Você está na página 1de 22

Temporada 03 Capítulo 47

Um Sonho de Liberdade
By We Love True Blood

Let me tell you something my friend. Hope is a dangerous thing. Hope can drive a man insane.

Só restava saltar pela janela, ela não tinha outra opção. Maya patinou no sangue de Delilah tentando sair do lugar. A voz da mulher vinda do quarto a deixou apavorada, como se toda a esperança tivesse acabado. Aquela voz cínica trazia a tona lembranças de momentos antes de morrer, quando ainda respirava, tinha alguém que a amava. “Não precisa fugir.” O som continuava ecoando em sua mente, antes de saltar teve um vislumbre da mulher de cabelos ruivos correndo atrás dela. A rapidez do movimento fez os cabelos de Maya balançarem, os dedos da mulher roçaram no braço prontos para segurá-la. Com um impulso para frente, ela passou pelo vidro da segunda janela na sala. O única reação que teve foi colocar as mãos na frente do rosto, em seguida sentiu o gosto do chão sujo nos lábios. Os ossos pareciam que tinham partido em pedacinhos como um vaso de porcelana. Ela gritou de dor, podia ouvir o som ir até o fim da rua e voltar com força, não havia ninguém para ajudá-la. A vampira ruiva gargalhava lá de cima, mas não saltou atrás de Maya. Ela se virou com dificuldade sentindo os ossos estalarem. Cuspiu um jato de sangue escuro no chão. Olhou para cima procurando sua perseguidora, não havia mais sinal dela. Provavelmente estava descendo as escadas em alta velocidade para vir matá-la. Maya se colocou em pé, mesmo tendo um dos tornozelos torcidos. Caminhava arrastando a perna, de vez em quando algum osso quebrado se retorcia fazendo com que gemesse alto. Olhava para trás, e nada. Caminhou mais um pouco. Olhou novamente, nem sinal da ruiva. Entrou numa rua também deserta, não demoraria para amanhecer, teria que encontrar um lugar para se esconder. Depois chamaria Bastian de algum telefone, o celular ficou perto do corpo destroçado de Delilah.

Nem tinha tempo de chorar por Delilah, seria doloroso dar a notícia para Santiago e principalmente para Bastian. Acreditava que seu criador a culparia por ter demorado a chegar. Mas, e se tivesse chegado antes, não estaria morta também? As imagens de Delilah morta junto das imagens de outra mulher se confundiam em sua mente. Começava a se recordar de quem foi, de onde morava, há quem pertenceu e de quem nasceu. Ela não viveu em Vale, morou numa cidade grande, Mérida. A cidade ficava na região de Yucatán, onde a maioria falava a antiga língua dos maias. Ela se lembrava do som melódico das palavras e recebeu esse nome em homenagem a eles, sua mãe era historiadora. O seu passado estava explodindo na cabeça, fragmentos desde pequena até perto da morte. Não conheceu seu pai, ele se mandou quando era pequena. Eram somente ela e a mãe, a querida mãe que não vivia mais. Perdeu a mãe alguns meses antes de virar vampira, para uma maldita doença que pobre não tem chance de cura. Se tivesse o sangue que cura tudo como tem agora, poderia ter salvo a mãe, a transformado como ela. Maya passou de instituições públicas para casas de parentes, nenhuma deu certo. Era uma órfã, e ninguém queria pegar uma adolescente problemática. Só restava treinar para continuar fazendo o que mais gostava, dançar. Mas, vivendo com outras crianças tão desesperadas quanto ela não ajudava em nada, um futuro promissor cada vez mais distante, nem treinar conseguia com frequência. Um dia quando uma das tutoras se distraiu, Maya roubou a bolsa da mulher e fugiu. Pegou o primeiro trem que viu e viajou durante dias. Não sabia o que iria fazer e nem o que pretendia. Quando chegou na estação de Vale apenas para uma troca de trem, o destino bateu em sua porta. Só se lembrava em apagar e depois acordar sendo levada pelos capangas da vampira ruiva. Olhou mais uma vez para trás, não havia sinal da outra. Ela se apoiou numa parede em frente uma loja que estava fechada. Começava a sentir os ossos se recuperando, a dor lancinante sumindo aos poucos. Achava que tinha caminhado por uns quinze minutos, o suficiente para ficar longe do perigo. Havia chegado numa avenida um pouco mais movimentada, de vez em quando outros vampiros passavam por ela e a encaravam com curiosidade. Ela voltou a caminhar, ainda mancando por causa do tornozelo. Precisava encontrar uma maneira de chegar até Bastian. Um carro parou perto do meio-fio, ela ouviu a porta se abrindo e uma voz educada dizendo: “Hey, mocinha, precisa de ajuda?”

Maya se voltou para a voz, olhou para os lados para ter certeza que não era uma armadilha. O rapaz parou no lado contrário, a porta do passageiro estava escancarada e ele se apoiava com uma das mãos no banco. “Poderia me dar uma carona?” Ela perguntou receosa, se fosse humana jamais aceitara, sua mãe havia ensinado milhares de vezes que não se aceita carona de estranhos. Mas, ela agora era uma vampira, se defenderia de um humana comum e estava numa situação meio que desesperadora. “Claro. Entre aí.”, ele disse dando um tapinha no banco. Maya sorriu fingindo inocência, qualquer movimento de perigo, ela o atacaria. Ele morreria se o carro perdesse o controle, ela não. Até que não era tão ruim ser vampira nesses momentos. Entrou no carro e fechou a porta. “Para onde quer ir?” “Se puder me deixar no centro.”, ela chutou o lugar que julgava ser o mais movimentado e encontraria um telefone. O rapaz concordou com um sorriso dando partida no motor. O carro se afastava do bairro onde estavam. Maya via os vampiros caminhando pelas ruas e alguns humanos se oferecendo para serem mordidos. Será que esse humano estava lá por isso também? Uma música de rock pesado tocava na rádio, o rapaz acompanhava o ritmo com a cabeça, balançando os cabelos escuros na altura dos ombros. Ele não era bonito como Mariano, mas ela se imaginou ficando com um cara daqueles. Não que ela quisesse nesse instante, mas se ele pedisse para mordê-lo, ela o faria sem pensar duas vezes. Desde que virou vampira, seus desejos sexuais tinham aumentado absurdamente. Sentia algo confuso no corpo toda vez que se alimentava de Bastian. E nem gostava de lembrar o prazer imenso quando Mariano bebeu dela. Como se adivinhasse o pensamento de Maya, o rapaz cabeludo a encarou com um olhar faminto de cima a baixo. Só que ela notou que não era de desejo, parecia de um predador analisando a presa antes de dar o golpe. Uma corrente de prata foi colocada em volta de seu pescoço com violência e a puxou de encontro ao banco. Um segundo rapaz estava escondido no banco de trás. Ela nem tinha percebido, como poderia ter sido tão estúpida? “Cara! Ela é perfeita.”, o rapaz disse do banco de trás. “Falei que valeria a pena vir aqui caçar uma.”, o rapaz que dirigia apertou a coxa de Maya. “Rodamos horas e horas, mas conseguimos encontrar.”

