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John Locke A origem contratual do estado Locke, Dois tratados do governo civil [1690], II.87-99

John Locke A origem contratual do estado

Locke, Dois tratados do governo civil [1690], II.87-99

§87. O homem nasce, como se demonstrou, com um título à liberdade perfeita e ao gozo ilimitado de todos os direitos e privilégios da lei natural, em igualdade com qualquer outro homem ou grupo de homens no mundo; tem, por natureza, o poder, não só de proteger a sua propriedade, isto é, a sua vida, a sua liberdade e os seus bens, contra as injúrias e investidas dos outros homens, mas também de julgar e punir as infrações à lei natural cometidas por outros, quando na sua apreciação a ofensa o justificar, e até mesmo com a pena de morte nos crimes cuja hediondez, na sua opinião, o exigir. Mas como nenhuma sociedade política pode existir, nem subsistir, sem possuir em si mesma o poder de proteger a propriedade e, tendo em vista esse fim, de punir as ofensas de qualquer um dos seus membros; nesse caso, e só nesse caso, é que existe uma sociedade política, em que cada um dos seus membros renunciou a este poder natural e entregou-o nas mãos da comunidade para que fosse exercido todas as vezes em que as circunstâncias particulares não excluíssem o recurso à proteção da lei por ela estabelecida. Assim, ao excluir o julgamento privado de cada um dos membros, a comunidade converte-se num árbitro, que, por intermédio de regras estabelecidas, imparciais e uniformes para todas as partes, e de homens autorizados pela comunidade a executar essas regras, decide todas as controvérsias que podem ocorrer entre quaisquer membros dessa sociedade sobre qualquer assunto de direito, aplicando as penas previstas pela lei. Deste modo, distingue-se facilmente quem vive, e quem não vive, numa sociedade política. Os que estão unidos num único corpo, e que dispõem de uma lei comum estabelecida e de uma judicatura à qual apelar, com autoridade para decidir os diferendos entre eles, vivem uns com os outros numa sociedade civil. Mas aqueles que não dispõem de alguém a quem apelar, quero dizer, a quem apelar neste mundo, estão ainda no estado de natureza, na medida em que cada um, na ausência de um juiz comum, é o seu próprio juiz e executor. Ora, como mostrei anteriormente, esse é o perfeito estado de natureza. […]

§89. Por conseguinte, sempre que um certo número de homens se une em sociedade, cada um deles renunciando ao seu poder executivo da lei natural e cedendo-o à comunidade, então, e só então, se constitui uma sociedade política ou civil. Tal sucede sempre que um certo número de homens que vivem no estado de natureza se associam para formar um povo e um corpo político, submetido a um governo supremo, ou quando alguém se junta e se incorpora num governo já constituído. Por esse meio, ele autoriza a sociedade ou, o que é dizer o mesmo, o seu poder legislativo, a fazer leis por sua conta, de acordo com as exigências do bem público da sociedade, e a solicitar a sua assistência para a execução dessas leis (como se se tratasse de decretos da sua própria autoria). É assim que os homens

[John Locke, Dois tratados do governo civil. Trad. Miguel Morgado. Lisboa, Ed. 70, 2008.]

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John Locke A origem contratual do estado

Locke, Dois tratados do governo civil [1690], II.87-99

abandonam o estado de natureza e aderem a uma comunidade política, ou seja, o facto de estabelecerem neste mundo um juiz com autoridade para determinar todas as controvérsias e reparar as injúrias causadas a um qualquer membro da comunidade política. Esse juiz é o poder legislativo, ou o magistrado por ele designado. E sempre que estivermos na presença de um certo número de homens associados entre si, mas sem dispor de um poder decisivo a quem recorrer, estamos ainda no estado de natureza. […]

§95. Por os homens serem, como já se disse, por natureza livres, iguais e independentes, ninguém pode ser arrancado desta condição e sujeito ao poder político de outrem, sem o seu próprio consentimento. O único modo por meio do qual alguém se priva da sua liberdade natural e assume os vínculos da sociedade civil consiste no acordo com os outros homens para se juntarem e unirem numa só comunidade, para que possam viver uns com os outros de forma confortável, segura e pacífica no usufruto tranquilo das suas propriedades, e obter uma maior proteção contra os que não são membros da sua comunidade. Isto pode ser levado a cabo por um qualquer número de homens, porquanto não prejudica a liberdade dos restantes; estes permanecem como estavam anteriormente, na liberdade do estado de natureza. Quando um qualquer número de homens consente na criação de uma comunidade ou de um governo, transforma-se, dessa forma e imediatamente, numa pessoa jurídica e forma um único corpo político, no qual a maioria tem o direito de agir e decidir em nome de todos.

§96. Com efeito, quando um grupo de homens constitui, com o consentimento de cada indivíduo, uma comunidade, faz dessa comunidade, por esse meio, um corpo único que tem o poder de agir como tal, o que se consegue mediante a vontade e a decisão da maioria. O que faz uma comunidade mover-se numa só direção é o consentimento dos indivíduos que a constituem; é necessário que o corpo se mova na direção para onde a força mais considerável o arrasta, e essa força é o consentimento da maioria. De outro modo, é impossível que consiga agir ou perdurar como um corpo único, como uma única comunidade, tal como concordaram todos os indivíduos que a ela se associaram; todos estão vinculados ao consentimento definido pela maioria. É por isso que vemos nas assembleias investidas do poder de agir por intermédio de leis positivas, quando a lei positiva que as capacita a agir não fixa um número certo, o ato da maioria passa pelo ato da totalidade dos seus membros, e, por conseguinte, decide como se tivesse, pela lei natural e da razão, o poder do todo.

[John Locke, Dois tratados do governo civil. Trad. Miguel Morgado. Lisboa, Ed. 70, 2008.]

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97. Assim, cada homem, por consentir juntamente com outros na formação de um único corpo político submetido a um só governo, aceita perante todos os membros dessa sociedade a obrigação de se sujeitar à decisão da maioria, de se deixar conduzir por ela; de outro modo, o pacto original, por meio do qual ele se associa com os outros para formar uma única sociedade, não faria sentido, e nem seria um pacto se ele permanecesse livre, sem outros vínculos para além daqueles que já tinha no estado de natureza. Neste caso, o que restaria do pacto, se não estivesse obrigado a nenhuma determinação da sociedade senão àquelas que ele considerasse convenientes e a que tivesse efetivamente dado o seu consentimento? Tal seria ter uma liberdade tão grande como a que tinha antes do pacto, ou como tem qualquer pessoa no estado de natureza, que pode sujeitar-se e consentir nas decisões que lhe parecerem mais convenientes. […]

§99. É preciso assumir, portanto, que quem abandona o estado de natureza e se une a uma comunidade cede todo o poder que é necessário para a prossecução dos fins que o levaram à sua adesão à maioria da comunidade, a menos que seja expressamente determinado um número superior à maioria simples. Supõe-se que essa cedência é efetuada no ato de acordo de associação a uma sociedade política, não sendo necessário outro pacto para além deste realizado entre os indivíduos que compõem ou formam uma comunidade. Assim, aquilo que inicia e realmente constitui todas as sociedades políticas não é outra coisa senão o consentimento de um qualquer número de homens livres capaz de formar uma maioria, de se unir e integrar numa sociedade. Isto, e somente isto, principiou ou poderia principiar todos os governos legítimos do mundo.

ESVF | Filosofia | 10º Ano Francisco Chorão

[John Locke, Dois tratados do governo civil. Trad. Miguel Morgado. Lisboa, Ed. 70, 2008.]

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