vida moral sao abordados pelo Catecismo da Igreja Católi
ca, ao qual a Encíclica, logo em seu inicio, faz referencia:

"Ao remeter para o Catecismo como texto de referencia seguro e au


téntico para o ensino da doutrina católica, a Encíclica limitar-se-á a afron
tar algumas questoes fundamentáis do ensinamento moral da Igreja, sob a
forma de um necessário discernimento sobre problemas controvertidos
entre os estudiosos da Ética e da Teología" (n? 5).

Dada a importancia do documento, passamos a percorrer os seus


principáis tópicos.

1. O TEOR DOUTRINÁRIO DA ENCÍCLICA

A leitura da Encíclica nao é fácil, visto que recorre a frases longas


e de terminología especializada. Como quer que seja, percebe-se que o seu
fio condutor é a intencá*o de abordar o problema "subjetivismo x objeti
vismo" em Moral. Com outras palavras: o comportamento ético é regido
por normas válidas para todos os homens ou é lícito a cada um definir sua
conduta únicamente a partir de seu modo de pensar e querer?

Tal é, sem dúvida, o problema I aneado por muitas correntes de pensa-


mento contemporáneas, impregnadas de existencialismo.1 Frente a tais
concepcoes, o S. Padre reafirma, com toda a Tradicao Católica, que exis-
tem normas objetivas e universais de Moralidade, baseadas na lei natural:
"Nao matarás, Nao roubarás, Na*o adulterarás, Nao caluniarás... "Natural
mente essas normas universais há"o de ser consideradas pela consciéncia de
cada individuo; após atento exame das circunstancias (estado de saúde,
idade, conhecimentó de causa...), a consciéncia dirá se a lei universal vafe,
e até que ponto vale, no caso concreto deste ou daquele individuo.

Explicitemos os textos da Encíclica em que tal tese é proposta.

1.1. Que é a Moral?

A Moral da Igreja é a indicacao, ao homem, daquilo que ele deve fa-


zer para possuir a vida eterna. A pergunta do jovem rico a Jesús: "Mestre,

1 O existencialismo é a escola que tem por criterio da verdade e da Moral


"eu e minhas circunstancias". Ora, como as circunstancias em que me
acho, mudam, a verdade e a Moral (o bem e o mal) podem mudar constan
temente para mim e para os meus semelhantes. Nao havería, pois, normas
umversalmente válidas. . . •..

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

que farei de bom para entrar na vida eterna?" (Mt 19,16) é a pergunta de
todo homem, que senté em si o chamado íntimo á plenitude da vida. A
resposta de Jesús a tal indagacao aponta o Decálogo, que corresponde ao
que se chama "a lei natural":

"Se queres entrar na vida, cumpre os mandamentos...: Nao matarás,


nao adulterarás, nao roubarás, nao levantarás falso testemunho; honra pai
e mae, e honra a teu próximo como a ti mesmo" (Mt 19, 17-19).

0 S. Padre afirma, pois, com toda a Tradicá"o crista, mesmo com pen
sadores pré-cristaos e nao cristaos, a existencia de uma lei incutida no co-
racao de todo homem e anterior a qualquer escola ou cultura:

"Só Deus pode responder á pergunta sobre o bem, porque Ele é o


Bem. Mas Deus respondeu já a esta pergunta... criando o homem e orde-
nando-o com sabedoria e amor ao seu fim, mediante a lei inscrita no seu
coracio (cf. Rm 2,15), a lei natural... Gracas a ela, conhecemos o que se
deve cumprir e o que se deve evitar" (n? 12).

Desta afirmacao se concluí que "a Moral da Igreja implica necessaria-


mente uma dimensao normativa"; ela nao é apenas a verif¡cacao fria dos
diversos com porta mentos dos homens e dos povos; ela nao se limita a fa-
zer estatísticas, das quais se depreenderia o que é certo e o que é errado;
certo seria o que a maioria dos homens faz:

"A Teología Moral nao se pode reduzir a um conhecimento elabora


do só no contexto das chamadas ciencias humanas. Enquantó estas se ocu-
pam com o fenómeno da moralidade como fato histórico e social, a Teolo
gía Moral, embora deva servirse das ciencias do homem e da natureza, nSo
está subordinada aos resultados da observacao empírico-formal ou da com-
preensao fenomenología...

Os principios moráis nSo sao dependentes do momento histórico em


que sao descobertos, Alémdisso, o fato deatgunscrentesagirem sem obser
var os ensinamentos do Magisterio ou consideraren)\ erradamente como
moralmente justa urna conduta declarada pelos seus Pastores contraria a
lei de.Deus, nao pode constituir argumento válido para rejeitar a verdade
das normas moráis ensinadas pela Igreja. A afirmacao dos principios mo
ráis nao é da competencia dos métodos empírico-formáis" (n? 1 i 1s).

1.2. Lei Natural e Autonomía da Razáo

Em nossos días, a estima da liberdade de arbitrio tem levado varios


pensadores a proclamar a autonomía da razao humana em materia ética; o

52
"O ESPLENDOR DA VERDADE"

homem teria o poder de definir o que é bem e o que é mal. Tal teoría assu-
me modalidades diversas, que o texto da Encíclica enumera. Eis urna délas:

"Alguns chegaram a conceber urna completa soberanía da razio no


ámbito das normas moráis...; tais normas constituirían) o ámbito de urna
Moral meramente 'humana', isto é, seriam a expressSo de urna lei que o
homem autónomamente daría a si próprio, com a sua fonte exclusiva na
razio humana" (n? 36).

Outra modalidade de autonomía seria a seguínte:

"Querendo manter a vida moral num contexto cristao, foi introduzi-


da por alguns teólogos moralistas urna nítida distincao, contraria á doutri-
na católica, entre urna ordem ética, que teria orígem humana e valor ape
nas temporal, e urna ordem da salvacao, para a qual contariam apenas al-
gumas intencoes e atitudes interiores relativas a Deus e ao próximo... A
Palavra de Deus limitar-se-ia a propor urna exortacao genérica, que... a ra
zao autónoma teria a tarefa de preencher com determinagoes normativas...
adequadas á situacao histórica concreta" (n? 37).

Observa Joáo Paulo II:

"É impossível nao ver que urna tal interpretado da autonomía da


razao humana comporta teses incompatíveis com a doutrina católica"
(n? 37).

Lembra o texto que a autonomia da razao humana nSo é ilimitada;


Deus deu ao homem o mandamento de cultivar e embelezar a térra; toda
vía ele o deve fazer como imagem e semelhahca de Deus ou como manda
tario do Criador. O homem nao é fonte dos valores moráis; foi precisa
mente este o pecado dos primeiros pais — o querer ser arbitros entre o
bem e o mal, como Ihes sugeriu o tentador: -

"Deus sabe que no dia em que comerdes, vossos olhos se abrírao e


seréis como deuses, arbitrando entre o bem e o mal" (Gn 3,5).

Na verdade, a autonomia moral do homem nao significa a recusa,


mas, sim, o acolhimento dos mandamentos de Deus. A liberdade do ho
mem e a lei de Deus sao chamadas a compenetrar-se entre si, no sentido
de que ao homem compete prestar livre obediencia a Deus, enquanto
Deus tributa gratuita benevolencia ao homem. Disto resulta que o homem
ná*o é soberanamente autónomo em materia moral; mas também nao é
heterónomo, isto é, guiado por alguém que I he é estranho; na verdade, o

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6 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

homem é tednomo,.. Teónomo, porque a livre obediencia do homem a


Deus implica a participacSo da razSo e da vontade do homem na Sabedoria
e Providencia de Deus.

1.3. Atos intrínsecamente maus

Atos intrínsecamente maus sao aqueles que, por su a índole mesma,


sao pecaminosos, ¡ndependentemente de circunstancias; assim matar um
inocente, roubar, caluniar...

Se a Moralidade é algo de objetivo e nao depende do alvitre do indi


viduo, tornase claro que existem atos intrínsecamente maus. Retomando
um dos exemplos citados, diremos que matar um ¡nocente (urna enanca
no seio materno...) é algo de imoral, i ndependentemente das circunstan
cias em que se encontré a gestante. Ainda que esta, ao abortar, tenha a ¡n-
tencao de evitar o nascimento de urna enanca deficiente ou a ¡ntencáo de
salvaguardar a economía do lar, o ato abortivo, como tal, é mau; nao se
torna mora I mente bom pelo fato de que pai e mae tenham boas intencoes,
pois o fim ná"o justifica os meios. Para atingir um objetivo bom, nao é lí
cito recorrer a meios maus ou pecaminosos. Eis outro exemplo: roubar é
algo de intrínsecamente mau; por isto nunca é lícito roubar, nem mesmo
quando se tem a intencao de socorrer um pobre1.

A tal respeito lé-se na Encíclica:

"Como ensina o Catecismo da Igreja Católica, 'há comporta/ventos


concretos pelos quais é sempre errado optar, pois talopcao incluí urna de-
sordem da vontade, isto é, um mal moral' (n? 1761) " (n? 78).

Adiante ainda se lé:

"A razao atesta que há objetos do ato humano que se configurara


como 'nio-ordenáveis' a Deus, porque contradizem radicalmente o bem
da pessoa, feita é Sua imagem. Sao os atos que, na tradicao moral da
Igreja, foram denominados 'intrínsecamente maus'; sSo-no sempre e por

1 A formulacSo negativa de um preceito ("NSo matar, nSo roubar, nSo


adulterar, nSo caluniar...) torna esse preceito absolutamente inviolável,
pois a fórmula negativa estabelece o limite entre o bem e o mal. O Nao in
dica que o Sim é mau; dizer S\m ao morticinio, ao roubo, ao adulterio... é
mau; por isto é preciso dizer-lhes Nao. Nao há meto-termo entre o bem e o
mal.

54
"O ESPLENDOR DA VERDADE"

si mesmos, ou. se/a, pelo próprío objeto, independentemente das posterio


res intencdes de quem age e das circunstancias. Por isto, sem querer míni
mamente negar o influxo que tém as circunstancias e sobretudo as inten
coes sobre a moralidade, a Igre/a ensina que 'existem atos que, por si e em
si mesmos, independentemente das circunstancias, sao sempre gravemen
te ilícitos, por motivo do seu objeto' (Exortacao ApostólicaPós-sinodal
Reconciliatio et Paenitentia n? 17)" (n? 80).

1.4. A Consciéncia

A Moral Católica, que apregoa a objetividade dos preceitos éticos,


nao é fría ou indiferente ás situacSes em que o homem se encontré; este
nao é um autómato, regido por normas cegas. Por isto existe em todo ser
humano urna faculdade á qual compete avaliar a obrigatoriedade ou nao
das leis moráis ñas circunstancias concretas em que o ¡ndivfduo se ache.
Tal faculdade é chamada a consciéncia moral.

A consciéncia moral toca tomar conhecimento exato das leis objeti


vas da Moralidade (a consciéncia nao é autónoma, mas teónoma) e ponde
rar o grau de vigencia (plena, parcial ou nula) de tais normas no contexto
concreto em que se encontra o individuo. Assim, por exemplo, quem tem
obrigacao de comparecer ao escritorio ou á fábrica para trabalhar como as-
salariado e se acha em condicoes de saúde abaladas, pondere em sua cons
ciéncia se, aqui e agora, o dever de ir trabalhar aínda o obriga; pode ser
que a consciéncia Ihe diga Sim como tambémlhe podedizer Nao. Para que o
julgamento seja correto, requer-se que a consciéncia seja devidamente for
mada, evitando tanto os escrúpulos doentios quanto o laxismo leviano.

Há, porém, quem hoje queira abribuir á consciéncia o direito de igno


rar ou violar as normas objetivas da Moral; a consciéncia poderia permitir
ao individuo cometer tranquilamente atos intrínsecamente maus:

"Tendo em vista as circunstancias e a situacao, a consciéncia poderia


legiiimamente éstabelecer excegdes á regra geral, permitindo cumprir, em
boa consciéncia, aquilo que a lei moral, qua/ifica como intrínsecamente
mau... Sobre esta base, preténdese éstabelecer a legitimidade de solucoes
chamadas 'pastarais', contrarias aos ensinamentos do Magisterio e justifi
car urna hermenéutica 'criadora' segundo a qual a consciencié moral nSo
estaría, de modo algum, obrigada, em todos os casos, por um precéito
negativo particular" (n? 56) ".

O fundamento mais profundo desta posícao errónea estaría na obser-


vacSo seguinte: cada pessoa é um misterio único, complexo e irrepetível,
de modo que nenhuma lei pode valer para todos os individuos em todos os

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"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

tempos e lugares (cf. n? 55). Com outras palavras: ná*o haveria que procu
rar praticar a verdade objetiva, mas bastaría a sinceridade do comporta-
mentó; o homem estaría livre para agir como bem quisesse, contanto que
procedesse de acordó com os difames meramente subjetivos de sua cons-
ciéncia:

"Em algumas correntes do pensamento moderno, chegou-se a exaltar


a liberdade até o ponto de se tomar um absoluto, que seria a fonte dos va
lores... Atribuiram-se é consciéncia individual as prerrogativas de instancia
suprema do juízo moral, que decide categórica e infa/ive/mente sobre o
bem e o mal. Oeste modo a imprescindi'vel exigencia de verdade desaparece
em pro! de um criterio de sinceridade, de autenticidade, de acordó consigo
próprio, a ponto de se terchegado a urna concepcao radicalmente subjeti-
vista do juízo moral" (n? 32).

Em resposta a estas teorías, é de notar que, embora cada ser humano


seja rico em facetas origináis, existe, nSb obstante, em todo individuo urna
mesma e única natureza, portadora das mesmas normas para todos; assim,
por exemplo, no plano fi'sico todos devem ingerir alimentos sadios, respi
rar ar puro, repousar convenientemente, evitar tóxicos...; caso nSo respeite
tais normas naturais, o individuo se condena a deteriorar ou perderá vida
física; paralelamente no plano ético, a natureza manda nSo matar, nSo
roubar, ná*o adulterar..., sob pena dé que o individuo se desfigure moral-
mente; á consciéncia nunca será licito ignorar ou violar tais leis, mesmo
que a observancia das mesmas exija sacrificio e renuncias. Também as
leis do corpo humano sao normas para a conduta. moral do individuo; o
que contraria a fisiología ou as leis da biología, é violacáo da própria digni-
dade humana; daí a recusa, por parte da Moral Católica, de contracepca*o,
esterilizacao, masturbacáfo, relacdes homossexuais, relacóes pré-matrimo-
niais, fecundado artificial (n? 47). Sim; lembra o S. Padre que a liberdade
do homem é limitada também pelas leis da sua biología ou fisiología, pois
o homem ná*o é um ser meramente espiritual ou angélico, masé psicosso-
mático; em conseqüéncia, as leis do soma ou do corpo sao as leis do pró
prio homém; nao sSo leis extrínsecas ao homem, que o livre arbitrio possa
aceitar ou rejeitar segundo criterios subjetivos. Escreve o Papa:

"Urna doutrina que separé o ato moral das dimensoes corpóreas do


seu exercicio, ¿contraria aos énsinamentos da Sagrada Escritura e da Tra-
dicSo; essa doutrina faz reviver, sob novas formas, alguns velhos erros sem-
pre combatidos pela lgreja,porquanto reduzem a pessoa humana a urna li
berdade espiritual puramente formal. Esta reduelo desconhece o significa
do moral do corpo e dos comportamentos que a ele se referem (cf. ICor
6,19). O Apostólo Paulo declara excluidos do Reino dos céusos ¡moráis,
idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas, ladroes, avarentos, bébados,

56
"O ESPLENDOR DA VERDADE"

maldizentes e salteadores (cf. ICor 6£s)... De fato, corpo e alma sao inse-
paráveis na pessoa, no agente voluntario e no ato deliberado; eles salvam-se
ou perdem-se¡untos" (n? 49).

