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A arte retórica de Padre Antonio Vieira

Karina de Freitas Silva Fernández
Doutoranda em Comunicação e Semiótica Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Resumo: Padre Antonio Vieira, no Sermão da Sexagésima, teoriza acerca da elaboração da retórica de um sermão que desejasse cumprir o objetivo de persuadir os seus ouvintes. Neste artigo, não apenas examinaremos os preceitos propostos por Vieira para a construção de um sermão, como também abordaremos a forma como o padre se apropria dessa estrutura retórico-argumentativa para fazer o seu próprio sermão. Palvras-chave: persuasão - sermão - retórica - oratória

INTRODUÇÃO A literatura barroca foi marcada por um momento de conflito, por uma tendência conciliatória de afirmação renascentista da capacidade individual (pensamento secular) e a exigência medieval de uma postura submissa diante de Deus e da Igreja ressuscitada pelo Concílio de Trento (pensamento cristão). Aliás, é entre os anos de 1545 e de 1563 que o Concílio de Trento buscou tomar uma série de decisões relacionadas com a forte permanência da presença religiosa na vida social da época. Nele se decidiu opor um conjunto de dogmas e reformas que disciplinares que possibilitassem a manutenção da unidade católica. Somado ao Concílio, o século XVII ainda assistiu, de um lado, à estabilização dos Estados Nacionais, à consolidação da Reforma na Inglaterra, ao grande momento do capitalismo mercantil e, de outro lado, acompanhou a fundação da Companhia de Jesus (1540) e a Contra-Reforma (tentativa de conciliar a novidade renascentista com a tradição religiosa que vinha da Idade Média). Das angústias de um ser humano atormentado por grandes dúvidas existenciais determinadas por acontecimentos político-sociais tão conflitantes, a arte da época acabou por desenvolver intensamente obras de temas religiosos. No período colonial brasileiro, conforme aponta Domingues (2001), a atuação da Igreja foi marcada por dois posicionamentos conflitantes o que determinava um posicionamento dual por parte de seus sacerdotes. Por uma parte, havia uma postura sacerdotal, pois levavam adiante a missão profética de catequização dos indivíduos. Para tal, os pregadores usavam um discurso doutrinário (pregação do evangelho) e soteriológico (salvação das almas). Nesse sentido, a Igreja, reveladora de Deus ao outro, assumia um papel de protetora dos oprimidos contra os poderosos. Assim, por exemplo, era comum a defesa dos índios pelo Padre Antonio Vieira. Por outra parte, havia a posição política que justificava o plano de dominação da Igreja sobre os povos ainda não inseridos em sua doutrina. Neste caso, figuravam o discurso universalista (aumento da religião cristã) e o guerreiro (redução dos índios). O próprio Vieira afirmava, em um de seus Sermões, a co-existência de diversos discursos intencionais em suas pregações, contudo, todos convergiam para a moralidade. Aponta Domingues, então, a existência de um Vieira-cortesão, dedicado a apoiar o rei, e um Vieira-sacerdote, entregue à luta pela liberdade dos índios. Assim, fica evidente em sua obra, a pluralidade de vozes e de concepções co-existentes em um mesmo discurso. A retórica do jesuíta tanto é percebida como uma pregação de natureza espiritual como de natureza política. Mais que uma forma de edificação moral e espiritual, o sermão de Vieira era também instrumento de ação política e social, pois articulava seu pensamento em defesa de grandes causas como a já mencionada libertação dos índios. Nesse sentido, o púlpito cristão no período barroco se tornou um importante instrumento da retórica sagrada sempre intencionada a catequizar, a convencer e a doutrinar os ouvintes. Pe. Vieira, na galeria de oradores sacros, despontou como o grande pregador dessa época. Seu acervo literário privilegia o manuseio da expressão verbal, tornando o púlpito um veículo para imprecações públicas e ideológicas. Muitas vezes, apresentava tanto discursos fervorosos que transpareciam suas preocupações sociais como sua defesa pela missão apostólica e libertadora do homem. Deixou importantes obras que refletiam a dualidade barroca. Escreveu profecias ( História do Futuro, Esperanças de Portugal e Clavis Prohetarum), cartas (mais de quinhentas, nas quais comenta os sucessos políticos da época, especialmente no que diz respeito ao relacionamento entre Portugal e Holanda, a Inquisição, os Cristãos-Novos e a situação do Brasil) e, finalmente, sermões, pregados durante toda a vida,

