1

Autor: Salvatore D’ Onofrio Título: Dicionário de cultara básica Sub-título: (o conhecimento indispensável, os mitos eternos) Epígrafe: “Saber é poder: incomensurável é o valor do conhecimento para o progresso do indivíduo e da sociedade!” INTRODUÇÃO Este trabalho já foi publicado, em 2005, pela Campus/Elsevier com o título “Pequena enciclopédia da cultura ocidental”. Estando a edição original esgotada há algum tempo, o autor, atendendo à constante demanda de interessados, resolveu procurar outra editora disposta a continuar a divulgação da obra que foi considerada de utilidade pública, destinada a bibliotecas familiares e institucionais, bem como à leitura individual. O livro foi revisto e atualizado, chegando ao público com uma nova veste tipográfica e diferente título. Autor e editor acharam por bem não deixar no oblívio este compêndio de cultura geral, rico manancial de informações indispensáveis para a formação de uma verdadeira cidadania. Como já dizia o mestre Epicuro, há uns 24 séculos atrás, a ignorância está na origem das superstições e de todos os outros males da humanidade. Ela é o único pecado realmente “capital”, pois é a fonte de onde procedem todos os outros danos. É a falta de conhecimentos que cria o medo nas civilizações antigas ou primitivas e a desgraça em muitas sociedades modernas, culturalmente atrasadas. Ignorante é quem não conhece o passado da civilização em que está vivendo e não tem uma visão crítica do presente, pois não pensa com sua própria cabeça e não reflete sobre as conseqüências de seus atos. Sem dúvida, é a falta de cultura da massa popular que permite o predomínio de alguns líderes carismáticos e fanáticos, capazes de exacerbar ódios e vinganças entre diferentes etnias, insuflando um falso patriotismo e assumindo uma missão messiânica. Como também é a ignorância do povo que permite as sucessivas reeleiçoes de líderes políticos corruptos. O dramaturgo alemão Berthold Brecht acertou em cheio ao afirmar: infeliz do povo que precisa de um herói! A Alemanha de Hitler e a Rússia de Stalin que o digam! Povos civilizados não necessitam de um Messias, de um Salvador da Pátria. Eles precisam apenas de escolas! Aumentar o conhecimento do passado cultural é a base do progresso do indivíduo, da família e da sociedade. A cultura é a mais poderosa e eficaz arma política. Precisamos possuir o conhecimento para sermos social e economicamente livres. Mas o saber, a que estou me referindo, não é dado pela simples informação, pois os dados adquiridos devem ser estudados, interpretados, para chegarmos ao verdadeiro conhecimento, ao saber que nos enriquece por dentro e que transborda e transforma a realidade em que vivemos. Adquirindo cultura, um povo toma consciência da própria identidade, não se deixando manipular por vendedores de ideologias ou por caçadores de votos. Sim, porque pouco adianta nos orgulharmos do nosso regime democrático e do exercício da liberdade, se a grande massa do povo não é esclarecida, vivendo completamente alienada dos problemas da coletividade. A finalidade deste trabalho é contribuir, um pouco que seja, para a divulgação do cabedal cultural que a tradição humanística nos deixou e que, infelizmente, se está perdendo. É curioso notar que, na sociedade moderna, tudo evoluiu, com exceção da educação. O avanço tecnológico se, de um lado, nos propicia uma avalanche de notícias regionais, nacionais e internacionais, de outro lado, contribui para reduzir ainda mais o hábito da leitura em nosso lar, onde a Internet está suplantando a Biblioteca. É uma pena, pois “lendo” se aprende muito mais do que “vendo”. O livro, além de nos acompanhar em qualquer lugar da casa e durante as viagens, permite parar para pensar. O conhecimento é proporcionado de uma forma mais lenta, porém mais proveitosa, estabelecendo um diálogo entre o escritor e a consciência do leitor. A afirmação de Monteiro Lobato de que “uma nação se faz com homens e livros ” ainda não ficou obsoleta.

2

A chamada democratização do ensino, hoje em dia, faz com que os estudantes cheguem às Faculdades com conhecimentos cada vez mais minguados e delas saiam com mais diplomas e menos sabedoria. E isso porque não existe a base cultural propiciada pela família, na primeira infância, e continuada na escola primária e secundária. Apenas a escola, pública ou privada, por melhor que seja, não é suficiente para a aprendizagem, se não houver o homework, o trabalho de casa, assistido por quem é responsável pela educação da criança. Não se aprende de repente ou apenas fazendo um curso. Sem tradição e estudo sustentado não há civilização. Como diria Lavoisier, nada sai do nada. O gênio é apenas um anão sentado em cima de uma montanha, que é o passado cultural da sua etnia, a que ele acrescenta mais alguma coisa. Sem o Atomismo de Demócrito e a Física de Arquimedes, não teríamos a genialidade de Einstein. Sem Homero, Virgílio ou Sófocles, a grandiosidade de Dante, Camões ou Shakespeare seria outra. Este dicionário cultural é o fruto de quase meio século de discência, docência e pesquisa universitária em várias áreas das Ciências Humanas, bem como de uma vida sofrida e viajada. Considero este trabalho como meu testamento intelectual, deixando para meus ex-alunos e para todas as pessoas interessadas em cultura um testemunho do pouco que consegui aprender e reter na minha memória, ao longo de tantos anos. Aproveitei um pouco do material já publicado em livros e artigos, especialmente na área de Teoria da Literatura, e extendi minhas pesquisas em outros campos do conhecimento. Os assuntos, colocados em ordem alfabética, são apresentados não de uma forma teórica, mas através de histórias míticas, literárias e artísticas. Daí o subtítulo "o saber indispensável, os mitos eternos". Na verdade, o presente livro é uma coletânea de ensaios sobre Obras (Ilíada, Odisséia, Eneida, Divina Comédia, Lusíadas, Dom Quixote, Hamlet, Fausto, Metamorfose, Processo etc), Autores (Homero, Virgílio, Dante, Shakespeare, Fernando Pessoa, Machado, Dostoievski, Kafka, Darwin, Freud, Marx, Einstein, Picasso etc) e Temas fundamentais da nossa cultura (mito, religião, filosofia, literatura, artes plásticas, política, ciências etc). Enfim, tentei colocar num único livro o essencial dos conhecimentos que qualquer ser humano, de cultura média, deveria ter, tentando completar, de uma certa forma, as falhas do ensino colegial e universitário. A matéria está distribuída em verbetes de A a Z, desenvolvidos por uma redação média de uma página. Para evitar repetições, alguns verbetes são apenas remissivos, indicando o lugar onde o assunto é tratado. O chamamento pelo “negrito” possibilita ao leitor a indicação de que aquele vocábulo está redigido em lugar apropriado, estabelecendo assim uma rede remissiva que conecta os vários assuntos. Pretendi realizar um trabalho de interdisciplinidade e de intertextualidade, aí residindo sua originalidade, pois o distingue de outros dicionários culturais. Nunca escreveria um livro que tivesse similares na praça, pois o trabalho intelectual, para mim, é demais penoso para ter como recompensa apenas a vaidade ou alguns trocados. Existem, é verdade, bons dicionários de mitos, filosofia, pedagogia, psicologia etc, mas todos eles são específicos. Este pretende ser o “genérico”, aquele que lança pontes entre as várias áreas do conhecimento, colocando em evidência a interdependência entre as várias atividades humanas, pois não existe um saber verdadeiro fora de um contexto histórico, científico, artístico, religioso. O verbete “Édipo”, por exemplo, é visto na sua origem como mito primitivo da Grécia, depois como personagem de uma tragédia de Sófocles, como complexo materno na psicanálise de Freud, e em sua fortuna artística até nossos dias, servindo este mito ainda hoje como inspiração para obras literárias, teatrais, cinematográficas. E o verbete “Édipo” remete a outros assuntos tratados, tais como Tragédia, Teatro, Freud. O desenvolvimento dos verbetes é maior ou menor, dependendo da importância do assunto e da minha competência. Evidentemente, os temas relativos à Teoria da Literatura e à Cultura Clássica estão mais bem desenvolvidos, pois é a minha área específica de conhecimento. O trabalho apresenta-se como uma “mini-enciclopédia” geral. O grande desafio foi condensar, num único livro, de fácil consulta e a um preço razoável, a cultura encontrável em volumosas enciclopédias, escritas por vários especialistas. O critério da seleção e do tratamento dos verbetes foi sua “essencialidade”: escolhi alguns Autores, Obras e Temas que considero “eternos” por terem ultrapassado os limites do tempo e do espaço. Procurei apresentar os mitos e os homens que, segundo meu parecer, mais contribuíram para a formação da cultura

3

ocidental, envolvendo Filosofia, Religião, Artes e Ciências. Se alguma escolha ou omissão não agradar ao leitor, peço-lhe desculpas. E ele vai me perdoar, pois sabe que, em qualquer seleção, é difícil escapar do demônio da subjetividade. Além de proporcionar conhecimentos, este trabalho pretende ser um estímulo para a leitura e a reflexão, um convite para o contato direto com as obras apontadas. Muita gente tem vontade de ler livros importantes, pois culturalmente fundamentais, mas não sabe de onde começar. Aqui está um guia para o leitor se orientar na escolha dos autores e das obras mais relevantes que o gênio humano produziu. Apesar da amplidão e complexidade dos assuntos, sua exposição é simples e direta, num estilo às vezes divertido ou até irônico, tentando evitar pedanteria ou chatice. Como bem adverte nosso M achado: “a primeira condição do escritor é não aborrecer”. A maioria dos verbetes são ilustrados com a citação de frases inteligentes de autores famosos e o significado é explicado a partir da etimologia da palavra, pois o sentido original dos vocábulos é geralmente o mais certo. O livro tem como destinatários estudantes universitários, docentes, profissionais liberais, pais e outros responsáveis pela ajuda às crianças nas tarefas escolares. Interessa, enfim, a todas as pessoas que percebem a importância de exercitar o intelecto e apreciam o valor do conhecimento para o exercício da cidadania e um melhor entendimento de obras filosóficas ou artísticas. Embora apresentada em verbetes, a obra foi concebida como um compêndio de cultura humanística para ser lida todinha, de ponta a ponta, como se fosse um romance eclético sobre cultura, e não apenas consultada como um dicionário. E isso porque a experiência me ensinou que, sem uma visão gestáltica, o conhecimento do particular se esvai, não se solidifica, pois todo o saber é sempre contextual, comparativo, referencial. Como pondera Blaise Pascal, “é preferível conhecer alguma coisa sobre tudo a tudo sobre apenas uma coisa”. Mais ainda: não podemos esquecer que a sabedoria é indissociável do amor. A leitura deste livro tem que ser carinhosa, assim como foi sua escrita. Não sei exatamente o valor deste meu esforço intelectual, mas gostaria de terminar esta introdução com as palavras do sábio indiano Mahatma Gandhi, “o que você fizer poderá até ser insignificante, mas é da maior importância que o faça”.

4

ABELARDO e Heloísa (mito do amor romântico e trágico)Medievalismo Apaixonar-se é ingressar em um estado de anestesia da percepção (H.L.Mencken) Pedro Abelardo (1079-1142) foi teólogo, filósofo e lingüista. Por seu azar, ele se apaixonou pela linda Heloísa, sobrinha de um cônego muito rico, que morava em Paris. A jovem, seduzida pela inteligência de Abelardo, a ele se entregou perdidamente. Para lavar a honra da família, o cônego Fulbert mandou castrar o jovem amante da sobrinha. As cartas trocadas entre os dois amantes constituem uma das mais belas obras do início da Baixa Idade Média ( Medievalismo). Mas seus escritos não tratam apenas de amor. Na sua Dialética encontramos a distinção entre significante (o aspecto gráfico ou sonoro das palavras) e o significado (os conceitos universais): na articulação entre esses dois signos residiria a essência da linguagem humana, conforme o culto Abelardo. O romance entre a bela Heloísa e o filósofo Pedro Abelardo começou em Paris, no início do séc. XII. Abelardo formara-se pela Escola Catedral de Notre Dame, tornando-se, em pouco tempo, muito conhecido por admirar os filósofos não-cristãos, numa época de forte poder da Igreja Católica. Heloísa, também ela amante da cultura, se interessava pelas teses polêmicas de Abelardo e procurou se aproximar dele através de seus professores. Mas foi em vão; até que, numa tarde, a bela jovem saiu para passear com sua criada Sibyle e se aproximou de um grupo de estudantes, que estavam discutindo sobre filosofia. Seu chapéu foi levado pelo vento, indo parar justamente nos pés do jovem que era o centro das atenções, o mestre Abelardo. Ao escutar seu nome, o coração de Heloísa disparou. Ele apanhou o chapéu e, quando Heloísa se aproximou para pegá-lo, logo a reconheceu como a Heloísa de Notre Dame, convidando-a para juntar-se ao grupo. Risos jocosos foram ouvidos, mas cessaram imediatamente quando o olhar dos dois posou um sobre o outro. Heloísa recolocou seu chapéu, fez uma reverência a Abelardo e se retirou. Desde esse encontro, Heloísa não conseguiu mais esquecer Abelardo. Fingiu estar doente, dispensou seus antigos professores e passou a interessar-se pelas obras de Platão e Ovídio, pelos versos eróticos do bíblico “Cântico dos Cânticos”, pela alquimia e pelo estudo dos filtros, essências e ervas. Ela pressentira que Abelardo, atraído pelas suas atividades culturais, viria até ela. E deu certo, pois, quando Abelardo ficou a par dos estudos de Heloísa, imediatamente a procurou. Ele tornou-se amigo de Fulbert de Notre Dame, tio e tutor de Heloísa, que logo o aceitou como o mais novo professor de sua sobrinha, hospedando-o em sua casa, em troca das aulas noturnas que ele lhe daria. Em pouco tempo, essas aulas passaram a ser ansiosamente aguardadas e, contando com a confiança de Fulbert e a cumplicidade da criada, os dois ficavam cada vez mais a sós. Em alguns meses, conheceram-se muito bem, e só tinham paz de espírito quando estavam juntos. Um dia Abelardo tirou o cinto que prendia a túnica de Heloísa e os dois se amaram apaixonadamente. A partir desse momento, Abelardo passou a se desinteressar de tudo, só pensando em Heloísa, descuidando-se de suas obrigações como professor. Não tardaram a surgir problemas, pois esse amor ia contra a moral da época, que mandava reprimir os impulsos sensuais, não aceitava a prática do prazer sexual fora do casamento e não admitia o matrimõnio entre jovens de classes sociais diferentes. Assim, quando a criada Sibyle adoecera, outra serva encontrou uma carta de Abelardo dirigida a Heloísa e a entregou a Fulbert, que imediatamente expulsou o mestre de sua casa. No entanto, isso não foi suficiente para separar os jovens amantes. Heloísa preparava poções para seu tio dormir e, com a ajuda da criada Sibyle, se encontrava com Abelardo no porão, local que passou a ser o ponto de encontro dos dois amantes. Uma noite, alertado por outra criada, Fulbert acabou por descobrí-los. Heloísa foi espancada e a casa passou a ser cuidadosamente vigiada. Mesmo assim, o amor de Abelardo e Heloísa não diminuiu e eles passaram a se encontrar onde pudessem, especialmente nas sacristias e confessionários das catedrais, os únicos lugares que Heloísa podia freqüentar sem acompanhantes. Heloísa acabou engravidando e, para evitar o escândalo, Abelardo levou a jovem à aldeia de Pallet, situada no interior da França. Ali, Abelardo deixou Heloísa aos cuidados de sua irmã e voltou para Paris. Não agüentando a solidão que sentia, longe de sua amada, Abelardo resolveu falar com Fulbert, para pedir seu perdão e a mão de Heloísa em casamento. Surpreendentemente, Fulbert o

5

perdoou e concordou com o casamento. Ao receber as boas novas, Heloísa, deixando a criança com a irmã de Abelardo, voltou a Paris, sentindo, no entanto, um prenúncio de tragédia. Casaram-se no meio da noite, às pressas, numa pequena ala da Catedral de Notre Dame, sem nem trocar alianças ou um beijo diante do sacerdote. O sigilo do casamento não durou muito, e logo começaram a zombar de Heloísa e da educação que Fulbert lhe dera. Publicamente ofendido, Fulbert resolveu dar um fim àquilo tudo. Contratou dois carrascos que invadiram o quarto de Abelardo durante a noite e cortaram sua genitálias. Após essa tragédia, Abelardo e Heloísa jamais voltaram a se falar. Ela ingressou no convento de Santa Maria de Argenteul, caindo em profundo estado de depressão e só retornando à vida aos poucos, conforme iam surgindo notícias de melhora de seu amado. Para tentar amenizar a dor que sentiam pela falta um do outro, ambos passaram a dedicar-se exclusivamente ao trabalho. Abelardo construiu uma escola-mosteiro ao lado da escola-convento de Heloísa. Viam-se diariamente, mas não se falavam nunca. Apenas trocavam cartas apaixonadas. Abelardo morreu em 1142, com 63 anos. Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem e faleceu algum tempo depois, sendo, por iniciativa de suas alunas, sepultada ao lado de Abelardo. Conta-se que, ao abrirem a sepultura de Abelardo, para ali depositar Heloísa, encontraram seu corpo ainda intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando a chegada da amada. Esta história de amor infeliz, junto com a de Tristão e Isolda, inaugura na Europa o tema da paixão fatal e da morte como único lugar seguro para a união de dois seres apaixonados. O tema, que retoma o mito pagão de Eros e Tânatos, teve muito sucesso na cultura ocidental, explorado exemplarmente por Shakespeare na sua tragédia Romeu e Julieta. Ainda hoje, o drama deste amor sublime medieval continua sendo representado, especialmente por companhias de teatro amador no meio universitário, exaltando o código individual e natural (o direito à liberdade de pensar e sentir) e condenando o código social (a opressão dos que têm o poder). ABRAÃO (sacrifício de Isaac, Judaísmo)JerusalémBíblia Moisés A criação do mito de Abraão como Patriarca dos hebreus remonta ao séc. XIX a.C. Ele é um dos personagens mais importantes da religião judaica e, sucessivamente, da cristã e islâmica. Ele foi chefe de um clã arameu, tribo seminômade da região de Canaã, no litoral palestino-fenício, antigo nome da Terra Prometida, ou país de Israel, atual Palestina. A ele Deus teria revelado que Ele era a única divindade, determinando a passagem do politeísmo para o monoteísmo. Segundo uma passagem do Gênesis, Eloim (Deus) o teria agraciado com uma aliança entre a divindade e a parcela da humanidade a Ele consagrada, tendo como sinal a circuncisão. Tal privilégio do povo hebraico foi uma compensação pela prova do “Sacrifício de Isaac”, superada pelo patriarca Abraão. Ter a coragem de imolar seu filho único para obedecer a uma ordem divina é algo de sobre-humano, que apavora qualquer inteligência que não esteja envolvida por um credo religioso. O conto bíblico, ao longo dos séculos, alimentou as várias artes, especialmente o Teatro e a Pintura, sendo utilizado pela Psicanálise como projeção do inconsciente. O relato contido no Gênesis seria uma alegoria da estrutura arquetípica familiar, onde o pai seria o carrasco que separa o filho da mãe. Neste sentido, é evidente o paralelo com a Mitologia greco-romana, onde se contam as relações incestuosas das Divindades Primordiais. O mito de Ifigênia narra como Agamenão estava pronto para sacrificar a própria filha no altar de Diana. Incríveis são as coincidências entre o mito do patriarca Abraão e do príncipe grego. Não havendo como provar influências entre os dois relatos lendários, só se pode pensar em arquétipos universais, conforme a teoria de Jung (Freud). Ao patriarca Abraão está ligada toda a história do Judaísmo, a primeira religião monoteísta da nossa cultura. De seu filho Isaac nasceu Jacó (que passou a chamar-se Israel) e os 12 filhos deste deram origem às doze tribos do povo judeu. Ao redor do ano de 1700, os hebreus se deslocam para o Egito, onde permanecem escravos ao longo de 400 anos. Em 1300, aproximadamente, conseguem a liberdade, liderados por Moisés, que recebeu de Deus as tábuas com os “Dez Mandamentos”, no monte Sinai. Peregrinam no deserto por 40 anos, até chegar à terra prometida, Canaã (Palestina), onde o rei David transforma Jerusalém em centro religioso e seu filho Salomão constrói o famoso Templo. Com a morte de Salomão, as tribos hebraicas dividem-se em dois reinos, o de Israel, na Samaria, e o de Judá, com capital em Jerusalém. Desde então nasceu a crença da vinda de um Messias, um enviado de Deus, que

