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MAI/JUN/JUL - 2013 - Nº 62

M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62 1

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M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62 1

Índice

DESTAQUE

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Í ndice D ESTAQUE 5 A C ONSCIÊNCIA DOS D IREITOS DO H OMEM Selvino Antonio

A CONSCIÊNCIA DOS DIREITOS DO HOMEM

Selvino Antonio Malfatti

SOCIEDADE

19

IREITOS DO H OMEM Selvino Antonio Malfatti S OCIEDADE 1 9 A S OCIEDADE DA D

A SOCIEDADE DA DESCONFIANÇA

Marcel Domingos Solimeo

LIBERALISMO

23

DA D ESCONFIANÇA Marcel Domingos Solimeo L IBERALISMO 2 3 A S C AUSAS DO D

AS CAUSAS DO DEBILITAMENTO DO LIBERALISMO NO SÉC. XX

Og Leme

MATÉRIA DE CAPA

15

L IBERALISMO NO S ÉC . XX Og Leme M ATÉRIA DE C APA 15 O

O DESENVOLVIMENTO BRASILEIRO:

POR QUE PERDEMOS PRIORIDADE

Roberto Fendt

TRANSPORTES

21

?

QUE P ERDEMOS P RIORIDADE Roberto Fendt T RANSPORTES 21 ? A L OGÍSTICA DO T

A LOGÍSTICA DO TRANSPORTE PORTUÁRIO

Jovelino Pires

LIVROS

26

DO T RANSPORTE P ORTUÁRIO Jovelino Pires L IVROS 26 T ORRE DE B ABEL por

TORRE DE BABEL

por Rodrigo Constantino

REALIZAÇÃO

26 T ORRE DE B ABEL por Rodrigo Constantino R EALIZAÇÃO B ANCO DE I DÉIAS

BANCO DE IDÉIAS é uma publicação do Instituto Liberal. É permitida a reprodução de seu conteúdo editorial, desde que mencionada a fonte.

E xpediente Think Tank - A Revista da Livre-Iniciativa Ano XVII - n o 62

Expediente

E xpediente Think Tank - A Revista da Livre-Iniciativa Ano XVII - n o 62 -

Think Tank - A Revista da Livre-Iniciativa

Ano XVII - n o 62 - Mai/Jun/Jul - 2013

CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO

Arthur Chagas Diniz Elcio Anibal de Lucca Alencar Burti Paulo de Barros Stewart Jorge Gerdau Johannpeter Jorge Wilson Simeira Jacob José Humberto Pires de Araújo Raul Leite Luna Ricardo Yazbek Roberto Konder Bornhausen Romeu Chap Chap

CONSELHO EDITORIAL

Arthur Chagas Diniz - presidente Alberto Oliva Aloísio Teixeira Garcia Antonio Carlos Porto Gonçalves Bruno Medeiros Cândido José Mendes Prunes Jorge Wilson Simeira Jacob José Luiz Carvalho Luiz Alberto Machado Octavio Amorim Neto Roberto Fendt Rodrigo Constantino William Ling

Og Francisco Leme e Ubiratan Borges de Macedo (in memoriam)

DIRETOR / EDITOR

Arthur Chagas Diniz

JORNALISTA RESPONSÁVEL

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L eitores Sua opinião é da maior impor- tância para nós. Escreva para Banco de

Leitores

Sua opinião é da maior impor- tância para nós. Escreva para Banco de Idéias.

Senhor Editor,

Acompanho as resenhas diárias do Instituto Liberal há muitos anos. Noto que vocês têm uma pre- disposição relativa à presidente Dilma, bem como a seus principais ministros. Entre eles, os da Fazenda

e da Educação, Aloísio Merca-

dante. Quase todos os dias algum deles é ridicularizado ou, na melhor das hipóteses, criticado. Concordo que já tivemos PT demais no poder, embora Lula pretenda comandar – direta ou indireta- mente – a política durante vinte anos, e já se passaram dez. É verdade que o Brasil não cresceu

muito nas administrações petistas, mas a alternativa de eleger um candidato tucano mudaria

o quadro?

Maria da Gloria Prazeres Guaianases – SP

Prezada leitora,

Os projetos políticos da maioria dos partidos no Brasil tratam da expansão dos poderes do Estado. Não há campanha eleitoral com promessas de redução da carga fiscal, uma das mais altas do mundo. O Custo Brasil é cada vez mais elevado, sem que a ele correspondam benefícios como ocorre nos países escandinavos. Acho extremamente difícil a redução do Custo Brasil, pois isso implicaria em uma menor intro- missão do governo na vida dos cidadãos. Creio que o maior be- nefício que teríamos de uma troca no comando do país seria uma revisão crítica de processos hoje já cristalizados, sem qualquer avaliação nos caminhos da dema- gogia. A rotatividade no poder é saudável e traria benefícios à Nação. Um candidato tucano teria que se eleger a partir de um projeto muito semelhante ao do PT.

O Editor

Envie as suas mensagens para a rua Rua Maria Eugênia, 167 - Humaitá - Rio de Janeiro - RJ - 22261-080, ou ilrj@gbl.com.br.

as suas mensagens para a rua Rua Maria Eugênia, 167 - Humaitá - Rio de Janeiro
- Rio de Janeiro - RJ - 22261-080, ou ilrj@gbl.com.br. E ditorial principal marca do período

Editorial

principal marca do período parece ser a tentativa, em

marcha no Congresso, para sub- meter, mesmo que parcialmente,

o Poder Judiciário. A origem desse esforço se deve, sem dúvida, ao impacto causado nas hostes petistas pelo julgamento do episódio que, popularmente, é conhecido como “O Mensalão”.

A condenação especialmente de

José Dirceu e José Genoíno ao cumprimento de pena em prisão revoltou os petistas, que gostam de alcunhar Dirceu de “herói do povo brasileiro”. Esforços dos governantes estão voltados para evitar que os responsáveis (exceto Lula) sejam levados a cumprir sentenças. Embora o judiciário seja o poder constitucionalmente encarregado desse julgamento, os partidos da base aliada, em especial o PT, lutam para evitar esse desenlace. Continuamos a lamentar a inexistência de uma política pe- trolífera mais ampla. No governo Dilma, até agora, não foi reali- zada pela ANP – Agência Na- cional de Petróleo nenhuma li- citação para prospecção de petróleo. A ausência de licitações não se deve a uma mudança no que respeita à matéria. A Petro- bras se ressente de uma política mais definida, e a importação de gasolina só tende a aumentar, caso

o Brasil volte a crescer a taxas mais relevantes que as atuais. Através da história emergiu um conjunto de valores denomi- nados direitos relativos ao homem como ser individual que, con- forme a época, recebeu as mais diversas denominações, tais como direitos naturais, direitos fundamentais, direitos do homem, direitos humanos ou declaração universal dos direitos do homem, entre outras. Este é o tema do artigo de Selvino Antonio Malfatti, professor da Univer-

A
A

sidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. O economista e mestre pela Universidade de Chicago, Ro- berto Fendt, examina as razões da perda de prioridade do Brasil em

relação a investidores externos e, em especial, quais são os fatores determinantes do investimento e

o que define sua rentabilidade.

Entre outras questões, o autor discute os fatores que inibiram as recentes taxas de crescimento do Brasil. Operando tecnicamente próximo a uma situação de pleno emprego, a taxa de crescimento deveria ser mais elevada. O tema abordado pelo economista Marcel Domingos Solimeo se refere a uma questão que atormenta aqueles que acreditam que a locomotiva do desenvolvimento deva ser a iniciativa privada. A sanha intervencionista que tem carac- terizado o governo em suas três esferas, nomeadamente Execu- tivo, Legislativo e quase sempre

o Judiciário, faz com que cada

vez mais se procure tudo regu- lamentar. Segundo o autor, estamos nos constituindo rapi- damente em uma “Sociedade da Desconfiança”. Estamos reproduzindo nesta edição um artigo do saudoso Professor Og Leme. As causas do debilitamento do liberalismo no século XX dependem essen- cialmente de instituições que tornem eficazes os direitos humanos. Jovelino Pires, coordenador da Câmara de Logística da

Associação de Comércio Exterior

do Brasil, examina a situação dos

transportes marítimos no Brasil.

O panorama é devastador.

Encerra esta edição a re- senha do livro Tower of Babble, de Dore Gold, efetuada pelo economista e escritor Rodrigo

Constantino.

of Babble , de Dore Gold, efetuada pelo economista e escritor Rodrigo Constantino. M AI /J

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of Babble , de Dore Gold, efetuada pelo economista e escritor Rodrigo Constantino. M AI /J

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Destaque
Destaque

A consciência dos direitos do homem

Selvino Antonio Malfatti

Universidade Federal de Santa Maria – UFSM – Brasil

INTRODUÇÃO

O
O

objetivo do presente artigo é refletir como o ser humano

tomou consciência dos Direitos do Homem enquanto valores. Isso ocorreu nos grandes momentos históricos com seus respectivos pensadores. Não pretendemos elaborar uma pesquisa, nem apresentar algo novo, mas tão somente evidenciar a paulatina explicitação desses direitos como valores éticos inerentes à pessoa humana ao longo da História.

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ao longo da História. M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62

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Com efeito, através da História emergiu um conjunto de valores denominados direitos, relativos ao homem como ser individual, que, conforme a época, recebeu as mais diversas denominações, tais como: direitos naturais, direitos fundamentais, direitos do homem, direitos humanos ou Declaração Universal dos Direitos do Homem e outras. Esses direitos ou valores não se explicitaram de imediato, mas o foram paulatinamente durante a história. Também não surgiram num só local ou com

um determinado povo, mas a emergência se deu difusamente, e apenas no século XX o homem tomou consciência de sua uni- versalidade. 1 O processo em direção à universalidade teve início na Idade Moderna, após a Reforma Protestante. Até então esses valores ou direitos estavam vinculados a um povo ou a uma época ou religião. Com a Reforma tornou-se imperativo encontrar valores consensuais com base social. Esses direitos

uma época ou religião. Com a Reforma tornou-se imperativo encontrar valores consensuais com base social. Esses

ou valores em cada época e socie- dade tiveram uma justificativa própria, uma sustentação pró- pria. A cultura hebraica se apoiava em Javé, os gregos na

razão, os medievais na igreja até

a modernidade, que encontrou a

sustentação no consenso social. A consciência é o processo

final do ato de conhecer. Pode ser dedutivo, indutivo e mesmo intuitivo. Ao tomar consciência o homem conhece. A consciência

é o ato da alma que se contempla

a si mesma, e nela está presente

o objeto. A consciência é o próprio conhecimento. E no momento em que o homem

reflete, encontra na consciência

o conhecimento adquirido. Neste

ato ele se descobre, e ao descobrir-se toma consciência. Nesse processo se insere o conhecimento moral caracte- rizado como valor. A consciência dos Direitos do Homem foi o reconhecimento desses valores que, embora sempre tenham existido ao longo da história, pela tomada de consciência foram se explicitando e sendo reco- nhecidos como tais a partir da Idade Moderna como consen- suais. Com efeito, o século XX passou por duas guerras mundiais, experimentou três formas de totalitarismo, sem falarmos de centenas de ditaduras ou go- vernos autoritários para os quais os direitos do homem pouco ou nada valiam. Milhões de pessoas foram torturadas moral e fisicamente, foram assassinadas como vermes, cadáveres ex- postos ou enterrados em valas comuns. Outros milhões foram privados da liberdade, jogados em masmorras ou em campos de concentração. A consciência mesma foi invadida e aniquilada, no totalitarismo russo.

mesma foi invadida e aniquilada, no totalitarismo russo. D estaque O J UDAÍSMO Na doutrina judaica

Destaque

O JUDAÍSMO

Na doutrina judaica o homem se relaciona com Alguém transcendente. No judaísmo o homem se relaciona com um Ser que O conhece indiretamente e por meio da informação. O ponto de partida e de chegada é sempre aquele Ser invisível, mas existente e presente. Este é Deus, Javé, ao

Através da História emergiu um conjunto de valores denominadosdireitos, relativos ao homem comoser individual, que, conforme a época, recebeu as maisdiversas denominações, tais como: direitos naturais, direitos

fundamentais, direitos do homem, direitos humanos ou Declaração Universal dos Direitos do

Homeme outras.

qual o homem obedece sem vê-lo, sem senti-lo ou ouvi-lo. Após a fuga do Egito, e sob a liderança de Moisés, o povo hebraico perambula durante quarenta anos pelo deserto. É nesse período que a maior parte da legislação é elaborada, principalmente no que tange a um conjunto de direitos per- tinentes à individualidade, tal como a propriedade, a vida, a consciência, a liberdade e outros, os quais foram sintetizados no Decálogo.

