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JAILSON GOMES DA SILVA

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS

A COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL NO ATO INTERPRETATIVO

SANTOS - 2007

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1

JAILSON GOMES DA SILVA

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS

A COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL NO ATO INTERPRETATIVO

Trabalho de Conclusão de Curso,


apresentado como exigência parcial para
obtenção do grau de Bacharel em
Tradução e Interpretação, à Universidade
Católica de Santos.

Orientadora: Profª. M.Sc. Carlota Frances


Williams Lopes.

SANTOS - 2007

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JAILSON GOMES DA SILVA

A COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL NO ATO INTERPRETATIVO

Banca Examinadora:

_____________________________________________________
Profª. M.Sc. Carlota Frances Williams Lopes, Unisantos

_____________________________________________________
Prof. Me. José Martinho Gomes, Unisantos

SANTOS – 2007

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Dedico esse Trabalho de Conclusão de Curso à minha família que sempre esteve
presente nos momentos mais importantes da minha vida e pela qual nutro o mais
profundo sentimento de amor, admiração e respeito.

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Agradeço a Deus pelo princípio vital e inteligente.

Agradeço ao Corpo Docente do curso de Tradução e Interpretação da Unisantos


que muito contribuiu para minha formação acadêmica, em especial à Professora Carlota
Frances Williams Lopes pela valiosa orientação e confiança depositadas em nosso
trabalho, ao Professor José Martinho Gomes por gentilmente ter aceitado fazer parte da
Banca Examinadora e à Professora Gisela da Rocha e Silva Guidi pela dedicação e
carinho dispensados.

Agradeço aos meus companheiros de classe pelos momentos inesquecíveis que


compartilhamos.

Agradeço aos meus queridos amigos pelo incentivo e apoio incondicional.

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“We speak with our vocal organs, but we


converse with our body.”

(Abercrombie)

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SILVA, Jailson Gomes da. A comunicação não verbal no ato interpretativo. Santos,
105 p. (Trabalho de Conclusão de Curso) Universidade Católica de Santos, 2007.

Resumo

A partir da segunda metade do século XX, logo após o término da Segunda Guerra
Mundial, e mais atualmente com o advento da globalização, o mundo viu-se obrigado a
se reorganizar geopoliticamente, o que resultou no estreitamento das relações
internacionais. Nesse sentido, os intérpretes exercem um papel fundamental na
sociedade, pois ao transitarem entre universos lingüísticos distintos, facilitam a
aproximação dos povos. O ato interpretativo é a transferência de mensagens de uma
língua para outra. Ocorre que parte dessa mensagem é de natureza não verbal, o que
pode representar um desafio para o profissional inexperiente. Esse trabalho tem por
objetivo analisar a comunicação não verbal no ato interpretativo. Para fins de análise,
definimos e categorizamos o comportamento não verbal, segundo Argyle, Poyatos e
Besson et al. e observamos como o profissional intérprete faz a transferência desses
elementos durante a interpretação. Interpretar é transferir mensagens, e a boa
transferência não depende apenas do volume de informações verbais presentes no ato
enunciativo, mas também de nossa capacidade de extrair o máximo de significado dos
elementos não verbais disponíveis.

Palavras-chave: comunicação não verbal; ato enunciativo; comportamento não verbal;


ato interpretativo; transferência de elementos não verbais.

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SILVA, Jailson Gomes da. Non-verbal communication in interpreting. Santos, 105 p.


(Trabalho de Conclusão de Curso) Universidade Católica de Santos, 2007.

Abstract

From the second half of the 20th century onwards, soon after the end of World War II
and more recently due to globalization, the world has been forced to reorganize itself
geopolitically, which has spurred international relations. Therein, interpreters play an
important role in society since they are constantly moving through different linguistic
universes, thus facilitating the relationship among people. Interpreting consists in
transferring messages from one language into another. However, part of these messages
is of non-verbal nature, which presents a challenge to the inexperienced interpreter. The
objective of this paper is to analyze non-verbal communication in interpreting. In order
to carry out this analysis, we have defined and categorized non-verbal behavior
according to Argyle, Poyatos and Besson et al. We have also observed how interpreters
convey these non-verbal elements during the act of interpreting. Interpreting is the
transfer of messages, and a good transfer does not depend only on the amount of verbal
information present in the speech, but also on the capacity to make the most out of the
non-verbal elements available.

Keywords: non-verbal communication; speech; non-verbal behavior; interpreting;


transfer of non-verbal elements.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO................................................................................................... 10

CAPÍTULO PRIMEIRO...................................................................................... 14
1. INTERPRETAÇÃO: HISTÓRIA E DEFINIÇÃO................................. 14
1.1. A história da interpretação: dos primórdios aos dias atuais................. 14
1.2. O ato interpretativo............................................................................... 23
1.3. Interpretação consecutiva, simultânea e chuchotage (WI)................... 25

CAPÍTULO SEGUNDO...................................................................................... 32
2. COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL........................................................ 32
2.1. Introdução à comunicação não verbal.................................................. 32
2.2. Considerações teóricas......................................................................... 32
2.3. CNV: Comunicação Não Verbal.......................................................... 37
2.4. O verbal versus o não verbal................................................................ 38
2.5. Os principais sinais não verbais humanos............................................ 41
2.6. Corpo, CNV e arte................................................................................ 46

CAPÍTULO TERCEIRO......................................................................................51
3. COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL NA INTERPRETAÇÃO................ 51
3.1. CNV e interpretação............................................................................. 51
3.2. Categorias funcionais e morfológicas do comportamento não verbal.. 52
3.3. Elementos não verbais pertinentes à interpretação............................... 56
3.4. O desafio do intérprete ao interpretar o não verbal...............................60
3.5. Interpretando elementos não verbais: aspectos neurofisiológicos........ 62
3.6. O papel da inteligência emocional........................................................63
3.7. Transferência de elementos não verbais do intérprete para a platéia....64

CAPÍTULO QUARTO..........................................................................................70
4. ANÁLISE DO CORPUS......................................................................... 70
4.1. O intérprete em ação: apresentação do corpus..................................... 70
4.2. Treinamento de interpretação consecutiva (Unisantos)........................72
4.3. A intérprete........................................................................................... 77
4.4. Justiça vermelha....................................................................................80
4.5. Encontros e desencontros......................................................................81
4.6. Espanglês.............................................................................................. 83
4.7. Catherine Tate: um momento de descontração.....................................87

CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................90
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.................................................................94
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA...................................................................... 98
ANEXOS.............................................................................................................. 100

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INTRODUÇÃO

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10

INTRODUÇÃO

As fronteiras estabelecidas pela pluralidade de idiomas existentes no mundo são


transpostas por aqueles que, como os intérpretes, transitam sobre pontes que unem
universos tão lingüisticamente diferentes quanto culturalmente diversificados. “Com a
cabeça adornada por fones de ouvidos e um microfone que o deixa parecido com um
pop star” (MAGALHÃES JR., 2007, p. 184), o intérprete inspira um certo glamour aos
observadores mais incautos. A despeito dessa falsa primeira impressão, dois aspectos –
um extrínseco e outro intrínseco à profissão de intérprete – precisam ser levados em
consideração. O primeiro, de ordem sócio-econômica, nos revela um cenário
profissional nacional ainda em formação. Diferentemente de outros mercados de
trabalho, o intérprete no Brasil ainda encontra dificuldades para exercer sua função. O
futuro, no entanto, descortina-se mais promissor, haja vista que desde meados da década
de noventa a economia brasileira demonstra ter recuperado fôlego, o que tem atraído o
investimento do capital estrangeiro e melhorado, consideravelmente, os indicadores
econômicos nacionais. Isso significa uma intensificação das relações comerciais com
outros países, notadamente aqueles da Europa, do Mercosul, da América do Norte, das
economias asiáticas em franca ascensão (China e Índia) e dos chamados Tigres
Asiáticos (Taiwan e Coréia). Visando uma melhor prestação de serviço e qualidade de
padrão internacional para seus produtos, os empresários brasileiros têm buscado maior
integração com esses mercados, resultando em investimentos voltados para a
capacitação de mão de obra, o aperfeiçoamento tecnológico e de infra-estrutura. Como
conseqüência, o que temos visto é um número cada vez maior de simpósios,
conferências e encontros internacionais, principalmente nos grandes centros econômicos
do país, o que se traduz em fértil campo de trabalho para o intérprete. A Europa, por
outro lado, absorve a crescente demanda de mão de obra daqueles que abraçam essa
profissão. O Parlamento Europeu – órgão criado nos anos 50 para regular as transações
entre os países membros – é a instituição que mais contrata intérpretes no mundo,
seguida provavelmente pela O.N.U. e a Corte de Justiça Européia. Atualmente o
Parlamento Europeu trabalha com 20 línguas, o que representa oportunidades de
emprego para muitos profissionais.
Se por um lado ainda não alcançamos a plenitude profissional dos europeus no
tocante à colocação no mercado de trabalho, pelo menos podemos dedicar nosso tempo
ao aprimoramento das habilidades interpretativas. Isso nos leva a refletir sobre o

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segundo aspecto mencionado, de ordem lingüístico-cultural, – aquele de natureza


intrínseca à interpretação – e que deu origem ao objeto de estudo de nosso trabalho, ou
seja, analisar os comportamentos não verbais no ato enunciativo e a transferência dessas
ocorrências durante o ato interpretativo para a platéia. Para justificar a escolha do tema,
é necessário ter em mente que, como intérpretes, devemos ter o perfeito domínio de
nossa língua materna e um profundo conhecimento de, pelo menos, uma outra língua.
Contudo, o conhecimento da língua é apenas uma dessas ferramentas. Muitas pessoas
podem falar bem idiomas estrangeiros, mas poucas serão bons intérpretes. Nesse
sentido, para realizar uma boa interpretação, acreditamos ser necessário incluir todas as
possibilidades (ferramentas) disponíveis. A interpretação implica a transmissão da
mensagem de um discurso que não é formado apenas de elementos verbais, mas
também de importantes ocorrências não verbais que dão suporte e até mesmo
substituem a comunicação verbal e que são ferramentas utilíssimas a serem usadas pelo
intérprete. Se é verdade que todo ato enunciativo é acompanhado e amparado pela
comunicação não verbal, podemos deduzir que todo ato interpretativo – também uma
forma de ato enunciativo – é subsidiado por comportamentos não verbais. Para melhor
desenvolver esse silogismo, decidimos dividir o nosso trabalho em quatro capítulos.
No Capítulo Primeiro, faremos uma incursão histórica com o propósito de situar
no tempo e espaço a interpretação como atividade humana. Na seqüência, definiremos
interpretação e traçaremos um paralelo entre Interpretação Simultânea, Consecutiva e
Sussurrada, assinalando as principais diferenças entre elas.
No Capítulo Segundo, apresentaremos as considerações teóricas que procuram
explicar a origem do comportamento não verbal na comunicação verbal humana,
definiremos comunicação não verbal, contrastaremos comunicação verbal e não verbal,
apontaremos os principais sinais não verbais utilizados pelo homem e, por fim,
discorreremos sobre a relação que há entre o corpo humano, a comunicação não verbal e
a arte.
No Capítulo Terceiro, associaremos a comunicação não verbal ao ato
interpretativo, apresentaremos as categorias funcionais e morfológicas do
comportamento não verbal e os elementos não verbais pertinentes à interpretação,
falaremos do desafio do intérprete ao interpretar o não verbal e os aspectos
neurofisiológicos envolvidos nesse processo, pontuaremos a importância da inteligência
emocional e, finalmente, verificaremos a transferência dos elementos não verbais do
intérprete para a platéia.

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No Capítulo Quarto, partiremos para a análise do corpus propriamente dita, cujo


objetivo é apresentar trechos de vídeos que contenham intérpretes no exercício de suas
funções, identificando, baseados nos teóricos citados, algumas ocorrências não verbais
durante a interpretação e lançando comentários acerca dessas ocorrências.
Por fim, seguem nossas Considerações Finais, as Referências Bibliográficas, a
Bibliografia Consultada, o Anexo A, contendo nossa tradução dos textos originais das
citações inseridas no corpo do texto (a tradução de citações curtas encontram-se em
notas de rodapé), o Anexo B, uma tabela contendo uma síntese das principais
ocorrências da Comunicação Não Verbal Humana e o Anexo C, um DVD (encarte p.
105) contendo a gravação dos trechos de vídeos na ordem que apareceram na análise do
quarto capítulo.

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CAPÍTULO PRIMEIRO

INTERPRETAÇÃO: HISTÓRIA
E DEFINIÇÃO

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1. INTERPRETAÇÃO: HISTÓRIA E DEFINIÇÃO

1.1. A história da Interpretação: dos primórdios aos dias atuais

O poder da palavra

O fascínio pela palavra está na base de preocupações antiqüíssimas. E não


poderia ser diferente, uma vez que o homem, um ser sociável e comunicativo, para
garantir o seu desenvolvimento psicossocial, não pode prescindir da comunicação
verbal. “Todas as culturas nascem de uma palavra criadora, dita em tempos imemoriais
por um poder divino.” (BIDERMAN, 199, p. 84) Certas religiões e mitos procuram
estipular o momento exato da criação da palavra. Para a tradição bíblica, primeiro Deus
criou o verbo, depois o mundo. Registros egípcios garantem que Rá passou a existir no
momento em que ele, que não existia, pronunciou o próprio nome. O Corão não contém
as palavras de Maomé; é a própria encarnação do profeta. Na tradição bramânica,
sphota é a palavra eterna, infinita, não-humana, que se diferencia da linguagem usada
no cotidiano. As especulações mais antigas parecem assinalar que o momento inaugural
é sempre do verbo, e conhecer o momento inaugural da palavra é talvez uma forma de
compartilhar os segredos do mundo e, por extensão, de tentar estabelecer o momento do
nascimento da interpretação.

“In principio erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum.”1
(NOVA Vulgata, João 1:1, 2007, 11h)

“Fiat lux!”2 (Ibidem, Gênesis 1:3, 2007, 11h20)


Rege a tradição bíblica que essas foram as primeiras palavras proferidas sobre a
face da terra. Deus falou diante de todas as coisas, antes mesmo delas terem sido
criadas. A criação, portanto, deu-se não apenas por meio da ação divina, mas também
“through an act of speech”3 (ECCO, 1997, p. 7). Segundo Schiller4, “o universo é um
dos pensamentos de Deus” (apud CLARET, 1997, p. 74). Ora, ao codificar e verbalizar

1
No princípio era o Verbo, e o verbo estava com Deus, e o verbo era Deus. (Tradução de domínio
popular)
2
Faça-se a luz. (Tradução de domínio popular)
3
Por meio de um ato lingüístico. (Tradução nossa)
4
Escritor, poeta e filósofo alemão. Exerceu influência decisiva sobre a civilização alemã do século XIX.

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15

sua divina vontade, Deus está, na verdade, interpretando (materializando) parte de seu
pensamento: o universo. Assim, o Criador lança as bases lingüísticas de modo que seu
universo recém criado possa ser captado e assimilado pelos sentidos daquela que seria a
mais dileta de suas criaturas: o homem. Não tivesse sido dessa maneira, Deus não teria
conseguido se comunicar com o homem quando com ele travou um diálogo pela
primeira vez:
E deu-lhe este preceito, dizendo: Come de todas as árvores do paraíso, mas
não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque em
qualquer dia que comeres dele, morrerás indubitavelmente. (BÍBLIA
Sagrada, 1980, Gen. 2, 16-17, p. 27)

Nascia a interpretação intralingual e o ser humano, em busca da compreensão da


obra divina, teria sido seu primeiro intérprete. Vejamos, segundo a Bíblia, como isso
ocorreu:
Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais terrestres, e
todas as aves do céu, levou-os diante de Adão, para este ver como os havia de
chamar; e todo o nome que Adão pôs aos animais vivos, esse é o seu
verdadeiro nome. E Adão pôs nomes convenientes a todos os animais, a todas
as aves do céu, e a todos animais selváticos; [...] (Ibidem, Gen. 2, 19-20, p.
27)

Ainda dentro da tradição bíblica e no que se refere à origem da interpretação, há


um outro tema lingüístico abordado em Gênesis: trata-se do episódio da torre de Babel.
Esse mito conta a história de um tempo em que todos os povos falavam a mesma língua.
No afã de se aproximarem de Deus, os homens construíram uma torre que pudesse
chegar aos céus. Para punir o orgulho da humanidade e colocar um fim à construção do
edifício, Deus falou: “Vinde, pois, desçamos e confundamos de tal sorte a sua
linguagem, que um não compreenda a voz do outro”. (Ibidem, Gen. 11, 7, p.35)
Ecco (1997, p. 9) afirma que a narrativa bíblica, tanto quanto outros relatos
mitológicos parcialmente divergentes, apenas serve para estabelecer o fato de que
línguas diferentes existiam no mundo. Apesar de não se aceitar o mito babélico como
evidência histórica, podemos entendê-lo como uma metáfora que procura explicar a
pluralidade das línguas na terra a partir de um só povo e, conseqüentemente, a
necessidade de mecanismos que permitam a compreensão entre os homens. Nesse
aspecto, é possível inferir que a interpretação interlingual é tão antiga quanto a história
das civilizações que falavam esses primeiros idiomas. É ainda mais antiga do que a
própria tradução, uma vez que a linguagem escrita surgiu muito tempo depois da

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linguagem falada5. A esse respeito, a lingüista americana Christine Kenneally, autora do


recém-lançado The First Word (A Primeira Palavra), afirma: “A linguagem surgiu
muito antes da escrita.” (ENIGMAS..., 2007, p. 104)

À luz da ciência

Enquanto a tradição bíblica atribui a origem da linguagem humana ao Criador


(criacionismo 6), a comunidade científica postula que “a aquisição da linguagem e a
capacidade para a arte simbólica podem estar no cerne das extraordinárias habilidades
cognitivas que nos separam do restante da criação” (TATTERSAL, 2005, p. 69), as
quais foram adquiridas por meio de milhares de anos de evolução. Os hominídeos já
possuiam um trato vocal capaz de produzir os sons de fala articulada (protolinguagem)
mais de meio milhão de anos antes que surgisse evidência de linguagem.
A linguagem é, com certeza, a função mental simbólica suprema, e é
praticamente impossível conceber o pensamento na sua ausência, pois as palavras são as
unidades do pensamento humano. É por meio das palavras que explicamos nossos
pensamentos uns aos outros e, como criaturas sociais incomparáveis, buscamos
influenciar o que ocorre no cérebro alheio. Segundo Tattersal (ibidem, p. 73), “a
capacidade humana para desenvolver a linguagem deve ser inata a todo cérebro humano
saudável, onde subsiste como resultado de processos darwinianos normais de adaptação
por seleção natural”. Certamente é verdade que a linguagem não é reinventada a cada
geração, mas é reexpressa, à medida que a criança aprende sua língua nativa como parte
normal do processo de crescimento.
A seleção natural deve ter trabalhado duro e por muito tempo no aprimoramento
e melhoria das espécies. A esse respeito, Tattersal (2005, p. 73-74) afirma que:

[...] a seleção natural não é uma força criadora (como aquela encontrada no
livro do Gênesis) nem pode trazer nada por si só para a existência [grifo
nosso]. [...] Em vez disso, ela pode apenas capitalizar sobre o que já existe. O
que deve ter ocorrido é que depois de um longo – e pouco compreendido –
período de expansão errática do cérebro e reorganização da linhagem
humana, algo preparou o terreno para a aquisição da linguagem.

5
A escrita mais antiga de que se tem notícia é a cuneiforme, que foi criada há cerca de seis mil anos na
Mesopotâmia (atual Iraque).
6
O criacionismo, como idéia geral, se caracteriza pela oposição, em diferentes graus, às teorias científicas
sobre fenômenos relacionados à origem do universo, da vida e da evolução das espécies.

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E assim, diferentemente do mito babélico, quando a linguagem alcançou níveis


consideráveis de complexidade, o gênero humano já se encontrava relativamente
disseminado pela superfície do planeta. É a partir desse ponto, quando floresciam as
primeiras civilizações7, que se torna possível documentar os primeiros indícios da
interpretação enquanto atividade humana.

Interpretação na Antigüidade

Antes do final do século XX pouco se sabia sobre a história da interpretação na


Antigüidade. Com a publicação em 1956 de um trabalho pioneiro8 de Alfred Hermann9
sobre o tema, evidencia-se que a prática da interpretação confunde-se com a própria
história da humanidade e suas civilizações. A partir do século IV a.C., encontramos
diferentes grupos de povos habitando a porção oriental do Mediterrâneo. Em lugares e
épocas diferentes, civilizações muito avançadas surgiram e eram, essencialmente,
diferenciadas pelas línguas que falavam.
Em seu trabalho, Hermann (cf. 2002, p. 15) postula que na Antigüidade, como
em outras eras, o comportamento interlingual era estabelecido a partir do momento em
que dois níveis diferentes de poder encontravam-se, ou seja, quando dois povos se
alternavam nos papéis de conquistador e conquistado. Pinturas examinadas em templos
egípcios mostram líbios, núbios e outros povos asiáticos como prisioneiros ou vassalos,
mas nunca como aliados. Mais ainda, o status de homem ou ser humano era reservado
apenas aos cidadãos egípcios, enquanto os dominados eram relegados à condição de
bárbaros desprezíveis. As inscrições (hieróglifos) que assinalam as palavras de
estrangeiros recebidos na corte do Faraó não são, na verdade, as proferidas por eles em
suas línguas, mas eram literalmente colocadas em suas bocas por intérpretes. Eram,
quase sempre, palavras de súplica por perdão e misericórdia, indicando que uma
comunicação verdadeira não ocorria, ou seja, o intérprete não atuava como um
mediador interlingual genuíno, uma vez que os interesses de estado do conquistador
prevaleciam sobre o ato interpretativo. Tratava-se de uma interpretação unilateral.
A expansão do império egípcio ocorreu principalmente por meio de inúmeras
campanhas bélicas e expedições ao longo dos séculos. Não é de se estranhar que vamos

7
Antigüidade Oriental: Egito, Mesopotâmia e China.
8
Beiträge zur Geschichte des Dolmetschens (Contribuições para a História da Interpretação: tradução
nossa).
9
Historiador, egiptólogo, intérprete e Professor da Universidade de Colônia.

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encontrar a função de intérprete sempre em destaque naquele país. Com efeito, o título
de intérprete era representado por um hieróglifo com a forma aproximada de um avental
e significava “aquele que fala estranhas línguas”. Os egípcios sempre demonstraram
preocupação com suas relações externas e, com efeito, mantinham centros de
treinamento para intérpretes onde há evidências de que se ensinava uma língua10 para
assuntos diplomáticos. A despeito do método de aprendizado adotado para resolver os
problemas de barreira lingüística, os egípcios sempre tomaram cuidado para evitar
incidentes desagradáveis, tal como o ocorrido na corte do rei assírio Assurbanipal11: não
havia intérprete que falasse o idioma de certo enviado diplomático.

