A EMANCIPAÇÃO DOS ESCRAVOS Rui Barbosa 1884 — Ninguém, neste país, divinizou jamais a escravidão.

Ninguém abertamente a defendeu, qual nos Estados separatistas da União Americana, como a pedra angular do edifício social. Ninguém, como ali, anatematizou na emancipação um atentado perturbador dos desígnios providenciais. Todos são, e tem sido emancipadores, ainda os que embaraçavam a repressão do tráfico, e divisavam nêle uma conveniência econômica, ou um mal mais tolerável do que a extinção do comércio negreiro. Na teoria da propriedade do homem sôbre o seu próximo não há meio têrmo. Da natureza da escravidão é que o escravo não tenha direitos de ordem alguma, nem sequer os direitos comuns da humanidade. Desde o momento em que a autoridade absoluta do senhor principia a desintegrar-se em atenuações sucessivas do domínio, que reconheçam direitos pessoais, títulos civis ao cativo, tem essa relação perdido para sempre o caráter primitivo de propriedade, e não se pode mais defender, senão com um compromisso transitório com as exigências políticas e econômicas de uma sociedade em elaboração. Onde estribar, pois, essas imputações de socialismo, de proselitismo comunista, com que nos tentam desarmar? A oposição conservadora, em 1781, sustentava que o princípio da propriedade servil envolve uma propriedade de caráter idêntico sôbre os filhos, ainda eventualmente nascituros, da cativa. São do sr. Visconde de Itaboraí estas proposições: “Nossas leis tinham reconhecido, e reconhecem ainda, não só o domínio da escrava, mas ainda o do filho, que ela possa ter. A propriedade da cria é uma extensão de direito de propriedade da escrava, e da mesma natureza que êle”. “Parece-me que aquêles que defendem o verdadeiro caráter da propriedade escrava no Brasil, abrem grande brecha nas muralhas da fortaleza onde se encastelam, concedendo que o domínio sôbre o fruto da escrava não pertence de direito ao proprietário dela”. Não é então igualmente socialista a lei de 28 de setembro, que, segundo os seus impugnadores, oferecia ao proprietário, em trôco dessa propriedade, um simulacro de indenização? Os que opinam pela emancipação a prazo sem indenização, estarão escoimados da pecha de socialistas, que irrogam ao alvitre da emancipação gratuita dos escravos sexagenários? Entretanto, êsse sistema já em 1871 tinha por si o voto de opulentos proprietários de escravos, e foi aconselhado na representação dos fazendeiros do Bananal. Sob a designação de socialismo abrangemos, diz um economista dos mais modernos, “o complexo das utopias e sistemas, que, recusando proceder, nos estudos sociais, pelo método experimental, e sob a lenta, mas segura, guia da observação, forjam um regime econômico e civil da associação humana, em que tudo se renova de cima a baixo, religião, ciência, relações entre homem e homem, direitos e deveres; sistemas e utopias êsses, que, supondo não haver leis naturais e imprescritíveis na evolução da humana sociedade, acusam tôdas as instituições atuais de serem apenas o fruto do arbítrio, da usurpação, do monopólio, e

