UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE FACULDADE DE CIÊNCIAS DE SAÚDE

CURSO: MESTRADO EM SAÚDE PÚBLICA

TEMA: ÉTICA DA INFERTILIDADE, UM OLHAR PARA ALÉM DA REPRODUÇÃO ASSISTIDA

DOCENTE DR Pe. ANTÓNIO TICAQUI DISCENTE: Carlos Armando Amade

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ü Dedicatória Dedico este trabalho à minha filha, Irene Mayra Amade, minha esposa Quimanle Raisse e a minha mãe Irene Ramos, que são anjos de guarda e a razão do meu acordar cada dia.

     

que com sua invejável sabedoria forneceu-me os conhecimentos necessários para ter um “pensar ético” numa sociedade cada vez mais consumista e pobre de ética.       . Finalmente agradeço a minha família que suportou-me neste tempo.3     ü Agradecimentos Agradeço a Deus por pela saúde e força suficiente para enfrentar este trabalho. Vão também os meus agradecimentos ao Docente Dr Padre António Ticaqui.

É um tema sem exploração actualmente. Em nenhum livro. A teoria ética utilitarista aconselha a diminuição do pronatalismo para minimizar as consequências sociais e psicológicas da infertilidade. Este trabalho vai abordar esta situação de forma profunda. ü Índice       . Pela vontade de despertar interesse na sociedade escolhi o tema Ética da Infertilidade.4     ü Resumo O presente trabalho faz parte do estudo do Módulo de Ética. A possibilidade de ter filhos e o tratamento da infertilidade devem ser considerados como elementos que fazem parte dos Direitos Humanos básicos numa sociedade. Género e Ecologia Humana do curso de Mestrado em Saúde Pública. A discussão ética encontrada na literatura tem que ver com a Reprodução Assistida. nem artigo na internet é possível encontrar assuntos éticos da infertilidade. O desinteresse no sofrimento das pessoas inférteis é uma moda que devasta as ciências sociais incluindo a Ética. A manutenção das espécies com todas suas características requer que as pessoas consigam reproduzir-se.

5     Item Página Dedicatória--------------------------------------------------------------------------------------2 Agradecimentos--------------------------------------------------------------------------------3 Resumo------------------------------------------------------------------------------------------4 Abreviaturas/Acronómios---------------------------------------------------------------------6 Introdução---------------------------------------------------------------------------=-----------7 Objectivos ---------------------------------------------------------------------=-----------------8 Procedimentos metodológicos-----------------------------------------------------------------9 Definições da Infertilidade--------------------------------------------------------------------11 Prevalência da Infertilidade--------------------------------------------------------------------11 Causas da Infertilidade-------------------------------------------------------------------------11 Infertilidade e Cultura num mundo com HIV/SIDA---------------------------------------12 Aspectos psicológicos da Infertilidade-------------------------------------------------------13 Consequências da Infertilidade----------------------------------------------------------------15 Abordagem da Infertilidade--------------------------------------------------------------------17 Saúde pública e Infertilidade-------------------------------------------------------------------18 Infertilidade e Ética-----------------------------------------------------------------------------19 Ética e tratamento da Infertilidade------------------------------------------------------------21 Conclusões e Recomendações-----------------------------------------------------------------25 Bibliografia---------------------------------------------------------------------------------------27       .

6     ü HIV DST ITS SNS SIDA DBCP DDTEUA OMS TRA FIV ICSI MISAU SMI TARV Abreviaturas Humman Imuno-Deficiency Virus (Vírus de Imuno-Deficiência Humana) Doença de Transmissão Sexual Infecções de Transmissão Sexual Serviço Nacional de Saúde Síndrome de Imuno-deficência Adquirida 1.2-dibromo-3-cloropropano diclorodifeniltricloretano Estados Unidos da América Organização Mundial da Saúde Técnica de Reprodução Assistida Fertilização in Vitro intracytoplasmatic sperm injection (injecção intracitoplasmática de esperma) Ministério de Saúde Saúde Materna e Infantil Tratamento Anti-Retroviral       .

às vezes colocando a vida em risco. Pesquisas sobre ter filhos tornaram-se uma questão espinhosa após a revolução. relegado ao segundo plano. a pesquisa torna-se difícil. Para recordar este desinteresse que a sociedade tem em relação a este tema surgem questões relacionadas com a Ética. sucessiva e abrangente de princípios éticos? Ora vejamos. nomeadamente cenários e experiências desagradáveis sobre a reprodução e a infertilidade continuam a ser negligenciados e a discussão da infertilidade como um problema de saúde pública é limitado. também contribuiu para a negligência da infertilidade como um problema de nível social. como mandam os documentos sobre direitos humanos. Em primeiro lugar. em última instância. nos países desenvolvidos não ter filhos pode ser tanto uma condição voluntária ou involuntária. é geralmente considerada como um assunto privado para ser resolvido usando a medicina (tradicional e convencional) e o recurso. A revolução feminista dos anos 1960 e 70. o facto de não agir para proteger estes necessitados apesar de conhecimentos que os sistemas de saúde têm põe em questão os princípios de benificiência e não-maleficiência.7     1. porque a maternidade. a adoção.  1999:  494           . Além disso. no entanto. Não será uma violação crua. porque. especialmente causada pela insuficência do sexo masculino.INTRODUÇÃO A infertilidade é uma condição que cruza os domínios médicos individuais e colectivos nas comunidades actuais. A prevalência de infertilidade é alta e a condição é muitas vezes ligada a infecções evitáveis. A falta de discurso sobre a infertilidade reflete a visão dos Políticos Ocidentais que                                                                                                                         1  Bernenstein. foi posta em causa. incluindo o Vírus de ImunoDeficiência Humana (HIV) e outras Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). pois a falha reprodutiva. 1 Apesar da proliferação de estudos sobre a reprodução. a infertilidade é mais frequentemente expressa como um estado patológico individual. muitas vezes negligencima o reconhecimento e o tratamento de infertilidade. como um componente essencial da vida das mulheres. A Infertilidade é vista como uma condição dolorosa para os indivíduos e casais afectados. alguns aspectos. é um assunto considerado tabú muitas vezes não divulgado publicamente. Indivíduos e casais que sofrem de infertilidade passam por indesejadas experiências significativas. por oposição a um problema social merecedor de análise social. a falta de cuidados aos casais inférteis e a pressão social que estes casais sofrem muitas vezes estão longe de serem actos justos. Existem várias justificativas para o abandono geral de infertilidade. Este grupo de pessoas muitas vezes não tem autonomia de decidir sobre a prática de relaxões sexuais e a escolha de um modo de vida condigno. A Saúde reprodutiva abrangente e cuidados.

