Você está na página 1de 24

10 domingo, 10 de Março de 2002

Desde já aviso que me recusarei a participar em quaisquer cerimónias oficiais dentro ou fora do país que tal governo (do PSD) venha
a patrocinar (José Saramago, Público, 8-03-2002)
In: Expresso, Frases da Semana, 020309
O Jornal das Boas Notícias
Não é habitual começar o Jornal das Boas Notícias com uma citação que pode ser interpretada como uma
ironia maledicente. Contudo, a intenção é outra. É evidente que uma tal afirmação representa um tal extremo
de sobranceria, de auto-afirmação e de descentramento que não precisa de ser comentada. Com diferenças de
vários graus, muitos de nós cometemos frequentemente este erro, de auto-afirmação e de egocentrismo.
A Quaresma, como nos lembra este número do Jornal tem a função de nos recentrarmos, de percebermos
quem somos, de nos identificarmos e de nos penitenciarmos do mal que há no bem que fazemos. A Boa Notí-
cia é que a Quaresma finda com a Páscoa da Ressurreição, memória viva do sacrifício e vitória d’Aquele que
venceu o mal que há em todos nós. A consciência do nosso limite, o realismo que a nossa fragilidade nos im-
põe, têm motivo de esperança na vida oferecida no alto da Cruz, que nos abre o caminho para uma eternidade
onde finalmente estará resolvido o enigma final da História.
Pedro Aguiar Pinto

O enigma final da História não é se o justo vencerá o corrupto, mas sim como ultrapassar o mal que há em todo o bem e
a perversidade dos justos
Niebuhr

A Sociedade e a Igreja em mudança......................................... 1 RTP cancela missa e censura programa ...............................15


Novidade: dar mais tempo ao tempo...................................... 6 A torneira......................................................................................16
A Paz que veio de Assis .............................................................. 6 Quando começa a vida? ............................................................16
Reconhecimento jurídico para o embrião humano ............. 8 Pesadelo dogmático ...................................................................17
Duas maternidades para Timor-Leste .................................... 8 A formalização do disparate....................................................18
Uma Vida Dedicada a Ajudar Toxicodependentes ............ 8 O ralo do tempo segundo o Papa Gregório XIII..............19
Pobreza Relativa em Portugal Está Abaixo dos 20 por Já não se pode defender a família?!........................................20
Cento........................................................................................... 9 O passeio aleatório.....................................................................21
Duas Propostas Modestas.......................................................... 9 Noticias de Deus ........................................................................22
Casos exemplares no Norte .....................................................10 Mães da Lombardia optam por ficar em casa.....................22
O Regresso do "Bem" e do "Mal"........................................11 Em defesa da ciência..................................................................22
Primos intratáveis .......................................................................13
Quaresma ou a graça deste tempo!.........................................13 _____________________________________________
uma revolução tanto no plano das ideias como no da
A Sociedade e a Igreja em mudança vida prática, cujos dados, aliás, estão intimamente
D. Manuel Clemente
In: Família Cristã, 020103
ligados”.
A revolução da ciência e da técnica, o modernismo e Especificava, com “a revolução da ciência e da téc-
o pos-modernismo, o Concílio Vaticano II e o últi- nica”, diminuindo o trabalho, aumentando o confor-
mo Sínodo dos Bispos são elementos fulcrais numa to e suprimindo distâncias; com “o progresso da
reflexão sobre a sociedade e a Igreja em mudança medicina”, que aumentara a população e o equilíbrio
Há quarenta anos, Daniel-Rops entrevia a obra do dos grupos. No campo das ideias, a Igreja confronta-
Concílio Vaticano II na relação imediata e futura ra-se entretanto com “uma rebelião luciferina da
com o Mundo, mudança por mudança. Enganava-se inteligência contra Deus e a fé”. O “liberalismo”
nalguns prognósticos, em especial no que dizia a levantara-se contra dogmas e hierarquias; com o
respeito da vida interna da Igreja, que se mostrou tempo, a Igreja deixara de o rejeitar em absoluto,
menos coesa do que ele pensava. Dez anos depois, reconhecendo na liberdade um atributo da pessoa e
dificilmente escreveria assim: “... nunca talvez, desde a base da sua responsabilidade. Por outro lado, con-
as suas origens, a Igreja Católica foi tão unida e soli- tinuava, juntaram-se o racionalismo de Kant, o posi-
dária com o seu chefe; nunca teve um clero, moral e tivismo de Comte, o materialismo dialéctico de Marx
intelectualmente tão bem formado, não havendo e o existencialismo de Sartre... Todos procederiam
qualquer perigo de heresia no seu pensamento, nem do “humanismo ateu”, na expressão de Lubac; todos
risco de ruptura no seu organismo. Não é uma crise precisariam da resposta do “humanismo integral”,
de Igreja que o Vaticano II terá de enfrentar”. identificado com o Cristianismo por Maritain.
Mas onde o historiador se mostrava muito lúcido e Factores de “crise” estes. De crise do mundo, não
quase profético era na análise da mutação externa, ainda da Igreja, sempre segundo Daniel-Rops. Im-
do mundo em geral. Com frases destas: “É um tru- pulsionados pelos “progressos da ciência”, pois,
ísmo dizer que o mundo mudou mais nestes últimos prosseguia, se já não se partilhavam as previsões de
cento e cinquenta anos do que durante os vinte ou Renan em O Futuro da Ciência, de que o progresso
vinte e cinco séculos precedentes. Está em curso científico nos levaria ao paraíso, campeava “um

Página 1 de 24
10 certo cientismo” arredio à revelação e ao sobrenatu-
ral. Crítica, história, paleontologia e psicologia pos-
domingo, 10 de Março de 2002
vemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu ca-
rácter tantas vezes dramático”.
tergariam a mensagem bíblica sobre as origens, as E quais seriam os sinais dos tempos e da mudança
O Jornal das Boas Notícias
bases da moral e a metafísica. Não se ficara por aí. A dos tempos, em 1965? Enumera-os o Concílio, logo
ciência potenciara a técnica, com riscos imprevisí- a seguir: A humanidade atravessa uma fase nova da
veis, levando Daniel-Rops a interrogar-se sobre sua história, com transformações que atingirão a
como poderia a Igreja relacionar a mensagem cristã todos. Transformações qualitativas, com necessários
com as mesmas ciência e técnica, sem as rejeitar e reflexos religiosos. E vêm os contrastes: muitas pos-
sem ignorar os seus perigos. sibilidades e abundância num lado, fome, miséria e
Outro tipo de interrogações fazia o autor à Igreja ignorância noutros; vivo sentimento de liberdade
quase em Concílio. A revolução industrial modificara por um lado, novas formas de servidão social e psi-
a situação relativa das classes sociais com efeitos cológica por outro; unidade, interdependência e
drásticos no conjunto: – Como se situaria a Igreja, solidariedade pelo mundo além, mas não menos
uma vez abalada a sociedade em que a Igreja se en- conflitos de toda a ordem e riscos “duma guerra que
raizara por tanto tempo? O sistema colonial esboro- tudo subverta”; intercâmbio constante de ideias, mas
ava-se: - Como se relançaria a evangelização dos interpretações contraditórias das palavras que as
povos? A população mundial aumentava, e aumenta- deviam veicular; grande cuidado no aperfeiçoamento
ria cada vez mais em áreas pouco tocadas pelo cristi- da ordem temporal, muito menos no progresso espi-
anismo: - Como afervorar cristãos e relançar a mis- ritual...
são? Ou, em palavras do próprio Daniel-Rops, tão O número 5 da Gaudium et Spes detém-se noutros
coincidentes com as que João Paulo II dedicou de- factores: a mentalidade científica, modeladora da
pois à “nova evangelização” e ao movimento ecu- cultura; o domínio do tempo, quer pela historiogra-
ménico: “A Igreja de Cristo sabe que doravante está fia quer pela planificação; a unificação e aceleração
em minoria no mundo. Daí a sua obrigação de rever da história que se vive, factor determinante de tudo
os seus métodos de apostolado entre os não-cristãos o mais. Vale a pena determo-nos um pouco neste
e ao mesmo tempo entre os cristãos, que o são ape- último parágrafo do número 5 da constituição pasto-
nas de nome. Daí também a necessidade, cada vez ral, certamente dos mais actuais, trinta e seis anos
mais urgente, de intensificar a união dos que, segun- depois. Reza assim: “O próprio movimento da histó-
do diversas obediências, se fazem depositários da ria torna-se tão rápido, que os indivíduos dificilmen-
mensagem de Cristo”. te o podem seguir [...]. A humanidade passa, assim,
Antecipando também João Paulo II – sobretudo a duma concepção predominantemente estática, da
encíclica Centesimus annus, de 1991 – requeria o ordem das coisas, para uma outra, preferentemente
autor um esforço de inteligência cristã que contrapu- dinâmica e evolutiva; daqui nasce uma nova e imensa
sesse ao marxismo “uma solução cristã para o dificí- problemática, a qual está a exigir novas análises e
limo problema de preservar a liberdade sem sacrifi- novas sínteses”. Continua a suscitá-las ainda hoje,
car o homem e de preservar o homem sem sacrificar porque a mudança se transformou de intervalo em
a liberdade”. Por fim, em substância, o autor vê continuidade.
nascer “uma civilização baseada na técnica, que há- Voltaremos certamente a este tópico, mas a sugestão
de vir a ser – segundo a expressão do Pe. Teilhard de do número 5 da Gaudium et Spes podia levar-nos
Chardin – uma civilização ‘planetarizada’” – globali- não já a falar de “sintomas de mutação cultural” mas
zada, diríamos nós. E pergunta-se: “Cumpre saber de “sintomas da cultura da mudança”.
se, nessa nova civilização, o cristianismo poderá O documento conciliar acrescentou outros: a difusão
continuar a ser o ‘fermento’ o ‘sal da terra’, papel da sociedade industrial e urbana, o impacto dos mei-
que lhe destinou a Palavra do Mestre”. os de comunicação social, o crescimento da emigra-
Realizou-se o Concílio e estes e outros “sinais” fo- ção, a socialização quantitativa que nem sempre
ram então reconhecidos como novos e a exigir res- significa verdadeira relação interpessoal, a aspiração
posta dos crentes. O que é, aliás, próprio e distintivo de desenvolvimento e liberdade por parte dos povos
do Concílio Vaticano II é exactamente a assunção da mais pobres; dificuldades na transmissão intergeraci-
historicidade como categoria do Mundo e da Igreja, onal de valores e na adaptação de leis e instituições...
uma e outro em diálogo recíproco. Não porque a No respeitante à religião, considerava o último pará-
Igreja entenda que o tempo lhe acrescenta algo de grafo do número 7: “Por um lado, um sentido crítico
essencial, mas por reconhecer que o devir da huma- mais apurado purifica-a duma concepção mágica do
nidade a faz desenvolver mais e mais as virtualidades mundo e de certas sobrevivências supersticiosas, e
do Evangelho que transporta. Ou, como diz o nú- exige cada dia mais uma adesão à fé pessoal e ope-
mero 4 da constituição pastoral Gaudium et Spes, rante; desta maneira, muitos chegam a um mais vivo
precisa, a Igreja, para levar a cabo a sua missão, de sentido de Deus. Mas, por outro lado, grandes mas-
“investigar a todo o momento os sinais dos tempos sas afastam-se praticamente da religião. Ao contrário
e interpretá-los à luz do Evangelho”; é-lhe necessá- do que sucedia em tempos passados, negar Deus ou
rio “conhecer e compreender o mundo em que vi- a religião, ou prescindir deles já não é um facto indi-
Página 2 de 24
10 vidual e insólito: hoje, com efeito, isso é muitas ve-
zes apresentado como exigência do progresso cientí-
domingo, 10 de Março de 2002
têmpera espiritual invulgar, tais os embates de toda a
ordem que a Igreja e o mundo lhe causaram; assim
fico ou dum novo tempo de humanismo”. como a cena internacional dos anos setenta desmen-
O Jornal das Boas Notícias
A constituição pastoral aponta ainda, no número 8, tiu consecutivamente os melhores prognósticos da
o desequilíbrio, ao nível pessoal, entre o(s) saber(es) década anterior, quer quanto ao desenvolvimento
prático(s) e o saber teórico unificante; o desequilí- global e equilibrado, quer quanto ao entendimento
brio entre a eficácia e a moralidade, ou entre as con- internacional de nações e blocos, quer quanto à real
dições de vida e a possibilidade de pensar e contem- emancipação do “terceiro mundo”; assim se foi en-
plar, ou entre a especialização da actividade e a visão trando, especialmente na Europa aquém Alemanha,
global da realidade. Os novos condicionalismos num desencantamento cultural que o pós-
demográficos, sociais e económicos, bem como as modernismo desistiu de designar. É precisamente do
dificuldades intergeracionais e a nova relação ho- final dos anos setenta e dos primeiros oitenta o con-
mem-mulher, repercutem-se na vida das famílias. junto de textos que Gilles Lipovetsky reuniu na obra
Mantêm-se e podem agravar-se discrepâncias entre emblemática desta fase: A era do vazio, título que se
raças e grupos, países ricos e pobres, instituições tornou em slogan.
internacionais orientadas para a paz e egoísmos co- Não é este o lugar para resumir a obra. Mas o autor
lectivos, nacionais ou outros. quase o faz, numa célebre página que convém lem-
Finalmente, o número 9 da Gaudium et Spes reco- brar pela força sugestiva e quase ambiental. É difícil
nhece que “vai crescendo a convicção de que o gé- não nos encontrarmos em frases assim: “Sociedade
nero humano não só pode e deve aumentar cada vez pós-moderna, é uma maneira de dizer a inflexão
mais o seu domínio sobre as coisas criadas, mas histórica dos objectivos e modalidades da socializa-
também lhe compete estabelecer uma ordem políti- ção, colocados hoje sob a égide de dispositivos aber-
ca, social e económica, que o sirva cada vez melhor e tos e plurais; maneira de dizer que o individualismo
ajude indivíduos e grupos a afirmar e desenvolver a hedonista e personalizado se tornou legítimo e já
própria dignidade”. Daqui a reivindicação geral dos não depara com oposição; maneira de dizer que a era
bens de subsistência, participação e cultura, ou a da revolução, do escândalo, da esperança futurista,
insistência das mulheres na paridade de direito e de inseparável do modernismo, terminou. A sociedade
facto com os homens. Em suma, “subjacente a todas pós-moderna é a sociedade em que reina a indiferen-
estas exigências, esconde-se, porém, uma aspiração ça de massa, em que domina o sentimento de sacie-
mais profunda e universal: as pessoas e os grupos dade e de estagnação, em que a autonomia privada é
anelam por uma vida plena e livre, digna do homem, óbvia, em que o novo é acolhido do mesmo modo
pondo ao próprio serviço tudo quanto o mundo de que o antigo, em que a inovação se banalizou, em
hoje lhes pode proporcionar em tanta abundância. E que o futuro deixou de ser assimilado a um progres-
as nações fazem esforços cada dia maiores por che- so inelutável. A sociedade moderna era conquistado-
gar a uma certa comunidade universal”. ra, crente no futuro, na ciência e na técnica; instituiu-
Quatro décadas não tiraram actualidade ao diagnós- se em ruptura com as hierarquias de sangue e a sobe-
tico do Vaticano II sobre as mudanças na sociedade rania sacralizada, com as tradições e os particularis-
e na cultura, lidas como “sinais dos tempos”, ou seja, mos, em nome do universal, da razão, da revolução.
como interpelações ao Cristianismo de sempre, Esse tempo desfaz-se diante dos nossos olhos; é em
mesmo que contraditoriamente vividas por pessoas, parte contra tais princípios futuristas que as nossas
grupos e a humanidade inteira. Não lhe tiraram actu- sociedades se estabelecem, nessa medida pós-
alidade, dizia, mas puseram-lhe ou apagaram-lhe modernas, ávidas de identidade, de diferença, de
tónicas. Creio que acentuaram o que sublinhei atrás, conservação, de descontracção, de realização pessoal
ou seja, o ritmo da mudança, ao ponto de a trans- imediata; a confiança e a fé no futuro dissolvem-se,
formar de intervalo em continuidade. A mudança é nos amanhãs radiosos da revolução e do progresso já
que é contínua, real ou imaginária, por demais con- ninguém acredita, doravante o que se quer é viver já,
formada ou consentida. Aqui ainda não chegara o aqui e agora, ser-se jovem em vez de forjar o homem
Concílio. Aqui, se dum “aqui” se pode falar, estamos novo. Sociedade pós-moderna significa, neste senti-
indubitavelmente nós, socioculturalmente falando. do, retracção do tempo social e individual precisa-
Mas creio, aliás, que as últimas décadas apagaram um mente quando se impõe cada vez mais a necessidade
tanto a tónica esperançosa com que o Concílio acen- de prever e organizar o tempo colectivo, exaustão do
tuou, aqui e ali, a sua análise, anunciando, apesar de impulso modernista dirigido para o futuro, desen-
tudo, o advento duma sociedade obrigatoriamente canto e monotonia do que é novo, esgotamento de
mais justa e fraterna. Hoje o optimismo é mais difí- uma sociedade que conseguiu neutralizar na apatia
cil. aquilo que a fundamenta: a mudança. Os grandes
Assim como, em relação à vida interna da Igreja, a eixos modernos, a revolução, as disciplinas, o laicis-
realidade se manifestou bem mais complexa do que mo, a vanguarda, foram desafectados à força de
Daniel-Rops a julgara; assim como a parte pós- personalização hedonista; o optimismo tecnológico e
conciliar do pontificado de Paulo VI lhe exigiu uma científico desmoronou-se, enquanto as inúmeras
Página 3 de 24
10 descobertas eram acompanhadas pelo envelhecimen-
to dos blocos, pela degradação do meio ambiente,
domingo, 10 de Março de 2002
vai longe de mais e quer expulsar a religião dos seus
campos específicos, como sejam a moralização dos
pelo apagamento progressivo dos indivíduos; já costumes e o sentido último da existência; tudo so-
O Jornal das Boas Notícias
nenhuma ideologia política é capaz de inflamar as mado, “se ontem a fé adquiriu significado pagando o
multidões, a sociedade pós-moderna já não tem preço da sacralização total, hoje deve adquiri-lo en-
ídolos nem tabus, já não possui qualquer imagem sinando a viver com autêntica profundidade o pro-
gloriosa de si própria ou projecto histórico mobili- fano”. 2) A mentalidade científico-técnica, tão defi-
zador; doravante é o vazio que nos governa, um nitiva como passível de deformações tecnicistas, que
vazio sem trágico nem apocalipse”. lhe perdem o sentido humanizador. 3) A vontade
A citação fica um pouco longa. Mas é difícil dispen- emancipatória, que, apesar dos acidentes de percur-
sar alguma das notas, tão concatenadas estão elas so, acabará por concordar com a visão cristã da vida.