vem a ser a negação explícita. é Karl Marx. desconhecendo no escravo a individualidade e a liberdade. para impor à civilização adiantada do país o anacronismo dêste legado do tráfico retardando a eliminação dêste corpo heterogêneo. que pôs fim aos morgados? A desamortização forçada dos bens das ordens religiosas? Não terá o socialismo invadido o próprio trono dos czares. desde os primórdios da nossa espécie. Utopia é a dos que se empenham em prolongar artificialmente a existência dessa aberração. A propriedade mobiliária. Socialistas são os que pretendem trocar em moldes arbitrários. de tôdas as criações socialistas. argüir de socialista a ampla intervenção do Estado na instrução popular? O ensino obrigatório? A extensão . os que corrompem a noção científica da propriedade. a família. quando um ucasse do autócrata da Rússia reintegra na liberdade a vinte e três milhões de servos? Há. Socialistas serão os que. mais ou menos próxima. feriram os antigos apanágios da Igreja? Sê-lo-ão menos as disposições constitucionais que tiraram aos privilégios do antigo regime o monopólio de funções e dignidades. elementos universais de tôda a sociedade. pregando a abolição da herança. a generalizarmos o alcance da noção de socialismo. Nenhuma nacionalidade existiu ainda. a apropriação pessoal do solo. fixando uma duração limitada à propriedade das invenções e descobrimentos? Serão menos socialistas os atos legislativos que extinguiram a hereditariedade em cargos de justiça e fazenda? Não será socialista a lei de 6 de outubro de 1835. violadas flagrantemente por uma instituição anômala. não se ressinta de contacto com êle? Não se poderia com análogo fundamento. pois. que não assentasse as suas bases no respeito a essas instituições. ao menos em nosso país. ou da metafísica. destinada a proteger as classes ou condições indefesas na sociedade moderna. os que. êsses moldes eternos: é Saint Simon. teorizando a nacionalização da terra. Se é socialismo a abolição dos privilégios e a restauração do direito comum. ou implícita. convertendo-a em escudo da escravidão. assimilando a propriedade ao roubo. Logo. que. de mais a mais. é Proudhon. instituição alguma. entre os próprios que indiretamente lidam pela perpetuação do elemento servil. são. abolindo as corporações de ofício. obra da imaginação. desde Platão até Henry George. das leis naturais que presidem à associação humana. Dizem-nos apenas que a questão é de oportunidade e modo. a herança. Que ponto de contacto há entre a escravidão e êsses princípios universais na organização social da humanidade? Negando o direito que presume esteá-la negaremos alguma dessas leis naturais. ainda não houve quem lhe pusesse em dúvida a ilegitimidade moral. em puro proveito das extravagâncias revolucionárias. jurisprudências e reformas especiosas. que dominam a evolução coletiva do homem na superfície do globo? Mas. tôdas as opiniões se dizem acordes. a deletéria influência. estarão estremes de socialismo as leis que. o caráter passageiro da sua duração. somos nós que queremos voltar ao regime das leis naturais.tendem a substituí-las por uma ordem de coisas inteiramente elaborada na mente dos seus inventores”. a necessidade absoluta de extingui-lo. em cuja supressão. os que forjam estatísticas. tôdas as opiniões se dizem mais ou menos próximas. que o organismo nacional violentamente repele. é Henry George. acabando com a dízima eclesiástica. apostolando a partilha do capital. o capital. não vêem senão a propriedade do senhor. asilando sob a inviolabilidade dêste direito a usurpação do cativeiro. incomportável em nossos tempos. pelo contrário. O caráter comum. malquistam e infamam a propriedade.

