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NUMA LINGUAGEM SIMPLIFICADA

Adaptação:

L. NEILMORIS

2 – Allan Kardec

O CÉU E O INFERNO
OU A JUSTIÇA DIVINA SEGUNDO O ESPIRITISMO

Exame comparado das doutrinas sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual sobre as penalidades e recompensas futuras, sobre os anjos e demônios, sobre as penas, etc., seguido de numerosos exemplos acerca da situação real da alma durante e depois da morte.

Allan Kardec

3 – O CÉU E O INFERNO

O CÉU E O INFERNO Ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo -- Numa Linguagem Simplificada Allan Kardec Título original em francês: LE CIEL ET L'ENFER ou La Justice Divine selon le Spiritisme Lançado em 1865 Paris, França © 2010 – Brasil

www.luzespirita.org.br

4 – Allan Kardec

Nota da adaptação

A proposta deste trabalho é trazer ao meio popular o consolo e a iluminação de O CÉU E O INFERNO, do memorável Codificador Allan Kardec. Um livro revolucionário, que aborda de forma clara e objetiva questões cruciais sobre o destino das almas após a morte, os anjos e demônios e coisas afins. Mas, convenhamos, as traduções brasileiras, até então disponíveis, ainda oferecem à grande massa popular graves obstáculos para uma perfeita compreensão, não por falha dos tradutores – muito pelo contrário --, mas pela fidelidade com que verteram dos originais em francês para o português, mantendo a elevada elocução. Kardec, eminente autoridade em linguística, evidentemente, só poderia escrever à altura do superior nível cultural de seus contemporâneos. Desta forma, e nada mais justo, as versões procuram sempre equilibrar a linguagem. Esta adaptação procura simplificar o texto utilizando-se de vocábulos mais comuns, mais atualizados, no entanto, sem alterar o teor da argumentação. As novas verdades que a maravilhosa Doutrina Espírita nos traz devem estar ao alcance de todos, por uma questão de respeito e de amor.

Louis Neilmoris

15 Causas do temor da morte Por que os espíritas não temem a morte Capítulo III – O CÉU – pág. 38 Capítulo VI – DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS – pág. 10 Capítulo II – TEMOR DA MORTE – pág. 26 Intuição das penas futuras O inferno cristão imitado do inferno pagão Os limbos Quadro do inferno pagão Esboço do inferno cristão Capítulo V – O PURGATÓRIO – pág. 51 A carne é fraca Princípios da Doutrina Espírita sobre as penas futuras Código penal da vida futura .5 – O CÉU E O INFERNO Sumário Primeira Parte .DOUTRINA Capítulo I – O FUTURO E O NADA – pág. 41 Origem da doutrina das penas eternas Argumentos a favor das penas eternas Impossibilidade material das penas eternas A doutrina das penas eternas fez sua época Ezequiel contra a eternidade das penas e o pecado original Capítulo VII – AS PENAS FUTURAS SEGUNDO O ESPIRITISMO – pág. 19 Capítulo IV – O INFERNO – pág.

67 Origem da crença nos demônios Os demônios segundo a Igreja Os demônios segundo o Espiritismo Capítulo X – INTERVENÇÃO DOS DEMÔNIOS NAS MODERNAS MANIFESTAÇÕES – pág. Emma O doutor Vignal Victor Lebufle A Sra. 88 Segunda Parte . 100 Sanson A morte do justo Jobard Samuel Filipe Van Durst Sixdeniers O doutor Demeure A viúva Foulon. 60 Os anjos segundo a Igreja Refutação Os anjos segundo o Espiritismo Capítulo IX – OS DEMÔNIOS – pág.EXEMPLOS Capítulo I – O PASSAMENTO – pág. nascida Wollis Um médico russo Bernardin A condessa Paula Jean Reynaud Antoine Costeau A Srta. 77 Capítulo XI – DA PROIBIÇÃO DE EVOCAR OS MORTOS – pág. 95 Capítulo II – ESPÍRITOS FELIZES – pág.6 – Allan Kardec Capítulo VIII – OS ANJOS – pág. Anais Gourdon Maurice Gontran .

Hélène Michel O marquês de SaintPaul Sr.7 – O CÉU E O INFERNO Capítulo III – ESPÍRITOS EM CONDIÇÕES MEDIANAS – pág. médico Eric Stanislas Sra. Cardon. 139 Joseph Bré Sra. 150 O castigo Novel Auguste Michel Exprobrações de um boêmio Lisbeth Príncipe Ouran Pascal Lavic Ferdinand Bertin François Riquier Claire Capítulo V – SUICIDAS – pág. Anna Belleville Capítulo IV – ESPÍRITOS SOFREDORES – pág. 168 O suicida da Samaritana O pai e o conscrito FrançoisSimon Louvet Mãe e filho Duplo suicídio. por amor e por dever Luís e a pespontadeira de botinas Um ateu Félicen Antoine Bell Capítulo VI – CRIMINOSOS ARREPENDIDOS – pág. 188 Verger Lemaire Benoist O Espírito de Castelnaudary Jacques Latour .

nulidade sobre a Terra Um Espírito aborrecido A rainha de Oude Xumène Capítulo VIII – EXPIAÇÕES TERRESTRES – pág. o mendigo História de um criado Antonio B. Letil Um sábio ambicioso Charles de SaintG. o menino do nº 4 Szymel Slizgol JulienneMarie. 208 Lapommeray Angèle. o cego .. 219 Marcel..8 – Allan Kardec Capítulo VII – ESPÍRITOS ENDURECIDOS – pág. doente mental Adélaide-Marguerite Gosse Clara Rivier Françoise Vernhes Anna Bitter Joseph Maître. a mendiga Max..

9 – O CÉU E O INFERNO Primeira Parte DOUTRINA .

ao deixar a Terra. E não é menos certo que morremos. de nada nos serviria todo o esforço na correção das paixões. ou tudo se aniquilará de vez? Essa é uma tese que se impõe. e o seu coração ficará exaltado de alegria. tudo perdido! Portanto. Todo homem experimenta a necessidade de viver. que nada temem. Se assim fosse. que freio haverá para os que não temem nada? Estes. de que serviriam essas aspirações de felicidade. Digam ao moribundo que ele ainda viverá; que a hora de sua morte não chegou; digam sobretudo que será mais feliz do que porventura tenha sido. progresso. tal a alternativa. a sorte do homem seria cem vezes pior que a do animal. é o mais poderoso estimulo ao egoísmo. pensamos e operamos – eis o que é real. de devotamento à causa do progresso.10 – Allan Kardec CAPÍTULO I O FUTURO E O NADA 1. sabedoria adquirida com muito esforço. de fadiga para nos ilustrarmos. obrigatoriamente. Mas. desde que de tudo isso nada aproveitássemos. porque não sabemos quanto tempo existiremos”. E se o respeito humano se limita a algumas pessoas. gozemos de qualquer modo. predominando o pensamento de que amanhã mesmo. Vivemos. o homem concentra todos os seus pensamentos. Esta preocupação exclusiva do presente conduz o homem a pensar em si. de gozar. Logicamente não se explicaria a preocupação de um futuro que se não espera. inteligência. acreditam que as leis humanas só atingem os acanhados e assim empregam todo o seu engenho no melhor meio de serem superiores a elas. se um leve sopro pudesse anulá-las? Haverá algo de mais desesperador do que esse pensamento da destruição absoluta? Afeições caras. pois que conosco tudo se acaba; gozemos depressa. 2. . porque este vive inteiramente do presente na satisfação dos seus apetites materiais. talvez. Ainda consequente é esta outra conclusão. sem aspiração para o futuro. mais grave para a sociedade: “Gozemos apesar de tudo. para onde vamos? Que seremos após a morte? Estaremos melhor ou pior? Existiremos ou não? Ser ou não ser. tudo despedaçado. de nada nos serviria tudo isso. certa intuição secreta nos diz que isso não é possível. aliás. Pela crença no nada. de preferência a tudo: pois. de amar e ser feliz. na vida presente. Porém. Para sempre ou para nunca mais; ou tudo ou nada: Viver emos eternamente. cada qual por si; a felicidade neste mundo é dos mais espertos”. Mas. e o incrédulo é consequente quando chega à seguinte conclusão: “Vamos aproveitar enquanto estamos aqui; gozemos o máximo possível.

seria preciso aceitá-la. 3. Dizendo ela ser branco o que os fatos dizem ser negro. não somente pela perspectiva dos perigos que ela acarreta. . Se por outro lado a religião se condenasse à imobilidade. nem sistemas contrários e nem a ideia dos males resultantes poderiam se opor sua existência. tornando visíveis e concretas a alma e a vida futura. como de sua existência não sobreviverá nem um só traço: Que fará esse povo condenado. em dado tempo. os bens. a doutrina do niilismo realiza todos os dias isoladamente. A minha felicidade ou infelicidade depende da utilidade ou inutilidade da presente existência. o niilismo 1 que rompe os verdadeiros laços de solidariedade e fraternidade. Se este moço fosse espírita teria dito: “A morte só destruirá o corpo. abolindo suposições. 4 Positivismo: filosofia ou ideia que. todo um povo adquire a certeza de que em oito dias. não somente pelo raciocínio. em que se procura compreender antes de crer. respondia: “Que me importa. num mês. anarquia – Nota do Digitador.11 – O CÉU E O INFERNO Se há doutrina insensata e antissocial. como as de ordem religiosa. mantidos por uma força material. ou num ano. mas pelos fatos materiais. é porque em primeiro lugar na maioria dos incrédulos há mais orgulho do que verdadeira incredulidade. por uma circunstância qualquer. fossem quais fossem as suas consequências. Mas. propõe que ordenar as teorias dentro da uma experimentação concreta. Portanto. Serei na vida futura aquilo que eu próprio tiver feito de mim nesta vida; do que nela puder adquirir em qualidades morais e intelectuais nada perderei. Sabendo disso. uma vez que se impusesse como verdadeira. Quando lhe advertiam do perigo de uma vida viciada. a indiferença ganham terreno dia a dia. Suponhamos que. é. em que se fundam as relações sociais. que deixarei como fato usado. D. contrariedade à ordem. mais dúvida do que convicção — porque eles possuem mais medo do nada do que pretendem aparentar — o qualificativo de espíritos fortes exalta a vaidade deles e o amor-próprio; em segundo lugar porque os descrentes absolutos se contam por pequena minoria. A Ciência havia dito: Pode morrer dentro de oito dias ou de dois anos. é preciso optar entre a evidência e a fé cega. Um moço de dezoito anos. 1 2 Niilismo: crença no nada. Pois bem! O que não acontece coletivamente. enquanto aguarda o extermínio? Trabalhará pela causa do seu progresso. foi declarado incurável. se a descrença da maioria se tornar maioria. porque será outro tanto de ganho para o meu adiantamento; toda a imperfeição de que me livrar será um passo a mais para a felicidade. a sanção de suas doutrinas por fatos positivos. por mais legítima que seja – mesmo a lei do Pai? Nessa emergência. será aniquilado; que não sobreviverá nenhum indivíduo. é que lhe falta alguma coisa na luta. é seguramente. Qual destas doutrinas é preferível? 3 Cepticismo ou ceticismo: descrença. Apesar dos melhores esforços da religião. D. assim como a concordância das mesmas com os dados positivos da Ciência. a vida do seu semelhante? Vão se submeter a qualquer lei ou autoridade. a sociedade entrará em desorganização. É nestas circunstâncias que o Espiritismo vem pôr um freio na propagação da falta de fé. sem dúvida. Apesar disso. Eis a consequência lógica do niilismo. mas o meu Espírito viverá. se não tenho mais de dois anos de vida? De que me serviria fatigar o espírito? Gozo o pouco que me resta e quero me divertir até o fim”. é preciso dizer que o cepticismo3. estaria falida. num sentindo simplificado. mas não irá além. sem comprovação – N. e sentem a seu pesar as influências da opinião contrária. é do meu interesse aproveitar o pouco tempo que me resta e evitar tudo o que possa diminuir minhas forças”. 4. Mas. a dúvida. O que lhe falta neste século de positivismo4. da sua instrução? Irão se entregar ao trabalho para viver? Respeitará os direitos. E se as consequências não são desastrosas tanto quanto poderiam ser. Eis ao que a propagação da doutrina niilista promove2. afetado de uma enfermidade do coração. se a religião se mostra impotente para barrar a descrença. haverá para ele qualquer dever? Certo que não. o moço logo abandonou os estudos e se entregou a excessos de todo o gênero. individualmente. dúvida – N.

inteligência e sentimento. Incontestavelmente esta doutrina é um passo adiantado sobre o puro materialismo. igual gota d’água no oceano. é como se não existisse. cada indivíduo ao nascer assimila uma parcela desse princípio – que constitui sua alma – e lhe dá vida. Daí se infere que esse Todo se encontraria. reentrando a alma no Todo Universal donde saiu. é para ele a mesma coisa. sendo uma parte do todo. aniquilado ou perdendo a sua individualidade. tão desesperadora. 6. semeiam na sociedade germens de perturbação e destruição. Pela morte. Além disso. Há uma doutrina que se defende do vício de materialista porque admite a existência de um princípio inteligente fora da matéria: é a da absorção no Todo Universal. a fonte universal de inteligência que abastece as almas humanas é independente da Divindade. Nesta doutrina. e havendo progredido durante a vida. não é precisamente o panteísmo. O que é essencial nela é a conservação do seu eu. os bons e maus instintos independentes de toda a educação e tantas vezes em desarmonia com o meio no qual se desenvolvem? Não resta dúvida de que a educação modifica as qualidades intelectuais e morais da alma. da juventude principalmente. que lhe importa ou não sobreviver? O futuro se afigura nela sempre nulo e a vida presente é a única coisa que o interessa e preocupa. todos os corpos da Natureza formam a Divindade. . podemos crer em alguma coisa ou não crer em nada. as mais sublimes virtudes e os vícios mais desprezíveis? Por que a bondade.12 – Allan Kardec Todos somos livres na escolha das nossas crenças. apoiando-se na autoridade da sua sabedoria e na influência da sua posição. Segundo esta doutrina. visto como admite alguma coisa. sem este. pela continuação. cada indivíduo. quando este nada admite. da barbaria? Como podem ser tão diferentes entre si as partes de um mesmo todo homogêneo? Diríamos que é a educação que a modifica? Neste caso donde vêm as qualidades inatas. ou antes. mas aqui ocorre outra dificuldade: Quem dá a esta a educação para fazêla progredir? Outras almas que por sua origem comum não devem ser mais adiantadas. Porém as consequências são exatamente as mesmas. é Deus ele próprio. profundamente modificado e melhorado. a negação do futuro. 5. tão subversiva como o materialismo propriamente dito. Assim. Deus é o conjunto de todas as inteligências reunidas. todos os seres. leva-lhe um elemento mais perfeito. a doçura. Então. como se explica saírem almas ignorantes e perversas incessantemente desse Todo? 7. da qual são as moléculas e os elementos constitutivos. por que as almas tomadas ao grande oceano da inteligência universal se assemelham tão pouco? Por que a inteligência e a estupidez. O panteísmo propriamente dito considera o princípio universal de vida e de inteligência como sendo a Divindade. nem por isso as relações sociais deixam de se romper – e para sempre. da crueldade. caindo em grande responsabilidade. as inteligências precoces. sob o ponto de vista das consequências morais. o Universo é uma imensa república sem chefe. mas aqueles que procuram fazer prevalecer a teoria das massas. podemos fazer esta objeção: todas as gotas d’água tomadas ao oceano se assemelham e possuem propriedades idênticas como partes de um mesmo todo. onde cada qual é chefe com poder absoluto. esta doutrina é tão insensata. esta alma volta ao foco comum e se perde no infinito. nenhum ser superior e independente rege o conjunto. a mansidão ao lado da maldade. Ser o homem mergulhado no nada ou no reservatório comum. Além disso. Deus é ao mesmo tempo Espírito e matéria.

todos concorreram para as leis da Natureza. todas as religiões tiveram de ser relativas ao grau de adiantamento moral e intelectual dos homens: sendo estes. 12. de sabedoria e previdência iguais as que regem o Universo? Se todas as almas são porções da Divindade. E se a lógica nos conduz à individualidade da alma. 11. Sob o ponto de vista moral. consecutivamente. Todas as religiões admitiram igualmente o princípio da felicidade ou infelicidade da alma após a morte.13 – O CÉU E O INFERNO 8. O homem tem três alternativas: o nada. 9. Segundo os princípios de justiça. se um só fato lhe desmentir. evitando o inferno. perguntamos como um todo perfeito pode ser formado de partes tão imperfeitas. E como pôde um ser imperfeito – formado de ideias tão divergentes – conceber leis tão harmônicas. também nos aponta esta outra consequência: a sorte de cada alma deve depender das suas qualidades pessoais. De acordo com a opinião de alguns panteístas. das quais estas são as principais: não podendo aceitar a divindade sem infinita perfeição. então. na origem dos tempos. sendo cada alma parte integrante da Divindade. tão admiráveis de unidade. como pode ser que elas murmurem sem cessar contra essas leis que são obra sua? Uma teoria não pode ser aceita como verdadeira senão com a cláusula de satisfazer a razão e dar conta de todos os fatos que abrange. Assim. é quanto à natureza dessas penas e gozos. do homem de bem. Em primeiro lugar é para as almas – tal como no sistema precedente – a absorção num todo e a perda da individualidade. No que elas diferem essencialmente. No começo. deles decorrem dificuldades insuperáveis. e se Ele progride constantemente. pois são impotentes para resolver todas as questões de fato que suscitam. para honrar a Deus e alcançar por esse meio o céu. a absorção ou a individualidade da alma antes e depois da morte. tendo necessidade de progredir? Devendo cada parte ser submetida à lei do progresso. É para esta última crença que a lógica nos remete irresistivelmente. crença que tem formado a base de todas as religiões desde que o mundo existe. deveria ter sido. não incorre em responsabilidade por seus atos bons ou maus. Deus deixaria de ter vontade única para ser um composto de milhares de vontades divergentes. muito imperfeito. resumidas na doutrina do céu e do inferno encontrada em toda parte. é que não contém a verdade absoluta. soberana. deixa de ser dominada por um poder superior. é preciso admitir que o próprio Deus deve progredir. principalmente sobre as condições determinantes de umas e de outras. e os deveres impostos por estes. ou por outra. A este sistema podemos opor inumeráveis contradições. as almas devem ter a responsabilidade dos seus atos. Daí os pontos de fé contraditórios dando origem a cultos diferentes. as consequências são igualmente ilógicas. materializados demais para . sem o livre-arbítrio há fatalidade. mas para haver essa responsabilidade é preciso que elas sejam livres na escolha do bem e do mal. Além disso. 10. ela pode praticar o mal impunemente. estas teorias não satisfazem nem a razão nem os desejos humanas. as penas e recompensas futuras. não tendo interesse algum na prática do bem. e com a fatalidade não existiria junto com a responsabilidade. Além do mais. pois seria irracional admitir que a alma atrasada do selvagem – como a do homem perverso – estivesse no nível da do sábio. admitindo que as almas conservem essa individualidade.

A Doutrina Espírita – não sendo uma obra de imaginação mais ou menos arquitetada engenhosamente. 13. No entanto. já que as teorias religiosas eram incompatíveis com a lógica – N. Instintivamente o homem tem a crença no futuro. e pela força das coisas. Se a religião – a princípio apropriada aos conhecimentos limitados do homem – tivesse acompanhado sempre o movimento progressivo do espírito humano. mas não possuindo até agora nenhuma base certa para defini-lo. digno em tudo da grandeza. os que não encontram nem nas crenças nem nas filosofias comuns o que procuram. apresente-lhe um futuro condicionalmente lógico. A unificação feita relativamente à sorte futura das almas será o primeiro ponto de contato dos diversos cultos. para a completa fusão. o materialismo e o panteísmo lhe parecem mais racionais. E há razão. O homem quer saber donde veio e para onde vai. Mostrando a ele um fim que não corresponde às suas aspirações nem à ideia que ele faz de Deus. cuja utilidade sua razão contesta. porque com eles ao menos se raciocina e se discute.14 – Allan Kardec compreenderem o mérito das coisas puramente espirituais. 5 “Tornaram-se filósofos” no sentido de buscar explicação racional para as questões da vida. ele tudo rejeita. O Espiritismo tem por si a lógica do raciocínio e a aprovação dos fatos. Por muito tempo essas fórmulas satisfizeram a razão deles. mais tarde. uma vez que a religião não o preenchia. e que aceitará à falta de melhor crença. e lhe impondo condições para atingir o seu objetivo. e ele repudiará o materialismo e o panteísmo. tampouco aos dados positivos que lhe fornece a Ciência. porém o resultado da observação de fatos materiais que se desdobram hoje à nossa vista – atrairá as opiniões divergentes ou indecisas. 14. não haveria incrédulos. porém mais tarde – porque a luz se fez em seu espírito e sentindo o vácuo dessas fórmulas –. da justiça e da infinita bondade de Deus. O Espiritismo dá coisa melhor. a sua imaginação fantasiou as teorias que provocam a diversidade de crenças. D. um passo imenso para a tolerância religiosa em primeiro lugar e. mas na certeza. abandonaram-na e se tornaram filósofos5. falsamente embora. cujo vazio sente em seu íntimo. trará gradualmente a unidade de crenças sobre esse ponto. . e ele terá fé desde que lhe seja dado o sustento espiritual de harmonia com as suas necessidades intelectuais. porque está na própria natureza do homem a necessidade de crer. e é por isso que inutilmente é combatido. atribuíram a maior parte dos deveres religiosos ao cumprimento de fórmulas exteriores. no futuro – como já está acontecendo –. eis por que é acolhido rapidamente por todos os atormentados da dúvida. porque é melhor raciocinar em falso do que não raciocinar absolutamente. não já baseada em simples hipótese.

mais tarde se torna simples esperança e. tem o sentimento íntimo do futuro. nada que não se prenda ao presente. Assim é que. seja qual for a escala de sua posição social. tudo pelo futuro sem desprezo do presente. no presente como no futuro. ter penetrado – pelo pensamento – no mundo espiritual. uma certeza apenas atenuada por apego oculto à vida corporal. nos levaria a deixar prematuramente a vida e a negligenciar o trabalho terreno que deve servir ao nosso próprio adiantamento. Entretanto. outro objetivo ao trabalho.15 – O CÉU E O INFERNO CAPÍTULO II TEMOR DA MORTE   CAUSAS DO TEMOR DA MORTE POR QUE OS ESPÍRITAS NÃO TEMEM A MORTE CAUSAS DO TEMOR DA MORTE 1. perfeição. A solidariedade entre vivos e mortos faz a pessoa compreender o sentido de existir na Terra. resignação e serenidade. antes dela. fazendo dele uma ideia tão exata quanto possível. de engrandecer-se incessantemente em inteligência. 3. sem esse freio. onde a fraternidade e a caridade têm desde então um fim e uma razão de ser. À proporção que o homem compreende melhor a vida futura. A crença da imortalidade é intuitiva e muito mais comum do que a crença do nada. dá-lhe paciência para esperar e coragem para suportar as fadigas transitórias da vida terrestre. . O homem. de reatar as relações que teve na Terra. a intuição lhe diz que a morte não é a última fase da existência e que aqueles entes queridos – cuja perda lamentamos – não estão irremissivelmente perdidos. porque sabe que o futuro depende da boa ou da má direção do hoje. uma vez esclarecida a sua missão terrena. depois dela. Este temor é um efeito da sabedoria da Providência e uma consequência do instinto de conservação comum a todos os viventes. A certeza de reencontrar seus amigos depois da morte. o temor da morte diminui. finalmente. o futuro é uma vaga intuição. isto é. Para libertar-se do temor da morte é preciso encará-la sob o seu verdadeiro ponto de vista. Ele é necessário enquanto o homem não estiver suficientemente esclarecido sobre as condições da vida futura. como contrapeso à tendência que. A certeza da vida futura lhe dá outro rumo para as ideias. 4. nos povos primitivos. de não perder um só fruto do seu trabalho. ele aguarda o fim com calma. a maior parte dos que creem nela apresentam-se possuídos de grande amor às coisas terrenas e com medo da morte! Por quê? 2. o que demonstra da parte do Espírito encarnado um tal ou qual desenvolvimento e aptidão para se desprender da matéria.

Ao homem não suficientemente esclarecido. é que eles não são verdades”. Quanto a si mesmos. Este estado de coisas é entretido e prolongado por causas puramente humanas. 6. A vida futura é para eles uma ideia vaga diante de uma probabilidade do que é certeza absoluta. um átomo. e não têm mais a seus olhos as qualidades pelas quais se fizeram amados. lastimaremos menos a perda do corpo – que antes era fonte de misérias e dores. A primeira é a feição com que se insinua a vida futura. acreditam e desejariam que assim fosse. é a impressão do ensino que relativamente se tem dado a ela desde a infância. sem nada fazerem de esforço próprio para progredirem. não no corpo. vamos nos ocupar com ele primeiro. vê ou percebe?”. oculto ainda pela incerteza. desde que por ela pudesse se descuidar do presente – que é necessário para seu adiantamento material e intelectual.16 – Allan Kardec No Espírito atrasado a vida material prevalece sobre a espiritual. o homem não distingue a vida além do corpo. o Espírito necessita de uma força só adquirível na madureza. fica a limitada classe dos eleitos. condenados se contorcendo a expiarem em torturas e chamas eternas os erros de uma vida passageira. Daí. um anseio secreto igualmente o estimula pela sobrevivência da alma. mas na alma – que é a fonte da vida e ser real a tudo sobrevivente –. De um lado. Esse temor diminui na proporção que a certeza aumenta. cuja razão mal pudesse suportar a perspectiva muito real e sedutora de um futuro melhor. 5. mas uma hipótese. Justifica-se assim a preferência ao positivismo da vida terrestre. gozando de beatitude . ficam mediocremente satisfeitos com a perspectiva de se transformarem em manadas. que possui algo de mais concreto. uma faísca. as almas abatidas e aflitas do purgatório aguardam a intercessão dos vivos que orarão ou farão orar por elas. Portanto. Ao contrário. a descrença de uns e a crença duvidosa de um grande número. mas que não conseguiria satisfazer a razão esclarecida dos pensadores refletidos. o temor da morte decorre da noção insuficiente da vida futura. tudo se parece perdido. não podem compreender o amor de uma faísca nem o que a ela possamos ter. Outra causa de apego às coisas terrenas – mesmo naqueles que creem mais firmemente na vida futura –. É que para eles a alma não parece uma realidade efetiva. embora denote também a necessidade de viver e o receio da destruição total. Estas duas categorias compõem a maioria imensa da população de alémtúmulo. feição que poderia contentar as inteligências pouco desenvolvidas. Convenhamos que o quadro desenhado pela religião sobre o assunto é nada sedutor e ainda menos consolador. se concentrarmos o pensamento. que o progresso fará desaparecer. É enorme o número dos dominados por este pensamento. que o futuro virá por sua vez”. Assim. Acima delas. Eis aí o lado útil da questão. Os entes queridos deles – reduzidos ao estado de átomos no seu modo de pensar – estão perdidos. e desaparece quando esta é completa. embora a vida real esteja na alma. E depois acrescentam: “definitivamente que é a alma? Um ponto. desesperador. Apegando-se às aparências. aniquilado o corpo. Os séculos sucedem-se aos séculos e não há para tais desgraçados sequer o alívio de uma esperança e – o que é mais cruel – sem proveito do arrependimento. Mas para isso. mas apesar disso exclamam: “E se não for assim?! O presente é real. dizem estes: “Desde que nos apresentam como verdades absolutas princípios contestados pela lógica e pelos dados positivos da Ciência. uma chama? Como se sente. seria prudente não o deslumbrar com tal ideia. De outro lado.

8. porque não tem conhecimento dele. mais próprias a infundirem terror do que a provocarem a esperança. Seguramente. e a possibilidade até de comprá-la com dinheiro. A morte é rodeada de cerimônias sinistras. A ideia de um futuro melhor apenas toca de leve o pensamento. havendo mesmo muitas e honrosas exceções. . A partida para esse mundo mais feliz só se faz acompanhar do lamento dos sobreviventes. é sempre com aspecto repugnante e nunca como sono de transição. 7. e que a ideia que fazem das condições de felicidade no outro mundo não entretenha o apego aos bens deste. assegurado o seu futuro pelo cumprimento de certas fórmulas ou por dádivas póstumas. Mais de um crente considera em seu íntimo que. nem todos pensam assim. a crença comum coloca as almas em regiões apenas acessíveis ao pensamento. fustigando o egoísmo. mostrando-o hediondo e descarnado. a própria Igreja põe entre umas e outras uma barreira insuperável. Dizem: “Que desgraça. em vez de infundir esperança. Esta inutilidade eterna – preferível sem dúvida ao nada – não deixa de ser de uma fastidiosa monotonia. por menos que meditem. o selvagem ignorante – de senso moral obtuso – esteja ao mesmo nível do homem que atingiu. É por isso que se vê. Estes raciocínios não deixam de preocupar os mais fervorosos crentes. morrer tão jovem. à medida que a sua fé se for firmando. Menos concebível ainda é que a criança falecida com pouca idade – antes de ter consciência de seus atos – desfrute dos mesmos privilégios somente por força de uma cerimônia (batismo) na qual a sua vontade não teve parte alguma. como se não fossem encontrar maiores satisfações no além-túmulo. o que não quer dizer que isto não ocorra. Lastima-se por eles a perda dos gozos mundanos. como se imensa desgraça atingisse os que partem. onde de alguma maneira se tornam estranhas aos vivos. que de nada o privam. o mais alto grau de ciência e moralidade práticas. declarando todas as relações como rompidas e toda comunicação impossível. mas não se poderia contestar que o maior número pensa assim. sobretudo das massas pouco esclarecidas. após longos anos de trabalho. por meio de algumas práticas exteriores. nas figuras que retratam os bem-aventurados. é perdida toda a esperança de revê-las. dizem-lhes eternos adeuses como se jamais devessem revê-los. Se as almas estão no inferno. Sem dúvida que será preciso muito tempo para o homem se desfazer desses preconceitos. figuras angélicas onde mais transparece o tédio que a verdadeira felicidade.17 – O CÉU E O INFERNO contemplativa por toda a eternidade. a ponto de conceber uma ideia mais sensata da vida espiritual. única que se afigura compatível com a felicidade absoluta. a menos que se vá para lá também. 9. só por haver recebido o batismo. nenhum simboliza a alma radiosa se livrando das amarras terrestres. uma vez que se consegue a salvação trabalhando cada qual por si. todos os seus emblemas lembram a destruição do corpo. Ainda mais. seria desnecessário se impor sacrifícios ou quaisquer incômodos por alguém. Não dependendo a felicidade futura do trabalho progressivo na Terra. dão aos gozos do mundo o melhor valor. tendo a perspectiva de um futuro brilhante!”. Esta situação não satisfaz nem as aspirações nem a instintiva ideia de progresso. a facilidade com que se acredita adquirir essa felicidade. tudo contribui para inspirar o terror da morte. Assim. rico e feliz. Ao descreverem a morte. se estão entre os eleitos. Custa crer que. Acrescentemos ainda que a dedicação ao uso das coisas materiais contribui para lamentar a perda da vida terrestre e temer a passagem da Terra ao céu. sem regeneração de caráter e costumes.

desaparece o temor da morte. correspondendo aos íntimos anseios da Humanidade. em todas as fases da felicidade e da desgraça. estão ao nosso redor. como quem aguarda a libertação pela porta da vida e não do nada. Tudo isso põe uma distância tal entre mortos e vivos que faz supor que a separação seja eterna. o mundo corporal e o mundo espiritual identificam-se em perpétuas relações. Já não é só a esperança. aí os vemos em todos os graus da escala espiritual. em vez de perdidos nas profundezas do Espaço. a todas as peripécias da vida de além-túmulo. seu pai. antes que vê-los partir. . E a alma que estiver no céu será realmente feliz vendo ardendo eternamente. o mundo espiritual nos aparece na plenitude de sua realidade prática. assistindo. Não sendo mais permissível a dúvida sobre o futuro. enfim. ainda mesmo que para o céu. mas sim sob uma forma concreta que antes nos mostra como seres viventes. Para os espíritas. Os motivos dessa confiança decorrem dos fatos testemunhados e da concordância desses fatos com a lógica. A lembrança das pessoas queridas se baseia na realidade. encaramos a sua aproximação a sangue-frio. seu filho. com a justiça e bondade de Deus. Ergueu-se o véu. mas o resultado da observação. Eis aí por que os espíritas encaram a morte calmamente e se revestem de serenidade nos seus últimos momentos sobre a Terra. a alma não é uma imaginação. sabem que a vida futura é a continuação da vida terrena em melhores condições e aguardam-na com a mesma confiança com que aguardariam o despontar do Sol após uma noite de tempestade. aptidões e percepções. e é por isso que muitos preferem ter junto de si – embora sofrendo – os parentes prezados. Não se apresentam mais como chamas fugitivas que nada falam ao pensamento. ela tem um corpo etéreo que a define ao pensamento. por exemplo. são os próprios habitantes desse mundo que vêm nos descrever a sua situação.18 – Allan Kardec vivem completamente distraídas em contemplativa beatitude. não foram os homens que o descobriram pelo esforço de uma concepção engenhosa. sua mãe ou seus amigos? POR QUE OS ESPÍRITAS NÃO TEMEM A MORTE 10. O estado das almas depois da morte não é mais uma teoria. A Doutrina Espírita transforma completamente a perspectiva do futuro: a vida futura deixa de ser uma hipótese para ser realidade. colaborando-se mutuamente. Além disso. o que é muito para fixar as ideias sobre a sua individualidade. mas a certeza que os conforta.

O astrônomo Ptolomeu7 contava onze e Empíreo8 denominava ao último por causa da luz brilhante que nele reina. o próprio Sol não é mais do que o centro de um turbilhão Teogonia: nas religiões politeístas (que acreditam na existência de muitos deuses). Segundo a opinião mais comum. fogo. Os muçulmanos admitem nove céus. 6 .19 – O CÉU E O INFERNO CAPÍTULO III O CÉU 1. É conforme a esta crença que se diz que S. A Terra não é mais o eixo do Universo. donde o seu pensamento irradiante poderia abranger tudo! 3. Vem do latim coelum. foi a de todas as teogonias6. narração do nascimento dos deuses e apresentação da sua genealogia (linhagem. o espaço em que giram os astros. 2. Este é ainda hoje o nome poético dado ao lugar da glória eterna. para além deste. Singular absurdo que coloca o Autor de todas as coisas – Aquele que as governa a todas – nos confins da criação. e o terceiro. formada do grego coilos. A Ciência – com a lógica inexorável da observação e dos fatos – levou a sua luz às profundezas do Espaço e mostrou a nulidade de todas essas teorias. Egito. no segundo século da era cristã. Em geral. em cada um dos quais se aumenta a felicidade dos crentes. e mais particularmente a parte que está acima do nosso horizonte. formando esferas concêntricas e tendo a Terra por centro. Os antigos acreditavam na existência de muitos céus superpostos. o segundo. porque o céu parece uma imensa concavidade. e a região dos astros como limitada. é a morada do Altíssimo. Girando essas esferas em torno da Terra. em vez de no centro. Paulo foi alçado ao terceiro céu. que fizeram dos céus. assim escalados. pur ou pyr. É além desse limite imaginário que todas têm colocado a residência afortunada e a morada do Todo-Poderoso. côncavo. a palavra céu designa o espaço indefinido que circunda a Terra. arrastavam consigo os astros que se achavam em seu circuito. os diversos degraus da bemaventurança: o último deles era abrigo da suprema felicidade. provinda da deficiência de conhecimentos astronômicos. As diferentes doutrinas relativamente ao paraíso repousam todas no duplo erro de considerar a Terra centro do Universo. porém um dos menores astros que rolam na imensidade. 7 Ptolomeu viveu em Alexandria. de matéria sólida e transparente. relação dos parentes) – N. D. A teologia cristã reconhece três céus: o primeiro é o da região do ar e das nuvens. havia sete céus e daí a expressão – estar no sétimo céu – para exprimir perfeita felicidade. 8 Do grego. a habitação dos que o contemplam face a face. Essa ideia.

6. Sem o Espírito. Usado. o Céu foi deslocado e a região estelar. Portanto.20 – Allan Kardec planetário. onde paira. enquanto que para o outro tudo resplandece. embora para nós pareça se tocarem. Em razão mesmo da natureza fluídica do seu envoltório. o Espírito é tudo: a vida. no meio dos encarnados. sendo ilimitada. de dois Espíritos. ouvem. Neste conjunto grandioso. não mais lhe pode servir. Com a Ciência nos revelando mundos semelhantes ao nosso. separados por distâncias apenas acessíveis ao pensamento. pode um estar em trevas. a inteligência. onde está ele? E ante esta questão todas as religiões emudecem. em redor de nós como no Espaço. devido mesmo à materialidade do seu envoltório. em lugar distinto. o mundo espiritual ostenta-se por toda parte. tal como um cego e um vidente que se dão as mãos: este percebe a luz da qual aquele não recebe a mínima impressão. os seres que o compõem. para depois reencarnar. estão ligados à Terra ou a qualquer globo. 5. Sendo a felicidade dos Espíritos relativa às suas qualidades. Então. E assim sendo. Deixando o corpo. qual instrumento privado da mola real de função. para preenchimento da sua missão na Terra e execução do trabalho necessário ao seu adiantamento. ao contrário. antes deve tê-los povoado de seres capazes de governá-los. percorrem as distâncias com a rapidez do pensamento. Os Espíritos são criados simples e ignorantes. retorna ao mundo espiritual. eles veem. sentir. O homem compõe-se de corpo e Espírito: o Espírito é o ser principal. o corpo é apenas matéria imóvel. Ainda que juntos. Os seres do mundo corporal. a da constituição dos mundos deveria imprimir-lhes outro curso. regido por leis eternas – reveladoras da sabedoria e onipotência do Criador –. Pelo progresso adquirem novos conhecimentos. eles a buscam em toda parte em que se encontram – seja à superfície da Terra. é lícito perguntar por que Deus faria da Terra a única sede da vida e nela degredaria as suas criaturas prediletas? Mas. em torno dos quais circulam mundos sem conta. chega-se a uma conclusão. as estrelas são outros tantos e inumeráveis sóis. A morte do corpo não é mais que a ruptura dos laços que os retinham cativos. Deus não podia têlos criado sem intuito. o corpo é o revestimento material que cobre o Espírito temporariamente. e o espiritual. sem falar das observações diretas que o Espiritismo apresenta. em lugar de se locomoverem penosamente sobre o solo. um pode não ser tão feliz quanto outro. isto quer dizer que partindo do conhecido atinge-se o desconhecido por uma dedução lógica. sem limite algum designado. As ideias do homem estão na razão do que ele sabe. 4. ou . em virtude do seu livre-arbítrio. Tomando-se por base a natureza deste último e os atributos divinos. sentem e compreendem o que os Espíritos atrasados não podem ver. sob a influência desses conhecimentos novos. o corpo se destrói e o Espírito sobrevive à sua destruição. novas percepções e com isso. sem que por isso precisem estar. mas dotados de aptidões para conhecerem tudo e para progredirem. formado dos Espíritos desencarnados. tudo anuncia a vida por toda parte e a Humanidade é infinita como o Universo. existem dois mundos: o corporal. de sorte que. novas satisfações desconhecidas dos Espíritos inferiores. sem o corpo. novas capacidades. O Espiritismo vem resolvê-las demonstrando o verdadeiro destino do homem. a Terra não é mais que um ponto imperceptível e um dos planetas menos favorecidos à habitação. inteligente. as crenças se modificaram. ouvir ou compreender. unicamente por não possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral. cada qual. A felicidade está na razão direta do progresso realizado. composto de Espíritos encarnados. racional. como todas as descobertas importantes.

alcança em outro. conforme esta frase do Cristo: “A cada um segundo as suas obras”. ao progresso moral pela necessidade recíproca dos homens entre si. Para o homem que vivesse isolado não haveria vícios nem virtudes. e vice-versa. ou pelos puros Espíritos. mas o que o Espírito não consegue em dado tempo. 9. harmonias e sensações que os Espíritos inferiores. A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual do Espírito: ao progresso intelectual pela atividade obrigatória do trabalho. segundo sua vontade. a doçura. pois. Então. não veem sequer. desconhecedor da música (de sentido auditivo pouco delicado). a humildade. que estão na razão da sua sensibilidade. eles são os próprios autores da sua situação. que seria não somente a negação da justiça e bondade divinas. A bondade. O progresso nos Espíritos é o fruto do próprio trabalho. o orgulho. a caridade. a violência. Como poderia o selvagem. Enquanto uns avançam rapidamente. em uma só encarnação nivelar-se moral e intelectualmente ao mais adiantado europeu? É materialmente impossível.21 – O CÉU E O INFERNO no Espaço. submetidos à influência da matéria. a lealdade. a sinceridade. enquanto o segundo permanecerá insensível. como são livres. a benevolência. dando por isso maior apreço à felicidade conquistada. porque um compreende e percebe o que nenhuma impressão produz no outro. outros se entorpecem. a maldade. o primeiro experimentará sensação de felicidade. privado dos gozos que só o desenvolvimento das faculdades pode proporcionar-lhe? O simples bom-senso repele tal suposição. Assim sucede quanto a todos os gozos dos Espíritos. a própria felicidade. por conseguinte. com mais ou menos negligência. tudo o que constitui o homem de bem ou o perverso tem por alvo e por estímulo as relações do homem com os seus semelhantes. o egoísmo. Eis por que se veem muitas vezes homens inteligentes e instruídos pouco adiantados moralmente. assim como o que se adianta tem o mérito exclusivo do seu esforço. preservandose do mal pelo isolamento. A suprema felicidade só é compartilhada pelos Espíritos perfeitos. mas. acelerando ou retardando o progresso e. O mundo espiritual tem esplendores por toda parte. trabalham no seu adiantamento com maior ou menor atividade. . a hipocrisia. mas das próprias leis evolutivas e progressivas da Natureza. Mas Deus – que é soberanamente justo e bom – concede ao Espírito tantas encarnações quantas as necessárias para atingir seu objetivo: a perfeição. que não a conseguem senão depois de haverem progredido em inteligência e moralidade. a franqueza. por exemplo. O progresso intelectual e o progresso moral raramente caminham juntos. e que somente são acessíveis aos Espíritos purificados. em uma palavra. o bem de si mesmo se anularia. nas fileiras inferiores. bom músico (de ouvido educado) e outro. ele deve ficar eternamente na ignorância e barbaria. Caso se encontrem dois homens em um concerto. sendo um. feliz ou desgraçada. 7. Uma só existência corporal é claramente insuficiente para o Espírito adquirir todo o bem que lhe falta e eliminar o mal que lhe sobra. a máfé. A vida social é a medida das boas ou más qualidades. de modo que os dois progressos acabam por atingir o mesmo nível. Uma comparação vulgar fará compreender melhor esta situação. 8. iguais preguiçosos. a avareza. Todo Espírito que se atrasa não pode se queixar senão de si mesmo.

mais tarde os da mocidade. 9 10 . Cada existência é assim um passo avante no caminho do progresso9. porém. até que a Deus agrada fazer dela morada de Espíritos mais adiantados. antes de ter atingido a culminância da perfeição. A encarnação é essencial à inferioridade dos Espíritos. quais pousos ao longo do caminho do progresso conducente ao estado definitivo. da madureza. tendo por fim exercer sobre os encarnados uma ação mais direta e tendente ao cumprimento da missão que lhes compete junto dos mesmos. ficam aptos para progredir no estado espiritual. Desse modo aceitam abnegadamente as adversidades e sofrimentos da encarnação. É sobretudo no estado espiritual que o Espírito colhe os frutos do progresso realizado pelo trabalho da encarnação. cap. nota 1. mas onde também só são admitidos Espíritos chegados a um grau de perfeição relativo ao estado desses mundos. nem ambiciosos que procurem oprimir o fraco. No intervalo das existências corporais o Espírito volta a entrar no mundo espiritual. Assim é que o Espírito – progredindo gradualmente à medida que se desenvolve – chega ao topo da felicidade. é também nesse estado que se prepara para novas lutas e toma as resoluções que há de pôr em prática na sua volta à Humanidade. Onde os corpos – menos materiais. sem outra preocupação além da do adiantamento pelo trabalho intelectual. os homens desfrutam de plena paz. Erraticidade: período em que o Espírito habita o plano espiritual. esses mundos são verdadeiros paraísos. até que alcance a perfeição – N. Há entre os mundos alguns mais adiantados onde a existência se exerce em condições menos penosas que na Terra. pelos quais o Espírito tem de passar alternadamente. o Espírito entra com o que adquiriu nas anteriores: aptidões. goza de uma felicidade relativa ao seu progresso. e tampouco têm as mesmas necessidades. D. 10. às enfermidades. A reencarnação pode ser na Terra ou em outros mundos. Veja 1ª Parte. Sendo a Terra um mundo inferior destinado à purificação dos Espíritos imperfeitos. 11. quase fluídicos – não mais são sujeitos às moléstias. deixando de ser necessária desde que estes. O Espírito progride igualmente na erraticidade10.22 – Allan Kardec Para cada nova existência na matéria. Uma vez que o estado espiritual é o estado definitivo do Espírito e o corpo espiritual não morre. e finalmente os mais sólidos. Excluídos os Espíritos maus. visto aí nos acharmos livres dos males e dificuldades terrenas. inteligência e moralidade. O estado corporal e o espiritual constituem a fonte de dois gêneros de progresso. entre uma e outra reencarnação. ou nas existências corporais de mundos superiores. a verdadeira igualdade. que nada têm da materialidade terrestre. transpondo-lhe os limites. nas existências particulares a cada um dos dois mundos. onde é feliz ou desgraçado segundo o bem ou o mal que fez. O estado corporal é transitório e passageiro. I. nº 3. e modificando as suas ideias. esse deve ser também o seu estado normal. A criança também frui os prazeres da infância. porque não há orgulho. Da parte destes a encarnação é voluntária. A vida nos mundos superiores já é uma recompensa. e a verdadeira liberdade por não haver desordens a reprimir. Comparados à Terra. Reina lá a verdadeira fraternidade. adquirindo conhecimentos especiais que não poderia obter na Terra. conhecimentos intuitivos. física e moralmente. porque não há egoísmo. está nisso a razão do mal que aí predomina.

Nem favores. no amor que envolve todos os seres. sob as vistas de Deus. qualquer que seja o grau atingido. nem privilégios que não sejam o prêmio ao mérito. acima de tudo. As missões mais importantes são confiadas somente àqueles que Deus julga capazes de cumpri-las e incapazes de esmorecimento ou comprometimento. experiência e grau de confiança inspirada ao Senhor soberano. Ao contrário. . como temos dito muitas vezes. A felicidade também existe nas tarefas cujo encargo nos faz felizes. mas atividade isenta de fadigas. ou. às luzes que possuem. podendo afirmar-se que cada encarnado tem a sua. Depois. instruindo-se. que nenhuma linguagem humana jamais poderia descrever. isto é. D. Neste vasto e harmônico conjunto há ocupações para todas as capacidades. dando-se as mãos para alcançarem o zênite11. 14. ocupações aceitas com alegria. há outras de importância relativa em todos os graus. até o homem de gênio que lança às sociedades novos germens de progresso. Consiste também na penetração de todas as coisas. a chefes superiores é cometida a direção de turbilhões planetários. 13. às diversas operações da Natureza até aos mais ínfimos pormenores da Criação. a vida espiritual em todos os seus graus é uma constante atividade. A suprema felicidade consiste no gozo de todos os esplendores da Criação. vem as atribuições mais restritas dos prepostos ao progresso dos povos. a quem cabe o progresso dos filhos. Por toda parte a atividade. na ausência de sofrimentos físicos e morais. na contemplação de Deus e na compreensão dos seus mistérios revelados aos mais dignos. Logo. solidarizando-se em mútuo apoio. ápice – N. por serem um meio de adiantamento para os Espíritos que desejam o progresso. e cada uma na medida das suas forças. As ocupações dos Espíritos são proporcionadas ao seu progresso. E enquanto que os mais dignos compõem o supremo conselho. à proteção das famílias e indivíduos. numa serenidade da alma imperturbável.23 – O CÉU E O INFERNO 12. pela ordem de adiantamento e subordinação hierárquica. É nessas missões secundárias que se verificam desfalecimentos. 15. Os puros Espíritos são os Messias ou mensageiros de Deus pela transmissão e execução das suas vontades. e a outros conferida a de mundos especiais. inspirando-se no seu pensamento. aptidões e esforços. desde a base ao topo da escala. seja no estado de encarnação ou no espiritual. deveres a preencher a bem dos seus semelhantes – desde o chefe de família. tudo é medido e pesado na balança da estrita justiça. concedidas a Espíritos de todas as categorias. A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não consiste na desocupação contemplativa que. transgressões e renúncias que prejudicam o indivíduo sem afetar o todo. por causa da ausência de atrito pelo contato dos maus. ao impulso de cada ramo de progresso. todas as inteligências contribuem para a obra geral. solicitadas com ardor. Preenchem as grandes missões. culminância. topo. seria uma eterna e fastidiosa inutilidade. Assim se estabelece a solidariedade entre o mundo espiritual e o corporal. numa satisfação íntima. às suas capacidades. Ao lado das grandes missões confiadas aos Espíritos superiores. e. de que são diretos representantes. que a imaginação mais fértil não poderia conceber. presidem à formação dos mundos e à harmonia geral do Universo. 11 Zênite: o grau mais elevado. tarefa gloriosa a que se não chega senão pela perfeição. Os da ordem mais elevada são os únicos a possuírem os segredos de Deus.

que a mostra começando em dado instante para acabar igualmente com o mundo que a contém. ela seria tristemente egoísta. como em torno dos atrasados sobram Espíritos inferiores. os Espíritos podem contemplar a majestade divina. entre os homens e os Espíritos. 18. pelo apego deles à matéria. quanto é pequena e mesquinha a doutrina que limita a Humanidade a um ponto imperceptível do Espaço. Esta população é mais estável nos mundos inferiores. ora se dispersam para se darem à sua missão. formam vastos agrupamentos ou famílias semelhantes. Entretanto. pela purificação e continuidade de relações. a felicidade não é pessoal: Se a possuíssemos somente em nós mesmos. no meio das quais cada individualidade irradia as qualidades próprias e saciam-se dos perfumes serenos e benéficos emanados do conjunto. invisíveis aos sentidos grosseiros dos encarnados. Por vezes também se encarnam para cumprir com mais eficácia a sua missão. podendo a felicidade. trazendo cada um consigo os elementos de sua felicidade. qual vastíssimo deserto imerso em profundo silêncio! Como é desesperadora a perspectiva dos eleitos . porque Deus está em toda parte. 17. Das qualidades do indivíduo depende-lhe a felicidade. cada globo tem sua população própria de Espíritos encarnados e desencarnados. alimentada em sua maioria pela encarnação e desencarnação dos mesmos. onde está o Céu? Em toda parte. Nessa imensidade ilimitada. Enfim. sem poder reparti-la com alguém. Porém. ora se reúnem em dado ponto do Espaço a fim de se prestarem contas do trabalho realizado. Onde quer que se encontrem. Também a encontramos na comunhão de ideias que une os seres simpáticos. nenhuma região que não seja incessantemente percorrida por legiões inumeráveis de Espíritos radiantes. decorrente da categoria em que se coloca pelo seu adiantamento.24 – Allan Kardec em outros termos. que as virtudes franqueiam e os vícios interditam. atraindo-se pela similitude de gestos e sentimentos. Posto que os Espíritos estejam por toda parte. portanto. destes últimos – que são verdadeiros focos de luz e felicidade – Espíritos se destacam para mundos inferiores a fim de neles semearem os germens do progresso. entre os Espíritos libertos e os cativos. levantar os ânimos abatidos pelas provações da vida. a vida e o movimento: nenhum canto do infinito despovoado. ora se congregam em torno dum Espírito mais elevado para receberem instruções e conselhos. as verdadeiras simpatias e nobres afeições. Em torno dos mundos adiantados moram Espíritos superiores. por toda parte há uma felicidade relativa a todos os progressos. e mais flexível nos superiores. 16. Por toda parte. De alguma maneira. os mundos são de preferência os seus centros de atração. Ante este quadro grandioso que povoa o Universo – que dá a todas as coisas da Criação um fim e uma razão de ser –. a todos os deveres cumpridos. Os membros deste. Os Espíritos felizes. nem movimento. Nenhum contorno lhe traça limites. levar-lhes consolação e esperança. Nenhum lugar lhe é limitado e assinalado no Universo. existir em qualquer parte onde haja Espíritos capazes de desfrutá-las. e não do estado material do meio em que se encontra. Assim se perpetuam e consolidam. em virtude da igualdade existente entre os planetas e os seres que habitam neles. Os mundos adiantados são as últimas estações do seu caminho. mas cuja vista as almas libertas da matéria deslumbram de alegria e admiração. não abrangendo mais que um minuto na Eternidade! Como é triste e fria essa doutrina quando nos mostra o resto do Universo – durante e depois da Humanidade terrestre – sem vida.

e. do poder e da bondade de Deus! Quanto é sublime a ideia que d’Ele fazemos pelo Espiritismo! Quanto a sua doutrina engrandece as ideias e amplia o pensamento! Mas. III). a não ser em lugar circunscrito e sob uma forma material? Não. . como as desgraçadas. quais se fossem crianças. finalmente. das quais uma se deixa ficar na retaguarda enquanto a outra caminha. o bom-senso diz de que lado está a verdade. cap. e uma voz íntima lhe falará por ela. era preciso restringi-lo ao seu ponto de vista para alargá-lo mais tarde. (veja: O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO. que não pode enganar os homens. Pois bem. Entre duas doutrinas. a constituição dos astros. quem diz que ela é verdadeira? Primeiro a Razão. poderiam compreender que não há alto nem baixo no Espaço. confrontando-as. Admira que o egoísmo reine sobre a Terra quando nos mostram o mesmo no Céu? Oh! Como se mostra mesquinha essa ideia da grandeza. o Universo era muito vasto para a sua concepção. A revelação limitada foi suficiente a certo período da Humanidade. enquanto a maioria das criaturas padece tormentos sem-fim! Como a ideia dessa barreira entre mortos e vivos corta os corações sensíveis! As almas felizes.25 – O CÉU E O INFERNO destinados à contemplação perpétua. eles poderiam compreender a imensidade do Espaço e a pluralidade dos mundos? Antes de a Geologia comprovar a formação da Terra. Mas. das quais uma só está em desacordo e a outra em harmonia com o progresso. das quais uma amesquinha e a outra exalta os atributos de Deus. Os que recebem hoje uma revelação mais completa são os mesmos Espíritos que tiveram dela uma partícula em outros tempos e que de então por diante se engrandeceram em inteligência. os homens poderiam tirar-lhe o inferno das entranhas e compreender o sentido poético dos seis dias da Criação? Antes de a Astronomia descobrir as leis que regem o Universo. O absurdo vem dos que pretendem poder governar os homens de pensamento. e Deus a proporciona gradativamente ao progresso e às forças do Espírito. que o céu não está acima das nuvens nem limitado pelas estrelas? Poderiam identificar-se com a vida espiritual antes dos progressos da ciência psicológica? Conceber depois da morte uma vida feliz ou desgraçada. dizem. consulte cada qual a consciência. depois a Revelação. essas aspirações íntimas são a voz de Deus. embora sábia até então. compreendendo mais pelos sentidos que pelo pensamento. nas suas dores. sem se darem conta do progresso das ideias. dirão: por que Deus não lhes revelou de princípio toda a verdade? Pela mesma razão por que não se ensina na infância o que se ensina aos de idade madura. Uma revelação parcial tinha sua utilidade. e. Antes de a Ciência ter revelado aos homens as forças vivas da Natureza. não satisfaria hoje. Que. a sua concordância com os progressos da Ciência. o verdadeiro papel da Terra e sua formação. só pensam na sua felicidade.

só podia conceber penas materiais. imaginando para as penas e gozos futuros um quadro mais material que espiritual. com pequenas diferenças de forma. que a vida futura seria feliz ou infeliz conforme o bem ou o mal praticado neste mundo. o homem só pode compreender a espiritualidade imperfeitamente. a ideia que ele faz dessa vida está em relação com o seu desenvolvimento. 12 . Em todas as épocas o homem acreditou. em mais vasta proporção. reunindo-lhe todas as torturas. suplícios e aflições que achou na Terra. Mais tarde já se encontra nas crenças sobre a vida futura um misto de espiritualismo e materialismo: é a beatitude contemplativa concorrendo com o inferno das torturas físicas. O inferno pagão. como em Paris. por intuição. Porém. além dos que tinha à vista. Não podendo compreender senão o que vê. na abundância da caça. seria preciso para ele um desenvolvimento intelectual que só completaria com tempo. para compreender outros tipos. a quem o seu pároco fazia a descrição da vida futura. Nos climas abrasadores imaginou um inferno de fogo. Não estando ainda desenvolvido o sentido que mais tarde o levaria a compreender o mundo espiritual. descrito e dramatizado pelos poetas. Também o quadro por ele ideado sobre as penas futuras não é senão o reflexo dos males da Humanidade. Dominado pela matéria. O INFERNO CRISTÃO IMITADO DO INFERNO PAGÃO 3. 2. nas delícias da sensualidade. e assim. o homem primitivo naturalmente desenhou o seu futuro pelo presente. França). os sensuais. senso moral e noções mais ou menos justas do bem e do mal. Os povos guerreiros depositam a suprema felicidade nas honras conferidas à bravura. porém melhor que na Terra12. os infernos de todas as religiões se assemelham.26 – Allan Kardec CAPÍTULO IV O INFERNO      INTUIÇÃO DAS PENAS FUTURAS O INFERNO CRISTÃO IMITADO DO INFERNO PAGÃO OS LIMBOS QUADRO DO INFERNO PAGÃO ESBOÇO DO INFERNO CRISTÃO INTUIÇÃO DAS PENAS FUTURAS 1. As penas e recompensas são o reflexo dos instintos predominantes. foi o modelo mais grandioso do Um pequeno saboiano (da região de Saboia. os caçadores. e nas regiões árticos um inferno de gelo. parece que deve comer e beber no outro mundo. perguntou-lhe se todo o mundo lá comia pão branco.

14 Sermão pregado em Montpellier em 1860. Já se tem discutido seriamente sobre a natureza desse fogo que queima mas não consome as vítimas. poderão afastar-se de certo modo em razão do seu dom de inteligência e da vista distinta.27 – O CÉU E O INFERNO gênero. Os cristãos também colocaram ali. e Deus. 17 O autor faz aqui uma comparação com o inferno dito pela crença cristã comum (em que Satã. Plutão retinha em seus domínios os que haviam praticado o mal. Tomás de Aquino). O tonel das Danaides. assistindo à inefável calamidade dos ímpios” (S. tripudiar dos seus sofrimentos. ou Satanás é o líder dos demônios. 4. a roda de Íxion. e. A morada dos anjos. onde. Jamais os pagãos descreveram os habitantes dos Campos Elíseos deleitando a vista nos suplícios do Tártaro15. 15 “Os bem-aventurados. Kardec destaca uma diferença crucial entre os dois líderes: Plutão apenas pune os já condenados. entre os antigos. mas não induzia os homens ao pecado para desfrutar. vendo-os. de que Plutão se limitava a governar o sombrio império. Comparando-os. Portanto. assim como o Olímpio. aos lugares baixos para deles tirar as almas dos justos que lhe aguardavam a vinda. sem piedade. igualmente determinaram o lugar dos castigos. frisemos ainda outra semelhança: O inferno dos pagãos continha de um lado os Campos Elíseos e do outro o Tártaro. Se estes tinham o tonel das Danaides. 16 Sermão pregado em Paris em 1861. ambos têm o fogo material por base de tormentos. Seu serviço então passou a ser castigar as almas que forem enviadas para ele. narradas pela mitologia – N. Segundo a letra do Evangelho. encontram-se neles – salvo os nomes e variantes de detalhe – numerosas semelhanças. tal como para os pagãos. Na versão mitológica. o rochedo de Sísifo: são exemplos de castigos e condenações aplicadas a contraventores. a roda de Íxion. a fim de considerarem as torturas dos condenados. Tendo-se colocado o primeiro nas regiões superiores. eram estes suplícios individuais. Jesus desceu aos infernos. As mesmas considerações que. era natural reservar ao segundo os lugares inferiores. mas até ficarão repletos de alegria e renderão graças a Deus por sua própria felicidade. sem distinção. os cristãos têm o seu rei dos infernos – Satã – com a diferença. nos lugares baixos. ficava nas regiões superiores. o Olímpio. ouve-lhes os gemidos por toda a eternidade. dentre eles Plutão (ou Hades). morada dos deuses e dos homens divinizados. o rochedo de Sísifo13. tinham feito localizar o reino da felicidade. o inferno cristão nada perde do inferno pagão17. porque essa era a sua missão. A este respeito. que se reputava limitado. as caldeiras ferventes cujos tampos os anjos levantam para ver as contorções dos supliciados14. por sua vez. era nos lugares elevados. têm para todos. ao contrário. sem deixarem o lugar que ocupam. que coube a ele em partilha. de aspecto terrível. 5. porém. recruta vítimas por toda parte e alegra-se em atormentá-las com uma legião de demônios armados de forcados a levá-las ao fogo. que coisa estranha! Os cristãos exageraram em muitos pontos o inferno dos pagãos. e efetivou-se no meio dos cristãos. por muito tempo. Pois. os infernos não eram um lugar unicamente de suplício: estavam. ou Hades). D. como símbolo dos sofrimentos mais cruéis. Tem-se mesmo perguntado se seria um fogo de betume16. com os dos gregos e os dos romanos (cujo líder é Plutão. não somente serão insensíveis à dor. os cristãos. a habitação dos condenados. houve poetas e cantores. isto é. Assim como os pagãos. mesmo sem ele ser mau. Mas. D. ou diabos) e a versão elaborada pelos mitos. o centro da Terra. para onde se acreditava que certas cavidades sombrias servissem de entradas. Colocaram-na para além do céu estelar. Satã. a quem coube a região infernal. 13 . o Universo foi repartido entre os seis deuses primordiais. isto é. enquanto que Satanás e seus demônios trabalham para fazer com que as almas humanas pequem e sejam condenadas ao inferno – N. no entanto.

faltando aos homens conhecimentos necessários para entender a infinidade do Espaço e o número infinito dos mundos. Ele limitou-se a falar vagamente da vida bem-aventurada. a Terra para eles era o centro do Universo. Jesus encontrava-se na impossibilidade de iniciá-los no verdadeiro significado das coisas. não podem ser condenadas ao fogo eterno. 18 O Evangelho segundo o Espiritismo. ao sair da qual as almas passam. Assim sendo.18 OS LIMBOS 8. E foi preciso a difusão das modernas luzes. Certo. este não tem a responsabilidade e o mérito cabíveis ao que procede com conhecimento de causa. absteve-se de corrigi-los. mas por outro lado. sentindo que algo lhes falta. o período de descrença a que vem pôr fim a Nova Revelação. Se não há mais de duas habitações – a dos eleitos e a dos condenados –. sendo tal sorte irrevogavelmente fixada. Tendo determinados o céu e o inferno. não querendo sancionar prejuízos aceitos. O purgatório é apenas uma posição intermediária e passageira. A Igreja nos diz que elas ficam nos limbos. ao longo período de uma crença cega sucedeu. que constituíram para os cristãos um artigo de fé. sem fazer mal algum. Logo. quanto é certo não ter dependido dessas almas que as coisas assim sucedessem. se há progresso. tudo se limitava ao seu ponto de vista: as noções do futuro não podiam ir além dos seus conhecimentos. Entretanto. fica-lhes defesa para sempre. Eis aí como as ideias do inferno pagão se perpetuaram até aos nossos dias. sem transição. peca por ignorância. o selvagem e tampouco aquele que não foi esclarecido. se não sofrem. É verdade que a Igreja admite uma posição especial em casos particulares. não lhe conheciam a forma nem a estrutura internas. Não pode haver outra hipótese. do que fazê-lo aos que possuem uma ideia robusta. Ora. à mansão dos justos. deixando essa missão ao devido tempo. o progresso. não lhes dá direito à felicidade suprema. conseguintemente. Obras. não se podem admitir muitos graus em cada uma sem admitir a possibilidade de franqueá-los e. ainda que absurda. As crianças falecidas com pouca idade. o desenvolvimento geral da inteligência humana para se lhe fazer justiça. A simples lógica repele tal doutrina em nome da justiça de Deus. na qual. não tendo feito bem. visto como é mais fácil insinuar ideias justas aos que não creem em nada. como nada de real tivesse substituído as ideias recebidas. sem referir-se jamais nos seus ensinos a castigos e suplícios corporais. e se há sorte definitiva. segundo as suas obras”. Esta. dada a crença na sorte definitiva da alma após a morte. tal privação importa um suplício eterno e tanto mais desmerecido. transitoriamente. III. que se contém integralmente nestas palavras do Cristo: “A cada um.28 – Allan Kardec 6. 7. Esta mistura de ideias cristãs e pagãs nada tem de surpreendente. porém praticadas voluntária e livremente. sim – boas ou más –. não há sorte definitiva. com sua autoridade. Não podem estar nesta situação a criança. as seitas cristãs foram levadas a não admitir para as almas senão duas situações extremas: a felicidade perfeita e o sofrimento absoluto. nessa situação jamais definida. Mas também. não tendo recebido a graça do batismo e as luzes da religião. O mesmo se dá quanto ao selvagem que. entregue aos instintos naturais. não há progresso. cap. Era preciso demolir para reconstruir. também não gozam da bem-aventurança. Jesus resolveu a questão quando disse: “Há muitas moradas na casa de meu Pai”. Jesus não podia de uma só vez destruir crenças tradicionais. dos castigos reservados aos culpados. únicas que comportam responsabilidade. .

um sonho.. quanto à raiva. qualquer outra me parece antes uma fábula. Dizia-lhe uma: – Não éramos nós homens iguais a ti? Insensato que eras. D. Por muito popular que seja esta obra. Telêmaco ouve gemidos de uma sombra inconsolável que lhe perguntava: – Qual é a sua desgraça? Quem fostes na Terra? A sombra responde: – Nabofarzan. “Ao entrar. Fénelon (1651-1715): teólogo. 19 20 21 . Mercúrio os entregara a Caronte com o seu rei. estendendo-se sobre a sorte dos maus reis com vista à instrução do seu magnífico discípulo. escritor e poeta francês. a ponto de esquecer a tua origem comum a todos os homens. visto que retirada da mesma fonte quanto às crenças fundamentais. nada mais sou. Sensibilizado diante esse espetáculo. ou não meditaram sobre ela de modo a estabelecer comparação. contínua. São esses os bens que choro. tem a simplicidade mais precisa da prosa. que. inventavam-se dia a dia prazeres novos para tornar-me a vida mais e mais deliciosa. vão ainda gemer junto do túmulo das minhas cinzas. isto é. no Telêmaco21. Outra dizia. o babilônio chorava igual homem medroso. a fim de morrerem comigo. rei da soberba Babilônia. “Moço e robusto. para insultá-lo: – Tinhas razão em não querer que por homem te houvessem. principalmente se preocupa em realçar o tipo de sofrimento dos culpados. mas devemos levar em conta as necessidades poéticas impostas à forma. Os sábios exaltam essa paz como único bem. desabituado de suportar resignadamente uma desgraça. jamais alguém ousou me contradizer sem ser punido imediatamente. porque na verdade eras um monstro desumano. os que se referem especialmente às penas individuais. de calma. infligindo-lhe as mais cruéis afrontas. mas ninguém me deplora. meu coração agitava-se continuamente por novos desejos de temor e de esperança. Procurava aturdir-me com o abalo das próprias paixões. a quem tinham servido na Terra.29 – O CÉU E O INFERNO QUADRO DO INFERNO PAGÃO 9. Homero19 e Virgílio20 deram a mais completa descrição dele. O conhecimento do inferno pagão nos é fornecido quase exclusivamente pela narrativa dos poetas. representado por uma estátua de ouro. julgava-te um deus. nunca a senti. quantos prazeres me restavam ainda por usufruir no trono! Mas certa mulher – que eu amava e que me não correspondia – fez-me sentir claramente que eu não era um deus: envenenou-me. Descrevendo o aspecto fúnebre dos lugares. A descrição de Fénelon. – Não! Não sei mesmo o que quer dizer. a minha memória horroriza a própria família. é autor de “AS AVENTURAS DE TELÉMACO”. tendo o cuidado de entreter essa embriaguez para torná-la permanente. pretenderam fingidamente atirar-se às chamas da minha fogueira. Essas sombras de escravos não temiam a sombra de Nabofarzan. Eis a paz que fruí. que retinham encadeada. Havia junto dele alguns escravos mortos em homenagem honrosa aos seus funerais. seria muito amargo para mim. mas não falha. 10. “Assim falando. fazia-me adorar pelos babilônios num templo todo de mármore. Telémaco lhe diz: – Era verdadeiramente feliz durante o seu reinado? Porventura sentia essa paz suave sem a qual o coração se conserva opresso e abatido em meio das delícias? Respondeu o babilônio. nem todos têm na memória a sua descrição. A justiça dos deuses tarda. suposto escritor dos clássicos “ILÍADA” e “ODISSÉIA” – N. arrancaram cabelos. Ainda outra: – Então?! Onde estão agora os teus aduladores? Nada mais tens a dar. desgraçado! Nem mesmo o mal pode fazer mais: eis aqui você reduzido a escravo dos teus escravos. entre outras obras. e assim acreditamos ser de utilidade reproduzir os tópicos que mais diretamente interessam ao nosso assunto. oh. Virgílio: poeta romano que viveu no século anterior a Cristo – N. a cujos pés se queimavam noite e dia os preciosos perfumes da Etiópia. Ao ouvir meu nome tremiam todos os povos do Oriente. D. As minhas cinzas foram ontem encerradas com pompa em urna de ouro: choraram. concedendo-lhes poder absoluto sobre esse rei. A estas frases duras Nabofarzan Homero: poeta grego do Século VI antes de Cristo.. enquanto aqui em baixo sofro já horríveis suplícios. o menor intervalo de razão. e. enervado pelas prosperidades. a qual se refere Kardec – N. D.

O prazer que antes tive em rever a sua moderação. como que ferido por um raio. A tua falsa virtude. Eis agora para sempre separado dos homens. julgando temerariamente das coisas. os aduladores que louvaram o vício. tu que era o teu ídolo: fica sabendo que não há verdadeira virtude sem respeito e amor aos deuses. mal podia se sustentar. aos quais queria agradar. e não pode deixar de se ver. vai ser confundida. por eles zombados e desprezados perante os homens. Só julgando os homens o vício e a virtude pelo que lhes agrada ou os incomoda. porém querem passar por bons e concorrem por sua falsa virtude para a descrença e corrupção da verdade. A visão do próprio coração inimigo dos deuses promove-lhe suplícios. justo. Procura agora. tudo porque queria gozar do fruto da tua virtude encerrado em ti mesmo: foste a tua divindade. enfim aqueles que. por esta razão: os hipócritas não se contentam com ser maus como os demais ímpios. uma luz divina derroga seus julgamentos artificiais. os traidores que venderam a pátria. Aí notou muitos ímpios hipócritas que. vê. eram punidos como os mais celerados de todos os homens. as inclinações generosas. simulando amar a religião. apesar de tudo. se podes. semelhante às torrentes mais caudalosas quando se despenham de altos rochedos em profundos abismos. Báratro: abismo. os mentirosos. E ele avista logo. todo o meu prazer era praticar o bem: fui sempre generoso. e. aos quais buscava lisonjear em todas as suas ações. bem perto de si. sofriam. “Os três juízes infernais assim o queriam. penas menores que aqueles hipócritas. o negro Tártaro22 evolando escuro e espesso fumo. como se lhe revolvessem todas as entranhas. foste virtuoso. punidos por haverem procurado riquezas por meio de fraudes. Opera-se uma revolução radical em todo o seu íntimo. entra sem medo nesse báratro23. porém a estes menos não devia que aos deuses? Pois. “Perto destes. prejudicaram por isso a reputação dos inocentes. ousou perguntar quais os crimes deles. condenando muita vez o que eles admiram. o consolo em teu próprio coração. traições e crueldade. outros homens aparecem. cujo cheiro tóxico daria a morte caso se espalhasse pelo mundo dos vivos. e o fizeram para si. mas só atribuiu essa virtude a ti próprio. Viu primeiramente um grande número de homens que tinham vivido nas mais humildes condições. Telêmaco. que justiça é essa de que se vangloria? Para com os homens. o maior dom dos deuses. que por tanto tempo toleraram o reinado terreno deste ímpio. vê a vaidade dos preconceitos humanos. não podem renunciar aos seus direitos. levantem-no contra a vontade. inferno – N. arrancando os cabelos em acesso de raiva e desespero. D. Esse fumo envolvia um rio de fogo. cujo ruído.30 – Allan Kardec rolava por terra. violando todos os juramentos. eis só contigo. que por muitos anos deslumbrou os ingênuos. “A estas palavras. favorecia para que nada se ouvisse nesses lugares tenebrosos. a coragem. empregam com prazer todo o seu poderio para se vingarem de tais insultos. os críticos perversos que procuraram manchar a mais pura virtude. a quem tudo é devido. Os deuses. dela se tinham servido como de um belo pretexto para satisfazerem ambições e zombarem dos crédulos: os que haviam abusado até da própria Virtude. D. a ti mesmo te entregarão. que nada são. O condenado. secretamente animado por Minerva. e outras vezes justificando o que condenam. 22 23 Tártaro: inferno – N. são cegos quanto ao bem e quanto ao mal. transformavam-se em desespero. “Telêmaco. que tudo fizeram. sem as conhecer a fundo. Que ele não possa se consolar escondendo a sua vergonha: é preciso que todas as sombras do Estige a testemunhem como justificativa aos deuses. esquecendo os deuses que te deram as graças. não faltou jamais a qualquer dever. . Aqui. vendo os três juízes sentados a condenarem um homem. Mas Caronte instigava os escravos: –Arrastem-no pela corrente. liberal e compassivo. Os filhos que haviam degolado seus pais. Mas os deuses. de pronto exclamava: – Nunca fiz mal algum. as esposas que mancharam as mãos no sangue dos maridos. então de que se pode me condenar? “Minos então lhe disse: – Nenhuma acusação se faz a ti quanto aos homens. um turbilhão de chamas. que vulgarmente se julgam isentos de culpa. é certo. esquecidos de ti como deles te esqueceu. mas que os deuses perseguem desapiedadamente: são os ingratos. pois que tu quis pertencera ti mesmo e não a eles. o filósofo. tomando a palavra.

Esses reis reviam-se constantemente nesse espelho. De um lado. que não tiveram por princípio e por fim o culto da Divindade. “Na profundeza dessas trevas. “De outro lado. como tal. revolta-se contra ele. a falta de aplicação. veem-se incessantemente na plenitude da sua enormidade. todos os meus passos foram tresloucados. para que sofra pelo coração a vingança dos deuses desprezados. despedaçando-os. a insensibilidade para com as virtudes. do remorso. porque jamais amei o verdadeiro e único bem. não têm outro castigo às suas faltas que não as mesmas faltas. ouvem-se deles os gemidos agoniados. hediondos e consternados. que a Hidra de Lerna abatida por Hércules e que Cérbero vomitando por suas três goelas um sangue negro e venenoso. Era para notar que os piores dentre esses reis. “Procurando a treva não pode encontrá-la. contradiga e confunda em contraste ao que supunham na vida. convictos de que tudo era feito para servi-los. que procura a cada dia novas delícias nas lágrimas e no desespero de tantos infelizes. As Fúrias não o atormentam. horrorizados de si próprios. capaz de empestar todas as raças de mortais que vivem sobre a Terra. Do contraste dos dois quadros brotava o suplício do amor-próprio. contudo. . nem a mim mesmo. a minha sabedoria não passava de loucura. Nada os cerca que os não repila. enfim. a consciência. preso da vergonha. arrancando-os de si mesmos. de todos os lados os raios penetrantes da verdade vingam a verdade que ele negou seguir. a inércia. Tudo que amava se torna para ele odioso como fonte dos seus males infindáveis. a preguiça. do desespero. a ambição de glórias vás à custa do sangue dos concidadãos. buscam morte mais potente do que a que os separou do corpo. assim permanecem. Desesperados. e eis aqui ele perturbado. No Tártaro. a crueldade para com aqueles a quem deveriam ter feito felizes. a mercê das pancadas desses escravos transformados em carrascos. Murmura consigo: – Ó insensato! Não conheci. sem nada destruir-lhes exteriormente. Qual bigorna sob as marteladas dos Ciclopes. onde só padecem insultos e escárnios. outra Fúria lhes repetia injuriosamente todos os louvores que os lisonjeiros lhes dispensavam em vida e mostrava-lhes ainda outro espelho em que se viam tais como a lisonja os pintara. a crueldade. a minha virtude mais não era que o orgulho impiedoso e cego: — eu era enfim o meu ídolo! “Finalmente Telêmaco reconheceu os reis condenados por abuso de poder. vingadora Fúria apresentava-lhes um espelho a refletir a monstruosidade dos seus vícios: aí viam – sem poder desviar os olhos – a vaidade grosseira e ávida de ridículos louvores. “Aí Telêmaco viu semblantes pálidos. humilhados dolorosamente. o temor da verdade. bastando-lhes o terem entregado a si próprio. invocam uma morte capaz de extinguir-lhes a consciência: pedem aos abismos que os absorvam. o luxo e a magnificência excessivos calcados sobre a ruína dos povos. pois luz inoportuna o segue por toda parte. A verdade que temem ver constitui-se em suplício. a fim de se furtarem aos raios vingadores da verdade que os atormenta. eles a veem e só têm olhos para vê-la erguer-se contra eles. pois. mas continuam dedicados à vingança que sobre eles destila gota a gota e que jamais estancará. a ilusão de todas as suas virtudes. inseparável da realeza. a penetrar-lhes o âmago das entranhas. nem os homens. quando aquele deve ser o consolo dos povos e. cujo testemunho tão agradável lhe tinha sido. ferindo-os. entregues a todos os caprichos de certos escravos. quando Vulcano os acoroçoa nas fornalhas incandescentes do Monte Etna. por isso que os maus são mais temidos que os bons e exigem as vis adulações dos poetas e oradores do seu tempo sem pudor. como o raio. não encontra apoio no coração. amargurado. “Entre os seres que lhe arrepiavam os cabelos. Procurando eximir-se a essa perseguição. foram os que tiveram maiores e mais fulgentes louvores durante a vida. não lhes resta esperança alguma de modificar ou abrandar o cativeiro. a desconfiança ilimitada. estes lhes fazem provar por sua vez a mais cruel servidão. Negra tristeza essa que consome estes criminosos. zombando dos homens. nem os deuses.31 – O CÉU E O INFERNO reconhece-se outro. apresentando-se eles sob a forma de espectros horríveis que os perseguem. a predileção pelos covardes e aduladores. Telêmaco viu vários e antigos reis da Lídia punidos por haverem trocado o trabalho pelas delícias de uma vida inativa. sem poderem se livrar dela como da própria natureza. incriminando-lhe amargamente o delírio. achando-se mais monstruosos e horrendos que a própria ilusão vencida por Belerofonte.

ao invés de serem bons e vigilantes pastores dos povos. os eleitos ressuscitarão em corpos purificados e resplendentes. como que possuídos de raiva bastante para se despedaçarem mutuamente.. a falsa glória sempre tirânica e a moleza displicente que duplica os sofrimentos sem a compensação de sólidos prazeres. “Os demônios são puros Espíritos. Todos os crimes dos povos. e os restos entregues à terra se transformam em ervas. em plantas. instigando-os à aquisição de bens com o desprezo das leis. a maior parte desses reis não foram nem bons nem maus. condenaramse às penas do Tártaro por se terem deixado guiar por homens ardilosos e maus. que tinha sido seu filho: – Não tinha eu recomendado a vocês tantas vezes durante a vida e ainda antes da morte que reparassem os males ocorridos por negligência minha? Dizia o filho: – Ah! desgraçado pai! Foi você que me perdeu! Foi o seu exemplo que me inspirou o luxo. para não mais deixá-los. e os condenados em corpos manchados e desfigurados pelo pecado. Isso os distinguirá. os condenados – como os santos – devem ressuscitar no dia do juízo final. a voluptuosidade e a crueldade para com os homens! Vendo-os governar com tanta incúria. o inferno é um lugar 24 Estas citações são tiradas da obra intitulada “O INFERNO”. sendo tomada dos autores sagrados e da vida dos santos. Tal punição correspondia aos males que tinham deixado praticar em nome da sua autoridade. cercado de aduladores infames. animais que só se consideram enquanto proporcionam serviços e comodidades. não por males que tivessem feito. Sobretudo recaía o rigor sobre os reis que. com pequenas variantes. retomando. e assim como nunca experimentaram o prazer da virtude. Imputavam-se a eles também todas as desordens decorrentes do fausto. “Porém. “– Acreditei e foi você que me fizestes crer nisso. ESBOÇO DO INFERNO CRISTÃO 11. do luxo e dos demais excessos que impelem os homens à violência. a ganância insaciável das riquezas. provenientes da desídia na observância das leis. de Augusto Callet. sofrendo agora tantos males por haver imitado-o. jamais poderiam fazê-lo consistir na prática do bem”. A opinião dos teólogos sobre o inferno resume-se nas seguintes citações24. tal a sua fraqueza. podem ser considerados puros Espíritos. habituei-me a prezar a lisonja e os prazeres. os vãos receios e desconfianças que vingam os povos da dureza de seus reis. Viam-se muitos desses reis severamente punidos. uma vez que só a alma desce aí. o que mais entristeceu Telêmaco foi ver nesse abismo de trevas e males grande número de reis que. . nos sermões da tribuna evangélica e nas instruções pastorais.32 – Allan Kardec “Estes reis lastimavam-se reciprocamente a cegueira. tendo passado na Terra pelos melhores. que não devem reinar senão para que as leis exerçam seu ministério. A estas recriminações aliavam as mais acerbas blasfêmias. presentemente no inferno. não os atemorizava a ignorância da verdade. 12. Contudo. Dizia um a outro. o orgulho. Quais aleijados noturnos. em minerais e líquidos.. pode tanto melhor ser considerada como expressão da fé ortodoxa na matéria. quanto é ela reproduzida a cada instante. e os condenados. os mesmos corpos carnais que os revestiam na vida. Porém. mas por terem negligenciado o bem que poderiam e deveriam fazer. Conseguintemente. não havendo mais no inferno puros Espíritos. “– Acreditei que os homens eram para os reis o que os cavalos e outros animais de carga são para aqueles. iguais lobos devoradores. Esta descrição. Além disso. eram imputados aos reis. só cuidavam de devastar o rebanho. sofrendo inconscientemente as metamorfoses constantes da matéria. porém homens como nós. isto é. em torno desses reis corvejavam as suspeitas cruéis.

quanto a este ponto. uma vez que tem de ser povoado por criaturas terrestres. tudo era trevas em torno de si. e percorreu-a horrorizada. sem que o problema se haja resolvido por qualquer concílio. contudo. penetrando-lhes a pele. de espada em punho. igualmente. teólogos mais ousados ou mais esclarecidos que dão descrições mais minuciosas. ao mesmo tempo em que a esfolavam e retalhavam em pedaços. Assim falam com toda a segurança os teólogos mais tímidos. Os condenados. mas dizem que para afirmá-lo lhes falta suficiente conhecimento. e os demônios atormentando os homens aos quais eles perderam. Tampouco podia sair. segundo a expressão dos evangelistas. aliás sem poder explicar a ocorrência. na pupila dos olhos. Ele pretende mais. vítimas sempre sacrificadas e sempre vivas. E embora não se saiba em que lugar do Espaço está situado esse inferno. Onde estará esse inferno? Alguns doutores o têm colocado nas entranhas mesmas do nosso globo. foi detida em sua marcha por uma muralha que interceptava a viela. mas transportados em espírito. posto que através dessas trevas percebesse. na medula dos ossos. não negam que haja no inferno outros suplícios corporais. envolviam-na. segundo um versículo de S. dentes. a hedionda viela em que se achava. seria para eles lugar de refrigério e repouso. “Sem esperança de socorro. sem Lua. estrangulando-a. posto que material como o nosso e atuando sobre corpos materiais. material. num verdadeiro lago de enxofre. das graças concedidas por Deus em sua cela de Ávila. Pois. rangendo os dentes. com a sua imunda vizinhança. experimentou. Ao sentir queimar-se. Essas paredes horríveis. onde quer que exista. outros não sabemos em que planeta. boca. nem manter-se de pé. os teólogos mais prudentes não se atrevem a descrever os horrores dessa morada. pelo menos tão positivo como o que lhes foi dado sobre o suplício horrível do fogo e dos vermes. o lago de fogo e enxofre do Apocalipse e os vermes de Isaías. Este espetáculo era-lhe tão intolerável quanto os apertos mesmos da . abaixando-se sobre ela. em cuja muralha havia um nicho onde se abrigou. A cratera de um vulcão. língua. toda a sorte de angústias. não sem pavor. sangue nas veias e nervos sensíveis. discretos e comedidos. casando suas picadas às do fogo. estamos reduzidos a suposições. ouvidos. que esse fogo estranho. olhos semelhantes aos nossos. apertavam-na como se fossem animadas de movimento próprio. geográfico. sentirão a tortura desse fogo que queima sem destruir. embora sem Sol. diríamos que há uma cidade no inferno: ela aí viu. pelo menos. se aí pudessem submergir. Porém. não podia sentar-se. variadas e completas do inferno.33 – O CÉU E O INFERNO físico. como Orfeu. os hindus e os gregos. os conservará como o sal conserva o corpo das vítimas. uma espécie de viela comprida e estreita como essas que sobram em velhas cidades. Marcos. dotadas de pés. ou deitar-se. Como os egípcios. Parecia-lhe que a afogavam. serão dele embebidos e saturados em todos os seus membros. em vida. “Santo Agostinho não concorda que esses sofrimentos físicos sejam apenas reflexos de sofrimentos morais e vê. “Apesar da facilidade maravilhosa que tivera em penetrar esse nicho. mãos. como Ulisses. “Entre eles está Santa Teresa. há santos que o viram. sem estrelas. Eles não foram lá ter com a lira na mão. a única coisa afirmada é que esse inferno. desprovido de todo gérmen e das aparências benéficas que porventura se encontram ainda nas regiões mais áridas deste mundo em que pecamos. limitando-se a nos mostrá-la como ideias no pouco que a Escritura fala dela. mais triste e rude. é um mundo composto de elementos materiais. Há. Diz ela que era o lugar que lhe destinavam se abusasse. vermes e verdadeiras serpentes saciando-se nos corpos. no qual brotam monstruosos répteis. caminhando sobre lodoso e fedorento terreno. e os homens a chorarem. Pela narrativa da santa. nas mais íntimas e sensíveis fibras do seu ser. esses vermes que formigam eternamente sobre os cadáveres do Tofel.

