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2ª edição

2ª edição Fenômenos Sintáticos Fenômenos Sintáticos Maria Alice das Neves Belleza Maria Luzia Paiva de Andrade

Fenômenos Sintáticos

Fenômenos Sintáticos

Maria Alice das Neves Belleza Maria Luzia Paiva de Andrade

2ª edição Fenômenos Sintáticos Fenômenos Sintáticos Maria Alice das Neves Belleza Maria Luzia Paiva de Andrade

TROL

DIREÇÃO SUPERIOR

DIREÇÃO SUPERIOR Fenômenos Sintáticos Chanceler Joaquim de Oliveira Reitora Marlene Salgado de Oliveira

Fenômenos Sintáticos

Chanceler

Joaquim de Oliveira

Reitora

Marlene Salgado de Oliveira

Presidente da Mantenedora

Wellington Salgado de Oliveira

Pró-Reitor de Planejamento e Finanças

Wellington Salgado de Oliveira

Pró-Reitor de Organização e Desenvolvimento

Jefferson Salgado de Oliveira

Pró-Reitor Administrativo

Wallace Salgado de Oliveira

Pró-Reitora Acadêmica

Jaina dos Santos Mello Ferreira

Pró-Reitor de Extensão

Manuel de Souza Esteves

DEPARTAMENTO DE ENSINO A DISTÂNCIA

Assessora

Andrea Jardim

FICHA TÉCNICA

Texto: Maria Alice Neves Belleza e Maria Luiza Paiva de Andrade

Revisão Ortográfica: Walter P. Valverde Júnior

Projeto Gráfico e Editoração: Andreza Nacif, Antonia Machado, Eduardo Bordoni , Fabrício Ramos, Marcos

Antonio Lima da Silva e Ruan Carlos Vieira Fausto

Supervisão de Materiais Instrucionais: Janaina Gonçalves de Jesus

Ilustração: Eduardo Bordoni e Fabrício Ramos

Capa: Eduardo Bordoni e Fabrício Ramos

COORDENAÇÃO GERAL:

Departamento de Ensino a Distância

Rua Marechal Deodoro 217, Centro, Niterói, RJ, CEP 24020-420

www.universo.edu.br

B442f

Belleza, Maria Alice das Neves. Fenômenos sintáticos / Maria Alice das Neves Belleza e Maria Luzia Paiva de Andrade ; revisão de Walter P. Valverde Júnior . 2. ed. – Niterói, RJ: EAD/UNIVERSO, 2011.

276 p. : il

1. Língua portuguesa - Sintagma nominal. 2. Língua portuguesa - Verbos. 3. Língua portuguesa - Voz. 4. Língua portuguesa - Orações. 5. Língua portuguesa - Aposto. 6. Língua portuguesa – Sujeito e predicado. I. Andrade, Maria Luiza Paiva de. II. Valverde Júnior, Walter P. III. Título.

CDD 469.5

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Universo – Campus Niterói Bibliotecária: ELIZABETH FRANCO MARTINS – CRB 7/4990

© Departamento de Ensino a Distância - Universidade Salgado de Oliveira Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida, arquivada ou transmitida de nenhuma forma ou por nenhum meio sem permissão expressa e por escrito da Associação Salgado de Oliveira de Educação e Cultura, mantenedora da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO).

Palavra da Reitora Fenômenos Sintáticos Acompanhando as necessidades de um mundo cada vez mais complexo,

Palavra da Reitora

Fenômenos Sintáticos

Acompanhando as necessidades de um mundo cada vez mais complexo, exigente e necessitado de aprendizagem contínua, a Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) apresenta a UNIVERSO Virtual, que reúne os diferentes segmentos do ensino a distância na universidade. Nosso programa foi desenvolvido segundo as diretrizes do MEC e baseado em experiências do gênero bem-sucedidas mundialmente.

São inúmeras as vantagens de se estudar a distância e somente por meio dessa modalidade de ensino são sanadas as dificuldades de tempo e espaço presentes nos dias de hoje. O aluno tem a possibilidade de administrar seu próprio tempo e gerenciar seu estudo de acordo com sua disponibilidade, tornando-se responsável pela própria aprendizagem.

O ensino a distância complementa os estudos presenciais à medida que

permite que alunos e professores, fisicamente distanciados, possam estar a todo momento ligados por ferramentas de interação presentes na Internet através de nossa plataforma.

Além disso, nosso material didático foi desenvolvido por professores especializados nessa modalidade de ensino, em que a clareza e objetividade são fundamentais para a perfeita compreensão dos conteúdos.

A UNIVERSO tem uma história de sucesso no que diz respeito à educação a

distância. Nossa experiência nos remete ao final da década de 80, com o bem- sucedido projeto Novo Saber. Hoje, oferece uma estrutura em constante processo de atualização, ampliando as possibilidades de acesso a cursos de atualização, graduação ou pós-graduação.

Reafirmando seu compromisso com a excelência no ensino e compartilhando as novas tendências em educação, a UNIVERSO convida seu alunado a conhecer o programa e usufruir das vantagens que o estudar a distância proporciona.

Seja bem-vindo à UNIVERSO Virtual!

Professora Marlene Salgado de Oliveira

Reitora

Fenômenos Sintáticos

Fenômenos Sintáticos

Sumário

Sumário Fenômenos Sintáticos 1. Apresentação da disciplina 07 2. Plano da disciplina 08 3. Unidade 1

Fenômenos Sintáticos

1. Apresentação da disciplina

07

2. Plano da disciplina

08

3. Unidade 1 – Sintagma Nominal e Sujeito

13

4. Unidade 2 – Predicação Verbal

43

5. Unidade 3 – O Nome: Seu Complemento, seu Adjunto e seu

85

6. Unidade 4 – O Verbo: Suas Vozes e seu Adjunto

109

7. Unidade 5 – Período Composto: Definição. Período Composto

por Coordenação

131

8.

Unidade 6 – Período Composto por Subordinação:

Oração Subordinada Adjetiva

155

9.

Unidade 7 – Período Composto por Subordinação:

Oração Subordinada Substantiva

185

10.

Unidade 8 – Período Composto por Subordinação:

Oração Subordinada Adverbial

221

11. Unidade 9 – Outros tipos de Oração

253

12. Considerações finais

265

13. Conhecendo as autoras

267

14. Referências

269

 

15. Anexos

271

Fenômenos Sintáticos 6

Fenômenos Sintáticos

Apresentação da Disciplina Caro aluno, Fenômenos Sintáticos Seja bem-vindo à disciplina Fenômenos Sintático. Antes

Apresentação da Disciplina

Caro aluno,

Fenômenos Sintáticos

Seja bem-vindo à disciplina Fenômenos Sintático.

Antes de iniciarmos nossos estudos, é necessário sabermos a importância dessa disciplina para formação do profissional da área de Letras.

Sintaxe indica relação entre termos, relação esta presente em nossa vida, já que passamos diariamente nos comunicando com os outros. Se os outros nos entendem, nós empregamos em nossos textos, mesmo orais, os sujeitos, os verbos, os complementos, os adjuntos. Então, na verdade, adquirimos na escola um conhecimento que, em parte, já possuímos, ainda que não tenhamos consciência dele. A escola nos transmite um conhecimento formal, ampliando as possibilidades desses empregos em outros contextos.

Assim sendo, a sintaxe vem norteando o ensino de língua portuguesa desde as séries iniciais. Deve então o futuro professor preparar-se adequadamente para a realidade que enfrentará em sala de aula depois de formado.

Contrariamente à ideia de que normalmente temos no ensino fundamental e médio, nenhuma gramática contém a verdade absoluta. Existem doutrinas, posicionamentos distintos, e o professor não pode ignorá-los. Têm de conhecê-los, compará-los, para perceber qual é o mais coerente, qual está mais de acordo com os fatos linguísticos, a fim de formar academicamente o seu aluno com segurança. Alguns autores, embora seus livros estejam esgotados, não puderam deixar de ser citados, dada a grande contribuição que deram aos estudos de língua portuguesa. Dentre eles destacamos os mestres Said Ali, Sousa da Silveira e José Oiticica, entre outros.

Prepare-se então, prezado aluno, para esse importante desafio. Nessa disciplina você estudará todo o período simples e o todo o período composto, conteúdo essencial nas escolas de ensino fundamental e médio. Estaremos sempre dispostos em auxiliá-los em suas atividades.

Bons estudos!

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Fenômenos Sintáticos 8

Fenômenos Sintáticos

Plano da Disciplina Fenômenos Sintáticos A disciplina Fenômenos Sintáticos tem por objetivo principal possibilitar ao

Plano da Disciplina

Fenômenos Sintáticos

A disciplina Fenômenos Sintáticos tem por objetivo principal possibilitar ao

aluno o conhecimento das relações entre os termos da oração.

A disciplina está dividida em nove unidades, que estão subdivididas em

tópicos a fim de facilitar a compreensão do aluno, já que a disciplina se caracteriza pela densidade do conteúdo e, consequentemente, pela grande quantidade de informação.

Segue um resumo das unidades, enfatizando seus objetivos para que você tenha um panorama daquilo que irá estudar.