“Quero ver ele atacar uma criança.”, o rapaz do banco de trás disse gargalhando. “Não sou criança.”, Maya disse entre dentes, as lágrimas de sangue escorriam por causa da dor. “Não é? Então podemos barbarizar essa vampira vagabunda?” “Ela não é pra isso. Não vamos estragar os planos.”, o rapaz no banco da frente respondeu. “Que pena! Ela tem cheio de virgem...”, o rapaz cheirou o ar. “Se sobrar algum pedaço dela.” Maya tinha fugido da morte certa e ido parar em outra muito pior. Mesmo vampira, estranhos sempre seriam perigosos. Ela gritou de dor, os dois rapazes riram no carro enquanto saíam da cidade. -------------------------Alcide saiu do chuveiro sentindo o corpo dolorido, quando se movia parecia que os ossos rangiam. Havia treinado até exaurir as forças. O banho não teve o efeito curativo que imaginou. A vontade de beber o sangue de Jessica surgiu, apesar de não ter aumentado sua força, as dores que tinha dos treinamentos passaram em segundos. Balançou a cabeça tirando esse pensamento, não poderia visita-la, ainda mais que era seguido por Francisco. Estranhou o fato do irmão não tê-lo dedurado, ele teria um prazer imenso em prejudicá-lo antes do Rito de Passagem. Evitaria em ficar pensando nos motivos, tinha que manter a cabeça livre dessas coisas. Ele leu alguns livros de autoajuda sobre procurar o pensamento positivo, jogar fora o que não fazia bem. Jessica daria risada da cara dele se descobrisse sobre isso. Ele dormia na casa do irmão de sua mãe, foi bem recebido por eles, teve uma sensação de pertencimento, como se não fosse um Impuro. Mas, quando saía do santuário que era aquela casa, tinha que confrontar o ódio do resto da alcateia. Não era apenas Francisco, a maioria dos lobos que estiveram na Assembleia só acataram ordens de seu avô e nada mais. Só que dessa vez ele não iria aceitar ser expulso, viver isolado de seu povo. Ele queria apenas o direito de viver entre eles. Se morresse na noite seguinte, pelo menos não seria como um covarde. Terminou de se enxugar, jogou a toalha molhada em cima da cadeira perto da janela, vestiu uma cueca e deitou na cama gemendo de dor. Puxou o lençol na altura do peito, daqui a pouco ele começaria a revirar de um lado para o outro

buscando pelo sono que só vinha perto do amanhecer e geralmente durava umas três horas no máximo. Um som de algo arranhando na janela atraiu sua atenção. Alcide ergueu a cabeça e viu Jessica batendo no vidro com irritação. “Vá embora.”, ele fez um movimento com a mão. “Deixa eu entrar, idiota.”, a voz dela saiu abafada. “Jessica, por favor, não insista.”, ele pensava em Francisco vendo tudo escondido em algum canto. “É muito idiota. Vou quebrar essa merda e acordar todo mundo.”, ela disse aumentando o tom de voz. Alcide não iria pagar pra ver, ele sabia que Jessica cumpriria a ameaça. Ele se sentou na cama, fez uma careta de dor e levantou a janela com uma mão. “Entre e não faça barulho. Estamos sendo espionados.”, ele fechou a janela devagar após ela entrar. “Como se me importasse...” “Pois deveria... as leis são muitos severas e...” “Estou cansada de saber dessas leis, esse lugar parece Amish, igual aquele filme do garotinho.”, ela o interrompeu. “Qual filme?”, ele perguntou genuinamente interessado e voltou a se deitar, puxou o lençol com força, não se sentia bem estando quase seminu perto dela. “Por acaso tenho cara de quem sabe? Não vim jogar conversa fora.”, ela ficou em pé ao lado da cama. “Não posso aceitar o seu sangue de novo.”, Alcide completou rapidamente. “Você é muito estúpido mesmo. Olhe como estou vestida, você acha que vim te dar sangue?”, ela colocou as mãos na cintura. Ele a encarou sem entender o que dizia, ela usava uma camiseta branca até o meio da coxa, os cabelos estava soltos e brilhavam no escuro. O rosto pálido que acentuava os olhos azuis, os quais ele se perdia sempre que os encontravam. A beleza de Jessica era de outro mundo, só mesmo sendo uma vampira pra fazer sentido. “Veio pra me xingar?”, ele perguntou com cuidado. “Ainda é virgem?”

