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AMANDA ORFÃO DAMIÃO

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS

OS SERES NARRATIVOS EM HARRY POTTER

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


como exigência parcial para obtenção do grau
de Licenciatura em Letras, à Universidade
Católica de Santos.

Orientador: Prof. Me. José Martinho Gomes

SANTOS – 2008

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AMANDA ORFÃO DAMIÃO

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS

OS SERES NARRATIVOS EM HARRY POTTER

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


como exigência parcial para obtenção do grau
de Licenciatura em Letras, à Universidade
Católica de Santos.

Orientador: Prof. Me. José Martinho Gomes

SANTOS – 2008

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AMANDA ORFÃO DAMIÃO

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS

OS SERES NARRATIVOS EM HARRY POTTER

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


como exigência parcial para obtenção do grau
de Licenciatura em Letras, à Universidade
Católica de Santos.

Orientador: Prof. Me. José Martinho Gomes

Banca Examinadora:

________________________________________________________

Prof. Me. José Martinho Gomes, Universidade Católica de Santos

____________________________________________________________

Prof. Me. Rosicler Monteiro Martins Diniz, Universidade Católica de Santos

Data de aprovação: _________________________________________

SANTOS – 2008

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DEDICATÓRIA

Dedico tal trabalho aos meus pais que me


presentearam com a oportunidade de vivenciar a
magia do mundo de Harry Potter. Graças a eles,
hoje tenho a oportunidade de concluir este
trabalho. Sem o apoio, a educação e o amor que
me proporcionaram, nada disso seria possível.

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DAMIÃO, Amanda Orfão. Os seres narrativos em Harry Potter. Santos,


2008, p. 58 (Trabalho de Conclusão de Curso). Universidade Católica de
Santos.

As personagens são elementos fundamentais de uma narrativa, pois são os


agentes dinamizadores do enredo. Assim, este trabalho foca a importância
e as diversas naturezas que possuem. Baseamo-nos em teóricos
renomados, como Vladimir Propp e Antônio Cândido, e conceitos como os
stock characters, para analisar as personagens em Harry Potter de J. K.
Rowling, particularmente o herói e as personagens secundárias.

Palavras-chave: personagem, Harry Potter, stock characters, narrativa.

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DAMIÃO, Amanda Orfão. Os seres narrativos em Harry Potter. Santos,


2008, p. 58 (Trabalho de Conclusão de Curso). Universidade Católica de
Santos.

Characters are essential narrative elements as they are agents that


dynamize the plot. Therefore, this work focuses on their importance and
variety. Based on well-known theorists,such as Vladimir Propp and Antônio
Cândido, and concepts such as stock characters, we analyze J. K.
Rowling’s Harry Potter characters, particularly the hero and the secondary
characters.

Key-words: characters, Harry Potter, stock characters, narrative.

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Sumário

Introdução 08

I. Sobre autora e obra 10

1.1. A trama de Harry Potter 12

1.2. O segredo de seu sucesso narrativo 16

1.3. Da tradução 18

II .As dimensões da personagem 20

2.1. Classificação das personagens 22

2.1.1 A complexidade da personagem em Cândido 23

2.1.2 As sete esferas de Propp 24

2.1.3 Stock characters 29

III. O herói Harry Potter 34

IV. As personagens secundárias 44

Conclusão 53

Referências bibliográficas 55

Bibliografia consultada 57

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INTRODUÇÃO

Um dos elementos básicos de uma narrativa é a personagem. Por


meio dela, o leitor vivencia e familiariza-se com a obra. Sua presença é
fundamental, pois pode desempenhar várias funções em um texto, o que a
concretiza como uma figura de grande valor.

Assim, este trabalho tem como objetivo apresentar à importância e as


diversas naturezas da personagem em uma narrativa. Para tal análise,
faremos o uso da obra escrita pela escritora britânica J. K. Rowling,
intitulada Harry Potter.

Tal obra causou um grande impacto no universo da literatura de


entretenimento. Os sete volumes que retratam a vida do bruxo Harry
tornaram-se um fenômeno mundial. Não só crianças, como também
adultos, passaram e ainda dispendem horas do seu dia-a-dia imersos nos
livros de Rowling. O sucesso da obra não se reteve somente às livrarias.
Após alguns anos de sua estréia, a vida do protagonista foi adaptado para
o cinema, conquistando um maior número de admiradores. Harry Potter é
um dos bruxos da literatura mais conhecidos nesses últimos tempos, assim
como as outras personagens da trama que auxiliam ou se contrapõem ao
herói.

Abordaremos essa obra no primeiro capítulo deste trabalho, dando


enfoque à vida da autora. Apresentaremos também um breve resumo da
história dos sete livros, incluindo a introdução do enredo e uma breve
apresentação das personagens que o compõem.

Em seguida, no segundo capítulo, citaremos algumas teorias que


abrangem a esfera das personagens. Basear-nos-emos em autores

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renomados como Vladimir Propp, Tzevan Todorov, Antônio Cândido e


Fernando Segolin, para, assim, analisarmos as dimensões das
personagens e defini-las a partir das classificações dadas por tais
estudiosos. Temos como objetivo mostrar a diversidade dos seres
narrativos e os variados papéis que podem assumir em uma narrativa.
Serão detalhados seus principais traços e, na seqüência, suas
categorizações segundo os estudiosos que consultaremos.

Descorreremos, também, sobre os stock characters, tipos de


personagens comuns em certos gêneros narrativos, que complementam a
classificação previamente apresentada. Devido à sua grande variação,
mencionaremos apenas os mais comuns em narrativas, e em particular, os
de maior importância na obra de Harry Potter.

No terceiro capítulo, estudaremos a protagonista da série. Veremos


quais teorias poderão ser aplicadas a ela e como essa personagem
consegue chegar ao patamar de herói. Suas características físicas e
psicológicas serão traçadas, permitindo categorizá-la substancialmente.
Objetivamos, assim, identificar o motivo pelo qual é considerada o herói da
trama e os recursos que utiliza para tal feito.

Por fim, no quarto e último capítulo, exploraremos as personagens


secundárias de Harry Potter. Não só analisaremos suas características
superficiais e psicológicas, como também, definiremos o porquê de sua
existência na obra e sob qual aspecto elas ajudam a protagonista a se
tornar o herói da série.

Deixamos claro que as teorias utilizadas estão voltadas para a


literatura narrativa e para a obra que foi escolhida, porém esperamos que
este trabalho ofereça material para futuras pesquisas e para o
entendimento do papel da personagem em um texto narrativo de maneira
geral.

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I. SOBRE A AUTORA E A OBRA

Filha de londrinos pertencentes à marinha britânica, Joanne Kathleen


Rowling nasceu nos arredores de Bristol, oeste da Inglaterra, no dia 31 de
Julho de 1965. Aos quatro anos, seus pais mudaram-se para a cidade de
Winterbourne, lugar em que a escritora passou grande parte de sua
infância. Desde criança, Rowling amava escrever. Sua casa era repleta de
livros graças a seus pais que adoravam ler. Escreveu seu primeiro livro,
‘Coelho’ (Rabbit), quando tinha apenas seis anos. Em 1983, Rowling
decidiu estudar na Universidade de Exeter, na costa sul da Inglaterra, onde
se graduou em Francês e Filosofia. Após a graduação, Rowling trabalhou
como secretária da Anistia Internacional e professora de francês e inglês.
Contudo, ainda almejava a profissão de escritora.

A personagem Harry Potter surge em sua mente dentro de um trem a


caminho de Londres em 1990, deixando-a muito entusiasmada: “Eu
escrevia quase continuamente desde os seis anos, mas nunca tinha ficado
tão entusiasmada com uma idéia antes” (ROWLING, 2008, tradução nossa)
1
, diz Rowling em sua autobiografia. Nesse mesmo ano, a autora começa a
escrever ‘Harry Potter e a Pedra Filosofal’ (Harry Potter and the
Philosopher´s Stone).

Rowling muda-se para Manchester, levando seus manuscritos. Sua


obra continua evoluindo e tomando diversas formas. Com a morte de sua
mãe, portadora de esclerose múltipla, seu mundo e o mundo de Harry
sofrem grandes mudanças, principalmente em relação à morte.

1
“I had been writing almost continuously since the age of six but I had never been so excited about
an idea before.”

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Finalmente, em 1996, depois de um árduo trabalho, o primeiro livro do


pequeno bruxo nomeado Harry Potter é publicado. Após tal publicação,
Rowling ainda escreveu mais 6 livros: Harry Potter e a Câmara Secreta,
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, Harry Potter e o Cálice de Fogo,
Harry Potter e a Ordem da Fênix, Harry Potter e o Príncipe Mestiço e, por
fim, Harry Potter e as Relíquias da Morte.

Desde então, a obra tornou-se um fenômeno mundial, conquistando


leitores de todo mundo e batendo todos os recordes possíveis. Rowling
tornou-se uma das escritoras mais bem sucedidas de todos os tempos,
tendo seu livro traduzido em 64 idiomas e ocupando o segundo lugar da
lista dos livros que obtiveram o maior número de traduções do mundo,
superado apenas pela Bíblia. Também ganhou vários prêmios ao longo do
período de publicação dos seus sete livros, entre eles:

• Melhor Livro Infantil pela Birmingham Cable em 1997;

• Livro do Ano pelo British Book Awards em 1998;

• prêmio The Booksellers Association e Melhor Autor do Ano de


1998;

• Prêmio Whitbread Livro Infantil do Ano de 1999;

• Melhor Livro pela Scottish Arts Council em 2001;

• Melhor Novo Livro do Ano, pela revista Entertainment Weekly


em 2005;

• Melhor Livro pelo site americano de vendas online Amazon em


2007;

Além do sucesso de vendas em 2001, a obra Harry Potter foi


adaptada em filme, arrecadando em sua premiere 976,5 milhões. Estrelado
por Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson, a saga cinematográfica
do pequeno bruxo se encaminha ao seu sexto filme em 2009. O primeiro
filme foi muito bem aceito pelos leitores, assim como seus atores, fazendo
com que o ‘fenômeno’ Harry Potter se expandisse ainda mais.

Graças ao sucesso tanto do filme como da própria obra, a Universal


Studios, localizada no estado da Flórida, EUA, promete tornar real o mundo

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mágico de Rowling construindo um parque temático baseado na obra da


escritora britânica com inauguração prevista para o fim de 2009.

1.1. A trama de Harry Potter

A série Harry Potter foi dividida por Rowling em sete livros, cada qual
relatando um ano de Harry na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
‘Harry Potter e a Pedra Filosofal’ (Harry Potter and the Philosopher’s Stone)
é o primeiro livro da série, publicado em 1996, como já dito anteriormente.

A história começa no dia 31 de agosto, o dia da morte dos pais de


Harry, Lílian e Tiago Potter (Lilly e James), assassinados pelo poderoso
bruxo Lorde Voldemort. Porém, ao tentar matar Harry, o terrível bruxo falha.
Seu feitiço vira contra seu próprio gerador. Desde então, Voldemort nunca
mais foi visto, enquanto o pequeno garoto permanece ileso. O único
resquício de seu encontro com Voldemort é uma fina cicatriz em forma de
raio em sua testa. É um mistério para todos como um bebê conseguiu
derrotar o mais temido bruxo de todos os tempos. Enfim, Harry Potter é
aclamado por todos como ‘o menino que sobreviveu’.

Após esse incidente, o pequeno orfão Harry é deixado na porta dos


seus tios, os Dursleys, acompanhado por uma carta, em que constam todos
os acontecimentos e mistérios daquela noite. Mesmo assim, a missiva
nunca chega às mãos de Harry. O menino cresce sem saber da verdadeira
razão da morte de seus pais ou sobre o mundo mágico a qual pertence.

