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O Juízo Discurso acadêmico

Tradução de João Adolfo Hansen Literatura Brasileira- DLCV FFLCH- USP

Quem muito se apressa no prometer, falha no
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executar; e eu, que muito

pressurosamente empenhei a palavra de emitir meu juízo sobre a triunfal eloqüência desses dois oradores evangélicos (como mo impusestes), achei tão difícil a execução como me

havia parecido fácil a promessa. Por isso, se até nas artes vulgares se tem que tentar parecer não-vulgar na arte e nem a Heitor pareceu belo o elogio militar, senão da boca de Príamo2, louvadíssimo nas armas, serei bem pobre de juízo ao fazer-me juiz daquela arte que, quanto mais supera as outras, tanto se inferioriza o meu engenho, e de dois personagens que com a felicidade da sua língua fizeram infelizes as línguas de outros. Recordo-me que Alexandre, porque melhor entendia de espadas que de pincéis, querendo emitir sentença sobre dois retratos, fez rir os ajudantes de Apeles3; e não serei escarnecido pelos sábios, se ouso intrometer meu voto em duas perfeitíssimas idéias, que ultrapassaram os limites da opinião e prescreveram os alvos para os juízes? Não tenho que temer me apareça Anacarsis com aquele agudo apoftegma que lançou contra os Gregos: "oratores apud vos sapientissimi, iudices stulti" 4? Por estas razões, Senhores, tinha pensado seguir quietamente a fantasia de certo Buna, ateniense,5 que, eleito árbitro entre os Calcedônios e os Eleatas, pesando aqui e ali as razões alegadas, durante tantos anos adiou a sentença que os contendores se esqueceram da disputa. Mas outra consideração fez-me mudar de parecer: é que não existe
Luigi Albrizzi, jesuíta, nascido em Piacenza por volta de 1576, morto em 1655. Entre suas obras publicadas, Prediche (Roma, 1645) e Panegirici sacri (Roma, 1655). O outro orador chama-se Orimbelli, mas não há mais notícias sobre ele. 2 Cícero., Ad. fam.,XV, 5,I; Tusc., IV,31,67. 3 Plínio, Nat. hist., XXXV, 10,85-86. 4 Plutarco, Sol.,5,81: “entre vós os oradores são sapientíssimos, os juízes, estultos”. 5 Buna. Cf. Pseudo Plutarco, Prov. Alexandrin. ,23.
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10 O mercado ( os votos da canalha do mercado). 8 O poeta latino Ênio. suadaeque medulla11. 7 6 . como pareceu àquele bom velho de Estagira12. 1377b. pesquisando em uma e em outra questão. a medula ( a essência) da persuasão” 12 Aristóteles.toma os sufrágios não das togas do Areópago. Cf. Orat.57. a arbitrar ainda sobre as duas propostas que me haveis feito: uma. os juízes do orador? Não vedes que freqüentemente acertam melhor na audiência certos pregadores empíricos. porque onde os outros refutam o juízo dos ignorantes. 8. de Francesco Panigarola. mas da plebe do porto”. ossia parafrasi e commento intorno al libro dell’eloquenza di Demetrio Falereo. outra. podendo citar a autoridade da flor do Campidoglio. na contenda entre Demóstenes e Ésquines6. E verdadeiramente. para pagar meu débito uma vez. é tomado dos ouvintes. Brut. não serão esses mesmos. 26-7. 14 Trata-se de Il predicatore. . que costuma ser um corpo heterogêneo de mil cabeças mais descerebradas que aquela que encontrou o lobo de Andrea Alciato13. 11 Cícero. Cic. para engrandecer a facúndia de Cetego9. II. os quais dia e noite folheiam o Demetrio de Panigarola14 para obter artificiosos preceitos? Mísera e incerta fortuna dos oradores. Cf. de mais alto lugar a comum e viva fonte. recolheu para tanto os votos do campo bovino10: dictus ollis popularibus olim flos delibatus populi. o primeiro orador romano. metódicos ou racionais. Cf. “Não dos homens cultos do Aréopago. que formam para si os aforismas do dizer a partir da sua experiência dos sintomas populares. Resolvo-me.. pois.58-9-” foi dito daqueles cidadãos (populares) então a mais bela flor da cidade (do povo) . O ancião da eloqüência latina. mas dos mais baixos gabões do Pireu7. I.arte alguma que mais facilmente se possa por quem quer que seja censurar que esta da eloqüência. e o pai Ênio8. 15. 21. qual das duas maneiras me parece a melhor. em que consiste a diversidade desses dois sagrados pregadores. por prêmio uma voz confusa sem certeza. mas da multidão. Cornélio Cetego. 15. que talvez é uma só. esta desdenha o juízo dos sábios. por juiz um corpo monstruoso sem juízo. que têm por teatro um mar ondulante sem constância.. que são os objetos da oração. Cic... e não de poucos. se o fim intrínseco da oratória. 13 Emblema 66 do livro Emblemata (1531).de Andrea Alciato. que outros. Brut. Rhet. 9 M.