“Não, claro que não.”, Alcide respondeu sentindo o corpo tremendo, não sabia se era das dores ou de nervosismo. “Pelo menos não vou precisar te ensinar a foder. Já é um avanço.” Ela tirou a calcinha minúscula que estava usando e colocou na beirada da cama. Em seguida subiu em Alcide, se posicionando na pélvis dele. A cama rangeu com o peso dos dois. Ele a olhava assustado, tentava compreender o que ela pretendia. “O que... por que...”, ele balbuciava. “Minha boa ação do ano.”, ela mexeu o quadril. “Você provavelmente irá morrer amanhã à noite.” “E se eu... não morrer?”, ele perguntou pigarreando, nunca se sentiu tão nervoso como agora. “Terá para sempre uma lembrança inesquecível.”, Jessica apoiou as mãos no peito musculoso dele. “Não é qualquer um que tem essa oportunidade.” Ele engoliu em seco, não sabia o que fazer com as mãos, se tocava nela ou continuava imóvel. Tinha receio de tomar uma atitude precipitada e Jessica reagir mal, o que era o mais comum. “Eu posso...?”, ele mostrou as mãos. “Te tocar.” Jessica não respondeu, pegou as mãos quentes dele e colocou por debaixo da camiseta. “Eu já dei uma colher de chá pra você daquela vez.” Ele se lembrava perfeitamente, fingiu ter sido hipnotizado. Graças a Bill que o ensinou como não cair nesse truque. Só que ele teve que fingir naquela noite em seu apartamento, Jessica o mataria se soubesse a verdade. “Quantas vezes se masturbou vendo as minhas fotos nuas?”, ela puxava o lençol para longe conforme se movimentava. “Nenhuma.”, outra mentira, ele sorriu por dentro. “Sua mão deve ter ficado calejada e peluda.”, ela sorriu. Ele não podia mais evitar a excitação de tê-la totalmente para ele. As mãos se fecharam em volta dos seios pequenos, ele os apertava com delicadeza. A enorme ereção já se fazia sentir, ele iria gozar se ela continuasse se mexendo daquela maneira.

Jessica puxou a cueca dele até os joelhos, o membro de Alcide se ergueu na frente dela. Era tão bem servido quanto os seus parentes lobos, os olhos dela cresceram. A pele fria dela encostou na pele quente dele, uma fina fumaça subiu por causa do atrito. Alcide nem percebia mais as dores, o coração estava acelerado, a respiração entrecortada. As mãos dele foram para a cintura de Jessica, ela apertou o membro dele com firmeza, mas sem machucar. Se posicionou novamente em cima e a deixou penetrar com força. O vai e vem aumentou na cama de solteiro, os pés de madeira rangiam sem parar conforme Jessica se movimentava. Ela arranhava o peito dele com as unhas, o sangue começou a jorrar, sem demora ela começou a lamber em desespero. “Alcide querido, está tudo bem?”, a voz de sua tia surgiu do outro lado da porta. Ele encarou Jessica assustado, estava tão pálido quanto ela. A vampira continuou forçando o quadril pra baixo e a sugar o sangue no peito dele. “Si... sim... não... consigo.”, ele mordeu a língua para não gemer de prazer. “Não... consigo dormir.”, disse tentando manter um mínimo de compostura. “Tem leite quente na cozinha para acalmar os nervos. Boa noite!” Ele ouviu os passos dela se afastando da porta. Alcide tentou fazer com que Jessica diminuísse o ritmo, apesar de que ele não queria isso, mas o barulho alto da cama deveria ter acordado todos na casa. Os lábios dela estavam sujos de sangue quando parou de sugá-lo. Ela aumentou o ritmo, se movia para cima e para baixo, forçando cada vez mais fundo o membro dele. Jessica arqueou o corpo para trás e gemeu baixinho, apoiou as mãos nas coxas dele. Ela se movimentava de uma maneira em que ele entrava e saía o tempo todo de dentro dela. O prazer era tão intenso, ele sentia o gozo pronto pra sair. Mas, ela saiu de cima dele assim que sentiu o membro pulsar. Teve tempo de desviar do primeiro jato de gozo que foi parar na ponta da cama. Alcide respirava com dificuldade, sem entender o que tinha acontecido. Levantou a cabeça e viu a pélvis molhada de esperma. “Não me olhe com essa cara assustada.”, ela pegou a calcinha e a vestiu novamente. “Achou mesmo que eu te deixaria ir até o fim?” “Saia da minha frente.”, ele disse enojado com as palavras dela. “Ah, ficou chateado? Vem cá, te dou um beijinho.”

Ele ficou em pé em frente a ela, arrumou a cueca e a empurrou na direção da janela. “Você é um demônio.”, ele disse entre dentes. “É assim que agradece a minha boa ação...”, ela abriu a janela e sentou no parapeito. “Adeus, Alcide, até que não foi uma transa tão ruim.” Ele virou de costas e foi caminhando para o banheiro, ainda sentia o corpo queimando pelo toque dela, o peito continuava sangrando pelos arranhões. Ela fechou a janela soltando uma gargalhada, em seguida saltou para o chão e uma teimosa lágrima de sangue escorria pelo seu rosto. --------------------------Ela continuou imersa na escuridão desde a saída do Executor. A ida repentina dele não foi um bom sinal. Por que não disse nada? Claramente era ele quem tomaria a decisão sobre Eric. Acreditava ter feito tudo que podia para reverter a situação. Ela o jogou nesse buraco e o tiraria de qualquer maneira, mesmo que fosse junto. Nem tinha pensado no surgimento tão repentino de Nora Duvall e o que isso significaria se Eric fosse solto. Sookita sempre imaginou ele cercado de mulheres, mas de uma maneira fútil, sem profundidade. Por isso se surpreendeu com o envolvimento que tiveram, ele disse que a amava, não exatamente nessas palavras, mas falou em amor. Eric teria deixado de amá-la após a última conversa que tiveram? As coisas maldosas que ela disse? Como o atacou fisicamente? Ela sentia pesar quando se lembrava do que fez. Amor e ódio caminham juntos de mãos dadas, mais do que nunca ela acreditava nisso. Ela o amava e o odiava com a mesma intensidade. Após acreditar que ele matou Jason, apenas o ódio tinha sobrado. Se lembrava quando ficaram juntos em Rosamar, Eric dizendo que ela não sabia o que sentia, que um dia passaria. Sookita tinha medo dele a conhecer melhor do que ela própria. O coração dela pedia o prazer primeiro, e foi atendido. E o que viria depois? Dúvidas, incertezas, decepções. Eric sempre soube disso, tentou avisá-la, mas ela não o ouviu. Ela não controlava o que sentia, se deixou levar pelo prazer e não estava arrependida. “Por que está tudo escuro?”, a voz de Pam soou na sala.