Harry passa onze anos de sua vida na casa de seus tios, que o tratam
da pior maneira possível devido à aversão destes à magia. Entretanto, no
dia de seu aniversário de onze anos, o menino recebe a visita do gigante
Rubeo Hagrid (Rubeus Hagrid). Com esse acontecimento inesperado,
Harry descobre sobre o trágico fim de seus pais e a existência de
Voldemort, o fato de ser bruxo e deter uma vaga na Escola de Magia e
Bruxaria de Hogwarts, Assim como o leitor, Harry tem seu primeiro contato

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com o mundo mágico e finalmente embarca para Hogwarts, onde conhece


seus fiéis amigos Rony Weasley (Ron Weasley) e Hermione Granger. Além
dos grandes laços de amizades feitos em seu novo lar, Harry tem de lidar
com as provocações de Draco Malfoy, seu colega de ano, e suportar a
raiva do professor de poções Severo Snape (Severus Snape), que deixa
clara a antipatia que possui pelo garoto.

Com a ajuda de seus amigos e do sábio diretor de Hogwarts, Alvo


Dumbledore (Albus Dumbledore), Harry enfrenta Voldemort, que está à
procura da Pedra Filosofal, ou seja, ele almeja a vida eterna oferecida pela
pedra. Pela segunda vez, Harry sobrevive a outro confronto contra o
grande bruxo das trevas.

Em seu segundo livro, ‘Harry Potter e a Câmara Secreta’ (Harry Potter


and the Chamber of Secrets), Harry recebe a visita de um elfo doméstico,
Dobby, que conta a Harry que coisas horríveis estão prestes a acontecer
em Hogwarts. Por causa disso, Harry não poderia voltar ao castelo para
mais um ano letivo, pois estaria em grande perigo. Porém, contra a vontade
de Dobby, Harry decide continuar seus estudos.

O elfo, nada satisfeito com a decisão do garoto, prega uma peça,


estragando um jantar importante dos tios de Harry. Como conseqüência, o
menino acaba sendo culpado pelo ocorrido e trancafiado em seu quarto
como castigo. Harry, agora com doze anos, vê-se sem saída e sem
nenhuma possibilidade de voltar a Hogwarts, até que seu amigo Rony
Weasley e seus irmãos, os gêmeos Fred and George Weasley, vêm ao
resgate do garoto levando-o para ‘A TOCA’ (moradia da família Weasley),
onde Harry passa o melhor verão de sua vida.

Com o fim das férias, o segundo ano escolar de Harry começa e o que
Dobby previu começa a acontecer dentro do castelo. Vários residentes de
Hogwarts começam a aparecer petrificados nos corredores da escola. O
clima no castelo torna-se tenso e aterrorizante, pois ninguém suspeita
quem ou o que está por trás dos atentados. Mais uma vez Harry vai atrás
do desconhecido e, por fim, descobre que o próprio Voldemort está por trás
de todos os ataques, só que dessa vez em forma de memória.

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Já no terceiro livro da saga, ‘Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban’


(Harry Potter and the Prisoner of Azkaban), Harry descobre que um
assassino escapou da prisão dos bruxos, Azkaban, e está atrás dele. É
nesse clima de suspense que Harry começa seu terceiro ano em Hogwarts
na companhia inseparável de Rony, Hermione e de um novo professor da
disciplina ‘Defesa contra as Artes das Trevas’, o professor Remus Lupin,
que ajuda Harry a lidar com os guardas de Azkaban, nomeados de
Dementadores (Dementors), e se torna um grande amigo do garoto. Além
de se preocupar com os algozes e o fugitivo da prisão bruxa, Harry se vê
no meio de uma briga entediante entre Rony e Hermione.

Como se já não tivesse problemas suficientes, Harry descobre que o


fugitivo Sirius Black é seu padrinho e não é culpado pelo crime que o levou
a Azkaban. Com a ajuda de seus companheiros antigos e novos, Harry
ajudará a salvá-lo de um trágico destino, além de tentar colocar o
verdadeiro culpado atrás das grades.

Em ‘Harry Potter e o Cálice de Fogo’ (Harry Potter and the Goblet of


Fire), Hogwarts sediará o Campeonato Tribuxo, ou seja, uma competição
entre três escolas bruxas: Hogwarts, Beauxbatons e Durmstrang. Cada
uma dessas escolas terá um representante eleito para realizar provas
dificílimas, com o objetivo de obter a glória e o título de campeã para sua
escola. O que elege os participantes é um objeto mágico chamado Cálice
de Fogo. Logo após a escolha dos três participantes, o cálice
misteriosamente elege um quarto eleito, Harry, que se vê obrigado a
participar do torneio, enfrentando grandes perigos que podem colocar sua
vida em risco.

Em seu quarto ano, Harry terá que lidar com todos os tipos de
problemas imagináveis, como por exemplo, o desentendimento com seu
melhor amigo Rony, a sua paixão por Cho Chang, a sua irritação com Rita
Skeeter, uma jornalista nem um pouco amigável, e o retorno de Lorde
Voldemort, presenciado pelo próprio garoto. Harry, com o suporte de
Dumbledore e seus amigos, tenta alertar as autoridades sobre o perigo que
está por vir, porém o ministro da magia, não acredita na volta do temido
bruxo.

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Em ‘Harry Potter e a Ordem da Fênix’ (Harry Potter and the Order of


the Phoenix), podemos perceber uma atmosfera bem mais negativa do que
aquela nos livros anteriores. Logo no início da história, Harry e seu primo
são atacados por dois Dementadores. Alguns dias depois do inesperado
acontecimento, Harry é levado para a Sede da Ordem da Fênix, ou seja,
para um esconderijo onde um grupo de bruxos se reúne com o intuito de
elaborar algum jeito de deter Voldemort. A sede está localizada na casa
antiga de seu padrinho e onde Harry passa o verão junto com os Weasleys
e os outros integrantes da aliança até o início do ano letivo.

Além disso, o garoto começa a ter sonhos contínuos com Voldemort.


Por causa disso, Dumbledore encaminha Harry a aulas especiais com o
professor Snape, porém, devido ao desgosto mútuo, as aulas não são
terminadas. O protagonista também tem aulas com a nova professora de
Hogwarts, Dolores Umbrige, detestada por vários moradores do castelo.
Devido às repressões de Umbrige, Harry e seus amigos fundam,
ilegalmente, um grupo de estudantes chamado Armada de Dumbledore
(Dumbledore Army). Harry é o líder do grupo e seu trabalho é passar
conhecimentos sobre feitiços aos seus colegas, assim preparando-os para
um possível duelo contra Voldemort e seus seguidores, conhecidos como
Comensais da Morte (Death Eaters).

No clímax da história, Harry descobre a existência de uma profecia


predizendo que nem Harry nem Voldemort poderá viver enquanto o outro
existir. O bruxo adolescente terá que fazer de tudo para salvar quem ama e
impedir que Voldemort ouça a profecia. Mais uma vez, o garoto aprenderá
a lidar com a morte.

É nesse clima aterrorizante que chegamos ao penúltimo livro da série,


‘Harry Potter e o Príncipe Mestiço’ (Harry Potter and the Half Blood Prince).
Neste sexto livro, Harry contará com novos aliados, um novo amor e a
ajuda de um livro escrito pelo misterioso Príncipe Mestiço. Além de poções
de amor e discussões entre seus dois melhores amigos, Harry começa a ter
aulas particulares com Dumbledore sobre a vida de Voldemort. Assim,
segundo o diretor, o garoto estará preparado caso tenha que enfrentá-lo.

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Outro fato importante nesse livro é a revelação de Dumbledore a


Harry sobre a existência das Horcruxes, em outras palavras, objetos em
que um bruxo, por intermédio de magia negra, pode trancafiar um pedaço
de sua própria alma, prevenindo sua morte. Harry descobre que tem de, a
todo custo, achar todas as Horcruxes feitas pelo vilão e destrui–las. Para
realizar tal tarefa, decide embarcar em uma longa missão em busca desses
objetos, pois é o único que poderá vencer o grande Lorde Voldemort.

No sétimo e último livro da série ‘Harry Potter e as Relíquias da Morte’


(Harry Potter and the Deathly Hallows), nosso herói, ao lado de seus dois
fiéis escudeiros, Rony e Hermione, se aventura em uma longa jornada em
busca das Horcruxes, deixando amigos, familiares e o último ano de sua
formação em Hogwarts para trás. À medida em que as Horcruxes vão
sendo encontradas, Harry também descobre a existência das Relíquias da
Morte, que terão grande importância no decorrer da história.

Com a inteligência de Hermione, a fidelidade de Rony, a coragem e


determinação de Harry, o trio passará por obstáculos dificílimos desde sua
saída da moradia da família Weasley até chegar ao ponto culminante do
livro, em Hogwarts, onde a aventura chegará ao seu fim, em um duelo
definitivo entre Harry e Voldemort. Rowling revelará os principais mistérios
da trama, ao longo da grande jornada de Harry em busca das Horcruxes. O
garoto terá de usar toda sua coragem e compaixão para conseguir o que
tanto almeja: uma vida em paz, sem a existência de Voldemort.

1.2. O segredo de seu sucesso narrativo

A razão de seu êxito ainda continua sendo uma incógnita para muitos.
Segundo o escritor americano Stephen King, o que difere Harry Potter de
outras obras, como por exemplo, a popular série de R.L. Stine intitulada
Goosepumps, é que as crianças de Stine são crianças para sempre, já as

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personagens de Rowling vão crescendo assim como seus leitores (KING,


2008). È isso que torna a obra peculiar sob os olhos dos leitores, pois
estes acabam se identificando com elas. Como conseqüência, as
personagens se tornam reais no imaginário do leitor devido a tal conexão,
passando a ser parte da vida do leitor.

A respeito desse encontro de dois mundos, Scholes and Kellog


definem significado como sendo “em uma obra narrativa, [...] uma função
do relacionamento entre dois mundos: o ficcional, criado pelo autor, e o
‘real’, o universo compreensível” (1977, p. 57). Ao lermos Harry Potter,
temos essa sensação, de nos encontrarmos no meio de um mundo a que
estamos acostumados, o ‘real’, e entramos no mundo dos bruxos, ou seja,
no mundo mágico. Segundo Rowling, em um documentário do canal BBC
chamado ‘Harry Potter e eu’ (Harry Potter and me) exibido no dia 28 de
dezembro de 2001, a autora confirma ter criado o mundo mágico de Harry
Potter a partir da mitologia e do folclore britânicos, porém ela muda certos
aspectos a fim de encaixá-los melhor a sua trama. Nessa mesma
entrevista, a autora afirma que a magia é apenas um toque especial em sua
obra, e é exatamente essa combinação de elementos fatuais e fictícios que
tornam sua obra realista, logo fazendo com que o leitor se interesse e,
conseqüentemente, identifique-se com a obra.

Devido ao uso de magia, o leitor tem uma sensação de estranheza e


certa hesitação pelo fato dos acontecimentos na obra não poderem ser
explicados pela lei da natureza. Esse fator faz com que Harry Potter seja
qualificado como uma narrativa fantástica. No gênero fantástico,
encontramos elementos sobrenaturais cuja aparição não é contestada pelo
leitor. O leitor não questiona as situações reais e estranhas, pois sabe que,
na obra, aquele acontecimento tem sentido. Portanto, é aceito por quem a
lê. Relacionado a isso, Tzvetan Todorov conclui que “se animais falam,
nenhuma dúvida nos assalta o espírito: sabemos que as palavras no texto
devem ser tomadas num outro sentido...” (1992, p. 38). O fato de Harry e a
comunidade bruxa fazerem os mais diversos feitiços, diversos objetos e
criaturas mágicas são compreendidos pelo leitor, que os reconhecem como
‘normais’, já que estão inseridos em um mundo mágico.

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Harry Potter também segue características da narrativa do teórico


Vladimir Propp. Propp (SEGOLIN, 1978, p. 36-7), após estudar
minuciosamente contos infantis, estabeleceu 31 funções que compõem tal
tipo de narrativa. Na obra de Rowling, notamos algumas dessas funções,
como, por exemplo, o distanciamento e a partida do herói, o confronto entre
herói e vilão, e a punição do antagonista, entre outras. É pertinente lembrar
que não nos deteremos em tal assunto, pois não é o foco deste trabalho.

