Você está na página 1de 8

BuscaLegis.ccj.ufsc.

br

file:////Platao/www/arquivos/RevistasCCJ/Seque...finicao-um_novo_fundamento_para_o_direito.html

®BuscaLegis.ccj.ufsc.br
REVISTA Nº 26 Ano 14 - julho de 1993 - p. 50-58

A Ética em redefinição: um novo fundamento para o direito
Antônimo Carlos Wolkmer
Ao repensar os pressupostos teórico-práticos que fundamentam a discussão sobre um outro paradigma de juridicidade, torna-se imperioso, como condição primeira, repassar suas bases de sustentação éticas. A problematização de uma nova Teoria do Direito e da Justiça está estreitamente vinculada a uma nova ordem de valores éticos. Assim, tem sentido, num amplo debate sobre as premissas de uma nova Teoria do Direito e da Justiça para o fim do século, refletir sobre a emergência concreta de uma Ética que designaremos como "Ética da Alteridade". A compreensão do exaurimento da cultura projetada pela modernidade burguês-capitalista evidencia o encadeamento de crises de legitimidade normativa que atravessa as esferas do cotidiano, das instituições econômicas e políticas, bem como das idéias e práticas axiológicas (1)1 . A crise do "ethos" valorativo vivenciada pelas formas de vida da sociedade contemporânea tem sua razão de ser na profunda perda de identidade cultural, na desumanização das relações sócio-políticas, no individualismo irracionalista e egoísta, na ausência de padrões comunitários e democráticos, senão ainda na constante ameaça de destruição da humanidade e de seu meio-ambiente. Essa situação gera uma das grandes dificuldades presentes, que é arquitetar as bases de um conjunto de valores éticos capazes de internalizar o "eu" individual e o "nós" enquanto comunidade real. No meio da crise de legitimidade normativa, vive-se a falta de consenso e o impasse face à diversidade de interpretações sobre o que seja "virtude", "bem-comum", "vida boa" ou "ação justa"(2)2 . É óbvio, neste contexto, que, para diagnosticar uma saída para a crise ética da Modernidade liberal-burguesa, há de se contemplar todo um certo avanço de racionalização da vida, uma racionalização de cunho técnico-sistêmico que acaba fragmentando o "mundo da vida e da cultura" em dois níveis: "de um lado, normas e orientações cada vez mais sofisticadas para a ação humana no campo instrumental e técnico. De outro, as normas e valores éticos da ação humana vão se generalizando cada vez mais, até o ponto de sua diluição ou extinção completa(...)"(2a)2a . O reconhecimento do individualismo, da desumanização alienadora e da desligitimação como traços éticos-culturais das sociedades burguês-capitalistas atuais propicia a abertura e a busca de alternativas para a descoberta de um novo universo axiológico. Dentre as muitas propostas aventadas, duas importantes contribuições filosóficas, configuradas, ora pelo "pragmatismo analítico", ora pelo "racionalismo discursivo", oferecem, no seu cerne, respostas paradigmáticas para o exaurimento dos valores éticos da modernidade. 2. O Problema Ético no "Pragmatismo Analítico" Sem adentrarmos aos pormenores, interessa apenas lembrar que o "pragmatismo analítico", representado por teóricos anglo-norte-americanos como A. MacIntyre, Hilary Putnam e Richard Rorty, rejeitando os chamados princípios éticos universais, entendem que é desnecessário e até prejudicial buscar normas gerais, pois a ética enquanto "virtude" cinge-se à regras imediatas e particulares (3)3 . Em suas posturas marcadas por um "etnocentrismo pragmático" e um "relativismo cultural", Richard Rorty argumenta ser inútil fundamentar os valores em algo absoluto, intemporal e utópico, pois os críticos valorativos de conduta enquanto virtudes cívicas

1 of 8

21/08/2000 19:16