1.5. Pecado mortal e pecado venial

Também a clássica nocáo de pecado tem sido posta em xeque. O pe


cado, que é um Nao dito a Deus, ocorre, segundo a Tradicao, quando tres
condicoes se realizam simultáneamente: a) naja materia grave; b)... conhe-
cimento de causa; c) ... vontade deliberada. Tal pecado é dito mortal, por
que extingue a vida da grapa no íntimo de quem o comete. Caso falte
alguma das tres condipoes mencionadas, o pecado é leve ou venial.

Ora últimamente alguns autores tém afirmado que, para haver pecado
mortal, é necessário que o individuo retrate sua opcáo fundamental ou
queira romper explícitamente seu liame de comunhao com Deus. Enquan-
to a pessoa pratica algo que contraria a lei de Deus, mas nao pretende,
com isto, desligar-se de Deus, tal pessoa nao estaría pecando mortalmente.
Sendo assim, o pecado mortal seria algo de raro, pois a maioria das pessoas
que pecam gravemente nao pensa em apostatar da fé e da comunhao com
Deus; interessa-seapenas pelo prazer que o pecado Ihes possa proporcionar.

Ora a propósito o S. Padre lembra:

"O Sínodo dos Bispos de 1983... nao só reafirmou tudo o que foi
proclamado no Concilio de Trento sobre a existencia e a natureza dos pe
cados moríais e veníais, mas quis aínda lembrar que é pecado mortal
aquele que tem por objeto urna materia grave e que, conjuntamente, é co
metido com plena advertencia e consentimento deliberado.

A afirmagao do Concilio de Trento nSo considera só a materia grave


do pecado mortal, mas lembra também, como sua condicSo necessária, a
plena advertencia e o consentimento deliberado... Há de evitarse reduzir o
pecado mortal a um ato de opcao fundamental — como hoje em día se
costuma dizer — contra Deus, entendendo com isso quer um desprezo ex
plícito e formal de Deus e do próximo, quer urna recusa implícita e nSo
reflexa do amor. Dá-se efetivamente o pecado mortal também quando o
homem, sabendo e querendo, por qualquer motivo escqlhe alguma coisa
gravemente desordenada. Com efeito, numa escolha assim já está incluido
umdesprezo do preceito divino, urna rejeicao do amor de Deus para com á
humanidade e para com toda a criacao: o homem afasia a si próprio de
Deus e perde a caridade. A orientacSo fundamental pode, pois, ser radical
mente modificada por atos particulares" (n? 70).

57
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

Outro aspecto do tema "pecado" é o seguinte:

Quando alguém comete um ato gravemente desordenado sem saber


que é tal, está sendo vi'tima de ignorancia moral. Tal ignorancia pode nSo
ser culpada (a pessoa pode ná~o ter culpa de ná*o saber que está cometendo
algo de erróneo); neste caso ná"o há pecado formal ou propriamente dito;
há apenas pecado material, isto é, urna acao má nao imputável á responsa-
bilidade de quem a comete. Todavía a ignorancia pode ser culpada ou po
de ser devida a urna negligencia consciente e voluntaria de quem age; é o
caso do médico que comete erras no exercício de sua profissao, porque
descuida conscientemente de se atualizar; cf. n? 63s.

Explanadas tais verdades na primeira e na segunda Partes da Encícli


ca, o S. Padre, na terceira Parte, se volta para aplicacoes e conseqüéncias
concretas de quanto foi exposto.

2. APLICACÓES CONCRETAS

Realcemos cinco tópicos importantes.

2.1. Relativismo de pensamento

A necessidade de reafirmar certos principios éticos em nossos diasé


tanto mais evidente quanto mais se presencia a derrocada da dignidade
humana.

"O homem freqüentemente já nao sabe quem é, donde vem e para


onde val E é assim que nao raro assistimos á tremenda derrocada da pes
soa humana em situacoes de autodestruicao progressiva. Se fóssemos dar
ouvidos a certas vozes, parece que nao mais se deveria reconhecer o indes-
trutível caráter absoluto de qualquer valor moral. Está patente aos olhos
de todos o desprezo da vida humana já concebida e aínda nSo nascida, a
violacao permanente de fundamentáis direitos da pessoa, a destruicao
iníqua dos bens necessários para urna vida verdaderamente humana. Mas
algo de mais grave aconteceu: o homem já nao está convencido de que só
na verdade pode encontrar a salvacao. A forca salvadora da verdade é con
testada, confiándose á simples liberdade, desvinculada de toda objetivida-
de, a tarefa de decidir autónomamente o que é bem eo que é mal. Este re
lativismo gera, no campo teológico, desconfianza na sabedoria de Deus,
que guia o homem com a leí moral. Aquilo que a leí moral prescreve, con-
trapoem-se as chamadas situacoes concretas, no fundo, deixando de conside
rar a leí de Deus como sendo sempreo único verdadeiro bem do homem"
(n? 84).

58
"O ESPLENDOR DA VERPADE"

0 quadro se toma ainda mais sombrío na seguinte passagem:

"A razSo e a experiencia atestam nSo só a debilidade da Hberdade


humana, mas também o seu drama. O homem descobre que a sua Hberda
de está misteriosamente inclinada a trair esta abertura á Verdade e para o
Bem, e que, com bastante freqüéncia, ele prefere escofher bens finitos, li
mitados e efémeros. Mais ainda: por tras dos erros e das opcoes negativas,
o homem detecta a origem de urna revolta radical, que o leva a re/eitar a
Verdade e o Bem para arvorar-se em principio absoluto de si próprio:
'Seréis como Deus' (Gn 3,5). Portanto a Hberdade necessita de ser liberta
da. Cristo é o seu Libertador. Ele nos libertou, para que permanecamos li-
vres(GI5,1)"(n°86).

2.2.0 Martirio

O martirio, que sempre acompanhou e ainda acompanhada a vida da


Igreja, é o testemunho mais significativo possível de coeréncia e de fideli-
dade aos bons principios:

"A recusa das teorías éticas teíeo/ógicas, conseqüencialistas e propor-


cionalistas, que negam a existencia de normas moráis negativas referentes
a determinados comportamentos e válidas sem excecao, éncontra urna
confirmacSo particularmente eloqüente no fato do marti'rio cristao, que
sempre acompanhou e ainda acompanha a vida da Igreja" (n? 90).

0 martirio é a rejeicao de qualquer excecao ou fuga covarde; é o Nao


dito a qualquer tipo de relativismo ou de "adaptacao" traicoeira da verda
de ás circunstancias do individuo; é o ato mais corajoso e leal que alguém
possa apresen ta r á sociedade:

"O martirio desautoriza como ilusorio e falso qualquer significado


humano que se pretendesse atribuir, mesmo em condicoes excepcionais,
ao ato em si próprio moralmente mau; mais ainda, revela claramente a sua
verdadeira face: a de urna violacao da humanidade do homem, antes ainda
em quem o realiza do que naquele que o padece. Portanto o martirio é
também exaltacao da perfeita humanidade e da verdadeira vida da pessoa,
como testemunha S. Inácio de Antioquia, dirigindo-se aos cristSos de Ro
ma, lugar do seu martirio: Tende compaixao de mim, irmaos: nao meim-
pecais de viver, nao queirais que eu morra... Deixai que eu alcance a pura
luz; chegado lá, serei verdaderamente homem. Deixai que eu imite a Pai-
xao do meu Deus' (Aos romanos VI, 2s) " (n? 92).

2.3. Intransigencia intolerável?

A insistencia da Igreja em defender a perene validade dos preceitos


moráis, especialmente dos que proibem atos intrínsecamente maus, é tida

59
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

freqüentemente como sinal de intransigencia intolerável; na*o quadraría


com as situacoes complexas em que as pessoas se véem em nossos días. Á
Igreja faltariam compreensao e compaixao.

Em resposta, nota Joao Paulo II que nao se pode separar do título


de "Igreja-Mae" o de "Igreja-Mestra". O amor á pessoa humana nao seria
auténtico se calasse os valores que garantem o verdadeiro bem do homem:

"A apresentacao ciara e vigorosa da verdade moral jamáis pode pres


cindir de um profundo e sincero respeito, animado por um amor paciente
e confiante, de que o homem sempre necessita na sua caminhada moral,
tornada, com frequerida, cansativa pelas dificuldades, delibilidades e situa
coes dolorosas. A Igreja, que jamáis poderá renunciar ao principio da ver
dade e da coerencia, pelo qual nao aceita chamar bem ao mal e mal ao
bem, deve estar sempre atenta para nSo partir a cana já tendida e para nao
apagar a chama que aínda fumega (cf. fs 42,3). Paulo VI escreveu: 'Nao
diminuir em nada a doutrina salvífica de Cristo constituí eminente forma
de carídade para com as almas. Esta, porém, deve ser sempre acompanha-
da da paciencia e bondade, de que o próprio Senhor deu exemplo ao tra
tar com os homens. Tendo vindo nao para ju/gar, mas para salvar (cf. Jo
3,17), Ele foi certamente intransigente com o mal, mas misericordioso
com as pessoas'(Ene. Humanae Vitae 29)" (n? 95).

2.4. Renovacao da vida social e política

O Papa refere-se ás graves modalidades de injustica social e económi


ca e de corrupcao política que pesam sobre povos e nacoes inteiras, cau
sando a infelicidade de muitas pessoas oprimidas e humilhadas. E propoe
a urgente necessidade de urna renovacSo social e política baseada nos prin
cipios da Moral; sem esta, qualquer tentativa de remediar seria frustrada:

"No ámbito político, deve-se assinalar que a veracidade ñas relacoes


dos governantes com os governados, a transparencia na administracSo pú
blica, a imparcialidade no servico das instituicoes públicas, o respeito dos
direitos dos adversarios políticos, a tutela dos direitos dos acusados face
a processos e condenagoes sumarías, o uso justo e honesto do dinheiro
público, a recusa de meios equívocos ou ilícitos para conquistar, manter
e aumentar a todo custo o poder, sao principios que encontram a sua raiz
primaria — como também a sua singular urgencia no valor transcendente
da pessoa e ñas exigencias moráis objetivas de governo dos Estados"
(n° 101).

2.5. Bispos e Teólogos

Após mostrar que a nova evangelizado requer sólida fundamentado


ética, o Papa se dirige aos Bispos e aos teólogos, exortando-os a colaborar,

60
"O ESPLENDOR DA VERDADE" 13

cada qual em sua funcSo, para a preservacao dos valores éticos e sua irra
diado na sociedade.

Em particular aos Bispos é dito o seguinte:

"Temos o dever, como Bispos, de vigiar a fim de que a Palavra de


Deus se/a fielmente ensinada. Meus IrmSos no Episcopado, faz parte do
nosso ministerio pastoral vigiar sobre a transmissao fiel deste ensinamento
moral e recorrer ás medidas oportunas para que os fiéis sejam preservados
de toda doutrina e teoría a ele contraria. Nesta tarefa, todos somos ajuda-
dos pelos teólogos, mas as opinioes teológicas nao constituem a regra nem
a norma do nosso ensinamento. A autorídade deste deriva, com a assistén-
cia do Espirito Santo e na comunhSo cum Petro et sub Petro, da nossa
fidelidade á fé católica recebida dos Apostólos. Como Bispos, temos a
obrigacao grave de vigiar pessoalmente para.que a si doutrina da fé e da
Moral seja ensinada ñas nossas dioceses.

Urna particular responsabilidade se impoe aos Bispos relativamente


ás instituicoes católicas. Quer se trate de organismos para a pastoral fa
miliar ou social, quer de instituicoes dedicadas ao ensino ou aos cuidados
sanitarios, os Bispos podem erigir e reconhecer estas estru turas e delegar-
Ihes a/gumas responsabilidades; mas nunca ficam dispensados das pro-
prias obrigacoes. Compete-lhes, em comunhao com a Santa Sé, a tarefa
de reconhecer ou de retirar em casos de grave incoeréncia a denomina-
gao de 'católico' a escolas. Universidades, clínicas e sen/icos sócio-sani-
tários, que se dizem na Igre/a" (n? 116).

Duas conclusoes importantes sao enunciadas nesta passagem:

— os teólogos tém um papel de pesquisa e aprofundamento da


doutrina, mas nao Ihes compete dizer a última palavra sobre assuntos
de fé e de Moral;

— as instituicoes ditas "católicas" que nao se orientem pelos.princi


pios da Moral Católica, sejam destituidas do seu título.

Assim concebida, a Encíclica Veritatis Splendor merece toda a es


tima nao só dos fiéis católicos, mas de todas as pessoas de bem: "Joao
Paulo II teve a coragem de falar, julgou seu dever elevar a voz. Denunciar
a trapaca de um humanismo sem Deus ou contra Deus e, por isso mesmo,
desumano. Anunciar um humanismo integral e pleno, fruto de um Aconte-
■ cimento — a irrupcao de Deus na Historia por meio do homem Filho de
Deus" (D. Lucas Moreira Neves, A Coragem de Falar, em JORNAL DO
BRASIL, 20/10/1993, p. 11).

61
Em que termos?

INFALIBILIDADE PAPAL E DEFINIQÓES


"EX-CATHEDRA"

Em síntese: O presente artigo aborda questoes atinentes ao Magiste


rio da Igreja, credenciado por Jesús Cristo para ensinar de maneira autén
tica as verdades reveladas pelo Senhor (cf. Mt 16,16-19; 28,18-20; Le 21,
31s; Jo 21,15-17 ...). Tal Magisterio tem suas modalidades: 1) Magisterio
ordinario (o ensinamento comum dos Bispos do mundo inteiro); 2) Magis
terio extraordinario (definicoes solenes de Concilios universais e do Roma
no Pontífice em materia de fé e de Moral). O artigo apresenta a serie de
definicoes proferidas pelos Papas no decorrer dos sáculos.

* * *

Há interesse, por parte dos fiéis, em saber quantas verdades de fé já


foram definidas pelos Papas no exerci'cio do carisma da infalibilidade. Este
desejo é legítimo, mas há de merecer urna resposta abrangente, pois se de-
ve dissipar a concepcao de que as verdades da fé comecam a ser tais me
diante definicoes ou decretos. Daí a conveniencia de propormos, ñas pági
nas subseqüentes: 1) a nocáo de Magisterio da Igreja; 2) o significado de
urna def¡n ¡cao pontificia; 3) as definicoes papáis registradas através dos
sáculos.

