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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS FACULDADE DE ECONOMIA

Fábio Pesavento

Um pouco antes da Corte: a economia do Rio de Janeiro na segunda metade do Setecentos

Niterói

2009

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FÁBIO PESAVENTO

Um pouco antes da Corte: a economia do Rio de Janeiro na segunda metade do Setecentos

Tese apresentada ao programa de Pós- Graduação em Ciências Econômicas da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para a obtenção do Grau de Doutor em Economia.

Orientadora Professora Doutora Hildete Pereira de Melo Co-orientador Professor Doutor Carlos Gabriel Guimarães

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FÁBIO PESAVENTO

Um pouco antes da Corte: a economia do Rio de Janeiro na segunda metade do Setecentos

BANCA EXAMINADORA

Prof.ª Drª Hildete Pereira de Melo – Orientadora Universidade Federal Fluminense

Prof. Drº Carlos Gabriel Guimarães Universidade Federal Fluminense

Prof. Drº Carlos Pinkusfeld Monteiro Bastos Universidade Federal Fluminense

Prof.ª Drª Teresa Cristina de Novaes Marques Universidade de Brasília

Prof. Drº Antônio Carlos Jucá de Sampaio Universidade Federal do Rio de Janeiro

Prof.ª Drª Miridan Britto Falci Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

Niterói

2009

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Aos meus pais Ruy e Júlia

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AGRADECIMENTOS

Primeiramente, gostaria de agradecer ao Programa de Pós-Graduação de Economia da Universidade Federal Fluminense pela oportunidade, assim como a CAPES pelo financiamento da minha pesquisa no Rio de Janeiro e do meu estágio de doutoramento no Instituto de Ciências Sociais em Lisboa, a instituição que também sou grato pela acolhida. Geralmente a imposição física não nos permite que escrevamos sobre os amigos, professores ou familiares que de alguma forma colaboraram com a tese. Assim, meu agradecimento aos que serão omitidos aqui, a vocês meu mais profundo sentimento de gratidão, certo de que os lembrarei pela eternidade! Apesar do limite físico, alguns nomes devem ser mencionados. Meus orientadores Hildete Pereira Melo e Carlos Gabriel Guimarães pelo constante aprendizado durante nestes anos de Rio de Janeiro. Meu orientador no meu estágio de doutoramento em Lisboa, Pedro Lains (dados e teoria, sempre). Aos meus pais Ruy e Júlia pela confiança nos meus sonhos e no caminho que escolhi. Aos meus tios Roberto e Sandra pela constante ajuda e carinho. À minha namorada Erica pela paciência e suporte constante durante o meu doutoramento. Aos funcionários dos arquivos pesquisados, em especial, Sátiro Nunes do Arquivo Nacional e Érika Dias do Projeto Resgate pela preciosa ajuda com o material documental primário. Meu eterno carinho para os meus amigos de doutorado da UFF, em especial ao Pablo, Fábio, Vitor, Mário e Ana: o apoio de vocês foi fundamental! Um agradecimento também se faz necessário para todos os meus mestres, amigos e pesquisadores que colaboraram com a tese, os quais merecem citação por seu apoio e carinho: Tiago Gil, Fabrício Prado, Patrícia Palermo, Martha Hameister, Gabriel Berute, Cláudio Shikida, William Summerhill, Thomas Denk, Leonor da Costa Freire, Bruno Feitler, Antônio Carlos Jucá de Sampaio, João Fragoso, Leônia Chaves, Roquinaldo Ferreira, Teresa Cristina de Novaes, Leonardo Monastério, André Marques de Mattos, Márcio de Souza Vagas, Luiz Paulo Noguerol, Sérgio Monteiro, meu professor de golfe Wagner, meu companheiro de campo Gileno Júlio (Pro) e meus alunos e colegas da FAPA e ESPM. Por último, mas não menos especial, à Dona Minie e sua família e à Dona Ana Esteves de Lisboa pela excelente acolhida em terras lusitanas. Muito obrigado a todos!

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The end has no end. The Strokes

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RESUMO

Embora iniciado antes de 1750, pode-se afirmar que é na segunda metade dos Setecentos que o espaço fluminense se consolida na economia colonial brasileira. A origem desse processo, em boa medida, remonta à expansão da região mineira, com a descoberta do ouro na virada do século XVII para o XVIII. Portanto, o objeto da presente tese foi o de estudar a economia do Rio de Janeiro entre 1750-90. Mais especificadamente, apresentar, introdutoriamente, as principais atividades econômicas desenvolvidas no termo da cidade do Rio de Janeiro, seu mercado interno (de crédito e de bens imóveis), além de apresentar algumas das principais redes de negócios que operavam na praça carioca. Com isso, pode-se tentar entender como esses fatores explicam a crescente importância do Rio de Janeiro no império ultramarino português, durante a segunda metade do Setecentos. Os resultados mostraram a importância das redes de negócio, das políticas pombalinas de diversificação agrícola e a crescente interligação da economia carioca com diversas praças comerciais, dentro e fora dos quadros do império.

PALAVRAS-CHAVE: Rio de Janeiro, instituições, escrituras públicas, diversificação agrícola, redes de negócio, Marquês do Pombal.

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ABSTRACT

Although started before 1750, can be said is that the second half of the seven hundred fluminense that space is consolidated in Brazilian colonial economy. The origin of this process, in good measure, back to the expansion of the mining region, with the discovery of gold at the turn of the century to the XVII century. Therefore, the object of this thesis was to study the economy of Rio de Janeiro between 1750-90. More specifically, display, introduction, the main economic activities undertaken at the end of Rio de Janeiro, its domestic market (credit and real estate) in addition to some of the major networks of businesses that operated in the Rio de Janeiro. With this, you can try to understand how these factors explain the growing importance of Rio de Janeiro in the Portuguese overseas empire during the second half of seven hundred. The results showed the importance of networks of business, policy Pombaline of agricultural diversification beyond the growing interconnection of the economy with several Carioca commercial plazas within and outside the empire ultramarino portuguese.

KEY-WORDS: Rio de Janeiro, institutions, scriptures, agricultural diversification, networks of business, Marquis of Pombal.

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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AHU – Arquivo Histórico Ultramarino

AN – Arquivo Nacional

ANTC

– Arquivo Nacional do Tribunal de Contas

ANTT

– Arquivo Nacional da Torre do Tombo

Arq. – Arquivo

BA

– Biblioteca da Ajuda

BN

– Biblioteca Nacional

BNL – Biblioteca Nacional de Lisboa BNM – Biblioteca Nacional de Madrid

Cart. – Cartório de Lisboa (ANTT)

CD – fundo CD do ANTT

Cf. – confira.

CU – Conselho Ultramarino

Cx. – caixa Doc. – documento

HN – Homem de negócio

HNLX – Homem de negócio de Lisboa

HNRJ – Homem de negócio do Rio de Janeiro

IHGB – Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

LX – Lisboa

MMM – Merseyside Maritime Museum, Liverpool – Inglaterra.

N. – número

NEI – Nova Economia Institucional

OC – Cavalhero da Ordem de Cristo

P. – Página

Vol. – volume RAH – Real Academia de la História, Madrid – Espanha. RIHGB – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro RJ – Rio de Janeiro UFF – Universidade Federal Fluminense

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LISTA DE GRÁFICOS, FIGURAS, QUADROS

Gráficos

Gráfico 1

Gráfico 2

Gráfico 3

Gráfico 4

Gráfico 5

Gráfico 6

Gráfico 7

Gráfico 8

Gráfico 9

Gráfico 10

Gráfico 11

Gráfico 12

Gráfico 13

Gráfico 14

Gráfico 15

Gráfico 16

Gráfico 17

Gráfico 18

Figuras

Mapa 1

Mapa 2

Quadros

Quadro 1

Quadro 2

Quadro 3

Quadro 4

Quadro 5

Quadro 6

Quadro 7

Quadro 8

Quadro 9

Quadro 10

Quadro 11

Quadro 12

Quadro 13

Quadro 14

Quadro 15

Arrecadação da dízima da alfândega do Rio de Janeiro: 1769-79 Número de inventários por ano Produção de arroz no Rio de Janeiro: 1768-1819 Exportação de anil do Rio de Janeiro para o Reino: 1772-1820 Número de procurações levantadas por ano: 1750-91 Número de escrituras catalogadas: 1750-90 Número de escrituras e seus valores totais por décadas Valores médios e medianos por décadas Número e valor total das escrituras por categoria: 1750-90 Número e valor total das escrituras por tipo: 1750-90 Média móvel anual dos preços dos bens urbanos e rurais: 1750-90 Valor total anual de escrituras de empréstimo: 1750-90 Valor total das escrituras de empréstimo por segmento social:

1750-90

Evolução dos preços anuais no Rio de Janeiro: 1762-1820 Média anual da arrecadação de contratos régios: 1760-89 Média móvel anual da arrecadação de contratos régios: 1762-90 Evolução da média da arrecadação dos direitos da dízima da Alfândega do Rio de Janeiro: 1754-1804 Dízima da Alfândega do Rio de Janeiro: 1754-1804

Distribuição de sesmarias no Rio de Janeiro Localização das ordens religiosas, irmandades e confrarias no Rio de Janeiro séculos XVIII e XIX

Número de engenhos de açúcar na Capitania do Rio de Janeiro:

1571-1700

Preço internacional do açúcar: 1680-1694 Preço do açúcar no Rio de Janeiro: 1641-1687 Contratadores das “pescarias das Baleias”: 1644-1801 Números de armações e total de baleias capturadas: 1761-1819 Transações envolvendo embarcações no Rio de Janeiro: 1650-1800 Produção agrícola fluminense: 1778-79 Quantidade de gêneros exportados na frota de 1761 do porto do Rio

de Janeiro Receitas (mil-réis) dos gêneros exportados do Rio de Janeiro: 1777,

1788-89

Tipos de sociedades na praça carioca: 1750-90 Sociedades envolvendo Rio de Janeiro e Lisboa: 1750-90 Duração das sociedades envolvendo Rio de Janeiro e Lisboa: 1750-

90

Valor médio dos contratos envolvendo a economia do Atlântico

Sul: 1750-1780 Principais contratadores: 1750-1770 Negócios por faixa de valor

69

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Quadro 16

Quadro 17

Quadro 18

Quadro 19

Quadro 20

Quadro 21

Quadro 22

Quadro 23

Quadro 24

Quadro 25

Quadro 26

Quadro 27

Quadro 28

Quadro 29

Quadro 30

Quadro 31

Negócios por faixa de valor por classe social Evolução do valor total e médio dos bens urbanos: 1750-90 Evolução do valor total e médio dos bens urbanos: 1780-90 Valor médio e mediano dos bens urbanos: 1750-90 Valores médios de sobrados por logradouro: 1750-90 Valor médio das casas térreas e sobrados no Rio de Janeiro: 1780-

90

Valores médios de casas térreas por logradouro: 1750-90 Valor médio e mediano da braça de chão urbano Formas de pagamento por tipo de escritura urbana Evolução do valor total e médio dos bens rurais: 1750-90

Valor médio e mediano dos tipos de bens rurais: 1750-90 Valor médio e mediano da braça de terra: 1750-90 Valor total, médio e mediano das chácaras: 1750-90 Valor total, médio e mediano das escrituras de empréstimo: 1750-

90

Valor total, médio e mediano das escrituras de empréstimo: 1780-

90

Valor total das escrituras de empréstimo por segmento social:

1750-90

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171

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183

188

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

13

1-

A ECONOMIA FLUMINENSE ENTRE 1750-1790

21

1.1-

BREVE CONTEXTO ECONÔMICO E POLÍTICO: RIO DE JANEIRO SÉCULOS

XVI

E XVII

21

1.2-

O RIO DE JANEIRO E O OURO DAS MINAS GERAIS

33

1.3-

AS PRINCIPAIS ATIVIDADES ECONÔMICAS

38

1.3.1-

As “indústrias” no Rio de Janeiro

39

1.3.1.1-

A armação e caça à Baleia

40

1.3.1.2-

Construção naval

53

A DIVERSIFICAÇÃO AGRÍCOLA FLUMINENSE DURANTE A SEGUNDA METADE DOS SETECENTOS

2-

62

2.1-

O CONTEXTO DA DIVERSIFICAÇÃO AGRÍCOLA

63

2.2-

UM PANORAMA DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA FLUMINENSE

70

2.3-

A DIVERSIFICAÇÃO QUE DEU CERTO: ARROZ E ANIL

77

2.4-

A DIVERSIFICAÇÃO QUE NÃO DEU CERTO: COCHONILHA E LINHO

CÂNHAMO

87

3-

AS PERSONAGENS DA DINÂMICA E SEU FUNCIONAMENTO

95

3.1-

INSTITUIÇÕES, CONFIANÇA E REDES DE NEGÓCIOS

96

3.2-

JÁ QUE NADA SOU, DEIXA-ME TENTAR SER: AS REDES MERCANTIS NO

RIO

DE JANEIRO NA SEGUNDA METADE DOS SETECENTOS

104

3.2.1-

As redes Transimperiais

107

3.2.2-

As redes Extra-Imperiais: o exemplo das sociedades mercantis

120

3.2.3-

A atuação dos agentes mercantis: os familiares do Santo Ofício, agências e

trajetórias

133

4-

O MERCADO FLUMINENSE NA SEGUNDA METADE DO SETECENTOS

150

4.1-

A AMOSTRA E OS DIFERENTES TIPOS DE ESCRITURAS PÚBLICAS

151

4.2-

O MERCADO DE BENS IMÓVEIS

159

4.3-

CONCENTRAÇÃO E EXCLUSÃO: O MERCADO DE CRÉDITO NO RIO DE

JANEIRO

175

CONCLUSÃO

198

REFERÊNCIAS

202

ANEXOS

215

13

INTRODUÇÃO

Embora iniciado antes de 1750, pode-se afirmar que é na segunda metade do Setecentos que o espaço fluminense consolida-se na economia colonial brasileira. Fato explicitado ao se tornar sede política do Vice-Reino em 1763, deslocando o centro decisório do Brasil colonial para a região sudeste. Antes disso, o porto carioca já se destacava nos quadros do império ultramarino português. A origem desse processo, em boa medida, remonta à expansão da região mineira, com a descoberta do ouro na virada do século XVII para o XVIII. Cabe a ressalva que desde o século XVII o porto carioca, através de sua movimentação de importação e exportação, já desempenhava um papel significativo, o qual foi potencializado pela extração aurífera. A atuação das famílias e das redes de negócios na economia do Rio de Janeiro vem desde o início da colonização (FRAGOSO, 2003) com negócios que interligavam diferentes mercados, dentro e fora dos limites do império ultramarino português (BOXER, 1973). Também se conhece a importância do período pombalino para o desenvolvimento da economia colonial. Resta saber como esse cenário interferiu sobre a dinâmica fluminense. Isso pode ser entendido realizando a identificação das redes sociais atuantes no Rio de Janeiro, apresentando as principais atividades econômicas desenvolvidas em solo carioca e avaliando a evolução do preço dos bens imóveis e do mercado de crédito na praça carioca durante a segunda metade do XVIII. Portanto, o objeto da presente tese foi o estudo da economia do Rio de Janeiro 1 entre 1750-90. Seus objetivos consistiram em analisar as principais atividades econômicas desenvolvidas no termo 2 da cidade do Rio de Janeiro, principalmente a importância do seu mercado interno (de crédito e de bens imóveis) e sua relação com o Império português. Além disto, identificaram-se algumas das principais redes de negócios que operavam na praça carioca. Com isso, se pode compreender como estes fatores explicam a crescente importância do Rio de Janeiro no império ultramarino português durante a segunda metade dos Setecentos. A análise desses aspectos ajuda a ter uma idéia do que se produzia (atividades econômicas), do que se demandava (mercado interno), das interligações econômicas

1 As palavras carioca e Rio de Janeiro serão empregadas como sinônimo e se referem ao termo da cidade do Rio de Janeiro. 2 “Termo é originário do grego terma, exprimindo o sentido de marco, mourão, com que se demarcam as terras. E daí, extensivamente, a siginificação de extremidade, limite ou fim” (Silva, 1998ª, p.805). Neste sentido, inclui, grosso modo, as freguesias de Santa Cruz, Campo Grande, Guaratiba, Jacarepaguá, Gávea, Engenho Velho e Novo, Inhaúma, Irajá, Ilha do Governador, Baía de Guanabara, Ilha de Paquetá, São Cristóvão, Santana, Santa Rita, Candelária, São José, Sacramento, Glória e Espírito Santo (Noronha Santos, 1965).

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existentes (redes) e dos principais agentes econômicos envolvidos. Ressalva-se que não se trabalhou no exame detalhado de cada um desses objetivos tendo em vista, principalmente, o volume informacional encontrado na documentação primária.

O primeiro impacto da notícia da existência das jazidas de ouro foi uma espantosa e

crescente migração para Minas Gerais. Indivíduos de diversas classes sociais e de todas as partes do Reino e da Colônia partem para a região mineira, acarretando em um aumento populacional sem precedentes. O processo de migração foi vital para o desenvolvimento daquela região, uma vez que desencadeou não só o aumento do consumo (no sentido mais largo do termo), mas a formação de novos povoados, vilas e cidades, o que produziu um incremento na circulação e na produção de bens de consumo não duráveis em diversas partes da colônia e império. Além disso, foi necessário montar um aparato administrativo e fiscal a

fim de garantir a porção da Coroa, o que reforçou a expansão e importância da região centro- sul do Estado do Brasil. 3

O comércio de abastecimento, imperativo para a ação diária, levou ao estabelecimento

de uma série de redes comerciais, as quais tinham como principal ponto de escoamento e fornecimento o porto do Rio de Janeiro, principalmente com o Caminho Novo. 4 Importante porto desde o século XVII, 5 empregado para a importação de manufaturas vindas do Reino e para a exportação de produtos coloniais (destacando-se o açúcar). Do Rio de Janeiro partiam para as Minas, escravos, sal, gêneros alimentícios, instrumentos de ferro e artigos de luxo. Do porto carioca saiam o ouro e demais matérias-primas produzidas na região mineira e de outras como São Paulo e Rio Grande. O processo de intensificação do comércio, iniciando uma interligação entre as diferentes partes do Brasil, mas especialmente entre Rio de Janeiro e Lisboa, engendrou a formação de um grupo social (homens de negócio) ligado ao comércio interno e externo colonial. Gradualmente, os negociantes de grosso trato superam o grupo de pressão de grandes fazendeiros (ligado ao setor rural, também designado por “nobreza da terra”), em face da expansão das rotas de comércio geradas com a descoberta do ouro mineiro o que põe a descoberto, uma nova estrutura na condução da lide política. 6 Agora, os homens de negócio tomam a frente nesse processo e abarcam boa parte dos negócios decorrentes desse

3 Existe uma extensa bibliografia sobre Minas Gerais e a “Idade do Ouro”. Cf. Boxer (1969); Souza (2004); Furtado (1999); Silveira (1997).

4 Sobre o comércio do abastecimento cf. Zemella (1990); Chaves (1999); Carrara (2007).

5 Lobo (1963); Boxer (1973).

6 Na visão de João Fragoso a consolidação dos homens de negócios veio no final do século XVIII. Cf. Fragoso

(2000).

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incremento no tráfico comercial. A ascensão dessa “classe mercantil” pode ser verificada na arrematação dos principais contratos que envolviam a praça carioca, a da região sul e a mineira. 7 Os negociantes da praça do Rio de Janeiro, entre eles Anacleto Elias da Fonseca, se destacam como alguns dos principais arrematadores, tanto em quantidade de contratos arrematados, quanto nos valores dos mesmos. 8 Afora a questão do fluxo comercial, sabe-se da importância da posição geográfica do Rio de Janeiro. Para além da questão da defesa da fronteira sul, a região fluminense servia como um espaço privilegiado para a realização dos mais variados intercâmbios com diversas regiões da colônia, metrópole e império ultramarino português. Portanto, na quarta década do XVIII tornam-se nítidas as consequências desse processo, qual seja, o espaço fluminense transformou-se num dos principais locus da dinâmica econômica colonial brasileira, disputando com outras regiões, como a Bahia. No início da segunda metade do século XVIII, percebe-se que com a intensificação do fluxo de pessoas, navios e comércio, a importância política da cidade do Rio de Janeiro também cresceu. 9 Isso se evidencia em 1763, quando é transferida a capital do Estado do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro. Outro exemplo é o Tribunal da Relação do Rio de Janeiro, criado já em 1750 para resolver pendências jurídicas ocorridas no sul, centro-oeste e sudeste do país. Como consequência, houve: a migração de juristas, da alta nobreza e da burocracia portuguesa, além de um maior contingente de militares. 10 Esse movimento foi acentuado com a intensificação do conflito com os espanhóis na fronteira e, a partir do Tratado de Madrid de 1750, fez com que matemáticos, geógrafos e engenheiros passassem pelo Rio de Janeiro. Acrescenta-se a isso a presença de estrangeiros que também influenciavam o grupo de intelectuais, cientistas e artistas que habitavam a cidade. Este deslocamento, anos mais tarde (1772), colaborou na formação de uma Academia Científica na capital do Brasil. 11 Apesar desse cenário profícuo, boa parte da sociedade daquele tempo tinha uma exígua participação nas transações econômicas. Em uma economia marcada por privilégios, como era

7 O conceito de classe utilizado não corresponde a leitura de uma classe em si. É mais no sentido como destaca Sergio Buarque de Holanda de um “estilo de vida” ou “a grupo de status dependentes de uma estimação social particular, positiva ou negativa, da honra” (Holanda, 2004, p.122).

8 Uma pequena síntese da bibliografia sobre contratos e contratadores cf. Guimarães & Pesavento (2008).

9 A respeito desse crescimento na primeira metade do século XVIII cf. Sampaio (2003); Fernandes (2008); Bicalho (1998). 10 Sobre a relação da criação do Tribunal da Relação do Rio de Janeiro e o crescimento da cidade cf. Ribeiro (2004); Bicalho (2003); Wehling & Wehling (2004). 11 A respeito da Academia cf. Marques (2005).