as causas biológicas e sociais e as consequências de infertilidade têm sido esquecidas como tópicos que merecem atenção da pesquisa no campo da saúde pública e da ética. como deve ser o seu planeamento familiar? (como fazer filhos?). mas é também desejável que a distribuição dos filhos seja equitativa entre os casais. Pela minha experiência resultante de trabalho feito no Serviço Nacional de Saúde (SNS). este está muito preocupado em atingir as coberturas na componente de planeamento familiar.OBJECTIVOS Objectivo Geral: • Analisar a abordagem ética da Infertlidade Objectivos específicos: • Descrever aspectos gerais da infertilidade • Mostrar a relação da infertilidade com a cultura e HIV/SIDA • Analisar os aspectos éticos da infertilidade • Propôr medidas de melhoria da abordagem actual da infertilidade ü Relevância Do Tema Quando a questão da ética da infertilidade é gerada é. A explosão demográfica é uma justificação para estes Políticos. mas não da infertilidade.2 Ironicamente pessoas do mundo não ocidental são geralmente as mais severamente afectadas pela infertilidade devido a maior prevalência de normas sociais pró-natalistas. Há controle da fertilidade. a real experiência da infertilidade vivida por indivíduos e casais. 2.8     são guiados pela ideia de contenção da fertilidade actualmente considerada alta.  2001:17-­‐21         . especialmente aqueles do mundo não-ocidental. Investigações médicas. Por outro lado as altamente elogiadas e muito debatidas tecnologias de reprodução estão fora do alcance para a maioria das pessoas afectadas pela infertilidade hoje. bioéticas e psicológicas identificaram o tratamento da infertilidade como um problema para exploração no entanto. É inegável que o espaçamento de filhos melhora de forma significativa a saúde das mulheres e crianças. muitas vezes no contexto das novas milagrosas tecnologias reprodutivas ou críticas filosóficas destas tecnologias. é extremamente negligenciada. O planeamento familiar neste caso é entendido como a possibilidade de espaçamento dos filhos (não fazê-los) sem pensar na outra vertente: e aqueles que não têm.                                                                                                                         2  Look.

Este trabalho oferece uma introdução aos elementos culturais e epidemiológicos da prevalência da infertilidade. bem como uma preocupação com a saúde pessoal.4 Para o suporte científico deste trabalho o autor consultou varias bibliografias escritas por diversos autores que versam sobre a problemática da infertilidade. 3 3. Assim sendo baseou-se nas experiencias abordadas por vários autores sobre a ética e fez interferência para o caso particular da ética no ramo da infertilidade.9     Apesar da escassez de pesquisas anteriores há importantes razões para o estabelecimento de infertilidade como um tema público. incluindo aspectos éticos envolvidos na abordagem da infertilidade. ü Pesquisa Bibliográfica Este método é indispensável para qualquer tipo de pesquisa. fazendo um levantamento detalhado das dificuldades éticas da infertilidade                                                                                                                         3  Relatório  da  OMS. ü Observação direita Para este estudo a observação presencial do autor com o acompanhamento da rotina das consultas de mulheres inférteis. onde pode-se recorrer a várias informações com dados credíveis. (1981:38)         . “a análise documental busca identificar informações factuais nos documentos a partir de questões ou hipóteses de interesse”. permitiu uma observação minuciosa das diferentes queixas e sensibilidades.PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E TÉCNICAS DE PESQUISA ü Método de Abordagem O autor deste trabalho recorreu ao método hipotético–dedutivo.  2001:  24    LUDKE 4 E ANDRE citando Colley.

ü Dificuldades Na Abordagem Do Tema A abordagem do Tema foi um grande desafio pelos seguintes motivos: • Falta total de abordagem deste tema (ética e infertilidade) nos livros e sites de internet.  2002:199   6       . sem o uso de Contraceptivos”6. Chama-se infertilidade primária quando nunca houve gravidez e infertilidade secundária como a incapacidade de ter gestações adicionais após existência de gravidez anterior. (1. A esterilidade acontece quando um dos casais tem uma condição que tenha incapacidade permanete de ter filhos como é o caso de remoção de útero numa mulher. 2.5 Foi realizada entrevista com mulheres infertéis em Inhamudima para colher informações dos casais infertéis. (4) É um fenômeno global. tendo sido usados livros de abordagem indirecta do tema. Fraca participação de homens nas consultas de infertilidade e nos questionários feitos • 4.10     ü Método Estatístico–Matemático O autor usou este método para fazer representações gráficas. tabelas contendo várias informações.                                                                                                                         5 LUIDKE e ANDRE ( 2003 :33 )      Berek. 4) Embora não haja universal definição de infertilidade. ü Entrevista Na “entrevista é a relação que se cria é de interacção havendo uma atmosfera de influência recíproca entre quem pergunta e quem responde”. um casal geralmente é considerado infértil quando “clinicamente a gravidez não ocorre com pelo menos doze meses de actividade sexual regular. com uma parte de cada população humana afetada.DEFINIÇÕES DE INFERTILIDADE A infertilidade é uma doença do sistema reprodutivo que afeta homens e mulheres com quase igual freqüência.