de fato. Isto é sermão. Por . e com as famosíssimas orações de S. João Crisóstomo. Esta descrição do “fazer-sermão” apontado por Vieira no sexto capítulo torna-se a chave para compreender sua retórica. uma ensinar e outra persuadir. como em Santo Agostinho. Para defendê-la segue os critérios por ele mesmo apresentados como estrutura ideal para um sermão eficiente. Gregório Nazianzeno. transformando seus textos em motivo de exaltação literária. deixando em segundo plano seu caráter de reflexão existencial e religiosa. Gregório e muitos outros. intencionassem persuadir seus ouvintes. há-de acabar. Na argumentação. no Sermão da Sexagésima. por que não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta. É Vieira. e outra pregar. com as conveniências que hão-de seguir. como também analisaremos os recursos utilizados pelo padre na elaboração de seu Sermão. ESTRUTURA DO SERMÃO DA SEXAGÉSIMA A estrutura de um sermão deveria seguir aquela consagrada pela retórica. o pregador apresenta a idéia ou idéias fundamentais que deseja desenvolver. Bernardo. intróito e invocação. São Basílio Magno. amplificando-o com causas. examinaremos o conceito e o conjunto de preceitos para construção de um sermão eficaz.tanto em Portugal como no Brasil. Devia orientar-se por modelos desse tipo de discurso. O Sermão da Sexagésima (ou do Evangelho) de Padre Antonio Vieira abre o conjunto de sermões organizados por ele mesmo em cerca de doze volumes. O prólogo. ensinamento dos doutores da Igreja. Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente. com as circunstâncias. se acham os Evangelhos apostilados com nomes de sermão e homilias. há-de defini-la. há-de amplificá-la com as causas. Deve-se ainda prever os argumentos contrários e refutá-los. Vieira criticava veemente os sermonistas que praticavam o cultismo. Pelos argumentos. Túlio. dos Túlios. mestre de ambas as Igrejas. o Sermão da Sexagésima (1655) e o Sermão da Epifânia (1662). Eles não só instruíam como também convenciam os ouvintes de suas verdades. O jesuíta apresenta nele um plano tradicional de sermão que deveria ser adotado por todos os pregadores que. S. S. argumentação e peroração. tão grande e tão importante dúvida. desta última é que eu falo. o pregador induz seus ouvintes a uma ação ou a uma decisão. para que se distinga. com efeitos e com circunstâncias. como usa dos mesmos recursos para escrever seu próprio texto. em Lisboa em 1955. 1955). 1955). Pelo sermão pretende instruir os demais pregadores (interlocutores) acerca dos principais elementos constitutivos de um sermão. O tema consiste na enunciação e justificativa da escolha da seqüência evangélica sobre a qual pretende fundamentar o sermão. o tema é esclarecido. com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo António de Pádua e S. Segundo Vieira. São Cipriano). Sua arte retórica segue a estrutura elaborada a partir de modelos gregos e de oradores evangélicos muito reconhecidos em sua cultura. o Sermão do Bom Ladrãi (1655). quem afirma serem esses os grandes mestres da arte de persuadir. há-de confirmá-la com o exemplo. Chama-nos atenção o fato de que ele não apenas teve a intenção de persuadir os demais jesuítas ao instruir-lhes sobre o processo de elaboração de um sermão. sustentou a tese de que o pregador é o culpado por não conseguir converter em massa seus ouvintes ao catolicismo. Entre os sermões mais famosos destacam-se o Sermão de Santo Antônio (1654). O intróito se constitui da exposição de um plano para o sermão. há-de prová-la com a Escritura. geralmente. dos Quintilianos. para o jesuíta. Deviam compor-se de prólogo. E a