1. O MAGISTERIO DA IGREJA

Jesús Cristo confiouásua Igreja a funcao de ensinar as verdades da


fé; e, para que o fizesse auténticamente, prometeu-lhe a sua assisténcia in-
falível, assim como a do Espirito Santo:1

1 Sem a garantía de um Magisterio dotado de especial assisténcia e de infa


libilidade em materia de fé e de Moral, tena sido inútil a RevelacSo Divina,
pois sofrena a deterioracao que é costumeira quando se passa de boca em
boca alguma verdade.
Está claro que o ámbito do Magisterio da Igreja só pode ser o dafée
da Moral. Ficam excluidos assuntos de ordem profana.

62
INFALIBILIDADE PAPAL 15

Mt 28,19s: "Ide, e fazei que todas as nacoes se tornem discípulos,


batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo e ensinando-as
a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que estou convosco todos os
días até a consumacao dos séculos".

Mt 10,26s: "Nao tenhais medo... Pois nada há de encoberto que nSo


venha a ser descoberto, nem de oculto que nao venha a ser revelado. O
que vos digo ás escuras, dizei-o é luz do dia; o que vos é dito aos ouvidos,
proclamai-o sobre os telhados".

Jo 20,2ls: Jesús disse aos Apostólos: "A paz esteja convosco1. Como
o Pai me enviou, também eu vos envió".

Me 16,15.20: "Disse-lhes: 'Ide por todo o mundo, ¡proclama/' o


Evangelho a toda criatura...' E eles sairam a pregar por toda parte, agindo
com eles o Senhor, e confirmando a Palavra por meio dos sinais que a
acompanhavam".

A Igreja vem cumprindo a tarefa mediante seusórgaos credenciados,


que sao:

1) o Magisterio ordinario, ou seja, o ensinamento dos Bispos do mun


do inteiro concordes entre si sobre artigos de fé e de Moral. Este Magiste
rio ordinario manifesta-se cotidianamente através de palavras oráis, impres-
sos, gestos e feitos, como também através da Liturgia, pois lex orandi,
lex credendi (as normas da oracao sao as normas da fé). Grande número de
verdades de fé está no ensinamento do Magisterio ordinario da Igreja. —
Quando necessário ou em casos esporádicos, é exercido também

2) o Magisterio extraordinario, que tem duas expressoes auténticas:

— as definicoes de Concilios Ecuménicos';

— as definieres do Sumo Pontífice quando fala ex cathedra.

O Magisterio extraordinario supoe sempre condicoes especiáis (dúvi-


das, controversias, contestacSo...), que solicitem um pronunciamento sole-
ne seja de um Concilio plenário, seja do Pontífice Romano. Nao é necessá-
ría urna definicao solene para que haja um dogma de fé.

A definicá*o da infalibilidade pontificia em materia de fé de Moral


ocorreu em 1870, no Concilio do Vaticano I; todavia na"o foi nessa data

"Ecuménico", no caso, significa "plenário, universal'

63
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

que surgiu a conviccao de que o Bispo de Roma goza de assisténcia espe


cial para definir proposicoes de fé e de costumes. Essa persuasao tem suas
bases na própria S. Escritura e se expressou através da historia da Igreja.
Tal doutrina, muito antiga na Igreja, foi reafirmada pelo Concilio do Va
ticano II na Constituicao Lumen Gentium n° 22-25.

Os principáis textos bíblicos atinentes ao primado de jurisdicao e de


magisterio de Pedro e seus sucessores sao os seguintes:

Mt 16,17-19: "Jesús respondeu a Simio Pedro: 'Bem-aventurado és


tu, Simao, filho de Joao, porque nao foram carne e sangue que te revela-
ram isso, e sim o meu Pai, que está nos céus. Também eu te digo que tu
és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Infer
no nunca prevalecerio contra e/a. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus,
e o que ligares na térra será ligado nos céus, e o que desligares na térra será
desligado nos céus".

Le 22,31 s: "Simio, Simio, eis que Satanás pediu insistentemente pa


ra vos penetrar como trigo; eu, porém, orei por ti, a fim de que tua fé nao
desfa/eca. Quando te converteres, confirma teus irmios".

Jo 21, 15-17: "Jesús disse a Simio Pedro: 'Simio, filho de Joao, tu


me amas mais do que estes?' Ele Ihe respondeu: 'Sim, Senhor, tu sabes que
te amo'. Jesús Ihe disse: 'Apascenta os meus cordeiros'. Urna segunda vez,
Jesús Ihe disse: 'Simio, filho de Joio, tu me amas?' — 'Sim, Senhor', disse
ele, 'tu sabes que te amo'. Disse-lhe Jesús: 'Apascenta as minhas ovelhas'.
Pela terceira vez, disse-lhe: 'Simio, filho de Joao, tu me amas?' En triste-
ceu-se Pedro, porque pela terceira vez Ihe perguntava Tu me amas?'e Ihe
disse: 'Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que te amo'. Jesús Ihe disse: 'Apas
centa as minhas ovelhas'".

Sobre o primado de Pedro nos escritos do Novo Testamento e na his


toria da Igreja nascente, ver PR 375/1993, pp. 338-344; PR 13/1959,
pp. 9-20.

Deten hamo-nos agora de modo particular sobre as definicoes ponti


ficias.

2.0 SIGNIFICADO DE UMA DEFINICÁO PONTIFICIA

1. Tenha-se consciéncia, antes do mais, de que urna definicao papal


nunca é imposicao brusca ou repentina de alguma sentenca. As definicoes
representam geralmente o termo final de um processo lento, durante o
qual urna verdade contida no depósito tradicional da Revelacao vai aflo
rando plenamente á consciéncia da hierarquia sacerdotal e dos fiéis em ge-

64
INFALIBILIDADE PAPAL 17

ral. Em outros termos: as definicSes ná"o sá*o senao a formulacao explícita


e solene de urna maneira de ver já implícitamente existente na Cristandade
desde os tempos de Cristo. E o motivo pelo qual se dá essa formulacao so-
lene é geralmente o surto de alguma heresia que tente negar ou obliterar
a sen tenca em foco. As definicoes pontificias, por conseguinte, tém sem
pre caráter extraordinario, excepcional. Quanto ao magisterio ordinario da
Igreja, ele se exerce pela pregacao unánime do episcopado unido ao suces-
sor de S. Pedro, o Papa. Donde se vé que nao é necessário, seja urna verda-
de solenemente definida pelo Sumo Pontífice, para que pertenca ao depó
sito da fé; basta, para isto, tenha sido sempre e em toda a parte professada
pelos cristaos: quod ubique, quod semper, quod ab ómnibus creditum est,
hoc est etenim veré proprieque catholicum. — O que todos em toda parte
e sempre acreditaram, isso é verdadeira e propriamente católico, dizia Vi
cente de Lerins em meados do séc. V.

Das nocoes ácima também se depreende que nao se "criam" dogmas


na Igreja. Assim como num organismo vivo nao nasce nem se cria algum
órgao da noite para o dia, mas, ao contrario, qualquer fenómeno somático
é expressSo da estrutura e da vitalidade permanentes do individuo, assim
também na Igreja ná"o se praticam inovacoes de estrutura; ao contrario,
qualquer afirmacSo auténtica dos cristaos nao é senao o desdobramento
do depósito da Palavra e da Vida que Cristo colocou em seu Corpo Místi
co e que Ele conserva sob a assisténcia do Espirito Santo. Nunca se pode-
rá inculcar demais que a Igreja nSo é simplesmente urna escola, muito me
nos urna Cámara Legislativa, mas um organismo vivo, o Corpo de Cristo
prolongado na térra, Corpo onde tudo se processa segundo as leis da vida,
ou seja, passo por passo, homogéneamente, mediante a colaboracao de
membros superiores e membros inferiores.

2. Voltando a focalizar diretamente as definicoes papáis, observare


mos que tres condicoes devem ser necessariamente preenchidas para que
alguma proposicá"o do Romano Pontífice tenha a autoridade de senten-
cainfalível:

1) Requer-se que o Papa fale "ex cathedra", isto é, como Pastor e


Mestre dos cristaos, nao como doutor particular.

Nao há, porém, trámite prescrito para o pronunciamento do Pontífi


ce. NSo se exige, portante, que o Santo Padre, antes de se definir, consulte
algum concilio, pois este requisito suporia que o concilio possa exercer
influencia restritiva sobre a autoridade papal ou esteja ácima do Papa no
governo da Santa Igreja1.

1 É verdade, porém, que os Papas nada definem áfonamente, mas sempre o


fazem após muitos estudos e consultas.

65
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

2) O objeto da definicao infalível sao apenas proposicoes de fé e de


moral, istó é, normas relativas ou á crenca ou á conduta dos cristaos neste
mundo.

3) É necessário outrossim que o Sumo Ponti'fice intencione proferir


sentenca definitiva sobre o assunto focalizado.

Somente tal sentenca definitiva goza do privilegio da infalibilidade.


Este nao se estende nem aos argumentos previamente apresentados para
fundamentar a definicao nem as conclusoes que desta decorram.

Quanto aos sinais pelos quais se pode reconhecer urna definicao infa-
li'vel, deve-se dizer que nao há fórmula de redacao obrigatória. Basta que o
Pontífice manifesté explícitamente sua intencao de declarar alguma dou-
trina como pertencente ao depósito da fé ou como contraria a este. Os
termos habitual mente usados sao: "definimus, auctoritate apostólica defi-
nimus..." ou "definitive damnamus et reprobamus, auctoritate Dei et bea-
torum apostolorum Petri et Pauli damnamus et reprobamus...".

Há casos, porém, em que o documento pontificio é redigido de tal


modo que a simples análise dos termos nao permite aos teólogos dizer se
estao diante de alguma definicao "ex cathedra" ou nao. Em tais circuns
tancias, será lícito julgar que nao se trata de sentenca obrigatoriamente
imposta á fé dos cristaos, pois ensina a Moral: "Non est imponenda obliga-
tio de qua certo non constat. — Na'o se deve impor obrigacao de que nao
conste com certeza". Todavía, mesmo em tais casos, pode haver para os
cristaos grave dever de crer na proposicao focalizada, dever decorrente de
outra fonte, isto é, do ensínamento comum dos Sumos Pontífices ou do
episcopado.

É o que se dá, por exemplo, quando se examina a encíclica Arcanum


do Papa Leao XIII (10 de fevereiro de 1880). Este documento professa a
instítuícao divina do casamento, a indissolubilidade do mesmo, assim co
mo a autoridade integral e exclusiva da Igreja sobre o matrimonio cristao.
A redacao das frases, porém, ná"o permite dizer que tais doutrinas estejam
ai solenemente definidas; náfo obstante, a todos os cristaos incumbe estrito
dever de as aceitar, porque sao verdades ensinadas pelo magisterio univer
sal e tradicional da Igreja. — O mesmo se diga da encíclica Providentissi-
mus Deus (18 de novembro de 1893), em que o mesmo Pontífice afirma a
nocao católica de ¡nspiracao bíblica, assim como a veracidade do texto sa
grado. S. Santidade, embora ná*o tenha ai usado as expressoes característi
cas de urna definicao solene, incutiu verdades que, em vista do ensinamen-
to comum da Igreja, sá*o obrigatórias para todos os fiéis.

66
INFALIBILIDADE PAPAL 19

Destas obsérvameos se depreende quSo pouco a Igreja ou os Papas fa-


zem questSo de definir dogmas! Qualquer definicá*o é sempre algo de ex
traordinario no seio da Igreja.

Feitas estas ponderacoes, examinemos o catálogo dos documentos


pontificios que sao geralmente tidos como portadores de definicao infa-
h'vel.

3. A LISTA DAS DEFINICOES PONTIFICIAS

De acordó com a ordem cronológica, eis a serie dos documentos:

1) Em 449, a carta do Papa S. l_e§o Magno a FI avian o, bispo de Cons-


tantinopla, expunha com autoridade a s5 doutrina referente ao misterio da
Encarnacao: em Cristo há urna só Pessoa (a Divina) e duas naturezas (a Di
vina e humana); cf. Denzinger-Schonmetzer, Enchiridion Symbolo-
rum, Definitionum et Declarationum de rebus fidei et morum1
n? 296-299. Esta carta foi enviada pelo Papa á assembléia geral do
Concilio ecuménico de Calcedonia em 451 no intuito de dirimir, urna vez
por todas, as dúvidas teológicas concernentes ao assunto. Os Padres conci
liares consideraram o documento como definitivo e estritamente obrigató-
rio para todos os fiéis. A tradicao católica, em particular a profissao de fé
do Papa S. Hormisdas (datada de 517; cf. DS 363-365), sempre reconhe-
ceram autoridade máxima a tal documento.

A controversia assim rematada por S. Lea*o Magno é a seguinte:

Desde os inicios da era crista, perguntava-se como podia Cristo ser si


multáneamente Deus e horneen. A primeira tentativa de solucao foi a dos
Docetas no séc. II, os quais ensinavam que o Salvador nao fora verdadeiro
homem, pois nao tivera sená*o urna, aparéncia de corpo humano (dokéo,
parecer, em grego). — Tal. solucSo ná"o tendo conseguido implantar-se, no
séc. V propds-se outra fórmula: Nestório, Patriarca de Constantinopla, as-
severava que Cristo era tá"o realmente Déus é hpmem que neje havia duas
Pessoas (a Divina e a humana) e duas natu rezas (a Divina e a humana). —
Sabemos que em linguagem técnica "natureza" vem a ser a esséncia ou a
estrutura de um ser, ao passo que "pessoa" é o sujeito consciente ou o
"Eu" que age por meio de determinada natu reza.

A sentenca de Nestório, admitindo duas pessoas ou dois"Eu"em Cris


to, cindia a unidade do Salvador; foi, por isto, rejeitada no Concilio de

1 Será citado peta sigla DS.

67
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

Éfeso (431). — Tomou vulto entáo, á guisa de reacao contra o erro conde
nado, a teoría oposta, propugnada por Eutiques, de Constantinopla, e
Dióscoro de Alexandria: em Cristo haveria urna só natureza (a natu reza di
vina, a qual teria absorvido a natureza humana). Tal era a doutrina do Mo-
nofisitismo... Pois bem; S. Leao Magno rejeitou esta tese como contraditó-
ria ao genuino conceito de Encarnacao, asseverando em 449 haver em
Cristo urna só Pessoa (ou um só "Eu"), a Pessoa Divina, a qual se manifes-
tava por duas auténticas naturezas (a Divina e a humana) nao mutiladas
nem confundidas. Assim punha-se fim a urna etapa importante da Cristolo-
gia.

2) Em 680 a carta do Papa S. Agatao "aos Imperadores" afirmava,


também em termos definitivos, haver em Cristo duas vontades distintas, a
Divina e a humana, sendo, porém, que a vontade humana ficava em tudo
moral mente submissa á vontade divina; cf. DS 547s.

