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Recensão Crítica

de
“Currículo e
Tecnologia Educativa –
Volume I”

Julho de 2008
Referência bibliográfica do livro recenseado:

Paraskeva, João M. & Oliveira, Lia Raquel (Orgs.) (2006). Currículo e Tecnologia
Educativa – Volume I. Mangualde: Edições Pedago, Lda.

Currículo e Tecnologia Educativa – Volume I, com organização de João Paraskeva e Lia Raquel
Oliveira, consiste numa compilação de textos, produzidos por vários autores de grande relevo nas
áreas das Ciências da Educação e das Ciências da Informação e Comunicação.
Esta obra apresenta-nos algumas considerações importantes sobre a inserção das tecnologias,
em especial dos computadores no processo de ensino-aprendizagem.
De forma a inquietar o leitor, pretende a reflexão e o questionamento sobre o papel das
tecnologias educativas nas práticas curriculares e, até que ponto, se tornam importantes na
mudança substancial dessas práticas educativas.
Através de uma linguagem coerente e concisa, demonstram a importância da tecnologia deixar
de ser um mero mecanismo de poder e de controlo e realçam a sua importância como meio de
informação e comunicação no contexto curricular, pois se existe necessidade de uma reforma, ela
deve ocorrer ao nível dos conteúdos curriculares, onde a tecnologia poderá ser uma grande ajuda.
Esta profunda mudança levanta questões fundamentais, tais como, o papel das tecnologias da
informação e da comunicação no sistema educativo e na cultura, as alterações inevitavelmente
impostas nas práticas curriculares das escolas, a sua utilização por poderes políticos e de

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segurança nacional, tendo em atenção a forma como podem ser utilizadas como meio de
consolidação de poder e de controlo das populações.
Este livro encontra-se dividido em introdução crítica e seis capítulos.
A tarefa de redigir as primeiras páginas ficou à responsabilidade dos organizadores desta obra,
que exploraram a temática Currículo e Tecnologia Educativa – Limites e Potencialidades,
desvendando assim algumas questões centrais que vão sendo exploradas ao longo dos capítulos.
Nesta introdução crítica, apresentam algumas apreciações importantes sobre a inserção das
tecnologias, em especial os computadores nas escolas, na década de 80, os quais inicialmente
serviam apenas de meros suportes às comunidades escolares, mas rapidamente abandonaram esse
estatuto para ocuparem um lugar imprescindível na organização e metodologia de funcionamento
das mais variadas instituições incluindo as escolas.
Para Goodson (1988, apud Paraskeva & Oliveira, 2006:10), a escola actual é orientada por um
currículo bastante idêntico ao currículo da escola do princípio do século passado, em que se
considerava o conhecimento como algo externo ao indivíduo e incorporado nas disciplinas e nos
manuais.
Ao longo deste primeiro volume Currículo e Tecnologia Educativa são também apresentadas
importantes ferramentas que levam à compreensão dos limites e potencialidades das tecnologias,
proporcionando uma análise que leva o leitor a compreender melhor a relação existente entre o
currículo e a tecnologia educativa com os seus diversificados instrumentos, salientando ainda,0
outros factores externos que devem ser colocados em consideração.

O primeiro capítulo desta obra, apresenta algumas questões reflexivas de E. Wayne Ross sobre
As Expectativas e os Perigos do E-learning.
Ross centra a sua abordagem em alguns aspectos interessantes da integração das tecnologias da
informação e comunicação no currículo escolar, levantando mesmo algumas questões:
- “Os computadores motivam realmente as crianças a aprender mais e melhor?”
- “Os computadores «conectam» mesmo as crianças ao mundo?”.
Salienta também a importância do pensamento crítico no que diz respeito à integração das
tecnologias no ensino, isto porque, observa-se que a educação está a tornar-se industrializada, no
sentido em que a educação se transformou em puro consumo.
Stokes (2000, ibidem, p.20) um dos defensores da tecnologia referenciado por Ross, considera
que as potencialidades do e-learning podem revolucionar a sala de aula tradicional,
proporcionando interactividade na oralidade, com a integração de processos multimédia e
promovendo debates e discussões para além das paredes da sala de aula.

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Por outro lado, há quem apresente uma opinião mais céptica com relação à integração das
tecnologias no ensino, considerando que produz uma série de efeitos negativos nas crianças,
tornando-as pessoas afastadas da natureza, da família, dos amigos, fazendo delas crianças pouco
sociáveis.
Avaliando os dois pontos de vista, concluo tal como Ross, que o mais importante é que, como
educadores se intensifique as nossas apreciações críticas ao nível do impacto que as tecnologias
possam apresentar na aprendizagem, estando sempre conscientes de que as tecnologias apresentam
benefícios e malefícios para a educação, o importante é estarmos atentos e preparados para
contornar os efeitos negativos e valorizar o uso sensato da tecnologia de modo a tirar
contrapartidas da sua utilização, questionando-nos sempre sobre qual o papel que a tecnologia
deve desempenhar nas nossas vidas.