6

reunificasse o povo judeu e estabelecesse a soberania divina em todo o mundo. Até agora os judeus estão esperando a vinda do Messias, pois não reconhecem Cristo como filho de Deus. ABSOLUTISMO (imperialismo, tirania, despotismo, mito de Júpiter)Política “Em qualquer grande conquista estão as sementes de sua decadência” (Martin Seymour-Smith) O termo “absoluto”, do étimo latino absolutus (“solto”, liberado, que não depende de nada e de ninguém) foi usado, primeiramente, por filósofos preocupados em descobrir a origem do mundo na pressuposição de que existisse uma entidade “por si mesma”, desligada da matéria cósmica e, portanto, transcendental, auto-suficiente, incondicionada, eterna, que as religiões monoteísticas chamam de Deus, de um modo geral, mas a que os filósofos, no decorrer da história, deram vários nomes, conforme concepções diferenciadas acerca da mesma idéia de absoluto. Assim, por exemplo, Parmênides fala de “Esfera”, Platão de “Idéia”, Aristóteles de “Primeiro Motor Imóvel”, Plotino de “Uno”, Espinosa de “Substância”, Kant de “A Coisa em si”, Fichte do “Eu”, Hegel de “O Espírito Absoluto”. No campo político, o Absolutismo é um sistema de governo onde apenas uma pessoa (Monarca, Rei, Soberano, Déspota, Tirano, Czar, Xeque, Imperador) concentra em si todo o poder, sem algum limite e sem precisar justificar seus atos de soberania. Num sentido amplo, o Absolutismo sempre existiu em muitos países da Terra e continua sendo praticado até hoje. O sistema vigora onde o mito de Júpiter se personifica num indivíduo que consegue enfeixar em si todos os poderes de uma coletividade, suprimindo as liberdades individuais. Neste sentido, o termo Absolutismo torna-se quase sinônimo de Tirania, Despotismo, Ditadura, Imperialismo, este último vocábulo indicando a opressão de uma nação sobre outras. Veja-se, ao longo da história, a sucessão dos vários impérios: persa, macedônico, romano, otomano, hispânico, inglês, napoleônico, soviético, o “Celeste Império” chinês, o “Império do Sol Nascente” japonês , as chamadas “Repúblicas de Bananas” da América Latina, dominadas por Presidentes não eleitos pelo povo de uma forma honesta ou sustentados pela força militar. O Absolutismo reina até nos pequenos aglomerrados indígenas, onde o cacique tem poder de vida e de morte sobre os membros da sua tribo, como também na moderna globalização, pela qual os monopólios se aglutinam cada vez mais e se internacionalizam, às custas dos países de tecnologia ainda atrasada, de economia emergente, incapazes de competir, pois vítimas do protecionismo alfandegário, de dívidas externas com altíssima taxa de risco e, evidentemente, da incompetência e corrupção de seus governantes. No dizer do cientista político Eric Hobsbawn, “poucas coisas são mais perigosas do que impérios que perseguem seus próprios interesses na crença de que estão fazendo um favor à humanidade ”. Será que ainda existe alguém tão ingênuo ao ponto de pensar que alguma instituição financeira nacional ou internacional seja beneficente ao emprestar dinheiro a necessitados, sem tirar todo o lucro que puder? Como no mundo físico, assim no reino econômico, “a razão do mais forte é sempre a melhor”, segundo o provérbio clássico do fabulista La Fontaine. Num sentido estrito, o termo Absolutismo está relacionado, historicamente, com as Monarquias da Europa Ocidental dominantes nos séculos XVII e XVIII, e na Rússia czarista, chegando até o início do século XX. Seu substrato ideológico pode ser encontrado no pensamento do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679). Especialmente na obra Leviathan, ele tenta demonstrar sua teoria do poder político, fundamentada num materialismo mecanicista: a sociedade humana é vítima de egoísmos individuais e de grupos que a levam a uma guerra de todos contra todos. Homo homini lupus (“O homem é lobo do homem”), dizia ele. Para evitar tal conflito, faz-se necessário que o homem renuncie a seus direitos naturais, em benefício de um soberano cujos direitos ilimitados lhe permitem fazer reinar a ordem e a paz. Mas, perguntaríamos ao Hobbes, se ainda fosse vivo, “e se o soberano, como costuma ser, for um tirano?” Não seria melhor educar o povo para o exercício do direito democrático, em lugar de confiar num “salvador da pátria?” Podemos relevar quatro focos de domínio absolutista na Europa, que antecederam o início das monarquias constitucionais e dos governos democráticos: l) A Península Ibérica: a longa e sangrenta luta dos povos cristãos contra os árabes maometanos, que invadiram toda a faixa mediterrânea da Europa a partir do século VII, fez com que os diversos e numerosos contados se agrupassem em três

7

grandes Estados: Castela, Aragão e Portugal, que se reduziram a dois quando, no final do século XV, o casamento de Isabel de Castela com Fernando de Aragão teve como resultado a junção dos dois Estados e o fim do domínio árabe na Europa. Para reprimir quaisquer veleidades de insubordinação política ou religiosa, os sucessivos monarcas de Espanha e Portugal se serviram amplamente do Tribunal da Inquisição, manipulado pela Companhia de Jesus, ordem da religião católica encarregada de fazer obedecer, a qualquer custo, as prescrições da Contra-Reforma, proclamadas pelo Concílio de Trento, terminado em 1563 (Lutero). 2) A França de Luís XIV, o modelo quase perfeito do monarca absoluto, ele que disse: “o Estado sou eu”. O processo de formação do regime absolutista na França começou com a ação do grande estadista Cardeal de Richelieu, em 1624, nomeado primeiro-ministro do rei Luís XIII, que conseguiu acabar com o poder dos nobres, arrogantes e incontentáveis, concentrando o poder nas mãos do soberano, e continuou com o Cardeal Mazarino, primeiro-ministro de Luís XIV. Mas este Rei, bem mais ativo e corajoso do que seu antecessor, logo tomou para si as rédeas do governo, conferindo a seus ministros e secretários apenas a função de conselheiros: a ele cabia o poder decisório sobre todos os negócios do país. Considerando o soberano como um ser excepcional, quase transcendental, fez com que a magnificência real se manifestasse também exteriormente através de uma suntuosidade refinada e impondo regras rígidas de etiqueta social. Mandou construir o palácio de Versalhes, o mais luxuoso do mundo, como sua residência, e estimulou o triunfo da inteligência, especialmente no campo das Letras. Pertencem a sua época os três famosos dramaturgos neoclássicos: Corneille, Racine e Molière. Por tudo isso, passou à história com o apelido de “Rei Sol”. 3) O período do Absolutismo na Inglaterra: o povo inglês, desde a Idade Média até hoje, cultivou a tradição de uma forma de governo fundamentada numa monarquia relativa, mais representativa do que dominadora, subordinada ao poder do Parlamento, composto pela Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns. Mas essa tradição foi quebrada pela ascensão ao trono do rei escocês Jaime Stuart, em 1603. Até 1688, ano da chamada Revolução Gloriosa, quando Guilherme de Orange, elevado ao trono por um levante geral, promulgou a primeira “Declaração de Direitos”, o Reino Unido da Grã Bretanha sofreu uma forma de governo ditatorial durante a dinastia dos Stuart que, além de acabarem com as liberdades políticas, adeptos da Igreja Anglicana, perseguiram católicos e calvinistas. Mesmo na época da chamada República de Cromwell, que se seguiu ao domínio stuartiano, o Lorde Protetor, que tanta glória militar deu à Inglaterra, não deixou de governar de modo ditatorial. 4) O Tzarismo russo: Tsar , Czar ou Zar era o nome que se dava ao Imperador da Rússia , uma extensa região da Europa Oriental habitada por povos de várias etnias. Na verdade, o povo russo sempre viveu num regime ditatorial, quer no longo período dos czares, sendo o mais famoso Pedro I, o Grande, em cuja homenagem foi fundada, em 1703, Petersburgo, cidade que se tornou a capital do vasto império, quer no período do domínio do regime comunista, que começou com a Revolução Bolchevique, em 1917, chefiada por Stalin e Lênin. Não à-toa que este último definiu o Estado como “a organização especial da violência”. Realmente, a União Soviética nunca gozou de um governo propriamente democrático, pois o absolutismo de direita foi substituído por uma ditadura de esquerda. O absolutismo comunista terminou na antiga URSS, mas continua na China, na Coréia do Norte, na ilha de Cuba (Marx). ACADEMIA (escola filosófica) Platão Arcadismo O nome “Academia” está relacionado com o nome de um herói grego, Academos, que doou seu parque, composto de ginásio e jardim, situado a NO de Atenas, ao filósofo Platão para conversar com seus discípulos sobre filosofia, ciências e artes. Após a morte de Platão, a Academia foi dirigida por vários filósofos e cientistas, até ser fechada pelo imperador Justiniano, que confiscou o patrimônio, em 529. Só um milênio depois, com o advento do Neoclassicismo francês e o Arcadismo italiano, o termo “academia” voltou a ter prestígio, passando a fazer parte da cultura social. As primeiras academias “modernas” surgiram na Itália ao longo do séc. XVI, quando intelectuais humanistas expunham suas idéias mais avançadas em reuniões regulares, rivalizando com o ensino ministrado nas Universidades: Academias da Crusca, dos Linces e de São Lucas, em Roma; Academia de Arte e de Desenho de Vasari, em Florença. A moda pegou e as Academias se espalharam pela Europa toda, especialmente na França.

o mito do primeiro homem moldado com barro por Deus encontra-se em textos assírio-babilônicos. distinguindo. encarregada de disciplinar o uso da língua francesa e opinar sobre os livros publicados. querendo igualar-se a Deus. A deusa Vênus se apaixonou pela beleza extraordinária do jovem. em substituição ao deus vingador do Judaísmo. mas evoluem constantemente de uma espécie para outra. ab initio. que perdura até hoje. entre os quais se destacou Pietro Metastasio. Essa tese vigorou quase pacificamente na cultura ocidental até à publicação do livro de Charles Darwin: A Origem das Espécies através da Seleção natural (1859). tomarem o chá das cinco e fazerem discursos laudatórios. A paixão de Vênus pelo belo rapaz suscitou também o ciúme de seu amante Marte. em Roma. cujo sangue iria lavar o pecado. Em 1690. tendo como metáfora recorrente a imagem do broto que morre jovem para renascer em novas formas de beleza. junto com o castigo vem a esperança: Deus enviará seu próprio filho. de onde venho?. que pressupõe a existência de uma entidade transcendental que deu origem ao universo cósmico e à vida vegetal. Assim. por que sofro? Há vida após a morte? Trata-se da teoria “criacionista” ou fixista. animal e humana. Adônis (La Fontaine). uma vez e para sempre. uns puxando o saco de outros. de Ciências e de Artes. a do Novo Testamento. Assim. com quem Adônis passava um terço de cada ano (a estação da Primavera). seguindo a lei do mais forte. induziu Adônis a cultivar a caça.. Adônis e . pois o sangue de Adônis teria colorido suas águas de areias vermelhas. que contém a primeira teoria explicativa realmente científica sobre a evolução dos seres vivos. o pecado do “orgulho”. que sofreu inúmeras variantes. Don Juan. Adônis nasceu de uma relação incestuosa entre o rei da Fenícia Cíniras e sua filha Mirra. Um rio da Fenícia carrega seu nome.. é eleito um determinado número de “imortais”. Adônis e Vênus (Lope de Vega).” No início do Gênesis encontramos a resposta da religião judaico-cristã às principais inquietações do ser humano: quem eu sou?. estadual e nacional.8 Em 1634. Voltando ao Gênesis. por vingança. A palavra “Adão”. De seu sangue nasceu a anêmona. ao longo de toda cultura ocidental. mas um termo genérico que significa “aquele que vem da terra” (adama). propondo a substituição da teoria creacionista pela teoria “evolutiva” ou transformacional: as várias formas de vida no planeta Terra não são fixas. tendo bons cultores especialmente em Portugal e no Brasil e dando início à moda das “academias” de Letras. gêneros e espécies. a obra do cientista inglês revolucionou os estudos biológicos. Da Itália. sem possibilidade de mistura. R. La Púrpura de la Rosa (Calderón). flor efêmera da primavera. não é um nome próprio. cujas poucas atividades conhecidas são a de vestirem um fardão. deus da guerra. Alguns títulos de obras inspiradas nesta lenda: Idílio XV e Epitáfio de Adônis (Teócrito). sendo morto por um javali. é fundada a academia “Arcádia” por um grupo de poetas. conforme ordem de Júpiter. redimindo a humanidade da culpa original. O pecado de Adão e de Eva foi o de “querer saber”.Valentino) Narciso Segunda a lenda mais antiga. Mas. ao nível municipal. o teatro e as artes plásticas. o movimento arcádico se espalhou pelos países de língua românica. O mito de Adônis perpassa a poesia. Chamada de “Nova Bíblia”. o Salvador. E ele vai voltar à terra como castigo. em hebraico. sob a égide do perdão e do amor. ADÔNIS (o mito da sedução: Páris. o Cristianismo (Cristo) iniciaria uma nova Era. Casanova. o homem seria apenas um macaco melhorado. Em lugar de satisfazer vaidades e alimentar rivalidades intelectuais. a seguir disse: “Façamos o homem a Nossa imagem e semelhança. Adônis e Elegias (Ronsard). a sede do conhecimento. que. Égloga V (Virgílio). o Messias esperado. a presunção que leva o homem a desprezar os limites impostos pela divindade. pois cometeu o pecado que os gregos chamavam de híbris. o dinheiro público seria mais bem utilizado na alfabetização do povo e na melhoria do ensino básico! ADÃO e Eva (mito da criação do homem e do pecado original)Bíblia Deus. Adônis (Marino). O humorista Millôr Fernandes afirma que “a Academia Brasileira de Letras se compões de trinta e nove membros e um morto rotativo”. Metamorfoses (Ovídio). o ministro Richelieu fundou a Academia Francesa. Periodicamente. disputando seu amor com Prosérpina (Ceres Terra).

Dom Juan. aperfeiçoou suas aptidões de sedutor durante as festas carnavalescas de Veneza que. Na Comédia. filho de uma dançarina e atriz. de uma beleza ímpar. Passando da Mitologia para a história. consagrando a figura do herói. com apenas 31 anos de vida e cinco de interpretação. Filho do rei de Tróia ( Ilíada) e protegido por Vênus. que retoma um tema tratado numa obra anterior (1625) do mesmo autor. apesar de padre. o mito de Dom Juan apela para a ética da quantidade: os amores sempre variados ou renovados tornam a vida inesgotável. na Poesia. a deusa do amor. surge outra figura de sedutor. francesas e de outros países europeus. desafiou a estátua para se mover e acompanha-lo numa festa. que morreu em Nova York. de um erotomaníaco compulsivo que sofre do complexo de Édipo. Adonais: uma elegia sobre a morte de John Keats (Shelley). de Mozart. passa a configurar o ideal estético masculino: “parece um Adônis ou um Páris”. Mulherengo incorrigível. como Adônis. de nome Don Juan Tenório. que erige uma estátua para lembrar o triste fato. O ator que mais povoou o imaginário erótico feminino foi o italiano Rodolfo Valentino. surgiram vária versões em diferentes artes. na Ópera. de outro lado. é famoso o poema satírico de Lord Byron ( Romantismo). a representação de um jovem que sofre de um comovente romantismo eterno. em 1926. da mesma forma que Vênus. Dom Juan consegue vencer. Em vista de que é impossível encontrar o amor ideal numa única mulher. na “Crônica de Sevilha”. Adônis. temos o Don Juan. de um lado e. o personagem Dom Juan passou de embusteiro e sedutor brutal a homem angustiado. Tentação de Santo Antônio (Flaubert). Mas tal amor é perigoso. de Molière. Endímion (Keats). Helena de Tróia. mas a morte do chefe do regimento militar comoveu o povo. surge a figura de Don Juan. O protagonista é um belo jovem libertino. em busca do absoluto. Mais de um século depois. A fuga dos dois amantes para Tróia causa a primeira grande guerra de que temos notícias na cultura ocidental e Páris. no séc. um jovem nobre e constantemente apaixonado-se por belas mulheres. retomando a antiga mitologia grega. onde estava enterrado o corpo do pai da moça. E ela compareceu e levou consigo o jovem para o outro mundo. que viera insultá-lo em seu túmulo. Narciso. por onde viveu viajando. AFRODITE (a deusa grega do Amor)Vênus AGAMENÃO (personagem mítico. Ainda na mitologia greco-romana. vestindo capa. XVII. Casanova. com o nome de O Convidado de Pedra. Em 1630. encontram-se registradas na sua obra publicada em Paris. a película Don Juan de Marco é considerada um clássico. Suas aventuras amorosas nas cortes italianas. diz-se de um belo jovem. O mito de Don Juan oscila entre a construção de uma personalidade histérica. Segundo outra versão da lenda. desta vez italiano e com uma vida historicamente bem documentada. Já o mito de Narciso simboliza a beleza masculina que se autocontempla. Através das várias obras literárias. para o Inferno. a figura de Páris excede em beleza. espada e uma máscara negra. O Martírio de São Sebastião (D’Annunzio). intitulada El Burlador de Sevilha. a esposa do príncipe grego Menelau. espalharam o rumor de que a estátua do comandante de Sevilha arrastara Don Juan. personagem construído no imaginário popular e artístico a partir de um fato real. Cleópatra e outros mitos de mulheres sedutoras atiçam o desejo erótico dos homens. dramáticas e cinematográficas. E ao cinema pertence a perpetuação do mito do homem fatal. O Eros volta a se aproximar do Tânatos.9 Vênus (Shakespeare). despudoradamente. se tornava uma cidade cosmopolita. A partir do texto de Molina. Rodolfo Valentino. podendo gerar a destruição e a morte. assim como Páris. está predestinado por seus encantos a conquistar o coração de Helena. símbolo do autoritarismo) Ilíada . Dom Juan. O pai de uma moça por ele desonrada desafia o jovem sedutor para um duelo de espada. No Cinema. nessa ocasião. Os monges do convento. sai publicada. que se vangloria de ter tido mais de mil amantes. que se tornou famoso após a publicação do seu livro História de minha vida (1789). passou a representar o protótipo do macho irresistível que povoa o imaginário feminino. uma história de autoria de Tirso de Molina. O novo representante da irresistível beleza masculina é o veneziano Giovanni Giacomo Casanova (1725-1798). temos o Don Giovanni (1787).