Como se vé, o Pontífice reprimía, em última análise, urna modalidade


nova de Monofisitísmo: o Monotelitismo, que afirmava em Cristo haver
únicamente a vontade divina. 0 documento foi enviado autoritativamente
pelo Papa á assembléia do Concilio de Constantinopla III (680/81), a qual
aceitou com aplausos a sentenca de Roma, proclamando que Pedro acaba
ra de falar por Agatao. — De entao por diante na historia, nao haveria mais
serias dúvidas sobre a uniao do Divino e do humano em Cristo.

3) Em 1302, a bula Unam Sanctam do Papa Bonifacio VIII é tida co


mo portadora de definicao dogmática em sua parte final, onde o Pontífice
"declara, afirma, define e pronuncia (declaramus, dicimus, definimus et
pronuntiamus)" que toda criatura humana está sujeita ao Romano Pontí
fice; cf. DS 875.

Esta sen tenga há de ser entendida no seu respectivo quadro histórico.

Desde os tempos de S. Agostinho (t430), os cristaos conceberam o


ideal de urna "Cidade de Deus", ou seja, de urna organizacao civil que fos-
se toda penetrada pelos principios do Cristianismo, ficando os ¡nteressese
afazeres temporais totalmente subordinados aos espirituais. Dentro desta
perspectiva, criou-se em 800, pela coroacao de Carlos Magno, o Sacro
Imperio Romano dos Francos, ao qual no séc. X sucedeu o Sacro Imperio
dos Germanos. Sob o Papa Inocencio III (1198-1216) o ideal tomou vulto
assaz concreto. Pouco depois, porém, fizeram-se ouvir no cenário europeu
vozes nacionalistas, que tendiam. a criar um Estado leigo, independente da
religiao; um dos primeirosarautosdessa córrante foi o reí Filipe IV o Belo
da Franga (1285-1314). Pois bem: foi contra essa tendencia á laicizacao
do Estado que se pronunciou o Papa Bonifacio VIII, afirmando que o po-

68
INFALIBILIDADE PAPAL 21

der temporal está subordinado ao espiritual e que, por conseguinte, todas


as criaturas humanas, mesmo os monarcas, estao sujeitos ao Vigário de
Jesús Cristo na térra.

Tem-se discutido a respeito da mente do Pontífice na Bula Unam


Sanctam. Em qualquer caso, interpretar-se-á a sentenca final (cujos dizeres
sao assaz gerais) no sentido da chamada "potestas indirecta", nao no da
"potestas directa"; o que quer dizer: o Romano Pontífice tem jurisdicao
sobre toda e qualquer criatura humana "ratione peccati", isto é, na medi
da em que as atividades de determinada pessoa dizem respeito á vida eter
na; foi, com efeito, a Pedro e aos sucessores de Pedro que Cristo confiou
as chaves do Reino dos céus. Nao pertence a missao dos Papas interferir na
técnica administrativa dos governos civis.

4) Em 1336, a Constituicao Benedictus Deus de Bento XII definia


que, logo após a morte corporal, as almas totalmente puras sao admitidas
á contemplacao da esséncia de Deus face a face; cf. DS 1000.

Esta declaracao se deve ao fato de que alguns cristaos tanto estima-


vam o dogma do Corpo Místico que dificilmente concebiam pudessem
algumas almas atingir a sua felicidade consumada, enquanto outras aínda
lutavam na térra; em conseqüéncia, afirmavam que a visao beatífica só se
ria outorgada no fim dos tempos, isto é, após a ressurreicao da carne e o
juízo universal. - Contra este parecer, a fé crista formulada por Bento XII
de acordó com varios textos da S. Escritura (cf. Le 23,43; Jo 17,24;
Hb 8,17s; 10,19s; 1Cor 13,8s; 2Cor 5,6s; Fl 1,23), afirma que, logo após a
morte corporal, se dá o juízo particular, entrando, a seguir, as almas na
posse da sua sorte definitiva.

5) Em 1520, a Bula Exsurge Domine de Leáo X condenava 41 propo-


sicoes de Lutero como heréticas; cf. DS 1451-1492.

6) Em 1653 a Constituicao Apostólica Cum occasione de Inocencio


X reprovava as cinco seguintes proposicoes extraídas da obra "Augusti-
nus" de Cornélio Jansénio, tachando-as de heréticas:

/. Há preceitos de Deus que, vistas as exiguas energías do homem,


nao podem ser cumprídos por justos que os desejem observar e se esfor-
cem por consegui-lo. A esses justos falta também a graca, que tornaría pos*
si'veis tais preceitos.

2. No estado da natureza decaída, q homem nunca pode resistir é gra


ca interior.

69
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

3. Para merecer e desmerecer no estado da natureza decaída, nSo se


requer liberdade que exclua necessidade (interior); basta a liberdade que
exc/ua coacao (exterior).

4. Os Pelagianos admitiam a necessidade da graca interior preventiva


para cada ato particular, mesmo para o inicio da fé;eram hereges por asse-
verarem que essa graca era tal que a vontade podia ou resistir-lhe ou obe-
decer-lhe.

5. É semipelagiano dizer que Cristo morreu ou derramou o seu san-


gue por todos os homens sem excecao" (DS 2001-2207).

"Pelagianos" e "Semipelagianos" foram hereges dos séc. V/VI que


acentuaram exageradamente as possibil ¡dad es da natureza humana no to
cante á salvaba o eterna.

0 Jansenismo, ressentindo-se dos debates excitados por Lutero sobre


as conseqüéncias do pecado original, nutria um conceito pessimista da
natureza humana, julgando-a escravizada á concupiscencia e ao pecado; em
conseqüéncia, admitiam que o homem só pode praticar o bem em virtude
de irresistível influxo da graca divina. 0 pessi mismo jansenista ainda era
acentuado pela tese de que Cristo nao remiu todos os homens, mas apenas
os predestinados. — Como se vé, tais proposicoes sao totalmente alheias á
genuína mensagem do Evangelho, que visa nato a abater, masa soerguer o ho
mem pecador, fazendo que os cristaos considerem mais a Misericordia do
Salvador do que a própria miseria. É o que explica a condenagáo proferi
da por Inocencio X.

7) Em 1687, a Constituicáo Apostólica Caelestis Pastor de Inocencio


XI condenou como heréticas 68 proposipoes quietistas de Miguel de Mo
linos (+1696); cf. DS 2201 -2269.

O Quietismo era urna tendencia mi'stica que fazia coincidir a. perfei-


cao espiritual com tranqüilidade e passividade da alma tais que o cristao
nao desejaria mais a sua bem-aventuranca eterna, nem a aquisicao da vir
tude; qualquér tendencia nele estaría extinta. A alma colocada nesse esta
do de aniquilamento ná*o pecaría mais, mesmo que por sua conduta exter
na parecesse violar os mandamentos de Deus ou da Igreja; ser-lhe-iam des-
necessárias oracoes vocais, práticas de penitencia e resistencia as tentacoes.

Evidentemente, tais idéias contradizem á genui'na mente crista, que


S. Agostinho tao bem exprime na fórmula: "Deus, que te criou sem ti, ná*o
te salva sem ti". O ideal do cristao ná"o é propríamente a apatía estoica,
ou seja, a ausencia de todo e qualquér afeto sensfvel, mas, sim, a metriopa-

70
INFALIBILIDADE PAPAL 23

tia, ou seja, o dominio sobre os afetos tal que possa servir á vida em
grapa.

8) Em 1699, a Constituicao Cum alias de Inocencio XII condenava


23 proposicoes de Francois de Salignac Fénelon, extraídas da obra "Expli-
cations des máximes des Saints sur la vie intérieure"; cf. DS 2351-2374.
As sentencas preterid ¡am renovar o Quietismo, apresentando-o qual mo-
dalidade de pun'ssimo amor a Deus.

9) Em 1713, a Constituicao Unigenitus de Clemente XI condenou


101 afirmacSes do livro "Réflexions morales" de Pascásio Quesnel
(t 1719); cf. DS 2390-2502. Era de novo o Jansenismo, com suasconcep-
coes pessimistas, que o Sumo Pontífice assim denunciava.

Embora as escolas jansenistas tenham perdido em breve a sua voga,


a mentalidade jansenista até os últimos decenios ficou, até certo grau, im
pregnada no espirito de mu ¡tos cristaos, alimentando uma piedade intimi
dada, alheia aos sacramentos e, por isto, anémica. Justamente em plena
crise jansenista se deram as aparicoes do Sagrado Coracao de Jesús
(1673-1675), que, sob forma simbólica, queriam lembrar ao mundo que
Deus é o Amor, e o Amor que se fez companheiro dos homens.

10) Em 1794, a Constituicao Auctorem Fidei de Pió VI visava a 85


teses heréticas promulgadas em 1786 pelo Sínodo de Pistoia (Toscana);
cf. DS 2600-2700.

As idéias dos conciliares de Pistoia nao eram senao a expressao extre


mada do nacionalismo e do despotismo de Estado que haviam comecado a
tomar vulto nos tempos de Filipe IV o Belo da Franca (ver o documento
n? 3 da presente lista). No fim do séc. XVIII esse nacionalismo se havia
apoderado das cortes européias em geral, levando os soberanos católicos a
pretender criar Igrejas regionais, mais ou menos independentes do Sumo
Pontífice; • tal tendencia tomou vulto na Franca de Luís XIV, em Portugal
do marqués de Pombal, na Espanha de Aranda e Florida Branca, na Aus
tria de José 11 e, de maneira especial, no Grao-Ducado da Toscana, cujo ti
tular, o Grao-Duque Leopoldo, era irrnao de José II. Leopoldo obteve o
apoio do episcopado da Toscana, chefiado por Cipiao Ricci, bispo de Pis
toia, para 57 artigos que visavam a profundas reformas da estrutura e da
disciplina da Igreja, em grande parte inspiradas por idéias de Jansénio e de
Quesnel: entre outras medidas, preconizavam a subordinacao da Igreja ao
Estado e a quase absoluta independencia dos bispos em relacao ao Sumo
Pontífice; a abolicao da devocao ao S. Coracáo de Jesús, das procissoes,
das imagens, da praxe das indulgencias, dos honorarios de S. Missa e de
servicos religiosos em geral; apregoavam a reducao das Ordens e Congrega-

71
24 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

coes Religiosas a um só tipo norteado pelo exemplo de Port-Royal (mos-


teiro jansenista próximo a Paris); queriam outrossim a celebrapao da Litur
gia em vernáculo, o que em si nada tem de reprovável, mas era contingen
temente associado a reivindicacoes heréticas (isto foi suficiente para que o
postulado da Liturgia em vernáculo se tomasse, mais urna vez, suspeito
aos olhos de Roma, como se tomara suspeito quando os reformadores o
formularam no séc. XVI). — Antes mesmo que Pío VI condenasse as pro-
posicoes de Pistoia, já o povo toscano havia mostrado sua veemente indig-
nacao contra elas, de tal modo eram alheias á genui'na tradicao crista; o
próprio bispo Ricci submeteu-se ao alvitre de Pió VI.

11) Em 1854, a bula Ineffabilis Deus de Pió IX definiu o dogma da


Imaculada Conceicao de María: dizia o Pontífice, apelando para testemu-
nhos da Escritura e da Tradicáo, que a Virgem Santíssima, desde o primei-
ro instante de sua conceipao, foi preservada do pecado original, ou seja,
da nódoa com que nascem todos os filhos de Adao; isto se deu por aplica-
cao antecipada dos méritos do Redentor a fim de que a criatura que devia
ser mansao do Verbo Encarnado, jamáis ficasse sujeita ao hediondo impe
rio de Satanás e do pecado (María, portanto, nao deixa de ser tributaria
ao Redentor; ela foi remida). Cf. DS 2803s.

Antes da definicao do dogma da Imaculada Conceipao, perguntavam


alguns teólogos que motivo havia para que o Sumo Pontífice se pronun-
ciasse em tom solene e extraordinario sobre urna proposipSo que era paci
ficamente professada pelos fiéis católicos. A tal questao foi dada a seguin-
te resposta: a afirmapao de alguma verdade concemente a María equivale
sempre á afirmapao sucinta de toda a dogmática crista; com efeito, em Ma
ría a fraqueza do homem e a grapa de Deus, a Encarnacao, a Redencao, o
misterio da Igreja e a gloria final se acham compreendidos de maneira estu
penda. Em conseqüéncia, urna definipao mariológica em meados do século
passado teria o valor de urna profjssá'o compendios de fé crista frente ao
racionalismo e ao materialismo que pesavam sobre a cultura da época.
Tal foi o sentido profundo do pronunciamento de Pío IX.

12) Em 1950, o Papa Pió XII em sua Constituicao Munificentissimus


Deus definiu o dogma da Assunpao Corporal de María: a Mae de Deus, ao
deixar este mundo, foi, sim, glorificada em corpo e alma, sem conhecer a
deteriorado do sepulcro. Esta proposipSo está intimamente ligada com o
dogma da Imaculada Conceicao: na verdade, se María nunca esteve sujeita
ao pecado, compreende-se que nao ten ha ficado sob o imperio da morte, a
qual nao é senao urna conseqüéncia do pecado (Pió XII, porém, naoquis
definir a questao até hoje aberta: terá María ao menos atravessado a morte
antes de ser glorificada ou haverá sido preservada mesmo de morrer, de

72
INFALIBILIDADE PAPAL 25

modo a passar sem hiato, desta vida para a gloría celeste?). Cf.DS3900-
3904.

A crenca na Assuncüo corporal de María nao sofría contestado antes


de ser definida; a definicao, porém, foi justificada por motivos análogos
aos que ácima indicamos: o presente século continua sujeito ás influencias
do racionalismo e do materialismo; principalmente nos últimos decenios a
materia ou o corpo do homem tém sido lamentavelmente vilipendiados pe
lo libertinismo dos costumes e pelos morticinios coletívos (borñbardeios)
das grandes guerras. Nesta época, portanto, a afirmacao da Assuncao cor
poral de María lembrava ao mundo o destino transcendente do corpo hu
mano e o valor que o Criador a este quis atribuir.

Os teólogos tém perguntado se algum dos documentos dos Pontífices


recentes contrarios ao racionalismo e ao modernismo (a ene. Quanta cura
e o Sílabo de Pió IX , a ene. Pascendi e o decreto Lamentabili de S. Pío X)
nao gozam da autorídade de declarares ¡nfalíveis. Examinando, porém, o
teor preciso desses textos, assim como as circunstancias em que se origina-
ram, a maioria dos comentadores é inclinada a crer que os dois menciona
dos Papas, ao promulgar esses documentos, nao intencionaram fazer uso
de sua prerrogativa de infabilidade doutrinária, embora nao reste dúvida
de que tenham interpretado a mente de Cristo e da Igreja nos termos mais
auténticos possíveis, merecendo por isto plena aquiescencia por parte dos
fiéis.