para abrir uma atmosfera. Tenho trabalhado várias 4) A fé no progresso, que se converteu numa “esca-
vezes sobre este texto de Lipovetsky, com sucessivos tologia secular”, onde “a esperança no futuro do
grupos de alunos e ouvintes, geralmente jovens. O mundo foi substituindo insensivelmente a esperança
reconhecimento é geral, mesmo que não assumido. que as gerações anteriores tinham posto no mundo
Pedi a uma dúzia de jovens que desenvolvessem o futuro”. 5) A tolerância, que, se exclui absolutamente
tema: “Sintomas de mutação cultural”. Durante mais a imposição da verdade pela força, não pode desistir
de uma hora fui preenchendo um quadro com o que da mesma verdade, nem na sociedade política, pois
iam apontado. Pois bem: vinte anos depois do texto “a base para a existência de uma autêntica democra-
de Lipovetsky, o acento era posto em sentimentos cia não é o relativismo – mais próprio, se a história
imediatistas, consumistas e descomprometidos, ain- não mente, dos imperialismos decadentes -, mas a
da que não ficassem esquecidas realidades como a tolerância”. 6) O espírito capitalista-burguês, que
nova procura espiritual e vários tipos de voluntaria- pondo a tónica na iniciativa individual não há-de cair
do... no individualismo: “a individualidade foi a grande
Luis Gonzalez-Carvajal, professor madrileno, tem conquista da burguesia e o individualismo o seu
sido um analista atento da mudança sóciocultural, grande pecado”.
em sucessivas obras dedicadas à temática das respec- Entremeados, porém, com estes factores modernos
tivas relações com a religião em geral e o Cristianis- da mudança sóciocultural, Gonzalez-Carvajal entrevê
mo em particular. Uma década depois dos ensaios de outros seis pós-modernos: 1) Uma certa crise de
Lipovetsky, fez-nos em Fátima um resumo das suas modernidade, algo idêntica à constatada por Lipove-
conclusões. tsky; ainda que a sua própria (in)definição a relativi-
Sigamo-lo rapidamente. Parte dum passo do Concí- ze: “ ‘Pós-modernidade’ deve ser considerada tão
lio que já citámos – Gaudium et Spes 4 -, para lem- somente um termo ‘heurístico’, ou seja ‘de busca’.
brar e acrescentar: “Vivemos [...] num tempo ‘carac- Ter que recorrer a ele encerra uma não pequena
terizado por mudanças profundas e aceleradas’. Tra- humilhação porque o prefixo ‘post’ revela que hoje
ta-se de um fenómeno de consequências graves para em dia, a modernidade continua a ser a autêntica
a evangelização, porque está aparecendo uma nova substantividade”. 2) A descrença no progresso e o
espécie: o ‘homo transitorius’”. Tudo é fugaz para sentimento de fim da história, já que em muitos até
muita gente, da residência à ocupação profissional. esta desapareceu como sentido colectivo. 3) A troca
Quem vive numa cidade pode estabelecer mais con- da ética pela estética, pois, como o viajante sem bús-
tactos numa semana do que um camponês medieval sola, cada um vai para onde lhe apetece; quando não
durante toda a sua vida. “Generaliza-se – continua o se espera nada do futuro, é preferível desfrutar o
autor – a imagem alegre, insubstancial dos namora- momento. 4) O crepúsculo da razão e a explosão do
dos que ‘dentro de um mês ou dentro de um ano’ sentimento. Resume assim: “Surge uma pergunta
deixarão de amar-se e nem sequer compreenderão obrigatória: Se nenhuma das cosmovisões filosóficas,
que tenham podido fazê-lo”. Mais em geral, conside- políticas ou religiosas, que mobilizaram os homens
ra, “é igualmente vertiginosa a mudança de mentali- modernos estão fundadas sobre terra firme, que são
dade; e o que ontem parecia verdade certíssima tor- então? Lyotard responde sem duvidar um momento:
na-se-nos de repente ficção insustentável”. somente ‘grandes relatos’; não podem reivindicar
Sobre este fundo – admitindo que tem densidade nenhuma objectividade, são simples narrações e
para apoiar seja o que for –, Gonzalez-Carvajal deli- além disso a experiência manifesta que essas grandes
neia a mentalidade actual. Seis características moder- narrações são perigosas, porque, antes ou depois,
nas, em primeiro lugar: 1) A secularização, que defi- apelam ao terror, a fim de se imporem. O cristianis-
ne como “progressiva perca de funções da religião mo recorreu à inquisição, o marxismo ao KGB e aos
na sociedade”. Não a considera negativamente, antes Gulags, o nazismo aos campos de extermínio e a
com a vantagem de salvaguardar a transcendência civilização ocidental à bomba atómica. Assim é, pois,
divina, de respeitar a maioridade da sociedade civil e muitíssimo mais higiénico renunciar aos discursos
de libertar a religião para ser o que deve; admite, isso omnicompreensivos e contentarmo-nos com um
sim, o perigo do secularismo, quando a secularização ‘pensamento débil’”. Consequente com o destrona-
Página 4 de 24
10 mento da razão – continua Gonzalez-Carvajal -,
seguiu-se o despertar da subjectividade e do senti-
domingo, 10 de Março de 2002
sinais” dos tempos: fome e pobreza extremas, ha-
vendo tantos meios para lhes acudir; multidões de
mento: “O pós-moderno não se apega a nada, não emigrantes, por razões de vária ordem, quase sempre
O Jornal das Boas Notícias
tem certezas absolutas, nada o surpreende e as suas negativas; epidemias, analfabetismo, abandono de
opiniões são susceptíveis de modificações rápidas”. crianças e jovens, exploração de mulheres, pornogra-
5) O esoterismo, misturando sugestão, magia, procu- fia, intolerância, abuso da religião para a violência,
ra da novidade e do anómalo, com autênticas inquie- tráfico de drogas, comércio de armas... E, no entan-
tações religiosas. Na ambiência pós-moderna, teria a to, “os humildes voltam a erguer a cabeça”, certa-
qualificação impossível que lhe deu Roszak de “psi- mente inspirados por Deus.
co-místico-paracientífico-espiritual-terapêutico”. 6) Os bispos insurgem-se sobremaneira contra “o des-
Um certo regresso a Deus, mas com três limitações, prezo pela vida, desde a concepção até ao seu ocaso,
sempre segundo Gonzalez-Carvajal: primeira, nunca e a desagregação da família”. Tem sido esta a grande
será “com todo o coração”, pois tal não permitem a causa do actual pontificado e é, obviamente, a maior
fragilidade e a errância das adesões pós-modernas; questão cultural do momento, a base inabalável de
segunda, nunca será unívoco, pois combinará cren- qualquer diálogo com futuro. Enuncia-a assim o
ças díspares em sucessivos ‘coktails religiosos’; ter- Sínodo: “O não da Igreja ao aborto e à eutanásia é
ceira, será pouco ou nada comunitário, porque o um sim à vida, um sim à bondade originária da cria-
pós-moderno desconfia de Igrejas e teme condicio- ção, um sim que pode alcançar cada ser humano no
namentos. santuário da sua consciência, um sim à família, pri-
Terminando a sua análise, o pastoralista madrileno meira célula de esperança”. Como cultural é a dispo-
conclui: “Claro que uma sociedade totalmente mo- sição para a simplicidade de vida, que os bispos que-
derna seria como um pesadelo de ficção científica. E rem para si e para todos como modo de vida e con-
o mesmo poderíamos dizer da sociedade totalmente vivência solidária. Assim como a radicalidade da
pós-moderna. Mas, graças a Deus, trata-se somente cultura da vida, traz prioridades absolutas aos com-
de tipos ideais. Em nenhum lugar do mundo existe portamentos pessoais e cívicos, dando um critério de
um homem cem por cento moderno, nem um ho- juízo operativo às inestimáveis conquistas da mo-
mem cem por cento pós-moderno, mas uma mistura dernidade na ciência, na política e na economia,
de ambos com maior ou menor proporção dos dois também a modéstia resistirá ao hedonismo pós-
tipos ideais. A meu ver, uma sociedade onde após as moderno, redundando em essencialidade de vida e
correspondentes oscilações do pêndulo se acabe disponibilidade para a partilha. A estas, enunciam-
impondo uma síntese equilibrada de elementos mo- nas assim os bispos: “Existe uma pobreza alienante e
dernos e pós-modernos seria uma sociedade muito é preciso lutar para libertar aqueles que são suas
mais disposta ao Evangelho que as sociedades estri- vítimas; mas pode existir uma pobreza que liberta as
tamente modernas”. energias para o amor e para o serviço, e esta é a po-
A última análise que aqui trago é recentíssima. Che- breza evangélica que queremos pôr em prática”.
ga-nos na Mensagem da X Assembleia Geral Ordi- Na cultura da mudança, algo persiste no coração
nária do Sínodo dos Bispos, aprovada a 25 de Outu- humano, distinguindo-o exactamente como “huma-
bro último. Tem a vantagem, para a coerência deste no”. Essa é a convicção da Igreja – neste Sínodo
discurso, de ecoar o tom e o método do Concílio e como no Concílio Vaticano II –, que a vê compro-
da Gaudium et Spes, quarenta anos depois. Algo se vada no grande “sinal” das vidas devotadas, hoje
alterou, mas permanecem leituras e insistências. como ontem, às causas perenes da justiça e da paz:
Perguntemo-nos: - Como viram o mundo actual os “Agradecemos de todo o coração aos sacerdotes,
responsáveis católicos? As expectativas do Vaticano religiosos e religiosas e de igual modo a todos os
II quanto à emancipação dos povos, o desenvolvi- missionários: impelidos pela esperança que provém
mento mundial e a harmonização da vida internacio- de Deus e que se revelou em Jesus de Nazaré, com-
nal realizaram-se? prometem-se no serviço aos mais frágeis e aos doen-
Oiçamo-los, depois de aludirem ao 11 de Setembro e tes, proclamando o Evangelho da vida. Admiramos a
ao terrorismo: “Durante o Sínodo, não pudemos generosidade de muitos homens e mulheres que se
deixar de escutar o eco de muitos outros dramas sacrificam pelas causas humanitárias, assim como a
colectivos [...]. Segundo os observadores competen- tenacidade dos animadores das instituições interna-
tes da economia mundial, 80% da população do cionais; a coragem dos jornalistas que, também em
planeta vive com 20% dos seus recursos, e um bilião situações de perigo, desempenham uma obra de
e duzentos milhões de pessoas são obrigadas a ‘vi- verdade ao serviço da opinião pública; a actividade
ver’ com menos de um dólar por dia! É urgente uma dos homens de ciência, dos médicos e paramédicos,
mudança de ordem moral”. Ou seja, neste ponto, a a audácia de alguns empresários, na criação de pos-
mutação não é constatada, mas urgida. Não se deu, tos de trabalho em regiões difíceis; a dedicação dos
como era de esperar em meados do século passado; pais, dos educadores e dos professores, assim como
é uma tarefa inadiável para o princípio deste. a criatividade dos artistas e de muitos outros agentes
Os bispos enumeram depois uma série de “contra- de paz que procuram salvar vidas, reconstruir famíli-
Página 5 de 24
10 as, promover a dignidade da mulher, defender as
crianças e preservar ou enriquecer o património da
domingo, 10 de Março de 2002
tempo e todas as ocupações têm o mesmo valor,
sendo que uma hora despendida no acompanhamen-
humanidade”. E os bispos, citando o número 22 da to de um idoso ao médico vale exactamente o mes-
O Jornal das Boas Notícias
Gaudium et Spes, não hesitam em reconhecer em mo que uma hora empregue a dar explicações de
tudo isto a obra da graça divina. inglês.
Termino, com uma alusão que o Sínodo e o Concílio Os membros do Banco do Tempo têm de manter
também fazem, referente a um tempo crucial para a sempre os seus saldos positivos e os movimentos
sociedade e a cultura, como foi o período final do regulares, o que não os obriga, no entanto, a respon-
Império Romano do Ocidente. Roma, mesmo a der sempre que sim a todos as solicitações. O limite
Roma “cristã”, fora atingida pelas hordas bárbaras máximo de diferença entre horas recebidas e ofere-
em 410. Os pagãos acusavam os cristãos de tal des- cidas é de 20 horas e todos os investidores têm de
graça; muitos cristãos procuravam a resposta a dar pagar uma quota anual de quatro horas.
aos outros e a si próprios. Santo Agostinho deu-a n’ Numa sociedade em que impera o medo e a descon-
A Cidade de Deus: mudam impérios, mudam, diga- fiança, podem existir, para além das vantagens, al-
mos, as sociedades e as culturas, por factores inter- guns entraves a este sistema. Margarida Carvalho
nos e externos, como os que carreámos atrás, para o Neto, gestora de projectos do Graal (Organização
nosso tempo. Permanece, ou melhor, cresce, entre Não Governamental que está a promover a abertura
tudo e apesar de tudo, o que, definindo o homem do banco em Portugal), desdramatiza a situação.
como ser com os outros e para os outros, define "Esta é a questão mais delicada. Nós não nos res-
também a comunidade humano-divina que, tempo ponsabilizamos por qualquer dano. Apesar disso,
após tempo, aumenta os seus concidadãos. todas as pessoas que solicitem o Banco do Tempo
Digamo-lo com os bispos de há quarenta anos e de têm de ser devidamente identificadas, tal como têm
há um mês, dirigindo-se em particular aos responsá- de dar o contacto de três pessoas que confirmem a
veis da política e da economia: “Na sua mensagem sua idoneidade". Afinal, os serviços prestados cor-
aos governantes, os Padres do Concílio Vaticano II respondem a actividades não profissionais que, em
ousaram dizer: ‘Na vossa cidade terrestre e temporal, princípio, se realizam com gosto e entusiasmo. "A
Deus edifica a cidade eterna’. Precisamente por este permuta de tarefas assenta na boa vontade e na lógi-
motivo, [...] ousamos por nossa vez dirigir a nossa ca das relações de boa vizinhança", conclui Margari-
palavra aos responsáveis do mundo político e eco- da Carvalho Neto.
nómico. O bem comum das pessoas e dos povos O Banco do Tempo, inspirado em experiências ita-
seja o motivo da vossa actividade”. lianas, onde esta ideia nasceu há 11 anos, chega a
Esta motivação compartilhada pode ser também – Portugal e instala-se, para já, em Pombal, Montijo,
deve ser sobretudo – um sintoma positivo de muta- Coimbra, Abrantes e Macedo de Cavaleiros. As cin-
ção cultural. co agências ficarão ligadas ao Banco Central, o
Graal, que fornecerá o suporte informático, garan-
Novidade: dar mais tempo ao tempo tindo ainda a formação do pessoal e a divulgação do
ANA DE SOUSA
In: DN 20020103
serviço.
