Escola secundária D.

João II
A DIMENSÃO ESTÉTICA – ANÁLISE E COMPREENSÃO DA EXPERIÊNCIA ESTÉTICA O juízo estético. O problema da definição da arte.

1. A EXPERIÊNCIA ESTÉTICA E O JUÍZO ESTÉTICO

1.1.

A experiência estética

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A atitude estética, ou a «forma estética de contemplar o mundo», é geralmente contraposta à atitude prática, na qual só interessa a utilidade do objecto em questão. O verdadeiro negociante de terrenos que contempla uma paisagem só a pensar no possível valor monetário do que vê não está a contemplar esteticamente a paisagem. Para a contemplar dessa maneira teria de «a observar por observar», sem qualquer outra intenção — teria de saborear a experiência de observar a própria paisagem, tomando atenção aos seus detalhes, em vez de utilizar o objecto observado como um meio para atingir um certo fim. A atitude estética distingue-se também da atitude cognitiva. Os estudantes familiarizados com a história da arquitectura são capazes de identificar rapidamente um edifício ou umas ruínas no que diz respeito à sua época de construção e lugar de origem, ou ao seu estilo e a outros aspectos visuais. Contemplam o edifício sobretudo para aumentar os seus conhecimentos, e não para enriquecer a sua experiência percetiva. Este tipo de habilidade pode ser útil e importante, mas não está necessariamente correlacionado com a capacidade de desfrutar a própria experiência da contemplação do edifício. (…) Se uma pessoa aprecia favoravelmente uma determinada obra de arte por esta ser moralmente edificante ou por «defender uma causa justa», está a confundir a atitude moral com a estética, o que também ocorre se a condenar por motivos morais e não conseguir separar essa censura da apreciação estética. John Hospers Tradução e adaptação de Pedro Galvão

ATITUDE ESTÉTICA (desinteressada) EXPERIÊNCIA ESTÉTICA (vivência de agrado ou prazer na relação com 1 alguns objectos estéticos )

Não é uma atitude interessada (prática ou utilitária)

Não é uma atitude cognitiva (de conhecimento)

Não é uma atitude moral (subordinada a princípios morais)

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Para Kant há dois tipos de objetos estéticos: objetos artísticos – criações humanas, objetos artificiais, produzidos pelo artista, capazes de despertar sensações e sentimentos que os avaliam como belos; objetos naturais – produtos da natureza e não criações humanas, capazes de despertar sensações e sentimentos que os avaliam como belos.

A Dimensão Estética | Análise e compreensão da experiência estética

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1.2.

O juízo estético

Juízo estético é o enunciado que exprime a experiência estética, atribuindo um valor estético a um objeto.

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O problema da justificação dos juízos estéticos: A verdade dos juízos estéticos depende das propriedades intrínsecas do objecto ou do que sentimos ao observá-los?

TEORIAS

CARACTERÍSTICAS

OBJEÇÕES A consideração que os juízos estéticos são uma questão de gosto (não se discutem) é contrariada na prática: - As pessoas discutem os gostos - A grande coincidência de gostos relativamente a determinados objetos

Subjetivismo Radical

Os juízos estéticos são subjetivos, dependem do sentimento de prazer de cada sujeito. As propriedades estéticas não existem nos objetos mas são atribuídas pelo sujeito.

Subjetivismo Moderado

Os juízos são subjetivos mas admitem critérios para a apreciação e avaliação das obras de arte (Kant e Hume) Os juízos estéticos são verdadeiros ou falsos em função das propriedades intrínsecas dos objectos e não dos sentimentos do sujeito. As pessoas discordam nas apreciações estéticas

Objetivismo

a)

