Tica e Filosofia Moral Geral

ÉTICA E FILOSOFIA MORAL

“Se alguma área da filosofia tem a pretensão de ser “prática”, é a filosofia moral. Ela trata de algumas das mais tocantes e controversas questões da vida. Contudo, enquanto os filósofos procuram descobrir como devíamos viver, a filosofia moral é mais bem compreendida como a tentativa de pensar crítica e reflexivamente sobre certo e errado, bom em mau.”

DEFINIÇÃO O termo ética deriva do grego ethos (caráter, modo de ser de uma pessoa). Ética é um conjunto de valores morais e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. A ética serve para que haja um equilíbrio e bom funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado. Neste sentido, a ética, embora não possa ser confundida com as leis, está relacionada com o sentimento de justiça social. A ética é construída por uma sociedade com base nos valores históricos e culturais. Do ponto de vista da Filosofia, a Ética é uma ciência que estuda os valores e princípios morais de uma sociedade e seus grupos. Cada sociedade e cada grupo possuem seus próprios códigos de ética. Num país, por exemplo, sacrificar animais para pesquisa científica pode ser ético. Em outro país, esta atitude pode desrespeitar os princípios éticos estabelecidos. Aproveitando o exemplo, a ética na área de pesquisas biológicas é denominada bioética. Além dos princípios gerais que norteiam o bom funcionamento social, existe também a ética de determinados grupos ou locais específicos. Neste sentido, podemos citar: ética médica, ética de trabalho, ética empresarial, ética educacional, ética nos esportes, ética jornalística, ética na política, etc. Uma pessoa que não segue a ética da sociedade a qual pertence é chamado de antiético, assim como o ato praticado. A ética pode ser interpretada como um termo genérico que designa aquilo que é freqüentemente descrito como a "ciência da moralidade", seu significado derivado do grego, quer dizer 'Casa da Alma', isto é, suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto.
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Em Filosofia, o comportamento ético é aquele que é considerado bom, e, sobre a bondade, os antigos diziam que: o que é bom para a leoa, não pode ser bom à gazela. E, o que é bom à gazela, fatalmente não será bom à leoa. Este é um dilema ético típico. Portanto, de investigação filosófica, e devidas subjetividades típicas em si, ao lado da metafísica e da lógica, não pode ser descrita de forma simplista. Desta forma, o objetivo de uma teoria da ética é determinar o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo. Os filósofos antigos adotaram diversas posições na definição do que é bom, sobre como lidar com as prioridades em conflito dos indivíduos versus o todo, sobre a universalidade dos princípios éticos versus a "ética de situação". Nesta, o que está certo depende das circunstâncias e não de uma qualquer lei geral. E sobre se a bondade é determinada pelos resultados da ação ou pelos meios pelos quais os resultados são alcançados. O homem vive em sociedade, convive com outros homens e, portanto, cabelhe pensar e responder à seguinte pergunta: “Como devo agir perante os outros?”. Trata-se de uma pergunta fácil de ser formulada, mas difícil de ser respondida. Ora, esta é a questão central da Moral e da Ética. Enfim, a ética é julgamento do caráter moral de uma determinada pessoa. Como Doutrina Filosófica, a Ética é essencialmente especulativa e, a não ser quanto ao seu método analítico, jamais será normativa, característica esta, exclusiva do seu objecto de estudo, a Moral. Portanto, a Ética mostra o que era moralmente aceito na Grécia Antiga possibilitando uma comparação com o que é moralmente aceito hoje na Europa, por exemplo, indicando através da comparação, mudanças no comportamento humano e nas regras sociais e suas conseqüências, podendo daí, detectar problemas e/ou indicar caminhos.

DOUTRINA Como Doutrina Filosófica, a Ética é essencialmente especulativa e, a não ser quanto ao seu método analítico, jamais será normativa, característica esta, exclusiva do seu objecto de estudo, a Moral. Portanto, a Ética mostra o que era moralmente aceito na Grécia Antiga possibilitando uma comparação com o que é moralmente aceito hoje na Europa, por exemplo, indicando através da comparação, mudanças no comportamento humano e nas regras sociais e suas conseqüências, podendo daí,
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mau. e como a sociedade vê o papel dos indivíduos. como o feminismo e a guerra. Eugênio Bucci. Alguns exemplos são: • • “Salomão é uma pessoa alta” “As pessoas se deslocam nas ruas” Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. conduzindo a campos da ética muito distintos e não-relacionados. Além de tudo ser Ético é fazer algo que te beneficie e. Inicialmente. etc. é necessário definir uma sentença ética. conduzindo a muitos distintos e não-relacionados campos de ética aplicada. certo. especialmente Aristóteles. não prejudique o "outro". moral. A visão descritiva da ética é moderna e. em seu livro Sobre Ética e Imprensa. errado. VISÃO A ética tem sido aplicada na economia. mais empírica sob a filosofia Grega clássica. Sentenças éticas são frases que usam palavras como bom. no mínimo. Ao contrário da moral. a ética é o indicativo do que é mais justo ou menos injusto diante de possíveis escolhas que afetam terceiros. também conhecido como uma afirmativa normativa. de muitas maneiras.a Débora Barni de Campos Página 3 . que delimita o que é bom e o que é ruim no comportamento dos indivíduos para uma convivência civilizada. uma frase não-ética precisa ser uma sentença que não serve para uma avaliação moral. à sexualidade. incluindo: ética nos negócios e Marxismo. política e ciência política.detectar problemas e/ou indicar caminhos. descreve a ética como um saber escolher entre "o bem" e "o bem" (ou entre "o mal" e o mal"). Aqui vão alguns exemplos: • • • “Salomão é uma boa pessoa” “As pessoas não devem roubar” “A honestidade é uma virtude” Em contraste. imoral. Trata-se de um juízo positivo ou negativo (em termos morais) de alguma coisa. por exemplo. Também tem sido aplicada à estrutura da família. levando em conta o interesse da maioria da sociedade.