Para Propp, a narrativa é basicamente um sistema de


proposições-motivos, proposições estas que podem ser
agrupadas em feixes e que não só caracterizam atributivamente a
personagem, mas também definem a funcionalidade do agente
para o qual convergem as ações integrantes de cada esfera
funcional (SEGOLIN, 1978, p. 38).

Na obra de Rowling, é perceptível o uso dessas funções


estabelecidas por Propp durante os sete livros. Sua obra segue as funções
proppianas, sendo classificada como narrativa infantil.

Além de ser, principalmente, uma narrativa fantástica e infantil,


Harry Potter aborda vários outros assuntos polêmicos, entre eles o
preconceito, a política e principalmente a morte, que, segundo a própria
autora, é o principal tema de seu livro, deixando, definitivamente, a magia a
um segundo plano, um detalhe, como já mencionado previamente.

1.3. Da tradução

A tradução de Harry Potter no Brasil foi feita por Lia Wyler. A tradutora
estudou na PUC do Rio de Janeiro, onde fez Licenciatura e Bacharelado
em Letras ‘Português-Inglês’, com especialização em Tradução. Devido à
tradução da obra de Rowling, Lia ganhou o prêmio Monteiro Lobato
Tradução Criança. Lia também é conhecida por traduzir vários best-sellers
de autores consagrados como Tom Wolfe e Stephen King, entre outros.
Wyler também é uma das mais renomadas teóricas de tradução em nosso

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país, tendo publicado um importante livro sobre a história da tradução no


Brasil, chamado ‘Línguas, Poetas e Bacharéis’.

Ao traduzir a obra de Rowling, Lia se deparou com o problema dos


nomes tanto das personagens como de lugares. Ela opta em traduzi-los,
por vezes com uma considerável dose de originalidade, com a finalidade de
facilitar a leitura na língua de chegada. Rebatendo as críticas sobre sua
escolha em não manter os nomes originais, a tradutora comenta seu motivo
em uma entrevista para o site ‘Omelete’:

Tenho a impressão de que as pessoas que insistem nessa tecla


não perceberam que Harry Potter e a Pedra Filosofal foi escrito
para crianças de 7-12 anos que não sabem inglês suficiente para
entender o humor que os nomes contêm. A influência do inglês no
nosso dia-a-dia não é suficiente para que todos os leitores
percebam o significado dos nomes. Por outro lado, as decisões
tomadas no primeiro volume de uma série são obrigatoriamente
mantidas até o último volume. (FORTUNATO, 2008)

Todos os nomes receberam o aval da própria autora. Nesse trabalho,


usamos como base a tradução da obra Harry Potter, portanto escolhemos
utilizar os nomes das personagens da versão brasileira, traduzidas por Lia
Wyler, e incluímos os nomes originais em língua inglesa entre parênteses.

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II. AS DIMENSÕES DA PERSONAGEM

Em uma obra narrativa, há vários aspectos importantes que a


compõem, como o narrador, o tempo, o espaço e a personagem. Esses
traços característicos estão presentes em todas as obras e são essenciais
para sua formação.

A visão aristotélica tradicional, utilizada nesse trabalho, sugere que a


narrativa almeje a imitação do homem. Essa ilusória tentativa de criar um
ser humano a partir da arte é feita por meio da personagem. Chamamos de
ilusório tal esforço, pois o homem não possui um roteiro predeterminado em
sua vida. Cada ser humano tem o controle de suas emoções e atos, sem
mencionar que seu futuro é imprevisível. Já a personagem, por mais que se
assemelhe ao ser humano, possui um esquema, um roteiro que é seguido a
dedo pelo escritor que cria e estabelece seu futuro, suas emoções e ações
perante um acontecimento, ou seja, a personagem é esquematizada,
tornando-se uma reprodução do homem.

As personagens, além de serem reproduções do ser humano, também


são consideradas, segundo o conceito supracitado, como:

[...] modelos a serem imitados por todos aqueles interessados em


atingir sua excelência moral. Ou seja, a personagem identifica-se
como homem não apenas em virtude de seu necessário caráter
mimético, mas também enquanto proposição de uma moralidade
humana que supõe e exige imitação. (SEGOLIN, 1978, p.19)

Ao criar uma personagem, o escritor tem o intuito de torná-la a mais


real possível, oferecendo traços humanos a fim de aproximá-la, cada vez
mais, da realidade. Por fim, segundo Anatol Rosenfeld, a personagem

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acaba sendo mais coerente que o próprio ser humano graças a essa
esquematização da qual faz parte. Essa coerência obtida pela personagem
a faz viva, real.

A caracterização da personagem também é essencial para que ela se


torne ‘humana’ no subconsciente do leitor. Ao criá-la, o escritor não só
estabelece seu destino, como também dá à sua criação características
físicas e emocionais. Assim como nós, seres humanos, as personagens
são dotadas de características físicas que são apresentadas aos leitores
por intermédio de certa seleção minuciosa de palavras feitas pelo escritor,
as quais concretizam e enriquecem a personagem. É por meio “... da
organização dos contextos de unidades significativas  e de muitos outros
elementos de caráter estéticos” (CÂNDIDO, 1968, p. 36), que a
personagem cria vida no imaginário do leitor, ou seja, ela se torna concreta,
possuindo traços idênticos ao homem.

Porém, a aparência da personagem não é o único atributo que a faz


‘verdadeira’ sob o olhar do leitor. Além da aparência física, como por
exemplo, a cor do cabelo, dos olhos, a estatura entre outras características
estéticas, é importante também ressaltar que cada personagem, assim
como cada ser humano, está inserida dentro de uma comunidade e logo
possui um repertório lingüístico próprio definido de acordo com o contexto
em que vive e o seu grau de estudo, ambos definidos pelo escritor.

A vestimenta também é vital para a caracterização da personagem.


Muitas personagens são marcadas e lembradas pela sua vestimenta, que é
escolhida a dedo pelo escritor com a finalidade de expressar a
personalidade da personagem que ele mesmo criou.

Assim como a vestimenta e seu repertório lingüístico, o nome da


personagem também tem sua importância. Os humanos têm a necessidade
de nomear todos os seus pertences, com a finalidade de concretizá-los. Da
mesma forma que todo homem ao nascer é batizado, o mesmo acontece
com a personagem. Essa, ao ser criada, é nomeada, muitas vezes
possuindo data de nascimento, nacionalidade, ou seja, torna-se um ser
‘real’ no ‘mundo da ficção’.

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Além de sua caracterização, a personagem também é composta de


emoções, caráter e ideais. Em outras palavras, sua composição vai além
da aparência externa. A personagem é acompanhada de tonalidades
sentimentais, como o próprio ser humano. O leitor tem acesso a seus
sentimentos e muitas vezes ao seu pensamento, o que a difere
drasticamente do homem. Enquanto na vida real é praticamente impossível
saber realmente o que outro indivíduo pensa ou sente, tal interferência
pode ser viável na ficção. Em várias obras, temos acesso livre à intimidade
da personagem. Por meio de um narrador onisciente, entramos em contato
direto com seus pensamentos e emoções, o que não ocorre entre os seres
humanos. Essa visibilidade total que é proporcionada torna a personagem
íntima do leitor, que por sua vez acaba entendendo e criando um laço
sentimental com a personagem. Logo,

[...] a personagem deve dar a impressão de que vive, de que é


como um ser vivo. Para tanto, deve lembrar um ser vivo, isto é,
manter certas relações com a realidade do mundo, participando
de um único verso de ação e de sensibilidade que se possa
equiparar ao que conhecemos na vida. (CÂNDIDO, 1968, p. 65)

Portanto, a personagem reflete a vida humana, revelando “... aspectos


trágicos, sublimes, demoníacos, grotescos ou luminosos” (ROSENFELD,
1981, p. 45), ou seja, aspectos profundos aos quais não temos acesso
imediato na vida cotidiana dos seres humanos. A personagem instiga o
leitor, como já dito anteriormente, por oferecer a ele um panorama completo
de sua vida, seus valores políticos, morais, religiosos e sociais são
revelados sem qualquer restrição ao leitor, que se defronta com tais valores
e acaba se envolvendo com a personagem e com o próprio enredo da obra.

2.1.Classificação das personagens

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As personagens, graças a sua maleabilidade, multiplicidade e


complexidade, são classificadas e nomeadas de diversas maneiras por
estudiosos, que procuram classificá-las de acordo com suas ações e
importância para obra, procurando similaridades e assim, organizando-as
em grupos. Essas classificações muitas vezes variam de autor para autor,
porém todos seguem mais ou menos a mesma linha de pensamento e
buscam o mesmo objetivo: entender melhor a natureza das personagens. A
seguir, veremos várias classificações que, como dito anteriormente, irão
ajudarão o leitor no entendimento do mundo da personagem e de seu papel
na obra.

2.1.1 A complexidade da personagem em Cândido

Segundo Antonio Cândido, a complexidade da personagem é de


grande importância para a obra e permite a esta realizar diversos feitos
imprevisíveis para o leitor. O escritor procura cada vez mais inovação. Em
outras palavras, o escritor busca diminuir “a idéia de esquema físico”,
criando uma personagem imprevisível e complexa. Ao fazer isso, o autor da
obra pretende surpreender o leitor com o desconhecido e o mistério que
tenta inserir em suas personagens. Essas personagens têm mais de uma
dimensão e, em conseqüência deste fato, são capazes de surpreender e
entreter o leitor. Tais personagens são nomeadas de personagens
esféricas.

Além de personagens esféricas, são consideradas também


personagens natureza, pois

[...] são apresentadas além de seus traços superficiais, pelo seu


modo íntimo de ser, e isto impede que tenham a regularidade[...]
Não são imediatamente identificáveis, e o autor precisa, a cada
mudança do seu modo de ser, lançar mão de uma
caracterização diferente, geralmente analítica, não pitoresca.
(CÂNDIDO, 1968, p. 62)

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Porém, isso não impede que existam personagens cujas


características sejam mais delimitadas. Essas também têm sua importância
para o enredo e também são dotadas de características físicas,
emocionais. No entanto, são mais previsíveis. O escritor as utiliza de
maneira diferente, tornando-as tão importantes e necessárias para a obra
como as personagens complexas. Essas são denominadas por muitos
estudiosos, inclusive por Cândido, de personagens planas, pois “... são
construídas em torno de uma única idéia ou qualidade.” (CÂNDIDO, 1968,
p. 62), ou seja, essas personagens não mudam com as circunstâncias. O
leitor nunca se surpreende com elas. Logo, são planas e invariáveis.

Esses tipos de personagens são apresentados “... por meio de traços


distintivos, fortemente escolhidos e marcados; por meio, em suma, de tudo
aquilo que os distingue vistos de fora [...]” (CÂNDIDO, 1968, p. 61-2).
Portanto, não são somente nomeadas personagens planas, como também
são intituladas de personagens de costumes.

2.1.2 As sete esferas de Propp

Para o estudioso russo Vladimir Propp,

[...] as personagens em geral são feixes de funções constituídas


pelos predicados que designam suas ações ao logo da intriga
[...] enquanto o nome, a idade, o sexo, o parentesco, a posição
social, etc., são dados que na sua variabilidade impedem a
formulação de um conceito genérico de personagem, as ações
de seres ficcionais são os únicos elementos que, em
decorrência de sua funcionalidade invariável, permitem, ao
serem agrupados logicamente em feixes ou esferas de funções
[...] (SEGOLIN, 1978, p. 36)

Por meio desta citação, percebemos que, para Propp, a personagem


é pertencente a um conjunto de funções usadas pelo escritor ao elaborar
uma narrativa.

A partir desse pensamento, Propp( SEGOLIN, p. 36-7) cria sete


esferas de ações, ou seja, sete tipos de personagens existentes em uma

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narrativa, separando-as por características semelhantes, de acordo com a


função que possuem na obra. São eles: o agressor, o doador, o auxiliar, a
princesa, o herói, o mandador e, por fim, o falso herói. Todos esses tipos de
personagens estão interligados e muitas vezes dependem dessa ligação
para que a história se desenvolva.

