AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DR.

JORGE AUGUSTO CORREIA Direção de Serviços da Região do Algarve
ES/3EB Dr. Jorge Augusto Correia; EB 2,3 D. Paio Peres Correia; EB1 nº2 Tavira; EB1/JI Conceição; EB1 Cabanas

RELATÓRIO CRIATIVO DE UMA VISITA DE ESTUDO: O PERCURSO QUEIROSIANA Tavira, 10 de maio de 2037

Afonso, Tenho pena de não te estar a contar isto pessoalmente, mas, sabes, por vezes a vida troca-nos as voltas e não espero outra coisa senão que te mantenhas forte e confiante, que levantes a cabeça e sintas que, mesmo não estando ao teu lado, estarei sempre a olhar por ti. Esta carta surge da minha enorme vontade de te contar um episódio que marcou a minha adolescência, assim como gostaria que marcasse a tua. Fazes hoje dezasseis anos e já te encontras no décimo primeiro ano. Vais estudar uma obra que enriqueceu a nossa literatura, a literatura do nosso Portugal: Os Maias, de Eça de Queirós. Ora, a minha aventura é iniciada em Tavira, algures em março, na escola secundária que hoje já não existe como eu a conheci. Recordo-me como se estivesse lá neste preciso instante. A alegria de todos os meus colegas e professores era contagiante e a boa disposição predominou durante toda aquela visita a Lisboa e Sintra. O objetivo, mais que cumprido, era executarmos o percurso Queirosiano nestas mesmas cidades. Estive lá somente dois dias, mas, sinceramente, passaram tão rápido como um piscar de olhos. O cansaço ao final do dia já pesava nas pernas. Fomos a imensos sítios, filho! A viagem foi longa para quem não gosta de andar de autocarro, mas penso que os amigos mudam todo o aborrecimento que pode existir nestes casos. Desde risos, gritos e jogos de cartas a conversas sérias e lágrimas ao canto dos olhos, na hora de despedida. Esta foi uma das visitas da minha vida. Mal chegámos a Lisboa, deixaram-nos no antigo Museu da Electricidade, ainda hoje conhecido, onde vimos uma exposição bastante engraçada acerca do riso. No meu tempo já existiam The Simpsons, desenhos animados que tu adoravas ver quando eu ainda estava aí presente, e lembro-me que aparecia um episódio deles numa televisão muito antiga para aquela altura. Caso tenhas oportunidade de ir a uma visita deste género, não te esqueças de pedir ao professor para passarem por Belém porque, realmente, ir a Lisboa sem comer um pastel de Belém é idêntico a ir a Fátima sem visitar o Santuário, ou seja, não faz sentido nenhum. Infelizmente, nesse ano não tivemos oportunidade para o fazer porque o tempo apertava. Foi uma correria até ao último segundo, momento em que nos atrasámos para a entrada no autocarro, já em Sintra, porque não queríamos deixar para trás as famosas queijadas e os preciosos travesseiros.
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Continuando, o nosso destino era agora o Cais do Sodré. Tivemos muita sorte visto que o professor conseguiu com que nos disponibilizassem duas guias, uma para cada turma, para nos acompanharem e explicarem, pormenorizadamente, cada local a visitar. Passeámos, embora brevemente, pelo Cais do Sodré, belo lugar para um passeio num dia de sol. Seguidamente, fomos para a localização do antigo Hotel Central, como terás oportunidade de ler este ano na rica obra que estudarás. A metodologia da guia suscitava a nossa atenção. Em cada local a visitar, a senhora lia excertos da obra que muitos ainda não tinham começado a ler. Posteriormente subimos até ao alto da Rua das Flores, onde se encontrava uma estátua de Eça de Queirós com a citação “Sob a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”, retirada do livro de sua autoria A