invocação é a parte do prólogo em que se pede auxílio e inspiração sobrenatural. Cipriano. ou seja. há-de dividi-la. da vida dos santos ou dos filósofos e escritores pagãos. e depois disto há-de colher. não só com os preceitos dos Aristóteles. para que se conheça. com os efeitos. E posto que nestes mesmos Padres. Quintiliano) e os oradores evangélicos (São Crisóstomo. Vicente Ferrer (VIEIRA. São Bernardo. há-de responder às dúvidas. há-de concluir. confirmando-o com exemplos bíblicos. tais como os grandes filósofos gregos (Aristóteles. Vieira. há-de impugnar e refutar com toda a força da eloqüência os argumentos contrários. Basílio Magno. Há-de tomar o pregador uma só matéria. de S. se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores. Neste artigo. com os inconvenientes que se devem evitar. é falar de mais alto (VIEIRA. era dividido em tema. mas com a prática observada do príncipe dos oradores evangélicos. quase sempre à Virgem Maria. há-de persuadir. Não apenas o descreve sucintamente. É no segundo capítulo do Sermão que o padre jesuíta anuncia a matéria de seu discurso: “se a palavra de Deus é tão poderosa. foram exemplos de missionários que “fizeram frutos” no mundo. uma coisa é expor. e o que não é isto. S. Os sermões deviam ser construídos a partir de passos modelares rigorosamente adotados pelo pregador. Santo Antônio de Pádua e São Vicente Ferrer. isto é pregar. há-de declará-la com a razão. fazendo uso de uma linguagem erudita e altamente persuasiva. Pregado na Capela Real. há-de apertar. há-de satisfazer as dificuldades. será a matéria do sermão”. como também adotou os preceitos em sua própria escrita. experiências pessoais. S. corpo central do texto.

mas logo também retira-lhes a culpa. Sendo Deus não culpado. que concorre com a luz. Para um homem se ver a si mesmo. envolvendo-o em reflexões acerca do que propõe discutir. Segundo Vieira. Pelos olhos. não se pode ver por falta de luz. Logo. no bom pregador. analisa os ouvintes. Para ele. espelho e luz. há mister espelho e há mister olhos. O ouvinte concorre com o entendimento. que é o conhecimento (VIEIRA. Ao apontar os três possíveis fatores da não frutificação da palavra de Deus. O pregador deve ater-se a pregar obras e não pensamentos. o pregador concorre com a doutrina. Deus é a própria graça. há-de haver três concursos: há-de concorrer o pregador com a doutrina. É nesta parte que . É nessa parte que o pregador esclarece a temática proposta. Seguindo a seqüência lógica de seu pensamento. trata-se de uma proposição de fé e. o homem concorre com os olhos. a palavra de Deus segue sendo a mesma. Assim como o trigo conseguiu vingar entre pedras e espinhos. a ciência. não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus. Logo. se a palavra de Deus até nas pedras. a persuasão se dá quando é possível o homem entrar dentro de si e verse a si mesmo. e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa. Deus concorre com a luz. Vieira faz uma crítica aos dominicanos. Vieira apresenta um jogo de idéias que apontam para a possibilidade de outras combinações com outras significações. alumiando. as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações. O quarto capítulo trata da pessoa do pregador. nem nascer nos corações. passagem em que o sermonista deve lançar suas conclusões. este deve ser pregado por quem é exemplo de vida apostólica. faz uma analogia com a parábola do trigo. A partir de recursos de estilo. é necessária luz e é necessário espelho. em segundo. então. perseguindo os cristãos já existentes ao invés de converter novos fiéis. Do terceiro ao oitavo capítulos. Vieira deixa clara a escolha do tema. a matéria. para a peroração. que é a graça. No prólogo. que é a própria doutrina. Primeiro. a vida. sua força se mantém. o estilo e a voz. o ouvinte ou o próprio Deus. construído nas regras da paranética (prática da oratória sagrada). que no Sermão da Sexagésima encontra-se nos dois primeiros capítulos. Se tem espelho e é cego. O pregador concorre com o espelho. senão entrar um homem dentro em si e ver-se a si mesmo? Para