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a sociedade colonial de Antigo Regime, tudo tinha que ser autorizado, permitido. 12 A

existência de inúmeras barreiras à entrada, para a realização de qualquer negócio lícito, acaba por explicar o volume do contrabando, do descaminho e por delinear um “mercado não

competitivo” (como a prática de conluio no momento de transacionar). 13 Portanto, o que se presenciava era o estabelecimento do jugo político sobre o econômico, caracterizando uma economia não concorrencial e beneficiando os setores ligados ao poder local ou metropolitano. Nesse sentido, as redes de negócios configuravam um elemento chave na realização e inserção de agentes econômicos nos negócios. Redes as quais, segundo Michel Bertrand 14 , “consiste en un complejo sistema de vínculos que permitem la circulación de

bienes y servicios, materiales e inmateriales, en el marco de las relaciones estabelecidas entre sus miembros” (BERTRAND, 1999, p.122). Além da dificuldade de inserção na lide dos negócios, existia uma série de impedimentos ao exercício mercantil, como a falta de informações e, quando esta existia, a sua veracidade. Disso decorre outra questão: o problema da agência, isto é, como saber se seu parceiro comercial, por vezes do outro lado do Atlântico, vai agir conforme o estipulado na procuração ou escritura de sociedade mercantil? Assim, o comportamento oportunista fazia-se presente em diversas formas e acabava por formar uma névoa a qual encobria as relações de trocas, associações para fins comerciais, cobranças, carregamentos e demais agências. A maneira de tentar desvencilhar-se deste cenário era o estabelecimento de confiança entre as partes. Ex ante, a confiança gerava reputação às ações dos agentes, permitindo uma maior credibilidade no tocante ao cumprimento do que fora estabelecido.

A importância de estabelecer-se confiança e de obter-se uma informação confiável no

momento de realizar negócios era de fundamental importância, tendo em vista as distâncias e

o tempo envolvido em boa parte das transações. Portanto, como frisado anteriormente, a

dinâmica dos negócios abria espaço para o problema de agência, em razão da presença de

informação assimétrica e do comportamento oportunista por parte dos agentes.

A questão da agência e da assimetria da informação é reforçada, pois os agentes além

de não obterem todas as informações necessárias para a realização da troca, caso a conseguissem não poderiam processá-las, ante o volume informacional (“racionalidade

12 Fragoso, Bicalho & Gouveia (2001).

13 A respeito dos descaminhos da economia colonial na primeira metade do século XVIII Cf. Cavalcante (2006). Para a segunda metade do século XVIII, embora divergindo da ênfase contrabando e crise do sistema colonial cf. Arruda (2008). 14 Bertrand (1999). Uma discussão importante sobre a relação família e rede social está em Moutoukias (2000).

17

limitada”). 15 Portanto, mesmo que o agente conseguisse acesso a todas as informações envolvidas na negociação, ele não conseguiria processá-las. Nesse sentido, as redes operavam de forma decisiva a fim de facilitar e propagar informações mais confiáveis, o que promovia (e concretizava) diversas transações econômicas.

A questão da agência não está resumida ao funcionamento de uma rede, mas também

em formar ou ter acesso a uma. Imagine, por exemplo, a dificuldade de um caixeiro ou capitão de navio do Rio de Janeiro, recém chegado em Lisboa, em estabelecer qualquer transação

econômica sem conhecer ninguém, ou não pertencer a alguma irmandade, ser Familiar do Santo Ofício, ou ser cavalhero da Ordem de Cristo. Dessa forma, se tem mais um aspecto da importância de estar inserido numa rede. Nesse sentido, o estudo acerca as redes sociais e da trajetória mercantil dos homens de negócio se faz necessário. Sabe-se de pesquisas nessa área, porém um ponto importante é pouco analisado: depois do agente já estar ingresso numa rede social (como ser familiar do Santo Ofício), como é que ele realiza as suas agências? Evidentemente que elementos como o seu estabelecimento na praça, suas negociações do dia-a-dia e sua ascensão (ou não) serão

abordados na medida em que se tenham fontes. Para tentar verificar tal processo, pesquisou-se

a trajetória de alguns familiares do Santo Ofício, com o intuito de tentar capturar a inserção e os desdobramentos desses familiares nas redes mercantis e sua participação ativa na lide econômica fluminense na segunda metade do Setecento.

O esforço que se faz aqui vai no sentido de incorporar novos elementos metodológicos

e teóricos. Esse empenho pode auxiliar na investigação, uma vez que disponibiliza novos

subsídios para afrontar diversos aspectos da história econômica do Brasil. Outro exemplo disso é a abordagem proposta pela Nova Economia Institucional (NEI). 16 Parte-se da idéia de que o aporte teórico da NEI seja factível com a documentação primária encontrada e auxilie na análise dos objetivos propostos. Logo, diante da documentação primária encontrada, o instrumental da NEI será empregado quando do auxílio na elucidação dos objetivos propostos na tese. Importante lembrar que ao aceitar o referencial

teórico proposto pela NEI, não se está impedido de realizar críticas à mesma.

A escolha da perspectiva empregada se explica na medida em que o ponto de partida

da NEI está no fato da história ser peça fundamental para a compreensão de uma sociedade, pois além do passado explicar o presente (fato por demais óbvio), ambos (passado e presente) estão conectados pela evolução das instituições sociais, econômicas e políticas. Além do

15 Sobre esta questão da racionalidade e irracionalidade econômica cf. Godelier (1976). 16 Um resumo da NEI pode ser encontrado em Furubotn & Richter (1997); Menard & Shirley (2005).

18

conceito de instituições, a idéia de informação assimétrica, racionalidade limitada, comportamento oportunista e a questão da agência serão empregados na presente tese. Esses se coagulam na medida em que a distância entre as partes (ou entre as praças comerciais), o tempo para se obter a informação (e a sua veracidade) e a incerteza tanto na ação dos agentes quanto nos desdobramentos do dia-a-dia dos negócios, entre outros fatores, atuam de forma decisiva no trato mercantil. Portanto, o caráter incerto afeta profundamente o plano de ação dos agentes. Daí, mais um motivo para se estabelecer a confiança entre as partes e o referencial teórico proposto pela NEI, o qual auxilia na explicação do que se pretende analisar. Apesar do Rio de Janeiro figurar em inúmeros estudos relativos à sua estrutura sócio- econômica existe uma limitação: o diminuto número de pesquisas quando se utiliza o recorte 1750-90. O período empregado nesta tese (1750-90) também se explica, porque os estudos anteriores de SAMPAIO (2003) e de FRAGOSO (1998) abrangeram a economia fluminense entre 1650-1750 e 1790-1830. Os trabalhos desses historiadores foram muito importantes para a tese aqui apresentada, não só na delimitação do limite temporal, mas, principalmente, nos questionamentos historiográficos que se propõem, em especial a questão da autonomia da economia fluminense frente à européia. Por último, cabe a ressalva de que o estudo foi focado no termo da cidade do Rio de Janeiro, visto a sua importância crescente na segunda metade do século XVIII, suplantando Salvador como principal centro comercial e portuário do Império Português. A hipótese que se trabalha, numa perspectiva macro, é a de que a mudança institucional promovida por Sebastião José de Carvalho e Melo (Conde de Oeiras, depois Marques de Pombal) alterou o desempenho econômico fluminense, como por exemplo, a promoção da diversificação agrícola, com a introdução de novas culturas, as quais incrementaram as exportações e a renda carioca. No plano micro, acredita-se na existência de uma crescente interdependência, acentuada ao longo do XVIII, entre o Rio de Janeiro, o império ultramarino português e as demais partes da colônia. Isso fica evidente quando se descortina a trama das redes sociais, como por exemplo, o funcionamento de uma sociedade mercantil. A idéia é a de que sem a atuação mercantil de um dos sócios nas “pontas” do Atlântico, os negócios não se concretizavam. Logo, acredita-se na existência de uma dinâmica interdependente entre os agentes atuantes nas redes mercantis. A complementaridade das análises macro e micro são

19

fundamentais para a compreensão da economia mercantil do Rio de Janeiro e de um dos seus agentes, em especial a dos negociantes de grosso trato. 17

O estudo historiográfico requer a pesquisa exaustiva de fontes primárias. Tendo em

vista que este projeto situa-se no período colonial, o esforço de exame concentrou-se no Arquivo Nacional (AN), Biblioteca Nacional (BN) e Instituto Histórico e Geográfico

Brasileiro (IHGB), todos sediados no Rio de Janeiro. Em Lisboa, Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), Biblioteca Nacional de Lisboa (BNL), Arquivo Nacional do Tribunal de Contas (ANTC) e Biblioteca da Ajuda (BA).

A primeira fase da pesquisa mostrou uma carência de fontes primárias, em especial

inventários post mortem. Com isso, partiu-se para a digitalização de escrituras públicas no AN, a fim de obter uma documentação mais serial e homogênea. O passo seguinte foi dado quando do estágio de doutoramento realizado em Lisboa, onde se finalizou o suporte documental primário com a coleta de 2.200 procurações envolvendo a praça carioca e lisboeta, além dos contratos e documentos comprobatórios da arrecadação de diversos tributos cobrados no Rio de Janeiro. Tanto nos arquivos do Brasil como nos de Portugal, além da documentação citada, diversas fontes primárias também foram transcritas ou digitalizadas para responder aos

objetivos da tese. Portanto, as principais fontes primárias que irão auxiliar na investigação serão os inventários post-mortem, escrituras públicas, contratos régios e procurações.

A classificação das escrituras públicas levou em conta os estudos anteriores de João

Fragoso e Antônio Carlos Jucá de Sampaio, a fim de possibilitar comparações. Infelizmente, alguns livros de notas estavam danificados, invibilizando a consulta. Não obstante, acredita-se que a amostra de 6.500 escrituras seja razoável. Um aspecto interessante do emprego das escrituras de compra e venda é que estas fornecem uma fotografia de um dado momento econômico. Isso auxiliará a entender que “setores” destacavam-se na dinâmica econômica

fluminense. Outro ponto a ser observado é o fato, já mencionado por Sampaio, que como os ofícios estavam localizados na cidade do Rio de Janeiro, poder-se-ía imaginar que estas escrituras seriam pouco representativas da Capitania. Porém, como já apontou o autor supra, sabe-se que o termo da cidade do Rio de Janeiro era extenso e a maioria da produção e população concentrava-se nesse local (SAMPAIO, 2003). Uma última questão é o fato de que com as escrituras auxiliam na identificação dos principais negociantes, pois estes aparecem mais

17 Sobre micro história cf. Revel (1996); Burke (1992).

20

corriqueiramente nas transações. Com isso, tem-se outra maneira de apontar os principais negociantes da praça carioca. Inicia-se a tese apresentando as principais atividades econômicas que ocorriam em solo fluminense no XVIII, 18 além de um breve contexto político e econômico. O objetivo do primeiro capítulo é realizar um “voo de pássaro” sobre os principais produtos produzidos no termo da cidade do Rio de Janeiro. No capítulo seguinte, destaca-se a diversificação agrícola implementada por Lavradio em solo fluminense sob mando de Pombal. A idéia do segundo capítulo foi a de mensurar o impacto das medidas pombalinas na mudança do desempenho econômico fluminense durante

a segunda metade do Setecento (positivas ou negativas). No terceiro capítulo analisou-se os principais personagens desta dinâmica e seu funcionamento. Através da identificação e do funcionamento, não de todas, mas de algumas redes de negócios, pode-se capturar a importância destas para o desenvolvimento da economia carioca. Assim, examinar-se-á os principais agentes, rotas e mercadorias participantes da dinâmica econômica fluminense dentro dos limites temporais estabelecidos no presente estudo.

O quarto e último capítulo descreve o mercado do termo da cidade do Rio de Janeiro.

Com base nas 6.500 escrituras digitalizadas e catalogadas, pretende-se mostrar as principais transações econômicas ocorridas entre 1750-90. Em particular, destacar o mercado de crédito

e de bens urbanos e rurais. Neste momento, é importante sublinhar a evolução do valor dos

diferentes bens da praça carioca tais como os sobrados, lojas e engenhos. Associado a esses

valores, destacam-se os principais agentes envolvidos nas transações, o que possibilita perceber a eventual concentração, na compra e venda ou na concessão de crédito.

18 O tráfico de escravos não será contemplado neste estudo visto a amplitude do tema e por ter sido analisado por diversos autores. Cf. Florentino (1997); Curto (2002); Ferreira (2003); Klein (2004); Rodrigues (2005), Berute

(2006).

21

1- A ECONOMIA FLUMINENSE ENTRE 1750-1790

O objetivo do presente capítulo é o de apresentar ao leitor um breve contexto político e

econômico do desenvolvimento do termo da cidade do Rio de Janeiro desde seus primórdios

até a segunda metade do século XVIII. Aqui, se pretende realizar um “voo de pássaro” sobre as principais atividades econômicas cariocas. Além disto, apontar a importância de duas atividades econômicas pouco estudadas e de fundamental importância no desenvolvimento do Rio de Janeiro: a caça à baleia e a construção naval. Portanto, o presente capítulo não aprofunda os pormenores do desenvolvimento da economia do Rio de Janeiro, somente deter- se-á as suas linhas gerais a fim de se ter uma idéia dos principais desdobramentos daquela economia até meados de 1750.

O capítulo inicia com um breve panorama político e econômico do Rio de Janeiro

durante os séculos XVI e XVII. Em seguida, apresenta-se os impactos da descoberta de ouro na economia fluminense e as suas principais atividades “industriais”: a construção de embarcações e a “pesca da baleia”. 19 No próximo capítulo discute-se outra atividade econômica chave no desenvolvimento do Rio de Janeiro, a agricultura em especial a diversificação promovida por Lavradio.

1.1- BREVE CONTEXTO ECONÔMICO E POLÍTICO: RIO DE JANEIRO SÉCULOS XVI E XVII

Nesta primeira parte do capítulo, apresenta-se um breve cenário (econômico e político) do Rio de Janeiro entre a virada do XVI para XVII até 1750. O objetivo é descortinar os principais fatos econômicos e políticos do termo da cidade do Rio de Janeiro. Particularmente, destacar as principais atividades econômicas e os desdobramentos dela decorrentes. Com essas informações, podem-se extrair aspectos delineadores do objeto proposto. 20 Situada numa região singularmente estratégica para os futuros desígnios portugueses, o Rio de Janeiro logo se viu disputado por estrangeiros. A existência de pau-brasil na costa brasileira e, diante do fato de que não o Tratado de Tordesilhas, mas somente com suas terras efetivamente ocupadas é que garantiriam o seu domínio, Portugal tenta garantir o seu quinhão

19 Consoante o Vocabulário Português & Latino de Raphael Bluteau, no século XVIII o termo indústria significava “destreza em alguma arte, trabalho”. Os estaleiros e armações de baleias eram organizações do trabalho conhecidas como fábricas, que no mesmo Vocabulário tem o significado de “casas, ou oficinas em que se fabricão alguns gêneros”. 20 Esta parte da tese baseou-se em Sampaio (2003); Lobo (1978); Cardoso & Araújo (1992); Cavalcanti (2004).

22

lançando mão da expedição capitaneada por Martim Afonso de Sousa. Para além de se ocupar, tinha-se que se reverter a situação geográfica privilegiada do Rio num negócio rentável o mais breve possível. Tanto, que em 1555, foi conquistada pelos franceses os quais fundaram a França Antártica.

O descaso de Portugal pelo Brasil, em seus primeiros anos, pode ser explicado pela

inexistência de metais preciosos. Assim, seria uma temeridade desviar recursos do rentável comércio com a Índia a fim de se aventurar em terras recém descobertas. Sem os metais

preciosos, Portugal poderia optar pela colonização, contudo a falta de recursos e de almas impossibilitou esse processo.

A capacidade de estabelecer uma atividade econômica na região do Rio de Janeiro se

fazia necessário visto a presença quase que constante de barcos franceses e espanhóis. Segundo DEAN (1984), entre 1505 a 1555 mais de 330 barcos estrangeiros passaram pela Baía de Guanabara. O movimento de embarcações de outras nações também pode ser explicado

pela qualidade da água desta região e pela prática constante de escambo com os Tupinambás. Também servia como um importante entreposto para realizar uma estada antes de seguir viagem ao Oriente ou ao sul. Assim, a presença estrangeira era inevitável e relativamente constante.

A fim de combater a presença dos estrangeiros, em especial a dos franceses, Pero

Lopes de Souza e Martim Afonso de Souza ergueram uma pequena casa de pedra em 1531, próxima ao rio que deram nome de Carioca. Depois de três meses, prosseguiram viajem ao sul. A expedição de Martim Afonso e Souza (1531) tinha como objetivos a expulsão dos franceses, a busca por metais preciosos, o inicio do processo de povoamento da terra e a organizar e criação de órgãos administrativos. Foram cinco navios e mais 400 homens que saíram de Pernambuco, passando por Bahia, Rio de Janeiro até a fundação da Vila de São Vicente (1532), instalando o primeiro engenho de açúcar. Em 1534 Martim recebe da Coroa a posse de São Vicente enquanto que Pero fica com a Guanabara, porém este volta para Portugal e a região fica abandonada, uma vez que faltavam recursos para garantir a posse de tamanha extensão territorial (de São Vicente a Guanabara). Fato que explica porque os franceses não encontraram maiores dificuldades para tomar posse da região da Guanabara em 1555. Passado o período de negociação, por via diplomática, entre os governos português e francês, Mem de Sá partiu do litoral paulista, em 1560, a fim de expulsar os franceses, o que é feito. Porém, os derrotados refugiam-se no interior, lançando contra-ataque logo em seguida. Depois disto, o governo português convenceu-se, definitivamente, em erguer uma vila na

23

Guanabara a fim de dar estabilidade e posse definitiva sobre o que viria a ser São Sebastião do Rio de Janeiro. Para tal, o Rei envia uma esquadra de Lisboa sob o comando de Estácio de Sá, a qual obteve reforços vindos da Bahia, Espírito Santo e São Vicente. Embora fundada por Estácio de Sá em 1565, só em 1567 é que o conflito contra os Tamoios e franceses encerra-se. Dentre os mortos, o fundador Estácio de Sá, além do comandante da Bahia Gaspar Martins. Coube a Mem de Sá a tarefa de dar um sítio definitivo para São Sebastião, isto é, construir a cidade. Antes disto, Estácio de Sá erguera um pequeno povoado em 1565 (“cidade velha”) perto da atual Urca, o qual tinha um caráter precário e provisório, parecendo mais um acampamento militar do que uma vila, embora tenha dotado a minúscula população de uma estrutura administrativa completa (escrivão, notário, alcaide mor e etc). Portanto, formou o aparelho institucional que foi aperfeiçoado e ampliado depois de

1567.

Pode-se afirmar que a colonização efetiva de São Sebastião se deu quando da implementação da cidade no morro do Castelo, a partir de 1567, uma vez que requereria o estabelecimento de um mínimo de aparato político jurídico-administrativo, construção de edificações, distribuição de terras, etc. A primeira medida foi a transferência da região da Carioca (morro da Cara do Cão, atual Urca) para o interior da baía (atual morro do Castelo). Além de oferecer maior segurança, o morro do Castelo dificultava o acesso de inimigos uma vez que estava sobre um terreno acidentado (montanhas) e lamoso (lagos e banhados). Além disto, representava um bom porto natural e era próximo da Serra do Mar (servindo de entrada para o interior). Porém, não era servido de água de boa qualidade nas suas proximidades (só no rio Carioca), o que obrigou a construção de poços que dificultaram e atrasaram a finalização da edificação daquela nova região. Os franceses, por sua vez, se refugiam na região de Cabo Frio e só saíram em 1615, quando Constantino Menelau expulsou-os e as aparições seguintes de estrangeiros ocorreram por conta de atos de pirataria. Nesses primeiros anos após a fundação do Rio de Janeiro as principais atividades econômicas estavam ligadas à subsistência e consistiram na extração vegetal, caça, agricultura, artesanato e a exploração da caça de baleia (próximo ponto se deterá as atividades econômicas). A falta de material humano era latente e o emprego de mão-de-obra local, leia-se indígena, foi de suma importância, não só para os dois lados envolvidos nas guerras de ocupação da Guanabara, mas principalmente como mão-de-obra. Diversas tribos indígenas habitavam a região do Rio de Janeiro, contudo todas pertencentes aos Tupi-Guaranis. Na região da Guanabara, predominavam os Tamoios, pertencentes ao grupo Tupinambá, que

24

ocupavam a região de Angra dos Reis até Cabo Frio. Os Tupiniquins, aliados dos portugueses, que lutaram contra os franceses em 1560, situavam-se no entorno de São Vicente e eram rivais dos Tamoios. Os portugueses utilizavam as rivalidades entre diferentes tribos a fim de

primeiro consolidar sua posição via posse de territórios e, posteriormente, para a escravização. Com isso, se garantia mão-de-obra e terra, dois fatores de produção importantíssimos para iniciar qualquer atividade econômica.

A população indígena sofreu perdas significativas não só com as guerras, mas também

devido a pestes e doenças. O europeu, por conta da secular domesticação de animais, adquiriu uma proteção microbiana que os indígenas não possuíam. O choque microbiano evidencia-se

ante a redução significativa da população indígena na região de São Sebastião. DEAN (1984) aponta uma redução de 1,8% anual da população indígena na segunda metade dos XVI. A população dos Tupinambás em 1555 variava entre 57.000 a 63.000 índios.

A escravização dos gentios que lutaram contra os portugueses e a favor dos franceses

(os Tamoios, depois os Goitacases e por fim os Guarus ou Guarulhos), garantiu mão-de-obra barata. Além disso, os portugueses utilizaram-se do conflito existente entre tribos para ampliar

a oferta de índios escravizados. O elevado preço do escravo africano também ajuda a explicar

a busca pelos gentios. Para SAMPAIO (2003), esta diferença nos preços pode ser devida ao baixo custo de captura e de transporte dos silvícolas comparativamente ao afro. No entendimento de SCHWARTZ (1988), a baixa produtividade do indígena explicaria essa

diferença. Independentemente das diferentes posições, há um consenso sobre a importância do trabalho indígena em diversas áreas periféricas até fins do XVII, diante a escassez de braços negros (SCHWARTZ, 1988). Neste sentido, os índios desempenharam um papel fundamental na formação da sociedade colonial, marcada pela submissão via catequese. 21 Outro aspecto importante é o fato de que a expulsão dos índios cada vez mais para o interior facilitava o acesso à terra. Concedida através do regime de sesmaria, era “modelada com base em usos e procedimentos legais legados pela tradição” (NOZOE, 2005, p.1). O regime de sesmaria se caracteriza por ser “o principal meio de promoção da colonização e do aproveitamento dos vastos territórios do além mar, que a expansão ultramarina colocou sob domínio da Coroa lusitana” (NOZOE, 2005, p.1).