Unidade 1:Sintagma Nominal e Sujeito

Essa unidade trata da relação entre os nomes que constituem o sujeito.

Objetivo: Compreender as relações entre os termos do sintagma nominal.

Unidade 2: Predicação Verbal

Essa unidade trata da relação entre verbos e os nomes.

Objetivo: Compreender a predicação verbal e as relações entre os termos e o sintagma verbal.

Unidade 3: O Nome: Seu Complemento, seu Adjunto e seu Aposto.

Essa unidade trata de outros termos que compõem o predicado.

Objetivo: Compreender as relações entre outros termos da oração.

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Fenômenos Sintáticos Unidade 4: O Verbo: Suas Vozes e seu Adjunto Essa unidade trata do

Fenômenos Sintáticos

Unidade 4: O Verbo: Suas Vozes e seu Adjunto

Essa unidade trata do adjunto adverbial, das vozes verbais e do aposto.

Objetivo: Compreender o emprego do adjunto adverbial, do aposto e das vozes verbais.

Unidade 5: Período Composto:Definição. PeríodoComposto por Coordenação

Essa unidade trata da relação entre as orações coordenadas assindéticas e sindéticas.

Objetivo: Compreender a relação entre as orações coordenadas.

Unidade

Adjetiva

6:

Período

Composto

por

Subordinação:

Oração

Subordinada

Essa unidade trata da relação entre a oração principal e a oração subordinada adjetiva.

Objetivo:

Compreender

a

relação

entre

a

oração

principal

e

a

oração

subordinada adjetiva.

 

Unidade

7:

Período

Composto

por

Subordinação:

Oração

Subordinada

Substantiva

Essa unidade trata da relação entre a oração principal e a oração subordinada substantiva.

Objetivo:

Compreender

a

subordinada substantiva.

relação

entre

10

a

oração

principal

e

a

oração

Fenômenos Sintáticos Unidade 8: Período Composto por Subordinação:Oração Subordinada

Fenômenos Sintáticos

Unidade

8:

Período

Composto

por

Subordinação:Oração

Subordinada

Adverbial

Essa unidade trata da relação entre a oração principal e a oração subordinada adverbial.

Objetivo:

Compreender

a

subordinada adverbial.

relação

entre

a

oração

Unidade 9: Outros tipos de Oração

principal

e

a

oração

Essa unidade trata das orações eqüipolentes, orações intercaladas e orações complexas.

Objetivo: Entender as orações equipolentes, orações intercaladas e orações complexas.

Bons Estudos

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Fenômenos Sintáticos 12

Fenômenos Sintáticos

Fenômenos Sintáticos 1 Sintagma Nominal e Sujeito Sintagma Sintagma Nominal Sujeito Definição: confronto entre as

Fenômenos Sintáticos

1 Sintagma Nominal e Sujeito

Sintagma

Sintagma Nominal Sujeito

Definição: confronto entre as gramáticas.

Tipos de sujeito.

Simples.

Composto.

Oculto.

Indeterminado.

Inexistente ou oração sem sujeito.

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Fenômenos Sintáticos Caro aluno, nesta unidade, você estudará o sujeito, a sua definição, classificação e

Fenômenos Sintáticos

Caro aluno, nesta unidade, você estudará o sujeito, a sua definição, classificação e as controvérsias existentes. Como já foi salientado, em sintaxe dificilmente há unanimidade sobre o que vem a ser um determinado fato linguístico. Por isso, é importante uma leitura atenta das principais gramáticas, para que se perceba a linha de raciocínio mais coerente e se possa então tomar uma posição definida. Bom estudo!

Objetivos da unidade:

Compreender as relações morfossintáticas do português.

Identificar o sintagma nominal.

Analisar criticamente a NGB - A definição tradicional de sujeito e os padrões frasais do português.

Identificar o sujeito.

Depreender o núcleo do sujeito.

Classificar o sujeito – Tipos de Sujeito

Conhecer

o

partícula se.

posicionamento

Plano da unidade:

Sintagma

dos

Sintagma Nominal Sujeito

gramáticos

a

Definição: confronto entre as gramáticas.

Tipos de sujeito.

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respeito

do

sujeito

e

da

Simples.

Composto.

Oculto.

Indeterminado.

Simples. Composto. Oculto. Indeterminado. Inexistente ou oração sem sujeito. Bons estudos! 15 Fenômenos Sintáticos

Inexistente ou oração sem sujeito.

Bons estudos!

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Fenômenos Sintáticos

Sintagma

Sintagma Fenômenos Sintáticos Sintagma é qualquer constituinte imediato da oração, exercendo função de sujeito,

Fenômenos Sintáticos

Sintagma é qualquer constituinte imediato da oração, exercendo função de

sujeito, complemento, predicativo, adjunto adverbial. Tanto pode ser uma palavra

só como mais de uma palavra. A função básica da sintaxe das línguas naturais

consiste em combinar elementos léxicos para formar orações. Essas possuem uma

estrutura interna hierarquizada, que contém não só elementos léxicos, mas

também elementos sintagmáticos ou sintagmas.

O nome é o tópico, tema ou assunto. O nome por excelência é o substantivo,

devido à sua capacidade de aglutinar outras classes gramaticais, segundo o

princípio sintagmático centro / margem. Na frase o menino educado, a palavra menino aglutina as outras duas:

 

Sintagma Nominal

Artigo (margem sintagmática)

Substantivo (centro sintagmático)

Adjetivo (margem sintagmática) educado

 

O

 

menino

Outro exemplo:

 
 

O aluno

está lendo

o material

com muita atenção

Ele

isto

atentamente

SS

SV

SS

SP/SAdv.

Siglas:

SS: sintagma substantivo SV: sintagma verbal SP: sintagma preposicional (preposição + SS) SADV. Sintagma adverbial

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Fenômenos Sintáticos Para compreender melhor os padrões oracionais, tenha-se em conta a existência de quatro

Fenômenos Sintáticos

Para compreender melhor os padrões oracionais, tenha-se em conta a existência de quatro posições ou casas sintáticas:

(1)

(2)

(3)

(4)

Sujeito

Verbo

Complemento Verbal

Adjunto Adverbial

SS

SV

SS

SADV

Sintagma Nominal

Quando vocábulos, que não sejam verbos, precedidos ou não de preposição, constituem um grupo de palavras, formam um sintagma nominal.

No sintagma nominal, há um conjugado binário, isto é, duas formas

combinadas, em que uma delas é o determinante (dependente, subordinado) e a

outra é o determinado (núcleo, central, subordinante). Há no sintagma nominal uma relação de dependência, de subordinação.

Veja:

.

a bola – o artigo a é o determinante e o substantivo bola é o determinado.

.

colégio de meninos de meninos é o determinante e o substantivo

colégio é

o determinado. Veja que o substantivo meninos é o determinante, em decorrência da preposição de.

O

Sintagma

nominal

pode

precedido de uma preposição:

chamar-se

também

preposicional

quando

é

Exemplificando :

É uma mulher de muitos recursos.

Rafael come com os olhos.

Fala pelos cotovelos.

Exemplificando : É uma mulher de muitos recursos. Rafael come com os olhos. Fala pelos cotovelos.

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O núcleo do sintagma nominal Fenômenos Sintáticos O sintagma nominal compõe-se sempre de um núcleo.

O núcleo do sintagma nominal

Fenômenos Sintáticos

O sintagma nominal compõe-se sempre de um núcleo. As margens são optativas. Podem ocupar o centro de um sintagma nominal:

a) um substantivo: Uma pessoa bondosa sempre é simpática.

b) um pronome: Ela, ele, aquele, este (

c) uma palavra substantivada:

)

sabe o que é bom.

Um adjetivo: Os atrevidos sempre têm sorte.

Um infinitivo: O saber sempre é útil.

Um advérbio: O sim do noivo foi ouvido por todos.

Um particípio: O acusado recusou-se a ir embora.

Uma preposição: Aquele até traiu o acusado.

Uma conjunção: Nesssa história há um porém.

Uma interjeição: Seus ais não me comovem.

As margens do sintagma nominal

Consideram-se determinantes os elementos sintagmáticos periféricos que caracterizam o núcleo sem alterar o seu significado:

Os artigos: O rapaz quer estudar.

Os pronomes adjetivos:

Possessivos: Minha bolsa está pesada. Demonstrativo: Aquela bolsa não é minha. Indefinido: Nenhum aluno apareceu hoje. Relativo: O rapaz, cujo pai é meu amigo, viajou. Interrogativo: Que bobagem você acaba de dizer!

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Sujeito

Sujeito Fenômenos Sintáticos Observe agora as definições de sujeito encontradas nas principais gramáticas.

Fenômenos Sintáticos

Observe agora as definições de sujeito encontradas nas principais gramáticas.

Definição: Confronto Entre as Gramáticas

Quando iniciamos o estudo de sintaxe da língua portuguesa, percebemos que os gramáticos trabalham com definições: seja de oração, seja de sujeito, seja de predicado, etc.