Nos últimos decenios, tem-se considerado com grande ¡nteresse a


Encíclica Humane Vitae (1968) de Paulo VI, que rejeita a contracepcao
artificial e apregoa os meios naturais de controle da natalidade. Como nao
usa a fórmula clássica "Declaramos e definimos", há quem julgue que nao
é documentó infalível e, portanto, nao merece obediencia. A esta posicao
fazemos duas observaefies:

1) mesmo que n§o recorra aos termos de urna definicSo solerte, a En


cíclica Humanae Vitae é um documento do magisterio ordinario da Igreja,
aó qual os fiéis católicos devem o respeito recomendado pelo Concilio do
Vaticano II na Constituicao Lumen Gentium n? 25:

"Religiosa submissao da vontade e da inteligencia deve, de modo


particular, ser prestada ao auténtico Magisterio do Romano Pontífice,
mesmo quando nao fala ex cathedra. E isto de tal modo que seu magiste
rio supremo se/a reverentemente reconhecido, suas sentencas sinceramente
acolhidas, sempre de acordó com sua mente e vontade. Esta mente e von
tade constam principalmente ou da índole dos documentos ou da freqüen-
teproposicSo de urna mesma doutrína, ou de sua maneira de falar".

73
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

2) Paulo VI, ao formular a doutrina da Encíclica Humanae Vitae, sa


bia nao estar senáo transmitindo preceitos da lei natural, segundo a qual o
amor humano é, por si, unitivo e fecundo e, por isto, nao deve ser artifici
almente privado da sua fecundidade. Em conseqüéncia, a Humanae Vitae
goza da autoridade da própria lei natural, que é a lei de Deus.

Algo de semelhante se diga a respeito da Encíclica Veritatis Splendor:


é documento pontificio, que merece acato como tal e — mais aínda — rea
firma a lei natural frente a tendencias subjetivistas de conceber a Mora-
lidade.

4. CONCLUSÁO

Eis os casos em que, conforme ensinam os teólogos, os Papas, no de-


correr da historia, fizeram uso de seu magisterio infalível para formular
alguma sentenca dogmática. Doze vezes em vinte sáculos!... Tao exigua
cifra talvez surpreenda nao poucos leitores, pois, quando se fala da infali-
bilidade pontificia, fácilmente se tem a impressao de que os católicos
vivem num regime de imposicoes procedentes do capricho de um mestre
humano. Tal impressao, como se vé, está longe de corresponder á realidade.

Nao queremos dizer, é claro, que os dogmas crístaos se reduzem as


proposicoes atrás enunciadas. Também nao negamos que há definicoes
emanadas de Concilios Ecuménicos. O que nos interessava, porém, na re
dacto deste artigo, era apenas mostrar o sentido exato de urna definicao
papal: esta (o mesmo se pode dizer também de urna definicao conciliar)
é sempre algo de extraordinario e esporádico, suscitado pelas necessidades
do povo de Deus posto em perigo de perder a sua fé; urna definicao so-
lene é sempre a resposta a um problema, a urna dúvida. Ñas circunstan
cias normáis de sua historia, o povo de Deus professa a fé que ele recebeu
de Cristo e dos Apostólos e que vai sendo pacificamente transmitida de
geracao a geracao, sob a tutela do "episcopado, que o Espirito Santo esta-
beleceu para apascentar a Igreja de Deus" (cf. At 20,28).

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74
Estupro da Mente:

LAVAGEM DE CRÁNIO E SEITAS

Em sfntese: Os Novos Movimentos Religiosos, que invadem a socie-


dade no Brasil de modo especial, recorren) a táticas que se assemelham
á lavagem de cránio, praticada pelos agentes de ideologías totalitarias.
O presente artigo descreve essas táticas e mostra como ocorrem, por
exemplo, entre os Meninos de Deus e em denominacdes do protestantis
mo brasileiro.
* * *

Muitos observadores do fenómeno "Novos Movimentos Religiosos"


julgam que em alguns destes existe o que se chama "lavagem de cránio"
ou "programacáfo" dos novos adeptos. Com efeito; tal seria a pressáo exer-
cida pelos chefes e os ambientes respectivos que muitas pessoas — espe
cialmente as mais jovens — acabam sendo condicionadas para dizero que
nunca teriam dito ou fazer o que nunca quiseram fazer. Estas observacoes
parecem ven'dicas, embora n§o se apliquem a todo e qualquer dos Novos
Movimentos Religiosos. — Passamos a descrever em que consiste a lava
gem de cránio; após o qué compará-la-emos ao que ocorre em algumas
novas denominacdes religiosas.

1. LAVAGEM DE CRÁNIO: COMO SE PROCESSA?

A base de tal procedimento sa*o as experiencias realizadas por Ivan


P. Pavlov, famoso psicólogo russo.

1.1. As descobertas de Pavlov

Ivan Pavlov foi condecorado com o Premio Nobel de Fisiologia em


1904, dadas as suas valiosas pesquisas no campo da Psicología e da Fisio
logia.

Verificou que o comportamento humano consta, muitas vezes, de re-


flexos, que respondem a estímulos ou fatores condicionantes. As experien
cias mais marcantes foram efetuadas com animáis irracionais; seus resulta-

75
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

dos aplicam-se também á conduta humana. Assim Pavlov veríficou, em


avaliacoes precisas, que a boca de um cao se enchia de saliva quando se
Ihe oferecia alimento; o alimento era o estímulo, a ¡nsalivacao era o refle-
xo condicionado por esse estímulo. Verificou também o seguinte:

Na hora de dar a racao a um cao, toque-se urna campainha; a boca do


cao se enche de saliva, como é de esperar; a pos urna serie de operacoes
deste tipo, o pesquisador toca a campainha, mas nao apresenta a racao;
nao obstante, grande volume de saliva aflora á boca do animal, nao por
causa do alimento, mas por causa do sinal condicionante ou por causa do
toque de campainha; a i nsalivacao é despropositada por faltar o alimento,
mas é urna resposta cega ao fator condicionante.

Pavlov descobriu também que é possível suscitar a inibicáo a um re-


flexo natural. 0 animal podia ser desorientado por urna serie de alarmes
contraditórios: campainha e racao ao mesmo tempo ou somente a campai
nha ou somente a raga o. Sob a ten sao assim gerada, o cao acabava per-
dendo o interesse pelos estímulos e pelo próprio alimento.

1.2. A aplicacao á pessoa humana

Os regimes totalitarios do século XX verificaram que podiam também


condicionar o ser humano, aplicando-lhe estímulos sabiamente concebi
dos. A este processo Eduardo Hunter deu o nome de "lavagem de cránio"
ou "do cerebro"; o próprio E. Hunter denunciou tal procedimento peran-
te urna Comissao Parlamentar norte-americana nos seguintes termos:

"Tenho acompanhado o que ocorre sob o comunismo em ou tras par


tes do mundo, e agora vejo acontecer exatamente o mesmo aquí na Amé
rica...

A guerra mudou de aspecto. Os comunistas descobriram que um ho-


mem morto a tiros é inútil; nao extrai can/So das minas. Urna cidade des-
truida é inútil; suas fábricas nao produzem tecidos.

O objetivo da guerra comunista é capturar intatas a mente e as pro-


príedades de um povo, de forma a poder explorá-las" (citacao extraída
dap. 81 do artigo citado á p. 79 deste fascículo).

A lavagem de cerebro, também dita "estupro da mente" ou "reedu-


cacao ideológica" se processa em tres etapas:

1) Colapso toreado ou "descondicionamento": trata-sede romperos


lacos do individuo com o seu passado ou de apagar tudo o que o possa
prender ao seu berco e ás suas origens;

76
LAVAGEM DE CRÁNIO E SEITAS 29

2) Submissao, identificacao com o inimigo: depois do colapso, esti-


mula-se a simpatía da vítima para com o ¡nimigo. Este Ihe aparece como o
seu grande benfeitor e libertador, que a emancipa de um passado tenebro
so e Ihe oferece a oportunidade de levar urna vida nova e auténtica. A ví
tima passa a estimar o seu carrasco e dispoe-se a adotar o modo de pensar
e agir do mesmo; torna-se um aparelho pronto para funcionar segundo os
desejos do seu manipulador;

3) Recondicionamento: explorando a situacao, o inimigo "recons-


trói" a mente da vi'tima segundo a ideología que ele professa. O homem
assim "reeducado" ou "robotizado" se torna incapaz de distingir seu
modo de pensar original das concepcoes que Ihe sao impostas.

A domesticacao assim empreendida utiliza os estímulos positivos (re


compensas) e negativos (punicoes), que correspondem aos afagos e tor-
roes de acucar ou á chibata e outros castigos usuais no adestramento de
animáis.

Entre os estímulos positivos, enumeram-se pequeñas regalías no tra


ta mentó carcerário, refeicdes mais substanciosas... Entre as punicoes, con-
tam-se a privacáo de sonó, de alimentos, de agazalhos, o excesso detraba-
Iho, os empecilhos á satisfacao das necessidades mais primarias... Tais pri-
vacoes suscitam nos prisioneiros a imaginacao de banquetes, pratos sucu
lentos e coisas semelhantes.

1.3. Recursos especiáis

A) A lavagem de eran ¡o explora certos instintos espontáneos do psi-


quismo humano, canalizándoos na direcao do objeto visado. Assim:

a) O instinto de conservacao. A tendencia inata do individuo a prote


ger sua vida e defender-se de agressfies pode levá-lo a submeter-se dócil
mente a pressoes hediondas e a afirmar o que a vítima nunca teria afirma
do por si mesma.

A fim de conservar a sua própria existencia, a vítima pode ceder a tá-


ticas totalmente estranhas á sua educacao de berco: a delacao e a denun
cia dos amigos, a traicáo em relacao aos familiares e conhecidos, a espiona-
gem, a crítica de valores que Ihe eram caros e até mesmo a crítica de si
mesma. Os filhos entregam os pais aos inimigos, os colegas entregam os
colegas...

b) O instinto gregario. O senso social do ser humano é um valor, já


que ninguém se realiza senao na sociedade. Todavía este senso pode ser

77
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

distorcido na direcao da gregariedade, ou seja, de seguir o grupo incondi-


cionalmente ou de agrupar-se de maneira cega, para nao parecer diferente
e nao sofrer a zombaria por parte da coletividade. Os agentes da lavagem
de cránio sabem despertar o desejo mórbido de conformar-se, de tomar-se
aceito, mesmo que o grupo seja opressor. Para nao sofrer isolamento, o in
dividuo pode conceber até mesmo afeto pelo seu "doutrinador ou ver
dugo"

c) Instinto de predominio. Há no ser humano urna tendencia inata a


dominar e comandar em posicoes de prestigio. Ora essa tendencia também
é explorada pelos agentes da lavagem cerebral, que sabem desenvolvé-la
como urna forma de condicionamento.

d) Conf litos emocionáis. O processo de "reeducacáo" também excita


os bríos do "reeducando", convencendo-o de que cometeu culpas graves...
especialmente contra a sua familia, o seu país ou contra os valores que ele
professava. Esta conviccao leva a vítima a aviltar-se, a castigarse e a aceitar
a condenacao; aqueles que a condenam, vém a ser os seus "verdadeiros
amigos e mestres".

B) Além de explorar instintos naturais da pessoa humana, os agentes


da lavagem de cránio recorrem a táticas que amedrontam e, a seu modo,
condicionam a vi'tima:

a) Isolamento. A solidao é extremamente nociva ao ser humano (a


menos que preenchida por altos valores místicos ou por intima uniao
com Deus). Ora, para dominar suas vítimas, os "doutrinadores" podem
aplicar a tática do isolamento: o individuo é privado de qualquer contato
amigo; é obrigado a ouvir, ler e acompanhar o que Ihe é imposto numa re-
peticao propositadamente monótona e enervante. Isto desgasta o indivi
duo; apaga-lhe o senso crítico e a resistencia de ánimo; corta-lhe os víncu
los com a existencia anterior.

b) Inseguranca e terror. Um ambiente de medo e terror pode revirar a


pessoa. Por isto a lavagem de cránio incentiva suas vítimas ao controle e á
acusapao mutua; joga pais contra filhos, e vice-versa; entre os amigos a des-
confianca e o temor se instauram. Deixa de haver amizade, e existe mal-
que renca.

O maqumismo do terror inventa acusacoes absurdas e pratica "expur


gos colossais", que intimidam as vítimas. Estas se poem a pensar: "Se tao
grave culpa ocorreu na vida de tal ou tal pessoa de destaque, como nao te-
rá ocorrido também na minha!". Em conseqüéncia, a passividadee o con
formismo tomam conta dos "reeducandos"

78
LAVAGEM DE CRÁNIO E SEITAS 31

c) Distorcoes semánticas. A tática da lavagem cerebral emprega tam-


bém certos vocábulos-chaves, que impressionam profundamente os ouvin-
tes: assim "patriotismo, nacionalismo, autodeterminacao, democracia, im
perialismo, soberanía..." sao palavras ás quais se associam reminiscencias,
fatos e situacSes e que provocam reacoes reflexas; funcionam como estí
mulos condicionantes. O sentido de tais palavras é deturpado ou interpre
tado de tal modo que o simples enunciado de tais vocábulos desencadeia
a reacao desejada pelos reeducadores... O individuo passa entao a agir se
gundo os interesses dos seus "domesticadores".

Os dados aqui apresentados relativos á lavagem cerebral foram extraí


dos do artigo "Violacao das Mentes", do Tenente-coronel Alberto deAs-
sumpcao Cardoso, na "Revista Militar Brasileira", Janeiro a jutho de 1963,
pp. 79-90.

2. O PROCEDIMENTO DE ALGUMAS

DENOMINAQOES RELIGIOSAS

0 pesquisador italiano Michele C. del Re realizou longos e aprofunda-


dos estudos dos Novos Movimentos Religiosos, cujos resultados foram pu
blicados na importante obra "Nuovi Idoli. Nuovi Dei. Culti eSette Emer-
genti di tutto il Mondo. Gurú, Santoni e Manipolatori di Anime" (Novos
ídolos, Novos Deuses. Cultos e Seitas Emergentes do mundo inteiro. Gu
rús, Santarroes e Manipuladores de Almas), de Gremese Editores, Roma
1988.

Neste livro o autor percorre os principáis Movimentos Religiosos de


nossos tempos, pondo em evidencia as suas peculiaridades. Urna nota fre-
qüente desse percurso é o uso de táticas de coacao (sob rótulos piedosos)
para fazer adeptos. A sociedade de hoje talvez nao tenha nocao exata de
quanto esse procedimento está em voga. Á guisa de amostra, transcreve-
mos, em traducao brasileira, o que é dito a respeito dos Meninos de Deus
(Children of God) ás pp. 103-105:

"Prática Religiosa: Palavras e Fatos

A característica preocupante dos cultos emergentes, a que os torna


novos em relacao a tantos Movimentos de Salvacao que houve através dos
séculos... é a sua capacidade de suscitar reacoes ou reflexos através de ma
nipulado ou programacao, que é, sob certos aspectos, a mesma que se uti
liza para domesticar um animal ou para inserir um programa na memoria
de um computador.

79
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

Os termos em uso — programar e deprogramar, to program e to de-


program — já nos falam daquela triste realidade antropológica que é a pos-
sibilidade de manobrar mecánicamente o ser humano... Aplicar a progra
mado biológica á psique humana é o mal que se imputa aos cultos emer
gentes destruidores; já com o sugar buzzing (fortes doses de acucara satu
rar o sangue) atenuam a resistencia á man ¡pul apa o; depois aplicam, por
exemplo, a nicotina e, a seguir...