É comum em narrativas, especialmente em narrativas infantis, a


existência de um herói. Porém, para tal personagem se tornar um
verdadeiro herói, essa tem que passar por provações e para isso precisará
de ajuda externa. Como foi citado no parágrafo anterior, as personagens
são interligadas e dependem umas das outras para atingir o objetivo central
da trama. O herói precisa dessas outras personagens para se tornar o forte
e digno da nomenclatura que lhe foi concebida.

O herói é uma personagem comum, que se assemelha a nós, seres


humanos. Geralmente, é descrita como uma personagem um tanto normal.
Às vezes, possui uma marca ou sinal físico que a diferencia das
personagens restantes. Também tem traços de caráter muitos fortes; em
outras palavras, possui uma forte personalidade. Esse tipo de personagem
é permeada de bondade, coragem, talento, entre outros aspectos que o
tornam especial. Essas virtudes são a base para que essa personagem
venha a ser no final da obra reconhecida como um ser heróico. Entretanto,
para chegar a esse patamar, a personagem heróica tem de ultrapassar
obstáculos impostos por si própria e por um malfeitor.

Segundo Propp, a personagem principal, ou seja, o herói, é um ser


narrativo que geralmente sofre com a perda de um ente querido no início da
obra. Isso faz com que ele saia de sua zona de conforto. Devido a esse
acontecimento, a personagem é instigada a partir em busca de algo que
não tem. Essa partida faz com que o herói entre em contato com um mundo
novo. Ao fazer isso, ele também é obrigado a seguir regras que, muitas
vezes, não são obedecidas por ele. Essa violação das regras é um ato que
geralmente ocorre com o herói ao embarcar para um novo mundo, diferente
do que estava acostumado. No entanto, o herói sempre encontra aliados
que o ajudarão a cumprir seu destino. Dois desses aliados são nomeados
por Propp de doador e auxiliar.

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O doador é aquele que dá ao herói um objeto mágico e o auxiliar é


aquela personagem que o ajuda e o prepara para a sua jornada. Em outras
palavras, o doador muitas vezes é o anjo da guarda, o mentor do herói,
oferecendo a esse os recursos para superar todos os problemas que
deverá enfrentar ao longo de seu caminho. Já o auxiliar é aquela
personagem que ajudará o herói em todos os momentos, dos fáceis aos
mais difíceis. Ele é o ombro amigo da personagem principal e aquela
personagem dará ao herói força e apoio para atingir seu objetivo. O auxiliar
tem uma enorme importância para a obra, pois ele assume o papel de
assistente e confidente da personagem principal, como também assume o
papel de suavizar a obra, e é muitas vezes lembrado por ser um tanto
cômico.

Com sua ajuda, o herói não se vê sozinho ao carregar o grande peso


de responsabilidade e pressão que sofre em alguns momentos da trama.
Esse peso é dividido e aliviado, graças a esse ombro direito. Além desse
fato, o auxiliar oferece a confiança, amizade e compaixão necessárias para
o herói trilhar seu caminho no decorrer da obra.

A jornada do herói não teria sentido na obra se não fossem os


obstáculos que ele tem de enfrentar. Sem esse empecilho, a personagem
principal nunca chegaria a ser chamada de herói. Logo, o agressor ou vilão
é uma peça de extrema importância para o enredo da obra. O antagonista é
o responsável pela infelicidade do herói e pelos perigos que este deve
enfrentar. Esse conflito ocorre por várias razões. É interessante lembrar
que o herói é diferente perante as outras personagens. Ele possui atributos
que intimidam de certa forma o vilão. Esse sentimento o leva à tentativa de
aniquilar a personagem heróica com o intuito de ver seu caminho livre de
ameaças.

O vilão utiliza-se de diversas artimanhas para capturar o herói e


encurralá-lo, a fim de levá-lo à morte. Umas das tentativas mais comuns de
persuadir o herói à luta se dá por meio de pessoas queridas do herói. O
vilão busca atingir o herói fazendo mal às pessoas que ele ama e até à
sociedade a que pertence. O herói tem em sua natureza um certo
heroísmo, chegando a ponto de se sacrificar pelos outros. Sabendo disso, o

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vilão usa essa fraqueza do herói para atingi-lo fazendo com que ele chegue
a seu limite e parta para o combate.

O agressor é caracterizado pela sua crueldade e por fazer de tudo


para conseguir o que almeja. A maioria das vezes, o vilão vai em busca do
poder absoluto. É esse o motivo que faz com que o vilão deseje extinguir o
herói, pois o agressor o vê como algo que pode impedi-lo de alcançar seu
objetivo. A partir desse pensamento, a personagem agressora começa a
rastrear o herói, procurando seus pontos fracos e visando seu
aniquilamento sem prestar atenção nas conseqüências de seus atos. O
que o leva a sua auto-destruição.

O arquétipo do vilão pode mudar de obra para obra. Há vários tipos de


vilão, entre eles, o Vilão Gênio. Esse tipo de vilão é muito interessante, pois
possui uma grande inteligência, mas mesmo assim comete falhas ao
elaborar e executar seus planos devido a sua ambição e falta de amor.
Graças ao grande poder e genialidade, ele age primeiramente por
intermédio de seguidores que o apóiam jurando fidelidade eterna. Essa
servidão pode virar um grande problema ao vilão. Em certas narrativas, o
vilão chega a confidenciar seus planos e até a confiar em seus servos, o
que pode ser um grande risco.

Os servos, em alguns casos, são leais ao agressor por medo e por


interesse. Esses servos também podem ser falsos e virar-se contra o vilão,
pois em alguns casos eles não são tão cruéis quanto o agressor podendo
se redimir de seus atos. À medida que negam a lealdade ao agressor,
enfraquecem o próprio, contribuindo com a sua destruição. É importante
enfatizar , da mesma maneira que o herói precisa de aliados para ajudá-lo
em sua jornada, o vilão necessita dos seus para realizar a sua.

Porém, não é só o antagonista da obra que proporciona problemas ao


herói. O falso herói também tem uma participação no ato de impedir seu
sucesso. O interessante dessa personagem é ela ser dotada,
aparentemente, de todas as qualidades de um herói, até em sua aparência.
Mas ao longo da trama, essa sua heroicidade vai sendo desmistificada e,
ao fim da narrativa, o falso herói é desmascarado, assumindo sua forma de
vilão.

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O amor também está presente na vida do herói. Em clássicos contos


de fadas, o herói ou heroína está sempre em busca do amor, representado
por uma princesa ou um príncipe. Esse é o objetivo e o prêmio que o herói
recebe ao cumprir com seu dever. Em certos contos, o casamento é uma
parte essencial da vida da personagem, encerrando da obra, pois celebra a
maturidade do herói. A obra procura mostrar o desenvolvimento da
personagem heróica e é ao casar que essa transformação chega ao seu
fim.

No desfecho da obra, o vilão não tem tanta sorte. Essa personagem é


punida pelos atos cometidos e geralmente essa punição é a morte,
enquanto isso o herói terá cumprido sua missão de forma bem sucedida e
chegará finalmente ao ápice de sua vida: a vitória. Seu grande feito é
reconhecido por todos que passam a admirá-lo e venerá-lo.

Ao seguir tais funções, a personagem é conhecida como personagem


função. Para ser nomeada de tal maneira, não há necessidade de seguir as
funções estabelecidas pelo estudioso russo. Caso contrário, ela recebe o
título de anti-personagem ou não-personagem.

A anti-personagem pode ser considerada o oposto da personagem


função, pois sua

[...] narrativa da não-personagem procura criar um jogo onde


referentes e contra referentes, funções e anti-funções, tempo e
anti-tempo se entrechocam, não com o intuito de simplesmente
criar uma dialética ‘positivo-negativo’ ‘afirmação-negação’, mas
com o objetivo de repensar criticamente os seres narrativos.
(SEGOLIN, 1978, p. 90)

Em outras palavras, a anti-personagem é uma negação da


personagem função. Ela ignora o perfil traçado por Propp e segue outro
caminho que pode levá-la ao inesperado, como, por exemplo, a morte do
herói.

Com base nas definições acima, podemos concluir que a personagem


é uma peça de extrema importância em uma narrativa. Ao longo do enredo,
“A personagem deixa, então, de ser exclusivamente personagem que faz e
passa a ser também a personagem que quer fazer, que deve fazer, etc”
(SEGOLIN, 1978, p. 46). No desenrolar da obra, a personagem cria vida;

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em outras palavras, ela não só possui características físicas, como também


passa a ter sentimentos próprios, que são transmitidos ao leitor em toda
sua plenitude.

2.1.3. Stock characters

A expressão inglesa stock characters (LIST OF..., 2008) refere-se a


tipos de personagens convencionais em certos gêneros narrativos. Assim
como as personagens de Propp, essas também são divididas em
categorias de acordo com seu papel dentro da obra, com a finalidade de
serem estudadas de maneira mais profunda e de terem seu papel na obra
definido, tornando sua importância para tal trama delineada.

Essa classificação abrange vários modelos de personagens, advindas


da narrativa, do teatro e do cinema, agrupando-as em categorias bem
distintas de acordo com sua finalidade na história. Devido a tal abrangência
desses seres ficcionais, há várias categorias de personagens que sempre
se desdobrarão em outras, pois a maleabilidade da personagem é tanta
que ela vai, cada vez mais, tomando formas e papéis diferentes dentro de
uma obra. Nos próximos parágrafos, mencionaremos alguns tipos de stock
characters, dando ênfase em sua importância na obra.

Quase toda obra, possui uma personagem principal, nomeada de


herói. É em torno desta que o enredo é construído e desenvolvido. As
outras personagens presentes são construídas ou para ajudarem essa
protagonista a chegar ao seu ápice ou, ao contrário, impedi-la de realizar tal
feito. Essa personagem principal, por sua vez, passará por diversas
provações almejando o sucesso. Mesmo obtendo quase sempre o mesmo
padrão, a personagem principal do enredo se diferencia em vários aspectos
dependendo da obra e do que o escritor necessita e deseja ao construir tal
personagem. Dentro desta esfera de protagonistas, encontramos vários
estereótipos que caracterizam tal personagem.

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30

Há vários tipos de herói, como por exemplo, O Escolhido (The Chosen


One), que para atingir seu objetivo na trama tem que cumprir uma profecia.
Outro aspecto interessante é que ele necessita de vários coadjuvantes ao
seu redor, que devem possuir habilidades diferentes, para assim serem
capazes de atribuir ao herói toda a ajuda possível. Além da ajuda dos
coadjuvantes, o herói é muitas vezes guiado por um Velho Sábio (Wise Old
Man) ou um Mestre de Artes Marciais (Elderly Martial Arts Master) que o
ajudará a trilhar seu caminho, por meio de ensinamentos e de virtudes. O
Escolhido pode ser complementado pelo Herói Relutante (The Relutanct
Hero). Esse tipo de herói é caracterizado por ser uma pessoa normal e,
devido a circunstâncias fora de seu controle, vê-se obrigado a enfrentar
grandes perigos para voltar a ter uma vida tranqüila.

Outros tipos bem comuns de heróis, também complementados por


aqueles descritos anteriormente, são: o Herói Orfão (The Orphanage Hero),
o Herói Figura de Cristo (The Christ Figure) e o Herói Assombrado (The
Haunted Hero). Como a própria nomenclatura retrata, o Herói Órfão sofre
com a perda dos pais, geralmente mortos pelo antagonista da obra ou por
acidente. Após perder os pais tragicamente, o herói é adotado por tios ou
outros parentes e, muitas vezes, maltratado pelos mesmos. Como também,
há casos em que é adotado por um mentor que tem como papel oferecer
ajuda a personagem. Já o Herói Figura de Cristo, além de ser modesto e de
obter fortes traços morais, ele chega ao ponto de se sacrificar pelas
pessoas ao seu redor. O último estereótipo de herói que citaremos é o
Herói Assombrado (the Haunted Hero). Além de sofrer algum trauma,
devido a seu passado trágico, ele possui poderes sobrenaturais desde
criança que vão interferir no rumo da história.

É interessante comentar que todos esses estereótipos podem ser


utilizados em uma única personagem. Essa seleção cabe somente ao
escritor, que, de acordo com a obra que deseja escrever, optará por qual
tipo de herói se encaixa melhor em sua obra.