ao proclamarem a validade e a universalidade da filosofia analítica. Karl Otto Apel. Passa a ser essencial para Habermas que a ética do discurso prático-comunicativo.BuscaLegis. tanto Habermas quanto Apel buscam uma saída para a crise da ética moderna. Tendo presentes as proposições normativas de teor lingüístico-pragmático. dependa das formas reais de vida e das ações humanas concretas (6)6 . buscam utilizar sua linguagem. Diferentemente das posturas irracionalistas do "pragmatismo analítico" norte-americano e do "pós-estruturalismo" francês. Isso leva à ponderação de Apel de que a ética do discurso é mediada por dois níveis: o princípio formal de fundamentação racional último e as normas materiais justificadas pela comunicação prática (7)7 . ainda que tenham a pretensão de ser "progressista". assume características de uma "macroética pós-convencional" que tem eficácia para o conjunto da humanidade. formalista e pós-kantiana. mas interpõem os princípios gerais da comunicação humana dada pela vida concreta dos participantes. princípio da solidariedade e princípio do bem-comum. muito próximas de Habermas. calcada nas tradições culturais do modo de vida liberal-individualista norte-americano.finicao-um_novo_fundamento_para_o_direito. caminhando em direção de uma ética do discurso prático. para seu princípio fundante.br file:////Platao/www/arquivos/RevistasCCJ/Seque. Apel avança. ou seja. Desta maneira. como. uma outra proposta não menos importante para a edificação racional de uma nova ética universalista. torna-se claro entender a defesa que o mesmo faz de uma ética específica. não só a minimizar o papel de uma ética de racionalidade universal. a proposição de normas e valores para a ação humana que levem à emancipação dos sujeitos históricos e dos grupos sociais. Naturalmente. alicerçada na "pragmáticauniversal" (segundo Habermas) e/ou na "pragmática transcendental" (conforme Apel). através de uma racionalidade marcada por uma "reflexão 2 of 8 21/08/2000 19:16 . por ser uma ética cognitiva. ser feliz). amplia e transpõe a ética formalista de Kant (sistema de deveres: imperativo categórico como "a priori" de fundamentação dos enunciados normativos). em fins do século XX. 3. no ponto referencial obrigatório e necessário para toda e qualquer investigação sobre a fundamentação de princípios ético-universais. Na verdade. mas a "razão dialógica".html regionais espelham a estreita vinculação com os condicionamentos de uma tradição cultural concreta4 (4) . a partir do discurso prático consensualizado.. Habermas. Richard Rorty e seus adeptos. deve tratar e considerar a reciprocidade de três grandes princípios de fundamentação universal: princípio da justiça. sua lógica e seu instrumental metodológico para justificar uma ética regional de dominação inerente ao "ethos" de legitimação nacional norte-americana (5)5 . Além da contribuição de Habermas. assentado num entendimento comunicativo. toda e qualquer concepção ética.ufsc. Habermas e Apel procuram edificar as condições para uma ética universalista do discurso prático-comunicativo que objetive uma maior assimilação entre o "eu" individual e a autonomia das identidades coletivas. enquanto ética de cunho universalista.ccj.. A ética do discurso ou da comunicação. importa. "uma validade universal intersubjetiva e independente das circunstâncias". nas culturas políticas periféricas. a teoria da "racionalidade comunicativa" de Jürgen Habermas e Karl Otto-Apel se constitui. Neste sentido. vivenciada e partilhada por atores lingüisticamente competentes). Além disso. os pressupostos habermasianos não mais recorrem exclusivamente à razão. retoma. a desconsiderar as concepções éticas de outros contextos culturais. Isso leva-o. é a que vem sendo sistematizada pelo também integrante da Escola de Frankfurt. hoje. Tendo presente e rompendo com a tradição clássica da ética aristotélica-tomista (sistema de virtudes: supremo bem. o conservadorismo e a insuficiência do "pragmatismo analítico" e de outras correntes do funcionalismo-sistêmico. explicitar a mais importante contribuição do racionalismo filosófico contemporâneo na edificação do projeto de uma ética universal: a ética racional do discurso. Universalismo da Ética Racional Discursiva Deixando de lado. requerendo. sobretudo. sustentando-se em argumentos apoiados na dialética hegeliana. ainda. a partir desta lógica. Trabalhando com um novo conceito de "razão" (não mais a "razão instrumental" iluminista.