É verdade que alguns sociólogos chamam a atencao para os exageras,


recordando que a desconfianza para com os novos cultos tem mu itas ana-
logias com a desconfianza frente aos Mórmons do sáculo passado (fa lava
se dos 'crimes dos Mórmons'} ou mesmo em relacao ao Exército da Salva-
cao. '0 Exército da Salvacáo repete sempre os mesmos brados, as mesmas
frases, os mesmos slogans; tem como objetivo a ¡rritacao, o enlouqueci-
mento, a alucinacao religiosa; quer que, tornados inconscientes da sua
conduta, os fiéis presentes ás sessoes do Culto do Exército assumam atitu-
des teatrais e, subindo sobre o palco, confessem os seus pecados e os dos
seus familiares. 0 Exército procura recrutar nao só os adultos, mas diríge
se de preferencia aos mocos...; quando encontra algum destes dotado de
sistema nervoso menos sólido e de raciocinio menos agudo, realiza os seus
melhores sucessos' (Jean-Francois Mayer).

Estamos de acordó em reconhecer que todo movimento religioso


suscita urna oposicáo, que tende a exagerar e distorcer os desvíos da seita,
dando ocasiao a condenacoes e represalias. Mas nao esquecamos que aquí-
lo que é um culto efervescente e destrutivo em urna fase sua, pode, com o
tempo, tornar-se urna corren te tranquila e de bom senso. Ora os Mórmons
e o Exército da Salvacáo (este em menor grau) tiveram tal evolucao...

A programacao do individuo incutida por esses grupos consiste em


enviar sugestoes á mente dos seus adeptos de mane ira constante, até ani
quilar a capacidade de pensar dessas pessoas; apagam em suas vítimas a
faculdade de discernir, tornam-lhes impossi'vel as livres opcoes e Ihesensi-
nam a auto-hipnose, a fim de que nao cesse o estado de transe. Os agentes
das pseudo-religioes safo acusados de empregar um excessivo espi'rito de
amizade e confianza para seduzir a juventude,... utilizar parábolas e metá
foras hipnotizadoras a ponto de provocar o horn'vel síntoma de urna feli-
cidade meramente artificial e sobreposta a urna realidade totalmente diver
sa.

Reforma do Pensar

As técnicas desses grupos religiosos sao semelhantes ás da Juventude


de Hitler e ás dos chineses dados á 'reeducacao'. O processo de reforma do

80
LAVAGEM DE CRÁNIO E SEITAS 33

pensamento pode-se dividir em quatro fases. A primeira consiste em ata


ques emotivos: 'A experiencia comeca com um pesadelo confuso de inter
rogatorios prolongados, acusacoes varias, privacao de sonó, pancadas, com
denuncias feitas por companheiros de cela já reformados e pressoes físicas
com algemas e correntes. Estes ataques iniciáis tendem a extinguir a identi-
dade da pessoa, a suscitar em seu íntimo um sen so veemente de culpa e a
pola em confuto com o ambiente que a cerca e a considera um reprobo.

A segunda fase é de indulgencia: o tratamento deixa de ser áspero pa


ra tornarse gentil e mostrar que a sociedade pode aceitar urna cooperacao
das vítimas. Assim na terceira fase consegue-se a confissao. As acusacoes
constantes, as exigencias de expiacao, de adaptacao ao grupo provocam o
desejo de confissao... Por último, vem a quarta fase: reeducacao através
de urna psicoterapia de grupo, que utiliza a crítica, a autocrítica, o exame
de maus pensamentos e, por conseguinte, o reconhecimento de que a vida
anterior foi cheia de culpas... Impoe-se entao, mediante repeticao conti
nua, a conviccao de que as novas doutrinas sao auténticas... 0 sujeito as
sim... adquire urna nova vi sao do mundo e um novo relacionamento com
os seus semelhantes.

A Gaiola para os Pecadores. Os Meninos de Deus

No tocante aos Meninos de Deus (Children of God), as acusacoes ver-


sam sobre aspectos ¡mpressionantes de técnicas psicológicas que tém re
quintes nunca havidos na historia anterior.

Durante a primeira fase de aprendizado, a pessoa, privada de toda in


fluencia proveniente de fora, formula a promessa de entrega total ao grupo
e ouve a ameaca de que será castigada por Deus se deixar a seita. Um ex-
Menino de Deus conta que, durante o aprendizado ou noviciado, 'urna das
principáis técnicas aplicadas pelos professores era a privacao de sonó.
Eram obrigados a assistir a sessoes que duravam até as quatro ou cinco ho
ras da manha; isto ocorria durante noites consecutivas, até cairem de can-
saco, ao passo que os conferencistas se revezavam constantemente.

Na segunda fase de doutrinacao, ¡mpunham-nos a memorizacao in


tensiva de versículos da Biblia ¡solados do seu contexto'.

Em algumas comunidades ná*o somente nao eram admitidos visitan


tes, mas, além disto, os neófitos nao eram deixados a sos. Como se compre-
ende, assim se obtém urna obediencia cega em relacao aos chefes... Há
também um sistema deletério de sancoes; recusar a obediencia implica o
castigo do cárcere solitario. A punicao mais drástica é a excomunhao, ou
seja, a expulsao com maldicdes, bastante temida pelos adeptos, que se sen-
tem invadidos pelo pavor do sobrenatural.

81
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

Um dos primeiros fatos que provocaram alarme nos Estados Unidos,


foi o caso da Sta. Blackbum, que foi membro da Corrente dos Meninos
de Deus durante oito meses na década de 1970. Com vinte e doisanosde
idade, essa estudante da Universidade do Arizona foi procurada por dois
membros da Organizacao dos Meninos de Deus e convidada para visitara
sua comunidade. Pouco depois, ela telefonou ao seu pai a partir de Tuxon,
dizendo que estava abandonando os estudos. O Dr. Blackburn respeitou e
aceitou a decisao, de sua filha, de consagrar-se ao próximo, mas ficou alar
mado pela tao brusca mudanpa de vida. Tomou entao o avi ao para Tuxon,
a fim de se informar sobre os acontecímentos, mas nao conseguiu encon
trar a filha. Nos sete meses seguintes, o Dr. Blackbum enviou repetidamen
te quantias de dinheiro a sua filha. Tais quantias eram passadas díretamen-
te para a conta dos Meninos de Deus. Quando a jovem nao quis mais pedir
dinheiro aos seus pais, os Meninos de Deus decid ¡ram mandá-la embora. A
moca nao aceitou a ordem de matar seus genitores, nem a de se casar com
o homem que Ber, o profeta do culto, Ihe havia destinado. Foi transferida
para a comunidade de Filadélfia, onde ficou reclusa, atrás de grades, por
ter recusado as ordens recebidas. Entao a moca foi tida como 'criatura de
Satanás' e submetida, na prisa o, a ouvir fitas gravadas cujos dizeres ten-
diam a esgotar a sua resistencia. Para deixar o caree re, a jovem foi conde
nada a tomar urna ducha e a realizar atos ¡moráis na presenca de homens
da comunidade; caso nao o fizesse, sofrena o inferno e a maldicao. A jo
vem recusou isso tudo e acabou sendo expulsa da comunidade de Filadél
fia. Quando finalmente o pai chegou para levá-la, a moga recusou-se a dei
xar a colonia. Somente metida numa camisa de forpa foi possível colocá-la
dentro de um carro. Foi necessário guardá-la sob vigilancia durante tres
meses.

O comportamento da jovem Blackburn é característico; revela o seu


grau de dependencia. Ela passou a viver com medo de ser condenada; cus-
pía no rosto do pai, que ela odiava, a tal ponto que chamou urna corretora
de ¡movéis para tentar vender a casa de seu pai e enviar dinheiro para os
Meninos de Deus. O Dr. Blackbum finalmente submeteu a sua filha a urna
deprogramacao e obteve a sua cura.

O sistema de sancoes dos Meninos de Deus é bem planejado: prevé


urna lista de punipoes correspondentes as acusacoes. 'O jui'zo de Deus, que
consiste na morte', diz Moisés David, o fundador da corrente, 'fere aqueles
que recusam ou renegam o contrato de revolucao ou que abandonam a
cruzada'. Como se compreende, para manter a eficacia dessa ameaca, há
constantes pressSes no seio da comunidade, grapas a urna sabia dosagem de
isolamento, cansapo, tensoes e ocupacoes extenuantes. 'Disseram-me que
eu morreria por ter abandonado Jesús' ... 'Disseram-me que conheciam

82
LAVAGEM DE CRÁNIO E SEITAS 35

rapazes que haviam enlouquecido após ter deixado os Meninos de Deus', e


assim por diante. Moisés David escreve:

'Os revolucionarios da disciplina de Jesús devem absoluta obediencia


aqueles que tém o controle sobre os mais jovens. A obediencia há de ser
¡mediata e sem discussao, para o bem das almas e daqueles que nao de se
salvar'".

A obra de M ¡chele C. del Re a presenta numerosos outros casos de


lavagem de eran ¡o e dominacao exercidos nos Novos Movimentos Religio
sos. Voltaremos a explorar o conteúdo de tal livro. Por ora ¡nteressa regis
trar as características atribuidas a mu i tos dos novos grupos e cultos reli
giosos de nossos dias, entre os quais se destacam os Meninos de Deus; para
estes, alias, a libertinagem sexual vem a ser urna das expressoes de seu
entusiasmo religioso.

3. 0 PROTESTANTISMO NO BRASIL

Distingue-se, na multidao de denominacoes protestantes, o conjunto


das Igrejas ditas "históricas", fundadas no século XVI (luteranismo, calvi
nismo, anglicanismo...) e o grande número de correntes oriundas nos sécu-
los XIX e XX (Mórmons, Testemunhas de Jeová, os Pentecostais diver
sos...). Aquelas sao mais tranquilas, ao passo que estas sao fortemente pro-
sel itistas e mesmo fanáticas. Ño Brasil, porém, observa-se que o protestan
tismo em geral, na medida em que se vai tornando popular, se torna cada
vez mais agressivo em re laca o á Igreja Católica. Existe até um plano de
estrategias dito "Amanhecer" para tomar a América Latina um continen
te protestante dentro de poucos anos; já foi apresentado em PR 333/1990,
pp. 78-87.

Há a tentativa de tomar de assalto as comunidades católicas e seus


membros incautos; para tanto, sao utilizados procedimentos semelhantes
aos que caracterizam a lavagem de cránio ideológica ou política e a "dou-
trinacao" sectaria, procedimentos atrás expostos. Com efeito, registrase

1) forte campanha para desarraigar os católicos das suas origens reli


giosas, levando-os a romper os vínculos com a sua comúnidade. Esta eta
pa compreende violentas campanhas de difamacao do Catolicismo, cam
pan has de teor superficial, ás vezes com base em mentiras,1 calúnias, no-

1 Sábese que alguns "mi/agres" realizados em "igrejas carismáticas" nao


passam de cenas teatrais: urna pessoa sadia se faz de doente oupossessae se
submete ás preces do pastor; quando este Ihe manda, a pessoa se reergue
"curada":

83
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

ti'cias imprecisas... Tem-se a impressao de que os arautos do protestantis


mo repetem "chavóes" sem saber justificar o que dizem; chavóes interes-
sam porque sao agressivos, nao porque sejam ven'dicos. Assim o católico
aprende a perder o amorá Santa Igreja Católica, a única que Cristo fundou.

2) Ao mesmo tempo, os pregadores protestantes se apresentam como


os auténticos mestres, os únicos que conhecem a Biblia e a podem expli
car. Sao os "libertadores" da populacao católica. As explicacoes da Biblia
que eles oferecem, sao freqüentemente primarias, subjetivas, muito distan
tes do sentido do texto sagrado, que foi originariamente escrito em hebrai
co, aramaico ou grego, e nao em portugués ou inglés. Assim pretendem ga-
nhar a simpatía e a amizade dos católicos. Tocam fibras sentimentais e afe-
tívas muito mais do que a inteligencia, a lógica, a veracidade... Nao raro
cativam pela assisténcia que prestam no campo da saúde, da economia, do
emprego..., atitudes estas que nao raro atenuam ou apagam o senso críti
co da pessoa beneficiada.

3) Aos poucos se vai processando urna "reeducacao" do crente, mui


to mais afetiva do que intelectual, baseada em preconceitos nao funda
mentados. Certas palavras assumem enorme capacidade de ¡mpressionar e
marcar...: a veneracao (que maldosamente é dita "adoracáo") de imagens,
a Mariolatria, a Papolatria...

A deprogramacao dos crentes fanáticos é muito difícil por causa dos


preconceitos que Ihes foram incutidos. Acontecem, porém, casos em que
as pessoas veríficam ser vítimas de abusos e manipulacáo e reagem, se aín
da conservam um pouco de senso crítico. As vezes, porém, o esgotamento
físico e moral dos crentes é tal que se deixam subjugar indefinidamente
pelos seus "pastores carismáticos"; querem "acreditar" nesses mestres,
porque nao sabem mais em quem ou em que acreditar.

Tal é a situ acá o em que se vé a sociedade, no Brasil, do ponto de vista


religioso. É urna alerta muito veemente aos fiéis católicos para que tomem
consciénciado significado das verdades da fé, estudem o seu Credo (para
tanto servirá, de modo excelente, o Catecismo da Igreja Católica) e procu-
rem viver generosamente a sua vocacáo crista dentro da única Igreja que
Jesús fundou e entregou a Pedro e seus sucessores.

* * *

REVISTA BÍBLICA BRASILEIRA


Obra do Pe. Caetano Minette de Tillesse, a presentando artigos de ín
dole bíblica e numerosas recensoes de livros nacionais e estrangeiros.

Pedidos á Caixa Postal 1577, CEP 60001-970 - Fortaleza (CE).

84
Dados impressionantes:

JUVENTUDE E SEXO

Em síntese: As pesquisas realizadas a respeito de juventude brasileña


e uso do sexo apresen tam resultados impressionantes; tornase quase nor
mal o sexo pré-matrimonial, com porcentagem crescente de adolescentes
grávidas.

0 antídoto que as autoridades civis e alguns profissionals propoem


para este quadro, é o recurso a anticoncepcionais e preservativos. Na ver-
dade, tais meios sao falhos; além do qué, dio a entender que nada há a
opor as relacoes pré-matrimoniais, do ponto de vista ético; apregoa-se fal
samente "o sexo seguro".

Falta a coragem, da parte de genitores e educadores, para propor aos


adolescentes e /ovens urna escala de va/ores: o uso do sexo é a última eta
pa do amor que despena no namoro, se fortalece no noivado e se consoli
da estaveimente no matrimonio; somente no contexto deste pode haver
a prole, que decorre do uso da sexualidade. Sem compromisso total do ho-
mem e da mulher, o sexo nao tem sentido; é, nao raro, manipulacio "colo
rida" do(a) parceiro(a). Bons médicos e psicólogos afirmam que a castida-
de pré-nupcial, longe de prejudicar a saúde, só contribuí para a fortalecer
e melhor preparar o casamento.

