SAMIZDAT

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maio 2009 ano II
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SAMIZDAT 16
maio de 2009
Edição, Capa e Diagramação: Henry Alfred Bugalho Revisão Geral Joaquim Bispo Assessoria de Imprensa Mariana Valle Autores Barbara Duffles Caio Rudá Carlos Alberto Barros Dênis Moura Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Espírito Santo Léo Borges Maria de Fátima Santos Mariana Valle Maristela Scheuer Deves Pedro Faria Volmar Camargo Junior Autores Convidados José Guilherme Vereza Textos de: Eduardo Galeano Gabriel García Márquez Jorge Luis Borges Julio Cortázar Mia Couto

Editorial
Até não muito tempo atrás, a América Latina surgia para o imaginário coletivo imersa numa aura de exotismo e revestida de preconceitos e de incompreensão. Devemos muito ao Boom dos autores latino-americanos, durante as décadas de 60 e 70, para uma mudança nestes horizontes: tornar a América Latina, não mais apenas uma colônia cultural, mas sim uma importante peça para a renovação da literatura contemporânea. O Brasil teve um papel coadjuvante neste processo, apesar de alguns críticos se adiantarem para incluir Guimarães Rosa e até Érico Veríssimo como autores do Boom. Mas a verdade é que o brasileiro pouco conhece a literatura que se faz nos países vizinhos, e pouco explorou o gênero que a tornou conhecida: o Realismo Mágico. O mês de abril foi bastante simbólico para a América Latina, em vários sentidos: Gabriel García Márquez anunciou sua aposentadoria, os EUA passou a permitir, depois de décadas de embargo econômico, que cubanos residentes no país possam visitar Cuba e mandar dinheiro para parentes, e Hugo Chávez, presidente da Venezuela, presenteou o atual presidente dos EUA, Barack Obama, com uma cópia de “As Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano, que projetou este livro novamente para as listas dos mais vendidos. Esta edição da “SAMIZDAT” é uma homenagem a estes autores extraordinários, provenientes duma região tão castigada e olvidada. Henry Alfred Bugalho Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons. Todas as imagens publicadas são de domínio público, royalty free ou sob licença Creative Commons. Os textos publicados são de domínio público, com consenso ou autorização prévia dos autores, sob licença Creative Commons, ou se enquadram na doutrina de “fair use” da Lei de Copyright dos EUA (§107-112). As idéias expressas são de inteira responsabilidade de seus autores.

Imagem da capa:
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Sumário
Por quE Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

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ENtrEViSta Katia Suman e Claudia tajes miCroCoNtoS Joaquim Bispo
Henry Alfred Bugalho Caio Rudá

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rEComENdaÇÕES dE LEitura Estados unidos: a Formação da Nação
Guilherme Augusto Rodrigues Henry Alfred Bugalho Henry Alfred Bugalho Caio Rudá

Final de Jogo, de Julio Cortázar
Ficções, de Jorge Luis Borges Putas assassinas, de roberto Bolaño

autor Em LÍNGua PortuGuESa a Velha e a aranha
Mia Couto

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CoNtoS a Pedra do olho divino
Carlos Alberto Barros

30 36 38

Sonhos de Batata

Maria de Fátima Santos Joaquim Bispo

a Luz de delft

Gêmeos

Volmar Camargo Junior Henry Alfred Bugalho José Espírito Santo Mariana Valle Léo Borges

40 44 46 50 52 56 58 60

o Livro dos Hereges as Bases da Criação Juliana e o Coelho

misantropia infecciosa
o Grito de Joana
Barbara Duffles

o admirador - Parte 2: Pesadelo?
Maristela Deves

Helena

Giselle Sato e Pedro Faria

autor CoNVidado Guisado
José Guilherme Vereza

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traduÇÃo

a Seita de Fênix
olhos de Cão azul
Julio Cortázar Jorge Luis Borges Gabriel García Márquez

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Cronópios e Famas a Criação
Eduardo Galeano

realismo mágico, a realidade à mercê da Literatura 80
Henry Alfred Bugalho

tEoria LitErÁria

CrÔNiCa o milagre do Sol
Joaquim Bispo

90

o Fabuloso destino de amélie Poulain
Giselle Sato

93 94

a Visita do Saci

Henry Alfred Bugalho

PoESia Laboratório Poético: um Ser Indefinido
Volmar Camargo Junior Caio Rudá

97 98 99 100

Poemação
Haikais
Guilherme Augusto Rodrigues Dênis Moura

Sementementalismo

SoBrE oS autorES da Samizdat 101

Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprimir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas logo

se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiam, fazer parte da máquina administrativa - que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo -, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas idéias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exemplo dum samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat?
A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos - como TV ,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em questão de minutos. A serem obrigados a burlar a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substituam o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Entrevista

Katia Suman e Claudia tajes

SAMIZDAT: Nestes anos de atividade do SARAU Elétrico, vocês notaram que tipo de mudança, seja por parte dos ouvintes, seja por parte dos artistas participantes, em relação ao trabalho de vocês? Claudia: Eu, que participo há menos de dois anos do time, notei que muita gente que me conheceu no Sarau e que não havia lido nada que eu escrevi se interessou pelos meus livros. Katia: As pessoas vão se

renovando, o público vai mudando. Sempre tem gente nova aparecendo, embora haja um grupo de “fiéis” bem expressivo. Mas não consigo detectar um tipo de mudança, acho mais fácil falar no imutável, que é precisamente o gosto pela leitura. É isso que leva o público ao sarau. E é isso que há em comum entre eles. SAMIZDAT: Qual é o principal público do SARAU: quem já gosta

de literatura e possui o hábito de leitura, ou quem não tem o hábito, mas que busca um incentivo e uma orientação inicial? Claudia: Imagino que seja quem já se interessa por leitura, e gosta desse formato que junta literatura e diversão na mesma noite. SAMIZDAT: O Rio Grande do Sul possui uma tradição de grandes autores e de importantes iniciativas

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culturais. A que vocês atribuem este fenômeno? Claudia: Dizem que a praia do gaúcho é a livraria. Acho que eu concordo, ainda mais quando se vê o Sarau e outras iniciativas até parecidas com grande público, mesmo em tempo de verão e férias. Katia: Acho que tem a ver com geografia, um povo mais isolado, tem a ver com o clima, mais propenso ao recolhimento, tem a ver com a formação histórica, marcada por peleias e enfrentamentos. Sei lá, acho que dá pra ir por aí. SAMIZDAT: O livro é um bicho desconhecido - e amedrontador - para uma boa parte da população brasileira. Que tipo de iniciativas você acreditam que poderiam contribuir para aproximar as pessoas da leitura? Claudia: Primeiro, o colégio poderia rever as tais leituras obrigatórias e sugerir aos alunos livros mais dentro dos interesses deles, para não traumatizar a criançada com os clássicos que, se tudo correr bem, todos terão o prazer de ler mais tarde. E projetos como o Sarau certamente aproximam o leitor do livro e apresentam muitos autores interessantes para o público.

SAMIZDAT: Como foi que surgiu a idéia do projeto? Ele sempre teve o formato atual? Katia: A idéia surgiu da vontade de ter um espaço para leituras e comentários, para falar de literatura sem ranço acadêmico. Desde o começo a idéia era ler, conversar e encerrar com música. Quando pensei na idéia, veio junto o local: só podia ser no Ocidente. Por tudo que representa, pelo astral. E pensei no Fischer, que recém tinha conhecido e no Frank, que na época fazia um lance na Ipanema, que eu tinha inventado, as Crônicas Frankeanas. SAMIZDAT: Existe literatura além do livro? Claudia: Para mim, o livro é a expressão máxima da literatura. E mesmo os autores que surgem na internet, em algum momento, acabam publicando seus livros. SAMIZDAT: Falam muito da baixa qualidade dos livros que vendem muito, e da qualidade ainda pior de algumas traduções de bestsellers pelas editoras brasileiras. Sem falar do problema da falta de um público leitor, e ainda mais de um público leitor capacitado, pergunta-se: desde que esteja vendendo, faz alguma diferença que esteja

bem ou mal escrito? Claudia: Talvez desse pra dizer: desde que as pessoas estejam lendo, não importa o que elas estão comprando. Mas se a gente lê para conhecer ideias bacanas, para descobrir coisas novas e enriquecer com os textos que escolhe, então dá uma certa pena ver a Bruna Surfistinha vendendo milhares de livros. Katia: Faz diferença sim. Textos ruins não levam a nada. Podem até desestimular o incauto leitor, que não levará adiante a experiência da leitura. SAMIZDAT: Há algum registro dos encontros? Já publicaram - ou pensam em publicar - um livro de memórias do Sarau? Katia: Há centenas de gravações do áudio de saraus. Pensamos sim em publicar um livro. Talvez esse ano, quando ele completa 10 anos. O projeto está caminhando, mas tem a crise, a marolinha que virou tsunami e deve dificultar a empreitada. Mas vamos tentar. SAMIZDAT: Que acharam da versão do Fernando Meirelles para Ensaio sobre a cegueira? Claudia: Eu gostei. Mas sou fã do Fernando Meirelles, talvez mais que do Saramago. Minha visão

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(ou falta de) é parcial. Katia: Não vi. SAMIZDAT: [Para a Claudia] Achei genial o trecho inicial da resenha feita pelo Fabrício Carpinejar ao seu A vida sexual da mulher feia A Vida Sexual da Mulher Feia (2005, Agir, 136 págs.) já provocou gafes em algumas livrarias. Algumas pensaram que era auto-ajuda, um manual prático para as mulheres pouco abençoadas fisicamente. Outras acreditaram que se tratava de uma biografia. Difícil conciliar a estante biográfica com a fotografia de Claudia Tajes, publicitária gaúcha, bela morena de 42 anos e autora de outros quatro livros de ficção, Dez quase Amores; Dores, Amores e Assemelhados; As Pernas de Úrsula e Vida Dura. A pergunta: Como você, enquanto autora, percebeu a receptividade do público ao romance? Não teve gente querendo o dinheiro de volta (pensando tratar-se de “outro gênero de livro”)? Claudia: A maior reclamação que eu ouvi foi: pô, me disseram que era uma comédia e é um livro triste. E acho que é mesmo, dá até pra fazer humor com a rejeição, mas o assunto é amargo.

Eu pensei que talvez o livro pudesse chamar a atenção, mas fiquei surpresa com a boa aceitação dele. E mais ainda por ter tanta gente que se identificou com o livro. SAMIZDAT: [também para a Cláudia] Antes de escrever um romance, em que momento decide se o protagonista será masculino ou feminino? Há um planejamento para esse tipo de coisa? Claudia: Eu gosto mais de protagonistas masculinos, mas às vezes me faltam ideias (e talento) para dar vida a um homem. Há pouco comecei a escrever sobre um ator pornô que tem o membro pequeníssimo. Acho que vai ser meu próximo livro, um dia. SAMIZDAT: [Geral, mas direcionada para a Katia]: Li a entrevista do

dono da Jovem Pan, o Tutinha Amaral, à Playboy, em que ele afirma que na rádio dele nunca teve jabá, e sim “acordos comerciais”. A Katia fez um trabalho acadêmico - a sua dissertação de mestrado... tá lá no Lattes - precisamente sobre esse assunto, o jabá nas rádios FM no Brasil. A pergunta: o mercado “artístico” funcionaria sem o jabá? Katia: Funcionaria, claro. E de maneira muito mais saudável, sem o desequilíbrio de forças entre um artista independente e sem grana e um artista de uma grande gravadora disposta a qualquer coisa para ter seu “produto” executado nas rádios, se apresentando na TV nas , capas dos suplementos culturais de jornais e revistas, etc. Mas a fila anda e o mundo está mudando muito rápido. Hoje as gravadoras perderam a força, perderam grana, os independentes estão cada vez mais se impondo e a relação de forças se inverteu, a partir da internet e da música digital. O jabá está em extinção. SAMIZDAT: Encontrei um dos romances da Claudia na íntegra em um site para leitura online. Nesse caso, há toda a referência aos copyrights, mas ainda assim, não precisei pagar um centavo para

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O SARAU ELÉTRICO é um encontro literário-musical que ocorre todas as terças-feiras, desde 1999, no bar Ocidente, em Porto Alegre. Já incorporado ao calendário cultural da cidade, o evento reúne, todas as semanas, um público fiel e disposto a ouvir leituras sobre os mais variados temas e dos mais diversos autores nacionais e estrangeiros. Participam os professores Luís Augusto Fischer e Cláudio Moreno, a escritora Claudia Tajes e a radialista Katia Suman. O músico Frank Jorge fez parte deste time de 1999 a 2005. A principal característica do SARAU ELÉTRICO é tornar a leitura acessível a todos os públicos através da combinação de boa conversa, entrevistas interessantes, muito humor e informação. O SARAU ELÉTRICO tem mostrado, ao longo de seus quase dez anos, que a cultura também pode ser pop. Os temas são escolhidos a partir de assuntos do momento (a comemoração de alguma obra, o aniversário de um lugar, o centenário de um autor, por exemplo), ou das grandes questões do homem –e da literatura: a saudade, a melancolia, o medo, o sexo, o amor, entre elas. Gêneros como o conto, a crônica, a poesia; autores da grandeza de Manuel Bandeira, Baudelaire e Carlos Drummond de Andrade, movimentos (literatura beat, modernismo, romantismo) ou épocas, como os Anos de Chumbo, já iluminaram as noites do Sarau Elétrico. Pode-se ainda delimitar o tema geograficamente (literatura norte-americana, literatura

francesa, literatura gaúcha) ou fazer qualquer recorte que seja apropriado para contemplar autores ainda não visitados. Tudo o que sempre rendeu, e continua rendendo, boa literatura, é tema para o SARAU ELÉTRICO. Os integrantes do SARAU ELÉTRICO intercalam leituras de textos relacionados ao tema com comentários, garantindo a descontração e o interesse da platéia. É dessa forma que, nas terças-feiras do bar Ocidente, a literatura perde todo e qualquer ar distante e incorpora-se à vida de Porto Alegre. No meio de tudo, o professor Moreno, responsável pela ‘coluna grega”, narra alguma história extraída da mitologia dos gregos, estabelecendo uma improvável, e sempre divertida, conexão com o tema da noite. Para encerrar, há sempre um “pocket show” de artistas locais. O objetivo do SARAU ELÉTRICO é incentivar o hábito de ler, recuperar a palavra, o bom papo, a boa prosa, a poesia, a literatura, a letra da canção popular. É desse jeito que o SARAU ELÉTRICO tem contribuído para espalhar o prazer da leitura. Em dez anos de atividades, o SARAU ELÉTRICO já realizou cerca de 500 edições, atingindo um público de cerca de 40 mil pessoas interessadas em literatura, cultura e educação. Nomes consagrados como Luís Fernando Veríssimo, Lya Luft, Martha Medeiros, Fausto Wolff, Marçal Aquino, Fabrício Carpinejar, Donaldo Schüller, Jorge Furtado, Moacyr Scliar e tantos outros, já participaram do SARAU. Res-

ponsáveis pelo show da noite, músicos como Vitor Ramil, Nei Lisboa, Bebeto Alves, Papas da Língua, Nenhum de Nós, Júlio Reny, quartetos de cordas, grupos de chorinho, de samba e de rock, mostram a diversidade da programação e a simpatia dos músicos pelo projeto. Participantes fixos: Luís Augusto Fischer, professor de literatura brasileira na UFRGS, doutor em Nélson Rodrigues, escritor, cronista e jornalista nas horas vagas. Autor de vários livros de crônicas, ensaios e contos, com destaque para o já clássico Dicionário de Porto-Alegrês e a premiada novela Quatro Negros. Claudia Tajes trabalha em criação publicitária, escreveu alguns roteiros para televisão e tem 6 livros publicados, entre eles Dez (Quase) Amores, As Pernas de Úrsula, A Vida Sexual da Mulher Feia e Louca por Homem. Cláudio Moreno, professor de português do Unificado e do Leonardo da Vinci, escritor e cronista. Especialista em mitologia grega. Autor do best-seller Tróia, entre outros. Mantém o site www.sualingua.com.br Katia Suman, graduada em Ciências Sociais, mestre em Comunicação, radialista e apresentadora da TV COM.

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lê-lo (eu li só dois capítulos, tá! prometo que vou comprar o livro...). Que acham disso? Claudia: Por mim, não precisa pagar nada. Lendo já está bom! Katia: Do ponto de vista dos músicos, que é o que conheço mais, sei que o artista, historicamente, nunca ganhou dinheiro com a venda de discos. Não ganha aqui, não ganha na Europa, nem nos Estados Unidos. Artista ganha dinheiro fazendo show. Quem ganha dinheiro com venda de disco é a gravadora. Ora, se assim é, o artista se tiver uma distribuição grande pirata, ou seja, vender horrores nos camelôs, dificilmente vai reclamar da vida. Porque vai ter muito mais gente querendo ver seus shows. SAMIZDAT: E a respeito de copyright, copyleft e das licenças Creative Commons? Claudia: Ainda estou em fase de consolidar alguma coisa. Se não me pagarem mas distribuírem meus livros por aí, eu ainda me acho no lucro (é por isso que eu tenho que trabalhar tanto em outra atividade...). Katia: Sou totalmente a favor. Liberar geral. SAMIZDAT: Houve, dia desses, o “Sarau das Listas”. Vocês poderiam eleger, entre os brasi-

leiros contemporâneos, ainda em atividade (i.e., vivos), uma lista dos cinco melhores escritores de ficção e os cinco melhores poetas? Claudia: Na ficção, só medalhões: Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Marçal Aquino, Moacyr Scliar, Milton Hatoum e ainda a Cíntia Moscovich. Poetas: sou bastante ignorante no assunto. Gosto muito do Fabrício Carpinejar e conheci na semana passada, graças ao pelotense Vitor Ramil, a poeta de Pelotas Angélica Freitas, que lançou o livro Rilke Shake em 2007. Guria muito boa. Também leio a poesia das minhas amigas Martha Medeiros e Paula Taitelbaum. Katia: Ficção: Trevisan, Rubem Fonseca, Daniel Pellizzari, Chico Buarque de Hollanda. Luis Fernando Veríssimo. Poesia: Adélia Prado, Fabrício Carpinejar, Gonçalo M. Tavares (português é quase brasileiro), Paula Taitelbaum e Martha Medeiros. SAMIZDAT: Oficinas e cursos de formação de escritores ou de “escrita criativa”, como por exemplo as do Assis Brasil, funcionam? É possível ensinar alguém a escrever, ou tais encontros servem para “descobrir talentos”? Claudia: É possível ensinar a escrever. A partir daí, a sensibilidade e o

talento de cada um é que decidem. Katia: Acho que sim. Acho que escrever é uma habilidade que se pode desenvolver. SAMIZDAT: Que pergunta deveria ter-lhes sido feita e não foi, considerando que esta é uma entrevista elaborada por aspirantes a escritores? Claudia: Tem a clássica: existe espaço para tanto escritor no Brasil? E eu responderia: até acho que não. Mas não é por isso que a gente vai desistir. Katia: Ai, essa eu vou passar.

Coordenação da entrevista: Volmar Camargo Junior Perguntas feitas por: Carlos Barros Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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microcontos

En búsqueda de Borges
Henry Alfred Bugalho
O cego caminhou pelas ruas, sem ver aquilo que Borges não via. Não viu o movimento nos cafés, nem a mais larga avenida do mundo, nem os edifícios antigos, nem o obelisco, nem a estátua de San Martin; não viu o Aleph, os dançarinos de tango, os peleadores de faca, nem os heróis de outrora; não viu as bandeirolas azuis e brancas, nem os passeadores de cães, nem a Florida inchada de gentes; não viu labirintos, espelhos, o Mesmo ou o Outro, similitudes ou tigres. Buscou Borges nas esquinas, nas mesas das cafeterias, nas bibliotecas, nas linhas e nas entrelinhas, porém, não o encontrou. A semelhança que ele sempre cantou era mentira; só havia diferença e passar dos anos. O cego não o encontrou, pois aquele se escondeu atrás do esquecimento do tempo. Buenos Aires era alheia a ele. De resto, somente um nome e uma reputação.
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um quarto de loucura
Caio Rudá
O quarto de cima foi cúmplice de todos os meus pecados. Tantos que cada tijolo por trás do cimento e daquela pintura suja de tempo deve guardar um na memória. Para cada móvel de madeira escura, uma confissão. Para cada quadro, um pedido: agonizante, para “O grito”; depressivo, para um Picasso cujo nome não lembro; e pedidos ordinários de chuva ou sol para aquelas obras vagabundas sem assinatura. E na greta da janela que mal iluminava o ambiente, morava a esperança de lucidez além daquelas paredes estreitas.

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Pensamento racionalmente

mágico

aposta dobrada
Joaquim Bispo
Aurélio era muito racional. Após muitas cogitações, descobriu como podia ganhar na roleta: bastava apostar sempre numa cor – vermelho ou preto – e a cada perda duplicar a aposta. Como o casino paga o dobro à aposta ganhadora, quando ganhasse, embolsava; quando perdesse, apostava o dobro. Se então ganhasse, recuperava a perda anterior, se perdesse, voltava a dobrar a aposta. Empenhou o carro por dez mil euros e avançou, confiante. Começou com dez euros. Ao fim de uma hora já ganhava duzentos. Ao fim de três horas, quinhentos. Então saiu uma série de dez pretos e ele a jogar no vermelho. Ele não imaginava que já saíram séries de mais de vinte da mesma cor. No dia seguinte foi para o emprego de transportes públicos.

Joaquim Bispo
Vítor era um estudioso de estatísticas. Por elas, soube que atirando uma moeda ao ar mil vezes, saem cerca de quinhentas «caras» e quinhentas «coroas». Por isso ele acreditava que quanto maior for uma série de resultados – seis «caras» seguidas, por exemplo – maior a probabilidade de sair o oposto, para repor a média de 50%. Resolveu transportar esse conhecimento para algo rendoso. Naquele dia, estava no casino à espera de grandes séries. Então, quando outro jogador perdeu tudo, numa série de dez pretos, fez a sua aposta milionária no vermelho. Saiu preto. Menosprezara aquele capítulo aparentemente contraditório onde se dizia que a moeda (ou a roleta) não guarda memória dos lançamentos anteriores e cada resultado tem, exactamente, a mesma probabilidade de sair.

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memória estatística

aposta forte
Joaquim Bispo
Fernanda estava agitada. Mal podia esperar pelo sorteio dos números do Totoloto. Nessa semana preenchera dez boletins cheiinhos – cem apostas. «Esta semana é que é; não pode falhar» – pensava, sem deixar transparecer o júbilo prestes a invadi-la. Quando os números começaram a sair, sem contemplar os seus, sentiu-se a mulher mais esquecida por Deus, sem suspeitar que se Cristo jogasse mil apostas por semana, desde que nasceu até hoje, só teria ganho o primeiro prémio, probabilisticamente, umas sete ou oito vezes. Sem milagres.

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infalível
Joaquim Bispo
Gabriel apareceu com um esquema bolade-neve. Queria vender três listas, cujos compradores, por sua vez, venderiam três, cada um, etc. Quando o nome dele chegasse ao cimo das listas, receberia um monte de dinheiro. Alguns colegas de trabalho compraram, outros torceram o nariz, argumentando que só os primeiros a entrar no esquema teriam alguma possibilidade de ganhar, porque, em breve, se esgotaria o universo de compradores. Mesmo contando com toda a população do planeta, um dia chegaria em que milhões de jogadores não conseguiriam compradores para as suas listas. Não foi possível esclarecê-lo, antes pelo contrário. Chegou a comprar listas a si próprio, enviando dinheiro para o primeiro da lista. Não perdeu uma fortuna, mas ainda hoje há quem goze com ele.