com data incerta (1730 ou 1738?). 1761. Ásia Menor. risco. jansenismo. Escolhido como chefe da expedição grega para reconquistar Helena. falecendo na mesma cidade mineira. Sabará (esculturas no frontispício da Igreja da Ordem Terceira do Carmo e as imagens de São João da Cruz e São Simão Stock). AGOSTINHO. Vivendo na agitada Vila Rica e em outras cidades mineiras alvoroçadas pela aventura das minas de ouro. a imagem em pedra-sabão de São Miguel na fachada da igreja homônima). filho do rei de Tróia. foi Alexandre o “Grande” (356-323). como na Escultura. dito Aleijadinho por uma enfermidade deformante de que foi acometido perto dos 50 anos. já fazendo parte da saga “troiana”. portando cartelas. clássica. sobressaem Agamenão e Menelau. onde se encontram suas obras-primas que o imortalizaram: os Doze Profetas. induziu o irmão a comer a carne de seus próprios filhos. Mas Tiestes lhe deu o troco. ambos tornando-se soberanos pela morte dos sogros. São João del Rei (risco geral e retábulo da capela-mor da Igreja de São Francisco da Penitência). a quem se deve o início do mundo helenístico. grande parte . santos e papas. Congonhas do Campo. marcado pelo ódio. na subida ao Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. Os dois irmãos casaramse com duas lindas irmãs: Menelau com Helena (o motivo da Guerra de TróiaIlíada). que o obrigou a sacrificar–lhe a filha Ifigênia. Agamenão foi morto pela esposa Clitemnestra e seu amante Egisto. primeira obra em pedra-sabão. sendo obrigado a devolver-lhe a escrava Briseida. artista e políticos esclarecidos. em pedra-sabão. filha do rei de Micenas. cujas histórias trágicas foram imortalizadas por dramaturgos clássicos e modernos: Ifigênia. pela vingança e por paixões incestuosas. ALEXANDRE. assimilando a tradição gótica. Ele foi reconhecido como o maior artista brasileiro do séc. molinismo)Pascal AGRICULTURA (o mito de Deméter e Ceres. sendo vítima da própria soberbia... raptada por Páris. Electra e Orestes. Santo (agostinismo. acrescentando-lhe o toque do ambiente popular de sua época. no períbulo e as figuras dos Passos da Paixão. ao voltar a Micenas. do patriarca Atreu. a princesa Aeropa. o mais valoroso dos Príncipes gregos. Conseguindo famosas vitórias sobre o império persa. sem dúvida. com inscrições em latim. e Agamenão com Clitemnestra. No decorrer da guerra.10 Agamenão é uma figura lendária que está ao centro do um ciclo cultural da pré-história da Grécia. Atreu venceu o irmão Tiestes na disputa pelo trono de Micenas. desentendeu-se com Aquiles. ou dos “Atridas”. Suas principais obras de escultura e arquitetura encontram-se nas cidades mineiras de Ouro Preto (Fonte do Padre Faria do Alto da Cruz. rei da Macedônia. XVIII. Nossa senhora das Mercês e Perdões e Nossa senhora do Pilar. O rei de Micenas. suscitou a ira da deusa Diana. Desprezou a profecia de Cassandra e. por sua vez. Ele encontrou um modo brasileiro de fazer arte. tanto na Arquitetura. filha do rei de Esparta. que leva o nome de “micênico”. a Reforma Agrária)Terra ALEIJADINHO (artista plástico mineiro) BarrocoEscultura Anjos e Santos nascendo em mãos de gangrena e lepra. em 1814. barroca e rococó portuguesa. Todos os sonhos barrocos deslizando pelas pedras (Cecília Meireles) Antônio Francisco Lisboa. da cidade Micenas. Magno (Biblioteca de Alexandria)Helenismo Alexandre é o nome de vários monarcas. Agamenão teve três filhos. Tiradentes (risco do frontispício da Matriz de Santo Antônio). seduzindo-lhe a bela esposa. talhas e esculturas nas Igrejas de São Francisco de Assis. subjugou a Grécia. filho de Felipe II. que começou com o período alexandrino. época de Péricles ou de Atenas) por todo o imenso território por ele conquistado. por ter difundido a cultura produzida na Grécia clássica (século V. O mais famoso. nasceu em Ouro Preto-MG de um mestre-de-obras português e de uma escrava deste. A personalidade de Agamenão é marcada pela prepotência e pela ira. em madeira. Egito. Aleijadinho se beneficiou do convívio com poetas. interessados no sonho da independência brasileira e no culto da realidade mineira. Entre os descendentes mais famosos de Atreu.

tanto que Aristóteles. através do voto livre e direto. os cidadãos eram chamados a fazer parte da vida pública. adquirindo também uma finalidade mais utilitária: daí a abundância de obras de cunho didático e erudito. consagrados pela tradição clássica. Ele se tornou imortal porque. durante o apogeu da época ática. Menandro. sentia-se na obrigação de zelar pela riqueza material e espiritual de sua terra. os temas e os heróis imortalizados pela épica e pela tragédia são objetos de novas elaborações literárias. gozou de um regime democrático. onde lecionaram Plotino e Porfírio. a biblioteca sofreu dois incêndios. onde se reuniam filósofos. fala apenas de "poesia" (épica. com base num projeto do arquiteto norueguês Kito Thorson. como as outras artes. com um acervo de mais de 700. As atividades militares e políticas absorviam a maior parte do tempo dos gregos. mais do que pela criação artística. no seu tratado Poética. Este tipo de literatura romanesca foi bem ao encontro dos gostos da grande massa alienada da vida pública. com voz ativa e passiva. seis galerias. não deixava de desenvolver o seu papel pedagógico. para a língua grega. Realmente. o pai da "comédia nova". lírica e satírica). entre outras descobertas científicas. Calímaco foi o maior poeta elegíaco. mito. e em 391 d. fundou a cidade que leva seu nome. Como é sabido. Alexandria que. pelo espírito de reflexão. ensinava o cultivo dos campos (poesia didática). tentando avançar até à Índia. A literatura. . criando-se assim narrativas híbridas em prosa.11 da costa do Mediterrâneo e do Oriente Médio. uma escola filosófica neoplatônica. entre 1988 e 1995.Mas. lançou as bases da sátira dos costumes da classe média baseada no estudo psicológico de caracteres. que emergem como um disco gigantesco inclinado em direção ao Mediterrâneo. lendas e personagens. Shakespeare. Teócrito pode ser considerado o criador do gênero. entendido como a consciência de considerar as obras de arte do passado como modelos a serem imitados por todos. poetas. entre os quais Alexandre o Grande foi considerado o herói protótipo pela sua coragem de enfrentar o desconhecido. foi amante e difusor da cultura. nascendo assim o Classicismo. proliferou na Grécia o gosto por uma literatura feita de relatos de viagens em regiões longínquas e fabulosas. Alexandria possuía um museu. além de um grande estrategista de guerra. até o século II a. na poesia bucólica. tendo consciência de ser membro de um patrimônio de cultos e de tradições. do Oriente Médio e da Índia. confinando a poesia ao uso das pessoas cultas. Terêncio. Talvez o único gênero literário realmente novo do período alexandrino seja a ficção em prosa. Além da Biblioteca. História. cinco institutos de pesquisa. imitando-se todas as formas artísticas do período anterior. fora a maior metrópole intelectual e artística do mundo helenístico. Na poesia lírica. e uma Escola de Matemática. A cultura alexandrina caracteriza-se. o que favoreceu muito o desenvolvimento das ciências naturais e exatas. no sentido de que enaltecia as origens divinas e heróicas da raça (poesia épica). no teatro. abrigando cerca de cinco milhões de volumes. em 47 a. Os cargos civis e militares eram atribuídos pelo merecimento pessoal e pelas eleições de classe.C. construída por Ptolomeu que lhe sucedeu. famosa por ter divulgado Os Elementos. o gênero que mais tarde se chamará de "romance". Somente após a conquista macedônica. enquanto inquérito sobre a vida pública e sátira políticosocial. após a fase maravilhosa da criação artística do período ático. exaltava as vitórias esportivas (epinícios). com a perda da independência política. fundamentado nas liberdades constitucionais das póleis.000 obras literárias e científicas. manuscritos de diversos idiomas do Mediterrâneo. um salão de conferências e um planetário. de biografias imaginárias de homens célebres. A Nova Biblioteca de Alexandria foi construída. inclui três museus. depois de Atenas e antes de Roma. só existia produção literária em versos. são misturados. cientistas e tradutores que vertiam. Quando a Grécia. era considerada uma atividade também patriótica. surge a época da crítica e da divulgação da cultura grega. Molière. Na medida em que a prosa se torna a forma mais comum de expressão literária. Enfim. Outro aspecto importante foi seu cosmopolitismo.C. em oposição ao caráter regional das póleis da Grécia Antiga. mas poucos autores se imortalizam.C. pois cada qual. O complexo de 11 andares. instruía sobre as relações entre os homens e seus deuses (poesia dramática). precisamente no Delta do rio Nilo. influenciando fortemente os melhores comediógrafos posteriores (Plauto. A problemática que estimula a produção de obras artísticas ou científicas extrapola os limites da Cidade-estado e se universaliza. dramática. Goldoni). A produção cultural do período alexandrino é bastante vasta. é sintomático o fato de o romance grego de amor e de aventura desenvolver-se em épocas de escravidão política.. também a comédia de Aristófanes. Famosa foi sua Biblioteca. Infelizmente. No Egito. de Euclides e alguns trabalhos de Arquimedes. de observação e de pesquisa.

com um machado. primeiro. O período alexandrino da literatura grega nos deixou cinco romances de amor e de aventura. é possível pensar numa interpretação esotérica: Deus teria criado. o pai dos deuses. O ideal amoroso. conseguindo dos deuses o privilégio de nunca mais se separar do amado. temendo que o Andrógino. o casamento feliz. em suas Metamorfoses. perdido o seu significado religioso. sendo uma combinação harmoniosa do masculino e do feminino. No novo sistema socio-cultural. Os estudiosos chamam de “período alexandrino” a cultura helenística que vai do III ao I séc. dividindo o masculino do . O mito. que causou ao ser humano sofrimento e morte. Como a “Comédia Nova” de Menandro e a poesia elegíaca de Calímaco. entre a época ática e a romana. Neste ovo gigantesco não existiriam os contrários: nem luz nem trevas. uma fuga da realidade insignificante. ALMA (princípio da vida)PsiquêEspírito AMÉRICA (a descoberta do novo continente: Colombo. a riqueza material e as viagens são as aspirações fundamentais do heleno da época alexandrina.C. vivendo sob sucessivos regimes imperiais estrangeiros. por somar o princípio masculino com o feminino. sou masculino e feminino. constituindo assim um ser da natureza dupla. do verbo secare (separar. A análise da vida pública cede lugar ao estudo da vida privada. (Baby Consuelo e Pepeu Gomes) Do grego andrós (macho) + gyné (fêmea). não fere o meu lado masculino. publicado em 1536. e o II d. o andrógino. E a ficção romanesca exprime claramente essa cosmovisão. cortasse seu corpo pelo meio. Esta vertente do mito bíblico tem um paralelo com o mito grego do ser bissexuado: Júpiter. ordenou a Vulcano que. constituindo um corpus romanesco.12 os gregos. antes do pecado original. em face das contradições existentes na narrativa bíblica sobre a criação do homem. O filósofo neoplatônico Leão Hebreu. pudesse ser uma ameaça para o seu poder. A mimese superior é suplantada pela imitação das ações ordinárias da vida cotidiana. baseada numa nova paidéia. Platão também pensara numa androginia primordial quando expôs sua teoria cosmogônica. perdendo qualquer ideal de pátria. chama o andrógino de “Hermafrodito”. o ser perfeito. sustenta a tese de que. Adão e Eva.. é a aproximação do tempo de composição (entre o fim do séc. O que liga entre si as cinco narrativas chegadas até nós. nem amor nem ódio. a. o espaço geográfico onde se desenvolvem os enredos (as cidades helenizadas do Mediterrâneo) e. teria havido a separação dos sexos. Segundo alguns exegetas da Bíblia. I a. Cabral)Renascimento AMOR (Cupido na mitologia greco-romana: sexo)Eros  Vênus ANDRÓGINO (mito do ser bissexuado. juntando o nome de Hermes (Mercúrio) e Afrodite (Vênus). centrado no homem como indivíduo. O individualismo substitui o coletivismo. assim as narrativas de amor e de aventuras espelham o mudado gosto do público e um novo ideal de vida: a afirmação amorosa entre dois seres. nem quente nem frio. Se deus é menino e menina. O poeta Ovídio. afastados da vida pública. cortar): o ato sexual junta o que está dividido em dois pedaços. Hermafrodito)Hermes Vênus Ser um homem feminino. e mais fragmentos de outros romances. torna-se lenda e o ideal heróico da poesia épica se transforma no ideal erótico do romance. as semelhanças de estrutura e de significação. convergem suas atenções e seus desejos para a vida familiar e íntima. centrada num Ovo ou Gigante antropomórfico. depois. contendo o princípio masculino e feminino. o mais famoso sendo Dáfnis e Cloe ( Romance grego). uma evasão voluntária nas "Ilhas Fortunadas" do mundo da utopia. o andrógino é o ser que reúne dentro de si o elemento feminino e masculino. A literatura torna-se um meio de passatempo. como origem do universo.C. Conta a lenda que a ninfa Salmácida se apaixonou perdidamente pelo Hermafrodito. no famoso livro Diálogos do Amor . como punição pelo pecado de orgulho. o mais forte dos sentimentos individuais. Os mitos sobre a androginia encontram-se espalhados em toda a cultura ocidental e nas religiões orientais. sua realização existencial. racionalizando seus mitos e pragmatizando sua filosofia.C. sobretudo. constituíam um único ser. bissexuado. O étimo latino da palavra “sexo” é o radical sec. a pessoa humana procura no amor.).

condenando-se o prazer. a foice continua sendo o emblema da força dos trabalhadores. especialmente no mito de Édipo. Assim. transformado em tragédia por Sófocles e em complexo por Freud. além de nas obras dos autores já citados. simboliza a luta da Terra. tu (pai). instinto divino. no Orlando Furioso de Ariosto. até que seu filho Júpiter o destrone pelo mesmo motivo pelo qual Saturno tinha deposto Urano. ressaltando ora o pecado do orgulho. Dan Brown (O Código da Vinci). A separação do princípio feminino (a Terra) do princípio masculino (o Céu) cria uma instabilidade cósmica. pois os dois sexos separados se desejam mutuamente. os Ciclopes e os Hecatônquiros. o tempo e a eternidade. debilitando o status que ela mesma se atribuíra de único caminho para Deus. cortando-lhe os órgãos genitais. pois natural. ou nas regiões . recorda que os antigos egípcios celebravam um ritual erótico para comemorar o poder reprodutivo da mulher. armado de uma enorme foice. que se vinga de Urano. verdadeiros irmãos inimigos. no romance História cômica dos Estados e Impérios do Sol . Um crítico e ficcionista contemporâneo. no romance de Michel Tournier. associando-lo a inspirações demoníacas. O Céu começa a sofrer da rivalidade dos filhos e ordena que a mãe Terra sufoque os novos seres ao nascerem. ora a auto-suficiência afetiva. A mãe Terra casa-se. Aquilo deixava a Igreja de fora. que proíbem até a dança de salão para evitar a aproximação dos corpos de moças e rapazes. como o infanticídio (o “tu” vê no “ele” um rival e tenta eliminá-lo). referindo-se ao pensamento de Platão. onde o narrador. no Adônis de Marino. de maneira a fazê-los andar com uma perna só”. em À Procura do Tempo Perdido de Proust. contra a tirania das forças superiores do Céu. a criatura e o criador. narra que a Terra. dando origem ao reinado do Tempo. se persistissem em seu orgulho: “Se a imprudência continuar. diz que Zeus ameaçara os homens. de André Gide. com o filho Céu. quando as igrejas. que é o seu oposto. Cerimônia a que os gregos deram o nome de Hieros Gamos. já cortados em dois. nas Metamorfoses de Ovídio. O poeta Hesíodo. no Tratado de Narciso. todas divindades poderosas. passa a ser permitida apenas para a conservação da espécie. todas elas. os Titãs. O mito do andrógino é revivido em todas as formas de arte. própria de qualquer sociedade humana: eu (mãe). a Igreja fez de tudo para demonizar o sexo e reinterpretá-lo como um ato pecaminoso e repulsivo. se completa na estrutura triádica. na sua Teogonia. Dessa união incestuosa nascem vários filhos. No plano humano. princípio cósmico original. Afirma Brown: “o uso do sexo pela humanidade para comungar diretamente com Deus representava uma séria ameaça à base de poder católica. na poesia alegórica de Dante (Divina Comédia). à pré-história. protetor da vida. ora a tentativa de explicar o distanciamento entre o homem e a mulher. A foice. em constante luta contra os senhores das terras (questão agráriaAgricultura). condenado a viver em estado de guerra permanente. além de ser teogônico e cosmogônico. o Ceú (Urano). inventado pela genialidade da mente grega para explicar as origens do universo. a um filho. ele (filho). A cópula do homem e da mulher. ocupa o lugar do pai no trono do universo. o mais jovem dos Titãs. por partenogênese. único e andrógino. Por motivos óbvios. chega a ser também antropogônico e antropológico. começaram a incutir o sentimento depreciativo do sexo. que leva à assexualidade. então. nos romances de Balzac. Basta pensar em seitas evangélicas. Em seguida. Na cultura grega. o mito sobre as Divindades Primordiais. O mito do andrógino simboliza a luta entre o corpo e a alma. Os Meteoros (1975). visa reconstituir a primitiva unidade perdida. Encontra-se. A concepção de sexo como pecado é bem posterior. o Tempo).do escritor francês Savinien de Cyrano de Bergerac. mutila o pai Céu. tentando restabelecer a primitiva unidade. a cortar mais ainda. Traiçoeiramente. dos deuses do Olimpo (Mitologia). em que o orgasmo era visto como uma oração. Outras religiões importantes fizeram o mesmo”. a revoltar-se contra o pai. eu cortaria ainda em dois. dá à luz. A relação de conflito entre esses três elementos é a causa de crimes horríveis. Essa seria a explicação mítica da realidade psicológica da busca incessante da outra metade: o desejo do homem pela mulher. princípio feminino. com o nascimento do filho. a castração e o parricídio (o “ele” mutila ou elimina o “tu”) e o incesto (o “ele” substitui o tu no sentimento amoroso do “eu”). O infanticídio vem sendo consumado contra a vontade da Terra. e vice-versa. que pode ser encontrada em todo casal. por assim dizer. A separação Terra/Céu é a representação mítica da estrutura psicológica do eu/tu que. instigando e ajudando o filho Cronos (Saturno. instrumento agrícola. como aparece em várias obras de arte.13 feminino. e manifestação da mítica androginia. ao assumirem o poder político. Cronos. o mito do andrógino está ligado às lendas sobre as Divindades Primordiais.