Foi nesse momento que a doutrina judaica consagra a concepção do homem composto de corpo e alma. O corpo se iguala aos demais seres vivos do universo. Tem aparência terrestre, corrutível, é sede de tentações e

de pecado. Por outro lado, a alma, que em outros seres é princípio vital, no homem não só é vital, mas também espiritual. Na doutrina judaica a vida do homem se originou de um ato criativo específico de Deus. E como a dádiva da vida é de natureza divina e não natural, por isso ninguém tem direito sobre ela, nem o próprio homem. O suicídio

é terminantemente condenado. Da narrativa bíblica sobre a criação, três aspectos se tornaram conscientes.

1. A existência de um ser

superior como origem de tudo;

2. Os seres criados não se

identificam com a divindade;

3. O apogeu da Criação é a

criação da espécie humana,

constituída de homem e mulher, iguais em dignidade perante o Criador. É também nesse momento que emerge a consciência de Lei Natural, constituída numa crença de que o Criador gravou in- delevelmente no homem o sumo e primeiro direito: a vida humana. A graça da vida para o homem, conforme a Bíblia, supera o restante da Criação. Enquanto os demais seres estão submetidos às leis do instinto, o homem foi dotado de outra faculdade natural, a razão, e por ela está acima dos demais seres. O homem recebeu também em sua natureza a liberdade. Este é o segundo maior direito individual. Com esta faculdade diferencia-se de todos os demais seres. O terceiro direito individual, já presente no meio cultural hebreu,

é a igualdade. No Livro Sagrado

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individual, já presente no meio cultural hebreu, é a igualdade. No Livro Sagrado M AI /J

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Destaque

D estaque Na doutrina judaica o homem se relaciona com alguém transcendente. a conceituação da igualdade

Na doutrina judaica o homem se relaciona com alguém transcendente.

a conceituação da igualdade

restringe-se à relação do homem com Deus. Os homens são iguais

perante o seu Criador. Deus proclama que nada pode igualá- Lo. Ele não faz distinção de homens. Por isso, na relação hierárquica vertical de Deus- Homem, Deus é inigualável, mas na relação horizontal homem- homem e Deus os homens são iguais. E por que são iguais

conforme a argumentação bí- blica? Porque Deus os criou a todos, porque os fez todos do mesmo sangue, porque Deus quer a salvação de todos, porque todos são chamados à Vida Eterna. Entre os israelitas a pro- priedade privada era considerada um direito dado por Deus ao Homem. Dependendo da situa- ção histórica, o que variava era a forma de propriedade. Como nômades, propriedades eram as moradias e o gado. Quando agricultores, propriedades eram

as terras. A própria conquista de Canaã foi sobre a ideia de propriedade: a Terra prometida

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a Terra prometida M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62 7

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por Javé. Disso decorreu que entre os israelitas o proprietário último da terra era Deus. 2

GREGOS E ROMANOS

A discussão dos direitos do homem entre os gregos e romanos deixou de se apoiar em argu- mentos divinos. Em seu lugar foi chamada a razão, que procurou no próprio meio circundante a justificativa para um conjunto de valores que fossem o guia da convivência social. Daí que a ideia de um direito natural, isto é, uma norma moral inerente à natureza humana e, portanto, independente e superior à lei positiva reguladora, encontrou a mais coerente formulação. O problema levan- tado pelos sofistas de que as leis não passam de convenções, e por isso são artificiais, havia merecido de Sócrates a contraproposta da racionalidade. Os direitos do Homem estavam presentes na cultura grega, mormente na ateniense, como

testemunham diversos campos do saber: Filosofia, Ciências, Artes e Religião. Cada uma, a seu modo, contém os elementos desses direitos. Como exemplo pode-se tomar o Discurso Fú- nebre de Péricles, narrado pelo historiador Tucídides. 3 Conforme narra este autor, os atenienses costumavam celebrar os ritos fúnebres das vítimas da guerra. Os ossos ficavam ex- postos em lugar público durante três dias, e o povo trazia ofe- rendas para seus parentes. No último dia traziam ataúdes, um para cada tribo, e os ossos eram postos no ataúde de sua tribo. Havia, ainda, um ataúde vazio destinado aos soldados desa- parecidos. A esta cerimônia todos podiam comparecer:

cidadãos, estrangeiros e as mulheres das famílias dos defuntos. No mausoléu do subúrbio mais belo da cidade eram enterrados os mortos da guerra. Após o sepultamento, um cidadão, escolhido pelos seus pares, ficava encarregado de discorrer sobre os mortos como fez Péricles naquela ocasião.

Diz ele que o ato supremo de um cidadão consiste em achar melhor defender-se e morrer que ceder e salvar-se. Nesse instante,

o cidadão joga na ação o que ele

tem de mais precioso em si, que

é sua vida. Em todo o discurso,

no entanto, Péricles enfatiza que

a vida, por mais belo dom que

fosse, sem a honra e a liberdade de nada vale. O início de seu elogio principia mostrando que eles, os atenienses, receberam aquele império dos antepassados como homens livres e que, por isso, agora muitos estão dando sua mais preciosa dádiva, a vida. Péricles nunca deixa de associar vida e liberdade. Além disso, essa vida livre se organiza politi- camente sob um regime demo-

nunca deixa de associar vida e liberdade. Além disso, essa vida livre se organiza politi- camente

Destaque

crático, isto é, de igualdade entre os cidadãos. Perante a lei todos são iguais, e a ascensão aos postos de mando não se dá por pertencer a esta ou àquela classe, mas pelo mérito. Por outro lado,

a pobreza não é motivo para

alguém não prestar serviços a sua cidade. Todos os cidadãos par- ticipam do governo da cidade como homens públicos, não importando sua condição pri- vada. Os atenienses, conforme diz Péricles, convivem em li-

berdade e igualdade. Além disso, procuram melhorar suas pro- priedades para que elas deem mais conforto e alegria. A riqueza não é usada para alguns se vangloriarem, mas como oportu- nidade de agir e melhorar. A pobreza não é uma desonra, mas se torna quando não se tenta evitá-la. Os gregos, principalmente os atenienses, orgulhavam-se de não se submeterem a ninguém,

a não ser às leis que eles próprios criaram, descobrindo-as na natureza pela razão, ou rece- beram dos deuses. As leis que descobriram na natureza pela razão chamavam-nas de leis naturais, porque deveriam ser objeto de consenso. Às que rece- beram dos deuses eles deveriam

se submeter sem discuti-las. Os gregos intuíram que a

liberdade era o bem maior. A simples distinção entre os gregos

– livres, e demais povos bárbaros

ou escravos – revela o senso de liberdade presente na cultura grega. Evidentemente esse valor máximo nem sempre e nem em toda parte foi unânime. Cada cidade tinha sua ideia-mestra sobre a liberdade. Os espartanos, por exemplo, prezavam a independência e a autonomia de sua cidade. Por isso a vida pública e a vida privada con- fundiam-se, de tal sorte que o limite da liberdade individual era

de tal sorte que o limite da liberdade individual era o interesse coletivo, que muitas vezes

o interesse coletivo, que muitas

vezes se confundia com a aristocracia. Em Atenas era dife- rente: cada um podia fazer o que quisesse, e o debate público era aberto a qualquer cidadão livre. Entre os romanos um dos maiores teóricos foi Cícero, que viveu a confluência da passagem da República para o Império em Roma. Na República havia um conjunto de instituições que, de certo modo, salvaguardavam alguns princípios éticos e morais extensivos a todos os cidadãos,

mormente entre a aristocracia e o povo. O equilíbrio estava sendo atingido paulatinamente. Havia instituições que defendiam o povo

e havia as aristocráticas. Os tri-

bunos do povo eram uma forta- leza contra as pretensões da aris- tocracia. Com isso, procurava-se possibilitar uma margem de liberdade, a qual poderia garantir os demais direitos, tais como a vida, a propriedade e a igualdade. Cícero se destaca na defesa

da lei natural, universal, pela qual

o mundo era governado por

Deus, e através da natureza racional o homem se torna um parente da divindade. 4 Através desse princípio advogava a igualdade universal dos homens. Desde o momento em que os homens seriam iguais, todos os demais direitos adviriam por acréscimo. Com isso procurava isolar uma esfera de consenso pela qual se garantiria um respeito aos direitos fun- damentais.

O CRISTIANISMO

Dois nomes se destacam na re- flexão da Idade Média: Santo Agostinho, no início, e Santo Tomás, no final.

Santo Agostinho

Santo Agostinho concebe a Humanidade dividida em duas

categorias: a terrena e a celeste. Até mesmo na organização político-social Agostinho vê a dicotomia entre o bem e o mal. Os membros da cidade terrena amam-se a si mesmos e des- prezam a Deus. Os membros da cidade celeste desprezam-se a si mesmos e amam a Deus. 5 Consideram-se em exílio aqui na terra, vivendo imiscuídos com os da cidade terrestre. Sendo o objetivo do amor o parâmetro para se diferenciar os terrenos e

os celestes, os primeiros amam os

bens terrenos, e os segundos, apenas os celestiais. Estes últimos constituem a grei da Igreja.

Quanto à questão dos Direitos do Homem, não somente não sofrerá quebra de continuidade da cultura judaica e grega para

o cristianismo como receberá

novo alento e maior aprofun- damento.

Entre os

romanos um

dos maiores

teóricos foi

Cícero.