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recomendações de Leitura

a Formação da Nação
Guilherme Augusto Rodrigues

Estados unidos:

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De maneira clara e objetiva Leandro Karnal mostra-nos como surgiram os Estados Unidos e os porquês de terem se tornado o país que é hoje. Desfaz mitos explicando-nos, de forma simples, por que eles deram certo e outras colônias, como o Brasil, não. Uma das respostas está na colonização de povoamento, assim, as pessoas iriam para morar e produzir, não explorar riquezas e degradar o local como na de exploração. Além disso, o protestantismo visa o lucro e o trabalho, repudiando o ócio. Isso fez com que lutassem pelo que acreditavam e produzissem mais. Passadas as guerras e as dinastias Tudor e Stuart, muitas pessoas viram na colônia uma esperança de recomeçar uma vida melhor. Nesta época, chegaram os puritanos. Eles eram disciplinados, organizados, conservadores, sonhadores e com ideias revolucionárias. Lutavam contra a política da Inglaterra e assim viraram guerreiros para verem o sonho de fundar uma nova terra, onde

podiam ser livres, com identidade e características próprias de acordo com seus ideais. Desta vontade foi surgindo e emergindo a maior potência mundial amada e odiada. “Estados Unidos: A Formação da Nação” é uma boa leitura para quem quer conhecer mais sobre este país (mesmo que não goste dele). Mas o autor aparenta tender ao americanismo, não dando base à sua afirmação, no começo do livro, de que “os que odeiam o país conhecerão melhor o inimigo e poderão utilizar este conhecimento para vencê-lo”.

Um detetive...
Uma loira gostosa...

Um assassinato...
E o pau comendo entre as máfias italiana e chinesa.

O COvil dos inOCentes
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Estados Unidos: A Formação da Nação Autor: Leandro Karnal Editora: Contexto, 2005

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Final de Jogo,
de Julio Cortázar
Henry Alfred Bugalho

recomendações de Leitura

Final del Juego Autor: Julio Cortázar Editora: Alfaguara

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O primeiro contato que tive com a obra de Julio Cortázar foi através do romance “Jogo da Amarelinha” (Rayuela) e fui derrotado pelo estilo denso, quase barroco, pela inusitada estrutura e pelo enredo disperso. A primeira impressão foi de assombro, mas também de uma certa repulsa. Naquela época, quatro ou cinco anos atrás, senti que Cortázar estava além da minha capacidade como leitor, não me dizia nada. Então, retornei a ela pela via indireta dos contos, através da antologia “Final de Jogo”. O estilo pesado também está presente, mas, pela própria natureza do gênero conto, Cortázar se viu coagido a construir enredos mais digeríveis. Costuma-se dividir os

18 contos que integram a obra em três níveis de dificuldade, sendo os primeiros de mais fácil compreensão e os últimos exigindo maior esforço hermenêutico do leitor. Particularmente, não percebi esta gradação (o que pode sugerir que eu não tenha entendido direito...), mas é muito evidente o namoro de Cortázar com o realismo fantástico, e principalmente a intertextualidade e a metalinguagem dos contos. Quase todos eles estão calcados numa singela realidade cotidiana, mas, no desfecho, abrem as portas para um outro universo, por vezes bizarro e assustador. Logo num dos primeiros textos, o protagonista resolve vestir uma blusa de lã para aguentar

o friozinho da rua, no entanto, algo tão simplório e descomprometido quanto vestir uma blusa torna-se um desafio angustiante; algo semelhante se dá num teatro, durante um concerto de música erudita em homenagem a um maestro local; ou ao se olhar misteriosos peixes que parecem abarcar em si toda uma cosmologia. Em Cortázar, o real cotidiano é um umbral a nos conduzir para o mágico e inexplicável. Na melhor linha borgeana, mas sem deixar de ter sua identidade própria, Julio Cortázar se tornou um dos grandes nomes da literatura latino-americana e mundial. Fazendo de seus livros jogos literários, ele abriu novos horizontes para a narrativa e foi um dos precursores do pósmodernismo literário.

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Ficções,
Henry Alfred Bugalho

recomendações de Leitura

de Jorge Luis Borges

Ficciones Autor: Jorge Luis Borges Editora: EMECÉ

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Há alguns livros aos quais sempre retornamos - em busca de inspiração, deslumbramento, consolo, desconforto. Eu poderia citar alguns dos que fazem parte da minha história, como leitor e escritor: há “Ulisses” de James Joyce, “Metamorfose” de Kafka, “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa. Estes são livros que, ao mesmo tempo que me servem de inspiração, também significam alguns abismos literários, uma espécie de Olimpo inatingível, algo para invejar e adorar. Poucos autores influenciaram tanto o século XX quanto Jorge Luis Borges, e meu interesse pela obra dele surgiu, provavelmente, duma das inúmeras referências que fazem a ele: de Foucault a Paulo Coelho, todo o mundo cita ou se remete a Borges quando deseja expressar o espírito da contemporaneidade ou para conclamar ares de intelectual. Borges é uma autoridade, não apenas em Literatura; a opinião de Borges encerra qualquer debate; Borges alçou o estatuto de Homero do século XX, no panteão dos grandes autores. No entanto, o brasileiro quase não conhece Borges. Na verdade, o brasileiro quase não conhece a literatura latino-americana. Nos-

sos hermanos, do outro lado das fronteiras, estão perto e distantes, ao mesmo tempo. Excetuando García Márquez e seu “Cem Anos de Solidão”, de todos os ilustres autores de língua espanhola da América Latina só se conhece os nomes: Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Manuel Puig, Neruda, e Borges, e Borges... Jorge Luis Borges é mais conhecido e reverenciado na Itália, por exemplo, do que no Brasil. Autores como Umberto Eco e Italo Calvino buscaram inspiração na obra deste autor argentino. E este é um fato que não surpreende. Numa época em que a Europa questionava muitos de seus valores seculares, época da revolução sexual, do estruturalismo, do maio de 68, os europeus estavam mais próximos da mensagem borgiana do que os brasileiros, oprimidos pela ditadura e que se debruçavam sobre problemas como censura, perseguição política e desigualdades sociais. O universalismo do Borges ia na contramão do que ocorria no Brasil. E foi logo na primeira leitura que a obra de Borges se tornou, para mim, um destes abismos literários. Especialmente o livro de contos “Ficções”, que traz algumas das grandes obrasprimas do autor.

Há dois grandes temas recorrentes em “Ficções”: o tempo e a imortalidade. Os personagens, muitas vezes eles próprios escritores e, por vezes, livros, enfrentam o tempo e almejam a eternidade. Este é o caso dos contos “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, “Pierre Menard, autor do Quixote”, “Exame da obra de Herbert Quain”, “A Biblioteca de Babel”, “O Jardim dos caminhos que se bifurcam”, “Funes, O Memorioso” e “O Milagre Secreto”. A passagem do tempo é o inimigo a ser driblado, a morte é o fim de todos os projetos, mas é na eternidade que a verdadeira obra se realiza e continua sendo escrita. A crítica a Borges o acusa de alienado, de fugir dos temas tradicionais da Argentina, como os homens dos pampas, e de ser literariamente reacionário. No entanto, poucos autores contemporâneos foram tão inovadores quanto Borges, que se dedicou a um gênero considerado menor, evitando obras longas, ao mesmo tempo que foi a fonte inspiradora de inúmeros romances. Borges é um abismo, e quem apreende seu universo se embrenha em labirintos sem fim, assim como seus personagens, e deles nunca mais se liberta.

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de roberto Bolaño

Putas assassinas,
Caio Rudá

recomendações de Leitura

A despeito do que o leitor possa imaginar antes de iniciar a leitura do artigo, “Putas Assassinas” não é um livro erótico escrito pelo comediante mexicano criador do Chaves. Trata-se aqui de uma singular literatura, escrita por um chileno exilado após o golpe de Pinochet, cujo nome também é (no) singular: Roberto Bolaño. Não é só um s ao fim do nome, contudo, que diferencia Bolaño de

seu quase xará mais famoso. Enquanto o trabalho do mexicano tem sido exibido, com relativo sucesso, por décadas na TV brasileira, só agora o chileno se tem tornado um conhecido do leitor tupiniquim. “Putas assassinas” é uma ficção auto-biográfica. Ou seria uma auto-biografia ficcional? O fato é que Bolaño parece brincar com o leitor, dando-lhe o míster de

escolher o que, dentro das narrativas, é reminiscência e o que é invenção. De todo modo, a impressão que se tem é que os 13 contos que compõem o livro são sua vida de cidadão do mundo - nascido no Chile, viajado por México, França e radicado por fim na Espanha - fragmentada e contada como o que foi ou poderia ter sido. Não há dúvidas, portanto, de que a experiência pessoal foi a base para

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sua escrita fluida e cosmopolita. É dessa forma que os enredos de Putas assassinas revelam uma história de vida rica e intensa, mesmo para quem se deparou com a morte precoce aos 50 anos. Em suas narrativas, Bolaño é o fotógrafo homossexual que presencia rituais macabros na Índia. É também o professor que não queria dirigir “uma oficina de literatura em nenhum povoado perdido do norte do México”. É B (Bolaño?), um indivíduo recém-chegado a Barcelona que “assiste a uma festa de chilenos exilados na Europa”, e é ele próprio na narrativa surreal que encerra o livro. Toda a obra, ou boa parte dela, tem uma atmosfera nostálgica, em cujo ar encontram-se porções de conformismo e apatia diante de uma vida que, embora intensa, não significou êxito pleno. Isso porque Bolaño talvez tenha sido uma dessas pessoas, não sem razão, amargas e taciturnas, para quem o ato de escrever era catártico. As referências a poetas e à ditadura chilena (e seus subjacentes comentários ácidos) são temas constantes. Estes parecem ser duas das grandes decepções da sua vida, tendo o próprio afirmado que considerava-se poeta em essência e passou a escrever prosa apenas para conseguir legar

algum dinheiro aos filhos. Também, intitulava-se um latino-americano, aparentando ter renegado o Chile enquanto pátria, de modo que suas alusões a tal país eram carregadas de ressentimentos. Outras características, no entanto, podem ser assinaladas nesse excelente livro, que se desloca num fio cujas extremidades são o vulgar e o fantástico. Dado que Bolaño era um escritor que transcendia classificações, seu trabalho em Putas assassinas tem ares muito peculiares, resultado do encontro de uma redação cética, do ponto de vista existencial, e humor invejavelmente perspicaz. Dois contos merecem menção destacada: O retorno e Encontro com Enrique Lihn, que apontam passos pelo realismo mágico. O primeiro é de uma agudeza ímpar e repleto de passagens marcantes, das quais: “O costureiro, para minha surpresa, gozou se esfregando na minha coxa. Nesse momento eu gostaria de ter fechado os olhos, mas não consegui. Experimentei sensações antagônicas: nojo pelo que via, agradecimento por não ter sido sodomizado, surpresa por Villeneuve ser quem era, raiva dos maqueiros por terem vendido ou alugado meu corpo e até vaidade por ser involuntariamente objeto de desejo de um dos homens

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Putas Assassinas Autor: Roberto Bolaño Editora: Cia das Letras

mais famosos da França.” O segundo revela um escritor dotado de técnica, por trás da escrita econômica e objetiva. Bolaño aqui é o próprio protagonista, que vai, em sonho, ao encontro do seu contemporâneo e então falecido Enrique Lihn, uma narrativa de único parágrafo e bom exemplo do fluxo de consciência. “Putas assassinas” é, além de uma viagem a paisagens estéreis ou tropicais do México, a um Chile imaginário, uma França não tão grandiosa e uma Barcelona “de senso comum”, uma jornada pelo psicológico de um dos maiores escritores latinos dos últimos tempos.

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autor em Língua Portuguesa

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araNHa

Mia Couto

Deu-se em época onde o tempo nunca chegou. Está-se escrevendo, ainda por mostrar a redigida verdade. O tudo que foi, será que aconteceu? Começo na velha, sua enrugada caligrafia. Oculta de face, ela entretinha seus silêncios numa casinha tão pequena, tão mínima que se ouviam as paredes roçarem, umas de encontro às outras. O antigamente ali se arrumava. A poeira, madrugadora, competia com o cacimbo. A mulher só morava em seu assento, sem desperdiçar nem um gesto. Em ocasiões poucas, ela sacudia as moscas que lhe cobiçavam as feridas das pernas. Sentada, imovente, a mulher presenciava-se sonhar. Naquela inteira solidão, ela via seu filho regressando. Ele se dera às tropas, serviço de tiros. - Esta noite chega Antoninho. Vem todo de farda, sacudu. Para receber António ela aprontava o vestido mais a jeito de ser roupa. Azul-azulinho. O vestido saía da caixa para comhttp://www.flickr.com/photos/mdu2boy/2710193086/sizes/o/

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por sua fantasia. Depois, em triste suspiro, a roupa da ilusão voltava aos guardos. - Depressa-te Antoninho, a minha vida está-te à espera. Mas era mais as esperas do que as horas. E o cansaço era sua única carícia. Ela adormeciase, um leve sorriso meninando-lhe o rosto. E assim por nenhum diante. Desconhece-se a data, talvez nem tenha havido, mas num dos seus olhares demorados, a velha encontrou um brilho cintilando num canto do tecto. Era uma teia de aranha. Ali onde apenas o escuro fazia esquina, havia agora a alma de uma luz, flor em fundo de cinza. A velha levantou-se para mais olhar o achado. Não era a curiosidade que lhe puxava o movimento. Assustava-lhe a sua transparência demasiada. E, de logo, lhe surgiu a pergunta que luz tecera aquele bordado? Não podia ser obra de bicho. Não. Aquilo era trabalho para ser feito por espírito, criaturamente. A teia podia só ser um sinal,

uma prova de promessa. Decidiu-se então a velha surpreender o autor da maravilha. A partir dessa tarde, seus olhos emboscaram o tempo, no degrau de cada minuto. Esquecida do sono e do sustento, não houve nunca sentinela mais atenta. Até que, certa vez, , se escutou um rumor quase arrependido, desses feitos para ser ouvidos apenas pelos bichos caçadores. Por uma breve fresta se injanelava uma aranha. Era de um verde pequenino, quase singelo. Com vagaroso gesto a velha foi tirando o vestido do caixote. Usava os mais lentos gestos, fosse para o bicho não levar susto. - Qualquer uma coisa vai acontecer! Era suspeita que ela bem sabia. Confirmou-se quando as duas, mulher e aranha, se olharam de frente. E se entregaram em fundo entendimento, trocando muda conversa de mães. A velha sentiu o bicho pedia-lhe que ficasse quieta, tão quieta que talvez qualquer coisa pudesse acontecer. Então ela se fez exacta, intranseunte. As moscas,

no sobrevoo das feridas, estranharam nem serem sacudidas. Foi quando passos de bota lhe entraram na escuta. Antoninho! A velha esmerava-se na sua imobilidade para que o regresso se completasse, fosse o avesso de um nascer. E lhe vieram as dores, iguais, as mesmas com que ele se havia arrancado da sua carne. Encontraram a velha em estado de retrato, ao dispor da poeira. Em todo o seu redor, envolvente, uma espessa teia. Era como um cacimbo, a memória de uma fumaragem. E a seu lado, sem que ninguém vislumbrasse entendimento, estava um par de botas negras, lustradas, sem gota de poeira.

Fonte: http://www. lumiarte.com/luardeoutono/miacouto1.html

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Mia Couto é um dos escritores moçambicanos mais conhecidos no estrangeiro. António Emílio Leite Couto ganhou o nome Mia do irmãozinho que não conseguia dizer “Emílio”. Segundo o próprio autor a utilização deste apelido tem a ver com sua paixão pelos gatos e desde pequeno dizia a sua família que queria ser um deles. Nasceu na Beira, a segunda cidade de Moçambique, em 1955. Ele disse uma vez que não

tinha uma “terra-mãe” - tinha uma “água-mãe”, referindo-se à tendência daquela cidade baixa e localizada à beira do Oceano Índico para ficar inundada. Iniciou o curso de Medicina ao mesmo tempo que se iniciava no jornalismo e abandonou aquele curso para se dedicar a tempo inteiro à segunda ocupação. Foi director da Agência de Informação de Moçambique e mais tarde tirou o curso de Biologia, profissão que exerce até agora.

A sua linguagem extremamente rica e muito fértil em neologismos confere-lhe um atributo de singular percepção e interpretação da beleza interna das coisas. As imagens de Mia Couto evocam necessariamente a intuição de mundos fantásticos, subjacentes ao mundo em que vivemos. Fontes: http://pt.wikipedia.org/wiki/ Mia_Couto http://lugardaspalavras.no.sapo. pt/prosa/mia_couto.htm
http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/

O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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Contos

a Pedra do olho divino
Carlos Alberto Barros

Em seu costumeiro trabalho de carpir, Mané Santos foi interrompido pelo tilintar do metal da enxada batendo contra algo rígido sob a terra. “Mais um pedregulho”, esbravejou. Quando cavoucou ao redor, notou que era maior do que imaginava. Cavou mais, até formar um buraco de meio metro de diâmetro. A superfície da pedra se estendia por toda a abertura. Mané Santos se agachou para examinar de perto. Soprou a poeira que se acumulava e

os reflexos do sol lhe ofuscaram a visão. “Que diacho de pedra brilhante é esta?”, espantou-se. Tornou a pegar a enxada. Deu um, dois... três golpes e lascou um pedaço da rocha, do tamanho de um punho fechado. O fragmento assemelhava-se a um diamante lapidado, porém, de forma irregular, o brilho era intenso e a superfície extremamente lisa. Verificando se ninguém o espiava, guardou a lasca no bolso e tratou de devolver a terra ao buraco.

O homem presumia estar com algo extraordinário em mãos. Só o que não podia imaginar é que aquela descoberta o destruiria e, junto consigo, levaria todo o povoado de Água Santa à perdição. Quando a mulher de Mané Santos viu a pedra

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Algumas folhagens por cima disfarçando o local e seu tesouro já estava devidamente ocultado.

preciosa, não pensou duas vezes em intimá-lo: “Tu vai fazer uma jóia muito linda com esta pedra. A mulherada de Água Santa vão tudo me invejar”. No dia seguinte, lá estava com a tal da jóia ao pescoço. Mané Santos, depois de conseguir mais da rocha em sua escavação secreta, fez outro colar. “Este tem destino especial. Uma jóia para outra jóia”. Escondeu-o dentro da calça e saiu. Depois de algumas horas, voltou para casa. E qual não foi seu espanto ao ser surpreendido pela própria mulher empunhando um facão a lhe ameaçar. “Vem, seu filho-duma-rapariga! Vem, que eu vou lhe mostrar que ninguém me bota cornos e sai impune!”, e golpeou o homem. Pego de surpresa, não conseguiu esquivar-se. Caído e com a cabeça rachada, ainda conseguiu protestar: “Ficou maluca, mulher?” Ao que ela, transfigurada, respondeu: “Maluca é o Cão, teu infeliz! E eu tô é com ele no corpo pra te mandar ao inferno”, e desferiu mais dois golpes: o primeiro, aparado por um braço instintivo; o segundo, no pescoço, fatal. Em Água Santa, eram comuns estas desavenças encerradas com morte. Sendo que, quando a notícia se espalhou, ninguém ficou impressionado. Ainda mais se tratando de caso de adultério, todos deram razão à mulher do falecido. O que aconteceu, conforme explicou, é que seu marido estava lhe botando

chifres com a “putinha da venda”. Mas disto, todos já sabiam. Inclusive, não houve quem não ficasse aliviado por, finalmente, ela descobrir. As pessoas preferiam confessar-se todos domingos, pela omissão, a ter que revelar a verdade. E o padre era o mais infeliz de todos: tinha o peso da consciência proporcional à quantidade de fiéis confessos. Enfim, a mulher disse que não admitia ser traída e que só não matava a tal da “putinha” também para não acabar de vez com a paz do povoado. Ninguém foi curioso (ou indiscreto) o suficiente para perguntar à viúva como soube da traição. O único digno de tal feito seria Pedro Pitanga, o “grande benfeitor” de Água Santa. Ele era capaz das mais incríveis façanhas com sua lábia e simpatia. Quando foi à casa da mulher e questionou-a sobre o ocorrido, esta contou toda a história. Falou da descoberta do marido, da jóia, da visão na pedra e do facão. Disse que, enquanto olhava o colar, pensava em como seu homem era maravilhoso, e de repente, viu-o aparecer na pedra. Em seguida, viu a “putinha da venda” de pernas abertas, com ele no meio. Também ouviu os gemidos e sacanagens que falavam um ao outro. Depois disso, só esperou para cortar-lhe o pescoço. Mesmo sabendo das escapadas de Mané Santos, Pedro Pitanga não pôde se conter em perguntar:

- E a senhora matou o homem com a única certeza de uma visão?! - Se eu vi, foi por Deus. E não sou eu quem vai desconfiar do poder divino. - Isso é verdade! O que é de Deus é de Deus. Mas, deixa pra lá... E a tal jóia, a senhora ainda tem? - Eu não uso mais aquela porcaria. Senão, fico lembrando do diabo do Mané. Mas, já lhe mostro – saiu e, em poucos instantes, já voltava com o colar. Erguendo-o na altura dos olhos, continuou: - Vejo isso e só consigo lembrar do desgraçado cheio de sangue. Ou naquela “Éguinha” de perna aberta pra ele. Após essas últimas palavras, a jóia brilhou levemente e refletiu a imagem da “putinha da venda”. Em seguida, mostrou o local onde ela trabalhava. A cena apresentava-se como quem estivesse olhando por detrás do balcão, sendo que, além do próprio, via-se dois homens conversando (também se ouvia a conversa deles) e a porta aberta para a rua. Pedro Pitanga, mantendo sua tranqüilidade, disse: - A senhora tem uma pedra realmente preciosa. Pena que lhe traz más lembranças. - Isto não é mais que um estorvo. E agora me aparece mostrando o bar da rapariga! Tenha dó! Se acha tão preciosa assim, pode ficar com esta pedra imprestável. - Olhe, se é para aliviar a

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tristeza da senhora... eu fico. Desde muito pequeno, Pedro Pitanga era conhecido por ser empreendedor. Uma de suas empreitadas mais famosas foi quando trouxe o fruto das pitangueiras para Água Santa. A idéia lhe rendeu meses de zombaria e um bom prejuízo, já que nem sua lábia engenhosa foi capaz de convencer o paladar dos fregueses, que odiaram a fruta. A despeito dessa frustração, nunca deixou de investir nas novidades – era um homem de mente científica. Quando conseguiu a jóia, só pensava em como aquele artefato poderia trazer benefícios a seu povoado e, claro, como lhe daria algum dinheiro. Antes, precisava descobrir os detalhes do funcionamento, para isso, foi atrás da “putinha da venda”. Do pescoço da moça, pendia um colar semelhante ao da viúva. “Foi um presente do Manezinho”, disse com um sorriso descarado. Em sua casa, ao pensar na “putinha”, Pedro Pitanga viu a cena do bar novamente refletida na pedra. Foi aí que entendeu. As duas jóias se comunicavam. Para acionálas, bastava ter uma à mão e pensar em quem estivesse de posse da outra. “A ciência é espetacular!”, refletia maravilhado. E a partir da descoberta, o mundo de Água Santa viveu uma revolução. Pedro Pitanga tratou de conseguir mais da jóia com a viúva. Quando viu o tamanho da mina encontrada por Mané, pensou: “Estamos ricos”. A rocha era inesgotá-

vel. Quanto mais cavavam, maior se mostrava. Depois de conseguirem algumas dezenas de pedaços, se entocaram dentro de casa e botaram-se a trabalhar. Após vários testes, compreenderam todo o funcionamento: duas pessoas possuíam a jóia; a primeira pensava na segunda, via a imagem desta na pedra, depois via o cenário; a segunda, por sua vez, tinha na pedra a imagem da primeira, mas só via o cenário se pensasse nela. Entendido o processo, foram à confecção dos colares. No dia seguinte, uma grande faixa apareceu em frente à residência: “Conheça a mais nova maravilha da ciência: A PEDRA DO OLHO DIVINO! Por um preço justo, adquira uma linda jóia de habilidades comunicativas!” A sociedade de Pedro Pitanga e da viúva estava formada. Os moradores do povoado se encantaram com a novidade, e até quem não tinha dinheiro dava um jeito de conseguir a Pedra do Olho Divino trocando por um porco ou alguns litros de cachaça pura. Na época, não se conhecia telefone, de maneira que a comunicação pelas pedras tornou-se um sucesso estrondoso. Pedro Pitanga mostrou-se tão feliz com os lucros que até resolveu propor casamento à sócia. “Para a prosperidade dos negócios”, dizia. A jóia trouxe grandes mudanças a Água Santa. Os habitantes mudaram muitas de suas rotinas diárias e

passaram a resolver diversos problemas apenas usando o artefato. Se alguém dissesse: “Vai ter futebol no sábado?”, um outro respondia: “Amanhã tu me passa uma visão que eu lhe digo”. Ou então: “Vamos pro forró no Bento?”, e a resposta: “Mais tarde te passo uma visão pra confirmar”. Até o padre resolveu aderir à praticidade. Quem não podia ir à missa no domingo tinha a chance de assisti-la numa visão. Bastava pensar no sacerdote e pronto, lá estava a imagem da celebração. Inclusive, as confissões via jóia também se tornaram freqüentes. Outra que logo se adaptou à novidade foi a “putinha da venda”. Elaborou um útil serviço de entrega chamado “Visão Rápida”. Quem quisesse comprar algo passava uma visão e logo tinha as compras entregues por um ajudante da moça. Com o tempo, as pessoas de Água Santa passaram a sair pouco à rua. Viam-se apenas nos eventos sociais – missas (vazias), forrós (poucos), futebol (raro) –, indo ao trabalho, ou nos serviços de entrega que seguiram modelo no sucesso do “Visão Rápida”. Não que os moradores deixassem de se relacionar, mas faziam isso quase que exclusivamente pelas visões. Alguns nunca haviam conversado antes e passavam a ser grandes amigos através da jóia. Outros começavam a namorar. Havia ainda aqueles que ficavam horas e horas da madrugada passando visões,