A terra era doada ou aforada através do foral (carta de privilégio de aforamento de

terras) e a distribuição da mesma fora desigual. Como exemplo dessa desigualdade na colônia, na Bahia, as grandes propriedades eram maiores do que se comparado com o Rio de Janeiro e

21 Em texto recente, John Monteiro é da opinião de que o trabalho indígena (o negro da terra) desempenhou importante papel até o século XIX. Cf. Monteiro (no prelo).

25

milhões de hectares poderiam pertencer a um indivíduo (SCHWARTZ, 1989). Contudo, assim como verificada em outras regiões coloniais, a concentração da terra em mãos de determinadas famílias, ocorrida tanto na Bahia, quanto no Rio de Janeiro no decorrer do século XVII, fez com que dois importantes fatores de produção (terra e mão-de-obra) estivessem “disponíveis” e a um custo relativamente baixo. 22 O capital é outro importante fator de produção. Existem três teses a fim de explicar a origem da formação do capital o qual deu origem a plantation fluminense em seus primeiros movimentos do século XVII. A primeira é a tese clássica de Celso Furtado, na qual os holandeses financiaram os engenhos brasileiros (no nordeste em especial) nos seus primórdios. Já para LOBO (1978) e CANABRAVA (1984), a vocação atlântica do Rio de Janeiro, através da movimentação de seu porto com a região do Prata e África vai dar origem ao capital mercantil necessário para financiar os engenhos. Por último, FRAGOSO (1998) aponta, para a existência de capital advindo do aparato administrativo colonial e do apresamento de índios praticado por famílias de colonizadores e seus descendentes e continuada com o tráfico negreiro atlântico. Baseado na documentação composta pelas escrituras de compra e venda de navios, lojas, estoques de mercadorias e demais prédios urbanos, João Fragoso afirma que o setor mercantil do Rio de Janeiro apresenta valores pouco expressivos frente ao setor rural (engenhos e terras), o que dificultaria o argumento de que o setor mercantil poderia financiar os produtores fluminenses, fato que se altera no XVIII. Aqui, não se pretende discutir este aspecto, pois além de fugir do objeto proposto não se possuem fontes primárias para aprofundar o debate. O importante é que independente da origem do capital (estrangeiro, mercantil ou da captura de gentios), ele existia e financiou os primeiros engenhos e lavouras cariocas. No início do XVII capital, terra e mão-de-obra estavam disponíveis a boa parte dos grandes produtores fluminenses, o que possibilitou iniciar a produção agrícola (e outras atividades econômicas) para além da simples subsistência. Portanto, depois da estabilização dos portugueses na região de São Sebastião, isto é, franceses em Cabo Frio, a pacificação dos índios próximos, incorporação da terra e mão-de- obra indígena, além das primeiras edificações (colégio dos jesuítas e igreja de São Sebastião), ocorre um processo de consolidação do domínio luso na Guanabara. Os viajantes que ali arribavam já dispunham de um porto e alguma infraestrutura onde antes pouco se tinha. Os primeiros sinais desta “consolidação” é a existência de 3.580 habitantes, em 1580, sendo 750 portugueses, 100 negros e os demais índios e mestiços. Não só a população cresce

22 A respeito das famílias fluminenses cf. Fragoso (2005).

26

nesse período, como também a estabilidade e a disponibilidade de fatores de produção (capital, terra e mão-de-obra), o que proporcionou o estabelecimento de atividades econômicas, em especial a cultura canavieira. Já em 1580, o Rio de Janeiro contava com três engenhos de açúcar (LOBO, 1978). Natural a escolha da produção de açúcar em São Sebastião, visto a experiência portuguesa adquirida no nordeste brasileiro, mas principalmente, nas ilhas atlânticas. Em fins do século XVI, Portugal transformara-se no principal produtor de açúcar, o que facilitava não só o processo de produção, mas também das demais etapas de comercialização do produto. Como dito anteriormente, até a metade do XVI, o Rio de Janeiro era mais um entreposto que servia tanto para efetuar trocas com os indígenas locais, como para realizar uma estada antes de seguir viagem ao Oriente ou região do Prata. A fim de dar cabo a essa situação e observando a viabilidade da produção de açúcar em terras de Vera Cruz, a Coroa altera seus planos em relação ao Rio de Janeiro ao construir a cidade. Outro importante aspecto que norteou a colonização de São Sebastião foram as descobertas espanholas em Potosi e no Alto Peru (atual Bolívia), de jazidas de prata. A coroa lusa pôde imaginar a possibilidade de encontrar metais preciosos e o Rio de Janeiro era a entrada para o interior do Brasil. Caso contrário, provavelmente, continuaria no lucrativo comércio oriental. A virada do XVI para o XVII marcou importantes transformações na economia colonial brasileira. Entre as inúmeras metamorfoses sofridas, não só na colônia, mas no império ultramarino, destaca-se a União Ibérica. A crise de sucessão no trono luso abriu uma oportunidade para consolidar o poderio da coroa espanhola sobre a península ibérica. Com a morte de D. Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir e de seu sucessor direto, o cardeal D. Henrique, o trono português fica sem legatário, levando ao Juramento de Tomar, em 1581, documento que assumia os compromissos entre Espanha e Portugal. A união permitiu um triângulo negreiro entre Luanda, Rio de Janeiro e Buenos Aires (ALENCASTRO, 2000). Neste sentido, o Rio de Janeiro aprofunda a sua inserção não só no império ultramarino português, como também na região do rio da Prata (CANABRAVA, 1984; CEBALLOS, 2008). Outro fator importante para o desenvolvimento do Rio de Janeiro foi a ocupação de Pernambuco (1630-1654) pelos holandeses. Num primeiro momento estimulou a produção açucareira em outras Capitanias, mas também “levou à perda de inúmeros navios que transportavam açúcar para Portugal e exigiu, ademais, um esforço notável de fortificação das praças sob controle luso” (ABREU, 2006, p.15). Outro ponto interessante é levantado por Evaldo Cabral de Melo quando destaca a migração de senhores de engenho de Pernambuco

27

para o Rio de Janeiro, o que corroborou o aumento do número de engenhos e produção de açúcar no Rio de Janeiro (MELO, 1998). Durante a união das coroas ibéricas, o poder da Câmara Municipal do Rio de Janeiro expandiu-se em face do “enfraquecimento” do poder metropolitano. Como exemplo, Eulália Lobo cita o caso da expulsão dos dois primeiros administradores eclesiásticos pela população quando da obrigação de licenças para comprar escravos além do cancelamento das leis de 1570 e 1609 contra a escravização dos indígenas. Tais circunstâncias demonstram que a sociedade e a Câmara nem sempre atendiam as diretrizes vindas do Reino (LOBO, 1978). Por vezes, os representantes da Câmara (grandes proprietários rurais e comerciantes descendentes em sua maioria de conquistadores) não tinham seus interesses atendidos. Um exemplo disto ocorreu em 1648, quando o Governador Salvador Correia de Sá e Benevides mandou destituir os bens e as terras de famílias de conquistadores da região de Campos em favor dos jesuítas, da sua família e dos beneditinos. Obteve outras benesses por parte da Coroa lusa, uma vez que além de ser Governador, filho do ex-Governador Martim Correia de Sá, ele era um grande produtor rural do Rio de Janeiro. Quase sempre os aliados dos Sá auferiam benesses “oficiais” por participar dessa aliança (BOXER, 1973). 23 Durante o XVII, a Câmara do Rio de Janeiro vai consolidar e ampliar sua área de atuação através do exercício de funções que antes não eram de sua alçada. É o caso da fixação dos fretes em 1639, essa que cabia ao Governador. Segundo Lobo, o que pode explicar esse movimento de expansão do poder da Câmara foi o fortalecimento dos negociantes “atacadistas e exportadores”, como também o apoio às causas “populares”, como o seu posicionamento favorável na escravização dos índios, prática comum dos grandes e pequenos produtores (LOBO, 1978). Assim, a Câmara acentua a sua participação nos desígnios da cidade, ao mesmo tempo em que a economia do Rio de Janeiro ampliava a sua participação nas exportações de açúcar e na produção de mantimentos a fim de reduzir o déficit causado pelos holandeses em Pernambuco. Além disto, verifica-se a elevação do contrabando com a região de Buenos Aires. O comércio com os escravos vindos da África e trocados no Prata por farinha de mandioca, cachaça (produzidos no Rio de Janeiro) e fumo baiano representava uma importante rota comercial. As transações econômicas com a região platina não se limitavam à exportação de cativos, mas a importação de couros, sebos e prata vindas de diversas porções espanholas na América.

23 A respeito das alianças das famílias dos conquistadores do Rio de Janeiro e Salvador Correa de Sá e Benevides cf. Fragoso (2007).

28

A partir do terceiro decênio do XVII o Oriente começa a perder importância (concorrência estrangeira) e o foco volta-se para a América Portuguesa. As importações de escravos africanos elevam-se mesmo com a dificuldade de obter cativos, uma vez que em Pernambuco pagavam-se melhores preços pelos mesmos, em troca da farinha que saía do Rio de Janeiro. Esse movimento é aprofundado em 1640, quando foi liberado o comércio direto entre o Rio de Janeiro e África. Contudo, um ano após, os batavos tomam Angola e a falta de escravos é sentida. 24 A fim de superar este quadro, governo e particulares cariocas financiam parte da guerra de reconquista de Angola (BOXER, 1973; LOBO, 1978). Em seguida, os comerciantes brasileiros (primeiramente os nordestinos e em seguida os fluminenses) estabelecem casas comerciais em Angola, para concorrer com os portugueses no tráfico para o Brasil. Para tal, investem em produtos mais vantajosos na troca por escravos, tais como tabaco e cachaça (produtos novos e baratos), sendo que esta se destaca (CURTO, 2002). Embora o tráfico negreiro cresça, a mão-de-obra indígena continua sendo empregada não só na produção de açúcar fluminense, mas na de alimentos. Enquanto que a Bahia sente a escassez de alimentos, o Rio de Janeiro vê seu agro ofertar frutas, milho, bois, galinhas, porcos, cavalos, legumes e raízes. Esse período também vai presenciar o crescimento do número de engenhos de açúcar no Rio de Janeiro. Consoante o quadro 1, nos anos 1641-50, o número de engenho quase duplicou se comparado com o período 1631-40. Aos poucos, São Vicente assiste ao seu arrefecimento diante do crescimento da região fluminense, não só na estrutura produtiva, mas em diversos aspectos, como a movimentação portuária e o tráfico (feito em pequenas embarcações) com outras regiões. Como destaca João Fragoso, a migração de famílias vicentinas para a região da Guanabara vai confirmar esse movimento (FRAGOSO, 2003).

24 Cabe lembrar que em 1637, Portugal já tinha sofrido um revés na África Ocidental, com a perda do Castelo de São Jorge da Mina para os holandeses. Essa feitoria era um centro importante para o comércio de escravos Minas realizado pelos negociantes renóis atuantes na Bahia. Cf. (Verger, 2002, p.50-51).

29

Quadro 1 – Número de engenhos de açúcar na Capitania do Rio de Janeiro: 1571-

1700

 

Número de

Anos

Engenhos

1571-80

3

1581-90

3

1591-1600

5

1601-10

13

1611-20

23

1621-30

35

1631-40

49

1641-50

98

1651-60

106

1661-70

114

1671-80

121

1681-90

129

1691-1700

131

Fonte: ABREU, 2006, p.15. Elaboração própria.

O comércio de contrabando com Buenos Aires é arrefecido significativamente quando

da restauração portuguesa ocorrida em 1640, a qual vai reverberar numa série de

acontecimentos no Reino e no império português. 25 Na segunda metade do Seiscentos, o

cenário começa a se transformar e a coroa lusa toma diversas providências frente à falta de

recursos financeiros. A criação do Conselho Ultramarino (1642) e da Companhia Geral de

Comércio do Brasil (1649) foi no sentido de reorganizar a estrutura política-administrativa

portuguesa e o comércio com a colônia.

A metade do XVII presencia uma série de impedimentos à Coroa lusa, como o estado

de beligerância na península ibérica até 1668 (elevando os gastos) e a entrada das Antilhas no

mercado açucareiro, o que acarretou na queda dos preços do açúcar conforme mostra o quadro

2 abaixo. 26

25 Sobre a Restauração e a Casa de Bragança cf. Cunha (2000). 26 A respeito da Cia Geral do Comércio cf. Lobo (1978); Costa (2002).

30

Quadro 2 – Preço internacional do açúcar: 1680-1694

Ano

Branco*

Branco**

1584

 

$800

1596

 

$875

1654

 

1$520

1680

0,28

 

1682

0,27

 

1683

0,25

 

1686

0,23

 

1688

0,23

$600

1689

0,24

 

1691

0,26

 

1692

0,26

 

1694

0,34

 

Fonte: 1584 e 1596: COUTO (1998); 1654 e 1688: SCHWARTZ (1999); 1680-1694: PINTO (1979). * Amsterdã, Florins por arroba. ** Réis por arroba. Elaboração própria.

O quadro acima demonstra a tendência de queda do preço do açúcar pós 1650. Este

arrefecimento é o reflexo, em boa medida, das alterações na produção de açúcar na América

Latina, as quais reverberaram também na Capitania do Rio de Janeiro.

O açúcar não se limitava a desempenhar um papel chave como principal produto de

exportação fluminense, ele também era usado como meio circulante. A respeito dessa questão, diferentemente da historiografia que enfatiza a utilização do açúcar como moeda em face da falta da mesma, Fernando Carlos Cerqueira Lima chama atenção para o fato de que não havia escassez de moeda e sim na qualidade da moeda (LIMA, 2008; LEVY, 1978; LOBO, 1978). Segundo Fernando Carlos, o problema estava relacionado entre o preço do açúcar e o endividamento dos produtores, pois a queda daquele contribuía para o crescente endividamento dos produtores que, não podendo honrar suas dívidas em dinheiro de contado, estariam sendo forçados a pagá-las em açúcar, cujo preço era estabelecido por seus credores (mercadores) em valor abaixo do que era consideravam “justo”. Dessa forma, os agricultores viam sua dívida aumentar, quer ela estivesse contratada em réis ou em açúcar (LIMA,2008).

A tendência de queda do preço do açúcar, tanto branco como mascavado, que só se

altera em fins do século XVII, pode ser verificada no quadro 3.

31

Quadro 3 – Preço do açúcar no Rio de Janeiro: 1641-1687*

Ano

Branco

Mascavo

1614

1$000

$640

1653

1$200

NI

1655

1$200

NI

1657

1$280

$850

1665

$800

$320

1666

$800

$400

1667

$900

$400

1675

$874

NI

1687

$950

NI

Fonte: SAMPAIO (2003), p. 113. * Réis por arroba. Elaboração própria.

Entre 1614 e 1687 a queda no preço do açúcar não parece significativa o que sugere que o impacto da crise durante a segunda metade do XVII sobre a economia fluminense não se operou de forma nítida. Com estes resultados, diferentemente da versão que equaciona um período de crise generalizada da agricultura, com reflexos na Europa e no Brasil 27 , Antônio Carlos Jucá de Sampaio aponta para a uma período de dificuldades, mas não de crise. Além disto, destaca para a importância da agricultura de subsistência, ou de gêneros alimentícios não exportáveis, ligada mais ao comportamento de consumo do mercado colonial do que às oscilações internacionais. Assim, o impacto da crise na economia do Rio de Janeiro foi menor (SAMPAIO, 2003). O referido autor defende que essa crise teria limitado-se à cultura exportadora (a lavoura canavieira) e mesmo assim, teria ficado restrita a um pequeno espaço de tempo. Ângelo Carrara apresenta outra leitura para a mesma crise. Analisando os dízimos entre 1680 e 1688, ao contrário dos da Bahia que caíram, os do Rio de Janeiro cresceram. Esse crescimento está relacionado ao fato de que “a produção de açúcar do Rio de Janeiro cresceu exatamente porque a da Bahia e Pernambuco vivia uma crise de produção. Ou seja, o açúcar fluminense ocupou o espaço deixado pelo da Bahia e Pernambuco no momento em que a produção nessas duas Capitanias entrou em crise nos meados da década de 1680” (CARRARA, 2008, p.17, grifos do autor). Novos subsídios podem aprofundar o debate. As diversas normas para reorganizar o comércio colonial acabaram por aumentar as dificuldades, intensificando este cenário já restritivo. O Rio de Janeiro sente esses eventos e faz coro às críticas contra a Companhia Geral de Comércio (COSTA, 2002). A Câmara vai ser o principal eco das Reivindicações. Entre as queixas, a escassez dos gêneros do estanco e falta

27 A respeito da crise sobre a economia colonial como um todo cf. Macardé (1991).

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de transporte para exportação do açúcar e importação de equipamentos para os engenhos, a elevação das taxas de fretes e do preço dos bens de consumo importados. Além destes impedimentos, existia a proibição da manufatura da cachaça para favorecer o vinho, prejudicando os produtores locais (LOBO, 1978). Diante da queda da arrecadação das rendas régias, o Governador autoriza a produção e venda de aguardente cobrando um imposto sobre o consumo da mesma, além da permissão para a saída de navios fora do comboio. Essas medidas atendiam a interesses locais, buscando arrefecer pressões dos comerciantes e produtores fluminenses. Também objetivava manter as receitas equilibradas através do estabelecimento de um fluxo comercial regular entre Rio de Janeiro e Lisboa. Mesmo assim, ocorre uma revolta contra o Governador Salvador de Sá, em 1660, acarretando a sua demissão, a extinção da dízima sobre a exportação de açúcar, do

imposto sobre o sal e outro sobre imóveis. Por detrás desses atos existia o monopólio político dos Sá na condução de diversos aspectos relacionados a vida política do Rio de Janeiro (BOXER, 1973). A Câmara viu suas prerrogativas ampliarem-se e a abrir um conflito contra os Governadores. A explicação reside no fato da Câmara ter em seus quadros grandes proprietários rurais e comerciantes do Rio de Janeiro, ao passo que a instituição de maior autoridade (o Governador) representava os interesses metropolitanos. Natural o choque ante o conflito de interesses. Ainda existe o fato de que por ser a região da Guanabara uma importante rota comercial e militar, a Câmara jogava com isto, elevando o seu poder de barganha frente às instituições metropolitanas. Exemplos disso são dados em 1647, quando a Câmara estava autorizada a tomar medidas militares na ausência do Governador e em 1663, quando o Governador não podia prender representantes da Câmara, nem intervir na sua eleição. Importante salientar que o choque entre o Governador e a Câmara não era corriqueiro

e que decisões de caráter conciliador foram postas em prática (FRAGOSO, 2007). O discurso da falta de meio circulante era uma constante na praça carioca, devido ao envio freqüente das mesmas para Lisboa. Durante crises, o açúcar era empregado como meio

de pagamento, o que prejudicava os comerciantes em detrimento dos agricultores uma vez que

o açúcar estava desvalorizado. Contudo, com a criação da Casa da Moeda no Rio de Janeiro

(1669) e a abolição do açúcar como meio circulante, os comerciantes sobressaem-se aos agricultores na influência da condução das lides na Câmara. No entanto, geralmente os interesses de comerciantes e agricultores da praça carioca andavam na mesma direção, pois o açúcar movimentava a economia daquela região.

33

A nobreza da terra acabava por defender não só os seus interesses, mas também da população como um todo, visto o impacto da produção de açúcar na dinâmica econômica fluminense. Com isso, apropriavam-se de privilégios e monopólios sobre diferentes áreas da

economia local como a arrecadação de impostos e o comando da alfândega. Este cenário se altera com o descobrimento do ouro na região mineira quando as atenções do Reino ganham novos contornos na região. Entram em cena os negociantes Reinóis e a Coroa se volta com maior intensidade sobre a cidade, levando à ruína o projeto de

poder

da nobreza da terra, após duzentos anos de sua existência (FRAGOSO, 2005). As escrituras recolhidas por SAMPAIO (2003) mostram a passagem de um cenário de

baixa

acumulação mercantil no Seiscentos, ante o fraco desenvolvimento dos negociantes da

praça

carioca. Por outro lado, conforme se avança no Setecentos, os homens de negócios

fazem

sentir presentes, não só no maior volume de transações e nas correspondências oficiais,

mas principalmente na participação da lide política e nos desígnios da Capitania do Rio de

Janeiro. Pode-se afirmar que até a metade do Seiscentos ocorre um processo de germinação (estruturação) da infraestrutura da produção fluminense e das rotas comerciais. Além disto, o Rio de Janeiro ganha importância não só na preservação do espaço português, mas também

como elo vital entre diferentes portos, além de ser um importante produtor de açúcar (ver

número de engenhos). Assiste-se também ao surgimento de novos grupos de pressão. O século

XVIII vai presenciar a construção de ruas, estradas e prédios urbanos, sendo que esse processo

vai intensificar-se com a descoberta do ouro em Minas Gerais. Se o destino do Rio de Janeiro

estava traçado pela sua posição geográfica ou por sua vocação marítima, a descoberta de

metais

preciosos vai intensificar esses argumentos de maneira nunca antes vista.

