1

Autor: Salvatore D’ Onofrio Título: Dicionário de cultara básica Sub-título: (o conhecimento indispensável, os mitos eternos) Epígrafe: “Saber é poder: incomensurável é o valor do conhecimento para o progresso do indivíduo e da sociedade!” INTRODUÇÃO Este trabalho já foi publicado, em 2005, pela Campus/Elsevier com o título “Pequena enciclopédia da cultura ocidental”. Estando a edição original esgotada há algum tempo, o autor, atendendo à constante demanda de interessados, resolveu procurar outra editora disposta a continuar a divulgação da obra que foi considerada de utilidade pública, destinada a bibliotecas familiares e institucionais, bem como à leitura individual. O livro foi revisto e atualizado, chegando ao público com uma nova veste tipográfica e diferente título. Autor e editor acharam por bem não deixar no oblívio este compêndio de cultura geral, rico manancial de informações indispensáveis para a formação de uma verdadeira cidadania. Como já dizia o mestre Epicuro, há uns 24 séculos atrás, a ignorância está na origem das superstições e de todos os outros males da humanidade. Ela é o único pecado realmente “capital”, pois é a fonte de onde procedem todos os outros danos. É a falta de conhecimentos que cria o medo nas civilizações antigas ou primitivas e a desgraça em muitas sociedades modernas, culturalmente atrasadas. Ignorante é quem não conhece o passado da civilização em que está vivendo e não tem uma visão crítica do presente, pois não pensa com sua própria cabeça e não reflete sobre as conseqüências de seus atos. Sem dúvida, é a falta de cultura da massa popular que permite o predomínio de alguns líderes carismáticos e fanáticos, capazes de exacerbar ódios e vinganças entre diferentes etnias, insuflando um falso patriotismo e assumindo uma missão messiânica. Como também é a ignorância do povo que permite as sucessivas reeleiçoes de líderes políticos corruptos. O dramaturgo alemão Berthold Brecht acertou em cheio ao afirmar: infeliz do povo que precisa de um herói! A Alemanha de Hitler e a Rússia de Stalin que o digam! Povos civilizados não necessitam de um Messias, de um Salvador da Pátria. Eles precisam apenas de escolas! Aumentar o conhecimento do passado cultural é a base do progresso do indivíduo, da família e da sociedade. A cultura é a mais poderosa e eficaz arma política. Precisamos possuir o conhecimento para sermos social e economicamente livres. Mas o saber, a que estou me referindo, não é dado pela simples informação, pois os dados adquiridos devem ser estudados, interpretados, para chegarmos ao verdadeiro conhecimento, ao saber que nos enriquece por dentro e que transborda e transforma a realidade em que vivemos. Adquirindo cultura, um povo toma consciência da própria identidade, não se deixando manipular por vendedores de ideologias ou por caçadores de votos. Sim, porque pouco adianta nos orgulharmos do nosso regime democrático e do exercício da liberdade, se a grande massa do povo não é esclarecida, vivendo completamente alienada dos problemas da coletividade. A finalidade deste trabalho é contribuir, um pouco que seja, para a divulgação do cabedal cultural que a tradição humanística nos deixou e que, infelizmente, se está perdendo. É curioso notar que, na sociedade moderna, tudo evoluiu, com exceção da educação. O avanço tecnológico se, de um lado, nos propicia uma avalanche de notícias regionais, nacionais e internacionais, de outro lado, contribui para reduzir ainda mais o hábito da leitura em nosso lar, onde a Internet está suplantando a Biblioteca. É uma pena, pois “lendo” se aprende muito mais do que “vendo”. O livro, além de nos acompanhar em qualquer lugar da casa e durante as viagens, permite parar para pensar. O conhecimento é proporcionado de uma forma mais lenta, porém mais proveitosa, estabelecendo um diálogo entre o escritor e a consciência do leitor. A afirmação de Monteiro Lobato de que “uma nação se faz com homens e livros ” ainda não ficou obsoleta.

2

A chamada democratização do ensino, hoje em dia, faz com que os estudantes cheguem às Faculdades com conhecimentos cada vez mais minguados e delas saiam com mais diplomas e menos sabedoria. E isso porque não existe a base cultural propiciada pela família, na primeira infância, e continuada na escola primária e secundária. Apenas a escola, pública ou privada, por melhor que seja, não é suficiente para a aprendizagem, se não houver o homework, o trabalho de casa, assistido por quem é responsável pela educação da criança. Não se aprende de repente ou apenas fazendo um curso. Sem tradição e estudo sustentado não há civilização. Como diria Lavoisier, nada sai do nada. O gênio é apenas um anão sentado em cima de uma montanha, que é o passado cultural da sua etnia, a que ele acrescenta mais alguma coisa. Sem o Atomismo de Demócrito e a Física de Arquimedes, não teríamos a genialidade de Einstein. Sem Homero, Virgílio ou Sófocles, a grandiosidade de Dante, Camões ou Shakespeare seria outra. Este dicionário cultural é o fruto de quase meio século de discência, docência e pesquisa universitária em várias áreas das Ciências Humanas, bem como de uma vida sofrida e viajada. Considero este trabalho como meu testamento intelectual, deixando para meus ex-alunos e para todas as pessoas interessadas em cultura um testemunho do pouco que consegui aprender e reter na minha memória, ao longo de tantos anos. Aproveitei um pouco do material já publicado em livros e artigos, especialmente na área de Teoria da Literatura, e extendi minhas pesquisas em outros campos do conhecimento. Os assuntos, colocados em ordem alfabética, são apresentados não de uma forma teórica, mas através de histórias míticas, literárias e artísticas. Daí o subtítulo "o saber indispensável, os mitos eternos". Na verdade, o presente livro é uma coletânea de ensaios sobre Obras (Ilíada, Odisséia, Eneida, Divina Comédia, Lusíadas, Dom Quixote, Hamlet, Fausto, Metamorfose, Processo etc), Autores (Homero, Virgílio, Dante, Shakespeare, Fernando Pessoa, Machado, Dostoievski, Kafka, Darwin, Freud, Marx, Einstein, Picasso etc) e Temas fundamentais da nossa cultura (mito, religião, filosofia, literatura, artes plásticas, política, ciências etc). Enfim, tentei colocar num único livro o essencial dos conhecimentos que qualquer ser humano, de cultura média, deveria ter, tentando completar, de uma certa forma, as falhas do ensino colegial e universitário. A matéria está distribuída em verbetes de A a Z, desenvolvidos por uma redação média de uma página. Para evitar repetições, alguns verbetes são apenas remissivos, indicando o lugar onde o assunto é tratado. O chamamento pelo “negrito” possibilita ao leitor a indicação de que aquele vocábulo está redigido em lugar apropriado, estabelecendo assim uma rede remissiva que conecta os vários assuntos. Pretendi realizar um trabalho de interdisciplinidade e de intertextualidade, aí residindo sua originalidade, pois o distingue de outros dicionários culturais. Nunca escreveria um livro que tivesse similares na praça, pois o trabalho intelectual, para mim, é demais penoso para ter como recompensa apenas a vaidade ou alguns trocados. Existem, é verdade, bons dicionários de mitos, filosofia, pedagogia, psicologia etc, mas todos eles são específicos. Este pretende ser o “genérico”, aquele que lança pontes entre as várias áreas do conhecimento, colocando em evidência a interdependência entre as várias atividades humanas, pois não existe um saber verdadeiro fora de um contexto histórico, científico, artístico, religioso. O verbete “Édipo”, por exemplo, é visto na sua origem como mito primitivo da Grécia, depois como personagem de uma tragédia de Sófocles, como complexo materno na psicanálise de Freud, e em sua fortuna artística até nossos dias, servindo este mito ainda hoje como inspiração para obras literárias, teatrais, cinematográficas. E o verbete “Édipo” remete a outros assuntos tratados, tais como Tragédia, Teatro, Freud. O desenvolvimento dos verbetes é maior ou menor, dependendo da importância do assunto e da minha competência. Evidentemente, os temas relativos à Teoria da Literatura e à Cultura Clássica estão mais bem desenvolvidos, pois é a minha área específica de conhecimento. O trabalho apresenta-se como uma “mini-enciclopédia” geral. O grande desafio foi condensar, num único livro, de fácil consulta e a um preço razoável, a cultura encontrável em volumosas enciclopédias, escritas por vários especialistas. O critério da seleção e do tratamento dos verbetes foi sua “essencialidade”: escolhi alguns Autores, Obras e Temas que considero “eternos” por terem ultrapassado os limites do tempo e do espaço. Procurei apresentar os mitos e os homens que, segundo meu parecer, mais contribuíram para a formação da cultura

3

ocidental, envolvendo Filosofia, Religião, Artes e Ciências. Se alguma escolha ou omissão não agradar ao leitor, peço-lhe desculpas. E ele vai me perdoar, pois sabe que, em qualquer seleção, é difícil escapar do demônio da subjetividade. Além de proporcionar conhecimentos, este trabalho pretende ser um estímulo para a leitura e a reflexão, um convite para o contato direto com as obras apontadas. Muita gente tem vontade de ler livros importantes, pois culturalmente fundamentais, mas não sabe de onde começar. Aqui está um guia para o leitor se orientar na escolha dos autores e das obras mais relevantes que o gênio humano produziu. Apesar da amplidão e complexidade dos assuntos, sua exposição é simples e direta, num estilo às vezes divertido ou até irônico, tentando evitar pedanteria ou chatice. Como bem adverte nosso M achado: “a primeira condição do escritor é não aborrecer”. A maioria dos verbetes são ilustrados com a citação de frases inteligentes de autores famosos e o significado é explicado a partir da etimologia da palavra, pois o sentido original dos vocábulos é geralmente o mais certo. O livro tem como destinatários estudantes universitários, docentes, profissionais liberais, pais e outros responsáveis pela ajuda às crianças nas tarefas escolares. Interessa, enfim, a todas as pessoas que percebem a importância de exercitar o intelecto e apreciam o valor do conhecimento para o exercício da cidadania e um melhor entendimento de obras filosóficas ou artísticas. Embora apresentada em verbetes, a obra foi concebida como um compêndio de cultura humanística para ser lida todinha, de ponta a ponta, como se fosse um romance eclético sobre cultura, e não apenas consultada como um dicionário. E isso porque a experiência me ensinou que, sem uma visão gestáltica, o conhecimento do particular se esvai, não se solidifica, pois todo o saber é sempre contextual, comparativo, referencial. Como pondera Blaise Pascal, “é preferível conhecer alguma coisa sobre tudo a tudo sobre apenas uma coisa”. Mais ainda: não podemos esquecer que a sabedoria é indissociável do amor. A leitura deste livro tem que ser carinhosa, assim como foi sua escrita. Não sei exatamente o valor deste meu esforço intelectual, mas gostaria de terminar esta introdução com as palavras do sábio indiano Mahatma Gandhi, “o que você fizer poderá até ser insignificante, mas é da maior importância que o faça”.

4

ABELARDO e Heloísa (mito do amor romântico e trágico)Medievalismo Apaixonar-se é ingressar em um estado de anestesia da percepção (H.L.Mencken) Pedro Abelardo (1079-1142) foi teólogo, filósofo e lingüista. Por seu azar, ele se apaixonou pela linda Heloísa, sobrinha de um cônego muito rico, que morava em Paris. A jovem, seduzida pela inteligência de Abelardo, a ele se entregou perdidamente. Para lavar a honra da família, o cônego Fulbert mandou castrar o jovem amante da sobrinha. As cartas trocadas entre os dois amantes constituem uma das mais belas obras do início da Baixa Idade Média ( Medievalismo). Mas seus escritos não tratam apenas de amor. Na sua Dialética encontramos a distinção entre significante (o aspecto gráfico ou sonoro das palavras) e o significado (os conceitos universais): na articulação entre esses dois signos residiria a essência da linguagem humana, conforme o culto Abelardo. O romance entre a bela Heloísa e o filósofo Pedro Abelardo começou em Paris, no início do séc. XII. Abelardo formara-se pela Escola Catedral de Notre Dame, tornando-se, em pouco tempo, muito conhecido por admirar os filósofos não-cristãos, numa época de forte poder da Igreja Católica. Heloísa, também ela amante da cultura, se interessava pelas teses polêmicas de Abelardo e procurou se aproximar dele através de seus professores. Mas foi em vão; até que, numa tarde, a bela jovem saiu para passear com sua criada Sibyle e se aproximou de um grupo de estudantes, que estavam discutindo sobre filosofia. Seu chapéu foi levado pelo vento, indo parar justamente nos pés do jovem que era o centro das atenções, o mestre Abelardo. Ao escutar seu nome, o coração de Heloísa disparou. Ele apanhou o chapéu e, quando Heloísa se aproximou para pegá-lo, logo a reconheceu como a Heloísa de Notre Dame, convidando-a para juntar-se ao grupo. Risos jocosos foram ouvidos, mas cessaram imediatamente quando o olhar dos dois posou um sobre o outro. Heloísa recolocou seu chapéu, fez uma reverência a Abelardo e se retirou. Desde esse encontro, Heloísa não conseguiu mais esquecer Abelardo. Fingiu estar doente, dispensou seus antigos professores e passou a interessar-se pelas obras de Platão e Ovídio, pelos versos eróticos do bíblico “Cântico dos Cânticos”, pela alquimia e pelo estudo dos filtros, essências e ervas. Ela pressentira que Abelardo, atraído pelas suas atividades culturais, viria até ela. E deu certo, pois, quando Abelardo ficou a par dos estudos de Heloísa, imediatamente a procurou. Ele tornou-se amigo de Fulbert de Notre Dame, tio e tutor de Heloísa, que logo o aceitou como o mais novo professor de sua sobrinha, hospedando-o em sua casa, em troca das aulas noturnas que ele lhe daria. Em pouco tempo, essas aulas passaram a ser ansiosamente aguardadas e, contando com a confiança de Fulbert e a cumplicidade da criada, os dois ficavam cada vez mais a sós. Em alguns meses, conheceram-se muito bem, e só tinham paz de espírito quando estavam juntos. Um dia Abelardo tirou o cinto que prendia a túnica de Heloísa e os dois se amaram apaixonadamente. A partir desse momento, Abelardo passou a se desinteressar de tudo, só pensando em Heloísa, descuidando-se de suas obrigações como professor. Não tardaram a surgir problemas, pois esse amor ia contra a moral da época, que mandava reprimir os impulsos sensuais, não aceitava a prática do prazer sexual fora do casamento e não admitia o matrimõnio entre jovens de classes sociais diferentes. Assim, quando a criada Sibyle adoecera, outra serva encontrou uma carta de Abelardo dirigida a Heloísa e a entregou a Fulbert, que imediatamente expulsou o mestre de sua casa. No entanto, isso não foi suficiente para separar os jovens amantes. Heloísa preparava poções para seu tio dormir e, com a ajuda da criada Sibyle, se encontrava com Abelardo no porão, local que passou a ser o ponto de encontro dos dois amantes. Uma noite, alertado por outra criada, Fulbert acabou por descobrí-los. Heloísa foi espancada e a casa passou a ser cuidadosamente vigiada. Mesmo assim, o amor de Abelardo e Heloísa não diminuiu e eles passaram a se encontrar onde pudessem, especialmente nas sacristias e confessionários das catedrais, os únicos lugares que Heloísa podia freqüentar sem acompanhantes. Heloísa acabou engravidando e, para evitar o escândalo, Abelardo levou a jovem à aldeia de Pallet, situada no interior da França. Ali, Abelardo deixou Heloísa aos cuidados de sua irmã e voltou para Paris. Não agüentando a solidão que sentia, longe de sua amada, Abelardo resolveu falar com Fulbert, para pedir seu perdão e a mão de Heloísa em casamento. Surpreendentemente, Fulbert o

5

perdoou e concordou com o casamento. Ao receber as boas novas, Heloísa, deixando a criança com a irmã de Abelardo, voltou a Paris, sentindo, no entanto, um prenúncio de tragédia. Casaram-se no meio da noite, às pressas, numa pequena ala da Catedral de Notre Dame, sem nem trocar alianças ou um beijo diante do sacerdote. O sigilo do casamento não durou muito, e logo começaram a zombar de Heloísa e da educação que Fulbert lhe dera. Publicamente ofendido, Fulbert resolveu dar um fim àquilo tudo. Contratou dois carrascos que invadiram o quarto de Abelardo durante a noite e cortaram sua genitálias. Após essa tragédia, Abelardo e Heloísa jamais voltaram a se falar. Ela ingressou no convento de Santa Maria de Argenteul, caindo em profundo estado de depressão e só retornando à vida aos poucos, conforme iam surgindo notícias de melhora de seu amado. Para tentar amenizar a dor que sentiam pela falta um do outro, ambos passaram a dedicar-se exclusivamente ao trabalho. Abelardo construiu uma escola-mosteiro ao lado da escola-convento de Heloísa. Viam-se diariamente, mas não se falavam nunca. Apenas trocavam cartas apaixonadas. Abelardo morreu em 1142, com 63 anos. Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem e faleceu algum tempo depois, sendo, por iniciativa de suas alunas, sepultada ao lado de Abelardo. Conta-se que, ao abrirem a sepultura de Abelardo, para ali depositar Heloísa, encontraram seu corpo ainda intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando a chegada da amada. Esta história de amor infeliz, junto com a de Tristão e Isolda, inaugura na Europa o tema da paixão fatal e da morte como único lugar seguro para a união de dois seres apaixonados. O tema, que retoma o mito pagão de Eros e Tânatos, teve muito sucesso na cultura ocidental, explorado exemplarmente por Shakespeare na sua tragédia Romeu e Julieta. Ainda hoje, o drama deste amor sublime medieval continua sendo representado, especialmente por companhias de teatro amador no meio universitário, exaltando o código individual e natural (o direito à liberdade de pensar e sentir) e condenando o código social (a opressão dos que têm o poder). ABRAÃO (sacrifício de Isaac, Judaísmo)JerusalémBíblia Moisés A criação do mito de Abraão como Patriarca dos hebreus remonta ao séc. XIX a.C. Ele é um dos personagens mais importantes da religião judaica e, sucessivamente, da cristã e islâmica. Ele foi chefe de um clã arameu, tribo seminômade da região de Canaã, no litoral palestino-fenício, antigo nome da Terra Prometida, ou país de Israel, atual Palestina. A ele Deus teria revelado que Ele era a única divindade, determinando a passagem do politeísmo para o monoteísmo. Segundo uma passagem do Gênesis, Eloim (Deus) o teria agraciado com uma aliança entre a divindade e a parcela da humanidade a Ele consagrada, tendo como sinal a circuncisão. Tal privilégio do povo hebraico foi uma compensação pela prova do “Sacrifício de Isaac”, superada pelo patriarca Abraão. Ter a coragem de imolar seu filho único para obedecer a uma ordem divina é algo de sobre-humano, que apavora qualquer inteligência que não esteja envolvida por um credo religioso. O conto bíblico, ao longo dos séculos, alimentou as várias artes, especialmente o Teatro e a Pintura, sendo utilizado pela Psicanálise como projeção do inconsciente. O relato contido no Gênesis seria uma alegoria da estrutura arquetípica familiar, onde o pai seria o carrasco que separa o filho da mãe. Neste sentido, é evidente o paralelo com a Mitologia greco-romana, onde se contam as relações incestuosas das Divindades Primordiais. O mito de Ifigênia narra como Agamenão estava pronto para sacrificar a própria filha no altar de Diana. Incríveis são as coincidências entre o mito do patriarca Abraão e do príncipe grego. Não havendo como provar influências entre os dois relatos lendários, só se pode pensar em arquétipos universais, conforme a teoria de Jung (Freud). Ao patriarca Abraão está ligada toda a história do Judaísmo, a primeira religião monoteísta da nossa cultura. De seu filho Isaac nasceu Jacó (que passou a chamar-se Israel) e os 12 filhos deste deram origem às doze tribos do povo judeu. Ao redor do ano de 1700, os hebreus se deslocam para o Egito, onde permanecem escravos ao longo de 400 anos. Em 1300, aproximadamente, conseguem a liberdade, liderados por Moisés, que recebeu de Deus as tábuas com os “Dez Mandamentos”, no monte Sinai. Peregrinam no deserto por 40 anos, até chegar à terra prometida, Canaã (Palestina), onde o rei David transforma Jerusalém em centro religioso e seu filho Salomão constrói o famoso Templo. Com a morte de Salomão, as tribos hebraicas dividem-se em dois reinos, o de Israel, na Samaria, e o de Judá, com capital em Jerusalém. Desde então nasceu a crença da vinda de um Messias, um enviado de Deus, que

6

reunificasse o povo judeu e estabelecesse a soberania divina em todo o mundo. Até agora os judeus estão esperando a vinda do Messias, pois não reconhecem Cristo como filho de Deus. ABSOLUTISMO (imperialismo, tirania, despotismo, mito de Júpiter)Política “Em qualquer grande conquista estão as sementes de sua decadência” (Martin Seymour-Smith) O termo “absoluto”, do étimo latino absolutus (“solto”, liberado, que não depende de nada e de ninguém) foi usado, primeiramente, por filósofos preocupados em descobrir a origem do mundo na pressuposição de que existisse uma entidade “por si mesma”, desligada da matéria cósmica e, portanto, transcendental, auto-suficiente, incondicionada, eterna, que as religiões monoteísticas chamam de Deus, de um modo geral, mas a que os filósofos, no decorrer da história, deram vários nomes, conforme concepções diferenciadas acerca da mesma idéia de absoluto. Assim, por exemplo, Parmênides fala de “Esfera”, Platão de “Idéia”, Aristóteles de “Primeiro Motor Imóvel”, Plotino de “Uno”, Espinosa de “Substância”, Kant de “A Coisa em si”, Fichte do “Eu”, Hegel de “O Espírito Absoluto”. No campo político, o Absolutismo é um sistema de governo onde apenas uma pessoa (Monarca, Rei, Soberano, Déspota, Tirano, Czar, Xeque, Imperador) concentra em si todo o poder, sem algum limite e sem precisar justificar seus atos de soberania. Num sentido amplo, o Absolutismo sempre existiu em muitos países da Terra e continua sendo praticado até hoje. O sistema vigora onde o mito de Júpiter se personifica num indivíduo que consegue enfeixar em si todos os poderes de uma coletividade, suprimindo as liberdades individuais. Neste sentido, o termo Absolutismo torna-se quase sinônimo de Tirania, Despotismo, Ditadura, Imperialismo, este último vocábulo indicando a opressão de uma nação sobre outras. Veja-se, ao longo da história, a sucessão dos vários impérios: persa, macedônico, romano, otomano, hispânico, inglês, napoleônico, soviético, o “Celeste Império” chinês, o “Império do Sol Nascente” japonês , as chamadas “Repúblicas de Bananas” da América Latina, dominadas por Presidentes não eleitos pelo povo de uma forma honesta ou sustentados pela força militar. O Absolutismo reina até nos pequenos aglomerrados indígenas, onde o cacique tem poder de vida e de morte sobre os membros da sua tribo, como também na moderna globalização, pela qual os monopólios se aglutinam cada vez mais e se internacionalizam, às custas dos países de tecnologia ainda atrasada, de economia emergente, incapazes de competir, pois vítimas do protecionismo alfandegário, de dívidas externas com altíssima taxa de risco e, evidentemente, da incompetência e corrupção de seus governantes. No dizer do cientista político Eric Hobsbawn, “poucas coisas são mais perigosas do que impérios que perseguem seus próprios interesses na crença de que estão fazendo um favor à humanidade ”. Será que ainda existe alguém tão ingênuo ao ponto de pensar que alguma instituição financeira nacional ou internacional seja beneficente ao emprestar dinheiro a necessitados, sem tirar todo o lucro que puder? Como no mundo físico, assim no reino econômico, “a razão do mais forte é sempre a melhor”, segundo o provérbio clássico do fabulista La Fontaine. Num sentido estrito, o termo Absolutismo está relacionado, historicamente, com as Monarquias da Europa Ocidental dominantes nos séculos XVII e XVIII, e na Rússia czarista, chegando até o início do século XX. Seu substrato ideológico pode ser encontrado no pensamento do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679). Especialmente na obra Leviathan, ele tenta demonstrar sua teoria do poder político, fundamentada num materialismo mecanicista: a sociedade humana é vítima de egoísmos individuais e de grupos que a levam a uma guerra de todos contra todos. Homo homini lupus (“O homem é lobo do homem”), dizia ele. Para evitar tal conflito, faz-se necessário que o homem renuncie a seus direitos naturais, em benefício de um soberano cujos direitos ilimitados lhe permitem fazer reinar a ordem e a paz. Mas, perguntaríamos ao Hobbes, se ainda fosse vivo, “e se o soberano, como costuma ser, for um tirano?” Não seria melhor educar o povo para o exercício do direito democrático, em lugar de confiar num “salvador da pátria?” Podemos relevar quatro focos de domínio absolutista na Europa, que antecederam o início das monarquias constitucionais e dos governos democráticos: l) A Península Ibérica: a longa e sangrenta luta dos povos cristãos contra os árabes maometanos, que invadiram toda a faixa mediterrânea da Europa a partir do século VII, fez com que os diversos e numerosos contados se agrupassem em três

7

grandes Estados: Castela, Aragão e Portugal, que se reduziram a dois quando, no final do século XV, o casamento de Isabel de Castela com Fernando de Aragão teve como resultado a junção dos dois Estados e o fim do domínio árabe na Europa. Para reprimir quaisquer veleidades de insubordinação política ou religiosa, os sucessivos monarcas de Espanha e Portugal se serviram amplamente do Tribunal da Inquisição, manipulado pela Companhia de Jesus, ordem da religião católica encarregada de fazer obedecer, a qualquer custo, as prescrições da Contra-Reforma, proclamadas pelo Concílio de Trento, terminado em 1563 (Lutero). 2) A França de Luís XIV, o modelo quase perfeito do monarca absoluto, ele que disse: “o Estado sou eu”. O processo de formação do regime absolutista na França começou com a ação do grande estadista Cardeal de Richelieu, em 1624, nomeado primeiro-ministro do rei Luís XIII, que conseguiu acabar com o poder dos nobres, arrogantes e incontentáveis, concentrando o poder nas mãos do soberano, e continuou com o Cardeal Mazarino, primeiro-ministro de Luís XIV. Mas este Rei, bem mais ativo e corajoso do que seu antecessor, logo tomou para si as rédeas do governo, conferindo a seus ministros e secretários apenas a função de conselheiros: a ele cabia o poder decisório sobre todos os negócios do país. Considerando o soberano como um ser excepcional, quase transcendental, fez com que a magnificência real se manifestasse também exteriormente através de uma suntuosidade refinada e impondo regras rígidas de etiqueta social. Mandou construir o palácio de Versalhes, o mais luxuoso do mundo, como sua residência, e estimulou o triunfo da inteligência, especialmente no campo das Letras. Pertencem a sua época os três famosos dramaturgos neoclássicos: Corneille, Racine e Molière. Por tudo isso, passou à história com o apelido de “Rei Sol”. 3) O período do Absolutismo na Inglaterra: o povo inglês, desde a Idade Média até hoje, cultivou a tradição de uma forma de governo fundamentada numa monarquia relativa, mais representativa do que dominadora, subordinada ao poder do Parlamento, composto pela Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns. Mas essa tradição foi quebrada pela ascensão ao trono do rei escocês Jaime Stuart, em 1603. Até 1688, ano da chamada Revolução Gloriosa, quando Guilherme de Orange, elevado ao trono por um levante geral, promulgou a primeira “Declaração de Direitos”, o Reino Unido da Grã Bretanha sofreu uma forma de governo ditatorial durante a dinastia dos Stuart que, além de acabarem com as liberdades políticas, adeptos da Igreja Anglicana, perseguiram católicos e calvinistas. Mesmo na época da chamada República de Cromwell, que se seguiu ao domínio stuartiano, o Lorde Protetor, que tanta glória militar deu à Inglaterra, não deixou de governar de modo ditatorial. 4) O Tzarismo russo: Tsar , Czar ou Zar era o nome que se dava ao Imperador da Rússia , uma extensa região da Europa Oriental habitada por povos de várias etnias. Na verdade, o povo russo sempre viveu num regime ditatorial, quer no longo período dos czares, sendo o mais famoso Pedro I, o Grande, em cuja homenagem foi fundada, em 1703, Petersburgo, cidade que se tornou a capital do vasto império, quer no período do domínio do regime comunista, que começou com a Revolução Bolchevique, em 1917, chefiada por Stalin e Lênin. Não à-toa que este último definiu o Estado como “a organização especial da violência”. Realmente, a União Soviética nunca gozou de um governo propriamente democrático, pois o absolutismo de direita foi substituído por uma ditadura de esquerda. O absolutismo comunista terminou na antiga URSS, mas continua na China, na Coréia do Norte, na ilha de Cuba (Marx). ACADEMIA (escola filosófica) Platão Arcadismo O nome “Academia” está relacionado com o nome de um herói grego, Academos, que doou seu parque, composto de ginásio e jardim, situado a NO de Atenas, ao filósofo Platão para conversar com seus discípulos sobre filosofia, ciências e artes. Após a morte de Platão, a Academia foi dirigida por vários filósofos e cientistas, até ser fechada pelo imperador Justiniano, que confiscou o patrimônio, em 529. Só um milênio depois, com o advento do Neoclassicismo francês e o Arcadismo italiano, o termo “academia” voltou a ter prestígio, passando a fazer parte da cultura social. As primeiras academias “modernas” surgiram na Itália ao longo do séc. XVI, quando intelectuais humanistas expunham suas idéias mais avançadas em reuniões regulares, rivalizando com o ensino ministrado nas Universidades: Academias da Crusca, dos Linces e de São Lucas, em Roma; Academia de Arte e de Desenho de Vasari, em Florença. A moda pegou e as Academias se espalharam pela Europa toda, especialmente na França.

o Messias esperado. Égloga V (Virgílio). Um rio da Fenícia carrega seu nome. Voltando ao Gênesis. que. Alguns títulos de obras inspiradas nesta lenda: Idílio XV e Epitáfio de Adônis (Teócrito). Adônis e . ao nível municipal. Casanova. deus da guerra. Adônis e Elegias (Ronsard). a do Novo Testamento. ab initio. O mito de Adônis perpassa a poesia. A paixão de Vênus pelo belo rapaz suscitou também o ciúme de seu amante Marte.” No início do Gênesis encontramos a resposta da religião judaico-cristã às principais inquietações do ser humano: quem eu sou?. junto com o castigo vem a esperança: Deus enviará seu próprio filho. La Púrpura de la Rosa (Calderón). ADÔNIS (o mito da sedução: Páris. seguindo a lei do mais forte. por que sofro? Há vida após a morte? Trata-se da teoria “criacionista” ou fixista. com quem Adônis passava um terço de cada ano (a estação da Primavera). não é um nome próprio. A deusa Vênus se apaixonou pela beleza extraordinária do jovem. pois o sangue de Adônis teria colorido suas águas de areias vermelhas. tendo bons cultores especialmente em Portugal e no Brasil e dando início à moda das “academias” de Letras. em substituição ao deus vingador do Judaísmo. induziu Adônis a cultivar a caça. encarregada de disciplinar o uso da língua francesa e opinar sobre os livros publicados.8 Em 1634. cujo sangue iria lavar o pecado. Essa tese vigorou quase pacificamente na cultura ocidental até à publicação do livro de Charles Darwin: A Origem das Espécies através da Seleção natural (1859). entre os quais se destacou Pietro Metastasio. pois cometeu o pecado que os gregos chamavam de híbris. o Cristianismo (Cristo) iniciaria uma nova Era. redimindo a humanidade da culpa original. é fundada a academia “Arcádia” por um grupo de poetas. a sede do conhecimento. sob a égide do perdão e do amor. R. a seguir disse: “Façamos o homem a Nossa imagem e semelhança. mas evoluem constantemente de uma espécie para outra. por vingança. o ministro Richelieu fundou a Academia Francesa. E ele vai voltar à terra como castigo. Em 1690.Valentino) Narciso Segunda a lenda mais antiga. estadual e nacional. que contém a primeira teoria explicativa realmente científica sobre a evolução dos seres vivos. o Salvador. é eleito um determinado número de “imortais”. mas um termo genérico que significa “aquele que vem da terra” (adama). Assim. Assim. o dinheiro público seria mais bem utilizado na alfabetização do povo e na melhoria do ensino básico! ADÃO e Eva (mito da criação do homem e do pecado original)Bíblia Deus. Metamorfoses (Ovídio). que pressupõe a existência de uma entidade transcendental que deu origem ao universo cósmico e à vida vegetal. em hebraico. distinguindo. gêneros e espécies. tendo como metáfora recorrente a imagem do broto que morre jovem para renascer em novas formas de beleza. uns puxando o saco de outros. Mas. sem possibilidade de mistura. o pecado do “orgulho”. conforme ordem de Júpiter. ao longo de toda cultura ocidental. de onde venho?. Em lugar de satisfazer vaidades e alimentar rivalidades intelectuais. flor efêmera da primavera. Adônis nasceu de uma relação incestuosa entre o rei da Fenícia Cíniras e sua filha Mirra. a presunção que leva o homem a desprezar os limites impostos pela divindade. que sofreu inúmeras variantes. O pecado de Adão e de Eva foi o de “querer saber”. o teatro e as artes plásticas. o mito do primeiro homem moldado com barro por Deus encontra-se em textos assírio-babilônicos. o movimento arcádico se espalhou pelos países de língua românica. tomarem o chá das cinco e fazerem discursos laudatórios. Da Itália. A palavra “Adão”. cujas poucas atividades conhecidas são a de vestirem um fardão. O humorista Millôr Fernandes afirma que “a Academia Brasileira de Letras se compões de trinta e nove membros e um morto rotativo”... querendo igualar-se a Deus. a obra do cientista inglês revolucionou os estudos biológicos. propondo a substituição da teoria creacionista pela teoria “evolutiva” ou transformacional: as várias formas de vida no planeta Terra não são fixas. Don Juan. sendo morto por um javali. Periodicamente. animal e humana. Chamada de “Nova Bíblia”. em Roma. de Ciências e de Artes. disputando seu amor com Prosérpina (Ceres Terra). Adônis e Vênus (Lope de Vega). De seu sangue nasceu a anêmona. uma vez e para sempre. Adônis (La Fontaine). Adônis (Marino). o homem seria apenas um macaco melhorado. que perdura até hoje.

O protagonista é um belo jovem libertino. é famoso o poema satírico de Lord Byron ( Romantismo). Passando da Mitologia para a história. com o nome de O Convidado de Pedra. Os monges do convento. temos o Don Juan.9 Vênus (Shakespeare). O mito de Don Juan oscila entre a construção de uma personalidade histérica. onde estava enterrado o corpo do pai da moça. consagrando a figura do herói. A fuga dos dois amantes para Tróia causa a primeira grande guerra de que temos notícias na cultura ocidental e Páris. XVII. em 1926. está predestinado por seus encantos a conquistar o coração de Helena. filho de uma dançarina e atriz. Dom Juan. se tornava uma cidade cosmopolita. sai publicada. O Eros volta a se aproximar do Tânatos. encontram-se registradas na sua obra publicada em Paris. Mas tal amor é perigoso. Dom Juan. assim como Páris. podendo gerar a destruição e a morte. Na Comédia. desafiou a estátua para se mover e acompanha-lo numa festa. E ao cinema pertence a perpetuação do mito do homem fatal. surgiram vária versões em diferentes artes. Dom Juan consegue vencer. a representação de um jovem que sofre de um comovente romantismo eterno. Adonais: uma elegia sobre a morte de John Keats (Shelley). passa a configurar o ideal estético masculino: “parece um Adônis ou um Páris”. um jovem nobre e constantemente apaixonado-se por belas mulheres. Ainda na mitologia greco-romana. na “Crônica de Sevilha”. na Ópera. que se tornou famoso após a publicação do seu livro História de minha vida (1789). a figura de Páris excede em beleza. a deusa do amor. surge a figura de Don Juan. espada e uma máscara negra. Adônis. nessa ocasião. que erige uma estátua para lembrar o triste fato. uma história de autoria de Tirso de Molina. Casanova. Através das várias obras literárias. Em vista de que é impossível encontrar o amor ideal numa única mulher. Helena de Tróia. Mais de um século depois. por onde viveu viajando. no séc. Filho do rei de Tróia ( Ilíada) e protegido por Vênus. retomando a antiga mitologia grega. de Molière. Já o mito de Narciso simboliza a beleza masculina que se autocontempla. Endímion (Keats). Mulherengo incorrigível. que retoma um tema tratado numa obra anterior (1625) do mesmo autor. a película Don Juan de Marco é considerada um clássico. em busca do absoluto. Tentação de Santo Antônio (Flaubert). mas a morte do chefe do regimento militar comoveu o povo. de outro lado. temos o Don Giovanni (1787). Narciso. desta vez italiano e com uma vida historicamente bem documentada. personagem construído no imaginário popular e artístico a partir de um fato real. Cleópatra e outros mitos de mulheres sedutoras atiçam o desejo erótico dos homens. O novo representante da irresistível beleza masculina é o veneziano Giovanni Giacomo Casanova (1725-1798). a esposa do príncipe grego Menelau. dramáticas e cinematográficas. O ator que mais povoou o imaginário erótico feminino foi o italiano Rodolfo Valentino. na Poesia. que morreu em Nova York. No Cinema. E ela compareceu e levou consigo o jovem para o outro mundo. de um erotomaníaco compulsivo que sofre do complexo de Édipo. da mesma forma que Vênus. aperfeiçoou suas aptidões de sedutor durante as festas carnavalescas de Veneza que. de um lado e. AFRODITE (a deusa grega do Amor)Vênus AGAMENÃO (personagem mítico. surge outra figura de sedutor. diz-se de um belo jovem. Segundo outra versão da lenda. francesas e de outros países europeus. símbolo do autoritarismo) Ilíada . o personagem Dom Juan passou de embusteiro e sedutor brutal a homem angustiado. com apenas 31 anos de vida e cinco de interpretação. Em 1630. Suas aventuras amorosas nas cortes italianas. Rodolfo Valentino. de Mozart. de nome Don Juan Tenório. para o Inferno. que viera insultá-lo em seu túmulo. apesar de padre. o mito de Dom Juan apela para a ética da quantidade: os amores sempre variados ou renovados tornam a vida inesgotável. que se vangloria de ter tido mais de mil amantes. como Adônis. espalharam o rumor de que a estátua do comandante de Sevilha arrastara Don Juan. vestindo capa. O Martírio de São Sebastião (D’Annunzio). intitulada El Burlador de Sevilha. de uma beleza ímpar. A partir do texto de Molina. O pai de uma moça por ele desonrada desafia o jovem sedutor para um duelo de espada. passou a representar o protótipo do macho irresistível que povoa o imaginário feminino. despudoradamente.

clássica. Agamenão teve três filhos. Conseguindo famosas vitórias sobre o império persa. Ele foi reconhecido como o maior artista brasileiro do séc. a princesa Aeropa. ambos tornando-se soberanos pela morte dos sogros. em 1814. Atreu venceu o irmão Tiestes na disputa pelo trono de Micenas. Ele encontrou um modo brasileiro de fazer arte. que o obrigou a sacrificar–lhe a filha Ifigênia. grande parte . No decorrer da guerra. filho do rei de Tróia. artista e políticos esclarecidos. 1761. cujas histórias trágicas foram imortalizadas por dramaturgos clássicos e modernos: Ifigênia. O mais famoso. nasceu em Ouro Preto-MG de um mestre-de-obras português e de uma escrava deste. filho de Felipe II. Entre os descendentes mais famosos de Atreu. Electra e Orestes. Tiradentes (risco do frontispício da Matriz de Santo Antônio). subjugou a Grécia. acrescentando-lhe o toque do ambiente popular de sua época. assimilando a tradição gótica. foi Alexandre o “Grande” (356-323). Todos os sonhos barrocos deslizando pelas pedras (Cecília Meireles) Antônio Francisco Lisboa. do patriarca Atreu. na subida ao Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. A personalidade de Agamenão é marcada pela prepotência e pela ira. AGOSTINHO. que começou com o período alexandrino. a quem se deve o início do mundo helenístico. Aleijadinho se beneficiou do convívio com poetas. em madeira. jansenismo. Vivendo na agitada Vila Rica e em outras cidades mineiras alvoroçadas pela aventura das minas de ouro. Nossa senhora das Mercês e Perdões e Nossa senhora do Pilar. Santo (agostinismo. sobressaem Agamenão e Menelau. Mas Tiestes lhe deu o troco. ao voltar a Micenas. Egito. induziu o irmão a comer a carne de seus próprios filhos. Escolhido como chefe da expedição grega para reconquistar Helena.10 Agamenão é uma figura lendária que está ao centro do um ciclo cultural da pré-história da Grécia. como na Escultura. pela vingança e por paixões incestuosas. dito Aleijadinho por uma enfermidade deformante de que foi acometido perto dos 50 anos. por ter difundido a cultura produzida na Grécia clássica (século V. rei da Macedônia. a imagem em pedra-sabão de São Miguel na fachada da igreja homônima). molinismo)Pascal AGRICULTURA (o mito de Deméter e Ceres. São João del Rei (risco geral e retábulo da capela-mor da Igreja de São Francisco da Penitência). risco. falecendo na mesma cidade mineira. onde se encontram suas obras-primas que o imortalizaram: os Doze Profetas. a Reforma Agrária)Terra ALEIJADINHO (artista plástico mineiro) BarrocoEscultura Anjos e Santos nascendo em mãos de gangrena e lepra. filha do rei de Micenas. ALEXANDRE. época de Péricles ou de Atenas) por todo o imenso território por ele conquistado. Congonhas do Campo. Magno (Biblioteca de Alexandria)Helenismo Alexandre é o nome de vários monarcas. O rei de Micenas. por sua vez. santos e papas. XVIII. Suas principais obras de escultura e arquitetura encontram-se nas cidades mineiras de Ouro Preto (Fonte do Padre Faria do Alto da Cruz. barroca e rococó portuguesa... Agamenão foi morto pela esposa Clitemnestra e seu amante Egisto. desentendeu-se com Aquiles. suscitou a ira da deusa Diana. seduzindo-lhe a bela esposa. ou dos “Atridas”. filha do rei de Esparta. da cidade Micenas. o mais valoroso dos Príncipes gregos. que leva o nome de “micênico”. sendo obrigado a devolver-lhe a escrava Briseida. e Agamenão com Clitemnestra. em pedra-sabão. sendo vítima da própria soberbia. portando cartelas. tanto na Arquitetura. Desprezou a profecia de Cassandra e. com inscrições em latim. primeira obra em pedra-sabão. sem dúvida. já fazendo parte da saga “troiana”. marcado pelo ódio. Os dois irmãos casaramse com duas lindas irmãs: Menelau com Helena (o motivo da Guerra de TróiaIlíada). no períbulo e as figuras dos Passos da Paixão. interessados no sonho da independência brasileira e no culto da realidade mineira. com data incerta (1730 ou 1738?). raptada por Páris. Sabará (esculturas no frontispício da Igreja da Ordem Terceira do Carmo e as imagens de São João da Cruz e São Simão Stock). talhas e esculturas nas Igrejas de São Francisco de Assis. Ásia Menor.

C. História. é sintomático o fato de o romance grego de amor e de aventura desenvolver-se em épocas de escravidão política. exaltava as vitórias esportivas (epinícios). A problemática que estimula a produção de obras artísticas ou científicas extrapola os limites da Cidade-estado e se universaliza. no teatro. através do voto livre e direto. como as outras artes. entre 1988 e 1995. inclui três museus. Enfim. manuscritos de diversos idiomas do Mediterrâneo. fundamentado nas liberdades constitucionais das póleis. pelo espírito de reflexão.C. Realmente. Alexandria possuía um museu. Talvez o único gênero literário realmente novo do período alexandrino seja a ficção em prosa. seis galerias. tentando avançar até à Índia. Infelizmente. fala apenas de "poesia" (épica. enquanto inquérito sobre a vida pública e sátira políticosocial. em 47 a. mais do que pela criação artística. poetas. para a língua grega. Shakespeare. proliferou na Grécia o gosto por uma literatura feita de relatos de viagens em regiões longínquas e fabulosas. abrigando cerca de cinco milhões de volumes.C. com um acervo de mais de 700. na poesia bucólica. o pai da "comédia nova". . fora a maior metrópole intelectual e artística do mundo helenístico. pois cada qual.000 obras literárias e científicas. que emergem como um disco gigantesco inclinado em direção ao Mediterrâneo. também a comédia de Aristófanes. Este tipo de literatura romanesca foi bem ao encontro dos gostos da grande massa alienada da vida pública. A literatura. gozou de um regime democrático. onde lecionaram Plotino e Porfírio. Teócrito pode ser considerado o criador do gênero. além de um grande estrategista de guerra. onde se reuniam filósofos. Famosa foi sua Biblioteca.. a biblioteca sofreu dois incêndios. construída por Ptolomeu que lhe sucedeu. e em 391 d. criando-se assim narrativas híbridas em prosa. os cidadãos eram chamados a fazer parte da vida pública. adquirindo também uma finalidade mais utilitária: daí a abundância de obras de cunho didático e erudito. cinco institutos de pesquisa. Além da Biblioteca. no sentido de que enaltecia as origens divinas e heróicas da raça (poesia épica). Quando a Grécia. lançou as bases da sátira dos costumes da classe média baseada no estudo psicológico de caracteres. surge a época da crítica e da divulgação da cultura grega. são misturados. um salão de conferências e um planetário. A cultura alexandrina caracteriza-se. depois de Atenas e antes de Roma. de biografias imaginárias de homens célebres. As atividades militares e políticas absorviam a maior parte do tempo dos gregos. imitando-se todas as formas artísticas do período anterior. Goldoni). Ele se tornou imortal porque. Outro aspecto importante foi seu cosmopolitismo. consagrados pela tradição clássica. mito. entre outras descobertas científicas. até o século II a. tanto que Aristóteles. lendas e personagens. famosa por ter divulgado Os Elementos. de observação e de pesquisa. Os cargos civis e militares eram atribuídos pelo merecimento pessoal e pelas eleições de classe. Menandro. era considerada uma atividade também patriótica. uma escola filosófica neoplatônica. dramática. O complexo de 11 andares. entre os quais Alexandre o Grande foi considerado o herói protótipo pela sua coragem de enfrentar o desconhecido. os temas e os heróis imortalizados pela épica e pela tragédia são objetos de novas elaborações literárias. só existia produção literária em versos. fundou a cidade que leva seu nome. sentia-se na obrigação de zelar pela riqueza material e espiritual de sua terra.11 da costa do Mediterrâneo e do Oriente Médio. Somente após a conquista macedônica. Calímaco foi o maior poeta elegíaco. A Nova Biblioteca de Alexandria foi construída. não deixava de desenvolver o seu papel pedagógico. lírica e satírica). Terêncio. em oposição ao caráter regional das póleis da Grécia Antiga.Mas. com base num projeto do arquiteto norueguês Kito Thorson. entendido como a consciência de considerar as obras de arte do passado como modelos a serem imitados por todos. influenciando fortemente os melhores comediógrafos posteriores (Plauto. Na medida em que a prosa se torna a forma mais comum de expressão literária. tendo consciência de ser membro de um patrimônio de cultos e de tradições. Molière. No Egito. Como é sabido. no seu tratado Poética. precisamente no Delta do rio Nilo. com a perda da independência política. Na poesia lírica. nascendo assim o Classicismo. do Oriente Médio e da Índia. confinando a poesia ao uso das pessoas cultas. mas poucos autores se imortalizam. o que favoreceu muito o desenvolvimento das ciências naturais e exatas. ensinava o cultivo dos campos (poesia didática). durante o apogeu da época ática. e uma Escola de Matemática. Alexandria que. foi amante e difusor da cultura. cientistas e tradutores que vertiam. instruía sobre as relações entre os homens e seus deuses (poesia dramática). o gênero que mais tarde se chamará de "romance". A produção cultural do período alexandrino é bastante vasta. de Euclides e alguns trabalhos de Arquimedes. com voz ativa e passiva. após a fase maravilhosa da criação artística do período ático.

depois. perdido o seu significado religioso.C. nem amor nem ódio. O ideal amoroso. Adão e Eva. por somar o princípio masculino com o feminino. sua realização existencial. que causou ao ser humano sofrimento e morte. constituindo um corpus romanesco. do verbo secare (separar. O poeta Ovídio. o mais famoso sendo Dáfnis e Cloe ( Romance grego). O que liga entre si as cinco narrativas chegadas até nós. A literatura torna-se um meio de passatempo. cortasse seu corpo pelo meio. convergem suas atenções e seus desejos para a vida familiar e íntima. baseada numa nova paidéia. contendo o princípio masculino e feminino. uma fuga da realidade insignificante. O étimo latino da palavra “sexo” é o radical sec. perdendo qualquer ideal de pátria. a riqueza material e as viagens são as aspirações fundamentais do heleno da época alexandrina. uma evasão voluntária nas "Ilhas Fortunadas" do mundo da utopia. Como a “Comédia Nova” de Menandro e a poesia elegíaca de Calímaco. ordenou a Vulcano que. temendo que o Andrógino. o ser perfeito. O mito. juntando o nome de Hermes (Mercúrio) e Afrodite (Vênus). sustenta a tese de que. Cabral)Renascimento AMOR (Cupido na mitologia greco-romana: sexo)Eros  Vênus ANDRÓGINO (mito do ser bissexuado.. pudesse ser uma ameaça para o seu poder. em face das contradições existentes na narrativa bíblica sobre a criação do homem.). sendo uma combinação harmoniosa do masculino e do feminino. centrado no homem como indivíduo. e o II d. publicado em 1536. o espaço geográfico onde se desenvolvem os enredos (as cidades helenizadas do Mediterrâneo) e.C. a. torna-se lenda e o ideal heróico da poesia épica se transforma no ideal erótico do romance. afastados da vida pública. entre a época ática e a romana. conseguindo dos deuses o privilégio de nunca mais se separar do amado. o mais forte dos sentimentos individuais. Platão também pensara numa androginia primordial quando expôs sua teoria cosmogônica. racionalizando seus mitos e pragmatizando sua filosofia. constituíam um único ser. primeiro. O filósofo neoplatônico Leão Hebreu. sou masculino e feminino. Neste ovo gigantesco não existiriam os contrários: nem luz nem trevas. o casamento feliz. e mais fragmentos de outros romances. (Baby Consuelo e Pepeu Gomes) Do grego andrós (macho) + gyné (fêmea). bissexuado. sobretudo. O período alexandrino da literatura grega nos deixou cinco romances de amor e de aventura. I a. No novo sistema socio-cultural. no famoso livro Diálogos do Amor . é possível pensar numa interpretação esotérica: Deus teria criado. A análise da vida pública cede lugar ao estudo da vida privada. o andrógino é o ser que reúne dentro de si o elemento feminino e masculino. ALMA (princípio da vida)PsiquêEspírito AMÉRICA (a descoberta do novo continente: Colombo. Esta vertente do mito bíblico tem um paralelo com o mito grego do ser bissexuado: Júpiter. Os estudiosos chamam de “período alexandrino” a cultura helenística que vai do III ao I séc. assim as narrativas de amor e de aventuras espelham o mudado gosto do público e um novo ideal de vida: a afirmação amorosa entre dois seres. chama o andrógino de “Hermafrodito”. E a ficção romanesca exprime claramente essa cosmovisão. em suas Metamorfoses. o pai dos deuses. Os mitos sobre a androginia encontram-se espalhados em toda a cultura ocidental e nas religiões orientais. constituindo assim um ser da natureza dupla. cortar): o ato sexual junta o que está dividido em dois pedaços.C.12 os gregos. centrada num Ovo ou Gigante antropomórfico. as semelhanças de estrutura e de significação. dividindo o masculino do . não fere o meu lado masculino. é a aproximação do tempo de composição (entre o fim do séc. O individualismo substitui o coletivismo. nem quente nem frio. teria havido a separação dos sexos. Hermafrodito)Hermes Vênus Ser um homem feminino. com um machado. como origem do universo. Se deus é menino e menina. antes do pecado original. Segundo alguns exegetas da Bíblia. vivendo sob sucessivos regimes imperiais estrangeiros. como punição pelo pecado de orgulho. a pessoa humana procura no amor. Conta a lenda que a ninfa Salmácida se apaixonou perdidamente pelo Hermafrodito. A mimese superior é suplantada pela imitação das ações ordinárias da vida cotidiana. o andrógino.

com o filho Céu. transformado em tragédia por Sófocles e em complexo por Freud. que leva à assexualidade. o mais jovem dos Titãs. começaram a incutir o sentimento depreciativo do sexo. princípio feminino. a castração e o parricídio (o “ele” mutila ou elimina o “tu”) e o incesto (o “ele” substitui o tu no sentimento amoroso do “eu”). visa reconstituir a primitiva unidade perdida. tu (pai). instinto divino.13 feminino. pois os dois sexos separados se desejam mutuamente. O Céu começa a sofrer da rivalidade dos filhos e ordena que a mãe Terra sufoque os novos seres ao nascerem. a cortar mais ainda. em constante luta contra os senhores das terras (questão agráriaAgricultura). os Ciclopes e os Hecatônquiros. dos deuses do Olimpo (Mitologia). ao assumirem o poder político. instigando e ajudando o filho Cronos (Saturno. Um crítico e ficcionista contemporâneo. ressaltando ora o pecado do orgulho. verdadeiros irmãos inimigos. ou nas regiões . simboliza a luta da Terra. e vice-versa. instrumento agrícola. em À Procura do Tempo Perdido de Proust. no romance História cômica dos Estados e Impérios do Sol . a revoltar-se contra o pai. que se vinga de Urano. o tempo e a eternidade. a foice continua sendo o emblema da força dos trabalhadores. armado de uma enorme foice. à pré-história. Traiçoeiramente. que é o seu oposto. Outras religiões importantes fizeram o mesmo”. dá à luz. inventado pela genialidade da mente grega para explicar as origens do universo. ele (filho). Essa seria a explicação mítica da realidade psicológica da busca incessante da outra metade: o desejo do homem pela mulher. especialmente no mito de Édipo. A mãe Terra casa-se. como o infanticídio (o “tu” vê no “ele” um rival e tenta eliminá-lo). eu cortaria ainda em dois. Afirma Brown: “o uso do sexo pela humanidade para comungar diretamente com Deus representava uma séria ameaça à base de poder católica. O infanticídio vem sendo consumado contra a vontade da Terra.do escritor francês Savinien de Cyrano de Bergerac. no Adônis de Marino. A separação Terra/Céu é a representação mítica da estrutura psicológica do eu/tu que. Encontra-se. O mito do andrógino simboliza a luta entre o corpo e a alma. chega a ser também antropogônico e antropológico. o mito sobre as Divindades Primordiais. todas divindades poderosas. associando-lo a inspirações demoníacas. na sua Teogonia. por partenogênese. com o nascimento do filho. único e andrógino. o mito do andrógino está ligado às lendas sobre as Divindades Primordiais. Dessa união incestuosa nascem vários filhos. que pode ser encontrada em todo casal. narra que a Terra. debilitando o status que ela mesma se atribuíra de único caminho para Deus. tentando restabelecer a primitiva unidade. Assim. a Igreja fez de tudo para demonizar o sexo e reinterpretá-lo como um ato pecaminoso e repulsivo. Basta pensar em seitas evangélicas. de André Gide. o Tempo). que proíbem até a dança de salão para evitar a aproximação dos corpos de moças e rapazes. nos romances de Balzac. nas Metamorfoses de Ovídio. Aquilo deixava a Igreja de fora. passa a ser permitida apenas para a conservação da espécie. por assim dizer. A separação do princípio feminino (a Terra) do princípio masculino (o Céu) cria uma instabilidade cósmica. Cerimônia a que os gregos deram o nome de Hieros Gamos. se completa na estrutura triádica. pois natural. princípio cósmico original. cortando-lhe os órgãos genitais. ora a tentativa de explicar o distanciamento entre o homem e a mulher. diz que Zeus ameaçara os homens. Os Meteoros (1975). como aparece em várias obras de arte. além de nas obras dos autores já citados. ocupa o lugar do pai no trono do universo. já cortados em dois. até que seu filho Júpiter o destrone pelo mesmo motivo pelo qual Saturno tinha deposto Urano. de maneira a fazê-los andar com uma perna só”. A concepção de sexo como pecado é bem posterior. se persistissem em seu orgulho: “Se a imprudência continuar. Na cultura grega. no Tratado de Narciso. A cópula do homem e da mulher. Cronos. O mito do andrógino é revivido em todas as formas de arte. condenado a viver em estado de guerra permanente. todas elas. quando as igrejas. em que o orgasmo era visto como uma oração. na poesia alegórica de Dante (Divina Comédia). o Ceú (Urano). e manifestação da mítica androginia. Dan Brown (O Código da Vinci). contra a tirania das forças superiores do Céu. além de ser teogônico e cosmogônico. O poeta Hesíodo. A foice. a um filho. recorda que os antigos egípcios celebravam um ritual erótico para comemorar o poder reprodutivo da mulher. referindo-se ao pensamento de Platão. Em seguida. então. protetor da vida. No plano humano. condenando-se o prazer. a criatura e o criador. onde o narrador. Por motivos óbvios. própria de qualquer sociedade humana: eu (mãe). dando origem ao reinado do Tempo. mutila o pai Céu. A relação de conflito entre esses três elementos é a causa de crimes horríveis. os Titãs. ora a auto-suficiência afetiva. no Orlando Furioso de Ariosto. no romance de Michel Tournier.

“apolíneo”. Sol . Toda a manhã. imutáveis. transportava seu coche dourado para o alto do céu e. O mito sobre o astro luminoso do céu. Ismênia. Etéocle e Polinice) com mãe Jocasta. a heroína anarquista)Édipo “O coração de Antígona é o pêndulo do mundo” (Marguerite Yourcenar) O mito de Antígona é uma continuação da história de seu pai Édipo. Creonte se vingou. mas sim o amor”. sem querer. quando ela não é justa e não é útil ao viver social. A figura de Antígona perpassa toda a cultura ocidental. Na Renascença. se escondia atrás das montanhas. Sol. assistiu à morte dos dois irmãos. por atores profissionais e amadores. Antígona (Sófocles. que não datam de hoje. Tinha a missão de trazer para a terra a luz. (do grego aïolin (nuance das cores). Hélios. que disputavam o trono da cidade. O rei de Tebas. na cultura greco-romana. vai tomando consistência outra linha semântica. acompanhado pela devotada filha Antígona. Esta.C. um matando o outro. A elaboração dramática grega do relato mítico sobre Antígona foi objeto de quatro peças : Os Sete contra Tebas (Ésquilo: 467). o “brilhante”. encerrando a sobrinha num cárcere. no séc. no cinema e na televisão. durante a guerra dos “Sete Chefes”. 441). o calor e a vida. que possibilita a vida na terra. pois. Hélios. apresentaram seu mito ao pé da Acrópole. desenvolvendo o tema do amor filial e fraternal. para enfraquecerem seus inimigos políticos. perseguida pela ciumenta Juno. correspondente ao deus Sol dos romanos. O Cosmos devia a ele . em Colona. com o título de Antígona ou A Piedade. Por muito tempo. onde ela se estrangulou. O romano Estácio retoma o conjunto da lenda no volumoso poema épico A Tebaida. heliocentrismo) Hélios. usavam o lema divide et impera: é preciso dividir para dominar. em 1580. a tragédia ateniense foi remontada em quase todos os teatros das grandes cidades e nos pequenos palcos das províncias. Está afirmada a supremacia do direito natural e a proposta da luta sublime da consciência contra a força e a sabedoria contestável dos poderosos. nem de ontem. ANGLICANISMO (Henrique VIII e Ana Bolena. promete obedecer a “leis não escritas. inspiradas na figura de Antígona. nas centenas de outras peças representadas no palco. Regente de Tebas. pela mudança das ideologias. antecipando a palavra de Jesus Cristo: “Eu não vim trazer o ódio. depois de tomar consciência de ter sido um parricida e um incestuoso. a representação de Antígona tem comovido mais homens do que quando a tríade dos dramaturgos gregos. foi substituído pela adoração do poderoso Apolo. impregnado de marxismo. onde a protagonista. no teatro de Brecht que. A religião faz a mesma coisa: separa o masculino do feminino para ter domínio sobre a humanidade. vista como a mulhersímbolo da desobediência à lei. Antígona prestou as homenagens fúnebres ao irmão Polinice.C. Apolo nasceu na ilha de Delos. Sófocles e Eurípides. cujo culto. aos poucos. voltou para Tebas e. APOLO (Febo. considerado inimigo da cidade. Febo. A longo dos tempos. Estima-se que. é uma divindade pré-olímpica. contestando os decretos de Creonte. Ésquilo. V a. As Fenícias (Eurípedes: 409) e Édipo em Colona (Sófocles: 407). à noite. do latim solus (o único). Esta nova dimensão da tragédia está presente na peça Antígona do poeta romântico Alfieri. ao longo do séc. Protestantismo)Lutero ANTÍGONA (o amor fraterno. cristianizando a lenda. após a morte do pai. Os antigos romanos.14 muçulmanas onde se corta o clitóris das meninas para que não sintam o prazer sexual. o dramaturgo francês Robert Garnier elabora uma peça caudalosa sobre o mito. a interpretação mais recorrente da figura da heroína está centrada no verso que Sófocles coloca na boca de Antígona. Desobedecendo à ordem do tio Creonte. Mas. é descrito. por vários nomes: Apolo. em 90 d. vazara seus olhos. que luta contra o sistema monárquico italiano. também ela centrada numa passagem da Antígona de Sófocles. XIX. do verbo luô (libertar) ou louô (lavar). que ninguém sabe quando apareceram” . Filho de Júpiter e de Latona. na modernidade. refugiando-se nos subúrbios de Atenas. de phôs + bios (luz da vida). matara o pai Laio e tivera quatro filhos (Antígona. ataca a sociedade burguesa e capitalista.

É o deus da luz. o deus do vinho e do Carnaval. a confiança nas forças do homem. onde o deus possuía vastos rebanhos de bois e carneiros. Apolo de Kassel. O mito da disputa entre Apolo e Mársias (ou Pá. como o deus de todas as faculdades criadoras de formas. movimento literário do séc. pois ele teve inúmeros filhos com várias deusas. no Louvre. Apolo. no Vaticano. Os cientistas da Renascença européia. centrada na harmonia das formas. com a musa Calíope. universal e absoluta. animal e humana (patrono dos agricultores. Foi a última tentativa de retomada dos princípios estéticos e ideológicos do Classicismo. região da Antiga Grécia. cópia de um original do escultor grego Praxíteles. gerou Orfeu. chamou-se de Arcadismo à moda literária que dominou na Europa durante a primeira metade do séc. onde não soprava o vento Bóreas.tem como fundamento o sonho. um radical otimismo. que imaginava a Terra imóvel e centro do Universo. A arte que nele se inspira — a apolínea -. pela luz divina. de cítara ou de uma coroa de flores na testa. XVIII. Na Era Moderna. sendo o Sol a rodar ao seu redor. da música suave e harmoniosa sobre a música rude. desvendando os mistérios da natureza. em que o todo fosse a resultante de partes proporcional e harmonicamente estruturadas. da medida sobre o excesso. até o séc. O calor de seus raios fecundava a natureza toda: o mundo vegetal. Apolo do Belvedere. Vários estudiosos da Literatura e das outras artes se serviram muito dessa oposição apolíneo/dionisíaco em seus trabalhos de análise e interpretaçãoCrítica. cópia de uma peça de Fídia. pois. contrastando com a desordem e o espírito revolucionário inerente a Baco (Dionísio). portanto. pela luz intelectual. Suas estátuas mais conhecidas são: Apolo Sauroctone. animal e até humano. viviam em completa integração com a natureza. da cultura sobre a natureza. o sistema astronômico que considera o Sol como o centro do universo. estavam as múltiplas funções atribuídas a Apolo: pela luz cósmica. Copérnico (que deu o nome ao novo sistema) e Galileu. segundo uma variante da lenda) representa a vitória da lira sobre a flauta. para indicar obras de artes inspiradas por um conceito de beleza serena. até “heliocentrismo”. o astro ao redor do qual transladam todos os planetas. povo mítico que vivia na região do extremo norte. A iconografia de Apolo é uma confirmação figurativa do conceito de beleza apolínea. em oposição ao “dionisíaco”. entendida como harmonia de formas: abstraindo dos efebos as partes corporais mais bonitas. dos pastores e dos navegantes). se serviram do nome ou do prefixo h elio.15 não só a alternância dia/noite. XVII. da ordem e da harmonia. no Sul da Itália. Nas Artes Plásticas. afirmando especialmente o cânone da . ninfas e mulheres. da forma sobre o disforme. venerado pelos gregos porque seu canto abrandava a dor e fascinava homens. que anualmente viajava para o feliz país dos hiperbóreos. que se tornou o modelo clássico da beleza masculina. animais e minerais. Apolo é esculpido ou pintado como um belo jovem completamente nu ou munido de arco. o mais leve dos gases. da harmonia sobre a desordem. Apolo é apresentado. Na pintura. era o deus dos oráculos. sofreram inutilmente para convencer os conservadores católicos de que o que está escrito no Gênesis (Bíblia) é pura fantasia. habitada por pastores que. era o protetor dos médicos e dos artistas. considerado capaz de alcançar a vitória sobre o mal e a mentira. APULEIO (autor do romance O Asno de Ouro)=> Metamorfose ARCADISMO (Arcádia. poeta e músico. mas também a mudança das estações: o inverno era causado pela ausência de Apolo. Ligadas à sua prerrogativa fundamental. da beleza sobre a fealdade. da civilização grega sobre a barbárie asiática. a imaginação. As ciências naturais. O adjetivo “apolíneo” foi inicialmente utilizado pelo filósofo alemão Nietzsche. de lira. o Apolo mais bonito é o de Rafael. Surge como uma “aparição” radiosa que revela ao mundo os segredos dos sonhos e desvenda os mistérios da vida. A dor de Orfeu pela morte da amada Eurídice constitui uma das páginas mais líricas da mitologia clássica. em plena Renascença. especialmente Newton.XVIII)Academia O nome vem de “Arcádia”. luminosa. protegia a vida vegetal. A região de maior culto ao Sol era a ilha da Sicília. os artistas gregos procuraram chegar à criação de um modelo de beleza masculina. ainda se acreditava no sistema ptolemaico ou geocentrista. a ilusão. a luminosidade.para denominar vários fenômenos ou teorias: de “hélio”. Essa nova concepção da cosmologia é relativamente recente. segundo a lenda. especialmente a física e a química.

retirando a espada e as sandálias do pai. inspirando-se em grandes poetas: Petrarca. todo o movimento arcádico foi impregnado de convencionalismo. Para escapar da ira do pai. a linda princesa fugiu com Teseu com destino a Atenas mas. A linguagem era toda ela extraída da vida campestre: os leitores eram chamados ‘‘rebanho”. ARIADNE (amante do argonauta Teseu e esposa de Baco) Filha de Minos. em homenagem à mítica região da Grécia. Participaram da expedição mais de 50 personagens famosos. Tosão de Ouro) O mito dos Argonautas (os viajantes do navio Argo) trata da aventura lendária de heróis gregos que foram à Cólquida. que se encontram narrados nos respectivos verbetes. colocadas em baixo de uma enorme pedra. Cada um desses heróis tem uma história particular. Teseu. Em 1690. Minotauro. sentimentalismo. os iniciados chamavam-se “cordeiros”. A proposta da nova poética era cantar a beleza e a calma da natureza. Já moço. A função da academia era realizar conferências literárias e censurar as obras dos membros. que se entrelaça com outras lendas. Seu lema era: Inutilia truncat (“eliminar os adornos inúteis”). frivolidade. destacando-se Hércules. envolvendo seres humanos e divinos. ARGONAUTAS (Teseu/Ariadne. Inácio José de Alvarenga Peixoto (1744-1792) e Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1749-1814) constituem uma plêiade de poetas líricos que divulgam na colônia motivos e formas estéticas do Neoclassicismo europeu. Orfeu e Jasão. . Os elementos típicos do Arcadismo italiano têm muito em comum com o estilo “rococó” francês: culto sensual da natureza. era alimentado por carne humana. precisou demonstrar sua valentia. pois tinha nascido de uma relação sexual entre a mulher do rei Minos e um touro. Da Itália. Os membros da academia chamavam-se “pastores” e ‘‘pastorinhas”. elegância. matou a fera a socos e conseguiu sair de lá. em 1504. A natureza exaltada pelos árcades não é autêntica. Os mitos mais belos e de maior fortuna na cultura ocidental. a biblioteca era “a pastagem”. o Tosão de Ouro seria uma metáfora da alma humana em busca do gozo eterno. mas artificial. violentado durante a época do Barroco. Jasão/Medéia. é fundada a academia “Arcádia” por um grupo de poetas decididos a lutar contra a moda estética do marinismo ( Marino). rei de Atenas. porque fora adorado por pastores. em Roma. Camões. foi para a ilha de Creta lutar conta o Minotauro. encerrado por Dédalo (Ícaro) no Labirinto. o maior herói humano da mitologia grega. Segundo alguns estudiosos. adotavam pseudônimos gregos e tomavam por protetor o menino Jesus. comparando o mito dos Argonautas gregos com a Terra Prometida dos hebreus ( Bíblia) ou com a Demanda do Santo Graal dos cavaleiros medievais. cuja posse seria a garantia de poder e prosperidade. referentes à aventura dos Argonautas. onde a “inteligência” francesa. estão centrados em três figuras de mulheres: Ariadne e Fedra (amantes de Teseu) e Medeia (amante de Jasão). Teseu. Tasso. Sua originalidade reside na adaptação do movimento arcádico à realidade brasileira. idealizada. Cláudio Manuel da Costa (17261789). um talismã constituído pelo pêlo de um carneiro consagrado a Júpiter. Ariadne. sendo a ele sacrificadas sete moças e sete rapazes. Aliás. região da Ásia Menor. O Minotauro.16 verossimilhança. e o estilo artístico do Arcadismo italiano e português lançaram as bases estético-ideológicas da primeira grande escola de poesia em nossa terra: o lirismo dos inconfidentes mineiros. afetação. utilizando um novelo de fio oferecido-lhe pela jovem filha do rei Minos. periodicamente. entre os quais se destacou Pietro Metastasio. o movimento arcádico se espalhou pelos países de língua românica. com o fim de depurar os textos poéticos dos exageros do estilo barroco. mais fruto de leitura e de imaginação do que de contacto real com a vida do campo. monstro com cabeça de touro e corpo de homem. o qual. o rei de Creta. do latino Virgílio e do renascentista Sannazzaro. Metastásio. formada pelos escritores ligados ao Iluminismo e à Enciclopédia. em contraste com a vida agitada da cidade. Segundo o mito. sua lenda se funde com a de Teseu e dos outros Argonautas. Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). escrevera um longo poema intitulado Arcadia. tendo bons cultores especialmente em Portugal (Bocage) e no Brasil. A temática bucólica e idílica é retomada das composições poéticas do grego Teócrito. em busca do Tosão de Ouro. era filho de Egeu. linguagem melódica. Teseu entrou no Labirinto. Desde criança.

A figura lendária de Ariadne é evocada em muitas obras de arte. o grande lírico latino Catulo. era irmã de Ariadne. no séc. Lourenço de Médici. o belo Hipólito. Seus alvos preferidos foram. o deus Baco (Dionísio) a tornou sua esposa. pelo seu canto carnavalesco o Triunfo de Baco e de Ariadne. e sua política demagógica. pois se apaixonou pelo enteado. artesãos e agricultores . face à falência moral dos cidadãos. nobre aristocrata rural. cidade de cultura grega. perdida no tempo e no espaço. Aristófanes (445-386) é o maior expoente da ‘‘comédia velha”. Impressionado com a beleza de Ariadne. A Paz: sátira contra a Guerra do Peloponeso travada entre atenienses e espartanos.C. do sexo. enquanto os maridos não acabarem com a guerra. foi um implacável conservador e misógino. o herói a abandonou. o mito de Ariadne é recordado por Dante. E Fedra. sociais e culturais de Atenas. acusado de ter rebaixado o nível do teatro na Grécia. As vespas: sátira contra a mania dos atenienses de recorrer ao tribunal e processar-se uns aos outros por motivos fúteis.) em que atenienses e espartanos se digladiavam estupidamente. compadecidas da sorte da jovem.C. exaltando os prazeres da comida. embora pertencente à Macedônia. arrependido pelo abandono. Teve outras mulheres. por acaso. pois os atenienses. Das quarenta e três peças satíricas que escreveu. restaram onze. As Rãs: sátira contra o dramaturgo Eurípides. e a decadência da arte dramática atribuída a Eurípides. a Guerra do Peloponeso (431-404 a. As mais importantes são: Os cavaleiros: sátira violenta contra o arconte de Atenas. onde a matrona Lisístrata convoca as mulheres de Esparta e de Atenas para uma greve do sexo. considerada responsável pela frouxidão dos costumes da juventude de Atenas. O rei Filipe confiou-lhe a educação do filho Alexandre. A dor pelo abandono deixa a jovem estática. exceto algumas outras mulheres. tornou-se uma constelação. no poema “Núpcias de Tétis e Peleu”. em que. Assembléia de mulheres: sátira da utopia da República de Platão. descreve o momento em que Ariadne olha o navio de Teseu se afastar. Dividiu a sociedade em três classes . tido como incentivador dos maus costumes.. que mais tarde será alcunhado de "o . ao longo da cultura ocidental. fala dela nos Argonautas. Na ilha grega. deixando de ser apenas a imagem do sofrimento amoroso feminino. Ariadne é retratada como a amante do deus Dionísio. para dar-lhe esperança sobre a volta do amado. o sistema democrático de Atenas com seus governantes considerados corruptos e demagogos. ARISTÓTELES (sábio grego)Estética Poesia Filosofia O ignorante afirma.17 chegados em Naxos. ARISTÓFANES (dramaturgo grego)Comédia Nada no mundo é pior que uma mulher sem-vergonha. o ensinamento filosófico de Sócrates (injustamente considerado um sofista). onde se faz referência à constelação que leva seu nome. chamada assim para distingui-la da “comédia nova” do período alexandrino. Na mesma época. impondo o amor livre e a comunidade dos bens. no cântico do Paraíso da Divina Comédia. A coroa de ouro. resolvem fundar uma cidade entre o céu e a terra. as mulheres. levando-a para o Olimpo. voltou a Naxos e instituiu um ritual de sacrifícios em honra da amada. insurgindo-se contra todas as inovações que colocassem em crise as crenças e os costumes tradicionais. da dança. além das mulheres. O comediógrafo grego. após a morte de Ariadne.e introduziu o uso da moeda. cansados de morar na cidade onde se fazem muitos processos. As nuvens: sátira de Sócrates e da educação apregoada pelos sofistas. Apolônio de Rodes. inaugurando a democracia. o sábio duvida e reflete Aristóteles (384-322) nasceu em Estagira. Teseu assumiu o poder sobre Atenas. I a. A comédia antiga se caracterizou por uma sátira ferina contra as instituições políticas.nobres. apontando nominalmente as pessoas importantes da época. Mas é no Renascimento italiano que essa personagem mítica adquire todo o seu esplendor. Imagens semelhantes encontram-se nas obras poéticas de Ovídio. vingou a irmã. Mas esta história trágica está narrada no mito de Fedra. Lisístrata: retoma o assunto da peça A Paz. Com a morte do pai Egeu. Teseu. filho de Teseu e da amazona Antíopa. faz ressurgir o mito numa veia edonística. escreviam-lhe cartas em nome de Teseu. presente de casamento. Mais do que pelo abandono de Teseu. até se casar com Fedra que. Cléon. de certa forma. Os pássaros: sátira da utopia político-social. Na Idade Média. as mulheres decidem governar Atenas.

Estudando a Mecânica. movidas a partir de um motor-imóvel. Com efeito. ARQUIMEDES (físico e matemático grego) Eureka! Eureka! Siciliano de Siracusa (287-212). Para ele. o Liceu.18 Grande". formalizou em sua obra Tratado dos corpos flutuantes o princípio fundamental da hidrostática: “Todo corpo mergulhado em um fluido sofre um empuxo vertical. Efetivamente. e abriu sua escola. e são percebidas através do princípio da "abstração". troncos e ramos). desenvolvido posteriormente por Newton. jamais portas-contra. Os dois sistemas filosóficos .) do que é comum a todas as árvores (raízes. lógica.Idealismo e Materialismo (Realismo)– disputarão a preferência dos pensadores ao longo da história da Filosofia no Ocidente. a roldana móvel. a alavanca. tipo de ramificação etc. um Ato puro ("um pensamento que se pensa a si mesmo"). na época da Renascença.e influenciou fortemente a cultura medieval e renascentista. em sua famosa obra a Divina Comédia. O tipo de construção é relativo aos recursos técnicos de cada civilização e a sua ideologia.. Arquimedes. 2) causa formal (a estátua de um homem e não de um cavalo). portas por-onde. ARQUITETURA (a arte de ordenar espaços) O arquiteto: o que abre para o homem. que estava na banheira quando teve essa idéia genial. Aristóteles acabou criando um sistema filosófico bem diferente do de seu mestre Platão. Sua origem pode ser encontrada na necessidade de o homem se abrigar. especialmente a existência da transcendência. aquela que acolhe todas as outras atividades humanas.. Arquimedes passou à história pela sua genialidade inventiva. que poderia ser identificado com Deus. a roda dentada. chamou Aristóteles de "o pai dos que sabem". estética . exclamando: Eureka! Eureka (“Encontrei”). apresentando a interação . foi o precursor do cálculo infinitesimal. Aristóteles voltou a Atenas. inventou a rosca sem fim. porque seus discípulos aprendiam passeando sob os pórticos (Perípato).física. pelado. Na Física. está registrada na frase a ele atribuída pela tradição cultural do Ocidente: “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo”. 4) causa eficiente (o agente. Sua cosmologia imagina o mundo constituído de várias esferas (motores-móveis). Em Matemática. aproximando-se da atividade que hoje chamamos de Ecologia. o princípio da causalidade. 3) causa final (a intenção que moveu o artista). na Magna Grécia. Ele escreveu obras sobre os assuntos mais diferentes . significa a organização dos componentes de uma estrutura. que assediavam Siracusa. nada existe além da natureza observável. moral. Se este deu início ao filão da corrente idealista. Outra lenda narra que o sábio grego teria incendiado os navios romanos. A consciência da importância dessa última invenção. a Pintura e a Escultura. o artista). poética. (João Cabral) Do latim arqui-+ tectum (“principal teto” = cobertura básica). de um modo geral. Aristóteles nega qualquer raciocínio por hipótese. igual ao peso do volume do fluido deslocado”.C. Além da distinção entre gênero e espécie. especialmente as duas artes irmãs. é o templo que abriga estátuas e quadros. mais conhecida como a escola "peripatética". tanto que o poeta italiano Dante Alighieri. aquele lançou as bases do pensamento realista-materialista. resultante da operação intelectual de separar o que é particular a cada árvore (cor das folhas.) e preparou a grande expedição para o Oriente. entre ato e potência. que separa o geral do particular: a idéia de árvore é apenas um produto mental. Segundo a lenda. estipulando quatro tipos de causa: 1) causa material (o mármore de uma estátua). Aristóteles analisa outras categorias fundamentais do saber humano: a diferença entre substância e acidente. arquitetura. ordenando o espaço disponível para adaptar o meio ambiente a sua vida. dirigido de baixo para cima. Depois que Alexandre ascendeu ao trono da Macedônia (336 a. a arquitetura era considerada a “arte maior”. sendo discípulo de Platão. teria saído na rua. por meio de um jogo de lentes e espelhos. onde já estudara durante a sua juventude. Na Grécia antiga. As idéias das coisas estão na própria realidade.

19

de dois fatores: o material disponível e o mito, derivante dos valores simbólicos que conferem a uma obra a visão espiritual do artista, que é como uma antena que capta o inconsciente coletivo do seu povo. Assim, o templo grego (Grécia) exprime sua estrutura clássica pela linearidade do sistema de colunas, que absorvem o empuxo de um entablamento horizontal, com tensão para o alto. Já a arte latina (Roma) privilegiou o arco e a abóbada, cuja linha curva chega ao auge na ogiva gótica . O Renascimento italiano retoma o estilo neoclássico da Grécia, enquanto o Barroco espanhol se amolda melhor à linha curva da arte medieval. Na França, aflora a figura do engenheiro Gustave Eiffel (18321923), construtor da famosa Torre, que leva seu nome. O monumento metálico de 320 metros de altura e de mais de 7 toneladas de peso foi erguido no Campo de Marte, em Paris, para a Exposição Universal de 1889, em comemoração do primeiro centenário da Revolução Francesa. No séc. XX, a descoberta de novos materiais levou ao surgimento de técnicas revolucionárias na arquitetura, superando o academismo oficial. A chamada art nouveau juntou ao concreto armado perfis de aço ou de alumínio e painéis de vidro, construindo cúpulas arrojadas. O arquiteto canadense Frank Gehry assinou as obras arquitetônicas mais belas da atualidade: o Museu Vitra Designer da Alemanha; o Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha; o Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, com uma fachada de aço, em forma de uma flor, para homenagear a paixão da viúva de Wlat Disney pelas rosas. O conjunto arquitetônico da Opera House de Sidney, o cartão-visita da Austrália, é um hino ao gênio humano. No Brasil, notável foi a construção da nova Capital, Brasília, cujo plano Piloto foi tombado pela UNESCO, em 1987, como primeiro patrimônio histórico moderno da humanidade, pela beleza e ousadia de suas linhas arquitetônicas! À Brasília de Oscar Niemeyer é o título de um poema de João Cabral, exaltando a figura de quem assinou as obras mais fantásticas do urbanismo moderno. Niemeyer e Lúcio Costa foram os discípulos mais aplicados do gênio da arquitetura francesa Le Corbusier. O mesmo escritor do Recife, o “poeta-engenheiro”, escreve outros poemas relacionados com a arte de construir: Tecendo a Manhã (“Um galo sozinho não tece uma manhã // ele precisará sempre de outros galos”); A Mulher e a Casa, onde o lirismo chega ao erotismo através das imagens da penetração do homem no espaço interno da casa e da mulher; Fábula de um Arquiteto, de que transcrevemos a primeira estrofe: A arquitetura como construir portas, de abrir; ou como construir o aberto; construir, não como ilhar e prender, nem construir como fechar secretos; construir portas abertas, em portas; casas exclusivamente portas e tecto. O arquiteto: o que abre para o homem (tudo se sanearia desde casas abertas) portas por-onde, jamais portas-contra; por onde, livres: ar luz razão certa. ARTE (artista, artesão, relação com a Filosofia e as Ciências)Conhecimento A arte nasce da dor, como a pérola. (Monteiro Lobato) Assim como a Filosofia, a Ciência e a Religião, a Arte é uma das quatro macroformas do Conhecimento do homem e da realidade que nos circunda. Num sentido restrito, o que distingue o conhecimento artístico é o meio do que se serve: enquanto a filosofia opera através do pensamento reflexivo, a ciência faz uso da observação e experimentação e a religião da crença ou fé, a arte utiliza a “ficção”, isto é, a fantasia, a imaginação. Mas, num sentido amplo, o nome, do acusativo latino “artem”, passou a significar vários tipos de atividades e de habilidades. Ainda hoje , falamos da arte de pescar, de amar, de jogar futebol, de confeccionar objetos etc., tendo algo em comum com técnica e artesanato. Como ocorre em todas as culturas primitivas ou indígenas, a arte está profundamente ligada às necessidades cotidianas, evidenciando-se seu fim utilitário. Assim, por exemplo, o desenho da figura de um certo animal num rochedo estava a indicar que ali era uma zona de perigo. Os antigos romanos chamavam de satura, termo que acumula o sema de “mistura de várias coisas”, o moderno “saturado”, com o sema de “gozação” (Sátira), à primeira forma artística dos camponeses do Lácio que, nas festas

20

comemorativas das colheitas, ofereciam aos deuses um prato cheio (satura lanx) dos primeiros frutos da terra, narrando mitos, cantando, dançando, tocando rústicos instrumentos musicais, declamando poemas ou narrando episódios da vida cotidiana. Na verdade, nos primórdios de todo povo, existe sempre uma mistura das várias formas artísticas. Só mais tarde, com o progresso civilizacional, cada arte começa, aos poucos, a adquirir sua especificidade, a música se separando da poesia, o romance do teatro, a imagem fixa (pintura) da móvel (cinema), surgindo novas formas artísticas. A interdependência das várias artes, estudada por Étienne Souriau na obra A correspondência das artes, hoje é claramente percebível no teatro da Ópera, onde se conjugam, no mesmo espetáculo, a história romanesca, o canto lírico, a música orquestrada, a representação dramática, a cenografia, a sonoplastia, os efeitos luminosos, a relação ator/personagem e autor/diretor. A arte, em qualquer de sua forma, visa superar os limites humanos do tempo e do espaço, buscando o infinito e o absoluto. Como afirmou Pablo Picasso, “na arte não existe passado nem futur;a arte que não está no presente não existirá nunca”. Outra característica fundamental do objeto estético, salientada pelo grande pintor espanhol, é sua receptividade: “um quadro vive apenas através de quem o contempla”. A arte já foi definida como “a estética do sublime”. Para o filósofo alemão F. Nietzsche, ela é mais gratificante do que a ciência: “temos a arte para não morrer pela verdade” . Se nosso destino comum é a velhice, a doença, a morte e o esquecimento, o artista, mais do que o cientista, o filósofo ou até o homem religioso, alimenta-se da esperança da sobrevivência. O poeta latino Horácio tinha plena consciência da importância da sua arte, quando afirmou: “erigi para mim um monumento mais duradouro do que o bronze”. Outra característica da arte é desnudar o que está coberto, tentar colocar ao nível de superfície o que está nas profundezas da alma. E faz isso de uma forma quase imperceptível. Conforme a bela imagem de Carlos Drummond de Andrade, “o Romance é a arte de destelhar casas sem que os transeuntes percebam”. Os Formalistas russos põem em relevo o efeito de estranhamento, já detectado pelo poeta Baudelaire, quando dizia: “o importante na obra de arte é o espanto”. As obras de arte podem ser classificadas de várias formas. Pelo critério do país de origem (arte grega, egípcia, bizantina etc); do momento histórico (medieval, renascentista, moderna etc.); de um mecenas (período de Péricles, de Augusto, de Elisabete etc.); de estilo (gótica, rococó, mourisca etc.); de religião (arte cristã, muçulmana, budista etc.); do meio principal de expressão (espaço planificadoArquitetura, tintaPintura, cinzelEscultura, imagem móvelCinema, encenaçãoTeatro, movimento do corpoDança, palavraPoesia, somMúsica). Neste “dicionário cultural”, usaremos o critério diacrônico, dando um apanhado da evolução das várias modalidades artísticas, com uma atenção especial para as chamadas “artes plásticas” (Pintura, Escultura e Arquitetura), destacando obras de autores considerados fundamentais (Leonardo da Vinci, Michelangelo, Picasso). Quanto ao conceito da arte como o “belo em si”, relacionado com correntes filosóficas, ver Estética. ARTUR (o mito do rei Artur e dos Cavaleiros da “Távola Redonda”)Graal ATENA (divindade greco-romana)Minerva ATENAS (cidade grega, centro irradiador da civilização ocidental) Grécia ATOMISMO (filosofia, ciência, destruição)Einstein A palavra átomo vem do prefixo grego a-(negação) + tomos (parte): literalmente significa “o que não tem partes”, o indivisível. Segundo a doutrina filosófico-cosmológica antiga, apresentada por Demócrito, Epicuro e Lucrécio, o universo é formado por partículas indivisíveis que se combinam de uma forma fortuita. A suposição (que hoje se tornou uma verdade científica) era de que os processos químicos não podem ser explicados sem que se admita uma substância constituída de partículas que, nas reações em cadeias, funcionam como se fossem indivisíveis, capazes de associarem-se ou substituírem-se umas por outras, sem sofrerem modificações essenciais. Efetivamente, qualquer reação só pode dar-se pelo choque entre alguns elementos invariáveis, combinados com outros variáveis. Chegamos ao início do séc. XIX e o físico e químico inglês, John Dalton (1766-1844), estudando as substâncias gasosas,

21

convalidou a antiga teoria atômica sobre a constituição da matéria, promulgando a lei das “Proporções Múltiplas”, também chamada lei da “Mistura dos Gases”, apoiada em quatro hipóteses: 1) Toda forma de matéria é constituída por átomos, sendo estes indivisíveis e inalteráveis; 2) Na mesma substância, os átomos são todos iguais; 3) Os átomos de diferentes elementos se distinguem pela massa e por outras particularidades; 4) As transformações químicas acontecem pela conjunção e pela separação dos átomos entre si. Só em 1897, o cientista J.J. Thompson conseguiu descobrir, experimentalmente, que também o átomo é divisível, pois composto por um núcleo positivo, que contém nêutrons e prótons, cercado por elétrons. Numa órbita estacionária, o elétron não irradia energia alguma, assegurando a estabilidade do átomo. A emissão ou a absorção de energia é dada por um “salto” do elétron de uma órbita para outra. Chegamos, assim, com Einstein, à formulação da “teoria quântica”: a quantificação da energia está relacionada com os elétrons em seu “estado estacionário”. Atualmente, o átomo é concebido como um “estado ligado” de um sistema de partículas fundamentais (um núcleo de uma carga positiva + um número de elétrons), que precisa de energia para ser dissociado e produzir, por sua vez, uma outra energia de grande potência. As reações liberadas pela explosão de núcleos de material leve produzem energia para fins pacíficos; já as reações de fissão de núcleos pesados (urânio ou plutônio) podem servir de espoleta para detonar bombas de hidrogênio, de alta potência destrutiva. No dia 6 de agosto de 1945, os americanos lançaram a primeira bomba atômica sobre Hiroshima e, três dias depois, outro objeto nuclear sobre outra cidade japonesa, Nagasaki, para pôr fim à Segunda Guerra Mundial. As duas cidades japonesas foram reduzidas a escombros, causando uma centena de milhares de mortos e a devastação das regiões próximas à irradiação atômica. Se, de um lado, a descoberta da força nuclear da matéria contribuiu muito para o progresso da ciência, proporcionando ao homem uma energia alternativa, de incalculável benefício, de outro lado, seu uso bélico e o perigo de explosões incontroladas não deixam de ser um malefício. Haja visto o desastre de Chernobyl, em 1986: a explosão, por falha humana, de um dos quatro reatores da usina atômica da Ucrânia, levantou uma vasta nuvem radioativa sobre todo o centro-sul da Europa, matando 35 pessoas e danificando a saúde de aproximadamente cinco milhões de seres humanos. ATOR (agente de ações, astro, intérprete) Personagem Do latim actor, substantivo formado do particípio passado actum, do verbo ágere, que significa “agir”, fazer. Literalmente, portanto, ator é aquele que age, que faz, que exerce o papel de uma personagem. Enquanto esta é uma figura da imaginação, fruto da fantasia de um autor, o ator é uma pessoa do mundo real, um profissional da arte dramática, televisiva ou cinematográfica, que tem a função de representar e interpretar as ações, as idéias e os sentimentos de uma personagem. Não se confunda, portanto, a figura do ator dramático ou de cinema, que é um ser em carne e ossos, com o ator que contrasta com o “actante” no modelo actancial do semioticista francês A.J.Greimas. Neste caso, o ator é a mesma coisa que personagem. No início do séc. XIX, a profissão do ator adquire a merecida importância. O ator e diretor russo Constantin Stanislavski notabilizou-se pela proposta de uma nova prática teatral e por seus escritos teóricos sobre a arte dramática. Pretendia compor uma “suma” sobre o Teatro, dividida em oito volumes. Conseguiu, porém, publicar apenas o primeiro volume que, na tradução em língua inglesa, recebeu o título de O trabalho do ator sobre si mesmo . O segundo volume, O trabalho do ator sobre a personagem, resultou de uma coletânea de notas e fragmentos. No Brasil, a obra de Stanislavski encontra-se vulgarizada em quatro livros: Minha vida na arte (biografia profissional); Preparação do ator (formalização da técnica de interpretação); A construção da personagem (os aspectos exteriores: o físico, a voz, o gesto); A preparação de um papel (em busca do comportamento interior da personagem). A essência do "método stanislavskiano” reside na capacidade do ator de assimilar o mundo psíquico da personagem: o intérprete deverá sentir sua própria vida no interior da vida da personagem e a vida da personagem como idêntica à sua própria vida. A relação simpatética entre ator e personagem deveria levar a um "estar-no-outro". A tese contrária, sustentada pelo dramaturgo alemão Bertold Brecht, é a concepção

22

técnica que propõe a desmistificação da arte teatral: o ator, considerado um profissional, não deve necessariamente sentir o que representa, mantendo sempre viva, em si próprio e no público, a consciência de que se trata de um "fazer de conta". Basta que, estudando o papel de fora para dentro, consiga representar as idéias e os sentimentos que o autor e o diretor quiseram colocar na personagem. A controvérsia nos parece de pouca relevância, pois se, de um lado, é muito difícil perceber até que ponto há identificação entre ator e personagem, de outro lado, o que realmente interessa é o resultado da atuação dramática. Se a interpretação conseguir convencer o público, levando-o à compreensão da mensagem e à emoção estética, pouco importa se o ator está sentindo realmente ou está fingindo sentir as idéias e as emoções da personagem. Aliás, uma perfeita identificação do ator com o personagem , anulando o sentido de distanciamento entre a vida e a arte, poderia levar a uma interpretação desastrosa. Narra o crítico Décio de Almeida Prado que um famoso ator teatral do século passado, ao interpretar o papel do ciumento Júlio da peça Os seis degraus do crime, quase mata por estrangulamento a bailarina-atriz Estela Sezefreda, que interpretava o papel de Luíza. O jovem ator transpôs para o palco o ciúme doentio que sentia pela atriz, interpretando de uma forma totalmente realística o papel do personagem Júlio. A função do ator adquire uma importância cada vez maior ao longo da história do teatro. Na Antiguidade greco-romana a profissão de ator não era valorizada por vários motivos: sua fisionomia era oculta pela máscara; um só ator podia desenvolver, na mesma peça, vários papéis, inclusive femininos, pois às mulheres era proibido participar da encenação; os atores geralmente eram escravos ou pertencentes à camada popular, sendo socialmente sem classe, “desclassificados”. Mas, no teatro moderno, da Renascença para cá, a figura do ator foi paulatinamente adquirindo muito prestígio, tornando-se de vital importância para a sobrevivência da arte dramática. Abolido o uso da máscara, o jogo fisionômico e a expressão corporal juntaram-se à modulação do discurso para a interpretação da personagem. Surgiram, então, atores ilustres, que se especializaram na representação de determinados papéis, chegando-se a ponto de autores escreverem peças cujas personagens eram forjadas sob medida para a interpretação de certos atores. Entre os mais famosos atores personalistas, lembramos Sarah Bernard, Eleonora Duse, Lawrence Olivier, Procópio Ferreira e Cacilda Becker. Como dizia o grande mestre Stanislavski, “não há pequenos papéis, só há pequenos atores”! AUTORITARISMO (despotismo, ditadura, mito de Júpiter) Absolutismo BACH (compositor alemão) Música Barroco BACO (divindade romana, deus do vinho e da alegria)Dionísio Carnaval BACON (filósofo e cientista inglês: Novo Organon)EmpirismoMetodo BALZAC (romancista francês)Realismo A chave de todas as ciências é, indiscutivelmente, o signo da interrogação Honoré de Balzac (1799-1850) é considerado o pai do romance moderno pela grandiosidade da sua obra de ficção. Ele retrata a sociedade francesa da época numa obra cíclica, que denomina A Comédia Humana, para distingui-la da Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri. O conjunto de romances encontra-se dividido em três partes. Na primeira parte, Balzac apresenta a descrição artística dos costumes da sociedade burguesa (A mulher dos trinta anos, O pai Goriot, Eugênia Grandet, entre outros romances); as obras da segunda parte expressam seu pensamento reflexivo sobre a vida (Luís Lambert, Pele de Onagre etc.); na terceira parte, de que publica apenas Fisiologia do casamento, analisa o comportamento humano face às instituições sociais. Pelo seu aspecto de participação, a narrativa balzaquiana está impregnada de “realismo crítico”, termo mais tarde utilizado por vários teóricos do romance. Com efeito, na sua volumosa obra de ficção romanesca encontramos, apresentados e discutidos, os temas mais palpitantes da florescente burguesia francesa da sua época: política, usura, dinheiro, hipocrisia, ambição, casamento, amor. O adjetivo “balzaquiano” passou a indicar uma postura perante a vida, que lembra personagens ou situações de sua obra. Mais especificamente, no gênero feminino, o adjunto adnominal “balzaquiana”, forjado a partir da obra A mulher de trinta anos, designa uma mulher madura, mas ainda

23

solteira, embora apetitosa. Muitas observações de Balzac sobre a vida, especialmente conjugal, tornaramse citações de almanaque. Transcrevemos apenas uma: “É mais fácil ser amante que marido, pois é mais difícil ter espírito todos os dias do que dizer coisas bonitas de vez em quando” BANDEIRA (poeta lírico brasileiro)Modernismo Fui ao Museu de Arte Moderna, À exposição dos neoconcretos. Motivos por demais secretos Poderão construir obra eterna? Manuel Bandeira (1886-1968) é um dos maiores poetas do movimento modernista brasileiro, aceitando a revolução estética, mas sempre com olho crítico. Pernambucano de origem, viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, com estadias temporárias na Europa, especialmente na Suíça, onde era costume tratar sua tuberculose. Exerceu a profissão de docente de Literatura, de jornalista, de crítico de artes e de tradutor, vertendo para o português obras de García Lorca, Rilke, Shakespeare, entre outros autores estrangeiros. Após os poemas juvenis de A cinza das horas, em que se percebe sua ligação com a tradição poética do Simbolismo decadentista do início do século XX, com a coletânea Carnaval, seguida de O ritmo dissoluto e Libertinagem, inicia um novo ciclo poético impregnado do espírito “dionisíaco”. Em quase todos os poemas dessa fase, especialmente da série Carnaval, através da descrição das formas e dos sentidos das várias máscaras do carnaval brasileiro (“A canção das lágrimas de Pierrot”, ‘‘Pierrot branco’’, ‘‘Arlequinada”, ‘‘Pierrot místico’’, ‘‘Pierrete’’, “Rondó de Colombina”, “O descante de Arlequim”, “A morte de Pã”, “Sonho de uma terça-feira gorda”, “Poema de uma Quarta-Feira de Cinzas”), percebe-se uma linha isotópica centrada sobre a exaltação do Carnaval, momento de subversão dos valores éticos. São cantos que enaltecem os anseios individuais, as forças vitais do ser humano, em contraste com os valores ideológicos impostos pelas normas do viver social. De Libertinagem, destacamos o conhecido poema “Vou-me embora pra Pasárgada”. O nome Pasárgada foi extraído da Ciropédia, do historiador grego Xenofonte, para materializar um espaço utópico onde o poeta pudesse realizar os desejos mais recônditos da sua alma. Seguem-se as coletâneas Estrela da manhã, Lira dos cinqüent’anos, Belo belo, Opus 10, Estrela da tarde, Mafuâ do malungo. A modernidade de Manuel Bandeira reside não tanto nas inovações de ordem estilística (abandono das formas poemáticas tradicionais, verso livre, ensaios de poemas concretos), quanto em sua temática inspirada nas coisas humildes ou desconcertantes da vida prosaica e na sua postura ideológica, marcadamente contestatória, em que predominam os motivos da revolta do ser humano, esmagado pela sociedade industrializada e comercializada. BARROCO (estilo de arte e de vida do séc.XVII) O nome “barroco” só recentemente passou a indicar a corrente artística que predominou na Europa durante o séc. XVII (Seiscentos) e que, em países e em épocas diferentes, tivera originariamente outras denominações: Marinismo, na Itália; Gongorismo, Cultismo, Culteranismo e Conceptismo, na Espanha; Preciosismo, na França; Silesianismo, na Alemanha; Eufuísmo, na Inglaterra. O movimento do Barroco nasceu dentro da época clássica, em relação com a qual podem ser relevados elementos de convergências e de divergências. Os críticos que salientam as semelhanças consideram o barroco como uma continuação da Renascença; os que põem em ressalte as diferenças acham que o estilo barroco surge em franca oposição com o estilo clássico, admitindo uma ruptura estética entre os dois movimentos. Para o estudo crítico do Barroco é preciso ter em conta duas teorias fundamentais: a teoria genético-formal, segundo a qual a origem do movimento seiscentista reside num contraste estilístico entre Barroco e Renascença; e a teoria genético-social, pela qual a oposição com a Renascença, mais do que no plano estético, dá-se no campo ideológico: os segmentos sociais em que se desenvolve a arte barroca não são os mesmos da fase renascentista, pois, além de outros fatores sociológicos, o fenômeno da Contra-Reforma católica altera substancialmente a concepção de vida. A teoria genético-formal é sustentada pelo historiador suíço Heinrich Wölfflin que, na sua obra Princípios fundamentais da história da arte, publicada em 1915, apurando os estudos contidos no seu trabalho anterior, Renascença e Barroco (1888), chegou à formulação das famosas cinco categorias de antítese entre o estilo clássico e o estilo barroco: linear/pictórico; visão de superfície/profundidade; forma fechada/aberta; independência das

24

partes/conjunto; claridade absoluta/claro-escuro. Essas oposições, na verdade, servem mais para o estudo das artes visuais do que para a análise e a interpretação de um texto literário. Borromini, na arquitetura, Bernini, na escultura, Tintoretto, Caravaggio, Rubens, Rembrandt e El Greco, na pintura, apresentam exuberâncias de formas, volutas, campos de visão distorcidos, espaços curvos e figuras angulosas estranhas à arte renascentista. Segundo Wölfflin, o gosto clássico trabalha com limites de linha claros e tangíveis (perfis, contornos); toda superfície tem seu marco de margem preciso; cada volume se apresenta como forma plenamente tangível; nada existe que não seja apreensível na sua corporeidade. O Barroco, pelo contrário, anula a linha como limitadora, multiplica as bordas, complica a forma, de modo que cada componente não consegue impor seu valor plástico. No que diz respeito propriamente à Literatura, o estilo barroco se diferencia do estilo clássico por uma renovação na linguagem e na temática. A retórica barroca utiliza de uma forma diferente o repertório das figuras de estilo já existentes na estética renascentista. A metáfora, a figura de sentido fundamental da linguagem literária, é explorada em todas as suas virtualidades, com o objetivo de encontrar semelhanças entre os objetos mais diferentes, com a intenção de despertar nos leitores a surpresa e a maravilha. As figuras de oposição semântica (antítese, paradoxo, oxímoro, antinomia), de parco uso entre os autores clássicos, são as preferidas pelos poetas barrocos. O mesmo acontece com a hipérbole (exagero de sentido), o hipérbato (a ruptura da estrutura sintática), o eufemismo (o dizer velado). O período amplo e simétrico da Renascença, construído a partir do modelo do mestre latino Cícero, é substituído pela frase curta, de índole sentenciosa, segundo o modelo de Tácito e de Sêneca, escritores latinos do início da decadência romana. Quanto à temática, o Barroco apresenta como motivo recorrente a chamada coincidentia oppositorum: a atração das coisas opostas. Exemplar, a este respeito, é a fábula de Polifemo y Galatea, do espanhol Góngora, o maior poeta do Barroco europeu. Nessa obra, o tema da bela e da fera, da ação sedutora do monstro horrível sobre a jovem de uma beleza angelical, é explorado através de imagens belíssimas, altamente líricas. A arte barroca é rica de temas desconhecidos ou desprezados pela estética clássica: a bela mendiga, o herói pícaro, o burlesco, o mesquinho, o anormal, o marginal. Mesmo quando retoma motivos clássicos, como o carpe diem, do poeta epicurista latino Horácio, o aproveitamento do momento presente face à fugacidade da vida, o autor barroco o reveste de matizes peculiares: o prazer do gozo do presente adquire o gosto da amargura, porque existe, no “eu poemático”, a consciência do desencanto da vida, perante a inevitabilidade da velhice e da morte, o grande passo para a escuridão existencial. A morte e o amor, na sua expressão sensorial, matizado por um sutil erotismo, são os dois temas fundamentais da estética barroca. Já a teoria genético-social encontra-se formulada na obra de Werner Weisbach: O Barroco, arte da Contra-Reforma. Segundo a sua tese, a ideologia do Concílio de Trento foi o fator predominante para a determinação da temática, do estilo, da sensibilidade do homem barroco que, dividido entre a concupiscência dos prazeres mundanos, herança do Renascimento, e o terror das penas do inferno, inculcado pela doutrina tridentina (Lutero), se torna um ser dilemático, angustiado. A arte barroca é caracterizada pelo choque entre a sensualidade pagã da Renascença e o espiritualismo ascético e fanático da época da Contra-Reforma. Daí resultam trágicos conflitos na alma dos homens, que provocam manifestações artísticas exuberantes e chocantes.A concepção do espaço como infinito, proveniente das descobertas marítimas e da ciência copernicana, entra em contraste com uma visão do tempo como limitação, angústia e morte .Escreve Aguiar e Silva (Teoria da Literatura), “o homem, sabendo-se simultaneamente grande e miserável, anjo e besta, eterno e transiente, sente o terror pascaliano de se saber suspenso entre dois abismos, o infinito e o nada; as antíteses violentas, a tensão da alma, o sentimento de instabilidade do real, a luta do profano e do sagrado, do espírito e da carne, do mundano e do divino são feições diversas dessa crise multiforme, religiosa, estética, filosófica, que se verifica na Europa desde meados do século XVI”. Além do fator religioso, existe um aspecto mais especificamente social que funciona como determinante de estilo. O Barroco e o Classicismo estão relacionados com estruturas sociais distintas: o Barroco é o produto artístico de uma sociedade aristocrática, de tipo feudal e rural, composta de senhores latifundiários e de uma larga massa de camponeses, ao passo que o Classicismo se relaciona com uma burguesia educada no estudo da lógica, da matemática, da disciplina jurídica,

25

habituada, portanto, ao raciocínio rigoroso e à claridade mental. Isso explicaria o sucesso do Classicismo na Itália e na França, enquanto o Barroco teve como centro de irradiação a Espanha, país ainda ligado a costumes feudais. Além dessas duas teorias sobre as origens do Barroco que, antes de serem excludentes, se complementam, pois o fator social condiciona o fator estético e o segundo, por sua vez, está em estreita relação com o primeiro, outras teses surgiram na tentativa de explicar melhor o complexo movimento. Eugênio D’Ors, na sua obra Lo Barroco, considera o movimento seiscentista como uma ‘‘constante histórica’’, retomando os mitos nietzschianos do eterno retorno e do antagonismo do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco. O Barroco seria um éon (uma categoria, uma realidade profunda), que se opõe maniqueisticamente e se alterna historicamente com outro éon, o do Classicismo. Assim ele fala de um barroco alexandrino, gótico, tridentino, romântico, pós-bélico. O éon barroco, através de suas incursões ao longo da cultura ocidental, adquire diferentes modalidades, mas não modifica sua substância. Sob as várias configurações que assumem, conforme as circunstâncias temporais e espaciais, quer o Classicismo (espírito da unidade, da clareza, da consciência ordenada), quer o Barroco (espírito da diversidade, do dinamismo libertário, da consciência fragmentada) mantêm inalterada a sua essencialidade. Outros estudiosos sustentam a tese de que o estilo barroco constitui uma qualidade permanente do caráter espanhol, etnicamente formado pelo cruzamento de três raças diferentes: a cristã, a moura e a judia. Na Espanha absolutista, o choque entre os dogmas tridentinos e as tendências estéticas e espirituais da Renascença é muito mais profundo. A Espanha nunca renegara a Idade Média e o homem barroco espanhol tornou-se, ao mesmo tempo, um saudoso da religiosidade medieval e um seduzido pelas solicitações terrenas e os valores do Humanismo (amor, dinheiro, luxo, ambição). A pátria de Santo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas e o autor dos Exercícios espirituais, livro que ensejou uma onda de devoção e de misticismo, foi também a pátria da Contra-Reforma e do Tribunal da Inquisição, que disseminou o terror do Inferno na Europa e no além-mar. Não é por acaso que o Século de Ouro da cultura espanhola, a época mais excelsa do poder político, econômico e cultural da Espanha, deu-se sob o signo do Barroco. Na Literatura, as figuras mais preeminentes dessa época foram os autores espanhóis, que ditaram as normas estilísticas nos três principais gêneros: Góngora, na lírica; Cervantes, na narrativa; Lope de Vega, no drama. BAUDELAIRE (poeta romântico francês) Simbolismo Tudo o que não é sublime é inútil e criminoso Charles Pierre Baudelaire (1821-1867) viveu na época do Romantismo, mas sua poesia maior está acima de qualquer escola literária, influenciando fortemente a lírica simbolista e modernista. Considerando-se discípulo e irmão espiritual de Edgar Allan Poe, divulgou a obra do escritor norteamericano na Europa, traduzindo o poema The raven (“O Corvo”), Histórias extraordinárias, As aventuras de Gordon Pym e Revelações magnéticas. Ele também foi chamado de “poeta maldito” pela sua vida de boemia e sua arte revolucionária, contestadora da moral pública. A sua obra mais importante é a coletânea de poemas intitulada Les fleurs du mal, dividida em seis partes: “Spleen e ideal”, “Cenas parisienses”, “O vinho”, “As flores do mal”, “A revolta”, “Morte”. Como solução para o tédio, Baudelaire invoca, sucessivamente, o Amor, a Poesia, Satã e a Morte, os quatro temas recorrentes na poética do grande escritor francês. O tema do amor, em As flores do mal, adquire vários matizes: de um realismo sensual, em que ele exalta a sua paixão pela judia Sara, passa para a celebração da beleza exótica da mulata Jeanne Duval, que ele denomina a “Vênus negra”, até chegar ao canto sublime do profundo sentimento erótico que sente pela atriz melodramática Marie Daubrum. O amor não conseguindo preencher seu vazio existencial, Baudelaire se refugia na poesia. A arte pela arte, o culto da beleza subjetivamente entendida, leva-o a ampliar os limites da poesia através da “estética do feio”. Sofre, porém, outra decepção, pois também a atividade artística torna-se insuficiente para a sua realização existencial. Explora, então, o tema do Satanismo, muito ao gosto da época romântica. Mas nem o Diabo consegue resolver seus conflitos íntimos. Enfim, encontra na Morte, a grande viagem para o infinito e o mistério, o apaziguamento do seu espírito atormentado. Para sua influência sobre outros poetas, sugerimos consultar o verbete Simbolismo, onde se encontra a análise do seu poema “Les Correspondances”. BECKETT (Esperando Godot)  Teatro

viveu vários anos na França e na Inglaterra. pois supostamente redigidos sob inspiração divina. Encontramos o conjunto da obra bíblica dos dois Testamentos agrupado em três categorias: livros históricos. a sua reflexão está voltada para o absurdo do mundo abandonado por Deus. caracterizando o que foi chamado “Teatro do Absurdo”. Josué (história da entrada na Terra Prometida) Juízes (história do povo hebreu de Josué a Samuel) Ruth (uma prova da misericórdia divina) Livros dos Reis (historiam o governo de Israel pelos governantes da casa de Davi) Esdras e Neemias (restauração de Israel após o cativeiro de Babilônia) Tobias (caridade e esperança em Deus) Judite (a libertadora de Betúlia) Ester (a proteção de Deus) Macabeus (heroísmo e fidelidade à fé e à lei) Livros didáticos: Job (a paciência heróica) Livro dos Salmos (hinos sagrados. que nunca irá acontecer! BEETHOVEN (compositor alemão)Música BÉRGSON (filósofo francês)Intuicionismo BÍBLIA (Velho e Novo Testamento. Números (história do povo eleito desde a legislação do Sinai até à entrada na Transjordânia). Sua preocupação principal de homem e de escritor foi encontrar um sentido para a vida face ao vazio existencial. Samuel Beckett. que os cristãos dividiram em dois Testamentos (“Alianças”): o Antigo (o Pacto de Deus com o povo judeu) e o Novo (de Cristo com todos os povos da Terra). também poeta e romancista. seu anseio mais profundo é metafísico: antes que se preocupar com problemas políticos. indicando o conjunto dos textos considerados sagrados. é a angústia. Vladimir e Estragon. O sentimento. Alguns seguem sendo. seria Deus (Godot derivaria do nome inglês God). O cenário é uma estrada e uma árvore. A esperança de que alguma coisa maravilhosa (o ganho de uma loteria. Não se sabe quem é este Godot que Vladimir e Estragon estão esperando e que não aparecerá. cuja vinda a humanidade há vários séculos espera em vão (as mensagens de Cristo e de outros Profetas não vingaram). “os livros”. Judaísmo)Abraão MoisésCristo Lutero “E Deus disse a Moisés. Através do diálogo dos protagonistas percebe-se que a conversa sobre assuntos banais serve apenas para matar o tempo na espera de Godot.. escrita em francês. e um Menino. provocada pela solidão humana. ao entardecer. sociais ou éticos. que tentava romper os laços com o teatro tradicional. Embora em sua obra literária apareça a descrição de tipos e objetos banais. um emprego invejável) possa acontecer é que mantém o homem vivo. que predomina em seus poemas. um amor fantástico.. Levítico (organização do culto entre os hebreus). irlandês. com dois personagens principais.” A palavra “Bíblia” deriva do grego ta bíblia. Segundo alguns críticos. A sua obra dramática de maior sucesso é Esperando Godot. atribuídos a David) . didáticos e proféticos: ANTIGO TESTAMENTO Livros históricos: O Pentateuco (composto pelos cinco livros cuja autoria é atribuída a Moisés): Gênesis (conta a origem do mundo e do povo hebreu).26 Nascemos todos loucos. Deuteronômio (exortação para ser fiel à Lei). dois secundários. a peça beckettiana seria a representação trágica da eterna expectativa humana: todo o mundo. Peça em dois atos. colhidos da realidade cotidiana. Êxodo (história da saída do povo hebreu do Egisto). Pozzo e Lucky. ao redor de 1950. sempre. tornou-se um marco da moderna dramaturgia. A peça Esperando Godot. romances e dramas. Seu autor. Melhor é pensar num sentido indefinido: a peça representaria o anseio de o homem ver melhorada sua condição existencial. Enfim. fazendo-lhe superar a angústia e evitar o desespero. espera por alguma coisa.