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quase viciados. Assim, a Pedra do Olho Divino tornouse um utensílio indispensável aos moradores, pelo menos uma era certo de se encontrar em qualquer residência. Mesmo depois de todos terem suas jóias, Pedro Pitanga e a esposa-sócia, que passou a ser chamada de Dona Pitanga, continuaram lucrando muito: as pessoas começaram a comprar para presentearem parentes distantes; alguns adquiriam grandes lotes e revendiam em outros povoados; a diocese solicitava encomendas a fim de difundir a missa via visão para vilarejos mais afastados... A Pedra do Olho Divino estava saindo de Água Santa e conquistando o mundo. E foi justo nessa época que se iniciou a decadência do povoado, começando por um assassinato brutal idealizado pelas mulheres do lugar. Além do casal Pitanga, quem mais lucrou com as mudanças foi a “putinha da venda”. O que parecia estranho era como a moça ganhava tanto dinheiro se as vendas eram as mesmas de antes, com a única exceção de serem entregues em casa. E quem descobriu o mistério foi justo Dona Pitanga quando, numa madrugada, flagrou o marido no banheiro admirando sua jóia. A pedra mostrava a visão da “putinha” nua, fazendo uma apresentação erótica. A reação da mulher foi sair em busca de seu facão, mas Pedro Pitanga a segurou, implorando:

- Pelo amor de Deus, mulher, eu posso explicar. - Explique, teu cachorro! Explique, que depois eu lhe enfio o facão no rabo! - Se acalme! Eu não tenho nada com a moça, não... Era só uma visão. - Ah, então, era só uma visão, teu filha-duma-égua! Vamos, continue a linda explicação – falou, irônica. - Escute, vou lhe falar a verdade. É que a moça faz essa apresentação pra ganhar uns trocos a mais. Uma vez por semana, ela combina um horário e cobra uma taxa dos homens para se apresentar. Mas, não é maldade, só está ganhando seu dinheiro... - Não é maldade?! – fez uma expressão macabra – Olhe, tu não vai dizer nada do que aconteceu aqui pra essa desgracenta e nem pra ninguém. Continue vendo tua apresentação. E, semana que vem, não deixe de assistir também. Vai ser muito melhor... - O que tu vai fazer mulher? Deixe de bobagem. - Vou voltar a dormir. Se tu abrir a boca pra alguém, eu lhe capo – falou, tranqüilamente. O esquema das apresentações era conhecido por todos os homens de Água Santa. Eles pagavam semanalmente para verem a criadora do “Visão Rápida” em meia hora de nudez. O acordo era que todos contribuíssem, “para ajudar a moça a sobreviver”, como diziam. Se um só não

pagasse, a mostra era cancelada. Acertaram uma estratégia de só verem a visão no banheiro, para que nenhuma mulher descobrisse. E assim vinha acontecendo há um bom tempo. No decorrer dos dias, Dona Pitanga combinou com as outras moradoras de dar fim à história. E, na madrugada da semana seguinte, enquanto todos os homens encontravam-se em seus banheiros, as mulheres se levantaram em silêncio e saíram à rua para se reunirem na casa da “putinha”. Portando armas, invadiram o quarto da moça e improvisaram uma mostra erótica grupal. Depois da moça ser violentada com cabos de enxada e facões enferrujados, uma a uma as mulheres iam arrancando-lhe pedaços e mostrando para a jóia. Nenhum dos homens teve coragem de atender aos gritos de socorro da jovem. Só o que faziam era continuar assistindo a visão, chocados. Meia hora depois, voltaram para suas camas, já com suas mulheres nelas, dormindo (ou fingindo dormir). Em vão, tentavam adormecer, enquanto, lá fora, as chamas queimavam a cena do crime. No dia seguinte, nem elas nem eles tocaram no assunto, mas todos se mostraram muito espantados com o inexplicável incêndio que acabou com a casa da próspera moça. Depois dessa morte, a jóia já não era mais vista com bons olhos. As pessoas per-

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ceberam que podia ser usada com más intenções e, com isso, trazer desgraça ao povo. Contudo, essa nova opinião não impediu que lutassem para defendê-la quando um fazendeiro ambicioso quis reivindicá-la. O homem chegou dizendo que aquelas terras eram dele e que, por conseqüência, a mina da jóia também lhe pertencia. Foi quando começou o que, posteriormente, ficou conhecida como a Guerra da Pedra. Pedro Pitanga ficou indignado com a história do homem desconhecido e convenceu toda Água Santa de não cair na conversa. O fazendeiro não se abalou e prometeu voltar com reforços. Em uma semana, Pedro já havia armado todo o povoado, deixando todos preparados para as piores provações. A todo o custo, iriam defender a Pedra do Olho Divino, já considerada seu patrimônio cultural. A Guerra da Pedra foi sangrenta, com vários mortos de ambos os lados, porém, os abatidos de Água Santa eram mais numerosos. Ao término de três dias, os homens do fazendeiro foram expulsos, mas, a um preço muito alto: Pedro Pitanga morrera na frente de batalha. Todo o povoado chorou a morte do “grande benfeitor”. E muitos, de tão abalados, resolveram fugir para não acabar como o pobre homem. O padre, intervindo, alertou da inutilidade da guerra e disse não ficar para ver o seu final. De fato, a Guerra da Pedra

não havia acabado. Os sobreviventes tinham certeza de que, quando o fazendeiro voltasse, seria com força total. “Mas, como continuar sem Pedro Pitanga?”, era o que se perguntavam. A resposta veio da reincidente viúva, Dona Pitanga. A mulher amava aquele lugar, foi nele que fez sua vida, não iria deixar quem quer que fosse tirar o que lhe pertencia. Depois de um discurso inflamado, falando de patriotismo, de dignidade, de honra à alma do marido e da preciosa Pedra do Olho Divino, conseguiu convencer os poucos que restaram (que não chegavam a quarenta, juntando mulheres e crianças) a uma última e heróica defesa de suas terras.

mo das safadezas dos falecidos maridos. Decidiu que Água Santa seria seu túmulo. A cena derradeira foi única: homens, mulheres e crianças, portando armas, corriam na direção do inimigo. No peito de cada um, brilhava a Pedra do Olho Divino. À frente, Dona Pitanga comandava o avanço erguendo seu antigo facão. O megafone avisou: “Se continuarem, abriremos fogo”. Não pararam. “Parem agora ou atiramos”. A resposta veio da líder: “Povo de Água Santa, em frente, por nossa jóia!” O massacre foi consumado: últimos rebeldes mortos; poucos do exército feridos. Enquanto tiravam os colares dos corpos, grandes máquinas começavam a demolir as casas. Em poucos dias, não se via mais nenhuma construção, apenas uma grande área desmatada tendo uma brilhante rocha sobressaindo na superfície. Água Santa foi dizimada e, no seu lugar, construído um grande laboratório. As pesquisas procuravam desvendar o funcionamento da Pedra do Olho Divino, a fim de desenvolver novas tecnologias para a indústria de comunicação. Algo de que Pedro Pitanga, como um homem de mente científica, se orgulharia.

Poucos dias se passaram,
como um curto período de trégua, até que o povo de Água Santa avistou seu novo inimigo. Era de se estranhar que os poderes governamentais ainda não tivessem se importado com a jóia. Mas, quando resolveram agir, foram decisivos. O exército chegou com tanques e canhões. Vários soldados já se colocavam em posição de batalha. Pelo megafone, o comandante informou a situação: “Em nome da prosperidade do país, estas terras serão desabitadas e isoladas. O local se tornará uma área de pesquisas científicas com acesso restrito. Caso os habitantes não cooperem, temos ordem para abrir fogo”. As palavras inflamaram o coração de Dona Pitanga – nunca sentira tanto ódio, nem mes-

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Ele tinha diante de si a mais difícil das missões:

cumprir a vontade de Deus

ficina
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O Rei dos

Judeus
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Henry Alfred BugAlHo

Contos

Maria de Fátima Santos

Sonhos de batata
Amanheci dentro da caixa das batatas. Uma caixa de madeira em ripas mal aparadas, que coloquei ontem na dispensa. Tenho as pernas encolhidas e o braço direito debaixo da cabeça. Deitada de lado, devo parecer um feto, enroladito entre os tubérculos de cor acastanhada. Batatas novas, trazidas por uma amiga de uma courela onde o pai as semeia para sua entretenha. Ele não as vende: distribui pelos filhos e pelos amigos que estão mais por perto. Já pensou, segundo conta a filha, dar aos pobres da vila, mas diz ele, que prefere fazer um bem que lhe fique sem agradeceres e sem lembranças. Terá suas razões, o homem, que nunca pelas batatas me lembraria dele não fosse dar-se este insólito de acordar na caixa em que as guardei, coberta de todos os lados pelas ditas, ainda remeladas de terra seca. Aqui estou eu amanhecendo entre elas. Olho em volta, quase receando estar tão desperta. A porta da dispensa está fechada. Fui eu que a fechei por receio do cão, pois que pendurei, na noite anterior, umas quantas chouriças e um osso de presunto numa corda de modo que ficassem fora do alcance do cachorro. E mesmo assim, fechei a porta e, por excesso de cuidado ou parvoíce, rodei a chave. E agora, não sei como é que saio. Tenho um monte de batatas sobre a minha testa e duas depositadas na cova entre a orelha esquerda e o ombro. Cheiram a terra e a caca de cavalo. De um modo muito menos intenso, sinto o odor agradável do presunto. Tenho a coxa direita assente sobre dois tubérculos, um bocadinho maiores: daqueles que costumo escolher para assar e comer com molho. Estou bem acordada, disso não duvido, mas não dormi a noite inteira neste local, que eu sei que li uma dúzia de páginas de um livro e adormeci deitada bem ao meio da cama, com as pernas tapadas com o lençol, que o edredão de flores encarnadas escorregara para o chão. Não sei como, estou aqui. Tento levantar-me, mas não me desloco nem um pedacinho, por maior que seja o esforço. Reparo que apenas penso como gente, que é só isso: no
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resto, sou em tudo igual ao vegetal andino com que os Incas alimentavam os filhos. Oiço vozes! Uma mulher fala na cozinha aqui ao lado. Gente na minha casa e este meu pé esquerdo que não se mexe! Devo estar presa nalgum pesadelo; vou esperar que me acorde. Mas não parece sonho: vejo muito bem os dez chouriços aqui pendurados. E conto-os: um, dois, três… dez chouriços de sangue e mais o osso com pedaços de presunto. Escuto, com atenção, a voz. Não. Eu não durmo. É bem real esta mulher quase gritando para outro alguém: - Podes trazer a roupa da cama. Ontem deixei cair tinta no edredão. Esta mania de desenhar na cama. Põe o tira-nódoas antes de meter na máquina. Faz uma sopa. Vai à dispensa e tira batatas novas. Podes colocar um bocado de presunto. A voz vai e vem. A mulher anda, decerto, de um lado para o outro. Os solavancos na voz são de quem está mastigando e bebendo que lhe noto nos intervalos que deixa entre as sílabas, enroladas no que pode ser um pão com doce. - Até logo. Não chego antes das seis. É a mulher que o diz, e deve ter olhado um relógio, talvez para um que ela tenha no braço, ou para o que pulsa certinho no meu micro-ondas, pois que grita, em falsete: - Merda, já estou atrasada! E bate os sapatos na ti-

joleira num tic- tic ruidoso que me diz serem saltos altos e pontudos os que a dirigem para o fundo, para o lado da sala, para a porta da rua. Vou percebendo, com um espanto que quase me dá medo, que a voz da mulher é a minha voz, e nem quero perceber que sou eu que me apresso a sair para a reunião das nove e meia; reconheçome, atrasada, afogueada de noites que são sempre madrugadas. Sou eu! Constato, confusa e incrédula. Sou eu quem ali está na cozinha, batendo o chão num passo decidido, e também sou eu aqui, deitada na caixa das batatas, suja de terra da apanha e a cheirar a bosta de cavalo. Empapo a cara com uma lágrima incontida pois acredito que é sonho eu ser gente deitada num lençol, que as doze páginas do livro, nem eu as estive lendo, que são de um mundo que invento, tal como o edredão com flores em vermelho: imaginação de uma batatinhanova desejosa de conhecer o mundo. Ou não. Talvez seja mesmo eu quem ali anda na cozinha e acaba de bater com estrondo a porta, que de outro modo não se fecharia. Talvez eu me esteja desdobrando em duas: aquela pessoa feminina e este tubérculo redondo e suculento acordando, espantado, na dispensa, sem saber deslindar se sou mesmo eu, deitada entre batatas. Um bocado de terra castanha, cai na minha testa e fica bamboleando sobre o

mesmo olho que se encandeia com a luz. Alguém que tinha a chave abriu a porta. Alguém com uma mão enfeitada com anéis baratos que se espalham pelos dedos e, no pulso, várias pulseiras de missangas em tons de verde. Reconheço, sem margem para qualquer engano, a mão de Beatriz, a minha adorada empregada de há vinte anos. Eu, que nem me mexo um pedacinho, olho a mão que me parece um monstro, e percebo que Beatriz não me reconhece enquanto revolve em minha volta, a apanhar batatas para a sopa. E agarra as duas que eu tinha aninhadas no meu ombro, dirigindo para mim as unhas pintadas de verniz azul-bebé com florinhas desenhadas em rosa choque. Apanha-me com dedos húmidos, um tudo-nada gordurosos. As missangas da pulseira magoam-me quando ela me agarra pelo pescoço. Fico um instante entalada entre dois dedos, que cheiram a água de rosas e ao detergente com que lavou o chão. Depois, caio desamparada no plástico azul de um alguidar. Tenho o pé direito com entorse, mas nem me queixo, nem choro. Fecho os olhos e tento convencer-me que de aqui a pouco acordo. Oiço o respirar compassado do meu cão que dorme debaixo da bancada onde Beatriz colocou o alguidar com as batatas que vai descascar. Quando a faca começa a retirar o primeiro pedaço, oiço o ruído do meu todoo-terreno que arranca no jardim: fui-me embora e deixei-me aqui.

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Contos

a luz de delft
Joaquim Bispo

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O que vou contar começou na semana após o Natal, ao chegar a casa por volta das cinco da tarde. Depois de me pôr à vontade, preparei um copo de leite-comchocolate morno, juntei um pacote de bolachas recheadas e fui lanchar para a sala, enquanto via um episódio do Dr. House. Foi já no fim do lanche que o vi: o carteiro de Pablo Neruda, como eu me lembrava dele no filme, estava mesmo atrás da rapariga que lê uma carta junto a uma janela aberta, na reprodução pintada de Vermeer que tenho por cima da escrivaninha. Primeiro, fiquei estático, sem saber bem o que pensar. Depois, observei as bolachas e cheirei o leite-com-chocolate – pareceram-me em bom estado! Levantei-me e mirei-o de perto. Estava com aquele ar ingénuo e satisfeito de quem finalmente sabe o que são metáforas. E parecia bem implantado na camada cromática, como se tivesse sido pintado ao mesmo tempo que a mulher. Esquecendo o anacronismo do vestuário, não ficava mal de todo no quadro. Aparentemente, tinha sido ele a trazer a carta à jovem holandesa de Vermeer. «Bem», pensei, «é melhor não dizer nada a ninguém, sem dormir sobre o assunto». E foi isso que fiz no sofá, a meio dum diagnóstico delicado do Dr. House. Quando acordei, a pri-

meira coisa que fiz foi olhar para o quadro. O carteiro já lá não estava. Fiquei aborrecido. Frustrara-se a hipótese de mostrar o fenómeno aos amigos. Logo a seguir, fiquei preocupado. O que quer que tivesse perturbado a minha percepção devia estar em mim e podia ser um grave problema de saúde. Resolvi fazer umas pesquisas na Net sobre alterações de percepção. Um site francês advertia que níveis elevados de açúcar no sangue podem provocar alucinações. Nessa noite, dormi mal. No dia seguinte, via-se uma alcoviteira de Murillo assomando à janela, a falar com a rapariga da carta. E nos outros dias sucederamse outras imagens de menor dimensão: um jarrão azul com flores, de Cézanne, junto à fruteira, uma jóia a imitar Lalique no cabelo da jovem, o gato da Olímpia de Manet, sobre a tapeçaria. Eu sei lá! Isto, apesar de eu ter começado a conter-me nas sobremesas e a lanchar só fruta fresca. Entretanto, fui ao médico. Impôs-me uma dieta rigorosa sem açúcares e receitoume uns comprimidos de lítio. Disse que devo ter uma predisposição genética visionária que foi potenciada pelos excessos da quadra natalícia. Para eliminar todos os factores desencadeantes, aconselhou-me ainda a parar com quaisquer leituras sobre arte durante uns tempos. O que é certo é que, pas-

sadas umas semanas, deixei de ver imagens estranhas a perturbar o recolhimento da holandesa de Vermeer na leitura da sua carta. Quando já dava por certo que o meu problema estava sanado, certa manhã, dei pela falta da própria mulher do quadro. Calculam como fiquei! O coração acelerou-se e quase entrei em pânico. Se antes era açúcar, o que seria agora?! Telefonei logo para o meu médico que também se mostrou alarmado e me disse que eu, provavelmente, teria abusado da dieta. Mandoume tomar imediatamente um pacote de açúcar dissolvido em água e que fosse ao consultório dele no dia seguinte. Tomei o que ele mandou e fiquei pensativo a olhar para o quadro deserto. Que intrigante, esta situação! Então, reparei nuns pequenos vultos reflectidos na vidraça, agora noutra posição. Eram-me familiares. Apesar de pequenos, não deixavam margem para dúvidas: eram as silhuetas da holandesa desaparecida e do carteiro de Pablo Neruda, passeando de braço dado numa praça de Delft! Instantaneamente, entendi todo o percurso de aproximação e sedução. No dia seguinte já não fui ao médico. Nunca mais lá voltei. Percebi que o amor é mais forte que quaisquer dietas ou comprimidos. E encontra sempre o seu caminho.

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Contos

Gêmeos
Eram gêmeos, um macho e uma fêmea. Ainda bebês, dependentes, dominados pelos ímpetos animais da sobrevivência, ficaram órfãos. Viviam em um ambiente que era resultado de muitas das aspirações de toda a humanidade. O mundo nunca tomou conhecimento da maravilhosa casa em que foram abandonados. As crianças, por sua vez, jamais souberam que havia outros seres humanos além deles próprios. A respeito da casa, basta dizer que antes de ser uma habitação, o colossal edifício era um ser vivo, um autômato dotado da fria e desejada inteligência das máquinas. Servia aos seus habitantes sem a necessidade de operação, a casa permanecia atenta aos movimentos e desejos dos irmãos gêmeos. E além dos bebês, nada mais era importante. E, por mais absurdo que nos pareça, essa maravilhosa habitação abrigava em seu interior um bosque cortado por um riacho.

Volmar Camargo Junior

Os órfãos cresceram sem o conhecimento de coisas como senso comum ou auto-limitação. Tudo o que sabiam devia-se somente às suas necessidades. Uma vez que não havia uma força exterior que lhes ditasse as leis que regem o existir, as crianças eram capazes de prodígios. Para nós, tais capacidades seriam absurdas e maravilhosas. Para eles, não passavam de respostas naturais ao ambiente.

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Deslocavam-se sem o empecilho oferecido pela gravidade, percorrendo o espaço em qualquer direção. Sendo plenamente conscientes da existência um do outro, comunicavam-se sem o esforço de emitir sons. Aprenderam a compartilhar as sensações e, quando mais experientes, obstáculos ou distância deixaram de ser entraves para seus sentidos. Brincavam de descobrir coisas escondidas acessando a memória um do outro. Um dia, durante essa mesma brincadeira, sobreveio-lhes ao acaso uma lembrança antiga, de quando saíram da escuridão para a luz. Não souberam dizer o que era essa lembrança, mas sabiam que eram tão intimamente ligados por causa dela. Não havia um nome, mas era como eles: uma fêmea grande cujo corpo era fonte de alimento, calor e aconchego. Daquele dia em diante passaram a cultivar o hábito de voltar àquele mesmo lugar da memória para sentirem-se acolhidos pela imensa fêmea desconhecida. O tempo correu, e as brincadeiras deles já não os entretinham, e o prazer das carícias mútuas era um refúgio para o vazio que crescia à medida que envelheciam. Um dia, desejaram descobrir por que aquela criatura existente apenas em suas lembranças era-lhes tão atraente e, a despeito disso, sua ausência causava-lhes sofrimento. Juntos, desejaram que ela existisse.

E ela existiu. Nasceu adulta, mais velha que eles. Tinha os seios fartos, era grande, gorda e bonita, exatamente como a imaginavam. Por um tempo sem conta, passaram aninhados, aquecendo-se e alimentando-se no seio da mãe que haviam criado. Entre si, os gêmeos partilhavam tudo. A mãe, entretanto, não dispunha das mesmas capacidades. Para conversar com ela, os gêmeos batalharam até encontrar uma linguagem que lhe fosse acessível. E assim que pronunciaram a primeira idéia através de um som, perderam a habilidade de comunicarse por pensamento. Pelas limitações espaciais da mãe, os irmãos inconscientemente escolheram não magoá-la, quando abusavam de suas capacidades de voar e de mudar sua posição no espaço sem percorrer a distância entre dois pontos. Por isso, caminhavam com a mãe por horas, até mesmo dias, dentro do bosque gigantesco. E em algum tempo, que pode parecer-nos muito breve, os gêmeos passaram a ser pessoas comuns, sem nenhum esforço. Surgiu então algo com o qual os gêmeos não sabiam como lidar. Tornaram-se dependentes daquela nova criatura. Precisavam chamarlhe a atenção, atrair sua aprovação, perceber as coisas como ela. Surgiu o conflito e o ciúme entre os irmãos, que há muito já não compartilhavam mais os pensamentos.

A incapacidade de ter toda a atenção materna fez com que eles entrassem em atrito. Munida apenas pelo afeto, seu único recurso, a mãe tentou em vão apaziguá-los. De um constante malestar, a convivência entre os três tornou-se insuportável. Depois de uma discussão violenta, os gêmeos, pela primeira vez desde que recordavam, separaram-se. A mãe, resignada e impotente, ficou só. A casa, que era a máquina mais perfeita até então criada, sabia em sua inteligência maquinal que a condição de sua existência era que prevalecesse a paz entre os gêmeos. Caso contrário, quereriam escapar de suas dependências, e certamente fariam isso. Não intervinha no modo de viver do prodigioso casal, mas era programada para assegurar que nada os perturbasse. Compreendeu que aquela nova fêmea, a mãe gerada pelo pensamento dos gêmeos, tinha sido um erro de cálculo, algo imprevisto e que, por isso mesmo, promovia a desordem. Assumiu a diretriz de eliminá-la. Durante os poucos dias que viveu na ausência dos filhos adotivos, a mãe teve de lutar contra o bosque, e contra a ira da natureza, para sobreviver. Todos os frutos que coletava para comer faziam-lhe doer o estômago. A água que bebia do riacho causava-lhe náuseas e vômitos. Foi picada por insetos, teve de esconder-se de predadores até que, finalmente,

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caiu de um penhasco que não estivera lá nos dias anteriores. Os gêmeos estavam muito distantes um do outro, sofrendo com a mágoa e outros dos sentimentos que nunca tiveram, como saudade e remorso, quando foram avisados por algo vindo das profundezas de seus inconscientes: a mãe estava em apuros. Imediatamente foi-lhes restituído o poder de deslocar-se sem tocar no chão, e de saberem precisamente onde o outro estava. E por todos os lugares que alguma vez estiveram naquele bosque, e em muitos que nem eles sabiam existir, em nenhum deles encontraram a mãe. Então, pela primeira vez desde que se lembravam, sentiram uma dor incapaz de ser contada, ou passível de ser reproduzida por quem não a sofre. Para tentar diminuir a dor que sentiam, buscaram-se outra vez. E se acariciaram como nunca haviam feito antes. O tempo passou, e a mãe tornou-se outra vez uma lembrança. Os gêmeos percebiam-se muito diferentes. Por um lado, estavam mais próximos um do outro. Por outro, sentiam-se cada vez mais desejosos de ir até os limites do bosque. Desejavam que além das árvores, talvez depois de onde nascia o rio, existisse o lugar para onde a mãe tivesse ido. Porém, desde que se recordavam, era a primeira vez que um desejo seu não se realizava.