Sookita saiu do devaneio num sobressalto, nem tinha percebido a volta dela. O coração acelerou em pensar que Eric estava ali também. O que faria? As pernas tremiam, a garganta ficou seca, as mãos estavam úmidas do suor frio. “Eu nem percebi.”, ela respondeu andando devagar até o interruptor do quarto. “Eu te mandei milhares de mensagens avisando pra ficar pronta. Até quebrei uma maldita unha por causa disso.”, Pam disse franzindo o cenho. “Meu Deus, não vi nenhuma.”, Sookita ficou desapontada por Pam estar sozinha, mas não demonstrou. “Já são quase onze da noite.”, ela pegou o celular em cima da cama olhando o horário chocada, nem notou o tempo que ficou perdida em pensamentos. “Pegue as suas tralhas, estamos indo embora.”, ela pegou a bolsa que estava em cima do sofá. “Eric?”, Sookita perguntou ainda imóvel em frente a cama. “Como eu disse, estamos indo embora.” Ela sentiu vontade de gritar pelo quarto, mas em vez disso correu em direção a Pam e a abraçou com força. “Eu sabia... eu sabia... que daria tudo certo.”, Sookita não escondia a felicidade. “Não precisa me agarrar, está amassando meu vestido.”, Pam disse com uma voz afetada, mas exibia um leve sorriso de canto. “Como ele está?”, ela se afastou enxugando algumas lágrimas que escorreram. “Não sei. Espero que continue inteiro.”, Pam foi em direção a porta aberta. “Os americanos nos deram um ultimato, temos que cair fora do país o mais rapidamente.” “Foi o Executor quem decidiu?” “Nora estava junto dos Poderosos Chefões quando rolou a discussão. Acataram de muita má vontade, mas quando se coloca o Executor no meio tem que enfiar o rabo entre as pernas.”, ela batia o salto no chão. “Um vampiro que lê mentes é para se temer mesmo.”, Sookita foi até o quarto pra pegar a bolsa. “Espero que não faça o mesmo que ele. Só um é o suficiente.” “Estou satisfeita do meu jeito.”, ela se arrumou rapidamente no banheiro, não queria ver Eric toda desgrenhada. “Os americanos devem estar bravos, afinal é

a segunda vez que Eric escapa.”, ela mudou de assunto, se tornar vampira não era uma opção. “Pelo que Nora disse, ambos os lados chegaram num acordo final. Não me pergunte o que envolve. Só sei que Eric está livre.” Sookita voltou para a sala ajeitando o vestido no corpo, carregava a bolsa com uma das mãos. Passou por Pam e caminhou até o elevador. Meia hora depois estavam na sala de espera VIP no segundo andar do Teterboro Aiport. Ela retorcia as mãos no colo e de vez em quando acariciava parte do dedo que faltava, precisava se distrair da tensão que tomava conta de seu corpo. Ela estava sentada perto das janelas que davam para a pista, observava os jatinhos que levantavam voo e pousavam. Pam andava de um lado para o outro com as mãos na cintura, imersa em seus pensamentos. Nora sentou perto de Sookita e parecia tão nervosa quanto. “É uma humana muito corajosa, Sookita.”, Nora disse na voz delicada que tinha, como tudo nela. “Eu fiz o meu dever em ajudar o próximo.”, ela respondeu desconcertada. “Nem todo vampiro faria isso por um humano. Exige uma força de vontade tremenda.” “Vamos parar com essa rasgação de seda, estou quase vomitando um arco-íris com esse papo furado.”, Pam resmungou parando em frente as duas. “Pamela tem um ótimo senso de humor.”, Nora disse cutucando Sookita. “Sim, ela é muito divertida.”, Sookita segurou o riso, Pam era tudo, menos divertida. “Conte pra ela, Sookita. Conte por que veio salvar Eric...”, Pam olhou de uma para a outra. Sookita arregalou os olhos assustada, não queria se expor para Nora, ainda mais sabendo o que ela significava para Eric. “Ela me contou o suficiente, Pamela.”, Nora disse num tom severo, o jeito descontraído tinha sumido. “Oh! Claro. Você acredita que uma simples humana veio salvar Eric porque é uma cristã boazinha.”, Pam cruzou os braços. “Não entendo esse seu jeito agressivo. Vieram salvar Eric e conseguiram.”, Nora retrucou.

“Eu te pedi pra ajudar, não pra voltar a montar no pau dele.” “Está desvirtuando a situação. Não tenho interesse em me envolver com ele novamente, deixei claro pra você na Autoridade.”, Nora ficou em pé, era bem mais baixa e magra do que Pam. “Esse seu jeito bonzinho, puxando saco dessa tonta.”, apontou para Sookita. “Eu farejo seu tipo de longe.” “Não brigarei por algo que não faz mais parte da minha vida. Deixei todo esse drama quando larguei de Eric.”, ela deu de ombros. “Você faz questão de dizer isso como se fosse um troféu. Eu larguei Eric, sou especial.”, Pam imitou a voz fina de Nora. Sookita olhava de uma para outra, se surpreendeu por Pam ter se segurado em relação a Nora. Provavelmente esperou não precisar mais da outra pra provocar. Ela não iria se envolver na discussão, não queria saber os motivos de Nora para deixar Eric. Ficava uma sensação de algo que não tinha acabado, uma sensação de que ela era ainda importante pra ele. E Pam sabia bem disso. Enquanto as duas discutiam, Sookita o viu primeiro quando entrou no corredor escoltado por dois guardas brucutus e ameaçadores. Estava magro, os ombros caídos, o rosto fundo, os olhos vermelhos, igual quando ela o viu no dia que fizeram sexo pela segunda vez. Havia outras pessoas esperando na sala que estavam atrapalhando a sua visão. Ela desviava o olhar entre cabeças e penteados alheios, não conseguia tirar os olhos dele. Mas, Eric não a olhava, caminhava de cabeça baixa. O coração dela batia desesperado, desejando que a olhasse, que demonstrasse que ainda a amava. Conforme ele se aproximava, as dúvidas que tinha se o amava foram caindo uma por uma. E ele a amava, não era Nora, nem Pam. Era ela, Sookita Montenegro, a telepata sem graça. Queria correr até ele e o abraçar, beijar, pedir desculpas por ter duvidado, por sucumbir ao medo. Ele ergueu a cabeça, não precisou olhar em volta para encontrar os olhos dela. Não havia nada neles, nenhum traço de reconhecimento, de carinho, somente a olhava. Ela sentiu uma lágrima furtiva, enxugou com a palma da mão antes que ele notasse. Não era uma lágrima de felicidade, era de algo que havia perdido e não sabia como recuperar. Ela o perdeu, ela o deixou escapar, mesmo o salvando, foi tarde demais.