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romanos um dos maiores teóricos foi Cícero. M AI /J UN /J UL - 2013 -
romanos um dos maiores teóricos foi Cícero. M AI /J UN /J UL - 2013 -

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Santo Agostinho, em relação

aos Direitos do Homem, apre- sentou uma visão radical, pois opunha dicotomicamente o bem

e o mal, a Cidade de Deus e a

Cidade Mundana. Ele, após ter

passado por várias experiências

de fé, ao abraçar o Cristianismo

excluiu as demais. Para ele, o

único valor que conferia ao homem a dignidade de ser

humano era ser cristão. Os que estivessem foram dessa categoria estariam em situação de pecado. Nem mesmo os reis escapavam

de sua classificação entre bons e

maus. Daí que vida, liberdade (livre arbítrio), igualdade e bens

terrenos tinham uma inter- pretação sui generis, ou limitada. Estes direitos, ou valores, somente faziam sentido na fé cristã. A elaboração das diversas cate- gorias de leis irá inspirar os filósofos e teólogos durante toda a Idade Média, e inclusive

o próprio Santo Tomás de

Aquino, mil anos depois, irá se inspirar nela. 6

Santo Tomás

Um dos aspectos funda- mentais em Santo Tomás é a questão da justiça, à qual segue

Aristóteles, pois afeta diretamente

o entendimento dos Direitos do

Homem. Aristóteles havia distin- guido a justiça comutativa, a das

trocas dos iguais, e a justiça distributiva, aquela dos desiguais. Tomás de Aquino acrescenta mais uma: a justiça legal. Ela significa

a relação do todo com as partes.
É

o outro lado da justiça

distributiva. O que os indivíduos farão para o todo, sociedade e Estado? E aqui existem obriga-

ções desiguais. Se o Estado trata diversamente o bom cidadão do mau, em compensação espera deles retribuições também di- ferentes. É isto que Tomás de Aquino entende por justiça legal,

a qual nós chamaríamos atual-

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nós chamaríamos atual- M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62 9

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Destaque

atual- M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62 9 D estaque

Dois nomes se destacam na reflexão da Idade Média: Santo Agostinho e Santo Tomás.

mente de justiça social. A justiça como virtude é objetiva, em oposição a outras virtudes, que são subjetivas, pois não necessa- riamente envolvem outras pes- soas. A justiça, por isso, tem um caráter bilateral. 7 Os Direitos do Homem em Santo Tomás estão inseridos dentro do contexto de sua doutrina. A visão cosmológica do Universo do Aquinate engloba a totalidade dos seres, incluindo Deus, Anjos, homens, animais, seres vivos e inanimados. Estes seres estão hierarquizados a partir de Deus até o mais ínfimo dos seres. À natureza do homem Santo Tomás reserva uma posição privilegiada. O homem não somente é um ser corporal, mas racional e espiritual, destinado livremente a compartilhar com Deus. Sobre esses princípios erige a doutrina da dignidade da pessoa humana, isto é, o homem como um valor em si, sem necessidade de referências externas. Pela razão e espiritualidade todos os homens recebem em si a lei natural, pela qual podem escolher entre o bem e o mal. Se o homem

peca não pode invocar igno- rância, pois a lei natural lhe diz o certo e o errado. Mas para que o homem tenha mérito ao escolher o bem, ele é dotado de livre arbítrio, isto é, o homem é um ser livre. O direito de propriedade é defendido por Tomás de Aquino como uma consequência da dignidade do trabalho humano. Através do trabalho o homem imita a Deus no seu ato criador. Os bens particulares, individuais ou privados, o homem deve utilizar para seu próprio aper- feiçoamento pessoal e de sua comunidade. A propriedade, porém, não é ilimitada em Santo Tomás. Deve obedecer aos princípios comutativos e distri- butivos. Pelo primeiro, procura atingir a justiça através da igualdade de vantagens e des- vantagens nas relações de troca, e pelo segundo a justiça se obtém ao distribuí-la na medida da colaboração de cada um. Santo Tomás pretende, através da propriedade, livrar o indivíduo da dependência total do Estado. Na propriedade o indivíduo estaria numa esfera autônoma, podendo

livrar o indivíduo da dependência total do Estado. Na propriedade o indivíduo estaria numa esfera autônoma,

Destaque

assim exercitar sua liberdade. Por outro lado, o próprio poder de acesso à propriedade iguala os indivíduos na liberdade de possuir.

A SISTEMATIZAÇÃO DOS DIREITOS DO HOMEM

Na Idade Moderna tornou-se hegemônica uma ideia-eixo que imantou em torno de si pensa- dores políticos de diversas tendências ideológicas. Trata-se do contratualismo, que concre- tamente propugnava a queda do Absolutismo, divisão e limitação do poder e instituição de um governo de origem popular. O contratualismo, porém, não só dizia respeito a questões de governo – relações entre gover- nantes e governados – mas também à associação dos cida- dãos, à participação dos bens, à submissão às mesmas leis e, principalmente, ao esforço de salvaguardar o indivíduo perante o poder. Precisamente na concepção de lei é que se estabelecerá o divisor ideológico dos contratualistas.

Neste particular a divisão que se estabeleceu foi entre os partidários do jusnaturalisrno e os partidários do convencionalismo. Entre os primeiros podem ser alocados Thomas Hobbes, Samuel Pufen- dorf, culminando com John Locke. Entre os segundos poderiam ser enumerados François-Vincent Toussaint, Claude-Adrien Hel- vetius, François-Marie Arouet, Denis Diderot, Paul Henri Dietrich, culminando com Jean-Jacques Rousseau. Os primeiros propug- nam pelos direitos naturais, e os segundos pelos direitos estabe- lecidos pelos cidadãos.

O Jusnaturalismo

O mais acabado jusnaturalista da Idade Moderna, da vertente liberal, foi John Locke. Ele conse- guiu reunir os diversos fragmentos da doutrina liberal, esparsa nas tradições e leis do Reino Britânico. Deu-lhe coerência e sistema- tização, buscou fundamentos filosóficos e justificou sua prática. Insere-se dentro da grande tradição da “Lei natural”, que vinha de Sócrates, Aristóteles e Cícero, bem como da doutrina estoica, no período da Antigui- dade. Na Idade Média a vertente foi retomada principalmente com Santo Tomás. E, na Idade Mo- derna, sintetiza as diversas manifestações liberais surgidas na Europa. Ninguém, como Locke, procura salvaguardar o indivíduo de possíveis ataques da maioria, do Estado e das minorias. O homem, para ele, é um valor em si, que não necessita de referências para mostrar sua dignidade. 8 A primeira pergunta que Locke se faz ao estudar o poder político: como eram os homens naturalmente. Para ele era um estado de perfeita liberdade para ordenar as próprias ações, para dispor sobre suas pessoas e possessões como achasse mais

John Locke
John Locke
suas pessoas e possessões como achasse mais John Locke proveitoso para si mesmo, dentro dos limites

proveitoso para si mesmo, dentro dos limites da lei natural, sem necessitar de pedir autorização a quem quer que seja ou depender de alguma vontade alheia. Neste estado todos eram iguais, porque o poder era igual para todos e ninguém possuía nada mais que outro. Pensa Locke que isso é

evidente por si, pois criaturas da mesma espécie, gozando de todas das vantagens da natureza, todas usando as mesmas fa- culdades, no estado de nenhuma soberania a mais numa pessoa que na outra. Isso, porém, que é

o estado de liberdade e igualdade

pela lei natural, não é abso- lutamente um estado de licen- ciosidade. O estado de natureza possui uma lei natural, à qual todos estão submetidos e cuja transgressão acarreta a reação de todos os demais sobre ele. Aliás, os próprios transgressores reconhecem que merecem re- parar os danos causados a outrem na mesma proporção de sua ofensa. Locke cita a pas- sagem bíblica na qual Caim reconhecia que qualquer um podia matá-lo, pois ele havia matado seu irmão. Isso para ele seria o racional. A lei natural guiava os homens em estado de natureza. Em decorrência do princípio de liberdade e de igualdade,

Locke institui o princípio da vida. Este é o único direito natural em que o homem é limitado para si mesmo e não pode dispô-la como os demais direitos. Em estado de liberdade, e observada a lei natural, o homem pode fazer o que bem entender. Da mesma forma, não precisa se submeter

a nenhuma vontade. Mas, no que

diz respeito à vida, o homem tem um limite: não pode tirar a própria vida, porque esta não foi dada ao homem, apenas em- prestada. O verdadeiro pro- prietário dela é Deus, isto é, o seu autor. O direito à vida também é

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pro- prietário dela é Deus, isto é, o seu autor. O direito à vida também é

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Destaque

o único em que Locke lança mão

de argumento externo à razão.

O quarto direito do homem,

o de propriedade, Locke o justifica dizendo que o mundo e a natureza foram dados por Deus aos homens em comum, con-

forme ele, por isso não é o autor

da propriedade e não é por esta

razão que ela se justifica. A terra, com tudo o que ela produz, pertence ao gênero humano em comum naquilo que ela natu- ralmente gera de seu seio. Se a terra, juntamente com aquilo que produz, foi dada em comum ao homem, donde deriva a pro- priedade? Locke responde que vem do trabalho, e com isso amplia o sentido de propriedade, isto é, vai além da exclusivamente fundiária. Embora a terra e os animais inferiores pertençam a todos em comum, cada homem possui em sua pessoa uma propriedade. Esta não é comum, mas privada, individual, indivisível

e intransferível. Ninguém possui

qualquer direito sobre ela. Esta propriedade, a própria pessoa,

ao entrar em ação produz algo.

A ação humana chama-se

trabalho, e o resultado disto é um bem, o qual, com justiça, per- tence a quem o produziu. Em outras palavras, o direito de propriedade nasce do trabalho do homem, quer seja manual, quer seja intelectual. Dessa maneira cada homem pode transformar algo que em princípio

é de todos em propriedade sua

pelo trabalho. Mas, somente aquilo que ainda não pertence a alguém individualmente, e nesse caso deve ter o seu consentimento para poder ser proprietário, ou que ainda não seja comum de

todos, e nesse caso já uma propriedade pública.

O homem, que nasceu livre e

igual, por natureza não somente deve defender sua vida, sua liberdade e sua propriedade, mas encontrar meios eficazes para

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meios eficazes para M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62 11

11

prevenir-se de quem quer que seja que possa prejudicá-lo nos seus direitos. E como de todos os bens, maior e primeiro é sua própria pessoa, isto é, sua propriedade matricial, os homens instituem a sociedade civil para preservar seus direitos. 9 O objetivo que levou os homens a abandonarem o “estado de natureza” em troca de uma sociedade civil é a defesa da

Em decorrência do princípio de liberdade e de igualdade, Locke institui o princípio da vida. Este é o

único direito natural em que o homem é limitado para si mesmo e não pode dispô-la como os demais direitos. Em estado de liberdade, e observada a lei natural, o homem pode fazer o que

bem entender.

propriedade. Com efeito, é nesta que o homem põe a salvo sua individualidade e sua liberdade.

Para tanto, faz-se necessário que

o poder político seja controlado

pelos proprietários, considerados responsáveis diante dos próprios interesses. Desse modo, Locke

transfere para os proprietários a incumbência de representar toda

a sociedade. A eles, como full

members, cabe dirigir o poder político, para que avance até o limite da propriedade, o que constitui o patamar do “estado de natureza”.

O Convencionalismo

O contratualismo gerou a

vertente de concepção conven- cionalista dos direitos individuais. Eles não nascem com o homem, mas do poder político, o Estado.