O macho olhava constantemente para o céu, para as árvores, para os animais, e nenhuma dessas coisas respondia ao que ele mentalmente lhes perguntava: “O que há além desse bosque?”. A fêmea olhava para a própria barriga. Sentiu que o sangue que surgia de dentro dela a cada ciclo da lua – pois eles conheciam bem a lua, e não sei explicar como isso era possível – parou de vir. Seus seios doíam um pouco, mesmo às carícias mais delicadas do irmão. E, de dentro da única porção inacessível de sua intimidade, a fêmea soube algo que o macho jamais saberia se ela própria não lhe contasse, mesmo que ele que fosse o mais prodigioso ser existente. A fêmea sentia-se como aquela fêmea estranha que habitava um lugar em seu pensamento, e que ela e o irmão fizeram existir. A fêmea seria mãe. O macho não se conteve de alegria, uma alegria indizível, que nunca havia sentido, assim que suas mentes se comunicaram. E cresceu dentro dele a absurda vontade de conhecer os limites de seu habitat. Era uma coisa absolutamente nova, e sabiam que eram capazes de gerar vida. Estava imbuído de algo que sabia ser, mas para o qual não tinha um nome próprio, o que as pessoas comuns chamam “paternidade”. Decidiram partir juntos em busca dos limites, encon-

trar o lugar desconhecido além das árvores. Em vão. A fêmea sentia-se muito mal planando como faziam antes, e por isso, passaram a locomover-se outra vez com os pés. Os ciclos inteiros da lua passaram oito vezes, e a barriga da fêmea, maior a cada lua cheia, permitialhe mover-se cada vez mais devagar. Então, no momento em que o casal de consortesirmãos soube, pela silenciosa afinidade que tinham, pararam. A fêmea deu à luz a dois bebes. A casa-máquina sabia exatamente o que estava acontecendo. Programada há tanto tempo que nem no mais remoto compartimento de sua memória de máquina havia um registro, a casa preparou tudo. Era o seu dever permitir que os irmãos gêmeos, e apenas eles, vivessem plenamente suas existências. Eram gêmeos, um macho e uma fêmea. Ainda bebês, dependentes, dominados pelos ímpetos animais da sobrevivência, ficaram órfãos. Viviam em um ambiente que era resultado de muitas das aspirações de toda a humanidade. O mundo nunca tomou conhecimento da maravilhosa casa em que foram abandonados. As crianças, por sua vez, jamais souberam que havia outros seres humanos além deles próprios.

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como uma das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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Contos

O Livro dos Hereges
Henry Alfred Bugalho

Vejo a minha cunhada ali, sentada, me fulminando com o olhar. Foi o ódio dela por mim que me arrastou ao tribunal, a querer minha execução. Eu a entendo, também quereria a mesma coisa se minha irmã fosse assassinada; também adoraria ver meu cunhado morto, se cresse ser ele o culpado. Mas sou inocente, juro, ouçam-me e julguem por si próprios. Todos aqui conhecem minha reputação como bibliófi-

Ano passado, empreendi uma viagem de negócios a Istambul; vagando pelas ruas da cidade, adentrei um antiquário. Entre inúmeros artigos interessantes, chamou-me a atenção um códice em grego bizantino, com belíssimas ilustrações e iluminuras, que adquiri pela bagatela de cinqüenta libras. Em meio a tantas aquisições desta viagem, malas

O material não era muito interessante por si, um relato da fundação e queda duma seita herética na Capadócia, entre os séculos X e XII, que acreditava que Jesus fosse, na verdade, um enviado de Satanás. O argumento dos hereges não era dos mais convincentes: por ser Satanás o senhor do mundo material (Jó 1: 7), apenas ele poderia conceder poder a um mortal para curar doenças, multi-

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Sei do que sou acusado. Nestes últimos dias, vocês viram quantas mentiras disseram sobre mim, de que sempre fui um homem violento, de que havia ameaçado minha mulher várias vezes antes. Mentiras! Mentiras!

lo. Não me estenderei muito sobre o assunto, mas é notório que há na minha biblioteca a primeira edição de “O Contrato Social” de Rousseau, uma Bíblia do século XII, o manuscrito de Die Welt als Wille und Vorstellung de Schopenhauer, entre milhares de outras raridades, inveja para colecionadores ao redor do globo.

e mais malas, mal me recordava do códice. Mas, há um mês, organizando minha biblioteca, descobri este incrível exemplar e comecei a estudá-lo. Talvez vocês não saibam, mas o grego bizantino não é muito diferente do koiné, o grego bíblico, do qual possuo razoável domínio.

plicar alimento, caminhar sobre as águas; para sustentar tal crença, eles se baseavam num documento apócrifo, conhecido como “O Evangelho de Iscariotes”, relatando que a traição de Judas Iscariotes havia se fundado na descoberta de que a trajetória do nazareno não passava duma encenação, na tentativa de associá-lo ao Messias das profecias torânicas, e arrebanhar o apoio da ala reformista da comunidade farisaica. Além disto, Judas constatou que havia severas distorções da Lei nas pregações de Jesus, e que muitas delas podiam ser associadas ao culto de Baal. Apesar de improvável, narra-se que os hereges foram erradicados por uma campanha maciça de assassinatos coordenada pela Igreja Ortodoxa. Pode parecer frívola esta minha descrição do conteúdo do códice, porém, após dedicar dias examinando o exemplar, deparei-me com uma sentença inusitada, descontextualizada, como se houvesse sido escrita diretamente para mim. Sem adicionar palavras ou omiti-las, a tradução da sentença era a seguinte: “William Turner, na oitava noite de março, virei buscar tua esposa.” O pasmo no olhar de vocês era tal qual o meu assombro. Como meu nome aparecia, em grego bizantino, num códice medieval? E o que significavam tais palavras? Quem viria buscar minha esposa? Por quê?

Tive dificuldades para dormir, atormentado pela macabra profecia. A cada dia que passava, minha angústia crescia, oito de março se aproximava e, em pouco tempo, eu confirmaria ou não a veracidade da ameaça. Lembro-me bem daquela data, eu e Margareth acordamos cedo e cavalgamos pela propriedade; almoçamos na casa dos meus sogros, passamos a tarde na biblioteca, Margareth lendo Jane Austen, eu jogando xadrez com o sogro. Às sete, retornamos para casa, ceamos e nos recolhemos. Eu estava apaziguado, o dia estava quase concluído e ninguém, nem nada, havia vindo buscar Margareth. Ouvi o relógio do átrio anunciando, timidamente, que faltavam quinze minutos para a meia noite. Margareth dormia tranqüila, por isto, levantei-me e desci até a biblioteca, procurei pelo códice, mas ele não estava na prateleira onde eu o havia deixado. Isto me enfureceu, ninguém tinha autorização para entrar e mexer nos meus livros; na manhã seguinte, os criados receberiam uma bela reprimenda. Mas logo avistei o códice caído no canto da biblioteca, aberto. Com ele em mãos, tentei encontrar a passagem e, quem sabe, zombar dela agora. Folheei-o, mas não conseguia encontrá-la. Eu havia marcado a página, mas alguém, deliberadamente, havia feito questão de retirar a indicação. Foi quando senti uma presença no cômodo. Mesmo

a biblioteca estando completamente iluminada, tive a impressão de estar nas trevas, um forte cheiro me cercou, meus pêlos se eriçaram. Involuntariamente, minhas mãos tremiam, o códice balançando nelas. Meus olhos encontraram a passagem, mas esta já não era a mesma. “William Turner, estou aqui.” Não sei o que me aconteceu, mas, quando voltei a mim, minhas mãos estavam ensangüentadas, o punhal birmanês cravado no peito de Margareth, faltando poucos instantes para a meia-noite. Se fiz algo, fi-lo dominado por alguma força demoníaca. Não sou culpado! O tribunal não acreditou em palavra alguma de William Turner e o condenou à forca. Mas o magistrado desejava ver o códice mencionado pelo réu. Um oficial foi até a propriedade do condenado, vasculhou a biblioteca e encontrou o volume. O juiz Smith havia aprendido koiné com seu pai, padre da Igreja Anglicana e tradutor, nas horas vagas, de versículos bíblicos. Abriu o livro aleatoriamente e, por aquelas ironias do acaso, encontrou a sentença, acompanhada de calafrios, odor de enxofre e trevas: “Edward Smith, estou aqui.”

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Contos

as bases da criação
José Espírito Santo

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GÉNESE Por muito que disfarçassem, consideravam-no um monstro e (pior que isso) um incapaz. A atenção, a deferência recebida não era mais que uma capa grosseira para a convicção mal disfarçada, enraizada na mente de todos: aquele seria sem dúvida um ser inferior, um erro da natureza. Qualquer medição das concretizações nos testes revelava a verdade nua e crua: não conseguia estar à altura dos companheiros. O corpo frágil na morfologia peculiar – constituída pelo tronco, cabeça e pares de membros (inferiores e superiores) - nunca lho permitiria. Os progenitores foram convocados várias vezes para reuniões de esclarecimento e a expectativa da escola era que com a educação e acompanhamento apropriados, o Ser (era assim que o tratavam) acabaria por mudar. Adaptar-se ia e assumiria gradualmente comportamentos mais consentâneos, com padrões sociais não patológicos. No entanto, passaram-se anos e o SER foi crescendo sem que tivesse ganho tais características. Era sonhador, um idealista por

vezes taciturno e sempre, sempre incompreendido. Quando fez dezoito anos, os pais intercederam e mediante conhecimentos e favores devidos, moveram as influências necessárias. A acção de amigos de amigos bem colocados conseguiu-lhe o emprego onde serviria como funcionário público no quinto andar de um edifício decrépito: o número treze da Rua das Gáveas, mesmo junto a alguns dos restaurantes de Fado mais apreciados.

o polegar erguido em sinal de assentimento ora fazia os gestos curtos mas veniais com a cabeça. Meio-dia em ponto, levaram-no a almoçar à tasca do Silva e como era quarta-feira (dia de cozido) foram-se a excessos. Vieram de lá bem atestados, com vontade para fazer a sesta e muito, mas muito avessos ao trabalho! As coisas não corriam mal até aquele dia em que saiu para jantar fora, beber umas quantas e ouvir “blues”. Na sala escura do bar, mesas baixas e cufos vermelhos acomodavam confortavelmente os vários clientes e ao canto, guitarra, bateria e sintetizador esforçavamse para acompanhar os berros da vocalista – uma miudinha de cabelo oxigenado decididamente pouco madura para fazer de Bessie Smith There ain’t nothing I can do, or nothing I can say That folks don’t criticize me E a gaja continuava… But I’m goin’ to, do just as I want to anyway And don’t care if they all despise me

A DESCOBERTA DE SI PRÓPRIO O primeiro dia foi pacífico e ficou a conhecer a malta lá da repartição “Isto até é fácil. Não é a trabalheira que parece, pá” trauteava o Antunes - alentejano magricelas e de bigode quase tão negro como o do Vitorino. “O pior é quando o chefe Pereira dá nos azeites. Mas a gente finge que é moco, que não ouve, damos-lhe um desconto…” continuava o bom do Vitorino, preocupado em instruir o neófito nas lides da casa. E ele concordava, a tudo anuía silenciosamente. Ora apresentava

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Pensou como seria bom que ela se calasse por uns instantes. Talvez por brincadeira, puxou do bloco de notas e desenhou-a muda, com uma fita grossa a tapar a boca e bem amarrada a uma das colunas de modo a não poder dançar. O pandemónio que aconteceu depois - viu como por magia serem executados os seus desejos, a realidade moldando-se aos seus desenhos - deulhe certezas quanto ao desígnio que lhe cabia. Soube então que todas as tentativas para o demover seriam inúteis.

caiu na asneira de dizer “É pá, deixa cá ver essa bola para eu dar um chuto como o Cristiano Ronaldo” Virou-se para o outro fuzilando-o com o olhar. Disse qualquer coisa esquisita de que já não me lembro bem. Só sei que o pobre do alentejano virou-se e, rabo entre as pernas, enfiou-se atrás da secretária. Nessa tarde nem daria mais um pio. No dia seguinte apareceu túnica e sandálias, passando o tempo todo (manhã toda) a rabiscar e a distribuir os papéis com desenhos esquisitos. Disse que tinha descoberto algo de novo, que sabia fazer uma coisa até ali nunca vista e à qual deu o nome “Criar”. “E como é que funciona isso de criar?” perguntou o Benevides, cheio de manha, com esperteza beirã. “É simples” respondeu. “Imagina uma coisa que não existe. Pois bem… a gente vem e faz com que exista. Depois dizemos à coisa que fomos nós que fizemos isso – que a criámos” O outro não parecia lá muito convencido e argumentou enfaticamente “É

pá. Deixa-te disso que a gente aqui é funcionário e não tem de fazer existir o que não existe. Temos é que fazer existir o que existe, entendes? Passar carimbo…” E arrematou, matando definitivamente a conversa “Além disso, o que é que ganhas com isso de criar? Serve para alguma coisa? “

INTERNAMENTO Iam-lhe aturando as madurezas e suportando todas as incongruências, manias e obsessões até que chegou o dia em que foi atingido o limite, caiu a gota de água que fez transbordar repentinamente o copo. Parece que uma das criações mais exóticas – o pequeno casal de “quase nudistas” - foi-se à maçã raineta que o chefe Pereira reservava para comer à hora do lanche. O desgraçado, quando lhe deu a fome, procurou, procurou e nada… Nessa mesma tarde, chamaram a equipa constituída pelo psiquiatra e dois paramédicos. O Deus (João de Deus) ainda gritou pela bola que nem um desalmado. Pela Jóia. A sua jóia. Que sem ela – foco de todo o

CONFLITOS O cabelo esbranquiçou completamente e deixou crescer a barba, uma barba branca e farta, de pelos fininhos, que lhe tapava quase totalmente o pescoço. Desinteressouse completamente dos temas de conversa habituais. Se lhe falavam do Benfica, retorquia “Terra”. Se lhe falavam de mulheres, mostrava enfado e respondia “Génese”. Se o interpelavam sobre política então fazia cara feia e proferia enfaticamente “Paz e Bem”. As coisas pioraram quando trouxe a bola para o escritório e o desgraçado do Antunes

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O lugar onde
seu carinho e atenção - a vida de nada valia. Mas em vão. Não lhe ligaram nenhuma. Amarraram-no e foi levado na ambulância velha azul e branca cujo cilindro de luz às voltas, sem descanso, identificava gravidade do caso e urgência para o transporte. Objecto amado, a jóia, a bola azul da qual nunca se separava, foi colocada em cima do tampo da mesa, sem qualquer cuidado, mesmo ao lado do pisa-papéis. E ali ficaria, esquecida e só, por vários dias. Até que chegou o substituto. O substituto era um gajo da Buraca, baixo e atarracado, adepto fanático do FCPê. Sopinha de massa, metia “xis” em tudo o que pegava: “Xou xim! Xim Xenhor, já xtá o que me mandou. Ah… ora essa, não xateia nada, a xente xtá cá é pra ixo…”. O Benevides quando queria entrar com ele, perguntava-lhe sempre como é que se escrevia chato, se era com xis ou cê e agá. Quando o gajo viu a jóia, a bola, disse logo “Atão vomexês tinham aqui o esférico e não me diziam nada?” E, ainda falando, pegou na coisa com as duas mãos e deu-lhe um chuto forte. Mesmo forte…

a boa Literatura
é fabricada

O DESTINO DA JÓIA A pequena bola azul foi aumentando gradualmente de velocidade e, em aceleração contínua, veria passar veloz a Proxima Centauri. Pouco depois chegaria ao sistema planetário, a esse sistema que chamamos “solar” onde ocuparia posição vogando em elipse imaginária (a terceira). Frustrados que estavam os planos de criação, por falta de oportunidade (má sorte o casal ter comido a fruta), sobraram apenas as bases, sementes rudes, imperceptíveis. E sendo assim, restava à bola permanecer bailando em torno do astro rei e esperar muito tempo - quase uma eternidade. Porque enquanto a criação é rápida e normalmente consiste em acto decidido e espontâneo, evoluir é bem mais complexo e exige decididamente muito mais tempo.

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ficina
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Contos

Mariana Valle

Juliana e o coelho
Juliana era casada há cinco anos, mas se sentia sozinha. Maurício viajava muito a trabalho. Então ela resolveu que merecia um vibrador. Ao ver um episódio do seriado Sex and the city, decidiu: queria o tal do rabitt, usado pela Charlotte. E não é que ele era mesmo supimpa? Fazia serviço duplo, atacava em todas as frentes. E assim Juliana se refestelava todas as noites em que Maurício estava fora. Mas aquele negócio era tão bom que ela passou a usá-lo inclusive nos dias em que dormiria com o marido. E quando ele chegava em casa, doido para matar a saudade da esposa, recebia um bando de desculpas da mulher já saciada. Um dia era dor de cabeça, no outro cansaço... Até inventar que estava “naqueles dias”,

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Juliana inventou. Tudo para fugir do sexo com o marido. Ela era fiel. O problema é que agora sua fidelidade se voltava para o tal coelhinho. Maurício não sabia mais o que fazer. Já estava subindo pelas paredes. Chegou até a desconfiar que a mulher tinha um amante. E foi por isso que resolveu chegar mais cedo naquela quarta-feira. Pé ante pé, ele entrou pela sala e, ao chegar no corredor, notou a porta do quarto fechada. Tascou o olho na fechadura e não acreditou quando finalmente desvendou o segredo de Juliana. Ela o traía com o coelho. “Ela me paga!”, pensou, enraivecido. Um mês se passou e Maurício teve que viajar para os Estados Unidos a trabalho. Na volta ao lar, trazia uma novidade na bagagem. E foi em cima da cama, de onde Juliana reclamava de sua usual enxaqueca, que Maurício abriu o presente. De dentro de uma caixinha, ele tirou um pedaço de plástico colorido, soprou dentro dele, e, pouco a pouco, ele cresceu, até ficar do tamanho de Juliana. Maurício então se deitou ao lado da boneca, e estava prestes a abraçála, quando Juliana soltou um berro: - Você não vai fazer com ela o que eu estou pensando, vai? - Se eu não posso fazer

com a minha mulher, eu tenho que dar um jeito, você não acha? Juliana ficou desesperada. - Não acredito numa coisa dessas, Maurício! Não acredito! - É muito simples, Juliana. Basta você acabar com essa greve que eu rasgo a boneca. Juliana não titubeou e se jogou nos braços de Maurício com paixão. Num minuto, a dor de cabeça foi embora. E o reencontro amoroso lembrou até aquelas transas de início de namoro, de tão apaixonado que foi. Quando tudo acabou, ainda em estado de êxtase, Juliana cobrou: - E a boneca? Não vai rasgá-la? - Claro, meu amor, farei isso já. E assim, com a boneca em pedaços e o orgulho restabelecido, Juliana finalmente pôde dormir em paz. Mas Maurício ainda não estava com sono. E tinha uma providência muito importante a tomar. Levantou-se da cama em silêncio e correu para o armário da mulher. Bem ali onde ela havia escondido o coelho mais cedo. Pegou aquele “bicho” com raiva e o levou até o tanque da cozinha. Depois sacou a caixa de fósforos do bolso e tacou fogo no troço. Agora sim, ele poderia dormir feliz.

No dia seguinte, Juliana não comentou nada, mas ele percebeu que ela estava estranha. Ela não sabia o que pensar. “Será que Maurício descobriu meu segredo? Mas então por que ele não comentou nada? Então quem terá sumido com meu coelho?” Juliana estava agoniadíssima, mas fazia a maior força do mundo para não demonstrar. Na hora de dormir, Maurício virou para o lado e nem sequer ensaiou procurar o carinho da esposa. E foi assim durante um mês inteiro. Juliana não estava entendendo nada. “Será que ele tem outra? Será que estou gorda? Por que ele não me procura mais?” E num desses dias de incertezas, Maurício chegou do trabalho feliz da vida. E, já vestindo o pijama, repetiu o ritual daquele dia fatídico. Pousou a caixinha na cama, tirou o plástico lá de dentro e rapidamente inflou a boneca. Depois, fez com ela aquilo que não fazia com a mulher há um mês e, quando acabou, se virou para o lado e dormiu como um anjo. Juliana não deu um só pio. E ainda teve que dividir a cama com a boneca.

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Contos

misantropia infecciosa
Léo Borges

– Falaram que é uma doença raríssima. Sempre desconfiei. Ele não se dá com ninguém, só com esses cachorros malditos. Vai ver é transmissível por contato ou, até pior, pelo ar! Eu é que não fico mais por aqui sem alguma razão – disse uma das mulheres da roda, ficando por ali sem alguma razão. – Também ouvi isso. Um intelectual, aquele que perdeu a mão, diagnosticou a enfermidade como sendo doença que vem de

berço! O menino evita as pessoas como se fôssemos leprosos. Ele deve ter parte com o capeta e a história dos cães só reforça minha teoria. Desde que seu livro foi lançado que os ataques dos cachorros às pessoas se tornaram coisa habitual. – O livro que ele escreveu parece que foi ignorado pelos intelectuais por conta disso. O que ele narra é uma trama de cachorros brutais que despedaçam suas vítimas. Coisa absurda!

– Vendeu pouquíssimo. No início idolatraram-no, mas logo caiu no esquecimento. – Isso mesmo. Quem leria tal heresia? Cães que atacam pessoas impiedosamente... – Engraçado que dos cachorros do vilarejo esse menino é o único a não fugir... – É mesmo. E os cães também não correm dele. Brincam, até.