esta vista são necessários olhos. Deus é o primeiro a ser desconsiderado. O seu discurso é. para se ver a si o locutor concorre com o espelho. até nos espinhos nasce. segue-se o desenvolvimento ou argumentação. Como já apontado. Que coisa é a conversão de uma alma. persuadindo. ou seja. Para Vieira. E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa.Deus). e é de noite. não é por culpa. há-de concorrer o ouvinte com o entendimento. o padre defende a tese de que no pregador encontra-se a falha pela não frutificação da palavra de Deus entre os ouvintes. a palavra de Deus deveria produzir efeito entre os ouvintes agudos e os de vontades endurecidas. Por fim. Sobra-lhe o pregador. Estes seriam pedras. não se pode ver por falta de olhos. que representam o conhecimento. 1955). percebendo. adversários tradicionais dos jesuítas que vinham ganhando terreno na preferência do público devoto. No terceiro capítulo. Vieira aponta o tema de sua pregação que é propriamente a prática da oratória. Para apresentar sua arte de persuadir. Já se sabe que apenas ao final se encontrará uma resposta clara para o que pretende o locutor. O padre aponta dois argumentos que fortalecem sua afirmação. deve perceber o que está sendo anunciado pelo pregador. como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus?” A partir desse questionamento procura deixar o público confuso. o padre jesuíta põe em suspenso uma dúvida: “Se a palavra de Deus é tão efic az e tão poderosa. as obras. parte do versículo bíblico “A semente é a palavra de Deus” (Semen est Verbum Dei). o exemplo. devem concorrer cinco circunstâncias: a pessoa. definindo-o e buscando sustentação nos textos sagrados. No intróito. buscando persuadir os ouvintes. Para tal utiliza-se de uma série de recursos para persuadir o leitor. o padre se dedica a analisar o estilo do pregador. o padre apresenta seus argumentos para responder a sua proposição inicial. 1955). e não por aqueles que se dedicavam a emendar os erros. Assim. aqueles espinhos. a pregação encaminha-se para o seu final. 1955). Passada a fase introdutória. Já no quinto capítulo. buscando compreender porque a palavra de Deus não encontrava mais efeito entre os ouvintes. nem por indisposição dos ouvintes (VIEIRA. se tem espelho e olhos. ele aponta três princípios dos quais pode proceder ao pouco caso da palavra de Deus pelos ouvintes. são as que convertem o Mundo” (VIEIRA. que é a doutrina. Assim. Quando o semeador do Céu deixou o campo. Seriam eles o pregador. Para ele há dois tipos de maus ouvintes que devem ser persuadidos com a palavra de Deus: aqueles de entendimentos agudos e os de entendimentos de vontades endurecidas. Para uma alva se converter por meio de um sermão. pregar é agir: “as ações. há-de concorrer Deus com a graça.ouvinte . saindo deste Mundo. persuadindo o ouvinte. e deixará isso claro em seu Sermão. são necessárias três coisas: olhos. há mister luz. presente nos dois primeiros capítulos. No Sermão da Sexagésima essa estrutura é bem marcada. Usando de repetições e paralelismos.fim. nesse triângulo dialógico proposto pela retórica (pregador .

Para ele. senão ao que semeia. Para verificar qual dos três elementos dialógicos do sermão é o fator da pouca adesão do povo ao cristianismo. Segundo o filósofo. seminare. o que esvaziava o caráter moralizante dos sermões. a verdade retórica ocorre pelos processos de indução (exemplo)... O sétimo capítulo é dedicado à ciência cuja falta na figura do pregador pode prejudicar o processo de persuasão. senão. a ruminação do pensamento. que assombre e faça tremer o mundo” (VIEIRA. Para que ela se dê é fundamental a arte das provas. tais como exemplificação. Da mesma maneira. a pregação que aproveita. qual cuidais que é? -. saiu a semear o que semeia: Ecce exiit. previsão de argumentos contrários. 1955). aponta a persuasão e o ensinamento moral como dois dos princípios da arte da argumentação. Assim. as obras. Tomai exemplo nessas mesmas pedras e nesses espinhos! Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu. uma coisa é o governador e outra o que governa. a arte de revelar. Para o jesuíta. sem saber parte de si. a verdade do discurso. quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atônito. a eficácia do sermão ocorria pelo medo de Deus e temor a El e. “o estilo há-de ser muito fácil e muito natural” (VIEIRA. Nos sermões.)As razões não hão-de ser enxertadas. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. (.encontramos a crítica levantada por Vieira contra os padres dominicanos. O pregar não é recitar. não é aquela que dá gosto ao ouvinte. O pregador há-de pregar o seu. para Vieira. e as ações são as que dão o ser ao pregador. no oitavo capítulo examina a voz do pregador que deve bradar e gritar no momento certo. uma coisa é o semeador e outra o que semeia. e os homens não se convencem pela memória. variedade de assuntos não é sinônimo de bom sermão. 1965). 1655). A matéria é o tema do sexto capítulo. Há de se ler. 1965). Para Vieira. pelo verossímil. a eloqüência é o fio condutor das paixões provocadas no auditório pelo orador. o padre jesuíta busca concluir sua tese. o pregar não é recitar. As razões próprias nascem do entendimento. “há-de ser a voz do pregador. em sua Arte Retórica. cujo estilo pautado na concepção cultista. é aquela que lhe dá pena. levantam muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recorra com as mãos vazias” (VIEIR A. Por fim. Vieira utiliza-se de recursos retórico-argumentativos. impugnando-os e refutando-os. (. 1955). relações de causa e efeito. A definição do pregador é a vida e o exemplo. Já o silogismo seria o esforço de verossimilhança e de sinais propostos ao ouvinte. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja. 1965). a busca por fechar todas as possibilidades interpretativas.. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito. Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme. o que semeia e o que prega é ação. Vieira. a palavra de Deus obtinha poucos resultados porque os pregadores buscavam obter efeitos literários. de silogismo e de silogismo aparente.) O que sai só da boca pára nos ouvidos. não importa nada. Ter o nome de pregador. que Vieira conceitua o sermão (ver a citação na introdução deste artigo). são as que convertem o Mundo. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador. Para ele. O objetivo como já se sabe era convencer o ouvinte por meio do temor a Deus. um trovão do Céu. É relevante pois permite refutar e impugnar os argumentos contraditórios. . já que “apostilar o Evangelho. RECURSOS ARGUMENTATIVOS DO SERMÃO DA SEXAGÉSIMA Aristóteles. ou ser pregador de nome. qui seminat. no sermão. mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem (VIEIRA. posto que.o conceito que de sua vida têm os ouvintes (VIEIRA. Reparai. mas entendimento. as alheias vão pegadas à memória. ou seja. pois neste capítulo. Em Vieira é comum a recorrência aos textos bíblicos como meio de favorecer o entendimento do ouvinte. persuadindo a platéia. a constante reiteração. a vida. então se pode esperar que faça fruto: Et fructum afferunt in patientia (VIEIRA. notamos o esgotamento das reflexões. Nele o padre busca definir a pregação que frutifica. 1655). senão pelo entendimento. Pela indução entende-se a capacidade persuasiva em função de sua aptidão de tornar clara aos sentidos do ouvinte a trajetória de suas provas. em que tomam muitas matérias. É. na peroração. O semeador e o pregador é nome. o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento (VIEIRA. então é a preparação qual convém. Segundo Pe. dificultava o entendimento do sermão.. Finalmente. as ações. A pregação que frutifica. uma coisa é o pregador e outra o que prega. hão-de ser nascidas. Isso facilita a técnica de explicitação do assunto tratado. um só assunto e uma variedade de argumentos que podem se utilizar de diferentes recursos a fim de alcançar o intento: persuadir o ouvinte. o exemplo. É nos dois últimos capítulos que Vieira conclui sua pregação. e não o alheio. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador. quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte.