Pode. essa lei audaz firmou a regra de que o direito do tenant à terra que cultiva é superior ao arbítrio do landlord. essa consangüinidade socialista na grande lei agrária. à Inglaterra. neste ponto. é de tão imensurável alcance na esfera das idéias sociais. criam restrições tutelares ao emprêgo das mulheres nos estabelecimentos industriais. sôbre o emprêgo de mulheres e meninos em trabalhos subterrâneos. o mais leve traço de dúvida. pôsto em voga. de que o não podem privar. ¹ Invocando tradições e costumes. e proíbem ou limitam o emprêgo das crianças nas manufaturas? Cingindo-nos especialmente a um país onde a acumulação e os privilégios da propriedade assumem proporções extraordinàriamente vastas. êsse parentesco. há três anos. Por esta e outros disposições o tenantright se insinuara na lei de 1870.” ³ “Doravante o rendeiro possui um direito pessoal. ² Essa pretensão. e reduz a tão ridículas proporções o refrão de socialismo. sôbre a insalubridade das casas? Quem não sentirá. o tenantright. manter-se na posse. No sentido da causa irlandesa o Land Act de 1870 era já uma estrondosa conquista: sem estabelecer desassombradamente o princípio do condomínio rendeiro. e vivia menos à sombra da lei? Para que não reste. especialmente. com o assentimento. particularmente. — quem não reconhecerá as profundas afinidades socialistas. na Inglaterra. “O direito informe e mal protegido do tenant converteu-se em um verdadeiro direito de co-propriedade. Anos depois raros estadistas. reconhecido ao rendeiro na legislação nova. Coube.excepcional franqueada à autoridade no regime de higiene pública e na polícia sanitária das cidades? As leis que se propõe a melhorar as condições econômicas das classes operárias? As que limitam as horas de trabalho nas fábricas. porém à lei agrária de 1881 operar a grande revolução. essa propriedade ali se estabelecera. contra as medidas limitativas do domínio sôbre o escravo. é o eixo derredor do qual giram as reclamações da Land League. essa tendência. a população agrícola da Irlanda considerava-se com direitos próprios ao solo que roteia. pelo contacto prolongado com o solo. que somos forçados a demorar nêle a atenção por momentos. sem que êle transgrida as suas obrigações”. menos direito. requerendo à comissão agrária que lhe fixe a renda. ouvi o que. assentando rasgadamente a tese formal da co-propriedade do rendeiro nos latifúndios do senhor agrícola. Ainda em meados dêste século lordPalmerston punha em circulação. independente do proprietário . do que o do lavrador brasileiro sôbre o homem escravizado? Acaso. para Irlanda? Êsse fato. entre nós. ainda. se afoitariam a sancionar essa expressão absoluta dos direitos da grande propriedade. decretada. sôbre a prevenção de acidentes nas minas e fábricas. Êsse direito próprio. adquire sôbreêle uma espécie de co-propriedade. na questão servil. Porventura o direito de propriedade do lorde irlandês sôbre a terra será menos propriedade. até da opinião whig. o que Gladstone expressamente reconheceu onze anos depois. importa um cerceamento correspondente no valor da propriedade plena”. que ressumbram das leis recentemente adotadas ali sôbre navios e marinheiros. “O campônio irlandês sempre se persuadiu de que. analisando o Land Act de 1881. a tal respeito. escreve um conselheiro da Côrte de Cassação em França: . malgrado ao proprietário. a tese de que o direito do rendeiro é a espoliação do proprietário rural (tenantrightislandlord’swrong). que o não pode expropriar sem uma indenização pecuniária. O ato legislativo dêsse ano coloca francamente o rendeiro na situação do condomínio associado.