O protótipo desta teoria é Jean-

Jacques Rousseau. A sociedade não é natural, mas decorrente da necessidade de sobrevivência. Se as dificul- dades para a sobrevivência não

adviessem, o homem natural- mente quereria viver livre ou não social. Se a sociedade não é natural, o que será ela para Rousseau? Um conjunto ou sistema de convenções. A socie- dade, portanto, é uma criação artificial dos homens para po- derem subsistir. Tudo o que está

aí são meras criações do grupo

hegemônico e em favor do grupo hegemônico ou de grupos que detêm ou detiveram o poder

econômico e político. De posse do poder político os grupos legis- laram em causa própria. 10 Mas, no momento que se institui a nova realidade, isto é, a sociedade, esta situação difere quantitativamente da vida na- tural. Enquanto nesta cada indivíduo é sua unidade integral, no estado convencional cada indivíduo não passa de uma parcela do todo. Diz Rousseau que a alienação de cada um ao todo e sendo um ato coletivo

e ad aeternum ninguém terá

mais interesse em explorar os demais. 11 Para Rousseau, ao se instituir

a sociedade os homens abrem

mão de seus direitos individuais para entregá-los à vontade do coletivo. Para explicar melhor sua ideia Rousseau lança mão da alegoria do organismo. Os membros compõem o corpo, e separados dele não fazem sentido. A perda da autonomia, porém, é compensada pela inserção numa unidade maior, da

e separados dele não fazem sentido. A perda da autonomia, porém, é compensada pela inserção numa

qual se tornam parte indis- pensável. O “eu” individual ex- tingue-se, nascendo uma nova realidade, o “eu” comum. Este é um corpo moral e coletivo, conforme ele. Uma pessoa pú- blica, uma república ou um corpo político. Este poder pode simplesmente ser inerte e, por isso, “Estado Passivo”; pode exercer ação e, portanto, “Estado Soberano”; pode relacionar-se com outros Estados, daí, “Estado Potência”. Os associados do

corpo político, coletivamente, são denominados “povo” e, particu- larmente, são “cidadãos”, en- quanto partícipes da “soberania”,

e “súditos” se considerados submetidos à lei. 12

OS DIREITOS DO HOMEM NAS REVOLUÇÕES AMERICANA E FRANCESA

Carta de Direitos da Revolução Americana

Os Representantes das 13 colônias, nos Estados Unidos, se reuniram em Filadélfia em 4 de junho de 1776, em Congresso Continental, e anunciaram a famosa Declaração de Indepen- dência. Nela já se expressariam os princípios filosóficos que iriam nortear a futura Constituição. Primeiramente se estabelecem os princípios dos Direitos do Homem, tais como a igualdade, a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Estes direitos são considerados inalienáveis e originários do

nascimento como ser humano. Esses princípios são self-evident. No dizer de Jefferson, a De- claração não inventava nada, seguindo o senso comum, isto é,

o consentimento. Mas ao citar

expressamente os ensinamentos de Aristóteles, Cícero, Locke e

Sidney, identificou-se com uma filosofia que considerava os Direitos do Homem provenientes da lei natural.

os Direitos do Homem provenientes da lei natural. D estaque Na questão da organização do Estado,

Destaque

Na questão da organização do

Estado, surgiram duas ten- dências: uma queria praticamente

uma soberania para cada ex-

colônia, eram os antifederalistas,

e outra queria uma ampla

autonomia para os estados, mas sem a soberania. Eram os federalistas. Na Convenção encarregada de elaborar uma

Constituição, de 17 de setembro

de 1787, os delegados houveram

por bem silenciar sobre a questão dos Direitos do Homem, mere-

cendo diversas críticas posteriores. No entanto, em 15 de Dezembro de 1791 10 artigos são aditados

à Constituição, devidamente

ratificados pelos legislativos estaduais.

O princípio que norteou a

Carta de Direitos foi o jusna- turalismo. Estabeleceu-se que, para os Estados, “tudo o que não está reservado está concedido”, mas para o Governo geral “tudo

o que não está concedido, está

reservado”. Daí que a Carta, em seus 10 artigos, sintetiza os principais direitos do homem perante o governo central. O Congresso não pode fazer leis sobre religião e comércio, não

pode restringir a liberdade de imprensa e a palavra. Proibir o povo de reunir-se. O povo pode

possuir e portar armas. Proíbe-se

o alojamento de soldados em

casas, sem o consentimento do

proprietário. Ao povo é garantido

o direito de integridade pessoal,

patrimônio e documentação. Os mandatos de busca e apreensão devem ter descrições porme- norizadas de locais, pessoas e objetos. Todo processo que vise à vida, à propriedade e à liberdade deve ter amparo legal, sem falar no direito de defesa e de julgamento público e imparcial, incidindo somente sobre crimes identificados. Em processos que excedam vinte dólares, após julgado por um júri, não pode ser julgado por outro tribunal, senão

de acordo com lei comum. Não haverá fianças e multas exces- sivas, ou castigos cruéis e ex- traordinários. A enumeração desses direitos não elimina outros que estão na posse do povo. Os poderes que não foram delegados ao governo central, nem proibidos aos estados, permanecem nos estados e no povo. 13

Os Direitos do Homem na Revolução Francesa

Na noite de 4 de agosto de 1789 a Assembleia da França aboliu os dízimos, as obrigações feudais dos camponeses, a servidão foi extinta, caíram os privilégios de caça dos nobres, a isenção de impostos e os monopólios. Este foi o primeiro passo, fazer tabula rasa de todas as classes e níveis sociais, igualando todos perante a lei. Após serem removidos os en- tulhos, inicia-se a obra de reconstrução. De imediato faz-se a De- claração dos Direitos do Homem como precaução contra a antiga ordem. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão traz um objetivo universalista. A Carta americana referia-se somente a seus habitantes. A francesa objetiva todo o homem, primei- ramente porque a fundamen- tação dos Direitos do Homem se inspirou na razão. E em segundo lugar já se iniciava uma cons- ciência da universalidade desses direitos. A Assembleia já estava legislando para toda a huma- nidade. Embora se fale em “direitos naturais”, na verdade são abstrações de situações concretas. Quem descobriu os direitos naturais foi a razão, sendo eles válidos uniformemente para todos os homens, de todos os tempos e em qualquer situação. Os direitos consagrados na Declaração são de liberdade, igualdade, pro-

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Os direitos consagrados na Declaração são de liberdade, igualdade, pro- M AI /J UN /J UL

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Em 1789, a Assembleia da França aboliu os dízimos, as obrigações feudais dos camponeses, a

Em 1789, a Assembleia da França aboliu os dízimos, as obrigações feudais dos camponeses, a servidão foi extinta, caíram os privilégios de caça dos nobres, a isenção de impostos e os monopólios.

priedade, segurança e resistência à opressão. A soberania, de acordo com a doutrina con- tratualista, é depositada na nação. Além disso, todos têm direito à pública e ampla defesa quando acusados. É garantida a liberdade de expressão, podendo

para tanto falar, escrever e imprimir suas ideias. É instituída uma força pública para garantir os direitos do homem. Este artigo evidencia o caráter estatal e convencionalista dos direitos presentes na revolução francesa.

A defesa dos direitos necessita de

uma força, enquanto a ideia de

direitos naturais é deter a força perante esses direitos. Com isso

o poder se arroga o árbitro dos

direitos, ideia estranha à doutrina jusnaturalista. 14

A DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM

A Declaração Universal dos Direitos do Homem é a suprema consciência alcançada até agora. Nela estão presentes tanto os direitos provenientes da razão, os

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da razão, os M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62 13

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convencionalistas, como os naturais, jusnaturalistas. O caráter racionalista dos Direitos do Homem parece predominar na Carta das Nações Unidas em 1948, através da Declaração Universal dos Direitos do Homem. No entanto, todos os direitos do jusnaturalismo também estão presentes, o que dá a entender que esses direitos estão acima dos Estados e governos, os quais devem reconhecê-los. Possui um preâmbulo e 30 artigos. No primeiro, através dos “con- siderandos” se estabelecem os grandes princípios da con- vivência humana, tais como a dignidade humana, o ideal democrático, a resistência à opressão e outros. A Carta divide os direitos em individuais e sociais. Entre os primeiros constam os quatro grandes direitos do homem: vida, liberdade, igualdade e pro- priedade. Mas outros foram acrescidos, como naciona- lidade, asilo, intimidade, família, ir e vir, participação política e outros. Quanto aos segundos

consta a segurança, trabalho, seguridade, educação e cultura. Já o artigo 29 estabelece os deveres perante a comunidade, e, finalmente, o artigo 30 determina que a interpretação seja sempre em benefício da verdade. 15

CONCLUSÃO

Pudemos constatar que um conjunto de direitos afetos à individualidade do homem, também denominados direitos do homem, evidenciou-se como consciência deles, nas diversas experiências do Ocidente. Através de contínuas assimilações de legados de povos diversos e em tempos históricos diferentes, a consciência dos Direitos do Homem constitui hoje uma con- fluência cultural, fazendo parte de valores da pessoa humana. Atualmente esses direitos ocupam um lugar privilegiado entre as instituições políticas, pois foram considerados pela Organização das Nações Unidas um Patri- mônio da Humanidade.

instituições políticas, pois foram considerados pela Organização das Nações Unidas um Patri- mônio da Humanidade.

Destaque

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 Jacques Maritain. Os Direitos do Homem e a Lei Natural. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1967.

p.57-68.

2 2. Dt 15,15. Ex

Bíblia: Gn 1 e

14,30. Ecl, 15. Jr 27,5. At, 17,26.

3 Tucídides. História da Guerra do Peloponeso. 3ª ed., tradução de Maria da Gama Kury. Brasília:

Universidade de Brasília, p.96-l02. 4 Leo Strauss e Joseph Cropsey. Historia de la Filosofia Politica. México: Fondo de Cultura Económica, l993, p.171-l72.

5 Santo Agostinho. De Civitate Dei. 1, 14, cap. XXVIII.

6 Michele Federico Sciacca. História da Filosofia. I - Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Mestre Jou, 1962, p. 169-228.

7 Santo Tomás. Summa Theologica. 1 a , 2 a , q. 5 , art. lº.

8 John Locke. Segundo Tratado sobre o Governo. São Paulo:

IBRASA.1963,cap. V.

9 William Ebenstein. Great Political Thinkers. 3ª ed., New York: Holt, l960, p. 393-403. 10 Jean-Jacques Rousseau. Discurso sobre as Ciências e as Artes e sobre a Origem da Desigualdade. Porto Alegre: Globo, 1958. L. I, cap. VI.

11 Do Contrato Social, op. cit. L., I, cap. VI.

12 Ibid.

13 Hamilton, Madison e Jay. Sobre a Constituição dos Estados Unidos. Trad. de E. Jacy Monteiro. São Paulo: IBRASA. 1964, p. 159-164.

14 François Furet e Richet Denis. La Revoluzione Francese. V. I, Trad. Di Silvia Brilli Cattarini. Paris: Librairie Arthème, 1973, Capítulo IV , p. 131-

144.

15 Carta das Nações Unidas, Estatuto da Corte Internacional de Justiça, Declaração Universal dos Direitos do Homem. 2.ª Ed. Porto Alegre:

Sulina, 1968.