sobretudo. reconhecer não só o esforço de Habermas e Apel no sentido de fundamentar uma Ética racional. planetária. espoliados e desiguais. Sem negar o mérito de um projeto ético calcado em princípios fundantes universais (vida. "solidariedade". depende da capacidade de se obter consenso por parte dos atores sociais e "das conseqüências das normas que se há de aceitar(11)"11 . justiça) presentes e únicos em qualquer situação histórica ou experiência cultural.finicao-um_novo_fundamento_para_o_direito. Ressalta ainda o autor dos Estudios Éticos que a necessidade e o surgimento desta "norma moral fundamental" assenta na premissa de que ". é justamente o reconhecimento intersubjetivo da "metanorma". Por conseguinte. com diferentes interesses e tradições valorativas de mundos vitais. que tem como exigência ser constituída pelo "consenso" de vontades livremente reafirmadas. Apel pondera que a busca de valores universais não prejudica a diferença e a particularidade. Diante disso. cujo cenário é composto por sujeitos alienados. no âmbito de uma "ética da responsabilidade" e/ou "ética do diálogo". deve-se também contemplar valores éticos particulares (que. não menos relevante é tentar examinar as possibilidades realmente existentes da viabilidade e eficácia de seus pressupostos nucleares quando aplicados a experiências históricas "especialíssimas" e situações culturais regionais. Em outros termos dir-se-ia que tal desiderato parte das premissas básicas de que haja uma condição pública dada "a priori" (comunidade de comunicação ideal). que todos os agentes participem por livre consenso e que todos os sujeitos integrantes do jogo argumentativo sejam iguais. conflitos. na construção de uma ética especial (discursivo-comunicativa). na atualidade. enquanto princípio da racionalidade discursiva. porquanto. marcadas por irracionalismos. mediação possibilita as "condições de existência da Comunidade ideal com a Comunidade real" (9)9 . que torna possível a condição do pluralismo valorativo do mundo moderno". Insuficiência do Projeto Ético Dialógico Se não parece haver dúvida quanto ao reconhecimento do alto grau de significação da Ética discursiva como ponto inicial para discussão de todo e qualquer projeto ético.todos os homens são parceiros. mediante uma racionalidade estratégica de interação social. denominada "ética da responsabilidade".. Apel define o princípio de uma norma moral fundamental.. Deleuze. verificam-se reais dificuldades para situar e utilizar a Ética discursiva universal nas condições das comunidades sócio-políticas do Capitalismo periférico. para Apel.html transcendental". liberdade. prevalecendo sempre a lógica do melhor argumento possível. conscientes e maduros. que parte de relações e da ação comunicativa concreta superadoras do formalismo positivista. uma ética comunitária intersubjetivamente válida (8)8. potencialmente universal. deve-se. envolvendo a participação de todos para o bem-estar e a felicidade geral. tornando-se insuficiente a formação de éticas específicas de grupos e éticas subjetivas individuais. De fato. com os mesmos direitos e os mesmos deveres" (10)10 . "valorização das subjetividades do mundo da vida" e "consenso da comunidade real".BuscaLegis. preliminarmente.br file:////Platao/www/arquivos/RevistasCCJ/Seque. Insiste Apel em assinalar que "somente este tipo de norma básica. se faz necessária uma grande ética.. uma vez reconhecidos pela Comunidade Internacional. universalmente válida. de fundamentação consensual-normativa. uma ética cósmica. denominada "ética da responsabilidade". Certamente. mas sim princípios universais condutores que deverão ser usados como direção geral. livres. dos povos e culturas. nada mais oportuno do que afirmar.. a forma de se conseguir aceitação das normas.ufsc. A intenção de Apel não é oferecer uma ética acabada para uma realidade constituída de diferentes grupos particulares. Em resposta às críticas feitas pelo "pós-estruturalismo" francês (Foucault. Efetivando uma ponte conciliadora entre a racionalidade tecno-instrumental (adaptada e depurada a partir de categorias weberianas).). "práxis emancipatória". é que pode possibilitar a convivência das pessoas. como. A "ética da responsabilidade" nada mais é do que uma ética dialógica que se articula através da interação social. dependência e violência institucionalizados. a proposta da Ética discursiva parte de visão de sociedade quase perfeita constituída por homens competentes. para se repensar e romper com todos os parâmetros 4. Ora. a importância de suas análises e de suas categorias-chaves como "responsabilidade". No instante em que a ciência busca traduzir uma civilização unitária. Derrida etc.ccj. mais do que nunca. poderão 3 of 8 21/08/2000 19:16 .