A época clássica: Grécia e Roma

Para os gregos, o termo intérprete significava a pessoa que agia como Hermes, o
divino mensageiro, a quem os povos helênicos atribuiam a origem da linguagem e da
escrita e consideravam o patrono da comunicação e do entendimento humano. Hermes
era também o intérprete das vontades dos deuses: cada sentença proferida pelas
entidades divinas necessitava de uma interpretação para ser apreendida corretamente
pelos homens. Daí surgiu o termo hermenêutica, que é um ramo da filosofia que se
debate com a compreensão humana e a interpretação de textos escritos. Hermann (cf.
2002, p. 18) demonstra que enquanto os gregos enfatizavam o divino, o equivalente
romano para intérprete referia-se ao mediador (inter – partes) entre duas pessoas ou
valores que, além de prover uma mediação lingüística, auxiliava nas transações
econômicas.
Quando a interpretação passou a ser uma prática comum na Antiguidade
clássica, surgiram vários problemas lingüísticos. Os gregos assemelhavam-se aos
egípcios no que diz respeito à arrogância e à intolerância em relação aos povos
bárbaros, pois consideravam o grego como o único idioma digno de ser aprendido.
Estudavam latim apenas para funções governamentais administrativas e de magistratura.
Os romanos, por sua vez, sempre assumiram uma posição mais tolerante para com os
povos conquistados e, de fato, o império era, na sua quase totalidade, um estado

10
Placas de argilas encontradas em Tel el Amarna, datadas do reinado de Amenófis III e IV (1400 a.C.)
sugerem a existência desses centros de treinamento.
11
Assurbanipal (c. 690 - 627 a.C.) foi o último grande rei dos assírios. No seu reinado (por volta de 668 -
627 a.C.), a Assíria se tornou a primeira potência mundial. Seu império incluía Babilônia, Pérsia, Síria e
Egito.

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bilíngüe. Falar grego era um requisito importante para um cidadão romano letrado e,
portanto, as crianças tinham de aprender a língua dos filósofos gregos antes mesmo do
latim. Os dois idiomas tinham igual importância na escola de modo que as classes
favorecidas (aquelas que tinha acesso à educação) podiam desempenhar suas funções
sociais (política, comércio e artes) nas duas línguas. Como conseqüência, “for the
individual Roman it was normally not difficult to communicate with the Greeks, while
the Greeks, for their part, almost always had to rely on interpreters”12 (HERMANN,
2002, p.18, grifo nosso). Quando enviados gregos eram recebidos em audiência junto ao
Senado romano, um intérprete tinha de ser oficialmente contratado, pois a lei romana
proibia o uso de qualquer outro idioma no Senado que não fosse o latim.
Intérpretes eram constantemente requisitados para serviços administrativos,
principalmente com o intuito de estabelecer contato com os povos não clássicos:
egípcios, sírios, celtas, povos germânicos, etc., e eram pagos pelo estado ou oficiais que
os contratavam. Verificou-se, também, a presença de intérpretes nas províncias do
império, conforme inscrições em pedras achadas próximo à Budapeste (Hungria) e
Maastricht (Holanda).

Interpretação e Cristianismo

A ascenção do imperador romano Constantino representou um importante


impulso para o desenvolvimento do Cristianismo. Em 313, publica o Édito de
Tolerância (ou Édito de Milão) por meio do qual o Cristianismo é reconhecido como
uma religião do império, concedendo liberdade religiosa aos cristãos. Já nessa época, o
grego era a língua oficial nos cultos, mas foi aos poucos sendo substituída pelo latim.
Entretanto, devido aos limites da latinização do Império Romano, alguns cristãos
(coptas, sírios, celtas e povos germânicos) insistiram na realização do serviço religioso
em suas línguas. Antes dessas mudanças, requisitavam-se mediadores lingüísticos
(intérpretes) e há evidência de suas atividades tanto no Império Romano do Ocidente
quanto do Oriente: Epifânio 13, ao enumerar, em uma de suas obras, os diversos ranques
na hierarquia da igreja, menciona exorcistas e intérpretes trabalhando em conjunto.

12
Vide anexo A para nossa tradução (p. 100).
13
Santo Epifânio (315 d.C. – 403 d.C.): era fluente em cinco línguas e estudou teologia e autores
clássicos. Foi amigo de São Jerônimo.

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20

No período de expansão do Cristianismo, segundo Hermann (cf. 2002, p. 21), as


pessoas versadas em línguas ganharam considerável importância quando o assunto era
espalhar a fé cristã por entre os gentios: segundo relatos apócrifos14, os apóstolos Tomé
e André evangelizaram os habitantes de Pártia15 e Cítia16, o que nos leva a supor que
conseguiram superar as barreiras lingüísticas dos fiéis presentes em suas pregações. De
acordo com registros históricos, há evidências de intérpretes presentes em confissões:
um cidadão romano, por não falar copta17, teria se recusado a se confessar com
Pacômio 18.
Nas assembléias oficiais dos líderes da igreja, o uso do latim era limitado, pois
esses sínodos ocorriam, inicialmente, nas regiões do mundo onde se falava o grego
(Império Romano do Oriente). Eram poucos os clérigos vindos do ocidente que tinham
um bom domínio do grego. No Concílio Regional de Latrão (649 d.C.), os religiosos
solicitaram intérpretes, uma vez que o tópico principal foi a condenação do
Monotelismo 19. Os teólogos gregos entre eles, Máximo, o Confessor, debateram a
questão em seu próprio idioma, apesar de a maioria dos presentes terem formação
latina. Dessa maneira, já a partir do segundo dia do concílio, decidiu-se que as
negociações em grego deveriam ser imediatamente interpretadas para o latim e vice-
versa. Assim, os monges vindos de Jerusalém e do norte da África, que atuaram como
intérpretes nesse concílio, são considerados, de acordo com Hermann (cf. 2002, p. 22),
os mais antigos intérpretes de conferência de que já se tem registro.

Da Idade Média ao século XXI

Na Idade Média, a interpretação é mais valorizada e mencionada, com


freqüência, nos anais da história. Na Renascença, o mesmo ocorre, em escala ainda
maior, “devido ao interesse pelas línguas estrangeiras provocado pelo humanismo e,

14
Obra religiosa destituída de autoridade canônica.
15
A Pártia, também conhecida como Império Arsácida, foi a potência dominante do planalto iraniano a
partir do século III a.C. Controlou a Mesopotâmia de maneira intermitente entre c. 190 a.C. a 224 d.C.
16
A Cítia foi uma região na Eurásia habitada na antiguidade por um grupo de povos iranianos conhecidos
como citas falantes de línguas iranianas.
17
Acredita-se que o copta seja a última forma de escrita utilizada no Egito Antigo, no qual foram
transcritos alguns textos do Novo Testamento e utilizados pelos Ortodoxos na cidade de Alexandria.
18
Santo Pacômio (292 d.C. – 348 d.C.), também conhecido como Abba Pacômio, é o fundador do
monasticismo cenobita.
19
Heresia surgida na Igreja do Oriente que se opunha às duas pessoas de Jesus: a divina e a humana.

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21

depois, movido pela necessidade de intermediários nas expedições de conquistas


ultramares dos europeus” (LUCIANO, 2005, L963i).
Antonio de Nebrija, bispo de Ávila, ao apresentar à Rainha Isabel a primeira gramática
da língua castelhana, publicada em 1492, no mesmo ano que Colombo chegou à
América, afirmou: “A linguagem sempre foi o instrumento perfeito do império.” (apud
LUCIANO, 2005, L963i). Essa visão um tanto profética de Nebrija permitiu que os
colonizadores usassem a língua como um dos instrumentos de dominação e conquista
para consolidar o poder político sobre as colônias ultramarinas. Com efeito, a partir do
século XV, os europeus começam a percorrer todos os recantos do mundo em
expedições de explorações, conquista e formação de colônias. Assim, na procura de
uma rota ocidental para as Índias, Colombo partiu, em 1492, para sua primeira
expedição, embarcando consigo o intérprete e poliglota Luis de Torres. Contudo, tal
medida mostrou-se ineficaz, já que as línguas faladas pelos povos indígenas encontrados
no novo mundo não eram do conhecimento daquele intérprete. Para superar os
problemas de comunicação, Colombo decidiu levar alguns nativos para serem educados
na Espanha. Ao retornarem às colônias, eles agiriam como intérpretes dos
conquistadores e assim auxiliariam a disseminar a cultura, os hábitos e os costumes
europeus. Isso passou a ser uma prática comum e, ao longo de todos os anos de
conquistas, intérpretes nativos acompanharam os espanhóis e portugueses em suas
expedições. Eram sempre os europeus que dispunham de intérpretes o que, de certa
forma, garantiam-lhes uma posição vantajosa por possuírem uma melhor compreensão
do seu oponente.
A partir do século XVI, além desses intérpretes nativos, europeus também
atuaram como mediadores lingüísticos e culturais, pois quando eram capturados
aprendiam a língua dos índios antes de serem libertados. “Também serviam como
intérpretes os aventureiros, os degredados, sobreviventes de naufrágios e agentes
residentes das companhias européias de comércio.” (LUCIANO, 2005, L963i) Podemos
citar João Ramalho 20 como exemplo de mediador lingüístico (ele teria sido o primeiro
intérprete em atividade da nossa região) entre colonizadores e nativos, conforme trecho
retirado da enciclopédia eletrônica Wikipedia (JOÃO..., 2007):

20
Explorador português fundador da vila de Santo André da Borda do Campo (atual Santo André no ABC
paulista) cuja embarcação naufragou na região do litoral de São Vicente por volta de 1512.

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22

Encontrado pela tribo dos Guaianases, adaptou-se bem à vida no Novo


Mundo, ganhando grande prestígio junto aos índios com quem vivia. [...] O
reencontro com os portugueses foi surpreendente. Os portugueses esperavam
uma batalha contra um grande número de índios, que caminhavam em
direção a São Vicente. Em vez de uma batalha, receberam João Ramalho, que
passou a usar de sua grande influência sobre a tribo para ajudar a seus
conterrâneos. [...] Como intermediário, ajudou Martim Afonso de Sousa na
fundação de São Vicente, em 1532.

Se considerarmos o importante papel que desempenharam em facilitar o contato,


a comunicação e o comércio, é surpreendente que haja tão poucas bibliografias desses
intérpretes pioneiros nas colônias ultramarinas.
Como vimos, no transcorrer dos tempos, muitas têm sido as funções dos
intérpretes, cujo status variava de acordo com a realidade histórica a qual pertenciam.
Durante esse percurso e até a metade do século passado, nem os intérpretes, nem a
interpretação mudaram significativamente. Os que se ocupavam da interpretação o
faziam muito mais por mérito ou por sorte do que pelo ofício. Com raras exceções, não
existiam programas de treinamento para a profissão e, até o século XX, “os intérpretes
tinham de aprender seu trabalho enquanto trabalhavam, através do simples método de
acertos e erros” (LUCIANO, 2005, L963i). Várias mudanças passaram a ocorrer a partir
da segunda metade do século XIX. Com o advento da Revolução Industrial, diversas
organizações foram criadas, o que resultou no estreitamento das relações internacionais.
Nos anos entre as duas guerras mundiais, surgiram outros organismos internacionais, tal
como a Liga das Nações21 em 1919. Com eles, veio uma necessidade crescente do
serviço de intérpretes, especialmente para atuarem junto às conferências internacionais:
nascia, assim, a profissão de intérprete de conferências. Inicialmente era realizada na
modalidade consecutiva, ou Interpretação Consecutiva, o que resultava em conferências
muito demoradas, uma vez que se multiplicava o tempo necessário para entender o
discurso pelo número de línguas envolvidas. Desse modo, a partir da década 1920, um
equipamento de som foi desenvolvido a fim de possibilitar a interpretação simultânea do
discurso do conferencista. Foi, então, em uma conferência de 1927, que o OIT
(Organização Internacional do Trabalho) usou pela primeira vez o novo sistema. O
Julgamento de Nuremberg22 também fez uso do equipamento e a ONU adotou a nova

21
Sociedade das Nações, também conhecida como Liga das Nações, foi uma organização internacional, a
princípio idealizada em janeiro de 1919, em Versalhes, nos subúrbios de Paris. Inicialmente, as potências
vencedoras do conflito da Primeira Guerra Mundial se reuniram nessa data, para negociar um tratado de
paz.
22
O termo julgamentos de Nuremberg (ou Tribunal de Nuremberg) aponta inicialmente para a abertura
dos primeiros processos contra os 24 principais criminosos de guerra da Segunda Guerra Mundial,

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23

modalidade de interpretação desde sua fundação em 1945: estava consolidada a


interpretação simultânea.
A primeira geração de intérpretes que utilizou a nova técnica de interpretação
simultânea decidiu definir a profissão, fixando as condições de trabalho e estabelecendo
o código de ética profissional. Na década de 1940, surgiram os primeiros programas
universitários destinados a treinar intérpretes profissionais. Além disso, em 1953, criou-
se a AIIC, Associação Internacional de Intérpretes de Conferência, sediada em Genebra,
Suíça. Hoje em dia, em pleno século XXI, com a globalização mundial e a criação de
blocos econômicos (União Européia, NAFTA, Mercosul, Tigres Asiáticos, ALCA, etc.),
os serviços de interpretação são amplamente requisitados por organizações de renomado
prestígio como, por exemplo, o Parlamento Europeu e a Corte de Justiça Européia. Com
efeito, o Parlamento Europeu é, na atualidade, o maior empregador de intérpretes do
mundo, com 350 intérpretes permanentes, a que se juntam cerca de 400 freelance nos
períodos de maior trabalho.

1.2. O ato interpretativo

Como vimos até agora, a interpretação é uma forma de mediar as fronteiras da


linguagem e cultura. Ela tem sido uma ferramenta importante nas relações humanas
desde os tempos imemoriáveis. Contudo, o seu reconhecimento como objeto de estudo e
observação é relativamente recente. Foi apenas em meados do século passado que a
interpretação ganhou importância como profissão. Entretanto, a definição de
interpretação não pode ficar confinada apenas ao seu aspecto profissional, tampouco
deve excluir qualquer uma das circunstâncias e ambientações em que é praticada. O ato
de interpretar acontece principalmente em conferências internacionais ou simpósios,
mas também ocorre de maneira improvisada por meio de filhos de imigrantes23 ou pais
bilíngües, guias turísticos, em encontros ou reuniões informais entre pessoas e em outras
tantas situações que envolvam indivíduos com habilidades para se comunicarem em um
segundo idioma. Desse modo, uma definição abrangente para a interpretação seria “a
mediação interlingual e intercultural, oral ou por sinais, que permite a comunicação

dirigentes do nacional-socialismo, ante o Tribunal Militar Internacional (TMI) ("International Military


Tribunal" IMT) em 20 de novembro de 1945, na cidade alemã de Nuremberg.
23
No capítulo quarto, analisaremos uma cena vídeo que retrata bem essa situação. Trata-se do filme
Espanglês (Spanglish, E.U.A., 2004), uma obra de ficção sobre a emigração para os Estados Unidos de
uma mulher, Flor (Paz Vega) e sua filha, Cristina (Shelbie Bruce), em busca de melhores condições de
vida.

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24

entre indivíduos ou grupos os quais não compartilham, ou decidem não utilizar, o(s)
mesmo(s) idioma(s)” (PÖCHHACKER e SHLESINGER, 2002, p. 2).
O verbo “interpretar”24 demanda uma cautelosa avaliação, uma vez que para o
leigo a interpretação às vezes evoca uma imposição de significado por alguém que pode
aumentar, omitir ou até mesmo filtrar as intenções do falante (como faziam os
intérpretes no antigo Egito). O site do Parlamento Europeu (2006) apresenta um
interessante perfil do profissional intérprete:

Para muitas pessoas, o intérprete é visto como um artista de circo: um


acrobata intelectual das palavras, fechado numa torre de Babel, capaz de
traduzir simultaneamente, sem qualquer esforço aparente. Imagem um tanto
quanto lisonjeira, porém totalmente falsa para os que conhecem a profissão
de intérprete. O intérprete deve dispor de capacidades excepcionais, é certo,
mas deve ser algo mais do que um mero instrumentador da palavra.
Efetivamente, a interpretação não se esgota na tradução palavra por palavra, o
que, invariavelmente, conduziria ao absurdo. Ela deveria ser a transmissão
fiel de uma mensagem captada numa língua que é em seguida reproduzida, da
forma mais precisa possível, numa outra língua.

A receita para uma boa interpretação é bem simples: “You need but three
ingredients: languages, interpretation techniques and knowledge of the subject
matter.”25 (KREMER, 2006) Contudo, o autor faz uma ressalva afirmando que o único
problema é que necessitamos desses três elementos no mais alto nível de proficiência e
excelência. Não se trata apenas de falar e entender idiomas, pois qualquer bilíngüe ou
poliglota é capaz disso. Ao interpretar, devemos fazê-lo quase ao grau da perfeição.
Portanto, não adianta apenas ter conhecimento sobre as técnicas interpretativas, mas sim
praticá-las exaustivamente até que nos tornemos experts; e não basta ter apenas uma
idéia genérica do assunto a ser interpretado, devemos estar familiarizados com ele e
atentos a todos aspectos a ele relacionados, bem como ter uma boa noção do contexto
no qual a conferência está inserida.
Outros ainda confundem a tradução escrita com a interpretação. São duas
atividades similares que se baseiam na compreensão de uma língua e da mensagem que
veicula. Todavia, diferentemente dos tradutores, os intérpretes devem trabalhar com
mensagens por vezes furtivas, reproduzindo-as em outra língua em tempo real, o que
deixa pouca margem para erros de julgamento e ainda menos para a busca da elegância
de estilo.

24
Latim: interprètor,áris,átus sum,ári 'explicar, traduzir; compreender; avaliar, decidir'.
25
Vide anexo A para nossa tradução (p. 100).

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25

De qualquer modo, os conhecimentos lingüísticos não são mais do que a parte


visível do iceberg. Em todo ato de fala, uma grande parte da mensagem não é
enunciada, permanecendo implícita (trata-se aqui da linguagem não verbal que será
discutida nos capítulos segundo e terceiro). Ainda no site do Parlamento Europeu
(2006), para corroborar a analogia feita do intérprete a um artista de circo, encontramos
a seguinte passagem:

O intérprete deve completar o quebra-cabeça, apoiando-se em sólidas bases


de cultura geral em que conhecimentos específicos fazem-se necessários.
Mais do que traduzir frases isoladas, o intérprete deve captar a intenção, o
que o orador pretende dizer. Num contexto multilingüe, para além do
conhecimento das línguas, exige-se ao intérprete um conhecimento profundo
das culturas, principalmente daquilo que as diferencia. Mesmo em condições
normais, o intérprete deve fazer face às dificuldades e desafios
extraordinários. Se a isto acrescentarmos o jargão impenetrável dos
especialistas, os textos lidos a uma velocidade considerável, a pronúncia
estrangeira e uma gramática aproximada, chega-se, com efeito, ao
equivalente intelectual da acrobacia executada sem rede de segurança.

1.3. Interpretação Consecutiva, Interpretação Simultânea e Chuchotage26


(Whispered Interpreting)

Como vimos, várias são as formas de interpretação. Contudo, para os propósitos


de nosso trabalho e considerando que o curso de Tradução e Interpretação da Unisantos
proporciona aulas práticas (treinamento) de Interpretação Consecutiva e Interpretação
Simultânea, optamos por nos concentrarmos nessas duas modalidades. Apresentaremos
brevemente uma terceira modalidade: Chuchotage ou Whispered Interpreting,
doravante WI, uma forma simplificada da Simultânea.
Paneth (cf. 2002, p. 36) define, em termos gerais, interpretação consecutiva,
doravante CI27, como um processo envolvendo duas etapas marcadamente distintas. O
intérprete ouve um discurso (ao mesmo tempo em que toma nota ou memoriza
informações) na língua de partida, doravante LP, e reproduz esse discurso na língua de
chegada, doravante LC. Magalhães Jr. (2007, p. 43) apresenta-nos o seguinte panorama
em relação a CI:
Na consecutiva, a pessoa que tem a palavra faz pausas periódicas em sua fala,
a fim de permitir que o intérprete faça o traslado da língua original (língua-
fonte ou língua de partida) à língua dos ouvintes (língua-meta ou língua de
chegada). Daí a pouco, o processo se inverte e quem estava escutando pode

26
Chuchotage é o termo em francês para sussurro, de acordo com o site Dictionary.com.
27
CI: sigla internacional a partir da nomenclatura inglesa Consecutive Interpreting.

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26

passar a falar, fazendo as mesmas pausas e usando o intérprete na direção


oposta.

Pode-se inferir que nessa modalidade de interpretação o profissional fica mais exposto
ao público uma vez que, normalmente, se posiciona próximo ao discursador
(conferencista): ambos voltados para uma platéia. Vale ainda lembrar que parte da
mensagem que os intérpretes têm de transmitir é não verbal, por isso precisam apanhar
as "pistas" não verbais, como o tom de voz e a linguagem corporal, o que faz com que
seja indispensável que o intérprete veja o orador e a audiência para poder avaliar as
diferentes reações.
Já na interpretação simultânea, doravante SI28, o intérprete permanece dentro de
uma cabine à prova de som – portanto, não visível à platéia – onde recebe o discurso da
LP por meio de fones de ouvido. A terceira modalidade, a WI, é, de acordo com o site
Akzente29 (2007), uma variante da SI para a qual não há necessidade de equipamento
sonoro. O intérprete posiciona-se ao lado do emissor (ou emissores) e receptor (ou
receptores) e simplesmente sussurra a mensagem alternadamente entre as partes.
Prefere-se essa modalidade de interpretação quando há um número reduzido de falantes
de um determinado idioma30, o que tornaria a CI inadequada e a SI dispendiosa.
O termo tradução simultânea leva-nos a supor que o intérprete repete,
simultaneamente, na LC o que ele ouve na LP. “Essa simultaneidade, no entanto, limita-
se, quase sempre, à estrutura de uma sentença ou parágrafo.” (PANETH, 2002, p. 32)
Uma investigação mais detalhada permite-nos verificar a relatividade da simultaneidade
na interpretação.

Na verdade, falar em “simultânea” é inapropriado, uma vez que há sempre


um retardo, mínimo que seja, entre o que é dito pelo palestrante e o discurso
produzido na interpretação. O intérprete precisa de um tempo para processar
e reformular o conteúdo. E, naturalmente, precisa ouvir antes de dar início ao
processo de tradução. Não dá pra ser completamente simultâneo.
(MAGALHÃES JR., 2007, p. 44)

Paneth (cf. 2002, p. 33) nos apresenta um gráfico demonstrando o timing desse processo
em dois momentos ( I e II):

28
SI: sigla internacional a partir da nomenclatura inglesa Simultaneous Interpreting.
29
Site alemão de uma equipe de intérpretes profissionais com sede em Munique.
30
No capítulo quarto (análise do corpus), várias cenas de vídeo ilustrarão essa modalidade de
interpretação.