Nesta visão se reconhecem todos os caracteres dos pesadelos. prontos a se lançarem sobre o dorso das vítimas. mais alquebrados e chaguentos que os mártires. foles. sedentos e famintos. que não o de carniceiros e cozinheiros. os luxuriosos pelos da devassidão. para melhor atormentarem os homens em seus corpos. moabitas e outros estrangeiros vizinhos da Judeia. numa variedade tão grande como a dos pecados. esta de poder continuar em maior escala a prática de mal menor feito na Terra. escancarando goelas vorazes. e o contato. em vão. serras. com seus palácios e templos abrasados. arrastam suas presas para cavernas solitárias. Viram. 26 Estranha punição. na verdade. chumbados às cadeiras lamentosas. seguindo mares sem praia. outros. acorrentados todos os habitantes. há demônios que. fontes alimentadas de lágrimas. Uns têm asas de morcegos. e até calabouços. monstros de várias cabeças. 25 . e calor. levando aos lábios taças vermelhas e chamejantes. e príncipes de cujas mãos escorria em lava devoradora o ouro derretido. Com efeito. ávidos igualmente de movimento e de repouso. magros. usam corpos. e assim por diante. florestas gemedeiras. couraças de escama. sendo provável que fosse deste gênero de fenômenos o acontecido a Santa Teresa. a sacudirem sobre as disformes cabeças as suas crinas de serpentes. além.34 – Allan Kardec prisão25. bem como os ídolos adorados pelos fenícios. porém vivos. e isso para sempre. transformados em leões ou víboras enormes. dessas sementes estéreis. apresentando-se a nós armados de espadas. barcas tripuladas por desesperados. em lugar de se darem ao prazer de proporcioná-lo a alguém. para finalmente arremessá-las em tanques de enxofre. esses demônios não obram ao acaso. “Traficantes em seus balcões. que lembram tão visivelmente os deuses do Amenti e do Tártaro. forcas e instrumentos de tortura forjados por nossas próprias mãos. Ainda outros relatam que viram no inferno montanhas inçadas de precipícios. em uma palavra. tenazes. mil vezes mais exaustos que escravo ao fim do dia. queimando-se. tudo ardente. Criados ajoelhados em fossas ferventes. Terão frio. enregelados. ensanguentadas. não exercendo outro ofício por toda a eternidade. cornos. tendo cada um a sua função. turbilhões de neve em desertos de gelo. cultivadas por camponeses famintos. que. “Sem dúvida. poços secos. convulsões. patas armadas de garras. porque são imortais. em relação à carne humana. porque também ofenderam a Deus por todos os órgãos e sentidos. mais doentes que os moribundos. tudo o que viam os pagãos: um terrível espelho da Terra com os respectivos sofrimentos naturais eternizados. braços distendidos. Aqui. indo procurar ao longe. Outros viram no inferno planícies sem-fim. quais enormes braseiros: Babilônia e Nínive. de escorpiões gigantescos. cuja vista produz náuseas e calafrios. pois viram grandes cidades no inferno. aos gritos. “Estes demônios de formas sensíveis. Os delinquentes de gula são castigados pelos demônios da glutonaria. Outros viajantes espirituais foram mais favorecidos. e aqueles em dragões volantes. vorazes e em bando. esse não era mais que um pequeno recanto do inferno. nuvens de gafanhotos. dispersando-se em seguida. tão numerosos como antes. a triturarem condenados com sangrentas mandíbulas para vomitá-los mastigados. se devoravam uns aos outros. os preguiçosos pelos da preguiça. arrebatando-as assustadiças. pinças. Outras colônias errantes de condenados os substituíam imediatamente. ribeiros de sangue. dentes agudos. terras mais felizes. Os condenados são punidos em todos os seus órgãos e sentidos. grelhas. Mais racional seria o fato de os próprios malfeitores sofrerem as consequências desse mal. O mal que praticam no inferno está em relação ao mal que inspiraram e fizeram cometer na Terra26. através de espaços tenebrosos. a própria Roma. sacerdotes reunidos a cortesãos em salas de festim. nada colhendo desses campos fumegantes. estes se transformam em corvos para arrancar os olhos a certos culpados.

entretanto. corvos. onde os próprios metais se vaporizam. antes se laceram mutuamente? Vendo-se o requinte dos castigos reservados aos condenados e comparando sua situação à dos demônios. dos desejos impuros. não se pode de modo algum dizer dos corpos e das respectivas penas. sem isso que seria o inferno? Repousariam os pacientes se os carrascos se desentendessem ou se enfadassem. exércitos mais obedientes aos chefes ou comunidades monásticas mais humildes e submissas aos seus superiores27. Abadon ou Apolion. doentios. era invulnerável. a esses corpos raquíticos. nunca se viu sobre a Terra súditos mais fieis a seus príncipes. da avareza. Aliás. depois. Mas. mas. Belial. sob o ponto de vista da sua natureza física e também das penas físicas que aí sofrem. salamandras e outros animais sem-nomes. a morte seguia de perto a dor. observem as esculturas e painéis das nossas igrejas. já uma vez aniquilados – a virtude de subsistirem sem se dissolverem numa fornalha. desses vis Espíritos que compõem as legiões de vampiros. Mamon. 27 . restitui-nos a esse estado. A ressurreição não nos Esses mesmos demônios rebeldes a Deus quanto ao bem. nada de repouso nem disputas para quaisquer deles. entre os quais Belfegor. é caso de perguntar quais os mais dignos de lástima – se as vítimas ou os algozes. os teólogos supõem que Deus opera. após a ressurreição dos corpos. assinalados dos estragos da vida e da morte. quando imortal. concede propriedades que nunca tiveram – a imortalidade. do homicídio. mas o que se diz da alma e das penas espirituais. sem falar do seu chefe supremo. o sombrio arcanjo que no céu se chamava Lúcifer e no inferno se chama Satanás. prontos a voltarem ao pó donde saíram. “Quase nada se conhece da ralé demoníaca. atentem no que dizem dos púlpitos e saberão ainda mais”.35 – O CÉU E O INFERNO “Demônio algum se furta nem se furtará jamais ao desempenho sinistro da sua tarefa. “Portanto. esse segundo milagre de que falamos. estendendo-se de um a outro extremo do abismo. O Autor acompanha esse quadro das seguintes reflexões. Que estranha mudança em quem fora criado puro e perfeito como os anjos! Não é de pasmar vê-los dar exemplos de harmonia. e está feito o primeiro milagre. dando a esses corpos mortais – já uma vez usados pelas passageiras provas da vida. 13. sapos. quanto à execução das vingativas ordens que receberam. escorpiões. sem o que os corpos se abateriam. cheios de necessidades. Belzebu. friorentos. de concórdia inalterável quando os homens sequer não sabem viver em paz na Terra. perfeitamente disciplinados e fiéis. pois apesar de maus e inumeráveis que são. “Eis aí a ideia resumida que nos dão do inferno. decrépitos. que Deus não a persegue e apenas a abandona no estado infeliz por ela escolhido (embora esse abandono eterno de um ser desgraçado e sofredor pareça incompatível com a bondade divina). mas Deus faz ainda um segundo milagre. para perpetuação das quais já não basta que Deus se conserve impassível. em sua ira (digam antes em sua misericórdia). esse dom que. efetivamente. Consultem os escritos dos padres e dos antigos doutores. são de uma docilidade exemplar quanto à prática do mal. Baalgad. e deixando de ser invulnerável tornou-se mortal. Adão. sensíveis a uma picada de abelha. interroguem as pias legendas. conhecem-se os nomes de muitos dos príncipes que comandam tais legiões. retirou Adão ao sair do Éden — e eis completo o segundo milagre. Vá lá que se diga que a alma é o seu próprio algoz. Nenhum se esquiva ou afrouxa durante a eternidade. cujo alcance cada qual procuraremos compreender: “A ressurreição dos corpos é um milagre. Astarot e muitos outros. Moloc. Que em primeiro lugar tira dos sepulcros – que os devoravam – os nossos corpos de barro. que intervenha e atue. retira-os tais como aí baixaram com suas enfermidades originais e degradações sucessivas da idade. ao contrário. ou senhor das moscas que engendram a corrupção. o demônio da luxúria. hidras.

essa podridão viva. Diremos apenas ser Dejanira é uma personagem da mitologia grega que usou uma túnica envenenada por acreditar ser seu talismã capaz de trazer de volta os maridos infiéis – N. ao passo que no império de Satã são todos confundidos nas mesmas torturas. contra a ordem natural. mas para revesti-las de um corpo horrendo. e querendo que contribuam constantemente por seus perenes suplícios para edificação dos escolhidos”.36 – Allan Kardec restabelece. pois. 28 . em compensação só a Deus poderão depositar os outros. Efetivamente. almas com corpos fluídicos. aí o orgulho é abatido e humilhado. estas opiniões são individuais e não fazem lei. Segundo os teólogos. “De alguma maneira. ardente. às angústias de uma alma que sente perdido o bem supremo. Incontestavelmente. horrível e como a quer imortal. imagens da sua vida terrestre. imperecível. para alguns. trazendo todos o estigma do seu passado. Por este milagre Deus se veste de um dos carrascos infernais. mais empestado que a túnica de Dejanira. a ponto tal que. Deus terá esses condenados à mão infinitamente. a constituir um artigo de fé. Juízes inflexíveis. sofredora. consumindo-os. nós os vemos fugirem à luz que os penetra. e – para ajuntar aos tormentos espirituais dos pecadores tormentos carnais que possam durar eternamente – transforma de súbito. lançando-a ao fogo. para impedir que o fogo se extinga em seus corpos. pois se os condenados só podem atribuir a si mesmo seus males espirituais. em absoluto. Tampouco se vê o requinte das torturas que constituem o fundo do inferno cristão. 15. ante suas vítimas e seus crimes. D. chamejante. vendo nelas antes simples simbologias cujo sentido convém interpretar. que o inferno dos cristãos ultrapassou o dos pagãos. acabrunhados por aqueles que atormentaram na vida terrestre. Contudo. reunindo por um nó indestrutível esses elementos que tendem por si mesmos a separar-se. e com razão. tantas vezes reproduzidas com visos de realidade. procurando em vão se esconderem aos olhares que os perseguem. porém justos. mas para conservá-la tal qual é. saturando-os até à medula dos ossos. Assim. basta entregá-los a si mesmos sem ser preciso aumentar-lhes os castigos. Deus muda de parecer. com suas consequências. ao fundo desse abismo. no Tártaro veem-se culpados torturados pelo remorso. Não cabe aqui explicar a origem das imagens fantásticas. as leis e propriedades por Ele mesmo estabelecidas de princípio aos compostos materiais. muitos homens sensatos que não admitem essas coisas à risca. não para purificá-la. ressuscita carnes enfermas e corrompidas e. e banida toda e qualquer equidade. No entanto. nem nas condições físicas do homem inocente. punidos pelas próprias faltas. visto como Céu e Terra não subsistem senão por ato permanente da sua vontade sempre ativa. há hoje no seio da mesma Igreja. sensível. sendo antes uma ressurreição das nossas misérias somente. nem nas do culpado. se elas de fato não existem. infinitamente mais horríveis. mantém e perpetua. Poderíamos perguntar como há homens que têm conseguido ver essas coisas em êxtase (transe). é uma verdadeira criação e a mais maliciosa que a imaginação porventura tenho ousado conceber. com fogo a penetrar-lhes a pele. Deus irá buscá-las nessa noite. “Ainda assim Ele não as abandonará para sempre. abandonando-as então para sempre28. não para consolá-las. 14. são sombras. chamando-as momentaneamente à vida. continuando a crença no inferno material. lá não se vê os homens retomarem o corpo carnal para sofrer materialmente. “Era pouco aparentemente o abandono à tristeza ao arrependiment o depois da morte. Dissemos. mas com um acréscimo de misérias novas. por efeito do seu poder. com a materialidade por base. proferem a sentença proporcional ao delito. isto é.

sob formas vaporosas que se cruzam. extraordinário que Santa Teresa e outros. se reproduzem amplificadas como em uma miragem. questões 443 e 444. As ideias com que o Espírito se nutre e das quais o cérebro – ou antes o invólucro perispiritual correspondente a este – conserva a forma ou a estampa. se confundem e compõem um todo extravagante. 29 O LIVRO DOS ESPÍRITOS. Um pagão fanático teria antes visto o Tártaro e as Fúrias. não sendo. porque o estado de sobreexcitação nem sempre importa um desprendimento d’alma tão completo que se imponha à crença absoluta. propriamente falando.37 – O CÉU E O INFERNO preciso considerar. Os extáticos de todos os cultos sempre viram coisas em relação com a fé de que se presumem penetrados. empunhando o raio. verbais ou escritas. em princípio. no Olímpio. denotando muitas vezes o reflexo de preocupações da véspera. que o êxtase é a mais incerta de todas as revelações29. tal qual ela saturados de ideias infernais pelas descrições. ou Júpiter. . pois. tenham tido visões que não são mais que reproduções por efeito de um pesadelo.

porque apenas conhecendo a penalidade do fogo fizeram dele um inferno menos tenebroso. Este abuso foi causa primária da Reforma. comparado à justiça humana. por exemplo. 2. as almas do purgatório não se livram dele por efeito do seu adiantamento. explicando-nos a causa das terrenas misérias da vida. por intermédio das quais se vende a entrada no céu. não padeceria enfermidades vindas de excessos. pois se esta fosse perfeita não cometeria faltas nem teria de sofrer-lhe as consequências. outro tanto não acontece quanto às consequências dele decorrentes. Corrige em uma vida de provações o que fez alguém sofrer em existência anterior. é a detenção temporária ao lado da condenação perpétua. Sendo o dogma das penas eternas incompatível com o progresso. O purgatório deu origem ao comércio escandaloso das indulgências. E se foi bom o primeiro pensamento. Mas. a noção do purgatório deveria ser incompleta. porque. 30 31 . que só foi admitido pela Igreja no ano de 593. ou sofreriam o castigo dos maiores criminosos. das quais só a crença nas várias existências (reencarnação) poderia nos mostrar a justiça. À Nova Revelação estava reservado o preenchimento dessa brecha. expiando não somente faltas atuais. As preces pagas transformaram o purgatório em mina mais rendosa que o inferno31. Essas misérias decorrem necessariamente das imperfeições da alma. que seria das almas somente culpadas de ligeiras faltas? Ou compartilhariam da felicidade dos eleitos. é porque já era antes de vir à Terra. D. só há para as almas duas alternativas extremas: a suprema felicidade ou o eterno suplício. nem racional. o princípio do purgatório é fundado na equidade. necessariamente. ainda quando não houvessem feito muito mal. Por sua vez. Jamais foram determinados e definidos claramente o lugar do purgatório e a natureza das penas aí sofridas. porém. levando Lutero a rejeitar o purgatório. O homem que na Terra fosse absolutamente lúcido e moderado. Quase sempre ele é desgraçado por sua própria culpa. Que julgar de um país que só tivesse a pena de morte para os crimes e os simples delitos? Sem o purgatório. pelos abusos que originaram. mas faltas anteriores não resgatadas.38 – Allan Kardec CAPÍTULO V O PURGATÓRIO 1. E nessa hipótese. se é imperfeito. Pois. porque estabelece punições menos rigorosas e resgatáveis para as faltas de gravidade mediana. visto que as almas aí também ardem. o que não seria nem justo. as dificuldades que experimenta são uma correção Dogma: regra estabelecida pela Igreja. É incontestavelmente um dogma 30 mais racional e mais conforme com a justiça de Deus que o inferno. 3. mas em virtude das preces que se dizem ou que se mandam dizer em sua intenção. tida como verdade inquestionável – N. O Evangelho não faz menção alguma do purgatório. embora em fogo mais brando. ainda quando imperfeitas.

quanto é terrível a situação de outros. a fim de evitar males e progredir para o bem. sendo-lhe depois concedida a vida corporal como meio de reparação. Assim é que. a ser condenado sem remissão. devendo sofrer ainda na seguinte. não se queixe senão de si mesmo. deixando-a definitivamente? A concessão dessa liberdade é uma prova da sabedoria. A alma se retempera no bem com essas lutas. E não lhe será preferível voltar à Terra. que. um desdobramento do trabalho efetivo a facilitar o progresso. Depende do Espírito aproveitá-lo. se o não fizer nesta. triunfando sempre que tiver coragem para mantê-las até ao fim. aquele que sofre nesta vida pode se dizer que é porque não se purificou suficientemente em sua existência anterior. Considerando-se quão grande é o sofrimento de certos Espíritos culpados no mundo invisível. seja ainda em situações opostas à sua vida precedente. onde os homens expiam o passado e o presente. sofrerá as do egoísmo. infeliz por mais ou menos tempo. em uma palavra. Isto é ao mesmo tempo justo e lógico. terá de recomeçar nova existência em condições ainda mais penosas. Essas dificuldades ocasionam incessantes lutas que lhe desenvolvem as forças e as faculdades intelectuais e morais. porque a uma nódoa não apagada ajunta outra nódoa. pois que a rota do progresso lhe está sempre aberta. se orgulhoso. de sua vontade depende a maior ou menor extensão desse passo: subir muitos degraus ou ficar no mesmo ponto. Em cada existência. com probabilidades de alcançar o céu. não por conclusão de tempo nem por méritos alheios. O livramento se dá. Pois é nas sucessivas encarnações que a alma se limpa das suas imperfeições. se tal vocábulo não implicasse a ideia de um castigo eterno e material.39 – O CÉU E O INFERNO temporária e uma advertência quanto às imperfeições que deve eliminar de si. palavras que resumem integralmente a justiça de Deus. ou humilhado. se foi mau rico. 5. Neste último caso – e porque cedo ou tarde se impõe sempre o pagamento de suas dívidas –. contrariamente à ideia que deles se faz. A expiação no mundo dos Espíritos e na Terra não constitui duplo castigo para eles. segundo o grau de adiantamento e pureza atingido pelo próprio esforço sobre si mesmo. depende de cada um prolongar ou abreviar a sua permanência. enquanto o homem for orgulhoso. rudes às vezes. porém um complemento. onde a alma entra radiante e triunfante como soldado que se destaca da guerra para receber a palma gloriosa. mas pelo próprio mérito de cada um. até que esteja bastante pura para deixar os mundos de expiação como a Terra. 6. tanto mais penosa pela impotência de preverem o fim desses sofrimentos. O prêmio da vitória está na vida espiritual. tanto mais tempo sofremos quanto mais imperfeito formos. . uma ocasião se apresenta à alma para dar um passo avante. quanto profundas as impressões que deixam. da bondade e da justiça de Deus. enquanto egoísta. que se purga. em acordo com estas palavras do Cristo: “A cada um. Contudo. Devido às suas imperfeições. 7. 4. São lições da experiência para a alma. Sendo o sofrimento relativo à imperfeição. poderíamos dizer que se acham no inferno. seja por meios iguais àqueles em que praticou o mal. da mesma forma por que tanto mais tempo uma enfermidade persistirá quanto maior a demora em tratá-la. o Espírito culpado sofre primeiro na vida espiritual. em proveito do futuro. que quer que o homem dependa em tudo dos seus esforços e seja o obreiro do seu futuro. É por isso que ele se acha nessa nova existência – seja com as pessoas a quem ofendeu. mas tanto mais proveitosas para o futuro. por exemplo. segundo as suas obras”. na miséria. Então. como. sofrerá as consequências do orgulho.

que neste momento se opera. por esse meio. por esta transformação. por sua vez só fornecerão à Humanidade corporal elementos aperfeiçoados. próximo ou remoto. sim. como não existia a ideia. abreviar seus tormentos32. O Cristo serviu-se da palavra inferno. Reservado ao futuro o esclarecimento sobre a natureza das penas. Na realidade não há para o Espírito mais que duas alternativas. A palavra purgatório sugere a ideia de um lugar específico: eis por que mais naturalmente se aplica à Terra do que ao Espaço infinito onde penam os Espíritos sofredores. não poderia especificar o verdadeiro sentido sem ferir uma questão reservada ao futuro. de ser um mundo expiatório e os homens não sofrerão mais as misérias decorrentes das suas imperfeições. tem levado a fé a muito descrente. Logo. finalmente. então. onde quer que se verifique. Seja qual for a duração do castigo – na vida espiritual ou na Terra –. Aliás. houve por bem suprir o silêncio de Jesus quanto ao purgatório. como termo genérico. Mas. por que o Cristo não teria falado do purgatório? É que. O que o Espiritismo afirma é que o valor da prece está no pensamento e não nas palavras. sabemos que o prazo da expiação esta subordinado ao melhoramento do culpado. é a realidade. III — “Progressão dos mundos”. os homens não fornecerão ao mundo invisível senão bons Espíritos. decretando-lhe a existência. o Espiritismo não nega. cap. e. O que ele destrói é o inferno localizado com suas fornalhas e penas irremissíveis. que não é senão um modo de penalidade. tem sempre um fim. e recompensa de acordo com o mérito. e definindo-o corretamente. eleva-as a um dever de caridade e demonstra a sua eficácia para conduzi-los ao bem e. da eterna condenação. para designar as penas futuras. O inferno reduz-se à figura simbólica dos maiores sofrimentos cujo termo é desconhecido. cabia a Ele igualmente reduzir o inferno ao seu justo valor. sem diferenciação. a mercê da revelação dos Espíritos e dos exemplos que nos oferecem. Falando à inteligência. é porque ela julgou que Ele não havia dito tudo. Uma vez que a Igreja. pois prova que nele nos achamos. 10. não havia palavra que a representasse. incutindo a prece no ânimo dos que zombam dela. cap. Quando estiverem melhorados. e tanto mais quanto a natureza da expiação terrena tem as características da verdadeira expiação. Repele as preces pelos mortos? Ao contrário. confirma a penalidade futura. e estes. 8. conduz à crença aqueles mesmos que o negam. encarnando-se. XXVII – “Ação da prece”. Tivesse Ele colocado ao lado da palavra inferno. após seis séculos. e explicando a causa das misérias terrestres. O Espiritismo rejeita a terceira alternativa. a Terra se elevará na hierarquia dos mundos33. teria de consagrar a existência de dois lugares especiais de castigo. a única usada. O purgatório. Então. que as melhores preces são as do coração e não as dos lábios. uma equivalente a purgatório. quem ousaria criticá-lo? 9. A Terra deixará. a saber: punição temporária e proporcional à culpa. enfim. .40 – Allan Kardec Mas. Também não nega o purgatório. as que cada qual murmura de si mesmo e não as que se mandam dizer por dinheiro. mas antes. Idem. O inferno em sua concepção genérica – revelando a ideia de punição – contém implicitamente a do purgatório. visto que os Espíritos sofredores solicitam nossas orações. E por que não havia de ser o mesmo sobre outros pontos? 32 33 Ver O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO.

Sem compreenderem o seu . que nos parece quase desnecessário nos ocupar com tal doutrina de agora em diante. Mas não se pode contestar que. dos seus atributos e da vida futura. bem como o valor relativo das atenuantes e agravantes. Por este lado. aliás. A doutrina das penas eternas teve sua razão de ser. jamais se mostrasse aos súditos. a não ser pouco ou mesmo nada com a ideia das penas morais. 2. ainda constitui a tecla dos adversários das ideias novas. os homens não se impressionariam então. Assimilando-o à sua própria natureza. o ponto que defendem com mais teimosia. para ele. uma ideia muito imperfeita e vaga. sem ser profeta. Muito menos compreenderiam a temporalidade dessas penas e a justiça decorrente das suas gradações e proporções.41 – O CÉU E O INFERNO CAPÍTULO VI DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS      ORIGEM DA DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS ARGUMENTOS A FAVOR DAS PENAS ETERNAS IMPOSSIBILIDADES MATERIAIS DAS PENAS ETERNAS A DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS FEZ SUA ÉPOCA EZEQUIEL CONTRA A ETERNIDADE DAS PENAS E O PECADO ORIGINAL ORIGEM DA DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS 1. pode-se prever seu fim próximo. 3. Quanto mais próximo do estado primitivo. como a do inferno material. a questão merece sério exame. de modo que. e não menos convictos das consequências dessa queda. apesar de caduca. Tão concretos e poderosos têm sido os argumentos contra elas. Deus não passa de um soberano absoluto. enquanto o temor podia ser um freio para os homens pouco adiantados intelectual e moralmente. tanto mais terrível quanto invisível. mais o homem é materialista. convictos da vulnerabilidade que ela apresenta. Na impossibilidade de apreenderem os detalhes tantas vezes delicados do bem e do mal. fechado no seu palácio. como um rei ditador que. O senso moral é o que mais demora a se desenvolver nele. deixando que por si mesma se gaste. razão pela qual também só pode fazer de Deus. A crença na eternidade das penas perde terreno dia a dia.

cruel para os inimigos e inexorável para os vencidos. 5. dente por dente”. Implacável também ele. o desenvolvimento suficiente à compreensão de uma doutrina mais elevada.42 – Allan Kardec poder moral. toda amor e caridade não podia aliar-se à brutalidade dos costumes e das paixões. nada tinham de incompatíveis com a ideia que se fazia de Deus. legislador de Atenas (Grécia). nem por haver feito de Deus um Senhor vingativo. aos deveres do homem –. A época exigia assim. quanto a outros pontos. em várias existências. e os homens habilitavam-se a compreender as coisas espirituais. e para onde iriam eles? Demais. Vindo traçar aos homens novos deveres. não podia racionalmente enfraquecer o temor do castigo reservado aos pervertidos. A vingança implacável. Deus teria criado para o tempo de Jesus almas mais adiantadas que para o tempo de Moisés? E daí o que teria decorrido para estas últimas? Elas se consumiriam por toda a eternidade no embrutecimento? O menor bom-senso repele essa suposição. Uma religião toda espiritual. Jesus já pôde proclamar um Deus clemente. Deus. apenas bastante para conter o povo indócil. falando do seu reino. D. a ruína. eternos. 4. No entanto. e acrescentando: “Amem-se uns aos outros e façam bem aos que os odeiam”. que lhe era superior. Não veem a Divindade senão armado com o raio ou no meio de coriscos e tempestades. assim como hoje se encontram mais adiantadas para receber um ensino ainda mais completo. Não. essas almas eram as mesmas que viviam sob o império das leis mosaicas e que tinham adquirido. Ele próprio o disse: “Muitas outras coisas diria a vocês se estivessem em estado de compreendê-las. semelhantemente aos guerreiros invencíveis. o egoísmo pela abnegação. não lhes repugnavam à razão. Mas isso só aconteceu lenta e gradualmente. Se Jesus prometia o reino dos céus aos bons. Ora. só o aceitam pela força material. o Cristo foi muito explícito porque. o véu material ia se dissipando pouco a pouco. Sobretudo no que diz respeito à moral – isto é. sem enfraquecer ao mesmo tempo a ideia do dever. não deste mundo. porém um ser fraco e sem meios de se fazer obedecer. Para tais homens eram precisas crenças religiosas assimiladas à sua natureza rústica. sabia fazer-se compreender. os castigos terríveis. conhecido pelo rigor excessivo – N. essa época em que a doutrina de Jesus não encontraria eco e até se anularia. quais eram os homens que viviam no tempo de Jesus? Seriam almas novamente criadas e encarnadas? Mas se assim fosse. Então. deveria ser ainda mais terrível. esse reino estaria fechado para os maus. À medida que o Espírito se desenvolvia. Por ocasião de sua vinda. limitou-se a semear sob a forma alegórica as sementes que deveriam ser desenvolvidos mais tarde. levando-se em conta a circunstância de Jesus se Legislação draconiana: Kardec compara as leis de Moisés com as de Drácon. 34 . A doutrina das penas e recompensas futuras pertence a esta última ordem de ideias. semeando de passagem a destruição. tocando na corda sensível da vida material. Sobretudo. ao passo que os antigos diziam: “olho por olho. em relação às penas. não censuremos a Moisés sua legislação draconiana34. já era muito substituir o ódio e a vingança pelo amor do próximo e pela caridade. seria necessária a inversão da Natureza para que inteligências ainda muito rudimentares pudessem ser impressionadas de feição a se identificarem com a vida espiritual. homem. Um Deus de mansidão e sensato não seria um Deus. além disso. o Cristo não pôde revelar aos seus contemporâneos todos os mistérios do futuro. Ele não poderia romper bruscamente com as ideias preconcebidas. e eis por que falo em parábolas”. nos seus ressentimentos.

segundo a sua predição. desconheceríamos o sentido das palavras de Jesus. 7. Deveríamos interpretar isso também ao pé da letra? Entretanto era uma dessas figuras enérgicas de que Ele se servia para impressionar as massas. porém. Deus. as nossas faltas. Pois se o culpado não devesse esperar algum perdão. O Jeová dos hebreus permitia-lhes mil modos de exterminar os inimigos. Se Jesus ameaçou os culpados com o fogo eterno. não fizesse. Senhor. pronto sempre a trocar o castigo pelo perdão do culpado sinceramente arrependido. que vem a ser a Geena? Nada mais nada menos que um lugar nos arredores de Jerusalém. pouco lhe importando fosse essa figura interpretada à letra. Ao contrário. o fogo material nada tinha de improcedente. o Onipotente35. e não de ideias sutis. Para homens que só possuíam uma ideia confusa sobre a espiritualidade da alma. 8. um lixão onde se despejavam as imundícies da cidade. De acordo com o caráter dos povos. misericordioso. No Pai-Nosso Jesus nos ensina a dizer: “Perdoa. o Espírito de Verdade viria esclarecer aos homens todas as coisas. quando todo o seu ensino proclamou a mansidão do Criador. O Pai-Nosso é um protesto cotidiano contra a eterna vingança de Deus. Eis a razão por que o Messias não entrou em detalhes supérfluos a este respeito. inútil seria pedi-lo. Ora. assim como nós perdoamos aos nossos devedores ”. Mas esse perdão é incondicional? É uma remissão pura e simples da pena em que se incorre? Não. sempre que encontro oportunidade. O mesmo se dá com o fogo eterno. O caráter essencial das penas irrevogáveis é a ineficácia do arrependimento. Também convém assinalar que Jesus nunca pronunciou a condenação imperdoável contra quem quer que fosse – mesmo contra os maiores culpados. a sua bondade. Ele também sabia que o tempo e o progresso se encarregariam de explicar o sentido alegórico. Por certo. Ele falou de um Deus clemente. recompensava-os com a vitória ou os punia com a derrota. fazendo do esquecimento das ofensas uma condição absoluta. . Ele estaria em contradição. também os ameaçou de serem lançados na Geena. D. solícito em receber o filho pródigo que voltasse ao lar paterno. desde que ela servisse de freio às paixões humanas. propagada quase universalmente. Essa ideia a respeito de Deus 35 Onipotente: o único que pode tudo – N. não podia exigir do homem fraco o que Ele. E se tal não fosse o seu pensar. Portanto.43 – O CÉU E O INFERNO dirigir ao povo – à parte menos esclarecida da sociedade – que não podia dispensar imagens de alguma forma reais. nessa época não era preciso mais do que opor uma punição à recompensa. A eternidade das penas igualmente nada tinha que pudesse repugnar a homens desde muitos séculos submetidos à legislação do terrível Jeová. inflexível sim. e Jesus nunca disse que o arrependimento não mereceria a graça do Pai. mesmo porque. a medida desse perdão subordina-se ao modo pelo qual se tenha perdoado. o que equivale dizer que não seremos perdoados desde que não perdoemos. Então. para o pecador teimoso. no pensamento de Jesus o fogo eterno não podia passar de simples figura. mesmo porque já participava da crença pagã. pois clemência e impiedade são sentimentos opostos que se anulam. este não é o traço de um Deus sem piedade. exaltando a clemência e misericórdia de Deus. atribuindolhes a sanção do dogma das penas eternas. todas as religiões antigas tiveram deuses guerreiros que combatiam à frente dos exércitos. 6.

Os judeus tinham abolido os sacrifícios humanos. tão radicada está no homem a ideia da crueldade divina. os cristãos. por isso mesmo. isto é. sem mais reflexão. rigoroso – N. e quantas vezes por causas injustas e anticristãs. ao menos aprovados pela religião atual! Foi preciso a poderosa opinião dos não-ortodoxos36 para acabar com as fogueiras e fazer compreender a verdadeira grandeza de Deus. o crime de lesa-majestade (o atentado à pessoa de um soberano). 39 Panteísmo: filosofia que defende que o Universo é uma extensão do corpo de Deus. mais severamente punido. em ceticismo38 absoluto para outros. e a nossa geração cristã ainda vê traços de antigos usos bárbaros. despojando-o de paixões e baixezas atribuídas por uma crença menos esclarecida. ARGUMENTOS A FAVOR DAS PENAS ETERNAS 10. como infinito o respectivo castigo. D. D. deve ser infinita a ofensa a Ele. é. pois não admite que a criação não pode ser o mesmo criador (Deus). eterno”. descrença. na falta de fogueiras. por muito tempo acreditavam honrar o Criador mandando milhares dos que denominavam hereges para as chamas e às torturas. Por exemplo. ao lado destes. apesar dos ensinamentos do Cristo. quantos não têm sido levados a negarem toda a Providência! O como a religião tem estacionado. Mas. e daí os sacrifícios sangrentos que representavam papel tão saliente em todas as religiões da antiguidade. prejuízos e ideias primitivas! Quarenta séculos nos separam de Moisés. à falta de um mais perfeito. uma vez que foi a obra é posterior ao seu idealizador – N. pois que promoviam isso para maior glória de Deus. Hoje. Deísmo: ideia de que nos asseguramos da existência de Deus somente pela razão. senão consagrados. glorificam-no após a vitória. Voltemos ao dogma das penas eternas. sem esquecermos o panteísmo39. Mas. prevalecem ainda perseguições materiais e morais. o homem poderá estranhar que o Deus que lhe apresentam – elogiado por atos bárbaros – condene a eternas torturas e veja sem piedade o sofrimento dos culpados? Sim. porque se homens têm devotados à forma. ainda invocam o Deus dos exércitos antes do combate. 38 Ceticismo ou cepticismo: ideia de que não podemos chegar a nenhuma verdade. O Espiritismo nega essa ideia. o homem fazendo-se deus ele próprio. São eles que mostram aos homens a Divindade na plenitude da sua grandeza. preso às tradições. Neste ponto a religião vem ganhando em dignidade o que tem perdido em prestígio exterior.44 – Allan Kardec levava a honrá-lo ou acalmá-lo com sangue de animais ou de homens. 9. e com acompanhamento de cerimônias religiosas. E sendo Deus muito mais que um soberano. sendo considerado mais grave do que seria em relação a qualquer súdito. Nutrido por sentimentos inculcados desde a infância. sem levar em conta os ensinamentos ou a prática religiosa – N. em oposição com os progressos da razão humana. Eis o principal argumento invocado em seu favor: “É doutrina sancionada entre os homens que a gravidade da ofensa é proporcional à qualidade do ofendido. dúvida permanente – N. são filósofos – ímpios como querem alguns – que se têm escandalizado vendo o nome de Deus profanado por atos indignos dele. Como o homem é vagaroso em se desfazer dos seus hábitos. Ortodoxo: religioso conservador. D. 36 37 . sem saber conciliá-los com as crenças. pois é Infinito. o que constituía sob outra forma verdadeiros sacrifícios humanos. maior é o número dos religiosos sinceramente pelo sentimento e pelo coração. isto é. bem como cada pessoa é um pedaço do Pai. degenerou em deísmo37 para uns. D.

Deus. Admitindo-se que uma ofensa temporária à Divindade pudesse ser infinita. — único. por isso que poderia coexistir um ser mais perfeito. igualando-se então a Deus. Um ser infinitamente bom não pode ter a menor parcela de maldade. visto como. não haveria mais Deus. sem o que não seriam infinitas e Deus tampouco seria perfeito. Se não for infinitamente bom não é perfeito. imutável. não é misericordioso. e não sendo perfeito deixa de ser Deus. deixa de ser infinitamente bom. Tomemos esses argumentos aos próprios atributos de Deus. sem a infinita perfeição. Se Deus é insensível para o culpado que se arrepende. argumentos. e não na eternidade que não tem fim? Predeterminadas a um dado tempo. E porque são infinitos. um breve instante. 12. argumento contrário – N. imaterial. mas se Ele é todo misericordioso para a alma arrependida antes da morte. se Ele próprio não perdoasse? Resultaria daí que o homem que perdoa aos seus inimigos e lhes retribui o mal com o bem. e se não é misericordioso. D. negando-lhes por todo o sempre o mínimo carinho. vingando-se por um castigo infinito. Logo.45 – O CÉU E O INFERNO Refutação:40 Toda refutação é um raciocínio que deve ter seu ponto de partida. pois o bem absoluto é a exclusão de todo o mal. O homem – que é finito nas virtudes. E por que daria Deus aos homens uma lei de perdão. infinito em todas as perfeições. Caso se tirasse a menor parcela de um só dos seus atributos. Deus deve ver também as torturas dos condenados. uma base sobre a qual se apoie. é necessário que seja de todo Infinito. Quanto a isto não há dúvida. e compreende-se que Deus só perdoe ao arrependido. seria melhor que Deus. sem piedade. nos conhecimentos. será eternamente impiedoso. soberanamente justo e bom. mantendo-se inflexível para com os teimosos. igualmente seria no bem. no poderio. poderíamos conceber outro ser que fosse superior a Ele. onipotente. e que mesmo o maior culpado pode receber essa graça. seria logo infinitamente vingativo. Estabelecido este ponto de partida. eterno. Mas se o homem fosse infinito no bem não praticaria o mal. nas aptidões e na existência terrestre – só pode produzir coisas limitadas. e sendo Deus infinitamente vingativo não pode ser infinitamente bom e misericordioso. oporemos aos argumentos supra os seguintes: 11. as qualidades divinas não sofrem aumento nem diminuição. Se o homem pudesse ser infinito no mal que faz. É impossível entender Deus de outra maneira. enfim. e vice-versa. é preciso que ninguém possa superá-lo ou sequer igualá-lo em qualquer coisa. não há bondade infinita. Só um ser infinito pode fazer algo de infinito. e se Ele se conserva indiferente aos gemidos por toda a eternidade. nem o ser infinitamente mau pode ter a menor parcela de bondade. 40 Refutação: contestação. ora. O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de outra qualidade contrária que pudesse diminuí-la ou anulá-la. visto como um destes atributos exclui o outro. Achando-se em toda parte e tudo vendo. . Para que seja único acima de todos os seres. Assim também um objeto não seria de um negro absoluto com a mais leve tonalidade de branco. surdo ao arrependimento dos que o ofendem. A isto se responde que antes da morte o pecador arrependido tem a misericórdia de Deus. a bondade e misericórdia divinas teriam limites e Deus não seria infinitamente bom. por que deixará de ser assim para quem se arrepende depois dela? Por que a eficácia do arrependimento só durante a vida.

E se por esta fraqueza fosse eternamente punida. Reconciliando-se com Deus – arrependendo-se. devendo ter por fim reconduzi-la ao bom caminho. para os bons sentimentos. Também se invoca a favor do dogma da eternidade das penas o seguinte argumento: “Se a recompensa conferida aos bons é eterna. sendo incompatível com a perfeição absoluta. a punição aos maus também deve ser eterna. e. se o castigo é irrevogável.46 – Allan Kardec 13. a felicidade eterna é a consequência da sua imortalidade. ao criar uma alma. pelo menos. Se a pena é irrevogável. persiste no mal. e Ele deixará de ser Deus. porque haveria seres predestinados à felicidade ou à desgraça. Conseguintemente. Se uma alma se arrepende. cria voluntariamente uma alma desde logo condenada ao eterno suplício. a alma pode cair em faltas. o culpado deve viver para o bem. E Deus seria justo se lhe recusasse os respectivos meios? . ao enfraquecimento de alguns atributos de Deus. Justo é proporcionar a punição à recompensa”. Deus deve abranger o passado e o futuro. nem leva a complacência ao ponto de deixar todas as faltas impunes. antes de chegar à perfeição. que são consequentes à sua natural fraqueza. 16. Refutação: Deus criou as almas para fazê-las felizes ou desgraçadas? Evidentemente o objetivo do Criador deve ser a felicidade da criatura. ou Ele não seria bom. pondera rigorosamente o bem e o mal. sem se enganar jamais na aplicação. e um bem não considerado significa injustiça. nada tendo a esperar de sua correção. Se não souber disso. e. ou há penas eternas e Deus não é perfeito. o arrependimento será inútil e o culpado. o desejo de melhorar seria supérfluo. Não tendo sido criada perfeita. e o juízo dos homens está revogado. mas capaz de o ser – a fim de que tenha o mérito de suas obras –. donde resulta este dilema: Ou Deus é perfeito e não há penas eternas. A soberana justiça não é absolutamente inflexível. Ela atinge a felicidade pelo próprio mérito e não mais o perde porque o adquiriu. Se a pena fosse irremissível. Mas. era caso de perguntar por que Deus não a criou mais forte? A punição é antes uma advertência do mal já praticado. a alma pode ser castigada eternamente sem esperança de clemência ou de perdão. tirando-o do inferno. ou. Sendo em tudo infinito. mas ainda a permanecer no mal por toda a eternidade. deve saber se ela virá a falir. nem o fim da criação seria alcançado. muito gravemente para ser eternamente condenada. Deus é soberanamente justo. o condenado que se corrige tem a sua pena reduzida e às vezes mesmo perdoada. Nisso não há nem bondade nem Justiça. Sabendoo. a sua sabedoria deixará de ser infinita. Entre os homens. pode regenerar-se. tem lutas a sustentar. Porém. assim. haveria mais equilíbrio na justiça humana que na divina. recompensando um e punindo outro proporcionalmente. resultante sempre da natureza imperfeita do homem e muitas vezes do meio em que vive. Então. e podendo se regenerar. Se por uma falta passageira. deixa de ser bom. 14. esta subsistência para o bem não frutifica. Uma vez que Deus pode conferir a graça ao pecador arrependido. de modo que Deus não só o condena a sofrer perpetuamente. O contrário seria a sua degeneração. 15. e pedindo para reparar o mal praticado –. combates a travar com as más paixões. pode esperar a felicidade. não há proporção entre a falta e o castigo – não há justiça. ao contrário. a doutrina das penas eternas absolutas conduz à negação. nesse caso. deixam de existir penas eternas.

a sua razão de ser em dada época. Até aqui. Além disso. em que se não crê. a alma progride ou não? Eis a questão: se progride. É incontestável que a alma atrasada moral e intelectualmente (como a dos povos bárbaros) não pode ter os mesmos elementos de felicidade. aliás. . como a alma cujas capacidades estão largamente desenvolvidas. Uma penalidade. impotente para reprimir os próprios defensores. 17. anulado este. Refutação: Esse raciocínio se justificaria caso a temporalidade das penas de fato importasse na eliminação de toda confirmação penal. E. favorecendo umas e destinando outras a perpétua inferioridade – o que seria incompatível com a justiça. as mesmas aptidões para saborear os esplendores do Infinito. Um último argumento a favor das penas eternas é este: “O temor das penas eternas é um freio. por assim dizer. segundo os tempos e lugares. é. Antes de defendê-la como necessidade. negativa.47 – O CÉU E O INFERNO Sendo o bem o fim supremo da Criação. Por sua vez. Portanto. só temos combatido o dogma das penas eternas com o raciocínio. 19. seria necessário demonstrar a sua realidade. pois é o seu prêmio. muitos provam pelos atos que nada temem das penas eternas. aferindo a diferença apresentada por um povo de um a outro século? Caso se admita não ser das mesmas almas. Assim. E poderíamos duvidar desse progresso. irrevogavelmente fixada depois da morte. nem por isso o castigo deixa de ser temeroso. A noção mais miúda da justiça humana prescreve que se não pode castigar perpetuamente quem se mostra desejoso de praticar o bem. um travão definitivo aplicado ao progresso. não pode ser um freio. seria forçoso observar a sua eficácia junto àqueles que a defendem e se esforçam por demonstrá-la. provando-lhe a impossibilidade. e a eternidade das penas está nesse caso. Ora. hoje. nada temer. se estas almas não progredirem. Mas. pois a identidade de condições para o bom e para o mau seria a negação dessa justiça. como tal. devemos admitir que Deus criou almas em todos os graus de adiantamento. desgraçadamente. em não ser eterno. e o castigo – como meio de alcançá-la – é temporário. a eternidade das penas é impossível. o homem. A felicidade ou infelicidade futura é consequência rigorosa da justiça de Deus. esta será tanto mais profunda quanto mais racional a procedência do castigo. Por este dogma a sorte das almas. não somente deixa de impressionar os ânimos. que império poderá exercer sobre os descrentes e refratários? IMPOSSIBILIDADE MATERIAL DAS PENAS ETERNAS 18. que. Demonstremo-lo agora em contradição com os fatos positivos que observamos. a felicidade deve ser eterna. não podem em condições mais favoráveis gozar na eternidade senão de uma felicidade. Como já informamos. e tanto maior será o temor quanto maior a convicção. entre esses. deve ser igual para todas as criaturas. mas até produz descrentes. a crença nessa penalidade teve a sua utilidade. vendo a variedade enorme de aptidões morais e intelectuais existentes sobre a Terra. desde o selvagem ao homem civilizado. e se entregaria a todos os abusos”.

da graça que lhes foi concedida e de que foram tocadas. aliás. mas se desde o momento da morte se impusesse irrevogável condenação. descrente. por que razão não mais poderia progredir depois da morte. desses que comumente se encontram. vamos ignorar essa questão e consideremos a alma sob o ponto de vista de uma única existência: 20. concedendo-lhe nesta? Neste caso. Qual dos dois existe de fato? A lei do progresso é evidente: não é uma teoria. nada devendo ao favoritismo: Deus o recompensa pelos esforços e pune pela negligência. e a condição indeclinável da existência de um é o aniquilamento do outro. imprescritível. negando sua alma e a Deus. S. com a lógica e com a mais rigorosa justiça. Mas qual seria a sua sorte se um acidente lhe pusesse fim à existência. melhor. Esses dois princípios destroem-se. 21. o dogma da eternidade absoluta das penas é incompatível com o progresso das almas. ignorante. progrediram. como destruídas seriam as aptidões dessa alma para o progresso. incompatível com a justiça de Deus e com seu igual amor por todas as criaturas. Mas. corrige-se gradualmente e acaba por tornarse crente e piedoso. para o bem. E. é um fato confirmado pela experiência: é uma lei da Natureza. posto que tardio. e. de acordo mesmo com as palavras do Evangelho. . esse arrependimento seria infrutífero por todo o sempre. logo. com progressos posteriormente realizados. sempre a doutrina dos privilégios. Esse homem morre em avançada idade. todo o seu progresso se tornaria impossível. isto por tanto tempo quanto nela persistir. por que a eles e não a outros? Sempre. Se esses santos praticaram o mal e depois o bem. viciado por índole. o arrependimento veio. Porém. é porque a outra não existe. e naturalmente se torna certa sua salvação. ao qual opõe uma barreira insuperável. pois. segundo a doutrina das penas eternas. depois. teremos um homem salvo somente pela circunstância de viver mais tempo. que esta lei existe inconciliável com a outra. Portanto. Paulo e tantos outros jamais teriam visto o céu. isto é simples jogo de palavras. instrui-se. E por que lhes teria Deus concedido como especial favor a graça de se corrigirem? Sim. E assim. durante esta vida e depois da morte. como um santo. chegaremos então à conclusão de que as almas mais adiantadas são as atrasadas de outro tempo. trabalha. fragilíssima. uma vez que um acidente qualquer poderia tê-la anulado ocasionalmente. Se o dogma das penas eternas existisse verdadeiramente. Santo Agostinho. divina. trinta ou quarenta anos mais cedo? Ele estava nas condições exigidas para ser condenado. exemplo que se reproduz todos os dias. Vamos imaginar um rapaz de 20 anos. o homem é o filho de suas obras. se fosse. circunstância.48 – Allan Kardec Para estar de acordo com a rigorosa justiça. se uma causa alheia à sua vontade a tivesse impedido de fazê-lo durante a vida? Por que Deus recusaria a ele os meios de se regenerar na outra vida. porém. Segundo a Doutrina Espírita. caso morressem antes de realizar o progresso que lhes trouxe a conversão. Eis aí um exemplo real do progresso da alma durante a vida. A esta última asserção respondem que a conversão dessas santas personagens não é um resultado do progresso da alma. entregue à desordem e cometendo toda sorte de malvadeza. Esse rapaz encontra-se. Desde que sua alma pôde progredir em um tempo dado. num meio favorável. aqui atingimos a questão maior da pluralidade das existências como meio único e racional de resolver a dificuldade. é que melhoraram. Porém.

guardará o bolo. tornando-se absurdo o fato de querer governá-las por tais meios. improdutivo será aquele. para que sustentar a todo o transe uma crença que se dissolve em desuso fazendo mais danos que benefícios à religião? Ah! É triste dizer. livrando das do inferno. caminho de ferro e centenas de outras descobertas e aplicações. É o que sucede com as crianças durante certo tempo contidas pela ameaça de seres fantásticos com os quais são intimidadas: chegadas ao período do raciocínio. é se condenar. então. mas uma questão material domina aqui a questão religiosa: esta crença tem sido grandemente explorada pela ideia de que com dinheiro se abrem as portas do céu. vendo-o aniquilar-se. será um mal. ou. de Deus em suma. As quantias arrecadadas por estes meios são incalculáveis – ontem e ainda hoje –. certo decairiam da sua confiança. e é absurdo querer governar os homens desviando-os desse curso. E tal imposto sendo opcional. pretender contê-los. retroceder ou simplesmente parar enquanto ele avança. saindo da infância e abandonando. não pode ser imposta. O mesmo se tem dado em relação a maquinismos. e verdadeiramente fabuloso o imposto prévio pago ao temor da eternidade. As ideias seguem um curso incessantemente progressivo. é se perder. extinta esta. chegou o momento de tornar-se perigoso. 24. afastando-se dos que o defendem. promover a felicidade pelas próprias obras – deve encontrar tremenda oposição. É isso que se dá hoje com a Humanidade. De boa vontade a criança cede o bolo a quem lhe promete afugentar o lobisomem. Se os que as dirigem pretendessem incutir-lhes ainda a veracidade de tais fábulas. descrê absolutamente de tudo. Este fatalismo é um bem ou um mal? Para os que vivem do passado.49 – O CÉU E O INFERNO A DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS FEZ SUA ÉPOCA 22. sempre que uma nova descoberta ou invento abala costumes radicados e preestabelecidos. acreditaríamos que a imprensa tenha sido aclamada pela classe dos copistas. mas para os que vivem pelo futuro é uma lei do progresso. A crença é um ato de entendimento que. nem o ente crédulo de antes que tudo aceitava de olhos fechados. mas se a criança já não acreditar em lobisomens. E é inútil toda revolta contra uma lei de Deus. calmamente verá que em nossos dias o dogma da eternidade das penas tem feito mais ateus e materialistas do que todos os filósofos. ou o homem quer acreditar e procura uma crença mais racional. Por exemplo. Quem vive de velhos e custosos processos jamais deixa de defender-lhes a superioridade e excelência e de desacreditar os novos. por assim dizer. 23. as fraudas. O homem não é mais passivo instrumento vergado à força material. Quem quer que estude o assunto. E assim tem sido. Pois. apesar dos benefícios prestados à sociedade? Não. por isso mesmo. Imposto como verdade absoluta – quando a razão o repele –. A crença na eternidade das penas prevaleceu salutarmente enquanto os homens não tiveram ao seu alcance a compreensão do poder moral. cada um de nós. Seguir ou deixar de seguir essa evolução é uma questão de vida ou de morte para as religiões como para os governos. . repelem por si mesmas essas ilusões da infância. mais econômicos. Se durante certo período da Humanidade o dogma da eternidade das penas se manteve inofensivo e benéfico mesmo. certamente eles deveriam derrubá-la. tanto mais viva por estancar uma das mais rendosas fontes de receita. A Nova Revelação – dando noções mais sensatas da vida futura e provando que podemos. a renda é sempre proporcional à crença.

Ezequiel. viverá nas obras de justiça que houver praticado. pois tem praticado todas essas ações detestáveis. se age segundo a equidade e a justiça. Se esse homem tem um filho que. disse o Senhor Deus.50 – Allan Kardec Aos olhos dos incrédulos o dogma da eternidade das penas afigura-se futilidade da qual se riem. que tinha oprimido os outros por calúnias e que tinha praticado ações criminosas no meio do seu povo. mas da responsabilidade que o pecado do pai do gênero humano acarretasse à sua raça: O Senhor novamente me falou e disse: – De onde vem o uso desta parábola entre vocês e consagrada proverbialmente em Israel: os pais comeram uvas verdes. que essa parábola não passará mais entre vocês. ou que cometa algumas destas faltas. e não quero antes que se converta e desgarre do mau caminho que trilha? Ezequiel. É que eu quero a morte do ímpio? Disse o Senhor Deus. cap. enfim. a justiça do justo verterá sobre ele mesmo. se entregar ao seu devedor o penhor que este lhe houver dado. a impiedade do ímpio verterá sobre ele. se proceder segundo o equilíbrio e a justiça. Este não morrerá por causa da perversidade de seu pai. Se não magoar nem oprimir ninguém. EZEQUIEL CONTRA A ETERNIDADE DAS PENAS E O PECADO ORIGINAL 25. e seu sangue permanecerá sobre a terra. Se dizem: Por que o filho não tem suportado a iniquidade de seu pai? É porque o filho tem agido segundo a equidade e a justiça. se não tomar nada do bem de ninguém por violência. Seu pai. e porque os tem praticado viverá muito certamente. a alma que tiver pecado morrerá ela própria. se desvia sua mão da maldade e promove um juízo conciliatório entre dois que contendem. e derrame sangue. que abandone o mau caminho e que viva. se veste os que estão nus. e da sua causa. Eu não me lembrei mais de todas as crueldades que ele tenha cometido. 33:11 . Esse filho morrerá mui certamente. disse o Senhor Deus. para o filósofo esse dogma tem uma gravidade social pelos abusos que produz. A quem pretenda encontrar na Bíblia a justificação da eternidade das penas. ele viverá certamente e não morrerá. pode-se opor os textos contrários que a tal respeito não permitem dúvidas. Se um homem for justo. como provérbio em Israel: Pois todas as almas me pertencem. Se caminha segundo a pauta dos meus preceitos e observa as minhas ordens para obrar conforme a verdade. mas viverá muito certamente. esse homem é justo e viverá mui certamente. As seguintes palavras de Ezequiel são a mais explícita negação – não somente das penas irremissíveis. mas que o ímpio se converta. vendo todos os crimes por seu pai cometidos. Se o ímpio fez penitência de todos os pecados que tem cometido. ao passo que o homem verdadeiramente religioso tem a dignidade da religião interessada na destruição dos abusos que tal dogma origina. morreu por causa da sua própria iniquidade. a do filho está comigo como a do pai. 18 Digam estas palavras a eles: Eu juro por mim mesmo que não quero a morte do ímpio. A alma que tem pecado morrerá ela mesma: o filho não sofrerá pela iniquidade do pai e o pai não sofrerá pela iniquidade do filho. tem guardado todos os meus preceitos. Se esse homem tem um filho que dê em ladrão. se observou todos os meus preceitos. se dá o seu pão a quem tem fome. Se não se presta à especulação e não percebe mais do que tem dado. se aterrorize e evite imitá-lo. e os dentes dos filhos ficaram estragados? Por mim juro. cap.

as disposições morais do Espírito devem modificar as qualidades do sangue. mas precisamente a sensibilidade deste que provoca a secreção abundante das lágrimas. outras. e.51 – O CÉU E O INFERNO CAPÍTULO VII AS PENAS FUTURAS SEGUNDO O ESPIRITISMO    A CARNE É FRACA PRINCÍPIOS DA DOUTRINA ESPÍRITA SOBRE AS PENAS FUTURAS CÓDIGO PENAL DA VIDA FUTURA A CARNE É FRACA Há tendências viciosas que são evidentemente próprias do Espírito. deve também reagir sobre as outras partes do organismo. Um homem não é músico porque tenha a ginga da música. na época. menos responsáveis são julgados os que as possuem: consideram-se como tais as disposições à ira. por ele talhado. mas possui essa tendência porque o seu Espírito é musical. Por uma consequência natural deste princípio. Porém. Assim. à sensualidade. enquanto que outra pessoa permanecerá indiferente à vista do mesmo petisco. que ao guloso se enche a boca de saliva diante dum prato apetitoso. Hoje. não é a abundância destas que dá sensibilidade ao Espírito. provocar uma secreção mais ou menos abundante de bílis ou de quaisquer outros fluidos. à falta. porque se apegam mais ao moral do que ao físico. à preguiça. por assim dizer. está plenamente reconhecido pelos filósofos espiritualistas que os órgãos cerebrais correspondentes a diversas aptidões devem o seu desenvolvimento à atividade do Espírito. É assim. etc. Se a atividade do Espírito reage sobre o cérebro. que atua sobre aquele órgão pelo pensamento. o organismo condiciona-se41 à disposição normal do Espírito. Deste modo. pois é o Espírito – cuja sensibilidade é despertada –. É ainda por este motivo que a pessoa sensível facilmente verte lágrimas. esse desenvolvimento é um efeito e não uma causa. É certo que a iguaria não pode excitar o órgão do paladar. a perfeição corporal das raças adiantadas deixa de ser produto de criações distintas para ser o resultado do trabalho espiritual. Paris. dar-lhe maior ou menor atividade. de verbo mais específico à perfeita tradução da ideia – Nota da Editora (FEB). 4ª edição. 93. Assim. Sob o império da sensibilidade. 1869). por exemplo. o Espírito é o artista do próprio corpo. que aperfeiçoa o invólucro material à medida que as potencialidades aumentam. . parecem antes dependentes do organismo. à feição das suas necessidades e à manifestação das suas tendências. por esse motivo. em 1973. 41 O autor escreveu s’est approprié (p. uma vez que não tem contato com ele.

Assim. compreende-se que um Espírito genioso deve se encaminhar para estimular um temperamento mal-humorado. que o temperamento é determinado pela natureza do Espírito – que é causa e não efeito. 65) PRINCÍPIOS DA DOUTRINA ESPÍRITA SOBRE AS PENAS FUTURAS No que respeita às penas futuras. não é um sistema substituindo outro sistema: em tudo ela se apoia nas observações. uma vez que com a inteligência e o senso moral nascem as noções do bem e do mal. deem coragem ao covarde e verão logo cessados os efeitos fisiológicos do medo. A ação do Espírito sobre o físico é tão evidente que frequentemente vemos graves desordens orgânicas sobrevirem a violentas comoções morais. dará ao sangue como aos nervos qualidades perfeitamente opostas. tal como o artista que imprime o cunho do seu gênio à obra material. a necessidade de levar em conta a influência espiritual sobre os organismos. opondo-lhe uma resistência inconsciente que neutraliza a ação terapêutica. O mesmo se dá em relação a todas as outras condições instintivas: um Espírito preguiçoso e fraco deixará o organismo em estado de abatimento relativo ao seu caráter. Seguindo esta ordem de ideias. o clima. uma doença passageira. os defeitos físicos congênitos. que é o ser pensante e de vontade própria. Portanto. Libertado dos instintos da bestialidade. como sejam a temperatura. A carne só é fraca porque o Espírito é fraco. independente do Espírito. Se puderem. Desculpar-se de seus erros por fraqueza da carne não passa de artifício para escapar das responsabilidades. Destituída de pensamento e vontade. Isto prova ainda uma vez. Desde que o temperamento é um efeito e não uma causa. o moral do Espírito pode ser afetado em suas manifestações pelo estado patológico. Nesses casos. Esta lei explica o fracasso da Medicina em certos casos. Ora.52 – Allan Kardec do mesmo modo por que se condiciona à disposição do Espírito comilão. para a arte de curar. acidental. a Doutrina Espírita não se baseia numa teoria preconcebida. a responsabilidade moral dos atos da vida fica intacta. que poderia transtornar o sangue senão as disposições morais do Espírito? Por isso. A expressão popular: “a emoção transtornou-lhe o sangue” não é tão destituída de sentido quanto se poderia supor. (REVUE SPIRITE. ao passo que. mas a razão nos diz que as consequências dessa responsabilidade devem ser proporcionais ao desenvolvimento intelectual do Espírito. o que inverte a questão deixando para o Espírito a responsabilidade de todos os seus atos. ativo e enérgico. todo o esforço para modificá-lo se torna inútil diante das condições morais do Espírito. elabora um corpo que não é mais um tirano de sua aspiração. mas irritável por colérico. e é quando o homem passa a comer para viver e não mais vive para comer. quanto mais esclarecido for este. O Espírito é quem dá à carne as qualidades correspondentes ao seu instinto. podemos admitir. para espiritualidade do seu ser. março de 1869. porque há casos em que o físico influi evidentemente sobre o moral. ao menos em parte. menos desculpável se torna. do justo e do injusto. sem que a sua natureza íntima seja modificada. e são estas que lhe dão plena autoridade. pág. etc. é sobre a causa primordial que devemos atuar. Ninguém jamais imaginou que . a carne não pode prevalecer jamais sobre o ser espiritual. tais como quando um estado doentio ou anormal é determinado por causa externa. Por conseguinte. do que resulta não ser um homem colérico por irritável. E nós dizemos em parte.

2) 3) 4) 42 Ver cap. antes. o qual poderia ver as coisas do seu ponto de vista. tem mais satisfação do que outra menos rica de boas qualidades. o Espiritismo não vem com sua autoridade privada formular um código de fantasia. são elas. a transformação pela morte do corpo. em uma palavra. Toda imperfeição é. recebe todos em seu seio à medida que atingem a perfeição. como de se despojar do que tem de mau – conforme o esforço e vontade próprios –. causa de sofrimento e de limitação de satisfação. ou de uma visão extática suscetível de ilusões. sofre mais do que quem tenha apenas uma ou nenhuma. e não passando muitas vezes de reflexo de uma imaginação exaltada42. sem obrigar-se à crença pela crença de outrem. que nos vêm hoje iniciar nos mistérios da vida futura. deixando a cada qual o mérito das suas obras. completando. os ensinamentos do Cristo sobre este ponto. VI. Também na Terra. deduzida das observações do fato. temos que o futuro é aberto a todas as criaturas. observando-a. Trata-se. por sua vez. nº 7. O seu estado – feliz ou desgraçado – acompanha o seu grau de pureza ou impureza. de inúmeros exemplos fornecidos por Espíritos de todas as categorias. como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um prazer. Tampouco se trata de uma revelação feita exclusivamente a um indivíduo que pudesse deixar-se levar pelas aparências. Assim. descrever-nos sua situação feliz ou desgraçada. CÓDIGO PENAL DA VIDA FUTURA Desta maneira. do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimentos. pode ser resumida nos seguintes pontos: 1) A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as consequências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. sob um só aspecto. sim. pois todos podem prová-la. as impressões. e quando dessas dez imperfeições não lhe restar mais que metade ou um quarto.53 – O CÉU E O INFERNO depois da morte as almas se encontrariam em tais ou quais condições. É preciso afirmar que se não trata neste caso das revelações de um só Espírito. essas mesmas almas. a alma que tem dez imperfeições sofre mais do que a que tem três ou quatro. no que respeita ao futuro da alma. como a dos gozos à das qualidades. ainda dominado por terrenos prejuízos. . Deus não repudia nenhum de seus filhos. quem tem muitas moléstias. então a alma será perfeitamente feliz. questões 443 e 444. desde os mais elevados aos mais inferiores da escala. Por exemplo. a soma das penas é proporcionada à soma das imperfeições. por intermédio de outros tantos auxiliares (médiuns) espalhados pelo mundo. Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta. a sua lei. isto é. a alma que possui dez perfeições. a purificação completa do Espírito. de sorte que a revelação deixa de ser privilégio de alguém. Pela mesma razão. Extintas todas. e O LIVRO DOS ESPÍRITOS. partidas da Terra. A completa felicidade está na perfeição. Não há uma única imperfeição da alma que não importe terríveis e inevitáveis consequências. menos sofrerá.

não havendo uma só ação ou um só pensamento mau que não tenha consequências fatais. Deste modo o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte. O bem e o mal que fazemos vêm das qualidades que possuímos. em que for cometida. não fazer o bem quando podemos é o resultado de uma imperfeição. podendo prolongar os sofrimentos pela pertinácia no mal. sem necessidade de lugar circunscrito. mesmo para os mais perversos. 12) Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração do castigo: a única lei geral é que toda falta terá punição. 13) A duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado. O que Deus exige para o fim dos sofrimentos é um melhoramento sério. segundo o seu valor. ou de libertá-lo do sofrimento quando ainda permanecesse no mal. e o céu igualmente onde houver almas felizes. deste modo. Uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de continuar o martírio do Espírito renegado. podendo. são oriundas das nossas imperfeições. a alma traz consigo o próprio castigo ou prêmio. Deus – que é justo – só pune o mal enquanto existe. porque todas as existências são solidárias entre si. melhor compreende os seus inconvenientes e trata de se corrigir. de volta ao bem. .54 – Allan Kardec 5) Como o sofrimento depende da imperfeição. são expiações de faltas cometidas na presente ou em existências precedentes. sincero. podemos julgar a natureza das faltas cometidas em anterior existência. bem como o prazer depende da perfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento. Nenhuma condenação decretada é por tempo determinado. de maneira que. onde quer que se encontre. será na seguinte ou seguintes. e terá recompensa todo ato meritório. as dificuldades padecidas na vida corporal. como não há uma única ação meritória ou um só bom movimento da alma que se perca. Aquele que se quita numa existência não terá necessidade de pagar segunda vez. Ora. por isso que tais ações são um começo de progresso. O inferno está por toda parte em que haja almas sofredoras. e das imperfeições que as originaram. 6) 7) 8) 9) 10) O Espírito sofre – tanto no mundo corporal quanto no espiritual – a consequência das suas imperfeições. o Espírito deve sofrer não somente pelo mal que fez como pelo bem que deixou de fazer na vida terrestre. As misérias. se não for em uma existência. Toda falta cometida e todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga. Como a justiça de Deus é infinita. a mesma falta determinar expiações diversas. atenuantes ou agravantes. sendo a sua atenção constantemente dirigida para as consequências desse mal. ou suavizá-los e anulá-los pela prática do bem. conforme as circunstâncias. efetivo. 11) A expiação varia segundo o tipo e gravidade da falta. O Espírito sofre pelo mal que fez. Portanto. o bem e o mal são rigorosamente considerados. Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea.

no sentido de indeterminado. E desse jeito o Espírito progride. contudo. e em condições voluntariamente escolhidas. se for tarde. o arrependimento não basta por si só. Nesta acepção pode dizer-se que as penas são eternas. o culpado sofre por mais tempo. expiação e reparação são as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas consequências. se limitasse a dizer que as respeita infinitamente. Entretanto. praticando o bem em compensação ao mal praticado. fazendo-se o que se deveria fazer e foi negligenciado. as missões não preenchidas. útil se tem sido inútil. por outro exemplo. Perpétuo é sinônimo de eterno. o culpado que jamais melhorasse sofreria sempre. Do contrário. 43 Ver cap. acreditando que ela é eterna. a pena seria eterna. para exprimir que não têm duração limitada. são precisas a expiação e a reparação. moderado se tem sido desregrado. para o Espírito que não vê o seu fim. 14) Como a duração do castigo depende da melhoria do Espírito. e se a justiça divina pode ser inferior à dos homens? E mais. isto é. Eterno e perpétuo se empregam. por meio de algumas fórmulas. citação de Ezequiel. que não custa mais que palavras. por abuso de confiança. o eterno gelo dos polos. 16) Embora seja o primeiro passo para a regeneração. o perdão seria uma graça. Nós poderíamos perguntar se esse princípio não é consagrado pela lei humana. caridoso se tem sido egoísta. 15) Uma condição pertencente à inferioridade dos Espíritos é não entenderem o fim da provação. Nem todas as faltas acarretam prejuízo direto e efetivo. assim. crendo-se. portanto. verão mais tarde se isso lhes bastava. pois. será um outro 44 . também se diz o secretário perpétuo da Academia. 45 A necessidade da reparação é um princípio de rigorosa justiça. porém. A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal. 17) O arrependimento pode ocorrer por toda parte e em qualquer tempo. Até que os últimos vestígios da falta desapareçam. mas unicamente por tempo ilimitado. O arrependimento suaviza os travos da expiação. VI. pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. de modo a demonstrar-lhes reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. Por que hão de vacilar tais pessoas perante uma obrigação que todo homem honesto se impõe como dever. seja na vida atual. fará este durar enquanto subsistir aquele. seja na vida espiritual após a morte. a expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que lhe são consequentes. como eterno lhes parece ser um tal castigo44. laborioso se tem sido ocioso. que se pode considerar verdadeira lei de reabilitação moral dos Espíritos.55 – O CÉU E O INFERNO e deixa de puni-lo quando não existe mais43. ou ainda em nova existência corporal. o mal moral. nº 25. Algumas pessoas a repelem porque acham mais cômodo o fato de poder quitarem suas más ações por um simples arrependimento. aproveitando-se do próprio passado45. cumprindo os deveres desprezados. se essas leis se dariam por desafrontadas desde que o indivíduo que as transgredisse. o que não significa que o seja ad perpetuam. segundo o grau de suas forças? Quando esta perspectiva de reparação for inculcada na crença das massas. sendo por si mesmo causa de sofrimento. não uma anulação. Quem não repara os seus erros numa existência – por fraqueza ou má vontade – se achará numa existência ulterior em contato com as mesmas pessoas que de si tiverem queixas. e para ele. arrependimento. eternas. Diz-se o limite das neves perpétuas. só a reparação. Desse modo. tornando-se humilde caso tenha sido orgulhoso. abrindo pela esperança o caminho da reabilitação. benigno se tem sido perverso. contudo. essa doutrina religião alguma ainda a proclamou. em suma: trocando os maus exemplos cometidos por bons modos. amável se foi austero. em tais casos a reparação se opera. quites. ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça.

Todos têm seu anjo de guarda (guia) que vela por eles. Contudo. Então. um cálculo negativo. que providencialmente rege todas as criaturas. que por tanto tempo quanto perseverar no mal será infeliz. cedo ou tarde entrando no bom caminho. Deus jamais os abandona. visto como é para sempre interdita qualquer ideia de esperança. Seria. por efeito da lei de progresso. e segundo porque. desencarnados à espera de novas existências que lhes permitam reparar o mal. Nem há Espírito incapaz de nunca progredir ou condenado à eterna inferioridade – o que seria a negação da lei de progresso. no convencimento de suscitar-lhes bons pensamentos. sob a condição do posterior arrependimento: primeiro porque o Espírito inferior não se apercebe do fim da sua situação. cujas consequências o Espírito seria o primeiro a reconhecer. Pela doutrina das penas eternas conclui-se que Deus sabe que essa alma falirá e. e forte é a sua teimosia no mal. Pode persistir anos e séculos nesse estado. do mesmo modo que. acaba por compreender que de si depende o fazê-la cessar. reconhece o poder superior que o domina. salvo se deu origem a eles – seja provocando-os pelo exemplo. ninguém sofre por erros alheios. auxiliando-os no progresso. mais adiantados moral e fisicamente. 19) Como o Espírito tem sempre o livre-arbítrio. Caso se possa conceber um lugar limitado de castigo. a certeza de atingir cedo ou tarde a perfeição e a felicidade pode estimular a perseverança no mal. pois. Persistindo no mal. Deus lhe faz ver a esperança. mas aquele que por maldade leva outro freio aos seus desmandos. com o que se esforçam por reparar em uma nova existência o mal que praticaram. O bem e o mal são praticados em virtude do livre-arbítrio. sabe efetivamente se. podendo o homem compreender a procedência das circunstâncias que a tornam penosa. pois Deus. não tendo o homem interesse em converter-se ao bem. tal lugar sem dúvida é nesses mundos de expiação. para ele sem proveito. cai também a objeção extraída da presciência divina. criando uma alma. desejos de progredir e de pastorear os movimentos da sua alma. e bem mais poderoso que o inferno e respectivas penas eternas. sofrerá as consequências por tanto tempo quanto durar a persistência. Com o dogma das penas irremissíveis é que se verifica. que está previamente condenada a torturas infinitas. portanto. e se purificando das suas imperfeições até que mereçam a encarnação em mundos mais elevados. OBSERVAÇÃO — Seria erro supor que. seja não os impedindo quando poderia. sem que o Espírito seja fatalmente impelido para um ou outro sentido. Diante dessa lei. por consequência. tal hipótese. essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão. Assim. . sendo ele o autor da própria infelicidade. em torno dos quais habitam Espíritos imperfeitos.56 – Allan Kardec 18) Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes porque perturbariam a harmonia. nunca por qualquer sujeição. Ficam nos mundos inferiores a expiarem suas faltas pelas tribulações da vida. finalmente. sabe que ela será punida se fizer o mal. visto como interessa à vida em sua plena atualidade. 20) Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos. ela tomará a boa ou a má estrada. sente imediatamente benéficos efeitos. 21) A responsabilidade das faltas é toda pessoal. vindo por fim um momento em que a sua insistência se modifica pelo sofrimento. precisamente. em virtude do seu livre-arbítrio. que o sofrimento será infinito se ele próprio não lhe der fim. desde que se manifestam os primeiros vislumbres de arrependimento. mas sabe também que tal castigo temporário é um meio de fazê-la compreender o erro. o suicida é sempre punido. o progresso por vezes se torna lento para ele. ou a sua verdadeira situação. e apesar da sua vanglória. dando um passo para o bem. pois que o Espírito deve progredir por impulso da própria vontade.

22) Ainda que seja infinita a diversidade de punições. passagem da física para a vida espiritual – N. desfazendo-a no presente. cheios de glória e bem-estar. podendo esta ilusão durar por muitos anos. tanto mais penosas e rigorosas serão as suas consequências no futuro. pôr um basta à sua situação. ninguém dele se compadecerá na morte. geralmente. 27) O único meio de evitar ou atenuar as consequências futuras de uma falta. Esta situação perdura até que o desejo de reparação pelo arrependimento lhes traga a calma para ver a possibilidade de. é suplício ver os que desprezou na Terra colocados acima dele. todos os tormentos e perplexidades da vida. dependentes do seu livre46 Trespasse: morte. pelas dores e privações que ocasionaram a alguém. na consequente perturbação que pode estender-se por meses e anos. sofre as consequências da sua atitude terrena. penetrados e lidos por todo o mundo. desamparado de todos. Quanto mais nos demorarmos na reparação de uma falta. o trespasse46 é rápido. há algumas inerentes à inferioridade dos Espíritos. enquanto que o egoísta. A punição mais imediata. o avaro vê o esbanjamento inevitável do seu tesouro. e cujas consequências são pouco mais ou menos idênticas – salvo pormenores. a presença incessante das vítimas e das circunstâncias do crime é um suplício cruel. nem a sede nem a fome lhe serão mitigadas. outros se encontram em absoluto isolamento no Espaço. 28) A situação do Espírito no mundo espiritual não é outra senão aquela preparada na vida corpórea por si mesmo. 24) Para o criminoso. sobretudo entre os que se acham ligados à vida material em detrimento do progresso espiritual. sem abalos. Os mais culpados padecem torturas muito mais pungentes por não verem um término. Ao contrário. passam com intensidade relativa pelos males. naquele que têm a consciência pura e já se acham na vida material identificados com a vida espiritual. como da sorte que os aguarda. 26) Para o orgulhoso relegado às classes inferiores. tem na exaltação dos bestiais desejos o tormento mais cruel. O hipócrita vê seus mais secretos pensamentos desvendados. está em repará-la. quase nula a turbação de um pacífico despertar. e por que em vida só cuidou de si. com maior ou menor proveito. faz-se sentir pela lentidão do desprendimento da alma. nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida. na impotência de saciá-los. o homem devasso. outra encarnação lhe é permitida para novas provas de expiação e reparação. D. esse sofre ainda maior pena. durante os quais eles experimentarão todas as necessidades. atormentados pela ignorância da própria posição. Mais tarde. sem que os possa ocultar ou dissimular. e todos. Alguns são privados de ver os seres queridos.57 – O CÉU E O INFERNO a cometê-lo. 25) Há Espíritos mergulhados em densa treva. nem mãos amigas se estenderão às suas mãos pedintes. 23) Um fenômeno muito frequente entre os Espíritos de certa inferioridade moral é acreditarem que ainda estão vivos. por eles mesmos. .

O Evangelho segundo o Espiritismo. de sorte que podemos dizer que aquele que muito sofre na Terra. e. porque serão consolados” (O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO. e se ele não se corrige. É na vida corpórea que o Espírito repara o mal de existências anteriores. têm passado pelas fases de inferioridade e respectivas provas como quaisquer outros. Pois então. pagarão muito caro em futura existência. às suas paixões. Por infinita misericórdia. devemos aceitá-lo. 30) Subordinadas ao arrependimento e reparação dependentes da vontade humana. Haveria injustiça sim na criação de seres privilegiados. V. quer em moralidade. 32) Dizem que Deus não daria prova maior de amor às suas criaturas. sujeitos a vicissitudes mais ou menos penosas. VIII. por conseguinte. constituem simultaneamente castigos e remédios auxiliares à cura do mal. 47 Vede 1ª Parte. Ao contrário. “O purgatório”. esperando alta tanto mais pronta quanto mais estritamente observadas as prescrições do solícito médico assistente. muito tinha a expiar. . o médico nada tem que ver com isso. Pelo próprio descuido de si mesmos. Elas são justas. como herança do passado – que serve à nossa peregrinação para a perfectibilidade47. Os homens são imperfeitos. V). se os doentes prolongam a enfermidade. mais ou menos favorecidos. em que pesem aos seus vícios e inutilidades. sempre e sempre mais dura. que são consequentes às imperfeições do homem. V. os Espíritos em prova não são iguais galés por certo tempo condenados. e enquanto não houver satisfeito à justiça. cap. devemos ter que Deus não é inexorável. cap. Concluir que Deus não é bom nem justo. nada mais tendo a adquirir. Nesse sentido foi que Jesus disse: “Bem-aventurados os aflitos. pondo em prática resoluções tomadas na vida espiritual. isentas dos vícios inerentes à imperfeição? Para tanto seria preciso que Ele criasse seres perfeitos. Porém. nº 3 e seguintes. O culpado que ela atinge não fica dispensado. 31) Às penas que o Espírito experimenta na vida espiritual ajuntam-se as da vida corporal. quer em conhecimentos. a justiça divina se destaca na igualdade absoluta que preside à criação dos Espíritos. “Bem-aventurados os aflitos”. Assim se explicam as misérias e vicissitudes mundanas que. Vede. também. terá sempre uma missão a recomeçar. todos têm o mesmo ponto de partida e nenhum se distingue em sua formação por melhor cota. e. no entanto. e os que gozam uma felicidade aparente. 2ª Parte. “Expiações terrestres”.58 – Allan Kardec arbítrio. as penas. à primeira vista. sofre a consequência dos seus erros. certamente Deus poderia fazer isso e se não o fez é que em Sua sabedoria quis que o progresso constituísse lei geral. E pois que o fato existe. ou que jamais pudessem atingir. usufruindo delícias que outros porventura não atingem senão pelo trabalho. nenhum cuja marcha progressiva se facilite por exceção: os que chegam ao fim. parecem não ter razão de ser. criando-as infalíveis e. cap. cap. seria um revolta insensata contra a lei. por temporárias. ao mau uso das suas qualidades e à expiação de presentes e passadas faltas. deixando sempre aberto o caminho da redenção. 29) Certo que a misericórdia de Deus é infinita. mas não é cega. a se compadecerem com meios curativos mais ou menos dolorosos que a enfermidade reclama. mas como doentes de hospital sofrendo de moléstias resultantes da própria incúria. após. como tais.

a todos é ensinada. A cada um segundo as suas obras. b. O romeiro que perde tempo em caminho. para que cada qual tivesse seu mérito. mais cedo recebe a recompensa. no Céu como na Terra: tal é a lei da Justiça Divina. sem que seja preciso uma condenação especial para cada falta ou indivíduo. e o que muito e depressa trabalha. . Como todo homem pode se libertar das imperfeições por efeito da vontade. nada mais justo que a liberdade de ação a cada qual concedida. Toda imperfeição – assim como toda falta gerada dela – traz consigo o próprio castigo nas consequências naturais e inevitáveis: assim. c. o código penal da vida futura pode ser resumido nestes três princípios: a. como as mesmas condições para todos atingi-la. O bem como o mal são voluntários e facultativos: livre. 33) Em que pese à diversidade de gêneros e graus de sofrimentos dos Espíritos imperfeitos. O sofrimento é de acordo com a imperfeição. a moléstia pune os excessos e da ociosidade nasce o tédio. Deus fez da felicidade o prêmio do trabalho e não do favoritismo . O caminho da felicidade se abre amplo a todos.59 – O CÉU E O INFERNO Isto posto. Somos todos livres no trabalho do próprio progresso. A lei. retarda a marcha e só pode se queixar de si mesmo. gravada em todas as consciências. pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade. o homem não é fatalmente empurrado para um nem para outro.

seres superiores à Humanidade – intermediários entre Deus e os homens. tal é o plano divino na obra da criação. “Nossa alma é de natureza simples e indivisível. como última expressão do dogma da Igreja neste sentido. Em cada página dos sagrados livros. servida por órgãos frágeis e limitada no poder e na ação. pois.60 – Allan Kardec CAPÍTULO VIII OS ANJOS    OS ANJOS SEGUNDO A IGREJA REFUTAÇÃO OS ANJOS SEGUNDO O ESPIRITISMO OS ANJOS SEGUNDO A IGREJA 1. este mundo – que atesta a onipotência divina –. porém limitada em suas capacidades. nesse caso a nossa razão. intermediariamente. ele oferece aos nossos pensamentos o ser em todos os seus graus e condições. Negando toda a existência espiritual fora da vida orgânica. uma e outra puramente materiais e. a fim de compor-lhe a corte celeste e adorá-lo no auge da glória? Enfim. “Segundo a fé. que só há um Deus verdadeiro. plano majestoso e completo como convinha à eterna sabedoria. se fez menção 48 Extraímos este resumo da pastoral do Monsenhor Gousset. cujo resumo tiramos da mesma origem e citamos no capítulo seguinte. na última ordem. isto é. porém. Por ele podemos. já que é fraca. “Acreditamos firmemente. eterno e infinito. está associada à matéria. se os anjos não existissem. cardeal-arcebispo de Reims. A crença nos anjos é parte essencial dos dogmas da Igreja. que no começo dos tempos tirou conjuntamente do nada as duas criaturas – espiritual e corpórea. considerar os anjos. Todas as religiões têm tido anjos sob vários nomes. servi-lo. 49 Concílio de Latrão. “A alma é grande e nobre. como elo entre as duas. angélica e mundana – tendo formado depois a natureza humana. Assim concebido. assim como os demônios. não teria já chamado outras criaturas. poderia conceber um Deus mais completo e consumado. libertas dessa escravidão. composta de corpo e Espírito. e amá-lo. “Na esfera mais elevada aparecem a existência e a vida puramente espirituais. o materialismo naturalmente classificou os anjos entre as ficções e alegorias. dessas peias e dotadas de uma força e atividade maiores e incomparáveis? Antes que Deus houvesse colocado o homem na Terra. uma vida ao mesmo tempo comum ao Espírito inteligente e ao corpo organizado. a grande obra do Criador não exibiria o acabamento e a perfeição que lhe são peculiares. diz um concílio geral e ecumênico49. A ideia que temos da perfeição nos faz compreender que pode haver outros seres simples quanto ela. Por que não haver outras ainda mais nobres. é de admirar que receba das mãos dos anjos o incenso e as orações do homem? Pois. . e superiores por suas qualidades e privilégios. que assim os define48: 2. do Velho como do Novo Testamento. para conhecê-lo. uma união maravilhosa das duas substâncias. para a quaresma de 1864. Deus recebe das mãos do homem os tributos de honra e homenagem deste universo: portanto. não seria mais a obra-prima da sabedoria.

assim também os anjos estão – e quase que simultaneamente – em todos os pontos e partes do mundo. As palavras do santo concílio de Latrão50 contêm fundamental distinção entre os anjos e os homens: ensinam-nos que os primeiros são puros Espíritos. senão os da vontade do Criador e os da liberdade humana. em São João de Latrão. porque essa crença é tão universal e antiga quanto o mundo. não se fazem como entre nós por meio de sons articulados e de sinais sensíveis. A sua intervenção aparece manifestamente na vida dos patriarcas e dos profetas. “Infinita. enquanto que os segundos se compõem de um corpo e de uma alma. nem de ouvidos para ouvir. “Enquanto dura ligação tão íntima de alma e corpo. No entanto. As comunicações de Deus com os anjos e destes entre si. A crença nos anjos existe no seio mesmo do politeísmo e nas fábulas da mitologia. que para se manifestarem aos santos e profetas têm de revestir formas tangíveis e palpáveis. as duas substâncias têm vida comum e se exercem recíproca influência. na frase de S. todo espiritual. Enquanto somos condenados a ver as coisas externas lenta e limitadamente. As puras inteligências não têm necessidade nem de olhos para ver. “Seu ser e movimentos não são localizados nem circunscritos a limitado e fixo ponto do Espaço. nem ver Deus e os anjos sem atribuir a eles forma visível e palpável. ora para transmitir a Sua vontade. por mais vaporosa e sutil que se suponha. O citado aqui. Eis por que a alma não pode contemplar a si mesma. tampouco possuem órgão vocal para manifestar seus pensamentos. mas assim como a nossa alma existe integral no corpo e em cada uma de suas partes. Roma – N. é preciso concluir Concílio: reunião dos líderes católicos para determinar procedimentos do regimento religioso. não ocupam qualquer espaço no vácuo. a essência divina é incompreensível. A Sua presença ressalta das circunstâncias que acompanham o nascimento. confusão alguma podem produzir em seus espíritos. a vida e a paixão do Salvador. 50 . ao passo que a nossa alma. essas formas não passavam de corpos aéreos que faziam mover-se e se identificar com eles. operando por si mesmos sem outros obstáculos. Os seus conhecimentos são resultantes não da indução e do raciocínio. já em piedosas invocações. ela os desvenda quando em certas circunstâncias são encarregados de anunciarem esses desígnios aos homens. ou de atributos simbólicos de acordo com a missão a seu cargo. como dos fatos mais grandiosos da antiguidade religiosa.61 – O CÉU E O INFERNO dessas inteligências sublimes. que a natureza angélica subsiste por si mesma não só sem mistura como dissociada da matéria. Caso se possa proporcionar o número de habitantes de uma cidade à sua grandeza e extensão – e sendo a Terra apenas um átomo comparada ao firmamento e às imensas regiões do Espaço –. como a multiplicidade de objetos. Paulo. eles – os anjos – veem sem esforço o que lhes importa saber. isto é. é muito considerável. já em referências históricas. Só Deus conhece o número dos anjos. pois comunicam seus sentimentos de modo que só pertencem a eles. verdadeiramente espantoso. os princípios e as consequências que deles decorrem. enquanto as verdades sobrenaturais se parecem enigmas num espelho. E sem dúvida este número não é infinito. segundo os autores sagrados e os santos doutores. O mesmo se dá quanto aos anjos. mas sendo protegidos os desígnios particulares da Providência. O culto que os pagãos prestavam aos bons e maus gênios não era mais que falsa aplicação da verdade. foi o realizado em 1123. A distância das épocas. igualmente espiritual. porém. mas dessa intuição clara e profunda que abrange de uma só vez o gênero e as espécies deles derivadas. um resto degenerado do primitivo dogma. Basta que eles queiram para se compreenderem. e estão sempre em relação imediata com o objeto de seus pensamentos. isto é. Este instrumento usual de nossas relações é-lhes desnecessário. associa-se ao corpo de modo a formar com ele uma só pessoa. ora para anunciar futuros acontecimentos. nem pudera sê-lo. a sua lembrança é inseparável da dos grandes homens. a diferença de lugares. e os anjos são também quase sempre órgãos de Sua justiça e misericórdia. podem agir em toda parte num dado momento. Deus se serve de tal ministério. sendo tal e essencialmente o seu destino. D. daí o fato de a alma não poder se libertar completamente das imperfeições de tal condição: as ideias chegam-lhe pelos sentidos na comparação dos objetos externos e sempre debaixo de imagens mais ou menos aparentes. Mais rápidos que o pensamento. tem mistérios e profundezas que não podemos penetrar. Desligados integralmente do corpo.

cujos elementos. O princípio geral resultante dessa doutrina é que os anjos são seres puramente espirituais. De tal teoria surgem várias dificuldades elementares: Em primeiro lugar. que vida é essa puramente material? Será a da matéria bruta? Mas a matéria bruta é inanimada e não tem vida por si mesma. essa fica diretamente unida a um corpo. e as Potências. que haverá de mais próprio a dar-nos ideia da majestade do Rei dos reis do que essa multidão inumerável de anjos que povoam céus e Terra. Por assim dizer. como é fácil demonstrar. que promovem os prodígios reclamados pelos grandes interesses da Igreja e do gênero humano. e. mostrando-nos uma lei de unidade admirável. a dignidade dos que permanecem continuamente prostrados ou de pé ante seu trono? “Os padres da Igreja e os teólogos ensinam geralmente que os anjos se dividem em três grandes hierarquias ou principados. quanto à existência dos três termos: faltam-lhe os pontos de contato desses termos. aliás. ao passo que na Natureza tudo se encadeia. pois que tal é o plano divino – dizem –. que transmitem as mensagens de alta importância. que determinam aos anjos de classes inferiores suas missões e deveres. encarregados de reinos. . que numa simples pedra. Acaso refere-se aos animais e às plantas? Neste suposto seria uma quarta ordem na Criação. por isso que refletem luminosamente a divina sabedoria. por sua própria natureza. é até certo ponto. Mas essa teoria. Quanto à alma humana – que estabelece a transição –. províncias e dioceses. os Querubins. estão no primeiro plano da Criação. criaturas privilegiadas e destinadas à felicidade suprema e eterna desde a sua formação. REFUTAÇÃO 3. anulada pelos progressos da Ciência. entre os dois. verdadeira. que protegem por sua força e vigilância as leis que regem o mundo físico e moral. seres inferiores aos anjos e ligados a corpos materiais. esta divisão é obscura e não se compadece com a observação. e que são três criações distintas e formadas sucessivamente. e nesta. isto é. “Os da terceira hierarquia têm por missão a direção das sociedades e das pessoas. mar e abismos. “Os anjos da segunda hierarquia recebem nomes que combinam com as operações que se lhes atribui no governo geral do Universo. e cada hierarquia em três companhias ou coros. anteriores e superiores à Humanidade. não passando de transformações entre si. e finalmente Tronos os que proclamam a grandeza do Criador. e são: as Dominações. a humana e a corporal. e os Anjos de guarda. Admitamos. Notemos antes de tudo que não há ligação alguma necessária entre esses três termos. entretanto. cujo brilho fazem resplandecer. e são: os Principados. dotadas de todas as virtudes e conhecimentos – mesmo que nada tendo feito para adquiri-los. “Os da primeira e mais alta hierarquia se designam conformemente às funções que exercem no céu: Os Serafins são assim chamados por serem como que abrasados perante Deus pelos ardores da caridade. contudo. as Virtudes. estes três termos: a criatura espiritual. E se a majestade dos reis se ostenta pelo brilhantismo e número dos servos. matéria bruta. majestoso e completo como convém à Eterna Sabedoria.62 – Allan Kardec que o número dos habitantes do ar e do céu é muito superior ao dos homens. Evidentemente. contrastando com o último onde a vida é puramente material. pois não se pode negar que no animal inteligente algo há de mais que numa planta. as almas. porque sem alma o corpo tem tanta vida como qualquer bloco de terra. medianamente existe a Humanidade. mesmo incompleta. seus laços de união. que acompanham as criaturas a fim de velarem pela sua segurança e santificação ”. os Arcanjos. outros. dos oficiais e dos súditos. assemelha-se à teoria dos quatro elementos. têm.

Desde que lhe falte um só que seja. e ainda que durasse um século. a obra incompleta não mais se compadece com a Sabedoria Eterna. sem começo nem fim. tais anjos. antes dessa época não havia criatura humana nem corpórea – o que importa dizer que no decurso da eternidade a obra divina jazia imperfeita. segundo a Gênese (na Bíblia). É verdadeiramente estranhável que um concílio – tido como uma das luzes da Igreja – tenha identificado os seres espiritual e material a tal ponto. 6. se por sua natureza e segundo o fim providencial da Criação. à perpetuidade. nada seria em relação à eternidade. ou. o objetivo e o fim. pois. que as criaturas espirituais como as corpóreas foram simultaneamente formadas e tiradas em conjunto do nada. há seis mil anos. E sendo apenas de algumas horas para muitos.” Ora.63 – O CÉU E O INFERNO 4. visto o tempo ser infinito como o Espaço. esse não é seguramente o começo dos tempos. Diz a Igreja que esses três pontos culminantes da Criação são necessários à harmonia do conjunto. a alma humana sem corpo é um ser incompleto. diz: “Acreditamos firmemente num Deus único e verdadeiro. antes dessa era. dizendo: “Nossa alma – igualmente espiritual – é associada ao corpo de maneira a não formar com ele mais que uma pessoa. o texto bíblico que data a Criação de seis mil dos nossos anos? E. a alma é imortal e o corpo não. de modo a não subsistirem por si mesmos. eterno e infinito. à reencarnação. A que fica reduzido. Além disso. no passado. o concílio formula uma estranha proposição. por isso que é o seu destino. O concílio de Latrão acredita. e o que faziam. O quadro hierárquico dos anjos nos mostra que têm várias ordens nas suas atribuições. começo dos tempos. essa união é necessária para as manifestações das suas capacidades. Ora. há seis mil anos. é antes uma figura que implica a ideia de uma anterioridade ilimitada. um dos dogmas fundamentais diz que a Terra. ainda que se admita seja tal o começo do Universo visível. Apesar disso. esta união constitui o estado normal. Se o destino essencial da alma é estar ligada ao corpo humano. para cujo fim foram criados. . Sobre o começo dos tempos só podemos deduzir a eternidade transcorrida. que no começo dos tempos tirou conjuntamente do nada as duas criaturas – espiritual e corpórea”. para que a alma preencha os seus desígnios. por outra. um estádio da alma. quando não existia o objetivo das suas ocupações? E teriam eles sido criados de toda a 51 Anatematizar: condenar que algo ou alguém seja excluído da igreja e amaldiçoado – N. que se prolongue essa união tanto quanto se pode prolongar uma existência terrena e. firmemente. essa união mais não é na realidade do que um incidente. durante a eternidade. deixando um corpo. é preciso concluir que. tanto que há pouco ainda a Ciência era anatematizada51 por destruir a cronologia bíblica. nunca o seu estado essencial. o Sol e as estrelas e até a luz foram criados do nada. que utilidade teria para a alma união tão passageira? Mas. ainda assim. Em qual crer: no concílio ou na Bíblia? 5. o concílio de Latrão. numa época indeterminada. concílio ecumênico que faz lei em matéria ortodoxa. o governo do mundo físico e da Humanidade. Mas. provando que a Terra e seus habitantes são mais antigos. Portanto. Entretanto. Entretanto. e é esse essencialmente o seu destino. poderíamos afirmar que o seu destino é estar essencialmente integrada? Não. as plantas. Esta expressão. os animais. É artigo de fé capital a criação do Universo. o mundo físico e a Humanidade não existem senão há seis mil anos. se faz preciso que tome outro corpo – o que nos conduz à inevitável pluralidade das existências. assim. segundo a Igreja. D. a união daquela com este só se realiza uma vez. pois. pois que a condição essencial da sua criação é estarem unidos. se o destino essencial da alma é estar unida ao corpo.

Diz ainda o concílio: “Enquanto dura esta união tão íntima da alma com o corpo ”. de cruéis sofrimentos e rudes provas. eis porque são anjos. que haverá de mais próprio a admitir ideia da majestade do Rei dos reis do que essa inumerável multidão de anjos que povoam céu e terra. Sem dúvida que Deus poderia ter assim determinado. as capacidades por vezes tão transcendentes. naturais calculistas. do idiota ou do ignorante permanecera tal qual era no momento da morte. durante uma eternidade. então. Há. é Lhe emprestar vaidade e fraqueza próprias dos orgulhosos tiranos do Oriente! E que é que engrandece os soberanos verdadeiramente grandes? É o número e brilho dos cortesãos? Não. ao passo que outros seres menos favorecidos só obtêm essa felicidade a troco de longos. isto é. é o título merecido de pais do seu . sem necessidade de aprender nada. Mas se a alma só recebe as ideias por meio dos órgãos corporais. Sempre Deus reduzido às proporções mesquinhas da Humanidade! Atribuir a Ele milhões de adoradores. etc. as penas eternas. um momento em que a união se desfaz? Esta proposição contradita a que sustenta a essencialidade dessa união. ou puros Espíritos. Progredindo a alma. chegamos a conclusões absurdas. “Os conhecimentos dos anjos não resultam da indução e do raciocínio”. “E se a majestade dos reis ostenta o seu brilhantismo pelo número dos servos. falseia a opinião da verdadeira grandeza Divina. desmentindo a Sua justiça e bondade soberanas. uma vez que servem à glorificação do Todo-Poderoso. ela adquire novos conhecimentos depois da vida atual. jovens pastores. 7. Mas se. adquirem ideias necessárias à resolução quase instantânea dos mais complicados problemas? Outro tanto podemos dizer de músicos. Sem progresso posterior para a alma. com tal possibilidade não se justificaria a criação de seres especiais e privilegiados. se admitirmos com a Igreja que essa alma não renasce? 8. mas ele esquece as ideias inatas.64 – Allan Kardec eternidade? Assim deve ser. desfrutando incondicionalmente de eterna felicidade. qual o limite do progresso? Não há razão para não atingir por ele ao grau dos anjos. Segundo o eminente teólogo. essa deve aprender. Eis aí uma doutrina filosófica em parte verdadeira. na comparação dos objetos exteriores”. criando-os numa época qualquer determinada. a sorte irrevogável. condenada à nulidade por todo o sempre. a alma da criança. E diz mais o concílio: “A s ideias lhes chegam pelos sentidos. que ideias a alma pode ter de uma criança morta ao fim de alguns dias. por conseguinte. receber as ideias pelos sentidos é uma condição própria da natureza humana. Mas. é a justiça. a dignidade dos que permanecem continuamente prostrados ou de pé ante seu trono?” E não será rebaixar a Divindade confrontá-la com o luxo dos soberanos da Terra? Essa ideia. Aqui reponta uma questão vital. Se uma vez liberta do corpo não pode adquirir novos conhecimentos. pintores e filólogos antecipados. mar e abismos. do selvagem. a intuição das coisas que a criança traz do berço – não devidas a quaisquer ensinos. inculcada no espírito das massas ignorantes. é que pode progredir. é a bondade. admitindo-lhe o infinito de perfeição sem a qual não seria Deus. isentos de qualquer esforço. Ora. 9. como necessidade. Deus ficaria até então sem adoradores. é forçoso admitir que criaria qualquer coisa inutilmente. que não em sentido absoluto. pois tais foram criados por Deus: quanto à alma. tanto quanto admitindo-o se conclui pela negação de todos os dogmas fundados sobre o estacionamento. qual a de sabermos se a alma pode adquirir conhecimentos após a morte do corpo. ao contrário. Por meio de quais sentidos. admiração dos sábios. oficiais e súditos. eternamente ajoelhados. mas. do imbecil.

que é ilimitada. A respeito da união da alma com o corpo.. mas atingido certo grau de perfeição e desmaterialização. goza dessas qualidades mais livre e altamente. ela só pode levá-los ao fim. Deste modo. este que não passa de roupagem temporária: a espiritualidade é a essência para ele. isto é. e. porque é justo. Mas. Deus não lhe dá essa experiência.65 – O CÉU E O INFERNO povo. sem conhecimentos nem consciência do bem e do mal. em todos os casos. não tem predileções. Deus não criou o mal. Ele lhes diz: Eis a lei que deve constituir a norma de conduta de todos. enquanto a outros impõe condições penosas na aquisição de bens. tendo ao demais a seu favor a conformidade com a observação e o destino da alma. tudo que lhe for conforme é o bem. que. elas são limitadas à existência do corpo. jamais se desviaria do bom caminho. um passo em falso na estrada do mal é um atraso para a alma. E tem mais: por numerosas que sejam as existências corpóreas. essa união é prescindível. e a sua soma total. certamente que há. Ele nos ensina que a alma é independente do corpo. pouco a pouco. para não dizer menos materialista. e a sua vida normal é a vida espiritual. Entretanto. OS ANJOS SEGUNDO O ESPIRITISMO 12. cumulados de todos os dons e nascidos para a felicidade eterna. As sim. e assim serão os juízes do próprio destino. se desenvolve. que não colérico. o Espiritismo professa uma doutrina infinitamente mais espiritualista. 10. Que haja seres dotados de todas as qualidades atribuídas aos anjos. exterminador e parcial. todos têm os mesmos degraus a subir e o mesmo trabalho a concluir. criando para sua própria glória esses seres privilegiados. O corpo é apenas instrumento da alma para exercício das suas faculdades nas relações com o mundo material. 11. Conseguimos esse fim mais ou menos rapidamente em virtude do nosso livrearbítrio e na razão direta dos nossos esforços. Perguntarão se haverá algo de mais próprio a admitirmos a ideia da grandeza e majestade de Deus do que a multidão de anjos que lhe compõem a corte. e essa coisa melhor é Deus apresentar-se às suas criaturas soberanamente bom. Conseguintemente. porém. tudo que lhe for contrário é o mal. sofrendolhe as consequências. se ele as observasse cuidadosamente.. e o fim – que é a perfeição – é o mesmo para todos. os anjos são as almas dos homens chegados ao grau de perfeição . e foi o homem que criou esse mal. 13. não restam dúvidas. aperfeiçoa e adianta na hierarquia espiritual até ao estado de puro Espírito ou anjo.. O trabalho é o meio de aquisição. visto que todos são seus filhos. As almas ou Espíritos são criados simples e ignorantes. todas as Suas leis são para o bem. só abrange uma parte imperceptível da vida espiritual. e daí o fato de ser falível. justo e misericordioso. aptos para adquirir o que lhes falta. o progresso se faz na sua vida de Espírito. aprende à sua custa o que deve evitar. A união da alma com o corpo – por ser necessária aos seus primeiros progressos – só se opera no período que poderemos classificar como da sua infância e adolescência.. vingativo. a alma – igual criança – é inexperiente nas primeiras fases da existência. fazendonos conhecer ao mesmo tempo a origem e natureza de tais seres. separada desse corpo. Então. mas dá-lhe meios de adquirila. Deus não favorece melhor a uns do que a outros. invejoso. divorciando-se dessas leis. punindo erros momentâneos com eternos suplícios. A revelação espírita neste ponto confirma a crença de todos os povos. Todos têm inteira liberdade de observar ou infringir esta lei.