Como já mencionado, qualquer um desses tipos de herói não


conquistaria o objetivo se não tivessem apoio de outros tipos de
personagem. Esses personagens que servem de auxilio ao herói são

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31

nomeados de coadjuvantes (sidekicks). Eles oferecem ao herói um ombro


amigo e também habilidades que eles próprios possuem para que a
protagonista consiga completar sua missão.

O coadjuvante é o tipo de personagem conhecido por ajudar o herói


em sua jornada. Seu papel é de extrema importância, pois essa
personagem carrega consigo a confiança do herói, além de ser ela com
quem o herói conversa e tira forças para enfrentar os obstáculos que estão
por vir. Na ficção, essa personagem também se torna conhecida pelo fato
de ser cômica. Esse atributo é típico da personagem, pois traz ao leitor e ao
herói um alivio em momentos tensos da trama. Por possuir esse lado mais
humorístico, ela é aparentemente retratada como estúpida e em alguns
casos como uma covarde, tornando o herói mais capaz tanto fisicamente
como mentalmente. Entretanto, também há um tipo de coadjuvante
nomeado de Herói Coadjuvante (Hero Sidekick), ou seja, assim como o
próprio herói, ele é corajoso e, dependendo da obra, ele chega a salvar o
próprio protagonista da morte.

O herói coadjuvante não é o único aliado que a personagem principal


pode obter em uma obra. A Criança Gênio (The Whiz Kid), caracterizada
pela sua inteligência, é um forte suporte que o protagonista pode usufruir
em uma trama. A Criança Gênio é também conhecida por sua capacidade
de raciocínio rápido. Ao se aliar ao herói, esse se respalda de grande
ajuda, pois tem ao seu lado alguém para ajudá-lo a elaborar táticas para
chegar ao seu objetivo. Sua sagacidade e rapidez acrescidas da coragem e
bondade do herói são uma grande arma contra o vilão.

O velho sábio é outro componente de extrema importância para o


herói da trama. Essa personagem é uma figura literária clássica, e
geralmente representada por sua bondade e sabedoria. Usualmente na
forma de um professor, sua função na obra é guiar o herói, oferecendo-o
informações para assim derrotar o vilão.

Por sua vez, o vilão é outro tipo de personagem existente em muitas


histórias. Segundo o dicionário de língua portuguesa Michaelis, vilão é
“pessoa vil, desprezível, que comete ações más ou baixas [...] que não tem
nobreza de sentimentos, quando se vê em posição elevada ou investido em

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funções autoritárias, logo revela as suas baixas tendências” (MICHAELIS,


2008). Ou seja, o vilão, ao contrário do herói, é um ser narrativo que não
tem moral, logo é capaz de tomar qualquer atitude para conseguir o que
deseja.

Outra característica semelhante entre vilões é o fato de possuírem,


assim como certos heróis, um passado atribulado. Essa semelhança entre
os dois é comparada e, ao mesmo tempo em que os unem, os separam
drasticamente. Pois, ambos reagem de formas totalmente diferentes em
relação a tal aspecto ocorrente em seus passados. Outra característica em
comum entre certos tipos de heróis e vilões é o fato de ambos terem tido
um passado pobre. Entretanto, o vilão camufla seu passado humilde ao
chegar à camada superior da sociedade. O oposto do que é feito pelo herói
que não tem vergonha de suas raízes, e sim orgulho.

Essa ascensão de classe social é possível pelo fato de alguns


antagonistas serem dotados de grande inteligência e a usam para realizar
atos de extrema crueldade. Esse tipo de vilão cuja intelectualidade se
sobressai perante os demais é nomeado de Vilão Diabolicamente
Inteligente (The Evil Master Mind Villain).

O Lorde das Trevas (Dark Lord) é outro tipo de vilão bem comum e é
complementado pelo tipo acima. O Lorde das Trevas é um dos vilões mais
temidos, pois é associado, na trama, à força maligna que impõe medo em
toda a sociedade em que o vilão vive. Ele possui um grupo extenso de
aliados, formando um exército do mal, pois sua intenção é se tornar cada
vez mais temido e poderoso. Muitas vezes, por ser um ser tão diabólico, até
seu nome é evitado de ser mencionado devido a forte onda de medo que
ele causa ao seu redor.

O Vilão Secundário (Secondary Villain), assim como o antagonista


principal, tenta prejudicar a protagonista da obra, porém sua natureza não é
tão diabólica quanto à do próprio vilão. Essa personagem não chega a
cometer crimes e assassinatos, pois ela é incapaz de realizar tais atos.
Motivada pela vaidade e pelo desejo da vitória, ela age de modo
impensável e visa somente o seu interesse; em outras palavras, é egoísta,
individualista e orgulhosa. Elas tendem a se aliar as pessoas com poder.

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São, geralmente, o ‘braço direito’ do vilão da trama; porém, na hora de


cometerem algum ato maléfico, falham. Assim, como o vilão secundário, o
Traidor Que Se Arrepende (The Repentant Traitor) tem a chance de se
retratar na obra pelos seus atos. Comum em livros infantis e filmes, essa
personagem tem sua primeira aparição na obra como vilão, e também tem
a função de conseguir informação para a antagonista principal. Para isso,
ela se aproxima no meio das pessoas ‘boas’ para adquirir as informações
de que necessita. Porém, no meio de sua missão, muda de lado, ou por
traição do vilão principal ou pelo fato de ter sido contaminada pelo ‘lado do
bem’, assim traindo o vilão. Ao fazê-lo, ela tem como característica admitir
seus erros, porém geralmente é morta ou sofre graves ferimentos ao
enfrentar o vilão traído ou alguma situação de risco contra o próprio
antagonista.

Pudemos assim, ver a diversidade de tipos de personagens


existentes, tendo em vista que somente alguns tipos foram mencionados
acima. Cabe ao escritor escolher quais tipos de personagens são
adequados à sua obra. Sabendo disso, pode misturar várias características,
criando personagens próprias. É importante enfatizar a ligação entre as
personagens, pois se complementam assim como em um complexo
quebra-cabeça. O herói necessita de seus coadjuvantes e seu mestre, pois
esses têm características que o próprio herói não possui, e juntos, eles são
mais fortes que o vilão. Já o vilão, por mais que queira prejudicar o
protagonista, por vezes possui uma ligação muito forte com este. É por
meio de seus atos de maldade que a personagem principal se torna um
herói, e também podem ser a causa de sua auto-destruição. O mesmo
acontece com o vilão secundário e o traidor. Todas as personagens , de
uma forma ou de outra, colaboram com a ascensão da personagem
principal. Sem elas, o herói nunca existiria.

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III. O HERÓÍ HARRY POTTER

A personagem principal da série de JK Rowling, Harry Potter, é o


menino Harry. Os sete livros escritos pela escritora têm o intuito de relatar a
jornada de Harry na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, além de
contar como um simples garoto consegue enfrentar uma sociedade
turbulenta cheia de preconceitos e por fim deter o terrível antagonista da
obra, Lorde Voldemort. A saga do bruxo é acompanhada pelo leitor desde
que Harry é um simples bebê, ao conseguir sobreviver ao ataque do vilão.
O feitiço lançado em Harry acaba falhando e atingindo o próprio vilão, que
some depois de tal acontecimento. Esse desaparecimento representou a
liberdade para a nação bruxa, tornando Harry um grande herói.

Após tal feito, Harry passa a ser conhecido como ‘O menino que
sobreviveu’, devido à aparente vitória contra Voldemort. É interessante
enfatizar que até então, ninguém havia sobrevivido a tal feitiço e muito
menos derrotado tal poderoso bruxo. Nem mesmo os pais do garoto
conseguiram resistir à força de Voldemort. Os dois foram mortos na mesma
noite tentando proteger seu bebê. Harry escapa ileso, porém carrega
consigo um sinal que o difere de todas as pessoas e o faz especial: uma
pequena cicatriz em sua testa. Essa marca o diferencia das personagens
restantes, pois o marca como o herói da trama. É interessante lembrar que
tais traços são comuns em narrativas, especialmente aquelas, segundo
Propp, na qual o herói geralmente é assinalado, ou seja, possui um sinal,
uma cicatriz, um ferimento, ou uma marca de nascença.

Esse acontecimento faz do garoto Potter também um herói órfão.


Porém, segundo Rowling em uma entrevista para a revista ‘Time Magazine’
no dia 27 de julho de 2005, Harry não é um pobre órfão, mas sim um bruxo

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35

saudável que vai com o tempo percebendo que o mundo mágico em que
vive possui problemas reais  constrangimento, preconceito, depressão,
maldade, pobreza e a morte. Ele logo aprende que a magia não impede os
problemas do ser humano.

Não tendo pais, Harry é levado à casa de seus tios Dursley, seus
parentes mais próximos, acompanhado de uma carta escrita pelo diretor de
Hogwarts, Alvo Dumbledore, que relata os terríveis acontecimentos. Desde
então, Harry vive com os tios e com o primo. Ao invés de ter uma vida
alegre e repleta de carinho e atenção, como toda criança deveria ter, Harry
é maltratado pelos parentes, que não ligam para o garoto e nem chegam a
mencionar o fato de ele ser bruxo e a razão verdadeira da morte de seus
pais. Ou seja, Harry vive dez anos de sua vida sem saber sua real
identidade e sem imaginar que é considerado um herói. Durante esses
onze anos, ele é obrigado a dormir debaixo da escada, não tem direito
algum na casa dos tios Durleys, só usa roupas usadas do primo e é punido
por tudo que acontece de errado.

A manifestação mágica de Harry tem início um pouco antes de seu


aniversário de 11 anos. Em momentos de medo e tristeza, os bruxos
quando crianças não possuem ainda controle sobre a magia. Ele até chega
a falar com uma cobra, o que é inusitado até no próprio mundo bruxo.
Somente ao completar onze anos, o menino recebe a visita do gigante
Hagrid que é seu primeiro contato com o mundo mágico. O gigante dá a
Harry sua identidade, contando ao menino o fato de ser um bruxo, o destino
de seus pais e da existência de uma vaga na Escola de Magia e Bruxaria
de Hogwarts. Até então, o herói era um menino normal.

[...] Harry sempre fora muito pequeno [...] um rosto magro,


joelhos ossudos, cabelos negros e olhos muito verdes. Usava
óculos redondos, remendos com uma fita adesiva [...] a única
coisa que Harry gostava em sua aparência era uma cicatriz
fininha na testa que tinha a forma de raio. (ROWLING, 2000a, p.
22)

Sua aparência não remetia a de um herói e muito menos o tratamento


que recebia na casa de seus tios. O fato de ter crescido longe do mundo
onde é famoso contribui bastante para que Harry se torne um verdadeiro
herói. Sua formação, longe da fama, torna-o humilde e livre de

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36

preconceitos, o que é necessário para o caráter desse tipo de personagem.


Tais descrições físicas e psicológicas estabelecidas pela escritora são
essenciais para a evolução da obra e para a identificação do leitor com a
personagem. Como já mencionado no capitulo anterior, tais características
enriquecem a personagem e, como conseqüência, concretizam-na no
imaginário do leitor. Como Cândido (1968, p.65) afirma, é necessário que o
leitor tenha a impressão de que a personagem vive.

Ao ser conduzido ao Beco Diagonal (Diagon Alley), lugar mágico onde


o gigante o leva para comprar seu material de Hogwarts, Harry tem de
passar pelo meio de um arco que liga Londres ao mundo mágico,
representando um divisor de águas na vida do herói, já que nesse mundo
ele é visto de forma totalmente diferente. Ele é famoso e querido. Todos
esperam bons feitos dele. As pessoas o conhecem devido à sua cicatriz
que, mesmo sendo pequena, é um marco de seu grande feito, porém, não
lembrado pelo garoto. O choque entre esses dois mundos é inerente à
narrativa segundo Propp, em que o primeiro movimento do herói é o
distanciamento de seu lar e a ida para um mundo novo, onde terá de
aprender as novas regras e enfrentar diversas provações.