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– Curioso tudo isso. Esses animais da nossa circunscrição já mutilaram inúmeros paredros. – Vai ver foram os perdigueiros que transmitiram esse cancro pro coitado do jovem escritor... – Pode ser. Ele já foi atendido pelos médicos? – Até onde sei, não deram jeito. A verdade é que o mal que se instalou em Andrews não afetou a sua pele, rins ou cotovelos. A coisa se manisfestou mesmo foi em seus pensamentos... – Que esquisito! Como é mesmo o nome dessa doença terrível? – ousou perguntar outra fofoqueira, fechando o rosto com as mãos em concha, como se isso a livrasse da contaminação. – Ninguém sabe ao certo... uma virose... – Misantropia infecciosa – explicou o nobre que perdera o pavilhão auricular, mas não a audição. – A doença é rara, mas sua característica principal é a insensatez. Ao deixar de ser tratada com o rigor necessário, pode levar a um estado completo de ignomínia não apenas o hospedeiro como quem com ele manteve contato. Apesar de também não ser médico, o honrado homem acreditava que possuía conhecimento suficiente para comentar sobre o problema que afligia Andrews. O cão que decepara sua orelha tinha afetuoso vínculo com o garoto e isso marcou o aristocrata a

ponto de fazê-lo interceder pelo sacrifício do animal. A corte deferiu e, mais que isso, ampliou a decisão, permitindo que outros cachorros fossem mortos. Muitos, a pedradas na praça central. O objetivo do ato em público foi chocar o menino, mostrar que seu amor por bestas-feras era uma afronta aos bons costumes e ao agradável convívio outrora reinante no vilarejo; amor este que tomava viés ainda mais dramático com a aversão que Andrews demonstrava ter das pessoas. Afinal, ele não mantinha relações nem mesmo com outros garotos de sua idade. Andrews, esgueirado atrás da cortina de seu quarto, observava o burburinho na rua sabendo que falavam dele. Sabia que nesses momentos entravam em cena o debate sobre sua repulsa ao ser humano e o conflito deste sentimento com a sagacidade literária que ele demonstrara ter. Um menino que escreve livros deveria estar junto dos homens cultos da cidade e não ao lado de cachorros hostis e malcheirosos. Os bichos estavam sendo massacrados mais por represália ao isolamento em que o jovem prodígio se metera do que propriamente pelo fato dos intelectuais estarem sendo mordidos. Os pais do menino emudeceram quando ouviram um ilustre decano da sociedade, este sem o pé direito, dizer que a misantropia de seu filho deveria ser encarada como grave problema de soberania dis-

trital. Segundo ele, esta psicopatia estava intimamente ligada aos ataques dos cães. De acordo com estudiosos locais, estes seres pareciam querer defender o menino, sendo que, na realidade, o elemento ultrajante em toda aquela história era mesmo Andrews. “A matilha marcial”, inicialmente, nasceu como um livro festejado pela elite. Quando souberam que quem o escrevera fora um menino, congelaram. Como poderia? Tentaram, mas não conseguiram cooptálo para o grupo. Com isso, a inveja sobre o fantástico jovem corroeu-lhes o ego. Somou-se a isso o estranho incidente envolvendo os cães de rua que passaram a atacar, sem motivo aparente, os intelectuais, arrancando-lhes pedaços do corpo. A carreira de Andrews foi, então, associada ao satanismo. As edições encalharam. Ninguém mais queria saber do livro e Andrews acabou conseguindo o que queria quando viu tanto papel junto: criar um forro para os cães que dormiam ao relento pelas ruas do vilarejo. Ao contrário do que muitos pensavam, Andrews jamais se deprimiu com a queda das vendas. Comunicava-se por literatura, mas não fazia questão que fosse ouvido. Seu trabalho exauria-se em si mesmo, pouco importando a expectativa dos fãs ou a recepção dos críticos. Foi sua irmã quem quis mostrar para o mundo o potencial do irmão. Levou rascunhos de “A matilha marcial” para o soberbo dono da

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gráfica local – sujeito este que viria a perder o nariz alguns dias depois. Ao ler a obra crua, o sofisticado homem teria exclamado: “magnífico!”. O que ele não sabia é que, após a publicação, os ataques sangrentos começariam. A irmã, acompanhando toda aquela situação, dizia para Andrews: – Você pode não falar com ninguém, pode não querer conversar com ninguém, pode ser vetor desta doença, mas eu não o discrimino. Sei, mais que todo mundo, que você é inteligente e pode provar sua vocação. Escreva outro livro. Um livro decente, que prenda as pessoas de tal forma que elas não consigam se afastar das folhas. Um livro diferente deste primeiro, que era bom, mas cujo teor violento não agradou aos formadores de opinião. Que sirva de estímulo a nossa situação de poucas possibilidades. Nossa família carece de recursos, você sabe. Precisamos ganhar dinheiro e estar perto da nata social. Você não pode desperdiçar este talento com cachorros raivosos! Ele não respondia. O asco que sentia dos humanos chegava à irmã com pouca intensidade. Com ela, o sentimento predominante era de pena. Dó daquela menina magra e de andar curvado que queria ser atraente e elegante como as amigas abastadas. Muitas dessas namoravam os intelectuais da cidade, porque isto – apesar do incômodo que sentiam por estarem lidando intima-

mente com aleijados – era algo, acreditavam, que lhes emprestava grande status. Andrews foi para o pátio brincar com alguns dos cachorros enquanto pensava na confecção de outro livro para prover algum acalanto às súplicas da irmã. Teria de ser um livro obediente aos ditames mercantis: quanto mais contrário aos padrões do jovem escritor viesse, mas comercializável seria. Algo que abastecesse com eterno entretenimento as mentes daquela cidade e que, com isso, fizesse dinheiro jorrar para a família. No novo arranjo os cães não poderiam ser ferozes. Deveriam ser mansos, tal como declarava o líder religioso, cuja metade do abdômen fora dilacerada por um já esperado ataque canino: “os mansos é que herdarão o Reino dos Céus!”. Decidiu que iria além: os cachorros-personagens não atuariam somente como fofos coadjuvantes, seriam o motor da mudança, agiriam como verdadeiros insignes, trajando cartolas e fraques. E foi aí que surgiram os primeiros problemas. O menino teve dificuldade para iniciar o livro por não saber exatamente quais as atribuições dos nobres e ilibados cidadãos de destaque. Qual era o papel deles na sociedade? Não curavam, pois não eram médicos. Não construíam pontes, pois não eram engenheiros. Não faziam doces, pois não eram confeiteiros. Além de afirmar que os outros estavam doentes, que seriam misantropos, que

outra utilidade eles possuíam? Andrews viu que teria de usar muita imaginação nesta nova obra. Não para inventar persuasivos cães falantes, mas para conseguir dar algum sentido à vida dos intelectuais. As pessoas souberam que Andrews estava preparando novo livro e especulavam se nesta nova versão os cães seriam dóceis, domesticáveis e obedientes. A mais feliz de todas era a irmã, que agora tinha certeza de que ficaria rica. O grupo dos intelectuais aplaudiu a idéia, pois viu que o incrível menino estava amadurecendo, aparentemente parando de se misturar com cães fétidos e, principalmente, dando mostras de que pretendia se unir à classe, deixando-a mais forte, quiçá com possibilidades de se tornar potência política. Quando os papéis de “A matilha quimérica” ficaram prontos, a irmã foi correndo levá-los para o soberbo editor sem nariz que, ao ver o material, exultou: “esplêndido!”. Teve certeza de que todos, assim como ele, leriam. Só não sabia que não parariam mais de ler. A irmã foi a primeira a ter acesso à obra pronta. Sentou-se na cadeira da sala e submergiu na admirável trama com grande atenção. Não parou mais. – Andrews, sua irmã gostou mesmo do livro! Ela acreditou em você e você provou que estava certa: está relendo “A matilha quimérica” pela quarta vez. Ele será um sucesso! Com as vendas dessa obra

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pagaremos nossas dívidas! – disse a mãe com uma felicidade incontida. Andrews não comentava. Limitava-se apenas a ir brincar com os cachorros na pracinha onde antes eram executados. O livro saiu rápido das livrarias e virou coqueluche. Todos liam e reliam. Andrews foi chamado para o meio intelectual e recebeu a medalha de nobreza. Teve seu rosto fotografado e estampado nos jornais. Mas mantinha sua introspecção, que agora era classificada como uma simples “timidez”. A misantropia do garoto, de acordo com os homens de grande cultura, fora curada. Alguns sevandijas que adulavam o pequeno escritor queriam compartilhar seu brilho, ainda que para isso precisassem abraçar a hipocrisia com desfaçatez. – Seu livro é muito bom! – disse um dos bajuladores. Andrews sabia que ele mentia porque, se de fato tivesse mesmo lido, certamente ainda o estaria fazendo. Todos os leitores permaneciam sendo isso: leitores. Liam, reliam e liam outras dezenas de vezes. Abandonaram seus trabalhos e muitos começaram a perecer de fome, pois

não largavam o exemplar nem mesmo para comer. O transporte público virou um caos com os motoristas absortos em sua leitura infinita. O mendigo não pedia mais esmolas, pois alguém lhe dera o incrível livro e ele agora se nutria de quimeras. A dançarina não se apresentava mais, maravilhada que estava com a obra de Andrews. Aposentados abandonaram os dominós e passavam os dias nos bancos da praça, sob sol ou chuva, mergulhados no “A matilha quimérica”. – Andrews, sua irmã está há dias lendo seu livro ali na sala! Ela não se alimenta e está definhando. Não fala mais com ninguém. Todos que leram, ainda estão lendo. Viraram zumbis. O que você fez com nosso povo, meu filho? – perguntava o pai, chorando. O pai de Andrews, antes pobre, ficou rico. Antes feliz, ficou triste. O que era um livro abençoado estava se tornando catastrófico. Os milhares de leitores sucumbiam. Nem mesmo operários munidos com pás e alicates conseguiam fazer os obcecados fãs soltarem as encadernações das mãos. Os poucos intelectuais que sobreviveram viram o quão perigoso era aquela literatura e fizeram

fogueira com os exemplares restantes de “A matilha quimérica”. Passaram a acusar Andrews de ter contaminado a região com sua satânica misantropia infecciosa e concluíram que a praga derradeira não eram os cachorros selvagens, mas simples folhas de papel com mágicas letras impressas. – O que está escrito nesse livro, pelo amor de Deus? – quis saber uma mulher que perdera a filha, leitora morta por carência de vitaminas, debruçada sobre a página cento e quatro, após sua ducentésima trigésima nona leitura consecutiva. Assim como os demais, esta também foi para o sepulcro agarrada às folhas. Quando lhe perguntavam coisas desse tipo, ele apontava para o livro em cuja capa havia a estampa de doces cães engravatados cumprimentando homens. “Leia-o” dizia Andrews com o olhar e saía de perto para poder conversar com seus cachorros. Ele só se comunicava com os humanos por meio de textos e, desta vez, parece que muitos não queriam mais parar de escutá-lo.

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Contos

Barbara Duffles

o grito de Joana
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O. fez um esforço tão grande para abrir os olhos. Pareciam colados, como se há muito não ousassem piscar. Puxou pela memória e não se lembrou da última cena que viu antes de sentir as pálpebras descerem seu pano preto, indicando o fim do espetáculo. O. sentia que, se quisesse, poderia abrir os olhos de novo. Mas o grito de Joana ecoou em seus ouvidos como aviso, era um grito sem nexo e gutural, mas ele o ouviu como prenúncio. Fazia tempo que aquele grito havia saído da boca de Joana, mas, O. sabia bem, vozes são eternas, repetem-se exaustivamente na cabeça de quem tapa com as mãos os ouvidos.

de um só lampejo, escancarou os olhos até quase enroscarem-se cílios e sobrancelhas. Neste exato momento entendeu o desespero de Joana; ela gritou faz tanto, mas o tempo passou e a voz dela tinha razão. Assombrado com o que viu, O. sentiu a vista turvar-se de lágrimas, até que fechou os olhos. Desta vez, por tempo indeterminado e por escolha própria: nunca mais iria enxergar, fosse o que fosse. Joana estava certa. “Mantenhaos fechados. Mantenha-se são”. Era o que dizia para O., que a obedecia cegamente, em pleonasmo.

A GUI

Henry Alfred Bugalho

Nova York
para Mãos-de-VAca
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O Guia do Viajante Inteligente

Texto originalmente publicado no blog “Não Clique”

“Não abra os olhos”, era o significado daquele grito, vindo daquela Joaninha espevitada que voejou-lhe a vida por muitos anos e agora vinha pousar-lhe no nariz. Mas O. tinha os olhos fechados há muito, tanto que nem lembrava o porquê. Ignorou o ruído joanístico e

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Contos

o admirador

Parte 2: Pesadelo?
Maristela Scheuer Deves

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A noite fora horrível, com pesadelos nos quais poemas de amor se transformavam em tétricas canções de despedida junto a túmulos recémcobertos. E ela as ouvia de dentro do túmulo, debaixo da terra. Acordou quando tentava gritar que estava viva, e a primeira coisa que percebeu foi o insistente odor das flores – o que só contribuiu para aumentar a sensação de irrealidade. “Estou ficando louca”, repetiu para si mesma. Forçou-se a sair da cama e preparou um café, embora não tivesse apetite. Decididamente, não iria trabalhar nesse dia. Há quase uma semana não o fazia, apavorada demais desde que as coroas fúnebres passaram a persegui-la também na empresa. Terminava de comer seus ovos mexidos quando percebeu o jornal do dia enfiado sob a porta. “Estranho”, pensou, lembrando que normalmente precisava buscá-lo na caixa de correspondência do andar térreo. Querendo

distrair-se, pegou o jornal e começou a folheálo, detendo-se aqui e ali para ler algo que parecia mais interessante. Sem conseguir concentrar-se na leitura, já ia fechar a publicação quando seus olhos bateram num anúncio, colorido, ao pé de uma página: a comunicação de seu próprio falecimento. O jornal só não caiu de suas mãos porque ela ficou congelada. Olhando para sua foto (tirada na noite da formatura, recordou), questionouse se não estava, ainda, sonhando. Mas o papel áspero em suas mãos não deixava dúvidas: ele estava ali, e, em destaque, o anúncio fúnebre em sua homenagem, assinado pelos “amigos que nunca a esquecerão”. Rindo histericamente, pensou nos telefones – se eles não estivessem desligados, a essa altura deveriam estar tocando sem parar, em busca da confirmação da notícia. A mãe! A sua mãe,

meu Deus!, deveria estar enlouquecida à sua procura. Correu ao telefone e recolocou-o no gancho, na intenção de discar para a casa dos pais. Antes que o fizesse, no entanto, ele tocou. Do outro lado, em vez de algum conhecido aflito por saber se estava bem, uma voz rouca, desconhecida e algo risonha: “O enterro será às 17h.” O fone foi parar no chão, com um estrondo, enquanto a cabeça começava a rodar. A página do jornal, aberta sobre a mesa, confirmava. Seria no Cemitério Municipal. Deixando-se cair ela mesma numa cadeira, ficou mais de meia hora sem conseguir pensar em nada. Por fim, forçou-se a sair daquela letargia e olhou no relógio: 9h. Faltavam oito horas, então, para o seu próprio sepultamento. Deveria ir ao cemitério? E o que fazer até lá? (continua no mês que vem...)

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Contos

Helena
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Giselle Sato e Pedro Faria

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Helena queria muito, por vingança ou prazer, provar o gosto de outra boca. Cansada demais, humilhada, uma sombra vagando pelo casarão decadente. Ela não sabia nada, casou aos dezoito com um homem com idade para ser seu pai. Seis anos se passaram e haviase tornado empregada e eventual mulher. Cheirando a desinfetante e cloro, sempre vestindo trapos e esfregando o chão encardido. Naquele dia seria diferente, esperou que o marido saísse e pegou o sabonete comprado às escondidas. Foi uma delícia usar o aparelho de barbear dele para depilar as pernas, axilas e virilha. Riu enquanto cegava a gilete, ele sempre gritava que era homem “da antiga” e não admitia plásticos. A banheira ficou cheia de pêlos e ela nem se importou. Usou um resto de colônia e sorriu para o espelho amarelado. Nada naquele lugar prestava. Do encanamento às panelas herdadas da sogra, tudo era sucata. Lixo. O carteiro chegou na hora habitu-

al e começou a enfiar os envelopes na caixinha. A mulher escancarou a porta, nua e com um sorriso provocante. Há muito trocavam olhares, o máximo de intimidade aconteceu no Natal quando timidamente, ela entregou o envelope com a gorjeta. Tocou com a ponta dos dedos as mãos finas da moça tão bonita e maltratada. Agora eram apenas os dois e aquela urgência doída. Havia o perigo de serem surpreendidos e logo estava dentro dela. Movimentando-se apressado, pretendia gozar e deixar aquele lugar o mais rápido possível. Não contava que ela fosse tão gostosa, não imaginava tanta doçura, perdeu a noção do tempo. A visão do corpo largado em cima da mesa, completamente à mercê de seus desejos era irresistível. Repetia baixinho o nome, apaixonado e beijando Helena, dentro de Helena, aspirando o perfume de Helena... Helena... Helena... Helena... *******

Ninguém gosta de traição. O vulto aproximouse da casa. Deu a volta e entrou pela garagem, que estava aberta. A traição não seria perdoada. Não mesmo. A porta da sala foi aberta. O insulto seria vingado. O machado caiu pelo menos sete vezes. O grito veio na primeira, que levou embora uma perna. A segunda levou um braço. A terceira levou a outra perna. A quarta levou o outro braço. A quinta cortou uma das coxas. A sexta levou um dos ombros. A sétima pôs o machado enterrado no abdômen. O olhar injetado da morte caiu sobre o carteiro. E em seu último suspiro, ele disse o nome dela. Agora começaria tudo novamente...

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autor Convidado

GuiSado
José Guilherme Vereza

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Beberam tanto que saíram abraçados pela madrugada. Foi Zé Barreto quem teve a idéia. - Vamos comer um guisado lá em casa. - Tá de porre, Barretinho. Não vai encontrar nem a frigideira. - Deixa que a Rosinéia cuida disso. - Rosi... o quê? - Rosinéia. De forno e fogão. Deixa comigo, Carlinhos. - E se sua mulher acordar? - Dinorá? Não acorda nem com meu ronco. Fome danada de guisado. Entraram no apartamento. Sapato na mão, pé ante pé. Um fazendo sinal de silêncio para o outro. Zé Barreto deu três toquinhos na porta do quarto de Rosinéia. - Hoje não, Seu José. Desceu as regra.

José Guilherme Vereza nasceu e se criou no Rio, mas mora em São Paulo por razões afetivas e profissionais. É publicitário de longa data, redator e escritor sempre, professor por paixão em aprender. Diretor Executivo da 11/21 Propaganda SP, é autor do livro 30 Segundos - Contos Expressos (Publit 2007), além de textos para teatro e televisão. Tem um blog (www.30segundos.blog.br), é colunista do www. bolsademulher.com.br e colaborador do www.mundomundano.com.br. Leitor voraz, cinéfilo arregalado, pensador inquieto, botafoguense incorrigível, familiólatra convicto e amigo incondicional dos amigos.

O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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tradução

Jorge Luis Borges
tradução: Henry Alfred Bugalho

a Seita de Fênix
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http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/31/L%C3%A9on_Bakst_001.jpg

Aqueles que escrevem que a seita de Fénix teve sua origem em Heliópolis e a derivam da restauração religiosa que se sucedeu à morte do reformador Amenófis IV alegam , textos de Heródoto, de Tácito e dos monumentos egípcios, mas ignoram, ou querem ignorar, que a denominação de Fénix não é anterior a Hrabano Mauro e que as fontes mais antigas (as Saturnais de Flávio Josefo, digamos) só falam da Gente do Costume, ou da Gente do Segredo. Já Gregorovius observou, nos coventículos de Ferrara, que a menção da Fénix era raríssima na linguagem oral; em Geneva, tratei com artesãos que não me compreendiam quando inquiri se eram homens da Fénix, mas que admitiram, em seguida, serem homens do Segredo. Se não me engano, o mesmo acontece com os budistas; o nome pelo qual o mundo os conhece não é o que eles pronunciam. Miklosich, numa página bastante famosa, comparou os sectários de Fénix aos ciganos. No Chile e na Hungria, há ciganos, e também há sectários;

tirando esta espécie de ubiquidade, muito pouco têm em comum uns com os outros. Os ciganos são charlatães, caldeireiros, ferreiros e adivinhadores da boa sorte; os sectários só exercem felizmente as profissões liberais. Os ciganos configuram um tipo físico e falam, ou falavam, um idioma secreto; os sectários se confundem com os demais e a prova é que não sofreram perseguições. Os ciganos são pitorescos e inspiram os maus poetas; os romances, as estampas e os boleros omitem os sectários... Martín Buber declara que os judeus são essencialmente patéticos; nem todos os sectários o são e alguns abominam o pateticismo; esta pública e notória verdade basta para refutar o erro vulgar (absurdamente defendido por Urmann) que vê em Fênix uma derivação de Israel. Conjetura-se mais ou menos assim: Urmann era um homem sensível; Urmann era judeu; Urmann frequentou os sectários na judiaria de Praga; a afinidade que Urmann sentiu prova um fato real. Sinceramente, não posso concordar com esta asserção. Que os sectários

em um meio judaico se pareçam aos judeus não prova nada; o inegável é que se parecem, como o infinito Shakespeare de Hazlitt, a todos os homens do mundo. São tudo para todos, como o Apóstolo; dias atrás, o doutor Juan Francisco Amaro, de Paysandú, ponderou sobre a facilidade com que se acriollavam. É dito que a história da seita não registra perseguições. É verdade, mas como não há grupo humano no qual não figurem os partidários da Fênix, também é certo que não há perseguição ou rigor que estes não tenham sofrido ou executado. Nas guerras ocidentais e nas remotas guerras da Ásia verteram seu sangue secularmente, sob bandeiras inimigas; de muito pouco lhes vale indentificarem-se com todas as nações do orbe. Sem um livro sagrado que os congregue como a Escritura a Israel, sem uma memória comum, sem esta outra memória que é um idioma, dispersos pela face da terra, diversos de cor e de traços, uma só coisa, o Segredo, os une e uni-los-á

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até o fim de seus dias. Certa vez, além do Segredo, houve uma lenda (ou talvez um mito cosmogônico), mas os superficiais homens da Fênix a esqueceram e hoje só guardam a obscura tradição de um castigo. De um castigo, de um pacto ou de um privilégio, porque as versões diferem e apenas deixam entrever o veredicto de um Deus que assegura a uma estirpe a eternidade, se seus homens, geração após geração, executam um rito. Comparei os informes dos viajantes, conversei com patriarcas e teólogos; posso dar fé que o cumprimento do rito é a única prática religiosa que observam os sectários. O rito constitui o Segredo. Este, como já indiquei, se transmite de geração em geração, mas o uso não requer que as mães o ensinem aos filhos, nem tampouco os sacerdotes; a iniciação ao mistério é tarefa dos indivíduos mais baixos. Um escravo, um leproso ou um pedinte se fazem de mistagogos. Também uma criança pode doutrinar outra criança. O ato, em si, é trivial, momentâneo e não requer descrição. Os materiais são a cortiça, a

cera ou a goma-arábica. (Na literatura se fala de limo; costuma-se usar este também). Não há templos dedicados especialmente à celebração deste culto, mas uma ruína, um sotão, ou um saguão são considerados lugares apropriados. O Segredo é sagrado, mas não deixa de ser um pouco ridículo; seu exercício é furtivo e ainda clandestino, e os adeptos não falam dele. Não há palavras decentes para nomeá-lo, mas se entende que todas as palavras o nomeiam, ou, melhor dizendo, que inevitavelmente o aludem, e assim, no diálogo, eu havia dito uma coisa qualquer e os adeptos sorriram, ou se incomodaram, porque sentiram que eu havia tocado o Segredo. Nas literaturas germânicas, há poemas escritos por sectários, cujo sujeito nominal é o mar ou o crepúsculo da noite; são, de algum modo, símbolos do Segredo, ouço repetir. Orbis terrarum est speculum Ludi reza um adágio apócrifo que Du Cange registrou em seu Glossário. Uma sorte de horror sagrado impede a alguns fiéis a execução do simplíssimo rito; os outros os desprezam, mas eles

se desprezam ainda mais. Gozam de muito crédito, em troca, aqueles que deliberadamente renunciam ao Costume e logram um comércio direto com a divindade; estes, para manifestarem este comércio, fazem-no com figuras da liturgia e assim John of the Rood escreveu: Saibam os Nove Firmamentos que o Deus É deleitável como a Cortiça e o Limo. Mereci em três continentes a amizade de muitos devotos da Fénix; consta-me que o Segredo, a princípio, lhes pareceu frívolo, penoso, vulgar e (o que é ainda mais estranho) incrível. Não se conformavam em admitir que seus pais houvessem se rebaixado a tais práticas. O raro é que o Segredo não se tenha perdido há tempo; a despeito das vicissitudes do orbe, a despeito das guerras e dos êxodos, chega, tremendamente, a todos os fiéis. Alguém não vacilou em afirmar que já é instintivo.

fonte: http:// books.google.com/ books?id=7vUfapNfESkC

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Jorge Luis Borges

"Não criei personagens. Tudo o que escrevo é autobiográfico. Porém, não expresso minhas emoções diretamente, mas por meio de fábulas e símbolos. Nunca fiz confissões. Mas cada página que escrevi teve origem em minha emoção". O escritor Jorge Luis Borges nasceu na capital argentina, Buenos Aires. Bilíngüe desde a sua infância, aprendeu a ler em inglês antes que em castelhano, por influência de sua avó materna de origem inglesa. Aos seis anos disse a seu pai que queria ser escritor e aos sete escreveu, em inglês, um resumo de literatura grega. Aos oito, inspirado num episódio de "Dom Quixote" de Cervantes, fez seu primeiro conto: "La Visera Fatal". Aos nove anos, traduziu do inglês "O Príncipe Feliz" de Oscar Wilde. Em 1914, devido à quase cegueira total, seu pai decide passar uma temporada com a família na Europa. Em Genebra, Jorge escreveu alguns poemas em francês enquanto estudava o bacharelado (1914-1918). Sua primeira publicação registrada foi uma resenha de três livros espanhóis para um jornal de Genebra. Em 1919, mudou-se para a Espanha e publicou poemas e manifestos na imprensa. Em 1921, retornou a Buenos Aires e redescobriu sua cidade natal, na efervescência dos anos 20. Nesse clima escreveu seu primeiro livro de poemas, "Fervor em Buenos Aires", publicado em 1923. A partir de 1924, publicou algumas revistas literárias e, com mais dois livros, "Luna de Enfrente" (poesia) e "Inquisiciones" (ensaios), ganhou em 1925 a reputação de chefe da jovem vanguarda de seu país. Nos anos seguintes, ele se transformou num dos mais

brilhantes e polêmicos escritores da América Latina. Inventando um novo tipo de regionalismo, acrescentou uma perspectiva metafísica da realidade, mesmo em temas como o subúrbio portenho ou o tango. Nesta fase escreveu "Cuaderno San Martin" e "Evaristo Carriego". Mas logo se cansou desses temas e começou a especular sobre a narrativa fantástica, a ponto de produzir durante duas décadas, de 1930 a 1950, algumas das mais extraordinárias ficções do século, nos contos de "Historia Universal de la infâmia" (1935); "Ficciones" (1935-1944) e "El Aleph" (1949), entre outras. Em 1937, Borges foi nomeado diretor da Biblioteca Pública Nacional, o que foi seu primeiro e único emprego oficial. Saiu nove anos depois, indignado com a inclinação fascista que estava tomando a Argentina. No que se refere ao amor, o caso mais quente do escritor argentino foi com Estela Canto, que depois lançou o livro de memórias "Borges a Contraluz". Ele conta em sua biografia que a pediu em casamento. Moderna e liberada para a época, Estela respondeu: "Eu aceitaria, Georgie, mas não podemos casar sem antes dormir juntos". Borges ficou assustado e desapareceu. Aos 50 anos, o escritor já havia perdido parcialmente a visão. Com o passar dos anos, quando a cegueira se fez completa, sua mãe, Leonor, passou a cuidar dele, lendo e escrevendo o que ditava. O reconhecimento literário de Borges se solidificou em 1961 com a conquista do prêmio concedido pelo Congresso Internacional de Editores, que dividiu com Samuel Beckett. Logo receberia também prêmios e títulos por parte dos governos da Itália, França, Inglaterra e Espanha.