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27

Fig. 1. Timing do ato interpretativo simultâneo

Os segmentos A, B e C representam grupos de palavras enunciadas, normalmente, sem


pausa na LP. Os segmentos A’, B’ e C’ equivalem à interpretação na LC e os retângulos
hachurados são os espaços de tempo decorridos entre o discurso na LP e a interpretação
na LC.
De acordo com Gerver (cf. 2002, p. 53), a maioria dos períodos discursivos
consiste não apenas de palavras, mas também de unidades de intervalos de silêncio que
variam de meio segundo a um pouco mais de dois segundos. Gerver (ibidem p. 53)
afirma que o intérprete simultâneo utiliza-se dessas pausas para ouvir o discurso na LP
(input) sem sofrer interferência de seu próprio discurso durante a interpretação na LC
(output).
Ainda justificando a relatividade da simultaneidade na SI, Kirchoff (cf. 2002, p.
111) postula que o intérprete, utilizando a aparelhagem técnica necessária (cabine e
fones de ouvido), recebe segmentos proferidos na LP, processando-os e interpretando-
os, imediata e continuamente, para a LC. O uso do termo “simultânea” justifica-se
apenas do ponto de vista de um observador que presencia a produção do discurso na LP,
a recepção desse discurso pelo intérprete e a produção da interpretação na LC. A
produção contínua de segmentos equivalentes na LC nunca é, de fato, simultânea à
produção dos segmentos equivalentes na LP mesmo considerando o desempenho de um
profissional intérprete hábil o bastante para antecipar as informações contidas nos
segmentos. Portanto, o termo quasi simultânea parece ser mais apropriado quando nos
referimos à SI.
Para Gile (cf. 2001), na CI, o intérprete alterna-se com o falante (conferencista)
com o propósito de traduzir o discurso proferido na língua de partida. Depois de um
segmento composto de várias sentenças, há uma pausa para que a interpretação possa

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28

ser executada. Dessa maneira, deve-se entender a CI como um processo comunicativo


composto de duas etapas: a) fase da audição, durante a qual o intérprete ouve com
atenção o discurso na LP e toma nota das informações relevantes e b) fase da
reformulação, durante a qual o intérprete reproduz, baseado em suas anotações, nas
informações gravadas em sua memória e no seu repertório enciclopédico, o discurso
proferido.
Na SI, “o intérprete tem de fazer uso mais intenso de sua memória (memória de
curto prazo), uma vez que o processo envolve vários fatores, todos eles localizados na
simultaneidade e efemeridade do discurso” (GILE, 2001). Vejamos: (a) o intervalo entre
o momento em que se ouvem as palavras (os sons) do discurso e o momento em que o
processo de compreensão termina, (b) o intervalo entre o momento necessário para se
formular a mensagem na LC e a execução dessa formulação, (c) estratégias ou
movimentos táticos, que são usados, por exemplo, se um segmento do discurso da LP
soar confuso para o intérprete por causa de problemas de som, sotaques carregados,
problemas de lógica, erros no discurso proferido, etc, (o intérprete pode decidir esperar
até que o contexto fique mais claro, o que o ajudaria na compreensão do referido
segmento) e (d) razões lingüísticas (aspectos morfossintáticos e semânticos). Isso posto,
vamos assinalar as principais diferenças entre a CI e a SI:
• Durante a SI, duas línguas são processadas continuamente. Isso requer máxima
atenção para inibir a influência da LP sobre a LC. Já durante a CI, esse
inconveniente é bem menor, ou mesmo inexistente, uma vez que as anotações
feitas, mesmo se forem na LP, são de palavras isoladas ou de sentenças curtas, o
que não afetaria o intérprete no momento da interpretação.
• Durante a SI a produção do discurso na LC exerce uma pressão bem maior sobre
o intérprete no que se refere à disponibilidade de tempo. Na CI, apesar de o
intérprete apresentar dificuldades no momento de realizar suas anotações, na
fase de reprodução ele pode ter um desempenho melhor.
• No momento da CI, o intérprete tem de decidir o que anotará e de que maneira
fará essas anotações. Também deve dispensar atenção ao processo de escrita.
Essas duas operações demandam, invariavelmente, know-how por parte do
profissional, o que não acontece na SI.
• Durante a CI, o processo de anotação requer tempo e o atraso resultante entre
aquilo que se ouve e escreve submete a memória do profissional a um stress

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29

considerável, o que não acontece na SI. Por isso, lidar com a maneira de como as
anotações são realizadas requer estratégias específicas e know-how.
• Na CI há mais envolvimento da memória de longo prazo do que na simultânea.
Para lidar com essas diferenças e atingir proficiência nas habilidades específicas da CI e
da SI, tempo e prática são exigidos. Além disso, bons intérpretes simultâneos não são,
necessariamente, bons intérpretes consecutivos e vice-versa. Em teoria, não há razão
para afirmar que um bom comando sobre a CI seja um pré-requisito para a realização da
SI.
No que se refere ao ensino da interpretação como disciplina, há, segundo Gile
(2001), vantagens da CI em relação a SI. A esse respeito o autor afirma que os
intérpretes podem aprender princípios metodológicos fundamentais voltados para
problemas de interpretação relacionados a normas de fidelidade, estruturas lingüísticas e
estratégias de reformulação. Já na SI, o pouco tempo disponível impõe certa pressão
sobre o intérprete, fato que o deixaria menos receptivo para fazer uso de soluções
metodológicas.
Hoje em dia, “há quem conteste a inclusão da prática da CI em programas de
treinamento, uma vez que a necessidade de intérpretes para essa modalidade estaria
desaparecendo do mercado, principalmente na Europa ocidental” (GILE, 2001). Outro
argumento contra a CI é o fato dela exigir muito tempo e energia para aquisição de
habilidades não relevantes para o mercado, tempo e energia que poderiam ser mais bem
investidos na SI. Entretanto, o baixo custo, a não obrigatoriedade do uso de
aparelhagem técnica específica e o fato de ser mais flexível, no que se refere a tempo e
espaço, mantêm a CI ainda em alta na Ásia, no leste europeu e na América Latina,
notadamente aqui no Brasil.
“Muitos consideram a interpretação simultânea uma forma mais acelerada da
interpretação consecutiva.” (Ibidem, 2001) Todavia, nas duas modalidades, há certo
número de operações distintas, cada uma delas requerendo habilidade para gerenciar um
grande fluxo de operações mentais. A quantidade dessas operações é, quase sempre,
superior às informações lingüísticas no ato da interpretação, o que pode comprometer o
seu desempenho.
Vimos até aqui que a CI e a SI são processos lingüísticos distintos que exigem,
entre outras habilidades, conhecimentos específicos (know how), treinamento,
dedicação, prática, disciplina e, acima de tudo, constante aperfeiçoamento. O
profissional intérprete (de CI e SI) deve estar comprometido com o seu aprimoramento

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30

profissional, seja por meio de cursos de capacitação ou por meio de adaptação aos
novos métodos e tecnologias. Há ainda o desafio em superar as dificuldades e barreiras
lingüísticas na interpretação oral que, entre outras ocorrências, vão além do discurso
verbal: trata-se da linguagem não-verbal.
No segundo capítulo, definiremos essa linguagem, limitando-nos aos aspectos
não verbais pertinentes à comunicação humana: contato físico, proximidade, orientação,
aparência, postura, nuto31, expressão facial, gestos, olhar, aspectos não verbais do
discurso (entonação, tom de voz, ruídos produzidos durante a articulação das palavras –
gargalhadas, por exemplo – e pausa (hesitação / silêncio), esta última já no terceiro
capítulo. A propósito, a pausa (hesitação / silêncio), nos remete ao início desse capítulo,
quando citamos a criação divina. Se Deus criou o mundo utilizando-se do discurso
(linguagem verbal), também nos parece plausível admitir que o silêncio fora a única
forma de comunicação (linguagem não verbal) possível antes da criação: “No princípio
Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia, e as trevas cobriam a
face do abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre as águas.” (BÍBLIA Sagrada, 1980,
Gen. 1:2, p. 25) No princípio é o verbo, no começo é a semente-letra. Tanto o Verbo
Divino gerador quanto a letra humana gerada são, ambos, gerações do silêncio (o não
verbal). O lastro do poder de ambos é o poder do silêncio. A linguagem silenciosa de
ambos tem o poder de ser a base do micro e do macrocosmo. O dizer de ambos ecoa
sem palavras. Por acaso não podemos identificar um silêncio absoluto e divino nas
palavras iniciais da Bíblia?

31
Ato de abanar a cabeça quando se aprova ou consente.

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31

CAPÍTULO SEGUNDO

COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL

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32

2. COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL

2.1. Introdução à comunicação não verbal

Aos 18 meses de vida, para estabelecer contato verbal com as pessoas que o
cercam, o bebê já aprendeu a vocalizar suas primeiras palavras. Mas quantos de nós
paramos para pensar que o primeiro contato que tivemos com o mundo pós-parto foi,
paradoxalmente, por meio da comunicação não verbal (doravante CNV)?
Experimentamos o não verbal desde o nosso nascimento. Imediatamente após o parto, a
criança é colocada sobre o colo da parturiente para que se estabeleça um vínculo entre
mãe e filho. Nesse exato momento, tato e olfato – e, mais tarde, a visão – desempenham
um importante papel para o que podemos chamar de o primeiro ato comunicativo não
verbal do ser humano. Visto sob esse ângulo, é possível afirmar que a CNV é tão
importante quanto a comunicação verbal, pois, no transcorrer de nossas vidas, fazemos
uso dela para estabelecer vínculos, garantindo, assim, nosso desenvolvimento
psicossocial. Abercrombie (apud ARGYLE 1999, p. 254) deixa entrever essa
importância ao afirmar o seguinte: “We speak with our vocal organs, but we converse
with our body.”32

2.2. Considerações teóricas

Segundo Argyle (cf. 1999, p. 263-7), há três abordagens teóricas principais para
explicar a comunicação não verbal humana, cada uma abrangendo aspectos específicos.
Ainda, segundo o autor, haveria uma quarta abordagem que incorpora características
das outras três, além de oferecer considerações de ordem psicológica e social. Antes de
seguirmos com a fundamentação teórica e para os propósitos de nosso estudo –
Comunicação Não Verbal no Ato Interpretativo – é necessário delinear, brevemente,
quais são, segundo o teórico, os três principais níveis da comunicação não verbal
humana:
a) Sinais que controlam as situações sociais imediatas:
São os mesmos sinais usados pelos animais. Entretanto, esses sinais não têm nenhuma
referência a objetos específicos, mas apenas ao estado (situação) e necessidades ou

32
Utilizamos nosso aparelho fonador para falar, mas o nosso corpo para conversar. (Nossa tradução)

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33

objetivos imediatos (locomover, olhar, piscar involuntariamente, mover os membros


superiores e inferiores, mover a cabeça, etc).
b) Sinais usados como suporte à comunicação verbal:
Esses sinais não ocorrem entre os animais, são usados concomitantemente ao discurso,
constituem-se, basicamente, de movimentos corpóreos rápidos e têm uma estrutura
temporal complexa (acenar, apontar, consentir ou negar com a cabeça, piscar
voluntariamente, etc.).
c) Sinais que substituem a comunicação verbal:
Usamos a linguagem corporal (gestos) quando da impossibilidade, indisponibilidade ou
inconveniência da linguagem oral. Essa linguagem cinética apóia-se nos elementos
verbais da linguagem, mas também independe dela.
Vale lembrar que o modelo de Argyle para os níveis de CNV não é único; entretanto,
em relação ao tópico proposto, oferece-nos subsídios satisfatórios para avaliarmos
hipóteses com base nos pressupostos teóricos que serão discutidos nesse trabalho.
A partir dessa perspectiva, passemos agora à exposição das teorias que procuram
explicar a origem da CNV.

• Teoria da evolução biológica


Ao discorrer sobre a teoria da evolução biológica, Argyle (cf. 1999, p. 264) postula que
todos os seres, em seus comportamentos comunicativos, fazem uso da CNV:

Social behaviour in the lower animals consists of stereotyped production of


non-verbal responses; in mammals and especially the higher primates the
system is more open (grifo do autor) and has to be completed by
socialisation experiences.33

O comportamento social dos mamíferos, excetuando-se a espécie humana, consiste, no


que diz respeito à comunicação, da emissão de mensagens não verbais usando partes do
corpo para atingir objetivos de importância biológica: defesa de território, reprodução,
busca de alimentos e cuidados com as crias. Ao estudarem as ocorrências cinéticas
corporais ligadas ao fenômeno da linguagem, cientistas (neurofisiologistas) postulam
que “a linguagem humana tem raízes em uma estrutura do cérebro (sistema motor) que
compartilhamos com as criaturas mais primitivas” (GRAIEB, 2007, p. 105). Podemos
inferir, portanto, que esse padrão de sinais não verbais surgiu no decurso do processo
evolutivo, pois tem contribuído para a sobrevivência dos seres. Contudo, a utilização do
33
Vide anexo A para nossa tradução (p. 100).

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34

referido padrão não assegura a perpetuação das espécies, pois sabemos que, devido a
fatores biológicos e naturais (evolução genética, adaptação ao meio, mudanças
climáticas, cataclismos, etc.) – e, mais recentemente, a ação destrutiva do ser humano ao
meio ambiente – os organismos de nosso planeta têm sofrido extinção sistemática.

• Teoria lingüístico-estrutural
Recentemente, pesquisadores vêm dedicando a CNV o mesmo cuidado que
lingüistas demonstram pela linguagem (comunicação verbal). A primeira pergunta que
lhes vêm à mente é: haveria, na CNV, uma estrutura hierárquica similar à comunicação
verbal na qual unidades menores da linguagem são agrupadas para formar unidades
maiores e, ainda, haveria regras de seqüência e formação nesse processo? Alguns sinais
vocais produzidos no ato enunciativo, bem como certos movimentos do corpo,
relacionam-se à linguagem, afetam o significado das vocalizações e formam parte de
um sistema comunicativo, apresentando uma estrutura definida. Outros sinais não
verbais, como a direção do olhar, também parecem seguir um curso determinado. Por
exemplo, quando trocamos cumprimentos, há sincronização entre o discurso, o olhar e o
aperto de mãos. Para funcionar como uma ferramenta comunicativa, a linguagem
(comunicação verbal) deve seguir certas regras gramaticais: o significado de uma
determinada palavra depende, parcialmente, de outras palavras com a qual está
agrupada. Com a CNV parece acontecer o mesmo: há um tipo de sintaxe para nortear
suas ocorrências e suas conexões com a linguagem. Contudo, essa sintaxe mostra-se
bem menos complexa e detalhada do que a da comunicação verbal. Embora ainda não
haja uma teoria que explique a origem do aspecto sintático na CNV, é plausível admitir
que ele faça parte de um sistema mais amplo da comunicação e do comportamento
social humano e que, portanto, tenha se desenvolvido paralelamente à linguagem. Uma
possível explicação é que o sistema da comunicação verbal e suas estruturas físicas
(fonologia) são elementares e que os sinais da CNV são posteriormente adquiridos para
tornar a comunicação mais prática.

• Teoria sociológica
Em diversas ocasiões sociais – cultos religiosos, conferências, congressos,
reuniões de trabalho, etc. – há regras comportamentais claras que têm de ser seguidas
ou, por motivos diversos, quebradas. No que diz respeito ao cumprimento ou quebra de
regras, a teoria sociológica é similar a anterior. Contudo, enquanto a teoria lingüístico-

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35

estrutural lida com regras que devem ser utilizadas durante a CNV para coordenar-se
com o ato enunciativo e para comunicar, a teoria sociológica preocupa-se com regras
que regulam estilos comportamentais e seqüências de eventos em situações e cenários
distintos. Barker e Wrightt (apud ARGYLE, 1999, p. 266) concluíram, após um estudo
em uma pequena cidade do meio oeste americano, que havia 884 padrões
comportamentais distintos entre as pessoas que participaram do projeto. Goffman (apud
ARGYLE, p. 266) analisou algumas das regras que controlam a CNV na classe média
norte americana e verificou que todas, ou pelo menos a maioria, podem ser explicadas
por meio de suas ocorrências que, por serem freqüentes, desenvolveram-se,
paulatinamente, até formarem um patrimônio cultural. A importância dessas regras
reside, principalmente, em mostrar como são apropriadas a um determinado grupo ou
época. Não haveria, portanto, leis universais de comportamento, mas simplesmente um
vasto repertório de regras arbitrárias para um número determinado de situações.
Sociólogos também enfatizam os significados subjetivos atribuídos aos sinais
não verbais pelo contexto cultural ou por grupos sociais específicos. Por exemplo, ao
relatar a maneira como as pessoas se apresentam, Goffman (ibidem, p. 266) sustenta que
“people manipulate the impressions others form of them by clothes and gestures which
have certain meanings”34. Ao discorrer sobre as primeiras impressões que as pessoas
têm umas das outras, Goffman (ibidem, p. 266) observou que “people make their
behaviour comprehensible to bystanders by sending signals which indicate the
motivation of their behaviour”35. A importância de atos não verbais que têm
significados culturalmente definidos e socialmente compartilhados é demonstrada em
rituais e cerimônias: a água aspergida no batismo e o beijo tão esperado dos noivos
diante dos convidados são ótimos exemplos disso. Essa abordagem teórica enfatiza
significados dentro de um determinado contexto cultural – microcosmo (o beijo na boca
como cumprimento trivial entre homens russos) –, mas também pode acomodar
significados de natureza biológica universal – macrocosmo (o choro como expressão de
dor ou sofrimento). Goffman ainda enfatiza os diferentes significados que o mesmo ato
não verbal pode apresentar em diferentes contextos culturais (o famoso sinal de OK
entre os americanos seria tomado como um ato extremamente ofensivo aqui no Brasil).

34
Os indivíduos tendem a manipular, por meio de gestos e da indumentária – ambos impregnados de
significados – as impressões que as pessoas fazem deles. (Tradução nossa)
35
As pessoas procuram tornar o seu comportamento compreensível aos outros por meio de sinais que
indicam a motivação desse comportamento. (Tradução nossa).

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36

• Teoria psicossocial
Argyle (cf. 1999, p. 266) chama nossa atenção para a necessidade de se
reconhecer a importância da teoria biológica para a CNV. O autor procura justificar a
sua afirmação dizendo que: a) há uma habilidade inata para expressarmos nossas
emoções e nossas necessidades mais imediatas e que: b) a CNV depende de um
equipamento fisiológico (o corpo humano como um todo: rosto, olhos, boca, mãos, etc)
para ser emitida e apreendida por nós. Ainda, segundo o teórico, a maioria dos
comportamentos sociais humanos envolve atos enunciativos que são auxiliados pela
CNV. Argyle segue afirmando que a CNV depende, invariavelmente, de estruturas
similares àquelas presentes no discurso e que ela é aprendida como parte da habilidade
de nos comunicarmos verbalmente. Argyle assinala, também, a importância da teoria
sociológica, pois há um número considerável de variações culturais em muitos aspectos
da CNV e que um mesmo sinal pode ter significados diferentes, dependendo do
contexto cultural. Por fim, uma abordagem teórica satisfatória não estaria completa se
não atribuíssemos a ela uma dimensão psicossocial. O autor estabelece que essa teoria
sugere a existência de sistemas interativos para um determinado cenário sócio-cultural
envolvendo necessidades particulares da comunicação, como por exemplo:
a) controle da situação social imediata. Atitudes e emoções interpessoais são
livremente expressas dentro do seio familiar, mas cuidadosamente controladas fora dele,
onde relacionamentos mais frágeis são iniciados e precisam ser mantidos.
b) suporte à comunicação verbal. Sob condições normais, sinais não verbais têm um
papel importante, pois servem de suporte à comunicação verbal. Se essas condições
sofrerem mudanças, haverá ajustes na CNV. Por exemplo, se estímulos visuais forem
subtraídos – como em uma conversa ao telefone – estímulos auditivos serão utilizados
(entonação de voz), proporcionando um feedback ou uma seqüência sincronizada das
vocalizações (floor-apportionment).
c) substituição do ato enunciativo. Sistemas gestuais são desenvolvidos em situações
nas quais o discurso (comunicação verbal) torna-se impossível: por exemplo, o uso da
Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) para os surdos.
Quando um determinado sistema de comunicação for incorporado a uma cultura
ou a um grupo social, ele será, invariavelmente, assimilado por novos usuários. Mischel
(apud ARGYLE, p. 267) afirma que isso acontece, principalmente, por meio de
imitações que, via de regra, demandam certo talento do usuário. Também pode ser que o
aprendizado ocorra por meio do erro e acerto: McPhail (apud ARGYLE, 1999, p. 267)

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37

verificou que adolescentes vêem-se envolvidos em situações comportamentais


experimentais muitas vezes desastrosas, agressivas e mal sucedidas. Mais tarde, quando
atingem 17 ou 18 anos, esse padrão comportamental é, geralmente, substituído por um
mais eficiente, demandando mais responsabilidade e maturidade. Entretanto,
diferentemente do que acontece na comunicação verbal, não é comum aprender por
meio do erro e acerto na CNV. Nesse caso, o aprendizado ocorre espontaneamente,
abaixo da linha do consciente.

2.3. CNV: Comunicação Não Verbal

Várias teorias poderiam ser abordadas para definir CNV e, ao fazê-lo,


possivelmente incorreríamos no erro de não levar em conta diversas modalidades desse
tipo de comunicação. De fato, a primeira imagem que nos vem à mente são os gestos e
as expressões faciais. Há, entretanto, inúmeras outras formas a serem consideradas.
Vamos ater-nos apenas àquelas que servem de suporte teórico à interpretação, objeto
desse nosso trabalho.

Non-verbal communication consists of all the messages other than words that
are used in communication. In oral communications, these symbolic
messages are transferred by means of intonation, tone of voice, vocally
produced noises, body posture, body gestures, facial expressions or pauses.36
(BESSON et al., 2005)

Quando falamos, não nos limitamos apenas à emissão de palavras. Uma considerável
parte de nosso discurso também é transmitida, intencionalmente ou não, por meio da
CNV. Em outras palavras, uma mensagem falada é simultaneamente emitida em dois
níveis: verbal e não verbal.
Besson et al. (2005) postulam que “non-verbal behaviour predates verbal
communication because individuals, since birth, rely first on non-verbal means to
express themselves”. 37 Os autores prosseguem afirmando que essa característica inata
do comportamento não verbal é de grande importância para a comunicação humana.
Antes mesmo que uma sentença seja proferida, o receptor observa atentamente os gestos
e a expressão facial do emissor buscando atribuir sentido às mensagens simbólicas (não
verbais), já que elas são confiáveis, pois são, na maioria das vezes, inconscientes e

36
Vide anexo A para nossa tradução (p. 100).
37
O comportamento não verbal antecede a comunicação verbal, pois o ser humano, desde o nascimento,
depende de meios não verbais para se expressar. (Tradução nossa)

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38

fazem parte do cotidiano de cada indivíduo. As pessoas, de um modo geral, acreditam


que os atos não verbais são autênticos e, portanto, tendem a confiar na mensagem não
verbal quando a mensagem verbal contradiz essa última. Weil e Tompakow (1986, p.
82) afirmam que, instintivamente, desaprovamos as pessoas que desviam seus olhares
do nosso durante um diálogo, ou que, de mão inerte, não respondem ao nosso aperto de
mãos com igual aperto e firmeza. Em outras palavras, há, por parte das pessoas, uma
tendência em querer dar sentido ao comportamento não verbal alheio por meio da
observação e análise de gestos ou expressões faciais. Conseqüentemente, essas
mensagens simbólicas ajudam o receptor a interpretar a intencionalidade do emissor e
isso é uma indicação clara da importância da CNV no campo da interpretação.
Freqüentemente, no decurso de um diálogo, não entendemos o que o emissor quis dizer
e, então, perguntamos “O que você quis dizer com isso?”. O profissional intérprete não
dispõe dessa possibilidade e, portanto, tem de recorrer a outros meios para compreender
a mensagem do emissor. Eis o momento em que a CNV entra em cena, oferecendo ao
intérprete pistas sutis para que ele entenda a mensagem transmitida.
Embora a CNV seja inata, a contribuição dela ao significado total do discurso
está restrita ao fato de ser culturalmente marcada e variar de país para país. O intérprete
tem de estar atento a essas variações culturais, evitando, assim, situações embaraçosas
diante de uma platéia nem sempre preparada para lidar com o inusitado.