As pessoas que se queixam de falta de tempo para a
resolução de todos os cuidados do quotidiano não A Paz que veio de Assis
In: O Independente, 020201
têm mais motivos para lamentações. Chega a Portu- Aura Miguei, em Assis jornalista da Rádio Renascença
gal o Banco do Tempo, um método eficaz para aju- Relato em directo do encontro histórico promovido
dar os atarefados nos trabalhos diários, proporcio- por João Paulo 11 na terra de S. Francisco, onde
nando-lhes, deste modo, o arrecadar de mais horas líderes de todas as religiões proclamaram unidos um
para si próprios. Para isso, basta abrir uma conta compromisso comum pela Paz
neste banco. Na gare ferroviária, o comboio intercidades come-
Esta instituição permite a transferência de tarefas çou a encher-se logo pela manhã, bem cedo. Más
entre os membros inscritos, que podem prestar e nenhum dos passageiros tinha bilhete. Os revisores
requisitar variados serviços, tendo como única moe- não tinham mãos a medir, só que desta vez - prova-
da de troca as horas. Assim, qualquer investidor que velmente a única das suas vidas - não picaram os
se disponibilize a dar uma hora do seu tempo para bilhetes, antes os entregaram gratuitamente aos cerca
prestar um conjunto de actividades, recebe em retri- de 300 convidados. Em cada poltrona deste com-
buição uma hora para utilizar em benefício próprio. boio especial estava assinalado o nome do passagei-
O objectivo primordial do Banco do Tempo é pos- ro. No lugar da janela n.º 71 da carruagem IV sen-
sibilitar o apoio à família e a conciliação entre a vida tou-se João Paulo II.
profissional e familiar para homens e mulheres, ofe- As duas horas de viagem que ligam o Vaticano a
recendo a troca de uma série de serviços, que podem Assis ajudaram a reforçar o clima de diálogo descon-
ir desde o simples acompanhamento de crianças, traído daquela extraordinária diversidade religiosa.
ajuda doméstica e companhia a actividades de secre- Ortodoxos e muçulmanos liam o jornal e comenta-
tariado e burocracia e ensino. Troca-se tempo por vam as principais notícias, hindus e cristãos conver-
Página 6 de 24
10 savam animadamente com budistas e sikhs, enquan-
to um ou outro aproveitou um momento de pausa
domingo, 10 de Março de 2002
isso queremos ouvirnos uns aos outros: e já isto é
um sinal de paz. Esta é já uma resposta às inquietan-
do Papa para o saudar pessoalmente. tes interrogações que nos preocupam. Isto serve já
O Jornal das Boas Notícias
Multi-religioso. A lista oficial com os nomes dos para dissipar as nuvens da desconfiança e da incom-
participantes viria a ser publicada apenas na antevés- preensão."
pera do encontro porque à ultima hora Moscovo Com efeito, se o encontro de Assis tivesse termina-
mudou de atitude. Ao contrário do que chegou a ser do naquele instante, já tinha valido a pena, pelo claro
anunciado, o patriarca Alexis II substituiu a figura gesto de paz lançado ao mundo e pela reafirmação
secundária de um bispo, que acompanha a diáspora de que violência e religião são incompatíveis, pois
ortodoxa em Paris, por uma delegação de três mem- usar o nome de Deus para ofender o homem é sem-
bros da hierarquia de Moscovo, chefiados por um pre uma blasfémia.
nome de relevo, o metropolita Pitirim. Assim, quan- Mas isto, de certo modo, João Paulo II já tinha con-
do João Paulo II deu início ao encontro, tinha sen- seguido no encontro de Assis de 1986. E assim,
tados a seu lado nove patriarcas ortodoxos, dez ra- desta vez, foi mais longe. "Queremos mostrar ao
binos, cinco delegações budistas, 5 1 representantes mundo que o impulso sincero da oração não nos
de 21 confissões cristãs e 31 líderes muçulmanos, leva ao confronto, e muito menos ao desprezo do
entre muitos outros responsáveis das 12 principais outro, antes a um diálogo construtivo." Todos os
religiões do mundo. presentes foram pois convidados a rezar, segundo as
João Paulo II, na saudação inicial de boas-vindas, suas formas e tradições religiosas, porque .1 rezar
agradeceu a todos a disponibilidade da sua presença não significa evadir-se da história e dos seus proble-
em Assis: Nos momentos de intensa apreensão pelos mas. Pelo contrário, é optar por enfrentar a realidade
destinos do mundo damo-nos conta com maior não sozinhos, mas com a força que vem do Alto, a
vivacidade do dever de nos empenharmos pessoal- força da verdade e do amor cuja última fonte está
mente lia defesa e lia promoção do bem fundamental em Deus."
da paz." Os fiéis que encheram a praça de São Fran- João Paulo II já tinha terminado o seu discurso.
cisco reforçaram os aplausos quando o Papa, ao Agora era tempo de dispersar, cada um para a sua
saudar cordialmente os representantes do Islão, sala de oração. Mas com o microfone ainda na mão,
enunciou a sua proveniência: Albânia, Arábia Saudi- o Papa, aludindo aos fortes ventos que assobiavam
ta, Bósnia, Bulgária, Egipto, Jerusalém, Jordânia, naquela fria manhã, tem um rasgo profético: "0 ven-
Irão, Iraque, Líbano, Líbia, Marrocos, Senegal, EUA, to é sinal do espírito e o espírito sopra onde quer!"
Sudão e Turquia. Passo histórico. Ao início da tarde, todos os líderes
A introdução da jornada coube ao cardeal vietnamita religiosos voltaram a reunir-se para proclamar um
NguyênVanThuan: «I Estamos aqui reunidos para compromisso comum pela paz. Foi a primeira vez
testemunhar diante dos homens e mulheres de boa na história das religiões que aconteceu semelhante
vontade que a religião nunca deve tomar-se pretexto fenómeno. Os dez pontos fundamentais do com-
para conflitos, ódios e violências, como aqueles a promisso foram lidos solenemente por diferentes
que voltamos a assistir nos nossos dias. Neste mo- chefes religiosos.
mento histórico, a humanidade precisa de ver gestos O resultado teve um efeito inesperado. Parecia im-
de paz e de ouvir palavras de esperança." possível o que ali se passava, tal a força dos contras-
Discursos pela Paz. Seguiram-se 11 testemunhos tes: um sikh (do Punjab) compromete-se a educar as
de paz. O primeiro foi do patriarca ecuménico de pessoas no respeito mútuo e a favor de uma convi-
Constantinopla, Bartolomeu I. Cada um deles, numa vência pacífica entre etnias, culturas e religiões dife-
incrível diversidade, falou de paz. Um dos últimos, rentes; o enviado do patriarca de Moscovo, o me-
antes do Papa, foi o rabino Israel Singer, provenien- tropolita Pitirim, compromete-se a promover a cul-
te dos EUA. Quando o representante do judaísmo tura do diálogo e da confiança recíprocas entre os
subiu ao palanque virou-se, num impulso, para o povos; um líder muçulmano do Irão declara que não
velho pontífice e improvisou: "Só Vossa Santidade se resigna à violência e ao mal; outro xeque de Jeru-
poderia ter feito semelhante coisa!" Igual estupefac- salém reconhece que as diferenças não são muros
ção tinha também demonstrado aos jornalistas o intransponíveis e que o confronto com a diversidade
grande rabino de Paris, Samuel-René Sirat: "É emo- aumenta a compreensão mútua... Isto enquanto o
cionante ver aqui os líderes das religiões ao mais alto grande rabino de Paris se compromete a pedir aos
nível empenharem o seu tempo para virem a Assis responsáveis das nações que edifiquem um mundo
gritar a sua esperança de paz." de solidariedade e de paz sobre o fundamento da
João Paulo II ouvia tudo serenamente. Naquele dia a Justiça. No final, para selar o solene compromisso,
sua voz era forte e o olhar ainda mais penetrante. João Paulo II sintetiza, tudo em poucas palavras:
"Queremos trazer o nosso contributo para afastar as "Nunca mais a violência! Nunca mais a guerra! Nun-
nuvens do terrorismo, do ódio, dos conflitos arma- ca mais o terrorismo! Em nome de Deus, cada religi-
dos, nuvens que nos últimos meses se acumularam ão traga à Terra Justiça e Paz, Perdão e Vida, Amor!"
particularm ente no horizonte da humanidade. Por De regresso a casa, no final do encontro, alguém
Página 7 de 24
10 recordava as recentes polémicas sobre o documento
"Dominus Jesus", cuja afirmação de Cristo como
domingo, 10 de Março de 2002
No dia em que os católicos em Itália assinalavam a
Jornada para a Vida, que teve como tema “Reconhe-
único salvador seria um grave retrocesso no diálogo cer a Vida”, João Paulo II acrescentou ainda que
O Jornal das Boas Notícias
interreligioso. Na sua edição de 23 de Outubro, o “ninguém é dono da vida, ninguém tem o direito de
"Herald Tribune" (diário realizado pelo "The New manipular, oprimir ou tirar a vida, de a de outros,
York Times" e pelo "The Washington Post" para a nem a própria”. Uma situação ainda mais insustentá-
Europa) publicou uma forte condenação do docu- vel quando “em nome de Deus, que ´eo único Se-
mento, que "usa uma linguagem ofensiva para os nhor e o mais sincero amante da vida”.
crentes de outras religiões" e considerando que "o [05-02-2002 13:55:39] [Internacional] [1136 caracteres] [Grátis] [ Filipe R. Lucena ]

dogma da Igreja prejudica a busca de uma paz glo-


Duas maternidades para Timor-Leste
bal". Críticas que, em Assis, caíram por terra. In: RR, 2002-02-05 - 22:02
A força desta jornada de paz partiu do protagonismo D. José Policarpo apelou aos cristãos da diocese para
inequívoco de João Paulo, II, que, em nenhum mo- que no período da Quaresma, façam doações para a
mento, abdicou da sua pertença a Cristo. Olhamos construção de duas maternidades em Timor-Leste.
para o Papa e, misteriosamente, damo? nos conta de No Jubileu do ano 2000, o Patriarcado de Lisboa
que quanto mais ele adere a Cristo mais fecundo se tinha decidido oferecer a Timor-Leste uma Materni-
toma, até para com as outras religiões. A prova está dade-Escola, pelo que foi criada a "Fundação Mater
no rol das imensas declarações positivas que a im- Timor" que está a preparar a execução do projecto
prensa internacional reproduziu após a jornada de no terreno em colaboração com os Bispos de Timor
Assis. Elio Toaff, o rabino emérito de Roma, reco- D. Ximenes Belo e D. Basílio do Nascimento.
nheceu que "agora todas as religiões devem olhar A acção social para Timor-Leste surgiu como um
para diante e deixar para trás as diatribes e terem contributo para ajudar a mulher timorense, reduzir a
presentes diante dos olhos as reais exigências do "gravíssima taxa de mortalidade infantil" no territó-
mundo, dos povos e das pessoas. A jornada de Assis rio, e "afirmar o direito à vida num país crucificado
dá a todos uma visão de paz. Devemos cuidá-la e por muitas mortes em 25 anos de ocupação e guerri-
vivê-la no dia-a-dia". lha", sustenta o Patriarcado.
Não menos impressionante é o comentário de Mar- Até agora, o Patriarcado arrecadou um total de 300
co Politi, "republicano e laico", famoso no modo mil euros (60 mil contos), para o qual o Papa João
como habitualmente critica o Papa. A síntese do Paulo II fez um donativo pessoal, segundo a diocese.
jornalista italiano é, desta vez, um retrato fiel do que No entanto, o estudo económico realizado prevê
se viveu em Assis: "Massacraram-se, insultaram-se, custos de 1.150 mil euros (230 mil contos) em cada
difamaram-se e perseguiram-se durante séculos. unidade.
ímpios, hereges, idólatras, cães infiéis. Assim se Este ano, a renúncia Quaresmal no Patriarcado de
ofendiam uns aos outros. E eis que se encontram Lisboa vai portanto no sentido de recolher donati-
reunidos à volta de um velho pontífice com cara de vos para que o projecto prossiga, com o apoio da
santo, que reza gritando: 'Nunca mais a violência, Conferência Episcopal Portuguesa, a Santa Sé e a
nunca mais a guerra, nunca mais o terrorismo! Em Federação Internacional das Associações dos Médi-
nome de Deus, cada religião traga à Terra justiça e cos Católicos.
Paz, Perdão e Vida. Amor!"'
Uma Vida Dedicada a Ajudar Toxicode-
Reconhecimento jurídico para o embrião pendentes
humano Por RUI TIBÉRIO
Filipe R. Lucena In: Público, Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2002
In: Ecclesia, 020205 Um homem dedica
Papa na oração do Angelus muito do seu tempo a
Reconhecimento jurídico para o embrião humano ajudar toxicodepen-
O embrião humano deve ser reconhecido juridica- dentes e até já pensa
mente – este foi o pedido feito, dia 3 de Fevereiro, criar uma associação
por João Paulo II, antes de rezar a oração mariana para "institucionalizar"
do “Angelus”. A par deste reconhecimento, o Papa esse modo de vida
pediu também o respeito pelos direitos de toda a Chama-se Joaquim Sá,
pessoa que não seja capaz de se defender, destacan- tem 39 anos e há 19 que
do “os que estão por nascer, doentes psíquicos e ajuda os toxicodepen-
doentes terminais ou com grande gravidade”. dentes das Caldas da
João Paulo II recordou que “a ciência já demonstrou Rainha. Todos os dias,
que o embrião é um indivíduo que possui, desde a cerca das 11 da noite,
concepção, uma identidade própria”. “É lógico por- carrega até junto da
tanto – esclareceu o Santo Padre – exigir que esta estação dos comboios
identidade seja juridicamente reconhecida, antes de um saco com sandes e garrafões com café e leite,
tudo no seu direito à vida”. que angaria junto de cafés da cidade, além de dar
Página 8 de 24
10 parte do seu ordenado numa taberna que colabora
com ele nesta cruzada, e lá os adictos podem, gratui-
domingo, 10 de Março de 2002
de se confessar católico, as suas iniciativas não con-
têm mensagens religiosas, apenas palavras de confor-
tamente, comer uma refeição quente - para muitos a to e apoio.
O Jornal das Boas Notícias
única. A sua atitude causa alguma estranheza, mas garante
Os seus dias dividem-se entre o trabalho como auxi- que não o preocupa, apesar de ter sido tomado,
liar de acção educativa numa escola das Caldas, a várias vezes, por toxicodependente. "O importante é
recolha de alimentos para dar os toxicodependentes o que eu penso de mim e não o que os outros pen-
e a preparação e entrega das sandes e refeições. sam".
Além disso, em sua casa ainda lava a roupa de alguns Joaquim afirma que se pudesse não mudava nada da
que vivem na rua. sua vida, porque se sente realizado. Pensa, inclusi-
O "Quim" (nome por que é conhecido entre os vamente, em criar uma associação, para "institucio-
adictos) não bebe, não fuma, não toma drogas nem nalizar" o seu modo de vida. Já se reuniu com a
sai à noite, e diz que a sua maior preocupação é con- autarquia local, mas o único apoio vem da paróquia
seguir um local que sirva de abrigo para os toxicode- e de uma ordem religiosa estabelecida na cidade.
pendentes que fazem das ruas das Caldas a sua casa. Pensa que a toxicodependência é uma doença e que
"Tenho ido a muitos sítios mas ainda não consegui as pessoas "já nascem com pré-disposição para ela,
arranjar nada, e penso nisso 24 horas por dia", con- além de que muitos factores como a educação e o
fessa. meio social contribuem para se enveredar por esse
Tudo começou há 19 anos na Praça da Fruta, um caminho".
dois locais do centro histórico da cidade, quando
passava e via "um grupo de pessoas com um sem- Pobreza Relativa em Portugal Está Abaixo
blante triste solicitando ajuda às pessoas. Comecei dos 20 por Cento
por lhes dar cartas que escrevia, com mensagens de Por LEONETE BOTELHO
In: Público, Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2002
esperança. Ao princípio não era muito bem recebi- Relatório da Comissão Europeia revela redução
do, mas a pouco e pouco fui ganhando a confiança significativa de portugueses a viver com menos de
deles", recorda. Depois, alguns toxicodependentes 60 por cento do rendimento médio nacional
começaram por lhe pedir uma sandes, um bolo ou Portugal já não está na cauda da Europa em matéria
roupa. Joaquim cedia e muitas vezes acabava por de exclusão social. O relatório da Comissão Euro-
acompanhá-los ao restaurante pagando-lhes uma peia sobre a concretização dos objectivos da Estra-
refeição quente. tégia de Lisboa, elaborada durante a presidência
Este gesto foi-se tonando um hábito, até que come- portuguesa e que aponta para uma maior coesão
çou, regularmente, a levar sandes, leite e batatas com social na UE, revela que, comparativamente com os
ovos cozidos para junto da estação dos comboios. outros 14 países da UE, deixamos o último lugar
Rotas diárias e semanais para passarmos à frente da Grécia, do Reino Unido e
Os dias de Joaquim Sá estão programados "ao minu- da Itália. Para cima, Portugal fica a uma distância de
to". Começa a trabalhar às 9h00 e às 12h30 sai para um ponto percentual da Espanha e dois da França, o
almoçar, chegando a casa dez minutos depois. "A que é bastante significativo.
seguir vou à taberna levar o pão que consegui no dia Os quadros referentes ao risco de pobreza relativa
anterior e às 13h30 vou a uma fábrica buscar os (aquela em que se encontram as pessoas que vivem
bolos, à praça buscar fruta e volto à taberna para com recursos inferiores a 60 por cento do rendimen-
entregar tudo", conta. to mediano nacional) revelam que as transferências
Volta ao emprego às 14h00 e quando larga o serviço, sociais concretizadas no nosso país entre 1997 e
às 17h30, o frenesim recomeça. Vai à taberna buscar 1998 fizeram diminuir o risco de pobreza em quatro
a comida já confeccionada, leva-a serve-a em pratos pontos percentuais, de 24 por cento em 1997 para
no parque da cidade, cerca das 18h30 e às 20h00 20 por cento no ano seguinte. E mostra ainda ter
volta a uma pastelaria buscar os bolos que não foram havido uma evolução positiva na capacidade de aufe-
vendidos. A seguir vai jantar a casa, aquece três litros rir rendimentos próprios pelos portugueses em risco
de leite e dois de café, prepara as sandes e à noite de pobreza relativa. ... ... ...
carrega tudo o até junto da estação, para dar aos
toxicodependentes. "Às vezes antes de me deitar Duas Propostas Modestas
ainda lavo umas roupas deles". Por ANTÓNIO BARRETO
Sempre que pode, Joaquim Sá tenta encaminhar os In: Público, Domingo, 10 de Fevereiro de 2002

viciados em drogas para a recuperação."Já consegui Mês de campanha, mês de promessas, mês de pro-
que largas dezenas se tratassem e deixassem a dro- postas. É natural que assim seja. Cada partido esfor-
ga", diz, com orgulho. ça-se por ter pelo menos uma proposta nova por dia,
Mas o que levou um jovem (na altura que tudo co- geralmente anunciada poucos minutos antes das
meçou tinha 20 anos) a dedicar a sua vida a ajudar os notícias das oito. Já tivemos vários exemplos, sendo
toxicodependentes? "Sinto-me bem ao ajudá-los e uns adequados, outros inconvenientes e outros dis-
também sinto que me estou a ajudar a mim". Apesar paratados. A privatização da Caixa Geral de Depósi-

Página 9 de 24
10 tos, proposta por Durão Barroso, ficou famosa,
sobretudo porque ninguém a queria, nem os econo-
domingo, 10 de Março de 2002
mento da sociedade seria possível e desejável. O
controlo social reforçado. Ao governo sobrariam
mistas do PSD, nem os dirigentes da Caixa, nem os funções, residuais na dimensão, mas essenciais na
O Jornal das Boas Notícias
capitalistas eventualmente interessados. Muito me- competência: avaliação, inspecção e fiscalização,
nos os depositantes. Também para a história fica a além de acompanhamento do currículo nacional. E
sugestão, da autoria do mesmo Barroso, de reduzir o da política social.