No segundo capítulo intitulado Democracia e Educação: o Elo de Ligação em falta pode ser o
nosso abordado por John Willinsky, reflecte-se a relação entre o surgimento da Internet e a
Democratização da Informação, isto é, o livre acesso à informação por meio da Internet.
Este facto, tem alterado os conceitos de poder e conhecimento dentro das relações sociais,
políticas e educacionais, na medida em que o aluno com a disponibilidade de acesso a
variadíssima informação acaba por levar a informação para a escola, quando anteriormente ia
adquirir essa informação na escola.
Willinsky defende a criação de Bibliotecas Internacionais Públicas Online, de forma a
permitirem a Democratização da Educação. A existência de uma biblioteca livre e gratuita online,
que permita a aquisição do mais variado conhecimento, incluindo textos científicos integrais, o
que facilitaria certamente o processo de ensino-aprendizagem, contribuindo para uma maior
igualdade de oportunidades ao nível da educação em geral.
O referido autor apela ainda para que as novas tecnologias não sejam esquecidas pelos
investigadores em educação, porque se por um lado, colocam em causa a visibilidade e
credibilidade do próprio trabalho, por outro são eles os responsáveis pela criação e construção da
informação pública.

No capítulo três, Se a Tecnologia Educativa é a Resposta, Qual é a Pergunta?, o autor João


Paraskeva centra a sua abordagem na “desescolarização” e no programa homeschooling,
reflectindo sobre as consequências educacionais desta implementação.

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Segundo Paraskeva é importante compreender, neste momento em que a educação portuguesa
se encontra em “choque tecnológico”, se a tecnologia será realmente a grande solução para a crise
da educação e do currículo.
O autor orienta a reflexão do leitor, a partir de quatro pontos essenciais: a análise do neo-
centrismo radical (neoliberalismo) e das Políticas de Resignificação; o ensino doméstico -
homeschooling; a importância dos conteúdos curriculares; e a necessidade (ou não) de uma “outra
concepção de escola”.
Paraskeva tem consciência de que não existe uma fórmula única para a reforma no sistema
educativo, contudo enumera algumas convicções que acredita serem passíveis de orientar o
processo de reforma, aspectos que o projecto neoliberal não tem tido em consideração aquando da
elaboração de soluções para o ensino.
Não é possível a virtualidade resolver as desigualdades e injustiças sociais, pois estes problemas
nada têm de virtual, mas sim reais e, impulsionadores das muitas agitações sociais que se tem
vivido ao longo da história da humanidade.
Relativamente ao programa homeschooling, o autor apresenta algumas realidades da
implementação deste programa, nos Estados Unidos da América (Wisconsin), no Canadá e na
Austrália. Os grandes impulsionadores deste programa foram Raymond Moore e John Holt, nos
finais da década de 60, com perspectivas bem distintas. Considero que, o principal objectivo deste
programa é implementar a educação em casa e não na escola, sendo portanto um projecto
desenvolvido no seio familiar, de forma a adequar-se estratégias e metodologias à família e à
criança. É um programa que se caracteriza por não apresentar uma única forma de concretização,
visto que “cada família é um caso e cada criança é um facto” (ibidem, p.82) e por isso, cada
família constrói o seu projecto curricular, que vai de encontro aos interesses e necessidades
familiares.
O conceito de distância na actual “sociedade globalizada” refere-se não à distância geográfica,
mas sim à distância económica, cultural, ideológica e tecnológica. Note-se que é relativamente
fácil contactar com alguém que se encontra do outro lado do mundo, contudo a dura realidade
continuará a existir quando falamos de ricos e pobres, escolarizados e analfabetismo, diferentes
formas de pensar e agir, os que dominam as tecnologias de informação e os que nem sequer acesso
a elas têm. É portanto, fundamental que a escola contemporânea assuma a função de “provocar a
organização racional da informação e a reconstrução de concepções acríticas formadas pela
pressão social e reprodutora do contexto social, através de mecanismos e meios de comunicação
cada vez mais poderosos.” (Area, 1996, apud Coutinho, 2006:13).