com seu devido controle. desenvolve teorias gerais sobre o que é certo e o que é bom que podemos usar em casos práticos. Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof.• • "João é o chefe". Primeiro. mas a ideias sobre a natureza humana e sobre como “valores morais” se inserem em nossa concepção científica do mundo. que determina o pensar sobre certo e errado ou bom e mau. ÉTICA NAS CIÊNCIAS a principal lei ética na robótica é que: • Um robô jamais deve ser projetado para machucar pessoas ou lhes fazer mal na biologia: • Um assunto que é bastante polémico é a clonagem: uma parte dos ativistas considera que. bom e mau – os conceitos que a ética presume. pela ética e bom senso. “além” ou “após”). Podemos tentar entender essas ideias considerando nossas próprias ações. ou examinando suas consequências. e todos que já defenderam ou condenaram alguma ação com base na moral adotaram algum tipo de ética prática. ou considerando o tipo de pessoas que podemos ser ou nos tornar. a clonagem só deve ser usada.a Débora Barni de Campos Página 4 . O aborto ou a eutanásia são certos ou errados? Mentir pode ser admissível? Esse tipo de pensamento é chamado ética prática. A metaética é o estudo das próprias ideias de certo e errado. Podemos pensar sobre moral de três maneiras diferentes. A ideia de que a moral se funda na natureza humana foi usada na ética normativa e na metaética. Como encontrar as respostas para perguntas desse tipo? A ética normativa. A moral diz respeito não só a situações práticas. em animais e plantas somente para estudos biológicos nunca para clonar seres humanos. A terceira maneira de pensar crítica e reflexivamente sobre moral é a metaética (“meta” é uma palavra grega que significa “acima”. podemos indagar se uma ação particular ou tipo de ação é certa ou errada.

caracteriza-se também por ser uma construção histórica. Ao contrário dos sofistas. E é na razão que se devem.A ÉTICA NA HISTÓRIA Concepções filosóficas sobre o bem e o mal A moral é uma construção humana. além de possuir um caráter social. O homem é. fundamentar as normas e costumes morais. podemos dizer que a moral. Mas. Sócrates sustentou que existe um saber universalmente válido. dizemos Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. razão. No limite. Tinham. Assim. que decorre do conhecimento da essência humana. Antiguidade: a ética grega A preocupação com os problemas éticos teve início de uma forma mais sistematizada na época de Sócrates. Vejamos. de forma resumida. como vimos até agora. a partir da qual se pode conceber a fundamentação de uma moral universal. na Antiguidade. na idade Moderna. Kant. Santo Agostinho. dando origem a moralidade e concepções éticas diversas. algumas das concepções éticas significativas que marcaram os grandes períodos históricos. embora os sistemas morais se fundamentem em valores como o bem e a liberdade. Daremos destaque às concepções éticas de Aristóteles. portanto. na Idade Média.a Débora Barni de Campos Página 5 . Por isso. filósofo também conhecido como “o pai da moral”. essencialmente. Vejamos o que disseram os principais filósofos gregos desse período sobre esses problemas: Os sofistas afirmavam que não existem normas e verdades universalmente válidas. poderíamos dizer que vício e virtude são questões atreladas ao tempo e ao lugar social. Com isso queremos ressaltar que os sistemas morais não são fixos nem imutáveis. portanto. E o que é essencial no ser humano? A sua alma racional. como o ser humano é um ser social e a sociedade sofre transformações ao longo da história. o conteúdo do que seja o bem e a liberdade varia historicamente. uma concepção ética relativista ou subjetivista. pois estão relacionados com as transformações histórico-sociais.