IRS, ao mesmo tempo que pretende diminuir o défi- O mesmo espírito ditaria uma nova organização do
ce, ideia prontamente contrariada por economistas ensino superior, sobretudo da universidade. Com a
de todos os bordos, inclusive do partido proponen- revogação de grande parte das leis de orientação
te. Surpresa ainda, finalmente, as propostas de Ferro actuais, seria decretada a real autonomia dos estabe-
Rodrigues e dos dirigentes do PS, relativamente às lecimentos de ensino superior e investigação. As
farmácias sociais e aos genéricos: tiveram sobretudo universidades e as faculdades passariam a ser res-
o efeito de recordar um dos maiores falhanços de ponsáveis pelo essencial da sua actividade, de que
seis anos de governo, o da saúde. não se eximiriam de prestar contas. Teriam liberdade
Aproveitando a maré, quero, modestamente, dar o de recrutamento de professores, investigadores,
meu contributo. Neste caso, com duas ou três pro- estudantes e técnicos. Administrariam os seus orça-
postas simples para a educação. Há, neste sector, mil mentos com total liberdade e inteira responsabilida-
e uma coisas a fazer. Políticas, medidas, orientações, de. Definiriam os seus próprios modelos de governo
investimentos, reformas e leis, o catálogo é imenso. e gestão, que poderiam, aliás, ser diferentes uns dos
De tal modo que é medonha a tentação de preparar outros. Ser-lhes-ia possível, por exemplo, contratar
reformas globais e integradas, termos que detesto reitores, administradores profissionais e directores.
acima de tudo e que sucessivamente implicam ou Recrutariam, a prazo ou definitivamente, cientistas e
impotência ou demagogia. Apesar de saber que na docentes, a quem pagariam de acordo com o traba-
área educativa, a que pertencem vários partidos, lho, o mérito e as competências. Estariam livres de
germinarem já novas ideias de reforma global, consi- se associar intimamente à sociedade, designadamente
dero que tais esforços serão inúteis e enganosos. ao mundo cultural, artístico e empresarial, assim
Mais vale preparar reformas e programas concretos, como às autarquias, associações profissionais, socie-
a pôr em prática gradualmente, evitando assim as dades científicas e outras instituições. Cumpririam
enxurradas que destroçam mais do que constroem. regras gerais e abstractas, aplicando-as concreta e
O sistema educativo português sofre, entre outros, diversamente. Por exemplo, a lei geral diria apenas
de um defeito terrível: é excessivamente uniforme, que cada estabelecimento deverá tornar públicas as
integrado e centralizado. Por isso é impossível de suas regras de prescrição e sucesso académico anual.
gerir e administrar. Fechado ao escrutínio exterior e Mas cada faculdade fixaria as suas condições. Uma
público, torna-se muito difícil de reformar. O siste- mais exigente entenderá que seis anos são suficientes
ma parece desenhado deliberadamente para impedir para terminar uma licenciatura, enquanto outra ficará
que a excelência se revele. É destruidor de toda a satisfeita com doze. O problema é delas. Mas o pú-
diversidade. E inimigo da responsabilidade dos cida- blico saberá distinguir.
dãos, dos pais e até dos professores. Provavelmente Será preciso acrescentar que todas as escolas, bási-
a principal fonte desperdício nacional, penaliza o cas, secundárias ou superiores teriam evidentemente
mérito e recompensa a mediocridade. Se lhe retirar- de respeitar a lei geral sobre matérias como os direi-
mos, parcial ou totalmente, aqueles três atributos, tos fundamentais, os castigos físicos, a segregação
não se eliminarão, de repente, todos estes defeitos, racial, a discriminação social, o favoritismo político e
mas criar-se-ão condições e estímulos para que estes a liberdade de expressão? Por cima de tudo, para o
sejam eficazmente combatidos. Por outras palavras, básico, o secundário e o superior, ao ministério da
se for diverso e descentralizado, o sistema educativo educação, assim reduzido ao que é nobre e impor-
será mais bem administrado e susceptível de melho- tante, competiria zelar pelas condições de livre circu-
ramento. lação de professores e estudantes e de apoio social,
A minha primeira proposta consiste na entrega, às assim como da liberdade de ensino e de investigação.
autarquias locais, de todo o sistema educativo pré- Para o que teria de se desempenhar rigorosamente
escolar, básico e secundário. E digo bem todo: or- das suas funções de inspecção, fiscalização e avalia-
çamentos, edifícios, gestão, professores, funcionári- ção. Com estas receitas, iria finalmente este mons-
os, obras e equipamentos. E até uma parte do currí- truoso ministério ocupar-se do essencial. Talvez
culo. Com a preparação e o gradualismo adequados, assim deixasse de ser um dos principais obstáculos
as escolas passariam a pertencer totalmente às câma- ao progresso da educação, da cultura e da ciência no
ras municipais (e em certos casos às freguesias), que nosso país.
teriam, em conjunto com os munícipes, os pais e os
professores, toda a responsabilidade política, eco- Casos exemplares no Norte
nómica, administrativa e pedagógica. As competên- ELSA COSTA E SILVA
In: DN, 020215
cias ficariam claramente determinadas. O envolvi- As listas de espera são um problema recorrente no
Página 10 de 24
10 sistema de saúde nacional, que registam, contudo,
algumas experiências de sucesso. Em duas unidades
domingo, 10 de Março de 2002
ser realizou noutra instituição. Estimando que "cerca
de 30 a 40 por cento das pessoas que constam das
distritais, de dimensão média, como os de Braga e listas já foram operadas", o director aponta ainda
O Jornal das Boas Notícias
Santa Maria da Feira, as direcções desenvolveram que "as situações urgentes são resolvidas em pouco
experiências que conseguiram alterar o rumo da tempo". O serviço com listas maior é o de otorrino.
situação. Consultas e cirurgias tornaram-se mais "Quando não há perigo para a vida, o tempo de
fáceis, respectivamente, nos hospitais de S. Marcos e espera é maior", explica ainda Carlos Valério.
S. Sebastião. No entanto, o hospital debate-se com falta de anes-
Os médicos de Santa Maria da Feira têm uma média tesistas, o que complica a realização de um maior
muito mais elevada de cirurgias que os outros clíni- número de cirurgias. "Temos 11 profissionais, mas
cos da mesma especialidade. Em 2000, enquanto a precisaríamos de 25", aponta. Mas, de acordo com a
média das unidades de igual dimensão e influência monitorização diária a que o hospital está sujeito,
era de 200 operações por médico, esse valor subiu estão actualmente operados cerca de 62 por cento
para 310 no Hospital de S. Sebastião. Em 2001, o dos doentes que necessitam de intervenção cirúrgica.
número de cirurgias nessa unidade de saúde subiu 20 Onde o hospital tem desenvolvido uma experiência
por cento, tendo-se realizado quase 11 180 opera- inovadora é no campo das marcações de consulta
ções. em todas as especialidades. Foram celebrados 30
Nas doenças neoplásicas (casos de cancro), não há, protocolos com todas as unidades de saúde locais e
garante Hugo Meireles, director do hospital de Santa "há quase quatro anos que ninguém vem ao hospital
Maria da Feira, qualquer tipo de espera, assim como marcar consultas".
em outras cirurgias urgentes. Actualmente, entre o O contacto é feito directamente entre o médico de
momento da decisão e a entrada no hospital para ser família e o serviço de especialidade do hospital, pelo
operado, o doente espera em média apenas três me- que "a marcação não é administrativa. Não é por
ses. As maiores listas estão em especialidades como quem chega cá primeiro, mas pela urgência da situa-
varizes ou oftalmologia, onde normalmente não há ção". O director aponta ainda que hospital e centros
perigo para a vida ou grandes ameaças à funcionali- de saúde têm vindo a desenvolver "um trabalho
dade do paciente. excelente e quase único a nível nacional".
Hugo Meireles refere que a gravidade da doença é
tida em consideração no agendamento das cirurgias, O Regresso do "Bem" e do "Mal"
assim como a urgência social das operações. Por Por MICHAEL NOVAK*
In: Público , Sábado, 16 de Fevereiro de 2002
exemplo, uma prótese de anca é mais rapidamente O "puzzle" é o seguinte. Após ter proferido a frase
colocada numa pessoa jovem que dela necessita para inflamatória "o eixo do mal", o Presidente dos Esta-
ter uma vida activa do que num idoso que dela pre- dos Unidos, George W. Bush, não tem recebido
cisa para ter mais conforto. A ortopedia é uma das muitas críticas pela expressão "mal", e só um pouco
especialidades onde a lista de espera para cirurgia era mais pelo termo "eixo".
muito grande e onde actualmente praticamente não Mal? Não é a América um país que supostamente
há períodos grandes entre o momento da decisão e a não emite juízos de valor, numa época em que se
sala de operações. espera não sejam emitidos? Então?
O facto de o Hospital de São Sebastião ser uma Há cerca de 20 anos, o Presidente Reagan provocou
unidade com gestão de tipo empresarial é apontado uma tempestade (uma das muitas) quando disse que
por Hugo Meireles como um dos factores que per- a União Soviética era um "império do mal". "Mani-
mitiu ultrapassar a situação das listas de espera. "Os queísmo", resfolegaram os americanos expatriados
nossos métodos de gestão permitiram adequar me- em Paris e Londres, distanciando-se de um Presiden-
lhor a resposta, embora seja também possível resol- te inculto. "Incendiário!", preocuparam-se os diplo-
ver problemas deste tipo em hospitais de gestão matas. Tony Dolan, que escrevia na altura os discur-
pública", salienta. sos da Casa Branca, revelou que todos os departa-
Em Braga, o problema das consultas de especialida- mentos que reviram o discurso de Reagan antes de
de no Hospital de S. Marcos resolveu-se há cerca de ele o fazer - Departamento do Estado, Conselho de
quatro anos quando a direcção da instituição cele- Segurança Nacional, etc. - riscaram a frase ofensiva;
brou acordos com as várias unidades de saúde locais mas o Presidente voltou a escrevê-la. O Presidente
da sua área de influência. Na questão das listas de sabia precisamente aquilo que estava a fazer. Nin-
espera para cirurgia, o problema tem vindo a ser guém mais parecia saber. A lógica que Ronald Rea-
resolvido com recurso ao programa "Acesso" do gan usava parece funcionar actualmente para George
Ministério da Saúde, rentabilizando as salas de ope- W. Bush. Mas ao contrário.
rações nos tempos em que normalmente estavam O Presidente Reagan conheceu por dentro o comu-
desocupados. nismo nos seus dias de sindicalismo de Hollywood,
Actualmente, salienta Carlos Valério, director do sabia que para os comunistas não há bem ou mal,
hospital, estão a proceder-se à limpeza das listas, excepto o triunfo do povo (leia-se, do partido). Não
contactando os pacientes para saber se a operação já existe certo ou errado, só História. Ou se é a favor
Página 11 de 24
10 ou contra.
Reagan viu nisso uma oportunidade. Ele lançaria
domingo, 10 de Março de 2002
em absolutos, mas antes de ele conseguir responder,
a ex-freira interrompeu-o: "Diga um." O meu amigo
uma nova retórica chocante. Chamaria à União Sovi- não teve tempo para pensar, mas, como por inspira-
O Jornal das Boas Notícias
ética um império em vez de uma união, um império ção, ripostou imediatamente: "Não violarás." No ar
imposto pela força. E referir-se-lhe-ia não como ficaram então três deliciosos segundos de silêncio.
inevitável, mas como "mal". Uma palavra antiga, Os terroristas do século XIX pretendiam um mundo
respeitável, que todas as crianças conhecem e ado- melhor, queriam a igualdade, liberdade de consciên-
ram. cia, uma vida decente para todos, a irmandade na
"É verdade?" terra. Os do 11 de Setembro queriam destruir tanto
É claro que Gorbatchov negaria, quando a imprensa monumentos budistas, como monumentos da Amé-
o interrogasse: "É verdade que a União Soviética é rica e, segundo planos encontrados mais tarde, a
um império do mal?" Mas, numa segunda fase, al- Torre Eiffel e a Basílica de São Pedro. Queriam
guém perguntaria: e as purgas de Estaline? Diria que destruir, não construir.
eram obra do mal? E os seus julgamentos- Daí o desafio do Presidente Bush a todos os que se
espectáculo? dizem relativistas e não emitem juízos: digam-me
Apenas mudando as condições do debate moral, como é que estes tipos não são maus, digam-me que
Reagan criou uma cilada. Uma vez respondida a eles apenas precisam de "terapia". As suas palavras
pergunta, teria de se começar a fazer distinções. Os ainda pairam no ar como um desafio. Ninguém pe-
soviéticos teriam colocado um pé na ratoeira e nun- gou nelas. Mas podem apostar que alguém pegará. A
ca mais conseguiriam de lá sair. estrutura moral do debate mudou.
De facto, passados alguns anos, os negociadores de Não nos tentem
armas dos EUA, lembrando os velhos tempos com Existe mal no mundo. Os nossos antepassados sabi-
os seus ex-homólogos soviéticos, num alegre jantar, am disso. Reinhold Niebuhr ensinou à geração de 40
foram interrompidos com um murro na mesa. "Sa- que o problema da História é o persistente poder do
bem o que provocou a queda da União Soviética? mal sobre o bem, mesmo através da corrupção do
Sabem o que foi?", questionou um general, com uns bem. Os fundadores da América, ensinados pelo
copos de vodka a mais. Alguns encheram o cérebro rígido Santo Agostinho, que viu em todos os siste-
com hipóteses sobre defesa antimíssil ou a penúria mas do mundo os conflitos internos da injustiça,
generalizada. O general deu então outro murro na nunca esperaram o triunfo total do bem. Foi por isso
mesa. "Foi aquele maldito discurso do império do que eles conceberam um sistema cujos complexos
mal!" E, levantando-se, perante os olhares inquirido- balanços internos foram criados com base em pesos
res, acrescentou: "É que era realmente o império do e contrapesos.
mal." Uma vez que toda a gente peca pelo menos uma vez
Hoje é difícil recordar o choque provocado pela na vida, a partir de uma reflexão sobre a História,
terminologia de Reagan, onde as palavras eram tudo: concluíram que não se deveria confiar em ninguém
bem e mal. que não tivesse um poder limitado, controlado. Di-
Após anos e anos de linguagem terapêutica e diplo- vidiram os poderes. Dividiram os interesses. Visto
mática, os americanos parecem ansiar de novo pela que o mal começa em mim e em ti, não nos tentem a
clareza do bom velho "mal". E ao olharem para o resistirmos para além do nosso poder - controlem-
buraco onde se erguia o World Trade Center, vêem nos, coloquem-nos uma câmara de vigia, um travão,
"o mal". um monitor.