os troncos. é pela dúvida que Vieira “obriga seus interlocutores a duvidar. Mas dir-me-eis: Padre. sobretudo quando narrava alguma passagem bíblica. levando o ouvinte ao desprendimento das coisas materiais e à busca dos ideais de amor e caridade. já que a intenção é deixá-lo atento durante todo o período da pregação. Sendo. encontrava motivo e modelo suficientes para convencer e orientar o auditório. há-de ter um tronco. citando-os em latim. o jesuíta busca provar a sua verdade e assim persuadir o seu ouvinte. A melhor forma que encontra para incitar a dúvida é pelo recurso das perguntas retóricas. pregadas no sentido em que Deus as disse. mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito. Logo. as folhas. os ramos. As palavras de Deus. O padre jesuíta faz uso de metáforas inteligentes que se constituíam em importante recurso estilístico. Embora deixe o ouvinte confuso. Como afirma Silva (1992). Se fora por parte dos ouvintes. Provo. Contudo.E o silogismo aparente reforça a ideia geral do público. porque há-de ser fundado no Evangelho. antes podem ser palavras do Demónio (VIEIRA. porque os discursos hão-de ser vestidos e ornados de palavras (VIEIRA. para eliminar a reflexão puramente racional. Em outras recorria à História ou à Filosofia. para exemplificar. o pregador recorria ao texto sagrado. disse Deus por Jeremias. mas não é assim. Isso porque. ilustrando assim seu raciocínio. Visavam a esclarecer para o ouvinte passagens obscuras da doutrina católica. mas nascidos da mesma matéria e continuados nela. teriam maior efeito no intento de persuadir o ouvinte. fortalecendo o senso comum e alcançando a eficácia retórica. pois aproximavam as situações vividas pelas personagens bíblicas. nesse sentido. Retóricas porque não ficarão sem respostas. visto que levar à dúvida não implica fazer o ouvinte refletir profundamente o assunto pregado. Aristóteles afirmava serem os discursos baseados em exemplos mais persuasivos que os baseados em silogismos oratórios. (VIEIRA. envolve o ouvinte em exemplos e. Esse intento é obtido pela exposição de proposições verdadeiras conformes com a opinião. uma forma de não deixar o leitor sem uma resposta. que são diversos discursos. A intenção é justamente perguntar para responder. sobretudo. então. não persuade pelo esforço dialético. mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum. Não apenas as perguntas retóricas auxiliam na elaboração argumentativa como também a exemplificação. não fizera a palavra de Deus muito grande fruto. Na . os vários discursos nascidos da matéria. estes ramos hão-de ser secos. deste tronco hão-de nascer diversos ramos. Os exemplos tornam a demonstração muito mais fácil de penetrar na alma e no raciocínio do ouvinte. 1965) É. não é por parte dos ouvintes. a ocorrência do verbo provar. O padre consideraria que exemplos menos conhecidos ainda não tenham se estabelecido como senso comum. O sermão deve ser como uma árvore: as raízes seria a fundamentação no Evangelho. Geralmente. Foi tanto pela metáfora como pelas analogias e mesmo pelas alegorias que Vieira construiu belas imagens em seu sermão. Um exemplo marcante do Sermão da Sexagésima é a analogia entre o sermão e a árvore. certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus. desdobrando assim a ideologia barroca e tratando de anular qualquer possibilidade de herança renascentista. pois. Vieira elabora proposições de seu próprio pensamento. Para provar a sua verdade é preciso aclarar ao máximo seu pensamento para que o ouvinte tenha o entendimento. os pregadores de hoje não pregam do Evangelho. não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. questionar circunstâncias históricas que permitem fazer florescer a onipotência”. porque há-de ter um só assunto e tratar uma só matéria. não são palavras de Deus. Vieira desenvolve uma série de associações entre esses dois objetos. segue-se que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes. como aponta Araújo. O exemplo permite uma aproximação com a vida do ouvinte porque é similar às vivências cotidianas mas também serve como uma forma de moralização dos atos humanos. Levar o ouvinte a refletir a pergunta. direcionando o ouvinte para a compreensão daquilo que intencionalmente deva ser entendido. marcando a originalidade de seu discurso. as palavras ornadas. as metáforas são construídas sem pendor cultista. busca fechar todas as possibilidades de respostas às dúvidas. Novamente. embora estes últimos possam impressionar mais o interlocutor. Nele. Por qual será? Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes. o que se pretende é que o ouvinte se convença da verdade do discurso. Completa Araújo (1992) que é pela dúvida e pelo medo que Vieira confunde o auditório. 1655). senão cobertos de folhas. Em seus sermões. que Vieira impugna e refuta idéias contrárias. mas pregadas no sentido que nós queremos. a matéria a ser tratada. É comum. Pregam palavras de Deus. Vieira prefere as demonstrações mais extravagantes ao mesmo tempo menos conhecidas e correntes. traduzindoos ou não. ainda que recorra aos textos sagrados. loquatur sermonem meum vere. Assim há-de ser o sermão: há-de ter raízes fortes e sólidas. são palavras de Deus. Já em seguida à pergunta. o jesuíta circunda a temática. mas sem lhe dar tempo para divagar sobre o assunto. 1655).