Verificamos, contudo, o quanto é difícil encontrar uma definição de sujeito que abranja todos os contextos em que ele surge.

contudo, o quanto é difícil encontrar uma definição de sujeito que abranja todos os contextos em

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Fenômenos Sintáticos Você deve lembrar-se de que, desde as séries iniciais, os professores ensinam que,

Fenômenos Sintáticos

Você deve lembrar-se de que, desde as séries iniciais, os professores ensinam

que, para a identificação do sujeito, basta a formulação de uma pergunta, de modo

que o pronome que – em referência a coisas – e o pronome quem – em referência a pessoas – ocorram antes do verbo. A resposta é o sujeito.

Repare

Exemplificando :

Alguém entrou nesta casa. Quem entrou nesta casa? Resposta: Alguém. Luís encontrou a casa vazia. Quem encontrou a casa vazia? Resposta: Luís Flores ornamentam a casa. O que ornamentam a casa? Resposta: Flores

Este recurso nos remete à interessante observação que faz MACAMBIRA: “A

prova da pergunta é só o artifício da gramática tradicional que tem certo valor

didático, e o que há sido amplamente aplicado na identificação do sujeito”.(1990:

171 - 172)

E chama a atenção para o fato de se formular a pergunta:

“omitindo exatamente o termo que funciona como sujeito, e por conseguinte demonstrando que já o conhecia. Neste caso seria inútil fazer a pergunta, porque na realidade já previamente se sabia o resultado.” (1990: 171 - 172)

Na verdade, prezado aluno, se você reparar, perceberá que nas perguntas

feitas anteriormente, foi omitido exatamente o termo que deveria ser a resposta,

ou seja, o sujeito.

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Fenômenos Sintáticos Além disso, quando o professor ensina que o pronome interrogativo que se emprega

Fenômenos Sintáticos

Além disso, quando o professor ensina que o pronome interrogativo que se emprega para coisas e quem para pessoas, já se sabe de antemão se o sujeito é coisa ou pessoa (1990: 171 - 172), o que também causa estranheza, pois se estou ensinando a identificação do sujeito a quem ainda não sabe, como posso empregar adequadamente as construções a seguir:

como posso empregar adequadamente as construções a seguir: Exemplificando : 1 - O rapaz nada .

Exemplificando :

1 - O rapaz nada.

Pergunta: Quem nada?

Resp.: O rapaz.

Empreguei quem para encontrar o sujeito porque rapaz é pessoa.

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Fenômenos Sintáticos 2 - A mesa quebrou. Pergunta: O que quebrou? Resp.: A mesa. Usei

Fenômenos Sintáticos

2 - A mesa quebrou.

Pergunta: O que quebrou?

Resp.: A mesa.

Usei que para encontrar o sujeito porque mesa é coisa.

Percebeu a incoerência?

E quando o sujeito é o pronome quem? Como utilizar a pergunta se o termo que a inicia é também a reposta, constituindo-se no sujeito?

OBSERVE:

Quem esteve aqui?

Resposta: Quem.

Mas por que quem é o sujeito? Você verá que esta função é própria de um substantivo e lembre-se de que quem é um pronome – substantivo, conforme você aprendeu em Morfologia, por ocupar o lugar de um substantivo, exercendo, como tal, no exemplo anterior, a função de sujeito.

Bem, até agora analisamos um recurso para a identificação do sujeito da oração.

Mas que é sujeito? Que significa sujeito da oração?

Importantes gramáticos vêm considerando o sujeito como:

a) “O ser a propósito do qual se declara alguma cousa. É expresso por um nome ou

pronome.”(ALI, 178)

b) “Um nome a respeito do qual se faz uma declaração”. (OITICICA, 1940: 199)

c) “O ser de quem se diz algo.” “O sujeito é expresso por substantivo, ou equivalente de

um substantivo.” (ROCHA LIMA, 1992: 234 - 235)

d) “O termo que exprime o ser de quem se diz alguma coisa”. (KURY: 2006: 21)

e) “O termo do qual se diz alguma coisa”. (MACEDO, 1991: 11)

f) “O ser de quem se diz alguma coisa (

pronome) ou palavra substantivada.” (LUFT, 2005: 94)

)

tem por núcleo um substantivo (nome ou

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Então, vejamos outros exemplos: Em: Quem esteve aqui ? Macacos me mordam ! Fenômenos Sintáticos

Então, vejamos outros exemplos:

Em:

Quem esteve aqui? Macacos me mordam!

Fenômenos Sintáticos

O sujeito da primeira é quem, e o da segunda é macacos.

Também em “Olha!” há um sujeito, tu, subentendido na forma verbal no modo imperativo. É o tradicionalmente denominado sujeito oculto, que você estudará mais adiante.

Mas a primeira oração não é interrogativa, a segunda exclamativa e a terceira imperativa?

Exatamente! Logo, elas não contêm nenhuma declaração.

E a definição exposta nas gramáticas?

Pois é! Já começamos a perceber que ela é insuficiente, pois não abrange todos os tipos de oração. Aplica-se apenas às afirmativas, e não às interrogativas, às exclamativas e às imperativas.

Talvez, por isso, no século XIX, Epifânio Dias, gramático português e grande estudioso da língua portuguesa, tenha evitado apresentar uma definição de

sujeito. Ao tratar deste assunto, mostra apenas, como também fazem os já citados,

a classe gramatical que pode exercer a função de sujeito: “substantivo” ou “um equivalente do substantivo”. (1970, 1)

Posteriormente, outro grande estudioso, Sousa da Silveira, brasileiro, também não definiu o sujeito. Apenas, ao tratar do substantivo, afirmou que, dentre outras

funções que não devem ser citadas agora por uma questão didática, “o substantivo figura na frase como sujeito” e os pronomes pessoais eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles,

elas, “são formas que se empregam como sujeitos(

)”.

(SILVEIRA, 1964: 136)

Também

Said

Ali

não

se

preocupa

propriamente

com

a

definição,

mas

estabelece uma relação entre a ação e o sujeito:

os fatos que chegam à nossa percepção

representam-se-nos ou como fatos propriamente ditos sem referência a quaisquer seres, ou como ações que se passam com alguém ou alguma cousa. Estão no primeiro caso os fenômenos da natureza

“(

)

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Fenômenos Sintáticos que se traduzem pelas expressões verbais chove, troveja, etc. ( )O caso mais

Fenômenos Sintáticos

que se traduzem pelas expressões verbais chove,

troveja, etc. (

)O

caso mais frequente é todavia

aquele em que em nosso cérebro existem dois

conceitos, o de um ser e o da ação com que ele se

passa (

quais se chamam sujeito e predicado.” (1966: 268)

as proposições de dois termos, os

).Temos

Para ilustrar podemos citar o exemplo: “Alguém entrou nesta casa”. Há um ser – “alguém” – e uma ação – “entrar” – que se passa com “alguém”.

Ao dar ênfase à ação que se passa com o sujeito, desconsidera construções como “A máquina permanece intocável”. Nenhuma ação é expressa pelo verbo “permanecer”, mas “a máquina” não deixa de ser o sujeito.

CUNHA também define o sujeito como “o ser sobre o qual se faz uma declaração”. (2005: 137)

Mas também salienta que: “Quando o verbo exprime uma ação, a atitude do sujeito com referência ao processo verbal pode ser de atividade, de passividade, ou de atividade e passividade ao mesmo tempo.” (2005: 137)

Assim, em:

Alguém entrou nesta casa”, há uma atividade do sujeito, pois “alguém” exerce a ação de entrar. “Ela se esvaziou sozinha”, há uma atividade e passividade do sujeito ao mesmo tempo, pois “ela” exerce a ação de esvaziar a si mesma. Alguns cristais foram levados”, há uma passividade do sujeito, pois alguém leva “alguns cristais”.

E mais adiante chama a atenção para os verbos que NÃO indicam ação:

“Quando o verbo evoca um estado, a atitude da pessoa ou da coisa que dele participa é de neutralidade. O sujeito, no caso, não é o agente nem o paciente, mas a sede do processo verbal, o lugar onde ele se desenvolve.” (2005: 143 )

Assim, há neutralidade em: A máquina permanece intocável”. Porém, cabe aqui um comentário. Parece estranho entender o sujeito, em relação aos verbos que “evocam estado”, como “a sede do processo verbal”, o lugar onde ele se desenvolve”. Que processo existe em “A máquina permanece intocável”?

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Fenômenos Sintáticos A ideia da declaração também é considerada por BECHARA, mas não explicitamente: “Sujeito

Fenômenos Sintáticos

Fenômenos Sintáticos A ideia da declaração também é considerada por BECHARA, mas não explicitamente: “Sujeito

A ideia da declaração também é considerada por BECHARA, mas não explicitamente: “Sujeito é o termo da oração que indica o tópico da comunicação representado por pessoa ou coisa de que afirmamos ou negamos uma ação ou uma qualidade.” (2006: 26)

Ora, se afirmamos ou negamos, estamos declarando algo. É interessante salientar ainda que a definição não contém a ideia de verbo de estado, tal como apresenta CUNHA (2005: 143), mas a de qualidade do sujeito, afirmada ou negada pelo emprego do verbo.

Além disso, é preciso entender o que seja tópico. Será que pode ser confundido com o sujeito?

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Repare:

Repare: “ ─ Eu fazia barquinhos naquela época.” “ ─ Barquinhos eu fazia naquela época ”

Eu fazia barquinhos naquela época.”

