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A relação entre a Filosofia, a Política e o Direito

Jaimir Conte

Existem muitas formas de se mostrar a relação entre a Filosofia, a Política e o Direito. Uma delas consiste em recorrer à própria história da filosofia a fim de ver como a Política e o Direito entram em cena na reflexão filosófica praticamente deste o ínício da história da filosofia. A outra, em ver como a filosofia dá forma a determinadas políticas positivas e como estas num primeiro momento se servem do direito para seus fins e posteriormente podem ser orientadas por ele. Na sua origem, a Filosofia esteve voltada principalmente para questões ligadas à natureza, à uma explicação racional e natural do universo. Com Sócrates e com os sofistas,

no entanto, também a dimensão humana entrou em cena na reflexão filosófica. Podemos

dizer que Sócrates inaugura a filosofia clássica rompendo com a preocupação quase que exclusivamente centrada na formulação de doutrinas sobre a realidade natural que encontramos nos filósofos pré-socráticos. É com Sócrates que a problemática ético-política passa para o primeiro plano da discussão filosófica, superando a questão da natureza como

temática central. Apesar de adversários, Sócrates e os sofistas compartilham o interesse fundamental pela problemática ético-política, pela questão do homem enquanto cidadão da polis, que passa a se organizar politicamente no sistema que conhecemos como democracia. Ora, a democracia representa exatamente a possibilidade de se resolverem, através

do

entendimento mútuo, e de leis iguais para todos, as diferenças e divergências existentes

na

sociedade grega em nome de um interesse comum. As deliberações serão tomadas por

consenso, o que acarreta ter que persuadir, convencer, justificar, explicar. Não se dispõe mais da força, dos privilégios, da autoridade de origem divina. Antes, havia a imposição, a

violência, a obediência, o privilégio, a tradição, o medo como formas de exercício do poder.

A linguagem, o diálogo, a discussão rompem com tudo isso, na medida em que, em

princípio, todos os falantes têm no diálogo os mesmos direitos: interrogar, questionar, contra-argumentar. A razão se sobrepõe à força, é uma forma de controlar o exercício do poder. A linguagem precisa ser racional, as discusssões pressupõem a apresentação de

justificativas, de argumentos, sendo abertas à interpelação, ao questionamento. O surgimento da filosofia corresponde portanto à busca de bases para essa discussão legítima, tais como: o que é a verdade? Quais os princípios da razão? Com base em que critérios se pode justificar o que se diz? Surgem neste período as artes do discurso, a retórica, e a oratória; na medida em que a palavra passa a ser livre, ela se torna o instrumento através do qual os indivíduos, enquanto cidadãos, podem defender seus interesses, seus direitos e suas propostas.

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O próprio surgimento da filosofia, portanto, está ligado a esta valorização do

discurso em que tudo o que se afirma deve ser submetido à discussão, à argumentação, à justificação, preocupando-se assim com os critérios de verdade e de justificabilidade. Na qualidade de mestres de retórica e oratória, os sofistas desempenham um papel fundamental na preparação do cidadão para a participação na vida política, o que os levou também a desenvolver importantes considerações sobre o estatuto das leis e da política. É entre os sofistas que encontramos reflexões sobre as leis, como a de Trasímaco, para quem “as leis apenas são a expressão do interesse dos fortes”; reflexões sobre o Estado, como a de Licofron, para quem o “Estado é mero produto convencional da vontade dos homens,

nascido dum contrato”, ou ainda reflexões como a de Protágoras, para quem “O homem é «medida de todas as coisas”. Com suas opiniões pragmatistas e utilitaristas, os sofistas foram assim os primeiros positivistas do direito. Bem, ao contrário dos sofistas, Sócrates deve ser considerado antes de tudo como o novo fundador da crença na razão humana. Sócrates procura estabelecer uma ligação entre

a lei da vontade humana, expressa no Direito e no Estado, e o princípio intelectual da razão, com valor objetivo, que os sofistas tinham abandonado ou posto em dúvida. Com isso ele pode ser considerado o verdadeiro fundador do Estado e do Direito. Aos Sofistas, que apenas invocavam a experiência e o testemunho dos sentidos como fundamento de uma verdade relativa, Sócrates contrapôs a própria atividade intelectual que, superando a aparência sensível, conseguindo apreender os elementos essenciais da realidade e traduzi- los em conceitos. Para Sócrates, a verdade é uma coisa digna e respeitável, acima das convenções humanas. Segundo ele, o viver de acordo com as leis tem um fundamento não arbitrário. O Estado deixa de ser produto convencional da vontade dos homens. O homem não pode viver fora do Estado, sem viver ao mesmo tempo fora da humanidade e da lei da sua própria natureza intelectual; e a tal ponto isto é assim, que, mesmo deixando de ser justas as leis da cidade, como aquelas que o condenaram à morte, o homem deve-lhe ainda obediência, pois que sem isso nenhum Estado seria jamais possível.