and Social . p. e não um indivíduo. O "Cinturão da Infertilidade" constituido pelo centro e sul da África tem maiores taxas mundiais de infertilidade. Em aproximadamente 20% dos casos. 20021. 16         . Finalmente. Daar A. Switzerland: WHO. Outra razão é que geralmente o desejo ou a possibilidade de gravidez é necessário para ser considerados como inférteis. malformações congênitas do sistema reprodutor e endometriose. ovulação anormal. Embora a infertilidade das mulheres é de maior atenção da pesquisa.5% quando passam dois anos. e o restante terço por combinação de ambos os factores masculinos e femininos. Infertility and social suffering: the case of ART in developing countries. Existe geral consenso de que as taxas de infertilidade são subestimadas por causa da dificuldade em medir a prevalência e preconceitos culturais que criam categorias escondidas da infertilidade.11     5. a avaliação e a medição é complicada pelo facto de que a condição é geralmente experimentada por um casal. Não há dados sobre infertilidade em Moçambique. não se dispõe de nenhum teste objetivo ou definição universalmente aceite para esta condição. Em primeiro lugar. Existem várias dificuldades inerentes à avaliação da ocorrência de infertilidade. Report of a meeting on "Medical. motilidade                                                                                                                         7   Merali. editors. estimadas ao redor de 25%. Estima-se que cerca de um terço dos casos de infertilidade de causas identificáveis são devidos a factores masculinos. 2001 17-21 Sept. As causas fisiológicas da infertilidade feminina são: bloqueio de trompas de falópio (principalmente por infecções). endocrinológicos e imunológicos que podem causar ou contribuir para a infertilidade. Griffin D. Os fatores masculinos incluem problemas na quantidade. Geneva. Rowe P. Ethical. Problemas Anatômicos. condições masculinos causam ou contribuem para cerca de metade de todos os casos de infertilidade de causa identificável. outro terço a factores femininos. Há também um preconceito social para identificar a infertilidade. genéticos. a origem do estado nunca é identificada e a causa é tratada como inexplicável. para fornecimento de cuidados de saúde e da culpa social. In: Vayena E. Aspects of Assisted Reproduction.7 A • • • 6-CAUSAS DA INFERTILIDADE Infertilidade possui uma ampla variedade de causas provenientes de três fontes gerais: Disfunções fisiológicas (algumas evitáveis) Causas evitáveis Questões inexplicáveis.PREVALÊNCIA DA INFERTILIDADE A prevalência de infertilidade no mundo é estimada em 10% nos casais após o primeiro ano de tentativas de gravidez e cai para 7.

O HIV é causa e consequência da infertilidade como vem abordado a seguir. um terço da infertilidade em outras partes do mundo em desenvolvimento e até um quarto no mundo desenvolvido. magreza. muitas vezes não significa estritamente a incapacidade de dar à luz uma criança. A esquistossomose (bilharziose) e malária também podem causar infertilidade. ü Como se vê as causas mais comuns de infertilidade são evitáveis. exercícios físicos vigorosos. Infertilidade. avançada idade materna na hora de tentativas de concepção e os riscos ambientais e ocupacionais. éteres.  2002:243         . A relação entre esses perigos e diminuição da fertilidade nem sempre é claramente estabelecida e é difícil medir. arsênico. uso de álcool. geralmente clandestinos. 8Abortos mal-tratados. mas as consequências são graves. Várias ocupações estão associadas a exposição a produtos químicos. Os riscos ambientais e profissionais constituem outra causa de infertilidade. em outros lugares a infertilidade pode ser entendida como não ter filhos. tendo como representantes a gonorreia e a clamília tracomatis. contribuem também para infecções ginecológicas. ou não engravidar logo após o início da atividade sexual. glicol. divórcio e família influenciam em certa                                                                                                                         8  Berek. estilos de vida. A Infertilidade em países em desenvolvimento como Moçambique é principalmente causada por infecções que levam ao bloqueio de trompas de falópio.INFERTILIDADE E CULTURA NUM MUNDO COM HIV/SIDA É importante lembrar que a definição de infertilidade varia entre culturas. Alguns lugares é a incapacidade de ter o número de filhos que as normas culturais ditam. são estilos de vida que podem levar a infertilidade. solventes orgânicos. como o óxido nitroso. principalmente infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). casos adicionais de infertilidade provêm de causas evitáveis tais como infecções. Este bloqueio é responsável por até dois terços de infertilidade em mulheres nulíparas na África sub-sariana. A infertilidade é tida como consequência de falta ou má abordagem do diagnóstico e tratamento de infecções do trato genital. 7. Fatores inexplicáveis pode ser provenientes do sexo masculino ou feminino.12     e qualidade dos espermatozóides e disfunções ejaculatórias. as causas ambientais contribuem para um número menor de casos de infertilidade. As normas sociais sobre casamento.2-dibromo-3-cloropropano (DBCP). aflatoxinas e desreguladores endócrinos. Todos estes produtos estão associados com taxas superiores à média de infertilidade. bifenilos policlorados (PCBs) e as dioxinas. pesticidas. da 1. fumigantes do solo. A obesidade. Para além das causas fisiológicas referidas e as de origem desconhecida. estresse. Porém. como diclorodifeniltricloretano (DDT). hábito de fumar.

10  Wiener.S. refere-se somente que o HIV causa a infertilidade e não que a infertilidade seja um poderoso factor de risco para aquisição de HIV. principalmente nas áreas rurais e outros países do leste e sul de África. uma mulher que teve um filho é considerada como se não tivesse tido filhos e todo casamento é esperado produzir filhos.13     medida nas percepções do significado de não ter filhos. http://www. a comoção causada pela infertilidade geralmente independe de quem apresenta a alteração responsável pela dificuldade de engravidar. interferindo na relação do casal. pois sua presença implica interrupção do projeto de vida dos casais envolvidos. Estar impedido de alcançar esta meta pode produzir uma crise que afeta principalmente o bem estar psíquico. Entretanto.  1994:237         . incluindo nos serviços de saúde. É clara a associação destas duas condições que nas consultas de mulheres com infertilidade nunca se podia deixar perguntar o estado de HIV da pessoa e vice-versa. em alguns casos. Um estudo feito em Botswana mostrou que as mulheres inférteis correm um risco 2. Os filhos são sinónimos de riqueza e uma bênção divina por prática de bons actos.São Lucas da Beira indicaram uma prevalência de 82% de HIV em mulheres infertéis de 20 a 45 anos tratadas de 2010 a junho de 2012 contrastando com os 26% em mulheres férteis. Para a maioria das pessoas. também no desempenho profissional.org/Patients/FactSheets/Infertility-Fact. mas também é claro que o tema de infertilidade suscita pouco ou nenhum interesse na sociedade actual. desenvolve-se de maneira distinta.9 Em partes de Moçambique. a profundidade da crise psicológica no homem é bem mais acentuada quando o problema reprodutivo está relacionado a ele.asrm. embora ocorra de forma similar no homem e na mulher. ter filhos e formar uma família são metas em determinado momento de sua evolução pessoal ou do casal. 10 O impacto desta crise sobre o casal. A relação entre a Infertilidade e HIV não é muito abordada na literatura.pdf (26 Feb 2004).                                                                                                                         9  American Society of Reproductive Medicine. nas relações familiares e sociais e.5 vezes maior de ter HIV do que as mulheres que geram filhos. A falta de menção de medidas de prevenção de HIV no tratamento de casais inférteis e a não inclusão da infertilidade como um determinante social culturalmente ligado para infecção por HIV nos currículos de educação em saúde em Moçambique são duas grandes perdas de oportunidade. 8-ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA INFERTILIDADE A infertilidade deve ser considerada como sendo uma enfermidade que transcede os limites do orgânico. Dados colhidos no C. Na mulher.