2.4. O verbal versus o não verbal

Até onde é possível considerar a CNV digna de objeto de estudo a ponto de


render sérios artigos acadêmicos com inúmeras páginas publicadas em respeitados
jornais e revistas científicos? Wiener et al. (cf. 1981, p. 275) afirmam que,
curiosamente, há poucos trabalhos disponíveis que tratem da relação entre a
comunicação verbal e não verbal. Os autores explicam que isso é compreensível já que
as investigações concentram-se, em sua maioria, na comunicação verbal, relegando o
não verbal a uma posição secundária. Três são os argumentos dos pesquisadores para
justificar a não necessidade de se dedicar tempo e pesquisa a CNV: a) o significado da
CNV pode ser prontamente recodificado na forma verbal, pois a CNV, segundo eles,
nada mais é que a forma mais primitiva, menos adequada ou menos explícita de
expressar o que pode ser comunicado verbalmente; b) uma vez que formas de
comunicação verbal ocorrem na ausência da CNV (como na escrita), as ocorrências não

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39

verbais seriam redundantes; c) a terceira argumentação parece basear-se nas


observações de que bebês utilizam a CNV antes de se expressarem verbalmente, mas
que esses primeiros contatos não verbais tendem a diminuir de freqüência com o passar
dos anos e do desenvolvimento da competência verbal. Colocadas essas argumentações,
alguns cientistas concluem que a CNV ocorre apenas quando da indisponibilidade da
comunicação verbal, e quando ocorrem, são consideradas nada mais do que precursores
primitivos das formas verbais. Opondo-se aos conceitos expostos que relegam à CNV
um papel secundário, faz-se necessário explicitar que a comunicação humana – seja
entre bebês, crianças ou adultos – inclui uma multiplicidade de eventos simultâneos em
diferentes canais e modalidades verbais e não verbais e que não lhes atribuir o devido
valor é anular, ou na melhor das hipóteses, ignorar o fato de que cada um de nós é um
corpo e, fenomenologicamente, experimentamos seus estados todos os dias de nossa
existência.
De acordo com Argyle (cf. 1999, p. 253), podemos, por meio da CNV,
transmitir, entre outras coisas, nossa posição social, ocupação, traços de nossa
personalidade, se estamos disponíveis ou não para um determinado relacionamento, etc.
Por exemplo, um determinado indivíduo prefere ser visto como um excêntrico ou como
um intelectual esquerdista. Para atingir tal objetivo, poderá recorrer às seguintes
estratégias: (a) sua aparência – especialmente roupas, (b) aspectos discursivos não
verbais – sotaque, nível de linguagem e (c) estilo performativo do ato enunciativo verbal
e não verbal. Por outro lado, é possível que esse mesmo indivíduo expresse-se,
simplesmente, utilizando a comunicação verbal. Contudo, o seu objetivo ficará
comprometido, uma vez que a comunicação verbal não estará acompanhada de
elementos não verbais que corroborem o ato enunciativo.
Portanto, dentro desse contexto, podemos inferir que a CNV e a comunicação
verbal apresentam dois papéis distintos e opostos. Enquanto a CNV é, strictu sensu,
usada para dar suporte às relações interpessoais imediatas, a comunicação verbal é
usada para transmitir informações relacionadas às tarefas e problemas compartilhados
advindos dessas relações. De qualquer maneira, a CNV é capaz de transmitir
informação – a linguagem corporal, por exemplo – da mesma forma que o canal verbal
pode dar suporte às relações interpessoais – em um diálogo informal – e transmitir
atitudes e emoções por meio das palavras escolhidas.

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40

Vimos até aqui que há uma relação indissociável entre a comunicação verbal e
não verbal na linguagem humana. Como já mencionado, os elementos não verbais da
comunicação antecedem os verbais – o que é corroborado com a seguinte citação:

Quando em grupo, nossa linguagem corporal anseia por afirmar o nosso eu. –
Vamos juntar palavras – e a percepção delas será aprendizagem, ou melhor,
reaprendizagem? – O valor filogenético dos gestos antigos; ou a prova de
como nosso vovô pré-histórico escapou de levar uma pedrada da eleita do seu
coração por não esperar pela invenção da palavra falada. (WEIL, 1986, p. 69,
grifo do autor)

Sabemos que o não verbal antecede o verbal porque a linguagem verbal, tal como a
conhecemos, só surgiu quando o ser humano desenvolveu um aparelho fonador que lhe
permitisse articular sons inteligíveis. A passagem abaixo, de Wells (1991, p. 33) em A
Short History of the World38, ilustra bem essa condição:

We cannot guess what this Neanderthal man looked like. He may have been
very hairy and very inhuman-looking indeed. It is even doubtful if he went
erect. He may have used his knuckles as well as his feet to hold himself up.
Probably he went about alone or in small family groups. It is inferred from
the structure of his jaw that he was incapable of speech as we understand it 39
(grifo nosso).

Antes disso, a comunicação entre os indivíduos só era possível por meio de uma
protolinguagem de natureza não verbal, provavelmente semelhante àquela usada pelos
chipanzés de hoje: grunhidos, vocalizações, posturas e movimentos variados do corpo,
contrações dos lábios, exibição das genitálias, etc. Darwin (2004), em A Origem das
Espécies, postula que os organismos vivos evoluem gradualmente através da seleção
natural. Nesse sentido, nós, seres humanos, já fomos animais inferiores e evoluímos até
a espécie que somos hoje: Homo sapiens sapiens.
A partir da perspectiva do primitivamente não verbal, gostaríamos de ampliar o
tema, delineando os principais sinais não verbais utilizados pelo homem atual em seu
processo de comunicação com os seus semelhantes. Argyle (cf. 1999, p. 246) estabelece
que os principais sinais não verbais podem ser divididos em dez categorias. Cada uma
delas desempenhando um papel distinto no que se refere a sociabilização humana.

38
Uma Pequena História do Mundo. (Tradução nossa)
39
Vide anexo A para nossa tradução (p. 100).

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41

2.5. Os principais sinais não verbais humanos

• Contato físico:
Diversas são as formas de contato físico envolvendo partes do corpo humano:
aperto de mão, abraço, toques, afago, carícias, beijo, cutucadas, empurrões, etc.
Culturalmente falando, variam de lugar para lugar, de povo para povo. Por exemplo,
diferentemente dos africanos e árabes, japoneses e britânicos não são tão propensos a
esse tipo de contato. Esses últimos limitam-se, em ocasiões sociais, a um simples e
despretensioso aperto de mão. Na maioria das culturas, o contato físico ocorre com
mais freqüência no seio familiar, entre marido e mulher e entre pais e filhos. Mesmo no
âmbito familiar, algumas restrições são encontradas: Jourard (apud ARGYLE, 1999, p.
247) verificou que estudantes americanos brancos do sexo masculino recebiam, de seus
pais, toques que se limitavam, na maioria das vezes, às mãos, embora os amigos do sexo
oposto desses jovens os tocassem com maior liberdade.

• Proximidade:
Embora careça de estudos experimentais que apresentem resultados
significativos, a distância mantida entre as pessoas, estejam de pé ou sentadas, não deve
ser descartada para efeito de estudo da CNV. Via de regra, é natural que as pessoas se
aproximem com mais facilidade e a uma menor distância daqueles com os quais
mantenham um relacionamento mais íntimo: familiares, amigos, conhecidos, etc. Aqui,
também, encontramos aspectos culturais que determinam o quão próximas as pessoas
ficam umas das outras. Por exemplo, árabes e latinos permitem entre si uma maior
proximidade do que suecos, escoceses e ingleses. Porter e Salter (ibidem, p. 247)
consideram que a proximidade, diferentemente de outros sinais não verbais humanos,
oferece poucas informações comportamentais sobre um determinado indivíduo. Em um
experimento, três pessoas que estavam sentadas ao ar livre, a meio metro, um metro e
dois metros de distância de um determinado ponto, não foram observadas como
indivíduos em si, ou seja, os pedestres que por ali passavam, baseados apenas na
distância em que aquelas pessoas se encontravam umas das outras, não conseguiram
atribuir a elas traços ou indícios de interação. Por outro lado, quando um número maior
de pessoas está presente, a proximidade e mobilidade entre elas parecem refletir e
transmitir indícios de CNV: se um indivíduo A pretende iniciar um contato com um

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indivíduo B, ele simplesmente terá de se aproximar deste último, o que, com certeza, é
uma demonstração não verbal de sociabilização.

• Orientação:
Esse sinal não verbal refere-se ao ângulo em que as pessoas se encontram
quando estão sentadas ou de pé em oposição umas às outras. Estudos demonstraram que
o ângulo estabelecido pelas pessoas nessas situações varia entre estar de frente até, no
máximo, lado a lado. A orientação varia de acordo com a natureza da situação – aqueles
que se encontram num estado de cooperação ou que sejam amigos íntimos preferem
ficar lado a lado; já os que se confrontam ou barganham a compra e venda de um
determinado objeto, adotam uma posição mais frontal.

• Aparência:
Muitos dos aspectos da aparência pessoal são opcionais: roupas, estilo do cabelo
ou penteado e acessórios. Para Gheerbrant (1999, p. 834) “a roupa é um símbolo
exterior da atividade espiritual, a forma visível do homem interior”. Entretanto, há
outros aspectos referentes à aparência que estão relacionados às condições psicológicas
e físicas do indivíduo: extroversão, timidez, altura, cor dos olhos, etc. Além disso, muito
esforço e dinheiro são gastos com a imagem e isso pode ser considerado uma forma
especial de CNV. Normalmente cuidamos de nossa aparência para nos posicionarmos
em público, ou seja, para enviarmos mensagens não verbais sobre quem somos ou o que
pretendemos. Ao usarmos uma determinada roupa, estamos sinalizando sobre o nosso
status social, nossa ocupação, ou o grupo social a que pertencemos: gerentes de bancos,
sem querer atribuir um caráter discriminador a essa consideração, não se vestem como
surfistas ou roqueiros. A aparência também estabelece informações sobre nossa
personalidade e comportamento: supõe-se que pessoas extrovertidas e alegres
normalmente não usariam roupas escuras. De uma maneira geral, as pessoas utilizam
esses sinais não verbais com o objetivo de parecerem mais atraentes ao sexo oposto. A
aparência só tem sentido dentro de um contexto social comunicativo quando o
significado do detalhe de uma roupa, cabelo ou cosmético for interpretado e recebido
como uma mensagem.

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43

• Postura:
Qualquer que seja a cultura, há diferentes maneiras de se sentar, deitar ou de se
ficar em pé. Até certo ponto, a posição corporal que adotamos tem um significado
universal, como a expressão facial, mas também um significado culturalmente definido.
Dependendo da ocasião social – atos religiosos (igreja), jantares, etc – há certas
convenções em relação à posição adotada. Mehrabian (apud ARGYLE, 1999, p. 248)
explica que algumas delas são adotadas para expressar atitudes amistosas, hostis, de
superioridade ou inferioridade e que são prontamente compreendidas pelos indivíduos
receptores. Assim, a postura simboliza um sinal de status: alguém no comando de uma
determinada atividade senta-se ereto e aprumado, geralmente numa posição central e de
frente para os demais. Ekman (ibidem, p. 248) afirma que a postura varia de acordo com
o estado emocional, ou seja, uma determinada pessoa pode estar tensa ou relaxada e
esse seu estado emocional afetará invariavelmente a sua postura, uma vez que, nessas
situações, é mais difícil controlar a posição do corpo do que a expressão facial ou o tom
de voz.

• Nuto:40
Passemos agora aos sinais não verbais que envolvem movimentos corporais
rápidos. O nuto, o mais simples e imediato deles, está intimamente ligado ao discurso.
Quantos de nós não abanamos a cabeça em sinal de consentimento ou aprovação à
medida que nosso interlocutor dialoga conosco? Esse gesto denota aprovação, por parte
do receptor, em relação ao ato enunciativo do emissor, de tal maneira que esse último
tende a manter e, até mesmo, aumentar a freqüência de seu ato enunciativo. O nuto
também funciona como um importante sinalizador discursivo, uma vez que permite ao
emissor prosseguir com o seu discurso. Por outro lado, nutos muito rápidos por parte do
receptor sinalizam que ele pretende interromper o ato enunciativo do emissor, como se
estivesse pedindo permissão para falar. Por último, nutos, assim como outros
movimentos corporais, parecem, via de regra, seguir uma determinada coordenação
entre emissor e receptor, como se ambos estivessem, por exemplo, seguindo os passos
de certa dança.

40
Ato de abanar a cabeça quando se aprova ou consente.

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44

• Expressões faciais:
O rosto (ou face) é uma área especial da CNV. Por meio das expressões faciais
podemos transmitir uma gama quase infinita de informações não verbais. Com relação
a isso, Gheerbrant (1999, p. 790) estabelece que:

O rosto é um desvendamento, incompleto e passageiro, do indivíduo [...] É a


parte mais viva, mais sensível (sede dos órgãos dos sentidos) que, quer
queiramos, quer não, apresentamos aos outros; o eu íntimo parcialmente
desnudado, infinitamente mais revelador do que todo o resto do corpo.

Nos primatas superiores (gorilas, chipanzés e orangotangos), são usadas para


transmitir atitudes e emoções entre os indivíduos da espécie. Ekman (apud ARGYLE,
1999, p. 249) pontua que nos seres humanos as expressões faciais são marcadas por
elementos culturais universais – o franzir da testa, por exemplo – e independem do
processo de aprendizado. Vine (ibidem, p. 249) estabelece que as expressões faciais
também estão intimamente ligadas ao discurso, ou seja, o receptor, por meio de
pequenos movimentos das sobrancelhas e boca, reage, continuamente, ao que está sendo
dito, indicando perplexidade, surpresa, desaprovação, satisfação, etc. O emissor, por sua
vez, acompanha os movimentos do receptor com expressões faciais apropriadas ao
momento e que servem para modificar ou ajustar a comunicação.

• Gestos:
As mãos são importantes ferramentas para a comunicação. Movimentos da
cabeça, dos pés e de outras partes do corpo também podem ser usados, mas são bem
menos expressivos do que as mãos. Alguns gestos demonstram emoções gerais que
produzem movimentos difusos do corpo, enquanto outros parecem transmitir estados
emocionais específicos, como cerrar os punhos em sinal de raiva, por exemplo. Os
gestos, via de regra, são coordenados com o ato discursivo e, normalmente, produzidos
pelo emissor para ilustrar o que diz, principalmente quando a sua capacidade verbal
falhar ou quando objetos com formas e tamanhos específicos forem descritos. Para a CI,
isso é de especial interesse, uma vez que o intérprete pode usar do mesmo expediente
para atingir o seu objetivo durante a interpretação. Os movimentos das mãos e da
cabeça também são coordenados para indicar e sincronizar as vocalizações produzidas
durante o ato discursivo. Os gestos são tão expressivos que podem, simplesmente,
substituir o verbal sem prejuízo da compreensão entre o emissor e o receptor. O uso da
Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) para os surdos é um bom exemplo disso.

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45

• O olhar:
No transcorrer de um diálogo, os participante se olham, intermitentemente, por
períodos que duram de um a dez segundos. Descobriu-se que as pessoas, durante um
diálogo, gastam mais tempo se olhando do que falando ou ouvindo. O olhar exerce um
papel muito importante no que diz respeito à comunicação de atitudes interpessoais ou
ao estabelecimento de relações humanas. Por exemplo, “o olhar dirigido lentamente de
baixo para cima é um signo ritual de benção nas tradições da África negra”
(GHEERBRANT, 1999, p. 653). O olhar pode ser acompanhado das mais diferentes
expressões faciais e, entre outras, sinaliza agressão (muito comum entre os animais),
atração sexual, interesse, distração, concentração, etc. O olhar também é coordenado
com o ato discursivo e visa, primariamente, obter informações: reação do receptor ao
discurso do emissor e vice-versa.

• Aspectos não verbais do discurso:


Segundo Crystal (apud ARGYLE, 1999, p. 251), as mesmas palavras podem ser
expressas de diferentes maneiras, de acordo com os seguintes aspectos da vocalização:
entonação, intensidade e tempo. Os lingüistas fazem uma distinção entre sons
prosódicos – aqueles que afetam o significado das vocalizações – e sons paralingüísticos
– aqueles que transmitem outros tipos de informação. De acordo com Lyons (ibidem, p.
251), os sinais prosódicos incluem os padrões de entonação, de intensidade e as junções
(pausas e tempo), os quais afetam o significado das sentenças e são considerados
componentes significativos nas vocalizações verbais. Ainda segundo Lyons (ibidem, p.
251), os sinais paralingüísticos incluem emoções expressas via tom de voz, sotaques que
representam um determinado grupo, traços da personalidade expressos pela qualidade
da voz, erros discursivos, etc. Esse grupo de sinais não verbais não faz parte essencial
da linguagem e nem possui estruturas complexas, mas serve para determinar se uma
pessoa está ansiosa, nervosa, receosa, impaciente ou se ela estabelece controle sobre o
ato discursivo, ou seja, se domina o assunto sobre o qual se fala. Novamente, temos aqui
uma importante ferramenta para o intérprete que pode, facilmente, identificar se o
conferencista que faz uso dessas ocorrências não verbais tem conhecimento sobre o
tema apresentado.
Assim, em termos gerais, é possível verificar que a CNV: (a) funciona como um
suporte às situações sociais imediatas (atitudes interpessoais, estados emocionais e
apresentação pessoal), (b) proporciona sustentação à comunicação verbal, (c) afeta o

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46

significado das vocalizações (ansiedade, nervosismo, insegurança), (d) permite durante


o ato discursivo atingir uma seqüência sincronizada de vocalizações (floor-
apportionment), sem muitas interrupções ou pausas, (e) oferece feedback ao emissor e
receptor, (f) estimula a atenção (para que uma conversa continue, é necessário que as
partes envolvidas demonstrem interesse mútuo) e, finalmente, (g) substitui,
apropriadamente, a comunicação verbal.

2.6. Corpo, CNV e arte

Olhamos para nós mesmos diante do espelho e para os outros, e vemos entidades
com fronteiras definidas que chamamos de corpos e nossos corpos têm muito a dizer.

Pela linguagem do corpo, dizemos muitas coisas aos outros. E eles têm
muitas coisas a dizer para nós. Também nosso corpo é antes de tudo um
centro de informações para nós mesmos. É uma linguagem que não mente.
(WEIL, 1986, p. 7)

Quando estamos diante de alguém, procuramos estabelecer um parecer imediato


da pessoa com a qual interagimos. Inconscientemente, passamos a observar seus
movimentos e expressões corporais (postura, maneira de usar as mãos, o movimento dos
olhos, as expressões faciais, gestos) e também alguns elementos enunciativos sonoros
ou não sonoros (entonação, tom de voz, pausa, silêncio, hesitação). Talvez não nos seja
possível formular uma impressão definitiva ou conclusiva de nosso interlocutor, mas,
com certeza, esses aspectos não verbais da comunicação oferecem-nos subsídios
valiosos para avançarmos no processo de sociabilização. Quando é a nossa vez de
interagir, nossas palavras são acompanhadas por alguns dos mesmos aspectos não
verbais já mencionados, os quais elucidam, enfatizam, realçam ou até mesmo
contradizem-nos. Podemos ainda usar alguns sinais culturalmente estabelecidos: aperto
de mão ou aceno, que simbolizam, respectivamente, a nossa disposição para iniciar um
relacionamento amigável ou a nossa iminente partida. Durante um diálogo, muita
informação – nem sempre em forma de palavras – é transmitida e, com efeito, uma
terceira pessoa que esteja a certa distância observando, mas não ouvindo, pode, baseada
no que vê, conceber um perfil das pessoas envolvidas no diálogo.
A importância dessas ocorrências não verbais não está circunscrita apenas ao ato
da comunicação interpessoal do dia-a-dia. Vejamos o que diz Santaella (2004, p. 65) a
esse respeito:

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47

A história da arte demonstra que o corpo humano sempre esteve, de uma


maneira ou de outra, com maior ou menor intensidade, no foco de atenção
dos artistas. A par do teatro e da dança que são artes do corpo por excelência,
também nas artes visuais [...] as medidas perfeitas compunham o modelo
abstrato do corpo ideal.

Conforme a citação acima, a CNV, por meio de corpo, transcende o limite da


comunicação humana presencial para recair sobre as mais diversas manifestações
artísticas, o que justifica a sua importância para as ciências lingüísticas. Diante disso, é
possível fazer algumas considerações quanto à ocorrência da CNV nas artes. Um
dramaturgo, ao conceber sua obra, terá diante de si o texto teatral. Contudo, o
significado real de seu texto, a ser captado pela platéia, dependerá muito do talento e da
interpretação dos respectivos diretores e atores, acompanhada de ênfase, expressões
faciais, gestos e posturas. Um romancista, na tentativa de se aproximar da realidade,
deve fazer uso da narrativa literária para transmitir ao leitor ocorrências da CNV.
Vejamos dois exemplos literários, o primeiro em A Tragédia da Rua das Flores:

Mas sentiu-se um prelúdio de piano. Victor entrou na sala. O ilustre Fonseca,


com a cabeça no ar, o olhar errante por trás dos seus óculos que reluziam à
luz, passeava as pontas polpudas dos seus dedos de merceeiro, de leve, sobre
o teclado sonoro. Uma lenta harmonia velada elevava-se; as duas velas de
piano, com um enorme morrão, vermelhejavam, e ao lado, de pé, o poeta
lírico passava, um pouco trêmulo, as mãos pela barba. Olhou em redor,
fincou a luneta, tossiu. Os seus cabelos, que a luz fria, pareciam um pouco
castanhos, compridos, com pêlos caídos sobre a gola; a barba atravessada
pela claridade da vela, parecia mais fraca, como uma penugem de algodão e
suja; e nos movimentos de seu rosto pálido, os vidros defumados das lunetas
tinham reflexos negros. E de repente disse:
– Contemplação – Visão. É o título do poema. – Tossiu, declamou:
(QUEIRÓS, 1982, p. 37)

E o segundo em Dom Casmurro:

Capitu, a princípio não disse nada. Recolheu os olhos, meteu-os em si e


deixou-se estar com as pupilas vagas e surdas, a boca entreaberta, toda
parada. [...] (ASSIS, 1987, p. 30)

Nos trechos literários acima os autores fazem, por meio da narrativa, com que as
personagens utilizem-se do não verbal para se comunicarem com o leitor. Vejamos
essas ocorrências: “com a cabeça no ar”, “o olhar errante”, “passeava as pontas
polpudas dos seus dedos...sobre o teclado”, “e ao lado, de pé”, “o poeta lírico passava,
um pouco trêmulo, as mãos pela barba”, “Olhou em redor”, “tossiu”, “e nos
movimentos de seu rosto pálido”, “Recolheu os olhos”, “deixou-se estar com as pupilas
vagas e surdas”, “a boca entreaberta, toda parada.”