É no Beco diagonal que Harry adquire sua varinha e sua coruja. Ao


mesmo tempo em que ele sente-se surpreso por ver tanta novidade, desde
os objetos vendidos nas lojas até as pessoas que passavam ao seu lado.
O menino também acaba sentindo-se tenso e temeroso em relação ao seu
futuro. Essa insegurança e uma leve pontada de medo por não saber nada
daquele mundo em que agora está inserido farão com que Harry sinta a
importância de provar que é capaz de realizar grandes atos.

O embarque de Harry para Hogwarts acontece um mês depois na


Estação King Cross. Ao atravessar outra barreira que separa o mundo
humano do mágico, mais uma vez Harry embarca em seu novo mundo. Tal
viagem de trem é feita pelos estudantes de Hogwarts todos os sete anos de
estudos. É nessa primeira viagem de trem de Harry que ele conhece seu
fiel aliado Rony Weasley e seus parentes, que proporcionarão a Harry uma
família. O garoto também conhece Hermione Granger, cujo perfil será
analisado no próximo capítulo, que futuramente será uma aliada de

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extrema importância ao garoto devido a sua inteligência. Assim como


grandes laços de amizade, as inimizades também são criadas no caminho
para o castelo, como por exemplo, Draco Malfoy.

Em sua chegada, Harry, assim como os outros alunos novatos, tem


de passar por uma seleção de casas. Hogwarts possui quatro casas:
Grifinória (Gryfindor), Sonserina (Slytherin), Corvinal (Ravenclaw) e Lufa-
Lufa (Hufflepuff). Cada casa possui características próprias que são usadas
como base para a divisão de alunos. Essa seleção é realizada por meio de
um objeto mágico, o Chapéu Seletor. Esse chapéu é colocado na cabeça
do estudante e têm o poder de ver suas qualidades, e assim o põe na casa
certa. No momento em que Harry o coloca, o leitor tem uma idéia de como
é o herói, quais são seus ideais, e o motivo de ser o protagonista da série:

‘Bastante coragem, vejo. Uma mente nada má. Há talento, ah,


minha nossa, uma sede razoável de se provar...’ (ROWLING,
2000a, p. 107).

Essa fala do chapéu deixa claro ao leitor que o garoto fará grandes
coisas e por isso deve ser observado ao longo dos sete livros.

O começo da história de Harry que acabamos de relatar é de grande


importância para entendermos o caráter do garoto e o rumo que ele próprio
tomará no desenrolar da história. Mesmo sendo dotado de tantos atributos
nobres, Harry não é o tipo de herói que vai atrás do perigo. Ao contrário, o
perigo vem ao seu encontro. Isso acontece ao garoto nesse primeiro livro
da série.

O que torna o herói especial para os leitores é o fato de ele ser um


garoto normal. Essa normalidade permite Harry ter defeitos, assim como
qualidades. Como vimos, desde o começo, Harry é caracterizado por sua
bravura. Ele age sem pensar nas conseqüências de seus atos. Assim como
toda criança, ele é afobado. Por isso, há necessidade de aliados que vão
suplantar suas falhas.

Como já dito anteriormente, a sociedade mágica em que Harry vive é


permeada de problemas. Um deles é o preconceito entre bruxos de sangue
puro, ou seja, aquele cuja toda família é bruxa, perante aqueles que
possuem família trouxa, família não bruxa. Porém, diferentemente dos

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familiares, possuem poderes mágicos. As criaturas diferentes também são


alvo, como: duendes, centauros, elfos e gigantes, entre outras. Harry se
opõe a tal preconceito e trata todos os seres com a mesma educação,
sendo sensível com todos eles, sem exceção. Com tal atitude, Harry é
respeitado e visto de maneira diferente por aqueles que sofrem tal
preconceito existente na sociedade.

Harry é o tipo de herói que se sacrifica pelo povo. Essa atitude está
em seu sangue. Ele se prontifica a tal ato para salvar sua nação, como todo
Herói Figura de Cristo.

No sétimo livro, essa característica é bem destacada em dois


momentos. O primeiro é quando o elfo Dobby morre após salvar Harry de
um grande perigo. Ao contrário de vários bruxos, que consideram elfos
domésticos criaturas de pouca importância, Harry mostra seu caráter e
cava por conta própria a cova de Dobby usando, ao invés de magia, suas
próprias mãos. Harry é tido como ‘incomum’ ao realizar tal ato, pois a
maioria dos bruxos não faria a mesma coisa por um simples elfo. O
segundo ato de bravura que leva Harry ao mesmo ato de sacrifício é
quando ele próprio se encaminha à morte, pois ele entende que morrer é o
único jeito que acabará definitivamente com Voldemort. Em nenhum
momento, Harry hesita em tal ato. Não tem medo da morte. Encara-a como
uma conseqüência, e a enfrenta, mostrando mais uma vez sua coragem.
Essa atitude heróica está impregnada na personagem. Ele, de certa forma,
acha que tem o dever de salvar todos. O dever do herói.

Outro fator que confirma seu papel como herói é o fato de que Harry
não se prende a nada. Ele é o líder. Quando em seu quinto ano Harry sofre
com as imposições da nova professora, Dolores Umbridge, e do próprio
Ministério da Magia, o garoto não se intimida. Pelo contrário, ele acaba
formando, junto com Rony e Hermione, uma Armada, cujo objetivo é reunir
alunos com a finalidade de lutarem contra as artes das trevas. Harry não
tem medo de lutar pelo que acredita, como também não teme a repressão.
Ele luta pela igualdade e acredita que todos têm um lado bom. Logo, Harry
é visto pela sociedade como ‘o escolhido’, aquele que irá derrotar
Voldemort definitivamente.

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Como mencionado anteriormente, o herói O Escolhido é também


caracterizado pela existência de uma profecia. É isso que a personagem
principal de Rowling enfrenta no quinto livro da série. Harry descobre a
existência de uma profecia que envolve tanto ele quanto Voldemort. Tal
profecia relata que:

Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se


aproxima... nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido
ao terminar do sétimo mês... e o Lorde das Trevas o marcará
como igual, mas ele terá um poder que o Lorde das Trevas
desconhece...e um dos dois deverá morrer na mão do outro pois
nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver...
(ROWLING, 2003, p. 679)

Como podemos ler no trecho acima, Harry descobre que


definitivamente é ‘o escolhido’, ou seja, a pessoa que poderá derrotar tal
vilão. Ambos estão ligados à profecia. É interessante comentar que na noite
do dia 31 de outubro, dia em que Harry nasceu, outra criança, cujos pais
também preenchiam os requisitos da profecia, veio ao mundo. No entanto,
Voldemort, com medo de que alguém pudesse ameaçar sua ascensão ao
poder, escolhe Harry e o marca como seu rival. Porém, ao decidir matar a
criança, Voldemort cometeu um erro, pois escutou só o começo da
profecia, a parte que predizia o nascimento de um menino que poderia
derrotá-lo. O antagonista agiu sem escutar a parte na qual mencionava que
tal menino teria um poder que ele próprio desconhecia. Tal poder é o amor,
um sentimento desconhecido pelo vilão, pois ele próprio nunca foi amado
por ninguém. Pelo contrário, Harry é impregnado por tal sentimento. Seus
pais o amavam tanto a ponto de morrerem para salvá-lo. Outra diferença
essencial entre Harry e Voldemort é que Harry não é intimidado pela morte,
enquanto Voldemort faz de tudo para evitá-la.

Todos os perigos que Harry tem de enfrentar estão ligados de


alguma forma a Voldemort. Assim como o vilão, a trajetória de vida de
Harry é marcada pela ausência dos pais. Ambos chegam a Hogwarts e lá
encontram um lar, o que não acontecia fora do castelo. Assim como
Voldemort, Harry possui a habilidade de falar com cobras e também sente
fortes dores na cicatriz quando o antagonista está próximo. Essas dores,
depois do quinto livro, evoluem e o garoto passa a sentir as emoções do

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bruxo. Essa conexão vai se abrangendo e, ao chegar ao último volume da


obra, Harry é capaz de saber o que o bruxo está fazendo no momento.

É graças a Voldemort que Harry sofre com a morte de várias pessoas


que amava. Entretanto, o garoto aceita a morte. Percebemos isso no
sétimo livro, quando o herói chega à conclusão de que deverá morrer para
matar o vilão. A coragem do garoto chega ao seu ápice. Lentamente, ele
vai caminhando ao encontro da morte sem pensar duas vezes, pois sabe
que, se não o fizer, mais vidas serão destruídas. Sem perceber, ele utiliza-
se do mesmo encantamento feito por sua mãe para salvar todos que ama,
o sacrifício. Mais uma vez o feitiço de Voldemort falha, porém esse seu ato
serve de escudo, protegendo todos que estão participando da guerra.

Uma característica marcante da obra é que pelo fato de o narrador ser


onisciente, temos acesso aos pensamentos de Harry. Ao obtermos esse
contato mais íntimo com a personagem, percebemos que ela não possui
somente qualidades, como também defeitos. Em conversa em um website
feita, pela editora Bloomsbury, a escritora comenta o fato de Harry não ser
um santo. Pelo contrário, segundo Rowling os principais defeitos do garoto
são sua arrogância e raiva (MUGGLENET, 2008). Harry não é apenas
composto por traços superficiais. Devido a sua complexidade, ao lermos os
livros, deparamo-nos com um herói que também possui defeitos, assim
como nós, seres humanos. O que é comum a uma personagem esférica e a
uma personagem natureza, personagens que não possuem traços
superficiais; pelo contrário, são dotadas de inúmeras características, o que
as tornam complexas.

Esse lado mais obscuro de Harry é natural a todas as pessoas e está


ligado principalmente a adolescentes. Não podemos esquecer de que Harry
tem uma vida um tanto diferente dos outros garotos de sua idade. Ele tem
de enfrentar a fama e o peso que carrega por ser o escolhido a aniquilar o
antagonista. Devido a tais circunstâncias, é compreensível o
comportamento mais alterado do herói, como acontece no quinto livro da
série. Em ‘A Ordem da Fênix’ percebemos que logo no começo do livro,
Harry já está no seu limite, pois está trancafiado na casa dos tios sem
nenhuma notícia sobre o mundo mágico, sendo que ele, no livro anterior,

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havia presenciado o retorno de Voldemort. Em outras palavras, o garoto


acaba se sentido rejeitado. Conseqüentemente, ao ser levado junto a seus
amigos, há um desabafo um tanto irritado do garoto. Ao longo desse livro,
observamos várias situações, como essa em que Harry não consegue
controlar seus sentimentos e desconta sua raiva, a maior parte das vezes,
sobre Rony e Hermione. A situação se agrava quando seu padrinho Sirius
Black é morto por um Comensal da Morte, o que leva a Harry a chegar a
seu limite e praticar um feitiço imperdoável contra o assassino. Porém, é
essencial comentar que Harry não é um assassino. Por mais que esteja no
seu limite, ele é incapaz de matar alguém, pois seu lado bom prevalece.

A arrogância do garoto faz parte de sua personalidade. Acreditamos


que, ao ir para Hogwarts e ter contato com a fama e pelo fato de lidar com
situações incomuns à maior parte da nação, Harry acaba se sentindo um
pouco orgulhoso de si mesmo. Mesmo sabendo que seus feitos vitoriosos
não podem ser concretizados sem ajuda de seus aliados, Harry tem noção
que arrisca mais do que os outros, expondo-se ao perigo. Logo, ele se
sente em certas ocasiões superior aos outros. De novo, no quinto volume
da série, Harry presencia a escolha de seus dois melhores amigos para
serem os monitores de Hogwarts, ou seja, são encarregados de tarefas
extras no castelo cujo objetivo é manter a ordem. Os escolhidos para tal
tarefa, geralmente, são dois dos melhores alunos do ano.