Há muito tempo, existiam verdadeiros niilistas, que A Constituição norte-americana não faz qualquer
eram pessoas sérias. Um deles, Albert Camus, ficou sentido a não ser pensando que há sempre um mal
muito preocupado quando um seu amigo alemão que espreita dentro do melhor de nós. Os "Federa-
(que, como ele, reflectia sobre o absurdo) se tornou list Papers" são tão implacavelmente agostinianos
nazi. Se a vida é absurda, dizia ele, porque é que o nas suas meditações sobre a história da humanidade
nazismo é mau? Ao menos, o nazismo é acção... que os seus autores até questionam, no número 77,
Para conseguir sair do niilismo, Camus colocou a se as suas páginas não seriam demasiado frias; se a
seguinte questão: a lógica do niilismo não será a sua "opinião sobre a venalidade universal na nature-
mesma do suicídio? Se a vida não tem sentido, a za humana" não estaria ultrapassada. Mas não. Os
resposta não será, então, escolher morrer? Foi assim, fundadores estavam até bastante cientes do seu ter-
devagar, passo a passo, que conseguiu sair do niilis- rível compromisso com a escravatura. Para chega-
mo e chegar à resistência. Era um homem sério. rem à União, muitos deles tiveram de engoli-la. Para
Outro exemplo. Recentemente, um amigo meu de- alguns, foi bastante difícil.
batia num "talk-show", com alguém que se autodes- Bush, tal como Reagan, regressou à estrutura moral
crevia como "ex-freira lésbica activista pró-aborto" do bem e do mal, com que os fundadores america-
(não estou a brincar), os padrões morais em que nos iniciaram todo o pensamento. Existe mal no
acreditava. A ex-freira não tinha nenhuns. O anfitri- mundo, que tende a concentrar-se, a juntar forças e
ão perguntou então ao meu amigo se ele acreditava que, se rebenta com os seus limites, põe toda a gente
Página 12 de 24
10 em perigo. "Eixo do mal?" Sim, é possível que exis-
tam coisas como essa. Hoje, como sempre. Como é
domingo, 10 de Março de 2002
que é o produto de dois primos. Toda a gente pode
codificar a sua mensagem, mas só quem conheça a
que pudemos duvidar disso? Em que sonho vivía- factorização do número nos primos que são seus
O Jornal das Boas Notícias
mos, em que espécie de névoa, de nevoeiro? factores, é que poderá descodificá-la. A tarefa pode
Mas ainda há um perigo a que o Presidente Bush mal parecer fácil, mas é extraordinariamente difícil para
se referiu. É verdade que nos aconselha a ser humil- números grandes e não é possível levá-la a cabo em
des, a falar calmamente. Mas a palavra "mal", quan- tempo útil. Por essa razão, os sistemas de transmis-
do usada apenas em relação aos outros, pode intoxi- são de dados pela Internet são extraordinariamente
car o utilizador antes que ele se aperceba. Eu previ- seguros.
no-o, a ele e a todos nós, sobre o importante aviso Se a decomposição de números grandes nos seus
de Niebuhr: factores primos é muito difícil, igualmente trabalho-
"O enigma final da História não é se o justo vencerá sa é a descoberta de primos grandes. É um dos mis-
o corrupto, mas sim como ultrapassar o mal que há térios da Teoria dos Números, o ramo da Matemáti-
em todo o bem e a perversidade dos justos." ca que estuda as propriedades dos inteiros. Sabe-se,
*Director no American Enterprise Institute, autor de "A Ética Católica e o Espírito do Capita-
lismo" desde Euclides (século III a.C.), que há um número
Exclusivo PÚBLICO/"The Wall Street Journal"
infinito de primos. O número agora encontrado não
é pois o maior primo, nem há um primo maior que
Primos intratáveis todos os outros. Há uma infinidade à espera de ser
Nuno Crato
In: Expresso, Vidas, 020216 descoberta e não se conhece nenhum método práti-
Recentemente, o jovem canadiano Michael Cameron co de determinar números primos com rapidez. Um
encontrou o maior número primo até hoje conheci- dos métodos mais usados, mas que nem sempre
do. Para o feito, foi necessário empregar vários resulta, consiste em tentar encontrar os chamados
computadores em paralelo, onde correram progra- primos de Mersenne, números da forma do agora
mas matemáticos muito complexos durante muitos descoberto pelo jovem canadiano.
milhares de horas. O número é tão grande que é O primeiro a estudar este tipo de primos - os que se
difícil escrevê-lo. É 2 levantado a 13.466.917 subtra- podem escrever como dois levantado a um primo
ído depois de uma unidade. E é mesmo melhor dizê- mais pequeno subtraindo depois a unidade - foi o
lo assim. padre francês Marin Mersenne (1588-1648), um
Se o quiséssemos apresentar por extenso, na base amigo de Pascal, Fermat e Gassendi, que manteve
decimal em que é hábito escrever os números, ne- uma intensa correspondência com muitos sábios da
cessitaríamos de 4.053.946 dígitos. É um número época. Mersenne pretendia encontrar uma fórmula
muito grande. Tão grande que ocuparia mil destas para representar todos os números primos, mas o
crónicas. Muito mais do que este caderno Vidas. seu intento falhou: nem todos os primos são repre-
Nem mesmo esta edição completa do EXPRESSO sentáveis na forma de Mersenne e nem todos os
lhe chegaria, a não ser que usássemos algarismos ditos números de Mersenne são primos. Até hoje,
muito pequeninos. ninguém descobriu tal fórmula, nem se pensa que
Os números primos são aqueles apenas divisíveis seja possível construir um processo simples de en-
por eles próprios e pela unidade. Por exemplo, 2, 3, contrar primos. É um mistério. Em Matemática,
5, 7, 11 e 13 são primos, ao contrário de 4, 6, 8, 9, 10 como noutros ramos da actividade humana, os mis-
e 12. A importância dos primos está em que eles térios maiores são os mais básicos.
constituem as pedras base de construção e manipu-
lação dos inteiros, já que todos os números se po- Quaresma ou a graça deste tempo!
dem decompor de forma única no produto de pri- Pe. Amaro Gonçalo
In: Ecclesia, 020207
mos. 0 número 12, por exemplo, é 2x2x3, e não há Quaresma: palavra antiga e cada vez mais «velha», na
outra forma de o escrever como produto de primos - linguagem dos mais novos, que lhe desconhecem
excepto, é claro, permutando a ordem dos factores, quase todo o significado. Longe vão os tempos em
o que é irrelevante. Este resultado chama-se Teore- que se calavam, nos campos, as canções, e se proibi-
ma Fundamental da Aritmética. E é tão básico que am as festas e os bailes e os foguetes. A par da auste-
toda a gente o conhece e aplica, mesmo que não lhe ridade do silêncio, da meditação, vinham doses lar-
conheça o nome. gas de pregação, longas penitências e duras via-
Falando em nomes, percebe-se agora porque é que sacras. Parece que a própria natureza se associava ao
os primos são assim chamados. Nada tem a ver com parto da Quaresma para a Páscoa, com o sol reco-
parentescos, mas apenas com o facto de serem blo- lhido a lembrar o «tempo santo», como lhe chama-
cos primordiais dos números, característica que tem vam os mais antigos. E é claro, a «esmola, a oração e
um grande interesse prático. Sobretudo na era dos o jejum» constituíam a tríade sagrada deste tempo.
computadores, sobretudo na era da Internet. Mas tudo parece ter mudado. Já nem os rádios ou as
Os sistemas de comunicação modernos baseiam-se televisões, lá em casa, vêem alterado o volume do
num sistema dito de chave pública, em que os dados som, nem sequer as sextas-feiras parecem dizer seja
são codificados através de um número muito grande, o que for a quem quer que seja. Mas é Quaresma
Página 13 de 24
10 mesmo assim. Vamos, pois, ao encontro deste tem-
po e descobrir-lhe as motivações mais profundas. E
domingo, 10 de Março de 2002
1. A preparação para o Baptismo ou a redescoberta
da vida baptismal. Daí, os evangelhos alusivos à
valia a pena voltar à pergunta: Que é isso de «Qua- simbologia baptismal, com predominância da água
O Jornal das Boas Notícias
resma»? (Samaritana), da luz (cego) , da Vida (Lázaro)... Esta
Quarenta dias, que é bem preciso! é a perspectiva dominante do Ano A, que é precisa-
“Quaresma” é uma palavra que vem do latim «qua- mente a deste ciclo nesta Quaresma de 2002.
dragesima dies», o quadragésimo dia antes de Páscoa. 2. A conversão de vida, pela prática da penitência.
É o tempo de preparação: «Por ele que se sobe ao Eis, porque se destacam, nos evangelhos, as temáti-
monte santo da Páscoa», (Cerimonial dos Bispos, cas da conversão, do perdão e da reconciliação, nas
249). Começa na Quarta-feira de Cinzas e acaba na parábolas da figueira, do filho pródigo e da mulher
Quinta-feira Santa pela tarde, antes da Missa Vesper- adúltera (Ano C);
tina da Ceia do Senhor. 3. O aprofundamento do mistério pascal de Cristo.
Na hora de dar sentido a este período de iniciação e Tema desenvolvido nos evangelhos que referem o
caminho para a Páscoa, influenciou certamente o Templo destruído e reedificado; a morte de Cristo
simbolismo bíblico do número quarenta: os episódi- como elevação, e o grão de trigo lançado à terra para
os dos quarenta dias do dilúvio antes da aliança com frutificar (Ano B).
Noé, de Moisés e dos seus quarenta dias no monte, Um tempo, que é uma graça
do Povo de Israel e seus quarenta anos do deserto, Creio que não devíamos desviar-nos, desta tríplice
de Elias caminhando quarenta dias até ao monte do dimensão da quaresma: baptismal, penitencial e cris-
encontro com Deus, e sobretudo dos quarenta dias tológica ou pascal. Parecem coisas diferentes, mas
de Jesus no deserto, antes de começar a sua missão não. Concretizemos:
messiânica, têm de comum que este espaço de tem- Significa, antes de mais, viver a Quaresma, como
po serve de prova, purificação e preparação de um uma espécie de regresso ao Baptismo. De certo
acontecimento importante e salvador. «A Igreja une- modo, a Quaresma devia fazer-nos redescobrir as
se todos os anos, durante os Quarenta dias de Qua- energias do Baptismo, sufocadas pela rotina, pelo
resma, no mistério de Jesus no deserto» (Catecismo cansaço, pela desistência, pela lógica dos mínimos.
da Igreja Católica, 540). Seria assim uma espécie de despoluição interior, de
Um tempo com História... modo a reviver a frescura da água do Baptismo, a
A Quaresma organizou-se a partir do séc. IV. A sua recobrar a transparência da luz pascal, a provocar a
história anterior não está muito clara. Parece que a ressuscitação da nossa vida, «escondida com Cristo
causa original foi o jejum pascal de dois dias, a Sexta em Deus». Não se trataria, portanto, de um tempo
e Sábado antes do Domingo da Ressurreição, espaço de “mortificação”, mas de vivificação. Não seria um
que, pouco a pouco, se alargou para uma semana, tempo de «desobriga» mas de necessidade de voltar
depois a três, e segundo as diversas regiões, sobretu- ao princípio, de regressar à fonte, de ir ao deserto, à
do as do Oriente, como o Egipto, até às seis sema- procura da água, do primeiro amor...
nas ou quarenta dias. Em Roma já estava constituída Encontros com Cristo, no caminho para a Páscoa
a Quaresma entre o anos de 350 e 380. E isto não é um exercício «teórico». Concretiza-se
A sua história longa e desigual no tempo e no espa- no acolhimento da Palavra de Deus. Depois do
ço, denuncia duas vertentes muito claras: evangelho das Tentações (no princípio do combate»)
1. Para os candidatos aos sacramentos da iniciação e da Transfiguração (a antecipar a vitória) temos,
cristã (Baptismo, Confirmação e Eucaristia), a cele- neste ciclo litúrgico (Ano A), três encontros com
brar na noite de Páscoa, este era o tempo de retiro, Cristo, no caminho para a Páscoa. Podem bem ser-
de purificação, de «escrutínio», de avaliação, de ora- vir-nos de guias, para este encontro, a Samaritana, o
ção, de indagação e esconjuro, em ordem à celebra- cego e Lázaro, amigo de Jesus.
ção. Neste contexto a Quaresma é a última etapa do 1. Água viva em águas passadas!
catecumenado. - Na pele da Samaritana, darmo-nos conta da rotina
2. Para os já baptizados, a Quaresma era um tempo da nossa existência e da monotonia da nossa vida,
de «voltar à vida nova do Baptismo» pela Penitência, enquanto, nestas idas e vindas, progressos e retro-
pela conversão de Vida ao Evangelho. O grupo dos cessos, não «quebrarmos a asa do cântaro” desse
«penitentes» aparecia diante da comunidade, sinali- pobre coração desabitado, onde mergulham os nos-
zado, coberto de «cinza», disposto a mudar de vida e sos desejos perdidos e confusos de amor e de salva-
a cumprir a «penitência» para depois ser reintegrado ção. É altura de cavar na amargura existencial da
na vida da comunidade. Aqui se percebe bem a Peni- nossa vida, essa «fonte de água viva». Cristo vem ao
tência, como um “segundo Baptismo”. O cristão, nosso encontro. Purifica as águas turvas da nossa
uma vez purificado nas águas do Baptismo, tendo História e Ele mesmo se torna, em nós, «água viva».
pecado, deve purificar-se agora, nas lágrimas da Este seria o primeiro «escrutínio» da Quaresma: dar
penitência (conversão, esforço, mudança). de caras com Cristo, deixarmo-nos converter pelo
Restaurada no Concílio Vaticano II, a Quaresma seu olhar misericordioso, na certeza de que «águas
actual movimenta-se em três direcções: passadas não movem moinhos»! Para encontrar o fio
Página 14 de 24
10 de água baptismal, cavar mais fundo no poço das
nossas misérias. E não atulhar com o supérfluo das
domingo, 10 de Março de 2002
de serviço público prestado por aquela empresa, foi
cortado, substituido pela transmissão de uma prova
nossas vidas. Nesse sentido, o próprio jejum, ao de basquetebol, sem que nenhuma explicação tivesse
O Jornal das Boas Notícias
despojar do excesso e ao provocar a necessidade, sido avançada, e a Missa transmitida pela RTP Inter-
bem pode ser uma medida de higiene interior, que nacional para as comunidades emigrantes foi abolida
prepara o espírito e lava a alma. com um simples telefonema, e sem oportunidade de
2. Onde abunda o pecado, superabunda a graça! mais diálogo.
- Na história do cego, vem ao de cima a dimensão Para D. João Alves, Bispo Emérito de Coimbra e
colectiva do pecado: da família, dos vizinhos, do Presidente da Comissão Episcopal das Comunica-
pecado do mundo, dessa cegueira, que nos torna ções Sociais, é uma decisão «reprovável» a que a
incapazes de descortinar os sinais de Deus e de per- RTP tomou quando, unilateralmente, não emitiu o
ceber a abundância da graça, nas desgraças desta programa «Fé dos Homens»”. Ao tomar conheci-
vida. Só o encontro com Cristo oferece a chave de mento de tal decisão, reagiu com palavras de «espan-
leitura das nossas vidas incompreendidas e incom- to e com indignação», pois não houve qualquer ten-
pletas. É altura de contemplar a vida na Luz da Pala- tativa de «diálogo com o grupo das confissões religi-
vra, de ver e rever a nossa História na luz do Evan- osas em ordem a descobrir a melhor solução». D.
gelho, de radiografar o coração na luz imensa de João Alves afirmou ainda que surpreende que «o Dr.
Cristo. Que útil nos será a Lectio Divina, a leitura Emídio Rangel tenha agido deste modo, uma vez
orante da Palavra! É aí que Cristo se faz Luz e a que este programa religioso está coberto por uma
nossa vida se projecta na sua exacta dimensão. Este decisão parlamentar e por um protocolo entre a RTP
seria o segundo escrutínio: deixar penetrar as obscu- e o referido grupo das confissões religiosas, que
ridades de todas as cavidades do coração e da vida inclui a Igreja Católica». Para o mesmo responsável,
de cada um, com a força do olhar de Cristo e a graça «esta é uma atitude estranha, desrespeitadora dos
da sua Palavra: Eu sou a Luz do Mundo. Nesse sen- direitos de cada um e das exigências da verdadeira
tido a Reconciliação já nem seria a «desobriga», mas democracia. Acrescente-se ainda que o referido pro-
esse momento de Luz, e de verdade, em que toda a grama «Fé dos Homens», desse dia, na parte da res-
minha história é vista e revista, sob a luz da graça e ponsabilidade da Igreja Católica, se referia todo ele
da misericórdia de Deus. ao encontro de Assis, presidido pelos Papa». Para D.
3. Do túmulo para a Vida! João Alves, «atitudes destas só merecem da parte da
- Entre a figura de Lázaro, o homem condenado à Comissão Episcopal das Comunicações Sociais e do
morte, e a de Marta, que a protesta, está Cristo que seu Secretariado Nacional a mais veemente reprova-
chora, partilhando a ânsia de Vida imortal, que se ção».
aloja no coração do Homem, há tanto tempo à pro- Também a Eucaristia dominical foi simplesmente
cura uma saída. Aqui Cristo revela-se como Ressur- abolida sem nenhuma espécie de diálogo, tendo sido
reição e Vida, mas uma vida, ainda assim e sempre, a última celebrada no passado dia 27. A decisão da
nascida da morte, fruto amadurecido de semente RTP foi comunicada, no dia 18 de Janeiro, por tele-
lançada à terra. Temos a certeza de que a nossa vida fone, à Obra Católica Portuguesa das Migrações
vale e não é enterrada numa qualquer vala comum. (OCPM), a entidade responsável por aquelas trans-
Pelo Baptismo, esta força pascal atingiu-nos certeira missões. Segundo o Director do Secretariado da
e «vitalmente». Enxertados em Cristo, fomos sepul- OCPM, Pe. Rui Pedro, o telefonema comunicou o
tados com Ele na morte, para ressuscitar para uma conteúdo de um fax da Direcção do Departamento
vida nova. É esse o dinamismo de conversão per- de Programas Institucionais e Religiosos, invocando
manente no nosso caminho. É este o terceiro escru- argumentos económicos e a não necessidade de uma
tínio: Encontrar-se com Cristo, assumindo a condi- equipa de sacerdotes missionários ou «especializa-
ção mortal, frente à sua condição gloriosa do ressus- dos» no trabalho com emigrantes para presidir àque-
citado. E pedir a graça de sair do túmulo para a Vida. las eucaristias, transmitidas às 12h30m. O Pe. Rui
Creio que assim podemos realizar o anseio da Igreja Pedro recorda que «a criação desta equipa em 1994
para este tempo, bem expresso na Oração colecta do foi uma solicitação da própria RTP», não compreen-
primeiro domingo da Quaresma: «Concedei-nos, dendo ainda «que peso possa ter esta transmissão no
Deus omnipotente, que, pela observância quaresmal, total da despesa da estação televisiva».
alcancemos maior compreensão do mistério de Cris- No telefonema em questão, a OCPM reformulou o
to e a nossa vida seja um digno testemunho». pedido para uma reunião com a RTP (uma carta
Pe. Amaro Gonçalo datada de 17 de Janeiro, quando esta situação era
ainda insuspeita, fazia já esse pedido) e «até agora
RTP cancela missa e censura programa nada», assegurou o Pe. Rui Pedro, acrescentando que
Na mesma semana, dois ataques à Igreja
In: Ecclesia, 020208
continua à espera do fax, cujo conteúdo apenas co-
Na mesma semana, a Igreja em Portugal sofreu dois nheceu por telefone. Para ele, esta foi uma forma
ataques por parte da empresa pública de televisão: o «tosca e desajustada de se cortar com um serviço»,
programa «Fé dos Homens», emitido sob o acordo interpretando-a como «andando toda a gente enver-
Página 15 de 24
10 gonhada, ninguém aparecendo e dando a cara». A
eucaristia da RTP2 passa a ser transmitida também
domingo, 10 de Março de 2002
ponder às exigências da sociedade onde se insere.