3. dividindo os ouvintes em duas classes. cansados do rápido curso da oração. Zombou de Latona. que só tinha dois. ambas digníssimas de glória igual. 18 Uma só graça ornava os diversos rostos. o mestre de Túlio21 o emenda. com vossa licença. simulacro dos sábios. Pelo contrário. Cf. rei de Tebas. mas semelhantes em beleza: Unaque dissimiles ornabat gratia vultus18. 22 O sátiro Mársias desafiou Apolo em um duelo musical. mas. 9 sgs. III. como se todos fossem uma imagem e a oração não fosse endereçada a esses. ensina ser uma só a idéia do bem dizer. ainda a oratória. Rhet. Esposa de Anfion. Aqui estão ainda os medianos que. com quem teve seis filhos e seis filhas. ainda que diversíssimas de talento: uma. 15 16 As partes de Leda: Castor e Pollux. símbolo dos mais simples. pelas orelhas animalescas. recaem entre a turba. Zeus a transformou em rochedo donde mana uma fonte. Midas. à semelhança de pássaros anfíbios. 1414a. vencido.. como na arte da pintura se ensinam duas maneiras. no grande torneio de Apolo com Mársias. a épica. . em nada se deveria mudar o estilo. 12. foi esfolado pelo deus. mas todas igualmente deleitosas produz. ainda que se encontrassem alguns agudos e elevados espíritos em uma reunião popular. Ora. a comédia. similis color affuit illis 16. fingem-se juízes Minerva e Midas22: Minerva.As partes da eloqüência não são como as de Leda15 tão uniformes de rosto e de cores. irmã delas. ficam um tanto na terra e de vez em quando esvoaçam. de formas diversas. Mas como as de Níobe17. 21 Aristóteles. Entre ambos reluz o irmão. Aqui.II-4. 20 Cícero. Apolo e Ártemis. Túlio19. quantos são os gêneros de ouvintes que existem. mas não de vária gentileza. dizendo que se encontram tantos gêneros da oração. nas audiências públicas. Estes vingaram a mãe. aparentemente perfeitíssimos. que quase não se distinguiam da mãe: In utroque relucet frater utroque soror. pela fineza do engenho. a irmã: ambos tiveram cor semelhante 17 Níobe. a tragédia. Porque se a poesia gera muitos filhos de vário aspecto. a ditirâmbica. diversos gêneros de composições. vosso mestre. e todas as outras tanto menos belas quanto mais dessemelhantes são daquela20. Or. isto é. matando a flechadas todos os filhos de Níobe. 19 Nome familiar de Cícero no século XVII. mas esses. engenhosos e populares.