a "Ética da alteridade".html alcançar universalidade). inerentes às especificidades valorativas da pluralidade das formas históricas de vida aparecendo neste contexto. 5.ccj. prioriza as práticas culturais de uma dada historicidade particular. Betancourt. o presente propósito: ainda que se tome preliminarmente algumas categorias teóricas (emancipação. Destarte. miseráveis e oprimidos) dos pensadores latino-americanos(12)13 .. Pressupostos para uma Ética da Alteridade Latino-Americana O projeto de uma "Ética da alteridade" não se prende a engenharias "ontológicas" e a juízos "a priori" universais.) quanto pela teologia (Gustavo Gutiérrez. Leopoldo Zea etc. material e não-formal. sem deixar de contemplar princípios racionais universalizantes comuns a toda a humanidade. hegemônica e central. como prioridade regional. A "Ética da alteridade" é uma ética antropológica da solidariedade que parte das necessidades dos segmentos 4 of 8 21/08/2000 19:16 ..br file:////Platao/www/arquivos/RevistasCCJ/Seque. Com isso pode-se também afirmar que o sujeito da "intenção emancipadora" dos teóricos da Escola de Frankfurt não se confunde necessariamente com o sujeito da "práxis libertadora" (pobres. Além de compartilhar com certos valores racionais universalizantes. traduz a singularidade de certos valores específicos (simbolizadores de uma dialética do particular/universal. Leonardo Boff etc. porque não é livre nem "competente" para participar da consensualidade discursiva e do jogo lingüístico argumentativo. Raul F. há que avançar na formulação de uma "Ética de alteridade" capaz de romper com todos os formalismos técnicos e os abstracionismos metafísicos.) e pelas ciências sociais (José Carlos Mariátegui. Eduardo Galeano. pois. das condições materiais e da experiência de historicidade do povo sofrido e injustiçado da periferia latino-americana e brasileira. Parece claro. deve-se apreender um pensamento periférico autóctone de vanguarda. representado tanto pela filosofia (Enrique D. enquanto expressão de valores emergentes (emancipação. dependentes. pode perfeitamente se materializar como instrumento pedagógico que melhor se adapta aos intentos de conscientização e transformação das nações dependentes do capitalismo periférico. solidariedade. silenciado e excluído. marginalizadas e colonizadas. mas traduz concepções valorativas que emergem das próprias lutas. Juan Carlos Scannone. a emancipação. Augusto Salazar Bondy. solidariedade e justiça) dos novos sujeitos individuais/ coletivos. bem como das lutas e das "guerras de libertação nacional e das resoluções dos povos oprimidos"(13)14 . autonomia individual e coletiva. Darcy Ribeiro etc. Alejandro Serrano Caldeira. justiça e a satisfação das necessidades humanas. quer como instrumento pedagógico da libertação. envolve duas condições essenciais: a) inspira-se na "práxis concreta" e na situação histórica das estruturas sócio-econômicas até hoje espoliadas. o conteúdo constitutivo da "Ética da alteridade". assim. conflitos. autonomia. da unidade/pluralidade etc. por estar inserida nas práticas sociais e delas ser produto.finicao-um_novo_fundamento_para_o_direito. Dussel. filosófica e sócio-política latino-americana. O que deveras acontece é que na "comunidade de comunicação real". que