Barquinhos eu fazia naquela época.

Fenômenos Sintáticos

A primeira oração inicia-se com o sujeito “eu”. A segunda, porém, começa com o termo, que não é o sujeito, pois complementa o sentido do verbo. Complemento verbal será estudado nas próximas unidades, mas você deve lembrar-se de que quem faz, faz alguma coisa.

Fazia o quê?” Barquinhos.

Este complemento “barquinhos”, que inicia a oração, passa a ser, o foco da informação, o tópico, embora o sujeito “eu” esteja presente nas duas orações.

Assim, “o nome é o tópico, tema ou assunto estático ao qual se referem as ações ou processos centrais – os verbos - , quando necessitam de um elemento complementar, o que nem sempre acontece. O nome por excelência é o substantivo, devido à sua capacidade de aglutinar outras classes gramaticais, segundo o princípio sintagmático centro / margem”. (Masip, Vicente 2001)

Sintagma – Mínima Unidade Sintática

Nome

verbo

Nome

(margem sintagmática)

(centro sintagmático)

(margem sintagmática)

Ricardo

chupa

laranjas

Veja ainda:

 

Sintagma Nominal

Artigo

Substantivo

Adjetivo

(margem sintagmática)

(centro sintagmático)

(margem sintagmática)

A

menina

educada

Na frase: A menina educada, a palavra menina aglutina as outras duas.

Então podemos chegar à conclusão de que a definição dada pelos gramáticos em geral o ser de que se diz ou afirma algonão se aplica ao sujeito de todas as orações afirmativas, como vimos no início da unidade.

Ela também serve para o tópico como acontece com barquinhos. Na verdade, estou afirmando algo sobre barquinhos, no momento em que inverto a ordem dos termos da oração, iniciando esta não com o sujeito, mas com um termo que exerce outra função sintática. (PONTES, 1986:179)

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Fenômenos Sintáticos Uma definição deve abarcar todas as construções que expressam aquilo que está sendo

Fenômenos Sintáticos

Uma definição deve abarcar todas as construções que expressam aquilo que está sendo definido. No entanto, como você já pôde perceber, caro aluno, não é o que vem ocorrendo, dada a riqueza de nossa língua e as diversas possibilidades de construção linguística.

Na tentativa de encontrar uma solução para o problema existente, PERINI prioriza os aspectos formais, afirmando:

Sujeito é o termo com o qual o verbo concorda.” (1989: 17)

E que vêm a ser aspectos formais? São os relacionados aos morfemas categóricos que você já estudou em Morfologia:

a) morfema de gênero e de número em relação aos nomes;

b) morfemas modo - temporais e número – pessoais em relação aos verbos.

Assim sendo, se o sujeito está no singular, o verbo é empregado no singular; se está no plural, o verbo ocorre no plural.

Veja:

- Bandeiras tremulam ao vento!

Existem, contudo, situações em que o verbo não concorda com o sujeito.

Observe:

em que o verbo não concorda com o sujeito. Observe: “ ─ Tudo são flores”. O

Tudo são flores”.

O pronome “tudo” é o sujeito, mas o verbo concorda com o substantivo “flores”,

cuja função você irá estudar mais adiante. Isso pode acontecer quando o sujeito é

um dos pronomes: isto, isso, aquilo.

É bom salientar que os gramáticos também admitem a concordância com o pronome:

Tudo é flores.”

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Fenômenos Sintáticos Lá na frente, você estudará algumas regras de concordância. Não se preocupe! Apesar

Fenômenos Sintáticos

Lá na frente, você estudará algumas regras de concordância. Não se preocupe!

Apesar disso, a definição, que leva em conta a concordância, é mais abrangente que as anteriores. De qualquer forma, caro aluno, já deu para perceber que as discussões são inúmeras. O importante é perceber as coerências e incoerências existentes e tentar encontrar um caminho.

Tipos de sujeito

Há vários tipos de sujeito. O sujeito pode ser:

Observe:

Simples

Nos verdes campos lá vai o cavaleiro.

Ao perguntarmos:

Quem lá vai nos verdes campos?

Obtemos como resposta:

O cavaleiro.

Esta resposta é o sujeito.

Mas qual é o centro da informação, ou melhor, com que termo o verbo estabelece uma relação obrigatória de concordância?

Cavaleiro, que é o substantivo.

O artigo o apenas acompanha o substantivo. Logo, o substantivo cavaleiro é o núcleo do sujeito.

UM NÚCLEO APENAS = SUJEITO SIMPLES

É importante, contudo, que você observe as seguintes construções:

- A paz, a calma, a tranquilidade revela a beleza deste lugar.

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Fenômenos Sintáticos algo? tranquilidade que revela algo? Por que então o verbo está no singular?

Fenômenos Sintáticos

algo?

tranquilidade que revela algo? Por que então o verbo está no singular?

Não

é

a

paz

que

revela

algo?

Não

é

a

calma

que

revela

Não

é

a

Porque paz, calma, tranquilidade, no contexto em discussão, mostram-se como

sinônimos. Neste caso, representam um todo, algo único, tanto que os gramáticos

de

concordância.

citados

recomendam

o

verbo

no

singular

quando

tratam

das

regras

MELO (1954, 39) e LUFT (2005, 94) entendem expressamente que o sujeito é simples.

Há o mesmo entendimento quando os substantivos revelam uma gradação. Percebemos isto no exemplo a seguir:

Observe:

- A atração, a ternura, o amor brotava daquele encontro.

Observe:

Composto

- Um potro e um cavalo selvagem vivem em liberdade!

Ao perguntarmos:

Quem vive em liberdade?

Obtemos como resposta:

Um potro e um cavaleiro.

Esta resposta é o sujeito.

Agora, não existe apenas um centro da informação, mas existem dois: potro e cavaleiro, que são os substantivos. O artigo um apenas acompanha os substantivos. Logo, os substantivos são os núcleos do sujeito.

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Oculto

• Oculto Fenômenos Sintáticos Observe: - Viv o num carrossel! - Escreve s uma carta. -

Fenômenos Sintáticos

Observe:

- Vivo num carrossel!

- Escreves uma carta.

- Canta bem!

- Voaremos um dia!

- Marchais bem!

– tornam desnecessária

a presença do sujeito na oração. Sabemos que eu é o sujeito de vivo; tu é o sujeito de escreves; nós é o sujeito de voaremos; vós é o sujeito de marchais.

Repare que as desinências número - pessoais –

o, s, mos, is
o, s, mos, is

E em canta bem? Qual é o sujeito?

Como você aprendeu, o morfema número – pessoal da terceira pessoa do singular

é Ø. Então sabemos que o sujeito é ele. Poderia ser ela, mas, de acordo com o contexto, o falante refere-se a um cantor.

A esse sujeito que não está expresso na oração, mas subentendido no verbo, os

gramáticos chamam de oculto ou sujeito desinencial, já que são as desinências número – pessoais os indicadores do sujeito. O sujeito está implícito na desinência verbal.

Há também um tipo de construção em que o sujeito está oculto. Leia atentamente

o quadro abaixo:

- O mascote comanda o desfile. Desperta a atenção de todos

Repare que o mascote é o sujeito da primeira e da segunda oração, sendo que nesta última está oculto. Por ter aparecido anteriormente, sua presença explícita torna-se desnecessária (MELO, 1954: 39) e (CUNHA, 2005: 127).

De qualquer forma, faz-se presente implicitamente na forma verbal.

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Observe:

• Indeterminado
Indeterminado

Fenômenos Sintáticos

- Pegaram meu violão!

O verbo não está empregado na terceira pessoa do plural porque se refere a eles propriamente e sim pelo fato de o falante não saber quem exerceu o ato de pegar o violão. Portanto, há sujeito indeterminado.

Também pode ocorrer a seguinte situação:

- Falam que seu namorado tem saído com sua melhor amiga.

Repare em que o verbo

sabe quem é o sujeito, no entanto quis indeterminá-lo, por se tratar da amiga de quem ouve. A indeterminação do sujeito é intencional.

está empregado sem sujeito expresso. O falante

falam
falam

Outro tipo de sujeito indeterminado é aquele que ocorre com o verbo na terceira pessoa do singular seguido do pronome se, denominado índice de indeterminação do sujeito.

Observe:

- Vivia-se melhor aqui.

- Precisa-se de mais paz agora.

Na primeira oração, não há nenhum substantivo nem termo equivalente. Logo, o sujeito não está expresso. Sabemos, todavia, que pessoas, sem sabermos quais, viviam melhor. Então, estamos diante de um sujeito indeterminado.

Na segunda oração, ocorre um verbo que se constrói com a preposição de –

precisar

de

e

a

regra

é:

sujeito

não

vem

precedido

de

preposição

.

Mas

entendemos que pessoas, sem sabermos quais, precisam de mais paz. Então, estamos diante de um sujeito indeterminado.

Há construções, no entanto, que se fazem a partir de um verbo na terceira pessoa

do singular sem preposição, seguido da partícula

31

se e substantivo.

Observe:

Observe: Fenômenos Sintáticos - Libertou- se um pássaro.

Fenômenos Sintáticos

- Libertou-se um pássaro.