diz o meu mestre. e agora a sua. . a cabeça de Minerva por Fídias e Alcmene para colocá-la em um lugar elevado. em concorrência. em suma. singular e refinado. o segundo de concertativo. aquele aos livros. "tanto longius spectat"23 . parecerá que comeram alface26.9-10 (“Quanto maior é a multidão. este nas causas forenses maravilhosamente triunfa. este ao teatro se compara.. Mas Fídias. como as miniaturas que chamam o olho para perto. "Quanto maior populus sit". Pensai. este em Demóstenes e Cícero resplandece.III. que vê debilmente e como que de longe. aquele é. Havendo os Atenienses feito esculpir. de arrematar com delicadeza toda coisinha à ponta de pincel. aquele à épica. 25 Estilete: ponta. Vós lereis uma composição peregriníssima à moderna. 1414a. Aquele nas acadêmicas declamações. outro ao intelecto do povo. sutileza. aquele em Tucídides e Quintiliano. que tinha o intelecto mais agudo que o escalpelo. e roncarão mais alto que a 23 24 Aristóteles. sutil e pungente. reduzida pela distância à proporção devida. agudeza.de imaginar corpos com traços galhardos e grosso colorido. este à viva voz se adapta. 26 A alface é conhecida por suas propriedades tranqüilizantes. aquele ático e salgado. e muito admiraram a de Alcmene. que vizinhos parecem um emaranhado de teias. pediu que fossem situadas a distância sobre duas colunas altas. Com que aplauso se relê cada período e se fica estuporado! Quem não diria que esta é a língua dos anjinhos? Mas fazei que um pregador fale ao povo nessa linguagem: os ouvintes não são mais ouvintes. como as bombardas. mas distantes têm força e vida. assim são os dois gêneros principais do pregar: um é proporcionado aos intelectos de aguda vista. tanto mais de longe observa”). como as setas. este asiático e doce. todo epíteto é um conceito em quintessência e todo conceito explica mais do que diz ou diz mais do que soa: nenhuma palavra. entra pelo olho que não passe sob o arco triunfal do cílio admirador. parece belíssima. riram todos da de Fídias. e a de Alcmene. que ocorre o mesmo nesta arte. aquele foi próprio de Ulisses. quando ambas as peças foram levadas sob os olhos dos juízes. Toda cláusula é uma sentença e toda sentença leva oculto o seu estilete25. que não parecia senão grosseiramente esboçada. uma bola irregular. este de Nestor. O termo italiano usado por Tesauro é “esquisito”. Rhet. este. Daí que um desses dois gêneros levado ao teatro do outro não mais tem graça. Senhores. O primeiro gênero foi chamado pelo mesmo de peregrino24. estrepitoso e inflamado. outra. no sentido de estilo raro. 12. toda forma do dizer tem sua luz e toda luz olha a outra por esquadro. que tinha todos os contornos diligentemente acabados.