que contribui para paz de espírito e o autodomínio. que contribui para a paz de espírito e o autodomínio. mas sem o dualismo corpo-alma platônico. A ética do equilíbrio de Aristóteles Aristóteles também desenvolveu uma reflexão ética racionalista. porque tudo faria parte de um plano superior guiado por uma razão universal que a tudo abrangeria. Minimizando a influência dos fatores exteriores sobre o bem-estar espiritual. o princípio da ética estóica é a aphathéia: atitude de aceitação de tudo que acontece. O homem que age conforme a razão. Argumentava que o corpo. Para tanto. de forma semelhante. Para o quê tendemos? E respondeu: para a felicidade. age corretamente. o homem bom é também o bom cidadão. Assim. Depois no período clássico grego. Necessita. Platão desenvolveu o racionalismo ético iniciado por Sócrates. Segundo Platão. Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. da sociedade. defendeu a necessidade de purificação do mundo material. Epicuro observou: “O essencial para nossa felicidade é nossa condição íntima e dela somos senhores”. tinha como princípio a ataraxia: a atitude de desvio da dor e procura do prazer espiritual. Assim.que a ética socrática é racionalista. mais próxima do homem concreto. muitas vezes desvia o homem de seu caminho para o bem. No plano ético. perguntou-se sobre o fim do último ser humano. para se alcançar a Ideia de Bem. por ser a sede dos desejos e paixões. fora dos contornos da vida política. portanto. da polis. o homem não consegue caminhar em busca da perfeição agindo sozinho. Procurou construir uma ética mais realista. aprofundando a diferença entre corpo e alma. A ética do epicurismo. o estoicismo desenvolveu uma ética baseada na procura da paz interior e no autocontrole individual. Todos nós buscamos a felicidade.a Débora Barni de Campos Página 6 . Minimizando a influência dos fatores exteriores sobre o bem-estar espiritual.

seria uma virtude situada entre a covardia (a deficiência) e a temeridade (o excesso). agir corretamente seria praticar as virtudes. a ética estava vinculada à vida política. já que a primeira trataria do bem-estar individual. o homem que se desenvolve no plano teórico. o homem comum. A felicidade maior para Aristóteles se encontraria na vida teórica. Assim. enquanto a segunda trataria do bem comum. Aristóteles propôs uma ética do meiotermo. onde a virtude consistiria em procurar o ponto de equilíbrio entre o excesso e a deficiência. Idade Média: a ética cristã O que diferencia radicalmente a ética cristã da ética grega são dois pontos: O abandono do racionalismo – a ética cristão abandonou a ideia de que é pela razão que se alcança a perfeição moral e centrou a busca dessa perfeição do amor de Deus e na boa vontade. que promove o que há de mais especificamente humano: a razão. Mas isso seria um privilégio de uma minoria de pessoas. Para Aristóteles. aquele que não pode se dedicar à atividade teórica. o prazer das sensações ou o prazer proporcionado pela riqueza e pelo conforto material. contemplativo. Segundo o filósofo. E o que seria a virtude? Em seu livro Ética a Nicômaco.” A coragem.E o que entende Aristóteles por felicidade? Para ele. Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. a felicidade não se confunde com simples prazer. Assim. tanto em Platão como em Aristóteles. Aristóteles explica: “A virtude moral é um meio-termo entre dois vícios. por exemplo. um dos quais envolve o excesso e outro deficiência. Aristóteles se refere mesmo à ética como sendo um ramo da política. É importante notar que. pode compreender a essência da felicidade e realizá-la de forma consciente. aprenderia a agir corretamente apenas pelo hábito.a Débora Barni de Campos Página 7 . e isso porque a sua natureza é visar à mediania nas paixões e nos atos.

a Débora Barni de Campos Página 8 . reconfigurando-os no interior de uma ética cristã. o conceito de livre-arbítrio esvaziou a noção grega de liberdade como possibilidade de realização plena dos indivíduos em seu meio social. Mas a ética agostiniana destaca-se por outro conceito.. O livre-arbítrio é o meio pelo qual o homem realiza a sua liberdade. Santo Agostinho introduziu a ideia de liberdade com livre-arbítrio. subjetivo. Com a noção de livre-arbítrio. cada indivíduo pode usar bem ou mal esse livre-arbítrio. Por outro lado. É no mau uso do livre-arbítrio que estaria a origem de todo o mal. a ética cristã tratou a moral do ponto de vista estritamente pessoal. individualista. isto é. foi retrabalhada por Agostinho na perspectiva cristã. mas. O afastamento de Deus é que seria o mal. mas cristianizou essa noção quando identificou Deus como fonte dessa felicidade. A ética do livre arbítrio de Santo Agostinho Santo Agostinho (século III) transformou a ideia de purificação da alma da filosofia de Platão na ideia da necessidade de elevação ascética para se compreender os desígnios de Deus. e esta passou a ter um caráter mais pessoal. diminuiu a importância da dimensão social da liberdade. ele acentuou o papel da subjetividade humana nas coisas do mundo. recuperou da ética aristotélica a ideia de felicidade como fim último dos homens. Os filósofos medievais herdaram alguns elementos da tradição filosófica grega. Ao tentar explicar como pode existir o mal se tudo vem de Deus – e Deus é bondade infinita . como uma relação entre cada indivíduo e Deus. por exemplo. Santo Tomás de Aquino (século XIII). de acordo com a concepção cristã. isolando-o de sua condição social e atribuindo à subjetividade uma importância desconhecida até então. presente em Platão. a noção de que cada indivíduo pode escolher livremente entre aproximar-se de Deus ou afastar-se Dele. Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof.A emergência da subjetividade – acentuando a tendência já esboçada na filosofia de estóicos e epicuristas. de uma escolha individual. de acordo com Agostinho. Também a ideia da imortalidade da alma. Em outras palavras.