Marcos. considerados fundadores de uma nacionalidade. 1 de S. Constantino venceu a batalha de Monte Mílvio e. também chamados de “judeus” (de Judéia. Baruc. foram transmitidas de pais para filhos. o primeiro a achar que apenas os quatro evangelhos considerados “canônicos” pela Igreja de Roma foram escritos sob inspiração divina. Amós. seu neto Jacó foi para o delta do Nilo. de autoria do evangelista Lucas) Livros didáticos: Epístolas de São Paulo (14 Cartas a vários povos) Epístolas Católicas (2 de São Pedro. abandonando o nomadismo. A Bíblia não caiu magicamente das nuvens. os hebreus. significa “que Deus reine”). provenientes do deserto siro-árabe. Abraão que. Sofonias. De modo semelhante ao surgimento dos mitos gregos. por gratidão.27 Provérbios. ocupando terras para dar estabilidade ao seu clã. por exemplo. acréscimos e revisões”. Joel. conforme a conhecemos hoje. cidade da Jordânia). O homem a criou como relato histórico de uma época conturbada. impôs o Cristianismo em todo o Império Romano. do ficcionista americano Dan Brown. liderados por Moisés. Numa outra passagem do romance de Brown. o Grande” (Helenismo). Ageu. Já o profeta Maomé aproveitou mais dos evangelhos apócrifos para a formulação da doutrina registrada no Corão. Efetivamente. enquanto os outros textos sobre a vida de Jesus não eram “inspirados”. Zacarias e Malaquias (os “profetas menores”) NOVO TESTAMENTO Livros históricos: Os Quatro Evangelhos (a vida de Cristo. pois escritos por autores inspirados por alguma divindade. Ela é um produto do homem. Durante a dinastia de Ramsés II (1298-1235). lê-se: “a Bíblia. Jeremias. desceu para a Palestina. foi Santo Irineu (130-202). Enquanto seu filho Isaac se instalava na região do Hebron. onde estava escrito “sob este signo vencerás”. Essa listagem dos livros bíblicos pertence à ortodoxia católica. Em suas origens. e ela se desenvolveu através de incontáveis traduções. eram tribos seminômades. não de Deus. 3 de São João Evangelista. algumas personalidades cultas foram colocando por escrito o que vinha sendo transmitido oralmente. “A Bíblia não chegou por fax do céu. Naum. Originariamente. outro nome de Jacó que. região do Sul da Palestina) e de “israelitas” (de Israel. Agora. que acabou se instalando na Palestina. Este teria tido a visão de uma cruz cristã. a pergunta fundamental: quando e quem escreveu esses Textos de histórias e sabedoria. foi uma colagem composta pelo imperador romano Constantino. em estágios civilizacionais mais avançados. existindo edições com algumas variantes. a narrativa bíblica. pois. até que. em hebraico. junto com Isaac e Jacó. especialmente as publicadas por setas protestantes e outras obras consideradas apócrifas. O Antigo Testamento narra a história dos hebreus. é considerado o ancestral do povo hebreu. se refugiaram no monte Sinai. como os cantos épicos primitivos e os contos populares de qualquer povo. no Egito. também a narração bíblica começou pela tradição oral: lendas sobre heróis. Ezequiel e Daniel (os chamados “Profetas”) Oseias. Lucas e João) Atos dos Apóstolos (a pregação de Pedro e Paulo. alcunhado “o caçador dos hereges”. Habucuc. o chefe carismático. 1 de São Tiago. Judas Tadeu) Livros proféticos: Apocalipse (São João Evangelista fala da vitória final de Cristo sobre Seus inimigos). Que os livros sejam considerados “sagrados”. a formação da Bíblia deu-se através de vários séculos e de muitas mãos. Eclesiastes e Cânticos dos Cânticos (atribuídos a Salomão) Sabedoria (atribuído erroneamente a Salomão) Eclesiástico (atribuído a um tal de Jesus. da epopéia homérica e dos cantos épicos medievais ( Mitologia Épica). que teria recebido do deus Yaveh (Jeová) as Tábuas da Lei . um povo semita do antigo Oriente. filho de Sirac) Livros proféticos: Isaías. Miquéias. conforme os Apóstolos: Mateus. sentindo-se escravizados. Abdias. é uma questão puramente de fé! Quanto ao Novo Testamento. Jonas. tidos como “sagrados” por judeus e cristãos? Como afirma um personagem da famosa obra O Código da Vinci. os “hebreus” (de Hebron. é uma produção anônima e coletiva.

chega ao paroxismo com o Holocausto. Egípcios. estabelecendo normas e costumes. como Cristo. mas não a paz. Rolando Toro. a assertividade. em território palestino. O pressuposto filosófico da biodanza é o “princípio biocêntrico”.28 (Torah). a história do Antigo Testamento. atendendo a uma resolução da Assembléia Geral da ONU. por respeito à língua de seu criador. sendo venerado até pelo Islamismo. a coragem e a vontade de viver. Em 70 d. as legiões do general Tito. as 12 tribos israelitas. A figura de Moisés não deixa de ser um mito. A biodanza combina música. com músicas cuidadosamente selecionadas para cada vivência. Moisés conseguiu unir os diversos grupos num mesmo povo. o mítico fundador de Roma). O pouco que sabemos sobre ele é o que se encontra no Pentateuco. assim.Vitalidade. assírios. o reino israelita se dividiu e lutas fratricidas atiçaram a sanha de povos vizinhos. macedônios e. lideradas por Josué e por outros chefes momentâneos. o participante experimenta mover-se livremente. usando-se a letra “z”. que não está na Bíblia! BIODANZA (a dança da vida)Dança Entrelaçamento de movimento. é claro. por motivo político. em torno do culto de um único deus. foi obrigado a emigrar. tendo como proposta primordial a reeducação para a vida. O primeiro rei israelita foi Saul. A “facilitadora” do núcleo de biodanza de São José do Rio Preto-SP. A experiência suprema do contato com a vida é o sentimento de amor. Buda e Maomé. moabitas e filisteus. em lugar da “ç”. explicando a nova modalidade de dança invemtada pelo chileno Rolando Toro. sucessivamente. uma personalidade misteriosa e inefável. o ímpeto vital. descendente de Abraão. Na década de sessenta. Maria Tereza Búrigo Marcondes Godoy. mas. enfim. Trata-se de um sistema que visa o desenvolvimento do ser humano. Daqui. bem como sua renovação orgânica e existencial. Entretanto. na tentativa de exterminar toda a raça hebraica (Hitler). o Estado de Israel. aponta suas cinco linhas de vivência: I . Moisés. da África e do Japão. o antropólogo chileno deu origem à nova arte na sua terra natal. acolhendo e estimulando o desenvolvimento dos potenciais de cada participante. sua vida milagrosa e sua morte misteriosa. As mudanças que essa vivência costuma provocar são: aumento da energia vital. integração motora. Mas essa é outra história. conectando-se com suas emoções e sentimentos. melhoramento da auto-estima e renovação orgânica. o mito da busca do homem por uma pátria. para pôr fim a uma revolta. música.C. que conseguiu estabelecer um elo de ligação entre a divindade e a humanidade. O Judaísmo. sua teoria e técnica se difundiram por grandes cidades das Américas. O sofrimento do “Hebreu Errante”. Finalmente. ele se tornou fonte inesgotável de cultura religiosa. o termo significa “a dança da vida”. Num contexto de atenção e cuidado. irá continuar. nome que designa os 12 anos (19331945) de perseguição nazista contra os judeus. desenvolvendo o sistema da biodanza no Brasil. chamados “Juízes”. Etimologicamente. A necessidade de terem um chefe permanente fez com que os hebreus adotassem o regime monárquico. que os levou à vitória contra os inimigos. a força interior. destruíram Jerusalém e seu Templo sagrado. com o outro e com o cosmos. mas somente sob o reinado de Davi (de 1010 a 907) os judeus conseguiram a unidade nacional. após o fim da II Guerra Mundial. Os hebreus conseguiram uma pátria. mas o surgimento da figura de Cristo dará um novo vulto à cultura no Ocidente. introspecção e afetividade interpessoal. guerrearam contra cananeus. Acaba. que se desenvolve a partir de uma profunda vinculação consigo. Realmente. as terras hebraicas. da Europa. pois começara a interminável guerra entre os judeus e os árabes limítrofes. os romanos ocuparam. Entre 1220 e 1030. cujo objetivo é despertar e desenvolver a alegria. foi fundado. pois não temos nenhum documento histórico de sua vida São lendários seu nascimento (“salvo das águas”. cujos membros funcionam como um ninho ecológico. assim como Rômulo. A ele devemos os primeiros escritos da fé cristã: as tábuas dos Dez Mandamentos! A religião moisaica foi o preparo para os hebreus conquistarem a terra de Canaã. é considerado.. o que . Seu filho Salomão passou à história pela sua sabedoria e magnificência. após sua morte. A prática da biodanza é em grupo. um dos maiores Profetas. onde residiu durante três décadas. babiloneses. movimento e vivência. precisamente em 14 de maio de 1948. Mas. declarando-se Jerusalém território internacional.

ampliação da percepção. Tu. II . a mais importante. a solidariedade e o vínculo saudável com o outro. putíssimas fidalgas tem Lisboa. Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta) Entre mil porras expirou vaidosa: Todas no mundo dão a sua greta.Sexualidade. Conforme a moda do Arcadismo. Há uma ampliação da vivência dos cinco sentidos e um aprofundamento do vínculo com a natureza. V-Transcendência. revolucionária. para chegar-se à harmonia. religião ortodoxa)Helenismo BOCAGE (poeta português)Arcadismo “Aqui dorme Bocage. desenvolvimento dos potenciais genéticos. sociais e profissionais. Enfim. Não fique pois. a coragem para inovar e reorganizar o estilo de vida. o aumento da resistência ao estresse e o fortalecimento do sistema imunológico. são assim detectáveis: mudanças biológicas e fisiológicas. O teu cono não passa por honrado. adotou o nome bucólico e anagramático “Elmano Sadino”. Cleópatra por puta alcança a c’roa. fodeu sem ter dinheiro” (auto-epitáfio do poeta) Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) é o maior poeta lírico lusitano do século XVIII. tanto orgânica como psicologicamente. cujo objetivo é despertar e desenvolver a ternura. favorecendo-lhe a possibilidade de sentir prazer com sabedoria. De um modo geral. os níveis de crescimento. resgate da auto-estima. pela qual entrou em conflito com os escritores da época. facilita a capacidade de comunicação. o putanheiro. Lucrécia. sem dúvida. observam-se a vitalidade. oh Nise. Seus efeitos benéficos são inúmeros. bebeu. o teu estado. milhões de vezes putas têm reinado: Dido foi puta. a regulação do sono. Puta tem sido muita gente boa. a poesia satírica. sentir e agir. duvidosa Que isto de virgo e honra é tudo peta. bucólica. Comeu.Criatividade. com melhora nas relações familiares. a diversidade. com a prática da biodança. a biodanza fortalece a autoconfiança. IV . Istambul. com toda a tua proa. Há um aumento da comunicação. aumento da energia amorosa. Mas ele è mais conhecido como poeta gozador e obsceno. oh Nise. III .Afetividade. Essa da Rússia imperatriz famosa. cujo objetivo é liberar a energia vital e o máximo potencial criador do indivíduo. Passou vida folgada e milagrosa. expansão da consciência. estimula a criatividade e ajuda a desenvolver a capacidade de superar os próprios limites. BIZANTINO (Constantinopla. cujo objetivo é recriar a própria vida. Do itinerário poético de Bocage a crítica distingue três fases: a produção juvenil. e puta dum soldado. em que canta a solidão existencial. a fase madura do lirismo pessoal. pois o tom pessimista da sua lírica noturna prenuncia o Romantismo. intimamente sentida. Veja-se o seguinte soneto: Não lamentes. elegíaca). Trabalha-se a curiosidade. irreverente. Entre alguns benefícios biopsíquicos. cujo objetivo é despertar e desenvolver a intimidade consigo mesmo e com a totalidade.XIV) Decameron BORGES (romancista argentino) . arte. através de uma renovação existencial. BOCCACCIO (contista italiano do séc. A produção poética desta última fase é.29 leva à diminuição de distúrbios psicossomáticos. possibilita melhor convívio familiar e social. mas logo soube desvincular-se das amarras da escola arcádica para produzir uma lírica pessoal. que segue os modelos da estética do Arcadismo (poesia amorosa. integração entre o pensar.

foi também um teórico da arte literária. o inferno. retomando o tema bíblico do Julgamento de Salomão: o pequeno Michel é entregue à mãe adotiva que o ama mais. Sua concepção de teatro se afasta da dramaturgia clássica. Portanto. de família tradicional e conservadora. consideradas como formas de conhecimento da realidade. Vedas. crescimento e morte. o drama nunca deve tentar ocultar que é arte. rei Artur. de metafísico. denominado de “épico” porque essencialmente narrativo e dialético. EI Aleph. de troncos. Hinduísmo. Mãe coragem. Opera dos três vinténs. A essência do Budismo é comparável à concepção do pantarrei (“tudo flui”) do filósofo pré-socrático Heráclito. dando origem a uma religião que se espalhou pelo Oriente todo. O público. por não aceitar a ideologia nazista. Os Vedas. a ciência cabalística. deve perder a consciência de que está num espaço onde reina a imaginação. Um homem é um homem. o mesmo se diga das vestimentas e da linguagem dos personagens. Hinduísmo)Buda BRECHT (dramaturgo alemão)Galileu Desgraçado o país que necessita de heróis! Homem profundamente polêmico na vida e na arte. Brahma. Para Buda não existe nada de absoluto. Os fuzis da senhora Carrar. Quanto ao seu estilo. deixou o palácio de seu pai para meditar na floresta. Entre outros apelidos. O teatro que ele propõe. considerandoa uma forma de alienação social. assim Buda anteriormente acrescentara uma nova mensagem ao velho Hinduísmo. sendo inclusive expulso dos Estados Unidos. Após atingir o estado de iluminação (bodhi). vagando por vários países da Europa e das Américas.30 Numa semente estão contidas as idéias de caules. acusado de fazer a apologia do sistema comunista de vida. o livro sagrado mais famoso da doutrina budista. é considerado o iniciador do realismo fantástico na América Latina. Como Cristo veio separar o Antigo do Velho Testamento da religião judaica. O cenário não deve reconstruir o ambiente histórico em que se supõe que os fatos tenham acontecido. foi chamado também de Sidarta. mas na Grécia. O verso em epígrafe encontra-se no Dhammapada. que viveu aproximadamente na mesma época. tem por finalidade fazer refletir sobre a realidade e estimular as mudanças sociais. o ciclo do nascimento. Seus temas preferidos são a magia. Suas obras mais importantes: Tambores na noite. diferentemente. Ainda jovem. desenvolver a integridade. O livro da areia). que tinha por finalidade representar uma problemática existencial da forma mais verossímil possível. a eternidade. BRETÃO (ciclo cultural medieval. passou a chamarse “Buda”. de galhos e folhas. o assunto dramático não deve verter sobre a problemática existencial de um indivíduo. O universo todo é pensamento. A obra-prima de Bertold Brecht é A vida de Galileu. Ficciones. é pura ficção. Bertold Brecht (1898-1956) precisou fugir da Alemanha. discordando da tese de Lukács sobre o Realismo estético. a antiga doutrina védica. Além de grande dramaturgo. Em seus livros de contos fantásticos (História universal da infâmia. ao mesmo tempo em que critica a moda expressionista. BOTTICELLI (artista da Renascença italiana)Pintura BRAHMA (divindade indiana. dando a ilusão de que o que se passa no palco é realmente o que acontece na vida. Cavalaria)Graal BUDA (Sidarta. purificar a mente: Eis a lição de Buda. Gandhi) Evitar o Mal. acontecimentos históricos encontram-se mesclados com o irreal. notável é a importância que ele confere às categorias do tempo e do espaço dentro da narrativa. em momento algum. O que rege o mundo é o sansara. de indestrutível. O homem tem que se convencer de que ele mesmo é o sujeito do processo da evolução da história. Jorge Luis Borges (1899-1986). que trata da disputa sobre a verdadeira maternidade. Esplendor e miséria do Terceiro Reich. sua terra natal. não precisando de heróis ou taumaturgos. a marca da conseqüência das ações: a lei de que todos os atos . que sucedeu aos antigos Upanishadas. O Círculo de Giz Caucasiano. “aquele que atingiu sua meta”. É com o nome de Sidarta que o escritor alemão Hermann Hesse apresenta a biografia romanceada e os pensamentos de Buda. A exceção e a regra. Para Brecht.C. Gautama viveu na Índia entre 560 e 480 a. para a qual remetemos ao verbete Galileu. Cada qual nasce com o seu karma. mas sobre as relações que os homens mantêm entre si.

pela vontade.. Figura mundialmente famosa foi Mahatma (a “Grande Alma”) Gandhi (Porbandar 1869 – Déli 1948). mitos. duas comunidades que vivem. que lutou a vida toda e pacificamente para defender a independência. católicos e protestantes e ao Corão das várias setas islâmicas. que sustenta o equilíbrio entre as forças do bem (deuses) e as forças do mal (demônios). teu próprio refúgio.C. A sua obra A Autonomia da Índia (1909) é um libelo contra o materialismo da civilização ocidental e contra qualquer tipo de violência. Posteriormente. compilados entre 2000 e 600 a. Nerhu e Indira Gandhi. no topo da escala social. chamada “Hinduísmo”. organização social do povo hindu. o “Conservador”. O Hinduísmo. ritos. Os rituais representam e estimulam a conservação desse equilíbrio. O caminho da paz é o caminho da verdade. hinduísmo). jejum e preces. A “revelação” divina está consagrada num volumoso corpo de textos sânscritos. do sânscrito shindu. junto com Vishnu. IV e V d. Os estudiosos distinguem várias ramificações do Budismo no espaço e no tempo:  Budismo indiano: HINDUÍSMO. O núcleo da antiga religião hindu foi reinterpretado com o advento do Budismo. Estava aberto o caminho para a busca da salvação. pois só com o término da sucessão de renascimentos o homem pode atingir o nirvana. correspondente à Bíblia dos judeus. A liderança do movimento nacional foi exercida por mais duas figuras ilustres na história indiana do séc. XX. o subcontinente indiano conseguiu a independência. pela sua fragmentação. alguns pensamentos se tornaram antológicos: Aquele que. VI a. que era a língua dos invasores arianos. Gandhi acreditava que os graves conflitos internos do seu país podiam ser resolvidos com penitência. Mas sua expansão pelo mundo deu origem a várias seitas. portanto. o conjunto dos Livros Sagrados. a totalidade). J. O ensinamento de Buda pode ser resumido nesta sua expressão: Faça de ti mesmo teu próprio suporte. que não tem origem. no séc. durante os séc. constituem a Trindade da religião hindu. lutar contra o karma com o fim de interromper o samsara. cujo texto fundamental é o livro de Os Vedas. a religião e as tradições hindus contra o domínio da Inglaterra. respeitando as castas. em sânscrito significa “O Absoluto”. essa facção de Budismo pouco progrediu fora da Índia. O ideal do sacrifício e da renúncia permanece como a base do hodierno Hinduísmo. que. e Shiva. Por isso era motivo de irritação para muitos hindus que desejavam o confronto armado contra os que apregoavam o credo muçulmano e contra os invasores ingleses. é a religião dos indianos que acreditam nos ensinamentos que se encontram em Os Vedas. o “Destruidor”. libertando-se dos ciclos de renascimentos. De Mahatma Gandhi.C. É preciso. esfacelando os primitivos ensinamentos do Mestre. O Budismo nasceu como sobreposição à antiga religião indiana. é o mais importante dos homens. em constantes lutas pelo predomínio étnico e religioso. conforme a antiga crença dos invasores arianos. Os textos falam de uma ordem cósmica (dharma). bramanismo. Um ano antes da sua morte por assassinato político. o “Criador” (a palavra brahman.C. costumes. a “Lei cósmica universal”. quando o Budismo adquiriu o status de religião universal com intenção missionária. até hoje. Ser verdadeiro é ainda mais importante do que ser pacífico. . O Vedismo constitui a mais antiga e mais rica literatura indo-européia.C. que contém crenças. o sacerdote. III a. dividido em dois Estados: a União Indiana hindu e o Paquistão muçulmano. Seu apogeu deu-se durante o reinado de Asoka. nome do adepto do Sanâtana Dharma. escritos sob a inspiração de Brama. O Budismo indiano “reformado” atingiu o apogeu na época da dinastia Gupta. que é a libertação do sofrimento e a aquisição do estado de êxtase pela iluminação da mente (bodhi). Logo começaram a nascer várias escolas antagônicas. após uma longa tradição oral. pois colhemos o que plantamos. no séc. o deuscriador.31 voltam para as pessoas que os cometeram. o conjunto das Escrituras Sagradas de várias religiões da Índia (vedismo.. dominou os sentidos. estando o brâmane. portanto. pela renovação do primitivo Hinduísmo com espírito nacionalista e pela expansão do Islamismo (Maomé). Os adeptos do Hinduísmo acreditam que Os Vedas foram ditados por Bramha. A concepção metafísica da crença na transmigração da alma de um corpo para outra tenta justificar a ordem existente e a diferença de classes sociais em função dos méritos e dos erros nas vidas anteriores.

VIII ao XII) de sincretismo. considerado religião estrangeira. Como fazer o poema ditado . Daí ao incentivo do racismo o passou foi fácil: junto com o Nazismo alemão e o Fascismo italiano. desmistificando a poesia como fruto da inspiração e do sentimento. poema-narrativa. sendo o DALAI-LAMA o “grande lama”. que nos faz lembrar um verso do heterônimo de Fernando Pessoa. trabalhando a palavra como se exculpe o mármore. aos poucos. 2) o poeta de cunho social. fazendo demorar o orgasmo por horas. BYRON (poeta inglês)Romantismo CABRAL (poeta pernambucano)Modernismo Um galo sozinho não tece uma manhã Nascido no Recife (1920-1999). preocupado mais com a prática do que com a teoria. praticados pela ioga. a primitiva religião japonesa. o budismo tibetano perdeu seu poder político-religioso. em 1959. livro sagrado. passando a persistir apenas em pequenas comunidades do Nepal e de outras regiões da Índia. o eixo Roma-Berlim-Tókio. personificado nos samurais. Alberto Caeiro. Morte e Vida Severina. autêntico e inovador. trama. Como exemplo da poesia de Cabral. o poeta da “visão” da Natureza: “Pensar é estar doente dos olhos!” Pedem-me um poema. mediante exercícios físicos e psicológicos. De “tantra”. sendo acusado de cerebralismo e de desumanização. onde os deuses. passou de uma fase elitista. Um poema se faz para a vista. o que transparece no seu texto mais conhecido. XVII. Sua essência reside na busca de uma identificação entre o natural e o sobrenatural. que começou no período Kamakura (do séc. um poema que seja inédito. Com a derrota. o Budismo tornou-se religião de Estado. a partir do séc. viveu muito tempo no exterior (França. o governo Meiji separou oficialmente o Xintoísmo das outras religiões. não pode ser enquadrado em nenhuma “geração” pós-modernista. no ano de 1868. cultivado apenas por monges e letrados.. Poeta. Espanha). como as divindades do politeísmo greco-romano.32 A verdadeira riqueza do homem é o bem que ele faz a seus semelhantes  Budismo chinês  Confúcio  Budismo japonês (Xintoísmo. sendo o suporte para a implantação do culto à nacionalidade japonesa. poema é coisa que se faz vendo como imaginar Picasso cego? Um poema se faz vendo. 3) o poeta que busca. misturando-se especialmente com o Xintoísmo. Após a anexação do Tibet à República Popular da China. chamado de “Lamaísmo”. a comunicação com o público. declarando-a religião de Estado. A sua produção poética apresenta várias vertentes: 1) o poeta-engenheiro que cria seus versos com cortes precisos. que retrata toda a aridez e a pobreza do Nordeste brasileiro. A partir do séc. apresentando um rígido formalismo ritualístico.  Budismo tibetano: a região do Tibet cultivou um budismo tântrico. palavra sânscrita que significa teia. musicado no palco por Chico Buarque de Holanda e adaptado a um seriado televisivo. transcrevemos um poema escrito quando sua visão já estava fraca. de blama (“ser superior”). para um período (do séc. o povo japonês voltou ao culto das seitas do Xintoísmo tradicional e do Budismo Zen (do chinês chan = “meditação”). Inglaterra. formou-se a Tríplice Aliança. VI a. que provocou a II Guerra Mundial (Marte). são personificações das forças naturais.C. O que caracteriza o tantrismo é o estímulo da sexualidade através de massagens eróticas em lugares estratégicos do corpo. Na sua evolução. o Tantrismo resulta de uma síntese de várias religiões orientais. onde exerceu funções diplomáticas. especialmente de Hinduísmo e Budismo tardio. O Xintoísmo passou a cultivar a adoração do Imperador-Deus. apesar da sua técnica apurada. É chamado de “Lama” o monge tibetano budista. O movimento “zen” marca um budismo tipicamente japonês. até que. Zen): introduzido no Japão. XII ao XIV) e criou um tipo ideal de herói. o antigo Xintoísmo começou a predominar sobre o Budismo.

colocando no centro de sua ação dramática sempre um conceito filosófico. CALVINO (fundador do Calvinismo. e o maior bem é pequeno. Menos popular. seita do Protestantismo) Lutero CAMÕES (poeta épico e lírico de Portugal)Lusíadas CAMPANELLA (filósofo italiano) Utopia CAMUS (escritor franco-argelino) . uma sombra. CAIM (a força do mal) Satã CALDERÓN (dramaturgo espanhol) “La vida es un sueño” Pedro Calderón de La Barca (1600-1681) é um dramaturgo profundo. o que é a vida? uma ilusão. mascarado pelos véus do simbólico e do fantástico. e os sonhos. Como se vê um Franz Weissman. balé e cenários suntuosos. pois toda a vida é um sonho. A vida é um sonho. O dramaturgo espanhol ressuscitou o mito grego de Prometeu. É coisa sobre um espaço. canto. enganado pelas aparências sensíveis: O que é a vida? um frenesi. Para fazer o Atlântico. mais atormentado pela problemática barroca da luta entre a liberdade humana e o determinismo da Graça divina. Como não se ouve um quadrado. mais próximo do ideal renascentista da arte como expressão da natureza eufórica. um Capibaribe. mais alegre. Mesmo da coisa vivida. com música. Tratase de um espetáculo total. Poema é coisa de ver. mas mais profunda é a obra La Estatua de Prometeo. é como um rio. Com o Tejipió. mais aristocrático. O primeiro. que antecipa o sucesso do Teatro da Ópera. Todos se juntam a mão. Por exemplo. o segundo. Por exemplo. Em suas margens domado Para chegar ao Recife. predominando a concepção barroca do desencanto do homem. representada em 1669. Dentro a desarrumada vida. mais prolífero. Jaboatão. Uma de suas afirmações: “quem vive sem pensar não pode dizer que vive”. uma ficção. mais reflexivo. Onde com o Beberibe. sonhos são. visto como o símbolo do esforço humano para conseguir o progresso. Lope e Calderón foram os dois poetas que lançaram as bases do moderno teatro espanhol. é um drama de idéias. mais técnico.33 Sem vê-lo na folha escrita? Poema é composição. Sua obra mais famosa. Um poema é o que se arruma.

pode ser considerado o autor que realiza a síntese entre a ficção sociológica e a ficção intimista. autor da recente obra História Natural dos Ricos. convencido de que a ditadura de esquerda não é melhor do que a de direita. produz um lucro maior do necessário para sua manutenção. a África e o Oriente Médio. Alguns estudiosos. canônico)Classicismo CANTO (canção. Esta mais-valia produz um capital adicional que. cantiga)Música Lírica Trovadorismo CANUDOS (Os sertões: epopéia histórica)Euclides CAOS (figura mítica sobre a origem do mundo. na Baixa Idade Média. a partir da segunda metade do séc. jornalista. o termo “capital” passou a indicar o que é fundamental. cuja obra Das Kapital. participando ativamente da Resistência Francesa ao domínio alemão. quando se rompeu o cerco muçulmano (Maomé) na bacia do Mediterrâneo e começara o ciclo do intercâmbio comercial entre a Europa . Capitalista é a pessoa que vive dos rendimentos do seu capital emprestado a juros ou investido em empresas. colocam seu início na época das Cruzadas. agressivo e acumulador. nas ciências biológicas. falamos dos “sete pecados capitais” (avareza. O sistema de produção capitalista está baseado na lei da mais-valia (do trabalho excedente): o trabalho. XVII. Camus apresenta como tema recorrente o absurdo da condição humana em perpétua busca de um sentido para a vida e para a morte. Cosmos)Mitologia Terra CAPITALISMO (regime político. quando editara. visto ser a cabeça a parte mais nobre do corpo humano. O sociólogo e economista alemão Max Weber. provocou uma revolução no mundo econômico. a sua inquietação espiritual o estimula a perscrutar a intimidade do ser em procura de uma resposta face ao absurdo da existência e da morte. em contato com o espetáculo da miséria humana. pago pelo empregador aos operários por horas determinadas. Mais tarde. testa. o capital indica a soma dos bens móveis. ele dizia: “Revolto-me. e chamamos de Capital à cidade-sede de um país. Parodiando Descartes. Numa primeira fase de sua breve vida. proveniente da injustiça social. umas três décadas antes. XIX. XVIII. se transforma numa outra “mais-valia”. fundamentado na empresa privada. Fundamental para o entendimento do Capitalismo é o estudo da figura de Karl Marx. eqüidistante de qualquer forma de totalitarismo. quando. em nome de uma liberdade absoluta. quando iniciou o confronto entre a força do trabalho humano e os meios econômicos necessários para a produção de bens. O Capitalismo é chamado de “selvagem”. cápitis. segundo o jornalista americano Richard Conniff. aponta as afinidades entre a mentalidade capitalista e o calvinismo do séc. Já os estudiosos de tendência marxista acham que o verdadeiro Capitalismo surgiu com a Revolução Industrial. Assim. No questionamento e na sondagem do ser evidencia-se o grande poder de introspecção do escritor francês. na liberdade de mercado e na força do trabalho humano. que significa “cabeça”. orgulho e preguiça). mais importante. na famosa obra A Ética protestante e o espírito do Capitalismo (1905). como as feras do mundo animal. dramaturgo e romancista da Argélia. A peste. desde a infância. inveja. luxúria. os homens poderosos apresentam o “triplo A”. gula. até hoje. ressaltando o papel importante do surgimento da burocracia para racionalizar progressivamente o sistema social. é motiva de controvérsias. de outro lado. considerados como as principais falhas do homem. mas que passou os melhores anos de sua vida na França. onde se encontram tecidas sutis e hilariantes comparações entre o modo de vida egoísta e prepotente dos símios fortes e dos humanos endinheirados. cólera.34 “Acabamos sempre adquirindo o rosto da nossa verdade!” Albert Camus (1913-1960). Capitalismo é um sistema econômico. publicada no fim do séc. Se. Outros postergam seu começo até às Grandes Navegações. de um lado. CÂNONE (modelo estético. social e econômico)Marx Do latim caput. . político e social comparável à suscitada por Darwin. imóveis e monetários que uma pessoa possui. A Origem das Espécies. Em Economia. portanto existo”. rompe com Sartre e com os outros escritores engajados na propaganda da ideologia socialista. A origem histórica do Capitalismo. reaplicado pelo dono da empresa. com estatuto jurídico. Em suas obras mais famosas (O estrangeiro. o escritor luta ardorosamente contra o nazi-fascismo. a sua condição de órfão de família pobre coloca-o. O mito de Sísifo). ligada ao Partido Comunista (Marx). de ávido. ligando o início do Capitalismo com o espírito aventureiro de espanhóis e holandeses e com a alta burguesia da Renascença italiana.

sem dúvida. perpassada pelo espírito “dionisíaco” da contestação e da revolta. A língua italiana tem uma expressão que define bem essa liberdade: nel Carnevale. conforme o tempo e o lugar.. que ele chama de monológica. ciclo cultural francês)Roland CARNAVAL (Baco. Predomina o vermelho. em honra do deus do vinho ( Dionísio). O Carnaval reveste-se de características próprias. pois percebe a presença do espírito do Carnaval em muitas obras literárias ao longo da história. Na Europa. onde predomina o princípio da ordem e da fidelidade aos padrões socio-morais. está presente em quase todas as formas de arte. famoso pelo desfile e baile das Máscaras. Nas Saturnálias romanas elevava-se ao trono um escravo. a paródia dos valores sociais. o Rio de Janeiro apresenta a melhor festa carnavalesca. do sublime e do vulgar. Junto com a cor vermelha. Na Terça Feira Gorda e no fim de semana que a precedia. estabelecida por Nietzsche. carnavalesco)Dionísio “Não me leve a mal. conforme a dicotomia apolíneo/dionisíaco. símbolo da riqueza e da abundância. durante os quais era proibido comer carne. a hierarquia. dançar desenfreadamente. À essa segunda linha de força ele chama de literatura “carnavalizada”. os 40 dias de penitência antes da Páscoa. o sambódromo. apreciada no mundo inteiro. de faces rosadas. O Carnaval é uma forma de espetáculo sincrético. que significa “adeus à carne”. Na percepção carnavalesca do mundo são exaltadas as formas oximóricas. que questionam a realidade. das interdições morais. A identidade dos contrários e a não-identificação da pessoa é facilitada pelo uso da máscara ou da pintura do corpo com cores berrantes. do sagrado e do profano. para que as pessoas não fossem identificadas. a etiqueta. tomar vinho.35 CARLOS Magno (carolíngio. O crítico russo M. Entre os atos carnavalescos que legitimam o mundo às avessas o mais importante é o rito da “entronação” bufonesca do Rei do Carnaval. das regras normais de vida. o Carnaval é uma festa popular bem antiga. com o nome de Carnaval e anualmente. o melhor Carnaval é o de Veneza. dando vazão aos instintos mais primordiais. com um largo sorriso de prazer satisfeito. na esteira de Nietzsche. hoje é Carnaval”. O espírito carnavalesco ou “dionisíaco”. nos folguedos do Carnaval é prestigiada a gordura. acaba se sobrepondo ao superego que controla a vida cotidiana. usando máscaras. a elevação e a queda do ídolo. de caráter ritual. O Rei Momo é geralmente configurado como uma pessoa gorda. tutto vale (“no Carnaval. a mesma cor do fogo e do sangue. as mésalliances: a conjunção do masculino e do feminino. quando começava a Quaresma. Anula-se a diferença de classes e de sexos. impregnada pelo espírito “apolíneo”. vale tudo”). onde não há separação entre atores e espectadores. hoje é Carnaval” (canção carnavalesca) Do italiano “Carnevale”. Na Idade Média. Bakhtine. cuja origem pode ser encontrada nas festividades para comemorar a colheita da uva. liberando o uso do álcool e de roupas extravagantes. termo formado a partir da expressão do latim medieval carnem vale. nos dias de Carnaval. Durante a época carnavalesca há uma suspensão das leis sociais. os devotos de Cristo se esbaldavam em comer “polpette” (almôndegas). perdida a noção do passado familiar. é o id freudiano que. pois se sentem possuídas pelo espírito divino. sem medo de sanções. cantam e dançam. que era servido e venerado por seus patrões. pelo desfile dos carros alegóricos em lugar fixo e apropriado. a nudez e a libido. no estado de embriaguez. e se estabelece uma nova forma de relações inter-humanas. no Brasil. Sua primeira manifestação pode ser encontrada no “ditirambo”. detecta a presença de duas linhas de forças que dão formas à Literatura Ocidental: uma arte. símbolo universal do princípio da vida e da força. do alto e do baixo. Enfim. e outra dialógica. sendo vivido por todos. o hino em honra ao deus Dionísio: um coro de pessoas “transformadas”. especialmente na Literatura. cujo equivalente em português pode ser encontrado nos versos de uma marchinha carnavalesca: “Não me leve a mal. fundada no contato livre e familiar entre todos. Coloca na mesma linha das obras de arte. do belo e do feio. dionisíaco. a . o diálogo socrático. chamados de “bacanais”. a vindima. a mesma divindade sendo cultuada em Roma com o nome de Baco: as “bacantes” eram as mulheres que participavam dos ritos orgiásticos. a profanação do sagrado. O ato ambivalente significava a relatividade de toda estrutura social. os cristãos festejavam a véspera da quarta feira de cinzas.

R. pois receptores da Graça divina): Batismo. que ele imortalizou sob o pseudônimo da Lésbia: os momentos felizes da paixão. no norte da Itália. desde suas remotas origens da pregação do Evangelho para todos os povos. cidade da Bitínia que quase um milênio depois passou a ser sede do Império Bizantino. nos mistérios da Santíssima Trindade (Pai. Vaterii Catulli liber). explicitam as verdades da Fé. João XXIII. 2) para os católicos. a literatura picaresca. a bela e lasciva Clódia. Catulo nasceu em Verona (87 a. pelo Iº Concílio de Nicéia. em que estão reunidos poemas curtos e de assunto amoroso (Nugae) e elegias. contando com mais de 700 milhões de fiéis.36 sátira greco-romana. Eucaristia. E praticamente todos os elementos do ritual católico – a mitra. dos Padres da Igreja. eleito a um mandato vitalício por um conclave de bispos. que em grego significa “universal”. como religião oficial. epitalâmios e traduções de poemas gregos. O Catolicismo. mas passou a maior parte da sua breve vida (33 anos) em Roma. Este é o motivo principal das constantes viagens internacionais dos últimos Papas. fundindo crenças e rituais pagãos com a nova tradição cristã. mas concentrados na Europa Ocidental e na América Latina. epigramas. A essência sincrética do catolicismo é assim descrita pelo estudioso Dan Brown ( O Código da Vinci): “Os vestígios da religião pagã na simbologia cristã são inegáveis. mas continua na Tradição oral e escrita dos Apóstolos. Paulo VI e João Paulo II. Don Juan. com o exemplo de suas vidas e suas pregações. pouco a pouco.Valentino)Adônis CATOLICISMO (Igreja universal romana)Cristo De Katholikos.C.C. a narrativa de Kafka e de outros autores. a Revelação de Deus não está apenas nos textos bíblicos. Apresentamos o texto e a tradução de um . Sua existência foi marcada por uma forte paixão por uma dama romana. CARTESIANISMO (de Cartesius. o Grande. e Cristo como Filho de Deus e Redentor da Humanidade: isso o Catolicismo tem em comum com todas as outras igrejas cristãs. tenta ao “Ecumenismo”. resolveu unificar as várias religiões sob a égide da cruz. dos Santos. Confissão. a Igreja Romana manifesta disposição à convivência e ao diálogo com outras confissões religiosas. Crisma. Os discos solares egípcios tornaram-se as auréolas dos santos católicos. esposa do cônsul Metelo Céler e irmã do tribuno Clódio. dos Evangelistas. Nobre e rico. quando ele fala ex cathedra sobre assuntos de doutrina religiosa. Ordem. já podem ser percebidas as características da religião católica: l) considerar os ensinamentos contidos no Antigo e no Novo Testamento (Bíblia) como sagrados. o teatro shakespeareano. Extrema-Unção. do partido democrático. da Ressurreição. Filho e Espírito Santo). Os pictogramas de Ísis dando o seio a seu filho Hórus milagrosamente concebido tornaram-se a base para nossas modernas imagens da Virgem Maria com o Menino Jesus no colo. o Decameron de Boccaccio. quando o imperador romano Constantino.). da Vida Eterna. o romance realista. Deixou-nos uma coletânea de 117 poesias (C. dedicou-se ao culto do amor. Atualmente. pois escritos por revelação divina. A religião católica. a doxologia e a comunhão. Pelo nome “Igreja Católica Apostólica Romana”. que lhe confere. dando peculiar relevo à obra de Dostoievski. a infalibilidade. esparsos em todo o planeta. CATULO (poeta lírico latino) “Odi et amo” Maior poeta lírico da Literatura Latina. o sofrimento pela traição e pela degradação moral da mulher amada. forma latina do nome Descartes) CASANOVA (mito da sedução masculina: Páris. por assim dizer – foram diretamente copiados de religiões pagãs místicas mais antigas”. junto com o primado da jurisdição. A poesia de Catulo reflete a trajetória de seu amor por esta mulher. da amizade e da arte literária no dissoluto mundo cortesão da capital da imensa República. Matrimônio. 4) a fé católica é sustentada pela crença num Deus único e trino.. dos Mártires que. 5) a Igreja Católica reconhece a eficácia de sete Sacramentos (atos sagrados. o Catolicismo é a religião cristã professada por quem reconhece o Papa de Roma como chefe espiritual do mundo. nasceu em 325 d. o termo grego que indica a universalidade. 3) quem configura esta sempre renovada Tradição do Catolicismo é o Papa de Roma. o ato de “comer Deus”. da Imaculada Conceição. o altar. da Encarnação.

Ceres foi sempre adorada como deusa da terra e da agricultura. onde ficou dez anos. feita por um escritor participante dos fatos. além de ter sido importante como general (anexou várias províncias ao domínio romano) e como homem político (centralizou o poder sobre as províncias. então fronteira entre a Gália e a Itália. chefiados por Cássio e Bruto. a deusa Ceres era a mãe de Pluto (não confundir com Plutão. avançou sobre Roma e se fez eleger Dictator. No Novo Testamento. como escritor. nome latino do grego HadesInferno). O mito de Ceres. o cereal mais importante para a alimentação dos gregos antigos. uma espécie de reportagem jornalística. começou uma grande reforma agrária.C. depois da rápida campanha vitoriosa no Egito ( Veni. no Senado de Roma. vici: “Cheguei. CERVANTES (ficcionista espanhol)Dom Quixote CÉSAR (general e escritor latno)Roma “Tu quoque. O nome de César passou à história como exemplo de grande general e de . vivia com seu marido no mundo subterrâneo. César derrotou Pompeu em Fársalo e. pronunciando a famosa frase Alea jacta est! (“A sorte está lançada!”). a vida sobre a terra florescia. objetivo. Quando sua filha. Em 49. falando de si próprio em terceira pessoa. César.e da maioria dos povos europeus. para saborearmos a profunda intensidade do seu lirismo: “Odi et amo. fortasse requiris. o de número 86. Um grupo de republicanos extremados. raptada por Plutão. e exigira que César dissolvesse seu exército. matou o ditador com vinte e três punhaladas. foi também um grande escritor. o mito de Prosérpina foi inventado para explicar o progresso espiritual da humanidade em busca do conhecimento das forças do subconsciente: a celebração dos Mistérios de Elêusis talvez tivesse esta finalidade. como homem político e como grande general. nos idos de março (dia 15) de 44. era recordado ritualmente nos Mistérios de Elêusis e tinha direta ligação com uma tentativa de explicação da morte e da ressurreição da vida vegetal. deus da abundância. Eleito cônsul em 59.C. mas sinto que é assim e sofro terrivelmente). em que estão registradas as vitórias conseguidas por César sobre seus inimigos externos e internos. sendo a protetora do trigo. num estilo rápido e límpido. o trigo é consagrado como sinônimo de alimento: “dái-nos o pão de cada dia”! Se Ceres simbolizou o progresso material do homem. os cereais se encontravam na fase de incubação.44 a.). guerreando contra os bárbaros.) foi uma das principais figuras do período áureo da cultura romana. Como isso é possível. diminuindo o poder do Senado. Brutus. participando do primeiro triunvirato com Pompeu e Crasso (no ano 60 a. e continuou o sonho dos irmãos Graco de acabar com os latifúndios). procurara a ajuda do Senado e do partido aristocrático. ele obteve o governo da Gália. Infelizmente. antes consideradas quase como bens particulares da oligarquia senatorial. quando Prosérpina passava a outra metade do ano (primavera e verão) com a mãe no Olimpo. lutando contra os latifundiários. na sua aprendizagem do cultivo da terra. nome latino da grega “Perséfone”.37 poema composto de apenas um dístico. Em 58. no outono e no inverno. só nos restam seus Commentarii de Bello Gallico e Commentarii de Bello Civili. fili mi?” Caio Júlio César (100? . das muitas obras que ele escreveu nos vários gêneros literários. e de Prosérpina. Sobrinho de Mário e inimigo do ditador aristocrata Sila. vi e venci”). ultrapassou o rio Rubicão. temeroso do poder de César. junto com o de sua filha Prosérpina. Começava a Guerra Civil contra Pompeu que. ao pé da estátua de Pompeu. Nescio: sed fieri sentio et excrucior” (Odeio e amo. CERES (Deméter grega)Terra Dai-nos o pão de cada dia Filha de Saturno e de Cibele. como se o sujeito da enunciação não fosse a mesma pessoa do sujeito do enunciado. Quare id faciam. desobedecendo à ordem de Pompeu. talvez perguntes: não sei. mostrou logo sua simpatia pelo partido democrático. Percorreu todos os degraus da carreira política. vidi. as sementes brotavam e as árvores davam seus frutos. como o arroz é para os orientais. filho adotivo de César.

a partir de Adriano. acaba não crendo. ela entende do negócio melhor que nós. ateu (“a” + theos = “deus”). médico e pensador grego do início do séc. Vamos deixar a natureza seguir seu caminho. agnosticismo. CETICISMO (escola filosófica grega: ateísmo. Em seus Essais. não é correto achar que o cepticismo seja uma corrente nihilista. Apenas se opõe ao dogmatismo. + credo). e os “dogmáticos”. sendo utilizada também na arte cinematográfica e na estatuária. de Montaigne (1533-1592). chegando à conclusão de que é impossível encontrar a verdade e a justiça. especialmente Guilherme II. O mais ilustre da primeira escola seria Sócrates. quem não acredita na existência de um ente transcendental. aquele que não tem fé. Contra qualquer forma de dogmatismo.. se não houver provas irrefutáveis. Ainda hoje. A doutrina cética repousa na suspensão do julgamento: nada pode ser afirmado.. cético indica aquele que procura mas não acha e. causa a cada um a representação de ser quente”. Platão (Idealismo) e Aristóteles (Materialismo). entre os fenômenos (as aparências) e os nôumenos (as substâncias abstratas). duvidando de tudo. os céticos apresentam cinco argumentos: 1) a discordância (entre os estudiosos de um assunto). 2) a regressão ao infinito (qualquer prova remete sempre a outra prova). de Shakespeare. na segunda linha de pensamento poderíamos encaixar os criadores dos grandes sistemas filosóficos.. O mais ilustre foi o pensador francês Michel E. para apontar a semelhança entre os dois ditadores italianos. montada pelo diretor Orson Welles em Nova York.C.. quem não admite a possibilidade de um saber além da experiência material. O Ceptismo é uma doutrina essencialmente “fenomenológica”. em alemão) são chamados vários imperadores germânicos.. 5) o círculo vicioso (o falso silogismo que leva ao engano: o homem é um animal // Sócrates é um homem // logo. No jogo das oposições. falamos da Roma dos Césares e de Kaiser (César. que criou o gênero literário do “ensaio” para expressar seu pensamento filosófico. CÉU (Urano. 4) a hipótese (para escapar do regresso ao infinito. são elementos combinados de Estoicismo. aquele que afirmou que “não sabia nada: a única coisa que sabia era de não saber nada”. prefixo negativo + gnosis = “conhecimento”). Citando Diógenes Laércio. Suas profundas reflexões. O Ceticismo teve seguidores na Renascença e na Idade Moderna. Algumas afirmações de Montaigne passaram a povoar o ideário popular: Seria melhor não ter lei alguma do que ter tantas leis quantas temos. Ceticismo e Epicurismo.. II a.38 exímio estadista. atribuíam-se o título de “César”. outro pensador céptico-empírico: “o fogo.). pela sua postura ideológica. O pensador grego Sexto. prefixo negativo latino. IV a. tanto que os Imperadores romanos. durante o apogeu de Mussolini na Itália. Portanto. divindade greco-romana)Mitologia Terra . portanto. que induza o homem ao nirvana. distingue duas seitas de filósofos: os “cépticos”. o ceticismo se inclina para o conhecimento empírico. São usados. incrédulo (de “in”. cujo pensamento foi retomado por Sexto Empírico. que são os que “continuam a investigar”. que acontece na alma humana. incredulidade) “A evanescência da verdade” Do grego skepticos (de sképtis = “busca”). que levaram o pensador francês à concepção de um Humanismo. não existindo nenhuma certeza absoluta). que se aproxima do moderno Existencialismo. Leonardo da Vinci disse que “nada nos engana tanto como a nossa própria opinião”.C. os que acham ter descoberta a verdade. os dogmáticos colocam um postulado indemonstrável). Sócrates é um animal). às verdades acreditadas sem nenhum fundamento científico. o Ceticismo foi fundado por Pirro de Élis (séc. Quem quiser se curar da ignorância precisa confessá-la. Este nome é também usado como marketing de uma tradicional e popular cerveja! A figura de César inspirou várias obras históricas e literárias. os termos: agnóstico (do “a”. quase como sinônimos de céptico. além das escolas menores do Estoicismo (felicidade = virtude) e do Epicurismo (felicidade = prazer). que o tornaram imortal. discorre sobre as contradições inerentes à própria natureza humana. apelidado de “O Empírico”. Como sistema filosófico. Lembramos apenas a encenação da peça Júlio César. pois acredita que a única fonte de conhecimento é a experiência.. Proibir é despertar o desejo.. que por essência queima. 3) a relação (um conhecimento implica num outro.

De Legibus). Suas obras de ficção mais importantes são os dois romances René e Atala. Tusculanae. mandou decapitar Cícero. logo depois. A melhor versão cinematográfica da obra de Chauser foi o filme de Pier Paolo Pasolini: Os Contos de Canterbury (1998). 2) Obras de Retórica: De oratore. teorética (Academica. denunciando sua conspiração para derrubar o poder do Senado. Verre. Catilina. Brutus. marcou a entrada da literatura britânica no contexto da cultura européia. pela sua obra Contos de Canterbury. “Cicerone” em italiano (do acusativo latino ciceronem). quase jornalístico. visto que não escreveu nenhuma obra de ficção. tratando dos assuntos mais variados. Apontamos os mais importantes: In Verrem. sendo a mais notória a segunda.14 orações. durante o primeiro Triunvirato (ano 60 a. passou a designar “quem sabe. discursos jurídicos. 4) Cartas: quase mil missivas. vai abusar da nossa paciência?” . acusado de ter assassinado Clódio. Laetius. contra o triûnviro Antônio que. Mas. narrativa picaresca) Quem nada empreendeu nada terminará Geoffrey Chauser (1340-1400). CÍCERO (erudito latino. Filípicas. eloqüência. vasto deserto de homens François René. Depois de ter aperfeiçoado sua cultura na Grécia. A citação em epígrafe faz parte das Catilinárias. Por ter descoberto a conjuração do democrata Catilina contra o regime aristocrático vigente. em que Cícero aponta os requisitos essenciais para a formação de um perfeito orador.) de César. Por este seu saber enciclopédico. Cato maior. 6 discursos contra C. caiu na ira dos democratas que o exilaram e lhe confiscaram os bens. Seus contos. ele é o maior escritor em língua latina pela variedade e quantidade de suas obras. em defesa do aristocrata Milão. Ao exemplo de Rousseau (Confissões). 4 orações contra Catilina. De officiis). Os estudiosos costumam dividir as obras de Cícero em quatro grupos: 1) Obras de Eloqüência: escreveu mais de 100 Orações. Pro Annio Milone. Orator. são exemplos do vigor do estilo picaresco pré-renascentista. De família aristocrática. em que. o autor da famosa obra Decameron. onde Cícero acusa o jovem democrata de perturbar a ordem pública: “Até quando. estudou em Roma filosofia. figura expressiva do partido democrático. visconde de Chateaubriand (1768-1848). que influenciou fortemente sua narrativa ficcional. endereçadas a familiares e amigos. herdeiro do pré-romântico Rousseau. mesclando o realismo social com a sátira das aspirações burguesas. muito embora não possa ser considerado um poeta. As Catilinárias. A sua produção literária é imensa. pois expõe o que havia de melhor nas escolas filosóficas de sua época (Estoicismo e Epicurismo. além de contribuírem para a fixação da língua inglesa. foi chamado de "Pai da Pátria". 3) Obras de Filosofia: Cícero. num estilo retórico. mostra e explica”. seu nome. Escreveu tratados sobre filosofia política (De Republica. CHAUSER (contista inglês. onde deve ter conhecido o florentino Giovanni Boccaccio.C. foi o verdadeiro iniciador do Romantismo francês. Esteve na Itália em missão diplomática. especialmente). pretor da Sicília. Após um ano de exílio. voltou para Roma e iniciou a sua carreira de advogado e de político. Pompeu e Crasso. abutere patientia nostra? Marcus Tullius Cícero (106-43 a. isto é. sem criar um sistema próprio ou adotar uma teoria em particular. por pertencer à oligarquia dominante e por estar sempre defendendo os direitos dos senadores. “cicerone”) Usque tantum. acusado de corrupção. a luta civil entre César e Pompeu possibilitou seu retorno a Roma e a retomada de sua atividade de advogado e de escritor. pode ser definido como um eclético. ele também cultiva a autobiografia ficcional: Memórias de além-túmulo. para vingar-se. Catilina. descreve a beleza das paisagens exóticas e as relações sentimentais que envolvem os personagens romanescos. que é a história da eloqüência em Roma. em que apresenta os traços do orador exemplar. contidos no livro O Gênio do Cristianismo. como pensador. De natura deorum) e moral (De finibus bonorum et matorum. direito e poesia com os melhores mestres da época.C.).39 CHAPLIN (o criador de “Carlitos”)Cinema CHATEAUBRIAND (poeta romântico francês) Multidão.

românticas e realistas. com o projeto Films d’ Art. El cantar de mio Cid é um poema épico. XX. que relata os feitos de Ruy Díaz de Vivar. continua como mito da beleza masculina. comandando sua última batalha. a Europa fica paralisada do ponto de vista artístico.40 CID. pôr em movimento) + grapho (“desenho”). Logo após sua morte. o que Salvador Dali foi para a pintura surrealista. que se torna a Meca do cinema. Este manuscrito contém três cantares. personagem da história da Espanha medieval. após violentas brigas pelos direitos autorais. de autoria anônima. exibida em 28 de dezembro de 1895. que descrevem a vida e as ações heróicas de Ruy Diaz em suas lutas contra os mouros e as intrigas palacianas: seu exílio de Castilha. Nos Estados Unidos. Duas décadas depois. Deriva do grego kinematos (“movimento”). especialmente através do Surrealismo. encarnando o mito do valor bélico espanhol. Na França. Mas. com seus próprios olhos verão como se ganha o pão”. o cinema se torna uma indústria. de Paris. para um público de 36 pessoas. previamente registradas numa película. também . substantivo formado do verbo kinéo (“mover”. Luis Buñuel foi para o cinema espanhol. que morreu em 1099. A Itália também passa a destacar-se como grande produtora de filmes. com medo que o trem as atropelasse. CIDADANIA (cidade. do retrato. no papel da bela esposa Jimena. interpretando personagens extraídas de obras literárias clássicas. entre o inteiro e originário “cinematógrafo” e o moderno e abreviado “cine”. consegue transmitir a misteriosa sensação de que realmente a figura do herói é imortal. As imagens se moviam. Rodolfo Valentino (Adônis). empresta recursos técnicos à produção de películas. o Cinema é a arte da imagem em movimento. do jovem sedutor irresistível. influenciado pela Vanguarda européia. A data provável do surgimento dos primeiros cantares em torno da figura do Cid é de 1140. fundando Hollywood. causou um verdadeiro pânico: os expectadores saíram correndo do Salon du Grand Café. A primeira película. dando uma ilusão de realidade. durante a chamada “guerra das patentes” (1897-1906). a partir do início do séc. produtores independentes se refugiam na Califórnia. projetando numa tela imagens fixas. o movimento artístico antipassadista que. a uma altíssima velocidade. Se a Pintura é arte da imagem fixa. mas só foi descoberto e publicado em 1779. as núpcias infelizes das filhas e a vingança contra os genros. El Cantar de mio (epopéia espanhola) “Entrarei em batalha. a estrela hollywoodiana mais famosa. civilização) Cultura CIÊNCIA (o saber pela observação e experimentação)> Conhecimento CINEMA (origem e evolução) A oitava arte: a imagem em movimento A palavra “cinema” é um termo médio. Marilyn Monroe (1926-1962). uma máquina de fazer dinheiro. O cinematógrafo é de origem francesa: foram os irmãos Lumière que criaram uma máquina que atendesse às duas condições indispensáveis para o funcionamento daquela que passou a se chamar “a oitava arte”: registrar o movimento e projetar filmes. baseado na popularidade dos atores através da uma poderosa montagem propagandística.. denominando-o preferivelmente pelo apelido "Cid" (em árabe. É lá que se cria o Star System. O cinematógrafo é um aparelho capaz de nos dar a ilusão do movimento. sociedade. O único manuscrito que ficou remonta ao ano de 1307. não o posso evitar. dirigida por Anthony Mann. A cena final do “Campeão” em cima do cavalo.. com o estouro da I Guerra Mundial (1915-1918). A figura épico-histórica do herói espanhol passou da Literatura para o Cinema pela belíssima película El Cid (1961). até hoje. o sentimento popular o elevou a herói nacional e exaltou a memória de suas façanhas através da criação de vários cantares ou poemas. Estamos ainda na época do cinema mudo. “A chegada do trem à Estação”. "senhor") ou pelo qualificativo "Campeador" ("batalhador" ou "campeão"). dando chance a Hollywood de afirmar-se como a capital mundial do cinema. a cinematografia começa a utilizar a Literatura e o Teatro: atores famosos passam do palco para os estúdios de cinemas. tendo Charlton Heston no papel de El Cid e Sofia Loren.

Filho de artistas de music-hall ingleses. musical e western. segundo fofocas. mas o campeão de bilheteria. Clark Gable. pois explora algo que é substancial ao ser humano: o espírito da curiosidade. o cômico mais humano. Ladrões de bicicletas (1946). Na década de 50. pastelão. Em sua obra encontramos uma mistura de sátira social e política. Aparecem novos mitos que contestam os padrões de comportamentos sociais convencionais. o Garoto (1921). já tinha feito e interpretado mais de 50 filmes. o recente filme Cold Montain (USA. Grandes obras literárias são reestudadas e adaptadas ao mundo moderno para a realização de filmes de idéias. evitando as horríveis legendas e obrigando os atores a tomar aulas de dicção. como Cecil B. Luzes da Ribalta (1952). Tempos modernos (1936). Um Rei em Nova York (1957). foi a película de James Cameron Titanic (1997). penetrou dentro do lar de bilhões de cidadãos em todos os cantos do mundo. Pasolini. A partir dos anos 80. feito com poucos recursos técnicos. melhorou a produção fílmica com a invenção do Cinerama e do Cinemascope. Em busca do ouro (1925). com as estrelas Leonardo de Caprio e Kate Winslet. de grande sucesso mundial. que chega a sua magnitude com a película de Victor Fleming “E o vento o levou” (1939).2003) do diretor inglês Anthony Minghella. de Rossellini. A película E. Capra. usando apurada tecnologia e criando surpreendentes “efeitos especiais”. Chaplin produzia filmes e interpretava o personagem “Carlitos”.. diretor e ator. Enquanto as maiores nações européias se massacravam. o cinema foi “reinventado” pelo gênio de Steven Spielberg com seus filmes espetaculares. em sete episódios. aproximando o cinema da poesia: Antonioni. atuando como produtor. Sexta-Feira 13. Visconti. tudo é uma piada”. imitando a técnica televisiva de contar uma história dividida em vários capítulos: Jornada nas Estrelas. Jude Law e Renée Zellweger. encontra na arte cinematográfica a melhor forma de representar aquele momento histórico: surge o cinema “neo-realista” italiano. A Hora do Pesadelo. Lubitsch. de Mille. o seriado de Harry Potter: Pedra Filosofal (2001). aos 36 anos. apenas como exemplo. em dez episódios. quando surgem grandes diretores. Mas já estamos no início da II Guerra Mundial: Walt Disney produz outra forma de cinema escapista com seus desenhos animados. cidade aberta (1945). O Circo (1928). Mais importante é observar que o cinema se tornou o meio mais utilizado atualmente para a divulgação do nosso patrimônio cultural. Outros sucessos estrondosos foram Parque dos Dinossauros (1993). “o cinema é uma arte de voyeurismo. Luzes da cidade (1931). mas com muita arte e humanidade. Como afirma Brian de Palma. a Itália. que encantam especialmente o público juvenil. de outro lado. produzindo filmes em séries. e astros que se tornaram mitos: Marlene Dietrich. Todos os filmes desses seriados tiveram grande sucesso. Seu suicídio. assim. Trata- . se tornou um clássico do gênero. Gary Cooper. sendo amada por personalidades ilustres. entre 1913 e 1923. que espiona as pessoas que estão espiando quem está à sua volta”. outro diretor norteamericano de primeira linha. passou a maior parte de sua vida em Hollywood. Bertolucci. que o imortalizou. o avanço tecnológico e econômico dos norte-americanos se. Mas a figura mais importante da fase do cinema mudo é Charles Chaplin (1889-1977). Pastor de almas (1923). James Dean. “No fim. o cinema italiano retoma sua primazia com diretores de primeira linha que abordam problemas psicológicos e conflitos existenciais. Citamos. de Vittorio De Sica. onde foi sócio da United Artists. 1941) se tornam os mestres do filme de suspense. entre outros. em cinco episódios. O avanço tecnológico proporcionou verdadeiras revoluções na técnica cinematográfica. o cinema sonoro de Hollywood encontra uma forma de escapismo nos gêneros épico. como Marlon Brando. enquanto Hitchcock e Orson Welles ( Cidadão Kane. fantástico. apontamos na linha cronológica: Vida de cachorro (1918). Na década de 60. Independence Day (1996) e Homem-Aranha (2002). de um lado. John Ford. Em 1935 é a vez do filme a cores. Sociedade do Anel (2001) e Câmara Secreta (2002).41 foi mito do cinema por várias décadas. E o cinema continua cada vez mais vivo. Com a crise econômica de 1929. Errol Flynn. Humphrey Bogart. Marylin Monroe. em dez episódios. destruída pelos bombardeios aéreos dos Aliados e pelo terrorismo da retirada nazista. Outros cineastas também aderiram ao cinema-espetáculo. Guerra nas Estrelas. Em 1927. Com o fim da guerra. Entre suas películas mais geniais. que trata da amizade de um extraterrestre com uma criança. Películas imortais são: Roma. Apenas numa década. o filme começa a falar. apresentou um forte concorrente: a Televisão! Mas a diminuição do número de espectadores nas salas de cinema foi compensada pela produção de filmes feitos especificamente para serem projetados nos aparelhos televisivos. A Condessa de Hong Kong (1965). Tubarão. O Grande Ditador (1940). Greta Garbo. estrelado por Nicole Kidman.T. ainda está envolto no mistério. de Visconti. em quatro episódios. alimentando o imaginário masculino pela sua beleza e sensualidade. E o cinema. até agora. Como ele bem disse. inclusive pelo presidente Jonh Kennedy. A terra treme (1947). Fellini. comédia e lirismo.

CLASSICISMO (Cânone social e artístico) O que não se parece a nada não existe (Paul Valéry) . cada qual obedecendo a um voto íntimo e inconfessado de fidelidade. o grande mestre do suspense. Alfred Hitchcock. o Grande: “Quero apenas a luz do sol”. de Virgínia Woolf. que encanta o público espectador. a platéia pensaria que deveria haver um cadáver na carruagem”. CINISMO (escola filosófica: Antístenes e Diógenes) Estamos mais preocupados em entender os sonhos do que as coisas que vemos acordados (Diógenes) Do grego kunós. Ser “cínico” implicava em viver como um cachorro. CLARICE Lispector (ficcionista de introspecção psicológica) Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas. construindo todo o enredo pelo monólogo interior das personagens. Diz-se que Diógenes morava num tonel e renunciara a usar o copo. Suas trilhas sonoras utilizam músicas de árias de Ópera ou de canções populares. Genne Kelly. Considerando que seria impossível adequar as convenções sociais e morais às exigências de uma vida segundo a natureza. No rastro de Joyce. estabelecendo relações não só com mito. Este último imortalizou a melodia Singing in the rain (“Cantando na chuva”Dança). continuarei escrevendo Clarice Lispector (1925-1977). por sua vez. e ele. fundada por Antístenes de Atenas (444-365) e retomada por Diógenes de Sínope (404?-323). contentando-se com o mínimo necessário para a sobrevivência. o termo “cínico” adquiriu sentidos pejorativos. Durante os três anos de ausência. aproveita de todo o passado cultural. de Proust. Ginger Rogers. os dois jovens. de Faulkner. dá nova vida ao teatro de variedades italiano. Mais do que uma filosofia. Quer pela origem familiar. os cínicos partiram para um anticonvencionalismo radical. A paixão segundo G. por ser a forma de arte mais nova. A maçã no escuro. os cínicos propunham o regresso à natureza. que produziam enormes desigualdades no seio de uma coletividade. O cineasta italiano Federico Fellini. antes de fixar-se no Rio de Janeiro. passando a indicar insensibilidade. O cinema. Laços de família. que significa “cão”. indiferença e descaramento. adapta o mito de Ulisses e Penélope ao mundo moderno: o jovem Inman é obrigado a deixar seu grande amor para se arrolar no exército sulista e lutar contra os ianques na sangrenta Guerra Civil americana para acabar com a escravidão dos negros. com o filme Ginger & Fred. buscando a felicidade no autodomínio dos desejos e das paixões. a arte cinematográfica cria um mundo de imaginação e de sonho. em 1986. Face aos egoísmos individuais e de classes e à hipocrisia da sociedade. Mas essa temática se torna difícil de ser percebida devido ao recurso estilístico recorrente do fluxo da consciência. apregoava a volta do homem à natureza. Enfim. Neste tipo de arte tornaramse famosos artistas como Fred Astaire. o cinismo nasceu como uma radical oposição aos valores culturais. desprezando os bens materiais. quando percebeu que podia tomar água na palma da mão. Ao longo dos tempos. ucraniana de nascimento. ela tenta renovar a estrutura do gênero narrativo. curtem o sentimento amoroso de um modo intenso. até o reencontro final. viajou por várias cidades da Europa e dos Estados Unidos. o animal-símbolo da impudência. surgida pela crise dos valores humanos.42 se de uma versão cinematográfica de um romance do norte-americano Charles Frazier que. no dizer do crítico Alfredo Bosi. Na verdade. A peculiaridade de sua ficção é “o salto do psicológico para o metafísico”. a bela Ada. mas também com a música e a dança. H. nas neves da montanha. o cinismo é uma forma de vida. calcado no sapateado americano. põe em releve o poder ilusionista do cinema: “Se eu filmasse Cinderela. Os filmes “musicais” expressam ações e sentimentos pela linguagem do corpo e pelo ritmo de instrumentos sonoros.) nota-se a tentativa de superar a postura egolátrica em prol da comunhão do eu com os seres e os objetos que constituem a realidade circunstante. no fogo da guerra. literatura e teatro. quer pelas viagens realizadas. Ele disse a Alexandre. a doutrina cínica. Clarice é a escritora brasileira que melhor possui a consciência da cultura ocidental. quer pelas suas leituras. Em seus melhores romances e coletâneas de contos (Perto do coração selvagem.

em que diz um as coisas que sucederam e o outro as que poderiam suceder’’ . Rococó. enquanto Shakespeare afirma a transitoriedade e a introspecção do que é humano. a longa época do Classicismo apresenta relevantes variações no tempo e no espaço. Basta notar que o fenômeno da Renascença. a que se deram nomes peculiares: Renascença. que significava uma classe social (a classe dos senadores. por não estar diretamente relacionada com um referente do mundo exterior. a plebe). épica e simbolista. O critério que usa é a fortuna que os gênios tiveram ao longo dos tempos. o poeta grego Homero é considerado um autor canônico ou clássico. Arcadismo. porque constituíam “modelos” a serem seguidos e suas obras eram estudadas nas classes das instituições escolares. não é verdadeira. que completa a Bíblia cristã canônica. quando o poeta e teórico Nicolas Boileau ditará definitivamente as normas da estética clássica. o gosto pela perfeição formal. Distinguimos uma verossimilhança “interna” à própria obra. a Divina Comédia é uma outra Escritura Sagrada. Assim. exemplar. Com referência às letras. Tasso e outros poetas da Renascença européia. inicia sua ascensão na Espanha. Horácio. Homero. O crítico norte-americano Harold Bloom ( O Cânone Ocidental) usa o termo “canônico”. na sua Poética. com uma diferente concepção de vida e de arte. no início do século seguinte. a intemporalidade da beleza artística. para selecionar os homens que ele considera os criadores da cultura ocidental. Dante enfatiza a imutabilidade do que é sagrado. Além do princípio da imitação ( Mimese). pelas suas peças. A estética romântica surgirá em franca oposição à poética clássica. Já Shakespeare. que é a característica indicadora do ‘‘poder ser” ou do “poder acontecer”. escreve uma descontínua “Comédia Terrena”. Esta concepção estética dominará a cultura ocidental ao longo de mais ou menos quatro séculos. a forma mais rígida e ortodoxa. A partir da Renascença. Em verdade. enriquecendo-a com a filosofia de vida medieval.S. homem da Renascença inglesa. conferida pela conformidade com seus . mas possui a equivalência da verdade. apontamos outros pressupostos que governam a arte inspirada nos modelos greco-romanos: Verossimilhança interna e externa O princípio da verossimilhança foi estabelecido por Aristóteles quando. modelar. O metro da vitalidade de um autor é o fato de ter sido imitado por outros artistas ou cientistas a ele posteriores. Cícero eram considerados escritores clássicos. os valores renascentistas são cultuados sós a partir da segunda metade do século XVI.. tais como a verossimilhança. sim.) a que um cidadão romano pertencia e que o distinguia da grande massa do povo (os “desclassificados’’. de excelência. César. tornandose uma doutrina que ensina que a criação poética deve imitar os modelos artísticos construídos pelos autores greco-romanos. Para Bloom. até chegarmos à época do Romantismo. dos cavaleiros. afirma: “Com efeito. a estética clássica apresenta outros princípios. dando início a um novo ciclo cultural. Preciosismo.. Mas. Barroco.43 A etimologia do termo “clássico’’ vem do latim classis. a cultura clássica não se desenvolveu de modo uniforme em toda a Europa. quando se dará a viragem. Na França. não diferem o historiador e o poeta por escreverem em verso ou em prosa [. com os poetas da Plêiade. A este sentido sociológico está ligada a idéia de preeminência. dos magistrados etc. Ariosto. a ruptura. a conveniência. ainda hoje persiste e pertence à linguagem cotidiana: falamos de um clássico do cinema ou de uma disputa esportiva. Esta conceituação de clássico como excelente. no chamado Neoclassicismo francês. o largo uso da mitologia pagã. quando começa seu declínio na Itália. por ter sido imitado pelo escritor romano Virgílio e este é também clássico por ter sido o modelo de Camões. os dois maiores autores canônicos de todos os tempos foram Dante Alighieri e William Shakespeare. Virgílio. A obra de arte. E Camões é também um autor canônico por ser o modelo em que se inspiraram vários poetas líricos e épicos de língua portuguesa que o sucederam. a partir da década de 1530. em lugar de clássico. Segundo o poeta e crítico inglês T. enquanto o vate inglês constitui o pilar da dramaturgia ocidental.] diferem. Eliot. um mais Novo Testamento. Neoclassicismo. Junto com o preceito da imitação de modelos. a verossimilhança. Maneirismo. O poeta italiano é o mestre da poesia lírica. chegando lá ao apogeu na época chamada barroca. culminando. Assim. sem transcendência alguma. o termo Classicismo começa a adquirir uma conotação estética. o classicus scriptor era o autor que se distinguia da maioria pela correção lingüística e pela beleza das imagens poéticas. por exemplo. pois seus personagens são a encarnação artística dos vícios e das virtudes humanas. a necessidade de observar regras.

por exemplo. e uma verossimilhança “externa”. definido por Todorov como uma “hesitação” entre o estranho e o maravilhoso. representada num único cenário. independentemente do tempo e do espaço. A longa narrativa do gênero épico deve começar in medias res. pois apresentam uma grande coerência formal e semântica. quando acontece. por exemplo. Por exemplo. O texto clássico evita tudo o que é chocante. entramos no domínio do gênero fantástico. porque se consegue alcançar o que há de essencial na natureza cós-mica e na psicologia humana. ao dizer: “antes de escrever. não é fornecida nenhuma explicação pela repentina transformação de Gregor Samsa num inseto hediondo. o paralelismo etc. a isotopia. do escritor latino Apuleio. Essas regras. A estética clássica proíbe a representação ou a descrição de ações que possam ferir a sensibilidade do receptor da mensagem artística. do escritor moderno Franz Kafka. pois a criação artística é o resultado de um longo trabalho de estruturação formal. equilíbrio. etimologicamente significa ‘‘fora da cena’’. entendida como bom-senso. A lucidez intelectual. tendo como centro de irradiação a França. engenho ou inspiração. faz com que os autores clássicos evitem atos indecorosos. embora arbitrárias e definidas a posteriori. que chamamos de aptidão. aprenda a pensar”. não apresenta nenhuma cena de sangue: as ações violentas acontecem fora do palco e os espectadores são informados pela fala dos atores e do coro. é outro postulado da estética clássica. Observância de regras Para disciplinar o ato criador. codificadas por Boileau na sua obra L’Art poétique. têm a finalidade de estabelecer as coordenadas para caracterizar o estilo dos gêneros literários. Daí a sua inteligibilidade: os elementos formais e os conteúdos ideológicos da obra clássica são facilmente compreensíveis por um receptor. tem um valor absoluto. XVII e a primeira metade do séc. desde que tenha uma cultura geral razoável. grosseiro. que não ultrapasse a duração de um dia. que confere ao imaginário a caução formal do real. tudo aquilo que não pode ser apresentado no palco perante o público. deve-se focalizar em primeiro plano e no começo da obra um episódio fundamental e. O artista deve deixar-se guiar pela razão. em As Metamorfoses. entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. Sem elas seria difícil individualizar a grandiosidade do estilo épico. O fator “racionalidade” foi bem identificado pelo codificador do Classicismo. contar o que aconteceu antes. a homorritmia. a partir de lá. e o poeta ‘artífice’’. a equivalência dos atributos e das ações das personagens. o gênero dramático deve seguir a lei das três unidades: de ação. e um elemento adquirido. aproximando-se do não-sentido. tem sempre uma explicação de ordem religiosa ou mágica. cenas repugnantes e uma linguagem de baixo calão. dominaram na cultura européia durante a segunda metade do séc. Razão e labor A concepção do ato criador como esforço lúcido. XVIII. que não se preocupa nem um pouco com o cânone da verossimilhança. a transformação de Lúcio em asno é explicada pelo fato de que o jovem protagonista tomou uma bebida preparada por uma feiticeira. Entre o poeta “inspirado”. o recurso ao fantástico. pelo respeito às regras do bom-senso e da opinião comum. se faltar a verossimilhança externa. aliada à prática de uma longa aprendizagem. o poeta francês Boileau. medida. isto é. que disciplina os impulsos da imaginação e do sentimento. É preciso entender que as tão criticadas regras da estética clássica têm um valor mais didático do que prescritivo. que é a técnica ou arte. servem mais para a compreensão do que para a criação do texto literário. O chamado “neoclassicismo” francês produziu obras maravilhosas nos vários . apesar de tratar de crimes monstruosos. o princípio da verossimilhança interna. A beleza clássica. definida como ‘‘harmonia de formas”. Essas e outras regras de composição. a estética clássica confere uma maior importância ao segundo elemento. isto é. vulgar. de tempo e de lugar. através do processo técnico da retrospecção. o poeta clássico segue normas técnicas ditadas pela tradição da composição literária. Uma verdadeira obra de arte é fruto da conjugação de dois elementos fundamentais: um dom natural. hediondo. A tragédia grega. Se faltar a verossimilhança interna. a íntima comoção do gênero lírico. de que fala Platão. de um modo geral. já na Metamorfose. Assim. Quanto à verossimilhança externa. que os franceses chamam de bienséance.44 postulados hipotéticos e pela coerência de seus elementos estruturais: a motivação e a causalidade das seqüências narrativas. confere à obra de arte clássica um caráter objetivo. imutável e universal. Conveniência e decência O termo pan-românico “obsceno”. a intensidade da ação dramática. dizemos que a obra é incoerente ou aloucada. O assunto de uma peça teatral deve concentrar-se numa única ação importante. Os textos literários da época clássica seguem. O respeito para com o público. segundo a concepção de Aristóteles..

acrobata. Sua etimologia. A estrutura e a temática da comédia de Menandro foram conhecidas através das obras dos imitadores latinos Plauto e Terêncio. mas ficaram confinadas ao interior dos feudos. embora se chame “Comédia” e seja considerada como a epopéia italiana. o espírito satírico dos cantos dionisíacos. enfeixando tais manifestações orgiásticas num enredo. La Divina Commedia. é o primeiro exemplo de comédia “burguesa” da era moderna. dramaturgo e ator. é um vasto poema “didático-alegórico” (Dante). praças públicas. que propiciavam evoluções coreográficas próximas de encenações dramáticas. A relação do kómos com a vida sexual é evidenciada pelo fato de que cantos semelhantes eram retomados nos ritos matrimoniais: durante as festas de casamento ( gamos). a comédia de Molière. o poeta Epicarmo. chegavam até a casa dele. Momo. os gregos adoravam o deus da alegria que. de certo. COLOMBO (as Grandes Navegações e a Revolução Comercial)Renascimento COMÉDIA (teoria dos gêneros. coroado de flores. Tratar-se-ia de um canto religioso pelo qual os camponeses gregos festejavam a chegada da primavera e.C. o retorno do vigor sexual. não teve vida própria. cantor. Nos festivais ithiphállicos. No século VI a. Veja-se a tragédia de Corneille e Racine. ao mesmo tempo. no século III a.45 gêneros literários. o gênero cômico. teve como poeta maior Aristófanes (445-386 a. imitando os escritores clássicos greco-romanos e renascentistas. tentando reaproximar o teatro da realidade humana. feita de ataque pessoal. junto com outra divindade amiga. E. peças de fundo didático. dois elementos dessas festas religiosas concorreram para o surgimento da Comédia: de um lado. o maior comediógrafo do Setecentos italiano. à chamada “comédia nova”. a fábula de La Fontaine. Em verdade. como outras formas dramáticas. A Itália renascentista e barroca cultivou mais o gênero cômico do que o trágico. momos. Na Espanha. nem ao épico.. em procissão. cômica ou trágica. era carregado em procissão. o fato é que nenhuma peça. Mas o maior poeta dramático do Neoclassicismo (e talvez de todos os tempos) é o inglês Shakespeare. pelo uso do vinho. palhaço. é relevante o teatro de Gil Vicente. só restam alguns fragmentos. Infelizmente. a Comédia tem suas origens relacionadas ao culto do deus Dionísio (Baco). que “todo verdadeiro criador é clássico”. o drama satírico se reduziu à caricatura da vida social e moral da classe média. chegou até nós. segundo uma seqüência de ações chamada Kómos. produzida na Idade Média. dançarino. em plena época barroca. A primeira forma de comédia completamente estruturada. surgem dois dramaturgos de projeção internacional: Lope de Vega e Calderón de la Barca.). os movimentos histriônicos dos participantes das procissões. de Dante Alighieri. Os espetáculos profanos.C. A comicidade ficava a cargo do menestrel que era. com a perda da independência política da Grécia. participava do cortejo de Baco. enquanto o povo entoava cânticos de agradecimento. de outro. Esse tipo de comédia.. bebendo e dançando. não pertence nem ao gênero dramático. com o dramaturgo Eugène Ionescu. gigantes.C. Acrescente-se ainda que. É bom lembrar. Carlo Goldoni. estando submetido às "moralidades". chamada de “velha” para diferenciá-la de outro tipo cultivado por Menandro mais tarde. A obra mais importante produzida na Baixa Idade Média. músico. nos castelos senhoriais. Na Renascença. De qualquer forma. reagiu contra os vulgares estereótipos da “Comédia de Arte”. de Nicolau Maquiavel. porém. visando apontar os caminhos da salvação da alma. enfim todos os devotos mascarados simulavam disputas e brigas. não desapareceram por completo.. feiras livres. tendo a missão de divertir o patrão e o público com suas extravagâncias e tiradas hilariantes.). O deus Kómos era representado como um jovem belo e ruborizado. La Mandragola. acabou sendo proibido por lei. representado por um enorme fálus. inclusive levando para o palco o nome de ilustres cidadãos de Atenas. homens gordos. Chegamos. com ela. com o mesmo nome de kómos. os amigos do noivo. quando as artes em geral se emanciparam dos dogmas eclesiásticos para aderirem . Na Idade Média.C. drama greco-romano)DanteBalzac Castigat ridendo mores Assim como a Tragédia. sátiros. Baco. cujo mestre foi Menandro (342-292 a. vícios ou fraquezas. Em Portugal. é duvidosa: a opinião mais aceita é que a palavra Komoidía derive de kómos (procissão festiva) e oidé (canto). seguindo os moldes clássicos e o exemplo de Molière. recitando poemas licenciosos e caçoando de seus defeitos. das 108 peças que ele escreveu. assim. deu origem ao drama cômico na Grécia.

é atribuída ao imortal dramaturgo inglês a autoria de dezesseis comédias. Na Inglaterra brilhou o gênio de William Shakespeare (1564-1616). a moça leviana. no vestuário. Tartufo (um hipócrita que enriquece à custa da credulidade de alguns beatos). o soldado fanfarrão. Pantalone (comerciante vítima das burlas da esposa e do amante dela). a partir da segunda metade do século XVIII. ainda hoje constantemente representada ou imitada nos palcos e nas telas cinematográficas: Nícia. já não existem mais comediógrafos. o maior expoente do teatro elizabetano. A partir de um simples esquema de enredo (canovaccio). o primeiro teatro público urbano com o palco coberto e o lugar da platéia a céu aberto. assim. a figura profundamente humana de Carlitos. mas. nos salões literários. As variações eram facilitadas por tratar-se de companhias itinerantes. ou transferiu-se do palco para o circo ou para a tela do cinema. a comédia teatral perdeu sua força de gênero distinto. A tempestade. enquanto o inglês produziu também excelentes peças de Tragédia. Além das tragédias e dos dramas históricos. saco de pancadas). Na Espanha. Moliêre foi um homem que dedicou sua vida exclusivamente ao teatro. assim como fora cultivado por Menandro. Mattamoro (exterminador dos mouros). provocando o ódio e a vingança dos moralistas e dos beatos. O misantropo (denúncia da falsa moralidade apregoada pela rígida ética jansenista). trajes carnavalescos. Brighella (criado burro. entre as quais destacamos: Sonho de uma noite de verão A megera domada. pantomima popular. Escola de mulheres (ataque contra a falsa moralidade das senhoras da sociedade). o modelo clássico de comédia. a gargalhada. Lope de Vega (1582-1635) e seu discípulo Calderón de la Barca (1600-1681) criaram a chamada comedia nueva. a imortal personagem criada por Charles Chaplin. da farsa medieval e do teatro popular da renascença italiana. As alegres comadres de Windsor. ator. Colombina (moça bonita e leviana). Muito barulho para nada. anulando-se no drama burguês. Na Itália. Com o início do Romantismo. oferecendo uma beberagem para sua mulher engravidar. junto com a hilaridade cruel do realismo burguês.XVI.46 à ideologia humanista. em consonância com a máscara que usavam. obraprima do teatro renascentista italiano. destacamos: As preciosas ridículas (investida contra as damas da sociedade parisiense que. Plauto e Terêncio. O tipo de comédia mais cultivado no séc. um tipo de comicidade popular. o criado astuto. destacando-se Nicolau Maquiavel (1469-1527) com sua comédia A Mandragora. mais conhecido pelo pseudônimo de Molière (1622-1673). surgiu e se desenvolveu. como music-hall. a partir do início do nosso século: o cômico de pastelão do cinema americano com a famosa dupla do Gordo (Oliver Hardy) e o Magro (Stan Laurel). aproxima-se dela com a ajuda do frei Timóteo e do amigo Ligúrio. o velho libidinoso. a ópera-bufa. Entre as suas 28 comédias. Dottore (advogado gago e charlatão). Escola de maridos (imitação dos Adelphoe de Plauto: questionamento sobre a educação dos filhos). Don Juan (sátira do casamento e da fidelidade conjugal). mas apenas dramaturgos. tendo sido autor. os intérpretes improvisavam diálogos e achados cômicos ao sabor das circunstâncias. Podemos afirmar que. que se libertou da tradição cênica medieval e das regras aristotélicas e foi representado nos corrales. A comicidade passou a ser expressa por formas teatrais mais populares. Criaram-se. A comédia shakespeariana é o resultado da elaboração artística de elementos provenientes do teatro latino de Plauto. a crítica do american way of life. como o jovem apaixonado. O avarento (imitação da Aulularia de Plauto: exploração do tema da avareza). o vaudeville. Como Shakespeare. de Buster Keaton. O assunto licencioso acusa as influências do Decamerón de Boccaccio. a chamada “comédia de arte”. cultivavam o preciosismo na linguagem. deixa-se enganar pelo jovem Calímaco que. diretor e produtor de peças. teve ilustres cultores. Os atores acabavam fixando-se num único papel. desejoso da paternidade. marido de Lucrécia. Tudo está bem quando bem termina. Paralelamente a esse tipo de comédia clássica. que exploravam os costumes e as peculiaridades de cada cidade que visitavam. pois a tragédia e a comédia se fundiram no drama moderno. E a comicidade era garantida pelas próprias “máscaras”: tipos fixos cujo simples aparecimento em cena já provocava as gargalhadas da massa popular: Capitan Spaventa (oficial espanhol brutal e fanfarrão). geralmente apresentando um casal de namorados em luta contra a proibição paterna. na mesma península italiana. chamado “Commedia dell’ A rte”. Mas tal variedade era limitada por recursos técnicos repetidos: o uso de máscaras. por permitir aos atores os recursos da improvisação. há cenas de rara beleza idílica. a comédia recuperou o antigo fulgor da época greco-romana. Arlecchino (criado esperto). o riso de barriga. feita . na Espanha. foi o de capa e espada: El Acero de Madrid. com a diferença de que o escritor francês se sentiu atraído apenas pelo drama cômico. Pulcinella (sujeito falador e mentiroso). A França do Neoclassicismo oferece à humanidade o maior escritor de comédias de todos os tempos: Jean-Baptiste Poquelin. estereótipos inconfundíveis. de Lope de Vega. Molière colocou sua arte a serviço da luta contra a hipocrisia das convenções sociais. na etiqueta).

a burocracia estúpida. da terra estéril para a vitória do amor e da vida. Como toda forma artística autêntica. sendo os mitos de conhecimento público. triunfando os valores ideológicos do amor. Oscarito. as contradições e os absurdos com que o homem é obrigado a conviver. varões de ilustre prosápia. ao passo que as personagens da tragédia e da poesia épica são seres superiores (heróis guerreiros. contrariamente à tragédia. fazia-se necessária uma introdução explicativa. A essência do cômico Aristóteles nos dá a primeira pista para individualizar o gênero: a poesia cômica pertence à “mimese inferior". de um certo ponto de vista. a arte cômica dificilmente tem por escopo a mera diversão. O noviço). Tal conteúdo é profundamente ideológico. ridicularizando as inconseqüências e incongruências. no fim do século passado (O mambembe. Assim. na "chanchada" do nosso cinema nacional. Isso porque o conteúdo colocado no término da peça cômica é sempre o triunfo do sonho. no teatro de revista de Artur de Azevedo. Chico Anísio. No barroco italiano. Aristóteles afirma que a comédia é a passagem da infelicidade para a felicidade. a comédia se diferencia da tragédia por dar maior importância à personagem “Prólogo” e anular quase completamente a função do coro: como o assunto e as personagens da peça cômica não eram conhecidos de antemão pela platéia. Apontar as falhas estruturais e circunstanciais da sociedade. a moderna comédia do cinema norte-americano. que teve atores cômicos do gabarito de Grande Otelo. no ensaio sobre a teoria dos arquétipos. implícito na sátira. o principio do happy end. que é o fecho de ouro da maioria das comédias. já na tragédia. o estudioso norte-americano Northrop Frye (Anatomia da crítica). da virtude. por exemplo. Quer dizer. o velho avarento ou luxurioso etc. A Capital Federal). No Brasil. o palavreado estéril dos sofistas. em oposição . deuses e semideuses) e perseguem um fim nobre. isto é. a Religião e a Arte. a comédia deve apresentar o racional e o justo. nos programas humorísticos da televisão (Juca Chaves. O casamento dos protagonistas. a ação da comédia move-se da lei para a liberdade. pois os obstáculos foram eliminados para sempre. uma das características fundamentais do gênero cômico. a libertação dos impulsos reprimidos. a comédia. do velho agressor. o núcleo problemático do enredo se resolve com a punição e a conversão dos culpados. quanto ao coro. pois mostra a vida como desejaríamos que fosse. que é a passagem da felicidade para a infelicidade. era a representação dos vícios e das virtudes do homem "ignóbil" (sem nobreza). ao final apresenta uma clara manifestação do espírito apolíneo (Apolo). na gozação. denominando sua coletânea de romances de Comédia humana. entre outros. É por isso que. não deixa de ser uma forma de estimular a correção das deficiências individuais e sociais. em linguagem psicanalítica. relaciona a comédia com o mito da Primavera: a sociedade dos jovens rebela-se contra a sociedade do senex. Na comédia.47 pelo cômico Jerry Lewis. Segundo a teoria clássica.) e a vitória sobre eles representam. Por essa razão. ridicularizando a valorização desmedida do dinheiro. a comédia representa a “tragicidade” das pessoas comuns. Está declarado. Outro aspecto característico da comédia é o seu fim moralizante. a natureza do assunto da comédia dispensava as graves reflexões sobre os acontecimentos. a comédia recebeu um lema em língua latina que ainda hoje tem seu valor: castigat rídendo mores ("corrigem-se os costumes pelo ridículo"). a moral retrógrada e hipócrita. com filmes antológicos como Deu a louca no mundo e Um convidado bem trapalhão. Num outro lugar da Poética. sugere que a felicidade conquistada será duradoura. a mania das discussões forenses. do desejo da realização amorosa do casal de jovens. seu admirador). o gênero cômico encontrou seus melhores cultores no teatrólogo romântico Luís Carlos Martins Pena. não como ela é na realidade. portanto. A mesma intenção teve Honoré de Balzac ao descrever a sociedade burguesa da Paris oitocentesca. Embora não pareça. A luta contra os personagens agressores (o pai tirano. a figura do Prólogo era dispensável. que vigorou por um longo tempo na tradição cultural do Ocidente. Jô Soares). na ironia. Nesse sentido. quando Aristófanes satiriza os políticos corruptos e demagogos. a comédia. estruturalmente. mais do que ligada ao ridículo. o princípio da autoridade. com suas comédias de costumes (As casadas solteiras. embora impregnada do espírito dionisíaco ( Dionísio). Zé Trindade e Ankito. as personagens da comédia imitam ações iguais ou inferiores às ações praticadas pelos homens comuns. enfim. assim. da fantasia. querendo dizer que tratava apenas da vida cotidiana e dos problemas existenciais dos cidadãos florentinos de sua época. tem em mente defender a verdadeira realidade desejada para o Estado. a recuperação do riso perdido da infância. Enfim. Foi nesse sentido que se entendeu o termo “comédia” na Idade Média e no período clássico da cultura moderna: Dante Alighieri intitulou seu imortal poema didático-alegórico de Comédia (o adjetivo “Divina” foi acrescentado posteriormente pelo contista Boccaccio. da pureza dos sentimentos. O juiz de paz na roça.

de pessoa a pessoa. Taoísmo) Buda “A nossa glória não está em nunca cair. verte sempre sobre um assunto sério. deve-se reparar que nem todo riso é cômico. Shakespeare. viveu na China entre o séc. URSS) Marx CONFÚCIO (Mestre chinês: I Ching. O dramaturgo Ionesco quase anula a diferença entre os dois gêneros: “o cômico. Lênin. Confúcio. Edward Wright (Para comprender el teatro actual) aponta os meios mais comuns de que se serve a peça cômica para suscitar o riso: os estratagemas do argumento. contemporâneo de Confúcio. A comédia mais elevada é a das idéias ou da sátira de costumes: ela estimula um riso reflexivo. a lua.48 vitoriosa contra todos os inconvenientes e contra tudo o que há de insensato na realidade existencial. refere-se ao relacionamento palco-platéia. séc. como gênero cultural. estamos perante um relacionamento de estilo cômico.VI e V a. existe um riso de escárnio. “Quem não sabe o que é a vida – ele perguntava – como saberá o que é a morte?” O enriquecimento interior de cada um se expande ao seu redor e. se propõe estimular o riso. à família e ao Estado. Mas.C. O tema. Entretanto. essa moral severa e conservadora do “confucionismo” se espalhou pelo Extremo Oriente. a verdade. distingue o “ridículo” do “cômico”: todo o contraste entre o essencial e a representação exterior. que contrasta com a tragédia. entre o fim e os meios. Lao-tse. fundou o Taoísmo. de modo a quase se identificar com ela. enquanto. numa coletânea de aforismos ( Analectos: c. Confúcio era mais filósofo e pedagogo do que religioso e pregador. pelo contrário. pode ser ridículo. Daí o conhecido achado de que a tragédia faz com que o espectador se identifique com o personagem. os infortúnios físicos. a obscenidade. geralmente focalizando os problemas contemporâneos do autor. a hipocrisia de quem condena nos outros o que ele mesmo faz ocultamente. Chamado “Venerável Mestre Kung”. Stalin. a justiça social. de desprezo. as melhores comédias são aquelas que apresentam problemas universais: daí a eterna modernidade das peças cômicas de Plauto.C. pela prática de um severo código de conduta. Seus pensamentos nos foram transmitidos pelos discípulos. o dinheiro do avarento que adquire um valor de culto e não apenas de troca. embora tratado de forma leve. Outra característica da comédia. o engenho verbal. Diferentemente de Buda.IV a. o elemento frio. a racionalidade. Outro Mestre chinês. o que caracteriza o cômico é o bom humor que permite ao homem elevar-se acima da própria contradição. visando a integração do homem com a natureza. sendo a intuição do absurdo. acaba atingindo o universo todo. especialmente entre sociedades de cultura chinesa. cada qual tornando-se útil à comunidade. Diferentemente. O Taoísmo é uma religião e uma filosofia de vida. na comédia. mas em levantar toda vez que caímos”. quando o espectador rejeita a personagem-protagonista. com uma riquíssima liturgia. (551-479). o calor. Quando o espectador pode se envolver com a personagem. que representaria a feminilidade. próprio do drama trágico. a harmonia entre os dois princípios universais. verossímil. da palavra chinesa tao = “caminho”. Isso nos lembra um pouco a oposição entre . o sábio indiano seu contemporâneo. Com a difusão da civilização chinesa. em sua Estética. em vez de sofrer e sentir-se infeliz e desgraçado. a força. que leva ao absoluto. Lao-tse. em oposição ao Yin. sem nenhuma preocupação metafísica. ele identifica o personagem com seu vizinho. Molière. vigorando ainda hoje. O princípio Yang (“brilho do sol”) simboliza a masculinidade. também chamado “Laozi”. Ele incentivou o culto aos mais velhos. etc.). Sua finalidade é mostrar o caminho correto ( tao). situando-se num mundo do qual ele se julga distante. coreana e japonesa. irremediavelmente. se a comédia. estando centrados na idéia de que duas coisas são fundamentais: o aperfeiçoamento de si próprio e o conhecimento da realidade. As virtudes a serem praticadas são a honra. o instinto individual. COMPUTADOR (Internet)Informática COMTE (filósofo francês)Positivismo COMUNISMO (utopia socialista. o altruísmo e a beneficência. O riso cômico ocorre ao se pôr em evidência a diferença entre a realidade e a idealização da vida: o velho que se obstina em namorar a mocinha. a claridade. o Yin e o Yang. Mais importante do que tudo é o amor ao trabalho bem executado. de desespero etc. Hegel. me parece mais desesperador que o trágico”. a incongruência das personagens. temos uma relação de estilo grave.

È o know how. da cura de doenças. apesar das diferenças entre si. apóstolos e evangelistas. scientific. que se serve da “experiência”. do cultivo da terra. ciente.) exigem o ato de fé: . que surgiu quase na mesma época. construir pontes. VII e o IX.. o prazer da conjunção carnal etc. científico. da caça.. é comum a todos os seres vivos. a satisfação que nos proporcionam a bebida e a comida. através de perseguições sangrentas. com o Empirismo teórico.1500 a. É preciso. das sensações. Enquanto a doutrina taoísta está mais ligada à religiosidade. Mítico. estudado no verbete próprio. por não ter nenhuma fundamentação lógica ou racional. que tem suas antigas origens no I Ching (o “Livro das Mudanças”: c. que da Índia se estendeu pela China a partir do séc. todos relacionados com a faculdade da mente humana de perceber objetos pela inteligência ou pela experiência. junto com o Confucionismo. que serve principalmente para satisfazer os dois instintos fundamentais. Tal conhecimento. A Bíblia (os livros sagrados do Velho e do Novo Testamento) contém o conjunto das doutrinas supostamente reveladas pelo deus do Judaísmo e do Cristianismo a profetas. a ponto de se falar de “budismo chinês”Buda. do grego tecné. Mas. deixou marcas profundas na sua cultura. sendo até hoje característico dos agrupamentos tribais.C. porém. cuja tradição oral teve início com o prórpio nascimento da China. sustentase apenas no princípio da autoridade: a verdade sobre a criação do mundo. scire. a fé em seres sobrenaturais. science. conseguiram debelar as forças da religião estrangeira. da criação de animais. os dois movimentos ético-religiosos chineses estiveram sempre em luta contra credos e filosofias estrangeiras. taoístas e confucionistas reuniram-se e. da observação ingênua. Da mesma forma. a origem e o destino do homem. das sensações que o contato com o mundo exterior estimula em nós: o sentido do calor à aproximação de uma fonte de energia térmica. ignorante. do grego empeirikós. O principal rival do Taoísmo e do Confucionismo foi o Budismo. que teriam criado o Universo e ditadas as normas do viver em sociedade. O conhecimento técnico está na base da profissionalização.). que tem como cognatos os verbos noscere. o medo da escuridão. quer de uso. de cujo acusativo participial “scientem” se originou uma família de termos nas línguas modernas européias. o Confucionismo se configura como um código educacional.C. Podemos distinguir diferentes tipos de conhecimento: Empírico. que pode ser traduzido por “saber fazer”. constitui a religião autóctone da China. Técnico. ao longo da sua evolução existencial. todavia. o saber “como” fazer algo e conhecer os meios para a realização de tarefas. Trata-se de um dos primeiros esforços da mente humana para encontrar seu lugar no Universo e tentar arrumar as razões para explicar fenômenos e comportamentos. realizar um bom jogo de futebol. o homem aprendeu a técnica da pesca. a aprendizagem é indispensável para qualquer atividade humana. pois requer a intervenção da razão que estabelece regras de procedimento para a fabricação de objetos ou o exercício de diversas atividades. outros sistemas religiosos (Budismo. O conhecimento mítico.I d. Sem técnica não seria possível fazer cinema. O Budismo. de rituais para o convívio social e o culto religioso. do grego mithos (Mito). proporcionado pela “aprendizagem”: este tipo de conhecimento já não deriva apenas do instinto. de culto (templos. para a fabricação de qualquer objeto. teria sido revelada por entes superiores a seres privilegiados. quer de arte. facas). tem como fundamento a “crença”. néscio etc. um filão da especulação filosófica. animais e vegetais. humanos. a conservação própria (pela alimentação) e a conservação da espécie (pela cópula). pinturas). da fabricação de objetos de uso (sapatos. Nas sociedades modernas. discente. pois refletir é transgredir a ordem superficial que nos esmaga (Lya Luft) Do latim cognoscere. O Taoísmo. cognição. tendo seu apogeu entre o séc. com ou sem o “s” inicial: scienza. CONHECIMENTO (teoria e tipologia do saber)Método Pensar pede audácia. Assim. bem como seu comportamento moral. do dia-a-dia.49 Classicismo e Romantismo (ou do apolíneo e dionisíaco) na cultura ocidental. Islamismo etc. estátuas de divindades) ou de arte (poemas. da prática cotidiana. histórias fantásticas inventadas para explicar a origem de fenômenos naturais ou de comportamentos humanos. ciência. agnóstico. não confundir o conhecimento empírico vulgar. teológico ou religioso em geral. Para derrubar seu poderio.

a Lógica. porque o homem não conseguiria suportar a angústia da existência. sustentáculo próprio do saber teológico. Os dois sistemas mais importantes. que tem como objeto de pesquisa a natureza da verdade. Lutar para suplantar um credo por outro é um ato de insânia. portanto. aquele que sabia das coisas. a verdade? Qual é o fundamento do sentimento ético? A felicidade reside no exercício do livre arbítrio. a palavra ciência diz respeito a qualquer tipo de saber: por isso falamos de ciências físicas. suplantando assim quer o princípio da autoridade. política. que formula hipóteses para explicar a origem do universo. uma ofensa contra a inteligência humana. Filósofo. da acústica. por suposto. A característica principal do conhecimento científico é o método rigoroso de investigação. Filosófico. não é assim: ao longo da história. que tiveram suas origens respectivamente no pensamento de Platão e Aristóteles. Por este tipo de conhecimento. se conforma com o absurdo da morte. geólogo. num sentido amplo. além de filósofo. formulando leis e dominando os elementos naturais. a Epistemologia ou Teoria do Conhecimento. Na época greco-romana não havia uma distinção clara entre as várias atividades do espírito: era chamado de “sábio”. ou na observância dos preceitos sociais? Para responder a essas e outras perguntas existenciais. da óptica. o homem culto. astronomia. a Ética. visando a compreensão de seus fenômenos. porque toda religião é válida apenas para quem acredita nela. Mas. O fanatismo religioso. pois não existe nenhuma sociedade. de indivíduos ou de grupos étnicos. que estuda as regras do raciocínio correto para se chegar a qualquer tipo de conhecimento verdadeiro. Através dos tempos. qualquer sentimento religioso. humanas etc. Outro motivo da crença na divindade é a impotência do indivíduo em resolver seus problemas existenciais: a doença. sociais. a fome. que o pensamento abstrato peculiar da pesquisa filosófica. a razão. por exemplo. o homem tenta suplantar o princípio da autoridade. além do imortal pintor do quadro Mona Lisa. que não acredite em seres sobrenaturais ou que não pratique alguma forma de culto. infelizmente. a confiabilidade do saber. escreveu obras sobre poética. a dor fomentam o desejo da existência de outro mundo. podendo viver separada do corpo perecível. a injustiça. o método correto de investigação. mas mediante o raciocínio lógico. Portanto. retórica. arquiteto. praticada por todos os povos.50 a pressuposição da intervenção sobrenatural na criação do mundo (Cosmologia) e no regimento da vida em sociedade (Ética). próprio do saber religioso. servindo-se da “observação” e da sucessiva “experimentação”. onde seria feita justiça. porque espiritual. Mas. as normas morais do comportamento humano. pela “razão” ou pensamento reflexivo. não por meio da crença numa revelação transcendental. E isso porque homem nenhum. ética. Exemplo luminoso foi o italiano Leonardo da Vinci que. era comum encontrar homens com um saber enciclopédico. sempre em benefício do homem. do certo e do errado. em lugar e tempo algum. vários pensadores criaram sistemas filosóficos globalizantes. é quem procura respostas para os interrogativos fundamentais da existência. É uma verdade indiscutível que o sentimento religioso é conatural ao ser humano. foi também poeta. física. da hidráulica. são o Idealiasmo e o Materialismo. É preciso aceitar o fato incontestável de que não existe nenhuma religião “ortodoxa”. Científico. estética. sangrentas lutas religiosas envergonharam e continuam envergonhando até povos considerados civilizados. do étimo latino scientia. escultor. animais. quer dizer verdadeira. Aristóteles. satisfazendo os instintos individuais. os bons sendo premiados e os maus punidos. devendo a liberdade de culto ser uma norma inviolável. sonhando com a continuação da vida num além e imaginando a alma como uma entidade imortal. vegetais e minerais. num sentido estrito. deve ser respeitado. primitiva ou civilizada. na tentativa de responder de forma coerente a todas essas indagações. se não acreditasse na possibilidade de uma vida melhor após a morte. em sentido absoluto. é o criador da vida!  Religião. a Estética. na sua forma mais extrema. cartógrafo. Toda religião é uma utopia salutar. que analisa os conceitos do bem e do mal. Até à Renascença. De onde se originou o cosmos? Existe outra vida após a morte? Matéria e espírito são inseparáveis? Além da aparência existe uma essência das coisas? O que é a consciência. induz o fiel a matar ou a matar-se em nome de Deus que. o homem exercitou sua inteligência em várias áreas do saber filosófico: a Cosmologia. a maldade. físico. tendo inventado maquinárias que o tornaram precursor da aviação. do grego philos (amigo) e sophia (sabedoria). que investiga a essência do belo e suas relações com o útil. classificando as espécies humanas. o termo científico relaciona-se apenas com o estudo da natureza física. Sua finalidade é a busca da distinção . zoologia. que constituíram a espinha dorsal do saber filosófico.

cinema. biológico etc. o conhecimento artístico está centrado no dialogismo. do ponto de vista do leitor ou do espectador. pintura. mas não sua criatura artística. E por ser uma entidade espiritual. chama o poeta de “fingidor”. atingindo o universal. O que irmana todas as artes é o recurso à ficção. da física (pela lei da gravidade. sendo possíveis várias e diferentes interpretações. observa-se a freqüência de sua repetição. Credulidade e raciocínio são superados pelo experimento! Artístico: a Arte é uma forma de conhecimento da realidade. Isso não acontece com o ser ficcional que. o eterno. assistir a um filme ou a uma peça teatral. é vítima das normas sociais e dos preconceitos morais. falso. uma vez descoberto e comprovado o princípio ou a lei. Alcançar um saber é a finalidade primordial de qualquer atividade humana. integrados no convívio social. o magnetismo terrestre atrai os corpos sempre para baixo) etc. A arte seria. Admirar um templo ou um quadro. físico. no poema “Autopsicografia” de seu Cancioneiro. não é um ser existente no plano da realidade material.) têm como meio de expressão a fantasia. Muito pelo contrário: a figura de Capitu é mais autêntica do que qualquer mulher do mundo da realidade. sem nunca manifestar nossas aspirações mais secretas. uma bela mentira. Outra peculiaridade do conhecimento artístico é sua polissemia. por ser apenas fruto da fantasia. Tal liberdade faz com que as criações artísticas possam exprimir as verdades mais profundas do ser humano. que se tornou famosa: “O POETA é um fingidor.51 entre o verdadeiro e o falso por meio de uma demonstração irrefutável. podendo atingir a própria contradição: algo pode ser e não ser ao mesmo tempo. o absoluto. Segundo a bela expressão do escritor Franz Kafka. mentiroso. séculos após séculos. A compreensão das formas e dos conteúdos de uma obra de arte literária ou plástica é inesgotável. porque não nasceu da união carnal de um homem e de uma mulher. pode significar inexistente. ao uso da máscara psicológica de seres bem comportados. não estando sujeita às leis do tempo e do espaço.) se servem da observação e da comprovação. Enquanto a verdade científica é unívoca ou monológica. A obra de arte nunca encerra um único sentido. visto que. pois objetivamente documentada. Recorremos. na ambigüidade. ouvir uma sinfonia ou uma canção. peculiar de seu estilo. além de imaginário. Dependendo do grau de cultura e de sensibilidade de quem o admira. ainda representamos tragédias de Shakespeare. tudo isso importa em captar uma parcela de sentido do mundo. não se admite mais discussão. da inteligência criadora de seu autor. que cada obra de arte tem dentro de si. a gente acaba ocultando as idéias e os desejos mais recônditos. químico. o objeto de arte adquire sentidos sempre renovados. faz-se uma rigorosa experimentação e só então se formula uma lei que não admite contestação. portanto. a possibilidade de captar múltiplos sentidos ao mesmo tempo ou em espaços e épocas diferentes. tanto que Fernando Pessoa. teatro etc. Pelo sentimento do pudor ou por medo de sofrer sanções. as várias formas de arte (literatura. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente” Só que o conhecimento artístico é falso apenas no plano histórico ou da realidade física: Capitu. Uma vez observada a ocorrência de um fenômeno. cognato de fictício. a imortal personagem do romance Dom Casmurro. “a Literatura é sempre uma expedição à verdade”. Isso explica por que. na polifonia. portanto. Explicamos: o ser humano. pois o fato é ou não é. ainda nos encantamos com versos do poeta latino . mas é apenas fruto da fantasia. O que diferencia a aprendizagem científica da artística é apenas o meio utilizado: enquanto os vários tipos de conhecimento científico (matemático. ler um poema ou um romance. vivendo de uma forma hipócrita. da estatística (o número dos homens casados é exatamente igual ao número das mulheres casadas). a imaginação. ainda admiramos estátuas gregas. Eis a estrofe. usando a figura do paradoxo. de Machado de Assis. Assim. que são muitas vezes inconfessáveis. Morreu o autor. que contrariam as convenções ético-sociais. fantasioso. não está sujeito a apreensões ou ao medo de sofrer penalidades. assim como a Filosofia e todas as Ciências. “Ficcional”. Mas o fato de não ser real não quer dizer que a personagem de ficção não seja verdadeira. ela tornou-se imortal. dependendo da perspectiva. embora possa aumentar de tamanho). em carne e ossos. da geometria (um quadrilátero conserva seus lados sempre iguais. são absolutamente verdadeiros alguns princípios da matemática (a soma é maior do que suas partes).

pelo progresso da televisão. 0 método Aarne-Thompson individualizou 2 499 motivos. costumes. ainda discutimos sobre a traição de Capitu e a verdadeira paternidade de seu filho. de contos de nunca acabar. será feliz para sempre. de Boccaccio). Bizantino)Helenismo CONTO (história ficcional curta)Gênero literário FábulaNarrativa “A história está acabada e sua boca cheia de marmelada!” Do latim “contare”. onde predomina o elemento sobrenatural. folclore. fórmulas jurídicas. e gracejos e anedotas. antes de tudo. o conto popular ou feérico documenta usos. filosófico. agrupam-se inúmeras narrativas de temas e motivos os mais variados. distinguimos. de Carlos Drummond de Andrade continuam exercendo a função de lições de vida. E isso porque. CONSTANTINO (Imperador romano. seja ele empírico. a verdade. 11) demônio logrado: a vitória sobre o princípio do mal. deve seguir o mesmo processo: a informação inicial tem que ser trabalhada para levar ao conhecimento por dentro. 9) facécias. Vida nossa que é uma contínua aprendizagem: “ se sabemos exatamente o que fazer. o conto popular desafia a própria morte: o casal de jovens apaixonados. da carochinha e de magia. o interesse pelo conto popular teve início com o neoclássico La Fontaine ( Fábula). para ser realmente eficaz e produtivo. então para que fazer?”. tendo semelhanças com outras formas do gênero narrativo: romance. é de se deduzir que ainda vive no desejo dos ouvintes. assim como as passagens bíblicas para os hebreus. apresenta uma outra classificação temática: 1) contos de encantamento. autor do famoso Dicionário do folclore brasileiro. Expressão da psicologia coletiva. elaborado artisticamente por ficcionista profissionais. um especialista do assunto. 10) natureza denunciante: um ato criminoso é revelado por um elemento natural. cujo catálogo foi traduzido e aperfeiçoado pelo inglês Smith Thompson. Reflete as inclinações do ser humano para o maravilhoso. sempre com o triunfo do bem sobre o mal. O julgamento moral da massa popular é absoluto porque sentimental. Sob a denominação de conto popular. que induz a uma ação adequada. 2) contos de exemplo. o amor romanticamente vivido. sobre a origem de objetos ou de costumes. dividindo as narrativas em três grupos gerais com várias subdivisões: contos de animais.52 Catulo. Na Europa. 7) contos de adivinhações. técnico. que produz a sabedoria. Ainda hoje. Segundo Leonardo da Vinci. de fadas ou da carochinha . Apresentar uma classificação coerente é tarefa quase impossível. de Shakespeare. de Camões. ainda na fase da oralidade. o conto popular. o começo do saber está no coração e não na mente: “todo nosso conhecimento tem princípio nos sentimentos”. 8) contos acumulativos. histórias populares. A história ficcional é ambígua porque na arte não importa a resposta. a beleza física e espiritual. Uma tentativa que obteve certo êxito foi a do estudioso alemão Antti Aarne. ele reelaborou o belíssimo . crônica Tentando salientar as peculiaridades desta forma de narratividade. se perguntava o grande gênio da pintura moderna. em contraste com o mundo da realidade. Luís da Câmara Cascudo. do conto erudito. mas o questionamento. Além de retomar o gênero fabulístico da tradição greco-romana (Esopo e Fedro) e o gênero novelístico medieval da escola toscana (Decameron. 6) contos etiológicos. tinham o papel fundamental de ensinar os homens a viver em sociedade. tem como disposição mental uma ideologia conformista: as coisas se passam como nós gostaríamos que acontecessem. Enfim. de travalíngua. buscando alcançar um protótipo universal. 5) contos religiosos. Isso porque o ser artístico transcende o padrão individual. etc. qualquer tipo de saber. a palavra conto significa a narração de uma história. sonhando com a bondade. mas a verossimilhança psicológica. como se este fosse natural. espectadores ou leitores. anedotas e patranhas. do cinema e da informática). com a intervenção divina. I . 3) casos edificantes. após superar vários obstáculos. No Brasil. se não morreu na história ficcional. de Machado de Assis. com intenção moralística. científico ou artístico. Os poemas de Homero para os habitantes da Grécia antiga. trechos poéticos de Dante. 4) contos de animais: as fábulas. Pablo Picasso”. Istambul. no início da década de 1930. novela. apesar do relaxamento do hábito da leitura (provocado. de origem anônima e coletiva. histórias de fadas. de Fernando Pessoa. de fada ou maravilhoso. Rompendo as barreiras do real. não a verdade factual. a justiça. 12) ciclo da morte. casos de intertextualidade. porque o que deveria ser geralmente não é. que é trágico.Conto maravilhoso Forma mais universal de transmissão da cultura de um povo. em grande parte.