tanto pelo estresse emocional quanto pelo tempo consumido pelo tratamento. Este quadro específico de sofrimento vivenciado. • Gradual ajustamento e aceitação. principalmente quando o casal já apresentava alguma questão orgânica anterior ao relacionamento. Algumas situações provocam grande sofrimento. por todas as pessoas que estão tentando ter um filho e não conseguem. principalmente quando não se tem informação ou acesso ao tratamento específico. principalmente depois de um longo período de incertezas). o recebimento do diagnóstico de infertilidade pode envolver diversas reações emocionais. culpa. a situação indesejada gera ainda sentimentos de ansiedade. topor ou negação num primeiro momento.14     As relações sociais e familiares tendem a se tornar afectadas devido a diversos fatores. em especial quando o casal resolve manter sua infertilidade em segredo. alívio (diante de uma causa precisa. quando o casal começa a pensar em qual o caminho irá percorrer. impotência. podem contribuir para a inadequação do casal. não há como negar que os casais se sentem emocionalmente vulneráveis diante de tal situação. Porém. profissional ou acadêmica.  2002:32         .11 Estas etapas foram descritas por Elisabeth Kubler-Ross em seus estudos sobre acontecimentos trágicos e inesperados. aceitação. Sua característica essencial é o desenvolvimento de sintomas emocionais ou comportamentais em resposta a um componente psicossocial identificável. • Angústia diante da situação. Assim. humilhação. O impacto da infertilidade sobre o funcionamento psicológico é complexo e está influenciado por vários fatores. tais como: choque. de sua personalidade e atitudes. como por exemplo as associações entre fertilidade e virilidade e entre fecundidade e feminilidade. em especial quando o casal é questionado a respeito disso. tais como reuniões onde são comentados assuntos relacionados a filhos. No decorrer de um período. esta situação pode influenciar até mesmo o rendimento no trabalho. mitos e crenças socialmente partilhados. da estruturação do casal e do cuidado da equipe ao abordar a questão. O modelo não deve ser tratado como uma fórmula rígida. Em alguns casos. em maior ou menor grau.                                                                                                                         11  Inhorn. os quais podem não ocorrer em alguns casos. A expressão clínica consiste em mal-estar superior ao esperado. pode ser definido dentro dos transtornos adaptativos. dada a natureza desse factor ou numa deteriorização significativa da atividade social. Por outro lado. O ajustamento emocional envolve um certo tempo e o processo é descrito como uma sequência de estágios: • Choque. pois variações desta sequência clássica podem ocorrer dependendo de cada indivíduo. angústia. raiva e protesto. ansiedade. • Tristeza e desesperança. sensação de desafio.

as quais os pacientes têm que enfrentar quando decidem por essa opção: aspectos emocionais. passando o tratamento a determinar a rotina do casal. propiciar um espaço onde se possa falar da história de suas vidas. • tristeza. ou um casal. • depressão. muitas vezes excessivamente técnica e rigorosa. • diminuição da satisfação com a vida. medos. A carga de infertilidade inclui o sofrimento psicológico. • medo. É nesta realidade. Além disto. Os aspectos psicológicos envolvidos no tratamento da infertilidade têm como base a conjunção de uma série de circunstâncias. É importante a visão multidimensional do paciente para que se discuta cada caso. abordando tanto os aspectos físicos quanto os aspectos psíquicos e emocionais. uma vez que poucos casais se dão conta realmente de que. único em seus sentimentos e que deve ser tratado de um modo integrado. éticos e morais dentro da comunidade. É importante escutar o que o casal pensa. muitos casais geralmente já vivenciaram esta ampla variedade de emoções conflitantes. casais e da sociedade como um todo. Com a procura de um tratamento de infertilidade surgem as necessidades médicas. a possibilidade de uma eventual gestação gemelar ou múltipla que deve ser levada em consideração e discutida pelo casal.                                                                                                                         12  Bernestein. financeiros. • frustração. 9-CONSEQÜÊNCIAS DE INFERTILIDADE A Infertilidade interfere com uma das atividades mais fundamentais e altamente valorizadas pela humanidade e assim. ao fazer um tratamento de infertilidade. dos projetos. apresenta um desafio importante na vida para aqueles que desejam filhos.15     Ao procurarem um especialista em infertilidade. A condição traz questões relacionadas com a saúde e o bem-estar dos indivíduos. fantasias e expectativas.  1999:57         . social e físico. estão fazendo um tratamento de tentativa de gravidez. demanda física do tratamento. sendo uma tentativa e não uma garantia de que dentro de nove meses terão um bebê nos braços. processos legais. 12A Infertilidade quase sempre leva a diminuição dos níveis de bem-estar pessoal e para muitos indivíduos causa consequências muito mais graves. ainda. Existe. Conseqüências documentadas incluem: • ansiedade. que se faz necessário levar em conta que por traz da questão orgânica existe um sujeito. é importante ressaltar a questão de este ser um tratamento que lida com possibilidades. • culpa.