Muito antes que a Terra existisse e por mais antiga que a suponhamos.66 – Allan Kardec que interessa a criatura. e por cujo desempenho se sentem ditosas. antigos e novos. não na ociosidade. fruindo em sua plenitude a prometida felicidade. Deus nunca esteve inativo e sempre teve puros Espíritos. desse modo. de toda a eternidade tem havido Espíritos puros ou anjos. atingindo seu fim antes mesmo que houvéssemos saído das mãos do Criador. experimentados e esclarecidos. já habitou os desaparecidos. 14. mas. E. habita inúmeros mundos que circulam no Espaço. nos quais Espíritos encarnados percorreram as mesmas fases que ora percorrem os de mais recente formação. cap. adquiriram suas posições na luta e por mérito próprio. Porém. felicidade que consiste. todos. como a sua existência humana se passou num infinito passado. todos. para transmissão de suas ordens e direção do Universo. e habitará os que se formarem. antes de atingir o grau supremo. tendo ainda nele um meio de progresso. eis que os supomos como se tivessem sido sempre anjos de todos os tempos. 15. Logo. Tampouco Deus teve necessidade de criar seres privilegiados. III . completa-se com igualdade a soberana justiça do Criador. são filhos de suas obras. .“O céu”). enfim. isentos de obrigações. (ver na 1ª Parte. gozam de felicidade relativa ao seu adiantamento. Realiza-se assim a grande lei de unidade da Criação. Deus jamais cessa de criá-la. Tendo-a criado de toda a eternidade. A Humanidade não se limita à Terra. outros mundos havia. desde o governo dos mundos até os mais ínfimos detalhes. mas nas funções que agrada a Deus confiar a eles.

calcule-se que noções o homem teria a respeito. Em todos os tempos os demônios representaram papel de destaque nas diversas origens dos deuses. o jardim florido dos prados. Nós a encontramos sob diferentes formas. mas para compreender o abstrato. embora muito distanciada já dos primitivos homens. em todas as idades do mundo. ou. com ou sem flores. quanto mais se aproxima do estado primitivo. . a importância que se atribui a eles ainda hoje dá à questão muita seriedade. por tocar na essência das crenças religiosas. não tanto que as creste. desde que não lavrem os grãos da seara. o que mais o preocupa. mas pouco real. do firmamento a estrelada abóbada. o trino dos pássaros. tudo o que da Natureza apreende. a sua adolescência e madureza como o corpo humano. Eis por que se torna útil examiná-la. De fato. O único sentido que pode torná-lo acessível aos gozos puramente morais só se desenvolve lenta e gradualmente. o que exclusivamente o preocupa é a satisfação das necessidades materiais. olhemos em torno o povo do campo e analisemos os sentimentos de admiração que nela despertam o esplendor do Sol nascente. sem dúvida. o que é mais. Eis aí tudo o que essa gente almeja. A crença num poder superior é instintiva no homem. 2. como se verifica ainda hoje nos povos bárbaros e selvagens contemporâneos. Para essa gente o Sol nasce por hábito. e uma vez que desprende o necessário calor para temperar as searas. dado o grau de cultura atingido. mais o homem se escraviza ao instinto. ou. na infância da Humanidade. prefere às melodias do rouxinol. e – posto que consideravelmente decaídos no conceito geral –. dos prados. quantas evoluções ela tem de experimentar na Humanidade! Por quantas existências ela deve passar! Sem nos dirigirmos aos tempos primitivos. muito poético. o murmúrio das ondas claras. ainda se discute sobre a natureza e atributos desse poder. o quadro dos homens primitivos extasiados ante a Natureza e admirando nela a bondade do Criador é.67 – O CÉU E O INFERNO CAPÍTULO IX OS DEMÔNIOS    ORIGEM DA CRENÇA NOS DEMÔNIOS OS DEMÔNIOS SEGUNDO A IGREJA OS DEMÔNIOS SEGUNDO O ESPIRITISMO ORIGEM DA CRENÇA NOS DEMÔNIOS 1. mesmo porque não tem outras. é que não sequem nem inundem. está realizado tudo o que ela almejava. olha o céu para saber se bom ou mau tempo sobrevirá. Como prova da sua inocência. a alma tem também a sua infância. o que deseja dos regatos cristalinos. o cacarejar da galinhada e o grunhido dos porcos. com os desenvolvimentos que carece. antes. tanto se lhe dá. ou lodosos. que cantem ou não as aves. Mas se hoje. que produzam boa erva.

fazendo-lhe entrever na espiritualidade um poder extra-humano fora do mundo visível e das coisas materiais. Os animais nocivos não passam de representantes naturais e diretos desse poder. Os cristãos e os muçulmanos herdaram dos hebreus os anjos e os demônios. que progrediria ainda individualmente. durante muitos séculos e sob vários nomes. uma ideia muito vaga. para os vícios e para as virtudes. o culto. 4. ao passo que a maldade mais o afeta. na dependência de uma série de existências purificadoras até atingir a perfeição. seguramente. tudo é relativo à ideia mais ou . mas que não puderam ultrapassar certos limites. a bondade lhe parece natural. Devemos examiná-la aqui somente no ponto de vista cristão para ver se está de acordo com as noções mais exatas que possuímos hoje. no passado. O duplo princípio do bem e do mal foi a base de todas as crenças religiosas. Muitas vezes o mal triunfa sobre o bem. é necessário apreender o conjunto do qual – e só do qual – resultam nítidas as causas e respectivos efeitos. Esta obra foi. Acreditando num poder extra-humano e porque o prejuízo material é sempre o que mais de perto lhes importa. Como compreenderia então que o mal não passa de estado transitório do qual pode emanar o bem. Esses atributos são o ponto de partida e a base de todas as doutrinas religiosas. Pela mesma razão. Para compreender como o bem pode resultar do mal. origem na antiga crença dos dois princípios. como todo soberano deve ter ministros. Os pagãos fizeram deles individualidades com a denominação genérica de deuses e deram-lhes atribuições especiais para o bem e para o mal. E por nada compreenderem fora do mundo visível e palpável. tal poder para eles se parece identificado nos seres e coisas que os prejudicam. como no futuro –. é preciso considerar não uma. as cerimônias sempre mais numerosas em honra ao poder maléfico: o temor suplanta o reconhecimento. por conseguinte. Daí nasceu a doutrina dos dois princípios. e muito menos que as tribulações da vida resultavam das imperfeições do ser espiritual nele residente. concluiu-se pela existência de dois poderes rivais no governo do mundo. nos cultos primitivos. A luta entre o bem e o mal é provada e visível. conduzindo-o à felicidade pelo sofrimento e auxiliando-lhe o progresso? Os limites do seu horizonte moral – nada lhe permitindo ver para além do seu presente. também não lhe permitia compreender que já houvesse progredido. do qual fazem. e não se podendo racionalmente admitir que o mal derivasse de um poder benéfico. os usos e a moral. atribuem-no a esse poder. dos atributos da Divindade. 6. Mas o homem é comumente mais sensível ao mal que ao bem. Durante muito tempo o homem não compreendeu senão o bem e o mal físicos. Todavia. o qual preexiste e sobrevive ao corpo. o culto dedicado a certas plantas e mesmo a objetos inanimados. A doutrina dos demônios tem. veem nas coisas úteis a personificação do bem: daí. 5. porém. os sentimentos morais só mais tarde marcaram o progresso da inteligência humana. ou bons e maus gênios. aliás lógica numa época em que o homem se encontrava incapaz de penetrar raciocinando na essência do Ser Supremo. aliás. as religiões geralmente admitiram potências secundárias. muitas existências. realizada por inteligências de classe. em Jeová e Satã entre os hebreus. Vemos isso assim sintetizado em Oromase e Arimane entre os persas. os dogmas.68 – Allan Kardec 3. as cerimônias. resumindo o bem e o mal neste mundo somente no que se refere à satisfação ou prejuízo dessas necessidades. Nem por outra razão se explica. Se nos concentrarmos nestes últimos então os veremos mais exclusivamente preocupados com a satisfação de necessidades materiais.

A mão paternal que se agrada imprimir em todas as suas obras o cunho de infinitas perfeições. podemos considerá-las a última expressão da Igreja sobre a doutrina dos demônios. sem esta maravilhosa e sublime intervenção da caridade. Nenhuma criatura poderia alcançar tal fim. Este último favor. este Deus deixará de ser único. O fim sobrenatural não foi dado aos anjos e aos homens senão na previsão de sua encarnação e méritos. onipotente. não os havia criado perversos e maus. Estes atributos. imaterial. cap. eterno. o critério de todas as religiões. por consequência. Foi por isso que lá atrás dissemos (1ª Parte. deixando igualmente de ser profundamente bom. ou veio depois do Criador? Existindo de toda a eternidade é incriado. por isso que poderia coexistir um ser mais perfeito ”. Seu chefe foi o mais belo dos arcanjos. cardeal-arcebispo de Reims. Não sendo o mal obra de Deus. mais ou menos elevada que se forma de Deus. OS DEMÔNIOS SEGUNDO A IGREJA 7. seria contudo de uma das suas criaturas. Satanás – o chefe ou o rei dos demônios –. compreendemos no entanto ela melhor que nunca. de fato. de fé. é preciso que não encerre um atentado às divinas perfeições. exatamente. E para que qualquer desses princípios seja verdadeiro. imutável. na sua plenitude absoluta. e nem por isso Deus deixava de ser o autor. recusaram a Deus? A Igreja e os anais das santas escrituras não nos dizem isso concretamente. pois. “O Verbo Divino – criador de todas as coisas – é também o mediador e salvador único. e. que é a bondade e santidade por excelência. infinito em todas as perfeições. estalão da verdade de cada um dos princípios que ensinam. para a quaresma de 1865. pois não há proporção alguma entre a obra dos Espíritos eminentes e a recompensa – que é o próprio Deus. pois haverá um deus do mal. subdivididos por todas as suas ordens e adstritos a todas as classes. tal como ele nos é representado: Satanás existe de toda a eternidade. “Qual foi o obstáculo da sua perseverança? Que verdade desconheceram? Que ato de adoração. na doutrina comum dos demônios. Como tal – só praticando o mal por incapaz de fazer o bem e tampouco de se arrepender –. Atentos ao mérito pessoal e à posição do autor. Ora. mas parece certo que não consentiram à mediação do Filho de Deus. nem à exaltação da natureza humana em Jesus Cristo. Às qualidades eminentíssimas de Sua natureza. O Cristianismo racionalmente ensina-nos que: Deus é único. soberanamente justo e bom. “Doutrina das penas eternas”): “/Case se tire a menor parcela de um só dos atributos da Divindade. juntou as liberalidades da Sua graça. Hoje dizem52: “Deus. Vejamos se assim é. que deverá ser o complemento de todos os outros. igual a Deus. constituía o prêmio da sua docilidade. . Por sua vez. não é uma personificação simbólica do mal. mas dele desmereceram por insensata e audaciosa revolta. em relação aos seres maus chamados demônios. Deus teria criado um ser voltado exclusiva e eternamente ao mal. desde o fetichismo até o Cristianismo. VI. não haveria mais Deus. pelos ensinamentos do Cristo. como Deus. Eles poderiam até ter alcançado a confirmação de justos para todo o sempre e serem admitidos ao gozo da bem-aventurança dos céus. segundo a Igreja. 52 As citações seguintes são extraídas da pastoral de Monsenhor Gousset. Por muito tempo essa foi a crença neste sentido. praticando exclusivamente o mal. Se a essência de Deus continua a ser um mistério para as nossas inteligências. eles tinham o mesmo fim e idênticos destinos. 8. enquanto que Deus pratica exclusivamente o bem. Pois vamos admiti-lo. são. O mesmo se dá. em tudo os fez iguais aos Espíritos sublimes de glória e felicidade. encheu-os de magníficas virtudes.69 – O CÉU E O INFERNO menos justa. na Terra como no Céu. Mas se for posterior? Neste caso passa a ser uma criatura de Deus. mas uma entidade real.

No primeiro caso. 9. então. Revelação inesperada. quando diz (Gênesis. sob a condição de o adorarem durante a missão terrestre. Esta doutrina suscita várias objeções: 1º – Se Satã e os demônios eram anjos. um Deus que se arrepende do que fez não é perfeito nem infalível. tu que parecias tão brilhante ao romper do dia? Como foste arrojado sobre a Terra. teu corpo morto baqueou por terra. desde o homem aos animais. por que a Igreja não resolve a questão? Mas se a Igreja e a História se calam. poderíamos conceber um triste retrocesso. raiando pela temeridade. E são estas as palavras que a Igreja proclama! Tampouco se percebe o que poderia haver de comum entre os animais e a perversidade dos homens. para que merecessem tal extermínio. concebido de toda eternidade. e para todo o sempre no céu. que lhes é tão inferior. nos flancos do Aquilão. e houve partidários em todas as hierarquias. não havendo dúvida alguma. sentarei sobre o monte da aliança. não. segundo a Igreja. exterminarei tudo. sentada à mão direita de Deus em trono resplandecente? Consentirão enfim que ela ofereça a Deus. mas – mistério profundo – humilhante para espíritos soberbos! Esse fim sobrenatural. tua cama verterá podridão. 54 Encontra-se em Isaías. ou seja.70 – Allan Kardec para preencher a distância infinita que separa a sua essência das suas obras. Porém. arrebatadora visão para corações generosos e gratos. tu que ferias as nações com teus golpes. até o mais fundo dos . essa glória imensa que lhes propunham não seria unicamente a recompensa de seus méritos pessoais.” Ora. A sua multidão. não é Deus. associando à divindade as naturezas ou do anjo. do modo como nos apresentam isso. seria preciso que reunisse à sua pessoa os dois extremos. ou do homem: e preferiu então a natureza humana. contudo. penetrado da mais íntima dor. Glória a Deus e ao Cordeiro. que dizias de coração: Subirei aos céus. dominarei as nuvens mais elevadas e serei semelhante ao Altíssimo’. sentarei acima das nuvens mais altas e serei igual ao Altíssimo! E todavia foste precipitado dessa glória no inferno. esquecido de que devia a Deus a sua nobreza e prerrogativas. fixarei residência acima dos astros. disse: Exterminarei a criação da face da Terra. estabelecerei meu trono acima dos astros de Deus. porque me arrependo de tê-los criado. mas enganou-se: logo. porque os favoreceu com todos os dons. S. se a coisa apenas parece “certa”. Nunca poderiam atribuir a si próprios os títulos dessa glória! Um mediador entre Deus e eles! Que injúria à sua dignidade! E a preferência espontânea pela natureza humana? Que injustiça! que afronta aos seus direitos! “E eles chegarão a ver esta Humanidade. desde os que rastejam sobre a terra até os pássaros do céu. para inferir se de fato foram pronunciadas palavras tão claras e até simples colóquios? De duas uma: ou a cena é verdadeira ou não é. não os preserva do castigo”. Lúcifer. depois de haver percorrido a escala da perfeição. que valor – perguntamos –que valor pode ter o quadro tão preciso e detalhado da cena então ocorrente? A que fonte recorreram. perfeitos de origem. portanto. em cuja presença se encontravam? Ainda se tivessem conseguido uma tal eminência gradualmente. Como caíste do Céu. disse: ‘Sou eu quem subirá ao céu. foi manifestado aos anjos muito antes da sua execução: o Homem-Deus foilhes mostrado como Aquele que deveria confirmá-los na graça e guiá-los à glória. a homenagem da sua adoração? “Lúcifer e a terça parte dos anjos caíram a tais pensamentos de inveja e de orgulho. claro que não passa de hipótese. A conclusão é esta: Deus quis criar seres perfeitos. e vermes tua vestimenta. Deus não é infalível53! 2ª – Como nem a Igreja e nem os sagrados anais explicam a causa da rebelião dos anjos para com Deus e apenas dão como problemática ( “quase certa”) a relutância no reconhecimento da futura missão do Cristo. o soberano Senhor de todas as coisas. que tem de ser sacrificado para a salvação do mundo’. Miguel e com ele muitos exclamaram: ‘Quem é semelhante a Deus? Ele é o dono de seus dons. divinizada pela união com o Verbo. e a cena descritiva é mero fruto da imaginação54. 53 Esta doutrina monstruosa é corroborada por Moisés. eles eram perfeitos. 14:11 e seguintes: “Teu orgulho foi precipitado nos infernos. porém. 6:6 e 7): “Ele se arrependeu de haver criado o homem na Terra e. o chefe dos rebeldes. eternamente. como puderam falir a ponto de desconhecer a autoridade desse Deus. Esse plano. Os que partilharam de tais sentimentos acolheram essas palavras com murmúrios de aprovação.

71 – O CÉU E O INFERNO 3ª – As palavras atribuídas a Lúcifer revelam uma ignorância admirável num arcanjo que. dizendo: “Será este o homem que turbou a Terra. que fez do mundo um deserto. dominando as mais elevadas nuvens?! É sempre a velha crença da Terra como centro do Universo. dos erros e dos prejuízos que os homens têm professado. Era. Mas esse não era o céu dos céus. que destruiu cidades e reteve acorrentados os que se lhe entregaram prisioneiros?” Estas palavras do profeta não se referem à revolta dos anjos. que deveriam receber com fé e humildade até serem admitidas no conhecimento da sua realidade – essência do próprio Deus”. são. Portanto. não podiam permanecer em um lugar especial. teriam necessidade dessa intervenção. A profecia da libertação do povo judeu. uma alusão ao orgulho e à queda do rei de Babilônia. Do que precede se menciona que os anjos decaídos pertenciam a uma categoria menos elevada e perfeita. a sua própria criação. cujo povo escravizara. porque aí não há mais possibilidade nem perigo de pecado. . Essas palavras são do rei que as tinha no coração e se colocava por orgulho acima de Deus. e falando-se em dominá-las por mais alto. que os anjos. quanto à organização do Universo. por sua natureza e grau atingido. idênticos em categorias. esta ser em região superior. de fato. 10. sendo ela. arcando com a eterna condenação e arrastando a igual sorte uma parte da Humanidade. e da limitada região destas. uma esfera luminosa e afortunada. 11. e de toda a eternidade. certamente. que as nuvens não se elevam a mais de duas léguas da superfície terráquea. a morada dos anjos. dizer que fixaria residência acima dos astros. essa em que permaneciam tão nobres criaturas favorecidas pelas divinas comunicações. E assim. ao demais. não lhes seriam inferiores em natureza. Ainda mais: o Deus onisciente sabia que alguns dentre esses anjos viriam a falir. o céu da visão beatífica. subdivididos em todas as ordens e adstritos a todas as classes. a justiça. a paz e a alegria reinam imutáveis. o assunto exclusivo desse capítulo. não deve participar. mas não se faz aí qualquer menção da cena supra descrita. inútil seria alçar-se acima das nuvens. como hoje se sabe. sim. outra região celeste. de caso pensado. que a Astronomia nos mostra disseminadas ao infinito no infinito espaço! Sabendo-se. porque de outro modo teríamos que abismos. que o contemplam claramente e sem esforço. tanto quanto os homens. seria preciso que a observação partisse da Terra. e que seu chefe era o mais belo dos arcanjos. até serem esclarecidos pela Ciência. que retinha os judeus em cativeiro. Como poderia. foi manifestado aos anjos muito antes da sua execução ”. no momento da sua criação. Deus sabia. aproximando-se. onde Deus se mostra de face aos seus eleitos. A Igreja tem caminhado sempre erradamente. O rei de Babilônia é alegoricamente designado por Lúcifer. referindo-se a montanhas. criado desde toda a eternidade. A resposta à primeira objeção acha-se na seguinte passagem: “A escritura e a tradição denominam céu o lugar no qual se haviam colocado os anjos. não tendo atingido ainda o lugar supremo em que o erro é impossível. porém. do céu como que formado de nuvens estendendo-se às estrelas. Dado. Pois bem: mas então há contradição evidente nesta afirmativa: Deus em tudo os tinha criado semelhantes aos espíritos sublimes que. Emprestar aos anjos uma linguagem recheada de ignorância é confessar que os homens contemporâneos são mais sábios que os anjos. Dizem: “Este plano (a intervenção do Cristo). E ainda há outra que é. a santidade e a glória imperecíveis. Deste raciocínio não há como fugir. encararão a ti. não levando em conta os progressos da Ciência. da rainha de Babilônia e do destroço dos assírios é. portanto. Os que te virem. portanto. a objeção é intacta. em tudo semelhantes aos outros. tinham o mesmo fim e idênticos destinos. como atestam os últimos versículos. Ora. a mais séria e a mais grave. a tentação e a dúvida são aí desconhecidas. que aterrou seus reinos. previamente condenava o gênero humano. então.

em número infinito. Para nós é impossível identificar uma tal criação com a soberana bondade. a punição é consequência. importaria a negação da divina bondade. como se pode inferir destas palavras: “Enquanto uns ficam na tenebrosa morada. cap. Assim. apenas uma parte dos demônios está no inferno. visto como só no fim do mundo serão para sempre enclausurados com os reprovados. à qual pertencem. e das quais fazem o mais pernicioso abuso. vai para 55 Ver 1ª Parte. revertendo ao fim em benefício deles. já nos explanamos no cap. a outra vaga em liberdade. estes anjos. porém as que eles próprios provocaram. por que tal distinção? Serão estes menos culpados? Certo que não. Mas. VI. S. cuja época indeterminada não chegará tão cedo. Em ambos os casos vemos a negação de atributos.55 A inutilidade do arrependimento e a impossibilidade de regeneração. ao fogo eterno preparado pelo demônio e seus anjos’. envolvendo-se em tudo que aqui se passa. “O Inferno”. que é a palavra mesma do Salvador. no afoitamento dos seus pensamentos. Deus ainda permite que ocupem lugar nesta criação. mas se ao mesmo tempo admitirmos a possibilidade do resgate.72 – Allan Kardec admitir a inconsciência divina. porém a salvação do pecador”. Enquanto uns ficam na tenebrosa morada. tomando mesmo parte muito ativa nos acontecimentos terrenos’. provavelmente. na ordem de coisas idênticas à sua existência. nº 25. Envolvem-se em tudo que aqui se passa. Por esta teoria. que seriam punidos. a menos que se não revezem. sem que lá estejam. IV. conforme o texto do Evangelho. Admitindo a possibilidade dos anjos falharem como os homens. dando-se ao prazer de praticar o mal e isso até o fim do mundo. sem a plenitude absoluta dos quais Deus não seria Deus. nas relações enfim que deviam ter com os homens. Assim sendo. visto como essa vítima. outros. e – coisa estranha – que a justiça humana por imperfeita não admitiria – a vítima que cai por fraqueza. tudo se esclarece e se conforma com a bondade de Deus. 12. visto Deus não poder ignorá-lo. Por estas palavras entendemos que foram arremessados a um lugar de suplícios no qual sofrem a pena de fogo. suas ocupações consistem em martirizar as almas que seduziram. percorrendo todo o globo. 13. Eis como se explicam as palavras do profeta Ezequiel: “Deus não quer a morte. contudo. foram destinados à perpetuidade do mal. Pedro expressamente diz: ‘que Deus os prendeu às cadeias e torturas infernais. ‘Vão. servindo de instrumento da justiça divina contra as almas infelizes que seduziram. Admitida tal hipótese. deixando a Terra. e predestinados a demônios para arrastarem os homens ao mal. São ao mesmo tempo a causa do erro e o instrumento do castigo. perpetuamente.” Quanto ao que diz respeito às palavras do Cristo sobre o suplício do fogo eterno. isto é. eles foram banidos da celestial mansão e precipitados no abismo. . mas sabia igualmente que tal castigo temporário seria um meio de lhes fazer compreender o erro. Vejamos agora qual a sorte desses tais anjos e o que fazem: “Mal apenas se manifestou a revolta na linguagem dos Espíritos. poderíamos mesmo dizer rigorosamente que desde a sua criação. da falta. isso sim. aliás justa e natural. não se encarregam de punir faltas livre e voluntariamente cometidas. 14. malditos. apregoando a não presciência de Deus. é tanto ou mais severamente punida do que o agente provocador que usa astúcia e artifício. a graça. servindo de instrumento da justiça divina contra as almas infelizes que seduziram”. Presentemente. formam legiões e residem nas camadas inferiores da atmosfera. Ele sabia que errariam. citação de Ezequiel. após o arrependimento e a expiação. em contingências alheias e porventura superiores à sua vontade. a regeneração.

sem a provocação de um inimigo tanto mais perigoso quanto invisível? Ainda se o castigo fosse temporário e o culpado pudesse remir-se pela reparação!. exclama: “Não é. A mão de Deus desferiu-lhes o castigo no ato mesmo de pecarem. não pode ser assim – ou Deus não seria Deus”. o futuro e sobretudo a ordem natural têm mistérios que Deus se reservou e que eles não podem penetrar. banindo dela o reino de Deus. depois de terem introduzido o mal no mundo. perdão e caridade – que tais doutrinas são ensinadas! Houve um tempo em que tais anormalidades passavam despercebidas. sabendo. são o que o homem é depois da morte. enfim. A reabilitação dos que caíram torna-se também impossível. transformadas em amargores as doçuras da esperança. “Depois do pecado. “O castigo segue os seres decaídos por toda a parte: o inferno está neles e com eles: nem paz nem repouso. nem favor. submetia-se à fé cega. e. mas a sua inteligência é bem superior à nossa. Não serão elas de si mesmas bastante fracas para fracassarem. o agente provocador. tendo a sorte dos demônios. o Pai podia ignorar o abuso que fariam de uma liberdade por Ele mesmo concedida? Então. desejando-a tanto na vida quanto na morte. No entanto. a sorte que lhes aguardava. eterna! Arrependimento. os mesmos que. e sua vontade recobriu-se no mal. nas relações que com o homem deviam ter e das quais abusam perniciosamente ”. na sua inveja contra a Humanidade. “Não tendo podido se apropriar da glória celeste pelo desmesurado da sua ambição. mantendo-se eles no seu orgulho perante Deus. Mas. Certo. por longos séculos. goza de uma tal ou qual dilação e liberdade até o fim do mundo. chegaram a cobri-lo com as espessas trevas do erro e do vício. porém. “Efetivamente esses inimigos são os mesmos que. o Verbo encarnado cumpriu os seus desígnios para salvação e glória da Humanidade. os mesmos. 16. Para compreender todos os recursos de que dispõem ao serviço da malvadez. que se torna odiosa para eles. que a hora da emancipação soou. Também por isso procuram promover por todos os meios a perda das almas resgatadas pelo Cristo: o artifício e a importunação. de um Deus cujos atributos essenciais são: justiça e bondade soberanas! E dizer que é em nome de Jesus – d’Aquele que só pregou amor. que antevia.. por que a concedeu? Mas nesse caso é com conhecimento de causa que Ele abandona suas criaturas à mercê delas mesmas. basta notar que nada perderam das prodigiosas qualidades que são as vantagens da natureza angélica. eternamente.73 – O CÉU E O INFERNO o inferno sofrer sem tréguas. no seu ódio contra o Cristo. ao criar estas almas. abdicava da razão. Como pode a justiça de Deus ser menos perfeita que a dos homens? 15. que vão fracassar. se fizeram adorar como deuses e que reinaram em absoluto sobre os povos da antiguidade. esforçam-se por implantar seu império na Terra. regeneração.. o homem. os demônios não passam de agentes provocadores e previamente destinados a recrutar almas para o inferno. “Tornados perversos. porque percebem de um jato os efeitos nas causas e . isto com a permissão de Deus. Mas não: a condenação é irrevogável. curvado ao jugo da tirania. Que se diria na Terra de um juiz que recorresse a tal expediente para abarrotar prisões? Estranha ideia que nos dão da Divindade. Apesar disso. por causa desses inimigos a vida do homem não pode deixar de ser uma luta sem tréguas. a mentira e a sedução. provocando a desordem e o escândalo até no meio das sociedades cristãs. do berço ao túmulo. esse homem compreende a justiça. porque não eram compreendidas nem sentidas. “E como são incansáveis e poderosos. teimam em ser assim e assim serão para sempre. tudo supérfluo! Desta forma. ainda não é tudo: “Deus permite que ocupem lugar nesta criação. que ainda hoje exercem tirânica influência nas regiões idólatras. enquanto que o causador da sua primeira falta. tudo põem em jogo para arrastá-las ao mal e concretizar sua perda. lamentos. Hoje. desde então a sua perda é então irreparável. pela Sua onisciência.

mais rápidos que o pensamento. Afirmam também que o remorso os persegue sem tréguas nem misericórdia. Pergunte ao criminoso o que prefere: se ficar na prisão. do contrário. permanecem ao nosso lado sem que os vejamos. quando não é o próprio arrependimento. os acontecimentos na mesma hora em que ocorrem. Mais prontos que o raio.74 – Allan Kardec vice-versa. 18. e atacam-nos comumente pelo lado mais fraco. O Evangelho nada diz que se 56 57 Oráculos: na antiguidade. presságio. à distância. por conseguinte. conservando por tempo indefinido. “Depois do pecado. É de crer que esses demônios extrainfernais não sejam tão felizes como os bons anjos. sabem quais os fenômenos resultantes da combinação dos elementos. ao demais. 17. Portanto. . de mais a mais livremente. possuem a arte de imitar e falsificar as obras divinas – dentro de certos limites. ou percorrer livremente os campos. teimam em ser assim. “Tornados perversos. sacerdote ou sábio a quem se consultava – N. que não sabem o que seja paz nem repouso. “A sua substância simples e imaterial subtrai -os às nossas vistas. maior mal. Ao contrário. e que consideramos tanto menos justificado por isso que podem fazer. predição – N. Esta percepção lhes permite predizer acontecimentos futuros que estão acima das nossas ideias. No segundo caso. a reabilitação dos que caíram se torna impossível”. mas não se deverá ter em conta a sua relativa liberdade? Eles não possuirão a felicidade moral que a virtude defere. e nem mesmo se compreende que seres tão profundamente perversos pudessem jamais ter sido anjos de virtude. interessam-nos a alma sem que nos firam o ouvido. sempre há certo prazer na prática do mal. “As leis pelas quais Deus rege o Universo não são acessíveis a eles. ainda menos se compreende que Deus inflija como castigo a impossibilidade da reparação. todos os traços da sua péssima índole e natureza. Donde provém essa impossibilidade? Não se compreende que ela seja a consequência de sua similaridade com o homem depois da morte. Esta afirmação de modo algum destrói a observação que fizemos quanto ao privilégio dos que estão fora do inferno. e assim serão para sempre”. Depois. A distância e variedade dos lugares desaparecem ante a sua agilidade. pelas impressões que delas transparecem em nós. esquecidos de que o remorso é o precursor imediato do arrependimento. muitas vezes estamos no entanto debaixo da sua terrível influência. para o mau. Acaso virá da própria vontade dos demônios? Porventura virá da vontade divina? No primeiro caso a teimosia denota uma extrema perversidade. é muito vaga. no entanto. conhecem nossas disposições. um endurecimento absoluto no mal. e. costumam se servir de sugestões e enganos conformes com as nossas inclinações. são o que o homem é depois da morte. assim como os que por si mesmos podem produzir. predizer ou operar verdadeiros milagres. profecia. ao menor sentimento de pesar. Daí os numerosos oráculos56. Acreditando obedecer aos nossos pensamentos. Contudo. é que não têm remorsos. após uma primeira falta. Afirmam que o castigo os segue por toda parte. proposição que. o remorso não é um castigo para eles. e fazem. deus. suas armas favoritas são a hipocrisia e a mentira”. na convivência destes. D. predizem com maior ou menor êxito os que vêm naturalmente. agindo à vontade? Pois o caso é exatamente o mesmo. Modificam a ação segundo as circunstâncias e os traços característicos de cada temperamento. Mas desde que teimem em ser perversos. Vaticínio: previsão. baseando e criando tantas e tantas superstições. Para nos seduzirem com mais segurança. os extraordinários vaticínios57 que livros sagrados e profanos recolheram. mas são incontestavelmente mais felizes que os seus comparsas do inferno flamejante. razão por que não podem anulá-las. Logo. D. renunciariam ao mal e pediriam perdão. acham-se quase instantaneamente sobre diversos pontos do globo e podem descrever.

E com semelhante doutrina ainda muita gente se admira de que haja incrédulos e ateus! E é assim que Jesus nos representa seu Pai? Ele que nos deu a lei expressa do esquecimento e do perdão das ofensas. trata-se de um ato de clemência. esses seres constituem a Humanidade que povoa a Terra e as outras esferas habitadas. Mas por que Deus lhes trancaria essa porta? Para se vingar da ofensa decorrente da sua insubmissão. votados ao mal eternamente e incapazes de qualquer progresso para o bem. ao invés de uma palavra de esperança e misericórdia. constituem o mundo espiritual ou dos Espíritos. Deus criou-os capazes de chegarem progredirem e lhes deu por objetivo a perfeição e a felicidade que dela decorre. O Espiritismo não lhes dá tal nome por ele se prender à ideia de uma criação distinta do gênero humano. “A sua perda é desde então irreparável. Contudo. . mais justos. e pois se perseveram no mal é porque lhes trancaram a porta da esperança. Assim não acontece. que povoam os Espaços. quereria desse modo que os homens fossem melhores. quando por um simples ato de demência podia evitar tão grande desastre. Segundo a doutrina da Igreja os demônios foram criados bons e se tornaram maus por sua desobediência: são anjos colocados primitivamente por Deus no alto da escala. Deus prefere não somente vê-los sofrer.75 – O CÉU E O INFERNO pareça com isso. mais indulgentes que o próprio Deus? OS DEMÔNIOS SEGUNDO O ESPIRITISMO 20. há uma cadeia na qual cada um dos elos assinala um grau de progresso. para saciar o seu ressentimento contra alguns culpados. é como se Deus dissera: “Que toda a raça humana pereça antes que minha vingança”. que nos manda pagar o mal com o bem. na imensa escala do progresso. mas agravar o mal com mal maior. E. assim. tornam-se espíritos puros ou anjos segundo a expressão popular. quer no estado espiritual.quer encarnados. em todos os graus existe ignorância e saber. pois são capazes de todos os malefícios aos ditos atribuídos. E de que lhes serviria não manterem tal orgulho. de uma graça pura e simples que pudesse transformar-se em estímulo do mal? Não. bondade e maldade. uma vez que é inútil todo o arrependimento? O bem só poderia interessá-los se eles tivessem uma esperança de reabilitação. fosse qual fosse o seu preço. trata-se de um perdão condicional. uma vez libertos do corpo material. como seres de natureza essencialmente perversa. no entanto. pois quis que a obtivessem por seu próprio esforço. 21. 19. mantendo -se eles no seu orgulho perante Deus”. a partir do embrião do ser inteligente até ao anjo. Unidos a corpos materiais. A estes podemos denominar demônios. não lhes deu a perfeição. que prescreve o amor dos nossos inimigos como a primeira das virtudes que nos conduzem ao céu. impelir à perdição eterna toda a Humanidade. Nas classes inferiores destacam-se Espíritos ainda profundamente propensos ao mal e comprazendo-se com o mal. Desde o momento da sua criação que os seres progridem -. Resulta do expresso que há Espíritos em todos os graus de adiantamento. Atingido o auge. Mas. conforme a posição em que se acham. de sorte que. Portanto. previsto de toda a eternidade! Nessa situação. moral e intelectual. aliás. Segundo o Espiritismo. a fim de que também e realmente o mérito lhes pertencesse. por isso que a criação de seres inteligentes é uma só. nem anjos nem demônios são entidades diferentes. subordinado a uma regeneração sincera e completa.

E como Deus criou de toda a eternidade. “Submetidos à lei geral do progresso. e o hábito do mal dificultalhes a regeneração. quando eles próprios delas usavam em relação aos filhos. satisfaz todos os fins da Criação. Entretanto. chega para eles um dia o cansaço dessa vida penosa e das suas respectivas consequências. estabelecendo direitos de primogenitura e outros privilégios de nascimento. 22. os Espíritos têm missões adequadas ao seu progresso. dos demônios e das almas – não admitindo a lei do progresso. E assim foi que chegou a fazer de Deus um pai parcial. Os anjos mais elevados conquistaram a sua graduação. sem que haja nisso o mínimo constrangimento. em virtude da sua aptidão para o mesmo. mas vendo todavia seres de diversos graus – concluiu que seriam produto de outras tantas criações especiais. . teimosia ou má vontade persistem em ficar por mais tempo nas classes inferiores.76 – Allan Kardec tendo decaído dela. ele quer pelo menos encontrá-la mais perfeita no Céu. Segundo o Espiritismo os demônios são Espíritos imperfeitos. elevando-se pelo próprio mérito – corresponde melhor à justiça de Deus do que a criação de espécies diferentes. negligência. não progridem. como os demais. mas por ato de espontânea vontade. Se o progresso fosse obrigatório não haveria mérito. porém. Por fim. ainda assim. aliada à ideia de uma origem comum – tendo o mesmo ponto de partida e trajetória. desejando-a para si e nem sempre encontrando-a na Terra. Os que por apatia. colocados na base da escala. na qual não resplenda a Justiça Divina na plenitude integral da sua pureza. e Deus quer que todos nós tenhamos o mérito de nossas obras. segue-se que de toda a eternidade houve número suficiente para satisfazer às necessidades do governo universal. alargou-se o circulo das ideias: o homem vê mais claro e tem noções mais precisas de justiça. mas o primeiro lugar a todos é permitido à custa do esforço próprio. com a faculdade de aceitá-los ou recusá-los. Deus lhes fornece constantemente os meios. sofrem as consequências dessa atitude. Deste modo só uma espécie de seres inteligentes. passando pela rota comum. Não admira que por muito tempo os homens achassem justificação para tais preferências. mais ou menos favorecidas de dotes naturais. concedendo tudo a alguns de seus filhos e a outros impondo o trabalho mais rude. suscetíveis de regeneração e que. procurando então se melhorarem. Chegados a certo grau de pureza. eles comparam a sua situação à dos bons Espíritos e compreendem que o seu interesse está no bem. preenchem assim todas as funções atribuídas aos anjos de diferentes categorias. Podiam tais homens acreditar que andavam mais errados que Deus? Mas hoje. submetida à lei de progresso. A teoria comum sobre a natureza dos anjos. hão de nela graduar-se. 23. contra a vontade”. que seriam outros tantos privilégios. a unidade da Criação. E aqui está por que lhe à razão rejeita toda e qualquer doutrina. Ninguém é colocado em primeiro lugar por privilégio.

hoje.77 – O CÉU E O INFERNO CAPÍTULO X INTERVENÇÃO DOS DEMÔNIOS NAS MODERNAS MANIFESTAÇÕES 1. a Igreja mantém as velhas crenças a respeito dos demônios. 3. Pela semelhança dos efeitos. a verdade podia ser desviada. dizemos. falar aos contemporâneos a mesma linguagem do passado. mais generalizados e mais bem observados à luz da razão e com o auxilio da Ciência. enquanto a Igreja se . Vem daí uma multidão de lendas. confirmaram. As doutrinas sobre o demônio. mas hoje – que observações rigorosas e estudos experimentais esclareceram a natureza. por assim dizer. o bárbaro e o homem civilizado. os seres que se manifestam apresentam os mais fundos contrastes. sem que por isso possamos supor que eles não tenham saído todos da grande família humana. Segundo a posição que ocupam em virtude do desenvolvimento intelectual e moral. prevalecendo por tanto tempo. Então. Diz ela: “Há princípios que não variam há dezoito séculos. do mesmo modo que o selvagem. a questão se resolve por fatos. e nunca a História foi tão ativa neste sentido como ultimamente. como sobre muitos outros. Até as coisas melhores. as descobertas mais úteis – sobretudo as que podiam abalar a ignorância e abrir o campo das ideias – foram tidas muita vez por obras diabólicas. porém agindo dentro de leis naturais e revelando por sua ação uma nova força e leis até então desconhecidas. Ora. origem e destino dos Espíritos. é. é certo. 2. o ignorante viu nos fenômenos espíritas uma causa sobrenatural. a intervenção de inteligências ocultas. a Humanidade progredindo. Os modernos fenômenos do Espiritismo têm atraído a atenção sobre fatos parecidos de todos os tempos. Sabemos agora que essas inteligências invisíveis são as almas dos que viveram na Terra. bem como o seu modo de ação e papel no Universo –. Sobre este ponto. Sabemos também que as diversas categorias de bons e maus Espíritos não são seres de espécies diferentes. porque são imutáveis”. concluiu-se a unidade da causa. bastando para tanto que o fato observado ultrapassasse os limites do poder humano. haviam de tal maneira exagerado o seu poder que fizeram. Como sempre acontece relativamente a fatos extraordinários que o senso comum desconhece. e a superstição completou o erro misturando-os com crendices absurdas. a questão se reduz em saber de que tipo são essas inteligências. Enquanto não possuíamos noções mais que incertas e sistemáticas do mundo espiritual. O seu erro é precisamente esse de não levar em conta o progresso das ideias. porém que apenas representam graus diversos de adiantamento. é supor Deus insuficientemente sábio para não proporcionar a revelação ao desenvolvimento das inteligências. Os fenômenos espíritas de nossos dias. que na maior parte são um misto de poucas verdades e muitas mentiras. esquecer Deus. em suma. por toda parte surgia o dedo de Satanás.

acabariam por formar uma religião cômoda para uso do socialismo e de todos a quem importuna a noção do dever e da consciência. da eternidade das penas. mostrando-se dotadas de força sobre-humana. As almas dos mortos. Eis como esta explica a intervenção exclusiva dos demônios nas manifestações espíritas58: Nas suas intervenções exteriores os demônios procuram disfarçar sua presença. D. em toda parte e de todos os tempos. colocar-se às ordens dos vivos. os seres misteriosos que acodem ao primeiro apelo do herege. falam e são ouvidos. solicitam confiança e provocam familiaridade. Quais são os agentes secretos desses fenômenos. do ímpio ou do crente – o que importa dizer da inocência ou do crime – não são nem enviados de Deus. despertam-lhe a admiração e subjugam-no pelo encanto do maravilhoso. o santuário dos ídolos e os pés das mesas e as mãos das crianças se tornam oráculos: é por isso que a pitonisa59 profetiza em delírio. como também não se prestariam a todos os caprichos da curiosidade. a fim de afastar suspeitas. Ora se apresentam como divindades e bons gênios. . que Deus proíbe evocar. Se o sobrenatural aparece e os desmascara. vemos reproduzirem-se no presente as evocações. como os das mesas falantes. isto em todas as línguas e sobre todos os assuntos. Por meio das operações da moderna magia. Como em outros tempos. da ressurreição do corpo. É a mesma fonte e. Se as suas sugestões pudessem prevalecer. Aqui atiçam sua curiosidade com fenômenos e partidas infantis. extinguem quaisquer apreensões. Os resultados surpreendentes dessas práticas ou atos ordinariamente fantásticos e ridículos – não podendo vir da sua virtude intrínseca. então. Sempre astutos e pérfidos. misturam com suas mentiras algumas verdades e inculcam o erro debaixo de todas as formas. 59 Pitonisa: na antiguidade. seduzem o homem com ciladas antes de algemá-lo na opressão e no servilismo. além disso. sem Sua permissão. E é para tal resultado que a madeira e a pedra. ora assimilam nomes e mesmo traços de memorados mortos. acha-se a gente em presença de seres invisíveis a usurparem nomes de mortos. Tais são claramente. os verdadeiros atores dessas cenas inexplicáveis? Os anjos. nem da ordem estabelecida por Deus – só podem ser atribuídos ao auxílio das potências ocultas. os fenômenos extraordinários obtidos em nossos dias pelos processos aparentemente inofensivos do magnetismo. nem apóstolos da verdade e da salvação. tal é o supremo objetivo dessas manifestações. como de toda a revelação divina. e da qual são corolários. manda-se e ela obedece. eles traem-se pela nulidade das suas doutrinas. para subtrair às leis a sua verdadeira sanção e abrir ao vício todas as barreiras. Procuram apagar do símbolo religioso os dogmas do pecado original. avassalando a própria Igreja. acalmam-se. Enganar e perverter. Assim possam as 58 As citações deste capítulo são extraídas da mesma pastoral indicada no precedente. interroga-se a madeira e esta responde. pela baixeza dos atos e incoerência das palavras. Eis o que significam as pretensas revelações de além-túmulo. A descrença do nosso século facilitou-lhes o caminho. assim era chamada a mulher que fizesse profecia e adivinhação – N. tanto em matéria espiritual como na científica. e não podem. Apesar do cuidado com que se ocultam sob os mais veneráveis nomes. que o ignorante se torna cientista num sono misterioso. a mesma autoridade. porém fatores do erro e agentes do inferno. 4. D. e cujas pretensas revelações têm o cunho da contradição e da mentira. Com o auxílio de tais fraudes dignas da antiga serpente.78 – Allan Kardec atrofia em velhos erros sistematicamente. as curas e bruxarias que ilustraram os templos dos ídolos e os antros das sibilas60. Assim. cedo virá a falta de fé. por conseguinte. formas inconsistentes e leves aparecem rápidas e repentinas. 60 Sibila: o mesmo que pitonisa – N. as consultas. dogmatizam e são acreditados. as florestas e as fontes. esses não aceitariam tais papéis indignos. essas demoram no lugar que lhes designa a Sua justiça.

procurando reconduzi-los a Deus e ao bem. tudo em grau mais elevado. é que compartilhou da revolta e foi transformada em demônios. como hipótese. Somente uma parte dos anjos. o papel estúpido do demônio. pois é notório – e é um fato – que as instruções emanadas do mundo invisível têm regenerado incrédulos e ateus. a inexperiência e a boa-fé dos homens. os homens teriam a liberdade e o recurso da escolha. É nesta última que se encontram os anjos de guarda encarregados da proteção de cada indivíduo. detido ao vício e à desordem das paixões? Esse não estará no caminho do inferno? Mas então como compreender que esse demônio atente a tal vítima a rogar a Deus. pela fé que nos merece. Das três categorias de anjos segundo a Igreja. a segunda do governo do Universo. escapar ao perigo desta nova e terrível invasão! 5. Mas vamos admitir. e vejamos se ela não se destrói por si mesma com os seus próprios argumentos. desde que Deus lhes permitira com tanta liberdade – seja já por sugestões ocultas. no entanto. desta última categoria. nas antigas como nas modernas manifestações dos Espíritos. do qual são provedores e recrutadores. mas o que se não compreende é que se dirijam aos que já lhes pertencem de corpo e alma. a previdência e a penetração dos anjos. Assim. é o resultado de observações e experiências que não vêm ao caso discutir aqui. e porque esse Deus é soberanamente justo e bom. Aos demônios são concedidos poderes transcendentes: nada perderam da natureza angélica. permitir também a manifestação dos bons anjos. 6. por uma sincera dedicação à fé católica. tendo ainda. a submeter-se à sua vontade. exaltando o repouso da vida doméstica! Ele poderá dizer aos recrutas que terão vida de trabalhos e privações com dez probabilidades contra uma de morrerem ou. a mais. É mais ainda: é supor da parte de Deus um abuso de confiança. Vejamos os fatos. Ao menos. seja por intensas manifestações – induzir os homens em erro. sendo estas antes o produto de uma criação especial – aliás. assim. da Terra. a doutrina acima citada. Toda esta teoria deriva do princípio de que os anjos e os demônios são seres distintos das almas humanas. pelo menos. compreende-se o emprego das seduções e simulacros do bem para atraí-los e perdê-los. para atenuar os males de tão odiosa concessão. astúcia. Ora. ardil e artifício. a renunciar ao mal? Como se compreende que exalte aos seus olhos a vida deliciosa dos bons Espíritos e lhe pinte a horrorosa posição dos maus? Jamais se viu negociante realçar aos seus fregueses a mercadoria do vizinho em prejuízo da sua. a primeira ocupa-se exclusivamente do céu. com poderes amplos de simular o bem para melhor seduzir. insuflando-lhes n’alma fervor e crenças nunca ocorridos. Quem mais estará nas garras do demônio do que aquele que blasfema de Deus. a esperteza. inferiores aos demônios em inteligência. é atribuir a Deus o intuito inconcebível de agravar a fraqueza. devia ao menos. dar aos anjos maus a exclusividade da tentação. 7. Nunca se viu um arrebanhador de soldados depreciar a vida militar. aconselhando-os a ir à loja dele. . em conhecimento e em toda espécie de faculdade. E é assim que opina pela exclusiva intervenção dos maus anjos. e vedando ao mesmo tempo toda e qualquer intervenção dos bons. compreende-se que se dirijam de preferência aos que estão no bom caminho e nele persistem. de ficarem sem braços nem pernas? É este.79 – O CÉU E O INFERNO sociedades cristãs. Porém. afastá-los de Deus e arrastá-los ao inferno. A possibilidade da comunicação dos mortos é uma questão de fato. possuem a sabedoria. O objetivo que os move é desviar os homens do bem. e a terceira. A razão recusa admitir tanta parcialidade em proveito do mal.

mais aptos nos tornamos para evocar Espíritos superiores. que todas as manifestações não partem dele. vocês conseguirão.80 – Allan Kardec Ainda por influência dessas manifestações temos visto diariamente regenerarem-se viciosos insistentes. do inferior. Ninguém as toma a sério. havemos de concluir. eles a apregoam como graça divina e não como obra do demônio. e o Espiritismo condena-as. constranger Espíritos a ficarem às ordens dos homens e satisfazerem-lhes os desejos. Eis o que diz o Espiritismo a tal respeito: 10. fórmulas e práticas cabalísticas era acusada de fornecer segredos para operar prodígios. A troco da própria alma. Ora. as consultas. moralizar os maus e continuar relações com seres que nos são caros. e eles profetizarão” (Atos dos Apóstolos. identificamo-nos com os bons Espíritos. Hoje sabemos que os Espíritos são as almas dos mortos e não os evocamos senão para receber conselhos dos bons. as curas e as adivinhações que ilustraram os templos dos ídolos e os antros das sibilas”. e é para obter esse resultado que a madeira. E como não se trata de simples suposição. XXV A mais essencial de todas as disposições para evocar é o recolhimento. Nesses dias repartirei meu Espírito por todos os meus servidores e servidoras. e. por faltar a vocês a autoridade sobre ele. Não poderão obrigar nunca a presença de um Espírito seu igual ou superior em moralidade. atribuir tão benéfica propaganda e saudável resultado ao demônio é conferir a ele diploma de tolo. a pedra. geralmente havidos por seres dotados de poder sobre-humano. Terão os teólogos de hoje mais autoridade que os apóstolos? Por que não ver antes o dedo de Deus na realização daquelas palavras? 9. revelar o futuro ou obter filtros. “Eles revelam o erro sob todas as formas. os jovens terão visões e os velhos terão sonhos. cap. Nós perguntamos: que há de comum entre as operações da magia e as evocações espíritas? Houve tempo em que tais operações faziam fé e muitos acreditavam na sua eficácia. O LIVRO DOS MÉDIUNS. medalha ou talismã tem a propriedade de atrair ou repelir Espíritos. O LIVRO DOS MÉDIUNS. procurando melhorarem a si mesmos. Não estará nessas palavras a predição explícita da mediunidade dos nossos dias a todos concedida. 8. visto como outros Espíritos os ajudam. ou que não é tão astuto e mau como se pretende. Com a fé e o desejo do bem. quando desejarmos tratar com Espíritos sérios. 2ª Parte. mas hoje são simplesmente ridículas. então. pois a matéria ação alguma exerce sobre eles. “Por meio das operações da moderna magia vemos reproduzirem-se no presente as evocações. 2:17-18). Elevando nossa alma por alguns instantes de concentração no momento de evocá-los. achar tesouros. tão temível quanto dizem. os santuários dos ídolos. ou que o demônio é um incompetente de primeira ordem. mas de fato experimental contra o qual não há argumento. A magia com seus sinais. era imperfeita a noção sobre a natureza dos Espíritos. ninguém os evocava que não fosse para obter favores da sorte e da fortuna. os pés das mesas e as mãos dos meninos se tornam oráculos”. as florestas. conseguintemente. e sendo para seu benefício. qual o sentido e valor destas palavras do Evangelho: “Eu repartirei meu Espírito por toda a carne: seus filhos e filhas profetizarão. as fontes. Mas. mesmo às crianças? E essa faculdade foi anatematizada pelos apóstolos? Não. Na época em que florescera a magia. mas. ou. predispondo a sua vinda. XXV Nenhum objeto. se assim é. Nunca um bom Espírito . 2ª Parte. cap.

cap. XVII Os Espíritos que receitam entrevistas em lugares sombrios e a horas indevidas são os que se divertem à custa de quem os ouve. inútil. 2ª Parte. cap. Se o homem conhecesse o futuro. cap. por certo que descuidaria do presente e não agiria com a mesma liberdade. Deus não permitiu que assim fosse. Entretanto. Só o charlatanismo poderia emprestar às comunicações formas esquisitas. O LIVRO DOS MÉDIUNS. além de ser supersticiosa a crença em tais influências. Diremos mais: que não há fórmulas nem palavras sacramentais ou cabalísticas para evocá-los. Parte 3ª. nº 49 O futuro é vedado ao homem por princípio e só em casos raríssimos e excepcionais é que Deus permite sua revelação. Quem quer que pretendesse estabelecer uma fórmula. O LIVRO DOS MÉDIUNS. Os momentos mais favoráveis são aqueles em que o evocador pode conter-se melhor das suas preocupações habituais. O QUE É O ESPIRITISMO. Entanto. 2ª Parte. finalmente. A virtude dos talismãs só pode existir na imaginação de pessoas simplórias. enchendo-os de acessórios ridículos. XXV Não há dias nem horas mais especialmente propícios às evocações: isso. visto que para os Espíritos puros a fórmula nada vale. É sempre inútil e muitas vezes perigoso ceder a tais sugestões. O LIVRO DOS ESPÍRITOS. que não há necessidade alguma de preparo ou iniciação. 2ª Parte. calmo de corpo e de espírito. 2ª Parte. O LIVRO DOS MÉDIUNS. que é nulo o emprego de quaisquer sinais ou objetos materiais para atraí-los ou repeli-los. mas pela influência que tais fatos podem exercer sobre cérebros fracos. Absorvidos pela ideia da fatalidade de um acontecimento. pois é por este que o homem progride. cap. a evocação deve ser feita sempre em nome de Deus. O LIVRO DOS MÉDIUNS. cap. mas facilita a sua realização. X Os Espíritos não podem guiar descobertas nem investigações científicas. como não há dias nem lugares. e perigoso. tão simples e naturalmente como se tais comunicações fossem ditadas por uma pessoa vivente. Para conhecimento das pessoas estranhas à ciência. XXV Não há fórmulas sacramentais para evocar Espíritos. II. como tudo que é material. poupariam trabalhos de imaginação e alegações que só servem para demonstrar a sua ignorância e má vontade. bastando para tanto o pensamento. ou procuramos impedi-lo ou não nos preocupamos dele. não pelo mal que os Espíritos possam fazer. Que mérito nós teríamos se apenas bastasse interrogar os Espíritos 61 Nigromancia: o mesmo que necromancia. porque nada se ganha além de uma mistificação. que os médiuns recebem as comunicações deles sem sair do estado normal. . D. XXV A crítica malévola agrada-se em representar as comunicações espíritas revestidas das práticas ridículas e supersticiosas da magia e da nigromancia 61. a fim de que cada qual colaborasse para a realização dos acontecimentos mesmos. cap. é completamente indiferente aos Espíritos. e. A Ciência é obra do inteligente e só deve ser adquirida pelo trabalho. que porventura desejaria evitar. para comunicar com os Espíritos.81 – O CÉU E O INFERNO aconselha tais absurdos. Ele permite a revelação do futuro quando o conhecimento prévio de uma coisa não atrapalhe. Porém. se os que falam do Espiritismo – sem conhecê-lo – procurassem estudá-lo. o ato de evocar os mortos para obter profecias – N. diremos que não há horas mais propícias que outras. poderia ser tachado de usar de charlatanismo. induzindo a procedimento diverso do que se teria sem tal circunstância.

nunca. efeitos de todos os tempos conhecidos. em outras eras. uma vez que os princípios . O LIVRO DOS MÉDIUNS. cap. do contrário não. nem sinais ou fórmulas cabalísticas. e o físico provocando a queda do raio. Separa-se dele no momento da morte. Ampliamos estas citações para mostrar que os princípios do Espiritismo não têm relação alguma com os da magia. O mesmo se dá relativamente aos inventos e descobertas da indústria. do que constitui o fim e os elementos essenciais da magia. Eis por que os Espíritos não produzem milagres. nem Espíritos às ordens dos homens. não se deixem dominar pela ambição e pela curiosidade. só a ignorância e a má-fé poderão confundi-los. O LIVRO DOS MÉDIUNS. Conhecida essa lei. pois que de todos os tempos se produziram –. Quem pretendesse fazer milagres pelo Espiritismo não passaria de ignorante. cap. os Espíritos encarregados da sua marcha procuram o homem capaz de levála a execução e lhe inspiram as ideias necessárias. nem processos para enriquecer. para melhor dizer. esta circunstância tem uma utilidade. II. Os superiores não se ocupam de tais coisas e só os zombeteiros podem brincar com elas. O Espiritismo. XXVI Os Espíritos não podem favorecer para a descoberta de tesouros ocultos. também não faz esse. todo imbecil poderia se tornar sábio. Assim tem sido com todos os grandes trabalhos da inteligência humana. esse alguém as encontrará naturalmente. já apontando lugares exatamente opostos àqueles em que realmente existem. II Há pessoas que fazem das evocações uma ideia muito falsa: há mesmo quem acredite que os mortos evocados se apresentam com todo o aparelho sombrio do túmulo. isto de maneira a não lhe tirar o respectivo mérito. O QUE É O ESPIRITISMO. 1ª Parte. que está na elaboração e operação dessas ideias. pois que jamais fez reviver um corpo morto. em terreno alheio ao do Espiritismo. e nada mais têm de comum entre si. mas cuja lei se ignorava e de cuja ignorância brotava a superstição. que tais fins não tem. pelo menos incompreendida. cap. fatos e coisas que passaram por prodígios. já indicando tesouros que na maioria das vezes não existem. nem meios de constrangê-los. Então. Dessa forma. ou então de mero enganador. adivinhações e aparições fantásticas: nada. tal erro não pode prevalecer. O Espírito. nº 48 11. fluídico. que lá fica definitivamente. que é a de mostrar que a verdadeira fortuna reside no trabalho. Os Espíritos deixam cada indivíduo na sua esfera: do homem apenas apto para lavrar a terra não fazem depositários dos segredos de Deus. que nunca fez milagres. cap. Chegado que seja o tempo de uma descoberta. como o médico não faz milagre em restituir à vida o moribundo. ele nos revela uma lei – senão desconhecida. inteligente. enfim. Tais suposições podem ser atribuídas ao que vemos nos teatros ou lemos nos romances e contos fantásticos. nem descobertas de tesouros. e tampouco milagres ou prodígios. 2ª Parte. Do mesmo modo que o magnetismo. Assim. esse não baixa à campa com o grosseiro invólucro. desaparece o maravilhoso e os fenômenos entram para a ordem das coisas naturais. mas sabem arrancar da obscuridade aquele que se mostra capaz de lhes ajudar nos desígnios.82 – Allan Kardec para tudo saber? Por esse preço. 2ª Parte. O Espiritismo não só reprova tais coisas como demonstra a impossibilidade e ineficácia delas. onde os mortos aparecem amortalhados chocalhando os ossos. o LIVRO DOS MÉDIUNS. pois com eles só conseguirão as mais ridículas mistificações. Afirmamos mais uma vez: não há semelhança alguma entre os processos e fins da magia e os do Espiritismo. fazendo girar as mesas ou os mortos escreverem. XXVI Esclarecendo-nos sobre as propriedades dos fluidos – agentes e meios de ação do mundo invisível constituindo uma das forças e potências da Natureza – o Espiritismo nos dá a chave de inúmeros fatos e coisas inexplicadas e inexplicáveis de outro modo. Quando a Providência tem destinado a alguém quaisquer riquezas ocultas. Contudo. ou então.

O autor da Pastoral cai em erro quando afirma que tais fenômenos são inexplicáveis. que substitua o vocábulo anjo pelo de espíritos puros ou espíritos superiores. “Quais são os agentes secretos de tais fenômenos. Os Espíritos superiores só se ocupam de comunicações inteligentes. qualquer sinal de malevolência. como também não se prestariam aos caprichos todos da curiosidade”. é forçoso confessar que faz uma boa e meritória ação62. pois que assim teremos exatamente o que diz o Espiritismo. indignas dos bons Espíritos. quanto era lógico em outras ocasiões dar a este as honras de todos os fenômenos naturais. essas curas são outros tantos benefícios que levam à gratidão e que todos podem experimentar. 62 Querendo convencer as pessoas curadas pelo Espiritismo que assim foi por causa do diabo. etc. encaminhando os homens para Deus pela virtude. o exemplo está mal selecionado como meio de evitar relações com os Espíritos. hoje esses fenômenos são perfeitamente explicados. não se pode considerar uma multidão de comunicações dadas pela escrita. Os Espíritos inferiores. grande número delas se separou da Igreja.83 – O CÉU E O INFERNO espíritas não se furtam ao exame. Mas dado de barato que assim não foi. isto é. toda máxima contrária à sã moral. Quanto às curas. aparições e um sem-número de fatos que os livros santos citam em abundância como obra de anjos ou de santos. tanto que se não consideram mais como maravilhosos e sobrenaturais. como se infere dos seguintes preceitos: 13. trivial ou simplesmente fútil. O autor quer falar das manifestações físicas dos Espíritos. Nós lhe pediremos. se o diabo cura. sem excessos inúteis. e aí estão formulados inequívoca e claramente para todos. reconhecidas como reais na pastoral precitada. modéstia. pela audição. é que suprem o vazio das ideias com abundância de frases. principalmente depois de haver esgotado outros recursos antes de recorrer ao diabo. cuja causa então se desconhecia. nobre. imune de qualquer contradição. são indícios incontestáveis da inferioridade de um Espírito. enquanto nas mãos de outros se reputam santos milagres? Sustentar semelhante tese é renunciar toda a lógica. O mesmo poderemos dizer quanto às curas. Ora. Além disso. Pois se os anjos e os santos produziram fenômenos semelhantes noutros tempos. porém.. Efetivamente. clara. pela palavra. Todo pensamento implicitamente falso. Pouca gente estará disposta a renunciar a elas. todo conselho ridículo. sem que jamais pensassem fazê-lo. os verdadeiros autores dessas cenas inexplicáveis? Os anjos. Depois. ignorantes ou orgulhosos. no número das quais evidentemente há algumas pouco dignas de Espíritos superiores. por que não produzirão o mesmo hoje? Por que fatos idênticos serem julgados bruxaria nas mãos de uns. o Espiritismo diz expressamente que os papéis indignos não cabem aos Espíritos superiores. de presunção ou de arrogância. pois que tais comunicações seriam e são dignas dos homens mais eminentes da Terra. toda expressão grosseira. ressoa sabedoria. Por papéis indignos devemos entender os que visam o mal e o ridículo. contudo. é exata. tão lógico seria atribuí-los ao diabo. visando instruir-nos. a menos que queiramos qualificar de tal a obra positiva dos bons Espíritos. O que se dá é justamente o contrário. esses não aceitariam papéis indignos. Conhecemos a qualidade do Espírito por sua linguagem: os verdadeiramente bons e superiores têm sempre uma fala digna. . 12. que promovem o bem. benevolência e a mais pura moral. lógica.

39.Diferentes ordens de Espíritos. pelo contrário. o que constitui um direito do seu livrearbítrio. Logicamente. por pouco elevado que seja. 14. sem a permissão de Deus. bons ou maus. Qual é o homem de boa-fé que pode entender nestes preceitos atribuições incompatíveis com Espíritos elevados? Não. 2ª Parte. quando evocam: “Rogamos a Deus todo-poderoso permitir que um bom Espírito se comunique conosco. cap.se. ao passo que o Espiritismo afirma e confirma. 38.. bem como aos nossos anjos de guarda assistir-nos e afastarem os Espíritos malvados”. XXV O Espírito evocado pode se recusar a vir pela evocação que lhe fazem? Perfeitamente. tendo muito limitados o seu horizonte moral e perspicácia. popularmente designados por Espíritos batedores. sem a permissão de Deus. O LIVRO DOS MÉDIUNS. O LIVRO DOS MÉDIUNS. segundo a sua teoria.Identidade dos Espíritos. que dizem. só se recusando a responder quando é em reunião de pessoas pouco sérias que levem a coisa em ar de gracejo. à lei que rege o Universo. mediante tal permissão e correspondendo ao apelo dos vivos. colocar-se à disposição dos vivos”. O Espírito evocado vem voluntariamente. (O QUE É O ESPIRITISMO. Seria absurdo supor que um Espírito. goste do alarde e da bagunça. o Espiritismo não confunde os Espíritos. ao passo que a Igreja de tal não cogita relativamente aos demônios. Podem acaso acreditar que todos os seres do Universo estejam à sua disposição? E vocês mesmos se julgam obrigados a responder a todos quantos pronunciam o seu nome? Mas quando digo que o Espírito pode recusar. cap. contra as evocações não atingem .”. II. 40 e 60.. Escala espírita.84 – Allan Kardec As manifestações físicas ou puramente materiais competem mais comumente aos Espíritos inferiores. O Espírito superior não deixa de vir sempre que é evocado para um fim útil. 2ª Parte. O Espiritismo diz mais que. E em se tratando de evocação de um Espírito determinado: “Rogamos a Deus todo-poderoso permitir que tal Espírito se comunique conosco. conseguintemente. O LIVRO DOS MÉDIUNS. isto é. ele julga da utilidade ou inutilidade da sua manifestação. cap. subordino essa negativa ao pedido do evocador. cap. essas demoram no lugar que lhes designa a Sua justiça. e não podem. XXIV . se dispensam de tal permissão. 2ª Parte. as acusações formuladas pela Igreja. XVII. “As almas dos mortos. sem Sua permissão. cap. Distinção dos bons e maus Espíritos). incapazes de resolver certas questões e. nº 37. nº 203 15. I . baseado na observação dos fatos. e O LIVRO DOS MÉDIUNS. de fazer tudo quanto se atribui aos demônios. Parte 2ª. 2ª Parte. de feição a terem das coisas uma ideia muita vez falsa e incompleta. os Espíritos não se põem à disposição destes. cap. os quais. XXV Tanto os espíritas estão convencidos de que nada podem sobre os Espíritos diretamente. O Espiritismo vai além e é mais rigoroso: não admite manifestação de quaisquer Espíritos. atribui aos demônios uma inteligência igual à dos anjos. por isso que um Espírito inferior pode ser forçado por um superior a se manifestar. visto que tem o seu livre-arbítrio. pela mesma razão por que entre nós os torneios de força e agilidade são próprios de leigos e não de sábios. Ver também O LIVRO DOS ESPÍRITOS. A Igreja sim. que os Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes. ou é obrigado a se manifestar? Obedecendo à vontade de Deus. distingue-os. que Deus proíbe evocar.

mas fatores do erro e agentes do inferno”. o ímpio e o criminoso! Somente lhes envia os tentadores do inferno. Pesa dizêlo. Mas a distinção que tal crítica não faz. “Assim. os seres misteriosos que acodem ao primeiro apelo do herege63. mas. D. quando. certamente porque se esquecestes desta parábola do Cristo: “Não é o homem sadio que precisa de médico”. seria melhor bendissessem os decretos do Senhor. nos praticantes de magia e adivinhação – e com razão. Finalmente. O Espiritismo condena tanto quanto a Igreja as referidas práticas. veem tantas almas no caminho do inferno sem que procurem desviá-las? Mas isso é precisamente a imagem do egoísmo desses poderosos que. Assim. admirando Sua onipotência e bondade infinitas. orgulho ou ambição se afaste dos verdadeiros princípios da Doutrina. Dizem que há anjos de guarda. para mais mergulhá-los no lodo. . a crítica religiosa ou descrente desmascara a exploração. 16. do ímpio ou do crente – o que importa dizer: da inocência ou do crime – não são nem enviados de Deus. vocês se recusariam mostrar o bom caminho ao descrente que lhes chamasse? Pois bem: os bons Espíritos fazem o que fariam. não é lógico nem razoável imputar abusos ao Espiritismo que ele é o primeiro a condenar. o verdadeiro Espiritismo condena estes tanto quanto a verdadeira religião condena os crentes hipócritas e os fanáticos. Antes de formular qualquer acusação. a censura aplicada ao mal e à qual todo espírita sincero e reto se associa. dirigemse ao descrente para dar bons conselhos. quem faça delas um jogo.85 – O CÉU E O INFERNO o Espiritismo. nos especuladores. diremos: A censura da Igreja recai nos enganadores. e os erros daqueles que não o compreendem. quem lhes desnature o caráter providencial em proveito de interesses pessoais. leviandade. as brilhantes qualidades que exornam tais seres? Acaso é tão somente para seu gozo pessoal? E serão eles realmente bons. segundo a Igreja. Certamente que há quem abuse das evocações. pois. ao mesmo tempo em que não confere aos Espíritos superiores um papel indigno deles. convém saber se é justa. Deus não envia à inocência senão seres perversos para seduzila! Essa Igreja não admite entre os anjos – entre as criaturas privilegiadas de Deus – um ser bastante compassivo que venha em socorro das almas caídas! Para que servem. Estas palavras dizem que Deus não permite a manifestação de bons Espíritos que possam esclarecer e salvar da eterna perdição o herege. 17. sendo impiedosos no farto luxo. extasiados pelas delícias da contemplação. nem algo pergunta ou pretende obter sem a permissão de Deus. Então não têm um ponto de vista mais elevado que o dos fariseus daquele tempo? E vocês mesmos. essa nem prejudica nem afeta a Doutrina. dissecando abusos. auxiliando-a na limpeza de maus elementos e facilitando-nos a tarefa. deixam morrer à fome o mendigo que lhes bate à porta! É mais ainda: É o próprio egoísmo coberto de virtude e colocado aos pés do Criador! Mas vocês se admiram que bons Espíritos venham ao herege e ao ímpio. Portanto. nem apóstolos da verdade e da salvação. Quando. ou ainda quem por ignorância. Oh! Em lugar de anatematizarem as comunicações de além-túmulo. mas quando não podem insinuar-se pela voz misteriosa da consciência ou da inspiração. outros a fazem. por que não empregarem meios de ação 63 Herege: quem segue uma ideia contrária aos dogmas da Igreja – N. não faz mais que realçar a pureza da sã doutrina. com a qual este nada tem de comum. O erro da crítica está no confundir o bom e o mau – o que muitas vezes sucede pela má-fé de alguns e pela ignorância do maior número. porém as práticas da magia.

e. em Sua misericórdia. Pois bem: agora. Dizem que Deus enviou o Cristo. 18. a difundi-la por todos e em toda a Terra – a santa palavra de Jesus. em se lhe tirando os seus demônios. sempre interessados na salvação de suas criaturas. dos que a conhecem. e a palavra sobreviveu-lhe porque era divina. baixando a todas as terras. oram hoje com fervor. é uma religião que se suicida. porém. outros mensageiros. porém. a põem em prática. abreviando o evento do reinado divino? Mas eis que chegam esses mensageiros em hostes inumeráveis. Deus. Além disso. caridosos e recatados?! E tudo por obra do diabo! Ah! Mas se assim for. diziam. claro é que a toda essa gente o demônio tem prestado melhor serviço e guarda que os próprios anjos. o caminho da salvação. formar uma triste opinião do senso humano dos nossos tempos. mas contem – e somente após a sua vinda – quantos não puderam ouvir a palavra da verdade. egoístas e devassos se tornaram humildes. que. e após dezoito séculos. reconduzem a Deus os que o renegavam e ao bem os escravizados ao mal. o seu ensino se amplia com a rapidez do raio. ao passo que a Igreja era impotente para convertê-los. pobre e fraco: decretaram Sua morte julgando acabar Sua mensagem. Então. e suprir. Como se explica. abrindo os olhos aos cegos. finalmente. sancionar os seus erros e sustentar o seu poder. graças às instruções desses demônios! Quantos orgulhosos.86 – Allan Kardec mais diretos e materiais de modo a impressionar os sentidos. que os deixasse depois em abandono? Não há dúvida de que Jesus é o mensageiro divino enviado aos homens para ensinar a verdade. por que Deus não lhes enviar. entre grandes e pequenos. para salvar os homens. entretanto. numerosas separações surgiram já do seio da cristandade. quantos. em que pese a tais razões. as suas penas eternas e o seu deus impiedoso. devemos dizer que essa palavra só se propagou lentamente. quantos morreram e morrerão sem conhecê-la. ditas infernais. repelem o bem que fazem e clamam de demônios! Não era outra a linguagem dos fariseus relativamente ao Cristo. uma vez que tais meios existem? E já que tudo vem de Deus e nada ocorre sem a sua permissão. Mas o Cristo era só. Para os fariseus eram maus os frutos de Jesus. torná-la compreensível aos que não a compreendem. a exemplo de Jesus! Que fazem vocês. E o grande caso é que os Espíritos não estão encarnados num só homem cuja voz seria limitada: eles são inumeráveis. os demônios fazem por si: servindo-se de tais comunicações. Uma religião. a insuficiência na propagação do Evangelho. curando os enfermos. enfim. andam por toda parte e não podem ser tolhidos. porque ele vinha destruir o abuso e proclamar a liberdade que lhes arruinaria a autoridade. ignorantes e sábios. Ele seria o esperado Messias dos judeus. para crer que os homens aceitem cegamente tais ideias. convertendo os infiéis. seu filho. Também por isso. envia os Espíritos a confirmála. consolando os aflitos. e porque falam ao coração e à . pelo seu ensino direto e múltiplo. que faz pedra angular de tal doutrina. crédulos e cépticos. a completá-la. então sim. dizemos. Contudo. o seu inferno. É necessário. provando-lhes com isso o seu amor. Homens que jamais oraram. fazia o bem por artes do diabo! E o Nazareno respondeu-lhes: “Reconheçam a árvore por seu fruto: a má árvore não pode dar bons frutos”. uma religião tal. Esses demônios fazem mais: dão-nos o espetáculo de milhões de homens acreditando em Deus por intercessão da sua potência diabólica. uma religião que se destrói pela base. Se ao invés disso Jesus tivesse vindo lisonjear-lhes o orgulho. venham ensinar a verdade aos que a desconhecem. por ela. e como os recebem? Ah! Vocês os repudiam. apenas é conhecida de uma décima parte do gênero humano. podemos admitir que Ele conceda tais meios aos maus Espíritos e os recuse aos bons? Nesse caso é preciso confessar que Deus facilita mais poderes ao demônio para levar os homens à perdição do que aos anjos de guarda para salvá-los! Pois bem! O que– segundo a Igreja – os anjos de guarda não podem fazer. que.

19. vingativo e cruel. Apesar. . provando a existência do mundo espiritual e demonstrando à saciedade que esse mundo não é tal. e não de fazer do Deus justo e bom. Dizem que não é indigno de celestes mensageiros transmitir suas instruções por meio tão vulgar qual o das mesas? Não será desonrá-los supor que se divertem com futilidades deixando a sua mansão de luz para se porem à disposição do primeiro curioso? Jesus também deixou a mansão do Pai para nascer num estábulo. isto é. E quem disse a vocês que o Espiritismo atribui futilidades aos Espíritos superiores? Não. que as coisas vulgares são próprias de Espíritos vulgares. mas sob condição de praticar os sublimes ensinamentos que ela contém. qual é o de abalar muitas imaginações. que nela reconhecemos. Essas manifestações iniciais eram porventura simples como tudo que começa. Quem acreditaria que da misérrima manjedoura de Belém pudesse sair a palavra que havia de transformar o mundo? Sim! O Cristo é bem o Messias divino. dessas vulgaridades resulta um benefício. o Espiritismo afirma positivamente o contrário. fundada na qual a religião se torna inabalável.87 – O CÉU E O INFERNO razão. um Deus injusto. A sua palavra é bem a palavra da verdade. são pelos humildes mais compreendidos. porém muito diferente do que se julgava. mas nem por germinar de minúscula semente a árvore deixa um dia de estender verdejante e copada a sua ramagem.

88 – Allan Kardec CAPÍTULO XI DA PROIBIÇÃO DE EVOCAR OS ESPÍRITOS 1. seja por intermédio dos que os evocam e interrogam. É em vão recorrer aos Evangelhos como alguns fazem para justificar a sua interdição. como vimos nas citações precedentes. e o seu sangue recairá sobre eles” (Idem. as nações que cometem tais crimes” (18:10-12). Morra de morte o homem ou a mulher em quem houver Espírito pitônico 65. interrogando os mortos para saber a verdade. que use de malefícios. quem use de malefícios. 18:9 a 12). Aqui está: “Não se desviem do seu Deus para procurar mágicos. morra de morte. O Senhor abomina todas essas coisas e exterminará todos esses povos. D. admite-as totalmente. Não procurem os mágicos. Serão apedrejados.) O Deuteronômio (quarto livro bíblico) diz: Que nunca exista entre vocês quem consulte adivinhos. tomem cuidado em não imitar as abominações de tais povos. Gentios: como eram chamados os estrangeiros em Israel. encantamentos. D. de pitonisa: Espírito de adivinhador – N. Para melhor compreensão do verdadeiro sentido das palavras de Moisés. O supremo argumento que prevalece é a proibição de Moisés. sortilégios e encantamentos. visto que os Evangelhos nada dizem a esse respeito. O Senhor abomina todas essas coisas e destruirá. de maneira a se contaminarem por meio deles. nem procurem saber coisa alguma dos adivinhos. A seguir damos os termos nos quais a mesma pastoral. seja imediatamente. (20:27. ou de adivinho. sortilégios. se refere ao assunto: “Não é permitido entreter relações com eles (os Espíritos). “Quando entrarem na terra que o Senhor Deus há de lhes dar. diz o Levítico (terceiro livro da Bíblia). 64 65 . Ao contrário. que citamos nos capítulos precedentes. atribuindo-as à exclusiva intervenção dos demônios. guardem-se. por causa dos crimes que têm cometido” (Deuteronômio. é inútil reproduzir por completo o texto um tanto abreviado na citação anterior. e temam que se contaminem dirigindo-se a eles. na entrada. e entre vocês ninguém pretenda purificar filho ou filha passando-os pelo fogo. sejam apedrejados e que seu sangue recaia sobre eles. “O homem ou a mulher que tiver Espírito pitônico. não consultem os adivinhos. (19:31). que consulte os que têm o Espírito de Píton66 e se propõem adivinhar. os não-isrealitas – N. quem observe sonhos e agouros. 2. 66 Piton: o mesmo que pitonisa: adivinhadora – N. Espírito Pitônico. à entrada. 20:27). D. 19:31). ou consultem os que têm o Espírito pitônico e se dão a práticas de adivinhação interrogando os mortos. A lei mosaica punia os gentios64. A Igreja de modo algum nega a realidade das manifestações. Eu sou o Senhor seu Deus” (Levítico.

e era sabido que naquelas nações que iam combater encontrariam as mesmas práticas. O legislador hebreu queria que o seu povo abandonasse todos os costumes adquiridos no Egito. De quem vocês riem? Contra quem abriram a boca e mostraram línguas cortantes? Vocês não são filhos perversos de bastarda raça – vocês que procuram conforto em seus deuses debaixo de todas as frontes. Os israelitas não deviam contratar alianças com as nações estrangeiras. Eis ao que ficarão reduzidas todas essas coisas das quais você têm ocupado com tanto afinco: os traficantes que convosco traficam desde a infância foram-se. Demais.) Diz ele que os adivinhos não impedirão a ruína da monarquia. 4. filha de caldeus”. Para justificar essa aversão. Neste capítulo Isaías dirige-se aos babilônios sob a figura alegórica “da virgem filha de Babilônia. a mesma razão procede para a proibição de que tratamos. é preciso expor os motivos que justificavam essa proibição e que hoje se anularam completamente. vocês. porque a evocação dos mortos não se originava nos sentimentos de respeito. nem carvões que possam aquecer. 8:19). As seguintes palavras do profeta justificam o decreto: “Quando se disserem: Consultem os mágicos e adivinhos que balbuciam encantamentos. quem enlouquece os que se propõem adivinhar. raça dum homem adúltero e de uma mulher prostituída. não poderão livrar suas almas do fogo ardente. sob os rochedos sobranceiros? Depositaram a confiança nas pedras da torrente. ofereceram sacrifícios. ao que parece. seus pítons e seus mágicos” (19:3). por política. não restarão das chamas que despedirem. e o fogo os devorou. é certo que seja igualmente em todos os outros. sacrificando-lhes os pequenos filhinhos nas torrentes. Estas palavras são inequívocas e provam claramente que nesse tempo as . Depois disso como não se acender a minha indignação?” (57:3 a 6). venham agora salvar vocês. tal como nas adivinhações e presságios explorados pelo charlatanismo e pela superstição. “Sou eu quem aponta a falsidade dos prodígios mágicos. seus adivinhos. afeição ou piedade para com eles. Essas práticas. e daí estas palavras: “O Senhor abomina todas essas coisas e destruirá. não conseguiu desentranhá-las dos costumes populares. No seguinte capítulo dirige-se diretamente aos israelitas. “Que esses adivinhos – que estudam o céu. Moisés devia inspirar aos hebreus aversão a todos os costumes que pudessem ter semelhanças e pontos de contato com o inimigo. sendo antes um recurso para adivinhações. as nações que cometem tais crimes”. espalharam e beberam licores em sua honra. à sua chegada. “Venham aqui. Eles tornaram-se como a palha. respondam: Cada povo não consulta ao seu Deus? E se fala aos mortos do que compete aos vivos?” (Isaías. quem transtorna o espírito dos sábios e confunde a sua ciência vã” (44:25). Pois. Desde que se reconhece que a lei mosaica não está mais de acordo com a nossa época e costumes em dados casos. Por que seria ela boa no tocante às evocações e má em outras de suas partes? É preciso ser consequente. sem que um só deles se encontre que se tire os seus males” (47:13 a 15). cada qual para seu lado. era preciso que apresentasse tais práticas como reprovadas pelo próprio Deus. contemplam os astros e contam os meses para fazer predições – dizendo revelar-vos o futuro. como se infere destas palavras de Isaías: “O Espírito do Egito se aniquilará de si mesmo e eu precipitarei seu conselho. por mais que fizesse. eles consultarão seus ídolos. onde as evocações estavam em uso e facilitavam abusos. 1. A proibição de Moisés era bastante justa. filhos de uma pitonisa. e Moisés. (v.89 – O CÉU E O INFERNO 3. também eram objeto de negócio. nem fogo ao qual se possam sentar. Se a lei de Moisés deve ser tão rigorosamente observada neste ponto.

mas um sentimento de piedade. e a ninguém ocorre que possamos ser governados pelos mesmos meios dos judeus no deserto e tampouco que os códigos de Carlos Magno se moldem à França do século XIX. Quem pensaria hoje. mas hoje a razão predomina. A perda do boi era a punição que devia ser bem sensível para um povo de pastores. Uma dessas leis é invariável. proibindo tais coisas e afirmando que Deus detestava isso. por ser proibido comer a carne. ao mesmo tempo em que constituíam comércio. causa do acidente. silenciando igualmente princípio do capítulo que proíbe aos sacerdotes a posse de bens terrenos e partilhar de qualquer herança. que nos parece tão absurdo. consolador e religioso das relações de além-túmulo. este artigo. nem se apercebem que tais argumentos são negativos. para obrigar o proprietário a maior vigilância. Entretanto. se ele pronunciou a última pena contra os delinquentes. Portanto. apropriada aos costumes e caráter do povo. porque o é. nos princípios do Espiritismo. Contudo. em reviver este artigo da lei mosaica: “Se um boi atingir um homem ou mulher. por exemplo. 21:28 e seguintes). Essas práticas supersticiosas perpetuaram-se até à Idade Média. Há duas partes distintas na lei de Moisés: a lei de Deus propriamente dita – promulgada sobre o Sinai – e a lei civil ou disciplinar. Sem prisões nem casas de correção no deserto. além de que o seu povo não era de natureza a se atemorizar com penas puramente disciplinares. mas o dono do boi será julgado inocente”? ( Êxodo. ao passo que a outra se modifica com o tempo. que disso morram. Moisés tinha razão. . uma vez que repudiam traficar com a capacidade de se comunicar com os Espíritos. uma vez que não interrogam astros. aliviando as almas sofredoras. reconheceriam que nada existe de semelhante. A lei civil contemporânea pune todos os abusos que Moisés tinha em vista reprimir. uma vez que os espíritas não sacrificam criancinhas nem fazem libações para honrar deuses. acompanhadas até de sacrifícios humanos. A verdade é que o Espiritismo condena tudo que motivou a interdição de Moisés. um desejo de se instruir e se melhorar. era muito usada na legislação mosaica. entretanto. associadas às práticas da magia e do sortilégio. com o que se passava entre os hebreus. No entanto. ao demais. falta razão aos que se apoiam na severidade do castigo para provar o grau de culpabilidade da evocação dos mortos.90 – Allan Kardec evocações tinham por fim a adivinhação. 28:1-2). pois não havia muito onde escolher nos meios de repressão. Se os que clamam injustamente contra os espíritas se aprofundassem mais no sentido das palavras bíblicas. então reviver com tanta insistência este artigo. não tinha outro objetivo que o de punir o boi e inocentar o dono. é porque lhe faltavam meios pacíficos para governar um povo tão indisciplinado. Esta pena. mortos e áugures para adivinhar a verdade sabiamente velada aos homens. Por consideração à lei de Moisés. uma vez que não os move a curiosidade nem a cupidez. a proibição de Moisés não pode ser extensiva a eles. a ponto de dispensar outra qualquer. que o boi seja apedrejado e ninguém coma de sua carne. Por conclusão. Moisés não podia graduar a penalidade como se faz em nossos dias. essa perda a ninguém aproveitava. no afã de encontrar argumentos com que rebatam as novas ideias. uma vez que assim é. equivalendo simplesmente à confiscação do animal. conviria manter a pena capital em todos os casos nos quais ele a prescrevia? Por que. por serem completamente falsos. Outros artigos prescrevem o caso em que o proprietário é responsável. 5. mas os seus adversários. ao mesmo tempo em que o Espiritismo veio mostrar o fim exclusivamente moral. porque o Senhor é a sua própria herança? (Deuteronômio.

não pode aprovar. fazendo da sua lei o código dos cristãos. prova que entre os hebreus as evocações eram um meio de adivinhar. à qual Jesus se submeteu e não aboliu? Ah! esquecem que. junto aos de adivinho e agoureiro. que aconteceria se as leis fossem promulgadas em seu próprio nome! Jesus veio modificar a lei mosaica. nunca para conseguir revelações ilícitas. por que os mandamentos se limitam ao decálogo (dez leis)? Qual a razão de ser da diferença? Pois não é certo que se todas essas leis emanam de Deus devem todas ser igualmente obrigatórias? E por que não conservaram a circuncisão. Mas. O próprio vocábulo interrogação. os espíritas só evocam mortos para receber sábios conselhos e obter alívio em favor dos que sofrem. suponhamos que essa lei tem a plenitude da autoridade concedida por alguns. aliás. decerto não lhe daria um código igual ao dos hebreus. Demais. mas a forma. adaptavam-se às circunstâncias ocasionais. longe de proibi-las. mas sim confirmou a lei do Sinai. 9. e se apesar disso. Ele disse: “Vocês sabem o que foi dito aos antigos. porque a sua lei não rege o Cristianismo. não são exclusivamente demônios. porque é imprópria aos costumes da nossa época. como vimos. tinha necessidade desse recurso. como acessória às práticas da feitiçaria. e segundo. Mas julgando-as todas de fonte divina. todos os legisladores antigos lhes atribuíam uma origem divina. tal e tal coisa. Convém também notar que. Portanto. principalmente Ele tendo tratado de outros assuntos menores. porque não invoca a lei de Moisés contrária às relações com os mortos. Jesus nunca aludiu em parte alguma à proibição de evocar os mortos. bem como o fundo. Pois bem: Moisés. como fazem as seitas cristãs. da qual toda a sua doutrina moral é um desdobramento. Moisés as abraçaria. ele teve dificuldade em se fazer obedecer. ou por outra. uma vez que tudo ela prevê em seus mínimos detalhes. se os hebreus usassem das comunicações como fazem os espíritas. quando este era um assunto bastante grave para ser omitido nas suas prédicas. atento o caráter do seu povo. A esta objeção opõem a afirmativa de que todas as leis de Moisés foram ditadas em nome de Deus. Finalmente convém saber se a Igreja coloca a lei mosaica acima da evangélica. . Se Moisés voltasse em nossos dias para legislar sobre uma nação civilizada. se os mortos podiam vir naqueles tempos. Mas temos ainda outra contradição: Se Moisés proibiu evocar os mortos. É verdade que a proibição de Moisés abrange a interrogação dos mortos. 6. também podem hoje. precisamente a judia é que faz menos oposição ao Espiritismo. é duplo o motivo pelo qual não se pode aceitar logicamente a autoridade de Moisés na espécie. 7. Ora. assim como as do Sinai. para dar autoridade às suas leis. que o Espiritismo. e eu digo a vocês outra coisa”. Certo. É certo que alguns críticos mal-intencionados têm descrito as reuniões espíritas como assembleias de adivinhadores ou feiticeiros. se é mais judia que cristã. de todas as religiões. e os médiuns como astrólogos e ciganos. e se são Espíritos de mortos os que vêm. é que estes podiam vir. 8. Ora. pois do contrário inútil seria a proibição. a saber: primeiro. e ainda assim ela não poderá. Entretanto Jesus não anulou. isto porque talvez quaisquer charlatães tenham afeiçoado tais nomes às suas práticas. entretanto. aplicar-se ao Espiritismo. Moisés de modo algum fala nesses últimos. mais que nenhum outro. porque o seu povo só teria que lucrar.91 – O CÉU E O INFERNO Tudo tinha sua razão de ser na legislação de Moisés. porém de modo secundário.

sem obrigação. Mas aqui aponta outra dificuldade: se as almas bem-aventuradas não podem deixar a mansão gloriosa para socorrer os mortais. Mas quem é que diz tal? São os antagonistas de dois campos opostos. a Doutrina – livros ao alcance de todo o mundo – protesta bem alto contra os abusos. Há. contudo. não por curiosidade. no interesse de parentes e amigos que aqui deixassem. há também muita gente que faz justiça e testemunha o caráter essencialmente moral e grave das reuniões sérias. estas – sofredoras como devem ser – antes que doutra coisa. tudo bem – visto que nelas não acreditam. mas o que se torna estranhável é ver os crentes se enfurecerem contra os meios de provar a sua existência. quando os Espíritos são chamados. para que a calúnia recaia sobre quem merece. devem cuidar da sua salvação. Deste modo. entretanto os que estão menos elevados não podem! 13. e não as almas. isto é. As do céu – inteiramente entregues à sua beatitude – estão muito superiores aos mortais para deles se ocuparem. não podendo nem umas nem outras almas corresponder ao nosso apelo. muitas vezes mesmo sem que sejam chamados. como se manifestam. porém. transformando-se em padrão de egoísmo! Restam ainda as almas do purgatório. porém.92 – Allan Kardec Em compensação. Que os cépticos neguem a manifestação das almas. os incrédulos que não creem nas almas. pois que são os negadores da própria religião. e é que os Espíritos se apresentam espontaneamente. é porque lhes convém. não há de que temer pela perturbação do seu repouso. Assim. Se os Espíritos se perturbassem ou se agastassem com os nossos chamados. essas almas se mostrariam pouco dignas da suprema bem-aventurança. Ainda outra razão é alegada: As almas permanecem na morada que a justiça divina lhes designa – o que equivale dizer no céu ou no inferno. por que a Igreja invoca a assistência dos santos que devem fruir ainda maior soma de beatitude? Por que aconselha invocá-los em casos de moléstia. outra resposta decisiva a essa objeção. mas por um sentimento de afeição e simpatia – com desejo sincero de instrução e progresso – não vemos nada de desonroso em apelar-se para as pessoas mortas. 11. nessas evocações – livres como são –. 12. posto que para tanto a mais ampla liberdade seja outorgada aos demônios. como se fizera com os vivos. 10. Eles também dão testemunho da satisfação que experimentam por se comunicar com os homens. de lá não podem sair. de aflição. Dizem que a evocação é uma falta de consideração para com os mortos. esforçando-se por demonstrar a impossibilidade desses meios. aqueles mesmos cujas crenças se sustentam na existência e no futuro das almas! Parece que seria mais natural acolherem como benefício da Providência os meios de confundir os descrentes com provas irrecusáveis. Além disso. e os crédulos que pretendem que só os demônios podem vir. somente o demônio se apresenta em seu lugar. Quando a evocação é feita com recolhimento e religiosamente. e se queixam às vezes do esquecimento de quem os deixam. certamente nos diriam e não retornariam. e são bastantemente felizes para não voltarem a esta terra de misérias. Os que têm interesse na existência da alma deploram constantemente a . de flagelos? Por que razão e segundo essa mesma Igreja os santos e a própria Virgem aparecem aos homens e fazem milagres? Estes deixam o céu para baixar à Terra. as que estão no inferno. Então é o caso de dizer: se as almas não podem vir. Então essas almas podem ser comparadas aos ricos que dos pobres desviam a vista com receio de perturbar a digestão? Mas se assim fosse. cujas cinzas devem ser respeitadas.

combates e terrores. As seguintes palavras de um Espírito resumem admiravelmente as consequências da evocação. O verdadeiro motivo poderia bem ser o receio de que os Espíritos muito esclarecidos viessem instruir os homens sobre pontos que se pretende obscurecer. Esperanças. Depois. dois sentimentos se acometerão: o da compaixão e o do temor! Compaixão por ele. que há lobisomens. à força. 15. quando se lhes apresenta o meio mais poderoso de combatê-la. ajudando os que sofrem a se desprenderem da matéria e a se aperfeiçoarem. buscando. desviando do mal os Espíritos imperfeitos. recusam-no com tanta ou mais teimosia que os próprios ateus. enfim. esperando o pecador arrependido e estendendolhe os braços logo que procure regenerar-se. verão então que Deus jamais o perde de vista. Além disso. Do culpado verão. os delírios que o perderam. diríamos que delas se atemorizam. que não percebem que esse artigo é ainda uma justificativa da Doutrina Espírita. para justificá-la. da certeza de outro mundo. quando praticada com fim caritativo: “Todo Espírito sofredor e desolado lhes contará a causa da sua queda. dando-lhes conhecimento. experiência nos ensina o bem que podemos fazer. Pelo ardor com que se combate nesse sentido é fácil deduzir o grande interesse ligado ao assunto. emprestando-lhe. pois a luz faz brilhar a verdade e o demônio nada pode contra esta. 1861). dizimando-o. Não importa. A razão deve ser a mesma por que se diz à criança: “Não vá lá.” Ao homem dizem: “Não chameis os Espíritos: São o diabo”. remorsos. temor por vocês mesmos. quando as provas se somam de modo a não deixar dúvidas. seja pelos exemplos que tais comunicações nos fornecem. desesperos e dores. Repelir as comunicações de além-túmulo é repudiar o meio mais poderoso de nos instruirmos – seja pela iniciação nos conhecimentos da vida futura. E se o seguirem nas suas queixas. Daí a insistência. com a solicitude e o carinho do cirurgião acompanhando a cicatrização da ferida que pensa diariamente” (Bordéus. mostrando Deus justamente irritado a punir o culpado com toda a severidade. Ao ouvi-lo. tudo lhes dirá. porém: impedem os homens de os evocar. mas não poderão impedi-los de vir aos homens para levantar a lâmpada de sob o alqueire. Todas as razões alegadas para condenar as relações com os Espíritos não resistem a um exame sério. os progressos benéficos para os quais terão a felicidade e a glória de contribuir. eis que procuram como recurso de supremo argumento a interdição do assunto. Em suma. . o rebanho de fiéis: entretanto. O culto que estiver com a verdade absoluta nada terá que temer da luz. ao mesmo tempo. Vendo esta cruzada de todos os cultos contra as manifestações. um sentido e aplicação inexistentes.93 – O CÉU E O INFERNO avalancha da incredulidade que invade. um artigo da lei mosaica do qual ninguém cogitara. interdizer as comunicações é privar as almas sofredoras da assistência que lhes podemos e devemos dispensar. E tão felizes se julgam com a descoberta. ao lado das verdadeiras condições para nele serem felizes ou desgraçados. 14.