É com Platão e a Aristóteles que a reflexão filosófica sobre a Política tem

desenvolvimentos mais aprofundados. Mas, sem detalhar as idéias de Platão e de Aristóteles, o que dissemos até aqui sobre Sócrates e os sofistas já é suficiente para mostrar que, praticamante desde sua origem, a filosofia tem uma estreita relação com a política e o direito, ou seja, pelo simples fato da constante presença temática da política e do direito nas reflexões filosóficas. Afinal, deste o início foram apresentadas, de uma forma ou de outra, questões como estas: 1) Qual é a base da obrigação dos cidadãos em obedecer ao Estado e às suas leis; 2) É legítimo ao Estado compelir os cidadãos a obedecer-lhe? 3) Será que a obediência ao Estado depende do conteúdo das leis ou da forma como o Estado é formado e mantido? Pode um indivíduo possuir direitos que contrariam os interesses do Estado? É a democracia a melhor forma de governo?

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No decorrer da história muitas idéias filosóficas apresentadas acabaram dando forma a determinadas políticas positivas, ou seja, a determinados conjuntos de idéias, crenças e concepções, de pensamentos e interesses, que passaram a orientar o modo como se devia entender as relações entre os indivíduos e a comunidade, os fins desta, o bem comum, as relações com outras comunidades. Por sua vez, para a realização de seus fins essas políticas positivas valeram-se do direito positivo como seu instrumento mais adequado, direito positivo este que, uma vez formulado e definido, retroagiu muitas vezes sobre a política que o inspirou, com uma força própria. Tomemos como exemplo a Revolução Francesa (1769). Não há dúvida de que a Filosofia, com Rousseau, Locke, entre outros, emprestou muitas das idéias que motivaram a Revolução Francesa. Faziam parte dessas idéias as ideologias da liberdade, igualdade e fraternidade. Ora, depois que estas idéias foram proclamadas no interesse da burguesia contra os privilégios das classes nobres, elas foram formuladas em termos jurídicos da máxima generalidade na Declaração dos direitos do homem e depois no Código de Napoleão, e não tardaram em extender-se a todos os homens, e a ter influência ainda sobre toda a evolução política posterior da Europa, até hoje, através do liberalismo. Podemos dizer, neste caso, que o direito arrastou a política. Há no direito, por assim dizer, uma como que “idéia-força” imanente, uma força de expansão própria, que faz com que ele, depois de ter sido utilizado como instrumento, passe, por sua vez, a impor também algo da sua lei à política, ou seja, ao poder que o utilizou. Não é incomum o direito acabar por ditar ao poder político diretrizes, condicionamentos e limitações que de qualquer modo entram em conflito com o espírito desse poder. Se toda a política põe as suas exigências ao direito, colocando-o ao seu serviço, o direito também tem as suas exigências a fazer à política, a quem acaba por exigir: a liberdade, a igualdade, a ordem e a justiça. Pode qualquer política desconhecê-los ou mesmo oprimi-los até certo ponto, por algum tempo, utilizando para isso ainda o direito. Há, porém, um limite. O direito, como forma de todo o social, não deixa nesse caso de, cedo ou tarde, entrar em conflito com a política, e de lhe impor, por sua vez, também as suas exigências que, quando não atendidas, poderão levar a um profundo mal estar social ou até à revolução. Todo o direito serve a uma política, como toda a política é sempre limitada por um direito. A política é um fim; o direito, um meio. Mas os meios condicionam também muitos dos fins. Sem haver entre política e direito uma exacta coincidência ou uma relação simples de causa para efeito, é contudo evidente que são simultaneamente causa e efeito um do outro e que mutuamente se condicionam. Cada um deles tem as suas leis e a sua lógica próprias. Ajudam-se reciprocamente; nenhum deles pode alguma coisa sem o outro; e todavia são independentes.

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