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

BÍBLIA: Gn 1 e 2. Dt 15,15. Ex 14,30. Ecl, 15. Jr 27,5. At, 17,26. CARTA DAS NAÇÕES UNIDAS, ESTATUTO DA CORTE INTERNA- CIONAL DE JUSTIÇA, DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM. 2.ª Ed. Porto Alegre:

Sulina, 1968. EBENSTEIN, William. Great Political Thinkers. 3ª ed., New York:

Holt, l960. FURET, François e DENIS, Richet. La Revoluzione Francese. V. I, Trad.

Di Silvia Brilli Cattarini. Paris: Librairie Arthème, 1973, Capítulo IV. HAMILTON, MADISON E JAY. Sobre a Constituição dos Estados Unidos. Trad. de E. Jacy Monteiro. São Paulo: IBRASA. 1964. LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o Governo. São Paulo:

IBRASA.1963, cap. V. MARITAIN, Jacques. Os Direitos do Homem e a Lei Natural. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1967. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as Ciências e as Artes e sobre a Origem da Desigualdade. Porto Alegre: Globo, 1958. L. I, cap. VI.

Do Contrato Social, op.

cit. L., I, cap. VI. STRAUSS, Leo e CROPSEY, Joseph. Historia de la Filosofia Politica. México:

Fondo de Cultura Económica, l993. SCIACCA, Michele Federico. História da Filosofia. I - Antiguidade e Idade Média. São Paulo: Mestre Jou,

1962.

SANTO AGOSTINHO. De Civitate Dei. 1, 14, cap. XXVIII. SANTO TOMÁS. Summa Theologica. 1 a , 2 a , q. 5 , art. lº.

TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. 3ª ed., tradução de Maria da Gama Kury. Brasília: Universidade de Brasília.

de Maria da Gama Kury. Brasília: Universidade de Brasília. “Og Leme foi um grande liberal, que
“Og Leme foi um grande liberal, que lutou a boa luta, e deve ser lido
“Og Leme foi um grande
liberal, que lutou a boa luta,
e deve ser lido por todos que
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Rodrigo Constantino
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Matéria de Capa

O desenvolvimento brasileiro:

Por que perdemos prioridade em relação a investidores externos?

OS FATOS

E
E

staremos perdendo a priori- dade na decisão de investir

dos agentes econômicos exter- nos? Muitos respondem afirma- tivamente à pergunta, embora nem todos concordem que o Brasil se tornou secundário no radar dos investidores internacionais.

MAI/JUN/JUL - 2013 - Nº 62

15

Roberto Fendt

Economista

Alguns números são lem- brados pelos que entendem que continuamos prioritários como destinação dos investimentos externos. No ano passado ingressaram US$ 65,3 bilhões em Investimento Estrangeiro Direto (IED). Esse valor correspondeu a 16% da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) – o total dos

investimentos em máquinas, equipamentos e construção civil. Não se trata simplesmente de um percentual elevado. A parti- cipação dos recursos externos na formação de capital da economia no ano passado foi a maior desde 2004. Ultrapassou também o percentual observado em 2011, quando os recursos externos

no ano passado foi a maior desde 2004. Ultrapassou também o percentual observado em 2011, quando

aportaram 14% do acréscimo ao estoque de capital da economia e somaram US$ 66 bilhões, depois de terem crescido 4,7% com relação ao ano interior. Para este ano, o mercado projeta investimentos externos diretos de US 60 bilhões, proje- tando o mesmo valor de ingresso também para 2014, valor 8% inferior ao obtido em 2012. Como o ano mal começa, esse valor está sujeito a grande oscilação. 1 Dados da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transna- cionais e da Globalização Eco- nômica (SOBEET) mostram que 51,9% dos investimentos estran- geiros diretos (IED) em 2012 se direcionaram ao setor de

serviços, notadamente em se- guros, planos de saúde, comércio

e imobiliário, beneficiados pela

continuidade do processo de aumento e melhor distribuição da

renda no país. Vale a pena destacar algumas características do IED. Primeiro, aumentou a dispersão dos setores

a que se dirigiram os inves-

timentos. De acordo com a SOBEET, esse fato torna os ingressos menos dependentes das fases dos ciclos econômicos - os aportes com valor superior a US$ 1 bilhão totalizaram apenas 15,7% do total investido, e os investimentos com valor inferior a US$ 50 milhões passaram de 12,6% para 15,9% em 2012. Para os que argumentam que não há razões para preocupações, esses fatos seriam suficientes para demonstrar que há um excesso de pessimismo naqueles que se preocupam com a perda de atratividade do País como destino de investimentos estrangeiros. Na contramão desses argu- mentos, baseados nos números de 2012, aponta-se que o ingresso de capitais externos em janeiro mostra o pior resultado

de capitais externos em janeiro mostra o pior resultado M atéria de C apa para o

Matéria de Capa

para o mês da história. A ten- dência do saldo em conta corrente do balanço de pa- gamentos é de forte deterioração, com o saldo do mês situando-se em US$ 11,4 bilhões. Em grande parte esse resultado dependeu do saldo negativo da balança comercial e do aumento das remessas ao exterior. Desinteresse ou não dos investidores estrangeiros, os resultados de janeiro podem mostrar uma mudança de ten- dência com relação à atração de capitais externos. Se assim for, diversas causas explicariam esse desinteresse.

OS DETERMINANTES DO INVESTIMENTO

Descartados outros fatores, a decisão de investimento calca-se

em dois determinantes: o retorno esperado da aplicação e o risco do principal e do retorno.

O retorno esperado, por seu

turno, depende em última instância do comportamento da economia no horizonte temporal do investimento. Se as percepções dos agentes econômicos forem de que a economia retomará um ritmo de crescimento que jus- tifique esperar um volume sufi- ciente de vendas e lucros que viabilizem o capital investido, em

condições baixas de risco, o investimento será realizado.

As condições de risco referem-

se a várias dimensões. Há um risco interno ao projeto, no cálculo de sua rentabilidade e na

sua execução, que está sob o controle da empresa investidora. Mas há outros riscos que estão fora do controle da empresa investidora e são tanto de natureza macro como microeco- nômica. Os riscos de natureza ma- croeconômica referem-se à volatividade da política eco-

nômica em geral. Inflações altas e variáveis tornam difícil o cálculo econômico. Políticas fiscais do tipo stop and go tornam também complexa a avaliação do com- portamento do mercado no futuro

e da demanda pelo produto da

empresa nesse mercado, em particular. Os riscos de natureza micro- econômica se referem principal- mente à estabilidade da regulação econômica e à interferência errática, ou não, do governo na regulação. Mudanças bruscas na regulação existente afetam direitos de propriedade e alteram, muitas vezes de maneira signi- ficativa, os retornos esperados dos investimentos. Também fazem parte dos riscos de natureza microeconômica violações diretas do direito de propriedade, como desapropriações de ativos com indenização por valores inferiores aos de mercado ou sem indeni- zação. Neles se incluem depre- dações da propriedade e ameaças físicas a executivos ou acionistas. Para agravar o quadro de risco do investimento, trata-se aqui mais de percepções de riscos que de suas medidas facilmente mensuráveis. Quando se trata de percepções transcendemos o risco para entrarmos no campo da incerteza – algo não passível de mensuração e fortemente influenciado por fatores psicoló- gicos dos agentes.

OS DETERMINANTES DO RETORNO

Os principais determinantes

da rentabilidade do investimento são a evolução da receita da empresa e a evolução de seus custos ao longo do tempo. Desconhecido o futuro, o em- preendedor formula expectativas

a respeito da evolução futura

dessas variáveis. Os determinantes macro- econômicos da rentabilidade se

MAI/JUN/JUL - 2013 - Nº 62

futura dessas variáveis. Os determinantes macro- econômicos da rentabilidade se M AI /J UN /J UL

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deterioraram de maneira signi- ficativa em 2012 e no início de 2013. Em artigo recente, o professor Antonio Delfim Netto apontou que a situação fiscal da economia brasileira e o seu equilíbrio externo apresentam alguns sinais nebulosos, “nada que possa ser considerado ameaçador no curto prazo, mas cuja evolução exige cuidado”. No caso brasileiro, se a crise não acarretou o aumento da relação dívida/PIB, o seu valor é alto comparado com o de outros

países emergentes, e é a quarta mais alta do mundo. 2 Esse fato cria dúvidas na cabeça dos investidores com relação à solvência fiscal do País. Para alguns a situação é ainda pior. Armando Castelar Pinheiro publicou recentemente artigo em que aponta que estaríamos vivenciando uma situação de estagflação. Para ele, embora seja exagerado afirmar que vivemos em 2012 uma estagflação – essa combinação perversa de inflação

em alta com o crescimento do PIB

em baixa – os números do ano talvez justifiquem o uso da expressão para caracterizar o estado atual da economia. 3 O fato é que algo mudou na economia do início de 2012 para 2013. No relatório de inflação do Banco Central de março de 2012 as previsões eram de um crescimento de 3,5% do PIB e uma inflação anual de 4,5% - exatamente no centro da meta de inflação. Essas previsões tomavam por base que tanto a taxa Selic como a taxa de câmbio perma- neceriam nos níveis de marco de 2012. Os fatos, infelizmente,

vieram desmentir o cenário otimista do relatório de inflação.

O PIB cresceu muito pouco e a

inflação se acelerou. Para o governo e parte dos analistas de mercado há fatores determinantes conhecidos para o

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conhecidos para o M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62 17

17

Matéria de Capa

baixo crescimento do PIB. Pri- meiro, a quebra da safra agrícola, em decorrência de condições climáticas adversas em várias regiões do País; a queda na produção de ônibus e caminhões; o ajuste de estoques na indústria, que fez a produção cair, enquanto as vendas iam bem; e a crise internacional, em especial na Europa, que levou à retração dos investimentos. 4

Algo mudou na

economia do início de 2012 para 2013. No relatório do Banco Central de março de 2012 as previsões eram de um crescimento de 3,5%

do PIB e uma inflação anual de 4,5% - exatamente no centro da meta de inflação. Essas previsões tomavam por base que tanto a taxa Selic como a taxa de câmbio permaneceriam nos níveis de

marco de 2012.

Se, de fato, esses foram os

determinantes do baixo desem- penho do PIB, seria de se esperar uma forte recuperação do PIB já no início de 2013, em razão da retomada da produção agrícola

e da produção de ônibus e

caminhões, do fim do ciclo de ajuste dos estoques da indústria

e da estabilização da situação

econômica nas regiões proble- máticas, como a periferia da zona do euro. Por todos esses fatores,

2013 deveria sinalizar forte recuperação - mais não fosse pelo

efeito estatístico de se comparar

o PIB de 2013 com a base

estagnada do PIB de 2012.

A essa visão heterodoxa, que

vê a desaceleração do cresci-

mento da economia e a ace- leração da inflação como um

fenômeno conjuntural, superável

no curto prazo, opõe-se uma visão

“ortodoxa”, compartilhada por Castelar Pinheiro. Nessa visão, as causas do fraco desempenho do PIB em 2012 são internas. Fossem externas, teriam afetado o cres-

cimento de alguns de nossos vizinhos na América do Sul, o que não ocorreu.