Como ela iria se salvar? Sookita sustentou o olhar, demonstrava a tristeza que sentia e também o amor. Mas, ele não devolveu da maneira que ela queria. Foi dos olhos dela para o de Nora, que estavam vidrados na direção de Eric. As duas pararam de discutir quando notaram a presença dele. Pam correu para abraça-lo, ele devolveu o abraço, mas não desviava o olhar de Nora. O coração de Sookita batia sem parar, pois Pam estava certa o tempo todo. Ela havia entrado num jogo perdido. Pam o beijava no rosto, nos lábios, não queria deixá-lo um minuto sequer. Eric caminhava até Nora com Pam pendurada em seu pescoço. O olhar dele era de devoção. Sookita focou em outras pessoas na sala, não aguentaria quando ele abraçasse Nora. Eric afastou Pam com gentileza, ela resmungou parando em frente a Sookita. Nora não disse uma palavra, era evidente o nervosismo que sentia. Ele estendeu a mão na direção dela, como se pedisse permissão para chegar perto. Ela fez um leve movimento com a cabeça e tocou na ponta dos dedos dele. Não disseram uma palavra quando ele a apertou entre os braços, existia uma comunicação silenciosa, só os gestos eram suficientes para se entenderem. Ele beijou devagar a testa dela, fechou os olhos como se transportasse para um outro tempo. “Não desmaie.” Sookita sentiu a mão fria de Pam no ombro, levantou a cabeça para encará-la e não viu deboche, mas pena. “Estou bem.” “Está mais pálida do que eu.”, Pam aumentou a pressão no ombro de Sookita. “Acreditei que o perigo era você.”, ela encarou Eric ainda abraçado com Nora. “Como me enganei.” Ela não teve o que dizer, só queria chegar em casa e descansar. Mas, qual casa? Ainda teria mais de cinco horas de viagem pela frente, no espaço pequeno dentro do jato e perto de Eric. “Venha comigo.”, ela o ouviu dizer para Nora. “Não posso nesse momento.”, ela encostou a cabeça no peito dele. “Obrigado por me salvar novamente.” “Isso é injusto, Eric.”, Nora o encarou limpando as lágrimas de sangue. “Você tem que agradecer outra pessoa.”

Ela se afastou do abraço e o puxou pela mão na direção de Pam e Sookita. “Não foi somente Pamela e eu. Sookita também merece o reconhecimento.”, Nora acenou para que Sookita se levantasse. Pam se afastou balançando a cabeça pelo momento embaraçoso. Sookita desejava que um buraco se abrisse e a sugasse para outro lugar. Levantou da cadeira exibindo o sorriso mais falso que tinha, estava consciente do olhar de Eric estudando cada movimento. Nora ficou entre os dois esperando que alguém falasse primeiro. Sookita olhava um ponto atrás de Eric para não encará-lo diretamente. Já bastava o olhar distante que recebeu dele, não precisava ter a certeza de que não era bem-vinda ali. Eric fez um leve aceno com a cabeça para ela. Sookita devolveu o gesto mantendo o exagerado sorriso alegre no rosto. Pareciam dois estranhos que acabaram de se conhecer. “Desse jeito? É assim que agradece?”, Nora abriu os braços inconformada. “Vamos, dê um abraço na moça.” “Não precisa.”, Sookita e Pam gritaram ao mesmo tempo atraindo a atenção de várias pessoas. “Agradeço imensamente o que fez.”, Eric forçou o sorriso. Para surpresa de Sookita, ele a puxou para junto de si e a abraçou com frieza. Ela sentiu o peito musculoso de encontro ao rosto, o cheiro amadeirado que exalava, como sempre. As pernas tremeram com o contato, como queria erguer o rosto e receber o beijo dele. Mas, ele se afastou rapidamente, não deu tempo de mais nada. O abraço durou alguns segundos que para Sookita foi como horas. Provavelmente era o máximo de contato que teria com ele. Ela sentia o rosto queimando, a palidez tinha passado e as maças do rosto estavam coradas. Nora também abraçou Sookita e cochichou: “Ele só tem cara de bravo.”, e beijou o rosto dela. “Espero nos encontrarmos novamente.” “Sim, sim, foi um prazer.”, Sookita respondeu buscando palavras no fundo da mente, ainda estava atordoada com o abraço de Eric. “Vamos.”, Pam passou por Sookita ignorando Nora e saiu pelo corredor em direção ao embarque.

Ela ficou imóvel, sem saber o que fazer. Se seguia Pam ou fingisse alegria com Nora. Sentiu o olhar frio de Eric, ele a olhava com desdém. Sookita percebeu que esperava ficar sozinho com Nora. Ela sorriu para a vampira e se afastou apertando as mãos, não paravam de tremer. Chegando perto do corredor, Sookita não aguentou a curiosidade e olhou para trás. Eric beijava Nora nos lábios como despedida. Foi o suficiente para sentir o estômago embrulhar. Não imaginava o quanto seria doloroso vê-lo com outra, ainda mais uma que significava tanto. Se soubesse antes, jamais teria se envolvido. Ela percorreu o longo caminho até o jatinho, caminhava sem perceber o que fazia. Entendia o receio de Pam em procurar Nora, agora fazia todo o sentido. Amantes com histórias inacabadas nunca se separam de verdade, sempre resta algo lá no fundo, só esperando vir à tona. O que não era o caso dela e Eric, a relação tumultuada que tiveram terminou da pior maneira possível, ela o mandando para a morte e depois o salvando. Subiu a escadinha do jato com dificuldade, foi recebida mais uma vez pelo piloto e a aeromoça. Pam já estava acomodada na última poltrona que ficava ao lado do sofá para dois. Sookita sentou na segundo poltrona no outro corredor virada na direção da cabine. Parecia primeiro dia numa nova escola quando se sentava no lugar mais longe dos outros alunos. Apertou o cinto em volta da cintura soltando um longo e alto suspiro, colocou a bolsa na poltrona em frente a ela que ficava de costas para a cabine. “Tem muito autocontrole, Sookita.”, Pam disse lá do fundo. “Eu no seu lugar teria socado a cara de porcelana daquela vaca.” “Não tenho motivo pra agir dessa maneira.”, disse num fio de voz. “Aquela lá é perigosa. Você foi humilhada e nem percebeu.” “Pam, ela foi educada, é diferente.”, Sookita respondeu olhando de lado. “Ainda tem muito o que aprender. Tara deveria ter ensinado como as coisas funcionam.”, Pam deu uma risadinha. “Eu sei o suficiente.” Não continuaram a conversa, pois Eric entrou de supetão no jatinho que ficou pequeno demais para ele, batia a cabeça no teto conforme andava pelo minúsculo corredor. Para seu horror ele se sentou na primeira poltrona perto da porta e que ficava virada para o fundo do avião, ele teria visão completa do que acontecia.

