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Referência:

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AMADO, Jorge. Tenda dos milagres. 43. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.

323p.

Código:

R311207l

Elaborado por:

José Julio

Antes de falar sobre o conteúdo de Tenda dos Milagres, convém primeiramente especular sobre o sentido da tradição, da cultura, e da raça negra no Brasil. Como todos sabemos, em pleno século XXI ainda temos que conviver com problemas do século XIX, relacionado à aceitação do componente negro na formação do povo brasileiro (e aqui falar no sentido colocado por Darcy Ribeiro, em sua obra O povo brasileiro).

por Darcy Ribeiro, em sua obra O povo brasileiro ). Porém, mesmo não gostando, ou até

Porém, mesmo não gostando, ou até negando veementemente, nosso povo, tem na sua cultura e no seu sangue, um grande componente negro, africano. Talvez se nos dispomos a visualizar esta realidade com os olhos não da rejeição, mas da riqueza e da singularidade que nos caracteriza, teríamos uma melhor compreensão do que somos, e do que podemos. Posso crer que este seja o pensamento do Jorge Amado quando produziu o romance Tenda dos Milagres.

livro conta a vida de Pedro Archanjo, mulato baiano que viveu e marcou época na

O

primeira metade do século XX, em um período em que a separação e o preconceito ainda eram considerados normais na sociedade brasileira. Archanjo era simplesmente mais um baiano, não fosse sua disposição para os estudos. Vítima de diversos preconceitos, especialmente em seu ambiente de trabalho, a Faculdade de Medicina da Bahia, Pedro Archanjo se dedica ao estudo da antropologia do povo baiano, defendendo teses que geram diversas polêmicas. Dentre suas teses, a mais contrariada é que afirma não haver distinção de raça na Bahia, sendo que todos os baianos seriam oriundos de ancestrais negros e brancos.

No contexto universitário, Archanjo encontra espaço para suas teses, que além de detratores, encontra também ardorosos defensores. No jogo de poder, vencem os detratores, fazendo com que Archanjo seja afastado do emprego, e o deixando à deriva, vivendo da miséria, por falta de oportunidades para negros já mais velhos, seja pela opção de uma vida em liberdade, algo que o protagonista sempre buscou. E assim segue a vida, até ser encontrado morto, como um indigente qualquer, em uma sarjeta. A morte é motivo de alardeio entre o povo pobre da Bahia, mas passa totalmente despercebida pela classe alta e branca.

Tudo mudaria décadas depois quando chega ao Brasil o laureado prêmio Nobel Leveson, antropólogo americano de grande reputação internacional. Em visita ao Brasil, Leveson faz questão de conhecer as terras do grande etnólogo brasileiro Pedro Archanjo, a quem conhecia pela leitura de um dos livros do baiano que acabou chegando às bibliotecas americanas. As palavras e o alardeio de Leveson rapidamente despertam o interesse das elites intelectuais e políticas baianas, que passam a estudar e a planejar ações de reconhecimento ao baiano que foi apontado pelo grande premio Nobel como um gênio da antropologia cultural.

É neste contexto que Jorge Amado desenvolve toda a obra, mesclando descrições da

vida perseguida e pobre de Archanjo com uma realidade atual na qual este é reconhecido por levar ao exterior o nome da intelectualidade brasileira e baiana. Jorge Amado insere as contradições de cada discurso, o oportunismo dos órgãos da mídia que buscam a qualquer

preço passar a frente na oferta de informação sobre o filho pródigo da Bahia, o oportunismo de políticos querendo capitalizar com o mesmo fato, tudo isto em contraste com o período de isolamento e distanciamento que Archanjo teve durante sua vida.

O autor aproveita a oportunidade para ser o porta-voz da explanação do valor da

cultura e das tradições afro-brasileiras, estas que estão fortemente presentes no dia-a-dia do povo baiano. A Bahia é, provavelmente, o estado mais marcado pela tradição africana, com seus candomblés, seus babalaôs, babalorixás, além da culinária dos hábitos cotidianos, do sotaque da voz. Jorge Amado informa em Tenda dos Milagres alguns detalhes curiosos destas tradições.

O autor, reconhecido comunista, e, portanto pouco afeito a crenças, reforça o grande

respeito que ele mantém pelas tradições populares. Os diálogos nos quais Archanjo informa não crer nos rituais, embora participe deles intensamente, parece uma justificativa do autor para a opção que fez: não é necessário que se creia em macumba, mas não deve, por não se crer, condená-las como se fosse uma prática demoníaca. Antes, a crença não é um pré- requisito para as crenças, ou seja, embora não se creia, deve antes de tudo respeitar as tradições legítimas de um povo.

de tudo respeitar as tradições legítimas de um povo. Outros comentadores chegaram a ver em Pedro

Outros comentadores chegaram a ver em Pedro Archanjo o próprio Jorge Amado, buscando se livrar das críticas devolvendo com a elegância de sua literatura argumentos para que não reste qualquer dúvida do valor de seu povo. Pessoalmente não sei se foi não, mas caberia se fosse. De um modo ou de outro, o texto é mais que simplesmente uma expressão estética do talento de Jorge Amado. É uma obra de imenso valor cultural, na medida em que realça um problema que, como comentando no início, ainda perdura. Um manifesto pelo respeito às diferenças, e pelo reconhecimento da igualdade.

Ainda assim, não faltam elementos clássicos do estilo agradável da escrita de Jorge Amado, como a ironia, as descrições picantes, as cenas cômicas. Enfim, se não queremos em uma obra mais que sua história objetiva, em Tenda dos Milagres não nos faltam elementos para uma boa leitura. Por isto, e principalmente pelo que foi dita acima, a obra é uma leitura recomendada para qualquer brasileiro, especialmente aqueles que ainda têm algum resquício de preconceito racial e cultural.

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