ele acentua o reconhecimento do dever como uma expressão da racionalidade humana. Com isso. A clareza dessa ideia kantiana é expressa da seguinte forma: “Age apenas segundo uma máxima (um princípio) tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal. é uma determinação imperativa. A concepção mais expressiva do período moderno a respeito da natureza humana é a de uma natureza racional. As normas morais teriam. mas em valores oriundos da compreensão acerca do que seja a natureza humana. e por dever. as normas morais devam ser obedecidas como deveres.a Débora Barni de Campos Página 9 . que deve ser observada sempre. No terreno da reflexão ética. há uma retomada do humanismo. Kant reforça essa ideia ao dizer que só pode ser considerado um ato moral aquele ato praticado de forma autônoma. pois os filósofos passam a defender que a moral deve ser fundamentada não mais em valores religiosos.” Essa exigência é denominada por Kant imperativo categórico. essa orientação fica mais evidente. porque. única fonte legítima da moralidade. isto é.Idade Moderna: a ética antropocêntrica Com o final da Idade Média. a noção kantiana de dever se confunde com a própria noção de liberdade. Embora. marcado pelo Renascimento. determinou como correto. No Iluminismo. no uso de sua liberdade. centrada na autonomia humana. ou seja. Dessa forma. em seu pensamento. àquilo que a razão. a sua origem na razão. conferida pelos próprios indivíduos racionais. em toda e qualquer Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. consciente. esse fato orientou uma nova concepção moral. a sujeição à norma moral é o reconhecimento de sua legalidade. o indivíduo que obedece a uma norma moral atende à liberdade da razão. portanto. que encontra em Kant a sua formulação mais bem-acabada. em Kant. Kant (1724-1804) aponta a razão humana como uma razão legisladora. capaz de elaborar normas universais dos homens. A ética do dever de Kant Em seus textos Crítica da razão prática e Fundamentação da metafísica dos costumes.

Se não puder ser universalizada. porque isso nos é impossível. sem sua crítica ao formalismo de Kant. portanto. descobriremos que. Vejamos como Kant se expressa a esse respeito: “Se prestarmos atenção ao que se passa em nós mesmos sempre que transgredirmos qualquer dever. que possa ser realizada por todos os outros indivíduos sem prejuízo para a humanidade. Um dos primeiros passos da formulação de uma ética do homem concreto foi dado por Hegel. essa ação não será moralmente correta e só poderá ser realizada como exceção. Seu ponto comum é a recusa de uma fundamentação exterior. que são os desejos. e não apenas pela razão. mas não diz nada acerca do seu conteúdo.a Débora Barni de Campos Página 10 . nunca como regra. Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. na realidade. não nos diz o que devemos fazer em cada situação concreta. os medos. Em resumo. Em outras palavras. transcendental para a moralidade. Kant nos dá a forma geral da ação moralmente correta (o imperativo categórico). E por que nós realizamos atos contrários ao dever e. nós tomamos apenas a liberdade de abrir nela uma exceção para nós”. as paixões. ou seja. a ética kantiana é uma ética formal ou formalista. Por isso ele afirma que devemos educar a vontade para alcançar a boa vontade.decisão ou ato moral que venhamos a praticar. não queremos que a nossa máxima se torne lei universal. que seria a vontade guiada unicamente pela razão. centrando no homem concreto a origem dos valores e das normas morais. contrários à razão? Kant dirá que é porque a nossa vontade é também afetada pelas inclinações. o que Kant quer dizer é que a nossa ação deve ser tal que possa ser universalizada. sem se preocupar com a condição individual na qual cada um se encontra diante desse dever. Idade Contemporânea: a ética do homem concreto A reflexão ética na Idade Contemporânea (séculos XIX e XX) se desdobrou em uma série de concepções distintas acerca do que seja moral e sua fundamentação. o contrário dela é que deve universalmente continuar a ser lei. Em outras palavras. porque postula o dever como norma universal.

ex. Utilitarismo: seja feliz O filósofo e pensador político inglês Jeremy Bentham foi chamado de o moderno pai do utilitarismo. mesmo que nossas capacidades “superiores” nos ocasionem também dor. e que o montante total de felicidade produzido por uma ação é a soma total dos prazeres menos a soma total da dor de todos. p. Bentham afirmou também que a felicidade é apenas prazer e ausência de dor.. o primeiro é um prazer “superior”. conduz o maior número de pessoas à felicidade maior. Se todos comparam dois prazeres e concordam que o primeiro é “mais desejável e valioso” que o segundo. pensava Mill. Há três teorias principais em ética normativa (relativa a como as pessoas deveriam se comportar. elas nos dizem o que é moralidade e ajudam a descrever o que é importante na vida moral. e somente se. as ações não são julgadas “em si mesmas”. John Stuart Mill afirmou que a felicidade é mais complexa que Bentham pensava. há tipos de prazer “superiores” a outros e mais importantes para a felicidade humana. mas em termos de suas consequências. mas de qualidade do prazer.O QUE EU DEVO FAZER? A moral apresenta como um guia de como deveríamos viver e agir. Para que um prazer seja mais valioso. sentimento e imaginação aos do corpo e dos sentidos. Mas as pessoas ainda preferem o amor a um delicioso jantar.a Débora Barni de Campos Página 11 . Comentando essa teoria. ex. Critério Superior Desde que nossas necessidades básicas estejam atendidas. não ao que fazem). Não é uma questão de quantidade. as pessoas preferirão os prazeres do pensamento. Felicidade é diferente de contentamento ou satisfação. o prazer de estar amando acarreta a dor do desejo e a dor potencial da ruptura.. Assim. Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. tédio e insatisfações terríveis. as pessoas têm que preferi-lo. Ele defendeu o “princípio da maior felicidade” segundo o qual uma ação é correta se. ainda que ele traga consigo mais dor. uma mentira que maximizasse a felicidade seria moralmente boa. Prazeres e dores não são todos igualmente importantes. P.