Subjetivismo moderado - O Padrão do Gosto de Hume

O sentimento está sempre certo – porque o sentimento não tem outro referente senão ele mesmo e é sempre real, quando alguém tem consciência dele. Mas nem todas as determinações do entendimento são certas, porque têm como referente algumas coisas para além delas mesmas, a saber, os factos reais e nem sempre são conformes a esse padrão. Entre mil e uma opiniões que pessoas diferentes podem ter a respeito do mesmo assunto, há uma e apenas uma que é justa e verdadeira e a única dificuldade é encontrá-la e confirmá-la. Pelo contrário, os mil e um sentimentos despertados pelo mesmo objecto são todos certos, porque nenhum sentimento representa o que realmente está no objeto. Ele limita-se a observar uma certa conformidade ou relação entre o objecto e os órgãos ou faculdades do espírito e, se essa conformidade realmente não existisse, o sentimento jamais poderia ter ocorrido. A beleza não é uma qualidade das próprias coisas, existe apenas no espírito que a contempla e cada espírito percebe uma beleza diferente. É possível até uma pessoa encontrar deformidade onde uma outra vê apenas beleza e qualquer indivíduo deve concordar com o seu próprio sentimento, sem ter a pretensão de regular o dos outros.(...) Mas apesar dos nossos esforços em fixar um padrão do gosto e em reconciliar as discordantes impressões das pessoas, restam ainda duas fontes de diversidade, as quais não são suficientes para eliminar todas as fronteiras entre beleza e A Dimensão Estética | Análise e compreensão da experiência estética

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deformidade, embora sirvam frequentemente para produzir diferenças no grau de aprovação ou censura. Uma reside nas diferenças de humor de cada pessoa; a outra nos costumes e opiniões próprios da nossa época e do nosso país. Os princípios gerais do gosto são uniformes na natureza humana: sempre que as pessoas divergem nos seus gostos, pode-se geralmente apontar algum defeito ou perversão nas suas faculdades, que tem origem ou no preconceito, ou na falta de prática, ou na falta de sensibilidade. E há assim boas razões para aprovar uns gostos e condenar outros. Mas onde quer que haja tal diversidade, a qual se mostre completamente irrepreensível, tanto na estrutura interna como na situação externa, Página | 3 deixa também de haver lugar para dar preferência a um gosto em detrimento de outro; nesse caso, uma certa diversidade no juízo é inevitável, e é em vão que procuramos um padrão que permita conciliar os sentimentos contrários. SUBJETIVISMO MODERADO DE HUME – Padrão de Gosto

Os juízos estéticos são subjetivos – a beleza e a deformidade não são qualidades dos objectos, pertencem ao sentimento. Existe desacordo e diversidade de gostos entre pessoas e culturas. Padrão de Gosto Nem todas as opiniões valem o mesmo Existem juízos estéticos que são verdadeiros ou falsos, independentemente do gosto individual. Apesar dos desacordos, verifica-se que as pessoas, em diferentes épocas e lugares, acham umas coisas mais agradáveis que outras, o que mostra que há princípios comuns que determinam a formação do gosto. b) Subjetivismo moderado - O juízo estético em kant O primeiro lugar-comum do gosto está contido na proposição com a qual cada pessoa sem gosto pensa precaver-se contra a censura: cada urna tem o seu próprio gosto. Isto equivale dizer que o princípio determinante deste juízo é simplesmente subjectivo (deleite ou dor) e que o juízo não tem nenhum direito ao necessário assentimento dos outros. O Segundo lugar-comum do gosto, que também é usado até por aqueles que concedem ao juízo de gosto o direito de expressar-se validamente por qualquer um, é: não se pode disputar sobre o gosto. O que equivale dizer que o princípio determinante de um juízo de gosto na verdade pode ser também objectivo, mas que ele não se deixa conduzir a conceitos determinados; por conseguinte, nada pode ser decidido sobre o próprio juízo através de provas, conquanto se possa perfeitamente e com direito discutir a esse respeito. Pois discutir e disputar são na verdade idênticos no facto que procuram produzir a sua unanimidade através da oposição recíproca dos juízos, são porém diferentes no facto que o último espera produzir essa oposição segundo conceitos determinados, enquanto argumentos, por conseguinte admite conceitos objectivos como fundamentos do juízo. Onde isso porém não for considerado factível, aí tão pouco o disputar será ajuizado como factível. Vê-se facilmente que entre esses dois lugares-comuns falta uma proposição, que na verdade não esta proverbialmente em voga, mas todavia está contida no sentido de qualquer um, nomeadamente: pode-se discutir sobre o gosto (embora não disputar). Esta proposição contém, porém, o oposto da primeira. Pois sobre o que deva ser permitido discutir tem que haver esperança de chegar a um acordo entre as partes; por conseguinte tem que se poder contar com fundamentos do juízo que não tenham validade simplesmente privada e portanto não sejam simplesmente subjectivos; ao que se contrapõe precisamente aquela proposição fundamental: cada um tem o seu próprio gosto. Kant, Crítica da Faculdade de julgar