94 – Allan Kardec Parte Segunda EXEMPLOS .

e só ele pode nos dizer como se opera a transição – seja pelas noções mais positivas da natureza da alma. “A sensação dolorosa da alma. do mesmo modo como esta. Durante a vida o fluido perispirítico penetra o corpo em todas as suas partes e serve de veículo às sensações físicas da alma. Sejam ricos ou pobres. e. está na razão direta da soma das ligações existentes entre o corpo e o perispírito. A certeza da vida futura não exclui os receios da passagem desta para a outra vida. 2. mas o momento da transição. todos devem fazê-la. Há muita gente que teme não a morte. O conhecimento do laço fluídico que une a alma ao corpo é a chave desse e de muitos outros fenômenos. Sofremos ou não nessa passagem? Por isso se inquietam. Ela tem sensações próprias e sua fonte não reside na matéria física. e não podemos imaginar nem mesmo a alma sem o perispírito. menos essa. e com razão. de modo que a separação só é completa e absoluta quando não mais reste um átomo do perispírito ligado a uma molécula do corpo. A insensibilidade da matéria morta é um fato. nem posição nem fortuna poderiam suavizá-la. também da maior ou menor dificuldade que apresenta o . Ele forma com ela uma só entidade. Vendo-se a calma de alguns moribundos e as convulsões terríveis de outros. isolada. O Espiritismo é o traço de união entre as duas. não experimenta nada da destruição orgânica. a alma. quem poderá nos esclarecer a tal respeito? Quem nos descreverá o fenômeno fisiológico da separação entre a alma e o corpo? Quem nos contará as impressões desse instante supremo quando a Ciência e a Religião se calam? E se calam porque lhes falta o conhecimento das leis que regem as relações do Espírito e da matéria. 4. toda a desagregação material repercute na alma. No entanto. Podemos nos dispensar de uma viagem neste mundo. Durante a vida. É a alma e não o corpo quem sofre. mas essa separação nunca é brusca.95 – O CÉU E O INFERNO CAPÍTULO I O PASSAMENTO 1. 3. seja pela descrição dos que deixaram este mundo. em si. O perispírito é o envoltório da alma e não se separa dela nem antes nem depois da morte. por seu intermédio. que por este motivo recebe uma impressão mais ou menos dolorosa. parando uma nos arredores da vida espiritual e a outra nos da vida material. por dolorosa que seja a situação. Após a morte. Somente pouco a pouco o fluido perispiritual se desprende de todos os órgãos. o corpo pode ser impunemente mutilado que nada sentirá. pois o corpo não é mais que o instrumento da dor: a alma é o paciente. visto que ninguém foge à lei fatal dessa transição. por ocasião da morte. atua sobre o corpo e dirige seus movimentos. A extinção da vida orgânica acarreta a separação da alma em consequência do rompimento do laço fluídico que a une ao corpo. e só a alma experimenta sensações de dor e de prazer. podemos previamente julgar que as sensações experimentadas nem sempre são as mesmas. e por isso.

Se a união for fraca. Nesse instante a alma experimenta um torpor que paralisa momentaneamente as suas capacidades. incertas. não é preciso dizer que. se o desprendimento se operar sem dificuldade. de modo que a alma quase nunca testemunha conscientemente o derradeiro suspiro. as angústias da perturbação. despertando a memória e o conhecimento de si mesma. Daí resulta que o sofrimento que acompanha a morte está sujeito à força de atração que une o corpo ao perispírito. 2. acordando com sensações deliciosas. mas pouco a pouco se aclara. O último suspiro quase nunca é doloroso. À proporção que se liberta. Há pessoas nas quais a união é tão fraca que o desprendimento se opera por si mesmo. Se nesse momento a conexão dos dois elementos estiver no auge de sua força. 7. mas antes dele a alma sofre a desagregação da matéria. torna a passagem menos penosa. Assim. variando de algumas horas a alguns anos. 3. é como se um fruto maduro se desprendesse do seu caule. como veremos em breve. a alma poderá ressentir-se dos efeitos da decomposição do corpo. assustador e ansioso. a perturbação pode ser considerada o estado normal no instante da morte e durar por tempo indeterminado. finalmente. Estas circunstâncias é o que devemos examinar. 4. vagas. Então. produz-se uma espécie de ruptura que reage dolorosamente sobre a alma. Na transição da vida corporal para a espiritual.96 – Allan Kardec rompimento”. a separação torna-se fácil e opera-se sem abalo. depois. Dizemos quase nunca. quanto maior for essa afinidade. ao menos em parte. É como se disséssemos um estado de catalepsia. e é o caso das mortes calmas. neutralizando as sensações. a alma nada sentiria absolutamente. e. e acelerar a rapidez do desprendimento. Apressamos em afirmar que esse estado não é geral. uma vez que comumente ocorre em momento de inconsciência. Se após o fim completo da vida orgânica existirem ainda numerosos pontos de contato entre o corpo e o perispírito. como um horrendo pesadelo. que. tanto mais penosos e prolongados serão os esforços da alma para se desprender. porque há casos em que a alma pode contemplar conscientemente o desprendimento. a alma encontra-se numa situação comparável à de um homem que desperta de profundo sono. para outros. terrível. conforme as circunstâncias. como que naturalmente. a morte pode ser mais ou menos penosa. 5. 6. a vista apenas distingue como que através de um nevoeiro. e. de pacífico despertar. calmo. 8. produz-se ainda outro fenômeno de grande importância: a perturbação. Vamos estabelecer em primeiro lugar os quatro seguintes casos. Se no momento em que acaba a vida orgânica o desprendimento do perispírito fosse completo. as ideias são confusas. nos roncos da agonia. para uns. pois a intensidade e duração do sofrimento estão na razão direta da afinidade existente entre corpo e perispírito. que podemos considerar como situações extremas dentro de cujos limites há uma infinidade de variações: 1. que tudo o que puder diminuir essa força. A causa principal da maior ou menor facilidade de desprendimento é o estado moral . a alma deixará de experimentar qualquer sentimento desagradável. Mas bem diverso é esse despertar. Logo. até que o laço inteiramente se desfaça.

e para o qual a vida espiritual nada significa –. assim. mas não define se material. Certo. quer como teoria. a perturbação continua. Posto isto. advindo-lhe daí uma calma resignada. só depende de nós tornar esse desprendimento fácil ou penoso. agravam-lhe as angústias. e nem por isso está tudo terminado. molécula por molécula. do qual desperta com inexplicável impressão de esperança e felicidade. 9. Para esse a perturbação é quase nula. e o vazio em que se acha e a incerteza do que lhe sucederá. e. enquanto existirem pontos de ligação do perispírito com o corpo. e. No homem materializado e sensual – que mais viveu do corpo que do Espírito. por sensações únicas: o alívio. o faz encarar a morte como redenção e as suas consequências como prova. sente que a vida lhe foge e quer retê-la. Quanto menos o Espírito vê além da existência corporal. resta-nos examinar a influência do tipo de morte sobre as sensações da alma nos últimos transes. visto como a perturbação de muito se antecipou à morte. nas almas puras. E desde que a lentidão e a dificuldade do desprendimento estão na razão do grau de pureza e desmaterialização da alma. A morte pôs termo à moléstia efetiva. o desprendimento – embora se opere gradualmente também – requer contínuos esforços. considerando-se feliz por tê-lo deixado. 10. o Espírito ressente-se e sofre com as suas impressões. Na morte violenta as sensações não são precisamente as mesmas.97 – O CÉU E O INFERNO da alma. resiste com todas as forças e pode mesmo prolongar a luta por dias. de maneira a se tornar testemunha consciente da extinção da vida do corpo. Ao contrário. não lhe tirou as consequências. a vida . a confiança do futuro visto em pensamento ou na realidade. quer como resultado de observações. o desprendimento quase se completa antes da morte real. isto é. ele sente que vive. que às vezes procura romper os elos resistentes. nem sequer lhe toca o pensamento. rompidos os laços. Após a morte. se espiritualmente. a alegria! 12. em vez de se abandonar ao movimento que o empolga. Como é diversa a situação do Espírito desmaterializado. não passa de ligeiro sono calmo. para o homem de alma que se desmaterializou e de pensamentos que se destacam das coisas terrenas. que antecipadamente se identificam com a vida espiritual. até que as últimas ligações do perispírito se tenham de todo rompido. nesse momento o Espírito não possui toda a lucidez. ou antes. Em se tratando de morte natural resultante da extinção das forças vitais por velhice ou doença. o despertar é ligeiro. A afinidade entre o corpo e o perispírito é proporcional ao apego à matéria. tanto mais se apega a ela e. como sucede algumas vezes. mesmo nas enfermidades mais cruéis! Sendo frágeis os laços fluídicos que o prendem ao corpo. nem uma só reação dolorosa que o afete. e outras se agarra ao corpo do qual uma força irresistível o arrebata com violência. apenas ligado por elo tão frágil que se rompe com a última pancada do coração. depois. o apego é quase nulo. porém. 11. As convulsões da agonia são indícios da luta do Espírito. e luta ainda. que lhe ameniza o sofrimento. Nenhuma desagregação inicial tem começado previamente a separação do perispírito. quando a morte se aproxima. tudo contribui para estreitar os laços materiais. que atinge o seu máximo no homem de preocupações que dizem respeito unicamente à vida e gozos materiais. já o Espírito penetra a vida espiritual. Dá-se por fim a morte. semanas e meses inteiros. o desprendimento opera-se gradualmente. mas nem por isso sofre menos. agradável ou doloroso. desembaraçado. rompem-se suavemente. ao passo que o corpo ainda tem vida orgânica. Nesta situação o Espírito pode ter já recuperado a sua lucidez. luta.

. para os quais a situação se prolonga por anos inteiros. Outros há. ou ter guarida em sua alma. supera a toda expectativa. se torna horrível para os atrasados. o Espiritismo – pela fé inabalável que proporciona –. encaminhando para ela todas as aspirações e priorizando mais esta do que a vida terrena. O espírita sério não se limita a crer. abreviando-lhes a perturbação pela evocação e pela prece. principalmente. e pensa. da verdadeira vida. não basta crer. é a que exerce influência mais poderosa. Recolhido de improviso. Nestas condições. de quantas doutrinas filosóficas que conhecemos. porque apresenta o espetáculo estranho de um Espírito que julga que seu corpo fluídico seja material. A perturbação consequente à transição dura pouco porque. uma realidade que ele toca e vê. 15. prolongando-se esta ilusão até que compreenda o seu estado. isento de agonia. Pela prece sincera. ao bom-senso e ao conceito em que temos a grandeza. que nada tendo de penosa para Espíritos adiantados. se faz preciso que abdique das vantagens imediatas em prol do futuro. porque já possuem em si como que um desprendimento antecipado. a morte é qual um sono breve. Mas devemos confessar que pelos conhecimentos que fornece. Que lhe importam os incidentes da jornada se ele compreende a causa e utilidade das dificuldades humanas. fazendo-lhe compreender a necessidade de melhorar-se. antes compreendendo. Além disso. Devemos considerar essa vida debaixo de um ponto de vista que satisfaça ao mesmo tempo à razão. à lógica. a garantia única de salvação para as almas. há uma série infinita de modalidades que variam segundo os conhecimentos e progressos morais do Espírito. Este estado intermediário entre a vida corporal e a espiritual é dos mais interessantes para ser estudado. por assim dizer. É uma situação essa muito frequente até nos casos de morte comum. facilita enormemente a salvação. dentro desse caso. Para aqueles de alma que está purificada. para identificar-se com a vida espiritual. Preso ao corpo por todas as suas fibras.98 – Allan Kardec orgânica em plena exuberância de força é subitamente aniquilada. quanto mais lento for o desprendimento do perispírito. Ele dá a mais. a situação pouco dura. pelos sentimentos que inspira. porque compreende. experimentando ao mesmo tempo todas as sensações da vida física. Para que cada qual trabalhe na sua purificação. Com certeza não é só o Espiritismo que nos assegura resultado tão animador. os laços fluídicos que o ligam à matéria se enfraquecem. reprima as más tendências e domine as paixões. e compreende. visto como. o perispírito faz repercutir na alma todas as sensações daquele. e cujo despertar é suavíssimo. O estado do Espírito por ocasião da morte pode ser assim resumido: Tanto maior é o sofrimento. e a cada um. o Espírito fica como que aturdido e sente. A vida corporal. nem ele tem a pretensão de ser o meio exclusivo. de consciência pura. porque raciocina. para o Espírito desmaterializado. mas compreender. a vida futura é uma realidade que se desenrola incessantemente a seus olhos. operando-se por antecipação um desprendimento parcial que facilita a passagem para a outra vida. cujo fim a morte mais súbita não faz senão apressar. com sofrimentos cruciantes. a bondade e a justiça de Deus. 13. diminui-se diante da vida espiritual. Considerado deste ponto de vista. e acredita estar vivo. os meios de auxiliar o desprendimento doutros Espíritos ao deixarem o invólucro material. tão limitada. uma vez dado o passo. a rapidez deste desprendimento está na proporção do adiantamento moral do Espírito. como pelas disposições em que coloca o Espírito. 14. a cada passo e de modo que a dúvida não pode empolgá-lo. quando suportadas com resignação? A alma se eleva nas relações com o mundo visível. No suicida. para logo se reconhece a sua nova situação. nada estranhando. o desprendimento só começa depois da morte e não pode se completar rapidamente.

Acresce que nomes famosos nada adiantariam à instrução que visamos. As posições vulgares são as mais comuns. já pela situação dos Espíritos. eliminamos detalhes desnecessários. cuja situação pudera ter mudado consideravelmente depois da existência que lhes conhecemos. estimula-se seu arrependimento – único meio de abreviar seus sofrimentos67. e que por isto não oferecessem provas suficientes de autenticidade. Ao contrário. podendo cada qual aplicá-las em si. se é sofredor. foram já publicados na REVISTA ESPÍRITA. ajustando-lhes as instruções complementares a que poderão dar lugar posteriormente. Então. com palavras de benevolência e conforto. uma vez que assim cada qual pode encontrar mais semelhanças e tirar.99 – O CÉU E O INFERNO que é uma magnetização espiritual. Destes. as de maior número. conservando apenas o essencial ao fim que nos propusemos. e. de obscuras se compõe o maior número. ou de meras relações — tanto mais nos interessamos por eles. e apenas alguns. tomamos esses exemplos nas circunstâncias mais comuns da vida contemporânea. E nós não nos dirigimos nem aos curiosos. combate-se o entorpecimento do Espírito. tornando-se fácil averiguar-lhes a identidade. Os exemplos que vamos transcrever mostram os Espíritos nas diferentes fases de felicidade e infelicidade da vida espiritual. podendo ainda ferir suscetibilidades. A maior parte destes exemplos está inédita. porém. pela comparação. mas somente aos que pretendem se instruir. e se nesses exemplos se encontram quaisquer personagens conhecidas. fizemos escolha dos que pudessem melhor esclarecer o mundo espiritual e o seu estado. não foram as celebridades que procuramos. já pelas explicações que estavam no caso de fornecer. de modo a se tornarem úteis. ajudando-o a reconhecer-se mais cedo. Esses exemplos poderiam ser multiplicados infinitamente. Quanto mais próxima de nós está a existência terrestre dos Espíritos — pela posição social. ao passo que as posições excepcionais comovem menos. poucos. ou por laços de parentesco. nem aos amadores de escândalos. porque saem da esfera dos nossos hábitos. 67 . provoca-se a desagregação mais rápida do fluido perispiritual. pela evocação conduzida com sabedoria e prudência. forçados a limitar-lhes o número. Não fomos procurá-los nas personagens mais ou menos ilustres da antiguidade. as mais proveitosas instruções.

depois de um ano de dolorosos padecimentos. a situação de uma alma em momento tão imediato à morte. E não nos iludimos na expectativa. e a São Luís. poder prestar-lhe para alguma coisa depois de morto. talvez improdutiva em razão do meu quase nulo adiantamento. inteligente e profundamente convicto das verdades espíritas. nosso presidente espiritual. se passou a seguinte conversa.100 – Allan Kardec CAPÍTULO II ESPÍRITOS FELIZES SANSON Este antigo membro da Sociedade Espírita de Paris faleceu a 21 de abril de 1862. sobre o estado do Espírito. segundo os desígnios insondáveis de Deus. de um homem eminentemente esclarecido. Íamos enfim colher nas suas primeiras impressões a prova de quanto. para nós espíritas. Para satisfazer seu desejo. tratando-se. muito cedo e presunçosamente. mas sempre útil ao fim que Ele se propõe. porque o Sr. Prevendo a morte. a fim de. pode influir a compenetração dessas verdades. ao demais. evocando-o o mais breve possível. esclarecendo fase por fase as circunstâncias decorrentes do que o leigo chama morte. nós nos dirigimos com alguns membros da Sociedade à câmara mortuária. que é o de evocar o meu Espírito o mais breve possível. de modo a prejudicar o meu próprio adiantamento e prolongar a estação na Terra ou em outra qualquer parte. e que. onde. ainda uma vez. e que a sabedoria de vocês não consentirá ir além de certo número de ensaios — ouso lhes pedir pessoalmente como a todos os colegas que supliquem ao Todo-Poderoso a assistência de bons Espíritos. em presença do seu corpo. vendo-se morrer e renascer. o que é uma circunstância pouco comum e só devida à elevação do seu Espírito. . Receio de confiar demais nas minhas forças espirituais. dirigira ao presidente da Sociedade uma carta com o tópico seguinte: Podendo ocorrer o caso de ser surpreendido pela separação entre minha alma e meu corpo. Além deste pedido — que é uma autorização para me honrarem com essa autópsia espiritual. ideia que de há muito me preocupa. um estado corporal no qual eu não possa justificar a divina bondade. como simples membro da nossa Sociedade. desde que naufrague. que me guie na escolha e sobre a época de uma nova encarnação. em particular. Sanson descreveu – plenamente lúcido – o instante da transição. rogando a Deus. precedendo uma hora o respectivo enterro. não passa de uma transformação. venho reafirmar um pedido que fiz a vocês há cerca de um ano. Era duplo o nosso objetivo: íamos cumprir uma vontade última e íamos observar.

Conservou as ideias até ao último instante? R. dez vezes bendito. Teve consciência do momento em que o corpo deu o derradeiro suspiro? Que se passou contigo nesse momento? Que sensação experimentou? R. como se diz aí. que foram os guias da minha vida. Foi tão sofredor que. encontramos o vácuo. como era do seu desejo. A vida parte e a vista. 8. nada mais sentindo das antigas dores. e quando eu já não via mais. deu-me um lugar bem compensador. Vejo essa pobre carne decomposta. pois que purificaste o meu Espírito! O meu sofrimento. Conservei as minhas faculdades. e eu não sei como agradecer. Ao fim de oito horas. Ao fim de que tempo recuperou a lucidez das ideias? R.. enquanto eu guardo a lembrança de todos que me estimaram.. o meu futuro é Deus. mísero corpo. podemos perguntar como se achais agora. 2. foi para que pudesse me comunicar com vocês – como faço agora –. 23 de abril de 1862) 1. No entanto. ensinarei a verdadeira fé. e arrastada por não sei que poder. fugindo de todo prazer e alegria. sou tão fraco que tremo. acho-me regenerado. a vista do Espírito se extingue. Oh! Certamente. mísero despojo. Toda a minha existência se desdobrou na memória e o meu último pensamento. Eu sou Espírito e a minha pátria é o Espaço. eu havia feito um pedido a Deus para me permitir falar aos que estimo. a fim de pregarem a caridade e a abnegação. A minha situação é bem feliz. agradeço a boa vontade. porém. 7. 4. em seguida pedi a Deus que os protegesse. em uma palavra: transformado. que sensações experimenta? R. para que o sonho da minha vida se completasse. por isso que tão depressa posso comunicar-me convosco. robusto. Deus. deu-me uma prova de Sua bondade. a fé espírita. maior que o meu merecimento. porque ficamos algumas vezes muitos dias privados de lucidez.. 5. É uma graça especial que Deus me concede para que possa me manifestar. 3. Está bem certo de não pertencer mais ao nosso mundo? No caso afirmativo.101 – O CÉU E O INFERNO I (Câmara mortuária. Meu caro Sr. a última prece. pressentia. — Atendo ao seu chamado para cumprir a minha promessa. porém. cumprindo um dever. morada que foi do meu Espírito. com satisfação o evocamos o mais cedo possível depois de sua morte.. como comprová-lo? R. Sente ainda as suas dores? Comparando a situação de hoje com a de dois dias atrás. e Deus me ouviu.. repito. Sanson. Desejara poder falar a meus filhos. estarei sempre ao lado de vocês para lhes proteger e sustentar. estou forte. penso eu. Evocação. A passagem da vida terrena para a dos Espíritos me deixou de começo num estado incompreensível.. eu não sou mais desse mundo. R. provação de tantos anos! Obrigado. Depois. encontra-se a gente num mundo . Que efeito causa ao amigo o seu corpo aqui ao lado? R. Em mim não reconhecerão mais o velho enfermo que tudo devia esquecer. ou antes. que reina na imensidade. renovado. Volte ao pó. que deve elevar a crença do bom e do justo. o desconhecido. Sim. ensinar-lhes aquilo mesmo que sempre desdenharam acreditar. Meu corpo! Pobre. 6.

J. 4. e assim.. pois a experiência prova que muitos Espíritos perdem a consciência antes de expirar. 5. achando-se presentes pessoas que poderiam não compartilhar das nossas opiniões): — R. no entanto. se bem a merecerem e melhor cumprirem as suas provações. 25 de abril de 1862) 1. sem interrogação alguma. como se o Espírito houvesse de fazer um esforço sobre-humano para escapar-se do seu corpo. no momento de exalar o corpo o derradeiro alento. fazendo-lhe perder o conhecimento do seu destino. 3. Evocação: R. certamente que sim. nada compreendia e. R. Consideramo-nos felizes pela entrevista que tivemos no dia do enterro do amigo. a vida se parte e a vista se extingue. e tomara que meus filhos possam se converter a uma crença abençoada. A terra me seja leve”.. Tem consciência. assim como o desprendimento se opera sem esforço nos que atingiram certo grau de desmaterialização. o Espírito respondeu sem que eu terminasse.. disse que. meus amigos. falem. não se surpreenda as perguntas que porventura lhe fizermos. das quais a morte é complemento. e sinto-me feliz por pensarem em mim.102 – Allan Kardec de alegria e grandeza! Eu não sentia. Mas.. visto que assim nos permitiu. Não se pode luxar muito sem tirar o bem-estar de alguém e sem fazer moralmente um imenso mal. e sei.. do que pretendo ler sobre seu túmulo? (Apenas pronunciadas as primeiras palavras sobre o assunto. meus amigos: ela é um estádio da vida. 9. E será esse momento seguido de qualquer sensação dolorosa? R. sobre se seria oportuno ler esta comunicação no cemitério. R. A ideia falsa que fazemos do mundo invisível é muitas vezes o que nos leva à descrença. pois. Estou pronto. Falem. Portanto. uma felicidade inexplicável me extasiava. Ah! Sei. Falem para que me compreendam e os estimem. confiança. Também respondeu. Estou perto de vocês. e serão recompensados. O prezado amigo descreveu luminosamente a transição para a outra vida. para que os descrentes tenham fé. Este caso não é geral. é uma felicidade. por que tanto os via ontem como hoje. livre do peso das dores. Adeus.. pois que respeita a morte. por exemplo? .. Sabe se há Espíritos para os quais o momento extremo seja mais penoso? Será ele mais doloroso ao materialista. não temam nada. tudo que possa nos esclarecer a tal respeito será para nós da mais alta importância.. esforço que absorve todo o ser. pois a vida não passa de uma série contínua de dores. Durante a cerimônia do cemitério. a certa controvérsia suscitada entre os assistentes. Como é grande a minha alegria! Obrigado! Obrigado! Falem. Espero por elas e não ficarei surpreendido. meu amigo. Repito: coragem e boa vontade! Não deem mais que medíocre valor aos bens terrenos. e. ele ditou as palavras seguintes: “Que a morte não atemorize a vocês. II (Sociedade Espírita de Paris. Sanson. Daí uma ruptura violenta. 2. mais felizes seremos em completá-la para nossa instrução. coragem. se souberem viver bem.

prevendo o que por ela o aguarda. uma alegria sem par irradiava-lhes do semblante e também eu. 6. D. Em outras circunstâncias. o despertar tira de vocês a inquietação e são aliviados pela compreensão de que sonhavam. brilhando de súbito. podia sem esforço percorrer os espaços. No pesadelo comum. e o que torna a sensação ainda mais penosa para o Espírito são as trevas em que se encontra mergulhado. mas. ou facão que. lhe dá momentaneamente imensa alegria ou funda mágoa.103 – O CÉU E O INFERNO R. 8. pergunta-se a si mesmo o que vai ser. O desprendimento não pode se completar sem esta impressão. no momento da separação. por ocasião da morte. outros tantos sintomas do pesadelo de que são vítimas. e foi então que me vi cercado de numerosos. sem ultrapassar. porém pressentia. Compreende-se que nada visse corporalmente. O sofrimento moral é mais forte e a sua ausência. permitiu-me recuperasse as faculdades. cujo pensamento antevê o cutelo68 e a escuridão. Deus que me deu uma prova exuberante da Sua bondade. há igualdade. Trata-se do instante que precede a morte. Haverá materialistas bastante endurecidos para julgarem nesse momento que vão ser arremessados ao nada? R. gritar e nem sequer um som podem articular: então. o Espírito recua. se é possível. e a verdade. Vivam 68 Cutelo: guilhotina. do sonho. dar gritos sufocados. Entre esta morte e a do ateu. querem fugir e não podem. a dúvida empolga-o e o tortura. era usado para executar os condenados à morte – N. já se vê. sem poder compreender. quaisquer que sejam. Porém. O descrente assemelha-se ao condenado à pena última. porque a lucidez não volta repentinamente. como a compreendeis. ou. forte e animado. 7. descobre instantaneamente um mundo desconhecido. o que vistes no momento em que os olhos se abriram à luz? Poderia nos descrever. O que eu vi não tem nome na linguagem dos homens. é por si só um grande alívio. o limite traçado por Deus. os olhos não veem. mas o que pressentia antes da extinção seria já a claridade do mundo dos Espíritos? R. antes. Disse que por ocasião de expirar nada via. ou antes. porque o Espírito preparado já tem esquecido o sofrimento. Quando pude voltar a mim e ver o que tinha diante dos olhos. Poderia nos dizer o que o impressionou. Isso é certo. nos tempos de Kardec. Voltarei depois para falar mais amplamente das minhas venturas. quer apreender algo e nada pode. Foi o que eu disse antes: o instante da morte dá clarividência ao Espírito. mas não encontram apoio e sentem precipitar-se: querem clamar. Todos os Espíritos protetores que nos assistem. procuram agarrar-se a qualquer coisa. sobrevivem ao despertar. encolher as mãos. por anos mesmo. conforme o estado de consciência e a lembrança da vida passada. não passa de uma ficção. que possui uma vista bem mais profunda. eles acreditam no nada até à última hora. Saibam que a felicidade. . um Espírito nos fez a seguinte descrição da morte daquele que não tem fé: Experimentam nos últimos instantes as angustias desses pesadelos terríveis em que se veem em abismos prestes a tragá-los. o pesadelo da morte prolonga-se muita vez por longo tempo. vemos estes se contorcerem. pois as impressões agradáveis ou penosas. bons e fiéis amigos. Sim. daquele em que se perde a consciência — o que explica a palavra momentaneamente. rodeavam-me sorrindo. porém o Espírito. habituou-se com ele e a calma com que encara a morte o impede de sofrer duplamente. fiquei como que ofuscado. o aspecto das coisas que se apresentaram? — R.

Digo. mas quem sabe se não contêm. Neste momento. o sexo seria inútil a eles. caracterizada pela junção dos sexos. se assim desejamos. Sanson lembra como que um homem adormecido numa choupana. A nossa pergunta não visava confirmar o fato. porém. ainda que imponderável? Sente mesmo uma cabeça. e terão feito jus a impressões e delícias que o maior dos poetas não saberia descrever. Sim. circunscrita. e tendo segundo seus maravilhosos desígnios de lhes dar a encarnação. meu caro amigo. tronco. conservando a sua forma humana idealizada. o arquiteto dos arquitetos – e terão feito uma fraca ideia da forma dos Espíritos. III 9. O Espírito. como se vê? Reconhece em si uma forma limitada. Debaixo de que aspecto os Espíritos se apresentaram a ti? Sob a forma humana? R. santamente. pode possuir todos os membros de que fala. a linguagem tem modulações intraduzíveis para vocês e o olhar tem o alcance de uma estrela! Imaginem sobre o que Deus pode produzir na sua Onipotência – Ele. e é a verdade. mas saber – visto que o Sr. sendo este apenas necessário à reprodução dos corpos. como no conjunto. Deus criou-os como quis. o meu corpo não ocupa qualquer espaço. porém. podendo adivinhar até o pensamento alheio. A visão dos Espíritos não se pode comparar à humana. 11. Os Espíritos puros compreendem perfeitamente . mas como há poucos dias era um homem. que penosamente aí se arrasta com seu cortejo de misérias. a luz atravessa-o e o que chamariam “milagre”. Os contos de fadas estão cheios de coisas absurdas. que lhes amo. divinizada. Sempre disseram que os Espíritos não têm sexo. que os Espíritos não podem ter sexo. algo do que se passa no mundo dos Espíritos? A descrição do Sr. que diferença entre a máquina informe. Deus abençoou esses corpos graciosos que se movem com todas as elegâncias. também pode oportunamente tomar a forma mais própria para se tornar conhecido.104 – Allan Kardec sabiamente. Estou junto dos meus amigos e aperto-lhes as mãos sem que percebam. Os Espíritos não têm sexo. se acaso vissem. Não temos motivo para ser de natureza masculina ou feminina: os Espíritos não se reproduzem. o Espírito que tem terminado a provação prefere a forma que o conduziu para junto de Deus. por exemplo. sem mais explicação. não se reproduzindo. Sinto perfeitamente as minhas mãos com os dedos. de alguma sorte e em parte. De fato. para eles tudo se transforma na essência. os Espíritos nos ensinam que conservam no outro mundo a mesma forma que lhes serviu de envoltório. desejamos saber se no novo estado tem mais da natureza masculina ou da feminina? E o mesmo que se dá contigo podermos aplicar ao Espírito de longo tempo desencarnado? R. uma vez que também seu corpo não tem quaisquer semelhanças reais. despertando em palácio esplêndido e rodeado de uma corte brilhante. aí na Terra. Mas. e a fluidez maravilhosa do corpo espiritual! A feiura não mais existe porque os traços perderam a dureza de expressão que forma o caráter distintivo da raça humana. subordinou-os aí às leis de reprodução das espécies. Mas vocês devem senti-lo. pernas e braços? R. Sanson havia desencarnado recentemente – as impressões que guardava do seu estado terreno. sobre a Terra. pela caridade e pelo amor. Repito que o Espírito tem uma perspicácia divina que abrange tudo. e apertar suas mãos. Na realidade. pois podemos aparecer a vocês à vontade. Quanto à nossa fluidez e graças a ela. sem contradição. podemos estar em toda parte sem interceptar o espaço ou produzir quaisquer sensações. entre as suas mãos cruzadas tenho as minhas. 10. não passa para o Espírito de ação contínua de todos os instantes. Quanto ao amigo.

Assim. mas na França inteira. homem ou mulher. ficariam na mesma. não desmaterializados. entre os inferiores. pois posso ler o pensamento de todos.105 – O CÉU E O INFERNO a sua natureza. No entanto. a alma do incrédulo. Enquanto esperam. a vida espiritual sucedeu sua vida terrestre. um Espírito deu a comunicação seguinte sobre o título (acima): “A morte desse Espírito de quem neste momento se ocupam foi a de um homem justo. Disso tiveram a prova evidente na súbita conversão desse . presentes e futuros. mas deve socorrer e consolar os habitantes do Espaço. “Orem por essas almas perturbadas. Atualmente só podem ter o que Deus lhes concede. Como o dia sucede naturalmente à aurora. se despedaça e torturante se precipita no Espaço. com o que. sem rompimento nem abalo. E como são poucos os que atravessam assim a rude transição! Quão poucos os que após a confusão e desespero da vida concebem o ritmo harmonioso das esferas! Como o homem de saúde perfeita. A MORTE DO JUSTO Em seguida à primeira evocação do Sr. porém. havendo por esta razão quem suponha ter realmente um sexo. Tornem-se bons e tudo conseguirão. separada do corpo. mensageiros de uma telegrafia divina que tudo transmite e grava. Para lhes descrever este prodígio extraordinário da nossa visão. mais tarde serão como nós. Não é fácil. com as mesmas paixões e desejos. sofre nos membros separados ao corpo. Muito mais claro. procurem morrer em graça para muito saberem. direi para responder. Sanson. reservando-lhes a satisfação de todos os desejos passados. As contradições a tal respeito vêm da graduação de adiantamento dos Espíritos que se manifestam. invejando-se reciprocamente. que a caridade não se restringe à Humanidade visível. Paciência. 12. pensam eles que são ainda os mesmos que foram. ainda que mal. orem por todos os sofredores. à sua pergunta: o ar que respiram. imaterial como nós. sentindo-me igualmente feliz pela benéfica impressão que me causa a boa vontade de todos os Espíritos congregados. onde grupos há que se desligam. feita na Sociedade de Paris. inconsciente de si mesma. dominados por Espíritos turbulentos que se contentam na discórdia. sendo o erro menos deles que de quem os interroga sem se dar ao trabalho de aprofundar as questões. O seu último suspiro foi tanto como um hino de reconhecimento e amor. Desejo que o mesmo critério se faça sentir não só em Paris. há muitos que acreditam estar encarnados sobre a Terra. esperançosa e calma. Disse poder ler nosso pensamento: poderia nos explicar como se opera essa transmissão? R. por assim dizer reproduz o seu próprio pensamento. o sopro que exalam é mais ou menos a página escrita dos seus pensamentos lidos e comentados pelos Espíritos que constantemente se encontram convosco. por terem as capacidades limitadas pela matéria. assim. aliás. quando o Espiritismo deve pregar o esquecimento completo e absoluto do egoísmo. 13. isto é. mutilado pelo golpe. Como lhe parece a sessão? O seu aspecto é o mesmo de quando era vivo? Para ti.. mas com a esperança de progredir continuamente. A curiosidade – estímulo do homem que pensa – conduzirá vocês tranquilamente para a morte. seria preciso todo um arsenal de agentes novos. as pessoas guardam a mesma aparência? Será tudo tão claro e distinto como antes? R. isto é..

encarnados e desencarnados. Apliquei-me a discernir o que era verdadeiro nas comunicações. e ora o fazemos. Querem saber que Espíritos me receberam? Quais as minhas impressões? Pois bem. de apoplexia fulminante. desejo descrever as minhas impressões por ocasião do meu desprendimento: senti um abalo indescritível. Também o mar se desenrola numa perspectiva infinita. assim é o amor. enche o Espaço e dá e recebe mutuamente as suas divinas consolações. não só para satisfazer aquele desejo. I O Sr. antecipando-se ao nosso desejo. Sanson. Jobard 1. tendo aprendido um pouco. todos os irmãos que compartilharam dos nossos trabalhos. manifestando-me por este médium que até agora tenho solicitado fartamente. mas não posso descrevêlo. mais profundo que as ondas. a 27 de outubro de 1861. não julguem que me tenha tornado repentinamente um eleito do Senhor. nascido em Baissey (Alto Marne) e falecido em Bruxelas. muito devem aprender ainda. irmãos de exílio. Pois bem. como para testemunhá-lo ainda uma vez a nossa sincera simpatia. toda a minha vida se retratou nitidamente na minha memória. da minha juventude. Georges JOBARD Diretor do Museu da Indústria de Bruxelas. que prazer se experimenta sem o peso do corpo! Quanta alegria no abranger o Espaço! No entanto. eu estou entre os Espíritos que. Quando estava na Terra.106 – Allan Kardec Espírito69 tocado pelas preces espíritas sobre o túmulo do homem de bem que vieram interrogar e que deseja fazê-los progredir no bom caminho. tal como o fui no de vocês. com sessenta e nove anos de idade. cujo espetáculo deslumbra o Espírito. fusão sublime do finito e do eterno”. da minha velhice. lembrei-me instantaneamente do meu nascimento. todos os meus votos os cercam. Eu sentia apenas como um piedoso desejo de me achar enfim nas regiões reveladas pela nossa crença. na sessão de 8 de novembro. não. e lhes asseguro toda a minha simpatia. Jobard era presidente honorário da Sociedade Espírita de Paris e tratavase de evocá-lo. deve unir na santa comunhão da caridade. Eu vi o esplendor. 132). visto que ninguém melhor que o amigo pode 69 Alusão ao Espírito Bernard. (Ver REVISTA ESPÍRITA de maio de 1862. mais infinito que o Espaço. pronto a contraditar tudo que fosse errôneo. amigos. Ah! Meus caros amigos. a todos vocês. . instruindo-nos ao mesmo tempo. Não tardou muito que de vocês me lembrasse. recomendou-nos para o evocarmos. que se manifestou espontaneamente no dia das exéquias do Sr. Antes de tudo. Depois. São duas grandezas que se extremam. o tumulto serenou: eu estava livre e o meu corpo jazia inerte. foram todos os que evocamos. pronto a ser o cavaleiro andante da verdade neste mundo. quando. espontaneamente deu a seguinte comunicação: Aqui estou eu a quem iam evocar. parecendo confundir-se no seu limite com os céus. pág. O amor não tem limites.

pode pela escrita. 2. mas pessoalmente. 5. e como o veríamos se tal coisa nos fosse permitida? R. visto que os seus olhos mortais – ainda vendados – não podem ver os Espíritos senão sob a sua forma mortal. melhor ainda depois de morto. conseguintemente. só me apercebia das faltas terrenas. Lembra-se de haver estado nas mesmas condições anteriormente à última existência? Experimenta qualquer mudança a este respeito comparando as situações presente e passada? R. R. Fui um operário mecânico acossado pela miséria e pelo desejo de aperfeiçoar a minha arte. perturbado nas precedentes existências. e os outros não. visto que aí não está com o corpo material de outrora. habitar entre nós depois de morto como quando vivo. uma vez que pode ir e vir livre e voluntariamen te. encarnado. da que precedeu a do Sr. O teu lugar aqui é o mesmo de quando assistia encarnado às nossas sessões e que lhe reservamos? Então. que se poderá interpretar assim: Eles nos assistem. no entanto está com o corpo fluídico de agora e com a mesma forma. realizei os sonhos do pobre operário. Presentemente o que mais se impõe é a instrução de vocês. poderão supor que aí está tal qual era então.107 – O CÉU E O INFERNO nos dar esclarecimentos precisos sobre esse mundo em que hoje habita. assim as nossas relações de forma alguma se romperam com a tua morte e podemos entretê-las tão fácil e completamente como outrora. Poderia se tornar visível? No caso contrário. É a estes últimos que se aplica esta frase: Eles habitam entre nós. Quanto à simpatia. Jobard? R. Lembra-se da penúltima encarnação.. realidade. ou. ao passo que. Não faz tempo que. Um médium vidente me veria. se não pode comunicar pela palavra. Sim. 6. e mesmo sem o saberem. que o torna uma individualidade distinta. sabemos que qualquer um pode achar-se entre nós. A disposição que lhes diz respeito é que é toda pessoal. vemos com o pensamento. 7. outros atraídos por afeição. com a aparência do mesmo Jobard que se sentava à sua mesa.. Estou junto do médium. aqueles que em tais condições o viram. 3. com seu corpo etéreo. não é uma simples figura. Como Jobard. Se me lembro. principiamos por perguntar em que lugar se acha aqui. não só em pensamento. inspiram e protegem. uma vez que o meu Espírito habitará entre vocês. 4. Ficaremos felizes se houver por bem responder às nossas perguntas. e há muito que sabem disso. porque o meu Espírito desencarnado goza de lucidez perfeita para não deixar irresolutas quaisquer questões que encare. com auxílio de um médium. uns indiferentes. vejo-a intimamente e tenho a prova dela tão só pelo que ouço. porém. por outra. por isso que me identifico com o que vejo. Recordo-me das existências anteriores e sinto-me melhorado. o que é já um enorme progresso. Pelo conhecimento que o Espiritismo nos dá sobre a natureza dos Espíritos. e dou . se sentava nesse mesmo lugar. Ocuparei este lugar muitas vezes. Deste modo temos uma multidão de comensais invisíveis. qual a dificuldade? R. Para fixarmos ideias e não divagar. De modo algum as condições me parecem estranhas. Se não o vemos com os olhos do corpo. As condições em que agora o faz te parecerão estranhas? Qual o efeito da mudança de estado? R. É assim precisamente que se passam as coisas? R. neste caso. Um Espírito tanto pode. Chamamos a atenção para esta última frase – “o meu Espírito habitará entre vocês” – que.

A catalepsia pode ser longa. D. não se iludam a tal respeito. hauridos nas imaginações populares. guardará no entanto. Sejam felizes. Vejo. 10. Agradeço ao coração generoso que lhes trouxe o óbolo que eu daria se habitasse ainda o seu mundo. o Espírito de Verdade pairando no espaço. teve sua vida própria. Neste em que ora resido é nula a necessidade de dinheiro. depois. de sua última encarnação. depois. E como poderia eu fazê-lo. por ser uma impiedade — mas com o profundo reconhecimento da libertação. que vocês homens não podem compreender. uma multidão de Espíritos que se cercam. muito tenho sofrido já com as ilusões que alimentaram o meu Espírito. só ele pode atrair-me a esta terra que abandono — não direi com alegria. Quando a Sociedade abriu uma subscrição em favor dos operários de Lion. Quando encarnado compartilhava da opinião emitida sobre a formação da Terra pela incrustação de quatro planetas que se teriam unido. o pendor para o maravilhoso e místico. não indeterminada: tradições. ainda. mas por enquanto. Ainda agora. Jobard. solícitos e benévolos. que. Muito aprendi e posso hoje lhes dizer que a minha inteligência. Tão recente é a minha morte que participo ainda de certas influências terrestres. É preciso que haja perfeita simpatia para poder exprimir o meu pensamento. A água e o fogo são os únicos elementos orgânicos da Terra. deslumbrado e aturdido pelo maravilhoso espetáculo que me cerca? O vínculo do Espiritismo. 8. e Deus não precisou lançar mão dessa grande desordem que seria a agregação de planetas. então. Meus amigos. As novas descobertas geológicas provam as convulsões da Terra e sua formação gradual e sucessiva. . amigos. A Terra. e que o gênero humano tivesse assim aparecido na Terra? R. Pouco tenho me comunicado. Eis o que comigo se tem passado em muitos casos.108 – Allan Kardec graças a Deus cuja bondade infinita fez germinar a planta. como os outros planetas. Em muitos lugares um Espírito tomou-me o nome. que ultrapassava sempre o seu fim. no sentido em que as julgam. em fevereiro de 1862. Já se comunicou em outra parte? R. principalmente Lázaro e Erasto. de modo que me foi preciso recorrer à bolsa da amizade para provar materialmente que também a mim me doía o infortúnio dos irmãos de Lion. algumas vezes estava eu perto dele sem que pudesse comunicar-me diretamente. logo após ao desprendimento. é chamado de todos os lados e inúmeros Espíritos se dão pressa de apossar-se da sua individualidade. Asseguro-lhes que. poucos Espíritos podem se comunicar – mesmo por um médium predileto. É ainda da mesma opinião? R. pouco me tenho ocupado das questões puramente intelectuais. 9. deu a comunicação seguinte sobre tal respeito: Exulto e lisonjeio-me de não ter sido esquecido entre os meus irmãos espíritas. 11. Admitia também que os homens pudessem cair num estado cataléptico por tempo ilimitado. Quando morre um homem um tanto conhecido. um consócio subscreveu 50 francos70. Pura ilusão da minha mente. repito. não posso fazê-lo. pois benéficas influências se disputam às garras do erro. sendo 25 por si e 25 em nome do Sr. mais afastado. 70 Franco: moeda francesa – N. e cuja semente depositara em meu cérebro. legendas exageradas pela imaginação oriental. porém. Vê os Espíritos que aqui estão conosco? R. Em breve operarei incondicionalmente. apta para assimilar diversos e vastos estudos. É um erro.

sentimentos de simpatia e fraternidade. como deseja de todo o coração. Haurira no conhecimento do Espiritismo uma fé ardente na vida futura e uma grande resignação para todos os males da existência terrena. laboriosa e bordada de rudes provações. na emergência. das quais o mundo não fala e cujo brilho não se reflete na Terra. porém a eles que se deve lastimar. tanto mais quanto a narrativa não aproveitará somente a . passar da moda. em se tratando de quaisquer favores. Finalmente. poderá ser útil. mais calmo. pedirá aos seus amigos sérios que o evoquem. Trabalhos. dizia: Não é a mim. pois grandes e pequenos lhes patentearam. P. Aprofundaremos então questões superficialmente tratadas. Em se tratando de ingratos. embora essa recordação reaparecesse gradualmente. Tem uma recordação nítida dos últimos instantes da vida na Terra? R. SAMUEL FILIPE Este era um homem de bem na verdadeira acepção da palavra. No instante preciso do desprendimento eram confusas as minhas ideias. nada o impedia de ser útil. sendo o seu passamento muito sensível à família e aos amigos. Pois bem: tomara que agrade a Deus que sejam felizes na jornada. sacrifícios. Posto que muito inteligente e dotado de natural vivacidade. fadigas. Jamais desprezou os que lhe fizeram mal. em moda. Podia-se comparar a essas naturezas de escol que vivem na sombra. Para o bem da nossa instrução e do interesse que nos merece pela tua vida exemplar. comunicações de incontestável superioridade. De um devotamento extremo pelos amigos. Depois dessa época. ainda que contrários ao seu próprio interesse. o Sr. então. poderia descrever como ocorreu o teu trespasse da vida corporal para a espiritual? R. onde continua como cooperador. e os Espíritos amigos que os sustentem para que triunfem afinal. de moléstia atroz. e quando Jobard. sem se desviar da originalidade e repentes que constituíam o fundo do seu caráter. menos perturbado pelas evocações constantes que sobre mim choviam. Ninguém se lembrava de tê-lo visto cometer uma ação má ou errar voluntariamente no que quer que fosse. ele deu à Sociedade de Paris. De bom grado. P.109 – O CÉU E O INFERNO Destemidos trabalhadores da vinha do Senhor. e o seu Jobard. a ponto de se fazer reconhecido antes de assinar. Nós o evocamos alguns meses depois do trespasse. . muito devem convencer-se de que a caridade não é uma palavra oca. Estão na grande via humanitária do progresso. faleceu em dezembro de 1862. na idade de 50 anos. A moda também atua sobre os Espíritos. e isto sem ostentação. Eu começo a viver espiritualmente. podia-se ter como certo o seu acolhimento. admirando-se quando se lhe atribuía por estes predicados um grande mérito. antes se dava pressa em servi-los como se bem semelhante lhe houvessem feito. teve na Terra uma vida obscura. Perfeitamente. Jobard colocou-se entre os Espíritos que ativamente propugnam pela renovação social.Jobard Passados os primeiros tempos consagrados ao alento dos seus amigos. completamente transfigurado. esperando uma nova encarnação terrena para tomar parte ainda mais ativa e direta nesse movimento.

e considerei a mim mesmo que me julgavam morto. pois a elas devo o fato de ter rompido com o passado — simples recordação agora que me permite contemplar com legítima alegria o caminho percorrido. durante os quais eu recobrava e perdia a consciência do meu “eu”. mas um torpor nada desagradável. Para apagar os últimos traços das faltas anteriores. Quis então desenganá-los de tal ideia. A separação completou-se sem dor. mas a mim próprio. vocês. e daí concluí que sonhava. que foi curto. a comparação faz-me apreciar melhor a bondade do Criador. graças a Deus! E hoje. sem lutas nem abalos. queria erguer-me. sem compreender a minha situação. Ainda que sofresse cruelmente com a moléstia que me acometeu. chorando. É verdade. Uma coisa me admirou logo: o fato de compreendermo-nos sem articular uma palavra! Os nossos pensamentos transmitiam-se pelo olhar somente. aliás. Sabem das tribulações que provei na vida. falecidas há muito tempo. O fato de me ver cercado de pessoas caras. mas não pude articular uma palavra. entretanto. Deus os colocou em meu caminho para aferir a minha paciência. que me humilharam e afligiram. por conseguinte. exercitando-me igualmente na prática da mais difícil caridade: a de amar os inimigos. Certamente. dirigindo o meu pensamento para a Terra. sem que eu mesmo de tal me apercebesse. Oh! Vocês que me fizeram padecer na Terra. O meu corpo material não estava ainda inumado e eu o olhava com piedade. que me tornei o que ora sou. pois vou responder agora à sua pergunta. embora não duvidasse ter já deixado a Terra. a reconhecer-me. compreendendo e reconhecendo que não mais pertencia a esse mundo. fez-se brilhante. como se os encontrasse depois de longa viagem. fortalecia em mim essa ideia de um sonho. se eu não conhecesse o Espiritismo. Ignoro que tempo durou o sono. a presença dos que amara alegrava-me sem me surpreender. por isso que. portanto. Não é. não me apeguei à vida e não tive. em que tais seres por mim velassem. . a ilusão duraria por muito mais tempo. não somente os perdoo mas até agradeço. Não se impacientem com esta divagação. outro tanto não diriam das que a precederam. que a vocês devo grande parte da felicidade de que gozo. jamais me faltou coragem na adversidade. Pois se eu era tão feliz por me haver enfim desembaraçado! Respirava livremente como quem sai de uma atmosfera nauseante. e eu comecei a compreender-me. comprar muito caro essa felicidade por alguns anos de sofrimento! Ah! Se soubésseis o que são alguns anos comparados ao infinito! Se de fato a minha última existência teve algum mérito aos seus olhos. que foram cruéis e malévolos para comigo. convençamse firmemente desta verdade. Vi minha mulher e alguns amigos ajoelhados no meu quarto. nem esforço. Tudo que me cercava era como se fosse um sonho. felicitando-me pela separação. Intentando fazer mal. Esse estado foi alternado de momentos de lucidez e de sonolência. felicito-me! E ainda tremo ao pensar que tudo quanto sofri se anularia caso desfalecesse. E não foi senão à força de trabalho sobre mim mesmo. por denso nevoeiro. pois nela reside a felicidade do seu futuro. a luz que entrevia. não suspeitavam do bem que esse mal me proporcionaria. a fim de sofrer sem me queixar. antes parecendo-me natural. era-me preciso sofrer as últimas provas que voluntariamente aceitei. quase não tive agonia: a morte me veio como um sono. como que por efeito de uma penetração fluídica. Sem temor pelo futuro. Foi na firmeza das minhas resoluções que escudei a resignação. antes deleitoso. Meu despertar calmo contrastava com o estado antecedente: não sentia mais dores e exultava de alegria. me prendia. por certo. tendo de recomeçar novamente as provações! Oh! Meus amigos. e eu me entregava a ele prazerosamente. uma vez que me deram ocasião para perdoar e pagar o mal com o bem.110 – Allan Kardec vocês. de me debater nos últimos momentos. Pouco a pouco as minhas ideias adquiriram mais lucidez. indizível sensação de bem-estar penetrava todo o meu ser. caminhar. cuja má-fé tantas vezes me acarretou duras privações. pela liberdade. e ainda de outras que à primeira vista não podia reconhecer. Hoje abençoo essas provações.

bem como os numerosos amigos que nele reencontrastes. ao contrário. invejados. no entanto. exultando com a recordação que de mim guardaram. uma vez que compreendo o alcance. O meu sofrimento é. a resignação que tive. assisto às suas diversões. consoante a vontade de Deus. quando. repentinamente enriquecido. A minha desolação avulta quando os vejo retardar o advento por falta de coragem. por assim dizer. E mais: esse sofrimento é suavizado pela convicção de que aqueles a quem amo virão também por sua vez a esta mansão afortunada onde a dor não existe. Pouco depois do seu decesso. murmúrios. tendo um médium perguntado ao seu guia se poderia . sobretudo. Ah! Se os homens pudessem compreender a vida futura. Quem na Terra deixaria então de prover e assegurar-se da felicidade que Deus reserva aos filhos dóceis e submissos? Gozos ambicionados. É bem verdade – dizia – que estou isento desses cuidados que fazem o tormento da vida! Graças a Deus! Também o pobre. atraído por seus pensamentos. como para realçar mais a nova situação. porém. a intervenção é improfícua. mas não os Espíritos nela encarnados. fizeram-te esquecer a família e amigos encarnados? R. e. dessas infinitas preocupações mais amargas talvez que as desgraças reais. vacilações e principalmente por qualquer ato reprovável. Esse mundo tão novo e comparado ao qual nada vale o nosso. parecendo-me ouvir ainda umas tantas vozes desagradáveis. é que me esforço por sugerir-lhes bons pensamentos e. a lembrança do que padecera me ocorria de vez em quando à memória. relativo e não se pode comparar ao sofrimento humano. em 1863. quando degeneraram em perpétua ansiedade. se tornariam mesquinhos em relação aos que eles desprezam! P. assegurar-me que tudo aquilo não passava de fantástico sonho. Reconsiderando as dificuldades que tanto e tantas vezes me atormentavam. e procurava. duvida da realidade da sua fortuna e alimenta por algum tempo as apreensões da pobreza. sobretudo moralmente. foi como se me aliviasse de um peso enorme. se o consigo. a necessidade e o caráter transitório das provações. pune-o. VAN DURST Antigo funcionário falecido em Antuérpia. e. com oitenta anos de idade. Deus não recompensa o egoísmo. Muitas vezes venho visitar os que me são caros. e que força. Se os tivesse esquecido seria indigno da felicidade de que gozo. Para torná-los dignos dela. reconhecer-me. dessa mansão. gozo se gozam ou sofro se sofrem. E quando cheguei à conclusão. tremia. Trato então de desviá-los do mau caminho. completamente livre das preocupações terrenas. Sofri corporal e moralmente. mas consola-me a ideia de que nada se perde irremissivelmente.111 – O CÉU E O INFERNO Eu não estava. e. já eu interrogava comigo se de fato havia me libertado delas. à realidade dessa nova situação. que coragem esta convicção não lhes daria na adversidade. Somente entre os homens é que a prosperidade faz esquecer os companheiros de infortúnio. como alvo que fui da maledicência. como para outros Espíritos. é isso uma felicidade não só para mim. exclamo com pesar: Mais um momento de atraso. O mundo em que me vejo pode fazer com que ignore a Terra. Samuel Filipe. Assim era eu. E ainda bem não se desvaneciam tais impressões.

a nossa separação continuará aqui. e. brilhante e cheia de ventura! Salve. pois até lá ele saberá das boas intenções manifestadas a seu respeito. porém. aprenderei mais depressa e facilmente. certifiquem-se de que todo o adiantamento é pouco. eu sou desse número. desse tempo que parece interminável – o renascimento gradual da vida. 11 de fevereiro de 1861). depois. o que mais tarde somente deveria conhecer.. nova. quando encarnado (Bordéus. seria menos dolorosa. porque. Peço-te que espere ainda uns quatro dias. sem encontrá-la. antes de morrer. mas imortal! Não mais homens carnais. Adeus. transcorrido um tempo incalculável de angústias contidas. Digam isso a meu filho tantas vezes quantas bastem para que se instrua e creia.. O que sinto é não ter conhecido o que ora conheceis. tendo ante os olhos horizontes tão belos que a gente se torna impaciente por abrangê-los. Aqui se vive às claras. adeus”. e no entanto bem longe estou de ser feliz. virei muitas vezes instruir-me com vocês. sem velhice que me enfraqueça nem entraves de qualquer espécie. deixo-os. E se pode haver pessoas felizes numa esfera limitada. . digo. porque é a terra do exílio. ver os que nos foram caros. meu amigo..112 – Allan Kardec evocá-lo. sentindo extinguir-se o pensamento que a eles nos prende. oh! Salve. viver e não viver. Terra que por tanto tempo me retiveste afastado do elemento natural da minha alma! Não. e quão fácil e agradável me seria a iniciação na vida espiritual! Sim. Vocês estão no caminho. e. embora possa lhes responder imediatamente. morto por acidente e conhecido do médium. e a maior das felicidades que dispensas nada vale! Ah. bem leve na balança da eternidade foi o fardo da minha existência. responderam-lhe: “Este Espírito lentamente se refaz da sua perturbação. Eu nada mais de ti dependia. Espíritos que deslizam. Notem que aqui onde estou. “Amigos. enquanto estiverem na Terra. para estar um momento depois aniquilado! Quer-se ter a consciência do seu eu. para desfazer-se em trevas logo após! Sentir tudo. estar rudemente preso ao corpo sem poder servir-se dele. Adeus.. do contrário. sem que por isso visasse a perfeição. espero-os. se eu soubesse o que sabem. e sentir que se existe! “Perturbação profunda! Depois. adeus a todos vocês. Decorridos os quatro dias recebemos a comunicação seguinte: “Meu amigo. porque saberia. “De fato. não existir. no momento da separação. muitas mágoas lhe custaria tal comunicação. porém formas translúcidas. porque é no infinito que flutuam! Ter ante si o Espaço e poder participar dele à vontade! Comunicar-se pelo pensamento com tudo que os envolve! Que vida nova. sem forças para senti-las. eternidade que me contém em teu seio!. que surgem de todos os lados. caminhando com desassombro. porque a minha perturbação não se prolongaria por tanto tempo. Oh! Que coisa horrível! Que momento cruel esse em que o aturdimento nos empolga e constrange. visto como sei menos ainda que muitos dentre vocês. ela foi grande. e a elas corresponderá amistosa e gratamente”. que os cercam e que não podem abranger com a vista. sim. o despertar de uma nova aurora em outro mundo! Nada de corpo material nem de vida terrestre! Vida. de forma a desprender-me facilmente. Van Durst SIXDENIERS Homem de bem. A minha condição humilde e relativamente ditosa é de quem não fez o mal.

direi apenas: amem. Só a alma pode percebê-la. Confia. P. Gostaria então de descrever as tuas sensações depois da morte? R. pregando pelo exemplo as grandes virtudes de que fazem simples vocábulos retumbantes. Porque já os conhecem (o médium conhecia-os. R. encarnada. dessa transição. que a sua ressequida boca não encontra sequer o ar para refrescá-la. que. P. Sei. e obrigado pela lembrança. Será possível explicar o infinito àquele que tem os olhos fechados à luz e que não pode sair do estreito círculo que o encerra? Para explicar a eterna felicidade. Ou eu não veria o pensamento de vocês como um quadro ante meus olhos. P. E por que não antes? R. se suspende por sobre ardente fornalha. experimentando dificuldades em escrever. P. e transportemse depois e repentinamente a delicioso Éden. Depois de afogar-me. Meu coração pressentira o futuro do Espírito. Poderia dar notícias da tua filha? (morta quatro ou cinco anos antes) R. Bem feliz foi o meu despertar. respirem os mais suaves perfumes. tudo fere os sentidos ocultos sem auxílio da vista ou do tato: compreendem? É uma admiração. vejam. apesar da ideia grosseira que se lhe atribui. Pode nos dar quaisquer detalhes sobre a tua morte? R. A tua posição foi feliz desde logo que entrou no mundo dos Espíritos? R. senti o corpo pairando no Espaço infinito que o suporta e balança. inundou-me. Despertem cercado de todos os que amastes e chorastes. que o mal depressa se extinguiu. Minha filha não é feliz. e encontrarão sempre mais do que esperaram. as dores que resignado padeci. A vida é um desses sonhos. mas com a graça de Deus e o auxílio dos que me cercavam. aliás apenas imperfeita. tive de pagar a dívida humana. pois está na Terra em missão. efetivamente). porque não há palavras que a expliquem. Ela é infeliz como encarnada? Note que não quero fazer perguntas indiscretas. mas faltava-me a fé. certo de que lhe não será penoso superar os obstáculos. Imaginem que estão presos em calabouço infecto onde o seu corpo. e não em expiação. e a Sua justiça. semblantes adorados rodeando-os a sorrirem de felicidade. qual a flor que da fronde se destaca aos impulsos da brisa. Tive que expiar a indiferença para com o meu Criador. tão benévola e amorosamente pesou o bem. apesar dos sofrimentos. Está em missão aí na Terra. pelo contrário. porém a sua misericórdia levou-me em conta o bem insignificante que pude fazer. quando a luz se fez. desalterem a ressequida garganta na fonte de água viva. antes. e quem diz amor diz ausência de egoísmo. julguem-se envoltos no amor de Deus qual recém-nascidos no materno amor e terão uma ideia. de mais terrível. diz o médium: . Não. Permaneci muito tempo sem me reconhecer. Mas eu a ajudarei. Tranquilizem-se por ela.113 – O CÉU E O INFERNO P. Nada existe aqui de material. P. figurem-se enfim tudo quanto um sonho fantástico pode engendrar de hediondo. pois só o amor promove o pressentimento dessa felicidade. que o seu Espírito aterrorizado só vê ao seu redor monstros prestes a devorá-lo. só pode ser qualificada de medonho pesadelo. deverá provar todas as misérias terrenas. Procurei explicá-los a felicidade da vida que aguarda o homem depois da morte do corpo e não pude. cuja balança os homens jamais compreenderão. sim. Neste comenos. corroído pelos vermes até à medula dos ossos.

peço que escreva seu nome. tanto mais provará a necessidade de assistência. dizendo: “Obrigado por ela. Ele me guia. Poderia me dizer o motivo do teu sofrimento? R. (A Sixdeniers. seja com o intuito de obter daquele a quem se dirige o auxílio necessário ao seu progresso. como no caso presente.114 – Allan Kardec P. P. regenerando algum. mas é certo que o fazem algumas vezes. Pedi-lhe que nos acompanhasse na prece (depois da prece. sem abandonar os primeiros. P. P. P. os quais nem por isso ficam desobrigados de auxiliá-la. Com que objetivo? R. R. pensem nela”). De me ajudarem. Está arrependida dos teus erros? R. Como podem prover uma vigilância que deverá se multiplicar ao infinito no decurso dos séculos? R. tarefa esta que não é exclusivamente delegada aos encarnados. aliviando-lhe os sofrimentos. mas não é buscando a nossa própria satisfação. Já compreendeu. entretanto. Valéria. Sixdeniers retoma a palavra. também vamos elevando-nos. buscamos logo outro e assim por diante.) Tem muitos Espíritos sofredores a guiar? R. . e nenhuma melhor que a de regenerar uma alma. uma vez que também isso constitui para eles meio de progresso. Qual tua relação com ele? R. P. Não. R. não os esquecerei. os Espíritos inferiores são assistidos por bons Espíritos com a missão de guiá-los. à proporção que subimos. Se é um Espírito sofredor que me impede. Uma infeliz. Nem sempre com boa intenção um Espírito inferior vem interromper boas comunicações. Quem te trouxe aqui? R. que devemos encarar quais mendigos a pedirem esmola. Conseguindo-o. Os que regeneramos purificam-se e progridem sem que por isso nos deem maior cuidado. P. restará a nós toda a alegria decorrente de uma boa ação. com a permissão dos bons Espíritos. pode degenerar em obsessão. além disso. Não. Sixdeniers me colocou em seu lugar. Digamos antes: É um Espírito infeliz que os bons me enviam para educar. Podem julgá-lo. Muitas vezes essa tarefa é penosa e seria melhor por certo receber continuamente belas comunicações. em tais casos. P. como os poderes. É fato que a persistência. e. conversar com Espíritos escolhidos. se multiplicam na razão direta da nossa pureza. nem repudiando as ocasiões que se nos oferecem para praticar o bem. seja como prova. Sixdeniers. Queira dizer-me o seu nome. quanto maior for a tenacidade. É um erro e um mal repelirmos tais Espíritos. porém. P. que havemos de atrair a proteção dos bons Espíritos. Nota — Pelo que vemos. P. as capacidades. P. E foi tua ação que ainda há pouco me impediu de escrever? R.

115 – O CÉU E O INFERNO

O DOUTOR DEMEURE
Falecido em Albi (Tarn) a 25 de janeiro de 1865. Era um médico homeopata e distintíssimo. Seu caráter, tanto quanto a sabedoria, haviam-lhe granjeado a estima e veneração dos seus concidadãos. Eram-lhe intocáveis a bondade e a caridade, e, a despeito da idade avançada, não se lhe conheciam fadigas, em se tratando de socorrer doentes pobres. O preço das visitas era o que menos o preocupava, e de preferência sacrificava as suas comodidades ao pobre, dizendo que os ricos, em sua falta, bem podiam recorrer a outro médico. E quantas e quantas vezes provia ao doente sem recursos do necessário às exigências materiais, no caso de serem mais úteis que o próprio medicamento. Dele pode dizer-se que era o Cura d’Ars da Medicina. Encontrando, na Doutrina Espírita, a chave de problemas cuja solução inutilmente havia pedido à Ciência como a todas as filosofias, o Dr. Demeure abraçara com ardor essa doutrina. Pela profundeza do seu espírito investigador compreendeu-lhe subitamente todo o alcance, de maneira a tornar-se um dos seus mais solícitos propagadores. Relações de mútua e viva simpatia se haviam estabelecido entre nós, correspondendonos. Soubemos do seu decesso a 30 de janeiro, sendo que o nosso imediato desejo foi evocá-lo. Em seguida reproduzimos a comunicação obtida no mesmo dia:

Aqui estou. Ainda vivo, assumi o compromisso de me manifestar desde que me fosse possível, apertando a mão do meu caro mestre e amigo Allan Kardec. A morte emprestou à minha alma esse pesado sono a que se chama letargia, porém, o meu pensamento velava. Sacudi o torpor funesto da perturbação consequente à morte, levantei-me e de um salto fiz a viagem. Como sou feliz! Não mais velho nem enfermo. O corpo, esse, era apenas um disfarce. Jovem e belo, dessa beleza eternamente juvenil dos Espíritos, cujos cabelos não encanecem sob a ação do tempo. Ágil como o pássaro que cruza rapidamente os horizontes do céu nebuloso, admiro, contemplo, bendigo, amo e me curvo, átomo que sou, ante a grandeza e sabedoria do Criador, sintetizadas nas maravilhas que me cercam. Feliz! Feliz na glória! Oh! Quem poderá jamais traduzir a esplêndida beleza da mansão dos eleitos; os céus, os mundos, os sóis e seu concurso na harmonia do Universo? Pois bem: eu ensaiarei fazê-lo, ó meu mestre; vou estudar, e virei trazêlos o resultado dos meus trabalhos de Espírito e que de antemão, como homenagem, eu lhe dedico. Até breve. Demeure
As duas comunicações seguintes, dadas em data de 1º e 2 de fevereiro, dizem respeito à enfermidade de que fomos acometidos na ocasião. Posto que de caráter pessoal, reproduzimo-las como provas de que o Dr. Demeure se mostrava tão bom como Espírito, quanto foi como homem.

Meu bom amigo: tenha coragem e confiança em nós, porque essa crise, apesar de ser fatigante e dolorosa, não será longa, e, com os conselhos prescritos, conforme deseja, poderá completar a obra que se propôs como fim da sua existência. Sou eu quem aqui está, perto de vocês, e com o Espírito de Verdade que me permite falar em seu nome, por ser eu dos seus amigos o mais recentemente desencarnado. É como se me fizessem as honras da recepção. Caro mestre: quanto me sinto feliz por ter desencarnado a tempo de estar com esses amigos neste momento! Mais cedo livre, eu poderia talvez tê-los poupado essa crise que não previa. Era muito recente o meu desprendimento para ocupar-me de outras coisas que não as espirituais; mas agora velarei por vocês, caro mestre. Aqui estou para, feliz como Espírito, ao seu lado, prestar os meus serviços. Conhecem o

116 – Allan Kardec provérbio: ‘ajuda-te, o céu te ajudará’. Pois bem, ajudem os bons Espíritos que os assistem, conformando-os com as suas prescrições. Está muito quente aqui: esta fumaça é irritante. Enquanto estiverem doente, convém não fazer lume, a fim de não aumentar a opressão. Os gases que aí se desprendem são deletérios. Do seu amigo: Demeure Sou eu, Demeure, o amigo do Sr. Kardec. Venho dizer-lhe que o acompanhava quando lhe veio o acidente. Este seria certamente mortal sem a intervenção eficaz para a qual me orgulho de haver ajudado. De acordo com as minhas observações e com os informes colhidos em boa fonte, é evidente para mim que, quanto mais cedo se der a sua desencarnação, tanto mais breve reencarnará para completar a sua obra. É preciso, contudo, antes de partir, dar a última demão às obras complementares da teoria doutrinal de que é o iniciador. Se, portanto, por excesso de trabalho, não atendendo à imperfeição do seu organismo, antecipar a partida para cá, será passível da pena de homicídio voluntário. É necessário lhe dizer toda a verdade, para que se previna e siga estritamente as nossas prescrições. Demeure
A seguinte comunicação foi obtida em Montauban, aos 26 de janeiro, dia seguinte ao da sua desencarnação, num Centro de amigos espíritas que havia nessa cidade.

Antoine Demeure. Não morri para vocês, meus amigos, porém para aqueles que não conhecem a santa doutrina que reúne os que se amaram e tiveram na Terra os mesmos pensamentos, os mesmos sentimentos de amor e caridade. Sou feliz e mais feliz do que esperava, gozando de uma lucidez rara entre os Espíritos relativamente ao tempo da minha desencarnação. Revistam-se de coragem, bons amigos, que eu estarei muitas vezes junto de vocês, instruindo-os em muitas coisas que ignoramos quando presos à matéria, grosso véu que é de tantas magnificências, de tantos gozos. Orem pelos que estão privados dessa felicidade, pois eles não sabem o mal que fazem a si mesmos. Hoje não me prolongarei, dizendo-os somente que me não sinto de todo estranho neste mundo dos invisíveis, parecendo-me até que sempre o habitei. Aqui sou feliz em vendo os meus amigos, comunicando-me com eles sempre que o desejo. Não chorem, meus amigos, porque me fariam lamentar tê-los conhecido. Deixem correr o tempo e Deus lhes encaminhará para esta mansão, onde nos devemos todos reunir finalmente. Boa-noite, amigos; que Deus os conforte, ficando eu ao seu lado. Demeure
Ainda de uma carta de Montauban extraímos a narrativa seguinte:

Tínhamos ocultado à Sra. G... – médium sonambúlico e vidente muito lúcido – a morte do Dr. Demeure, em atenção à sua extrema sensibilidade. Sem dúvida, compreendendo a nossa intenção, o bom médico também evitou se manifestar a ela. Em 10 de fevereiro nos reunimos a convite dos guias, que diziam querer aliviar a Sra. G... de uma luxação, em consequência da qual muito sofria desde a véspera. Nada mais sabíamos, e longe estávamos de pensar na surpresa que nos aguardava. Logo que essa senhora se mediunizou, começou a soltar

117 – O CÉU E O INFERNO gritos lancinantes, mostrando o pé. Eis o que se passava: A Sra. G... via um Espírito curvado a seus pés com a fisionomia oculta, a fazer-lhe fricções e massagens, exercendo de vez em quando uma tração longitudinal sobre a parte luxada, exatamente como faria qualquer médico. A operação era tão dolorosa, que a paciente vociferava empregando movimentos desordenados. No entanto, a crise não foi longa e ao fim de uns dez minutos desapareciam a inflamação e os traços da luxação, retomando o pé a sua aparência normal. A Sra. G... estava curada! O Espírito continuava desconhecido para o médium, persistindo em não lhe revelar as feições, quando, por mostrar desejos de se retirar, a doente – que momentos antes não daria um passo – se atira de um salto ao centro do quarto para apertar a mão do seu médico espiritual. Ainda desta feita, o Espírito voltou o rosto, deixando a mão na do médium. Nesse momento a Sra. G... dá um grito e cai desfalecida no soalho, ao reconhecer o Dr. Demeure no Espírito que a operava. Durante a síncope ela recebia cuidados de muitos Espíritos afeiçoados. Por fim, reapareceu a lucidez sonambúlica e ela conversou com muitos desses Espíritos, trocando-se felicitações, sobretudo com o Dr. Demeure, que lhe correspondia aos testemunhos de afeição penetrando-a de fluidos reparadores. Não é uma cena surpreendentemente dramática, considerando-se as personagens como que representando papéis da vida humana? Não será uma prova, entre mil outras, de que os Espíritos são seres efetivamente reais agindo como se estivessem na Terra? Somos felizes por ver, no amigo Espírito, o mesmo coração bondoso do médico solícito e abnegado que foi neste mundo. Ele foi durante a vida o médico do médium, e, conhecendo a sua extrema sensibilidade, poupou-o tanto quanto se fosse seu próprio filho. Esta prova de identidade, conferida aos que o Espírito prezava, é admirável e de molde a fazer encarar a vida futura por um prisma mais consolador.
Nota – A situação espiritual do Dr. Demeure é justamente a que se podia antever na sua vida tão digna quanto utilmente empregada. Mas, dessas comunicações, resulta ainda um outro fato não menos instrutivo: o da atividade que ele emprega quase imediatamente após a morte, no sentido de tornar-se prestimoso. Por sua alta inteligência e qualidades morais, ele pertence à categoria dos Espíritos muito adiantados. Porém, a sua felicidade não é a da desocupação. Ainda há poucos dias tratava doentes como médico, e mal apenas se desprende da matéria, estava ele a tratá-los como Espírito. Dirão certas pessoas que nada se adianta, então, com a permanência no outro mundo, uma vez que se não goza ali de repouso. É o caso de lhes perguntarmos se é nada o fato de não termos mais cuidados, necessidades, moléstias; podermos livre e sem fadigas percorrer o Espaço com a rapidez do pensamento, ver os que nos são sempre caros e a toda hora, por mais distantes que de nós se achem! E acrescentaremos: Quando no outro mundo, nada os forçará a vontade; poderiam ficar em beatífica ociosidade e pelo tempo que lhes agradasse, mas fiquem certos de que esse repouso egoísta depressa lhes enfadaria, e seriam os primeiros a solicitar qualquer ocupação. Então diríamos que se a ociosidade enfada, deviam vocês mesmos procurar algo a fazer, visto não escassearem ocasiões de ser útil, seja no mundo dos Espíritos, seja no dos homens. E assim é que a atividade espiritual deixa de ser uma obrigação para se tornar uma necessidade, um prazer relativo às tendências e aptidões, escolhidos de preferência os misteres mais propícios ao adiantamento de cada um.

A VIÚVA FOULON, NASCIDA WOLLIS
A Sra. Foulon, falecida em Antibes, em 3 de fevereiro de 1865, residiu por muito tempo no Havre, onde conquistou a reputação de miniaturista habilíssima. De

118 – Allan Kardec notável talento, aproveitou-o primeiro como simples amadora, mas, quando lhe sobrevieram necessidades, fez da sua arte proveitosa fonte de receita. O que a tornava admirada e estimada, conquistando-lhe depois, da parte dos que a conheceram, uma recordação memorável, era sobretudo a cortesia do caráter – as qualidades pessoais, que só os íntimos podiam conhecer em toda a sua extensão. É que a Sra. Foulon, como todos os que têm o sentimento natural do bem, não o alardeava, antes considerava isso virtude natural. Se houve pessoa sobre a qual o egoísmo não tenha tido influência, sem dúvida, essa pessoa foi ela. Nunca, talvez, o sentimento da abnegação pessoal foi tão ampliado, pronta como estava sempre a sacrificar-lhe o repouso, a saúde e os interesses em proveito dos necessitados. Pode dizer-se que a sua vida foi uma longa série de sacrifícios, como também de rudes provações desde a mocidade, sem que a coragem e a resignação, a despeito delas, jamais lhe faltassem. Mas eis que a sua vista, cansada por meticuloso trabalho, extinguia-se dia a dia, a ponto de, com algum tempo mais, resultar em completa cegueira! Foi então que o conhecimento da Doutrina Espírita se lhe tornou em oceano de luz, rasgando-lhe como que espesso véu para deixar-lhe entrever alguma coisa não totalmente desconhecida, mas da qual possuía apenas uma vaga intuição. Estudou-a com afinco, mas ao mesmo tempo com o critério de apreciação própria das pessoas, tal qual ela, dotadas de alta inteligência. Seria preciso avaliar todas as incertezas, todas as dúvidas da sua existência, provenientes não dela, mas dos parentes, para julgar das consolações que hauriu na sublime revelação, e que lhe deram a fé inquebrantável do futuro, a consciência da nulidade das coisas terrenas. Também a sua morte foi digna da vida que teve. Sem a mínima apreensão angustiosa, viu-a aproximar-se como libertação que lhe era das cadelas terrestres, ao mesmo tempo em que lhe abria as portas da vida espiritual, com a qual se identificara no estudo do Espiritismo. E morreu calmamente, convicta de haver completado a missão que aceitara ao encarnar, pois cumprira escrupulosamente os deveres de esposa e mãe de família; e assim como durante a vida declinara de todo e qualquer ressentimento em relação àqueles de quem porventura pudera queixar-se por ingratos; e assim como sempre trocara o bem pelo mal, assim também desencarnou, perdoando-lhes, implorando para eles a bondade e a justiça divina. Desencarnou, finalmente, com a serenidade decorrente de uma consciência limpa, e a convicção de que nem por isso se afastaria mais dos filhos, uma vez que poderia estar com eles em espírito, aconselhá-los e protegê-los, fosse qual fosse o ponto do globo em que se achassem. Logo que soubemos do trespasse da Sra. Foulon, tivemos por primeiro cuidado o de evocá-la. As relações de amizade e simpatia, que a Doutrina estabelecera entre nós, explicam algumas das suas frases e justificam a familiaridade de linguagem.

I
(Paris, 6 de fevereiro de 1865, três dias após o decesso)

Tendo como certo que haviam de me evocar logo após o desprendimento, prontificava-me para lhes corresponder, visto não ter experimentado qualquer perturbação. Esta só existe para os seres envoltos e submersos nas trevas do seu próprio Espírito. Pois bem, Meu amigo, considero-me feliz agora; estes míseros olhos que se enfraqueceram a ponto de me não deixarem mais que a recordação de coloridos prismas da juventude, de esplendor cintilante; estes olhos, digo,

se a minha ovelha viajora aportou à terra ou permanece à mercê das tempestades.) Que os bons Espíritos a protejam. bem longa já vai a conversação. você sabe que. para a primeira vez. chegando antecipadamente entre nós e. tenha indulgência e caridade. Creia em mim: os mortos são mais felizes que os vivos e chorar por eles é duvidar das verdades espíritas. Kardec. antes de ter concluído o trabalho da iniciação espírita. que vele para que não mais se exponha a novo perigo. tem o cunho da mais completa realidade. porém. motivo pelo qual os deixo. com o motivo da minha morte? Principalmente você.119 – O CÉU E O INFERNO abriram-se aqui para rever horizontes esplêndidos. não vendo senão de longe a Terra Prometida. o que é uma lei suprema e comprobatória da capacidade do livre-arbítrio. atento ao princípio de que nada é inativo em a Natureza. além-mar. . até logo. se os bons Espíritos não tivessem intervindo? Teria chorado e gemido. às quais obedecemos. D. mais não eram que a intuição de faculdades adquiridas em anteriores existências e na última encarnação desenvolvidas. e agora. virá repousar um pouco junto de mim para recomeçar mais tarde. o que até certo ponto compreendo. deveria antes alegrar-se ao saber que não mais bebo na taça amarga das dores terrenas – taça esgotada até às fezes. Allan Kardec71). (Refere-se a uma das filhas que residia na América. minha boa amiga (refere-se à Sra. Com tal certeza. Não há mais de três dias que desencarnei e sinto que sou artista: as minhas aspirações. É uma amiga que te diz: seja cauteloso! Agora parto para junto dos meus queridos filhos. tudo vai bem. bons e caros amigos. Portanto. Não me diga para cessar de falar. Se parti primeiro é porque a tarefa estava acabada. Demeure. Quero agradecer-lhe as palavras afetuosas que houve por bem dirigir à amiga que no túmulo o precedeu. quanto trabalho para reproduzir uma obra-prima e digna da grandiosa cena que se aparece ao Espírito chegado às regiões da luz! Pincéis. Viúva Foulon 71 Esposa de Kardec: Amélie Gabrielle Boudet – N. visto como escapamos de partir juntos para o mundo em que me encontro! (Alusão à enfermidade de que falara o Dr. pincéis e eu provarei ao mundo que a arte espírita é o complemento da arte pagã da arte cristã que periga. que conhece as decepções e amarguras da minha existência. quer no invisível. quando a sua for completada. Assim. severa e conseguintemente grandiosa. É preciso. mas cuja exuberância majestática. para dar a vez ao meu excelente amigo Sr. Tornarão a me ver. Voltarei a conversar com vocês. sentimentos esses de que mutuamente carecemos – quer no mundo visível. aos quais para o mesmo fim vou reunir-me.) Que diria então a companheira amantíssima da nossa existência. qual Moisés. Até breve. minha amiga. pois não se esqueçam de que sou uma conversadora infatigável. Contudo. fique certa. Mas. idealizados em vagas reproduções por alguns dos seus geniais artistas. depois do que irei ver. tarefa que aliás cada qual tem na Terra. Isto é o bastante para a artista. à amiga: Por que se incomodar assim. atinentes ao ideal do belo artístico. Todos temos más tendências. cabendo somente ao Espiritismo a glória de revivê-la com todo o esplendor sobre seu mundo deserdado.

em certas e determinadas circunstâncias. um centro superior no qual esta tua amiga vai repousar. quero referir-me às fadigas corporais que amarguei. desembaraçada e feliz. tanto. R. lentamente despertei no meio de irmãos que não conhecia. sem consciência do meu estado. esquece a Terra.. subimos. não à indolência do Espírito. considero-me satisfeito com a comunicação de há dias. Sabe muito bem que nenhum obstáculo se opõe à vinda à Terra. Essa intuição não me iludia e foi ela quem me deu a coragem. mas na certeza de aí achar a felicidade. pelo pensamento. tratei de readquirir a firmeza de espírito. pois já não pertence mais à Terra”. como se saísse de prolongado desfalecimento. a trilha luminosa que espera a tua alma após o desenlace. do que daqueles que por sua inferioridade e egoísmo gravitam ao redor da esfera terrestre. às esferas celestes. como das anteriores encarnações. para que possa separar-me definitivamente. não pensando em coisa alguma. vi as esperanças realizadas. P. à visita. Fiquem certos de que na Terra podem estar mais próximos dos que atingiram a perfeição. abalada pelos desgostos e tribulações que tantas vezes me fizeram tímida na Terra. dizendo: “É para ali que você vai conosco. e. Lembre-se certamente que neste sentido eu me permiti fazer-te mais de uma advertência. pois que este tem na atividade uma fonte de gozos. por falar de coisas desconhecidas do médium e muito próprias do seu espírito. Cara Sra. P. Nesse estado fiquei longo tempo. Portanto. É verdade. meu amigo. Diriam vocês. A linguagem afetuosa para conosco é. R. formando um grupo gracioso que se lança para as esferas desconhecidas.120 – Allan Kardec II (8 de fevereiro de 1865. Então. Eu disse comigo: “já que é espírita. incumbida como estou de uma missão junto de meus filhinhos.. Pois bem: essa firmeza cresceu de pronto quando. a calma e a firmeza dos últimos momentos. Foulon. seguramente. porém. sim. após a libertação. . Eles dispensavam-me cuidados e carinhos. e depois. dos Espíritos que demoram em mundos superiores. uma vez desencarnada. uma pronúncia até então desconhecida em ti. mas o fato é que eu sofri tanto. de futuro. às contingências da vida terrestre. na qual prometeu continuar a nossa conversação. P. talvez. recordei-me. Eu sofri.) P. Então deixou a Terra definitivamente? R. numa vaga sonolência que não era bem o sono do corpo nem o despertar da alma. irás habitar”. Era um mundo feliz. A tua posição de agora poderia de algum modo diminuir ou enfraquecer as relações com os que aqui deixastes? R. Descreva-nos agora a transição. ao mesmo tempo em que me mostravam no Espaço um ponto algo semelhante a uma estrel a. Não. prepara-te para a transformação do teu ser e vê. ainda que notássemos nas palavras uma firmeza. subimos. a ela virei em Espírito. encontrei-me como que em desmaio. Deixo nela muitos entes queridos. de uma alma amorosa como a sua. Depois do último alento. o amor aproxima as almas. onde. que era um tanto presunçosa em contar com a perfeita felicidade. apoiada sobre eles. Quando digo repouso. desde que adoeci gravemente. uma segurança. em suma. Creia que a reconheci logo. e pela qual deverás libertar-te. à proporção que a estrela se engrandecia. o despertar e as primeiras impressões que aí recebeu. que deveria expiar as faltas não só da última. mas o espírito superou o sofrimento material que o desprendimento em si lhe acordava.

Depois da morte. A tal circunstância deve juntar mais a de ter eu uma família a consolar. Engana-se. de tudo quanto os permitiu receberem. e assim também te asseguro o meu auxílio sempre e em qualquer parte. porque é mais sábio e ponderado do que eu. Viúva Foulon. o teu amigo. a todo o instante.121 – O CÉU E O INFERNO A caridade e o amor são dois motores de poderosa atração . conseguintemente. nem o caminho a trilhar. a força para suportar as provações da vida. unido ao Espírito de Verdade. Adeus e até breve. A distância só existe para os corpos materiais. A Ele devem agradecer os benefícios de que os cumula. ainda estou sob a influência deslumbradora de tudo que me cerca. Meditem sobre a aplicação do . Deus – tal como já o havia feito na Terra – estendeu sobre mim o manto da sua misericórdia infinita. Demeure. tão importante. Mas essa impressão se desvanecerá e os Espíritos asseguram-me que dentro em breve estarei acostumada a todas estas magnificências. Ajudarei a ti no que estiver ao meu alcance. que uma timidez invencível me impede de responder conforme deseja. a qual consolida e prolonga a união das almas. Não percam nunca de vista o que lhes foi indicado. III A comunicação seguinte foi destinada a seus filhos em data de 9 de fevereiro: Meus amantíssimos filhos: Deus retirou-me de junto de vocês. Há quatro dias apenas que deixei a Terra e. caro mestre. a tomar medidas concernentes à dinamização do movimento renovador em que se funda o Espiritismo. Sei que a assistência dos bons Espíritos o fortalece e sustenta no teu trabalho. Parece-me ser um missionário e que o fardo é pesado. aliás. Provavelmente assim acontecerá. Abençoem-no. o será mais útil ainda. visto como a ti exclusivamente deve a única consolação duradoura e verdadeira que teve na Terra. bendizei-o sempre. O fato é que vejo tantos outros Espíritos mais capazes do que eu de tratar deste assunto. nunca para os Espíritos. Que ideia faz agora dos meus trabalhos sobre Espiritismo? R. animando-o. com os meus conselhos de Espírito. P. mas também prevejo o fim da tua missão e sei que o atingirá. Queridos filhos. Será o caso de não me compreender? Não encontro meios de exprimir as sensações novas que experimento. enfim. mas a recompensa que se dignou conceder-me é bem maior que o pouco que fiz na Terra. A única coisa que posso fazer é adorar e render graças a Deus nas suas obras. P. Tende firme no coração a crença que tanto me facilitou a passagem para este mundo. resignem-se às vontades do Onipotente e tirem. para que possa superar as dificuldades que lhe serão suscitadas. isto enquanto aí permanecer. Esforço-me a todo o transe para fugir à fascinação que sobre o meu ser exercem as maravilhas por ele admiradas. A tua boa amiga ama-o e amará sempre. meus filhos. De algumas das tuas palavras pode se deduzir que não prestará colaboração pessoal muito ativa na propagação do Espiritismo? R. a despeito de distâncias e lugares. de modo a poder tratar com lucidez espiritual de todas as questões concernentes à renovação da Terra. e eu me animarei com denodo desde que melhor conheça esses Espíritos.

com facilidade. podem conjurála. de não mais ser preciso encarnar na Terra e passar a um mundo superior. Caros filhos. Apenas desencarnada. a distância dificultava a própria correspondência. por este exemplo demonstrada. no amor de Deus. entreter-se com eles a todo instante. Felizes ainda com seus filhos. mas o Espírito que nos unia. Voltarei. por bondade do Onipotente. mas resistiu às tentativas que fiz para te escrever. mas é preciso consolar a filha que de mim tanto precisa agora. dos seres que nesta nos foram queridos. para de novo nos juntarmos. Conformem-se com as prescrições por mim tão ardentemente seguidas. quando para lhes terminar essa jornada. quando como vocês encarnada. que tantas e tantas vezes socorreu sua mãe. como se viva na Terra fora. Sim. a possibilidade. não havendo tido com ele relações sequer indiretas. A vocês que a têm. belos dias os aguardam. desde que a união reine entre vocês. E assim procederá aquele que não quiser vegetar nas camadas inferiores.. trabalhando para o seu adiantamento. mas convém que saibam que os elos que aí nos ligavam não se espedaçaram pela morte do corpo. meus filhos.122 – Allan Kardec tempo que Deus lhes determinou na Terra. até breve. e daí o desejo de me entreter contigo para teu benefício. No dia da minha morte o persegui com a minha presença. Viúva Foulon Nota – Todo Espírito esclarecido e sério. Para alguns. protege-os e pode. é certo. Foulon apenas conservava junto de si uma pequena parte de sua família. tirará destas comunicações. meus queridos filhos. em virtude das misérias terrenas. Assim. Não chorem. O segundo ponto é a confirmação do fato de estarmos menos separados na morte do que na vida. meus filhos. P. felizes uns pelos outros. servindo-se da mediunidade. rápida qual a eletricidade. esse Deus que tantos benefícios nos prodigalizou. Retida pela enfermidade e pelos anos numa pequena cidade do Sul. era um médico tão eminente pelo saber como pelas qualidades morais.. Possam estas comunicações fortalecê-los na fé. Não me podem ver. visto como não era o invólucro. . percorre distâncias sem fadiga. Até sempre. Quem o evocou apenas o conhecia por tradição. a Sra. obstáculos materiais impediam que os visse tantas vezes quantas porventura o desejaria. deram ocasião a que o reconhece. ainda há quem prefira a ideia de uma eterna separação! UM MÉDICO RUSSO M. porém a mim não estava destinado o ver esses dias aí na Terra. Eu suplico a Deus por vocês: creiam na bondade divina. e os vê e assiste às suas reuniões íntimas. Estando a maior parte dos filhos e dos amigos dispersos e afastados. fazendo o possível por instruir-se. encorajá-los. os ensinamentos que delas ressaltam. Isso mesmo já lhes disseram. Adeus. de Moscou. pois. que julgarei os belos tempos prometidos pelo Deus de bondade. Será do alto. Nós apenas lhe chamaremos a atenção para os dois pontos seguintes: Primeiro. Aí serão felizes. E dizer-se que. a uma perspectiva tão consoladora. se os educarem nos mesmos princípios sadios que Deus permitiu que lhes fossem revelados. os que temem a reencarnação. E assim é que me será possível. (Depois da evocação) Está presente? R. por trabalhar e graduar-se. A original comunicação foi dada em idioma russo. de justiça e misericórdia. Foulon rapidamente corre para perto de cada um. As palavras. que disse a meu respeito. P. cultivem carinhosamente esta crença sublime. que a prece revigora. guiá-los. Orem sempre.. sem ficar separado dos seres afeiçoados que aqui deixamos. a Sra.