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48

Ainda, dentro de um contexto artístico, podemos considerar um pintor ou um


escultor ao retratar seres humanos. O sucesso desses artistas depende, em parte, de
como conceberão os aspectos não verbais e de como o observador os captará. A
propósito, Gombrich (cf. 1999, p. 373) afirma que “works of art have been tradionally
praised precisely for only lacking the voice (grifo do autor), in other words, for
embodying everything of real life except speech.”41 Vejamos algumas dessas
ocorrências não verbais na célebre obra La Liberté guidant le peuple (A liberdade
guiando o povo), de Eugéne Delacroix (1798-1863):

Fig. 2. A Liberdade Guiando o Povo (Eugéne Delacroix)

É possível observar um forte apelo emocional nesse magnífico óleo sobre tela que,
indiscutivelmente, atinge o observador por intermédio da linguagem não verbal. A cena
retrata a Revolução de 1830 quando Carlos X é derrubado do trono. Além dos
elementos não verbais que permeiam a obra, também identificamos a técnica apurada do
artista, que exalta os tons claros e escuros, em uma composição diagonal que sugere
instabilidade e dinamismo ao observador. O valor dramático da pintura é assegurado
pelo uso das cores, das luzes e das sombras, dando-nos a sensação de grande
movimentação. Vejamos alguns desses elementos não verbais: a proximidade, o contato
físico e a orientação das personagens, bandeira e armas empunhadas, expressões faciais
(a altivez e a robustez da figura feminina, determinação dos revolucionários no plano
intermediário, o ar de súplica do jovem ajoelhado aos pés da figura feminina, o rosto
sem expressão dos soldados que jazem no primeiro plano, bem como a nudez do

41
Os trabalhos artísticos são tradicionalmente admirados justamente por não apresentarem ocorrências
verbais, ou seja, por corporificarem tudo da vida real exceto o discurso. (Tradução nossa)

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49

soldado morto à esquerda, os seios desnudos da jovem) e bocas semi-abertas bradando


por liberdade. Delacroix, ao compor a sua obra e ao tentar imprimir movimento e
dinamismo a ela, faz uso da CNV proporcionando ao conjunto um realismo
impressionante.
Registramos até aqui algumas das ocorrências, acompanhadas ou não de
comunicação verbal, presentes na CNV. Vimos que essas ocorrências estão
praticamente presentes em todos os níveis da comunicação humana, inclusive, é claro,
na interpretação, objeto desse nosso trabalho. E, se é verdade que a CNV oferece-nos
subsídios valiosos para compreendermos melhor as pessoas e o mundo que nos cerca,
ela com certeza é uma importante ferramenta a ser explorada pelo profissional
intérprete. No próximo capítulo, discorreremos sobre a dupla tarefa desse profissional
ao lidar com as dificuldades e as possibilidades em transferir, primeiramente, um
segmento verbal / não verbal do conferencista (emissor primário) para ele mesmo
(receptor primário) e, depois, o mesmo segmento verbal / não verbal dele como emissor
secundário para uma determinada platéia (receptor secundário). Limitaremo-nos às
ocorrências não verbais mais pertinentes à interpretação: entonação, tom de voz,
postura, gestos, expressões faciais, o olhar e a pausa (silêncio).

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50

CAPÍTULO TERCEIRO

COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL


NA INTERPRETAÇÃO

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51

3. COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL NA INTERPRETAÇÃO

3.1. CNV e interpretação

No capítulo anterior, tratamos a CNV como um fenômeno presente na


comunicação humana tão antigo e tão importante quanto a própria comunicação verbal,
haja vista que toda mensagem falada é simultaneamente emitida em dois níveis: verbal e
não verbal. Neste capítulo abordaremos a CNV não mais como um fenômeno, mas sim
como uma problemática a ser solucionada, ou mesmo como uma preciosa ferramenta de
trabalho a ser experimentada pelo intérprete. Vejamos o que diz Poyatos (cf. 2002, p.
235) a esse respeito:

Being sensitized to the complex functioning of somatic systems beyond


verbal language in oral translation reveals not only how messages are often
completed only through nonverbal signs, but how many times they are
transmitted exclusively in nonverbal ways, two facts that cannot be neglected
by the sensitive translator and which respond to different reasons that must
also be understood, often even rendered understandable (grifo do autor) in
the translation.42

Abrir mão desse importante recurso disponível durante o ato interpretativo é colocar em
risco a qualidade da interpretação. O primeiro problema com o qual o intérprete deve se
deparar é a limitação expressiva das palavras que utiliza durante o ato interpretativo
para passar uma mensagem que, muitas vezes, não é apenas formada por palavras, mas
também por elementos não verbais que, como vimos no capítulo anterior, podem servir
de suporte ou de substituição à comunicação verbal.
Na concepção de Poyatos (ibidem, p. 235-246) e para avaliarmos hipóteses com
base nos pressupostos teóricos discutidos anteriormente nesse trabalho, é necessário
estabelecer a disponibilidade ao emissor (palestrante) de sinais potencialmente
comunicativos durante o ato enunciativo e o quanto desses sinais pode ser distinguido
pelo seu receptor (platéia) e pelo profissional intérprete. Também, em relação a esses
sinais, é importante considerar quais serão identificados pelo receptor por meio da ação
do intérprete e de que maneira o intérprete, considerando-se o ato interpretativo,
transmitirá esses sinais entre emissor e receptor. Para isso, Poyatos (ibidem, p. 238)
baseia-se no que, segundo ele, constitui o elemento principal do material a ser

42
Vide anexo A para nossa tradução (p. 100).

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52

interpretado e que o autor denomina de tríplice estrutura: linguagem, paralinguagem e


cinética. Para os propósitos desse estudo, definamos, brevemente, cada um dos
elementos presentes nessa tríade: a) Linguagem – os vernáculos utilizados na
interpretação, por exemplo, inglês e português; b) Paralinguagem – os aspectos não
verbais presentes na voz humana que, usados conscientemente ou não, resultam em
alterações semânticas daquilo que, realmente, pretende-se dizer (timbre de voz,
entonação, ressonância, duração silábica, ritmo, gargalhada, choro, suspiro, limpar a
garganta, estalar a língua, inalar e exalar o ar ruidosamente, etc.); c) Cinética –
posições e movimentos do corpo, conscientes ou não, imitados ou involuntários, os
quais, isoladamente ou combinados com os elementos lingüísticos e paralingüísticos,
possuem, intencionalmente ou não, valor comunicativo.

3.2. Categorias funcionais e morfológicas do comportamento não verbal

Tendo em vista que, durante o ato interpretativo – ou em qualquer outro ato


enunciativo –, a cinética pode combinar-se com a linguagem e a paralinguagem para
facilitar a comunicação, o intérprete deve estar atento à totalidade do discurso do
emissor, uma vez que a interpretação pode ser realizada não apenas por meios auditivos
(atenção), mas também por meios visuais (observação). Em outras palavras, o intérprete
não é apenas o tradutor da linguagem verbal, mas dos três elementos encontrados na
tríplice estrutura descrita acima. Fundamentando-se nessas idéias, Poyatos (cf. 2002, p.
243) oferece-nos um interessante modelo para identificar nove elementos
paralingüísticos e cinéticos (função) que dão suporte aos elementos lingüísticos,
morfológicos, sintáticos e semânticos. Vejamos:

• “Emblemas”: são gestos e vocalizações paralingüísticos que têm o seu


equivalente em uma palavra, frase ou sentença, como por exemplo: “So-so.”,
“Okay!”, “Stop!”, “Shhhh!”. Apesar do caráter universal de alguns emblemas,
cada cultura desenvolveu seu próprio repertório. No contexto da interpretação,
poderíamos estabelecer como norma que emblemas acompanhados de seus
equivalentes verbais são dispensáveis e não necessitam de interpretação,
enquanto aqueles desacompanhados são, de acordo com o critério do intérprete,
indispensáveis ao ato interpretativo.

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53

• Marcadores discursivos: constituem a categoria mais sutil e mais culturalmente


diferenciada, uma vez que estabelecem atitudes comportamentais, conscientes
ou não, que destacam e enfatizam a seqüência gramatical e acústica das palavras
ou frases de acordo com a localização e relevância no discurso. Esses
marcadores podem revelar peculiaridades culturais, verbais e não verbais.
Exemplos de alguns marcadores discursivos cinéticos (apesar de não ocorrerem
tanto entre os suecos como entre os italianos) são os pronomes (apontar para
indivíduos presentes em um local; apontar um para o outro quando usamos
reflexivos), preposições (um breve gesto com a mão ou rosto quando usamos
sem, sobre, dentro), conjunções (gestos e expressões faciais com então,
entretanto, mas), tempos verbais (gestos e expressões faciais para indicar
diferenças temporais e modais como em “haverá alguém para me ajudar?”, “se
ao menos houvesse alguém aqui”, “ele deve ser muito rico”), ênfase (enfatizar,
em inglês, com movimentos da cabeça, sobrancelhas ou mãos a uso do auxiliar
do em “Well, their parents don’t seem to think there is any danger, but we do!”).

• Marcadores espaciais e temporais: introduzem aspectos dimensionais (tamanho,


distância e localização) e cronológicos. Na expressão “Está bem ali, olha!”, os
americanos, ao indicar a direção, utilizam a mão e o olhar, enquanto os latinos o
fazem com o queixo e o olhar. Também ilustram o passado e o futuro, distantes
ou próximos, o presente e a duração dos eventos, como por exemplo, no seguinte
enunciado: “Faça isso beeeeeem devaaagaaar.”

• Dêixis43: são movimentos, e algumas vezes vocalizações, que indicam,


espacialmente, o ponto de localização de uma pessoa, objeto ou lugar – mesmo
quando o referencial não está presente – e, temporalmente, um evento.
Recorremos a essa categoria funcional não verbal quando apontamos para
alguém, para um objeto ou para um lugar ou quando estalamos o dedo médio
contra o polegar, geralmente acompanhado de uma vocalização, para indicar que
um evento aconteceu há muito tempo. Bechara (2003, p. 162) afirma que do
ponto de vista semântico, os pronomes estão caracterizados porque indicam

43
Faculdade que tem a linguagem de designar demonstrando, e não conceituando. Em qualquer sistema
lingüístico figura a designação dêitica, ou demonstrativa, par a par com a designação simbólica, ou
conceitual. (Dicionário Aurélio)

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54

dêixis (o apontar para), isto é, estão habilitados, como verdadeiros gestos


verbais.

• Pictógrafos, cinetógrafos, ecóicos e cinefonógrafos:44 são comportamentos não


verbais que imitam ou simulam a linguagem verbal. Sob condições normais,
possivelmente apenas os pictógrafos e os cinetógrafos ocorrem no ato
interpretativo. Com os pictógrafos podemos desenhar no ar, ou em uma
superfície qualquer, a forma ou o contorno de alguém ou de algo (por exemplo,
desenhar a forma de um coração no ar demonstrando nossa afeição por uma
pessoa). Já com os cinetógrafos é possível imitar qualquer tipo de ação, seja
corporal, mecânica ou natural (imitar um robô, por exemplo). Os ecóicos são
imitações de sons produzidos paralingüisticamente (cantarolar uma canção) ou
cineticamente (batucar) – ou de ambas as formas– enquanto os cinefonógrafos
são combinações de imitações cinéticas e paralingüísticas de movimentos e sons
(imitar o vôo e o zumbido uma abelha).

• Ideógrafos45 e rastreadores de eventos: são movimentos, às vezes


acompanhados de sons paralingüísticos, que norteiam a direção de um
pensamento ou evento que é descrito ou apresentado. Os primeiros referem-se a
uma experiência agradável, um grande feito, uma obra de arte, etc., enquanto os
segundos rastreiam a descrição de um evento, tal como o ato de correr na
tentativa de apanhar um ônibus em movimento.

• Identificadores: os identificadores, juntamente com os marcadores discursivos e


a próxima categoria, os exteriorizadores, são, sem sombra de dúvida, os
elementos paralingüísticos e cinéticos mais intrigantes, fascinantes e difíceis de
serem dominados em uma outra cultura e os mais inerentes ao discurso. Essas
três ocorrências são responsáveis pelo estilo expressivo de cada indivíduo – se
agimos como uma “dama”, “vulgarmente”, “com elegância”, “inteligivelmente”
– sinalizando sexo, idade, condição sócio-econômica e cultura. Manifestam-se

44
Tradução nossa. Dos termos citados, apenas “ecóico” é dicionarizado. Contudo, o dicionário Houaiss
traz uma acepção que não se aplica ao contexto acima.
45
Tradução nossa. O termo idéografo é dicionarizado. Contudo, o dicionário Houaiss traz uma acepção
que não se aplica ao contexto acima.

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55

simultaneamente alternando-se com a linguagem verbal a qual ilustram e se


referem, ou a qual, literalmente, dão forma corporal, identificando, assim, certos
conceitos abstratos (“impossível”, “absurdo”), qualidades morais e físicas
(“hostil”, “durão”, “avarento”, “precavido”) e qualidades com referenciais
concretos e ambientais (“sujo”, “claro como água”, “suave”, “sombrio”).

• Exteriorizadores: formam a mais complexa de todas as categorias. Não ilustram


palavras, mas interagem profundamente com elas. Dentro dessa categoria
encontramos as reações comportamentais que são demonstradas diariamente por
todos nós e, individualmente ou culturalmente falando, funcionam como
exteriorizadores de nosso estado psicológico em relação ao passado (um crime
cometido), presente (discursando em uma assembléia da ONU) ou situações
futuras (entrevista para um emprego). As informações não verbais contidas
nessas reações não precisam ser, necessariamente, transmitidas pelo intérprete,
por conta de seu conteúdo semântico óbvio (a tensão do emissor em um debate
político diante de seu opositor), embora seja importante captá-las e codificá-las
dentro de um contexto discursivo.

• Adaptadores: fazem parte de uma importante categoria não verbal que inclui
atividades ou posturas nas quais partes do corpo – principalmente as mãos –
entram em contato com outras partes do próprio corpo (auto-adaptadores), com
partes do corpo de outra pessoa (alter-adaptadores), com objetos (adaptadores
instrumentais) e com substâncias e objetos freqüentemente relacionados ao
corpo (adaptadores corporais: perfume, vestuário). Desses quatro, apenas os
auto-adaptadores e os adaptadores instrumentais possivelmente serão utilizados
e, conseqüentemente, estarão disponíveis para o intérprete. Vejamos como os
auto-adaptadores funcionam: o emissor em um momento de pausa pode,
irriquietamente, tocar partes de seu corpo (passar as mãos pelos cabelos, coçar a
ponta do nariz, esfregar os olhos, etc) em uma tentativa de captar a atenção do
intérprete ou do receptor, enquanto esse último pode bocejar em sinal de tédio
ou coçar o queixo em sinal de incredulidade. Vale a pena lembrar que alguns
marcadores discursivos, identificadores e exteriorizadores também
desencadeiam esse comportamento. Os adaptadores instrumentais, por sua vez,
são utilizados quando o emissor ou o receptor manipula objetos (canetas ou

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copos), quando batem nos braços de cadeiras ou tamborilam em superfícies


planas (livros, mesas), quando arrumam pilhas de papel, etc. Do mesmo modo
que os auto-adaptadores, os adaptadores instrumentais precisam ser identificados
pelo profissional intérprete como parte do arsenal de comportamentos interativos
entre o emissor e o receptor.

3.3. Elementos não verbais pertinentes à interpretação

Passemos agora a analisar os elementos não verbais que Besson et al. (2005)
consideram os mais pertinentes à interpretação. Vale lembrar que alguns desses
elementos já foram abordados nos capítulos anteriores. Todavia, enfatizaremos a relação
desses elementos com a interpretação no momento do ato enunciativo, bem como o
efeito discursivo que cada um deles exerce sobre o intérprete.

• Entonação: é a modulação de voz na emissão de uma sentença que indica a


ocorrência de uma afirmação, pergunta, pedido ou ordem, ou se o emissor está
contente, surpreso, etc. Por exemplo, a entonação indica ao intérprete se o
emissor está perguntado ou afirmando algo e estabelece o final de uma unidade
de sentido que, na linguagem escrita, é registrada por meio de sinais de
pontuação: vírgula, ponto e vírgula, ponto final, ponto de exclamação ou
interrogação, etc. Uma outra função da entonação é a de exercer ênfase sobre
uma determinada palavra ou idéia, um detalhe que o intérprete não deve deixar
passar em branco.

• Tom de voz: é o meio pelo qual o emissor condiciona sua atitude ao enunciado e
a reação do receptor a mensagem nele contida. Por exemplo, durante um debate
político o tom de voz sugere entusiasmo e excitação, enquanto em um noticiário
de TV será sempre mais factual. Agressividade, criticidade, nervosismo,
desapontamento, monotonia, afetividade, persuasão, etc. estão presentes no tom
de voz do emissor.

• Ruídos vocálicos produzidos no ato enunciativo: a mensagem verbal pode vir


acompanhada de ruídos vocálicos que não são comumente considerados parte da
linguagem, muito embora auxiliem na comunicação quando expressamos uma

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atitude ou sentimento. Essas estruturas não lexicais diferem do discurso oral em


muitos aspectos importantes. O mais marcante desses aspectos é o fato de serem
mais estáveis e universais do que aquelas encontradas na comunicação verbal,
por exemplo: gargalhadas, gritos de alegria, dor ou espanto, medo, vocalizações
que expressam desapontamento (tsc! tsc! tsc!), nojo (arrgh!), triunfo (huh! huh!).

• Posturas do corpo: revelam a maneira de se portar ou o posicionamento do


corpo do emissor. Por apresentarem uma natureza mais estável, não devem ser
confundidas com os gestos (movimentos). Algumas posturas, por suas
características, revelam um determinado propósito ou correspondem a certas
expectativas no contexto de uma determinada situação. Por exemplo, em uma
reunião entre executivos de uma empresa, o diretor estabelece um grau de
formalidade ao sentar-se ereto com os braços apoiados firmemente sobre sua
agenda. Em contrapartida, os executivos presentes podem atribuir certa
informalidade ao momento se o diretor sentar-se com as pernas afastadas, o
corpo projetado para frente e os braços cruzados sobre a mesa.

• Gestos: o gesto é um movimento, normalmente utilizado durante o ato


enunciativo, produzido por um dos membros do corpo – particularmente as mãos
– para expressar, confirmar, enfatizar ou dar suporte à atitude ou intenção do
emissor. “A mão exprime idéias de atividade, ao mesmo tempo que as de poder
e de dominação.” (GHEERBRANT, 1999, p. 589) Se um determinado gesto não
for acompanhado da linguagem verbal, é considerado um emblema: por
exemplo, acenar com as mãos em sinal de adeus ou manter a mão fechada com a
falange distal do polegar introduzida entre o indicador e o médio com o intuito
de afastar o azar (figa). Enquanto alguns emblemas são dotados de significados
universais (o sinal de positivo, o movimento do indicador sinalizando uma
negativa, etc.), outros são culturalmente ou idiossincrasicamente marcados: o
sinal de OK usado pelos britânicos pode ser altamente ofensivo nos países da
América do Sul, notadamente no Brasil. Os gestos são freqüentemente
acompanhados por expressões faciais.

• Expressões faciais e movimentos dos olhos: as expressões faciais têm uma


natureza dinâmica e comunicam a atitude, as emoções e a intenção do emissor.

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Não nos esqueçamos de que a face é a fonte primária das emoções. Nenhuma
outra parte do corpo humano é capaz de, por meio da CNV, expressar tão
eficazmente nossas emoções quanto a face. Durante o ato enunciativo, as
expressões mudam continuamente e são constantemente monitoradas e
decodificadas pelo receptor. As expressões faciais mais comuns são: o sorriso, o
franzir da testa, o levantar das sobrancelhas, o bocejo e o olhar de escárnio. Os
movimentos dos olhos são um capítulo à parte das expressões faciais, pois
envolvem manifestações de sentimento eficazmente transmitidas, uma vez que
“os olhos são o espelho da alma”. De uma maneira geral, os movimentos
oculares como CNV, diferem de cultura para cultura. O tempo pelo qual
mantemos contato visual com o nosso interlocutor sugere interesse ou enfado ou
pode indicar desonestidade. Olhar fixamente para alguém demonstra sinceridade
ou franqueza, enquanto desviar o olhar para baixo pode significar modéstia ou
insegurança. Pesquisadores descobriram que certas áreas faciais expressam
melhor nosso estado emocional. Por exemplo, os olhos tendem a demonstrar
felicidade, tristeza, surpresa, descontentamento. A parte inferior da face também
expressa estados emocionais: o sorriso comunica amizade e cooperação. Já a
parte superior da face – sobrancelha e testa – é especializada em transmitir raiva
e aversão.

• Pausa (silêncio): no que se refere a CNV, a pausa apresenta duas funções


distintas: a) funciona como uma breve interrupção do ato enunciativo para
indicar os limites e as relações das sentenças e de suas estruturas. Nesse sentido,
a pausa assemelha-se à entonação, como descrito anteriormente (p. 56); b)
consiste de uma inação vocal temporária revelando incerteza, hesitação, tensão
ou inquietação por parte do emissor. Dentro desse contexto, a pausa estabelece
um juízo de valor ao indicar aprovação ou desaprovação, concordância ou
discordância. Como resultado, a mensagem não verbal subjacente à pausa
oferece problemas durante o ato interpretativo, pois o seu significado pode variar
consideravelmente. A pausa, por seu caráter instável em relação à CNV, exerce
uma influência negativa ou positiva no processo de comunicação.

Se definirmos pausa como uma modalidade de silêncio, podemos inferir que o


silêncio é, por sua vez, uma modalidade de linguagem não verbal: a linguagem do

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59

silêncio. A fim de considerarmos o silêncio como importante forma de comportamento


e comunicação, faz-se necessário defini-lo. Em seu sentido etimológico,
silentium/silens, que se cala, silencioso, que não faz ruídos, calmo, que está em repouso.
Em sua aplicação religiosa, como o que está em comunicação com a divindade, que está
em meditação, em reflexão. Neste último significado, evocamos o posicionamento de
Philips (apud JAWORSKI, 1993 p.18) que aponta um tipo de “interação estruturada por
meio do silêncio” em que há uma categoria comunicativa intencional.
Biblicamente, como já citado no primeiro capítulo, temos evidências de que o
silêncio veio primeiro. No principio, o silêncio, até que se ouviu a voz criadora de Deus.
O ato de fala de Deus quebrou o silêncio e destituiu a ausência e o nada. Sócrates (apud
MENEGOLLA, 2003, p.47) ressalvava que o silêncio era uma maneira de
conhecimento bem mais importante que a própria linguagem. Clarice Lispector (ibidem)
afirmou que “o silêncio não é o vazio, é a plenitude”. Ao individualizarmos o silêncio
como algo significativamente palpável, estabelecemos um espaço para ele dentro da
linguagem. A esse respeito, Menegolla (2003, p. 47-48) brilhantemente discorre sobre
silêncio:

Há nas palavras um silêncio natural, mas há também nas palavras um silêncio


forçado, incutido e também astuto. Há um silêncio que existe pelo fato de que
a palavra, por mais que queira, não pode expressar tudo. Há também o
silêncio que advém da falta de compreensão, pela ignorância e pelo
preconceito diante das palavras, tanto por parte de quem as escreve, ou as
pronuncia, quanto da parte de quem as lê ou as escuta. […] As palavras
pronunciadas ou escritas são estáticas. Ao se dizer algo ou escrever, dá-se um
atestado de conclusão, se bem que imediato. Enquanto o silêncio, por não
falar, propriamente dito, é dinâmico, proporciona o imaginário, vislumbra
perspectivas, movimenta-se entre os sentidos. Transita e deixa transitar. [...]
Ao recorrermos às palavras, vestimos a superfície do ser, mas, por isso
mesmo, despimos o que é mais próprio do ser, o que está por se fazer. À
medida que a palavra passa a predominar sobre o silêncio, tornamo-nos
portadores apenas de signo e não das coisas mesmas. De modo que o
investimento recai em uma fatura do possível. Tudo funciona para que
fujamos da reflexão sobre os seres, pessoas e coisas. Assim sendo, o silêncio
é atropelado e o raciocínio abafado, funcionando as palavras como
maquiagens das coisas e das pessoas. Tornando-se o homem moderno, e,
mais ainda, o pós-moderno o eco da mesmice.