dissolução e abandono. o bem-estar das mulheres parece ser mais seriamente afetados pela infertilidade do que o dos homens. perda de status social. coação marital. Em países sem sistemas de segurança social. constatou que as mulheres experimentam muitas dificuldades e graves conseqüências sociais.  2002:7         . culturais e emocionais para as mulheres mais negativas do que talvez qualquer outra condição que não é imediatamente fatal. como resultado de não ter filhos. A natureza e gravidade das consequências da infertilidade diferem entre países em desenvolvimento com países desenvolvidos e embora os efeitos variam de acordo com vários fatores. como resultado de infertilidade. Índia. Um estudo da infertilidade feminina. redução do desempenho no trabalho. na Tanzânia. muitas famílias dependem de crianças para sobrevivência econômica e casais sem filhos correm risco grave de privação econômica e isolamento social pela falta de pessoas para ajudá-los na velhice. isolamento social e da alienação.  1999:511    Larson. 13 Na maioria das regiões do mundo. tanto em termos reprodutivos e econômicos.16     • • • • • • • • • impotência. estigma. relatou que 70% das mulheres que vivenciam a infertilidade eram punidas com a violência física por seu "Fracasso" e quase 20% das mulheres relataram que sofreram violência severa nas mãos de seus maridos. Algumas mulheres indianas relataram não serem permitidas segurar recém-nascidos parentes ou participar de cerimônias de nominação infantil por causa de temores supersticiosos que uma nova criança vai morrer nos braços de uma mulher infértil. A                                                                                                                         13 14  Bernstein. O principal objetivo do casamento é a reprodução e uma mulher infértil é considerada uma "perda". Na Ásia. A agonia resultante da infertilidade é transformada em um estigma público duro com devastadoras consequências. violência física e psicológica pela comunidade e. intervenções médicas desconfortáveis. Um estudo realizado em Andhra Pradesh. onde o tratamento está disponível. não ter filhos tem repercussões sociais. dolorosas ou com risco de vida. 14 O casamento é considerado uma troca de capacidades produtivas e reprodutivas entre uma mulher e a família do seu marido. as conseqüências parecem maior no mundo em desenvolvimento. dificuldades econômicas.

Se o casamento não não termina o marido.org www. A infertilidade pode gerar abandono conjugal e uma retirada de apoio económico.html1#Q2: (12 Mar 2004). agrupadas em duas grandes categorias: Ø Tratamentos com baixa tecnologia. Estes incluem muitas vezes o uso de medicamentos de fertilidade para estimular a "superovulação".org/Patients/faqs. o Escritório de Tecnologia de Avaliação dos Estados Unidos da América (EUA) concluiu que "os prejuízos pessoais. toma uma esposa adicional. o desenvolvimento e liberação de mais de um ovócito por cada ciclo ovulatório e a inseminação intra-uterina. asrm.                                                                                                                         15  American Society of Reproductive Medicine. muitas vezes. onde a maioria dos casos são devidos a infecções resultantes das DSTs e abortos inseguros. Outras conseqüências incluem desagradáveis ou perigosos remédios tradicionais empreendidos na esperança de cura da infertilidade. que quase sempre sinaliza o fim do casamento através do divórcio ou abandono.         . como comer fezes e induzir o vômito. 10. Um relatório de 1988. a prevenção primária é um componente importante e de custo eficaz para o combate da infertilidade. sendo a mais temida a infecção por HIV. familiares e sociais provocados pela infertilidade eram tão grandes do que o previsto”.15 Da mesma forma. Em Moçambique o citrato de clomifeno é usado frequentemente para tentativas de ovulação. A prevenção é especialmente vital em países em desenvolvimento. na esperança de provar a sua fertilidade produzindo crianças.ABORDAGEM DA INFERTILIDADE Como uma parcela considerável da infertilidade é devida a causas evitáveis. a Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou um artigo inédito que mostra uma estratégia que considera o tratamento da infertilidade como elemento importante da saúde sexual e reprodutiva. As infecções também podem advir da infertilidade.asrm. Uma gama de opções de tratamento médico existe para a infertilidade. Frequently asked questions about infertility. Muitos governos e provedores de cuidados de saúde pública consideram a prevenção uma prioridade.17     expectativa de vida é limitada devido à falta de cuidados de saúde. As crianças também fornecem economicamente para seus pais na velhice e melhoram o estado deles na hierarquia doméstica. que representam mais de 95% de infertilidade: são aqueles que não envolvem a recuperação de oócitos ou fertilização fora do corpo. um processo segundo qual os espermatozóides são colocados dentro de colo do útero de uma mulher para facilitar a fertilização e gravidez.

Em alguns países europeus até 5% de todos os nascimentos são devido às artes. O tratamento da infertilidade avançou dramaticamente.         . no valor de apenas 0. tornando possível a paternidade para muitos que teria até recentemente sido incapazes de alcançar este objetivo. e o tamanho e qualidade da instalações onde o tratamento está sendo fornecido.                                                                                                                         16  Social Aspects of Assisted Reproduction. um ciclo de IVF custa uma média de $12. um procedimento em que o esperma de um homem e o ovo de uma mulher são fertilizados em laboratório e o embrião resultante é transferidos para o útero de uma mulher. As taxas de sucesso destas artes variam de acordo com vários fatores. 16 Apesar do potencial das Artes. incluindo: idade do paciente. As taxas de sucesso geralmente aumentam com o número de ciclos de TRAs. 2001 17-21 Sept. 2002. Embora a FIV em si é utilizada com menos de 5% de casais inférteis que procuram tratamento. em 1978. TRAs comuns incluem a fertilização in vitro (FIV). A adoção de crianças em orfanatos ou outros lugares é o último mecanismo de consolo dos casais infertéis. p.18     Ø Tratamentos de alta tecnologia. Switzerland: WHO. duração da infertilidade.003% dos custos de cuidados de saúde nos Estados Unidos. O tratamento por TRAs é sujeito a críticas éticas. Desde o nascimento do primeiro bebê humano resultante da fertilização in vitro. Geneva. e injecção intracitroplasmica de esperma (ICSI). outros tratamentos também podem ser caros. houve mais de um milhão de bebês nascidos como resultado de ARTs com a Europa líder mundial em termos de número de tratamentos. 31. Nos Estados Unidos.4% de mulheres dão à luz para cada ovo recuperação realizada. com financiamento público e cobertura de seguro variando amplamente em todo o mundo. número de tentativas anteriores de FIV. também chamados de tecnologias de reprodução assistida (TRAs): são tratamentos ou procedimentos que envolvem a manipulação de ovos ou esperma para ajudar a mulher a engravidar. Muitos países em desenvolvimento como Moçambique não incluem este tipo de tretamento no financiamento do sector da saúde.29. em que um único esperma é injectado num único ovo durante a FIV. há um debate considerável sobre o custo e acessibilidade do tratamento da infertilidade.400 e é fornecido com uma taxa média de sucesso inferior a 30 por cento .