Sookita teve a sensação de que Pam escolheu aquela última poltrona proposital, para se divertir com toda essa situação constrangedora. Ele se mexia tentando se ajeitar, era grande demais para a poltrona, resolveu a situação tirando a bandeja da frente e apoiando as longas pernas na poltrona em frente. “Tem que apertar o cinto, queridinho.”, Pam disse revirando os olhos. “Esqueceu como se faz?” “Eu quase virei pó, nem era para estar aqui.”, ele respondeu apertando o cinto. “Que história é essa de Leroy assassino?”, ele perguntou ignorando Sookita. “Só sei o que Sookita me contou. Tem que perguntar pra ela.”, Pam apontou para ela. Sookita engoliu em seco, olhava pela janelinha a pista do lado de fora para não se envolver na conversa. Mas, Pam queria mesmo se divertir as custas dela. “O que você viu?”, ele perguntou friamente. “Lafayette quem me mostrou, ele foi hipnotizado para...”, ela falava olhando para a frente, não o encarava. “Bem, ele foi hipnotizado, mas eu consegui ver. Quando... quando você foi embora, Leroy apareceu e matou meu irmão.” “Interessante como o mundo dá voltas.”, Eric disse com desprezo. “Como convenceu o Executor?” “Ela deve ter feito algo especial, porque ele realmente convenceu os americanos. Devemos mandar um presente depois como agradecimento.”, Pam disse num tom zombeteiro. “Eu só mostrei para ele o que vi. Nada mais e nada menos.”, Sookita disse rapidamente. “Dessa vez não se confundiu sobre a verdade...”, Eric se mexeu na poltrona, o avião começava a acelerar na pista. Ela o encarou com os olhos marejados, e ele tinha razão, não havia se confundido como da outra vez. Ela não tinha certeza se pedia desculpas, se não soaria como hipocrisia. “Eu não... desculpe pelo meu erro.”, ela disse se arrependendo em seguida. O avião levantava voo, o barulho era ensurdecedor, mas sem dúvida ele tinha ouvido. Como tinha sido idiota em se desculpar, não era o momento para isso, mais uma vez havia se precipitado, já estava virando uma incomoda rotina, ainda mais perto dele.

Eric não respondeu e quando o avião estabilizou ele passou a ignorá-la solenemente. Ele só falava com Pam e não forçou uma nova conversa envolvendo Sookita. “Leroy trabalha para Santiago.”, Eric disse depois de um tempo. “Santiago jamais faria nada para te prejudicar.” “Ele quem te ajudou a encontrar Nora?” Sookita sentiu o coração acelerar quando ele mencionou Nora. Admitia que sentia uma dor quando ele falava da outra com tanto carinho na voz, algo raro de Eric fazer. “Claro, eu tive que apelar. Sei que não gostaria disso.”, Pam disse com cuidado. “Só Nora saberia o que fazer nessa situação. Fez bem.”, ele disse não estendendo a conversa. Ela fechou os olhos, queria dormir, não havia nem passado uma hora de viagem. Mas, não conseguiu, se sentia incomodada e quando abriu os olhos encontrou o olhar de Eric. Desviou no mesmo instante respirando com dificuldade. Maldito jatinho, ela pensou desconsolada. “Avisaram a Autoridade mexicana?”, Eric perguntou. “Se eu fizesse parte, saberia responder, como não sei nada...”, Pam respondeu encolhendo os ombros. “Será uma surpresa e tanta para algumas pessoas.”, ele disse soltando uma risada. “Você nem imagina o que Sookita fez... gostaria que ela tivesse tirado uma foto de Bill preso na cama por correntes.”, Pam gargalhava. “Pam, por favor...” Sookita disse se levantando para ir ao banheiro, não aguentava mais essa situação surreal, passaria o resto da viagem no banheiro se pudesse. Trancou a porta ainda ouvindo as risadas de Pam. Eric não disse nada, pelo menos ela não ouviu. Ela ficou um bom tempo no banheiro sentada em cima da tampa do assento, queria que o tempo passasse magicamente, quando saísse já tivessem chegado. Só saiu da toca quando o jato sacolejou num trecho. Caminhou pelo corredor se apoiando nas poltronas, quase caiu no chão com um sacolejo mais forte. Sentou novamente e deu mais uma vez com o olhar