ou na influência das tradições. A forma tradicional da propriedade. nem as utopias hostis à propriedade e ao individualismo encontram ali meio propício na índole do povo. “A causa s uprema desta revolução no sentimento público”. nas transações entre indivíduos. o armador. sob cuja proteção eles adquiriram terras na Irlanda por intermédio do tribunal das LandedEstates ”. para executarem as suas conclusões. em proveito dos agricultores que encontrou na posse do solo. nem por contratos de aquisição. na construção dos seus navios. as leis sob cuja proteção se constituíra a propriedade individual do solo. ali. Alguns dentre os mais altos deveres da humanidade. não lhes poderia exprobrar nem o confisco. era uma iniqüidade nacional. que. “está no despertar da . o patrão. que lhes não tocava nem pelo uso. foram notificados pela opinião pública. confiando-se na eficácia de novas fôrças. eram menos veneradas que o comércio de escravos antes e o contrabando de escravos depois de 1831? Porventura Gladstone. Não obstante (falará por nós um dos mais eminentes e liberais inglêses).“A lei nova consagra. o proprietário urbano. algumas dentre as mínimas ocupações da vida quotidiana. condenado à fatalidade da miséria. origem da propriedade de alguns. é o ilustre financeiro que acabamos de invocar. a situação do operário rural. nomeando agentes seus. O Estado fixara o justo e o injusto. Mas a situação do trabalhador agrícola na Irlanda. nem a confiança que inspirou aos outros a legislação de 1849 e 1858. várias das mais complicadas funções do nosso regime industrial e agrícola foram avocados ao seu domínio pelo Estado. na aplicação de princípios novos”. Se o interêsse superior da salvação pública exigia êsse sacrifício. Quem o atesta. na direção de sua casa. na esfera do interêsse privado? Um cálculo de egoísmo? Um pensamento político? O predomínio de uma escola econômica? Não.´ Porventura as terras irlandesas foram adquiridas pelos lordes em menos perfeita boafé do que os escravos pelos agricultores entre nós? Porventura. nas suas relações com os filhos. no tratamento da marinhagem. Goschen. o construtor naval. foi impotente para sustentar o peso dessa injustiça. dizia. elevara-se a responsabilidade nacional. Cerceara-se a responsabilidade individual. o conveniente e o inconveniente. amarrado à fatalidade do cativeiro. entre nós. o proprietário territorial nos seus contratos com os rendeiros. ou pelas leis em vigor. “o pai. como. na liberdade dos contratos. entretanto. para aceitar e desenvolver essa interferência excepcional do Estado no domínio da propriedade. µ Que razões prepararam a opinião. êle foi imposto sem compensação aos land-lords pelo govêrno inglês. naquele país. uma expropriação manifesta de parte da propriedade. de que a fórmula do laisseznousfaire já não prevalece nestes dias. o herói da reforma de 1881. nas suas relações com os operários. há um ano. relativamente mínima a par da escravidão. é algum socialista? Compreende menos puramente do que os nossos conservadores a liberdade? Tem mais deteriorado que os nossos fazendeiros o sentimento da propriedade? Queremos supor que não. nas relações entre as classes. M. Como há de resistir ao combate do direito humano a hedionda organização da propriedade servil? A Inglaterra não é nenhuma nação de visionários.

em que. A uma influência antes moral do que econômica. se deve a imensa fôrça motriz necessária para a passagem de leis tais. na terra. em Roma. à consciência do bem. do comercialismo. do bom senso prático. após uma luta de onze anos. o antigo herói militar. A liberdade teve de ceder aos direitos da moralidade (libertywasmadetoyieldtotheclaimsofmorality ). porque a reforma exprimia uma fatalidade do tempo. Alguns anos atrás essa legislação seria absolutamente impossível. ainda: quando à reforma se pudesse mais ou menos plausìvelmente. e sereis levados a condená-los. e realizaram a extinção do elemento servil. hão de ser julgadas pela sua utilidade econômica e moral. no parlamento. se possa escoimar de socialismo? Implantando na sociedade as anomalias mais monstruosas. antes que à convicção de algum lucro material. a que a liberdade teve de dobrar-se. uma fórmula. As medidas emancipadoras.consciência pública. invocar essa autoridade suprema da moral contra o mais imoral dos privilégios da usurpação. para resistir. fôrça bastante para contrastar as exigências superiores da lei moral — que título tem. as imposições da moral prevalecem assim. a que só chegariam hoje espíritos alheios à crítica histórica e à noção das circunstâncias que determinaram aquêles resultados. impuseram. Que direitos singulares assistem à propriedade. e o melhoramento