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CULTURA

CULTURA 'SOPRO FRIO NAS ORELHAS' A artista fornece uma pinça para que o espectador desatento possa
'SOPRO FRIO NAS ORELHAS' A artista fornece uma pinça para que o espectador desatento possa
'SOPRO FRIO NAS ORELHAS'
A artista fornece uma pinça para que o espectador desatento possa pisar e destruir as obras expostas

EXPOSIÇAO

Entre apresença eaausencla

I\.

Totalmente efémeras, as obras de Armanda Duarte perturbam as expectativas do visitante

RUTH ROSENGARTEN

o título, Sopro Frio nas Orelhas, intro-

duz a nota dominante desta mostra, paten- te no Museu de História Natural, em Lis- boa: um sussurro suave e fresco

que nos é soprado, a dar-nos um breve arre- pio na espinha: ténue, fugaz e, no entan- to, a provocar em nós uma ressonância so- mática. Arrnanda Duarte tem vindo, desde há al-

guns anos, a trabalhar com materiais tradi- cionalmente identificados como pertencen-

Es-

tes materiais remetem, por sua vez, para tra- dições frequentemente relegadas pa- ra uma autoria anónima: coser, bordar, fa- zer bolos. Ela borda estes materiais não de uma perspectiva feminista agressi- va e teórica - posição, digamos, con- tra a classificação, o nomear, a feitura de ob- jectos monolfticos que a teoria feminis- ta identifica geralmente com o patriarca-

do a áreas do feminino: lã, fio, farinha

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do -, mas com uma sensibilidade apura- da e, percebe-se, intilltiva. Os seus objec- tos, frequentemente instalados in situ, limi- tam-se a existir apenas lá onde estão: pai- ram algures entre a presença e a ausência.

o JOGO DAS PEÇAS

A farinha, a que foi dada a forma de co- rações numa prateleira de madeira, for- ma provocadoramente O Jogo da Bran- .ca de Neve; dedais empilhados e enfia- dos até 190 centímetros de altura cons- tituem a Pequena Tone sem Fim, enquan-

to Grande Coração de Canela é, na realida-

de, a toalha rendilhada feita no chão, o teci- do em xadrez composto por grãos de arroz. A artista fornece uma pinça pa- ra que o espectador desatento possa - na esperança de encontrar 'obras' de ar- te com um aspecto mais familiar - pi- sar e destruir as obras da exposição. (Du- rante a inauguração, aconteceram mui- tos acidentes deste tipo.) Tenho-te na Pe-

le é uma série de lenços coloridos trans- parentes cortados no centro, ficando ape- nas a bainha como contorno frágil des- ses quadrados no chão. Encantatória é também a obra Inicia- ção B, um conjunto de pingos de tin- ta de óleo secos retirados de mesas e cava- letes de pintura durante as aulas que Ar- manda Duarte no Arco. Cuidadosamen- te colocados sobre lamelas de vidro, co- mo as utilizadas nos laboratórios de san- gue, destacam-se contra a parede bran- ca. Estes espécimes minúsculos - despo- jos da actividade pictórica - lançam refle- xos delicados do vidro para a parede, tor- nando-se eles próprios numa pintu- ra de sombra e luz.

De maneira desconcertante, este conjun-

to de obras de presença tão frágil e ténue ac- tiva o espaço enonne da Sala do Vea- do, no Museu de História Natural, em Lis- boa - patente até 31 de Janeiro -, de uma forma que poucas (e mais agressi- vas) mostras o fizeram até agora: o visitan- te é convidado a reparar nas mais peque- nas fendas existentes no chão e nas pare- des no seu cuidado para não pisar os traba- lhos.

A obra de Armanda Duarte encer-

ra um paradoxo raro: totalmente eféme- ra - com a beleza de uma asa da borbole- ta que ameaça passar a todo o momen- to para a inexistência -, provoca no visitan- te uma postura de atenção pouco. habi- tual, perturbando as expectativas de durabi- lidade e «coisidade» com que habitualmen- te investimos as obras de

VISÃO 28 de Janeiro de 1999

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