Os gramáticos, em sua maioria, entendem que a construção anterior equivale a um pássaro foi libertado. Assim, um pássaro é sujeito simples.

Se pensarmos, porém, nas tabuletas de rua veremos que os autores dos anúncios não fazem a concordância do verbo com o substantivo.

Observe:

- Compra-se bicicletas velhas.

Os tais gramáticos condenam a construção apresentada, já que consideram “bicicletas” o sujeito do verbo consertar, pois haveria equivalência com a oração bicicletas velhas são compradas.

SAID ALI (1966: 98), no entanto, fez um estudo bastante detalhado do pronome

se em suas Dificuldades da Língua Portuguesa. O seu entendimento é contrário ao

da maioria.

Salienta que o falante de língua portuguesa entende que “alguém compra bicicletas”, o que gera o emprego do verbo no singular. Desta forma, afirma que o sujeito é indeterminado.

Não deixa de enfatizar que, de acordo com o padrão culto da língua portuguesa,

o verbo deve ser empregado no plural, deixando claro, no entanto, que a

concordância se dá com o objeto direto bicicletas –, tendo em vista o exemplo citado. Chama de “falsa concordância”. (1966: 96-97)

Objeto direto é outra função sintática a ser estudada nas próximas unidades. O importante agora é saber que para o estudioso citado o substantivo não exerce a função de sujeito.

, numa tabuleta, pode

exprimir não um hábito do dono da oficina, mas apenas aquelas que se encontram

são compradas, podendo indicar, inclusive, que o dono não é o mesmo da oficina

e sim outra pessoa.

Além disso, a construção

bicicletas velhas são compradas

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Em relação a isto, comenta SAID ALI: Fenômenos Sintáticos “ Aluga-se esta casa e esta

Em relação a isto, comenta SAID ALI:

Fenômenos Sintáticos

Aluga-se esta casa e esta casa é alugada exprimem dois pensamentos, diferentes na forma e no sentido. Há um meio muito simples de verificar isto. Coloque-se na frente de um prédio um escrito com a primeira das frases, na frente de outro ponha-se o escrito contendo os dizeres esta casa é alugada. Os pretendentes sem dúvida encaminham-se unicamente para uma das casas, convencidos de que a outra já está tomada. O anúncio desta parecerá supérfluo, interessando apenas aos supostos moradores, que talvez queiram significar não serem eles os proprietários. Se o dono do prédio completar, no sentido hipergramatical, a sua tabuleta deste modo: esta casa é alugada por alguém, não se perceberá a necessidade da declaração e os transeuntes desconfiarão da sanidade mental de quem tal escrito expõe ao público.” (1966: 98.)

É bom ainda apontar uma discussão em torno dos pronomes indefinidos.

No início da unidade, foi apresentado o seguinte exemplo:

Alguém entrou nesta casa.

Segundo MACEDO, há duas questões a serem discutidas: uma questão semântica

e uma questão sintática.

(1991: 265)

Semanticamente, há sujeito indeterminado, pois não sabemos determinar quem entrou.

Sintaticamente, pois, ocorre sujeito simples, visto existir uma relação entre o pronome e o verbo.

Em relação a isto observa BECHARA: “não há propriamente sujeito indeterminado, pois que não existe referência à massa humana indiferenciada, traço fundamental à noção de indeterminação do sujeito.” (2006: 35)

33

Inexistente ou Oração sem Sujeito Observe: - Nunca chove aqui! - Entardece ! - Faz

Inexistente ou Oração sem Sujeito

Observe:

- Nunca chove aqui!

- Entardece!

- Faz muito frio!

Fenômenos Sintáticos

Os verbos anteriores exprimem fenômeno da natureza, são impessoais, portanto

constituem

oração sem sujeito

.

Podemos acrescentar:

nevar, trovejar, relampejar, anoitecer, amanhecer, fazer calor, etc.

Acrescentemos ainda que estes verbos podem constituir uma locução verbal com os chamados auxiliares, como, por exemplo, haver, dever, poder, conseguir. Neste caso, os auxiliares são conjugados normalmente, e os principais ocorrem numa das formas nominais: infinitivo, gerúndio e particípio.

Por vezes, estes verbos podem ter outra conotação.

Observe:

Choveram aplausos após o término de tua apresentação.

Você naturalmente já percebeu que o verbo chover, neste caso, não denota fenômeno da natureza, mas significa que muitas pessoas aplaudiram a cantora.

Há também oração sem sujeito quando o verbo haver ocorre no sentido de existir.

Observe:

- Não havia pessoas aqui.

Por isso o verbo é empregado na terceira pessoa do singular, impessoalmente. O substantivo pessoas não é o sujeito, pois é o complemento do verbo. Normalmente, uma pessoa falaria não tinha pessoas aqui. Esta construção, entretanto, é condenada pelos gramáticos, pois o verbo ter deve indicar um possuidor e algo possuído, o que não existe neste exemplo.

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Fenômenos Sintáticos O verbo haver pode constituir uma locução verbal com os chamados auxiliares, como,

Fenômenos Sintáticos

O verbo haver pode constituir uma locução verbal com os chamados auxiliares, como, por exemplo, estar, dever, poder, conseguir. Neste caso, os auxiliares são conjugados normalmente, e o principal – haver – ocorre numa das formas nominais: infinitivo, gerúndio e particípio.

Caso interessante é o emprego do verbo ser com a indicação de hora.

Observe:

- São oito horas.

Entende a maioria dos gramáticos que, neste exemplo, não há sujeito. Voltaremos a este assunto, quando tratarmos do predicativo do sujeito, porque estes estudiosos consideram oito horas o predicativo do sujeito.

Mas cabe a pergunta:

Pode haver predicativo de um sujeito que não existe?

Por isso, MACEDO (1991: 15), contrariando o entendimento majoritário, afirma que a oração tem sujeito oito horas.

Leitura Complementar :

Leitura Complementar : BECHARA, Evanildo. Gramática Escolar da Língua Portuguesa. Lucerna: Rio de Janeiro, 2006. KURY,

BECHARA, Evanildo. Gramática Escolar da Língua Portuguesa. Lucerna: Rio de Janeiro, 2006.

KURY, Adriano da Gama. Novas Lições de Análise Sintática. São Paulo:Ática, 2006 LUFT, Celso Pedro. Moderna Gramática Brasileira. São Paulo: Ática, 2006.

CUNHA, Celso & CINTRA, Luis Filipi Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

AZEREDO, José Carlos de. Fundamentos da Gramática do Português. Rio de Janeiro, Zahar, 2007.

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Fenômenos Sintáticos É hora de se avaliar! Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de

Fenômenos Sintáticos

É hora de se avaliar!

É hora de se avaliar! Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão

Lembre-se de realizar as atividades desta unidade de estudo. Elas irão ajudá-lo

a fixar o conteúdo, além de proporcionar sua autonomia no processo de ensino-

aprendizagem. Caso prefira, redija as respostas no caderno e depois as envie através do nosso ambiente virtual de aprendizagem (AVA). Interaja conosco!

Nesta Unidade você estudou sujeito, sua definição, classificação e as controvérsias existentes. Na próxima, estudaremos o predicado e sua classificação. Até lá!

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Unidade 1 – Exercícios Fenômenos Sintáticos 1- Leia atentamente o poema de Cesário Verde e

Unidade 1 – Exercícios

Fenômenos Sintáticos

1-

Leia atentamente o poema de Cesário Verde e responda às questões seguintes.

O

Sentimento dum Ocidental Ave-Maria Cesário Verde

1.

Nas nossas ruas, ao anoitecer,

 

Há tal soturnidade, há tal melancolia,

Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia,

Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

2.

O céu parece baixo e de neblina,

 

O

gás extravasado enjoa-me, perturba;

E

os edifícios, com as chaminés, e a turba

Toldam-se duma cor monótona e londrina.

3. Semelham-se a gaiolas, com viveiros,

As edificações somente emadeiradas:

Como morcegos, ao cair das badaladas,

Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

4. Voltam os calafates, aos magotes,

De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;

Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,

Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

37

5. E evoco, então, as crônicas navais: Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado! Fenômenos Sintáticos Luta

5. E evoco, então, as crônicas navais:

Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!

Fenômenos Sintáticos

Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

6. E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!

De um couraçado inglês vogam os escaleres;

E em terra num tinir de louças e talheres

Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

7. Num trem de praça arengam dois dentistas;

Um trôpego arlequim braceja numas andas;

Os querubins do lar flutuam nas varandas;

Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

8. Vazam-se os arsenais e as oficinas;

Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;

E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,

Correndo com firmeza, assomam as varinas.

9. Vêm sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

E algumas, à cabeça, embalam nas canastras

Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

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10. Descalças! Nas descargas de carvão, Desde manhã à noite, a bordo das fragatas; E

10. Descalças! Nas descargas de carvão,

Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;

E

apinham-se num bairro aonde miam gatas,

E

o peixe podre gera os focos de infecção!

Fenômenos Sintáticos

1- Na primeira estrofe, os versos “Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia” apresentam:

a) sujeito simples.

b) sujeito composto.

c) sujeito indeterminado.

d) sujeito inexistente.

e) sujeito expresso.