1.2-

O RIO DE JANEIRO E O OURO DAS MINAS GERAIS

Quando o rush mineiro inicia, na virada do século XVII para o XVIII, o Rio ainda é um porto, mas cada vez mais a economia fluminense se desloca para o interior do Brasil. A notícia da existência das jazidas provocou uma admirável migração para Minas Gerais. Indivíduos de diversas classes sociais, de todas as partes do Reino e da Colônia partem para a região mineira, acarretando em um aumento populacional sem precedentes, o que desencadeou não só o aumento do consumo, mas a formação de novos povoados, vilas e cidades, elevando a circulação e produção de diversos produtos. Além disto, foi necessário

34

montar um aparato administrativo e fiscal para garantir a porção da Coroa, reforçando a expansão e importância da região sudeste brasileira. Um dos primeiros impactos na economia fluminenses foi a falta de mão-de-obra qualificada e escrava. Isso vai refletir na produção de alimentos, em especial na do açúcar. De um lado, tem-se o aumento da população e de outro a redução na oferta de alimentos, agravada pelo abastecimento de farinha para Nova Colônia, o que eleva ainda mais o seu preço. Embora a população urbana do Rio de Janeiro tenha aumentado, o êxodo rural para a região mineira trata de provocar não a fome, mas em impor dificuldades no abastecimento de alimentos para a população carioca, uma vez que o esforço concentra-se no abastecimento das

Minas. A produção da Capitania do Rio de Janeiro se reduz (diante da falta de braços) e o que se ofertava ia para Minas, gerando dificuldades no fornecimento de alimentos para os cariocas, em especial na década de 1720. Apesar disso, o período vai presenciar o crescimento do comércio de cabotagem entre diferentes partes da colônia, reforçando a incipiente interligação econômica entre sul, sudeste e nordeste. A zona mineira transformou o cenário econômico colonial com a criação de diversos e diferentes mercados a serem abastecidos. O Rio acaba por ser um importantíssimo entreposto na medida em que vai escoar o ouro e abastecer as Minas. Além disto, vai exportar para a Bahia e Pernambuco, primeiro mandioca, feijão, milho, cachaça, queijo de Minas e toucinho, depois trigo e arroz em troca de coco e tabaco. Para Buenos Aires iam escravos, açúcar, cachaça, mandioca e tecidos de algodão rústico. Vinha trigo, prata, peles, carne seca e banha. Outro importante fornecedor de carne era Rio Grande de São Pedro e a região de Campos de Goitacases (norte da Capitania do Rio de Janeiro). Já de Santa Catarina chegava ao porto carioca peixe fresco. Portanto, os principais produtos exportados pelo Rio eram gêneros alimentícios, escravos (vindo de Angola, Guiné ou plantações de açúcar da região fluminense), farinha de mandioca e instrumentos de ferro, sendo os alimentos, em sua maioria, produzidos em solo fluminense. Um outro exemplo do crescimento da movimentação do porto do Rio de Janeiro no início do século XVIII é arrecadação da dízima da alfândega. Segundo Ângelo Carrara “no

triênio iniciado em 1º de janeiro de 1712 o valor alcançou a cifra de 53:200$000 réis. (

triênio de 1721 a 1723, o valor saltou para 166.500 cruzados anuais, isto é, 66:600$000 réis.

) no

No triênio seguinte, 243.500 cruzados anuais (97:400$000 réis)” (CARRARA, 2008, p.19). A convergência de diferentes grupos sociais para uma mesma região não demorou a gerar atritos. De um lado os paulitas, primeiros a chegarem em Minas, que Reivindicavam o direito pela exclusividade na extração de metais. Do outro, quem chegou depois (em sua

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maioria composto por baianos, fluminenses e pernambucanos). A guerra dos emboabas (1709) deu vitória aos baianos e cariocas, em razão do maior contingente e poderio econômico, levando a uma maior intervenção do governo português na administração da região mineira e

o estabelecimento do uso do caminho novo. 28 O caminho novo permitiu um via de comunicação mais rápida, de 12 a 15 dias, do Rio com a região aurífera. Substituiu o caminho velho que partia de São Paulo e demorava sete dias a mais para atingir Ouro Preto (via Parati). ZEMELLA (1990) mostra a importância deste caminho para o desenvolvimento não só do Rio, mas para toda região mineira e arredores. SAMPAIO (2003) rediscute o papel do caminho novo como ponto de inflexão da economia

fluminense. Para o autor, o caminho novo além de demorar a ser utilizado (por falta de regiões específicas onde as tropas pudessem se abastecer ao longo de seu percurso), existia o fato da sua construção ter sido mais lenta do que se supõe. Esses argumentos são reforçados porque comerciantes do Rio conseguem licença real, em 1710, para utilizar o caminho velho, via Parati, para chegar às Minas. Outro aspecto levantado por SAMPAIO (2003) é que o caminho velho é substituído paulatinamente. Independentemente dos argumentos apresentados, é nítido

o impacto do caminho novo na economia fluminense. Fica a questão da magnitude e do tempo

transcorrido para que os efeitos do caminho novo reverberassem na economia fluminense, mas que eles ocorreram parece não haver discussão. Em troca de vantagens comerciais, a Inglaterra pressiona a Coroa Lusa a fim de obter seu apoio. Uma das decorrências da adesão portuguesa à monarquia inglesa é o aumento do corso e dos conflitos envolvendo portugueses e franceses. Com a circulação da informação de jazidas de ouro na região de Minas Gerais o medo dos franceses voltarem a tomar a Baía de Guanabara materializa-se em 1710, quando Jean François Duclerc aponta na entrada da baía. Falharam, mas em 1711 não! Enquanto se comemorava a vitória, os franceses se preparavam para vingar a morte de Duclerc e a derrota sofrida. Agora sob o comando de René Durguay-Trouin, os franceses adentram novamente na baía de Guanabara, sob espesso nevoeiro, no dia 12 de setembro de 1711. Com as fortalezas de São João e Santa Cruz desguarnecidas por os portugueses acreditarem ser dispendioso mantê-las preparadas para um combate, a princípio, sem data próxima, os franceses não tiveram maiores dificuldades em atravessar a baía. Depois de

intenso combate naval, desembarca a infantaria e toma o Rio de Janeiro, onde boa parte da população e do governo já não estava. Os invasores levaram 240 contos de réis em dinheiro,

28 A respeito da Guerra dos Emboabas há uma extensa bibliografia. Entre os vários autores Cf. Boxer (1969); Souza (2006); Kelmer Mathias (2005).

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100 caixas de açúcar, 200 bois além de outros bens e produtos saqueados (CAVALCANTI, 2004, p.45). Afora o desgaste moral, prejuízo material e perda de almas, a cidade ficou intensamente prejudicada em face do número de prédios públicos e privados destruídos. A “dimensão atlântica” de uma residência carioca no momento da invasão surpreende: “As casas particulares pareciam armazéns, repletas de curiosidades da Europa, China, Índias Orientais, Pérsia e Japão. O valor de tais bens ultrapassava os 4 milhões” (FRANÇA, 2000, p.144). Apesar do precário estado físico da cidade, os habitantes trataram de reconstruí-la e voltar a exercer sua principal atividade, o comércio. Tanto que os bens saqueados pelos franceses foram comprados pelos próprios moradores. Voltou também o comércio ilegal (contrabando), principalmente de ouro, usado desde o comércio com África e Índia até na troca por apetrechos importados, vindos de navios estrangeiros arribados no porto carioca. 29 Apesar do esforço do governo em tentar combater o descaminho, num ambiente de fronteira aberta, o controle ficou muito prejudicado. Quando se detém aos números da movimentação portuária do Rio de Janeiro, compreende-se a tarefa de controlar o fluxo de pessoas, produtos, escravos e demais agentes e bens envolvidos na lide diária da dinâmica comercial. Oficialmente, a cada ano 15 embarcações chegavam em Lisboa tendo como origem o Rio entre 1739 a 1763. Contudo, o comércio irregular de embarcações estrangeiras e nacionais, prejudicava o controle deste comercio “marginal”, mesmo sob o sistema de frotas. Devido aos constantes ataques às embarcações, foram instauradas as frotas em fins do XVI e durou até 1765. As frotas tinham maior regularidade, isto é, rotas, intervalos e portos pré-estabelecidos, que permitia, teoricamente, um maior controle sobre produtos e agentes envolvidos. Eram três os comboios entre a metrópole e os portos do Rio, Salvador e Recife, além de um menor entre Maranhão-Pará, quase sempre durante os meses de janeiro a agosto. Segundo Eulália Lobo, entre 1739 e 1763, 1.539 navios mercantes entraram em Lisboa proveniente do Brasil e do Oriente. O desenvolvimento da tecnologia marítima fez com que a capacidade de armazenamento das embarcações se elevasse ao longo dos anos. Por exemplo, na metade do XVII embarcavam de 150 a 200 toneladas por embarcação (bergantins e brigues), já no XVIII passa de 1.000 (naus, corvetas e fragatas). A tentativa de impedir a arribada de navios estrangeiros beneficiava os negociantes Reinóis, pois viam o número de casas comerciais estrangeiras se manter ao longo dos anos. A maneira de britânicos atuarem no Brasil era através de negociantes Reinos em Lisboa e Porto.

29 Para maiores detalhes cf. Cavalcante (2006); Pijning (2001).

37

Isso se verifica num diminuto número de casas de negócio estrangeiro na praça carioca. Durante o período 1750-80 as procurações levantadas na Torre do Tombo mostram que os negociantes estrangeiros atuantes em Lisboa estavam presentes na lide comercial fluminense, principalmente na cobrança de créditos envolvidos em negociações de fazendas secas, tecidos através de seus procuradores Reinóis. Até a segunda década do XVIII o governo português sabia que para fazer frente a novos ataques, à crescente evasão fiscal, ao elevado descaminho, além de proteger as minas e expandir a extensão territorial lusa à Bacia do Prata, a Coroa portuguesa deveria ampliar a sua área de jurisdição, via governo do Rio de Janeiro, à zona das Minas e ao sul da colônia (LOBO, 1978, p. 32). Os fatos subsequentes demonstram isso, já que em 1733, sob a administração de Gomes Freire de Andrada, quando finalizada a guerra de sucessão da Espanha e Portugal, os lusos expandem os seus domínios até o sul, com o reconhecimento de Colônia do Sacramento pelos espanhóis. Colônia estava posta na frente de Buenos Aires e os espanhóis mais do que expressarem preocupação, ficaram enfurecidos com a ousadia lusa. A Câmara do Rio sempre apoiou e estimulou o empenho do Governo do Rio para que este consolidasse a posição portuguesa e a ocupação definitiva naquela região, tendo em vista a importância de Colônia para os negócios fluminenses. A subordinação definitiva de toda a região sul (Rio Grande de São Pedro, Santa Catarina, Colônia e Santos) ao governo de Gomes Freire se dá em 1748. Essa medida vai no sentido de tentar garantir a posse do território tão extenso. Administrativamente, a solução de centralização da tomada de decisão estava resolvida, contudo a falta de recursos impedia o domínio de fato sobre as porções mais ao sul. Por isso, em 1737 inicia a ocupação do Rio Grande. Importante lembrar que antes, em 1735, Gomes Freire foi nomeado Governador das Minas Gerais e depois, em 1737, de São Paulo. Na verdade, a idéia de controle por um único condutor das diretrizes políticas pode ser entendida como a de melhor solução para o governo português, frente a inúmeros problemas de informação e de articulação no momento da tomada de decisão. Dentro do seu período de governo, Gomes Freire acaba por administrar as novas Minas em Mato Grosso e Goiás. Conforme se avança ao longo da primeira parte do Setecentos, os diferentes setores da economia fluminense, marginalmente, iniciam importantes transformações. SAMPAIO (2003) mostra, com base nas escrituras públicas de compra e venda entre 1700 e 1750, o crescimento das transações envolvendo bens ligados a urbe urbana (sobrados, moradas e lojas), do crédito,

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de um incipiente mercado de dívidas ativas e de outras vendas (mostrando a diversificação da

economia e da sociedade do Rio de Janeiro). Esse cenário desnuda uma trajetória que a sociedade carioca vai trilhar, o seu desígnio será os negócios ligado ao trato mercantil cada

vez mais diversificado. Na metade do século XVIII torna-se nítida as consequências desse processo, qual seja,

o espaço fluminense transformou-se no principal locus da dinâmica econômica colonial

brasileira. Percebe-se que com a intensificação do fluxo de pessoas, navios e comércio, natural

que também ocorresse uma ampliação da importância política do Rio, dentro dos quadros do império português. Isso se evidencia em 1763, quando é transferida a capital de Salvador para o Rio de Janeiro. O cenário foi descortinado e o prosseguimento do século XVIII mostra o crescimento econômico, político e social do Rio de Janeiro, que se materializa com a chegada da Corte em 1808. A seguir, passa-se ao palco onde atuaram os personagens que construíram a consolidação fluminense durante a segunda metade do Setecentos.

1.3- AS PRINCIPAIS ATIVIDADES ECONÔMICAS

A presente seção tem por objetivo analisar as principais atividades econômicas realizadas no Rio de Janeiro. A fonte primária que auxilia na compreensão de um panorama do que era produzido em solo fluminense é o inventário pos-mortem. Infelizmente, os inventários depositados no AN compreendidos entre 1750-90 se limitam a 91 e estão concentrados nas décadas de 1780 e no ano de 1790. Assim, optou-se por empregá-los pontualmente. Tomando-se esse cuidado, percebe-se a participação de novas culturas na estrutura produtiva agrícola fluminense, como o café, arroz e anil, principalmente pós 1771. De uma maneira geral, os inventários coletados sugerem a idéia de que a produção estava concentrada na agricultura de subsistência e na de exportação. Os inventários também mostram que o Rio de Janeiro foi gradualmente diversificando a sua produção agrícola pós 1771, mas ainda se destacava a produção de açúcar e de mandioca. Diante do reduzido número de inventários, optou-se por aprofundar a análise com base em documentação levantada nos arquivos pesquisados no Brasil e Portugal. As informações não são precisas como os inventários, mesmo assim se tem um panorama do que se produzia no termo da cidade do Rio de Janeiro. Os setores que se destacaram durante o período de 1750-90 são a agricultura e a “indústria” (principalmente caça da baleia e construção de embarcações). Evidentemente,

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existiam outras atividades econômicas presentes na Capitania do Rio de Janeiro (como a pecuária em Campos e a produção de sal no litoral), porém se destacou aquelas que estavam circunscritas à região do termo do Rio de Janeiro.

1.3.1- As “indústrias” no Rio de Janeiro

A “indústria” no Rio de Janeiro de meados do XVIII consistia em pequenos

aglomerados produtivos com um mínimo grau de mecanização do processo produtivo. As fábricas permitidas no Brasil durante o período colonial eram voltadas para a produção agrícola, como as empregadas no fabrico do açúcar e da aguardente. No Rio, encontravam-se exemplos de pequenas fábricas como as envolvidas no processo de descascar o arroz, para descaroçar o algodão, na produção de anil, curtumes para o beneficiamento do couro, na obtenção de óleo de baleia, além da fábrica de cordas produzidas a partir de uma fibra de planta nativa chamada guaxima, de propriedade do homem de negócio de João Hopmam. Além destas, existiam pequenas oficinas que produziam pentes, guarda-sóis e pouquíssimas fábricas têxteis destinadas para a produção de tecidos grosseiros (CAVALCANTI, 2004). Mesmo assim, estas fábricas desempenharam um papel importante, pois representaram um embrião desse setor na América Portuguesa. Embrião no sentido de fornecer uma infraestrutura física e um conhecimento prévio mínimo para o prosseguimento de atividades industriais vindouras. Os exemplos do emprego dos inventos de Jerônimo Vieira de Abreu em

diversas atividades agrícolas no Rio e o estaleiro Mauá (onde se construíam embarcações e se processava a gordura das baleias) mostram a importância de uma atividade embrião para o desenvolvimento de futuras.

De uma maneira geral, o incentivo para o colono era o da proliferação daquilo que não

se podia produzir na colônia, visto as distâncias envolvidas e o limitado fluxo informacional do que se fazia em além-mar. Soma-se o poder da influência de instituições locais sobre as metropolitanas, na definição de estratégias de inserção política e mercantil, de agentes ligados ao poder local. Mas para tudo existe um limite, e esse foi posto quando o intendente-geral da Polícia da Corte e Reino, Diogo Inácio de Pina Manique informa, em fevereiro de 1784, a Martinho de Melo e Castro, o estabelecimento de duas fábricas de galões de prata e ouro na cidade do Rio de Janeiro, bem como a multiplicação de teares de algodão e de seda no recôncavo daquela cidade e em Minas Gerais, solicitando a ponderação régia acerca destes

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estabelecimentos, uma vez que o mesmo acontecia já nas Ilhas de Cabo Verde (AHU, avulsos RJ, cx.123, doc.9908). A resposta veio em janeiro de 1785 quando Martinho de Melo e Castro, ordena ao Vice-Rei Luis de Vasconcelos a abolição das manufaturas de tecidos existentes no Brasil, determinando que se faça uma relação dos proprietários, dos locais onde existem estas fábricas e quais tecidos se fabricam (AHU, avulsos RJ, cx.125, doc.10009). Segundo o documento acima, no Rio existiam onze fábricas de tecido de lã, linho e algodão e cinco de tecidos de ouro e prata. A proibição de manufaturas no Brasil deixa claro o projeto que a monarquia lusa tinha para o Brasil, fornecedor de matéria-prima e pedras preciosas, o qual não poderia produzir nada que concorresse com as manufaturas portuguesas. A seguir, destacam-se as principais atividades industriais desenvolvidas no termo da cidade do Rio de Janeiro durante a segunda metade do XVIII: a baleação e a construção de embarcações. As demais fábricas envolvidas na produção agrícola serão discutidas posteriormente.

1.3.1.1- A armação e caça à Baleia 30

Depoimentos do século XVI remontam que esta atividade era desenvolvida em águas fluminense desde antes da edificação de São Sebastião (ELLIS, 1969; LOBO, 1975; FRANÇA, 2000, 1999). As baleias eram presas fáceis, já que entravam na baía para o nascimento de seus filhotes e posterior amamentação. A espécie que apresenta maior frequência em águas do Atlântico Sul é a Franca Austrais (Eubalaena australis). Atualmente, ela figura entre as baleias com maiores riscos de extinção, devido ao processo predatório. Esses cetáceos apresentam uma natação lenta, são dóceis e navegam próximo às costas. A sua espessa camada de gordura (permitindo a sua flutuação quando abatida) facilita a captura do mamífero. Uma baleia franca pode medir 18 metros de comprimento e chegar próximo de 40 toneladas. O tempo de vida desses mamíferos varia entre 70 e 80 anos podendo se prolongar por mais alguns anos. As baleias francas são pretas e preferem as águas mais quentes o que explica, em parte, a migração destas para a costa brasileira.

30 Esta parte do trabalho se baseia nos seguintes trabalhos: Pesavento (2002) e Ellis (1969). Cabe a ressalva de que como a baleia é um mamífero e não um peixe, a designação baleação é a mais apropriada para a caça à baleia e aos demais processos envolvidos.

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Tudo se aproveita numa baleia: barbatanas (acessórios para vestir), carne, ossos (transformada numa farinha para adubar) e a gordura de onde era extraído o óleo empregado tanto na construção de casas (uma espécie de argamassa) como na iluminação. Luis Edmundo aborda o emprego das barbatanas nas saias e nos espartilhos usados pelas mulheres do XVIII,

Depois da moda do vertugadim, que floriu durante o século XVII, apareceu, no começo do XVIII, o balão, a robe à pannier dos franceses, e que também se chamou donaire ou merinaque. Eram saias montadas em vastíssimas armações de arame trançado, ou de barbatanas de baleia, que roçavam o solo, e de onde as mulheres deslizavam, como que movidas por um sopro invisível. (EDMUNDO, SD, p.229)

Em seus primeiros ensaios, a caça da baleia era praticada livremente no litoral brasileiro, contudo sem uma técnica precisa. Ela torna-se monopólio real a partir de 1602, quando o capitão Pêro de Urecha e seu sócio Julião Miguel arremataram o contrato de exclusividade da caça da baleia no litoral baiano por 10 anos. Ambos vinham da região de Biscaia, que embora tradicional, já estava decadente na caça aos cetáceos devido à concorrência de holandeses e ingleses. Os arrendatários não se fixaram em terras brasileiras. Na verdade, eles partiam de Biscaia até o Brasil, com dois ou três navios para caçar, apurar o óleo, extirpar barbatanas e difundir as técnicas baleeiras no Brasil. O estabelecimento das armações e de toda a estrutura necessária para a caça e posteriores etapas de produções como o beneficiamento da gordura em óleo era uma iniciativa particular. A armação (ou fábrica) era como uma pequena vila, composto de caldeiras, depósitos para o azeite, barbatanas e etc, estaleiro, capelinha, casa da administração e senzalas. Geralmente se localizava à beira do mar para facilitar o manejo do cetáceo pós captura. A caça ocorria por temporada de três meses, passando o restante do ano praticamente a esmo. A Coroa limitava-se a outorgar o monopólio da caça e do comércio derivado da caça da baleia. Na verdade, os vassalos em terras de Vera Cruz não poderiam praticar esta atividade em águas brasileiras, contudo a Câmara baiana julgou procedente um pedido, em 1609, para que a caça fosse praticada pelo homem do mar, Antônio Fernandes da Mata e quem mais quisesse ir praticá-la (ELLIS, 1969). Com o passar dos anos, mais precisamente nos séculos XVII e XVIII, os núcleos baleeiros foram expandindo-se pelo litoral brasileiro, indo da Bahia para o litoral meridional (Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina). Em Santa Catarina a caça experimentou seu apogeu após a unificação dos contratos em 1765. Importante ressaltar que a documentação e a bibliografia consultada não esclarece com precisão a fundação das armações fluminenses e

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sua localização, mesmo assim se tem um panorama do desenvolvimento dessa atividade no Rio de Janeiro. Como dito anteriormente, desde os tempos pré-históricos que se empregavam os ossos, a carne e a gordura das baleias no litoral fluminense. No Rio de Janeiro foram três armações baleeiras, uma na cidade do Rio de Janeiro (posteriormente transferida para Niterói), outra em Angra dos Reis e uma em Cabo Frio. As informações indicadas pela bibliografia consultada indicam que a armação baleeira de São Domingos foi a primeira e mais importante. Remonta da segunda ou terceira década do XVII e foi construída inicialmente atrás da alfândega do Rio de Janeiro. A sua construção representou o marco inicial da expansão baleeira no Brasil meridional. No século seguinte, o contratador Braz de Pina transferiu-a para o lado oposto da Guanabara, local posteriormente chamado de Ponta da Armação (em Niterói), onde permaneceu em atividade até início do XIX. O motivo desta mudança foi a ampliação da alfândega do Rio de Janeiro. O mesmo contratador ergueu mais uma na Ilha da Jibóia (próximo a Angra dos Reis, Baía de Ilha Grande). Por volta de 1729 ergue-se outra em Cabo Frio (Búzios). A primeira contradição é referente à fábrica da ilha das baleias (defronte ao Rio de Janeiro). Esta fábrica foi fundada por volta de 1622. Pouco se sabe sobre esta fábrica, apenas que ela processava a gordura extraída dos cetáceos em óleo. Duas escrituras de arrendamento, ambas feitas em 1673, mostram que Pero de Souza Pereira arrenda a fábrica da “pesca da baleia” e a exploração da armação situadas na ilha das baleias à Francisco Vaz Garcez 31 . Este documento indica que tanto a fábrica como a armação estavam situadas na ilha da baleia. Outra contradição se refere à fundação da armação de São Domingos em Niterói. Segundo fontes secundárias 32 , a armação de São Domingos em Niterói já existia desde 1583. Acrescentam que era empregada mão-de-obra indígena no esquartejamento e demais processos de beneficiamento da baleia. Outra (IHBG, tomo 62, parte 2, p.186-92) indica que esta armação baleeira foi criada em 1782 e que seu patrimônio, em 1826, era de 109:658$690 réis. Este mesmo documento informa que o “complexo baleeiro” de São Domingos estabelecido em Niterói compreendia, em 1826, 13 lanchas, 1 bergantim, 25 escravos, capela, sobrado com a fábrica, 12 moradas térreas, 5 armazéns (para armazenar ou guardar ferramentas e produtos), diversos materiais empregados na caça além de seus derivados (barbatanas e azeite). Novo inventário é realizado em 1831 e soma 122:212$340 réis. Estes

31 Gentilmente cedidas por João Luís Fragoso.

32 http://www.cdp-fan.niteroi.rj.gov.br/niteroi.htm, consultada em dezembro de 2005.