Considerar o tratamento da infertilidade como um direito humano iria diminuir o estigma. têm o direito ao casamento e construção de família”.  1948. muitos casos podem ser prevenidos. UM CAMPO POR EXPLORAR O desinteresse no sofrimento das pessoas inférteis é uma moda que devasta as ciências sociais incluindo a Ética.1         . administração de serviços. Experiência de Saúde plena considera a quantidade e qualidade de vida como pontos importantes.19     11-A INFERTILIDADE É UM PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA A OMS define a Saúde como "um estado de completo bem-estar físico. aumentar a percepção sobre este tema e melhorar as opções de tratamento. psíquico e social. a infertilidade é comum e. não somente a ausência de doença”. qualidade e acessibilidade dos cuidados de saúde. sem limitações de nacionalidade. regulamentação dos sistemas e de profissionais de saúde conduzindo pesquisas com a visão de limitar as disparidades em saúde e em larga medida na luta para a equidade. A possibilidade de ter filhos e o tratamento da infertilidade devem ser considerados como elementos que fazem parte dos Direitos Humanos básicos numa sociedade. Recordemos que ter filhos é uma opção pessoal e a infertilidade é um problema somente para as pessoas que escolheram ter filhos. O artigo 16. como mencionado anteriormente. principalmente a Fertilização in Vitro. a prevalância real é subestimada. 12.17                                                                                                                         17  Human  Rights.INFERTILIDADE E ÉTICA. A Saúde Pública Visa prevenir a ocorrência ou recorrência de problemas de saúde através da implementação de programas de: educação. Adicionalmente. mas não conseguem. Em nenhum livro.  art:16. Enquanto algumas pessoas considerem que questões infrequentes não podem merecer atenção pública. A manutenção das espécies com todas suas características requerem que a reprodução seja eficiente.1 da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 10 de Dezembro de 1948 diz: “homens e mulheres em idade madura. nem artigo na internet é possível encontrar assuntos éticos da infertilidade. raça ou religião. desenvolvimento de políticas. A discussão ética encontrada na literatura tem que ver com a Reprodução Assistida.

raça.20     A Ética na sua definição simples é uma Ciência que estuda o comportamento moral dos indivíduos e grupos enquanto entende-se por Moral ao Conjunto de regras que orientam a vida humana em comunidade. classe ou religião. Ø O princípio da justiça. Governos e organizações devem sentir a obrigação de promover a justiça em relação a distribuição equitativa dos filhos. mulher ou os antepassados. ou seja dar a cada um segundo as necessidades e pedir-lhe segundo as suas possibilidades. de não empreender nada que seja contrário ao bem do paciente. que deve ser encarado como uma pessoa responsável. Todos os quatro princípios éticos são violados na abordagem actual. No Oriente. fêmea e um elemento que vem de ambos os sexos masculino e feminino. A injustiça social que sofrem os casais inférteis é manifesta por meio de: • • • Estigma Problematização Isolamento de pessoas infertéis Mulheres inférteis que entrevistei nas consultas médicas em Niassa e Sofala revelaram sofrer de forte estigma social e atitudes machistas que criam uma dinâmica onde as mulheres se culpam pela infertilidade. um componente macho. Destes dois princípios decorre a avaliação riscobenefício. uma escolha. porém. passiva da infertilidade. segundo o qual o prestador de cuidados deve servir o melhor possível os interesses do paciente. a obrigatoriedade de agir num determinado sentido em sociedade. uma direcção. Ética é o limite que faz com que uma pessoa diga não a si mesma. A ética não envolve apenas um juízo de valor sobre o comportamento humano. que torna obrigatório que se reconheçam as necessidades de outrem sem distinção de idade. mas determina em si. Ø O princípio de não prejudicar ou não maleficiência. a Infertilidade.       . mesmo quando se denota o enfraquecimento das suas capacidades. é geralmente atribuída a mulheres e muitas vezes é vista como retribuição pelo passado errado fazendo tanto da parte do homem. Ø O princípio do benefício ou beneficência. isto é. A Ética Médica assenta em 4 grandes princípios: Ø O princípio do respeito pela autonomia do paciente. há reconhecimento que existem três elementos de quais depende a reprodução.

o comportamento de risco traz consigo as consequências de infecções por DSTs que agravam ainda mais a infertilidade e o casal põe-se em risco para ter o HIV. Há dois argumentos a favor: • autonomia reprodutiva e • enorme carga de infertilidade. O Pronatalismo. Existem argumentos avançados a favor e contra o fornecimento de tratamento de infertilidade para países com poucos recursos. principalmente a infidelidade e o não uso do preservativo nas relações sexuais ocasionais. em países desenvolvidos. No entanto. Os cinco argumentos contra a aplicação de tratamento de infertilidade são • sobre-priorização da população. Relatórios nas últimas décadas têm deixado crenças em pessoas de países ocidentais de que a superpopulação é o maior problema de desenvolvimento. • recursos limitados. em alguns casos. Enquanto existe muita literatura do debate sobre a moralidade das técnicas de reprodução assistida. ü Ética E Tratamento Da Infertilidade O fornecimento de tratamento de infertilidade em países em desenvolvimento é controverso. ela beneficia somente a pessoas ricas. que reina em quase todos os países em desenvolvimento. As demandas da autonomia reprodutiva requerem que esforços devem ser feitos para que aspessoas possam determinar quantos filhos ter. a contribuição da sociedade deve ser dirigida       . no entanto não propõe medidas aceitáveis para diminuir o sofrimento. Entretanto. dadas as enormes dificuldades dos países pobres em recursos para fornecer até mesmo os bens mais básicos. deve-se ressaltar que muitas vezes a fé religiosa actua como fator de apoio para quem a segue. • Oferece prevenção e não a cura.21     Os casais inférteis por sofrerem grande pressão social optam por comportamentos sexuais de risco. os ensinamentos religiosos tratam a infertilidade como castigo por algum erro do casal ou dos seus antepassados. Como pode ser entendido. proporcionando grupos de ajuda. Isso também é verdade nos países em desenvolvimento. é em grande parte responsável para os efeitos devastadores da infertilidade. A questão religiosa pode apresentar influência em alguns casos. As confissões religiosas têm aversão a reprodução assistida e a manipulação de partes humanas como espermatozóides e óvulos. principalmente quando alguns pontos do tratamento contradizem os princípios religiosos do casal ou quando. • Falta justiça e igualdade de acesso e • risco de abuso às técnicas. e esquece-se dos países em desenvolvimento onde existe maior número de casos de infertilidade. Esta prática é uma maneira frustrada de conseguir filhos fora-de-portas.