"oratores autem boni. III..15 (“Quando são confrontados. 31 Tuliana: ciceroniana.1413b. de orat. querendo dizer que a bons entendedores poucas palavras bastavam29.voz do pregador. 232c. Deste caráter eram os Espartanos. a razão é que adaptam-se bem à disputa (oral)”). que.1413b. para fazêlo mais breve. que do púlpito desatavam tantos aplausos. 32 Orar: falar. 30 Cf. aquele outro gênero concertativo e popular. "Quanto maior populus sit. cum leguntur. tanto longius spectat". 28 Tesauro associa as fatuidades ditas pelos tagarelas à voz da cigarra da fábula. as composições que.III. como diz Tácito no seu diálogo30 ( se não foi Quintiliano). não enchem os ouvidos de quem as ouve pronunciadas dos púlpitos. os historiadores parecem estreitos nos certames”) 35 Arist. responderam que aquela fala da metade para a frente tinha saído da sua mente e da metade para trás não tinha entrado nela. desejando pedir socorro de provisões. mas de longe sua beleza se perde. Dial. nota 23. alimentam os olhos. pareceria um vão ciciar de tagarelas28. Trata-se de um embaixada sâmia.. Rhet. sendo feitas para ler. um dos mestres da oratória sacra na segunda metade do século XVI. (“Quanto maior é a multidão.27 Pelo contrário. 18. Tácito. levado diante de um intelecto veloz e pronto. somente o gênero concertativo é apto e condicionado para pregações. não ateniense. mostraram-lhes os cestos sem falar. quando são lidos. 29 A anedota está em Plutarco. causa vero est quoniam certamini congruunt.. cabeças secas e perspicazes. tendo escutado uma bela oração dos embaixadores atenienses no estilo destes.5-6. historici quidem in certaminibus angusti":34 entende o meu mestre pelo estilo histórico o gênero peregrino. tanto mais de longe observa porque as coisas que são peregrinas parecem mais feias”). quando se lêem a sangue frio não pareçam aquilo. Esta era a peregrina escultura de Alcmene: de perto é belíssima. agrestes videntur. parecem grosseiros. diz o meu velho.12. "qua propter quae exquisita sunt peiora videntur". julgaram a tuliana 31 eloqüência? Era preciso orar32 a esses como os embaixadores asiáticos aos Lacedemônios.15 (“Os bons oradores. "Cum conferuntur. E esta é a razão por que as prédicas de monsenhor Panigarola33. doutro lado.12.. como as academias ou os públicos cultos. e. E não se acharam engenhos tão preguiçosos que morta e sem nervo. Apophtegmata lakonika. 33 Francesco Panigarola (1548-1594). tendo por fim mover a multidão Cf. I. 27 . Rhet. 34 Arist."35 Deixado pois de lado o primeiro gênero para o impresso ou para a audição de poucos e engenhosos. nem outro espanto causam se não o de terem causado tantos espantos.

mas bem vestidos. erudição admirável para o vulgo. conceitos freqüentes fundados ou em histórias ridículas ou nas similitudes domésticas. ora adornado de alegorias. de modo que no discurso. professará enfeá-las premeditadamente. Descobertas quererá as divisões e as passagens de seu discurso. O louvor de memória feliz será abertamente recusado por ele. falando. familiar e agradável. Majestade nas ações. Nos costumes se mostrará ora faceto e ora fiel. assim como dois estilos que se usavam em música. Cromático: por semitons.prazeirosamente ensinando. graça. Desprezará a beleza e a sonoridade das palavras. dos afetos se aplicará àqueles que mais comovem a gente baixa: medos. para ser tido por simples e sem arte. à moda de um afável amigo e nosso igual. na divisão das partes. naturalmente representados. desejo de bens úteis. ou graciosos. nas autoridades sinceramente recitadas. e com metáforas. Nenhuma 36 37 Diatônico: por tons. Majestade nas formas. conceitos gravíssimos. nas correspondências das antíteses. o diatônico36. aduzirá argumentos e razões para qualquer um que o ouça claríssimas. todo doce. como encontra sua vantagem na simplicidade e na familiaridade. afetos ora suaves e ora galhardos. soberbamente guarnecido. mas temperada com sal38. apodera-se dos ânimos como um príncipe de sagrada púrpura e de veneráveis insígnias circundado. Majestade na trama. nas suas ligações e vínculos nada de baixo nem de casual ocorra. Um deles. ora de hipérboles. os cuidados mordacíssimos do ânimo. manterá o seu decoro. memória fidelíssima nas amplificações figuradas. Porque. Majestade no tema. e o cromático37. todo grave. nas passagens. e na presença não sei que misto de amabilidade e de terror. autoridades de peso e eficazes. narrativos ou patéticos. arranca. palavras harmoniosas e sonoras. Mas este ainda se divide em dois. terrores. assim em dois estilos igualmente perfeitos e copiosíssimos se pode falar à multidão. facécia. ao contrário. costumes compostíssimos e graciosamente severos. ambos perfeitíssimos no seu gênero. 38 Sal: agudeza. período redondo e bem cadente. voz sonora e claríssima. que. . O primeiro sustenta o seu decoro exalando majestade em toda parte. nem se envergonhará de confessar que alguma coisa lhe fugiu da mente. O segundo estilo. acrimônia no punir. razões sólidas e convincentes. como brilhantíssimas gemas nas vestes. O outro. raros. gesto medido e grave. majestoso e grave.