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números demonstram o patrimônio e o custo para praticar essa atividade. Outro fato é que por volta de 1780-90, o pintor desconhecido retrata as baleias na Guanabara e a armação de São Domingos em Niterói. Independentemente da data de fundação ou do local de funcionamento das armações baleeiras no termo da cidade do Rio de Janeiro, o fato é que a baleação existia desde o século XVII no Rio. Além disto, tratava-se de uma importante atividade econômica e com um investimento inicial elevado. De uma maneira geral, até o início do quarto decênio do XVII a caça era livre no Rio de Janeiro (Monsenhor Pizarro e Araújo). Depois disto, em 1644, torna-se monopólio com o estabelecimento do primeiro contrato das baleias no Rio de Janeiro. Mesmo não tendo nitidez quanto ao início desta atividade em águas fluminense, sabe-se de sua importância para a economia local. Em maio de 1644, o provedor da Fazenda Real do Rio de Janeiro, Francisco da Costa Barros, queixa-se de que “não há renda da graxa das baleias que se faz em quantidade nem outras contribuições que na Bahia estão assentadas e recebidas” (AHU, Avulsos RJ, cx.2, doc.120). Além disto, lamenta que a queda na produção de óleo da baleia arrefece a receita da Capitania. O documento parece atestar que a atividade baleeira existia antes de 1644 e seu impacto na renda fluminense não era desprezível. Também sugere que a fábrica já estaria em funcionamento anteriormente ao lançamento do primeiro contrato das baleias.

Em 1676, o parecer do Conselho Ultramarino informa que a fábrica das baleias pertencia à família Souza Pereira. Em 1673 seu dono era Pedro de Souza Pereira (Provedor da Fazenda). O mesmo Pedro arrendou a fábrica para Francisco Vaz Garcez e seus sócios Cristóvão Lopes Leitão e Custódio Coelho Madeira (todos pertencentes à nobreza da terra) (FRAGOSO, 2005). A família Souza Pereira vai ser responsável pela arrematação do contrato das baleias no Rio de Janeiro por quase 40 anos o que, evidentemente, prejudicava a Fazenda Real (ver quadro 4 a seguir).

O mais interessado era o Provedor da Fazenda de Vossa Alteza [Thomé de Souza Correa irmão de Pedro de Souza Pereira] que arrematou por 430$000 ano [na verdade foram 2 contos de réis]. Em 1675 se matou 20 baleias que renderam 20.000 cruzados, 15.000 ficando livres para os contratadores. Este rendimento tem-se experimentado em anos anteriores e sempre foi o contratador o pai deste Provedor, Vossa Alteza está excessivamente prejudicado. (AHU, Avulsos RJ, cx.4, doc.415)

Este mesmo documento informa que o Governador tem que pagar pela fábrica, aos ex- contratadores, 6.000 cruzados. Depois disto, os futuros contratadores deveriam pagar 200$000 réis ao ano de aluguel pelo uso da fábrica à Fazenda Real, como se praticava na Bahia. Além

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disto, comunica que quem quisesse lançar-se neste contrato poderia livremente. Não se sabe o desenvolvimento deste conflito, contudo os arrematadores do contrato das baleias no Rio de Janeiro, após 1678, alteram-se com maior frequência e o preço do contrato anual quadruplica, conforme remete o quadro 4 a seguir. Outro aspecto omitido pela documentação encontrada é

a existência ou não de uma sociedade (na arrematação do contrato) entre a Família Souza

Pereira e Manoel Cardoso Leitão, que era escrivão do Público, Judicial e Notas do Rio de

Janeiro em 1674 (AHU, Avulsos RJ, cx

Apesar da elevada rentabilidade do contrato das baleias – ao menos no período 1644- 77 – quando o azeite de peixe não tinha demanda, o prejuízo era certo, visto os elevados

custos envolvidos nesta atividade. Em 1693 o provedor da Fazenda Real do Rio de Janeiro, Luís Lopes Pegado queixa-se da baixa do preço do contrato devido à sobra de azeite do último contratador João Franco Viegas. Como resultado, o contrato posterior, 1691-1700 é administrado pela Fazenda Real. O Provedor informa que o preço dos contratos maior do que

o anterior é prejudicial, pois poucos querem arrematar por valor superior ao passado, uma vez que a renda do Rio está “em grande baixa” (AHU, Avulsos RJ, cx.6, doc.572). Essa queda reforça o argumento de Ângelo Carrara, pois após 1688 o crescimento do contrato dos dízimos foi menor do que na década anterior, coincidentemente, no momento em que a agricultura da cana-de-açúcar na Bahia retomava a trajetória de alta. Isto ajuda a explicar o possível contratempo vivido pela economia fluminense nos meados da década de 1690, já que se falava, em 1694, do “miserável estado em que se acha o negócio daquela Capitania” (CARRARA, 2008, p.17). A prática de conluio se observava na realização de diversos negócios coloniais, no remate de contratos não seria diferente. Todavia, no caso da arrematação dos contratos tratava-se de uma transgressão! Sebastião de Castro e Caldas (Governador entre 1695-97) denuncia a existência de conluio entre os arrematadores Francisco de Brito Meireles (Provedor da Fazenda), o escrivão Ignácio da Silveira Villas Lobos e os funcionários da Fazenda Real Luis Antunes Viana e João Coelho Vieira. O encarregado de tirar a devassa foi

o Governador, Artur de Sá e Meneses (AHU, Avulsos RJ, cx.6, doc.620). Meneses informa

que sem tirar devassa e sob forte “paixão”, Sebastião tirou o contrato deles devido à prática de conluio. Naquela altura (1696) os contratadores acusados pagaram 29.000 cruzados por três

anos de contrato. Depois de retirado o contrato, a nova arrematação na praça alcançou 9.000 cruzados a mais do que a anterior (38.000 cruzados). O mesmo documento informa que foram mortas 22 baleias em 1696 e que renderam 20.000 cruzados. Como de costume, o Governador reclama que houve dolo na arrematação (de Francisco), pois lucraram 11.000 cruzados. Estes

4, doc.393).

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dados parecem confirmar a rentabilidade do contrato através dos anos e por isso a disputa em torno deles, além do prestígio e do jogo político decorrente deste processo.

O resultado da devassa leva Francisco de Brito Meireles solicitar fiança por ter sido

condenado a seis anos de degredo na Nova Colônia do Sacramento. Meireles argumenta que foi vítima de ódio e inimizade do ex-Governador (Sebastião Caldas) e que estava preso há

mais de dois anos. Ao fazer tal acusação, Sebastião Caldas temia sofrer represálias, pois, segundo ele, os denunciados eram poderosos para se ter como inimigos e cada hum deles [Francisco e Inácio] tem mais de 100 mil cruzados e são dos principais e mais aparentados nesta terra” (FRAGOSO, 2005, p.147).

Em 1698 o Governador Artur de Sá e Meneses pede para aumentar o número de tanques de armazenamento do azeite, pois quando os tanques enchem, a “pesca” pára. Argumenta que “peixes não faltam” e que também deveria aumentar o número de lanchas empregadas para caçar os cetáceos. Pede também que os contratadores possam enviar diretamente, por conta da Fazenda Real, o azeite para Lisboa, pois os navios da Frota saem

lotados. Implementadas, elevariam o preço do contrato e, consequentemente, elevaria a receita da Fazenda Real, uma vez que não teria que comprar o azeite que sobrasse dos contratadores e os futuros contratadores também estariam mais seguros sobre a demanda (AHU, Avulsos RJ, cx.6, doc.635). O pedido é reforçado em 1699 para que os contratadores pudessem enviar por contra própria o azeite produzido (AHU, Avulsos RJ, cx.6, doc.676). Parece que a atividade baleeira no Rio de Janeiro apresentava uma lucratividade alta e constante desde o estabelecimento dos contratos (exceção aos anos de 1690-94) em face da existência de um número ilimitado de cetáceos. Como se verá mais adiante, uma das causas do arrefecimento desta atividade foi a diminuição no número de mamíferos ante a constante caça predatória praticada no litoral brasileiro.

O cenário próspero no qual atravessa a atividade baleeira não deixa de ser um reflexo

da quedra em que a economia do Rio de Janeiro passa. Parece que as conseqüências da crise de 1680 não reverberaram no setor baleeiro, o que sugere que não houve uma crise econômica

generalizada e, se ocorreu, foi de curta duração. No entanto, em 1711 o prejuízo veio com os franceses. O contratador no período 1711- 13 foi Antônio Borges Teixeira. Morador no Rio de Janeiro, arrematou o triênio por 61.000 cruzados, quando ocorreu a invasão dos franceses em 1711. Além de não poder baldear, perdeu todo o azeite depositado no tanque e diversos equipamentos (AHU, Avulsos RJ, cx.11,

doc.1173).

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Caso a estação de caça não apresentasse um desempenho positivo (mais de 10 baleias capturadas) o prejuízo era quase certo pois os custos envolvidos eram elevados. Um exemplo disto é mostrado numa carta de 1727, no qual o então Governador Luís Vaía Monteiro informa ter mandado realizar obras de reforma “secundária” na armação das baleias, com exceção da casa do administrador, cujo valor chegou a dois contos de réis. Dois aspectos incentivavam o movimento marginal (para cima ou para baixo) no preço do contrato. O primeiro é se a safra fosse ruim, o próximo contratador não teria desejo de assentar, pois o mesmo poderia acontecer com ele. Por outro lado, uma situação de superprodução de azeite, mas com demanda baixa ou falta de escoamento, comprometeria o preço do próximo contrato uma vez que o futuro contratador deveria comprar os tanques abarrotados de azeite, por cláusula contratual, iniciando já com um peso morto. Conforme remete o quadro 4, nota-se que apesar do contratempo francês, o preço dos contratos subsequentes não sofrem maiores flutuações. Grosso modo, a baleação apresentava lucratividade. Porém, com a diminuição de cetáceos no Atlântico Sul, os lucros começam a arrefecer. Na verdade, a movimentação portuária do Rio de Janeiro (exponencialmente aumentada com as descobertas auríferas na região mineira) afugenta as baleias da Guanabara, prejudicando a baleação. Assim, em 1729, inicia a construção de uma nova armação, a de Búzios em Cabo Frio. O contratador responsável pelo investimento será Domingos Pinto de Magalhães, que arrematou, no Conselho Ultramarino (via seu procurador Manoel Gomes de Brito), ao preço de 26:400$000 réis por três anos (1729-31), as “pescarias das baleias” no Rio de Janeiro (agora com duas armações, a do Rio e a nova, a ser construída, de Búzios). Pelo custo elevado em erguer a nova armação, Domingos poderia vender o azeite por um preço superior ao praticado pela armação do Rio de Janeiro. O administrador da nova armação seria João de Almeida e, em 1729, João informa ao Rei sobre o arrendamento de terras pelos oficiais da Câmara, para estabelecimento do dito contrato. A concorrência com a armação do Rio deve ser reduzida, visto que o número de cetáceos capturados cai consideravelmente depois de 1720 como já sublinhado. Aos poucos a armação do Rio vai ver sua produção arrefecer ante a presença dos estrangeiros e a queda de cetáceos devido à movimentação portuária na baia de Guanabara. Não se encontrou indícios de que Brás de Pina tenha realizado tal expansão como se propaga (ELLIS, 1969; RIOS FILHO, 2000). Também em 1729 ocorre a expansão para São Paulo, quando do assento do contrato da nova área por dois importantes homens de negócio, Domingos Gomes da Costa e seu sócio Brás de Pina. O contrato tinha duração de 10 anos (valendo do primeiro ano da “pesca” em diante) e foi arrematado por 24.000 cruzados por ano ano (AHU, Avulsos RJ, cx.31,

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doc.3246). Além de empregar 12 escravos, vai ser responsável pelo investimento na construção da armação e demais apetrechos para poder praticar a caça aos cetáceos. Depois deste período, entrega a armação e os 12 escravos para a Fazenda Real. Ganhou isenção, pelo mesmo período, de qualquer taxa ou imposto que incidisse sobre a atividade.

Quadro 4 – Contratadores das “pescarias das baleias”: 1644-1801

Período

Contratador

Armação (ões)

Preço anual*

1644-71

Pedro de Souza Pereira

RJ

2.000.000

1672-74

Pedro de Souza Pereira

RJ

2.000.000

1675-77

Thomé de Souza Correa

RJ

2.000.000

1678-83

Manoel Cardoso Leitão

RJ

8.120.000

1684-86

Manoel Cardoso Leitão

RJ

12.880.000

1687-89

N.I

RJ

N.I

1690-92

João Franco Viegas

RJ

8.120.000

1691-93

Fazenda Real

RJ

0

1694-96

N.I

RJ

8.000.000

1697-1700

N.I

RJ

11.600.000

1701-09

N.I

RJ

N.I

1711-13

Antônio Borges Teixeira

RJ

8.133.333

1714-17

Domingos Francisco de Araújo

RJ

7.546.667

1717-19

Joaquim da Silva Braga

RJ

8.000.000

1720-23

Miguel Ayres Maldonado

RJ

7.466.667

1724-26

Vicente Lopes Ferreira

RJ

10.000.000

1726-28

Manoel Coelho do Prado

RJ

10.000.000

1729-31

Domingos Pinto de Magalhães

RJ**

8.800.000

1729-31

Domingos Gomes da Costa

SP

Cedido

1732-34

José Vieira Souto

RJ

8.200.000

1735-37

Manoel Francisco de Oliveira

RJ

8.200.000

1738-39

Manoel Ferreira Braga

RJ

8.400.000

1740-42

Brás de Pina

SP, RJ

N.I.

1743-48

Thomé Gomes Moreira

SC***, SP, RJ

28.400.000

1748-53

Pedro Gomes Moreira

SC, SP, RJ

18.400.000

1754-59

Pedro Gomes Moreira

SC, SP, RJ

11.216.667

1760-65

Francisco Peres de Souza

SC, SP, RJ

11.216.667

1765-77

Ignácio Pedro Quintela e Cia

BA, SC, SP e RJ

32.000.000

1777-1789

Joaquim Pedro Quintela e Cia

BA, SC, SP e RJ

40.000.000

1789-1801

Joaquim Pedro Quintela e Cia

BA, SC, SP e RJ

96.000.000

Fonte: 1644-77: AHU, Avulsos RJ, doc.415, cx.4; 1678-86: AHU, Avulsos RJ, doc.499, cx.5; 1690-92:

AHU, Avulsos RJ, doc.587, cx.6; 1697-1700:AHU, Avulsos RJ, doc.690, cx.6; 1711-13: AHU, Avulsos RJ, doc., cx.; 1714-19: AHU, Avulsos RJ, doc.1080, cx.10; 1720-23: AHU, Avulsos RJ, doc., cx.; 1724- 26: AHU, Avulsos RJ, doc., cx.; 1726-34 e 1748-65: AHU, caixa 129, doc.10263, 1765-77: ANTC livro 4104, 1789-1801: Ellis, 1969. 1740-48: AHU, Avulsos RJ, doc.3593, cx.34; 1738-39: AHU, Avulsos RJ, doc.3233, cx.31. N.I: Não identificado. * Em réis. ** Inclui a nova armação de Cabo Frio (Búzios). *** Pela nova armação de Santa Catarina nada se pagou pelo investimento de Thomé na construção.

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O movimento de expansão ao sul foi postergado, pois a Fazenda Real não queria criar

concorrência para as armações fluminenses e nem que o ouro encontrasse outra rota de fuga (ELLIS, 1969, p.50). Em 1732 ficaram prontas as instalações na Ilha de São Sebastião e já

neste ano arpoaram-se as primeiras baleias (AHU, Avulsos RJ, cx.27, doc.2847).

O óleo fabricado em São Paulo deveria ser exportado para Lisboa via Rio. Em janeiro

de 1735 o Conselho Ultramarino emite parecer favorável ao requerimento de Domingos Gomes da Costa, solicitando licença de navegação e transporte do azeite para as Ilhas e para

Capitania de Pernambuco.

A prática de conluio na arrematação dos contratos das “pescarias” parece não ter fim.

Em 1731, o corretor da Fazenda Real Eusébio Peres da Silva envia carta a D. João V, alertando-o sobre as perdas nos valores da arrematação do contrato por Manoel Gomes de

Brito, Francisco de Araújo e José dos Santos. “No contrato da baleia há certo a perda” (AHU, Avulsos RJ, cx.22, doc.2398). O lance oferecido por estes foi de 18.500 cruzados por ano mas

o contrato anterior estava regulado em 22.000 cruzados e depois de novo lance passou para

20.500 cruzados. Quem arrematou foi José Vieira Souto sendo seu contrato exercido durante 1732-34 (AHU, Avulsos RJ, cx.22, doc.2398). Em novembro de 1734 ocorre uma disputa pelo contrato das “pescarias do Rio de Janeiro” entre Domingos Gomes da Costa (atual contratador de São Paulo) e Manoel Francisco de Oliveira. Manoel acabou por arrematar o contrato pagando 63.000 cruzados por três anos, em 1735. Domingos tinha oferecido (em Lisboa) 40.000 cruzados pelas armações (a do Rio e paulista), sugerindo que levasse em consideração seus serviços prestados e a experiência adquirida na armação paulista. Todavia, o conselho não aceitou a sua proposta, e ele ficou apenas com a paulista até 1742 (IHBG, CU, volume 26, p.237). Em 1741 ocorre nova expansão da atividade baleeira no litoral meridional. Agora é a vez de da Ilha de Santa Catarina ganhar uma nova armação. Thomé Gomes Moreira foi o

responsável pelo investimento. Seu filho Pedro e Thomé Gomes Moreira, desde 1740, tinham

o contrato dos dízimos do Rio. Naquela ilha, as embarcações costumavam se refugiar de

contratempos e das tempestades. Em torno da sua implementação, ocorre uma disputa entre diferentes grupos mercantis (FRAGOSO, 2005). Contra Thomé Gomes Moreira estava José de Sousa Azevedo, atual arrematante do contrato do Rio de Janeiro. Segundo Sousa de Andrade:

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Foi sua majestade servido conceder a Braz de Pina uma licença semelhante para que pudesse

estabelecer a sua custa uma fábrica para dita pesca na Ilha de São Sebastião na Capitania de São Paulo, prometendo lhe que pudesse ter nesta cidade um tanque de recolher azeite para os

Sendo esta concepção mal fundada pelo grande dano que tem

causado ao contrato desta Capitania [do Rio de Janeiro]. (

redução da pesca da baleia neste porto do Rio de Janeiro, a razão para isto seria a presença da

armação de Brás de Pina que afugentaria a pesca deste porto em prejuízo do contratador. O que resultaria na redução do valor do contrato e portanto em prejuízo para a fazenda real. (citado em FRAGOSO, 2005, p.170)

Uma das provas disto era a

poder transportar para fora. (

)

)

Apesar das queixas do contratador do Rio, a proposta de Thomé foi aceita e a caça a baleia vai conhecer seu apogeu em Santa Catarina, pois além das seis armações que serão construídas, a produção anual só da primeira armação catarinense vai ser de 3.000 pipas com, aproximadamente, 200 baleias capturadas. Para se ter uma idéia da dimensão que ganha esta atividade naquela Capitania, em 1775 foram capturadas mais de 500 baleias e, em 1785, algo em torno de 400 (ELLIS, 1969). Estes resultados indicam que as armações cariocas e paulistas, depois de 1755, com a união dos contratos das armações fluminense, paulista e catarinense por Pedro Gomes Moreira (filho de Thomé), atuam como coadjuvantes. Este movimento parece claro quando o Governador do Rio, Conde de Bobadela, num ofício ao secretário de estado da Marinha e Ultramar, Tomé Joaquim da Costa Corte Real, de abril de 1759, informa que os contratadores das baleias “pescam” em demasia, aproveitando- se do pescado apenas as barbatanas, visto não haver na Ilha de Anhatomirim (situada ao norte da Ilha de Santa Catarina) tanques para o fabrico de azeite; solicitando que se tomem medidas para evitar a falta de baleias naqueles mares. Parece que a baleação não ia bem na costa fluminense e paulista, pois em 1760 o arrendador do contrato do Rio de Janeiro e São Paulo, Feliciano Gomes Neves, solicitando autorização para proceder ao pagamento repartido da sua dívida, atendendo aos prejuízos obtidos com a arrematação do contrato entre 1749 e 1755. O motivo principal foi a “falta de pesca” o que lhe causou “enorme ruína acumulando uma divida de 120.000 cruzados”. As dificuldades financeiras foram agravadas pelo terremoto de Lisboa, de 1755, uma vez que Feliciano tinha mercadorias na alfândega daquela cidade, na qual se perdera, ficando apenas a dívida do resto do preço do contrato no valor de 28 contos de réis. Claro que a falta de cetáceos no litoral do sudeste não indica a extinção da baleação na área fluminenses, apenas o arrefecimento de sua produção. Tanto que em novembro de 1755 o contratador das “pescarias das baleias” do Rio de Janeiro, São Paulo e Ilha de Santa Catarina, Francisco Peres de Sousa, solicita a construção de mais tanques para a armazenagem do azeite de peixe, viabilizando a continuidade da referida “pesca” e consequente comercialização do