atento de Eric. Aquele olhar vazio, odioso, parecido quando o conheceu. Haviam voltado ao estágio inicial, quando ele a desprezava, só que ela agora o amava, não o odiava como antes. Um silêncio reinava no avião, ninguém mais falava. Os dois não se sentiam a vontade com a presença de Sookita para conversarem como gostariam. Ela acreditava que esse era um dos poucos momentos que ainda teria perto de Eric, não se veriam mais depois disso, não tinham motivos. A vontade de chorar surgiu de novo, desejava chorar pra valer, para tirar essa dor que não passava. Chegariam perto do amanhecer em Vale, ela olhava para o visor do celular de hora em hora. Respirou aliviada quando viu que estavam quase chegando, nem acreditou que tinha sobrevivido a esse suplicio. Eram quase 5 e 15 da manhã, ela nunca ficou tão feliz em ver esse horário. Pam dessa vez não deu chilique pelo avião pousando, fingiu na frente de Eric que não tinha medo. Sookita sorriu de canto ao ver a vampira apertando os lábios pelo pavor que sentia. Assim que pousaram, Eric foi o primeiro a sair, Pam saiu em seguida e Sookita por último. Estava novamente em casa, pelo menos na sua cidade. Mariano esperava do lado de fora do carro, era o de Pam. Ele foi para o banco de trás ao lado de Sookita. Pam foi dirigindo com Eric no banco do passageiro. Outro silêncio constrangedor no carro, até Eric falar com Mariano: “Não destruíram de vez a boate?” “Só alguns arruaceiros jogaram ovos na entrada. Um acertou Carmelita.” “A Autoridade deveria arcar com esses prejuízos.”, Pam disse dirigindo velozmente, não tinham muito tempo antes do amanhecer. “Eu farei algumas exigências.”, Eric disse friamente. “Começando com um pedido de desculpas públicas do Senhor Prefeito.” Sookita sentiu um frio na barriga, Bill não iria gostar nada disso. Se desculpar em público para Eric, e ela era uma das responsáveis. Pam parou o carro nos fundos da boate, não iriam arriscar de entrarem pela frente e sofrerem algum ataque sem poderem reagir. Mariano saiu do carro, deu a volta velozmente e abriu a porta para Sookita. Ela sorriu diante da educação do vampiro. “Mande Carmelita levar Sookita embora.”, a voz de Pam soou irritada quando entrou atrás de Eric na boate.

Mariano entrou em seguida. Sookia caminhou de cabeça baixa até a porta do outro lado do carro. Estava cansada e desejando ir embora. Não havia mais sinal de Eric ou Pam, não que ela esperasse algo mais do que isso, mesmo que fosse somente um adeus. Carmelita surgiu sonolenta, era a humana que os ajudava na gerência da boate. Fez um sinal com a cabeça para Sookita entrar no carro. Carmelita abriu a porta do motorista, se acomodou no banco, arrumou o espelho retrovisor e esperou por ela. Antes de Sookita entrar no carro, Eric surgiu repentinamente parando em frente a ela que se afastou de encontro a porta do carro, ele estava poucos centímetros de distância. “Que jogo está fazendo?”, ele disse entre dentes. “Por que foi me salvar?” “Eu não poderia deixá-lo morrer sendo inocente.”, ela não desviou o olhar. “A Santa Sookita tentando fazer desse mundo um lugar melhor. Comovente.”, ele forçou uma voz afetada. “Você faria o mesmo no meu lugar.”, ela notou que o sol começava a surgir. “Não invente ações minhas nessa sua cabeça.” “Está amanhecendo.”, Sookita disse preocupada, apesar de estarem em baixo do toldo, não demoraria para serem atingidos pelos raios do sol. “Foda-se.”, ele apoiou uma mão no teto do carro se aproximando dela. “Eric, desculpe por não ter acreditado. Você... você nunca me contou o que realmente aconteceu”, ela disse com o peito arfando. “Nada disso importa mais.”, ele desviou o olhar para o peito dela. “O que tivemos só aconteceu dentro de nossas cabeças.” “Eu ainda te amo, não é algo da minha cabeça.”, ela colocou a mão no peito para controlar o coração. “Volte para seu marido.”, o sol começou a queimar a mão dele apoiada em cima do carro, não demoraria para atingi-lo por completo. “Não sei se tenho marido depois do que fiz.”, ela olhava receosa para a mão dele, começava a sair fumaça por causa do sol. “A escolha foi sua.”, ele aproximou o rosto do dela. “Igual quando fodeu várias e várias vezes com seu marido.” “Fiz para te atingir...”, ela o encarou com firmeza. “Eu... eu queria que soubesse o que perdeu.”

“Não tenho tempo a perder com infantilidades.”, ele mantinha a mão na mesma posição, mesmo com o cheiro de carne queimada e a dor lancinante. “Não a quero nunca mais perto dessa boate, e nem da minha casa.” Ela não teve forças para responder, abriu a porta do carro e entrou de uma vez. Gritou para Carmelita levá-la embora, a moça colocou o carro em movimento, assustada com a reação. Sookita lançou um olhar pelo retrovisor, Eric continuou parado na mesma posição, e o sol chegando perigosamente no resto do corpo dele. Os olhos deles se encontraram mais uma vez no fim daquela noite. --------------------Bastian apertava na tela do celular sem parar, não tinha notícias de Delilah e de Maya. Leroy já havia deixado a Autoridade fazia algumas horas, e ele estava ali preso naquele cubículo porque tinha amanhecido. Nem sonharia em invocar a presença de Maya, ela morreria se saísse no sol para chegar até ele. Acreditava que tudo tinha dado certo, ele fez o máximo que pode em segurar Leroy, mandou Maya avisar Delilah. Ficava irritado com Delilah por sempre esquecer de carregar o celular, ele tinha avisado tantas e tantas vezes. Agora estava a mercê do sol, tinha que esperar. Seu problema maior seria avisar Santiago se não conseguisse mais contato com elas. Delilah depois o mataria por ter abrido o bico, mas não tinha o que fazer diferente. Não aguentava mais em ficar na sala de limpeza trancado, o movimento na Autoridade era menor por causa do horário, mesmo assim não tinha para onde ir em pleno dia. O jeito foi ficar jogando online e olhando toda hora para o celular esperando algum coisa. O dia passou devagar, quase parando, ainda mais por ele estar ansioso. Ele parou de jogar e começou a andar de um lado para o outro segurando o celular, torcendo para as horas passarem. Limpava de vez em quando os sangramentos por passar o dia acordado. Quando começou a anoitecer, Bastian pegou o notebook e saiu de seu esconderijo. Mesmo estando na Autoridade, chamou Maya num tom de voz baixo, ela era obrigada a obedecê-lo. Saiu pela outra saída secreta ensinada por Delilah, a Autoridade tinha várias. Ele caminhou pelo longo corredor apertado do segundo andar que levava para fora, a passagem foi construída para evacuação rápida em caso de ataques, mas poucos vampiros sabiam. Ele obviamente não sabia de nada, Delilah quem acabava contando quando precisava de algum favor.