Essa ventura que gozo é uma espécie de contentamento extremo de mim mesmo. a ponto de deslumbrar-nos. Mas. o atingi depois de uma série de combates. em que os Espíritos vem e vão. 28. Tinha bastante fé em Deus para que isso não sucedesse. A ideia da morte te causou terror? R. pela qual os anjos do Senhor subiam e desciam. que se elevaram até o Criador. Bom como era. pois. ou seja. conforme a narração em Gênese. estabelecida por Deus. se grande for aquela é que também esta o foi e necessariamente. isto é. Isso é mais difícil de te fazer compreender. até à depuração completa da alma! Ao lugar em que ora me encontro não se chega senão depois de uma série enorme de provas. dando-me todos as boas-vindas. Em suma. Ficamos como que identificados com esse bem-estar. Em que consiste a tua felicidade? R. É uma coisa indizível ao homem. no infinito imenso. Porque era do agrado do Senhor fazer-me sentir duplamente por esse meio o preço da minha libertação. mas contentamento como que completo.123 – O CÉU E O INFERNO P. que é uma espécie de fusão do Espírito com a bondade divina. 72 . P. O desprendimento foi doloroso? R. Temos o dom de ver os Espíritos mais adiantados. o que digo? Compreende as minhas palavras? Acredita ser esse fogo. Contudo. Nada há privilégio na ordem imutável do Universo. Que infinidade de escalas nesta escada de Jacó72 que vai da Terra ao Céu. imerso no amor de Deus. de saber que também nós a tanto chegaremos. teve um sonho em que via uma escada ligando a Terra e o Céu. A recompensa só pode vir depois da luta vencida: assim. E que sucedeu depois? R. inteiramente desembaraçado da mísera carcaça. de compreender-lhes a missão. não pelos meus merecimentos. Eu apenas senti um rápido abalo. Nem podia ser de outra maneira. notadamente os que tive a satisfação de ajudar. A escada de Jacó sugere uma metáfora à reencarnação. na busca evolutiva – N. Tudo que não seja planeta. P. Que regiões habita? Acaso algum planeta? R. concluir que. deve ter tido muitas existências? R. o que seria orgulho – e este é predicado de Espíritos atrasados –. estando eu num dos graus elevados. É fácil. como esse. uma vez que as palavras só exprimem para ele coisas físicas ou metafísicas que conhece de Jacó. do número de gradações desta imensidade. Isso que chama de últimos momentos não é nada. no reconhecimento da sua infinita bondade. nunca. P. por exemplo? Não. Logo. fazer uma ideia. comparável ao Sol. constitui o que chamam Espaço e é neste que permaneço. que são as diferentes e sucessivas encarnações. P. é a alegria que nos infunde o bem. Mas a vida humana é tão curta que a luta apenas se trava por intervalos. P. de encarnações. por que sofreu tanto? R. entrevemos as regiões em que brilho esplende o fogo divino. D. para encontrar-me logo feliz. nos quais Deus me permitiu saísse vitorioso algumas vezes. do rebaixamento da encarnação em mundo inferior. Tive o prazer de ver aproximarem-se inúmeros amigos. podendo supor-se ter a seu arbítrio contribuído para o progresso de outros. mesmo através do véu que as envolve. P. a que me refiro. o homem não pode calcular. querendo ao mesmo tempo em que na Terra progredisse o mais possível. Não. sequer. um patriarca dos hebreus.

. a caridade. que aliás facilmente poderia descarregar nos que te afligem. enquanto à cabeceira do leito os amigos da Terra chorarem e pedirem. Desde que o homem não pode guardar na memória o que absolutamente desconhece. logo me propus contribuir para o teu progresso. É uma consolação poder-se dizer: “quando eu morrer. Deus te cumula de graças pela faculdade que o concedeu. P. Por que faço jus a essa proteção que deseja me prestar? R. trate de procurar esses amigos.. mas também dos que devem instruir no conhecimento da verdade. caminhar sempre. Se a tua fé se abalar e qualquer comoção te perturbar. carinhos. que dão conselhos. irão sorridentes conduzir-me ao lugar adequado aos meus méritos e virtudes”. que a própria consciência acuse de culposas. R. P.) . pouco a pouco se tornarão crentes. e que deve desenvolver pelo esforço próprio. a fim de cooperar na salvação do próximo. quando o desespero de te se apodere. os do Espaço. no limiar da vida. vivendo o mais possível com os amigos do Espaço. Pode ver na tua missão uma prova eloquente do amor de Deus para contigo. apesar dos pedregulhos. ouvindo-te. o cuidado em manter a fé dos que o ouvem. a bondade e a benevolência. Vou te deixar. uma das mais poderosas atenuantes do mal. de tantas. Se faz preciso que modere as ideias terrenas. É por certo que está bem longe da perfeição. fortalecer nos momentos de desânimo.. abril de 1862. mesmo para os que mal se conduzem. fique ciente de que já é uma grande satisfação pensar na possibilidade de progredir infinitamente.124 – Allan Kardec memória ou intuitivamente. consolar nos de aflição. BERNARDIN (Bordéus. porém conte sempre comigo. em aconselhar a caridade. evoque-me. lembrando deveres impostos. P. Teve a bondade de exprimir o desejo de me ser útil: peço que me diga em que. nunca. como Espírito. vi-te adepto sincero do Espiritismo e bom médium. chame-me ainda. Não me julgo digno de tão grande favor. como explicar sua a percepção? Porém. não por considerações sociais ou materiais. Convém que o diga: o perdão das ofensas é. talvez já o tenham salvo. E como dentre tantos que aí deixei foi o que vi primeiramente. compartilhando das tuas angústias. Desanimar. O proveito não é apenas teu. e aos mais atrasados. também chegará a vez de crer – embora dure mais tempo. falando-te espiritualmente. por não saberem das tuas intenções. porque eu o ajudarei a carregar a tua cruz. mas pelo amor que te transfundirei na alma. ainda uma vez me chame para que venha te arrancar do abismo. os quais. a resistência aos instintos de cólera. tudo isso ameniza a maldade que ainda possui. Apesar do teu ardor na prática das doutrinas santas. tal como a Jesus ajudaram a carregar aquela donde tão solenemente deveria proclamar a verdade. Se te sentir prestes a cair ao peso das más tendências. porque Deus me permitirá lembrá-lo. É Certo que tem amigos na Terra. amor por Deus a mim concedido em favor dos que por ele podem salvar-se.. Tome-me por apoio nos momentos de desânimo. Se vacilar ao peso dos próprios dissabores. P. Em momentos aflitivos. Eis a razão: a você me afeiçoei logo no dia da minha morte: é que. Os que a ti se chegarem. atraindo-o para Ele. apoio. Pois bem: fique certo de que no Espaço também pode ter amigos. úteis e prestantes. Posso te ajudar e amparar nos desfalecimentos.

tudo sem poder queixar-me. A minha missão é guiar centros espíritas aos quais inspiro bons pensamentos. verdadeira. e quando o que me oprimia na Terra sobrecarregava o fardo das minhas dores. ao mesmo tempo em que me esforço por neutralizar os sugeridos por maus Espíritos. Jamais a maledicência poluiu os seus lábios. Ah! Pobres amigos. Seu necrológio73 é daqueles que podem resumir-se nestas palavras por mil bocas repetidas: “Por que Deus retira tão cedo tais pessoas da Terra?” Felizes os que assim fazem a sua memória abençoada. P. esta era também perfeito modelo de qualidades intelectuais e morais. Em que época viveu? R. Nascido em época de servidão cruel. com benevolência e delicada familiaridade que tratava os criados. filhas raptadas e repudiadas em seguida. esses. Sem arrogância nem aspereza. se soubessem o que padeci na minha longa existência. em 1851. meu filho. provei de todas as injustiças. fadigas e dissabores que os subalternos do Senhor haviam por bem impor-me. Vivi ainda entre vocês como missionário. Filho de numerosa família. Faleceu com 36 anos de idade. e suportei sem me queixar”. ainda tem ocupações? R.. . Porém. De 1400 a 1460.. paciência e resignação. meiga e indulgente.. além de despercebida de quaisquer aparências de superioridade ou de humilhante proteção. agora. Meus filhos.. jovem. A simples ideia de que alguém pudesse experimentar uma privação por sua causa lhe seria um remorso 73 Necrológio: elogio que as faz de um falecido – N. Bernardin A CONDESSA PAULA Bela. eu esperava essa felicidade que não existe na Terra e o Senhor a concedeu-me. e não manipulada pelos homens. Acreditariam então que os Espíritos ficassem inativos? A inutilidade nos seria um suplício. têm precisão do que se lhes deve. era. provinda de Deus. E teve depois uma outra existência? R. Quem aconselha é sempre mais acatado quando pode dizer: “suportei mais que vocês. porém da fé pura. jamais reteve o pagamento de um salário. dai-me a força de suportar-lhe o peso sem queixas”. rica e de estirpe ilustre. Aí na Terra vivi no desonra e na miséria. conseguintemente. Expiava. Mulher injuriada. em lugar de aumentá-lo. D. sou um Espírito esquecido. ao contrário. P. E como Espírito. ao sair da rude provação. Entretanto.125 – O CÉU E O INFERNO Há muitos séculos. meus amigos. Tu. levavam-nos às guerras de assaltos e de crimes. No entanto. irmãos e filhos. trabalhando incessantemente e dia por dia para dar à família magro pão. P. jamais tive posição e servi a quem melhor podia auxiliar-me a suportar a existência. Ela era boa. Portanto. guarda o que te dei e que é um ensinamento prático. dizendo-lhes: “Por mais cara que a julguem. já pela sua condição. a felicidade que lhes espera há de superar o preço. amava o verdadeiro Senhor. o Senhor recebeu-me na sua santa paz e o meu mais caro voto foi reuni-los a todos. sempre pronta a desculpar ou atenuar o mal. Sim como missionário da fé. já para se manterem. a todos vocês: coragem. Compreendendo que pessoas que vivem do trabalho não são rendeiros e que. para os enforcarem depois por faltas não cometidas. dizia eu: “Meu Deus.

contudo. se seguirem o caminho certo da vida. que são. pois não me lembro de haver aí experimentado um só desgosto real. Destinando a renda de uma parte dessa fortuna exclusivamente a tal fim. mas não essa beneficência ostentosa à luz do dia. Horizontes nebulosos e limitados. pois tais virtudes só tinham por testemunhas os infelizes que assistia. nem uma reclamação. Da sua estirpe e das altas funções do marido decorriam-lhe onerosos encargos domésticos. fortuna. Um dos seus parentes. tudo vibra amor. ela o fazia. e assim exercia a caridade de coração. os desesperos que acalmou. sem pagarem as próprias dívidas. embora longe do seu último grau. de sofrimento?! Aqui. E assim encontrara meios de conciliar os seus deveres para com a sociedade e para com os infortúnios 74. considerava-a sagrada e como de menos a despender no serviço da sua casa. cujo original é em alemão. sinceridade: por toda parte corações amantes. homenagens. com tal método. o que são elas comparadas a estas assembleias de Espíritos resplendentes de brilho que as suas vistas não suportariam. comparados ao espetáculo de mundos a moverem-se no Universo infinito ao efeito do Altíssimo? E como são monótonos os seus concertos mais harmoniosos em relação à suave melodia que faz vibrar os fluidos do éter e todas as fibras d’alma! E como são tristes e insípidas as suas maiores alegrias comparadas à sensação inefável de felicidade que nos satura todo o ser como um eflúvio benéfico. comparados aos percursos da imensidade. sem mescla de inquietação. e mais ainda do que a linguagem pode exprimir. nem ciumentos! É este o mundo em que me encontro. a seguinte comunicação75: Amigo. e humilhada se julgaria se lhe dissessem que os seus fornecedores eram constrangidos a fazer-lhe adiantamentos. vastas regiões do Espaço matizadas de cores que sufocaria o arco-íris? Os seus passeios. Também por ocasião da sua morte só houve pesares. Assim é. 75 Desta comunicação. A sua beneficência era inesgotável. E desse modo se permitia usar da sua fortuna maior quinhão aos necessitados. e obteve. mais céleres que o raio. evitando desperdícios e superfluidades. os secretos. cap. tem razão em pensar que sou feliz. que são eles comparados a estas moradas aéreas. meu amigo. satisfazendo plenamente às exigências de sua posição. brilho que é o privilégio da sua pureza? Os seus palácios de dourados salões. a contados passos nos parques. efetivamente.126 – Allan Kardec de consciência. ideada em O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO. a que se reduzem. que metade lhe bastava do que a outro seria preciso para tanto. sem avareza. não podia compreender que houvesse prazer para o rico em ter dívidas. iniciado no Espiritismo. E mais: ela timbrava em descobrir os mais duros infortúnios. eu possuía tudo o que entre vocês constitui felicidade! No entanto. amigos por toda parte! Nem invejosos. de apreensão. em resposta a diversas perguntas. Só Deus sabe as lágrimas que ela enxugou. Juventude. Mas eu estive na Terra entre os felizes. socorrendo-os com aquela delicadeza que eleva o moral em vez de rebaixá-lo. suprimindo os de natureza exclusivamente familiar. XIII. 74 Pode dizer-se que essa senhora era a encarnação viva da mulher caridosa. que não por amor de vanglórias. saúde. evocou-a doze anos depois de falecida. confiança. . extraímos os tópicos que interessam ao assunto de que nos ocupamos. e ao qual chegarão infalivelmente. o que é essa felicidade comparada à que desfruto aqui? Esplêndidas festas terrenas em que se ostentam as mais ricas roupas. aos quais não podia eximir-se. Ela não pertencia ao número dos que sempre encontram dinheiro para satisfazer os seus caprichos.

reunidos em certo ponto. nem festa interminável. fracos para afrontar-lhe os perigos. Nessa consistia o perigo. a Terra é o principal assunto das nossas cogitações. não existe na Terra. procurem antes saber o preço pelo qual podem alcançar os benefícios do Todo-Poderoso. No momento. A Terra deve regenerar-se. E antes de tentar. Em várias existências passei por provas de trabalho e miséria que voluntariamente havia escolhido para fortalecer e depurar o meu Espírito. Nesta ocasião se reúnem os chefes em conferência e transmitem suas ordens por mensageiros. mas. por mais meritória que porventura pareça. a vida. a fortuna imorredoura. na Terra Condessa de ***. mas não se apressem em pedi-la muito cedo. reunindo-nos. amanham estes a terra. amigos terrenos a visitar. ricos. e grandemente me esforço por cumpri-la. do contrário eu teria falido na última prova. Já que são isentas de fadiga. vindo no entanto a faltar uma. Finalmente. não de uma rua a outra. dessas provas tive a dita de triunfar. seduzidos por aparências. pressurosos escolhem essa prova. e é o vaivém. também vocês terão a sua prova da riqueza. estou nas suas fileiras: eu. separando-nos para novamente nos juntarmos. o que me teria deixado para trás. a atividade. . a dama nobre. Tem cada qual sua missão a cumprir. eu quis sentir-me forte o suficiente para não sucumbir. Importante missão me é afeta. em dado tempo – pois importa que os desígnios da Providência se realizem. porém. em todas as direções. mecanismos na Natureza a dirigir. o que me envergonharia. e. almas sofredoras a consolar. Deus me concedeu a graça do seu auxílio. Muitos Espíritos há que. semeando. as ocupações revestem-se de perspectivas e emoções variáveis e incessantes. não era por si só e a tanto suficiente. nem beatífica contemplação por toda a eternidade. Não foi sem luta que alcancei a posição que ora ocupo na vida espiritual.127 – O CÉU E O INFERNO A felicidade uniforme fatigaria. felicitando-nos pelos êxitos obtidos. E vocês. por um segundo que seja. porventura de todas a mais perigosa: a da fortuna e bem-estar materiais. Como eu. edificam aqueles a nova cidade sobre as ruínas carunchosas de um velho mundo. pelos mil incidentes que se lhes filiam. o melhor possível. deixam que as seduções do mundo triunfem da sua inexperiência. assim. Tendo em vista as minhas boas intenções. no entanto. e assim não acreditem que a nossa seja extreme de peripécias: nem concerto perene. Paula. Trabalhadores. Que movimento entre os Espíritos! Que numerosas falanges descem aí a fim de lhe auxiliarem o progresso e a evolução! Diriam que uma nuvem de trabalhadores a destrinçarem uma floresta – sob as ordens de chefes experimentados. de um a outro mundo. comunicamo-nos o trabalho realizado. e. enchi-me de privações. na minha carreira. Não me julguem simples expectadora desta grande empresa. tem cada qual o seu papel. uma vez que todos trabalham nela. porém o movimento. mutuamente nos assistimos nos casos difíceis. seus protegidos a velar. e fiquem certo de que a minha última existência. asseguro-lhes que ninguém tem tempo para enfadar-se. tenham sempre em mente que a verdadeira fortuna. ajustamo-nos. um bem-estar sem sombras de desgosto. ganhei como vocês o pão com o suor do meu rosto. arrancam-lhes as raízes profundas. desbastam outros o terreno. sofri reveses e foi isso que me retemperou as forças da alma. abatem uns os troncos de séculos.

não faria mais que recomeçar. A minha tarefa estava terminada. do talento e do saber. Deus fala à inteligência. Outra comunicação espontânea) O Espírito responde a uma reflexão sobre sua morte inesperada. atinente à grande questão espírita que eles fingem desconhecer. Depois. aos seus últimos limites. eu atingira o auge no qual o homem. ao bom-senso. mas pelo conhecimento do princípio eterno que me fez evitar as nódoas produzidas pela ignorância na pobre Humanidade. para despertar a atenção. Será como um raio de luz a expandir-se. Deus vai insinuar-se às inteligências da elite. Os homens precisam de provas concretas para crer. A minha morte foi abençoada. Salvei-me. a direção que toma a crença espírita? Primeiro que tudo. e não compreenderam nem compreenderão o quanto o silêncio em torno do recémfechado túmulo é útil à causa do Espiritismo. arrastando os mais recalcitrantes à investigação do infinito.128 – Allan Kardec JEAN REYNAUD (Sociedade Espírita de Paris. apesar de os meus biógrafos – os cegos – a julgarem prematura! Lamentaram alguns escritos nascidos da poeira. o que a muita gente surpreendeu. a derramar-se por sobre a Terra inteira. e eu vivo e desfruto as maravilhas suntuosas do infinito. ela arrasta em seu curso imenso os Espíritos inebriados pelo infinito! Passei das sombras da matéria à aurora brilhante que faz antever o Onipotente. o . a marcha que segue o progresso. que protegem a nova doutrina. se servirão da sua autoridade e notoriedade para levar mais longe ainda. à razão fria. qual fluido magnético irresistível. Quem disse que a minha morte não seja. meus olhos novos abrangeram horizontes. Deus lhe deu as provas materiais: movimento de mesas. mais tarde. mas que muito breve os empolgará. quando estiverem instruídos e convencidos. um benefício para o Espiritismo? Notou. pancadas e toda sorte de fenômenos. Após a ruptura dos laços materiais. A minha morte reaviva a atenção dos letrados. Comunicação espontânea) Meus amigos: como é esplêndida esta nova vida! Semelhante à luminosa torrente. Vão todos se agrupar em torno de vocês e – ignorando o diploma do gênio – vão se tornarem humildes e pequenos para aprender e para crer. serei um dos exploradores que balizam o seu roteiro. Agora é muito diferente o caso. e o número já tão grande dos adeptos da crença espírita vai aumentar ainda. não são mais efeitos físicos. reunião familiar. encaminhando-a para a minha obra capital. Glória a Deus! Ajudado por Espíritos superiores. porém coisas racionais que devem convencer e congregar todos os incrédulos. meu amigo. de futuro e por suas consequências. mesmo os mais teimosos. (Paris. os meus predecessores seguiam na rota. E isto é apenas o começo. depois de dar o que de melhor possuía. Jean Reynaud. às sumidades do espírito. Depois dos fatos materiais. ao estudo dessa admirável ciência que tão sublimes máximas nos ensina. não pelo mérito dos meus serviços. Era um como prefácio divertido. Anotem bem nota o que digo: toda uma série de fenômenos inteligentes e incontestáveis vão se seguir. em idade pouco avançada.

Compreendi tudo isso. por mais convencido que seja. deve saber também que por maior que seja a distância – em virtude da conclusão das provas mais ou menos felizes e prontamente terminadas – existe sempre um elo poderoso que nos liga: a simpatia. obrigado por essa boa ideia. a admiração foi imensa. Quando na Terra. portanto. embora não creia que o simples desejo de conversar contigo determinasse a tua vinda. algumas vezes tem a dúvida no íntimo do coração. Os esplendores celestes. nas reencarnações. Assim como cristão é todo homem que segue as leis do Cristo. Já que muitos Espíritos tenham explicado as suas primeiras sensações ao despertar. Eis aí a minha opinião sincera sobre o estado atual do Espiritismo. R. Fechei os olhos na esperança de um despertar feliz e. Agradeço a tua presença. exilado voluntário. ao menos dos meios imperfeitos empregados para demonstrá-la. nas provações terrenas – purificações necessárias ao melhoramento. Compreendi a erraticidade. sem professar. senhora. que só em considerá-la sinto-me possuído de respeito. ao menos como presunção. muitas vezes. no progresso incessante. Era uma miragem a revelar e confirmar concomitantemente a justeza dos meus pensamentos. Senti o momento da partida que se aproximava. se o sono foi breve. Nota – Estas três comunicações foram obtidas por três médiuns diferentes e estranhos entre si. e você veio estreitar esse elo pelo teu constante pensamento. (Bordéus) Evocação: Atendo com prazer ao teu chamado. P. por maiores que sejam as luzes por ele conservadas. deve haver necessariamente uma diferença tão grande entre nós. na Terra. esse momento não me infundiu angústias. laço intermediário das reencarnações e purgatório no qual o Espírito culposo se liberta das vestes impuras para revestir nova roupagem. eu era espírita. a perturbação espiritual não existe para mim (isso correspondia ao pensamento do médium). desconfiando. e onde o Espírito. O homem. podemos. mesmo sem conhecê-lo. O corpo é um obstáculo às capacidades espirituais e. mais feliz que muitos. quando fala. poderia me dizer o que experimentou em tal ocorrência e como se operou a separação do teu Espírito? R. porque já lhe conhecia as consequências. pois fossem estas mais importantes do que o supunha. professava o Espiritismo? R. e. Pela analogia dos pensamentos e forma da linguagem. Tem razão. que não pratica. em evolução. continuei a praticar . e não poder torná-la igualmente palpável aos que dela tanto precisam para prosseguir no caminho que lhes conviria. pois bem. Acreditando em tudo isso. bem como a sua habitabilidade. P. porém. desenvolvidos aos meus olhos. Igualmente qual com os outros.129 – O CÉU E O INFERNO fim que se propuseram – a regeneração da espécie humana pelo conhecimento racional e profundo das passadas e futuras existências. entretanto. de tocar por assim dizer a verdade. Há uma grande diferença em professar e praticar. Convencido da verdade que insinuava. de dar combate a mim mesmo. acreditando na imortalidade da alma. Minha filha. admitir . assim também podemos ser espíritas. tive. pompeavam em toda a sua magnificência! A minha vista deslumbrada mergulhava na imensidão dos mundos cuja existência afirmei. eu tive sempre a consciência da pátria espiritual e depressa me reconheci entre irmãos. Muita gente professa uma doutrina. ao desânimo de ver. elas são mais ou menos empanadas ao contato da matéria. senão da verdade que proclama. P. onde devia lançar a primeira semente sólida das grandes verdades que neste momento envolvem o mundo. tece cuidadosamente essa roupagem que há de carregar no intuito de conservá-la pura. eu praticava e não professava.

ainda meio aberta. D. e depois o nada. O Sr. nem Deus para recompensar. . recolhidas do selo do próprio túmulo: Obrigado. o pavoroso nada. secretário da Sociedade e profundo materialista de outros tempos. de socorrer os que possuíam menos do que ele. adeus para sempre”. e para ti. justo e bom. sincera e profunda era a sua fé em Deus. e. pronunciou sobre a campa o seguinte discurso: Caro irmão Costeau: Faz alguns anos. antes pairará no Espaço a fim de subir até Deus! E como consola poder-se dizer a respeito da dissolução do corpo: Oh! Eu não morri. palavras e obras consoante os fracos recursos de que dispunha e encontrando meios. O meu túmulo ainda nem mesmo de todo é fechado. e muitas vezes fazem escolhas desastradas. nem orgulhosas manifestações se abeiram da sua campa. obrigado. em desânimo. caro irmão. 297. onipotente. seja o portador das graças que rendemos ao Eterno por ter permitido dissiparem-se as trevas do erro e da incredulidade que nos assoberbavam. uma porta aberta para o céu. que os forçam a recomeçar. ore por nós”. os espíritas. A expressão: “tecer cuidadosamente a roupagem que há de carregar” é uma figura feliz que retrata a solicitude com que o Espírito em evolução prepara a nova existência conducente a um maior progresso do que o feito. coveiros inclusive.. querido irmão. com a fronte abatida e o coração dolorido. e nestas mesmas circunstâncias. radiante de esperanças. 76 77 Calceteiro: trabalhador que calça (pavimenta) ruas – N. e outras alocuções. de cabeça descoberta e com profunda emoção. vivo a verdadeira vida. Os Espíritos atrasados são menos cuidadosos. sepultado em 12 de setembro de 1863 no cemitério de Montmartre. um espetáculo novo e surpreendente esse de ouvir palavras de um morto. Pois. a vida eterna! O enterro do pobre não tem grandes cortejos. no entanto. muitos dentre nós. Mas hoje te dizemos. Canu. mas. 77 Um dos médiuns da Sociedade obteve ali mesmo sobre a sepultura. Era. castigar. ou perdoar. amigos. isto é. sabemos melhor que ninguém que a vala comum é. divisamos aqui o termo das provações. ainda assim. e eu em primeiro lugar. o triunfo dos labores e o início das recompensas a que fizeram jus a tua coragem. cujos despojos baixam à terra. nós te diríamos: “Amigo. a terra cobrirá os meus despojos. que minha alma não será sepultada nesse pó. ouvida por todos os assistentes. Hoje. completa. até breve. de fato.. que representaria apenas o fim das misérias humanas. e. praticava a caridade por pensamentos. as tuas virtudes. e com o coração repleto de amor e de coragem: “Caro irmão. tanto quanto os mais suntuosos mausoléus. Para mais detalhes. passando um segundo. a seguinte comunicação. Se a Sociedade não lhe adquiriu uma sepultura particular. ANTOINE COSTEAU Membro da Sociedade Espírita de Paris. caridade. de cabeça erguida. ver a REVISTA ESPÍRITA de outubro de 1863. do que em vás satisfações de amor-próprio. a glorificação de um Deus sábio. Simples calceteiro76. Vocês sabem. onde não existia nem alma para merecer ou expiar. Não há muito tempo. consequentemente. foi porque lhe pareceu dever antes empregar mais utilmente o dinheiro em benefício dos vivos. além de que nós. pág. não viríamos ante este túmulo aberto. acima de tudo isso. Era um homem de coração que o Espiritismo reconduziu a Deus.130 – Allan Kardec a autenticidade. graças à nossa santa Doutrina. resignação. em vala comum.

libertando-se das terríveis cadeias do orgulho. As almas me chamam a conferenciar. mas para vocês não há outra expressão senão esta. Ao menos todos vocês têm fé e amam o bom Deus! Oh! Certamente não morremos só porque o nosso corpo se esfacela. no qual a misericórdia do Senhor deve estender-se por sobre todos os homens. aos que. ou antes um sonho. ditosos por nos abraçarem. mas o coração será repleto com as ideias da eternidade e do amor de Deus. Mas sabem. evocado num grupo particular. os que preferem ficar cegos. meus amigos! Que belo espetáculo sobre a Terra é ver tremular as bandeiras do Espiritismo! Ciência profunda. Não se esqueçam nunca da assistência que mutuamente lhe devem na Terra. para te ajudar a suportar as provações. E que de luzes leva aos homens de boa vontade. orem. o corpo que aí jaz estendido. Oh. A vida te será rude a vida.131 – O CÉU E O INFERNO Em compensação. que eu não podia compreender que Deus me destinasse tantas graças relativamente ao pouco que fiz. Parecia-me sonhar. e bons Espíritos acompanharam com vocês. compenetrados dessa caridade fraterna preconizada pelo divino Messias. Mas não. vendo a pátria dos Espíritos. irmãos. Não faço mais que repetir o que já disseram. tonificando-os no fogo divino. como de fé.. da qual apenas soletram as primeiras palavras. Por teus raios luminosos. Oh. e um dia. a fim de Lhe reconhecerem as vontades e a elas se submeterem. eu estarei sempre ao teu lado para te consolar. rendam graças por tantos benefícios. A vocês todos que aqui estão. Adeus. orem pelos que sofrem e até outra vista. e com estas mulheres piedosas. portador de consolações. e que algumas vezes lhes irá pedir preces que jamais lhes recusarei para auxiliá-la na vida magnífica que lhe descortinou na vida terrena. Nós nos podemos rever noutro lugar que não sobre este túmulo. e sabem muito bem. espíritas. que minha alma imortal vive. e do qual despertamos para nos vermos rodeados de amigos que nos felicitam. o Espírito de Costeau assim se exprimiu por intermédio doutro médium: A morte é a vida. o mestre e o operário virão a confundir-se e identificar-se. meus irmãos! Pensem na felicidade imensa que possuem como primeiros iniciados na obra da regeneração. acreditem em mim. esposa amada! Demais. Ao teu calor benéfico aquecerão os corações. se é que pretendem penetrar a morada do Senhor. e como outrora me . Honra lhes seja feita. adeus. obrigado por terem vindo a esta morada de pó e lama. Prossigam. imensa. ciência bendita.. sejam para ela como irmãos. amigos. Quanto a vocês. Costeau Três dias depois. a despeito do que afirmam os materialistas. altamente proclamam a sua crença em Deus! Homens. amem-na. espécie de pesadelo que dura o espaço de um minuto. Como serão passageiros os teus sofrimentos! Parentes que rodeiam a minha amantíssima companheira. Pobre Humanidade! Ah! Se te fosse dado compreender!. Aos teus raios vivificantes. respeitem-na. a dizer-me adeus. é que eles lá chegarão e compreenderão. como eu. Tão grande foi a minha ventura. que o tempo não é chegado ainda. exclamarão: A morte é a vida. imensa multidão aqui não falta.

Eu bendizia o mestre que tão bem soube incutir-me os deveres de homem que crê na vida futura. A chama que me consumia o corpo débil também me despojou das suas cadeias. Felizes os que houverem tomado parte no combate! Daí por diante o Sr. quando ela se apresentou espontaneamente a 31 de julho de 1863. Até outra vista e coragem. fui por instantes obrigado ao temor de voltar ao desgraçado corpo. Como eu desejo que ela se torne espírita! Desprendi-me da Terra qual fruto maduro que se destacasse da árvore antes do tempo. Emma Livry. e não são mais as estrelas de diamante que me rebrilham na fronte. Minha mãe. Obrigado. mas as áureas estrelas do bom Deus. Não experimentei a perturbação. souberam esperar um pouco. pouco tempo depois da morte. Digam aos nossos irmãos que estou muitas vezes com o nosso amigo Sanson. flutuo na torrente luminosa. a prova. . nas longas noites de insônia e febre dolorosa se inclinava sobre o leito de martírios? Quem me refrescava os lábios sedentos. O fogo da Terra me salvaria do fogo do inferno – assim pensava eu na minha fé católica. Então. e eram vocês outros. esta donzela faleceu após cruéis sofrimentos. entrei serena e recolhida no dia radiante que envolve aqueles que. meu Guia. Alguém se propusera solicitar a sua evocação na Sociedade Espírita de Paris. enquanto pedia. sofria e chorava. Eu não tinha sido tocada pelo demônio do orgulho que estimula as almas desditosas. EMMA78 Em consequência de acidentes causados por fogo. Sim. Mas. que não passavam de expiação. porque O LIVRO DOS ESPÍRITOS despertou-me na alma os elos de amor ao meu Criador. minha alma tímida se apegava à expiação do purgatório. Mas muito não tardou para que me desse contas da realidade e rendesse graças a Deus. agradecia-lhe. e. morri vivendo já a verdadeira vida. eu o bendizia. bendigo o fogo. escaldantes? Eram vocês. Semelhante a esses brancos e leves fios do outono. porque o triunfo os espera. se não ousava ver os esplendores do paraíso. dando sempre provas dessa elevação de pensamentos que caracteriza os Espíritos adiantados.132 – Allan Kardec acontecia sonhar que estava morto. arrastadas pelos sucessos embriagadores e brilhantes da juventude. A SRTA. Eis-me aqui ainda no cenário do mundo. depois de muito terem sofrido. o sofrimento. e. Emma 78 Senhorita. Costeau manifestou-se constantemente. assim. eu que me julgava sepultada para sempre no meu véu de inocência e juventude. minha querida mãe foi a última vibração terrestre que me repercutiu na alma. Espíritos caros e amigos. na Sociedade e em outras reuniões. que vinham murmurar-me ao ouvido palavras de esperança e de amor. quem dava ao ânimo abatido a força de suportar as angústias? Quem. bons amigos que me atraíram para junto de vocês. cuja auréola branca me cercava.

mais do que podia esperar pelo meu apoucado merecimento. desenvolver-se diante de mim o futuro da ciência e da filosofia espíritas. já se vê) tinham chegado até ti? R. aliás nunca interrompidas. R. no qual se opera um trabalho extraordinário. e tanto mais por ver agora. Diga-nos primeiramente como se encontra no mundo espiritual. abandonando por completo a velha carcaça. descrevendo o trabalho da separação. tivemos por fim primeiramente testemunhar a nossa simpatia. já disse isso. Era uma espécie de oscilação intermitente.133 – O CÉU E O INFERNO O DOUTOR VIGNAL Antigo membro da Sociedade de Paris. vendo plenamente confirmados os pensamentos íntimos concebíveis em relação a uma doutrina confortante e consoladora. P. empreguei todas as forças espirituais para dominar esse desejo. encontrando. Na véspera do enterro. Demais. Como justamente disse o jovem secretário. Nesse momento era bastante livre para apreciá-los. 79 Digressão: desvio do assunto – N. diriam ser uma quantidade de massa que se agita e alguma coisa que parece fazer esforços para se lhe desprender. e aqui vim ter com vocês. particularmente. A separação foi rápida. tratados na tua conversação. Graças à tua evocação e assistência. mas a minha gratidão exigia que me manifestasse. contudo. P. Que diz dos teus funerais? Julguei-me no dever de comparecer a eles. Evocando-te. as sensações desse momento. Caro Sr. Vignal. Mas deixemos por hoje estas digressões79 inoportunas. bem como o tempo necessário ao reconhecimento do teu estado. de novo voltarei a entreter-lhes sobre este assunto. a 31 de março. Fui eficazmente auxiliado pelo auxílio de vocês e o médium sonâmbulo os deu uma ideia bastante clara do fenômeno da separação. discorreu: Vejo um cadáver. Prezado amigo e digno mestre: tão bondosa lembrança e testemunhos de simpatia me são muito lisonjeiros. considerando-nos felizes se puder e quiser palestrar conosco. . dificuldade em vencer a resistência. Sou tão feliz quanto possível. sabe. das boas relações. e voltei a ti. P. Só deixei completamente o corpo quando ele baixou à Terra. me interessassem vivamente. um como arrastamento em sentidos opostos. Sou feliz. levadas pelas preces. todos os teus velhos colegas da Sociedade de Paris guardam de ti as mais vivas saudades. D. Triunfou o Espírito aqui presente. sem obstáculo algum. Não distingo forma de Espírito bem caracterizada. Só pensava na alma e em Deus. e eu. Fez-se a evocação na Sociedade de Paris. tornaram a minha expectativa menos penosa. a tua assistência auxiliou-me grandemente. pude vir hoje assistir desembaraçado a esta reunião de bons amigos e irmãos espíritas. máxime sabendo que a minha presença os dará tanto prazer quanto o que experimento em visitá-los. desde o anoitecer de hoje. para que eu nele insista. Sim. R. e as preces por mim feitas a teu favor (discretamente. instado a transportar-se para junto dele e narrar o que visse. Perdoe-me caro amigo. falecido a 27 de março de 1865. pouco me importam as coisas materiais. um sonâmbulo lúcido e bom vidente. eu estava impaciente por me comunicar. como os graves assuntos.

Todo o seu lazer consagrava-o à sua mãe para poupá-la de fadigas. mas o meu guia modera-me o entusiasmo. como também a este Espírito que houve por bem ceder-me o seu lugar. Afetado desde muito tempo por enfermidade – da qual. Poderia nos descrever da melhor forma a diferença entre o teu atual desprendimento e aquele de então? R. sabia que havia de morrer – ocultava-lhe os sofrimentos para não a inquietar e para que ela não quisesse privá-lo da sua parte de trabalho. Que majestade! Que grandeza! É quase um sentimento de temor que predomina. Deixo-os. pois não estou ainda inteiramente livre. Daquele que foi e será sempre o mais devotado dos seus adeptos. por não querer desviar nem um centavo de seu salário do fim piedoso que lhe destinava. há 5 anos. eram precisos a esse moço um grande cabedal de qualidades morais e poderosa força de vontade para resistir às perniciosas tentações do meio em que vivia. sempre que quiser. resevado. mercadora. dizendo-lhe ter. prático do porto do Havre. quando viu um ponto luminoso que crescia pouco a pouco. R. até que o quarto ficou 80 Ver a REVISTA ESPÍRITA de março de 1860. Continuar a conversar seria o meu prazer. . reclamam prioridade. Na idade das paixões. a quem dedicava os mais ternos e afetuosos cuidados. porém.134 – Allan Kardec P. E que grande diferença entre um e outro! Naquele estado. ela teve uma visão. A esse tempo. do seu fiel discípulo. quando. pois estimo-os e desejo prová-lo. Vignal. progredir e compenetrar-me o mais rapidamente possível dos sentimentos que é necessário possuir. amigos. Consolo-me. Outros Espíritos. Recorda-se que a vosso pedido. queremos fixar as paragens luminosas. por maior que seja o meu pesar em ser interrompido. quando estava ainda entre nós. fracos quais somos. Nessa ocasião. sustentando-a com o produto do seu rude trabalho. aos quais me recomendo. o teu Espírito desprendeuse para vir falar conosco. Com prazer continuaremos a entreter-nos no assunto. às suas reuniões. fizemos um estudo a teu respeito80. um vasto campo desconhecido se depara para mim e eu espero com o seu auxílio e o dos bons Espíritos. falecido aos vinte anos de idade. Na véspera da morte. Espírito que na Terra tinha o ilustre nome de Pascal. disse que se achava em grande escuridão. exigiu de sua mãe que fosse repousar. e dos atos que me cumpre empreender para suportar as provações e merecer a recompensa. e devo agradecer duplamente não só a vocês espíritas que me evocaram. P. isto é. em fevereiro de 1860. Respondi sucintamente e desordenadamente às diversas perguntas. queria mas não podia desembaraçar-me radicalmente. Nunca o viram frequentar tabernas nem se entregar aos excessos tão frequentes da sua profissão. mais adiantados. pensando que poderei vir assistir algumas vezes. De sincera piedade. Hoje sou livre. e já pude apreciar-lhe bastante a bondade e a justiça para submeter-me inteiramente à sua decisão. Sim. necessidade de dormir. Não exijam mais agora. devendo eu curvar-me àqueles que me permitiram dar livre curso à torrente das ideias acumuladas. Falarei com vocês sempre que possa. Morava com sua mãe. a sua morte foi edificante. VICTOR LEBUFLE Moço. Dr. a matéria me oprimia ainda na sua trama inflexível. lembro-me. também ele.

Pertencia a uma família de mineiros dos arredores de Saint-Étienne. Sejam bons e caridosos. elevando-se ao Espaço infinito. teve a ideia de o evocar pouco tempo após a morte e ele se manifestou espontaneamente. Ela deve passar por outras provas e preciso é que chegue ao céu. aquela alma bem formada havia deixado a Terra. capazes de resistir a todas as tentações. dando a seguinte comunicação: Desejam saber como estou agora. A missão deste Espírito. uma vez que ignoram a miséria alheia e conhecem a sua. O sono os revigora perante o Todo-Poderoso. Isso é uma prova de que as qualidades morais têm causas anteriores. com a confiança do servo cumpridor do seu dever. Victor O guia do médium – Nem sempre os sofrimentos amargados na Terra constituem uma expiação. com efeito. conhecedora da sua bela conduta. Adeus. de nobres e elevados sentimentos. que são a origem das bênçãos e da felicidade de além-túmulo. circunstância que torna interessante sua posição espiritual. vou vê-la. que ficou sozinha. mas por mais obscura que fosse nem por isso tinha menos mérito. A SRA. não era de grandeza. feliz. tendo falecido em novembro de 1860. Uma família espírita. felicíssimo! Devem ser levados em conta os sofrimentos e angústias. mas eu lhes digo. A felicidade! Ah! Vocês não compreendem o que significa essa palavra. e. que quando vierem para junto de nós. deveria demonstrar que nos piores ambientes podem encontrar-se almas puras. serão recompensados além. P. em sua última existência.135 – O CÉU E O INFERNO iluminado por brilhante claridade. murmurando uma prece. Teu pai e teu marido pediram-me para te evocar. mas muito além dos sofrimentos e dos méritos que porventura julgarem ter adquirido para a outra vida. dando-lhes a força de tudo suportarem para sua maior glória. pobre mãe. em verdade. dessa caridade tão desconhecida entre os homens. Socorram minha mãe. e que se chama benevolência. no dia seguinte. Os Espíritos que como este baixam à Terra cumprindo a vontade do Senhor são felizes em provar males que para outros seriam uma expiação. quando se não tem em vista o seu fim. ele tinha um dever de gratidão a cumprir para com aquela que foi sua mãe. e um tal exemplo não terá sido inútil. se seguirem a lei de Deus. fazendo por alguém mais que por vocês mesmos. Compreendeu que o seu fim estava próximo. da qual se destacava radiante a figura do filho. depois. As venturas terrenas tão longe estão das que experimentamos ao regressar para Jesus. único pesar que me vem da Terra. e felizes se julgariam se obtivessem . Estou presente. Evocação: R. visto como não podia ser estimulado pelo orgulho. Socorram os semelhantes. que espera cheio de alegria a aprovação d’Aquele que é tudo. com a consciência pura. ANAIS GOURDON Era muito jovem e notável pela doçura do caráter e de eminentes qualidades morais que a distinguiam. interessando-se por sua mãe. a vida é penosa e difícil. Antes de tudo. Ah! Meus amigos.

terno e simpático. P. Contudo. P. assim como os Espíritos se revestem da aparência terrestre a fim de se fazerem compreensíveis. R. Amo e espero. As asas dos anjos. Sem esta explicação tão lógica. Os céus não me infundem temor. P. Com grande êxito terminara muito cedo os primeiros estudos. Que entende por asas brancas? R.136 – Allan Kardec uma comunicação. resplandecer como os mensageiros celestes que me ofuscam. que pode haver de mais belo. caráter doce. Inteligência rara. pois sabem que não estou perdida de todo para eles. arcanjos. eu tinha conhecimentos adquiridos e Deus permite muitas vezes que Espíritos delicados encarnem entre os homens mais rústicos. e tão pouco em harmonia com a posição que teve na Terra? R. Está feliz como Espírito? R. eles podem aparecer aos homens com tal acessório para lhes corresponderem ao pensamento. possuía todas as qualidades que fazem prever brilhante futuro. Que outra filosofia pode resolver tais problemas? MAURICE GONTRAN Era filho único e aos dezoito anos faleceu de uma afecção pulmonar. É visando o seu próprio adiantamento que Deus os põe em contato com um meio esclarecido. Tornar-me Espírito puro. com fim oposto. serafins – que não passam de Espíritos puros – são evidentemente apenas um atributo pelos homens imaginado para dar ideia da rapidez com que se transportam. não mais me entristecendo com as suas lamentações. Podem. matriculando-se em seguida na Escola . Eu também sou feliz em dá-la. Passei qual flor sobre a Terra. concordante com a providência de Deus para com as criaturas. É que a minha alma é quem fala. De fato. razão precoce. Desejo que a recordação de meu ser lhes seja suave e doce. às vezes. Sim. poético e gracioso que a linguagem desta jovem educada entre rudes operários? Dá-se o contrário muitas vezes: — Espíritos inferiores encarnam entre os mais adiantados homens. grande amor ao estudo. Oh! Estou sempre ao lado deles. porém. Poderia ver algumas vezes os teus parentes? R. Por que tão cedo te furtou aos carinhos da família? R. e nada de pesaroso deve subsistir dessa passagem. e cheia de confiança aguardo que asas brancas me alcem até eles. visto como a sua natureza etérea os dispensa de qualquer amparo para fender os espaços. Porque terminei as provações terrenas. também como instrumento de provação desse mundo. dificilmente se compreenderia o que à primeira vista parecerá anomalia. Teus parentes podem fazer algo em teu favor? R. que compreenderão mais tarde. Como pode ser tão poética a tua linguagem. P. para fazer-lhes pressentir as delicadezas ao seu alcance. caros irmãos. P. e. Sou feliz. P.

137 – O CÉU E O INFERNO Politécnica. A sua morte acarretou aos parentes uma dessas dores que deixam traços profundos e muitíssimo dolorosos, pois que, tendo sido sempre de natureza delicada, lhe atribuíam o fim prematuro ao trabalho de estudos a que o instigaram. Então, diziam se queixando: “De que lhe serve agora tudo o que aprendeu? Melhor seria que ficasse ignorante, pois a ciência não lhe era necessária para viver, e assim estaria, sem dúvida, entre nós; seria o consolo da nossa velhice ”. Se conhecessem o Espiritismo, raciocinariam de outra forma. Nele encontraram, contudo, a verdadeira consolação. O ditado seguinte foi dado pelo rapaz a um dos seus amigos, meses após o decesso. P. Meu caro Maurice, a terna afeição que votava a teus pais traz-me a convicção de que deseja reconfortar-lhes o ânimo, se estiver ao teu alcance fazê-lo. O pesar – direi mesmo desespero – que o teu passamento trouxe a eles, altera-lhes visivelmente a saúde, levando-os a desgostarem-se da vida. Algumas palavras de consolo poderão certamente fazer renascer-lhes a esperança... R. Meu amigo, esperava com impaciência esta ocasião, que ora me permitem de me comunicar. A dor de meus pais aflige-me, porém, ela se acalmará quando tiverem a certeza de que não estou perdido para eles; aproximem-se deles a fim de convencê-los desta verdade, o que certamente conseguirão. Era preciso este acontecimento para insinuar-lhes uma crença que lhes trará a felicidade, impedindo-os de murmurar contra os decretos da Providência. Sabem que meu pai era muito céptico a respeito da vida futura. Deus concedeu-lhe este desgosto para arrancá-lo do seu erro. Aqui nos reencontraremos, neste mundo onde não se conhecem desgostos da vida, e no qual os precedi; afirmem a eles categoricamente que a ventura de tornarem a ver-me será recusada a eles como castigo à falta de confiança na bondade de Deus. Interditado me seria mesmo a comunicação com eles, durante o tempo da sua permanência na Terra. O desespero é uma rebeldia à vontade do Onipotente, sempre punido com o prolongamento da causa que o produziu, até que haja completa submissão. O desespero é verdadeiro suicídio por minar as forças corporais e quem abrevia os seus dias, no intuito de escapar mais cedo aos travos da dor, faz jus às mais cruéis decepções; ao contrário, deve-se avigorar o corpo a fim de suportar mais facilmente o peso das provações. Meus queridos e bondosos pais: é a vós que neste momento me dirijo. Desde que deixei o corpo mortal, jamais deixei de estar ao seu lado. Aí estou muito mais vezes mesmo que quando na Terra. Consolem-se, pois, porque eu não estou morto, ou antes, estou mais vivo que vocês. Apenas o corpo morreu, mas o Espírito, esse, vive sempre. Ele é ao demais livre, feliz, isento de moléstias, de enfermidades e de dores. Em vez de se afligirem, alegrem-se por saber que estou ao abrigo de cuidados e apreensões, em lugar onde o coração se satura de alegria puríssima, sem a sombra de um desgosto. Meus bons amigos, não deplorem os que morrem precocemente, porque isto é uma graça que Deus concede a eles, poupando-os às tribulações da vida terrena. A minha existência aí não devia prolongar-se por muito tempo desta vez, visto ter adquirido o necessário para preencher, no Espaço, uma missão mais elevada. Se tivesse mais tempo, não imaginam a que perigos e seduções iria me expor. E poderiam acaso julgar da minha fortaleza para não cair nessa luta que importaria atraso de alguns séculos? Por que, pois, lastimar o que me é vantajoso? Neste caso, uma dor inconsolável acusaria descrença só legitimável pela ideia do nada. Os que assim desacreditam, esses é que são dignos de lástima, pois para eles não pode haver consolação possível; os entes queridos se figuram a eles irremediavelmente

138 – Allan Kardec perdidos, porque a tumba lhes leva a última esperança! P. Tua morte foi dolorosa? R. Não, meu amigo, apenas sofri antes da morte os efeitos da doença, porém, esse sofrimento diminuía à proporção que o último instante se aproximava: depois, um dia, adormeci sem pensar na morte. E tive então um sonho delicioso! Sonhei que estava curado, que não mais sofria, e respirava a longos haustos, prazerosamente, um ar embalsamado e puro: transportava-me através do Espaço uma força desconhecida. Brilhante luz resplandecia em torno, mas sem me cansar a vista! Vi meu avô, não mais desarrumado, abatido, porém, com aspecto juvenil e loução. E ele estendia-me os braços, estreitando-me efusivamente ao coração. Multidão de outras pessoas de risonhos semblantes o acompanhavam, acolhendome todos com benevolência e doçura; parecia-me reconhecê-los e, venturoso por tornar a vê-los, trocávamos felicitações e testemunhos de amizade. Pois bem! O que eu supunha ser um sonho era a realidade, porque de tal sonho não devia despertar na Terra: é que acordara no mundo espiritual. P. A tua moléstia não se originou da grande esforço no estudo? R. Oh! Não, desenganem-se disso. Contado estava o tempo que eu deveria passar na Terra, e coisa alguma poderia me prender aí. Sabia-o meu Espírito nos momentos de desprendimento e me considerava feliz com a ideia da próxima libertação. Mas, o tempo que aí passei não foi sem proveito, e hoje me felicito de o não ter perdido. Os sérios estudos feitos fortificaram-me a alma, aumentando-lhe os conhecimentos, e se em virtude da minha curta existência não pude dar-lhes aplicação, nem por isso deixarei de fazê-lo mais tarde e com maior utilidade. Adeus, caro amigo: eu parto para junto de meus pais, a fim de predispô-los ao recebimento desta comunicação. Maurice

139 – O CÉU E O INFERNO

CAPÍTULO III

ESPÍRITOS EM CONDIÇÕES MEDIANAS

JOSEPH BRÉ
(Falecido em 1840 e evocado em Bordéus, por sua neta, em 1862) O homem honesto segundo Deus ou segundo os homens 1. Caro avô, poderia me dizer como se encontra no mundo dos Espíritos, dando-me quaisquer detalhes úteis ao nosso progresso? R. Tudo que quiser, querida filha. Eu expio a minha descrença; porém, grande é a bondade de Deus, que atende às circunstâncias. Sofro, mas não como poderias imaginar: é o desgosto de não ter melhor aproveitado o tempo aí na Terra. 2. Como? Pois não viveu sempre honestamente? R. Sim, no juízo dos homens; mas há um abismo entre a honestidade perante os homens e a honestidade perante Deus. E uma vez que deseja te instruir, procurarei demonstrar-te a diferença. Aí, entre vocês, é reputado honesto aquele que respeita as leis do seu país, respeito arbitrário para muitos. Honesto é aquele que não prejudica o próximo ostensivamente, embora lhe arranque muitas vezes a felicidade e a honra, visto o código penal e a opinião pública não atingirem o culpado hipócrita. Podendo se fazer gravar na pedra do túmulo um epitáfio de virtude, julgam muitos terem pago sua dívida à Humanidade! Erro! Não basta, para ser honesto perante Deus, ter respeitado as leis dos homens; é preciso antes de tudo não haver transgredido as leis divinas. Honesto aos olhos de Deus será aquele que, possuído de abnegação e amor, consagre a existência ao bem, ao progresso dos seus semelhantes; aquele que, animado de um zelo sem limites, for ativo na vida; ativo no cumprimento dos deveres materiais, ensinando e exemplificando aos outros o amor ao trabalho; ativo nas boas ações, sem esquecer a condição de servo ao qual o Senhor pedirá contas, um dia, do emprego do seu tempo; ativo finalmente na prática do amor de Deus e do próximo. Assim o homem honesto, perante Deus, deve evitar cuidadoso as palavras mordazes, veneno oculto sob flores, que destrói reputações e oprime o homem, muitas vezes cobrindo-o de ridículo. O homem honesto, segundo Deus, deve ter sempre o coração fechado a quaisquer sementes de orgulho, de inveja, de ambição; deve ser paciente e benévolo para com os que o agredirem; deve perdoar do fundo da alma, sem esforços e sobretudo sem ostentação, a quem quer que o ofenda; deve, enfim, praticar o preceito conciso e grandioso que se resume “no amor de Deus sobre todas as coisas e do próximo

140 – Allan Kardec como a si mesmo”. Eis aí, querida filha, aproximadamente o que deve ser o homem honesto perante Deus. Pois bem: eu teria sido assim? Não. Confesso sem corar que faltei a muitos desses deveres; que não tive a atividade necessária; que o esquecimento de Deus impeliu-me a outras faltas, as quais, por não serem passíveis às leis humanas, nem por isso deixam de ser atentatórias à lei de Deus. Compreendendo-o, muito sofri, e assim é que hoje espero mais consolado a misericórdia desse Deus de bondade, que perscruta o meu arrependimento. Transmite, cara filha, repete tudo o que aí fica a quantos tiverem a consciência pesada, para que reparem suas faltas à força de boas obras, a fim de que a misericórdia de Deus se estenda por sobre eles. Seus olhos paternais lhes calcularão as provações. Sua mão potente lhes apagará as faltas.

SRA. HÉLÈNE MICHEL
Jovem de 25 anos, falecida subitamente no lar, sem sofrimentos, sem causa previamente conhecida. Rica e um tanto inconsequente, a leviandade de caráter predispunha-a mais para as futilidades da vida do que para as coisas sérias. Apesar disso, possuía um coração bondoso e era dócil, afetuosa e caritativa. Evocada três dias após a morte por pessoas conhecidas, exprimia-se assim: Não sei onde estou... que turbação me cerca! Chamaram-me, e eu vim. Não compreendo por que não estou em minha casa; lamentam a minha ausência quando presente estou, sem poder fazer-me reconhecida. Meu corpo não mais me pertence, e no entanto eu lhe sinto a frieza... Quero deixá-lo e mais a ele me prendo, sempre... Sou como que duas personalidades... Oh! Quando chegarei a compreender o que comigo se passa? É necessário que vá lá ainda... meu outro ‘eu’, que lhe sucederá na minha ausência? Adeus.
O sentimento da dualidade que não está ainda destruído por uma completa separação, é aqui evidente. Caráter volúvel, permitindo-lhe a posição e a fortuna a satisfação de todos os caprichos, deveria igualmente favorecer as tendências de leviandade. Não admira, pois, tenha sido lento o seu desprendimento, a ponto de, três dias após a morte, sentir-se ainda ligada ao invólucro corporal. Mas, como não possuísse vícios sérios e fosse de boa índole, essa situação nada tinha de penosa e não deveria prolongar-se por muito tempo. Evocada novamente depois de alguns dias, as suas ideias estavam já muito modificadas. Eis o que disse:

Obrigada por terem orado por mim. Reconheço a bondade de Deus, que me diminuiu aos sofrimentos e apreensões consequentes ao desligamento do meu Espírito. À minha pobre mãe será dificílimo resignar-se; entretanto será confortada, e o que a seus olhos constitui sensível desgraça, era fatal e indispensável para que as coisas do Céu se lhe tornassem no que devem ser: tudo. Estarei ao seu lado até o fim da sua provação terrestre, ajudando-a a suportá-la. Não sou infeliz, porém, muito tenho ainda a fazer para aproximar-me da situação dos bem-aventurados. Pedirei a Deus me conceda voltar a essa Terra para reparação do tempo que aí perdi nesta última existência. A fé os ampare, meus amigos; confiem na eficácia da prece, principalmente quando partida do coração. Deus é bom. P. Levou muito tempo a se reconhecer? R. Compreendi a morte no mesmo dia que por mim oraram.

8. 7. em 16 de maio de 1861) 1. Resignando-me à vontade de Deus. Quais os parentes que reconheceu primeiro? R. Estive muito tempo perturbado e só voltei a mim para bendizer da piedade dos que. 4. a pedido de uma sua irmã. Como explicar as recordações da infância que de preferência te ocorriam? R. 5. voltarei sempre com prazer. por mim oraram. R. Ao fato de o princípio se identificar mais com o fim. não está ainda bastante desenvolvida. Eis-me aqui. Não. E poderia precisar o tempo dessa perturbação? R. 6. embora seja médium. Ao conhecimento antecipado pela revelação do mundo que viria habitar. A que atribuir o fato de parecer que nos últimos extremos da moléstia conversava com as pessoas queridas da Terra? R. 2. Responderei da melhor forma possível. iniciando-me em a nova vida. Em primeiro lugar ela deseja saber se está feliz. Obrigada. Como explicar isso? R. lembrando-se de mim. Minha vida não foi isenta de dores. Permaneceu por muito tempo inconsciente do seu estado? R. Hélène O MARQUÊS DE SAINT-PAUL (Falecido em 1860 e evocado. 3. acreditava sonhar e aguardava o despertar. como reflexo consolador. a minha resignação foi por Ele levada em conta. sócia da Sociedade de Paris. os quais me receberam ao despertar. Adeus. É provavelmente por motivo providencial semelhante que os velhos têm . Tua irmã pediu-nos para te evocar. Vidente antes da morte. eu não sofria. Não sei. mas todo ser encarnado nesse mundo deve sofrer. que com o meio da vida. Sou grata a vocês pelas preces que me auxiliaram no reconhecimento de mim mesma. porque os laços carnais eram ainda muito vigorosos. meus olhos só se turbaram no momento da separação do corpo.141 – O CÉU E O INFERNO P. estado transitório que não proporciona nem felicidade nem castigo absolutos. Era doloroso o estado de perturbação? R. Evocação: R. Importa dizer que os moribundos lembram e veem a pureza infantil dos primeiros anos. Estou na erraticidade. Minha mãe e meu pai. pois. R. P.

aqui as virtudes humanas passam a ter seu justo valor. é preciso aquecê-lo.. Aqui ressaltam perfeitamente as duas existências. era portanto ao seu corpo que se fazia necessário dessedentar. minha alma não ficará satisfeita senão quando se alçar aos pés do Criador. Minutos depois. ele reuniu a família para dizer-lhe o último adeus. o Espírito. referindo-se ao corpo. MÉDICO Passou uma parte da sua vida na marinha mercante. ele dizia sempre: Ele tem sede. deixava-se abater pela perspectiva da morte. 9. Porque era vidente como já disse. muito misturado entre si pelo fluido vital. recolhido à cidade de J. com antecipação de cerca de dois meses. este estado é mil vezes preferível ao da minha encarnação terrestre. em parte desprendido. que é a libertação. há Espíritos errantes felizes e infelizes. etc. O que disse sobre a erraticidade do teu Espírito e sua respectiva perturbação. é ele”. adquirindo em tal ambiente ideias um tanto materialistas. SR. sofre em tal ou tal região. R..142 – Allan Kardec algumas vezes nítida lembrança dos mais ínfimos episódios da infância.. e. senti minha alma elevar-se bem alta. ao contrário do que se poderia deduzir das tuas qualidades. e sentia claramente as diferenças entre o físico e o moral. para ocultar aos filhos esse espetáculo. como médico de navio baleeiro. Por que. chegado o momento. e ele exclamou: “Oh! Meus filhos. Estando abeirados do seu leito a esposa. porém. à proporção que se aproximam do termo da vida. Ah! Que eu não posso descrever a magnificência de tudo quanto vi. falava sempre na terceira pessoa? R. E quando se lhe dizia: Mas é você que tem sede? – respondia: “Não. e. sabendo a moléstia incurável. e não a ele Espírito. pelo que foi julgado morto. Este fenômeno nota-se também em alguns sonâmbulos. tornando-se de um roxo lívido e fechando os olhos.. que a bem dizer lhe não pertencia. belo! Sublime! Oh! A morte! que benefício! que coisa suave! Morto. exerceu aí a modesta profissão de médico da roça. Certo. vivam . Estou num estado transitório. o doente reabriu os olhos. tomou radiante expressão de beatitude. ele prostrou-se. A esposa colocou-se então de permeio. Eis aí uma particularidade singular da morte deste senhor. as impressões que experimentei! Mas não poderiam compreendê-las. a mãe. levaria a duvidar da tua felicidade. CARDON. comportam-se sempre de modo a merecer esta inefável felicidade reservada aos homens de bem. mas porque alimentei sempre aspirações ao verdadeiramente bom e belo. Oh! Meus filhos. tornam-se claríssimas aos olhos dos moribundos clarividentes. Deus me permitiu voltar para lhes dizer: Não lamentem a minha morte. essas diferenças. adquirira a certeza de estar afetado de uma hipertrofia do coração. Havia algum tempo. o eu pensante está no Espírito e não no corpo. Nos seus últimos momentos. ele tem frio.. 10. quando a primeira tentava erguê-lo. num estado de melancolia inconsolável. considerava o corpo outra individualidade. por assim dizer iluminada. Predisse o dia certo do falecimento. sua fisionomia. é preciso dar-lhe de beber. Demais. os três filhos e outros parentes.

perdoa-lhes. deixo-te numa posição pouco lisonjeira. Estou perto de vocês. Tendo-nos um amigo da família fornecido estes pormenores bastante interessantes. e tomara que ela te recorde sempre os meus derradeiros conselhos: Meus filhos. desses que só em sonho podemos imaginar. Não. divino. fazia-se com celeridade tal que eu não pude precisar os instantes nele empregados pelo meu Espírito. eu havia assimilado na arte de curar uma aversão profunda à segunda natureza. 3. Queria ter a bondade de nos descrever ainda mais minuciosamente o que viu no intervalo do que poderíamos denominar as tuas duas mortes? R. apoiem-se mutuamente para que a boa harmonia reine entre vocês. porém. visto como não encontraria expressões apropriadas à compreensão do que pude ver durante os instantes em que me foi possível deixar o envoltório mortal. E desfruta atualmente a felicidade que viu? R. se estiverem em apuros. numerosa turba veio contemplá-lo. e aos que não o puderem fazer. mas eu te conjuro a não atormentar os nossos devedores. Evocação: R. eu só me reconheci durante a transição que o meu Espírito experimentou .. 4. não sejam vaidosos nem orgulhosos. Esse percurso. através do infinito. E sabe em que lugar esteve? Seria longe da Terra. seja honesto sempre e te guarda de fazer algo que possa manchar a nossa família. ou no Espaço? R. 2. Revoltei-me muitas vezes contra os pensamentos abençoados que o coração me ditava e a morte me parecia uma injustiça. Tu. e ficamos cheios de admiração. Não. E poderiam compreendê-lo? Não sei. mas Deus não deveria me recompensar de tal maneira.. tomou-lhes as mãos. meu filho.” Depois. não a deixe nunca. Toma esta cruz. que sabe distribuir a dor e a alegria para ensino da Humanidade. acrescentando: “Filhos. espera que possam pagar. Relataram-nos as circunstâncias em que se deu a tua passagem. 1. E seus olhos cerraram-se. perdoem aos seus inimigos se quiserem que Deus os perdoe. em outro planeta. conservou uma expressão tão imponente que. eu os abençoo”. e útil ao próprio Espírito. trabalha para manter tua mãe. até ao momento de ser amortalhado. tomada de admiração..143 – O CÉU E O INFERNO conformemente aos preceitos da caridade. Médico incrédulo. lembramo-nos que a evocação podia tornar-se instrutiva a todos nós. desta vez para sempre. Deus te recompensará. 5. Logo após o definitivo desprendimento reconheceu o teu estado? R. embora o nada me espantasse.. temos dívidas a receber. “Minha querida mulher. fazendo-os chegar a si. O Espírito não mede distâncias. seu rosto. ajudem-se. A Filosofia me desviou sem que eu percebesse a compreensão da grandeza do Eterno. herança de minha mãe. nem lhes conhece o valor como acontece a vocês. bem desejaria poder desfrutá-la. O que vi. Arrebatado por não sei que agente maravilhoso. para mim a imortalidade da alma não passava de ficção própria para seduzir as naturezas pouco instruídas. do que tiverem dai uma parte aos necessitados. eu vi os esplendores de um céu. que é o nosso impulso inteligente. maldizendo o misterioso agente que atua perenemente.

. os filhos se curvam sempre à encarnação que termina. por isso. e não entra na vida natural antes que dê o último estremecimento da carne.” Obedeci. compreendendo-a. dando-me coragem mais forte que a dor. podemos deduzir que esteja infeliz? R. que antes da morte real me permitiram doutrinar os meus. agradecendo-lhe o favor especial que houve por bem conceder-me para que pudesse entrever. 7. Dizendo não gozar da felicidade vista. A ideia de Deus é grande como o mundo! Oh! Que supremo consolo na prece. que passou por uma transição. por mais ingratos que possam ser. bendizia o que amaldiçoara. 8. sendo-me precisos alguns dias para o meu despertar. Se pudéssemos penetrar o coração dos filhos. 9. eu era intérprete de outro mundo. que nos enternece e comove: ela é o elemento mais positivo da nossa natureza imaterial. 10. sinceros. 11. e isto de coração e consciência.144 – Allan Kardec para percorrer a etérea região. Sim e não: tendo o Espírito abandonado o corpo. profunda. os bons Espíritos inspiravam-me a linguagem e davam brilho à minha fisionomia. foi por ela que compreendi. uma vez que me tornei crente antes da morte. que dizem em todos os pensamentos: Tremam se duvidam. De onde vinham as belas palavras que após o despertar dirigiu à tua família? R. Como então na tua morte aparente e durante alguns minutos. eu estava nas condições desses tais. nós os veríamos apenas palpitar de sentimentos verdadeiros. Sem dúvida. Eram o reflexo do que tinha visto e ouvido. a morte não é mentirosa. porque Deus me chamava e os seus servidores me diziam: “Vem. retomando posse da morada terrena. Não. a morte é a reparação. junto de um túmulo entreaberto. a sua infinita grandeza. e. encarava a morte como uma libertação. Muitas vezes vocês têm evocado um Espírito encarnado. Poderíamos dizer que esteve morto nessa primeira crise? R. notadamente nos teus filhos? R. para que façam boas e justas encarnações. Surpreendente. entretanto. depois de haver cientificamente sondado com gravidade a matéria que me atormentava. ao passo que o desprendimento efetivo se fez acompanhar da perturbação por alguns dias? Parece-nos que no primeiro caso. a vida voltou ao corpo. que me inspirou e consolou. Além disso. a justiça de Deus. os laços entre corpo e Espírito subsistindo mais que no segundo. A dor angustia nesse mundo. houve por bem recompensar-me antes do termo da minha encarnação.. por um sono. soberanamente. recebendo respostas exatas. Isto. mas fortalece sob o ponto de vista do futuro . o desprendimento deverá ser mais lento. Deus concedeu-me uma graça. Assim. naturalmente a carne extinguia-se. R. em razão do que vou explicar a vocês: A minha primitiva descrença não mais existia. ao contrário justamente do que se deu. e eu lhes asseguro – ainda que doa aos incrédulos – que a minha família e os amigos creram nas palavras por mim pronunciadas antes da morte. levando em conta os meus atos. E sentiu então os laços que os prendiam ao corpo? R. Obrigado a vocês. de não haver encontrado ao fim das razões terrestres senão a razão divina. tornara-me crente antes da morte. o Espírito tem uma amarra fortíssima a prendê-lo. Deus. que acreditei firme. não ocorreu imediatamente. tocados pela mão secreta dos Espíritos. 6. Que impressão julga ter a tua revelação produzido nos assistentes. pôde o teu Espírito desprender-se súbita e imperturbavelmente. porém.

desencarnados. uma vez que não podem duvidar dos frutos das reuniões sérias. é a alavanca que põe em comunhão os Espíritos de todos os mundos. pois a esmola do pobre é o mais meritório aos olhos de Deus. irmãos! Quanto bem por toda parte. que de sentimentos suaves. desse Deus que sabe que muito dá um pobre. justo.145 – O CÉU E O INFERNO espiritual. lembrando-se de que Deus as vê. quanto lhes será permitido antes mesmo de terem adquirido direitos! Assisti a tudo quanto se passou esta noite. meu Deus! O consolador de todos os oprimidos. por este mundo invisível que preside aos seus destinos. Não deixe jamais o bálsamo consolador se derramar excessivamente sobre vocês e sobre nós! De que expressões nos servirmos. os Espíritos que têm muito ainda a aprender. quanto lhes agradeço. Amigos. O rico precisa dar muito. dá-nos força superior a todas as dificuldades. preguiçosos e esquecidos dos . é considerar que todos os Espíritos são irmãos. meus amigos. Repita sempre esta prece: “Deus de amor e bondade. Cardon ERIC STANISLAS (Comunicação espontânea. querida. também. a benevolência em todos os atos. Notem que Deus teve em conta as minhas preces e a crença n’Ele depositada em absoluto. perdoar e crer. Peço a todos os meus que acreditem no Deus poderoso. abismado na imensidade. compreendi e vou procurar a meu nuto cumprir o meu dever e instruir a classe dos Espíritos imperfeitos. aceite-as corajosamente. sem se preocupar jamais com as mil vaidades tolas da Terra. a fim de melhor te compreendermos e te amarmos”. elevados e simples como vocês. mas. que me permitiu vir a um santuário. são chamados a implantar ao longo da estrada a percorrer. Bendito seja Deus. esta troca fraternal é de caridade. torna-nos bons. Acaso gostaria de dirigir algumas palavras à tua mulher e filhos? R. os que ficam voluntariamente inativos. imutável. humildes e caridosos. Seja teu nome emblema de liberdade. quanto difícil me era o compreendê-los. que traduzam a felicidade dos irmãos. estudem. os meus padecimentos eram tanto mais intensos. que respira material e espiritualmente. estou firme no caminho da perfeição. pequenos pela fortuna e grandes de coração. ao perscrutarem o amor que une a todos? Ah. que não pode ser franqueado impunemente pelos maus. na caridade que é a mais pura prática da encarnação humana. O futuro é a caridade. no infinito. para merecer outro tanto. amada família. Terão rudes provações. que tudo permite e sempre. Permite seja espírita o nosso Espírito na Terra. peço-lhes que se lembrem que do pouco também se pode dar. Ouvi: eu estava longe de ser feliz. e chegarei ao fim que me foi permitido lobrigar. 12. Sociedade de Paris. agosto de 1863) Que ventura nos proporcionam as emoções vivamente sentidas por valorosos corações! Ó suaves pensamentos que vieram abrir o caminho da salvação a tudo que vive. e repetidamente. reúnam-se constantemente. como a sua Doutrina. oh. quanto de forças recuperei entre vocês! Ó homens de bem. ouvi. mesmo que dê pouco. na prece que consola e alivia. porém. Orem. de todos os que necessitam amar.

Agora compreendeu os seus erros. que apreciava até nas coisas mínimas. os meios de fugir ao penoso estado que os avassala. quantas vezes lhes é dado. espontâneo. transgrediram a lei. sentindo todas as angústias da separação. podem encontrar-se. o objetivo cobiçado. sem ideia de recompensas ou de penas futuras. talvez sem o saberem. homens generosos. Com grande satisfação me constituo intérprete das almas sofredoras. a morte antes da volta do esposo. depois de retê-la três anos de cama. mas nunca pôde fixar as ideias sobre o futuro. embaralhando-se sua vista. aliás suportados até ao fim com uma coragem heroica. interessava-se por ele. este é um Espírito que sofreu por muito tempo. Deus permitiu-lhe esta audição para que desça depois a uma esfera inferior. O que praticava de bom era o resultado de um impulso natural. na certeza de não ser repelido. De há muito era desesperador o seu estado e iminente o desenlace. a fim de instruir e estimular o progresso de Espíritos que. SRA. e a despeito dos quais a graça natural do seu Espírito jamais a abandonou. de meticuloso critério e eminentes qualidades morais. esposa e mãe de família devotada. ele conquistará a felicidade. após cruel enfermidade. Conhecia o Espiritismo sem o ter estudado a fundo. Eric Stanislas O guia do médium: — Meus filhos. a expressão do meu reconhecimento em particular. fortes pelo exemplo que lhes dão. Fazendo supremo . verem o fim. que muito lhe importava. bem como todas as peripécias do seu fim. ao mesmo tempo que procurarem. todos os seus pensamentos se relacionavam com o presente. Intimamente ligados à sua pessoa desde longos anos. presa dos mais cruéis sofrimentos. Custava-lhe. avaliando a falta que lhes faria. arrependeu-se e voltou os olhos para o Deus que negara. pois. circunstância que ela própria não ignorava. contudo. espirituosa. Proveio de um acidente a moléstia que havia de levá-la. a perturbação a invadia. mas não lhe deixava no Espírito uma impressão profunda. ela possuía ainda uma integridade de caráter pouco comum e uma abundância de recursos que a trazia sempre a coberto das mais críticas eventualidades da existência. A sua posição não é a de um feliz. fortemente tocados. posto não tivesse medo da morte e fosse indiferente aos gozos materiais. Vivaz. e era isso que a prendia à vida. este era para ela uma realidade. porque é a homens de coração que me dirijo. Queria viver menos para si que para os filhos.146 – Allan Kardec seus deveres. achando-se ausente o marido. Um dia. estava sempre pronta a prestar-lhes oportuno serviço. porém ele aspira à felicidade e não mais sofre. Afinal. ANNA BELLEVILLE Jovem mulher falecida aos trinta e cinco anos de idade. Ela acreditava firmemente na existência da alma e na vida futura. como ele. pudemos acompanhar todas as fases da sua existência. porque tem força de vontade. e então. mas pouco se preocupava com isso. sentiu-se desfalecer e compreendeu que a hora era chegada. em virtude de circunstâncias fortuitas ou não. reconhecendo-se. mas possuía inato o sentimento do bem e do belo. dotada de inteligência rara. e em geral de todos a quem tanto bem tendes feito. É a reparação que lhe compete. A sua vida era simples e sem sacrifício abria mão do que não podia obter. aí entre vocês. Sem guardar ressentimento das pessoas de quem poderia se queixar. transviado do bom caminho. Ainda uma vez aceitem.

R. mas o certo é que não sofro mais. Vocês compreendem o valor da prece. Ah! Meus amigos. obrigada pelo interesse que mereço da parte de vocês. Obrigada. não. por isso que tinha algumas recomendações a te fazer”. Não direi que esteja completamente libertada. Que ciência sublime! Assisto constantemente às suas reuniões e aos conselhos que lhes são . se eu vos tivesse ouvido. porém os meus sofrimentos foram largamente compensados. mas quis aguardar a tua vinda.. que paguei.. Eis aí a razão da minha longa agonia. uma vez que nos responde com lucidez. fazia com que me agarrasse de alguma sorte à matéria. não quero morrer!” Então sentiu renascer-lhe a vida e recobrou o uso pleno das suas sensações.. o desejo ardente de viver. Quando o marido chegou. quanta mudança na minha vida atual! Que alívio experimentaria nos últimos momentos. Sofri muito. e isso para mim é um grande alívio! Desta feita estou radicalmente curada. como as murmuradas por tantos outros que lhes não medem o alcance. Paguei-o tão caro. e. foram para mim como bons parentes. pela sua lembrança como pelas preces! Quão benéficas me foram estas. As que dizem não são de modo algum fórmulas banais. Agora que deve estar completamente desprendida e que melhor nos reconhece. dizer-nos qual a causa da tua prolongada agonia? Esteve durante três meses entre a vida e a morte. regozijem-se porque sou feliz. Qual poderia ser a causa dos teus longos sofrimentos? R... eu apenas via o presente que ia deixar! Quando houver de voltar à Terra. também. e quão fácil teria sido a separação. meus amigos. muito estimaríamos ter contigo uma palestra mais explícita. Podemos supor que a tua perturbação não foi longa. Um passado terrível. eu não queria abandonar o desgraçado corpo com o qual era forçoso romper. R. por exemplo. e como concorreram para a minha libertação! Tenho ainda necessidade de ser confortada. disse-lhe: “Eu ia morrer. eu sofri tanto. P. Assim se prolongou a luta entre a vida e a morte por três meses ainda. o fruto de uma boa prece. P.. Meus bons amigos. Evocação no dia seguinte ao da morte: R. Poderia. à corrente que me arrastava! Mas. eu lhes afirmo.147 – O CÉU E O INFERNO esforço sobre si mesma. Poderia nos revelar esse passado? R. ao contrário dos outros. depois que desencarnei. E vocês bem sabem que sofria com resignação. por amor dos filhos. Eu segui logo para junto deles. que deixei com tanto pesar! Prolonguei por mim mesma esses sofrimentos. porém. eram expiação do passado – uma dívida a mais. Ah! Meus bons amigos. Um mês depois da morte: P. se em vez de contrariá-la eu me tivesse abandonado confiadamente à vontade de Deus.. se bem que ele fosse para mim o instrumento de tantas torturas. em lugar de voltar os olhos ao futuro que me aguardava. serei espírita. Oh! Deixem que o esqueça um pouco. sendome permitido estar muitas vezes perto dos queridos filhos. tempo que mais não foi que dolorosa agonia. Pois bem! A minha provação está concluída. Quanto à moléstia e aos padecimentos decorrentes. meu amigo. P. continuem a orar por mim. Confortem meu pobre marido e velem por meus filhos. murmurou: “Não. Pois bem.. preciso ainda do auxílio das vossas preces para vir mais tarde colaborar com vocês.

Certamente. tampouco que dependa de cada qual prolongar por este modo a sua existência. além de muitos outros exemplos. Estes casos são excepcionais e não fazem regra. embora me não encontre suficientemente adiantada para despreocupar-me das coisas da vida. estou pronta a confessar. retardar o momento de separação da alma do corpo? Resposta do Espírito S. Se eu. Hoje compreendo a bondade e a justiça de Deus. com a perda de parentes ou de fortuna. porém para velar por eles. vendo indiferente os sofrimentos da minha mãe. meus bons amigos. Ah! Meus bons amigos. meus filhos principalmente me atraem. Velo especialmente pelos que se afligem com tormentos familiares. Sim. não mais para amimá-los. Esta dilação de vida não pode. Às vezes pode ser também uma espécie de castigo infligido ao Espírito duvidoso do futuro. bem como retornar de vontade própria à vida. onde um pobre caridoso e bom se sobreleva ao rico que humilhava com a sua esmola. tudo mudou. mas apenas uma consequência do livre-arbítrio da alma que. em dadas condições. o eu de outrora modificou-se. concluir o que não pôde até então. deixar de ser breve. prezava o meu bem-estar. Eis como Deus castiga. É uma sustação momentânea apenas. S. Ei-la: Poderá uma pessoa. A minha missão é reanimá-los e consolá-los. Tampouco se deve ver nesse fato uma derrogação de Deus à imutabilidade das suas leis. porém. Luís: Resolvida afirmativamente. os órgãos depauperados podem receber um suplemento de fluido vital que lhes permita prolongar de alguns instantes a manifestação material do pensamento. Na vida terrestre. por esforço da própria vontade. Por não vê-la de cama. um Espírito encarnado pode prolongar a existência corporal a fim de terminar instruções indispensáveis. Seis meses depois da morte: P. Ganhei com a modificação e vejo que não há nem categorias nem condições além do mérito pessoal. talvez não fosse capaz de penoso sacrifício para minorar um infortúnio. e com isso me sinto feliz. no momento extremo. como no caso vertente. pudesse compreendê-los. sem restrições. a despeito da morte. no mundo dos invisíveis. eu era o que vulgarmente se chama uma boa pessoa. esta questão poderia dar lugar a consequências falsas. a quem chamava doente imaginária. ou ao menos. R. entre as quais avulta aquela da qual depende o futuro dos meus filhos. os meus sofrimentos teriam sido atenuados. Poderia nos ministrar quaisquer informações sobre o passado que deplora? R. Anna Importante questão decorre dos fatos supramencionados. Agora que um tempo bastante longo se passou desde que deixou o invólucro material. No entanto. inculcando-lhes o caminho que o Espiritismo traça neste momento. tenha a bondade de nos descrever a tua posição e ocupações no mundo espiritual. e posto seja sempre a mesma. é preciso que da possibilidade do fato não se conclua a sua generalidade. quando na Terra. compassiva por índole. desde que ela tenha atingido o seu termo. visto como é interditado ao homem inverter a ordem das leis naturais. esse prolongamento de vitalidade com o qual tem necessariamente de sofrer. Luís . tem consciência de sua missão e quer. Como provação para o Espírito ou no interesse de missão a concluir. por ele como tais julgadas – é uma concessão que se pode fazer. eu tenho ainda graves preocupações.148 – Allan Kardec transmitidos. porém. P. supunha que não sofresse e zombava das suas queixas. Eu tinha desprezado o sofrimento alheio. A ocasião não tinha chegado. Hoje. antes de tudo.

mas por uma apreciação mais justa das coisas. O progresso da alma na vida espiritual é. a sua sorte não pode ser irrevogavelmente fixada. . como da maior parte das evocações feitas em épocas diversas. Enfim. a sua resistência foi punida com a dilação dos sofrimentos relativos à própria moléstia e não com a dificuldade do desprendimento. era um Espírito adiantado em inteligência e moralidade. não por melhores sentimentos. um fato demonstrado pela experiência. resta a que tem por si a sanção dos fatos e da razão. A vida corporal é a praticagem desse progresso.149 – O CÉU E O INFERNO Poderíamos ainda admirar a rapidez relativa com que se desprendeu este Espírito. eis por que a perturbação foi breve. e poderíamos considerá-lo um dos Espíritos dos mais felizes. apenas se prendia por frágeis fios. não havia nos laços perispiríticos a tenacidade resultante da identificação material. motivada como era pelas necessidades dos filhos ainda tenros. devemos considerar que tal apego nada tinha de material nem sensual. Portanto. debilitada por longa enfermidade. pois a fixação definitiva da sorte é – como já o dissemos – a negação do progresso. realizado este. porém. cujo progresso se traduz. que ele desejava impedir se rompessem. Assim. a porção em que ele se purifica. Por mais um grau. Contudo. Desde que a alma progride depois da morte. dado o seu apego à vida corporal. antes possuindo mesmo a sua face moral. portanto. Um outro fato igualmente importante decorre desta. pode dizer-se que a vida. E não podendo coexistir simultaneamente as duas coisas. mais ou menos distantes da morte: é a transformação gradual das ideias do Espírito. a demonstração das suas resoluções.

sentindo a pele arrepiar-se de terror. que importa?!). atiram-se para a Terra como abutres famintos. vai morrer. Vive. e. Logo. não tarda que um grande vazio se faça nele e em torno dele: chega o momento em que deve expiar. no presente e no futuro. o homem culpado sente. Por fim. Não elevam o olhar às moradas dos Espíritos elevados. ou nos casos em que o bem triunfa do mal. procurando entre os homens uma alma que lhes dê fácil acesso às tentações. sem recuar. E ele vê como num espelho as provações terríveis que o aguardam. ele vagueia. age. extenuado de forças e de crimes. dela se apoderam exaltando-lhe a cobiça e procurando extinguir-lhe a fé em Deus. Encontrando-a. porém. da senda do mal. sofrendo apenas nos momentos em que deixa de atuar. visto como o isolamento e a inércia são intoleráveis aos maus Espíritos. até que por fim – senhores de uma consciência e vendo a presa apanhada – estendem a tudo quanto se lhe aproxime a fatalidade do seu contágio. pressentimentos que o fazem tremer. Imóvel. Depois da morte. até que o véu da ignorância lhe recaia sobre os olhos.150 – Allan Kardec CAPÍTULO IV ESPÍRITOS SOFREDORES O CASTIGO Exposição geral do estado dos culpados por ocasião da entrada no mundo dos Espíritos. sob aparente imobilidade. arrastado na tempestade. precipitado no abismo da vida. os Espíritos endurecidos. votar-se e viver dentro de si mesmo um mundo de sensações esquecidas. o seu círculo de ação se restringe e a consciência – até então muda – faz-lhe sentir os cortantes espinhos do remorso.. que eles põem continuamente em ação pelos seus gestos ridículos.. compreendendo o abatimento dos Espíritos fracos e punidos. Fechadas as . o Espírito malvado é quase feliz. Estendido num colchão (ou num leito. então. egoístas e maus são logo presas de uma dúvida cruel a respeito do seu destino. sentindo em si não sei que lembrança inquieta. a reencarnação aí está ameaçadora. mas avança e. o Espírito malvado pressente que as trevas acabarão por envolvê-lo. como dizem as Escrituras. Olham em torno de si e nada veem que possa aproveitar ao exercício da sua maldade – o que os desespera. preferiria recuar. utilizando-se da lembrança de suas faltas passadas. No exercício da sua ira. consideram o que os cerca e. é ainda culpado. de repente. rola em sobressalto. se agarrarão a eles como a uma presa. em outubro de 1860. ditada à Sociedade Espírita de Paris. passam os séculos. Não lhes bastando esse zombaria. No entanto.

mas que. invadiram-me simultaneamente. alcançava as distâncias. amenizadas pela esperança. Eu via agitarem-se os humanos cuja ignorância invejava. sem que as belezas naturais nem os esplendores celestes pudessem acalmar um instante a dor amarga da consciência. sem esperança. estava admirado. Espavorido. flutuando em torno do corpo que não deseja abandonar. e ao qual não poderá apaziguar senão à força de expiação e gemidos. por si. A vida que eu deixei aos 21 anos era ainda tão vigorosa que eu não podia crer na sua perda. teve grande dificuldade em desembaraçar-se – o que já foi. aí está ele que se lança no Espaço onde desejaria ocultar-se. novos. apavorado por me ver perdido num turbilhão de sombras. Meu Espírito. Por isso procurava o corpo. por sua vez vagueia e vagueará até que a divina luz o penetre e esclareça. vê. Como que arrastado por força irresistível. toda uma ordem de sensações desconhecidas. não lhes darão nunca a ideia das angústias de uma alma que sofre sem tréguas. ouve estranhos sons. gritar aos que o cercam: “Retenham-me! Eu vejo o castigo!”. furiosas ou irônicas outras. deslizavam em torno de mim ou por sobre a terra a que me chumbava. enquanto os assistentes dizem: “Descansa em paz!” Contudo. os obstáculos materiais. Georges Nunca se traçou quadro mais terrível e verdadeiro à sorte do mau. mas as suas frágeis dores. nada de repouso. davam-me a ideia de uma ventura a que eu não podia aspirar. que em vida o conhecera. em todas as minhas encarnações. desprezando os humanos cujas . mostrando-lhe o Deus vingador. Procurava fugir a essa influência interessando-me pelos objetos que me cercavam. no entanto. e nada de abrigo. prestes a deixar o corpo. o Deus triunfante de todo o mal. mergulhadas umas em tedioso desespero. castigado. agita-se impaciente.. a alma. Vou contar-te o meu sofrimento quando morri. detestando os maus Espíritos que me perseguiam com remoques. flutuando no éter. ele ouve. Retribuem-lhe outros Espíritos o mal que fez.151 – O CÉU E O INFERNO pupilas. procurando fugir à dor provocada. que se sentia desnudada e logo possuída de vergonha acabrunhante. será ainda necessária a fantasmagoria das chamas e das torturas físicas? NOVEL O Espírito dirige-se ao médium. Uma força misteriosa o atrai. Impossível! A morte fecha seus lábios esmaecidos. Decorrido um tempo cuja duração não posso precisar. Por fim. preso ao corpo por elos materiais. invejando os eleitos cujos esplendores entrevia. atenuadas por distrações ou mortas pelo esquecimento. ele vê um clarão que desponta. nem o pavor causado pela revelação da eternidade. Pode um mortal prejulgar as torturas materiais pelos arrepios da carne.. sem arrependimento. uma rude angústia. os elementos. confuso e humilhado. e reconhece finalmente o que já vira. formas sombrias e desoladas. ou antes reencontradas. enquanto as mãos enrugadas tentam agarrar as cobertas. enquanto uma luz implacável me iluminava os mais secretas profundeza da alma. já conhecia. a consciência do meu estado e a revelação das faltas cometidas. feriram-me subitamente. Quereria falar. os Espíritos luminosos.

escutei os ensinos que te dão os teus guias. Não dando importância ao pedido que lhe faziam de orar sobre o túmulo. mas volto incessantemente ao lugar em que depositaram o que me pertencia. Orem para que Deus me perdoe. Vejo que poderei ficar mais tranquilo. Conquanto inteligente. e pela primeira vez um sentimento suave e terno me acalmou. quando o corpo não mais sofre? Por que existir sempre esta dor horrenda.152 – Allan Kardec torpezas eu via. o médium deixou de atender. sendo apontado na sociedade por suas qualidades de homem mundano. e por que também lá permaneço sempre? Venha orar sobre ele para que eu me desembarace dessa prisão cruel. espero.. Inquieta-me esta incerteza cruel do meu futuro. meu corpo lá está. a fim de implorar ao Deus de misericórdia e bondade acalmar os meus sofrimentos. Você pode me beneficiar com as suas preces.. orei.. março de 1863) Era um moço rico. mas também não fez o mal. indo aí. Oh! Que dor! Oh! Graças. foi-me revelado por sua Clemência. mas apenas pude falar dificilmente. boêmio. 11 de maio – Aqui te esperava. Você é o único médium. esta angústia terrível? Ore. 18 de março – Já vim a ti. lá mesmo recebeu uma comunicação. deu sucessivamente as seguintes comunicações: 8 de março de 1863 – Por enquanto apenas consegui desprender-me e dificilmente posso falar com vocês. Deus me perdoará. fazia-se estimar por seus companheiros de pândegas. ainda mal posso me comunicar contigo. O doloroso sofrimento corporal experimentado nada é comparativamente a esta perturbação.. Por que sofrer ainda. ao qual posso pedir preces para que a bondade de Deus me subtraia a esta perturbação. Oh! Que cruel incerteza! Ainda estou ligado ao corpo. Chamou-me finalmente. Novel AUGUSTE MICHEL (Havre. Evocado alguns dias depois da morte por um médium que indiretamente o conhecia. a verdade impôs-se a mim. A queda que me ocasionou a morte do corpo perturbou profundamente o meu Espírito. 6 de abril – Sou eu quem vem pedir que ore por mim. Presentemente. vejo as faltas . Não fez o bem. o indiferentismo pelas coisas sérias era-lhe o traço característico. gozando larga e exclusivamente a vida material. Vejo quanto a minha vida foi contrária ao que deveria ser. mais tarde. oh! ore para que Deus me conceda repouso. Será preciso ir ao lugar em que jaz meu corpo. como já se me havia revelado por sua Justiça. Aguardava que viesse ao lugar em que meu Espírito parece preso ao seu corpo material. Faleceu em consequência de uma queda da carruagem em que passeava. eu te suplico. Apenas com dificuldade posso ver onde devo encontrar-me. Sem maldade. não se esqueça disso. passei de profundo abatimento a uma revolta insensata. Ore por mim. meu Deus! Que dor! Adeus. Todavia. Deus ouviu-me. a fim de implorar do Onipotente que me acalme os sofrimentos? Sofro! Oh! Se sofro! Vá a esse lugar – assim é preciso – e dirija ao Senhor uma prece para que me perdoe. Vejo os Espíritos que estão junto de ti e por eles posso falar-te. antes bom que mau.