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produto. O mesmo contratador pede, em 1759, outra autorização para construir mais um tanque necessário ao armazenamento do azeite produzido na Capitania do Rio de Janeiro. Desde 1743 os contratos das armações paulistas e fluminense eram arrematados juntos. Como já dito, foi Thomé Gomes Moreira quem primeiro assentou o contrato das “pescarias” de São Paulo e Rio de Janeiro, além de ser o responsável pela construção da nova armação em Santa Catarina. Os contratos vindouros seriam arrematados seguindo esta forma. Se no Rio a captura de cetáceos matem-se constante, nas armações catarinenses expandem-se tanto que, em 26 de agosto de 1760, um decreto do Rei D. José, autoriza os contratadores da “pesca” das baleias a navegarem num navio de 600 toneladas ou embarcações que não excedam este número de tonelada, do Rio de Janeiro para Lisboa, fora da frota. O reflexo da alteração de uma regra formal logo se fez sentir, pois a partir de 1761 existe um número crescente de partidas de navios fora da frota, com carregamento de azeite e barbas de barbatana. O depoimento de Domingos Lopes Loureiro, em 1761, sobre o atual estado da baleação no Brasil confirma a importância desta atividade para a Fazenda Real (AHU, avulsos RJ, cx.62, doc.5931). Ele inicia o documento relatando que até a construção da armação de Santa Catarina, o preço do contrato regulava entre 40.000 a 46.000 cruzados por ano pelas armações do Rio, São Paulo. Informa que a armação catarinense captura, por ano, 200 baleias, bem como que o rendimento desse contrato é o maior pois tem um custo (despesa) de 40$000 a 50$000 réis e lucram 80$000 réis. Domingos alerta que poderia render mais, se tivesse mais caldeiras para derreter a gordura, aproveitando apenas as barbatanas. A produção chega a 3.000 pipas e a despesa deste contrato é grande e complicada “por isso a gente desta cidade tem aborrecimento por este contrato”. Mesmo assim, Domingos afirma que tem “lesão” no preço do contrato de 48.000 cruzados, podendo a Fazenda Real cobrar mais. Um problema grave de incentivo ao aumento do preço do contrato é que quando o azeite não tem saído, ficando cheios os tanques, o novo contratador, por obrigação contratual, tem que desembolsar de 500.000 a 600.000 cruzados ao antigo contratador. Domingos continua alfinetando Francisco Peres de Souza ao afirmar que ele pouco conhece a lide mercantil, pois cedeu boa parte do contrato ao experiente homem de negócio João do Couto Pereira. Por fim, pede para lhe vender o contrato (junto com as armações baianas) por nove anos, pela quantia de 70.000 cruzados, além de poder erguer novas armações no litoral catarinense. Sua “sugestão” não foi atendida, pois em fevereiro de 1765, Inácio Pedro Quintela & Companhia arremataram, por 12 anos, o contrato “das pescarias das baleias”, no qual incluíam as armações fluminenses, paulistas, catarinenses e baianas por 80.000 cruzados

51

cada ano (AN, Códice 952, vol.42). Entre os sócios de Quintela, está o antigo contratador Francisco Peres de Souza. Diante do desempenho atingido pelas armações catarinenses e depois da unificação dos contratos assentado pelo homem de negócio lisboeta Inácio Pedro Quintela, em 1765, as atenção voltam-se para as armações situadas em Santa Catarina. A área fluminense, segundo documentação consultada, entra num processo de decadência e suas armações praticamente abandonadas em finais do XVIII. Outro dado importante a destacar é a presença de estrangeiros em torno da caça à baleia. Em 1777 somam 15 embarcações inglesas, saídas de Londres e Liverpool, para praticar a “pesca” no sul do Brasil (AN, códice 67, vol.5). Um aspecto que se nota na arrematação dos contratos “das pescarias de baleias” a partir da terceira década do Setecentos é o declínio da participação da nobreza da terra e o aumento de Reinóis ou homens de negócio cariocas. No quadro 4, destaca-se a presença dos negociantes Reinóis em Lisboa e no Rio de Janeiro na arrematação dos contratadores fluminenses do século XVII ao XIX. O contrato mais antigo que se teve acesso remonta de 1718 (no anexo). Nesta oportunidade, o contratador foi o Coronel Miguel Aires Maldonado para o triênio 1720-23. De maneira geral, as condições postas nos contratos de exclusividade pouco se alteram, em sua

essência, ao longo dos anos. Geralmente, os contratos eram por três anos e o contratador tinha

a exclusividade de fazer, ou delegar a terceiros, a caça na costa da Capitania do Rio de

Janeiro. Corria por sua conta o estabelecimento de novas armações. Ninguém poderia introduzir azeite de peixe no Rio de Janeiro sem o seu consentimento. O contratador deveria dar fiança (metade do valor estabelecido na arrematação) em dinheiro para o Tesoureiro da Fazenda Real e aos quartéis o restante do valor do contrato. Também por sua conta, correria a despesa com a arrecadação dos rendimentos do contrato, exceto os ordenados de oficiais nomeados pelo Rei. Pagaria também os respectivos dízimos incidentes sobre a produção. Caso

arrendasse o contrato a terceiros, em todo ou em parte, deveria manter as cláusulas originais.

A instituição deste contrato foi uma

licença dada no ano de 1644 a um estrangeiro para poder pescar, e por carta de 18/11/1681 se mandou pagar a côngrua dos bispos e por carta de 1694 ordena. Sua Majestade se acrescente

um vintém em cada medida de azeite, alem do tostão pelo

rendimento para os soldos dos Governadores desta Capitania. (IHGB, CU, tomo 5, vários, p.4 verso)

que se arrematou, aplicando este

Em 1681, cada côngrua importava 2:336$920 réis (IHGB, CU, tomo 5, vários, p. 76). Como se sabe, o contrato não foi arrematado por um estrangeiro, mas sim pelo Provedor da

52

Fazenda Real Pedro de Souza Pereira, embora o mesmo possa ter arrendado a um terceiro sendo este de outra nação. Com a unificação dos contratos em 1765, a caça da baleia rumou para o sul do Brasil. Quem arrematou este monopólio foi Inácio Pedro Quintela & Companhia, ao preço de 80.000 cruzados anuais, sendo 20.000 cruzados correspondentes à Bahia, 40.000 ao Rio de Janeiro, 10.000 ao litoral paulista e 10.000 cruzados à Ilha de Santa Catarina. Até 1801, os contratos permaneceram unificados quando a Coroa suprimiu o monopólio (PEDREIRA, 1995). Em Santa Catarina a caça da baleia teve seu apogeu. Nesta região, seguramente, foi onde ganhou proporções “industriais” as quais não foram observadas em outras regiões da Colônia. A armação Grande ou da Nossa Senhora da Piedade estava localizada em Desterro, Ilha de Santa Catarina. Ela “foi a primeira, a maior e a mais importante armação do litoral

(ELLIS, 1969, p. 57). A segunda armação entrou em funcionamento em 1772,

catarinense (

em Lagoinha. Esta localizava-se no sul da Ilha de Santa Catarina. Em seguida, em 1778, Itapocoróia ao norte de Itajaí. A quarta foi erguida entre 1793 e 1795, em Garopada, e em 1796 a sua sucursal em Imbituba. Já em 1807 a Junta da Fazenda Real do Rio de Janeiro erigiu a sexta e última armação catarinense, a da Ilha da Graça, bem ao norte do Estado.

)”

Quadro 5 – Números de armações e total de baleias capturadas: 1761-1819

Ano

Número de armações catarinenses

Baleias mortas

1761

1

200

1775

1

500

1785

3

400

1793-96

5

187

1801*

5

163

1812-15

5

88

1816

6

71

1817

6

80

1818

6

89

1819

6

59

Fonte: adaptado de Ellis, 1969, p 175. * Inclui as armações de São Sebastião e Bertioga

Terminado o contrato dos Quintelas em 1801 – e, por consequência, o monopólio – a caça da baleia começa a mostrar os primeiros sinais de desgaste. Quem assumiu o controle sobre essa atividade foi a Fazenda Real, uma vez que não houve interesse dos antigos contratadores em continuar nesse negócio devido à queda da lucratividade causado pela falta de mamíferos, aliada à presença constante de estrangeiros (ingleses e americanos). Um viajante (Barão Georg Heinrich von Langsdorff), de passagem por Florianópolis, em 1803,

53

relata esta situação, “O número de baleias abatidas cai a cada ano, principalmente depois que os ingleses e o espírito especulativo dos americanos do norte começaram a caçar as baleias

destas costas,

Neste período (pós 1801), restavam somente as armações catarinenses, as demais já haviam sido abandonadas. A administração destas, por parte da Coroa, se estendeu até 1816, quando passou para o setor privado. Depois de novas tentativas de revitalizar a caça da baleia, porém sem sucesso, acabaram por decretar o fim desta atividade – provisoriamente – em águas brasileiras. O decreto imperial de 13 de novembro de 1827 determinou a alienação dos bens, escravos e demais apetrechos das armações sobreviventes. Particulares lançaram-se

nessa atividade posteriormente, todavia incorreram em prejuízos. Este movimento observou-se não só no sul como nas armações do norte, isto em meados de 1850-60, contudo, ambas sem sucesso. Durante os anos 1860-1950, a caça da baleia praticamente inexistiu em Santa Catarina. Somente os paraibanos da Copesbra (Companhia de Caça do Norte do Brasil) lançaram-se nessa atividade, no período 1900-1987, com relativo sucesso. Como visto anteriormente, o investimento nesta atividade despendia avultados cabedais. Além do pagamento do arrendamento do contrato de monopólio e os seus direitos (impostos), o contratante deveria erguer toda a infraestrutura que envolvia a caça e posterior beneficiamento das partes de utilidade econômica.

” (HARO, 1996, p. 179).

1.3.1.2- Construção naval

Assim como a baleação, a construção naval fez parte (e faz) da rotina econômica do Rio de Janeiro desde tempos imemoriais. A pesca, agricultura e a construção naval (em pequena escala) se faziam por contingência para sobreviver diante das dificuldades imposta pela geografia fluminense. Agrega-se ao fato da secular tradição portuguesa de navegar, constituindo-se num verdadeiro path dependence tecnológico. Isto fica evidente quando da presença de Pero Lopes de Souza durante os três meses da expedição de Martins Lopes na Baía de Guanabara, em 1531. Além de recolher mantimentos, realizar o reconhecimento da região e demais afazeres administrativos, construiu dois bergantins de 15 bancos (CAVALCANTI, 2004). Apesar da importância deste setor na economia colonial, a documentação encontrada mostrou-se diminuta, uma vez que a informalidade predominava neste setor, principalmente quando se tratava de construir pequenas embarcações (grosso do que se construiu no Rio). Todavia, com o transcorrer da segunda metade do Setecentos, as escrituras de compra e venda

54

envolvendo embarcações (fabricadas ou não no porto carioca) mostram a pujança do setor naval na dinâmica econômica fluminense pós 1740. A “indústria” naval demorou a se consolidar. A falta de mão-de-obra especializada parece ter sido um empecilho para o desenvolvimento desta atividade no século XVII (CARDOSO&ARAÚJO, 1992). Tanto que só em 1659 que o Governador do Rio de Janeiro Salvador Correia de Sá e Benevides, com apoio de Lisboa e da Bahia, constrói uma embarcação com 114 canhões, o Padre Eterno. Mesmo assim, naquele tempo, contava apenas com um carpinteiro especializado. O desenvolvimento da construção naval era natural, visto a demanda por embarcações e o fácil acesso a matérias-primas na região da baía de Guanabara. Daí a fundação do arsenal da marinha pelo Conde da Cunha e os investimentos de Lavradio em fibras de linho cânhamo e guaxima que serviam de cordoaria para suprir as necessidades dos estaleiros cariocas. Existiam portos privados e oficiais, sendo crescente a importância dos comerciantes cariocas e baianos na construção de embarcações envolvidas no tráfico negreiro com a África (LOBO,

1978).

Com a intensificação dos negócios durante o XVII as embarcações se fazem necessárias para o prosseguimento do crescente fluxo comercial. Porém, a mão-de-obra desqualificada (envolvida na construção e não nos reparos) prejudicava o setor naval, assim como a pressão das corporações de ofício dos trabalhadores envolvidos, de só exercer as funções de acordo com a sua profissão (CARDOSO&ARAÚJO, 1992). Outro empecilho para o desenvolvimento deste setor era o monopólio do sistema de frotas (limitando o número de barcos). Soma, ainda, as guerras em Angola e os holandeses no nordeste desviando recursos para o combate. De uma maneira geral, as madeiras empregadas na construção naval eram tapinhoã e peroba. Além destas, foram testadas outras, conforme indica ofício de 1765 (AHU, avulsos RJ, cx.76, doc.6929). Naquela oportunidade o capitão de mar e guerra José Sanches de Brito remete ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, amostras de madeiras de lei encontradas nas florestas da Capitania do Rio de Janeiro, adequadas à utilização na construção naval (como o jacarandá, massaranduba, óleo vermelho, louro-pardo e o jacaranda poranga), as quais foram utilizadas para a fabricação do tabuado, cossoeiras, pranchões, mastros, taboas para forro e lemes. Cabe a ressalva que neste mesmo ano, o Conde da Cunha informa que prossegue na construção da nau São Sebastião, na ribeira nova da Ilha das Cobras, apesar da escassez de madeiras próprias para o uso naval e da mão-de-obra deficiente. A extração excessiva era

55

proibida desde antes de 1739. Gomes Freire informa a D. João V o cumprimento da ordem régia que proíbe a extração excessiva da madeira de tapinhoã existente no Rio de Janeiro, bem como a sua exportação sem licença régia, por ser de grande utilidade para o fabrico e conservação das naus da Armada, devendo ser aplicadas penas pecuniárias contra os infratores, pagas metade para o denunciante e metade para a Fazenda Real (AHU, avulsos RJ, cx.31, doc.3266).

A bacia de Macacu era o local de onde se extraiam a maioria das madeiras dirigidas

para a construção civil e embarcações. Aquela região não se caracterizou pela produção de açúcar, mas de gêneros alimentícios tais como o arroz, feijão, milho e, principalmente, farinha

de mandioca. O seu potencial hídrico e não a fertilidade do solo despertou o interesse pela região (CABRAL, 2007). Diante do estoque madeireiro, a extração foi uma importante atividade econômica da bacia de Macacu e arredores. Sabe-se, através de registros de viajantes, a existência de extrativismo madeireiro no

Vale do Paraíba, nas ilhas da Baía de Guanabara e na Baía da Ilha Grande. Porém, “o grosso da fibra lenhosa fluminense, ao longo do século XVIII, parece ter sido extraído das médias e altas porções das grandes bacias hidrográficas da baixada, como as do Macacu, do São João,

do Macaé e do Muriaé [

A qualidade das madeiras fluminense é posta em setembro de 1753. Naquela oportunidade o Governador do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, informa ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Diogo de Mendonça Corte Real, que conseguiria condições de qualidade e preço mais vantajosos para a Fazenda Real, no Rio de Janeiro do que as madeiras adquiridas em Pernambuco. Estas seriam necessárias para a construção de naus de guerra.

A extração, ao lado da agricultura, era outra opção dos agentes a fim de obterem uma

renda extra. Cabral, citando Miller, aponta que “em algumas regiões a madeira era a principal

fonte de renda dos habitantes” (MILLER, 2000, p.103). Dean confirma este fato na medida em que

o corte de madeira tornou-se uma indústria privada fortemente organizada. Ainda que formalmente supervisionada por ‘guardas mores’ e administradores, estes eram sistematicamente subordinados e ludibriados por um pequeno número de madeireiros, serradores e tropeiros. (DEAN, 1996, p.151)

]”

(CABRAL, 2006, p.2).

Embora existisse disponibilidade e acesso a matérias-primas importantes para a construção naval nas proximidades do Rio de Janeiro, o porto carioca caracterizou-se mais por ser um centro de reparos do que de construção de embarcações, mesmo com a edificação do arsenal da marinha do Rio de Janeiro, em 1763. Apenas uma nau de vulto (São Sebastião) foi

56

construída durante todo o período colonial naquele arsenal, localizado na Ilha das Cobras. A Bahia era o principal responsável pelo papel de ofertar embarcações, tanto que quando da construção da nau São Sebastião, o principal mestre carpinteiro veio desta Capitania, mesmo com o alvará de 1757, em que o governo português dá preferência para navegar aos navios construídos no Brasil pelos proprietários ali moradores (CAVALCANTI, 2004). Sabe-se da construção, em portos privados cariocas, de embarcações de pequeno e médio porte, contudo parece que o eixo era o conserto e não a construção de embarcações. De uma maneira geral o “trabalho era artesanal, braçal e voltado exclusivamente para naus de madeira e à vela” (GUERRA, 2006). Os construtores não tinham formação regular de

engenharia naval, sendo antigos operários que ascendiam a mestres e depois a

“(

construtores e cujo aprendizado era feito nas aulas de Geometria e Desenho do próprio Arsenal, pelo estudo como autodidatas e pela experiência” (GUERRA, 2006). Depois da nau “São Sebastião”, lançada ao mar em 1767, o arsenal só voltou a construir outro navio em 1824, e, durante todo esse período, teve como atividade principal o reparo de navios da Esquadra Real e mercantes (brasileiros e estrangeiros) (GUERRA, 2006). O trabalho de reparo praticado no porto carioca, parece ter sido de boa qualidade, uma vez que os depoimentos da época fazem elogios ao serviço realizado, assim como aos profissionais envolvidos. Foi o caso do navio francês L’Arc-em-ciel que veio dar no porto carioca em 10 de maio de 1748. “Tínhamos também alguns ferReiros do lugar consertando as

ferragens, imprescindíveis nas lides dos navios e que faltaram durante a travessia.” (FRANÇA, 2000, p.198) Outro depoimento, feito em 1792, do inglês Erasmus Gower indica que no porto

muitos navios ancorados nesse porto, navios portugueses

do rio se encontravam “(

sobretudo, mas não só. Havia também embarcações inglesas, espanholas e holandesas, que vinham fazer reparos e adquirir provisões.” (FRANÇA, 2000, p.248) Por último, o testemunho de John Byron de 1764 no qual qualifica positivamente o serviço realizado pelos portugueses

no Rio de Janeiro

)

)

aproveitamos a mão-de-obra de seis calafates portugueses que, mediante a quantia de seis

xelins diários, se dispuseram a ajudar o nosso carpinteiro. Embora não se possa duvidar de que

um calafate inglês produz mais em um dia do que um português em três, é preciso confessar que os reparos realizados pelos portugueses são de melhor qualidade e duram mais. Se assim não fosse, como seria possível que navios portugueses, geralmente em péssimo estado de conservação, aguentem viagens tão longas. (FRANÇA, 1999, p.110)

) (

Afora os reparos, existia o comércio de embarcações. Os indícios da existência e do funcionamento desta atividade são obtidos com o emprego de escrituras públicas de compra e venda de embarcações. A seguir, no quadro 6, destaca-se o crescente número de transações envolvendo embarcações no Rio de Janeiro, principalmente pós-1760.

57

Ainda de acordo com quadro 6, pode-se observar que só depois da terceira década do

XVIII que esta atividade apresenta maior vulto. Seriam os efeitos do sistema de frotas?

Mesmo assim, é muito inferior ao final do XVIII e início do XIX. Um exemplo é que entre

1750-90 encontrou-se 81 escrituras que somaram mais de 100 contos de réis. Em contra partida, só no ano de 1800 tem-se 27 escrituras importando 113:551$600 réis (FRAGOSO, 1998, p.336). Quadro 6 – Transações envolvendo embarcações no Rio de Janeiro: 1650-1800*

Período

Valor Total

Valor Médio

N.E.

1650-70

5.634.500

402.464

14

1671-90

620.000

88.571

7

1691-1700

189.000

94.500

2

1711-20

10.730.000

825.385

13

1727-30

3.000.000

600.000

5

1731-40

18.355.666

966.088

19

1741-50

39.329.200

1.709.965

23

1751-59**

2.459.000

614.750

4

1760-69

17.325.600

1.443.800

14

1770-79

28.230.640

1.660.626

17

1780-90

52.540.990

1.220.141

46

1785-95-1805

144.770.810

3.446.924

42

1800

113.551.600

4.205.615

27

Fonte: 1650-1750: SAMPAIO, 2003, p.71; 1751-1790: AN: 1°, 2°, 4° Ofício de Notas. 1785- 95-1805: CAVALCANTI, 2004, p. 83. 1800: FRAGOSO, 1998, p. 336. Elaboração própria. N.E = Número de escrituras. * Em Réis. ** Os valores devem-se pelo pequeno número de escrituras encontradas.