São identificadas por uma competência interiorizada. a língua inglesa denomina o conto de “short story”. o lobo. por exemplo. mas verossímil. De outro lado. eterno. Símbad. mas em dose diminuta. três na maioria dos casos. A fábula é reduzida apenas a um episódio de vida. não fugindo do principio da verossimilhança. O conto erudito distingue-se do romance e da novela por ser uma narrativa curta. Um conto infantil alemão termina assim: “a história está acabada e sua boca cheia de marmelada”! II . A fórmula "Era uma vez. coletaram e redigiram um grande número de histórias para a infância e adolescência.O conto erudito Duas características principais distinguem o conto literário. Especificamente quanto ao conto popular. pois o passado mítico se renova constantemente. Tal indeterminação atinge também as categorias do tempo e do espaço. pois a atitude mental que dele se depreende não é idealizar.. escritos por autores famosos (Hoffman. mas também o cinético (movimentos corporais miméticos). o conteúdo temático permanece o mesmo. Mas trata-se de trabalhos realizados a partir de fontes eruditas. Poe e outros). a bruxa. Embora seja possível apontar exceções de contos fantásticos. mas contestar os valores sociais. Ele possui todos os ingredientes do romance. sobressai a estraordinária figura de Monteiro Lobato (Monteiro). que denominamos erudito ou culto. publicados entre 1835 e 1872.A. não verdadeiro porque ficcional. da Alemanha. foram valorizadas as forças vitais e a beleza própria da realidade popular nacional. da China. de Apuleio(Metamorfoses). Embora existam variantes regionais devido à diferença do ambiente mesológico (flora e fauna). Trata-se de transmigração ou devemos pensar na existência de um fundo arquetípico universal? A história de Chapeuzinho Vermelho. o dramático (encenações). da linguagem e de usos e costumes. tornando-se paradigmático. neste gênero. chorou a criancinha. Ele coletou e redigiu as histórias para crianças contadas pelas amas (Contos de Mamãe Gansa). o marujo. O foco narrativo geralmente é único: centrado ou no narrador onisciente ou numa personagem. a regra do conto erudito é ater-se ao real. oralidade. o fonético (variedade de entoações). especialmente na Alemanha e em oposição ao Classicismo. mas poderia acontecer. como a de comer. Com muita propriedade. o caçador. Numa sua narrativa encontra-se a passagem humorística que se tornou famosa: “Mas o Imperador está pelado”. As personagens são pouquíssimas. Aladím e a lâmpada maravilhosa. Ali Babá e os quarenta ladrões. além de assinalar a entrada no mundo mágico da ficção. do conto popular: ele é produzido por um autor historicamente conhecido e refere-se a um episódio da vida real. a fada madrinha. a narrativa popular apresenta peculiaridades inerentes às suas características de anonimato e de oralidade. pela função que exercem ou por atributos: o príncipe. ou seja. No Brasil. Não aparece o nome dos países ou das cidades onde os fatos acontecem. do formalista russo Vladimir Propp (Mito FunçãoNarrativa). anonimato e persistência. que pode ser o pretérito. Quanto à sua estrutura. O mistério da presença das mesmas histórias em países geograficamente muito distantes. usando não apenas o código lingüístico. o receptor participa ativamente da transmissão da mensagem através de perguntas e comentários ou fica tão atento que interrompe as atividades mais elementares. do Brasil. que se encontra no Asno de ouro. Mas o pai da literatura infanto-juvenil européia é considerado o escritor dinamarquês Hans Christian com seus Contos. Além de não conhecermos o nome do autor e do narrador.. lembramos as pesquisas filológicas dos irmãos Grimm que. de forma semelhante à do francês Perrault.". O processo da enunciação dá-se in praesentia: o contador de histórias dirige-se diretamente aos ouvintes. O conto popular tem em comum com as demais formas simples de narratividade as características de antigüidade.53 conto popular de "Amor e Psique". da Rússia. E. também as personagens que vivem os fatos são inominadas. em épocas anteriores à descoberta da imprensa e com meios de comunicação muito precários. o fato narrado não aconteceu no mundo físico. dando-lhe o titulo de Histoire de Psyché. a partir do início do século XVIII: As mil e uma noites. É com Charles Perrault (1628-1703) que o conto passa a ser estudado na sua origem popular. com recurso ao sobrenatural. é um desafio à inteligência dos estudiosos do assunto. constituindo o famoso triângulo . Também contribuiu decisivamente para despertar o interesse pela literatura infanto-juvenil a tradução em línguas européias de coletâneas de contos orientais. As semelhanças genéricas e as diferenças específicas das narrativas feéricas encontram-se analisadas na obra Morfologia do Conto. Na época do Romantismo. remete a um tempo indefinido. cinderela. o presente ou o futuro. O que distingue essa forma narrativa de outras é o caráter de internacionalidade. é contada para as crianças da Itália.

etc. do barroco e do arcadismo. cuja protoforma é a antológica narrativa Os crimes da rua Morgue. Em última análise. é obrigado a matar seu futuro sogro num duelo. Dependendo do tamanho. Mas. de romance ou de conto de terror. Rodrigo procura a morte no campo de batalha. criando o romance A cidade e as serras. cinema. Machado. adquire o estatuto de gênero literário à parte. Na Baixa Idade Média. videocassete. tempos. A peça tem como referente remoto a epopéia espanhola EI cantar de mio Cid( ) e como fonte próxima a obra Las mocedades del Cid. quando percebe que Rodrigo quer morrer no duelo não se defendendo. televisão. o herói Rodrigo. A época do realismo consagra definitivamente o sucesso da narrativa curta. Ximena. solicitados pelos atuais meios de comunicação cultural (rádio. além do Decameron do florentino Boccaccio. um conto numa tela de pintura ou numa estátua. No texto corneliano. Judite. uma peça teatral em novela de televisão ou vice-versa. Ele foi o inventor do conto policial. respectivamente. A diminuição dos elementos estruturais confere ao conto uma grande densidade dramática. são muito rápidas. etc. resolveu desenvolver a mesma história numa narrativa longa. a intercomunicabilidade entre várias formas de arte é um fato corriqueiro hoje em dia: um romance é transformado em filme. Tcheckov. como exemplo. teatro. Aliás. A categoria do espaço está reduzida a um ou dois ambientes. Entendido. é a partir da época romântica que o conto erudito. Essa peça acirrou as discussões sobre a obediência ou não aos preceitos da confecção da obra teatral conforme se . o conto é a forma narrativa mais cultivada. o conto “A Matrona de Éfeso”.) e limitando-nos apenas à literatura ocidental. avultam os contos satíricos e licenciosos do inglês Chauser: Canterbury Tales. quando existem. de Guillén de Castro. inserido no contexto do Satiricon: uma viúva inconsolável acaba preferindo o amante vivo ao corpo do marido morto. internet). Exemplos esparsos podem ser encontrados em alguns autores da Renascença. para salvar a honra de seu pai. Sem falarmos dos episódios das Sagradas Escrituras (Bíblia) que podem ser considerados contos (filho pródigo.54 amoroso. Eça. então. para vingar a morte do pai. especialmente Petrônio (Satíricon) e Apuleio (O asno de ouro ou Metamorfoses). O tempo da fábula também é muito limitado. publicada em 1631. Tribunal da Inquisição)Lutero COPÉRNICO (revolução na Astronomia) Galileu CORÃO (texto sagrado dos muçulmanos)Maomé CORNEILLE (dramaturgo do Neoclassicismo francês)Tragédia Quem perdoa com facilidade incita a ofender novamente O primeiro grande drama do teatro clássico francês é Le Cid. O contista tem uma idéia fundamental a expressar. ela não difere muito da classificação do romance. porém. mas acaba tendo uma grande vitória sobre os mouros invasores. reflexões. Para fugir ao remorso. desvinculando-se do romance e da novela. O criador da moderna short story pode ser considerado o norte-americano Edgar Allan Poe. falamos de romance ou de conto policial. personagens. Na modernidade. Enquanto no romance o conteúdo textual encontra-se diluído na multiplicidade de ações. deseja a destruição de Rodrigo e induz um seu pretendente a desafiar o herói. têm a paciência de ler um longo romance. própria da era da máquina: poucos leitores. CONTRA-REFORMA (Protestantismo. porque melhor responde à exigência da rapidez. O conto erudito tem uma larga tradição cultural. Salomé. Inventa. Quanto à tipologia do conto. encontramos exemplos contidos nas obras de escritores latinos. A peça termina com o casamento de Rodrigo e Ximena. O que acontece. Mas. As descrições e reflexões. uma pequena história vivida por algumas personagens cujo desfecho leva o leitor a deduzir a parcela de sentido do mundo que a narrativa encerra. podemos considerar o conto como um romance condensado e o romance como um conto diluído. apresentando contistas mundialmente famosos: Maupassant. o amor vence o ódio e acaba suplicando o jovem amado a lutar pata obter a vitória. apaixonado por Ximena. cuja lucidez mental o levara a preferir a história curta. Um exemplo dessa verdade “acaciana” nos é fornecido pelo imortal escritor português Eça de Queirós: depois de ter escrito o conto Civilização. espaços. escrito em 1636 por Pierre Corneille (1606-1684). Lembramos. que a diferença entre o conto e o romance não é apenas quantitativa: a brevidade ou a extensão de uma história ficcional importa nas diferenças estruturais já apontadas acima. no conto temos uma condensação do sentido que se revela ao leitor de uma forma mais rápida e surpreendente. Encólpio e Lúcio. descrições. hoje em dia. forma mais apta a expressar a intensidade dramática. cujos protagonistas. têm a história de suas vidas intercalada pela narração de histórias secundárias encaixadas na principal.

que está pronto a sacrificar à vingativa deusa Diana sua jovem filha Ifigênia. no Jogo da amarelinha e em outros romances e contos. em conflito entre o dever e a paixão. A partir de Jesus Cristo. Polieucte). O maior milagre que circunda a figura de Cristo foi o de ter conseguido concentrar na sua pessoa o que houve de bom antes e depois dele: o monoteísmo. mas ao mundo inteiro (Gandhi) O aparecimento da figura de Cristo dividiu a história da Humanidade em duas épocas: Antes e Depois DELE. na obra clássica A Ética Protestante e o . era dominada por uma concepção religiosa mesquinha. negando-lhe. criou-se um novo calendário. Declínio e Queda do Império Romano. a observância das normas morais que se encontram no Velho Testamento ( Bíblia). a utopia socialista de Platão. de tempo e de lugar. o ponto nevrálgico capaz de desvendar o mistério da realidade existencial. Mas. mas seu adversário político. a crença num único deus. para contestar os regimes políticos opressores da liberdade. individualista. na sua vasta obra em cinco volumes. A narrativa é concebida como um “jogo” ou um “labirinto” em que narrador. Julio Cortázar (1914-1984). Sua narrativa pode ser enquadrada na corrente estética do realismo crítico e fantástico. Os deuses pagãos e o deus do Velho Testamento foram substituídos pelo Deus da misericórdia. a Palavra de Cristo revolucionou o curso da humanidade. O protagonista deste drama. defende a tese de que o Cristianismo foi a causa principal da decadência da maior potência da Antiguidade pela sua pregação pacifista e por projetar a felicidade num mundo sobrenatural.55 encontram na Poética de Aristóteles. está preocupado em criar uma nova técnica de construção romanesca. como de outros do mesmo autor (Cinna. profundamente eufórica. encontra no sentimento da “honra” e na aspiração á “glória” a sua realização existencial. o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920). as nações latinas. recorrendo ao modo simbólico. em consonância com o aspecto renascentista da cultura clássica francesa. É a concepção de uma ética aristocrática. incestuosa e vingativa. o ser que está ao nosso lado e a realidade que nos circunda. ao mesmo tempo. Basta citar dois episódios semelhantes. Horácio. o pacifismo e a tolerância ensinados pelos textos dos Vedas da Índia (Budismo). Daí que a academia francesa. não há bons ou maus temas: somente há um bom ou um mau tratamento do tema. em oposição ao Caos)Mitologia Terra CRISTO. relevando a mistura do gênero trágico com o cômico. configura a representação artística de um protótipo ideológico: o homem. Essa nova concepção da divindade atravessou toda a história das religiões. disposto a matar seu filho Isaac para superar o “teste” de obediência a que o submeteu o caprichoso Jeová. também o final feliz de Le Cid contraria a definição aristotélica da tragédia: “a passagem da felicidade para a infelicidade”. devido às diferentes possibilidades de montagem e de leitura da obra. personagens e leitor se sentem perdidos. começando uma nova Era. era obrigada a usar disfarces. Jesus veio ao mundo para inverter esta lógica milenar com um ensinamento simples: amar a Deus é amar o próximo. acima dessas questões técnicas. pois Corneille não obedece ao princípio clássico da unidade de ação. permanece eterna a concepção corneliana de herói. cuja lembrança ofende indelevelmente a inteligência e o sentimento humano: Agamenão. Medéia. CORTÁZAR (ficcionista argentino: “realismo fantástico”) Na Literatura. A cultura ocidental. por simpatizar com a ideologia marxista. provocaram o surgimento de um tipo de arte que. O historiador britânico Edward Gibbon (1737-1794). patrício de Borges. até encontrarem o centro. Em décadas passadas. a define como uma “tragicomédia”. sistema criado pelo filósofo persa Zoroastro e adotado pelo Judaísmo. a “NOSSA ERA”. a da civilização cristã. um ligado ao Politeísmo greco-romano e outro ao Judaísmo hebraico. muito cultivada por autores americanos de língua espanhola. assim. e Abraão. Além de infringir o princípio da verossimilhança no palco. o que levou Racine a afirmar que suas peças acumulam “tal quantidade de incidentes que precisariam de um mês para ser representadas”. solicitada a dar sua opinião sobre esta obra de Corneille. COSMOS (a ordem no Universo. JesusReligiãoCatolicismo Protestantismo Igreja Ortodoxa Cristo não pertence ao Cristianismo. De outro lado. antes de Cristo. o estatuto de obra clássica. Após sua morte. governadas por ditadores.

sem sair da Palestina e sem escrever uma linha sequer. depois de um ou dois anos de apostolado itinerante. que em grego significa “Enviados”. essencialmente. por sua vez. sendo considerado um taumaturgo. cativando a atenção dos mais humildes. pois podia sublevar a massa popular contra o Império. nasceu em Belém. foi eclipsada pelo mito da esfinge devoradora que mata quem não souber decifrar seu enigma. na época em que Herodes governava na Galiléia. Recentemente. A base do sucesso da civilização anglo-saxônica e norte-americana. segundo Weber. Infelizmente. O pouco que sabemos sobre a pessoa histórica de Jesus Cristo pode ser assim resumido: de religião judaica. na sua versão luterana e calvinista. o crítico norte-americano observa que o reconhecimento de Jesus Cristo como “Filho de Deus”. junto com João Batista. Os fariseus não aceitavam sua concepção de messianismo (a palavra “christus” é uma transcrição literal do grego Khristos que. especialmente após as contribuições de Freud e de seus discípulos para o estudo das profundidades da alma e o empenho dos historiadores. na língua aramaica e gravado numa pedra. após três dias de sepultamento. foi crucificado sob a acusação de ser um agitador público. o Messias. pois lhes foi dada a missão de difundir para o mundo todo os ensinamento de Cristo. mas um Rei poderoso que libertasse o povo do jugo de Roma. Mas. com o consenso do povo hebreu. anunciado no Velho Testamento. quem foi este “Jesus Cristo” que. mais de três séculos depois de sua morte. irmão de Jesus”. filho de Deus. propugnada nos evangelhos e nas epístolas do apóstolo Paulo e praticada principalmente por ingleses e americanos. Procurador romano.56 Espírito do Capitalismo. devia ser não um pobre descalço. Assim. acabou matando o Jesus homem! As discussões sobre a humanidade e a divindade de Cristo se tornaram cada vez mais calorosas e estão longe de ter um fim. filho de Maria e do carpinteiro José. nortearam a construção da maior potência do mundo atual. descobertos recentemente na Palestina. Os escritos do Novo Testamento. Após a flagelação. ele teria ressuscitado na Páscoa. mostra como os princípios do Cristianismo. romance de Dan Brown. Jesus Cristo foi vítima de uma coalizão entre dirigentes judeus e a autoridade romana. uma urna funerária em que se lê. estaria na “Ética do Trabalho”. pelo exame do famoso quadro A Última Ceia. que se tornaram Apóstolos. com a qual teria tido vários filhos. Anteriormente. no início da nossa Era (Idade). através dos séculos. Jesus era visto pelos cristãos e pelos romanos (o historiador Tácito faz referência a ele) apenas como um grande profeta e um homem milagroso. é a tradução do hebraico mashiah. aparecendo a seus discípulos. poderia abalar a crença na divindade de . se deu apenas “por votação” dos bispos no Concílio de Nicéia (325). em que o autor tenta demonstrar. a pessoa consagrada pela unção). revelando seu aspecto profundamente humano. está o ossuário de Tiago. Entre os poucos documentos arqueológicos. Transmitiu sua mensagem de paz e de amor através de discursos e de parábolas. Traído por um dos seus discípulos. Também para os romanos. ao redor do ano 30. saiu publicado no Brasil o best-seller americano O Código Da Vinci. Nesta mesma obra . Para os hebreus. a tese herética de que Jesus seria amante de Maria Madalena. na pesquisa sobre a figura histórica de Cristo. o seguinte epitáfio: “Tiago. ressaltando a dimensão humana da existência de Cristo. Na época pós-freudiana. o império econômico dos Estados Unidos da América do Norte. As histórias escritas pelos quatro evangelistas contêm elementos simbólicos que merecem novas interpretações. a partir do século passado. província romana. deixando de pagar os impostos. Se esta inscrição fosse historicamente verdadeira. Segundo a tradição cristã. Mas sua fama começou a incomodar judeus e romanos. de Leonardo da Vinci. referindo-se propriamente ao Filho da Virgem Maria. que significa “Messias”. foram submetidos a várias interpretações. e capturado quando estava em Jerusalém. Corroborou sua palavra com atos milagrosos. foi julgado e condenado à morte por ordem de Pôncio Pilatos. foi capaz de derrubar o maior império antigo e de construir a maior potência da atualidade? As notícias sobre sua personalidade encontram-se. independentemente da crença na sua filiação divina. nos quatro evangelhos (Bíblia). o Evangelho começou a ser lido à luz da psicanálise (Psiquê). Judas Iscariota. através dos tempos. convencidos de que a riqueza é um sinal da benção divina. a identidade verdadeira de Jesus de Nazareth. que contem a essência da doutrina cristã. começou sua pregação. O Cristo. afinal. a mensagem de Cristo era politicamente perigosa. filho de José. Já com trinta anos (por volta do ano 27 ou 28).

um filme. a pregação evangélica continua a mesma. Goldspell (1973). as escolas e movimentos literários que lhe forneceram os cânones estéticos e o complexo ideológico em que viveu. como o Comunismo. onde se dá o julgamento de valor. na Idade Média) e as Igrejas Ortodoxas do Oriente. pelo amor. católicos e comunistas. uma mulher bonita (por que não?).57 Cristo. como se lê nos evangelhos escritos por seus discípulos. um romance. a análise dos elementos estruturais (o olhar por dentro) é utilizada em vários verbetes (TextoMitoPersonagemNarrativa e em outros lugares. . de Davis Greene. permanece incontestável no bojo do sentimento religioso da maioria dos povos que habitam a terra. diferenciando-a da abordagem externa ou cultural. filho de Deus. passando a ser considerado o precursor do socialismo. quer na crença num ideal de justiça social contrastante com o profundo egoísmo individual e de grupos. a ressurreição de Lázaro.). composto do verbo krinein (julgar) + tekhne (técnica). se sente tentado a analisar as partes componentes do objeto e a julgar sobre sua formosura. conveniência. mais recentemente. a faculdade que homem tem de poder distinguir o verdadeiro do falso. por serem ambos ideológicos. do suíço Jean-Luc Godard (1985). do ator-diretor Mel Gibson. etimologicamente. O primeiro tipo de abordagem se preocupa com a obra em si. corrupto e tirano. independentemente do autor e da época. A Vida de Brian (1979). A Paixão de Cristo (2004). o ato de emitir opinião. crítica literária. ao mesmo tempo. da razão pura. Munido destes conhecimentos. quer seja o credo num Cristo. Esta modalidade de abordagem do texto literário é centrípeta. são exemplos de intelectuais contemporâneos que estudaram a figura de Cristo. seja ele um poema. do iconoclasta Terry Jones. Outros filmes polêmicos de grandes diretores sobre a figura de Jesus: Viridiana (1961). a condenação de qualquer forma de violência e a constante exortação ao amor estruturaram o pensamento ocidental. Independentemente da verdade histórica. Marie. onde se fala dos elementos constitutivos de uma obra de arte ou se interpreta um poema. o estímulo ao trabalho. o que é palpável e infinitamente importante do ponto de vista cultural é que os episódios e os ensinamentos evangélicos são metáforas da nossa vida cotidiana: o filho pródigo. já a análise externa estuda os componentes ideológicos ligados ao tempo e ao espaço. com resultados irrelevantes no que toca o ponto crucial da vida humana. o bom samaritano. pois os dois métodos são complementares e não excludentes. o crítico inicia a análise e a interpretação de um texto dado. o Islamismo (o profeta Maomé. o homem. significa “aptidão para julgamento”. naturalmente. e a revolução comunista se espatifou perante o muro de um estadismo burocrático. influenciando filosofia. O romancista José Saramago (O Evangelho segundo Jesus Cristo) e o cineasta Pier Paolo Pasolini (O Evangelho segundo São Mateus). seja como for. O primeiro momento é chamado de “análise”. Je vous salue. a justiça social. Perante um objeto de arte. pois Ele não seria mais o “Filho Único de Deus”. uma peça dramática. agradabilidade. são igualmente utópicos. com base no “critério”. o segundo é a “interpretação”. uma narrativa. A atividade crítica surge junto com a Filosofia e as Artes: falamos de crítica da razão dialética. pois todo o ato de acreditar sempre traz em si algo de místico. A figura de Jesus. esportiva etc. artes e literatura. apontando valores ocultos numa obra de arte. do americano Martin Scorsese e. Os dois credos não foram aprovados no exame da história: após mais de dois milênios. no sentido de que a atividade critica parte de fora para dentro: estuda-se a biografia do autor. o Protestantismo (nas suas diferentes seitas Lutero). da seta inglesa Monty Python. consistindo no estudo dos elementos constitutivos e de suas relações entre si. as condições socio-culturais que formaram sua personalidade. utilidade. o egoísmo individual e de classes. teatral. Aqui apresentamos vários tipos de crítica extrínseca (o olhar de fora). o belo do feio. pode ser considerado uma reencarnação de Cristo. provocada pela decepção com o cristianismo europeu. Um bom crítico deve conhecer a técnica das duas formas de estudo de uma obra de arte. CRÍTICA (análise e interpretação de uma obra de arte)Texto Do grego kriticos. tendo em comum a contradição de serem. A Última tentação de Cristo (1988). O Cristianismo. a palavra “crítica”. o novo enviado de Deus. O assunto é polêmico pela sua própria natureza. uma estátua. além da psicanálise clássica e moderna. de cinema. um quadro. Ambos consideram a figura histórica de Jesus como um doce e pacífico provocador que queria vencer. Redentor da Humanidade. da razão prática. Com base nesta distinção. os estudiosos da obra de arte literária falam de uma crítica interna ou estrutural. do espanhol Luis Buñuel. Em Cristo estão centrados o Catolicismo. Neste Dicionário.

então. pois ele estabelece uma estreita ligação entre o estilo do autor e a estrutura social nas obras que analisa. a par das outras atividades artísticas. Existe uma homologia rigorosa entre a forma literária do romance. Dionísio (na mitologia grega) ou Baco (na mitologia romana). dos homens com os outros homens. Nessa linha de pesquisa trabalha também o crítico brasileiro Antônio Cândido. por falta de um nome mais apropriado. estabelecendo homologias entre as estruturas do universo da obra e as estruturas mentais de certos grupos sociais. Visto desta maneira. seu estilo peculiar só pode ser entendido a partir de um contraste com a literatura preexistente. devido ao caráter polissêmico e universalizarite da verdadeira obra de arte. sociais. usando-a de um modo particular. Mesmo quando o artista é um renovador de formas estéticas e de conteúdos ideológicos. mas prática. Dela se diferencia. Apesar da concepção antitética de Aristóteles que considera o poeta como um ser lúcido. segundo o método do estruturalismo genético de Lucien Goldman.58 visando especialmente verificar até que ponto o autor é “filho de sua época”. se cristianiza na estética neoplatônica de Marsílio Ficino: as musas são substituídas pelo Espírito Santo. a crítica psicológica e outro tipo de crítica que. reproduzindo as formas estéticas e o conteúdo ideológico do grupo e do movimento literário. A gênese da obra literária. cuja função primordial não é artística. No que toca especificamente o estudo do romance. chamamos de “arquetípica”. destacamos algumas que nos parecem ter tido bastante sucesso: a critica sociológica . apesar de ser ficcionalmente “virtual”. Ela tem valor estético não quando. fruto híbrido de um amor . portanto. não é uma mônade estética: ela é determinada pelas convenções e pelos gêneros literários próprios de uma época. a teoria platônica da inspiração artística como “dom” divino impregna as concepções sobre a criação literária da cultura ocidental. como uma determinante do valor estético. por mais que o escritor possa “operar” sobre a linguagem. A análise de tipo sociológico encontra no estudioso alemão Erich Auerbach ( Mimésis: a representação da realidade na literatura ocidental) um valioso cultor. b) o “código” (a língua) de que se serve não é um fator individual. mas também e especialmente como um “agente de estrutura” e. d) o “destinatário” (o leitor). mas quando se preocupa com a “compreensão” da significação da obra. um “artífice” que estrutura livre e conscientemente o material poético. A crítica sociológica considera a literatura. que sente e vive os problemas humanos (políticos. A interação escritor-sociedade é proveniente dos seguintes fatores: a) o “emissor” (o escritor) é um ser socializado. que são estabelecidos pela sociedade e não pelos indivíduos. e a relação cotidiana dos homens com os bens em geral e. tal como acabamos de definir. o certo é que a parole artística só é possível a partir de uma langue. A teoria platônica do poeta “inspirado” e a teoria aristotélica do poeta “artífice” encontram uma reformulação na oposição nietzschiana de espírito “dionisíaco” e espírito “apolíneo”. coletivo. que considera o fator social não apenas como “matéria” de que se serviria o artista. o fator social deixa de ser um fator puramente externo para tornar-se interno e a critica sociológica toma-se uma crítica estética. c) a “mensagem” (o texto produzido). quer dizer. o artista tem o intuito de atingir um público que vive os problemas estéticos e ideológicos de sua época. Ë muito antiga a concepção da arte como fruto de uma personalidade psiquicamente excepcional. de comunicação inter-humana. visa à “explicação” do fenômeno literário. O mito da “Musa” inspiradora. nascida da produção para o mercado. buscando seus antecedentes causais na realidade socio-econômica (como costuma fazer uma vertente da crítica socialista Marx). embora. éticos) de seu grupo. mas institucional. ele apresenta a seguinte hipótese: “a forma romanesca parece-nos ser a transposição para o plano literário da vida cotidiana na sociedade individualista. por extensão. A critica psicológica tem em comum com a critica sociológica o olhar para a obra de fora para dentro. enfim. e. desviando-se da norma lingüística. investido de um saber transcendental. por salientar mais a personalidade do escritor do que as condições sociais e o espírito da época. Entre as várias modalidades deste enfoque histórico e externo da obra artística. como produto e expressão da cultura e da civilização de um povo nas diversas fases de seu desenvolvimento. A critica sociológica explora a análise destes quatro fatores e procura inserir a obra literária num contexto socio-cultural. usando do método das ciências exatas. é vista como semelhante à gênese dos Livros Sagrados e o poeta é considerado um sacerdos. nas pegadas de Lukács e de Girard. no ato da criação artística ele participa da mesma realidade social do escritor. onipresente na épica clássica. esta possa ser usufruída também por leitores posteriores. Platão concebe o poeta como um indivíduo temporariamente “possesso” pela divindade: ele só pode criar nos momentos em que está “inspirado” pelos deuses. porém. no pleno gozo de suas faculdades intelectuais. religiosos. muito embora fruto de uma individualidade poética. numa sociedade produtora para o mercado”. por exemplo.

não atingindo a compreensão da forma estética. Contrastando com Dionísio. Mas a crítica psicológica com pretensões científicas afasta-se dessas especulações míticas ou supra-históricas e procura encontrar a gênese da criação artística na carga biopsíquica de que o autor é portador. Seus fiéis. no meio das configurações “variáveis” de que se reveste cada período literário. suas idiossincrasias. ilustrada pelos fatos externos de sua vida e por elementos outros. A essência da beleza apolínea reside na harmonia de formas. mas como atitudes estéticas e espirituais. então. A critica psicológica tem valor literário somente quando. na história da literatura. durante a celebração ritual. Também as categorias do espaço e do tempo ficcional podem ser relacionadas com estados psicológicos. Nietzsche entre o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo. a metalinguagem crítica pode valer-se de elementos conceptuais oriundos das ciências psicológicas para explicar o comportamento de uma personagem. um técnico que conhece o ofício. na exata proporção das partes com o todo. Outros críticos. ou não. Ele é o deus da luz e da ordem. na história da literatura. causado ou por defeitos físicos (a cegueira de Homero. isto é. teríamos uma alternância da postura romântica e da postura clássica perante a arte e a vida. suas reações ao ambiente ou o relacionamento psíquico que une ou separa os agentes ficcionais. Bakhtine. A concepção do autor “inspirado” e do autor “artífice” representaria duas “invariantes”. com isso. têm várias falhas. rastejando. d) quando alcançam seu intento. que declinam momentaneamente de sua personalidade real. quando aplicadas ao estudo da obra literária. conseguem apenas “explicar” a gênese da produção literária. que enformam as várias fases da evolução artística. entendendo-se estes termos não na sua concepção histórica de movimentos literários. de uma forma plena ou parcial. Enfim. insistindo principalmente sobre convenções e gêneros literários e descuidando do estudo das obras em si. da mesma forma que vimos em relação à crítica sociológica. entre escritores “apocalípticos” e escritores “integrados” de Umberto Eco. entre fase “irônica” (Mithos do Inverno) e fase “romanesca” (Mithos do Verão) de Northrop Frye . inadaptado ao meio-ambiente. quando as leis e os princípios da psicologia e da psicanálise são aplicados não ao estudo do autor mas das personagens ficcionais. a psicologia. a corcunda de Leopardi. c) confundem o “eu” do narrador com o autor. frustrações. As modernas teorias da psicanálise. quer coletivo ou rácico (Jung) Conforme o crítico David Daches (Posições da crítica em face da Literatura). tem o texto como objeto de pesquisa. b) admitem implicitamente que qualquer obra literária seja imbuída do espírito dionisíaco e possua uma ideologia revolucionária. O artista que se inspire em Apolo é um ser que lúcida e conscientemente constrói suas mensagens. quer individual (Freud). centradas sobre o estudo da personalidade real do autor. A gênese do “furor” poético residiria. pois é impossível analisar e interpretar um texto literário sem lançar mão de processos psicológicos. utilizando apenas elementos teóricos extraídos da psicologia. experiências traumáticas e neuroses. que sublimiza na arte os recalques do subconsciente. também fazem distinção entre um tipo de literatura fruto de espíritos estética e humanamente inconformados e um tipo de literatura produto das convenções literárias e sociais. num desequilibro emocional do autor. transferindo elementos do mundo real para o mundo ficcional. sem se referir explicitamente às teorias de Platão e de Aristóteles acerca da gênese da criação poética ou à oposição encontrada pelo filósofo alemão F. tais como cartas e documentos que tenham o caráter de confissões. suas contradições. Esta dicotomia pode ser expressa pela oposição romântico vs clássico. e. Pensamos na oposição entre literatura “dialógica” e “monológica” de M. fáceis de serem apontadas: a) não serviriam para a análise de obras cujo autor seja anônimo ou suas notícias biográficas escassas. sua evolução emocional. Pode-se até chegar à determinação da estrutura poética de um texto. Sátiros e Bacantes. errou pela terra e ensinou aos homens o cultivo da uva e a produção do vinho. consciente ou inconscientemente. sentiam-se “possessos” pelo deus e compunham seus cantos sob a inspiração direta de Dionísio. Neste sentido. construir uma teoria sobre a personalidade desse autor — seus conflitos. têm substituído o pensamento antigo da inspiração como dádiva divina pela teoria da arte como neurose. não aceito no Olimpo. A poesia ditirâmbica é um tipo de arte produzida por pessoas “transformadas”. Pensamos nos quatro tipos de . ou o que quer que seja — e valer-se de tal teoria para esclarecer cada uma de suas obras” A biocrítica e a psicocrítica.59 divino-humano. A critica arquetípica constrói seu arcabouço a partir de concepções gerais sobre a cultura e a civilização. O poeta seria um ser excepcional. etc) ou por um desajuste psíquico (teoria dos “complexos”). no estado de embriaguez. a escolha do crítico não consiste em utilizar. Apolo é um deus integrado no convívio celeste. mas em utilizar a psicologia do senso comum ou a psicologia científica. estética e ideologicamente indicativas de valores constantes. “fases” e “modos”. Quer dizer. “pode-se considerar a biografia de um autor.

Diferentemente. é sempre bom lembrar a advertência do dramaturgo Eugène Ionescu: “os críticos devem descrever. Há. CRÔNICA (policial. b) crítica “etológica”. de futebol. Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro Bebeu Cantou Dançou Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. teatro etc. d) crítica “retórica”. com base na teoria dos modos (trágico. portanto. do Outono = Tragédia. a crônica pode ser considerada como a mais curta forma de narrativa literária. Tais cronistas. o autor da Anatomia da critica é coerente. De um modo geral. mítica e anagógica).. geralmente formados por faculdades de história. que é uma lista de fatos arranjados conforme a ordem linear do tempo. a crônica social. ela não pode ser considerada como obra de arte. que significa "tempo". que apresenta a crítica de eventos culturais (cinema. a crônica literária é produzida por poetas e ficcionistas que. c) critica “arquetípica” propriamente dita. pois na “Introdução polêmica” à sua obra afirma que a crítica é uma estrutura do pensamento autônomo em relação à arte. viva para hoje. Prosa. Saturno em Roma. que registra a ocorrência de atos criminosos. a crônica de arte. embora possam apoiar-se em fatos acontecidos. transformam a realidade do dia-a-dia pela força criadora da fantasia.60 crítica propostos por Northrop Frye: a) crítica “histórica”. No primeiro caso. de corridas automobilísticas etc. Evidentemente. mas crítica da literatura. pintura. Fernando Sabino. sendo conhecidos principalmente como cronistas: Rubem Braga. que comenta as disputas de tênis. do Verão = Romance. que põe em evidência a vida das pessoas ilustres. é necessário que a obra examinada seja relacionada com os dados de um quadro conceptual formado por referência indutiva a uma perspectiva do conjunto da literatura num determinado contexto histórico e espacial. CRONOS (deus do Tempo. música. Drama. Pertence a essa categoria a crônica histórica. Raquel de Queirós e tantos outros. Lírica). que o que se apreende não é literatura. dependendo do pendor do autor para o gênero lírico ou narrativo. fruto de convenções e gêneros. entre outros) e prosadores (Machado de Assis. artística: a narrativa do dia-a-dia) Do grego Krónos. o gênero “crônica” foi cultivado pelos melhores poetas (Carlos Drummond de Andrade. a crônica policial. relacionada com os mitos primordiais (mito da Primavera = Comédia. que repousa na teoria dos gêneros (Ëpos. Um bom exemplo nos é dado por Manuel Bandeira: POEMA TIRADO DE UMA NOTICIA DE JORNAL JOÃO GOSTOSO era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número. social. é preciso distinguir a crônica científica da crônica literária. cômico e temático). para que haja crítica. são profissionais que possuem um saber específico e usam uma metodologia científica em seu trabalho cotidiano. política. formal. Daí decorre que suas crônicas são ou poemas em prosa ou pequenos contos. qualquer tipo de crítica está sempre condicionada aos conhecimentos e à mundividência do sujeito pensante. Paulo Mendes Campos. colhendo o universal dentro do particular. uma crônica atinge o nível de arte literária somente quando consegue superar os limites da transitoriedade própria da notícia cotidiana. Especialmente no Brasil. a crônica é o registro de acontecimentos num tempo e num espaço determinados. escritores que se especializaram nessa forma sucinta de narratividade. não prescrever”.). Pensando assim. Mas. de jornalismo ou de comunicação. A maior ressalva que pode ser feita a esse sistema crítico proposto por Northrop Frye é que ele não considera a obra de arte como uma produção individual. que um poema é imitação de outros poemas. e que. Enfim. mas algo construído a partir de um cabedal cultural coletivo. fundamentada nos símbolos (fase literal. Em primeiro lugar. a crônica esportiva. cronologia) “Aprenda de ontem. do Inverno = Ironia. inclusive. que não existe aprendizado direto da literatura. por exemplo). .

cada qual englobando várias Épocas ou Períodos. E há muitas divergências também: tradicionalmente. podemos adotar como base a divisão tradicional da Literatura em três Idades (ou Eras). Barroco. que se repetem e ligam entre si vários momentos históricos. justiça. o Romantismo é realmente um “movimento” cultural. para outros é uma oposição à estética clássica. anacrônico. passando da idade “divina” período primitivo. o conceito de tempo está envolvido profundamente na nossa existência. bem como no triunfo dos valores que compõem a ideologia social (ordem. equivalente ao Tempus latino. correspondente ao superconsciente e subconsciente freudiano (Freud). Matemática. Arcadismo. mas alguns críticos recuam seu início até os primeiros documentos escritos nas línguas modernas (séc. em relação a um passado ou a um futuro. Média e Moderna) e as épocas culturais (grega. por ser a expressão dos anseios de um grupo social que acredita nos valores humanos e na possibilidade do conhecimento da verdade. Tal teoria explicaria por que nações de apurada civilização voltaram à barbárie (Egito. simbolista. podendo retornar outra vez à fase primordial. Alternância semelhante já fora intuída pelo filósofo napolitano Gianbattista Vico que. mas também uma revolução. fantástico. à margem das variedades de estilos e de significados que caracterizam cada período cultural. o termo diacronia e seu antônimo sincronia foram utilizados por F. realista. barroca. podemos discernir duas constantes. beleza. Mas é evidente que o conceito de diacronia pode ser aplicado a todas as áreas do conhecimento. que pode ser dividido em várias “épocas”: Renascença. que. subverter. Astronomia. O estudo diacrônico da cultura enfrenta problemas e controvérsias. dinheiro. por exemplo). poder. A definição de uma “época” é determinada apenas por uma sucessão temporal. No que toca a civilização ocidental. ora a motivos culturais (Renascença). medieval. de Saussure. sem critérios estéticos ou ideológicos definidos. Psicologia. ora a momentos históricos. Já o conceito de “movimento” é diferente do de época. morais e . uma revolta em relação aos cânones estéticos e aos conteúdos ideológicos do período anterior. que podem incluir uma década (geração de 30) ou um milênio (Idade Média). caracteriza um tipo de arte dialógica (pluralidade de vozes. modificar. Filosofia. para termos um parâmetro da evolução da cultura através dos tempos. renascentista. conservadora). cujo sema remete a remexer. para alguns. por exemplo. indica não apenas uma sucessão no tempo. do verbo “mover”. bondade etc. pois surge como manifestação consciente de oposição à concepção de vida e de arte do movimento anterior. alterar.). Com fundamento na oposição nietzschiana (Nietzsche) entre espírito “apolínio” (Apolo) e espírito “dionisíaco” (Dionísio). Mas. podemos verificar a existência de uma alternância de formas e conteúdos relacionados com o código “cultura” (exaltação do social) e formas e conteúdos relativos ao código “natureza” (exaltação do indivíduo). o Barroco. para explicar o caráter dos fenômenos da linguagem humana em sua evolução. Artes (Literatura e Cinema). amor. que se interessa apenas pelo objeto em si. que nos faz imaginar como real algo que é apenas a memória do que foi ou a expectativa do que poderá ser (tempo subjetivo). já o código natural. e assim vai. independentemente das teorias sobre sua natureza. Sua essência é indefinível. o Classicismo. contrariamente. pois não sabemos se existe independentemente da realidade exterior (tempo absoluto) ou se é apenas uma ilusão. De uma forma quase aleatória. modernista e contemporânea) serão analisadas em verbetes específicos. um produto da nossa consciência. sincrônico. que nos faz distinguir o “agora”. expressão da revolta do indivíduo contra a fixidez dos cânones estéticos e contra a opressão das injunções sociais. para a fase “humana”. mas cíclica. Do grego diá (“através de”) e Krónos (“tempo”). é uma continuação do Renascimento. Cabe aqui relevar. época de reflexão. Assim. romântica. com um olhar globalizante. ora a critérios puramente artísticos (estilo rococó). Mas as Idades (Antiga. A ele estão relacionados termos como diacrônico. apresenta a tese dos “cursos e recursos” históricos: a evolução dos povos não progride de uma forma linear.61 tenha esperança no amanhã” (Einstein) O Krónos grego. de racionalidade. independentemente do tempo e do espaço. tanto quanto a análise sincrônica ou estrutural. o pai da Lingüística moderna. o conceito de movimento. na sua obra Ciência Nova.XI). Diferentemente. sendo objeto de estudo de várias áreas de conhecimento: Mitologia. romana. ora se recorre a rótulos políticos (época elisabetana). pois nada está imune à ação do tempo. O código cultural caracteriza um tipo de arte que o crítico russo Mikhail Bakhtine chama monológica (uma voz só. a Idade Moderna começa com a Renascença (séc. é uma categoria da nossa mente. contestatória) ou “carnavalizada”.XV).

mas com uma terminologia diferente. devorava cada uma de sua própria prole ao nascer. sugere a idéia de um tempo que passa como manifestação de uma Presença que não passa. sincrônico. caindo no mar. No Modernismo encontraríamos a confluência das duas tendências. os seres espirituais. Sant’ Agostinho. A iconografia o representa com uma foice afiada. musical. informático etc. pode vencer o Tempo. Cronos simboliza o Tempo. ao definir o Tempo como “a imagem móvel da Eternidade”. O passado é o que persiste na nossa memória. automotivo. não compostos de partes. Nas Ciências: as diversas áreas do conhecimento científico utilizam a categoria do tempo conforme fins peculiares. que precederam o surgimento de Júpiter. então. Cibele resolveu dar um fim ao infanticídio sistemático. não o sei”.62 religiosas. Da mitologia para a sabedoria popular: Tempus fugit irreparabile (“O tempo foge sem retorno”). A integração dos três tempos. casado com a irmã Réia (Cibele). com quem começa a “história” da Mitologia grega. diacrônico. do idealista Platão ao existencialista Heidegger. no diálogo Timeu. a arma de que se serviu para cortar os testículos do pai Urano. Na mesma linha de pensamento. o pai de todos os deuses. O calendário ( Gregoriano) e o relógio são os instrumentos mais objetivos de que a ciência se serve para medir o tempo. Romantismo e Simbolismo. Assim. Filósofos posteriores chegaram à formulação de duas categorias temporais: 1) o tempo “absoluto”. com a consciência da realidade: a alma é a verdadeira medida do tempo. solar. herdadas da civilização greco-romana. filósofos e artistas “integrados” dos “apocalípticos”. a deusa da beleza e da paixão amorosa. que leva embora primeiro o que é mais bonito: “a rosa vive uma hora e o cipreste cem anos”. sem relacionar-se com qualquer realidade externa: é o tempo homogêneo de uma ordem matemática. cuja predominância se alternaria ao longo da sucessão das várias épocas: o espírito dionisíaco estaria mais presente na Idade Média. Os 365 dias do ano. universal. gramatical. tem como destino final a morte. diziam os antigos romanos. é bem salientada por Nicolau Maquiavel: “para predizer o que vai acontecer é preciso saber o que ocorreu antes”. Filho de Urano (Céu) e de Gaia (Terra). Neoclassicismo e Realismo. fluindo de uma forma constante e direcional. passado e futuro. Um . ricos e pobres. sei-o. Na Filosofia: a questão de definir a natureza da categoria “tempo” intrigou os melhores pensadores. em suas Confissões. imaginado como o fluir da existência de todas as coisas. Barroco. Na Mitologia: os gregos. então. Nasceu. duas linhas de força. as 24 horas do dia e os sessenta minutos da hora são exata e democraticamente iguais para todos. Arcadismo. enquanto o espírito apolíneo prevaleceria na Renascença. que é a morte. enganando o marido: ofereceu-lhe para comer uma pedra. quando mo perguntam. criaram o mito de Cronos (que deu origem aos termos cronologia. na tentativa de esconjurar o oráculo que predissera que ele seria destronado por um dos seus filhos. cronograma. Cronos (Saturno). a entidade impiedosa que devora o passado e começa sua implacável cavalgada rumo ao futuro. preexistentes à natureza. abrem-se e formam uma alvíssima espuma. Mas o fluxo da continuação do mundo é irrefreável: o sangue e o sêmen do deus Céu escorrem sobre a terra e sobre a água e mais uma vez a natureza é fecundada: suas genitália. em lugar do último fedo. E o poeta Milton constrói uma imagem belíssima a respeito da fugacidade do tempo. Umberto Eco distingue os cientistas. o futuro é a expectativa que temos dos eventos a partir da atenção sobre o momento presente. destronando o pai. do conservadorismo. da qual emerge Afrodite ( Vênus). relacionado com o espírito humano. atômico. mas sei-o só quando não tenho de dizê-lo: quando não mo perguntam. Zeus ( Júpiter) que. cronômetro. pois não depende de eventos físicos. temos o tempo sideral. os deuses. da qual só escapam os entes imateriais. se tornou o todo poderoso Senhor do Olimpo. 2) o tempo “subjetivo”. anacrônico). enquanto pura espiritualidade. reconhece que a noção do tempo é algo paradoxal: “Eu sei o que é o tempo. Ajudada por Gaia. forças misteriosas criadoras do Universo. na tentativa de explicar a sensação do tempo. O Tempo. filósofo e Padre da Igreja Católica. presente. A história da cultura no Ocidente apresentaria. que é eterno. Ele pertence às chamadas “divindades primordiais”. visceralmente ligado à materialidade. divindade correspondente ao latino Saturno. símbolo da fixação no passado. Apenas a Eternidade. Platão. atmosférico.

temporalidade e causalidade são dois conceitos que vão quase sempre juntos. velhice. da duração de um dado acontecimento no espírito da personagem. a temporalidade é um importante componente sintático-semântico de qualquer texto. em sua função de locutor. inverno. não é um tempo absoluto. entidades intratextuais. o sábio Salomão. perde sua pureza de passado e torna-se presente. em que se implicam os tempos do autor. as fronteiras do passado. segundos). anos inteiros de vida rotineira podem passar despercebidos. primavera. tarde. poucos instantes de felicidade ou de sofrimento podem perdurar na memória da personagem por um longo período de tempo e. O passado. um meio e um fim. portanto. porque é no momento que nasce o filho que o homem se torna pai. além de muito difícil. a ficção literária é uma arte predominantemente temporal: toda diegese pressupõe um começo. O tempo da enunciação pode ser linear ou sofrer inversões: é linear quando a narração segue a ordem cronológica dos fatos. O tempo do discurso é o tempo do plano da “enunciação”. O tempo psicológico. da história narrada. é necessário. É o tempo interior à personagem e a ela relativo. É um pouco como a relação entre pai e filho. A observação da passagem cíclica do tempo. de tempo do discurso só quando esse tempo está representado dentro da obra. do narrador. Nas Artes. Os valores cronológicos são regidos pelo princípio de causalidade: o hoc post hoc leva naturalmente ao hoc propter hoc. O tempo cronológico é aquele que é medido pela natureza. O relevo do aspecto temporal é mais importante para o estudo do narrador e do narratário. A relatividade do tempo do narrador e do tempo do leitor deriva do fato de que um pressupõe o outro e os dois tempos se complementam na instância do presente contínuo da enunciação. É pela categoria do tempo que se salientam as relações: passado-presente-futuro. que é um suceder-se de nascimento e de morte: todo amanhecer acaba num pôr do sol e este numa nova alva. O que resta. convergência do passado modificado pela memória e do futuro pressentido pelo espírito. que pode ser cronológico ou psicológico. Felizes são os homens que conseguem gerenciar seu tempo e tirar da sua transitoriedade o melhor proveito. pelo contrário. pois são personagens. Para fazer luz no emaranhado das várias determinações temporais. preocupadas em criar uma ilusão de realidade. distinguir o tempo do discurso ou da enunciação. As experiências intermediárias entre o evento passado e o momento da lembrança fazem com que esse passado não possa mais ser recuperado na sua integridade. Já o tempo da Fábula (Mito) é o tempo dos acontecimentos.63 dos Reis da antiga Israel. mensurável através de padrões fixos. tempo para trabalhar e tempo para descansar. revelada pelo aparelho formal da enunciação (Discurso). verão. em obediência à cronologia diegética. Assim. meses. não teria tanta relevância: seria pura curiosidade tentar saber quanto tempo levou o autor para escrever determinada obra ou se o leitor gastou um dia ou um mês para ler o texto. relativos e complementares: o tempo do eu que fala e o tempo do tu que ouve. o segundo. Enquanto as artes plásticas são espaciais. o narrador informa o leitor do início dos acontecimentos. sendo difícil distinguir um do outro. que implica na existência de dois momentos temporais. a narração começa pelo meio ou pelo fim e só mais tarde. Analisar o tempo do autor ou do leitor. é o ato da leitura que instaura o ato da escritura e vice-versa. das personagens e do leitor. primeiramente. especialmente na Literatura. O primeiro tipo de inversão temporal é chamado de “prolepse”: antecipação. Podemos falar. onde não há anterioridade de um sobre o outro. em proporcionar uma informação verossímil. porque se transformou pelo decorrer do tempo. das estações e da existência (manhã. o narrador apresentando-se como narrador. de um fato que. especialmente dos dias e das estações. e os mecanismos aspectuais: incoativo-durativo-terminativo. do presente e do futuro são abolidas. Os romancistas . no plano do discurso. é invertido quando o narrador nos diz antes um fato que aconteceu depois ou viceversa. de “analepse”: o início da trama não coincide com o início da fábula. minutos. fazendo cada coisa no tempo certo. a quem é atribuído a autoria do livro bíblico Eclesiastes. outono. juventude. do tempo da história ou do enunciado. tempo para amar e tempo para guerrear. é apenas o presente existencial. mormente em narrativas de grande coerência diegética. quer dizer. referente à sucessão dos dias. leva à reflexão sobre o sentido da vida. noite. porque é o tempo da percepção da realidade. dias) ou pelo relógio (horas. pessoas externas ao texto. mediante o recurso técnico-estilístico da retrospecção. do relato. morte) ou pelo calendário (anos. portanto. No tempo psicológico. só deveria ser narrado mais tarde. dizia que há tempo para tudo: tempo para plantar e tempo para colher. inversamente. Com efeito. no ato de ser rememorado. nascimento. Um romance é constituído por um complexo de valores temporais.

Essa técnica tem como recurso estilístico principal o chamado “discurso indireto livre” que se caracteriza. descreve. concepções e intuições. tempo mítico ou de origem. o uso do monólogo interior se alterna com o uso da descrição onisciente. tem a faculdade de associar uma coisa com outra coisa. monólogo interior indireto. analisa e comenta o que se passa na consciência da personagem. porque a presença real ou fictícia do espectador é um elemento insubstituível do gênero dramático. todavia. é relevante o emprego do solilóquio. mas não que essas técnicas sejam exclusivas e que não se encontrem nessas obras trechos que apresentam o uso da descrição onisciente. entre outros) foram influenciados. quer na sua função de ator que participa dos acontecimentos. tempo histórico. o “como” inclui as simbolizações. tanto seu quê quanto seu como. A diferença entre um romance convencional e um romance de fluxo de consciência reside no fato de que o narrador descreve idéias.64 que mais focalizaram o tempo psicológico (Proust. na técnica do monólogo interior indireto. Podemos apenas falar da preferência de um autor (e em determinada obra) para a utilização de uma técnica em lugar de outra. No solilóquio desaparece a interferência do narrador geral da narrativa que. funciona como elo de ligação entre personagem e destinatário implícito. pela completa adesão do narrador à vida interior da personagem. Em outras palavras. por exemplo. Entende-se por “consciência” a área dos processos mentais. Camus. de James Joyce. as sensações ou os sentimentos. faz parte do conteúdo mental ou será um processo mental?” Quanto às técnicas usadas na apresentação do fluxo da consciência. de outro. Muitas vezes. A Descrição onisciente é a técnica mais tradicional de focalização. O “que” inclui as categorias de experiências mentais: sensações. A memória. da imaginação e dos sentidos. sensações e acontecimentos não segundo a ordem do tempo cronológico. por exemplo. tempo discursivo. relacionada à primeira por elementos conjuntivos (semelhanças) ou por elementos . lembranças. A forma lingüística que o distingue é o uso da primeira pessoa do singular e a "visão" que temos dos estados psíquicos é “com” o ator: percebemos fatos e sensações exclusivamente através dos olhos dessa personagem. que distingue uma narrativa de fluxo de consciência de outra tradicional: a “livre associação psicológica”. a passagem entre várias categorias temporais (presente-passado-futuro. à sua maneira. Numa narrativa de fluxo de consciência. É lícito afirmar. mas como se passam na psique de uma ou mais personagens. ao estado puro. que funciona como narrador de seu estado de espírito. a tela sobre a qual se projeta o material romanesco. O crítico Robert Humphrey ( O fluxo da consciência) releva que “o campo da vida com o qual se ocupa a literatura do fluxo da consciência é a experiência mental e espiritual. pela filosofia intuicionista de Bergson (especialmente pelo seu conceito de durée) e pelas teorias psicanalíticas. De qualquer modo. enquanto o “fluxo” é o caminho de um estado psíquico para outro. é impossível distinguir o que do como. É a descrição da vida interior. Virgínia Woolf. solilóquio e descrição onisciente. com suas incoerências e anacronismos. em relação ao decorrer do tempo do mundo exterior. Há um narradorobservador que sabe tudo a respeito de todos e descreve. que procuram tratar as neuroses pelo retrocesso ao “tempo de origem”. e a comunicação se estabelece diretamente entre ator e público. O Monólogo interior indireto diferencia-se do primeiro pelo fato de que a psique da personagem é desvendada pela intervenção do narrador que. quer na sua função de narrador que conta a história. predomina a técnica do monólogo interior e que em Enquanto agonizo. A consciência. Na narrativa de “fluxo da consciência” a personagem de ficção. podemos ter um solilóquio (o ator que fala sozinho). que no Ulisses. Na representação de uma peça teatral. pela liberdade expressiva do narrador e. O Monólogo interior direto dá-se quando a personagem apresenta o conteúdo da sua consciência sem a interferência do narrador implícito e sem presumir a existência de um destinatário. de William Faulkner. imaginações. o mesmo autor aponta quatro tipologias básicas: monólogo interior direto. em terceira pessoa. de um lado. que nenhuma das técnicas expostas se encontra. evidentemente. que pode ter como material as idéias. a personagem fala de seu mundo interior pela boca de outra personagem. mas nunca um monólogo. o íntimo das personagens. pode ser afetada pelo tempo psicológico. é preciso salientar o elemento comum. seja qual for a técnica usada. por exemplo. Devemos observar. O Solilóquio é diferente do monólogo interior pelo fato de que a personagem que narra se dirige formalmente a um destinatário ou admite implicitamente a presença de um público. através da memória. num texto literário. Joyce. Clarice Lispector. tempo diegético). os sentimentos e os processos de associação. ao tempo em que um acontecimento qualquer se fixou no subconsciente e causou um complexo.

os soldados dos exércitos cruzados. morto no ano anterior. o todo em perspectiva. eduque o povo” . influenciados pela incipiente física quântica e pela teoria da relatividade (Einstein). se são para toda vida. amigo íntimo de Picasso. se são para dez anos. Enquanto o Impressionismo procurava apreender a realidade “tal como a vemos”. instrumento de madeira onde se pregavam os condenados à morte. O primeiro núcleo de pintores cubistas foi composto pelo encontro de Braque e Picasso. CUBISMO (corrente artística) Vanguarda. estilhaçada. Enquanto introduziam estruturas feudais nos Estados maometanos. Van Gogh. dando uma visão do real fragmentada. apresentou uma retrospectiva da obra do pintor Cézanne.65 disjuntivos (contrastes). numa exposição de 1908. O alvo principal de expulsar os mouros de Jerusalém. Cidadania. Cézanne afirmava que a arte devia “reconstruir a natureza através do cilindro. René Magritte. O termo “cubismo” foi inventado por Matisse. O nome se explica porque os guerreiros cristãos se distinguiam pelo emblema de uma grande cruz estampado no peito. Picabia. cuja teoria poética influenciou autores europeus e brasileiros. Os cubistas. Mas. adorado na cidade de Jerusalém. que inclui a noção do tempo dentro do espaço. Pisa e Veneza. o Salão de Outono. de tal forma que cada lado de um objeto. começam a representar o objeto de um ponto de vista alternativo. especialmente cinematográficas. ocupada pelos turcos em 1077. difundiam no Ocidente a cultura literária e artística dos bizantinos e dos árabes. desenvolvendo um intercâmbio comercial regular com o Levante. se dirija para um ponto central”. CRUZADAS (luta entre cristãos e mouros)Medievalismo Do latim crux. O Cubismo literário apresenta um tipo de poesia em que a realidade é fracionada e expressa através de planos superpostos e simultâneos. o passo é breve. reconstruindo ambientes e costumes daquela época histórica e lendária (Medievalismo). os cruzados estabeleceram um florescente comércio entre os povos da Europa e do Oriente Médio. não foi atingido. mas as grandes expedições tiveram uma importância fundamental do ponto de vista cultural e econômico. da esfera. Esse chamamento psicológico forma uma cadeia cujos elos são ligados por uma coerência interior. Gauguin) já contestara a perspectiva euclidiana. o que ocorreu após a passagem do primeiro Milênio da história ocidental cristã. Picasso Do nome da figura geométrica “cubo”. em Paris. ao observar quadros de Braque. através da percepção. Férnand Léger. o Cubismo tenta apresentar a realidade “tal como ela é”. ocorreram oito Cruzadas. A importância foi tanta que alguns estudiosos consideram as Cruzadas como a causa principal do primeiro Renascimento da Europa. de um plano. O maior poeta desta tendência é Apollinaire. quando de sua volta. CULTURA (Educação. de uma forma definitiva. Gênova. desarticulando a forma e reduzindo-a a elementos puramente geométricos. O Impressionismo (Cézanne. Rompendo o cerco muçulmano no mar Mediterrâneo. como se o mundo estivesse sendo visto através da refração de muitos espelhos. o culto do objeto vai conduzir à destruição do real: a análise e a decomposição sistemática do objeto. Numa sua carta. De 1096 a 1270. de vários lados. Foram chamadas “Cruzadas” as expedições militares promovidas pelo papado de Roma com o fim de libertar o Santo Sepulcro de Cristo. título também de uma revista. do cone. independente das leis que regem a causalidade do mundo exterior. Em 1907. afastam a arte da verdade da aparência. Seus trabalhos principais são: Calligrammes (poemas que antecipam a nossa poesia “concreta”) e L ‘esprit nouveau (ensaio crítico). Do Cubismo ao Abstracionismo (a completa ausência de figurativismo). chefiadas por príncipes de Estados cristãos da Europa. que provocara o isolamento dos Estados europeus por cinco séculos. As Cruzadas continuam sendo fonte de inspiração para obras literárias e artísticas. Sociedade)ConhecimentoTrabalho “Se seus projetos são para um ano. plante a árvore. Realmente. Juan Gris. se tornaram as primeiras potências econômicas da Era medieval. isto é. semeie o grão. no afã de captar a estrutura profunda das coisas. imitados em seguida por Piet Mondrian. pela qual a realidade só pode ser apreendida de um ponto de vista único. A visão cubista faz ver “simultaneamente” aquilo que através da visão natural só poderia ser visto sucessivamente. este movimento da Vanguarda européia está mais relacionado com as artes plásticas. foi a primeira revolução comercial. Marc Chagall. paradoxalmente. de que se beneficiaram principalmente as cidades marítimas italianas. chamados de “espiritonovistas”.

66

(Provérbio oriental) O sábio grego Sócrates dizia: “é preciso bem conhecer para bem agir”. O conhecimento é fundamental para o progresso social. A “informação” tem que levar ao “conhecimento”, este à “sabedoria”, terminando na “ação” adequada. De um modo geral, o termo “cultura” indica um conjunto de conhecimentos que enriquecem o espírito, apuram o gosto estético e desenvolvem o espírito crítico. Tal significado tem muito a ver com o sentido de outros significantes: cidadania, educação, instrução, trabalho, nação, sociedade, povo, civilização. Por baixo de diferentes etimologias pode ser encontrada uma semelhança semântica, que diz respeito ao modo de viver em sociedade. A palavra cultura vem do latim colere (“lavrar”), cultivar o campo que, nas línguas românicas, passou a indicar também cultivar a mente, adquirir conhecimentos através da “instrução”. Educação, do latim educationem, substantivo do verbo educere (e+ducere = “levar para fora”, fazer nascer, criar). Cidadania vem dos cognatos latinos civis, civitas, civitatanus, relacionados com o conceito de “cidade”, o reduto social que oferece a seus membros vários direitos, especialmente o de escolher seus governantes através do voto democrático: c ivis romanus sum (“sou um cidadão romano”) dizia orgulhosamente quem gozava dos privilégios da cidadania da antiga Roma, diferenciando-se dos escravos e dos estrangeiros. À cidadania está ligado o conceito de “Nação” (de nationem, relacionado com o verbo nascere = nascer), de “Povo” (de populum, o habitante do mesmo lugar, que fala a mesma língua e tem os mesmos costumes) e de “Civilização” (de civilis, civilitatem, do mesmo étimo de civis, o conjunto das características próprias que identificam a vida econômica, intelectual e moral de certas sociedades). Civilização é autocontrole. A repressão dos impulsos individuais é indispensável para viver em sociedade. Não sempre o que se deseja é bom para nós. Às vezes é até prejudicial. De outro lado, viver em sociedade implica numa renúncia de parte da liberdade da personalidade individual. É o preço que se deve pagar para gozarmos dos benefícios que a vida em sociedade nos proporciona. A sociedade humana passou por diversos ciclos de cultura, que a levaram a profundas transformações: nômade, agrícola, guerreira, comercial, industrial. Atualmente vive sob a égide da tecnologia, baseada na cultura da informação, que se tornou fundamental para o progresso: quando não há informações precisas, não pode se chegar a lugar algum. Mas apenas a informação é insuficiente: os dados adquiridos devem ser estudados, interpretados, para se chegar ao verdadeiro conhecimento, o saber que transforma a realidade, adaptando-a às sempre renovadas necessidades. Os diplomas obtidos por ter freqüentado cursos universitários, em si, não são suficientes, não garantem emprego algum. Como disse Benjamin Franklin, “um idiota letrado é muito mais idiota que um ignorante”, ou, segundo afirmou Paul Valéry, “não hesito em declarar: o diploma é o inimigo mortal da cultura”. O que se pede é inteligência e, sobretudo, competência, que se adquire pelo esforço do aluno em acompanhar o conteúdo das aulas com leituras e pesquisas em casa ou em bibliotecas. A relevância da leitura para a formação da personalidade individual é assinalada pelo poeta Mário Quintana, por um jogo de palavras: “livros não mudam o mundo; quem muda o mundo são as pessoas; os livros só mudam as pessoas”. É tão importante o estudo a domicílio que alguns países mais avançados estão instituindo a prática da Homeschooling: o ensino doméstico, ministrado por familiares e professores particulares, substituindo a escola pública, para melhorar a qualidade da aprendizagem, evitar o contato com gente de baixo nível e esconjurar o perigo do uso de drogas. A prática da educação em casa começou com o movimento hippies (Liberalismo), na década de 1960, que defendiam um tipo de ensino livre do sistema educacional conformista. A filosofia e a ética hippie surgiram em oposição à “Era da Repressão”, que até então dominara na educação da juventude. As bandeiras “Paz e Amor”, “Faça o Amor e não a Guerra”, “Faça o que quiser desde que não faça mal a ninguém” e semelhantes introduziram a “Era da Permissividade”. Pena que o ideal de liberdade praticado pelo modo de vida dos hippies tenha descampado para o uso da droga e da vagabundagem. Faltou acrescentar o item Trabalho à Paz e ao Amor. Não é justo que gente adulta tem que viver às custas do trabalho de outros. Seria uma nova forma de escravidão. O homeschooling, mais tarde, foi adotado por grupos de cristãos fundamentalistas, que queriam preservar valores morais e religiosos. Hoje, a educação em casa é um sistema de aprendizagem reconhecido pela maioria das Universidades inglesas e americanas, especialmente após a difusão dos sites de busca e das Universidades Livres via eletrônica pela Internet ( Informática). Mas, apesar dos sucessos obtidos, o ensino caseiro deve ser visto apenas como uma alternativa possível em alguns grupos

67

sociais privilegiados. A educação pública é insubstituível na maioria das sociedades, especialmente as mais pobres, pois estimula a ajuda mútua e o espírito corporativo, além da competição. Deve-se, isso sim, melhorar o ensino público, porque está comprovada uma estreita relação entre o nível educacional e o desenvolvimento econômico de regiões e países. Já os antigos romanos diziam: “non scholae sed vitae discimus” (devemos aprender para a vida e não para a escola), pois não adianta passar de ano, tirar um diploma e não saber nada. Fundamental é criar o hábito da leitura em casa, o meio insubstituível da aprendizagem pois, no dizer de do dramaturgo Ionesco, “a inteligência é como ferro; sem usar, enferruja”. Como afirma o escritor japonês Hateiva, “não há artesão sem ferramentas, nem sábio sem livros”. O que realmente importa, dá satisfação e recompensa monetariamente é a competência, o know hou, o saber como fazer alguma coisa. Educação, Trabalho e Economia são três fatores diretamente proporcionais: sem um bom nível de escolaridade não se consegue nenhum emprego decente e sem uma boa profissão não se ganha dinheiro honestamente. É um fato documentado por várias estatísticas que o crescimento econômico está ancorado na educação, haja visto que as nações mais desenvolvidas são as que mais investem em escolas, esportes, artes, na cultura física e intelectual de seus cidadãos, especialmente das crianças. Para se chegar à “sociedade do conhecimento” faz-se necessária uma “educação continuada”. Ninguém pode parar de se atualizar, devendo usar qualquer meio a sua disposição: cursos de pós-graduação, de reciclagem, de aperfeiçoamento profissional; acompanhar os progressos das ciências e das artes através da leitura de jornais e revistas; participar de congressos e exposições; assistir filmes, peças teatrais, bons programas televisivos; recorrer a sites de busca da Internet para obter mais informações culturais; não dispensar a orientação de docentes e pesquisadores especializados nos vários assuntos; e, sobretudo, ler muito, mesmo sob a forma de autodidatismo, pois a leitura, além das viagens, é o meio mais estimulante para a reflexão sobre a vida. Um ditado japonês ensina: “o pai que quer bem ao filho, o faz viajar”. Se não puder aprender diretamente através de viagens, que leia pelo menos! Se uma sociedade quer ver seus sonhos realizados deve promover a educação do seu povo, pois o bem-estar, individual ou coletivo, está na dependência de uma contínua aprendizagem. Ter um nível intelectual alto não está relacionado necessariamente com o emprego conseguido: nos Estados Unidos há universitários dirigindo táxi ou servindo em lanchonete; na Europa é comum uma moça fazer um curso universitário apenas para adquirir mais cultura, o que lhe permite ajudar os filhos a fazer suas tarefas de escola, compreender melhor as pessoas e a realidade em que vive, sentir a importância de uma obra de arte. Isso é civilização! A essência da educação de um povo reside no estudo das humanidades para desenvolver idéias, sentimentos e espírito crítico, além de qualquer objetivo prático. Mas é claro que inovações tecnológicas e temas atuais de física, biologia e genética não podem ser descuidados, devendo ser ensinados também nos chamados “departamentos de humanas”. Não faz mais sentido estabelecer barreiras entre as várias ciências e as artes. Um cientista sem cultura geral pode ser tão nocivo à sociedade quanto um humanista sem nenhum conhecimento científico. A escola pública e privada, nas várias áreas e nos vários níveis (não apenas no universitário), tem a função de fazer a cabeça do aluno e do cidadão, estimulando a curiosidade, o livre pensamento, a atividade criadora e julgadora. As seguintes perguntas do poeta e crítico T.S. Eliot indicam a necessidade da seqüência lógica, seguindo a linha informaçãoconhecimentosabedoriavivência: Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação? O polêmico historiador norte-americano David Landes, no seu livro A Riqueza e a Pobreza das Nações (1998), retoma, de uma forma mais ampla e fora do conflito religioso, a tese já clássica de Max Weber (1864-1920), exposta na famosa obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (Lutero). Para os dois estudiosos, a disparidade de crescimento entre os diversos países dos vários continentes tem como causa fundamental a falta de cultura e do espírito de trabalho. Com efeito, a análise histórica da decadência de civilizações outrora florescentes (Egito, China Imperial, Europa medieval, Islamismo atual) apresenta como elementos comuns determinantes, além do baixo nível do ensino público, os costumes

68

conservadores, a projeção da felicidade humana no além-túmulo, a falta de liberdade e de democracia, o espírito quietista e contemplativo, o desestímulo ao progresso e à criatividade. Os países que, deixando de lado o absolutismo fetichista, ignorante e supersticioso, de deuses e reis, investiram maciçamente na educação e na cultura de todas suas camadas sociais, com liberdade e democracia, estimulando a criatividade e o trabalho, atualmente são os mais desenvolvidos: USA, Japão, Alemanha e outras nações européias. No fritar dos ovos, só uma forte cultura laica e democrática pode levar a um desenvolvimento social, econômico e artístico, que possa ser duradouro por atingir a grande massa de um povo. E uma Nação, sozinha, não consegue alcançar o ideal de propiciar a felicidade a seus cidadãos, se estiver circundada de povos incultos e economicamente subjugados, pois seu poderio vai semear ódio e vingança, provocando guerras e terrorismo. O pesquisador americano Samuel Huntington, pelo influente livro O Choque das Civilizações, publicado em meado dos anos 90, é considerado o profeta da era moderna, pois parece ter previsto o desastre de 11 de setembro de 2001, quando o terrorismo islâmico derrubou as Torres Gêmeas de Nova York, ao escrever que haveria um choque iminente entre o Ocidente e o mundo muçulmano. Ele identifica oito tipos de civilização contemporânea: a chinesa, a japonesa, a islâmica, a russa ortodoxa, a ocidental, a latino-americana, a africana e a indiana. A que domina o mundo, atualmente, sem dúvida, é a Ocidental, que engloba os Estados Unidos da América do Norte e a maioria dos países europeus mais avançados. E também não há dúvida de que esta é a civilização mais progressista, pois fundamentada em princípios sólidos, herdados das instituições constitucionais que se sucederam à Revolução Francesa: democracia liberal, mercado livre e forma de governo laico. Através do processo de Globalização, a civilização Ocidental tenta impor sua cultura aos outros povos. O exemplo é o milagre da Comunidade Européia. No dia 1º de maio de 2004, mais uma dezena de países do Leste do Continente aderiram ao Mercado Comum, totalizando 25 nações que aboliram fronteiras e moedas. Mas, no Oriente Asiático, a missão é mais difícil, pois modernizar civilizações implica na perda da identidade cultural e religiosa de povos que têm tradições milenares. A mais problemática é a civilização islâmica pela sua extensão territorial, pela massa populacional e, sobretudo, pelo imenso poder que a Religião muçulmana exerce sobre o governo do Estado. E a história nos ensina que todo o regime teocrático é “involutivo”, pois qualquer tipo de “fundamentalismo” é retrógrado, impedindo o livre exercício da liberdade e da criatividade. Veja-se, por exemplo, o atraso em que ficou a Europa durante a era da dominação cristã, do séc. V ao XI. É impressionante constatar que por mais de seiscentos anos, afogada a cultura greco-romana, nenhum país europeu produziu um filósofo, um cientista um artista, sequer! Alguém conhece algum homem ilustre que viveu durante esses longos seis séculos? Não é uma vergonha para a Humanidade? (Medievalismo) O fanatismo religioso, de qualquer credo, é a perene causa da guerra, da injustiça, da miséria, da ignorância e da escravidão ética e econômica de um povo. Deus está muito bem no Céu, mas, quando desce na Terra e assume o poder público pelas mãos de padres, pastores, talibans ou aiatolás, é uma desgraça cívica, na certa! Infelizmente, a maioria das culturas religiosas, enraizada em tradições seculares, impõe um tipo de vida que contraria a própria natureza, tolhendo ao homem o seu dom mais precioso, o de pensar e agir livremente. Como afirmou Marcel Proust, “a persistência de um costume está, geralmente, em relação direta com o seu absurdo”. É desalentador constatar como a cultura de massa generaliza a imbecilidade! O que nos chamamos de vida social ou de moral burguesa, no fim, é uma grande hipocrisia que, o que é pior, nos faz viver numa estado de infelicidade no maior tempo de nossa existência.. Stendhal definiu a sociedade como um “ignóbil baile de máscaras”. Quem sabe, um dia, o homem aprenda a fazer correto uso da sua racionalidade e crie uma sociedade onde predomine o bom senso, fundamento de um possível viver em tranqüilidade! CUPIDO (deus do Amor, filho de Afrodite)Eros Psiquê Vênus CYRANO de Bergerac (peça teatral de Edmond Rostand) Refletir é desordenar os pensamentos... Eu não tenho verdades, somente convicções. (Rostand)

69

Edmond Eugène Alexis Rostand (1868-1918), poeta e dramaturgo francês, representa a reação neo-romântica ao teatro naturalista. A obra que o tornou internacionalmente famoso foi Cyrano de Bergerac. O personagem-título é uma adaptação teatral de uma figura histórica, um homônimo que viveu na época barroca, soldado e poeta, que adquiriu fama pelo seu nariz descomunal e pelas suas Cartas de amor. Rostand faz de Cyrano um herói tipicamente romântico, com nuances de cavaleiro medieval: gentil, de nobres sentimentos, apreciador do amor sincero, da amizade, do altruísmo, que luta contra a covardia, a hipocrisia, a opressão dos poderosos. O centro romanesco: Cyrano, homem maduro e com um nariz enorme, ama a linda Roxana, sua prima. Mas ela está mais ligada na beleza do jovem Cristiano, amigo de Cyrano. Só que o rapaz não possui a arte de seduzir as mulheres, pois lhe falta o brilhantismo verbal, os ditos inteligentes e espirituosos, que tanto encantam Roxana. Cyrano, então, renuncia ao seu amor pela prima em favor do amigo, ensinando-lhe como conquistar o coração da jovem. O plano tem pleno êxito: Roxana se apaixona pelas belas palavras e pelas cartas inflamadas de Cristiano que, na verdade, são de autoria de Cyrano. Somente no fim da peça, anos depois da morte do marido Cristiano, Roxana vai perceber a nobreza de sentimentos e o amor profundo que seu primo sentira por ela. Mas é tarde demais: Cyrano também morre, vítima de um ferimento. Esta peça teve, tem e continuará tendo grande sucesso de público, pois o personagem-título simboliza o que poderíamos chamar de “romantismo eterno”. O sentimento profundamente altruísta da renúncia do próprio amor, ajudando o rival a conseguir o afeto da jovem, objeto do seu próprio desejo, encanta a vasta camada de público que gosta de ver projetado no palco, como na tela do cinema ou da televisão, a imagem do ser humano idealizado, capaz de sublimar seus instintos. Acrescente-se ainda que um motivo tão sublime é tratado sem nenhum pedantismo ético ou religioso, mas com um tom alegre, divertido, pois a feiúra do nariz de Cyrano contrasta com a beleza de seu coração e de seus ditos espirituosos. A peça Cyrano de Bergerac teve a melhor adaptação cinematográfica com o nome de Roxanne (1987), com direção de Fred Schepisi e interpretação de Steve Martin, Daryl Hannah e Rick Rossovich. DADAÍSMO (movimento estético do Modernismo europeu)Vanguarda O movimento artístico da vanguarda suíça, que ocorreu entre 1916 e 1921, teve seu nome “dadá” (as primeiras sílabas faladas por uma criança) escolhido ao acaso, quando Tristan Tzara abriu o dicionário Larousse, no cabaré “Voltaire” de Zurique. Ele e outros intelectuais e artistas, revoltados contra os horrores da I Guerra Mundial, tentaram substituir a cultura do passado por algo de novo, sem saberem exatamente o que fosse. O movimento se caracterizou por um cunho fortemente anárquico, expressando a rebelião da geração jovem contra os poderosos círculos internacionais e a burguesia acomodada. Foi uma tentativa essencialmente contestatória, antiarte por excelência pois, através de arruaças, exposições extravagantes, agitações anárquicas, banquetes excêntricos e tumultuados, os dadaístas gritavam a sua trágica revolta, ridicularizando tradições e valores institucionalizados. A única norma estética era a “lei do acaso”, apregoando a poesia e a pintura automáticas: faziam poemas remexendo alguns recortes de jornais no fundo de um chapéu; misturavam tintas sem nenhum critério; convidavam os visitantes de suas exposições a quebrarem os quadros à vontade, pois achavam que não tinham nenhum valor eterno; choravam nas cerimônias nupciais; davam risadas durante os enterros; enfim, pregavam e praticavam o mais absoluto inconformismo. Da Suíça o movimento se espalhou para o mundo, sendo cultivado especialmente em Nova Iorque, onde expuseram seus objetos Picabia, Man Ray e Duchamp, e em Paris, conseguindo a adesão, no campo literário, de André Breton. Mas este poeta francês logo renegou o Dadaísmo por achar que não levava a nada e, em 1921, deu origem à corrente surrealista (Surrealismo). DAFNE (e Dáfnis: o mito da virgindade glorificada e a origem do loureiro) Em grego, a palavra dafne significa “louro” e, por ser uma planta que permanece verde no inverno europeu, passou a simbolizar a “imortalidade”, adquirida pela “glória”. Consagrada ao deus Apolo, suas folhagens eram usadas para coroar os heróis das guerras e dos esportes, os poetas e os sábios. Na origem das crenças e dos cerimoniais está o mito de Dafne, que teve várias versões, mas que, na sua essência, pode ser reduzido à seguinte história ficcional: uma jovem e bela ninfa consagra-se a Diana, deusa da virgindade, fazendo voto de renunciar ao amor e ao casamento. Mas o deus Apolo se apaixona por ela e a persegue, tentando convencê-la a ceder à paixão amorosa. Ela resiste, se esconde, foge, até que, quando

70

está para ser violentada, Júpiter intervém e a transforma em loureiro. Triste e arrependido, Apolo consagra o vegetal ao seu culto. A lenda da jovem Dafne, na mitologia grega, tem um correspondente masculino: Dáfnis, um semideus siciliano, abandonado pela mãe num bosque de loureiros consagrado às ninfas. Estas ensinaram ao belo rapaz como pastorear, Apolo o instrui na arte de tocar flauta e a deusa Diana o treinou para a caça. Os mitos de Dafne e de Dáfnis estão entre os mais explorados, junto com os de Orfeu e de Édipo. Encontramo-los em várias manifestações artísticas da cultura ocidental: Literatura, Teatro, Dança, Artes plásticas, Cinema. A fábula de Dafne aparece na Grécia, documentada a partir do séc. III a.C. Uma das primeiras narrativas ficcionais em prosa da língua grega é o romance pastoral Dáfnis e Cloe, de autoria de Longo (Longus em latim e Lóggos em grego). O poeta latino Virgílio faz várias referências ao mito de Dafne na Eneida e nas Bucólicas; mas é o lírico romano Ovídio, o poeta do amor, que, em suas Metamorfoses, melhor dramatiza a história de Dafne, dando-lhe inclusive alguns toques de volúpia: o vento levanta sua roupa durante a fuga, como que para mostrar melhor seus encantos ao perseguidor. A partir do fim da Idade Média, mas especialmente ao longo do Renascimento, Barroco e Arcadismo, a figura de Dafne é cristianizada, chegando a ser identificada com a Virgem Maria, fecundada por Deus e continuando Imaculada. Dafne é a eterna configuração do amor que, não sendo satisfatória sua realização ao nível carnal, se transfigura e atinge a imaterialidade, a eternidade. É a representação da mulher angelical que resiste ao assédio sexual, pois quer que o homem amado a deseje num outro nível, o espiritual. É a mulher sonhada pelos poetas provençais (Trovadorismo), é a Laura de Petrarca, a Beatriz de Dante, a Dulcinéia de Cervantes. DALI, Salvador (pintor espanhol)Surrealismo DANÇA (clássica, moderna, de salão, sapateado, biodança)Música Uma úlcera é uma dança não dançada, uma aquarela não pintada, um poema não escrito (Jonh Ciardi) O étimo é do antigo francês dancier, atual danser, enquanto os termos afins baile e balé derivam do verbo latim ballare. Os gregos usavam o verbo orkeomai , cognato do substantivo “orquestra”, para indicar a ação da dança que, na sua essência, é a linguagem do corpo, resultando da soma de duas artes: Coreografia e Música. Mas ela estabelece relações com outras artes também: com o Teatro , pela representação cênica (o dramaturgo sueco Strindberg intitula uma sua peça A dança da morte, em que põe em cena o “vai-vem” monótono da vida conjugal, que torna marido e mulher dois adversários mesquinhos e sórdidos); com o Cinema, especialmente os filmes musicais, dancings, sapateados; com o show artístico e folclórico, com a Pintura (o quadro mais famoso com o título “A Dança” é de Henri Matisse), a Escultura (o modelo em gesso, de Jean-Baptiste Carpeax, também chamado “A Dança”). Fora do campo das artes plásticas, a dança estabelece uma relação profunda com a Religião, especialmente nas suas formas primitivas e rituais dos grupos tribais e nos cerimoniais sagrados orientais. A dança é uma das artes mais presente nas manifestações culturais de todos os povos e em todos os tempos. A universalidade do uso da dança talvez encontre sua explicação no inconsciente coletivo, simbolizado pelos gregos através do mito do andrógino: o irresistível desejo da volta à primordial conjunção do ser masculino e feminino, separados por vontade de Júpiter. Na dança, especialmente em suas modalidades mais sensuais, o homem e a mulher se entrelaçam, tentando reconstruir a perdida unidade. Nos povoados primitivos a dança, praticada muito mais do que nas sociedades civilizadas, funciona como uma espécie de terapia ocupacional, uma fuga da monotonia do cotidiano e, sobretudo, um aprendizado, pois ritos, ritmos e coreografias servem como iniciação nos mistérios da vida, representando fertilidade, casamento, guerra, morte. Mesmo nas sociedades aculturadas, a prática da dança, especialmente a de salão, tem seu aspecto educativo. Como afirma Stephen Kanits, há trinta anos (anteriormente à moda da música de discoteca), os adolescentes escolhiam seu par em bailes de salão organizados por clubes ou igrejas. Nestes bailes, as moças acabavam conhecendo o caráter dos futuros maridos pelo modo como o jovem conduzia a parceira, planejava o rumo dos passos, lidava com o fracasso, quando um pisasse no pé de outro. O olho no olho, o carinho do toque, o cheiro da pele, o romantismo da música e das letras estimulava a atração física e espiritual.

71

A dança, como qualquer outra atividade humana, evidentemente, evoluiu ao longo dos tempos, adquirindo várias denominações: primitiva, religiosa, folclórica, de salão, de corte, latina, caribenha, carnavalesca etc. Ela é praticada por diferentes ritmos e movimentos, nas várias modalidades. Uma importante divisão é feita entre dança “clássica” e dança “moderna”. Até o início do do século XX, paralelamente às formas populares de bailado, era cultivada a chamada dança clássica, de escola ou de salão, rigorosa quanto aos ritmos, à coreografia, aos calçados e às vestimentas; até que a dançarina norteamericana, de origem irlandesa, Isadora Duncan (1878-1927), revolucionasse o conceito de dança, libertando esta arte das amarras dos modelos rígidos ensinados especialmente nas escolas francesas de “La Belle Époque”. Duncan, retomando o modelo da dança primitiva da Grécia, vestida com uma simples túnica, descalça, movimentava-se ao som de músicas que não tinham sido compostas especificamente para a dança. Nascia, então, a dança “livre” ou moderna, sem nenhuma regra fixa quanto a ritmo, movimento ou coreografia. Portanto, a tipologia contemporânea da dança apresenta três macro-gêneros, cada qual com suas variadas espécies: l) a dança popular ou folclórica; 2) a dança clássica; 3) a dança moderna. Evidentemente, tal divisão, como qualquer classificação, é apenas didática, nunca rígida, podendo-se encontrar formas intermediárias ou misturadas. Eis uma pequena revista dos principais ritmos de danças e bailados: Sapateado: dança de origem espanhola, mas que chegou à glória máxima nos EUA ( tap-dance) com o teatro de vaudeville, o showbiz e o cinema de Fred Astaire. Sua característica é marcar o ritmo musical com a ponta e o salto dos sapatos, às vezes munidos com chapas metálicas. Um personagem do filme de Fellini Ginger & Fred afirma, com uma boa dose de sarcasmo, que a origem do sapateado está no sistema de comunicação entre os escravos que trabalhavam nos algodoeiros americanos. Eles usavam as batidas dos pés como uma linguagem secreta, uma espécie de alfabeto Morse, para não serem entendidos pelos patrões, fazendo do sofrimento um show. Habanera: de Havana, era um bailado afro-cubano que, com seu compasso binário, tendo o primeiro tempo fortemente acentuado, influenciou a maioria das danças populares dos países ibéricos e hispano-americanos, especialmente o maxixe (dança carioca da década de 1870-1880, substituída pelo samba), a milonga e o tango. Bolero: dança e canto de origem castelhana, tradicionalmente acompanhada de castanholas, guitarras e tamborim. Na sua versão mexicana, o bolero começou a ser cultivado em toda América Latina, a partir do início do séc. XIX. Na da década de 20, com o surgimento da primeira fábrica de discos, o bolero mexicano invadiu o mercado da música latino-americana. Forrô: o étimo mais aceito é do inglês for all (“para todos”). No Nordeste brasileiro, os donos de engenhos e outros ricaços estrangeiros, após suas festas, liberavam os terreiros para os escravos e outros serviçais se divertirem, bailando ao ritmo da sanfona, zabumba e triângulo O ritmo popular, dançado nos pés-de-serra, se urbanizou e do Nordeste se espalhou pelo país todo, sendo hoje em dia a música mais tocada nos bailes de salão, especialmente durante as festas juninas. Mambo: do zulu im-amba (“cobra”), o mambo é uma dança de origem cubana. O ritmo é mistura de rumba (outra dança cubana de origem africana) e de swing (“balanço”), também chamado de soltinho, uma qualidade rítmica do jazz norte-americano em voga na década de 40, chamada a “era do swing”, tocado pelas big bands. Neste tipo de bailado bem sensual, o compasso de 2/4 é realçado pela percussão e pelo jogo dos quadris, alternando o lado. Milonga: o étimo é de origem africana, a língua falada pelos Quimbundos, indígenas de Angola, que chegaram na baia do rio de La Plata, nos fins do século XIX, morando nos subúrbios de Buenos Aires e Montevidéu. O sentido primitivo de milonga é “palavra”, daí a expressão em língua portuguesa “deixa de milongas”, de palavreado longo, vazio, mentiroso. Mas milonga significa também um canto platino dolente ao som do violão e uma dança em ritmo binário, uma mistura de habanera e tango andaluz que, embora ofuscado pelo tango argentino, ainda tem seus cultores. Tango: em suas origens, a palavra “tango” indica um tambor africano e a dança executada ao som desse instrumento musical. Em fins do séc. XIX, surgiu nos subúrbios de Buenos Aires, o famoso “tango argentino”, que se tornou uma das mais famosas e duradouras dança de salão sul-americana. A perfeição

72

de sua configuração rítmica e coreográfica, em suas múltiplas variantes, foi conseguida pela convergência de várias danças anteriores: a cubana habanera, a africana milonga, o tango andaluz e outros ritmos populares europeus, além do candomblé brasileiro. Dança muito sensual pelo forte entrelaçamento dos corpos do casal, no começo era praticada por mulheres levianas que, na zona do porto do rio de La Plata, proporcionavam diversão aos marinheiros e viajantes. Mas, aos poucos, começou a ser aceita pela sociedade, tornando-se dança de salão, sendo ensinada e praticada nas mais importantes cidades da Argentina e da América do Sul, ultrapassando inclusive as fronteiras continentais. Tarantela: do italiano Tarantella, nome topográfico da cidade siciliana Taranto, é uma dança popular do Sul da Itália. De ritmo bem alegre, a música é acompanhada de tambor ou de castanholas e, geralmente, também pelo canto coral. Esteve na moda entre o fim do século XVIII e o início do XIX. Atualmente faz parte do folclore da Itália Meridional. No Brasil, a Tarantela ainda é cultivada por grupos de origem italiana e por simpatizantes, dançada durante festas a caráter. Valsa: do alemão walzer, do verbo walzen (“girar”). É uma dança de salão padronizada, em três tempos, caracterizada pelo rodopio dos casais. De origem austríaca, passou a substituir o minueto nas festas da alta burguesia euopéia. Além da valsa-dança, temos a “valsa de concerto”, que teve muitos cultores na música sinfônica. Famosa é a valsa vienense, de ritmo bem vivo e rápido, cujos clássicos foram Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Weber, Chopin, Liszt e os três irmãos Strauss (Johann, Joseph e Eduard). No Brasil, a valsa costuma ser tocada e bailada em ocasiões especiais e solenes, como festas de formatura e de aniversários. A valsa passou a identificar o bailarino: é chamado “pé-de-valsa” quem dança bem. A dança contemporânea: a partir dos anos 50, quer os ritmos latinos, quer os norte-americanos, apresentam a tendência a separar os casais, prestigiando a dança solta, individual ou em grupo, embalada pelo ritmo frenético do saxofone, das trombetas e dos instrumentos de percussão. Uma série de modas se sucede: swing, salsa, calipso, cha-cha-cha, twist, rock-and-roll, hully-gully, iê-iê-iê, jazz ( Música). Nas discotecas, as novas gerações se divertem acompanhando o ritmo dos metaleiros com movimentos livres, improvisados, sem condução do parceiro, cantando numa língua que a maioria não conhece. É uma pena que a percussão esteja matando a melodia e a dança não entrelace mais homem e mulher, que é a melhor configuração artística da conjunção do masculino e do feminino! Mas, felizmente, ainda há gente de bom gosto (especialmente adultos) que prefere o som harmônico da dança de salão à barulheira da discoteca. À biodanza dedicamos um verbete específico. DANTE, Alighieri (poeta símbolo da Itália: A Divina Comédia) Lasciate ogni speranza voi che entrate “Deixai qualquer esperança, vós que entrais”: este famoso verso se encontra na porta de entrada para o Inferno, a primeira parte de La Divina Commedia, a obra-prima de Dante, da literatura italiana e da cultura da Idade Média. Apesar do nome “Comédia”, e do sentido de “Epopéia”, a obra não faz parte do gênero dramático e nem do épico, sendo um longo poema “didático-alegórico”, por ter uma finalidade educativa e porque os ensinamentos são ministrados por uma cadeia de "símbolos", isto é, signos materiais que remetem à espiritualidade. Mas, se a obra máxima de Dante não é propriamente a epopéia de um homem ou de um povo, ela se configura como o epos de toda a humanidade, na busca do caminho da justiça social e da perfeição moral. A grandeza do poeta italiano reside em ter conseguido elevar à categoria da universalidade os problemas seus e de sua terra natal, através da força transformadora da arte. É por isso que seu poema parece ser sempre atual ao leitor de qualquer tempo e de qualquer lugar. De outro lado, é evidente o estrito parentesco da Divina Comédia com a poesia épica greco-romana. Virgílio, junto com o próprio Dante e a amada Beatriz, é uma das três personagens principais do poema. O autor da Eneida é escolhido como mestre e guia espiritual e poético. A idéia central da obra dantesca, expressa através da imagem da vida como longa peregrinação em busca das origens divinas do homem, já se encontra na Odisséia e na Eneida: Ulisses, que volta para sua terra natal, e Enéias, que chega à terra de seus ancestrais, são os protótipos de Dante, que, exilado, não conseguindo retornar a sua Florença, torna-

A Florença da época de Dante. “a história da humanidade toda”. em Dante. comparável às "sumas" filosófica e teológica de Tomás de Aquino. A motivação. sendo seus contemporâneos. enquanto o dos Guibelinos defendia o direito do imperador germânico. Além do motivo central da viagem. referindo-se à sua realidade existencial. que confere universalidade a episódios contingentes. porque Virgílio vai embora. personagem do mundo imaginário. e como fará mais tarde Cervantes. ainda não chore. imaginando voltar para o seio de Deus ( Paraíso). peregrinando de uma cidade para outra. Enumeramos os mais importantes: a descida ao inferno e a subida aos campos Elíseos. de cânones estéticos e morais. Mas sua vida política era perturbada pelas lutas externas (com outros principados) e internas. o antagonismo do espírito pagão e do espírito cristão é superado pela síntese das duas posturas perante a vida. o autor da Divina Comédia se apresenta na obra com sua pessoa física. no Dom Quixote. que defendia os direitos dos pequenos Estados feudais. devido ao cunho autobiográfico que ele quis infundir em seus trabalhos literários. A diferença que hoje se costuma estabelecer entre o "autor". a amada Beatriz chama-o pelo nome verdadeiro: Dante. que apoiava o imperador em suas pretensões de domínio. Dante Alighieri nasceu em Florença. que deu origem ao “Risorgimento” italiano. A própria Divina Comédia. que sofre e luta para alcançar os ideais cívicos da união. da justiça e do amor nesta terra e a fé num mundo melhor no além. vítima de ódios políticos. pois chorar te convém por outra dor. cujos principais heróis foram Mazzini (com suas progressistas idéias filosóficas e políticas) e Garibaldi (com sua ação militar). E. a predestinação do herói. entrou em luta com a casa dos Wibling. Como já fizera Apuleio. toda a herança da cultura clássica é transubstancializada pela cosmovisão da Idade Média (Medievalismo).73 se cidadão do mundo. Na Itália. no Asno de ouro (Metamorfoses). sendo o berço de poetas e artistas. e o "narrador". foi a realidade histórica e social. o 'eu" que narra não é diferente do "eu" que vive os fatos e do "eu" que escreve a história. É de se lembrar que a Itália só adquiriu unidade e independência política no século XIX. em Dante quase se anula. Mas. Por isso que A divina comédia é. Notícias sobre o autor e a época As principais fontes biográficas de Dante Alighieri são suas obras. está impregnada de um profundo realismo. onde a casa nobiliar dos Wolf. do povo italiano do fim da Idade Média. vivendo quase de esmolas. a pátria de Dante viveu por longos séculos desmembrada em vários pequenos Estados. de onde a humanidade emanou. A divina comédia se constitui no compêndio da civilização medieval: nesta obra se condensam e revivem em forma de arte dez séculos de concepção filosófica e religiosa. O partido dos . no mês de maio de 1265. confirmados pelo testemunho de historiadores. a fonte doutrinal do poema dantesco. a ficção mais fantástica que o gênio humano foi capaz de produzir. que assolou a Itália por vários decênios. enquanto o poeta latino Virgílio foi sua fonte estética. de instituições políticas e sociais. quer do poder imperial. Podemos considerar a obra de Dante como a "suma" poética da Idade Média. não chore ainda. pois seu protagonista assume o papel simbólico de cidadão do mundo. Nele. É também a “história de um povo”. o uso da invocação às musas. A divina comédia é a “história de um homem” que viveu seus últimos vinte anos de vida no exílio. O conflito entre o partido dos Guelfos e dos Guibelinos. Antes. sobretudo. que ele apresenta em seus traços verdadeiros. teve nome e origem na Alemanha. que faz parecer o poema de Dante quase como uma "crônica" da Florença de sua época. minúscula república opulenta por ser um centro de comércio. é sublimado pelo poder da arte. pessoa do mundo real. A maioria de seus personagens pertence ao mundo de Dante. o recurso aos personagens da mitologia greco-romana. após o movimento romântico. No poema. quer do poder papal. pois em todas elas temos referências explícitas à sua vida. o recurso dos sonhos e da sua interpretação simbólica. Mas este aspecto particular. dividido em várias cidades-Estado em contínuas lutas pela sobrevivência política. tornara-se o centro da cultura italiana. o que é mais importante. de pequenas indústrias e de artesanato. a profecia dos eventos futuros. Dante deve a Homero e a Virgílio uma série de topos próprios da poesia épica. após uma longa viagem de sofrimento (Inferno) e de purificação (Purgatório). de uma modesta família guelfa. cada qual recorrendo à ajuda estrangeira. o partido dos Guelfos estava a favor do poder papal. que determinou a colocação da enorme bagagem cultural de Dante em forma de arte.

74

Guelfos que, na época de Dante, governava a cidade, estava dividido em duas facções: uma, chefiada pela família dos Donati, representava a nobreza tradicional; outra, comandada pelo clã dos Cerchi, era formada pela burguesia que, enriquecida pelas suas atividades industriais e comerciais, aspirava a uma participação efetiva no governo da cidade. De um conflito entre famílias da vizinha cidade de Pistoia, as duas facções tomaram o nome de “Bianchi” (de Bianca Cancellieri) e de “Neri” (Negros, em oposição). Os primeiros constituíam, por assim dizer, o partido democrático, ciosos como eram de suas liberdades cívicas; os segundos, o partido tradicional e aristocrático, favorável à tutela e à intervenção do papa nos negócios internos de Florença. Saliente-se que a briga entre famílias poderosas pelo governo de um pequeno Estado era comum na Itália do fim da Idade Média. Lembramos a rivalidade das famílias Montecchi e Capuleto, em Verona, que originou a imortal história de Romeu e Julieta. Apesar deste clima de lutas, a infância de Dante foi tranqüila. Recebeu a primeira formação intelectual no convento de Santa Cruz dos padres franciscanos, completando os estudos literários, retóricos e filosóficos com o mestre Brunetto Latini e nas universidades de Bolonha e de Paris. Ainda quando tinha nove anos, ficou deslumbrado ao defrontar-se, numa festa, pela primeira vez, com Beatriz Portinari, um ano mais nova, menina de uma beleza angelical. A visão de Beatriz marcou profundamente a psique do futuro poeta. Mas este amor puro não lhe impediu de ter relações amorosas com outras senhoras. Beatriz morreu em 1290, e Dante, já há tempo órfão, acabou contraindo matrimônio com Gemma Donati, com quem teve três filhos. Sua tranqüilidade teve fim quando começou a participar da vida pública, inscrevendo-se na corporação dos médicos. Ocupou cargos importantíssimos como membro do Conselho dos Cem, várias vezes embaixador e um dos seis priores, que constituíam o poder executivo da cidade. Sua ação política visou sempre a apaziguar as facções rivais, não escondendo todavia sua simpatia pela causa dos Bianchi, o partido mais humilde. Seu parecer de expulsar da cidade os homens mais violentos das duas greis foi aprovado pelo Conselho dos Cem, mas, na execução da ordem, os mais atingidos foram os Neri, entre os quais se encontrava o poeta Guido Cavalcanti, o maior amigo de Dante. Este fato atirou sobre o poeta o ódio do partido, que pediu a ajuda do papa Bonifácio VIII. Este solicitou a intervenção do rei da França, Felipe o Belo, que enviou a Florença seu irmão Carlos de Valois para punir a facção dos Bianchi. Com a ajuda do papa e da casa da França, em fins de 1301, os Neri expatriados retornaram a Florença e perpetraram a vingança, depondo os Bianchi do poder e saqueando suas residências. Era a vez de os Bianchi serem exilados. Dante, durante a viagem de regresso de Roma, onde fora em embaixada para evitar a intervenção papal, tomou conhecimento da vitória dos Neri e de sua condenação a uma multa de cinco mil florins e ao exílio por dois anos. O poeta, sem dinheiro, indignado pela injusta sentença e temeroso de enfrentar seus inimigos exacerbados pelo ódio, ficou na vizinha cidade de Siena. O não-pagamento da pena pecuniária provocou outra sentença bem mais rigorosa: o confisco dos bens e o exílio perpétuo, com a pena de morte, caso voltasse à cidade natal. De 1302 a 1321, ano de sua morte na cidade de Ravenna, Dante peregrinou por vários Principados do centro e do norte da Itália, tentando sempre em vão o almejado retorno a Florença e vivendo da compreensão dos nobres italianos, que começavam a admirar seu gênio poético. Esta frase sintetiza a vida atribulada do poeta: “não há dor mais profunda do que se lembrar do tempo feliz quando se está na miséria” Composição da obra A Divina Comédia é composta de três partes, chamadas de cânticos: "O Inferno", "O Purgatório" e "O Paraíso". Cada cântico se compõe de trinta e três cantos, com exceção do primeiro que contém trinta e quatro, pois inclui o primeiro canto, que é introdutório ao poema todo. A obra é constituída, portanto, de cem cantos. Cada canto, com uma média de cento e trinta versos, é composto de um número variável de tercetos, de versos decassílabos e de rima alternada. A primeira coisa que impressiona, ao estudar A divina comédia, é a capacidade de estruturação de seu autor. O número três, que na Idade Média era considerado mágico, acusa sua presença constante ao longo da obra: três cânticos, três vezes trinta e três cantos, estrofes de três versos, três feras no primeiro canto, três senhoras no segundo, nove "círculos" no inferno, nove "patamares" no purgatório, nove ''ceus'' no paraíso. Apenas mais uma particularidade da estrutura rígida da obra: as três partes terminam todas com a palavra ''estrelas”. Poderia se pensar que esta organização rigorosa, que torna A divina comédia a obra mais "fechada" de que temos

75

notícia, pudesse prejudicar a inspiração poética de seu autor. Isso não acontece porque o gênio artístico de Dante não conhece separação entre estrutura e poesia. Ele soube estabelecer um equilíbrio perfeito entre os conteúdos ideológicos de seu mundo e a forma artística apta a expressá-los. A leitura da obra dá-nos a impressão de que Dante não pensou primeiro no conteúdo para, em seguida, dar-lhe forma, mas que os versos, com suas rimas, metros e acentos, iam saindo espontaneamente de seu espírito poético. Nenhum elemento do metaforismo estético do poema, repleto de imagens, comparações e símbolos, em momento algum, parece ser artificial e forçado. O halo da poesia que brota de seu espírito supera e sublima os esquemas estruturais e os modelos da cultura medieval . Quanto à configuração espacial do mundo dantesco, o poeta italiano imaginou o Inferno formado por uma profunda voragem, em forma de funil, provocada pela queda do anjo rebelde Lúcifer quando, derrotado por Deus, foi lançado no centro da terra, nas proximidades de Jerusalém. Dante, evidentemente, acreditava no sistema ptolemaico, vigente na época, que considerava a terra o centro do Universo, ao redor da qual giravam os astros. Na cratera, composta de nove círculos, sempre mais estreitos na medida em que se desce, estão distribuídas as almas dos pecadores condenados às penas do inferno. O Purgatório é representado como uma montanha formada pelo deslocamento da massa de terra provocado pela queda de Lúcifer: o solo, empurrado pelo anjo rebelde, elevou-se do outro lado da terra, no hemisfério austral, aos antípodas de Jerusalém. Também o Purgatório se divide em nove partes: na base da montanha, o antipurgatório; ao longo da encosta, sete patamares, de forma circular, parecendo terraços; no topo, o paraíso terrestre. As almas, na medida em que se purificam, vão subindo a montanha. Como se pode perceber, o espaço do poema dantesco é "vertical", sendo que, no Inferno, a direção é para baixo, enquanto que, no Purgatório, a direção é para cima. O Paraíso , imaginado acima do Purgatório, é composto de nove céus, que regem os planetas Lua, Mercúrio, Vênus etc. Sobre os nove céus está colocado o “empíreo”, composto de pura luz, onde vivem a Santíssima Trindade, a Virgem Maria e as almas santificadas, envolvidas pelos nove coros angélicos, que irradiam sem parar as ondas luminosas da graça de Deus. Aqui, o movimento não é nem ascendente, nem descendente, mas ''circular'', a indicar a comunhão constante da visão beatifica de Deus. Quanto às determinações temporais, o tempo da enunciação (Discurso) corresponde, de um certo modo, ao tempo empregado pelo autor na composição da obra: Dante escreveu A divina comédia durante o exílio, no último decênio de sua existência (1310-1321). Muito mais curto é o tempo do enunciado (Mito). Dante imaginou fazer sua viagem no mundo ultraterreno em uma semana: da noite da Sexta-Feira Santa, dia 8 de abril, até quinta-feira da semana seguinte, no ano de 1300. O motivo da escolha desta data prende-se ao fato de ser o primeiro "Ano Santo" da história do Catolicismo: o papa Bonifácio VIII determinou que o primeiro ano do novo século fosse considerado "jubilar", concedendo indulgências dos pecados a todos os peregrinos que fossem rezar em Roma (note-se a semelhança com a obrigação dos muçulmanos visitarem a Meca, capital do Islamismo). Quanto ao título do poema, Dante chamou sua obra de "comédia", por dois motivos: por ser a história de uma viagem que começa com a tristeza (inferno) e termina com a alegria (paraíso) e por utilizar o estilo simples e a linguagem popular. Essas características distinguiam as duas formas literárias mais tradicionais naquela época: a tragédia, de assunto e de estilo mais elevado, e a comédia, que era a representação da vida cotidiana. Evidentemente, Dante chama sua obra de “comédia” por um sentimento de humildade. O adjetivo "divina" foi acrescentado pelo poeta Boccaccio, anos depois. Sentido do poema dantesco A viagem imaginária de Dante nos três reinos do mundo do além-túmulo, assim como concebidos pela religião cristã, é uma alegoria da peregrinação do homem em busca da perfeição espiritual. Esta, evidentemente, só pode ser conseguida no contexto de uma estrutura social onde reine a justiça, a paz e o amor. Daí o fato de ter a obra dantesca por finalidade não apenas a salvação espiritual do indivíduo, mas também o aperfeiçoamento das instituições políticas e sociais. O Inferno é a representação poética do “extravio” e da perversão humana, cuja causa é a “alienação” da comunidade. O homem dedica-se à violência, à usura, à inveja, a todos os pecados, enfim, apenas se e quando rompe os laços de amor que o deveriam ligar a seus semelhantes. A maior culpa do homem é seu egoísmo e este tem sua origem na

76

desordem político-social, que priva o ser humano de qualquer ideal cívico ( Cultura). A própria Igreja, traindo sua função espiritual, persegue bens materiais, sendo representada como uma prostituta. Esta idéia de falta de união social, que leva à degradação humana, é expressa artisticamente por vários componentes poemáticos: 1) Personagens: os atores que povoam as regiões infernais não têm nenhum sentimento de caridade ou de compaixão com seus companheiros de sofrimento, mas acusam-se e denigrem-se mutuamente. A galeria dos tipos de condenados e os lugares e os modos de seu penar são descritos de modo a pôr em evidência o ódio que invade as almas dos que vivem no isolamento espiritual. O fim do sistema de vida feudal que, através da vassalagem ascendente e descendente, unia, de uma certa forma, a sociedade humana, provoca, pela passagem para o sistema de Comunas, Senhorias e Principados, a desagregação política. O preço das liberdades cívicas é o egoísmo dos indivíduos, dos clãs familiares, das classes sociais. 2) Espaço: o verticalismo, no Inferno, assume a direção para baixo. Quanto maior for a culpa do condenado, mais inferior e mais intenso é seu lugar de sofrimento. E quanto mais se desce, mais o ambiente é fétido e oprimente. Além disso, contraposto ao movimento circular e harmonioso do Universo, o espaço infernal é representado como uma voragem, dirigida do exterior e por uma força cega, símbolo da falta de orientação do espírito. 3) Tempo, representado pela eternidade das penas, é negada sua transitoriedade. A perda da esperança da salvação faz com que o Inferno simbolize tudo aquilo que é irremediavelmente fixo, o espessamento espiritual. Dante tenta resolver a grande contradição da religião crista, que consiste no contraste entre a infinita misericórdia de Deus e o dogma da condenação perpétua dos pecadores, sugerindo que a punição eterna não reside na vontade de Deus, visto como justiceiro, mas na autoobstinação dos condenados, na falta de um querer penitenciar-se e melhorar-se. Com efeito, a suprema forma de degradação espiritual é fornecida por Lúcifer ( Satã), representado enrijado no gelo, privado de qualquer movimento, visto como símbolo da insensibilidade. Enquanto a eternidade é a fixação no tempo, a estaticidade é a fixação no espaço. Ambas as noções estão ligadas à idéia da morte, ao passo que o dinamismo indica a vida. Ainda com relação à categoria do tempo, é bom lembrar que a viagem de Dante no Inferno se realiza de noite, representando as trevas, o extravio e a impossibilidade do encontro do equilíbrio existencial. Enquanto o Inferno é o reino da fixidez eterna, no Purgatório predomina o “movimento” que acusa o caráter de transitoriedade desta parte da viagem, indicando a “passagem” do sofrimento para a felicidade. O verticalismo, sentido espacial próprio da estética medieval (vejam-se as catedrais góticas, por exemplo), aqui adquire a direção para o alto: Dante sobe a montanha do Purgatório, em sua caminhada rumo ao céu. A escalada do monte, evidentemente, é o símbolo da ascese espiritual. Esta é expressa plasticamente pelo apagamento, a cada patamar, de um dos sete p (pecados), impressos na fronte do poeta. Mas o p é também a letra inicial de "peso": o princípio da gravidade, que puxa para baixo e dificulta a subida da montanha. O sentido espiritual desta subida material é a “purificação” da alma humana, que se realiza pela passagem das trevas da ignorância (pecado) para a luz da verdade (virtude). O sentido da “visão” que predominará no Paraíso, onde tudo é luz brilhantíssima, já marca sua presença no reino do Purgatório, em oposição ao espaço infernal, completamente escuro. E sintomático o fato de que a viagem pelos sete patamares só se realiza de dia. Ao cair da noite, Dante e Virgílio interrompem a caminhada, pois sem a luz do sol (a inteligência), não é possível o progresso espiritual do homem. O mesmo sono (inconsciência e morte) é vivificado pelo sonho: Dante, durante as várias noites que passa no Purgatório, tem visões que iluminam seu subconsciente. O conhecimento da profundeza da miséria humana, adquirido pela viagem no Inferno, coloca o protagonista em condição de poder "purgar-se" de suas culpas. É o princípio da Psicanálise (Psiquê): somente a descoberta da origem do complexo pode propiciar a cura da doença espiritual. Ao individualismo egoísta e ao ódio recíproco que caracterizam as almas que vivem no Inferno, opõe-se o sentimento de compreensão mútua que irmaniza as almas do Purgatório. A passagem do espírito individual ao espírito coletivo e comunitário é expressa através dos diálogos, dos

77

cantos litúrgicos corais e das cerimônias religiosas. A comunhão abrange não apenas as almas que habitam o Purgatório, mas se estende a criaturas que vivem na terra e no céu. Muitos espíritos pedem a Dante que, quando de sua volta junto aos mortais, solicite a seus parentes preces e obras de bem para a diminuição das penas. A instituição da "indulgência" é uma forma de estabelecer uma ligação amorosa entre o mundo dos vivos, o mundo dos mortos e o mundo dos santos. Reciprocamente, as almas do Purgatório (e do Paraíso) não são insensíveis à sorte dos mortais. Se o Inferno é a epopéia do passado, a descrição do que já foi, do imutável, o Purgatório é a epopéia do futuro, da “esperança” de felicidade, que se dá pelo término do sofrimento presente. A esperança de dias melhores não é apenas das almas penadas, mas também dos homens que vivem sobre a terra. Perante sua cidade e sua península, dilaceradas por guerras intestinas, fomentadas pelo ódio e pela cobiça, Dante, colocando-se acima de seus problemas pessoais, sonha com o advento de um imperador enviado por Deus, que possa governar a Itália e a Europa com justiça e ordem. Este seu desejo é compartilhado pelas almas do Purgatório e do Paraíso, que predizem uma era de paz e amor. Mas, diferentemente do que acontece nos outros poemas épicos, onde todas as profecias se efetuam, porque já são realidades no tempo da enunciação, as profecias de A divina comédia não ultrapassam o plano do desejo de seu autor. Por isso, a profecia, mais do que uma predição, é uma exortação aos italianos para que, deixando de cultivar ódios e egoísmos, criem as condições necessárias ao estabelecimento de um governo justo. A finalidade educativa e moralizante da profecia dantesca está evidente na insistência de Beatriz (e de outras almas) para que Dante não se esqueça de referir a seus patrícios exatamente o que ele viu e ouviu: Toma nota: e assim como as expressei estas palavras transmita aos vivos, cujo viver é um correr para a morte. Em verdade, o futuro, antes de ser predito, quer ser “provocado", pois a teologia do Purgatório é toda voltada para o conseguir a “conversão”, a mudança de direção, a renovação de mentalidade, quer no plano individual-espiritual, quer no plano coletivo-social. O sentido mais profundo do Purgatório reside na consideração de que a culpa humana está no apego aos bens materiais que são alienantes, enquanto os bens espirituais (o amor, a fé, o ideal da pátria) promovem a harmonia social e o progresso civilizacional. A harmonia sonhada por Dante se realiza na última parte do poema, no Paraíso . Antes de tudo, este é o reino da “harmonia cósmica”. Com base na ordem astrológico-teológica, assim como concebida na Idade Média, Dante constrói sua visão do Universo. Este é regido por Deus, o motor imóvel que tudo move: sua luz, criadora e fecundadora, é transmitida aos céus e, através destes, à Terra. Os céus, ao rodarem incessantemente, irradiam luz e emitem sons melodiosos que extasiam as almas que os habitam. O espaço celeste não tem o sentido de verticalidade, mas de "circularidade", envolvendo todos os elementos criados, pois nada pode estar fora da esfera da influência de Deus. Junto com o concerto cósmico, é preciso salientar a “harmonia social”. Os espíritos do Paraíso, apesar de ocuparem céus diferentes e de gozarem, portanto, de uma maior ou menor proximidade com Deus, todos vivem igualmente felizes, não havendo possibilidade de inveja, pois cada qual recebeu a parcela de glória proporcional aos seus méritos e à sua capacidade de gáudio. Esta estrutura paradisíaca expressa, alegoricamente, o desejo de Dante de ver construída uma sociedade civil em que se realizasse a unidade da comunidade na diversidade das vocações e dos ofícios. Estamos próximos do ideal de vida comunitária , do sonho do estabelecimento de um Estado em que cada homem, sem inveja e sem egoísmo, ocupando o lugar a que suas qualidades naturais e sua formação profissional o habilitem, trabalhe para o bem-estar e o progresso da coletividade. O Paraíso é ainda o reino da harmonia individual . Sendo o homem a primeira célula da sociedade, é evidente que esta só pode ter vida harmoniosa se seus membros conseguirem conquistar a perfeição moral. Para tal fim, são necessários três elementos: 1) a luz da inteligência humana (o "saber"), personificada por Virgílio: sem a faculdade de discernimento, que propicia uma clareza intelectual, é impossível o início do progresso espiritual do homem; 2) a vontade do sujeito (o "querer"), personificada pelo protagonista da narrativa, o próprio Dante: se é preciso saber o que se quer, também é necessário desejar ardentemente o objeto procurado, pois na origem de toda busca existe sempre um ato de amor; 3) a ajuda necessária para o conseguimento do objeto (o "poder"), fornecida por Beatriz, símbolo da graça divina. É a posse

78

cumulativa dessas três modalidades (saber + querer + poder) que fornece ao homem a "competência", a capacidade da realização do ato. Para o homem medieval, o fator mais importante para se conseguir a "performance" da perfeição espiritual era, sem dúvida, a graça divina. Antes do querer humano, deve existir o querer divino que predestina o indivíduo ao conseguimento da salvação. É Deus, por intercessão de Beatriz, o destinador da redenção espiritual do poeta. No Paraíso, os olhos de Beatriz são constantemente apresentados como fonte de luz e de amor. É neles que Dante encontra a solução de suas dúvidas metafísicas e morais, além da força, sustentada pelo sentimento amoroso, para levar a termo sua viagem. A mulher amada, segundo os padrões estéticos e ideológicos da poética trovadoresca (Trovadorismo), é o único refúgio, o porto de salvação, quando a nau da vida é balançada pelas procelas das paixões, que provocam a dor de existir. DARWIN (a teoria evolucionista: A Origem das Espécies)Genética É sempre recomendável perceber claramente nossa ignorância O evolucionismo cultural é uma teoria que visa explicar a natureza e a diversidade das sociedades humanas como produtos de um processo único de desenvolvimento. Ele está intimamente ligado à doutrina da evolução biológica, que foi uma disciplina fundamental dos estudos antropológicos do século passado. O teorizador mais famoso do Evolucionismo foi o cientista inglês Charles Robert Darwin (18091882). Na sua obra Viagem de um naturalista ao redor do mundo (1836), expõe as experiências de uma viagem de cinco anos no barco Beagle, coletando mais de duzentas e trinta toneladas de material animal e vegetal exótico. Mas sua obra mais famosa é A origem das espécies (1859), que escandalizou o mundo da época, sendo execrada por alguns e exaltada por outros estudiosos, que a consideraram a “nova Bíblia”. Sua tese fundamental é a seguinte: substituindo a teoria bíblica, chamada de criacionista ou “fixista”, segundo a qual as espécies são tantas quantas criadas por Deus, jamais se transformando, Darwin propõe a teoria evolucionista: as espécies animais se derivam uma da outra, mutuamente, conforme a lei da seleção natural, da sobrevivência do mais forte. A tese de Darwin tem como predecessores: 1) Carlos Lineu (1707-1778), botânico sueco, responsável pela classificação das plantas e dos animais em gêneros e espécies; 2) o naturalista francês J.B. de Monet Lamarck (1744-1829) que, em 1809, já tinha exposto sua tese da herança dos caracteres adaptativos adquiridos pelo indivíduo durante a vida, isto é, a transmissão hereditária de caracteres adquiridos pela necessidade do meio ambiente, dando o exemplo famoso da girafa que, de tanto esticar o pescoço para alcançar as folhas no alto, acabou gerando crias de pescoço comprido; 3) também a divulgação da descoberta do frade tcheco Gregor Mendel (1822-1884) de que a hereditariedade é determinada por partículas genéticas serviu para confirmar a tese de Darwin. A polêmica teoria do cientista inglês ainda continua palpitante, tornando-se mais atual pelas recentes pesquisas no campo da genética, especialmente após a descoberta e os estudos realizados acerca do DNA, o código genético de todos os seres vivos. Em maio de 2003, o cientista americano Morris Goodman publicou uma pesquisa, sugerindo que os chimpanzés (Pan troglodytes) fossem incluídos no gênero Homo pois, pela análise comparativa de amostras de DNA humano e de chimpanzés, eles estão mais próximos (99,4% de semelhança) do homem do que de outros primatas como os orangotangos e gorilas. O Darwinismo Social realiza o salto da Genética para a Antropologia. Herbert Spencer (18201903) aproveita a descoberta de Darwin para corroborar sua teoria da “autoregularização” da sociedade. Segundo ele, a sociedade humana, deixada sozinha, se governaria pelo princípio da “sobrevivência do mais forte”, que movimentaria a estrutura social na direção de uma crescente coerência, estabilidade e diversidade. Mas, diferentemente do evolucionismo biológico de Darwin, o pensamento sociológico de Spencer é profundamente conservador, prestando-se como sustentação ideológica do Nazismo ( Hitler). Com efeito, se colocada em prática, a teoria spenceriana levaria a um materialismo mecanicista, de que falava o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679): o homem, conforme a lei cósmica da ação e reação dos corpos em movimento, sofrendo pelo desejo e o temor, é vítima de uma situação de conflito

79

permanente. A guerra é de todos contra todos, sendo o homem lobo do homem ( homo homini lupus , como ele dizia). Mais recentemente, o psicólogo evolucionista Steven Pinker, da Universidade de Harvard, especialmente em suas obras Como a Mente funciona e Tabula Rasa, demonstra que o darwinismo não se aplica apenas ao estudo da Genética, invadindo, além da Biologia, também as áreas das ciências Sociais, da Psicologia e das Artes. Como de outros verdadeiros gênios da humanidade (Leonardo, Freud, Marx, Einstein, Picasso), o pensamento de Darwin se caracteriza pelo poder de “generalização”, no sentido de que ultrapassa os limites da disciplina específica e atinge o homem como um todo, apresentando uma nova visão da realidade. O cientista canadense, retomando o espírito do velho Humanismo renascentista, propõe que os princípios da nova psicologia evolucionista sejam aplicados à educação, à política, à arte, à ética, para uma renovação da consciência social, desmistificando doutrinas que se tornaram obsoletas. Assim, por exemplo, a idéia de que o homem é bom por natureza e de que a violência é uma perversão das sociedades modernas, conforme o mito romântico, retomado por indianistas e políticos de esquerda, se esfacela perante o avanço dos estudos genéticos e a descoberta arqueológica da existência de guerras entre tribos primitivas. No tocante o gosto estético, Pinker dá a entender que o conceito de beleza é continuamente manipulado pela evolução modernista, via marketing, pois a descoberta sobre o funcionamento da mente humana nos demonstra que o ser humano, instintivamente, busca o inteligível, que se encontra na harmonia das formas, e não no incompreensível, no hermético. A concepção de beleza clássica, conforme a tradição greco-romana e renascentista, portanto, passaria a adquirir o estatuto de uma verdade científica. Também as correntes radicais do feminismo, que não admitem nenhuma diferença entre a psicologia do homem e da mulher, são contestadas pelo cientista canadense. Conforme recentes pesquisas da neurociência, o cérebro feminino e o masculino têm configurações diferentes. En face da comprovação da biodiversidade, por que a mulher se esforça tanto de ser igual ao homem? Diferença não quer dizer inferioridade! DECAMERON (coletânea de contos satíricos do ficcionista italiano Boccaccio) O Decameron (“dez dias”, em grego) é um conjunto de cem historinhas, em italiano chamadas de “novelle” (de novas, pequenas notícias: não confundir com o gênero atual da televisão Novela), de autoria do florentino Giovanni Boccaccio, publicadas em 1350. O autor imagina que dez jovens, três moças e sete rapazes, para fugirem à peste que assola Florença, se refugiam numa colina e, durante dez dias (daí o nome da coletânea), passam o tempo contando histórias que, na sua maioria, não passam de piadas ampliadas. Os temas são os mais variados, misturando-se cenas de amor idílico com narrações escabrosas sobre o erotismo dos clérigos. Enfim, é a descrição de quadros de vida da Florença trecentista, feita por um artista da palavra, de uma forma refinada e livre de qualquer preconceito religioso ou moral. Estamos no fim da Idade Média (Medialismo), já prenunciando o espírito da Renascença européia. Os contos de Boccaccio retomam a linha da narrativa satírico-picaresca dos autores latinos Petrônio (Satiricon) e Apuleio (Metamorfoses ou “O Asno de Ouro”). E Boccaccio, por sua vez, se torna o mestre do inglês Chauser (1340-1400: Os Contos de Canterbury) e de todos os outros autores que cultivaram a narrativa curta de cunho realístico e humorístico, nas línguas modernas do Ocidente. O Cinema aproveitou várias histórias satíricas do Decameron. Famosa é a película Boccaccio’70, que aproveita quatro contos, cada qual dirigido pelos melhores Diretores da época (Federico Fellini, Luchino Visconti, Vittorio De Sica, Mario Monicelli) e interpretado por divas belíssimas: Sophia Loren, Anita Ekberg, Romy Schneider. Outra belíssima versão cinematográfica da obra de Boccaccio foi realizada por Pier Paolo Pasolini, em 1971: Il Decameron. DÉDALO (o gênio construtor do Labirinto, pai de Ícaro) DEMÉTER (Ceres, em Roma, deusa da Agricultura)Terra DEMOCRACIA (sistema de governo, República)Política Democracia é quando eu mando em você,

80

Ditadura é quando você manda em mim. (Millôr Fernandes) A palavra grega demokratía é composta de demos (povo) e krátros (poder), significando o governo exercido em nome da coletividade. Neste sentido, é quase sinônimo do termo “República”, que vem de res (coisa) + publica (de todos). No aspecto geral de “coisa pública”, portanto, República se identifica com Democracia para indicar o governo de uma nação exercido por representantes do povo, eleitos por um determinado período de tempo (Política). O filósofo Platão intitula Democratía (“Republica”, em latim) um seu diálogo que trata do governo do Estado, pois, na cultura greco-romana, democracia era igual a república. Realmente, há uma certa semelhança entre o conceito de “política” (administração de uma póleis = cidade) e “público” (interesse do demos = o povo, uma coletividade), pois o que é direito de todos não pode ser usurpado por um (monarquia), nem por alguns (oligarquia). Apenas povos ou grupos sociais, que não tenham bem desenvolvida uma consciência de cidadania ou que não gozem do direito da liberdade de sentir, pensar e agir, podem suportar governos despóticos. A nosso vê, é incorreto e falso chamar de “República” sistemas de governo não democráticos, tipo URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) ou RAU (República Árabe Unida). “Republicano” é o adjetivo que deve qualificar apenas um sistema democrático, fundamentado num pluripartidarismo, cujos governantes são escolhidos pelo voto livre e direto. Qualquer forma de Democracia (representativa, social etc.) deve ter por base a soberania popular, a liberdade eleitoral e a divisão dos três poderes (legislativo, judiciário e executivo), não podendo admitir a perpetuação e a transmissão do poder por direito teocrático, de hereditariedade ou pela força das armas (Absolutismo). Afinal, quem faz a riqueza de uma Nação não é Deus, o Rei, o Presidente ou o General, mas o povo com seu trabalho e com seus impostos. É justo, portanto, que seja o povo a escolher livremente seus representantes. Acontece, porém, que nos países subdesenvolvidos a grande massa popular não tem consciência dos direitos de cidadania e se deixa facilmente manipular por lideres carismáticos ou por grupos econômicos (Cultura). Nenhuma democracia funciona sem “meritocracia”, o sentimento de justiça que faz com que cada qual ganhe conforme sua competência. É por isso que ainda hoje, após cerca de 24 séculos, o estado democrático ocidental apresenta o mesmo funcionamento descrito por Platão: “a Democracia, uma forma charmosa de governo, cheia de variedade e desordem, dispensa um tipo de igualdade para iguais e desiguais igualmente”. Mas, como afirmou o arguto estatista inglês Sir Winston Chrchill (1874-1965), “a democracia é a pior forma imaginável de governo, à exceção de todas as outras que foram até agora experimentadas”. DEMÓCRITO (filósofo grego)Atomismo “Mesmo que a verdade exista, não nos é dado conhecê-la” Pensador e cientista pré-socrático, Demócrito de Abdera, (Grécia, 470-361), é considerado o pai do Atomismo. Seus trabalhos filosóficos e científicos verteram sobre a constituição da matéria, a pluralidade dos mundos, a via Láctea, os fornos reversos, o prenúncio da existência dos espermatozóides. Seu agnosticismo está expresso em alguns fragmentos de suas obras, que chegaram até nós, como o citado acima. DEMOGRAFIA (planejamento familiar, malthusianismo)Cultura Trabalho O direito de ter pais é maior do que o direito de ter filhos Do grego demos (povo) + graphein (escrever), a demografia é a ciência que estuda a densidade populacional, pesquisando, com o auxílio da Estatística, as taxas de natalidade, de morte, de casamentos, etc., em várias regiões e países. Infelizmente, os governantes, de um modo geral, não aproveitam, na prática, os dados colhidos pelos cientistas, visando o melhoramento da sociedade humana. O economista e religioso inglês Thomas Robert Malthus (1766-1834) tornou-se famoso pela sua obra Ensaio sobre o princípio da população. Ele sustenta a tese de que, enquanto a produção de alimentos cresce em progressão aritmética, a população mundial tem a tendência de aumentar em progressão geométrica. Tal desproporção teria como conseqüência inevitável o aumento da pobreza no mundo. Quando essa

minada por uma corrente cética e pessimista. que acaba sofrendo as conseqüências da marginalidade. É preciso se entender que o nascimento de uma criança não é apenas um problema individual ou familiar. não aprende nada. evidentes e estáveis. lança as bases da corrente racionalista que encontrará em Malebranche. social e religiosa. que só criam confusões. Diabo) Satã DESCARTES (cartesiano. a alma do corpo. propiciando-lhe casa. se penso. mas essencialmente social. ele propõe uma ética “provisória”. DEMÔNIO (o princípio do mal. são axiomáticas. países da África e da América Latina. se não puder garantir ao filho o direito de ter pais responsáveis. Que adianta fazer programas de ajuda social. Tudo. a mente pensante. pode se arrogar o direito de ter filhos. Hoje em dia. como a Alemanha e a Itália. penso. pois tem o direito de sobreviver. em sã consciência. provocando epidemias e guerras. parente ou empregada. O cogito. vários pontos da tese malthusiana. Ninguém. ergo sum torna-se o parâmetro de qualquer conhecimento. é altíssima nas povoações mais pobres e com prole numerosa. É uma pena que a clareza e a coerência perseguida por Descartes no campo dos conhecimentos filosófico e científico não atingisse também a esfera da ética. Um menino abandonado pelos pais ou mal criado por uma avó. carinho. cientista e filósofo. por exemplo. é uma questão de ignorância e pouco se faz para lutar contra este mal monstruoso. porque comuns a todos os homens. a clareza e a distinção. Discurso sobre o Método)Racionalismo “Cogito. existo”. em fim. Rejeita. Se a culpa é individual. matemático. se não se corta o mal pela raiz. e se deixa levar pelas paixões. E ele próprio dá o maior exemplo desse conformismo: quando ficou sabendo da condenação de Galileu. escola. que pretendeu encontrar o caminho para superar as incertezas da sua época. pois a falta de cultura está na raiz de todas as desgraças. a pena é coletiva. conformista em relação às injunções de ordem política. Spinoza e Leibniz seus melhores cultores. assaltante. têm um índice demográfico quase zero. o único pecado realmente capital da humanidade. a criança é candidata a se tornar delinqüente. No livro Tratado das Paixões. assim. pois sem qualificação para um tipo de trabalho é quase impossível encontrar um emprego decente para prover a subsistência sua e da família. Daí a verdade que colocamos em epígrafe: o direito dos filhos terem pais responsáveis é maior do que o direito de um homem ou de uma mulher ter um filho. Enquanto nações desenvolvidas. igualando-se aos animais. ergo sum” O pai do Racionalismo moderno foi o francês René Descartes (1596-1650). alegria. Ele estava certo: a miséria humana avançou muito mais do que a tecnologia e os países e as regiões mais pobres são os que mais geram filhos. A primeira dessas certezas inabaláveis é a própria existência humana: “se duvido. reafirmando o poder convincente do princípio da causalidade. distinguindo-se o ser pensante da coisa pensada. A solução que o cientista sugere para este grave problema seria aconselhar as povoações pobres a se absterem sexualmente para diminuir a taxa de natalidade. conscientizando o povo de que ninguém pode pôr um filho no mundo se não tiver meios para lhe propiciar sustento e educação de bom nível? Como afirma a escritora Lya Luft. o sujeito do objeto. Mas a alma do estudo realizado no fim do séc. “deviam decretar que ninguém tenha mais filhos do que pode decentemente alimentar”. torna-se um problema para todo o mundo. que vivem numa extrema penúria. não pode se desenvolver. XVIII ainda está viva. deixou de publicar . ladrão. é levado a duvidar de tudo aquilo que não tenha a mesma característica das noções da matemática: a evidência. Descartes. Formulando a “dúvida metódica’’.81 realidade ultrapassar o limite de tolerância. aumentam sua população de uma forma irresponsável. Assim. tipo “fome zero” ou aumento de creches. Descartes afirma que quem não usa o cogito. como os conceitos da matemática. Convencido de que a moral é algo de variável no tempo e no espaço. estão superados pelo avanço tecnológico da agricultura e pelo progresso da ciência médica que levou à fabricação de vários tipos de anticonceptivos. a própria natureza cria organismos de defesa. para aceitar apenas as idéias ‘‘inatas’’ que. as idéias “factícias’’ (as que se referem ao mundo exterior em contínua mudança) e as “fictícias” (as forjadas pela imaginação que variam segundo a vontade do sujeito). por exemplo. pois o desejo de gente irresponsável acaba ferindo o “direito de terceiros”: daquele que não pediu para vir ao mundo e da comunidade onde vive. Deus criador (ser perfeitíssimo) do mundo criado (seres imperfeitos). Não assistida adequadamente. saúde. publicada em 1798. A taxa de desemprego.