voltou para Tebas e. pela mudança das ideologias. O Cosmos devia a ele . Está afirmada a supremacia do direito natural e a proposta da luta sublime da consciência contra a força e a sabedoria contestável dos poderosos. mas sim o amor”. acompanhado pela devotada filha Antígona. que disputavam o trono da cidade. durante a guerra dos “Sete Chefes”. Toda a manhã. Esta nova dimensão da tragédia está presente na peça Antígona do poeta romântico Alfieri. na cultura greco-romana. a tragédia ateniense foi remontada em quase todos os teatros das grandes cidades e nos pequenos palcos das províncias. imutáveis. no séc. apresentaram seu mito ao pé da Acrópole. “apolíneo”. encerrando a sobrinha num cárcere. sem querer. assistiu à morte dos dois irmãos. Febo.C. contestando os decretos de Creonte.14 muçulmanas onde se corta o clitóris das meninas para que não sintam o prazer sexual. antecipando a palavra de Jesus Cristo: “Eu não vim trazer o ódio. cristianizando a lenda. para enfraquecerem seus inimigos políticos. Antígona prestou as homenagens fúnebres ao irmão Polinice. usavam o lema divide et impera: é preciso dividir para dominar. quando ela não é justa e não é útil ao viver social. a representação de Antígona tem comovido mais homens do que quando a tríade dos dramaturgos gregos. do verbo luô (libertar) ou louô (lavar). que possibilita a vida na terra. nem de ontem. A longo dos tempos. vazara seus olhos. após a morte do pai. ANGLICANISMO (Henrique VIII e Ana Bolena. promete obedecer a “leis não escritas. Protestantismo)Lutero ANTÍGONA (o amor fraterno. Etéocle e Polinice) com mãe Jocasta. a interpretação mais recorrente da figura da heroína está centrada no verso que Sófocles coloca na boca de Antígona. A elaboração dramática grega do relato mítico sobre Antígona foi objeto de quatro peças : Os Sete contra Tebas (Ésquilo: 467). pois. desenvolvendo o tema do amor filial e fraternal. que não datam de hoje. Estima-se que. Ésquilo. Mas. XIX. vista como a mulhersímbolo da desobediência à lei. do latim solus (o único). aos poucos. transportava seu coche dourado para o alto do céu e. correspondente ao deus Sol dos romanos. ao longo do séc. a heroína anarquista)Édipo “O coração de Antígona é o pêndulo do mundo” (Marguerite Yourcenar) O mito de Antígona é uma continuação da história de seu pai Édipo. Apolo nasceu na ilha de Delos. é descrito. APOLO (Febo. A religião faz a mesma coisa: separa o masculino do feminino para ter domínio sobre a humanidade. Tinha a missão de trazer para a terra a luz. Filho de Júpiter e de Latona. A figura de Antígona perpassa toda a cultura ocidental. depois de tomar consciência de ter sido um parricida e um incestuoso. cujo culto. com o título de Antígona ou A Piedade. (do grego aïolin (nuance das cores). o calor e a vida. Regente de Tebas. Sófocles e Eurípides. de phôs + bios (luz da vida). o dramaturgo francês Robert Garnier elabora uma peça caudalosa sobre o mito. O rei de Tebas. perseguida pela ciumenta Juno. O romano Estácio retoma o conjunto da lenda no volumoso poema épico A Tebaida.C. à noite. As Fenícias (Eurípedes: 409) e Édipo em Colona (Sófocles: 407). por vários nomes: Apolo. 441). onde a protagonista. em 1580. Os antigos romanos. impregnado de marxismo. Ismênia. foi substituído pela adoração do poderoso Apolo. considerado inimigo da cidade. Sol. V a. onde ela se estrangulou. ataca a sociedade burguesa e capitalista. Sol . por atores profissionais e amadores. heliocentrismo) Hélios. no cinema e na televisão. o “brilhante”. inspiradas na figura de Antígona. na modernidade. Hélios. em 90 d. em Colona. Desobedecendo à ordem do tio Creonte. Antígona (Sófocles. é uma divindade pré-olímpica. que ninguém sabe quando apareceram” . um matando o outro. Hélios. que luta contra o sistema monárquico italiano. no teatro de Brecht que. refugiando-se nos subúrbios de Atenas. matara o pai Laio e tivera quatro filhos (Antígona. nas centenas de outras peças representadas no palco. Por muito tempo. também ela centrada numa passagem da Antígona de Sófocles. Na Renascença. se escondia atrás das montanhas. Creonte se vingou. vai tomando consistência outra linha semântica. O mito sobre o astro luminoso do céu. Esta.

da música suave e harmoniosa sobre a música rude. a imaginação. centrada na harmonia das formas. entendida como harmonia de formas: abstraindo dos efebos as partes corporais mais bonitas. da medida sobre o excesso. O adjetivo “apolíneo” foi inicialmente utilizado pelo filósofo alemão Nietzsche. Vários estudiosos da Literatura e das outras artes se serviram muito dessa oposição apolíneo/dionisíaco em seus trabalhos de análise e interpretaçãoCrítica. Na pintura. desvendando os mistérios da natureza. povo mítico que vivia na região do extremo norte. afirmando especialmente o cânone da . Surge como uma “aparição” radiosa que revela ao mundo os segredos dos sonhos e desvenda os mistérios da vida. da forma sobre o disforme.para denominar vários fenômenos ou teorias: de “hélio”. ninfas e mulheres. sofreram inutilmente para convencer os conservadores católicos de que o que está escrito no Gênesis (Bíblia) é pura fantasia. Essa nova concepção da cosmologia é relativamente recente. habitada por pastores que. o Apolo mais bonito é o de Rafael. animal e humana (patrono dos agricultores. pois. Apolo é esculpido ou pintado como um belo jovem completamente nu ou munido de arco.XVIII)Academia O nome vem de “Arcádia”. cópia de uma peça de Fídia. contrastando com a desordem e o espírito revolucionário inerente a Baco (Dionísio). A arte que nele se inspira — a apolínea -. XVIII. considerado capaz de alcançar a vitória sobre o mal e a mentira. o sistema astronômico que considera o Sol como o centro do universo. chamou-se de Arcadismo à moda literária que dominou na Europa durante a primeira metade do séc. Apolo de Kassel. da harmonia sobre a desordem. poeta e músico. É o deus da luz. Apolo é apresentado. a confiança nas forças do homem. segundo uma variante da lenda) representa a vitória da lira sobre a flauta. portanto. O calor de seus raios fecundava a natureza toda: o mundo vegetal. pela luz divina. Apolo do Belvedere. até o séc. Copérnico (que deu o nome ao novo sistema) e Galileu. Os cientistas da Renascença européia. que imaginava a Terra imóvel e centro do Universo. a ilusão. viviam em completa integração com a natureza. A dor de Orfeu pela morte da amada Eurídice constitui uma das páginas mais líricas da mitologia clássica. gerou Orfeu. um radical otimismo. mas também a mudança das estações: o inverno era causado pela ausência de Apolo. APULEIO (autor do romance O Asno de Ouro)=> Metamorfose ARCADISMO (Arcádia. com a musa Calíope. A iconografia de Apolo é uma confirmação figurativa do conceito de beleza apolínea. universal e absoluta. os artistas gregos procuraram chegar à criação de um modelo de beleza masculina. pois ele teve inúmeros filhos com várias deusas. até “heliocentrismo”. em oposição ao “dionisíaco”. cópia de um original do escultor grego Praxíteles. de lira. da cultura sobre a natureza. região da Antiga Grécia. segundo a lenda. Na Era Moderna. animais e minerais. era o protetor dos médicos e dos artistas. em que o todo fosse a resultante de partes proporcional e harmonicamente estruturadas. Apolo.15 não só a alternância dia/noite. em plena Renascença. A região de maior culto ao Sol era a ilha da Sicília. dos pastores e dos navegantes). sendo o Sol a rodar ao seu redor. movimento literário do séc. XVII. o deus do vinho e do Carnaval. da civilização grega sobre a barbárie asiática. onde não soprava o vento Bóreas. especialmente Newton.tem como fundamento o sonho. animal e até humano. era o deus dos oráculos. Ligadas à sua prerrogativa fundamental. da beleza sobre a fealdade. o mais leve dos gases. ainda se acreditava no sistema ptolemaico ou geocentrista. no Vaticano. o astro ao redor do qual transladam todos os planetas. estavam as múltiplas funções atribuídas a Apolo: pela luz cósmica. protegia a vida vegetal. que se tornou o modelo clássico da beleza masculina. luminosa. venerado pelos gregos porque seu canto abrandava a dor e fascinava homens. para indicar obras de artes inspiradas por um conceito de beleza serena. no Sul da Itália. como o deus de todas as faculdades criadoras de formas. Foi a última tentativa de retomada dos princípios estéticos e ideológicos do Classicismo. a luminosidade. especialmente a física e a química. se serviram do nome ou do prefixo h elio. no Louvre. Suas estátuas mais conhecidas são: Apolo Sauroctone. Nas Artes Plásticas. O mito da disputa entre Apolo e Mársias (ou Pá. de cítara ou de uma coroa de flores na testa. pela luz intelectual. onde o deus possuía vastos rebanhos de bois e carneiros. da ordem e da harmonia. que anualmente viajava para o feliz país dos hiperbóreos. As ciências naturais.

que se entrelaça com outras lendas. sentimentalismo. Tosão de Ouro) O mito dos Argonautas (os viajantes do navio Argo) trata da aventura lendária de heróis gregos que foram à Cólquida. Seu lema era: Inutilia truncat (“eliminar os adornos inúteis”). A proposta da nova poética era cantar a beleza e a calma da natureza. mais fruto de leitura e de imaginação do que de contacto real com a vida do campo. todo o movimento arcádico foi impregnado de convencionalismo. frivolidade.16 verossimilhança. região da Ásia Menor. sendo a ele sacrificadas sete moças e sete rapazes. A linguagem era toda ela extraída da vida campestre: os leitores eram chamados ‘‘rebanho”. Participaram da expedição mais de 50 personagens famosos. monstro com cabeça de touro e corpo de homem. violentado durante a época do Barroco. idealizada. com o fim de depurar os textos poéticos dos exageros do estilo barroco. Teseu entrou no Labirinto. cuja posse seria a garantia de poder e prosperidade. escrevera um longo poema intitulado Arcadia. Segundo o mito. formada pelos escritores ligados ao Iluminismo e à Enciclopédia. rei de Atenas. Desde criança. que se encontram narrados nos respectivos verbetes. em contraste com a vida agitada da cidade. é fundada a academia “Arcádia” por um grupo de poetas decididos a lutar contra a moda estética do marinismo ( Marino). Em 1690. era filho de Egeu. onde a “inteligência” francesa. o qual. Os elementos típicos do Arcadismo italiano têm muito em comum com o estilo “rococó” francês: culto sensual da natureza. envolvendo seres humanos e divinos. em 1504. mas artificial. comparando o mito dos Argonautas gregos com a Terra Prometida dos hebreus ( Bíblia) ou com a Demanda do Santo Graal dos cavaleiros medievais. Cláudio Manuel da Costa (17261789). Ariadne. Segundo alguns estudiosos. do latino Virgílio e do renascentista Sannazzaro. em busca do Tosão de Ouro. o rei de Creta. Sua originalidade reside na adaptação do movimento arcádico à realidade brasileira. Os mitos mais belos e de maior fortuna na cultura ocidental. referentes à aventura dos Argonautas. adotavam pseudônimos gregos e tomavam por protetor o menino Jesus. colocadas em baixo de uma enorme pedra. e o estilo artístico do Arcadismo italiano e português lançaram as bases estético-ideológicas da primeira grande escola de poesia em nossa terra: o lirismo dos inconfidentes mineiros. Orfeu e Jasão. o movimento arcádico se espalhou pelos países de língua românica. retirando a espada e as sandálias do pai. Tasso. ARIADNE (amante do argonauta Teseu e esposa de Baco) Filha de Minos. pois tinha nascido de uma relação sexual entre a mulher do rei Minos e um touro. elegância. Os membros da academia chamavam-se “pastores” e ‘‘pastorinhas”. A natureza exaltada pelos árcades não é autêntica. encerrado por Dédalo (Ícaro) no Labirinto. Cada um desses heróis tem uma história particular. o maior herói humano da mitologia grega. a biblioteca era “a pastagem”. Inácio José de Alvarenga Peixoto (1744-1792) e Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1749-1814) constituem uma plêiade de poetas líricos que divulgam na colônia motivos e formas estéticas do Neoclassicismo europeu. Metastásio. destacando-se Hércules. Já moço. utilizando um novelo de fio oferecido-lhe pela jovem filha do rei Minos. um talismã constituído pelo pêlo de um carneiro consagrado a Júpiter. A função da academia era realizar conferências literárias e censurar as obras dos membros. o Tosão de Ouro seria uma metáfora da alma humana em busca do gozo eterno. foi para a ilha de Creta lutar conta o Minotauro. entre os quais se destacou Pietro Metastasio. Teseu. afetação. em Roma. Aliás. era alimentado por carne humana. Para escapar da ira do pai. Teseu. precisou demonstrar sua valentia. matou a fera a socos e conseguiu sair de lá. porque fora adorado por pastores. estão centrados em três figuras de mulheres: Ariadne e Fedra (amantes de Teseu) e Medeia (amante de Jasão). Minotauro. ARGONAUTAS (Teseu/Ariadne. Jasão/Medéia. em homenagem à mítica região da Grécia. a linda princesa fugiu com Teseu com destino a Atenas mas. Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). A temática bucólica e idílica é retomada das composições poéticas do grego Teócrito. os iniciados chamavam-se “cordeiros”. tendo bons cultores especialmente em Portugal (Bocage) e no Brasil. Da Itália. inspirando-se em grandes poetas: Petrarca. linguagem melódica. Camões. periodicamente. O Minotauro. sua lenda se funde com a de Teseu e dos outros Argonautas. .

o deus Baco (Dionísio) a tornou sua esposa. Apolônio de Rodes. As nuvens: sátira de Sócrates e da educação apregoada pelos sofistas. As vespas: sátira contra a mania dos atenienses de recorrer ao tribunal e processar-se uns aos outros por motivos fúteis. cidade de cultura grega. que mais tarde será alcunhado de "o . no poema “Núpcias de Tétis e Peleu”. considerada responsável pela frouxidão dos costumes da juventude de Atenas. Teve outras mulheres. Lisístrata: retoma o assunto da peça A Paz. a Guerra do Peloponeso (431-404 a. Na Idade Média. A comédia antiga se caracterizou por uma sátira ferina contra as instituições políticas. presente de casamento. ARISTÓFANES (dramaturgo grego)Comédia Nada no mundo é pior que uma mulher sem-vergonha. o herói a abandonou. onde se faz referência à constelação que leva seu nome. pelo seu canto carnavalesco o Triunfo de Baco e de Ariadne. fala dela nos Argonautas.) em que atenienses e espartanos se digladiavam estupidamente. Seus alvos preferidos foram. O comediógrafo grego. sociais e culturais de Atenas. Na mesma época. Teseu assumiu o poder sobre Atenas.. apontando nominalmente as pessoas importantes da época. impondo o amor livre e a comunidade dos bens. perdida no tempo e no espaço. nobre aristocrata rural. o mito de Ariadne é recordado por Dante. Assembléia de mulheres: sátira da utopia da República de Platão. deixando de ser apenas a imagem do sofrimento amoroso feminino. foi um implacável conservador e misógino. Imagens semelhantes encontram-se nas obras poéticas de Ovídio. por acaso. A Paz: sátira contra a Guerra do Peloponeso travada entre atenienses e espartanos. chamada assim para distingui-la da “comédia nova” do período alexandrino. as mulheres decidem governar Atenas. o sábio duvida e reflete Aristóteles (384-322) nasceu em Estagira. voltou a Naxos e instituiu um ritual de sacrifícios em honra da amada. de certa forma. A dor pelo abandono deixa a jovem estática. resolvem fundar uma cidade entre o céu e a terra. filho de Teseu e da amazona Antíopa. Cléon. restaram onze. era irmã de Ariadne. Com a morte do pai Egeu. compadecidas da sorte da jovem. Teseu. face à falência moral dos cidadãos. e sua política demagógica. além das mulheres. O rei Filipe confiou-lhe a educação do filho Alexandre. o grande lírico latino Catulo.nobres. as mulheres. para dar-lhe esperança sobre a volta do amado. insurgindo-se contra todas as inovações que colocassem em crise as crenças e os costumes tradicionais. Impressionado com a beleza de Ariadne. embora pertencente à Macedônia. em que. levando-a para o Olimpo.17 chegados em Naxos. acusado de ter rebaixado o nível do teatro na Grécia. escreviam-lhe cartas em nome de Teseu. no cântico do Paraíso da Divina Comédia. e a decadência da arte dramática atribuída a Eurípides. exceto algumas outras mulheres. Na ilha grega. A figura lendária de Ariadne é evocada em muitas obras de arte. artesãos e agricultores . do sexo. o ensinamento filosófico de Sócrates (injustamente considerado um sofista). Aristófanes (445-386) é o maior expoente da ‘‘comédia velha”. o belo Hipólito. Das quarenta e três peças satíricas que escreveu. exaltando os prazeres da comida. enquanto os maridos não acabarem com a guerra. Mas esta história trágica está narrada no mito de Fedra. após a morte de Ariadne. cansados de morar na cidade onde se fazem muitos processos. da dança. A coroa de ouro. ao longo da cultura ocidental. onde a matrona Lisístrata convoca as mulheres de Esparta e de Atenas para uma greve do sexo. tido como incentivador dos maus costumes. descreve o momento em que Ariadne olha o navio de Teseu se afastar. pois os atenienses. faz ressurgir o mito numa veia edonística. E Fedra.C. tornou-se uma constelação. As mais importantes são: Os cavaleiros: sátira violenta contra o arconte de Atenas. Ariadne é retratada como a amante do deus Dionísio. Dividiu a sociedade em três classes .e introduziu o uso da moeda. o sistema democrático de Atenas com seus governantes considerados corruptos e demagogos. ARISTÓTELES (sábio grego)Estética Poesia Filosofia O ignorante afirma. pois se apaixonou pelo enteado. até se casar com Fedra que. Os pássaros: sátira da utopia político-social. Mas é no Renascimento italiano que essa personagem mítica adquire todo o seu esplendor. I a. As Rãs: sátira contra o dramaturgo Eurípides.C. arrependido pelo abandono. Mais do que pelo abandono de Teseu. vingou a irmã. Lourenço de Médici. no séc. inaugurando a democracia.