o que deixaria muitas pessoas infelizes. Ora.a Débora Barni de Campos Página 12 . Mill acreditava que temos uma boa noção disso com base nas normas morais que herdamos e que se desenvolveram à medida que as pessoas descobriam que ações tendem a gerar felicidade. minha felicidade não conta mais que a de qualquer outra pessoa quando considero o que fazer. As ações que pratico durante minha vida são apenas um meio de gerar a maior Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. que ela maximize a felicidade. Se torturar uma criança produz a maior felicidade. Obviamente. Necessidades Individuais Por fim. Ao que parece. podemos argumentar. a moral não pode se fundamentar inteiramente na promoção da felicidade. Mentir e roubar não o fazem. sim.As pessoas muitas vezes se opõem ao utilitarismo argumentando que não podemos prever as consequências de uma ação para saber se ela maximiza a felicidade ou não. cumprir promessas e ser bondoso. isso é claramente inaceitável. Na sociedade utilitária. Somente as crianças sofrem dor (ninguém mais sabe de suas atividades). a ação seria moralmente certa. Ademais. Mas podemos responder facilmente que uma ação é correta se podemos esperar. O ato é moralmente mau em si. Suponha que um grupo de homens que abusam de crianças busca e tortura apenas crianças abandonadas. sou afetado mais vezes e mais profundamente por minhas ações do que outras pessoas – nada mais. Como há mais felicidade torturando-se a criança do que não. Atos de maldade? Um problema sério do utilitarismo é não excluir nenhum tipo de ação. então é certo torturá-la. Isso não contribui para a justiça. como estamos visando apenas maximizar a felicidade. o utilitarismo não considera a relação especial que temos com nossas ações e nossas vidas. Mas não é o fato de outras pessoas descobrirem que torna a tortura de crianças errada. como a felicidade nem sempre é boa. sua distribuição –quem fica feliz e em que medida. com sensatez.é irrelevante. mas os torturadores obtêm grande felicidade. Utilitaristas podem responder que é muito provável que alguém descubra.

O que importa é a razão real por que a pessoa escolheu agir como o fez. De fato. Segundo a deontologia. mas não tenho que assegurar que promessas sejam cumpridas. Isso é questionável. poderia ter dado o dinheiro para uma obra de caridade. Há os deveres gerais para com outros seres humanos. porque fazê-lo seria violar um dever. isso é diferente de um homicídio acidental ou praticado quando a pessoa tentava se defender de um ataque. Uma pessoa pode matar outra. não matar. pois mais pessoas precisam de comida que eu de música. como ajudar os necessitados. que são sobretudo proibições: não mentir. Se houve intenção de matar. Deveres são em geral compreendidos em termos de ações particulares que devemos praticar ou evitar.. deveríamos nos preocupar mais em cumprir nossos próprios deveres que em promover o bem maior. mas alguns podem ser positivos. Posso ter o dever de cumprir minhas promessas.. Os deontologistas propõem que deveríamos julgar se uma ação é certa ou errada pelas intenções do agente.ex. p.ex. nunca estarei certo ao fazer algo apenas para mim mesmo se tiver mais do que o mínimo necessário para subsistir. Pode ser difçil saber qual foi essa razão. não se torna certa ou errada por suas consequências. como torna a moral exigente demais. A maioria das teorias deontológicas reconhece duas classes de deveres. moralmente falando.. Isso criaria mais felicidade. crêem que a moral é uma questão de dever (a palavra grega deon significa “deve-se”).felicidade global. Mas como haverá sempre pessoas em terrível pobreza. Todos temos deveres quanto à nossa própria conduta. É a própria ação que é certa ou errada. O CUMPRIMENTO DO DEVER Deontologistas são aqueles que podemos considerar como guardiões da ética. todos os deontologistas concordam que há ocasiões em que não deveríamos maximizar o bem. Isso não torna o julgamento moral subjetivo. mas esse é outro problema. Não só ignora a ênfase natural que damos a nosso próprio bem-estar e ao dos que nos são próximos. Cada vez que compro um DVD.a Débora Barni de Campos Página 13 . E há deveres que temos em decorrência de Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. Ações são compreendidas em termos de intenções. p. etc. mas nem todos os homicídios são ações do mesmo tipo.