Em 1967, Borges casou-se com uma amiga de infância, Elsa Astete. O casamento durou três anos e acabou com Borges fugindo de casa, sem coragem para discutir a separação. Sua mãe, Leonor, morreu em 1975. Seu segundo casamento foi com a sua ex-aluna Maria Kodama que se tornou sua secretária particular em 1981. Kodama era de origem japonesa e tornou-se a herdeira de seus direitos autorais. Em 1983, Borges publicou no diário "La Nación" de Buenos Aires o relato "Agosto 25, 1983", em que profetizava seu suicídio. Perguntado depois porque não havia se suicidado na data anunciada, respondeu: "Por covardia". Borges afirmava freqüentemente o seu ateísmo e falava da solidão como uma espécie de segunda companheira. fonte: http://educacao.uol.com.br/ biografias/ult1789u221.jhtm

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olhos de Cã

tradução

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ão azul
Gabriel García Márquez
tradução: Henry Alfred Bugalho

Então, fitou-me. Acredito que me olhava pela primeira vez. Mas logo, quando deu a volta por detrás da luminária e eu continuei sentindo por sobre o ombro, às minhas costas, seu olhar esquivo e oleoso, compreendi que era eu quem a olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei o fumo áspero e forte, antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas posteriores. Depois disto, vi-a ali, como se houvesse estado todas as noites, parada junto à luminária, olhando-me. Durante breves minutos fizemos nada mais do que isto: Olhamonos. Eu a olhava desde a cadeira, equilibrando em uma das pernas posteriores. Ela, de pé, com mão grande e quieta sobre a luminária, olhando-me. Via-lhe as pálpebras iluminadas como todas as noites. Foi então que recordei o de sempre, quando lhe disse: “Olhos de cão azul”. Ela me disse, sem retirar a mão da luminária: “Isso. Já não o esqueceremos nunca”. Saiu de órbita, suspirando: “Olhos de cão azul. Escrevi isto por toda a parte”. Eu a vi caminhar até o toucador. Vi-a aparecer na lua circular do espelho, olhando-me agora ao final de uma matemática ida e volta da luz. Vi-a prosseguir fitando-me com seus grandes olhos de cinza incandescente: olhando-me enquanto abria a caixinha laminada de nácar rosado. Vi-a empoar o nariz. Quando terminou de fazê-lo, fechou a caixinha e voltou a se pôr de pé e caminhou novamente até a luminária, dizendo: “Temo que alguém sonhe com esta casa e mexa em minhas coisas”; e estendeu sobre o lume a mesma

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mão grande e trêmula que ficara aquecendo antes de sentar-se ao espelho. E disse: “Você não sente frio”. E eu lhe disse: “Às vezes”. E ela me disse: “Deve senti-lo agora”. E então compreendi porque não havia conseguido ficar sozinho na cadeira. Era o frio que me dava certeza de minha solidão. “Agora sinto”, eu disse. “E é incomum, porque a noite está quieta. Talvez me tenha enrolado o lençol”. Ela não respondeu. Começou outra vez a se mover até o espelho e rodopiei em direção a ela. Sem vê-la, sabia o que estava fazendo. Sabia que estava outra vez sentada diante do espelho, vendo minhas costas que haviam tido tempo para chegar ao fundo do espelho e ser encontradas pelo olhar dela que também havia tido o tempo exato para chegar ao fundo e regressar (antes que a mão tivesse tempo de iniciar a segunda volta) até os lábios que estavam agora untados de carmim, desde a primeira volta da mão diante do espelho. Eu via, à minha frente, a parede lisa que era como outro espelho cego de onde eu não a via — sentada às minhas costas — mas imaginando-a onde estaria se em lugar da parede houvesse sido posto um espelho. “Te vejo”, eu lhe disse. E vi na parede como se ela houvesse erguido os olhos e houvesse me visto de costas na cadeira, ao fundo do espelho, com a cara voltada para a parede. Depois, eu a vi baixar as pálpebras, outra vez, e ficar com os olhos quietos em seu corpete; sem falar. E voltei a dizer-lhe: “Te vejo”. E ela voltou a erguer os olhos desde seu corpete. “É impossível”, disse. Eu perguntei por quê. E ela, com os olhos outra vez

quietos no corpete: “Porque está com a cara voltada para a parede”. Então, fiz girar a cadeira. Tinha o cigarro apertado na boca. Quando parei diante do espelho, ela estava outra vez perto da luminária. Agora tinha as mãos abertas sobre o lume, como duas asas abertas de galinha, assando-se e com o rosto sombreado por seus próprios dedos. “Acho que vou ficar resfriada”, disse. “Esta deve ser uma cidade gelada”. Voltou o rosto de perfil e sua pele de cobre a vermelho se tornou repentinamente triste. “Faça algo contra isto”, disse. E ela começou a se despir, peça por peça, começando por cima; pelo corpete. Eu lhe disse: “Vou me virar para a parede”. Ela disse: “Não. De qualquer modo, me verá como me viu quando estava de costas”. E não havia acabado de falar quando já estava desnuda quase por inteiro, com o lume lambendo-lhe a comprida pele de cobre. “Sempre quis vê-la assim, com o couro da barriga cheio de profundos furos, como se lhe houvessem sido feitos a pauladas”. E antes que eu me desse conta que minhas palavras se haviam tornado torpes diante de sua nudez, ela ficou imóvel, aquecendo-se na órbita da luminária e disse: “Às vezes, acredito que sou metálica”. Guardou silêncio por um instante. A posição das mãos sobre o lume variou levemente. Eu disse: “Às vezes, em outros sonhos, acreditei que você não era senão uma estatueta de bronze no canto de algum museu. Talvez por isto você sinta frio”. E ela disse: “Às vezes, quando adormeço sobre o coração, sinto que o corpo se torna oco e a pele como uma lâmina.

Então, quando o sangue me golpeia por dentro, é como se alguém estivesse me chamando com os nós dos dedos no ventre e sinto meu próprio som de cobre na cama. É como se fosse como você disse: de metal laminado”. Aproximou-se mais da luminária. “Eu gostaria de ouvi-la”, disse. E ela disse: “Se alguma vez nos encontrarmos, ponha o ouvido nas minhas costelas, quando eu estiver dormindo sobre o lado esquerdo, e me ouvirá ressonar. Sempre desejei que o faça alguma vez”. Ouvi-a respirar fundo, enquanto falava. E disse que durante anos não havia feito nada diferente disto. Sua vida era dedicada a me encontrar na realidade, através desta frase identificadora: “Olhos de cão azul”. E, pela rua ia dizendo, em voz alta, que era uma maneira de dizê-lo à única pessoa que poderia entender: “Eu sou aquela que chega em seus sonhos todas as noites e lhe digo isto: Olhos de cão azul”. E disse que ia aos restaurantes e dizia aos empregados, antes de ordenar o pedido: “Olhos de cão azul”. Mas os empregados lhe faziam uma respeitosa reverência, sem que houvessem se lembrado nunca terem dito isto em seus sonhos. Depois escrevia nos guardanapos e inscrevia com a faca no verniz das mesas: “Olhos de cão azul”. E nos vidros embaçados dos hotéis, das estações, de todos os edifícios públicos, escrevia com o indicador: “Olhos de cão azul”. Disse que uma vez chegou a uma farmácia e identificou o mesmo cheiro que havia sentido em sua casa, uma noite, depois de ter sonhado comigo. “Deve estar perto”, pensou, vendo o piso limpo

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e novo da farmácia. Então, aproximou-se do atendente e lhe disse: “Sempre sonho com um homem que me diz: ‘Olhos de cão azul’”. E disse que o vendedor a havia fitado e lhe disse: “Na realidade, senhorita, você tem os olhos assim”. E ela lhe disse: “Preciso encontrar o homem que me disse em sonhos a mesma coisa”. E o vendedor começou a rir e foi para o outro lado do balcão. Ela continuou vendo o piso limpo e sentindo o cheiro. E abriu a bolsa, e se ajoelhou, e escreveu no piso, em grandes letras vermelhas, com o batom: “Olhos de cão azul”. O vendedor voltou de onde estava. Disse-lhe: “Senhorita, você sujou o piso”. Entregou-lhe um pano úmido, dizendo: “Limpe-o”. E ela disse, ainda perto da luminária, que passou toda a tarde ajoelhada, lavando o piso e dizendo “Olhos de cão azul” até quando as pessoas se reuniram à porta e disseram que estava louca. Agora, quando acabou de falar, eu continuava no canto, sentado, equilibrando-me na cadeira. “Eu tento me lembrar todos os dias da frase com que devo encontrá-lo”, disse. “Agora acredito que amanhã não a esquecerei. No entanto, sempre digo o mesmo e sempre me esqueço ao despertar quais são as palavras com que posso encontrá-la”. E ela disse: “Você mesmo as inventou desde o primeiro dia”. E eu lhe disse: “Inventei-as porque vi seus olhos cinzentos. Mas nuncas me lembro delas na manhã seguinte”. E ela, com os punhos fechados sobre a luminária, respirou fundo: “Se pelo menos pudesse me lembrar agora em que cidade estive escrevendo”. Seus dentes apertados

reluziram sobre o lume. “Eu gostaria de tocá-lo agora”, disse. Ela levantou o rosto que havia estado fitando o lume: levantou o olhar ardente, assando-se assim como ela, com suas mãos; e eu senti que me viu, no canto, onde continuava sentado, mexendo-me na cadeira. “Nunca havia me dito isto”, disse. “Agora digo, e é verdade”, disse. Do outro lado da luminária, ela pediu um cigarro. A bituca havia desaparecido de meus dedos. Havia me esquecido que estava fumando. Disse: “Não sei porque não consigo me lembrar por onde escrevi”. E eu lhe disse: “Pela mesma razão que não poderei me lembrar, amanhã, das palavras”. E ela disse, triste: “Não. É que, às vezes, acredito que a isto também sonhei”. Pus-me de pé e caminhei até a luminária. Ela estava um pouco mais para lá, e eu sabia que, caminhando com os cigarros e os fóforos na mão, não passaria da luminária. Estendilhe o cigarro. Ela o apertou entre os lábios e se inclinou para alcançar a chama, antes que eu tivesse o tempo para acender o fósforo: “Em alguma cidade do mundo, em todas as paredes, têm de estar escritas estas palavras: ‘Olhos de cão azul’”, disse. “Se amanhã me lembrasse delas, iria buscá-lo”. Ela levantou outra vez a cabeça e já tinha a brasa acesa nos lábios. “Olhos de cão azul”, sugeriu, lembrando-se, com o cigarro caído sobre o queixo e um olho meio fechado. Aspirou depois o fumo, com o cigarro entre os dedos, e exclamou: “Isto já é outra coisa. Estou ficando com calor”. E o disse com a voz um pouco débil e fugaz, como se não o houvesse dito de fato, mas sim

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como se o houvesse escrito num papel e houvesse aproximado o papel do lume enquanto o lia: “Estou ficando”, e ela houvesse ficado com o papelzinho entre o polegar e o índice, virando, enquanto se consumia e eu acabava de ler: “...com calor", antes que o papelzinho se consumisse por completo e caísse ao chão enrugado, diminuído, convertido em insignificante pó de cinza: “Assim é melhor”, disse. “Às vezes, tenho medo de vê-la assim. Tremendo junto à luminária”. Víamo-nos há vários anos. Às vezes, quando já estávamos juntos, alguém deixava cair lá fora uma colher e despertávamos. Pouco a pouco, fomos compreendendo que nossa amizade estava subordinada às coisas, aos acontecimentos mais simples. Nossos encontros terminavam sempre assim, com o cair de uma colher na madrugada. Agora, junto à luminária, fitava-me. Eu me lembrava que antes também havia me fitado assim, desde aquele remoto sonho no qual girei a cadeira sobre suas pernas posteriores e parei diante de uma desconhecida de olhos cinzentos. Foi neste sonho que lhe perguntei pela primeira vez: “Quem é você?” E ela me disse: “Não me lembro”. Eu lhe disse: “Mas acredito que nos vimos antes”. E ela disse, indiferente: “Acredito que alguma vez sonhei com você, com este mesmo quarto”. E eu lhe disse: “É isso. Já começo a me lembrar”. E ela disse: “Que curioso. É certo que nos encontramos em outros sonhos”. Deu duas tragadas no cigarro. Eu ainda estava parado diante da luminária, quando

fiquei olhando-a subitamente. Olhei-a de cima a baixo e ainda era de cobre; mas não mais de metal duro e frio, mas de cobre amarelo, brando, maleável. “Gostaria de tocá-la”, voltei a dizer. E ela disse: “Poria tudo a perder”. Eu disse: “Agora não importa. Bastará que viremos o travesseiro para que voltemos a nos encontrar”. E estendi a mão por cima da luminária. Ela não se moveu. “Poria tudo a perder”, voltou a dizer, antes que eu pudesse tocá-la. “Talvez, se você der a volta por detrás da luminária, despertaríamos sobressaltados, quem sabe em qual parte do mundo”. Mas eu insisti: “Não importa”. E ela disse: “Se virássemos o travesseiro, voltaríamos a nos encontrar. Mas você, quando despertar, terá esquecido”. Comecei a me mover até o canto. Ela ficou atrás, aquecendo as mãos sobre o lume. E eu ainda não estava perto da cadeira quando ouvi-a dizer, às minhas costas: “Quando acordo à meia-noite, fico rodando na cama, com os fios do travesseiro queimando-me o joelho e repetindo até o amanhecer: ‘Olhos de cão azul’”. Então parei com a cara contra a parede. “Já está amanhecendo”, disse, sem fitá-la. “Quando deram as duas, eu estava acordado, e isto faz muito tempo”. Eu me dirigi até a porta. Quando tinha pegado a maçaneta, ouvi outra vez sua voz igual, invariável: “Não abra esta porta”, disse. “O corredor está cheio de sonhos difíceis”. E eu lhe disse: “Como você sabe?” E ela me disse: “Porque há um momento estive ali e tive que retornar quando descobri que estava adormecida sobre o coração”. Eu tinha a porta entreaberta. Movi um

pouco a porta e um arzinho frio e tênue me trouxe um cheiro fresco de terra vegetal, de campo úmido. Ela falou outra vez. Eu dei a volta, movendo ainda a porta montada em dobradiças silenciosas, e lhe disse: “Acredito que não há corredor algum aqui fora. Sinto o cheiro do campo”. E ela, um pouco distante já, disse-me: “Conheço isto mais do que você. O que acontece é que lá fora há uma mulher sonhando com o campo”. Cruzou os braços sobre o lume. Continuou falando: “É essa mulher que sempre desejou ter uma casa no campo e nunca pôde sair da cidade”. Eu me lembrava ter visto a mulher em algum sonho anterior, mas sabia, já com a porta entreaberta, que dentro de meia hora tinha de descer para o café-da-manhã. E disse: “De toda maneira, tenho que sair daqui para acordar”. Fora, o vento soprou por um instante, depois ficou quieto e se ouviu a respiração de um dormente que acabava de dar a volta na cama. O vento do campo cessou. Já não havia mais cheiros. “Amanhã, eu a reconhecerei por isto” disse. “Eu a reconhecerei-a quando vir na rua uma mulher que escreve nas paredes: ‘Olhos de cão azul’”. E ela, com um sorriso triste — que era um sorriso de entrega ao impossível, ao inalcançável —, disse: “No entanto, não se lembrará de nada durante o dia”. E voltou a pôr as mãos sobre a luminária, com o semblante obscurecido por uma névoa amarga: “É o único homem que, ao despertar, não se lembra de nada do que sonhou”. 1950
fonte: http://www.lajiribilla.co.cu/2007/ n306_03/elcuento.html

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Gabriel José García Márquez nasceu em Aracataca (Colômbia), e foi criado na casa de seus avós maternos, que iriam influenciar o futuro literato com as histórias que contavam. O avô, coronel Nicolas Márquez, veterano da guerra civil colombiana (18991902), narrava-lhe suas aventuras militares, e a avó, Tranquilina Iguarán, relatava fábulas e lendas que transmitiam sua visão mágica e supersticiosa da realidade. García Márquez, ou simplesmente Gabo, completou os primeiros estudos em Barranquilla e Zipaquirá, onde teve um professor de literatura, Carlos Julia Calderón Hermida, que desempenhou papel marcante em sua decisão de se tornar um escritor e a quem dedicaria seu romance “O Enterro do Diabo” (1955). Por insistência dos pais, Márquez chegou a iniciar o curso de direito na Universidade Nacional, em Bogotá, mas logo enveredou para o jornalismo, assumindo uma coluna diária no recém-fundado jornal “El Universal”. Nunca se graduou. Nessa época, final da década de 1940, publicou seus primeiros contos, “La Tercera Resignación” e “Eva Está Dentro de su Gato”. Consagrou-se na carreira jornalística ao ingressar na redação de “El Espectador”, onde se tornou o primeiro crítico de cinema do jornalismo colombiano e depois um brilhante cronista e repórter, que exerceu influência na vida cultural do país. Em 1955, viajou para a Europa como correspondente do jornal, após a publicação de uma extensa reportagem, “Relato de um Náufrago”, que desagradou ao governo do general Roja Pinillas. No final dos anos 50, de volta às Américas, trabalhou em Caracas (Venezuela), em Cuba, onde passou seis meses, e em Nova York, dirigindo a agência de notícias

cubana Prensa Latina. Em 1960, García Márquez mudou-se para a Cidade do México e começou a escrever roteiros para cinema. No ano seguinte, publicou “Ninguém Escreve ao Coronel” e, em 1962, “O Veneno da Madrugada”, que ganhou o Prêmio Esso de Romance, na Colômbia. Em 1966, segundo depoimento do escritor mexicano Carlos Fuentes, quando voltava do balneário de Acapulco para a Cidade do México, García Márquez teve o momento de inspiração para escrever o romance que ruminava há mais de uma década. Largou o emprego, deixando o sustento da casa e dos dois filhos a cargo da mulher, Mercedes Barcha. Isolou-se pelos 18 meses seguintes, trabalhando diariamente por mais de oito horas. No ano seguinte, publicou aquele que seria sua obra mais conhecida, “Cem Anos de Solidão” (1967) - unanimemente uma obraprima da literatura em língua espanhola. Com o sucesso, mudou-se para Barcelona, Espanha, onde permaneceu até 1975, passando temporadas em Bogotá, México, Cartagena (Colômbia) e Havana. Em 1981, voltou para a Colômbia. Acusado pelo governo de colaborar com a guerrilha, exilou-se no México. Nesse período, publicou novos romances, livros de contos e antologias de sua produção jornalística e de ficção. Em 1982, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Segundo se soube posteriormente, a premiação foi disputada com o escritor inglês Graham Greene e o alemão Günther Grass. Diante da Academia Sueca e de quatrocentos convidados, pronunciou o discurso “A Solidão da América Latina”, questionando os estereótipos com que os latino-americanos eram vistos na Europa e a falta de atenção dos

países ricos ao continente. O escritor retornou ao jornalismo em 1999, quando passou a dirigir a revista “Cambio”. Em 2002, publicou “Viver Para Contá-la”, primeiro volume de sua autobiografia. Entre outras obras de destaque, García Márquez é o autor de “Crônica de uma Morte Anunciada” (1981), “O Amor nos Tempos do Cólera” (1985), “O General em Seu Labirinto” (1989) e “Notícias de um Seqüestro” (1996). O último romance que publicou, em 2004, intitulase “Memórias de Minhas Putas Tristes”. Alguns de seus textos foram adaptados para o cinema, como “Eréndira”, de 1983, estrelado por Cláudia Ohana e dirigido por Ruy Guerra, e “O Amor nos Tempos do Cólera”, de 2007, dirigido pelo inglês Mike Newell, e com a participação de Fernanda Montenegro. Fontes: Banco de Dados/Folha de S. Paulo e edição comemorativa dos 40 anos de “Cien Años de Soledad”, Madrid, 2007, Real Academia Española - via: http:// educacao.uol.com.br/biografias/ ult1789u87.jhtm

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tradução

Cronópios e Famas
Julio Cortázar
tradução: Henry Alfred Bugalho

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instruções para chorar
Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um pranto que não ingresse no escândalo, nem que insulte o sorriso com sua comparação e torpe semelhança. O pranto médio ou ordinário consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e ranhos, estes últimos ao final, pois o pranto acaba no momento em que alguém se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto lhe resulta impossível por haver contraído o hábito de acreditar no mundo exterior, pense em um pato coberto de formigas ou nestes golfos do estreito de Magalhães nos quais ninguém entra, nunca. Chegado o pranto, tapará com decoro o rosto usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão com a manga da blusa contra o rosto, e de preferência num canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.

instruções-exemplos sobre a forma de ter medo
Em um povoado da Escócia vendem-se livros com uma página em branco perdida em algum lugar do volume. Se um leitor desemboca nesta página ao dar três horas da tarde, morre. Na praça de Quirinal, em Roma, há um ponto que conheciam os iniciados até o século XIX, e a partir do qual, com a lua cheia, se vê moverem-se lentamente as estátuas dos Dióscuros que lutam com seus cavalos empinados. Em Amalfí, ao terminar a zona costeira, há um molhe que adentra o mar e a noite. Ouve-se ladrar um cão para mais além do último farol. Um senhor está espalhando pasta de dentes na escova. De súbito, vê, deitada de costas, uma diminuta imagem de mulher, de coral ou talvez de miolo de pão pintado. Ao abrir o guarda-roupa para apanhar uma camisa, cai um velho almanaque que se desfaz, desfolha-se, cobre a roupa branca com milhares de sujas mariposas de papel. Sabe-se de um caixeiro-viajante a quem começou a doer o pulso esquerdo, justamente debaixo do relógio de pulso. Ao arrancar-se o relógio, jorrou sangue: a ferida mostrava a marca de uns dentes muito finos. O médico termina de nos examinar e nos tranquiliza. Sua voz grave e cordial precede os medicamentos, cuja receita agora escreve, sentado à sua mesa. De quando em quando, ergue a cabeça e sorri, consolando-nos. Não é de se preocupar, em uma semana estaremos bem. Ajeitamo-nos em nosso assento, felizes, e olhamos distraidamente ao redor. De súbito, na penumbra debaixo da mesa, vemos as pernas do médico. Havia erguido as calças até as coxas, e veste meias de mulher.