aplicado para a solução de problemas da realidade existencial. Pensamento não muito distante do de outro religioso. é conveniente citar a contribuição do médico e criminologista italiano Cesare Lombroso (18351909). DESTINO (divindade greco-romana)Fado DETERMINISMO (corrente filosófica)Positivismo Realismo Maktub! (“Está escrito”) No decorrer da história da filosofia. são ideológicos e não reais. foi apresentada a tese de que as ações humanas e os acontecimentos do universo são determinados pelo princípio da causalidade: as leis físicas. renunciando à luta pelo descobrimento da verdade e pelo avanço civilizacional. que apresenta o confronto entre duas tomadas de posição. aquele que fala sozinho. de ideologia conservadora. mais tarde. tendências. Para o filósofo alemão Hegel (Idealismo). A oposição “monológico / dialógico” passou a diferenciar duas formas de atividade artística: a obra monológica ou de inspiração apolínea. Segundo ele. Sua tese sobre o “criminoso nato” teve muito sucesso na época. portanto. além de uma doutrina filosófica e científica. taras. uma única voz. a arte de argumentar e discutir. independentemente de uma vontade divina ou humana. imbuída do espírito dionisíaco ou “carnavalizada”. meio e momento” como condicionante do comportamento humano e. V a. fraternidade. fatos e comportamentos. a dialética é um modo de conhecimento da realidade colhida na sua estrutura contraditória. do ambiente (Espaço) em que a pessoa ou a personagem vive. DEUS (divindade)Religião DIACRONIA (oposição diacrônico / sincrônico)Cronos Crítica DIALÉTICA (forma de argumentar: Diálogo em oposição ao Monólogo) Do grego dia (prefixo “através”) + logos (“palavra”) + tecné (técnica). A dramaturgia. caprichoso acaba negando a própria essência da divindade. E a dialética não existe apenas no campo filosófico ou sociológico. por extensão. por Platão.. do momento histórico (Cronos). O Determinismo. com um segundo e terceiro ator. O aspecto prático da dialética é o diálogo. A verdade. chegou a pensar que ninguém poderia se salvar sem a vontade de Deus. dialética significa a linguagem em movimento. inclusive econômica. sim. que afirmou: “aquele que Deus quer salvar pode fazer o que quiser e será preservado”. justiça. O interlocutor surgiu como oponente ao protagonista na representação do agon. assim como foi utilizado pelos sofistas. cuidando do dissídio entre os donos do poder e a classe dos trabalhadores. o discurso.82 um trabalho científico onde ele também sustentava a tese do movimento da Terra. O antônimo do diálogo é o monólogo (do grego monos. a luta física ou intelectual. a que os romanos deram o nome de “solilóquio”). algumas pessoas nascem com estigmas físicos e psíquicos tais que é impossível sua recuperação. A conduta de um ser real ou imaginário seria determinada pela tríplice ação da hereditariedade (Genética). no sentido de que são apenas impostos ou desejados. é também uma postura religiosa.C. que transmite caracteres. O diálogo. fidelidade. para o sociólogo Karl Marx. liberdade. Com referência à importância da hereditariedade na formação do caráter. que nega o livre-arbítrio. utiliza o diálogo como o meio mais apropriado para exprimir os problemas existenciais. é a base dramática a partir da qual se desenvolveu todo o teatro ocidental. por Sócrates. Sant’ Agostinho. Esta concepção de um Deus fatalista. estudando a relação entre Graça divina e livre arbítrio. injusto. desconsiderando o fator do livre arbítrio. desde suas origens no séc. O Teatro começou quando os episódios da vida do deus Dionísio deixaram de ser narrados por um único narrador (chamado de “rapsodo” na poesia épica) para serem representados por um ator dialogando com o corifeu e. e a obra dialógica. chegando a tentar demonstrar que até a conformação craniana de um marginal é diferente da do homem normal. segundo o estudioso . Mas tal concepção mecanicista do universo. Foi o historiador e crítico literário francês Hipólito Adolfo Taine (1828-1893) que apresentou a famosa tese da tríade “raça. Mahatma Gandhi (Hinduísmo). honestidade. várias vezes e em diferentes modalidades. que oferece as circunstâncias existenciais. Sua obra mais conhecida é O homem delinqüente. da confecção artística da personagem de ficção. mas não realmente vividos. teve amplo sucesso apenas no seio da doutrina positivista que dominou a cultura durante a segunda metade do século XIX. Há fanáticos que se conformam com o “Maktub”. químicas e biopsíquicas ocasionariam fenômenos. o método dialético deve descer do céu para a terra. desde porém que ela não nos prejudique! Essa será a essência da moral burguesa: os valores humanos da sinceridade.

pois contesta os valores sociais. que é uma representação do dualismo cósmico (a oposição entre noite e dia. de outro lado. não foi aceito no Olimpo e precisou conquistar o direito à imortalidade por suas próprias forças. Nietzsche: “Teremos dado um grande passo e promovido o progresso da ciência estética quando chegarmos não só à indução lógica. onde se dedicava à caça. Ajudou o pai na guerra contra os Gigantes e lutou ao lado dos troianos na Guerra de Tróia. a esposa traída. em oposição a Vênus. que sofreu terrivelmente para escapar da vingança de Juno. foi o embrião da tragédia antiga. mesmo antes de vir à luz. castigando deuses e mortais que atentaram contra a castidade sua ou de suas ninfas. não quis consumar. Diana é o símbolo da necessidade de repressão dos instintos sexuais. ofuscassem a glória de seus feitos e substituíssem o culto a Baco pela fé cristã. desposou e levou para o Olimpo uma mortal. Enquanto durava o estado de embriaguez. junto com seu séqüito de ninfas e amazonas. Por isso. já estava marcado pela vingança da ciumenta Juno. de cunho revolucionário. com a morte desta. Este dualismo estético. Dionísio propiciava aos homens e aos deuses alegria e felicidade. esquecido de seu status. de F. Sua característica principal foi a virgindade. mas também à certeza imediata deste pensamento: a evolução progressiva da arte resulta do duplo caráter do espírito apolíneo o do espírito dionisíaco tal como a dualidade dos sexos gera a vida no meio das lutas que são perpétuas e por aproximações que são periódicas”. Ariadne. Diana é uma divindade "lunar". a mitologia grega apresenta Diana como uma deusa austera. Nos momentos de excitação orgíaca. continuou a gestação do feto numa sua coxa. mais tarde. Entre seus triunfos. Escolheu como lugar de residência a Arcádia. que simboliza a satisfação erótica. representada com um archote na mão. a inversão dos valores sociais: fora ele que destronara Héstia. oposição apolíneo / dionisíaco)Carnaval Duplamente filho de Júpiter que o gerou. DI CAVALCANTI (artista brasileiro)Pintura DICKENS. e dar a luz os gêmeos Apolo e Ártemis. persiste em todas as manifestações de festas . Daí Camões ter escolhido Baco como o maior inimigo mítico da expedição lusitana à Índia: se não fosse o Destino ( Fado). o grotesco misturava-se ao sublime. acompanhado pelo cortejo de sátiros. alma e corpo etc. seus devotos sentiam a presença do deus do vinho dentro de si e se deixavam levar pelos ritos orgíacos. depois de ter exigido o sacrifício de Ifigênia. O espírito dionisíaco encontrou sua primeira manifestação artística no coro ditirâmbico que. a crueldade tornava-se prazer. vivido também nas saturnálias romanas. punham de lado a máscara social e manifestavam sua verdadeira personalidade. a vida do instinto. Era um coro de pessoas "transformadas" que. pois ele personificava a desobediência à ordem e à medida. sacrifício que. segundo a maioria dos estudiosos da literatura grega. Além disso. primeiro. na princesa texana Sêmele e. e lhe ocupara o lugar perto de Júpiter. céu e terra. Tocando flautas ou tamborins. abandonada por Teseu na ilha de Naxos. Fruto híbrido de um amor divino-humano. o homem sentia-se membro de uma comunidade universal em que se quebravam as barreiras de classes. o homem divinizava-se. dominando o povo pelo seu poder místico. Errou pelo mundo até então conhecido e conseguiu o caminho da glória pela descoberta da uva e do vinho. Este espírito dionisíaco. notável é a conquista da Índia. talvez.) e que a psicanálise identifica no id e no superego (Freud). Deusa da caça e da pureza. a liberdade e o prazer sem limites. encontra-se bem expresso num trecho da obra Origem da Tragédia.83 russo Bakhtine (Crítica). o escravo emancipava-se. filha do rei Minos. entrando em transe histérico. Dionísio. Dionísio nunca deixaria que os portugueses. vingativa. bacantes (mênades). símbolo da virgindade) Filha de Júpiter e de Latona. região montanhosa. DIANA (Ártemis grega: deusa da caça. Dionísio sempre foi considerado pelos gregos como um deus "estrangeiro" e "subversivo". na embriaguez do estado dionisíaco. Em contraste com o irmão Apolo. centauros e pelos deuses Sileno e Pã. a deusa do lar. Charles (romancista inglês)Realismo DIÓGENES (filósofo grego)Cinismo DIONÍSIO (Baco romano. filha de Agamêmnon. cruel. simbolizando a castração feminina. pois nunca admitiu qualquer contato carnal. Pela consecução do estado místico. embora descendentes de seu filho Luso. deus "solar".

que funcionava como diretor do coro: a ele cabia dispor o espaço físico para a representação teatral. durante o apogeu de Mussolini na Itália: os conspiradores que assassinaram o grande líder democrata da Roma antiga usavam camisas negras. eu vos lanço. é eterna. a orientação dos técnicos da cenografia e da sonoplastia. no começo do século XX. a rir! DIREITO (Jurisprudência)Justiça DIRETOR (encenador de obras teatrais. através da interpretação dos atores. cenografia. escolher e orientar os atores. sendo o coordenador de todos os elementos constitutivos de uma peça: texto. tem de saber encontrar o equilíbrio entre a empatia e o distanciamento estético: a peça deve parecer suficientemente real para assemelhar-se à vida. tem a função de “encenador”. Na arte mais moderna. que teve início com André Antoine. ao longo da nossa história. num sentido amplo. Tudo isso sempre em função de alcançar o objetivo que ele tem em mente: ou a fidelidade ao texto do autor.en-scène. como anteriormente. portanto. o estudo apurado do script. O mito de Dionísio invadiu Literatura e Artes. atores. o sucesso da encenação da peça Júlio César. cinematográficas e televisivas) Do latim vulgar directorem. ou a adaptação da peça à nova realidade da época. de um filme ou de um programa televisivo. público.. aprendei. o diretor tem a função de dirigir o trabalho de todos os elementos do conjunto. conferindo uma interpretação pessoal à obra dramática. um elo de comunicação entre . imprimindo-lhe a marca de sua genialidade. fiquem de pé. pois a representação de uma obra teatral antiga só tem sentido se ela tiver uma relação alegórica com a atualidade. meus irmãos! Elevem cada vez mais! E não se esqueçam das pernas! Elevem as pernas também. de metteur.84 carnavalescas na cultura ocidental (Carnaval). assim. A ele cabe a escolha do texto. ele mesmo definindo-se um “demônio dionisíaco”. Duas de suas obras são fundamentais para entendermos a importância do mito de Baco na evolução do pensamento e da arte européia: A Origem da Tragédia e Assim falou Zaratustra. Desta última obra transcrevemos dois trechos. montada pelo diretor Orson Welles em Nova York. e com a platéia. chamado “Comissário das Delícias”. portanto. A obra do filósofo-poeta alemão F. a indicação dos atores capazes de interpretar os caracteres das personagens. vocês que dançam bem e cada vez melhor. o Diretor é peça fundamental! DISCURSO (ato da comunicação humana. composta de um público dado. enquanto texto literário. Nietzsche está toda ela impregnada do espírito báquico. Na Grécia da época de Péricles. Estabelece-se. Essa segunda hipótese é a mais aconselhável. ele passou também a ter consciência do significado artístico de sua função. enunciação. havia um magistrado. A função do diretor é muito antiga. O diretor é o mediador entre a obra que. por exemplo. é uma pessoa que possui um saber e quer transmitir história. embora não toque nenhum instrumento. No teatro. onde o poeta exalta a dança e a embriaguez dionisíacas: Elevem seus corações. e suficientemente irreal para que ninguém se esqueça de que é pura arte. em circunstâncias históricas. Além de encarregar-se da organização objetiva do espetáculo. com o intuito de conseguir uma perfeita reconstrução histórica. o termo indica a exposição de um conhecimento sobre alguma coisa. idéias e sentimentos para outro ser humano. o ouvido apurado do músico. cinematográfica ou televisiva. essa coroa de rosas. que se modifica constantemente. vós. o diretor é o autor do espetáculo. De lá para cá. Ele tem de estabelecer o sentido que o texto teatral irá adquirir em contato com o palco. Se o dramaturgo é o autor do texto. o Cinema. a consciência especial do dançarino. O sujeito do discurso. homens superiores. e o público.. Além disso. Essa coroa de risos. sonoplastia. meus irmãos! Eu santifiquei o riso. perspectiva)Narrador Do latim discursus. o papel do encenador enriqueceu-se cada vez mais até chegar à função do moderno diretor de teatro. o uniforme registrado dos fascistas. Como o maestro de uma orquestra sinfônica. até mesmo de cabeça para baixo!. sociais e éticas determinadas. de Shakespeare. embora não com esse nome e com atribuições tão específicas. Ele deve ter a percepção profunda do gênio. Veja-se. indica quem dirige qualquer tipo de instituição ou é responsável pela produção artística de uma peça.

idéias e sentimentos expressos adquirem credibilidade e diferente avaliação. envolto em sua ridícula armadura. a justiça e o amor. percebendo a doidice do forasteiro. chamando a si próprio de Dom Quixote da Mancha e a seu cavalo de Rocinante. mas. o dono da estalagem. Após uma noite de vigília das armas. ajudado por duas prostitutas. tirania) Júpiter Imperialismo Absolutismo DOM QUIXOTE (romance de Cavalaria do ficcionista espanhol Cervantes) Sonhar um sonho impossível. e o gordo. mais conhecida pelo título abreviado Dom Quixote.. É apenas uma questão de metalinguagem crítica diferente. Resumo do enredo O protagonista do romance. que têm inveja de sua futura glória. exige de uns mercadores que declarem a beleza incomparável da desconhecida Dulcinéia: o resultado é que D. As duas familiares e os dois amigos. remetemos ao verbete Narrador. o mito. Quixote à leitura dos livros de Cavalaria. dependendo da autoria do discurso. a ama e os dois melhores amigos. incendiando a maioria dos livros de literatura cavaleiresca. atribuindo a loucura de D. o “ele” de quem se fala. procedem a um expurgo da biblioteca de nosso herói. Quixote contra moinhos de vento. montado num burrinho. mas de todo e qualquer escrito. o Plano da Enunciação. os fatos relatados. deixando a sobrinha. ao afastar-se o nosso herói. Greimas. Aterrado pela pá de um dos moinhos. o dono do saber. depois de ter limpado velhas armas. na sua imaginação. pela segunda vez. o escudeiro ignorante e grosso. Quixote justifica seu fracasso dizendo a Sancho que a transformação dos gigantes em moinhos é obra de inimigos feiticeiros. em nome da justiça e do respeito à pessoa humana. que se deixa envolver pela leitura dos livros de Cavalaria a tal ponto que. a cavalo. que ele idealiza como uma nobre princesa e a quem passa a chamar de “Dulcinéia del Toboso”. tomados por enormes gigantes. pois a substância é a mesma: identificar quem diz o quê ao longo de uma narrativa. de que surgiram os derivados “quixotismo” e “quixotesco”. DITADURA (despotismo. narratário ou destinatário (o sujeito que ouve). verdadeiras peripécias. J. confundindo a ficção com a realidade. parte. agora acompanhado pelo inculto camponês Sancho Pança. o menino é espancado com maior brutalidade. é um castelo. Quixote é objeto de riso por uns carreteiros. pois os resultados são contrários aos esperados: proíbe a um camponês de castigar um moleque. fiel ao seu sonho. é uma criatura de alma ingênua e generosa. A importância de saber quem é o sujeito da enunciação. sendo o autor de uma obra fundamental na Literatura Ocidental: El engenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha. que. que aceita ser seu escudeiro em troca da promessa do governo de uma ilha virtual. tomados por bandidos que raptaram uma princesa. num dado momento. o vigário e o barbeiro. Numa madrugada. parte à procura de aventuras. D. chega a uma taverna. conforme a terminologia do semanticista francês A. fatos. Aí pede ao dono da hospedaria (o senhor do castelo) que o consagre cavaleiro. pois. Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares 1547-Madri 1616) é o mais famoso escritor da Espanha. é recolhido do chão e reconduzido à sua residência. Acolhidos por pastores. realiza a cerimônia da investidura. pertencem ao Plano do Enunciado Já T. O magro. iniciam uma longa série de aventuras. Mas D. A primeira proeza da segunda saída é a luta de D. narrador ou destinador (o sujeito que diz) e um receptor. Reconhecido por um seu conterrâneo. Quixote profere um belo discurso . resolve pôr em prática os ideais dos cavaleiros andantes e ir a busca de aventuras para restabelecer na terra a paz.85 um emissor. O taverneiro. Já armado cavaleiro. Quixote retoma seu caminho.. se presta ao jogo e o aconselha a arrumar dinheiro e escudeiro. é relevante não apenas para a compreensão do texto literário. Quixote é derrubado do cavalo e espancado. A relação entre o “eu” que diz e o “tu” que escuta constitui. D. escolhendo por dama de seu coração e de suas façanhas uma camponesa. enquanto Sancho come até não poder mais. que para nosso herói são duas nobres damas. a literatura com a história.Todorov prefere usar o termo “discurso” em lugar de enunciação e “história” em lugar de enunciado. Quixote. o cavaleiro culto e delicado. o fidalgo provinciano Alonso Quijano. cansado e faminto. Seguem-se as duas primeiras desastradas aventuras. durante a qual D. Para uma melhor compreensão deste importante tópico da narratologia. enquanto a mensagem transmitida. Segue-se o episódio da luta contra dois monges. para compensar o longo jejum. D. Após um dia de viagem.

em que explica os motivos de seu isolamento. A força irresistível do instinto sexual é confirmada por Rocinante. um fora-da-lei que vive à margem da sociedade. Mas. D. um enterro com o rapto de um cavaleiro ferido. Dorotéia. Sancho encontra na conhecida estalagem o vigário e o barbeiro. que maltratam D. o que provoca a raiva e a vingança de camponeses. suicidando-se por um amor não correspondido. agora transformado no “Cavaleiro da Branca Lua”. Quixote em enfrentar um leão manso e do rapto da bela Quitéria pelo amado Basílio. D.86 sobre a “Idade de ouro”. pois o conceito de imitação. fora encontrá-lo para reconduzi-lo a sua casa. aproveitando o sucesso do romance cervantino. narram aos dois hóspedes a triste aventura do jovem Crisóstomo. Quixote. A caminho de Saragoça. ouvem que todos os personagens das histórias encaixadas reatam seus fios: Anselmo encontra Camila. O pivô do suicídio. Tal aproveitamento não deve estranhar. Quixote comete uma série de qüiproquós: confunde uma manada de ovelhas com um exército inimigo. uma bacia de barbeiro com o elmo de Mambrino. Após a descida na caverna de Montesino. onde dão com a bela Dorotéia. porque D. Quixote e Sancho. Esta idade deverá voltar mercê da atuação dos cavaleiros andantes. por sua vez. Cardênio. outra vez Sansão Carrasco. privado de seu ideal de aventuras. Sempre acompanhado por Sancho. O estratagema tem resultado. antes de Cervantes publicar a segunda parte do seu romance. Aí encontram o jovem Cardênio. que consegue derrotar nosso herói. Quixote logo resolve colocar-se a serviço da princesa e assim sai da serra e inicia o caminho de volta. O duque. que persegue umas bonitas éguas. por um equívoco. enlouquecido pela presumida traição da amada Lucinda. Quixote liberta um grupo de condenados às galeras. Quixote a refugiar-se na serra Morena. O barbeiro e o vigário conseguem reconduzir D. entretanto. publicadas separadamente. outra vez tomada por castelo. Ao voltarem à hospedaria. característica essencial da estética clássica. que assume o nome de ‘‘Cavaleiro da Triste Figura’’. Preso na dura realidade da vida cotidiana. D. Ao saírem sem pagar a conta. Retomando o caminho das aventuras. seguindo as leis da Cavalaria. e Fernando. sob o pseudônimo de Alonso de Avellaneda. a bela Marcela. Reiniciada a viagem em busca de aventuras. D. uma aventura real: D. Ordena a Sancho que leve uma carta a Dulcinéia. com medo da vingança policial. publicada posteriormente. A primeira parte. Chegam a uma segunda estalagem. aconselha D. Quixote adoece e morre. Quixote. uma moça feia e malcriada. o herói e seu escudeiro são hóspedes dos nobres moradores de um verdadeiro castelo. passou a ter . Mas seu escudeiro. Sancho é apanhado e sofre maus tratos. Na Segunda Parte do romance. Sancho. sob juramento. publicara a continuação da história do Engenhoso Fidalgo. que estão procurando D. Quixote sonha com os antigos paladinos e com o encantamento de Dulcinéia. Quixote luta contra o bacharel Sansão Carrasco que. nosso herói vai até o Toboso para despedir-se da amada Dulcinéia. a duquesa e o pessoal da corte se divertem muito com a loucura do cavaleiro e a burrice de seu acompanhante. Quixote ao lar. D. compreende as aventuras das duas primeiras saídas do protagonista. Os pastores. Enfim. época em que reinava paz e justiça na terra. Chega. Juntos vão à serra Morena. Seguem-se os episódios da coragem de D. Outro autor. Quixote como a princesa Micomicona. expulsa do seu reino. ele é ridicularizado e maltratado. Quixote atrapalha o amor da jovem empregada Maritornes com um carreteiro e cria uma enorme confusão. pois defende a tese de que o amor é um ato de livre escolha recíproca. O choque com a realidade faz com que outra vez D. editada em 1605. D. está presente à narração e proclama sua não-culpabilidade. Lucinda. Quixote atribua às artes mágicas de seu imaginário perseguidor a transformação de Dulcinéia. Aí são novamente objetos de gozação. Enquanto dormem. Durante a viagem de volta. Quixote. que está em busca do amado Fernando. começa a terceira saída de D. A jovem consente em aparecer a D. obrigando-o a voltar para sua casa. História e estrutura do romance O Dom Quixote é composto de duas partes. camuflado em “Cavaleiro dos Espelhos”. exigindo que os bandidos fossem até à região do Toboso para prestarem homenagem à sua dama. apresenta como sendo Dulcinéia a primeira camponesa que encontra. que perdera a carta. D. Roque Guinart trata os dois com benevolência e os aconselha a pedirem a proteção de seus amigos em Barcelona. onde D. afirmando que só a Deus pertence o direito de julgar e punir. A maior brincadeira é a eleição de Sancho a governador da ilha de Barataria. Quixote dá razão à moça. Quixote e Sancho são aprisionados pelo bando de Roque-Guinart. resolve seguir o exemplo de Cardênio e ficar na serra Morena para fazer penitência.

que coincide com o fim do sonho. falta-lhe o saber e o poder. D. No conjunto das duas partes. de Sancho Pança. a partir do poema medieval francês La Chanson de Roland: o Morgante. Este é realmente seu único retorno consciente. personificada na figura de Cide Hamete Benengeli. principalmente no castelo do duque e em Barcelona. interpretadas. o Orlando enamorado. Efetivamente. da imaginação. b) o ponto de vista de um narrador em primeira pessoa.Quixote e Sancho são objeto de riso e de escárnio. era comum trilhar o caminho aberto por outros. ele não atribui o fracasso às forças ocultas do inimigo. todas as histórias intercaladas acabam com o triunfo do amor sobre o ódio. explorando a invenção de um tema ou a criação de uma personagem. Quixote parte. da cultura. As sucessivas derrotas. do vigário. Na época barroca. pelo dono da primeira hospedaria. que pode ser confundida com a voz do próprio Cervantes. Acompanhado pelo ajudante Sancho Pança. após o rito de purificação da vigília das armas. o herói possui apenas o querer. que saiu em 1615. confundida com um castelo. a segunda vez. que compõem a segunda parte do romance. que se tornara famosa. à força: a primeira vez. D. a vontade de debelar as injustiças do mundo. nas duas primeiras saídas. o plano da enunciação se apresenta composto. por quem D. ao longo da narrativa. O terceiro retorno é definitivo porque a razão vence a quimera. ideologicamente. aonde D. da lenda. pelo modo deceptivo. retorna. são as visões de vida de D. implicitamente. como na Renascença. Lembramos a série de poemas épico-cavaleirescos centrados na lendária figura do herói Rolando.87 um sentido depreciativo só a partir do Romantismo. admite a superioridade do rival. Cervantes. Quixote. são atribuídas às forças mágicas de um imaginário oponente. se desenvolvem. dez anos depois da primeira. por três focalizações: a) o ponto de vista de um narrador onisciente. se relacionam com a história principal. c) o ponto de vista dos narradores intradiegéticos (homodiegéticos ou heterodiegéticos): são as falas das personagens do romance que. D. Devido a esta invenção artística. que fala em terceira pessoa: é a voz da história. expressar suas idéias ou externar seus sentimentos. mas. no modo irônico. quase todas. volta e meia. para neutralizar a obra de seu concorrente. Com efeito. e ao longo da viagem. carregado por um concidadão. nos prólogos às duas partes do romance e. visto como o dono do saber: esta visão nos fornece todo o conteúdo factual. Na segunda saída. que. . esparsamente. Estas modalidades lhe são conferidas. Quixote é derrotado. basicamente. completando a história do seu herói até à morte. mas analisadas. imaginando uma fonte histórica para a sua narrativa. porque dotado de nobres sentimentos e a serviço da justiça e do amor. Desta vez. do barbeiro. que interpreta a história e emite seus julgamentos de valor: é a voz do “eu”. Por este recurso técnico. principalmente. ele inicia sua missão consciente de ser um herói invencível. busca aventuras. Quixote é uma tradução e adaptação de um original árabe escrito pelo historiador Cide Hamete Benengeli. esta visão se encontra. Quixote já tem adquirido a competência necessária para a realização de suas façanhas de cavaleiro andante. Conseqüência desta prova malsucedida é manter o pacto de voltar para sua terra e de deixar de ser cavaleiro andante por um ano. Já as aventuras da terceira saída. O episódio mais importante é a segunda luta de nosso herói com Sansão Carrasco. provocadas pelo conflito insuperável entre a ilusão e as situações reais. se apressou a publicar a segunda parte de seu romance. A segunda parte se caracteriza pela maior importância conferida ao aspecto reflexivo: as aventuras não são apenas descritas. o reencontro da razão e a morte. da verdade sobre as aparências. A primeira saída pode ser considerada como preparatória ou iniciática: no começo da narrativa. Foco narrativo Cervantes finge que a história de D. pelas três camponesas. de onde partem e aonde voltam várias vezes. do taverneiro etc. o investe cavaleiro e o aconselha a providenciar um escudeiro e meios econômicos. O centro nevrálgico das aventuras da segunda saída é a segunda hospedaria. desde o início. da justiça sobre a prepotência. enjaulado. o romance apresenta uma composição circular e uma estrutura ternária: por três vezes D. extradiegético. interrompem o discurso em terceira pessoa do narrador onisciente para relatar fatos que aconteceram a elas próprias ou a outras personagens. É neste lugar tópico que os nós das várias histórias encaixadas encontram sua resolução e. Quixote e Sancho chegam. Quixote volta para sua casa involuntariamente. o Orlando furioso. Cervantes pretende dar a impressão de realidade à ficção.

em busca de aventuras e exercitar-se em tudo o que havia lido sobre os cavaleiros andantes. do amor puro e sincero contra o egoísmo e a falsidade. A missão do protagonista encontra-se explicitada no início da primeira saída. o baixo realismo da narrativa picaresca. do espírito e da matéria. a intercalação de poemas em versos que quebravam o continuum da narração em prosa. mantendo-se distante de suas personagens: como bom humorista. amparar as viúvas e socorrer os órfãos e os necessitados”. Mas todo este complexo ideológico. com a promessa de eterna fidelidade e com a exaltação da beleza incomparável da mulher amada. quando teriam reinados a paz e o amor sobre a terra. A existência de um herói idealizado. do ideal e do real. investigadores dos romances policiais. E agradava às moças. faz-se necessária perante a degradação da sociedade humana. Na de Cervantes. Por este sentido denotativo. A forma livre do romance de cavalaria permitia a convergência de gêneros diferentes: a aventura heróica da poesia épica. simplesmente descreve e sorri. da fé e da razão. O mito da passagem da idade de ouro para a idade de ferro. o cavaleiro andante era considerado incorruptível e invencível. desfazendo todo gênero de agravos. fazer-se cavaleiro andante. respectivamente. é visto por Cervantes sob o modo irônico. pois ele lutava pelo triunfo da justiça sobre a violência. o idealismo amoroso da lírica provençal. pudesse granjear fama e nome eternos. pela reconquista da razão e pela morte do protagonista. que todo o homem sente dentro de si e toda a sociedade acusa em seu . Dois sentidos igualmente importantes devem ser ressaltados: um. como símbolos do cavaleiro e do burguês. D. o cavaleiro andante passou a ocupar o lugar do herói mítico da literatura clássica.88 Sentidos da obra O romance de Cervantes tem sido ininterruptamente estudado e. Perante a antítese entre o real e o ideal. comparáveis às aventuras extraordinárias dos heróis da hodierna literatura de massa (mocinhos das narrativas de faroeste. O conteúdo colocado no fim do romance. como verdadeira obra aberta. que envolve a figura do cavaleiro andante e de todo herói da literatura de massa. O fidalgo D. tomado pelo desencanto da vida. da crítica posterior. do indivíduo e da sociedade. as elucubrações mentais e o rigor lógico da filosofia escolástica. simbólico. é superado pela postura céptica de Cervantes face à possibilidade de resolução dos problemas humanos e sociais. Quanto ao conteúdo. outro. Quixote e Sancho Pança. O herói era visto como o representante dos valores sociais. mas desejados pelo povo. o romance de Cavalaria era um gênero literário profundamente ideológico. Quixote é considerado um louco por não enxergar a realidade que o circunda e tentar mudar a ordem das coisas. o discurso grandiloqüente da retórica. pois é proibido sonhar com um mundo ideal. Cervantes. Este gênero literário agradava aos homens. o romance é uma finíssima paródia da literatura cavaleiresca. não vividos. próprio da época do autor. As aventuras de seu protagonista não são exaltadas. literal. Toda época tem sua literatura de massa. já fraco da razão. onde os ideais dos heróis andantes são magistralmente satirizados. Na fantasia coletiva. é uma criação ideológica com vistas à luta contra as injustiças sociais. pela audição das aventuras descritas nos romances de Cavalaria. tomados. onde. que se extasiavam com as proezas fantásticas dos cavaleiros andantes. sonhando com a volta a uma hipotética fase primitiva da humanidade. predestinado pela divindade a salvar seu povo. mas satirizadas. recorrendo a uma interpretação simbólica de que se revestem os dois personagens principais. porque expressava os sonhos e os anseios da coletividade. O conflito existencial. Mais interessante é tentar captar um sentido mais conotativo na obra de Cervantes. melhor. cujas marcas são abundantes na literatura barroca espanhola. ir pelo mundo com suas armas e cavalo. enfrentando dificuldades e perigos. denotativo. teve o mais estranho pensamento que jamais nutrira outro louco neste mundo: pareceu-lhe conveniente e necessário. se presta a várias interpretações. criado pelo inconsciente coletivo. conotativo. tão bem descrito por Cervantes. que deliravam com as lânguidas declarações de amor. vencedor. atribuindo-lhe proezas acima da força humana. Na descrição da tensão entre estas duas forças opostas. obriga a humanidade a criar suas defesas: o cavaleiro andante.Quixote. profundamente antitéticos. tanto para acréscimo da sua honra como para servir a Nação. sugerido pela derrota. O sentido denotativo é o que transparece da própria obra: o romance é uma sátira aos livros de Cavalaria e tem por finalidade propiciar aos leitores uma honesta diversão. D. a grande maioria do povo alimentava seu espírito pela leitura ou. não toma partido. é o de que é inútil e insano lutar contra a ordem social. da religião cristã sobre o opressor muçulmano. Pelas suas qualificações excepcionais. super-homens da ficção científica). cuja missão é a de “defender as moças.

inspiradora e destinatária de seus feitos heróicos. complexo de Édipo). portanto. o amor puro. em delicadas donzelas. Nestas obras. as aventuras amorosas. expressão do real social. constituem um divisor de águas na produção literária de Dostoievski. o superego freudiano que esmaga os desejos do indivíduo. cinema. preferência pelos cenários noturnos e tempestuosos). com sua ternura e espírito de abnegação. introspecção analítica. a beleza. simbolizada por Sancho Pança. todavia. em exércitos. do útil. caráter introspectivo. sendo explorada por várias artes: pintura. compaixão pelo pecador. teatro. onde predomina a descrição do fundo humano das criaturas. A obra de Cervantes. que se completará com as viagens ao exterior. A crítica costuma dividir sua vastíssima obra de ficção em três partes: 1) Novelas da juventude (Pobre gente. Quixote é considerado um louco porque decide fechar os olhos à realidade e viver num subjetivismo absoluto: “ yo pienso y es así”. um mundo ideal. até hoje é submetida a uma grande variedade de interpretações. manifestação lingüística da sabedoria prática. O protagonista D. de uma forma plena. Louco ou “quixotesco” é todo o homem que luta em vão para modificar a dura realidade em que vive. Quixote como a fantasia poética em contraste com a verdade histórica. D. que castra o sonho do universal poético. Sancho Pança. que constituem a fase ainda romântica de Dostoievski. a verdade. mais profundo e mais universal. entra continuamente em choque com a realidade contingente. reside a beleza humana e poética do romance. condenado aos trabalhos forçados por integrar o grupo revolucionário de Pietrachevski. que será explorado posteriormente. do vulgar. posição social etc. no papel de Alonso Quijana / Miguel de Cervantes. a humildade e o sofrimento como catarse. símbolo do mundo ideal. Outro dualismo antitético. caminhando juntos. os moinhos de vento transformam-se em gigantes. já vislumbramos alguns dos traços mais característicos da ficção dostoievskiana posterior: traços autobiográficos (recordações da infância.89 meio. Lembramos apenas o sucesso internacional do musical O Homem de la Mancha (EUA. Páris. a honestidade. O bom-senso de Sancho. pode ser visto na representação de D. dirigido por Arthur Hiller e interpretado por Peter O ‘Toole. acusação da injustiça social. o conjunto dos valores reais (dinheiro. A arte. No mundo de sua imaginação. Ele representa a força das convenções sociais. Noites brancas. as experiências . e Sophia Loren. contrastivamente. entendida como reflexo do absoluto. duas prostitutas. 1972). o símbolo do homem utópico. devem reinar a justiça. O humorismo sutil de Cervantes reside na consciência da impossibilidade de o homem poder superar o eterno divórcio que existe entre a poesia e a história. exprimindo-se por provérbios. o modo peculiar de construir os personagens (esboços de vários tipos humanos que encontrarão seu acabamento perfeito nas obras da maturidade). Quixote consegue criar um outro mundo. DON JUAN (Casanova. “deben de ser y son”. elementos de sua estética (crítica à literatura retórica e divorciada da vida real. Ele torna-se. considerado o pai do romance psicológico. uma bacia de barbeiro. por ser altamente polissêmica. Coração frágil. que sonha em estabelecer na sociedade um conjunto de valores ideológicos. é a personificação do prático. timidez. A consciência da coexistência no ser humano dessas duas forças antitéticas. cria o conflito existencial. idealismo da adolescência. escultura. descrição da vida do estudante pobre. Quixote. e a loucura de D. que pretendia depor o czar Nicolau 1. necessariamente. tentam influenciar-se reciprocamente: o escudeiro sonha com o governo de uma ilha. na belíssima dama de seus pensamentos. o nobre e intelectual Fedor entra em contato direto com a camada do povo russo mais miserável e começa seu amadurecimento espiritual. Na prisão. extravasamento da vida na arte. fruto da oposição barroca entre a alma e o corpo. representando Alonza / Dulcinea. na literatura e nas outras artes do Romantismo e do Modernismo. 2) Obras de transição: os quatro anos (1850-1854) passados na Sibéria. seu dono acaba se convencendo de que o mundo da cavalaria é um sonho impossível de se realizar. no qual. o mito da sedução masculina)Adônis Narciso DOSTOIEVSKI (o escritor símbolo da Literatura Russa) Sofrer e chorar significa viver Fedor Mikhailovitch Dostoievski (1821-1881) é o maior romancista da Literatura Ocidental. as manadas de ovelhas. predominância do uso do narrador em primeira pessoa. seu pensamento sobre moral e religião (crença no destino. crítica às modas estrangeiras e apego à natureza).). entre outras). Apenas pela força de seu querer. em elmo. televisão. uma camponesa vulgar e feia.

DRAMA  Gênero literárioTragédia Comédia Ópera Do étimo greco-latino drama. indiferença. Se isso não fosse possível. diálogos) e imaginando outros específicos do dramático (cenografia. coreografia. publicado em 1866) medeiam uma meia dúzia de trabalhos literários que atestam a gradativa passagem da primeira para a segunda fase. pode mudar de sentido na dependência da maneira como é pronunciada. formando uma intertessitura harmoniosa. sendo signo de um objeto. em várias versões. livre-arbítrio. uma representação. poderá deliciar-se com a leitura do texto escrito. piedade. de duplos. A palavra. A essência do drama é o diálogo entre as personagens. sonoplastia). Quanto ao aspecto formal. espaço. ironia. musicais. O adolescente e Os irmãos Karamazov) em que Dostoievski atinge a plenitude de sua técnica formal e consegue expressar sua mundividência pela temática existencial e pela construção de personagens que se tornaram imortais. No seu intuito de explorar os subterrâneos da alma humana. suas implicações intrínsecas com a arte da palavra. o grande escritor russo não cria suas histórias e não constrói seus personagens de um modo linear e acabado. imperialismo czarista vs. O mesmo diga-se do gênero lírico: em suas origens e ainda hoje na canção popular. auditivas. não podemos negar. Sófocles. para ser representada no teatro de Atenas e continua sendo apresentada. A peça Édipo Rei foi escrita por seu autor. própria da estrutura artística da narrativa dostoievskiana. Lembramos os romances Humilhados e ofendidos. abrangendo quase todas as contradições da época em que viveu: forças do instinto versus misticismo religioso. de imagens especulares. Daí. a presença do “conflito” como elemento caracterizador do gênero dramático. sentido de humanidade. onde são representadas as peças que se tornaram imortais. 3) Romances da maturidade: é o conjunto das sete narrativas (Crime e castigo. de desdobramentos de personalidade. O eterno marido. assinalamos a técnica da “transposição”. de prismas que refrangem a plurifacetação do ser humano. A frase “eu te amo” pode sugerir sentimentos opostos: paixão. compaixão para com os fracos e os degradados. embora mantenha sua significação lingüística. significa uma “ação” feita em público. No contexto da representação. as personagens de Dostoievski “transpõem” seus caracteres. Assim. pode ser estudado como texto literário. Os demônios. complementando-se e diferenciando-se. canoras. em todos os teatros do mundo. o acesso às obras mais bonitas da dramaturgia ocidental seria proibido a um público que não mora nas metrópoles ou que não tem poder aquisitivo para freqüentar teatros majestosos. da postura corporal do ator. na qual o espectador não consiga destacar nenhuma linguagem de modo especial. numa mesma obra e de uma obra para outra. Mas. Daí alguns estudiosos considerarem o gênero dramático como uma arte à parte. cada qual expondo seu ponto de vista a respeito do acontecido. tendências socialistas. O sucesso da peça dá-se quando o diretor consegue combinar as diferentes linguagens de modo a anular cada uma delas em função da apresentação de uma visão do conjunto. Memórias da casa dos mortos e Memórias do subterrâneo. quem não tiver a sorte de assistir ao espetáculo teatral. em função do tom de voz. o crime. Mas a temática de seus romances. O idiota. os versos . o texto escrito perde seu aspecto propriamente literário para adquirir os caracteres da dramaticidade. de embriões. evidentemente. sendo composto de uma constelação de signos: o texto escrito encontra-se entrelaçado por imagens visuais. o motivo mais explorado pelo romancista é o sentimento de culpa que aflige o homem na sua tentativa de reparar as injustiças individuais e sociais através de um meio moralmente condenado. consciência da culpa vs. Se contem um “script” que usa a linguagem poética. se é verdade que o texto teatral é escrito para ser representado e não apenas lido. personagens. Mas. pronunciada pelo ator. analisando alguns elementos estruturais comuns ao gênero narrativo (fábula. que o leva a odiar qualquer forma de tirania. consubstanciada na figura do pai que submeteu a esposa e os filhos a uma autoridade brutal. O intertexto de Dostoievski acusa a existência de homólogos. violência vs. pictóricas e plásticas.90 desastrosas no jogo. Quanto à temática. o sofrimento físico causado pela epilepsia e a dor moral provocada pela penúria econômica. interdições socio-morais vs. O jogador. de outro lado. Outro aspecto relevante é sua complexidade: o gênero dramático (Teatro) engloba a Literatura e outras Artes. O fundamento psíquico da intenção ou do ato criminoso é o complexo de Édipo. não se limita apenas ao tratamento deste motivo. da mímica do rosto ou das mãos. mas reparte fatos e características psicológicas de forma a poderem ser vistos de vários ângulos. tempo. separada da literatura. Entre as obras da fase juvenil e o primeiro grande romance da época da maturidade (Crime e castigo.

na colisão entre os diferentes objetivos das personagens. da iluminação adequada. havendo muitas homologias entre os três gêneros literários: um drama. tem um enredo vivido por personagens num certo tempo e num determinado lugar. a purificação dos sentimentos e a mudança do status quo. Ifigênia em Táurida. mais do que qualquer outro tipo de arte. Mais do que isso: para alguns estudiosos a poesia dramática é considerada a síntese da poesia épica e da poesia lírica. elas precisam ser materializadas no contexto sensorial dos sons vocais aos quais os significados da emoção e do sentimento são inerentes por natureza . Um estudioso do assunto. Na verdade. com a família. Daí a importância. Portanto. Outra característica diferenciadora do gênero dramático é o aspecto temporal: se o gênero narrativo sempre se refere ao passado (conta uma história que já aconteceu) e o lírico se refere ao presente (exprime um sentimento que o eu poemático está vivendo aqui e agora). desde que uma peça teatral contenha um texto escrito em linguagem poética. que faz rir. tem a função de induzir o homem à reflexão sobre a realidade em que vivemos. de assunto nobre. exprimindo um tema. a forma dialógica é a característica mais marcante da arte teatral.91 poéticos estão ligados ao acompanhamento musical. descobre a “idéia-força” do estilo teatral na união falagesto: as palavras não passam de símbolos abstratos e. do cenário. Nele encontramos elementos narrativos (episódios de vida) e líricos (expressão de sentimentos). pois. que os antigos chamavam de “Tragicomédia”. também do aspecto físico do ator. com certeza. ela pertence. que faz chorar. Aliás. esta não apresenta a tristeza separada da alegria. Orestes e Electra. das vestimentas apropriadas. no teatro temos várias perspectivas ideológicas: o espectador fica sabendo dos fatos através da fala das personagens. para que seja revelado seu pleno significado dramático. mesmo nos períodos de triunfo da estética clássica. cada qual expondo idéias e sentimentos do seu ponto de vista. o neoclássico francês . geralmente no contexto de um show apresentado por bandas e cantores: mas isso não impede o prazer da leitura de um poema de Manuel Bandeira ou da letra de uma canção de Chico Buarque de Holanda no aconchego do lar. Enquanto no gênero narrativo predomina o ponto de vista de um narrador e no lírico a focalização está concentrada no eu poemático. geralmente em conflito com a visão dos demais personagens. Toda boa peça provoca no espectador a reflexão sobre a eficácia da observância dos valores ideológicos. com a sociedade. Outros críticos acham que a essência dramática está no conflito.Peacock (Formas da literatura dramática). sofrendo ataques violentos do comediógrafo conservador Aristófanes. O gênero dramático. da máscara. se a arte é imitação da vida. como um romance ou uma balada. a pureza dos gêneros literários é um postulado teórico. o dramático visa o futuro: expõe a problemática dolorosa de uma situação existencial com o fim de estimular a catarse. além da linguagem. destinamos verbetes específicos a peças maiores (Tragédia. Ifigênia em Áulis. no choque entre vontades opostas. indiscutivelmente. Tensão essa expressa formalmente através do diálogo. Quanto às “formas” do gênero dramático. de assunto vulgar. terminam com o happy end. tratando de todos os problemas existenciais. onde não existe mais a oposição maniqueísta entre a peça trágica. apesar de serem tragédias. O renascentista-barroco inglês Shakespeare coloca elementos cômicos em suas tragédias e elementos trágicos em suas comédias. o Momo e o Vaudeville) e o teatro de Marionetes. Demonstrando que certos valores são falsos e hipócritas. e a peça cômica. inventado por Aristóteles a partir da análise das obras que ele conhecia. ocupando o justo meio entre a extensão da épica e a concentração da poesia lírica. não apenas às artes cênicas. Mas o poeta trágico foi severamente criticado por isso. Já o dramaturgo grego Eurípides misturara elementos cômicos à tragédia ao colocar um final feliz em suas peças centradas sobre o ciclo mítico troiano. dos gestos. Comédia. um problema existencial. R. com a agravante de que personagens nobres casam-se com gente plebéia. o drama sugere a mudança de costumes. que podem envolver o homem consigo próprio. O drama reúne a objetividade da epopéia com o princípio subjetivo da lírica. Ópera) e menores: Farsa (incluindo o Mimo. com a divindade. pois não conseguem proporcionar a felicidade almejada. dramaturgos famosos nunca foram completamente fiéis ao principio da pureza dos gêneros. mas que hoje não se sustenta mais na prática teatral. Ao longo da evolução do gênero dramático. também à arte da literatura. O que varia entre um gênero e outro é o modo como a história ficcional é contada e os meios diferentes de que o dramaturgo pode lançar mão. Conflito que gera constantemente surpresa e tensão. um sentido de vida. Aqui vamos tratar apenas do “Drama Moderno”.

cujo título oximórico já indica o tema da indagação sobre o mistério do Universo. Meu irmão pequeno dormia. no Prefácio à peça Cromwell. Da coletânea Claro enigma (1948-1951). DRUMMOND (o “poeta maior” da Literatura Brasileira) Quando eu morrer. minha mãe ficava sentada cosendo. que inclina Drummond para um existencialismo niilista. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé. mas. qualificativo de . conscientemente. proclama o fim do mito da pureza dos gêneros. Entre os dois mestres da literatura nacional. comprida história que não acaba mais. deixa Minas Gerais e transfere-se para o Rio de Janeiro. há algo em comum: o senso de humor com que retratam o triste espetáculo da vida. Em 1934. Em Drummond podemos distinguir várias linhas poéticas: 1) A poesia saudosista da família e da terra natal. o próprio termo tragicomédia. nomeado chefe de gabinete do ministro da Educação Gustavo Capanema. ia para o campo. transcrevemos o início do poema “Infância”: Meu pai montava a cavalo. a melhor produção do gênio literário no campo da poesia brasileira. criando uma tal polêmica que obrigou a Academia Francesa de Letras a intervir. exercendo a profissão de funcionário público e de jornalista. junto com a denúncia das outras prerrogativas da estética clássica. ao mesmo tempo. foi cunhado pelo escritor latino Plauto: no Prólogo de Anfitrião. O drama burguês passa a substituir a tragédia e a comédia. definindo a obra não como uma tragédia clássica. onde permanece até sua morte. que se encontra especialmente na coletânea Rosa do povo (1943-1945). combinando os princípios estruturais e ideológicos dos dois gêneros. porque o teatro não tem apenas a finalidade de divertir ou fazer chorar. as personagens nobres e vulgares. AIguma poesia (1923-1930). 2) A poesia intimista do “eu retorcido”. Aliás. escolhemos o soneto abaixo. A concepção do drama moderno nega a oposição sistemática entre o cômico e o trágico. sobretudo. realiza a síntese do trágico e do cômico. símbolos e outras armas promete ajudar a destruí-lo como uma pedreira. morre comigo uma certa forma de ver O mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é o nosso “poeta maior”. intuições. Exemplificamos com o poema “Nosso tempo”: O poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras. antes separados. que indica uma peça em que estão misturados elementos trágicos e cômicos. afastando-se dos padrões impostos pela opinião comum. O poeta Victor Hugo. A fina inteligência e a sensibilidade apurada levam Drummond a uma percepção da realidade de uma forma mais autêntica e subjetiva. O lexema “ingaia”. a ação dramática pode provocar riso e choro.92 Corneille põe como desfecho de sua tragédia Le Cid o casamento de Rodrigo e Ximena. mas estou cheio de escravos. de reflexão sobre a essencialidade do ser humano. Eis a primeira estrofe do poema-título da coletânea “Sentimento do mundo” (19351940): Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Mas é a partir da revolução estética promovida pelo Romantismo que a dramaturgia. 3) A poesia política. A problemática pode ser. uma floresta. a de fazer pensar e refletir sobre a nossa realidade existencial. Da primeira coletânea de poemas. minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. 4) A poesia metafísica. transcendental e banal. mas uma “tragicomédia”. comparável ao que foi Machado de Assis na prosa ficcional. um verme. define essa sua obra dramática como uma tragicomédia. para justificar a presença de personagens nobres (o deus Júpiter) junto com seres vulgares (o escravo Sósia). de participação social.

Lição de coisas. o dinamismo da era da máquina. José. O próprio título do conjunto de poemas escritos entre 1959 e 1962. Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Maria ficou para tia. dos ócios. livre de encantos. o poeta mineiro formou o termo a partir do adjetivo “gaio”. destruindolhe o “sonho da existência”. Vejamos a não menos famosa Quadrilha. o agudo olhar. . “iovial”. ecos. e agora. usando uma linguagem coloquial. você? 6) A poesia-prosa: a lírica de Carlos Drummond de Andrade é uma profunda e lúcida indagação sobre a essência e a existência humana. que significa “alegre”. privados de qualquer adjetivação. marca da negação. à moda do futurista italiano Marinetti. A relação do título com o corpo do poema seria essa: quando o homem consegue o dom de chegar à maturidade. Raimundo morreu de desastre. uma “cela”. o povo sumiu. em que predomina o estilo sintético. e nada pode contra sua ciência e nem contra si mesma. teve enorme sucesso com suas narrativas de “capa e espada”. feita através da apresentação de quadros do cotidiano. 5) O poema-objeto. portanto. Transcrevesmos aprimeira estrofe: E agora. chamado de “pai” para distingui-lo do seu filho natural homônimo. a luz apagou. parece sugerir tal interpretação. dos quebrantos.93 “ciência”. em que os substantivos. exige uma explicação. à compreensão profunda da realidade. não se encontra dicionarizado e. José? e agora. telegráfico. Uma estrofe de A ingaia ciência: A madureza sabe o preço exato dos amores. José? A festa acabou. a noite esfriou. rimas internas e externas. A nosso ver. Vejamos a primeira estrofe do poema Isso é aquilo: O FÁCIL o fóssil O míssil o físsil a arte o enfarte o ocre o canopo a urna o farniente a foice o fascículo a lex o judex o maiô o avó a ave o mocotó o só o sambaqui Seu poema antológico. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. são justapostos sem nenhum nexo sintático ou semântico. a mão. essa sabedoria o torna infeliz. simples. Teresa para o convento. João foi para os Estados Unidos. acrescentando-lhe o prefixo latino in. assonâncias. é um interrogativo sobre a busca de solução neste beco sem saída que é a nossa vida. também romancista e teatrólogo. onde o poeta mineiro trata do amor não correspondido. pois lhe mostra o mundo como um “círculo vazio”. A linguagem poética é reduzida a um puro nominalismo. O agudo olfato. Tal artifício técnico teria a intenção de representar esteticamente a coisificação da vida humana. DUMAS (o romance de capa e espada) Alexandre Dumas (1802-1870). de étimo provençal. A relação é estabelecida apenas por elementos fônicos: aliterações. se destroem no sonho da existência. acessível ao grande público. ilustrando o famoso adágio popular “Quem eu amo não me ama e quem me quer não me convém”: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.

Sua dramaturgia apresenta a crise de todos os grandes ideais da humanidade. comércio fraquíssimo. em três atos. embora tenha utilizado algumas inovações técnicas de Brecht. pois. é seduzida por Alfred Schill. de família humilde e ainda de menor idade. casas abandonadas. ao morrer. ironiza o fanatismo de um comerciante anabatista que se priva de seus bens para fazer uma experiência de vida comunitária. são facilmente corruptíveis porque ninguém resiste à força do dinheiro e ao jogo de interesses. Mas o poder da corrupção torna inútil seu sacrifício. por um mordomo e por seguranças. A visita da Velha Senhora é a tragédia do ressentimento. os cientistas tomam a heróica decisão de internar-se num hospício com o fim de evitar que suas descobertas sejam utilizadas pelas grandes potências para destruir-se mutuamente. A dura realidade da existência é a luta pela satisfação dos instintos. para impedir o casamento. legando à cidade o cheque prometido. face às trágicas conseqüências das duas Guerras Mundiais de 1914-1918 e de 1939-1945. que a tira de um bordel e. superficialmente cômica e muito divertida. acaba perdendo a criança com apenas um ano de idade. Seu teatro deve mais ao primeiro do que ao segundo autor. Em Os físicos. Sua ironia chega ao pessimismo mais absoluto. Obrigada a prostituir-se para poder sobreviver. Um anjo vem a Babilônia retrata a fragilidade das instituições políticas e religiosas. mas inteiras coletividades. a mocinha pede justiça. Mas não deixa de ter sorte: bonita e inteligente. Com o musical Frank V. a justiça vingadora. heroísmo. arruma falsas testemunhas e prova no tribunal que ela era uma moça leviana. palco e platéia são empestados pelo cheiro de bosta de galinhas: o último Imperador de Roma. As instituições sociais. Esta é a fábula. Dürrenmatt faz uma hilariante sátira da vida dos banqueiros. especialmente o antiilusionismo dramático e o recurso a fatos históricos do passado. isto é. Os três mosqueteiros e O conde de Monte Cristo. embora de fundo trágico. A cidade de Gullen encontra-se num estado de total decadência: indústria parada. Schill é assassinado pela coletividade e em público. que temem qualquer inovação mesmo que venha do céu. Com o novo nome de Claire Zahanassian chega de trem junto com a sua comitiva e oferece milhões para soerguer a cidade. A peça de estréia. inclusive a própria esposa e os filhos. Está escrito. mas profundamente trágica porque realista e verdadeira. os três nobres pretendentes à mão da bela Anastásia (um intelectual aristocrata. satírica. sentimento irresistível do ser humano que a mitologia grega personificou na figura de nêmesis. tornara-se um avicultor! Em O casamento do senhor Mississipi. se tornaram uma verdadeira literatura de massa. pelo dinheiro. disposta a vingar a afronta sofrida na sua mocidade. da vingança. A dramaturgia de Dürrenmatt não faz concessões ao público: irônica. com respeito a Alfred. A peça mais famosa de Friedrich Dürrenmatt é A visita da velha senhora. cega mas de boa memória. o Grande. um juiz reacionário e um idealista revolucionário) são derrotados por um oportunista sem escrúpulos. o sétimo e o nono. As pessoas mais influentes da cidade. especialmente a justiça. é a seguinte: a jovem Clara Waescher. Dürrenmatt não acredita na possibilidade de uma transformação social. DUMONT. Denominada “comédia trágica”. Assim caluniada. . então. volta à cidade natal. mas a família do rapaz. É também a comédia da moral burguesa regida pela lei do estômago: os acusadores de ontem se tornam os defensores de hoje. sendo exploradas. sua fábula. atraídas pela força irresistível do dinheiro. a seqüência das ações em sua ordem cronológica. a deixa herdeira de uma fabulosa fortuna. seu antigo sedutor e caluniador. pois tivera relações sexuais com outros rapazes. que se tornaram pura utopia: capitalismo. reconhecem a ignomínia de Alfred e decretam sua morte. Santos (o sonho de o homem voar)ÍCARO DÜRRENMATT (dramaturgo suíço) O grande dramaturgo Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) confessou as influências de Strindberg e de Brecht. um moço filho de um ricaço de uma cidade provinciana. desiludido da vida. O espectador fica sabendo de todo o conteúdo fabular pela fala das personagens ao longo do drama. acompanhada por dois maridos. mais tarde. agora casado e com filhos. A Velha Senhora. pois as fórmulas são vendidas pela Diretora do manicômio.94 Suas obras principais. Na representação da comédia Rômulo. pela arte cinematográfica. feroz. A Velha Senhora vai embora. O egoísmo humano atinge não só os indivíduos. fraternidade. religião. Apaixonada e grávida. com relação a Clara. Mas há um preço: a cabeça de Alfred Schill. consegue casar-se com o milionário Zahanassian. acontece exatamente o contrário. A trama da peça começa com a chegada de trem de Clara a Gullen e a festiva recepção. Clara é expulsa da cidade. amor. pela ascensão social. É este desencanto que justifica sua predileção pelo tom irônico e pela comédia. socialismo. Quanto ao sentido.

A serenidade de vida deste jovem aplicado e comportado... de um narrador heterodiegético. na cidade de Lisboa. Macário não pôde dar todos os pormenores . eu calo-o. como intermediário entre o protagonista Macário (elemento do mundo da ficção). renovando constantemente a conexão da transmissão do saber entre os dois narradores e o leitor: “Macário disse-me que nesse tempo. volta e meia.95 EÇA (ficcionista português)Realismo “O que não contas à tua mulher. parte de um projeto inacabado de descrição da totalidade social através de romances seriados (o nome do programa era Cenas da vida portuguesa). calvo. o que não contas ao teu amigo. que moram num sobrado fronteiriço ao armazém onde o jovem trabalha. Podemos considerar este primeiro momento do conto como a situação inicial da “trama”. Suas melhores obras de ficção são: O crime do padre Amaro. alto. onde ataca o falso moralismo da sociedade burguesa. Macário se apaixona pela jovem de cabelos loiros que nas tardes se debruçava na janela. rápido e inconseqüente. de óculos etc.. Eça foi também um ótimo escritor de contos. para quem é transmissor da mensagem.. Mas esse caso. no ano de “1823 ou 33”. gordo. acontecidos. é perturbada pela vista.” Problema do narrador O início deste conto de Eça de Queirós mostra a peculiaridade do foco narrativo empregado ( Discurso Narrador): o leitor vai tomar conhecimento da história ficcional do personagem Macário através de um narrador que fala em primeira pessoa. e. moço de 22 anos. Os Maias. vividos e narrados por uma terceira pessoa. mas. o narrador relata como conheceu Macário (numa estalagem da região portuguesa do Minho. focalizando particularmente as causas psíquicas e ambientais que induzem a protagonista Luísa ao adultério. guarda-livros de um armazém de panos do tio Francisco. o “caso” amoroso que lhe acontecera na juventude e que marcara profundamente o destino de sua vida. “Começou por me dizer que o seu caso era simples e que se chamava Macário. Eça de Queirós (1845-1900) é o maior escritor português da escola realista. Resumo da fábula A situação inicial da “fábula”. portanto. colocada no conto com a única função de transmitir ao leitor o caso de vida do protagonista da história. que compartilha o quarto do albergue. agora já no plano do enunciado (ou da história Mito) e não mais no plano da enunciação (Discurso).. A presença de Macário como primeiro narrador ocorre não só no início da narrativa. de quem é receptor. durante uma viagem. na estalagem”.. depois.. Era singular que Macário não se lembrava... pois sua postura é a de quem narra fatos e descreve sentimentos. mas que não participa dos fatos narrados. O narrador funciona. uma bonita loira de 20 anos. primeiro. O fingimento de apresentar a ficção como se fosse verdade é uma peculiaridade marcante de estilo da escola realista. Segundo me disse Macário . Após cinco dias de tímido flerte. que o próprio Macário lhe contara. recorre ao longo do conto. O primeiro encontro. de uma bela viúva de 40 anos. nos servirá como exemplo de análise da narrativa realista. Além de romancista. Singularidades de uma rapariga loura.. seguindo o exemplo de Balzac. e o leitor virtual (elemento do mundo real). casto e simples. a hipocrisia e a insensibilidade do clero de sua época. em que o autor cria a atmosfera propícia para Macário se dispor a revelar ao desconhecido.. Macário contou-me. dá-se no armazém . então. apresenta o protagonista. uma personagem ad hoc. Um deles.” Nos primeiros parágrafos do conto.. em que retrata a lascívia. de cabelos pretos. Trata-se. solteirão inveterado. pela aparecimento da filha desta. Essa função de elo de ligação entre o mundo imaginário e o mundo real confere ao narrador uma visão objetiva.. O primo Basílio. numa noite de outono) e descreve as características psicossomáticas daquele que irá ser a personagem principal da narrativa: velho de sessenta anos. de que o ficcionista português foi um mestre. que ainda não conhecera os prazeres do sexo.. conta-o a um estranho.

portanto. Macário decide casar-se com Luísa e comunica esta sua determinação ao tio Francisco. o jovem abandona Luísa. ao nível do ser. Chegando na esquina. ela é descrita como uma jovem ingênua. pede-lhe para ser fiador de uma grande quantia e foge com o dinheiro e a mulher de um alferes. como vimos. No além-mar. não existem culpas subjetivas. não existindo nenhuma complexidade psíquica. se sacrifica e consegue acumular uma pequena fortuna. ao nível da descrição do ambiente (Tempo e Espaço) e ao nível da metalinguagem ( Retórica). Conforme a doutrina do Positivismo e do Determinismo. vai visitar o tio Francisco que. que fazem com que o sujeito de ações criminosas seja isentado da responsabilidade de seus atos. o roubo do anel não tem uma explicação lógica. Enquanto os outros furtos poderiam ser atribuídos às precárias condições econômicas das duas senhoras que viviam sem o amparo de um homem. pele fina. Tais indícios preparam o leitor para a compreensão do desfecho do conto. Macário aceita o convite de uma firma para ir trabalhar no Cabo Verde. Mas. muda de idéia a seu respeito. O empregado da joalheria colhe o flagrante do furto e Macário. que uns teóricos chamam personagens “planos’’ ou “de costumes”. consentindo com o casamento e dando-lhe participação na sua firma. a cleptomania. com características físicas que induzem o protagonista masculino e o leitor a ter dela a imagem de um ser angelical: cabelo loiro (a cor loira é a imagem simbólica da luz solar). não de uma necessidade. inesperadamente.96 onde a viúva e a filha foram comprar mercadorias. magnífico. Nível temático: Eça explora artisticamente o tema da “cleptomania”. Marcado o dia do matrimônio. perdido o emprego e a residência. Nível das personagens: A narrativa da época do Realismo constrói personagens de uma marcante coerência psicológica. No conto em estudo. pois a jovem Luísa estava prestes a se casar com um homem abastado e não precisava furtar um objeto que o noivo lhe estava oferecendo como presente. quando. podem ser encontradas ao nível do tema principal. não querendo renunciar ao amor de Luísa. Desesperado. A revelação final desta “singularidade” do caráter da protagonista é precedida por vários índices: a) o uso de um leque chinês. os sinais de seu vício predominante são evidenciados pelo contraste entre a apatia com relação ao sentimento amoroso (nos encontros noturnos com o namorado chega a ter sono) e o fascínio que sente pelos objetos de alto valor material: veja-se a atração pelo rolar da moeda de ouro em cima da mesa e o alvoroço com que . chamando-a de “ladra”. verificamos a presença de três personagens principais. desde o começo. No dia seguinte parte para a província. durante uma reunião social na residência de uma família amiga. c) o desaparecimento de uma moeda de ouro. Seguem-se mais dois encontros: um. Voltando a Lisboa. não sendo aceito em nenhuma outra firma comercial. b) o desaparecimento de uma caixa de lenços da Índia. pois é a hereditariedade ou o meio social que induzem o ser humano aos desvios da norma de conduta. pois ninguém queria desagradar o velho. inocente. com o episódio do furto do anel de pérolas. uma anormalidade psíquica que consiste num impulso irresistível de roubar sem necessidade. Percebemos como a estética realista cultivou a exploração de temas ligados a deficiências biopsíquicas. num sarau em casa de um tabelião letrado. O que caracteriza a anormalidade psíquica da personagem ladra é a gratuidade do ato. sem perder a calma. Trata-se. Quando está disposto a tentar outra vez a fortuna no além-mar. que não aceita a idéia. com traços identificadores e imutáveis. pura. exerce o papel temático de cleptomaníaca. Macário leva a noiva a fazer compras e Luísa rouba um anel com duas pérolas. filha de uma viúva pobre. Ao nível do parecer. Os personagens são qualificados. luta. recatada. pede desculpas e paga a vultosa quantia correspondente ao preço do anel roubado. Sentido do conto As características do Realismo. neste conto de Eça. no dia em que a mãe e a filha Vilaça foram no armazém do tio Francisco com o pretexto de comprar casimiras pretas. que não condizia com a posição social de Luísa. de grande valor. mas de uma doença. fruto de uma tara. e outro na própria residência das Vilaça. verdadeiros “tipos”. se descobre a identidade da pessoa que praticara os outros roubos. mão pequena etc. que participam diretamente do desenvolvimento do enredo: 1) A personagem-título. passa maus momentos. a moça Luísa. O jovem. Macário é obrigado a saldar a dívida do canalha e fica outra vez na miséria. o amigo “do chapéu de palha”. ao nível da qualificação dos personagens. porque é impelido a agir por um determinismo atávico ou ambiental. que lhe arrumara o negócio no Cabo Verde.

mas prático nos negócios. neste aspecto. a chegada numa estalagem desconhecida. cuja família cultivava a velha tradição de “honra e de escrúpulo”. 2) O protagonista Macário é descrito como um jovem pertencente à “burguesia cautelosa”. A experiência do velho. que induz o jovem a mudar o rumo de sua vida: a noite quente de julho. o encontro de dois homens solitários. Eça prepara toda a atmosfera propícia às revelações confidenciais: a viagem de carruagem através de uma região pitoresca. como em outras obras. porque. revela a sua faceta profundamente humana. por ter descoberto o furto da noiva. assume a dívida daquele que considerara seu amigo. Fazemos referência apenas a duas ocorrências. honesto e de uma retidão moral inabalável. 3) O tio Francisco é qualificado como um velho autoritário e tirânico. o autor evidencie. onde os personagens agem e expõem seus sentimentos. a noite. lhe faz pressentir que o sobrinho seria infeliz no seu relacionamento amoroso. quando deveria procurar-lhe um médico. A lágrima que lhe corre pela face enrugada. o pano de fundo. condenando-se a uma perpétua e infeliz solidão. Estúpido. mas homem de bem”. porque se deixa embrulhar pelo “amigo do chapéu de palha”. É o determinismo psíquico que induz a personagem a procurar o que realmente satisfaz sua necessidade existencial. referências ao movimento literário. é uma característica peculiar da escola realista e Eça. predispondo-o a revelar a um conhecido ocasional o episódio mais importante de seu passado. podem ser relevadas umas séries de enunciados em que o narrador denuncia sua adesão aos cânones estéticos e ideológicos do Realismo e sua ojeriza aos ideais artísticos do Romantismo. a lembrança do amigo comum Peixoto. estúpido. Sentimentalmente tímido. paga o preço do anel e abandona a moça. inteligente. porque vive de acordo com seu código de honra: por ter beijado Luísa. outra ao do enunciado (história): a) No início do conto. Tudo isso leva Macário. que criam a atmosfera propícia ao acontecimento de um fato ou à revelação de um sentimento. citando um antigo provérbio: “o que não contas à tua mulher. Seu tio o define muito bem como “estúpido. pode ser entendida como o desejo de preservá-lo da desgraça da união com uma mulher. o outono. porque não compreende a doença de sua noiva. b) O surgimento da paixão amorosa de Macário pela bela loira também é precedido pela descrição do ambiente físico. é a prova máxima do imenso afeto que sente pelo sobrinho. a chorar. na estalagem”. uma pertencente ao plano da enunciação (discurso). que ainda não tinha “sentido Vênus”. Ao longo da narrativa. mas homem de bem”. conhecedor da vida. a monotonia da vida de um jovem solteiro. antes de todas as seqüências narrativas importantes. Nível descritivo: a representação minuciosa do ambiente. que morava em frente. que casara em Vila Real. cidade onde os dois homens viveram parte de sua vida. mais do que um capricho de seu autoritarismo. oculta pela aparência de severidade e intransigência. É o único personagem que apresenta uma mudança psicológica: no fim do conto. confundindo cleptomania com roubo e ameaçando de entregá-la à polícia. Que o ambiente era propício à revelação sentimental é declarado pelo próprio narrador que nos reconta a história de Macário. a recordação nostálgica dos tempos passados e dos lugares longínquos. renuncia ao emprego que lhe dava segurança econômica. deixando-se levar pela paixão amorosa. mas de oponente. Segundo as teorias positivistas e deterministas. sente-se obrigado a casar com ela. a comparação de si próprio com “os gatos sensíveis que se esfregam”. em que a atmosfera estava “elétrica e amorosa”. velho de sessenta anos. Nível metalingüístico: o envolvimento de Eça de Queirós com a escola realista faz com que. Selecionamos algumas expressões que nos parecem significativas: . Ele exerce a função de ajudante do protagonista. por ter assinado a fiança. estúpido. explícita ou implicitamente. Homem de bem. solteirão e misógino. jovem “estúpido. a lembrança dos cabelos negros e dos alvos braços da senhora Vilaça. relativamente à sua aspiração ao casamento. com relação ao seu progresso profissional e econômico. que era o motivo da sua realização existencial. é o protótipo do jovem de princípios. é um mestre. que constitui o cenário. podemos observar o cuidado com que o autor descreve os ambientes físicos. o espaço (o meio) e o tempo (o momento) são fatores importantíssimos para a formação do caráter e elementos indispensáveis para a compreensão da conduta. No conto em análise. mas sem malícia. o que não contas ao teu amigo.97 examina e experimenta nos dedos os anéis na loja do ourives. Sua oposição ao casamento do sobrinho. neste conto. conta-o a um estranho. na noite em que faz as pazes com Macário. o som da rabeca de um vizinho.

castigou a jovem ninfa privando-a da fala. latinista. a lenda de Eco teve múltiplas versões literárias e musicais. Com efeito. e salas rendilhadas. a casa é uma cidade pequena (ditado grego) O étimo oikos. embrenhou-se nos bosques e foi definhando até restar dela apenas uma voz que faz eco nas montanhas. desde as origens do primeiro agrupamento humano de que temos notícias. a figura mitológica de Eco liga-se aos poderes espirituais da música. que possui o dom da música e do canto. duplamente vítima de Pã. referindo-se a seu estado de espírito sentimental e romântico. que é um espaço maior com mais habitantes. de canudo na mão). o atual Iraque. A campina era o espaço coletivo. cria uma imagem sonora. Segundo uma versão do mito. enquanto o deus todo poderoso ficava paquerando as ninfas. serralhos. séc. filha de uma ninfa. o mais matemático ou o mais crítico. sultanas cor de âmbar. relacionando o nome da ninfa com o étimo eikôn. Por essa versão. em que “a poesia apossava-se vorazmente deste mundo novo e virginal de minaretes. não conseguia declarar-lhe seu amor. era circundada por um muro e um fosso. nas margens dos rios Tigre e Eufrates. conforme o relato que se encontra na pastoral Dáfnis e Cloe do romancista grego Longus. no IV Milênio a. Esta lenda. Para estabelecer o equilíbrio entre as propriedades privadas e públicas. pertencente ao séqüito de Hera (Juno). Pã “suscitou um acesso de furor nos pastores e guardadores de cabras”. e que repete apenas os últimos sons da voz que lhe chega” (Ovídio). gerenciar uma casa tem muito a ver com governar uma cidade. Para vingar-se. “iconografia”): como Narciso reflete seu rosto na fonte. que despedaçaram o corpo da bela jovem e “espalharam pela terra seus membros que cantavam ainda”. A figura mítica dessa bela jovem foi criada pelos gregos para explicar a origem do fenômeno físico do “eco”.C. pois Eco.. ECOLOGIA (e Economia: a conservação do ambiente: natureza. mas cúmplice de Júpiter: com seu canto e sua tagarelice entretinha a esposa divina. cultivando a terra. A atividade econômica (sustento da casa) e ecológica (preservação do ambiente) têm muito em comum. na Mesopotâmia. casa e cidade) A cidade é uma casa grande.. quando fala dos “velhos poetas pitorescos”. O castigo foi cruel. piratas do arquipélago. de homens. na figura do tabelião (homem letrado. visando o uso das . sendo por ele abandonada. de nariz adunco e fatal. de gritos de bichos.C. que significa “imagem” (de onde veio “ícone”.98 “Sou naturalmente positivo e realista. A cidade de Ur.. Já uma variante do mito de Eco relaciona a ninfa com Pã.. o deus dos bosques. quando. desesperada. ECO (o mito da repetição sonora) Narciso Orfeu “Aquela que não sabe falar em primeiro lugar. na realidade e na arte ” A ironia sobre o Romantismo aparece também aqui e acolá: quando. cheias de perfume de aloés onde paxás decrépitos acariciam leões”. A ninfa. de onde cada comunidade tirava o sustento. sendo-lhe permitido apenas pronunciar a última sílaba de uma palavra. assim Eco. II d. (Dafne) Aqui. surgiram códigos de condutas. de cabelos compridos.. Quando a ciumenta Juno se apercebeu do estratagema. a continuada repetição de um som a longa distância. de instrumentos. amigo das musas. associa o mito de Eco ao de Narciso. que se encontra descrita nas Metamorfoses do poeta latino Ovídio. apaixonada por Narciso. que significa “casa” ou lar. considera que “não se pode ser mais estúpido”. Eco era uma ninfa das montanhas. Este deus castigou a moça quer porque lhe invejava a beleza do seu canto quer porque ela lhe recusara seu amor. aproximando Eco de Orfeu. pela repetição do som. Eco é uma mortal. separando o ambiente fechado (cidade) do aberto (campo). que não pode calar-se quando alguém fala com ela. satiriza “as primeiras audácias românticas” . Sua voz passou a imitar todos os sons: de deuses. de objetos. A par de outros mitos fecundadores. deu origem aos termos Ecologia e Economia.

durante a Idade Média. a maravilhosa ilha do Nordeste brasileiro. têm o mais alto índice demográfico e o pior tipo de transporte. deixa bem claro que a história do desenvolvimento econômico ensina que é “a cultura que faz toda a diferença”. é merecedor da ajuda solidária de entidades assistenciais. não deixando que ideologias utópicas ou crenças religiosas atrapalhassem seu desenvolvimento econômico. O dinheiro irá se perder nos meandros da burocracia inepta e dos políticos corruptos. ao mesmo tempo em que se proporcionava uma melhor qualidade de vida. É muito cômodo culpar o Capital estrangeiro pelo atraso cultural e pela pobreza.99 águas e outras relações de vizinhanças. Infelizmente. além de não sofrer penalidades. urbano (não inchar a cidade de habitações sem infraestruturas). que cultivavam as terras. desativado porque tinha causado a morte de uma ave. considerada como proteção ambiental. considerada um paraíso ecológico. construído para captar a energia solar. tem raízes longínquas. a quem caberia a obrigação de zelar para o bem público. da democracia. países massacrados na II Guerra Mundial. distribuindo esmolas via cesta básica e outros paliativos. Nenhuma ajuda será suficiente se não houver o espírito patriótico de promover o progresso da coletividade. tem que olhar para o futuro para melhorar o macro-ambiente. É uma vergonha constatar que no Brasil. Daí a necessidade do planejamento familiar (não permitir a fábrica de seres humanos se não há meios de sustentá-los). uma vez por toda. Sem falar dos políticos. preconceitos religiosos e ganância de grupos econômicos. que somente a adoção dos valores europeus da liberdade. Todas as grandes nações se desenvolveram usando a ferrovia como meio de transporte a longa distância. Os países subdesenvolvidos. mais barato e menos poluente. qualquer problema ecológico deságua na falta de cultura de um povo. do que ao sofrimento de crianças abandonadas nas calçadas. que é o mais caro. O regime feudal (Medievalismo) apresenta o “Castelo” com seus muros e fosso circular. o mais lerdo e o mais poluente. a partir do séc. No fundo. em lugar de por panos quentes. Está na hora de todas as pessoas de bem se unirem num coro de vozes para sacudir a consciência cívica e exigir dos governantes a solução dos problemas estruturais que impedem o progresso da nossa nação. na sua obra A Riqueza e a Pobreza das Nações (1998). impedem olhar para o futuro e preocupar-se com o bem estar da coletividade. o rodoviário. Como diz um provérbio chinês: “todas as flores do futuro estão nas sementes de hoje”. Mas no nosso país a ferrovia virou sucate. a ecologia. combustíveis. A Alemanha. Atenta-se ao paradoxo: um homem que maltrata os animais ou suja as águas de um rio. vimos um monumental moinho de vento. educacional (escolas suficientes e de bom nível para todos os habitantes de uma cidade). caminhões. estando mais preocupados com a morte de um passarinho do que em promover uma campanha a favor do transporte ferroviário. Na Europa Ocidental. além de uma escolaridade deficiente. que separavam a moradia do Senhor dos casebres onde viviam os habitantes do burgo. já o homem que gasta o dinheiro com drogas ou outros vícios. Em Fernando de Noronha. aéreo e hidroviário. acontece algo de semelhante. O estudioso David Landes. da educação de todos. O poder público. que se acelerou o processo de devastação da natureza. mais seguro. que é mais rápido. do estímulo à criatividade e o apreço pelo trabalho podem levar uma nação ao progresso e à independência econômica. só se fala em indústria automotiva e em estradas de rodagem. florestal (não permitir o desmatamento sem o plantio de novas árvores). o mais perigoso. país de uma extensão enorme. mas carente de água e eletricidade. pois seu funcionamento contraria os interesses econômicos de grupos brasileiros e internacionais que querem vender carros. aumentando os aglomerados urbanos. a natureza e a sociedade humana como um todo. os próprios ecologistas não atinam para a importância desses problemas cruciais. . Foi com a Revolução Industrial. A preocupação ecológica deve ser o encontro de um equilíbrio entre o progresso da sociedade e a preservação do meio ambiente. autopeças. pneus. tornaram-se grandes potências porque os governos democráticos investiram na educação e no trabalho do seu povo. a Itália e o Japão (que no após-guerra adotou o modelo “ocidental” de sociedade). Há sempre ecologistas de plantão mais sensíveis ao corte de uma árvore. diminuindo o oxigênio necessário para a vida dos peixes. XVIII. do transporte (privilegiar os meios coletivos e antipoluentes). é condenado por um crime hediondo. Portanto. Ele sugere que os países subdesenvolvidos têm que aprender. deixando seus filhos sem alimentos. que visam apenas lucros imediatos.

solicitam sua volta. Na tentativa de evitar a terrível predição. o que mais contribuiu para a vulgarização desse mito foi o interesse do cientista e pensador austríaco Sigmund Freud. As buscas ordenadas por Édipo são infrutíferas. volta para Tebas e assiste impotente à luta fratricida dos irmãos Etéocles e Polinice para o mando da cidade. a caminho para Tebas. Creonte. abençoado pelo nascimento de quatro filhos (Etéocles. irmão de Jocasta e regente de Tebas pela recém-morte do rei Laio. o francês Corneille. televisão. teve um largo sucesso na história do teatro no Ocidente: o dramaturgo romano Sêneca. depois de longas viagens. cinema. sem saber. entre tantos outros. Creonte. Laio e Jocasta. Mas. por suicídio. nas proximidades de Atenas. a que lhe dera amparo na hora da desventura. mas Édipo se recusa a retornar. Jocasta se suicida por enforcamento e Édipo vaza os próprios olhos e é expulso da cidade. O mito A tradição oral e escrita sobre a figura de Édipo narra que os soberanos de Tebas. revolucionando os estudos da psicologia pela descoberta do pansexualismo e da imensa força do inconsciente no comportamento humano. se tivesse algum. E não somente a literatura. acompanhado apenas pela filha devotada Antígona. Para esclarecer a dúvida. durante uma altercação numa encruzilhada. mas também outras artes tiveram sua fonte de inspiração no mito de Édipo: pintura. Após vários anos de reinado e de casamento feliz. escultura. o norte-americano Eugene O'Neill. acabando por matarem-se mutuamente. e os dois filhos de Édipo. uma misteriosa epidemia começa a dizimar os habitantes de Tebas. Consultado novamente o oráculo de Apolo. que o criam como filho. o pai da psicanálise. ele foge de Corinto e. o adivinho Tirésias que acaba revelando a verdade: Édipo. O bebê. Antígona e Ismênia). amaldiçoou Laio e todos seus descendentes.100 ÉDEN (o espaço do sonho) Paraíso Utopia ÉDIPO (mito e complexo)Tragédia Sófocles Freud “Não tenhas medo da cama de tua mãe: quantas vezes em sonho um homem dorme com a mãe!” (Jocasta a Édipo) O mito de Édipo é um dos mais empolgantes entre os inventados pela genialidade do povo grego. durante uma estada na corte do rei da Frigia. acaba matando um desconhecido. é entregue aos soberanos de Corinto. rogando a praga de que ele jamais tivesse filho ou. Chegado em Tebas. Já moço. Por este ato heróico. a resposta é de que a peste não cessaria enquanto permanecesse na cidade de Tebas o assassino de Laio. decretam a morte do recém-nascido. Políbio e Peribéia (no texto de Sófocles a mãe adotiva de Édipo é chamada de Mérope). O Édipo Rei é a peça central. ao saberem pelo oráculo de Delfos que o filho nascedouro seria o assassino do próprio pai. Além do Teatro. o dramaturgo grego Sófocles constrói sua trilogia trágica. A fábula edipiana. então. um monstro metade mulher e metade leão. que analisaremos a seguir. Édipo ouve insinuações sobre a sua verdadeira filiação. o inglês Shakespeare. Édipo em Colona. Etéocles e Polinice. além de ter sido objeto de encenação pelos três maiores poetas dramáticos do período ático da Grécia antiga (Ésquilo. quando jovem. mas o assunto é retomado também em mais duas obras. sem saber que era seu pai. inconsolável pela perda do filho. liberta a cidade da Esfinge. Outra peça é Antígona. governada por Teseu ( Ariadne). escolhendo por moradia o burgo de Colona. O sofrimento de Édipo é a conseqüência de um pecado atávico: seu pai Laio. causando a morte do jovem amante. matara seu pai e casara com sua mãe. o rei de Tebas. que devorava os viajantes que não conseguissem desvendar o seu enigma. onde Sófocles retoma o assunto já tratado por Ésquilo no drama Os sete contra Tebas: Antígona. passa-lhe o trono e lhe oferece a rainha em casamento. após a morte do pai Édipo. após a expulsão de Tebas. Foi ele que transformou o mito em "complexo de Édipo". inspiraram-se no mito de Édipo para elaborar peças imortais. Em face de tal monstruosa revelação. preferindo que seus restos mortais abençoem a pólis de Atenas. vai interrogar o oráculo de Delfos que lhe revela que mataria o pai e casaria com a mãe. sem dúvida. Polinice. esse mito influenciou a realização de obras ficcionais do gênero narrativo e lírico. salvo por um pastor. Entretanto. que narra como o herói. porque um oráculo dissera que a cidade que possuísse a tumba de Édipo seria protegida pelos deuses. O rei Pélope. . o raptou e depois o abandonou. seduziu o príncipe Crisipo. Consulta-se. este seria a causa da sua morte! Sobre este mito. Sófocles e Eurípides). encontra acolhida na Ática.

fora encontrado no monte Citerião. filho de Creonte. Enquanto se manda chamar o escravo. libertara Tebas dos horrores da Esfinge. insiste em saber a sua verdadeira filiação. retomado especialmente por Shakespeare na peça Romeu e Julieta: o noivo de Antígona. o coro. O rei responde ao sacerdote que já tomara providências. a partir daí. afirma que as profecias são falácias e. afirmando que o velho é cúmplice de Creonte. significa "de pés inchados"). dirige suas palavras ao povo que chegara ao seu palácio. ela se estrangula no cárcere. aos poucos. começa a lembrar o passado de Édipo. que quer usurpar-lhe o trono de Tebas. que fala em primeira pessoa. em que estão contidas várias antecipações do que irá acontecer no final da peça. o entregara a um pastor. A única dissonância era o fato de que o servo que se salvara dissera que Laio fora morto por um bando de salteadores e não apenas por um homem só. A trama da peça: Édipo Rei Sófocles. então. salvando outra vez a cidade. Para afastar também este temor do espírito do rei. Segue-se uma violenta altercação durante a qual Édipo ofende Tirésias. opera um corte no material fabular preexistente sobre o mito de Édipo. insinua que é ele próprio o assassino que Édipo procura. a rainha se mata por enforcamento e Édipo vaza . que desvendara o enigma e destruíra o terrível monstro. para demonstrar a verdade desse seu pensamento. quando. revela que estava predito que seu primeiro marido. desesperado com a morte da jovem. responde ao rei. assume o papel de conciliador e sugere a intervenção da rainha. Atena ( Minerva). acusando-o também de uma concupiscência incestuosa. Sófocles escolhe um dos momentos mais dramáticos do mito sobre Édipo e. este. Perante tal terrível anagnórisis (revelação). expressando o sentimento da coletividade. ele fora morto assassinado por bandidos numa encruzilhada. Além de ser a tragédia do amor filial e fraternal. visto que morrera de velhice em Corinto. razão pela qual é presa. vão contando aos espectadores o que acontecera antes. O adivinho. A sabedoria excepcional de Édipo. Édipo decreta. Apolo. que se sente ofendido por ter sido acusado de conspiração. Dionísio (Baco). criança. O emissário informa que a criança fora-lhe entregue por um pastor da casa de Laio. Expulso Tirésias. Antígona apresenta também um conflito romântico que terá muito sucesso na literatura ocidental. Mas ele se recusa a falar. entra em cena o cego e vidente Tirésias. com o intuito de acalmar Édipo. uma investigação para descobrir o autor do crime e o coro. enquanto ele estava em Tebas. Segue-se a terrível proclamação de Édipo contra o assassino de Laio. velho muito respeitado pelo dom da adivinhação. Jocasta. O rei Édipo rechaça as acusações de Tirésias. Ártemis ( Diana). que começava in medias res. de igual para igual. apresentando a situação inicial da peça no momento em que o protagonista. o emissário acaba fornecendo a pista principal para a solução do enigma: revela que Édipo não é o filho dos soberanos de Corinto. Mas fica ainda a possibilidade de Édipo casar com sua mãe. faz com que os personagens. quando. O sacerdote. usando do recurso técnico do flash-back. com a ordem de matá-lo. aduzindo que a revelação da verdade magoaria o próprio rei. então. etimologicamente. Laio. já rei de Tebas. no lugar descrito por Jocasta e numa época aproximada. chegando à cidade. Mais tarde. Após a insistência de Édipo. se mata também junto ao cadáver da amada. Faltando-lhe a coragem de assassinar o bebê. segundo a profecia. durante uma briga pela precedência da passagem.101 Desobedecendo à ordem de Creonte. na realidade. fugindo de Corinto a caminho de Tebas. Jocasta exulta com esta notícia. morreria pelas mãos do próprio filho. com os tornozelos amarrados (Édipo. enviando o cunhado Creonte para interrogar o oráculo de Delfos. mas por eles adotado quando. Como durante a altercação de Édipo e Tirésias. o habilitaria a conhecer a causa da pestilência. Édipo. então. invoca a ajuda das várias divindades cultuadas em Tebas: Zeus ( Júpiter). pois pode provar a falácia das profecias: Édipo não tem mais motivo de temer de matar seu pai. entra em cena Creonte. ela dá sepultura ao corpo do irmão Polinice. Creonte volta e relata a resposta de Apolo: a causa da peste é a permanência em Tebas do assassino de Laio. então. de tempo e de lugar. personagem que em nome da massa popular dirige a súplica ao rei. matara um velho senhor e alguns servos que o acompanhavam. pelas palavras do corifeu. O pastor é chamado em cena e acaba revelando que a rainha Jocasta lhe entregara o recém-nascido. pedindo ajuda contra a peste que dizimava a cidade. pela necessidade dramática da unidade de ação. chega um emissário de Corinto com a notícia do falecimento do rei Políbio. Este particular coloca Édipo na pista certa: lembra-se de que. Usando a mesma técnica do poema épico. acusa-o novamente dos delitos involuntariamente cometidos e profetiza todas as desventuras de que ele será vítima. também agora.

especialmente pelo drama Édipo em Colona. “Hei de lavar a nódoa deste sangue. Enfim. Édipo se deixa transtornar pelo medo da perda do poder. O soberano adquire o estatuto de "vitima sacrifical": nos Estados teocráticos. Com efeito. e não só pelos outros. então. Tirésias diz a Édipo: “Tu és o rei. a representação do mito de Édipo. apesar da integridade do seu caráter. Já com referência à época do autor da peça (século V a.. que de igual para igual eu te responda: o que é direito. o rei-sacerdote é tido como a encarnação da própria divindade. Alguns sentidos possíveis: ao longo do tempo. o poder. investe contra ele e Tirésias.102 seus olhos com alfinetadas.pois quem matou Laio talvez me esteja preparando o mesmo fim: ao justiçá-lo. porque os acusa por mera suposição. Após admitir publicamente este seu temor. mas também por minha causa . a separação da Igreja e do Estado. É que. etimologicamente. o herói suplica a Creonte para que o expulse da cidade. nunca estive a serviço de Creonte!” Mas tal distinção de poderes não agrada a Édipo. sem prova alguma. segundo o mito da realeza arcaica. por volta do século XIII a. Apontamos os tópicos mais explorados: 1) Tema do poder (o triunfo do patriarcalismo teocrático) “Fala diante de todos: a dor dos meus vassalos importa mais do que a minha vida!” Essas palavras de Édipo dirigidas a Creonte são um sinal de que ele tem consciência de ser um arconte justo e dedicado ao bem-estar do seu Estado. pode ser verificada também pela onomástica predominantemente pastoril: Laio. tema dos mais discutidos ao longo da história ocidental. A esta nova civilização..C. A Esfinge seria uma divindade pré-helênica. Políbio é o homem "de muitos bois". Peribéia é a senhora "circundada pelo gado". o rei acumula os dois poderes. e esta leva à maquinação de crimes: “Ó riqueza. Considerando-se mediador entre os deuses e o seu povo. . tornando-se injusto. A relação do mito de Édipo com a mudança social havida na Grécia ao redor do século XII a. quanta inveja trazeis em vosso bojo!” Outra observação a ser feita é a distinção entre o poder político e o poder religioso. C. quando passa a imaginar que o seu poder está ameaçado pelo cunhado Creonte. sendo a rainha Jocasta sua principal sacerdotisa. a riqueza e a sabedoria naturalmente geram a inveja. é a mim que sirvo”. venerada em Tebas. É nesse sentido que Sófocles confere a Édipo um caráter de sacralidade: seus restos mortais serão o penhor da bênção divina para a terra que os possua! Podemos ver na figura de Édipo a representação mítico-artística da passagem do regime matriarcal para uma sociedade patriarcalista. quando se deu a fixação na terra de povos anteriormente nômades.). mas o direito manda. a tragédia Édipo Rei foi objeto de várias interpretações. fundamentada nas liberdades democráticas. poder. ele é essencialmente um "ser que se sacrifica" em beneficio de seus súditos. penetraram na Grécia e substituíram os velhos cultos creto-micênicos pela religião dos deuses do Olimpo. A luta entre os dois poderes ainda hoje é um assunto palpitante. tem o fim patriótico de exaltar a cidade de Atenas. significa "possuidor de gado". A peça termina com a voz do coro. dominado por um profundo sentimento de absolutismo. Mas. é um privilégio meu! Não é a ti que eu sirvo: eu sirvo a um deus. sabedoria.C. conforme as próprias palavras de Édipo. tem que se integrar a antiga cultura teocrática e patriarcalista de Tebas. causador de terríveis conflitos em vários países. O estrangeiro Édipo seria o representante dos aqueus invasores que. deusa lunar. relacionada com a constelação da Virgem. A vitória de Édipo sobre a Esfinge simbolizaria a substituição do calendário lunar de três estações pelo calendário solar de quatro estações e a passagem de uma sociedade matriarcal ao patriarcado. que comenta dolorosamente o fatídico acontecimento.

estruturada por seqüências narrativas equívocas. Contra essa força é inútil lutar. A não-aceitação da ordem divina que impõe limites ao saber humano é a sua hybris. orgulhosa do seu poder. constitui o núcleo central da tragédia sofocliana. as ações humanas conseguem um resultado oposto ao esperado. nem na palavra divina (oráculo de Apolo). Ele tem consciência disso. que assume o papel do investigador. 3) Tema do Destino: o inocente culpado “O que está por vir virá” A peça Édipo Rei ilustra de uma forma cabal o sentido mais profundo da tragédia grega: a luta inglória da vontade humana contra os desígnios do Fado. prerrogativa dos deuses. orgulhoso do seu saber e do seu poder. excede os limites da condição humana e sua ousadia irreverente acabará por levá-lo a uma crise ética . na sua Poética. nem na palavra profética (adivinho Tirésias). marido maldito. ao menos. configuração de uma força cósmica superior aos próprios deuses. até chegar à solução final do enigma. definida por Aristóteles. Mas. nem na palavra humana (cunhado Creonte). é a soberba. tentando por todos os meios fugir do que está designado. pode aniquilar nações e ameaça a sobrevivência de toda a humanidade. eu não quero mais te ver! Filho maldito. o orgulho. ironicamente. pergunta a Creonte: “Laio estava no palácio ou em campanha ou em viagem. . um sacrilégio. Édipo não acredita em ninguém. no contrário". onde o protagonista revela ser o avesso do que deveria ter sido: “Horror! Horror! Horror! Tudo verdade! Luz do dia. sucessivamente. daí surge uma nova pista (Édipo não era filho do rei de Corinto). Édipo configura o ateniense da época de Sófocles que. que foge de Corinto para não matar o pai e casar-se com a mãe. o homem teima em desafiar o Destino. Édipo. o excesso de orgulho: ele. encontra a sua explicação ao nível do discurso.. vai a Tebas. A fábula de Édipo. o pecado capital que causara a sua desgraça. que Tirésias dirige a Édipo.. como a de Adão. logo se dá um despistamento (Laio fora morto por um bando de ladrões). E aí que reside a ironia da tragédia: Édipo. E assim. quando diz a Jocasta. Tecendo uma comparação com a nossa época. Édipo rei é a tragédia do saber humano. visto que o desejo de conhecer a verdade. onde se encontram seus verdadeiros pais. o desenvolvimento bélico desenfreado de uma superpotência. Todavia. A força inelutável do Fado é expressa retoricamente através da figura da "peripécia".. o decifrador de enigmas.103 2) Tema do saber (a busca da própria identidade) “Sabes. será a própria tentativa de fuga que levará o homem ao cumprimento do seu destino. O drama fundamental do protagonista reside no descobrimento de sua verdadeira filiação. quando teve esse destino?” Encontrada uma pista (um homem sobreviveu à chacina)... não tem a humildade de conformar-se com a ignorância de sua origem. como "a súbita mutação dos sucessos. Apresentado um despistamento (a morte natural do pai adotivo de Édipo). de quem és nascido?” Essa pergunta. que lhe pede desistir da busca: “Hei de seguir a trilha até o fim: eu não posso deixar de esclarecer o enigma do meu próprio nascimento!” Tal perquirição confere à tragédia de Sófocles o sabor de uma narrativa policial com o entrecho das duas investigações típicas do gênero: a história do crime e o inquérito do detetive. Fechado no seu narcisismo.. Édipo famoso. A culpa de Édipo. quer dizer. ao leito nupcial de onde saíste filho voltaste como esposo. maldito assassino do próprio pai!” E na voz do coro: “Ah. Neste sentido. é imputado ao homem como um pecado.

mas o entrega a um pastor. 4) Tema do incesto: interpretação psicanalítica “Não tenhas medo da cama de tua mãe: quantas vezes em sonho um homem dorme com a mãe!” Estas palavras de Jocasta dirigidas a Édipo inspiraram Freud na formulação do famoso "complexo de Édipo". Desta forma. É por isso que Aristóteles afirma que a finalidade da tragédia é excitar "terror e piedade”: terror pela ação violenta representada e piedade pelo ser humano que sofre sem ter culpa. possivelmente. Ao herói trágico faltam as três modalidades que compõem a competência: o querer. expõe a sua tese de que a mente humana. na sua Poética. tanto tempo em silêncio acolher o teu grão?” A essência do trágico reside na forma oximórica da coexistência de dois sememas opostos: inocência e culpabilidade. Antes de réu. O que caracteriza a tragédia é que a hibrys. não sabe que mata o pai. criando o complexo do amor materno. 5) Tema da catarse: o sofrimento como condição da felicidade “Enquanto alguém deixar esta vida sem conhecer a dor. o brilho do saber e do poder do . O impulso mais poderoso no homem é o erótico. livre da censura dos imperativos sociais e morais. É bom lembrar que o oráculo sobre Édipo está diretamente relacionado com a maldição que pesava sobre Laio e seus descendentes pela culpa do pai de Édipo que. visam à mesma finalidade fundamental do ser humano: tentar explicar a luta da força do instinto individual contra as injunções éticas. o sonho seria "a realização disfarçada de um desejo recalcado". no mito das Divindades Primordiais. o pecado. o desejo de satisfazer os apetites naturais sem qualquer preocupação de ordem ética. O parricídio e o incesto de Édipo são o castigo pela violência homossexual praticada por Laio. O filho paga a pena de uma culpa cometida pelo pai. isto é. é o contato com o corpo da mãe. se encontra exposto o princípio da “Partenogênese”: a Mãe-Terra. O médico austríaco. se não for posteriormente superada com a substituição por outra mulher. mas porque pesa sobre ele uma maldição ancestral da qual não pode escapar. mediante a representação dramática. inconscientemente cumprindo o destino. pois a catarse só pode ser uma conseqüência do pathos. do herói não é individual. Édipo adulto. não conhecia psicanálise. não pode dizer que foi feliz” Essas são as palavras do coro. pessoal. mas. E porque a primeira fonte de prazer do ser humano. estudando o mecanismo e o sentido dos sonhos. evidentemente. ele é vítima. O mito de Édipo não deixa de ser uma configuração humana do mito divino pelas impressionantes coincidências: o pai Laio (como o deus Urano ou Céu). essa concupiscência. sentindo-se ameaçado pelo nascimento do filho Édipo (como Saturno ou Cronos). No verbete Andrógino. o teatro. na infância. ao mesmo tempo. o instinto sexual que. se torna "libido". religiosas e sociais. Ele peca. teve a intuição de que o mito de Édipo era uma versão humana do mito criado por seus ancestrais sobre as Divindades Primordiais ( Mitologia). Édipo é um herói trágico porque é culpado de ter cometido dois crimes hediondos (parricídio e incesto). através da criação de histórias fantásticas. o mito. Como o Céu estrelado. é inocente porque não sabia que iria matar o pai e se casar com a mãe. causando sua morte. o sofrimento. mas atávica. mas. sentindo pena do recémnascido. que a tragédia tem por efeito a purificação dos sentimentos. assim Édipo somente adquire uma grandeza venerável após o sofrimento da cegueira e do exílio. como pôde o chão que teu pai semeou. não o mata. e a psicanálise. filho do rei da Frigia. com as quais Sófocles termina a peça em tela. ao nível do inconsciente. porque o Fado assim determinara. Sófocles.104 Ah. Édipo não quer matar o pai. Assim. Assim na tragédia grega como na religião cristã: Adão cometeu o pecado de orgulho e todos seus descendentes devem pagar as conseqüências. a mãe Jocasta (como Gaia ou Terra). Antes. dá completa vazão à força do instinto individual e egoísta. sozinha. Aristóteles afirma. mata o pai (parricídio) e se casa com a mãe (incesto). não porque quer pecar. se torna uma fixação. dá origem ao Universo. pelo estudo da atividade do inconsciente. seduzira e abandonara o jovem Crisipo. só adquire sua verdadeira dimensão quando mutilado por Cronos (o Tempo). ordena o infanticídio. quando moço. não pode não-matar o pai. o saber e o poder. durante a atividade onírica.

Ao redor do Terceiro Milênio antes de Cristo. como o deus Urano. sendo Mênfis a capital. Fundou Alexandria. proporciona ao Egito a principal fonte de riqueza. A última grande soberana da dinastia lágida foi Cleópatra VII. da “Cidade dos Mortos”. tendo apenas duas cidades importantes: o Cairo (Capital) e a histórica Alexandria. com a vitória do rival Otávio em Actium (31 a. a necrópole da margem ocidental. dando origem a duas soberanias: a de Tebas e a do Delta. começou a se desenvolver o culto de Osíris. com a XI dinastia. famosa pela escrita em “papiros” e pelo Museu-Biblioteca. que abriga sepulturas e conjuntos funerários das mais antigas dinastias de faraós. O herói trágico. passando o Faraó a ser considerado o filho de Rá. o Farol de Alexandria. Médio e Novo). que. do Sudão. encontráveis nas duas margens do sagrado rio Nilo.C. em Éfeso). Mas foi durante o Novo Império (1580-1085) que Tebas se tornou a capital do Egito. Calímaco.105 rei Édipo era falso. helenístico. o Colosso de Rodes. foram construídas as famosas pirâmides de Quéops. muçulmano e moderno. o rei Narmer unificou os dois reinos então existentes: o do Alto Egito (coroa branca) e o do Baixo Egito (coroa vermelha). Até o ano de 331 a. além da pré-história. o Templo de Artemisa. uma cidade do Alto Egito (não confundir com a Tebas grega da região da Beócia). terá condição de ser feliz. Egito faraônico. filho do nobre Lagos. Durante a chamada Baixa Época (1085-333). centrada em Tebas. o Egito foi anexado a Roma. que se juntou ao cônsul romano Marco Antônio para salvar seu reinado. EDUCAÇÃO (conceito de cidadania e de convívio social) Cultura EGITO (a grande civilização antiga do Oriente Médio) “O Egito é um dom do Nilo” (Heródoto) Atualmente. Alexandria. o famoso “Vale dos Reis”. várias fases de civilização: o Egito faraônico. distinguindo-se a “Cidade dos Vivos”. aos poucos foi se enfraquecendo o poder central pelas lutas intestinas. foi o centro difusor da cultura helenística.C. deu origem à dinastia dos Lágidas. arrogando-se o papel de libertador. Os sacerdotes eram encarregados de preservar a “vida” dos defuntos: a sobrevida do corpo era garantida pela mumificação. o Egito é um país que vive do passado. Foi neste lugar do . Das Sete Maravilhas do Mundo Antigo (a Estátua de Zeus. com palácios e templos monumentais (Luxor e Karnak). se reencontra na dor. deitada no Mediterrâneo. apenas as Pirâmides do Egito venceram as barreiras do tempo. a satrapia do Egito foi ocupada por Ptolomeu que. explorado cultural e turisticamente. bizantino.C. em fim. Os estudiosos distinguem. Após sua morte (323 a. Teócrito. da Pérsia e. se o conhecimento da verdade nos leva ao sofrimento. que se tornou o novo mercado marítimo e o centro de expansão da cultura helênica. deitada ao longo do rio Nilo. associando o poder cívico e o religioso. E é este monumento de Arquitetura antiga. Quéfren e Miquerino. onde se reuniam os maiores sábios de todo o mundo grego: Arquimedes. depois de Atenas (Grécia) e antes de Roma. os Jardins Suspensos de Babilônia. junto com a beleza dos remanescentes Templos faraônicos. Egito helenístico: o domínio do império macedônico no Egito durou três séculos. com inúmeras dinastias estrangeiras. que acabou com o domínio dos Faraós. Alexandre Magno levou menos de dois anos (332-331) para ocupar o Egito. que deságua no mar Mediterrâneo. na época de Alexandre o Grande.). o Egito é uma República Árabe do nordeste da África. O maior ensinamento da tragédia grega é que. nisto reside o supremo saber. Mas o “sacrifício” foi inútil pois. sendo o país invadido por tropas da Líbia. da Assíria. anterior à cultura grega. na margem oriental do Nilo. da Macedônia. no abandono: reencontrar-se na impotência. adquirindo a verdadeira dimensão de sua essência.). permanecendo quase intactas até hoje. que reinou de 305 a 30. romano. deus do rio Nilo e da vegetação sempre renascente. Neste longo período de civilização egípcia. de outro lado. O Farão se identificou como o “bom pastor” do povo. Como a Grécia. A civilização do Egito foi a mais importante do Oriente Médio. Nesta época. Apolônio de Rodes. quando foi dominado pela Macedônia.. O antigo deus Rã de Mênfis adquiriu as feições do tebano Amon e grandiosas construções foram erguidas em honra de Amon-Rã. porque fundado no desconhecimento da própria identidade. contam-se 30 dinastias de Faraós. o deus-sol que dá a vida. na fraqueza. No Império Antigo (2800-2160) dominaram as primeiras dez dinastias. em Olímpia. No Médio Império (2160-1600). o Mausoléu de Halicarnasso. os historiadores distinguem três Impérios (Antigo. será somente através deste que o homem. além de uma “Baixa Época”.

se outorgou poder absoluto. inundando as margens. em nome do Monoteísmo. desembarcou no Egito e derrotou as forças napoleônicas.106 Egito Antigo que foram preservadas as obras mais importantes da Ciência. Anteriormente à construção da barragem de Assuan. Mas a violência da multidão cristã provocou seu fechamento. os habitantes do Egito sempre consideraram gregos e romanos como povos exploradores. O monofisismo foi condenado pelo Concílio de Caldedônia. O presbítero de Alexandria. Seus sucessores contraíram dívidas enormes. Mehemet Ali. ao longo de muitos séculos (de 642 a 1805). O patriarca de Alexandria. governado por um paxá. o ódio aos gregos a ao poder imperial de Constantinopla estava no auge. dando origem à heresia ariana. impunha teorias e práticas que contrastavam os costumes coptas. a assistência britânica se transformou em Protetorado. em 451. da Literatura e das outras Artes. Com efeito. todas privilegiando a vida contemplativa: monge. e daí se difundiram pelo mundo todo. Nasser foi obrigado a aceitar as condições da ONU. Mas. perdendo seu fulgor e se tornando rapidamente cristã. o Egito caiu nas mãos dos franceses. Egito muçulmano: após o advento de Maomé. que invadiu o recém-formado Estado de Israel ( Jerusalém). Em 969. dissolvendo todos os partidos da Irmandade Muçulmana. negou a divindade de Cristo. o partido nacionalista conseguiu a independência. A conquista muçulmana foi fácil. proclamando-se paxá vitalício. em 1187. Egito romano: de 30 a. especialmente para a construção do canal de Suez (de 1859 a 1869). encampou a heresia monofisista que. o Egito chefiou a Liga Árabe. um milímetro de lodo por ano. se apoderou da maioria dos Estados do Levante. Sem o Nilo.C. o coronel Gamal Agdel Nasser depôs o rei Faruk I e o Egito adotou o regime republicano. Engajou-se numa política pan-árabe. Egito republicano: a República foi proclamada em 1953 e Nasser. Com efeito. Com a expedição de Napoleão Bonaparte (1798-1801). visando assegurar a hegemonia egípcia. chegando até nós (Alexandre). Para compensar a dívida não paga. Sua cheia chega mais forte no verão. quando o vento que desce dos planaltos da Abissínia provoca as enchentes. Mas ele foi logo excomungado. Ário. da Filosofia. até que. A cheia e suas riquezas são representadas pelo deus Hápi. anacoreta. em 1914. repudiando a cultura bizantina que. o Egito foi uma colônia romana. Seus sucessores no governo da República egípcia têm adotado uma política pacifista. Dióscoro. Egito bizantino (Helenismo): de 395 a 642. Foi assassinado em 1981. vítima de ações violentas praticadas por grupos da Irmandade Muçulmana. Mas logo os sunitas voltaram a predominar no Egito. eremita. governaram de 1250 a 1517. quando os árabes invadiram o Egito. chefe de um contingente albanês. Em 1945. em nome da unidade da fé. negava a humanidade de Cristo. fundado por Saladino. em 415. A dinastia curda. A Guerra Árabe-Israelense desmoralizou o regime monárquico. colocando um fim à soberania otomana. apoiando tentativas de acordo entre palestinos e judeus. Em 1952. o Nilo depositava nas terras cultiváveis. em 325. até o advento do Islamismo. Egito moderno: em 1805. o governo egípcio precisou indicar para os postos-chave da sua economia diplomatas e técnicos franceses e ingleses. Os egípcios de cultura pagã fundaram uma escola neoplatônica onde lecionaram Orígenes e Plotino. pois. tornam as terras férteis. de ventre repleto e seios pendentes. reforçando o movimento nacionalista. uma oligarquia de escravos-soldados da Turquia. são as águas do rio que. Os mamelucos. a 395 d. freira. vários hordas de árabes se encarregaram da islamização do Egito. uma dinastia xiita fundou a cidade do Cairo.C. após a derrota da Guerra dos Seis Dias (1967). tomando a cidade de Jerusalém. até o Egito tornar-se uma província do império otomano. reinando até 1848. o Egito seria apenas uma parte árida do deserto do Saara. ligando o Mediterrâneo Oriental ao mar Vermelho. sendo posteriormente condenado pelo Concílio de Nicéia. Com o tratado anglo-egípcio de 1936. em média. Equipou seu exército com a ajuda de países socialistas e financiou a construção da barragem de Assua junto à antiga URSS. Lá se desenvolveram novas formas de vida religiosa. nomeado anualmente. A prosperidade do Egito nasce da ação . o Egito passou a fazer parte do Império Romano Cristão do Oriente. mas o clero e os monges do Egito foram induzidos a separar-se da Igreja de Constantinopla. Importância do rio Nilo e da cultura egípcia Já o historiador grego Heródoto dizia que “o Egito é um dom do Nilo”. Famosas foram as querelas sobre a identidade de Jesus.

como símbolo do mistério do além túmulo. EINSTEIN (cientista judeu. m a massa e c a velocidade da luz. O príncipe egípcio vence a batalha e. é um gênio da humanidade. construída ao redor do ano de 2500. Com a vitória. O herói pede que os prisioneiros sejam libertados. dedicando-se apenas ao estudo da matemática. Uma cheia muito fraca não alimenta bem a terra e muito forte devasta os campos. nos seus dois casamentos. a mais antiga do Egito. que faz a síntese da mecânica clássica. cuja cabeça é a mesma do faraó. Ao quinto artigo deu o título de "A inércia de um corpo depende do seu conteúdo em energia?". Na cidade de Gizé. judeu naturalizado norte-americano. ela devora o forasteiro que não consegue decifrar seu enigma. Ela ama sua pátria. Também na vida amorosa não teve muita sorte. Nele demonstrou que o espaço e o tempo não são independentes entre si. que ainda hoje suscitam a admiração dos visitantes. Em 1921. ele descartou definitivamente o postulado da existência de um meio que se pudesse considerar o “repouso absoluto”. físico alemão. publicou cinco artigos. bem como da paixão da princesa Amneris por Radamés. Somente para apresentar um exemplo. intitulado "Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento". lecionando nas Universidades de Milão. variando com o movimento. Além de físico e . Eternizaram sua memória pela construção de Pirâmides. Foi muito mal na aprendizagem escolar. Aída conversa com o pai e este a convence a descobrir por onde entrará o exército na Etiópia. Mas. Ópera em quatro atos do compositor italiano Guiseppe Verdi. os egípcios criaram uma rica civilização. Aída narra a história de amor entre o guerreiro Radamés e a escrava Aída. teoria da Relatividade)Atomismo. naturalizado norte-americano. Na cidade grega de Tebas. a cheia seria inútil. Mas a civilização egípcia não está presente apenas na cultura grega e helenística.107 conjunta do rio Nilo e do astro Sol (Helios). revolucionou a Física newtoniana (Galileu). Ela deixou sua marca em todo o mundo ocidental. entre os prisioneiros capturados. Princeton. Seu biógrafo Armin Hermann relata que Einstein só chorou duas vezes ao longo dos seus 76 anos de idade. bem como o “movimento absoluto”: tudo é relativo. Aída vê o pai. Os gregos herdaram dos egípcios o culto da Esfinge. perto do Cairo. é aí que se encontra a famosa fórmula E=mc2. rei da Etiópia. Negando o princípio do Determinismo. da óptica e da teoria eletromagnética de Maxwell. em 1905. exaltando suas divindades e seus governantes com palácios e templos majestosos. mas relativos. surpreendeu o mundo científico quando começou a publicar suas teses revolucionárias sobre a Física. Apenas Édipo conseguiu desvendar seu mistério. na verdade. Os sacerdotes descobrem a traição e Radamés é capturado. Radamés não aceita trocar o casamento com Amneris pela liberdade e é condenado à prisão na cripta. Sem o transbordar das águas o sol seria devastador e. com exceção do Rei etíope. escolhido pelos sacerdotes para liderar o exército contra os invasores etíopes. estando tudo e sempre relacionado com as categorias do espaço e do tempo. o que acontece. O sol provoca o renascimento da vegetação. Sofrendo de dificuldade de fala na infância. no Egito antigo. Praga. Amneris canta sobre a cripta o amor perdido. chegou a ser considerado quase um deficiente mental. filha de Amonasro. sendo um corolário do precedente ensaio. Ao longo das duas margens do rio. A mente que se abre a uma idéia jamais voltará ao seu tamanho original Albert Einstein (1879-1955). O quarto. ambos elevados pelos egípcios à categoria de deuses. Ela é representada como um leão deitado. Radamés revela o segredo a Aída. Nos "Anais da Física". lembramos Aída. Durante o julgamento. Ela está lá. O povo egípcio reza para que haja equilíbrio entre os dois elementos da natureza. foi galardoado com o Prêmio Nobel de Física. a Radamés é ofertada a mão da princesa Amneris. onde percebe que Aída se havia escondido para morrer com ele. A escrava Aída é. em 1940. mas se apaixona por Radamés. em que estava ancorada a ciência desde os antigos egípcios e gregos. sem o sol. com apenas 26 anos. sendo E a energia. É a teoria da relatividade especial. encenada no Cairo em fins de 1871. Einstein desenvolve a nova idéia de equivalência entre massa e energia. Zurique. a pirâmide de Quéfren é guardada por uma Esfinge. encomendada pelo governo do Egito para marcar a inauguração do Canal do Suez. e que a massa é uma grandeza relativa e não absoluta. capturada numa das guerras. O rio impregna os campos de uma água carregada de aluviões extremamente férteis. Berlim.

em que constrói a imagem do homem ideal. dos poetas metafísicos ingleses. além de ser explorado pela filmografia e pela televisão. após voltar da Guerra de Tróia (Ilíada). atravessado pelo poético rio Mississipi. ELIOT. não resolvido de uma forma adequada. quando a mãe e o tio Egisto matam seu pai. Eurípides (Electra. “O sermão do fogo”. “O que disse o trovão”. sem dúvida. “Morte por água”. A obra está dividida em cinco partes: “O enterro dos mortos”. poeta muito controvertido porque se. inspirou muitas obras de arte.S Eliot introduz a moda do poema longo na lírica contemporânea. “Uma partida de xadrez”. É um dos seus poemas longos The waste land (“A terra devastada”) que o tornou mundialmente famoso. maquina a morte da mãe. o assunto foi retomado por vários dramaturgos e romancistas. ELDORADO (o mito do espaço feliz)Utopia ELECTRA (personagem mito-trágica) Édipo Agamenão A figura de Electra é o equivalente feminino do mito de Édipo: enquanto este mata o pai e casa com a mãe. o dialogismo intertextual ( Dialética). arte e religião.). cujo abandono é apontado como causa da destruição da cultura européia. Filha de Agamenão e Clitemnestra (soberanos de Micenas). A psicanálise de C. que vulgarizou o uso da narrativa curta. aquela mata a mãe para vingar a morte do pai. Electra simboliza este amor incestuoso da filha pelo pai que. de um lado. é um dos grandes inovadores da poética contemporânea. junto com o irmão Orestes.C. Einstein foi também um grande e profundo pensador. Thomas Stearns Eliot (1882-1965). A. desde a adolescência sentiu um grande fascínio pela cultura do Velho Continente. e da cultura antiga da Grécia. Da era moderna. Sua característica principal é o fragmentarismo. proclamou-se “classicista” na poesia. a criança pode se apaixonar pelo pai. T. Trata-se de um vasto mosaico. junto com a representação de aspectos da prosaica vida londrina.). onde O´ Neill alcança seu sonho de realizar uma peça respeitando a lei das três unidades detectadas pela Poética de Aristóteles: unidade de tempo. cunhou-se o termo “eliotizar” para indicar a assimilação de culturas diferentes. T. (poeta e crítico anglo-americano) Nunca é tarde demais para ser O que você deveria ter sido A lírica em língua inglesa teve excelentes cultores no continente e nas colônias. O' Neill transfere toda a tragédia de Ésquilo para a guerra de secessão norte-americana. Poe. durante a primeira infância. O luto fica bem em Electra (1931). de outro lado. Sua história ficcional foi objeto de várias peças da tríade dos poetas trágicos da Grécia antiga. Electra. Ésquilo (Coéforas. sem nenhuma lógica e nenhuma ordem de tempo ou de espaço.C. De ideologia conservadora. Jung chama de “Complexo de Electra” à atração sexual não sublimada que uma filha possa sentir pelo próprio pai. onde se encontram sobrepostas citações e alusões a várias fontes culturais. 458 a. Sua poesia acusa as influências dos simbolistas franceses. é um saudosista dos tempos clássicos.S. estudou na Sorbonne e tornou-se cidadão britânico. Sua obra literária. que. Lembramos a peça Do dramaturgo norte-americano Eugene O’ Neill. 415 a. adúltera. especialmente dramáticas. de Roma e do Oriente (conhecia até o sânscrito). como o de Édipo . e do irmão do pai. de Dante Alighieri.). o maior de todos é. Deleitava-se no silêncio da reflexão científica e filosófica. Inversamente do patrício romântico E.C.G. assassino.108 matemático. . do conterrâneo e contemporâneo Ezra Pound. 415 a. além de dois dramas (Assassínio na catedral e Reunido em família). de ação e de local. a polifonia. pode causar graves neuroses. deixando-nos belos pensamentos sobre vida. Na Era Moderna. Logo emigrou para a Europa. no Brasil. Sófocles (Electra. “monarquista” na política e “luterano” na religião. Depois de uma fase de fixação afetiva na mãe. seu poeta preferido. “a verdadeira poesia deve comunicar antes de ser compreendida”. Norte-americano do Estado do Missouri. Por causa de tantos e variados conhecimentos. foi representada com o título Electra e os fantasmas. é composta quase exclusivamente de poemas. O mito de Electra. Como Eliot costumava dizer. O texto já apresenta o início de um processo que iria desembocar em Longa jornada de um dia noite adentro .

equipando a marinha. oposta ao racionalismo cartesiano que reduzia todo conhecimento científico às idéias claras e distintas. os sinais da antiga chama (A rainha de Cartago. EMPIRISMO (a primazia da experiência) Método A Verdade é filha do Tempo e não da Autoridade (Bacon) Francis Bacon (1561-1626) inaugura uma nova vertente do pensamento moderno. cujo centro é o homem. A fábula da epopéia latina. “nada havendo no intelecto que antes não houvesse passado pelos sentidos’’. sendo a "epopéia da guerra''. Apesar das divergências quanto á origem do conhecimento. obteve uma estrondosa vitória sobre a Espanha. além dos principias países colonizados pelos britânicos: USA. Fortaleceu o Anglicanismo. Nova Zelândia e África do Sul. que contém os primeiros seis livros. ao apaixonar-se pelo herói Enéias) Para um melhor conhecimento do autor da obra mais importante da Literatura Latina. ENCICLOPÉDIA (movimento cultural francês) Iluminismo ENEIDA (poema épico romano)Virgílio Estou reconhecendo. sucedeu a sua meia-irmã Maria Tudor. filha de Henrique VIII e de Ana Bolena.109 ELISABETE (Rainha da Inglaterra: período elisabetano) “Todas as minhas possessões por uma fração de tempo” (A Rainha. pois narra a viagem marítima de Enéias. podendo ser dividida em duas partes: a primeira. viúva. O pensamento reflexivo e o conhecimento científico devem estar em contínua evolução para serem úteis à sociedade. baseado na experiência sensível e nas sucessivas experimentações. George Berkeley e David Hume. Bacon tenta demonstrar que as idéias se originam na experiência sensível. Como a O disséia. de Tróia até o Lácio. anterior à realidade concreta. dentro de mim. pois descreve as lutas pela fundação do reino latino. Na sua obra Novum organum. Bacon. John Locke. imita o assunto da Odisséia. unificando a Inglaterra e construindo a base do que seria mais tarde a Commonwealth . Basta dizer que a Rainha foi a patrocinadora-mor do teatro de Shakespeare. empreende uma luta contra o estagnatismo e o dogmatismo do saber de sua época. no meio da história: Enéias. no sentido de que ambos estão voltados para os problemas do conhecimento da realidade existencial. a segunda. sob a inspiração da matemática. que passou a abranger Inglaterra. ao passo que pensar incorpora o que vimos ou lemos”. Inteligente e culta. mas submeteu a Igreja ao Estado. composta dos últimos seis livros. seguida mais tarde por Thomas Hobbes. imita a Ilíada. Irlanda e Escócia. Além de vencer todas as lutas intestinas. não possuindo nenhuma idéia inata. região de Roma. fugindo de Tróia destruída. a rainha Elizabeth. rainha da Escócia. Austrália. também a Eneida começa in medias res. antes de morrer) Elizabeth I (1533-1603). convencido de que a “Verdade é filha do Tempo e não da Autoridade”. “observar ou ler fornece conhecimento à mente. proclamada em 1649 pelo lorde-protetor Oliver Cromwell. destruindo sua “Invencível Armada” (1588). devendo-se evitar especulações abstratas e propostas hipotéticas. já se encontra perto de Cartago. a comunidade britânica. quer sensível) e não a autoridade civil ou eclesiástica. ocupa doze livros ou cantos. . o pensamento de Descartes e de Bacon coincide num ponto fundamental: a verdade é obra do homem e o critério de legitimidade do conhecimento é a evidência (quer inteligível. que sempre contestara a legitimidade do reinado de Elizabeth. intitulada Eneida. O Racionalismo e o Empirismo são duas formas de Antropocentrismo. enquanto "epopéia do mar". provocando a ira dos calvinistas puritanos e dos católicos partidários de Maria Stuart. consultem-se também os verbetes Virgílio e Roma. A era elisabetana caracteriza-se pela afirmação do poderio político e econômico da Inglaterra e por um surpreendente renascimento cultural. Segundo o filósofo e teórico político inglês John Locke (1632-1704). visto que o casamento de Henrique VIII e Ana Bolena fora anulado pela Igreja de Roma. governou com firmeza. Dido. propõe um novo método de investigação científica. A mente humana é uma ‘‘tábua rasa”.