A desaceleração do cresci-

mento brasileiro se deu em larga medida pela queda do inves- timento. Essa queda foi causada pelo “crescente intervencionismo estatal, com mudanças regula- tórias importantes e políticas de controle de preços; e pelo stop and go da política cambial, notadamente em relação à entrada do capital estrangeiro no país. Também pesaram a maior

tolerância com a inflação, a perda

de

transparência da política fiscal

e

a pressão sobre os bancos

privados, que derrubou a alta do

crédito ao consumidor, que já se ressentia do elevado endivida-

mento das famílias. Por fim, mas não menos importante, a di- ficuldade em deslanchar o in- vestimento governamental e as concessões na infraestrutura”. 5 Adicione-se aos fatores mencionados o forte aquecimento do mercado de trabalho, ope- rando tecnicamente próximo a uma situação de pleno emprego.

É

essa situação particular do

mercado de trabalho que impõe restrições ao crescimento sem afetar o nível da taxa atual de inflação. A persistir o pleno emprego, haverá um trade-off entre inflação e crescimento. Cada uma dessas visões tem uma

A persistir o pleno emprego, haverá um trade-off entre inflação e crescimento. Cada uma dessas visões

receita distinta – e oposta para os estados das políticas monetária e fiscal. De acordo com a visão heterodoxa encampada pelo governo, o problema é de demanda insuficiente. O remédio é um aumento keynesiano da demanda, seja pelo ativismo expansionista fiscal, seja pela expansão monetária e do crédito. A visão ortodoxa, ao contrário,

parte da premissa de que o problema é de crescimento excessivo da demanda relati- vamente à expansão da oferta. A terapia dessa visão é o oposto da terapia da visão anterior: controle da expansão fiscal e aperto monetário para conter o excesso de demanda que vaza ou para o balanço de pagamentos ou para

a inflação. De qualquer forma e indepen- dentemente de quem está certo,

a percepção do investidor externo

não é positiva. A falta de consenso quanto aos rumos da política econômica aumenta a incerteza

e o custo de investir no País. Finalmente, a antecipação da campanha eleitoral de 2014 tornou mais difícil a tarefa de avaliar a rentabilidade de investimentos prospectivos. Não surpreendem as análises que apontam que o tempo de ortodoxia na política econômica já passou. De agora em diante, o objetivo principal é ganhar as eleições, utilizando todos os instrumentos disponíveis para esse fim. Mais uma vez, a dificuldade de antecipar se o crescimento será retomado na modalidade stop and go do segundo semestre deste ano ao primeiro semestre de 2015 dificulta a análise racional de viabilidade de muitos projetos de investimento. Enquanto isso ocorre por aqui, outros países com inflação mais baixa e melhores perspectivas de crescimento a curto prazo estão

e melhores perspectivas de crescimento a curto prazo estão M atéria de C apa exercendo uma

Matéria de Capa

exercendo uma atração irresistível sobre os fluxos de capital externos, em detrimento dos fluxos poten- ciais de capital que poderiam estar se dirigindo ao País.

A INSTABILIDADE INSTITUCIONAL

já que a ausência de garantia dos

direitos de propriedade no campo vem de longa data. Mas esses problemas não encontraram ainda solução, e aumentam o risco do investimento externo direto à economia brasileira.

Países cujos governos são positivamente considerados, de acordo com diversos indicadores da qualidade das instituições, tendem a se sair melhor na atração de investimento externo direto. Estudos empíricos mos- tram que diferentes aspectos da qualidade das instituições de um país (corrupção, proteção de direitos de propriedade, polí- ticas relativas à facilidade ou dificuldade de abrir e fechar um negócio etc.) são quase sempre significativos na explicação das diferenças dos fluxos de capital externo. 6 As frequentes mudanças de regras que regem os contratos na economia brasileira aumentam o risco do investimento e contribuem negativamente para o aumento do aporte de investimentos externos à economia. Após um longo período de fla- grante desrespeito à manutenção dos termos dos contratos, com congelamentos de tarifas e desapropriações por “interesse social”, passamos um longo período de estabilidade nos termos dos contratos. Mais recentemente, a esta- bilidade institucional foi que- brada. O exemplo mais emble- mático foi o das mudanças nas regras que regem o setor elétrico introduzidas a partir de agosto do ano passado, mas inúmeras outras mudanças poderiam também ser citadas. Por fim, o País se ressente da efetiva ausência de garantia efetiva dos direitos de proprie- dade. Não se trata de algo novo,

À GUISA DE CONCLUSÃO

O investimento externo direto ocorre onde são boas as perspectivas de rentabilidade e

baixos os riscos associados ao investimento. O País poderia aumentar esses fluxos caso dispusesse de maior estabilidade macroeconômica e tivesse insti- tuições mais sólidas, especial- mente no que diz respeito à estabilidade do marco regulatório

à garantia dos direitos de propriedade.

e

regulatório à garantia dos direitos de propriedade. e Notas e Referências Bibliográficas 1 Banco Central do

Notas e Referências Bibliográficas

1 Banco Central do Brasil. Boletim Focus. Publicado em 26 de abril de 2013.

2 Antonio Delfim Netto, “Situação fiscal e cambial”. Valor Eco- nômico, 30 de abril de 2013.

3 Armando Castelar Pinheiro, “Duas visões da ‘estagflação’ de 2012". Valor Econômico, 5 de abril de 2013.

4 Armando Castelar Pinheiro, op.cit.

5 Castelar Pinheiro, op. cit.

6 Brindusa Anghel, Do Institutions Affect Foreign Direct Investment? Universidad Autónoma de Barcelona, 2005.

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Affect Foreign Direct Investment? Universidad Autónoma de Barcelona, 2005. M AI /J UN /J UL -

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S ociedade A sociedade da desconfiança Marcel Domingos Solimeo Economista do Instituto de Economia da
S ociedade

Sociedade

S ociedade

A sociedade da desconfiança

Marcel Domingos Solimeo

Economista do Instituto de Economia da Associação Comercial de São Paulo

sociólogo francês Alan Peyrefitte, historiador, diplo-

mata, político, onze vezes ministro de Estado, membro do parla- mento francês, escreveu o impor- tante livro A Sociedade de Confiança, no qual, seguindo a linha de Adam Smith, procura identificar as causas da Riqueza das Nações. Esse livro, definido por Olavo de Carvalho como um estudo sobre as condições culturais de desenvolvimento econômico, foi editado no Brasil pelo Instituto Liberal e contou com uma síntese muito bem feita pelo então economista do Instituto, Roberto Fendt. Com base em

O
O

MAI/JUN/JUL - 2013 - Nº 62

Fendt. Com base em O M AI /J UN /J UL - 2013 - N º

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exaustiva análise histórica,

Peyrefitte destaca o papel decisivo do fator mental no desenvol- vimento econômico, e manifesta a convicção de que o elo social mais forte e mais fecundo, que conduz ao progresso, é aquele que tem por base a confiança. Estas considerações são motivadas pela aprovação, por parte do Congresso Nacional, da Emenda Constitucional 72, que estende ao empregado doméstico

os direitos trabalhistas assegu- rados pela Constituição aos

trabalhadores das empresas, sem

a devida consideração das

significativas diferenças existentes

entre as duas categorias. O princípio constitucional de tratar igualmente os iguais tem como contrapartida a de que devem ser tratados desigualmente os desi- guais. Exemplo é o tratamento diferenciado e mais favorecido às micro e pequenas empresas, pelo reconhecimento de que elas não possuem as mesmas condições que as grandes para atender as exigências da burocracia e da tributação. No emprego doméstico, além de não se visar a uma finalidade econômica, o relacionamento é, regra geral, pessoal, na base da confiança, pois para o empre-

se visar a uma finalidade econômica, o relacionamento é, regra geral, pessoal, na base da confiança,

gador é importante confiar na pessoa que trabalha em sua casa

e que, muitas vezes, cuida de seus

filhos ou parentes idosos ou com problemas de saúde. As con- dições de trabalho são ajustadas entre as partes, visando possi- bilitar o atendimento as neces- sidades da família, mas, também,

as condições de quem presta o

serviço. A sanha intervencionista que tem caracterizado o governo em suas três esferas, incluindo executivo, legislativo e muitas vezes até o judiciário, espe- cialmente na Justiça do Trabalho, faz com que cada vez mais se procure regulamentar não apenas as atividades das em- presas, mas também a vida dos cidadãos. São constantes as intervenções legislativas e de órgãos públicos sobre o que o indivíduo pode fazer, seja comer, beber, fumar, comprar determi- nados medicamentos, a idade ideal para mandar os filhos à escola, o patrulhamento do “politicamente correto”, em que não se pode dizer o que se pensa sem risco de incorrer em crime. Agora uma relação de confiança acaba de se tornar uma fonte de

potencial atrito e de desconfiança, além de atribuir ao cidadão exigências burocráticas incom- patíveis com suas condições de atendimento. Pouca gente atentou para a extensão da medida aprovada pelo Congresso, certamente nem

a maioria dos parlamentares que

a aprovaram, tanto é assim que já se procura abrandar algumas das exigências estabelecidas na PEC 72, embora não se possa

alterá-la como seria necessário sem nova emenda constitucional.

A cartilha elaborada pelo

Ministério do Trabalho mostra como será difícil conciliar o disposto na PEC com a realidade do trabalho doméstico, que

disposto na PEC com a realidade do trabalho doméstico, que S ociedade engloba, além da tradicional

Sociedade

engloba, além da tradicional empregada, motoristas, caseiros, babás, atendentes de doentes e ouras modalidades distintas, tratadas como se fossem coisas iguais, e iguais também aos trabalhadores das empresas. Como o noticiário tem se concentrado mais no pagamento do FGTS e na questão das horas

A sanha

intervencionista que tem caracterizado o governo em suas três esferas, incluindo executivo, legislativo e muitas vezes até o judiciário, especialmente na

Justiça do Trabalho, faz com que cada vez mais se procure regulamentar não apenas as atividades das empresas, mas também a vida dos

cidadãos.

extras, pouca atenção se dá às exigências de seguro de acidentes do trabalho, creches e muitas outras que resultaram em uma cartilha de oito páginas. Quanto ao pagamento do FGTS, inde- pendente do seu custo e da burocracia necessária para seu pagamento, cria-se um absurdo “passivo trabalhista potencial” com a multa de 40%, que desestimula que se mantenha o trabalhador por muito tempo, pois isso pode acarretar sérios problemas para as famílias que tenham que demitir um empregado por estar em dificuldades financeiras.