2- Na quinta estrofe, a oração, formada pelo verso “E evoco, então, as crônicas navais”, apresenta sujeito:

a) desinencial.

b) explícito.

c) indefinido.

d) expresso.

e) composto.

3- Na quarta estrofe, a oração, constituída pelos versos “Voltam os calafates, aos magotes, / De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos”, tem por sujeito o termo:

a) aos magotes.

b) ao ombro.

c) enfarruscados.

d) calafates.

e) os calafates.

4- Na oitava estrofe, o sujeito expresso nos versos “E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,/ Correndo com firmeza, assomam as varinas” é classificado como:

a) composto.

b) simples.

c) indeterminado.

d) inexistente.

e) oculto.

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Fenômenos Sintáticos 5- Na sexta estrofe, a oração, formada a partir dos versos “ E

Fenômenos Sintáticos

5- Na sexta estrofe, a oração, formada a partir dos versos “E em terra num tinir de louças e talheres / Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda”, tem por sujeito:

a) alguns hotéis da moda.

b) em terra.

c) tinir de louças.

d) talheres.

e) ao jantar.

6- Na quarta estrofe, o verso “Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos” apresenta um sujeito nomeado quanto à classificação:

a) composto.

b) expresso.

c) implícito.

d) indeterminado.

e) inexistente.

7- Na nona estrofe, o verso “Vêm sacudindo as ancas opulentas” constitui uma oração com sujeito:

a) opulentas.

b) as ancas.

c) ancas opulentas.

d) as ancas opulentas.

e) as varinas.

8- Na nona estrofe, a oração, constituída pelo verso “E algumas, à cabeça, embalam nas canastras”, tem por sujeito:

a) cabeça.

b) canastras.

c) algumas.

d) nas canastras.

e) à cabeça.

40

Fenômenos Sintáticos 9- Na oitava estrofe, o verso “ Vazam-se os arsenais e as oficinas

Fenômenos Sintáticos

9- Na oitava estrofe, o verso “Vazam-se os arsenais e as oficinas” apresenta o verbo vazar seguido da partícula se. Isto acarreta posicionamentos diversos em relação ao sujeito. Justifique esta afirmativa a partir da oração apresentada.

10- Com base na terceira estrofe, analise o sujeito considerando o verbo “saltam” em “Como morcegos, ao cair das badaladas, / Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.”

Fenômenos Sintáticos 42

Fenômenos Sintáticos

Fenômenos Sintáticos 2 Predicação Verbal Sintagma verbal. Predicado: definição e tipos. Predicado nominal.

Fenômenos Sintáticos

2 Predicação Verbal

Sintagma verbal.

Predicado: definição e tipos.

Predicado nominal.

Predicado verbal.

Crítica à NGB: Rocha Lima e o verbo transitivo relativo.

Verbo intransitivo.

Crítica à NGB: Rocha Lima e o verbo transitivo circunstancial.

Verbo transitivo direto e indireto.

Crítica à NGB: Rocha Lima e o verbo bitransitivo.

Predicado verbo-nominal: verbo transitivo direto ou verbo intransitivo e predicativo do objeto ou predicativo do sujeito.

Crítica à NGB: Rocha Lima e o verbo transobjetivo

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Fenômenos Sintáticos Caro aluno, nesta unidade você estudará o predicado e seus tipos, incluindo o

Fenômenos Sintáticos

Caro aluno, nesta unidade você estudará o predicado e seus tipos, incluindo o verbo e seus complementos. Bom estudo!

Objetivos da unidade:

Identificar o sintagma verbal.

Depreender o predicado.

Identificar os diversos tipos de predicado.

Perceber o verbo e seus complementos.

Identificar o verbo intransitivo e o verbo transitivo com predicativo.

Analisar as divergências entre os gramáticos.

Plano da unidade:

Sintagma verbal.

Predicado: definição e tipos.

Predicado nominal.

Predicado verbal.

Crítica à NGB: Rocha Lima e o verbo transitivo relativo.

Verbo intransitivo.

Crítica à NGB: Rocha Lima e o verbo transitivo circunstancial.

Verbo transitivo direto e indireto.

Crítica à NGB: Rocha Lima e o verbo bitransitivo.

Predicado

verbo-nominal:

verbo

transitivo

direto

ou

verbo

intransitivo

e

predicativo do objeto ou predicativo do sujeito.

Crítica à NGB: Rocha Lima e o verbo transobjetivo

Bons estudos!

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Sintagma Verbal Fenômenos Sintáticos Quando um grupo de palavras se constitui também de um verbo,

Sintagma Verbal

Fenômenos Sintáticos

Quando um grupo de palavras se constitui também de um verbo, forma um sintagma verbal.

“O verbo é a representação dinâmica da língua, opondo-se distintivamente à representação estática, que é o nome. Por isso, os verbos são considerados plenos quando referem ações ou processos. Quando verbalizam apenas estados (ser, estar), são conhecidos como predicados nominais. O sintagma verbal pode possuir núcleo e margens, mas o núcleo do sintagma verbal pode prescindir de margens. Basta-se a si próprio. Por isso, há orações que se compõem apenas de um núcleo verbal, impessoal e intransitivo: chove, ”

venta

(Masip, 2001)

No sintagma verbal, há um conjugado binário, isto é, duas formas combinadas, em que uma delas é o determinante (dependente, subordinado) e a outra é o determinado (núcleo, central, subordinante). Há no sintagma verbal uma relação de dependência, de subordinação.

O determinado é o verbo e o determinante pode ser um substantivo, precedido ou não de preposição, um pronome e um advérbio.

Veja:

Comprei um livro ontem.

Comprei = determinado

um livro = determinante

ontem = determinante

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Predicado: definição e tipos Fenômenos Sintáticos Se, de acordo com a definição tradicional, sujeito é

Predicado: definição e tipos

Fenômenos Sintáticos

Se, de acordo com a definição tradicional, sujeito é o ser sobre qual dizemos alguma coisa, o predicado só pode ser tudo aquilo que falamos a respeito do sujeito. Caso não haja sujeito, “é o enunciado puro de um fato qualquer” (LUFT: 2006, 51), como podemos perceber nas orações sem sujeito apresentadas anteriormente.

Se, no entanto, entendemos, juntamente com PERINI, que “sujeito é o termo com o qual o verbo concorda” (1989: 17) automaticamente temos a definição de predicado: é o termo, cujo núcleo, o verbo, mantém com o sujeito uma relação obrigatória de concordância.

“O predicado basta-se a si próprio. Informação, vínculo, ação ou processo”. (Masip,

2001)

Dependendo da informação que queiramos dar, o predicado pode ser: nominal, verbal ou verbo-nominal.

Predicado nominal

Como o próprio nome indica, o núcleo é o nome. Por quê? Veja a seguir.

Verbo de ligação e predicativo do sujeito Observe:

- O homem é voador!

A característica dada ao sujeito, expressa pelo adjetivo voador, contém a informação principal, característica esta que se encontra no predicado. Se retirarmos o verbo ser (é), obteremos o homem voador, conteúdo principal da comunicação.

Como bem observara SAID ALI (1954: 158), cabe ao verbo exprimir o predicado, termo essencial a toda proposição, como aliás consta da NGB. Se o verbo perde esta prerrogativa, quando a caracterização do sujeito é a base da informação, a perda é compensada no termo “que assume funções próprias do verbo”.

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Fenômenos Sintáticos No exemplo citado, este termo é o adjetivo voador . Expandiu-se, então, a

Fenômenos Sintáticos

No exemplo citado, este termo é o adjetivo voador.

Expandiu-se, então, a ideia, inclusive nos compêndios escolares, de que cabe ao verbo apenas ligar, relacionar o sujeito à sua característica, ao seu estado.

Equivaleria, neste caso, às conjunções e às preposições, pois estabelecem uma conexão, uma relação entre termos ou orações, conforme você aprendeu em Morfologia na parte dedicada aos conectivos.

CUNHA entende expressamente o verbo de ligação como copulativo:

“Os verbos de ligação (ou copulativos) servem para estabelecer a união entre duas palavras ou expressões de caráter nominal. Não trazem propriamente ideia nova ao sujeito; funcionam apenas como elo entre este e o seu predicativo.” (2005: 130)

Veja:

- Minha filha está feliz!

Temos aqui o verbo estar (estar). Com base no exposto, o verbo liga o

A informação concentra-se no adjetivo

estado de felicidade ao sujeito menina.

feliz. Obtemos como resultado a menina feliz.

Assim,

a

informação.

ausência

do

verbo

não

geraria

maiores

prejuízos

para

a

O mestre Said Ali já considerava totalmente desprovidos de significado os

verbos ser e estar, sendo o outro termo a própria expressão do predicado: “se este

como o verdadeiro predicado, o verbo, por sua vez,

segundo termo figura (

degradado a servir de expressão subsidiária, é um vocábulo de significação extinta

(ser, estar).” (1954: 158)

)

Não podemos esquecer, no entanto, de que o verbo de ligação difere das conjunções e das preposições porque possui aquelas quatro categorias verbais já estudadas em Morfologia: modo, tempo, número e pessoa, o que já põe em dúvida ser este verbo apenas um elo.

Então, os verbos de ligação tornam-se responsáveis pelas nuanças da característica ou estado do sujeito. Pode ser uma característica permanente ou transitória, que se dá no presente, no passado e no futuro.