* * *

0 uso do sexo toma-se cada vez mais "normal" entre os jovens antes
do casamento e até mesmo na adolescencia. Os genitores e mestres, nao
raro, se dá*o por perplexos diante da onda de erotismo; embora percebam
frutos negativos da mesma, nao ousam pronunciar-se ou tentam mesmo
acobertá-la com a justificativa de que a liberdade de comportamento da
nova geracao é intocável.

A propósito o jornal O ESTADO DE SAO PAULO, aos 19/09/93,


pág. A 26, publicou os resultados de urna pesquisa realizada entre universi
tarios, que passamos a apresentar e comentar, pois se trata de fatos muito
significativos.

85
38 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

1.0 PROBLEMA

A psicóloga Heloisa Aparecida Tivetti Angelí efetuou na Universida-


de de Sao Paulo, um estudo entre os universitarios de 18 a 21 anos, che-
gando as conclusoes seguintes:

62'.í maníém vida sexual ativa;


64/í dos rapazes freqüentam prostíbulos;
32'/ nao se preocupam com a AIDS, molestia que se transmite, em
grande parte, através da promiscuidade sexual;
5&/i nunca conversaram com os país sobre sexo, muitas vezes porque
os pais estao despreparados ou náfo dao a devida importancia ao assunto.

Registra-se também freqüéncia crescente de gravidez na adolescencia


ou desde os 14/15 anos de idade, como se depreende do trecho abaixo:

"A gravidez na adolescencia continua aumentando. Na década de 70,


0,5'« das criancas eram filhas de mies com menos de 15 anos. De acordó
com o censo do Instituto BrasUeiro de Geografía e Estatística (IBGE), di
vulgado em 1990, essa porcentagem triplicou.

'Oficialmente, 201/, dos bebés que nascem no Brasil tém mies adoles
centes', afirma a Coordenadora do Programa de Atendimento Integral de
Adolescentes no Estado de Sio Paulo, Albertina Duarte Takiuti" (pág.
cit.).

Mais: 40'/ das meninas voltam a engravidar nos 36 meses seguintes,


caso nao recebam orientacao.

"Mié de quatro filhos, Lidia está ¡aneando o romance Tesouro da


Juventude, pela Editora 'Olho d'Água', voltado para adolescentes. A histo
ria fala do amor de dois jovens que se apaixonam e, apesar de todas as in-
formacoes de que dispoem, passam a manter relacoes sexuais sem precau-
cio. Judo muito romántico, até que acontece o inevitável: a gravidez. E a
opcio pelo aborto.

'0 adolescente tem a sensacao de on¡potencia, própria da idade', ex


plica. 'Acha que nada que nao queira irá acontecer', diz" (pág. cit.).

Eis aínda outros tópicos colhidos na mesma página de jornal:

"A dona de casa Silvia Prado, de 48 anos, mié dos estudantes Silvia
Adriana, 19 anos, e Plinto César, de 15, garante que a conversa em sua
casa é muito liberal. E/a se preocupa com a possibilidade de os filhos con-

86
JUVENTUDEESEXO 39

traírem doencas venéreas e nao aprova o sexo antes do casamento. 'Mas,


se minha filha resolver transar, eu prefíro nao saber', afirma. 'Só espero
queminha filha saiba escolhera hora certa', ressalta.

Segundo Heloisa, a dificuldade dos pais é maior do que aparenta.


'A maioria garante que conversa com os filhos sobre sexo, mas o que exis
te é urna hipocrisia social, a abertura é falsa, sustenta a psicóloga. Para a
dona de casa Camila Gouveia, de 20 anos, a falta de conversas aprofunda-
das sobre sexo com os pais, durante a adolescencia, foi decisiva. Grávida
aos 15 anos, quando fazia o segundo colegial, ela escondeu o fato da fa
milia até o sexto mes. Cinco dias após seu casamento, nasceu Frederico,
boje com 3,6 anos, e há tres meses nasceu Gabriel. 'A gente nunca acredita
que vai engravidar, ai é que está o erro', diz, p/ane/ando retomar os estu-
dos no próximo ano. O nascimento do primeiro filho, entretanto, serviu
para aproximar Camila e sua mae, a empresária Marina de Mello Lopes.
'Agora conversamos mais Hvremente', garantem.

Thereza Cristina Lacerda de Camargo, 20 anos, viveu urna experien


cia semelhante. 'Quando contei para minha mae que nao era mais virgem,
ela chorou muito, acho que pensou que estava me perdendo'. Grávida aos
16 anos, Thereza deixou os estudos, cancelou urna viagem aos Estados
Unidos, casou-se e hoje tem duas criancas. 'Na época eu era muito irres-
ponsávef, lembra..."

Diante de fatos tao relevantes para a juventude e as familias brasilei-


ras, pergunta-se: que dízer? — Responderemos por etapas.

2. PRESERVATIVOS E ANTICONCEPCIONAL

A cautela para evitar fatos semelhantes geralmente apontada pela


imprensa e as autoridades govemamentais é o uso de preservativos e anti
concepcional. Esta recomendacao supoe que a liberdade sexual seja váli
da e que apenas se deve tomar cuidado para evitar as suas seqüelas inde-
sejadas. Ora a raíz do problema é outra; parece, porém, que falta coragem
para enfrentá-la; apontam-se tao somente falsos paliativos. Isto é grave e
daninho para a sociedade, a mais de um título:

1) Os preservativos, longe de proporcionar "sexo seguro", sao fa


inos,... fainos a tal ponto que o Ministerio da Saúde mandou substituir o
tipo de "camisinhas" em uso no Brasil por outras tidas como mais efici
entes. Ver PR 377/1993, p. 466: "os preservativos nacionais deixam pas-
sar esperma pelos microporos".

87
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

Quanto á pflula anticoncepcional, é um produto farmacéutico dado


a um organismo que funciona bem, para que nao funcione bem. Ora isto
nao pode deixar de ser nocivo'para o organismo feminino. Enquanto a mu-
Iher carrega as conseqüéncias da pfluía, do DIU e outros meios artificiáis,
o homem fica isento de qualquer seqüela nociva á sua saúde — o que re
dunda em discriminacá'o e "machismo". Somente o método natural ou da
continencia periódica n§o ofende o organismo e exige do casal igual esfor-
co e colaboracSo para limitar a natalidade; marido e muiher se unem e aju-
dam mutuamente para se abster de relacionamento "perigoso"; dentre os
métodos de contencao natural, o mais indicado é o de Billings oü do muco
cervical ou da clara de ovo, que vem apresentado em folhetos de divulga-
pao pelas Edicoes Paulinas.

2) A falta de coragem para tocar na raiz do problema (os abusos se-


xuais) só contribuí para prejudicar os adolescentes e os jovens. Os mais
velhos Ihes sugerem tácita ou explícitamente que nao há mal no uso do
sexo desde que despertem os impulsos naturais. Parece estar ultrapassa a lin-
guagem que fala de disciplina e escala de valores; falta coragem para afir
mar que muitas vezes o Nao dito aos impulsos instintivos é sadio e benéfi
co. Dizer Sim a tudo o que a natureza pede cegamente, é atirar-se no pre-
cipi'cio das paixoes irracionais e degradantes.

A castidade ou a abstencao de relacoes sexuais antes do casamento,


longe de prejudicar a saúde, só contribui para a beneficiar, como ensina
Joao Mohana em seu livro "Vida Sexual dos Solteiros e Casados", do qual
extrairemos alguns tópicos sob a rubrica seguinte:

3. A CASTIDADE - FATOR DE BOA SAÜDE

Joao Mohana dedica um dos capítulos de seu livro ao "Controle


Sexual em Bases Fisiológicas". Escreve ás pp. 35s da 23a. edicao o se
guinte:

"Sexologistas bem-intencionados do passado chegaram a pensar que


o ato sexual fosse o mais poderoso estímulo para o desenvolví mentó se
xual dos rapazes.

Ora, em face das descobertas endocrinológicas dos nossos fisíologis-


tas, a gente concluí que a abstencao da funcao genital nao perturba a ana
tomía nem a fisiología dos testículos. Nao provoca, como nunca provo-
cou, a atrofia testicular. Nao provoca, porque o aparelho genital, tanto do
homem como da muiher, está sob a dependencia das glándulas endocrinas,

88
JUVENTUDE E SEXO 41

especialmente da hipófise.1 O aparelho genital, agora se sabe, nao é inde-


pendente, nem funciona sozinho. Por isso urna moca que nao se casou,
mesmo depois dos 30 anos poderá ser mae, após tanto tempo de completa
abstencáo sexual. Aqueles ovarios que sempre estiveram em virginal quie-
tude, fomecerao na hora oportuna óvulos fecundáveis, perfeitos. Aquelas
glándulas mamarias, dormindo há trinta anos, arquivadas todo esse tempo,
elas que nunca produziram urna gota de leite, esta rao a postos na hora exa-
ta, fabricando leite em abundancia.

É que elas também tém hipófise.

O mesmo acontece com qualquer celibatário.

Se isso se dá com esses, dá-se, com muito mais razao, com os mocos.

O que a moderna endocrinología nos permite garantir, é que qualquer


rapaz pode esperar para fazer sua vida sexual no casamento. Sem receio.
Tranquilamente. Porque a maturacao anatómica e fisiológica se processa
no homem como nos frutos. De dentro para fora. Por meio de forcas inter
nas. Vocé ainda se recorda dos efeitos da indolencia, da exaltacao, da ex-
tirpacSo da hipófise em adolescentes, em enancas e em adultos. Ainda se
recorda das conseqüéncias da hiperatividade das supra-renais. Do efeito da
¡nvolucao e da permanencia do timo. Etc., etc.

Em outras palayras: — pedir que um rapaz seja casto nao é. pedir um


absurdo".

O autor prossegue, referindo-se á glándula de Leydig. Eis o que signi


fica tal glándula dentro da fisiología masculina:

"Esta é urna das muitas novidades descobertas pela moderna Fisiolo


gía, ou antes, pela moderna Sexologia: Os testículos nao sao apenas duas
glándulas externas, cada urna com a mesma funcSo de fabricar espermato
zoides e lancá-los no exterior. Os testículos sao quatro glándulas: duas

1 Sao ainda palavras de Mohana:

"Podemos conscientemente repetir a conclusao dos ffsiologistas: 'A


hipófise é a rainha da sexualidade'. A hipófise é o motor de nossa vida se
xual. A hipófise é o general do instinto sexual. A verdadeira glándula se
xual é a hipófise, nao os testículos. É a hipófise que acendee alimenta o
fogo do instinto sexual. É e/a que constrói o fogo desse mesmo instinto.
Ela que bota lenha (ou gas) na libido. Nao os testículos. Os testículos
abanam o fogo, se quisermos, ou graduam o tambor" (ob. cit p. 31).

89
42 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

exócrinas e duas endocrinas. As exócrinas, formadas pelos tubos produto-


res de espermatozoides (tubos seminíferos + tubos do epidi'dimo + canal
deferente) e as endocrinas, formadas pelas células de Leydig ou glándula
intersticial, produtora do hormónio sexual masculino, isto é, aquele hor-
mónio que faz com que urna pessoa tenha barba, fale grosso, manifesté
virilidade corporal e mental, distribuicao masculina de pelos, etc. Que faz
com que urna pessoa se conduza como homem e ná*o como mulher"
(pp. 15s).

Após explicar o que seja a glándula de Leydig, Mohana pode es-


crever:

"Na castidade do rapaz, ou seja, no controle da vida sexual para o ca


samento, dá-se um fato que todos conhecem. A porcao produtora de es
permatozoides (os cañáis espermatogénicos do testículo) limita-se a produ-
zir espermatozoides que o organismo se encarrega de eliminar. Toda aque-
la exaltacao do rapaz de vida sexual irregular náfo existe no casto. Entre
tanto ambas as glándulas — a espermatogenia e a de Leydig — funcionam
normalmente, como em qualquer rapaz que possua hipófise.

Um ilustre professor da Faculdade de Medicina da Universidade do


Brasil mostrou a vantagem desse fato. Como médico, o Dr. Moreira da
Fonseca, procurou esmiucar o fundamento anatómico e fisiológico dele.
Lembrou que a circulacáo testicular é única. Isto significa que os vasos
sanguíneos que alimentam os testículos em sua funcao extema, exócrina
(glándula espermatogénica), também alimentam as células de Leydig (fun
cao endocrina dos testículos, hormonal). Ora, das glándulas de Leydig vem
a producao de testosterona, nosso hormón i o virilizante. É a testosterona
(por estímulo hipofisário) que vai provocando no adolescente o aparecí-
mentó das características de homem. É ela que dá também ao individuo
fortaleza, energía, resistencia nao só corporal, nem só sexual, mas também
cerebral. É ela que robustece o cerebro e, em conseqüéncia, a mente. É ela
que fornece á alma um instrumento poderoso, competente para as exigen
cias da missao de homem. Ela aínda nos arma contra as infeccoes, contra
os traumas, mantendo nosso corpo apto para a atividade espontánea.

Ora, se as mesmas arterias alimentam simultáneamente ambas as


glándulas (glándula endocrina e glándula exócrina), 'nao encontrando mo
tivo para atuar em beneficio de urna funcao, destinam-se entao de prefe
rencia á outra, que se aproveita délas quase exclusivamente'. Como 'a ou-
tra' funcao presta ao organismo todo esse conjunto de beneficios, pode
mos prever o contingente tonificante que recebe o rapaz durante os anos
de urna juventude castamente vivida.

90
JUVENTUDE E SEXO 43

Se nao captou em todas as dimensdes a exposicao, volte e releía, por


que , se a compreendeu e tiver coragem de pó-la em prática, sua vida de ca
sado terá mais urna indiscutível chance de ser vivida em intensidade.

Esse esforco da glándula de Leydig com repercussoes tao benéficas


para o corpo e para a mente do rapaz casto, é ainda aumentado por urna
leí fisiológica — a lei da compensacao funcional.

Quando um, dentre dois órgaos gémeos de nosso corpo, cessa de agir
ou diminuí a atividade, o outro redobra a própria atividade. Por um gesto
compensador, por verdadeiro mecanismo de desforra. Assim, quando um
dos rins diminui a filtracao de urina, o outro aumenta; quando um dos
pulmoes baqueia ou adoece, o outro resolve trabalhar mais. Quando urna
das mamas capitula, a outra enfrenta a crise. Além do exemplo que nos
dao, esses órgSos ajudaram a compreender melhor as vantagens da casti-
dade.

Apreciando o funcionamento dos testículos dum rapaz que controla


sua vida sexual, notamos que a glándula espermatogénica é mantida em re-
gime de trabalho moderado, natural, em regí me de atividade inferior á do
rapaz devasso. Acontecerá entao a lei da desforra. A glándula de Leydig
vai trabalhar mais. Vai fabricar mais testosterona. E como a testosterona é
a gasolina da virilidade, da distribuicá*o de músculos masculinos, como é
estímulo dos pelos axilares, facíais, pubianos, este mais, como é a "corda"
dos órgSos copuladores, — concluímos que o rapaz casto, verdadeiramente
casto e verdadeiramente homem, é um tipo portador de alto índice de se-
xualidade; sexualidade sadia, harmoniosa.