entre ato e potência. na época da Renascença. aquela que acolhe todas as outras atividades humanas. porque seus discípulos aprendiam passeando sob os pórticos (Perípato). e são percebidas através do princípio da "abstração". Na Física. que poderia ser identificado com Deus. a roda dentada. jamais portas-contra. igual ao peso do volume do fluido deslocado”. e abriu sua escola. Segundo a lenda. tipo de ramificação etc. desenvolvido posteriormente por Newton.) e preparou a grande expedição para o Oriente. troncos e ramos). Depois que Alexandre ascendeu ao trono da Macedônia (336 a. em sua famosa obra a Divina Comédia. (João Cabral) Do latim arqui-+ tectum (“principal teto” = cobertura básica). estipulando quatro tipos de causa: 1) causa material (o mármore de uma estátua). ARQUIMEDES (físico e matemático grego) Eureka! Eureka! Siciliano de Siracusa (287-212). Arquimedes. Em Matemática. 2) causa formal (a estátua de um homem e não de um cavalo). Aristóteles acabou criando um sistema filosófico bem diferente do de seu mestre Platão. o princípio da causalidade. Sua cosmologia imagina o mundo constituído de várias esferas (motores-móveis). movidas a partir de um motor-imóvel. a roldana móvel. significa a organização dos componentes de uma estrutura. formalizou em sua obra Tratado dos corpos flutuantes o princípio fundamental da hidrostática: “Todo corpo mergulhado em um fluido sofre um empuxo vertical. Estudando a Mecânica. apresentando a interação . Sua origem pode ser encontrada na necessidade de o homem se abrigar. ordenando o espaço disponível para adaptar o meio ambiente a sua vida. Ele escreveu obras sobre os assuntos mais diferentes . portas por-onde. Aristóteles nega qualquer raciocínio por hipótese. Para ele. 4) causa eficiente (o agente. na Magna Grécia. lógica. é o templo que abriga estátuas e quadros. Arquimedes passou à história pela sua genialidade inventiva. Outra lenda narra que o sábio grego teria incendiado os navios romanos. As idéias das coisas estão na própria realidade. que estava na banheira quando teve essa idéia genial. o Liceu. está registrada na frase a ele atribuída pela tradição cultural do Ocidente: “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo”. a arquitetura era considerada a “arte maior”. dirigido de baixo para cima. poética. ARQUITETURA (a arte de ordenar espaços) O arquiteto: o que abre para o homem. que assediavam Siracusa. tanto que o poeta italiano Dante Alighieri. um Ato puro ("um pensamento que se pensa a si mesmo"). nada existe além da natureza observável. mais conhecida como a escola "peripatética". especialmente as duas artes irmãs. Efetivamente. Aristóteles voltou a Atenas. O tipo de construção é relativo aos recursos técnicos de cada civilização e a sua ideologia. a alavanca. 3) causa final (a intenção que moveu o artista). que separa o geral do particular: a idéia de árvore é apenas um produto mental. resultante da operação intelectual de separar o que é particular a cada árvore (cor das folhas. aquele lançou as bases do pensamento realista-materialista.Idealismo e Materialismo (Realismo)– disputarão a preferência dos pensadores ao longo da história da Filosofia no Ocidente. moral. foi o precursor do cálculo infinitesimal. inventou a rosca sem fim. o artista). sendo discípulo de Platão. a Pintura e a Escultura. Além da distinção entre gênero e espécie. A consciência da importância dessa última invenção. exclamando: Eureka! Eureka (“Encontrei”).e influenciou fortemente a cultura medieval e renascentista.. onde já estudara durante a sua juventude. Os dois sistemas filosóficos .. teria saído na rua.) do que é comum a todas as árvores (raízes. aproximando-se da atividade que hoje chamamos de Ecologia. especialmente a existência da transcendência. Na Grécia antiga. pelado. Com efeito.18 Grande". arquitetura.C. chamou Aristóteles de "o pai dos que sabem". de um modo geral. Se este deu início ao filão da corrente idealista.física. Aristóteles analisa outras categorias fundamentais do saber humano: a diferença entre substância e acidente. estética . por meio de um jogo de lentes e espelhos.

19

de dois fatores: o material disponível e o mito, derivante dos valores simbólicos que conferem a uma obra a visão espiritual do artista, que é como uma antena que capta o inconsciente coletivo do seu povo. Assim, o templo grego (Grécia) exprime sua estrutura clássica pela linearidade do sistema de colunas, que absorvem o empuxo de um entablamento horizontal, com tensão para o alto. Já a arte latina (Roma) privilegiou o arco e a abóbada, cuja linha curva chega ao auge na ogiva gótica . O Renascimento italiano retoma o estilo neoclássico da Grécia, enquanto o Barroco espanhol se amolda melhor à linha curva da arte medieval. Na França, aflora a figura do engenheiro Gustave Eiffel (18321923), construtor da famosa Torre, que leva seu nome. O monumento metálico de 320 metros de altura e de mais de 7 toneladas de peso foi erguido no Campo de Marte, em Paris, para a Exposição Universal de 1889, em comemoração do primeiro centenário da Revolução Francesa. No séc. XX, a descoberta de novos materiais levou ao surgimento de técnicas revolucionárias na arquitetura, superando o academismo oficial. A chamada art nouveau juntou ao concreto armado perfis de aço ou de alumínio e painéis de vidro, construindo cúpulas arrojadas. O arquiteto canadense Frank Gehry assinou as obras arquitetônicas mais belas da atualidade: o Museu Vitra Designer da Alemanha; o Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha; o Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, com uma fachada de aço, em forma de uma flor, para homenagear a paixão da viúva de Wlat Disney pelas rosas. O conjunto arquitetônico da Opera House de Sidney, o cartão-visita da Austrália, é um hino ao gênio humano. No Brasil, notável foi a construção da nova Capital, Brasília, cujo plano Piloto foi tombado pela UNESCO, em 1987, como primeiro patrimônio histórico moderno da humanidade, pela beleza e ousadia de suas linhas arquitetônicas! À Brasília de Oscar Niemeyer é o título de um poema de João Cabral, exaltando a figura de quem assinou as obras mais fantásticas do urbanismo moderno. Niemeyer e Lúcio Costa foram os discípulos mais aplicados do gênio da arquitetura francesa Le Corbusier. O mesmo escritor do Recife, o “poeta-engenheiro”, escreve outros poemas relacionados com a arte de construir: Tecendo a Manhã (“Um galo sozinho não tece uma manhã // ele precisará sempre de outros galos”); A Mulher e a Casa, onde o lirismo chega ao erotismo através das imagens da penetração do homem no espaço interno da casa e da mulher; Fábula de um Arquiteto, de que transcrevemos a primeira estrofe: A arquitetura como construir portas, de abrir; ou como construir o aberto; construir, não como ilhar e prender, nem construir como fechar secretos; construir portas abertas, em portas; casas exclusivamente portas e tecto. O arquiteto: o que abre para o homem (tudo se sanearia desde casas abertas) portas por-onde, jamais portas-contra; por onde, livres: ar luz razão certa. ARTE (artista, artesão, relação com a Filosofia e as Ciências)Conhecimento A arte nasce da dor, como a pérola. (Monteiro Lobato) Assim como a Filosofia, a Ciência e a Religião, a Arte é uma das quatro macroformas do Conhecimento do homem e da realidade que nos circunda. Num sentido restrito, o que distingue o conhecimento artístico é o meio do que se serve: enquanto a filosofia opera através do pensamento reflexivo, a ciência faz uso da observação e experimentação e a religião da crença ou fé, a arte utiliza a “ficção”, isto é, a fantasia, a imaginação. Mas, num sentido amplo, o nome, do acusativo latino “artem”, passou a significar vários tipos de atividades e de habilidades. Ainda hoje , falamos da arte de pescar, de amar, de jogar futebol, de confeccionar objetos etc., tendo algo em comum com técnica e artesanato. Como ocorre em todas as culturas primitivas ou indígenas, a arte está profundamente ligada às necessidades cotidianas, evidenciando-se seu fim utilitário. Assim, por exemplo, o desenho da figura de um certo animal num rochedo estava a indicar que ali era uma zona de perigo. Os antigos romanos chamavam de satura, termo que acumula o sema de “mistura de várias coisas”, o moderno “saturado”, com o sema de “gozação” (Sátira), à primeira forma artística dos camponeses do Lácio que, nas festas

20

comemorativas das colheitas, ofereciam aos deuses um prato cheio (satura lanx) dos primeiros frutos da terra, narrando mitos, cantando, dançando, tocando rústicos instrumentos musicais, declamando poemas ou narrando episódios da vida cotidiana. Na verdade, nos primórdios de todo povo, existe sempre uma mistura das várias formas artísticas. Só mais tarde, com o progresso civilizacional, cada arte começa, aos poucos, a adquirir sua especificidade, a música se separando da poesia, o romance do teatro, a imagem fixa (pintura) da móvel (cinema), surgindo novas formas artísticas. A interdependência das várias artes, estudada por Étienne Souriau na obra A correspondência das artes, hoje é claramente percebível no teatro da Ópera, onde se conjugam, no mesmo espetáculo, a história romanesca, o canto lírico, a música orquestrada, a representação dramática, a cenografia, a sonoplastia, os efeitos luminosos, a relação ator/personagem e autor/diretor. A arte, em qualquer de sua forma, visa superar os limites humanos do tempo e do espaço, buscando o infinito e o absoluto. Como afirmou Pablo Picasso, “na arte não existe passado nem futur;a arte que não está no presente não existirá nunca”. Outra característica fundamental do objeto estético, salientada pelo grande pintor espanhol, é sua receptividade: “um quadro vive apenas através de quem o contempla”. A arte já foi definida como “a estética do sublime”. Para o filósofo alemão F. Nietzsche, ela é mais gratificante do que a ciência: “temos a arte para não morrer pela verdade” . Se nosso destino comum é a velhice, a doença, a morte e o esquecimento, o artista, mais do que o cientista, o filósofo ou até o homem religioso, alimenta-se da esperança da sobrevivência. O poeta latino Horácio tinha plena consciência da importância da sua arte, quando afirmou: “erigi para mim um monumento mais duradouro do que o bronze”. Outra característica da arte é desnudar o que está coberto, tentar colocar ao nível de superfície o que está nas profundezas da alma. E faz isso de uma forma quase imperceptível. Conforme a bela imagem de Carlos Drummond de Andrade, “o Romance é a arte de destelhar casas sem que os transeuntes percebam”. Os Formalistas russos põem em relevo o efeito de estranhamento, já detectado pelo poeta Baudelaire, quando dizia: “o importante na obra de arte é o espanto”. As obras de arte podem ser classificadas de várias formas. Pelo critério do país de origem (arte grega, egípcia, bizantina etc); do momento histórico (medieval, renascentista, moderna etc.); de um mecenas (período de Péricles, de Augusto, de Elisabete etc.); de estilo (gótica, rococó, mourisca etc.); de religião (arte cristã, muçulmana, budista etc.); do meio principal de expressão (espaço planificadoArquitetura, tintaPintura, cinzelEscultura, imagem móvelCinema, encenaçãoTeatro, movimento do corpoDança, palavraPoesia, somMúsica). Neste “dicionário cultural”, usaremos o critério diacrônico, dando um apanhado da evolução das várias modalidades artísticas, com uma atenção especial para as chamadas “artes plásticas” (Pintura, Escultura e Arquitetura), destacando obras de autores considerados fundamentais (Leonardo da Vinci, Michelangelo, Picasso). Quanto ao conceito da arte como o “belo em si”, relacionado com correntes filosóficas, ver Estética. ARTUR (o mito do rei Artur e dos Cavaleiros da “Távola Redonda”)Graal ATENA (divindade greco-romana)Minerva ATENAS (cidade grega, centro irradiador da civilização ocidental) Grécia ATOMISMO (filosofia, ciência, destruição)Einstein A palavra átomo vem do prefixo grego a-(negação) + tomos (parte): literalmente significa “o que não tem partes”, o indivisível. Segundo a doutrina filosófico-cosmológica antiga, apresentada por Demócrito, Epicuro e Lucrécio, o universo é formado por partículas indivisíveis que se combinam de uma forma fortuita. A suposição (que hoje se tornou uma verdade científica) era de que os processos químicos não podem ser explicados sem que se admita uma substância constituída de partículas que, nas reações em cadeias, funcionam como se fossem indivisíveis, capazes de associarem-se ou substituírem-se umas por outras, sem sofrerem modificações essenciais. Efetivamente, qualquer reação só pode dar-se pelo choque entre alguns elementos invariáveis, combinados com outros variáveis. Chegamos ao início do séc. XIX e o físico e químico inglês, John Dalton (1766-1844), estudando as substâncias gasosas,

21

convalidou a antiga teoria atômica sobre a constituição da matéria, promulgando a lei das “Proporções Múltiplas”, também chamada lei da “Mistura dos Gases”, apoiada em quatro hipóteses: 1) Toda forma de matéria é constituída por átomos, sendo estes indivisíveis e inalteráveis; 2) Na mesma substância, os átomos são todos iguais; 3) Os átomos de diferentes elementos se distinguem pela massa e por outras particularidades; 4) As transformações químicas acontecem pela conjunção e pela separação dos átomos entre si. Só em 1897, o cientista J.J. Thompson conseguiu descobrir, experimentalmente, que também o átomo é divisível, pois composto por um núcleo positivo, que contém nêutrons e prótons, cercado por elétrons. Numa órbita estacionária, o elétron não irradia energia alguma, assegurando a estabilidade do átomo. A emissão ou a absorção de energia é dada por um “salto” do elétron de uma órbita para outra. Chegamos, assim, com Einstein, à formulação da “teoria quântica”: a quantificação da energia está relacionada com os elétrons em seu “estado estacionário”. Atualmente, o átomo é concebido como um “estado ligado” de um sistema de partículas fundamentais (um núcleo de uma carga positiva + um número de elétrons), que precisa de energia para ser dissociado e produzir, por sua vez, uma outra energia de grande potência. As reações liberadas pela explosão de núcleos de material leve produzem energia para fins pacíficos; já as reações de fissão de núcleos pesados (urânio ou plutônio) podem servir de espoleta para detonar bombas de hidrogênio, de alta potência destrutiva. No dia 6 de agosto de 1945, os americanos lançaram a primeira bomba atômica sobre Hiroshima e, três dias depois, outro objeto nuclear sobre outra cidade japonesa, Nagasaki, para pôr fim à Segunda Guerra Mundial. As duas cidades japonesas foram reduzidas a escombros, causando uma centena de milhares de mortos e a devastação das regiões próximas à irradiação atômica. Se, de um lado, a descoberta da força nuclear da matéria contribuiu muito para o progresso da ciência, proporcionando ao homem uma energia alternativa, de incalculável benefício, de outro lado, seu uso bélico e o perigo de explosões incontroladas não deixam de ser um malefício. Haja visto o desastre de Chernobyl, em 1986: a explosão, por falha humana, de um dos quatro reatores da usina atômica da Ucrânia, levantou uma vasta nuvem radioativa sobre todo o centro-sul da Europa, matando 35 pessoas e danificando a saúde de aproximadamente cinco milhões de seres humanos. ATOR (agente de ações, astro, intérprete) Personagem Do latim actor, substantivo formado do particípio passado actum, do verbo ágere, que significa “agir”, fazer. Literalmente, portanto, ator é aquele que age, que faz, que exerce o papel de uma personagem. Enquanto esta é uma figura da imaginação, fruto da fantasia de um autor, o ator é uma pessoa do mundo real, um profissional da arte dramática, televisiva ou cinematográfica, que tem a função de representar e interpretar as ações, as idéias e os sentimentos de uma personagem. Não se confunda, portanto, a figura do ator dramático ou de cinema, que é um ser em carne e ossos, com o ator que contrasta com o “actante” no modelo actancial do semioticista francês A.J.Greimas. Neste caso, o ator é a mesma coisa que personagem. No início do séc. XIX, a profissão do ator adquire a merecida importância. O ator e diretor russo Constantin Stanislavski notabilizou-se pela proposta de uma nova prática teatral e por seus escritos teóricos sobre a arte dramática. Pretendia compor uma “suma” sobre o Teatro, dividida em oito volumes. Conseguiu, porém, publicar apenas o primeiro volume que, na tradução em língua inglesa, recebeu o título de O trabalho do ator sobre si mesmo . O segundo volume, O trabalho do ator sobre a personagem, resultou de uma coletânea de notas e fragmentos. No Brasil, a obra de Stanislavski encontra-se vulgarizada em quatro livros: Minha vida na arte (biografia profissional); Preparação do ator (formalização da técnica de interpretação); A construção da personagem (os aspectos exteriores: o físico, a voz, o gesto); A preparação de um papel (em busca do comportamento interior da personagem). A essência do "método stanislavskiano” reside na capacidade do ator de assimilar o mundo psíquico da personagem: o intérprete deverá sentir sua própria vida no interior da vida da personagem e a vida da personagem como idêntica à sua própria vida. A relação simpatética entre ator e personagem deveria levar a um "estar-no-outro". A tese contrária, sustentada pelo dramaturgo alemão Bertold Brecht, é a concepção