110

quando inicia a trama. Mais tarde, atendendo ao pedido da rainha Dido, ele conta as peripécias da viagem de Tróia até lá. Mas esta inversão temporal não dificulta o entendimento da história, pois o início da fábula é narrado logo no começo do segundo livro e, a partir daí, o relato segue a ordem cronológica dos acontecimentos. Os primeiros versos da Eneida contêm o “Exórdio”, constituído pela “Proposição” (antecipação sintética da matéria que será narrada) e pela “Invocação” à musa , seguida pelo inicio da “Narração”: Eu canto as armas e o herói que, primeiro, proscrito pelos fados, veio da costa de Tróia para a Itália e as praias de Lavínio. Ele muito sofreu em terra e no mar, por vontade dos deuses celestiais, por causa do rancor da cruel Juno... O narrador do poema se apresenta em primeira pessoa, pedindo à deusa da poesia épica que lhe lembre os fatos míticos e lendários que envolvem a figura do herói troiano. Diferentemente dos dois poemas homéricos, cujo narrador é apresentado como sendo a própria musa, o poeta funcionando apenas como intermediário entre a divindade, possuidora do saber, e a humanidade, destinatária deste saber, quem conta a fábula da Eneida se apresenta a nós como um ser humano, que pede a ajuda divina para poder lembrar, narrar e compreender os altos desígnios do Destino e a grandeza do sofrimento humano. A este respeito, a interrogação posta no fim da invocação, "pode existir tanta ira nas almas divinas?", é um sintoma da perplexidade que se apossa do espírito do poeta, no ato de cantar a aventura de Enéias. Mas, excluindo o exórdio e mais algumas passagens ao longo do poema, em que o narrador se manifesta pelo uso dos pronomes de primeira pessoa, pelo presente da enunciação ou por algumas formas modais que implicam julgamentos de valor, o grosso da narração da Eneida se dá na terceira pessoa, o narrador se apresentando com uma visão objetiva, dotado de onisciência e de onipresença, características do enunciador épico. A mudança de foco narrativo é necessária para distinguirmos o ponto de vista limitado do narrador de primeira pessoa, que transfere para a narrativa seus sentimentos e seus critérios de valor, da perspectiva panorâmica do narrador de terceira pessoa, que personifica a voz do mito, da lenda e da história. Cabe lembrar que Virgílio, como Homero, não é o inventor do material épico, mas apenas o elaborador artístico dos fatos históricos e mitológicos preexistentes a ele e que constituíam o patrimônio cultural da coletividade. A fábula do poema de Virgílio está dividida em 12 livros, cujos assuntos, por motivo de espaço, sintetizamos nos seguintes sintagma-títulos: I) Chegada de Enéias a Cartago e história de Dido; 2) Narraçao da destruiçao de Tróia; 3) As viagens de Enéias; 4) Amor e morte de Dido; 5) Viagem rumo à Itália: estadia na Sicília; 6) No reino dos mortos ; 7) No Lácio, terra prometida; 8) Preparativos de guerra; 9) Vitória parcial dos Rútulos; 10) Enéias volta com aliados; 11) Trégua para a sepultura; 12) Vitória final de Enélas. A Eneida é uma epopéia "reflexa", quer porque imita poemas épicos anteriores, quer porque o material mítico e lendário é utilizado não ingenuamente, mas com um intuito peculiar e, às vezes, com espírito crítico. Veja-se, por exemplo, o verso do exórdio “Pode, por acaso, existir tanta ira nas almas divinas?”, profunda reflexão do poeta sobre a crença na concepção de uma divindade maldosa e vingativa! O imortal poema tem um sentido patriótico, pois se trata de uma obra engajada no programa de Augusto de restaurar os costumes. Os antigos mitos gregos e itálicos são revestidos de razões ideológicas para que o vasto Império Romano da época de Otávio seja interpretado como conseqüência da vontade divina. A lenda grega de Enéias, filho de Vênus e genro de Príamo, é misturada com a fábula itálica de Dárdano, príncipe etrusco que teria emigrado para Tróia. A conexão entre a Itália e a Tróade, imaginada pelo acoplamento das duas lendas, permite a Virgílio fazer remontar as origens de Roma, não a um punhado de bandidos aventureiros (conforme as lendas de Rômulo e Remo e do Rapto das Sabinas Roma), mas à antiga e rica civilização troiana. Caio Júlio César Otávio Augusto, conseqüentemente, é apresentado como direto descendente de Júlio, filho de Enéias. Quanto à imitação dos poemas épicos anteriores, especialmente dos dois atribuídos a Homero, é relativamente fácil salientar os pontos de convergência entre a poesia épica grega e a latina. Realmente, vários tópicos, temas e motivos (o valor militar dos heróis, as viagens aventurosas em frágeis embarcações, a descida ao inferno para o conhecimento do passado e do futuro, o sentimento da amizade, a paixão amorosa, a confecção das armas

111

por Vulcano, as intervenções dos deuses nos acontecimentos humanos, a força do Destino ( Fado) que impõe ao protagonista uma missão predeterminada, e outros assuntos, além das imitações de estilo), são tirados do contexto da Ilíada e da Odisséia e adaptados para a composição da E neida. Mas o conceito de imitação, que para nós tem um sentido depreciativo, pois implica ausência de originalidade, na época de Virgílio indicava capacidade artística. Efetivamente, é na época de Augusto que toma corpo o espírito do Classicismo, entendido como consciente fidelidade aos modelos da literatura grega, considerados como protótipos de perfeição artística e humana. A concepção de Aristóteles de a arte ser mimese da natureza física ou espiritual é acrescida, por Horácio, Virgilio e outros poetas da época áurea da literatura latina, com o conceito de a arte ser imitação dos que, imitando a natureza, tinham criado formas e objetos artísticos de inigualável perfeição. Mas, se Virgílio se aproveita de um gênero literário e de um material épico preexistentes, o espírito que lhes dá forma é bastante diferente, espelhando outra realidade histórica. O sentimento do pathos virgiliano é absolutamente ausente em Homero. O drama íntimo do protagonista Enéias reside no contraste entre sua personalidade dócil e triste e o destino que o impele a lutar. Mais do que a exaltação dos heróis de guerras, encontramos na E neida o canto da dor do ser humano em face da crueldade do destino, que ceifa a vida de jovens criaturas inocentes. Vejam-se, por exemplo, as passagens relativas ao triste fim da rainha Dido, dos amigos Euríalo e Niso, do jovem Palante, do piloto Polinuro, da amazona Camila. A descrição destes episódios menores salienta a grande sensibilidade humana e poética de Virgilio e comove, até hoje, seu leitor. Com o poeta mantuano, notamos a passagem da narrativa mitológica e heróica para a narrativa propriamente "humana". O protagonista da E neida é qualificado recorrentemente como pius. Este adjetivo, além de indicar a resignação à vontade divina e a observância dos rituais litúrgicos, exprime o caráter de Enéias, apresentado como homem justo e honesto, que sente piedade pelo sofrimento do ser humano, vítima do ódio, das guerras e do desamor. Caberia à crítica psicológica dizer quanto de Virgílio existe em Enéias! ENUNCIAÇÃO (ato da comunicação humana)Discurso ÉPICA (Epopéia: poema narrativo em versos) Gênero literário Narrativa Do grego épos (canto heróico), a poesia épica ou epopéia é um longo poema narrativo, que exalta as origens ou façanhas heróicas de um povo. Na Literatura Ocidental, os primeiros poemas épicos, chamados de “primitivos” pois elaborados ainda na fase arcaica da cultura grega, são A Ilíada e A Odisséia, atribuídos ao rapsodo Homero. Já na Roma Antiga temos o primeiro grande exemplo de epopéia “reflexa”, de autoria conhecida (o poeta latino Virgílio), composta a partir dos poemas gregos preexistentes: A Eneida. Na Idade Média encontramos vários poemas épicos, de autoria desconhecida, que exaltam as façanhas de heróis nacionais: o francês Roland, o espanhol Cid, o alemão Sigfrido (Nibelungos). A Itália medieval nos deixou a obra literária mais completa e mais fascinante: A Divina Comédia, de Dante Alighieri, a que dedicamos um estudo mais detalhado, pois, antes de ser apenas mais um poema épico, é uma obra didático-alegórica sobre toda a humanidade, colhida no penoso caminho da passagem do pecado para a purificação e a glória. Com o Humanismo e o Renascimento, a partir do século XIV, junto com a descoberta e a valorização da cultura e da civilização greco-romana, é reativado também o filão da poesia épica medieval, especialmente no tocante ao espírito da Cavalaria. A Itália renascentista cultiva abundantemente a memória coletiva do herói histórico-mítico Rolando, que se torna o protagonista de vários poemas épico-cavaleirescos. Mudando, por eufonia, o nome de Roland para “Orlando” e misturando as aventuras guerreiras, próprias do ciclo carolíngio (Carlos Magno), com as aventuras amorosas, extraídas do ciclo bretão (Graal), os renascentistas italianos criam um personagem, ao mesmo tempo, valoroso na guerra e apaixonado no amor. Luigi Pulci, inspirando-se no poema anônimo popular Orlando, cria o seu Morgante (1483), poema cavaleiresco que trata das aventuras militares e da morte do grande herói mítico francês. O tema é retomado por Matteo Maria Boiardo, no seu Orlando Enamorado, obra inacabada pela morte do poeta (1494). Mas o poema que mais artisticamente trata do assunto é o Orlando Furioso (1516), de Ludovico Ariosto. O poeta italiano pretende continuar a obra inacabada pelo Boiardo, começando a história de onde este tinha terminado. Ele se inspira não só nas

112

tradições bretã e carolíngia, mas também na poesia épica greco-romana. O pretexto histórico é a descrição da luta entre muçulmanos e cristãos pela posse da cidade de Paris, mas o núcleo da narrativa é o amor de Orlando por Angélica. Este amor chega primeiramente à paixão e depois leva o protagonista à loucura, quando descobre que sua amada se casa com o negro Medoro. Nesta aventura principal encaixam-se várias outras histórias de amor, passionais e infelizes, em que se exalta o idealismo cavaleiresco, retratado especialmente na fidelidade ao sentimento amoroso. Outro poema épico-cavaleiresco italiano é a Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, que tem como fundo histórico a primeira Cruzada dos cristãos para a libertação da Cidade Santa do domínio dos infiéis, no fim do século XI. Mas a guerra entre cristãos e muçulmanos é apenas um pretexto para o poeta cantar os amores aventurosos das duplas RinaldoArmida e Tancredi-Clorinda. Esta obra, terminada em 1575, já na época do Barroco italiano, espelha o clima austero da Contra-Reforma (Lutero). O poeta, de constituição doentia e de sensibilidade melancólica, exprime artisticamente o contraste entre a força da paixão amorosa e o medo do pecado. Mas o poema épico que melhor expressa os ideais da Renascença é Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, a que dedicamos um estudo mais detalhado, pois o poema camoniano reflete os dois postulados principais da cultura renascentista: a imitação dos modelos artísticos da Antiguidade greco-romana e a exaltação do homem na sua conquista de novos caminhos marítimos, com vistas a ampliar suas atividades comerciais. Outro poema famoso, mais religioso do que épico, é O Paraíso Perdido, do escritor inglês John Milton. Para o estudo da poesia épica no Brasil, cabe ressaltar que à Literatura Brasileira faltaram os dois fatores, entre si estritamente relacionados, indispensáveis para a produção de um verdadeiro poema épico: um grande herói nacional e um grande poeta capaz de exaltar o sentimento de brasilidade. Aos dois maiores poemas considerados épicos, O Uraguai, de Basílio da Gama e o Caramuru, de Santa Rita Durão, conforme análise feita nos respectivos verbetes, faltam as características principais do gênero: os assuntos não estão centrados sobre ações gloriosas e grandiosas, realizadas em benefício da nacionalidade brasileira; os protagonistas não são heróis nacionais; acontecimentos e personalidades são realidades históricas ou invenções literárias que não sofreram a recriação carismática do mito popular. Como sabemos, o material do verdadeiro poema épico não é invenção do autor, pois acontecimentos e personagens já existiam no cabedal cultural do povo. Isso não acontece com a poesia épica brasileira: Cacambo e Lindóia, Caramuru e Paraguaçu são personagens que começam a existir na consciência popular após e não antes da produção poética. Pertencem, portanto, mais ao mundo da criação líricoromanesca do que ao universo da ficção heróico-épica. Produzidos na época do Arcadismo brasileiro, os dois poemas acusam a principal característica do Neoclassicismo: a imitação dos mais importantes gêneros literários cultivados na Renascença européia, quando se deu o retorno ao estudo dos autores clássicos da literatura greco-romana. Com o Romantismo acabou o ciclo da poesia épica na cultura ocidental, passando a ser o romance o gênero narrativo mais adequado para expressar os anseios da nova classe social, a burguesia. Estudamos, em verbetes separados, os principais poemas épicos da Literatura ocidental. Mas, além das peculiaridades de cada obra, existem elementos em comum, que nos possibilitam determinar e qualificar o gênero épico. É bom apontar algumas características fundamentais. Antes de tudo, é preciso distinguir a poesia épica primitiva do poema épico reflexo. A forma primeira está nas origens das nacionalidades ainda na fase da cultura arcaica e oral, quando a grande massa popular se alimenta apenas das narrações míticas e lendárias, que a imaginação coletiva foi criando a partir de um acontecimento histórico. Após a fase da transmissão oral, quando um povo começa a dominar o alfabeto e a ter uma língua ou dialeto escrito, as histórias, mitos ou lendas são elaboradas por um poeta que lhes dá uma veste literária e as consagra para sempre. Assim aconteceu na Grécia Antiga: ao redor da Guerra de Tróia, que se deu em meados do século XII a.C., foram-se criando lendas sobre os heróis gregos e troianos que participaram do fabuloso evento. O fato histórico, ao longo do tempo, foi deturpado pela fantasia do povo que, misturando as ações humanas com as intervenções das divindades, transmitiu oralmente cantos que exaltavam o valor guerreiro de Aquiles, a astúcia de Ulisses, a beleza sedutora de Helena, a fidelidade de Penélope, a prepotência de Agamenão, o poder supremo de Júpiter, a rivalidade das deusas Juno e Minerva com relação a Vênus, a força inelutável do Destino ( Fado). Tais cantos, referentes ao chamado “ciclo troiano”, no século VIII

113

a.C., quando o dialeto iônico começou a ser escrito, encontraram um poeta, chamado de rapsodo (costureiro), Homero, segundo a tradição, que os enfeixou nos dois poemas chegados até nós: A Ilíada e A Odisséia. Coisa semelhante aconteceu na Europa, na Baixa Idade Média, nos alvores das civilizações nacionais modernas. Ao redor do século XI, quando vários povos chegaram à independência lingüística pela formação de idiomas nacionais, derivados da antiga língua latina não mais falada, escritores anônimos criaram poemas épicos recolhendo os fatos gloriosos de sua terra transmitidos pela tradição oral. Na Alemanha, as lendas surgidas ao redor da invasão da Burgúndia por Átila, rei dos hunos, deram origem ao poema Os Nibelungos; na Espanha, a luta entre cristãos e muçulmanos motivou El Cantar de mio Cid; na França, a guerra de Carlos Magno contra os mouros foi o motivo de La Chanson de Roland. Este último poema pertence às chamadas “canções de gesta” , palavra latina que significa “ação ilustre”, tendo quase o mesmo sentido de épico. Outra variante de épico é a palavra de origem norueguesa “saga”, que mais tarde passou a indicar a história de uma família ilustre ( The Forsyte Saga, de John Galsworthy) ou Uma jornada heróica, de Érico Veríssimo. Notamos, de passagem, que gesta e saga, como formas simples, antes de serem absorvidas por uma forma culta (poesia épica ou romance), podem apresentar sentidos próprios, diferenciados. Assim, a saga é uma lenda pagã em torno de uma família, cuja disposição mental leva a construir o universo em termos de clã, de árvore genealógica, de relações de sangue. Alguns romances cíclicos podem ser considerados sagas: Rougon-Macquart (“Histoire naturelle et sociale d’une famille sous le Seconde Empire”), de Émile Zola; O tempo e o vento, de Érico Veríssimo. Já a gesta está mais ligada à movimentação de povos (gregos, semitas, germânicos), sendo o herói nacional o representante das altas virtudes de uma raça, como foi a figura de Roland para os franceses ou de Sigfrido para os germânicos. Até agora falamos da poesia épica “primitiva” , aquela que brota espontaneamente do seio de um povo na fase arcaica de sua formação cultural, sendo que nem sequer sabemos o nome do autor que deu forma artística aos cantos heróicos provenientes da tradição oral. Diferente é a epopéia “reflexa” , criada por um poeta historicamente conhecido que, vivendo no apogeu político e cultural de sua nacionalidade, teve a intenção explícita de exaltar os fatos gloriosos de seu povo. É o caso da Eneida, de Virgílio, e de Os Lusíadas, de Camões. A primeira foi escrita sob o Principado de Octávio César Augusto (por encomenda, segundo alguns críticos) com o fim de estabelecer uma conexão entre a civilização troiana e a latina através da figura lendária de Enéias, ascendente semidivino da família Júlia; a segunda, na época da Renascença, para exaltar o ciclo das grandes navegações, especialmente a contribuição portuguesa no início da Revolução Comercial provocada pelo deslocamento do eixo do comércio do Mediterrâneo para o oceano Atlântico. Essas e outras epopéias são chamadas reflexas, quer porque imitam poemas preexistentes (Camões imitou Virgílio, que imitou Homero), quer porque não se acredita ingenuamente nos fatos narrados: eles são submetidos ao crivo da reflexão. Quanto à sua estrutura genérica, o poema épico é composto de uma parte introdutória, que compreende a Proposição (antecipação do assunto que será tratado), a Invocação (pedido de ajuda à divindade) e, às vezes, a Dedicatória (a um homem ilustre), e da parte maior chamada de Narração. Esta, geralmente, não segue a ordem cronológica na exposição dos fatos, mas começa in medias res: a trama tem início com a narração de um episódio importante e, a partir daí, através do recurso técnico da retrospecção, uma personagem nos conta o que aconteceu anteriormente. O foco narrativo está centrado sobre um narrador onisciente, mas volta e meia aparecem outras focalizações evidenciadas pelas falas das personagens ou pela intervenção do eu poemático. O estilo é solene, a linguagem rebuscada e a composição estrófica, rímica e métrica segue cânones rígidos apropriados a esse gênero literário. Outra característica relevante é o recurso ao maravilhoso religioso ou lendário, pagão ou cristão: as divindades participam ativamente das ações humanas, privilegiando-se a força do destino que dirige os acontecimentos e as condutas dos heróis. Quanto ao sentido, a epopéia é o canto da totalidade da vida de um povo em determinado estágio de sua civilização. A narração épica, além de verter sobre um fato bélico grandioso, historicamente acontecido, mas idealizado pela imaginação coletiva criadora de mitos e de lendas, está diretamente relacionada com o surgimento ou o progresso de uma nacionalidade. A totalidade implica a transcendência: o herói épico, ser híbrido, pois humano dotado de prerrogativas divinas,

114

representa o elo de ligação entre o humano e o divino, o sonho da humanidade de superar sua natureza contingente e de aproximar-se do absoluto. A trajetória de herói épico é longa e acidentada porque o interesse do poeta vai além da narração das aventuras de um homem, estando preocupado mais em explicar a origem de lugares, de objetos e de comportamentos, em descrever ambientes, costumes, organizações sociais, crenças religiosas, enfim, toda uma civilização. Daí o conceito de “épico” transcender os limites de uma forma narrativa em versos, aplicando-se também a outros tipos de manifestação cultural nos quais predomine a grandiosidade. É por isso que falamos de teatro épico, de cinema épico, de romance épico. EPICURO (o prazer ponderado: Hedonismo) Ou Deus pode e não quer evitar o mal: então não é bom; ou quer mas não pode: então não é onipotente. Em cada qual das duas hipóteses: ele não existe! Juntamente com Sócrates, Epicuro (341-270) é considerado o maior sábio do mundo grego. Seu pensamento reflexivo segue a linha de Demócrito. Ensinou em Samos, Mitilene e Atenas o materialismo atomístico, considerando todos os objetos existentes formados de átomos, partículas indivisíveis, cuja combinação aleatória provoca a diferenciação dos seres. Ele chama de clinamen a inclinação da trajetória dos átomos que constituíam a matéria. Sendo esta declinação incontrolável, o mundo é dirigido pelo acaso. O indeterminismo da combinação atômica se traduz, no plano ético, em termos de liberdade. E, realmente, é no plano da moral que seus ensinamentos tiveram um maior sucesso. Para Epicuro, a natureza é boa e dela devemos extrair o que é mais importante para homem, o que constitui a finalidade última de qualquer ação humana: o prazer! Só que este prazer deve ser “ponderado”, calculado, pesado, evitando-se qualquer excesso. Nunca usufruir um prazer se sua conseqüência possa ser deletéria. Se, por exemplo, alguém comer a menos do que precisa para se alimentar (o “dietista”), vai sofrer por inédia; se comer a mais (o guloso), vai sentir dor de estômago. O escritor afro-romano Lucius Apuleius, autor do famoso romance O Asno de Ouro (Metamorfoses), diz a respeito do vício da bebida: “o primeiro copo sacia a sede; o segundo traz alegria; o terceiro dá prazer; o quarto é o da insensatez”. É o equilíbrio entre os prazeres possíveis que constitui o grande ensinamento de Epicuro e não a busca exclusiva da sensualidade e da luxúria, que os adversários atribuíram à sua doutrina. Entre os grandes discípulos de Epicuro, destacamos dois grandes poetas da Roma antiga: Lucrécio e Horácio. É deste último a verdade proverbial : in medio stat virtus (a virtude está no meio termo). O epicurismo deu origem à doutrina moral do Hedonismo, do grego hedone, que significa “prazer”. Colocar o prazer como finalidade da vida é de alguns privilegiados que sabem e podem viver bem. Os hedonistas entendem que comer não é só se alimentar; que fazer amor não visa apenas ter filhos; que vestir não significa proteger-se das intempéries ou preservar o pudor; que viajar não é só fazer negócios ou visitar familiares. Em qualquer ato da vida tem que ser procurada uma satisfação prazerosa, juntando o agradável ao útil, curtindo as sensações mais variadas, cultivando o senso estético. Ele afirmou categoricamente: “É impossível viver com prazer sem viver bem, sábia e justamente, e é impossível viver bem, sábia e justamente sem viver com prazer! Epicuro foi o primeiro pensador ocidental a negar claramente a possibilidade da existência de uma “Transcendência Providente”, de uma divindade que se preocupasse com a dor humana. Seu dilema, simplificado na epígrafe deste verbete, tornou-se famoso: se existisse um Deus poderoso e bondoso, não haveria tantos cataclismas cósmicos, tantas guerras, ódios, injustiças e doenças incuráveis. A contradição da existência do mal, junto com a crença na bondade divina, inquietou não apenas Epicuro, mas também outros sábios posteriores que procuraram encontrar uma explicação racional, especialmente Santo Agostinho e Kierkgaard. A resposta de que Deus deu ao homem o “livre arbítrio”, pelo qual ele pagaria o preço da maldade cometida, só satisfaz gente obstinadamente crédula. Como acreditar num Deus Onipotente e Misericordioso face à dor das vítimas inocentes de um terremoto ou de um desastre aéreo? Que dizer, então, de genocídios, de ódios étnicos, de bolsões de miséria extrema? Em verdade, o mal, em qualquer uma de suas formas, constitui um mistério racionalmente inexplicável para quem acredita na

115

existência de um Ser Transcendental que, por ser Deus, deve ser “Perfeito”, possuindo todas as virtudes, no máximo grau, na virtualidade e na ação. O epicurista prefere não se inquietar com problemas religiosos insolúveis à luz da razão, vivendo apenas o momento presente, da forma mais natural e prazerosa possível, atento apenas em respeitar a liberdade e os direitos do seu semelhante. ERA (período ou época) Idade EROS (“Cupido” romano, erotismo, amor, Sexo) PsiquêVênus “Erótica é a alma” (Adélia Prado) Eros é uma das “Divindades Primordiais”, aquelas que pertencem à “pré-história” da Mitologia grega. Segundo o pensamento órfico, Eros nasceu do Caos ou Ovo primordial, engendrado pela Noite, cujas metades se separaram, dando origem à Terra e ao Céu. Ele é o princípio da atração universal, que leva as coisas a se juntarem, criando a vida. Eros é a força que assegura a coesão interna do Cosmos e a continuidade da vida na terra. Para Platão, ele seria um daimonion, uma força espiritual intermediária entre a divindade e a humanidade. Na cultura romana, Eros é confundido com Cupido, o deus do amor, representado como uma criança alada, nua, armada com arco e flechas ou com espada e escudo, símbolo da paixão arrebatadora. Acontece que, com o passar do tempo, se desfigurou o sentido etimológico da palavra “erótico”, reduzindo o conceito a um tipo de satisfação carnal proibida (“ sexo sem pecado é como ovo sem sal”, diria o cineasta Luís Buñuel), à nudez, à sacanagem, aos filmes pornôs. Confundiu-se Eros com Priapo, o deus do sexo! O dramaturgo Nelson Rodrigues afirma que “sexo é o que restou da PréHistória, do vil passado do homem”. Já o escritor, jornalista e poeta, Arnaldo Jabor ( O amor é prosa, sexo é poesia), ao analisar a origem etimológica da palavra “sexo”, do radical “sec” do verbo secare (separar, cortar, dividir em duas partes), vê o ato sexual como uma “reintegração de posse”: o amor une o que a divindade dividiu (veja o mito do Andrógino). Citando, literalmente: “Nosso amor é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e o óvulo se interpenetrando”. Mas, embora sendo profundamente natural, o ato do amor transcende a matéria, pois aspira ao eterno e ao infinito. Conforme o autor citado, “o amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver”. O Eros verdadeiro é o deus do amor no seu sentido integral, que engloba corpo e alma. A atração puramente física é animalesca e não humana. É apenas o bicho que tem o período do cio. O homem e a mulher se amam (ou deveriam se amar!) sempre e em todos os lugares por uma comunhão de sentimentos que transcende o aspecto corporal. O erotismo, que verdadeiramente funciona e que faz perdurar a atração recíproca por longo tempo, está no olhar apaixonado, na admiração que o amante sente pelas qualidades físicas e espirituais que consegue enxergar na pessoa amada. O erotismo, que realmente e de uma forma mais duradoura estimula o desejo, se encontra na poesia lírica, na pintura, na dança, nos filmes sentimentais, na arte em geral, pois supera o nível do real e penetra no mundo da fantasia, do sonho, do vago sentimento do inacessível. Por esse prisma, os Cantos de Salomão e a poesia trovadoresca são mais eróticos do que o Kama Sutra. O erotismo está mais no sugerir do que no mostrar totalmente, no claroescuro, na promessa do idílio, no mistério a ser desvendado, na repetição do ato do amor como se fosse sempre pela primeira vez. Como diz a poeta Adélia Prado, “erótica é a alma”! Só que conhecer o espírito de alguém é bem mais difícil do que lhe conhecer o corpo. Manuel Bandeira nos oferece uma reflexão interessante a respeito: “deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque corpos se entendem; as almas, nem sempre”. E, sobre a renovação do desejo erótico, esta bela imagem do poeta Mário Quintana: “amar é mudar a alma de casa”. Enfim o erotismo, entendido como prática do amor num sentido bem geral, é onipresente a qualquer atividade humana bem sucedida. A escritora Lygia Fagundes Telles afirma acertadamente: “Vocação é ter a felicidade de ter como ofício a paixão”. Mas é a escritora existencialista francesa, Simone de Beauvoir, amante de Sartre, quem melhor define a essência da relação carnal: “ O erotismo implica uma reivindicação do instante contra o tempo, do indivíduo contra a sociedade”. ESCRAVIDÃO (discriminação, racismo, eugenia, etnia)Hitler.

116

A palavra “escravo” deriva do grego bizantino sklábos, que significa “eslavo”, povo da Europa oriental, passando pelo latim medieval sclavus, indicando um ser humano que vive num estado de absoluta servidão. A origem da escravidão se perde nos tempos, sendo a primeira forma de sociedade dividida entre dominados e dominadores. Historicamente, sinais de trabalhos escravos se encontram entre os hebreus e nas dinastias faraônicas do Egito Antigo. Mas foi na Grécia que se generalizou o uso de escravos, pela separação entre propriedade pública e propriedade privada. Foi, porém, com a expansão do domínio romano, a partir do séc. III a.C. que tomou corpo a sociedade escravizada: como resultado das conquistas bélicas, soldados e povos vencidos foram submetidos ao regime de servidão gratuita. E foi na Sicília, região da Magna Grécia dominada por Roma, onde se deu a primeira revolta de escravos. A façanha de Espártaco passou à história. Camponês da Trácia, escravizado e obrigado a lutar como gladiador, no ano de 73 a.C., se revoltou contra a prepotência romana, liderando um exército de quase cem mil escravos que desejavam a liberdade. Foi derrotado, mas sua figura se tornou motivo de arte literária, escultural e cinematográfica. Na Idade Média, pelo regime predominantemente agrário do Feudalismo e pelo isolamento da Europa ocidental (Medievalismo), a escravatura foi substituída pela servidão. No Renascimento, com as grandes navegações e os descobrimentos de novos mundos, começou o tráfico de africanos para serem escravizados no continente americano. O estudioso Eric Williams ( Capitalismo e Escravidão) fala de um “comércio triangular”: as metrópoles européias forneciam artigos manufaturados (armas, tecidos, bijuterias), que eram trocados na África por escravos que, por sua vez, eram trocados, nas plantações americanas, por produtos coloniais (açúcar, cacau, café) consumidos na Europa. Este comércio triangular fomentava a indústria, que fomentava o comércio. A Grã-Bretanha, onde o nascente capitalismo industrial se chocava com a concorrência da mão-de-obra escrava, tomou a frente do movimento abolicionista, condenando o tráfico de seres humanos no Congresso de Viena (1815). Nos Estados Unidos da América do Norte, a Abolição provocou a Guerra de Secessão, que terminou em 1865, vencida pelos abolicionistas. No Brasil-Colônia, a Coroa de Portugal autorizava cada senhor de engenho a importar até 120 escravos por ano, permitindo no máximo 50 chicotada por dia, como castigo de escravos revoltosos ou preguiçosos. A reação levou à formação de “quilombos”, redutos de escravos fugitivos. O mais importante foi o de Palmares, no atual estado de Alagoas, que durou um século, formado por quase vinte mil habitantes, chefiados pelo negro Zumbi, assassinado por jagunços, em 1695. A Abolição dos escravos foi proclamada no Brasil em 13 de maio de 1888, mas práticas escravistas, embora ilegais, continuam ainda hoje em várias regiões rurais. O sistema escravagista marcou de uma forma indelével parte do povo brasileiro: desde a Abolição, os descendentes dos escravos ficaram nas camadas mais humildes da nossa sociedade. Infelizmente, escravidão se confunde com miséria e negritude. A raça negra ainda é tratada como “minoria” subdesenvolvida em algumas culturas ocidentais ( Hitler). ESCULTURA (formas e evolução) Do verbo latino sculpere, o substantivo sculptura é arte da estatuária, lavrando madeira, mármore e outros materiais, com diversas ferramentas, para criar formas e volumes de objetos em três dimensões ou apenas relevos sobre um fundo ou esculturas só de ornamento. A origem da Escultura, como de outras artes, se perde ao longo dos tempos, existindo nas civilizações mais primitivas (egípcia, grega, romana, indiana, chinesa, americana pré-colombiana). Na mitologia grega, aparece a figura de Dédalo ( Ícaro), considerado o primeiro grande escultor. Para atender ao desejo da rainha de Creta, Pasífae, apaixonada por um touro, ele construiu a estátua de uma vaca, revestida de couro, onde a esposa do rei Minos se ocultou para ser emprenhada pelo animal, parindo o Minotauro, um ser com cabeça de touro e corpo humano, vencido pelo herói Teseu (Ariadne). A arte da Escultura, inicialmente, estava ligada à religiosidade, esculpindo-se, predominantemente, estátuas de divindades, grandes (para o culto coletivo) e pequenas (estatuetas domésticas). Com o Renascimento, a arte da estatuária se tornou também profana, com fins puramente estéticos. É desta época o maior gênio da escultura, Michelangelo, a quem dedicamos um verbete à parte. Durante as monarquias européias, do séc. XVII ao XIX, a escultura foi largamente

casa. elemento estrutural de uma obra de arte)Utopia O termo latino spatium. tomada como instrumento de análise de uma obra de arte. utilizando materiais e técnicas mais avançadas. religião. utópico. geometria. é preciso reparar numa espacialidade dimensional. O espaço utópico. onde se vive em segurança. astronomia. XX. vista como deusa. que atrai pelo fascínio do mistério: é onde vive o inimigo da sociedade (florestas. distinta de um espaço incomensurável. É objeto de estudo de várias disciplinas: filosofia. Suas obras mais importantes encontram-se no atual Museu de Rodin. é uma redundância pois. A espacialidade. topos. difuso. Outra noção é da horizontalidade. o não-dimensional.no qual tudo se move.exterior ou interior . pode apresentar vários aspectos. aplicam-se também ao espaço humano. o espaço é formulado a partir do princípio da “extensão”. apresenta a oposição do espaço interior ou fechado e do espaço exterior ou aberto. as várias correntes estéticas da Vanguarda na Europa ampliaram a riqueza potencial da Escultura. conectando-se ao renascentista Michelangelo. e de “baixo”. bairro. possibilita uma tipologia espacial conforme uma escala progressiva. quarto. cama. ruas. “utópico” é o imaginário. psicologia. o espaço da enunciação ( Discurso). os conceitos de “alto”. 1880.117 utilizada para a decoração de palácios e praças públicas com estátuas e bustos comemorativos. Também nas artes plásticas. infinito. Ele. gesso. em relação ao subsolo etc. como qualquer obra de arte. Evidentemente. atópico. Entre os artistas do escalpelo. englobada num “infinito”. tidas como nobres. enfim. o espaço tópico é o espaço conhecido. em grego. enquanto o atópico é o espaço hostil. A expressão “espaço tópico”. já significa “espaço”. não podemos esquecer o britânico Henry Moore. mas essa terminologia metalingüística. possui seu espaço. cavernas). enquanto. e as partes inferiores. no Brasil. estátua moderna de 1. amante e procriadora. da aventura. a grandiosa arte barroco-rococó do Aleijadinho é posta ao serviço do culto religioso. O espaço interior é o espaço subjetivo. astrologia. por exemplo (  Urano Olimpo. No início do séc. a determinação do componente espacial é tão importante quanto a percepção da categoria temporal. mares. sendo o meio . áreas ou volumes. onde estaria o espaço divino ou sobrenatural. O trabalho artístico que o imortalizou foi a escultura em bronze O Pensador. resinas sintéticas e outros materiais plásticos. da felicidade. com suas coordenadas e eixos direcionais. materiais nobres tradicionais. conforme limites determinados. consideradas ignóbeis: cabeça. em relação aos pés. Para o estudo do texto literário. o espaço do sofrimento e da luta. todo texto literário.). além de distinguir o tópico do atópico e utópico. Sua arte ultrapassa o Realismo e o Romantismo. o estudo da categoria do espaço tem sua relevância. navegação. ao enunciado ( Mito). do eu que fala. madeira. familiar. indo de um lugar genérico até ao espaço de máxima intimidade: país. As descrições de cidades. com as divindades benfazejas. passaram a ser usados outros metais: cobre. que em 1948 recebeu o Prêmio Internacional de Escultura da Bienal de Veneza. aflora Auguste Rodin (1840-1917). corresponde à palavra grega “topos” (tópico. Segundo a terminologia de Gaston Bachelard. como o tempo com o qual está intimamente conectado. onde se distinguem as partes superiores. própria do espaço humano ou natural. rua. em si. “atópico” é o espaço estranho. às divindades maléficas ou demoníacas. cidade. útero. atmosfera. relacionado com os deuses superiores ou celestes. referido aos deuses do mundo subterrâneo. Além do mármore e do bronze. estabelecendo uma fronteira entre ela e o mundo imaginário. de quem se considerou discípulo. em Paris. Todavia. ESPAÇO (Topologia. onde as personagens vivem seus atos e seus sentimentos. montes.37 m de altura. cujo limite seria o “eterno”. ferro. O espaço da ficção constitui o cenário da obra. o escultor francês mais famoso. alumínio. o espaço exterior refere-se ao mundo dos objetos. sendo. Na segunda metade do séc. Em primeiro lugar. topografia etc. Outro tipo de espaço. que tenta transmitir a emoção do eterno tema da mulher. como já foi dito. é o lugar da imaginação e do desejo: o céu. uma construção lógica que expressa relações baseadas na experiência existencial. . representa a ordem do Cosmos. Paraíso). Enquanto a categoria do tempo tem como objeto o estudo da “continuidade”. O espaço indica a distância entre dois pontos. especialmente pela famosa obra Figura Reclinada. na medida em que encerra um pedaço da realidade. por ser o espaço desconhecido. O espaço humano distingue-se também pela sua topicidade: “tópico” é o lugar conhecido. em oposição à verticalidade. mais direcionado para o alto. XIX. em oposição à desordem do Caos.

cuja leitura de cabeceira era a obra de Kardec. móveis etc. independentemente da referência a uma ação ou a uma atitude do personagem. um indisfarçável determinismo leva a prever com exatidão quais são as ações e as reações do personagem.118 casas. Sua feição é cristã e seu caráter evangélico. O Livro dos Espíritos. da vida presente e da futura. funcionam como pano de fundo dos acontecimentos. pois. Em certas obras literárias. O Brasil pode ser considerado a atual pátria do Espiritismo. estátua. para a doutrina espírita (ou qualquer outra forma de religiosidade). animal ou até vegetal. A moderna “noética” (lógica mental) estuda as quase infinitas possibilidades da atividade cerebral. convenceu-se de que realmente eram as almas do outro mundo que se comunicavam com os vivos. sendo o espiritismo brasileiro compromissado com as obras de assistência social e a confraternização da humanidade. paisagens abertas = sensação de liberdade). independentemente da ligação a um personagem ou a um acontecimento. que significa “sopro” ou alma. O termo grego metempsicose. Enfim.1843) e de outros magnetizadores que faziam girar e falar mesas. que confere extrema importância às influências do ambiente na constituição da psique da personagem.H. que os materialistas identificam apenas com a inteligência e a imaginação. após a morte. se trata de algo que transcende a natureza física. Para esses ficcionistas. Para algumas narrativas contemporâneas. tal como o concebemos hoje. Tal crença está na base de várias religiões orientais. a descrição do espaço físico é fundamental. literalmente. Jean Ricardou e Nathalie Sarraute seus melhores expoentes. discípulo do pedagogo suíço J. o espaço adquire uma importância particular. que pode ser humano. na cultura ocidental. Pestalozzi (Como Gertrudes ensina seus filhos. existindo aqui o maior número de kardecistas do mundo todo. famoso por suas sessões mediúnicas em Uberaba e pela psicografia de mensagens de homens ilustres do passado. uma vez descrito seu espaço vital. romance. A crença religiosa na existência da alma separada do corpo estimula a ciência a investigar o poder que a mente humana tem de influenciar o mundo físico. seja qual for a obra de arte (poema. sendo cada vida determinada pelas ações da pessoa na vida anterior. que tem em Alan RobbeGrillet. Olimpíadas) Olímpo ÉSQUILO (poeta grego)TeatroDrama Tragédia . analisando os fenômenos mediûnicos das irmãs Fox (EUA. Sua obra. monumento). que concebem o Karma como o elo de uma cadeia de vidas (sansara). Pensamos na denominada “escola do olhar”. num outro ser vivo. é fundamental para captar sua significação a análise dos elementos espaciais. Espiritismo) Psiqué Inteligência=>Budismo “Um dos maiores pecados do mundo é diminuir a alegria dos outros” (Chico Xavier) Do latim spiritus. significa a “transmigração” da alma de um corpo para outro. quadro. O maior médium brasileiro foi o mineiro Chico Xavier (1910-2002). especialmente do Bramanismo. a parte incorpórea do ser humano. tanto quanto o tempo. codificado por Allan Kardec (1804-1869). O estudioso francês. fala da imortalidade da alma. A crença na existência de “almas de outro mundo” e de sua comunicação conosco é bem remota. encontrando-se em quase todas as religiões. pois os objetos são descritos em si. 1801). A correspondência da isotopia espacial com o tema geral da obra se dá particularmente na estética do Realismo. constituindo índices da condição social da personagem (rica ou pobre. ESPORTES (o culto do corpo. sobrevivendo à morte corporal. XIX. a reencarnação do espírito. Hinduísmo e Budismo. da natureza dos Espíritos e de suas relações com os homens. publicada pela primeira vez em 1857. o espaço é o meio vital onde toma forma a atividade humana: nada existe fora do espaço e do tempo! ESPÉCIE (A Origem das espécies)Darwin Gênero Genética ESPÍRITO (alma. porque os objetos são os verdadeiros atores de suas narrativas e são criados pelo próprio movimento da descrição. com estrondoso sucesso no mundo todo. das leis morais. nobre ou plebéia) e de seu estado de espírito (ambiente fechado = angústia. Mas o Espiritismo. remonta à segunda metade do séc. enquanto.

Mas esta peça trágica tem um final feliz: o tribunal dos deuses acaba absolvendo Orestes de seu crime e as Erínias se tornam Eumênides. o coro de mulheres que carregavam as oferendas na tumba de Agamenão. Aristóteles já afirmara que “a beleza é o esplendor da forma”. mas proporcionais ao rosto. por esse crime de soberbia e rebeldia ele foi acorrentado a um rochedo. Na mesma linha do Idealismo. ou pelas ondas disformes de uma tempestade marítima. As Coéforas e As Eumênides) que formam um ciclo sobre a tragédia familiar que se abateu sobre o rei de Micenas. pelo poder sobre Tebas. com relação à atração sexual. O homem romântico pode se apaixonar por uma peculiaridade fora de um contexto. composta de três tragédias (Agamenão. patrocinada pela Universidade americana de Harvard. a quererem ampliar seus domínios. perpetrado pela esposa Clitemnestra e pelo amante Egisto. que se transmite de geração em geração! Há uma relevante semelhança entre o mito pagão de Édipo. Sim. atenderia ao desejo dos homens e todas as mulheres do mundo teriam o corpo da modelo Gisele Bünchen. Sua obra mais importante é a trilogia Oréstia. filhos de Édipo e Jocasta. trata das conseqüências funestas da ambição (hybris) que leva os imperadores da Pérsia. que matam a mãe e seu amante. a arte é “harmonia de formas”. mas pela força cega do destino. A beleza. considerada uma variável no espaço e no tempo. A palavra grega aisthetiké significa o sentimento. A Divina Comédia. Sobre a objetividade da beleza. apenas pela cor dos olhos de uma mulher. que sofre pelo pecado do pai. existindo o belo no equilíbrio. filhos do rei de Micenas. quando de sua volta da guerra contra Tróia. Parece comprovado cientificamente que a química do cérebro de homens heterossexuais é realmente estimulada ao olhar o espetáculo de uma mulher linda. Ésquilo (524456) lutou valorosamente em várias batalhas para defender sua pátria. o tio Egisto. mas essa verdade artística é “subjetiva” ou “objetiva”? Quer dizer. o pensador alemão Hegel confirma a tradição crítica. afirmando que “o belo se define como a manifestação sensível da verdade”. cidade da Ática. conforme a concepção clássica ou objetiva da beleza. Resumimos os assuntos das outras quatro peças de Ésquilo. pele nova e firme. considerado um tesouro precioso. pode apresentar protótipos universais e eternos. célebre pelo Santuário de Apolo. A segunda peça. As Suplicantes: as cinqüenta filhas de Dânao (Danaides). Já a concepção romântica da arte é subjetiva. olhos grandes. o próprio irmão do soberano. Platão foi o primeiro filósofo a indagar a essência da Arte. O pior é que a culpa individual se torna maldição hereditária. é interessante ler a recente publicação da pesquisa de Nancy Etcoff. sem nunca envelhecerem. tais como Helena de Tróia. o útil e o verdadeiro. passando a proteger os habitantes de Atenas e da Ática. na proporção entre as partes. deusas da vingança e do ódio. representando a dor do remorso do matricida Orestes. portanto. cintura fina e quadris largos.119 Não é sábio quem sabe muitas coisas e sim quem sabe coisas úteis Filho de fazendeiros de Elêusis. a percepção do que é bonito. no Peloponeso. relacionando a beleza com o bom. por exemplo. Dario e Xerxes. foram obrigadas a fugir do Egito e a refugiarem-se em Argos. ameaçada pelo imperialismo persa. tem como assunto a vingança de Orestes e de Electra. e o mito bíblico de Adão. O assunto da primeira peça trata do assassínio de Agamenão. que pune o homem quando ele ultrapassa os limites estabelecidos. Prometeu acorrentado: é a encenação do mito de Prometeu que roubou dos deuses o fogo. existem parâmetros inquestionáveis para determinar o que é belo e o que é feio? Segundo a concepção clássica. Os valores morais do teatro de Ésquilo estão fundamentados sobre um misticismo fatal: as ações humanas não são determinadas pela razão. e o doou aos homens. Os Persas: tragédia histórica. rei da Líbia. Escreveu muitas peças. mas só restaram sete. Os Sete contra Tebas: representa a trágica luta fratricida entre Etéocles e Polinice. estilística)ArteRetórica Se Deus realmente existisse. perseguido pelas Erínias (as Fúrias). de quem a imensa comunidade judaico-cristã herda a culpa e a pena do pecado original! ESTÉTICA (concepção do “belo”. A tragédia a s Eumênides (“espíritos benfazejos”) encerra o ciclo da tragédia familiar. A Lei do mais Belo. intitulada as Coéforas (“as portadoras de libações”). de Dante Alighieri ou o quadro La Gioconda de Leonardo da Vinci. com uma relação . A visão de uma mulher de traços delicados.

O mesmo efeito não se produziu no cérebro dos homossexuais. sem prejudicar ninguém”. modernista etc. com o ensinamento moral. que se desprende dessa matéria imensa e a ela retorna. definindo o Estoicismo) Do grego stoikós (“em linha reta”). A doutrina estóica. O valor de cada um é relacionado com o valor das coisas às quais deu importância. acima de tudo) “O homem sábio deve ficar satisfeito se tiver feito. a riqueza. O escritor latino Lucano dizia que “cada qual é responsável pelo seu próprio naufrágio”. Enfim. pois os homens que se submeteram aos testes eram de culturas diferentes. a beleza (feminina ou masculina. A teoria levistraussiana está fundamentada no princípio do isomorfismo entre as leis do pensamento e as leis do real.. “conjunto”. Lembra-te sempre disto: para viver-se com felicidade. causa um frisson nas áreas mais primitivas do cérebro do ser masculino hétero.. fundamentalmente. tais como cocaína. objetiva ou subjetiva).. “modelo”. o homem adepto do estoicismo se torna impassível antes à dor e à adversidade. sinceramente. o conceito de estrutura.. Para os estóicos. tal como a juventude. diferentemente da moda. clássica. não se alcança o sumo bem. ESTRUTURALISMO Formalismo Função Texto Crítica Do latim structura. considerando negativa qualquer forma de passividade. “as feias que me desculpem. o termo “estrutura” encontra-se em Saussure e nos Formalistas russos. sempre foi e continua sendo cultuada como um valor. nada fazendo a mais nem a menos. olhando uma mulher bonita. o problema do julgamento estético está sempre ligado a uma concepção filosófica. Os resultados da pesquisa levam ao triunfo da concepção clássica do belo. Como diria o nosso grande poeta Vinicius de Morais. começou a ser divulgada a partir de Zenão de Cítio (335-264). fala ou pensa. O Estoicismo ensina que Deus é o próprio Universo e a alma humana uma centelha divina. falamos de estética ou de estilo de vida e de arte romântica. “organismo”. álcool. mas na mulher a beleza é fundamental”. onde se confunde com conceitos afins. Aplicado à lingüística por Wilhelm Humboldt. Já. nos ajudam a entender a postura estóica perante a vida: Não poderás ser mestre na escrita e na leitura sem ter sido antes aluno. jogos de azar. Nada se consegue sem sacrifício. sujeita a contínuas mudanças. que tempera o caráter. Sem força de vontade. como “sistema”. “forma”. Sêneca e Marco Aurélio.120 harmoniosa entre peso e altura. válido em qualquer tempo e em qualquer lugar. algo de permanente. Adapta-te ao gênero de vida que te tocou por sorte. entendida como relação entre as parte de um conjunto. chamada de “Escola do Pórtico” (o átrio em Atenas. Ele definiu a beleza como “a promessa de felicidade”. pode ser rastejado em antigas noções das ciências naturais. cientificamente provado. Alguns trechos extraídos da obra do imperador romano Marcus Aurelius Antoninus (121-180). ESTOICISMO (corrente filosófica: a virtude. Captar as estruturas de determinados comportamentos humanos significa expressar racionalmente o inconsciente meta-individual que sustenta as regras do funcionamento social. Foi Claude Lévi-Strauss que deu notoriedade ao termo “estrutura” ao transferi-lo da Lingüística para a Antropologia.. em qualquer tipo de sociedade. basta pouco. a noção da matéria está fortemente ligada à noção do esforço. o saber.. (Martin Seymour-Smith. Posidônio. o melhor possível. onde se falava de filosofia). provocando a mesma reação química de outros vícios que criam dependência. E esta reside na capacidade do ser humano viver conforme a natureza. que é a virtude. matemáticas e humanas. A doutrina estóica preocupa-se. Segundo esta teoria. É a crença no Panteísmo. Assim. seguido por Panécio. positivista. Meditações. Quais aborrecimentos evita aquele que não procura saber o que o seu vizinho diz. a estrutura não poderia ser . cujo teto era sustentado por colunas. o poder.. nem nos héteros na presença de uma mulher feia ou de um homem de corpo bem feito. pois na mulher considerada bonita (tipo estrela do cinema ou modelo de passarela) existe algo de objetivo. a inteligência. que usam indiferentemente forma ou estrutura. do ponto de vista teórico. Também o poeta Stendhal tinha um gosto estético refinado..

nas seis figuras do “modelo actancial”. de onde a palavra “favela” foi transplantada para o Rio de Janeiro. . Trilhando o caminho percorrido por V. a “forma” (o todo orgânico de um objeto concreto) da “estrutura” (o modelo geral elaborado pela análise dos elementos constitutivos e invariáveis. na semana entre maio e junho de 2004. acrescentando. dividida em várias partes. Greimas reduz as 31 funções a três categorias básicas: as ações que dizem respeito ao “contrato”. Aplicado aos estudos literários. o Diretor paulistano Zé Celso Martinez fez de Os Sertões uma verdadeira epopéia teatral. pelo semanticista francês. Euclides analisa ambientes. para a compreensão do texto literário.121 individualizada num objeto particular. entre 1896 e 1897. os traficantes de droga do Comando Vermelho invadiram o reduto dos rivais do Terceiro Comando e cometeram horrores. Quanto às personagens. isto é. Roland Barthes amplia o conceito proppiano de função. tece um interessante paralelo entre a Guerra de Canudos. às funções distributivas ou sintagmáticas (núcleos e catálises). O vasto material geográfico e histórico é transformado em obra de arte pela grande seriedade com que o autor tenta desvendar o mistério do homem e da terra brasileira. a “forma”. e a rebelião dos presos de Benfica. “saber” (destinador/destinatário) e “poder” (ajudante/oponente). Depois de mais de 100 anos. J. pela sua obra Os sertões. comuns a este e a outros objetos do mesmo grupo ou da mesma espécie). os jagunços devotados a Antônio Conselheiro eram assassinos tomados de um fervor religioso. que buscava no fanatismo religioso uma válvula de escape para a miséria econômica e cultural. Antônio Conselheiro: Os Sertões) Estamos condenados à civilização. própria do historiador. Ou progredimos ou desaparecemos. tentando descobrir as causas de comportamentos humanos típicos. Eugenia) Escravidão Hitler EUCLIDES da Cunha (Guerra de Canudos. sendo adaptado para cinema. não teria descoberto a “morfologia”. então. Distinguiríamos. favela do Rio de Janeiro. Vladimir Propp. A. as funções integrativas ou paradigmáticas (índices e informantes). Os sertões é. ensaísta da revista Veja. tão ao gosto da escola realista-naturalista. eles procuram ampliar seu método de trabalho.Paulo descreve o isolamento material e espiritual em que vivia o povo da serra nordestina. constituído de cem narrativas fabulosas. à “prova” e à “viagem” do herói. no que toca o estudo da narrativa ficcional. portanto. com 13 horas de duração e com apresentações também no exterior. através da distinção de três momentos (virtualidade. a história do Brasil apresenta “constantes perturbadoras!” O romance épico euclidiano se tornou um mito na cultura brasileira. Claude Bremond procura captar a rede de possibilidades lógicas. Roberto Pompeu de Toledo. Em Canudos. estabelecendo uma dicotomia entre “história” (a análise lógica das ações e das relações entre as personagens) e o “discurso” (a análise do processo da enunciação: o eu emissor e o tu receptor). as coincidências entre os dois tristes episódios são espantosas. passagem ao ato e resultado) e de dois processos (melhoramento ou degradação). mas a “estrutura” do conto fantástico. T.Todorov estuda as categorias da narrativa literária. o conceito de estrutura de Lévi-Strauss levaria a uma redenominação do trabalho proppiano A Morfologia do Conto: o formalista russo. Holocausto. ETNIA (Racismo. mutilando corpos após a matança. Euclides da Cunha (1866-1909). À margem das questões teóricas acerca do conceito de “forma” e “estrutura”. enquanto as mulheres dos facínoras entoavam hinos evangélicos. deve ser salientada a enorme relevância dos estruturalistas. mas de qualquer tipo de narrativa. Recentemente. especialmente do Estado da Bahia. travada no interior da Bahia. na favela carioca de Benfica. especialmente franceses. composto de três eixos: “querer ” (sujeito/objeto). as “sete esferas de ação” de Propp são transformadas. mas num “modelo” teórico formulado a partir da análise de vários objetos. revelou aos intelectuais da época e aos futuros escritores regionalistas a miséria das povoações nordestinas. Centrado sobre a revolta de Canudos. personagens e fatos. um verdadeiro “romancedocumento”. que engendram a narratividade. Como salienta o citado crítico. televisão e teatro. visto que construiu seu modelo a partir da análise de um corpus. Propp (Formalismo Função). o romance histórico do enviado especial do jornal O Estado de S. Com o rigor científico do engenheiro e com a preocupação com a verdade. estendendo-o à análise não só do conto popular.

conjunto de idéias abstratas para explicar a natureza profunda de objetos. Espírito cético em relação aos deuses e ao destino. Sua preocupação principal é a representação artística das paixões humanas. a viúva de Heitor. aproximando-se do conceito de “sistema”. do homem e da natureza. desenvolveram doutrinas antropocêntricas. EVOLUCIONISMO (visão diacrônica da cultura) Darwin Genética EXISTENCIALISMO (teoria filosófica: Kierkegaard. na sua exaltação profética. a escravidão a que eram submetidos os vencidos. ele sentiu muito as influências do pensamento sofista: o valor do homem mede-se pelos seus dotes individuais e não pela nobreza do nascimento. por incentivar a luxúria e os maus costumes. vê seu filhinho Astíanax jogado do alto de uma torre para evitar o perigo da restauração do reino de Tróia. há quatro peças. talvez. a concepção das divindades mesquinhas e ridículas. na tentativa de alcançar-se a autenticidade através da prática do conhecimento de si próprio e da rejeição das ideologias aprisionadoras. preocupados especialmente com a problemática da existência humana. Em Tebas. Orestes e Electra. que lhe atribui a causa da decadência do teatro clássico grego. referindo-se a qualificações genéricas de seres e objetos. Eurípides não mais acredita cegamente nos deuses da mitologia antiga. prediz a desgraça dos gregos vencedores ( Aquiles é morto. significa “o que está ai” e. Cassandra. durante os ritos orgiásticos. “Existencialistas” foram chamados alguns filósofos contemporâneos que. deixando de lado as especulações transcendentais sobre a essência de Deus. (Kierkegaard) A reflexão sobre a existência do mundo e do homem é bem antiga. Em compensação. o rei Penteu não quer reconhecer Dionísio como deus. mas viveu na Grécia. as peças de Eurípides revelam um aspecto mais natural. Baco se vinga inspirando na mãe de Penteu um tal furor que ela acaba despedaçando o próprio filho. portanto. ainda acerca do ciclo troiano. nas pegadas de Sócrates e Pascal. das quais as mais importantes são: As Troianas: trata-se de uma tragédia "episódica". Ájax enlouquece. O filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855) é considerado o fundador do Existencialismo . Ifigênia em Táurida. e torna-se escrava de Neptólemo. seres ou comportamentos. Eurípides contesta os principais valores ideológicos da sua época: a necessidade das ações bélicas. a peça mais importante de Eurípides seja Medéia. mas só nos restam dezoito peças dramáticas. não havendo filósofo que não se colocasse tal problemática. os assuntos míticos para torná-los mais aderentes à realidade. Heidegger) Sartre A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás. Andrômaca. mas com particular relevo a Agamenão. Altera. Então. Isso num sentido amplo.122 EURÍDICE (mito do amor após a morte)Orfeu EURÍPIDES (dramaturgo grego)Tragédia Teatro Não desperdice lágrimas novas com tristezas antigas O poeta trágico Eurípides (480-406) nasceu na Macedônia. filho de Aquiles. filha dos soberanos Príamo e Écuba. Ulisses sofre por dez anos antes de voltar a Ítaca). etimologicamente. Mas. Já o conceito de “essência” é algo lógico. Face à tragédia transcendente e fatalista de Ésquilo e aquela heróica e clássica de Sófocles. Num sentido restrito. o comediógrafo Aristófanes. centrada sobre o mito dos Argonautas. Nesta tragédia. Discípulo dos filósofos Anaxágoras e Protágoras. mais humano e mais popular. As Bacantes: é a tragédia que representa os horrores a que pode levar o fanatismo religioso. Centradas sobre o mito de Ifigênia. Já a peça Hipólito diz respeito ao mito de Fedra. Escreveu sessenta e sete tragédias e sete dramas satíricos. considerada estúpida e fonte de infelicidade. cujas paixões eram mais vergonhosas do que os vícios humanos. condenou a guerra. o chefe da expedição grega: Ifigênia em Áulis. Eurípides é considerado o precursor do moderno drama burguês. portanto. onde está representado o sofrimento das principais senhoras de Tróia. Pode-se relevar que a tragédia grega apresenta um processo de gradativa humanização do mito. identifica-se com o real. mas só pode ser vivida olhando-se para frente. Agamenão é assassinado pela própria esposa. causado pela guerra. Por isso é violentamente atacado pelo seu contemporâneo. “existência” se opõe à “essência”: o primeiro conceito. criticando seus atos indecorosos.

a angústia não está relacionada com problemas religiosos. está condensado em quatro obras reflexivas: O ser e o nada. o jogo de imagens ousadas. Filósofo. encontra no lirismo sua manifestação mais apropriada. mas da palavra poética. O conceito de angústia. O interesse pelo social leva o Existencialismo de Jean-Paul Sartre até o Socialismo. pela solidão espiritual e pela angústia do pecado. Militante do Partido Comunista ( Marx). porque para eles a arte era “expressão” do “eu” subjetivo. o pensamento heideggeriano se aproxima da poesia. estudantis e da opressão das nações do Terceiro Mundo pelo capitalismo selvagem. Das artes plásticas. música. sintática e semântica. permitiram a sublimação do patético e a exaltação das paixões. Abstracionismo)Vanguarda A explosão da estética expressionista começou na Alemanha. possibilitando a escolha e. portanto. sendo um ser destinado à morte. os cortes surpreendentes. afirmando o valor irredutível da vida individual. É que Sartre é avesso a qualquer forma de opressão. Naturalmente. teatro.1976). especialmente da pintura. a liberação do homem só se pode dar pela “palavra”. contrariamente ao Impressionismo da época realista. a simpatia para com o mundo dos miseráveis e dos injustiçados. Em Berlim. Sobre a essência da verdade. dança. Sartre considera o homem responsável por tudo aquilo que é ou faz. instaurando o princípio do livre-arbítrio. o “ser-em-si”. colocando sua vida de homem e de intelectual ao serviço das causas proletárias. Em literatura. Kierkegaard sente o peso da condição humana. pois considera que não há outra realidade fora do fenômeno. Segundo ele. do centro para a periferia. que não pode ser compreendida dentro de um sistema filosófico abstrato. O desespero humano. industrial. O seu pensamento filosófico. não se trata da palavra comum ou técnica. mas com a existência como tal. Questão de método. “comemora” a realidade mais autêntica do ser. As combinações rítmicas.123 moderno por ter sido o primeiro a insurgir-se contra os macro-sistemas especulativos do Racionalismo francês e do Idealismo alemão. cinema. chegando até ao amor. Crítica da razão dialética. Com base nessa concepção do ser. Na última fase da sua especulação filosófica. O movimento expressionista tem em comum com o Futurismo a disposição de demolir a cultura passada e criar um novo homem. a crítica à sociedade. visto por uma nova ótica moral. A angústia só se supera pela “inquietação”: o homem é um ser em contínua busca de atualização de suas possibilidades. em 1956. Sartre supera a dicotomia do “ser” e do “parecer”. Seu lema é a liberdade em todas as formas da atividade humana. Sobre o conceito de ironia. a consciência das coisas. O processo técnico usado era a extrema liberdade léxica. a estética expressionista passou também a ser utilizada pela literatura. É a projeção no porvir que dá sentido à existência. quer venha da direita quer da esquerda. vivendo num tempo mediano entre o passado e o futuro. Para Martin Heidegger (1889. Sartre identifica a corrente existencialista com um Humanismo radical. mecanizada. Esse ideal ele defende através do diário “Libération” que ele funda em 1973. critica todavia o desvirtuamento dos ideais marxistas quando o governo soviético ordena a intervenção militar na Hungria. Os temas mais explorados pelos poetas expressionistas são o sexo. pois o homem está colocado face a face com o nada. considerada esta como o receptáculo da verdade a que tende o homem que pretenda viver a sua totalidade existencial. pelo sentimento de fraternidade universal e pelo desprezo da civilização materialista. Por não aderir ao Nazismo foi por ele . pelo produto do seu trabalho e pelas relações de solicitude. Entre suas numerosas obras assinalamos: Ou Isso / Ou Aquilo: Um Fragmento de Vida. O que transcende o fenômeno é chamado de “ser-para-si”. Contestando as metafísicas tradicionais. atacando autoritarismo e hipocrisia. Que é a metafísica?. O Existencia/ismo é um Humanismo. cuja estética estava baseada no movimento de fora para dentro. Mais ainda: superando o subjetivismo de Kierkegaard. em 1912. contestando a tese determinista da dependência dos fatores do ambiente e da hereditariedade. que permite a abertura para uma projeção no futuro. Homem profundamente religioso. EXPRESSIONISMO (rótulo de uma forma de arte. que não diz mas evoca. contemporaneamente ao Futurismo na Itália. atormentada pela sua finitude. Heidegger vê o homem como um “ser-em-comum” que. dramaturgo e romancista. Da experiência do pensar. estabelece uma íntima comunicação com os outros. destacamos: Ser e tempo. mas dele se difere pelo pacifismo. a livraria e galeria de arte Derem Sturm reuniu os trabalhos de alguns pintores chamados de “expressionistas”. operando de dentro para fora. marcado profundamente pela Fenomenologia de Husserl e pelo Existencialismo de Heidegger. Da vasta produção filosófica.

Esopo é uma figura mais lendária do que histórica. enquanto a trama é a história na sua ordem artística. Entende-se por “fábula” uma narração alegórica. Emiliano Di Cavalcanti. Eis o resumo: um lobo estava tomando água num rio. O gênero fabulístico. para defender um político corrupto. Lasar Segall. FÁBULA (história ficcional. Deixou-nos uma vasta obra poética e brilhantes ensaios de crítica literária. apresentando no final uma lição de ética comportamental (“moral da fábula”). temos dados históricos. Mas é preciso distinguir a fábula como elemento estrutural de uma narrativa e a fábula como gênero literário à parte. – 54 d. Foi cultivado na Grécia por Esopo (ao redor do séc. o filósofo grego Aristóteles. A tradição lhe atribui a autoria de mais de 400 fábulas. lançando mão da figura retórica da anacronia com suas variações. VI a. dizendo antes o que irá acontecer depois ou vice-versa. a partir de 1933. condenado como espião de Mussolini nos Estados Unidos. C. traduziu livremente poemas de Catulo. pois não sabemos quase nada sobre o local e a data de seu nascimento. conhecedor de muitos idiomas ocidentais e orientais. Ezra Pound (1885-1972) foi propagador do Fascismo. Musicalidade. não tendo deixado nenhum escrito. eruditíssimo. EZRA Pound (poeta norte-americano) “A dança do intelecto entre as palavras” Escritor de ideologia conservadora. novas pulgas. fala-se de nível “fabular” quando são analisadas as ações de uma narrativa na sua ordem cronológica. a palavra “mito” ou fábula foi usada pelos Formalistas russos.Então. onde estão agrupados os poemas que valorizam o nível fônico. No Brasil. em 330 a. figurativismo e intelectualização: essas três características da poética de Pound influenciaram fortemente quase todos os poetas posteriores a ele. argumentando que aquelas pulgas já estavam cheias e não sugavam tanto sangue.). Autodidata. agora dança!” (diálogo entre a cigarra e a formiga) Do homônimo latino. em que ele mostra “a dança do intelecto entre as palavras”. uma lenda de origem anônima e coletiva. Assim. com predominância do estrato óptico e gráfico do poema. e a “logopéia”.C.Eu cantei! . Fedro foi um escravo macedônico alforriado por Augusto.. e a raposa respondeu: “não”. Osvaldo Goeldi. A fábula seria a história na sua ordem cronológica. os fatos sendo narrados com inversões temporais. inventara a fábula da raposa e o ouriço (mamífero roedor e espinhoso): o animalzinho perguntou à raposa se podia ajudá-la a remover as pulgas que estavam infestando seu corpo. continuou em Roma com Fedro (séc. em oposição à “trama”. quando viu um cordeiro e lhe disse: “Você está sujando minha água”! . I d. transmitidas oralmente e colocadas em escrita por ficcionistas posteriores.) e chegou ao apogeu no Neoclassicismo francês com La Fontaine. de Rimbaud e de outros autores. antigos e modernos. Famosa é a sua fábula O Lobo e o Cordeiro. intriga ou entrecho. embora de origem oriental. Por exemplo. Ele enriqueceu a poesia latina com o gênero novo. Já a estrutura da coletânea Cantos apresenta três modalidades: a “melopéia”. o Expressionismo marcou uma forte influência no teatro de Oswald de Andrade e de Nélson Rodrigues e na pintura: Portinari (especialmente as cinco telas da série Emigrantes). que acrescentou o nome da família Júlia: Caius Julius Phaedrus (10 a.C.C.. o termo “fábula” corresponde ao grego mithos como história ficcional. Sua poesia está recolhida em dois volumes: Personae e Cantos. relata que Esopo. o estudo semântico da poesia.C. Neste sentido. que escreveu em língua latina. O nome latino Personae significa “máscaras” e este título tem sua explicação no fato de que Pound assume diferentes vozes e dicções de poetas do passado.124 destruído. inclusive japoneses e chineses. portanto.). cujos personagens são animais. Para o primeiro sentido. Aqui vamos examinar o termo fábula como gênero literário. mais famintas. a “fanopéia”. gênero literário) Mito Conto Narrativa “O que você fez durante o verão? . tem longa tradição ocidental. remetemos ao verbete Mito. e complementando: “se você as tirar de mim. de Dante. escrevendo 123 fábulas inspiradas no grego Esopo. quando Hitler subiu ao poder. a reeleição dos políticos! Já do outro fabulista. onde ensina que contra a força não há argumento. virão me atormentar”! Viva.

durante todo o verão.disse o cordeiro--. A cigarra. o mundo correria o risco de voltar para o Caos . de varias divindades representativas do mundo do mistério: morte (Tânatos). construindo a sua casa e armazenando mantimentos para agüentar o frio inverno europeu. convoca uma conferência de imprensa para denunciar a situação em que vive. na prática. comandado pelos próprios bichos. O Destino tinha como divindades auxiliares as três “parcas” (moiras): Cloto. através de uma dupla imagem. parcas. e Á tropos.se eu ainda não tinha nascido?” “Então foi seu pai que me ofendeu”! Dito isso avançou no cordeiro e o comeu. É sempre assim: exige-se a igualdade no gozo dos bens. mas não no sofrimento do trabalho para conseguílos. desequilíbrios e injustiças de sua época. Procuro tornar o vício ridículo. sonhos (Hipnos). pedindo abrigo. me parece coisa de pouca monta". figura mitológica)Determinismo Do latim fatum (correspondente à moira grega). quando recebe a visita da cigarra enregelada. símbolo do acaso que dirige a vida humana. quando a vida devia chegar ao fim. Nessa espécie de fingimento. discórdia. As fábulas do autor francês são textos alegóricos. o Fado era concebido pelos gregos antigos como filho da Noite. fatal. fatídico. então pergunta: “O que você fez durante o verão?” “Eu cantei”. a tolice ao bom senso. Mais célebres são as Fábulas do poeta francês Jean de La Fontaine (1621-1695). por partenogênese.. vivendo numa boa. velhice. a que "fixava" o tamanho do fio. Na “versão moderna”. La Fontaine não tocou no caráter ou na simbologia que seus antecessores atribuíram aos animais. simboliza a necessidade da manutenção da ordem do universo. é mais opressor do que primeiro. A fábula mais conhecida de sua autoria é a da Formiga e da Cigarra: a formiga trabalha arduamente. Outra auxiliar importante do Fado era a “Fortuna”. entendido pelos gregos como uma força cósmica. O Destino. Chegada a neve. responde a cigarra. que denunciavam misérias. reclamando seus direitos mas esquecendo-se de seus deveres. teve muito sucesso a obra A Revolução dos Bichos. a cigarra. a formiga está confortavelmente instalada no seu buraquinho e bem alimentada. a que "cortava” o fio. a que "tecia" o fio da vida de cada homem. que retoma o gênero fabulístico: animais oprimidos pelo dono da Granja do Solar derrubam o governo e implantam um novo sistema. Com efeito. e mãe. em grego). retruca a formiga. “Então agora dança”. engano. destinadas não apenas ao filho do Rei e às crianças da corte da França. FADO (Destino. o vício à virtude. Embora tenha alterado ou enriquecido substancialmente os argumentos e o espírito das fábulas que retomou de Esopo e de Fedro. a sorte (Tiké. enquanto a cigarra caçoa dela. “Como pode ser? --. Uma moral nua provoca o tédio: o conto faz passar o preceito com ele. de George Orwell. retrucou o lobo. que deu origem aos termos fado. debaixo de um calor arrasador. Mas o novo governo. sono. La Fontaine torna bem explícita a intenção com que escrevera tais estórias. Na década de 1940. por não poder atacá-lo com braço de Hércules. miséria. Algumas vezes oponho. superior à vontade dos deuses e dos homens. divindade primordial. que popularizou esse gênero literário na Idade Moderna. pretendendo saber por que razão é permitido à formiga estar bem aquecida e alimentada.. mas a todos os virtuais leitores: "Sirvo-me de animais para instruir os homens. fada. gerada pelo Caos (Terra).125 “Como é possível isso? ---respondeu o cordeiro---se a água desce de você para mim?” “Mas o ano passado você falou mal de mim”. pois contar por contar. se as vontades individuais pudessem sobrepor-se aos desígnios do Fado. enquanto outros sofrem com frio e fome. Láquesis. representada com os olhos vendados e segurando um timão na mão. No Prefácio de sua primeira coletânea das Fábulas. é preciso instruir e agradar.

assim como credos indígenas. teatral ou pictórica. Temas e personagens da literatura fantástica podem ser relacionados com os arquétipos de que fala Jung. são construções ideológicas. da bondade. pero que las hay. tudo o que infringe o sistema coerente estabelecido pela estrutura cósmica e pela razão humana. no seu livro Introdução à literatura fantástica . das divindades benfazejas. cujas portas e janelas estão fechadas pelo lado de dentro. A narrativa coloca o leitor perante o mistério. na magia. no terror ou na ficção científica. o criador desse gênero narrativo. Tzvetan Todorov. baseando-se no sonho. Outros motivos fantásticos são a inversão do visível e do invisível: a alma se torna visível (espectros dos mortos) e o corpo invisível (casas assombradas). o que parece inexplicável. entendendo o estranho como o sobrenatural “explicado” e o maravilhoso como o sobrenatural apenas aceito. especificamente. pois ficcionais. chamamos fantástica uma obra de arte literária. Assim. Mas. Fantásticas são todas as formas de religiosidade que admitem a transcendência da realidade material. assim define o fantástico: “uma hesitação entre o estranho e o maravilhoso”. atravessar paredes. segundo ele. que se fechara ao animal fugir.126 inicial. aterrorizante (dionisíaco). as alterações do princípio da causalidade: bilocaçoes. Já o sobrenatural propriamente dito dá-se quando o fato extraordinário não apresenta nenhuma explicação racional e só pode ser admitido pela fé na religião e na magia. pois as circunstâncias dos crimes não fazem entrever nenhuma solução possível. até um sagaz detetive não solucionar o enigma: o assassino fora um orangotango que trepara pelo muro externo da casa e alcançara a janela do quarto. do hipnotismo. assim como idealizado por Edgar Allan Poe. Os crimes da rua Morgue. dos “anjos-da-guarda”. estaria numa . estaríamos perante o gênero que Todorov chama de “estranho” . A esse gênero Todorov chama de “maravilhoso”. seu conceito aproximando-se do sentido de “ficção”. pois um outro habita nele. no sobrenatural. Caso típico é o conto policial. Os poemas épicos e a poesia dramática da literatura greco-romana encontram beleza artística e riqueza de sentido na luta inglória da vontade humana contra a predestinação do Fado. O fantástico. FANATISMO (intolerância e violência)Religião FANTÁSTICO (Bruxaria e magia: gênero literário)Kafka “No creo en las brujas. Ao primeiro tipo pertence o maravilhoso “cor-de-rosa”. O Olimpo dos gregos. o imaginário que nos protege: o mundo das fadas. etc.) diz respeito ao tema da posse: o homem já não é livre. que se sobrepõem à atividade racional. for apresentada uma explicação racional do fenômeno extraordinário. mãe e filha. Podemos distinguir um fantástico eufórico ou feérico (apolíneo) de um fantástico disfórico. de horror ou de simples curiosidade. o discípulo de Freud. age por suas mãos. da justiça. duas mulheres. que transcende o real. sem nenhuma justificação. partes separadas do corpo: a mão. por força de um regresso à selvageria anti-social: a fera é o aspecto do ser humano que se recusa a participar do convívio comunitário. no decorrer do enredo. não existindo na realidade. criadas pela fantasia. por exemplo. sendo o devaneio. fantástico é o que é apenas imaginado. O vampiro expressa o medo da morte e o desejo do não-envelhicimento: sugando o sangue (considerado a essência da vida) dos outros homens e praticando uma sexualidade sem limites. que foge às leis normais da natureza física e da razão humana. imaginando a existência de um mundo superior (ou inferior) ao da nossa experiência sensorial. De um modo geral. a fantasia. urso). fala por sua boca. um personagem ou o leitor virtual é tomado por um sentimento de medo. da loucura e dos efeitos das drogas. do id freudiano. Em face de um acontecimento extraordinário. todas as formas de religião e de arte são fantásticas. o homem é súcubo da sedução da imortalidade. que nos obriga à prática da racionalidade.. o motivo do lobisomem (licantropia) é visto como uma doença mental em que o enfermo se julga transformado em lobo ou num outro animal cruel (aranha. Se. Pelo segundo tipo de fantástico. a intervenção sobrenatural causa terrores imaginários no seio do mundo real. são encontradas selvagemente mutiladas dentro de um quarto. o Paraíso dos cristãos ou dos maometanos. las hay” (Ditado espanhol) Da palavra grega phantasma. No conto. que significa “visagem”. fatores capazes de libertar as forças do instinto. A este pode ser associado o motivo da dupla personalidade. enfim. regresso de pessoas do outro mundo. O fenômeno do sparagmos (dilacerações. o olho.

portanto. em seguida. nome de uma divindade grega. passando pelo fantástico-estranho e pelo fantástico-maravilhoso. A etimologia da palavra “vaudeville” é incerta: talvez derive de voix (voz) de villes (cidades). A farsa. de onde vem “farto”. era uma peça em prosa coloquial. recuperando a forma humana pela intervenção da deusa Ísis. o reconhecimento surpreendente da verdadeira identidade. a moça ingênua. a farsa aproxima o cômico do burlesco pelo exagero do ridículo e pela paródia de coisas sérias. ao passo que Gregor Samsa. a interpretação só pode ser simbólica. Um bom exemplo é a Farce de Mâitre Pathelin. em oposição às encenações religiosas dos mistérios da fé cristã. Estruturalmente. os mimos medievais passaram a ser encenados nas feiras livres por companhias ambulantes. com o gênero cômico por ser uma espécie de filha bastarda da comédia. fascinando leitores e expectadores com a série de Harry Potter. a risada irrefletida. assim como o vaudeville e o music-hall norte-americano. personificação do sarcasmo e da atividade crítica. entreatos. passou a funcionar apenas como “Intermezzo”. Como gênero literário e teatral à parte. mais do que nos rápidos diálogos. ela teve um certo sucesso no início da Renascença quando. conto do escritor moderno Franz Kafka. O mimo. . os valores ideológicos em prol da afirmação da praxe realista. repentinamente. que em grego significa "imitação" (Mimese). meio e fim.Rowling varreu o planeta com suas histórias fantásticas. a farsa das penínsulas ibérica e italiana. Ela contém todos os ingredientes da comédia. com o gênero mômico pelo recurso às máscaras e.C. não são muito diferentes do “teatro de variedades”. evidentemente. uma atividade dramática especifica. consistia nos gestos obscenos. Portanto. Proibidos de serem representados nas cidades. a de Kafka a transformação de um homem em Barata. assim. pode estar relacionada com o gênero burlesco pelo uso da paródia. apenas como escape. A farsa originou-se na Idade Média francesa como representação laica divertida. Enfim. tendo como destinatário a grande massa popular. pois Lúcio foi metamorfoseado em asno pelas artes mágicas de uma feiticeira. Na literatura contemporânea. o termo momo passou a significar a máscara ou o ator mascarado e. revertendo. Relacionado com o mimo está o momo. o protagonista do conto kafkiano. a alcoviteira. Do latim farcire (rechear). o princípio clássico da verossimilhança não é respeitado. Vaudeville)Mimese A farsa está para a comédia como o melodrama para a tragédia. Com o tempo. em que a comicidade. representação teatral do barroco francês. e se confundiu com o Vaudeville. desbragada. O assunto de ambas é fantástico. A obra de Apuleio narra a transformação do protagonista Lúcio em Asno. a farsa utiliza enredos e personagens estereotipados: a troca de filhos gêmeos. Na arte teatral. Para entendermos melhor a diferença entre os vários tipos de fantásticos. sua finalidade é despertar o ridículo. em seu bojo. o amante no armário. no começo da Renascença. ao acordar de manhã. tendo como finalidade comum provocar o riso fácil de um público que quer apenas se divertir. de cabelo assanhado e com uma estranha cicatriz em forma de raio na testa. cheio de várias coisas. A escritora britânica contemporânea J. centrado mais sobre quadros da vida real do que sobre um enredo com início. só que no primeiro caso estamos perante um estranho explicado. com algumas peculiaridades: o assunto é episódico. em que o espetáculo cênico adquire aspectos circenses pela mistura de danças cantos e piruetas. Talvez.127 hesitação entre o estranho e o maravilhoso. FARSA (forma teatral: Mimo. Momo. em oposição ao teatro moralizante da Idade Média. de caráter licencioso e irreverente. com o gênero mimético pelas imitações ridículas. Dos livros para a tela do cinema o passo foi fácil. o pai severo etc. que vai do estranho puro ao maravilhoso puro. de magia e bruxaria. o fantástico aparece freqüentemente sob a forma de ficção científica. percebe que está transformado num inseto hediondo sem saber como e porque se deu a metamorfose. pois visa apenas provocar o riso escrachado. indicando as canções e as histórias contadas nas ruas urbanas por menestréis ou jovens apaixonados. apresentava a vitória final do vilão esperto sobre o bonzinho estúpido. estejam as representações miméticas da Magna Grécia que remontam ao século V a.K. predomina a ação sobre o diálogo e o caráter das personagens. centradas na figura do menino Harry Potter. caracterizada pelo uso das máscaras. apresentando uma gama de variações. podemos comparar duas famosas obras literárias que tratam do mesmo tema: As Metamorfoses (romance vulgarmente conhecido com o título “O Asno de Ouro”) do poeta latino Apuleio e a Metamorfose. Mas a farsa não teve longa vida como peça teatral autônoma.

são condenados a pagarem pelos pecados cometidos pelos pais. então. quando ainda tentou retocar a obra já várias vezes publicada. pelas suas qualidades intelectuais e espirituais. causadas pela Guerra da Secessão. O primeiro Fausto é a obra mais conhecida. o manifesto da estética romântica. até os últimos meses de sua vida. Desta primeira peça apresentamos um resumo da fábula e uma tentaiva de interpretação.128 FASCISMO (período de ditadura na Itália) Mussolini FAULKNER (romancista norte-americano) Sempre sonhe e mire mais longe do que espera alcançar. não me importa morrer! Assim fico liberto! (Fausto ao diabo Mefistófeles) O Doutor Fausto foi uma figura que existiu no mundo real tendo vivido na Alemanha entre 1480 e 1540. A temática preferida de Faulkner é a indagação sobre a natureza do mal e sua expiação. “Prólogo no teatro” e “Prólogo no céu”) e de vinte e seis cenários. especialmente as relacionadas com um pacto que o Doutor Fausto teria estabelecido com o Demônio (Satã). desafia Deus: Que queres apostar? Perdê-lo-ás. um mês antes de sua morte.) a miséria e a degradação do homem do sul dos Estados Unidos (região do Mississipi). Logo após sua morte. O drama é composto de uma parte introdutória (“Dedicatória”. saiu a primeira edição do drama Fausto. Não se importe apenas em ser o melhor que seus contemporâneos ou predecessores. a fonte das posteriores obras científicas e literárias sobre esse personagem. milagreiro e charlatão. posteriormente chamado de Urfaust (O primeiro Fausto) para distingui-lo de O Segundo Fausto. audacioso aventureiro. por várias gerações. através de narradores diferentes. humanista. pela primeira vez. desde a juventude. “Fausto e Wagner” etc. Está feita a aposta entre O Senhor e Mefistófeles. A aldeia. sua fantasia entrou em contacto com a figura lendária de Fausto. A trama começa com uma cena. mais representada e a que melhor encarna os ideais do Sturm und Drang. isto é. Sua peculiaridade estilística é a plurifocalização: ações e personagens são vistas por várias perspectivas. Em verdade. que lhe resolverá todas as dúvidas. “Em frente à porta da cidade”. As raízes do mal são encontradas no trabalho escravo que afastara o homem branco do contato com a natureza. luxurioso e homossexual. seguro está do rumo a percorrer na vida. William Faulkner (1897. AbsalãoAbsalão. O Senhor aceita o desafio: Ora seja! Permito a dura experiência! Vê se afastá-lo tentas da divina origem. se queixa da inutilidade do saber humano: . saiu publicado O livro de Fausto. . a sua singular personalidade foi envolta por lendas. conseguirá a “Luz Divina”. Se me dás permissão de levá-lo comigo e de traçar-lhe a sina. Mas foi com o poema dramático de Goethe que a figura de Fausto se tornou mundialmente famosa. publicada em 1832. apesar da homonímia. Foi qualificado por historiadores como um pseudomédico. com o intuito de penetrar a camada mais íntima do ser humano.). Já em 1587. Réquiem por uma prostituta etc. FAUSTO (o pacto com o Diabo)Goethe Se estiver com lazer num leito de delícias. onde Fausto. cada qual com um título. Os filhos e os filhos dos filhos. O Segundo Fausto é um drama bem diferente do primeiro pelo assunto e pelo sentido. na véspera da Páscoa. num quarto com decoração gótica. Tente ser melhor do que você mesmo. quando. a última obra do poeta. O Diabo. o Diabo irá seduzir Fausto na terra. a proposta do assunto da obra. como se fossem pequenos capítulos (“Noite”. praticante de alquimia e de magia. citando alguns trechos da tradução de Sílvio Meira.1962) descreve em suas obras ficcionais (O som e a fúria. O Senhor diz a Mefistófeles que logo o jovem devoto Fausto. Para vencê-la. Em 1808. com ele estabelecendo o famoso pacto da troca da alma pelos bens materiais. a ruína dele será fatal. através de um longo solilóquio. No prólogo encontramos o que na poesia épica se chama de “proposição”. O poeta alemão trabalhou a vida inteira nas sucessivas elaborações do protagonista do seu drama. As famílias tradicionais e abastadas são arruinadas pela abolição da escravidão e com elas a desgraça atinge as povoações dos brancos e dos negros.

após ter emprestado sua longa beca a Mefistófeles. culminando com o estabelecimento do pacto. que lhe se torna visível. numa outra cena que se passa no seu pobre aposento.129 Estudei com ardor tanta filosofia. honesta e religiosa. Na cena do Jardim de Marta. Reflete sobre a passagem do Gênese “No princípio era o Verbo”. agora. O diabo descarta o direito. Este assim se define: Eu sou aquele Gênio que nega e que destrói! E o faço com razão. mas o cachorro começa a inchar-se. prazeres! alegria! Se podes me encantar com coisas saborosas. Para superar este estado de insatisfação. e fulminantemente se apaixona por ela. e assim me encontro eu. Segue-se um longo diálogo entre Fausto e Mefistófeles. de noite. recolhe-se ao seu escritório. não me importa morrer! Assim fico liberto! Se podes me enganar com coisas deliciosas. pensando Mefistófeles ser Fausto. É preciso. pessoa de que ela não gosta. Entusiasmado. após vários galanteios. É bom salientar também que a característica principal da personagem Fausto apresenta fortes traços de semelhança com a biografia do histórico Fausto e do próprio Goethe. e infelizmente até muita teologia. seguido de um estranho cachorro. sente eflúvios inebriar-lhe o corpo e calorosamente invoca o Espírito. A ele confidencia suas angústias e aspirações. através de um solilóquio. e corrige Verbo por Inteligência. Continua o diálogo entre os dois. Folheando o livro. transformando-se numa nuvem negra e depois num estudante andarilho. Fausto. Seguem-se as cenas da Adega de Auerbach e da Tenda da Feiticeira. Esta. uma sua amiga. que deseja conversar com o mestre e dele receber lições de vida. escrita ao redor de 1550. Por isso. tenta expulsá-lo do seu gabinete. Fausto. e coros de anjos. . já rejuvenescido por um elixir da bruxa. então. pressentindo algum dano. O diálogo entre Fausto e o Espírito é interrompido pela entrada em cena do discípulo Wagner. Mefistófeles explica ao discípulo que sobre uma tal criatura o diabo não tem poderes. Fausto: Se estiver com lazer num leito de delícias. ficando outra vez só. autor florentino famoso pela sua obra profética Centúrias. Mas o tocar dos sinos anuncia a festa da Ressurreição de Cristo. direito e medicina. a filosofia e a teologia. Margarida reprova Fausto pela sua incredulidade e se queixa da assídua presença de Mefistófeles. pede conselhos sobre a profissão a seguir. vê passar na rua a belíssima Margarida. em que se encarna o diabo Mefistófeles. ter paciência e armar todo um plano de sedução. mocinha de quinze anos. tão sábio e tão instruído quanto fora outrora! Como se vê. Irritado com os latidos do cão. Numa outra cena. revela a forte paixão que lhe tirou a paz de espírito. Invocando ardorosamente a lua cheia. Nos três perfis psicológicos encontramos a ansiosa aplicação ao estudo de matérias biológicas e humanísticas e a conseqüente frustração. Fausto descobre o sinal do Gênio do Universo e o sinal do Espírito da Terra. Entra um estudante que. Fausto decide dedicar-se ao estudo da magia. Fausto sai. sugerindo-lhe um curso de medicina. Mas a jovem recusa a corte do protagonista. então. enfim. pois é pura. sente-se um ser desprezível e é tentado a tomar o veneno contido numa ânfora antiga. a obra da Criação Caminha com vagar para a destruição. adquirindo um aspecto monstruoso. Fausto. tudo aquilo a que chamas pecado. Margarida não resiste ao fascínio de um presente encontrado no seu armário: um cofre cheio de jóias preciosas. acontece a primeira troca de beijos ardorosos entre Fausto e Margarida. Batem à porta. abre o livro de Nostradamus. depois por Força e. Goethe retoma o tema bíblico da vanitas vanitatum e o adágio socrático de que o verdadeiro sábio é aquele que tem consciência de não saber nada. que seja para mim o meu último dia! Quero firmar o acordo. por Ação. doçuras a sentir. Seria bem melhor se nada fosse criado. de mulheres e de discípulos entram no seu quarto cantando hinos de aleluia. profissão essa que lhe dará mais oportunidade para satisfazer o vício da luxúria. Na cena do jardim. qual pobre tolo. a tudo investiguei com esforço e disciplina. ou também “destruição” ou simplesmente “o Mal” constitui meu elemento eleito e natural. Fausto reprocha-lhe a interrupção de suas meditações e.

Fausto e Mefistófeles desaparecem. Valburga é o nome de uma santa muito popular.. O tema do episódio é a festa das bodas de ouro de Oberon e Titânia. Fausto e Mefistófeles. sente falta de ar e cai desfalecida. nele repousei. Reconheço o seu corpo. A cena seguinte. intima os dois a saírem. A ação principal do drama (o pacto entre Fausto e Mefistófeles e a conseqüente conquista do amor de Guida) é interrompida por vários episódios secundários. ligados à história encaixante por um nexo muito frouxo (“Adega de Auerbach”. inspirado em duas peças de Shakespeare: Sonho de uma noite de verão e A tempestade. o gênio do ar. antes de morrer. Dialogam sobre as belezas da paisagem. cujos festejos se realizavam no dia primeiro de maio. iluminados por um fogo-fátuo. “A noite de Valpurga” é um cenário que apresenta uma montanha da Alemanha. Após essa breve reconstrução do enredo. intitulada “Sonho da noite de Valburga”. aquela que outrora fora um exemplo de virtude e agora seu nome está na boca do povo por ter-se tornada amásia de Fausto. canta trechos de liturgia fúnebre em latim. encontram bruxas que cantam em coros. A morte espreita. pois viera para salvá-la. Como temos visto. A peça não apresenta unidade de ação. andam por caminhos íngremes. O cenário seguinte representa a cela de uma prisão. Esta seria a causa da prisão e do seu temor de ser justiçada. Enfim. figuras da mitologia nórdica. penso eu. de noite. Margarida é tomada por um forte sentimento de culpa. fere mortalmente Valentim. pois o dia se aproxima e seus corcéis não cavalgam à luz do sol. Este entra em cena junto com Mefistófeles. ou o espectador. Desta última. passamos a apontar alguns aspectos estilísticos e semânticos. O tempo de duração das ações. nem de tempo. Na cena da Catedral. esta tem um filho do seu amante.. Durante a longa caminhada rumo ao monte Brock. Fausto suplica à amante a acompanhá-lo fora da prisão. o soldado Valentim. Não teve uma só mão carinhosa a cerrá-los. embora indefinido. admirando as montanhas verdejantes e os lindos rios. é atroz abandonar-te Quisera acompanhar-te! Mefistófeles.130 aconselha a namorada a ministrar um soporífero a sua mãe para poder passar a noite com ela no seu quarto. custando a reconhecer o próprio amante Fausto. um ministro. que fazem do Fausto a tragédia mais representativa da estética e da ideologia do Romantismo. Os dois amigos. que teve a finalidade de facilitar a compreensão do conteúdo fabular da complexa peça goetheana. Vais embora? Oh Henrique. deu-mos Margarida. aparece o mesmo personagem Ariel. lugar da festa. onde se vê Margarida acorrentada. Cai o pano. nem de lugar. com a ajuda do Diabo. ficamos sabendo que ela matara a mãe e o seu filhinho. O leitor. coincidindo com as festas pagãs pelo início da primavera. irmão de Margarida. aparecendo do lado de fora. é um interlúdio lírico. causada pelo remorso da sua relação pecaminosa. portanto. rompendo definitivamente com as regras da dramaturgia clássica. Mas Margarida se recusa a sair do cárcere: Lá fora é a sepultura. “Floresta e caverna”. Ela chega até delinear a localização de seu túmulo. de outro lado. Segundo a lenda. Reconheço esses seios. O coro. Mas. Pela sua fala aloucada. ao som do órgão. No meio de estranhas visões. suplicando pela salvação da sua alma. escura! Vem para a Eternidade E nenhum passo adiante. manifesta sua dor pela desonra da irmã. Acorrem Marta e Margarida e o soldado. A jovem está num estado de alucinação. Falta-lhe a luz da vida. Vozes vindo do Alto anunciam que ela está salva. pela riqueza e multiplicidade dos cenários e pela complexidade e diluição . sem saber se a culpa de Margarida é real ou imaginária. reprova a conduta indecorosa da irmã. O soldado os ataca e Fausto. são de alguém que morre. fica. um general. que lhe parece ser o de Margarida: Os olhos. Pede a Fausto para ser sepultada perto da mãe e do irmão com o nenê no peito. uma jovem de nome Bela. Em frente à casa da jovem. Margarida sente horror à presença do Diabo e prefere entregar-se à Justiça de Deus. nesta noite misteriosa os demônios e as feiticeiras se amavam nas montanhas. um novo-rico. Fausto percebe um rosto pálido. A presença de quadros líricos e folclóricos também prejudica a intensidade dramática. “Noite de Valburga”). um autor de livros. deixa supor uma longa extensão: Fausto leva quinze dias para fazer a corte a Margarida. em ambientes dos mais fechados (quartos e celas) aos mais abertos (montanhas e planícies). na noite de 30 de abril. os fatos acontecem em vários lugares diferentes. Fausto afirma que seu crime não é mais que pura fantasia. cujos sons parecem cantos.

então. sendo rejeitada pelo seu subordinado Tom Sanders. símbolo da sedução e do encanto dos desejos carnais. e do mundo diabólico. Joyce. já velho.a jovem esposa se apaixona pelo enteado e mata o próprio filho. o governo. quando Fedra lhe revelou o ardente desejo sexual. O velho herói pediu ao deus Netuno que castigasse seu filho pelo grave pecado cometido. acusa o enteado do crime que o rapaz não quisera cometer. personificado em Margarida com seu sonho do primeiro amor virginal. e de Parsífae. está Fausto. ora recorrendo ao arquétipo psicanalítico da paixão incestuosa. a personagem Fedra inspira o Teatro da Ópera (a homônima tragédia coreográfica de Jean Cocteau: Paris. de Mefistófeles. A renúncia à alma imortal em troca de bens materiais só poderia resultar numa degradação. passa a transferir para outros gêneros literários a sua função de representar a vida humana em toda a sua complexidade. movendo contra ele um processo por assédio sexual. a virgem Diana. O moço. A mistura do sublime e do grotesco envolve o tratamento do próprio tema central do Fausto. A ciência. conquistar um amor angelical mediante trapaças diabólicas. símbolo da alma romântica constantemente balançando entre o ideal do sonho e o grotesco da vida real. invertendo. O personagem Fausto de Goethe é a versão romântica da utopia do homem que. Aspectos épicos podem ser encontrados também em obras de outros autores românticos. chegamos a moderno Eugène O’Neill: sua peça. Talvez a beleza desta peça de Goethe esteja mesmo na representação do mundo angelical. tinha um filho jovem e bonito. por vingança. É que a epopéia. rei de Creta. Desire unter the elms. esposa do herói Teseu) Como Ariadne. FENOMELOGIA (corrente filosófica.131 das ações. misturando o mito de Fedra com o de Medeia. para punir a arrogância de Hipólito. tenta destruir a carreira do colega fiel à sua esposa. tendo aspirações infinitas e realizações efêmeras. Prometeu. nascido para a morte. vários dramaturgos elaboraram peças. insatisfeito com a sua condição de mortal. 1950). quando se sente rejeitada. são idealizações de revolta do homem contra as leis do Universo. o Fausto de Goethe nos dá a impressão de estarmos mais diante de um poema épico do que de uma peça dramática. dirigido por Barry Levinson e estrelado por Michael Douglas e Demi Moore: a bela executiva Meredith Johnson. de 1994. Outro filme famoso e mais recente (1994). recorre a qualquer meio para realizar seu sonho de atingir a eternidade. dizendo que nunca trairia a confiança do pai. o amante de Margarida e o amigo de Mefistófeles. sinistro. Da cólera à vingança foi um breve passo: Fedra. Além do Cinema. de Martha Graham. E. Hipólito. não prestando culto a Afrodite ( Vênus). A partir do mito sobre o triângulo amoroso Perseu/Fedra/Hipólito. foi convertida no filme homônimo (no Brasil. puro. Só que o processo se desenvolve pelo modo irônico: chegar a Deus pela ajuda do Demônio. o grande herói Teseu. a medicina. em 1958. o amor. e. realistas ou modernistas. Dos clássicos Sófocles e Eurípides. filho da amazona Antíopa e devotado à deusa da caça. Hipólito a repudiou. Hipólito é executado e Fedra se enforca. criou mitos belíssimos na cultura ocidental. a Dança moderna (Fedra. Ícaro. é Assédio Sexual. Tolstoi. A deusa. Outro aspecto romântico da dramaturgia de Goethe é a sua linguagem extremamente variada. nunca num melhoramento. Também aqui. que do mais alto lirismo desce até expressões tão vulgares a ponto de palavras e gestos deverem ser eliminados em edições ou representações para jovens. ridículo ou irônico. a amizade. inspirado nos dois mitos gregos. a religião. na tentativa de se igualar à divindade. por uma carta. na medida em que vai deixando de ser produzida como gênero à parte. com a interpretação de Sophia Loren e Antony Perkins nos papéis principais. casou com o herói argonauta Teseu. vítima de sua paixão desenfreada. Titãs. fez com que a madrasta se apaixonasse perdidamente pelo lindo enteado. tudo é apresentado pelo seu lado negativo. pelo neoclássico Racine. Guimarães Rosa. em 1962). A irreverência de Mefistófeles se traduz numa crítica mordaz contra todas as classes sociais e atividades humanas. modalidade do conhecimento)Formalismo . a Televisão (a novela “O Clone” da TV Globo). Atraído pelas duas visões de vida contrárias. nasceu de Minos. FEDRA (Personagem mítica e trágica. A insatisfação do homem com a sua condição de ser contingente. os papéis de sedutora à vítima seduzida. Daí a conseqüência trágica da loucura de Margarida. que é a representação da frustração da humanidade na sua busca de um ideal impossível. como a irmã. ora o drama da fraqueza humana de Fedra. acusando-o daquilo que ele não quisera fazer. destacando Hugo. desprezava a paixão amorosa. com o nome simples de Desejo) pelo diretor Delbert Mann. ora focalizando a arrogância de Hipólito. assim. que deveria restringir-se a focalizar apenas um problema existencial. quando este. ser feliz renunciando à própria alma.

É preciso não confundir “heterônimo” com “pseudônimo”. para me sentir. isto é. autodefinindo-se “um novelo embrulhado para o lado de dentro”. Para me sentir. pois o texto é percebido pelos sentidos e pela consciência. “um modo de ver” e um “método”. de algum modo. A análise fenomenológica distingue no objeto artístico vários “aspectos” ou “estratos”. estão ligados à fenomenologia: Jean-Paul Sartre e Marleau-Ponty. O próprio sobrenome do poeta português significa. quer dizer: é o estudo do fenômeno que nos dá o conhecimento. Os princípios da fenomenologia só recentemente foram aplicados ao estudo da literatura por Roman Ingarden (A obra de arte poética. literalmente. uma personalidade humana e poética com biografia. procura desembrulhar-se. etimologicamente. O método consiste no modo de ver e este modo de ver constitui o método. A heteronímia é. cosmovisão e tendências literárias próprias. de qualquer pressuposição lógica sobre a constituição do objeto artístico. O crítico fenomenológico aproxima-se da obra com mente pura. mas especialmente por ter inventado personalidades poéticas distintas de si próprio. afastando de si as influências de qualquer tradição literária.. considerada como um “fenômeno”. O enfoque fenomenológico limita-se à descrição da obra literária. O pai da fenomenologia foi o filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938). filosóficas e artísticas. portanto. Para Husserl. apregoando o “retorno às coisas”. significa “o que aparece”. que estavam confusas no seu espírito: Multipliquei-me. Ver tambémCrítica. a Álvaro de Campos e a Fernando Pessoa ele mesmo ou “ortônimo” (= nome verdadeiro). Que eu quero sentir tudo De todas as maneiras. fônico. uma forma homogênea. “fingimento”: “pessoa” vem de persona. segundo o étimo latino. aos fenômenos da natureza. Despi-me. todo conhecimento está na consciência que vê e analisa as coisas da vida. junto com cada nome. distinguindo-se em sua produção poemas atribuídos a Alberto Caeiro. A Fenomelogia seria. Transbordei. o objeto da experiência. A consciência intencional é o elemento invariável do saber. O poeta português. Quebro a alma em pedaços E em pessoas diversas Essas “pessoas diversas” são os heterônimos. “Heterônimo” significa. “máscara”. o fato natural constatado. colocando para fora de si as diversas tendências humanas. “outro nome”. portanto. que esta estratificação só existe graças ao esforço analítico do crítico. E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente. 1965) ligado à escola fenomenológica de Husserl. Os heterônimos foram concebidos como seres diferentes de seu autor. A abordagem fenomenológica do texto ou do objeto artístico é uma variante da análise “interna” de uma obra. pois é ela que confere unidade à série dos sucessivos esboços apresentados pelos fenômenos exteriores. sintático. a estrutura dos objetos e dos acontecimentos. FERNANDO Pessoa (o inventor dos “heterônimos”) “O que em mim sente. entreguei-me. porém. Sua obra lírica leva a assinatura de vários “heterônimos”. A fenomenologia é. estando próxima do Formalismo e do Estruturalismo. está pensando” Fernando Pessoa (1888-1935) tornou-se imortal não apenas pela beleza de seus versos e pela acuidade de seus pensamentos críticos sobre a vida e sobre a arte literária. que significa “nome falso” de uma mesma pessoa. não fiz senão extravasar-me. como um todo orgânico. ideológico etc. ao mesmo tempo. lexical.. como ela “aparece” aos olhos e à intuição do observador. O principal propósito da Fenomenologia é descrever a essência.. definida por Hegel (Fenomenologia do Espírito) como “a ciência da experiência que faz a consciência”. pois Fernando Pessoa não se limitou a assinar seus poemas com nomes fictícios. precisei sentir tudo. mas criou. Ela põe em evidência o aspecto óptico. A experiência perceptiva é o fundamento de todas as operações da consciência. Importante é a contribuição da Fenomenologia para a análise e a crítica literária. à primeira vista. Outros críticos literários que. figurado.132 Phainomenon. de qualquer modelo de análise preestabelecido. substantivo composto pelo . em grego.. a Ricardo Reis. um nome imaginário a quem é atribuída a autoria de coletâneas de poesias. um caso de “desdobramento de personalidade”: da aparente unidade psíquicointelectual de Fernando Pessoa emanam e se substancializam diferentes modos de sentir o mundo e a poesia. de qualquer autoridade crítica. É preciso salientar. a doutrina da aparência. que negava o valor das teorias científicas.

que se autodefinia “um histérico-neurastênico”. teve a intenção de profissionalizar esses conhecimentos e abrir um consultório de astrólogo. Deixam-se primeiro apodrecer as sensações. Além disso. e nele é difícil estabelecer limites entre realidade e fantasia. o caráter excessivamente sensível de Fernando Pessoa contribuiu para que se ensimesmasse. Mas é a partir de 1914. enquanto o neurótico é súcubo de suas obsessões. entre vida e arte. dentro de si faculdades mediúnicas. quer para o lado materialista de seu espírito. de idéias. chegando a praticar a escrita automática e a comunicar-se com o mundo dos espíritos. de se “outrar”. que proliferavam na Europa. em seguida rubificam-se com a imaginação. é atribuída ao heterônimo Alexander Search. de “vozes” diferentes no mesmo ser. 2) albação. afirma. a unidade do eu não passando de um preconceito. em seu nome verdadeiro? Não esqueçamos que Fernando Pessoa chamou a todo verdadeiro poeta de “fingidor”. independentemente de qualquer “inspiração” momentânea ou “influxo” . mesmo quando estiver fundamentada nos próprios escritos de Fernando Pessoa. ficção. Mas. a distância é grande. O fundamento psíquico da criação heterônima reside na complexidade do ser humano: o espírito é um “pseudo-simplex”. ano em que imagina ter andado “viajando a colher maneiras-de-sentir”. no começo do século XX. cada qual indicando uma faceta peculiar de seu espírito. e. A nosso ver. tivesse uma dificuldade grande em se relacionar afetiva e sexualmente com mulheres e procurasse no álcool a fuga da realidade. Persona era chamada a mascara que os atores do teatro grecoromano usavam para camuflar sua figura física. com o nome de Alberto Caeiro. fazendo com que o poeta descubra. de desdobrar sua personalidade ou. tanto que. 3) rubificação. Devemos acreditar nele quando. A introversão induz à introspecção. 4) sublimação. Yeats). induziram certa crítica biográfica a admitir a hipótese de serem os heterônimos “cristalizações de eus superterrestres” no ser real de Fernando Pessoa. atribuindo-lhes a autoria das Ficções do interlúdio. se familiarizou com a história. apesar da diversidade das facetas com que ele se nos apresenta. A produção dos poemas em língua inglesa da juventude. de libertar-se do sofrimento dos contrastes acumulados dentro de si. cria um tormento no espírito do poeta: daí a necessidade de quebrar “a cadeia de ser um”. que apenas num dia (8 de março de 1914) escreveu. por exemplo. finalmente se sublimam pela expressão”. que Fernando Pessoa inventa os três heterônimos melhor acabados e mais importantes. A coexistência de várias pessoas. A convivência com uma tia médium levou Fernando Pessoa a participar de sessões espíritas. em cujo nome “escrevia cartas dele a mim mesmo”. para usar seu neologismo.133 prefixo per (através de) e sonun (som). para a gênese dos heterônimos concorreram vários fatores: 1) A constituição biopsíquica do poeta português. de pé e a fio. se manifesta em Fernando Pessoa desde a infância: com apenas seis anos de idade cria o primeiro heterônimo. com o intuito de combater o racionalismo e o naturalismo dominantes. quer para a unidade humana e poética de sua personalidade. a certa altura de sua vida. como outros poetas de sua época (Novalis. trinta e tantos poemas. em carta a Adolfo Casais Monteiro. se interessou pelos fenômenos parapsicológicos e pelas doutrinas místicas. As experiências mediúnicas e os conhecimentos das ciências ocultas. Evidentemente. de vários seres. fingimento artístico. Qualquer relação que se possa estabelecer entre a gênese dos heterônimos e a vida real do escritor português é fadada a ser uma mera conjectura. os seres imaginários que diz o habitarem não são senão as várias posturas ideológicas e estéticas que ele viveu ao longo de sua vida. a doutrina e a simbologia da ordem rosa-cruziana. se olhasse mais para dentro do que para fora. Esta hipótese é insustentável. jogo cerebral e poético. com o título O guardador de rebanhos. ainda. Baudelaire. entre 1903 e 1909. sumariamente apontados. dentro de si. traduzindo para a língua portuguesa livros encomendados pela Sociedade Teosófica. cultivasse poucas amizades. drama íntimo. depois de mortas embranquecem-se com a memória. de desejos. essencialmente. de sentimentos. Cada um de nós encerra dentro de si uma pluralidade de vozes. Fernando Pessoa consegue superar artisticamente esta contradição imaginando a coexistência. pela alquimia e pelas ciências ocultas . Enfim. Como releva Octavio Paz. Poe. os seis poemas da Chuva oblíqua. se atentar quer para a grande lucidez mental do poeta português. de tendências. O processo alquímico é quádruplo: 1) putrefação. o artista as domina e as transforma. o estudo da astrologia levou-o a admitir a influência dos astros no destino humano. analise e dê vida própria às contradições que o habitam. 2) O interesse pela teosofia. É sabido que Fernando Pessoa. que muitas vezes são contraditórios. um certo Chevalier de Pas. Paralelamente. daí a admitir a hipótese da gênese patológica dos heterônimos. então. o conhecimento da alquimia fez-lhe estabelecer uma comparação entre o processo da criação poética e a atividade alquimista: “O génio é uma alquimia. A criação heterônima deve ser considerada. A nosso ver. A capacidade de sentir várias coisas ao mesmo tempo. Fernando Pessoa “ele mesmo” não é mais real ou menos ficcional do que qualquer outro heterônimo. sendo conhecidos pelo público apenas através de sua voz. Descobriu.

reputando-se o espírito como um agregado de sensações e idéias diferentes e contraditórias. de que seu autor tem plena consciência. monolítico e indivisível. como pessoa física. contraindo a mãe novas núpcias com o cônsul português em Durban. Poe. Fernando Pessoa. sua conjunção e sua simbiose. entre a “Inteligência” (= as forças racionais) e a “Vida” (= as forças irracionais). encontram. Pirandello. Entra em contatos mais estritos com a literatura da Europa continental. está pensando” expressa bem esta tomada de consciência do poeta perante o ato da criação artística. Fernando Pessoa fica em Lisboa. faculdades do espírito que por longo tempo foram consideradas antitéticas. especialmente com os simbolistas franceses e o incipiente movimento futurista. nos melhores poetas modernos. Só em Fernando Pessoa a heteronímia chegou ao ponto da “dramaticização”. A criação heterônima é fruto de longa maturação humana e poética. se transfere para a África do Sul. Poe. o dogma antigo da personalidade una e compacta entra em crise e vários escritores procuram expressar em forma de arte a multivocidade do ser humano. quando procurava a solução de um problema estético. que existiam dentro dele. desdobrou-se em vários autores pela necessidade de se manter imparcial ante o desenrolar do seu pensamento dialético. sem todavia tirar-lhe o brilho da genialidade. dentro do mesmo indivíduo. mais do que se sentir um “inspirado”. Em 1905 volta definitivamente para Portugal. fica órfão de pai em 1893 e.134 sobrenatural que possa ter tido como pessoa física. cartas e trabalhos críticos e filosóficos em inglês. as quatro personalidades poéticas de Fernando Pessoa: I . o lírico espanhol Antonio Machado inventa “os poetas apócrifos” para transformar-se em outros “eus”. E. na época de Fernando Pessoa. o pai do Existencialismo. porque só ele consegue despersonalizar-se. um pouco na companhia de uma tia espírita.A. A análise do processo da criação poética e a preocupação crítica procedem paralelamente à construção da obra de arte. 3) Os antecedentes culturais: a partir do início do séc. poética e estética andam de braços dados. o poeta Unamuno coloca à base do sentimento trágico da vida a luta. vivendo um pouco só.Fernando Pessoa “ortônimo”: o poeta do saudosismo português A biografia de Fernando Pessoa. Maiakovski e outros poetas modernos. dois anos depois. Na medida em que cada heterônimo é a encarnação de uma tendência literária. tinha a impressão de ser o autor de um diálogo entre os dois lóbulos de seu cérebro. dramaturgos e poetas: Kierkegaard. considera as personagens como várias sub-individualidades componentes desse “pseudo-simplex” que se chama espírito. a um drama vivido por vários poetas. é. Byron. onde fica dez anos. como se fosse duas pessoas distintas. um construtor de seus versos. em seres autônomos que lutam entre si. XX. pela influência da filosofia existencialista. que pairava no ambiente cultural da época em que Fernando Pessoa viveu. demonstram que. pode ser reduzida a alguns dados essenciais: nasce em Lisboa em 1888. Nele. constituindo-se as várias correntes humanas. no intuito de arrancar a poesia do mito do mistério e da inspiração divina (a figura da musa inspiradora é posta de escanteio) e apresentar o poético como um produto do homem para o homem. Apresentamos. Valèry revela que. pondo para fora e expressando em forma de arte os diferentes modos de ver o mundo e de sentir a poesia. em seus Diálogos filosóficos afirma que. a seguir. Tendo os pais regressados a África do Sul. dentro do mesmo Poeta. quer porque em nenhum outro escritor a despersonalização foi sentida tão fortemente. Suas leituras preferidas são os poetas Milton. Segundo Fernando Pessoa. opera como um “artífice”. quando refletia. Pensamento e sentimento. e exercendo a profissão de tradutor. como T. Essa nova concepção da personalidade. Mas é a . cada qual estando ao centro de duas estéticas diferentes e divergentes— a clássica e a romântica —. O fenômeno pode ser relevado em filósofos. o escritor francês Renan. de onde nunca mais sairá. quer porque foi expressa artisticamente de um modo todo peculiar. independentes de seu criador. então. 4) A intelectualização dos sentimentos: a poética moderna se diferencia da romântica pelo fato de que o poeta. Assistimos. criador e crítico de sua poesia. na peça Seis Personagens em busca de um Autor. cria personagens com vida própria. o poeta dramático é o melhor de todos. personificada por outro heterônimo. e se diferencia da poética clássica pela atitude crítica do autor perante a gênese e o processo de sua construção artística. Valéry.S. ele funciona também como crítico da corrente divergente ou contrária. citados ao acaso. poéticas e estéticas. considerando o vital como irracional e o racional antivital. deve ter influenciado o poeta português na criação de seus heterônimos. Estes fatos e testemunhos. pela difusão das várias correntes psicanalíticas e pelo progresso das teorias científicas sobre a relatividade. sentia-se um doublé. completa os estudos secundários e se familiariza com a língua e a literatura anglo-americana. escrevendo poemas. Keats. a personalidade humana não era mais considerada como algo coerente. o russo Evreinoff no drama O teatro da alma. P. ao mesmo tempo. Eliot. O “pensamento sentido” e o “sentimento pensado” enformam a matéria da poesia de Fernando Pessoa. O conhecido verso de Fernando Pessoa “ O que em mim sente.