a "Ética da alteridade" tem um cunho libertário. na verdade. revelando-se a expressão autêntica dos valores culturais. o "outro" (o sujeito espoliado e dominado do mundo periférico) que deveria ser a condição fundante. solidariedade e justiça. por ser parte de uma pluralidade de formas de vida. representados basicamente pela emancipação. por conseguinte. A "Ética da alteridade". Admite-se. b) as categorias teóricas e os processos de conhecimento são encontrados na própria cultura teológica. interesses e necessidades de sujeitos individuais e coletivos insurgentes em permanente afirmação. autonomia. quer como forma de destruição da dominação. postos para serem aplicados a situações vividas. bem-comum e justiça. solidariedade e justiça) enaltecidos pela "Ética discursiva". Neste sentido. é ignorado.).ufsc.BuscaLegis. como vida.) (14)15 . liberdade.

finicao-um_novo_fundamento_para_o_direito. Sendo assim.ufsc.o imaginário da "salvação" e da "saída". certos marcos referenciais da obra de Enrique D. o mal ético por excelência etc. a universalidade dos sentidos e das práticas. como pessoa e como fim". encontra seus subsídios teóricos não só nas práticas sociais cotidianas e nas necessidades históricas reais. A nova totalidade está comprometida com uma reflexão que parte do mundo e da realidade. a totalidade do ser. em cujo espaço se dá a "afirmação do oprimido como outro. Dussel. configurando. o filósofo e teólogo argentino Enrique D.. a "negação da alienação" a partir da afirmação da exterioridade" (18)19 . projetada no absolutamente "tu". Ademais. no colonizado (séculos subseqüentes). uma nova lógica de convivência humana. no mestiço e no crioulo (após a emancipação). mas igualmente em alguns pressupostos epistemológicos da chamada "filosofia da libertação". o "outro" despojado e tornado mera parte funcional interna do sistema mercantil. sendo constituída por duas categorias fundamentais: a categoria ontológica da "Totalidade" e a categoria metafísica da "Exterioridade" (alteridade). há que se ter presente.ccj. concorrência e a convivência de valores éticos racionais universalizantes (princípios aceitos por quase todas as culturas. Não há dúvida de que a tarefa de buscar princípios normativos para a ação humana é extremamente complexa. violada e não-respeitada. a metafísica da alteridade enquanto paradigma originário que rompe com a injustiça e com a "negação do ser do outro". injustiçados. Deixando clara a centralidade do binômio "totalidade" (para o que se pretende destruir) vérsus "exterioridade" (para o que se propõe construir). assim como com as exigências de justiça e emancipação dos oprimidos de todos os tempos e lugares. Por ser uma ética que deve traduzir os valores emancipatórios emergentes de novas identidades coletivas que vão afirmando e refletindo uma práxis concreta comprometida com a dignidade do "outro". Em algumas de suas obras. Parece acertado tentar compreender uma mundialidade constituída pelo cruzamento.. A exigência de uma nova ordem fundante implica o desafio de romper com a "totalidade" ontológica do pensamento moderno europeu. aqui e agora. enfim. Dussel mostra-nos que a Ética da Libertação compreende a dimensão de lugar ou do momento da exterioridade. exterioridade que foi sempre historicamente