Relíquia. Cansativo, não achas?!
Pois bem, parámos no largo de Camões para recuperar energias. Este, no tempo de Eça, era um local de separação entre ricos e pobres, também conhecido por ser um local de grande comércio, apresentando uma grande diversidade de profissões, devido às necessidades de ambas as classes sociais. Durante o percurso, tive a oportunidade de admirar o prestigiado café/restaurante “Tavares”, parte das muralhas que dividiam a cidade, o “Casino Lisbonense”, o teatro de São Carlos, o Grémio Literário (situado na rua onde viviam Maria Eduarda e Cruges, personagens de Os Maias), a casa do Eça, a Avenida da Liberdade, o local do possível consultório da personagem principal, Carlos da Maia, e aproveitámos para ver o café que Fernando Pessoa, que estudarás no próximo ano lectivo, frequentava, assim como a sua casa. Depois do cansativo passeio, fomos para o hotel de autocarro. Durante a viagem, nos semáforos, tivemos direito a entretenimento, onde dois engraçados malabaristas ganhavam a vida a deixar cair as bolas e as maças. Mas deixemo-nos de rodeios. Chegámos ao hotel. Deixa-me que te diga, ao início eu e as minhas amigas ficámos maravilhadas, mas essa sensação não durou muito. O entusiasmo era imenso. Foi quando fomos para o quarto que a tal sensação terminou. Os móveis desajeitados e as colchas, para ser sincera, bastante floridas deu-nos razões para um certo desprezo. Éramos adolescentes, raparigas, ainda por cima, e apesar de termos ficado um bocado desiludidas com o nosso quarto, ultrapassámo-lo instantaneamente. Foi fácil! Havia um ambiente de pura amizade e companheirismo, onde os chocolates, bolachas e o filme de terror intervieram, juntamente com uns quantos jogos de cartas, em plena descontracção. Na manhã seguinte, o sono predominava em todo o autocarro. Dirigíamo-nos agora para a rica e bonita cidade de Sintra, cidade esta que Eça venerava pelas suas características únicas. Já nesta, tivemos novamente
uma guia que nos acompanhou durante todo o percurso Queirosiano. O cansaço acumulava-se e a atenção já não era a mesma que a do dia anterior. Nem imaginas o que andámos, Afonso! Página 2

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Com base no capítulo VIII de XVIII (ufa, finalmente tenho o orgulho de te dizer que li, do início ao fim, aquela extraordinária obra!), tivemos a oportunidade de visitar o Hotel Nunes que, na minha altura, já não existia em tais dimensões e com o mesmo nome (chamava-se Hotel Tivoli Sintra) e onde Eusebiozinho se encontrara com duas espanholas, o Hotel Lawrence, onde Carlos supunha que estava a sua donzela, o Jardim dos Seteais com uma vista lindíssima e um jardim enorme, e por fim, a Quinta da Regaleira, o sítio de que a mamã mais gostou. Desculpa tratar-te assim, afinal, a partir de hoje, tens dezasseis aninhos, mas serás sempre o meu bebé. Nesta última, lembro-me que estávamos todos com sede e havia uma espécie de fonte onde pudemos beber água e encher garrafas para o resto do percurso. Era enorme! Descemos umas escadas com a forma de um caracol e atravessámos uma pequena ribeira onde o meio de transporte eram pedras, em que só faziam sentido se começássemos com o pé direito, se não me engano. Então não é que houve um grande amigo meu que trocou os pés e quase caía na água?! Ah ah ah, meu pequeno Afonso! Falar-te de tudo isto é estranho porque só entenderás quando realmente leres o livro e caso vás a estes locais, mas só o faço porque sei que és um rapaz curioso que gosta de aprender. Espero que este assunto te chame à atenção no sentido de querer saber mais. Por último, e porque deves estar cansado de tanto ler, quero dizer-te que aqui vai um beijinho enorme de parabéns, cheio de amor e carinho, como sempre te dei. Espero que te tornes num homenzinho e que tenhas cabeça suficiente para tomar as tuas próprias decisões. Quase me esquecia da moral desta pequena carta: os verdadeiros amigos contam-se pelos dedos; à medida que fores crescendo, aprenderás isso. O companheirismo e o espírito de equipa são essenciais em atividades como estas. Não te deixes levar por más companhias, não faças nada que não queiras só para ser “fixe”, como eu dizia quando tinha a tua idade, mas também não te isoles do mundo. Sei que o pai e a avó estão a fazer um excelente trabalho a cuidar de ti, não os desiludas! Podes contar com eles para o que precisares.

PS.- Aproveita esta carta como motivação para ler Os Maias e espero que te tenha ajudado a entender algumas partes que estudarás.

Um beijo da mãe que te adora, Madalena

Adriana Correia, nº3 Inês Garcia, nº12 Joana Guerreiro, nº14 11ºA4 Trabalho orientado pelo professor de Português: Luís Gonçalves Maio 2013 Página 3

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