O costume quase geral de orar junto aos cadáveres não provirá da intuição inconsciente de um tal efeito? Nesse caso. As paixões humanas são estreitas amarras que se enroscam na carne e. Prossigam na senda larga do Senhor e orem por mim. dos gozos materiais. os gostos. mas que tinha sua razão de ser se levarmos em conta a tenacidade dos laços que ao corpo o prendiam. para que se orasse sobre o seu túmulo. por consequência. o luxo deve apenas restringir-se às necessidades da sua posição. Compreendi as minhas faltas e espero que Deus me perdoe. Vocês não sabem o seu preço. ele se materializa em vez de se purificar. me conceda a graça do seu perdão. Estou livre. . não fiz uso algum proveitoso das minhas faculdades. visto não mais sentir a pesada cadeia que me prendia ao corpo. 8 de junho – Posso falar e agradeço a Deus que assim me permite. EXPROBRAÇÕES DE UM BOÊMIO (Bordéus. O homem deve utilizar-se sobriamente dos bens de que é depositário. Manto brilhante. eu vivi só para mim e agora expio e sofro! Que Deus lhe conceda a graça de evitarem os espinhos que ora me transtornam. os pendores. desprezando os da alma e a própria alma. assim. mais próxima. completamente nus. A insistência do Espírito. pois abusei dos favores que Deus faculta às suas criaturas! Quem sacrifica aos instintos brutos a inteligência e os bons sentimentos que Deus lhe dá. sem o que. Espero que Deus. de modo a chegarem nus. habituando-se a visar a eternidade que o espera. A sua alimentação deve ter por exclusivo fim a vitalidade. pobre Espírito que sofre as consequências das suas faltas terrenas? Ore para que Ele me perdoe. à dificuldade do desprendimento. mas ainda não expiei e preciso é que repare o tempo perdido se eu não quiser prolongar os sofrimentos. a eficácia da prece alcançaria um resultado simultaneamente moral e material. Até outra vista. tendo em conta a sinceridade do arrependimento. não deem abrigo a elas. elas escondem as suas maldades humanas. libertando-me das dores que ainda me pungem. devem obedecer ao mais são raciocínio. Agradeço-te por ter vindo aqui orar por mim. Caminhe sempre na vida de conformidade com a crença que te alenta. eu te suplico. meus irmãos. Envolvam-se na caridade e no amor – vestes divinas que duram eternamente. quando regressamos à pátria! As paixões humanas lhes despem antes mesmo de se deixarem. 19 de abril de 1862) Homens. em consequência da materialidade da sua existência. é uma particularidade notável. abrindo mão. ante o Senhor. Ah! Cubram-se de boas obras que lhes ajudem a conquistar o Espaço entre vocês e a eternidade. Compreende-se que. mesmo os mais naturais. 30 de julho – Presentemente sou menos infeliz. assemelha-se ao animal que muitas vezes se maltrata.153 – O CÉU E O INFERNO cometidas. porque ela te reserva de futuro um repouso que eu ainda não tenho. não pensei senão nos gozos do corpo. a prece pudesse exercer uma espécie de ação magnética mais poderosa no sentido de auxiliar o desprendimento. a fortuna serviu apenas à satisfação das minhas paixões. Peça ainda por mim. enfim. aos meus caprichos de luxo e à minha vaidade. Descerá a misericórdia de Deus até mim. Fui no mundo um ser inútil. Obrigado pelas tuas preces.

se decidam a volver os olhos para Deus. sem que a morte lhes ponha fim aos apetites que a sua vista – tão limitada como quando na Terra – procura em vão os meios de saciá-los. assim como da causa dos teus sofrimentos? R. sem esperança. deixa de ser a de um Espírito infeliz. a sua situação. 13 de fevereiro de 1862) Um Espírito sofredor inscreve-se com o nome de Lisbeth. um tédio mortal cujo término não preveem e ao qual prefeririam o nada. se o Espírito deixasse de sofrer. e importa no desejo ardente de uma reparação. caridoso para com o pobre. importa que vivam nessas torturas morais. Eis por que o arrependimento nem sempre acarreta a imediata libertação do Espírito. às vezes o sofrimento provoca um brado de arrependimento menos sincero. Não: o arrependimento é inútil quando apenas produzido pelo sofrimento. Parece sentir as falhas decorrentes de contrário procedimento. menciona conselhos tendentes a evitar os perigos da senda por ele trilhada. a alma erra no vácuo. — Este Espírito está num bom caminho. resta-lhe a reparação de outra existência. sem ser venturosa.154 – Allan Kardec Instruções do guia do médium. LISBETH (Bordéus.. Este ensinamento é uma grande verdade. se encontrará nas palavras dos Espíritos – mesmo dos mais inferiores – profundos ensinamentos. que não é a expressão de pesar pela prática do mal. É preciso para ele. além disso. mas não podem aniquilar o Espírito. Quer nos dar algumas informações a respeito da tua posição. paciente na provação. visto como. além do arrependimento.. provar a sinceridade e firmeza da resolução. Predispõe-no. O arrependimento deverá lhes dar alívio? R.. 2. Ainda não posso tanto. pondo-nos a par dos mais íntimos pormenores da vida espiritual. Recomendem-me às preces de quantos se interessam pelos sofrimentos alheios. não duvidaria revivê-la. infelizmente. porém. Arrependendo-se. porque. presa dessa ansiedade de quem não tem diante de si mais que um deserto sem limites. vencidos pelo cansaço. Meditando-se cuidadosamente sobre todos os exemplos que citamos. O . A inexistência das insônias espirituais acarreta naturalmente a inutilidade do trabalho espiritual depois da morte. submisso à vontade de Deus. sensível a todos os sofrimentos e não sofrerão as torturas que amargo. Sejam humilde de coração. sabe qual a existência desses homens de vida sensual que não deram ao Espírito outra atividade além da invenção de novos prazeres? A influência da matéria segue-os além-túmulo. antes de lá chegar. até que. Reconhecer os erros é já um mérito e um passo efetivo para o bem: também por isso. sem norte. Daí. O arrependimento profundo tem por base a mágoa de haver ofendido a Deus. porque delas tenho necessidade. para ela – isso é tudo.. Então. Mas. consolador do fraco. Puderam matar o corpo. 1. Mas o nada não existe. nada restará para satisfazer o Espírito. Por não terem nunca procurado alimento espiritual. e porque não lhe restem meios de saciar o corpo. por meio de novas provações reparadoras do mal praticado.

Conduzida por um Espírito que me acompanha muitas vezes. e a coragem e o propósito de evitá-lo lhe virão mais tarde. O orgulho.. mas o homem sério e refletido encontrará neles fonte abundante de estudos.155 – O CÉU E O INFERNO homem superficial pode não ver nesses exemplos mais que narrativas curiosas. hipócrita. insensível. 81 Geena: inferno. Desde então não fez progresso algum como Espírito? R. as mais altivas frontes. ele não poderia raciocinar assim. P. que penetra as velas. nobre. lugar de suplício – N. E desde quando tem consciência das faltas que cometeu? R. Desde quando vê esse Espírito? R. 4. Compreende agora a relação existente entre o arrependimento e o auxílio prestado por teu protetor? Tome por origem desse apoio o amor de Deus. R. tem razão: foi daí para cá que comecei a vê-lo. Em que época viveu? R. Dizem que isto pode ter um fim. 3. Possuía tudo o que os homens julgam a fonte da felicidade. Tive um nascimento de elevada condição.. esquecida de que também a cólera do Senhor esmaga. modulando silvos empeçonhados que chegam a parecer celeste harmonia! O orgulho – esse demônio multiforme que se amolda a todas as aberrações do Espírito. a matéria revoltava-se sempre. sempre..81 Oh! Sim. Há cento e cinquenta anos. cujos anéis mais e mais comprimem o mísero que lhe abona o coração. Certo. sempre! 7. o Espírito diz não ter feito progresso algum. mas onde e quando? Há muito que o procuro e só vejo sofrimento. hidra de cem cabeças a renovarem-se incessantes. era ambiciosa. Eterna! Provavelmente. como de algumas das que se seguem). cujo fim será o seu perdão e misericórdia infinitos. Não há muito tempo. . Era rica e me tornei egoísta. a despeito da separação do corpo. 5. O orgulho nos oprime a brônzeas cadeias. Calquei ao meu poderio os que se me não rolavam aos pés e oprimia ainda mais os que sob eles se colocavam. que absorve e arrasta às trevas da eterna Geena. um progresso. e ninguém não pode avaliar a influência que ela ainda exerce sobre mim. 6. Não. D. Compreende o mal. Deus é muito bom para não condenar seus filhos a penas eternas. incontestavelmente. (Depois de longa reflexão) Sim. não só desta pergunta. Farei o que deseja. P. R.. a maneira pela qual descreve o orgulho e lhe deplora as consequências é. Como chegou hoje aqui? R. cedo ou tarde. 8. era bela e fui vaidosa. sempre. Poderia me dar alguns detalhes da tua última existência corporal? Daí talvez nos venha um ensinamento útil e assim tornaria proveitoso o arrependimento (O Espírito vacila na resposta. que se oculta em todos os refolhos do coração. na Prússia. quando encarnado e mesmo logo após a morte. Confiai na sua misericórdia. o que já é alguma coisa. por ser a sua situação sempre penosa.

satisfazer a todas as minhas depravações. que se reproduzem incessantes. Vão a ela. Venha nos inscrever aqui todos os dias. fonte de água viva que desaltera e alimenta igualmente. os quais tiveram de curvar-se a todos os meus caprichos. fui duro e cruel para com os inferiores. porque deles é o reino do céu! Orem por mim. dizendo aos seus irmãos “aí estão os perigos. Purifiquem os corações. a quem a inveja devora. fonte de vida e ventura eterna. P. amem-se e os ajudem sem esquecerem jamais a fonte de todas as graças. — Nunca esqueçam os ensinos que recebem nos sofrimentos dos teus protegidos e notadamente nas suas causas. Sim. Não posso. — Oremos juntos. fonte inesgotável na qual podem todos saciar-se à vontade. Advirtam os irmãos dos perigos em que podem incorrer. lá os escolhos. e bebam com fé. d’Aquele que jamais foi surdo à voz dos filhos aflitos. 10. Sim. tenho medo. Quis a nobreza. R. aliás sacratíssimo. Sim. . Mergulhem nela as suas vasilhas. Abençoados sejam os seus esforços. O Senhor ama os corações puros: façam por merecer-lhe o amor. as honras. vinham conosco a fim de evitá-los. e quanto mais as propagarem. eu abusei do poderio e favores de que dispunha. Ele nos atenderá. Oh! Como desejaria que assim fosse. Espalhem as bênçãos do Senhor. sejam humilde. Felizes os humildes de coração que escolhem uma posição modesta a fim de cumprirem a provação. Está em suas mãos a tarefa. (Depois da prece) P. que sairão de suas ondas repletas de bênçãos. Oh! Felizes os humildes de coração. e tombei sob o peso superior às próprias forças. assim difundirão as bênçãos do Senhor sobre os que ouvirem.156 – Allan Kardec R. virei sempre. sim. Vocês todos. Creio poder prometer no nome. não avaliam o fogo que o abrasa nem os sacrifícios impostos pela riqueza quando por ela se quer obter a salvação! Que o Senhor permita a mim – um déspota orgulhoso – expiar os crimes derivados do meu orgulho entre aqueles mesmos a quem oprimi com a tirania! Orgulho! Repita-se constantemente a palavra para que se não esqueça nunca que ele é a fonte de todos os sofrimentos que nos agonizam. visto serem lição que a todos aproveita no sentido de se preservarem dos mesmos perigos e de idênticos castigos. Saint Paulin PRÍNCIPE OURAN (Bordéus. meus amigos. tanto mais se multiplicarão. Ainda está aí? R. R. Peça de coração e será ouvida. pois. Obrigada! Não me esqueça. O guia do médium. imitem-nos a nós que damos o exemplo”. 1862) Um Espírito sofredor apresentou-se dando o nome de Ouran. a fortuna. 9. príncipe russo de outros tempos. não sabem o estado a que ficou reduzido um desses que na Terra são considerados felizes. Poderia nos dar algumas minudências sobre a tua situação? R.

Irmãos de sofrimentos. quis experimentar uma existência obscura. Poderoso então. mas a sede de glórias e riquezas estrangulava a voz da consciência. Demais. Deus não dá a ninguém mais do que possa suportar. Assim. Depois de uma erraticidade de séculos. não exige da árvore nascente os frutos dados pelo tronco desenvolvido. é natural que não façamos esforços por domá-lo. mas o orgulho possuía-me sempre: o Espírito ganhara em ciência. mas não vejo seu fim. Sábio ambicioso. somente a nós devemos atribuir as respectivas consequências. servindo a todas as vinganças. Esta consciência é ainda um sofrimento. quando um vício nos agrada. visto como. enfim. P. Sei que não serão eternos. É dele que promanam todos os males que acometem a Humanidade e a perseguem até nas regiões celestes. Deponho a seus pés o meu arrasado orgulho e peço-lhe que me sobrecarregue com o mais pesado tributo de humildade. R. de tudo quanto as cruéis sensações físicas tinham de horrível. Avista um fim para os seus padecimentos? R. sem atender a conselhos. Desvaneçam tais dúvidas. Com força de vontade não há tendências viciosas insuperáveis. P. atidos à Humanidade de sua última encarnação. o que lhes falta é vontade. não experimentam nem apreendem as sensações morais. Tem consciência das tuas faltas. Era ainda o orgulho levando-me a confiar mais em mim mesmo do que no conselho dos protetores amigos que sempre velam por nós. pois com o auxílio da sua graça o peso me parecerá leve. os Espíritos têm liberdade.157 – O CÉU E O INFERNO Os Espíritos que tombam são geralmente levados a alegar um compromisso superior às próprias forças – o que é ainda um resto de orgulho e um meio de se desculparem para consigo mesmos. porque receberam uma comunicação séria. Vivi no tempo de Marco Aurélio. mendiguei o pão. mas não em virtude. Orem comigo e por mim: orem também para que esse fogo diabólico não devore os instintos que lhes encaminham para Deus. Lembra-se dos seus antecedentes? Faço esta pergunta no intuito de me instruir. Pobre estudante. e isso é já um passo para a regeneração. Não sei ainda. P. reencetar uma vida de luxo e poderio. tomara que o meu exemplo possa lhes aproveitar e não esqueçam nunca que o orgulho é o inimigo da felicidade. vendi a consciência a quem dava mais. o sentimento moral aumentou-se. sendo-me antes preciso recomeçar a provação. caí ao orgulho. Eu quis enfim. a todos os ódios. R. e sabem do que precisam. não se conformando com a própria fraqueza. na minha última encarnação. mas. e esta depende deles exclusivamente. Para muitos Espíritos o sofrimento é um efeito quase material. P. A expiação ainda foi longa e cruel. por lhes parecer a sua linguagem em desacordo com o estado de sofrimento acusando inferioridade. Por mais . Vocês sabem o resultado desta última tentativa. compreendo e aguardo a misericórdia do Senhor. Sentia-me culpado. no intuito de dominar os tropeços. Hoje. para mim. Teus guias aí estão. causa de todas as quedas. E espera fazê-lo em breve? R. O guia do médium – Concebam dúvidas sobre a identidade deste Espírito. Liberto da matéria.

porque a subida é tanto mais suave quanto firme a vontade. vê as faltas cometidas. Nosso Pai celestial é justíssimo na sua sabedoria e leva em conta os esforços da criatura para dominar os maus instintos. sem que o médium o conhecesse em vida. Eu era um pobre marinheiro e há muito tempo que morri. Este repousa atualmente. O que lhe faltava era apenas a humildade. Essa humildade conquistou-a agora.158 – Allan Kardec sofredor que seja. libertado com dificuldade. 9 de agosto de 1863) Este Espírito. mesmo de nome. ligado ao corpo. a sua bondade estende-se aos arrependidos.. porque ai daquele que para e se volta. Onde foi achado o teu corpo? R. orem. muito. que. não se voltem. Cada vitória sobre si mesmos é um degrau franqueado nessa escada que tem uma extremidade na Terra e outra aos pés do Juiz supremo. juntos erraram o corpo e o Espírito. Não muito longe de vocês. PASCAL LAVIC (Havre. este Espírito tem inteligência culta o bastante para se expressar de tal maneira.. ao passo que o Espírito. A 6 de agosto foi meu corpo encontrado. e a morte – que para tantos é temerosa – lhes será suavizada pelo conhecimento da vida que os espera. Arrependo-me e espero ser perdoado. meus amigos. e por muito tempo me esperaram. e nós esperamos que. possui a crença salvadora e pode pedir por mim ao Deus de justiça. Elevem-se por esses degraus resolutamente. Empreguem-no ainda em dominar as fraquezas e almejem o topo da montanha eterna. Consumada a provação. espanta-se do vácuo que o cerca. Pascal Lavic P. como vocês. Esperaram-me por muito tempo e puderam enfim achar meu corpo. (A comunicação foi interrompida. Orem por mim. Creio na bondade de Deus. Por muito tempo. Tombei no mar. Depressa o atinge a vertigem. pois bem! Aproveita-o na força e na coragem de terminar a sua ascensão. e no dia seguinte o Espírito prosseguiu) Houve por bem permitir que as preces dos que ficaram na Terra me tirassem do estado de perturbação e incerteza em que me achava imerso. comunicou-se espontaneamente. ele sairá triunfante de uma nova provação. Deus. se tão pouco o tenho feito e tanto me falta?” Não. se quiserem que Deus facilite o desprendimento de seu Espírito. Olhem sempre para cima a fim de se encorajarem. com perseverança. Deus julga com justiça. sendo essa a minha expiação. O orgulho está incorporado no homem. Não poder desligar-me do corpo era para mim uma terrível provação. na sua misericórdia. Meu Espírito. . sem a qual nenhum Espírito pode chegar a Deus. vagou por muito tempo sobre as ondas. eis por que necessito das preces de quem. Vivam no seu amor. Sigam o caminho reto. pereci no mar. desanima e diz: “para que mais caminhar. se compadecerá do meu Espírito. Tenho sofrido muito.

. Socorro!. Sou forçado a deixar que se aproximem estes infelizes sofredores”. que a morte santificou o passado e . a seguinte comunicação: Sou efetivamente Pascal Lavic. os braços e o busto tinham desaparecido. apesar disso..... de 11 de agosto de 1863. que tem necessidade das suas preces. pois não quero mais sentir as lacerações da agonia. orem por mim.. acredita. Foi a viúva quem lhe reconheceu a identidade. acompanhava-o no oceano que o tragara. Oh! Afogo-me! As águas vão tragar-me sem que aos meus reste o consolo de me tornarem a ver. não me rejeitem! Nós nos salvaremos os dois sobre esta tábua!. Tenham piedade. porém não posso vencer o obstáculo existente entre nós. por uma rajada de mar.159 – O CÉU E O INFERNO O JOURNAL DU HAVRE.. A separação do meu Espírito do corpo só se deu depois que reconheci as minhas faltas.. deu este de novo. vou ser tragado pelas ondas!. e nem uma palavra amiga que me console e ajude neste momento supremo..... É essa. que fora arrebatado a 11 de dezembro de bordo do navio L’Alerte. Podem me beneficiar. eu lhes suplico. bem a pressinto. não deixando jamais de implorar a Deus a sua divina misericórdia. que respondeu: “Quero comunicar-me. Orem por mim. Orem. Vejo o meu corpo.. no entanto. é a passada! Estou para sempre separado dos que me são caros.. esta noite profunda é bem a morte com seus horrores... Seguiu-se então a seguinte comunicação espontânea: Estou num medonho abismo! Auxilia-me... Foi reconhecido o corpo do pescador Lavic.. Oh! Meu Deus! Não é a morte futura... Orem. do qual o médium não podia ter ciência: Noticiamos que a 6 do corrente se encontrara um resto de cadáver encalhado entre Bléville e La Hève.. As preces de minha mãe serão ouvidas. A cabeça. continha o seguinte tópico... certamente pediria mais. quando eu não quero morrer!.. e o que há pouco sentia era apenas a lembrança da angustiosa separação. Mas não! Que vejo? Meu corpo boiando pelas ondas. vocês que conhecem o meu sofrimento. para que Deus me perdoe e me conceda repouso. Lavic tinha 49 anos de idade e era natural da cidade de Calais.. Oh! Meu Deus! Quem me tirará deste abismo? Quem socorrerá com mão piedosa o infeliz tragado pelas ondas? Por toda parte a agitação das torrentes. e espontaneamente. e depois disso.. Entretanto. como tem acontecido desde a noite fatal!. Tende piedade de mim.. pois foi terrível a provação por mim experimentada. Tomara que este desastrado fim de uma infeliz vida terrena lhes sirva de grande ensinamento! Devem ter sempre em vista a vida futura. A 12 de agosto. a punição.. Pobre mãe! Se ela pudesse supor seu filho tão miserável como realmente o é. o frio. tenho necessidade que Deus de mim se compadeça. porém. Oh! O mar. Pascal Lavic FERDINAND BERTIN Um médium do Havre evocou o Espírito de pessoa dele conhecida. mas. ainda não totalmente destacado.. como se tratasse desse acontecimento no Centro em que o Espírito se manifestara pela primeira vez. pôde verificar-se a sua identidade pelos sapatos ainda presos aos pés. pois. Convido-os a orar!.

se por momentos permite Deus que eu veja o fim da minha desventura.. são apenas pálida imagem do horror em que se envolve o meu Espírito. Não tendo qualquer parentesco com o médium. não teria acolhido a manifestação como esse médium. numa reunião espírita em Paris. não sugeria sequer à memória do médium uma vaga lembrança. mas depois do castigo da falta cometida. o nome de uma das vítimas da grande catástrofe marítima ocorrida nessas paragens a 2 de dezembro de 1863. e. assim a piedade de vocês motivada pela confidência da minha penúria. lutando com as ondas.. Também é de supor que pressentisse uma simpatia particular. inclusive a 4ª. Oh! Vocês que sabem disso. portanto. o Espírito lhe experimentava ainda todas as angústias. Oh! Esperança. na página anterior. a este Espírito foram dirigidas as Nota da Editora (FEB) à 21ª edição. como sucedia várias vezes. quão bendita és quando te sinto despontarme na alma!. A noite. o bramir das ondas que me tragaram. 6 dias. Portanto. talvez infensa mesmo a esta crença. Não quero reapossar-me desse sonho horrível que se transforma em realidade quando o vejo. acalma o sofrimento e dá repouso ao meu Espírito.. dizendo-lhe o seguinte: A piedade que tiveram dos meus sofrimentos tão horríveis aliviou-me. Dois meses mais tarde. como outros a encontraram em idênticas circunstâncias. a 2 de fevereiro de 1864. exatamente como no original. Este. não as recusem a mim. o terror e o sofrimento absorvem o pensamento de misericórdia.. serão insensíveis? Não. François Bertin 82 Desconhecido inteiramente esse nome. 82 .. o Espírito de novo se comunicou espontaneamente pelo mesmo médium. Mais tarde soube ser. A comunicação foi dada a 8 do mesmo mês. Oh! Mas o abismo escancara-se. ao que parece. mas ao mesmo tempo se referindo ao corpo como se dele estivesse separado. nem mesmo conhecimento.. vejo o perdão. de 1869.. dotado de aptidão especial para as comunicações deste gênero. O indivíduo perecera fazendo tentativas inauditas para salvar a equipagem e no momento em que se julgava ao abrigo da morte. evidente que não tinha consciência da situação. A água.. reconhecendo nela um castigo. depois do sinistro. pelo que supôs fosse de algum desgraçado náufrago que se lhe viesse manifestar espontaneamente. por que se teria manifestado a este em vez de a qualquer membro da família? É que os Espíritos não encontram em todas as pessoas as condições fluídicas imprescindíveis à manifestação. na perturbação em que estava. A família. acreditavase vivo. Compreendo a esperança. raio celeste. efetivamente. Posto que a morte durasse a alguns dias. sempre a noite!.. diz que não quer morrer e fala logo após da causa da sua morte. Dias depois.160 – Allan Kardec chora-me como mártir e não como infeliz castigado!. sendo conduzido instintiva e atrativamente para este médium. foi designado pelo nome Ferdinand.. grita por socorro. fato comum em quase todas as mortes violentas. em 1973: O Espírito. Fazem-me bem as suas preces. Sofro continuamente. Consultamos diversas edições francesas (páginas 324/ 5). Tomem o lápis mais vezes. certo intercederão por mim. devo-o às preces de caridosas almas apiedadas da minha situação... Toda essa incoerência denota a confusão das ideias. estranha ao Espiritismo. Muito me aliviará o comunicar com vocês. pois assim como a confidência de um segredo ao peito amigo nos alivia. Fico mais calmo quando posso permanecer junto de vocês. nem mesmo tinha a liberdade da escolha.

ou não. falecido em C. ele deixou o caminho da expiação para entrar no da reabilitação. Refletindo. vivia. quando em verdade o não fui. Mas. Enfim.. desejou ser humano. sujeita a crises de catalepsia seguidas de espontâneo sono magnético e também bom médium escrevente.. provando incessante este suplício. O devotamento que demonstrou era uma reparação. o Espírito completou:) Eu era muito culpado.. Em 1862. e o que mais me tortura é ser tido por mártir. avarento e muito popular. e reparem que uma ideia o persegue: o pesar de ser tido como mártir. no qual por suas preces poderiam sustentá-lo. tanto quanto havia sito cruel. convencido de que ele me pertencesse. sendo-lhe porém preciso resgatar as passadas faltas por uma expiação final — a da morte que teve... este frio glacial que sobe ao estômago e o constringe! Mas. deixando considerável fortuna aos parentes colaterais. de que serve lhes entreter com tais cenas? Não devo eu começar por obedecer às leis da gratidão. onde. ignorando até se ainda. Agora experimento mesmo um grande prazer. Deus! Como é penoso ver-se a gente constantemente envolta nas torrentes em fúria. num desses sonos. avaliariam em que situação horrível estou ainda. Na existência anterior eu mandei ensacar várias vítimas e atirá-las ao mar. em 1857. Essa circunstância era o fruto do seu arrependimento e das boas resoluções que tomou antes de voltar à Terra.. como que um alívio particular. meu Deus! Terei forças para fazer a confissão que me cumpre? (Depois de ser muito animado. Eis as perguntas: Quem o levou a comunicar espontaneamente pelo outro médium? De que tempo datava a tua morte quando se manifestou? Quando o fez parecia duvidar ainda do seu estado.. fazendo que o trilhe a passo mais firme e resoluto.. Em tempo foi locador de uma inquilina. viu. que. na forma abaixo.. que efetivamente foi bem culpado! Porém. uma filha desta senhora. a existência que vem de deixar foi honrosa: era amado e estimado de seus chefes. ao mesmo tempo em que externava angústias de uma morte horrível: tem agora melhor compreensão dessa situação? Disse positivamente que a tua morte era uma expiação: poderia nos dizer o motivo dessa afirmativa? Isso constituirá ensinamento para nós e lhe será um alívio. Ele mesmo quis purificar-se pelo sofrimento das torturas que a outros infligira. a qual solicitaremos em nossas preces. que mais tarde o esqueceu completamente. Orai por mim! Comentário de S. Luís a esta comunicação: Esta confissão trará grande alívio ao Espírito. FRANÇOIS RIQUIER Era um velho celibatário. Em primeiro lugar parece impossível que uma criatura humana possa sofrer tão cruelmente. Penso que para junto do médium fui trazido por força estranha à minha vontade e – coisa inexplicável – servia-me do seu braço com a mesma facilidade com que me sirvo neste momento do seu. agradecendo-os a todos vocês que se interessaram pelos meus tormentos? Perguntaram se me manifestei muito tempo depois da morte? Não posso responder facilmente. Por uma confissão sincera fará jus à misericórdia de Deus. . Será tomada em consideração essa humildade. Ah! Mas eis que vai cessar. por ele englobadas numa única comunicação e mediante outro médium.161 – O CÉU E O INFERNO seguintes perguntas. R.

quando pretende que o médium apenas se ocupe com ela. casas. Que pretende de nós? R. teve por fim fazer-lhe compreender o seu estado e predispô-lo ao arrependimento. Por que não querem me restituir? Acharão que foi mal ganho? P. assegurava. Demais. a desgraçada Claire. ela era dominada por um sentimento exagerado de orgulho e egoísmo pessoais. mas o meu sofrimento é tão grande que se faz preciso me auxiliem a sair desta situação cruel. o qual. CLAIRE (Sociedade de Paris. Adeus e obrigado. e não quero presenciar infâmias tais. inumeráveis como as pedras da . sentimento que se revela na terceira das mensagens. R. justificam plenamente os tormentos que lhe sobrevieram. As comunicações foram obtidas em diferentes épocas. Mas você está morto. Além do mais. P. para os que sabem que. Tendo sempre em mente a iniquidade de uma vida que foi motivo de escândalos para muitos. Sofro piores torturas que as da mais cruel enfermidade. sendo que as três últimas já denotam sensível progresso nas disposições do Espírito. A sua conduta.162 – Allan Kardec o Sr. O dinheiro do qual se apossaram. Obrigado! Orem para que eu esqueça os meus bens terrenos. sem o que não poderei arrepender-me. P. Eis-me aqui. R. Rue de la Charité nº 14 É curioso ver-se este Espírito indicar a moradia como se estivesse vivo. ainda ele não se considerava morto. Oh! Sim. uma vez que se manifestara espontaneamente confirmando aquele intuito. que empreendera a sua educação moral. e não tem mais necessidade alguma de dinheiro. os miseráveis. eu. tudo para se enriquecerem! Desbarataram meus bens como se não mais me pertencessem. pretendia dirigir-se à sua mãe. Implore a Deus que o conceda uma nova existência de pobreza a fim de expiar a usura desta última. A senhora deu-se pressa em verificá-la e ficou muito surpreendida por ver que era justamente a última casa que Riquier habitara. 1861) O Espírito que forneceu os ditados seguintes pertenceu a uma senhora que o médium conhecera quando na Terra. graças ao cuidado do médium. antes experimentava a ansiedade. sem o qual não posso viver. Riquier. e guardaram-me o cobre. Que quer que te diga? A resignação. (Foi-lhe feita a seguinte pergunta no intuito de chamá-lo à realidade) Está sofrendo? R. François Riquier. eu não poderei viver na pobreza. A evocação. como o seu caráter. Preciso do meu dinheiro. porque vivo estou atualmente. após cinco anos. bem cruel para um usurário. a esperança não passam de palavras. já que a mim me não ouvem. Não. Oraremos por ti. 1. Passados alguns dias. não preciso de outra existência. Façam que me haja justiça. pois é minha alma quem as padece. Dizem que eu era usurário. entretiveram com ele a seguinte conversação: P. a fim de o repartirem! Venderam fazendas. meu caro senhor. provocada indubitavelmente por qualquer Espírito bom. de ver os bens partilhados pelos herdeiros. tenho a consciência de ser um miserável indigno de piedade. Eis como.

163 – O CÉU E O INFERNO saraivada, os sofrimentos lhe durarão na sucessão interminável dos séculos. Posso suavizálos, você diz... Que vaga palavra! Onde encontrar coragem e esperança para tanto? Procura, pois, inteligência estúpida, compreender o que seja um dia eterno. Um dia, um ano, um século... Que sei eu? Se as horas não o dividem, as estações não variam; eterno e lento como a água que o rochedo roreja, este dia abominável, maldito, pesa sobre mim como avalancha de chumbo... Eu sofro!... Em torno de mim, apenas sombras silenciosas e indiferentes... Eu sofro! Contudo, sei que acima desta miséria reina o Deus Pai, para o qual tudo se encaminha. Quero pensar n’Ele, quero implorar-lhe misericórdia. Debato-me e vivo de repente como o estropiado que rasteja ao longo do caminho. Não sei que poder me atrai para ti; talvez seja a salvação. Eu te deixo mais calma, mais reanimada, igual idosa enregelada que se aquecesse a um raio de sol. Gélida, minha alma se reanima à tua aproximação. 2. A minha desgraça aumenta dia a dia, proporcionalmente ao conhecimento da eternidade. Ó miséria! Maldita sejam as horas de egoísmo e inércia, nas quais, esquecida de toda a caridade, de todo o afeto, eu só pensava no meu bem-estar! Malditos interesses humanos, preocupações materiais que me cegaram e perderam! Agora o remorso do tempo perdido. Que direi a ti, que me ouve? Olhe, vele constantemente, ame os outros mais que a ti mesmo, não retare a marcha nem engorde o corpo em detrimento da alma. Vela, conforme pregava o Salvador aos seus discípulos. Não me agradeçam estes conselhos, porque se o meu Espírito os concebe, o coração nunca os ouviu. Qual o cão escorraçado rastejando de medo, assim me humilho eu sem conhecer ainda o voluntário amor. Muito tarda a sua divina aurora a despontar! Orem por minha alma dessecada e tão miserável! 3. Por que me esquece, até aqui venho te procurar. Acredita que preces isoladas e a simples pronúncia do meu nome bastarão ao apaziguamento das minhas penas? Não, cem vezes não. Eu urro de dor, errante, sem repouso, sem asilo, sem esperança, sentindo o aguilhão eterno do castigo a enterrar-se na alma revoltada. Quando ouço os seus lamentos, rio-me, assim como quando os vejo abatido. As suas misérias passageiras, as lágrimas, tormentos que o sono susta, que são? Durmo eu aqui? Quero (ouviu?) quero que, deixando as tuas insônias filosóficas, te ocupa-se de mim, além de fazer com que outros mais também se ocupem. Não tenho expressões para definir esse tempo que se escoa, sem que as horas lhe assinalem períodos. Vejo apenas um tênue raio de esperança e foi você que mandou: pois, não me abandone. 4. O Espírito S. Luís: – Este quadro é todo verdadeiro e em nada exagerado. Perguntarão talvez o que fez essa mulher para ser assim tão miserável. Ela cometeu algum crime horrível? Roubou? Assassinou? Não; ela nada fez que afrontasse a justiça dos homens. Ao contrário, divertia-se com o que chamam felicidade terrena; beleza, gozos, adulações, tudo lhe sorria, nada lhe faltava, a ponto de dizerem os que a viam: “Que mulher feliz!” e invejavam-lhe a sorte. Mas, querem saber? Foi egoísta; possuía tudo, exceto um bom coração. Não violou a lei dos homens, mas a de Deus, visto como esqueceu a primeira das virtudes – a caridade. Não tendo amado senão a si mesma, agora não encontra ninguém que a ame e vê-se isolada, abandonada, ao desamparo no Espaço, onde ninguém pensa nela nem dela se ocupa. Eis o que constitui o seu tormento. Tendo apenas procurado os gozos mundanos que hoje não mais existem, o vazio se fez em seu meio, e como vê apenas o nada, este lhe parece eterno. Ela não sofre torturas físicas; os demônios

164 – Allan Kardec não vêm atormentá-la, o que é aliás desnecessário, uma vez que se atormenta a si mesma, e isso lhe é mais doloroso, porque se tal acontecesse, os demônios seriam seres a ocuparem-se dela. O egoísmo foi a sua alegria na Terra; pois bem, é ainda ele que a persegue – verme a corroer-lhe o coração, seu verdadeiro demônio. S. Luís 5. Claire: – Falarei a vocês da importante diferença existente entre a moral divina e a moral humana. A primeira assiste a mulher adúltera no seu abandono e diz aos pecadores: “Arrependam-se, e o reino dos céus lhes aberto”. Finalmente, a moral divina aceita todo arrependimento, todas as faltas confessadas, ao passo que a moral humana rejeita aquele e sorri aos pecados ocultos que, diz, são em parte perdoados. Cabe a uma a graça do perdão, e a outra a hipocrisia. Escolham, Espíritos ávidos da verdade! Escolham entre os céus abertos ao arrependimento e a tolerância que admite o mal, repelindo os soluços do arrependimento francamente evidenciado, só para não ferir o seu egoísmo e preconceitos. Arrependam-se todos vocês que pecam; renunciem ao mal e principalmente à hipocrisia – que é um véu de maldades, máscara risonha de recíprocas conveniências. 6. Estou mais calma e resignada à expiação das minhas faltas. O mal não está fora de mim, reside em mim, devendo ser eu que me transforme e não as coisas exteriores. Em nós e conosco trazemos o céu e o inferno; as nossas faltas, gravadas na consciência, são lidas correntemente no dia da ressurreição. E uma vez que o estado da alma nos abate ou eleva, somos nós os juízes de nós mesmos. Explico-me: um Espírito impuro e sobrecarregado de culpas não pode entender nem desejar uma elevação que lhe seria insuportável. Assim como as diferentes espécies de seres vivem, cada qual, na esfera que lhes é própria, assim os Espíritos, segundo o grau de adiantamento, movem-se no meio adequado às suas habilidades e não concebem outro senão quando o progresso (instrumento da lenta transformação das almas) lhes subtrai as baixas tendências, libertando-os da prisão do pecado, a fim de que possam voar antes de se lançarem, rápidos como flechas, para o fim único e almejado – que é Deus! Ah! Rastejo ainda, mas não odeio mais, e concebo a indizível felicidade do amor divino. Orem sempre por mim, que espero e aguardo.
Na comunicação a seguir, Claire fala de seu marido, que muito a martirizara, e da posição em que ele se encontra no mundo espiritual. Esse quadro que ela por si não pôde completar, foi concluído pelo guia espiritual do médium.

7. Venho procurar-te, a ti, que por tanto tempo me deixa no esquecimento. Porém, tenho, porém, adquirido paciência e não mais me desespero. Quer saber qual a situação do pobre Félix? Erra nas trevas entregue à profunda nudez de sua alma. Ilusório e leviano, aviltado pelo sensualismo, nunca soube o que eram o amor e a amizade. Nem mesmo a paixão esclareceu suas sombrias luzes. Seu estado presente é comparável ao da criança inapta para as funções da vida e privada de todo o amparo. Félix vaga aterrorizado nesse mundo estranho onde tudo fulgura ao brilho desse Deus que ele negou. 8. O guia do médium – Vou falar por Claire, visto que ela não pode continuar a análise dos sofrimentos do marido, sem compartilhá-los: Félix – que está ilusório superficial nas ideias como nos sentimentos; violento por fraqueza; devasso por frivolidade – entrou no mundo espiritual tão nu quanto ao moral como quanto ao físico. Nada adquiriu ao reencarnar e,

165 – O CÉU E O INFERNO consequentemente, tem de recomeçar toda a obra. Como um homem ao despertar de prolongado sonho, reconhecendo a profunda agitação dos seus nervos, esse pobre ser, saindo da perturbação, reconhecerá que viveu de fantasias, que lhe desvirtuaram a existência. Então, maldirá do materialismo que lhe dera o vazio pela realidade; insultará o positivismo83 que lhe fizera ter por desvarios as ideias sobre a vida futura, como por loucura a sua aspiração, como por fraqueza a crença em Deus. O desgraçado, ao despertar, verá que esses nomes por ele escarnecidos são a fórmula da verdade, e que, ao contrário da fábula, a caça da presa foi menos proveitosa que a da sombra. Georges Estudo sobre as comunicações de Claire Estas comunicações são instrutivas por nos mostrarem principalmente uma das feições mais comuns da vida – a do egoísmo. Delas não resultam esses grandes crimes que atordoam mesmo os mais perversos, mas a condição de uma turba enorme que vive neste mundo, honrada e venerada, somente por ter uma certa máscara e isentar-se do desonra da repressão das leis sociais. Essa gente não vai encontrar castigos excepcionais no mundo espiritual, mas uma situação simples, natural e consentânea com o estado de sua alma e maneira de viver. O isolamento, o abandono, o desamparo, eis a punição daquele que só viveu para si. Claire era, como vimos, um Espírito demais inteligente, mas de árido coração. A posição social, a fortuna, os dotes físicos que na Terra possuíra, atraiam-lhe homenagens gratas à sua vaidade – o que lhe bastava; hoje, onde se encontra, só vê indiferença e vacuidade em torno de si. Essa punição é não somente mais mortificante do que a dor que inspira piedade e compaixão: mas é também um meio de obrigá-la a despertar o interesse de outrem a seu respeito, pela sua morte. A sexta mensagem encerra uma ideia perfeitamente verdadeira referente à insistência de certos Espíritos na prática do mal. Admiramo-nos de ver como alguns deles são insensíveis à ideia e mesmo ao espetáculo da felicidade dos bons Espíritos. É exatamente a situação dos homens degradados que se deleitam na depravação como nas práticas grosseiramente sensuais. Esses homens estão, por assim dizer, no seu elemento; não concebem os prazeres delicados, preferindo farrapos andrajosos a vestes limpas e brilhantes, por se acharem naqueles mais à vontade. Daí a preterição de boas companhias por orgias báquicas 84 e deboches. E de tal modo esses Espíritos se identificam com esse modo de vida, que ela chega a lhes constituir uma segunda natureza, acreditando-se incapazes mesmo de se elevarem acima da sua esfera. E assim se conservam até que radical transformação do ser lhes reavive a inteligência, lhes desenvolva o senso moral e os torne acessíveis às mais sutis sensações. Esses Espíritos, quando desencarnados, não podem prontamente adquirir a delicadeza dos sentimentos, e, durante um tempo mais ou menos longo, ocuparão as camadas inferiores do mundo espiritual, tal como acontece na Terra; assim permanecerão enquanto rebeldes ao progresso, mas, com o tempo, a experiência, as tribulações e misérias das sucessivas encarnações, chegará o momento de conceberem algo de melhor do que até então possuíam. Elevam-se por fim as aspirações, começam a
Positivismo: doutrina criado por Auguste Comte (1798-1857) que se propõe a ordenar as ciências experimentais, considerando-as o modelo por excelência do conhecimento humano, desprezando as especulações espirituais. 84 Báquico: relativo ao deus Baco (o mesmo que Dionísio), que louva as farras, o sexo livre e o vinho – N. D.
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166 – Allan Kardec compreender o que lhes falta e principiam os esforços da regeneração. Uma vez nesse caminho, a marcha é rápida, visto como compreenderam um bem superior, comparado ao qual os outros, que não passam de grosseiras sensações, acabam por inspirar-lhes repugnância. P. (a S. Luís). Que devemos entender por trevas em que se acham mergulhadas certas almas sofredoras? Serão as referidas tantas vezes na Escritura? R. Sim, efetivamente, as designadas por Jesus e pelos profetas em referências ao castigo dos maus. Mas isso não passava de alegoria destinada a tocar os sentidos materializados dos seus contemporâneos, os quais jamais poderiam compreender a punição de maneira espiritual. Certos Espíritos estão imersos em trevas, mas deve-se depreender daí uma verdadeira noite da alma comparável à obscuridade intelectual do idiota. Não é uma loucura da alma, porém uma inconsciência daquele e do que o rodeia, a qual se produz quer na presença, quer na ausência da luz material. É, principalmente, a punição dos que duvidaram do seu destino. Pois que acreditaram em o nada, as aparências desse nada os supliciam, até que a alma, caindo em si, quebra as malhas de enervamento que a prostrava e envolvia, tal qual o homem oprimido por penoso sonhar luta em dado momento, com todo o vigor das suas faculdades, contra os terrores que de começo o dominaram. Esta momentânea redução da alma a um nada fictício e consciente de sua existência é sentimento mais cruel do que se pode imaginar, em razão da aparência de repouso que a acomete: — é esse repouso forçado, essa nulidade de ser, essa incerteza que lhe fazem o suplício. O aborrecimento que a invade é o mais terrível dos castigos, visto como coisa alguma percebe em torno –– nem coisas, nem seres; somente trevas, em verdade, representa isso tudo para ela. S. Luís (Claire): – Eis-me aqui. Também posso responder à pergunta relativa às trevas, pois vaguei e sofri por muito tempo nesses limbos onde tudo é soluço e misérias. Sim, existem as trevas visíveis que a Bíblia fala, e os desgraçados que deixam a vida, ignorantes ou culpados, depois das provações terrenas são empurrados para a fria região, inconscientes de si mesmos e do seu destino. Acreditando na perenidade dessa situação, a sua linguagem é ainda a da vida que os seduziu, e admiram-se e espantam-se da profunda solidão: trevas são, pois, esses lugares povoados e ao mesmo tempo desertos, espaços em que erram obscuros Espíritos lastimosos, sem consolo, sem afeições, sem socorro de espécie alguma. A quem se dirigirem... Se sentem a eternidade, esmagadora, sobre eles?... Tremem e lamentam os interesses mesquinhos que lhes mediam as horas; deploram a ausência das noites que, muitas vezes, lhes traziam, num sonho feliz, o esquecimento dos pesares. As trevas para o Espírito são: a ignorância, o vácuo, o horror ao desconhecido... Não posso continuar... Claire
Ainda sobre este ponto obtivemos a seguinte explicação:

Por sua natureza, o Espírito possui uma propriedade luminosa que se desenvolve sob a influência da atividade e das qualidades da alma. Poderiam dizer que essas qualidades estão para o fluido perispiritual como o friccionamento para o fósforo. A intensidade da luz está na razão da pureza do Espírito: as menores imperfeições morais atenuam-na e enfraquecem-na. A luz irradiada por um Espírito será tanto mais viva, quanto maior o seu adiantamento. Assim, sendo o Espírito, de alguma maneira, o seu próprio farol, verá proporcionalmente à intensidade da luz que produz, do que resulta que os Espíritos que não a produzem acham-se na obscuridade.

pelo menos. temporariamente. atacam de preferência os pontos mais vulneráveis. a independência da carne é que facilita a conversão. Da mesma maneira não ocorre com o desencarnado. deixar-se-á dominar pelo intermediário do seu corpo. como se vê na cura das obsessões. a única causa do fenômeno. as tendências para a paixão dominante. Luís . com todo o poder moral de que é capaz. A matéria facilmente sofre o predomínio de um fluido exterior. R. Às vezes os perversos mais requintados veem perfeitamente. no encarnado como no desencarnado. Nenhuma cogitação de interesse material. porém cedo adquire a convicção da sua impotência. em virtude da própria natureza.167 – O CÉU E O INFERNO Esta teoria é perfeitamente exata quanto à irradiação de fluidos luminosos pelos Espíritos superiores e é confirmada pela observação. que assim não podem ser qualificados. e isso com facilidade tanto maior quanto os invisíveis. para casos determinados. a perspectiva de melhor futuro lhe é mais acessível. os Espíritos recebem uma luz exterior que lhes falta segundo as circunstâncias. Ele pode lutar. Todo e qualquer ato que não objetive aperfeiçoar a alma. Toda ação material pode sustar momentaneamente os sofrimentos do homem vicioso. Luta por amor do mal. independente da luz que lhes é própria. não reagir. Um Espírito inteiramente primitivo seria pouco acessível ao raciocínio. e o faz mesmo geralmente com mais violência do que o encarnado. não poderá desviá-la da maldade. posto sob a influência semimaterial. (Sociedade de Paris) – O encarnado. Luís) – Qual a causa da educação moral dos desencarnados ser mais fácil que a dos encarnados? As relações pelo Espiritismo estabelecidas entre homens e Espíritos dão ocasião a que estes últimos se corrijam mais rapidamente sob a influência dos conselhos salutares. não se compara por seu estado ao encarnado. em razão da superioridade moral que o domina. o que aliás não se dá com o que já tem experiência da vida. que a subjugavam. Em uma palavra. principalmente quando se tem adquirido tal ou qual desenvolvimento pelas provações cumpridas. jazem. por se reconhecer na mesma vida em que se deve completar esse futuro. está numa luta incessante devido aos elementos contrários de que se compõe e que devem conduzi-lo ao seu fim providencial. Assim. reagindo um sobre o outro. essa obscuridade seria permanente e geral para todos os maus Espíritos. primeiro. embora se não possa concluir que a verdadeira causa seja aquela. o que aliás não acontece. O respeito humano – tão preponderante no homem – não existe para aquele. é sobre o sentimento que se faz preciso atuar. ao passo que outros. seguindo o impulso das influências perversas que o rodeiam. finalmente. se a alma. e só este pensamento é o bastante para levá-lo a não resistir longamente às razões que o próprio interesse lhe aponta como boas. tudo indica que. em trevas profundas. S. e essa visão não se turva no turbilhão dos prazeres humanos. mas o que ela não pode é destruir o princípio mórbido residente na alma. que. é sobre a alma. segundo. e terceiro. de posição social se antepõe ao seu raciocínio. Pergunta (a S. porque um mesmo Espírito pode achar-se alternadamente na luz e na obscuridade. porque a luz também é castigo para os Espíritos muito imperfeitos. Se a obscuridade em que permanecem certos Espíritos fosse inseparável de sua personalidade. constituindo punição especial da soberana justiça. visto ser mais livre. donde se conclui que a escuridão depende de uma causa ou de uma vontade estranha. Demais. porque nem todos os Espíritos inferiores estão em trevas. mais do que acontece em relação aos encarnados. ou.

168 – Allan Kardec CAPÍTULO IV SUICIDAS O SUICIDA DA SAMARITANA A 7 de abril de 1858. a ponto de se acreditar encarnado. .. Decorridas cerca de 2 horas. admirado pelo silêncio do freguês... Estou abandonado.. Sufocome. 8. Sim. Que habito o meu corpo. Não sei. Está numa reunião de pessoas que estudam o Espiritismo e que são benévolas para contigo. um homem de cerca de 50 anos e decentemente trajado apresentou-se no estabelecimento da Samaritana.. pelas 7 horas da noite. Quisera eu que uma mão compassiva me aniquilasse de vez! 6. 7. fugi ao sofrimento para entregar-me à tortura. de Paris. pois este ambiente me sufoca. Poderia nos dar o teu nome. as sensações terrenas lhe são muito vivas. está ainda completamente imersa no que poderia chamar-se o turbilhão da matéria corporal. a fim de verificar o que ocorria. profissão e domicílio? R. o criado de serviço. Eles se deparou então com um quadro horroroso: o infeliz degolara-se com uma navalha e todo o seu sangue misturava-se à água da banheira. Sinto-me aliviado. 4. 3. e mandou que lhe preparassem um banho. idade. Tem ainda os mesmos motivos para ficar desconhecido? R.. 2. 1. R. Por que não deixou indícios que pudessem te tornar reconhecível? R. Onde se acha hoje? R. Quem te convidou a vir aqui? R. posto que separada do corpo. ele está aí..... E como a identidade do suicida não pôde ser averiguada. Digam-me se vivo. Sua alma. digam-me vocês onde estou. Qual o motivo que te arrastou ao suicídio? R. resolveu entrar no seu gabinete. não mexam com ferro ardente a ferida que sangra. Absolutamente não. Não sabem como sofro!. foi o cadáver removido para o necrotério. Evocação (Resposta do guia do médium) – Esperem. Morto? Eu? Não. 5.

169 – O CÉU E O INFERNO 9. Tinha família, mulher, filhos? R. Era um desprezado, ninguém me amava. 10. E que fez para ser assim repudiado? R. Quantos o são como eu!... Um homem pode viver abandonado no seio da família, quando ninguém o preza. 11. No momento de te suicidar não experimentou qualquer hesitação? R. Ansiava pela morte... Esperava repousar. 12. Como é que a ideia do futuro não te fez renunciar a tal projeto? R. Não acreditava nele, absolutamente. Era um desiludido. O futuro é a esperança. 13. Que reflexões te ocorreram ao sentir a extinção da vida? R. Não refleti, senti... Mas a vida não se me extinguiu... Minha alma está ligada ao corpo... Sinto os vermes a me corroerem. 14. Que sensação experimentou no momento decisivo da morte? R. Pois ela se completou? 15. Foi doloroso o momento em que a vida se extinguiu em ti? R. Menos doloroso que depois. Só o corpo sofreu. 16. (Ao Espírito S. Luís) – O que o Espírito quer dizer afirmando que o momento da morte foi menos doloroso que depois? R. O Espírito descarregou o fardo que o oprimia; ele ressentia a volúpia da dor. 17. Tal estado vem sempre ao suicídio? R. Sim. O Espírito do suicida fica ligado ao corpo até o fim dessa vida. A morte natural é a libertação da vida: o suicídio a rompe por completo. 18. Ocorre o mesmo nas mortes acidentais, embora involuntárias, mas que abreviam a existência? R. Não. Que entendem por suicídio? O Espírito só responde pelos seus atos. Esta dúvida da morte é muito comum nas pessoas recentemente desencarnadas, e principalmente naquelas que, durante a vida, não elevam a alma acima da matéria. É um fenômeno que parece singular à primeira vista, mas que se explica naturalmente. Se a um indivíduo, pela primeira vez sonambulizado, perguntarmos se dorme, ele responderá quase sempre que não, e essa resposta é lógica: o interlocutor é que faz mal a pergunta, servindo-se de um termo impróprio. Na linguagem comum, a ideia do sono prende-se à suspensão de todas as faculdades sensitivas; ora, o sonâmbulo que pensa, que vê e sente, que tem consciência da sua liberdade, não se crê adormecido, e de fato não dorme, na acepção comum da palavra. Eis a razão por que responde não, até que se familiariza com essa maneira de apreender o fato. O mesmo acontece com o homem que acaba de desencarnar; para ele a morte era o aniquilamento do ser, e, tal como o sonâmbulo, ele vê, sente e fala, e assim não se considera morto, e isto afirmando até que adquira a intuição do seu novo estado. Essa ilusão é sempre mais ou menos dolorosa, uma vez que nunca é completa e dá ao Espírito uma tal ou qual ansiedade. No

170 – Allan Kardec exemplo anterior ela constitui verdadeiro suplício pela sensação dos vermes que corroem o corpo, sem falarmos da sua duração, que deverá equivaler ao tempo de vida abreviada. Este estado é comum nos suicidas, posto que nem sempre se apresente em idênticas condições, variando de duração e intensidade conforme as circunstâncias atenuantes ou agravantes da falta. A sensação dos vermes e da decomposição do corpo não é privativa dos suicidas: sobrevém igualmente aos que viveram mais da matéria que do espírito. Em tese, não há falta isenta de penalidades, mas também não há regra absoluta e uniforme nos meios de punição.

O PAI E O CONSCRITO
No começo da guerra da Itália, em 1859, um negociante de Paris, pai de família, gozando de estima geral por parte dos seus vizinhos, tinha um filho que foi sorteado para o serviço militar. Impossibilitado de desobrigá-lo de tal serviço, ocorreu-lhe a ideia de suicidar-se a fim de isentá-lo do mesmo, como filho único de mulher viúva. Um ano mais tarde, foi evocado na Sociedade de Paris a pedido de pessoa que o conhecera, desejosa de certificar-se da sua sorte no mundo espiritual. (A S. Luís) – Poderia nos dizer se é possível evocar o Espírito a que vimos de nos referir? R. Sim, e ele ganhará com isso, porque ficará mais aliviado. 1. Evocação. R. Oh! Obrigado! Sofro muito, mas... É justo. Contudo, ele me perdoará. O Espírito escreve com grande dificuldade; os caracteres são irregulares e malformados; depois da palavra mas, ele para, e, inutilmente procurando escrever, apenas consegue fazer alguns traços indecifráveis e pontos. É evidente que foi a palavra Deus que ele não conseguiu escrever. 2. Tenha a bondade de preencher a lacuna com a palavra que deixou de escrever. R. Sou indigno de escrevê-la. 3. Disse que sofre; compreende que fez muito mal em se suicidar; mas o motivo que te acarretou esse ato não provocou qualquer indulgência? R. A punição será menos longa, mas nem por isso a ação deixa de ser má. 4. Poderia nos descrever essa punição? R. Sofro duplamente, na alma e no corpo; e sofro neste último, ainda que não o possua, como sofre o operado a falta de um membro amputado. 5. A realização do teu suicídio teve por causa unicamente a isenção do teu filho, ou outras razões contribuíram para tal ato? R. Fui completamente inspirado pelo amor paterno, porém, mal inspirado. Em atenção a isso, a minha pena será abreviada. 6. Poderia calcular a duração dos teus padecimentos? R. Não lhes vejo o limite, mas tenho certeza de que ele existe, o que é um alívio para mim.

171 – O CÉU E O INFERNO 7. Há pouco não te foi possível escrever a palavra Deus, e no entanto temos visto Espíritos muito sofredores fazê-lo: será isso uma consequência da tua punição? R. Poderei fazê-lo com grandes esforços de arrependimento. 8. Pois então faça esses esforços para escrevê-lo, porque estamos certos de que será aliviado (O Espírito acabou por traçar esta frase com caracteres grossos, irregulares e trêmulos:
“Deus é muito bom”).

9. Estamos satisfeitos pela boa vontade com que correspondeu à nossa evocação, e vamos pedir a Deus para que estenda sobre ti a divina misericórdia. R. Sim, obrigado. 10. (A São Luís) – Poderia nos ministrar a tua apreciação sobre esse suicídio? R. Este Espírito sofre justamente, pois lhe faltou a confiança em Deus – falta essa que é sempre punível. A punição seria maior e mais duradoura, se não houvesse como atenuante o motivo louvável de evitar que o filho se expusesse à morte na guerra. Deus, que é justo e vê o fundo dos corações, não o pune senão de acordo com suas obras. Observações – À primeira vista, como ato de abnegação, este suicídio poderia ser considerado desculpável. Efetivamente assim é, mas não de modo absoluto. A esse homem faltou confiança em Deus, como disse o Espírito S. Luís. A sua ação talvez impediu a realização dos destinos do filho; ao demais, ele não tinha a certeza de que o rapaz morreria na guerra e a carreira militar talvez lhe fornecesse ocasião de adiantarse. A intenção era boa, e isso lhe atenua o mal provocado e merece indulgência; mas o mal é sempre o mal, e se não fosse, poderia – amparado no raciocínio – desculpar todos os crimes e até matar a pretexto de prestar serviços. A mãe que mata o filho, crente de enviá-lo ao céu, seria menos culpada por tê-lo feito com boa intenção? Aí está um sistema que chegaria a justificar todos os crimes cometidos pelo cego fanatismo das guerras religiosas. Em regra, o homem não tem o direito de dispor da vida, por isso que esta lhe foi dada visando deveres a cumprir na Terra, razão bastante para que não a abrevie voluntariamente, sob nenhum pretexto. Mas, ao homem – visto que tem o seu livrearbítrio – ninguém impede a infração dessa lei. Sujeita-se, porém, às suas consequências. O suicídio mais severamente punido é o resultante do desespero que visa a redenção das misérias terrenas, misérias que são ao mesmo tempo expiações e provações. Furtar-se a elas é recuar ante a tarefa aceita e, às vezes, ante a missão que se devera cumprir. O suicídio não consiste somente no ato voluntário que produz a morte instantânea, mas em tudo quanto se faça conscientemente para apressar a extinção das forças vitais. Não se pode tachar de suicida aquele que dedicadamente se expõe à morte para salvar o seu semelhante: primeiro, porque no caso não há intenção de se privar da vida, e, segundo, porque não há perigo do qual a Providência nos não possa subtrair, quando a hora não seja chegada. A morte em tais contingências é sacrifício meritório, como ato de abnegação em proveito de alguém (O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, cap. V, itens nos 5, 6, 18 e 19.)

FRANÇOIS-SIMON LOUVET
(Do Havre)

A seguinte comunicação foi dada espontaneamente, em uma reunião espírita no Havre, a 12 de fevereiro de 1863:

172 – Allan Kardec Terão piedade de um pobre miserável que passa de há muito por cruéis torturas?! Oh! O vazio..., o Espaço..., despenho-me... caio... morro... Acudam-me! Deus, eu tive uma existência tão miserável... Pobre diabo, sofri fome muitas vezes na velhice; e foi por isso que me habituei a beber, a ter vergonha e desgosto de tudo. Quis morrer, e atirei-me... Oh! Meu Deus! Que momento! E para que tal desejo, quando o termo estava tão próximo? Orai, para que eu não veja incessantemente este vazio debaixo de mim... Vou despedaçar-me de encontro a essas pedras! Eu suplico a vocês, que conhecem as misérias dos que não mais pertencem a esse mundo. Não me conhecem, mas eu sofro tanto... Para que mais provas? Sofro! Não será isso o bastante? Se eu tivera fome, em vez deste sofrimento mais terrível e aliás imperceptível para vocês, não vacilariam em aliviar-me com uma migalha de pão. Pois eu lhes peço que orem por mim... Não posso permanecer por mais tempo neste estado... Perguntem a qualquer desses felizes que aqui estão e saberão quem fui. Orem por mim. François-Simon Louvet O guia do médium – Esse que acaba de se dirigir a vocês foi um pobre infeliz que teve na Terra a prova da miséria; vencido pelo desgosto, faltou-lhe a coragem, e, em vez de olhar para o céu como devia, entregou-se à embriaguez; desceu aos extremos últimos do desespero, pondo termo à sua triste provação: atirou-se da Torre Francisco I, no dia 22 de julho de 1857. Tenham piedade de sua pobre alma, que não é adiantada, mas que sabe da vida futura o bastante para sofrer e desejar uma reparação. Roguem que Deus lhe conceda essa graça, e com isso terão feito obra meritória. Buscando-se informes a respeito, encontrou-se no JOURNAL DU HAVRE, de 23 de julho de 1857, a seguinte notícia local:
Ontem, às 4 horas da tarde, os transeuntes do cais foram dolorosamente impressionados por um horrível acidente: um homem atirou-se da torre, vindo despedaçar-se sobre as pedras. Era um velho rebocador de navios, cujo fraqueza à embriaguez o arrastou ao suicídio. Chamava-se François-Victor-Simon Louvet. O corpo foi transportado para a casa de uma das suas filhas, à rua de la Corderie. Tinha 67 anos de idade.

Seis anos fazia que esse homem morreu e ele se via ainda cair da torre, despedaçando-se nas pedras... Aterrado pelo vácuo, horroriza-o a perspectiva da queda... e isso há 6 anos! Quanto tempo durará tal estado? Ele não o sabe, e essa incerteza lhe aumenta as angústias. Isso não equivale ao inferno com suas chamas? Quem revelou e inventou tais castigos? Pois, são os próprios padecentes que os vêm descrever, como outros o fazem das suas alegrias. E fazem-no, muita vez, espontaneamente, sem que neles se pense – o que exclui toda hipótese de sermos nós o joguete da própria imaginação.

MÃE E FILHO
Em março de 1865, o Sr. M. C..., negociante em pequena cidade dos arredores de Paris, tinha em sua casa, gravemente enfermo, o mais velho dos seus filhos, que contava 21 anos de idade. Este moço, prevendo o desenlace, chamou sua mãe e teve forças ainda para abraçá-la. Ela, derramando copiosas lágrimas, disse-lhe: “Vai, meu

precede-me.. como ora o faz. não acreditava no seu inferno. porém acreditava na reunião das almas que se amaram como nos amávamos. Quero meu filho.. eu julgava Deus melhor que os homens. nutrido a carne da sua carne. C..... Não acreditem que ela amasse mais que as outras mães. mães que se comovem com a narrativa da sua morte. guiado os seus primeiros passos. E por quanto tempo! Assim. humilde. quando a agonia empanar o olhar dos seus filhos. onde estás? Evocador – Pobre mãe. escondendo o rosto entre as mãos. compartilhamos da tua dor. Oh! Quem me dará meu filho? Terei perdido meu filho para sempre? Piedade! Piedade. ter feito dele um homem cheio de atividade. e compreendi que o haviam levado ao paraíso. Deus não é justo nem bom. eles sobem ao cimo do Calvário. e tomou. em consequência do desespero que lhe causou a tua perda? R. Evocação da mãe. se fosse resignada. é que lhe faltaram a coragem e a resignação. não lhes compreende as dores e desesperos. E sobretudo não a imitem. para perdê-lo quando realizava as esperanças concebidas a seu respeito. de honestidade... muitos dias depois do fato – P. Nada vale então o amor materno? Pois então! Tê-lo carregado no ventre por nove meses. quando brilhante futuro se lhe antolhava! Não.. donde deverão se elevar à glória eterna. buscou um triste recurso para te reunir ao teu filho: o suicídio é um crime aos olhos de Deus. R. Com isso. não é o Deus das mães.. Quero ver meu filho. Pobre. Mães.. sem o pesar causado por essa fatal resolução da parte dela. tê-lo amamentado.. O enterro da suicida foi juntamente feito com o do filho. retardou indefinidamente uma reunião que tão pronta teria sido se sua alma se conformasse submissa às vontades do Senhor. Evocação deste. e deve saber que Deus pune toda infração das suas leis... meu Deus! Evocador – Vamos. Enganeime. lembrem-se de que.. excelente mãe! Não pôde suportar a prova dessa separação momentânea. por isso que não compreende a grandeza da minha dor como do meu amor!. Tomaram-me para levá-lo à luz.. que me ouvem... No entanto. procuraramna por toda a casa e foram encontrá-la enforcada num celeiro. E quando me dava a morte para me não separar de meu filho. E eu estarei.. acaso. retirou-se. arrependida diante da provação que se lhe impunha. se há um meio de rever teu filho. considere que... Dito isto. de inteligência. Sabe do suicídio de tua mãe. o caminho que dele mais deveria afastá-la. e a mim me deixaram em trevas. Vocês têm o poder de me trazê-lo? Cruéis!. e.. de amor filial. como o Cristo. que não tardarei a te seguir”. não é blasfemando de Deus. Ela – Não. sangue do seu sangue. no inferno? No inferno das mães? Ele existe. Quero meu filho. em vez de atrair a divina misericórdia. ensinado a balbuciar o sagrado nome de Deus e o doce nome de mãe. para se unir ao filho.. dor que o tempo acalmaria. vocês. Sim. demais o vejo. a esse filho que era o seu orgulho. pois ele me pertence!. Morto o doente.. da expiação que deveria purificá-la! Orem! Orem por ela!.173 – O CÉU E O INFERNO filho. julgaria ser completamente feliz. eis que novamente mo roubam!.. Deus não é justo. não. Benjamin C. acalme o teu desespero. faz jus a uma severidade maior. Ela – Disseram-me que não mais tornaria a vê-lo. . A ausência do filho é a tua punição. Meu filho! Meu filho. As pessoas presentes a essa cena desoladora consideravam simples explosão de dor as palavras da Sra.

ao passo que a revolta poderá retardar indefinidamente esse momento. Aceita meu arrependimento e submissão à Tua santa vontade”. perdoe-me por ter duvidado da Tua justiça e bondade. e por não haver entre eles quaisquer relações de interesse. fazendo o possível por amá-la. se me puniu. eram amigos íntimos. no conhecimento exato da sua situação. coloca uma barreira entre vocês.... Ouça-me: Deus é infinitamente bom. os dois amantes deram-se ciência do mal que os torturava e acharam que a . ou a Senhora D.. A morte. a sentença não é imutável e o arrependimento do culpado é sempre acolhido. o qual te receberia de braços abertos. era necessário que soubesse aí estar realmente. Ore a Deus e diga comigo: “Meu Deus. teria imediatamente avistado o filho. Ela – Que luz de esperança acaba de fazer despontar em minha alma! É um como relâmpago em a noite que me cerca. modelo. como pretende que Deus recompense os filhos rebeldes? Entretanto. faltassem aos seus deveres.. mas é preciso merecê-lo pela submissão à vontade de Deus. é certo que tornará a vê-lo. Os Srs. era dotada de aparência encantadora e de caráter afável. jamais deixaram de se avistar. uma jovem possuidora de eminentes predicados.. Assim. que lhe retribuía essa preferência com a mais viva das paixões. residindo com seus pais. percebeu cedo que esse meio heroico lhe foi inútil à cura. e se sobre a Terra Ele te infligiu grandes dores. Ele te vê e ama sempre. Ele apresenta-se consciente do seu estado: é que para outros o castigo consiste naquela ilusão. na certeza da desencarnação. DUPLO SUICÍDIO. o que fez e ainda agora faz. só eles o sabem. A morte de teu filho era uma prova à tua resignação. aumentava-se ele de intensidade na razão direta daquele esforço. e como se esforçassem ambos por contê-lo. a ela caiu quando em vida. D. de modo algum diminuiu. se houvesse esperado com paciência o momento da tua desencarnação. mas é também infinitamente justo. de fato. cuja posição social se afigurava mais vantajosa àqueles. de 13 de junho de 1862: A jovem Palmyre.. é porque mereceu. Visando extingui-lo.. O que padeceram. POR AMOR E POR DEVER A seguinte narrativa é de um jornal. do que a do seu rival.. infelizmente. pois D.. Contudo.. Apesar dessa afeição. B. Esta mulher quis deixar a Terra para seguir o filho na outra vida: pois... Adeus. e eis que após a morte de novo tomba. e que não há punições uniformes para as faltas do mesmo gênero.. Depende só de tua parte abreviar ou retardar esse momento.. Obrigada.. B. Se tivesse aceito a provação com humildade. Mas. Assim é que cada falta é punida de acordo com as circunstâncias que a determinam... antes mais perto do que supõe – é que um véu impenetrável o retira da tua vista. o teria visto radiante.. tomou o partido de se casar. Palmyre consentiu em se casar com o Sr... ninguém é punido sem causa. deplorando a triste condição em que caiu pela falta de confiança em Deus e aguardando ansioso o momento feliz de se apresentar a ti.. e Palmyre. D.. ao entrar no mundo espiritual em que está.174 – Allan Kardec Evocador – Teu filho não está perdido para sempre. que passou a ser a Sra.. pelos laços que os prendem ao corpo. B. não produziu neste Espírito a ilusão de se julgar ainda vivo. por consideração aos pais. Depois da ausência. e D. Por isso também sua mão era muito requisitada. atraía-o sempre ao seu lar. reconheço tê-lo merecido. vou orar. O amor recíproco de B. Decorreram quatro anos sem que B. insistindo para que nele ficasse quando tentava retirar-se. mesmo pelo suicídio. Não o julgue perdido nas profundezas do Espaço. Entre todos os pretendentes ela escolheu o Sr. Aproximados um dia por circunstâncias fortuitas e independentes da própria vontade.. e desposou. que estimava deveras o seu amigo..

4. mais que uma palavra. aqui? R. Pois bem: podemos com segurança te dizer que nem sempre assim será. R. Assentaram que se suicidariam juntamente. vozes horrendas que bradam: sempre assim! 5. Sendo esta ocorrência submetida à Sociedade de Paris. que poderá abreviá-los pelo arrependimento... Todo o meu sofrimento reside aqui. 1. explicando a causa da sua resolução: para não cometerem adultério. estaria ausente de casa mais prolongadamente. As consequências morais da falta cometida lhes pesarão por migrações sucessivas. escreveram longa e tocante missiva. Estranho! Tinha frio e escaldava. não consentiu fossem os corpos separados no cemitério. nem mesmo os Espíritos que erram comigo neste mundo. aqui. Essa palavra é: graça! Seria efetivamente graça o que pronunciaram? Falaram em graça. com o qual se suicidou? R. durante as quais suas almas separadas se buscarão incessantemente. Que noite! Que noite! E que véu espesso me circunda a fronte! 2.. Respeitou-lhes os últimos desejos. no seio do amor eterno. Eles aqui virão sem se avistarem. Evocação da suicida – Vê o teu amante. Que quer dizer por aqui.175 – O CÉU E O INFERNO morte era. assim. poderão evocá-los. . 3. em que o Sr. aqui. no caso.. o Sr. D.. no meu cérebro. P. De regresso a casa. Repetimos que os teus sofrimentos terão um fim. É provável que. encontrou-os asfixiados. visível. o Espírito levasse a mão à cabeça e ao coração. Que estão dizendo? Não ouço. Essa carta terminava pedindo que fossem perdoados e. D. para serem enterrados na mesma sepultura. Feitos os últimos aprestos. Dentro de oito dias.. mas sem dúvida o fizeram à alma que por aqui passou junto de mim. R. Aqui. sujeitas ao duplo suplício de se pressentirem e desejarem em vão. conjunto incrível! Fogo e gelo pareciam consumir-me! E eu julgava que ia morrer uma segunda vez!. no meu coração. como assunto de estudo. o único remédio que se lhes deparava. Tinha gelo nas veias e fogo na fronte! Coisa estranha. e. Completa a expiação. sendo-nos possível te auxiliar com a prece... no dia seguinte. Acredita na eternidade dessa situação? R. Que sensação experimentou ao despertar no outro mundo? R. porque profundas trevas os separarão por muito tempo. ficarão reunidos para sempre. na próxima sessão. Vejo-os mergulhados na perturbação e aterrorizados pela perspectiva da eternidade.. Nada vejo.. 6. pobre criança que chora e espera. Oh! Sempre! Sempre! Ouço às vezes risos infernais. um Espírito respondeu: Os dois amantes suicidas não lhes podem responder ainda. Obterá o perdão pelo arrependimento. Não ouvi além de sons confusos. Experimenta qualquer dor física? R. mais.

diariamente o sapateiro vinha almoçar e jantar na casa da noiva. A pena consistirá. também. honrosa. diremos que tal duração não é absoluta. e. e cuja existência moral sobre a Terra aniquilei por muito tempo. no qual de vez em quando se desenha um semblante que chora. recusou-se à reconciliação. consideravam-se quase definitivamente ligados e. Disse estar em trevas e nada ouvir? R. no dia seguinte veio pedir perdão. longa e terrível deve ser a pena dos culpados por se terem voluntariamente refugiado na morte para evitar a luta. É-me permitido ouvir algumas das suas palavras. mas a moça. Devo esquecê-lo presentemente para que do luto se extinga a imagem retratada. Não será isso. oficial sapateiro. ainda assim. declarou ter feito fervorosa prece pela infeliz. foram as coisas ao ponto de Luís abandonar a mesa. as últimas preces? LUÍS E A PESPONTADEIRA DE BOTINAS Havia sete para oito meses que Luís G. Aos que acharem esta pena longa e terrível. o que sem dúvida a comoveu. tendo eles procedido como o fujão que se esquiva no momento do perigo. Além do que. como se vê. 8. A de um homem que sofre. que. faz que lhes seja auxiliar ouvirem palavras de esperança que porventura lhes dirijam. namorava uma jovem. como todos. Nem . mentalmente.. como se sabe.176 – Allan Kardec Uma senhora. eles podem ser auxiliados pela prece. presente à reunião. quer noutras encarnações terrestres. mas dependente da maneira pela qual suportarem as futuras provações. 9.. prejulgando talvez pela cena da véspera o que poderia acontecer quando não mais a tempo de remediar o mal. a ponto de lhes recusar. em se procurarem inutilmente e por muito tempo. quer no mundo espiritual. que os considera votados ao inferno e para sempre. como medida econômica. com certeza por inúteis. havia implorado em seu favor a graça de Deus. ao jantar. a que ficam irrevogavelmente submetidos segundo a doutrina da Igreja. Mas uma vez que ele aqui está sem o avistar. e que de fato. Neste pé as coisas. E serão assim. nem sequer o apercebe da presença do teu amante? R. Da leitura dessa narrativa logo se depreende haver neste suicídio circunstâncias atenuantes. preferível à eterna condenação. com a qual em breve deveria casar-se. veio uma controvérsia a propósito de qualquer futilidade. Mas reconhece-se. Ah! Não me falem dele. protestando não mais voltar. efetivamente. já tendo mesmo corrido os proclamas do casamento. aliada ao castigo.. pena que ora é agravada pela perspectiva da sua eterna duração. Essa perspectiva.. Apesar disso. e lhes será contada mais tarde. mas o verdadeiro mérito consistiria na resistência.. A noite é boa conselheira. 7. Um dia. contrariamente ao julgado. A intenção de não faltar aos deveres era. obstinando-se os dois nas opiniões. Que imagem é essa? R. tanto mais quanto não deverá cessar senão depois de várias encarnações. Victorine R.. sem esperança. os árbitros do seu destino. encarado como ato heroico provocado pelo cumprimento do dever. mas o que vejo é apenas um luto negro.

nem lágrimas.. Victorine era uma ingrata..177 – O CÉU E O INFERNO protestos. mas a porta permaneceu fechada. Então não te amava? R. novos protestos. Sim. Ao Espírito Luís G. e o ferro ficara-lhe cravado na ferida. pois o suicídio provocado pelo amor é menos criminoso aos olhos de Deus. cruel!” – exclamou o pobre moço – “Adeus para sempre. abrindo então a porta. mas a desavença que tivemos abriu-lhe os olhos. agosto de 1858) 1. e não tão grande como se consciente e voluntariamente houvesse provocado o suicídio. nem desesperos puderam demovê-la.. E o suicídio de Luís tem desculpa pelo desvario que lhe acarretou a obstinação de Victorine? R. pálido. Novas súplicas do repelido. adeus. e eu fiz mal em suicidar-me por sua causa. recusaram abrir-lha. reconhecendo estendido sobre o lajedo. esperando Luís que a sua amada fosse mais razoável. Ao mesmo tempo a moça ouvia um gemido abafado e logo após o baque como que de um corpo escorregando pela porta. causadora involuntária do suicídio. Pelo silêncio que se seguiu. 2. “Então. Sim. 3. . Ela procurava uma ocasião de descartar-se. a moça julgou que Luís se assentara à soleira da porta. Muitos dias ainda se passaram. Sim. Neste caso. A princípio iludia-se. 2. 4. a sua responsabilidade decorre de haver alimentado sentimentos dos quais não participava e que deram em resultado o suicídio do moço? R. e ela até se deu por feliz achando um pretexto para livrar-se de mim. (Sociedade Espírita de Paris. pois ela não o merecia. e assim fez em começo da ligação o que viria a fazer mais tarde. Que pensa da ação que praticou? R. Luís – A moça. O desgraçado moço enterrara uma faca na região do coração. Decorrido um quarto de hora é que um locatário. Depressa acorre a vizinhança. Trata de procurar um marido que te estime tanto como eu!”. mas para logo se percebeu que tudo seria inútil. 5.. Não. Então para prevenir a desgraça deveria casar-se com ele mesmo com a repugnância que lhe causava? R. passando pela calçada e levando luz. exatamente. Mas então essa responsabilidade deve ser proporcional à falta. visto como ele deixara de existir. não ecoaram no coração da sua pretendida. inanimado. e Victorine. evocado mais tarde. bateu de modo a ser reconhecido. Cada qual se apressou em socorrê-lo. É evidente. e protestou a si mesma não sair enquanto ele ali se conservasse. o seu noivo. soltou um grito de espanto e pediu socorro. R. tem responsabilidade? R. do que o suicídio de quem procura libertar-se da vida por motivos de covardia. deu um grito de horror. porque não o amava. foram feitas as seguintes perguntas: 1. até que resolveu fazer uma última tentativa: chegando na casa da moça. Ao Espírito S..

Penosa. Parece-me estar sempre à sua porta. É realmente o teu único pesar? R. E se acaso ela adivinhasse a tua intenção persistiria na sua recusa? R.. que não à fria premeditação dos suicidas que buscam subtrair-se às provações da vida. 2. B. Sofro. Foi somente à vista desta que perdi a razão. Evocação: R. um amor que não sentia. E o teu amor por ela era sincero? R. Mas. porque ela não é má. sim. 4. Paixão somente. Não. Sou um réprobo. na Sociedade Espírita de Paris. sou infeliz. sofro. mas em extremo saturado de ideias materialistas. pois se o amor fosse puro eu me teria poupado de lhe causar um desgosto. estou ainda perturbado. penso mesmo que não... Por isso se vê ainda uma nova confirmação da justiça que preside à distribuição das penas. Poderia nos dizer se esta nossa evocação é penosa ou agradável para ti? R. como tais. Portanto.. Parece que não deplora o suicídio senão pelo fato de Victorine não merecê-la. Não sei. desejam conhecer da tua sorte. neste caso.. Neste momento.. e melhor foi para ela que as coisas se passassem de tal forma.. quando estiver livre desta perturbação. não seria feliz. parece-me estar ainda à porta. Disse que tem um desgosto. É à moça. UM ATEU M.178 – Allan Kardec 3. mas. . este já é bastante punido pelo sofrimento que lhe dura. Era preferível suportar tudo a morrer antes do tempo. Fui fraco e sofro as consequências da minha fraqueza. 1. mas a sua pena é leve. porque também não contava com a sua obstinação. conforme o grau de responsabilidade dos culpados. tinha já a ideia de se matar. creia. Sim. Fiz mal em abreviar a vida. Quanto ao moço.. D. Adeus. foi evocado dois anos depois de desencarnado. 8. era um homem instruído. deveria resignar-me. Fomos levados a te evocar em nome de parentes que. Fiz mal. Qual é? R. 5. A paixão cega o homem a ponto de praticar loucuras.. Chegaria a compreendê-la mais tarde? R. 7. caso se desse a recusa? R. não acreditando em Deus nem na existência da alma. Não deveria fazê-lo. por brincadeira. não falemos nem pensemos mais nisso. que cabe a maior responsabilidade. que me incomoda muito. em tal não pensava.. por haver entretido em Luís. pois apenas cedeu a um movimento irrefletido em momento de exaltação. A pedido de um parente. ainda assim. Batendo-lhe à porta. e é sempre ela que me faz sofrer. embora também experimente outra sensação que não posso definir. e infelizmente ele só o compreende bastante tarde. a ingrata. J. 6.

irregular. Com o Espiritismo. A tua morte foi voluntária? R. quebra o lápis e rasga o papel. 5. O suicídio deixa de ser objetivo. uma vez reconhecido que apenas se isenta a gente do mal para arrostar com um mal cem vezes pior. Muitas vezes. acima de si. Muitas vezes nos perguntamos como pode haver materialistas quando. deveriam ter do mesmo a intuição. a esperança fortalece-se porque o futuro se nos desdobra. Donde vinham as tuas ideias materialistas de antes? R.179 – O CÉU E O INFERNO 3. Para esses tais.. Meu Espírito está como num braseiro. R. Ao terminar a escrita encoleriza-se. porém. O Espírito escreve com extrema dificuldade. da prova da existência de Deus e da vida futura que têm. Esses serão responsáveis não só pelos próprios erros. a presunção de nada admitir. A letra é grossa. O tédio de uma vida sem esperança. que nós todos pediremos a Deus por ti. pois tudo era o nada para mim. com sofismas científicos e a pretexto de uma falsa razão. Tenha calma. é precisamente essa intuição que é recusada a alguns Espíritos que. incessantemente sob os olhos. nessa ideia desesperadora. Quis escapar das dificuldades da vida. Por que não existe o nada? 7. não se arrependeram das suas faltas. 4. fonte de tantos crimes e males. 8. que ideias tinha das consequências? Que reflexões fez nesse momento? R. por assim dizer. durante a vida corporal e à custa do próprio raciocínio. Em anterior encarnação eu fui mau e por isso condenei-me na seguinte aos tormentos da incerteza. Está bem convencido agora da existência de Deus. eles tendo passado pelo mundo espiritual. se rendem à evidência. Nenhuma. Assim. domado o orgulho. Grandemente culpados são os que se esforçam por acreditar. R. Ah! Tudo isso muito me atormenta! . a prova consiste na aquisição. da alma e da vida futura? R. Sim. conservando o orgulho. ora. 9. Aqui há toda uma cadeia de ideias. e assim foi que me suicidei. 10. os empolga e absorve. Tenha a bondade de nos descrever do melhor modo possível a tua atual situação. Concebe-se o suicídio quando a vida é sem esperança. ao contrário. tendo cumprido toda a sentença.. Depois é que vi que. convulsa e quase ininteligível. teria de sofrer mais ainda. Sou forçado a crer nesse Deus. procura-se então fugirlhe a qualquer preço. de que tudo acaba com a vida. 6. Quando se afogou. Eis por que o Espiritismo tem sequestrado muita gente a uma morte voluntária. horrivelmente atormentado. Que motivo poderia ter te levado ao suicídio? R. Sofro pelo constrangimento em que estou de crer em tudo quanto negava. como igualmente por todos os males a que os mesmos derem causa. Adiantou alguma coisa? Agora está mais feliz? R. sofrem eles a pena até que.

Que orem por mim. se veem reciprocamente? R. que nos inferiores são limitadas. este se apresenta mais calmo. a sua escrita é clara e legível) 18. Para estes.180 – Allan Kardec 11. um castigo ou uma recompensa. eis quanto lhes posso desejar. R. o que constitui. 16. Não sofrem aí na Terra no seu orgulho. na qual se expiam as faltas vindas da falta de fé. Possa o quadro dos nossos sofrimentos ser útil lição. que acabamos de evocar. e no entanto ela só poderia ser benéfica para ti. qual mãe. 14. Está mais calmo do que o irmão. conforme as circunstâncias. Você e teu irmão. Não. Tornou a ver teu irmão? R. no seu amor-próprio. muito refletiriam. Só os Espíritos superiores têm percepções indefinidas. quando obrigados a reconhecer os seus erros? O seu Espírito não se revolta com a ideia de se humilhar a quem lhes demonstre o seu erro? Pois bem! Julgam quanto deve sofrer o . Ainda que também infeliz. Se eles pudessem avaliar a minha triste posição. Oh! Os desgraçados! Assim possam eles crer em outra existência. que professava as mesmas teorias. conforme as suas disposições morais. ele me foge. lhes concede ou nega essa faculdade. Poderiam perguntar como é que os Espíritos podem se evitar no mundo espiritual. Parece que na roda das tuas relações há quem partilhe das tuas opiniões. que poderíamos atrair aí para junto de ti? R. Para que confundir os nossos desesperos? Exila-se a gente na desgraça e na ventura se reúne. 19. E por que não? R. que o não mereço. A Providência. Oh! Não. Porque ele também não é feliz. persuadindo-os da realidade de outra existência. Gostaria que nós disséssemos a eles algo a respeito? R. porém. os obstáculos fluídicos equivalem a obstáculos materiais. 15. mas que não se suicidou. Poderia nos dar uma descrição mais precisa dos teus sofrimentos? R. que atua sobre o envoltório perispiritual e fluidos ambientes. Os Espíritos furtam-se às vistas dos semelhantes por efeito volitivo. uma vez que aí não existem obstáculos materiais nem refúgios impenetráveis à vista. mais tarde. Não façam isso. (Evocação de um irmão do precedente. Não. Tem algum recado para os teus parentes? R. relativo nesse mundo e conforme a natureza fluídica dos seres que o habitam. Seria um incômodo a presença de o irmão. porém. Por que se opõe? R. por todos os seus filhos vela. 12. Evocação: R. 20. 17. 13. Tudo é.. Teme a sua presença. individualmente. eis o que é. e por intermédio dos mesmos..

Na subsequente encarnação é mais que provável que a incredulidade ceda lugar ao sentimento natural da fé. o contorno da frase. esses desejariam respostas ainda mais categóricas. como foi encontrado. e os nossos irmãos encarnados e desencarnados se tornarão melhores. isto é. o amor de Deus. onde foi inumado. apenas com maior conhecimento de Deus. tivemos dela a seguinte resposta: Não pode imaginar. 85 Cético ou céptico: aquele que duvida. . Mostrei essas duas comunicações a várias pessoas. não se encontra um pouco de tranquilidade senão no momento em que a graça divina. na mudança de ateu em crente. é independente do sofrimento a necessidade de reconhecer verdades que repudiara quando encarnado. Confessar o próprio erro já é alguma coisa. onde se afogou. Para este Espírito. 21. a igualdade é completa. Uma palavra. De uns como de outros. Reconhecemo-los perfeitamente. As suas ideias atuais revelam certo grau de adiantamento. reconhecemos-lhe o caráter. a semelhança é ainda mais frisante. uma das pessoas aqui presentes orou por ele: essa prece lhe foi proveitosa? R. A isso vem ainda juntar-se o remorso de haver por tanto tempo esquecido a existência de um Deus tão bom. D. Quanto ao vocabulário e ao estilo. em que lugar acharam o cadáver. Gostaria de falar dos irmãos encarnados ou dos Espíritos? R. Só a prece dos nossos irmãos pode ajudar-nos nesses transes. Enquanto nos entretínhamos com o teu irmão. foi sepultado? Caro senhor. outro tanto não fará quando estiver em condições de recorrer a esse divino remédio. D. que M. mas os incrédulos. 22.. meu caro senhor. não te seria possível fazer nova evocação perguntando onde e como se suicidou. pois o orgulho de tal modo se apossa de nós. nos daria a graça de insistir pela resposta categórica a essas perguntas. por exemplo. Ela não se perderá. nos toca. que de todo nos embota. tanto mais quanto. Deus será glorificado pela maior firmeza das nossas crenças no Espiritismo. sobre a sua identidade. não há calma nem repouso.. Encontrando-se de súbito em face da verdade imponente. imensos resultados. Aí se verificam a mesma forma de pernas. pois são essenciais para os que ainda duvidam. o grande benefício advindo da evocação de meu sogro e de meu tio. da alma e da eternidade que ele tão formalmente negava outrora. A fim de convencê-los. quanto tempo esteve submergido. da rubrica e de certas letras. se referisse ao lugar em que foi enterrado. com as mesmas opiniões dos meus parentes. nos despertou atenção – remédio – sua frase predileta. tão indulgente. Não nos restam dúvidas. Estou convencido de que darão. portanto. sobretudo. o estilo. a todo instante repetida. de que modo. Aqui encontramos outro gênero de castigo. A identidade de seu irmão também não é menos evidente. para nós. Queriam. desconfia. se civil ou religiosamente. desacredita – N. sobre todas. essa letra era sofreada e indecifrável. e que sobre todos prevalecia sempre a sua razão. esse Espírito sente-se aniquilado. mas que não é o mesmo em todos os céticos85. comparativamente às de outros Espíritos persistentes na negação de Deus. Transmitindo a resultante destas duas evocações à pessoa que nos havia solicitado. nesse caso. durante os últimos meses que conosco passou.181 – O CÉU E O INFERNO Espírito que durante toda a sua vida se persuadiu de que nada existia além dele. a ponto de ser preciso ainda muito tempo para que nos despojemos completamente dessa roupagem fatal. Se ele agora recusa a graça. etc. humilhado. porque é elemento de humildade. que não menos se admiraram da sua veracidade. é de uma analogia notável com a que ele tinha em vida. A situação é insuportável. A letra do primeiro.

Falsas especulações comprometeram-lhe a fortuna. e também como podem. Há pessoas a quem coisa alguma pode convencer. e não de antemão premeditadas. por conseguinte. os Espíritos nem sempre correspondem ao nosso apelo. cortês e tranquilo. visando satisfazer à curiosidade de pessoas que lhe são indiferentes. possuindo meios mais eficazes de se furtarem ao constrangimento moral que por acaso sobre eles queiramos exercer. e não só isso. As melhores provas de identidade são as que fornecem espontaneamente. e continuariam a supor vítimas de uma alucinação. incontestavelmente. se estas não puderam contentar os incrédulos. quanto ao pedido que me fez de promover essa evocação no mesmo dia do recebimento de tua carta. Pela concorrência dessas circunstâncias nem sempre se pode responder. com as aptidões especiais necessárias e que esse médium esteja disponível em dado momento. FÉLICIEN Era um homem rico. faltando-se assim às considerações inspiradas pelo seu próprio estado. Estas. Quanto ao objetivo por te alegado. a contar as minúcias da sua vida. Em primeiro lugar. etc. As perguntas que nos pediram para novamente endereçar ao Espírito de teu sogro. enforcando-se em dezembro . que encontrem um médium que lhes convenha. é preciso que queiram. não lhe sendo possível repará-la em razão da idade avançada. instruído. que mal pode pensar e falar. teu parente provou a sua identidade de modo incontestável. ou então as oriundas das próprias circunstâncias. isto é: “para que perguntar coisas que já sabeis?” A isto acrescentarei que a perturbação e sofrimentos que o encobrem devem agravar-se com as investigações desse gênero. É preciso. Reproduzimos esta carta pelo fato da confirmação da identidade e aqui lhe anexamos a nossa resposta para ensino das pessoas não familiarizadas com as comunicações de além-túmulo. Esses poderiam ver o teu parente. As provas de identidade fornecidas são bem mais valiosas. A liberdade da sua ação é maior ainda do que quando encarnados. É preciso. Saiba que eles nos respondem quando e como querem. de perfeita honradez. que o meio lhes seja simpático. são ditadas por intenção louvável. Duas palavras ainda. poeta de espírito. de modo a poder fazer-se a evocação na sessão da Sociedade desse mesmo dia. e. certifique-se de que tudo seria negativo. enfim. possuidor de caráter são. com os próprios olhos. que é a de convencer incrédulos. visto como em ti não mais existe qualquer sentimento de dúvida ou curiosidade. por si mesmos. ainda.182 – Allan Kardec Dou-me pressa a fim de esta lhe ser entregue na sexta-feira de manhã. é mais que provável a sua recusa em responder a perguntas que podem por ele ser com razão consideradas supérfluas. Contudo. A resposta bem poderia ser a que outros têm dado em casos semelhantes. etc. e importa muito conhecê-las quando se quer praticar com seriedade e segurança. de cuja conivência poderiam suspeitar. As evocações não se fazem assim de momento. um conhecimento mais aprofundado da ciência espírita lhes faria julgar supérfluas essas perguntas. por isso que foram espontâneas. que correspondem perfeitamente a querer constranger um doente. Segundo afirma. mostra ignorar a circunstância de não podermos governar os Espíritos ao nosso desejo. solicitando-me conseguir resposta categórica. é quase sempre inútil provocá-las. cedeu ao desânimo. Ora. muito menos o fariam interrogativas já preestabelecidas. mas que também possam fazê-lo.