nasceu e frutificou. que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto. (ARAÚJO) Outro recurso muito utilizado é a repetição constante de idéias. sempre que pode. ainda que não faça neles fruto. barroquizante. são as pedras e os espinhos (VIEIRA. às sutilezas do pensamento. Ele busca o significado da palavra. ao realismo dogmático e eclesiástico. No Sermão da Sexagésima é uma constante o uso de parábolas para fortalecer o argumento em defesa pelo pregador. mas secou-se: Et natum aruit. Os ouvintes ou são maus ou são bons. Segundo Saraiva (1999). faz efeito. à obediência cega. favorece a fantasia do ouvinte na busca de imagens e sensações que ultrapassam a própria realidade. se utilizava do rebuscamento da linguagem: O mistério reside nas idéias (no conceito) e o cultismo. Embora acabe se valendo de recursos cultistas. 1655). só a elas serve. a fim de persuadir e converter os ouvintes. lançada nos espinhos. nasceu. outro recurso é a alegoria. . esta corrente se harmoniza com o cultismo no sermão de Vieira. Trata-se de uma figura retórica que se sustenta por mais tempo e de maneira mais completa do que os detalhes apresentados em uma metáfora. O paralelismo em Vieira é imprescindível para realçar o pensamento. embora haja preferência pelo conceptismo. pelo uso das analogias. faz efeito. Contudo. quando aparece. mas nasceu. O que não se pode perder de vista é essa dualidade barroca presente em seus sermões. O trigo que caiu na terra boa. e pela prática sintética de conjurar o ouvinte. uma forma de construção simétrica. à salvação do fogo dos infernos pelo alcance dos contrários do pecado (ARAÚJO. levando-o a pensar sua condição de cristão. arrancá-lo do torpor ou da perversão e lançá-lo enfim na direção única do teocentrismo. mas afogaram-no: Simul exortae spinae suffocaverunt illud. buscas ou mesmo associações inesperadas. só a elas favorece. não frutificou. O trigo que caiu nos espinhos. favorecendo a ambigüidade de sentido. persuadi-lo ou dissuadi-lo. se são bons. porque a palavra de Deus é tão funda. Vieira tinha o cuidado constante de fechar todos os círculos e saídas para que seu ouvinte não conseguisse escapar ao aprofundamento espiritual que o conduzisse ao temor e amor a Deus. As parábolas utilizadas por Vieira se constituem em uma espécie de uma alegoria curta com uma moral definida. recorrentes. ao estado de convencimento das verdades oriundas do púlpito. De maneira que o trigo que caiu na boa terra. mas transforma o significado. faz neles fruto a palavra de Deus. a clareza das verdades do discurso ficava oculta nas excessivas reiterações. Vieira condenava o cultismo dos dominicanos que seguiam o estilo gongórico. Esse recurso impressiona o auditório. por estilo e gozo estético. faz uso da linguagem erudita e letrada. As repetições costumavam ser recorrentes e exaustivas. ora o discurso de Vieira se fazia por jogos de conceitos em que se apresentavam paradoxos contidos nas palavras (conceptismo). um tipo de representação figurativa que visa a transmitir um significado outro que o expresso no literal. Na literatura. a elas se agrega. não investe exaustivamente no rebuscamento lingüístico. Além da repetição fazia uso do paralelismo. A antítese reforça a intenção de que o ouvinte deva ter seu foco na conversão dos maus ouvintes.verdade. tendendo ao raciocínio. Por isso Vieira. (ARAÚJO. O padre apóia-se na exploração de uma idéia que se desdobra em metáforas. Mas é a forma de sua linguagem barroca o maior triunfo de sua arte. Por elas o ouvinte fixaria seu temor a Deus e obediência aos preceitos da Igreja. Os recursos empregados por Vieira são úteis para a interpretação dos textos sagrados. Essa é propriamente uma tendência barroca cuja pintura e arquitetura apresentavam um estilo marcado por formas redondas. Este último seria a essência da significação do sermão que deveria ser construído com agudeza e engenho. valorização do conteúdo. já que somente no final da peça oratória lhe era revelada a conclusão moral. causando grande efeito semântico. Na citação abaixo é notável a repetição e o paralelismo concorrendo juntos. com transições. Eles auxiliam na revelação da maestria com que o padre utilizava a língua para cativar sua audiência. lançada nas pedras. A circularidade favorecia manter atento o ouvinte. a repetição não reforça a proposição inicial. não frutificou. ou seja. nasceu e frutificou com grande multiplicação: Et natum fecit fructum centuplum. Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus. Alem das metáforas. ora por objetos raros e luminosos (cultismo). No Evangelho o temos. A partir de uma tese bem definida. No caso do paralelismo ocorre uma apresentação de contrários (maus/bons). 2006) De fato. se são maus. Outras vezes. em maior profundidade. curvilíneas e reiterativas. mas nasceu até nos espinhos. O trigo que caiu nas pedras. o trigo que caiu na má terra. É repetindo que se retoma o significado inicial em outro nível. Sua intenção é seduzir o ouvinte pela construção intelectual. não frutificou. Vieira combina a metáfora assemelhada com a criação original. mais afeita ao conteúdo. nasceu também. Todos eles conjugados produzem uma interessante escrita literária sobre a qual se debruçam inúmeros teóricos que se deleitam com sua forma de compor a pregação. muitas vezes. mas nasceu até nas pedras. 2006).

SARAIVA. Thereza da C.br/catedra/index. Antonio. Disponível em: http://www. Massaud.letras. ——. Cátedra Padre Antônio Vieira de Estudos Portugueses. 2.puc-rio. concluir). Nelson Rodrigues. Como já mencionado. 1997. Vieira ensina aos demais sermonistas a arte de pregar.html . São Paulo. se esses elementos fossem bem articulados. Luiz Felipe Baeta. Antônio Vieira e a paranética religiosa. Revista de estudios literarios. Cátedra Padre Antônio Vieira de Estudos Portugueses. In: Revista Semear. Todas as etapas foram elaboradas com única finalidade de persuadir os ouvintes. Cultrix. Vol. persuadir é o fim último da pregação.puc-rio. Acessado em: 18 de novembro de 2006. Vol. São Paulo. s/d. como elaborar um sermão. Companhia das Letras. Oscar. Porto. & LOPES. 2001. Sermão da Sexagésima.html. In: Revista Semear. Rio de Janeiro. Iniciação à literatura portuguesa. E. A Literatura portuguesa. Padre Antônio Vieira: dizer é agir. Universidad Complutense de Madrid El URL de este documento es http://www. Vieira e a imaginação social jesuítica. No entanto. A retórica do cativo: Padre Antônio Vieira e a Inquisição < VIEIRA. A insistência de Vieira em catequizar pessoas ainda não convertidas no catolicismo se fará presente nesse Sermão que acabou se tornando um tratado da retórica. Disponível em: http://www.br/catedra/revista/2Sem_03. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO. prová-la pela razão. 2.CONCLUSÃO O Sermão da Sexagésima é uma lição retórica para arte literária. Jorge de Souza. MOISÉS. NEVES. Arte Retórica. apresentar argumentos e refutar os que fossem contrários. A. O Múltiplo Vieira: estudo dos sermões indigenistas. SILVA. pelo Sermão. Topbooks. São Paulo. 1955.html.J.ucm. © Karina de Freitas Silva Fernández 2008 Espéculo. o padre não apenas ensinou como também construiu seu sermão seguindo todas as etapas que considerava fundamentais para um bom discurso retórico (definir a matéria. mantendo-os atentos durante toda a pregação. DOMINGUES. dividi-la.es/info/especulo/numero37/avieira. Porto. o sermonista atingiria o objetivo de persuadir o seu ouvinte. isto é. Acessado em: 18 de novembro de 2006. História da literatura portuguesa. s/d. ARISTÓTELES. Annablume.letras. A. Rio de Janeiro. Para ele os pregadores sempre deviam utilizar de recursos argumentativos que levassem os ouvintes ao agradável. FILHO. Isso só é possível se com ele se conjugam as intenções de instruir e deleitar. 1999. s/d. Janice Theodoro de. Editora Tecnoprint. Ainda seguindo Aristóteles.

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