da condição das classes populares tornara-se impossível. que nos não permite a nós outros. ajeitar o qualificativo de socialista. com que os tribunos e as assembleias populares lutaram. por várias faces. que. sensível agora aos aspectos morais. submetida ao mais benigno critério do respeito aos direitos dos possuidores de escravos. nos trabalhos do campo. o cativeiro cria situações quase sempre insolúveis mediante os princípios ordinários do govêrno e as regras de jurisprudência comum. haverá uma só. ao senado a lei que obrigava aos proprietários territoriais a empregarem. a uma lei. · . a uma necessidade fatal do progresso humano? Das leis que. como a mais prática e eminente das realidades. — que estranha inversão da lógica e do senso comum é esta. ainda à propriedade perfeita. Todos os atos parlamentares concernentes a êsses assuntos foram votados essencialmente por fundamentos morais (on moral grounds). sem medidas legislativas que abalariam pelos alicerces a organização civil daquela época muito além das previsões contemporâneas de estadistas e interessados. foram baldadas. predispuseram. um número de obreiros livres proporcional ao dos seus escravos rurais. no Brasil. no ano de 387. ¶ Julgai pelo padrão ordinário as leis agrárias. senão até aos direitos onipotentes da liberdade. na república romana. ou sentimentalismo? Mais. não será pueril presunção opor um nome. no país dos grandes latifúndios e das indústrias colossais. sem incorrermos em nota de ideologia. para limitar o sistema da lavoura servir e assegurar aos proletários livres algum quinhão no trabalho rural. conclusão absurda. tôdas as resistências do patriciado e até a ditadura de Camilo. e veneram-se. mais ou menos remoto. se manifestam nas relações particulares. pois. neste país onde talvez nunca a liberdade se sacrificou a considerações de conveniência”. para se opor a essa soberania suma a propriedade abominável e indefensável do homem sôbre o homem? Se. contra a pressão todo-poderosa da oligarquia proletária. na grande mãe pátria da liberdade moderna? Se a propriedade natural do homem sôbre as coisas não encontrou. noutros países. Quando. por excelência do espírito utilitário. da justiça. não só aos interesses poderosos da riqueza. os tribunos do povo Gaio Licínio e Lúcio Séxtio.

nos tempos de Moisés. conveniências. que procuram consubstanciá-lo aos interesses da sociedade mesma. e eliminais a personalidade do cativo. Em nome e com a altivez do direito. tentando estremá-lo da propriedade sôbre os instrumentos inanimados e irracionais da atividade humana é incongruência e arbítrio. assimilá-lo à propriedade e. e até certo ponto. ¸ Dignificar com o título de direito o domínio do homem sôbre o homem. contanto que o látego lhe deixasse um dia de vida: “É meu. o restro das caravanas de escravos. contra a emancipação é absolutamente o mesmo invocado pela consciência hebraica. da sua liberdade pela raça opressora. e doutrinada por Alcidamo. não! Se a legalidade constituísse o direito. Todo raciocínio que autorize como um direito a escravidão atual. mais de quatro séculos antes da era cristã. é minha propriedade”. reservando a vida futura às castas superiores. felizmente. ou exorar compensações. com que eles não coincidem senão passageiramente. ou confessareis o direito do cativo. e negais a propriedade do senhor. atirada às faces do senhor pelo escravo na comédia de Filenom. no século XIX. A distinção que da propriedade servil exclui o jus vitae etnecis. contemporâneo de Aristóteles. No estudo moral desta instituição é absurda a concepção de dois direitos opostos. as memórias da média idade. a faculdade de dispor da vida do escravo. . beatificaria. porque o comprei com o meu dinheiro”. perdido através dos areiais desertos da África e do Oriente. o tráfico. e só em nome de alguma consideração destas é que a propriedade servil pode suplicar indulgência. legitimaria em tôda a nudez da sua maldade a escravidão primitiva. razões de Estado. O argumento que a legitimar na mais remota das suas manifestações e na mais atenuada expressão do seu espírito. os recordos longínquos do mais obscuro passado. simultaneamente. se