A não ser isso. Que suplício o meu! Quanto sou desgraçado! Orando. Agrada-me observar esta curiosa mistura. ligando pouca importância ao problema da vida de além-túmulo. porém menores do que as experimentadas aqui... de Espíritos inferiores. lutar por tanto tempo para cair aos acontecimentos. e para torná-lo suportável seria preciso uma boa triagem. Eles chamam-me covarde. Tenha a bondade de nos dizer como morreu. não me esqueci do quanto era prestativo e bom para comigo. tudo mais refletiu seu caráter. orem principalmente para que me veja livre desses terríveis companheiros que aqui estão junto de mim.. torna-se suspeita em se tratando de um suicida. e não sem angústias. ao qual. O mundo dos Espíritos é bastante confuso. Entretanto. É a quarta vez que cedo a essa provação. Onde estarão esses grandes Espíritos que tão energicamente contestaram os vícios da Humanidade! Deviam eles. mas um homem de gênio um tanto superficial. o mais possível. Entretanto. eu não podia furtar-me de outro modo aos embaraços da minha posição material.. sorrisos e infernais provocações. porém. porém. Seria feliz se pudesse testemunhar a minha gratidão. R. Evocação. para encontrá-los mais graves e penosos na condição de Espírito.. P. Não era materialista nem ateu. Conhecendo-o intimamente. além da estima e intimidade das nossas relações. quanto lhe prevíamos as tristes consequências. P. (ao Espírito). Ah! Orem. aliás. evocamo-lo. não faria tal esboço senão de modo rústico. confesso que não ganhei grande coisa: libertei-me dos cuidados materiais. apesar da formal promessa de não falir. Agora. Custa-me a crer. P.. Que esboço de costumes espíritas se poderia fazer aqui! O próprio Balzac. Tal circunstância deixava-nos em dúvida sobre a identidade. por um sentimento justificável na sua posição. não faz qualquer referência.. fazem por mim mais que pude fazer por vocês quando na Terra. Foi por isso que disfarçou a frase. fazendo algo de útil para ti. R... habitar por aqui antes de se alçarem a regiões mais elevadas. inspirados pela simpatia que lhe dedicávamos. e assim fico por aqui. Sim. surpreendeu-nos a sua linguagem. estou abaixo da realidade do meu ideal. quase despreocupada. dado o gênero de morte. A tua desencarnação tanto mais nos comoveu. da qual nem sequer prevejo o termo.. como eu. Fatalidade!. Choro a Terra na qual tive decepções.. que sonhava maravilhas. é desesperador. Terei forças? Ah! Recomeçar a vida tantas vezes. O suicídio o faz sofrer muito. (ao guia do médium) – O Espírito em comunicação será efetivamente o de Félicien? Esta linguagem. em dado tempo. no seu quarto de dormir. mas a prova – ante a qual fracassei tantas vezes – aí está retraçada.183 – O CÉU E O INFERNO de 1864. por conseguinte. mesmo .. Eu. Como morri? Pela morte por mim escolhida. Apesar de o Espírito nos declarar que se acha numa sociedade bastante confusa e. tudo o que lhe recorde o seu horrível fim. só tenho necessidade de preces. e por isso desvia. a que mais me agradou.. diante de mim! É preciso tentá-la novamente. Não o avistei. acabando no entanto por confessá-lo diante da pergunta direta que lhe fez. Pessoalmente. porque é covardia renunciar à vida.. quatro meses após o suicídio. R. obsidiando-me com gritos. permanente. R. sendo para notar que meditei muito tempo nessa escolha com o intuito de me desembaraçar da vida. e com razão. Apesar disso. estando no seu elemento. ele não queria revelar ao médium o seu gênero de morte.

Ao Espírito do Sr.184 – Allan Kardec aqui! Eis por que tenho carência de força. Vou aproveitá-las. solicitando instantemente o apoio dos bons Espíritos. Deus não quis fazer dele um autômato obediente e cego. Como vê. agindo com mais prudência. apreciáveis qualidades.. caminhará na via da felicidade com mais rapidez. e. admira a bondade de Deus. Não havia nisso nenhuma fatalidade. desgraçadamente. blindado na resistência a todas as tentações. ouça e medite sobre as minhas palavras. em vez de condenar irremissivelmente pela primeira falta. a ruína não sobreviria. Delas tenho tanto maior necessidade. também o torna perfectível. mas por tanto tempo quanto reincidir no erro. Estas orações só serão improfícuas se não nos ajudar com os teus esforços. que se renova a cada existência e que renovará até que ele tenha forças para resistir. que. antes que procurando aumentá-lo sem necessidade. visto que sob outros aspectos o teu progresso é já considerável. quanto sou mais desgraçado do que demonstrava. ao contrário. garanto. Orem por mim. De ti depende. pois tinha tudo que se fazia preciso à felicidade humana. eu te peço. Assim. deve renovar-se ainda. que é a tua própria obra. Dizem que podemos obtê-la pela prece. uma vez que podia ter evitado tal acontecimento. para o qual te auxiliaremos com as nossas preces. sempre que deixamos de atingir o fim da encarnação. mas. apresenta uma feição especial. quando a verdade é que tais infelicidades promanam do seu próprio descuido. não a necessidade. no preparo da próxima encarnação. talento. não eternamente. na Terra: espírito.. se essa liberdade o torna falível. O orgulho somente pode levar o homem a atribuir ao destino as suas infelicidades terrenas. R. Assim se confirma o fato de não haver proveito no sofrimento. e nessa liberdade está o seu maior e mais belo privilégio. Já me custa suportar o meio ignóbil do meu exílio. no estado espiritual. oferece sempre os meios de repará-la. Tenha disso um exemplo bem evidente na tua última encarnação. Uma vez alcançada essa vitória. Voltará então à Terra. Oh! Obrigado! Oh! Obrigado por tão boas exortações. Félicien . e sempre assim acontecerá até que de todo tenha triunfado. mas a tentação do suicídio. há ainda um passo a conquistar. merecida consideração. sofrerás. apesar do teu talento e instrução. pois se a fatalidade existisse o homem deixaria de ser responsável pelos seus atos. na tua próxima encarnação terá de enfrentar acontecimentos que te sugerirão a ideia do suicídio. não soube dominar essas circunstâncias e sofre agora as consequências da tua fraqueza. Félicien – Ouça. durante a qual farei todo o possível por não cair. nada de vícios ruinosos.. Longe de acusar a sorte. ficou tão comprometida a tua posição? Unicamente pela tua imprevidência.. fortuna. O homem é sempre livre. Ele nos mostra um Espírito que sucumbiu muitas vezes à provação. contentando-te com o muito que já te coube. tomar a resolução bastante enérgica de manifestar a Deus um sincero arrependimento. Este caso particular de suicídio. posto que realizado em circunstâncias vulgares. no entanto. tal como pressente com razão. sendo preciso recomeçá-la até que saiamos vitoriosos da campanha. Haverá de admitir que. Essa prova. que eu quero orar também. sem o que somente pela perfeição poderá atingir a suprema felicidade. Como. A tua provação consistia num encadeamento de circunstâncias que te deveriam dar. O que denominais fatalidade é apenas a tua fraqueza.

Não. com o desejo de me aproveitar do crime já cometido. Diga-nos se chegou a executar o projeto de suicídio. havia perto de 20 anos. a 17 de abril de 1865. Deixem primeiro que lhes agradeça por esta esperança que fizeram raiar no meu coração. R.. Deploramos essa infelicidade que retardou teu progresso e sinceramente te lamentamos. escriturava os seus livros com muita regularidade. Deus se compadecerá de ti. deu-nos dele as informações que se seguem: Conhecia-o. infinitamente misericordioso. feita humildemente. Evocação. e preciso é que reencarne ainda. e assim fui eu desprezado. Que pretendem de mim? Sujeitar-me a um interrogatório? É inútil.. mas. aliás. porém. sem que jamais cometesse um só erro.. Amava. será favorável. Tenho horror ao meu crime e sou muito infeliz! 3. tomado então de alucinações terríveis. porém o meu ciúme a tudo superou. Oh! Meu Deus. Traíram- ..” A pedido desse amigo. hora esta em que se dirigia para a casa bancária. Louco de dor. resolvi acabar com a vida.. Repugnando-me os meios violentos.. Muitas vezes vinha suplicar-me para lhe dizer a época de tal compra. quer me iludir. serei extremamente grato a vocês. R. A família vivia em constante ansiedade das 4 da tarde às 9 da manhã. a qual se encontra em O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO). servindo-se dele para envenenar alguém. Eis como se explicam as lembranças do passado. Habitualmente dizia sentir dentro de si um ente que o fazia desempenhar com acerto e ordem a sua contabilidade. Ore conosco (Faz-se a prece pelos suicidas.. Um dos nossos correspondentes. tenha piedade das minhas lágrimas e da minha fraqueza! 4. sempre tem piedade do pecador arrependido. não sem deixar de assassinar o detestado rival. 1. A minha eleita contou-me que se casaria com o filho de um negociante cujas transações se estendiam para além de dois mares.. que se arrependa. tende a bondade de nos dizer de quais crimes reconhece ser culpado. Temos a esperança de que as nossas preces atenuarão as tuas penas. médico e farmacêutico residente na mesma cidade. É a verdade. Oh! Há já bastante tempo que vivia numa cidade banhada pelo Mediterrâneo. Deus.. batia nos peitos. e confesso – para vergonha minha – que a esperança se desabrochou novamente no meu coração. saciando o meu desejo de vingança. dado. Sim. Tal confissão... horrorizava-me a perpetração do crime. fui repelido pela família. tudo confessarei. Perdia o sono. Ah! Se for possível. onde. ele foi evocado em Paris. Na véspera do casamento.. eu já reencarnei. então. Lembro-me. pelo meio que me pareceu mais fácil. De tempos a certa parte imaginou ter comprado um tóxico na minha farmácia.. Quando se afigurava convencido da extravagância das suas ideias.185 – O CÉU E O INFERNO ANTOINE BELL Era o caixa de uma casa bancária do Canadá e suicidou-se a 28 de fevereiro de 1865.. desejamos saber apenas qual a tua posição nesse mundo. R. pelo fato de ser pobre. exclamava: “Não. R. bem como se poderemos ser-lhe úteis. lamentava-se. uma bela moça que me correspondia. Agora. Bem longe de nós o pensamento de te afligir com perguntas indiscretas. não. 2. Parece-nos que te acha em boas condições. morria o meu rival envenenado. visto como o arrependimento já te assedia o coração – o que constitui um começo de reabilitação. como homem pacato e chefe de numerosa família.

o Espírito tem razão dizendo que a ação instigada por outro é menos culposa e repreensível do que quando voluntariamente cometida. Orem comigo para que o Espírito que tão fatalmente me obsidiou renuncie à sua vingança. depois de submetido. Ao guia do médium – Um Espírito obsessor pode. que me protegia. O homem dispõe sempre do seu livre-arbítrio e. eu era o envenenador e ao mesmo tempo o pai de família angariando pelo trabalho o sustento dos filhos. por atos. dos obsessores. afastando-se do caminho reto. Mas um Espírito obsessor e vingativo. sendo preciso a prova. Alternadamente influenciado por ele e por meu guia. no último suplício. 5. bem como da culpa anterior. resultando-lhe um merecimento ainda maior quando delas sai triunfante. Quanto ao mais. Encontrando resistência. as lembranças do passado. incapazes por sua fraqueza de resistir aos obsessores. Mas isso não quer dizer isenção de culpabilidade. Nos últimos anos somente. pelo meu arrependimento e pelas minhas preces. do retorno ao bom caminho. de si mesma. aquele meu desvario: enforquei-me. os remorsos e acabei por expiar. dela me descartei depois de muitos anos. Tinha em mim como que vaga intuição da minha inata fraqueza. levar o obsidiado ao suicídio? R. pois a obsessão que. O Espírito só arrosta com a perseguição dos maus. e eis como: eu era bom por natureza. cuja lembrança em estado latente conservara. Os suicidas da minha categoria. certos da inutilidade dos seus esforços. eles o abandonam. enquanto estes o não encontram assaz forte para resistir-lhes. na próxima encarnação. 6. pode revestir todas as formas. Sou muito culpado realmente. Certamente. cedendo. conseguintemente. como em mágico espelho. mostra que o bem ainda não está vinculado ao seu coração. Como. que não era outro senão o pai da minha vítima. que me perseguia qual vivo remorso. deixei-me arrastar para o suicídio. a força necessária para não ceder à prova do suicídio voluntário. realmente. Assim é que. porém menos do que se decidisse por mim mesmo. é já um gênero de provação. dizem-me. nem por isso se inocenta de culpa. visto como. prova a que serei submetido.186 – Allan Kardec me. Na última encarnação tinha a consciência do mal praticado na penúltima? R. Deus não se contenta com promessas. apesar da prece e do arrependimento terem libertado esse Espírito da visão tormentosa da sua vítima. e orem por mim para que adquira a energia. ao tormento da visão perseverante da vítima. e. como todos os homicidas. Como sabem. Recomecei outra existência – a última – que atravessei calmo e tímido. são menos culpados e menos punidos do que os que abandonam a vida por efeito exclusivo da própria vontade. o faz sempre por concordância da sua vontade. está em si o ceder ou resistir às sugestões a que o submetem. mas não é o bastante para libertar o culpado de todas as penas. facilmente se apoderou de mim e fez reviver no meu coração. Eis por que o Espírito é submetido a novas provações que o fortalecem. o arrependimento é apenas a preliminar indispensável à reabilitação. porém. ele pôde ser atingido pela vingança de um obsessor na última encarnação? R. Contudo. Estes dois últimos exemplos mostram-nos a renovação da mesma prova em . Fascinado por esse demônio obsessor.

o meio empregado para fazê-lo progredir. sem jamais privá-lo do resgate das faltas.187 – O CÉU E O INFERNO sucessivas encarnações. que o culpado é punido pela própria falta. e por tanto tempo quanto o da sua ineficácia. Vemos ainda por aí que todas as existências são solidárias entre si. qual um remorso e um aviso. Antoine Bell prova-nos. o fato muito instrutivo do homem perseguido pela lembrança de um crime cometido em anterior existência. enfim. em vez de uma vingança de Deus. que a justiça e bondade divinas se ostentam na capacidade conferida ao homem de progredir gradualmente. . sendo essa punição.

Se o visse. mas a isso fui levado pelo meu caráter. porque estou louco. R. Por que se retira? R. Se orasse. de arrependimento. que não podia tolerar humilhações. eu sempre acreditei na infinita misericórdia de Deus. não sei onde estou.. R.... Renuncie a qualquer inquietação. Esperem que torne a mim. Sim.... 8. Ainda estou preso ao corpo. 4. Evocado no mesmo dia da execução. Não sei.. Ore. pelo receio de que me fizesse outro tanto. ou de sensibilidade.. muito me atemorizaria. que grande é a misericórdia de Deus! Oraremos contigo. O criminoso foi condenado à morte e executado a 30 de janeiro. 2. 5. talvez pudesse concentrar os pensamentos. Mas nada tem a temer. Não posso. 7.. ... Evocação. 6. R. Esforce-se para ficar calmo. R. Então a tua alma não está inteiramente liberta? R. que não é razoável agora. não é assim? 3.188 – Allan Kardec CAPÍTULO VI CRIMINOSOS ARREPENDIDOS VERGER (Assassino do arcebispo de Paris) A 3 de janeiro de 1857. uma vez que a tua alma está separada do corpo. Fiz mal em matar. Intimido-me.. Não. arcebispo de Paris. Não estou morto. Esperem. R.. Arrependeu-se do que fez? R. Que querem? Acaso vocês são senhores das suas impressões? Quanto a mim. Tenho medo. Não me atrevo a orar. Sibour.. deu as seguintes respostas: 1. que vou invocar toda minha lucidez.. Até o último instante não manifestou qualquer sentimento de pesar. Evoquem-me de outra vez. foi mortalmente ferido por um jovem padre chamado Verger. ao sair da Igreja de Saint-Étienne-du-Mont. Mons. estou doido.

189 – O CÉU E O INFERNO 9. E falam-me. olhando-me compadecidos. lamento o que fiz e isso me faz sofrer. sem ouvir o grito da própria consciência que me dizia não ser pelo assassínio que alcançaria o meu objetivo... que vivo no Espaço... Vê a tua vítima? R. Sei a mais que há uma série de encarnações que nos dão conhecimentos úteis. 15. por isso que não sou mau. Qual a tua punição? R. Sim. 16. Prazer de conversar com os homens e poder em parte reparar as minhas faltas. parecendo-me. Não. pois o homem deve esforçar-se sempre por dominar as más paixões – o que aliás não fiz. pois que vejo meu corpo de um lado e a cabeça de outro. asseguro a vocês. Entretanto. porém. entre a Terra e o que denominais céu. 10. entre esses Espíritos há talvez um cuja presença o humilhe por causa do teu crime. Deixei-me dominar pela inveja e pelo orgulho. disse que perdoava ao assassino e orava para que ele se arrependesse. mas não os compreendo. provandolhe o temor. Compreende melhor agora a tua situação? R. Disse mais que. Pesa-me o que fiz. Em que consiste tal prazer e tal temor? R. 17. 14. Deseja reencarnar na Terra? R. sou punido porque reconheço a minha descrença nesse Deus. sabendo agora que não devemos abreviar os dias de vida de nossos irmãos.. Parece-me ouvir uma voz semelhante à sua. talvez. Está sendo punido pelo crime que cometeu? R. Lembre-se das existências anteriores? R.” Será. enveredando por caminho errado. porém meu Espírito está mais livre.. Até o peço e desejo achar-me constantemente exposto ao assassínio. confessando-as. a fim de nos tornarmos tão perfeitos quanto possível à criatura humana. Também me parece ver uma multidão de Espíritos a me rodear. não se lhe . Já sei que não mais pertenço a esse mundo. Sou punido porque tenho consciência da minha falta... e para ela peço perdão a Deus. posto estivesse presente à sua evocação. enganei-me e arrependo-me. sou punido pelo remorso de haver adiado o meu progresso. e temor.. 11. um efeito da imaginação!... R. Qual a tua sensação quando te evocamos? R. Direi que há apenas um que me apavora – o daquele a quem matei. De prazer e de temor. acreditando sonhar. e não o lastimo. Ela é tão extraordinária que ainda não posso apreendê-la. 18.. mas isso será talvez o terror da morte. preciso tornar a mim mesmo. 13 (Três dias depois) – Sente-se melhor agora? R. 12. Ainda uma vez. Sinto como o frio de uma faca prestes a decepar-me o pescoço. Estou doido.. evocado. que não posso definir – um quê de vergonha por ter sido um assassino. estou indeciso. Monsenhor Sibour.. dizendo-me: “Não mais te quero.

ao morrer. o Deus misericordioso para o penitente. Evocação. pois. e que ora se lhe faz ouvir. ao escolher nova existência. que apenas aguarda uma circunstância favorável para se revelar. Sim. visto estar o homem sujeito à influência da matéria. À enormidade do delito. é a de quase todos os que tombam violentamente. Contudo. em vida. A manifestação imediata de melhores sentimentos é sempre indício de um progresso moral realizado. deseja sinceramente repará-lo. deixaria de o ser. o arrependimento invadiu-lhe a alma e. ao passo que a persistência mais ou menos longa no mal. Reteve os sentidos até o último momento? R. estando. em vida. tem probabilidades de matar um semelhante. P. 1. súbita luz o aclara. se o trespasse lhe não fosse também bastante. por questão de horas. 3. escolhendo uma vida de luta. . para reconhecer toda a iniquidade da sua conduta. e depois não? E por que. R. O homem que mata sabe que. vem às vezes do orgulho de quem recusa submeterse e confessar os próprios erros. esse resultado está longe de ser geral – o que daria em consequência o não haver Espíritos maus. O arrependimento é muita vez tardio. que. Retirado esse véu. e daí a dilação do castigo. Por que não considerar valioso esse arrependimento? Por que admiti-lo dias antes como salvante do inferno. mas outros Espíritos. nas condições requeridas para a eterna condenação. e ele se encontra senhor da sua razão. repudiando o passado. A teimosia no mal. porque o receio de o ver já era um sintoma de remorso. no qual os instintos materiais atrofiam o gérmen do bem. Vendo-nos. visto como nem mesmo teve tempo para sofrer. era já um castigo. de modo a lhe serem precisas novas provações para se corrigir. o fascina e desvaira. pois está quase sempre em luta consigo mesmo. Aqui estou. logo que deixou a Terra. finalmente. A da vergonha. ele sabe que. sem saber se estão mortos ou vivos. lançando-lhe um véu sobre as percepções espirituais. eles ficam como aturdidos. e executado a 31 de dezembro de 1857. é incontestavelmente a prova de atraso do Espírito. são constantemente acossados pelo olhar das suas vítimas.190 – Allan Kardec tinha mostrado para lhe não aumentar os sofrimentos. ignorando porém se o fará. Não se verificando bruscamente a separação. que sensação experimenta? R. em circunstâncias idênticas. LEMAIRE Condenado à pena última pelo júri de Aisne. nela se tornará assassino? R. A situação de Verger. A visão do arcebispo foi-lhe poupada por desnecessária ao seu remorso. Mas. A isso não o impele a demasia do sofrimento. endurecido e impenitente até à morte. 2. depois da morte. Verger acrescentara a agravante de se não ter arrependido ainda em vida. mas o alarme dessa consciência desprezada durante a vida. mais tarde? Foi para causar admiração a rápida mudança algumas vezes operada nas ideias de um criminoso. Evocado em 29 de janeiro de 1858. às vezes. Não.

Vocês não podem avaliar o suplício horrível de tudo devermos àqueles a quem odiamos. por exemplo? R. Sinto que me varam o ser e sem êxito tento fugir deles. à qual me parecia integrado. Terão por sua vez o ódio e o desejo de vingança? — R. que eu era eu mesmo. ainda me não libertei. Qual o primeiro sentimento que experimentou ao penetrar na tua nova existência? R. aliás. Dizem que se há notado a expressão da cólera e movimentos na fisionomia de certos supliciados. vi o sangue que corria e mais pungente se tornou a minha dor. 11. Mas a dor física do suplício. Infelizmente. estava completamente ligado a ela. Eu estava imerso em grande perturbação. sentindo o corpo a dor física. por desgraça nossa.. reconhecia-me intacto. Após a execução teve imediata noção dessa nova existência? R. Da vontade. Tem encontrado as tuas vítimas? — R. 12. 6. Não. uma grande dor moral. Senti uma dor imensa. menos pronta é a separação. 10. sim. da qual. quanto mais o retêm os laços materiais. igual à que viria de um grande ferimento. pois essa visão recíproca é um suplício contínuo... como se estes quisessem falar. P. é sentimento que lhes apreendo a meu respeito. uma espécie de remorso pungente cuja causa ignorava. E qual a impressão que você causa a eles? — R. P. O Espírito retira-se pouco a pouco. tendo o supliciado a consciência das suas ideias? R. exprobrando-se uns aos outros os seus crimes. seus olhares perseguem-me. imaginem antes um remorso. Ocasionei-os voluntariamente e ainda os abomino. isto é. . será isso efeito de contrações nervosas. Acaso se acha reunido aos teus cúmplices supliciados no mesmo instante? R. Não. Viu teu corpo mutilado? R. Vi rolar não sei quê aos pés da forca. P. A dor moral estava em meu Espírito. Era uma dor puramente física. P. Que impressão esses olhares te causam? R.. Será verdade que o corpo viva ainda alguns instantes depois da decapitação. Eu sentia muito a minha dor.. Que impressões te vieram desse fato? R. 8. Vi qualquer coisa informe. Piedade. mas o Espírito desligado também dela se ressentia. São felizes. visto como o Espírito não se acha desligado. entretanto. 5. Um sofrimento intolerável. 7. os olhares que voltam lembram-me a minha expiação. pela amputação de um membro.191 – O CÉU E O INFERNO 4. quem a experimentava: o corpo ou o Espírito? R. Vergonha e remorso.. Vejo-as. ou um ato da vontade? R. parecendo-me ser o coração quem a sofria. 9.

mas pedi mais do que comportavam as minhas forças. 19. Estou no meu sofrimento. Não.. O pendor para o mal estava na tua natureza ou foi ainda influenciado pelo meio em que viveu? R. Sim. Sim. Acaso não poderia ter feito de si um homem de bem? R. sob que forma o veríamos. corrigir na vida o mal inerente à minha natureza. era natural que o temesse. 16. Mas dizem que à última hora se arrependeu. Não sei.. 20. a tendência para o mal estava na minha própria natureza. Como pretende repará-los? R.. R. Quis elevar-me rapidamente. mesmo que me pareça que uma eternidade existe entre elas e mim. 15. 14. P. Perguntamos qual o lugar em que se encontra. Lamenta a perda da vida corporal? R. Um homem fraco é incapaz. Veríam-se sob a minha forma corpórea: a cabeça separada do tronco. Porque acreditei num Deus vingativo.. P. Uma vez que assim é. Sendo eu um Espírito inferior. P. Poderia. escolhi uma rude prova e acabei por ceder às tentações do mal. P. Se tivesse recebido sãos princípios de educação. Apenas lamento os meus crimes. P. 17. Parece-te justo o castigo que se infligiram na Terra? R. 18. não mais cairia. talvez. teria se desviado da senda criminosa? R. Que pensa de Deus então? R. P. Perto da médium. Pudera! Eu vejo o que fiz. Se o fato ainda dependesse de mim. Acreditando-me forte. Quando encarnado acreditava em Deus? R. Onde se acha agora? R.. tanto para o bem como para o mal. E agora o teu arrependimento é mais sincero? R..192 – Allan Kardec 13. R. Sinto-o e não o compreendo. . Por novas provações. mas eu havia escolhido a condição do nascimento.. se tal nos fosse possível? — R.. mas nunca me elevar à prática do bem. Espera obter o perdão dos teus crimes? R.

e no entanto elas têm para mim o valor das que eu simulava fazer. março de 1862) Um Espírito apresenta-se espontaneamente ao médium.. Deixem-me! 22. R. Inteligente. grande. Frade sem fé. pois bem. recebo o salário. os pacíficos foram por mim inquietados. (O Espírito não pôde escrever a palavra Deus). Façam votos para que venha a expiação. Orai pelo meu Espírito. 5. e. Nada mais sei. A luxúria e a fome insaciáveis perseguem-me.. Pobre e impassível. cruel. sem que uma gota lhes caia em refrigério. Foi a descrença a tua única falta? R. vicioso. assim. E como fui surdo ao clamor de vítimas inocentes. Justiça! 6.. sem pendor aliás para tal encargo. cresta-me a sede os lábios escaldantes.. BENOIST (Bordéus. Só ela é bastante para acarretar outras. 2.193 – O CÉU E O INFERNO P. o Senhor também é surdo aos meus clamores. R. 7. sofro todas as torturas do inferno. consegui essa posição. Agora.. 1. persegui os que me pareciam querer verberar os meus excessos... Podereis aparecer-nos? R. confie na bondade divina e socorra-se do Seu auxílio. ordenei-me para ter uma posição. sob o nome de Benoist. Poderíamos concorrer para vos aliviar desse sofrimento? R. Acredita que sejam edificantes. As torturas da fome de muitas vítimas eram extintas amiúde pela violência. Não executei o meu trabalho. As preces feitas pelos finados deverão ser-vos atribuídas como aos outros? R. mas ele só veio pelo sofrimento. 21. deixem-me. enchem-me a boca de piche fervente!. Nunca se arrependeu? R. Que foi na Terra? R. Não. é tão grande o meu sofrimento. Poderia nos dizer como se fugiu da prisão de Montdidier? R. Eu o fiz.. 3. ateando-me as vítimas o fogo que me devora. 4. Reconhece a Justiça do Senhor. influente. Os demônios berram mais do que eu. corrompi aqueles que tinha por missão salvar. Não está suficientemente liberto das ideias terrenas de modo a compreender que essas torturas são todas morais? . dizendo ter morrido em 1704 e padecer horríveis sofrimentos. seus gritos sufocam-me. Poderia nos dar alguns pormenores sobre a tua vida? Será levada em boa conta a sinceridade da tua confissão. que apenas guardo a lembrança do crime. Há muito tempo. abusei do meu poderio.

. Nunca implorou a assistência dos bons Espíritos para lhe ajudarem a sair dessa contingência? R. Então. Então. Mas. Também por isso. Se Ele assim quisesse! 13. . 8. porém de ti. P. Que sensações experimenta ao se acercar de mim? R.. E. 16. E sabe que os Espíritos podiam assim se aproximar dos homens? R. como percebeu? R. eis tudo. e tudo pode ter um fim quando lhe agradar. 14. 15. R. que todos têm uma cara conhecida. Sim. Vejo os meus carrascos. Como procedeu para comunicar comigo? R. Os vícios de que me achava repleto.. Mas Deus é infinito na sua misericórdia. um nome que repercute em meu cérebro. Não. e você pensa por mim.. as divindades do inferno não mais me abandonaram. 10. mas eu queria falar e gritar para que me aliviassem. 12. 20. O infinito não tem fim. mas você também não sentiu? 19. pois que dediquei a vida a isso. eu desejaria não terminar. Então não vê um encerramento para esses sofrimentos? R.. Não.194 – Allan Kardec R. nem abandonarão! 11. É a primeira vez que escreve deste modo? R. Não posso compreender. mas conservam-se à minha frente. E esses demônios não te inibem de escrever? R. Não se trata de mim. Sofro-as. a brutalidade das paixões. não teve o desejo de me fazer escrever? R. 17... 9. 18. Não sei mesmo como. Apenas vejo os demônios do inferno. Como percebeu tua presença aqui? R. absolutamente. que poderia impeli-lo à investida de tantas infâmias? R. Procura te assegurar do que faz enquanto eu escrevo. Como quando se acorda.. Por que veio inscrever aqui? R. visto que só acreditava no nada. Não. sou eu quem escreve. É o meu pensamento. Um como entorpecimento dos meus terrores. E quando estava na Terra temia esses demônios? R. Não. R. Não sei. e esperam-me. P. Os prazeres a todo o transe constituíam o meu culto. Sinto-as.

D. Como? Não sei. confortado pela esperança. R. Tem fé. a dita foi casa exorcizada86 em 1848. ao entrar em um dos compartimentos. mal-assombrada. Procure te assegurar do teu estado. No lugar corria uma versão segundo a qual um grande crime foi cometido ali. pretendendo habitá-la. Ao seu arrependimento sucederá o desejo da reparação.. Não. que não no castigo infligido pelos homens. aliás. Eu to peço.. Pensa nele muitas vezes. 86 Exorcismo: cerimônia religiosa católica própria para expulsar supostos demônios – N. e. o fará ver as divinas luzes que o hão de conduzir à salvação. A tua mão obedece-me.. desejo o perdão. Implore a assistência dos teus protetores. D. se suavizarão com o auxílio e o exemplo da prece. O ESPÍRITO DE CASTELNAUDARY Rumores estranhos e várias manifestações ocorridas numa casinha perto de Castelnaudary. Não te toco. Sim. R. não teve a menor dúvida de uma origem oculta. Fica! Fica!. mais terríveis lhe são os sofrimentos. pois nós o entregamos a ti para fortalecer-se nas boas resoluções que lhe poderão vir dos teus conselhos.195 – O CÉU E O INFERNO 21. em 1859. e te seguro. porque vão reapossar-se de mim. Não posso demorar-me por mais tempo. aliás sem resultado. 22. faleceu repentinamente alguns anos depois.. recebendo-o no seu seio qual pai ao filho pródigo. não obstante.. e nós te ajudaremos a completar o teu trabalho. porque o crime se contém nos atos. (O guia do médium) – Coragem. R. de modo a que lhes veja o término. faziam-na tomar por habitada de fantasmas. Assim. um filho seu.. instrução e luzes para guiarse. e maior é a sua culpa porque possuía inteligência. O Espírito que deu a bofetada foi evocado na Sociedade de Paris. Quando Deus estiver satisfeito a seu respeito e o vir resoluto e firme. posto que não atingido pela justiça humana.. Tendo falido com conhecimento de causa.. Quer me deixar? Fica comigo. As atrocidades por ele cometidas não têm número nem conta. os quais. porque os bons Espíritos que o cercam te ajudarão. Deus o vê no caminho do arrependimento. e pedirá então uma nova existência para praticar o bem como compensação do mal que fez. R... Você não está só? P. e já lhe concedeu a graça de poder comunicar-se a fim de ser encorajado e confortado. Orem por mim. que os anjos não vêm ao inferno. Volte diariamente para orarmos juntos e os bons Espíritos te auxiliarão.. Veja ao redor. O mesmo se dá com o que se segue. animado do mesmo desejo.. Paulin Colocamos este Espírito entre os criminosos.. etc. O proprietário. posto longe esteja ainda o fim da expiação.. razão esta que o levou a abandonar a casa definitivamente. como estivesse só. Sr. Vamos pedir juntos. 23. que não posso fazê-lo.. meu filho. e se manifestou por sinais de tal violência. que todos os esforços para acalmá-lo foram infrutíferos. . porque lhe será concedido o que pede. recebeu de mão desconhecida vigorosa bofetada. Sinto que me auxiliam a atuar sobre ti.

Luiz respondeu: “É um Espírito da pior espécie. mas reparem que eu disse para orar e não para mandar orar. este também? Entretanto. em 1608. jamais cessou de praticar o mal. Sim. se o evocarem daqui a um mês. fazendo-o também nós. quando sacudiu violentamente o braço do médium. preferindo-se intimidá-los com exorcismos formulados que. sem poder fixar o pensamento noutra coisa que não no crime. muito os divertem. 1. o tempo parecer-lhe-á tanto ou menos longo do que quando na Terra? R. Novamente evocado mais tarde. Está como no momento do próprio crime. e. verão a transformação. tendo um punhal na mão. Explicações posteriores. verdadeiro monstro: nós o fizemos comparecer. é possível que haja dificuldades nisso. tendo-o sempre ante os olhos e acreditando na eternidade de tal tortura. e no Espaço só lhe restam solidão e trevas. Contudo. . Estando em tal situação há dois séculos. do qual o infeliz tem feito triste uso”. De medonha aparência. 3. porque qualquer outra recordação lhe foi retirada e interdita toda comunicação com qualquer outro Espírito. Ele tem o seu livre-arbítrio. ministradas não só por ele como por outros Espíritos deram em resultado saber-se que. Haveria um meio de desalojá-lo dessa casa? Qual seria esse meio? R. S. o Espírito mostrou-se mais brando e. 5. aliás. Um médium vidente que assistiu à primeira evocação o viu. (para S. Ocorrerá efetivamente esse fato para com todos os Espíritos? R. P. Não. para os inferiores. o meio é fácil: orar por eles. conseguiríamos desalojá-lo? R. Depois da morte. o tempo é frequentemente moroso. Este Espírito é passível de melhora? R. isto é. habitando aquela casa. É malvado porque está condenado a habitar a casa em que cometeu o crime. Por que não? Pois como todos são. havia assassinado um irmão por motivos de terrível ciúme. trajava uma camisa ensanguentada. Luís) – Tenha a bondade de nos descrever o gênero de suplício deste Espírito. Insinuando às pessoas interessadas essa ideia de orar por ele. R. pois isso só se dá com os Espíritos que têm atingido elevadíssimo grau de adiantamento. pouco a pouco. porém. só pode permanecer naquela casa. submisso e arrependido. sem que houvesse respondido por estes crimes. degolando-o durante o sono. 2. no momento em que pretendiam forçá-lo a escrever. mas a despeito de tudo quanto lhe dissemos não foi possível obrigá-lo a escrever. P. provocando vários acidentes ocorridos na tal casa. Orem em primeiro lugar. 4. Quando se quer desembaraçar obsessões de semelhantes Espíritos. decerto. Alguns anos decorridos. também assassinou a esposa. na idade de 80 anos. ele apreciará todo esse tempo como se fosse encarnado. Disseram-nos que o tempo não existe para os Espíritos e que um século.196 – Allan Kardec Interrogado a esse respeito. que pouca atenção despertaram naquela época de confusões. é precisamente isso que se deixa de fazer muitas vezes. não passa de um instante na eternidade. O seu falecimento ocorreu em 1659. porém a substituição do bem pelo mal acabará por sensibilizá-lo. Mais longo: o sono não existe para ele. Sobre a Terra. para eles. sobretudo quando sofrem.

Severamente punido agora por esse crime. de mais desenvolvida inteligência. O mesmo sucede com certos doentes nos quais a ação medicamentosa só se torna sensível depois de muito tempo.. porque cedo ou tarde a prece poderá triunfar do seu endurecimento. Não. Ignorância e embrutecimento. pelas paixões que os atormentam sem que possam saciá-las. esclarecidos. zombando de tudo que há de mais sagrado. Convencendo-nos bem de que todos os Espíritos são suscetíveis de progresso. aquela casa é o seu inferno. demonstram completa ausência de bons sentimentos. Muitos diálogos com este Espírito deram em resultado notável transformação do seu moral. Os sofrimentos estão longe de serem os mesmos para todos. Por mais ineficaz que ela possa nos parecer à primeira vista. O estado em que se vê esse Espírito é o dos seres vulgarmente designados por danados? R. Sim. Absolutamente não. entretanto. para aqueles que são arrebatados de orgulho. sugerindo-lhe benéficos pensamentos. visto como. pois há condições ainda mais horrorosas. qual será a sua categoria? R. . Enfim. quando vivendo entre selvagens? R. 7. Depende dele e do arrependimento que então tiver. outros trazem esse inferno em si mesmos. que se revoltam contra Deus e persistem no erro. porém não tanto. nos será fácil compreender a eficácia da prece em quaisquer circunstâncias. A prece só tem proveito ao Espírito que se arrepende. Porque não queria. em ser mais ignorante.197 – O CÉU E O INFERNO 6. Vendo-se um Espírito insensível à ação da prece. ela só alivia os não totalmente endurecidos. e. exagerando-o mesmo. Eis aqui algumas das suas respostas: 12. este Espírito é sensível aos efeitos da prece. Mas por quê? R. P. o certo é que contém em si mesma sementes bastante benéficas para bem predisporem o Espírito. e que nenhum é fatal e eternamente condenado. como é de supor. 9. Ao reencarnar-se este Espírito. Espíritos há que. Para este. 8. seria erro desanimarmos por não colher imediato resultado dela. Apesar da sua inferioridade. o que também temos verificado com Espíritos igualmente perversos e da mais grosseira natureza. R. quando o não afetem imediatamente. Tivera uma existência entre tribos das mais ferozes e selvagens. A ineficácia da prece também é para eles um castigo. a nada se comovendo e até não dando tréguas ao seu cinismo. será motivo para que se deixe de orar por ele? R. e vice-versa. Logo. seria igualmente pelos que porventura tivesse cometido. tal como procedem os infelizes. precedentemente. para esses a prece nada adianta. em planeta inferior à Terra. variando conforme seja o culpado mais ou menos acessível ao arrependimento. menos alcançava a extensão do delito. (Ao Espírito) – Por que não pôde escrever da primeira vez que te evocamos? R. nem adiantará senão quando leve vislumbre de arrependimento começar a nascer na sua consciência. 10. De onde vinha esse Espírito antes da sua encarnação? R.. 11.

P. R. para início da libertação. e não a simples e fútil curiosidade. no mais . sem que disso me apercebesse.. Nenhum. em presença de subordinados.. as circunstâncias determinantes da evocação ao meu Espírito. homens que dominavam na Terra. Obrigado. temos visto avarentos sofrerem à vista do ouro. Começo a ter esperança. assim. e por isso sofri tão longamente. Somente quando o senti.. Mas. ainda bem que tenho esperança. 19. graças à intercessão de vocês. P. que para eles não passava de verdadeira ilusão. Já disse que nada mais compreendia além do meu crime. D. Tenho permissão.. a não ser para vagar no Espaço. orgulhosos. a enormidade dos meus crimes. isso está acima das minhas forças. 17. P.. Veriam a mim com a camisa. foi que ele provocou. 15. a vocês que de mim se apiedaram e me esclareceram. Não me façam essa pergunta! Eu não me dominaria. compreendendo melhor. não sei mesmo o que era. mas sem o punhal. se menos sofro por um lado. humilhados pela potência invisível. era tudo escuridão e vácuo. pois sou um miserável. antes. que esses padecimentos não serão eternos. que não mais se lhe curvavam. em face da imensidade. Se possível nos fosse te ver. por outro aumentam as torturas do remorso.. Agora pode deixar a casa de Castelnaudary. 18. qual a tua aparência? R. que existência preferiria? R. 16. sendo-me permitido vagar sobre a Terra e orientar-me pela observação de quanto aí vejo. E se ele pretendesse ainda te desafiar? R. Já é muito saber. Se o filho do Sr. que lhe faria? R. Durante o teu longo isolamento – quase podemos dizer cativeiro – experimentou algum remorso? R. Tenha a bondade de nos descrever a tua situação antes de te evocarmos pela primeira vez. quando te agrada? R. atormentados pelo ciúme das honrarias prestadas a outros que não eles. disso não poderia lhes dar uma ideia. porque nunca pude compreender o que se passava. Desde que me alçava ao Espaço. (o da bofetada) voltasse àquela casa.. ateus atônitos pela dúvida.198 – Allan Kardec 13. pois. porque aproveito os seus conselhos.. e. Hoje o meu remorso é muito maior. Por que não mais com o punhal? Que fim lhe deu? R. Sentiu algum alívio? R. Vê um limite aos teus padecimentos? R. Amaldiçoando-o. Não é preciso acrescentarmos que este pedido tem por fim sabermos como te seriamos úteis. Deus o tirou da minha vista. constrangidos à obediência. 14. Sobre isso não tenho meditado suficientemente. ou. Nada. e no entanto não sou forçado a permanecer naquela casa fatal. Tendo que reencarnar. Efetivamente. Oh! Ainda não. solitário e obscuro. e que não podia abandonar a casa em que o cometi. porque estou arrependido.

e. sobre os Espíritos suscetíveis de arrependimento. É este um fato que temos visto reproduzir-se frequentemente. eis que os Espíritos que velavam julgaram oportuno esse socorro eficaz e entraram a facilitar-lhe as circunstâncias propícias. ainda que cometidas em circunstâncias idênticas. bem como daqueles em que se não pensa. a verdadeira bondade? Esta evocação nada tem de casual. porém. visto que ele já começava a compreender a enormidade do seu crime. sendo a evocação um dentre esses meios.. a falta momentânea pode acarretar uma condenação eterna e. De que lado. causando pouca ou nenhuma impressão para estes. até então desviadas do seu fim providencial pela ignorância e pela superstição. Neste divino código penal. No mundo dos Espíritos há compensações para todas as virtudes. as que escaparam às leis dos homens são infalivelmente atingidas pelas leis de Deus. destas. os culpados de momento e os reincidentes contumazes. se as evocações lhes proporcionam uma nova via de salvação. JACQUES LATOUR (Assassino condenado pelo júri de Foix e executado em setembro de 1864) . ao contrário. a bondade. Deus demonstra-nos a feição verdadeira. Assim é que a vergonha. mas há também penalidades para todas as faltas. conforme o grau de adiantamento do Espírito delinquente. torna-se para aqueles intolerável. Aos primeiros impõe-se o castigo apropriado à rudeza do seu discernimento. não único. qualquer benefício que porventura hajam feito de nada lhes valerá. Poderíamos contestar que os meios de que Deus dispõe para salvar as criaturas são inumeráveis. sendo tudo proporcionado e combinado com admirável solicitude para facilitar ao culpado os meios de reabilitação. por lhes proporcionar novos meios de fazer o benefício. aos encarnados. são diversamente punidas. As mínimas aspirações são consideradas e recolhidas. ao passo que o contrário se dá para com aqueles cuja inteligência e sensibilidade estejam mais desenvolvidas. as preces coletivas devem exercer alguma influência. Deus revela por esse modo a solidariedade existente entre todos os seres do Universo. a verdadeira justiça. são no inferno confundidos os grandes e pequenos criminosos. a providência de Deus para com as suas criaturas revelam-se até nas mínimas particularidades. Aos Espíritos mais atrasados – de natureza mais grosseira – como este de que vimos de nos ocupar. Devemos ainda notar que as mesmas faltas. pois. o que mais é. são infligidos castigos de alguma sorte mais materiais que morais. Além disso. aproveitam ainda mais. nenhuma tábua de salvação se lhes oferece. e como deveria aproveitar a esse infeliz. sem um ser que os esclareça. útil e séria das evocações. para compreenderem o erro e dele se libertarem. os endurecidos e os arrependidos. Deus não deixa ninguém esquecido. certamente. por exemplo. instruindo-se ao mesmo tempo sobre as condições da vida futura.. Desde que os homens puderam estabelecer relações regulares com o mundo invisível. ao mesmo tempo em que dá a lei da natureza por base ao princípio da fraternidade. uma das primeiras consequências do Espiritismo foi o ensino dos serviços que por meio dessas relações podem prestar aos seus irmãos desencarnados. a sabedoria. Aos sofredores jamais faltaram socorros em qualquer época e.199 – O CÉU E O INFERNO absoluto insulamento. o que será de todos os sofredores que o não podem ser. Pelos dogmas das penas eternas. além de que. talvez. Perguntaríamos que seria deste Espírito se não fosse evocado. A sorte dos Espíritos sofredores não poderia ser por Deus subordinada à boa vontade e aos conhecimentos humanos.

e eu a feri-las sempre.. que implora piedade. e não poderão compreendê-lo.. ali estão ao redor. como também para edificação dos circunstantes. Alguns estavam mesmo aterrorizados com a superexcitação do médium. ao passo que outros me evocavam mais por curiosidade que por caridade ou de mim se afastavam horrorizados ”. cercado de cadáveres. a perseguir-me com seus olhares. Acreditava-me morto.. Não sentem o mesmo? Oh! Sangue e sempre sangue! Eis as pobres vítimas que imploram.. Aí estão. Sem poder fugir delas! E este mar de sangue?! E este ouro manchado de sangue?! Tudo aí está. sem que aliás houvéssemos feito qualquer evocação especial. estava ele a traçar caracteres muito grossos.. as súplicas tão veementes. sem tréguas nem repouso. que terrível despertar.. Sempre. E as minhas vítimas..... e estou vivo! Horrendo! Horrendo! Mais horrendo que todos os suplícios da Terra! Ah! Se todos os homens pudessem saber o que há para além da vida. esses gestos de cruel desespero desenhavam vivamente o seu sofrimento.. Possuído de extraordinária agitação. renegando a Divindade!. Acreditava que depois da morte tudo estaria terminado. às vezes. fazendolhe em seguida esta pergunta: – Que motivo te levou a se manifestar aqui.. rasgando o papel. quando não te evocamos? Responde o médium de viva voz: – “Vi que. é que melhor desejava exibir a sua situação. de espectros ameaçadores. impiedosamente!.. mas nós sabíamos que a manifestação de um ente arrependido. dirigimos ao Espírito palavras de conforto e comiseração. nenhum perigo poderia oferecer. que ficávamos profundamente comovidos.. os pés atolados em sangue!!. Que vale a guilhotina comparada a este sofrimento de agora? Nada! É um instante.200 – Allan Kardec Em reunião íntima de sete a oito pessoas. o tom da sua voz era tão dolorido. Muito necessito dela. e vejo-as todas.. Não sabem. Se ele buscou os órgãos do médium. teriam piedade de mim. Tudo. visto como ninguém pensava nesse infeliz. Entretanto. é pior.. que visam se apoderar dos médiuns para os dominarem.. Tal manifestação lhe foi talvez permitida não só em benefício próprio. O médium. sim.. de modo algum provocada... e depois.. terrível.... havida em Bruxelas a 13 de setembro de 1864 e à qual assistíamos. sem-fim!. porque é uma morte contínua. quando me julgava aniquilado para sempre.. deixava claro a identificação do Espírito com a sua pessoa. de preferência a outro lugar.. nem malfeitores! Eu só quis que todos os assassinos . e não como os Espíritos obsessores e possessores.. a me mostrar os ferimentos. juntando os gestos e a expressão da fisionomia à palavra. Todas.. Não sabem o que sofro... E sempre ante meus olhos! E o cheiro de sangue. saberiam também quanto custam as consequências do mal! Certo não haveria mais assassínios. Depois começou por uma cena indescritível que não durou mais de meia hora.. Este fogo que me devora.. piedade.. exclama: “Arrependo-me! Arrependo-me! Latour!” Surpreendidos com a inesperada comunicação. a fim de que mais nos interessássemos pela sua sorte... nem criminosos... O sangue inebria-me.. É horrível! A guilhotina!. Lá estava a exclamar: Oh! Sim. almas compassivas. Oh! Sim. cuja morte até então era ignorada por uma parte dos assistentes. foi pedido a um médium que tomasse do lápis. e assim foi que afrontei o suplício e afrontei o próprio Deus.

escreveu: Grato pelas preces. Oh! Obrigado! Tiveram piedade de mim. apesar disso. almas caridosas. destes espectros horríveis. apenas exige do culpado um arrependimento sincero. que renuncia ao mal. Vamos pronunciar em tua intenção a prece que se contém em O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO... enviem-me os seus bons Espíritos para me sustentarem.. a duração do castigo está nas tuas mãos.. aliado à vontade de reparar o mal praticado. Meu Deus. repelia as mãos súplices quando imploravam que as poupasse. a misericórdia! Sois onipotente! Piedade. Deus permitirá que as encontre em uma nova encarnação. liberte-me destes olhares odiosos. referente aos Espíritos sofredores e arrependidos.. e Ele ouvirá a vocês porque são bons. certamente.. oh! Meu Deus. que implora.201 – O CÉU E O INFERNO pudessem ver o que eu vejo e sofro.. porque eu queria me persuadir de que Ele não existia. quais punhaladas. Sim.. porque desde que te arrependeu. Pedirão a Deus que me tire este horrível espetáculo de ante os olhos.. não me abandonem como fiz outrora aos outros. isto é. Não pronunciaremos a que se refere aos maus Espíritos. porém por minutos apenas. não pode restituir às vítimas as vidas que lhes arrancou. Feita essa prece. sejam bondosos. dependendo de ti abreviá-lo.. repetindo a cena da véspera. Depois. Preciso é. Os assistentes. Vós sois Deus. me varam o coração. Obrigado. porque também eu não tive compaixão das minhas vítimas. tomado de agitação febril.. e fui blasfemo também. o Espírito voltou a se manifestar. Eis que se afastam os espectros. reconhecendo que não era ele quem falara. dirigiram-lhe palavras de conforto e consolação.. Assim.. a bondade. os membros lassos por algum tempo. Vocês que aqui estão. . Olhares que.. renegando o Seu sacratíssimo Nome. depois de breves instantes de calma: Obrigado. Quis me enganar. Disseram a ele que Deus não é inflexível. não seja implacável.. não é verdade? Haverão de orar por mim...... Uma vez que o seu coração não está petrificado e que lhe pede o perdão dos seus crimes. que me ouvem. Não me abandonem. A princípio.. matando-as covardemente para roubálas! E fui ímpio. Das minhas vítimas. o Espírito continua.. em nova reunião. ainda que menos violenta. Sim.. sei que têm piedade de mim. se pedir com fervor. fui cruel. Imploro que orem por mim. e isso com a mesma gesticulação expressiva. abatido. a divina misericórdia baixará sobre ti. Deste sangue. Oh! Eu suplico a vocês. Senhor! Piedade! Eu peço. Já experimento uma sensível melhora. na qual lhes poderá demonstrar tanto devotamento quanto o mal que lhes fez. meu Deus!. que persevere na boa resolução de reparar o mal que fez..... para logo entrará na sua santa graça.. pois.. terei de ver ainda as minhas vítimas. Certo. Não teria piedade de mim?. apenas tem vaga ideia do que se há passado. eu vejo. não passa para nós de um Espírito infeliz e não mau.. Foi tanto o fervor com que orei que Deus me concedeu um momentâneo alívio.. Aqui estão elas! Estão vendo este sangue?. mas. eu sou grande criminoso! Agora o compreendo. Depois desta cena o médium fica alquebrado.. E quando a reparação lhe parecer suficiente. porque é horrível este sofrimento! Bem sei que o mereci. sensibilizados. Mas.. mas pouco a pouco vai-se lembrando de algumas das palavras que pronunciou sem querer... Oh! Então não mais seriam assassinos. Comprometemo-nos a te auxiliar com as nossas preces e invocar para ti a assistência dos bons Espíritos. No dia seguinte..

Eis por que todos os que me lerem ficarão comovidos com as minhas palavras e com os meus padecimentos. desviados por mim da senda criminosa. um grande malfeitor não é um Espírito covarde. Obrigado pelo alívio que proporcionou aos meus sofrimentos. então. Deus meu. Foi-me permitido libertar-me do olhar das minhas vítimas transformadas em carrascos. É somente sobre o Espírito dos homens fracos ou das crianças que a narrativa de penas infernais pode produzir efeitos terroristas. evocando-o. seja piedoso. que não são ficções.. . e cada um dos desgraçados. porém não pude me manifestar logo. As minhas vítimas voltarão dentro em breve. podendo também servir de ensinamento a todos os criminosos que me lerem e meditarem na exposição dos meus sofrimentos. eu te convido a pedir comigo para que te dê a força necessária a fim de suportar essa tortura expiatória. e comuniquei-me. tornarei a vê-las e só esta ideia me causa tal sofrimento que eu não poderia descrevê-lo. A prece faz tanto bem. que tinha orado por este infeliz. tenham piedade. Orem sempre ao Senhor por mim. Ora. exclamo: Bendita a mão do Senhor e seja feita a Sua vontade! II O médium – Em vez de pedir a Deus para te livrar ao olhar das tuas vítimas. aliás indescritíveis!”. mesmo não tenha atingido o fim das provações. porque tenho assistido às torturas dos condenados.. porque assim deixo o meu inferno por alguns instantes. concorrerá para o resgate das minhas faltas. Não há um só padre que possa dizer que viu o que tenho visto. de modo que muitos Espíritos levianos tomaram-me o nome e a vez. Eis a punição a que fiz jus. e o temor de um polícia é para ele mais real que a descrição dos tormentos do inferno. ao contrário do que supunha e tinha tomado pelo termo dos suplícios.202 – Allan Kardec (Repetiu-se a prece da véspera. quando era o começo de outras torturas. Latour Um membro da Sociedade Espírita de Paris. mas. Estou mais aliviado. a fim de comunicar convosco. Sim. O Espírito continua dirigindo-se ao médium) Perdoe por ter me apossado de ti. não sinto tão pesado o fardo que me humilha. Perdoe o mal que te causei. peçam que Ele me liberte do olhar das minhas vítimas. eis a minha enorme decepção ao reconhecer-me vivo. Mas. Voltarei a me manifestar na Sociedade. Orem todos você por mim. ao deixá-los. Aproveitei a estada em Bruxelas do Presidente da Sociedade de Paris. entretanto. a fim de fazer revelações que serão um começo de reparação às minhas faltas. arrependido. oremos juntos. e só ti poderia. mais de um ser estará à borda do precipício em que ia se despenhar.. mas eu tenho necessidade de me comunicar. a morte do corpo. obteve as seguintes comunicações com alguns intervalos: I Fui evocado quase imediatamente depois da minha morte. Vejo um resquício de esperança brilhando aos meus olhos e. com a aquiescência de Espíritos superiores. quando eu vier dizer: Eis o que se passou após a minha morte. Obrigado! Obrigado! Que já sinto algum alívio.. Sou feliz quando me evocam.

os padres só têm uma fraca noção dos verdadeiros sofrimentos que a justiça divina reserva aos infratores da lei do amor e da caridade. O pensamento me volte então para a última existência e vejo as faltas que teria evitado se soubesse orar. ao voltar ao mundo dos Espíritos. os quais me dizem para ter esperança. possa sofrer ao contato do fogo material? É absurdo. de modo que. É qual dolorosa operação que viesse curar um corpo gravemente adoentado. mas o certo é que. com mais resignação. Em que pesem aos seus quadros terroristas. após a morte física. Não. porém. pois compreendo ser esse um meio de expiar um pouco mais rapidamente as minhas faltas. sinto-me confortado por bons Espíritos. ignorados dos homens.. são. fracas pela carne. posso afirmá-lo. mas parece-me que os sofrimentos diminuem. porém fortes pela fé. pois que . para nenhuma das minhas vítimas. ao mal que fiz. os sofrimentos de minha alma. IV Muito grato sou a vocês pela perspectiva que me trouxeram e a cujo fim glorioso sei que devo chegar quando purificado. excetuados os curtos instantes em que me manifestava. vistos pelos Espíritos. Hoje compreendo a eficácia da prece. salvo a antecedência de alguns instantes. farei o que me aconselha. E. ficariam apavorados das consequências de seus crimes. então. Para mim. uma coisa imaterial. e. entretanto. compreendo o valor dessas mulheres honestas e piedosas. enfim.. só houve sofrimentos infernais. Como a ignorância é fatal para tantas pessoas! Que responsabilidade assumem os que recusam instrução às classes pobres da sociedade! Acreditam que com polícia e soldados se previnem crimes. no entanto. Não posso acreditar que. esse mistério ignorado pelos supostos sábios da Terra. O homem mais insensível ficaria comovido vendo impressos na minha fisionomia. Se soubessem o quanto sofro.203 – O CÉU E O INFERNO Latour – Eu preferiria livrar-me de tais olhares. eu sofro menos pelas mesmas dores. como que a fogo. Entretanto. Preces! Palavra que por si só provoca o riso dos Espíritos fortes. Orar é amar. e amar é orar! E eles amarão o Senhor e lhe dirigirão preces de reconhecimento e de amor. isto é. depois que por mim oram. e por isso tantos e tantos criminosos se riem desses painéis fantásticos do inferno. a dor diminua pouco a pouco à força de hábito. quando a venda que encobre a verdade se romper para eles. Ah! Se pudessem ver os culpados da Terra. Orem para que o desespero não se aposse de mim. Compreendo a eficácia do remédio heroico que me aconselharam e peço a Deus me dê forças para suportar esta dura expiação. Que grande erro! III Os meus sofrimentos são terríveis. e as que tinham terminado a provação terrena foram receber a recompensa que as aguardava. regenerados pelo sofrimento. a seu nuto se prosternarão aos pés do Eterno a quem desprezaram e serão felizes em se humilhar para que seus pecados e crimes sejam revelados! Hão de compreender então a virtude da prece. a dor não existia. Como insinuar a pessoas sensatas que uma alma.. Aqui os espero no mundo espiritual. no mundo dos Espíritos. O mesmo porém não se dá quanto à dor moral do condenado. desses crimes que.. O que eu depreendo é que as suas preces salutares me aumentaram as forças. Não quero me desculpar das minhas atrocidades. na morte. compreendo. aliás igual. Sofro muito.

quereria ele que chegassem as suas palavras. Deus me liberta do olhar das minhas vítimas. retraídas todas as mãos. irmão. procurando inspirar-lhes arrependimento. Senhor! Eu o amo de todo o meu coração e suplico a graça de me permitir. porque o ignora ainda. que estou tranquilo. pois meu coração transborda de reconhecimento. ensinando as crianças a pronunciar com respeito o Teu nome. sem repressão. o mesmo que recebera o primeiro ditado. pela Tua vontade. tidas por honestas. pedirão como eu peço a força necessária ao sofrimento e à expiação. Em deixando de sofrer. Irmão.. Peço que me seja possível ensinar que amem a Ti. O guia do médium – Diz que não compreende as palavras do Espírito. irmãos. pois que estou perdoado. de lá saído. quebrei as amarras. Aos ouvidos desses. tais faltas não seriam cometidas. mas o que te não disse ele. Porém. Sou um Espírito sofredor. Estou livre. voltar a ela como missionário da paz e da caridade. para que mais me fortaleça. exceto pelo sofrimento que ainda tenho. Deus teve compaixão de mim. é que lhe será permitido o início de missões reparadoras. Oh! Obrigado à tua caridade. hão de orar ainda para agradecer o perdão merecido por sua submissão e resignação. É o remorso quem lhes dita a confissão da culpa. pela graça que me concede! Oh! Meu Deus! Sinto a enormidade dos meus crimes e me curvo diante a Tua onipotência. Pois se o véu que te encobre o mundo invisível se desfizesse. obedeci cegamente aos meus instintos. Oremos. Bem aconselhado na vida. meu Deus! Sou um Espírito arrependido. Pai que é de todas as criaturas. eu o amo com esse sentimento que é pura emanação da Tua divindade. Daí ele sai completamente corrompido pelos maus exemplos e conselhos. inspirando o remorso ao Espírito encarnado. não sou mais um réprobo. mas que você não pode ver. sofrer novas provações na Terra.204 – Allan Kardec devem sofrer. uma falta muita vez passageira leva o homem ao cárcere. indiferentes todos . recuem. Obrigado.. Oh! Para trás. que me demonstra a enormidade dos meus crimes. oremos. o médium de Bruxelas. Oh! Meu Deus! Bendito seja o Senhor por toda a eternidade. meu irmão. mas. Frequentemente se veem na Terra pessoas. veria muitas vezes o Espírito cúmplice ou instigador de um crime. tal como o fará Jacques Latour. Se todos os homens pensassem mais em Deus. São séculos de torturas que lhes esperam. mas arrependido. se nele acreditassem. Tanto quanto meu impuro coração pode comportá-lo. e sincero é o meu arrependimento. Irá para junto dos que lhe foram cúmplices. antes. ele vai encontrar todas as portas fechadas. coisas que ele acredita não poder testemunhar melhor do que tentando demover todos esses criminosos por ele vistos. ainda assim. eu não teria jamais praticado todo esse mal. Dado porém que a sua índole seja boa e forte para se não corromper. Vendo o meu arrependimento. no afã de reparar a própria falta. que não deixa de ser um foco de perversão. lançarem-se aos pés de um sacerdote para se acusarem de um crime. Procura ter uma ideia da sua emoção e do seu reconhecimento para com o Senhor. Teu guia protetor Mais tarde. implantando em seus corações a semente do remorso. obteve o seguinte: Nada mais temam de mim. pois as torturas que preparam serão cruéis! Não acreditem que o Senhor se deixará tão prontamente submeter à prece dos seus filhos. a justiça dos homens é falha. Agora sofro por causa desse arrependimento. a desejar que o meu exemplo pudesse conter nos umbrais do crime todas as mãos criminosas que vejo prestes a levantarem-se. ou.

talvez se estranhe tão pronta mudança do seu moral. Esta reversão a sentimentos mais benéficos indica uma natureza mais selvagem que perversa. 87 . são menos racionais com seus chifres e forcados. a uma espécie de superexcitação. Diz o Espírito de Latour: “Eu sofro por causa desse arrependimento. Este sofre e não o confessa. eu não sou mau. A alegoria 87 mitológica das Eumênides não é tão ridícula como parece. adiante consignada sob o título castigo pela luz. pois bem o vê. a fim de os preservar da queda. Comparando esta linguagem com a de outro Espírito. Depois o executam! Meu Deus. sinto que a vossa mão se estende por sobre mim. ela oferece um dos aspectos do mundo dos Espíritos em castigo. apesar da disparidade de instrução e hierarquia social. evoquem-me ainda e orem a Deus por mim. que as substituem perante as modernas crenças. D.205 – O CÉU E O INFERNO os corações! Que lhe resta então? O desprezo.. a despeito das suas boas intenções. nada recebem. e depois. É para se furtarem a isso que os Espíritos perversos se revoltam contra a voz da consciência. por orgulho. Obrigado. ao ser presa novamente das minhas alucinações. e assim é que também ele se toma de desprezo por seu semelhante. Além disso. são seres semelhante a demônios. se é que o assistem boas resoluções de se corrigir. ao passo que o outro empresta à perpetração dos seus crimes a calma e sangue-frio inerentes às lentas e obstinadas combinações. o remorso. do que estas vítimas que servem elas próprias ao castigo do culpado. quais doentes a repelirem o remédio que os há de curar. à qual apenas faltava boa direção. que o meu retrato não pareça pelo que de mim viram. sinto que a vossa bondade me envolve e protege. aturdir-se e Eumênides ou Eríneas: pela mitologia grega.. Quando pensarem em mim. que me demonstra a extensão dos meus crimes”. Para angariar o necessário. o sentimento doloroso. da doença moral para a saúde moral. de que pode um Espírito brutalmente mau ter em si melhores predicados do que o dominado pelo orgulho ou pela hipocrisia. Latour Estudo sobre o Espírito de Jacques Latour Não se pode desconhecer a profundeza e a alta significação de algumas das frases postas nessa comunicação. que é a transição do mal para o bem. mas o de uma alma angustiada que agradece a sua indulgência. mata às vezes. O Espírito só compreende a gravidade dos seus malefícios depois que se arrepende. e os demônios. Admitindo-se a identidade deste Espírito. é fácil concluir qual dos dois seja mais adiantado moralmente. por isso que repelido se encontra. Também por aí podemos prever qual deles sofrerá por mais tempo. ao passo que aquele prontamente se submete. E assim procuram iludir-se. carrascos oficiais do mundo invisível. pairando ainda assim sobre ele a misericórdia divina. Adeus. É o caso da ponderação já feita. O arrependimento acarreta o pesar. assim é que o odeia e perde a noção do bem e do mal. o abandono e o desespero. Aí está um pensamento profundo. meu Deus! Na próxima existência empregarei toda a minha inteligência no socorro aos desgraçados que sucumbiram. rouba. afrontando ainda depois de morto o castigo. a miséria. obedecendo um ao natural instinto de ferocidade. Obrigado a vocês que não desprezam de comunicar comigo. Então a miséria o leva aos extremos. encarregados de castigar as almas condenadas ao Hades (inferno) – N.

sobretudo. apesar do seu arrependimento? Entretanto. melhor lhe teria sido a vida subsequente. A muitas pessoas ocorre perguntar qual seja o proveito dessa anterioridade de existência. contribuindo assim para desenvolvê-lo. devemos louvar a Deus por ter cerrado esse véu sobre o passado. acabando por ceder. sem que dele nos reste um traço no coração. ao mesmo tempo em que em seu favor imploravam comiseração. Esse véu sobre o passado é que lhe permite a porta da reabilitação. que não na essência.206 – Allan Kardec persistir no mal. compreendendo o mal que fez. se tivesse se arrependido como agora. e daí o fato de procurarem explicá-las. Por certo não foram os Espíritos que a imaginaram. e a encarnação que teve nem por ser criminosa deixou de assinalarlhe um estádio de progresso. na escolha das suas expressões. mas não lho insinuaram contra sua vontade. perseguido pelo incessante olhar de suas vítimas e torturado. desde que dela nos não lembramos e nem temos ideia do que fomos nem do que fizemos. Viram em Latour a semente dos bons sentimentos e por isso o auxiliaram a se expressar. as intenções que demonstra aqui. e para elas é que devemos voltar todas as atenções. aceitaram-na. Na encarnação anterior. capaz de impressionar mais vivamente. porém o resultado de observações. esta doutrina não é uma teoria. ele devia ter sido pior que na última. Condenado a tempo ou absolvido que fosse. os antecedentes de Latour fariam um enjeitado da sociedade. As resoluções por ele tomadas agora influirão sobre a sua vida terrestre no futuro. porque pode sem receio e sem vergonha se juntar com os mais honestos. do que o espetáculo deste grande criminoso repreendendo a si mesmo o desespero e os remorsos? Desse criminoso que. porém eles viram e observaram as situações diferentes que muitos Espíritos apresentam. eleva a Deus o pensamento implorando misericórdia? Não será isso um exemplo benéfico para os culpados? Posto que simples e desprovidos de . O Espírito poderia ter sido auxiliado nesses raciocínios e. nós os conhecemos pelas nossas tendências atuais. persistentes no mal. as reprovações de que se torna objeto. Não se pode recusar a estas comunicações um grande fundo moral. mas o fato é que estes apenas influem na forma. e a reprovação continuaria a persegui-lo. Basta saber o que somos. e jamais fazem que o Espírito inferior esteja em contradição consigo mesmo. também com ele não nos devemos preocupar. Esta questão está bastante liquidada pela razão de que tal lembrança seria inútil. Suponhamos que soubessem que esse homem honesto foi Latour. Latour chegou a esse período no qual se extingue o endurecimento. Que há de mais digno e mais moralizador. Entra-lhe o remorso pelo coração. como resultado dos fatos. Assim é que em Latour poderiam ter poetizado a forma do arrependimento. por maior que seja o seu arrependimento. Logo. Eis por que ele diz: “Sofro por causa desse arrependimento”. porque o Espírito tem o seu livre-arbítrio. como Espírito. por outros mais adiantados. Se considerarmos as dificuldades que há na existência para a reabilitação do Espírito. o arrependimento o assedia. Quem o acolheria com intimidade. e. Quantos há que desejariam poder apagar da memória de outrem certas fases da própria vida? Qual a doutrina que melhor se concilia com a bondade e justiça de Deus? Demais. e ainda por lhes parecer mais racional que todas as emitidas até hoje relativamente ao futuro da alma. nos dão a esperança de que venha a ser na próxima encarnação um homem honesto e estimado. visto como de todo apagado o mal cometido. Quanto aos vícios de que porventura não estejamos inteiramente despojados. originando-se então a doutrina. E é muito provável que antes de iniciá-la ele fosse na erraticidade um desses muitos Espíritos rebeldes. sem que seja necessário saber o que fomos. visto que. vê a sua degradação e sofre dela.

mas é preciso notar que as penas morais não serão menos dolorosas para todo aquele que esteja em condições de compreendê-las. Se compararmos este criminoso àquele de Castelnaudary. Por que não lhes ministrar esses sentimentos no cárcere? Eles fariam refletir. compreende-se a natureza dessas angústias. apesar de terríveis. de perto seguidos de arrependimento e desejo de reparação. Podemos inferi-lo dos clamores do próprio Latour. Mas como crer nas palavras de um morto. e principalmente a reparação. sendo este o primeiro passo para a reabilitação que atrai a divina misericórdia. Ele está em absoluto com a verdade. é a compreensão que ele tem do seu estado. pelo qual ao culpado não basta o arrependimento apenas. visando o progresso. Mas por que havia de ser inacessível ao arrependimento? Por que não possuir também ele a sua corda sensível? Acaso o pecador seria votado ao mal eternamente? Não lhe chegaria por fim um momento em que a luz se fizesse em sua alma? Era justamente essa hora que chegou para Latour. quando afirma ser o seu exemplo mais eficaz que a perspectiva das chamas do inferno. Outras muitas instruções importantes se podem tirar dessas comunicações. mas antes a expressão dos remorsos. a confirmação deste princípio de eterna justiça. dia virá em que se reconheça esta verdade: os mortos podem vir instruir os vivos. .207 – O CÉU E O INFERNO fantasmagóricas encenações. consequentemente. Naquele o arrependimento foi tardio. Assim o entende Latour. são os seus pesares.. e. quando ninguém acredita que não esteja tudo acabado para além da morte? Entretanto. aos olhos do maior número dos seus iguais. Ao outro. faz-se necessário a expiação. os seus planos de reparação. Poderíamos talvez estranhar tão grande transformação num homem como Latour. e para tanto se predispõe. que não são de cólera. essa pena era quase material. mais longa a pena. havia grande diferença intelectual entre eles. Além disso. O arrependimento é o prelúdio do perdão. e ali está precisamente o lado moral dos seus ditados. veremos ainda uma diferença nos castigos. assim. quanto a isso. são racionais. impunha-se coisa que pudesse ferir-lhe os sentidos bloqueados. mas essa voz de além-túmulo é seguramente a revelação daquilo mesmo que os aguarda. ao passo que para Latour o foi antes moral. como acima dissemos. inúmeros exemplos? Uma regeneração antes da morte passaria. se dissesse antes da morte o que veio dizer depois? Não há. o alívio dos sofrimentos. que tornam tais mensagens eminentemente instrutivas. porque. e até da forca. mas porque Deus não absolve incondicionalmente. do que aliás já temos alguns exemplos.. Que haveria de extraordinário se Latour confessasse um arrependimento sincero antes da morte. porque elas. por fraqueza.

manifestou-se espontaneamente um Espírito – ao qual ninguém havia feito menção e muito menos se pretendia evocar – pela seguinte comunicação. consideram-no infâmia. glorificam-no. A morte é terror. Castigaram-me com as trevas do cárcere e acreditavam castigar-me ainda com as trevas do túmulo. a perturbação não existe. A luz ofusca-me e penetra a sutileza do meu ser igual flecha aguda. enquanto que eu. outros sofrem por longos anos as angústias da extrema hora.208 – Allan Kardec CAPÍTULO VII ESPÍRITOS ENDURECIDOS LAPOMMERAY Castigo pela luz Em uma das sessões da Sociedade de Paris. se reconheceu como sendo de um grande criminoso recentemente atingido pela justiça humana: Que dizem da perturbação? Para que essas palavras ocas? São sonhadores e utopistas. senão com as sonhadas pelas superstições católicas. ou acreditam-se ainda encarnados. ao derredor de mim.. por toda parte!. reconheceu-se no próprio cinismo da sua linguagem um profundo ensinamento. degredado social. embora não assinada. Para estes... sabendo-se morto e não se lastimando.. exibindo na situação desse infeliz uma nova fase do castigo que espera o culpado.. enquanto alguns são imersos em trevas ou num absoluto isolamento. Ignoram redondamente o assunto do qual se ocupam. a luz brilha enquanto o Espírito desfruta plenamente das suas potencialidades.. desdenhando os conselhos que zumbem aos meus ouvidos.. contra esta luz odiosa. Mas é também para todos amarga irrisão. são vocês que padecem da escuridão. Eu quero ser o que sou!. aspiração ou castigo. que. Aquele que ontem era um homem Analisada esta comunicação na assembleia seguinte. Nada peço. durante a qual se discutira a perturbação que geralmente acompanha a morte. Não.. Pois bem. Absurdo! Não quero que me deplorem.... sozinho. Um crime! É uma palavra! O crime existe em toda parte. Vejo claro. individualizado. senhores. a não ser nos seus cérebros. afrontam ou imploram.. Lutarei por mim mesmo. antes repelindo qualquer . A vida é uma comédia trágica! Insensatos os que se retiram da cena antes que o pano caia. me coloco em plano superior. conforme a fraqueza ou a força dos que a temem. e... Estou bem morto. Efetivamente. Quando executado pelas massas. tão morto quanto possível e vejo claro em mim. Forte pelo pensamento.

o desprezo alheio. só. apesar de tudo. Hoje. do que neste. Este Espírito aqui está colocado entre os endurecidos. Neste caso a expiação ou. e o que a uns causa alegria é para outros um tormento. e é ele próprio que o confessa – apesar do seu orgulho – quando diz que lutará por si mesmo. contemplando as estrelas. E ainda nesta frase: “a luz ofusca-me e penetra a sutileza do meu ser igual flecha aguda”. A luz faz o suplício desse Espírito. legado à Terra. Para esse a cegueira. aliás dignas da mais séria atenção. ele poderá ser colocado entre os Espíritos arrependidos. isolado na própria dor. Entretanto. antes. são empecilhos ao seu progresso. pouco a pouco se foi corrigindo. são características. é que a justiça de Deus completa-se sob todas as formas. I Sob o ponto de vista das existências. contra essa luz odiosa. embrutece-os na rebeldia. luz que o penetra qual aguda flecha. ainda assim. dando a entender que sabe que o seu corpo é fluídico e penetrável à luz. mas bastante forte ainda para recusar a verdade do castigo e da recompensa! Os grandes erros duram no mundo espiritual quase sempre. podem expiar. Homem! É bem verdade que existe um acordo secreto entre a imortalidade de um nome puro. em razão do muito tempo que levou. Esta frase – simbólica por excelência – é o sinal do sofredor abatido. Convidados a emitirem a sua apreciação a respeito. e desafiar o infinito. e deu mais tarde ditados instrutivos e sensatos. o egoístico sentimento da personalidade. antes que manifestasse arrependimento – o que é também um exemplo a mais para provar que o progresso moral nem sempre acompanha o progresso intelectual. pode comparar-se à cegueira do homem que. Essas palavras: “sutileza do meu ser”. O infinito moral existe! E miserável e mesquinho é quem. Tivestes disso um exemplo terrível na última comunicação desse criminoso impenitente. uma vez que o orgulho e a rebeldia formidável dos seus erros não os tolham no momento da progressiva ascensão. ao invés de lhes ser útil. não vê mais longe no outro mundo. em sua poética eloquência. e a imortalidade realmente conservada pelos Espíritos nas suas sucessivas provações. Lamennais II Precipitar um homem nas trevas ou em ondas de luz não dará o mesmo . as tivesse por arabescos de um teto. Lutar. os nossos guias espirituais ditaram as três seguintes comunicações. o sofrimento fatal que os oprime. tal como acreditavam os gauleses do tempo de Alexandre. à qual não pode escapar. assim como as consciências grandemente criminosas. inculcando-lhes a profunda significação de suas penas. os Espíritos na erraticidade podem considerar-se inativos e na expectativa. debatendo-se com a justiça divina a constringi-lo depois da dos homens.209 – O CÉU E O INFERNO assistência e afrontando ainda as leis divinas e humanas. a pretexto de continuar as lutas e imposturas abjetas da Terra. Isto quer isto dizer que escapassem da punição? De modo algum. mas. porém insubmisso. e dá ocasião às murmurações que a Escritura denomina ranger de dentes.

porque tal é a lei suprema para além da Terra. Todo pensamento mau – e Deus sabe se a sua alma o exprime – lhe trai por fora e por dentro. dor horrível. transforma-se em punição infamante e contínua para o perverso. da lucidez que isenta o Espírito da perturbação.. Éraste III A justiça humana não faz distinção de individualidades. não se podem furtar à investigação dos seus pares. e por toda a parte luz. comunicação que lhes deu na sexta-feira passada. através dos espaços incomensuráveis. por assim dizer. essa luz é tanto mais terrível. Aí está uma das circunstâncias mais rudes de tal castigo espiritual. e sombra e noite não mais existem para ele! Chama pela morte. na casa de vidro pedida por Sócrates. O Espírito manifestado na última sessão exprime bem a verdade quando diz: “Oh! Eu saberei libertar-me dessa odiosa luz”. Meus filhos. E o infeliz foge sempre. qualquer que seja a sua educação. quais feras refugiadas no seu antro. isto é: o culpado busca por si mesmo o seu mais inexorável castigo. nada de asilo para esse formidando criminoso. para o criminoso. a combinar os mais hediondos crimes no seu foro íntimo. para o parricida. fere indistintamente os infratores. na qual pode estar submerso. esse homem nada vê do que o cerca. e desanda numa carreira infrene. redigindo-a por um ato da sua própria vontade. expulsas desse covil íntimo. Quer fugir. se curve constrangida pelo remorso. com isso o Espírito realizará o que escrevia nessa altaneira comunicação tão clara. a caminho da loucura espiritual – castigo tremendo. E corre. como empurrado por choque elétrico irresistível. De modo diverso procede a justiça divina. humilhada a fronte altiva ante os Espíritos de justiça e ante as suas vítimas apaziguadas. O Espírito encontra-se. e voa novamente em busca da sombra. quanto aos seres que castiga. E nesse caso não são mais as trevas a puni-lo.. calculem o sofrimento. Igualdade de crimes não importa. Quanto tempo durará esse estado? Até o momento em que a vontade. visto como o que seria alegria e consolo para o sábio. de fato. o terror dos hipócritas que se contentariam em toda uma existência sinistra a planejar. Notem a lógica profunda das leis imutáveis. e a mesma pena atinge o paciente sem distinção de sexo. De fato. sob o mesmo ponto de vista. cujas punições correspondem ao progresso dos seres aos quais elas são infligidas. e além de tudo nenhum repouso. tão lúcida. medindo o crime pelo próprio crime. e se habituará mesmo mais facilmente à sombra do que à monótona claridade elétrica. quanto ela o penetra completamente e lhe devassa os pensamentos mais recônditos. mas a agudeza da luz espiritual que vara a inteligência terrena e . olhares que o observam. Disso decorre ainda um ensinamento.. podem separar-se pela dessemelhança de provações. enquanto que o outro dispõe. por haver ultrapassado esses círculos. em busca da noite. todos os pensamentos ficam estampados na sua frente! Sim. sobressaltado em sua própria personalidade. e a luz odiosa o devassa continuamente. Mas a morte não é mais que palavra sem sentido. visto como dois homens culpados. tão desconsoladoramente egoística. Arrancada que lhe seja a máscara da impassibilidade. Procura esquivar-se da multidão. por fim vencida. igualdade individual. e que hoje. a debater-se consigo para se desembaraçar de si mesmo..210 – Allan Kardec resultado? Num como noutro caso. horrorosa. imergindo um deles na opacidade intelectiva dos primeiros círculos iniciadores. desesperada.

211 – O CÉU E O INFERNO lhe faz sentir as dores de uma chaga viva. nulidade sobre a Terra (Bordéus. A ausência de ponderação. Não. embora tivesse. sem se consumirem. em 1864. estas três comunicações. e se acaso um dos corpos que lá se queimam. E aqueles que pelo Espírito estejam desmaterializados sofrem uma dor muito superior que lhes aniquila. sofrem o choque da eletricidade física: padecem pelos sentidos. Aí estão os primeiros sintomas. Não. P. 1. Os seres desencarnados que presenciam a representação material dos seus crimes. apesar da sua criminalidade. Então por que me procura? R. baseado sobre um fato – para estabelecer uma comparação –. Acaso não está feliz? R. Arrepende-se das tuas faltas? R. procedido como um bruto. julho de 1864. 199) ANGÈLE. um Espírito se apresentou espontaneamente ao médium. apresentam o castigo debaixo de um novo prisma. tivessem provocado a manifestação do culpado. a luz que tortura o Espírito é precisamente o raio espiritual inundando de claridades os secretos recessos do seu orgulho e descobrindo-lhe a inanidade do seu fragmentário ser. o desequilíbrio entre o progresso moral e o intelectual. fosse lançado ao planeta. traçou do inferno: O fogo do inferno é milhões de vezes mais intenso que o da Terra. possuir um progresso interno e se elevar acima da espessa atmosfera das baixas camadas. . isto pelas faculdades intelectuais sutilizadas. P. aliás eminentemente filosófico e racional. Jean Reynaud Além de se completarem reciprocamente. Para experimentar. por assim dizer. (Ver a REVUE SPIRITE. deixando subsistir a noção de suas respectivas causas. pág. nas quais as almas dos condenados são precipitadas. Ao lado deste quadro vivo. eriçada de agudas pontas de lâminas de espadas aceradas. por ocasião da quaresma. as primeiras angústias da agonia espiritual. a lembrança dos fatos. eis este que um pregador de Montreuil-sur-Mer. Assim. produzem essas tão frequentes anomalias nas épocas de materialismo e transição. de lâminas de navalhas afiadíssimas. É provável que os Espíritos. 1862) Com este nome. sob o jugo das paixões. e que prenunciam a dissolução dos elementos intelectuais e materiais componentes da primitiva dualidade humana. e que devem desaparecer na unidade grandiosa do ser acabado. o homem pode. querendo tratar do assunto de acordo com um exemplo. em seus amargores. obtidas simultaneamente. Portanto. empestaria a Terra de um a outro extremo! O inferno é vasta e sombria caverna.

. Gostaria de reparar a inutilidade dessa existência e auxiliar os Espíritos sofredores que nos cercam? R. Nenhuma. temor do futuro é o que experimento. A paz. Não. P. Talvez tenha razão. Que te falta. então? R. P. Sim? R. P. Como? P. Do desconhecido. Ajudando-os a aperfeiçoarem-se pelos teus conselhos e preces. P. E de que modo preencheu a existência? R. Mediana. fui esposa e mãe. Sofre? R. Divertindo-me em solteira e enfadando-me como mulher. Do que tem medo? R. meu marido entediava-me. A criada. então estaria arrependida? R. Nada. 3. Não. Como pode te faltar a paz na vida espiritual? R. 6. Faremos juntos e aprenderá. P. P. embora concordando que o seu estado moral seja intolerável. Está disposta a me dizer o que fez na última encarnação? Isso talvez me facilite a te orientar. Mas não basta concordar. Eu não sei orar.212 – Allan Kardec P. Sim. R. P. Não. Uma mágoa do passado. 2. Certos Espíritos só consideram sofrimento o que lhes lembra suas dores físicas. R. Foi casada? R. Não será cabível atribuir a essa inércia a causa dos teus pesares e temores? R. 4. E cumpriu bem os deveres decorrentes desse duplo encargo? R. 5. P. A mágoa do passado é remorso. Quais eram as tuas ocupações? R. P. Qual a tua posição social? R. Não. bem como meus filhos. E quem cuidava da tua casa? R.

a fazer um esforço para sustá-la em começo. e quando deveres mais sérios se lhe impuseram. Depravou seu coração e os sentimentos. Tudo é degrau que dá acesso ao céu: não quebrem a coluna sob os pés e contem com o apoio de amigos que lhes estendem a mão. a fim de tomarem o caminho oposto que conduz ao bem. a atividade do Espírito é da sua própria essência. O homem foi criado para a atividade. procurem despertá-la e fazer que seus olhos se abram à luz. no cumprimento dos deveres domésticos e sociais as únicas satisfações do coração. Instruções do guia do médium – Vamos te dar instrução. uma necessidade. as suas ficam obras. Ela viveu na indolência beatífica. Portanto. ela não pôde empregar a juventude senão em distrações frívolas. Amando apenas o prazer. facultando-te o conhecimento prático dos diversos estados de sofrimento. nosso pai. Estudem os ensinamentos do Senhor. A sua existência foi improdutiva e. e. é cem vezes mais elevado aos olhos do Onipotente do que aquele que. Sempre rejeitou a voz íntima que lhe apontava o perigo. com coragem. que fazem o encanto da vida. porque são de todas as épocas. trabalhem. Hoje ainda compreende o perigo dessa neutralidade. Trabalhem. quem quiser evitar o primeiro deve seguir o segundo. cumpram as prescrições da existência. incapaz de procurar no estudo. Será que permite saber qual teria sido a penúltima existência de Angèle? A última deveria ter sido consequência dela. como a propensão era suave. trabalhem incessantemente. visto que o mal é oriundo da falta do bem. na inutilidade da vida de monge. R. A fé lhes alentará. mas seu Espírito pouco progrediu. sustentáculos que são dos que vão haurir suas forças na crença do Senhor. já o mundo se lhe havia feito um vácuo. cuja existência é tão inútil a si como ao próximo. com perseverança. e dever algum se despreza. A serviço do Espírito. P. É um dever.213 – O CÉU E O INFERNO P. Orem por ela. por isso mesmo. Monod . culposa. e a do corpo. não é o Deus dos mortos. também lhes impõem voltar atrás. mas também sem méritos. Fiquem bem certos de que não basta abster-se de faltas: é preciso praticar as virtudes que lhes são opostas. ela fez a infelicidade do marido. tanto mais durará para vocês a ansiedade de espera. já pelo abandono em que os deixou. comprometendo pela sua incúria e desleixo o futuro dos próprios filhos. para que dê produtivo impulso ao instrumento que deve auxiliá-la no cumprimento de sua missão. porque vazio também estava o seu coração. tendo em mente que essa paz a que esperam não será concedida senão pelo trabalho. sem o qual a vida se torna nula. se lhes fazem estacar na senda do mal. isto é. cultivem a inteligência. Cansa. isto com zelo. e Deus. da penúltima. logo. entregues a empregados. quanto mais tardarem este. mas não se sente com forças para tentar o mínimo esforço. mas dos vivos. preferiu abandonar-se a ela. despreza o seu. que ela nem sequer se dava ao trabalho de escolher. Preguiçosa e egoísta por gosto. Mas por quê? R. já por seu exemplo. cumpram todos os deveres sem exceção. meditem e se convençam de que eles. o corpo não é mais que máquina submetida à inteligência: então. impondo esse papel aos outros. Assim. O mal é o contrário do bem. Todo aquele que desempenha conscientemente o papel mais ingrato e vil da sua sociedade. Ângela era uma dessas criaturas sem iniciativa. quis experimentar a vida doméstica. bem como da situação dos Espíritos condenados à expiação das próprias faltas. Sem faltas graves. Não lhe concedam tréguas nem repouso. como Espírito votado à paz eterna.