Quando Harry percebe que não foi o escolhido ao cargo, ele se sente
decepcionado ao ver o amigo ganhar o distintivo de monitor. Acostumado a
sempre ser considerado superior a Rony, ele chega a se questionar sobre
tal escolha, pois acredita ser melhor que o amigo:

Não podia mentir para si mesmo; se tivesse sabido que o


distintivo de monitor estava a caminho, teria esperado que
viesse para ele e não para Rony [...] lembrando-se do que Fred
dissera: ‘Ninguém com o juízo perfeito nomearia Rony monitor...
’[...] Um segundo depois Harry sentiu nojo de si mesmo.
(ROWLING, 2003, p. 139)

Harry se arrepende de tais pensamentos e constata sua própria


arrogância, envergonhando-se da maneira com que se julga superior ao
amigo. Tais pensamentos têm o intuito de mostrar ao leitor que Harry é um
ser humano, e que mesmo possuindo excelentes qualidades também

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possui defeitos. Por reter tais características, percebemos que o garoto


sempre acaba infringindo leis. Mesmo que a maioria das vezes tais
infrações sejam por uma boa causa, as leis não impedem Harry de ir atrás
do que deseja. Seu ego não o deixa parar, pois ele é movido por sua
necessidade de salvar as pessoas e resolver situações que possam colocar
outros em risco.

A evolução da personagem ao longo dos livros é bem perceptível.


Como já mencionado em capítulos anteriores, as crianças de Rowling
crescem ao longo da história. Para Harry derrotar Voldemort no último livro
da série, ele teve de evoluir psicologicamente, deixar de ser criança e
tornar-se um adulto. Esse crescimento da personagem é visível aos leitores
no decorrer dos livros, por meio de seus atos. No sexto livro, ele começa a
dar mais valor aos seus colegas, pois são eles que estão ao seu lado para
apóia-lo em qualquer situação. Ao permitir a ajuda de aliados, podemos ver
que Harry realmente cresceu ao longo do livro, pois mais uma vez ele
percebe que necessita de toda a ajuda possível. E descobre em quem
realmente pode confiar. Além de seus amigos, Harry também encontrará o
amor em Gina, irmã caçula de Rony. Gradualmente, Harry vai percebendo
que ela é o par ideal para ele, pois ela é corajosa, poderosa, esperta,
carinhosa e engraçada, ou seja, ela é o que Harry precisa. Ele é o herói da
série. É famoso e tem em seu futuro o objetivo de derrotar Voldemort. Logo,
precisa de alguém que entenda suas responsabilidades e não se
contraponha a elas. Destemida, ela não se importa e fica ao lado do garoto,
sem impedi-lo de seguir a sua missão.

Toda essa jornada traçada pelo herói se enquadra em vários aspectos


no modelo de narrativa definida por Propp. Assim como o herói proppiano,
Harry passa por várias provações, como vemos no quarto livro da série, em
que Harry participa de um torneio no qual ele deve realizar diversas tarefas
que não só requerem grande concentração e agilidade, como também
conhecimentos de feitiços e precisão ao aplicá-los.

Podemos concluir, após este capitulo, que Harry Potter é um perfeito


herói, pois possui todas as características necessárias, mesmo não tendo o
perfil de tal. Seus atos o fazem um modelo para toda uma sociedade e o

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singularizam. São tais aspectos que fazem com que essa personagem de
Rowling se sobressaia no cenário mundial. Por meio dos livros,
acompanhamos como um garoto igual a tantos outros consegue reunir
forças e utilizar sua coragem e seu coração para trazer ao se mundo a
liberdade e a paz que tanto deseja.

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IV. AS PERSONAGENS SECUNDÁRIAS

Foi mencionada, reiteradas vezes em capítulos anteriores, a


importância das personagens secundárias para o herói na obra. Sem tais
personagens, esse tipo de obra não teria sentido e muito menos um herói.
Para que este exista, há a necessidade, nesse tipo de narrativa, de uma
trama que imponha à protagonista obstáculos e ajuda para enfrentá-los. Isso
será feito com a interferência das personagens secundárias.

As personagens que mencionarei neste capitulo são as que obtiveram a


maior influência na caminhada de Harry Potter à vitória final. Todas são
personagens esféricas e personagens natureza, logo dotadas de
complexidade. Também possuem características próprias que a diferenciam
umas das outras, ou seja, são únicas e tem seu papel na obra definido.
Porém, sempre giram em torno da protagonista. É para isso que existem,
para dar assistência ou proporcionar dificuldades ao herói.

Quando mencionamos o herói, logo vem a nossa mente o vilão. No


caso de Harry Potter, o principal antagonista da obra é Lorde Voldemort.
Porém, o verdadeiro nome do vilão é Tom Marvolo Riddle, Ele cresceu em
um orfanato trouxa na Inglaterra sem nunca ter conhecido seus pais e suas
raízes. Logo que descobriu seus poderes, ao contrário de outras crianças
bruxas que não possuem controle sobre tal manifestação mágica, Tom desde
pequeno já os dominava:

‘Sei fazer as coisas se mexerem sem tocar nelas. Sei fazer os


bichos me obedecerem sem treinamento, sei fazer coisas ruins
acontecerem a quem me aborrece. Sei fazer as pessoas sentirem
dor, se quiser’. (ROWLING, 2005, p. 213)

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Além de controlar tais poderes, ele já os usava contra as pessoas com


a intenção de amedrontar, castigar e dominar, o que é um comportamento
estranho para uma criança de apenas 11 anos. Ele possui um poder
extraordinário em comparação com crianças de sua idade.

Assim como Harry Potter, Voldemort é orfão e teve uma infância infeliz,
mas há grande diferença entre ambos. Harry fora amado por seus pais. Sua
mãe sacrificou-se por ele. Já a mãe de Tom morre devido ao desgosto de ter
sido abandonada pelo companheiro. Ela desiste da vida, morre sem se
importar com o filho, deixando este aos cuidados do orfanato, assim como o
próprio pai do garoto, que abandona a mulher e o filho, antes mesmo desse
nascer. Essas características farão do garoto um Vilão Diabolicamente
Inteligente.

Tal inteligência torna-se mais acentuada durante seus anos de estudo


em Hogwarts. Ele torna-se um dos alunos mais brilhantes que a escola já
presenciou. É surpreendentemente inteligente, educado com os professores,
simpático, ou seja, nunca ninguém desconfiaria que ele usaria todos esses
atributos para o lado do mal. É nessa época que Tom Riddle cria seu novo
nome Lorde Voldemort e começa a reunir aliados. Outra característica bem
distinta do vilão é que ele não considera ninguém seu amigo. Ele
simplesmente usa as pessoas para seus próprios interesses. No momento
em que não lhe oferecem mais nada, ele as descarta sem nenhuma piedade.

Tais atitudes o levam a ser futuramente um Lorde das Trevas


tradicional, pois ao reunir aliados, formando um verdadeiro exército cujo
objetivo é o poder total sobre uma nação, ele concretiza tal nomeação. Outro
aspecto que complementa tal classificação é o fato de a maioria da
população evitar falar seu nome, e chamá-lo de Você-Sabe-Quem. Sua
figura é tão intimidante que a simples menção de seu nome inspira medo.

Essa sede pelo poder, no entanto, não é bem administrada pelo vilão.
Apesar de sua genialidade, o vilão Voldemort tem medo da morte. Essa é a
razão que o leva a criar Horcruxes, tentar se apoderar da pedra filosofal e
perseguir Harry. Essa sua busca pela imortalidade torna-se uma obsessão.
Ao escutar metade da profecia, Voldemort não se interessa em escutá-la por
completo. Simplesmente pensa que o mais óbvio é cortar o mal pela raiz, ou

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seja, matar o bebê. Ao falhar, devido à proteção do sacrifício da mãe de


Harry, o antagonista acaba marcando-o como igual e concretizando a
profecia. Desde então, o vilão tem como necessidade o confronto contra o
menino, pois, para ele, é inaceitável o fato de ter sido derrotado por um bebê.
Tal derrota afeta seu ego e faz com que o aniquilamento de Harry seja uma
das suas prioridades. A partir de tal momento, Voldemort entra para esfera
do vilão segundo o russo Vladimir Propp; em outras palavras, o agressor
almeja prejudicar o herói de várias maneiras visando sua morte.

Mesmo tendo um antagonista principal em uma obra, há casos em que


há também o vilão secundário. Tal personagem tem a mesma função da
personagem do parágrafo acima, fazer mal ao herói. Porém, ela é incapaz de
cometer um assassinato, pois não é tão diabólica a ponto de efetuar tal ato.
Na obra de Rowling, vemos tais características em Draco Malfoy: um menino
de cabelos loiros, rosto pálido, comprido e olhos acinzentados. Tal
personagem também é caracterizada por sua covardia e arrogância. Sempre
acompanhado pelos seus comparsas Grabe e Goyle, ele intimida as pessoas
psicologicamente e só preocupa-se com si mesmo.

Sua relação com Harry é intensa desde o começo. Quando Draco


zomba de Rony Weasley pelo fato de este ser pobre, Harry
instantaneamente percebe o seu caráter e, desde então, sua inimizade com
o garoto é constante. Draco tenta de tudo para ser melhor do que os outros
principalmente do que Harry, seu maior rival. No entanto, o herói possui mais
habilidade que o garoto que, como último recurso, acaba apelando para a
desonestidade, ou seja, muitas vezes tenta se impor por meio de trapaça.

É interessante destacar que sua família é praticante de arte das trevas.


Seu pai, Lúcio Malfoy, é um seguidor de Voldemort, cargo que será seguido
pelo menino no sexto livro da série. Ao se tornar um Comensal da Morte,
Draco acaba não agüentando tal pressão. Porém, o garoto consegue realizar
a missão que lhe foi encarregada. Ainda assim, no desfecho em que precisa
matar o diretor de Hogwarts, ele baqueia e não consegue cometer tal ato. O
medo toma conta dele. Então, Snape conclui o trabalho do garoto, ou seja,
mata Dumbledore.

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Mesmo assim, se compararmos ambas as personagens acima com o


esquema feito por Propp, observamos que as duas se encaixam na esfera do
agressor. Como já comentamos anteriormente, o agressor é caracterizado
por fazer mal ao protagonista e tanto Draco como Voldemort proporcionam
perigos a Harry. Tais obstáculos fazem com que a personagem principal da
obra se torne um herói.

Mencionada logo acima, outra personagem da série é o professor


Severo Snape. Porém, diferentemente do antagonista principal e do vilão
secundário, essa personagem é nomeada de o Traidor Que Se Arrepende. A
primeira impressão que temos do professor de poções é a de antagonista,
devido ao jeito como trata o herói. Fica bem claro, tanto para Harry como
para o leitor, que o professor trará problemas ao garoto.

Esse comportamento contra o menino é constante. Porém, em algumas


situações, Snape defende Harry, como por exemplo, no primeiro livro,
quando Harry e seus amigos pensam que ele está ajudando Voldemort a
roubar a pedra filosofal. No final do livro, eles descobrem que o professor
está fazendo o oposto. Situações como essa deixam as personagens e o
próprio leitor em dúvida sobre a identidade da personagem. No decorrer dos
livros, aprendemos que Snape fôra um dia Comensal da Morte, mas se
arrependeu de tal escolha e mudou de lado. Essa atitude confirma sua
classificação como o traidor que se arrepende.

A partir desse momento, passa a ajudar Dumbledore. Sua missão é


continuar ao lado de Voldemort, fingindo sua lealdade ao antagonista que,
por sua vez, confia nele. O motivo que leva o bruxo a tal perigoso ato é o
amor que possuía pela mãe de Harry. Snape foi o comensal que contou a
Voldemort parte da profecia; logo, sente-se culpado pela morte dos Potter e,
conseqüentemente, obrigado a proteger Harry e ajudá-lo a destruir o vilão.

Contudo, não podemos considerar Snape um herói da história, pois


mesmo sendo corajoso ao cumprir essa missão de espião, possui muitos
defeitos. “Ele é malvado. Ele é um intimidador. Todas essas coisas ainda são

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verdade em Snape, até mesmo no final deste livro. Mas, ele foi corajoso?
Sim, imensamente” (VIEIRA, 2008, tradução nossa)2.

Por meio desta citação de Rowling feita em uma entrevista para o


programa Today Show da rede de televisão BBC, a escritora confirma a má
índole de Snape que, mesmo após sua corajosa atitude, ainda o caracteriza.
Ele ainda continua sendo uma personagem amarga e um pouco cruel. No
entanto, mostrou lealdade a quem sempre amou.