Receio, porém, que ela imagine que pode ser apenas
pela RTP Internacional, às 10h30m, «perdendo-se isso, transformando-se em universidade "à la carte",
O Jornal das Boas Notícias
assim muita audiência, em especial nos Estados Uni- uma universidade onde se generalize o modelo su-
dos, onde a essa hora está tudo a dormir», salientou permercado e se mudem de ano para ano os cursos,
o Pe. Rui Pedro. se é que não mudam apenas os nomes dos cursos,
em função das listas de emprego. Lembro-me do
A torneira tempo em que em Portugal não havia sociologia
Diogo Pires Aurélio
In: DN, 20020207
porque o poder político da altura a considerava um
Chegou, enfim, o remédio para a universidade por- saber, mais do que desnecessário, verdadeiramente
tuguesa. Depois de anos e anos de crise aparente- perigoso. Não sei se estará muito longe o risco de
mente inultrapassável, durante os quais se multiplica- ver outros poderes a imporem aberrações semelhan-
ram reformas, queimaram ministros e esbanjaram tes. Basta, para tanto, que a universidade esqueça
milhões, os jornais celebraram agora com entusias- que também tem uma palavra a dizer sobre a sua
mo e foguetes aquilo que seria a poção mágica já própria função na sociedade.
experimentada na Madeira: há mercado, abrem-se Porque é disto, efectivamente, que se trata. Com
cursos; não há mercado, fecham-se cursos. tanta coisa que se pede à escola, em particular às
A eficácia de uma tal solução dir-se-ia inquestioná- universidades, a pretexto de que estamos na socie-
vel. Desde há muito, os empresários e as respectivas dade do conhecimento, corre-se o risco de estrangu-
associações vêm clamando por um ensino superior lar e proibir tudo quanto nelas seja produção e
adaptado às necessidades do mercado e exigindo à transmissão de conhecimentos. Houve tempo em
universidade cursos talhados à medida do tecido que havia escolas vocacionadas para ensinar um
empresarial português. Não deve, aliás, haver nin- ofício. Em alguns países, entre eles Portugal, acabou-
guém que não se tenha já perguntado por que moti- se com essas escolas e transformou-se o ensino se-
vo insistem os sucessivos governos e as escolas su- cundário num corredor para a universidade. Como
periores em produzir anualmente milhares e milhares era de prever, já se está a pensar universidade como
de licenciados que, a par do título mais ou menos se ela fosse escola de ofícios.
exótico que passaram a usar, não trazem mais nada
que saibam fazer e que possam referir nas entrevistas Quando começa a vida?
João Paulo Barbosa de Melo*
com possíveis empregadores. Será que é tão difícil In: Expresso, 020209
pôr a funcionar este sistema de torneira que abre ou QUANDO é que um óvulo fecundado passa a ser
fecha licenciaturas conforme as solicitações dos vida humana? Será na altura em que o feto adquire a
agentes económicos, de modo a evitar o alegado capacidade de ser «autónomo»? Se assim fosse seria
desperdício de dinheiros públicos em "cursos de legítimo matar crianças até aos dois ou três anos de
treta" e as consequentes frustrações dos presumíveis idade... Será quando sai, pelos seus meios, do ventre
desempregados e respectivas famílias? da mãe? Se assim fosse poderíamos trinchá-lo dentro
Difícil, evidentemente, não é. Mas tem os seus ris- da barriga e aspirá-lo na véspera do previsto nasci-
cos, o menor dos quais não será, com certeza, o mento... Será quando já é muito parecido com um
desnorte que, por esta via, se introduz nas universi- «verdadeiro» bebé (pelos quatro meses de gestação)?
dades. Pressionadas por associações patronais e Será quando o coração começa a bater e quando se
sindicatos, rendidas a uma cultura da eficiência ime- estrutura o sistema nervoso (pelas seis semanas)?
diata e ao argumento de que, se gastam dinheiro, Será quando atinge um certo número de células?
tem de ser visível a toda a gente a sua utilidade, as Será...?
escolas superiores arriscam-se a ficar submersas pelo Não há nem pode haver resposta segura a esta per-
modelo que a tradição reservou exclusivamente ao gunta. A atitude razoável deve passar, portanto, por
ensino do direito e da medicina e que, mais recente- perceber que, de certo, só sabemos que no momento
mente, se estendeu também às engenharias. O públi- da fecundação se inicia um projecto de vida humana
co exige-lhes serviço e elas, apressadas pela concor- que, em circunstâncias normais, acabará por produ-
rência que felizmente já se instalou no sistema, que- zir um ser humano irrepetível e único. O resto é,
rem a todo o custo mostrar que são úteis. Poderiam cientificamente, treta! Que fazer, então?
fazê-lo explicando qual é, realmente, a sua utilidade. Comecemos por notar que não é só nesta área do
Mas isso não seria facilmente entendido no ambiente conhecimento que surgem problemas de indetermi-
social que as rodeia, onde se generalizou a ideia de nação como este. Olhemos, por exemplo, para o
que elas só servem para se aprender um ofício e que, campo da ecologia: a argumentação «ecológica» é
por conseguinte, quem de lá sai com o canudo deve que quando não temos a certeza de quais são os
ter em qualquer parte, seja numa fábrica ou num verdadeiros efeitos (sobre o ambiente) de uma de-
escritório, um lugar para que vem, obviamente, pre- terminada acção, então, à cautela, devemos partir do
parado. pressuposto de que se verificará o pior cenário con-
É claro que a universidade também serve para res- cebível. Chama-se a isto o «princípio da precaução».
Página 16 de 24
10 Aplicando este princípio à questão de saber quando
começa a vida humana, é claro que a única resposta
domingo, 10 de Março de 2002
campo sexual: por mais que se faça, nunca se pode
garantir a 100 por cento que não vai dali sair uma
razoável da nossa inteligência será: como não é pos- criança! Se, no entanto, em todos os outros aspectos
O Jornal das Boas Notícias
sível determiná-lo com certeza de outra forma, de- da vida relacional encontramos limites à nossa liber-
vemos situar esse começo no momento em que o dade, porque só no campo sexual havíamos de tentar
processo se inicia, ou seja, quando da fecundação. Se fazer de conta que eles não existem?! E isto tanto
calhar até nos enganamos e a «verdadeira» vida hu- vale para as mulheres como para os homens. A soci-
mana não começa antes das três ou às doze ou às 36 edade e a lei do tempo do teste do ADN (que não
ou 40 semanas. Mas como nunca será possível de- deixa dúvidas quanto à paternidade) não pode conti-
terminá-lo com precisão, optemos pela única solu- nuar a discriminar os progenitores: aquele filho tanto
ção intelectualmente séria! é daquele pai como daquela mãe — e se é apenas a
É claro que, numa sociedade civilizada, ninguém mãe, por razões biológicas inultrapassáveis, a trazê-
concorda que seja lícito — por motivos económicos, lo no ventre, isso em nada diminui as obrigações
de conveniência ou de vergonha social — tirar a vida (materiais, de tempo, afectivas) do pai. É tempo de
a um seu semelhante. A não repreensibilidade ética mudarmos, finalmente, algumas concepções machis-
(ou legal) da provocação de um aborto assenta, por- tas e desresponsabilizantes das nossas sociedades,
tanto, na ideia de que não é uma vida humana o que que estão na base da ideia da licitude do aborto.
se está a sacrificar mas uma «coisa» que faz parte do Numa sociedade em que se prega — e bem — que
corpo de uma mulher. Se soubéssemos que essa os homens e as mulheres devem partilhar todos os
«coisa» seria uma «vida humana», não haveria dúvi- aspectos da vida, numa sociedade culta em que não
das éticas de condenar veementemente a possibilida- conhecemos apenas o que vemos mas também o que
de. A questão vai, portanto, dar sempre ao mesmo: concebemos e pensamos, numa sociedade que culti-
quando começa a vida humana? E se dermos a única va a responsabilidade, numa sociedade rica que tem
resposta científica e logicamente razoável seremos meios para assegurar muito mais do que os mínimos
obrigados a ver aquele pequeno conjunto de células para todas as crianças que sejam concebidas e em
na barriga da mãe como uma vida humana. Aliás, à que tantos buscam filhos que não podem ter, numa
medida que melhora o conhecimento sobre aquilo sociedade que sublima a compaixão e se horroriza
que antes não víamos e sobre mecanismos que antes com os assassínios em massa — nesta sociedade não
não compreendíamos, cada vez se torna mais irrazo- pode haver qualquer razão aceitável para justificar o
ável defender o contrário. aniquilamento de frágeis conjuntos de células e em-
Agora é claro que isso não dá jeito nenhum! Não dá briões que a nossa razão sabe serem vidas humanas.
jeito a gente entusiasmar-se e, num repente, virar pai Mesmo que dê jeito!
ou mãe; não dá jeito falhar a pílula ou o preservativo; Fosse a vida mais fácil...
não dá jeito pensar em gravidezes quando queremos * Economista; assistente da Faculdade de Economia
apenas passar um bom bocado; não dá jeito ser as- da Universidade de Coimbra
sombrado pelo fruto de uma relação ocasional; não
dá jeito ter de mudar inesperadamente o rumo na Pesadelo dogmático
vida que tínhamos previsto. Não dá jeito mesmo João Carlos Espada
In: Expresso, 020209
nenhum... NA PRIMEIRA página do EXPRESSO da semana
Se pudéssemos voltar atrás, se ainda fosse possível passada, sob o título «Professores sofrem», podia ler-
corrigir a coisa... É nesta interrogação que nasce a se que «em cada semana, três professores são hoje
justificação do aborto. Se é apenas um pequeno vítimas de agressões físicas por parte de alunos ou
conjunto de células... bem, então ainda não é verda- de pais de alunos, quando, em 1999, a média era de
deiramente gente e podemos deitá-lo ao lixo; e ainda apenas um».
que seja maiorzinho, que diabo!, ainda não fala nem Em seguida, éramos informados de que, para fazer
respira e temos dúvidas de que pense ou sofra... Ai!, face a esta situação, o Conselho Nacional de Educa-
dava tanto jeito... E assim, como dá jeito, arranjamos ção recomendava que «os agressores - hoje pratica-
todas as desculpas do mundo. mente impunes - (passassem) a incorrer em penas
Por muito que isso custe — às mulheres e sobretudo até cinco anos de prisão».
aos homens, habituados há milénios a despachar o Infelizmente, não fui surpreendido por estas notíci-
assunto e a responsabilidade para cima delas —, ao as.
recusarmos a possibilidade de provocar o aborto Em primeiro lugar, porque a chamada «cultura jo-
para desfazer o que foi feito estamos a admitir que, vem» - hoje disseminada por adultos semi-educados,
em qualquer relação sexual que junte óvulos com sobretudo na televisão - é um permanente convite à
espermatozóides, há sempre uma hipótese de gerar- turbulência. Sob o dogma relativista da igualdade,
mos um novo ser: uma hipótese remota, no tempo desapareceu a distinção entre hierarquias de compor-
dos anticoncepcionais, mas uma hipótese não nula. tamento e de autoridade. Se tudo é igual ao seu con-
De algum modo, portanto, a recusa da licitude do trário, por que não agredir um professor?
aborto provocado acaba por limitar a liberdade no Em segundo lugar, este dogmatismo igualitário foi
Página 17 de 24
10 introduzido nas escolas pelo próprio Ministério da
Educação. O dogma da igualdade foi levado tão
domingo, 10 de Março de 2002
(Gradiva, Lisboa, 2002), do professor António Ma-
nuel Baptista, merece muita atenção.
longe que na prática deixou de haver reprovações; a Para todos os que se deliciaram durante anos com os
O Jornal das Boas Notícias
autoridade do professor na sala de aula - hoje consi- seus excelentes programas de divulgação científica
derado apenas como «um amigo dos alunos» - foi na televisão, é difícil imaginar a indignação do tran-
expropriada da tradicional escala gradual de meca- quilo professor António Baptista. Mas a sua zanga
nismos dissuasores da indisciplina; e agora até temos ressoa bem alto, ao longo das páginas do pequeno
«provas de aferição» em que os alunos não têm no- livro, com um colorido e interesse bem patentes. O
tas. alvo da sua cólera é um outro livro, de um outro
Em terceiro lugar, o dogmatismo igualitário foi im- académico, também ele muito mediático, Um discur-
posto às escolas de forma totalmente autoritária e so sobre as Ciências (Afrontamento, Porto, 12.ª; ed.,
uniformizadora. Os sucessivos regulamentos «inova- 2001), do professor Boaventura Sousa Santos.
dores» foram impostos uniformemente a todas as O trabalho original de Sousa Santos (S), obra de
escolas estatais, e até, em boa parte, às escolas inde- 1987, repetidamente republicada, constitui uma refe-
pendentes. A possibilidade de adopção de diferentes rência fundamental da Sociologia da Ciência, em
projectos e estilos educativos foi drasticamente re- Portugal. Trata-se de uma lição impressionantemen-
duzida. E, como se sabe, a escolha das famílias entre te erudita, carregada de referências académicas, ci-
as escolas estatais é proibida, sendo a alocação dos tando textos de Física, Biologia, Filosofia, Epistemo-
alunos feita na base da residência. As escolas inde- logia e outras áreas, num turbilhão avassalador. É
pendentes podem ainda ser escolhidas - ainda nos este volume que o professor Baptista vem agora
autorizam essa escolha - mas os pais pagam aí a atacar de forma violentíssima, escrevendo um livro
dobrar: pagam as propinas dos seus filhos e pagam (B) que curiosamente tem exactamente o dobro das
nos impostos as propinas dos filhos dos outros. páginas do texto que comenta.
Por outras palavras: a partir de cima, o dogmatismo O problema explica-se em poucas palavras. Segundo
igualitário destruiu a liberdade das escolas, sobretudo a escola pós-moderna e o seu representante portu-
estatais, para adoptarem diferentes estilos educativos guês, Sousa Santos, depois da revolução de Einstein,
e das famílias para escolherem entre eles. Fazendo Planck, Gödel e outros, no século XX, dá-se "a crise
uso de uma autoridade central sem freios nem con- do paradigma dominante" (S, p. 23; cf. B, p. 61), na
trapesos, a burocracia central destruiu os mecanis- ciência moderna, pondo em causa os velhos concei-
mos espontâneos e descentralizados que poderiam tos de rigor, medição, simultaneidade e causalidade
ter permitido repor gradualmente a autoridade nas em que se baseava toda a ciência. Nasce uma atitude
escolas: a concorrência entre escolas, as boas e as nova. "Em vez da eternidade, a história; em vez do
más, as ordeiras e as desordeiras, as pacíficas e as determinismo, a imprevisibilidade; em vez do meca-
violentas. Este controlo dogmático central foi mes- nicismo, a interpenetração, a espontaneidade e a
mo ao ponto de, até Agosto do ano passado, o Mi- auto-organização; em vez da reversibilidade, a irre-
nistério da Educação ter mantido secretos os resul- versibilidade e a evolução; em vez da ordem, a de-
tados das escolas nos exames nacionais. sordem; em vez da necessidade, a criatividade e o
Compreende-se agora porquê: o dogmatismo iguali- acidente." (S, 28; B, 63).
tário e autoritário receava ser posto à prova através Perdem-se, assim, segundo a visão pós-moderna, as
dos resultados que realmente produz - e não da de- características de solidez e confiança que a ciência
magogia sobre igualdade, «auto expressão» e «auto garantia. A teoria da relatividade, a mecânica quânti-
estima». ca, a incerteza de Heisenberg levam os pós-
Mas a notícia do EXPRESSO interrompeu o pesa- modernos a relativizar todas as coisas. Já não há
delo dogmático e permitiu que a realidade nua e crua rigor, certeza: tudo é contingente, inseguro, discutí-
voltasse ao de cima: as escolas estão a ficar ingover- vel. Assim, as ciências exactas passam a ser incertas e
náveis. Seria talvez boa altura para romper com o fluidas e há uma aproximação das várias disciplinas,
dogmatismo e devolver às escolas e às famílias a num todo holístico. "À medida que as ciências natu-
liberdade de escolherem fugir aos dogmas das teorias rais se aproximam das ciências sociais, estas aproxi-
da educação. mam-se das humanidades." (S, 43) É por isso que os
pós-modernos falam de coisas como "teatro molecu-
A formalização do disparate lar" (S, 45), "democracia nuclear" (S, 41), "natureza
João César das Neves
In: DN, 020218
política da matemática" (B, 44) e "perversões ma-
Acaba de ser publicado entre nós um volume insóli- chistas" na ciência (B, 30).