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O Juízo estético em Kant

Subjetivo porque se refere ao sujeito que julga. Universalmente subjetivo pois deve ser válido para todos os sujeitos que julgam desinteressadamente. Página | 4 Há uma exigência de universalidade nos nossos juízos, pela existência ideal de um sentido de gosto comum a todos os seres humanos que permite avaliar os objectos estéticos da mesma forma

2. O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO DE ARTE – O que é a arte?
TEORIA DA ARTE COMO IMITAÇÃO Esta é uma das mais antigas teorias da arte. Foi, aliás, durante muito tempo aceite pelos próprios artistas como inquestionável. A definição que constitui a sua tese central é a seguinte: Uma obra é arte se, e só se, é produzida pelo homem e imita algo. A característica própria desta teoria não reside no facto de defender que uma obra de arte tem de ser produzida pelo homem, o que é comum a outras teorias, mas na ideia de que para ser arte essa obra tem de imitar algo. Daí que seja conhecida como teoria da arte como imitação. Vários foram os filósofos que se referiram à arte como imitação. Alguns desprezavam-na por isso mesmo, como acontecia com o conhecido filósofo grego Platão que, ao considerar que as obras de arte imitavam os objectos naturais, via essas obras como imagens imperfeitas dos seus originais. Ainda por cima quando, no seu ponto de vista, os próprios objectos naturais eram por sua vez cópias de outros seres mais perfeitos. Já o seu contemporâneo Aristóteles, mantendo embora a ideia de arte como imitação, tinha uma opinião mais favorável à arte, uma vez que os objectos que a arte imita não são, segundo ele, cópias de nada. (...) TEORIA DA ARTE COMO EXPRESSÃO Insatisfeitos com a teoria da arte como imitação (ou representação), muitos filósofos e artistas românticos do século XIX propuseram uma definição de arte que procurava libertar-se das limitações da teoria anterior, ao mesmo tempo que deslocava para o artista, ou criador, a chave da compreensão da arte. Trata-se da teoria da arte como expressão. Teoria que, ainda hoje, uma enorme quantidade de pessoas aceita sem questionar. Segundo a teoria da expressão:

Uma obra é arte se, e só se, exprime sentimentos e emoções do artista. (...) TEORIA DA ARTE COMO FORMA SIGNIFICANTE
Verificando que a diversidade de obras de arte é bem maior do que as teorias da imitação e da expressão fariam supor, uma teoria mais elaborada, e também mais recente, conhecida como teoria da forma significante (abreviadamente referida como “teoria formalista”), decidiu abandonar a ideia de que existe uma característica que possa ser directamente encontrada em todas as obras de arte. Esta teoria, defendida, entre outros, pelo filósofo Clive Bell, considera que não se deve começar por procurar
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aquilo que define uma obra de arte na própria obra, mas sim no sujeito que a aprecia. Isso não significa que não haja uma característica comum a todas as obras de arte, mas que podemos identificá-la apenas por intermédio de um tipo de emoção peculiar, a que chama emoção estética, que elas, e só elas, provocam em nós. Por esta razão a incluo nas teorias essencialistas. De acordo com a teoria formalista de Clive Bell.

Uma obra é arte se, e só se, provoca nas pessoas emoções estéticas. (...)
Aires Almeida http://criticanarede.com/fil_tresteoriasdaarte.html

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O problema da definição de arte
TEORIAS CARACTERÍSTICAS OBJEÇÕES A existência de obras de arte que nada imitam Arte como imitação A arte é imitação da realidade Se a arte é imitação, a melhor seria a mais realista, mas muita arte, embora representativa, não é imitação A existência de obras de arte que não expressam emoções do artista A dificuldade em saber se a emoção do artista foi verdadeira e se o que sentimos corresponde ao que o artista nos quis transmitir Não é consensual que exista uma emoção estética (distinta das outras emoções humanas) O conceito de forma significante é controverso já que todas as pinturas possuem uma certa combinação de linhas, cores e formas É controverso o facto desta teoria considerar que apenas a forma é relevante para a obra de arte e não o conteúdo

Arte como expressão (Tolstoi)

A arte é a expressão da emoção do artista A obra de arte transmite intencionalmente o mesmo sentimento que o artista experimentou

A arte como forma significante (Clive Bell)

É arte toda a obra que possui uma forma significante Forma significante é a combinação de cores, linhas e formas, capaz de provocar a emoção estética.

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