Os números devem ser analisados com cautela, pois as transações envolvendo embarcações corriam de forma informal. Não obstante, no decorrer da segunda metade do

século XVIII, a construção naval ganha importância na economia fluminense no volume total

de transações. Por exemplo, durante a década de 1750 aparecem apenas quatro escrituras de compra e venda de embarcações que somam pouco menos de três contos de réis. Já durante o período 1780-90 as escrituras passam de 46, somando mais de 51 contos de réis, sendo sete

escrituras datadas do ano de 1790, que acumulam nove contos de réis. Portanto, a compra e

venda de embarcações parece ascender na última parte do Setecentos, em função do

crescimento do volume de comércio experimentado pela economia fluminense naquele período (FRAGOSO, 1998). Nas escrituras de compra de embarcações, pós 1790, levantadas por João Fragoso, predominam as aquisições de embarcações realizadas por homens de negócios, uma vez que são empregadas para grandes distâncias e não no comércio interno (FRAGOSO & FLORENTINO,

58

2001, p.203). O levantamento realizado entre 1750-90, confirma o resultado encontrado por Fragoso. A amostra coletada aponta para um universo de 71 embarcações (88% do total) adquiridas por homens de negócio do Rio de Janeiro (em sua maioria) somando mais de 80 contos de réis (80% do total). Com o aumento do intercambio comercial do Rio com outras partes do Império e do Brasil, a necessidade de elevar a capacidade de carga a fim de reduzir os custos podem explicar o avanço do setor naval. Além disto, os negociantes preferiam ter suas próprias embarcações a dependerem de terceiros. Em 1799, isto fica evidente quando D. Rodrigo de Sousa Coutinho pede para o chefe de esquadra e intendente da Marinha, José Caetano de Lima, examinar a fazenda de Santa Cruz e dela tirar alguns escravos para o ofício da carpintaria de machado e calafates. José Caetano diz que

eu bem desejava tirar alguns (escravos) para a carpintaria de machado e calafates de que aqui se precisa muito, tanto para a marinha de guerra, como para os mercantis, por terem aumentado muito os navios que aqui vem fabricar e o grande comercio do Rio Grande e da costa da África. (AHU, avulsos RJ, cx.174, doc.12857)

A estratégia de compartilhar o risco parece corrente. O processo se efetuava quando da compra de parte da embarcação por diferentes homens de negócio. Assim, além de diversificar seus negócios e poder ter um bem fundamental para atuar na lide mercantil, a participação numa embarcação poderia render lucros futuros com a sua posterior venda. Portanto, a participação em uma embarcação reduzia os riscos de perde-la num naufrágio, facilitava e agilizava os negócios, além de representar um investimento. Outro aspecto chama a atenção, a compra de diferentes embarcações por um mesmo homem de negócio. É o caso do tenente José Alves de Azevedo o qual adquiriu cinco embarcações (uma galera, uma sumaca, duas corvetas e um bergatim) entre 1770 a 1789 totalizando 8:643$940 réis 33 . Infelizmente poucas são as informações sobre a trajetória mercantil de José. De todo o modo, consta na escritura de compra do bergatim, de junho de 1789, que José é homem de negócio do Rio de Janeiro (AN, 4° Ofício de Notas, livro 107). Os negócios de José não se restringem ao mercado de embarcações, apesar do cerne parecer ser aquele mercado, pois empresta mais de um conto de réis, em fevereiro de 1788 (AN, 4° Ofício de Notas, livro 106), a Antônio da Rosa de Medeiros que contraiu a dívida para fazer uma sumaca (AN, 4° Ofício de Notas, livro 106). Além disto, em agosto de 1783, José vende uma sumaca para Inácio José Pereira do Lago por 1:050$000 réis (AN, 4° Ofício de Notas, livro 106).

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Além da atuação neste mercado, o tenente também aparece na compra de quatro moradas de casas na vila de laguna (Santa Catarina), em agosto de 1781 (AN, 4° Ofício de Notas, livro 100). Já em setembro de 1791 recebe o posto de capitão da muralha da fortaleza de São José da Ilha das Cobras (AHU, avulsos RJ, cx.142, doc.11095). Outro importante homem de negócio envolvido com o mercado de embarcações é o conhecido homem de negócio carioca Brás Carneiro Leão. Consta na amostra recolhida, a compra de duas embarcações, uma sumaca no valor de um conto e cem mil réis, em junho de 1788 (AN, 4° Ofício de Notas, livro 106) e um quarto de uma galera, por 846$400 réis, em agosto de 1770 (AN, 4° Ofício de Notas, livro 79). Segundo seu processo de familiar do Santo Ofício (ANTT, Habilitações do Santo Ofício, maço 5, doc.66, Inquisição de Lisboa) Brás é natural da Freguesia do Salvador de Meixomil, Bispado do Porto, mas morador na cidade do Rio de Janeiro quando da realização do processo em 17 de fevereiro de 1764. Neste mesmo ano aparece como homem de negócio

que vive de “bom trato dos lucros do seu negócio, terá cabedal 12.000 cruzados, sabe ler,

escrever e apresenta 35 anos de idade, solteiro e sem filhos.”

Durante as décadas de 1760-80, Brás aparece em mais de oito procurações no fundo

CD do ANTT para realizar diversas agências no Rio de Janeiro. No início de suas agências,

Brás é procurador de homens de negócio de segunda importância ou lavradores, mas já em 1774 é outorgado de uma grande companhia de homens de negócio hamburgueses chamada João Guilherme Burmester & Cia (ANTT, CD, 8º A cart. (antigo), livro 62, cx. 10). Já em janeiro de 1788 é outorgado do homem de negócio lisboeta Antônio de Abreu Martins para, no Rio de Janeiro, “cobrarem carta executória contra capitão Antônio de Abreu Guimarães cobrando a importância da dita penhora com juros e custas” (ANTT, CD, 5º cart. B, livro 110). Além de representar no Rio de Janeiro grandes homens de negócio de Lisboa (estrangeiros ou não), ele amplia sua rede mercantil quando da arrematação de diversos

contratos régios (ver capítulos seguintes). Cabe lembrar que Brás vai assumir matrimônio com Dona Ana Francisca Maciel da Costa (natural moradora da cidade do Rio de Janeiro), filha do sargento-mor e homem de

negócio Antônio Lopes da Costa. Portanto, sua trajetória mercantil é explicada, em parte, pela

sua inserção na lide política-mercantil da cidade do Rio de Janeiro, visto a importância de Antônio Lopes da Costa nos negócio fluminenses (GUIMARÃES & PESAVENTO, 2008).

60

As escrituras, além de indicar o volume de transações, também informam como se dava o processo de aquisição das mesmas 34 . Geralmente, pagava-se um adiantamento antes de se iniciar a construção das embarcações. Depois de entregue, pagava-se o restante do preço combinado. Por vezes, restava um saldo devedor (depois de pronta a embarcação) que seria liquidado posteriormente, mas com um período de tempo pré-determinado (provavelmente para fazer transportes, ou outros negócios e com isto pagar o restante do investimento). Outra maneira de se adquirir uma embarcação era através de sociedades ou contraindo uma dívida. Foi o que se deu com a sociedade formada entre o capitão de mar Francisco Antônio de Freitas e Antônio Muniz Barreto, em março de 1790, para adquirir uma sumaca no valor de 1:920$500 réis (AN, 4° Ofício de Notas, livro 108). Outra estratégia era contrair uma dívida através de um empréstimo. Foi o caso de Francisco Gonçalves da Cunha (morador no Irajá), que pegou emprestado 603$312 réis em 1788, para pagar dali um ano, sendo o credor Antônio Luis Ribeiro (AN, 4° Ofício de Notas, livro 106). Com este empréstimo, deu entrada na compra de uma embarcação. As embarcações envolvidas nas transações na praça carioca não se restringiam às fabricadas em solo nacional, mas também estrangeiras como foi o caso de um navio feito no Porto (Portugal), mas vendido no Rio. Nesta oportunidade alferes Manoel Martins da Costa Paços vendeu para capitão Julião Martins da Costa e o também capitão João Pinto Lopes (todos homens de negócio do Rio de Janeiro), em fevereiro de 1790, uma oitava de um navio vindo do Porto, por 1:530$190 réis (AN, 4º Ofício de Notas, livro 108). Esta vai ser uma característica das transações deste setor durante a segunda metade do Setecentos. Até porque a atuação dos homens de negócio, via fiança, (SAMPAIO, 2003) mostra que eles não monopolizavam as rotas, mas sim atuavam em áreas estratégicas (como a África, Pernambuco, Portugal, Ásia e Colônia de Sacramento) e estas estavam postas a grandes distâncias do Rio. O mesmo se deu em Lisboa conforme remete Jorge Pedreira na sua tese de doutoramento. Assim, muitas embarcações negociadas no Rio de Janeiro eram fabricados em outros países, mas comprados por negociantes Reinóis e brasileiros não necessariamente cariocas. É o exemplo do alferes Antônio Luis de Escobar e Araújo (assistente em Santa Catarina) que compra um quarto de um bergatim por um conto e cem mil réis de Antônio José Martins Bastos, em outubro de 1789 (AN, 4ª Ofício de Notas, livro 107). Outro exemplo é o de José de Frias de Azevedo (morador na Bahia) que compra uma sumaca por 3:200$200 réis de Manoel

34 Para detalhes sobre o processo de construção de embarcações no porto do Rio de Janeiro cf. Greenhalgh

(1951).

61

Ferreira de Farias (morador em Ilha Grande) em novembro de 1767 (AN, 4ª Ofício de Notas, livro 74). Portanto, a participação numa embarcação (ou a sua compra no porto carioca) era realizada por agentes de diferentes regiões e países. O que se pretendeu mostrar neste capítulo foi um pequeno esboço do processo histórico de formação econômica do Rio de Janeiro. Em especial, se destacou a importância da caça à baleia e da indústria de embarcações para a dinâmica econômica fluminense, na medida em que essas atividades geravam renda e interligavam a região da Baia de Guanabara com outras regiões da colônia e do império. Estas articulações ficarão mais claras nos capítulos sequentes. Dentre as principais atividades econômicas praticada em solo fluminense, desde os primórdios, é o setor primário. É a agricultura que parece ter uma maior participação no desenvolvimento econômico fluminense. O seu impacto na dinâmica da economia carioca, mas principalmente na implementação de novas culturas no termo da cidade do Rio de Janeiro será o objeto do próximo capítulo.

62

2- A DIVERSIFICAÇÃO AGRÍCOLA FLUMINENSE DURANTE A SEGUNDA

METADE DOS SETECENTOS

O objetivo do presente capítulo é o de aprofundar a discussão iniciada no capítulo

anterior, qual seja, a de mostrar um panorama das principais atividades econômicas cariocas.

Para tal, passa-se a analisar as principais características da produção agrícola praticada no

termo da cidade do Rio de Janeiro, durante o período compreendido entre 1750-90. A idéia

inicial era explorar o setor primário, contudo a falta de documentação (sobre a atividade

pecuária, por exemplo) dificultou o aprofundamento do estudo. Assim, o foco do presente

capítulo é a atividade agrícola e, em especial, as novas culturas introduzidas pela ação política

de Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras, depois Marquês de Pombal, principal

secretário de Estado do governo de D. José I. 35

As políticas de incentivos à diversificação da agricultura no Brasil, implementadas

pelo Marquês de Pombal e administrada pelos Vice-Reis, em especial o Marquês do Lavradio,

Vice-Rei do Estado do Brasil e Governador da Capitania do Rio de Janeiro no período 1769-

1778, são bem conhecidas e discutidas pela historiografia. 36 Através da análise de uma

amostra de 91 inventários coletados junto ao Arquivo Nacional, aliado às informações

contidas no relatório do Marquês do Lavradio e as exportações cariocas em diferentes

períodos, pode-se afirmar, com relativa segurança, que ocorreu um processo de diversificação

da agricultura no termo da cidade do Rio de Janeiro durante a segunda metade do Setecentos.

37 Os dados coletados mostram que as exportações cariocas também sofreram um processo de

diversificação (produção agrícola exportada). Por outro lado, não se sabe com exatidão o

tamanho da produção agrícola fluminense e a proporção que era destina ao mercado interno e

ao externo.

Conforme apontado anteriormente, a fonte primária empregada para tal análise são os

inventários pos-mortem. Todavia, a carência do número da amostra (91 inventários coletados)

dificulta o aprofundamento da análise. Mesmo assim, se utiliza deste recurso para se ter, ao

menos, uma aproximação da realidade da atividade primária fluminense.

A produção de açúcar e de aguardente não foi o foco deste capítulo na medida em que

não estava no bojo das medidas protecionistas de diversificação agrícola. Além disso, no

35 Há uma extensa bibliografia sobre o controverso Marquês de Pombal. Entre os vários trabalhos cf. Azevedo (2004); Falcon (1982); Maxwell (1996); Magalhães (2002). Este último trabalho apresenta uma leitura crítica acerca da racionalidade da política pombalina. 36 Trabalhos recentes ressaltam o impacto dessa política de diversificação em outras regiões da colônia portuguesa. Cf. Memz (2005); Mota (2008). 37 Na dissertação de mestrado destacou-se tal política. Cf. Pesavento (2005).

63

capítulo anterior, apresentou-se (marginalmente) alguns aspectos da produção de açúcar, engenhos, engenhocas, além da produção de aguardente no Rio de Janeiro. Sabe-se da importância do açúcar para a economia carioca, uma vez que aqueles gêneros eram os principais produtos gerados pela agricultura não só do termo, mas da Capitania do Rio de Janeiro, desde antes do início do século XVIII. Portanto, caberia uma análise mais detalhada do açúcar. Contudo, o aprofundamento das questões iniciadas no capítulo anterior foge dos objetivos da tese e do presente capítulo, o que reforça o encorajamento de pesquisas nesta ceara. 38 O capítulo foi dividido em quatro partes, iniciando pelo contexto da diversificação agrícola. Em seguida é apresentado um panorama da produção agrícola fluminense, seguido pelas atividades que obtiveram sucesso (arroz, anil e café). Por último, as que fracassaram ou não representaram um vetor de crescimento importante.

2.1- O CONTEXTO DA DIVERSIFICAÇÃO AGRÍCOLA

O período que cobre as políticas de diversificação agrícolas implementadas pela Coroa no Brasil estão, de uma maneira geral, circunscritas ao governo do Marquês de Pombal, transcorrido durante a segunda metade dos Setecentos. Contudo, limitados são os estudos sobre a economia colonial durante aquele período, sendo menores ainda trabalhos que versem sobre o processo de diversificação ou que se ocupem de atividades econômicas “secundárias” 39 . O que pode explicar esse fato é a limitada documentação primária encontrada nos arquivos consultados. Diante disto, existe uma dificuldade em se obter informações sobre o desenvolvimento exato de cada uma das culturas implementadas. Mesmo assim, sabe-se que até meados do terceiro quartel do século XVIII a produção agrícola fluminense estava concentrada na cultura da mandioca e da cana de açúcar (açúcar e aguardente) (LOBO, 1970). O cenário foi alterado a partir de 1750 com o incentivo da Coroa para que se diversificasse a pauta de exportação brasileira e, consequentemente, a fluminense. Pombal percebeu que a Colônia deveria exportar mais e não depender da produção de poucos gêneros. A idéia era arrefecer o risco de depender de poucos produtos exportados, fenômeno observado durante o desenvolvimento da economia brasileira colonial. Nesse sentido, várias foram as tentativas de se introduzir novas culturas no Brasil. Especificadamente, no Rio de

38 A respeito de uma síntese sobre o açúcar colonial e a especificidade da produção de cana de açúcar em Minas Gerais, cf. Godoi (2007). 39 Cf. Wehling (1977); Alden (1954) e (1999); Pesavento (2005); Cavalcanti (2004).

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Janeiro, diversos gêneros agrícolas, até então não praticados em solo fluminense, foram incentivado, dos quais se destacam o linho cânhamo, a amoreira (para se criar o bicho-da- seda), a cochonilha, o anil e o arroz. O arrefecimento da produção aurífera não pode ser descartado como um incentivo para Pombal apressar a diversificação da pauta de exportação brasileira. A dependência de se exportar apenas açúcar e metais preciosos poderia aumentar o atrelamento do país a um punhado de parceiros comerciais. 40 Assim, mesmo já existindo uma produção agrícola no Rio de Janeiro, voltada para o mercado interno desde antes de 1750, a queda do volume de ouro enviado para Portugal ajuda a entender o empenho de Pombal em acelerar a inserção de novos gêneros na pauta de exportações da colônia. 41 Pombal sabia que os novos produtos a serem introduzidos já apresentavam uma ascensão na sua cotação no mercado internacional. O mecanismo de incentivo seguia um padrão relativamente semelhante entre as diferentes culturas a serem introduzidas no Rio de Janeiro (WEHLING, 1977). Caracterizava-se pelo envio de sementes ou plantas de Portugal para serem cultivadas (ou uso das espécies nativas), garantia de preços e compra do produto pela Coroa, apoio técnico e isenção de impostos e taxas. Como dito anteriormente, o período de maior apoio da Coroa para a diversificação agrícola fluminense deu-se durante a administração do Marquês de Lavradio (1769-79). Deve- se ressaltar que tal política teve prosseguimento durante o governo de Luis de Vasconcelos (1779-90). Na verdade, desde 1750 o então Governador da Capitania do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, estava imbuído de estimular a cultura do arroz e semear o linho cânhamo e pinhões (IHBG, CU, arq.1-1-27, volume 27, p. 204v). 42 As sementes de linho e pinhões não prosperaram, porém o arroz 43 significou a primeira tentativa de se ampliar o leque produtivo agrícola fluminense. Um aspecto interessante é que a “indústria” e a agricultura não estavam totalmente desvinculadas na medida em que o local onde se beneficiavam o arroz e o anil, por exemplo, eram chamados de fábricas (de fazer anil ou de descascar arroz). Tratava-se de uma pequena aglomeração de diversos instrumentos, equipamentos, ferramentas e mão-de-obra, a fim de se obter o produto final através de diversas etapas de beneficiamento da matéria-prima. Esse tipo

40 José Jobson de Andrade Arruda, em livro recente, reforça ainda mais seu argumento sobre a política pombalina de diversificação com o intuito de diminuir a dependência e o crescente déficit de Portugal frente à Grã Bretanha. Cf. Arruda, op. cit.

41 A respeito do apogeu e declínio da mineração cf. Pinto (1979); Sousa (2000); Costa & Rocha (2007).

42 Menz, op. cit.

43 Sobre o arroz no Brasil colonial cf. Santos (1978); Alden (1999) e (1959).

65

de organização da produção estava presente, também, na fabricação do açúcar e da aguardente. Antes de analisar os pormenores de cada cultura em solo carioca, deve-se ater aos seus principais personagens envolvidos neste processo, D. Luís de Almeida Portugal e Mascarenhas (Marquês do Lavradio) e Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal). Dom José I ascende ao Reino português em 1750 44 e, junto com ele, assumia a pasta dos negócios uma das personagens mais importantes da história lusa brasileira: Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras, depois Marquês de Pombal. Ao descrevê-lo o diplomata inglês Benjamim Keene escreve: “só devo dizer que um pequeno gênio que tem o intelecto para ser gênio em um país pequeno é um animal muito difícil” (MAXWELL, 1996,

p.1).

Sebastião José de Carvalho e Melo era de uma família com pouco prestígio junto à Corte lusitana. A sua ascensão veio com o casamento com a dona Thereza de Noronha e Bourbon Mendonça e Almada, em 1723 (antes disto, magistrava sem maiores alardes). O

matrimônio com dona Thereza (viúva de posses e sobrinha do Conde dos Arcos) permitiu-lhe

o acesso e uma maior exposição na vida pública. Depois de uma passagem importante pela

Real Academia de História, foi designado para ser diplomata em Londres, em 1738, permanecendo ali até 1743. Nesse período, conheceu a importância e a pujança da economia

manufatureira inglesa. Também em Londres, desenvolveu a idéia de que a Inglaterra usufruía de tudo aquilo que lhe parecesse vantajoso no comércio entre ela e Portugal (FALCON, 2005). Sobre os ombros portugueses pesavam as desvantagens e os ônus advindos com os tratados comerciais assinados com os ingleses. Embora Londres tenha se constituído num grande aprendizado para Pombal, foi em Viena que sua carreira ascendeu. A aproximação e amizade com Manuel Teles da Silva, de família nobre de Portugal, que recebeu o título de Duque Silva –Tarouca, concedido pelo imperador austríaco Carlos VI, e o seu segundo casamento com Maria Leonor Ernestina Daun,

a qual mantinha boas relações com a imperatriz austríaca e com dona Maria Ana (esposa de

dom João V), permitiram a Pombal uma influência crescente (MAXWELL, 1996, p.8). Em função do precário estado de saúde do soberano português, dona Maria Ana assume a regência

e logo pede o auxílio de Carvalho e Melo para a questão da importação de trigo, uma vez que

44 Sobre a economia portuguesa na segunda metade do século XVIII cf. Pedreira (1995); Mattoso (1998); Lains & da Silva (2005).

66

envolvia a Inglaterra. Isso deixou Pombal mais próximo do centro das decisões, o que veio a se confirmar com a morte de dom João V em julho de 1750.

A habilidade política de Pombal em Viena foi destacada pelo diplomata francês em

Viena, descrevendo-o como de grande “habilidade, probidade, amabilidade e, especialmente, a grande paciência” (MAXWELL, 1996, p.8). Tudo indica que tais “qualidades” foram levadas em conta por D. José I, quando promoveu uma ampla reforma no ministério, delegando a Pombal a Secretaria dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Segundo Maxwell, “Pombal tomou posse com muita experiência diplomática, com um conjunto de idéias bem formulado e um círculo de amigos e conhecidos que incluía algumas das figuras mais eminentes de sua época” (MAXWELL, 1996, p.10). Segundo depoimentos da época, Portugal encontrava-se, em 1750, com uma economia em situação ruinosa em função do estado das terras incultas (agravado por secas), manufaturas arruinadas (fruto dos tratados comerciais com a Inglaterra), uma terça parte do Reino dominada pela Igreja (Inquisição), grande importador de manufaturados ingleses ou holandeses, afora a falta de cultura, pendor para a superstição e a vaidade arrebicada (SCHWARTZ, 2002). Pombal conhecia a situação, e para reverter o quadro, Portugal devia “tirar a monarquia das mãos dos ingleses, introduzir indústria no país, tornar o comércio rentável e, ainda, conseguir melhor proveito do ouro que vinha do Brasil” (SCHWARTZ, 2002, p. 96).