22

técnica que propõe a desmistificação da arte teatral: o ator, considerado um profissional, não deve necessariamente sentir o que representa, mantendo sempre viva, em si próprio e no público, a consciência de que se trata de um "fazer de conta". Basta que, estudando o papel de fora para dentro, consiga representar as idéias e os sentimentos que o autor e o diretor quiseram colocar na personagem. A controvérsia nos parece de pouca relevância, pois se, de um lado, é muito difícil perceber até que ponto há identificação entre ator e personagem, de outro lado, o que realmente interessa é o resultado da atuação dramática. Se a interpretação conseguir convencer o público, levando-o à compreensão da mensagem e à emoção estética, pouco importa se o ator está sentindo realmente ou está fingindo sentir as idéias e as emoções da personagem. Aliás, uma perfeita identificação do ator com o personagem , anulando o sentido de distanciamento entre a vida e a arte, poderia levar a uma interpretação desastrosa. Narra o crítico Décio de Almeida Prado que um famoso ator teatral do século passado, ao interpretar o papel do ciumento Júlio da peça Os seis degraus do crime, quase mata por estrangulamento a bailarina-atriz Estela Sezefreda, que interpretava o papel de Luíza. O jovem ator transpôs para o palco o ciúme doentio que sentia pela atriz, interpretando de uma forma totalmente realística o papel do personagem Júlio. A função do ator adquire uma importância cada vez maior ao longo da história do teatro. Na Antiguidade greco-romana a profissão de ator não era valorizada por vários motivos: sua fisionomia era oculta pela máscara; um só ator podia desenvolver, na mesma peça, vários papéis, inclusive femininos, pois às mulheres era proibido participar da encenação; os atores geralmente eram escravos ou pertencentes à camada popular, sendo socialmente sem classe, “desclassificados”. Mas, no teatro moderno, da Renascença para cá, a figura do ator foi paulatinamente adquirindo muito prestígio, tornando-se de vital importância para a sobrevivência da arte dramática. Abolido o uso da máscara, o jogo fisionômico e a expressão corporal juntaram-se à modulação do discurso para a interpretação da personagem. Surgiram, então, atores ilustres, que se especializaram na representação de determinados papéis, chegando-se a ponto de autores escreverem peças cujas personagens eram forjadas sob medida para a interpretação de certos atores. Entre os mais famosos atores personalistas, lembramos Sarah Bernard, Eleonora Duse, Lawrence Olivier, Procópio Ferreira e Cacilda Becker. Como dizia o grande mestre Stanislavski, “não há pequenos papéis, só há pequenos atores”! AUTORITARISMO (despotismo, ditadura, mito de Júpiter) Absolutismo BACH (compositor alemão) Música Barroco BACO (divindade romana, deus do vinho e da alegria)Dionísio Carnaval BACON (filósofo e cientista inglês: Novo Organon)EmpirismoMetodo BALZAC (romancista francês)Realismo A chave de todas as ciências é, indiscutivelmente, o signo da interrogação Honoré de Balzac (1799-1850) é considerado o pai do romance moderno pela grandiosidade da sua obra de ficção. Ele retrata a sociedade francesa da época numa obra cíclica, que denomina A Comédia Humana, para distingui-la da Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri. O conjunto de romances encontra-se dividido em três partes. Na primeira parte, Balzac apresenta a descrição artística dos costumes da sociedade burguesa (A mulher dos trinta anos, O pai Goriot, Eugênia Grandet, entre outros romances); as obras da segunda parte expressam seu pensamento reflexivo sobre a vida (Luís Lambert, Pele de Onagre etc.); na terceira parte, de que publica apenas Fisiologia do casamento, analisa o comportamento humano face às instituições sociais. Pelo seu aspecto de participação, a narrativa balzaquiana está impregnada de “realismo crítico”, termo mais tarde utilizado por vários teóricos do romance. Com efeito, na sua volumosa obra de ficção romanesca encontramos, apresentados e discutidos, os temas mais palpitantes da florescente burguesia francesa da sua época: política, usura, dinheiro, hipocrisia, ambição, casamento, amor. O adjetivo “balzaquiano” passou a indicar uma postura perante a vida, que lembra personagens ou situações de sua obra. Mais especificamente, no gênero feminino, o adjunto adnominal “balzaquiana”, forjado a partir da obra A mulher de trinta anos, designa uma mulher madura, mas ainda

23

solteira, embora apetitosa. Muitas observações de Balzac sobre a vida, especialmente conjugal, tornaramse citações de almanaque. Transcrevemos apenas uma: “É mais fácil ser amante que marido, pois é mais difícil ter espírito todos os dias do que dizer coisas bonitas de vez em quando” BANDEIRA (poeta lírico brasileiro)Modernismo Fui ao Museu de Arte Moderna, À exposição dos neoconcretos. Motivos por demais secretos Poderão construir obra eterna? Manuel Bandeira (1886-1968) é um dos maiores poetas do movimento modernista brasileiro, aceitando a revolução estética, mas sempre com olho crítico. Pernambucano de origem, viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, com estadias temporárias na Europa, especialmente na Suíça, onde era costume tratar sua tuberculose. Exerceu a profissão de docente de Literatura, de jornalista, de crítico de artes e de tradutor, vertendo para o português obras de García Lorca, Rilke, Shakespeare, entre outros autores estrangeiros. Após os poemas juvenis de A cinza das horas, em que se percebe sua ligação com a tradição poética do Simbolismo decadentista do início do século XX, com a coletânea Carnaval, seguida de O ritmo dissoluto e Libertinagem, inicia um novo ciclo poético impregnado do espírito “dionisíaco”. Em quase todos os poemas dessa fase, especialmente da série Carnaval, através da descrição das formas e dos sentidos das várias máscaras do carnaval brasileiro (“A canção das lágrimas de Pierrot”, ‘‘Pierrot branco’’, ‘‘Arlequinada”, ‘‘Pierrot místico’’, ‘‘Pierrete’’, “Rondó de Colombina”, “O descante de Arlequim”, “A morte de Pã”, “Sonho de uma terça-feira gorda”, “Poema de uma Quarta-Feira de Cinzas”), percebe-se uma linha isotópica centrada sobre a exaltação do Carnaval, momento de subversão dos valores éticos. São cantos que enaltecem os anseios individuais, as forças vitais do ser humano, em contraste com os valores ideológicos impostos pelas normas do viver social. De Libertinagem, destacamos o conhecido poema “Vou-me embora pra Pasárgada”. O nome Pasárgada foi extraído da Ciropédia, do historiador grego Xenofonte, para materializar um espaço utópico onde o poeta pudesse realizar os desejos mais recônditos da sua alma. Seguem-se as coletâneas Estrela da manhã, Lira dos cinqüent’anos, Belo belo, Opus 10, Estrela da tarde, Mafuâ do malungo. A modernidade de Manuel Bandeira reside não tanto nas inovações de ordem estilística (abandono das formas poemáticas tradicionais, verso livre, ensaios de poemas concretos), quanto em sua temática inspirada nas coisas humildes ou desconcertantes da vida prosaica e na sua postura ideológica, marcadamente contestatória, em que predominam os motivos da revolta do ser humano, esmagado pela sociedade industrializada e comercializada. BARROCO (estilo de arte e de vida do séc.XVII) O nome “barroco” só recentemente passou a indicar a corrente artística que predominou na Europa durante o séc. XVII (Seiscentos) e que, em países e em épocas diferentes, tivera originariamente outras denominações: Marinismo, na Itália; Gongorismo, Cultismo, Culteranismo e Conceptismo, na Espanha; Preciosismo, na França; Silesianismo, na Alemanha; Eufuísmo, na Inglaterra. O movimento do Barroco nasceu dentro da época clássica, em relação com a qual podem ser relevados elementos de convergências e de divergências. Os críticos que salientam as semelhanças consideram o barroco como uma continuação da Renascença; os que põem em ressalte as diferenças acham que o estilo barroco surge em franca oposição com o estilo clássico, admitindo uma ruptura estética entre os dois movimentos. Para o estudo crítico do Barroco é preciso ter em conta duas teorias fundamentais: a teoria genético-formal, segundo a qual a origem do movimento seiscentista reside num contraste estilístico entre Barroco e Renascença; e a teoria genético-social, pela qual a oposição com a Renascença, mais do que no plano estético, dá-se no campo ideológico: os segmentos sociais em que se desenvolve a arte barroca não são os mesmos da fase renascentista, pois, além de outros fatores sociológicos, o fenômeno da Contra-Reforma católica altera substancialmente a concepção de vida. A teoria genético-formal é sustentada pelo historiador suíço Heinrich Wölfflin que, na sua obra Princípios fundamentais da história da arte, publicada em 1915, apurando os estudos contidos no seu trabalho anterior, Renascença e Barroco (1888), chegou à formulação das famosas cinco categorias de antítese entre o estilo clássico e o estilo barroco: linear/pictórico; visão de superfície/profundidade; forma fechada/aberta; independência das

24

partes/conjunto; claridade absoluta/claro-escuro. Essas oposições, na verdade, servem mais para o estudo das artes visuais do que para a análise e a interpretação de um texto literário. Borromini, na arquitetura, Bernini, na escultura, Tintoretto, Caravaggio, Rubens, Rembrandt e El Greco, na pintura, apresentam exuberâncias de formas, volutas, campos de visão distorcidos, espaços curvos e figuras angulosas estranhas à arte renascentista. Segundo Wölfflin, o gosto clássico trabalha com limites de linha claros e tangíveis (perfis, contornos); toda superfície tem seu marco de margem preciso; cada volume se apresenta como forma plenamente tangível; nada existe que não seja apreensível na sua corporeidade. O Barroco, pelo contrário, anula a linha como limitadora, multiplica as bordas, complica a forma, de modo que cada componente não consegue impor seu valor plástico. No que diz respeito propriamente à Literatura, o estilo barroco se diferencia do estilo clássico por uma renovação na linguagem e na temática. A retórica barroca utiliza de uma forma diferente o repertório das figuras de estilo já existentes na estética renascentista. A metáfora, a figura de sentido fundamental da linguagem literária, é explorada em todas as suas virtualidades, com o objetivo de encontrar semelhanças entre os objetos mais diferentes, com a intenção de despertar nos leitores a surpresa e a maravilha. As figuras de oposição semântica (antítese, paradoxo, oxímoro, antinomia), de parco uso entre os autores clássicos, são as preferidas pelos poetas barrocos. O mesmo acontece com a hipérbole (exagero de sentido), o hipérbato (a ruptura da estrutura sintática), o eufemismo (o dizer velado). O período amplo e simétrico da Renascença, construído a partir do modelo do mestre latino Cícero, é substituído pela frase curta, de índole sentenciosa, segundo o modelo de Tácito e de Sêneca, escritores latinos do início da decadência romana. Quanto à temática, o Barroco apresenta como motivo recorrente a chamada coincidentia oppositorum: a atração das coisas opostas. Exemplar, a este respeito, é a fábula de Polifemo y Galatea, do espanhol Góngora, o maior poeta do Barroco europeu. Nessa obra, o tema da bela e da fera, da ação sedutora do monstro horrível sobre a jovem de uma beleza angelical, é explorado através de imagens belíssimas, altamente líricas. A arte barroca é rica de temas desconhecidos ou desprezados pela estética clássica: a bela mendiga, o herói pícaro, o burlesco, o mesquinho, o anormal, o marginal. Mesmo quando retoma motivos clássicos, como o carpe diem, do poeta epicurista latino Horácio, o aproveitamento do momento presente face à fugacidade da vida, o autor barroco o reveste de matizes peculiares: o prazer do gozo do presente adquire o gosto da amargura, porque existe, no “eu poemático”, a consciência do desencanto da vida, perante a inevitabilidade da velhice e da morte, o grande passo para a escuridão existencial. A morte e o amor, na sua expressão sensorial, matizado por um sutil erotismo, são os dois temas fundamentais da estética barroca. Já a teoria genético-social encontra-se formulada na obra de Werner Weisbach: O Barroco, arte da Contra-Reforma. Segundo a sua tese, a ideologia do Concílio de Trento foi o fator predominante para a determinação da temática, do estilo, da sensibilidade do homem barroco que, dividido entre a concupiscência dos prazeres mundanos, herança do Renascimento, e o terror das penas do inferno, inculcado pela doutrina tridentina (Lutero), se torna um ser dilemático, angustiado. A arte barroca é caracterizada pelo choque entre a sensualidade pagã da Renascença e o espiritualismo ascético e fanático da época da Contra-Reforma. Daí resultam trágicos conflitos na alma dos homens, que provocam manifestações artísticas exuberantes e chocantes.A concepção do espaço como infinito, proveniente das descobertas marítimas e da ciência copernicana, entra em contraste com uma visão do tempo como limitação, angústia e morte .Escreve Aguiar e Silva (Teoria da Literatura), “o homem, sabendo-se simultaneamente grande e miserável, anjo e besta, eterno e transiente, sente o terror pascaliano de se saber suspenso entre dois abismos, o infinito e o nada; as antíteses violentas, a tensão da alma, o sentimento de instabilidade do real, a luta do profano e do sagrado, do espírito e da carne, do mundano e do divino são feições diversas dessa crise multiforme, religiosa, estética, filosófica, que se verifica na Europa desde meados do século XVI”. Além do fator religioso, existe um aspecto mais especificamente social que funciona como determinante de estilo. O Barroco e o Classicismo estão relacionados com estruturas sociais distintas: o Barroco é o produto artístico de uma sociedade aristocrática, de tipo feudal e rural, composta de senhores latifundiários e de uma larga massa de camponeses, ao passo que o Classicismo se relaciona com uma burguesia educada no estudo da lógica, da matemática, da disciplina jurídica,

25

habituada, portanto, ao raciocínio rigoroso e à claridade mental. Isso explicaria o sucesso do Classicismo na Itália e na França, enquanto o Barroco teve como centro de irradiação a Espanha, país ainda ligado a costumes feudais. Além dessas duas teorias sobre as origens do Barroco que, antes de serem excludentes, se complementam, pois o fator social condiciona o fator estético e o segundo, por sua vez, está em estreita relação com o primeiro, outras teses surgiram na tentativa de explicar melhor o complexo movimento. Eugênio D’Ors, na sua obra Lo Barroco, considera o movimento seiscentista como uma ‘‘constante histórica’’, retomando os mitos nietzschianos do eterno retorno e do antagonismo do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco. O Barroco seria um éon (uma categoria, uma realidade profunda), que se opõe maniqueisticamente e se alterna historicamente com outro éon, o do Classicismo. Assim ele fala de um barroco alexandrino, gótico, tridentino, romântico, pós-bélico. O éon barroco, através de suas incursões ao longo da cultura ocidental, adquire diferentes modalidades, mas não modifica sua substância. Sob as várias configurações que assumem, conforme as circunstâncias temporais e espaciais, quer o Classicismo (espírito da unidade, da clareza, da consciência ordenada), quer o Barroco (espírito da diversidade, do dinamismo libertário, da consciência fragmentada) mantêm inalterada a sua essencialidade. Outros estudiosos sustentam a tese de que o estilo barroco constitui uma qualidade permanente do caráter espanhol, etnicamente formado pelo cruzamento de três raças diferentes: a cristã, a moura e a judia. Na Espanha absolutista, o choque entre os dogmas tridentinos e as tendências estéticas e espirituais da Renascença é muito mais profundo. A Espanha nunca renegara a Idade Média e o homem barroco espanhol tornou-se, ao mesmo tempo, um saudoso da religiosidade medieval e um seduzido pelas solicitações terrenas e os valores do Humanismo (amor, dinheiro, luxo, ambição). A pátria de Santo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas e o autor dos Exercícios espirituais, livro que ensejou uma onda de devoção e de misticismo, foi também a pátria da Contra-Reforma e do Tribunal da Inquisição, que disseminou o terror do Inferno na Europa e no além-mar. Não é por acaso que o Século de Ouro da cultura espanhola, a época mais excelsa do poder político, econômico e cultural da Espanha, deu-se sob o signo do Barroco. Na Literatura, as figuras mais preeminentes dessa época foram os autores espanhóis, que ditaram as normas estilísticas nos três principais gêneros: Góngora, na lírica; Cervantes, na narrativa; Lope de Vega, no drama. BAUDELAIRE (poeta romântico francês) Simbolismo Tudo o que não é sublime é inútil e criminoso Charles Pierre Baudelaire (1821-1867) viveu na época do Romantismo, mas sua poesia maior está acima de qualquer escola literária, influenciando fortemente a lírica simbolista e modernista. Considerando-se discípulo e irmão espiritual de Edgar Allan Poe, divulgou a obra do escritor norteamericano na Europa, traduzindo o poema The raven (“O Corvo”), Histórias extraordinárias, As aventuras de Gordon Pym e Revelações magnéticas. Ele também foi chamado de “poeta maldito” pela sua vida de boemia e sua arte revolucionária, contestadora da moral pública. A sua obra mais importante é a coletânea de poemas intitulada Les fleurs du mal, dividida em seis partes: “Spleen e ideal”, “Cenas parisienses”, “O vinho”, “As flores do mal”, “A revolta”, “Morte”. Como solução para o tédio, Baudelaire invoca, sucessivamente, o Amor, a Poesia, Satã e a Morte, os quatro temas recorrentes na poética do grande escritor francês. O tema do amor, em As flores do mal, adquire vários matizes: de um realismo sensual, em que ele exalta a sua paixão pela judia Sara, passa para a celebração da beleza exótica da mulata Jeanne Duval, que ele denomina a “Vênus negra”, até chegar ao canto sublime do profundo sentimento erótico que sente pela atriz melodramática Marie Daubrum. O amor não conseguindo preencher seu vazio existencial, Baudelaire se refugia na poesia. A arte pela arte, o culto da beleza subjetivamente entendida, leva-o a ampliar os limites da poesia através da “estética do feio”. Sofre, porém, outra decepção, pois também a atividade artística torna-se insuficiente para a sua realização existencial. Explora, então, o tema do Satanismo, muito ao gosto da época romântica. Mas nem o Diabo consegue resolver seus conflitos íntimos. Enfim, encontra na Morte, a grande viagem para o infinito e o mistério, o apaziguamento do seu espírito atormentado. Para sua influência sobre outros poetas, sugerimos consultar o verbete Simbolismo, onde se encontra a análise do seu poema “Les Correspondances”. BECKETT (Esperando Godot)  Teatro

e um Menino.” A palavra “Bíblia” deriva do grego ta bíblia. Êxodo (história da saída do povo hebreu do Egisto). provocada pela solidão humana. é a angústia. pois supostamente redigidos sob inspiração divina. viveu vários anos na França e na Inglaterra. ao redor de 1950. Embora em sua obra literária apareça a descrição de tipos e objetos banais. que predomina em seus poemas. dois secundários. que tentava romper os laços com o teatro tradicional. Samuel Beckett. um amor fantástico. Melhor é pensar num sentido indefinido: a peça representaria o anseio de o homem ver melhorada sua condição existencial. Números (história do povo eleito desde a legislação do Sinai até à entrada na Transjordânia). com dois personagens principais. Alguns seguem sendo. Através do diálogo dos protagonistas percebe-se que a conversa sobre assuntos banais serve apenas para matar o tempo na espera de Godot. A peça Esperando Godot. romances e dramas. ao entardecer. também poeta e romancista. que os cristãos dividiram em dois Testamentos (“Alianças”): o Antigo (o Pacto de Deus com o povo judeu) e o Novo (de Cristo com todos os povos da Terra). Vladimir e Estragon.. colhidos da realidade cotidiana. fazendo-lhe superar a angústia e evitar o desespero. Levítico (organização do culto entre os hebreus). irlandês. indicando o conjunto dos textos considerados sagrados. Judaísmo)Abraão MoisésCristo Lutero “E Deus disse a Moisés. O cenário é uma estrada e uma árvore. escrita em francês. seu anseio mais profundo é metafísico: antes que se preocupar com problemas políticos. Seu autor. a peça beckettiana seria a representação trágica da eterna expectativa humana: todo o mundo.26 Nascemos todos loucos. Deuteronômio (exortação para ser fiel à Lei). caracterizando o que foi chamado “Teatro do Absurdo”. tornou-se um marco da moderna dramaturgia. Josué (história da entrada na Terra Prometida) Juízes (história do povo hebreu de Josué a Samuel) Ruth (uma prova da misericórdia divina) Livros dos Reis (historiam o governo de Israel pelos governantes da casa de Davi) Esdras e Neemias (restauração de Israel após o cativeiro de Babilônia) Tobias (caridade e esperança em Deus) Judite (a libertadora de Betúlia) Ester (a proteção de Deus) Macabeus (heroísmo e fidelidade à fé e à lei) Livros didáticos: Job (a paciência heróica) Livro dos Salmos (hinos sagrados. a sua reflexão está voltada para o absurdo do mundo abandonado por Deus. Enfim. A esperança de que alguma coisa maravilhosa (o ganho de uma loteria. Segundo alguns críticos.. seria Deus (Godot derivaria do nome inglês God). Pozzo e Lucky. didáticos e proféticos: ANTIGO TESTAMENTO Livros históricos: O Pentateuco (composto pelos cinco livros cuja autoria é atribuída a Moisés): Gênesis (conta a origem do mundo e do povo hebreu). Peça em dois atos. A sua obra dramática de maior sucesso é Esperando Godot. um emprego invejável) possa acontecer é que mantém o homem vivo. cuja vinda a humanidade há vários séculos espera em vão (as mensagens de Cristo e de outros Profetas não vingaram). atribuídos a David) . sociais ou éticos. Sua preocupação principal de homem e de escritor foi encontrar um sentido para a vida face ao vazio existencial. “os livros”. Não se sabe quem é este Godot que Vladimir e Estragon estão esperando e que não aparecerá. O sentimento. sempre. espera por alguma coisa. que nunca irá acontecer! BEETHOVEN (compositor alemão)Música BÉRGSON (filósofo francês)Intuicionismo BÍBLIA (Velho e Novo Testamento. Encontramos o conjunto da obra bíblica dos dois Testamentos agrupado em três categorias: livros históricos.