to. Trata-se de um livro sobre outro livro, uma vasta O professor António Baptista, no seu volume de
denúncia cultural, uma polémica violenta sobre te- crítica, limita-se a afirmar o óbvio: o rei vai nu. Estas
mas científicos. Todas estas coisas são raras num elucubrações pós-modernas do professor Sousa
país de brandos costumes e interesses românticos. Santos e colegas são um disparate pegado, sem qual-
Por isso, a edição de O discurso pós-moderno con- quer sentido científico, filosófico ou sequer lógico. A
tra a Ciência - Obscurantismo e irresponsabilidade escola não compreende os teoremas que cita e dis-
Página 18 de 24
10 torce os modelos que comenta. Einstein não diz o
que se lhe atribuiu e a Física Quântica não significa
domingo, 10 de Março de 2002
rio, baseia- se no aparente movimento anual do sol
relativamente à Terra. A duração do ano deveria
nada do que dizem dela. O apregoado novo para- coincidir com o tempo que o Sol demora a dar uma
O Jornal das Boas Notícias
digma é um tecido de confusões, extrapolações, volta completa à esfera celeste, isto é, retornar ao
dislates e lugares-comuns, criando uma monstruosi- mesmo ponto no céu em relação às constelações do
dade de "obscurantismo e irresponsabilidade", com Zodíaco.
o único fim de minar a confiança na ciência. Assim, o ano padrão era formado por 365 dias, dis-
O elemento central que subjaz a toda a questão é um postos em 12 meses. Como a trajectória do Sol é
supino desrespeito pela realidade. O pós- completada em um pouco mais que 365 dias foi
modernismo possui uma ideologia e impõe-na, inde- introduzido a cada quatro anos o ano bissexto, com-
pendentemente da verdade dos factos. Se as coisas posto por 366 dias.
não são como lhe agrada, distorce-as, para as colar à Seriam bissextos os anos diviseis por 4, com o dia
doutrina. Esta é a atitude do relativismo contempo- extra a ser colocado após o dia 23 de Fevereiro.
râneo, em todos os campos, aqui em aplicação ao No entanto, os cálculos sobre a duração do ano não
elemento mais rigoroso e formal, a ciência. Como estavam completamente correctos, já que indicavam
sempre, o resultado é estéril e tonto. O próprio pro- um ano de 365,25 dias (365 dias e 6 horas), diferindo
fessor Sousa Santos refere a inanidade e vacuidade do ano trópico (solar) em mais 11 minutos e 14 se-
das suas elucubrações: "Nenhum de nós pode visua- gundos.
lizar projectos concretos de investigação que corres- A diferença representa um excesso de 3 dias em 400
pondam inteiramente ao paradigma emergente que anos, por isso, no século XVI, este pequeno erro
aqui delineei." (S, 58; B, 84). tinha-se já acumulado em 11 dias, estando o calendá-
Mas há um outro elemento, muito mais sinistro, em rio demasiado adiantado relativamente ao ano solar.
tudo isto. Como aponta o professor Baptista (B, 50), Por exemplo, o equinócio da Primavera de 1582, que
esta atitude pós-moderna é dominante no ensino, e, deveria acontecer a 21 de Março, ocorreu a 11 de
sobretudo, na formação de professores. Março, um desfasamento temporal com consequên-
Os nossos filhos são educados por pessoas a quem cias nas práticas religiosas cristãs, uma vez que este
tentaram ensinar estes disparates, como verdades equinócio fixava a data da Páscoa.
indiscutíveis. Existe, aqui, um fenómeno semelhante Para resolver este problema, o Papa Gregório XIII
à mecânica quântica. Quando o observador atento decretou em 1582 uma bula que estabelecia a modi-
olha para as teorias pós-modernas, elas colapsam no ficação do calendário, seguindo a orientação de vári-
disparate; mas, enquanto não observadas, vivem os astrónomos católicos, entre os quais Luigi Giglio.
num estatuto difuso, absorvidas como verdade abso- A bula atribuía ao ano uma duração mais exacta de
luta, em muitos meios. Esta é uma das principais 365,2425 dias (365 dias, 5 horas, 49 minutos e 12
razões do desastre educativo nacional. segundos), excedendo a realidade em cerca de 3 dias
naohaalmocosgratis@vizzavi.pt por cada 10.000 anos (o ano solar tem 365 dias, 5
horas, 48 minutos e 46 segundos).
O ralo do tempo segundo o Papa Gregório O calendário adopta igualmente uma regra para fixar
XIII a Páscoa, de modo a que ela nunca caia depois de 25
In: Lusa 22 Fev-09:00 de Abril.
A rotina imposta pelo calendário raramente é questi- Assim, a festividade (a base para o cálculo de todas
onada, mas a data de hoje é a que se sabe porque o as outras festas móveis religiosas do calendário cris-
papa Gregório XIII instituiu há 420 anos uma nova tão) comemora-se no primeiro domingo de Lua
forma de contar o tempo. cheia do Outono, no Hemisfério Sul.
A 24 de Fevereiro de 1582, o papa estabeleceu uma Para corrigir novamente os problemas das fracções,
reforma crucial com a sua Bula Inter Gravissimas, as regras ditavam que os anos passariam a ser bissex-
através da qual tentava corrigir o erro existente entre tos apenas quando diviseis por quatro, mas não por
o ano solar (intervalo de tempo que a Terra leva para 100, no entanto se fossem diviseis por 400 voltariam
transladar em redor do Sol) e o calendário juliano a ser bissextos (1996 e 2000 foram bissextos, mas
(em vigor na altura). 1900 não).
O calendário vigente hoje no mundo ocidental é Outra das reformas impostas passou pela alteração
ainda o proveniente dessa reforma, que faz coincidir da contagem dos dias do mês, que passou a ser ca-
o início da contagem do tempo, o ano 1, com o racterizada por números cardinais (1,2,3) e não pela
nascimento de Jesus Cristo. ordenação romana de kalendae, nonas e idus.
Antes da criação do calendário gregoriano vigorava Os 11 dias acumulados foram suprimidos, tendo-se
o calendário juliano, instituído pelo imperador Júlio considerado o dia seguinte a 04 de Outubro de 1582
César (100-44 aC), que adoptava a época da funda- como a data de 15 de Outubro de 1582, para que o
ção de Roma (753 aC) para o início da contagem do início de cada estação do ano ocorresse na época
tempo. certa.
O calendário juliano, assim como o actual calendá- A aprovação da reforma foi imediata (04 de Outubro
Página 19 de 24
10 de 1582) em Portugal, Espanha e Roma. França e
Holanda adoptaram o novo calendário em Dezem-
domingo, 10 de Março de 2002
cias do percurso existencial de cada um, leal e res-
ponsável perante a própria consciência, o outro e os
bro de 1582, a Áustria em 1583, os Estados Católi- filhos de ambos.
O Jornal das Boas Notícias
cos da Alemanha e Suíça em 1584 e na Polónia em Já quase a terminar a sua intervenção, o Papa inter-
1586. pela os profissionais do foro, pedindo-lhes que tudo
No entanto, por motivos históricos, religiosos ou façam para ajudar os cônjuges que atravessam mo-
culturais, a passagem para o novo calendário não foi mentos de dificuldade no seu casamento.
tão célere noutras regiões do mundo. Fala primeiro aos juízes e exorta-os a aproveitar o
Na Grécia, por exemplo, o calendário gregoriano só ensejo do caso concreto que têm de resolver para
foi aprovado em 1923, o mesmo acontecendo na auxiliar o casal a dirimir o conflito que o levou à
Turquia. barra do tribunal. Se o não conseguem, a missão de
Aliás, ainda hoje, apesar do calendário gregoriano ser que estão investidos — administrar a justiça segundo
o adoptado em quase todo o mundo, coexistem com as leis do Estado — não lhes permitirá invocar a
ele outras formas de contar o tempo, como o calen- objecção de consciência. Devem, portanto, preen-
dário muçulmano, o judeu, ou o iraniano. chidos os requisitos legais, declarar o divórcio dos
SCS interessados.
No último parágrafo do discurso, João Paulo II diri-
Já não se pode defender a família?! ge-se aos advogados, orientando-os sobre os seu
Cristina Líbano Monteiro
(Assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra)
papel nesta reconquista da estabilidade matrimonial.
Coimbra, Janeiro de 2002 Se reconhecem o divórcio como um mal, ainda que
A polémica levantada à volta do apelo de João Paulo banalizado, hão-de procurar evitá-lo. Como profissi-
II a que os advogados pusessem de lado as causas de onais liberais, não precisam de invocar o direito à
divórcio teve na origem o último parágrafo do dis- objecção de consciência para seguir sempre e só os
curso que o chefe do Estado vaticano proferiu na casos que entenderem dever tomar para si. O Papa
inauguração do ano judicial. Uma alocução de quatro não lhes diz que pendurem na porta do seu escritó-
páginas, proferida em contexto semelhante àquele rio uma tabuleta com a inscrição: "Não atendo cau-
em que o Presidente da República portuguesa se sas de divórcio". Espera deles uma actuação positiva
dirigiu aos profissionais do nosso foro. Jorge Sam- de pacificação das pessoas que atravessam crises
paio falou das suas preocupações em relação ao matrimoniais, o que obviamente implica atenderem-
estado da justiça em Portugal: escolheu os pontos nas com a maior solicitude, avisando-as porém que
que entendeu convenientes. João Paulo II falou das não esperem deles uma simples ajuda técnica e neu-
suas preocupações quanto à situação dos tribunais tra para a rápida obtenção de uma ruptura civil do
canónicos que se ocupam da verificação da validade vínculo que as une. Hão-de desempenhar, se as par-
ou nulidade dos vínculos matrimoniais que as partes tes interessadas anuirem, um papel de advogados da
lhes apresentam: elegeu um ponto que, em seu en- estabilidade matrimonial. Tantos lho agradecem
tender, merece ser ponderado, dada a importância de depois. Caso não exista abertura para essa tentativa
que se reveste para os casais, os filhos destes e o de salvaguarda da família já formada, o advogado —
bom andamento de todas as comunidades nacionais afirma o Papa — deverá informar com lealdade que
— afinal, os cidadãos a cargo do Bispo de Roma não se presta a colaborar num fim que considera
encontram-se espalhados pelos cinco continentes. contrário, não aos seus próprios interesses, mas ao
O ponto escolhido pelo Papa no seu discurso de modo como vê os interesses desses seus potenciais
abertura do ano judicial foi o da necessidade de fa- clientes, dos filhos de ambos (se os houver) e da
vorecer a estabilidade do vínculo matrimonial. Trata- comunidade a que todos pertencem.
se de uma apologia das vantagens de uma cultura Não desconhece o Papa os casos excepcionais em
que recolha esse valor, tendo como contraponto os que o divórcio é o único modo — perante a lei civil
problemas que a mentalidade divorcista traz consigo. de determinado Estado — de obter efeitos jurídicos
Considera Karol Wojtyla que vale a pena contrariar a legítimos e necessários (assegurar certos direitos, o
onda dos casamentos precários, ainda que pareça cuidado dos filhos ou a defesa do património, com
tarefa hercúlea ou impossível. Não obriga ninguém a palavras do nº 2383 do Catecismo da Igreja Católi-
fazê-lo: o casamento é um acto de suprema liberda- ca); será, por exemplo, o caso dos ordenamentos que
de. Mas chama a atenção dos que reparam na pro- não conhecem a figura da separação de pessoas e
fundidade e na beleza do compromisso adquirido bens, que faz cessar a comunhão de vida sem atingir
para a necessidade de não desanimar, quando vêem o vínculo matrimonial. E refere essas hipóteses,
o seu ideal contrariado pela esmagadora maioria das excluindo-as da orientação anteriormente dada.
ordens jurídicas e considerado como peça de ar- Perpassa por toda a alocução uma ideia que vale a
queologia pela opinião pública dominante. Vale a pena sublinhar. Porventura não chega a ser formula-
pena — nisto consiste o desafio de João Paulo II — da, mas pode exprimir-se nestes termos: a atitude de
continuar a lutar por um casamento de amor exclu- rejeição legítima e fundamentada de uma lei por
sivo e forte, capaz de resistir às inevitáveis inclemên- parte de alguns membros de uma comunidade jurídi-
Página 20 de 24
10 ca (o caso mais notório é o da objecção de consciên-
cia) não pode entender-se como um refúgio para
domingo, 10 de Março de 2002
como unidades de peso e volume. Posteriormente,
num vocabulário Latim-Espanhol de 1492, Stabile
algumas consciências atribuladas, que desse modo se encontrou o termo «arroba» como tradução caste-
O Jornal das Boas Notícias
desembaraçam de um problema incómodo; numa lhana do latim «amphora». A ânfora e a arroba, con-
sociedade atenta, esse gesto reveste-se de uma pode- cluiu o investigador italiano, estariam na origem da
rosa carga objectiva, leva os outros a interrogarem-se estranha letra retorcida.
sobre as leis que têm. O encadeamento dos factos é fascinante, mas há
Concluindo: está-se, ao fim e ao cabo e tão-só, pe- pontos obscuros. A palavra «arroba» não tem qual-
rante um problema de coerência. Do Papa, com o quer relação com «ânfora», pois vem do árabe «ar-
depósito doutrinal a que deve fidelidade. Do Papa, ruba'a», designando «um quarto» ou «a quarta parte»,
com a sua missão de alertar a comunidade dos ho- como se aprende no Dicionário Etimológico de José
mens para o que considera a progressiva perda do Pedro Machado. Trata-se de uma unidade de peso
genuíno sentido da família, com todas as consequên- que equivale a 14,788 quilogramas e que habitual-
cias que daí derivam. Dos advogados, com o seu mente se arredonda para 15kg. Podia ser que uma
papel de defensores do que é justo, que passa, quan- ânfora cheia de vinho tivesse esse peso, mas a seme-
do for caso disso, pela recusa de se tornarem meros lhança fica por aí.
técnicos ao serviço de qualquer interesse. No século XVII o mesmo símbolo reapareceu, mas
Que esta coerência deixe desamparadas as pessoas com outro significado. Utilizava-se para abreviar a
que pretendem divorciar-se, custa a crer. A julgar preposição latina «ad», que significa «para», «em»,
pela onda de solidariedade que se gerou à sua volta «a», e que se usava para introduzir os destinatários
(na qual curiosamente não apareceu nenhum candi- das missivas. Condensava-se o «a» e o «d», num úni-
dato ao divórcio a protestar contra a injustiça a que co carácter. É a chamada ligatura. O Dicionário da
o Papa pretendia condená-lo), o problema não che- Academia não inclui esse termo (mas também ignora
gará a colocar-se. palavras comuns como «robalo»). Socorre-nos o
Afinal, a questão não é a que parece, mas sim outra: nosso amigo brasileiro Aurélio, que diz que ligatura é
a da dificuldade que algumas pessoas têm em respei- a «reunião, num só tipo, de duas ou mais letras liga-
tar quem se rege por valores diferentes dos seus (e das entre si, por constituírem encontro frequente
que não atentam contra os autênticos direitos de numa língua». Nesse mesmo dicionário da língua
ninguém) e tem a ousadia de os defender. Ou, talvez portuguesa confirma-se o símbolo @ como abrevia-
melhor, a da inquietação muda — disfarçada de tura de arroba.
ruidosa indignação exterior — que teima em subsis- O misterioso @ continuou a ser utilizado até ao
tir no espírito dos mais sensíveis: não haverá algo de século XIX, altura em que aparecia nos documentos
autêntico e de profundamente atractivo naquele ideal comerciais. Em inglês lia-se e lê-se «at», significando
de amor mais forte do que a morte, capaz de renas- «em» ou «a». Quem percorra as bancas de fruta ou os
cer das próprias cinzas, que João Paulo II se empe- mercados de rua norte-americanos vê-o frequente-
nha em não deixar desaparecer? mente. Os vendedores escreviam e continuam a
Coimbra, Janeiro de 2002 escrever «@ $2» para significar que as azeitonas se
vendem a dois dólares (cada libra, subentenda-se).
O passeio aleatório Para eles não se trata de nenhuma moda: sempre
Nuno Crato
In: Expresso, 020302
viram aquele símbolo como a contracção das letras
De onde vem o misterioso sinal @, a que os portu- de «at».
gueses chamam «arroba», os norte-americanos e Na máquina de escrever Underwood de 1885 já
ingleses «at», os italianos «chichiola» (caracol) e os aparecia o @, que sobreviveu nos países anglo-
franceses «arobase»? Porque razão foi ele escolhido saxónicos durante todo o século XX. O mesmo não
para os endereços de correio electrónico? Na verda- se passou nos outros países. No teclado português
de, não conhecemos ao certo a origem deste miste- HCESAR, por exemplo, que foi aprovado pelo De-
rioso símbolo. Nem estávamos preocupados com o creto-lei 27:868 de 1937, não existe lugar para o @.
problema, até que ele começou a entrar no nosso Por isso, quando o símbolo reapareceu nos compu-
dia-a-dia e foi preciso arranjar-lhe uma designação. tadores, ele tinha já um lugar cativo nos teclados
A princípio, os portugueses chamavam-lhe «caracol», norte-americanos, por ser aí de uso frequente. Nos
«macaco» ou outro nome claramente inventado. nosso teclados foi acrescentado à pressa e de forma
Depois, houve quem reparasse que a Grande Enci- pouco natural: é preciso pressionar simultaneamente
clopédia Portuguesa e Brasileira dizia tratar-se do Ctrl+Alt+2 para o fazer aparecer.
símbolo de arroba, pelo que esse nome pegou. Quando o correio electrónico foi inventado, o enge-
Que terá a arroba a ver com esse sinal? Não se sabe nheiro Ray Tomlinson, o primeiro a enviar uma
ao certo, mas há pouco mais de um ano, o investiga- mensagem entre utilizadores de computadores dife-
dor italiano Giorgio Stabile descobriu um documen- rentes, precisou de encontrar um símbolo que sepa-
to veneziano datado de 1536 onde esse símbolo rasse o nome do utilizador do da máquina em que
aparecia. Estava aí a representar ânforas, utilizadas este tinha a sua caixa de correio. Não queria utilizar
Página 21 de 24
10 uma letra que pudesse fazer parte de um nome pró-
prio, pois isso seria muito confuso. Conforme expli-
domingo, 10 de Março de 2002
relativamente ao ano anterior.