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Fenômenos Sintáticos Por isso, muitos estudiosos vêm entendendo que o verbo de ligação não é

Fenômenos Sintáticos

Por isso, muitos estudiosos vêm entendendo que o verbo de ligação não é destituído de significado.

Retirar o verbo da construção “minha filha está feliz”, por exemplo, implica a perda da noção de modo e tempo e do aspecto transitório contidos na informação. Assim, o que se pretende informar sofre alguma modificação.

Devemos lembrar que este tipo de verbo acarreta o chamado predicado nominal, pois o nome (adjetivo, substantivo ou termo equivalente a este) – é o núcleo. Este núcleo denomina-se predicativo do sujeito.

Logo, no exemplo citado, feliz é o predicativo do sujeito.

Veja a seguir com maiores detalhes o verbo de ligação e as variações que sofrem o predicativo, em decorrência do emprego verbal.

O verbo de ligação e as nuanças do predicativo do sujeito

Observe:

a) Tornar-se

- Tornou-se herói!

b) Permanecer

- A nuvem permanece estática!

c) Continuar

- Continuavam invencíveis!

d) Andar

- Vocês andam sorridentes.

e) Ficar

- Ficaram alegres.

48

f) Parecer

- Pareço professor?

g) Virar

- Virei médica!

h) Acabar

- Acabei piloto!

i) Cair

- Cairão doentes!

Acabar - Acabei piloto ! i) Cair - Cairão doentes ! Fenômenos Sintáticos Como bem nota

Fenômenos Sintáticos

Como bem nota LIMA (2005: 238): “Os verbos que aí figuram (ser, estar, andar, permanecer, continuar, ficar, parecer) são elementos indicativos dos diversos aspectos sob os quais se considera cada característica”.

Interessante observação de MELO a respeito dos verbos de ligação:

“Verbo de ligação porque faz a ligação entre o predicado e o sujeito. Melhor, no entanto, dizer ‘liame verbal’. A nossa língua portuguesa é muito rica em liames verbais. Assim funcionam como tais os verbos ser, estar, parecer, ficar, permanecer, continuar, tornar-se, andar, etc. Na realidade, do segundo em diante todos são variantes, modalidades, aspectos do verbo ser. Estar é ‘ser por algum tempo’, é um ser transitório. Parecer é ‘ser no conceito, no juízo, na impressão de alguém’. Ficar e tornar-se significam ‘passar a ser’. Permanecer indica duração de um estado. Andar é estar, mas um estar de certo modo projetado no tempo, incluindo um passado recente e sugerindo um futuro próximo. Continuar é manter-se num segundo estado, é um ‘ficar’ prolongado.” (1954: 50)

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Fenômenos Sintáticos Se estabelecermos uma relação entre a exposição do gramático e as orações apresentadas,

Fenômenos Sintáticos

Se estabelecermos uma relação entre a exposição do gramático e as orações apresentadas, teremos:

a) transitoriedade em “minha filha está feliz”.

b) impressão de alguém em “pareço professor?

c) passar a ser em “ficariam alegres”, “tornou-se herói”, “virei médica” “acabei

piloto” e “cairão doentes”.

d) duração de um estado em “a nuvem permanece estática”.

e) projeção no tempo – passado recente e futuro próximo – em “vocês andam

sorridentes”. Repare em que aqui o sujeito “vocês” não exerce a ação de andar.

f) um ficar prolongado em “continuavam invencíveis”.

Além disso, “estas modalidades do verbo ser” sofrem influências das categorias verbais – modo, tempo, número e pessoa – influências estas que se refletem sobre a característica do sujeito, conforme já foi salientado.

Acrescentemos ainda que estes verbos podem constituir uma locução verbal com os chamados auxiliares, como, por exemplo, haver, dever, poder, conseguir. Neste caso, os auxiliares são conjugados normalmente, e os principais ocorrem numa das formas nominais: infinitivo, gerúndio e particípio.

Analisemos agora os seguintes termos: voador, feliz, herói, estática, invencíveis, sorridentes, alegres, professor, médica, piloto.

Pois bem! Repare em que, nas construções apresentadas, estes vocábulos expressam característica ou estado do sujeito. Exercem, portanto, a função de predicativo do sujeito.

Ora, este nome pressupõe a existência do sujeito, concorda?

Acontece, porém,

que muitos

estudiosos

defendem

a

existência

do

predicativo do sujeito em orações como “eram dez horas”.

Mas onde está o sujeito?

50

Veja a seguir.

Veja a seguir. O verbo ser e a indicação das horas Observe: Fenômenos Sintáticos - Eram

O verbo ser e a indicação das horas

Observe:

Fenômenos Sintáticos

- Eram dez horas!

Em relação à construção apresentada, entendem os gramáticos que se trata de uma oração sem sujeito, constituída de um verbo de ligação – eram – e um predicativo do sujeito – dez horas.

Mas como pode existir predicativo de um sujeito que não existe?

É no mínimo incoerente. Mas, na nossa língua, vem se considerando o verbo ser como verbo de ligação por excelência.

Contudo, quando se quer informar a hora, MACEDO defende a ideia de que o verbo ser é empregado intransitivamente e dez horas é o sujeito.

Para fundamentar sua opinião, remete-se ao latim: “Sunt duae horae” em que o sujeito de sunt é duae horae e o verbo (sunt) está empregado, não como de ligação, mas como intransitivo.” (1991: 15)

BECHARA contra-argumenta: dez horas “não poderia funcionar como sujeito, pois não é vernácula a comutação com o pronome elas (que assinalaria o sujeito): Elas já são” (2006: 42). Utiliza-se de um recurso para a identificação do sujeito: o emprego de ele(s) ou ela(s) em substituição ao substantivo, como podemos perceber em “As meninas saíram / Elas saíram”.

Também KURY (2006: 43) lembra que o verbo ser é intransitivo na seguinte passagem bíblica: “Deus disse: ; e tu foste.” Aqui, o verbo ser tem o sentido de existir.

Bem, caro aluno, são estes os posicionamentos, compete a você agora refletir sobre eles.

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Fenômenos Sintáticos Devemos lembrar, porém, as palavras de CUNHA: “Como há verbos que se empregam

Fenômenos Sintáticos

Devemos lembrar, porém, as palavras de CUNHA: “Como há verbos que se empregam ora como copulativos, ora como significativos, convém atentar sempre no valor que apresentam em determinado texto a fim de classificá-los com acerto.” (2005: 130)

Assim sendo, é necessário considerar o contexto em que surge um determinado verbo. Se em determinada situação comunicativa é de ligação, pode não o ser em outra, como você verá a seguir.

Predicado Verbal

Aqui a significação do verbo não se limita às categorias gramaticais nem

às variações da característica ou estado do sujeito. Que quer dizer isto? Se falamos

simplesmente

- Voltarei!

O ouvinte sabe que o falante retornará. A ideia do retorno nos é dada apenas pelo

verbo.

Se dissermos:

- Veremos!

- O quê?

- O trem!

A ouvinte (a mãe), inicialmente, sabe que as crianças enxergarão algo, mas não sabe o quê, pois apenas o verbo é utilizado na frase. E a mãe, curiosa, faz sua indagação e as crianças respondem. Foi necessário o emprego de um termo para satisfazer a curiosidade materna, somente o verbo foi insuficiente.

A predicação do verbo é incompleta.

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Predicação é o “resultado do nexo que se estabelece entre um predicado e seu sujeito. Quando para esse nexo é suficiente o verbo este se diz de predicação completa. Quando o verbo não prescinde de um complemento, diz-se de predicação incompleta.” (MATTOSO CÂMARA JR.,Joaquim. Dicionário de Linguística e Gramática. 13 ed. Petrópolis: Vozes, 1977: 197.)

Fenômenos Sintáticos A ouvinte obtém então apenas parte da informação - ato de enxergar decorrente

Fenômenos Sintáticos

A ouvinte obtém então apenas parte da informação - ato de enxergar

decorrente da forma veremos – por meio do verbo.

Parte da informação por quê?

Não se trata apenas de ver e sim ver algo.

Pode também ocorrer:

- P r e

- De quê?

- De ajuda.

c i

s o.

A senhora percebe que o rapaz sente necessidade de algo, mas não sabe

de quê. É uma situação parecida com a anterior. O verbo tem “predicação incompleta”, pois se complementa no termo posterior. Só que desta vez ocorre a preposição de.

Há verbos, portanto, que se complementam diretamente no termo seguinte - veremos o trem - e outros indiretamente - preciso de ajuda - porque a preposição se faz presente.

esta

denominação se deve ao fato de o sentido transitar do verbo para um outro termo

– seu complemento.

Estes

verbos

são

considerados,

atualmente,

transitivos ,
transitivos
,

e

Estamos então diante de três tipos de verbo que constituem o predicado verbal: o de predicação incompleta empregado sem preposição e com preposição e o de predicação completa.

Veja a seguir.

Verbo transitivo direto e objeto direto

Quando a predicação se completa num termo não precedido de

preposição, o verbo é denominado transitivo direto, e o termo que complementa

o seu sentido é objeto direto.