certamente deveríamos tentar assegurar que houvesse tão poucas mentiras quanto possível. Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. e temos de usar nossa intuição moral (um senso inato das propriedades indefiníveis da bondade) para distingui-los. eu deveria impedir a proliferação de mentiras. Objeções ao dever Muitas vezes os utilitaristas contestam a deontologia alegando que ela é irracional. mesmo que isso me leve a mentir. com ela. P. como o filósofo francês W. não apenas ao homem. para o utilitarismo. Os intuicionistas. Assim. mas não agem moralmente errado). ex. Moralidade e racionalidade são categóricas. A fundação da moral na razão Immanuel Kant afirmava que princípios morais podem ser derivados apenas da razão prática. Ross.a Débora Barni de Campos Página 14 . nosso dever é fazer o que Deus manda. o que podemos descobrir através das Escrituras ou consultando nossa consciência. a visão das ações como meios para um fim. se você é pai tem o dever de sustentar seus filhos. Sendo assim. deve ser porque há algo de mau na mentira. E. Se é meu dever não mentir. pensava ele. E pensamos que a moral se aplica a todos os seres racionais. A razão também é universal. Mas se mentir é mau. Para outros filósofos. O utilitarismo vê todo raciocínio sobre o que fazer em termos de meios para um fim: é racional fazer tudo o que promove um bom fim. Ela não se aplica a seres incapazes. o que é exigido para sermos racionais e morais não muda com o que desejamos.. A deontologia rejeita esta ideia e.nossas relações pessoais ou sociais particulares. afirmam que há vários deveres irredutíveis e distintos. mais daquilo que é bom resulta em algo melhor. Deve ser possível para todos agir sempre moralmente (ainda que seja muito improvável que o façam). a mesma em todos os seres racionais. como cães e gatos (animais podem se comportar mal. podemos explicar as características da moral. D. Ela a considerava universal: um conjunto de regras que é o mesmo para todos. certamente.

não do que gostaríamos de escolher. Sua máxima é algo como: “Roubar algo que quero. furtar algo que não pertença a alguém. Mas se todos nós apoderássemos de tudo que queremos.Máximas morais Como animais racionais. Como você não pode. Kant prescreveu também: “Age de tal modo que sempre trates a humanidade. Se é possível para todos agir moralmente. seja na tua própria pessoa ou na de qualquer outro. segundo Kant. fazemos escolhas com base em “máximas”. Trata-se do que é possível escolher. A capacidade de fazer escolhas livre e racionais dá dignidade aos seres humanos. afirmou Kant. e não também como um fim. mas sempre como também um fim. Tratar a humanidade de alguém como mero meio. furta-o de uma loja. Suponha que você queira dar um presente a um amigo. é tratar a pessoa de um modo que menospreza seu poder de fazer uma escolha Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof.” Isso só pode ser a coisa certa a fazer se todos pudessem fazê-la. Podemos descobrir nossos deveres testando nossas máximas contra o que Kant chamou de imperativo categórico (um imperativo que é uma ordem): “Age somente segundo uma máxima tal que possas querer. mas.” Ao usar a palavra “humanidade”. imoral e irracional. ao mesmo tempo. e deveria ser rejeitado. a versão kantiana das intenções. furtar o presente é errado. Por isso. Seu teste é se poderíamos escolher (“querer”) que nossa máxima fosse uma lei universal. ao mesmso tempo. como não tem meios para isso.” Kant não afirma que uma ação como furtar é errada porque não gostaríamos das consequências se todos a praticassem. nunca simplesmente como um meio. a ideias de “possuir” coisas desapareceria. é logicamente impossível que todos furtem coisas.a Débora Barni de Campos Página 15 . e nossas ações baseiam-se em nossas máximas. ele enfatiza nossa capacidade de determinar racionalmente que fins adotar e perseguir. ver transformada em lei universal. se não posso comprar. nossos princípios pessoais que corporificam nossas razões para fazer algo. uma máxima moralmente permissível seria uma que todos pudessem praticar. como “ter o máximo de diversão possível”. Escolher comportarse de uma maneira que é impossível que todos adotem é.

dizer a verdade expressa sinceridade. sentimos e escolhemos “nos momentos certos. mas também a natureza de nossas relações com outrem e o estado de nossa “alma”. Nosso principal objetivo. não lhe permitindo fazer uma escolha bem fundamentada. Viver envolve. Segunda a teoria da virtude..eudaimonia foi traduzido por “felicidade”. sobretudo. A virtude da sabedoria prática nos ajuda a saber o que é “certo”em cada caso. ex. Uma virtude de caráter é um traço de caráter que nos dispõe a sentir desejos e emoções “bem”. mas a ideia é mais próxima de “florescimento”. com respeito às pessoas certas. ÉTICA DA VIRTUDE Uma pessoa virtuosa é alguém que tem traços de caráter moralmente bons. com referência aos objetos certos. pois então saberemos o que é certo fazer e desejaremos fazê-lo. Coagir alguém ou mentir-lhe. Aristóteles afirma que virtudes são qualidades que nos ajudam a “viver bem”: uma conquista definida pela natureza humana. portanto. P. deveria ser desenvolver as virtudes. e podemos fazer uma análise de suas necessidades e julgar quando serão atendidas. para viver o bem o ser humano deve viver “em conformidade com a razão. com o motivo certa e da maneira certa”. ao modo como reage.” Se sentimos emoções e desejos. e não “mal”. aos tipos de escolhas que faz e ações que pratica. então traços de caráter moralmente bons e é isso que a torna certa. a filosofia moral deveria se ocupar de definir condições similares para o crescimento nas vidas dos seres humanos.a Débora Barni de Campos Página 16 . Virtude e razão Por ser racional. são excelentes exemplos. escolher e agir. ou imoderado se fica bêbado muitas vezes e excessivamente. Podemos afirmar que uma ação é certa se for uma ação que uma pessoa virtuosa praticaria. Temos uma ideia do que é “florescer”para uma planta ou animal. em diferentes circunstâncias. Assim. ela sente e pensa. Seu termo para “viver bem”.racional. e fazemos escolhas “bem”(virtuosamente). alguém é irascível se é propenso a se irritar rapidamente e com frequência. Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. O caráter envolve as propensões de uma pessoa ligada ao que. Uma ação certa expressará.