Textos extraídos da obra “Historias de Cronopios y Famas” de 1962. fonte: http://www4.loscuentos.net/cuentos/other/1/3/

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Julio Cortázar
(Bruxelas, 1914 - Paris, 1984) Escritor argentino. Nascido em Bruxelas, filho de pais argentinos, aos quatro anos, Julio Cortázar se mudou com eles para a Argentina, para morar na província andina de Mendoza. Depois de completar seus estudos primários, cursou magistério e letras e durante cinco anos foi professor rural. Posteriormente, foi para Buenos Aires e, em 1951, viajou a Paris com uma bolsa. Ao término dela, seu trabalho como tradutor da Unesco lhe permitiu permanecer definitivamente na capital francesa. Nesta época, Julio Cortázar já havia publicado em Buenos Aires o livro de poemas “Presencia” com o pseudônimo de Julio Denis, o poema dramático “Los reyes” e a primeira de suas narrativas breves, “Bestiário”, nas quais admite a profunda influência de Jorge Luis Borges. A literatura de Cortázar parte do questionamento essencial, aproximando-se de reflexões existencialistas, em obras de marcado caráter experimental, que o tornam um dos maiores inovadores da língua e da narrativa em língua castelhana. Como em Borges, suas narrativas mergulham no fantástico, mesmo sem abandonar de todo a referência à realidade cotidiana, fato que faz com que suas obras sempre tenham uma dívida em aberto com o surrealismo. Para Cortázar, a realidade imediata significa uma via de acesso a outros registros do real, onde a plenitude da vida alcança

múltiplas formulações. É assim que sua narrativa constitui um questionamento permanente da razão e dos esquemas convencionais de pensamento. O instinto, o azar, o gozo dos sentidos, o humor e o jogo terminam por se identificar com a escrita, que é, por sua vez, a formulação do existir no mundo. As rupturas de ordem cronológica e especial tiram o leitor de seu ponto de vista convencional, propondo-lhe diferentes possibilidades de participação, de modo que o ato de leitura é convocado a completar o universo narrativo. Tais propostas alcançaram suas mais perfeitas expressões nos romances, especialmente em “Jogo da Amarelinha”, considerada uma das obras fundamentais da literatura em castelhano, e em seus contos, entre eles “Casa tomada” e “A baba do diabo”, ambos adaptados ao cinema, e “O perseguidor”, cujo protagonista evoca a figura do saxofonista negro Charlie Parker. Rapidamente, Julio Cortázar se converteu numa das principais figuras do chamado “Boom” da literatura hispano-americana e desfrutou de reconhecimento internacional. À sua sensibilidade artística somou-se sua preocupação social: identificou-se com os povos marginalizados e esteve muito próximo dos movimentos de esquerda. Neste sentido, a viagem a Cuba, em 1962, significou uma experiência decisiva em sua vida. Graças a sua conscientização política e social, em 1970 se deslocou ao Chile para assistir

à cerimônia de posse presidencial de Salvador Allende e, mais tarde, foi a Nicarágua para apoiar o movimento sandinista. Como personagem público, interveio com firmeza em defesa dos direitos humanos e foi um dos promotores e membros mais ativos do Tribunal Russell. Como parte deste compromisso, escreveu inúmeros artigos e livros, entre eles “Dossiê Chile: O livro negro”, sobre os excessos do regime do general Pinochet, e “Nicarágua, tão violentamente doce”, testemunho da luta sandinista contra a ditadura de Somoza, no qual está o conto “Apocalipse em Solentiname” e o poema “Notícia aos viajantes”. Três anos antes de morrer, adotou a nacionalidade francesa, mas sem renunciar a argentina.

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tradução

Eduardo Galeano
tradução: Henry Alfred Bugalho

a Criação
A mulher e o homem sonhavam que Deus os estava sonhando. Deus os sonhava, enquanto cantava e agitava suas maracas, envolto em fumo de tabaco, e se sentia feliz e também estremecido pela dúvida e pelo mistério. Os índios makiritare sabem que, se Deus sonha com comida, frutifica e dá de comer. Se Deus sonha com a vida, nasce e dá nascimento. A mulher e o homem sonhavam que no sonho de Deus aparecia um grande ovo brilhante. Dentro do ovo, eles cantavam e bailavam e armavam muito alvoroço, porque estavam loucos de vontade de nascer. Sonhavam que no sonho de Deus a alegria era mais forte que a dúvida e o mistério; e Deus, sonhando, os criava, e cantando dizia: — Rompo este ovo e nasce a mulher e nasce o homem. E juntos viverão e morrerão. Mas nascerão novamente. Nascerão e voltarão a morrer e outra vez nascerão. E nunca mais deixarão de nascer, porque a morte é mentira. Fonte: Eduardo Galeano, Memoria del fuego I. Los nacimientos, Casa de las Américas, La Habana, 1988. Eduardo Galeano, Memoria del fuego II. Las caras y las máscaras, Casa de las Américas, La Habana, 1990. Eduardo Galeano, Memoria del fuego III. El siglo del viento, Quinta edición, Siglo Veintiuno Editores, México, 1987. fonte: http://www.patriagrande.net/uruguay/eduardo.galeano/memoria.del. fuego/index.html

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Eduardo Hughes Galeano (Montevidéu, 3 de setembro de 1940) é um jornalista e escritor uruguaio. Suas obras já foram traduzidas em diversas línguas. Costuma escrever seus livros no formato de pequenas histórias que contempla desde assuntos políticos relevantes na história da América Latina até assuntos simples, como o cotidiano e o futebol. Galeano é comparado a John Dos Passos e Gabriel García Márquez. Uma de suas obras de maior relevância política e importância é “As Veias Abertas da América Latina”, livro em que relata o que considera a exploração sofrida pelas nações latino-americanas, desde a formação dos impérios hispânico e português, passando por uma influência inglesa e estadunidense, por meio de um arrocho imposto pela economia internacional (Divisão Internacional do Trabalho), até os dias de hoje.

Apesar da clara inspiração e relevância histórica da obra, o próprio escritor nega ser um historiador. Seu último livro, “Espelhos”, também é baseado em fatos históricos, expondo-os de maneira

diferente do usual, tal qual feito em “As Veias Abertas da América Latina”. Eduardo Galeano, foi agraciado com o título de primeiro cidadão ilustre do Mercosul.

O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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teoria Literária

rEaLiSmo mÁGiCo

a realidade à mercê da Literatura
Henry Alfred Bugalho

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A Revolução Cubana, em 1959, inseriu a América Latina no panorama global. No quintal de sua casa, os EUA assistiram à instalação de um regime comunista, que representaria uma potencial porta de entrada da URSS no país. Na intrincada dinâmica da Guerra Fria, Cuba se tornou uma importante peça no jogo, mas, além dos aspectos geopolíticos, fez com que os olhos do mundo se voltassem para a cultura latino-americana. Como sempre, os ianques precisavam conhecer seus inimigos para derrotá-los. Podemos considerar este evento como o início do Boom da literatura latinoamericana, quando autores como Cortázar, Garcia Marquez, Vargas Llosa, Carlos Fuentes e Alejo Carpentier despontaram no cenário literário internacional e se tornaram as estrelas da vez.
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o mágico na Literatura
O aspecto extraordinário e fantástico sempre esteve presente na Literatura. Desde a relação íntima entre deuses e homens de Homero, onde as divindades interferiam na vida mundana, participavam ativamente dos eventos, o sobrenatural e o inexplicável foram incorporados pela Literatura e utilizados para expressar uma verdade maior. A realidade, tal qual, fornecia os elementos básicos da narrativa literária, posto

Para compreendermos este fenômeno, e também sua vertente mais marcante — o chamado “realismo mágico”, ou “fantástico” —, devemos, antes de tudo, dividir estes dois termos, “realismo” e “mágico”, encontrarmos suas origens e correlacioná-los ao uso feito pela literatura latinoamericana.

que os autores eram pessoas como outras quaisquer e buscavam em suas épocas e no comportamento de seus contemporâneos a inspiração, no entanto, a verdade pertencia a um plano superior, algo próximo a um platonismo literário, no qual a verdade sempre estaria para além do que os olhos enxergavam — o Livro do Mundo sempre nos remetia ao Livro do Universo, o microcosmo como manifestação do macrocosmo. Fosse no contexto clássico, com o panteão grego ou

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Ernesto “Che” Guevara e Fidel Castro, dois líderes da Revolução Cubana: o evento histórico que atraiu a atenção mundial para a América Latina e que tornou Cuba um modelo ideológico para os países subdesenvolvidos; associado ao início do Boom latino-americano.

romano, fosse no contexto cristão, com uma divindade todo-poderosa, a tradição literária expressou, em vários momentos, suas mensagens através do fantástico: Dante desceu aos infernos, conduzido pelo poeta romano Virgílio, para se encontrar com sua Beatrice; as lendas do ciclo arturiano apresentaram cavaleiros em busca do mítico Santo Graal; em Rabelais, os gigantes Gargântua e Pantagruel atravessavam a França, guerreando e festejando, e partiram em busca de Théleme, uma abadia fictícia onde poderiam encontrar a verdade; Fausto entregou a alma a Mefistófeles em troca da sabedoria. De fato, o fantástico não permeava apenas as obras ficcionais, mas também narrativas que se pretendiam verídicas. Em Heródoto, o extraordinário estava presente todo o tempo, mesclado a eventos históricos, e a própria Bíblia propaga tradições orais calcadas no fantástico, tais como os milagres e ressurreição de Jesus. E esta predominância do mágico não era um problema para autores e leitores, até o Racionalismo entrar em cena e, como afirmou Descartes, daquele ponto em diante só se poderia confiar no “certo e indubitável”, e não mais em meras fantasias (Meditações Metafísicas, 1641).

o realismo na Literatura
É impossível de se determinar o momento exato em que a razão passou a ter a primazia. No entanto, é evidente que entre o final do século XV e o começo do século XVIII, houve profundas transformações nos saberes, na cultura e na política da civilização ocidental. As grandes navegações significaram uma mudança nos planos político e econômico, enquanto que nos campos especulativos, as reflexões de René Descartes, as descobertas de Copérnico, Galileu e Newton, trouxeram uma cisão com os conhecimentos de outrora.

Topo: a descida de Dante ao Inferno. Acima: René Descartes, filósofo e matemático considerado o inaugurador do Racionalismo.

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Obviamente que esta profunda revolução intelectual se disseminaria pelo mundo ocidental e influenciaria as Artes e a Literatura. É durante este período que a Renascença européia atingiu seu auge, com expoentes como Leonardo Da Vinci, Miquelângelo e Rafael, na Itália, e Albrecht Dürer, na Alemanha. Enquanto que, na Espanha, despontou aquele que seria, na opinião de Foucault (As Palavras e as Coisas, 1966), o primeiro escritor moderno, Miguel de Cervantes. A obra de Cervantes é, neste sentido, bastante intrigante, ao observamos sua construção: Dom Quixote é um senhor que, por causa da leitura excessiva de romances de cavalaria, decide ele próprio se tornar um cavaleiro andante. A realidade da Espanha de Dom Quixote não corresponde em nada ao mundo dos livros que ele lia, o que não o impede de visualizar, em sua imaginação ou delírio, gigantes, cavaleiros inimigos, belos corcéis e princesas, quando tudo não passa de moinhos de vento, viajantes pegos de surpresa, pangarés e moças desdentadas. O personagem Quixote não pertence a dois mundos que se tocam, como os heróis das épocas anteriores, mas sim a dois universos que se repelem. Em “Dom Quixote”, a realidade e o

imaginário são antagônicos. Esta foi uma tendência que se acentuou com o passar dos anos, a ponto que, nos séculos XVII e XVIII, o realismo já predominava. Em “Robinson Crusoé”, considerado o primeiro romance inglês, há uma ausência total do fantástico. Daniel Defoe escolheu um homem comum, com uma vida comum, mas diante duma situação incomum — o naufrágio. Contudo, as soluções do romance são plausíveis em comparação à realidade. Para a literatura moderna, além da verossimilhança interna, a escrita também precisava se aproximar do real. Balzac e Dickens foram dois mestres neste campo: eles recriaram ficcionalmente situações e caracteres de suas cidades — Paris de Balzac e Londres de Dickens, se não eram cópias exatas, eram retratos minuciosos do mundo em que viviam. O Naturalismo, durante o século XIX, significaria a hipérbole do realismo e, na figura de Émile Zola, buscou reproduzir a realidade em sua imundície, relevando um determinismo científico. Após séculos de domínio do mágico, a Literatura ocidental se dobrou à realidade.

Acima: Dom Quixote e Sancho Pança na visão de Pablo Picasso. Abaixo: Robinson Crusoé, o naufrágo que se tornou o símbolo do homem moderno.

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Kafka e o mundo inexplicável
Mas a transição para o século XX expôs as fragilidades da razão. Nietzsche talvez tenha sido o primeiro grande intelectual a identificar a razão como deturpadora, em oposição aos sentidos. A razão distorceria a realidade, ao tentar unificá-la em conceitos e buscar uma essência para as coisas. O filósofo alemão retraça o domínio da razão desde Sócrates até seus tempos, sob a inquestionável influência de Kant e Hegel, e desfere golpes letais contra o pensamento ocidental.

Não é à toa que Nietzsche se tornaria referência para toda uma geração futura de pensadores e artistas e apontaria para novos rumos criativos. Nas Artes e na Literatura, a virada para o século XX foi de profundas transformações e de acirrado ataque à tradição. Durante a primeira metade do século, incontáveis movimentos de vanguarda proliferaram pela Europa e Estados Unidos, imbuídos dum único compromisso: arrastar a Arte para fora de seu conformismo, testar seus limites e renová-la. É neste ponto que a realidade novamente se encolhe

Topo à esquerda: Franz Kafka, autor de “Metamorfose” e “O Processo”. Acima: Friedrich Nietzsche, arauto da contemporaneidade, destruidor de ídolos e inspiração para inúmeros filósofos e escritores do século XX.

diante de sua representação. Artistas como Picasso, Kandinsky, Dalí, Braque, se descolam do realismo e recriam a realidade de outra maneira. O mesmo fenômeno também ocorreria em outros campos artísticos, como na música, na escultura, na fotografia, e principalmente na literatura. Este foi o momento de buscar o real na finitude do Homem, dentro de sua própria psique e do tempo intangível.

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Proust, Joyce, Breton, Sartre, Camus, Virginia Woolf, Samuel Beckett, entre outros, assumiram a linha de frente deste embate contra a tradição e conduziram a literatura a novos patamares. Distante dos grandes centros culturais e dos movimentos estéticos, Franz Kafka foi um destes autores que incorporaram o espírito de seu tempo e, através de sua escrita, apresentou possibilidades criativas inéditas e restaurou a presença do fantástico. Nas obras de Kafka, o real e o mágico voltaram a se tocar, o segundo invadindo o primeiro duma maneira assustadora, não mais com a naturalidade dos tempos antigos, mas sim com a aporia da era industrial. Em “Metamorfose”, por exemplo, obra na qual o protagonista Gregor Samsa desperta tornado um inseto repugnante, o inexplicável só é acentuado pelo absurdo de que, mesmo metamorfoseado num bicho, tudo que o personagem mais deseja é se levantar e ir trabalhar, para não receber um esporro do chefe. De maneira abrupta e, de certo modo, violenta, o fantástico reassumiu sua posição. Com a crise da razão, o mundo não precisava mais de explicação.

o modernismo europeu e os acólitos latinos
Tais vanguardas modernistas se disseminaram pelo mundo, alcançando inclusive a América Latina. Em 1922, ocorreu no Brasil a Semana de Arte Moderna, que tornou pública toda uma geração de artistas brasileiros, como Tarsila de Amaral, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Brecheret, Villa-Lobos, Mário e Oswald de Andrade, para citar alguns. Obviamente estimulados pelas vanguardas européias, eles assumiram o compromisso de digerir as propostas de revolução artística e regurgitá-las com a voz e identidade brasileiras. Algo semelhante também ocorreria em outros países da América Latina e, na Argentina, Jorge Luis Borges seria um dos autores que acompanharia a onda dos modernistas.

Prisma e Proa. Dedicou-se, no início de sua carreira literária, à poesia, mas seria durante a maturidade que ele produziria suas mais importantes obras, em prosa, entre elas “Ficções” e “O Aleph”, isto durante as décadas de 1930 e 1950. As narrativas de Borges são permeadas de paradoxos, intertextos, referências fictícias e muitas vezes abordam o processo de criação literária. Leitor de
O argentino Jorge Luis Borges influenciou toda a geração seguinte de escritores latino-americanos com seus contos extraordinários e com sua peculiar visão da Literatura: encerrada em si mesma, autônoma e regida por suas próprias leis.

Borges, o criador de labirintos
O argentino Jorge Luis Borges é uma grande sombra pairando sobre a literatura latino-americana. Por décadas, foi quase impossível escapar de sua influência. Primeiro, ele pertenceu ao movimento ultraísta argentino e fundou algumas revistas, como Cosmópolis,

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Kafka, Edgar Allan Poe e Joyce, Borges condensou o espírito duma geração em crise e sublimou este esfacelamento da noção de verdade e referência em seus contos. Não é acidentalmente que, posteriormente, Borges seria acolhido pelos teóricos estruturalistas, que encontrariam em seus textos a expressão desta cisão, deste corte epistemológico. O universo de Borges não era utópico, posto que não apresentava um mundo idealizado, nem distópico, já que não representava uma outra realidade decadente e opressora, mas sim paratópico (Foucault, no prefácio de “As Palavras e as Coisas”), no qual, em alguns casos, nem as regras físicas da nossa realidade vigoravam, tal qual ocorre no conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” ou na antologia “O Livro dos Seres Imaginários”, escrito em parceria com Margarita Guerrero. Para Borges, a literatura era um “orbe autônomo”, descolado da realidade, e onde tudo é possível de acordo com a vontade do autor. Esta falta de engajamento, que transparecia neste ideal duma literatura voltada para a própria literatura, seria o calcanhar de Aquiles de Borges, cotado várias vezes para receber o prêmio Nobel, mas repudiado por causa de sua falta de

comprometimento político e também pelo equivocado apoio ao governo peronista e ao golpe militar de Pinochet no Chile. Em 1960, a obra de Borges já havia sido traduzida para inúmeros idiomas e era acolhida pela crítica e público internacional. Este escritor, que durante praticamente toda a vida lutou contra problemas de visão e morreu completamente cego, enxergou mais longe do que muitos de seus contemporâneos, e traçou o caminho para a geração seguinte, que conquistaria o mundo com suas histórias extraordinárias.

que talvez condense melhor o espírito da literatura do Boom, “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, de 1966. Na obra “Spanish American Fiction”, o pesquisador Donald L. Shaw apresenta as seguintes características da literatura do Boom:
“1. O desaparecimento do velho romance “criollista”, ou “telúrico”, de tema rural, e o surgimento do neo-indigenismo de Asturias e Arguedas. 2. O desaparecimento do romance “engajado” e o surgimento do romance “metafísico”. 3. A tendência a subordinar a observação à fantasia criadora e à mitificação da realidade. 4. A tendência de enfatizar aspectos ambíguos, irracionais e misteriosos da realidade e da personalidade, desembocando, às vezes, no absurdo como metáfora da existência humana. 5. A tendência a desconfiar do conceito de amor como suporte existencial e de enfatizar, em troca, a incomunicabilidade e a solidão do indivíduo. Antirromantismo. 6. A tendência a desprover de valor o conceito de morte num mundo que, por si só, é infernal. 7. A revolta contra toda a espécie de tabu moral, sobretudo aqueles relacionados à religião e à sexualidade. A tendência paralela a explorar a tenebrosa magnitude de nossa vida secreta.

o Boom e seus estilhaços
Num intervalo de poucos anos, vários autores da América Espanhola publicaram seus livros e se tornaram sucesso de vendas e crítica. Há pouco consenso sobre qual livro teria inaugurado, de fato, a geração do Boom, mas “O Jogo da Amarelinha” de Julio Cortázar é um forte candidato, ao lado de “A Cidade e os Cachorros” de Mario Vargas Llosa, ambos publicados em 1963. Numa sucessão vertiginosa, vieram as principais obras de Carlos Fuentes — “A Morte de Artemio Cruz” e “Aura” — e aquele romance

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8. Um emprego maior de elementos eróticos e humorísticos. 9. A tendência a abandonar a estrutura linear, ordenada e lógica, típica do romance tradicional (e que refletia um mundo concebido como mais ou menos ordenado e compreensível), substituindo-a por outra estrutura baseada na evolução espiritual do protagonista, ou com estruturas que refletem a multiplicidade do real. 10. A tendência a subverter o conceito de tempo cronológico linear. 11. A tendência a abandonar os cenários realistas do romance tradicional, substituindo-os por espaços imaginários. 12. A tendência a substituir o narrador onisciente em terceira pessoa por narradores múltiplos ou ambíguos. 13. Um emprego maior de elementos simbólicos.”

já haviam sido explorados, em separado, pelo romance modernista, mas a verdadeira novidade foi o tom e a engenhosidade dos autores latino-americanos. Julio Cortázar, em entrevista a Joaquin Soler Serrano, tentou reverter a imagem de que o Boom não passava duma manobra editorial. Segundo Cortázar, ele e outros expoentes do Boom haviam iniciado suas carreiras literárias com dificuldade, publicando pequenas tiragens independentes e conquistando os leitores de maneira espontânea. Não há razão para duvidarmos desta afirmação, mas também não podemos questionar o papel do mercado editorial. As editoras, como quaisquer outras empresas capitalistas, visam o lucro e, para tanto, buscam agregar autores e obras em seus catálogos que maximizem tal lucro. Os primeiros a identificar o fenômeno

Três mestres do realismo mágico latino-americano. Topo à esquerda: Mario Vargas Llosa. Topo à direita: Julio Cortázar. Acima: Carlos Fuentes.

Muitos destes elementos

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“Cem Anos de Solidão”, do colombiano Gabriel García Márquez é considerado como o apogeu do Boom. O autor recebeu o Nobel de Literatura em 1982.

acabaram coagidos a se inserir nas temáticas e formas adotadas pelos autores do Boom, sob o risco de serem rechaçados como párias. O próprio Cortázar alertou sobre os perigos de se considerar que todo escritor latino-americano seria, naturalmente, um grande prosador, e que o sucesso de alguns e o orgulho não deveriam ofuscar as possibilidades criativas. Foi no rastro do Boom, ou em oposição a ele, que a geração literária seguinte teve de encontrar sua identidade.

