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Eduardo Lourenço em busca de Dioniso, um deus dançante e criativo que [ainda] não conduz o baile do mundo

Homenagem a Eduardo Lourenço

Permitam-me que comece com uma confidência autobiográfica. Não se trata de um mero capricho idiossincrático. Há mais de 25 anos, na altura da defesa da minha tese de mestrado, o meu orientador (o professor Joel Serrão) comunicou-me que a Universidade Nova de Lisboa estava a pensar convidar o já então famosíssimo Eduardo Lourenço para arguente. Como é óbvio, fiquei radiante com essa possibilidade. Até que chegou o tal dia da defesa da tese. Como se imaginará, a minha preocupação era enorme, ter como arguente uma personalidade da dimensão do professor Eduardo Lourenço era obra! Enfim, a coisa deu-se, e a seu devido tempo a palavra foi dada, como é usual, ao arguente para ele colocar as suas questões que achasse pertinentes. Então, o Professor começou por falar um pouco sobre o meu trabalho, tendo- se referido, para me questionar, como era da praxe, ao ensaísmo de António Sérgio, à filosofia da saudade, a propósito do qual fez uma dissertaçãode aproximadamente 30m, período findo o qual reforçou as questões que me queria pôr. E o que aconteceu nesse momento foi impressionante. A sala encontrava-se cheia com estudantes de Filosofia, de História e de outras disciplinas que vieram ver (e ouvir) o Eduardo Lourenço. Durante o período, no qual o arguente desenvolveu o seu pensamento, o silêncio era tal que podia ouvir-se o bater de asas de uma mosca; até parecia que tínhamos deixado de respirar, tal era a intensidade da escuta, a força do silêncio. E as tais questões surgiram! Só que eu estava completamente dominado pela emoção do discurso do arguente, não tendo retido praticamente nada daquilo que seria o seu questionamento directo para mim; aliás, ele tinha dito tudo o que podia então ser dito a respeito daquela matéria. O que é que eu poderia acrescentar? Na minha cabeça passava como que um turbilhão de ideias e só me ocorria a celebre frase de Wittgenstein:

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"Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar ( Tractatus , 7). Enfim, lá fui recuperando o folgo, sempre acabei por retomar o fio à meada. Suponho que ninguém ouviu nada daquilo que eu disse então. O Professor Eduardo Lourenço voltou ainda a argumentar uma ou duas vezes. No final, os meus colegas vinham dar-me os parabéns, não propriamente pelo meu desempenho, devo reconhecer, mas pelo facto de a minha defesa ter permitido o magistério cintilante daquele grande mestre que falava “com passinhos de pomba”, para utilizar uma das metáforas de Nietzsche sobre a aurora do futuro – “O futuro chega com passinhos de pomba.” E o futuro chegou então ali desse modo! Estou convicto de que este episódio revela bem o que o professor Eduardo Lourenço representava para a geração de “intelectuais” saída do 25 de Abril, como foi o meu caso, que viam nele sobretudo um exemplo do futuro, do pensar criador, crítico. É neste ponto que procuro circunscrever esta simples nota sobre o professor Eduardo Lourenço, exprimindo deste modo a minha mais profunda gratidão, admiração e respeito pelo facto de ter começado a aprender a ler filosofia (e, de certa maneira, a literatura portuguesa) pela pena deste extraordinário mestre da língua portuguesa, porventura o nosso mais original e exímio artesão das metáforas do universal pensar crítico, oferecido em singular e excepcional português. Sobre o extraordinário alumbramento desta escrita, seja-me permitido citar Onésimo Teotónio Almeida, em “O ensaio à Eduardo Lourenço: existo, logo penso (e sinto)”:

“Se as suas frases parecem hipertextos sugerindo links, não existe qualquer mudança de cor nas palavras ou expressões para o leitor clicar. É um texto integrado sem níveis diderenciados, continuo, recto e plano como as linhas rectas da luz, que em última análise são onduladas. Parecendo rectas são curvas e daí uma certa afinidade com um barroco, porém sem nunca meramente se comprazerem na forma, que lá está por inerência. É a própria ideia que brilha com fulgor e nem folhagem se lhe vislumbra. As ideias, sim, essas enrolam-se e desenrolam-se, encadeiam-se umas nas outras, formando um labirinto onde o fio de Ariadne está sempre iluminado e por isso visível.”

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É esta a força do pensar de Eduardo Lourenço, o dispositivo concreto de

um pensar que abarcando direcções imprevisíveis, vertiginosas, se desdobra num devir surpreendente, subtil, e irresistível.

A ele se aplica perfeitamente aquilo que ele mesmo disse a respeito de

Nietzsche:

“O mais inactual dos pensadores deste tempo de crise (…), é também, sem contradição, o mais actual, o mais profético e com mais futuro à espera dele, por ter deslocado a preocupação ocidental por excelência, a da questão da Verdade, para a mais obscura, mas não menos incontornável, do Valor.” Numa época na qual a maioria dos intelectuais portugueses não tinha conseguido resistir ao fascínio das ideologias (mormente dos marxismos) e do Estado (mormente dos lugares e das funções de poder), Eduardo Lourenço falava de heterodoxias, de heteronomias, de tempos críticos e de jogos de verdade. Como se todo o pensar não fosse senão desassossego e devir, vontade de verdade que só um pensar como diferença e começo permite instaurar neste “deserto em que voluntariamente nos instalámos.Ao contrário de António Sérgio, que procurara fazer do ensaísmo um empreendimento Aufklärung , uma verdade pedagógica e societária de informação e produção do homem novo, Eduardo Lourenço pensa o ensaísmo como um martelo cuja utilidade não está senão no forjar a força caboqueira de destruição dos ídolos e de revelação das funduras caóticas da criação. Eduardo Lourenço tornou-se, por via de uma escrita que não teme os abismos e as fendas da vida humana e da procura de sentido (abissal fragilidade, como ele próprio disse) numa espécie de avatar da eterna juventude do pensar. Ao contrário de António Sérgio não é derrama da luz que mobiliza o pensamento; Eduardo Lourenço penetra mais fundo, o seu escopo a golpes de martelo é o pensar que sonda as profundezas dos abismos e que lá se instala não para ver melhor, não para compreender mais, mas precisamente para se deixar apoderar (entusiasmar, espantar) por tudo aquilo que, sendo de uma “equivocidade irremediável”, não cessa de evocar a busca radical de sentido que torna patente a finitude, a temporalidade, o mistério perturbante do ser, visto que, como diz: “Dionisio deus dançante e criativo não conduz o baile do mundo.” O papel do verdadeiro crítico é ser

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esse parceiro (in) desejável de um deus dançante, uma espécie de pastor da dúvida e da inquietação; se há algum desiderato ele não é senão este zelo pelo jogo da verdade velamento e desvelamento de um deus dançante e criativo que não conduz [ainda] o baile do mundo. É por isto que não se satisfaz com o pensamento dominante da representação, nem tão pouco com o pensamento triunfante da determinação e do progresso. Não querendo nomear o inominável, poderia dizer-se, todavia, que Eduardo Lourenço é um pensador da região da dissemelhança, do deserto (da solidão e da vasta desolação) da semelhança prometida e da semelhança perdida, da utopia e da crítica que estão aí, não para nos ditar o significado da verdade, mas, antes, o caminho tortuoso e labiríntico do dizer verdadeiro e interrogativo, interpelante e questionante. Uma última palavra para dizer que é preciso ler e meditar Eduardo Lourenço.

Caldas da Rainha, 16 de Maio de 2013

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Amílcar Coelho