Opondo-se à concretude das palavras, podemos identificar no silêncio toda uma


imponderabilidade e sutileza lingüística, um desafio durante a interpretação. Vejamos o
que diz Orlandi (1997, p. 47) a esse respeito:

O silêncio não é diretamente observável e, no entanto, ele não é o vazio,


mesmo do ponto de vista da percepção: nós o sentimos, ele está “lá” (no

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sorriso da Gioconda, no amarelo de Van Gogh, nas grandes extensões, nas


pausas).

Vale ainda lembrar que as formas de silêncio também são marcadas culturalmente. A
propósito, na figura abaixo identificamos o emblema que representa, universalmente, o
pedido de silêncio.

Fig. 3. Emblema representando o silêncio

Curiosamente, quando solicitamos silêncio por meio do referido emblema, fazemo-lo


aproximando nosso dedo indicador de nossos lábios, partes integrantes de nosso
aparelho fonador cujo principal órgão é a boca. Para Gheerbrant (1999, p. 133) “a boca
é o órgão da palavra (verbum logos) e do sopro (spiritus) e simboliza também um grau
elevado de consciência, uma capacidade organizadora através da razão”. É como se
pudéssemos visualizar o limite entre o verbal e o não verbal e a relação intrínseca entre
os dois, relação essa que deve ser levada em consideração no ato interpretativo, pois
mesmo no silêncio – uma forma de CNV – há mensagens mergulhadas em um mar de
sutilezas.

3.4. O desafio do intérprete ao interpretar o não verbal

Vimos que a CNV exerce um papel importante no comportamento verbal e não


poderia ser diferente no que se refere à interpretação profissional ou informal.
Considerado esse aspecto, cabem aqui duas perguntas cujas respostas ajudam a nortear
o trabalho do profissional intérprete: a) em quais situações e até que ponto será possível
lidar com a CNV? e b) em que região do cérebro ocorre o processo interpretativo das
mensagens não verbais? Como a ocorrência enunciativa, o ato interpretativo é
influenciado por diversos fatores sociais, neurofisiológicos e psicológicos os quais serão
brevemente apresentados a seguir.
A CNV não ocorre apenas em situações onde o emissor e o receptor estão
presentes frente a frente (estímulo visual). Há situações em que essa comunicação será
realizada por meio de uma determinada tecnologia disponível: é o caso da interpretação

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61

ao telefone (estímulo auditivo), quando não é possível para o profissional intérprete ver
o emissor46. Por isso é necessário pontuar que a CNV é também aplicável a qualquer
tipo de interpretação profissional ou não e, portanto, não pode ficar restrita apenas a
ocorrências visuais e presenciais. É importante lembrar que quando o estímulo visual
não estiver disponível, a voz pode conter importantes mensagens paralingüísticas não
verbais (entonação, tom de voz, ruídos vocálicos produzidos no ato enunciativo e
pausa). Contudo, para efeito de estudo da interpretação, consideraremos apenas os atos
não verbais que são expressos e observados em situações em que emissor e receptor
estão presentes.
“Enquanto a CNV apresenta uma natureza contínua, a comunicação verbal
parece oferecer certa descontinuidade em relação ao ato enunciativo.” (BESSON et al.,
2005) Além disso, como vimos, a atividade verbal vem sempre acompanhada de
comportamentos não verbais que apesar de sua dinamicidade e espontaneidade são
também, via de regra, padronizados culturalmente. Portanto, uma interpretação bem
sucedida dos elementos não verbais utilizados no ato enunciativo requer o mesmo grau
de compreensão dos símbolos compartilhados entre o intérprete e emissor. Isso significa
que para compreender e interpretar corretamente um ato verbal acompanhado de
ocorrências não verbais é crucial que haja conhecimento compartilhado das regras e
normas da CNV entre as partes envolvidas: emissor (palestrante), intérprete e receptor
(público presente). Portanto, se o público possuir conhecimento compartilhado das
mensagens não verbais, o intérprete pode antecipar o comportamento não verbal do
emissor e essa previsibilidade torna-se uma ferramenta importante no ato interpretativo,
pois graças ao conhecimento, consciente ou não, dos elementos não verbais
culturalmente marcados e compartilhados, é possível antecipar o que será dito. Dessa
maneira, no que se refere à interpretação, ser capaz de antecipar (prever) o significado
de uma determinada mensagem não verbal não é apenas o resultado da cultura geral do
profissional intérprete, mas também da sua habilidade em interpretar o comportamento
não verbal.

46
Existe na China um serviço de interpretação via celular para turistas e negociantes em trânsito naquele
país. O ChinaONEcall, como é conhecido, disponibiliza intérpretes que podem ser acessados via celular e
que utilizam o chinês e o inglês como LP e LC respectivamente. O serviço é tarifado e o usuário pode
contar com a ajuda de um profissional a qualquer hora do dia. Mais informações no site
<http://www.chinaonecall.com>.

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62

3.5. Interpretando elementos não verbais: aspectos neurofisiológicos

Em uma determinada palestra, o intérprete vê-se diante de uma situação


inusitada: o palestrante, tomado por um momento de ira provocado por uma pergunta
inoportuna de alguém da platéia, assevera seu tom de voz sobremaneira, assumindo uma
postura extremamente agressiva. Besson et al. (2005) postulam que a área do cérebro
responsável por processar mensagens emotivas é ativada mesmo quando a área
cognitiva está em funcionamento. Portanto, o intérprete da referida situação ver-se-á
envolvido emocionalmente, pois a região emotiva de seu cérebro acabou de ser ativada.
Entretanto, o bom intérprete não deveria demonstrar emoções nessas situações, mas
manter-se calmo e imparcial. É óbvio que o intérprete não é uma máquina, mas um ser
humano que sente e que pode detectar emoções alheias não verbais.
Mas de que maneira as emoções são processadas em nosso cérebro? O lobo
direito do cérebro, também conhecido como cérebro emocional ou sistema límbico, é a
estrutura mais primitiva do cérebro humano e tem o tamanho aproximado de uma noz.
Já o córtex pré-frontal faz parte do neocórtex ou, mais simplesmente, do cérebro
pensante. O neocórtex é responsável por processos que envolvem análises, comparações
ou considerações, solução de problemas, planejamento, organização e pensamento
racional. Também processa estímulos emocionais relevantes. Tanto o córtex como o
neocórtex desenvolveram-se durante o processo evolutivo do homem e, portanto, são
mais recentes se comparados ao sistema límbico. O córtex pré-frontal e o neocórtex
interagem com o primitivo sistema límbico que possui, entre outras, uma estrutura
chamada amígdala. A figura abaixo ilustra o sistema límbico (hipotálamo, tálamo e
hipocampo) destacado em azul:

Fig. 4. Córtex pré-frontal e sistema límbico

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63

Apresentados os componentes cerebrais envolvidos na emissão de mensagens


emocionais e cognitivas, passemos ao processo de compreensão dos elementos não
verbais e verbais. Complexas estruturas neurônicas levam informações ao cérebro por
meio dos cinco sentidos. As informações recebidas pelos olhos e ouvidos dirigem-se,
primeiramente, ao tálamo, a maior estrutura do sistema límbico. Podemos compará-lo
ao funcionário dos correios responsável por separar as cartas por ordem de endereço.
Analogamente, o tálamo decide para qual parte do cérebro enviar as informações. Se a
informação for de ordem emocional, o tálamo enviará dois sinais – o primeiro para a
amígdala e o segundo para o neocórtex. Como conseqüência, o cérebro emocional
(sistema límbico) recebe a informação primeiro. Do ponto de vista da sobrevivência de
nossos ancestrais, era um momento muito importante, pois no caso de uma emergência
(ataque de um animal selvagem ou confronto com um inimigo), o indivíduo podia reagir
(fugir ou atacar/enfrentar) antes mesmo que o cérebro pensante (neocórtex) recebesse a
mensagem. Dessa maneira, ele teria uma oportunidade para avaliar suas opções.
Hoje em dia o intérprete não precisa temer ataques perigosos ou confrontos
inesperados. Diferentemente de seus ancestrais, o profissional intérprete pode reagir de
uma maneira mais branda e racional. A amígdala e as demais estruturas que formam o
sistema límbico (hipotálamo, tálamo e hipocampo) são remanescentes de uma época
quando as emoções (raiva, medo, agressividade, etc.) eram muito mais úteis à
sobrevivência da espécie do que hoje. Entretanto, atualmente os intérpretes podem
deparar-se com um conferencista emocionalmente abalado de quem gestos ou
movimentos corporais agressivos serão facilmente detectados – por exemplo, esmurrar a
mesa em sinal de protesto. No que se refere à interpretação, o profissional, graças ao
sistema límbico, pode, primeiramente, experimentar um momento de raiva, analisá-lo e
expressar a mensagem nele contida com movimentos e gestos mais brandos, mas com
um tom de voz severo, condizente à situação47.

3.6. O papel da inteligência emocional

De acordo com Besson et al. (2005), a habilidade de interpretar o significado


contido no ato discursivo, bem como as mensagens que o emissor realmente quer
transmitir, não se referem apenas ao conceito de Quociente de Inteligência (QI), mas

47
Há uma cena do filme A intérperte que ilustra parcialmente essa situação e que será analisada no
próximo capítulo.

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64

também ao Quociente de Inteligência Emocional (QE). As pessoas que são


emocionalmente inteligentes conhecem seus pontos fracos e fortes. Diante das
adversidades, esses indivíduos conseguem motivar-se e também motivar. Geralmente
trabalham em grupos, possuem espírito de liderança, administram bem o tempo e os
recursos disponíveis e o mais importante, podem detectar e compreender suas emoções
tanto quanto as alheias. O QE e o QI abarcam dois conceitos bem distintos. Entretanto,
durante o ato enunciativo/interpretativo, agem conjuntamente, pois, como já vimos,
emoção e cognição são processadas em determinadas áreas do cérebro. Dessa maneira,
o processo da interpretação não é apenas uma atividade racional cognitiva, mas também
envolve emoções que estão associadas às mais diversas situações enunciativas. Por
carecer de inteligência emocional, o intérprete pode ter dificuldade para interpretar o
comportamento humano. Contudo, considerando que o gênero humano é profundamente
influenciado por processos culturais, sociais, psicológicos, sexo, idade e etnia e também
pela mídia, o intérprete deve estar atento à dinâmica interior e oculta que afetam o
comportamento humano. Aquele que consegue raciocinar criticamente e investigar o
comportamento do interlocutor é capaz de desvendar a natureza dos comportamentos
não verbais. Tenhamos em mente que é possível assimilar e estudar o ato comunicativo.
O intérprete pode, portanto, tornar-se perito em interpretar o comportamento humano
simplesmente por meio da simples observação. Além disso, quanto mais o intérprete for
cuidadoso e prestar atenção aos detalhes e nuanças do comportamento, aos gestos, à
entonação, às expressões faciais e aos movimentos do corpo, mais será capaz de
detectar o verdadeiro significado que subjaz ao ato discursivo do emissor.

3.7. Transferência de elementos não verbais do intérprete para a platéia

Como pudemos observar, de acordo com Besson et al. (2005), pessoas de


diferentes culturas também exprimem ou reprimem emoções por meio da CNV,
utilizando movimentos corporais ou expressões faciais. Algumas dessas ocorrências têm
caráter universal e são facilmente identificadas em qualquer parte do mundo (por
exemplo, o sinal de positivo com o polegar). Outras, entretanto, variam de cultura para
cultura e devem ser interpretadas de acordo.
Que tipos de reações essas ocorrências não verbais despertam no público quando
são transferidas pelo profissional intérprete? Como último aspecto a ser abordado nesse
capítulo e retomando os elementos não verbais descritos no item 3.3. (p. 56), faremos

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uma breve análise do processo de transferência e recepção desses elementos com


atenção especial aos aspectos culturais.

• Entonação
Idealmente falando, intérpretes devem reproduzir a mesma entonação usada pelo
emissor. Contudo, a entonação nem sempre é utilizada corretamente. Em muitos
idiomas, quando ela é ascendente, pode significar surpresa ou introduzir uma
pergunta. Quando usada sistematicamente pelo intérprete, pode impor à platéia certa
dificuldade para identificar onde começam e terminam as sentenças ou distinguir
entre afirmação e interrogação. Além disso, intérpretes não devem enfatizar
palavras, a não ser que seja absolutamente necessário.

• Tom de voz
Durante o ato interpretativo, o intérprete depara-se com problemas sérios ao
escolher, erroneamente, o tom de voz que julgou adequado. Nesse caso, valer-se da
intuição e discernimento é a melhor saída. Por exemplo, durante um acalorado
debate político, o intérprete opta por um tom de voz neutro, o que pode ser tomado
pela platéia como uma falsa tentativa de se mostrar calmo diante da atmosfera tensa
e, conseqüentemente, nada natural, o que produzirá uma interpretação monótona,
enfadonha ou até mesmo pretensiosa. O intérprete, ao se comportar dessa maneira,
certamente encontrará dificuldade durante a interpretação, pois poderá se ver diante
de uma platéia desmotivada.

• Ruídos vocálicos produzidos no ato enunciativo


Alguns palestrantes freqüentemente fazem uso desses ruídos (tais como: ‘hum’,
‘hã,’ etc.) quando hesitam entre palavras ou duas sentenças. Contudo, os intérpretes
devem atentar para o fato de que, dependendo do idioma, tais ruídos não ocorrem
com tanta freqüência – ou raramente ocorrem. Portanto, no que diz respeito a esses
ruídos, apenas o que faz parte da mensagem do ato enunciativo deve ser transmitido
para a platéia.

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• Posturas do corpo
Os intérpretes da SI, por estarem dentro de uma cabine de interpretação, talvez não
consigam identificar a postura corporal do palestrante, diferentemente dos
intérpretes da CI e WI, que têm o palestrante diante de si e que estão sempre visíveis
para a platéia. Durante o ato interpretativo simultâneo, deve-se levar em
consideração o fato de que a platéia não visualiza o intérprete, tornando dispensável
a transferência dessa ocorrência de CNV. Já para o profissional da CI ou da WI, é
importante relembrar que algumas posturas, por suas características, revelam um
determinado propósito ou correspondem a certas expectativas no contexto de uma
determinada situação. É o caso da reunião entre executivos de uma empresa, na qual
o diretor estabelece um grau de formalidade ao sentar-se ereto com os braços
apoiados firmemente sobre sua agenda.

• Gestos
Os gestos só deverão ser transferidos se o intérprete estiver visível para a platéia.
Sabe-se que esse comportamento não verbal varia consideravelmente de acordo com
o contexto sócio-cultural. Analisemos os dois gestos abaixo:

a) B b) <
Diante de uma atônita platéia brasileira, um conferencista norte-americano
inocentemente utiliza o gesto “a” para concordar com algo que lhe foi proposto, sem
saber que no Brasil esse gesto é ofensivo. A situação é prontamente reproduzida
verbalmente pelo intérprete da SI com um “positivo” ou “sim”. O que o público
talvez não saiba é que esse gesto, na cultura desse palestrante, indica consentimento.
Por isso, sem saber qual informação é a correta – se a verbal do intérprete de SI ou a
não verbal do palestrante – a platéia pode confundir-se com o ocorrido. O intérprete
de CI ou de WI, por sua vez, poderia facilmente contornar esse problema
acompanhando a transferência verbal da mensagem com o gesto “b”.

• Expressões faciais e movimentos dos olhos


Tanto quanto os gestos, as expressões faciais e os movimentos dos olhos diferem de
cultura para cultura. Por exemplo, um palestrante oriundo de um país do oriente
pode discorrer sobre um assunto extremamente doloroso (genocídio, guerra civil) e

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sorrir ou até mesmo gargalhar. Conseqüentemente, uma platéia ocidental ficaria


perplexa diante dessa aparente atitude contraditória. O intérprete, portanto, deve
fazer uso de seu conhecimento de mundo e transferir para a platéia a referida
mensagem acompanhada de expressões faciais apropriadas à situação descrita pelo
palestrante.

• Pausa (silêncio)
Pausas, quando usadas apropriadamente, ajudam no significado do contexto
enunciativo além de dar tempo ao intérprete para organizar seu pensamento, o que,
invariavelmente, produzirá uma boa interpretação. Embora o intérprete imagine que
a platéia possa perder a confiança nele se recorrer à pausa com muita freqüência, é
importante relembrar a dupla função desse elemento da CNV: a) limitar as relações
das sentenças e suas estruturas e b) estabelecer inação vocal temporária revelando
incerteza, hesitação, tensão, etc. Essa função pode ser revertida a favor do
profissional, pois o intérprete pode fazer uso desse tempo para organizar o fluxo de
palavras e idéias.

Para concluir esse capítulo, gostaríamos de pontuar que a CNV não é apenas
importante para a comunicação diária, mas também para o profissional intérprete. Ao
contrário de que muitos imaginam, a CNV manifesta-se de várias maneiras, cada uma
delas ilustrando ou substituindo uma determinada ocorrência da comunicação verbal. O
intérprete deve, entre outras coisas, fazer uso dos recursos não verbais presentes no ato
enunciativo. Sabemos que isso é possível porque há uma parte de nosso cérebro
(sistema límbico) que lida com os aspectos emocionais contidos em uma mensagem,
seja verbal ou não. Não apenas inteligência, mas também inteligência emocional é
necessária para a interpretação de elementos não verbais. É bem verdade que nem
sempre a CNV poderá amparar o profissional intérprete na execução de sua tarefa, mas
não podemos negar o fato de que ela exerce um papel preponderante no que diz respeito
à comunicação humana.
No próximo e último capítulo, analisaremos o corpus avaliando os elementos da
CNV em dois níveis: identificá-los no ato enunciativo (emissor e intérprete) e verificar
se e como ocorreu a transferência desses elementos para a platéia (receptor). Não
emitiremos juízo de valor sobre o desempenho dos intérpretes envolvidos, pois não é
objetivo de nosso trabalho formar profissionais, mas apenas contribuir no que julgamos

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ser uma tarefa desafiante e delicada por sua natureza fugaz e efêmera: a transferência de
elementos não verbais no ato interpretativo.

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CAPÍTULO QUARTO

ANÁLISE DO CORPUS

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4. ANÁLISE DO CORPUS

4.1. O intérprete em ação: apresentação do corpus

Como já mencionado, trabalharemos com as ocorrências da CNV no ato


interpretativo a fim de demonstrar como a comunicação verbal é, via de regra, amparada
– ou até mesmo substituída – pela não verbal, fato esse que não pode ser ignorado pelo
profissional competente. Para cumprir esse objetivo, selecionamos seis vídeos que
ilustram alguns intérpretes na execução de suas tarefas. A modalidade de interpretação
utilizada no primeiro e sexto vídeos é a CI. Nos demais vídeos, os intérpretes fazem uso
da WI.
O primeiro vídeo traz uma situação próxima da realidade do ato interpretativo.
Trata-se do Treinamento de Interpretação Consecutiva (2006) para os alunos do curso
de Tradução e Interpretação da Universidade Católica de Santos, material que foi
gentilmente cedido pela Professora Mestre Carlota Frances Williams Lopes, nossa
orientadora. O segundo, terceiro e quarto vídeos são três cenas de produções
cinematográficas que, apesar do teor fictício, ilustram muito bem o profissional
intérprete na execução de sua tarefa. A primeira cena é do filme A Intérprete (The
Interpreter, Reino Unido, Estados Unidos, França, 2005 – Working Title Films) e
retrata a personagem Silvia Broome (Nicole Kidman) interpretando em uma sala nas
dependências da O.N.U. É importante pontuar que a LC utilizada é o “Ku”, um idioma
fictício elaborado especialmente para o filme. Do filme Justiça Vermelha (Red Corner,
Estados Unidos, 1997 – Avnet / Kerner Productions) analisaremos a cena que mostra o
chefe de polícia chinesa utilizando um intérprete para interrogar Jack Moore (Richard
Gere). O quarto vídeo traz uma cena do premiado Encontros e Desencontros (Lost in
Translation, Estados Unidos, Japão, 2003 – American Zoetrope). Bob Harris (Bill
Murray), um respeitado ator americano em crise existencial, vai ao Japão para fazer um
comercial de uísque. Em um dia de gravação, Bob vê-se em uma situação difícil quando
recebe as instruções do diretor da cena, um cidadão japonês, interpretadas por sua
assistente. O quinto vídeo é uma comédia da qual analisaremos algumas imagens.
Diferentemente das cenas de A Intérprete, Justiça Vermelha e Encontros e
Desencontros, o filme Espanglês (Spanglish, Estados Unidos, 2004 – Columbia
Pictures) não ilustra o intérprete em uma situação formal. Trata-se de uma obra de
ficção sobre a emigração para os Estados Unidos de uma mulher, Flor (Paz Vega) e sua

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filha, Cristina (Shelbie Bruce), em busca de melhores condições de vida. Depois de


alguns anos, Flor consegue um emprego na casa de uma família americana cujo chefe
de família, John Clasky (Adam Sandler), é um aclamado chefe de cozinha casado com
uma esposa bastante insegura, Deborah Clasky (Téo Leoni). Nesse filme, há várias
situações em que Flor, por não falar inglês e para se comunicar com seus patrões,
necessita da ajuda de Cristina, que faz a interpretação informalmente. O sexto e último
vídeo (YOUTUBE, 2007), a despeito de sua natureza cômica e fictícia, serve para
corroborar o que os teóricos afirmam com unanimidade nos capítulos dois e três do
nosso trabalho: parte da CNV encontra-se marcada por elementos culturais. A atriz
inglesa, Catherine Tate talentosamente usa e abusa de elementos não verbais ao
“interpretar consecutivamente” do inglês para sete idiomas diferentes: francês,
espanhol, sueco, híndi, italiano, chinês e ioruba.
Não emitiremos nenhum juízo de valor sobre o desempenho dos intérpretes
envolvidos, pois o nosso trabalho não pretende ser um guia orientativo, mas um alerta
para o fato de que a comunicação verbal não é composta apenas de palavras e que,
portanto, o ato interpretativo não pode prescindir de elementos não verbais. Contudo,
assinalaremos, quando julgarmos oportuno, se a transferência do elemento não verbal
apontado ocorreu ou não. Para facilitar nosso trabalho, elaboramos uma tabela contendo
as ocorrências da CNV humana48, conforme apresentado nos capítulos dois e três. As
ocorrências aparecem em ordem alfabética e trazem o teórico, a página e o capítulo aos
quais se referem. Além disso, outras informações complementares estão disponíveis na
tabela: exemplos de cada ocorrência (ou o que ela expressa), se a ocorrência é de
natureza cinética, sonora (ou ambas) ou se é neutra (nem cinética e nem sonora). A
tabela também possibilita verificar se a ocorrência é culturalmente marcada, se ocorre
paralelamente ao ato enunciativo, se é expressa por meio de vocalizações (sons
prosódicos ou paralingüísticos). Esclarecemos ainda que não nos foi possível identificar
todas as ocorrências da CNV presentes na tabela; aquelas identificadas foram
devidamente assinaladas.