Elena Poniatowska, António Skármeta, Gustavo Sainz e Manuel Puig — em muitos casos, com uma escrita tipo exportação, visando o público internacional, que já sabia o que esperar da literatura latino-americana. Além destes, na contramão do realismo mágico, surgiu um grupo de escritores, encabeçados por Alberto Fuguet, agregados pelo movimento McOndo, uma corruptela do nome da cidade fictícia de Macondo, criada por García Márquez. Fuguet define McOndo assim:
“(...) Chegamos a pensar que a América Latina era uma invenção dos departamentos de espanhol das universidades norte-americanas. Saímos para conquistar McOndo, e só descobrimos Macondo. Estávamos em sérios problemas. As árvores da selva não nos deixavam ver a ponta dos arranha-céus. (...) O nome (marca-registrada?) McOndo é obviamente um chiste, uma sátira, uma brincadeira. Nosso McOndo é tão latino-americano e mágico (exótico) quanto o Macondo real (que, no final das contas, não é real, mas sim virtual). Nosso país McOndo é maior, superpovoado e cheio de contaminação, com rodovias, metrô, tv-a-cabo e subúrbios. Em McOndo, há McDonald’s, computadores Mac e condomínios, além de hotéis cinco estrelas

entre os autores latinos foram as casas editoriais espanholas, mas, sem dúvida, a entrada no mercado norte-americano foi fundamental para a propagação e consolidação do Boom. Em 1970, os EUA e o mundo já haviam sido conquistados pela literatura hispânica da América. No entanto, considera-se que o final do Boom, e a consequente transição para a geração pós-Boom, tenha ocorrido exatamente nesta época, quando os abusos do regime castrista em Cuba começaram a abalar a confiança da intelectualidade na experiência comunista na América. Contudo, sem dúvida, o Boom significou a inserção da literatura latino-americana no cenário internacional, ao mesmo tempo que se projetou como uma maldição para as gerações vindouras de escritores da América Espanhola, que

Pós-Boom e a geração mcondo
Este artigo não estaria completo se não nos detivéssemos, por alguns instantes, para observar os efeitos do Boom. Os autores exponenciais, como Cortázar, García Márquez, Vargas Llosa e Carlos Fuentes continuaram escrevendo, e fazendo sucesso, mesmo após o término do Boom. E adotando várias das técnicas e/ou características da narrativa deles, alguns outros autores conseguiram romper a barreira do anonimato, entre eles Isabel Allende, Laura Esquivel,

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construídos com dinheiro lavado e gigantescos shopping centers. Em nosso McOndo, assim como em Macondo, tudo pode acontecer, claro que, no nosso, quando a gente voa, é porque anda de avião ou está muito drogado. A América Latina, e de algum modo, A América Espanhola (Espanha e todo o EUA latino) nos parece tão realista mágico (surrealista, louco, contraditório, alucinante) quanto o país imaginário onde as pessoas levitam ou predizem o futuro, e os homens vivem eternamente. Aqui, os ditadores morrem e os desaparecidos não retornam. O clima muda, os rios desembocam, a terra treme e Dom Francisco coloniza nossos inconscientes. (...)” (McOndo, 1996)

ca, reforçando a imagem coletiva que já se formava, desde sempre, do subcontinente americano: florestas, selvagens, macacos e xamanismo. Talvez a crítica de McOndo seja drástica demais, contudo, não deixa de ter sua pertinência.

latino-americano foi muito mais influente na Europa, arrebanhando autores como Saramago, Italo Calvino e Umberto Eco, do que no Brasil. Entendo que, pelos limites de um artigo como este, que tentou abarcar um lapso temporal imenso (ao contrário do recomendável para trabalhos acadêmicos, do recorte, do estudo de caso), haja uma tendência a um certo reducionismo e a algumas generalizações indesejáveis. Também é inevitável que muitos autores importantes, tanto do pré e pós-Boom, quanto do próprio Boom, não tenham sido mencionados, mas isto é, em parte, uma falha da minha própria leitura, já que preferi me ater aos autores com os quais tive, pelo menos, algum tipo de contato.

Conclusão
O realismo mágico foi a via de acesso que o mundo teve da América Latina. Grandes autores se consagraram durante o período do Boom, e moldaram toda uma percepção da literatura e da cultura latinoamericana. O Brasil teve pouca importância neste processo. Alguns teóricos consideram Guimarães Rosa como um dos autores do Boom, mas isto me parece um equívoco. Apesar de alguns elementos de realismo mágico na obra de Guimarães Rosa, acredito que ele esteja intimamente vinculado ao realismo social que predomina na Literatura Brasileira desde a década de 30 até hoje. Há poucos autores de realismo mágico no Brasil, e quase todos são de vertente borgeana, de índole quase parasitária. O Boom
Alberto Fuguet e a geração McOndo: por uma América Latina sem estereótipos, revelando as angústias e problemas urbanos.

Alberto Fuguet e seus McOndianos se precipitam em direção à realidade, renegando um passado que, para eles, era de ilusão, alienação e de mitificação da América Latina como uma terra mágica e exóti-

Para saber mais:

FUGUET, Alberto, Prólogo libro McOndo - http://www.marcosymarcos.com/macondo.htm The Cambridge History of Latin America, vol. X - http://books.google.com/ books?id=3NiCQFfSGIkC Entrevista de Julio Cortázar a Joaquin Soler Sorrano, 1977 - http://www.zyntag.com/tags/ video/Dgfr5k9dzfw/ SHAW, Donald L., The Postboom in Spanish American Fiction - http://books.google. com/books?id=ZutRjqaSQlAC Latin American Boom (Wikipédia) - http://en.wikipedia.org/ wiki/Latin_American_Boom

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o milagre do Sol
Joaquim Bispo

Crônica

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Nas nossas sociedades muito afastadas dos tempos bíblicos, sentimos, por vezes, a nostalgia de viver situações como a de Abraão ver entrar três anjos tenda adentro, ver Cristo dar de comer a cinco mil pessoas com cinco pães e dois peixes ou assistir à revelação do anjo Gabriel a Maomé. Nos nossos tempos, não acontecem milagres – todos aconteceram há muito tempo e só tomamos conhecimento deles por fontes secundárias. A manifestação do sobrenatural mais recente que conheço é a aparição da Virgem aos pastorinhos em Fátima, Portugal. E só Lúcia garantiu que viu. Aconteceu, no entanto, um fenómeno extraordinário relatado pelos jornais e assistido por muitas das cinquenta mil pessoas presentes: o milagre do sol, na sequência da aparição de 13 de Outubro de 1917. Segundo uma testemunha que na altura tinha nove anos, «eu olhava fixamente o astro; pareceu-me pálido e privado da sua deslumbrante claridade; dir-se-ia um globo de neve girando sobre si mesmo. Depois, subitamente, pareceu descer em ziguezague, ameaçando cair sobre a Terra. (…) Durante os longos minutos do fenómeno solar, os objectos colocados perto de nós reflectiam todas

as cores do arco-íris… os nossos rostos ficavam ora vermelhos, ora azuis, ora amarelos. (…) Ao fim de dez minutos, o Sol retomou o seu lugar, da mesma maneira que dali tinha descido, sempre pálido e sem luminosidade.» Outra testemunha disse: «O Sol começou a bailar e a dada altura pareceu deslocarse do firmamento e em rodas de fogo, precipitar-se sobre nós.» Outra, ainda: «coisa mais espantosa era poder olhar para o disco solar por muito tempo, brilhando com luz e calor, sem ferir os olhos ou prejudicar a retina. [Durante este tempo], o disco do sol não se manteve imóvel, teve um movimento vertiginoso, não como a cintilação de uma estrela em todo o seu brilho, pois girou sobre si mesmo num rodopio louco. Durante este fenómeno solar, que acabo de descrever, houve também mudanças de cor na atmosfera. Olhando para o sol, notei que tudo se escurecia. Olhei primeiro para os objectos mais perto e depois estendi a minha vista ao longo do campo até ao horizonte. Vi que tudo tinha assumido cor de ametista. Os objectos à minha volta, o céu e a atmosfera, eram da mes-

ma cor. Tudo perto e longe tinha mudado, tomando a cor de velho damasco amarelo. As pessoas pareciam que sofriam de icterícia e lembro-me de uma sensação de divertimento ao vê-los tão feios e repulsivos. A minha mão estava da mesma cor. Então, de repente, ouviuse um clamor, um grito de agonia vindo de toda a gente. O sol, girando loucamente, parecia de repente soltar-se do firmamento e, vermelho como o sangue, avançar ameaçadoramente sobre a terra como se fosse para nos esmagar com o seu peso enorme e abrasador. A sensação durante esses momentos foi verdadeiramente terrível.»

Como eu gostaria de lá ter estado, mas isso aconteceu há quase cem anos. Conversando sobre este assunto com uma tia devota, ela disse-me que há pessoas que afirmam presenciar um milagre do sol semelhante, durante a procissão de Santo António, a 13 de Junho, em Lisboa. Fiquei alvoroçado com a possibilidade de assistir a um fenómeno tão prodigioso e, na data indicada (há uns dez anos), lá estava eu integrado na procissão, atento, quer à ambiência celestial, quer à humana. Junho em Lisboa,

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às cinco da tarde é quente. A procissão movia-se devagar em frente da Sé. Então, comecei a ouvir algumas pessoas – uma aqui, outra ali – a chamar a atenção para o sol, a apontar, a dizer que viam o sol a girar. Uns e outros olhavam, tentando ver o fenómeno. O entusiasmo não era grande. Olhei também, de relance. O sol era uma bola de fogo, como habitualmente, perigoso para os olhos como sempre. Então, julguei compreender tudo. Eu estava farto de assistir a milagres do sol, cada vez que jogava ténis quando, tendo que acompanhar alguma bola alta, dava com os olhos no sol: a minha retina ficava maculada com uma mancha, onde o sol a queimara e, durante um bocado, uma mancha com a mesma forma e de uma cor arbitrária, sobrepunha-se a tudo o que eu olhava. Para mim, aquela gente estava a queimar a retina irresponsavelmente, e foi isso que disse a algumas pessoas, levemente receoso de que me considerassem herege. Ninguém ficou escandalizado ou irritado, talvez só um pouco pesaroso de que o seu desejo não se concretizasse. Eu próprio fiquei um pouco desapontado, embora não esperasse outra coisa. O «milagre do sol» de 1917 tem aspectos difíceis de enquadrar numa única explicação. Há até quem fale em Ovnis. Eu, por mim, fico dividido. Por um lado, gosto de cultivar uma atitude de abertura, conforme aprendi do astrónomo francês do século XVIII, Laplace: «Estamos tão longe de conhecer todas as forças da Natureza e suas múltiplas modalidades de acção, que seria pouco filosófico negar a existência de certos fenómenos apenas porque não podem ser explicados no estado actual dos nossos conhecimentos.» Por outro, irritam-me as explicações de base sobrenatural, que, até agora, só nos fizeram perder tempo precioso na compreensão do Universo. Gostei do que ouvi há dias a um cientista evolucionista: «Não há conflito entre ciência e sobrenatural. Se houvesse fantasmas, fadas, duendes, a ciência teria de os investigar. O problema não é da ciência, mas do Universo que nos calhou, que não veio equipado de sobrenatural.»

Fontes: Seomara da Veiga Ferreira, As Aparições em Portugal dos Séculos XIV a XX, Relógio d’Água, 1985. http://pt.wikipedia.org/ wiki/O_Milagre_do_Sol http://www.fatima.org/ port/essentials/facts/pmiracle. asp

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Crônica

Giselle Natsu Sato

o FaBuLoSo dEStiNo dE

amÉLiE PouLaiN
Montmartre onde começa a trabalhar como garçonete. Certo dia, encontra no banheiro de seu apartamento uma caixinha com brinquedos e figurinhas pertencentes ao antigo morador do apartamento. Decide procurá-lo e entregar o pertence ao seu dono. Ao notar que ele chora de alegria ao reaver o seu objeto, a moça fica impressionada e remodela sua visão do mundo. A partir de então, Amélie se engaja na realização de pequenos gestos a fim de ajudar e tornar mais felizes as pessoas ao seu redor. Ela ganha aí um novo sentido para sua existência. Em uma destas pequenas grandes ações ela encontra um homem por quem se apaixona à primeira vista. E então seu destino muda para sempre...

- JEaN PiErrE JEuNEt
Le Fabuleux Destin d'Amelie Poulain - Jean-Pierre Jeunet Tudo em Amélie é perfeita sincronia. Aceitando o que a vida oferece, sem maiores preocupações: viver é o desafio diário. O resto é conseqüência. Descobrindo segredos e devolvendo esperança em gotas de lembranças. Caixinha de surpresas, pedacinhos de vida recortados. Olhar inesperado, surpreso e inocente. Resguardando sonhos de menina e brincando de ser mulher. Amélie traz descobertas, romance, jeito frágil e atitudes expressivas. O que existe neste filme tão sutil e inexato? Talvez a personagem seja a brisa fresca que esperamos a vida inteira. O sopro que nunca chega; sempre adiado e no final permanece desconhecido. Vontade de sair passeando pelas cidades, ruas e avenidas. De amar e ser amada. A canção que toca o coração é som de chuva, ninho de passarinhos, flores e carinho. A vida crua ficou lá trás, esquecida em uma esquina qualquer. Hoje é dia de Amélie. O importante, não é contar uma história coerente, o objetivo é despertar... Cenários lindos de Paris, o encando das botinas velhas e pesadas de Amélie. Como se o calçado, fosse o único fio que prendesse a personagem à terra. Ele está lá, para que ela não flutue, qual balão colorido... O filme inspira o melhor da fantasia, o doce mais gostoso, beijos e abraços perdidos. Nostalgia. Finais felizes e sons que despertam a mágica de estar viva. O filme perfeito para qualquer estado de humor. O dom de ser agradável na medida certa. Como um café, no bistrô da rua pequena, cheiro de canela, açucar e infância. Sinopse: Amélie sai do subúrbio para o bairro parisiense de

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Crônica

a ViSita do SaCi
Henry Alfred Bugalho

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Sempre que ocorria alguma discussão em casa por causa de comida - quem comeria a última bolacha do pacote, ou a última fatia de pizza, ou o bife que havia sobrado -, minha mãe ressuscitava uma história de sua infância. Contava ela que, quando criança, durante um jantar, houve uma briga entre ela e as irmãs por causa duma coxa de frango. Minha avó interveio, mas nenhum consenso foi possível. No entanto, depois de muito arranca-rabo, minha mãe e as irmãs descobriram que a coxa de frango havia desaparecido. — Foi o Saci — sentenciou minha vó — o Saci viu a briga e veio pra instaurar a desordem. Quem não conhece a figura do Saci não deve ter tido infância. Personagem presente nas obras de Monteiro Lobato, na série de TV “Sítio do Pica-Pau Amarelo” e até em gibis

de Maurício de Souza, é um mito tradicional do folclore brasileiro: o negrinho perneta, gorro vermelho e cachimbo na boca. Dizem as lendas que ele adora roubar pertences das pessoas e que faz tranças nas crinas de cavalo; é um menino travesso.

dia ou dois, íamos também para o sítio dela, onde preparávamos um churrasco e podíamos pescar.

As crianças - eu, minha irmã, primos e primas - ficávamos todas acomodadas num dos quartos da velha casa de madeira e dormíaAssim, toda a vez que mos em beliches. Logo sumia alguma coisa em ao chegarmos lá, alcasa, eu e minha irmã guém comentou, ao ver imediatamente repea tinta descascada na tíamos a sabedoria de porta do nosso quarto: vovó: — Olha, parece a — Foi o Saci. figura do Saci. Não se tratava de acreditar ou não na existência dele, mas sim porque era algo que fazia parte de nossa criação e que era um tanto engraçado, mas isto até a viagem que fizemos para o sítio de vovó. Viajar para o interior não era o meu programa favorito, mas era a obrigação de todo Natal e Ano-Novo. Durante a maior parte do tempo, permanecíamos na casa da minha avó na cidade, mas, por um E realmente parecia muito mesmo: da cintura para cima, havia uma silhueta na tinta descascada que mostrava o quadril, os bracinhos, a cabeça, o capuz e até o cachimbo. Era o Saci, só que sem perna (onde a tinta não havia descascado ainda). Ninguém deu muita importânci ao fato, no entanto, à noite, após todos terem ido dormir, ouvimos um sussurro no nosso quarto das crianças; era minha prima nos chamando:

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— Gente, olha lá pra porta! E, como era de se esperar, havia a silhueta descascada do Saci, contudo, havia dois novos elementos: agora ele tinha a perna única e, aparentemente, saía fumacinha do cachimbo dele. Todos ficamos apavorados, afônicos, tremendo embaixo dos lençóis. De quando em quando, alguém, que estava de olhos fechados, perguntava: — Ele ainda está lá? Então um de nós era obrigado a enfrentar o medo e constatar que o Saci ainda estava lá, fitando-nos, fumando seu cachimbo. Na manhã seguinte, este foi o assunto em casa, todos pondo a mão no fogo ao afirmarem que tinham realmente visto o Saci durante a noite. Para reforçar nossa certeza, a porta de casa havia sido encontrada aberta.

Especularam que havia sido vovó quem havia saído, à noite, para ir ao banheiro (que era no quintal), mas ela jurou de pés juntos que não tinha acordado de madrugada. Portanto, indubitavelmente, era o Saci quem havia entrado.

Pareidolia é um termo usado para definir este tipo de fenômeno psicológico, quando a mente interpreta certos dados como sendo significativos e os relacionam a outros. Pode até ser isto que ocorreu naquela noite, mas como nos convencer que não havíamos visto, de fato, o Saci, ou que não era obra dele o sumiço da coxa de frango de minha mãe? Isto porque a explicação mais plausível nem sempre é a melhor explicação.

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Poesia

Laboratório Poético:

um SEr iNdEFiNido
Volmar Camargo Junior

incógnita
um diabinho empoeirado se esgueirava entre as pernas das cadeiras debaixo das camas, à hora do banho encurralou-se num canto da casa com esses dois dedos sem querer, esmaguei-o morreu, uma pena, sem nenhum esforço morreu, desgraçado, sem dizer a que veio
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Fera (Vermelho-gente)
tinge-te, fera, de vermelho-gente quente troféu vivo de tua caça dure a tua raça, fera, eternamente rola e delicia-te, fera, sente gente parda, preta ou pálida retalhada, é rubra inteiramente caça, persegue, retalha, devora sê por dentro e por fora, inteira, vermelho-gente

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Poesia

Poemação
Caio Rudá
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I. O poema é uma maçã que despenca da árvore, ao sopro do vento, e chega, seu único propósito, ao chão. II. Me admira o homem com sua astúcia fazer da maçã objeto não de único objetivo. A maçã é, pois, um subjeto que alimenta que ornamenta ou que apenas apodrece no chão.

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Haikais

Poesia

Guilherme Augusto Rodrigues

Ah! E no outono abre uma tímida rosa revela-se a vida.
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Uma mulher pulcra vem e sonolenta, deita-se à noite sepulcra...

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Poesia

Sementementalismo
Dênis Moura

Escrevi este soneto para um amor Que me causou tanto sonho quanto dor...

Observo a noite de teus olhos vida E o dia de teu constante sorriso; O Sol canela de teu corpo liso Aquecendo o meu, esta terra árida. Tuas palavras como chuva cálida E o teu ser com quem familiarizo A substância do sentir faz vívida
http://www.flickr.com/photos/10202475@N02/2439540698/sizes/o/

A semente que em nós materializo. E o Sol aquece e a chuva lhe modera; E entre o dia e a noite se pondera Em juntos vivermos unicamente. Que vivamos tal tão eternamente Como o dia, a noite, o Sol e quem dera A chuva, o ar e a vida da semente.

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SAMIZDAT
Edição, diagramação e capa
Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”. Mora, atualmente, em Nova York, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha. henrybugalho@gmail.com www.maosdevaca.com

SOBRE OS AUTORES DA

Henry alfred Bugalho

Revisão
Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licenciado recente em História da Arte, experimenta agora o prazer da escrita, em Lisboa. episcopum@hotmail.com

Joaquim Bispo

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Assessoria de imprensa
Por um amor não correspondido, a carioca de Copacabana começou a poetar aos 12 anos. Veio o beijo e o príncipe virou sapo. Mas a poesia virou sua amante. Fez oficina literária e deu pra encharcar o papel com erotismo. E também com seu choro. Em reação à hipocrisia e ao machismo da sociedade. Atuou como jornalista em várias empresas, mas foi na TV Globo onde aprimorou as técnicas de redação e ficção. E hoje as usa para contar suas próprias histórias. Algumas publicadas em seu primeiro livro e outras divulgadas nos links listados em seu blog pessoal: www.marianavalle.com

mariana Valle

Coordenação de Entrevista
Inconformado com a própria inaptidão para dizer algo sem ser através de subterfúgios, abdicou de parte de suas horas diárias de sono, tentando domar a sintaxe e adestrar a semântica. Depois de perambular pelo Rio Grande do Sul, acampou-se na brumosa, fria, úmida, às vezes assustadora – mas cercada por um cenário natural de extrema beleza – Canela, na Serra Gaúcha. Amargo e frio, cálido e doce, descendente de judeus poloneses, ciganos uruguaios, indígenas missioneiros, pêlos-duros do Planalto Médio, é brasileiro, gaúcho, e, quando ninguém está vendo, torcedor do Grêmio Futebol Porto-alegrense. Autor dos blogs “Um resto de café frio” e “Bah!”.
v.camargo.junior@gmail.com http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

Volmar Camargo Junior

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Bahiano do interior, hoje mora na capital. Estuda Psicologia na Universidade Federal da Bahia e espera um dia entender o ser humano. Enquanto isso não acontece, vai escrevendo a vida, decodificando o enigma da existência. Não tem livro publicado, prêmio, reconhecimento e sequer duas décadas de vida. Mas como consolo, um potencial asseverado pela mãe.

Caio rudá

Jornalista, escritora e roteirista, é autora do livro “Não Abra” e do blog “Não Clique”. Apesar das negativas, esta carioca quer, sim, ser lida - como todo escritor. Tem dias de conto, de crônica e de pílulas sem sentido. Suas paixões: cinema e livros com cheiro de novo - se bem que adora se perder nos sebos da vida.

Barbara Duffles

Paulistano, filho de nordestinos, desenhista desde sempre, artista plástico formado, escritor. Começou sua vida profissional como educador e, desde então, já deixou seu rastro por ONG’s, Escolas e Centros Culturais, através de trabalhos artísticos e pedagógicos – experiências que têm forte influência sobre seus escritos. Atualmente, organiza oficinas de ilustração para crianças, estuda pós-graduação em História da Arte e escreve para publicações na internet.
carloseducador@hotmail.com http://desnome.blogspot.com

Carlos Barros

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Colaboração

Paulistano de pia, cearence de mar e poeta de amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto o ciberespaço, mais com bits de imaginação que com telescópios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e a igualdade, com um giz na mão e uma pistola na outra. É Tecnólogo a sonhar com Telemática social, com a democracia participativa eletrônica, onde o povo eleja menos e decida mais. Publica estes dias sua primeira obra, um Romance de Ficção Científica, e deixa engavetadas suas apunhaladas poesias. É feito de bits, links e teia pra que não desmaterialize, o clique, o blogue e o leia!

dênis moura

Autora de Meninas Malvadas, A Pequena Bailarina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine apenas como uma contadora de histórias carioca. Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes, funcionando como um eficiente panorama da sociedade em que vivemos.

Giselle Sato

Estudante de Letras na Universidade do Sagrado Coração, em Bauru, onde sempre morou. Nutre grande paixão por Línguas, Literatura e Lingüística, áreas a que se dedica cada vez mais.

Guilherme rodrigues

Informático com licenciatura e pós graduação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, trabalha há largos anos em formação e consultoria, sendo especialista em Bases de Dados, Sistemas de Gestão Transaccional e Middleware de “Messaging”. A paixão pela escrita surgiu recentemente, tendo no ano de 2007 produzido os livros “Esboços” (contos) e “Onde termina esta praia” (poesia). Vive com a família em Alverca, uma pequena cidade um pouco a 104 104 SAMIZDAT maio de 2009 SAMIZDAT maio de 2009 norte de Lisboa, Portugal. 104

José Espírito Santo

Gaúcha nascida na pequena cidade de Pirapó, começou a sonhar em ser escritora tão logo aprendeu a ler. Escreve principalmente contos nos gêneros mistério, suspense e terror, além de crônicas.

maristela deves

Nasceu em Lagos, Algarve, mas tem Angola, onde viveu a adolescência, como a sua mãe-terra. Licenciada em Física tem sido professora de Física e Química. Com poemas em vários livros, em co-autoria, é às pequenas histórias, que lhe voam no teclado, que chama “meus contos”. O blog Repensando (www. intervalos.blogspot.com ) tem sido seu parceiro e motivador na escrita dos últimos anos. Escreve pelo gosto de deixar que as palavras vão fazendo vida. Escreve pelo gozo.

maria de Fátima Santos

Estuda Matemática na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, músico amador e escritor quando dá na telha. Nascido e criado no Rio.

Pedro Faria

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Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor público e amante da literatura. Formado em Comunicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas “Retratos Urbanos” em 2008 pela Editora Andross.

Léo Borges

Também nesta edição, textos de
Barbara Duffles Caio rudá Carlos alberto Barros dênis moura
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José Espírito Santo Léo Borges maria de Fátima Santos mariana Valle maristela Scheuer deves Pedro Faria Volmar Camargo Junior

Giselle Natsu Sato Guilherme rodrigues Henry alfred Bugalho Joaquim Bispo

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