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Ao longo do quarto capítulo intitulado por Mundos Weblog e Construções de uma Escrita
Eficiente e Poderosa: Atravessar com cuidado, e apenas onde os sinais o permitam, Colin
Lankshear e Michele Knobel abordam essencialmente “o propósito pedagógico de ajudar os
alunos a tornarem-se escritores eficientes e poderosos” com a ajuda de um dos serviços mais
popularizados da Web 2.0, os Weblogs. Os autores deste capítulo começam por apresentar
uma breve visão do blogue como ferramenta da Web e a sua crescente popularidade nestes
últimos anos. Também reflectem sobre as dinâmicas de poder da blogosfera e como estas se
relacionam com as diferentes formas de construção de um blogue, apresentando a análise de
três blogues altamente eficientes e influentes na blogosfera, com a ajuda de uma tipologia
provisória apresentada em esquema (ibidem, p. 102), que tenta sistematizar o “Mundo
Weblog”.
Segundo Shirky (2003, ibidem, p.105), referenciado pelos autores deste capítulo, os amplos
conceitos e argumentos ligados às distribuições das leis do poder, que estão a actuar na
blogosfera têm implicações cruciais ao nível da escrita poderosa, da relação com os blogues e
tipos semelhantes de produção e da distribuição e troca de textos online.
O Weblog é uma ferramenta de criação e publicação da Web, que permite de uma forma
simples e gratuita, sem formatações e programações, disponibilizar informações e
conhecimentos, que inicialmente começam por ser bastante localizadas geograficamente,
mas que num simples clique se podem tornar globais. É uma ferramenta que se caracteriza
pela sua capacidade de desenvolver a escrita, podendo ser um excelente recurso à
estimulação da mesma. Contudo, é de mencionar que os Weblogs não ficam apenas por esta
forma de linguagem, o que os torna tão populares e interessantes.

O capítulo cinco, As Ciências da Educação e as Ciências da Comunicação em Diálogo: a


propósito dos media e das tecnologias educativas, abordado por Geneviève Jacquinot-Delaunay
apresenta a caracterização das Ciências da Educação e das Ciências da Comunicação, onde a
autora intitula-as de “falsas gémeas”, visto serem ambas pluridisciplinares, de origem e
desenvolvimento na estreita relação de saberes e campos profissionais, estarem em processo de
“disciplinarização” e serem epistemologicamente híbridas.
Se, por um lado, a educação/escola não pode continuar a ignorar as novas tecnologias de
informação e comunicação, por outro lado, esta modernidade tecnológica não pode garantir o
sucesso e a inovação pedagógica.
A escola sendo um espaço privilegiado para o combate da “info-exclusão”, assume-se como
um local promotor da educação, da cultura, do saber, da preparação para a consciente cidadania e

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do combate das desigualdades sociais. Neste sentido, as Tecnologias Educativas têm um
importante papel, na integração dos alunos ao contexto escolar e às práticas do professor. Este
desafio é colocado aos professores do nosso tempo, pois são responsáveis por procurar aproximar
as suas práticas, metodologias e estratégias lectivas, ao quotidiano de alguns alunos ou ao seu
referencial cultural, motivacional e comunicacional.
Contudo é de salientar e reforçar, que nesta “escola em mudança” que vivemos actualmente, a
grande maioria dos alunos, por variados motivos, ainda não possuem recursos e meios
tecnológicos suficientes, que lhes permitam desenvolver as competências pretendidas e impostas
por esta “sociedade de informação”, aumentando assim as desigualdades e as injustiças sociais.
No sexto e último capítulo, A Educação, a Democracia Radical e a Política do Lugar, da
Comunidade, da Pessoa e do Tempo, explorado por John Schostak e Jill Schostak, seguem os
pressupostos da democracia radical para analisarem as “implicações das «tecnologias da próxima
geração» nas práticas democráticas e educacionais” (ibidem, p.16).
Laclau (2005, apud ibidem, p.156) e Mouffe (2005, apud ibidem, p.156) defendem a
democracia radical, ou seja, aquela que se encontra inacabada, permanentemente aberta ao que é
novo, diferente e único, posição que defende ser a melhor para a escola pública, de forma a
contribuir para a inclusão de todos na educação e na cultura.
Um dos autores Schostak, refere que a educação, a política e a investigação são inseparáveis e
decisivas na emancipação das práticas. As comunidades globalizadas online são um exemplo dos
novos desafios, que se colocarão às práticas democráticas e educacionais futuras.