2. Uma vida sem proveito. deixa ao Espírito que a encarnou o mesmo que ao papel o fogo pode deixar quando o consome – fagulhas. Estou farto de vagar sem objetivo. Nada de bom. não poderei explicar. até que o cansaço. sem que fosse condenado a sofrer? R. 5. São coisas sutilíssimas para sua inteligência material. Faz cento e oitenta anos mais ou menos. P. momento no qual a sua menor vontade vai encontrar apoio e bons conselhos e secundar-lhes o esforço e a perseverança. Não. É que eu estava votado ao tédio. não podem libertar-se de tal contingência desde que desejem isso? R. Sofrem as consequências da vida que levaram.214 – Allan Kardec UM ESPÍRITO ABORRECIDO (Bordéus. se quiserem. assim também não encontram entre si auxílio algum. tudo forma categoria. Os Espíritos como você. P. Então. 1.. Mas isso não forma categoria. Que fez na Terra? R. Então. nesse estado permanecem. 4. Qual a tua posição entre os Espíritos? R. Essas fagulhas são a lembrança dos laços terrestres que vinculam o Espírito. desejando o progresso. é dor. e só então. R. como foram inúteis. nem sempre. Qual poderia ter sido a causa desse aborrecimento de que acusa a ti mesmo? R. Está há muito em tal situação? R. Entregues a si mesmos. reclamando preces. a causa do seu nascimento. decorrente de tal neutralidade. que foram tomados de tédio. ele tem essência purificada.. Consequências da existência. Entre nós. da destruição do papel. que lembram às cinzas ainda compactas a sua proveniência. . Procurando explicar-me essas coisas. Faltando-me termos de comparação. R. porque o tédio lhes paralisa a vontade. talvez comece a beneficiar a si mesmo.. Que te leva a pedir preces? R. Tudo o que não é alegria. as consequências vieram refletir-se neste mundo.. Estou entre os entediados. Cada sensação encontra suas semelhantes. até que este disperse as cinzas do seu corpo. extinguindo-se. e. 1862) Este Espírito apresenta-se espontaneamente ao médium. ou. P. 3. P. o conhecimento de si mesmo. que entre nós é um sofrimento. ou suas simpatias que se reúnem. desprovidos de iniciativa. os agite em sentido contrário. O tédio é filho da inação. por não ter eu sabido utilizar o longo tempo de encarnação. foi forçado à erraticidade contra a vontade? R. P. Por que permaneceu tanto tempo estacionário.

a nulidade e a inação provêm da preguiça. obrigando-nos a prestar o nosso auxílio para que possa dar resposta às tuas perguntas. ..215 – O CÉU E O INFERNO 6... que. às vezes mais doloroso que os sofrimentos agudos. A maior parte das vezes são os Espíritos dessa categoria que buscam as vidas terrestres apenas como passatempo e para interromper a monotonia da vida espiritual. Não sei. a terra indiana me pesaria menos sobre o corpo. muito pouco. por se poder prolongar indefinidamente. todas. Ainda perturbada... Este é um ocioso no mundo espiritual. agrada-te repetir as tuas comunicações? R. visto como é digno disso. 2. Respeitamos a tua posição e só insistimos para que nos responda no propósito de nos instruirmos. o que aliás me fatiga. pois com isso me prestarão benefício. Imagina a perspectiva de um tédio sem-fim.. pois eu era rainha e nem todos se curvaram diante de mim. desse tédio que constitui verdadeiro sofrimento. Tenho saudades da vida. Pode me dizer algo da tua existência terrena? R. porém.. Não foram grande coisa. Gostaria que o corpo se levantasse do túmulo. P. Quais as tuas sensações ao deixar o mundo terrestre? R. O guia do médium – O trabalho intelectual é que o fatiga.. 7... Evoquem-me para me obrigarem a vir. Forçam-me a falar. 8. Pode nos dizer por que tão frequentemente varia a tua caligrafia? R. que não no teu país? R. P.. Porque interrogam muito. A RAINHA DE OUDE (Falecida em França. Meu sangue reinará. Oh! Devem compreender que pouco me é permitido dizer.. 3. Sim. porém tão insensível que não percebemos. Que pensa das honras fúnebres tributadas aos teus restos mortais? R. é mãe da ignorância. assim como o foi no planeta. em 1858) 1. Experimento amarga dor da qual a vida me libertaria. Acredita que teu filho recupere de futuro os Estados de seu pai? R.. Nós o trouxemos para que tentasse arrancá-lo dessa apatia. até atingirem a compreensão do verdadeiro progresso. Enquanto espera uma nova encarnação. quando não quero que saibam o que agora sou. Sim. Assim acontece aí chegarem frequentemente sem resoluções definidas para o bem. Asseguro a vocês que eu era rainha. O progresso existe sempre. E as existências anteriores não foram proveitosas para ti? R. Está feliz? R. visto como o tédio. Lamenta ter sido sepultada entre cristãos.. 9. quando tenho necessidade de auxílio. por sua vez. torna-se impossível para eu explicá-las... Deixem-me. por certo. obrigados a recomeçarem sucessivamente. visto serem reflexos umas das outras.

era bastante poderosa para que me ocupar com Deus. Sou sempre a mesma. Muçulmana. Professava a religião muçulmana ou a hindu? R. dá a mesma importância que lhe dava quando encarnada? R. P.. 4. Meu sangue não pode misturar-se com o do povo.. Parece-me que pouco se preocupam com a minha pessoa aqui.. já que não deva existir ninguém mais poderoso do que eu.216 – Allan Kardec P. cercada de honras. porém. P. Que me importa isso?! P. P.. Mas.. P. Acredita que ele houvesse tido uma missão divina? R. A essa reintegração de teu filho. Não queria fazê-lo. Não se pôde fazer constar na respectiva certidão de óbito o lugar do teu nascimento. 9.. P. Sou oriunda do mais nobre dos sangues da Índia. Acaso julgarão que eu me dignaria lhes responder? Que vocês são. Deveria ter sido sempre rainha. Que tenho direito. poderia nos dizer. Que pensa desse uso pelo qual as mulheres muçulmanas se cobrem aos olhos masculinos? R.. Penso que nasci em Delhi. Já que viveu nos esplendores do luxo.. A religião cristã é absurda. mas forçaram-me. No ponto de vista da felicidade humana. Não era filho de rei. Continuo a ser rainha. Por que acudiu tão prontamente ao nosso apelo? R.. 5. quais as diferenças que assinala entre a tua religião e o Cristianismo? R. diz que todos são irmãos. eu.. Qual a tua opinião a respeito de Maomé? R. . elas são servidas por criados ajoelhados? 8. O filho do carpinteiro não é digno de preocupar meus pensamentos. 7. Tem reminiscências de encarnações anteriores a esta que veio de deixar? R. Que poderia importar-me tal liberdade? Acaso. Qual a tua opinião quanto ao Cristo? R. A tua hierarquia terrestre contribuiu para que tivesse outra mais elevada nesse mundo em que se encontra neste momento? R. Que se enviem escravas para me servirem!... Tem inveja da liberdade de que as europeias desfrutam? R. comparando comigo? P. E quem te forçou a vir? R. Penso que as mulheres nasceram para dominar: eu era mulher. agora? R. Eu mesma não sei.. Não sei. 6.. que pensa hoje de tudo isso? R. E contudo eu.

sobretudo os ornamentos? R. P.. começa orando por mim. como praticas com os outros. S. Não te incomode com o que não é da tua conta. dado o gênero da educação feminina nesse país.. que o orgulho nada perdeu das suas ilusões. comece repudiando as más tendências.217 – O CÉU E O INFERNO 10. . mas outros precisam de explicações. e tão infeliz quanto possível.. e não compreendo o juízo que de mim fazem! É verdade que nunca me viram. Sempre rainha. Não sabem quanto ela padece do próprio orgulho.. essa pobre perturbada.. P. Compreendo. que muito devia sofrer pela sua impotência. um Espírito se apresenta espontaneamente ao médium. É que eles me não deixaram. Sou tão bela quanto era. XUMÈNE (Bordéus. Tratam-me com tão pouca cortesia. encontrar nesse Espírito. De homem.. despojado de tudo isso. E pensa que eu tenha deixado de o ser? És pouco respeitoso. P. Qual a impressão que te causa em se achar entre nós? R. 11.. Sofro todos os tormentos do inferno. Certamente. e ideias mais sensatas relativamente a vaidades e grandezas terrenas. como pode sofrer as torturas dele? R. porém. Se eu pudesse evitá-la. Pode ser. o teu Espírito conservar tais aparatos. 12. veríamos com os teus ornatos e joias? R. 1862) Sob este nome. Quem é? Este nome é de homem ou de mulher? R. vimos que o Espírito conservava todos os preconceitos terrestres na plenitude da sua força. Pergunta inútil. P. Tenham compaixão da sua cegueira e tomara que lhe sirva de exemplo. julgávamos. R. Isso pouco me incomoda.. pois sua missão parece ser a de assistir os Espíritos inferiores que o seu guia espiritual lhe conduz. que lutava contra a própria fraqueza e. não diremos filosofia. Longe disso.. O egoísmo não será uma das causas do teu sofrimento? R.. Mas se o inferno não existe.. Sob que forma se apresenta aqui? R. no duplo propósito da sua própria instrução e do progresso deles. Luís – Deixem-na. R. habituado a este gênero de manifestações. finalmente. mas pelo menos uma noção mais aproximada da realidade. e depois veremos. Evocando esta grandeza decaída ao túmulo.. P. não esperávamos respostas de grande alcance. E como se explica o fato de que. Se nos fosse dado te enxergar. Fique sabendo que não é desse modo que se fala a rainhas. Se quiser ser aliviado. P...

estacionam por orgulho. acabando muita vez no suicídio. Isto que te digo pode ser aplicado também aos encarnados e você deve compreender a razão por que o Espiritismo não faz imediatamente homens perfeitos. (Depois da prece) Está satisfeito? R. Vá lá. R. Pela regra. se fazem precisas muitas encarnações para que progridam. Grande é o número dos que. e triunfarás afinal. cedo ou tarde. para se distraírem. não há só perversos e maus. aplicado pela primeira vez.. Mas o remédio. e isto pouco a pouco. Se me chamarem. O guia da médium – Filha. Gostaria de voltar? — R. P. sem fazer o mal. nem por isso. sem motivos sérios. não importa na inutilidade de tais esforços. a prece poderá ter pouco valor. menos ainda me adiantarás. Unamos então os nossos pensamentos com a firme vontade de obter o teu alívio. se torna Intolerável para eles a perspectiva do infinito. Não se arrebenta a pedra com a primeira marretada. inútil a si como ao próximo. não pode curar imediatamente um mal antigo. P. se a prece alivia os sofrimentos. Então deseja se adiantar? R. votam-se ao bem com o mesmo ardor que lhes inspirava o mal. procurando. qualquer ocupação que mais tarde venha transformar-se em necessidade. mesmo entre os adeptos mais crentes. além disso. e. força é que muitos venham revigorar-se no mundo espiritual. Mesmo a contragosto. Aos outros. tivessem de frutificar. terás muito trabalho com este Espírito endurecido. por aborrecimento da vida. tais Espíritos são menos acessíveis de imediata regeneração. acabam por corrigir-se com o tempo. vindo em seguida a fé e a transformação a seu turno.. Talvez. É possível.. mas. P. por mais perversos. isto é. as ideias sugeridas a tais Espíritos fazem-nos refletir. P. Entre os Espíritos endurecidos. Vejamos o essencial. P. perseverança. indiferença ou apatia. visto como estes ao menos dispõem de energia. mas o maior mérito não vem de salvar os não perdidos. Se não me auxiliar com o teu arrependimento. Não há culpados que se não possam regenerar por meio da persuasão e do exemplo. em vez de orar. do que os positivamente maus. uma vez doutrinados.. domados pelo tédio. Coragem. O fato de muitas vezes ser impossível regenerá-los prontamente.218 – Allan Kardec P. Não como desejava. pois tanto mais os aflige a inércia quanto mais se veem privados das compensações mundanas. A crença é o primeiro passo... Não sei.. visto como os Espíritos.. Mas falando. são menos infelizes. São como sementes que. . Estes. R. Referimo-nos a esses indivíduos que levam uma existência ociosa. Por certo. porém eles não têm nem a força nem a vontade para romper com essa situação. R.

isto é... que o martírio não é mais do que a casca de um fruto deleitável. num tal estado de magreza.”. não foi no meio em que se educou. além disso. na idade em que principiou a sofrer. visto que seus parentes pouco o visitavam – tomou por ele certo interesse. foram para Deus e para o caridoso médico que dela se condoeu. e maior quantidade pode fazer-te mal. ao menos quando durmo. e no entanto o enfermo demonstrava uma inteligência notável. Tomara seu eco se faça ouvir na solidão. admirandose do seu critério na apreciação de coisas a seu ver superiores ao discernimento da sua idade. não só o tratava com bondade. lembrando-lhes que as agonias da Terra têm por objetivo as alegrias do céu. Disse o menino: “É que eu sofro tanto. tenha a bondade de me dar ainda uma vez aquelas pílulas ultimamente receitadas”. os sofrimentos atrozes. Os últimos pensamentos desta criança. as pernas se lhe torciam roçando pelo pescoço. Era de uma família israelita. o menino disse-lhe: “Doutor. uma chaga. tocando todos os corações. ao desencarnar. cujo estado era difícil calcular. além de meiguice. Totalmente contorcido. dando coragem e resignação.219 – O CÉU E O INFERNO CAPÍTULO VII EXPIAÇÕES TERRESTRES MARCEL. onde deu a seguinte comunicação (1863): A chamado de vocês. O médico respondeu: “Para quê? Se já te ministrei o suficiente. A moléstia dominava aquele organismo. Onde teria ido essa criança haurir tais sentimentos? Certo. já de oito longos anos. a preexistência da alma e a pluralidade das existências. paciência e resignação edificantes. Assim. Aqui está quanto basta para demonstrar a grandeza dessa alma encerrada num corpo informe. pois não quero incomodar os outros enfermos que aí estão. O médico que cuidava dele – cheio de compaixão pelo pobre um tanto abandonado. admitindo-se que Deus tivesse ao mesmo tempo criado uma alma assim tão nobre e aquele mísero corpo – instrumento dos suplícios? É preciso negar a bondade de Deus. a ninguém incomodo”. Era chamado pelo nº 4. como lia para ele quando as ocupações lhe permitiam. que dificilmente posso orar a Deus para que me dê forças. já pela sua deformidade inata. O MENINO DO Nº 4 Havia num hospital de província um menino de 8 a 10 anos. E achava-lhe um quê de atraente na precocidade intelectual. . que eram pele sobre ossos. O corpo. não possuía sequer o raciocínio. Essas pílulas fazemme dormir e. Decorrido algum tempo. foi o seu Espírito evocado na Sociedade de Paris. já pela doença. ou admitir a anterioridade de causa. Tais sentimentos eram inatos nele: mas então por que se via condenado ao sofrimento. Um dia. vim fazer que a minha voz se estenda para além deste círculo.

sobre a cama da miséria. pelos que trocavam preces por blasfêmias! Sua agonia foi lenta. porém. O Espiritismo será a pedra fundamental. para que lhes compreendam a harmonia piedosa. nessa lei da carne que a todo o custo quer viver. e exclamou: “Eis-me aqui. oferecendo aos assistentes o espetáculo de um corpo disforme a revoltar-se contra a sorte. Os meus sofrimentos de alguns anos apenas. pressentia a recompensa de tantos gemidos abafados. Pelo que afirma. rico e adulado. mas. E fui eu quem as solicitou. pelo médium com o qual habitualmente se comunica na Sociedade. nesta última encarnação. também me compete dizer algo sobre o progresso desta Doutrina. e como a sua alma via já então o fim dos sofrimentos. que outro não era o fim da minha curta passagem pela Terra”. Não seriam uma expiação direta. e a todos diz: “Esperança e coragem”. Por meu arrependimento reconquistei a graça do Senhor. Há. Senhor. para terminar a minha depuração. Senhor. ulceroso e disforme! Nesse asilo de misérias e lágrimas. Eu tive súditos e cortesãos. esse anjo arrebatou nas asas brancas essa alma tão bela a escapar-se de tão horripilante corpo. parece que teus sofrimentos não eram expiação de faltas anteriores. um anjo bom lhe pairava por sobre o leito mortuário e cicatrizava-lhe o coração. Aquele a quem conheceram tão mísero foi belo. amigos. cuja missão consiste na exemplificação de que não há dor insuperável. era fútil e orgulhoso. feliz. reneguei Deus.. Anteriormente fui bem culpado.220 – Allan Kardec Essa voz lhes dirá que. Essa voz lhes fará ouvir lamentações de mistura com preces. porém agora firme: “Todos que me observaram. e então as súplicas se transformarão em gritos de alegria e lágrimas de contentamento. paira no Espaço. os padecentes terão o exemplo e a palavra. Marcel Instruções do guia do médium – Pobrezinho sofredor.. Livre de todas as impurezas da matéria. viram que a criança não murmurava. Adeus. grande apóstolo do Espiritismo. o qual me confiou muitas missões.. suportei-os eu anteriormente por toda uma existência que raiou pela extrema velhice. Santo Agostinho. que bem conheceis. Depois.. e esperava! E como orava também por aqueles que não tinham resignação no sofrimento. aqui muitas pessoas cujas feridas jazem ocultas. certamente os membros convulsos se contorciam. a lhes dizer não mais com essa voz fraca e lastimosa. quantos gemidos exalados! E como era resignado. R. e foram estas as palavras pronunciadas: “Glória a Ti. o Espírito da pobre criança avulta. grande. tornarei algumas vezes. Um dos seus bons Espíritos. vai do fraco ao humilde. bem diferente da de coros de lamentações mescladas com blasfêmias. cedeu-me o seu lugar por esta noite88. e essas terão prazer com a minha presença. . mas expiei cruelmente. desde que tenhamos o auxílio do Onipotente e dos seus bons Espíritos. hauriram nesse exemplo a calma para os seus males e seus corações se tonificaram na suave confiança em Deus.. definhado. 88 Santo Agostinho. ele aí está junto de vocês a lhes falar. mas sua morte não lhe foi terrível. e não de instruir. terei suportado dignamente a provação?” Hoje. deu-me por missão exemplificar o sofrimento. meu Deus!” E a alma subiu ao Todo-Poderoso. Por minha vez. P. mas lhes asseguro que todo sofrimento tem uma causa justa. A minha missão é de consolar. que deve auxiliar em sua missão os que entre vocês encarnam para aprender a sofrer.. apesar da pouca idade! No alémtúmulo. inclusive a última. prejudiquei meu semelhante. estão os enviados do Senhor. primeiro no mundo espiritual e depois na Terra.

Agora. iniciaremos por te assegurar que muito felizes seremos se. trabalhos e dores ao serviço das próprias paixões. que vendia a fim de prover às suas necessidades. impunha uma dízima ao produto da mendicidade. entre vocês. inclina-se sempre. pois. uma vez que queira nos responder. Não me refiro a ti. Em primeiro lugar. venera o bem. Aliviava e curava os enfermos. responder o mais precisamente possível quais as causas determinantes da minha última existência: Faz muitos séculos. vou. as perguntas que da sua parte não são ditadas pela curiosidade. para as pessoas indiferentes à crença. pelo menos. desde o cair da noite. E reclamo previamente os conselhos de vocês para o caso de ser falsa essa minha opinião. Durante 30 anos mendigou com uma salva nas mãos. e no entanto o seu enterro teve o acompanhamento de grande parte da população de Vilna. com satisfação. além de avarento e sensual. Sociedade de Paris. falo. 15 de junho de 1865 Evocação: R. nada houve de extraordinário. vai procurar responder às suas perguntas. e o que lhe sobrava era dos pobres. de príncipe soberano. das viúvas e dos órfãos!” Por essa longa peregrinação Slizgol havia juntado 90. cheguei à plenitude do que mais ambicionava e bem caro paguei. Assim. em confronto com os atuais Estados. Foi só no mundo. sim. Além de abusar do poder para oprimir o fraco. . Ele dedicava a noite ao preparo do rapé. falecido em maio de 1865. Uma carta de Vilna nos deu conhecimento das particularidades mais notáveis da tua existência e da simpatia que tais particularidades nos inspiram nasceu o desejo de nos comunicar convosco. nisso. caro mestre. Agradecemos a tua presença. pudermos conhecer a tua posição espiritual. e governava-os com tirania.221 – O CÉU E O INFERNO SZYMEL SLIZGOL Este não passou de um pobre israelita de Vilna. Visto que disponho de liberdade. e. não guardando para si um só centavo. cujos armazéns fecharam as portas. podem avaliar qual deveria ter sido a sorte dos pobres seres sujeitos ao meu domínio. A pressão moral exercida pela prática do bem. Dotado de caráter impetuoso. pagava o ensino de crianças pobres. porém. nem a vocês outros verdadeiros e sinceros espíritas. como dos seus destinos. Excessivamente feliz. Parece-lhes estranho que as manifestações públicas tomassem tanto vulto. eu subordinava empregos. para homenagear a memória do homem insignificante que soube por seu Espírito caridoso atrair tal simpatia. violento. para nossa orientação. Dentro da esfera do meu poder relativamente limitado. portanto.000 moedas. por mais materializada que esta seja. ou. mas simplesmente formuladas no intuito de ampliar o ensino. Agradecido. enfim. Por toda a cidade era bem conhecida aquela voz que dizia: “Lembre-se dos pobres. concedam ao meu Espírito – consciente da sua verdadeira posição – o favor de lhes transmitir a sua opinião. a despeito da sua tendência para o mal. sobre a Humanidade. que. é tal que. aqui estou. R. prezado médium. eu era absoluto senhor dos meus súditos. e ninguém poderia acumular sem que eu antecipadamente lhe tomasse uma cota avultada. pelo interesse que lhes desperta o Espírito do pobre mendigo. distribuía aos necessitados a comida que lhe davam. vivia eu com o título de rei. ou antes – digamos o próprio termo – como carrasco. nem a ti. com respeito a um pensamento que lhes ocorreu quanto à minha personalidade. bem como as causas que determinaram o gênero de vida que teve na última encarnação. P.

acabei por perder isso a que chamam vida. P. confiando no valor da minha reparação. e mais profundamente sensíveis que os por mim ocasionados. Diga-nos também o que foi que provocou a mudança das tuas ideias. Desencarnei calmamente. Aí tendes. Dizem que as somas por mim esmoladas foram todas destinadas ao alívio dos meus semelhantes: É um fato incontestável. quando ao fim desse tempo compreendi que a razão de ser da reencarnação era inteiramente outra que não a seguida por meus grosseiros sentidos.. parentes e fâmulos necessitados a parte insignificante do que ainda lhes restava. fiquei por longo tempo preso pelo perispírito ao corpo em decomposição. Depois do sofrimento físico. Periodicamente. aprendi a ganhar o pão numa idade em que muitos consideram incapaz o raciocínio. sem orgulho nem ênfase. mais cruel suplício me esperava!.. permitisse a vida de expiação que conhecem.. R. Vivi sozinho. até que Deus. P. ao qual. em relação ao sofrimento e à miséria alheia. Como Espírito. devo acrescentar que muitíssimas vezes. e sou premiado muito mais do que poderiam ter cogitado as minhas secretas aspirações. Obtida a permissão. tanto que minha morte era apontada como exemplo aterrorizador a quantos como eu. Até que esta se completasse. permaneci na erraticidade durante três e meio séculos. constrangido por uma força superior. vi-me corroído pelos vermes – o que muito me torturava! E quando me vi liberto das peias que me prendiam ao instrumento do suplício. Mas não. Hoje sou feliz. Graças à assistência dos bons Espíritos. solicitado pelos que me assistiam. E via física e moralmente todas as dores que a outrem fizera sofrer! Ah! Meus amigos. e quanto tempo durou. Essa pergunta me desperta muitas recordações dolorosas! Quanto sofri. Tenha a bondade de nos dizer em que consistiu a tua expiação no mundo espiritual. sem amor. o que sofri durante três e meio séculos. tendes apenas um fraco exemplo no confronto do acusado com a sua vítima. aumentava o benefício que me permitiam fazer à caridade pública. era eu levado a rever o quadro vivo dos meus crimes. Em uma palavra. No meio de sofrimentos horrorosos. preenchi uma existência de abnegação e caridade. E mais ainda: a fim de que não decrescesse o número de mendigos entre os meus subordinados. no estado espiritual. compadecido da minha dor e tocado pelo meu arrependimento. Nascido de pais pobres e cedo posto em orfanato. Fui colocado em presença de todas as minhas vítimas. persisti na prática do bem. que terrível é a visão constante daqueles a quem fizemos mal! Entre vós. podendo lhes afirmar que todos quantos se elevam serão humilhados. e sou-lhes agradecido por me terem impedido de cair sob o fardo que tomei... proibia aos infelizes darem aos amigos. em resumo. subordinada à . posto que em menor escala. de resignação e de pesares obtive a permissão de suportar materialmente os mesmos sofrimentos que infligira. Algum motivo particular te induziu à escolha da última existência. pela força de preces. Deus concedeu que por meu livre-arbítrio aumentasse os sofrimentos físicos e morais. cruel e injusta. a contar da tua morte até ao momento da atenuação por efeito do arrependimento e das boas resoluções. Querem saber a natureza da minha expiação? Pois aqui está na sua terrível gravidade: Carrasco que fui de todos os bons sentimentos. e desde o princípio suportei as brutalidades que para com outros havia exercido. felicíssimo.222 – Allan Kardec dessas sobras que a piedade humana deixava resvalar para as sacolas da miséria. que me não lamento: apenas recordo!. com sacrifício de privações relativamente imperiosas. sem afeições. que por si resgatou as faltas de outra. como elevados serão todos quantos se humilharem.. Finalmente. fui tudo quanto se pode imaginar de mais cruel. e. o sofrimento moral muito mais longo. tinham o mesmo modo de pensar.

e antes de começar a pedir. se impunham privações fatais. mas em toda parte. me abandonava por completo. o que quiser que te façam”. Não tardou que eu fosse o único dos meus. Quanto aos meus irmãos. não pareciam se aperceber das minhas mágoas. O que isso lhe custara era largamente compensado pelo meu trabalho. lamentando em demasia a perda do seu amor e do seu zelo. Surpreendido pelos princípios gerais de moralidade contidos nessas poucas palavras. a suportar mais de um título deprimente. Penosos me foram os primeiros passos. começou a se manifestar em mim o modo pelo qual havia de passar o resto da vida. continuei a trilhar uma senda que a minha consciência dizia ser boa. comovido pela recordação do que como órfão sofrera. nunca deixei de atender à tarefa que me impusera. ao contrário. e principalmente os judeus mendicantes. a consolação dos meus esforços. viram-me pedir para a viúva e para o órfão. saudável e vigoroso. Meus pais eram pobres. a lembrança dela mais intimamente me gravara na memória. Na Terra. Dois dos meus irmãos deixaram órfãos. no trabalho como no repouso. dominado pela avidez de ganhos. e eu. que acabavam por matá-las. Também jamais a consciência me fez sentir que causas anteriores à existência fossem o móbil do meu proceder. quando souberam que a essa distribuição ainda ajuntava as sobras do meu trabalho. Moço ainda. liberto desse fardo. com que idade começou a tua obra de expiação? Como ocorreu o pensamento de te desobrigar das resoluções previamente tomadas? Ao exercer a caridade tão abnegadamente. Eu bem via o que lhes faltava: era a mãe. Não escolhi por mim só. A perda dela me causou tanto profundo pesar. perseguia-me a saudade de minha mãe. deixando ao mundo pobres órfãos abandonados e votados aos tormentos que eu mesmo suportara. Mais tarde. Foi outro judeu – movido por sentimento mais egoístico do que caritativo – quem me recolheu em sua casa e me ensinou a trabalhar. pois a morte em breve. adquiri certo conceito que não deixava de me ser grato. à medida que avançava em anos. P. ultrapassando muitas vezes às minhas forças. enquanto meu pai. e nessa idade.223 – O CÉU E O INFERNO religião israelita? R. sem poderem trabalhar para si e seus filhinhos. Durante os 60 e alguns anos dessa peregrinação terrena. A Deus não agradava que eu visse o resultado. quis preservar os pobrezinhos de uma juventude igual à minha. trabalhei por minha conta. Resolvi então pedir para as viúvas infelizes que. porém. Então. aliás. sei que o mal só acarreta o mal. Como meu trabalho não produzia o suficiente para sustentá-los. Um dia somente. Vou terminar esta longa comunicação. dentro de meses. dizendo: Obrigado! Sou imperfeito ainda. Nesse tempo eu contava 30 anos. e de novo. como já o fiz. eu fui privado da afeição e carinhos de minha mãe. todos mais velhos do que eu. mas ouvi o conselho dos meus guias. ouvi estas palavras: “Não faça a ninguém o que não quiser que te façam”. muitas vezes parecia-me ouvi-las acrescidas com estas outras: “Mas faça. visto como em certos países a maioria dos encarnados menosprezam os judeus. comecei a pedir esmola. porém inteligentes e avarentos. Szymel Slizgol . quando se certificaram de que eu realmente distribuía pelos pobres o que recebia. não para mim. e. levou toda a minha família. me dedicarei ao bem para alcançar a felicidade. e assim foi que também os pobrezinhos me deixaram para sempre. mas para outros. teria a intuição das causas que a isso te predispunham? R. então. A religião de Israel era uma pequena humilhação a mais na minha prova. Tendo como apoios a lembrança de minha mãe e dos meus próprios sofrimentos. contudo.

Transportada para casa. Verá o serviço que esse Espírito poderá te prestar. Ela é feliz e inteiramente devotada aos que se lhe mostraram compassivos. Evocação: – Boa Julienne.. Você é um dos seus bons amigos. quando não sejam pelo próprio beneficiado. Seja feita a tua vontade. Quando implorar permissão a Deus para que os bons Espíritos te transmitam fluidos benéficos. Não te preocupe jamais com a recompensa. Eis aí o que te pode explicar a sensação que teve no dia mesmo da passagem de Julienne-Marie. Agora. sem que saiba. a ele simpáticos. É preciso ter fé antes de tudo. uma palavra a meu respeito. inspirado por absoluto desinteresse. Lembre-se deste ditado e ficará admirado dos seus resultados. no estado em que estavam. Senhor. que lhe deram a seguinte comunicação: Poderá evocar e com isso lhe dará prazer. R. procura inspirar aos teus doentes uma fé sincera. ela estará a te auxiliar na prática do bem. Logo no dia do seu enterro. só com remédios nada teriam conseguido..” Tem feito bem em não desdenhar os humildes. vêm dar o testemunho de sua gratidão. porque assim alcançará sempre o que desejar.224 – Allan Kardec JULIENNE-MARIE. Tenham piedade dele. Os dois doentes que curou são a prova do que te afirmo. e. confirmativa do que acima te disse: O Espiritismo te explica a minha linguagem de Espírito. sem que aliás me seja preciso . Um dia caiu num poço. Ao ter ciência do trespasse de Julienne-Marie. Nem outra coisa resulta de dizer: “Deus Todo-Poderoso.. Tenha confiança em Deus. isso não impede que me lembre muitas vezes de ti. serão pelos que por ele se interessam. É só nestas condições que a prece pode tornar-se valiosa. veio-lhe ao pensamento a visita possível do seu Espírito. Deus sabe recompensar justamente a quem se dedique ao alívio dos seus irmãos. do qual foi tirada por um conterrâneo. vivendo da caridade pública. vítima desse acidente. Pai de bondade e misericórdia infinita. não sem que pedisse previamente o conselho dos seus protetores. perto de Nozai (Loire-Inferior). é quimera. embora se torne desnecessário lhe prestar o benefício que tem em mente. sem Ti. aí desencarnou pouco tempo depois. Cedo ou tarde os serviços são recompensados. tudo é ilusão. havia uma pobre mulher de nome Julienne-Marie. ela quase que te não deixa e contigo se comunica muitas vezes. porque. e nenhum serviço deixa jamais de ser recompensado. outros Espíritos. se não sentir um estremecimento involuntário. enferma. antes e depois da morte. pois de outro modo nada se conseguirá. A conselho de um amigo na Sociedade de Paris – a quem tinha informado da ocorrência – fez a evocação com o objetivo de ser útil ao Espírito. a voz daquele que sofreu resignadamente as misérias desse mundo. é que a tua prece não foi bastante fervorosa para ser ouvida. Lembre-se do que disse Jesus: “Aquele que se humilhar será exaltado”. é sempre ouvida.. eu nada posso fazer. A. bem como de não te esquecer nas minhas preces. A MENDIGA No município de Villate. que habitualmente a socorria. sei que está feliz e é tudo quanto desejava saber. sem que procurasse se explicar a causa desse fenômeno. Era voz geral que Julienne teria tentado se suicidar. A não ser assim. porque ela será sempre superior ao que pode esperar. desde que lhe peça assistência com o intuito de ser útil ao próximo. Se acaso o Espírito do beneficiado não tiver ainda reconhecido a sua nova situação. a pessoa que lhe acudiu – e que era espírita e médium – sentiu como que um leve contato de pessoa que estivesse próxima. porém. restitui-lhe a saúde. pois.. permiti que os bons Espíritos me ajudem na cura de. Agora. velha.

a fim de evitar o retorno à Terra. Assim. A situação em que me conheceu na Terra te fará compreender e julgar as precedentes encarnações.. deu-lhes um fim. Hoje recebo o prêmio e dou graças a Deus. fazendo-nos esquecer. as faltas do passado. passei pela pena de talião. Agradeça ao Senhor o ato de permitir que os bons Espíritos te orientem. ainda assim. pela declividade do terreno. como a princípio julgaram. que suaviza o amargo das provações. pressentindo uma vida melhor. enferma. quando a Deus enviara da Terra a minha última prece. fazendo-me a mais horrenda mendiga deste país. A mendiga velhinha. Obrigada a A. Julienne-Marie . Jamais o esquecerei. de que estarei ao teu lado sempre que de mim precisares para aliviar os que sofrem. como que para certificar-me da bondade de Deus. reservados para a hipótese de ficar chumbada no leito. De outra forma. Capacita-os de quanto é vergonhosa a repulsa para com os infelizes. os miseráveis. Sob o ponto de vista social. porque também amei e considero-me feliz pelo encontro dos que me precederam. da qual não mais tornaria ao mundo do exílio e da calamidade. pois. outros tantos auxiliares que atenuam o peso. ao mesmo tempo em que nos põe sobre o caminho almas caridosas. previu a superioridade das minhas antecedentes encarnações. Condenada a uma existência miserável. que como eu. Tornei-me útil na medida das minhas forças. Persevere você também. evitando sempre prejudicar os meus semelhantes. julgo inútil te falar da minha existência anterior. Também foi sem queixas que suportei a provação. coisas cuja explicação hoje seria extemporânea. Deus.225 – O CÉU E O INFERNO entrar em detalhes a tal respeito. recomendando-lhe que procure progredir em sua divina crença. e sou feliz por ter cumprido a minha missão sem vacilações. se voltei à Terra com a prova da pobreza. Fique certo somente da minha dedicação. julgando suficiente a expiação e a prova. Desencarnei subitamente à borda do poço. nas dolorosas posições sociais que se coloquem tão baixo a ponto de ser considerado resto da sociedade. Já que ele tem por missão regenerar as almas transviadas. o Espírito Julienne ditou a mensagem seguinte: Caro presidente: obrigada por querer me admitir ao seu centro. que fique bem certo do meu auxílio. esse bom amigo que me possibilitou a expressão do reconhecimento. Agradeço-te as boas preces e o serviço que me prestaste. inválida. que minha alma não se esquece das benéficas influências de um coração bondoso. porque não me suicidei. libertou-me da vida terrestre sem sofrimentos. resignadamente. mendiguei em toda a minha vida. entrevada. a fim de animar o pobre nas suas mágoas.. Um dia nos tornaremos a ver e muitas coisas te serão explicadas. quando encarnados. em expiação de faltas. meu corpo resvalou naturalmente. Não acumulei dinheiro. Não sofri no meu desencarne. ao nosso Divino Mestre. serás recompensado. E eu posso retribuir-lhe cem vezes mais o que por mim fez. Sem a sua mediunidade eu não lhe poderia provar. instruindo-o na senda que percorre. mas. Que ventura a desse dia em que a nossa alma rejuvenescida pode alcançar a vida espiritual para aí rever os seres amados! Sim. e na velhice as singelas economias não passavam de uma centena de francos. agradecida. nem por todos fui repelida: e esse era todo o meu temor. Julienne-Marie Evocado a 10 de junho de 1864.. qual o seu. foi para punir-me do vão orgulho com o qual repelia os pobres. na Sociedade de Paris. o fardo das nossas culpas anteriores. e deter o rico em seu orgulho. servindo-se do meu exemplo. Depois. nem sempre isentas de manchas.

procurando vender pelas propriedades e castelos. pois o Espiritismo caminha a passos largos. Procura sempre ser caridoso na medida de tuas forças. felizes os aflitos. venha se comunicar comigo. nelas encontrará condensados todos os grandes princípios do Espiritismo. todavia. Siga. cada qual tem a sua missão. Ah! Os orgulhosos! Julgam-se fortes pensando poder aniquilar-vos. bons amigos. como confessei ao bom presidente da Sociedade-máter. cuja distinção fazia contraste com a miserabilidade dos trapos. a fim de que me adiante em nossa santa Doutrina. mas. Max apareceu em sonho à filha do proprietário de um castelo onde certa vez havia se hospedado. que acabarão por vir auxiliar a coroação da obra.. porque aquele que lhes parece pequeno neste mundo.226 – Allan Kardec Transmitida a A. Quem se prestar a meditar sobre estas três comunicações. Não tenho necessidade. tranquilizem-se e não temam enfrentá-los. porque são menos invencíveis do que porventura possam supor. MAX. e as crianças o chamavam somente pelo título – circunstância esta que o fazia rir sem agastamento. Julienne-Marie Aqui está um fato repleto de ensinamentos.. te direi que sigas a voz da consciência. numa vila da Baviera. Esse dia vem menos longe do que supões. de Paris.. É a aplicação destas máximas evangélicas: “Os grandes serão rebaixados e os pequenos serão exaltados: felizes os humildes. O hábito o popularizou assim. que um dia há de congregar a todos. Por não possuir família. pode ser bem maior do que julgais”. desde que a consultes sinceramente. que os teus esforços serão coroados por outros tantos êxitos. Que vos importa o que de vocês possam dizer? Coloquem-se acima da crítica irrisória. pois. Lembre-se da recomendação que vou fazer e não se afaste dela jamais. Dentre eles. certa de que me esforçarei por aproveitar os teus ensinamentos. R. Muitos anos depois da morte. por conseguinte. a qual jamais te enganará. fervorosos adeptos. ninguém sabia sua origem. esta mulher radiante vem proteger aqueles mesmos que a desprezaram sob os andrajos da miséria. ele por sua vez obteve a que se segue. o Espírito manifesta a sua superioridade pela linguagem. Esperem. conhecido por pai Max. porque serão consolados. Deram-lhe o apelido de conde Max. porém. esta comunicação. siga. apesar de todos os obstáculos que se lhe antepõem. almanaques e outras miudezas. sem temores. morreu um velho quase centenário. Não te iludas com as missões a cumprir. a qual recairá sobre os próprios adversários do Espiritismo. há muitos receosos de que a verdade lhes venha deslumbrar os olhos. compreenda a caridade tal como deve ser praticada em todos os atos da vida. uma vez que é teu desejo me auxiliar com os teus conselhos. Havia cerca de meio século que se invalidou para ganhar a vida sem outro recurso além da mendigagem. Talvez tivesse vindo da sua fisionomia. de aconselhar-te uma coisa da qual você mesmo pode ser o juiz. pequenos e grandes.. das suas maneiras. em consequência das precedentes existências. disse ele: . eu fazia jus a tal punição. Nessa aparição. igual anjo bondoso e como que modificada. Por que esse título? Ninguém saberia dizê-lo. que ele simulava. porque não possuía domicílio próprio. Boa Julienne. O MENDIGO Em 1850. Penosa foi a minha. não desprezem os pequenos. o que é aliás uma confirmação: P. Logo na primeira comunicação.

é preciso se humilhar perante os mesmos a quem humilhou. A fortuna imensa. de fato. enquanto minha memória era amaldiçoada por todos aqueles para cuja miséria eu contribuí. Disse: “É preciso o arrependimento. Ganhei a vida como pude. Diga e me sujeitarei a tudo. Perdoe-me Senhor. Ainda criança perdi meus pais. no mundo. Alma caridosa. para o deboche. julgava eu que eles ainda se deveriam ter por honrados em satisfazerme os caprichos. e fiquei só. era um novo fantasma ameaçador ou sarcástico que se erguia diante de mim. opresso. grande Deus? – repliquei. exausto pelos excessos. pouco a pouco mais benévolos.. mas a verdade é que sobre o meu túmulo nenhuma lágrima se derramou. desamparado. um grande ensinamento: Há cerca de século e meio era eu um dos ricos e poderosos senhores desta região. por um copo d’água para saciar a sede ardente que me devorava! E ntretanto eu nada mais possuía. para as orgias. ministrando. mas sempre honestamente. por morte de cada uma das vítimas. Isso foi para mim como que uma nova vida. Oh! Então.. que eram a minha única preocupação na vida. Depois. qual viajante que não vê o fim da jornada. quanto eu daria por um instante de repouso. mal chegava para o jogo. uma só que fosse. enquanto eu agradecia a Deus com todas as forças de minha alma.. faça-me servo dos meus servos”. Mas aos 40 anos fiquei totalmente paralítico. ao mesmo tempo e a todos. e cujos semblantes. o desespero deu lugar à esperança. porque pequei. além de só me servir aos prazeres. sem que eu pudesse encontrar um vão esconderijo onde me furtasse às suas vistas! Nem um olhar amigo! Os antigos companheiros de libertinagem – infelizes como eu – fugiram. Ao contrário. e todo o ouro a jorros derramado sobre a Terra não produzia uma só bênção.227 – O CÉU E O INFERNO Agradeço o fato de ter lembrado o pobre Max nas tuas preces. a me perseguir sem tréguas. Ouviu. Surdo às suas queixas – como em regra também o era com todos os infelizes –. que se interessou pelo pobre mendigo. sendo-me preciso daí por diante mendigar por mais de 50 anos. minha filha?! Cansado por fim. de coração. nenhuma prece por mim se fez a Deus. E eu me humilhei e pedi aos meus súditos e servidores que ali estavam diante de mim. Ah! E como é terrível a maldição dos que prejudicamos! Pois essa maldição não deixou de ressoar aos meus ouvidos durante longos anos que me pareceram uma eternidade. pedir a eles que intercedam por ti. porque o Senhor as ouviu. acabaram por desaparecer. porém orgulhoso da minha nobreza. parecendo me dizer com desprezo: “Você não pode mais custear os nossos prazeres”. Alguns anos depois reencarnei numa família de burgueses pobres.” ao que respondi: “Não há aqui outro príncipe senão Deus. Morri cedo. ora como operário. tenha compaixão de mim! Quando terminará esta situação horrível?’ Então uma voz – primeira que ouvi depois de haver deixado a Terra – disse: ”Quando quiseres”’ Que será preciso fazer.. porque já acreditava em Deus. ora como trabalhador de campo. Quanto aos meus subordinados – porque os julgava animais de trabalho destinados a me servir – eram explorados e oprimidos para proverem às minhas gastanças. A voz acrescentou: “Príncipe. o Deus Onipotente que humilha os soberbos. já que querem saber quem sou. exclamei: ‘Meu Deus. tudo parecia sorrir-me. e se tal for da Tua vontade. porque a prece do ofendido que perdoa é sempre agradável ao Senhor ”. experimentado qualquer desgraça real. mas sem ter. Tive funerais suntuosos e os boêmios lamentavam a perda do ricaço. a ponto de passar por um dos seres mais ditosos do mundo. por . vou satisfazer-lhes.

onde o conhecemos.? R. e eis o que nos disse ele: Na penúltima encarnação. voltando da casa dessa família. Para este fato pedimos a atenção de todos quantos pretendem que. sentia de tais visões uma impressão de amargura e tristeza. e porque não o vimos. e com um grito lancinante o fiz voltar rápido. G. Quanto a ti. só.. dando provas de grande afeição. era um moço cuja figura inteligente e fina surpreendia por sua distinção. mas nunca uma só queixa se me escapou dos lábios. sob a condição de servo.. Porque Deus julgou suficiente a prova. e quando a Deus desejar me chamar. Nas propriedades que me haviam pertencido. Por que desencarnou tão jovem? R. Disseram-nos que tinha ido passar alguns dias na sua terra natal. agradeço a Deus a recompensa.. É que eu quis expiar o orgulho. . enquanto o tronco se abatia. sem a perspectiva das penas eternas. apesar dos maus exemplos. e que lá falecera. percebi a iminência do perigo. perguntamos se o haviam despedido. nas quais hoje ninguém acredita? HISTÓRIA DE UM CRIADO Servindo a uma família de alta posição. Durante o sono. ao mesmo tempo em que cuidava bem de servir seus patrões. Eu que o seguia. eu te bendigo por ter orado por mim. Disseram-nos mais: que muito lamentavam a perda de tão excelente moço. provando ao mesmo tempo a dedicação devida ao meu benfeitor. é hoje o Sr. da qual hoje recebo a recompensa. Evitando que fosse esmagado por um grande tronco. e. Mais tarde. Órfão desde criança. mas cujos bens estavam arruinados pelas gastanças de meu pai. Conde. um amigo deste recolheu-me e mandou me educar excelentemente como um filho. veio-nos a ideia de evocar esse rapaz.. agradava-me percorrer esse mesmo castelo onde reinei tiranamente. a quem referimos o fato. Em que circunstâncias salvou a vida de G. ao serviço do qual me conheceu.. aliás muito próprios das pessoas de sua condição. feliz quando por abrigo me davam o teto de uma hospedaria. os homens deixariam de ter um freio às suas paixões. revendo-me no bom da minha antiga fortuna! Ao despertar... minha filha.228 – Allan Kardec essas mesmas terras de que fui o senhor absoluto. possuidor de sentimentos bastante elevados para a sua posição. Meu protetor. na felicidade que hoje desfruto. Em suas maneiras nada havia de ignorante ou pobre... Conservando-me intemerato. estava longe de ostentar quaisquer submissão. Certa vez. eu havia nascido de muito boa família – como se diz na Terra –. dele lembrou-se perfeitamente. P. Cheguei mesmo a salvar sua vida sem que ele o soubesse. na última existência. de então. exaltei a sua glória por me haver sustentado com firmeza e resignação numa tão penosa prova.. educação essa que me suscitou tal ou qual vaidade. Ainda por uma azeda ironia do destino. G. recebia uma migalha de pão. em passeio a cavalo. E acrescentaram que ele lhes era muito dedicado. apelidaram-me Sr. P. Um castigo como este do pai Max será porventura menos produtivo do que essas penas sem fim. Isso constituiu também uma provação da qual saí vitorioso e bastante confortado para me não deixar corromper num meio vicioso.

do que se tivesse a lembrança do passado. pelo ano de 1850 caiu aparentemente morto. uma vez que na última encarnação não te era possível lembrar os conhecimentos adquiridos? R. Por que são hoje tão raros esses exemplos de dedicação? R. P.. eu não passaria de um criado. Na humildade da minha condição ainda me restava um instinto daquele orgulho. Enterrado vivo – A pena de talião Antonio B. ao passo que deste modo apenas tive que combater as influências nocivas da minha nova condição.. os vestígios da decomposição assinalados no corpo contribuíram ainda mais para o engano. Tais conhecimentos. desenvolvendo-me a inteligência. ou. uma circunstância fortuita determinou a . em prejuízo do desinteresse. dada a minha condição anterior. Vocês não compreendem todos os efeitos da simpatia que a anterioridade de relações produz aí no mundo. Como algumas vezes ocorre em casos tais. A morte em absoluto não interrompe essas relações. Com essa lembrança o orgulho de outros tempos se teria exaltado. Sem dúvida. Como pôde aproveitar essa provação quando não tinha noção da sua causa anterior? R.229 – O CÉU E O INFERNO P. eu teria de recomeçar. A abnegação dos criados para com os patrões terá por influência o fato de relações anteriores? R. perturbando-me. dificultando uma provação proveitosa para ambos. Nada melhor do que este exemplo para evidenciar o benefício do esquecimento em relação às existências anteriores. tornando proveitosa a provação que. e por conseguinte. além do que. ao mesmo tempo contribuindo para que progridam por sua dedicação.. o meu Espírito lembrava-se do que havia sido e ao despertar invadia-lhe um desejo intuitivo de resistir às más tendências. seriam desnecessários. tivesse ciência do que havia dito o seu criado. Se G. Sem aquela educação. ANTONIO B. Acusem a feição egoística e orgulhosa deste século. me incutiram predileção instintiva pelas coisas elevadas e repugnância pelos exemplos baixos e desonrosos que tinha à vista. Nos seus momentos de liberdade. a não ser assim. a sua morte foi considerada real. Tive mais mérito lutando assim. que exercera com distinção e integridade muitos cargos públicos na Lombardia.. escravos do reconhecimento e que procuram saldar uma dívida. de um ataque apoplético. Às vezes tais criados são membros da mesma família. por isso ficaram num estado instintivo para que hoje eu os reencontrasse. escritor de estimadíssimo merecimento. P. visto como. fui feliz por tê-lo domado. como no meu caso. e não o conservaria tão bem. À verdadeira fé antepõe-se presentemente a cobiça... ficaria para com ele numa posição embaraçosa. Induzindo os homens à verdade. De que serviu ter recebido uma brilhante educação. agravada ainda pela incredulidade das ideias materialistas. o Espiritismo fará reviver igualmente as virtudes esquecidas. Quinze dias depois do enterro. que podem perpetuar-se por séculos e séculos. Mas tais conhecimentos não me foram de todo inúteis.. P. a ganância do ganho. e ao menos é esse o caso comum.

Podem continuar. Porque deixou a reputação de um homem de bem. ao abrir o caixão. Ficou então patente que o infeliz Antonio B.. Lembra-se dos incidentes da tua morte? R. R. Porém. apesar do calor. A ninguém desejo um fim repleto de semelhantes torturas.”. Que dolorosa provação sentir-me encerrado entre quatro tábuas. deu as seguintes explicações: 1. Assim deveria ser. esperávamos que fosse feliz. o Espírito de Éraste completará esta . vagamente via o futuro. um dos seus guias falará por mim. 9. R.. dente por dente. pois sei que haverão de interceder por mim. direi a vocês que numa existência anterior eu enterrei num fosso uma mulher viva – a minha mulher! A pena de talião devia ser aplicada a mim. mas.. em agosto de 1861. a pedido da família. havia sido enterrado vivo. além disso. a voz não tinha eco! Ah! Que tortura a do infeliz que em vão se esforça para respirar num ambiente limitado! Eu era qual condenado à boca de um forno. Voltarei mais tarde. A pedido de um parente teu nós o evocamos com prazer e seremos felizes se quiser nos responder. 6. Tratava-se de um medalhão por acaso esquecido no caixão. Que vale uma existência diante da eternidade?! Certo. voltando-se de bruços e – coisa horrível – que uma das mãos havia sido comida em parte pelo defunto. 7. Por que interrogar-me sobre esse passado doloroso que só eu e os bons Espíritos enviados do Senhor conhecíamos? Mas. Ah!. Vou fazer o possível para responder. e deveria ter morrido sob a ação do desespero e da fome. Agradecemos essas respostas e pedimos a Deus te perdoe o passado. Porém. não desejo a ninguém tal fim! Oh! Cruel punição de cruel e feroz existência! Não saberia dizer no que então pensava. 8. Não. procurei ser honesto e bom na minha última encarnação. Poderia descrever as tuas sensações daquele momento? R. 3. se não puder. 5. Estas perguntas te incomodavam? Será melhor pararmos? R. e. Olho por olho. Evocado na Sociedade de Paris. Evocação. visto que assim é preciso. visto que a morte aparente se parece com a morte real: eu estava quase sem sangue. Ah! Certamente que me lembro: Mas por que avivar a lembrança do castigo? 4. isto é. Como se pode conciliar esta afirmativa com a tua reputação honesta? R. Sim.. a pedido de parentes. absolutamente bloqueado! Gritar era impossível! Por falta de ar. não se deve culpar a ninguém um acontecimento que me estava predestinado desde que nasci. desejo falar. apenas revendo o passado. em atenção ao mérito da tua última encarnação.. Eu agradeço. mas eu aceitei esse fim cruel previamente. R. Não.. quanto foi o espanto dos assistentes quando. Efetivamente foi enterrado por descuido? R. Que querem? 2. R.230 – Allan Kardec exumação. Disse: “cruel punição de feroz existência. antes de encarnar. notaram que o corpo havia mudado de posição.

Neste caso. e se elevará a um mundo melhor. depois de um período de perturbação e sofrimento moral. uma existência honrosa não exclui as provações da vida. nem por isso deixa de atingir o culpado. às vezes tardia. queridos espíritas. nem por isso cedo ou tarde deixará de tocar para eles a hora da expiação. Efetivamente. Considerando quanto nos séculos passados eram frequentes.. e tampouco nos admiraremos do número considerável de pessoas que caem vitimadas por acidentes isolados ou por catástrofes coletivas. O autoritarismo.231 – O CÉU E O INFERNO minha comunicação. a Humanidade não pode ter interesse algum no sofrimento de um dos seus membros. as dificuldades e dores humanas são sempre as consequências de uma vida anterior – culposa ou mal aproveitada. se de tal modo terminou uma existência correta. não só por estarem mais ou menos ao alcance das nossas vistas. então compreenderemos que muitos dos nossos contemporâneos têm de expungir máculas passadas. o fanatismo. que são escolhidas e aceitas como complemento de expiação – o restante do pagamento de uma dívida saldada antes de receber o preço do progresso realizado. De fato.? Por que morrem estes queimados. devo lhes dizer que desfechos como este de Antonio B. P. Éraste Este fato não fecha um ensinamento terrível? A justiça de Deus. inerente à expiação do hediondo crime. Instruções do guia do médium – (Éraste) Por essa comunicação podem deduzir a relação e dependência imediata das suas existências entre si. doentes mentais. Todavia. que residiu nos arredores de Paris. morreu em abril de 1864. se grandes culpados acabam pacificamente e na abundância de bens terrenos. todas as pequenas misérias da Terra. LETIL Este industrial. deixaram às gerações futuras uma dívida enorme. as tribulações.. de .. paralíticos. Que proveito a Humanidade pode colher de semelhantes punições? R. a punição foi apropriada à falta. como por serem lógicas.. quantos assassínios cometidos nesses tempos de menosprezo pela vida de outrem. visto como. a ignorância e os prejuízos da Idade Média e dos séculos que se seguiram. foi por tê-lo solicitado ele próprio. Muitas desgraças nos parecem imerecidas. respeitem a soberana vontade e não procurem sondar a razão dos decretos da Providência! Deus é justo e só faz o bem. Portanto. mesmo nas classes mais elevadas e esclarecidas. enquanto que aqueles padecem as torturas de longa agonia entre a vida e a morte? Ah! Creiam. As penas não existem para desenvolver a Humanidade. os atos de barbaria que hoje repugnam. com o fito de abreviar a sua erraticidade e atingir mais rápido as esferas superiores. porém para punição dos que erram. onde é esperado pela vítima que há muito lho perdoou. Penas tais são compreensíveis. a fim de suportarem com paciência os sofrimentos morais e físicos. prosseguindo em seu aviso. somente porque apenas vemos o presente. são raros. esmagado o fraco pelos poderosos sem escrúpulo. que ainda não está saldada. porque a razão admite. Cremos. Por que há loucos. ele será perdoado. É altamente moralizador saber que. Aproveitem este exemplo cruel.

. e ele me disse: “Estão todos na Terra. Não pude por mais tempo tolerar o espetáculo. e eu. Incendiando-se uma caldeira de verniz fervente. e. porém pouco refletidamente. prometi a mim mesmo não vacilar no dia do combate. Não murmurei. filho. sem essa consoladora crença. Parecia-me ser um reflexo das minhas dores a produzir em mim vertigens. respondeu-me. comovidíssimo. Eu ainda falava. inocente como se pode ser na sua idade – 12 a 14 anos. Então respirei mais livremente. e. Agonia de 12 horas. ainda teve ânimo de dirigir-se ao seu domicílio. que me fizessem ver fantasmas. porém. em nada lhe abalaram a crença.232 – Allan Kardec modo horroroso. Sim. desde que exalei o último suspiro. O meu bom guia fez-me ver a causa da morte horrível que tive. e me perdoou. as quais. Oh! Quanto sofri! Estou trêmulo. Qual a acusação que lhe pesava? A cumplicidade em uma conspiração contra a política religiosa. a fim de lhes instruir. se não tivesse visto inconsoláveis a esposa e os filhos e tristes os amigos. Logo que me despedi da Terra. não chore. prezado de quantos o conheciam. disse-me ele: “Vem. e assim foi que. vi todos banhados de pranto. Ainda assim. Era um homem honradíssimo. um Espírito consolador que me não deixa. oh. torna a ver o dia”. uma só queixa. seja dito. Daí para cá tenho sofrido menos. e ainda bem que tive força para manter o compromisso. e já o tinha a meu lado.. se . vou confessá-la: Há quase dois séculos. poucos dias após a morte e ainda sob a impressão da cena terrível que o vitimou. e morreu orando a Deus. e procuremos repouso. disse ao meu guia: Ó meu bom anjo. Ó minha bem-amada. seria quase feliz. Deus! Quando. porém a lembrança neste caso vale pela realidade.. fui eu mesmo o juiz e o carrasco. como que sentindo o cheiro nauseante de carnes queimadas. saiamos. desnudos os ossos de uma parte do corpo e da face. mas conservando toda a presença de espírito até ao último momento. não lhe faltaram inúmeras mistificações. a 29 de abril de 1864. porém. predispondo os seus negócios com perfeita lucidez. me consolava pelo coração. mandei queimar uma moça. essa que padeceu. sempre em companhia do anjo. Também acatara com entusiasmo. Quanto sofri!. as ideias espíritas. meu filho. como os carrascos não ousavam tocar o corpo da pobre criança. Mas não. Achando-se na oficina apenas com um rapaz aprendiz. Oh! Como é grande a justiça divina! A ti submetido. A tristeza e o luto haviam invadido aquela habitação antes pacífica. Em toda esta cruel agonia não se lhe ouviu um só gemido. a distância de mais de 200 metros. ia até à ingenuidade. vamos sair daqui. perguntei pela esposa amada.. sobreviveu doze horas a cruciantes sofrimentos. em certas circunstâncias. deu a seguinte comunicação: Profunda tristeza me oprime! Aterrado ainda pela minha trágica morte. teria permanecido no delírio da morte horrível que padeci. Eu procurava o lar. que em breve estas dores se acalmarão. julgando-me livre de medonho pesadelo. Auxilia-me muito a noção do Espiritismo. silencioso e mudamente. Há. Quando se pôde lhe prestar os primeiros socorros.. julgo-me sob os ferros de um carrasco. médium. era o meu anjo de guarda que. Evocado na Sociedade de Paris. e você. está entre nós”. pelo que logo ele compreendeu que estava perdido. onde. de caráter meigo e afetuoso.. Eu era então italiano e juiz inquisidor. foi num abrir e fechar de olhos que o seu corpo se cobriu de matéria candente. e agora vejo que. A confiança no que os Espíritos lhe diziam. Eu não mais sofro na realidade. pelo filho corajoso que por mim se sacrificara. amado. já as carnes dilaceradas caíam aos pedaços. ó meu espírito culpado! Mas ele sofreu sem murmurações e por isso vai receber o perdão de Deus.

mas isso por si só não bastava: era preciso coroar essas resoluções com uma grande expiação. como poderiam fruir um só momento de paz? O esquecimento aí é um benefício. e. Portanto. suportem com paciência e resignação as dores físicas e morais. espírita-cristã e médium pedia sempre a Deus para suavizar-lhe as cruéis provações. a calma. porque se tal lembrança os acompanhasse na Terra. UM SÁBIO AMBICIOSO Uma vez que nunca tivesse provado as cruciantes angústias da miséria. em ensaios feitos sobre o seu organismo e temperamento. a sorte do infeliz que sofre nesse mundo. B. Ciente de que as dores físicas são provas e expiações. A conduta que teve seria o resultado do arrependimento como das boas resoluções previamente tomadas. era necessário que suportasse como homem o suplício a outrem infligido e mais ainda: a resignação que. que deve se constituir em fruto de sua paciência. não mais haveria aí repouso em seus corações. O caráter do Sr. arruinada. dizendo: Deus é justo. o conhecimento do Espiritismo contribuiu grandemente para sustentar-lhe a fé. Uma filha. outros tantos frutos da sua perseverança. Deus me concederá o esquecimento da falta. Letil. Mais alguns dias. que não seja destinada a lavar uma falta. é que eu as mereci. Vivendo 70 anos. que ela me perdoe.233 – O CÉU E O INFERNO apagará da minha memória a lembrança da pobre vítima inocente? Essa lembrança é que me faz sofrer! É preciso. Cada uma das suas dores acolhida como expiatória. Eis o que se dá com tua mãe. na última encarnação. não há um só dos seus excessos que não tenha por consequência uma privação. assim viveu entregue a sofrimentos intoleráveis. amortecidos os membros pelo cansaço. o tornará resistente às dores passageiras da Humanidade. teve uma vida de martírios físicos.. prova quanto o seu Espírito se aperfeiçoou. pelo remorso. não o abandonou nessa terrível contingência. a aspiração da felicidade. a coragem vinda da esperança de um futuro. Imaginem o trabalhador que. de Bordéus. Eis a promessa que acaba de me fazer o meu bom anjo. logo. Foi porém aconselhada pelo seu guia a pedir simplesmente a fortaleza. fazendo acompanhar esse conselho das seguintes instruções: Nessa vida tudo tem sua razão de ser: não há um só dos seus sofrimentos que não corresponda aos sofrimentos causados por vocês. Constantemente assediados pela vergonha. pelos remédios tanto quanto pela doença. a Sra. porque a lembrança aqui é uma tortura. um crime qualquer. não há uma só lágrima a destilar dos olhos. Três vezes envenenada pela terapêutica de uma ciência experimental e duvidosa. corresponde à extinção de uma nódoa do passado. como recompensa à resignação com que suportei as minhas dores. e quanto mais cedo as nódoas . porque tem diante de si a espiga de ouro. prossegue no trabalho. quase que anualmente batia às portas do túmulo. por mais cruéis que elas lhes afigurem. adeptos da nova doutrina. submeteu-se a elas resignado. em consequência de inumerável série de moléstias mais ou menos graves. a contar da idade de 5 meses. que nada podia abrandar.. Assim.. ao demais. felizmente. Oh! Vocês. portanto. a resignação para as suportar. que frequentemente dizem não poder evitar os males pelo desconhecimento do passado! Oh! Irmãos meus! Bendigam antes o Pai. Certo.

e o que se faz preciso é pedir a Deus e aos bons Espíritos que as concedam. à humildade. 1860) Este era um rapaz de 13 anos. grande será a recompensa à resignação. sem visar o alívio dos seus irmãos. a fé. Coragem a todos vocês que sofrem.. foram os alvos de tal conduta. que lhes mostra o céu. muitas comunicações.. . E todas essas experiências eram tentadas sem que o infeliz paciente delas soubesse ou sequer desconfiasse. 2. CHARLES DE SAINT-G. a sua alma pode se desligar a qualquer hora. B. por conseguinte. Luís. Coragem. que. mas ávido de glória e fortuna quis atingir o auge da Ciência. nas quais se refletem as qualidades mais elevadas. Sem ser caridoso. confirmando os seus antecedentes. porque se o castigo foi longo e cruel.. Essa resposta faz-nos supor que a evocação se pode fazer a qualquer hora. e cuja providência constante lhes reconduz para junto d’Aquele a quem tenham ofendido.. enquanto que o filho se submetia a experiências que deveriam explicar uns tantos fenômenos. teria de ser recomeçado. pois. é como se fizessem ao de um desencarnado.) Poderemos evocar o Espírito deste menino? R. Dava-se nele a completa suspensão de desenvolvimento em todo o sistema orgânico. a Sra. Atraiam também para si esses amigos que o Senhor lhes possibilita. visto como as provas dessa última encarnação podem dizer-se suaves relativamente às que já suportou. para aumentar o prestígio e a clientela. por isso mesmo. até que o arrependimento iniciasse a obra de regeneração. A falta de resignação esteriliza o sofrimento. Sim. A satisfação da ganância e do orgulho. que lhes sustentam e amam. amigos que lhes cercam. vivendo num meio em que era fácil o bem-estar. cujas capacidades intelectuais eram nulas a ponto de não reconhecer os próprios pais. R. convém a vocês a coragem e a resignação. mal podendo tomar por si mesmo o alimento. sua mãe era martirizada no leito de sofrimentos.. Depois de haver desencarnado. 1. Então. Tua mãe foi noutros tempos um bom médico. à paciência. sua irmã.. tanto por sua filha como na Sociedade de Paris. visto como presa ao corpo por laços materiais. Sim. tanto mais breve ela será feliz.. Agora termina a reparação. (A S. Invoquem a esperança. aos velhos abreviava os dias e aos homens vigorosos enfraquecia com ensaios tendentes a comprovar a ação de tal ou qual medicamento. e no qual lhe não faltaram dons nem homenagens. ainda encarnado. Foram precisos séculos de provações terríveis para domar esse Espírito ambicioso e cheio de orgulho. onde com aquela poderão penetrar antecipadamente.234 – Allan Kardec todas se extinguirem. veio dar. Porque previa um estudo nas convulsões que investigava. a sede de ouro e de renome. a dedicada amiga dos sofredores. DOENTE MENTAL (Sociedade Espírita de Paris. considerem breve a existência material e pensem nas alegrias eternas. que não espirituais. transgredindo Suas leis. e. E na execução de tal propósito não havia consideração que o detivesse.

11. reentrarei na minha pátria. porém. além de sempre úteis. fico um pouco mais livre para alçar-me ao céu a que sonho. as preces têm a mesma eficácia que para os desencarnados? R. 8. (A S. logo. A de um jovem libertino no reinado de Henrique III. A nulidade moral não importa nulidade do Espírito. Luís. isto é. 5. Quando o corpo adormece e o teu espírito se desprende. apesar da imperfeição dos teus órgãos? R. Experimenta no estado espiritual qualquer sensação dolorosa própria do teu estado corporal? R. Sou um pobre Espírito preso na Terra por um pé. Acaso não a escolheu? R. porém mais tarde Deus lhas levará em conta. 13. A imperfeição dos órgãos é apenas um obstáculo à livre manifestação dos pensamentos. 14. 6. Deus encarcerou-me.. e ela é a causa do meu exílio atual. Como pode tua atual existência servir ao teu adiantamento no estado de nulidade em que se acha? R. 15. agradam a Deus. tem consciência do que se passa. desfruta de todas as suas habilidades. pois foi Deus quem me impôs esta contingência. Não. tem consciência de tua nulidade neste mundo? R. o caso de um homem vigoroso.. Não. Oh! Sim. Nada. mas meu corpo nada vê nem percebe. 9. Quando o infeliz corpo repousa.) Em se tratando de Espírito encarnado. No caso deste Espírito. O que fez durante o tempo entre a última desencarnação e a encarnação atual? R. 10. Esta evocação confirma o que sempre se disse dos deficientes mentais. Presentemente. (Evocação de Charles): R. era eu um Espírito leviano. Poderemos fazer algo de proveitoso por ti? R. Decerto que sinto o cativeiro. Sim. 4. qual um passarinho. elas de nada lhe servem imediatamente. 12. Vejo e ouço. como Espírito. As preces.235 – O CÉU E O INFERNO 3. por isso que é uma punição. apesar dos órgãos. Para mim não há nulidade. Quando acordado. pois. Lembra-se da encarnação anterior? R. que. Disse que a tua condição atual é uma punição. que fosse . mais ano menos ano. 7. Que existência era essa? R. Poderia prever o tempo de duração da existência atual? R. você tem as ideias tão lúcidas como se estivesse em estado normal? R. É.

chegando-se a perguntar se realmente eles pertenciam à espécie humana. são no íntimo julgados pelo seu ser. então se transformará em morada de felicidade. Os atos de fúria. sabem mais que vocês. as provações tendem a se modificar. A loucura também é punição ao abuso das mais elevadas faculdades. Quando têm esses horríveis pesadelos. Esse mutismo moral e físico constitui uma das mais cruéis punições terrenas. almas encarceradas em corpos cujos órgãos impotentes não podem expressar seus pensamentos. durante os quais procuram fugir de um perigo. poderem se manifestar. visto como. Como o progresso é condição expressa da Humanidade. do qual têm a consciência. esses olhos estúpidos veem. que a Ciência hoje executa e a todos proporciona. da sua alma sem os prazeres e gozos do corpo – pode igualmente tornar-se agitada pelos acontecimentos. A loucura não é das leis divinas. Quanto aos deficientes mentais. sentem violento desejo de tornar à outra vida. Instrução de um Espírito sobre os deficientes mentais. nova ainda. como qualquer das existências mais complicadas. sabendo que a vítima não pode se defender. injuriá-los. porque o Espírito não fica estacionário na prisão carnal. acusariam de covardia os que assim procedem. dada na Sociedade de Paris: Os deficientes mentais são os seres castigados pelo mau uso de poderosas capacidades. tende a destruí-la. contudo. houver preenchido todas as fases da sua existência. que veem e ouvem sem. A provação nem por isso é improdutiva. pois nada ocorre sem causa. clamando. Os modernos recursos da higiene. o louco tem duas personalidades: a que delira e a que tem consciência dos seus atos sem poder guiá-los. considerando que o mesmo pode acontecer . pai do médium Houve tempo em que se colocava em dúvida a existência da alma dos deficientes mentais. da sordidez e da miséria. o seu estado é o de letárgicos ou catalépticos. é aumentar o sofrimento deles. a vida contemplativa – isolada. ainda que sejam deficientes. quando tal sucede. zombá-los. almas tão presentes e lúcidas como as nossas a despeito do pesado envoltório que lhes abafa as manifestações. revoltam-se alguns contra o suplício voluntário e. lamentando a escolha feita. muitas vezes escolhidas por Espíritos arrependidos e desejosos de resgatar suas faltas. e quando a Terra. esses cérebros deprimidos entendem – embora nada possam traduzir pela palavra e pelo olhar. pois resultando materialmente da ignorância. É a paralisia do corpo ligada à vida do Espírito. Eis que. ocultando sob a impotência física uma potência moral de que vocês não têm ideia alguma. que deles sofre e se vexa. gritando. Dia virá em que as provações devam ser todas morais. acompanhando a evolução dos séculos. desejo que lhes faz esquecer a resignação do presente e o remorso do passado. apesar da imobilidade do corpo como da língua. fazendo-lhes sentir mais cruamente a sua fraqueza e abjeção. e o que chamam injustiça da sorte é apenas a aplicação da mais alta justiça. dizemos. Pierre Jouty. O modo pelo qual o Espiritismo encara os fatos não é realmente muito moralizador e instrutivo? Considerando que esses corpos cobrem almas que já teriam brilhado na Terra. até mesmo maltratá-los – como muitas vezes ocorre –.236 – Allan Kardec momentaneamente manietado. Fora a mobilidade. o homem pode vencê-la. Assim se explicam quase todas as enfermidades. Se eles pudessem. como se dá com os planetas mais adiantados. a sensação é idêntica à dos deficientes. como de imbecilidade a que se entregam.

Suava pelos campos. pois o juiz não consulta a vontade do réu para enviá-lo ao cárcere. meu Deus. Esse sentimento inato e espontâneo vale por esta prece: “Ob rigado. seus Espíritos compreendem tal cuidado? Considerase mesmo como favor e verdadeira bênção a presença de um desses seres no seio da família. Sabemos que em certos países. recolhia o produto. por que tal favoritismo se nada fizeram de bom? Ficarão no que chamam limbo. e. Respondemos a eles: para que voltem não se pede a sua permissão. uma inundação do Rio Sena arrebatava-lhes. ao contrário. Sendo a caridade desinteressada uma das virtudes mais agradáveis a Deus. o que parece inexplicável. longe de serem objeto de desprezo. tanto mais dignos de atenção quanto. todos os animais! Ainda por outras desgraças sequentes. por se verem repudiados na sociedade. por não entendermos o alcance. casando-se. viúva e sem recursos. isto é. obrigou-os a aceitarem quinhentos francos de suas economias. com essas esferas felizes. Ademais. como poderemos conciliar a deficiência com a justiça e a bondade de Deus? Se a alma não viveu anteriormente. por exemplo. um estado misto que não é feliz nem infeliz? Mas. porém. afogando-os. racionalmente se explica. ADÉLAIDE-MARGUERITE GOSSE Era uma humilde e pobre criada. Há maior mérito na cuidadosa assistência de um filho desgraçado. Aos 11 anos entrou para o serviço de uns horticultores ricos. seja como for. um aflito a consolar”. porque nos ignorantes a superstição se confunde com as ideias mais santas. passou a se dedicar a uma filha que deixaram. Será isso superstição? Talvez. desde que se aperfeiçoem bastante para se elevarem a uma esfera mais elevada. para que saiam deste embaraço. abafou a voz do egoísmo e. os deficientes são cobertos de cuidados especiais. os patrões da moça caíram na miséria! Adélaide se reuniu a eles no infortúnio. continuando a servi-los independentemente de salário. Mas. que os adversários desta doutrina não têm argumentos para combatê-la. nesse caso. Depois da morte dos patrões. Um ano depois.237 – O CÉU E O INFERNO conosco se abusarmos das qualidades que a Providência nos concedeu. do que na de um filho cujas qualidades ofereçam qualquer compensação. além daqueles próprios da repugnância pessoal de terem de voltar à Terra. não teremos assunto para sérias reflexões? Sem admitirmos as reencarnações. Normandia. considerando tudo isso. Qual. por que essa eterna inferioridade? Terão eles a culpa de serem criados deficientes por Deus? Desafiamos a todos quantos negam a reencarnação. de Harfleur. aos parentes se oferece ocasião de exercerem a caridade. o que se parece injustiça se torna admiravelmente justo. só ouvindo o generoso coração. O egoísmo e o orgulho não se compadecem. Tal compaixão não se filiará numa intuição do verdadeiro estado desses infelizes. como explicar a criação de almas tão precárias da parte de um Deus justo e bom? É bem de ver que aqui não se trata da loucura. por nos ter dado um ser fraco a sustentar. Todos têm a possibilidade de não reencarnar. a sua sorte na vida eterna? Serão felizes ao lado dos homens inteligentes e laboriosos? Mas. e daí a necessidade de todos se livrarem dessas enfermidades morais. graduando-se pelo trabalho e pelo próprio esforço. sem a noção do bem e do mal. portanto. sabemos que os nossos opositores. então é que foi criada ao mesmo tempo em que o corpo. da sua terra. Os deficientes nascem e morrem como tais. tanto mais meritória quanto mais pesado lhes seja esse encargo. de nenhuma compensação material. atrai sempre a sua bênção sobre os que a praticam. que se pode prevenir ou curar. reuniu os seus esforços aos do marido para manterem juntos a pobre . Pela reencarnação. e.

O secretário da municipalidade foi à frente do cortejo fúnebre. não duvidamos que Deus te cubra de benefícios. em consequência de um ataque de paralisia. A Sociedade de Rouen não deixou no esquecimento essa mulher digna de tanto respeito e admiração. quando desencarnados. R. e por isso pedi para voltar em condições mesquinhas. pois lhe decretou uma medalha de honra e uma recompensa em dinheiro. oferecendo-lhe uma pequena soma destinada ao seu bem-estar. P. a este testemunho se associaram as lojas maçônicas do Havre. filha de uma família de camponeses do Sul . para nossa edificação. (Sociedade de Paris. P. submeto-me à vontade de Deus. Talvez me julguem muito presunçosa. Em duas encarnações sucessivas ocupei posição muito elevada. sendo rica como era. Humildemente lhes confesso que me consideram como sendo superior a eles. já aqui estavam. Obrigada. no entanto. pois. Ainda que pareça louvável a vocês. Este anjo de bondade foi arrebatado da Terra. de preferência a outros quaisquer? R. tudo que fiz era natural. e se ainda se considera subordinada deles? R. para que possam. instantânea e suavemente. nenhum. porém eu lhes falo com a vivacidade própria do meu caráter. de modo a poder atingir o fim a que me propusera. 27 de dezembro de 1861) Evocação – Ao Deus Onipotente rogamos nos permita a comunicação do Espírito de Marguerite Gosse. Para isso me preparei durante longo tempo. As últimas homenagens prestadas à sua memória foram singelas. Além disso. porém. Vi-os. Poderia nos dizer. CLARA RIVIER Era uma menina dos seus 10 anos. Assim Deus abençoe a todos vocês. nas quais houvesse mesmo de lutar com as privações. Sim. Espero a reencarnação em um mundo onde se não conheçam dores. Obrigatório. Gratos à tua presença. de modo a não lhe ferir a sensibilidade.238 – Allan Kardec mulher. Finalmente. P. Pareceu-me. visto que em qualquer parte conseguiria o meu objetivo. quando cheguei a este mundo. R. a quem continuou a chamar sua patroa! Cerca de meio século durou esta abnegação sublime. Escolhi-os. Tinha qualquer motivo de afeição para com eles. P. Já tornou a ver os antigos patrões? Diga-nos qual a tua posição perante eles. sendo-me fácil a prática do bem. porém decentes. gozar das puras alegrias que me foram concedidas. a administração local também se interessou por ela. e Deus manteve-me a coragem. É que outrora haviam sido benévolos para comigo. que me adiantava lentamente. Deus foi bom e misericordioso para com a sua serva. delicadamente. P. prestando-me serviços. Felizes nos consideramos em poder te testemunhar a nossa admiração pela tua conduta na Terra e esperamos que tanta abnegação tenha recebido a sua recompensa. que fazia sem sacrifício. P. qual a causa da humildade de tua condição terrena? R. para retribuir uma dívida de reconhecimento. Que futuro julga que te aguarda? R.

2. porque virei te visitar. bate na mesa. Eu era médium tanto ao deixar como ao voltar à Terra. 4. Segundo afirma essa criança. ajudada por Espíritos ao serviço da provação reservada aos meus pais. Graças a nós. e tais aparições lhe provocam exclamações de alegria como esta: “Mas vejam como Clara é bonita!” 1. sabia incutir-me uma força de vontade superior aos sofrimentos. d eem-me as mãos”.. Ele. consolava a família nas suas aflições. não sendo você a única autora de tais manifestações? R. animada de tão bons sentimentos para com os pais. porque depois dela me está reservada uma vida feliz ”. que jamais me iludiu. a louça. Porque esse sofrimento físico era dominado por maior potência – a do meu guia. as cortinas. Meus pais haviam de passar por uma provação. manifestadas neste mundo? R. e. Então realmente não é você o autor desses rumores? R. mas. que chorava. que apenas conta 5 anos. É que ela apenas me viu a mim. que a irmãzinha só reconhecesse a ti.. Dizia: “Não temo a morte. essas lutas derivadas da minha presença são um aviso. Bem cedo isso passará. agita as roupas. 7. 3. mas não antes de terem convencido uma multidão de pessoas. de onde vinham suas elevadas ideias sobre a vida futura. Como percebeu do momento decisivo da morte? R. Disse a teu pai que se resignava porque viria visitá-lo. e ainda terei de . Como se explica. Evocação. Daí por diante. Do pouco tempo que me cumpria passar neste planeta e da minha precedente encarnação. continuamente visível ao meu lado.239 – O CÉU E O INFERNO da França. disposta a lhes responder. É que eu tenho indubitavelmente uma provação. viesse perturbá-los depois com arruídos em sua casa? R. sinto que a hora se aproxima. Durante a vida nunca se lhe ouviu um resmungo ou um sinal de impaciência. 6. muitas convicções vão despontar. E. Havia já 4 anos que se achava profundamente enferma. saberei te prevenir”. a irmã lhe aparece frequentemente. Tão jovem quando encarnada. dizia: “Contente-se. E expirou como previu. Por influência do meu anjo da guarda. 5. ao mesmo tempo em que me aliviava. R. quando era iminente o momento fatal. sentia e via o que dizia. então. efetivamente. comentando a vida futura e a felicidade que da mesma deveria decorrer. Desencarnou em setembro de 1862.. um Espírito batedor principiou a visitar a casa dos Rivier: quebra tudo. Aqui estou. Como se explica que uma criança da tua idade não desse um só gemido durante quatro anos de sofrimento? R. mesmo desprovida de instrução. após 4 dias de convulsivas torturas. Sob a forma de Clara ele aparece à irmã mais moça. ou antes uma missão a realizar. Agora dispõe de vista dupla. Nisso sou também auxiliada por outros Espíritos cuja turbulência tem sua razão de ser. chamou por todos os seus e disse-lhes: “Apenas tenho cinco minutos de vida. durante as quais não cessava de orar. predestinada. como razão de ser tem a minha aparição à irmãzinha.. Sou. Acreditam que venha ver meus pais sem objetivo algum? Esses rumores. quando ela chegar. Como se explica que. A seu pai.

sem humilhá-lo. importa que caia dela. mais do que geralmente se pensa. eles já tiveram oportunidade de praticar a caridade. a prática dessa lei conduz ao Espiritismo e.240 – Allan Kardec confortá-la muitas vezes com a minha presença. Socorrer os que sofrem é orar. expiação. era orgulhosa. quem sabe. Faltas anteriores. como a mesma aspiração. não teve nenhuma dificuldade em ensinar o novo. até à vista. Adeus. Tenham resignação. isto é. Apelem para o Deus que os experimenta. . pela prática da caridade. e um dia serão felizes. cubram-se de coragem e perseverança. Procedi em acordo com a vontade divina. Profundo pensamento é também esse que atribui as calamidades coletivas à infração das leis divinas. passam de brilhantes a humílimas condições. pagará a diferença. Deus concedeu livre-arbítrio a todas as almas. como da posição brilhante que ocupara. esforçando-te antes por adquirir a caridade e a bondade”. o avental roça pela toga bordada. Na precedente existência eu abusei da saúde. amor por seus semelhantes. porque Deus castiga os povos tanto quanto os indivíduos. capacidade de progresso. Como previsão do futuro. e que por Deus são enviadas para castigá-los e abrir-lhes os olhos. Aproximem as distâncias pela caridade. aos pais. e o meu guia me auxiliou. logo. Realmente. as guerras e as misérias acabariam por ser eliminadas. de uma a outra existência. antes. Se esta grande lei da consciência fosse geralmente praticada. onde a compreensão da justiça divina se torna a punição dos maus Espíritos. pratiquem a lei do Cristo: Não façam a ninguém o que não querem que lhes façam. preparando-os para a primeira comunhão. ou. visto que são chamados a sofrer ainda.. por conhecê-los ambos de cor. o mundo não assistiria periodicamente a essas grandes penúrias que desonram a civilização dos povos. Gostaria que digamos algo aos teus pais? R. expiando muitas vezes o abuso em relação aos dons que Deus lhes concedeu. estarei sempre perto de vocês. Quando o catecismo foi atualizado. será essa a razão de ter ele tantos e tão acérrimos inimigos? As exortações desta filha. pelo coração. Eis por que Deus me disse: “ Desfrutou demais e sem medida. será humilde. por isso. É uma justiça essa que está ao alcance de todos. Clara “Mais do que geralmente se pensa. e.. caridade. é ser espírita. Ocupava-se constantemente com o ensino do catecismo aos meninos. vaidosa da tua beleza. o avental roça pela toga bordada. Pois bem. Queridos pais. De regresso de longa excursão em tarde invernosa. Amem-se. Devem fazer jus à boa posição em mundo melhor. deem proteção ao pobre em sua casa e o reanimem. A pedido de um médium. mostrando que a Sua bondade é santa e infinita como Ele.”. Qual a razão dos teus sofrimentos mortificantes numa idade tão infantil? R. aos 45 anos. Queridos pais. 8. Faleceu em 1855. portanto. orem. de não orarem só com os lábios e fizeram bem. porque devem fazê-lo também na prática. 9. Esta imagem belíssima é referência aos Espíritos que. serão acaso as de um demônio? FRANÇOISE VERNHES Esta era cega de nascimento e filha de um rendeiro das cercanias de Tolosa.

mas também reconheço ser justa. Naturalmente. outra causa que lhes não seja a própria e natural. pela atração de influências espirituais que.. R. não corro risco algum. Confesso que não. em contínuas relações com os Espíritos. pois. Fazia-se preciso a maior precaução para que as duas mulheres não se despenhassem nos fossos. com amor carreguem a sua cruz. sendo muito confiante na sua ciência. temos a de que esse adiantamento também é intelectual. e para sempre. em geral são hipócritas e. a expiação. Sejam humildes qual o foi o Cristo e. Quê! Pois as pessoas como vocês. É tão cruel a cegueira. Eu orara por tanto tempo para que o Pai celestial se apiedasse de mim. ela é bem cruel. Aqueles que pecam pelos olhos. só porque tem a inteligência encoberta pela expiação. teve dificuldade em adquirir os conhecimentos do catecismo. estão no mau caminho. Evocação em Paris. que o levam ao abuso. A memória deles é igual armário onde se colocam coordenados. muita gente que na Terra passa por ignorante. Essa era também a nossa opinião. que se divertem em encher o seu orgulho em frases tão bombásticas quanto vazias de sentido. pela linguagem. Tudo é assunto sério para os espíritas. Nesta contingência. Com a morte se rasga o véu. visto como tenho aos ombros uma luz que me guia. por eles devem ser punidos. lhes inspire esperança e conforto. Dedicada ao ensino das crianças pobres. há. têm necessidade de explicação sobre tal fato? Era o meu anjo de guarda quem me guiava. Logo. em maio de 1865: P. os cegos têm outros sentidos duplos. era-lhe preciso atravessar a floresta escura por caminhos lamacentos. P. mas desejávamos que a confirmasse.241 – O CÉU E O INFERNO na companhia de uma tia. Pela tua conduta terrena. e que constituía também uma reparação do mau exemplo que lhes dei em anterior existência. esta só é meritória quando suportada com humildade. P. Segue-me. e frequentemente os ignorantes são mais instruídos do que os que desprezam sua ignorância. se assim se pode dizer. Quanto a mim. Todos os que possuírem coração acessível à bajulação. Os meus ensinos lhes seriam porventura mais úteis do que se deixassem levar pelas sutilezas filosóficas de certos Espíritos. pela educação. Gostaria de dizer que luz seria essa a te guiar naquela noite trevosa e só vista por ti? R. portanto. já que acreditava numa intervenção do céu. basta. Françoise Vernhes . para afirmá-lo. não procurem nos inúmeros sofrimentos humanos. os ensinos referentes às suas aptidões e tendências. como ele. agradeço a Deus ter-me concedido que tal qualidade me permitisse preencher a missão que levava. e assim deve suceder quanto a todas as outras qualidades do homem. porém. Assim terminaram a jornada sem acidente. Contudo. olhar ao redor deles. disse: “Não se incomode comigo.. podendo ser suavizada por meio da prece. que serei eu a conduzi-los”. e agora. junto dessas crianças. desconfiem deles. conduzindo a cega a tia que tinha bons olhos.. a tia querendo lhe dar a mão. E porque nada do exterior pode perturbar esta aptidão. Creiam que o orgulho é a pedra fundamental para o conhecimento dos homens. o seu desenvolvimento pode ser notável. Muito me resta por adquirir. P. Mas sabia naquela ocasião que era o teu anjo de guarda quem te conduzia? R. protegendo os réus da penitenciária humana. A observação não é uma das menores habilidades da sua natureza. Sim. tivemos uma prova do teu adiantamento morai. quando o mudaram? R. a fim de subirem ao reino dos céus..

e ainda porque. porque não há castigo sem causa. orem por essa pobre criança. e obteve a seguinte resposta: Desejo muito explicar o caso que agora te preocupa. como graça especial do Senhor.. porém. mas. ver o filho único – alvo de todas as esperanças. Há vezes nas quais parece que um raio de luz divina baixa até ele e o comove. é felicidade ainda o ser punido nesse mundo! Meus amigos. A minha singular . tem de ser punido na sua única afeição mundana. não lhe quero mal por isso: consequência da grande ternura que me votava. Por momentos o seu arrependimento tocou o Onipotente e a morte cessou o golpe sobre o ente que lhe é tão caro. visto que o seu Espírito é mais adiantado do que os que a rodeiam.. crente na justiça divina. cuja juventude vai dificultar os seus últimos momentos. depois de esgotar todos os recursos. Seu caráter se acirrava ante tal espetáculo. Graças às tuas preces. A Deus rogo que lhe conceda luzes antes de morrer. não haver por compensação uma esperança sequer. Sim. visto haver zombado da confiança e dos sentimentos de quantos o rodeiam. o estimulo e animo. e cujas consequências não poderiam deixar de ser fatais. depositário de todas as afeições – falecer a olhos vistos e sem sofrimentos. visto como mereceu a divina compaixão. porque meu pai.. mas pelo interesse que te merece aquela pobre criança. A seguir. suportar essa angústia de todos os momentos. à tua intercessão por esta criança. mais fácil me foi deixar o corpo terrestre. adepto do Espiritismo. apenas cumpria suportar um resto de prova. poder orientar-los a respeito. apesar do sua degeneração orgânica. é um suplício cruel que a fortuna agrava em vez de suavizar. coube-me. A pobre criança. a cortar-lhe o coração. de expiação. Mais tarde ela também lhes auxiliará e consolará. damos de uma e outro as primeiras comunicações imediatas às respectivas desencarnações: Da filha – Obrigado. em breve deverá regressar ao nosso meio. mesmo porque sei que a mim não recorre por curiosidade indiscreta. Oh! Orem. e. Para que o seu desprendimento seja auxiliado. só terá a ganhar com isso. esse homem infeliz. Um amigo da família. maldizia! Entretanto. morreu o pai de Anna Bitter. por longos anos. que para logo o deixa entregue às primitivas ideias. Todos os que acarretam sobre si a justiça do Senhor devem curvar a fronte sem maldições nem revoltas. e o castigo sempre acompanha a revolta. por causas desconhecidas.242 – Allan Kardec ANNA BITTER A perda de um filho adorado é motivo de amargo sofrimento. que por isso se entregou a um íntimo desespero. porque me assiste a missão de lhe suavizar os últimos momentos. meu amigo. cuja sentença de morte foi suspensa por Deus. Em tais condições. Pelo que me diz respeito. que. por um desses caprichos da Natureza que zombam da Ciência e. bem como por ter seguido os conselhos do teu bom guia. sem lhe prever o fim.. logo veio a revolta. julgou dever interrogar a respeito o seu protetor espiritual. a alma terá dificuldade em se desprender. Ah! Esse não orava. Depois de haver expiado o isolamento. e assim é que ela não foi nem muito dolorosa nem muito difícil. Ele tem consigo uma semente de fé. contudo. Esta era a situação do pai de Anna Bitter. isso não passa de clarão passageiro. mas tão sufocada pelos mundanos interesses. dada a impossibilidade de vê-la fruída pelo ente adorado. quanto a mim. Nesse ser a coragem é tão abundante. que só poderá vingar por meio de novas e mais cruéis provações. ainda que indeterminadas. quanto ao seu pai.

P. Hoje sou recompensada. O Pai (um mês depois da morte) – Evocando-te. Profundamente egoísta. chamo por ela inutilmente. Dez anos antes. julgava encontrá-la. que comigo não se preocupam e tampouco me lamentam a sorte. não ver.. Os pais o destinavam à indústria e deram-lhe boa educação. O CEGO Pertencia à classe mediana da sociedade e gozava de modesta abastança. temos por fim nos informarmos da tua situação no mundo dos Espíritos e te ser úteis na medida das nossas forças. em uma palavra. vou procurar minha filha. todos cumprimos satisfeitos as nossas obrigações. mesmo porque a inatividade seria um cruel suplício. Além disso. porém. Não. mas também sem o mínimo pudor sacrificaria os interesses de terceiros em seu proveito pessoal. mas hoje sei muito bem que não mais pertenço a ele. sofria mais do que eu mesma. JOSEPH MAÎTRE. principalmente para quem depois de fruir as capacidades de tais sentidos tiver de suportar essa dupla falta. também aqui ninguém por ele se interessa. possuidor de caráter meigo e . além da sua filha. ao abrigo de quaisquer privações. Que vazio horrível que a sua morte me deixou na Terra! Morrendo.243 – O CÉU E O INFERNO enfermidade não acarretava sofrimentos. graciosamente. Permanece só. Qual a causa de sorte tão cruel? Certo não era a sua última existência. Mas faz uma ideia exata da tua condição? R. Perfeitamente: por algum tempo julguei-me ainda no seu mundo. mas daqueles que creem vagamente. que faz ele em tais ideias? Dirige-se a Deus? Arrepende-se? Não: murmura sempre. Ignoro-o. não ver e não ouvir é duplicado suplício. procuro. Não se interessando por ninguém aí. mas nada! O isolamento sempre e sempre! Ninguém que me dirija uma palavra de consolação e de esperança. não podem perceber outros Espíritos que te rodeiam? R. Assim é que sempre foi bom filho. e como ele se não arrependesse. Mas. o sequestro subsiste no mundo espiritual. eu tinha resignação e ele não. aos 20 anos. Por ninguém se interessava. faz o que fazia na Terra. P. empolgados como são pelos interesses terrenos. isto em 1845. eu era como que instrumento da provação de meu pai. sem se preocuparem de Deus e do futuro. antes me parecendo contentes de se verem livres de mim. até mesmo blasfema. então. Ainda não viu a tua filha? R. Feliz entre os bons Espíritos que me cercam. ele perdia a visão. foi acometido por outra enfermidade que o deixou surdo. abreviou-me a estada na Terra – o que aliás lhe agradeço. Ora. abandonado. já é um suplício.. Por que. sempre moldada numa conduta exemplar. veio finalmente a falecer. Deus o puniu da forma como viram. Deus. de modo que só pelo tato mantinha relações com o mundo dos encarnados. Com perto de 50. mesmo que tudo esteja bem claro em torno de mim. tudo sacrificaria para salvar a filha. por me ver em tal estado. ela está morta. P. O mundo dos Espíritos? Não o vejo. Adeus. O que vejo são homens conhecidos. isolado. ajudem-no com preces e conselhos a arrancar sua cegueira. o qual. O guia do médium – Este homem não era ateu nem materialista. Então. arrebatando-lhe da Terra a consolação única. R. e nisso consiste a sua punição.

me enfraqueceram o organismo. e considerei que se essa potência podia me oprimir.. tornei-me frenético. a vida era para mim uma rotina. sim. sorrindo. Por fim se fez a luz e extremo foi o meu arroubo de alegria ao entrever as claridades celestes. se acaso existisse. flutuavam no Espaço. Ao querer seguir seus passos. Depois de tanto esgotar os recursos da Ciência e reputada impossível a cura. essa vida deveria ser eterna. mas impossível é descrever as angústias e tormentos espirituais experimentados. aliás. entendi de acusar a Providência. pois que eu não pensava no futuro – uma ilusão.244 – Allan Kardec benévolo. mas você só cedeu pelo sofrimento. isento como estava de mendigar o pão. as boas disposições. e compreendi a influência de um poder superior. pouco acreditava. e com ela a minha situação. devia ser injusto e mau. na qual. O vazio me envolvia. Foi então que um deles me disse: “O Deus que você negou teve piedade do teu arrependimento e nos permitiu que te déssemos a luz. bem como os que. À proporção que orava e o fervor aumentava. porém. que sobre mim atuava. Se quer participar desta felicidade aqui fruída. Ideia horrível! Eu não sofria. da minha transferência para o mundo espiritual. Quanto eles teriam durado? Não sei. Pessoa que o conhecera. benévolos. pelo cansaço. Mas. uma vez que. na presunção de que poderia receber instruções úteis. não tardou muito o reconhecimento da minha situação.. em decorrência de excessos de todo o gênero que.. por feliz. e para logo se propuseram saber a causa de tal destino. importa dizer que era a segunda vez que eu expiava a privação da vista. também poderia me aliviar. Notem que isso já era uma punição por abuso dos dons providenciais de que havia sido largamente acumulado. fatigado. pois. radiosos. insuportável aos que comigo privavam. que a descrença exaltava mais. acrescentando que. imerso nas mesmas trevas da vida! Contudo. Então. Mas ao invés de me atribuir a causa original dessa enfermidade. Na minha anterior existência. 1863) Agradeço. sem um queixume. Entretanto. esta prova. por deixar assim penar as criaturas. Desprezei Deus. à feição de tantos outros míseros cegos como eu. Cego e surdo me conheceram. Pela sua conversação. quando por cúmulo de infelicidade se viu privado da audição. arruinando-me a saúde.. que o meu exemplo possa avolumar as provas demais numerosas que os Espíritos lhes dão da justiça de Deus. meus amigos. que despertar foi o meu. Eu digo a vocês: antes de tudo. Além disso. E implorei piedade. distinguindo os Espíritos que me rodeavam. me é permitido orientá-los. em princípios do último século. pude finalmente analisar a mim mesmo. numa palavra. aceitou resignado. mas. em resposta às perguntas que lhe dirigira: (Paris. Influenciado por ideias tais. reneguei e acusei a Divindade. alguém me dizia que a minha situação teria um limite. e. quão longo me pareceu este tempo! Extenuado. ainda assim. cego. Assim. é preciso provar a sinceridade do teu arrependimento. a realidade! Procurei fugir dele. eu deveria me dar ainda por feliz. evocou-lhe o Espírito e obteve a seguinte mensagem. mas em vão. pressentia-se na lucidez do seu Espírito uma inteligência pouco comum. resolvi antecipar a morte: suicidei-me. fiquei cego aos 30 anos. exigente. estou certo de que motivos sérios os animam e eis porque com prazer atendo ao chamado. A vida de além-túmulo tornava-se. terem se lembrado de mim. Era um Espírito. uma força invisível me reteve. Mas é que eu só pensava em mim. na privação de prazeres que me impunham. recomeçando a prova terrestre em . Pode ser que isso não acontecesse independente da suposição de proveito da minha comunicação. Pelo que ouvia dizer.

porém. Quando. O retrospecto ao passado faz que me julgue muito feliz. pelo que dou graças a Deus. pelo que espero recomeçar brevemente por existência que me permita ser útil ao próximo. inefáveis alegrias. prevendo o infinito pelo pensamento. oriunda da soberana justiça. resignado. como expiação que era. prometendo não mais falir. olho para o futuro. eis aí a minha história. porque eu não era mau por índole. vejo a grande distância que ainda me separa da completa felicidade. Assim voltei à Terra nas condições que sabem. e se o meu exemplo puder esclarecer quaisquer dos meus irmãos encarnados. Tendo já expiado. antes aceitei a dupla enfermidade. porque durante a longa noite silenciosa a minha alma mais livremente se alçava ao Eterno. de modo a evitarem a má ação que pratiquei. o mundo espiritual só me proporcionou esplendores. porque me inspirava a fé no futuro e na misericórdia de Deus. sempre concedida aos Espíritos possuídos de boa vontade. revoltara-me contra Deus.245 – O CÉU E O INFERNO condições que te levaram às mesmas faltas. E só assim me adiantarei na boa senda. terminou o exílio. O isolamento dos meus derradeiros anos nada tinha de desesperador. A última encarnação só a mim aproveitou. porque esta nova provação deverá ser mais rude que a outra”. Não me foi difícil compreender a situação. esse isolamento me foi proveitoso. terei por principiado o resgate da minha dívida. razão por que não murmurei. relativamente. Amigos. Reencarnei trazendo a fé íntima. Demais. quando. ainda me faltava reparar. por fim. Aceitei pressuroso. Joseph . e Deus me puniu. reparando por esse meio a inutilidade anterior.

.246 – Allan Kardec .

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