enquanto se limitar o uso de RTA. a reação das pessoas é quase instantaneamente negativa.   1998:23   19 Nações Unidas. Pessoas de Sudão. Serra Leoa ou Ruanda. Sempre que se menciona a prestação de tratamento de infertilidade em países em desenvolvimento. A conferência adoptou a definição de saúde reprodutiva que integra tanto controle da fertilidade e tratamento de infertilidade: Ø "A saúde reprodutiva é um estado de completo desenvolvimento físico. Para eles. 1994         . essas tecnologias são maneiras de reduzir o crescimento da população. planeiamento de saúde e da família é fundamental para a avaliação ética. Isto leva à um erro da convicção na forma como as pessoas ocidentais olham a a prestação da contracepção e controle da fertilidade em países de poucos recursos. Esta convicção foi e ainda é a principal barreira para não se considerar o tratamento da infertilidade em países de poucos recursos. provavelmente. Este ponto pode ter um enorme impacto sobre o debate como as pessoas desses países encaram o tratamento. Saúde reprodutiva implica. crescimento da população. A fim de evitar mal-entendidos. sem um governo central e infra-estruturas médicas mínimas. também desempenham um papel. em todas as questões relacionadas com a reprodução sistema e suas funções e processos.22     principalmente para a prevenção das causas da infertilidade e a importância que a infertilidade é dada. Preocupações das pessoas em países ricos sobre a imigração e os temores de ser invadido pelo Sul. em Cairo. portanto. quando e quantas vezes para fazê-lo ". não significa para atender às necessidades de pessoas para controlar quando e quantas crianças ter. recursos de saúde etc.18 Mas as coisas estão muito lentamente mudando para melhorar a situação. 19 Planeiamento familiar implica tanto evitando crianças indesejadas e ter filhos desejados. mental e bemestar social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade. não é surpreendente que elas fiquem perplexas com a sugestão de introduzir a fertilização in vitro FIV. Um ponto crucial para a nova evolução foi a Conferência sobre População e Desenvolvimento em 1994. que as pessoas são capazes de ter uma vida sexual segura e que eles têm a capacidade para se reproduzir e a liberdade de decidir se. devem existir regras que estipulam que o tratamento de infertilidade só poderá ser considerado quando duas condições forem                                                                                                                         18  Grimes. devemos estar cientes da grande heterogeneidade dos países "em desenvolvimento" em termos de riqueza. ou outros países que têm tido batalhas de guerras civis por décadas. Dois avisos preliminares devem ser feitos: Ø Primeiro. A concepção do tratamento de infertilidade no contexto geral da reprodução.

                                                                                                                        20  Van Balen e Gerrits. No entanto. outras intervenções de menor natureza técnica podem ser oferecidas para tratar a infertilidade. FIV e ICSI. Deveria também ser combatida a ideologia pró-natalista. como a fertilização in vitro. dependendo da riqueza e do desenvolvimento geral. essas tentativas não têm base moral.23     satisfeitas. a escolha entre essas reações só pode ser feita em evidência empírica. O consenso geral na reunião de Arusha foi que há três níveis de dificuldade técnica: IIU. Embora haja tentativas de outros para influenciar o planeiamento familiar de um determinado casal. Ø A segunda reacção é a de proporcionar um tratamento de infertilidade como uma solução médica para um problema social. Mais bem-estar seria criado ou mais infelicidade evitada. evitando consequências sociais e psicológicas do que o fornecimento de TRA a primeira opção deve ser feita e vice-versa. Esta é uma abordagem a considerar em Moçambique. não é claro até que ponto essas consequências negativas no desenvolvimento de infertilidade nestes países justificam a concessão de tratamento da infertilidade. 20 Nos países desenvolvidos. De acordo com a teoria ética utilitarista. Se mais bem-estar pode ser adquirido. os utilitaristas defendem que é melhor tratar a infertilidade em países com as piores consequências. Muitos problemas de saúde actualmente como a obesidade são tratados. A partir de uma postura utilitarista. Em Sociedades nãoocidentais. em grande parte a escolha é pessoal ou do casal. Duas reacções são possíveis: Ø A primeira reação é se concentrar na mudança que visa as pessoas inferteis não serem hostilizadas e discriminadas. um desempenho que é devido à família (como lei) e à comunidade. Isto pode ser feito de várias maneiras: ducação como um meio para que as mulheres obtenham emprego que lhes dá uma alternativa para aumentar sua auto-estima e para garantir a independência econômica e segurança. A minha posição é que a discriminação baseada na saúde ou incapacidades (ter filhos) é inaceitável e pró-natalismo leva a tal discriminação. a discussão centra-se em alta freqüência nas intervenções tecnológicas. proporcionando TRA para um casal na África do que a um casal na Europa. o mínimo de estabilidade política e uma estrutura básica de saúde. 2001         . uma sociedade deve fazer o que maximiza a felicidade ou bem-estar. ter filhos é uma obrigação social. A tecnologia bem como o momento da introdução de uma técnica terá de ser específico do país. ou seja. Ø Em segundo lugar. a reprodução é um objectivo de auto-escolha. No entanto.