48
Vide anexo B (p. 101,102,103 e 104): Principais ocorrências na CNV humana.

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4.2. Treinamento de Interpretação Consecutiva (Unisantos)

Vejamos algumas ocorrências não verbais em algumas cenas do treinamento:

a) Entonação e Gesto:
Emissor: (Cena 1 – 00:00:01 00:00:05): So…the first thing I have to tell
you is get to know your bird.
Intérprete: (Cena 1 – 00:00:06 00:00:11): A primeira coisa que eu tenho
pra dizer pra vocês é conheça o seu pássaro... o seu pássaro.
Besson et al. (2005) esclarecem-nos que uma das funções da entonação é a de
exercer ênfase sobre uma determinada palavra ou idéia, o que foi realizado pelo emissor
e o intérprete. Além disso, ao transferir a mensagem, o intérprete também utiliza alguns
gestos com a mão esquerda como querendo pontuar o conselho do emissor.

b) Expressão facial e Gesto:


Emissor: (Cena 1 – 00:00:12 00:00:20): Eh…for example...can he...can
you tell the difference when…when your bird is sleeping and
when your bird is sick?
Intérprete: (Cena1 – 00:00:21 00:00:27): Por exemplo...você
pode…é...diferenciar quando o teu pássaro está dormindo ou
doente?
Argyle (1999) e Besson et al. (2005) são unânimes ao afirmar que as expressões
faciais transmitem uma gama quase infinita de emoções. Não nos esqueçamos de que,
no que se refere a CNV, a face é a fonte primária de nossos sentimentos. Além disso, as
expressões faciais têm uma natureza dinâmica e comunicam, entre outras coisas, a
intenção do emissor. Nesse trecho do treinamento, observamos o emissor fazendo
gestos com o dedo indicador da mão direita em uma tentativa de ritmar o seu ato
enunciativo, tal como um maestro regendo uma orquestra. O intérprete – que também é
um emissor provido de intenções – parece responder ao estímulo transferindo a
mensagem com gestos da mão esquerda e movimentos das sobrancelhas.

c) Pausa / Silêncio:
Emissor: (Cena 2 – 00:00:00 00:00:10): Eh ... once you...you know
your bird is sick, what do you have to do?

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Intérprete: (Cena 2 – 00:00:11 00:00:15): Sabendo que seu pássaro está


doente, o...o que você deve fazer?
Nesse trecho, podemos identificar duas pausas. A primeira é mais longa e tem
cerca de quatro segundos entre os termos “eh” e “once”. A segunda, com cerca de um
segundo, ocorre entre os pronomes “you” e “you”. Besson et al. (2005) atribuem duas
funções à pausa: a) funcionar como uma breve interrupção do ato enunciativo para
indicar os limites e as relações das sentenças e de suas estruturas e b) como uma inação
vocal temporária revelando incerteza, hesitação, tensão ou inquietação por parte do
emissor. Com relação à primeira pausa, pudemos observar que não houve transferência
no ato interpretativo, uma vez que ela estabelece apenas um momento de hesitação do
emissor e é desprovida de um significado relevante ao ato enunciativo. Já com relação à
segunda pausa, o emissor pretende apenas indicar uma relação entre os termos da
sentença proferida, o que parece ter sido inconscientemente captado e transferido pelo
intérprete, apesar de não ter havido correspondência lexical entre os termos em inglês
(pronome pessoal “you”) e os termos em português (artigo definido masculino singular
“o”). Vale lembrar aqui que, segundo Besson et al, quando falamos, não nos limitamos
apenas às palavras, ou seja, parte de nosso discurso é transmitida, conscientemente ou
não, por meio de comportamentos não verbais.

d) Pictógrafo:
Emissor: (Cena 3 – 00:00:00 00:00:05): ‘Cause there are two types
basically...there are two types of antibiotics.
Intérprete: (Cena 3 – 00:00:06 00:00:09): Porque basicamente existem
dois tipos de antibióticos.
De acordo com Poyatos (2002), o pictógrafo é uma ocorrência não verbal que
utilizamos com bastante freqüência. Trata-se de um movimento que fazemos
preferencialmente com as mãos – ou dedos das mãos – para ilustrar uma mensagem
verbal. Os pictógrafos diferem dos gestos por serem menos difusos e mais específicos,
apesar desses últimos apresentarem um certo grau de especificidade. Na cena em
questão podemos observar o emissor utilizando a mão direita para indicar a quantidade
de antibióticos a ser administrada ao pássaro doente, quantidade essa que tem um valor
universal, uma vez que em praticamente todos os lugares do mundo essa é a forma de
simbolizar pictograficamente o número dois (ver figura na próxima pagina). O

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intérprete, possivelmente considerando a universalidade do pictógrafo em questão, fez


apenas a transferência verbal.

A
Em um outro contexto, como por exemplo, o movimento hippie de contracultura
dos anos 60, esse gesto significa algo bem diferente, apesar de ainda fazer referência ao
número dois, já que simboliza o binômio paz e amor. Um outro possível significado é o
V de vitória. Nesses dois casos, dada a sua universalidade, caracteriza-se um emblema.

e) Pictográfo e Marcador Espacial:


Emissor: (Cena 4 – 00:00:00 00:00:20): Eh..my bird…can´t…eh…my
bird can’t stand where it is always … the ... I mean...my bird is
always on the perch…on the higher perch and it´s at the bottom
of the cage.
Intérprete: (Cena 4 – 00:00:35 00:00:42): Meu pássaro freqüentemente
fica mais alto...e hoje ele está...no chão.
Novamente vemos aqui a utilização de um pictógrafo ou mesmo de um
marcador espacial. Poyatos (2002) relata que os marcadores espaciais introduzem
aspectos dimensionais (tamanho, distância e localização). A diferença é que os
movimentos utilizados para essa ocorrência são mais difusos e permitem a utilização de
outras partes do corpo.

f) Entonação
Emissor: (Cena 5 – 00:00:00 00:00:04): And we just asked, “Who is
it?”
Intérprete: (Cena 5 – 00:00:05 00:00:07): E a gente perguntou: “Quem
será?”
Temos aqui uma outra ocorrência significativa de entonação. Contudo,
diferentemente do exemplo “a”, em que se faz uso desse recurso não verbal para
enfatizar uma palavra, o emissor emprega a modulação ascendente de voz a fim de
indicar um pergunta por meio do discurso direto. O intérprete transfere adequadamente
a mensagem utilizando-se do mesmo recurso, produzindo uma interpretação tão natural
quanto o enunciado original.

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g) Entonação e Nuto:
Emissor: (Cena 5 – 00:00:09 00:00:20): We were a little bit
uncomfortable because none of us was really dressed. So we
thought, “What are we going to do? Let’s pretend there is no one
in the bedroom.”
Intérprete: (Cena 5 – 00:00:21 00:00:30): A gente ficou meio sem graça
porque...é...nós duas...não estávamos vestidas, né...então a gente
falou, pô: “O que a gente vai fazer? Vamos fingir que não tem
ninguém no quarto”.
Podemos verificar nesse exemplo como o emissor, utilizando a entonação,
conscientemente enfatiza a palavra “dressed”. O intérprete percebendo isso sinaliza com
um movimento de cabeça. Trata-se do nuto (nodding) que, segundo Argyle (1999), é um
importante sinalizador discursivo que permite ao enunciador prosseguir com o seu
discurso. O nuto denota aprovação por parte do receptor, uma forma de sinalizar ao
emissor que mantenha ou aumente a freqüência do ato enunciativo.

h) Cinefonógrafo ou Identificador:
Emissor: (Cena 6 – 00:00:00 00:00:14): And all of a sudden those
monsters, because that’s what they really looked like, turned into
the moooost polite and kind men on earth and said, “Oh, we’re
awfully sorry. That was a big mistake.”
Intérprete: (Cena 6 – 00:00:15 00:00:24): E de repente aqueles
monstros que eram o que realmente pareciam…começaram a
ficar…se tornaram educados e pediram desculpas falando que
era um ... um erro.
O cinefonógrafo (movimento e som), diz Poyatos (2002), caracteriza-se pela
combinação de imitação cinética (movimento) e paralingüísitca (entonação, duração
silábica, ritmo). No trecho em destaque, percebemos com clareza o emissor utilizando
intencionalmente esse recurso. Com movimentos sutis da cabeça, entonação e duração
silábica, ele tenta imitar os movimentos e o tom de voz de uma pessoa educada. O
intérprete, por possivelmente entender que, devido à natureza universal desse
comportamento, a imitação foi prontamente assimilada pela platéia, transfere a
mensagem apenas por meio da comunicação verbal. Poyatos afirma que os
identificadores são responsáveis por nosso estilo expressivo e, portanto, o

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76

comportamento não verbal dessa cena pode também ser considerado um identificador,
já que o emissor age de uma maneira bastante polida durante o ato enunciativo.

i) Ruído vocálico e auto-adaptador:


Emissor: (Cena 7 – 00:00:00 00:00:08): Because...eh...this
boy, Eduardo, who’s 12 years old, he had a sister living in
London.
Intérprete: (Cena 7 – 00:00:09 00:00:17): Porque esse garoto que
se chama Eduardo...e...ele tinha uma...uma irmã que morava
na...na Inglaterra com ele.
Emissor: (Cena 7 – 00:00:17 00:00:18): In London.
Intérprete: (Cena 7 – 00:00:18 00:00:20): In London. (Risos)
Emissor (Cena 7 – 00:00:19 00:00:23): (Esfregando o olho esquerdo
com a mão esquerda e rindo ao mesmo tempo).
Besson et al. (2005) postulam que a mensagem verbal pode vir acompanhada de
ruídos vocálicos que comumente não são considerados parte da linguagem, muito
embora auxiliem na comunicação quando expressamos uma atitude ou sentimento. Na
cena em questão, é exatamente isso que acontece, pois a intérprete ao perceber que
repetiu a palavra “London” dá uma risada (paralinguagem) como querendo dizer:
“Desculpe, eu errei. Na verdade eu deveria ter dito Londres”. Os ruídos vocálicos por
possuírem uma natureza estável e universal são facilmente assimiladas pelo receptor,
nesse caso a platéia e o próprio emissor. Ainda dentro desse trecho analisado,
encontramos o emissor esfregando o seu olho esquerdo com a mão esquerda. De acordo
com Besson et al., trata-se de um auto-adaptador, ou seja, uma ocorrência não verbal
que, conscientemente ou não, sinaliza, entre outras coisas, a tentativa do emissor em
captar a atenção do intérprete ou do receptor. Os auto-adaptadores não devem ser
transferidos durante a interpretação, mas podem ser identificados e utilizados pelo
profissional intérprete como parte de comportamentos interativos entre o emissor
(conferencista), ele mesmo e a platéia.

j) Marcador discursivo e espacial:


Emissor: (Cena 8 – 00:00:15 00:00:18): … and took the bus to
Hitchfield.

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77

Intérprete: (Cena 8 – 00:00:19 00:00:21): …e peguei o ônibus para


Hitchfield.
Vimos que, segundo Poyatos (2002), os marcadores discursivos ilustram atitudes
comportamentais, conscientes ou não, que destacam e enfatizam a seqüência gramatical
e acústica das palavras ou frases de acordo com a localização e relevância no discurso.
É exatamente o que acontece na cena analisada quando o emissor utiliza um gesto com
a mão para indicar o itinerário do ônibus. Espacialmente falando, o gesto estabelece um
aspecto dimensional, já que ilustra a localização do coletivo que é definida por meio da
preposição to (para).

4.3. A Intérprete (Whispering Interpreting)

A cena retrata uma situação extremamente formal e tensa em que dois


diplomatas, a Embaixadora Harris dos Estados Unidos e o Embaixador de Matobo,
travam um diálogo que Silvia interpreta por meio de WI. Para essa cena, selecionamos
ocorrências não verbais de ordem cinética, com exceção da penúltima, uma ocorrência
sonora.

a) Olhar / movimentos oculares e expressões faciais:


Emissor: (Ø)49
Intérprete: (Cena 9 – 00:00:29 00:00:32)

Emissor: (Ø)
Intérprete (Cena 9 – 00:00:43 00:00:46)

Emissor: (Cena 9 – 00:00:46 00:00:47)


Intérprete: (Cena 9 – 00:00:47 00:00:49)
Argyle (1999) esclarece que o olhar exerce um papel importante no que diz
respeito à comunicação de atitudes interpessoais. Besson et al. (2005) postulam que o
tempo com o qual mantemos contato visual com o nosso interlocutor sugere interesse ou
enfado. Nos três trechos selecionados, encontramos a intérprete lançando olhares fixos e
demorados, o que sugere concentração, atenção e interesse. No último trecho, o

49
O símbolo significa que o participante não teve nenhuma ocorrência não verbal analisada no trecho da
cena em questão.

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78

Embaixador de Matobo e seu assessor parecem dirigir à intérprete um olhar de


reprovação quando ela menciona a palavra “terroristas”. Faz-se necessário pontuar que,
via de regra, o olhar é acompanhado por expressões faciais que também expressam as
emoções e intenções do emissor, o que pode ser claramente identificado nos três
segmentos da cena.

b) Postura:
Emissor: (Cena 9 – 00:00:11 00:00:20)
Intérprete: (Ø)
De acordo com Argyle (1999), as posturas são adotadas para expressar atitudes
amistosas, hostis, de superioridade ou inferioridade, etc. A postura do corpo expressa
status, principalmente quando temos controle sobre a situação. É o que parece querer
demonstrar a Embaixadora Harris ao adotar uma postura que denota superioridade e
determinação. Embora não seja imprescindível para a CI ou a WI, a postura é uma
ferramenta que não pode ser descartada, uma vez que sinaliza ao intérprete atitudes e
intenções do emissor.

c) Adaptador instrumental e exteriorizador:


Emissor: (Cena 9 – 00:01:10 00:01:12)
Intérprete: (Ø)
Segundo Poyatos (2002), os adaptadores instrumentais, tanto quanto as outras
formas de adaptadores (vide capítulo III, p. 40), compõem uma importante categoria
não verbal. Quando tocamos ou manipulamos algum objeto (canetas, folhas de papel,
livros, etc.) fazemos uso de um adaptador instrumental. A Embaixadora Harris retira
seus óculos quando o Embaixador africano faz-lhe uma pergunta sobre o presidente de
Matobo. A Embaixadora demonstra um certo incômodo, o que fica evidenciado quando
ela remove seus óculos em um gesto de desaprovação, o que pode também ser
considerado um exteriorizador, uma vez que essa ocorrência da CNV funciona como
um sinalizador de nosso estado psicológico em relação ao ato enunciativo. Para o
profissional intérprete é importante saber que os adaptadores instrumentais e os
exteriorizadores precisam ser identificados como parte do arsenal de comportamentos
interativos entre emissor e receptor.

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d) Identificador:
Emissor: (Cena 9 – 00:00: 00 00:01:40)
Intérprete: (Cena 9 – 00:00: 00 00:01:40)
Poyatos (2002) nos esclarece que os identificadores são os elementos não
verbais mais inerentes ao discurso e são responsáveis pelo estilo expressivo de cada
indivíduo. Os identificadores incluem ocorrências sonoras (entonação, timbre de voz,
duração silábica, ênfase, pausa, etc.) e cinéticas (postura, expressões faciais, gestos,
etc.). Durante o trecho selecionado, podemos observar que, sonora e cineticamente
falando, a intérprete e os embaixadores adotam um estilo formal diante de uma situação
diplomática de adversidade.

g) Tom de voz:
Ao considerarmos a cena em questão como um todo, observamos que a
intérprete e os embaixadores procuram adequar o tom de voz à delicada situação
diplomática que se desenrola. Besson et al. (2005) esclarecem que essa ocorrência não
verbal sonora é o meio pelo qual o emissor condiciona a sua atitude à mensagem e à
reação do receptor a essa mensagem. Desconfiança e desdém parecem ser,
respectivamente, as mensagens estampadas no tom de voz dos embaixadores envolvidos
no ato enunciativo nessa cena. Silvia, ao optar por um tom de voz neutro, procura
manter-se imparcial diante da natureza tensa da situação, conduta que deve ser adotada
pelo profissional intérprete.

h) Sistema límbico:
Retomando os aspectos neurofisiológicos abordados no capítulo terceiro (ver
3.5., p. 62), temos aqui um caso clássico em que a área do cérebro responsável por
processar mensagens emotivas (sistema límbico) é ativada mesmo quando a área
cognitiva (córtex pré-frontal e o neocórtex) está em funcionamento. Silvia viu-se
envolvida emocionalmente diante da delicada e tensa relação diplomática. No que se
refere à interpretação, a profissional, graças ao sistema límbico, pôde, primeiramente,
experimentar um momento de tensão, analisá-lo e transferir a mensagem dos
embaixadores por meio de movimentos brandos e com um tom de voz firme, condizente
à situação. A intérprete demonstrou equilíbrio e maturidade profissional ao manter-se
calma e imparcial.

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80

4.4. Justiça Vermelha (Whispering Interpreting)

Temos aqui uma outra cena em que o grau de formalidade e tensão é bem alto. O
episódio passa-se provavelmente em um departamento policial onde um oficial da
polícia chinesa interroga um cidadão norte americano, Jack Moore, suspeito de ter
assassinado uma cidadã chinesa.
a) Interpretação unilateral:
Considerando o trecho em destaque (cena 10 – 00:00:00 00:01:16),
podemos observar que o intérprete age com parcialidade. Por várias vezes o réu
expressa o seu direito de entrar em contato com a Embaixada dos Estados Unidos e de
ter um advogado à sua disposição, o que é interpretado apenas uma vez. Por outro lado,
quando o chefe de polícia explica que Jack Moore deve colaborar com as investigações,
o intérprete prontamente transfere a mensagem para o inglês. Apesar de não se tratar de
uma ocorrência não verbal e sim de uma decisão do intérprete, consideramos oportuno
trazer à tona uma questão abordada no primeiro capítulo de nosso trabalho quando
discorremos sobre a história da interpretação. Estamos falando sobre a interpretação
unilateral que ocorria na corte do Egito antigo, onde estrangeiros eram recebidos pelo
Faraó. Hermann (2002) esclarece que naquela época apenas os cidadãos egípcios eram
considerados seres humanos enquanto os dominados eram relegados à condição de
bárbaros desprezíveis. Portanto, em uma situação em que a interpretação entre os
egípcios e outros povos era necessária, prevaleciam os interesses de estado do
conquistador sobre os prisioneiros de guerra. Eticamente falando, isso é absolutamente
inadmissível nos dias atuais. Sob condições normais – sabemos que a democracia na
China é uma instituição praticamente inexistente –, o intérprete deve manter-se neutro e
atuar simplesmente como mediador lingüístico, não devendo envolver-se ideológica ou
politicamente no ato interpretativo.

b) Gesto, expressão facial e tom de voz:


Ainda analisando essa cena em sua totalidade, observamos que gestos,
expressões faciais e tom de voz norteiam a situação tensa e delicada entre o réu e o
chefe de polícia. O intérprete, a despeito da parcialidade mencionada, transfere a
mensagem por meio da comunicação verbal procurando não se envolver
emocionalmente. A propósito, no capítulo três vimos como o processo da interpretação
não é apenas uma atividade racional cognitiva, mas também envolve emoções que estão

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associadas à situação enunciativa. Besson et al. (2005) explicam que diante das
adversidades que suscitam fortes emoções devemos usar nosso QE (Quociente de
Inteligência Emocional) para identificar significados que subjazem ao ato discursivo do
emissor.

c) Adaptador instrumental:
Emissor: (Ø)
Receptor: (Cena 10 – 00:00:14 00:00:15)
Intérprete: (Ø)
Semelhante à cena do filme anterior, em que a Embaixadora retira seus óculos
em um gesto de desaprovação, vemos Jack Moore fazer o mesmo no momento em que o
chefe de polícia dirige-lhe uma pergunta, dessa vez para demonstrar medo ou
insegurança. Os adaptadores instrumentais, como falado anteriormente, devem ser
assimilados como atitudes comportamentais providas de intencionalidade e, a fim
antecipar parte da mensagem verbal, o intérprete pode identificá-las e usá-las ao seu
favor no momento da interpretação.

4.5. Lost in Translations - Encontros e Desencontros (Whispering Interpreting)

Ao assistir o próximo vídeo, veremos que o grau de formalidade cai


consideravelmente. Contudo, os atos enunciativos e interpretativos oferecem um
número satisfatório de ocorrências não verbais. A cena seguinte justifica o título do
filme tanto em inglês como em português na qual Bob Harris (Bill Murray) vê-se
completamente perdido quando as orientações do diretor são precariamente
interpretadas.

a) Marcador espacial:
Emissor: (Cena 11 – 00:00:18 00:00:49)
Intérprete: (Ø)
Os marcadores espaciais introduzem aspectos dimensionais (tamanho, distância
e localização) que são basicamente transferidos na CNV por meio de gestos que
envolvem partes do corpo como um todo (movimentos corporais). Diretores de filmes
recorrem com muita freqüência a essa ocorrência não verbal, já que precisam passar
instruções aos atores de como atuar em cena. Isso fica bem evidenciado aqui, pois

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82

vemos o diretor caminhando de um lado para outro, gesticulando, utilizando


movimentos rápidos com a cabeça, expressões faciais, e entonação de voz. Os
marcadores espaciais devem ser levados em consideração, pois são ferramentas úteis
que permitem ao intérprete antecipar informações contidas no ato enunciativo, o que
parece não ter sido considerado pela intérprete da cena, diferentemente do personagem
americano, que as percebe, embora não as entenda.

b) Proximidade:
Emissor: (Ø)
Intérprete: (Cena 11 – 00:00:50 00:01:03)
Argyle (1999) apresenta proximidade e orientação como ocorrências neutras da
CNV, ou seja, não possuem uma natureza cinética ou sonora. Entretanto, não podemos
descartá-las para efeito de nosso estudo, uma vez que ambas são marcadas
culturalmente e, conseqüentemente, úteis ao ato interpretativo. No que se refere à
proximidade, a intérprete coloca-se a pouca distância de Bob como querendo transpor a
barreira da formalidade, já que, segundo Argyle, é natural que as pessoas se aproximem
com mais facilidade e a uma menor distância daqueles com os quais mantenham um
relacionamento mais íntimo: familiares, amigos, colegas de trabalho, etc.

c) Orientação:
Emissor: (Cena 11 – 00:02:36 00:02:58)
Intérprete: (Cena 11 – 00:02:36 00:02:58)
Bob: (Cena 11 – 00:02:36 00:02:58)
Com relação à orientação, Argyle esclarece que ela varia de acordo com a
natureza da situação, ou seja, as pessoas que se encontram em uma situação de
cooperação ou que sejam amigas preferem ficar lado a lado; já os que se encontra em
uma situação de antagonismo adotam uma posição mais frontal.
O diretor ao se posicionar de frente para Bob demonstra uma certa
agressividade, enquanto a intérprete estabelece uma situação de cooperação ao ficar do
lado do ator. O binômio cooperação e antagonismo também está presente nas cenas
analisadas de A Intérprete e Justiça Vermelha. O intérprete deve estar ciente dessas
situações a fim de melhor adaptar-se ao ato interpretativo.