oprimida. o teórico por excelência da mais bem elaborada e consistente proposta de uma ética filosófica libertadora sob a ótica da periferia latino-americana. ainda que brevemente.simboliza o "pecado" e a "opressão". Dussel irá afirmar a dignidade humana concreta existente. b) a "libertação" . quer na figura do "índio (durante a conquista). a justiça e o bem-comum) com valores 5 of 8 21/08/2000 19:16 . a alternativa construtiva ao capitalismo dependente. na relação "face-a-face" e na infinitude do rosto "frente-a-frente" (16)17 . inscreve na história a exterioridade do outro. A categoria da "Totalidade" que pode se manifestar de diversas maneiras abarca o mundo da vida cotidiana.br file:////Platao/www/arquivos/RevistasCCJ/Seque. Esta nova subjetividade de transgressão mediatiza aquela singularidade de que fala Emmanuel Levinas. pela práxis. Já a categora da "Exterioridade" engloba o "espaço humano do outro".BuscaLegis. a negação da exterioridade.html humanos marginalizados e se propõe a gerar uma prática pedagógica libertadora. como a vida. capaz de emancipar os sujeitos históricos oprimidos. o sujeito vivo coisificado pelo capital. instituições e sociedades contemporâneas. da alteridade de uma nova subjetividade presente em cada pessoa enquanto coletividade. a utopia do "homem novo". a liberdade. caracterizado por um idealismo individualista e por um subjetivismo centrado no "Eu Absoluto". refletida igualmente a nível teórico. a mundialidade capitalista concreta e abstrata. Alteridade subjetiva que na menção categórica da Enrique D. quer no marginalizado (camponês ou favelado) ou no todo subnutrido e alienado de nosso tempo" (17)18 . Enrique D. Dussel acrescenta e desenvolve duas "categorias práticas" derivadas daquelas: a) a "alienação" . expropriados e excluídos (15)16 .. basicamente num horizonte cultural delineado por uma crescente pluralidade e diversidade de formas de vida cotidiana.

Lisboa. v. 1991. Barcelona. aos costumes e às tradições de cada contexto espacial cotidiano. Serrano Caldeira. p. 3. Consciência Moral e Agir Comunicativo. 103-130. de (Org. 46-57. HELLER. cuja realidade fragmentada e experimental é reinventada e rearticulada permanentemente. Papirus. Propor.132-160. p.Sociologia de la Vida Cotidiana. indistintamente. 1989. 1989a. uma ética identificada com os valores latino-americanos não é renunciar à aceitação e à consciência da existência de princípios racionais universalizantes. Rio de Janeiro. Assim sendo. 07-37 e RORTY. portanto. 41. Barcelona. "Ética e Ciência em Hilary Putman". quer especificamente pelos novos movimentos sociais. na medida em que.45-62.ufsc. 6 of 8 21/08/2000 19:16 . Rio de Janeiro. como assinala A. p. Campinas (SP). solidadariedade. Agnes & FEHÉR. Eis. ______. Eric J. In: Crítica. p. cit.Putnam podem ser encontrados em: HABERMAS. Richard. Mario A. 1989. faz-se mister reconhecer. (2)2 Cf.MacIntyre e H. Hilary. provenientes das práticas cotidianas emancipatórias e das lutas reivindicatórias por necessidades humanas fundamentais atinentes aos novos sujeitos coletivos. p. É preciso.).). Justifica-se. (3)3 Uma apreciação dos argumentos de A. História do Marxismo. O Marxismo Hoje (Segunda Parte). Racionalidad. produzir e definir princípios éticos de uma nova