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Síntese 5 – A CONSTRUÇÃO SOCIAL DE UM FATO

Eliane Abel de Oliveira1

Temos uma tendência de dar crédito somente àquilo que seja comprovado
cientificamente deixando em segundo plano a construção social e histórica desse fato.
Mas afinal, quando algo se torna um fato? Segundo Latour e Woolgar (1997) “um fato é
reconhecido quando perde seus atributos temporais e integra-se em um vasto conjunto
de conhecimentos edificados por outros fatos”. A intenção dos autores, neste texto, é
mostrar a construção de um fato e, por que não, a desconstrução do mesmo. Para tal,
usam como exemplo a descoberta do TRF narrando toda a sua trajetória nas pesquisas
de dois grupos de cientistas.

No texto deixam claro que um fato perde seu sentido quando separado de seu
contexto, pois o que para uns significa uma carreira, para outros não passa de mera
informação, dividindo-se então em duas comunidades distintas: os que pertencem à área
e os que estão fora dela. Para que a análise de um fato seja feita com clareza, é
necessária a análise de um episódio em particular, caso contrário, teriam que se analisar
vários outros fatos que estão ligados ao primeiro sem levar em conta suas construções o
que não é o correto.

Para uma análise adequada de um fato há que se escolher uma estratégia de ação,
uma hipótese complementar para provar o fato analisado. Essa prova pode passar por
modificações ao longo do tempo, o que não deve ser considerado como um fracasso,
mas como uma redefinição do que é uma prova. A escolha da estratégia deve visar que
se esgotem as possibilidades de análise conservando apenas um número ínfimo delas.

No anúncio de um fato são necessários alguns critérios de repetição e


similaridade para que este ganhe corpo. Isto tudo para que as normas sejam claras e se
distingam do plano de fundo que originou o fato, para que este seja algo novo. Contudo,
também é necessário o envolvimento de vários profissionais de diversas áreas para a
comprovação de um fato.

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Mestranda em Tecnologia pela UTFPR
Contudo, há certo cuidado por parte dos pesquisadores e cientistas no anúncio de
um novo fato, pois muitos tentam afastar a idéia de que a ciência trata da descoberta
mais do que da criatividade e da construção.

No que tange a dedução de um fato, esta não deve ser isolada dos fundamentos
sociológicos, pois quando se afirma algo em nome da convicção há um recuo e este
estabelece outro contexto podendo torná-lo lógico ou ilógico. O caráter da dedução é
sociologicamente determinado. Quando todas as análises se esgotam, quando todas as
conjecturas são provadas e aceitas, então há a construção de um fato.

Em contrapartida, no texto de Callon (1997), cientistas tentam elaborar uma


nova tecnologia para os automóveis, contudo estes não tomaram os mesmos cuidados
que os cientistas do caso TRF. No projeto VEL, os engenheiros consideraram que a
tecnologia é “um objeto específico que apresenta uma série de problemas que estes
peritos têm tentado resolver utilizando uma série de diferentes métodos disponíveis para
as ciências sociais”. No entanto, não associaram o estudo da tecnologia em si como uma
ferramenta de análise sociológica.

Esqueceram que o ativista a favor do transporte público é tão importante quanto


à descoberta de uma bateria de chumbo que pode ser recarregada várias vezes. Os
desejos dos consumidores foram manipulados pelos tecnocratas, provocando o
surgimento de movimentos sociais que desafiavam o poder da tecnocracia.

Outro cuidado que os engenheiros do projeto VEL não tomaram, foi a


diversificação de profissionais de diversas áreas no projeto, pois o futuro econômico do
projeto é que estava em jogo e não os interesses sociais, para eles a prova de um fato
estava nos lucros por ele gerados.

Sem uma estratégia bem elaborada, o projeto não teve sucesso, pois vários
fatores não foram levados em consideração, então o programa foi sendo empurrado
“sem estar certo que era realista”.

As simplificações dos processos, no caso VEL, não levaram em consideração os


elementos justapostos numa rede de relações esquecendo-se que o sociológico e o
técnico são indissociáveis, o que levou ao fracasso do projeto, opondo-se
completamente aos cientistas do caso TRF que obtiveram sucesso, pois consideraram
toda uma gama de conhecimentos e conhecedores além de uma estratégia bem
elaborada.

REFERÊNCIAS

CALLON, Michel. Society in the making: The study of technological analysis. In:
BIJKER, Wiebe; HUGHES, Thomas & PINCH, Trevor. The social construction of
technological systems. Cambridge, Mass.: MIT Press, 1997.

LATOUR, Bruno & WOOLGAR, Steve. A construção de um fato: o caso do TRF(H).


In: A vida de laboratório. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997.