fosse lícito preconizar em dogma jurídico o apotegma daquele estadista do escravismo americano. teríeis enxertado nas instituições livres do nosso tempo a teoria de Hobbes. os documentos da história moderna e as narrativas de viagens contemporâneas desenham na tela dos tempos os quadros do comércio servil. Congruência. para nos acautelar contra as apologias declamatórias do direito do senhor. que. interesses da maioria. os poemas dos helenos e dos romanos. santificaria em sua plenitude o direito de injustiça do senhor sôbre o cativo.Entre nós. O tráfico não é menos velho. condena identicamente a apropriação do seu trabalho. limitá-lo por atenuações progressivas. O sumo fundamento jurídico da propriedade servil. A escravidão obedece a uma lógica fatal. ou na degeneração peremptória da justiça do cativeiro. como as tradições magníficas do Egito e da Fenícia. quando o senhor podia matar de açoites o escravo. Entre estes dois extremos não há senão compromissos. ¹ a quem o cativeiro deve esta tese: “O que a lei declara propriedade minha. nem a enormidade do mal é tão vasta. discípulo de Górgias. concessões à equidade. inteligibilidade — só no credo selvagem dos polinésios. Mas a lição histórica tem a procedência mais completa. e tentam aferir as reformas sôbre a propriedade servil pelo mesmo padrão por onde apreciaríamos uma reforma da propriedade comum. as lendas bíblicas. a resistência oligarca não conta com as mesmas fôrças. firmeza. da sua honra. nem menos generalizado que o cativeiro: as mais antigas reminiscências da raça negra. com a mesma procedência. assaz limitado. e negando a existência da alma nas castas servis —. que desconhecem no escravo a humanidade. preconizá-la-ia igualmente no mais odioso dos seus aspectos e nas mais bárbaras exigências do seu regime. restringindo-se mutuamente: ou reconhecereis o direito do senhor.

a eternidade do despotismo. a causa dos males. explica-se por um fato psicológico: a profunda alteração da mentalidade individual e das faculdades sociais. voluntária ou involuntàriamente. na Inglaterra. implìcitamente funda a irresistibilidade. a responsabilidade dos contratempos que. pois: o abolicionismo é a reparação prosperadora: a resistência servil é a revolução depauperativa. 1884 — p. 1885. a selvageria dos proprietários foram. Não cabe aos abolicionistas.santificando em critério da justiça o arbítrio do legislador. a perda orgânica de substância humana operada nos povos que o cativeiro desnaturou. o desatino. 5). na América. quase por tôda a parte. anuviaram a redenção dos escravos. Os documentos oficiais e as declarações dos estadistas. em parte nenhuma do mundo. os esforços mais eficazes para que o futuro lhes não desmoralizasse as profecias. na França. . Em tôda a parte a grande propriedade vaticinou que a liberdade dos negros seria a extinção da agricultura. 44). Legìtimamenteposso concluir. os autores do prognóstico pavoroso envidaram. e. atestam-no os monumentos históricos. (Emancipação dos Escravos — Parecer — Rio. nalgumas localidades. (A Situação Abolicionista — Conferência em 1885 — Rio. p. demonstram que a pervicácia. em todos os países. dos que não apreendem esta evidência. A cegueira dos que não percebem esta realidade elementar. na escala moral. aquêle grau em que o homem confina com as sociedades animais. Uma nacionalidade sustentada pela escravidão ocupa. a irrevogabilidade. cuja origem se pretende imputar à intempestividade das reformas e à incivilizabilidade dos libertos.

LégislationComparée. ¶Theod. de 9 denov.de 1883. 1882.⁰ de 1883. publié par laSociété de µGoschen— Speech on “Laissez Faire” and Government Interference —EmEdimburgo. 695. 382. p. 180 e sega. P. 21. Paris. n.Vol XI. By W. Mommsen: The History of Rome (Trans. · Macaulay — Complete Works — Ld. York — Vol. p. 1873. Henry Clay. weekly ed. Babinet—Annuaire de LégislationÉtrangère. . 81. p. 140.NOTAS ¹ Thorold Rogers: Cobden H. 564. XXI. ¹ M. cit. ´ Ch. ¸ Êxodo. 1873. Times. 358. V. ³ Fournier — Op. 1 p.. and modern political opinion — London. 95. 2. ² Fournier — La Question Agraire en Irlande— p. 2 denov. 20. 388. Vol VII — p. p. Dickson) N.