sociedade. In: HOBSBAWN. In: CARVALHO. da sensibilidade e da ação comportamental). p. p. 12. mesmo porque há de se projetar as nossas particularidades com uma visão universal. Fernando e AGUILA TEJERINA. os movimentos sociais se legitiman para criar. na contextualização periférica da cultura liberal-burguesa. In: OLIVÉ. autonomia.finicao-um_novo_fundamento_para_o_direito. que. Tempo Brasileiro. Ediciones Peninsula. cf.. em determinadas condições estruturais e conjunturais. Jürgen. Rafael del.br file:////Platao/www/arquivos/RevistasCCJ/Seque. Paradigmas Filosóficos da Atualidade. 1988. "Solidariedade ou Objetividade". NOTAS: (1)1 Cf. reafirmar nossos valores. SIEBENEICHLER. algumas reflexões teóricas como contribuição para fazer avançar a ampla discussão sobre os novos pressupostos de uma Teoria do Direito e da Justiça que se encaminha para o final do milênio. que o desafio está em transgredir o convencional e buscar valores emergentes (a nível do pensamento. "Será Necessário um Ponto Arquimédico? Teoria Crítica e Praxis Política". é possível constituir categorias éticas em decorrência de situações singulares e em consonância com experiências concretas vivenciadas. Jürgen Hobermas: razão comunitiva e emancipação. ed. VALLESPIN ONÃ. "Racionalidad en la Teoría de la Decision y en la Ética". quer por sujeitos coletivos.L. p. (Org. Ediciones Península.. op. GUERREIRO. Tempo Brasileiro. gerada no bojo de relações e por práticas emergenciais configuradas. Ferenc. Paz e Terra. 1989. pautados na emancipação. deste modo. 61-141. Leon (Compilador).215.BuscaLegis. se complementa a criatividade do ser humano"(19)20 . ______. Revista do Pensamento Contemporâneo. Flavio Beno. Certamente. convictos de que. p.ccj. as possibilidades de uma nova ética de teor pedagógico e libertário. Maria Cecília M. portanto. 289-305. 1989. p. ao expressar diferentes povos.. Flavio Beno. (4)4 A este respeito. Políticas de la Post Modernidad. 41. Siglo Veintiuno.html éticos particulares e específicos inerentes à historicidade. (2a)2a SIEBENEICHLER. ademais. "A Herança da Ética Marxista". No espaço aberto de interações renovadas e de exigências éticas(20)21 . México. a "pluralidade de culturas é uma forma de universalidade. Rio de Janeiro. justiça e na dignidade de uma vida capaz de satisfação das necessidades humanas fundamentais. PUTNAM.

1983. 297-312. vol. ed. México. (11)11Op. Fondo de Cultura Econômica. São Paulo. (14)15 Para uma introdução básica ao pensamento e a cultura periférica latino-americana. GALEANO. ZIMMERMANN. DUSSEL. Madrid. 3. Vozes. (6)6 Ver. cit. 1984. s/d. (7)7 Uma excelente síntese sobre a "Ética do discurso" pode ser encontrado: APEL. Alfa-Omega. (43/44):393-7.. El a priori de la Comunidad de Comunicación y el Nosotros Ético-Histórico". Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. 1986. abr. ________. 14-15. Edvino. 2. América Latina . 1987. Horácio. op. Siglo Veintiuno. Leopoldo. 1975. 1988. 1990.O Não Ser: uma abordagem filosófica a partir de Henrique Dussel. 1989.ccj. ZEA. Enrique D. axiológicos convencionais. p. Pela Filosofia Latino. Faculdade de Filosofia y Teologia. La Transformación de la Filosofia. convém observar: SERRANO CALDEIRA. CERRUTTI GULDBERG. 149-206. Juan Carlos. GUTIERREZ. ed. Alejandro."Racionalidad Ética da Comunicación y Alteridad". SALAZAR. 