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Observe o diálogo abaixo: - Guardarei esses documentos - Você redigiu a petição - Elaborei

Observe o diálogo abaixo:

- Guardarei esses documentos

- Você redigiu a petição

- Elaborei. Consultei. Pesquisei.

Fenômenos Sintáticos

- Elaborou o quê? Consultou o quê? Pesquisou o quê?

- Elaborei o texto. Consultei o dicionário. Pesquisei palavras raras. Logo, os termos – esses documentos, a petição, o texto, o dicionário, palavras raras – integram a predicação do verbo respectivo e não são precedidos de preposição. Por isso, são denominados objetos diretos.

Anteriormente, salientamos a importância do contexto porque, dependendo da situação em que ocorra, da informação que queiramos transmitir, o verbo poderá ser ou não de ligação.

Vejamos então alguns verbos que foram tratados como “copulativos” (que une, que liga) tais como: continuar, virar, acabar.

 

-

Continuei meu caminho.

 
 

- Virei algumas páginas da minha vida

 

-

Acabei meus trabalhos.

Repare

que

agora,

neste

contexto,

os

verbos

continuar”,

virar

e

acabar” são transitivos porque a natureza da informação é outra.

Estes verbos agora não relacionam o sujeito à sua característica, mas expressam uma ação exercida pelo sujeito.

Esta ação, contudo, não está encerrada em si mesma, pois recai respectivamente sobre meu caminho”, “algumas páginas”, “meus trabalhos”.

Poderíamos

complemento.

dizer

que

o

sentido

transita

do

verbo

para

o

O personagem, nos exemplos anteriores, não pretende simplesmente informar que:

a) continuou, mas continuou algo – “meu caminho”.

b) virou, porém virou algo – “algumas páginas”.

c) acabou, todavia acabou – “meus trabalhos”.

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Fenômenos Sintáticos Cabe lembrar que os objetos diretos anteriores – de terceira pessoa – podem

Fenômenos Sintáticos

Cabe lembrar que os objetos diretos anteriores de terceira pessoa –

podem ser substituídos pelos pronomes oblíquos

o, a, os, as

.

Então podemos ter as seguintes construções:

a) Continuei meu caminho. Continuei - o.

b) Virei algumas páginas. Virei - as.

c) Acabei meus trabalhos. Acabei - os.

Também os pronomes oblíquos átonos – me, te, nos, vos, se – podem exercer a função sintática de objeto direto se o verbo é construído sem preposição:

.Ver alguém – O rapaz viu-me ontem no cinema.

O

rapaz viu-te ontem no cinema.

O

rapaz viu-nos ontem no cinema.

O

rapaz viu-vos ontem no cinema.

O

rapaz viu-se ontem no cinema.

O Objeto direto e as origens da transitividade verbal

É importante, porém, caro aluno, que você tenha conhecimento da origem da transitividade verbal. O que é verbo transitivo? É aquele que se constrói com complemento por não possuir sentido completo? O sentido então transita do verbo para outro termo?

As respostas, atualmente, são positivas, como já foi salientado. Você deve lembrar-se de que estas noções são transmitidas aos alunos desde as séries iniciais.

Em latim, no entanto, a transitividade existe porque o verbo pode passar, transitar (do latim transire) para a voz passiva.

Isto só é possível quando, na voz ativa, o vocábulo – complemento verbal

– ocorre no caso acusativo.

Quando a voz ativa cede lugar para a voz passiva, o acusativo deixa de ser utilizado,

e o mesmo vocábulo surge no caso nominativo.

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Fenômenos Sintáticos Em português, o vocábulo, na voz ativa, que exerce a função sintática de

Fenômenos Sintáticos

Em português, o vocábulo, na voz ativa, que exerce a função sintática de objeto direto, é o sujeito na voz passiva.

Olhe a correspondência entre o latim e o português:

LATIM

PORTUGUÊS

CASO

FUNÇÃO SINTÁTICA

NOMINATIVO

SUJEITO

ACUSATIVO

OBJETO DIRETO

Nos exemplos apresentados, o objeto direto é o paciente da ação verbal, porque a ação recai sobre ele.

Logo, o sujeito, na voz passiva, será o paciente e não o agente da ação verbal.

Veja:

voz ativa

=

objeto direto

=

paciente da ação verbal.

voz passiva

=

sujeito

=

paciente da ação verbal.

Continuei meu caminho. (objeto direto) Meu caminho foi continuado. (sujeito)

Virei algumas páginas. (objeto direto) Algumas páginas foram viradas. (sujeito)

Acabei meus trabalhos. (objeto direto)

Meus trabalhos foram acabados.

(sujeito)

Não podemos deixar de observar, contudo, que em algumas orações o objeto direto denota o produto da ação.

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Observe :

Observe : Fenômenos Sintáticos - A leoa gerou três filhotes . O termo três filhotes é

Fenômenos Sintáticos

Observe : Fenômenos Sintáticos - A leoa gerou três filhotes . O termo três filhotes é

- A leoa gerou três filhotes.

O termo três filhotes é o resultado de gerar – ação exercida pela leoa.

Como salienta SAID ALI: “Num caso o acusativo significa um ser cuja existência é anterior à da ação verbal; no outro caso, o ser aparece ulteriormente como resultado do ato que se pratica”. (1958: 164)

O ser anterior à ação verbal é o paciente desta; o ser posterior à ação verbal é o resultado, o produto desta.

De qualquer forma, a construção verbal com acusativo – objeto direto – pode ir para a voz passiva.

Há situações, todavia, em que este complemento vem precedido de preposição.

Por uma questão didática preferimos abordar este assunto na próxima unidade, pois até lá você terá estudado todos os tipos de complemento, conhecimento necessário para o entendimento do emprego da preposição com o objeto direto.

Veja agora os verbos que se empregam obrigatoriamente com preposição.

Verbo transitivo indireto e objeto indireto

Atualmente,

considera-se

verbo

transitivo

indireto

aquele

cuja

predicação se completa num termo precedido de preposição.

- Você insiste nessa atividade?

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Fenômenos Sintáticos - Os beija-flores conversam com as flores ! - Aspiro a um mundo

Fenômenos Sintáticos

- Os beija-flores conversam com as flores!

- Aspiro a um mundo melhor

Nota-se que os verbos gostar, insistir, conversar e aspirar (sentido de desejar) são

construídos com complemento precedido de preposição –

de, em, com, a :

a) gostar de algo

b) insistir em algo

c) conversar com alguém

d) aspirar a algo

Este complemento vem sendo considerado objeto indireto.

LIMA (2005: 248) e SAID ALI (1958: 164), contudo, não partilham da mesma opinião por entenderem que “o objeto indireto representa o ser animado a quem se dirige ou destina a ação”. Este entendimento tem raízes no latim, visto provir o objeto indireto do caso dativo latino, cujo sentido se revela em a alguém” ou “para alguém”, já que esta pessoa vem a ser aquela a quem se dá algo, se atribui algo, sendo então o destinatário da ação verbal.

Por esta razão, pode ser substituído pelo pronome pessoal oblíquo lhe.

Veja:

- Escrevi a meu amigo.

- Escrevi-lhe

Repare que “a meu amigoé o destinatário do ato de escrever.

Assim, um termo se constitui, numa oração, como objeto indireto, quando:

a) é o ser animado destinatário da ação verbal.

b) pode ser substituído pelo pronome lhe.

Podemos incluir os seres inanimados quando recebem tratamento igual ao de pessoas. (2005: 248)

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Fenômenos Sintáticos É a seguinte, pois, a construção do objeto indireto tendo em vista o

Fenômenos Sintáticos

É a seguinte, pois, a construção do objeto indireto tendo em vista o dativo latino:

preposição a ou para + pessoa.

De acordo com este ponto de vista, dentre os verbos arrolados, apenas escrever é transitivo indireto: escrever a alguém / escrever lhe ou escrever a ele ou escrever para ele.

– podem exercer

ainda a função sintática de objeto indireto se o verbo é construído com a

preposição

respectivamente, precedidos destas preposições.

. Meu amigo escreveu-me. Meu amigo escreveu a mim. Meu amigo escreveu para

mim.

Os pronomes oblíquos átonos –

a

ou

para.

Podem

ser

me, te, nos, vos, se

por

substituídos

mim,

ti,

nós,

vós,

si

.

Teu amigo escreveu-te. Teu amigo escreveu a ti. Teu amigo escreveu para ti.

.

Nosso amigo escreveu-nos. Nosso amigo escreveu a nós. Nosso amigo escreveu

para nós.

. Nosso amigo escreveu-vos. Nosso amigo escreveu a vós. Nosso amigo escreveu

para vós.

. Nosso amigo escreveu-se.

escreveu para si mesmo.

Nosso amigo escreveu a si mesmo. Nosso amigo

Estamos vendo o objeto indireto com o verbo transitivo indireto, ou seja, aquele que ocorre com complemento de pessoa precedido da preposição a ou para.

Veremos agora que nem sempre o objeto indireto é empregado apenas com este tipo de verbo.

Outros empregos do objeto indireto

São comuns as seguintes construções em português:

A prova pareceu-me difícil.

– Foi-te penosa?

Foi-me. Foi-lhe