Habucuc.27 Provérbios. e ela se desenvolveu através de incontáveis traduções. O Antigo Testamento narra a história dos hebreus. Ela é um produto do homem. enquanto os outros textos sobre a vida de Jesus não eram “inspirados”. conforme a conhecemos hoje. Judas Tadeu) Livros proféticos: Apocalipse (São João Evangelista fala da vitória final de Cristo sobre Seus inimigos). eram tribos seminômades. Sofonias. o primeiro a achar que apenas os quatro evangelhos considerados “canônicos” pela Igreja de Roma foram escritos sob inspiração divina. Baruc. 1 de São Tiago. 3 de São João Evangelista. seu neto Jacó foi para o delta do Nilo. foram transmitidas de pais para filhos. Originariamente. filho de Sirac) Livros proféticos: Isaías. o chefe carismático. foi Santo Irineu (130-202). foi uma colagem composta pelo imperador romano Constantino. Em suas origens. O homem a criou como relato histórico de uma época conturbada. acréscimos e revisões”. no Egito. Jonas. Marcos. desceu para a Palestina. ocupando terras para dar estabilidade ao seu clã. do ficcionista americano Dan Brown. também a narração bíblica começou pela tradição oral: lendas sobre heróis. impôs o Cristianismo em todo o Império Romano. Miquéias. liderados por Moisés. é uma produção anônima e coletiva. em estágios civilizacionais mais avançados. Efetivamente. se refugiaram no monte Sinai. Amós. considerados fundadores de uma nacionalidade. como os cantos épicos primitivos e os contos populares de qualquer povo. “A Bíblia não chegou por fax do céu. outro nome de Jacó que. Enquanto seu filho Isaac se instalava na região do Hebron. Que os livros sejam considerados “sagrados”. os hebreus. os “hebreus” (de Hebron. que teria recebido do deus Yaveh (Jeová) as Tábuas da Lei . região do Sul da Palestina) e de “israelitas” (de Israel. é uma questão puramente de fé! Quanto ao Novo Testamento. a narrativa bíblica. um povo semita do antigo Oriente. o Grande” (Helenismo). em hebraico. Numa outra passagem do romance de Brown. Essa listagem dos livros bíblicos pertence à ortodoxia católica. é considerado o ancestral do povo hebreu. Abdias. Agora. tidos como “sagrados” por judeus e cristãos? Como afirma um personagem da famosa obra O Código da Vinci. não de Deus. também chamados de “judeus” (de Judéia. Este teria tido a visão de uma cruz cristã. Lucas e João) Atos dos Apóstolos (a pregação de Pedro e Paulo. da epopéia homérica e dos cantos épicos medievais ( Mitologia Épica). Ezequiel e Daniel (os chamados “Profetas”) Oseias. De modo semelhante ao surgimento dos mitos gregos. por gratidão. sentindo-se escravizados. Naum. algumas personalidades cultas foram colocando por escrito o que vinha sendo transmitido oralmente. significa “que Deus reine”). pois escritos por autores inspirados por alguma divindade. Zacarias e Malaquias (os “profetas menores”) NOVO TESTAMENTO Livros históricos: Os Quatro Evangelhos (a vida de Cristo. Jeremias. Joel. que acabou se instalando na Palestina. junto com Isaac e Jacó. de autoria do evangelista Lucas) Livros didáticos: Epístolas de São Paulo (14 Cartas a vários povos) Epístolas Católicas (2 de São Pedro. lê-se: “a Bíblia. Eclesiastes e Cânticos dos Cânticos (atribuídos a Salomão) Sabedoria (atribuído erroneamente a Salomão) Eclesiástico (atribuído a um tal de Jesus. cidade da Jordânia). Já o profeta Maomé aproveitou mais dos evangelhos apócrifos para a formulação da doutrina registrada no Corão. a formação da Bíblia deu-se através de vários séculos e de muitas mãos. Abraão que. provenientes do deserto siro-árabe. até que. A Bíblia não caiu magicamente das nuvens. abandonando o nomadismo. a pergunta fundamental: quando e quem escreveu esses Textos de histórias e sabedoria. por exemplo. 1 de S. alcunhado “o caçador dos hereges”. especialmente as publicadas por setas protestantes e outras obras consideradas apócrifas. onde estava escrito “sob este signo vencerás”. Durante a dinastia de Ramsés II (1298-1235). conforme os Apóstolos: Mateus. Ageu. pois. Constantino venceu a batalha de Monte Mílvio e. existindo edições com algumas variantes.

macedônios e. o termo significa “a dança da vida”. Acaba. explicando a nova modalidade de dança invemtada pelo chileno Rolando Toro. Na década de sessenta. por respeito à língua de seu criador. que conseguiu estabelecer um elo de ligação entre a divindade e a humanidade. em lugar da “ç”. aponta suas cinco linhas de vivência: I . pois começara a interminável guerra entre os judeus e os árabes limítrofes. para pôr fim a uma revolta. Egípcios. a assertividade. sua vida milagrosa e sua morte misteriosa. sua teoria e técnica se difundiram por grandes cidades das Américas. A ele devemos os primeiros escritos da fé cristã: as tábuas dos Dez Mandamentos! A religião moisaica foi o preparo para os hebreus conquistarem a terra de Canaã. O Judaísmo. a força interior. Moisés conseguiu unir os diversos grupos num mesmo povo. Entretanto. música. Mas. mas somente sob o reinado de Davi (de 1010 a 907) os judeus conseguiram a unidade nacional. mas. enfim. cujo objetivo é despertar e desenvolver a alegria. Moisés. chamados “Juízes”. precisamente em 14 de maio de 1948. A “facilitadora” do núcleo de biodanza de São José do Rio Preto-SP. estabelecendo normas e costumes.28 (Torah). A prática da biodanza é em grupo. chega ao paroxismo com o Holocausto. movimento e vivência. o mito da busca do homem por uma pátria. é claro. foi fundado. em território palestino. após sua morte. é considerado. Rolando Toro. as 12 tribos israelitas. O sofrimento do “Hebreu Errante”. que se desenvolve a partir de uma profunda vinculação consigo. Num contexto de atenção e cuidado. da África e do Japão. o reino israelita se dividiu e lutas fratricidas atiçaram a sanha de povos vizinhos. mas o surgimento da figura de Cristo dará um novo vulto à cultura no Ocidente. acolhendo e estimulando o desenvolvimento dos potenciais de cada participante.C. em torno do culto de um único deus. com o outro e com o cosmos. Entre 1220 e 1030. Mas essa é outra história. A biodanza combina música. da Europa. Trata-se de um sistema que visa o desenvolvimento do ser humano. A experiência suprema do contato com a vida é o sentimento de amor. melhoramento da auto-estima e renovação orgânica. por motivo político. A figura de Moisés não deixa de ser um mito. um dos maiores Profetas. moabitas e filisteus. conectando-se com suas emoções e sentimentos. A necessidade de terem um chefe permanente fez com que os hebreus adotassem o regime monárquico. mas não a paz. o mítico fundador de Roma). após o fim da II Guerra Mundial. destruíram Jerusalém e seu Templo sagrado. guerrearam contra cananeus. a coragem e a vontade de viver. Em 70 d. onde residiu durante três décadas. babiloneses. integração motora. O pouco que sabemos sobre ele é o que se encontra no Pentateuco. as legiões do general Tito. a história do Antigo Testamento.Vitalidade. o que . desenvolvendo o sistema da biodanza no Brasil. o antropólogo chileno deu origem à nova arte na sua terra natal. pois não temos nenhum documento histórico de sua vida São lendários seu nascimento (“salvo das águas”. Buda e Maomé. que os levou à vitória contra os inimigos. que não está na Bíblia! BIODANZA (a dança da vida)Dança Entrelaçamento de movimento. Daqui. assírios. as terras hebraicas. introspecção e afetividade interpessoal. Etimologicamente. Seu filho Salomão passou à história pela sua sabedoria e magnificência. com músicas cuidadosamente selecionadas para cada vivência. Maria Tereza Búrigo Marcondes Godoy. As mudanças que essa vivência costuma provocar são: aumento da energia vital. como Cristo. irá continuar. Realmente. foi obrigado a emigrar. usando-se a letra “z”. na tentativa de exterminar toda a raça hebraica (Hitler). sucessivamente. Os hebreus conseguiram uma pátria. assim. O pressuposto filosófico da biodanza é o “princípio biocêntrico”. assim como Rômulo.. ele se tornou fonte inesgotável de cultura religiosa. o ímpeto vital. cujos membros funcionam como um ninho ecológico. sendo venerado até pelo Islamismo. atendendo a uma resolução da Assembléia Geral da ONU. lideradas por Josué e por outros chefes momentâneos. uma personalidade misteriosa e inefável. Finalmente. os romanos ocuparam. o Estado de Israel. O primeiro rei israelita foi Saul. nome que designa os 12 anos (19331945) de perseguição nazista contra os judeus. o participante experimenta mover-se livremente. bem como sua renovação orgânica e existencial. declarando-se Jerusalém território internacional. descendente de Abraão. tendo como proposta primordial a reeducação para a vida.

facilita a capacidade de comunicação. religião ortodoxa)Helenismo BOCAGE (poeta português)Arcadismo “Aqui dorme Bocage. Há uma ampliação da vivência dos cinco sentidos e um aprofundamento do vínculo com a natureza. elegíaca). mas logo soube desvincular-se das amarras da escola arcádica para produzir uma lírica pessoal.29 leva à diminuição de distúrbios psicossomáticos. revolucionária. bucólica. Essa da Rússia imperatriz famosa. Tu. aumento da energia amorosa. integração entre o pensar. oh Nise. De um modo geral. oh Nise. cujo objetivo é despertar e desenvolver a ternura. cujo objetivo é despertar e desenvolver a intimidade consigo mesmo e com a totalidade. Mas ele è mais conhecido como poeta gozador e obsceno. Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta) Entre mil porras expirou vaidosa: Todas no mundo dão a sua greta. cujo objetivo é recriar a própria vida. ampliação da percepção. III . Entre alguns benefícios biopsíquicos. possibilita melhor convívio familiar e social. Do itinerário poético de Bocage a crítica distingue três fases: a produção juvenil. duvidosa Que isto de virgo e honra é tudo peta. estimula a criatividade e ajuda a desenvolver a capacidade de superar os próprios limites. através de uma renovação existencial. para chegar-se à harmonia. a mais importante. IV .Afetividade. Istambul. adotou o nome bucólico e anagramático “Elmano Sadino”. pois o tom pessimista da sua lírica noturna prenuncia o Romantismo. com melhora nas relações familiares. fodeu sem ter dinheiro” (auto-epitáfio do poeta) Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) é o maior poeta lírico lusitano do século XVIII. Cleópatra por puta alcança a c’roa. cujo objetivo é liberar a energia vital e o máximo potencial criador do indivíduo. com toda a tua proa. o putanheiro. a fase madura do lirismo pessoal. observam-se a vitalidade. BOCCACCIO (contista italiano do séc. putíssimas fidalgas tem Lisboa. Passou vida folgada e milagrosa. Trabalha-se a curiosidade. V-Transcendência. resgate da auto-estima.Criatividade. Seus efeitos benéficos são inúmeros. arte. desenvolvimento dos potenciais genéticos. são assim detectáveis: mudanças biológicas e fisiológicas. a coragem para inovar e reorganizar o estilo de vida. os níveis de crescimento. II . o teu estado. A produção poética desta última fase é. pela qual entrou em conflito com os escritores da época. que segue os modelos da estética do Arcadismo (poesia amorosa. a diversidade. sociais e profissionais. intimamente sentida. BIZANTINO (Constantinopla. irreverente. e puta dum soldado. Não fique pois. sentir e agir. O teu cono não passa por honrado. a biodanza fortalece a autoconfiança. a poesia satírica. Enfim. a regulação do sono. Lucrécia. Veja-se o seguinte soneto: Não lamentes. a solidariedade e o vínculo saudável com o outro. tanto orgânica como psicologicamente.XIV) Decameron BORGES (romancista argentino) . Há um aumento da comunicação. em que canta a solidão existencial. Comeu. bebeu. Puta tem sido muita gente boa. o aumento da resistência ao estresse e o fortalecimento do sistema imunológico. Conforme a moda do Arcadismo. favorecendo-lhe a possibilidade de sentir prazer com sabedoria. milhões de vezes putas têm reinado: Dido foi puta.Sexualidade. expansão da consciência. com a prática da biodança. sem dúvida.

passou a chamarse “Buda”. sua terra natal. deixou o palácio de seu pai para meditar na floresta. Sua concepção de teatro se afasta da dramaturgia clássica. para a qual remetemos ao verbete Galileu. retomando o tema bíblico do Julgamento de Salomão: o pequeno Michel é entregue à mãe adotiva que o ama mais. Seus temas preferidos são a magia. dando a ilusão de que o que se passa no palco é realmente o que acontece na vida. considerandoa uma forma de alienação social. Jorge Luis Borges (1899-1986). que trata da disputa sobre a verdadeira maternidade. foi também um teórico da arte literária. Vedas. O público. Suas obras mais importantes: Tambores na noite. o livro sagrado mais famoso da doutrina budista. Ficciones. de galhos e folhas. EI Aleph. O livro da areia). vagando por vários países da Europa e das Américas. O universo todo é pensamento. deve perder a consciência de que está num espaço onde reina a imaginação.30 Numa semente estão contidas as idéias de caules. o drama nunca deve tentar ocultar que é arte. assim Buda anteriormente acrescentara uma nova mensagem ao velho Hinduísmo. Para Buda não existe nada de absoluto. o assunto dramático não deve verter sobre a problemática existencial de um indivíduo. discordando da tese de Lukács sobre o Realismo estético. A exceção e a regra. é considerado o iniciador do realismo fantástico na América Latina. o ciclo do nascimento. consideradas como formas de conhecimento da realidade. Os fuzis da senhora Carrar. O teatro que ele propõe. tem por finalidade fazer refletir sobre a realidade e estimular as mudanças sociais. Quanto ao seu estilo. dando origem a uma religião que se espalhou pelo Oriente todo. Gautama viveu na Índia entre 560 e 480 a. desenvolver a integridade. Opera dos três vinténs. Após atingir o estado de iluminação (bodhi). O Círculo de Giz Caucasiano. O homem tem que se convencer de que ele mesmo é o sujeito do processo da evolução da história. BOTTICELLI (artista da Renascença italiana)Pintura BRAHMA (divindade indiana. foi chamado também de Sidarta. O que rege o mundo é o sansara. rei Artur. O verso em epígrafe encontra-se no Dhammapada. Além de grande dramaturgo. a ciência cabalística. A obra-prima de Bertold Brecht é A vida de Galileu. de família tradicional e conservadora. Os Vedas. acusado de fazer a apologia do sistema comunista de vida. crescimento e morte. de indestrutível. a marca da conseqüência das ações: a lei de que todos os atos . mas sobre as relações que os homens mantêm entre si. Para Brecht. Entre outros apelidos. sendo inclusive expulso dos Estados Unidos. Portanto. por não aceitar a ideologia nazista. É com o nome de Sidarta que o escritor alemão Hermann Hesse apresenta a biografia romanceada e os pensamentos de Buda. de troncos. de metafísico. que tinha por finalidade representar uma problemática existencial da forma mais verossímil possível. mas na Grécia. Como Cristo veio separar o Antigo do Velho Testamento da religião judaica. purificar a mente: Eis a lição de Buda. ao mesmo tempo em que critica a moda expressionista. a eternidade. que sucedeu aos antigos Upanishadas. “aquele que atingiu sua meta”. Cavalaria)Graal BUDA (Sidarta. em momento algum. Hinduísmo. acontecimentos históricos encontram-se mesclados com o irreal. o mesmo se diga das vestimentas e da linguagem dos personagens. não precisando de heróis ou taumaturgos. Um homem é um homem. Ainda jovem. BRETÃO (ciclo cultural medieval. Gandhi) Evitar o Mal. é pura ficção. Mãe coragem. denominado de “épico” porque essencialmente narrativo e dialético. Esplendor e miséria do Terceiro Reich.C. Brahma. Hinduísmo)Buda BRECHT (dramaturgo alemão)Galileu Desgraçado o país que necessita de heróis! Homem profundamente polêmico na vida e na arte. diferentemente. Em seus livros de contos fantásticos (História universal da infâmia. o inferno. notável é a importância que ele confere às categorias do tempo e do espaço dentro da narrativa. Cada qual nasce com o seu karma. Bertold Brecht (1898-1956) precisou fugir da Alemanha. a antiga doutrina védica. A essência do Budismo é comparável à concepção do pantarrei (“tudo flui”) do filósofo pré-socrático Heráclito. O cenário não deve reconstruir o ambiente histórico em que se supõe que os fatos tenham acontecido. que viveu aproximadamente na mesma época.