8. Petrópolis. "Filosofia de la Liberación y Comunidad de Comunicación de Vida". 139-42. (1962-1976). 93. Existe una Filosofia de Nuestra América? 8. Gustavo.Editorial Alfa. Petrópolis. 1982. Taurus.). I. op. José Carlos. Loyola. cit. México. (9)9 APEL. 101. p. ________. 1986. Más allá de la Justicia. p.Americana.BuscaLegis. ses limites". In: Revista Stromata. La Filosofia Americana como Filosofia sin Más. Siglo Veintiuno. In: JACOB. Verbete: "L'Éthique de la Discussion . 2. p. Filosofia de la Liberación Latino-Americana. HELLER. 1976. São Paulo. 154-5. MARIATEGUI. Alejandro.94-100. Agnes. v. ed. 75 fls. Epitemologia das Ciências Humanas. (5)5 Cf. P. Eduardo. In: Revista Stromata. (12)13 A questão da insuficiência da "Ética do discurso prático" de cunho universalizante para o contexto da periferia latino-americana é examinada por: DUSSEL. BONDY. (10)10 APEL.. cit. EDUCS. ed. Editorial Crítica. p. op. 1982. 341-413. Petrópolis. San Miguel (Argentina).sa portee. SCANNONE. Encyclopédie Philosophique Universelle. Enrique D. México. p. André (Dir. Vozes. p. 1987.1986..html Editorial Teorema. Karl-Otto. Filosofia da Libertação. Barcelona... As Veias Abertas da America Latina. Paz e Terra. Rio de Janeiro. cit. (42): 367-386. Flavio Beno. Augusto. L'Univers Philosophique. Paris.F. Roque.. p..br file:////Platao/www/arquivos/RevistasCCJ/Seque. Vozes.finicao-um_novo_fundamento_para_o_direito. "Filosofia Primera e Intersubjetividad. Karl-Otto. nesse sentido: SIEBENEICHLER. p. (03). Estudios Éticos.. Barcelona. (13)14 SERRANO CALDEIRA.U. 1975. 1979. Caxias do Sul. Texto inédito. Karl-Otto. (8)8 Cf RABUSKE. 7 of 8 21/08/2000 19:16 . Filosofia e Crise.ufsc. Teologia da Libertação. 1985.

268-87. Violência. p. Verbete: "Éthique de la Liberación".ccj.br file:////Platao/www/arquivos/RevistasCCJ/Seque. 229-47. cit.BuscaLegis. op. 120-58. 27-9. Alejandro. Lisboa. DUSSEL. 1984. A.. op. Roque. In: JACOB. DUSSEL. 180-1. Darcy. Edições 70. DUSSEL..)..1990. "Metafísica. Enrique (16)17 A originalidade dessas referências que fundamentam uma nova estrutura da subjetividade definida na "responsabilidade por outrem" pode ser detalhada em: LEVINAS. (02):57-78. D. 195. Gustavo. Luiz Alberto. ________. nedste sentido: GOMEZ DE SOUZA. (17)18 ZIMERMANN. 1983. VATTIMO. Petrópolis. Petrópolis. 262-4. Lisboa. Concilium/192. São Paulo/Belo Horizonte.. cit.. STEIN.. Para uma Ética da Libertacão Latino-Americana.(48):73-7. Revista do Pensamento Contemporâneo. cit. Loyola. cit. (20)21 Ver . 1986a. O Dilema da America Latina. (18)19 Cf. 167-194. MIETH. op. 158. 1988b. op.. n: Revista Síntese . In: Filosofia e Pós-Modernidade. p..finicao-um_novo_fundamento_para_o_direito. 1987. Libertação Um Desafio para a Ética Cristã. p. Emmanuel. Secularização". 1988a. cit. ________. Editorial Teorema. Vozes. Encyclopédie Philosophique Universelle. p. p. E. (15)16 A esse propósito.. p.N ova Fase. (19)20 SERRANO CALDEIRA. p. consultar: MOSER. Edições 70. Vozes. André (Dir. Totalidade e Infinito. "Elementos Éticos Emergentes nas Práticas dos movimentos sociais". Enrique D.. ________. Crítica. cit. GUTIERREZ. D. 8 of 8 21/08/2000 19:16 . 75-93. op.ufsc.html RIBEIRO. Lisboa. op. 1984. nov. 21-67. 149-54.. Gianni. Ética e Infinito.