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83

d) Adaptador instrumental.
Emissor: (Cena 11 – 00:01:26 00:01:28)
Intérprete: (Ø)
Aqui temos um exemplo clássico de adaptador instrumental. O diretor,
provavelmente preocupado com o horário, manipula seu relógio em uma tentativa de
sinalizar para Bob que ele precisa cooperar com a gravação da cena.

e) Cinetógrafo:
Emissor: (Cena 11 – 00:01:34 00:01:36)
Intérprete: (Ø)
O diretor utilizando-se de um cinetógrafo produz um gesto que imita o
movimento de uma câmera ao mesmo tempo em que passa as instruções para o ator. Ele
provavelmente pede a Bob para que se porte de uma maneira mais adequada diante da
câmera o que é transferido pela intérprete da seguinte maneira:
Intérprete: (Cena 11 – 00:01:36 00:01:41): Right side, and, uh, with
intensity. Okay?

4.6. Espanglês (Whispering Interpreting)

Analisaremos três cenas do filme Espanglês (Spanglish) nas quais os intérpretes


atuam em situações diferentes daquelas com as quais estão habituados, como por
exemplo, uma conferência, um simpósio ou uma reunião de empresários. A primeira
cena acontece no jardim da casa de uma família americana. Uma emigrante mexicana,
Flor, que não fala inglês, apresenta-se para uma entrevista de emprego e utiliza sua
prima como intérprete. A segunda cena é ambientada em um bar onde Flor celebra com
sua filha o novo emprego. A última cena se passa na casa de praia dos Claskys e retrata
uma discussão, interpretada por Cristina, entre Flor e seu patrão.

a) Entonação e expressão facial:


Emissor: (Cena 12 – 00:00:17 00:00:22): You´re gorgeous! You´re
gorgeous!
Intérprete: (Cena 12 – 00:00:23 00:00:25): Que...que estás muy bonita.
Impressionada com a beleza de Flor, Deborah (a futura patroa) reforça o seu
elogio com entonação de voz acompanhada de expressão facial. A intérprete, a prima de

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Flor, apenas transfere o elogio com uma expressão facial demonstrando surpresa diante
do ocorrido.

b) Dêixis:
Emissor: (Cena 12 – 00:00:34 00:00:39): I’m sorry. This is my daughter,
Bernie…and my…my mother, Evelyn Wright.
Intérprete: (Cena 12 – 00:00:40 00:00:43): Esta es la hija, Bernie y la
mamá, Evelyn Wright.
Segundo Poyatos (2002), dêixis são movimentos, e algumas vezes vocalizações,
que indicam, espacialmente, o ponto de localização de uma pessoa, objeto ou lugar e,
temporalmente, um evento. Nesse trecho da cena, Deborah aponta para sua filha e mãe
ao apresentá-las a Flor, o que é transferido pela intérprete da mesma forma.

c) Cinefonógrafo:
Emissor: (Cena 12 – 00:00:53 00:00:55): Look, we’re wearing the same
sweater. That´s good booga-booga.
Intérprete: (Cena 12 – 00:00:55 00:00:58): Que tienes el mismo sweater.
Que es un bueno booga-booga.
Temos aqui um outro caso de cinefonógrafo. Contudo, a despeito dos
movimentos das mãos de Deborah, a intérprete parece não entender o significado de
“booga booga”, provavelmente por diferenças culturais. O Urban Dictionary (dicionário
de gírias) traz as seguintes acepções para o referido termo: assustar alguém por
brincadeira; bicho papão; estranho; anormal50. O grau de especificidade do termo é tão
alto que nem por meio de um cinefonógrafo foi possível transferi-lo para a LC. Cabe
aqui um comentário a respeito da legendagem. O tradutor da legenda optou por traduzir
“That´s good booga-booga” por “É um bom sinal”, o que nos pareceu uma boa solução.

d) Ruídos vocálicos, pictógrafo e expressão facial:


Emissores: (Cena 12 – 00:03:22 00:04::11) Ø
Intérprete: (Cena 12 – 00:04:09 00:04:11): Six hundred and fifity dollars.
Nessa cena podemos observar a ocorrência de três comportamentos não verbais.
O primeiro deles são os ruídos vocálicos resultantes das gargalhadas de todos que estão

50
(Nossa tradução).

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à mesa. Há um caso clássico de pictógrafo que, de acordo com Poyatos (2002), são
desenhos feitos no ar – ou em uma superfície qualquer – com as mãos e dedos para
expressar uma idéia. Trata-se de uma ocorrência exclusivamente cinética que, às vezes,
é acompanhada de elementos sonoros. No exemplo destacado, Evelyn, mãe de Deborah,
utiliza as duas mãos – não a voz – e expressão facial para gesticular o valor do salário
que Flor deve pedir, o que é prontamente entendido e transferido verbalmente pela
intérprete.

e) Cinetógrafo:
Emissores: (Cena 13 – 00:00:34 00:00:37) Ø
Intérprete: (Cena 13 – 00:00:37 00:00:41): Thank you!
Pelo menos uma ocorrência não verbal salta-nos aos olhos nessa cena. Trata-se
de um cinetógrafo. Poyatos esclarece que por meio desse comportamento não verbal
cinético é possível imitar qualquer tipo de ação, seja coporal, mecânica, ou natural. Na
cena podemos ver dois homens que estão no bar levantando seus copos em direção a
Flor e a sua filha – como estivessem brindando – o que na cultura ocidental é uma
maneira de saudar alguém. Como México e Estados Unidos fazem parte desse universo
cultural, o cinetógrafo é assimilado e entendido pela pequena intérprete que agradece a
gentileza dos cavalheiros.

f) Gesto, tom de voz e expressão facial:


Emissor: (Cena 14 – 00:00:33 00:00:35): No me tengo que dormir
primero?
Intérprete: (Cena 14 – 00:00:35 00:00:37): I don’t have to sleep
first?
A intérprete da mesma maneira que o emissor faz uso das três ocorrências não
verbais para transferir a mensagem. Podemos notar essa atitude no transcorrer da cena.
Em uma situação mais formal, é preciso controlar as emoções durante o ato
interpretativo de modo a conter o uso exagerado de gestos e expressões faciais. Um tom
de voz firme pode ser mais que suficiente para transferir a mensagem contida no ato
enunciativo.

h) Entonação, tom de voz e gesto:


Emissor: (Cena 14 – 00:01:59 00:02:00): Oh, shit!

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86

Intérprete: (Cena 14 – 00:02:00 00:02:01): Ai, mierda!


Nos capítulos anteriores, vimos que a entonação serve basicamente para indicar
o final de uma unidade de sentido do discurso ou para dar ênfase sobre uma
determinada palavra ou idéia, enquanto o tom de voz está intimamente ligado às
emoções. É a maneira com a qual o emissor condiciona sua atitude à reação do receptor
e geralmente é acompanhada por gestos. Na cena em questão, o emissor exterioriza sua
ira por meio de uma entonação marcante e um tom de voz que demonstra agressividade.
A intérprete, por inexperiência, mais uma vez faz a transferência da mensagem
utilizando-se do mesmo expediente.

i) Alter-adaptador versus auto-adaptador:


Emissor: (Cena 14 – 00:02:30 00:02:33): It won’t happen again.
Intérprete: (Cena 14– 00:02:33 00:02:35): No va pasar denuevo.
Apesar de não ser relevante para o ato interpretativo, o alter-adaptador faz parte
de uma importante categoria não verbal que inclui atividades ou posturas nas quais
partes do corpo do emissor – principalmente as mãos – entram em contanto com partes
do corpo de outras pessoas. Na cena analisada, Cristina – que em relação à Flor é um
emissor – apóia a sua mão esquerda sobre o ombro esquerdo de John. Em uma situação
formal, o intérprete, por motivo de diferenças culturais, deve evitar o uso desse
comportamento não verbal.
Para melhor entendermos a diferença entre alter-adaptador e auto-adaptador,
vejamos o seguinte trecho da cena:
Emissor: (Cena 14 – 00:03:36 00:03:38): Le cambia el peinado.
Intérprete: (Cena 14 – 00:03:38 00:03:40): And she changes her hair.
O emissor e a intérprete, para dar suporte à comunicação verbal, tocam partes do
próprio corpo o que caracteriza um auto-adaptador. Como alguns auto-adaptadores são
universais, não é necessário transferi-los durante a interpretação.

h) Emblema:
Emissor: (Cena 14 – 00:02:45 01:02: 46): All right!
Intérprete: (Cena 14 – 00:02:46 00:02:47): Ok!
Vimos anteriormente que emblemas são gestos e vocalizações que têm o seu
equivalente em uma palavra ou frase. Muitos emblemas são universais: é o caso de bater
palmas uma vez – como o que ocorre na cena – para sinalizar que uma situação, antes

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problemática, agora se encontra resolvida, ou seja, quando se chega a um acordo.


Poyatos afirma que no contexto da CI e WI, poderíamos estabelecer como norma que
emblemas acompanhados de seus equivalentes verbais – na cena em questão a
expressão “All right” – são dispensáveis e não necessita, de interpretação.
Ainda no final da cena, podemos verificar Cristina utilizar-se do QE (quociente
de inteligência emocional / sistema límbico). A jovem intérprete desconcentra-se
quando se vê obrigada a devolver o dinheiro que ganhara catando pedras coloridas na
praia, o que interfere no processo interpretativo.

4.7. Catherine Tate51: um momento de descontração (Interpretação Consecutiva)

Cena 15 – 00:00:00 00:02:40


No vídeo com pouco mais de dois minutos de duração, encontramos uma
situação um tanto quanto surreal. Longe de atuar como uma verdadeira intérprete, Helen
Marsh (Catherine Tate) apenas emite vocalizações e movimentos corporais (som e
cinética) característicos das línguas envolvidas. O resultado apesar de hilário é bem
convincente, principalmente quando ela “interpreta” em chinês, idioma cujo universo
lingüístico é bem distante do nosso. Em outras palavras, sons prosódicos (entonação,
intensidade e junções), movimentos oculares, expressões faciais e gestos podem
transmitir uma quantidade considerável de informações subjacentes à comunicação
verbal: origem, cultura, status, educação, etc. Outro aspecto interessante a ser observado
é o fato de a intérprete mudar de conduta a cada idioma interpretado, como estivesse se
moldando culturalmente ao seu interlocutor. O profissional deve atentar para as
diferenças culturais a fim de poder antecipar parte da mensagem verbal a ser enunciada
e de evitar situações embaraçosas causadas pelo desconhecimento do universo cultural
alheio. Há ainda uma ocorrência não verbal a ser destacada nessa cena: a aparência.
Argyle (1999) afirma que essa ocorrência é sempre opcional: roupas, corte do cabelo,
penteado, acessórios, etc. Por meio do vestuário, demonstramos o nosso status social,
nossa ocupação, ou o grupo social a que pertencemos. Os executivos presentes à reunião
estão, cada um a sua maneira, vestidos para ocasião. Culturalmente falando, o último
executivo é o que está mais preocupado em identificar a sua origem que, a julgar pela

51
Catherine Tate (1968) é uma atriz e comediante inglesa nacionalmente conhecida por ser a protagonista
de duas produções da BBC: The Catherine Tate Show e Doctor Who. Já ganhou vários prêmios além de já
ter sido indicada uma vez para o Emmy e quatro vezes para o BAFTA (British Academy of Film and
Television Arts (Fonte: Wikipedia).

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88

sua vestimenta, parece ser um país da África equatorial (Nigéria, Costa do Marfim,
Gana, etc.).

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89

CONSIDERAÇÕES FINAIS

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90

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ter optado por desenvolver um tema relacionado à Interpretação e à


Comunicação Não Verbal constituiu um desafio e uma realização para nós. Um desafio
porque, em oposição à tradução – habilitação que também faz parte de nossa graduação
–, o ato interpretativo apresenta uma natureza fugaz e inapreensível, o que demanda o
uso da memória de curto prazo em seu mais alto grau aliado a um curto espaço de
tempo. Uma realização, pois concluímos que a CNV oferece preciosos subsídios ao ato
interpretativo, ou seja, é questão unânime entre os principais teóricos considerados em
nosso estudo (Michael Argyle, Fernando Poyatos e Chantal Besson et al.) que o
discurso não é formado apenas de elementos verbais, mas também de importantes
ocorrências não verbais que dão suporte e até mesmo substituem a comunicação verbal.
Portanto, a fim de realizar uma boa interpretação, ao profissional dessa área, não basta
apenas possuir conhecimento morfossintático, semântico e lexical do idioma, por mais
amplo que seja, mas, principalmente, ter controle sobre as especificidades e sutilezas
dos comportamentos da CNV presentes no universo extralingüístico, as quais, como
vimos, também são, às vezes, culturalmente marcadas. Infelizmente, não existem
fórmulas mágicas, nem regras e normas a serem seguidas no ato interpretativo. A
mensagem primária contida no enunciado de um determinado indivíduo nunca
conseguirá ser transferida completamente pelo intérprete. Mais importante que sua
capacidade de recitar, sem hesitação, seqüências de palavras sem fim, é sua habilidade
em transmitir, ainda que economicamente, os sentimentos, as idéias e as emoções de um
orador. Nesse sentido, a CNV representa um papel importante na arte de interpretar, já
que muito dessas ocorrências subjazem ao comportamento não verbal do emissor. Por
isso, nosso trabalho proporciona uma visão bastante pertinente, ou seja, o intérprete,
longe de ser apenas um mero transeunte de pontes interlinguais, atua também como um
psicólogo que, ao analisar as ocorrências da CNV presentes no ato enunciativo, antecipa
a seu favor parte da mensagem contida nessas manifestações não verbais.
No primeiro capítulo, fizemos uma incursão pelos anais da história e vimos que
a interpretação, como atividade comunicativa humana, é quase tão antiga quanto à
própria fala. Ainda nesse capítulo definimos WI, CI e SI, apontando as principais
diferenças entre as duas últimas modalidades.
No segundo capítulo, apresentamos elementos teóricos que sustentam a CNV.
Aqui nos concentramos nos aspectos biológico, lingüístico-estrutural, sociológico e

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91

psicossocial do comportamento não verbal sem relacioná-los ao ato interpretativo, o que


nos permitiu, entre outras coisas, descobrir que o não verbal antecede o verbal posto que
a linguagem verbal, tal como a conhecemos, só surgiu quando o ser humano
desenvolveu um aparelho fonador que lhe permitisse produzir sons inteligíveis.
Apresentamos uma relação contendo 10 sinais não verbais humanos compilada por
Michael Argyle. Para a nossa surpresa, ao analisarmos o corpus (capítulo quatro), vimos
que muitos desses sinais têm correspondência com aqueles de Fernando Poyatos e
Chantal Besson et al (capítulo três). É o caso da entonação, expressões faciais, gestos, o
olhar, posturas (Argyle e Besson et al.) e dos alter-adaptadores e contato físico
(Poyatos e Argyle). Finalizando esse capítulo, vimos que as ocorrências não verbais não
aparecem apenas na comunicação verbal do dia-a-dia, mas também nas mais diversas
manifestações artísticas, justificando a importância da CNV para as ciências
lingüísticas.
No capítulo três, relacionamos a CNV ao ato interpretativo e para isso
recorremos aos teóricos Fernando Poyatos e Chantal Besson et al. Poyatos oferece-nos 9
elementos não verbais que compõem o que ele chama de Categorias Funcionais e
Morfológicas do Comportamento Não Verbal, enquanto Besson et al. estabelecem 7
elementos não verbais pertinentes à interpretação. Besson et al. ainda discorrem sobre
fatores sociais, neurofisiológicos e psicológicos envolvidos durante a transferência do
comportamento não verbal no ato interpretativo.
Finalmente, o capítulo quatro, a análise do corpus, foi o momento de nosso
trabalho que nos permitiu aplicar, na prática, toda fundamentação teórica abordada no
primeiro, segundo e terceiro capítulos. Dos seis vídeos analisados, apenas o primeiro –
Treinamento de Interpretação Consecutiva (Unisantos) – é o que ofereceu uma
ambientação do ato interpretativo mais próxima da realidade. A propósito, tivemos
dificuldade em encontrar material disponível que pudesse suprir nossos objetivos e, com
efeito, não conseguimos nenhum material que ilustrasse o intérprete na execução da SI.
Por isso, recorremos a produções de ficção cinematográficas e televisivas disponíveis
em DVD e FLV52. Contudo, a despeito de seu teor fictício, algumas produções
reproduziram com bastante realismo o profissional intérprete na execução de sua tarefa.
Foi o caso de A Intérprete e Justiça Vermelha. No total, 26 exemplos foram analisados
em que 54 ocorrências não verbais estavam presentes no ato interpretativo assim

52
FLV (Flash Vídeo) é uma extensão característica dos vídeos do website YOUTUBE.

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distribuídas: adaptadores instrumentais (3)53, alter-adaptadores (1), aparência (1),


auto-adaptadores (2), cinefonógrafos (2), cinetógrafos (2), dêixis (1), emblemas (1),
entonação (5), expressões faciais (6), exteriorizadores (1) gestos (5), identificadores (2),
marcadores discursivos (1), marcadores espaciais (3), olhar e movimentos oculares (1),
nuto (1), orientação (1), pausa (1), pictógrafos (3), posturas (1), proximidade (1),
ruídos vocálicos (2) e tom de voz (4). Além dessas, julgamos necessário incluir duas
ocorrências que não pertencem exclusivamente ao universo da CNV. Trata-se da
interpretação unilateral (1), abordada por Alfred Hermann no capítulo primeiro (p. 17),
e do sistema límbico (2), descrito no capítulo terceiro por Besson et al (p. 62).
Sem qualquer intenção de torná-lo definitivo, ou mesmo de esgotá-lo,
procuramos atribuir ao nosso trabalho um caráter essencialmente subsidiário ao
processo de interpretação. Outros trabalhos que possam servir de apoio e suporte a essa
atividade serão sempre bem-vindos, pois vimos que a interpretação remonta a tempos
imemoriais e continuará por muitos séculos mais, até o dia em que a humanidade fale
uma única língua, o que certamente ainda vai demorar. Até lá, é preciso que
desempenhemos nossas funções profissionais, nosso ofício, com o máximo de
segurança e liberdade, buscando sempre o aprimoramento profissional. Magalhães Jr.
(2007, p. 188) apropriadamente afirma que interpretar é tomar decisões, e a boa decisão
não depende apenas do volume de informações disponíveis, mas de nossa capacidade de
extrair o máximo de significado mesmo da menor fatia de realidade, o que, às vezes,
pode estar presente em um comportamento não verbal.

53
O numeral entre parênteses representa a quantidade analisada de cada ocorrência.

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REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS

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99

ANEXOS

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100

ANEXO A: Nossa tradução das citações

12) O cidadão romano comum não apresentava dificuldade ao se comunicar com os


gregos, enquanto esses últimos quase sempre necessitavam da intervenção de
intérpretes. (Capítulo I, p. 19)

25) Nada mais que três ingredientes são necessários: conhecimentos de idiomas,
técnicas de interpretação e conhecimento sobre o assunto em questão. (Capítulo I, p. 24)

33) O comportamento entre os animais inferiores consiste, basicamente, na produção


estereotipada de sinais não verbais. Nos mamíferos e, especialmente, nos primatas
superiores, cujo sistema comunicativo é mais ‘aberto’, esses sinais são invariavelmente
completados por meio de experiências de socialização. (Capítulo II, p. 33)

36) A comunicação não verbal consiste de todas as mensagens que não sejam
transmitidas por palavras. Durante a comunicação oral, essas mensagens simbólicas são
transmitidas por meio de entonação, tom de voz, ruídos vocálicos, postura do corpo,
gestos, expressões faciais ou pausas. (Capítulo II, p. 37)

39) Não nos é possível imaginar como era o homem de Neandertal. Talvez tivesse o
corpo coberto por pelos e não apresentasse semelhança alguma com o ser humano atual.
É improvável que andasse ereto. Provavelmente usava as articulações dos dedos das
mãos e os pés para se sustentar. Estima-se que vagava só ou em pequenos grupos
familiares. Pode-se inferir, baseado na estrutura de sua mandíbula, que era incapaz de
falar, pelo menos da maneira como o fazemos hoje. (Capítulo II, p. 40)

42) Sensibilizar-se com o complexo funcionamento de sistemas somáticos que vão além
da comunicação verbal na tradução oral (interpretação) revela não apenas como as
mensagens são, freqüentemente, completadas por sinais não verbais, mas também
quantas vezes elas são transmitidas, exclusivamente, por meios não verbais, dois fatos
que não podem ser negligenciados pelo tradutor (intérprete) sensível e que respondem
às diferentes razões, as quais também devem ser compreendidas, ou até mesmo, muitas
vezes, torná-las compreensíveis na tradução (interpretação). (Capítulo III, p. 51)

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101

ANEXO B: Tabela das principais ocorrências da CNV humana

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103

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104

Legenda da tabela:

[1] Presente no ato enunciativo (morfologia + sintaxe + semântica = frases ou sentenças).


[2] Expressa por meio de vocalizações (sons).
[3] Ocorrência na CNV relevante à CI e à WI identificadas na análise do corpus.
[4] O símbolo “û ” indica não.
[5] O símbolo “ü ” indica sim.
[6] Alter-adaptadores: essa ocorrência não verbal é similar ao Contato Físico.
[7] Contato Físico: essa ocorrência não verbal é similar aos Alter-adaptadores.

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105

ANEXO C: Relação dos vídeos analisados no corpus e gravados em formato DVD.

01) Treinamento de Interpretação Consecutiva (Unisantos, 2006).


Cenas 01, 02, 03, 04, 05, 06, 07 e 08.
02) A intérprete (The Interpreter), Reino Unido, Estados Unidos, França, 2005 –
Working Title Films.
Cena 09.
03) Justiça Vermelha (Red Corner), Estados Unidos, 1997 – Avnet / Kerner
Productions
Cena 10.
04) Encontros e Desencontros (Lost in Translation), Estados Unidos, Japão, 2003 –
American Zoetrope.
Cena 11.
05) Espanglês (Spanglish), Estados Unidos, 2004 – Columbia Pictures.
Cenas 12, 13 e 14.
06) The Catherine Tate Show, Reino Unido, 2004 – BBC.
Cena 15.
07) Treinamento de Interpretação Consecutiva (Unisantos, 2006)
Cena 16 (Gravado na íntegra).
Observação: Os vídeos foram gravados na ordem que foram analisados.

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