Existe a necessidade de emergir um novo paradigma educacional, que consiga corresponder


às difíceis exigências da sociedade global. Enquanto anteriormente, a escola era um espaço onde
se preparava o indivíduo para uma “sociedade industrial”, em que o objectivo principal era a
produção, o paradigma educacional ajustava-se. Actualmente, o sistema depara-se com a difícil
tarefa de orientar os indivíduos para a “sociedade da informação”, em que um dos mais
importantes objectivos é tratar a informação (Brigas & Reis, 2001, apud Coutinho, 2006:7).
O viver numa “sociedade em rede”, na qual o poder se centra na informação veiculada pelos
mass media, obriga-nos a uma actualização permanente, a um ritmo cada vez mais acelerado, pois
“o que ontem era conhecimento, hoje já está ultrapassado”. (Lazlo & Castro, 1995, apud idem).
Em consequência desta nova realidade social, o modelo clássico da escolaridade
caracterizado pelo discurso centrado no professor, em contexto escolar, segmentado por
disciplinas e conteúdos, terá necessariamente de se ajustar à cultura do digital e do virtual.

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Como salienta Pacheco (2001, ibidem, p.8), “as novas configurações comunicativas da era
digital suportadas pelos sistemas multimédia interactiva e pelas ligações em rede, não se
configuram com a «linearidade e sequencialidade do currículo como um texto»”.
Isto significa, que a escola como a temos na actualidade não se ajusta à cultura da tecnologia,
que tem crescido exponencialmente nestes últimos anos, devido às suas formas de organização e
processamento do conhecimento serem mais flexíveis e interactivas, cria-se um conflito com a
linearidade do modelo curricular tradicional.
Pacheco (2001, idem) considera que “só a emancipação do currículo como um hipertexto”,
permitirá ao próprio currículo adquirir um carácter mais interdisciplinar, que leve à eliminação das
barreiras existentes entre as disciplinas e os conteúdos, através das conexões curriculares
múltiplas, por exemplo a realização de projectos com temas comuns e do interesse dos alunos.
Um projecto curricular como “um espaço multireferencial de aprendizagem, onde a
multiplicidade dos objectos do conhecimento são o ponto de partida para o processo de
aprendizagem e o fortalecimento da construção colectiva do conhecimento” (Martins, 2001, apud
idem), significaria um currículo construído sob uma lógica hipertextual onde se contemplaria a
troca de ideias, de informações e de saberes.
A questão fundamental que se levanta em torno do Currículo e da Tecnologia é a de perceber
até que ponto estas duas práticas sociais ligadas à utilização e controlo do poder, poderão dar
resposta ao problema da “info-exclusão social” que afecta a nossa sociedade.
Uma das respostas será a escola proporcionar aos seus alunos um efectivo acesso aos meios
de informação, de maneira a que estes meios não sejam só para alguns privilegiados. Para tal, é
importante existir uma reorganização dos processos de aprendizagem, para permitir uma
participação activa de todos os alunos e por outro lado, que se desenvolva o espírito crítico, para
que não se corra o risco de globalizar a manipulação e a ideologização da opinião pública através
dos mass media.
Concordando com Area (1996, apud idem), realço que mais importante do que incorporar
pura e simplesmente as novas tecnologias na aula, é pensar primeiro no tipo de cidadãos que
temos e qual a formação cultural que lhe queremos dar, e só depois ajustar os novos meios
tecnológicos ao contexto real, que é cada aluno.

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Referências Bibliográficas:

• COUTINHO, Clara Pereira (2006). Tecnologia Educativa e Currículo: caminhos que se cruzam ou se
bifurcam? VII Colóquio sobre Questões Curriculares. Braga: Instituto de Educação e Psicologia –
Universidade do Minho.
Disponível em:
https://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/6468/1/Texto%20Col%20QC%202006.pdf
Consultado a 9 de Julho de 2008.

• GENEVIÈVE, Jacquinot-Delaunay (2006). Imagem e Pedagogia. Lisboa: Edições Pedago.

• FONSECA, L. F. C. & GOMES, M. J. (2007). Utilização dos blogues por docentes de Ciências: um estudo
exploratório. In Livro de Actas do Congresso Internacional Galego-Portugués de Psicopedagoxía. A Coruña
: Universidade da Coruña, p. 640-650.

Disponível em: http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/7133

Consultado a: 7 de Julho de 2008.

• GOMES, M. J. & SILVA, A. R. (2006). A blogosfera escolar portuguesa: contributos para o conhecimento do
estudo da arte. Revista de Ciências da Informação e da Comunicação do CETAC, 3, 289-209.

• GOMES, M. J. (2005). Blogs: um recurso e uma estratégia pedagógica, In Actas do VII Simpósio
Internacional de Informática Educativa. ESE Leiria, p. 311-315.

• PARASKEVA, João M. (2007). Ideologia, Cultura e Currículo. Lisboa: Editora Plátano.

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