A partir de Antero de Quental. 2) “nada”. Ulisses. Para entendermos a figura retórica. ocupa uma pequena importância no itinerário estético de Fernando Pessoa. com rima alternada de esquema ABABA. Verlaine. Camilo Pessanha e Teixeira de Pascoais são seus poetas preferidos. onde está inserido o poema Ulisses. a poesia portuguesa se caracteriza pela fuga da realidade e pelo refúgio no mundo do sonho. Rimbaud) e o segundo. a segunda parte. Ora. são de pouca relevância teórica. de quatro sílabas. em relação ao sujeito da oração. A primeira parte. O poema é composto de três pentásticos. relevante é o poema Ulisses. que é um Saudosismo intelectualizado. na mesma cidade natal. Morreu em 1935. sucessivamente inventados pelo poeta português. nas pegadas dos melhores escritores da história literária de Portugal. sucessivamente (“Águia”. o “Paulismo”. Mallarmé. juntamente com o Cancioneiro. com várias subdivisões. sugerindo um tipo de poesia estagnada. como podemos constatar. os três “ismos” — Paulismo. o mito é tudo do ponto de vista espiritual. contém a produção poética de Fernando Pessoa ‘‘ele mesmo’’ e expressa sua faceta lírico-patriótico-saudosista. O nome é um derivado de “paul” (= “pântano”). Na primeira estrofe. que indica a existência. o poeta nos dá a sua definição do mito. Valérie. é preciso estabelecer a escala de valores em que o mito pode ser considerado um nada e uma outra escala de valores pela qual o mito é tudo: o mito é nada do ponto de vista da realidade histórica. foi e não foi suficiente. o poema todo está baseado na oposição dialética do “ser” e do “não-ser”. que tentavam uma renovação da poesia e da cultura portuguesas. perguntou a Ulisses qual era o seu nome. que indica uma totalidade negativa. Junto com Mário de Sá Carneiro. brilhantes frutos. Fernando Pessoa. Nesse primeiro verso temos duas formas oximóricas encadeadas: 1) “O mito é”. o primeiro sendo movimento literário de origem francesa ( Baudelaire. no campo da poética. O título do poema tem como referente extratextual um dos personagens mais famosos da mitologia grega. “Brasão”.135 tradição poética portuguesa que mais o atrai: Antero de Quental. para poder explicar a origem das coisas. que consiste na predicação de um termo contrário ou contraditório. lançando inclusive um movimento literário novo. José Régio e outros poetas exponenciais da época. e a sua predicação “o nada”. contém uma série de poesias que enaltecem os fundadores da nacionalidade portuguesa. “Orpheu” e “Presença”). refere-se ao mito do Sebastianismo. Interseccionismo e Sensacionismo —. o tropo de sentido. personagem da Odisséia. Sua inovação realmente original em matéria de teoria estética e que deu. “O encoberto”. A explicação do título “Ulisses” é indispensável para a compreensão do poema por um motivo muito peculiar: quando o ciclope Polifemo. na primeira fase de sua produção. tem como assunto poemático as conquistas ultramarinas de Portugal. procura motivar o ressurgimento das letras e da civilização portuguesas com base na grandiosidade do passado político e literário de Portugal. publica poemas e escreve artigos de fundamentação teórica em três revistas literárias. a terceira parte. A obra Mensagem foi estruturada para oferecer um painel simbólico e artístico da história das grandezas de sua terra. nome que se encontra na capa da primeira edição da obra Mensagem. e sua predicação adjetiva “tudo”. Os três versos medianos são formados por três oxímoros de contraditoriedade: Ulisses existiu e não existiu. Divide-se em três partes. o de Ulisses. recolhendo as aspirações dos poetas que o precederam. cuja etimologia é Ulissipona (“a cidade de Ulisses”). o herói astuciosamente respondeu: “Meu nome é Ninguém”. foi a criação dos heterônimos. em que predomina o sentimento do vago e do sutil. cada estrofe sendo formada de quatro heptassílabos e de um verso mais curto. A poética de Fernando Pessoa. Para o estudo do poeta português “ele próprio”. A coletânea de poesias Mensagem. fruto da cultura autóctone. Aliás. porque nenhum povo pode viver sem crenças que lhe expliquem a causa dos fenômenos e lhe determinem o comportamento a seguir. Mas o Paulismo. do “tudo” e do “nada”. Teixeira de Pascoais. que indica a não-existência. que indica uma totalidade positiva. adere a esta poética. chegou e não chegou. a única obra publicada em vida. Também para o entendimento do mito peculiar de Ulisses é . fundamentada numa identificação de termos contrários: O mito é o nada que é tudo O sintagma evidencia uma figura retórica chamada “oxímoro”. A segunda estrofe refere-se à ação de um mito específico. “Mar português”. porque é fruto da imaginação popular que inventa biografias e façanhas acerca de entes sobrenaturais que não tiveram existência real. que chega na costa atlântica e dá origem à cidade de Lisboa. fruto da atmosfera “decadente” dos ultra-românticos. Sem o conhecimento deste mito é impossível entender este texto de Fernando Pessoa. anteriormente à criação dos heterônimos — fenômeno que começa em 1914 —está ligada visceralmente ao Simbolismo e ao Saudosismo. obra atribuída ao poeta grego Homero.

é uma postura mental proposital. não existe uma “constituição íntima das coisas”. e da sua parte material. A matéria de sua poesia é o mundo que o circunda: árvores. e morreu tuberculoso em 1915. A poesia de Caeiro pode ser vista como reação a quase todas as orientações filosóficas e poéticas da época: opõe-se ao Saudosismo. Raras vezes Há duas árvores iguais. ele cria uma nova estética (especialmente por isso é considerado “o mestre”). ao Futurismo. Sua aversão. instintiva. não havendo nem possibilidade nem necessidade de modificações. se perpetua continuamente no seio da humanidade. O órgão-guia de Alberto Caeiro não é nem o cérebro nem o coração. mas viveu toda sua vida na roça. que nasceu em Lisboa em 1889.136 preciso recorrer às duas escalas de valores diferentes: Ulisses não existiu no plano histórico. ovelhas. longe de qualquer elucubração mental. aproximando a poesia da prosa. que exaltava o passado. mas o poeta definiu o mito como um nada-tudo e portanto a vida “metade de nada” é igual à vida “metade de mito”. paradoxalmente. a do “versolivrismo”. O que “morre” no ser humano é a sua parte material. II -Alberto Caeiro: o poeta da natureza O heterônimo Alberto Caeiro. aventurando-se no mar para o conhecimento e a descoberta de novos mundos. no próprio ato de negar a filosofia. de um lado. pela força da realidade. são imutáveis. mais do que pertencer à estrutura de sua personalidade. por ser espiritual. que é perecível. rítmicos e retóricos. da linguagem discursiva: Por mim escrevo a prosa dos meus versos E fico contente. Alberto Caeiro. O mesmo acontece em relação à estética literária: no momento em que se opõe e critica o modo de poetar tradicional. A oposição da parte espiritual do homem.: Eu nunca passo para além da realidade imediata. é apresentada mediante um dúplice oxímoro de contrários: “vida” x “morte” e “metade” x “nada”. mas a visão: Eu nem sequer sou poeta: vejo. que espiritualizava a natureza. Não me importo com as rimas. da aproximação de termos e conceitos opostos. a reflexão pela visão direta das coisas. Caeiro está fazendo filosofia. ele também recusa todo tipo de estética. segundo ele. espontânea. feito de fidelidade aos cânones métricos. no próprio momento em que se confessa antifilósofo e antipoeta. Sua formação escolar não passou do curso primário e sua poesia pretende ser como sua vida: simples. uma ao lado da outra. ao pensamento teórico. que enaltecia a vida socializada e mecanizada. Para Caeiro. flores etc. humanitarismo. Se quisermos atribuir um . do polissíndeto. Fernando Pessoa apresenta Caeiro como um jovem loiro. Evidentemente. Com efeito. A última estrofe tem como momento ideológico a proliferação do mito: este fecunda a realidade e se espalha entre os povos. Quer dizer. sendo os seres e os objetos apenas fenômenos da natureza) e de proibir qualquer subjetivismo (que levaria à distorção da realidade objetiva). da pobreza lexical. alimentada pelo mito. da repetição. pela força do mito e. à poética formal e a qualquer tipo de cientificismo. inspirada pelo contato direto e imediato com a natureza: A minha poesia é natural como levantar-se o vento Ele é o poeta da realidade objetiva. visto que seus versos são gerados sob o signo da dialética e da polêmica com os cultores do pensamento especulativo. foi o primeiro alter ego a se esboçar por inteiro no espírito do poeta português. inimigo de todas as filosofias. sol. como os elementos da natureza. ao passo que o elemento mítico. sendo fator de seu progresso civilizacional. mas ele existiu no plano espiritual. a vida humana é regida. portanto. ao Simbolismo. que funciona como contraponto às cosmovisões e às linguagens poéticas de Fernando Pessoa ortônimo e dos outros heterônimos. Este heterônimo. porque descreve o que vê e o que sente.. de olhos azuis e infantis. cada qual seguindo seu curso e seu destino. de outro lado. a toda sorte de psicologismo.. real. que cultivava o vago e o imaginário. subjetivismo. não pode ter uma “metade”. Caeiro procura substituir o pensamento pelas sensações. se revela como um grande poeta e um exímio pensador. em companhia de uma tia velha. Os entes naturais são como são porque são assim. Mas. ao Decadentismo. porque é uma lenda. interiorismo. Na biografia imaginária traçada para este heterônimo. A indiferença de Caeiro perante o sofrimento humano é uma denúncia da impostura dos ideais filantrópicos apregoados por cristãos e humanitaristas. porque a crença numa origem sobrenatural estimulou o povo português a imitar as façanhas de seu fundador. o subjetivo espiritual pelo objetivo real. “nada” sendo uma totalidade negativa. Para além da realidade imediata não há nada. expressa pelo advérbio de lugar “em baixo”. além de negar a possibilidade de o homem filosofar (porque. considerado por Fernando Pessoa como “o mestre” dos outros heterônimos e de si próprio. os seres humanos.

Sob este aspecto. representações tradicionais de vícios. 2) O sensacionismo: para Reis. e sem abater-se perante as adversidades. enquanto Caeiro está inclinado para um “panteísmo cósmico”. Reis tenta criar um ideal de vida e de arte “científico”. que o classicismo de Reis não é “neo”. mas “pan”. Reis não se limita. Para que isso se torne possível. porém. se quisermos transmitir a outros a nossa experiência do mundo (e é essa a finalidade da arte). a efemeridade da juventude. praticado atualmente por lingüistas. problemas e realidades humanas. virtudes. a harmonia de formas. enfeixando-os em estrofes rimadas e ritmadas. Fernando Pessoa pode ser visto como uma realização poética do pensamento filosófico a ele contemporâneo: a Fenomenologia. ele propõe um classicismo acrônico e atópico: mais do que se referir a um tipo de classicismo limitado a um espaço ou a um tempo determinado. portanto. mas quer compreendê-los e expressá-los artisticamente de um modo objetivo. Reis estrutura seus versos. porque universal e atemporal. assinada com o nome de Alberto Caeiro. os deuses pagãos estão aí apenas como figurações simbólicas. Os deuses não existem nem dentro nem fora da natureza. portanto.Ricardo Reis: a herança clássico-pagã A filiação deste heterônimo ao “mestre” Caeiro se fundamenta em três pontos básicos: 1) O objetivismo: Reis herda de Caeiro o culto da realidade material e humana que nos circunda. o seu poeta clássico preferido: a fugacidade do tempo. a essência da vida e da arte está nas sensações que temos do universo circunstante. as normas da conveniência e da decência e a representação do mundo real fazem deste heterônimo a expressão mais acabada de um vir classicus. o que mais lhe convém é o “Sensacionismo”: a poesia deve descrever. Enfim. Ricardo Reis pode ser considerado. que lhe causam sofrimentos. O pastor amoroso. de Edmund Husserl. Estes temas são frutos da observação da natureza e da condição humana e. Com efeito. a inconstância do amor. Mas discorda de seu mestre quanto à prática deste objetivismo. Poemas inconjuntos. Do ponto de vista da estética formal. evidentemente. a força do destino. pela postura teórica e pela atividade poética de Caeiro. como um “fenômeno”. numa linguagem clara. Mas. Contra o versolivrismo de Caeiro. a observar e a contemplar os fenômenos do mundo exterior. são gerais e universais. Reis. É fácil perceber que. não adianta perseguir valores absolutos. o artista deve usar técnicas histórica e universalmente consagradas. O conselho de vida que ele dá a si mesmo e aos seus leitores também não é original. Alberto Caeiro expressa a faceta humana e poética de Fernando Pessoa. sendo apreendida pela experiência que deles temos. é necessário a intelectualização da sensibilidade e a reflexão crítica sobre as sensações. Quanto ao conteúdo. Segundo ele. o heterônimo Ricardo Reis foi inventado por Fernando Pessoa não para expressar sua . A obra poética de Fernando Pessoa. a superioridade da poesia sobre a prosa consiste em submeter a emoção a uma forma rigorosa. É evidente que esta postura estética e poética aproxima Ricardo Reis do ideal greco-romano de vida e de arte: o equilíbrio dos sentimentos. estruturalistas e semanticistas.137 “ismo” à poética de Alberto Caeiro. Sua concepção religiosa pode ser considerada panteísta. Deve-se ressaltar. o desejo da inteligibilidade. a nossa sensibilidade deve ser depurada de todo elemento subjetivo para que possa atingir a universalidade. não transcendendo a natureza. a inanidade dos bens terrenos. que quer viver ao contato da natureza. que são também elas passageiras. O objeto artístico deve ser visto como algo que está a nossa frente. ver e sentir a realidade assim como ela é. consta de três coletâneas de poemas: O guardador de rebanhos. a crítica fenomenológica tem muito em comum com o tipo de abordagem da obra de arte. pois está fundamentado na filosofia moral do Estoicismo e do Epicurismo: em face da relatividade de qualquer bem humano. III . válido para sempre e para qualquer lugar. não acredita na existência das divindades que pululam suas odes. é sábio quem vive o dia-a-dia. mas são apenas concretizações de idéias humanas acerca do universo. à margem de qualquer especulação teórica. sem nenhuma abstração e sem a intervenção do pensamento reflexivo. O aspecto moralista da poesia de Reis reside nesse esforço de indagar quais são os sentimentos comuns à coletividade humana e sugerir soluções para os problemas que a vida apresenta. Os temas que trespassam suas odes são tópicos explorados pela poesia milenária e que se encontram especialmente em Horácio. independentemente de sua origem e de sua relação com outros objetos. em oposição ao subjetivismo dos românticos e dos simbolistas e aos exageros da arte moderna. visto que a idéia que ele tem de Deus é imanente. gozando dos prazeres que a vida lhe oferece. os seres e os objetos assim como são apreendidos pelos sentidos. a poesia deve entender e expressar a realidade objetiva assim como é vista e sentida pela generalidade dos homens e não através de um prisma individual que a deforma. 3) O panteísmo: a concepção religiosa de Reis difere da idéia de Deus de seu mestre pelo fato de que. acha que. um “teórico” do Classicismo. Como podemos perceber. como faz Caeiro. a qual leva fatalmente ao subjetivismo. seguindo os esquemas e os cânones da poética tradicional. que afirmava a verdade dos seres e dos objetos estar em si mesmos. como para Caeiro. o espírito “apolíneo”. para reprimir a emoção. seu discípulo propõe um “panteísmo racionalista”. a imparcialidade e a imprevisibilidade da morte. sem deixarse dominar pelas paixões. e que pode ser analisado em seus elementos constitutivos. algo que aparece a nós.

a ausência de preocupações. e cultivar a justa medida na prática dos prazeres. como à dos palácios. evidentemente. amando. em 1910. exilado no mundo moderno. Pela biografia ficcional. Ele sente-se como o último homem pagão e clássico. “latinista por educação alheia” e “semi-helenista por educação própria”.138 crença no paganismo ou propor uma volta aos ideais do mundo greco-romano.C. com o qual trava constantes lides acerca do ideal de vida e do modo de poetar. beijemo-nos. o filão português do Modernismo europeu. tirando o diploma de engenheiro naval pela Universidade de Glasgow. Este heterônimo. Como se vê. 2) a exortação ao gozo dos prazeres da vida. A solução que oferece Reis é a de um esteta requintado. sabemos que Álvaro nasceu em Tavira. O ideário de vida e de arte de Ricardo Reis está de acordo com seus traços pseudobiográficos: Fernando Pessoa imagina Ricardo Reis “educado num colégio de jesuítas”. só que de formação e de tendência apostas às de Ricardo Reis. poeta italiano fundador do Futurismo. mas apenas para oferecer uma tentativa de resposta ao problema crucial do homem. que chama A barca que não vem senão vazia. Talvez que já nos toque No ombro a mão. comuns à poética de Horácio e de Ricardo Reis: 1) a igualdade dos homens perante a morte. transcrevemos e traduzimos três versos do poeta latino Horácio: Pallida mors aequo pulsat pede pauperum tabernas Regumque turres. afirma postulados humanos próprios: . Minha Cloe. quer pela forma de sua poesia (verso livre e vocabulário de baixo calão). Álvaro de Campos é o poeta do “sensacionismo”. ao mesmo tempo. inventada por Fernando Pessoa. Álvaro de Campos expressa a faceta de Fernando Pessoa voltado para o mundo moderno. a qualquer momento. O exílio não é apenas espiritual. Eis uma “ode” para saborearmos a poesia do heterônimo Ricardo Reis: Como se cada beijo Fora de despedida. filho de judeus portugueses. em vista da efemeridade da existência e da imprevisibilidade do futuro. O substrato filosófico desse preceito ético encontra-se na filosofia de Epicuro. Este segundo tema está formalizado alhures e mais sinteticamente pelo mesmo poeta Horácio: é o proverbial carpe diem (aproveite do dia que passa). o universo das máquinas. que se preocupou principalmente com o problema da felicidade humana. mas também físico: com a proclamação da República em Portugal. feliz Sesto. da afirmação da validade atual da poética clássica. o homem para ser feliz deve conseguir o estado da “ataraxia”. descontente com o novo regime político. que é o da busca da felicidade. Acusou as influências literárias de Walt Whitman. Oh. o sábio grego do século IV a. tentar alcançar a perfeição formal. mais do que um “futurista”. quer pelo conteúdo (exaltação da sensualidade impudica). E que no mesmo feixe Ata o que mútuos fomos E a alheia soma universal da vida. a civilização industrial. o heterônimo Ricardo Reis. expressa artisticamente através da poesia do heterônimo Ricardo Reis. sofrer o mínimo possível e esperar que a morte. a extrema brevidade da vida nos impede de alimentar esperanças longas”!) Nesses versos encontram-se condensados os dois temas principais. autodefinindo-se como “o poeta das sensações”. IV. venha e nos faça voltar ao nada de onde viemos. Segundo seu pensamento. o fascínio e a repulsa. poeta norte-americano em sua época considerado escandaloso. em verdade. É evidente nesse poema (como na quase totalidade da obra poética de Ricardo Reis) a influência epicurista e horaciana. o Classicismo está na base da formação escolar de Ricardo Reis e a cultura grecoromana é sua matéria de escolha. e estudou na Escócia. se afasta de sua terra natal e se refugia no Brasil. em 1890. O beati Sesti. Mas. A título de exemplo.. ele. cético e hedonista: refugiar-se no mundo da arte. O texto espelha a visão do mundo pagão de Fernando Pessoa. de que sente. além. Vitae summa brevis spem nos vetat inchoare longam! (“A pálida morte bate com golpes iguais à porta dos casebres. Outros elementos tradicionalistas de sua personalidade são os estudos de medicina e o seu monarquismo. ter sensibilidade para o belo em todas suas manifestações. e de Marinetti.Álvaro de Campos: o poeta da Era Moderna Este heterônimo é também imaginado como discípulo de Caeiro. aproveitar moderadamente dos prazeres que a existência apresenta aos nossos sentidos e à nossa inteligência.

Apresentamos. o pensamento como destruidor da beleza original das coisas. anticristianismo. FEUDALISMO (sistema social) Medievalismo FICÇÃO (fantasia. sem divisão estrófica regular. a filosofia deu um passo decisivo. Enquanto o homem da ciência experimenta e o poeta imagina. não vale a pena acalentar valores reputados absolutos. considerado o pai dos números. para onde irei após a morte. “Ode marcial”. sendo esta atividade o fator principal que distingue o gênero humano da vida vegetativa e animal. metonímia etc. Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo. Protágoras (480-410). “Tabacaria”. como Machado de Assis. motivos e temas que se repetem na poesia ortônima e heterônima). se compõe de verso livre. que significava sábio (de sophia = sabedoria). expressando em forma de arte seus absurdos. que colocou a matemática a serviço da moral. por que eu vivo? Segundo o poeta simbolista Paul Valéry. transitando da cosmologia para a ética.139 Sentir tudo de todas as maneiras.) Retórica FILOSOFIA (conceito e evolução) “Mais Platão. hipérbatos. sem os artifícios dos esquemas e das imagens retóricas da poesia tradicional. O que distingue o filósofo do cientista ou artista é o meio de que se serve para alcançar tal objetivo: o pensamento reflexivo. . “Ode triunfal”. repetições. mas em questionar o mundo. imaginação. do sentir e do agir humano. a consciência crítica da experiência existencial considerada em sua totalidade. sem metro. “Poema em linha reta”. “são as perguntas que fazem o filósofo”. portanto. o médico e o engenheiro. Fernando Pessoa. o conhecimento. o fundador do “atomismo”. Heráclito (550-480). A poesia de Álvaro de Campos procura adequar o ritmo poético ao sabor dos objetos de suas sensações. a hipocrisia humana. encontrável quer ao nível da forma da expressão (paralelismos. na vida e na arte. o ponto de partida doutrinal do materialismo. que afirmara que “o homem é a medida de todas as coisas”. a plurifacetação de Fernando Pessoa. é o saber. Viver tudo de todos os lados. A nosso ver. sem rima. devem ser considerados como configurações diferentes de um mesmo ser. fictício)Arte Fantástico FIGURAS de estilo (metáfora. preocupado em expressar artisticamente os problemas vitais que o afligem: a luta dramática entre o livre-arbítrio e a limitação imposta pelas determinações naturais e sociais. que é o mesmo de todas as ciências e as artes. Seu objetivo. No fundo. cada heterônimo mostrando um ângulo diferente da concepção humana e literária do grande poeta português. é um grande cético. que estudou os elementos da natureza para explicar a cosmologia. Sintetizando: unidade dentro da pluralidade em Fernando Pessoa. não anula a unidade da personalidade poética de Fernando Pessoa. a indiferença perante a prática de um ideal clássico ou moderno de vida.. Este conteúdo programático. Esta diversidade. Mas a grandeza da poesia não reside em dar respostas definitivas e satisfatórias aos problemas humanos. as bases do pensamento reflexivo encontram-se na Grécia com os pensadores chamados “présocráticos”: Pitágoras (570-500). O ritmo corre livre. “Datilografia”. rasgos lingüísticos e estruturais comuns). é realizado por uma estética que ajusta a forma à essência das coisas: à liberdade que goza a substância do conteúdo corresponde a mesma liberdade na forma da expressão. pois exercia a profissão de pedagogo. a constatação de que tudo é ilusão e que. de qualquer tipo que elas forem. porém. Demócrito (470-361). A este heterônimo devemos algumas das mais belas páginas da poesia portuguesa moderna: “Opiário”. dialética dos contrastes. o pastor. a poesia de Álvaro de Campos. Ele foi um “sofista” no sentido primeiro da palavra.. Mas os grandes sistemas filosóficos só apareceram em civilizações bem desenvolvidas. a filosofia é a atividade do espírito humano em busca de uma resposta aos interrogativos mais cruciais da existência: quem sou eu. como a do mestre Caeiro. centrado na exteriorização das sensações. culto da natureza. No tocante à Cultura Ocidental. de onde eu venho. Menos Prozac” (Marinoff) Do grego philo (amante) e sophia (sabedoria). Diferentemente da do heterônimo Ricardo Reis e da de Fernando Pessoa ortônimo. apesar de suas características individuais até antitéticas. “Ode marítima”. Construiu vários modos de viver e de poetar para que se negassem reciprocamente. o filósofo reflete! A atitude filosófica é conatural ao ser humano. quer ao nível da substância do conteúdo (sensacionismo. o tradutor. É a reflexão sobre as formas do pensar. Com Sócrates (470-399). em rápidos esboços.

o que. Estava aberto o caminho para a ética cristã! Efetivamente. o Idealismo alemão (Kant: 1724-1804 e Hegel: 1770-1831). afirma que Sócrates “foi o primeiro a fazer descer a filosofia do céu e a instalou nas cidades e a introduziu nos lares. Pedro é um animal”. espelham o chamado “dualismo cósmico”. do bem e do mal” Platão (427-347). Mas o Renascimento. o chamado “século das luzes”. preparou as bases ideológicas para o início da filosofia moderna. inevitável. A sutileza está na passagem do plano ontológico para o ético. que começou a impor sua visão do mundo. com base na “teoria das idéias”: a corrente do Idealismo que. cujo pensamento filosófico e religioso dominou o universo cultural da Alta Idade Média (Medievalismo). XVIII. Na Renascença européia. o Racionalismo francês (Descartes: 1596-1650. verão/inverno. a terceira. também filósofo. o mais importante Doutor da Igreja Romana. céu/terra. que em grego significa “argumento”: colocadas duas proposições. o Positivismo (Comte: 1798-1857). Esses arquétipos da filosofia. o voluntarismo (Nietzsche: 1844-1900). Seu lema é: “suporta e abstém-te”.140 ensinando a desenvolver o raciocínio e a criar habilidades para o uso da palavra como principal meio de convicção. Cícero. a psicanálise e a sexualidade (Freud: 1859-1939). evidentemente. tudo move). que consiste em viver segundo a natureza. com o estupendo progresso das ciências e das artes. em suas Tusculanas. junto com a corrente oposta do Materialismo. chamada “conclusão”. Um exemplo de silogismo sofista: “o homem é um animal. perceptível na alternância dos princípios opostos da natureza (noite/dia. Heidegger: 1889-1976 e Sartre: 1905-1980). o famoso escritor latino. que se encontram tratados em verbetes próprios: o Empirismo inglês (Francis Bacon: 1561-1626). que constituem dois macro-sistemas. o maior pensador da filosofia “escolástica”. A doutrina escolástica “cristianizou” o sistema filosófico de Aristóteles (a concepção do Deus cristão é semelhante ao aristotélico “motor imóvel”. pois os escritores. colocando ênfase no “prazer” calculado. considerado o pai da filosofia moderna). adquirindo. formulado de propósito para induzir o interlocutor ao erro. Só mais tarde o termo “sofisma” adquiriu um sentido pejorativo. Pedro é homem. Já o Estoicismo (Zenão. embora de sentido duvidoso ou enganoso. desaguando no oceano teocrático da Igreja Católica de Roma. chamadas “premissas”. podemos apontar os seguintes momentos evolutivos do pensamento moderno e contemporâneo. predominando. Os sofistas usavam muito o silogismo. outro mestre do pensamento grego. Sócrates é considerado o pai da filosofia porque deixou de se preocupar com o Universo físico. Epicuro (341-270). aspectos peculiares na dependência do tempo e do espaço. discípulo de Sócrates. infinito e inatingível. medido. obrigando-a a indagar acerca da vida e dos costumes. do III antes ao III depois de Cristo. tornava-se uma dedução formalmente certa. agüentando silenciosamente qualquer desventura. até o advento de Tomás de Aquino (1227-1274). a constituição do mundo. O primeiro grande pensador cristão foi Santo Agostinho (354-430). o . ora a visão do mundo positivista ou material. implícita no pensamento do seu discípulo Aristóteles (384-322). pelo nome dele apelidada de “tomismo”. fundamentada no monoteísmo e na transcendência. o Existencialismo (Kierkegaard: 1813-1855. o Intuicionismo (Bergson: 1859-1941). o Determinismo (Taine: 1828-1893). os principais dogmas da fé católica.). se limitaram a retomar a herança cultural greco-romana. sendo obrigada a servir à religião católica: a filosofia passou a ser ancilla (escrava) da teologia. Sua base teórica foi o Humanismo. a Fenomelogia (Husserl: 1859-1938). através de um discurso serrado e coerente. tentando explicar racionalmente. se preocupou quase exclusivamente com o problema da felicidade humana. logo. passando a indicar um argumento falso. o Materialismo histórico (Marx: 1818-1883). Marco Aurélio) dá mais importância à “virtude”. pela qual a investigação filosófica deixou de ser um fim em si mesma. Seguindo a ordem cronológica. neoplatônicos ou neo-aristotélicos. que desaguou no Iluminismo enciclopédico do séc. ora a postura idealista ou espiritual. retomando o uso do silogismo sofista. ao longo de seis séculos. quase de uma forma alternada. são as duas vertentes fundamentais da história da filosofia ocidental. foi o primeiro a criar um sistema filosófico completo e coerente. o pensamento filosófico não evoluiu muito. a filosofia moral do Estoicismo difundiu-se pelo mundo durante o período do helenismo alexandrino e romano. corpo/alma etc. estudando apenas as relações entre os homens. Sêneca.

Estudar uma obra de arte implicava apenas no conhecimento da vida do autor e do lugar e tempo da sua produção. escultura. Às vezes a filosofia. dando prioridade ao estudo dos elementos internos da obra de arte literária. o buquê (a obra de arte). mas também das outras artes: pintura. no arranjo estético do material utilizado. com o título Mais Platão. o Relativismo (Albert Einstein : 1879-1955). lexicais. ritmo. em grego). quando o regime soviético. que se tornou bestseller mundial. XIX. Retornando às origens. A filosofia está se tornando uma alternativa ao tratamento psicanalítico. formulados pela escola russa. no processo. não se aplicam apenas ao estudo da Literatura. ela nos ajuda a viver! A importância do conhecimento filosófico. Citamos. linhas. pois lançou as bases da passagem da crítica “externa” para a “interna”: até então. pode conseguir frutos também práticos Com certeza.. uma hora de aconselhamento custando tanto quanto uma sessão de psicoterapia. Dois filósofos californianos também estão tendo sucesso: Tom Morris (Se Aristóteles dirigisse a General Motors: A Nova Alma dos Negócios) e Christopher McCullough. Tinianov. lexemas. Também no campo das ciências. Este se convenceu de que “as pessoas preferem uma boa conversa intelectualizada a tratamentos contra depressão ou ansiedade”.141 Estruturalismo e a Antropologia social (Lévi-Stauss e L. filosóficos ou sociológicos). isto é. cores. Jakobson) para outros países. sons. Não refletir sobre a existência humana e seus problemas é um erro profundo que prejudica não apenas o viver em sociedade. A organização do material deve ser feita segundo um . pois a essência da arte reside no prion. o objeto artístico era visto apenas no contexto cultural. Eikhenbaum. O ensino filosófico começa a extravasar a sala de aulas e a se prolongar no consultório e nas publicações de matérias em jornais e revistas. contrário a esse movimento artístico. E não somente nos EUA.Althusser). de carência afetiva. em nossos dias. pois o ser que não pensa deixa de ser “humano”. que ensina princípios estóicos a investidores fracassados. provocou a transferência de seus principais representantes (Chklovski. o Formalismo surgiu na Rússia. cinema. Os princípios de análise estética. entre 1914 e 1930. quando Sócrates dialogava com cidadãos atenienses em praça pública. etc. não são fundamentais para a interpretação da obra. apenas como exemplo.. Como corrente de crítica literária. a teoria “gestáltica” na Psicologia. “há em todas as coisas um sentido filosófico. música. O formalismo muda esse postulado básico. flores e folhagens são o material de que se serve a florista para compor o arranjo estético. Propp. Menos Prozac. assim como o produto artístico. que vigoraram na segunda metade do séc. a maneira pela qual o material é manipulado para produzir o efeito estético. nos balneários ou nas academias de ginástica. o Formalismo teve suas influências. Conforme as teorias do Positivismo e do Naturalismo. era fruto do binômio hereditariedade e meio-ambiente.). A importância da reflexão filosófica é uma verdade incontestável. portanto. pode ser medida pelo sucesso continuado na cultura ocidental da obra ficcional-didática O Mundo de Sofia. O suíço Alain de Botton ( Consolações da Filosofia) utiliza as idéias do grego Epicuro e do romano Sêneca para resolver problemas de frustrações profissionais. Recentemente. Com esta obra. O enfoque formalista é uma postura metodológica da crítica que substitui a oposição tradicional entre forma e conteúdo pela relação entre material (os elementos fônicos. desistindo da sua prerrogativa de “Homo Sapiens”. sememas. o filósofo canadense Lou Marinoff lançou um livro. alguns filósofos modernos começam a vender seus conselhos de vida. do professor norueguês Jostein Gaarder. Marinoff demonstra que a filosofia pode ser aplicada também aos problemas cotidianos. Fundamental. figuras de estilo. mas o próprio indivíduo. o caráter humano.pois as coisas valem pelas idéias que nos sugerem”. O surgimento do Formalismo russo foi fundamental para o estudo de todo tipo de obra de arte. massas e até vazios. FLAUBERT (autor do romance Madame Bovary)Realismo FORMALISMO (método analítico)EstruturalismoTexto Crítica Termo derivado do latim “forma” (morphé. Por exemplo. com a docência no City College de Nova York e com palestras (também no Fórum Econômico de Davos). como a poesia. embora detectáveis. de economia empresarial e familiar. que é o aspecto ou aparência em que se encontram organizados os elementos de um objeto: sinais gráficos. A tese formalista é que os elementos externos (traços biográficos. a estrutura do texto literário (fonemas. Como dizia Machado de Assis. teatro. psicológicos. sintáticos e semânticos do texto) e priom (processo ou procedimento). é estudar os elementos componentes e as relações entre eles. Tomachevski.

quer dizer. formado pela consciência moral. da fantasia à realidae. Sigmund Freud representou para o conhecimento do inconsciente humano. onde se encontram localizados os nossos desejos inconfessáveis. que é o conjunto de injunções éticas e religiosas que a sociedade aos poucos vai introjetando na nossa psique. misturados fluem e refluem. mas o descreve como se o visse pela primeira vez e trata cada incidente como se acontecesse pela primeira vez". Sigmund Freud (1856-1939) conseguiu acender luzes nas camadas mais profundas da psique humana: o inconsciente e o subconsciente. ligando seu nome ao séc. . a tendência à satisfação sexual. Jung e os “arquétipos”)Psiquê Édipo A arte é a trilha que leva de volta. Começou estudando casos clínicos de comportamentos anômalos ou patológicos. No primeiro caso. que leva a uma visão peculiar do objeto. chamado também de id ou “isso”. Insatisfeito com os resultados obtidos pelo hipnotismo. e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. um conjunto de desejos que. 1905). cria uma dependência tão forte a ponto de tornar-se traumática e provocar desvios de comportamento (Psicopatologia da vida cotidiana. 3) o ego (“eu”). que está em baixo. pois verdades existenciais foram vasculhadas por pesquisadores que se tornaram imortais. gera uma sensação dolorosa de impotência. XX. No segundo caso. impulsionado pelas forças opostas do instinto e das convenções sociais. A "literariedade" do texto. Para este caminho de regresso às origens de um trauma. constituído pelas forças instintivas do inconsciente. Freud se utilizou especialmente da linguagem onírica dos pacientes. reside numa “ambivalência” constante: sentimentos iguais e. 2) o superego. O século passado foi denominado o “século da Psicanálise”. 1899). se não superada pelo relacionamento afetivo com outras crianças. Quanto à estrutura da personalidade.142 procedimento de "singularização". fecundando e secando. O grande mérito de Freud foi ter ressaltado que a libido. ou são “recalcados” ou são “sublimados”. temos a formação do “complexo”. especialmente a libido. e o id. Sendo o princípio da forma o traço distintivo da percepção estética. Mas a grande novidade de Freud. A “libido”. consciente ou inconscientemente. O que Einstein foi para a Ciência. marca profunda e inconscientemente a psique humana. considerando os sonhos como compensações dos desejos insatisfeitos na fase de vigília (A interpretação dos sonhos. Devido ao dinamismo psíquico. o ego sofredor. passando pela fase oral. Incalculável é a contribuição do famoso neurologista austríaco no tocante aos estudos sobre a formação da personalidade humana. são os dois eixos fundamentais para cuja satisfção se direciona qualquer atividade humana. o procedimento de singularização nas obras de Leon Tolstoi "consiste no fato de que ele não chama o objeto pelo seu nome. resultante da força disciplinadora e educadora do super-ego sobre o id. Picasso para a pintura e Proust para a literatura. foi a apresentação da tese de que toda neurose é de origem sexual. consegue canalizar a força do id para objetivos socialmente mais nobres. Freud distingue três níveis de consciência: 1) o infra-ego. animal ou vegetal. ao mesmo tempo. isto é a differentia specifica que faz com que um produto de linguagem seja considerado uma obra literária. Segundo V. temos um processo de compensação: dá-se a sublimação dos instintos quando o ser humano. que escandalizou o mundo cultural da época. anal e genital. sinal da conservação individual. libertando a percepção do automatismo. Chklovski. estimuladas pelo terapeuta por palavras dirigidas ao paciente com o fim de descobrir a fonte das perturbações mentais. A atração que o menino sente pela mãe (complexo de Édipo) e a menina pelo pai (complexo de Electra). o nível consciente. 1904. Os impulsos do id. FREUD (o pai da Psicanálise: libido. com a ajuda da hipnose e em colaboração com os colegas Joseph Breuer e Martin Charcot (Estudos sobre a histeria. ainda no período infantil. A essência de toda relação entre o superego. o crítico tem por oficio analisar o priom da obra para descobrir-lhe a especificidade que torna o texto literário um objeto estético. consiste no arranjo estético do material. que está acima do eu. alternativamente. que manifesta o instinto de perpetuação da espécie. o “eu” consciente está continuamente em luta. inventou o método que até hoje é usado pela psicanálise: o das “livres associações” de idéias e de sentimentos. 1895). por não serem satisfeitos. junto com o apetite.

A esposa Jocasta. Entre os mais importantes discípulos de Freud (Adler. da força. Horney.). o eu que fala. mas à Narratologia. para acalmar Édipo preocupado com o oráculo que lhe dizia ser predestinado a matar o pai e casar com a mãe. sociologia e lingüística. estabelecendo seis correspondências: l) ao fator “remetente”. no verbete Crítica. que se manifestam ocasionalmente. ao nível do fazer. todo menino gostaria de deitar-se com a mãe. e tudo é significativo. Veja-se o enfoque psicanalítico da obra de arte. a expressão subjetiva de uma idéia ou sentimento. reproduzimos uma historinha contada por ele: Um príncipe. Assim. Morfologia do conto. pois é funcional Do substantivo latino functionem. 3) o fator “contexto” tem como correspondente a função referencial da linguagem. que tem o fim de atingir o receptor. diz respeito não à Lingüística. reflexões importantes sobre a alma humana e o comportamento social. que atua sobre as próprias palavras. da beleza.mas meu pai. subajacentes ao nosso pensar. do dramaturgo grego Sófocles. existiriam os arquétipos do amor. Ele transformou a libido freudiana em “energia vital”. dentro de nós. transmitidas pelos mitos e pelos contos populares. ligados entre si pela relação causa / efeito. É sabido que Freud encontrou numa passagem da peça Edipo rei. Mead. em seus escritos. Em contrapartida.143 A teoria psicanalítica. Lacan. encontrou elementos comuns e invariáveis. biológicas. ao estudo dos contos de fada. as influências entre poesia e psicanálise são recíprocas. constituem o . 6) o fator “mensagem”. as imagens psíquicas do inconsciente coletivo. Estudando um corpus de cem narrativas populares. denominando “arquétipos” as experiências milenares da humanidade. Com relação à Literatura. algo que transcende o sexo. como bom psicólogo. Os arquétipos seriam os tipos modelares. transformando o mito de Édipo em complexo psicanalítico. E não somente Autores. ora estabelecendo relações profundas da psicanálise com outras disciplinas humanísticas: antropologia. caminhando por seus domínios. que estabelece o meio de comunicação a ser usado. da maternidade. teve vários seguidores que tentaram aperfeiçoar técnicas e métodos. Neste sentido amplo. inspiração para a formulação da sua tese fundamental. 4) ao fator “contato” está relacionada a função fática. 2) ao fator “destinatário” está correlata a função conativa. destacamos o psiquiatra suiço Carl Gustav Jung (1875-1961). 5) ao fator “código” corresponde a função metalingüística. mas também muitos estudiosos da Literatura e das outras Artes. corresponde a função emotiva. em 1928. muitos escritores que exploraram a psicologia profunda em seus personagens de ficção. o estudioso russo Roman Jakobson encontra uma estreita relação entre os fatores da Comunicação e as funções da Linguagem. sim!” FUNÇÃO (ação integrada)NarrativaFormalismo Mito Num texto literário tudo é funcional. No campo da Lingüística. a teoria freudiana influenciou. a execução de um encargo visando alcançar um objetivo. caso em que desejaria o pai. substituindo a abordagem externa pela interna. em fim. da bondade etc. Propp. pois significativo. especialmente à estrutura do plano do enunciado. ao lado de outros variáveis e peculiares de cada conto. afirma: Em sonho. da guerra. Ordena que se aproxime e pergunta: “Sua mãe esteve empregada em meu palácio?” -“Não. senhor – responde o homem. Freud. que ele denomina “funções”. que visa estabelecer a comunicação entre emissor e receptor. ora divergindo das teses fundamentais do mestre. A publicação de sua obra. apresentou. Como exemplo. o formalista V. função é uma ação. o termo é usado por quase todas as áreas do conhecimento humano. direta ou indiretamente. . evidentemente com sentidos peculiares (funções matemáticas. físicas. ao conjunto dos fatos que ocorrem numa obra do gênero narrativo. em certos momentos e em espaços adequados. vê no meio da multidão um homem muito parecido consigo.. inventada por Freud. que indica o dito ou o feito e suas circunstâncias. da prepotência. Roheim). decorativas etc. está relacionado com a função poética da linguagem. a não ser que fosse menina. constitui um marco fundamental na história da análise do texto literário. Já o conceito de função usado por outro estudioso russo. Abraham. muitas vezes usando o modo irônico. Ao inconsciente individual de Freud ele acrescentou o “inconsciente coletivo”. sentir e agir. dando a elas multivocidade e sentidos conotativos. Flein. Os primeiros.

o prêmio do herói. atribuindo funcionalidade não só às ações das personagens. a vitória. Partindo do princípio de que numa narrativa tudo é funcional. Exemplos: interdição/violação. o estruturalista francês considera a alma da função como seu germe. através do acasalamento: operando sobre o caráter binário das funções. publicando em 1909. para ser considerada uma função. a função) de um elemento da obra é sua possibilidade de entrar em correlação com outro elemento desta obra e com a obra inteira”. Ele alarga o conceito de função. segue uma démarche oposta à de Greimas. subdivididas em índices (elementos paramétricos com investimento semântico) e informações (elementos dispensáveis cuja função principal é apenas conferir um aspecto de realidade à ficção). uma nova classe de funções à inventariada por V. na sua reelaboração do modelo funcional de Propp. Analistas e críticos literários posteriores alteraram o modelo funcional de V. FUTURISMO (movimento artístico italiano) Vanguarda “O sofrimento de um homem não é para nós mais interessante de que o sofrimento de uma lâmpada atingida pelo curto-circuito” (Marinetti) O poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti. susceptível de fecundar e dar seus frutos. o castigo do vilão. Barthes redefine assim a função: “a significação (isto é. estabelecendo chamamentos à distância. subdivididas em núcleos (ações principais) e catálises (ações secundárias). Enquanto este se inclina para a condensação. que leva à transgressão. acopla em duplas todas as funções que possuem uma interação. que se implicam mutuamente. a proibição. distribuídas no eixo sintagmático conforme o princípio da contigüidade e a figura retórica da metonímia. as funções performanciais.144 arcabouço da fábula de qualquer obra do gênero narrativo. que leva à reparação.. de um conto ou de um poema épico. correspondentes às definidas por Propp. então. Outra contribuição importante de Greimas ao modelo proppiano é o arranjo das funções em três categorias: as funções contratuais. o “Manifesto Futurista”. que tenha um começo. o dano. na medida em que tudo significa por ser tudo correlato. Junto com outro estruturalista russo enraizado na França. O semioticista francês AJ. dava origem às várias correntes artístico-literárias. Os índices são unidades que remetem a outros elementos no eixo paradigmático. Já Roland Barthes. então. possa tornar-se significativo.Propp para adaptá-lo ao estudo de narrativas mais complexas. as funções disjuncionais estão relacionadas com o deslocamento no espaço. no jornal “Le Figaro” de Paris. as que compreendem as três provas a que o herói é submetido: a prova “qualificante” (funções: tarefa/resolução) tem como conseqüência o recebimento de uma ajuda para enfrentar o inimigo. o chamamento à distância) do que o sintagmático (a contigüidade das funções). uns reduzindo o número das funções. do objeto-valor que estava na posse do inimigo. que são as ações-chave relacionadas entre si. As funções principais são: o afastamento. a luta. Para Propp. nas narrativas escritas para as massas. operando mais sobre o eixo paradigmático (usando o princípio da similaridade. definida do ponto de vista de seu significado no desenrolar da intriga”.Greimas reduz o número de funções a 20. um meio e um final feliz.Propp. Não precisa dizer que os estudos desses formalistas e estruturalistas são de importância fundamental para a análise e a interpretação do texto narrativoCrítica. partida/retorno etc. outros ampliando o conceito de função. 2) as funções “integrativas”. a prova “principal” (luta/vitória) leva à reparação do dano e a prova “glorificante” (tarefa/êxito) permite o reconhecimento do herói e a sua premiação. a serem . que toda função é uma ação. as que dizem respeito ao estabelecimento ou à ruptura do contrato entre o indivíduo e o grupo social (ordem/transgressão. por sua correlação com outro elemento. indicando o “fazer” das personagens. encontráveis em todos os contos populares. que gostam de uma história linear. reparação do dano/prêmio). O formalista russo inventariou 31 funções.Todorov. luta/vitória. mas a recíproca não é verdadeira porque. Barthes está interessado na expansão do conceito de função. Acrescenta. a ação de uma personagem deve estabelecer relações de causa ou de efeito com outras ações distribuídas ao longo do eixo sintagmático de um romance. enfim. mas a qualquer elemento narrativo que. o ir e vir das personagens e a alienação. chamadas de Vanguarda. seguida da reintegração na sociedade. estabelecendo dois grupos: l) as funções “distribucionais”. Deduz-se. A proposta essencial era a destruição de todas as formas tradicionais de cultura. função é “a ação de uma personagem. T.

dos ruídos e dos odores”. Neste sentido. então socialista e futurista. além de tentar verter implicitamente as instituições políticas. Pelo gosto do barulho. Aliás. sirenistas. através de imagens desconcertantes. inventaram a técnica da colagem. laranja) espalhadas em composições chocantes. assinalamos: “Manifesto técnico da literatura futurista” (Marinetti. gargarejadores. a “forma-cor” dos românticos e a “forma-luz” dos impressionistas. considerada a “higiene do mundo”. traduzindo o princípio estético da sinestesia e da simultaneidade dos estados da alma na obra de arte. Também na escultura se usaram materiais heterogêneos. Carrà. cartazes de publicidade e partituras musicais. Deixando-se guiar apenas pela intuição. 1911. não apenas pelo seu passado arqueológico. e cai o pano. tornou-se também intervencionista. junto com a pedra e o mármore. contra os “críticos pedantes” (alemães e austríacos). Severini. eis uma súmula dos princípios estéticos apregoados pelo Futurismo: Pintura: Manifesto de Carrà. de Marinetti e de seus seguidores. os pintores futuristas pretendiam fazer com que o espectador ficasse no centro da obra. inventando-se a arte “polimatérica”: madeira. utilizando pedaços de jornais. cobre. Marinetti imaginava orquestras inteiras constituídas por instrumentos ruidosos e acionadas por eletricidade. italianos. propondo novas ideologias. O vanguardismo deveria atingir não apenas a literatura. com a intenção de mostrar o dinamismo das informações consumidas pelo homem moderno. e Arte dos ruídos. papelão. pelo envolvimento do espectador. Quanto ao foco visual. em si sem muito sucesso. 1914). 1912) Boccioni pretendia fazer “viver os objetos”. inventou e patenteou um colossal engenho produtor de ruídos. Segundo alguns especialistas. para a defesa dos “povos poéticos” (a expressão é de Marinetti). amarelo. influenciou as peças vanguardistas de Alfred Jarry. temas do inconsciente. de Francesco Gangiullo: no cenário vê-se uma rua escura e deserta. roncadores. Balla e outros pintores futuristas tentaram retratar a velocidade. ouve-se um tiro de revólver. Tal síntese fazia com que a peça tradicional se tornasse apenas um sketch. No contexto político. No que toca mais especificamente a Literatura. russos. o Futurismo insere-se na corrente de pensamento que vai de Nietzsche (a quem foi atribuída a concepção da raça pura. do super-homem e da super-nação) ao Nazismo (Hitler). levar o antihumanismo até o anti-humanitarismo pela exaltação da guerra. Para as outras artes. o Futurismo pode ser interpretado como expressão da ambição nacional italiana no início do século XX: a Itália. aplicando linhas de força: o conceito de “forma-força” passou a substituir a “forma-linha” dos neoclássicos. O teatro sintético futurista. do sonho. verde.145 substituídas por uma arte mais condizente com a era da máquina. 1915) A dramaturgia futurista tentava representar a rapidez do mundo das máquinas pela cenografia múltipla. “Manifesto do Futurismo inglês” (Marinetti e Nevinson. a música. Num concerto futurista. recém-unificada. mas pelo dinamismo econômico e militar. Um bom exemplo é uma “tragédia”. Fazendo um balanço das contribuições do Futurismo. podemos salientar aspectos positivos (atmosfera de libertação artística. algo de anedótico. Foram os comícios futuristas que levaram à intervenção italiana na Primeira Guerra Mundial. chamado “intonarumore”. Eugêne Ionesco. a escultura. de anti-convencionalismo e de rebeldia que alimentaria a arte contemporânea) e negativos (fazer “tábula rasa” do passado. Escultura: Manifesto técnico da escultura futurista (Boccioni. a relação do Futurismo com o Fascismo é muito forte. havido em Milão em 1914. A este primeiro manifesto seguiram-se outros. mas também a pintura. Não . Mussolini. “Uma bofetada ao gosto do público” (Maiakóvski e outros escritores russos. sociais e religiosas. o dinamismo e a mudança rápida da vida moderna com cores berrantes (vermelho. a música concreta e a música eletrônica dos nossos dias seriam extensões do movimento futurista. 1912). da juventude. de repente. vê e sente. 1913: “A pintura dos sons. da alucinação. Teatro: Manifesto do teatro sintético (Marinetti. Apollinaire e Maiakóvski. Russolo. ingleses e japoneses. destruir a tradição cultural. na medida em que esta transmite uma síntese de tudo aquilo que ele lembra. do prazer da destruição). a orquestra era composta por explodidores. 1912). intutulada A detonação. pintor e músico. 1913. “Lacerba” e “A voz”. Música: Manifesto dos músicos. pela simultaneidade das ações. 1914) Para a arquitetura foram tentadas experiências idênticas às da pintura e da escultura. tendo como nota comum o antipassadismo e a revolta contra o academicismo pedante e medíocre. Arquitetura: Manifesto dos arquitetos (Sant’Elia. Soffici. lata. a arquitetura. revistas. que tiveram a colaboração de escritores famosos como Giovanni Papini e Giuseppe Ungaretti. desejava imporse ao mundo. Luigi Russolo. durante um minuto reina um silêncio mortal. da virilidade. que seriam os franceses. os futuristas foram apelidados de “rumoristas”. as duas principais revistas da Vanguarda italiana. Quanto ao material usado. transpuseram para o quadro.

afirmando: “se consegui enxergar mais longe. seja este diálogo entre os dois personagens principais: André Sarti: “Desgraçado o país que não tem heróis” Galileu: “Desgraçado o país que necessita de heróis” GANDHI (Mahatma e Indira)Hinduísmo Paz GARCÍA MÁRQUEZ. Narra-se que Galileu recebera a ordem judicial. não é apenas apontar os costumes falsos e degradados. Para a exploração deste tema Brecht recorre à pessoa histórica de Galileu Galilei. físico e astrônomo. retirou as acusações de heresia feitas pela Inquisição contra Galileu. Experimentador. tendo como princípio estético o chamado “realismo fantástico” (Narrativa). o sistema sideral ptolemaico baseado na fixidez da Terra e outras crenças sem embasamento científico. que reconheceu a dívida aos dois cientistas. concordando plenamente com a teoria heliocêntrica de Copérnico. Isso só acontece num sistema social em que a ciência não tem autonomia. mas estimular o público a lutar pela mudança do status quo. mas da coletividade. O papel do teatro. aspira a ser rico. Brecht nos faz perguntar se é justo que um cientista tenha que sofrer por ter descoberto uma verdade cósmica. como acontece com o herói épico e trágico da literatura clássica. Em 1982. embora dotado de uma invejável inteligência: ele gosta de comer bem. pelo qual observava a composição estelar da Via Láctea e do planeta Vênus . Diálogo sobre os grandes sistemas do universo. irônico às vezes. Construiu um poderoso telescópio. com 360 anos de atraso. não há nenhuma idealização. Ele é o autor de “Macondo". Seu pensamento crítico. O sentido mais evidente desta peça é a representação do problema do conflito do intelectual no seio da sociedade em que vive. Gabriel (escritor colombino) A vida de uma pessoa não é o que aconteceu. sendo um dos últimos grandes ficcionistas latino-americanos ainda vivo. Por esta nova postura. Mas o que ela recorda e como o recorda Gabriel García Márquez nasceu em Acarataca. tem medo de sofrer quando vê os instrumentos de tortura e renega suas convicções científicas para salvar a pele. teria exclamado: Eppur si muove (“No entanto. GALILEU (cientista e artista do Renascimento italiano) “Eppur si muove” Galileo Galilei (1564-1642). O protagonista não é apresentado como um herói. 1934: esta é sua obra mais importante. teoria considerada herética naquela época. 1623. junto com Michelangelo e Leonardo da Vinci. que resume a obra toda. pois o processo dialético que leva ao melhoramento cívico não é obra de um indivíduo. para disfarçar. e predecessor do físico inglês Isaac Newton (1642-1727). Portanto. o experimento e a formulação matemática do resultado da experiência passaram a ser os fundamentos das ciências exatas. Teorias e provas matemáticas sobre duas novas ciências . reconhecendo a importância histórica do gênio pisano. contestando as teorias aristotélicas. Galileu descobriu as leis do pêndulo e da queda dos corpos. o mito da cidade fantástica do extraordinário romance Cem Anos de Solidão (1967). grandiosa crônica de um século de opressão militar e de resistência civil. Mas. polêmico. ele é um dos mais férteis romancistas da América latina. sendo regida por um estatuto de filiação religiosa ou política. mas como um ser comum. foi condenado à prisão domiciliar. Talvez a passagem. apesar da fragilidade física e psíquica de Galileu. estando na Catedral de Pisa. . é porque procurei ver acima dos ombros dos gigantes”. pensando na Terra. foi matemático. assinalamos também Crônica de uma morte anunciada e O Amor nos tempos do cólera. que revolucionou o pensamento científico e filosófico. antecipando a formulação do princípio gravitacional e da atração terrestre. Acusado perante o Tribunal da Inquisição. pois o passado nos ajuda a compreender o presente. Tornou públicas suas descobertas através de algumas obras importantes: Me nsageiro das estrelas. GÊNERO: na literaturaÉpico-narrativoLírico Dramático. por ensinar que era a Terra a mover-se ao redor do Sol. 1610.. o Papa João Paulo II. conhecida pelo título sintético I Discorsi (“Os Discursos”). que deu nome ao novo sistema astronômico. forma a tríade genial da Renascença italiana. segundo Brecht. se move”). Ao render-se. em 1928. Prêmio Nobel da Literatura em 1982. mas olhando . 1632. na Colômbia.146 foi por acaso que os grandes centros de desenvolvimento industrial e comercial (Milão e Turim) transformaram-se também nos maiores focos da arte futurista. Além de escritor. Entre sua vasta obra literária. Ele foi sucessor do astrólogo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543). o candelabro que oscilava no alto. é posto em evidência na peça A Vida de Galileu pelo dramaturgo alemão Bertold Brecht.

o dramático. na origem da tragédia. durante as festas dionisíacas: num primeiro momento. Mas tal divisão da produção poética nos gêneros épico. o filósofo e crítico grego estudou a produção poética do séc. pois coloca um problema existencial a ser resolvido). Imaginamos o que devia acontecer na Grécia pré-histórica. e também por filósofos e psicólogos que. tendo vários objetivos: agradecer a divindade pela boa colheita. de épos. reestudada por vários teóricos da arte da palavra. Devido ao tom jocoso e. de exaltação etc. pelo diálogo entre o chefe do coro e os coreutas: este ditirambo dialogado estaria. instrumento musical a corda. com base na sua concepção de arte como mimese. de lira. englobando várias “espécies” ou subclasses a ele relacionadas. o fato glorioso). passou a ter uma estrutura dramática. sendo usada até hoje. correspondentes. ópera lírica etc. A satura (cheia) lanx (tigela) era o ‘‘prato cheio’’ das primícias da terra que os antigos camponeses itálicos ofereciam aos deuses durante as festas religiosas. que exprime o presente da recordação) e do “lógico” (o drama visa o futuro. transmitir elementos de cultura e entreter o povo. segundo Aristóteles. A tripartição das obras literárias em gênero narrativo (poesia épica. Aristóteles foi o primeiro a se preocupar em distinguir. fizeram com que se desse o nome de satura à primeira forma de poesia campestre latina. comédia. através do diálogo: 2ªpessoa. romance. Já das primeiras formas artísticas do povo latino temos algumas notícias mais precisas.) e dramático (tragédia. mais tarde. por uma plausível evolução. por várias formas de expressão artística. No tocante à Literatura. a antiga satura deu nome ao filão da literatura “satírica”. respectivamente. Emil Staiger (Conceitos fundamentais da poética) afirma que os adjetivos “épico” (ou narrativo). perante um auditório. debochado. por um narrador onisciente. anteriormente à época homérica. Poesia lírica. presentes no étimo do adjetivo “sátura”. trata-se da palavra “narrada”. hino em honra do deus Dionísio (o romano Baco) que. encenação de um problema existencial transmitido por atores perante espectadores. VIII ao III. conto etc. por danças e por representações miméticas. onde vários elementos artísticos se misturavam: os versos recitados por jograis eram acompanhados por instrumentos musicais. na sociologia: as discriminações EscravidãoNietzsche Do latim genus. semelhanças genéricas e diferenças específicas. lírico e dramático só foi possível posteriormente. indicando o distanciamento entre o poeta e o mundo representado). em 1ªpessoa: era a palavra “cantada”. o épico. generis. ode.) tornou-se tradicional. quando a cultura e a civilização do povo grego já se encontravam num estado avançado de evolução. em versos e em prosa. Poesia dramática: de drama. de assunto glorioso. indica uma classe de seres ou objetos. As primeiras formas de criação literária não estavam separadas de outras formas de arte. a linguagem na fase da . contada em 3ª pessoa. a dança. ao domínio do “figurativo” (a história contada é sempre um tempo passado. a linguagem na fase da expressão “figurativa” (juventude). a palavra “representada”. às vezes. mais tarde. perante agrupamentos de gente analfabeta.147 na biologia: gênero/espécieGenética Darwin. Nas origens. tais gêneros não eram distintos. o ditirambo. entre as obras literárias até então produzidas. o canto. a mímica. o povo começou a participar através da dança e do canto coral. lírico (hino. no tempo da pré-história helênica. gênero. imitação da realidade: Poesia épica. “lírico” e “dramático” são conceitos da ciência da literatura que exprimem virtualidades fundamentais do ser humano. que acompanhava a declamação de um poeta que expressava um sentimento de amor. Já o filósofo alemão Cassirer (A filosofia das formas simbólicas) relaciona os gêneros literários com os três planos da linguagem: o lírico representaria a linguagem na fase da expressão “sensorial” (idade pueril). que possuem características semelhantes (“genérico”) e origem comum (“genético”). A arte primitiva de qualquer povo tem sempre uma origem religiosa e agrária. mais tarde. de tristeza. as histórias sobre o deus Baco começaram a ser encenadas (surgimento do drama). estando estritamente relacionada com rituais sagrados. distinguindo os três gêneros que se tornaram tradicionais. no seu sentido mais amplo. Não existindo antes dele a arte literária em prosa. Assim.). transcendendo o interesse puramente literário. Os semas de “abundância” e de “mistura”. após serem narradas (forma épica) e cantadas (gênero lírico). do “emocional” (o lírico é um estado de alma.(gênero narrativo): uma história ficcional. estabeleceram relações dessa diferenciação genérica com posturas antropológicas. quais a música. um velho sábio apenas recitava as façanhas do deus (o épos. canção etc.

outra divisão genérica da literatura: as obras “carnavalizadas”. em oposição aos textos ideológicos ou conservadores. tragédia. a Tragédia com o mito do “outono”. Também as ciências biológicas agrupam os seres em gêneros e espécies. Nelas predominam as formas oximóricas. romance. há outras divisões possíveis: alguns estudiosos preferem a distinção entre obras em versos e obras em prosa. vê o princípio diferenciador da poesia lírica na predominância da função “emotiva”. criando. Nietzsche. Frye estuda a teoria dos gêneros em seu aspecto formal. caracterizadas pela univocidade. no estudo do ser humano. expressariam os anseios de um grupo social que acredita nos valores humanos e na possibilidade do conhecimento da verdade. e a lírica. masculino. também. o do gênero narrativo na preferência para a função “referencial”. distinguindo humano. Roman Jakobson (Lingüística e Comunicação). Bakhtine considera carnavalizado todo o filão das obras que contestam os valores sociais: a sátira menipea dos gregos. E. o eu do narrador (formas líricas). Em outras passagens da mesma obra. A classificação de uma obra num gênero é feita. dialógica. relacionando as funções da linguagem com os fatores da comunicação humana. E a Antropologia e a Sociologia. a vontade de satisfazer as forças do instinto. a prosa. A literatura. orientada para o destinatário (espectador). por estarem centradas no polimorfismo e na polifonia. em verdade. caracterizada pelo ritmo da “associação”. outras. lírico ou dramático. os romances em língua latina Satíricon e Metamorfoses. bem como no triunfo do complexo de virtudes que compõem a ideologia social (ordem.148 expressão “conceitual” (idade adulta). o da poesia dramática na marcação da função “conativa”. conto. não pela exclusividade. A questão do “Gênero”. estudando a psicologia profunda do ser humano. dividindo a literatura em quatro gêneros principais: o épos. não é exclusiva da Literatura. outras. Tal distinção está baseada no fato de que algumas espécies de obras literárias focalizam a pessoa que fala. e a Sátira com o mito do “inverno”. Já Mikhail Bakhtine sugere uma distinção com base em dois princípios estéticos e ideológicos: monologismo e dialogismo ( Dialética). caracterizado pelo ritmo da “repetição”. relacionando a Comédia com o mito da “primavera”. orientada para o contexto objectual. da harmonia). o ele do enunciado (formas épicas e romanescas). da desordem) do espírito “apolíneo” (de Apolo. revolucionária. O filósofo alemão F. que estão mais preocupados em agradar o grande público do que em denunciar os absurdos da condição humana. e toda a grande literatura produzida pelos gênios da arte ficcional. distingue o espírito “dionisíaco” (de Dionísio ou Baco. caracterizada pelo ritmo da “continuidade”. O crítico russo sustenta a tese de que as formas e os conteúdos da arte dialógica estão ligados aos ritos e ao espírito do Carnaval. ópera etc) verificamos as peculiaridades das várias formas literárias. o Romance com o mito do “verão”. deus da luz. embora com uma terminologia diferente: o crítico italiano Umberto Eco chama de “apocaliptos” poetas e prosadores da linha contestatória. outros. vegetal. tanto é que não está errado falar de “romance dramático”. orientada para a expressão do subjetivismo do emissor. nenhum texto literário é exclusivamente narrativo. beleza. Em verbetes específicos (lírica. em oposição ao superego. na sua famosa obra Origem da Tragédia. amor etc. deus da embriaguez. assim. o tu do receptor (formas dramáticas). a pessoa a quem se destina a mensagem. “poema narrativo” ou “drama lírico”. o romance renascentista Pantagruel e Gargantua. pode ter sua produção examinada e dividida a partir dessas macro-concepções da realidade. animal. mas apenas pela predominância de uns caracteres sobre outros. recorrem à teoria dos arquétipos. a necessidade de obedecer ao conjunto de normas impostas pela sociedade. O médico e cientista austríaco Sigmund Freud. os anseios individuais. já as obras de fundo dialógico representariam a contestação. Essa divisão da literatura em três gêneros fundamentais é apenas paramétrica ou didática pois. de Cervantes. que não deixa de ser uma forma de antropologia.). a coletânea de contos Decameron. como Northrop Frye ( Anatomia da crítica). os poemas satíricos de Horácio. dando particular relevo à obra do maior escritor da sua terra (A poética de Dostoievski). justiça. o Dom Quixote. Tal bipolaridade pode ser percebida em outros eruditos. a revolta contra a tradição estético-cultural. o drama. a pessoa de quem se fala. os paradoxos. do francês Rabelais. a irreverência. evidenciam . feminino (GenéticaDarwin). As obras de estrutura e de conteúdo monológicos. caracterizado pelo ritmo do “decoro”. a descrença nos valores religioso-ético-sociais. descobriu o princípio do id. a relatividade. e de “integrados” os escritores conservadores. do trecentista italiano Boccaccio.

inclusive no Brasil. pela cor.. Passem à direita. pelo beco. as interpretações de O balcão se renovam e se multiplicam a cada montagem ou leitura. Juiz... será ainda mais falso que aqui.. em contacto com intelectuais. Tanto é verdade que não existem duas encenações iguais... Enfim. castrando-se no recém-inaugurado Salão Funerário. se serve das prostitutas do Grande Balcão para obter informações sobre os planos dos revoltosos. vou preparar meus trajes e os salões para amanhã. é recolhido a um reformatório. que lhe proporcionou fama internacional. Os biombos e O balcão.. ajuda os franceses a satisfazerem suas vontades: um se veste de Bispo e recebe a confissão de uma prostituta que. Diário de um ladrão).. de ensaios e de obras teatrais. ele assume o papel de marginal. ah. O povo não pode viver sem seus ídolos: o cetro... pois os homens podem mudar mas as instituições corruptas ficam. Abandonado por sua mãe e entregue a um orfanato. “Que o mal venha a explodir sobre o palco” Homossexual assumido e marginal consciente. Tranque as portas. engajando-se na luta em favor das minorias. A representação da peça O balcão é um desafio para qualquer diretor de teatro. por sua vez escolhida como Rainha da Contra-Revolução. especialmente negra e homossexual. juizes. Agora. o líder da Revolução. não duvidem. Chantal é assassinada e Roger se entrega às fantasias do Grande Balcão. transformando-se nos mitos em que a sociedade acredita.. que representa um requintado bordel. É na prisão. Enfim. Num cenário labiríntico. revoltosos que deixam a revolta congelar....” Obra completamente aberta. pelo biótipo etc.. a balança. GENET (dramaturgo francês) discriminadas pelo sexo. General. A dona desta casa de ilusões. destacamos: As criadas. Segundo as palavras do próprio Genet. exercem um fascínio poderoso sobre a multidão. Entre os que permanecem revolucionários. meu bem. sendo escolhida como símbolo revolucionário. sentindo a necessidade de ser aquilo que os outros o julgavam ser. camareiros. acender tudo de novo.. sendo encenada em vários países.. A peça encerra-se com Irma apagando as luzes e dizendo que daqui a pouco tudo vai recomeçar: “Cármen. a mitra. Que o mal venha a explodir sobre o palco. A parada). de narrativas ficcionais (Nossa Senhora das flores.. a dramaturgia de Genet pode ser definida como um teatro de “duplos”: o espectador tem que ver. Entre estas. quer ser uma Madalena arrependida. aos dez anos. as fantasias! Redistribuir os papéis. O símbolo da ordem restaurada é um pênis gigantesco. Entretanto. Reajam e encontrem as soluções”.. bispos.. generais. encontrando na palavra artística o meio de lutar contra o mundo. sua obra-prima. Um canto de amor. outro quer ser um General e ter relações sexuais com uma moça do bordel que se deve transformar no seu cavalo preferido. por ser extremamente complexa quanto à forma e quanto ao sentido. Já é de manhã.. A galera. Madame Irma. e age como contra-espiã. será preciso recomeçar. onde fica até os 21 anos. assumir o meu. amante de Madame Irma. Vestir-se. Daqui a pouco.. outro se transforma em Juiz e interroga uma ladra.. Pela intercessão de escritores famosos ( Sartre. é preciso voltar para casa onde tudo.... Chefe de Polícia e Madame Irma. pela cultura. preparar o de vocês. como ele próprio não sabe ou não quer se . e cubra os móveis. Jean Genet (1910-1986) transforma sua vida em obra de arte. Cocteau. “é a realidade que vocês têm diante de si que é uma ilusão e o que vocês captam em minha ficção teatral é a análise lúcida da sociedade apodrecida. há seres que exteriorizam seus desejos inconfessáveis. por sua vez. que desenvolve seus dotes literários. O Chefe de Polícia. de roubo e de prostituição. Sua obra literária é composta de poemas (O condenado à morte. como numa imagem refletida num espelho. A leviana Chantal apaixona-se por Roger... não importa quem vista esses símbolos. Há um desfile das principais figuras que povoam o bordel: Bispo. saiam. Vivendo de mendicância. a revolta é dominada. acusado de furto. Camus) ele consegue a liberdade e viaja por vários países. lá fora está acontecendo uma Revolução que quer derrubar o poder constituído. na personagem interpretada pelo ator o seu próprio ser. Um dos sentidos possíveis é a inutilidade das revoluções.149 diferenças raciais e minorias (Escravidão Hitler).

“origem”. cavaleiresco (D. a espécie homem da mulher. pastoril (Auto pastoril castelhano e Auto pastoril português). GENÉTICA (Genoma. assim a Genética é o ramo da Biologia. cada uma dessas peças ou “autos” representaria algo como uma das muitas sessões de arte cênica que criou para o gozo estético da fidalguia do tempo: parece que. em verdade. Trilogia das barcas. pelo implante de células de uma ovelha de 6 anos no óvulo de outra. Hoje em dia. Auto de Amadis de Gaula). No dizer de Massaud Moisés.raças e super. nas línguas ocidentais se formou uma família de palavras: gene. Duardos. O velho da horta. implicando em problemas éticos. passaram a seguir caminhos próprios. os animais da terra dos peixes do mar? A resposta se tornou mais complexa ainda. pois a ciência demonstra que pode haver mais semelhança entre o DNA de um sueco e de um africano do que de dois homens da raça branca. Inês Pereira. amargurando uma triste solidão espiritual.150 ver. genético. Resta muito a descobrir sobre o 0. é preciso ressaltar que o conhecimento da raiz biológica do homem está revolucionando a medicina e a farmacologia. Como o Gênesis é o livro da Bíblia que trata da criação do mundo conforme a crença religiosa judaica e cristã. assunto de forte polêmica entre os geneticistas. que começam a modificar os critérios de classificação dos seres vivos.nações. para os descrentes. Escreveu 46 peças. que significa “raiz”. a partir daí. dividida em quarenta e seis atos (= autos). escravo do papel que é obrigado a representar no meio em que vive. Mais ainda. a teoria mais moderna opina que as duas espécies se diferenciaram há 6 milhões de anos e. A importância da genética está salientada no verbete Darwin. que estuda a origem dos gêneros e das espécies. Tendo como modelo o dramaturgo espanhol Juan Del Encina. antes predominantemente morfológicos. genital. que leva a espécie do Homo Sapiens ao domínio sobre a natureza e à produção de obra de artes que desafiam o tempo. cujas implicações para o conhecimento das características hereditárias dos homens e dos animais são ainda imprevisíveis. permitindo diagnosticar doença ainda no estado fetal e produzir novos remédios para a cura de patologias hereditárias. Quanto à diferença entre o homem e o macaco. GIOTTO (artista italiano da Idade Média)Pintura . a arte dramática estava reduzida à representação de “mistérios” e “milagres” representados nas praças das igrejas e a “entremezes” (entreatos. A ação dramática tem a finalidade de evidenciar a grande verdade existencial da máscara social: o homem. quando saiu publicada sua obra Casa-Grande e Senzala. GÊNIO (genialidade)Inteligência GIL Vicente (teatrólogo português da Renascença) Em Portugal. Anteriormente a ele. a ovelha Dolly tornou-se famosa por ser o primeiro clone de um mamífero. geralmente constituídos de breves farsas) e “momos” (cenas de mímica). satírico (Quem tem farelos?. em 1933. o comediógrafo compôs uma única peça. gênero. como já ensinara o sociólogo brasileiro Roberto Freyre. Auto da Índia). em 1997.6% de DNA. O feito escocês abre o caminho para a possibilidade da clonagem humana. Evolução das Espécies) Darwin Do radical grego gen. está condenado a usar uma imagem que não é a da sua verdadeira essência. Auto da alma. gentílico etc. A engenharia genética iniciou em 1953 pela descoberta da forma helicoidal do ácido desoxirribonucléico. que faz a diferença entre o homem e o chimpanzé. o código genético importa mais que a forma para determinar o agrupamento em gêneros e espécies. em português e em castelhano. conhecido pela sigla DNA. Acabou a crença na existência de super. Maria de Castela. que possibilitou o mapeamento do gene humano nos anos 90. O que distingue o gênero humano dos animais. após a descoberta e os recentes estudos sobre o DNA. As diferenças entre os povos se devem mais a fatores ambientais e culturais do que a raciais. as origens do teatro estão ligadas à figura de Gil Vicente (1465-1536). DNA. de assuntos variados: religioso (Auto da fé. a diferença reside na inteligência e no raciocínio da mente humana. Manuel e D. uma espécie de ampla “Comédia Humana” dos fins da Idade Média e princípios da Renascença. enquanto a personalidade autêntica de cada um de nós fica escondida. Esse fantasma reflete os outros fantasmas do convívio social como um jogo de máscaras. do ponto de vista científico. com o intuito de obter rebanhos com uma maior concentração de proteínas. Para os religiosos. Monólogo do vaqueiro). Acima de qualquer polêmica. Gil Vicente começou a introduzir o teatro regular na corte de D. aí estaria o dedo de Deus.

o último. romântico ou clássico? Goethe teve uma personalidade complexa e contraditória. Dos comerciantes extorque dinheiro. Esta comédia. trágico e cômico. melancólico. O hóspede do albergue é o jovem Khlestakov. Seu realismo foi interpretado como crítica à sociedade conservadora e ao absolutismo do regime czarista. considerado por alguns críticos como o maior expoente do classicismo alemão. que estava lá de passagem. aos oitenta e um anos. Uma viagem à Itália fez com que Goethe arrefecesse seus arroubos românticos. um modesto funcionário público de São Petersburgo. pensando que o inspetor é um jovem hospedado no hotel da cidade. em cinco atos. como Dante da Itália e Shakespeare da Inglaterra. de que é vítima um humilde funcionário público. Aos quinze anos. também ele um grande dramaturgo (Os bandoleiros. Eu mais do que o resto”. Maria Stuart. A loucura é confundida com o demônio. que analisamos no verbete específico. De caráter fraco e inseguro. Nasceu em Frankfurt. O capote é o primeiro conto imortal da literatura russa. começando a detestar a arte romântica. Mas uma carta endereçada a um amigo de Petersburgo. Estudou Direito em Leipzig. além de Prometheus. Amou intensamente durante toda sua longa vida. Mas a obra que tornou Goethe mundialmente famoso. GOGOL (dramaturgo e contista russo) “Todo o mundo recebeu o que merecia. aceita também namorar a filha do governador e ainda tenta seduzir-lhe a esposa. épico e lírico.151 GOETHE (poeta alemão) Romantismo Fausto Todas as coisas são metáforas Johann Wolfgang Goethe (1749-1832) é o poeta nacional da Alemanha. Além do dinheiro e dos presentes. consiste no esmagamento do indivíduo por um sistema social opressivo e degradante. como a época a que pertenceu. Seu protagonista tornou-se o protótipo do herói romântico. oferecendo-lhe dinheiro. que encabeçou o movimento do Sturm und Drang ( Romantismo). Este conto foi adaptado para o teatro francês e encenado também no Brasil. No fundo. Sua obra propriamente dramática mais conhecida é O inspetor-geral. Gogol entrou numa profunda crise existencial. encontrou na estima do poeta Puchkin o apoio de que sua arte precisava. narra o medo da administração de uma cidade interiorana à notícia da chegada de um inspetor. em troca da promessa de interceder na capital contra os impostos abusivos da administração local. exaltado e equilibrado. o primeiro grande escritor da União Soviética a ser conhecido além das fronteiras de seu País. que encontra no suicídio a solução do problema fundamental do homem romântico: a impossibilidade de adequar as aspirações ao absoluto do “eu” com as limitações da vida cotidiana. é a elaboração artística do mito deFausto. As atrocidades da Revolução Francesa também contribuíram para que seu espírito se afastasse cada vez mais dos ideais democráticos de vida e de arte. Ao mesmo tempo. foi também um exímio romancista e um excelente poeta lírico. só consegue sentir-se importante num estado de alucinação. Teve uma dúzia de mulheres entre esposas e amantes. segundo Gogol. neta de uma antiga amante. refugiando-se no misticismo e deixando-se morrer de inédia. Ele se aproveita do equívoco e procura tirar vantagens da situação. demoníaco e angelical. medicina. então. com Bettina Brentano. Nascido na Ucrânia começou sua produção literária descrevendo a miséria do povo da sua região através de pequenas narrativas. Em Diário de um louco enfrenta o tema da esquizofrenia. O romance Almas mortas descreve o regime de servidão em que vivia o povo do seu país. política e literatura em Estrasburgo. teve o primeiro caso de amor com Gretchen. que o aliena do real. drama inacabado. a quem contava a ridícula aventura que . que almejou ter um filho com o velho poeta. pois a natureza diabólica. Enfim. pagão e devoto. A classe dirigente. Além de um grande poeta dramático. de revolta contra a estética e o espírito do Classicismo. O contato com as belezas artísticas e literárias do Classicismo equacionou sua concepção estética. Os corruptos e os incompetentes temem que a sindicância possa revelar suas mazelas. de família burguesa. O romance Os sofrimentos do jovem Werther teve larga repercussão internacional. E quando o amigo faleceu. Guilherme Tell). Goethe sempre foi um elitista. sem contar as aventuras passageiras. encabeçada pelo governador. comida e outras regalias. estimulando o estudo do folclore e encontrando nos mitos e nas lendas populares as origens da verdadeira cultura alemã. onde conheceu Herder. botânica. apressase a corromper o forasteiro. (Czar Nicolau I) Nicolai Gogol (1809-1852) é considerado o pai da moderna literatura russa. inconformado. moça mais velha do que ele. Outra amizade benéfica para Goethe foi a de Schiller. Talvez a sua característica mais romântica seja o seu alto grau de passionalidade. O homem. filósofo e literato. homem doente.

recebem a notícia da chegada do verdadeiro inspetor-geral. até hermética. oro bruñido. enigmática. Como exemplo de sua poesia. e comédias de costumes.. o “gongorismo’’. dela se distancia pelas sutilezas estilísticas. já saíra da cidade. .. Escreveu cento e vinte comédias. que caracteriza toda a lírica barroca. Como se vê. XVIII. Góngora. cansado da brincadeira. depois de assistir a esta comédia. onde predominam as inversões e os anacolutos.152 estava vivendo. que contrastam com a grande simplicidade formal do Classicismo.se vuelva. cansado da concepção de beleza como clareza. uma sintaxe complexa. o galo em “doméstico del Sol nuncio canoro”. A locandeira. de suscitar o riso. extremamente culta e. A crítica goldoniana costuma distinguir três tipos de peças: comédias de entrecho. irreal: fábula de Polifemo y Galatea.. en polvo. aspira a um tipo de beleza diferente: oximórica. en sombra. A confeitaria). Se a lírica de Góngora. da comédia clássica greco-romana e renascentista.. de influência italiana. que retratam ambientes sociais (A casa nova. teria exclamado: “Essa é uma peça e tanto! Todo o mundo recebeu o que merecia. expressão máxima do espírito da sociedade aristocrática do século XVII. em que prevalece a representação de tipos humanos (O mentiroso. idealiza os sentimentos mais profundos do ser humano. en nada”. entretanto. Eu mais do que o resto”. D. em que Góngora. está ainda ligada à estética renascentista pelo uso da mitologia greco-romana. harmonia de formas e racionalidade. apresenta. GÓNGORA (poeta espanhol)Barroco “Goza cuello. trata-se de uma típica comédia de “equívocos” Diferentemente. que suscitou e suscita polêmicas apaixonadas entre admiradores e denegridores. Sua produção literária divide-se em duas partes não separadas cronologicamente: uma lírica popular. Para produzir o efeito de estranhamento. Soledades. o poeta espanhol encontra insuspeitados parentescos entre os objetos mais diferentes. dando nome a uma nova escola poética. em algumas passagens. O peculiar estilo poético de Góngora. cabello.. portanto. mientras con menosprecio en medio el llano mira tu blanca frente el lírio bello. e do Barroco em geral. transformando as montanhas cobertas de neve em “gigantes de cristal”. en humo. ela não tem apenas a finalidade de entreter os espectadores. em que o poeta espanhol descreve a vida cotidiana com fina ironia. segundo os cânones estéticos da Renascença. mas também e principalmente o intuito de satirizar toda a estrutura social do governo absolutista da Rússia. GOLDONI (comediógrafo italiano do Setecentos) Carlo Goldoni (1707-1793). onde é retomado o tema horaciano (Horácio e Epicuro) do carpe diem (“aproveitar o momento presente”): Mientras por competir con tu cabello. de origem autóctone. labio y frente. Sonetos. apresentamos seu mais famoso soneto.. composta por poemas pequenos e metros curtos (letrillas e “romances’’). através de poemas longos em versos decassílabos. em busca de uma beleza absoluta e. en tierra. porém. o maior dramaturgo da Itália do séc. Mas é na construção das metáforas e no abundante uso das hipérboles que o gênio de Góngora se revelou melhor. reagiu contra os vulgares estereótipos da Comédia de Arte. O casmurro benéfico). segundo os moldes clássicos e o exemplo de Molière. em que a comicidade reside na complicação da intriga (A viúva sabida. Luis de Góngora y Argote (1561-1627) é o maior poeta lírico do barroco europeu. tentando reaproximar o teatro da realidade humana. é interceptada no correio e o equívoco é desfeito. ainda revoltados pela trapaça sofrida e pelas ofensas contidas na carta. el Sol relumbra en vano. Conta-se que o czar Nicolau I. e uma lírica aristocrática.. O leque). transcendental. comédias de caráter. pelo bucolismo e pela exploração de muitos temas e motivos clássicos. o mar em “úmido templo de Netuno”. antes que lo que fue. a grande maioria na língua toscana. revolucionando a linguagem poética da época. algumas em dialeto vêneto. Um curioso acidente. além de neologismos de origem greco-latina e de abundantes reminiscências mitológicas e bíblicas. O governador e os outros dirigentes. Khlestakov.

. mas tú y ello juntamente en tierra. faz com que a alegria do gozo da juventude seja perturbada pelo sentimento da efemeridade da vida e da chegada irremediável da morte.153 mientras a cada labio. Além disso. en sombra. Antes de analisarmos este soneto. esse motivo tópico é revestido de peculiaridades estilísticas e ideológicas próprias do Barroco: o exagero do elemento metafórico (os cabelos da amada são mais luminosos do que a luz do sol. em que se deu a “descrição” da beleza da amada. cabello. é muito antigo na lírica ocidental. O verbo da oração principal encontra-se lá em baixo. o homem. é mais original do que a metáfora de uso do cabelo da mulher comparado ao brilho do ouro. que é um imperativo exortativo. Góngora traduz em linguagem poética a advertência contida na reza da Quarta-Feira de Cinzas: “lembra-te. na mesma quadra. rompendo o paralelismo fônico. no início do primeiro terceto. lábio e fronte. virgo. pois todos os versos ímpares começam pelo advérbio temporal “mientras”. mas “oro bruñido”. Com efeito. rosas se tornou até proverbial: a juventude é comparada metaforicamente a uma flor que se estraga se não for colhida no tempo apropriado. Em Góngora. goza cuello. entendemos que a imagem poética. etc. convém fazer referência a uma questão de edóctica. descritos nas duas quadras anteriores: colo. que compara o cabelo cor de ouro da amada com a luz do Sol. lilio. Em algumas edições gongorinas aparece uma variante no segundo verso da primeira quadra: em lugar de “el”. As duas quadras revelam um mesmo campo fônico. um paralelo sintático com “el lilio”. As quatro orações subordinadas adverbiais temporais (duas em cada quadra) estabelecem comparações de superioridade entre elementos do corpo da amada e elementos da natureza: o cabelo é mais loiro do que a luz do Sol. o pescoço é mais reluzente do que o cristal. por cogello. e uma estrutura sintática paralelística. cristal luciente. antes que lo que fue en tu edad dorada oro. en polvo. o cromatismo das palavras e o prestígio dos metais preciosos (a exaltação do ouro com relação à prata). dirigido aos quatro elementos do corpo da amada. encontra-se “al” Sol. A composição deste soneto de Góngora apresenta um único período sintático. Os dois tercetos. O sujeito de ‘‘relumbra’’. passando por elementos aeriformes (fumo e pó) ou sem consistência alguma (sombra). a fronte é mais branca do que o lírio. que tudo aniquila. a forma “el Sol” estabelece. Optamos pelo texto da edição Aguilar porque nos parece mais lógico sintática e semanticamente. existindo apenas um ponto final no término do poema. y mientras triunfa con desdén Lozano de el luciente cristal tu gentil cuello. Do ponto de vista do sentido. O tema do aproveitamento do momento presente. no sólo en plata o viola truncada se vuelva. labio y frente. onde a expressão collige. que nasceste do pó e em pó te converterás!”. de uma beleza inigualável pela enumeração decrescente. É visível aqui a influência da ideologia do Concílio de Trento (Contra ReformaLutero) sobre o grande poeta espanhol. en nada. clavel. Mas o que mais distingue este soneto de um poema renascentista é a velada presença da morte. Encontramo-lo na poesia grega e na literatura em língua latina. que vai do elemento mais sólido (terra) ao elemento imaterial (nada). sintático e semântico das quadras. en humo. pela qual o prazer se reveste de amargura. O último verso. pois o tempo passa irreparavelmente. cabelo. não seria “el Sol”. apresentam uma exortação ao gozo da juventude antes que a idade madura ou a velhice façam murchar o fruto delicioso da mocidade. síguen más ojos que al clavel temprano. pelo mesmo esquema rímico ABBAABBA. os lábios são mais vermelhos do que o cravo.). a descrição decrescente dos elementos corporais da amada (do cabelo ao pescoço). a falta do artigo determinativo leva-nos a considerar “oro bruñido” mais como aposto de “cabello” do que como sujeito de “relumbra”. “goza”.

Nas origens do Cristianismo. como se sabe. é obrigado a deixar sua espada na casa das armas. a preferência da castidade à satisfação amorosa. mas também por narrativas biográficas (Recordações sobre Lênin. logo depois. Entre as várias histórias fantásticas que se inventaram acerca do rei Artur e dos heróis castos Galaaz. que tinha feito voto de castidade. é Máximo Gorki (1868-1936). ciclo cultural bretão) O nome “graal” vem do latim gradalis. a honra. onde representa o sofrimento do proletariado. os dirigentes do partido comunista russo. apaixona-se pelo cavaleiro à primeira vista e perdidamente. em . que pode ser considerado o pai do realismo socialista. O herói. este vaso teria chegado a Grã-Bretanha. Mas Galaaz. em vista de atingir o bem supremo. ela sequer teria a força física suficiente para fazer com que a espada lhe furasse o corpo inteiro. Organizou também associações e revistas literárias para divulgar o ideal marxista. na corte do lendário rei Artur e de seus Cavaleiros da Távola Redonda. Perceval e Boors. Galaaz encarna o código cultural da Idade Média: a consagração de sua alma e de seu corpo a Deus. ao redor do séc. o respeito à vontade do pai da moça. Nele o discípulo José de Arimatéia teria guardado o sangue de Cristo na cruz. do peito as costas. uma "fremosa donzela" de 15 anos. O maior escritor russo. A filha do dono do castelo. Gorki foi perseguido e várias vezes aprisionado. passou a ser considerado por Lênin herói nacional. seja o episódio da "Tentação de Galaaz". De outro lado. conforme lendas do ciclo “bretão”. conforme seu peso. Mas. o principio da verossimilhança é um preceito quase exclusivo da estética clássica. e participou de movimentos revolucionários estudantis. escreveu dramas e narrativas. chega a um castelo onde recebe hospedagem. a mais famosa é o romance de cavalaria A Demanda do Santo Graal. Memórias de Anton Tchekhov) e obras didáticas (Antologia de escritores proletários). Após o triunfo da Revolução Bolchevique. de forma “gradual”. exigiram dos intelectuais da época sua colaboração para a formação da ideologia socialista na União Soviética. poderíamos notar vários elementos de inverossimilhança neste episódio da Demanda. Talvez o texto mais expressivo desta saga romanesca. especialmente Stalin.154 GORKI (romancista e dramaturgo russo. não cede ao apelo erótico da moça e esta. não tido em conta pela arte medieval. Colaborou fervorosamente para a divulgação e a consolidação dos ideais socialistas. a gratidão pela hospedagem recebida. que são os principais valores do homem medieval. que conta as aventuras dos cavaleiros em busca do vaso sagrado. de camisola.V. a virgindade. que se revolta contra todos os valores ideológicos. sentindo-se rejeitada. se suicida trespassando seu corpo com a espada de Galaaz. a honestidade. Ainda jovem. o martírio do corpo. De noite. representa o código oposto: a força do instinto da natureza. ela penetra no quarto do jovem e se deita na cama junto dele. o termo foi usado para indicar o vaso de que se serviu Jesus na Última Ceia. conforme o costume medieval. GÓTICO Medievalismo Arte GRAAL (A Demanda do Santo Graal: o mito do Rei Artur. onde melhor aparecem os valores ideológicos do Medievalismo. na entrada do castelo. tornando-se o expoente máximo da intelectualidade comunista. que apresenta o choque entre os dois códigos antitéticos do ser humano: natureza versus cultura. quando ocorreu a unificação dos povos anglos e saxões e se introduziu o Cristianismo na Inglaterra. na infância e na juventude conheceu a miséria de sua família e da grande massa do povo russo escravizada pelo imperialismo czarista. esta espada. sem que Galaaz sequer suspeite de ser o objeto do desejo da mocinha. Fundamental é o fator ideológico. romancista e dramaturgo. símbolo da graça divina. Ora. pelo contrário. sendo libertado pela intervenção de escritores influentes ( Tolstoi e Tchekhov). havendo vários contadores da mesma história. durante uma de suas andanças. Esta e outras contradições se explicam pelo caráter de oralidade das primitivas narrações. Mais importante é ressaltar a inverossimilhança psicológica da personagem feminina: tamanha audácia amorosa não é admissível numa jovem de apenas quinze anos. ideologia comunista)Marx Após a Revolução Soviética de 1917. Do ponto de vista estrutural. que é a salvação da própria alma. O herói. a proibição do relacionamento sexual fora do casamento. Após várias peripécias. se encontra no quarto onde o jovem está dormindo e é usada pela moça. Por esta sua postura de intelectual participante. a observância da norma da distinção entre as classes sociais que não permite a união de uma jovem nobre e rica com um cavaleiro andante sem família e sem bens econômicos. enfim. A personagem da donzela. Filho de proletários. o todo-poderoso e autoritário dono do castelo. jorrado do costado aberto pela espada de um centurião romano. não somente através de obras de ficção. que era o vaso em que se colocavam os alimentos.

com o título A Espada na Pedra. sendo o monte Parnaso considerado o refúgio dos poetas e tendo a seus pés Delfos. o mago Merlin. O cinema produziu muitos filmes de aventuras. com cidades . O grande prosador alagoano. mas o conjunto dos documentos que revelariam uma suposta relação amorosa entre Jesus Cristo e Maria Madalena. considerada o berço da civilização de todo o Ocidente. teria sido guardado sigilosamente pelos Templários no séc. cujos sacerdotes emitiam oráculos. de classe média. Nesta obra. a espada mágica Excalibur. podemos verificar como o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo estão igualmente presentes na estética e na prática de vida medieval. a Grécia Antiga. ter vícios e virtudes. chamada Ática.White. A temática da opressão e da tirania encontrase nos seus principais romances: Infância (tirania paterna). Vidas secas (tirania do meio agreste). Porque ser humano é sentir-se feito de carne e de espírito. foi reinterpretada pelo ficcionista norte-americano Dan Brown no seu best seller O Código Da Vinci ( Leonardo). centrados sobre episódios e personagens do ciclo cultural da Bretanha: o rei Artur. ela encontra na morte violenta a solução de sua angústia existencial. começou a ser publicada uma série de cinco volumes. deixando transparecer sua simpatia para com os movimentos esquerdistas.H. A capital desta região. Outra parte era peninsular: o Peloponeso. aderir á moda do experimentalismo formal de uns ou da temática populista de outros. portanto. E. pela ópera lírica. visto que na psicologia humana o id e o superego (Freud) sofrem vitórias e derrotas alternadas.155 nome da satisfação de seus desejos carnais. era a cidade de Atenas. Memórias do cárcere (tirania policial). morais e religiosas. XI e pelo Priorado de Sião. O compositor alemão Wagner tratou do assunto na Ópera lírica Parsifal. Seu compromisso de homem e de literato sempre foi a denúncia das estruturas sociais opressivas e da miséria do homem do campo. Raquel de Queirós. quando percebe que seus esforços para obrigar Galaaz a fazer dela uma mulher sexualmente satisfeita são inúteis. Caetés (tirania do meio provinciano). da qual Leonardo da Vinci teria sido membro. O labor literário era considerado por ele uma arma para lutar contra a angústia existencial causada pelo meio físico e hostil e pelo sistema social injusto e competitivo. Bulgária e Macedônia. Jorge Amado e outros). A lenda do Santo Graal. Se cotejar a caracterização dessa personagem de A demanda do Santo Graal com a configuração da dama angelical. A partir dos anos 30. não significaria um cálice. O impulso erótico dessa moça de apenas quinze anos e educada no ambiente fechado do castelo é tão violento que a leva a quebrar todas as barreiras sociais. acusar momentos de fraqueza e momentos de heroísmo. sendo utilizada também por artistas plásticos. que leva à prática da doutrina maniqueísta do dualismo cósmico. Osman Lins. ser idealizado e objeto de um amor apenas platônico. GRACILIANO Ramos (romancista brasileiro) Graciliano Ramos (1892-1953) conviveu com o grupo de escritores da vanguarda literária nordestina (José Lins do Rego. instigante e polémica. porém. São Bernardo (tirania do senhor da terra e do marido). a princesa Genebra. GRÉCIA (Atenas: o berço da cultura ocidental)Helenismo Distinta da Grécia moderna. pelo teatro. tendo referências simbólicas ao sagrado feminino. A saga do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda foi fonte de inspiração para muitas obras literárias e cinematográficas. chamada de Hélade. pela dança. o que lhe causou a acusação de subversivo e a humilhante prisão de quase um ano (1936-1937). o amante Lancelot. com o título O Único e Eterno Rei. a cidade consagrada ao deus Apolo. mais montanhosa. da poesia trovadoresca e da escola do "doce estilo novo" (Petrarca). sociedade secreta renascentista. a palavra “Santo Graal”. enfim nunca ser totalmente anjo ou totalmente demônio. O território grego era composto de uma parte continental. raras vezes se apresenta como um ser “humano” no sentido mais profundo do termo. O segredo milenar. recentemente. que afastava dos bens de consumo a grande massa do povo. O que impressiona é a irredutibilidade desses dois princípios. Angústia (a degradação moral vista como uma força fatídica que leva o homem ao crime e ao suicídio). A tradução em língua portuguesa saiu em 2004. pela etimologia francesa Sangreal. sem. praticou jornalismo e política. Esta parte continental da Grécia fazia limite com Albânia. O personagem de ficção (que geralmente é um homólogo do ser real) da Idade Média ou é um ser angélico ou um ser diabólico e. era uma grande região do sudeste da Europa. de autoria de T.

emigraram para o litoral da Ásia Menor. Roma (na Itália e nas colônias do Império Romano do Ocidente). ao redor do ano 1400). a romana Minerva. Várias tribos gregas formaram a Confederação Acaia para manter o domínio do mar Egeu. a região mais importante da Grécia continental. transmitidos pela tradição oral. de Péricles ou de Atenas) corresponde ao período mais importante da cultura grega quando. cujas cidades mais florescentes foram Corinto. Pintura. pastores de bois e de carneiros. Muitos aqueus. quando apareceram os primeiros documentos escritos. neta do último Minos). passaram a ser. Dança . Constantinopla (Império Romano do Oriente). na época das Grandes Navegações e Descobertas Marítimas. procuraram dominar e. sendo as mais importantes Lesbos.) e de Salamina (480 a. Samos. as lendas populares e os ensinamentos de vida. descendo das planícies da Rússia e da Polônia. Aqui. composta por uma constelação de ilhas esparsas ao longo dos mares jônico. que vai do século XI ao VIII. Mas falar de “Império” com relação ao povo grego é uma impropriedade. então. Atenas. Assim. após a decadência de Atenas. descritos como loiros.). epinícios (celebração de vitórias esportivas). o período chamado de “Idade Média Helênca”.156 importantes como Esparta. será a parte continental da Grécia a conseguir a hegemonia: nos fins do século XII. dando origem à chamada “talassocracia” (o império marítimo). Nos dois poemas atribuídos a Homero (Ilíada e Odisséia). clássico e helenístico.C. Argos e Micenas. esconjurado o perigo da invasão persiana. cidade governada por um homem poderoso. Os centros irradiadores da cultura helenística. portugueses. egeu e mediterrâneo. amantes de pilhagens. Arquitetura. criadores de cavalos. povo de raça indoeuropéia que.C. durante a pré-história da Grécia.). era a cidade principal da Ática. os traços da civilização grega clássica. V a. sem o poder de interferir na organização política e social de outras cidades. quando foi instituído o regime democrático e foram criados os fundamentos da cultura no Ocidente. referentes às diferentes épocas e às várias áreas do conhecimento humanístico: Mitologia. Estes aqueus. Alexandria (no Egito).C. holandeses e ingleses. 2) A fase clássica (áurea. começam a ser escritos por letrados. 1) A fase arcaica ou das origens vai do séc VIII ao V. nunca houve um poder centralizador. Os cantos heróicos. cujo centro cultural era a ilha de Creta. na época clássica. de civilização muito refinada. os mitos religiosos. provocando a famosa Guerra de Tróia. Teve seu esplendor máximo no séc. os gregos são chamados de aqueos. ao mesmo tempo. Seu nome (com o acréscimo distintivo do “s”) é o mesmo da divindade Atena. chegando ao seu apogeu no século V. A falta de união e a dispersão territorial eram compensadas pelo uso da mesma língua. especialmente durante o governo de Péricles. a cidade de Atenas. epitalâmios (sobre a vida nupcial). ora através de pactos amistosos (o lendário casamento do chefe aqueu Atreu com Érope. Filosofia. argivos ou dânaos. assimilar a civilização minóica que reinava nas terras banhadas pelo mar Egeu. O domínio dos aqueus sobre os cretenses provocou a passagem gradativa da civilização minóica para a micênica. ligadas ao continente pelo istmo de Corinto. Testemunhas desta cultura primitiva são os dois poemas épicos atribuídos a Homero (Ilíada e Odisséia). odes (de assuntos variados: amor. a poesia didática de Hesíodo e os fragmentos de poesia lírica de Safo e de outros poetas que escreveram elegias (cantos saudosos). do étimo Athínai. a quem a cidade fora consagrada. Mais tarde. nas várias áreas do conhecimento. começou a invadir a Grécia central e insular. quando se dá a passagem da oralidade para a escrita. deslocando-se o eixo civilizacional da Grécia insular para a peninsular. sucessivamente. espanhóis. uma parte insular. mas escolhido democraticamente por todos os cidadãos. Teatro. Literatura. pelos mesmos costumes e pela mesma crença nas divindades. ao longo da sua história antiga e moderna. ática. foram-se moldando. ora através da força bruta (saque de Cnossos. a invasão dórica . Creta e Rodes. outra tribo da Grécia central. pátria etc. progressivamente. Música. a Europa renascentista e as regiões colonizadas por italianos. .. pois. que exercia a função de governante ou rei (basileus). barbudos. a Magna Grécia (no Mediterrâneo). Escultura. ladrões de mulheres. franceses. pôs fim ao domínio de Micenas. A incalculável influência da cultura grega no desenvolvimento dos povos ocidentais está tratada em verbetes específicos. O próprio nome política vem de polis. ao redor do ano 2000. gozou de meio século de paz. apresentamos apenas um esboço da divisão tradicional da cultura grega em três períodos: arcaico. centro da cultura bizantina ( Helenismo) e otomana. Tirinto e a própria Micenas. Enfim. depois das famosas Batalhas de Maratona (490 a.

de Marte. e Gregório XIII (1502-1585). imposto pela divindade. Em 1834. violento ataque político e social. Esta é a época da maturidade do espírito grego. Calendário) O termo “gregoriano” está relacionado a vários santos e papas homônimos. após a guerra da independência. outras atividades humanas alcançam seu ponto alto de expressão. com exceção de quando é bissexto: de quatro em quatro anos. homofônica e de ritmo livre. É neste período que o gênio ático produz os fundamentos da civilização ocidental. herdeiro do Império Romano do Oriente e. Este canto tradicional do Catolicismo é pura melodia. Platão e Aristóteles). capital do Império Otomano. da família Júlia. A Filosofia. o ano começava em março. matemática. da filosofia e da história. A Retórica se constitui em gênero literário pela eloqüência política de Demóstenes que. leve sátira dos costumes da época. pois os imperadores romanos Júlio César e César Augusto foram homenageados. é o gênero literário mais indicado para a crítica social. deu nome a uma nova cidade. então já cristianizado. templo de Hefesto. escultura e pintura).C. e o declínio se acentuou com a derrota de Queronéia (338). Por vários séculos. a função de divulgar o helenismo. especialmente durante o governo democrático de Péricles (469-429 a. que sucedeu à fase primitiva de Homero e Hesíodo impregnada da crença ingênua na intervenção do sobrenatural na vida humana. A Tragédia retoma os mitos fixados pela poesia épica e evidencia o conflito entre o destino (Fado).). suplantando a fase de superstição e de empiria. pois sua região arqueológica (Acrópole. tornando-se a capital do reino da Grécia moderna. física. por isso é o mais curto. Apenas no século IV da nossa era. Alexandria. sucessivamente. nas artes plásticas ( arquitetura. mesmo nos períodos helenístico e romano (os latinos ocuparam Atenas no ano de 196 a. A explicação científica é que a translação (o movimento da terra ao redor do Sol) ocorre ao longo de 365 dias e seis horas. A poesia lírica. de Menandro. Os dois foram papas. música composta sobre textos litúrgicos latinos. Alexandre o Grande. no Egito. teatro de Dionísio. com o nome de Constantinopla. Hoje em dia. pórtico das Êumenes). especialmente com Píndaro e Safo. o porto do Pireu e o passeio pelas Ilhas maravilhosas dos vários mares.157 tornando-se o centro político e cultural da Grécia. Atenas foi dominada pelo poderio turcomuçulmano. além da literatura. . que se tornou a segunda capital cultural do mundo ocidental. tem a função de suplantar a crença mítica pelo pensamento reflexivo. medicina) onde. Os mais importantes para a cultura ocidental foram São Gregório I. X. se lançam as bases da pesquisa científica. Nesta época de apogeu da civilização grega. foi assumida por Bizâncio. 3) A fase helenística: o domínio de Atenas começou a enfraquecer após a guerra do Peloponeso (431-404). GREGORIANO (Música. a cidade de Atenas levou uma vida precária. A partir de 1456. o Grande (540-604). ofuscada pela cultura bizantina. Parténon. existia o calendário “juliano”. Assim. que circundam a cidade de Atenas. de Aristófanes. O primeiro se tornou famoso pela reorganização disciplinar e litúrgica da Igreja Romana. Canto. em suas Filípicas. que tem na cidade de Atenas seu centro propulsor. Odeon de Péricles. Sófocles e Eurípides. também chamado de canto gregoriano. Para os romanos. quando foi dominada por Felipe II. acontecida em 1582. cultivada especialmente pela outra tríade (Sócrates.). através de uma gama imensa de realizações culturais. que apresentam modelos acabados de beleza estética. Antes. colônia grega no Bósforo que. são visitados constantemente. fevereiro tem 29 dias. com a vitória final da cidade rival Esparta. tenta precaver os gregos contra os perigos da hegemonia da Macedônia A História tem em Heródoto. praça da Ágora. passou a ser o centro do império cristão greco-oriental. quando houve a separação entre o Império Romano do Ocidente e do Oriente. Já o nome do papa Gregório XIII está ligado à reforma do calendário. Tucídides e Xenofonte seus principais cultores. Veja-se a tríade dos autores trágicos: Ésquilo. Mas Atenas continuou a irradiar cultura. emprestando seus nomes a dois meses: julho (de Júlio) e agosto (de Augustus). deus da guerra e fevereiro era o último mês do ano. consegue expressar em forma de arte os mais nobres sentimentos humanos. e o livre arbítrio a que aspira o ser humano. instituindo o “cantochão”. que era tocada nos cultos católicos durante a Baixa Idade Média (Medievalismo). tendo 28 dias. sob o nome atual de Istambul. sugerida pela articulação das palavras em seus acentos tônicos. O filho deste. conseguiu sua emancipação. Atenas vive especialmente do turismo. e a "nova". monarca da Macedônia. e nas ciências naturais (astronomia.C. chegando ao apogeu no séc. A Comédia "antiga”.

a tradição do passado e as incertezas do futuro. aparecendo em primeiro plano no relacionamento amoroso entre os protagonistas de Grande sertão: veredas. o helenismo seria a fase pós-clássica. O discurso de Guimarães Rosa não é referencial.C).158 Atualmente. que vai da conquista da Grécia e do Oriente Médio (Irã. Turquestão. neologismos.C).) se encontram representados em suas lutas pela sobrevivência e pela afirmação de indivíduos ou de grupos sociais.C. o senhor sabe: tudo incerto. Em suas coletâneas de contos ( Sagarana. pois o nome da Grécia Antiga era Hélade. estabelece um nexo intrínseco e necessário entre significante e significado. médico e diplomata mineiro. o deus latino de duas faces. até à queda do Império Romano do Ocidente (476 d. em primeiro lugar)Epicuro HEGEL (filósofo alemão) Idealismo HEIDEGGER (filósofo alemão)Existencialismo HELENA (causa mítica da Guerra de Tróia)Ilíada HELENISMO (difusão cultural)Grécia AlexandriaRoma Num sentido geral. a coexistência do mal e do bem. daí a dificuldade de integrar as semanas com os meses de forma que. o tormento de paixões inconfessáveis. Corpo de baile. indicando o início e o fim. o jagunço Riobaldo e o rapaz/moça Diadorim. quando acontece a Páscoa. a crença nas forças demoníacas e a fé em Deus. V. A semana bíblica é intocável. o autor trabalha esse material. os dias da semana coincidissem sempre com os mesmos dias dos meses. do ano 313). pois. estendendo-se durante a vigência do Império Romano do Ocidente e do Oriente (de 395 a 1453) e que perdura até hoje. desvios sintáticos). durante o período clássico da Grécia. onomatopéias. peões. por expressar toda a epicidade e a poeticidade do homem sertanejo. em todos os anos. a semana é mais importante do que o mês para a contagem do tempo. Notável é ainda que o mundo sertanejo é representado por uma linguagem altamente poética. elevando o sertão mineiro à categoria do universal. operou a renovação da abúlica narrativa “regionalista” tradicional. distinguindose várias épocas: 1) Helenismo alexandrino. prostitutas. o volumoso romance Grande sertão: veredas. helênico é igual a grego. velhas devotas etc. assim como falado pelos sertanejos mineiros. ativando constantemente a função poética da linguagem. que domina toda a obra ficcional de Guimarães Rosa. 3) Helenismo cristão. anacolutos. jagunços. oxímoros. É a fase da “divulgação” da produção artística produzida nos séc. pois depende da lua cheia do mês judaico de “nisan” que corresponde. na medida em que composto de palavras-signos de realidades. o presente e o passado). Primeiras estórias) e na obra-prima. Tendo por base o português arcaico. lançando mão de todos os recursos da linguagem poética (aliterações. HEDONISMO (o prazer. enquanto o ano litúrgico tem início variável. na divisão da cultura grega em vários períodos. ao mês de abril do calendário romano. imagens metafóricas. são linhas de força que criam um campo de ambigüidade. que domina durante o período áureo e imperial da cultura latina. o ano civil começa em janeiro (januarius. historicamente. elementos rítmicos. mas criador de realidades. aproximadamente. moças de família. de Jano. comparações ousadas. Mas. elipses. 2) Helenismo romano. tudo certo João Guimarães Rosa (1908-1967). com o dúplice efeito de expressar o que se passa no subconsciente dos personagens e de obrigar o destinatário a refletir sobre as palavras lidas e os problemas da existência humana. onde a religião cristã tem seus adeptos. A rivalidade entre coronéis e seus bandos de jagunços pela posse de territórios e pelo mando sobre povoados. Para o povo judeu. Tutaméia. GUERRA (o instinto humano da violência levado ao paroxismo)Marte GUIMARÃES Rosa (ficcionista mineiro) Sertão é isto. que se estende da perda da independência da Grécia até à queda do Império Romano do Oriente.) até à dominação romana (31 a. que inicia a partir da liberdade de culto concedida pelo imperador Constantino (Edito de Milão. Egito e toda a bacia do Mediterrâneo) pelo imperador macedônico Alexandre o Grande (+323 a. pois . os personagens que povoam o sertão brasileiro (coronéis. Alexandria está entre Atenas e Roma na difusão da cultura grega.

11) colher os frutos de ouro do jardim das Hespérides. filha de Creonte. os 12 Trabalhos) Segundo o mito. Para expiar este crime. 3) capturar a corsa cerinita. Hércules nasceu de uma relação híbrida de Júpiter com a princesa Alcmena. formando as famosas “Colunas de Hércules”. HERA (nome grego da rainha do Olimpo. que vigorou durante o império cristão greco-oriental. A cultura bizantina se irradiou pela bacia do Mediterrâneo. 4) capturar o javali de Erimanto.IV . estendendo-se pelos Bálcãs. Após diversas proezas. denominação atual: arrasada pelos cruzados em 1204 e tomada pelos turcos em 1453. deixou-se por ela dominar até se efeminar. 8) domar os cavalos de Diomedes. “Istambul”. em 1923. pois a cada cabeça cortada nasciam duas). Mas Hércules. no estreito do Bósforo. a esposa de Júpiter (Zeus). Mas não foi sempre tão “macho” assim! O mito narra que Hércules. na falta de subordinação e na parcimônia da adjetivação. a impotência do regressado em se readaptar às convenções familiares e sociais (O lar do soldado). com a qual passou uma tórrida noite de amor. fez com que Hércules . sucessivamente. a antiga colônia grega.VII a. tomando a feição do marido Anfitrião. Hércules. as duas profissões influenciando-se reciprocamente. tendo um estilo próprio. que a lenda chamou de os doze trabalhos de Hércules: 1) matar o leão de Neméia. a vingança de Juno se fez presente: Hércules. já demonstrando para que veio ao mundo. Participou da expedição dos Argonautas. Protestantismo {Lutero}. o Grande. que estabeleciam o fim do mundo antigamente conhecido. A história da civilização bizantina está intimamente relacionada com os três nomes que. sustentadas pelo gigante Atlas. está impregnado da cultura greco-romana. até a proclamação da Republica da Turquia. estrangulou as cobras com as mãos. irmã e esposa de Júpiter)Juno HÉRCULES (Héracles grego: a personificação da força. a luta do homem e do animal nas touradas (Morte na tarde). passaram a denominar a capital do vasto império: “Bizâncio”. HEMINGWAY (romancista norte-americano) Um escritor deve criar gente real. Igreja Ortodoxa ). além destes Doze Trabalhos. a partir do séc. 6) limpar as cavalariças do rei Áugias. em seus diferentes credos (Catolicismo. que marca a herança do imperador romano Constantino. para vingar-se da traição do marido com a concubina Íole. 9) apoderar-se do cinturão da amazona Hipólita. na ausência de retórica no seu discurso poético. durante os três anos que foi escravo da rainha Ônfale. A ciumenta Juno (a Hera grega). a ponto de o adjetivo “bizantino” se vulgarizar para indicar um requinte excessivo nas discussões teológicas ou nas formas artísticas. Ásia Menor. fundada por helenos provenientes de Megara e Argos. O estilo jornalístico faz-se sentir nas frases curtas. tornou-se a capital do Império Otomano.159 o Cristianismo (Cristo). enlouquecido por artimanhas da deusa. usando roupas de mulher e manejando a roca. Síria e Egito. Aos 18 anos. fez outras façanhas. acorrentado ao monte Cáucaso. que sucedeu ao Império Romano do Oriente. precisou superar várias provas. caracterizado por uma sutileza extrema. 2) matar a hidra de Lerna (o trabalho mais desgastante. por vingança. que separa a Turquia asiática da parte européia. Sua ultima esposa foi Dejanira que. 12) acorrentar o cão Cérbero. envia duas serpentes para devorar o bebê de oito meses. 10) capturar os bois de Gerião. Este episódio encontra-se encenado magistralmente pelo escritor latino Plauto numa comédia que leva por título o nome do esposo traído. Separou os rochedos de Gibraltar (perto da costa hispânica) e de Ceuta (perto do litoral africano). rei de Tebas.. “Constantinopla”. gente e não personagem. quase telegráficas. no séc. 4) Helenismo bizantino. matou um leão que assolava os rebanhos no monte Citerão. a ditadura nazi-fascista e a Guerra Civil Espanhola (Por quem os sinos dobram). acabou matando esposa e filhos. filha do rei de Micenas. quando Ancara passou a ser a capital. que é uma caricatura Ernest Hemingway (1898-1961) dividiu sua vida entre jornalismo e literatura. Os sentimentos humanos mais poderosos são expressos por diálogos rápidos e envolventes. A temática de seus romances está diretamente relacionada com suas experiências de vida: os horrores da Primeira Guerra Mundial (Adeus às armas). 7) capturar o touro de Minos em Creta. Libertou Prometeu.C. 5) abater as aves do lago Estinfális. casou-se com Mégara. armado de sua clava. Mais uma vez. sendo recompensado com o amor das 50 filhas de Téspio.

diz que o nome de Hermes está ligado etimologicamente ao nome grego hermeneus (“intérprete”). de desenvolto no furto. Boccaccio (Genealogia dos Deuses) vê nele o intérprete dos segredos. esoterismo.. transporta. o mito de Hermes se encontra citado nos maiores artistas italianos. d. o juiz que pesava as almas dos mortos. subiu ao monte Eta e se lançou numa grande pira. o deus da magia. Petrarca fala do mensageiro divino no seu poema épico África. o homem rouba. Mercúrio deu mostras de grande astúcia e habilidade para fazer trapaças: saiu das faixas que o envolviam quando bebê e foi roubar os rebanhos de Apolo. datados a partir do II séc. origem das palavras românicas “hermenêutica” e “hermético”. e agrupados sob o título geral de Corpus hermeticum. Reboou um trovão imenso e o herói foi elevado ao Olimpo. oculta. rouba. O poeta Dante Alighieri (Divina Comédia). deusa da eterna juventude e dos trabalhos domésticos. de outras deusas e de mulheres mortais. Desde a mais tenra idade. deus do Comércio. ao longo de uma tradição cultural. O mito de Hércules. tirou vários deuses de situações embaraçosas. teosofia. alquimia.C. considerado o inventor da escrita. paralelamente a esta faceta “clássica” do mito de Hermes-Mercúrio. Literalmente: “(o nome Hermes) parece relacionar-se com o discurso (logos). que lhe deu como esposa sua própria filha Hebe. Os gregos da entrada da nossa era identificaram Mercúrio com o deus egípcio Thot. Para esta simbiose da mitologia grega com a egípcia e da divindade com a humanidade (o “deus escritor”) contribuiu muito o advento do “evemerismo”. o pintor Botticelli retrata o deus pagão no seu famoso quadro La Primavera. No mito de Pandora (Prometeu). Mas. O imaginário culto e popular. o filósofo grego Evêmero (340-260) expunha a tese de que os deuses são apenas homens importantes que o temor e a ignorância colocaram num pedestal. desesperado de dor. viajando constantemente do Olimpo para a Terra e vice-versa. queimando-a como fogo. HERMAFRODITO (ser bissexuado)Andrógino HERMES (“Mercúrio” em Roma. Por essas suas qualidades. ser bissexuadoAndrógino). Hermes é filho de Júpiter e de Maia. dos viajantes e dos esportistas. Na Idade Média cristã. da Comunicação e da Interpretação) Sob as asas de Mercúrio. Na poesia épica. atribui a Mercúrio qualidades relacionadas entre si: ele perscruta. A este Thot-Mercúrio são atribuídos vários livros que tratam de astrologia. Quase contemporâneo de Platão. aquele que dissipa as nuvens do espírito. coloca a “dialética” na esfera de Mercúrio. de enganador com palavras e de hábil comerciante. onde fez as pazes com Juno. revela o sentido oculto das coisas. A figura de . trapaça. todas essas atividades relacionam-se com o poder do discurso”. conseguiu o amor de Vênus (com quem gerou Hermafrodito. as características de intérprete (hermeneus). através das representações folclóricas mais variadas. conforme a narração do poeta Hesíodo. representado com corpo humano e cabeça de íbis ou de cão (cinocéfalo). tecendo um paralelo entre os planetas e as sete artes liberais. Júpiter o escolheu como mensageiro dos deuses do Olimpo. no diálogo Crátilo. surgiram inúmeras variantes que ligam a figura do deus à alquimia. foi venerado como protetor do comércio. atribuindo-lhes onipotência. do lucro e das viagens. Ajudou o pai Júpiter na luta contra os Gigantes. ao longo da cultura ocidental. teatrais e cinematográficas. vende e desvenda Conforme a versão do mito mais conhecida. Hércules. às artes mágicas. O adjetivo “hercúleo” se incorporou ao dicionário panromânico como símbolo da força sobre-humana. denominado “Hermes Trimegisto” (três vezes grande). foi objeto de muitas obras iconográficas (pinturas e esculturas).160 vestisse uma túnica feita com filtro mágico que se colou à pele do herói. filha do gigante Atlas e da deusa Plêione. vende. Mercúrio exerce a função de transmissor das ordens de Júpiter e dos recados dos outros deuses. Representado com asas nos pés e com uma bolsa na mão. É o deus da prosperidade econômica. ao poder da exegese. abrindo as nuvens para clarear a atmosfera. uma das sete plêiades ou atlântidas. narrativas. especialmente a lenda de seus Doze Trabalhos. O filósofo Platão. é este Mensageiro divino que coloca no seio da primeira mulher o sêmen da mentira e do engano para atormentar a vida do homem. de mensageiro.

da nossa Bíblia. egípcio. Enfim. cujo cheiro fazia os homens adormecerem. Sono. Gerou ainda as altas montanhas. semelhante ao livro Gênese. Perses que. O poeta faz referência a esse episódio de sua vida na obra que o tornou imortal. Outro poema importante de Hesíodo é a Teogonia. no peito de todos os homens e deuses. com o seu tamanho. mas sua identidade é inapreensível. Hipnos. o espírito tomava forma humana alada. ligado a povos inclinados para o comércio e a mobilidade. Os Vedas. 4) Calendário sobre os dias bons e os dias ruins para o cultivo da terra. O tratado está dividido em quatro partes: 1) Exortação ao trabalho. O neurologista francês Jean Martin Charcot (1825-1893). e depois a Terra de peito ingente.C. irmão gêmeo da Morte (Tânatos) e pai de Morfeu. distinguindo as convulsões histéricas das que ocorrem nos ataques epilépticos. HESÍODO (escritor grego do período arcaico: poesia didática) Um dia. por sua vez. onde exalta a importância do sentimento da justiça e do trabalho. Teve um irmão. domina o espírito e a vontade esclarecida. como o Trimegisto egípcio. Sonho. tentou tratar a histeria com a hipnose. suporte inabalável de tudo quanto existe.3) Preceitos sobre a vida moral. Idris-Hermes é chamado de “Triplo Sábio”. a hipnose é um estado artificial de dormência provocado por sugestão. dedicando o longo poema ao próprio irmão. a atividade artística preocupada com o ensinamento da realidade cotidiana. que amolece os membros e. Do Caos nasceram o Érebo e a negra Noite. Mas. Brahma.161 Hermes serve também como ligação entre a cultura greco-romana e a consciência muçulmana. para que a cobrisse por todo e fosse para sempre a mansão segura dos deuses bem-aventurados. A Terra gerou primeiro o Céu constelado. com uma papoula na mão. Os trabalhos e os dias. ora é mãe. Hipnose)Tânatos. mais do que grego. historiadores e hagiógrafos identificam o deus grego com Idris do Corão. Conforme a mitologia grega. morada aprazível das deusas Ninfas. o Éter e o Dia. com . corrompendo os juízes. judeu ou árabe. o mais belo entre os deuses imortais. mas essa dor pode ser mitigada pela prática do trabalho e da justiça entre os homens. Nasceu na Beócia. e da Noite. especialmente da vida campesina. correspondente ao deus latino Sono. Gandhi)Buda HIPNOS (Morfeu. num primeiro momento. sendo um “profeta sem rosto”. filho de um comerciante marítimo. Seu discípulo Sigmund Freud. se apoderou também da parte pertencente a Hesíodo. 2) Preceitos sobre a agricultura e a navegação. HINDUÍSMO (primitiva religião indiana. ora é madrasta. era Filho da Noite. Ele foi o maior expoente da poesia “didática”. ele é um deus “intermediário”. Do mito para a ciência. A transcrição do seguinte trecho serve melhor do que qualquer comentário para sentirmos o sabor da obra: “Primeiro que tudo houve o Caos.. no século VII a. O motivo fundamental que percorre o poema todo é a existência da dor no mundo (mito da passagem da Idade de Ouro para a Idade de Ferro). O nome morfeu em grego significa “forma”. Hesíodo é um dos primeiros poetas da Grécia Antiga de que temos traços biográficos historicamente comprovados. e aparecia em seus sonhos. depois de ter dissipado a sua parte da herança paterna. indicando a função dessa divindade: de noite. Hermes é uma configuração semítica: fenício. e Eros. que habitam os montes cercados de vales”. também se serviu da hipnose e da interpretação dos sonhos para conseguir o efeito terapêutico da catarse. tratado mitológico sobre as origens dos deuses e do mundo. No começo da “hégira” (a era maometana).