Essa doutrina do meio-termo não afirma que. pois o que pode ser ensinado é geral. O conhecimento moral só é adquirido através da experiência. A virtude prática não é um conjunto de regras. a teoria da virtude não pretende fornecer um método exato para tomar decisões. Em vez de perguntar “Poderiam todos fazer isto?”. como o utilitarismo sugere. não há uma noção independente de “intermediário”que nos indique com que frequência e em que grau devemos nos zangar. A doutrina do meio-termo não ajuda muito na prática. Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. ou “O que trará as melhores consequências?”. Segundo.?” Se concebemos as ações como expressões de virtude. com pessoas demais etc. a maneira certa” é bem complicado.a Débora Barni de Campos Página 17 . essa abordagem pode ser muito útil. “demais”e “de menos”.. Primeiro “demais”e “de menos”não são quantidades numa única escala.. algumas pessoas podem se zangar demais. podemos fazer uma série de perguntas: “Essa ação seria bondosa/corajosa/leal. por causa de coisas demais. O meio-termo Aristóteles defende a ideia de que uma resposta ou ação virtuosa é intermediária: assim como há um momento certo para se irritar (ou sentir qualquer emoção em particular).Trata-se de conhecimento prático de como viver uma boa vida. Saber o “momento certo. Sugere que concebamos as situações em termos das virtudes. devemos ficar tão zangados quanto a situação exige. o motivo certo. deveríamos ficar apenas moderadamente zangados. quando nos zangamos. A virtude é o estado intermediário entre os dois vícios. mas fornece algum tipo de orientação. Regras e princípios raramente se aplicam de maneira clara a situações reais. a pessoa certa. afirma Aristóteles. Eu preciso ser capaz de compreender minha situação e como agir nela. a compreensão ética não é algo que possa ser ensinado. Outras podem não se zangar o suficiente. o objeto certo. como Kant sugere. No entanto. Mas as circunstâncias sempre diferem e assim. ou em relação a objetos e pessoas suficientes (talvez não percebam que outros estão se aproveitando delas). não particular.

a Débora Barni de Campos Página 18 .. para muitos. não seria possível cometer erros. As crianças fazem com frequência. Assim como podem ser praticadas em dez minutos ou por cobiça. não são nossas ideias que as tornam assim. os filósofos debatem se há verdades morais universais. Segundo. e certo e errado são propriedades de ações. sabemos que há diferenças culturais em crenças morais. o que pode levar alguns a abandonar o realismo moral pelo relativismo. a menos que algumas ideias sobre moralidade sejam melhores que outras? E como isso é possível. dependendo de como o mudo é – das propriedades que uma ação. podemos cometer erros. poucos parecem pensar que. Primeiro. O realismo moral é. a posição de “senso comum” em ética. P. a menos que haja fatos sobre a moralidade? Mais que um sentimento? Por outro lado. isto os torna Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. Declarações como “Assassinato é errado” são expressões de crenças que podem ser verdadeiras ou falsas. ou se a moralidade é simplesmente uma expressão de emoções ou costumes culturais. pessoa ou situação realmente têm. Muitos acreditam que as coisas são realmente certas ou erradas. Na metaética. as pessoas podem ser boas ou más. Se certo e errado na moral não envolvessem fatos. Essas propriedades morais são uma parte real do mundo. a moralidade parece uma exigência feita a partir de “fora”. Nossa experiência da moralidade também sugere o realismo moral. bom e mau – e de sentenças que usam esses conceitos é chamado metaética. Assim como podem ser altas ou velozes.A REALIDADE DA MORALIDADE O estudo de conceitos éticos – certo e errado. muitos acreditam em progresso moral. pelo fato de o assassinato de membros de outras tribos ou a circuncisão feminina serem moralmente permissíveis em algumas sociedades. A moralidade não é determinada pelo que pensamos a seu respeito. as ações podem ser certas ou erradas. ex. precisamos ensinar-lhes o que é certo e errado. Sentimonos responsáveis por um padrão de comportamento que independe do que queremos. O “realismo moral” afirma que bom e mau são propriedades de situações e pessoas. Mas a tolerância da diferenças culturais tende a ser muito limitada. Terceiro. Mas como isso é possível.