Já D. Luís de Almeida Portugal Soares D’Eça de Alarção Mello Silva Mascarenhas (4º

Conde de Avintes e 2º Marquês do Lavradio) descendia de uma família de nobres, de longa data ligada à corte portuguesa. Nasceu em Ribaldeira, aos 27 dias do mês de julho de 1729. Seguiu a carreira militar, que foi iniciada logo aos 10-12 anos de idade, quando soldado no regimento de seu pai. Foi educado por um abade Francês e aos 20 anos fora conhecer a corte espanhola e francesa, a fim de completar a sua educação. Naquelas nações convive com

grandes nomes da arte e da guerra. Em 1761 é nomeado coronel comandante do regimento de Cascais. Nesse mesmo ano teve um papel ativo no conflito com os ingleses. Seu prestígio na corte evidenciou-se quando D. José pensou em empregá-lo como aio na educação de seu neto. Porém, Pombal tinha outros planos para Lavradio, pois “achava-se a Capitania da Bahia em grande desordem, não achando ninguém tão capaz para remediar esse mal como o Marquês do Lavradio” (D’ALMEIDA, 1942, p.5). Em 1767, fora nomeado Governador e capitão general da Bahia, embarcando de Lisboa para essa Capitania em fevereiro de 1768, chegando 53 dias depois. Se por um lado

67

estava afastado do centro do poder, por outro sabia que seus poderes eram vastíssimos em solo colonial. Seu governo na Bahia tratou de reestruturar as finanças daquela importante Capitania. O reflexo de sua administração foi a nomeação para Vice-Rei do mais importante domínio português, o Rio de Janeiro, capital do Estado do Brasil desde 1763. Sua correspondência pessoal revelava que não ambicionava o governo e gostaria de regressar para cuidar de sua numerosa família, porém respeitava o real desígnio (D’ALMEIDA, 1942). Apesar da acusação de seu tio materno, o duque de Aveiro, de participar da tentativa de assassinato de D. José I, em 1758, Lavradio seguiu para a Bahia e posteriormente chegou ao Vice-Reinado no Rio de Janeiro. Isto parece não ser aleatório depois de se analisar a trajetória de outros familiares de Lavradio junto à prestação de diversos “serviços” à Corte 45 . Apenas para citar, o pai do 2º marquês do Lavradio foi Vice-Rei no Brasil tendo prestados serviços em Angola antes disto. Outro exemplo é o seu tio-avó D. Lourenço de Almeida que foi Governador em Pernambuco e na Bahia em princípios do XVIII. A idéia de tentar apontar Pombal como sendo um perseguidor incondicional da nobreza lusa perde o brilho com o posto assumido por Lavradio. Antes disto, há que se ater ao fato de que o governo colonial era “destinado aos grandes” (MONTEIRO, 1998). Durante o período pombalino (1750-77), percebe-se uma mudança nas diretrizes do Estado português. Em linhas gerais, a atuação política de Pombal vai no sentido de arrefecer a influência política da igreja e da nobreza, de incorporar parte de uma “classe” mercantil poderosa economicamente (concedendo privilégios) e de implementar políticas econômicas que permitissem diminuir a dependência inglesa (econômica e política). Esse quadro parece claro quando se observam os desdobramentos de seu governo durante os anos 1750. Dentre esses, destaca-se a sua atuação firme na reconstituição de Lisboa após o terremoto de 1755 e no episódio do atentado a dom José I em 1757. Também em 1757, combate com extrema violência os motins ocorridos na cidade do Porto contra a criação da Companhia Geral da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro. Outros exemplos são a expulsão dos jesuítas do Brasil e o confisco de seus bens em 1759, o processo contra os Tavoras e outros membros da alta nobreza portuguesa. Esses fatos expõem uma nova “ideologia” de governo e de ação do Estado, Dentre as medidas econômicas introduzidas para a colônia destacam-se:

45 Para maiores detalhes cf. Santos (2004).

68

a. a criação de companhias de comércio (Grão-Pará e Maranhão, Paraíba e Pernambuco);

b. o desenvolvimento de novas culturas (diversificação da agricultura);

c. o controle da qualidade dos principais produtos de exportação (Mesas de Inspeção);

d. o controle do contrabando;

e. a oferta maior de mão-de-obra escrava.

Além das medidas econômicas, as reformas pombalinas promoveram alterações institucionais, que demonstra uma maior centralidade e coordenação por parte da Coroa (SUBTIL, 2005). Dentre as mudanças destacam-se o desenvolvimento do primeiro sistema educacional público, reforma acadêmica da Universidade de Coimbra, modernização do Tesouro Real, com maior concentração e nova organização contábil com a criação do Erário Régio, além da abolição da escravatura em Portugal (MAXWELL, 1996). Parece que Lavradio seguiu as linhas gerais do que Pombal propunha para restabelecer

o desenvolvimento do Brasil (diversificação da agricultura, controle sobre o contrabando e o

aumento de receitas, entre outras). Disso resulta a idéia de que houve mais a mediação entre o governo colonial e metropolitano do que o conflito (SANTOS, 2004ª). Embora a economia do Rio de Janeiro prosperasse desde a primeira metade do XVIII, Lavradio encontra um cenário pouco animador ao desembarcar no Paço em 1770. Dívidas, fortificações mal construídas, armazéns desprovidos e falta de recursos. De início, estabeleceu fábricas de ferraria, serralharia e carpintaria, a fim de realizar os ajustes necessários na defesa da cidade, aumentando o efetivo de soldados e estabelecendo novas diretrizes no treinamento da tropa (como a proibição dos castigos fortes e exercícios em estações quentes). As finanças da Capitania, segundo Lavradio, também não iam bem, em face da prática de contrabando e do descaso na arrecadação de impostos sobre os navios que arribavam na alfândega do Rio de Janeiro. Como a principal fonte de arrecadação da Fazenda Real era a

dízima da alfândega, um maior controle sobre a entrada e saída de navios, assim como das mercadorias desembarcadas, mostrava-se mais do que necessário. Lavradio se empenhou em

elevar o controle da movimentação portuária e ajustar os direitos sobre produtos que pouco ou muito pagavam. O Vice-Rei tratou de elevar as receitas adotando uma série de medidas. Em especial, incentivou a implementação de novas culturas (arroz, anil, cochonilha, linho cânhamo, principalmente), combateu o contrabando (especialmente com os ingleses), reajustou as despesas, construiu uma nova alfândega e determinou pagamento em dinheiro aos que deviam

à Fazenda Real, entre outras medidas. Isso deveria ser posto em prática, pois,

69

alem de achar grandes despesas e diminutas receitas, a Fazenda Real devia as 3 praças do Rio de Janeiro, Colônia e Santa Catarina mais de 3 milhões de cruzados, dívida que tinha causado grandes prejuízos ao comércio, fazendo quebrar um grande número de casas de comércio (D’ALMEIDA, 1942, p.32)

O empenho do Marquês do Lavradio em recuperar as finanças da Capitania do Rio de Janeiro se mostrou positivo, tendo em vista a elevação da arrecadação da dízima da alfândega do Rio de Janeiro pós 1770. Contudo, devido aos conflitos com os castelhanos no sul, ocorre uma queda a partir de 1772, a qual só melhora após 1777. Observe o gráfico 1 a seguir:

Gráfico 1 – Arrecadação da dízima da alfândega do Rio de Janeiro: 1769-79

250 200 150 100 50 0 1769 1770 1771 1772 1773 1774 1775 1776 1777
250
200
150
100
50
0
1769 1770
1771 1772 1773
1774 1775 1776 1777
1778 1779
Contos de Réis

Fonte: Arquivo Nacional do Tribunal de Contas (ANTC), livro 4057.

Percebe-se, pelo gráfico acima, que as medida de curto prazo de Lavradio alcançaram êxito. Contudo, com a retomada dos conflitos na região da cisplatina (e no sul da colônia), ocorre um natural arrefecimento da arrecadação. Uma maneira de sair desse cenário pouco animador foi o aumento das exportações, daí a necessidade de diversificar a pauta do que se produzia no Rio de Janeiro. A diversificação agrícola parece nascer da necessidade de elevar as rendas e Lavradio conduziu medidas de incentivo à sua implementação. Consoante com o que constava nas instruções para o Governador e capitão-general de Vila Rica,

o principal objeto que deve ter presente quem teve a honra de ser empregado de qualquer governo ultramarino é a boa administração das rendas. Em duas partes se divide a boa administração da fazenda, quanto á direção de qualquer governo ultramarino é a boa administração das Rendas Reais de que tanto depende a segurança pública por serem as conquistas a fonte de que emanam as riquezas que fazem respeitado e opulento o Estado. O aumento das Rendas Reais depende principalmente da Agricultura, da Indústria, da fácil circulação do comércio e da boa arrecadação da Real Fazenda. São o Comércio e a

70

Agricultura as duas bases (grifo nosso) nas quais, mais do que em outras, se costumam

sustentar os três rendimentos mais consideráveis

(Apud Bellotto, 1986:283)

Cabe um ressalva importante, nem todas as medidas pombalinas beneficiaram o conjunto da população fluminense, visto que os interesses envolvidos eram díspares (LOBO, 1978). Portanto, os impactos das medidas pombalinas resultaram em vetores distintos, que dependia do grupo social, econômico ou político que foi atingido pela doutrina pombalina. Daí a cautela quando de seu mensurar (positivo ou negativamente) os impactos de tais medidas na economia do Rio de Janeiro. A princípio, acredita-se que a diversificação agrícola fluminense está entre os aspecto positivos. Para tentar mensurar isto, mostra-se um panorama da produção agrícola praticada no termo da cidade do Rio de Janeiro.

2.2- UM PANORAMA DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA FLUMINENSE

Já se comentou sobre a carência de informações primárias acerca da economia do Rio de Janeiro durante a segunda metade dos Setecentos. Nesta parte do trabalho, este aspecto é sublinhado mais uma vez, visto que os inventários encontrados somam módicos 91. Além disto, a documentação que versa sobre o assunto em pauta é limitada. Mesmo assim, tenta-se avançar, apresentando um pequeno panorama da produção primária no termo da cidade do Rio de Janeiro, tendo como base o Relatório do Lavradio e os inventários levantados no AN. Um resumo do número dos inventários coletados em cada ano está exposto no quadro abaixo.

Gráfico 2 – Número de inventários por ano

35 30 25 20 15 10 5 0 Nº de Inventários 1740 1751 1760 1767
35
30
25
20
15
10
5
0
Nº de Inventários
1740
1751
1760
1767
1772
1775
1777
1781
1783
1785
1787
1789
1791

Fonte: Inventários post-mordem, AN. Elaboração própria.

71

Pode-se perceber que a amostra é viesada uma vez que no ano de 1789 existem mais de 35 inventários coletados. Por isso, o cuidado em avançar nas conclusões advindas daquela fonte.

Por outro lado, como a década de 1780 apresenta um maior número de inventários coletados (55), foi sobre esta documentação que se trabalhou, a fim de se obter um melhor retrato da realidade produtiva agrícola fluminense. Outro argumento para o emprego dos inventários da década de 1780 é o fato daquela documentação “capturar” os efeitos das políticas de diversificação da agricultura. Portanto, com base no Relatório do Lavradio, tenta- se obter um panorama da produção agrícola na década de 1770. Acrescenta-se a essas fontes, a documentação primária coletada nos arquivos pesquisados. Outra limitação foi o documento (inventário) apresentar a relação das dívidas ativas e passivas do inventariado. Mesmo assim, encontrou-se um caso que chamou a atenção. Foi o inventário de José da Costa Santarém (AN, n.2125; gal.A; m.2289) o qual apresenta um monte total que passa dos 54:000$000 réis, tendo 21 escravos que somam 2:150$000 réis. Nesse documento aparece que José produz açúcar no seu engenho, em Inhumerim, e acumula uma dívida passiva no valor de 136$310. Contudo, o que se destaca é a dívida ativa no valor de 1:662$590 réis, sendo 1:099$900 réis do espanhol Antônio Henríquez. Esse crédito mostra um pequeno exemplo de como que a economia do Rio de Janeiro (e seus participantes) não estava isolada do mercado atlântico ultramarino. 46 Para se ter uma melhor idéia das atividades agrícolas praticadas no termo do Rio de Janeiro, apresenta-se um resumo do Relatório do Lavradio a seguir:

46 O mercado de crédito fluminense será tratado no capítulo quatro. Há uma extensa e polêmica discussão sobre a relação do mercado atlântico (ou sistema atlântico) e o capitalismo, principalmente envolvendo o tráfico negReiro e a escravidão colonial. Porém, este debate foge dos propósitos desta tese.

72

Quadro 7 – Produção agrícola fluminense 1778-79

Distrito

Agoardente*

Açúcar**

Farinha #

Arroz #

Feijão #

Milho #

Tamby

108

120

1.500

550

100

80

Goapimerim

7

32

9.000

2.500

200

200

Santo Antônio de Sá

65

89

10.000

3.000

400

500

Santíssima

           

Trindade

15

26

28.000

3.500

2.200

1.700

Goapiasu

197

225

28.500

9.600

2.900

2.480

São Gonçalo

352

481

N.I

N.I

N.I

N.I

Carahy

23

54

N.I

N.I

N.I

N.I

Itaipu

82

77

13.800

1.150

2.800

2.161

Maricá

57

96

4.561

1.100

2.461

2.054

Itaborai

232

409

23.295

2.869

8.040

11.275

Rio do Ouro

320

551

6.600

100

1.400

2.300

Cabo Frio

46

117

35.000

2.000

7.000

4.000

Inhomerim

28

20

4.320

800

1.900

24.150

Pacobahiba

N.I

N.I

4.000

2.000

N.I

N.I

Suruhy

2

5

3.600

2.390

60

200

Mage

18

30

5.200

570

120

250

Engenho Velho

N.I

N.I

N.I

N.I

N.I

N.I

Irajá

178

306

3.500

850

800

850

São João de Meriti

65

104

1.000

650

230

240

Igoasu

17

40

16.264

3.470

167

256

Guaratiba

64

95

5.440

3.800

850

190

Campo Grande

97

174

2.500

400

2.040

700

Jacarepaguá

93

116

2.888

281

1.430

1.579

Jacutinga

78

163

25.000

10.000

1.000

1.000

Iguassu

18

0

10.000

10.000

400

400

Marapicú

66

152

150

1.500

800

300

Goitacases

141

1.794

N.I

N.I

N.I

N.I

Angra dos Reis

149

218

25.736

2.923

1.485

951

Paraty

1.554

73

14.533

1.302

2.208

952

Totais

4.072

5.567

284.387

67.305

40.991

58.768

* Pipas, ** Caixas, # Alqueires. Fonte: RIHGB, tomo 76, parte 1, 1913, p. 285-360. Elaboração própria. N.I.: Não identificado.

O quadro mostra que a maioria das freguesias da Capitania do Rio de Janeiro produzia

arroz. Os dados provam que a nova cultura parece ter prosperado, tendo em vista que a

produção acumulada do cereal é superior a de milho e a de feijão, ficando atrás somente da

farinha de mandioca. Além dos dados apresentados no quadro acima, o Relatório chama a

atenção para o fato de que a freguesias de Campos de Goitacases, Guaratiba, Campo Grande,

Jacarepaguá, Jacutinga e Iguassu produziam anil, outra cultura que recebeu incentivo.

73

Dos 14 inventários coletados da década de 1770, cinco são relacionados com a atividade agrícola (denominada rural) e mostram uma produção concentrada no cultivo e produção da farinha de mandioca. O mesmo resultado é encontrado nos inventários da década de 1750 e 1760. Aqui a falta de informações não permite um aprofundamento das questões colocadas. Mesmo assim, pode-se perceber que a diversificação começa a ser percebida pelas fontes a partir da segunda metade da década de 1770. Não poderia ser diferente, visto que foi durante o transcurso da década de 1770 que Lavradio e a Coroa cederam os maiores benefícios para a implementação de novas culturas no Rio de Janeiro (PESAVENTO, 2005). Contudo, quando se observa os inventários da década de 1780 e início da de 1790, verifica-se que a produção agrícola fluminense no termo do Rio de Janeiro estava mais diversificada. O aparecimento nos inventários de culturas tais como o do anil, arroz e café, além, é claro, da tradicional produção de açúcar e mandioca, demonstra o fortalecimento de novas atividades agrícolas no termo da cidade do Rio de Janeiro em especial o arroz. Um exemplo disto é que dos 55 inventários levantados durante a década de 1780, 32 (58%) são rurais, nos quais as roças ou equipamento para fabricar anil, arroz ou pés de café estão presentes em 10 inventários (31%) inventários. Um exemplo é o inventário do advogado Manoel Antunes Suzano, morto em 1780. O documento (AN, cx.3629, n.22) de 1783, aponta um monte total de 24:300$000 réis, divididos em diversas propriedades e moradias, destacando-se os 120 escravos avaliados em mais de 5 contos de réis. Além dos escravos, destaca-se no monte-mor com dois engenhos, sendo um de anil avaliado em dois contos de réis.

Manoel Antunes Suzano tinha diversas propriedades no Rio de Janeiro nas quais eram exercidas diferentes atividades. Eram quatro propriedades “rurais” com diversas atividades, tais como a pesca e o anil na propriedade do Botafogo (Praia Vermelha). Em Itacuruça (distrito de Mangaratiba) existia a produção de açúcar e mandioca. Além estes bens existia o de Mata Porcos. Dentre suas propriedades urbanas, consta uma morada de casa térrea na rua da Cadeia no valor de 626$840 réis e um sobrado na mesma rua, avaliado em 1:582$164 réis. Um aspecto interessante que vai mostrar o predomínio do café sobre a produção de açúcar após 1820 é o inventário da mulher de Francisco Antunes Suzano (filho do Manoel) Maria das Chagas Suzano de 1830 (AN, cx.6831, n.96). Nesse documento, ainda aparece a produção de açúcar e de aguardente (avaliados em menos de dois contos de réis), porém com diversos quartéis de café avaliados em oito contos de réis. Esse movimento pode ser percebido em diversos inventários coletados após 1800, como o de José Teixeira (AN, m.451, n.8635)

74

com propriedade em Taguahi. No rol de bens inventariados, aparecem 24 escravos avaliados em 1:783$200 réis e uma produção diversificada entre mandioca, café, arroz e milho. O movimento de aceleração da produção cafeeira em substituição à açucareira no Rio de Janeiro foi construído paulatinamente através do século XIX. Porém, deve-se ressaltar que antes da virada do século XVIII para o XIX, alguns inventários já mostram o aparecimento do café nas propriedades fluminenses. É o caso do capitão João Pereira Lima Gramacho (AN, m.485, n.9365) que produz anil, café e mandioca, em 1790. Os inventários das viúvas Thereza de Jesus (AN, m.453, n.8867) e de Ana Correia Sá (AN, cx.4016, n.463) são exemplos do crescimento da produção não só de café, mas de anil e arroz, em solo fluminense, na virada da década de 1780 para a de 1790. Portanto, durante a década de 1780 parece ser visível a participação de novas atividades nos valores arrolados na documentação encontrada. As conclusões são limitadas pelo tamanho restrito da amostra de inventários. Contudo, o estudo do desenvolvimento da cada cultura (anil, arroz, e café) mostra com maior clareza o impacto de cada uma na economia local. Isso será observado no próximo ponto. Um último aspecto que não se teve tempo suficiente para avançar foi a pecuária. Não se encontrou indícios, pelo menos no período analisado, que mostrassem que esta atividade era praticada no termo da cidade do Rio de Janeiro. Contudo, estudos mostram a importância das redes de abastecimento e do comércio de carne e couros no Rio de Janeiro (MARCONDES, 2001). Uma outra maneira de se observar como outras culturas, que não a do açúcar, aguardente e da farinha de mandioca, se inseriram na pauta de exportações fluminense, é realizando uma análise da evolução das exportações do Rio de Janeiro para o Reino. Infelizmente não se tem dados sobre as exportações do Rio de Janeiro para todo o período em estudo (1750-90), apenas informações esparsas. Essas foram obtidas via informações sobre as frotas que partiam do Rio de Janeiro para Lisboa e Porto. É o caso, por exemplo, de uma carta da Mesa de Inspeção do Rio de Janeiro, a qual informa a carga distribuída pelos 11 navios da frota de 1757 (AHU, avulsos RJ, cx.52, doc.5248). As exportações, conforme indica o documento, foram as seguintes: 1.578 caixas de açúcar, 74.915 couros (atanados e meios de sola, sem unidade de medida informada) e diversas madeiras. Não é informado os valores e nem se pode calcular a receita gerada em função do desconhecimento dos preços das mercadorias exportadas em 1757. Porém, o que se pode perceber é que a exportação estava limitada aos couros (vindo do nordeste e do sul) e o tradicional comércio de açúcar e madeiras (jacarandás, predominantemente). Uma última

75

informação daquele documento é que estava presente na frota de 1757, uma embarcação na

qual o seu capitão era o importante negociante da praça carioca Antônio Pinto de Miranda.

Em ofício de junho de 1761, do capitão-tenente Bernardo Ramires Esquível ao

Secretário de Estado da Marinha e Ultramar Francisco Xavier de Mendonça Furtado, pode-se

novamente perceber o que se exportava do porto do Rio de Janeiro (AHU, avulsos RJ, cx.62,

doc.5960). Neste documento consta que a frota daquele ano era composta por 24 navios os

quais transportavam:

Quadro 8 – Quantidade de gêneros exportados na frota de 1761 do porto do Rio de Janeiro

Gêneros

Caixas

Fexos

Pipas

Barricas

Fardos

Açúcar (caixas e fexos)

3.262

927

     

Aguardente (pipas)

   

440

   

Arroz (barricas)

     

220

 

Azeite de Peixe (pipas)

176

 

176

   

Barbatana (fardos)

       

658

Couros (atanados, meio de sola e em cabelo) sem unidade de medida

121.489

       

Madeiras (diversas)

         

Fonte: AHU, avulsos RJ, cx.62, doc.5960. Elaboração própria.

O que se percebe é a inserção de novos produtos agrícolas como o arroz. Esse

movimento é melhor percebido pós 1770. É o que informa o quadro a seguir.

76

Quadro 9 – Receitas (mil-réis) dos gêneros exportados do Rio de Janeiro: 1777,

1788-89

Gêneros

1777*

1788

1789

Total

%

Açúcar

132.987.400

388.042.940

421.993.100

943.023.440

41,34

Aguardente

3.330.000

51.473.200

36.394.800

91.198.000

4,00