2006:119         . Isso explica porque devem ser fortemente rejeitadas algumas medidas como a esterilização forçada. são importantes porque asseguram o intervalo normal de oportunidades e permitem pessoas a florescer. Isso resulta no que Engelhardt chamou uma "ética da inveja ": se eu não posso ter isso. A questão da justiça na área da saúde não é limitada aos países em desenvolvimento. aumentando o acesso (quanto mais as pessoas podem obter o tratamento. ninguém deverá. sem cobertura de seguro para tratamento de infertidade não têm acesso à alta tecnologia de tratamento também. mas também da vontade da procriação do casal incluindo a quantidade de filhos. é certamente mais justo e equilibrado medir do que a proposta que casais inférteis devem permanecer sem filhos porque os seus vizinhos têm muitas crianças (e mesmo mais do que eles querem). A eqüidade na saúde significa igualdade de acesso aos cuidados básicos de saúde sem encargos excessivos. quando o acesso não pode ser garantido para todos. ninguém deve ter acesso. Esses direitos individuais têm um estatuto muito elevado. O argumento de superpopulação atribui um alto valor para benefícios a sociedade em detrimento do indivíduo. Seriam nestes casos considerados por casais inférteis? Este facto surge da infertilidade ser definida não somente usando a matemática de meses sem gravidez. A China tem dado o exemplo de uma abordagem igualitária para o problema da superpopulação com a política de um filho por família. A diferença entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento é uma questão de gradação. É altamente improvável que as intervenções de alta tecnologia terão um impacto na população nos países em desenvolvimento uma vez que apenas um pequena minoria da população pode pagar. As pessoas que se concentram em igualdade tendem a concluir que. tendo necessidade a procriação. Independentemente das objeções que se pode ter contra este sistema.                                                                                                                         21  Nachtigall.24     Mais inaceitável ainda é que apesar de tecnologias altas. Pessoas pobres nos países ricos. As pessoas que excluem os homossexuais da infertilidade deixam-os de fora da necessidade de adopção de técnicas e mecanismos para a reprodução deles. Um dos paradoxos demográficos é que os países com a maior fertilidade são também aqueles em que a prevalência de infertilidade secundária é mais elevada21. Justiça pode ser promovida por qualquer aumento de igualdade (ninguém tem acesso ou todos têm acesso). A necessidade pessoal de ter filhos não pode ser satisfeita pelos vizinhos. O princípio da justiça contém duas dimensões: a igualdade e acesso. melhor). Outra questão ética surge com a proliferação de casais homossexuais que. enfrentam o dilema da falta de espermatozóide ou ovo. em geral. algumas pessoas vão ficar sem filhos na mesma trazendo consequências mais negativas ainda. Cuidados de saúde. O pessoal bom é sacrificado em prol de um bem coletivo ou agregado.

os governos e organizações devem empreender esforços para diminuir as dificuldades destas. será necessária uma auscultação dos problemas e necessidades das pessoas infértis antes de estabelecer prioridades da saúde reprodutiva. ela precisa ser tratada como um problema de saúde pública e os debates éticos devem ser aboradados sem restrições. A infertilidade é ainda muito negligenciada por todos estratos da sociedade e as pessoas inférteis têm uma privação ética considerável. O campo da Saúde Pública deve contribuir usando as suas capacidades em pesquizas sobre a infertilidade para estimular percepções sobre as consequências da privação de filhos. mas a ética social que injustamente protege somente os grupos mais numerosos ou poderosos contra o sofrimento. desenvolvendo políticas públicas de vigilância e tratamento da infertilidade e envolvendo a população em debates sobre aspectos éticos da infertilidade. ele deve ser considerado e combatido. A incapacidade de lutar contra a infertilidade representa o triunfo do modelo de justiça do mercado com a ênfase na habilidade individual e capacidade reprodutiva geral e é um fracasso da ética de saúde pública em promover a saúde e bem-estar de todos. As suas consequências são graves. Geralmente a infertilidade afecta a minoria silenciosa mas as consequências são graves. Continuam debates se as novas medidas de tratamento da infertilidade incluindo a reprodução assistida deviam ser consideradas como direitos humanos e se todas essas medidas de tratamento vão ao encontro da moral humana. A infertilidade é um problema de saúde pública porque existe no cruzamento entre os aspectos médicos e social das pessoas.       . mas em certa medida ela pode ser prevenida ou os seus efeitos diminuídos independentemente as condições que cada sociedade tem. Há relação entre a infertilidade e o HIV/SIDA e outras DSTs. mas precisa ser enfrentada. Apesar de ser difícil a medição do sofrimento causado pela infertilidade. que são questões globalmente debatidas actualmente. Em Moçambique.CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES Apesar da variação entre os países dos problemas que surgem da infertilidade. 13. A infertilidade existe em qualquer sociedade. Os conhecimentos sobre a infertilidade são importantes para o desenvolvimento de serviços de tratamento da infertilidade como mandam os direitos humanos. nem sempre prevenível e tratável. mas o que deve ser feito é que enquanto os debates continuam. Uma barreira crítica na luta contra as doenças não é a falta de tecnologia. a infertilidade é manifestação de doenças.25     Alguns países aceitam o homossexualismo apesar desta prática não ser vista com bons olhos por muitas pessoas.

Sensibilização dos órgãos de comunicação a este tema 10. nem todos os casos de infertilidade podem ser evitados.Inclusão no currículo de formação na abordagem do Tratamento Anti-Retroviral (TARV) 7. Saúde Materna e Infantil.Inclusão nos currículos de formação nas escolas (saúde escolar) e nas instiuições de formação de funcionários de saúde 6.Abordagem da infertilidade nos programas de DSTs. 11.Reconhecimento da infertilidade pela lei da família 4. MISAU). Acções que devem ser feitas para lutar contra a infertilidade em Moçambique: 1. incluindo nos serviços de tratamento anti-retroviral. 5. 12. e a necessidade de tratamento existe claramente.       . 2. Apesar do papel fundamental da prevenção.A abordagem da infertilidade deve ser alargada a todos sectores da sociedade e não ser relegada ao MISAU.Debates de figuras influentes e a sociedade em geral sobre a ética da infertilidade incluindo todos aspectos e não somente o uso de reprodução assistida.Elaboração de documentos que dê ênfase a necessidade de tratamento e prevenção da infertilidade como um direito fundamental de cada família 3.26     Na minha opinião em Moçambique onde também uma grande percentagem de infertilidade resultante de infecções a situação seria melhor abordada através da prevenção e tratamento eficaz de infecções sexualmente transmissíveis.Formação de grupos comunitários de apoio aos casais inférteis 8. Estas mensagens devem ser incorporadas em programas existentes como o planeiamento familiar (SMI).Formação de um programa responsável pela prevenção e tratamento da infertilidade.Ensinamento da comunidade sobre o tratamento ético dos casais inférteis e sua educação sobre o pró-natalismo 9.Formação do tema “ética da infertilidade” nos livros de ética médica e geral. A questão da infertilidade deve ser transformada em um programa no SNS com representatividade desde o nível perifério (distritos) até o central (Ministério da Saúde. em combinação com a formação de base de saúde para fornecer informações sobre saúde sexual e reprodutiva e diminuição da política pró-natalista. bem como a mitigação das suas consequências.

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