Quando o que o país necessita é de uma revisão da CLT, que com- pletou 70 anos, mas que já nas- ceu desatualizada por resultar de um modelo corporativista que já estava ultrapassado em sua ori- gem, para que a indústria bra- sileira possa melhorar suas con- dições de competir com os pro- dutos importados, o Congresso, insensível a essa realidade, nada faz nesse sentido e, para piorar, estende essa legislação ao traba- lhador doméstico sem as necessárias adaptações e sem avaliar as con- sequências dessa medida. É de se esperar que pelo menos o Congresso aprove uma simplificação das exigências burocráticas e a redução do custo dos encargos, mas, de qualquer forma, transformou-se um re- lacionamento de confiança em uma relação contratual detalhista, de difícil aplicação integral, e que acaba sendo estimuladora de conflitos, aumentando o já absurdo volume de ações que transitam na justiça do trabalho. Provavelmente teremos uma redução da oferta de empregos domésticos com carteira assinada, substituída por “diaristas” ou empresas que ofereçam os serviços mesmo com custos mais caros, mas que eliminam o “passivo trabalhista potencial” . O mercado acabará se ajustando, mas é difícil saber o custo que empregadores e empregados domésticos pagarão até que isso ocorra. Talvez o maior problema seja a tendência que se vem observando nos legisladores, de transformarem o país em uma “sociedade da desconfiança” que, como alertava Peyrefitte, “é uma sociedade temerosa, “ganha- perde”, onde a vida comum é um jogo cujo resultado é nulo, ou até negativo, uma sociedade propícia à luta de classes, à inveja social, ao fechamento, à agressividade da vigilância mútua”.

à inveja social, ao fechamento, à agressividade da vigilância mútua”. M AI /J UN /J UL

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à inveja social, ao fechamento, à agressividade da vigilância mútua”. M AI /J UN /J UL

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T ransportes

Transportes

T ransportes

A logística do transporte portuário

Jovelino Pires

Coordenador da Câmara de Logística Integrada da AEB - Associação de Comércio Exterior do Brasil

da AEB - Associação de Comércio Exterior do Brasil arece incrível que a função mais importante

arece incrível que a função

mais importante dentro de uma organização, o Planeja- mento, esteja sendo alijada das entidades governamentais ou talvez transformada em ficção científica. Como relatam os estu- diosos da administração (lem- bremo-nos de Koontz & O’Donnel) “planejar é decidir antecipa- damente o que fazer”. Veja que o autor não é recente, mas parece que tal afirmativa ainda não foi

descoberta por algumas cabeças coroadas de Brasília.

P
P

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coroadas de Brasília. P M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62

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Feito o desabafo de um bra- sileiro, vamos aos fatos que temos hoje em dia em relação à logística de transportes neste gigante territorial que é o Brasil e seus efeitos na Balança Comercial de nosso País. A técnica denominada Orça- mento Programa foi definida no âmbito Federal pelo Decreto- Lei nº 200, de 23 de fevereiro de 1967 (lá se vão 46 anos). O que seria cumprido se constituía através do desmembramento do planejamento estratégico, em

planos táticos e operacionais.

O Orçamento Programa iden-

tificava projetos e atividades, com

os valores que seriam gastos no

período anual, mais do que, então, a visão de se contabilizar o que foi gasto. Garantia obje- tividade e transparência na ação governamental. O Orçamento autorizativo se revestia da visão operacional do Governo, co- brando-se a eficiência ou a ineficácia da ação pública em relação ao período cursado. Coisa séria.

Governo, co- brando-se a eficiência ou a ineficácia da ação pública em relação ao período cursado.

Quantificar metas em relação

às suas ocupações públicas é

responsabilidade do Governo, no que a Constituição lhe atribui na organização do Estado. Além da transparência sobre seus atos há

que se ter, além das justificativas,

a ação corretiva imediata.

Corrige-se o Plano Estratégico, o Tático e o Operacional. Tudo para que o cidadão não pague pelo que não beneficia nem ele nem sua comunidade. Veja-se que isso, Planejamentos dando origens a bens e serviços como prometido,

já aconteceu neste País. Isso

representa avanços na sociedade

e no todo do Brasil.

O quadro de hoje apresenta a

complexidade de uma MP 595, baixada em 6 de dezembro de 2012 e que, não obstante ter sido

publicada às vésperas das festas juninas, ainda assim teve mais de 600 emendas apresentadas nos cinco dias permitidos no Con- gresso. Somente isso já deveria levar os doutos do Governo a repensar sobre a matéria, vez que

a MP atingiu uma lei chamada

de “Lei de Modernização dos Portos” (L 8.630/93) que, entre

seus méritos, tinha o fato de que

há mais de dez anos não ocorria

greve de portuários nos portos públicos e as pendências eram analisadas pelos stakeholders de cada porto, constituídos em Conselhos de Autoridade Por- tuária, com representação do Governo, nos seus três estágios (Federal, Estadual e Municipal),

dos concessionários, dos usuários

e dos trabalhadores. Ao fazer tabula rasa da Lei

nº 8.630/03 praticamente o

Governo abandonou também a figura do Estado República.

Tudo concentrado no Governo Central.

A prática recente de plane-

jamento do Governo Central pode ser vista no quadro seguinte:

do Governo Central pode ser vista no quadro seguinte: T ransportes PNLT – Plano Nacional de

Transportes

PNLT – Plano Nacional de Logística de Transporte: de- senvolvido recentemente pelo Ministério dos Transportes, mas

ao longo desses anos não atingiu suas metas. PNLP – Plano Nacional de

Portuária: criado recen-

temente pela Secretaria de Portos da Presidência da República, voltado para o planejamento da logística portuária nacional. PNLI – Plano Nacional de Logística Integrada: trata de projetos para a situação do fluxo do comércio exterior brasileiro, envolvendo, portanto, acessos rodoviários, ferroviários etc. Lançados há poucas semanas. Pode-se adicionar, só neste campo a participação no IIRSA, que tem apoio do BID e do qual o Brasil faz parte em face da integração rodoferroviário para a América do Sul; Em outras palavras, planos não faltam (o papel aceita tudo), falta a ação. Entende-se dessa forma que a multiplicidade de órgãos públicos (só Ministérios são 39), com forte conotação político- partidária, acabam produzindo mais papel do que soluções. Veja que estamos falando de um país continental e que compete com países fortemente desenvolvidos e possuidores de infraestrutura invejável, ferrovias, rodovias, portos. Navios, dentre outros modais, fazem a ponte entre o produtor e a porta de saída e de entrada das mercadorias de nosso comércio exterior. Não dá para produzir mais um plano no papel sem fixar claramente o que, por que, como e por quanto vamos desenvolver a ação. Resta uma lembrança ain- da tirada de um ditado dos

homens do mar: “para quem não sabe para onde vai, todo vento é ruim”.

Logística

não sabe para onde vai, todo vento é ruim”. Logística A Suécia depois do modelo sueco
A Suécia depois do modelo sueco de Mauricio Rojas R$ 15 ,00 Esse livro mostra
A Suécia depois
do modelo sueco
de Mauricio Rojas
R$ 15 ,00
Esse livro mostra o que
aconteceu com o modelo de
welfare state implantado
naquele país. Originalmente
socialista, Rojas assistiu à
debacle do famoso modelo sueco
da economia do bem-estar e às
alterações que se sucederam,
desmascarando a derradeira
utopia da esquerda no mundo.
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Instituto Liberal
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à venda no Instituto Liberal Peça pelo site: www.institutoliberal.org.br M AI /J UN /J UL -

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L iberalismo

Liberalismo

L iberalismo

As causas do debilitamento do liberalismo no século XX

Og Leme

Economista, com Mestrado pela Universidade de Chicago

comum, no final das minhas palestras sobre liberalismo e

as virtudes da ordem liberal, que alguém me pergunte: — “Muito bem, então por que a ordem libe- ral do século XIX, que perdurou até a 1ª Guerra Mundial, foi progres- sivamente substituída, em graus diferentes e em praticamente to- dos os países, por diferentes tipos de estatismo? Se o liberalismo era tão bom, como se explica sua substituição pelo Estado-Leviatã?” Foram vários os motivos, confor- me passo a relalar. O primeiro deles ocorreu – e ainda persiste em boa dose – no campo das idéias, conforme ob- servação pertinente de Hayek, e

É
É

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de Hayek, e É M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62

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se refere à prática de um racio- nalismo exacerbado. De acordo com ela, o que não pode ser ex- plicado racionalmente ou não decorre da ação inteligente pro- positada do homem não merece crédito. Como a ordem liberal se fundamenta em considerável me- dida em instituições e práticas so- ciais espontâneas originárias da ação humana não deliberada – como são a linguagem, o dinhei- ro, o mercado, o direito consue- tudinário, os usos, costumes e tra- dições – ela passou a ser questio- nada e substituída por equivalen- tes sucedâneos sintéticos, forjados propositadamente nas pranchetas dos engenheiros-sociais. O

Esperanto foi proposto como idioma universal, e os nossos imortais da Academia Brasileira de Letras não se cansam de propor regras gramaticais que engessem definitivamente o nosso belo e mutante idioma. São ridículos os acordos Brasil-Portugal sobre normatização e controle da nos- sa escrita e da nossa fala, cada vez menos dispostas a aceitar as ideias com que são ameaçadas por esses puristas ingênuos. A economia de mercado tem sofrido mais, muitíssimo mais, do que a linguagem espontânea que falamos e modificamos no nosso cotidiano. Durante o século XX, várias formas e graus de planeja-

O estado de guerra é uma situação excepcional que coloca direitos individuais de quarentena e privilegia os propósitos do Estado.

guerra é uma situação excepcional que coloca direitos individuais de quarentena e privilegia os propósitos do

mento econômico tentaram ocu- par o lugar até então exercido por agentes individuais livres, motiva- dos por interesses pessoais e guiados pelos preços relativos dos bens e serviços. E o mais espan- toso é que isso tenha ocorrido mesmo após Mises e Hayek terem demonstrado, nos anos 20, a im- possibilidade do cálculo econômi- co numa economia centralmente planejada. Em outras palavras, os dois grandes economistas aus- tríacos previram o fracasso inevi- tável de economias conduzidas por autoridades estatais carentes de preços de mercado para guiá- las. Acertaram em todos os casos onde esse tipo de intervenção eco- nômica governamental teve lugar. O liberalismo floresceu muito mais nos países onde prevalecia o direito consuetudinário do que em países ligados ao positivismo jurídico, como ocorre com o Bra- sil. O direito espontâneo consue- tudinário é gestado, na realidade, pela livre interação dos membros de uma sociedade, através do tempo; ele emerge dos usos, cos-

Ludwig von Mises
Ludwig von Mises
do tempo; ele emerge dos usos, cos- Ludwig von Mises L iberalismo tumes e tradições, e

Liberalismo

tumes e tradições, e é desco-

berto – e não criado – pelos juí- zes e legisladores que o transfor- mam em leis e o sistematizam. Contrariamente, o direito positivo acabou se convertendo na práti-

ca viciosa de considerar lei aquilo

que as assembléias legislativas produzem e é sancionado pelo presidente do país. Os leitores in- teressados no assunto podem ler

o excelente livro de Bruno Leoni –

jurista italiano já falecido – Law

and Freedom –, edição do Liberty Fund, Indianápolis, USA. O destino do dinheiro não foi mais feliz. Ele foi criado para di- minuir aquilo que os economistas chamam de custos de transação. Ele serve de meio de troca, unida- de de conta e de meio de entesouramento. Sua vigência depende sobretudo de crédito, isto é, ele vige enquanto os usuá- rios acreditarem nele, de forma que ele é aceito corriqueiramente nas transações diárias no merca- do. O dinheiro pode ter credi- bilidade sem ter sido criado pelo governo; a história se encarrega de mostrar a viabilidade do di- nheiro “privado”. Por outro lado,

o fato de ser fruto do monopólio estatal não assegura a sua

credibilidade. Existe hoje um nú- mero crescente de economistas liberais simpatizantes da priva- tização do dinheiro. Os leitores interessados no problema podem

ler o livro de Hayek, A Privatização

do Dinheiro, editado pelo Insti- tuto Liberal do Rio de Janeiro. Em síntese, a crítica liberal indaga:

“Por que manter monopólio esta- tal do suprimento de dinheiro?” Procurei dar aos leitores alguns exemplos de perversão no uso do racionalismo. Pretendo, a seguir,

mostrar-lhes a malignidade de outro tipo de deformação intelec- tual prevalescente no século XX, o holismo-animista, complemento do racionalismo exacerbado, for- mando com ele uma dupla letal.