Passado à história como Pai da Medicina. Assim falamos de raça ou de etnia negra com referência aos africanos e descendentes que vivem fora de seu continente ou de etnia judaica com relação aos hebreus que vivem longe do Estado de Israel. O maior médico da Antiguidade viveu entre 460 e 377. Ao liderar mais uma campanha pela integração racial. as doenças são conseqüência das alterações dos humores do organismo.C. da superioridade da raça ariana! Apoiado por industriais e banqueiros. o tratamento de distúrbios pela hipnose desapareceu quase completamente do campo psicoterapêutico. quando viu Berlim arrasada pelos Aliados. montou uma poderosa máquina bélica e. remontando aos Impérios da Era Antiga (assírio. no ano seguinte tornou-se presidente do Reich. No mundo moderno. HIPÓCRATES (cientista grego. que significa “raça”. Estes. alimentando o ódio nacional contra marxistas. formando um exército de quase cem mil homens no Sul da Itália. o intento nazista de demonstrar. HITLER (nazismo. então. ao chegarem ao campo de concentração de Buchenwald. pai da medicina) Há. por grupo étnico se entende uma minoria que vive numa sociedade culturalmente diferente. Ele condenou não apenas a discriminação. a tese. Função do médico é ajudar a natureza a reagir para restabelecer o equilíbrio orgânico. Cometeu suicídio em 1945. hoje em dia. A luta pela coexistência pacífica de várias etnias numa mesma nação e pela igualdade racial é bem antiga. judeus e negros. cuja unidade repousa numa comunidade de língua. escravizado pelo exército de Roma e vendido como gladiador. Neste mesmo ano. De origem austríaca. ainda hoje repetido pelos formados em Medicina no ato de receber o diploma. mas também pelo que não diz”. pintor e cabo na I Guerra Mundial. de costumes e de religião. durante as Olimpíadas de Berlim. Gorou. Conquistou a simpatia popular por pôr em prática um ambicioso plano de recuperação econômica. verdadeiramente. eleito Chanceler da Alemanha em 1933. inspirado na figura pacifista do indiano Gandhi (Hinduísmo). O Juramento de Hipócrates reza o compromisso dos médicos com a honestidade e a ética no exercício da função. A ciência consiste em saber. holocausto. mas também o silêncio: “você não é responsável apenas pelo que você diz. deixou uma vasta obra com o nome Corpus Hippocraticum. sendo derrotado pelo triúnviro Crasso. tornou-se mundialmente famosa a figura do pastor negro norte-americano Martin Luther King (1929-1968) que. Ele liderou a revolta dos escravos. Etnia. camponês da Trácia. duas coisas diferentes: saber e crer de saber. por aquela competição mundial. Ele foi o primeiro estudioso do corpo humano a utilizar a observação clínica. invadiu a Polônia. etnia)Nietzsche Quanto maior a mentira. foi barbaramente assassinado. racismo. Segundo ele. romano). apareceu o horror do “Holocausto”: as tropas americanas. Em 1936. indica qualquer agrupamento humano com estrutura familiar. por ser negro. do grego ethnos. filho de um fiscal de alfândega. encontraram os restos das câmaras de gás. no estado do Tenessee. eugenia. em Memphis. Adolf Hitler (1889-1945). erroneamente atribuída ao pensamento de Nietzsche. em 71 a. em 1939. que costumavam tratar como escravos os povos por eles subjugados. ao longo de mais uma década (de 1933 a 1945). promovido por Adolf Hitler. em 4 de abril . aproximadamente. Mas. a ignorância em crer que se sabe. uns seis milhões de judeus. Hitler se negou a entregar a medalha de ouro ao corredor norte-americano Jesse Owens. foram vítimas do processo de “limpeza étnica”. Lembramos o personagem histórico Espártaco (Escravidão). dedicou sua vida à luta desarmada pelos direitos civis dos negros nos EUA. Famoso é o seu “Juramento”. junto com ciganos de várias nacionalidades. maior a chance de todos acreditarem nela. onde se calculam que foram mortos. macedônico. econômica e social homogênea.162 o desenvolvimento da psicanálise. dando início à II Guerra Mundial (Marte).

em 1927. com o objetivo de acabar com a “limpeza étnica” contra os muçulmanos de origem albanesa que habitam a província do Kosovo. Já os norteamericanos eram a favor de uma eugenia negativa. compostos ao redor do séc. tido como o papa da eugenia. A própria palavra “eugenia” (do grego eu. Os sérvios tinham expulsado um milhar de muçulmanos. as diferenças que possam existir entre vários grupos sociais são de origem educacional e não genética. no fim do séc.. XIX. que sentiu na carne a problemática do preconceito étnico. tentando descobrir padrões hereditários que explicassem a origem de deformações físicas. O argumento básico é que a escritura não era conhecida . instintos criminosos e condições de miséria. inclusive de Voto. O biólogo puritano Charles Davenport. estimulando a prática da esterilização compulsória de mulheres e de homens considerados nocivos para a sociedade. empurrando-os para as fronteiras com a Albânia. após os estudos avançados sobre o genoma humano ( Genética). após 27 anos de prisão política. lança a tese de que os dois poemas atribuídos a Homero não são senão coletâneas de vários cantos heróicos. um ilustre brasileiro chegara a esta conclusão pela pesquisa sociológica. fundada por Pisístrato de Atenas. definiu o nacionalismo como “uma doença infantil. VIII a. a Ilíada e a Odisséia. nenhum dado sendo historicamente provado. “bem” e gene. A lenda envolve totalmente a figura deste poeta. Mas o sentimento vergonhoso do racismo humano não se dirige apenas contra judeus e negros. Montenegro e Macedônia. Francis Galton. transmitidos oralmente de geração para geração e redigidos pela sociedade dos "Homeristas". maior do que a dúvida sobre a identidade histórica de Homero (a famosa “questão homérica”). Portanto. conseguiu acabar com a apartheid na África do Sul. O autor Edwin Black calcula que. Hoje em dia. Basta constatar que oito cidades do mundo helenístico disputam a honra de terem sido a pátria de origem do imortal poeta. foram esterilizados cerca de 60. Mas. cuja condenação à esterilização foi ratificada pela Suprema Corte dos USA. Martim Lutero King foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz de 1964 e o dia da sua morte foi consagrado como Feriado Nacional nos USA. Foi um único escritor ou vários e em épocas diferentes? No começo do séc. Gilberto Freyre. impedindo a reprodução de seres supostamente considerados inferiores. O judeu Albert Einstein. A Guerra contra os fracos. de origem anônima e popular. Famoso foi o caso de Carrie Buck. é o problema da autoria dos poemas. Outro negro ilustre foi Nelson Mandela que.000 norte-americanos. em 1904. quando a prática foi proibida. justificada pela qualificação genérica de “débil mental”. que se encontram nas duas epopéias. que estimulasse os mais talentosos a cruzar entre si. Hitler não foi o único nem o primeiro governante insano! Num livro recente. o jornalista Edwin Black demonstra que os Estados Unidos foram pioneiros no racismo científico. Mas sua luta não foi em vão: os negros conseguiram todos os Direitos Civis. influenciado pelas idéias românticas sobre o gênio criativo da coletividade nacional e baseado nas constantes repetições e nas aberrantes contradições (os famosos "cochilos" de Homero). Como se pode ver. o presidente-ditador Slobodan Milosevic foi afastado do poder e acusado por crimes contra a humanidade. “nascido”) foi cunhada (na Inglaterra e não na Alemanha!) por um primo de Darwin. A Woolf ( Prolegômena a Homero). não faz mais sentido falar de superioridade racial. montara um laboratório experimental em Cold Spring Harbor (Long Island) para pesquisas genéticas e coletâneas de dados sobre linhagens humanas. que conduziria ao holocausto europeu.163 de 1968. acabou a “guerra étnica” na antiga Iugoslávia: por decisão da ONU. Em1999. XIX. afirmara: “A descriminação contra o negro é uma discriminação contra homens que não foram educados para ser cidadãos brasileiros”. foram atribuídos pela tradição clássica a Homero. pois suas notícias biográficas são fantasiosas. HOMERO (poeta lendário da Grécia)Ilíada OdisséiaÉpica Os dois poemas épicos da Grécia Antiga. o sarampo da humanidade”. Antes do avanço da ciência biológica. em 1984. até o fim da década de 70. degradações morais. que acreditava na hereditariedade do talento. o erudito alemão Fr.C. E o pior foi que a tese da eugenia saiu do campo científico e se infiltrou na sociedade americana. A ciência demonstrou que as discrepâncias de DNA entre etnias diferentes são irrelevantes: dois suecos podem ser menos parecidos geneticamente entre si do que um negro e outro sueco. Seu intento era implementar uma eugenia positiva. mãe solteira de 18 anos. finalmente. No ano seguinte. aviões da Otan bombardearam Belgrado e outras regiões da Sérvia. em 1993.

O fator educador da poesia consiste em manter viva a lembrança da glória do passado. A presença dos deuses homéricos. Os principais heróis gregos e troianos tiveram suas façanhas enaltecidas em versos épicos. Ocorreu que. a análise textual dos dois poemas acusa repetições. Como releva O. o estudioso alemão Werner Jaeger (Paidéia) tem ressaltado a grande influência da poesia épica na formação social e cultural da Grécia Antiga. Ulisses. considerando-se a força superior da tradição ética. as façanhas e os sentimentos das personagens épicas assumem o papel de paradigmas ideológicos para qualquer situação de vida. Enéias. Quintus Horatius Flaccus (65-8) é um dos maiores poetas da literatura ocidental. mitologia contemporânea e lembranças de antigos deuses transformados em heróis e conservados com todo o aparato ritual que seu culto comportava. como sempre. ou o que chamamos falta de lógica rigorosa de "composição". Que o redator da Ilíada. Evidentemente. fundamentados em descobrimentos arqueológicos.C. Os filósofos socráticos já consideraram Homero como o educador da Grécia toda. A verdade. teve o mérito inestimável de reunir e de dar forma artística a este material épico primitivo. o mistério sobre o autor ou os autores da Ilí ada e da Odisséia não fere o brilho das duas criações artísticas. por ter exercido uma grande influência entre os poetas cultos de todos os tempos e por ter criado versos e expressões que se tornaram memoráveis: “carpe diem” (aproveitar o momento). entre outros heróis da epopéia grega. ou dois poetas diferentes. lembranças de guerras gloriosas e do exílio dos aqueus na Ásia. por definição. muitos destes cantos se perderam e o que nos legou a tradição foram apenas dois poemas épicos. de uma pintura ou de uma estátua. que exercem influência duradoura sobre a realidade grega. tirados do mito. como sustentam alguns críticos. Quanto ao valor educativo dos poemas homéricos. perto da Ásia Menor e berço da civilização grega. o “pathos” heróico da Ilíada e a ética aristocrática da Odisséia são imagens ideais de vida. cujos valores estéticos e humanos tiveram reflexos nas melhores produções literárias do Ocidente. se criou uma série de lendas e de cantos épicos. poesia ritual sobre a morte e a descida aos infernos. o pensamento dos críticos positivistas que. Se.. Encontramos. Homero. revela não só a condição humana. Carpeaux (História da Literatura Ocidental). contradições e diferenças estilísticas que levam a pensar numa originária pluralidade de autores.M. Aquiles. mas também a capacidade dos homens de superá-la. de outro lado. atribuindo a autoria da Ilíada e da Odísséia a um único poeta. que são. as festividades religiosas e os banquetes dos cortesãos e ricos senhores. que eram recitados durante as celebrações patrióticas. a criação artística coletiva e anônima é um mito romântico. HORÁCIO (poeta lírico e satírico romano) “Carpe diem” Junto com Virgílio. não inventaram os assuntos poemáticos. antes do século X a. que tinham como núcleo central o longo assédio dos navios gregos à cidade de Tróia. no começo do século passado. Homero adulto. O instrumento da intenção pedagógica é a criação de exemplos ideais. A poesia épica representa o primeiro esforço artístico dos gregos para eternizar normas ideais. na Iônia. Homero jovem.164 na Grécia antes do século VI a. no começo curtos e isolados. A esta tese se opõe. visto que os mitos religiosos. demonstraram a existência da escrita na Grécia e na Ásia Menor. Homero. mas trabalharam sobre o material épico preexistente. Os gregos de todos os tempos encontraram em Homero respostas quanto à conduta da vida. lendas recentes e antigas. “est modus in rebus” (há uma maneira . ideais humanos. e o redator da Odísséia. ao redor do século X. nas duas obras de arte literária. como opinam outros. ou outro rapsodo de nome desconhecido. é um fato incontestável. constituindo os fundamentos da cultura humanística. comove os ânimos dos ouvintes ou espectadores e desperta o desejo de imitar as ações e os caracteres nobres dos heróis de sua pátria. deveremos espantar-nos pelo fato de encontrar essas contradições. está longe dos extremismos. talvez até duma unidade de estilo e de inspiração? Enfim. de um lado. em que hoje ninguém pode mais acreditar. se tornaram protótipos humanos.C. pois na idade primitiva de um povo os valores estéticos não se separam dos valores éticos. O que os gregos chamavam de "psicacogia" é o poder da arte de estimular uma conversão espiritual: a beleza do texto literário. definido por Carpeaux (História da Literatura Ocidental) como poet's poet. Já que o poeta compõe com tantos materiais diversos um poema do qual cada parte era feita para ser cantada separadamente e cujo conjunto deve ter sido composto parceladamente. O conteúdo e até a arte perderam a importância principal.

superando de longe o predecessor Lucílio e seus sucessores. intitulada O Existencialismo é um Humanismo. imitou os sábios do Renascimento italiano. especialmente os italianos Petrarca e Boccaccio. “erexi monumentun aere perennium” (minha poesia é mais duradoura do que o bronze) etc. romance de aventura no estilo de Walter Scott. durante os séculos XV e XVI. Les contemplations. Direito.165 de fazer as coisas). composições versejadas. Bug-Jargal (1826). Les chansons des rues et des bois. Filosofia. HUMANISMO (fundamento teórico do Renascimento) O Humanismo. entre outros. obra juvenil. chamados de Epodos ou Jambos. Lorenzo Valla. o amor e a amizade. Mas. Os miseráveis (1862). Música. O homem que ri (1869). romance de personagem e de espaço. Nos tempos modernos. Notre-Dame de Paris (1831). Como bom antropólogo. pois achava que a cultura geral era fundamental para o conhecimento do ser humano. Neste sentido amplo. fora das amarras das instituições medievais do Império e da Igreja. onde aparece o motivo preferido pelo epicurista Horácio: carpe diem. o Humanismo é o substrato ideológico da Renascença: movimento filosófico e literário. Chants du crépuscule. por serem conversações leves sobre os costumes de seu tempo. paralelamente a este tema central. Tommaso Campanella) e irradiado nos Países Baixos (Erasmo de Rotterdam) e na Inglaterra (Thomas Morus e Francis Bacon). pode ser considerado o primeiro humanista. seguindo o modelo do poeta grego Arquíloco. As melhores coletâneas de poemas líricos: Odes et ballades. o Humanismo sempre existiu e sempre existirá. os ápices da . inebriando-nos com o vinho. inclusive o epigramatista Marcial. O sofista Protágoras de Abdera. uma verdadeira epopéia pelo imenso afresco histórico. que expressava a essência da educação romana. do período juvenil de sua vida: dois livros que contêm 18 Satiras. Les châtiments. dirigidas em forma de cartas a amigos ausentes. considerado como o manifesto do movimento romântico na Europa. Victor (escritor romântico francês) A melancolia é a felicidade de estar triste Victor-Marie Hugo (1802-1885) é o maior poeta e romancista do Romantismo francês. um grande humanista foi o filósofo e poeta francês JeanPaul Sartre. ou canções. da última fase da vida do poeta: 2 livros de Epístolas. que preparavam o homem para o exercício da sua liberdade cívica e da sua atividade profissional. sendo o homem considerado como tal. De sua prosa de ficção. em que é exposto o pensamento horaciano sobre conceito e estrutura da poesia. “in medio stat virtus” (a virtude está no meio termo). Feuilles d’automne. as Odes apresentam também outros motivos convencionais: o amor à pátria. Realmente. Precursores do Humanismo foram vários escritores da Baixa Idade Média. no sentido estrito ou histórico do termo. que lecionou na Universidade de São Paulo e estudou a cultura de tribos indígenas do Brasil ( Tristes Trópicos). Les rayons et les ombres. Marsílio Ficino. estudou Lingüística. escondidos nas bibliotecas dos monastérios. 3) poesia reflexiva. sendo a expressão de uma corrente do pensamento que afirma a importância dos valores humanos. seguindo o exemplo da Poética de Aristóteles. Sêneca. HUGO. 17 poemas que criticam pessoas de sua época. à glória poética. assinalamos as seguintes obras: Han de Islândia (1823). posteriormente denominada Ars Poetica. independentemente de qualquer valor transcendental. Les voix intérieures. prefácio ao drama Cromwell (1827). “aproveitemos o momento presente”. Contrariando a moda da “especialização”. que seguia a moda do romance “negro”. no gênero da sátira literária. Horácio foi o maior poeta latino. está relacionado com a palavra latina humanitas. Sua obra poética de maior fôlego. no seu sentido etimológico. também chamadas de Sermones. que escreveu uma obra muito importante a respeito. Os trabalhadores do mar (1866). pela sua famosa frase “o homem é a medida de todas as coisas”. de que se serve para renovar a linguagem poética. da época da maturidade: 4 livros de Odes. é La légende des siêcles. iniciado na Itália (Pico della Mirandola. Pérsio e Juvenal. ética). Ad Pisones. à divindade. Grandes pensadores humanistas antigos foram Sócrates. Pintura. que se deram ao trabalho de descobrir e divulgar textos da cultura greco-romana. O pensamento humanista devolve ao homem a liberdade de construir seu próprio projeto de vida. “odi profanum vulgus” (odeio a vulgaridade). Cícero. . Orientales. de assunto filosófico-moral-literário. Podemos distinguir três fases na sua produção poética: 1) poesia satírica. política. A mais famosa epístola de Horácio é a última do segundo livro. 2) poesia propriamente lírica. As “Humanidades” constituíam um conjunto de disciplinas (gramática. Mas. Outro grande humanista francês foi Claude Lévi-Strauss. A qualidade básica do seu gênio é a imaginação. a obra-prima da ficção romântica em prosa. retórica.

. Este é o motivo pelo qual todos os círculos feministas escolhem o escritor norueguês como seu dramaturgo preferido. que tem em Camões seu melhor representante. são os mais marginalizados pelas instituições legais. não sendo mais apresentada como vítima. o Humanismo foi importante pela revalorização da filosofia de Platão. ou encena a figura do anti-herói. com a encenação de Os pilares da comunidade. Ibsen monta sua peça sobre a caracterização da protagonista Alving: sufocada pelos espectros das convenções sociais. não deixa de ser uma figura fascinante. e o amor espiritual. no equilíbrio entre o real e o ideal. o humanista e jurista inglês Thomas Morus (1478-1535). consideradas formas de vida antinaturais. que se apega a uma forma corporal. HUMOR (postura humana e artística perante a vida) Ironia IBSEN (dramaturgo norueguês) “A multidão é a negação da verdade”. onde a protagonista Nora. Os heróis de Helgeland. sente repelida sua atração sexual pelo pastor Manders e revela como seu corpo fora o veículo de transmissão de uma doença venérea (a sífilis) do marido para o filho. o verdadeiro princípio do Humanismo foi intuído pelo poeta e filósofo epicurista Horácio. publicada em 1602. evitandose quer privações quer excessos. especialmente através de sua obra de inspiração platônica. época em que predominou o pensamento de Aristóteles. Em 1877. A crítica costuma distinguir três fases na produção dramática do grande escritor norueguês Henrik Johan Ibsen (1828-1906): romântica. Mas o drama ibseniano que está mais próximo do ideário realista é Espectros. Na fase romântica e nacionalista ele exalta as virtudes do seu povo primitivo em luta contra a opressão da Dinamarca (Dona Inger em Oestraat. o personagem falso e mentiroso (Peer Gynt). entre os impulsos do instinto e as forças racionais do homem. Já viúva.166 pirâmide do sistema feudal (Medievalismo). Em verdade. a religião cristã perdendo seu caráter opressivo. O pensamento ético retoma o princípio epicurista de que o sumo bem é o prazer. é composta por peças em que a realidade cotidiana é apresentada através de símbolos O que acontece especialmente em O pato selvagem. O frei agostiniano Erasmo de Rotterdam (1466-1536). o pensador mais influente da época. defende a religião católica contra o anglicanismo de Henrique VIII. com o tratado In convivium Platonis sive de amore. Segue-se a representação da mais bela peça. ela desmascara seu casamento infeliz com o marido libertino. Os pretendentes da Coroa). A cidade do Sol. rebelando-se contra a mentira e a hipocrisia da vida doméstica. Daí a condenação da vida monástica e contemplativa. não somente do espírito mas também do corpo. carnal. retoma o tema de O banquete. O conceito de amor platônico constitui o substrato ideológico de uma vertente da lírica renascentista. devendo-se viver segundo a natureza. O neoplatonismo do humanista italiano afirma a nítida distinção entre o amor venéreo. Seu melhor amigo. tentando conciliar as exigências da sua natureza física com os valores espirituais. Casa de bonecas. realista e simbolista. O centro de interesse da cultura se desloca da transcendência (Teocentrismo) para a imanência (Antropologia Naturalista). Do ponto de vista propriamente filosófico. a ausência de preocupações. que vê na beleza física da amada apenas uma imagem da beleza eterna. quando afirmou que in medio est virtus: a virtude está no meio-termo. Marsílio Ficino. Mas tal revolução ideológica não se dá fora do Cristianismo. Os mesmos ideais utópicos de vida social serão mais tarde apregoados pelo filósofo italiano Campanella. Apesar disso. Rosmerholm e A dama do mar. mas como algoz: a protagonista desta peça arruína o marido e o amante. abandona marido e filhos para conquistar sua liberdade existencial. Na sua famosa obra Utopia. ou faz a sátira dos partidos políticos (A aliança da mocidade). tenta a conciliação dos dogmas da religião crista com as virtudes naturais humanas encontráveis na tradição clássico-pagã. Ibsen tinha o dom de compreender profundamente e saber retratar artisticamente a psicologia feminina. ou representa a utopia da vivência de um Cristianismo integral (Brand). A terceira fase do teatro ibseniano. base da filosofia “escolástica” de Tomás de Aquino. publicado em 1468. e a virtude reside na “ataraxia”. o homem poderá novamente retomar a busca do equilíbrio existencial. a mulher troca de papel. diálogo de Platão sobre o amor. preterida na Idade Média. Com Hedda Gabler. os dois pilares sociais. Aderindo à concepção da escola positivista. Ibsen inicia sua fase realista: as mulheres e os operários. ou revive o folclore popular (Uma festa em Solhaug). critica o sistema político da época e apresenta um modelo ideal de governo comunitário e genuinamente evangélico. a do simbolismo. mais tarde canonizado pela Igreja de Roma. que considera o ser humano determinado por fatores hereditários e ambientais. Mas este humanismo somente será vivido e expresso em forma de arte a partir do Renascimento quando.

O calor fez derreter a cera e ele caiu no mar. Para comigo mesma. vou ver se consigo entender quem está com a razão. o direito à felicidade individual pode ser considerado o motivo recorrente na dramaturgia de Henrik Ibsen. Enquanto o pai representa o princípio racional da vida criativa. Dédalo. Mas agora eu vou tentar. aprisionando-os no Labirinto. Nel blù.. O inglês Michael Ayrton compõe várias obras importantes para reviver. além de uma estátua e de um filme sobre Dédalo. geralmente falsos e castradores das individualidades. E Nora.. ora exaltando a figura do artesão-escultor (Dédalo).. sendo castigado pela sua ambição. Um personagem do drama Um inimigo do povo afirma: “A multidão é a negação da verdade”. a protagonista de Casa de bonecas. ÍCARO (filho de Dédalo. Ícaro alçou vôo por cima do mar. mas. uma mulher não tem o direito de poupar seu pai agonizante nem de salvar a vida do marido. contos e poemas). ora representando o homem-pássaro (Ícaro). O homem mais forte do mundo inteiro é o que está mais só”. onde a rainha Pasífae. do pincel e do escalpelo criaram obras maravilhosas. De acordo com elas. a autenticidade. Mas eu não posso mais me contentar com a opinião da maioria das pessoas nem com o que está nos livros. Três são as maiores façanhas relacionadas a Dédalo e Ícaro. o arquiteto da liberdade: o sonho de voar)Argonautas E volava. Eu sei muito bem. a hipocrisia social. a filha de Minos que lhe forneceu o fio fabricado por Dédalo. desobedecendo à ordem paterna. Eu tenho que pensar por mim mesma.. a coerência interior. Não consigo acreditar nisso . os artistas da palavra. centradas na corte do rei Minos. cuja réplica se encontra em outras passagens de Ibsen: “A minoria está sempre certa”. que constitui a marca mais profunda da sua genialidade: a luta do espírito humano contra o comodismo covarde. Eu tenho outros deveres. 2) o rei Minos. quis voar muito alto. dipinto di blù! Felice di stare lassù. que se alimentava de carne humana. na era moderna. obrigou Dédalo a mudar de profissão: de carpinteiro passou a ser engenheiro para construir o “Labirinto”. (canção italiana) O mito de Ícaro é inseparável das lendas que envolvem a figura de seu pai Dédalo. há um motivo recorrente em todas as peças de Ibsen. monstro com corpo de homem e cabeça de touro. o filho simboliza o princípio heróico.. a falsidade consigo mesmo. A verdade é sempre “paradoxal”. confirmado por mais esta sua observação: “O verdadeiro espírito de rebelião consiste precisamente em exigir a felicidade aqui. o rei de Creta puniu o arquiteto e seu filho Ícaro. tem uma fala ainda mais esclarecedora: “Eu acredito que antes de tudo eu sou um ser humano . não obstante essa possível diferenciação de várias posturas estéticas ao longo da sua produção dramática. sociais e morais.. The Maze-Maker (1968: “O Construtor do Labirinto”). construiu duas asas de madeira.. Junto com o resgate da figura feminina. chegando perto do Sol. Eu aprendi também que as leis são muito diferentes do que eu pensava.. O romance do irlandês James Joyce. o primeiro grande inventor da humanidade.”..167 Mas. à opinião comum.. no sentido de que se opõe à doxa. onde foi abrigado o Minotauro. para esconder o vergonhoso parto de sua esposa. Retrato do Artista quando . revestida de couro. fixando-as com cera nos ombros do filho. volava nel cielo infinito. se quiser compreender as coisas . aos costumes políticos. e que essa é a opinião que se encontra nos livros.. Ao redor desse mito. em Creta: 1) a construção de uma “Vaca” de madeira. é fundamental que o homem alcance a sinceridade.. antes de abandonar o lar. mas não consigo convencer-me de que as leis sejam justas. que a maioria das pessoas lhe daria razão. apaixonada pelo touro de Posêidon ( Netuno). o antigo mito cretense: O Testamento de Dédalo (1962: coletânea de desenhos. Torvald. Para Ibsen. 3) quando o herói Teseu conseguiu sair do Labirinto pela ajuda de Ariadne.. a sociedade ou eu .. na vida”. o sonho. igualmente sagrados . no diálogo final com Torvald Helmer. se ocultou para seduzir o volumoso animal: desta medonha união nascera o “Minotauro”. ao longo da cultura ocidental. então. a aventura desmedida.

IDADE (o mito da “Idade de Ouro” . Saturno reinou em várias regiões do Mediterrâneo (África. Yuri Gagarin. sobrenome do pai do protagonista Stephen. Ícaro. após o pecado original. o Paraíso terrestre. é preciso dizer que uma experiência semelhante já tinha sido feita. constituindo-se num arquétipo utópico da felicidade do homem sob os olhares providentes da divindade. no tempo anterior à culpa de Adão. que pertence à “pré-história” mítica. O poeta grego Ángelos Sikelianós (1884-1951). pois a terra produzia os frutos espontaneamente. do campo de Bagatelle em Paris. três anos antes. A semelhança entre a cultura judaica. Mas ele pode ser detectado em outras civilizações também. Lácio. Virgílio e Ovídio. deuses e mortais têm a mesma origem” (Hesíodo) O mito da Idade de Ouro nasceu na Suméria há 4. possam considerar Santos Dumont o pai da navegação aérea. em 1957. a sociedade ideal apregoada pelo Comunismo (Marx). pelos irmãos Wright nos USA. Em 1969. Depois do avião. quando a antiga União Soviética lançou ao espaço o primeiro satélite artificial com o nome de Sputnik. Por bem da verdade. A Cidade do Sol (Campanella). propiciando um grande progresso para as telecomunicações no mundo pela colocação em órbita de satélites cada vez mais sofisticados. com razão. Esta Era de prosperidade encontra-se exaltada pelo poeta grego Hesíodo e pelos escritores latinos Horácio. não precisando trabalhar. em 1906. onde dominasse o amor e a fraternidade: a República de Platão. conforme variantes da lenda). O brasileiro Alberto Santos Dumont (1873-1932). que originariamente caracterizaram a Idade de Ouro e que desapareceram na Idade de Bronze. A Idade de Ouro no mundo grego é identificada com o mito de Cronos (Saturno. insatisfeito com sua condição de mortal. deu uma volta completa ao redor da Terra em 108 minutos. Do ponto de vista político. demonstrando que o homem podia superar a lei da gravidade. pois ajuda a rainha Pasífae e o herói Teseu a derrubar a tirania de Minos. a Cidade de Deus (Santo Agostinho). Expulso do Olimpo pelo filho Júpiter. foi o grande inspirador da aviação moderna. este mito é explorado por vários estadistas que sonharam com a possibilidade da construção de uma sociedade justa. Sicília. a Idade de Ouro é representada pelas imagens do “Jardim de Javé”. que se sucede à invenção do rádio por Marconi.Era Antiga. anuncia a vinda de um Priceps para restaurar a paz. aspira á conquista daquilo que jamais poderá alcançar: o Infinito! As aventuras dos modernos “Astronautas” são replicas das aspirações dos antigos Argonautas. é traduzido para o francês com o título Dédalo. passando do mito para a história e limitando-nos à cultura ocidental. para superar a façanha soviética deu origem à corrida espacial. na sua IV Bucólica. Mas. Quatro anos após o lançamento do Sputnik. Tal diferença faz com que os brasileiros. o aeroplano chamado 14-Bis.000 anos. a abundância e a justiça. Em 1965. Na cultura judaica. a bordo da nave especial Vostok. a antiga URSS coloca um homem no espaço. a Idade de Ouro é representada pelo Éden. “A terra é azul” dizia Gagarin. greco-romana e cristã é muito relevante. Como. pela primeira vez.168 Jovem (1917). mas com a grande diferença de que eles utilizaram uma plataforma de lançamento para catapultar o avião do solo. cada qual tendo . Espacialmente. Medieval e Moderna) “Pois. poeticamente chamado de “Pássaro da madrugada”. chegamos à era do satélite: o lançamento de Intelstat I. quando começou a reinar a maldade e a violência. os Evangelhos (Cristo). quando o homem gozava dos dons “preternaturais”: era imune da dor e da morte. E o sonho de Ícaro não cessa de se realizar: o ser humano. após encantar os franceses com uma série de 14 balões dirigíveis. na tragédia Dédalo em Creta. Ver também o verbete Utopia. sob a forma de “mito de Dilmun”. do “milagre do oásis”. veio a conquista do espaço sideral. conforme prometido por Jeová. das Ilhas Afortunadas. a este respeito. representa o personagem mítico como o arquiteto da liberdade. quando falam de Saturnia regna (os reinos de Saturno). O esforço da outra potência mundial. do Olimpo e do monte Parnaso. a tradição costuma dividir nossa civilização em três Idades ou Eras (do latim aera ou aevum = “idade”). ensinando aos homens o cultiva da vinha e a produção do vinho para aumentar a alegria de viver. o primeiro homem a se levantar da terra usando asas. os EUA. assim o poeta latino Virgílio. Neil Armstrong é o primeiro homem a pisar na Lua. em Roma). com uma máquina mais pesada que o ar. alçou vôo (do chão!). inaugura uma nova fase nas comunicações a longa distância. o povo hebreu estava esperando a chegada de um Messias-Salvador.

C. começando pela queda do Império Romano do Ocidente (476) e terminando com a queda do Império Romano do Oriente. V ao XI) e Baixa Idade Média (do séc. pintores. movimento cultural surgido na Alemanha e na Inglaterra. Giotto. continuado em Roma e difuso por toda a Europa com nomes e datas diferentes. encontram-se muitas identidades culturais. pelo Neoclassicismo francês e pela Arcádia na Itália e na península ibérica. quando o exército muçulmano tomou a cidade de Constantinopla. inicia uma nova época que se opõe frontalmente à concepção clássica . quando.C ao V d. com a conseqüente passagem da oralidade para a escrita dos cantos épicos atribuídos a Homero) até o séc.. histórica e religiosa. I a. no séc. dos “rapsodos” de cantos épicos. surgido em Florença. caracterizado pela oposição à cosmovisão medieval e pela retomada dos princípios estéticos e ideológicos da época greco-romana. Esta Era pode ser dividida em três épocas denominadas pelas cidades hegemônicas: período ático ou de Atenas. XI. junto com o surgimento das línguas européias modernas (neolatinas e anglo-saxônicas). pelas invasões barbáricas.C. começaria com o Renascimento ou. Alexandria. data de deposição do último imperador de Roma. a Idade Média ocupa quase um milênio. a lírica de Píndaro e Safo.C. tais como Dante Alighieri. os literatos tiveram por modelos a poesia épica de Homero. período helenístico. XI ao XV). a história de Heródoto. A Idade Média: assim chamada por ser mediana ou “medianeira” entre a cultura clássica grecoromana e a cultura moderna que. pode se subdividido em várias fases: época arcaica ou das Origens. que estão analisados no verbete Medievalismo. quer no regime republicano. em 1453. O que justifica a inclusão tradicional deste período na Era Medieval é apenas o aspecto religioso: o pensamento reflexivo e a atividade artística ainda estão dominados pela influência da Igreja Católica. o Ocidente sofrendo uma paralisia provocada por vários fatores de ordem lingüística. a oratória de Demóstenes. Apenas à primeira fase caberia o rótulo de “obscurantismo” ou de “período das trevas”. deve ser considerado como uma prérenascença pelo desabrocho cultural. soube admirar e respeitar a superioridade da cultura grega. tentando mais imitá-la do que destruí-la. a comédia de Menandro. Tomás de Aquino. quer na época imperial. do ano 313. antiga Bizâncio ( Helenismo) e hodierna Istambul. O Renascimento italiano é seguido pelo Barroco espanhol. XVIII. XV. se deu a queda do Império Romano do Ocidente. que vai de 480 (Batalha de Salamina: vitória dos gregos sobre os persas) a 323 (morte de Alexandre. impondo pesados tributos aos povos conquistados pela força das armas. quando predominou a capital do Egito. Assim. a tragédia da tríade Ésquilo-Sófocles-Eurípedes. Beato Angélico. Não pode ser considerada como retrógrada uma época de gênios da produção artística e do pensamento reflexivo. quando o imperador Constantino concedeu a liberdade de culto aos cristãos. Com o Romantismo. baliza do fim da Era Antiga). letrados e artistas gregos para serem pedagogos dos filhos dos nobres romanos. VIII a. apesar de ter sido escravagista. em 476. Para evitar inverdades. cuja cultura se produziu ao longo de quase um milênio: do séc. A Idade Moderna: o conceito de “moderno” encontra-se estudado no verbete Modernismo. Para a crítica tradicional. Petrarca.169 várias épocas ou períodos: Idade Antiga. a Baixa (porque mais perto de nós) Idade Média. Essas várias fases constituem o “período clássico” da Era Moderna. de cultura em língua latina. (data do surgimento do alfabeto na Grécia. a Era Moderna começaria pelo movimento renascentista. período latino. dos escritores de novelas de Cavalaria. na segunda metade do séc. apesar das diferenças de línguas e costumes entre os dois povos. pois (constatação vergonhosa!). A maior contribuição cultural propriamente latina está restrita ao campo da jurisprudência: o “Direito Romano” é uma disciplina ainda ensinada na maioria das Faculdades. séculos III e II a. Prova disso é a importação de filósofos. que abrange a herança greco-romana.V d. sob o domínio de Roma: do séc. durante mais de seis séculos não se produziu absolutamente nada na Europa. sem falar dos trovadores provençais. escultores e arquitetos passaram a imitar templos e monumentos gregos. conforme uma corrente crítica mais recente (e mais coerente!).C. a crítica costuma dividir este longo período em duas épocas: Alta Idade Média (do séc. Áurea (de César e Augusto). até o ano 476. Duns Scoto. Este período helenístico ou romano. os deuses gregos foram cultuados em Roma com um nome latino. Imperial (durante a dominação dos vários imperadores ) e Cristã (do Edito de Milão. iniciaria no séc. Pelo critério de periodização convencional. Já o segundo período. segundo a divisão tradicional. Boccaccio. O Estado romano. o Grande). A Idade Antiga é também chamada de “greco-romana” porque.

Mas. com o pretexto de dá-la em casamento ao herói Aquiles. Dadaísmo. mas que pode ser considerado como precursor das correntes estéticas da Vanguarda européia (Futurismo. O adivinho Calcante explicou que Diana só seria apaziguada se Agamenão sacrificasse sua filha Ifigênia. que durou aproximadamente um século. afirmando ser tão bom caçador quanto a deusa. Esta. Descobrindo que um dos forasteiros lá chegados era seu irmão Orestes que. Filha do rei de Micenas. A primeira revolta contra o pensamento e a estética do realismo materialista deu-se com o Simbolismo. preexistente ao espírito humano. como sistema filosófico. movimento francês de curta duração. tornando-se sacerdotisa da deusa Diana. Ifigênia vai para a Táurida (atual Ucrânia). O Modernismo brasileiro está visceralmente ligado aos movimentos da vanguarda francesa e italiana pela moda antipassadista. que surgiu em oposição ao período romântico. não para casar. tentando novas possibilidades de expressão artística. o modelo geral de cada coisa ou noção abstrata. Aristóteles. Algo só pode existir. buscava a estátua de Diana Táurida. de essências ultraterrenas. corrente de pensamento que não admite nenhuma forma de transcendência e que teve num outro sábio grego. a subordinação de toda a existência a um ser pensante. a filosofia tenta responder a estas três perguntas fundamentais: O que preciso saber? O que devo fazer? O que posso esperar? IFIGÊNIA (a vítima da crueldade paterna e da vingança divina)Agamenão Vestida de branco. Expressionismo. antes de habitarem o corpo. mandou buscar a jovem em Micenas. Esta passagem encontra-se descrita de uma forma lírica estupenda pelo poeta latino Lucrécio. Os objetos do mundo exterior ou qualquer sensação ou sentimento seriam apenas “fantásmatas”. Em Micenas. O mito de Ifigênia . para o casamento que gera a vida. seu precursor. em lugar de levar ao altar a jovem. irmaniza os vários tipos de Idealismo é o subjetivismo. está aos antípodas do Realismo. que nos permite conhecer a realidade. onde observa que o pai. encarregada de sacrificar os estrangeiros. por vingança. a partir do início do séc. Kant. paralisando os navios gregos chefiados por Agamenão e prontos a zarparem para a guerra de Tróia. XX. que se fazem presentes pela “reminiscência”. Cubismo e Surrealismo). com relevantes variações: as idéias “inatas. IDEALISMO (sistema filosófico: Platão. o idealismo subjetivo de George Berkeley (1685-1753). Segundo Emanuel Kant. na sua obra De Rerum Natura. Ifigênia se casa com Pílades. O idealismo platônico foi retomado por vários pensadores. a jovem é levada para o altar. Diana apiedou-se da jovem vítima e mandou que fosse substituída por uma cabrita. sucedeu a época do Realismo. então. vestida de branco. no momento da imolação. então. de alguma forma. Ao movimento romântico. influenciado pelas correntes filosóficas do Positivismo e do Determinismo e pela teoria científica do Evolucionismo (Darwin). conforme a “Teoria das Idéias” do filósofo Platão. mas para morrer O mito de Ifigênia é um dos mais comoventes. o idealismo crítico da “razão pura” e da “razão prática” de Emanuel Kant (1724-1804). E termina a narração do episódio com o seguinte comentário: “até que ponto a religião pode induzir o homem a cometer crimes”! De Áulis. pediu ao deus Éolo que parasse todos os ventos no porto de Áulis. imagens ou reproduções imperfeitas. segundo o qual não existe objeto sem um sujeito pensante. a lembrança do tempo em que. o Espírito Absoluto de Friedrich Hegel (1770-1831). o ato de conhecer sendo um movimento de dentro para fora. ela foge com eles. A linha de contraste entre a estética e a mundividência clássica e romântica encontra-se exposta no verbete Romantismo. obtido o perdão de Diana pela intervenção da deusa Atena. as “formas” universais e perfeitas. claras e distintas” de Descartes. ao longo da história da Filosofia no Ocidente. provocara a ira de Diana. de 1850 a 1890. com o amigo Pílades. O Idealismo. significando. conforme uma lenda.170 da vida. estavam no mundo das idéias. é obrigada a sofrer por uma culpa de seu pai: Agamenão. as idéias “simples e complexas” de John Locke (1632-1704). que revolucionaram a cultura ocidental. discípulo de Platão. Hegel) A filosofia é o tempo capturado no pensamento (Hegel) A palavra “idéia” é de origem grega. como aconteceu no episódio bíblico do sacrifício de Isaac por Abraão. O que. se e conforme uma mente pensar nele. entrega a filha no altar da morte. O rei.

não narra toda a história da Guerra de Tróia. vítima do hieratismo paterno e da vingança dos deuses. deveria atribuir a um ser humano as prerrogativas da onipresença e da onividência. é composto pela “Invocação” à divindade protetora dos poetas e pela “Proposição”.). a cólera de Aquiles. constituído pelos fatos narrados e pelas personagens que vivem a história ficcional. enquanto o tempo do enunciado permanece imóvel. rei de guerreiros. Simplificando ao máximo. O autor da Ilíada. o passado "precipitou". portanto. fazendo parte do chamado "ciclo troiano". Por isso. Há. a lenda de Ifigênia invade o mundo da Ópera. do ser humano doce e generoso. que só pode tornar-se presente pela ação da memória que recorda os episódios acontecidos. o ato da locução. especialmente em suas ações e paixões relacionadas com a participação na Guerra de Tróia. sobressai a tragédia de Racine Ifigênia em Áulis. Na época do Romantismo. Quanto ao plano do enunciado ou da história. apesar do título. de outra forma. não é um ser real (Homero ou outro rapsodo). um distanciamento de mais de quatro séculos entre o tempo do "discurso" e o tempo da "história". Seu intuito é focalizar o herói Aquiles (o titulo preciso da obra deveria ser "Aquileida". a época em que viveu Homero. anteriormente à tomada e à destruição da cidade pela confederação grega. jogando seus corpos como pasto para cães e pássaros carniceiros: cumpria-se a vontade de Zeus. o exórdio . isto é. cólera funesta. a cada leitura do poema. ó deusa"). mas apenas alguns episódios que se deram no nono ano do assédio grego. o tempo da enunciação se renova continuamente. mas uma personagem de ficção que. Este trecho inicial do canto primeiro enseja perceber bem a distinção entre o plano da enunciação . todavia que. Este narrador. construída pelo rei Ilo. o provável autor do poema (século VIII a.C. sendo um patrimônio cultural de conhecimento popular. centrados em três “iras”: . porque muda o destinatário a quem o narrador se dirige. e o plano do enunciado . Este fingimento é indispensável para que o canto épico tome um semblante de realidade. porque. "tornou" etc.) e Ifigênia em Táurida (412) e lembrado em outras obras de vários escritores greco-romanos. ó deusa. o aparelho formal que evidencia a presença do narrador do canto épico. no poema. No Neoclassicismo francês. denominação que condensaria melhor a substância poemática). fixado para sempre num passado remoto. nome primitivo de Tróia) é formada pela rapsódia (o étimo grego significa "costura") dos cantos acerca da primeira famosa luta entre as nações do mundo ocidental.). filho de Peleu. o Olimpo. em seus vinte e quatro cantos. Enfim. a Ilíada. coloca como narrador dos fatos épicos a própria divindade ("canta. o mito é retomado pelo poeta alemão Goethe: Ifigênia em Táurida (1787). reduzimos o arcabouço fabular da Ilíada aos seguintes núcleos de narratividade. e o divino Aquiles”. se refere à época em que os fatos narrados aconteceram (Guerra de Tróia: século XII a.171 encontra-se tratado artisticamente em duas tragédias de Eurípides: Ifigênia em Áulis (405 a. antecipa o assunto do poema épico: "a cólera de Aquiles".. Na segunda metade do séc XVIII. para não cair na inverossimilhança. em versos hexâmetros. O presente "canta" acusa o tempo do discurso. É a ficção que quer ser vista como não-ficção.C. eram muitas e variadas. Traduzimos o começo do poema: “Canta. Como se vê.C. transcrito acima. limitando-se apenas a fazer referências e alusões a fatos já conhecidos pela coletividade grega. assume o papel de narrador da fábula. ILÍADA (poema épico sobre a guerra de Tróia) Homero A Ilíada (de Ílion. inclusive na morada dos deuses. sinteticamente. necessárias para o conhecimento de fatos que se passaram em lugares diferentes. da narração. As lendas sobre a antiga cidade. e de sentimentos e pensamentos dos seres divinos e humanos que participaram dos eventos. É preciso notar. a personagem mítica de Ifigênia passou à história como símbolo da inocência sacrificada. a “Guerra de Tróia”. a proposta que. diferentemente do autor do poema. Os libretistas proporcionaram ao compositor Gluck duas notáveis obras de arte lírica: Iphigènie en Aulide (1774) e Iphigènie en Tauride (1779). desde a contenda que separou o Atrida. Homero não sentiu a necessidade de cantar nem o início nem o fim da Guerra de Tróia. que causou inumeráveis dores aos aqueus e precipitou no Hades almas de heróis sem conta.

O herói grego Diomedes. choram a morte do herói. durante os longos anos de permanência de seus navios nas proximidades de Tróia. que consegue de Zeus a promessa de que os gregos não triunfariam sobre os troianos até que a injustiça feita a Aquiles fosse reparada. consegue recuperar o corpo de Pátroclo e o leva ao acampamento de Aquiles. Andrômaca. ofende e ameaça o velho sacerdote de Apolo. Mas Criseida é filha de Crises. conseguindo até incendiar um navio grego. Os mirmidões organizam jogos e esportes. Agamenão. Recebidas as armas. chefiados por Heitor. então. Agamenão reconhece seu erro. O adivinho Calcas revela que a peste. os gregos recomeçam as ações bélicas perto dos muros de Tróia. E porque é Aquiles que se opõe à exigência de Agamenão. que foge ao redor dos muros de Tróia. são obrigados a construir um muro e um fosso para protegerem seus acampamentos e seus navios. Mas estes. Os pais. os gregos devolvem a jovem ao pai. conseguindo adormecer Zeus. amigo de Aquiles. mas também Vênus e Ares. Mas Zeus. ordena a Hera e a Posêidon retirarem-se da guerra. enviam Ulisses à tenda de Aquiles para suplicar-lhe que volte à luta. pois Agamenão está disposto a devolver-lhe a escrava Briseida. o deus do mar. A segunda ira de Aquiles (contra Heitor) Pátroclo. para se proverem de comida. Na divisão do butim duma destas incursões. Aquiles persegue Heitor. Os troianos pressionam cada vez mais o exército grego. Agamenão chega a propor o abandono do assédio de Tróia. este lhe toma a escrava Briseida. a intervenção de Vênus salva o troiano Páris. provocada pelas setas de Apolo. além de não devolver a jovem. Agamenão. Ulisses e Menelau. Aquiles presta as honras fúnebres ao amigo Pátroclo. Diomedes. obrigado a restituir sua escrava. Mas Posêidon (Netuno). privados da ajuda divina de Hera ( Juno) e Atena (Minerva).172 A ira de Apolo (contra os gregos) Os aqueus. O herói grego se desespera e jura vingança. levado pelo entusiasmo. A primeira ira de Aquiles (contra Agamenão) O prepotente chefe grego. acordando. ofendido. Príamo e Hécuba. e a esposa. suplica ao deus para que vingue sua desonra e suas lágrimas. irmão de Heitor. este é salvo por Apolo e Enéias por Posêidon. obtêm várias vitórias e conseguem romper parte do muro dos acampamentos gregos. chefe da confederação dos príncipes aqueus. o deus do fogo. exige dos confederados uma recompensa equivalente. renuncia a lutar. ajudado por Ajax. ajudado por Hera e Atena. Apolo acolhe a prece de seu fiel servidor e lança contra os navios gregos flechas mortais que dizimam homens e animais. Voltando ao acampamento grego. dá mostras de grande valor. Agamenão. filho do rei Príamo. volta a ajudar os gregos: os troianos são rechaçados e Heitor é ferido. Todos os dias. enquanto a mãe Tétis vai pedir a Hefestos (Vulcano). Heitor é alcançado. está relacionada com a ofensa sofrida pelo sacerdote. Apesar da profecia do cavalo Xanto. Os gregos. O herói é consolado por sua mãe. Aquiles se lança à luta. que prediz próxima a morte do herói. e os troianos tornam a vencer. ameaçando inclusive de abandonar o assédio de Tróia e retornar para sua pátria. Aquiles convoca todos os chefes gregos para a batalha. Pátroclo. Para aplacar a ira do deus. Mas o herói persiste no seu propósito de abster-se da guerra. avança até os muros de Tróia e ataca o próprio Heitor. sacerdote de Apolo. Com seus gritos monstruosos afugenta os troianos. enquanto cabe a Aquiles. conseguem grande vantagem sobre os aqueus que. infunde coragem no chefe grego e Hera. consegue permissão para lutar e chefiar o exército dos mirmidões. Crises. divindades protetoras dos troianos. exterminando todos os troianos que lhe aparecem na frente: mata Polidoro. a confecção de novas armas. Aquiles empresta-lhe as armas. mas adverte o amigo para não guerrear longe do acampamento grego. junto com outros donativos. o principal herói grego. restitui-lhe Briseida e oferece-lhe outros presentes. costumavam saquear pequenas cidades ao longo da costa asiática. . de mulheres e de outros bens. Num duelo particular entre os dois maridos de Helena. matando vários troianos e ferindo não só o herói Enéias. a posse da linda Briseida. Após a terceira volta. O herói troiano mata o amigo de Aquiles e se apossa de suas armas. Enquanto Aquiles. Menelau. transgride a interdição. que se aproxima dos navios gregos e oferece um bom resgate em troca da libertação de sua filha. morto e despojado de suas vestimentas bélicas. a deusa Tétis. proibidas por Zeus (Júpiter) de intervirem na guerra. que está para ser morto pelo grego Menelau. fica com a jovem Criseida. apesar do grande valor de Ajax.

filho do rei Peleu e da deusa Tétis. rei de Micenas e chefe da expedição grega contra Tróia. covarde e incapaz de incentivar seus liderados ao cumprimento da missão militar. são realizados os funerais de Heitor. foi imerso. Aquiles representa a encarnação artística do homem na idade juvenil que se deixa dominar ora pela violência das paixões (agressividade. foi raptada por Teseu ( Ariadne) Salva pelos irmãos Dióscuros. que causou desgraças e mortes a gregos e troianos. mais do que a expressão de um ideal de vida. lhe indicam a resolução certa a ser tomada. Devido à extrema importância da figura de Menelau na economia mítico-ideológica da Ilíada. ele é prepotente. fraco. Amedronta-se perante o mínimo sucesso do exército troiano e está sempre pronto a ordenar o fim do assédio e a volta dos príncipes gregos para suas cidades. Filha de Júpiter e da mortal Leda. tolo. E por isso que. é a descrição de uma gama variegada de tipos. religiosidade). A Ilíada. a preservação da vida deste herói é uma preocupação constante dos príncipes gregos. caracterizando marcadamente personagens que se tornaram protótipos humanos. apesar de seu grande valor militar. porém. ele não hesita em honrar a morte do amigo Pátroclo. Características das personagens A Ilíada é a exaltação do heroísmo guerreiro. Enfim.173 Aquiles arrasta o corpo de Heitor em torno do túmulo de Pátroclo. Ainda menina. no poema representa o “autoritarismo”. ira. relacionar entre si e fixar para sempre a galeria de heróis que a tradição cultural foi criando aos poucos. sendo o correspondente humano do deus Júpiter. teve inúmeros pretendentes. mas o Destino (Fado). sua beleza divina exerceu um fascínio irresistível sobre os homens. pois o motivo da guerra dos gregos. provocou a guerra contra Tróia. é-lhe proibido lutar contra Heitor e nas batalhas goza sempre da proteção de outros gregos. a não ser no calcanhar pelo qual foi segurado. na idade do casamento. Mas o povo da Grécia Antiga o considerou seu herói nacional especialmente pela sua portentosa força física (fora alimentado com entranhas de leões!) e pela extrema perícia na arte da guerra. paralelamente à expressão desta atividade coletiva. Educado pelo centauro Quirão. constitui a razão do assédio contra Tróia. Príamo chega até o acampamento grego para suplicar a Aquiles que lhe devolva o cadáver do filho. consciente de sua missão. é apresentado pelo mito grego como semideus. Mesmo conhecendo a vontade do Destino. nos momentos de crise. vaidoso e. matando quem lhe tirara a vida. Não se curvando à prepotência do chefe Agamenão. Ele tem apenas a jactância de chefe. Segundo o poeta romano Estácio. pois intimamente é egoísta. Na Ilíada. Caracterizado como homem prudente. cujas águas sagradas o tornaram invulnerável. especialmente de Agamenão. ódio). Regressando a Tróia. Agamenão. que prescrevera que sua morte se seguiria à de Heitor. Aquiles cultivou todas as artes. piedade. no poema homérico. é exaltado seu sentimento de “honra”. filho de Saturno (Cronos) e mestre de príncipes e heróis. portanto. A Guerra de Tróia é apenas um pretexto para que o poeta possa articular. no rio infernal Estige. Como todo chefe autoritário. É a representação mítico-artística da luta dos gregos primitivos em seu desejo de conquistar novas cidades e ampliar seus domínios. ao nascer. que na sua obra Aquileida procura coletar todas as lendas sobre o herói. O herói se comove perante as lágrimas do velho pai e lhe restitui o filho morto. Menelau. Os que mais sofrem com o assédio. entender a caracterização de seus personagens principais. é a reconquista de sua esposa Helena. só volta à luta contra os troianos para vingar a morte do amigo Pátroclo. pelo qual pode ser considerado o primeiro "cavaleiro" do mundo ocidental. essencialmente. Casada com Menelau e raptada por Páris. cada qual representando um aspecto ou uma aspiração da vida humana. o poema ressalta os valores individuais. Mas. não culpa Helena. E seu sentimento de ira contra Heitor é superado apenas pela piedade perante as lágrimas do velho pai do herói troiano. mormente dos heróis Ajax e Diomedes. ora pela delicadeza dos sentimentos (amizade. Homero. o rei Príamo e seu . o protagonista do poema. Helena é o pivô da Guerra de Tróia. Menelau configura a luta pela preservação dos valores ideológicos da união conjugal e do respeito pelos bens alheios. Compreender o poema significa. A sorte de Agamenão é que está bem assessorado: Nestor e Ulisses são seus inteligentes conselheiros que. que se tornaram “arquétipos” na cultura ocidental: Aquiles. rei de Esparta e irmão de Agamenão. além de seu valor bélico.

a educação estava centrada na areté. de outro lado. pois a ética grega. em seu Elogio a Helena. Páris. são também os maiores defensores da jovem grega. quanto ao poder de chefia das ações bélicas. A tradição fez de Páris o protótipo do homem belo. Deífobo. quando de sua passagem para a época da filosofia. Como já observara o sofista Górgias. Mas. Após a tomada de Tróia. seduzindo novamente seu marido e voltando a ser sua esposa. A honra era satisfeita pelo reconhecimento público do valor do indivíduo: o contentamento íntimo será uma aquisição posterior da cultura grega. que é a defesa de sua cidade. no confronto. é ele quem preside as assembléias. é mais forte do que as prescrições e interdições socio-morais. a simpatia dos leitores da Ilíada tende para o herói troiano. e. que anulam seu propósito de vingança. Neste estágio de civilização. elevando-se a protótipo de mulher fatal. descrita no canto VI. eximindo-a de qualquer responsabilidade. quer em vida. Filho do rei Príamo e da rainha Hécuba. exigia o respeito ao ser humano. A presença do corpo de Helena evoca os desejos sexuais latentes no subconsciente do príncipe grego. unido a uma conduta cortesã e ao heroísmo guerreiro. É a paixão que triunfa sobre a razão. corrente do pensamento que . quando vê ameaçada a segurança do lar. ele não recusa o duelo com o inimigo grego. estava o sentimento da "honra". Prefere as delicias do amor de Helena à luta contra os inimigos. homem justo e digno. a cujo fascínio ninguém pode resistir. contra os gregos invasores. Filha do rei de Tebas. A virtude estava sempre ligada à nobreza e ao valor bélico. acima de qualquer outra coisa. a ratio é impotente diante do pathos: a força instintiva dos sentidos. Helena vive apenas em função do amor. Mesmo cônscio de que é vontade do Destino que morrerá lutando contra Aquiles. ILUMINISMO (Enciclopédia: movimento cultural do Setecentos)Racionalismo O Racionalismo francês desaguou no Iluminismo ou Ilustração. Heitor é mais humano e mais sensato. já de solteira experimentara o sofrimento pela morte do pai e dos sete irmãos. o dever e o prazer das lutas se manifestavam nas várias formas de atividades esportivas. ela tem pressentimentos do aproximar-se de novas desgraças e pede ao marido que lhe poupe a sua viuvez e a orfandade do filho Astíanax. estimulado pelo irmão Heitor e sob a proteção da deusa Vênus. e Agamenão. Comovente é a cena familiar. contrastando com Helena. Auxiliado pelos deuses Apolo e Marte e amado pelo seu povo. ela não tem culpa de ter sido seduzida pela beleza de Páris. caracterizada pelas grandes emigrações. Heitor é o maior herói troiano. Daí a grande importância conferida aos funerais dos heróis e à comemoração do aniversário de sua morte. é a mais bela configuração da fidelidade conjugal e da devoção ao lar. Mas. Representada como a correspondente humana de Vênus. da mãe e do filho. elegante e amoroso (Adônis). sendo este trecho considerado um dos mais comoventes do poema. Com efeito. a paixão. Durante o assédio grego a Tróia. quer após a morte. Se Aquiles é mais forte e Agamenão mais prepotente. Intimamente relacionado com o conceito de virtude. eis que Helena se despe na sua frente. a esposa de Heitor. As lágrimas de Andrômaca sobre o cadáver de Heitor são fortemente expressivas. Heitor é o protótipo do governante justo e sábio e do chefe de família devotado. apesar de ser o maior responsável pelo assédio dos gregos contra sua cidade.174 filho Heitor. Morto Páris. de seu patrimônio e de sua família. quando Menelau se aproxima dela com a intenção de castigá-la com a morte pela sua traição. massacrados por Aquiles. Ele luta por uma causa justa. A função que o Destino lhe prescrevera era a de amar. ela se une maritalmente a outro filho de Príamo. mesmo então. Helena é o símbolo da criatura seduzida e sedutora. Andrômaca. quanto ao valor militar. subjugado como estava pela beleza divina da esposa grega. quando se despede da esposa. Só vai ao combate nos momentos de perigo. toma as decisões e chefia a guerra contra os gregos. antes de ir para a luta. A Ilíada é a expressão artística da idade guerreira do povo grego. conceito que o nosso termo "virtude" traduz apenas parcialmente: era o ideal cavaleiresco de vida. sabe que a vontade do Destino deve realizar-se: Heitor. pois o sentimento do dever cívico supera qualquer egoísmo. Homero compara Heitor aos heróis gregos Aquiles. não pode afastar-se da luta para evitar a morte. no poema é apresentado como fraco e covarde. visto que era vontade da deusa Vênus que tal coisa acontecesse. Mesmo nos breves períodos de paz.

na confecção desta obra monumental. Convencidos de que o desenvolvimento das ciências naturais levaria inevitavelmente o homem a dominar as forças da natureza. O Impressionismo está dentro da estética do Realismo e esta dentro da estética clássica. Aderindo a um novo conceito de razão. Tártaro. Buffon (naturalista). IMPERIALISMO (forma de governo) Absolutismo Política IMPRESSIONISMO (estilo de Pintura) Realismo O nome desta escola de arte está relacionado com uma tela de Claude Monet. Rousseau e Montesquieu. espaço do sofrimento transcendental)Dante “L’ Enfer sont les autres” (Sartre) . que surgirá no começo do séc. des Artes et des Métiers. mas uma razão “operativa”. em vista de que todo o poder emana do povo. Helvetius (materialista). A uma certa distância. não a dedutiva cartesiana fundamentada no axioma das idéias inatas. Turgot (economista). 1876). porém. “imitação da realidade”. impregnada de uma grande euforia. ele deu ao quadro O nascer do Sol o título de “Impressão”. em 1874. a fonte do conhecimento. A beleza clássica busca colher o eterno e o imutável. os impressionistas mais famosos são Édouard Manet (o óleo sobre tela Olympia. banindo-se qualquer tipo de preconceito religioso. Auguste Renoir (Nu ao sol. daí o nome de Iluminismo ou de Ilustração.XX: o Expressionismo. apoiada sobre os dados fornecidos pelos sentidos. eles criaram uma pincelada distinta. é um dos nus femininos mais discutidos). 1882). O Impressionismo está à pintura como o Realismo à prosa de ficção. apregoando os ideais democráticos de “liberdade. Voltaire. jogando cartas. 1889). Condillac (sensualista). Tal atmosfera cultural. borrões irregulares que vibram energia como o brilho da luz sobre a água. Além de Monet. Numa exposição de Pintura em Paris. Para mostrar estas qualidades voláteis da luz. fazendo piquenique em jardins. várias vezes interrompida pela censura eclesiástica. Daí começaram a chamar de “impressionistas” telas de pintores franceses do último quarto do séc. surtiu seus efeitos práticos na elaboração da Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences. Edgard Degas (Depois do banho. o Determinismo à filosofia e o Naturalismo às ciências. pontual. os teóricos da Ilustração tiveram como meta a luta contra a ignorância e a superstição. cuja obra influenciou a proclamação da Constituição americana e o regime democrático de outros povos. Plutão. do reflexo ou do clima sobre a superfície do objeto. além da famosa tríade de escritores. os iluministas sonhavam com a idéia de que a sociedade humana pudesse ser reorganizada em bases estritamente racionais. mas muda constantemente de acordo com os efeitos da luz. Paul Cézanne (Curva da estrada. Seu principal objetivo é dar-nos uma "impressão" da luz sobre tudo. Barão d’Holbach (ateísta). flores). participando de festas. que considera a arte come mimese. 1897).175 vigorou ao longo do século XVIII. cujas obras lançaram os fundamentos ideológicos da Revolução Francesa. entre cientistas e intelectuais. Tal conjunto estético e ideológico tem como centro de irradiação a França da segunda metade do Oitocentos. Os pintores desta escola perceberam que a cor não é uma característica intrínseca e permanente. XIX. destacando-se Denis Diderot e Jean Le Rond D’Alembert (os idealizadores e executores do projeto). 1863. Esta teve como ideal fundamental acabar com qualquer forma de Absolutismo (político. ou naturezas mortas (frutas. é dada por um movimento de “fora para dentro”. Vincent van Gogh (Auto-Retrato. O pensador mais importante da corrente iluminista foi John Locke (Liberalismo). A diferença entre a estética clássica e a realista é que a primeira idealiza a natureza. não escondendo excessos e deformidades. o chamado “século das luzes”. estes borrões e manchas se fundem. Os quadros dos impressionistas retratam cenas de gente à beira do rio Sena. INFERNO (Hades. isto é. A percepção dos objetos. curta. já o estilo de arte impressionista tenta apanhar o momento fugaz. 1898). Du Marsais (gramático). A pintura impressionista será entendida melhor se comparada à corrente oposta. dando formas mais ou menos definidas de objetos ou seres retratados. enquanto a segunda tenta retratá-la assim como ela é. apresentado pelo jogo da luz e das cores. Paul Gauguin (De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?. o Parnasianismo à poesia lírica. religioso ou ético). igualdade e fraternidade”. De 1751 a 1766. colaboraram uns sessenta escritores.

no sentimento de culpabilidade. o maior fenômeno tecnológico da década de 90: a comunicação mundial pela Internet. “recalcada” por pecados atávicos ou pessoais. cão com três cabeças e com serpentes envolvendo seu pescoço. os mistérios da psique humana. era também venerado como deus da vida e da reprodução. Flegetonte e Lete). três irmãs das quais a mais famosa era a Medusa. especialmente crianças e almas. pois protegia as sementes ocultas embaixo da terra. o conhecimento só era possível de uma forma bem limitada e a custos elevados. A palavra “Inferno” é. construído pelos engenheiros Jonh Mauchly e Presper Eckert. não fica maior nem mais pesado (Bill Gates) A Informática é a ciência do tratamento automático e lógico da informação. pesava 30 toneladas. o Aqueronte. com aparente contraste. que reinava sobre os mortos. quatro universidades norte-americanas. contra o consenso da mãe Ceres (Terra). Plutão. tendo como auxiliares várias divindades menores: Hécate (deusa da feitiçaria). A porta do inferno era guardada por Cérbero. Internet) A grande qualidade de um notebook é que. INFORMÁTICA (ciência da computação. sua irmã e esposa e mãe de Júpiter. na Grécia). que raptavam tudo. representando a derrota definitiva (pois irremediável) de uma existência. Para passarem do mundo dos vivos para o mundo dos mortos. pela compra de livros ou consulta em bibliotecas. a entrada sendo localizada em Cumas. monstro com cabeça enorme e cabeleira de serpentes. Hoje. filho de Saturno (Cronos) e de Cibele. Cocito. Tisífone e Megera. a humanidade dispõe de uma quase infinita quantidade de informação a baixo custo. príncipe da riqueza e das trevas (o sarcasmo dos opostos!). pelo qual as religiões e as ideologias vivem atormentando o ser humano. as Górgonas. conscientes ou inconscientes. A Eneida e A Divina Comédia descem até o fundo do inferno para conhecerem o passado e terem a premonição do futuro. O Tártaro é o senhor impiedoso. lugar de sofrimento. da comunicação eletrônica a longa distância. por mais que se ponha nele. Era o primeiro passo para o surgimento da Net (“rede”). as almas deviam atravessar. quando um programa do Pentágono conectou entre si. região vulcânica perto do golfo de Nápoles. aves com cabeça de mulher. também. sob encomenda do Exército americano. físicos americanos da Bell Telephone. o título do terceiro cântico (os outros são “Purgatório” e “Paraíso”) do famoso poema alegórico de Dante Alighieri. que se tornou o marco da globalização de final de século. Em1949. que não dá trégua a nenhuma vítima caída no abismo eterno. O primeiro modelo de computador (de con + puto = “pensar junto”. permitindo o surgimento de uma nova geração de computadores. A essência íntima do Inferno é a crença em pecados atávicos.176 O mundo infernal era imaginado pelos gregos como situado no interior da Terra: a palavra latina infernus é composta a partir do prefixo infra (“abaixo”). as Harpias. e as boas para os Campos Elíseos. o Sono (Hipnos). um dos cinco rios infernais (os outros eram Estige. que revolucionou a indústria eletrônica. simboliza as profundidades do mundo interior. possibilitou a interligação em circuitos. ocupava uma área de 450 metros quadrados e utilizava mais de 18 mil válvulas. vingadoras dos crimes contra a família ou a sociedade. No ano 2000. lugar de gáudio. por computador. cem vezes menor e sem o aquecimento da antiga válvula. Plutão. para calcular trajetórias de mísseis na II Guerra Mundial. onde o poeta italiano descreve o sofrimento das almas que pecaram neste mundo. No passado. Daí o poeta existencialista francês. via Internet. exclamar na sua peça Entre quatro Paredes: “O Inferno são os outros!”. as três Fúrias ( Erínias). O deus do inferno era Plutão (Hades. Jean-Paul Sartre. em inglês ou na língua dele) ou assistir um jogo de futebol na . melhorando e barateando os equipamentos eletrônicos. o Hospital Sírio-Libanês de São Paulo transmitiu para o mundo a primeira telecirurgia. para ler Platão (em grego antigo. O transistor. Ele julgava as almas que chegavam no Inferno e enviava as más para o Tártaro. Alecto. A rede mundial de computadores nasceu em 1969. forças misteriosas. conhecido pela sigla ENIAC (Calculador e Integrador Numérico Eletrônico). cruel. a Morte (Tánatos). A Divina Comédia. na barca de Caronte. calcular). Plutão raptou e desposou Prosérpina. Além de deus da morte e da destruição. Os protagonistas dos poemas épicos A Odisséia. Atualmente. já no contexto da religião cristã. um habitante da Patagônia. inventaram o transistor.

3) Inteligência naturalista: é o modo de conhecimento que nos permite interagir com o ambiente circunstante. Shakespeare. a inteligência (= alma espírito) é múltipla e qualquer ser humano tem a possibilidade de desenvolver a pluralidade de tipos nela virtualmente existentes. É o milagre da tecnologia. rádio ou cabo. aproveitando as experiências boas ou más. É possuída em alta escala por filósofos e cientistas. uma possível tipologia de inteligência: 1) Inteligência lógica: por ela o homem conhece as relações abstratas que existem entre os objetos. apontando as injustiças que vinham sendo cometidas pelo capitalismo selvagem. que está dando um novo vulto ao séc. 6) Inteligência interpessoal: conquistar a simpatia do público é fundamental para certas categorias profissionais. O exemplo mais luminoso deste tipo de inteligência é a do físico alemão Albert Einstein. Chegar à revelação da origem de um trauma é encontrar sua cura. de uma forma imediata e quase gratuita. Apresentamos. 5) Inteligência intrapessoal: olhar para dentro de si para tentar ver o que existe por trás da consciência. 4) Inteligência social: é o modo de pensar que relaciona o homem com seus semelhantes. Uma obra que fala a respeito disso. de acordo com fatotres genéticos e ambientais. que podem ser medidos por testes de “quociente de inteligência” (QI). apresentando vários graus e estágios de desenvolvimento. Fidel Castro etc. É a inteligência peculiar de poetas e ficcionistas. XXI! INQUISIÇÃO (tribunal religioso. dono de uma inteligência lingüística assombrosa. do psicólogo americano Daniel Goleman. costuma ser distinta do fator emocional. A atividade celebral. o mundo não é criação divina. As modernas “Ciências Sociais” (Sociologia. animal e vegetal. o criador da Teoria da Relatividade. indicando a rapidez da apreensão mental. revolucionou a sociedade moderna. mas fruto de uma constante evolução. identificando flora e fauna e estabelecendo semelhanças e diferenças entre a vida humana. pois é só um músculo bombeador de sangue!). pois sua obra famosa. movida pelo princípio da seleção natural. Maomé). ressaltamos o irlandês James Joyce. a inteligência é a capacidade própria do ser humano de compreender. Quem consegue desenvolver a inteligência interpessoal encontra uma maior facilidade em se relacionar com os outros. válidas para todas as criaturas vivas. estando sujeito às mesmas regras. tradicionalmente. genialidade)Espírito Conhecimento Do latim inter + legere (“ler por dentro”). tornou-se best seller na primeira metade da última década. Hitler. que estabeceu novas e surpreendentes equações entre as categorias do Tempo e do Espaço. embora numa escala diferenciada.177 Inglaterra. A Origem das Espécies. Política. usando uma linguagem sempre renovada pela figura da metáfora. Dante. que se consideraram messias ou . por telefone. especialmente para políticos e artistas. que conseguiram se impor a uma grande massa social: Júlio César. Por essa inteligência. Inteligência Emocional. Mas estudos mais recentes têm demonstrado que a inteligência não é unívoca ou dual (razão e sentimento). Economia. 7) Inteligência transcendental: esta é própria dos grandes líderes religiosos (Moisés. que teria como centro o coração e não a cabeça. É a qualidade dos grandes líderes laicos. Quem alertou para a grande força do inconsciente e do subconsciente individual foi o médico e pesquisador austríaco Sigmund Freud. considerada a nova Bíblia. Antropologia. Mussolini. O ser humano que consegue desenvolver essa modalidade de inteligência acaba se tornando dono de si. entendendo o que eles pensam. O filósofo e economista alemão exaltou a importãncia do trabalho humano como meio de produção. formulando conceitos e idéias. O pai da Psicanálise encontrou na libido a energia que impulsiona a vida ativa e a criatividade humana. Buda. Reforma e Contra-Reforma) Lutero INTELIGÊNCIA (vários tipos. Fernando Pessoa e tantos outros). Entre os vários escritores famosos analisados neste “dicionário cultural” (Homero. sentem e desejam. Aministração de Empresas) tiveram na figura de Karl Marx seu ilustre mentor. a inteligência já foi objeto de múltiplas definições. Estudada especilamente pela Psicologia. Virgílio. Concentrada apenas no cérebro que é o único centro do saber e do sentir (o coração não sente nada. basta apenas estar conectado à rede eletrônica mundial. O ser humano é apenas um elo na cadeia evolutiva do universo. estabelecendo direitos e deveres entre as várias classes sociais. Cristo. a seguir. 2) Inteligência poética: é a capacidade de interpretar o mundo através das palavras. A figura do cientista inglês Charles Darwin sobressai.

faz de uma pessoa um “gênio”. Decodificar melodias e ritmos é o modo mais sublime de conhecer a realidade. o tipo de inteligência de que as pessoas humanas são dotadas varia de um indivíduo para outro. sistematizada por H. “artificial”. 8) Inteligência musical: como Freud é considerado o pai da psicanálise. que surgiu na década de 1950 e continua evoluindo a largos passos. a partir da manipulação de símbolos. Modelar figuras. o canto e a poesia. XX com a genialidade do espanhol Pablo Picasso. visando apresentar um objeto do ponto de vista do artista. Picasso. que transcende a nossa realidade. 10) Inteligência cinética: está centrada sobre a técnica e a arte do movimento. o amor.178 profetas. O cultivo deste tipo de inteligência requer a interação entre o conhecimento intuitivo das leis da física. O renascentista italiano Leonardo da Vinci seria o “gênio dos gênios” pois. apregoam a existeência de um outro mundo. Trata-se de pessoas com uma fortíssima carga interior. Sua reflexão espiritualista sobre a vida e a existência humana . sentindo-se inspirados por uma força superior. A grande revolução aconteceu no início do séc. A História da Arte apresenta a evolução deste tipo de inteligência através dos tempos. que. O computador é um aparelho que reproduz processos complexos e inteligentes. de origem irlandesa. Filho de professor de música. junto com a capacidade de criar com rapidez. Mas foi apenas a partir do tardio Barroco que a Europa tomou consciência da importância da inteligência musical. emocional ou física. pode ser considerado o pai da moderna Música.. É essa inteligência que faz a diferença entre a genialidade de Pelé e os milhares de jogadores de futebol ou entre o russo Barichinicov e os outros bailarinos. pois é o homem que programa o computador para realizar várias operações de “robótica” (visão e atividade motora). assim Wolfgang Amadeus Mozart. a feição pictórica da arte da Vanguarda européia. Suas figuras são retorcidas e fragmentadas. Apenas a habilidade física e o treino corporal não levam à genialidade: o movimento deve ser guiado por um tipo peculiar de inteligência. especialmente pelo cinema. representados em código binário. inventou uma nova forma de pintar. Genética e ambiente contribuíram para a formação da sua genialidade. INTERNET (WEB. Essa inteligência é. que chamamos de “cinética”. bem diferente daquela até então praticada. de “linguagem natural” (interpretação automática de textos) etc. Trata-se de uma máquina “que pensa”. Henri Bergson (1859-1941) foi um dos maiores expoentes da revolta contra as doutrinas materialistas e mecanicistas. que vem produzindo vários filmes di ficcção científica. na dependência de fatores de hereditariedade e do meio ambiente. junto com a dança. E o mais antigo também: os agrupamentos humanos primitivos são os que mais cultivam a música.Bérgson) Pantarrei (“Tudo corre”) (Heráclito) Francês. sendo fundamental para atletas. a justiça e a felicidade não fossem apenas sonhos ou utopias. esportistas e dançarinos. por ter deixando obras estupendas em vários ramos da atividade humana. 11) Inteligência artificial: é a área da ciência da computação ( Informática). como se fosse um ser humano. cores e materiais os mais variados também é uma atividade bem antiga. aos cinco anos já compôs seus primeiros trabalhos. pensador e literato. onde a paz. fundamentada no conceito clássico de harmonia de formas. 9) Inteligência figurativa: outro meio de conhecimento da realidade é através das artes plásticas (Arquitetura. que dominaram a cultura européia na segunda metade do século XIX. foi definido como “o mais completo dos homens”. computador)Informática INTUICIONISMO (doutrina filosófica. utilizando linhas. O autor da Flauta Mágica é o melhor exemplo do que é a inteligência musical. o fundador do Cubismo. simplesmente. o único a quem a natureza reservou o dom do raciocínio. Como podemos ver. que nos faz distinguir os sons e suas combinações. servindo-se desse moderno meio de comunicação. artes que estão entre si estritamente relacionadas. a orientação espacial integrada com a temporal. portanto. pela engenharia de hardwares e softwares (discos duros e moles). enviados pela divindade para salvar a humanidade. com o intuito de representarem sua força interior. A inteligência artificial está sendo utilizada também pelas artes. Escultura e Pintura). também austríaco. que a mente humana pode alcançar numa determinada área de conhecimentos. apresentadas por uma perspectiva múltipla. sendo de uma utilidade incalculável para quase todas as atividades humanas. O mais alto grau de capacidade intelectual.

quer de raça branca: os invasores franceses e holandeses. Da mesma forma. e de outros recursos retóricos próprios da poesia lírica. enquanto o conhecimento através de conceitos apresenta a realidade como algo de estático e imutável. em que encontramos a confluência de dois gêneros literários: o lírico e o épico. após uma luta inglória contra os portugueses da Bahia. portanto. Daí o pensamento bergsoniano ter tido influências decisivas na ficção modernista. Apontamos apenas duas idéias que nos parecem fundamentais no pensamento filosófico de Bergson: o Intuicionismo. encontra na floresta cearense Martim. que tinha . Mas é Bergson a valorizar decisivamente o papel da intuição. A evolução criadora. provenientes da segmentação das frases e da repetição de sintagmas. e 1865. irmão do chefe potiguara Jacaúna. Nesta luta pela colonização do nordeste brasileiro. Ela o leva até a cabana do Pajé. Reflexões sobre a intuição como forma de conhecimento da realidade encontram-se também nas obras de Descartes. a história registra o valor guerreiro de Martim Soares Moreno. Kant. Spinoza. Com um distanciamento de dois séculos e meio (1615. batizado com o nome de Antônio Felipe “Camarão”. época aproximada do episódio histórico. mas ela lhe revela que não poderá amá-lo. é bem antigo na história da filosofia no Ocidente. “a virgem dos lábios de mel”. Iracema é a personagem-título do romance mais famoso de José Alencar. moço de raça branca que perdera de vista o companheiro Poti. quer de raça indígena. filha de Araquém. José de Alencar explora artisticamente os fatos histórico-lendários e cria um romance curto. Já o pré-socrático Heráclito de Éfeso exprimia a consciência da fugacidade das coisas e da relatividade da verdade através da bela imagem do homem que não consegue banhar-se duas vezes nas mesmas águas de um rio. mestre-de-campo do exército português.. Os indígenas Potiguaras (“comedores de camarão”). e do índio Poti. O aspecto épico do romance se relaciona com o assunto: o narrador anuncia que está relatando “uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci”. Matéria e memora. uma energia dinâmica que estimula sua constante evolução no tempo. que visava colonizar a região à foz do rio Jaguaribe. Sua expressão pantarrei (“tudo corre”) se tornou universalmente conhecida. estabeleceram relações de amizade com os portugueses para defender-se de inimigos comuns.179 encontra-se consignada em obras famosas: Ensaio sobre os dados imediatos da consciência. repleta de elementos sonoros. de imagens sugestivas. data da primeira publicação de Iracema). o povo nordestino criou a lenda do português Martim. especialmente a indígena Iracema. Tal lenda se formou no seio do povo nordestino. animal e humano. Bem recebido. Duração e simultaneidade. meio poema épico e meio poema lírico. tivera a clara consciência da distinção entre o raciocínio discursivo (diánoia) e a apreensão intelectual das essências ou idéias (nóesis). Leibniz. A percepção da mudança. Martim se apaixona pela linda Iracema. que se apaixona pela índia Iracema e cultiva um forte sentimento de amizade pelo indígena Poti. A interação entre o pensar e o viver encontra-se sintetizada na famosa expressão de Bérgson: “pense como um homem de ação e aja como um pensador”. Esta história é a lenda de Iracema. a apreensão pela intuição estabelece uma comunicação direta entre o “eu profundo” (que muda continuamente) e a interioridade dinâmica das coisas. ao tempo e ao espaço. O jovem português Martim Soares Moreno participou da expedição do nobre paraibano Pero Coelho. no início do século XVII. A energia espiritual. pela descoberta do psicológico. que opõe o conhecimento direto e imediato da realidade ao pensamento analítico e reflexivo. o lírico se depreende da exaltação da flora e da fauna da terra brasileira e do idealismo sentimental com que são retratadas as personagens principais. As verdades humanas. mas relativos ao sujeito. durante uma caçada. Além do aspecto formal. intimamente ligado à noção de durée (duração). IRACEMA (romance de José de Alencar: o mito indígena da virgem dos lábios de mel) Verdes mares bravios de minha terra natal. o grande chefe da tribo. A fábula romanesca inicia quando a bela tabajara Iracema. que habitavam o litoral nordestino. também chamado de “tempo-emoção”. de comparações entre elementos do mundo vegetal. O pensamento e o movente. A “jurema” era um licor preparado com o suco da fruta da árvore homônima. O rir. além do regionalista e indianista. Segundo ele. movida pelo élan vital. porque consagrou sua virgindade ao deus. de metáforas delicadas. e o élan vital (a energia da vida). O conceito de “intuição”. sendo guardiã do segredo da jurema e do mistério do sono. não têm valores absolutos.. por sua vez. se aliaram aos franceses do Maranhão. a partir de um fato histórico: a luta pela colonização do Ceará e de outras regiões do nordeste brasileiro. índio potiguara. que ajudou os portugueses a expulsar os holandeses. O estilo lírico é evidenciado pela “prosa poética”. conhecedor dos segredos do deus Tupã. seu pai. Platão. especialmente na construção da personagem modelada e no romance de fluxo de consciência. Schelling ( Racionalismo Idealismo). o conceito de duração apresenta a vida como um contínuo fluxo. os Tabajaras (“senhores das aldeias”) que habitavam no interior do Ceará e os Tupinambás (“parentes dos Tupis”) que. Ao redor deste núcleo histórico. primeiro núcleo do futuro Ceará (“canto da jandaia”).

no romance Iracema (como também nas duas outras ficções indianistas de Alencar. Considerada uma bebida divina. sem que Martim o perceba. Mas. seduz o estrangeiro que vem ao Brasil e o induz a aqui ficar. que habitam o litoral cearense e travam amizade com os “guerreiros do fogo”. é a cultura primitiva dos aborígines que predomina sobre a civilização européia. inculto (Uraguai). tomado pelo ciúme e pelo ódio. após quatro anos de ausência. se aflige com a tristeza de Martim. é mais forte do que seu voto religioso e seu afeto à família e à tribo. o maior guerreiro tabajara. a jurema. os estrangeiros de outra raça e de outra religião. que. ainda sente saudade de sua terra e de seus familiares. está em perigo. insinuando que a raça indígena é cultural e humanamente superior à raça branca dominadora. dá início à civilização brasileira. Irapuã e mais de cem índios os atacam e exigem a entrega do moço branco. Iracema prepara muito licor de jurema para os guerreiros tabajaras. Leva-o até o bosque sagrado de Tupã e lhe dá de beber a jurema. portanto. durante a viagem rumo à praia cearense. e não vice-versa. pelos seus encantos. Irapuã (“Mel-Redondo”). grávida. peripécia) Retórica Machado . O romance Iracema é o mais acabado exemplo de literatura “indianista”. antropófago (Caramuru) ou como simples elemento da natureza. enquanto a poesia épica de Santa Rita Durão e de Basílio da Gama considerou o indígena ou como ser de raça inferior. o marco mais peculiar do romantismo brasileiro. beberagem que lhe faz rever em sonho sua pátria natal. como acontece no Caramuru. o índio potiguara Poti vem ao encontro de seu amigo branco. De noite. onde a índia Paraguaçu adota o nome cristão de Catarina e vai casar-se “legalmente” com Diogo na corte do rei da França. Entretanto. sem dúvida. aprendendo a língua e os costumes indígenas. a literatura romântica promove a exaltação do aborígine brasileiro. apesar de ter assimilado língua e costumes indígenas. É Iracema que seduz Martim. Iracema pode ser considerada a personagem símbolo da terra mãe que. fruto do acasalamento da raça portuguesa com a raça indígena evangelizada. O herói lusitano. vivificando os sonhos e tornando realidade os desejos. Aproveitando do sono profundo destes. ela leva Martim até o lugar onde se esconde o amigo Poti. Martim leva num frágil barco o filho e o cão fiel. está em ponto de morte. Na cabana à beira-mar. na terra dos potiguaras. que é de raça branca e amigo da tribo rival. escrito nos alvores do movimento nacionalista. enquanto o fraco Martim se deixa levar pela nostalgia da terra distante. a par do néctar dos deuses da mitologia grega. A paixão amorosa da jovem índia. não resiste ao chamamento da terra de Iracema e. Durante uma festa em honra de Tupã. Não é sem motivo. sua fabricação era um segredo só conhecido pelo Pajé e por sua filha devotada ao culto de Tupã. em contraste com o egoísmo estrangeirista dos portugueses. Durante o caminho. Iracema embebeda o jovem branco com o vinho de Tupã. Enfim. ao redor do túmulo da índia. ameaça chupar o sangue do jovem branco. mesmo sabendo que o amor lhe causará a morte. que. Ela nunca se arrepende da escolha feita e seu amor em momento algum vacila. e com ele tem relação sexual. mas não ousa aproximar-se da cabana de Araquém. ela oferece o seio a cachorrinhos para estimular sua produção e alimentar Moacir. afasta-se cada vez mais de sua cabana. O jovem português sente a alegria da paternidade misturada à dor da viuvez. O guerreiro índio Irapuã. Com efeito. O casal de indígenas defende Martim e o leva de volta à cabana do Pajé. percebendo o amor que está crescendo entre Iracema e Martim. que a elaboração artística e idealizada da lenda de Iracema se tornou a melhor expressão literária do indianismo brasileiro e um marco importante do nosso nacionalismo poético. tendo traído o voto de virgindade feito a Tupã. IRONIA (humor. voltara para Portugal. O índio como tema literário já fora explorado na época do Arcadismo. perdido na floresta dos Tabajaras. A idealização do elemento indígena é. A vida de Martim. assumindo até o nome de Coiatabo (“guerreiro pintado”). Acabando o leite. quando chegam Martim e Poti. Portugal. O Guarani e Ubirajara). Iracema. apenas na companhia de um cão fiel. Aí revela a Martim que é sua esposa e que não pode mais abandoná-lo. Neste sentido. retorna definitivamente ao Ceará e. seus familiares e sua namorada de infância. Iracema e seu irmão Caubi acompanham Martim em sua viagem de volta. Cada vez mais fraca. preferindo a companhia de Poti para a guerra e para a caça. Martim sonha com a chegada de um barco que o possa levar de volta ao seu país natal. tomado pela saudade de sua terra de origem. Iracema sugere que Martim espere seu irmão Caubi chegar da caça para que seja acompanhado em sua viagem de volta à tribo dos potiguaras. exorta os de sua tribo a lutarem contra os índios potiguaras. pois excitava a fantasia e proporcionava alucinações agradáveis. Iracema. cinismo. no romance de Alencar. bem ao estilo romântico.180 um poder narcótico. É Martim que se acultura. dá à luz Moacir (“o nascido do sofrimento”). o personagem-título possui uma personalidade bem mais marcante do que a do protagonista branco. Dias felizes de amor. o capítulo final do romance é bem expressivo: Martim. Enterrada a jovem esposa à sombra de um coqueiro.

para quem a ironia é uma disposição de espírito provocada pela reflexão sobre as contradições da alma humana e do convívio social. pela qual tudo é maldade e sofrimento (postura pessimista). transmitido a Swift e Voltaire. social e moral. citando alguns escritores irônicos: Luciano de Samosata. retor e sofista grego do séc. a teoria luterana da corrupção fundamental do homem pelo pecado original. Na literatura brasileira. A Donzela (poema herói-cômico). inclusive como método didático: a famosa “ironia socrática”. Mais importante do que determinar o motivo dos complexos machadianos. Enfim. Jonathan Swift. o normal e o anormal. Uma breve análise da definição acima revela as seguintes características desta figura de estilo: 1) a atitude física do homem irônico que. a influência da teoria determinista de sua época. ridicularizou as várias seitas do cristianismo e atacou violentamente a vida pública da Inglaterra. Mas pouco importa indagar qual seja o fator ou o conjunto de fatores que subjazem ao pessimismo de Machado de Assis. cheio de mistérios. Evidentemente. é tentar verificar como as suas contradições existenciais se tornaram formas e temas literários. o ficcionista Machado de Assis e o crítico Vianna Moog se limitam a tratar da ironia no plano estético e moral. religiosa. sobre as obras de Machado de Assis. ridicularizando os preconceitos socio-morais. II d. adquirindo um parâmetro de universalidade.C. questionando. escritor irlandês do começo do séc. Na base da ironia machadiana podemos encontrar um pessimismo radical. O ceticismo está fundamentado sobre dois pressupostos basilares: a contradição dos dados do conhecimento e a equivalência das razões contrárias. perante o fracasso dos ideais. a origem primeira das coisas (ceticismo metafísico). Machado de Assis. Voltaire. A crítica externa. derivado da concepção do mundo como dor e maldade. O Homem de Quarenta Escudos (romances). assim define a ironia: “Esse movimento ao canto da boca. pois nos interessa estudar a obra e não o homem. doença neurológica humilhante . o jansenismo pascaliano que nega a liberdade humana. e a conseqüente descrença numa possibilidade de melhoramento (postura cética) se transformam. através de suas conferências e de seus escritos (Diálogos dos Deuses. o licito e o ilícito. Machado de Assis. segundo a qual o homem já nasce com o seu destino traçado por taras hereditárias e lhe é impossível qualquer melhoramento. em duas atitudes . a ironia é uma figura retórica. autor da famosa obra As Viagens de Gulliver. expressa a descrença nos valores ideológicos. contraído por Luciano. a epilepsia. porque. XVIII. com sutileza e humor. a ironia já fora praticada pelos sofistas e pelo filósofo Sócrates.181 “O humor é a quintessência da verdade” (Millôr Fernandes) Do grego eiróneia. o patriarca da cultura francesa do séc.C. “interrogação”. foi considerado “o mestre da ironia”. é colhido pelo desencanto da vida. a distinção do bem e do mal (ceticismo ético). XVIII. inventado por algum grego da decadência. A visão negativista do mundo e do homem. liberal e anticlerical. origem humilde. pelo seu sorriso enigmático. Segundo a tese sustentada por Vianna Moog ( Os heróis da decadência). principalmente. sendo a salvação possível apenas pela predestinação e pela graça divina. referente ao modo de expressar um pensamento. tem apontado vários fatores biopsíquicos e socio-culturais para explicar o motivo do seu pessimismo: o complexo de inferioridade por causa da cor. Lúcio ou O Asno). O Ingênuo. no conto Teoria do Medalhão. feição própria dos céticos e desabusados”. como postura dialética do espírito em busca da verdade. e divulgada no mundo helenizado por Sexto Empírico. o bem e o mal. fazendo perguntas que demonstrem sua ignorância sobre o assunto em discussão. A doutrina cética ensina que é impossível conhecer a verdade (ceticismo gnoseológico). 4) o fundamento filosófico da ironia: o Ceticismo. as regras que regem o comportamento social e os critérios que determinam o certo e o errado. Verdadeiro gênio é quem consegue sublimar em motivos artísticos suas inquietações espirituais. Cândido. Deus (ceticismo religioso). quando o homem.. escola fundada pelo grego Pirrão de Élida no séc. dizendo o contrário do que se pensa. o que melhor cultivo o estilo irônico de escrever ficções foi. 3) a figura de estilo é usada por vários autores. caindo num relativismo que lhe impede de acreditar em qualquer valor absoluto. no Machado da maturidade artística. especialmente pelas suas obras satíricas Zadig e Micromégas (contos). a ironia tem seus principais cultores nas épocas de decadência política. III a. trata-se de “uma ignorância simulada”. 2) o espaço e o tempo das primeiras manifestações da ironia: a Grécia da época da decadência. sem dúvida. Diálogos dos Mortos. a razão e a loucura. o pessimismo filosófico de Schopenhauer. ou uma forma de argumentar pela qual se põe em dúvida alguma afirmação do interlocutor. satirizou os costumes da época.

a essência do cômico reside no desvio da normalidade. onde se instalaram os hebreus nos séc. passou para o poder britânico. Entre eles. pois os acontecimentos tomam um rumo contrário ao esperado. quando está no poder ou com o poder. que se sucederam e. assim definida por Aristóteles: “a peripécia é a súbita mutação dos sucessos. quase sempre. acabando com o Estado da Palestina. como sabemos. XIII a C. Após várias disputas entre povos rivais dos judeus. A ironia. foi dominada pelos mamelucos e. Os atos humanos são dirigidos pelo acaso e. ISLAMISMO (religião muçulmana)Maomé ISRAEL (povo e religião judaica da Palestina) Jerusalém JERUSALÉM (a Cidade Santa de judeus. Machado faz da ironia uma técnica narrativa constante: sua estrutura fabular preferida apresenta a frustração de uma expectativa. Reergueu-se no período bizantino como metrópole da religião católica (Cristo) mas. constituem a expressão artística da ironia do destino: o homem consegue. os descendentes do bíblico patriarca Abraão. perguntada por uma amiga sobre o segredo do sucesso matrimonial. sendo construído em seus muros o Templo de Salomão. deixaram na cidade de Jerusalém. o contrário do que espera. suas marcas. que consiste em dizer o contrário daquilo que se está pensando. se torna cinismo: o tirano esclarecido pode dizer que é o que não é. já capital da Palestina. figura de sentido. voltaram a ter uma pátria. lutando bravamente contra os muçulmanos. estudiosos das religiões e das artes ou simples turistas visitam constantemente a Cidade Santa para admirar o “Muro das Lamentações” (construído na época romana). As três civilizações (judaica.XII e XIII). que é bom o que é mal. proclamada cidade internacional e dividida em duas partes (zona israelense e jordaniana). foi proclamada capital do Estado de Israel. Na medida em que o Cristianismo ia perdendo sua força no Oriente Médio. vários cultores da ironia “cômica”. em 1922. há. Neste sentido. foi ocupada pelos árabes. em 638. Os contrastes fortuitos. responde que basta tratar o marido como se cuida de um cachorro: dar-lhe comida. correspondente. no contrário. aproximadamente. a igreja do “Santo Sepulcro”. se cruzaram. A protagonista. carinho e a liberdade de levantar a perna ao pé da árvore que ele escolher. A ironia. um conteúdo humorístico. Além da ironia “trágica” de cunho machadiano. em 15 de maio de 1948. a Cidade e o Templo foram destruídos por Nabucodonosor e reconstruídos sob o império persa. pelo império otomano. várias vezes. além de humorista. Sua peça mais significativa se intitula É. apoiados numa resolução da Assembléia Geral da ONU do ano anterior. a cidade santa voltou a ser cristã. cristãos e muçulmanos)Cruzadas Etimologicamente. portanto. Finalmente. reunificada. e esta inversão deve produzir-se de modo verossímil e necessário”. De 1260 a 1517. passado o primeiro milênio. construído em 1965 . que destinava aos judeus um território de 12 mil quilômetros quadrados ao redor de Jerusalém. encenada pela primeira vez em 1977. Mas as sangrentas lutas entre judeus e muçulmanos não pararam: rechaçando o ataque árabe na Guerra dos Seis Dias (de 5 a 10 de junho de 1967).C. à atual Palestina. Na época das Cruzadas (séc. A Cidade Santa é a fonte perene de inspiração para . que governou em Jerusalém até 1917. tornando-se cidade santa do Islamismo (Maomé). é inútil qualquer programa de vida ou o recurso a qualquer tipo de adivinhação porque o destino é indevassável e imutável. que existe o que não existe. A esta forma irônica está ligado. após dois milênios de diáspora a que os castigou o Império Romano. sobressai o escritor carioca Millôr Fernandes que. característicos do enredo machadiano. cristã e muçulmana).182 estéticas: a forma irônica e o conteúdo humorístico. Jerusalém. Jerusalém significa “fundamento de Shalem”. uma divindade originária da terra de Canaã. VI. os chamados “humoristas”.. Durante o reinado de Davi (Bíblia). cada qual. na Literatura Brasileira. é também jornalista e dramaturgo. a “Cúpula do Rochedo” (o monumento islâmico mais antigo) e outras igrejas e mesquitas. Historiadores. Jerusalém foi arrasada pelo império romano. a ironia machadiana se aproxima do conceito de peripécia. onde trata do relacionamento conjugal. é um “metassemema” (Retórica). por mais duas vezes. os judeus anexaram outros territórios e Jerusalém. porque. em 1980. em seguida. Ao longo do séc. como figura de estilo. além do Museu Nacional de Israel. indissoluvelmente. Jerusalém se tornou a capital do reino de Judá. em 70 d. na atualidade. surpreendendo continuamente as conjeturas do leitor. as comunidades judaicas começaram a retornar para Jerusalém. figura peculiar da narrativa dramática.

Narram seus biógrafos que. Aos 17 anos. no fim do século XI. no vol. ela seria também uma precursora do Protestantismo. Sua imagem foi reabilitada e inocentada. Carlos VII foi consagrado Rei da França em Reims. quando a França estava desmembrada. sitiada pelos ingleses. põe ênfase no drama do “erro judiciário”. O escritor irlandês George Bernard Shaw (Saint Joan. conseguiu autorização para viajar e encontrar-se com o rei Carlos VII. Nas duas películas aflora a vida interior da santa-heroína. passando a chefiar o último exército francês.000 escudos. JESUS (o Filho de Deus encarnado) Cristo JOANA d’Arc (o mito da Donzela de Orléans. em Rouen. foi submetida a um longo processo. Mas a grande popularidade da figura de Joana d’ Arc deve-se. O poeta alemão Schiller faz de A Donzela de Orléans (1800) uma tragédia romântica. já na época do Barroco italiano. dá um espaço enorme à libertadora de Orléans. mas foi ferida em Paris. O poeta. a menina ouviu “vozes divinas” que lhe ordenaram de salvar Orléans. de constituição doentia e de sensibilidade melancólica. Ele demonstra que todas as acusações contra Joana d’ Arc eram infundadas e ela foi vítima de juízes inescrupulosos. vem sendo continuamente lembrada no imaginário popular a partir de fatos históricos. Outro grande estudioso da heroína francesa é Jules Quicherat que. tendo como pano de fundo a cidade de Jerusalém com sua problemática étnica e religiosa. nos cinco volumes dos Processos (18411849). Joana obteve outras vitórias. dramaturgos e músicos. Convenceu o soberano da sua missão divina e vestiu uma armadura com o estandarte “Jhesus Maria”. sendo queimada viva na praça do mercado. ao longo da história da França. A luta para a libertação total da França continuou. ela é uma vítima da luta pela afirmação do juízo individual contra o magistério e o julgamento absolutista da Igreja de Roma. que estava escondido em Reims. condensada nos últimos dois anos de sua vida. à arte cinematográfica. filha devota de camponeses. entre os quais destacamos A Paixão de Joana d’ Arc (1928). Ela inspirou cerca de vinte filmes. enfraquecida por lutas internas e contra a Inglaterra invasora. Mas quem valoriza de uma forma definitiva a imagem da heroína francesa é o grande historiador Michelet que. exprime artisticamente o contraste entre a força da paixão amorosa e o medo do pecado. Após várias insistências. a festa é muito diferente do que era aos 20. em 30 de maio de 1431. em 1853. aos 50. terminada em 1575. começa sua aventura de guerreira e de mártir. sendo santificada em 1920. Esta obra. sem dúvida. 1923) apresenta uma tese nova e muito interessante: Joana d’ Arc. JORGE Amado (o folclore da Bahia) Para mim. da “salvadora da pátria”. Aos 82 anos. como outras personagens que se tornaram lendárias. uma obra-prima do cinema mudo. Derrotou as tropas anglo-borgonhesas e adentrou a cidade de Orléans. Devido ao sucesso da história da heroína. desfigura a personagem para atacar a Igreja Católica de uma forma libertina. o tomo é reeditado separadamente com o título Jeanne d’ Arc. Prenunciando a vinda de Lutero. Com exceção do irreverente Voltaire que. todos os que se servem do tema exaltam a figura extraordinária da jovem francesa.183 poetas e artistas. Trata-se de um poema épico-cavaleiresco. Mas a guerra entre cristãos e muçulmanos é apenas um pretexto para o poeta cantar os amores aventurosos das duplas Rinaldo-Armida e Tancredi-Clorinda. O mito da “virgem guerreira”. 2) a liberdade de pensamento (o direito de sentir “as vozes” dentro de si). 3) a renovação da Paixão de Cristo: o sacrifício de Joana para libertar a França é comparado ao sofrimento de Jesus para redimir a humanidade. na região da Lorraine. envolta numa auréola de misticismo. de Robert Bresson. aos 13 anos. além de ser uma apóstola do Nacionalismo. no mesmo ano de 1429. que tem como fundo histórico a primeira cruzada dos cristãos para a libertação da Cidade Santa do domínio dos infiéis. heroína da França) A figura da jovem francesa Joana d’Arc (1412-1431). da “vítima inocente” passa a povoar o imaginário artístico de poetas. Nasceu em Domrêmy. espelha o clima austero da Contra-Reforma. de Carl Dreyer. mesmo aos 60: . na sua Pucelle d’ Orléans. V da sua Histoire de France. acusada de heresia (por vestir roupas masculinas!) e condenada pelo Tribunal da Inquisição. Nele Michelet aponta os principais temas que envolvem sua figura: 1) o amor à pátria. e Procès de Jeanne d’ Arc (1962). o sexo sempre foi uma festa. Capturada e vendida aos ingleses por 10. Lembramos apenas a Jerusalém Libertada do poeta italiano Torquato Tasso.

Leopold. está calcado sobre A Odisséia. Sua obra mais famosa. perplexidades religiosas oscilantes entre o helenismo e o hebraísmo (Jerusalém). atriz de cabaré. através da técnica da corrente do pensamento e das associações de sensações. pondo seu veio poético a serviço da descrição do pitoresco. embora opostas. de Homero. onde se descreve a viagem de Telêmaco a Pilos e a Esparta.184 é uma festa que é feita da experiência. Seu protagonista é Leopold Bloom. As oito da manhã. economia. toda a última parte é composta de um único período. III . pronta a se entregar ao primeiro amante que aparecer. O Ulisses está dividido em três partes. consciência moral. com Érico Veríssimo. na cidade de Dublin. A protagonista desta última parte é Molly que. e o simbolismo épico. fazendo concessões à censura e ao público e tornando-se. do típico. que nos releva o encavalgamento. para expressar o fluxo ininterrupto da consciência da personagem. do sensual. ligado ao Partido Comunista Brasileiro. Pelas três da madrugada. publicada em 1922. Dona Flor e seus dois maridos ( 1966). o almoço (episódio dos Lestrigões. sem nenhuma pontuação e com inúmeras extravagâncias morfológicas e sintáticas. que reduz seus personagens ao absurdo do heróico-burlesco. inconscientemente. O volumoso romance. Leopold se levanta da cama e. de Homero: o enterro do amigo Dignam (descida de Ulisses ao HadesInferno). do refinamento. as frustrações. tendo abandonado a família na miséria. II . povo antropófago). ciências naturais e médicas. do sentimental. demonstra um traço autobiográfico presente nas melhores personagens por ele criadas. adulterando a linguagem e inovando as técnicas formais da prosa de ficção. literatura e artes plásticas. pois de sua obra beberam todos os romancistas que tentaram afastar-se da narrativa tradicional. a esposa fiel por antonomásia. é descrita como uma mulher lasciva. na tentativa de representar a fragmentação espiritual do mundo em que vivemos.É a parte mais longa do romance e tem como paralelo mítico as viagens do herói homérico Ulisses. O cavaleiro da esperança e O mundo da paz. Na obra de Joyce devemos ressaltar duas tendências que. mais traduzido. Mas. fazia propaganda política e lia a literatura proletária da União Soviética. com seus arquétipos . se combinam: a atmosfera naturalista. criada pela descrição das minúcias da vida cotidiana. que universaliza e eterniza ações e sentimentos. no seu espírito. Ulisses. Frutos dessa adesão são os romances comprometidos com a ideologia marxista Os subterrâneos da liberdade. tomando como título o nome latino do protagonista da obra de Homero (“Odisseu”. sociologia. Desta segunda fase destacamos: Gabriela. visita ao bordel (episódio de Circe) etc. de dimensões míticas. psicologia do subconsciente. mais televisionado e mais cinematografado. As cenas que se sucedem tem correspondências com episódios de A Odisséia. numa ordem cronológica. Este brevíssimo resumo da fábula do Ulisses de Joyce nos fornece apenas uma pálida idéia da estrutura da obra. Os fatos não são apresentados de uma forma linear. o romancista mais lido. Assim. Os estudiosos da biografia do romancista baiano Jorge Amado (1912-2001) costumam distinguir uma primeira fase em que. os desejos. é uma espécie de epopéia do homem moderno (gênero épico). Tieta do Agreste (1977). citado na epígrafe. O protagonista desta primeira parte é Stephen Dedalus. acordando. de idéias. apresenta a mistura do mundo mítico. que deveria ser a correspondente atual da mítica Penélope. em grego e Ulisses. procurando saber notícias sobre o retorno do pai Ulisses. jornalismo. separadas por algarismos romanos: I . A narrativa de Joyce. do regional. presentes e futuras. sensível aos chamamentos do sexo. mas sofrendo inicialmente ostracismo na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. que é extremamente complexa. visto que seu progenitor natural vive bêbado. a protagonista Molly. volta para sua casa e encontra sua mulher dormindo. após realizar as ações corriqueiras (toma café. sentimentos e sensações passadas. portanto. em latim). o escritor baiano se acomoda à nova realidade política brasileira.). JOYCE (a Epopéia moderna. as obsessões dos personagens. busca um pai de verdade. política. e descreve o que acontece a Leopold Bloom num dia comum (16 de junho de 1904). mas misturados com as lembranças. análise de Ulisses)Odisséia O irlandês James Joyce (1882-1941) é considerado o pai da ficção modernista. capital da Irlanda do Sul. bem cedo. vai ao banheiro etc. cravo e canela (1958). Seu pensamento sobre a prática da sexualidade. colocando perante nossos olhos todas as áreas do conhecimento humano: reflexões filosóficas. remói toda sua vida passada num longo monólogo interior.Corresponde à “Telemaquia” de A Odisséia. Por exemplo. publicidade. um professor de história que. Desta concordantia oppositorum surge o aspecto irônico da obra. sai de casa para enfrentar a vida agitada da metrópole. junto com Stephen (símbolo do encontro entre o pai e o filho).Corresponde ao retorno de Ulisses a Ítaca e o reencontro com sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco. agente publicitário casado com Molly.

a criação de novos termos. desconexo e fragmentário. ninfas e mulheres mortais. Mas. autoritarismo. o mito de Júpiter exprime o arquétipo do chefe da família patriarcal. partilhou o domínio do mundo com os dois irmãos: reservou para si o reino do céu e da terra. O abuso do poder pode criar uma neurose. denominando "complexo de Júpiter" à tendência do subconsciente ao autoritarismo. correspondente à romana Juno. Preterida pelo julgamento do jovem Páris. Nessa vertente da narrativa modernista. que o consideraram uma obra obscura e obscena. quer reestruture fábulas e personagens. Joyce. irmã e esposa de Júpiter. JUDAÍSMO (religião hebraica. de qualquer chefe. S. do professor. que acaba esmagando os . em que o homem é solicitado pelas baixas exigências do viver individual e social. que escondia os filhos no seio da Terra. além de ser o símbolo do princípio feminino. o que salienta o caráter repetitivo dos mitos: como Saturno. sendo inumerável sua descendência. escapou de ser devorado pelo pai Saturno e. o romance teve o merecido sucesso e foi traduzido para as principais línguas da Europa. com o cetro na mão (símbolo do poder) e o pavão (símbolo da beleza).185 ideológicos.T. quando publicado em Paris. do pai. não há ficcionista da Vanguarda que não acuse influências joycianas. assim Júpiter casou-se com a irmã Juno (Era). Representada como mulher jovem e bonita. violência) Zeus-Júpiter é a maior divindade do mundo greco-romano. em grego: complexo de Júpiter. era a rainha do Olimpo. A raiz de seu nome latino “Juno” está ligada a palavras que indicam a força vital. majestoso. as orações paratáticas. Mas. O romance Ulisses. barbudo. e do mundo da realidade cotidiana. quer inove a linguagem romanesca. Hera está sempre contra os troianos e a favor dos gregos. Joyce fez escola: Virgínia Woolf pode ser considerada sua melhor aluna. a narrativa de introspecção psicológica foi cultivada por vários escritores modernistas e atuais. é expresso poeticamente mediante a deformação lingüística. . era celebrada como deusa da fecundidade e da fidelidade matrimonial. com o auxílio dos tios Ciclopes e Hecatônquiros e dos irmãos Netuno e Plutão. o cetro (símbolo do poder) e a águia (símbolo da longividência). como "jovem". lutou por dez anos contra o pai e os outros Titãs (Mitologia). deixando para Netuno o domínio do mar e para Plutão o domínio do Inferno. perseguia todas as amantes do marido e os filhos que nasciam dos relacionamentos ilegítimos. passou a ser considerado o grande inovador da prosa de ficção e sua técnica narrativa passou a fazer escola. O fluxo da consciência. Rabugenta e ciumenta. com começo. JÚPITER (Zeus. foram atribuídas a Zeus várias relações extraconjugais com deusas. rei de Tróia. a divindade grega Hera. Seus atributos principais foram a onipotência e a previdência. pela crítica elogiosa de Stuart Gilbert. Em verdade. Como releva o crítico E. mas é criadora de novas realidades. que julgara Vênus como a deusa mais bonita. T. de Autran Dourado. JUNG (psiquiatra suíço: “os arquétipos” e o inconsciente coletivo)Freud JUNO (divindade latina. Moisés)Abraão JerusalémBíblia. No Brasil. encontrou sérias resistências nos ambientes puritanos da época. ajudado pela mãe Cibele. O romance não tem mais por objeto de representação uma história linear. filho de Príamo. considerado por Homero o pai dos deuses e dos homens. enfim.Rosenthal. que tem como emblema o raio (símbolo do domínio sobre as forças atmosféricas e de sua força vingativa). mas é a transfiguração artística das associações de idéias e de sentimentos que invadem o espírito dos personagens. assim Júpiter. então. auxiliado pela mãe Terra. de Cornélio Pena. Conseguindo a vitória. de Lúcio Cardoso. “as novas criações lingüísticas agem de maneira direta. a aglutinação de palavras e de frases. A comédia greco-romana apresenta Júpiter como o protótipo do conquistador incorrigível. e o estado de consciência a ser projetado traduz-se em uma nova sintaxe e em composições vocabulares ousadas”. Lembramos o romance intimista de Otávio de faria. Mas a técnica do monólogo interior para expressar a corrente do pensamento é usada de uma forma exemplar por Clarice Lispector. A iconografia o representa como homem maduro. Como Saturno desposou a irmã Cibele. "juventude". A “história” mítica de Júpiter é muito semelhante à de seu pai Saturno ( Cronos). em 1922. Eliot e Edwin Muir. que pode se encontrar na figura do governante. meio e fim. pois utiliza signos sem referentes extratextuais. Em Psicologia . pelo mecenatismo de uma amiga do escritor. anos depois. além deste matrimônio "legítimo". derrotou seu pai Céu (Urano). correspondente à grega Hera) Filha de Saturno e de Cibele. a consciência lingüística impõe-se decididamente no processo da formação da obra. a linguagem não é mais considerada apenas um meio para a representação do real.

a história e a arte estão repletos de “vinganças selvagens”: Medéia vinga-se da traição do marido Jasão matando os dois filhos. que se dá quando o acerto de contas é feito diretamente pelas mãos do ofendido. diferente da vingança selvagem. JUSTIÇA (A Diké grega e a Iustitia latina: a vingança civilizada) “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”. para ser ouvido por todos). A feição recente do mito de Júpiter é o bullyng. Na entrada da Suprema Corte da capital norteamericana. famílias desarticuladas). uma raça canina muito feroz. após a queda do Fascismo. o protagonista da peça Otelo. intrínseco nas relações interpessoais. com a espada descansando sobre suas pernas. reagindo de uma forma imprevista e violenta ao extremo. através de brincadeiras de mau gosto. de olhos vendados. ela ativa o núcleo caudado do cérebro. filha de Júpiter (o “Poder”) e de Themis (a “prudência”). responsável por uma satisfação igual à da recompensa. Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci. sem recurso aos tribunais. O mito de Júpiter está muito mais presente na nossa sociedade do que possa aparecer ao nível superficial. ela segura a balança com as duas mãos. pois. na frente do Supremo Tribunal Federal. significando a imparcialidade nos julgamentos. como a moderna ciência explica. O rótulo caracteriza garotos musculosos e violentos que. estimulando apenas a competição. como na selva. qualquer autoritarismo. a Justiça é representada por uma estátua colossal. simboliza também o cortar justo no meio as razões apresentadas pelos dois lados. Já os romanos representavam a deusa Justitia com os olhos vendados. majestosa. divindade alegórica.186 sonhos individuais. Evidentemente. sacrifica sua esposa Desdêmona. tentando fazer o que elas não querem. A vingança. o sentimento subconsciente da reparação de um dano feito ao indivíduo ou à sociedade. assediam mocinhas em boates. O mito da Justiça foi inventado para explicar o arquétipo da “vingança”. foram mortos e pendurados numa praça de Milão. que tentaram dar uma forma plástica a sua ideologia. A justiça não de deixa de ser uma “vingança civilizada”. Comportamento semelhante ao bullyng americano é o dos pitboys cariocas. a lei do mais forte vigora em qualquer lugar onde. Sem a espada. O termo se formou pela mistura de boy com a palavra pitbull. um tipo de comportamento cruel e ameaçador. colocada no alto da escadaria. O “bullyng” é uma forma de intimidação muito usada entre os traficantes de drogas e os marginais. Infelizmente. bairros. especialmente depois de beber. cansada de apanhar. isso acontece não apenas no Rio de Janeiro e em barzinhos. . vestida solenemente. suspeita de adultério. segurando na mão esquerda uma balança e na direita uma espada. pois é lá que se encontra o justo (ison=isonomia). A figura feminina está sentada. indicando claramente que a Justiça verdadeira só existe lá no Céu. observa o equilíbrio entre os dois pratos. irmã da “Verdade”. não se é educado a respeitar o direito e a vontade do semelhante. talvez para não enxergar as mazelas dos Três Poderes. Em Brasília. A força está na palavra: jurisdição significa jus dicere (“dizer o direito”) e lex (“a lei”) tem como étimo o verbo legere (“ler” em voz alta. casernas. além de indicar a força. isolada. A prepotência dos homens mais sarados está presente em quase todos os agrupamentos sociais (escolas. A estatuária grega representa a Justiça como uma mulher majestosa. uma pintura do séc. O mito. Na visão medieval. sempre em pé. em geral. o carrasco Slobodan Milosevic. representada como uma mulher nua. legal ou particular. segurando na mão direita a Constituição de 1787. não deixa de ser um sentimento prazeroso. beirando a loucura. de porte majestoso. sendo julgado e condenado pelo Tribunal Internacional de Haia. pode-se contemplar a escultura de Alfredo Ceschiatti: o Poder Judiciário é representado por uma mulher pequena. a exploração. sem a balança. pode acabar se revoltando. a espada. Diké era a deusa dos julgamentos. a Justiça recebeu várias configurações por escultores e pintores. sofreu uma “vingança civilizada”. Já o Presidente da antiga Iugoslávia. mas a vítima. em que os mais fortes convertem os mais frágeis em objetos de diversão. de Shakespeare. como sinal de firmeza. Na Política e na Sociologia. estabelece relações desumanas. De olhos bem abertos. de esquerda ou de direta. (Martin Luther King) Para os gregos. XIII retrata a Justiça ao lado da Prudência conversando nas nuvens. Ao longo dos tempos. Como disse Napoleão. o lucro. “a maior parte daqueles que não querem ser oprimidos quer ser opressora”.

começou a dedicar-se à prática da arte da palavra. pior sem ela”! KAFKA (análise de O Processo. encenadas com a ajuda de suas irmãs. sem invadir o espaço alheio e ganhando com base no seu mérito. Suas atividades profissionais serviram-lhe como experiência preciosa para coletar o material necessário à sua ficção: o ano de estágio nos Tribunais de Praga (1906). O castelo e A metamorfose. quer por ser alemão. Enfim. Os grandes criminosos. 4) a cultura tcheca da maioria no meio no qual Kafka viveu. quer por ser judeu. na realidade. foi Montesquieu. austero e autoritário. Mas Kafka sempre se manteve alheio à vida política e social. 2) a cultura cristã da Tchecoslováquia em que viveu. mas profundas amizades: Oscar Pollak. Um médico rural. fazendo o que lhe compete. ela é igual para todos? Não é mais um mito cultivado por agrupamentos civilizados? A verdade é que seu rigor só é aplicado aos pobres e aos indefesos. Essa justiça natural está descrita de uma forma bem simples na peça O Círculo de Giz Caucasiano. sendo seu biógrafo. A condenação. colocou Kafka em contato com os meandros da prática forense. que herdou do ambiente familiar. Como diziam os antigos romanos: atque custodem quis custodiat? (“e quem toma conta do guarda?”). Eu quero dizer. Da Justiça podemos dizer o mesmo que se costuma falar sobre a Democracia: “ruim com ela. Um artista da fome. Flaubert e Thomas Mann. aproveitando das brechas que se encontram nas leis e da morosidade da máquina burocrática da justiça. a tuberculose que o acompanhou da primeira hemoptise (1917) até a . sem nenhuma paixão. Além da Bíblia. eles contratam os melhores advogados que. compondo pequenas peças teatrais. As investigações de um cão. que está na base da maioria dos atuais governos constitucionais. e então não cora”. de Bertolt Brecht: “Vocês que conhecem a história do círculo de giz. lembrem-se da opinião dos antigos. fez poucas. tem que ser justa pois. o emprego em duas companhias de seguros pôs nosso autor em relação com a máquina burocrática. não vê se é vista. Machado de Assis é mais explícito: “é claro que a justiça. assinalamos. Cada qual no seu lugar. desprezado pela minoria alemã por ser judeu e malvisto pela maioria dos praguenses. as crianças às pessoas mais maternais para crescer e florescer. Entre as numerosas obras ficcionais de Franz Kafka. comerciante abastado. descrita artisticamente em O Castelo. até a prescrição do crime. existe corrupção na própria Justiça. Qualquer coisa. procrastinam a condenação ad infinitum. que codificou o direito natural das coisas na sua obra Do Espírito das Leis (1748). suas obras-primas. publicadas postumamente e contra sua vontade. referente do romance O Processo. Dickens. existe justiça ou. como dizia Martin Luther King. suas leituras preferidas foram as obras de Goethe. e Max Brod. O grande problema humano de Kafka foi o sentimento de solidão espiritual. provocado por uma série de fatores: a rígida educação familiar. além do emaranhado absurdo do sistema judiciário e da incompetência de seus membros. 3) a cultura alemã de uma minoria dos habitantes de Praga. Executivo e Judiciário. “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo o lugar”. o precursor da Revolução Francesa. desenvolvendo a teoria da separação dos poderes Legislativo. que o acompanhou ao longo de sua vida. Na Universidade Alemã de Praga.187 Na cultura ocidental. A construção da Muralha da China. dificilmente pagam pelos seus delitos. onde estudou química. complemento obrigatório de sua formatura em Direito. Tendo o poder econômico. os sanguessugas da sociedade. na expressão do escritor contemporâneo Norberto Bobbio: “ quem controla os controladores?”. Desde a primeira juventude. América. ou. a fraca constituição física. Dostoievski. se existir. Balzac. que apoiavam os interesses do império austro-húngaro. especialmente os que assaltam o erário público. Sua formação humana e intelectual deve-se relacionar com a encruzilhada de várias culturas diferentes e conflitantes: 1) a cultura judaica. Na colônia penal. O Castelo)Fantástico Tema recorrente: “o desespero do homem ante o absurdo da existência” Franz Kafka nasceu em Praga em 1883. sendo cega. além de O processo. Mas que vai se fazer: como os outros humanos. as carruagens aos bons condutores para que a viagem seja boa. refugiando-se no mundo fantástico da Literatura. Mas será que. filho de um judeu alemão. antes de ser boa. também os juizes estão sujeitos às limitações da nossa espécie. Sem dizer que. de que a cidade dependia politicamente. testamentário e editor. por poucos dias. e direito. às quais daremos destaque. e o vale aos que vão irrigá-lo para que a colheita seja abundante”. que morreu jovem. o jovem Kafka sentia-se estrangeiro na sua própria cidade natal. As coisas devem ser entregues a quem melhor as serve. A Justiça não pode ser substituída pela caridade. Metamorfose.