elevada da terra com o coturno. Senhores. E onde aquela com a maravilha corrige a monotonia da seriedade. mudaria a natureza dele e à perfeição deste nunca chegaria. E daqui nascem as imperfeições dos oradores sacros. . sustento que esses dois estilos. igualmente belas e perfeitas. Excesso do primeiro gênero será pela parte do menos faltar com alguma das propriedades referidas: o que tanto mais ofende quanto mais o gênero é sublime. contudo. Aquela é como o templo de Hércules. 42 Frieza: afetação. Ora. fazei com que o escravo. Aen. o gesto. porque do mais alto lugar se cai por terra. 41 Misture aos seus sais: misture às suas facécias. são. não obstante no gênero da popularidade aquelas mesmas negligências são artifícios. soco: calçado usado na representação cômica. como se fosse uma armada amazona. que bate a cena com o soco39. da sua idéia como rios fora das margens no mais ou no menos inconsideradamente se desviam.505-508. esta. Baixo é o falar do escravo nas comédias de Plauto. VIII. a galera não é mais bela que a nave quando ambas têm os membros ordenados para seu fim igualmente ideais e perfeitos. como a elocução. os conceitos. E lembre-se que. esta com o deleite iguala o mérito da maravilha. tudo o que encontra toma como arma. Em suma. ou por hábito ou por instinto adaptados a um desses dois gêneros. como o templo de Apolo Egípcio. duas idéias. cada uma no seu gênero. A beleza. como aqueles camponeses tirrenos40. misture aos seus sais41 os conceitos e as formas de Teseu ou de Juno: fareis frieza42 de embrulhar os estômagos e tereis piorado o estilo para melhorá-lo. no qual não voam moscas. aquela primeira espécie é semelhante à tragédia. sublime é o dos heróis nas tragédias de Sêneca. Virg. onde a harmonia da lira não desdenha o chilreio de estridentes andorinhas. esta é semelhante à comédia. para falar melhor. com o machado e o escudo combate. Cf. é um tal concerto de partes ordenadas a seu fim que sem deformação nada se lhe pode juntar ou tirar ou transportar. Assim acontece 39 40 Coturno: calçado usado na representação trágica. Ora.diligência na voz e no gesto parecerá adotar. mas que assim fale como se de improviso os conceitos e as palavras lhe florissem nos lábios. e quem quisesse reduzi-los aos interesses do primeiro (estilo). esta. quando. Aquela.. embora o primeiro pareça mais nobre e mais difícil que o segundo. Donde.. se neste segundo estilo algumas coisas parecem poder ser limadas e melhoradas.