Finalmente viu a noite estrelada quando chegou no fim do corredor. Dessa vez não encontrou nenhuma criatura estranha como antes. Começou a caminhar para perto da entrada do prédio falsamente abandonado. Chamou Maya várias vezes e nada de sua cria aparecer. A preocupação recomeçou a voltar, ela teria que aparecer, teria que falar que tudo estava bem. Ele passou a mão no cabelo raspado, as mãos tremiam, pois sabia o que teria que fazer, procurar por Santiago. Mas, antes que recomeçasse a fazer o caminho de volta para a Autoridade, o celular tocou. Ele deu um salto de empolgação, o aparelho quase foi parar no chão. Após fazer um malabarismo, Bastian apertou o celular com os dedos e olhou para o visor. Como que por uma coincidência, o nome de Santiago surgiu na tela, Bastian engoliu em seco quando atendeu. E minutos depois saiu em desabalada corrida para longe da Autoridade, algo ruim poderia ter acontecido. Ele não sabia exatamente o que, mas a voz de seu criador o deixou assustado. -------------------------Jessica estava preparada para a noite do Rito de Passagem de seu futuro marido. Esperava que a noite anterior tenha sido uma boa despedida para ele como foi para ela. Não demorou em decidir que o mataria, por mais que não confiasse em Francisco, casar com Alcide nunca foi uma opção. Sempre odiou o lobo babento desde que começou a trabalhar com seu pai. Alcide posava de bonzinho, educado, prestativo, tudo o que ela não era. E ele tinha o apoio incondicional de Bill. Jessica sempre ficou com o resto, a filha bagunceira que só dava trabalho. Ela não quis mudar essa impressão, jamais se adequou aos gostos alheios, nem de seu pai. Quando se aproximou de Sam foi uma maneira de espionar Sookita, mas não imaginou que acabaria se apaixonando por ele. Mas, como todos em sua vida, ele também quebrou seu coração. Era mais um idiota apaixonado pela pureza de Sookita. Qual era o tesão de homens com mulheres inocentes? Ela nunca iria entender, talvez Freud explicasse. Alcide era uma Sookita de saias, e também tinha o amor de seu pai. Jessica tentou afastá-los de seu pai, mas só conseguiu ser afastada por ele e jogada aos braços de Alcide, como algo usado. Mas, ela iria dar a volta por cima, a proposta tortuosa do irmão do idiota surgiu no melhor momento. Nessa noite ela não teria a aula diária com o velho, as mulheres iriam se reunir para uma ritual de apoio a Alcide. Algo como dançarem nuas em volta de uma

fogueira. E Jessica estava sentada num tronco perto da fogueira ao lado da avó de Alcide, nenhuma mulher ainda tinha ficado nua, mas logo o ritual começaria. Ela consultava o relógio no celular, olhava para a floresta, os homens estavam do outro lado. O resto da cidade dormia como se nada acontecesse, apenas os pertencentes ao clã real tomavam parte. Igual as mulheres ali reunidas. Haviam trinta mulheres, algumas jovens, a maioria eram velhas. Todas humanas, com o coração batendo acelerado, os rostos corados e bonitos. Jessica não sentia fome, pois era alimentada com sangue humano pelos avós de Alcide. E sem as presas que cresciam de maneira dolorosa e bem devagar, ela não tinha como atacar ninguém. “Não fique nervosa, querida. Alcide se sairá bem, nosso ritual abrirá o céu para ele, a lua o guiará.”, Constance disse apertando a mão de Jessica. “Vai demorar para começar?”, ela abriu um falso sorriso nervoso. “Assim que der meia-noite.” As outras mulheres olhavam para Jessica com desdém, nem todas eram receptivas como a avó de Alcide. Ela era uma vampira no meio de humanas casadas com lobisomens, as chances de algo sair errado eram enormes. Apesar de que ela não se arriscaria em atacá-las não tendo as presas, infelizmente estavam seguras. A avó de Alcide ficou em pé pronta para iniciar o ritual, segurou com força na mão de Jessica e obrigou a ficar em pé ao seu lado. Ela teria que arrumar uma maneira de escapar, teria que ir até Alcide e matá-lo quando estivesse vulnerável. “Estamos reunidas nesta noite em homenagem a lua cheia e para que ilumine o caminho de Alcide.” As mulheres se posicionaram num círculo em volta da fogueira, levantaram as mãos para o céu e entoavam juntas um canto baixo e assustador para os ouvidos de Jessica. Uma mulher de cabelos longos e negros entregou uma faca para Constance, a lâmina brilhou com o fogo e a luz do luar juntas. A avó de Alcide puxou o braço de Jessica para a frente e fez um corte profundo com a faca, o sangue começou a escorrer abundante e pingar na fogueira. O fogo aumentou de tamanho, se tornou um vermelho forte como o sangue de Jessica. Ela tentou se soltar, mas os dedos de Constance se fecharam na carne de Jessica, não deixava se afastar e disse numa voz alta e diferente da usual:

“Oferecemos o sangue de Jessica, a futura esposa. Juntem a alma dos dois, façam com que sejam somente um, o sangue dela levará força a ele.” “O que está fazendo?”, Jessica gritou. “Fique calma.”, Constance disse. As mulheres continuaram a cantar um som gutural e os uivos eram ouvidos ao longe. A lua parecia ter aumentado de tamanho, assim como a fogueira. Jessica gritava de horror, o sangue não parava de escorrer, ela estava ficando fraca. Constance a soltou de uma vez, Jessica caiu sentada no chão batendo as costas no tronco. As mulheres mantinham o transe, nenhuma estava nua, o ritual não era como tinha imaginado. O corte profundo no braço começou a se fechar lentamente, o processo de cura se iniciou. “O que fez comigo?”, ela deu um chute na perna de Constance. “Liguei a sua alma a de Alcide.”, a mulher se virou para encará-la. “Se ele morrer, você também morrerá.”, ela sorriu. “Vá ajudá-lo, salve-o dos outros.” “Está mentindo.” “Recomendo que não pague para ver. Aja antes que seja tarde. Vá.”, Constance voltou a se concentrar com as outras mulheres. “Filha da puta.” Jessica gritou se colocando em pé. Será que Constance sabia do plano de Francisco? Ela não perdeu tempo em continuar ali para descobrir, nem sabia se teria como tirar a limpo depois essa história. Já tinha ouvido falar em bruxaria, e não era tão corajosa em duvidar. Teria que salvar o idiota do Alcide. Merda, ódio, maldição.