Ainda: como a testoterona garante a resistencia física sob diversas


modalidades (resistencia ao trabalho, ao cansaco, as infeccoes, aos cho
ques, etc.), vé-se que o casto tem mais possibilidade de gozar saúde e de
tirar melhor partido de tudo aquilo em que a saúde é condicao indispen-
sável (vida profissional, vida familiar, vida social).

Mais: como a testosterona levada pelo sangue até o sistema nervoso


central, confere ao cerebro urna assombrosa tenacidade e aos ñervos urna
resistencia invulgar, multiplicando a capacídade mental, o casto pode ser,
indiscutivelmente, um sujeito intelectualmente mais vigoroso, psíquica
mente mais tenaz.

Há experiencias em Fisiología Animal (chamadas experiencias de Vo-


ronoff e Steinach) que comprovam, quantas vezes se queira, o mesmo
fato.

91
44 "PERPUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

— Resumo das afirmacoes anteriores numa única, como expressao


da realidade em foco: A castidade é um método natural de aumentar sau-
davelmente a taxa de testosterona no organismo. Como a testosterona
viriliza e vitaliza, a castidade viriliza e vitaliza" (pp. 37-39).

3. AMOR HUMANO E SEXUALIDADE

O amor humano, que termina no matrimonio, tem seus graus de ama-


durecimento:

— o namoro, que é o tempo das primeiras abordagens; é a procura de


mutuo conhecimento, sem compromisso;

— o noivado, em que já há um compromisso, mas compromisso solú-


vel;

— o casamento, compromisso definitivo ou vitalicio. É doacao plena


e total, que há de ser duradoura para sempre; em caso contrario, nao é to
tal. Somente entao há condicoes para a vida sexual. Esta é unitiva e fecun
da. A prole que nasce do amor do homem e da mulher, requer um lar
estáve! ou pai e mae definidos — o que só sé verifica se houve casamento
entre os dois genitores.

Alias, nao há melhor demonstracáo de quanto é sabia a Moral Cató


lica do que o doloroso flagelo da AIDS... Esta molestia se propaga, fre-
qüentemente, como conseqüéncia do libertinismo sexual. A natureza,
quando violentada, replica; nao é necessário que Deus intrevenha explíci
tamente para punir os abusos; a própria natureza protesta contra as trans-
gressoes da ordem que déla decorre. Ora parece que nem o flagelo da
AIDS está sendo eficaz para conter as paixoes dos jovens e adultos con
temporáneos.

4. O REMEDIO BÁSICO

0 remedio básico para o triste quadro da sociedade atual é a propos


ta de urna escala de valores condizente com a dignidade humana. O ho
mem tem seus impulsos vegetativos e sensitivos, mas também tem a sua
vida intelectual, que depende da espiritualidade da alma humana. Esta
presenca da alma espiritual no homem dá um novo sentido e valor as fun-
coes que o ser humano tem em comum cbm os animáis irracionais. Á se-
xualidade humana está a servico da realizacao de urna personalidade, que
tem seu ideal. Nenhum ser humano foi feito para se contentar apenas com

92
JUVENTUDEESEXO 45

o prazer sensual e passageiro; tudo é pequeño demais para quem é capaz


de viver urna vida inteligente. A inteligencia humana se volta para o Infini
to, e aspira a Ele, único bem capaz de satisfazer plenamente as tendencias
naturais do homem. Por isto o comer humano, o divertir-se do homem,
a sexualidade do homem sao elevados a um plano superior ou sao encami-
nhados á consecucao da verdadeira felicidade, que é a descoberta e o gozo
do Bem Infinito, Deus.

Alias, merece atencao a tese do psicólogo judeu Viktor Frankl, fun


dador da Logoterapia. Opoe-se a Sigmund Freud, que julgava ser o eros
0 impulso fundamental que leva o ser humano ás suas mais diversas ativi-
dades; debaixo de qualquer destas estaría camuflado o ero. Viktor Frankl
afirma que a necessidade básica do ser humano é a de saber o sentido da
vida; é urna necessidade de ordem intelectual, e nao sensual ou cega. Todo
homem, segundo Frankl, precisa de saber por que vive, para que vive, para
que luta, sofre e morre... Quem tem urna raz§o de ser, sustenta grandes
embates com heroísmo e se habilita a vencer obstáculos. Esta afirmacao é
comprovada pela experiencia dos campos de concentradlo: os prisioneiros
eram "achatados" pelo rolo compressor; ocorria, porém, que um ou outro
sonhasse com urna próxima libertacao; contava esse sonho aos colegas, que
1 he davam crédito fácil, pois aspiravam a tal meta. Em conseqüéncia, os
encarcerados aturavam os maus tratos do campo com tenacidade e fortale
za de ánimo; quando, porém, se aproximava a data prevista e nada acon
tecía, caiam doentes e desfaleciam em número maior do que o previsível;
faltava-lhes entao a razao (o logos) para continuar a lutar e agüentar. Urna
vez desanimados, deixavam-se ficar deitados ñas pranchas do dormitorio,
sem ter a coragem de se levantar, embora fossem espancados e estivessem
em ambiente sujo e anti-higiénico.

O relato e a tese de Viktor Frankl evidenciam o aspecto intelectual


do ser humano; este vive e se engrandece em funcSo da sua espirítualidade,
subordinando os impulsos da sensibilidade ao ideal tracado pela personali-
dade respectiva.

Urna auténtica escala de valores, em que a inteligencia ilumine os ins


tintos, eis o que de mais sabio se pode dizer perante o problema do líberti-
nismo sexual, nao somente aos que tém fé, mastambém aos que nao tém
fé (é claro que as pessoas de fé terao um enfoque ainda mais profundo das
realidades sensuais do ser humano).

93
BATISMO DA NEW CHURCH (NOVA IGREJA)

Merece registro a seguinte Declarado, vinda de urna das Congrega-


c5es da Curia Romana:

"Perguntaram a esta Congregacao para a Doutrina da Fé se o batismo


ministrado na comunidade chamada The New Church (A Nova Igreja), de
Emmanuel Swedenborg, é válido ou nao.

Após atento exame do caso, esta Congregacao decide que se deve res
ponder: Nao.

Roma, 20 de novembro de 1992


Joseph, Cardeai Ratzinger"

(Texto extraído de La Documentation Catholique, n? 2082, 21/


11/1993, p. 998).

COMENTARIO

1. The New Chrch é mais um dos movimentos religiosos que se tém


propagado com grande ímpeto no mundo contemporáneo. Seu fundador,
Emmanuel Swedenborg (1688-1772), foi um cristao sueco, estudioso de
assuntos de espiritualidade numa linha tendente ao esoterismo. Em 1745
comecou a examinar os fenómenos psi'quicos — o que o levou a crer que
era agraciado com revelacSes vindas do além. Passou a negar a SS. Trinda-
de, aceitando apenas Jesús Cristo como Deus. Posteriormente julgava que
Cristo voltara á Térra em 1757. A "Igreja Nova Jerusalém" foi fundada
em 1788 após a sua morte, anunciando as teses expressas ñas obras de
Swedenborg, como Arcana Caelestia (1749-56) e Hierosolyma (Jesusalém)
Nova (1751).

Emmanuel Swedenborg, com suas revelacoes e concepcoes místicas,


é um dos precursores da Nova Era, ponto de confluencia de doutrinas eso
téricas, místicas e comunicacoes (channeling) com os mortos...

94
BATISMO DA NEWCHURCH (NOVA IGREJA) 47

2. A Igreja Católica reconhece o Batismo ministrado até mesmo por


ateus (visto que é o sacramento do renascer para a vida eterna), contanto
que se cumpram as seguintes condigoes:

a) O ministro tenha a intencao de fazer o que Cristo, mediante a sua


Igreja, faz quando Ele batiza. Com efeito, os sacramentos tém por Sacer
dote principal o próprio Jesús Cristo, sendo o ministro humano apenas a
mao estendida de Cristo; daí a necessidade de que o ministro tenha a in
tencao de fazer o que Cristo Sacerdote realiza através da sua Igreja; queira
o ministro humano prestarse a isto, embora nao tenha a fé em Jesús Cris
to Deus e Homem.

b) O ministro, animado portal intenpao, aplique exatamente a mate


ria e a forma do sacramento, ou seja, no caso do Batismo agua natural e as
palavras: "Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espirito Santo".

Ora é de crer que os ministros da "Nova Igreja de Jerusalém" nao


preencham as condicoes enunciadas. Sem dúvida, as concepcSes doutriná-
rias dessa comunidade sao muito diferentes daquilo que a Igreja Católica
professa, de modo que o Batismo da "Nova Igreja" só tem em comum
com o Batismo cristao o nome de Batismo.

TRABALHAR NO DOMINGO

O problema de trabalhar no domingo existe no Brasil como também


no estrangeiro.

As autoridades religiosas católicas e protestantes das regioes da Alsá-


cia e da Mosela (Franca), aos 28/09/93, dirigiram urna carta aos Deputa-
dos e Senadores respectivos, a fim de Ihes lembrar a importancia do do
mingo:

"Sr. Deputado, Sr. Senador,

A legislacao relativa ao trabalho dominical será em breve posta em


discussSo no Parlamento. Temos consciéncia da diversidade e da complexi-
dade dos dados do problema e conhecemos a evolucao da vida em nossa
sociedade. Contudo sentimo-nos obrigados a manifestar novamente nossa
posicSo diante dos questionamentos cuja gravidade certamente nao vos
escapa.

95
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 381/1994

É evidente que certos servicos devem ser prestados no domingo em


vista do bem comum. Isto nao é novo nem é contestado por quem quer
que seja. Mas a extensao do ámbito do trabalho dominical que faria de
excecoes urna regra ou urna norma oficializada e generalizada, teria efeitos
que violariam direitos fundamentáis e valores ¡nestimáveis.

Seria afetada nao somente a facilidade, para os fiéis cristaos, de se


reunirem para celebrar o acontecimento básico da sua fé, acontecimento
que, há vinte sáculos, é comemorado no 'primeiro dia da semana'. Com
efeito; o repouso dominical, que interrompe o curso do trabalho e o cansa-
co que este acarreta em todos os níveis, abre para todos os cidadaos a oca-
siao de distensao, de recreacao, de encontros entre familiares e amigos. Es
tas atividades sao favorecidas pelo próprio fato de que num só e mesmo
dia sao possibilitadas a todos os cidadaos.

Como quer que seja, o ser humano precisa desses espacos de liberda-
de e de recreacao para se expandir. Por que dispersar o lazer em ritmos
fracionários, que tornariam difi'ceis, se náfo impossi'veis, a convivencia e
os encontros de familiares e amigos num só e mesmo dia?

A memoria dos operarios sabe que a liberacao do domingo foi urna


das conquistas sociais mais significativas.

Estarnos convencidos de que, se o domingo é sacrificado, nao somen


te o domingo será atingido; haverá novos e novos rumos de evolucao para
a nossa sociedade, que nao seráo benéficos para as necessidades fundamen
táis e os direitos do homem...

Novamente vos professamos a nossa confianca e desejamos dizer-vos


que contamos com o vosso apoio para a defesa daquilo que consideramos
interessar ao bem comum.

Sr. Deputado, Sr. Senador, queira aceitar a expressao de nossa gran


de consideracao.

Mons. Charles Amarin Brand,


Arcebispo de Estrasburgo

Mons. Pierre Raffin O.P.


Bispo de Metz

Pastor Michael Hoeffel


Presidente do Di retó rio da Igreja de Confissao Augustana
da Alsácia-Lorena

Pastor Antonio Pfeiffer,


Presidente do Conselho Sinodal da Igreja Reformada da Alsá
cia-Lorena".

96
Em suma, este texto quer lembrar:

1) Nada se opSe á prestacao de servicos ¡ndispensáveis ao bem co-


mum nos domingos (alimentacao, saúde, transportes...);
2) o trabalho que ultrapasse tais limites, vem a ser ofensa aos di reí tos
humanos mais fundamentáis, pois o ser humano precisa nao somente de
repouso individual, mas também de convivencia com familiares e amigos.
O escalonamento do dia de repouso por categorías de trabalhadores duran
te os dias da semana tornaría impossi'vel o encontró de familiares e amigos
entre si;

3) a simples permissao de trabalho no domingo redundaría em novas


e novas violacSes dos valores humanos;

4) o repouso dominical é urna das mais sagradas conquistas do mun


do operario;
5) o culto dominical é um bem a que tém direito todos os fiéis. Este
último argumento nao é longamente explorado na Carta, porque ela se di
rige a legisladores de um Estado leigo e arreligioso.

Possam estas consideracoes valer também para o nosso Brasil!


Estéváo Bettencourt O.S.B.

' EMCOMUNHAO
Revista bimestral (5 números: marco a dezembro)
Editada pelo Mosteiro de S. Bento do Rio de Janeiro, desde 1976
(já publicados 101 números), destinase a Oblatos beneditinos e pessoas
interessadas em assuntos de espiritualidade bíblica e monástica. - Além de
artigos, con tém traducoes e comentarios bíblicos e monásticos, e, ainda a
crónica do Mosteiro.

Para 1994, a assinatura ou renovacao, ficará por CRS 2.500,00.


Dirija-se as Edicoes "LUMEN CHRISTI" (Caixa Postal 2666 -
20001-970) Rio de Janeiro — RJ, que também atende os pedidos
de números avulsos, pelo Reembolso Postal.

RENOVÉ QUANTO ANTES SU A ASSINATURA DE PR PARA 1994:


CRS 4.500,00

{PARA PAGAMENTO, VEJA 2a CAPA).

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS": de 1993:


Encadernado em percalina, 590 págs. com índice.
CRS 12.500,00
ESTRUTURA GERAL DA MISSA

ESTRUTURA GERAL
DA MISSA

Apresenta em seqüéncia todos


.os momentos da celebracao da
Missa.

Quadro mural (65 x 42) espe


cialmente para uso didático, em
cores.

CR$ 1.000,00

O ANO LITÚRGICO, Presenca de Cristo no tempo.


Quadro mural (formato 65 x 42). Ilustrado em cores, para estudo do Ano
Litúrgico em cursos para equipes de Liturgia. É um "calendario" com as
solenidades e festas do ano eclesiástico, com breves explicacoes. Pode ser
afixado as portas de igrejas, em salas de aulas, noviciados, etc. Elaborado por
D. Hildebrando Martins. Útil á Catequese CR$ 1.300,00

A IGREJA DE SAO BENTO

110 páginas policromadas (30 x 23) com texto histórico


documentado, por D. Mateus Roqha OSB, autor do volume
de 408 págs O MOSTEIRO DE SAO BENTQ DO RIO DE JANEIRO.
' - < Publicapóes em comemoracao do IV centenario de fundacao
.- ■ , do Mosteiro.

. 5 volumes separados *m 5 idiomas: portugués, espanhol, francés,


'inglés e alemao. Fotografías de Humberto Moraes Franceschi.

EDigOES "LUMEN CHRISTI"


Mosteiro da SJo Bento - Caixa Postal 2666
20001 -970 -Rio da Janeiro, RJ