Essa comparação é injusta. com suas diferentes práticas éticas.a Débora Barni de Campos Página 19 . nossos desejos universais. necessidades e capacidades de raciocinar. podemos ser levado ao emotivismo. mesmo se nunca tivéssemos descoberto isso. fatos morais sobre boa vida e sobre ações certas estão estreitamente relacionados com a natureza humana. a moralidade desperta fortes emoções e é difícil resolver disputas morais. Mas é mais difícil acreditar que valores “existam” independentemente de nós e de nosso discurso sobre eles.ex. Mas continuam sendo fatos. ou quanto a uma música ser de estilo barroco ou clássico. tentam todas chegar à verdade sobre a ética. Assim. haveria valores? Fatos são parte do mundo. Uma pessoa virtuosa é alguém que tem virtudes: traços de caráter que lhe permitem viver uma boa vida. Mas sabemos que. de que tipo são? Como pode um valor (um “fato”moral) ser algum tipo de fato? Valores relacionam-se com avaliações. tal como cientistas tentam encontrar a verdade sobre Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. Se tendermos a pensar que isso ocorre porque não há fatos morais. a estar enamorado. Podemos nos enganar quanto a alguém estar apaixonado. Se ninguém avaliasse nada. A teoria da virtude propõe uma explicação possível para a relação entre fatos morais e fatos naturais. A MORALIDADE É RELATIVA? Como explicar que a moralidade varie de cultura para cultura? Poderíamos alegar que diferentes culturas. Afirma que julgar um ato como certo depende de ser ele algo que uma pessoa virtuosa faria. Há muitos fatos – relativos p. O que é uma boa vida depende da natureza humana. diferentemente de outras crenças. até mesmo nessas sociedades. e esta é uma questão de fato objetivo. O fato de que dinossauros vagaram pela Terra há milhões de anos seria verdade.certos. ou à música – que “dependem”de seres humanos e de suas atividades (não haveria amor se ninguém amasse). Fatos e Valores Eis a questão: se há fatos sobre certo e errado. porque independem de nossos juízos e são tornados fatos pelo modo como o mundo – nesse caso o mundo humano – é.

Mas há muitos mundos sociais e muitas culturas. Isto não significa que todas as práticas sócias sejam aceitáveis – que nenhum indivíduo ou prática possa ser condenado moralmente. No caso da ciência. não há um único mundo social que possa guiar práticas éticas pra uma concordância geral. o mundo guia nossas investigações. A ciência investiga o mundo físico. ou seja. Por que não? Porque temos uma ideia diferente de como discordâncias científicas podem ser resolvidas. Primeiro. Ou podemos dizer que práticas éticas são apenas parte do modo de vida de uma cultura. duas culturas que discordem sobre uma prática moral estão de fato fazendo afirmações que são “verdadeiras para cada uma delas”.a Débora Barni de Campos Página 20 . P.ex. Segundo relativismo. Isto é o que dirá o relativista.ex. as práticas éticas se desenvolveram para ajudar as pessoas a se orientarem no mundo social. Examinando a história da cultura e o desenvolvimento das práticas áticas. Segundo ele. Assim. segundo algumas culturas as estrelas eram alfinetadas no tecido do céus –mas elas estavam erradas). e ao longo do tempo as pessoas desenvolveram diferentes maneiras de fazer as coisas.. para condenar uma ação ou prática. e confirmamos ou refutamos hipóteses através de experimentos. Mas afirma que. não diferentes princípios éticos. Não podemos julgar uma prática de fora de suas culturas. até chegarmos a certo entendimento sobre como é o mundo. é difícil ver como diferentes culturas poderiam descobrir “a verdade” sobre moralidade e conduta ética para um único mundo ético.o mundo. deveríamos usar recursos da cultura à qual ela pertence. alegam que diferentes práticas éticas refletem diferentes condições ambientais em que as culturas se situam. Dúvidas quanto ao Relativismo Os realistas morais têm três respostas para o relativismo cultural. e o relativismo não o nega. Não tendemos a dizer o mesmo sobre afirmações científicas (p.. As pessoas erram o tempo todo. tentamos manter Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. a melhor explicação é que as teorias científicas acerca das quais concordamos representam como o mundo é.

a Débora Barni de Campos Página 21 . enquanto os indígenas esquimós costumavam abandoná-los em bancos de gelo para morrer. São Paulo: Saraiva. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COTRIM. mentir e roubar. e o cuidado com os fracos é incentivado. 2008. Filosofia. e ele estariam errados ao fazê-lo se vivessem nas nossas. Terceiro. 16 ed.nossos idosos vivos tanto quanto possível. Stephen. Deve-se apenas às condições de vida dos esquimós. 2006. Fundamentos da Filosofia. LAW. Rio de Janeiro: Zahar. na maioria das culturas é proibido matar. Segundo. Mas isso não significa que matar idosos seja certo para os esquimós e errado para nós. porque estamos descobrindo verdades morais. As exigências para sobreviver num ambiente hostil significavam que aqueles que não podiam mais contribuir para o bem-estar da comunidade tinham de ser abandonados. os realistas salientam o progresso moral. Somos mais humanos que no passado e concordamos mais amplamente quanto a juízos morais. Disciplina de Ética – ÉTICA E FILOSOFIA MORAL – prof. História e grandes temas. Gilberto. Os realistas ressaltam os muitos princípios e virtudes éticos partilhados por diferentes culturas. Guia ilustrado Zahar. Estaríamos certos ao fazer o mesmos se vivêssemos nas condições deles.

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