O holismo-animista trata os mem-

bros individuais de uma comuni-

F. A. Hayek
F. A. Hayek

dade como se fossem um agre- gado, um todo. Pior ainda, um todo com atributos humanos:

memória, honra, propósitos etc. No holismo-animista os indiví- duos são substituídos por uma en- tidade abstrata – o país – que ad- quire concretude e virtudes huma- nas, entre as quais a capacidade de ter propósitos, próprios e mais importantes do que os dos mem- bros individuais da comunidade. Resulta daí uma sociedade, pare- cida com a dos animais gregários, na qual os cidadãos estão a ser- viço do país e, portanto, diferen- temente de uma ordem social onde os governantes estejam a serviço dos cidadãos. Em síntese, o holismo-animista gera socieda- des não liberais, nas quais os cidadãos são sufocados pelos in- teresses do “país”: Deutshland Über Alles! A crítica liberal alerta contra os fantasmas holistas- animistas que tanto sofrimento causaram durante o século XX. Mas não foram apenas o exa- gero racionalista e o surrealismo holista-animista que comprome-

MAI/JUN/JUL - 2013 - Nº 62

apenas o exa- gero racionalista e o surrealismo holista-animista que comprome- M AI /J UN /J

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Liberalismo

teram a prática liberal no século XX. Houve pelo menos três fenô- menos históricos que igualmente

alimentaram o estatismo: as guer- ras, as crises econômicas e o ideal do desenvolvimento econômico. Bem, “guerra é guerra”, como clamava aquela velhinha de uma anedota bem conhecida, reivindi- cando seus “direitos”! O estado de guerra é uma situação excep- cional que coloca direitos indivi- duais de quarentena e privilegia os propósitos do Estado. É o cal- do de cultura, o ágar-ágar do holismo-animista, que faz crescer

o governo à custa da liberdade

dos cidadãos. Não há ordem li- beral que resista a uma situação de guerra. E o século XX teve mui-

tas, de várias escalas e duração, diferentes lugares e os mais variados motivos. Como guerra e liberalismo não são compatíveis, sobrou o pior, no século XX, para

o liberalismo. Além das guerras do século XX, houve a Grande Depressão de 1929 para conspirar contra o li- beralismo. A idéia subversiva – o adjetivo me pareceu apropriado – que surgiu na chamada “Crise dos Anos 30” foi a de que o merca- do, deixado livre, acabava crian- do sua própria ruína. Assim sen- do, a ação deliberada e racional das autoridades era reclamada para disciplinar o mercado, evi- tando as suas impropriedades. O mercado falhava devido, em par- te, à falta de poderes do FRS (Fe- deral Reserve System), o banco central americano, para enfrentar os ciclos econômicos. Além de uma suposta falha de mercado, associada à suposta falta de poderes por parte do FRS que conjuntamente responderiam

pela Crise de 29, criou-se a ideia para sair da crise se fazia neces- sária uma ação estatal mais enér- gica no mercado, para reanimar

a debilitada demanda agregada.

A solução seria o aumento dos

gastos públicos, ideia Keynesiana

assimilada pelo Presidente Roo-

MAI/JUN/JUL - 2013 - Nº 62

pelo Presidente Roo- M AI /J UN /J UL - 2013 - N º 62 25

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sevelt e que serviu de fundamento de política econômica para o New Deal. (Sobre o assunto recomen- dado a leitura do capítulo sobre a grande depressão – Free to Choose – de Milton Friedman.) Foi exatamente em meados dos anos 30 que surgiu o que hoje se conhece como macroe- conomia, de inspiração Keyne- siana, formulada na base de re-

A evidência empírica disponível é clara: a melhoria das condições materiais de vida dos povos depende da existência da liberdade, especialmente da liberdadeeconômica. Esta, por sua vez, depende de instituições

que tornem eficazes os direitoshumanos, especialmente a liber- dade, os direitos de propriedade e a busca individual da felicidade.

lações funcionais entre grandes agregados, consumo (C), investi- mento (I), poupança (S) e renda nacional (Y). Como esses agrega- dos são, conforme o nome suge- re, somas de consumo, investi- mentos e poupanças individuais, surge o problema de saber quem seria o sujeito da ação. Não é di- fícil concluir que em matéria de política econômica seria o gover- no, uma conclusão inteiramente compatível com a ideia do holismo-animista que fundamen- ta as políticas anticíclicas domi- nantes no século XX. No campo econômico houve outro fenômeno de enorme im-

portância na expansão do estatismo: a busca deliberada do desenvolvimento econômico. Para os liberais, o processo econômi- co gerador de prosperidade ma- terial decorre da livre ação dos agentes econômicos; é um subproduto espontâneo, não de- liberado da busca, pelos agentes

individuais, de seus próprios inte- resses particulares. Essa ideia do caráter não propositado do de- senvolvimento econômico está exposta no livro A Riqueza da Nações (1776), do escocês Adam Smith. Durante o século XX, especial- mente após a II Guerra Mundial e da experiência soviética em pla- nejamento econômico, prolifera- ram os esforços dos economistas para analisar e entender o fenô- meno da prosperidade. Simulta- neamente, acumularam-se pro- gressivamente as tentativas de cri- ação de instrumentos “técnicos” para a ação deliberada do gover- no na geração e na condução do desenvolvimento econômico, des- de matrizes de insumo-produto a modelos matemáticos extrema- mente sofisticados de planejamen-

to econômico. Na realidade, tra-

tou-se de enorme desperdício de tempo, talento e dinheiro: a his- tória se encarregou de mostrar que Adam Smith estava certo: a riqueza das nações decorre da ação individual autônoma num ambiente social respeitador dos direitos de propriedade e dos con- tratos livremente firmados entre cidadãos livres. A evidência empírica disponível é clara: a melhoria das condições materiais de vida dos povos depende da existência da liberdade, especial- mente da liberdade econômica.

Esta, por sua vez, depende de ins- tituições que tornem eficazes os direitos humanos, especialmente

a liberdade, os direitos de pro-

priedade e a busca individual da felicidade. Essas instituições são o Estado de direito e a economia

de livre mercado.

e a busca individual da felicidade. Essas instituições são o Estado de direito e a economia

Livros

Torre de Babel

Resenha do livro Tower of Babble, de Dore Gold. Ed. Crown Forum, 2004.

Organização das Nações Unidas, herdeira da falecida

Liga das Nações, foi criada com a melhor das intenções: servir como um instrumento em busca da paz mundial após a Segunda Guerra. Será que ela atendeu aos anseios

originais de seus criadores? Será que o legado da ONU tem sido

positivo?

A resposta do israelense Dore

Gold, que atuou em diversas fun- ções diplomáticas, é um retumbante “não”. Em seu livro Tower of Babble,

ele argumenta que a ONU foi completamente desvirtuada, e acabou contribuindo para instigar

o caos global. O histórico da ONU,

especialmente o mais recente, após

o término da Guerra Fria, é uma

sucessão de fiascos: Bósnia, Ruanda, Somália. Por quê? De forma bastante resumida, o fracasso da ONU se deve à perda de sua claridade moral, presente na sua origem. Em um mundo dico- tômico, com os aliados de um lado

e os fascistas do outro, era mais fácil

defender o certo e o errado de forma objetiva. Tal clareza foi subs- tituída, com o tempo, pelo atual relativismo moral exacerbado, onde, em nome da “imparciali- dade”, ninguém mais deve tomar partido. Agressor e agredido viraram conceitos muito elásticos, confusos,

e o cinza absorveu qualquer chance

de divisão entre preto e branco. A ONU adotou um discurso acovar- dado, politicamente correto, inca- paz de julgar evidentes agressores. Ela não se mostrou à altura do

desafio de combater o terrorismo islâmico, por exemplo, pois lhe falta convicção sobre a própria existência do inimigo.

A
A

A democracia direta em nível

global seria, hoje, transferir poder

direta em nível global seria, hoje, transferir poder dos americanos para chineses e indianos. Sem sólidos
direta em nível global seria, hoje, transferir poder dos americanos para chineses e indianos. Sem sólidos

dos americanos para chineses e indianos. Sem sólidos pilares institu- cionais e culturais, a simples escolha da maioria pode representar a tirania sobre a minoria numérica. Em parte, foi justamente isso que aconteceu com a ONU. Ela foi cap- turada por países do Terceiro Mundo, e os Estados Unidos foram perdendo poder dentro da insti-

tuição. É por isso que países sob regimes autoritários ocuparam o Conselho de Direitos Humanos da ONU, esvaziando-o de qualquer sentido. É por isso também que o pequeno Israel tem sido alvo da maioria das resoluções da ONU, recebendo críticas absurdamente despropor- cionais. Tiranos massacram seus povos, rasgam qualquer acordo de direitos humanos, mas é Israel que sofre condenações constantes da ONU. Não Cuba, não o Irã, tam- pouco a China, mas Israel, a grande

ameaça à paz mundial, segundo uma desmoralizada ONU.

Palco para muitos discursos

inflamados e poucas ações efetivas, a ONU se tornou o paraíso dos burocratas e políticos populistas. Uma espécie de “governo mundial” sem responsabilidade, sem eleições populares. O poder sem rosto. Para piorar, a inoperância não tem sido punida, mas premiada! Vide a própria trajetória de Koffi Annan. Com tal mecanismo de incentivos,

a escalada da corrupção dentro do

organismo foi inevitável. São vários escândalos, como aquele do programa “Petróleo por Comida”, que teria desviado US$ 10 bilhões dos petrodólares

iraquianos de Saddam Hussein e envolvia gente importante da Rússia

e da França (talvez isso explique a

reação de ambos à guerra que derrubou o ditador). Há ainda casos

de participação dos funcionários da ONU em uma rede mundial de tráfico sexual, como retratado no filme A Informante, com Rachel Weisz. Com essa postura de “equiva- lência moral” entre agressores e agredidos, tomada pela maioria numérica de países antiamericanos

e antissemitas, e envolta em escân- dalos de corrupção, como encarar

a ONU como uma esperança pela

paz? E, sabendo disso tudo, como condenar países como Estados Unidos, Israel e Inglaterra, que precisam, muitas vezes, ignorar a ONU para sobreviver? Dore Gold está certo: aquilo virou uma Torre de Babel, uma cacofonia onde acaba sobressaindo o viés antiamericano acima de tudo. A ONU fracassou em sua missão.

antiamericano acima de tudo. A ONU fracassou em sua missão. por Rodrigo Constantino Economista e escritor

por Rodrigo Constantino Economista e escritor

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Rodrigo Constantino Economista e escritor M AI /J UN /J UL M AI /J UN /J

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