Outras figuras importantes e geralmente presentes em narrativas são o


doador e o auxiliar. O doador, como já foi explicitado em capítulos anteriores,
é aquele que oferece ao herói um objeto mágico. Já o auxiliar guia o herói,
oferecendo-o conhecimentos diversos que serão úteis em sua missão.

Essas figuras narrativas são unificadas em Harry Potter na figura de


Alvo Dumbledore. Célebre por sua sabedoria e poder, ele passa a Harry, ao
longo dos livros, as informações que o garoto necessita obter para um dia
conseguir aniquilar o vilão. Conhece Voldemort muito bem e sabe que o
único que pode derrotá-lo é Harry. Sabendo disso, prepara Harry para tal
confronto. Essa preparação intensifica-se no sexto ano de Harry, quando o
garoto passa a ter aulas particulares com o diretor. Por meio de seu auxílio, o
garoto toma consciência de que o vilão detém Horcruxes, e precisa destruí-
las para assim conseguir matar o antagonista.

Devido à sua bondade e inteligência, Dumbledore é admirado por vários


bruxos. Não podemos esquecer que além de oferecer ao herói armas e
conhecimento para lutar contra o vilão, também submete-o a lições morais.
No segundo livro, há um momento em que Harry teme suas semelhanças
com Voldemort. O diretor de Hogwarts o tranqüiliza dizendo ao garoto: “São
as nossas escolhas, Harry, que revelam o que realmente somos...”
(ROWLING, 2000b).

Tendo em vista tal exemplo, percebemos que ele possui realmente um


papel de mentor. Tal característica também nos permite chamá-lo de Velho

2
“[…] He's spitful. He's a bully. All these things are still true of Snape, even at the end of this
book. But, was he brave? Yes, immensely.”

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49

Sábio. Essa sabedoria é usada para guiar a personagem principal, assim


possibilitando-a de realizar grandes feitos.

As duas últimas personagens que serão mencionadas são sem dúvida


de extrema importância para Harry. Nomeadas por Propp de auxiliar,
oferecem ao garoto as qualidades que ele não possui e o ajudam até o fim
de sua jornada, compartilhando de todos os momentos.

“Ele está sempre lá quando você precisa dele, esse é Rony Weasley”
(THOGERSEN, 2008). Essa descrição foi feita por Rowling no documentário
especial ‘Harry Potter and me’, apresentado pela rede de televisão inglesa
BBC em 2001. Como a própria escritora citou, a personagem está ao lado de
Harry sempre que este precisa. Rony exerce perfeitamente o papel de
coadjuvante que é o de apoiar o herói e possui diversas características que
um coadjuvante necessita. Não só dá assistência ao herói, como também é
leal e possui um grande senso de humor, o que alivia a tensão da
protagonista.

Rony é o sexto de sete filhos dos Weasley, uma antiga família de


bruxos. Ele é alto, desengonçado, tem olhos azuis, muitas sardas e cabelo
vermelho. O fato de ser o filho homem mais novo faz com que ele seja
muitas vezes inseguro, devido à pressão de ter de seguir os passos dos
irmãos, que são bem sucedidos:

‘Sou o sexto de minha família a ir para Hogwarts. Pode-se dizer


que tenho de fazer justiça ao nosso nome. Gui e Carlinhos já
terminaram a escola. Gui foi chefe dos monitores e Carlinhos foi
capitão do time de quadribol. Agora Percy é monitor. Fred e Jorge
fazem muita bagunça, mas tiram notas muito boas e todo mundo
acha que eles são realmente engraçados. Todos esperam que eu
me saia tão bem quanto os outros, mas se eu me sair bem, não
será nada de mais, porque eles fizeram primeiro. E também não
se ganha nada novo quando se tem cinco irmãos. Uso as vestes
velhas de Gui, a varinha velha de Carlinhos e o rato velho de
Percy’. (ROWLING, 2000a, p. 89)

Após tal fala, é possível notarmos a pressão exercida sobre a


personagem, causando uma mistura de ciúmes e inferioridade por ser
preterida tantas vezes. Esse sentimento se torna às vezes mais intenso em
sua amizade com o herói. É bom lembrarmos que Harry é famoso; logo, ele
atrai todas as atenções, o que deixa Rony muitas vezes chateado. Essa

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atitude também mostra a ambição da personagem em querer se tornar bem


sucedida. Porém, ele aprende com o tempo a colocar esse seu sentimento
de lado e, assim, permanecer ao lado do herói, oferecendo-lhe toda a ajuda
possível.

Diferentemente de vários coadjuvantes cujo objetivo é realçar a


imagem do herói, Rony se difere deles por causa de sua coragem. È essa
característica que vai caracterizá-lo como herói coadjuvante, ou seja, ele é
corajoso assim como o próprio herói, chegando a salvá-lo da morte. Se for
preciso, Rony sacrifica-se para salvar o amigo. È exatamente isso que ele
faz no último livro. Ao ver Harry se afogando em um lago extremamente
gelado, ele não hesita em arriscar sua própria vida pulando na água para
salvar o amigo.

Além do apoio que dá a Harry ao longo dos livros, ele e seus pais,
proporcionam ao garoto o que lhe faz mais falta: uma família. Rony também
possui um grande coração, pois é uma pessoa bondosa e se preocupa com
o bem estar das pessoas ao seu redor. É também movido por emoções, do
mesmo jeito que o herói. Assim, muitas vezes age sem pensar nas
conseqüências. Logo, os dois amigos precisam aprender a controlar suas
emoções e começar a raciocinar antes de agir. É nesse momento que
percebemos a importância de outra coadjuvante, mais particularmente uma
criança gênio, que suplantará tal necessidade.

É com essa necessidade que Rowling cria Hermione Granger, cujas


características são o “[...] tom de voz mandão, os cabelos castanhos muito
cheios e os dentes da frente meio grandes” (ROWLING, 2000a, p. 94).
Essa é primeira visão que temos da garota. Dotada de grande inteligência,
Hermione parece primeiramente uma menina um pouco arrogante,
autoritária e irritante. Hermione tomará o papel de ‘cérebro’ do grupo. Ela,
diferente dos dois meninos, é puramente racional, ou seja, tem a
capacidade de deixar suas emoções de lado e agir por meio da lógica.

Sempre acompanhada de livros, extremamente preocupada com


regras e dotada de um ar intelectual, Hermione demora um pouco para se
tornar amiga de Harry e Rony. Geralmente, a personagem criança gênio
tem problemas com a falta de confiança, motivo que a leva a se esconder

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por trás dos livros e a usar sua inteligência, na maioria das vezes
avançada, para não demonstrar tal deficiência.

Essa falta de insegurança vai desaparecendo à medida em que é


aceita por Harry e Rony. A partir de então, ela se torna mais maleável e
uma grande ajuda para Harry em sua missão. Seu grande poder de
raciocínio e de liderança faz com que ela se torne uma personagem
feminina muito forte na trama.

Hermione acaba tomando a posição de protagonista feminina da


série. Rowling faz dela um destaque, pois não é comum vermos
personagens femininas com racionalidade igual à dela. Além disso, pois
possui uma visão analítica de outras pessoas e extrema capacidade de
atuar sobre pressão. Sua memória é também arma importantíssima, ela
possui uma impecável habilidade em reter informações e também tem forte
posição crítica. Em contraposição aos seus dois amigos, Hermione, antes
de agir, analisa cuidadosamente a situação, não colocando suas emoções
em primeiro plano.

A menina também representa a Harry uma figura materna em certos


momentos, pois o herói a permite dar-lhe instruções e conselhos, tanto em
assuntos que envolvam Voldemort como em seus dilemas pessoais.
Porém, em relação a Rony, ela não tem sucesso. Por mais que ele respeite
as decisões e opiniões da amiga, ao contrário de Harry, ele não aceita as
imposições da garota, o que gera conflitos entre ambos. Em muitas partes
do livro, percebemos que o ponto fraco de Hermione é Rony Weasley. Os
únicos momentos em que a vemos perder seu controle emocional são as
discussões com o amigo. Essa tensão entre os dois vai aumentando ao
longo dos livros. Porém, percebemos que eles se importam muito um com o
outro e se completam emocionalmente. Eles são o oposto um do outro.
Enquanto Rony é movido pela emoção, Hermione se norteia pela razão. Do
mesmo jeito que ela precisa saber aprender a lidar melhor com suas
emoções, Rony necessita trabalhar sua racionalidade aprendendo a agir
sem tanta afobação. Para tal, eles, ao longo do livro, têm de aprender a
colocar o orgulho de lado, o que favorece e consolida a relação entre os

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dois. Quando juntos, eles se completam e essa ligação favorece ainda mais
a caminhada de Harry à vitória contra o mal.

A junção de todas essas qualidades de Rony e Hermione oferece a


Harry poder e o torna apto a destruir Voldemort. A importância dessas duas
personagens são essenciais para o herói. Sem uma delas, ele não chegaria
a seu objetivo. Sem Hermione, o herói não teria conhecimento, visão
crítica e habilidade precisa em formular planos. Sem o bom humor e o bom
coração de Rony, o garoto não agüentaria a pressão de sua jornada.

Concluímos que a protagonista não teria a posição de herói sem a


existência das personagens secundárias. Além disso, são essenciais para o
andamento de uma história que não teria sentido sem a presença de tais
seres narrativos. Sua importância na obra é a mesma da do herói, que, por
sua vez, não existiria sem os perigos proporcionados pelos vilões, sem a
ajuda do mentor, sem os recursos do doador e, muito menos, sem o apoio
que lhe é atribuído ao decorrer de toda obra pelos auxiliares. Enfim,
podemos perceber que a narrativa é semelhante a um quebra-cabeça,
onde juntam-se peças de diversos tamanhos e formas para, assim,
completá-lo e construir seu verdadeiro sentido

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CONCLUSÃO

Ao término deste trabalho, pudemos confirmar a importância dos


seres narrativos por meio da análise da obra de Rowling. Estudamos tais
personagens com o intuito de mostrar suas diversas formas e a intensidade
de suas distintas naturezas.

Percebemos que, mesmo não sendo reais, a elas são atribuídos


sentimentos e vontades próprias, tornando-as concretas no imaginário do
leitor.

É notória a importância da autora no mercado literário mundial. Logo,


escolhemos sua obra para desenvolvermos o tema do trabalho com o
intuito de desvendarmos o segredo de seu êxito. No decorrer dos dois
últimos capítulos, foi perceptível a complexidade que Rowling impregnou
em suas personagens. Tanto o herói quanto as personagens secundárias
possuem qualidades e defeitos que os aproximam do leitor,
independentemente de faixa etária. Não é por acaso que suas personagens
são conhecidas no mundo inteiro. Elas detêm personalidades que as
destacam perante outras, o que as torna imprevisíveis, assim prendendo a
atenção do leitor, ou seja, envolvendo-o na história. Também foi
interessante observar como os heróis necessitam das personagens
secundárias para concretizarem seu sucesso na obra. Esse fator é bem
perceptível nos livros de Rowling. Por mais que seja um herói, Harry não é
capaz de ser vitorioso sem ajuda ou obstáculos impostos pelas outras
personagens.

Tendo em vista essas circunstâncias, também aplicamos as teorias


feitas por estudiosos consagrados na literatura mundial. O objetivo do
trabalho foi realmente provar a pertinência das personagens em narrativas
dessa estirpe e constatar como elas dependem uma das outras para o

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desenrolar da trama em que estão inseridas. Também tivemos a


preocupação em mostrar como tais seres narrativos podem ser variados e
os diversos papéis que podem assumir. Vimos que o escritor é fundamental
para determinar quais tipos de personagem serão eficazes em sua história
e, portanto, as diversas escolhas que pode fazer.

Por fim, fizemos esse trabalho com o intuito de salientar a


necessidade desses seres narrativos e como estes podem atingir
patamares diferentes em uma obra. Eles criam vida no imaginário do leitor,
o que é fascinante se pensarmos que são feitos de tinta e da criatividade do
escritor.

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