Leva-o ao advogado Huld. o autor conta-nos a história ficcional do último ano de vida do personagem Joseph K. A grandeza da obra literária de Kafka reside em ter conferido dimensões universais ao seu sentimento de angústia. ele encontrou dois aliados: a literatura e o relacionamento sexual. provisória. a entrar em contato com Tintorelli. sempre de cama.“Mas eu não sou culpado. Após um disfarçado interesse pela arte do pintor. sob a fiança da influência de amigos dos juízes. mas não há sessão naquele dia. pretende travar amizade e se relacionar afetivamente com a senhorita Bürstner. tentando demonstrar o absurdo de sua detenção e a corrupção dos funcionários da justiça. Na manhã em que completa trinta anos de idade. de nome Montag. recebe a visita do tio Karl que. um jovem estudante de direito mantém relação sexual com a lavadeira do prédio. mas não deixa de atender os dois no seu quarto. a par do processo que o procurador está sofrendo. Encarregado pelo diretor do banco de acompanhar um cliente italiano numa visita à cidade. Um industrial. O mundo fantástico da criação literária e a paixão amorosa nutrida por várias mulheres ao longo de sua vida. de noite. volta ao tribunal.. religiosos e políticos em que vivera. solicita a intervenção da senhora Grubach. mas logo percebe que a acusação é séria. vai ao primeiro interrogatório: o tribunal está situado num prédio afastado do centro. K. O ambiente é tão fétido que Joseph desmaia. cliente do banco. marca um encontro na . provocado pelo absurdo do viver social. então. K. se negam a comunicar-lhe o motivo da detenção. a qual pode perder seu efeito de uma hora para outra e o acusado ser preso pela segunda vez e irremediavelmente. que o leva ao andar superior. ainda não obteve nenhum resultado. foram os dois refúgios que atenuaram seu sofrimento físico e espiritual. despede-se de seu advogado e nunca mais volta a procurá-lo. Foi um erro. temeroso de perder o emprego. que ninguém nunca conseguiu. ora superficial ora profundamente. é obrigada a ser amante de estudantes. lhe faz longos discursos sobre a máquina burocrática do tribunal mas. K. mas é isso que os culpados dizem” Pela voz de um narrador onisciente. Nesse estranho edifício. meio habitado por funcionários. pois ainda está aguardando o momento oportuno para redigir a petição inicial. Para lutar contra este sentimento de solidão. K. Avisado pelo telefone. dona da pensão.. desanimado com o andamento de seu processo. mas esta também não pode explicar-lhe nada. nunca está em condições de informá-lo. pensa tratar-se de uma brincadeira. Joseph assiste ao açoitamento dos dois funcionários. o protagonista do romance é visitado no seu quarto de pensão por dois indivíduos que lhe comunicam que está preso. por ser bonita. habitado pela senhorita Bürstner. apesar de ter contratado mais cinco advogados e de ter abandonado seus negócios para se dedicar integralmente ao seu processo. que se dizem subordinados a uma autoridade superior.. tendo sabido do processo.188 morte (1924). onde ficam as secretarias do tribunal. que o confunde com um pintor de paredes. após uma longa discussão. Enquanto K. este. um pintor a serviço dos juízes do tribunal. Os homens. denunciados por ele no tribunal por lhe roubarem suas roupas no dia da prisão. Este está doente. No Banco. passados cinco anos. outro cliente do doutor Huld e amante de Leni que. a aparente. enquanto K. se torna amante da empregada do advogado. Numa tarde. conhece o porteiro. Enquanto o tio conversa com o doutor Huld. o ambiente de conflitos raciais. K. K. que pode responder ao inquérito instaurado contra ele em liberdade. pronuncia um longo discurso. pede informações sobre seu processo que corre na justiça.. Na pensão. vai pela última vez à residência do advogado para dispensar seus serviços. oferece ao sobrinho sua ajuda.” . que lhe dá a chave da casa para ele voltar à hora que quisesse. Passamos à análise das suas três obras mais importantes: I -Resumo do enredo do romance : O Processo . Joseph se apresenta ao juiz de instrução. Lá. aconselha K. Num primeiro momento. numa manhã de domingo. Chega o estudante Bertold e exige que a mulher fique com ele. K. Trava um longo diálogo com a lavadeira. com seu advogado. que lhe diz ser a esposa do porteiro e. onde exerce a função de procurador. e lhe deixa ver os livros que estão na mesa do juiz: romances e ilustrações pornográficas. Os agentes instalam-se no quarto contíguo. Este vive num miserável cubículo. Mas esta passa a morar com uma jovem alemã. Durante os sucessivos encontros de K. No domingo seguinte. encontra o comerciante Block. Comunicam-lhe. Sua única obrigação é a de apresentar-se aos interrogatórios que se realizarão no tribunal de Justiça. O pintor está disposto a ajudá-lo e lhe explica que existem três possibilidades de absolvição: a real. numa sala de sessões superlotada. na sala. continuando sua vida normal de empregado bancário. K. Ela se oferece também a K. e evita a presença de K. com a complacência do marido. Inutilmente tenta evitar que o castigo seja consumado. a jovem Leni. K. e a prorrogação ilimitada. que mantém indefinidamente o processo em sua fase inicial e obriga constantemente o indiciado a estar em contato com os juízes para captar sua benevolência. quanto ao seu processo. K.“Correto. onde reina um calor insuportável. se levanta da cama e se veste. um íntimo sentimento de culpa. de juízes e de outros moradores do prédio.

Aí. O drama de Joseph K. seus subalternos. margeando as raias do absurdo. portanto. é um reflexo da próxima dissolução do corpo. sua indiferença à família. surpreendentemente. Parece que a beleza que se estampa no rosto dos acusados deste misterioso tribunal. a malcriação impudica das meninas e as telas horríveis. apenas como um meio efêmero e casual de conseguir a derradeira participação do indivíduo no grupo social. Joseph K. Na pensão. Passado um ano do início do processo. O homem é condenado a errar no deserto do mundo. o “dano” sofrido por uma personagem é sempre conseqüência de uma “transgressão” a uma interdição ou a uma ordem. na sua generalidade. à hora marcada. que é um pouco o drama de todo o homem lúcido. sem amigos. a senhorita Bürstner. O grande escritor tcheco constrói seu mundo artístico como um heterocosmo estranho. O importante é ater-se aos elementos fornecidos pela própria obra de arte. de noite. Sentido da obra Falar do sentido de uma obra de Kafka é quase um não-sentido. a janela que dá para a pedreira se fecha e ele é morto “como um cão”. toma conhecimento da existência de empregados do banco. Mas seu esforço é inútil. Mas esta simpatia se relaciona não com a pessoa de K. por ser quase nula a possibilidade de defesa. dois agentes do tribunal de justiça. não é evidenciada a culpa pela qual o protagonista é punido. sacam de um facão de açougueiro e o matam. contra a Justiça. a jovem Bürstner vira-lhe as costas. A relação sexual praticada por ela deve ser entendida. O mundo da justiça se apresenta a ele como um labirinto sem saída e cheio de segredos indevassáveis. não se integrando ao meio e não pertencendo a ninguém. pois o tribunal inferior já considera sua culpa provada. Todavia. a chave para a explicação de O processo reside em determinar qual é a culpa de que é acusado o protagonista. fechado à compreensão do leitor. porque é incapaz de compreender a existência e de se adaptar aos absurdos do viver social. dobram sua cabeça numa pedra. reside na consciência de que não pode viver só e não consegue . impedem que se integre no mundo em que vive.. O ser humano sente-se um estrangeiro no seu próprio habitat. O pecado capital do herói kafkiano é a exclusão do paraíso. a bela Leni. que esperam horas para serem atendidos. A única personagem que demonstra nutrir verdadeira afeição pelo protagonista é a doméstica do advogado. o colega do banco está à espreita de sua desgraça para tomar-lhe o lugar. Sua profissão de procurador de um banco é exercida de uma forma metódica sem envolvimento afetivo com os colegas ou com os clientes. não quer ou não consegue integrar-se no consórcio social. sente a necessidade da ajuda de um advogado e se relaciona sexualmente com a jovem Leni. o pintor Tintorelli. A necessidade fisiológica da relação sexual é praticada de um modo quase mecânico: uma vez por semana.189 catedral. “os outros” começam a existir para ele. e desconhece a existência de uma bela jovem. contra a indiferença e o alheamento. A personagem reside numa pensão. à semelhança da pessoa real Franz Kafka. Mas lá encontra não o cliente italiano mas um abade. procuram Joseph K. Seu coração frio e vazio. todos os indiciados serão inevitavelmente condenados. sem esposa. o crítico não pode fugir à tentação e o professor de literatura à obrigação de apresentar sua leitura do texto. Com efeito. Às reclamações de K. mas compaixão pela triste sorte dos acusados. embora esta seja extremamente atenciosa e maternal com ele. recebe a visita do tio. Não nutre simpatia para com a dona da pensão. conjugados com dados biográficos e ambientais. A personagem de ficção Joseph K. O mito do judeu errante(Jerusalém) é transposto para a existência humana. A nosso ver. E a realidade exterior paga-lhe com a mesma moeda. ela acha bonitos todos os indiciados que procuram o doutor Huld e de todos se torna amante. à amizade e ao amor. vai visitar outro hipotético ajudante. sem contatos com seus familiares. que habita o quarto contíguo ao seu. Conhece a vizinha de quarto e tenta atar uma relação amorosa com ela. analisada por V. de quem aceita a ajuda. especialmente na do tipo “conto popular”. na sua pensão e o levam para fora da cidade. mas com a sua condição de acusado. numa luta incessante e patética. a religião se associa à ação vingativa da sociedade civil. sua vida de celibatário e de burocrata. da morte iminente. esperando seu apoio. onde vive. Este lhe revela que seu processo vai mal. Segundo nosso entendimento da obra. não se relaciona afetivamente com ninguém. É a instauração do processo contra ele que o obriga a sair de seu isolamento e a estabelecer contatos com o mundo familiar e social. agüentando o sótão sufocante. impedido por uma sentinela de entrar. visita uma prostituta. muito embora sua interpretação possa ser considerada subjetiva. sem namorada. e morreu sem ter acesso à Lei. No romance kafkiano. vive como se fosse um ser superior. o capelão da prisão. despem-no do paletó e da camisa. Enfim. passa a conhecer o tribunal de justiça e seus funcionários. esta culpa é o “isolamento humano”. nos quais antes nem sequer reparara. Propp (Função Narrativa). vivendo à margem dos valores ideológicos. da terra de Canaã. Numa narrativa tradicional. O que Leni realmente sente não é amor.. junto a uma pedreira deserta. o capelão responde narrando-lhe o apólogo do homem que passou longos anos de sua vida perante a porta da lei. onde. que não é um lugar tópico ( Espaço) como o lar. do afastamento definitivo do mundo da existência. Enfim. porque sem esperança.

d) Interpretação racial: O processo. A imagem do pai austero. simbolizado no juiz supremo da corte de justiça. que deveriam zelar pela afirmação dos valores ideológicos da justiça (tribunal). continuar sua vida normal e defender-se como quiser). embora ninguém saiba do que. teria criado na criança Franz Kafka um complexo de inferioridade e de culpa com relação ao pai. os condenará aos campos de concentração e ao genocídio pelas câmaras de gás. representados pelos juízes. é preciso ressaltar que o estudo da temática kafkiana. vive numa atmosfera de pesadelo. militares e religiosas para sua proteção material e espiritual e são essas mesmas instituições que esmagam os homens que as criaram. acusado de uma culpa desconhecida. É impossível querer compreender a existência humana porque ela é simplesmente absurda: os homens se reúnem em sociedades. pelo qual todos os homens são acusados de uma culpa que não cometeram. que ao homem não é dado conhecer diretamente. que. a porta da lei (imagem simbólica da verdade) está guardada por uma sentinela que impede o homem de perscrutar o mistério da vida. embora ninguém possa fazer nada por ele. mas o sistema como um todo. perfeccionista. Fazemos referência às mais importantes: a) Interpretação psicanalítica: partindo da constatação de que traços autobiográficos se encontram dispersos em todas as obras de Kafka. insensível à necessidade de afeto. a culpa de Joseph K. a crítica psicológica viu no tribunal de justiça um símbolo do autoritarismo paterno. ao ser perseguido por um tribunal misterioso. que se encontra um pouco em todas as obras do escritor tcheco e que pode ser definida como “o desespero do homem ante o absurdo da existência”. em que as instituições sociais. quem julga e quem condena K. incapazes de conseguirem sua absolvição. a graça não pode ser alcançada. nega-lhe. e) Interpretação existencial: num sentido mais geral. expressão artística da mãe de Franz.190 intimamente conviver com os outros. além de acusar o indivíduo de uma culpa que não cometeu. no tribunal simboliza a revolta do ser humano contra Deus. Mas seu grito se perde no labirinto das instituições sociais. À margem dessa nossa leitura de O processo. mas Deus. O bancário Joseph K. de espírito prático. pode ser considerado como uma antecipação poética. personificado no motivo literário do juiz inatingível. As outras personagens do romance também seriam figuras criadas a partir do subconsciente kafkiano: a senhora Grubach. b) Interpretação sociológica: a obra de Kafka seria a representação artística da luta constante e inútil do indivíduo contra a máquina burocrática da vida social. como o de outras narrativas kafkianas. Todos sabem que ele é acusado. A culpa do homem. criam instituições civis. da fé religiosa (catedral). Seus intermediários. sem possibilidade de defesa. O regime nazista. encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso” . Em face deste pecado. são seres corruptos e ineptos. Ao homem é concedido o livre-arbítrio (a possibilidade de K. do amor (casamento). têm por representantes seres corruptos e insensíveis. denuncia o absurdo do aparelho judicial e a corrupção de seus funcionários. acusara os judeus da única culpa de pertencerem à religião hebraica e. Como na bela parábola narrada pelo capelão. todos estão dispostos a ajudá-lo. absurdamente. não havendo possibilidade de comunicação direta entre a divindade e a humanidade. reside no simples fato de existir. o protagonista de O processo. Kafka acredita no dogma do pecado original. de estar no mundo das coisas. Como judeu. que vive no labirinto da corte de justiça e que condena o protagonista sem que este tenha nenhuma culpa aparente. Leni e as outras mulheres desenvolveriam o papel de protetoras. que com seu afeto e doçura procurara mitigar o sofrimento do jovem pela injustiça de que é vítima. da realidade. como as irmãs e as amantes do escritor. como a corte de justiça do romance. que se dará alguns anos depois da morte do escritor judeu. Enfim. é um ser misterioso. Na colônia penal. Enfim. misturando elementos da vida real com figuras provenientes de seu subconsciente de artista e carregando de angústia existencial os acontecimentos corriqueiros da vida. pela sua incomunicabilidade. possa injustamente perpetrar contra a pessoa humana. advogados e funcionários da corte de justiça. civil ou religiosa. sempiterno Adão. o direito do esclarecimento e da defesa e a possibilidade de salvação. o único meio de salvação é a graça divina. intransigente. A revolta de K. mas é fatalmente condenado porque. c) Interpretação religiosa: sempre relacionando o protagonista com o autor. e assim comparar-se a Deus.. A organização social destrói a individualidade: quem acusa. junto com outra obra kafkiana. alguns estudiosos de Kafka insistem no simbolismo religioso desta obra. não é um ser determinado. mas herdaram. o romance kafkiano pode ser interpretado como a representação artística de qualquer crime que um grupo ou uma classe social. tem ensejado várias interpretações. uma visão profética da explosão do anti-semitismo alemão. II.A Metamorfose “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos. é seu anseio de querer comer dos frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal.

pois. o obriga a voltar para seu quarto. consegue um emprego de guarda num banco. Para que a irmã entenda seu desapontamento. toda vez que percebe sua chegada. sem que se saiba a causa da desgraça. Assim. por isso está apegado a ele com extrema devoção. por sua vez. o leitor já sente o impacto de um acontecimento completamente insólito. A atitude de sua família não é muito diferente. por ter atrasado menos de uma hora. os móveis. independentemente da vontade humana. a ação do Fado na tragédia grega que determina que tal coisa tem de acontecer. nem sequer de ordem divina. sem nenhuma motivação. Gregor compreende tudo o que se passa ao seu redor. começa a remover móveis e quadros com a intenção de aumentar o espaço livre. lançando-lhe maçãs. que desmaia. Mas seu aparecimento nesse ambiente acaba apavorando a mãe. Estamos em face do tipo mais puro de fantástico. nem sequer imagina que aquele inseto descomunal possa ter inteligência e sentimentos humanos. naquela fatídica manhã. segundo o modelo funcional de V. na tentativa de se ajudar. Grete. Gregor sente-se cada vez mais rejeitado e abandonado pelos familiares. porque é vítima da crueldade do destino. até então o . uma parte da residência é alugada para três hóspedes.191 Pela leitura desse primeiro parágrafo do texto kafkiano. abandonando-o completamente ao seu destino. sai do quarto e vai para a sala. para tornar menos repugnante o trabalho da irmã. mais por falta de coragem do que de afeto. encurrala o filho outra vez para o quarto. as amostras de fazendas. que o submete a um processo de degradação. É por isso que pode se perguntar: “o que aconteceu comigo?” Gregor descarta a hipótese do pesadelo ou alucinação porque reconhece o seu espaço vital: as paredes de seu quarto. Ele possui a tipicidade de um herói trágico. a pontapés. Tal dano. a sua revelia e sem que ele tenha culpa alguma Esse contraste de um destino trágico atribuído a um homem comum é ainda mais surpreendente se considerar que a metamorfose sofrida é um ato gratuito. Apenas a jovem Grete sente compaixão pelo irmão desgraçado e. a irmã começa a trabalhar de garçonete. como. a mãe intensifica seus trabalhos manuais. lançando inclusive a suspeita de ladrão. que. como se fossem pedras. dando um novo ordenamento à economia doméstica: o pai. duas vezes por dia. Funcionário exemplar. Uma maçã se lhe incrusta no pescoço e lá acaba apodrecendo. mas não consegue fazer-se entender. O pai. após esforços dolorosos. porque apenas sofre as conseqüências de uma fatalidade: a mudança da forma de homem para a de um inseto monstruoso. vivia sem fazer nada e constantemente adoentado.Propp. que o conduziria ao trabalho habitual. conseguiu sair da cama. como acontece na literatura fantástica anterior a Kafka O protagonista do conto A Metamorfose é um sujeito paciente e não agente. uma variante do processo de animalização. fechando a porta pelo lado de fora. E quando Gregor. percebendo que Gregor gosta de subir pelas paredes e pelo teto do quarto. o chamara de relapso. Ele sente o orgulho de ser o único sustento de sua família. entra em seu quarto para fazer a limpeza e dar-lhe comida. A mãe passa semanas sem ver seu filho. pois a firma lhe havia confiado um lote de amostras de fazenda. pura obra do acaso. abrir a porta e revelar sua nova forma de inseto enorme. por exemplo. após uma falência. o sujeito Gregor encontra-se numa situação de “dano”. Em face de sua desgraça. Mas o desejo de que aquela deformação seja passageira o persegue por um bom lapso de tempo: olhando os minutos que passam no despertador. Na situação inicial da trama. acabam se desentendendo e magoando-se mutuamente. Mas essa relação afetiva entre os dois irmãos dura pouco tempo. A irmã. acontecida anos atrás. deteriorando-se por causa da falta de comunicação. sempre dera o melhor de si e nunca atrasara sequer um minuto no exercício de sua função. A constatação de que a família pode prescindir de seu auxílio. que vê alterado seu hábitat. composta dos pais e de urna irmã de dezessete anos. que toca violino. Grete retribui a delicadeza do irmão tentando descobrir a espécie de comida de que Gregor gosta mais. O emprego de vendedor de urna firma de tecidos permitelhe alcançar tal objetivo. por não ter aberto a porta de seu quarto imediatamente. Daí sua mágoa quando. esconde-se de baixo do sofá. falta também a eventualidade de uma explicação de ordem religiosa ou mágica. o inspetor chegara a sua casa e. não é total porque Gregor Samsa ainda goza dos semas humanos do pensar e do sentir. além da impossibilidade de uma explicação científica. Gregor. porém. esforça-se em sair da cama para apanhar o próximo trem. eis que o inspetor fugiu atemorizado e nunca mais a firma onde trabalhava se interessara por ele. furioso. os integrantes da família Samsa são obrigados a providenciar o próprio sustento. da espécie de insetização. Mas isso desagrada Gregor. A finalidade de sua vida é acabar de saldar uma dívida contraída pelo pai e pagar o conservatório da irmã Grete. que foge a qualquer possibilidade de explicação racional. O pai chega e.

ninguém. Tremulavam desamparadas diante de seus olhos” Efetivamente. pela deformação de seu corpo. Vivemos num mundo absurdo. através do recurso a símbolos e a parábolas. viu seu ventre abaulado. os familiares. e sua presença naquela família torna-se perfeitamente dispensável. É que para Kafka o absurdo não é estranho. faz com que Gregor passe a se sentir inútil. não compreendendo as boas intenções da atitude do irmão. nem extraordinário. Muitas. esmagado pela burocracia das instituições sociais. No dia seguinte ao repúdio da irmã. As descrições do ambiente e das características físicas e espirituais das personagens. pelo menos. aliado ao abandono a que é relegado devido ao trabalho da irmã e à ocupação de parte da casa pelos inquilinos. fumando e conversando durante a execução da partitura. não são outras coisas senão funções: um homem é mensageiro e nada mais que isso. Tal peripécia constitui a gota d’água que faz transbordar o copo das relações de Gregor com seus familiares. dividido por nervuras arqueadas. lastimavelmente finas. pela perda do emprego. está adorando a música. sair juntos a passeio. especialmente do protagonista. As pessoas que Kafka faz entrar em cena são “arrancadas” da existência humana. Uma noite. embora volta e meia modificada pela fala dos personagens que se exprimem pelo discurso direto. ainda mal se sustinha. Ao perceber que os três inquilinos faziam pouco caso da irmã. E quando. por exemplo. a empregada doméstica os hóspedes da casa. sucessivamente. Consome-se. ao levantar um pouco a cabeça. ele se entrega à morte. Suas inúmeras pernas. marrom. provoca em Gregor um vazio existencial: passa a recusar a comida quase sistematicamente. situando-se o foco narrativo “por detrás” dos personagens. Em comparação com o volume do resto do corpo. Mas este “nada mais que isso” não é uma . E é esse absurdo que Kafka tenta expressar em forma de arte. tendo a empregada esquecido de trancar a porta de seu quarto. pelo completo abandono a que o relega a família. decide que não vai suportá-lo mais. a intenção da ação de Gregor era a melhor possível. o próprio sujeito da metamorfose. de uma desgraça qualquer. além de inútil. Pelo contrário. sem preocupação alguma. como se a metamorfose de Gregor não fosse um fato ocorrido na imaginação. a empregada encontra Gregor morto e dá um jeito naquele inseto estranho e repugnante. Mas o resultado é o contrário do esperado: os hóspedes. Otto Maria Carpeaux considera Kafka como “um dos maiores criadores de símbolos”. são tão precisas e minuciosas que apresentam a ficção fantástica como se fosse pura realidade. Com efeito. especialmente do protagonista. mas algo que realmente aconteceu. especifica a peculiaridade do simbolismo kafkiano: “O que ele traduz em imagens não são conceitos. constitui a perspectiva principal dessa narrativa. Gregor vai até o corredor para ouvir Grete tocar violino. Esse motivo. o fato é aceito naturalmente. assim. Günther Anders. uma mulher é uma “boa relação” e nada mais que isso. Tal focalização. A própria irmã. Tal impressão é reforçada pelo aspecto descritivo desse conto kafkiano. de fato. no topo do qual a coberta. porque faz parte integrante da própria existência humana. mas seu resultado é catastrófico. a tríplice degradação a que é submetido. o protagonista do conto: a degradação física. a degradação afetiva. A família recupera sua tranqüilidade e os três podem. se pergunta como tal acontecimento foi possível. finalmente. enfim. Outro estudioso do escritor checa. prestes a deslizar de vez. a descrição da nova forma corporal de Gregor Samsa: “Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e. como se se tratasse de uma doença comum. até então a mais compassiva em relação à terrível desgraça acontecida a Gregor. Veja-se. mas situações. o que mais impressiona na ficção de Franz Kafka é a apresentação de um fato absolutamente absurdo descrito com a maior naturalidade. pela incomunicabilidade entre as pessoas.192 único esteio da casa. ao perceberem a presença daquele inseto medonho e sujo na residência. aos quais deve ser escondida a existência daquele inseto asqueroso. pelas leis que não podem ser cumpridas. é encontrado falecido na manhã seguinte ao desagradável acontecimento de sua entrada na sala de visitas para ouvir a música tocada pela irmã. ele avança até a sala e chega perto da irmã para lhe demonstrar sua solidariedade. fazendo planos para um futuro melhor. Também com referência a esse episódio. começa a se considerar também nocivo a sua família. querendo que ela entenda que seu irmão. A fábula de Gregor Samsa é contada por um narrador onisciente que fala em terceira pessoa. revoltamse contra o dono da casa e vão embora sem pagar a pensão. Perante a inexplicável transformação de um homem num inseto descomunal. que apresenta os episódios de um ponto de vista objetivo. a degradação funcional.

que reside na descrição artística do desespero do homem ante os contrastes irredutíveis da existência. O protagonista do romance quer estabelecer-se nas terras do senhor e lá exercer sua profissão. regido por uma lógica estranha de motivos e de acontecimentos. condição indispensável para tentar a escalada até Deus. O tema da xenofobia predomina nessa obra kafkiana. Simbolicamente. A Lei não pode ser cumprida: somos culpados e fatalmente condenados. K. provocada pelo egoísmo grupal. O pai assume um emprego simples. saindo do torpor em que estavam. O contraste entre a consciência do protagonista da Metamorfose de que ele é indispensável ao sustento da família e o fato prático que demonstra que ele é perfeitamente dispensável acabam desferindo um golpe mortal à tradição literária do herói salvador. Com a desgraça de Gregor. sua ação chega a tornar-se prejudicial ao progresso do grupo. ou do homem comum que luta para obter um trabalho e um lar. mas mais moderno e melhor localizado. No dizer do crítico Otto Maria Carpeaux: “o inefável é símbolo de um irrealizável. é altamente irônica. tentam por todos os meios oprimir os outros. visto que a própria vida. mas já uma moça à espera de marido. Aliás. sem refletir sobre o fato de que ninguém pode ser feliz no meio de uma desgraça comunitária. com a intenção de penetrar nos meandros da vida da burocracia castelana. A irmã aparece aos olhos dos pais não mais como uma menina. quase toda a ficção kafkiana é profundamente irônica. o homem poderoso que defende os valores ideológicos. Lembramo-nos da famosa expressão de Pirandello: “Se nos fosse dado prever todo o mal que pode nascer do bem que pensamos fazer!”. Tal inversão de perspectiva. mais vítima passiva das instituições ético-sociais que agente capaz de modificar uma situação injusta e desagradável. que lhe dificultam a chegada até o dono. se sente outra vez sozinho e sem forças para chegar até o dono do castelo. Mas a moça se desinteressa por ele e K. é a causa maior da angústia existencial. que se agrupam em sociedade para tornar sua vida mais confortável. subliminarmente. a imagem poética. Aquele mundo demoníaco é nosso mundo. o romance representa a luta do indivíduo na tentativa de integrar-se numa comunidade. tal situação se modifica. amante do poderoso funcionário Klamm. o tema da ironia na obra de Franz Kafka mereceria um estudo à parte. pois seus familiares são impulsionados à ação. Mais ainda: quando o indivíduo se sacrifica em benefício de um grupo social. o comportamento inter-humano é um mistério incompreensível. o mundo das ruas e casas misteriosas da Praga gótica de todas as cidades. pois as situações em que ele coloca suas personagens são física. sem querer. um ser insignificante. E o que representa Gregor Samsa senão um homem engolido pela sua profissão de caixeiro-viajante? Sua redução a inseto é o símbolo. . Eles agora não dependem mais da vontade de Gregor: podem planejar a mudança para um outro apartamento. Estes três protagonistas nos fazem captar a peculiaridade do fantástico de Franz Fafka. O agrimensor K do Castelo apresenta muitas semelhanças com o bancário Joseph K. ou do judeu que quer ser bem-aceito pelo povo que o hospeda. seduz a jovem Frieda. É o que acontece com Gregor Samsa que. uma estupidez logicamente insustentável: os homens. do esmagamento do indivíduo pelas forças sociais. poderíamos chamar o fantástico kafkiano de “fantástico absurdo”. fazendo-o inclusive rejuvenescer. acaba determinando a acomodação dos pais e da irmã. na qual ele “é” sua profissão. menor. prejudicando as pessoas que ama. porque. o agrimensor K. tem seu modelo na realidade moderna. chega uma noite num vilarejo governado por um senhor que vive num castelo sobre a colina. O herói kafkiano é essencialmente um homem comum. onde a incomunicabilidade humana. lógica que parece absurda por fora. Para uma definição tipológica. tomados pelo egoísmo individual ou de grupo. No romance O Castelo. do Processo e com o caixeiro-viajante Gregor Samsa da Metamorfose. III . pela qual a pessoa que ajuda acaba. que viviam todos às custas do seu trabalho. visto que a maioria das personagens de seus contos e romances é constituída por seres postos em face de situações inexplicáveis e impossíveis de serem resolvidas. lógica e eticamente inexplicáveis. da integridade moral da personalidade humana. tomando apenas para si funções que deveriam ser distribuídas entre todos. na qual a divisão do trabalho o torna mero papel especial”. Eis o assunto das parábolas de Kafka”. mas que é por dentro de uma coerência absoluta que nos assusta como a inevitabilidade do destino humano.O Castelo “Quem sou eu pois?”. Mas é impedido pela hostilidade dos moradores do burgo e dos burocratas do castelo. em virtude da nova função que está exercendo.193 invenção kafkiana. O adjetivo “kafkiano”. mas que lhe dá orgulho e satisfação. Ele acaba perdendo até a noção da própria identidade. ao assumir sozinho o encargo de sustentar a família.

O nome feminino legenda significa. LEONARDO da Vinci (cientista e artista italiano)Renascimento Muitos fizeram comércio de ilusões e falsos milagres. mas foi vítima da Revolução Francesa. uma mudança de forma. enquanto o relato legendário tem como heróis seres humanos cujo alto valor cívico ou espiritual estimula a imitação. O sentido etimológico do nome já sugere a disposição mental: a imitação.194 passou a indicar. participando da vida pública como Secretário do Tesouro. KANT (filósofo alemão) Idealismo KIERKEGAARD (filósofo dinamarquês) Existencialismo LA FONTAINE (retomada do gênero de Esopo e Fedro)Fábula LAVOISIER (químico francês) “Nada se cria. depois de consumido. chama-se lenda ao fato historicamente não comprovado. as várias lendas sobre a luta entre cristãos e muçulmanos: Carlos Magno e os Paladinos da França. ligada profundamente a entes sobrenaturais. IX) e os heróis cristãos das várias Cruzadas. Está aqui uma das diferenças entre o mito e a lenda: a história mítica.. Outra diferença consiste no fato de que a lenda se origina a partir de um fato histórico. Entre suas contribuições para a ciência. como se depreende do sentido do adjetivo "lendário”. na maioria das línguas ocidentais. a elucidação do mecanismo de oxidação dos metais. a introdução do sistema da balança. etimologicamente. assim um cientista. Esse substantivo passou a denominar o relato da vida dos santos e mártires da igreja católica. Como um cigarro é feito a partir da existência do fumo e do papel e. Lavoisier conferiu um rigor científico ao antigo ditado popular latino nihil ex nihilo (“nada do nada”). pelo qual evidenciou a verdade científica de que no mundo físico. mas apenas dá uma nova forma a materiais preexistentes. As hagiografias devem ser lidas para que se imitem as virtudes dos heróis religiosos. com o nome de Legenda Sanctorum. Lembramos algumas lendas mais famosas: da Fundação de Roma por Rômulo e Remo. da introdução do Cristianismo na Inglaterra pelo rei Artur e os Cavaleiros da “Tavola Redonda” (Graal). não acaba mas se transforma em polens de fumaça. nada se destrói: tudo se transforma” Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794) foi o primeiro estudioso a tratar a Química como uma Ciência. Ele se tornou famoso pelo axioma em epígrafe. tem como atitude mental a crença. Cegante ignorância nos ilude. A Convenção determinara a detenção de todos os arrecadadores de impostos: ele foi preso e impiedosamente condenado à guilhotina. ninguém cria nada a partir do nada. de apavorante. algo de estranho. LENDA (conto popular. embora sua veracidade. A primeira coletânea foi publicada pelo abade francês Jacques de Voragine. com o passar do tempo. história fantástica)Mito A palavra lenda vem do latim legenda. Geralmente. de quem leva o nome. exemplos de vida a serem imitados pelos cristãos. no século XIII. denominado “Lei de Lavoisier”. Picasso foi um gênio da pintura porque inventou o Cubismo. anotamos: a lei das conservações dos elementos. Outra peculiaridade da lenda é sua localização no espaço e no tempo. especialmente sobre Roland (início do séc. cujas origens são geográfica e cronologicamente indeterminadas. seja transfigurada pela imaginação popular. forma gerundiva do verbo legere (ler). entre o fim do século XI e meados do século XIII. diferentemente do mito e do conto popular. de ilógico. assim como na vida humana e na arte. "o que se deve ler". a definição da matéria pela propriedade de possuir massa.. que na Idade Média se substantivou. da edificação de Lisboa pelo herói grego Ulisses. de burocraticamente tortuoso. . Aos 25 anos já entrara na Academia. enganando os ignorantes. filósofo ou artista não inventa nada. mas a partir da existência do cubo! Qualquer tipo de arte ou de ciência não deixa de ser apenas uma “transformação”.

Dante e Petrarca). sentada ao lado do Mestre na última ceia. quanto maior a distância que separa os extremos de um arco. arquiteto. ele tenta demonstrar a androginia da figura pintada por Leonardo. outros foram esquecidos e só recentemente recuperados e retomados. Tratase do retrato da esposa do nobre florentino Francesco Del Giocondo. estaria sob a guarda de uma sociedade segreda. Outros indícios da tese irreverente: na mesa não aparece nenhum cálice. do “sfumato”. no abraço entre a arte e a ciência e na conjunção do passado com o futuro! Está também na tentativa de aproximar o católico do herege. vivendo também em Milão. conforme a interpretação tradicional. Veneza. solicitado pelos governantes de outras cidades. Na mesma obra. Com isso. na cidade de Aas. ameaçando quem divulgasse a verdade sobre l’ affair de Jesus com Madalena. enquanto os outros continuaram dormindo”. mas a verdade oculta sobre Maria Madalena. O ficcionista Dan Brown. A genialidade de Leonardo da Vinci está aí. Pela versão de Dan Brown. junto com os restos mortais de Madalena. mas viajou a vida toda.195 Ó miseráveis mortais. Sigmund Freud disse: “foi como um homem que acordou cedo demais na escuridão. o Menino Jesus e Sant’ Ana. o moralista do naturalista. o autor apresenta uma surpreendente tese sobre a novela de cavalaria medieval. o masculino do feminino! LEOPARDI (poeta lírico italiano da época do Romantismo) “A infinita inutilidade de todas as coisas” Giacomo Leopardi (1798-1837) é o maior poeta romântico italiano e um dos melhores líricos de literatura ocidental. cidade da Itália central. ao sultão Bayezid II.. a ponte sobre uma rodovia escandinava. abrindo a janela para a modernidade. Ela teria sido amante de Cristo. abri os olhos” “O mais completo dos homens”: assim foi definido esse italiano. mas de Maria Madalena. passando pela mitologia egípcia sobre a fertilidade e confirmando o pendor pela homossexualidade do grande pintor da Renascença italiana. poeta. Além das inúmeras obras realizadas nas várias artes. O pintor florentino faria referência ao relacionamento íntimo de Jesus Cristo com Madalena no famoso afresco A Última Ceia: o rosto andrógino e a pose feminina da figura retratada à direita de Cristo não seriam do apóstolo João. Aqui aparece bem a técnica pictórica. . pintor. por exemplo. Veja-se. o Graal não seria o cálice usado por Cristo na última ceia. De família nobre — tinha o título de conde — Leopardi foi educado na severa disciplina dos estudos clássicos (autores gregos e latinos. o princípio da compressão dos arcos teve seu brilhante resultado arquitetônico: a estrutura da ponte demonstra que. Esse segredo milenar. escultor. que teria dado nova vida ao mito grego do Hermafrodito (Andrógino). Com o grande artista e cientista italiano. com edição brasileira em 2004. Alguns esboços foram catalogados apenas como curiosidades. por boa parte de sua breve vida. para a passagem aérea sobre o Bósforo. na Noruega. a conjunção dos nomes das divindades egípcias Amon e Ísis. mas uma mão empunhando um punhal. Roma. apresentado. A produção lírica de Leopardi está contida num volume chamado Canti (Cantos). Morreu em Nápoles. engenheiro. no seu best seller O Código Da Vinci. a meia-luz vaporosa que banha as formas com uma poesia inefável. encontra o anagrama de Mona Lisa em “Amon L’ Isa”. a Virgem. construída a partir do projeto original do sábio italiano. anatomista. Um defeito físico — era meio corcunda — e o precário estado de saúde o mantiveram. de que Leonardo da Vinci era membro. Nasceu na cidadezinha de Vinci. Outros quadros famosos do grande pintor renascentista italiano: Adoração dos magos. o Priorado de Sião. onde José de Arimatéia teria recolhido o sangue de Jesus crucificado. inaugurada em 2001. de cuja união carnal nasceram vários filhos. pintado entre 1503 e 1507. A peculiaridade é que a imagem sorri para o observador de qualquer lado que ele a olhe. também chamada de “Gioconda”. XV e XVI (Renascimento). Mântua. A Virgem dos rochedos. vítima de uma epidemia de cólera. A importância da figura luminosíssima de Leonardo da Vinci (1452-1519) só pode ser percebida no contexto da cultura italiana e européia ao longo do séc. cujo pictograma antigo era L’ISA. inventada por Leonardo. Depois de 500 anos. recluso na vasta biblioteca paterna da residência de Recanati. maior sua capacidade de suportar o peso. que liga Oslo. naquela época. A Demanda do Santo Graal. Ele é mundialmente conhecido como o pintor da tela Mona Lisa. Leonardo deixou várias pesquisas e projetos inacabados. a Ceia. e falecendo num castelo ao Sul da França. a Europa despertou definitivamente do sono medieval. na Suécia. perto de Florença. e Estocolmo. Dele. matemático.

do vazio existencial. trata-se de um fragmento de pura poesia. que pode ser sintetizada na expressão “a infinita inutilidade de todas as coisas”. ofende o próprio beneficiário! O Liberalismo. Neste breve canto. de escravatura. feita pelo poeta e crítico Haroldo de Campos. Il tramonto della Luna. que corresponde ao bíblico Vanitas vanitatum (“Vaidade das vaidades”: tudo é vaidade. começou a tomar corpo a partir do séc. de preconceito ou privilégio. que considera Giacomo Leopardi um teórico precursor da Vanguarda européia. do tédio. e quietude a mais profunda. “ser liberal é compreender que a solidariedade será sempre inócua enquanto se fizer pelos outros o que eles podem fazer por si próprios”.196 onde se encontram os poemas mais famosos: L’infinito. cujo conteúdo pode ser assim sintetizado: é próprio da natureza humana ser infeliz. intermináveis espaços longe dela e sobre-humanos silêncios. Ou. A esmola. E assim que nesta imensidade afogo o pensamento: e o meu naufrágio é doce neste mar”. Os pontos fundamentais do liberalismo político-econômico são: 1) o regime democrático e a independência dos três poderes. a deformidade e a doença física. que reinava na maioria dos Estados europeus. como doutrina política e econômica. e aquele infinito silêncio a esta voz vou comparando: e me recordo o eterno. O profundo pessimismo contido nas obras teóricas e poéticas do grande escritor italiano é provocado pelo sentimento da “noia”. religioso. imaginada como um oceano misterioso onde a alma pensante encontra repouso e onde o tempo se traduz no espaço e este naquele. aferrada aos privilégios de classe. o político brasileiro João Mellão Neto. a observação dos absurdos da vida em sociedade — provocam no seu espírito convicções negativas que ele sublimiza em obras de alta poesia. tudo é ilusão: as honrarias são inúteis e passageiras. e a direita imobilista. Le ricordanze. contra qualquer forma de imposição. além de ser antiprodutiva. O seu pensamento reflexivo está expresso em duas obras em prosa: Zibaldone (coletânea de correspondências e de escritos vários) e Operette morali. a natureza cósmica é insensível à dor humana. Enfim. La ginestra. Uma série de fatores — a educação intransigente e preconceituosa. L’ infinito. ser liberal é repudiar a esquerda estatizante. Como afirma um liberal de carteirinha. 3) o livre jogo da concorrência nas relações . LIBERALISMO (a teoria do filósofo Locke e a prática do presidente Jefferson) É verdade que a liberdade é preciosa. ético e econômico. onde por pouco não se apavora o coração. Eis a tradução da lírica mais famosa de Leopardi. do desgosto. eu no pensar me finjo. conservadora. mais é destinado a sofrer. o que mais se aproxima da felicidade é a inconsciência. 2) o direito à propriedade e à liberdade de pensar e de agir. O limite do livre arbítrio é apenas o respeito à liberdade de outro cidadão ou de outra nacionalidade. em oposição ao Absolutismo monárquico e religioso. pois nada leva a nada. o que nos resta é a morte!). onde se encontra mais ou menos sistematizada a sua filosofia da infelicidade humana. no fim. a morte é o fim de todo o sofrimento. abrangendo o campo político. quanto o homem mais tiver um espírito lúcido e um sentimento nobre. XVIII. quer individual quer social. e o seu rumor. citando o ditado popular. mais fácil de ser sentida do que explicada: “A mim sempre foi cara esta colina deserta e a sebe que de tantos lados exclui o olhar do último horizonte. À Silvia. Na base do liberalismo está a justiça e não a caridade. e esta presente e viva. Segundo alguns teóricos. como um destes temas é expresso artisticamente. Vamos ver. que esmaga o livre exercício de pensar e de agir dos cidadãos. Os teóricos mais influentes foram os economistas ingleses Adam Smith e John Stuart Mill. Mas sentado e mirando. II sabato del villaggio. e as mortas estações. O direito à liberdade deve atingir o ser humano como um todo. o poeta italiano exprime o palpitar da imensidade. E o vento ouço nas plantas como rufla. pela leitura de um poema. “é preciso ensinar a pescar e não dar o peixinho de graça”. Tão preciosa que é preciso racioná-la (Lênin) O Liberalismo pode ser considerado o ponto de equilíbrio entre dois sistemas totalitários: o Comunismo (Marx) e o Nazi-fascismo (Hitler).

criados pelo homem para comunicar idéias. quando tomaram corpo as pesquisas sobre as mudanças lingüísticas que ocorriam nos idiomas nacionais. sendo a língua de um povo o mais completo sistema semiótico Por linguagem (idioma ou língua) entende-se um conjunto de signos regidos por regras de combinação e apto a expressar um modelo do mundo. Haja vista o período da Alta Idade Média (do séc. que vigorou até o início da segunda metade do séc. e a correlação entre eles para a construção de uma frase no plano sintagmático). A partir do Duzentos. o latim vulgar. só era entendido por poucos privilegiados das duas classes dominantes: clero e nobreza. quer porque é o primeiro código de signos que o homem aprende a usar para se comunicar. social e econômica foi a falta de línguas nacionais. na Alemanha. no tempo e no espaço. sintagma e paradigma. (similaridade). a distribucional (Bloomfield e a escola norte-americana). Jakobson e a escola de Praga). deixando-se guiar pela lei natural da oferta e da procura. normas de vida (línguas naturais. metonímico (contigüidade) e metafórico. dando ênfase à tradicional lingüística diacrônica. assim. a funcional (Martinet. anafórico e catafórico. Entre os vários critérios. uma visão ideológica da existência. a partir do séc. que liberou totalmente as formas de comportamento. significante e significado. lexema. culturas indígenas etc. Nascia.197 comerciais. A importância do avanço dos estudos lingüísticos transcende o campo da compreensão dos idiomas. promovida pela filosofia “hippie” . italianos. XX. todas suas atividades artísticas e científicas são prejudicadas. Somente quando alguns dialetos locais começaram a produzir textos escritos. e a era da total “permissão”. semiótica e semântica. eufórico e disfórico. Do ponto de vista moral. quando a Europa viveu em completo obscurantismo: a causa primordial da decadência cultural. considerado o pai da ciência lingüística moderna. a chamada lingüística sincrônica ou estrutural. É incontestável o fato de que. modas. o Renascimento das artes. a gerativa (Chomsky). sincronia e diacronia. a atual. que se deu nas décadas de 1960 e 1970. mitos. da filosofia e das ciências teve como causa fundamental o desenvolvimento de línguas na Itália. a cultura começou a se desenvolver e surgiram as várias nacionalidades européias. franceses. qualquer prática social. O método era comparativo e a preocupação dos estudiosos vertia quase exclusivamente sobre as transformações das formas fonéticas e lexicais. morfema. falavam dialetos regionais que não eram escritos e a língua escrita oficial. na Inglaterra. Entre as contribuições mais importantes. 4) redução ao mínimo da intervenção do Estado em assuntos econômicos. semema etc. XX. indo cair na denominada “tirania adolescente”. Mas o estudo científico das línguas naturais começou bem mais tarde. com o surgimento da área de conhecimento chamada de “Lingüística”. pois criou conceitos e modelos de análise de que se beneficiaram também outras áreas de conhecimento: estrutura do texto. V ao XI Medievalismo). assinalamos vários planos de análise de um texto ou de um objeto: a distinção entre langue (língua) e parole (palavra). teoria da literatura. podemos distinguir a era da “repressão”. sendo que a língua natural deve ser considerada como “o sistema modelizante primário” (Lotman). denotação e conotação. enfim). forma e estrutura. na França. na Península Ibérica: foram os textos escritos que provocaram o progresso artístico. quer dizer a análise de seus componentes internos (fonema. sentimentos. a era da “liberação”. LINGÜÍSTICA (a ciência da linguagem)Saussure Metáfora Retórica Todo sistema que serve para a comunicação humana pode ser considerado uma “linguagem”. científico e filosófico. psicologia. na Romênia. antropologia estrutural. códigos de trânsito. passando-se a considerar a língua humana como um fenômeno em contínua evolução. XIX. quer porque o sistema lingüístico é a base para a construção de qualquer outro sistema semiótico. A “estrutura” de um língua. no início do séc. se um povo não tiver uma língua bem desenvolvida. Saussure fez escola e dele procederam as mais recentes correntes lingüísticas: a glossemática (Hjelmslev). artes. existe uma hierarquia de importância. entre outras. pois os povos ibéricos. entre outros. começou a ser estudada por Ferdinand de Saussure. LÍRICA (forma de arte e estado de espírito) Poesia  Gênero literárioTrovadorismo .

tiveram o intuito de demonstrar que também o poema lírico. O termo “lírico” afirmou-se ao longo do período helenístico. de um quadro. nos ajude a compreender o sentido interno e a captar a parcela de significação da realidade que toda obra poética encerra. propostas especialmente pelo Formalismo russo e pelo Estruturalismo francês. de paixão. Mas. Tal postura epistemológica. pondo em relevo os elementos constitutivos do poema e a especificidade da linguagem artística.198 Do termo greco-romano “lyra”. a poesia lírica servia para salientar todas as atividades humanas importantes: o epinício (celebração de uma vitória esportiva). mas nelas e elas em nos. cantor das alegrias da mesa (Skólia) e da . mas no sentimento. lírico é tomado quase como sinônimo de sentimental. instrumento musical de corda. Eram chamados de hinos. É um “estar-no-outro”. publicados. anula qualquer possibilidade de analise e de interpretação do poema lírico. Ainda hoje. A interiorização de toda a objetividade é a essência do lírico: não estamos diante das coisas. de uma paisagem. o subjetivo e o objetivo. infelizmente. a ode (exaltação da pátria. uma postura perante a vida. um quadro de arte e seu espectador. O clima lírico se estabelece quando. O leitor ou o espectador não deveria se preocupar em compreender. Os estudos realizados sobre a estrutura do verso. Os primeiros poemas curtos (chamados de mélicos ou líricos e diferenciados dos poemas longos da produção épica. de um acontecimento importante.). permanecendo até hoje. que abrangeu a cultura alexandrina e romana. Os considerados importantes. em versos líricos. balada. que chamavam de poesia jâmbica. do adjetivo “lírico”. de várias formas. Contra esta tendência impressionista insurgem-se as modernas técnicas de analise poemática. em honra do deus Apolo. etc. e Anacreonte (564-478 a. melodia). que os antigos usavam para acompanhar o canto e a dança. quase todas elas ligadas entre si pelos semas da musicalidade. de um estado de alma. a par da narrativa e da peça teatral. sobre as figuras de estilo. e distinguiam a lírica “monódica” (individual) da “coral”. sendo cantados diante dos altares ou durante as procissões e festas sagradas.C. a elegia (canto fúnebre e sentimento de tristeza). Por essas considerações. Para sentir liricamente é necessária a existência de uma disposição anímica. o epitalâmio (celebração de núpcias). bem mais abrangente: falamos de peça teatral ( Ópera lírica) ou paisagem lírica. como gênero literário (poema curto. Os antigos gregos manifestavam. que chamava “mélica” (de melos. Recordar significa anular o distanciamento entre passado e presente.C. não estão diversificados na poesia lírica. a palavra lírica. trágica e cômica) estavam relacionados com o culto religioso. Portanto. entre um poema e seu leitor. reduzindo a poesia a algo de misterioso e de insondável. de angústia. Os gregos cultivaram também o gênero satírico. ligada à produção artística em versos. de amor. como o passado e o presente. Émil Staiger distingue o substantivo “Lírica”. e não mais apenas cantados. do canto e da dança: soneto.). exalta os ideais do povo grego. apelido de Dionísio. romântico. Este conceito de liricidade não se encontra apenas na poesia.). bem diferente da “memória”. mas também numa paisagem ou numa atitude humana. a palavra poética feita para ser cantada. A poesia lírica é intrínseca à natureza humana. algo que toca o coração mais que a razão. O crítico alemão salienta a característica principal do estilo lírico: a recordação. Píndaro (518-438 a. em suas famosas Odes. Mas. recitados. é posterior a Aristóteles (séc. todas as atividades da vida. de dor. estabelecendo-se assim uma relação simpatética entre destinador e destinatário de um objeto de arte.). III a. fundamentada num subjetivismo absoluto. não no conceito. em forma de U. sobre o semantismo poético. pode ser submetido a uma analise estrutural que. rondó. que nos possibilite sermos “tomados” por algo que está em frente a nós.C. entre sujeito e objeto. os mais famosos sendo o ditirambo (“aquele que nasceu duas vezes”. para indicar um estado de espírito.C. emocional. da mulher amada). temos a impressão de que o estilo lírico é inexplicável. pelo fato de que suas formas métricas e conteúdos ideológicos tiveram imitadores ao longo da história da lírica do Ocidente. pertencem a três grandes poetas: Safo (625-580 a. a grande poetisa do amor. mas na alma.) que. exprimindo essencialmente um sentimento individual e intransferível de prazer. da maravilhosa produção lírica da Grécia antiga só restaram fragmentos. parido do ventre da princesa tebana Sêmele e da coxa de Júpiter) e o pean. o encômio (elogio de um varão). além do sentimento religioso. um panorama e seu observador. mas apenas em fruir a beleza de um poema. por exemplo. cantiga. confundindo-se com “poético”. que procuram devassar o pretenso mistério da poesia. a relação de compreensão não está baseada no intelecto. canção. mesmo quando os versos começaram a ser feitos para serem escritos. sobre o ritmo. lidos.

o Barroco e o Arcadismo. O contraste apontado não deve ser entendido no sentido exclusivista. petrarquismo. antes. este último considerado o primeiro teórico da poesia modernista. Baudelaire). Metastásio (1698-1782). Em verdade. 2) uma lírica formalmente livre.199 cama (Erótika). que se alimentavam de sonhos e ilusões (Novalis. primeiro grande poeta introspectivo de língua neolatina. A lírica de língua latina seguiu. Giambattista Marino (1589-1625). Bocage (1765-1805). serviram-se da metáfora sinestética. salmos. Angelo Poliziano (1454-1494). surgida numa região central da Itália. palaciana. Na Alta Idade Média (do século V ao XIMedievalismo). que cria associações entre sensações de campos semânticos diferentes. John Donne (1. Entre os poetas líricos de maior destaque. Francisco de Quevedo y Villegas (1580-1645). Só foi destronada pela escola do “dolce stil nuovo”. embora o conteúdo poemático espelhe a diferente sensibilidade do povo romano. distingue duas polaridades no complexo poético do século XX: 1) Uma lírica intelectualizada. A poesia provençal fez muito sucesso. buscando a perfeição formal. pois o Parnasianismo foi uma retomada da lírica clássica. Larnartine. iniciada por Rimbaud e elevada às últimas conseqüências pelo poeta surrealista André Breton. acrescentando-lhes a imitação de formas e conteúdos da antiga poesia grecoromana. de grande rigor formal. relacionado com a vida no campo: na língua galegoportuguesa temos o exemplo das Cantigas de amigo. ressuscitada pelos humanistas. Torquato Tasso (1554-1595). de uma forma geral. cada qual poetizando segundo os impulsos de seu subjetivismo. alógica. partes da liturgia da missa. os poetas românticos deixaram de lado os cânones estéticos do Classicismo para dar larga vazão ao sentimento. estilnovismo. a poesia lírica em língua latina ficou restrita quase exclusivamente ao culto da religião cristã: hinos. algo misterioso que estabelecesse uma correspondência entre os elementos do mundo humano. Luís Vaz de Camões (1524-1580). Guido Cavalcanti. Hugo). de uma forma geral. na Provença: a famosa lírica trovadoresca ( Trovadorismo). italianos. pela qual a poesia deve ser “uma festa do intelecto”. que tentaram sacudir o modelo burguês da vida ( Goetbe. Os estudiosos distinguem a lírica “quietista” dos lake’s poets. O Modernismo e a contemporaneidade apresentam vários filões líricos. que com intensidade e mais bom gosto estético soube expressar o vazio existencial provocado pelo sentimento da “noia” . retomam os filões líricos da Baixa Idade Média ( trovadorismo. fazendo com que a palavra poética fosse a real expressão do sentimento. que exalta a figura da mulher idealizada. Poetas como Guido Guinizelli. pela qual a poesia deve ser “a derrocada do intelecto”. Blake. pois oscilam entre a lucidez intelectual e o impulso anárquico. Wordsworth. Jacopo Sannazzaro (1453-1530). iniciada por Mallarmé e continuada por Valéry. Para tanto. citamos: Lorenzo dei Medici (1449-1492). com a afirmação das línguas românicas. portugueses. Dom Luis de Gongora y Argote (1561-1627). Verlaine. a Toscana. O maior poeta lírico do romantismo europeu foi o italiano Giacomo Leopardi. após a fase do Realismo. rebuscada. castelhanos. O estudioso Hugo Friedrich.573-1631). O Simbolismo revigorou o gênero lírico. de origem culta. bucolismo). no seu apurado estudo Estrutura da lírica moderna. como indicação apenas da predominância de uma tendência sobre a outra num determinado poeta. Na Baixa Idade Média (do século XI ao XV). que formam o período clássico da cultura moderna. do desgosto face à efemeridade de qualquer tipo de prazer. surgido no sul da França. tendo sido imitada por poetas galegos. Ao crítico cabe . os modelos criados pelos gregos. vazio do ponto de vista propriamente poético. Poe. dos poetas revolucionários. Dante Alighieri e Francesco Petrarca sentiram a necessidade de quebrar o formalismo da escola trovadoresca. A literatura latina apresenta quatro poetas líricos de primeira grandeza: Catulo. personificando a insatisfação própria da época romântica. tentando descobrir uma alma universal. Aprofundando a ética romântica. Os melhores poetas simbolistas foram os franceses Mallarmé. Em nome da liberdade de sentir e de se expressar. Keats. genuinamente nacional e popular. autóctone. os poetas simbolistas voltaram ao espiritualismo. O Romantismo provocou uma revolução cultural que atingiu também o gênero lírico. E fez escola: o “petrarquismo” foi a moda poética que predominou na Europa até o advento do romantismo. Musset Vigny. Young. a tensão existente entre as forças cerebrais e o impulso anárquico pode ser observada nos melhores líricos do Modernismo. uma poesia de escola. Garcilaso de la Vega (1503-1536>. do tédio. a Lírica apresenta dois filões: um. Horácio. Rimbaud e Valéry. O maior lírico da última fase da Idade Média foi Petrarca (1304-1374). Outro filão. difíceis de serem claramente delineados. Virgílio e Ovídio. Byron. animal e vegetal. O Renascimento. no século XIV.

de desagradar o público ledor. Ao lado da poesia figurativa. escada etc. b) Sugestão Como as artes plásticas. os símbolos coletivos. dos poemas surrealistas. Antes dele. enquanto desfiguradora da realidade. falando da arte pictórica. destruindo-se seus limites espaciais e temporais. cujas características seriam: a) Antipassadismo Talvez seja essa a característica mais comum a todos os artistas da Vanguarda. princípios estéticos e ideológicos semelhantes. apenas fenomenológico. parcelas de sentido de um mundo de cultura. abalaram o Ocidente e levaram os intelectuais a questionar a validade da cultura: por que a civilização. Sob este aspecto. A dinâmica das imagens poéticas substitui o significado dessas imagens. Em vez de reproduzir os objetos. casa. se esta traz em seu bojo o ódio. já Baudelaire tinha falado em “decomposição” do real: a fantasia teria a função de superar o perceptível. na lírica modernista chega ao extremo da não-comunicação. por exemplo. no seu “Manifesto Futurista” de 1909. atinge também o mundo das artes.200 detectar as características comuns. e explora conteúdos sonambúlicos e alucinantes. inspirada no cubismo. existe algo em comum. para fazê-la soberana. da automatização. ela deve forçar excitações mediante as linhas. d) Fragmentação Um dos intuitos da arte moderna é apresentar. então. Daí o caráter hermético e alógico da moderna concepção da arte: o poeta trabalha com símbolos autárquicos. seguindo as pegadas das estéticas clássica e romântica. Apesar dessa diversidade toda. da informática. estranhos ao código ideológico. mas apenas pedaços. a uma matrícula. clássica e romântica. O valor da lírica moderna seria. e o romântico as angústias do seu isolamento espiritual. A função poética da linguagem humana. que sempre procurou romper os automatismos lingüísticos para dar um novo sentido às palavras. a opressão. enfim. sem nenhuma perspectiva histórica. chegando a uma neutralidade suprapessoal. Talvez seja esta a resposta da arte à pretensão científica de decifrar o mistério do universo. a poética modernista se aproxima da “escola do olhar” do nouveau roman francês. Os mitos gregos e bíblicos são degradados. colocando. Enquanto o poeta clássico quer transmitir ao leitor sentimentos provenientes da idealização da natureza cósmica ou humana. de cada artista. o que nos permite perceber a existência de uma estrutura estilística na lírica modernista e contemporânea. o genocídio? Daí a insurreição contra tudo o que é passado e a repulsa da herança cristã. A ruptura com a tradição cultural e o desejo de criar uma nova estética encontram sua justificativa face á crise da humanidade provocada pelos horrores do entre-guerras. A poesia deve provocar no leitor apenas uma “sugestão mágica”. não a totalidade da vida. a lírica modernista prescinde da experiência vivida por um “ego”. do confessionalismo. a injustiça. apenas é. deformando os objetos e juntando pedaços heterogêneos. que tem suas raízes na lírica simbolista. e sua oposição à sociedade robotizada e pragmática. sem prejuízo das fortes individualidades poéticas do nosso século. alimentando-se do prazer aristocrático de não ser compreendido. o poeta moderno agride o leitor com seus versos inefáveis. motivos. sem nenhuma pretensão de ser compreendida. da cibernética. assim a poesia da Vanguarda tende mais a sugerir do que a comunicar. Opondo-se especialmente à poesia romântica. A estilização da arte moderna leva à desvalorização da forma orgânica e à anulação de qualquer sentido humano: o significado de um objeto artístico estaria implícito na sua própria forma. citações e alusões da tradição cultural são colhidas ao acaso e misturadas por montagens. surrealista e abstracionista. pela redução do ser humano a um número. que possibilitam a percepção de linhas de força análogas e especificas do hodierno lirismo. As duas Guerras Mundiais. da estatística. afirma: “o sofrimento de um homem não é para nós mais interessante de que o sofrimento de uma lâmpada atingida pelo curto-circuito”. c) Despersonalização A crise do conceito de personalidade. Tal despersonalização chega até à desumanização: Marinetti. Ela não comunica nada. inteligíveis. sem a pretensão de serem interpretados. é possível delinear uma certa unidade estilística. as cores e os contornos colhidos do mundo exterior. fragmentos da realidade. Quer dizer. temos formas e conteúdos poemáticos tradicionais. da escritura automática. centrada sobre o sentimento individual. A própria fantasia intelectualiza-se através da ficção científica: o herói atual é dirigido pela parafernália da computação. de 1915-1918 e de 1939-1944. pois seu conteúdo é constituído pelos próprios objetos representados: automóvel. o passado é feito em pedaços. porém simplificados e dominados: uma verdadeira magia”. Rimbaud. afirma: “Temos de arrancar à pintura seu hábito antigo de copiar. o mar nas . influenciadas pela estética cubista. são substituídos por símbolos individuais.

Chega-se.. o idílico com o repugnante. de anagramas. Garcia Lorca. a partir da existência de um alfabeto. A rigor. mas de sílabas cruzadas. “as formas oximóricas”: aproximação no mesmo sintagma de objetos semanticamente opostos. mas não todos possuem uma literatura. Oswald. a poética vanguardista lança mão de uma série de artifícios. Falar de “literatura oral” é uma impropriedade lingüística. de palavras que façam sentido entre si. pois o correto é considerar literário apenas o que se encontra “escrito”. f) Grotesco A “estética do feio”. adjetivação paradoxal. Para o estudo dos melhores poetas da Vanguarda européia. o artista moderno conjuga o sofrimento com o riso. do puro prazer estético. o uso do “acaso” para captar pedaços de uma conversação desconexa. instituindo novos padrões estéticos. em geral. artigo definido em lugar do indefinido. formalizado num Texto. Eliot. Na literatura. melhor. predominando a arbitrariedade. de forma que possam ser lidas de diferentes ângulos. Ungaretti. têm seu fascínio e oferecem novos materiais. Apollinaire. do Modernismo brasileiro e da contemporaneidade. autônomo. Eliot. LITERATURA (a arte mais universal) “A Literatura é uma luta contra as mentiras ortodoxas” (Martin Seymour-Smith) “A Literatura é sempre uma expedição à verdade” (Franz Kafka) A literatura é a forma de arte mais cultivada no tempo e no espaço. ao limite extremo da concepção de poesia apenas como “forma”. inversamente. o poeta que mais utiliza a técnica da fragmentação é T. parece que as artes procuram romper suas fronteiras. João Cabral de Melo Neto. inversões etc. em sua longa caminhada do Expressionismo ao Abstracionismo. assim. “imagens incoerentes”: o poema não apresenta momentos ideológicos seqüenciais. O anormal. Servindo-se do humor negro. o marginal. Manuel Bandeira. A poesia. se aproxima da configuração. penetrando no campo do desenho artístico. ou até sílabas ou grafemas. contesta a função opositiva do disforme e do desarmônico: o feio não é o contrário do belo. O Cubismo de Picasso apresenta a plurifacetação de seres e objetos. a alteração das funções normais das categorias gramaticais e sintáticas: substantivos sem artigos. o diabólico. especialmente a chamada “metáfora absoluta”: o tropo estabelece entre os dois termos não apenas uma relação de comparação mas de identidade. Da palavra latina “ littera” (letra). “a técnica da fusão”: o sentido de uma palavra se funde com o significado de um termo próximo ou se dá a transposição do que é objetivo em imagens que não existem no mundo real. a semantização de elementos gráficos. mas tem um valor intrínseco. Vinicius de Moraes. portanto. De um modo geral. provocando a atrofia do espírito. contistas e. o tétrico. De Apollinaire aos concretistas brasileiros. A concepção clássica da beleza torna-se trivial. o espaço em branco como significante. o amor com a morte. a saída é procurar elementos poéticos no absurdo existencial. chamamos de Literatura ao conjunto das obras escritas por poetas. o uso da colagem de mensagens lingüísticas recolhidas ao acaso. já proposta pelo Romantismo. a poesia. Fernando Pessoa. e) Figurativismo Enquanto a pintura moderna. Ezra Pound. por todos os que se preocuparam com a arte da linguagem humana escrita. Mario e Carlos Drummond de Andrade. permitindo sua visão através de ângulos diferentes. buscando pontos de intersecção e trocando técnicas e materiais de composição. da arte pela arte. romancista. S. Ultimamente. tende cada vez mais à abolição da figura. artisticamente dispostas numa página.201 montanhas. Face à opressão do real. podendo-se inverter versos ou estrofes inteiras. de letras maiúsculas em contraste com as minúsculas. delegando a função de representar retratos e paisagens à arte fotográfica. Até o espaço em branco pode ser indicador de sentido. passando pelo Cubismo e pelo Surrealismo. o estrato gráfico e óptico do poema adquirem uma importância cada vez maior. Todos os povos primitivos têm sua “cultura”. altamente estimulantes para a criação artística. só adquirem sentido num contexto topográfico. coches no céu. dependendo da capacidade de percepção do leitor ou. segundo essa tendência da Vanguarda. o dissonante. não é feita mais de frases. não se pode falar de “literatura oral”. literatura é o . g) Recursos estilísticos No plano da expressão. do observador. de versos. Outro aspecto a ser ressaltado: não toda literatura é arte. As palavras. vejam-se os verbetes: Valéry.

o amor e a fortuna não pensam no que são . Mas esta linguagem. Não precisa dizer que o estudo sincrônico ou estrutural do texto é tão importante quanto a visão diacrônica ou evolutiva da Literatura. mármore. romântico. tende à ruptura dos automatismos lingüísticos e ideológicos. No que diz respeito especificamente à nossa cultura. modernista. e a colocar a máscara que o seu status social requer. nos países dos continentes europeu e americano e em algumas regiões costeiras da Ásia e da África. O conceito de literatura como “forma de conhecimento da realidade” irmaniza a atividade literária com as outras operações do espírito humano. psicologia. a literatura se diferencia das outras artes que usam diferentes meios de expressão: a imagem fixa ( pintura). narrador. bem como sua diferenciação das outras artes. gesso ou madeira (escultura) etc. medieval. é um parto da fantasia do autor que. espaço). líricas e dramáticas. a natureza e a função da literatura propriamente dita. estabelece-se a diferença específica entre o conhecimento artístico e o conhecimento reflexivo ou científico. excluindo-se apenas as civilizações orientais da China. não constrangida por preceitos morais. a sintaxe (inversões) ou a semântica ( metáforas). pelo uso das figuras de estilo . Enquanto o filósofo lança mão do pensamento especulativo e o cientista se apóia na observação e experimentação dos fenômenos da natureza. realista. que trata da especificidade das formas narrativas. estimulando os leitores a pensar nas palavras e nos sentidos que elas podem exprimir. à fantasia para tentar compreender o mundo. como a poesia ou o romance. o fogo. mas abrangente. de uma forma sucinta. que analisa os elementos estruturais comuns a qualquer tipo de texto (fábula ou mito. que se serve da ficção. desde a Grécia Antiga até nossos dias. e tem como meio de expressão a linguagem. jurídica. O que acontece num romance. personagem. A linguagem poética. pode abrir-se para nós em toda sua autenticidade. que podem atingir o léxico (metaplasmos). Daí a função social da literatura que. tempo. mas apenas historicamente inexistente. jornalismo etc. esta é obrigada a ocultar sua verdadeira essência. da filosofia e da ciência. portanto. renascentista. para ser literária no sentido estrito. O crítico Martin Seymour-Smith (Os 100 Livros que mais influenciaram a Humanidade) afirma que a Literatura é “uma luta contra as mentiras ortodoxas”. a crítica moderna apresenta vários caminhos possíveis: a teoria do Texto . tem que ser “artisticamente elaborada” para que se diferencie de outras atividades que. Esta definição apresenta. embora por caminhos diferentes. numa tela de cinema ou de televisão. como arte da palavra. que estuda as figuras de estilo. além de fornecer um prazer estético (o fim lúdico). num quadro. Para o estudo dessa imensidade de obras de arte literária. LOPE de Vega (dramaturgo espanhol)Comédia O mar. Pela oração adjetiva “que se serve da ficção”. O texto literário. refletindo sobre a realidade existencial. biologia e de outras ciências e artes. enquanto aquela. seus desejos mais recônditos. a teoria dos Gêneros. a teoria dos Movimentos . pelo uso da “linguagem”. que o distingue dos outros seres que habitam o universo. o artista recorre à imaginação. material ou espiritual. “Fictício” não significa falso. a Literatura Ocidental engloba os milhares de textos produzidos ao longo de quase 30 séculos. a imagem móvel (cinema). do Japão e da Índia. Outra coisa é o conceito de literatura num sentido restrito. artisticamente elaborada”. que pode ser definida assim: “Uma forma de conhecimento da realidade. que estuda as características estéticas e culturais das várias eras e épocas (período greco-romano. a par da filosofia. a Retórica. cria um universo imaginário onde os valores ideológicos são questionados. nunca excludentesCrítica. Se a busca do saber é a característica fundamental do ser humano. Observa-se que a personagem de ficção é muito mais verdadeira do que a pessoa real. contemporâneoIdade). induz o homem a refletir sobre os problemas existenciais. por ser fruto da imaginação. Por sua vez. todas elas voltadas para a compreensão do mundo em que vivemos.202 que foi escrito sobre algum assunto: assim falamos de literatura médica. também fazem uso da fala escrita: história. diferentemente. é natural que qualquer atividade do homo sapiens vise o conhecimento de uma realidade exterior ou interior. pois. as duas modalidades de abordagem sendo complementares. é a fonte mais fascinante de conhecimento do real. esportiva etc.

além de ordenar a morte do corpo. quem ofende uma senhora casada tem que lavar a desonra com o sangue. o impulso da carga biopsíquica da teoria determinista. ainda. A fuga dos dois tornase inevitável. Sua obra mais conhecida é Bodas de sangue. sem nunca se ter envolvido em problemas partidários. outrora. com o qual viajou por várias províncias. atualmente casado com outra moça. de temperamento dócil. Citando suas próprias palavras. à traição. a defesa da honra ultrajada: o homem que seduz uma moça virgem tem que casar com ela. a representação dramática é “a poesia que se levanta do livro e se faz humana e. Além de amigo de grandes literatos. O tema recorrente na sua obra dramática é o pundonor. Isto parece transparecer da emocionante fala da Noiva. a memória do grande poeta: manteve oculta a circunstância do vil assassínio. cineastas (Luis Buñuel). a Mãe e Leonardo. à vingança e esta leva à morte. logo em seguida. a mesma para qualquer atividade artística: a fantasia e o sentimento. composta pelo cruzamento de vários povos de sangue quente: andaluzes. A acusação oficial foi a denúncia caluniosa de ser espião da União Soviética. chora e se desespera”. toda a produção literária é poesia. vivendo apenas em função da sua poesia e do seu teatro. alegre. a Mãe revela que perdera o marido e um filho. uma vizinha informa que o antigo namorado da Noiva é Leonardo. Mas a paixão pelo teatro estava no sangue de Lorca. O drama é a representação das fortes paixões. quase telúrica ou cósmica. o Noivo. O noivo traído consegue alcança-los e os dois amantes da bela jovem se matam mutuamente. tentar também destruir o espírito. e. pois a paixão é indomável. ano do início da Guerra Civil Espanhola. ao fazer-se humana. mouriscos. cruelmente assassinados. o aparecimento de uma faca no início da peça funciona como indício do sangrento duelo. chora e se desespera”. Mariana Piñeda. É muito difícil distinguir nele o poeta lírico do autor dramático. Ele organizou um grupo de atores ambulantes. visto que. uma mancha indelével suja o solo de Granada: o poeta e dramaturgo García Lorca é covardemente assassinado por um pelotão do exército espanhol durante a ditadura de General Franco. A sapateira prodigiosa. lembra o fado inelutável da tragédia grega ou. dirigida à Mãe. tragédia em três atos e sete quadros ou cenas. Talvez a sua “culpa” fosse o fato de seu cunhado. pois Lorca sempre fora apolítico. Classificadas por assuntos. chamado “La Barraca”. Yerma. é o indício da iminência da catástrofe. Escreveu quinze dramas. No dia do casamento rapta a antiga namorada e foge para um bosque. pertencer ao partido socialista.203 e sim em mudar. o exuberante grupo de poetas do modernismo espanhol. que estão enraizadas na raça espanhola. no último quadro da peça: . o único que tem nome. Lope Félix de Vega Carpio (1562-1635) pode ser considerado o dramaturgo mais fecundo do teatro no Ocidente. prefeito de uma cidadezinha espanhola. amara a jovem que agora é noiva de outro. O clima trágico percorre o drama de ponta a ponta. que tolhe ao indivíduo o livre-arbítrio. a dissimulação da moça e sua tristeza são sinais de que a Noiva não vai desejar o casamento se realizar. que obriga a Noiva a se entregar novamente ao primeiro namorado. e ainda clama pelo castigo dos culpados. pois só ele tem coragem de lutar para satisfazer seu desejo. proibiu a publicação e a circulação de suas obras. fala e grita. sem ter sido convidado. A presença de Leonardo na festa dos esponsais. para Lorca. A casa de Bernarda Alba. de forma que a jovem geração espanhola não pudesse ler e estudar os poemas e os dramas de Lorca. dos quais os melhores são: O malefício da borboleta. Lorca freqüentou a privacidade de pintores (Salvador Dalí). seus admiradores afirmaram que ele escreveu mais de mil dramas. sobre o Velho e o Novo Testamentos. O amor leva à paixão desenfreada. sobre costumes de sua época. num sentido amplo. músicos (Manuel de Faria). No início da trama. vítima da ditadura de Franco) “A poesia que se levanta do livro e se faz humana. mandou dar sumiço a seus restos mortais. membro da família inimiga. pois a fonte é uma só. as peças de Lope são divididas em vários grupos: sobre histórias e lendas da Espanha. a esposa adúltera tem que pagar com a vida a ofensa feita ao marido. Esta força irresistível. Não havia motivo para o hediondo crime. Este pertenceu à chamada “geração de 27”. árabes. fala e grita. ao fazer-se humana. Além das 468 peças (426 comédias e 42 autos) que chegaram até nós. LORCA (dramaturgo e poeta espanhol. No verão de 1936. Leonardo. sobre motivos mitológicos e pastoris. divulgando as peças mais importantes da dramaturgia espanhola no meio da massa popular. Mais vergonhoso ainda é o fato de o Generalíssimo Francisco Franco. Os personagens principais são a Noiva.

e seu filho era um pouquinho de água. e eu não o traí. já é tarde: o código social. O Alienista. Erasmo de Rotterdam. encontrando no devaneio um “condimento” ou antídoto. com o avanço das teorias psicanalíticas sobre o inconsciente ( Freud). pode ser de origem genética. a mais comum sendo a maníaco-depressiva. Simão Bacamarte. acompanha o homem ao longo da sua história. Verifica-se. “A pior loucura – dizia ele – é ser sábio num mundo de loucos”. há uma área da medicina que trata especificamente das doenças mentais. médico de Itaguaí. mas antes não se tinham estudado as causas da maluquice. a Psiquiatria. Foucault. esvazia-se a cidade e lota-se o hospício. mesmo que eu fosse velha e todos os filhos do seu filho me agarrassem pelos cabelos!” Talvez a culpa dos dois amantes — Leonardo e a Noiva — esteja na falta de coragem de enfrentar tempestivamente a opinião pública pois. na sociedade espanhola da época de Lorca. a loucura começou a ser tratada como uma doença provocada por traumas da infância. pelo casamento de um e pelo noivado da outra. ensina que somente no final do séc. que cria uma ruptura ou uma inadaptação do indivíduo com a família e a sociedade. na sua História da Loucura (1961). assim como há doenças que fazem sofrer o corpo. começa a internar na sua clínica todos os cidadãos portadores de defeitos psíquicos. XVIII a loucura começou a ser tratada como uma doença mental. a figura retórica que Aristóteles chama de “peripécia”: a ação consegue um resultado contrário do esperado. A verdade é que é muito difícil estabelecer o limite entre a loucura e o estado da razão. física ou ambiental. pois se chegou à compreensão de que existem distúrbios que afetam a alma. mas o outro era um rio escuro. E eu corria com seu filho. assim. o alienado era posto num asilo. mas o braço do outro me arrastou como a correnteza do mar. Machado de Assis. Eu era uma mulher ferida pelo fogo. a “Casa Verde”. Com a loucura estão relacionadas neuroses e psicoses. Partindo do princípio de que qualquer atitude que foge da normalidade é sinal de loucura. encontra-se irremediavelmente violado e a desonra tem que ser lavada com o sangue. Apenas no início do séc. ouviu bem? Eu não queria! Seu filho era o meu fim. resolve dedicar-se a pesquisas psiquiátricas e funda um hospício para cuidar dos dementes. e o outro me mandava centenas de pássaros que me impediam de andar e derramavam orvalho nas minhas feridas de mulher fraca e abatida. em breve tempo. que é uma doença afetiva. Diário de um Louco) “O extremo limite da sabedoria é o que as pessoas chamam de loucura” (Jean Cocteau) M. porque o médico constata que a quase . cheia de chagas por dentro e por fora. saúde. de moça acariciada pelo fogo. como um coice. LOUCURA (Elogio da Loucura. de onde me chegava o sussurro dos juncos e um murmúrio abafado. no seu famoso conto O Alienista. de quem esperava filhos. havendo relações muito profundas entre os dois campos de patologia. Quando resolvem atender ao chamamento da natureza. No Renascimento. e teria me arrastado sempre. Eu não queria. considera a anomalia como o estado de espírito do homem que queria fugir da monotonia da vida cotidiana. no seu Elogio da Loucura (1511). das forças do instinto. A problemática do homem que age de uma forma insensata. Mas. pois a maioria sofre de desequilíbrio emocional. que era como um fiozinho de água fria. eu fui! Você também teria ido. terra. A manifestação psicótica. Quando a doidice se tornava perigosa à sociedade. considerado herege ou bruxo e condenado à fogueira (Joana d’ Arc). sempre. Na Idade Média ( Medievalismo). cheio de ramagens. Hoje em dia. um ser extravagante era tido como possesso pelo demônio. sempre. retrata este tema com fina ironia. XX. o sentimento de honra gritava mais forte do que o direito à felicidade.204 “Porque eu fugi com o outro. contrária às regras sociais e morais.

então. Confirmando o achado do poeta da MPB. Ora. tenta explicar as causas científicas dos fenômenos naturais. Em pouco tempo. Este conto foi adaptado para o teatro francês e encenado também no Brasil. Titus Lucretius Carus (98?-55 a. esta minoria é sarada. da ira. único exemplar irredutível de equilíbrio emocional. O conteúdo do conto machadiano vem sendo corroborado por recentes pesquisas médicas. De rerum natura (“Sobre a natureza das coisas”). pondo em evidência a importância da loucura na história da humanidade: “Tudo de grande que conhecemos veio dos neuróticos. A loucura é confundida com o demônio. terremotos e pestilências à ira dos deuses. porque é anormal. em 2004. porque fogem da normalidade que sofre de desequilíbrio emocional. eletrochoques ou psicoterapias. O mundo nunca tomará consciência do quanto deve a eles. assim. há a “loucura” consciente das pessoas que se recusam a viver conforme as convenções sociais e morais. Liberta. pois faz com que o homem. a dedução lógica é que a verdade está no contrário de sua teoria.205 totalidade do povo sofre de loucura. educado na escola epicurista da Campânia. se isole da maioria que vive segundo a opinião. pratique um vício ou uma fraqueza. então. pois. do escritor russo Gogol. pois a natureza diabólica. servindo-se da descoberta dos átomos.. porque não é difícil conseguir a prática da vaidade. testando um medicamento antidepressivo. conduzida à morte pelo próprio pai . especialmente. se o sintoma da demência é a anormalidade e é a maioria que fornece o parâmetro da regra. o protagonista interna no manicômio a si próprio. a maioria e submete a minoria a um tratamento intensivo com a finalidade de conseguir que cada um. desmistificando assim as superstições que atribuíam raios. que o equipare à maioria. não podem nos dar felicidade. A conclusão da pesquisa foi de que “o normal é não ser normal”! Outra obra ficcional. de que é vítima um humilde funcionário público. a que faz coro o escritor francês Marcel Proust. um fenômeno mais coletivo do que individual. que deve ser submetida a um tratamento por via de remédios. Diferentemente da doença patológica. LÚCIFER (Demônio)Satã LUCRÉCIO (poeta e filósofo romano)Epicuro Se os sentidos não são verdadeiros. outra peripécia. C. assumiu a missão de divulgar a doutrina atomista dos filósofos Demócrito. Simão Bacamarte passa. descrevendo o sacrifício de Ifigênia. o parecer. confirmando o fato de que a arte chega antes do que a ciência na descoberta de verdades existenciais. Empédocles e. desta vez ao nível da caracterização das personagens e da inversão dos valores ideológicos: o médico se torna paciente e os que ele reputava doidos lhe ensinam que a loucura reside em querer que os homens. que o aliena do real. acima de tudo. verificaram com base estatística que quase 80% dos entrevistados apresentavam transtornos psíquicos.. Este conto machadiano expressa. que contestam valores que cultuamos automática e inconscientemente e que. geralmente poetas. No seu imortal poema em seis livros. coerentemente. que ensinava serem a ignorância e o medo os sustentáculos da religião. Num dos trechos mais líricos do poema didático. Diário de um Louco. a considerar loucas as poucas pessoas equilibradas. vítimas de uma série de limitações biológicas e sociais. artistas e até cientistas (“cada gênio com a sua mania”!). Caetano Veloso. segundo sua tendência natural. em forma de arte. que canta “de perto ninguém é normal”. da luxúria etc. segundo Gogol. as partículas indivisíveis cujo choque causaria os acidentes. e nem.). nossa razão é falsa Poeta de tendência filosófica e científica. consiste no esmagamento do indivíduo por um sistema social opressivo e degradante. região ao sul de Roma. enfrenta o mesmo tema da esquizofrenia. sejam imunes de paixões e de contradições. Já o sábio romano Sêneca observara que “ainda não houve homem de gênio extraordinário sem algo de louco”. O homem. portanto. uma profunda verdade existencial: o homem verdadeiramente lúcido é um louco. do mestre Epicuro. do quanto eles sofreram a fim de outorgarem suas dádivas ao mundo”. por serem falsos e aleatórios. Dá-se. Contraditoriamente. A alienação é. estudiosos do Laboratório de psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Outra vez vazio o hospício. só consegue sentir-se importante num estado de alucinação. São os homens mais lúcidos. é a lucidez mental sintoma de loucura. na tentativa de ser autêntico e coerente com os postulados ideológicos.

mas se tornou imortal pelas suas poesias líricas e pela epopéia Os Lusíadas. ora os considera divindades falsas e mentirosas. com vistas a ampliar suas atividades comerciais. sofrendo exílio. não é o autor. mas personagens que assumem o papel de contadores das histórias. evidentemente. Lucrécio exclama: “Tantum religio potuit suadere malorum!” (Até que ponto a religião pôde induzir um homem a cometer maldades!) A obra de Lucrécio teve uma influência incalculável na cultura ocidental. Filho de fidalgos empobrecidos viajou muito. O rei D. Enfim. portanto. transitando o poeta lusitano livremente entre a lírica tradicional e a clássica. outras vezes se contradizem. figura da mitologia greco-romana. ate hoje. idéias e sentimentos através de pontos de vista diferentes. Fernando Pessoa que. cada qual expressando uma faceta do espírito do poeta. o Gigante Adamastor e outros personagens em várias passagens d’ Os Lusíadas. apesar de ser um dos maiores poetas da Renascença européia. ora enaltece os heróis e os reis de Portugal. acusando a participação subjetiva de Camões. adverte seus contemporâneos. Mas o maior poeta lírico da Renascença européia. O poema épico Os Lusíadas começa com o conhecido verso: As armas e os barões assinalados. sua opinião sobre os acontecimentos. é o primeiro trabalho de pesquisa que apresenta um modelo sério de investigação científica e de reflexão filosófica. assim como Inês de Castro. apresentando Camões como profundo conhecedor da cultura clássica e da história do seu país. que toma a palavra para expressar. em 1527. o poema camoniano apresenta traços de semelhança com a produção poética de outro grande expoente da literatura portuguesa. em que ressalta a oposição dialética existente dentro do ser humano e o ilogismo e o . pois. que sabe tudo a respeito de todos. poderia ser submetido ao mesmo tipo de análise que M. Considerado sob este aspecto. Essas várias “vozes” às vezes se entrelaçam. naufrágio e prisão. cada qual dependendo de um diverso sujeito do discurso: 1) o ponto de vista do eu poemãtico (eu canto o peito ilustre Lusitano): é a “voz” que interpreta os acontecimentos. morreu num hospital de Lisboa na mais negra miséria. ora denuncia os graves defeitos da gente de sua terra. Estamos perante um “eu dividido”. pela sua “fala”. A grandiosa obra reflete os dois postulados principais da cultura renascentista: a imitação dos modelos artísticos da Antiguidade greco-romana e a exaltação do homem na sua conquista de novos caminhos marítimos. Estas (e outras) contradições seriam inexplicáveis sem o recurso estilístico da pluralidade dos sujeitos da enunciação. apesentando ações. Nele convergem todas as correntes poéticas de sua época. 3) O ponto de vista dos personagens-narradores (Ó glória de mandar. introduzida em Portugal por Sá de Miranda. Os Lusíadas. tem uma biografia obscura. Não sabemos a data certa nem o lugar de seu nascimento (Lisboa ou Coimbra?). quando de sua volta da Itália. além de divulgar o epicurismo e o atomismo. como cidadão de Portugal. Quanto à produção lírica. continuando a matar em nome de Deus! LUSÍADAS (poema épico de Camões) Épica Renascimento Amor é fogo que arde sem se ver Luís Vaz de Camões (1524?-1580). Ele cultivou todas as formas poéticas da sua época.. a pessoa física de Camões.. considerado o lendário fundador de Portugal. através do processo da criação heterônima. ora relata a intervenção dos deuses pagãos nos acontecimentos portugueses. O “narrador” da aventura de Vasco da Gama em busca do caminho marítima para a Índia. a maior obra da Renascença portuguesa.206 Agamenão para atender à ordem da deusa Diana. desdobra o próprio “eu” em várias personalidades humanas e poéticas. 2) o ponto de vista do narrador onisciente (Já no largo Oceano navegavam): aqui o narrador é um ser onisciente e onipresente. O que dói é constatar que a humanidade. ó vã cobiça): aqui é o Velho do Restelo. pela sua genialidade. Bakhtine utilizou para a exegese da obra de Dostoievski. ora a julga à luz da história. especialmente pelas colônias portuguesas de ultramar (Goa e Moçambique). Podemos distinguir três “visões’’ ou ‘‘perspectivas” principais. Daí a importância deste poema camoniano no contexto da cultura do Renascimento europeu. os melhores poemas de Camões são os produzidos na chamada “medida nova”. que ora idealiza a viagem do Gama. Etimologicamente. Sebastião concedeu-lhe uma modesta pensão para alguns anos. emite julgamento de valores. está acima de qualquer corrente estética. a palavra “lusíada” ou lusitano significa “acerca de Luso”. ainda não aprendeu as lições ensinadas por Epicuro e Lucrécio. filho do deus Baco (Dionísio).

diz respeito ao “discurso” do poema. D. nos Lusíadas encontramos a narração entrelaçada de três grupos de acontecimentos mítico-históricos.207 paradoxismo das situações. As contradições encontráveis no poema camoniano constituem seu aspecto mais moderno. dividido em dez cantos. LUTERO (a revolta contra a Igreja de Roma: Reforma Protestante) “Paris bem vale uma missa” (Henrique de Navarra) Apesar do enorme progresso social e cultural que se deu na Europa a partir da Renascença. que lançaram gritos de reformas políticas. Camões. o plano do enunciado se relaciona com a “história”. O início da trama tem. começa seu poema in medias res: a trama inicia pelo meio da fábula. Após essa interrupção. começa quando a armada portuguesa já se encontra perto de Moçambique. assim. O primeiro movimento reformista aconteceu na . era necessária uma narração prospectiva. mostrando aos portugueses de Vasco da Gama as futuras glórias de seu país na Europa. chefiada por Vasco da Gama. Afonso Henriques. na África e na Ásia. O poema. A classe nobre (reis e príncipes) também era obrigada a pagar onerosos tributos ao papa e ao imperador. Por isso. o ano da expedição do Gama e como elemento espacial a África. centradas sobre os poderes absolutistas do Império Romano-Germânico e da Igreja Católica. vários movimentos de protesto. por sua vez. Como os portugueses lá chegaram e por que iniciaram a longa viagem é contado através da narração retrospectiva (flash-back) do capitão Vasco da Gama ao rei de Melinde. dando particular ênfase à expedição portuguesa. religiosas e sociais. Mas o herói português não conta apenas o início da viagem. b) Presente do enunciado = época da expedição do Gama (1498). o modo pelo qual o conjunto dos fatos é narrado. obrigada a trabalhar com remuneração ínfima e quase sem direitos: os proprietários das terras proibiam de catar lenhas. quase a metade da distância entre Portugal e a Índia. Sebastião. e chegando até os feitos de D. Para tanto. a nobreza aliou-se à burguesia na luta contra o absolutismo político e a exploração econômica do Império e da Igreja. c) Passado anterior ao enunciado = período de tempo que vai desde a fundação da nacionalidade portuguesa (meados do século XII) até a viagem do Gama. Aí se dá outro flash-back. recuando a narração até o início da fundação da nacionalidade lusitana e sintetizando em dois cantos (III e IV) mais de três séculos de história de Portugal. A matéria-objeto da épica camoniana é a “fábula” do povo português. vivia num estado de servidão. ainda persistiam estruturas medievais. portanto. que ocupam o lapso de tempo que decorre da expedição do Gama até a publicação da obra. Mas este assunto poemático não é narrado na sua ordem cronológica. A nascente burguesia sentia sua atividade obstaculada pela falta de liberdade de locomoção (pesadas taxas alfandegárias de um feudo para outro). que quebram a estrutura fechada e o sentido monológico da poesia épica clássica. como elemento temporal de referência. irmão do capitão-mor. a narração continua linearmente. de caçar. através de uma visão profética: é o que faz a ninfa da ilha de Vênus. na costa africana. pois denunciam as perplexidades de Camões. desde seu fundador mítico. os camponeses abandonavam a roça para tentar melhor sorte nas cidades. Devido a esses fatores. como acabamos de ver. em busca do caminho marítimo para a Índia. Luso. explica ao Catual de Calicute o significado das figuras desenhadas nos painéis das bandeiras. tendo como principal aspiração a constituição de Estados Nacionais. Camões propõe-se cantar a história dos fatos gloriosos de Portugal. A massa popular. Mas estava no plano dos Lusíadas cantar também acontecimentos portugueses posteriores à viagem do Gama. de ter criações próprias. Se o plano da enunciação dos Lusíadas. quando Paulo da Gama. não havendo coincidência entre “fábula” e “trama”. seguindo o exemplo de Homero e de Virgílio (“o grego e o troiano”). passando pelo seu fundador histórico. quer em relação à história de Portugal. quer em relação à viagem de Vasco da Gama. de épocas diferentes: a) Presente da enunciação = época da publicação do poema (1572). descrevendo as peripécias da viagem da armada portuguesa de Melinde até a Índia. independentes do poder centralizador do Papa e do Imperador. Camões descreve a viagem de volta da armada para Portugal e a parada intermediária na utópica ilha dos Amores. cada vez mais. de comércio (a Igreja proibia a usura e o lucro) e de autonomia (exigência de impostos e dízimos). filho de Baco. rei de Portugal na época da publicação dos Lusíadas. Em resumo. ao modo pelo qual o narrador está presente na narrativa. Surgiram. Após a narração das transações comerciais e do pacto de amizade entre os dois povos.

Estado eslavo encravado no Sacro-Império e disputado pelos príncipes tchecos e germânicos. Wycliffe foi condenado como herege. através da usura) como um sinal da benção divina. Ulrich Zwingli e João Calvino encabeçaram a revolta dos quatro cantões. a obra famosa do sociólogo e economista alemão Max Weber. assim como qualquer tipo de “relíquia”. lançou o grito comunitário: se todos os homens são iguais perante Deus. o protestantismo chegou com a motivação de não pagar impostos ao papa. Aproveitando a recusa do papa Clemente VII de conceder-lhe o divórcio de sua esposa Catarina de Aragão. Tal propósito foi facilitado pela invenção da imprensa e pela tradução do Velho e do Novo Testamento nas línguas vernáculas. o estudante de Teologia de Oxford. no início do século XVI: em 1517. Mas a grande Reforma protestante contra a autoridade do papa e os desmandos da Igreja Católica eclodiu na Alemanha. quando bispos de toda a Europa fizeram uma revisão da doutrina católica e impuseram severas normas de conduta moral. O próprio Lutero deu o exemplo. a massa popular. no ano de 1415. Para tanto. convocou o Concílio de Trento. Na Inglaterra. que se chamou de “Contra-Reforma”. Henrique VIII. O Calvinismo deu à Reforma de Lutero um caráter mais conservador. porque adquire o conhecimento da vontade de Deus pelos textos sagrados e pode arrepender-se de seus pecados pedindo perdão diretamente a Deus. Sua sorte foi pior: o papa João XXII o condenou a morrer na fogueira. junto com padres franciscanos que chegaram do continente. Veja-se. revelou-se extremamente conservador quanto à moral. de 1545 a 1563. embora respeitasse quase integralmente os dogmas católicos. em 1381. Entre os tópicos mais importantes da Reforma luterana. mas suas idéias se difundiram pela Europa toda. A Reforma luterana provocou várias rebeliões na Alemanha. já então um Estado independente do Sacro-Império e governado por ricos burgueses. não queria se submeter à autoridade papal. outro estudante de Teologia. que nunca deixou de representar os interesses da burguesia. ordem religiosa fundada pelo cavaleiro espanhol Inácio de . é justo que todos os bens sejam divididos entre todos. 4) A abolição de cinco sacramentos (ficaram apenas o batismo e a eucaristia) e do celibato eclesiástico: a permissão do casamento dos padres esvaziou paróquias e conventos. a atividade comercial e a especulação financeira. Daí o apego dos protestantes à leitura da Bíblia. para contrair novas núpcias com a bela cortesã Ana Bolena. Na Suíça. que funcionou ao longo de dezoito anos. iniciou um movimento de renovação dos costumes. 2) A negação da autoridade papal: o papa não é infalível e a Igreja Católica não tem poder sobre o Estado ou sobre outras formas de religiosidade. surgiu o segundo movimento de purificação da Igreja: Jan Huss. apontamos: 1) O livre exame da Sagrada Escritura : a palavra de Deus deve ser conhecida diretamente pelos fiéis e não indiretamente pela pregação dos padres católicos. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1905). o Calvinismo santificou os empreendimentos industriais. A execução das resoluções do Concílio foi confiada à “Companhia de Jesus”. consideradas como novas formas do politeísmo pagão. se do ponto de vista social foi progressista. por exemplo. com suas pregações começou a denunciar a venda das ‘‘indulgências”(o perdão dos pecados em troca do pagamento à Igreja de uma certa quantia de dinheiro) e a atacar a riqueza material e a imoralidade do alto clero. Daí alguns historiadores terem sustentado a tese da existência de uma relação muito estreita entre a ética protestante e o triunfo do sistema capitalista. impondo pesadas restrições. devem ser destruídas. que vivia faustamente e exigia tributos para sustentar seu luxo. que perdura até hoje. A Igreja de Roma. O Capitalismo marchou junto com o puritanismo na construção de um novo modelo de vida social. liderada por Thomas Münzer e congregada numa seita chamada de “Anabatista”. Os nobres empobrecidos assaltaram abadias. Qualquer cristão tem acesso direto a Deus e pode ser salvo pela fé em Jesus Cristo. exaltando o espírito da burguesia. Mas tal posição extrema foi condenada pelo próprio Lutero.208 Inglaterra. Essa tese fornece o motivo ideológico para a explicação do fato histórico de que os povos de religião protestante são mais ricos e mais desenvolvidos. tentou uma reforma dos costumes. quando. 3) A iconoclastia: as imagens e as estátuas de Nossa Senhora e dos Santos. O crente não precisa de intermediários. Mas o Calvinismo. No reino da Boêmia. As forças conservadoras do clero e dos nobres acabaram decapitando Münzer e os outros dirigentes da liga camponesa. casando-se com uma freira. Considerando o enriquecimento (mesmo ilícito. consumou o cisma com Roma e fundou a Igreja Anglicana que. não evitou violentas lutas por motivos religiosos. John Wycliffe. insurgindo-se contra a prepotência e a corrupção da Igreja. estimulou as insurreições camponesas. o protestantismo se revestiu de um caráter mais propriamente político. o monge agostiniano Martinho Lutero afixou na porta de uma igreja da Saxônia suas ‘‘95 teses”. exigindo que os prelados católicos renunciassem aos bens materiais e obrigassem padres e monges a trabalhar. rei do Estado nacional. Ele. para enfrentar a disseminação das várias seitas protestantes.

O primeiro Grande Inquisidor espanhol. teve a incumbência de processar e condenar cidadãos acusados de outros crimes também. MACHADO de Assis Realismo Romance Conto Ironia Loucura “Não tive filhos. evangélicos. não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” (parágrafo final de Memórias Póstumas de Brás Cubas) Machado de Assis (1839-1908) é o maior ficcionista da época do Realismo e de toda a Literatura Brasileira. Machado não pode ser filiado a nenhuma escola literária. que ainda hoje têm reflexos na Irlanda e em alguns países do Oriente Médio. Coroado rei com o nome de Henrique IV. figura de projeção internacional pelo caráter universalizante de sua obra. onde os índios catequizados aprendiam a lavrar a terra e a criar o gado. A ContraReforma ensejou inúmeras e sangrentas guerras de religião em toda a Europa. criando-se o Tribunal do Santo Ofício. As pessoas delatadas. Durante o Concílio de Trento foi reformulada a Inquisição medieval. Enfim. bruxaria. metodistas. 1594). na famosa Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572). Países Baixos. romance original que se afasta da narrativa convencional. estes chamados pejorativamente de “huguenotes”. embora historicamente pertencente à época do Romantismo. eram submetidas à tortura até à confissão e. travaram-se oito guerras entre católicos e protestantes. o padre dominicano Tomás de Torquemada. pronunciando a famosa frase “Paris bem vale uma missa”. Essa Inquisição. A primeira compreende as narrativas de inspiração romântica. Somente na França e apenas durante a segunda metade do século XVI. Os ramos mais antigos foram: Luteranismo (Alemanha e países Escandinavos). No Brasil. existiam também interesses políticos pela disputa de territórios entre França e Espanha. pentecostais. entre outras. Calvinismo (Suíça. a segunda. A segunda fase machadiana inicia-se com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881). América e Oriente. com o fim específico de lutar contra o protestantismo. Anglicanismo (Inglaterra). nas regiões recém-descobertas. ele solucionou o conflito religioso. O Tribunal da Inquisição. ao francês Voltaire. abrange todas as obras-primas. concedendo liberdade de culto aos protestantes (Edito de Nantes. Junto com o motivo religioso. além de perseguir hereges. foi acusada de crimes horríveis na tentativa de reprimir hereges e protestantes. apareceram várias correntes dentro da sua doutrina. França e USA). depois de condenadas nos autos-de-fé. . adquirindo múltiplos aspectos. se teve inegável mérito pela sua ação religiosa. Henrique de Navarra converteu-se ao catolicismo. para terminar as hostilidades. o mestre da ironia. sendo que. tornando-se setas religiosas diferenciadas. quer quanto ao plano da expressão (dedicatória irreverente. Mais tarde surgiram as Igrejas das congregações de batistas. Os críticos costumam dividir sua vasta produção literária em duas fases. social e cultural. teve seu apogeu na época barroca. com sede na Espanha. Inúmeros colégios jesuítas se espalharam pela Europa. Com base no seu princípio fundamental da livre interpretação das Escrituras. A partir daí. eram queimadas na fogueira. o Protestantismo começou a se desenvolver paralelamente ao Catolicismo. foram massacrados aproximadamente trinta mil huguenotes. pode ser considerado realista antes do tempo. a tarefa dos religiosos era evangelizar os indígenas e organizar “reduções’’. ao caricaturista brasileiro Manuel Antônio de Almeida. cujo único romance. quando se notabilizou por seus métodos arbitrários e cruéis. consideradas “bruxas”. Memórias de um sargento de milícias. a da maturidade. pois o verdadeiro gênio não segue. No decorrer da quarta guerra. poligamia. cada qual adquirindo feições locais nas diversas regiões do planeta. em 1534. o nobre apostolado dos jesuítas está substanciado nas ações de três padres que passaram a integrar a história de nossa terra: Nóbrega. Se quisermos encontrar influências literárias que contribuíram para a formação do estilo e da mundividência machadianos. como braço forte da Contra-Reforma. Mas a Companhia de Jesus. condenou à fogueira aproximadamente duas mil pessoas. mais do que aos escritores filiados à moda naturalista. protestantes e judeus. narrador-defunto. pois segue o filão da narrativa picaresca espanhola. durante os dezesseis anos que ocupou o cargo. Anchieta e Vieira. mas cria os cânones estéticos. devemos recorrer aos humoristas ingleses Swift e Sterne. através do ensino religioso dirigido. instituído no século XIII para combater a heresia cátara. A cavaleiro entre duas épocas — Romantismo e Realismo —. tendo seus bens confiscados ( Joana d’ Arc).209 Loyola. assim como sodomia.

longe da idealização dos românticos e do determinismo dos naturalistas: o adultério de Virgínia não é devido nem a uma paixão avassaladora nem a uma tara hereditária. costumes. Os Buddenbrooks: decadência de uma família. através da invenção da filosofia “humanitista”. Foi com ela que a escola positivista européia começou a criticar o comodismo conservador da classe burguesa. MANZONI. o grande escritor do Rio de Janeiro demonstra ser um excelente observador da alma humana e da sociedade urbana da então capital do país. MADAME Bovary (romance de Flaubert)Realismo MAGIA (bruxaria. com um sorriso irônico. Marcos Palmeira. focalizando problemas existenciais. Distanciando-se de suas personagens. A Segunda Via (antecipação do conhecimento). O Alienista (a loucura generalizada). que faz com que as ações humanas consigam um resultado contrário ao esperado. com Maria Fernando Cândido. malthusianismo)Demografia MANET (pintor francês)Impressionismo MANN. com sua postura de humorista. Alessandro (romancista italiano: Os Noivos) Romantismo Nem sempre aquilo que vem depois é progresso Alessandro Manzoni (1785-1873) escreveu um único romance. refletindo nas personagens a podridão social. telenovelistas e diretores de cinema. A Igreja do Diabo (indivíduo vs sociedade). Além de mais dois romances. Esaú e ]aço e Memorial de Aires. de inspiração goethiana. intelectuais burgueses discutem sobre arte. A montanha mâgica: num sanatório. satiriza sutilmente a fé dos pensadores positivistas no progresso moral da sociedade. superstição. estilo irônico. as aspirações e as lutas cotidianas para conseguirem migalhas de felicidade. Doutor Fausto. através de uma análise crua da realidade social. A Missa do Galo (a sedução). Capitu é descrita como mestra do fingimento. Trio em Lá Menor (perfeição). técnica da peripécia narrativa). Maria Cora (inconseqüência psicológica). demonismo)Fantástico MALLARMÉ (poeta francês) Simbolismo MALTHUS (economista inglês. I Promessi Sposi (“Os Noivos”). já dentro das técnicas estéticas do Modernismo. Em Quincas Borba (1891). Sem o moralismo próprio dos escritores naturalistas que. Dom Casmurro (1899) é o romance da dúvida que toma conta do espírito do personagem-título sobre a fidelidade de sua mulher. Machado retoma assunto e personagens do romance anterior e. Machado. Para o estudo da principal característica estilística de Machado. religião. indicando o tema tratado: A Cartomante (a impostura dos profissionais da adivinhação). fetichismo. Dele recordamos as obras mais famosas. filosofia. Pai contra Mãe (opressão em cadeia). interpretando o personagem Bentinho e Bruno Garcia. Singular Ocorrência (ato gratuito). no papel de Capitu. romance que lhe proporcionou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1929: o assunto retrata o declínio de uma família burguesa obcecada pela caça aos valores materiais. dramaturgos.210 inversões temporais. em 2003. O esforço do indivíduo embate-se contra a ironia do destino. a mulher “de olhos de ressaca”. De fundo histórico. ambientado na . narrativa convertida em filme por Luchino Visconti. mas apenas ao desejo de melhorar sua posição econômica). onde Mann aborda o tema da solidão do artista. Machado escreveu também várias coletâneas de contos. tencionavam reconditamente curar os males. Quanto à fortuna crítica e ao reconhecimento póstumo da ficção machadiana é dispensável qualquer comentário Suas obras foram e continuam sendo fonte de inspiração para escritores. Último Capítulo (caiporismo). O Enfermeiro (o crime compensa). O Segredo do Bonzo (opinião vs realidade). veja-se o verbeteIronia. no filme DOM. quer nas curtas. Morte em Veneza. O Empréstimo (ambição). acusa um profundo sentimento de ceticismo e de pessimismo. apontando suas causas. quer quanto ao plano do conteúdo (novo modo de ver o mundo. Thomas (romancista alemão) Thomas Mann (1875-1955) pode ser considerado o último grande escritor da época realista e isso porque a Revolução Industrial chegou atrasada na Alemanha. que se tornou a obra-prima do gênero narrativo da literatura italiana. Recentemente. A Causa Secreta (sadismo). Anotamos alguns mais famosos. o cineasta Moacyr Góes retoma o tema do romance Dom Casmurro. ele lhes examina as virtudes e os vícios. Quer nas narrativas longas. cujo personagem Miguel é uma adaptação do Escobar do romance de Machado de Assis.

seu tio. na sua totalidade de seitas. conjunto de preceitos baseados nos hadith (ditos e feitos do Profeta). IX). um novo credo. Maomé se revelou um grande chefe político e militar. lugar de nascimento de Mohamed. Islâmico) “Eu testemunho que não há outra divindade além de Alá e que Maomé é seu Profeta” Mohammed ou Muhammad. juntando-se a Moisés e Jesus Cristo. Devemos ao Islamismo a divulgação da cultura grega no Ocidente. Medina. Órfão e pobre. depois de uma luta sangrenta. sede da Caaba (templo da “Pedra Negra”). depois do judaico Moisés (Bíblia) e do palestino Cristo. a partir daquela data. Enquanto os seis séculos da Baixa Idade Média Cristã (do séc. Ele disse que “Deus deu a cada povo um profeta em sua própria língua”. a fé islâmica (“Islam” = obediência a Deus). constitui a segunda maior religião. Com as Cruzadas (início do séc. o calendário muçulmano. Averróis. Os sunitas são os seguidores da tradição do Profeta. passou a substituir Jerusalém. 3) o Ramadã. recolhida no livro sagrado “Corão” (ou Alcorão. No ano de 610. apresenta um painel da realidade social da época. com o Renascimento. das ciências ou das artes (constatação espantosa: seiscentos anos de paralisia cultural em todos os países europeus!). filósofo e cientista (séc. como centro religioso. Os muçulmanos se dividem em dois grandes grupos principais: os sunitas (da palavra suna. o Oriente Médio nos legou Alcuíno. organizando um Estado em que os costumes tribais da Arábia foram substituídos pela Sharia (lei corânica) e pela Suna. 4) hadjdj. Nesta época. os muçulmanos eram mais tolerantes que os cristãos. Sua pregação. através da história ficcional do amor de Renzo e Lucia. A decadência da religião islâmica se tornou evidente nos anos 50 do séc. A Meca. o reformulador da ciência médica. meditando numa caverna. a peregrinação à Meca pelo menos uma vez na vida. começou a inversão: as nações de civilização cristã tentaram impor sua cultura aos árabes muçulmanos. 2) Salat. nasceu na Meca em 570 (provavelmente) e morreu em Medina. e Jerusalém. logo depois. 5) zakat. o Islã. Os xiitas (16% dos muçulmanos) também possuem sua própria interpretação da Sharia. XX. na direção da Meca. professa pelos árabes que se separaram do Judaísmo (Jerusalém) e do Cristianismo (Cristo). afirmou ter ouvido a voz do arcanjo Gabriel que lhe transmitiu a mensagem de Deus (Alá ou Allah. . no que se refere aos costumes. V ao XI). Os lugares mais sagrados do Islamismo são Meca.3 bilhões de adeptos. Diferentemente dos profetas bíblicos. impedido pela prepotência do senhorio dominador. Atualmente. em 622. então. a profissão de fé: “Eu testemunho que não há outra divindade além de Alá e que Maomé é seu enviado”. consagrando-lo como o terceiro grande Profeta. cidade de onde o profeta ascendeu aos céus. então. quando o presidente do Egito. pois os europeus nunca tiveram um contato direto com a língua de Homero. entre outros cientistas e artistas. A obra possui um profundo sentido patriótico (estímulo à luta pela unificação e independência da Itália) e religioso (a fé em que Deus fará sempre triunfar as forças do bem sobre as forças do mal). o pensador Alfarrabi (870-950). Seu nome deriva da expressão " shi at Ali". iniciando.211 época do domínio espanhol na província de Milão (século XVII). do árabe al-Qur’an = a leitura). Avicerna. o romance manzoniano. Seu período de esplendor se deu na mesma época em que a religião cristã condenara a Europa ao obscurantismo ( Medievalismo). em 632. Proclamada a Guerra Santa (djihad). A doutrina islâmica está centrada sobre cinco pilares: 1) Chahada. a Hégira. além de ser o modelo de beleza de estilo da língua italiana . Maomé conquistou sua cidade natal. o grande tradutor de obras gregas para o latim. cidade onde fica a Caaba (o templo da Pedra Negra). encantou as classes desfavorecidas e provocou o ódio de judeus e cristãos ricos. continuada por All-Abbas. o mês destinado ao jejum diurno. uma rica viúva quadragenária. o caminho) e os xiitas. casou com sua patroa. XII) e. cinco vezes por dia. filha de Maomé. não produziram sequer um nome ilustre no campo da filosofia. que foi marido de Fátima. em 630. chamado Maomé pelos europeus. famoso pelos comentários à lógica aristotélica. MAOMÉ (Profeta de Alá: Muçulmano. Nascia. depois do Cristianismo. com cerca 1. em árabe). a prece legal. o pagamento de esmola. levado pelo arcanjo Gabriel até o Paraíso. condutor de caravanas. partido de Ali. Maomé foi obrigado a emigrar para Medina. Em situação crítica.

A esta “virtude”. que obrigue um político a cumprir o que promete durante a campanha eleitoral. onde a violência física é banida. os fatos vêm confirmar a teoria: quase todos os Estados. A essência da tese de Maquiavel é que a política é “amoral”. o soberano do Iraque. quando o déspota se demonstrou “amigo”. pois está acima do conceito do bem e do mal. ofendido pela tentativa de quebra de costumes tradicionais. Mesmo em países democráticos. e manipularam os dogmas da fé com finalidades políticas e econômicas. a sorte. a força das circunstâncias. o fim da utopia comunista acabou de demonstrar que todos os fins são nobres apenas para quem os tenta justificar. Enfim. onde predomina a religião muçulmana. que limitam ao máximo a liberdade de pensar. Nicolau Maquiavel (1469-1527) foi um nobre florentino. sustenta a tese oposta à do renascentista italiano: “Podeis reduzir-me o corpo a cinzas e dispersá-las ao vento. segundo o pensamento do historiador e místico francês Ernest Renan (1823-1892). que exerceu a função de chanceler e expôs suas idéias sobre o Estado numa obra que se tornou imortal: O Príncipe. prescindindo de qualquer fé religiosa ou de princípio ético. cujo realismo é de uma impressionante atualidade: “Todos sabem quão louvável é um príncipe ser fiel à sua palavra e proceder com integridade e não com astúcia. ele acrescenta a “fortuna”. o ditador mais corrupto e cruel da modernidade. a teoria maquiavélica ainda vigora sob a forma de barganhas: compram-se os votos em troca de favores. E os transgressores são castigados com penas terríveis. na astúcia. tem apoiado várias dessas tiranias. e por fim superaram os que se fundaram em sua lealdade”. de sentir e de agir. usando a linguagem da cozinha. MAQUIAVEL (literato e estadista italiano: O Príncipe) Política “O fim justifica os meios” Essa famosa expressão de Maquiavel corresponde. já foi cria do governo americano e teve como modelo para sua brutalidade os partidos nazista e comunista da Europa. com astúcia. o americano Abraham Lincoln. Pelo contrário. Ele provocou um movimento de reação. os USA. atendendo a seus interesses econômicos. este da era moderna. a insânia é generalizada. na falta de escrúpulos. Já outro estadista. sempre em nome de uma justa causa. . sendo a democracia incompatível com o mundo islâmico. são regidos por governos absolutistas. A religião muçulmana estimularia regimes autoritários. O pior é que a maior potência do mundo ocidental. Infelizmente. ao ditado popular de que “não se faz uma omelete sem quebrar os ovos”. Os dois elementos (o engenho ardiloso e o bom aproveitamento do acaso) são indispensáveis para que um governante possa ter sucesso. como livre-arbítrio. a única capaz de nos dar a idéia do infinito. Segundo o estudioso italiano. a jejuar durante um mês. no senso de oportunismo. Saddam Hussein. Os cidadãos que nascem sob o signo de Alá são obrigados a rezar cinco vezes por dia. o elemento conjuntural. do estudioso florentino renascentista até nossos dias. nos nossos tempos. Tiranos políticos e chefes religiosos cometeram as mais nefandas atrocidades. não pode existir uma sociedade islâmica sem um Estado islâmico absolutista. Transcrevemos um trecho deste tratado de política. Podemos apenas culpar a imbecilidade humana. do verdadeiro e do falso. a experiência mostra que. a conformar-se com a pobreza e a injustiça social. souberam transformar as cabeças dos homens. tentando separar o poder laico do poder religioso. a tolerar a poligamia e o machismo. chegando até a genocídios. Adeptos fanáticos da doutrina de Maomé se aproveitaram do sentimento popular. contudo. a pagar dízimos. decidiu reformar o sistema de vida muçulmana.212 Gamal Abdel Nasser. dando origem ao que hoje chamamos de “Fundamentalismo”. Muito usada pelos políticos para justificar suas falcatruas. com a desculpa de que o fim (a aprovação de uma reforma qualquer) justifica os meios (a corrupção). no Ocidente e no Oriente. só fizeram grandes coisas aqueles príncipes que tiveram em pouca conta as promessas feitas e que. para o Islamismo. A falsa idéia da regeneração pela violência e pelo sofrimento está presente em toda a história da humanidade. a lutar até à morte para difundir o credo de Maomé. entendida como ato consciente de escolha. Há a tese de que. a usar burca ou xador. a virtude do “Príncipe” deveria se fundamentar na inteligência. tal expressão não tem fundamento ético nem respalde histórico.

começou a tomar consistência a partir do Concílio de Éfeso (431).. Nada. O Mito. que só pode ser aceito pela fé. Trabalhando mais na Inglat