não tendo cabeça para sustentar-se na eminência dos conceitos. de Hyeronimus . 125. 47 Tesauro tem Marino (Dicerie sacre) por um de seus mestres. Cf.. . um nunca resolver-se a mudar o tom da voz e dar em certo tom uniforme de monocórdio mal tocado. ora com a elevação excessiva inveja e desprezo. não sabendo pintar Helena bela. ornada e rica a pintou45. dispondo as partes do discurso de modo que não haja quase membros colocados em belo corpo. Virg. 12. tropeçando a cada passo com tanto aborrecimento dos ouvintes como se caísse em cima deles. ou mal servido da memória. um deleitar mais com a harmonia dos períodos que um golpear com o vigor dos afetos e. esteja com a cabeça entre nuvens e com os pés na terra44.Bosch. como os caprichos. o uivar algumas vezes com imoderadas 43 44 Autores de prosa ampla e florida. de modo que a oração pareça uma parede empetecada. solta a tinta. um juntar metáforas e alegorias disparatadas em cada período como grotescos46 de caprichosos pintores. imitando aquele mau pintor que. uma abundância de ornatos na pobreza do assunto. quando está para ser ferrada. Imagem canônica da Fama. como a sépia. uma seleção excessiva de palavras peregrinas ou escrupuloso refinamento da fala toscana. Estes são os excessos do primeiro gênero.. mas piores são os do segundo. Clemente de Alexandria. Paedag. uma obscuridade no concluir. provoca o riso enquanto quer provocar a maravilha.I. servir-se do arco da lira. ou a quem. 46 Grotesco: nome de composições de estilo misto.. Mas pela parte do menos é defeito comum o alinhavar conceitos sem fio e o fabricar sem alicerce.a quem. São excessos pela parte do mais querer à sua popularidade misturar as pompas do primeiro com garbo não maior que o dos cômicos que calçam o coturno48. II. e. se devem bastantes maiores licenças que aos escritores conceder. Aen. como montado num corcel cansado. 48 O cômico que calça o coturno é uma alegoria da impropriedade. e com o ânimo comovido. IV. causando ora desapreço com a excessiva baixeza. no modo como os Partos atiram suas flechas quando fogem. uma freqüência de descrições sem discrição. 45 Cf. mas como que ramos enfeixados numa vassoura. à maneira da Fama. precipita-se nas licenças do segundo gênero. sendo veríssimo o que freqüentemente dizia o cavalier Marino47. um acenar conceitos sem imprimi-los.177. que aos pregadores que falam ao povo. não conhecendo a língua. quer competir com Bembo ou com Boccaccio43: e mal condicionado no gesto e na voz. ao invés do arco militar. entra em corrida de longas tiradas. Mas pela parte da amplificação será seu excesso uma tal elevação de introdução que. que deixa o ouvinte de mãos abanando.

os jovens e as damas. e este. para ele acorrerão os engenhos mais materiais e grosseiros. declara-se malvado. ânimos mais delicados. mais que bom religioso.gritarias sem razão. batendo-se no flanco como se dores nefríticas assaltassem. Porque. O canto de Orfeu encantava a tudo que o ouvia. e àquele. transformando 49 o púlpito do Evangelho em cena de Aristófanes . pois costumava dizer: "Vamos à sátira". e isso é o pior. Isto é vício danoso a quem fala e a quem ouve: porque aquele. o puxar a batina em torno de si e falar raivosamente aos ouvintes como fanático. mas pungido e escandalizado. que. por assim dizer. coisa com que Dante ainda se ira. e àquele. sendo o segundo estilo bastante mais fácil e simples. alguns dos religiosos que estão a anotar os conceitos predicáveis51 em palimpsesto52. se um só desses oradores fosse ouvido. quando lhe tocava a vez de pregar. os professores da mais nobre arte do dizer ou nos tribunais ou nas escolas. que à moda de generosos cavalos à sombra 49 50 Em comédia desbragada. embora pouco tenham suado sobre os livros. quase gemas entesouradas. e àquele. os mais elevados e finos. usada para atacar pessoas. vai embora. A este. não compungido. imitar ações baixas e mímicas. cavalgando o púlpito e correndo sobre ele em torneio. A este. mas. não obstante. pessoas que. 51 Tema extraído das Escrituras e desenvolvido pelo pregador do sermão sacro. não querem obrigar a mente a permanecer quieta e imóvel como os pássaros de Orfeu50. 52 Palimpsesto: caderno . Eis aí. estimava-se bem glorioso se com conceitos mordazes e palavras de duplo sentido podia trespassar aquele que tomava por alvo. se são confrontados. e para o outro. Conheci um engenho bastante bom. A este. contudo. que do discurso do outro. dos ouvintes. pessoas que. com seus extremos. como acontece com os metais na fornalha. vereis logo fazer-se uma separação e um cisma. certos ânimos que querem ser comovidos com tumultuosas perturbações. pareceria a todos os engenhos sumamente grato. o demonstrar-se bom companheiro dos sais e dos conceitos. gozam no entanto em elevar-se como pássaros desplumados que. mas impetuoso. satirizar com agudezas e com bobagens pessoas particulares. E por aqui conhecereis qual séquito e qual aplauso tenha cada uma delas. como as outras virtudes. pendurar-se com cordas e outros frenesis semelhantes. embora doutas. ou. ao invés de virtuoso. batem as asas para voar: estes são para o mais os cortesãos. Porque. a essência e a mediocridade (mediania) dessas duas idéias confrontadas. manejando crucifixos à moda de cimitarras. não podem facilmente separar-se. Senhores.