"Espero que ninguém me ofereça flores, em particu-
cou posteriormente, «hesitei apenas durante uns 30 lar a mimosa, neste 8 de Março. Nos anos 90 falou-
O Jornal das Boas Notícias
ou 40 segundos... o sinal @ fazia todo o sentido». se muito, mas, de facto, as mulheres não deram pas-
Estava-se em 1971 e esses 30 ou 40 segundos fize- sos em frente no que diz respeito à política ou situa-
ram história, mas criaram um problema para os paí- ções de poder, nem sequer na facilidade de conciliar
ses não anglo-saxónicos. Não foi só nos teclados, foi família e trabalho. Cada ano que passa, pergunto-me:
também na língua. "mas quem me obriga?"", diz Gianna Martinengo,
Em inglês, «charles@aol.us» entende-se como empresária e membro da direcção da Assolombardo,
«Charles em aol.us», ou seja, o utilizador Charles que a mais importante associação italiana de empresários.
tem uma conta no fornecedor AOL, situado nos A lei "8 de Março", sobre a conciliação entre o
Estados Unidos. Mas em português não soa bem ler trabalho e a família, estabelece regras que dão o
«fulano@expresso» dizendo fulano-arroba-expresso. direito à mãe de ficar em casa durante cinco meses
Nem tem muito sentido. Mas qual será a alternativa? pagos e outros seis facultativos e a possibilidade da
Uma solução seria seguir o inglês e dizer «at». Outra escolha do pai para ausência no trabalho, durante
ainda seria dizer «a-comercial», como nos princípios cinco meses. Mas na Lombardia, em 2000, apenas
do século XX se chamava a esse símbolo no nosso 182 pais pediram a licença de paternidade. Para além
país. Talvez o melhor fosse utilizar «em». Mas haverá na terra de Umberto Bossi, são pouquíssimas as
disso,
soluções mais imaginativas. Quem quiser gastar o empresas que adoptaram medidas para conciliar o
seu latim pode proclamar «ad», rivalizando em erudi- trabalho e as exigências familiares.
ção com o mais sábio dos literatos. Ou surpreender Mas há excepções, como Gregório Grasso, guarda
toda a gente, anunciando uma «amphora» no seu municipal, de 40 anos, pai de dois filhos e que, após
endereço. o nascimento do último, decidiu ser ele a ficar em
ncrato@mail.expresso.pt casa, tomando conta do recém-nascido e ocupando-
se das tarefas domésticas. "Todas as minhas amigas
Noticias de Deus invejam-me, porque o meu marido ajuda em casa,
Luís Pedro de Sousa
In: Ecclesia, 020306
toma conta das crianças, faz tudo e até melhor do
A televisão checa passou a ter um programa dedica- que eu", explica a mulher de Grasso, Maria Luiza, de
do à informação religiosa. “Noticias de Deus”, é o 37 anos, empregada numa loja de roupa.
nome do programa, que todos os dias ocupa cerca "Esta situação não tem nada de especial. Afastei-me
de 10 minutos do segundo canal da televisão checa. do trabalho só por um tempo, o necessário para
“Noticias de Deus”, é um projecto cristão, que pas- ajudar em casa a seguir ao nascimento do mais pe-
sou a levar até aos ouvintes várias temas, entre os queno. Tem-se revelado uma experiência muito
quais um comentário sobre a actualidade. Aos Do- positiva. Descobri que ser pai é óptimo, gosto mes-
mingos e dias de festas religiosas a televisão transmi- mo muito. Os trabalhos caseiros não são um pro-
te uma missa em directo. blema e os pais estabelecem uma relação muito es-
A iniciativa deste projecto foi entregue a uma agên- pecial com os filhos. Antes, só queriam a mãe. Ago-
cia muito activa nos meios de comunicação daquele ra, também já sabem que é o mesmo ser a mãe ou
país, a “CORONA”. A edição do programa conta eu", adianta, todo contente, Gregório Grasso. E
com o apoio de frades dominicanos, que fazem a acrescenta:
supervisão dos conteúdos dos programas. "No trabalho, houve muitos que faziam troça e que
me perguntavam, quando me viam, quem é que
Mães da Lombardia optam por ficar em realmente usava calças em minha casa. Outros dizi-
casa am que era um expediente para não trabalhar, mas
MANUELA PAIXÃO (na Lombardia) posso garantir, agora, quem casa se trabalha mes-
In: Diário de Notícias - 8 de Março mo."
Não querem mais flores, desfiles pelas ruas, ramos
de giesta amarela, como homenagem ao Dia da Mu- Em defesa da ciência
lher, nem sequer confraternizações só entre mulhe- ANTÓNIO BAPTISTA
res, para celebrarem o 8 de Março: no Norte indus- Autor de uma nova obra de crítica à filosofia de Boaventura de Sousa
trializado de Itália, sobretudo em Milão, capital fi- Santos, explica a razão pela qual leva tão a sério o combate ao pós-
nanceira do país, o que elas querem é acompanhar as modernismo.
Entrevista de Nuno Crato
famílias. In: Expresso Revista, 020309
Perante o dilema de dar tempo aos filhos, à casa e ao António Manuel
marido ou conseguir conciliar esta faceta com a Baptista é um físico
profissão, muitas mulheres têm preferido, nos últi- português muito
mos anos, ficar em casa. São quase seis mil as novas conhecido.Professor
mães da região da Lombardia que, em 2001, se des- universitário, autor
pediram dos empregos, depois de uma primeira de programas de
maternidade, o que traduz um aumento de 800% televisão e de rádio,
Página 22 de 24
10 escreveu vários livros sobre Ciência. O seu último
trabalho é uma crítica a «Um Discurso Sobre as
domingo, 10 de Março de 2002
comensurável com a sua evidente autoconfiança
intelectual. Enfim, nada que ele não pudesse ter
Ciências», um livro do sociólogo Boaventura de corrigido facilmente, consultando colegas do Depar-
O Jornal das Boas Notícias
Sousa Santos que se encontra muito divulgado no tamento de Física da Universidade de Coimbra. Mas
meio universitário. O novo livro do físico português, melhor seria ter-se lembrado de um conselho filosó-
acabado de sair a lume sob a chancela da Gradiva, é fico de Wittgenstein, e ficar calado.
uma crítica directa e muitas vezes violenta às teses Considera essas incorrecções em Física tão im-
do sociólogo. Intitula-se, significativamente, «O portantes que o levassem a escrever um livro tão
Discurso Pós-Moderno Contra a Ciência: Obscuran- polémico?
tismo e Irresponsabilidade». Sendo, entre nós, as Não foi fundamentalmente isso. Depois de ler todo
polémicas puramente ideológicas mais raras do que o livro com mais atenção - e devo dizer que foi uma
se desejaria, é de registar com interesse a saída de um experiência nada agradável, entre irritação e perple-
livro crítico sobre um tema tão importante como o xidade - comecei por pensar no efeito que as enor-
significado e o papel da ciência na vida moderna. midades que iam desfilando página a página poderi-
am ter entre nós, com a nossa frágil cultura e tradi-
Por que razão escreveu este livro? ção científicas. Daqui nasceu o propósito de, publi-
Deixe-me expor a moral antes de contar o conto. camente, me manifestar contra o que considero uma
Não se trata de uma discussão das que se dizem atitude obscurantista e irresponsável perante o que é
«académicas», onde se chocam apenas diferentes a ciência. Para mais vinda de um pessoa bastante
visões do mundo. Preocupam-me os efeitos do ape- visível no nosso universo cultural, com influência
lo romântico que alguns escritos pós-modernos nos seus alunos e na sociedade portuguesa em geral.
podem exercer no sistema educativo e na atitude do Era necessário denunciar o que me pareciam ser
público face ao progresso, nomeadamente o pro- graves perversões culturais com consequências gra-
gresso científico. Agora, para o princípio de uma ves.
resposta. Há tempos, perguntaram-me o que pensa- Perversões culturais com consequências gra-
va do que o prof. Boaventura de Sousa Santos dizia ves!?
sobre o Princípio da Incerteza de Heisenberg no seu Repare: entre as forças culturais modeladoras da
livro «Um Discurso sobre as Ciências». Não conhe- sociedade actual, a ciência é uma das principais se-
cia o livro e verifiquei, com surpresa, que ele era um não mesmo a principal. As tecnologias derivadas dos
êxito editorial no nosso país (consegui um exemplar conhecimentos científicos condicionam o nosso
da 12ª edição publicada em 2001). Fiquei estupefacto viver e sobrevivência. Para o nosso país, em particu-
com o que li, particularmente quando verifiquei que lar, o problema do desenvolvimento científico e
era incorrecta a citação de um livro de Heisenberg tecnológico vai condicionar o que poderemos ser na
que, por acaso, possuía. Traduzia-se incerteza por comunidade europeia, e temos de começar por ven-
erro e, ainda por cima, falava-se de erros de medi- cer condicionalismos culturais que herdámos há
ções, o que para além de ser uma expressão incorrec- séculos. Assim, é muito importante criar uma atmos-
ta (mal menor), atraiçoa por completo o significado fera apropriada para o desenvolvimento científico e
científico do Princípio. Havia interesse do autor em tecnológico, que vai desde o sistema de ensino até às
falar de «erros» e depois (isto sim, é que era grave) instituições científicas e tecnológicas. O que se diz
introduzir por qualquer forma a influência do cha- no livro não contribui em nada para isso. Pelo con-
mado «observador» e a sua consciência no íntimo trário.
das chamadas leis da natureza. Trata portanto de rebater as afirmações e con-
As confusões a propósito do Princípio da Incer- clusões do livro?
teza são muito comuns... A natureza das afirmações de Boaventura Sousa
É verdade, mas soou-me logo um sinal de alarme e Santos são tais e tão chocantes que custa-me com-
fui procurar no livro referências ao princípio da preender o fenómeno. Pareceu-me que - aparte as
relatividade de Einstein, pois ele também atrai per- incorrecções de física onde pretende alicerçar o seu
versamente alguns filósofos e sociólogos. E lá esta- discurso -, simplesmente trazer à luz as afirmações
vam... A certa altura, dizia Boaventura de Sousa do livro deveria ter o efeito que acontece a alguns
Santos, e vou ler: «Einstein constitui o primeiro vírus quando expostos ao ar e à luz do dia: inacti-
rombo (sic) no paradigma da ciência moderna, aliás vam-se. Este o principal motivo do livro. Mas é
mais importante do que o que Einstein foi subjecti- muito difícil uma argumentação racional quando o
vamente capaz de admitir». O Einstein como rombo autor se limita a projectar descuidadamente e sem
é metáfora curiosa, mas ainda se acrescenta que hesitação as suas mensagens como crenças, dispen-
Einstein não foi capaz de o «admitir subjectivamen- sando qualquer apoio racional ou casuístico. Assim,
te» (sic!)... Os sinais de alarme aumentaram, pois porque é que «todo o conhecimento científico-
Boaventura de Sousa Santos mostra a seguir que não natural é científico social»? Por que é que «todo o
compreendeu o problema da simultaneidade em conhecimento é local e total»? Por que é que «todo o
relatividade restrita, uma ignorância manifesta, só conhecimento é autoconhecimento»? E por aí adian-
Página 23 de 24
10 te, e só para lhe dar uns poucos exemplos do que se
fala no livro. São conclusões lançadas sem apoio
domingo, 10 de Março de 2002
discurso que se diz pós-moderno. O que é o
pós-modernismo?
argumentativo, sem alicerces intelectuais coerente- Não há uma definição oficial. Um dicionário de
O Jornal das Boas Notícias
mente apresentados. Parece que está a tirar ilações filosofia dizia, ironicamente espero, que «este termo
de conhecimentos por todos partilhados, a todos não tem significado oficial, use-o tanto quanto pos-
evidentes, ou então que acredita arrogantemente na sível». Julgo que o termo pós-moderno foi introdu-
sua autoridade indiscutível, pois que não avança zido em 1939 pelo historiador britânico Arnold
argumentos precisos em seu apoio. Diz-nos, por Toynbee, que considerava que o período moderno
exemplo, que continuamos a fazer as perguntas de da história terminara entre 1850-1875. Outros inici-
Rousseau sobre a ciência (para este uma actividade am a era moderna no Renascimento ou no Ilumi-
nefasta, claro!) sobre a virtude e a felicidade, etc., e, nismo e terminam-na diversamente, por exemplo no
quando diz que todas estas perguntas são ainda actu- derrube do muro de Berlim. Outros ainda, como
ais, está a aceitar que a ciência tem algo que ver di- Derrida e Aaron Gare, fogem da questão temporal e
rectamente com a conquista da virtude ou da felici- dizem que o que caracteriza o pós-modernismo é
dade, assuntos que, por definição, não podem ser uma descrença geral no progresso. É um termo que
tratados pela ciência. aparece mais visível a partir de 1980 numa grande
No seu livro, critica também Boaventura de variedade de disciplinas, incluindo arte, arquitectura,
Sousa Santos por este achar que a unificação do música, cinema, sociologia, comunicações, moda,
conhecimento se faz sob a égide das ciências ciência, tecnologia, etc. Por vezes tem uma conota-
sociais. Pensa, pelo contrário, que ele se deve ção política, parece que iniciada com Frederic Jame-
fazer sob a égide das ciências naturais? son, que associa o modernismo e pós-modernismo a
Creio que nessa pergunta reside um foco de um mal- estádios do capitalismo. Só me interessa o que os
estar que até este livro de Boaventura de Sousa San- filósofos e sociólogos que se declaram pós-
tos reflecte. Creio que estão numa minoria significa- modernos escrevem sobre ciência (e desconhecia a
tiva os cientistas que aderem ao cientismo, ou seja, a «contribuição» portuguesa para o debate). Não há,
doutrina de que todo o conhecimento ou é científico que eu saiba, o que se poderia considerar uma dou-
ou não existe. Poderíamos mesmo dizer que o mais trina oficial. E, depois, acontece muitas vezes, quan-
importante para o homem não pertence à ciência, do se denunciam certas opiniões mais clamorosa-
pois esta não pode dar respostas às questões morais. mente disparatadas, logo aparecem pessoas a dizer
Pensa então que a ciência tem um estatuto dife- que se consideram pós-modernos mas que de ne-
rente... nhuma forma aceitam essas opiniões.
A ciência, a que chamam ciência natural (como se Se este debate é tão importante como refere, por
houvesse outra), nada tem a ver, por definição, com que razão é que o livro do prof. Boaventura de
a sociologia e com outras disciplinas que se englo- Sousa Santos só agora foi directamente critica-
bam nas chamadas ciências culturais. Os seus resul- do?
tados poderão ter consequências sociais assim como Estou-me a recordar que uma vez pediram ao gran-
os temas de que se ocupa (mas não os resultados em de físico Wolfgang Pauli um parecer sobre um traba-
si mesmos, entenda-se). Claro que o que se estuda lho de um colega. Ele, depois de o ler, recusou um
depende de muitos factores sociais condicionantes, comentário dizendo: «O trabalho nem sequer está
mas não, repito, os conhecimentos a que se chega. errado.» Para lá dos erros que aponto no meu livro,
Mas a ciência também pode errar... poderia dizer-se que o livro de Sousa Santos «nem
Claro! E a ciência coabita confortavelmente com o sequer está errado». Está para lá de qualquer correc-
erro. Mais, o erro é uma das forças mais importantes ção possível. Mas pode ser que existam outras razões
para o progresso da ciência, pois a ciência pode inte- a que os sociólogos melhor poderiam responder,
riorizar os erros que os cientistas cometem sem se além da distracção de que me penitencio. A indife-
destruir. Pelo contrário, reanima-se cada vez que se rença poderá justificar também esse silêncio. Haverá
corrige. Gostaria de pôr os «erros» da ciência entre ainda outras explicações ligadas à nossa cultura par-
aspas, pois que é um espécie diferente dos erros que ticular: prestígio do autor, receio de consequências
se podem cometer nas disciplinas não científicas. É profissionais nos casos académicos ou, simplesmen-
um «erro» neutralmente qualificado, não dependente te, o sentimento de não valer a pena enfrentar uma
daquilo que somos como homens circunstanciais figura pública, com poder académico (não sei se
que todos somos, (tal como o conhecimento cientí- político). Um problema, afinal, de custo e eficácia,
fico, os pós-modernos, aliás). Pode ser detectado intelectual e moralmente qualificados. Mas é pena
demonstravelmente tal como as verdades científicas. este silêncio cúmplice, pantanoso, pois se há pro-
Os mesmos métodos e técnicas que servem para blemas importantes no nosso tempo, o discurso
detectar as verdades servem para denunciar os erros. sobre a ciência é um deles.
Os cientistas erram, de maneira mais evidente, mas
também diferentemente, se quiser, do que os outros.
O discurso de Boaventura Sousa Santos é um
Página 24 de 24

Você também pode gostar