56 Filoxeno de Cítera (436-5 . Autor de O Ciclope. deu maior matéria de rir aos satíricos que aos líricos de cantar. Donde. nascidos para o familiar. . levando a palma a todos os outros. à maneira de nuvenzinhas levadas do sopro de afortunados ventos. majestoso e grave. não obstante. e outros. segundo creio. ou a este ou àquele outro indiferentemente se avizinham. imaginando soar a suave cítara de Orfeu arrancada do tempo de Apolo Lício. Deixo aqui uma incerta multidão daqueles que. deixaram em dúvida a qual deles ela era devida. Parecer-vos-á . dão no frio54. enamorados do aplauso de qualquer um deles que ouçam. habilíssimo no poema lírico. sua obra mais famosa. estes semelhantes ao temerário Hiparco que. Sei que diretas para uma tão breve decisão demasiado longas foram as premissas. aplicados ao gênero familiar. ao invés de alertar os homens para ouvi-lo.380-79 a. 55 Teleste. e àquele alguns engenhos que avidamente se nutrem maravilhados com as longas tiradas de memória e com as saídas e descrições engenhosas. ou raptados pela conformidade de sangue ou desvanecidos pela maior beleza e comodidade do templo ou instigados pela persuasão dos companheiros ou convidados pela correspondência de objetos ou por outros acidentes variados. A este alguns pais de família que sentem prazer em relatar aos serviçais o que ouviram. E porque sempre algum ouvinte de um gênero se encontra na pregação do outro. poeta ditirâmbico de Selinunte que ganhou a palma em Atenas em 402-401 a.C. Parecem-me saídos aos dois irmãos Gracos. e Orimbelli. Mas porque errastes ao 53 54 Tipo do crítico impertinente e maligno Frio: inepto. atiçou os cães a dilacerá-lo. e sempre um Midas para quem a canora lira de Apolo será tediosa. que até agora não falei a propósito desses dois sóis da cristã eloquência. C. enquanto teria podido roubar a Píndaro o louro. Senhores. afetado. gravemente se enganam os que. não é maravilha se ambos estes oradores tiverem o seu Zoilo53 que falará mal: porque sempre tereis uma Minerva a quem agradará a estridente sanfona de Mársias. de não ter o que juntar. perdem seu talento: aqueles em tudo semelhantes a Teleste tebano55 que.deixando-se seduzir da majestade do sublime. Assim decido a lide: e esta quero seja a sentença. que nascidos eram para o majestoso. quando tiver dito em um átimo que Albrici é a vivente idéia do primeiro gênero. atraído pelas argutas e bem aceitas sátiras de Filoxeno56.). do familiar. Mas estou certo. à imitação do mesmo se apliquem: alguns. não sabendo a qual dos dois estilos sejam levados pela natureza.da vara acertam o passo. dos quais Tibério no primeiro e Caio no segundo estilo.

juntos teremos feito a penitência da falta com estarmos cansados. eu no dizer com pouco sal e vós no ouvir com muito tédio.dar-me este encargo e eu ao aceitá-lo. .

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