jejum e preces. que sustenta o equilíbrio entre as forças do bem (deuses) e as forças do mal (demônios). costumes. estando o brâmane. Os textos falam de uma ordem cósmica (dharma). O Hinduísmo. Figura mundialmente famosa foi Mahatma (a “Grande Alma”) Gandhi (Porbandar 1869 – Déli 1948). duas comunidades que vivem. cujo texto fundamental é o livro de Os Vedas. Logo começaram a nascer várias escolas antagônicas. O Budismo indiano “reformado” atingiu o apogeu na época da dinastia Gupta. o “Conservador”. que contém crenças. portanto. ritos.C. Seu apogeu deu-se durante o reinado de Asoka. o conjunto das Escrituras Sagradas de várias religiões da Índia (vedismo. Por isso era motivo de irritação para muitos hindus que desejavam o confronto armado contra os que apregoavam o credo muçulmano e contra os invasores ingleses. pois só com o término da sucessão de renascimentos o homem pode atingir o nirvana. que era a língua dos invasores arianos. A liderança do movimento nacional foi exercida por mais duas figuras ilustres na história indiana do séc. quando o Budismo adquiriu o status de religião universal com intenção missionária. Posteriormente. Os estudiosos distinguem várias ramificações do Budismo no espaço e no tempo:  Budismo indiano: HINDUÍSMO. junto com Vishnu. O Budismo nasceu como sobreposição à antiga religião indiana. é o mais importante dos homens. em sânscrito significa “O Absoluto”. De Mahatma Gandhi.. correspondente à Bíblia dos judeus. esfacelando os primitivos ensinamentos do Mestre. portanto. é a religião dos indianos que acreditam nos ensinamentos que se encontram em Os Vedas. em constantes lutas pelo predomínio étnico e religioso. após uma longa tradição oral. Estava aberto o caminho para a busca da salvação. J. É preciso.. Nerhu e Indira Gandhi. durante os séc. pela vontade. escritos sob a inspiração de Brama. e Shiva. hinduísmo). no séc. a totalidade). constituem a Trindade da religião hindu. Gandhi acreditava que os graves conflitos internos do seu país podiam ser resolvidos com penitência. que lutou a vida toda e pacificamente para defender a independência. conforme a antiga crença dos invasores arianos. compilados entre 2000 e 600 a. Os adeptos do Hinduísmo acreditam que Os Vedas foram ditados por Bramha. no séc. o “Destruidor”. dividido em dois Estados: a União Indiana hindu e o Paquistão muçulmano. dominou os sentidos. no topo da escala social. IV e V d. que é a libertação do sofrimento e a aquisição do estado de êxtase pela iluminação da mente (bodhi). pela sua fragmentação. O ideal do sacrifício e da renúncia permanece como a base do hodierno Hinduísmo. a religião e as tradições hindus contra o domínio da Inglaterra. o “Criador” (a palavra brahman. o sacerdote. o deuscriador.C. VI a. organização social do povo hindu. Um ano antes da sua morte por assassinato político. III a. Ser verdadeiro é ainda mais importante do que ser pacífico. O caminho da paz é o caminho da verdade. lutar contra o karma com o fim de interromper o samsara. . mitos. o subcontinente indiano conseguiu a independência.C. o conjunto dos Livros Sagrados. a “Lei cósmica universal”. chamada “Hinduísmo”. que.C. libertando-se dos ciclos de renascimentos. do sânscrito shindu. pela renovação do primitivo Hinduísmo com espírito nacionalista e pela expansão do Islamismo (Maomé).31 voltam para as pessoas que os cometeram. nome do adepto do Sanâtana Dharma. A sua obra A Autonomia da Índia (1909) é um libelo contra o materialismo da civilização ocidental e contra qualquer tipo de violência. que não tem origem. até hoje. O ensinamento de Buda pode ser resumido nesta sua expressão: Faça de ti mesmo teu próprio suporte. A “revelação” divina está consagrada num volumoso corpo de textos sânscritos. respeitando as castas. teu próprio refúgio. O Vedismo constitui a mais antiga e mais rica literatura indo-européia. O núcleo da antiga religião hindu foi reinterpretado com o advento do Budismo. Os rituais representam e estimulam a conservação desse equilíbrio. católicos e protestantes e ao Corão das várias setas islâmicas. pois colhemos o que plantamos. XX. alguns pensamentos se tornaram antológicos: Aquele que. bramanismo. Mas sua expansão pelo mundo deu origem a várias seitas. A concepção metafísica da crença na transmigração da alma de um corpo para outra tenta justificar a ordem existente e a diferença de classes sociais em função dos méritos e dos erros nas vidas anteriores. essa facção de Budismo pouco progrediu fora da Índia.

Daí ao incentivo do racismo o passou foi fácil: junto com o Nazismo alemão e o Fascismo italiano. transcrevemos um poema escrito quando sua visão já estava fraca. mediante exercícios físicos e psicológicos. a partir do séc. cultivado apenas por monges e letrados. autêntico e inovador. de blama (“ser superior”). a comunicação com o público. um poema que seja inédito. poema-narrativa. VIII ao XII) de sincretismo. É chamado de “Lama” o monge tibetano budista. XVII. que nos faz lembrar um verso do heterônimo de Fernando Pessoa. fazendo demorar o orgasmo por horas. Zen): introduzido no Japão. livro sagrado. trabalhando a palavra como se exculpe o mármore. Após a anexação do Tibet à República Popular da China. passando a persistir apenas em pequenas comunidades do Nepal e de outras regiões da Índia. personificado nos samurais. preocupado mais com a prática do que com a teoria. O movimento “zen” marca um budismo tipicamente japonês. Como exemplo da poesia de Cabral. chamado de “Lamaísmo”. Poeta. apresentando um rígido formalismo ritualístico. especialmente de Hinduísmo e Budismo tardio. O que caracteriza o tantrismo é o estímulo da sexualidade através de massagens eróticas em lugares estratégicos do corpo. A partir do séc. poema é coisa que se faz vendo como imaginar Picasso cego? Um poema se faz vendo. o antigo Xintoísmo começou a predominar sobre o Budismo. Na sua evolução. VI a. até que.32 A verdadeira riqueza do homem é o bem que ele faz a seus semelhantes  Budismo chinês  Confúcio  Budismo japonês (Xintoísmo. declarando-a religião de Estado. Morte e Vida Severina. misturando-se especialmente com o Xintoísmo. o poeta da “visão” da Natureza: “Pensar é estar doente dos olhos!” Pedem-me um poema.C. apesar da sua técnica apurada. viveu muito tempo no exterior (França. desmistificando a poesia como fruto da inspiração e do sentimento.. como as divindades do politeísmo greco-romano. Com a derrota. sendo acusado de cerebralismo e de desumanização. Um poema se faz para a vista. XII ao XIV) e criou um tipo ideal de herói. sendo o suporte para a implantação do culto à nacionalidade japonesa. 3) o poeta que busca. Inglaterra. praticados pela ioga. que retrata toda a aridez e a pobreza do Nordeste brasileiro. musicado no palco por Chico Buarque de Holanda e adaptado a um seriado televisivo. trama. aos poucos. Alberto Caeiro. passou de uma fase elitista. 2) o poeta de cunho social. Como fazer o poema ditado . são personificações das forças naturais. o budismo tibetano perdeu seu poder político-religioso. sendo o DALAI-LAMA o “grande lama”. considerado religião estrangeira. o Tantrismo resulta de uma síntese de várias religiões orientais. BYRON (poeta inglês)Romantismo CABRAL (poeta pernambucano)Modernismo Um galo sozinho não tece uma manhã Nascido no Recife (1920-1999). formou-se a Tríplice Aliança. no ano de 1868. que começou no período Kamakura (do séc. Sua essência reside na busca de uma identificação entre o natural e o sobrenatural. O Xintoísmo passou a cultivar a adoração do Imperador-Deus. De “tantra”. o povo japonês voltou ao culto das seitas do Xintoísmo tradicional e do Budismo Zen (do chinês chan = “meditação”). onde exerceu funções diplomáticas. que provocou a II Guerra Mundial (Marte). o que transparece no seu texto mais conhecido. palavra sânscrita que significa teia. o governo Meiji separou oficialmente o Xintoísmo das outras religiões. A sua produção poética apresenta várias vertentes: 1) o poeta-engenheiro que cria seus versos com cortes precisos. não pode ser enquadrado em nenhuma “geração” pós-modernista. a primitiva religião japonesa.  Budismo tibetano: a região do Tibet cultivou um budismo tântrico. o Budismo tornou-se religião de Estado. o eixo Roma-Berlim-Tókio. para um período (do séc. Espanha). onde os deuses. em 1959.

Por exemplo. é como um rio. seita do Protestantismo) Lutero CAMÕES (poeta épico e lírico de Portugal)Lusíadas CAMPANELLA (filósofo italiano) Utopia CAMUS (escritor franco-argelino) . mais prolífero. mais aristocrático. A vida é um sonho. colocando no centro de sua ação dramática sempre um conceito filosófico. é um drama de idéias. um Capibaribe. Para fazer o Atlântico. o que é a vida? uma ilusão. o segundo. pois toda a vida é um sonho. mas mais profunda é a obra La Estatua de Prometeo. É coisa sobre um espaço. Lope e Calderón foram os dois poetas que lançaram as bases do moderno teatro espanhol. Todos se juntam a mão. Tratase de um espetáculo total. representada em 1669. Com o Tejipió. e os sonhos. que antecipa o sucesso do Teatro da Ópera. Onde com o Beberibe. Em suas margens domado Para chegar ao Recife. mais atormentado pela problemática barroca da luta entre a liberdade humana e o determinismo da Graça divina. visto como o símbolo do esforço humano para conseguir o progresso. mais próximo do ideal renascentista da arte como expressão da natureza eufórica. Um poema é o que se arruma. CALVINO (fundador do Calvinismo. O dramaturgo espanhol ressuscitou o mito grego de Prometeu. enganado pelas aparências sensíveis: O que é a vida? um frenesi. Menos popular. CAIM (a força do mal) Satã CALDERÓN (dramaturgo espanhol) “La vida es un sueño” Pedro Calderón de La Barca (1600-1681) é um dramaturgo profundo. Uma de suas afirmações: “quem vive sem pensar não pode dizer que vive”. e o maior bem é pequeno.33 Sem vê-lo na folha escrita? Poema é composição. predominando a concepção barroca do desencanto do homem. balé e cenários suntuosos. Sua obra mais famosa. O primeiro. mais alegre. Jaboatão. Poema é coisa de ver. uma ficção. Como se vê um Franz Weissman. mascarado pelos véus do simbólico e do fantástico. sonhos são. com música. uma sombra. mais técnico. canto. Como não se ouve um quadrado. Dentro a desarrumada vida. Mesmo da coisa vivida. mais reflexivo. Por exemplo.

Capitalista é a pessoa que vive dos rendimentos do seu capital emprestado a juros ou investido em empresas. provocou uma revolução no mundo econômico. o escritor luta ardorosamente contra o nazi-fascismo. proveniente da injustiça social.34 “Acabamos sempre adquirindo o rosto da nossa verdade!” Albert Camus (1913-1960). Cosmos)Mitologia Terra CAPITALISMO (regime político. mas que passou os melhores anos de sua vida na França. Já os estudiosos de tendência marxista acham que o verdadeiro Capitalismo surgiu com a Revolução Industrial. imóveis e monetários que uma pessoa possui. quando se rompeu o cerco muçulmano (Maomé) na bacia do Mediterrâneo e começara o ciclo do intercâmbio comercial entre a Europa . em contato com o espetáculo da miséria humana. pode ser considerado o autor que realiza a síntese entre a ficção sociológica e a ficção intimista. na liberdade de mercado e na força do trabalho humano. Esta mais-valia produz um capital adicional que. Numa primeira fase de sua breve vida. Outros postergam seu começo até às Grandes Navegações. em nome de uma liberdade absoluta. Parodiando Descartes. até hoje. cuja obra Das Kapital. aponta as afinidades entre a mentalidade capitalista e o calvinismo do séc. inveja. social e econômico)Marx Do latim caput. A Origem das Espécies. colocam seu início na época das Cruzadas. Em Economia. A peste. agressivo e acumulador. luxúria. dramaturgo e romancista da Argélia. como as feras do mundo animal. pago pelo empregador aos operários por horas determinadas. quando iniciou o confronto entre a força do trabalho humano e os meios econômicos necessários para a produção de bens. convencido de que a ditadura de esquerda não é melhor do que a de direita. Capitalismo é um sistema econômico. os homens poderosos apresentam o “triplo A”. a sua condição de órfão de família pobre coloca-o. mais importante. canônico)Classicismo CANTO (canção. Fundamental para o entendimento do Capitalismo é o estudo da figura de Karl Marx. quando editara. visto ser a cabeça a parte mais nobre do corpo humano. ligada ao Partido Comunista (Marx). a sua inquietação espiritual o estimula a perscrutar a intimidade do ser em procura de uma resposta face ao absurdo da existência e da morte. autor da recente obra História Natural dos Ricos. quando. Se. O mito de Sísifo). ele dizia: “Revolto-me. ligando o início do Capitalismo com o espírito aventureiro de espanhóis e holandeses e com a alta burguesia da Renascença italiana. XIX. Em suas obras mais famosas (O estrangeiro. político e social comparável à suscitada por Darwin. eqüidistante de qualquer forma de totalitarismo. gula. fundamentado na empresa privada. XVII. que significa “cabeça”. cápitis. de ávido. segundo o jornalista americano Richard Conniff. testa. umas três décadas antes. cólera. o termo “capital” passou a indicar o que é fundamental. Alguns estudiosos. e chamamos de Capital à cidade-sede de um país. CÂNONE (modelo estético. com estatuto jurídico. na famosa obra A Ética protestante e o espírito do Capitalismo (1905). No questionamento e na sondagem do ser evidencia-se o grande poder de introspecção do escritor francês. XVIII. O sistema de produção capitalista está baseado na lei da mais-valia (do trabalho excedente): o trabalho. rompe com Sartre e com os outros escritores engajados na propaganda da ideologia socialista. A origem histórica do Capitalismo. de um lado. na Baixa Idade Média. O Capitalismo é chamado de “selvagem”. O sociólogo e economista alemão Max Weber. nas ciências biológicas. a África e o Oriente Médio. publicada no fim do séc. cantiga)Música Lírica Trovadorismo CANUDOS (Os sertões: epopéia histórica)Euclides CAOS (figura mítica sobre a origem do mundo. produz um lucro maior do necessário para sua manutenção. . Mais tarde. se transforma numa outra “mais-valia”. Camus apresenta como tema recorrente o absurdo da condição humana em perpétua busca de um sentido para a vida e para a morte. jornalista. reaplicado pelo dono da empresa. de outro lado. é motiva de controvérsias. falamos dos “sete pecados capitais” (avareza. ressaltando o papel importante do surgimento da burocracia para racionalizar progressivamente o sistema social. onde se encontram tecidas sutis e hilariantes comparações entre o modo de vida egoísta e prepotente dos símios fortes e dos humanos endinheirados. a partir da segunda metade do séc. considerados como as principais falhas do homem. orgulho e preguiça). o capital indica a soma dos bens móveis. participando ativamente da Resistência Francesa ao domínio alemão. Assim. portanto existo”. desde a infância.

perdida a noção do passado familiar. Enfim. cantam e dançam. está presente em quase todas as formas de arte. Na Europa. onde predomina o princípio da ordem e da fidelidade aos padrões socio-morais. O Rei Momo é geralmente configurado como uma pessoa gorda. cujo equivalente em português pode ser encontrado nos versos de uma marchinha carnavalesca: “Não me leve a mal. acaba se sobrepondo ao superego que controla a vida cotidiana. a paródia dos valores sociais. e se estabelece uma nova forma de relações inter-humanas. hoje é Carnaval”. a . tutto vale (“no Carnaval. a profanação do sagrado. pelo desfile dos carros alegóricos em lugar fixo e apropriado. a elevação e a queda do ídolo. que ele chama de monológica. Na Terça Feira Gorda e no fim de semana que a precedia. os devotos de Cristo se esbaldavam em comer “polpette” (almôndegas). A identidade dos contrários e a não-identificação da pessoa é facilitada pelo uso da máscara ou da pintura do corpo com cores berrantes. quando começava a Quaresma. apreciada no mundo inteiro. das regras normais de vida. a hierarquia. os 40 dias de penitência antes da Páscoa. com o nome de Carnaval e anualmente.35 CARLOS Magno (carolíngio. Nas Saturnálias romanas elevava-se ao trono um escravo. vale tudo”). dançar desenfreadamente. À essa segunda linha de força ele chama de literatura “carnavalizada”. nos folguedos do Carnaval é prestigiada a gordura. do belo e do feio. nos dias de Carnaval. a vindima. estabelecida por Nietzsche. sem dúvida. a mesma divindade sendo cultuada em Roma com o nome de Baco: as “bacantes” eram as mulheres que participavam dos ritos orgiásticos. do sagrado e do profano. o hino em honra ao deus Dionísio: um coro de pessoas “transformadas”. no Brasil. de caráter ritual. o melhor Carnaval é o de Veneza. Bakhtine. O ato ambivalente significava a relatividade de toda estrutura social. sendo vivido por todos. Na Idade Média. sem medo de sanções. que era servido e venerado por seus patrões. a nudez e a libido. Na percepção carnavalesca do mundo são exaltadas as formas oximóricas. na esteira de Nietzsche. perpassada pelo espírito “dionisíaco” da contestação e da revolta. especialmente na Literatura. A língua italiana tem uma expressão que define bem essa liberdade: nel Carnevale. a etiqueta. O espírito carnavalesco ou “dionisíaco”. o Carnaval é uma festa popular bem antiga. usando máscaras. Coloca na mesma linha das obras de arte. o Rio de Janeiro apresenta a melhor festa carnavalesca. em honra do deus do vinho ( Dionísio). dando vazão aos instintos mais primordiais. o sambódromo. Durante a época carnavalesca há uma suspensão das leis sociais. as mésalliances: a conjunção do masculino e do feminino. cuja origem pode ser encontrada nas festividades para comemorar a colheita da uva. para que as pessoas não fossem identificadas. símbolo da riqueza e da abundância.. Sua primeira manifestação pode ser encontrada no “ditirambo”. famoso pelo desfile e baile das Máscaras. símbolo universal do princípio da vida e da força. a mesma cor do fogo e do sangue. onde não há separação entre atores e espectadores. pois se sentem possuídas pelo espírito divino. que significa “adeus à carne”. detecta a presença de duas linhas de forças que dão formas à Literatura Ocidental: uma arte. Anula-se a diferença de classes e de sexos. o diálogo socrático. pois percebe a presença do espírito do Carnaval em muitas obras literárias ao longo da história. de faces rosadas. impregnada pelo espírito “apolíneo”. do sublime e do vulgar. O Carnaval é uma forma de espetáculo sincrético. ciclo cultural francês)Roland CARNAVAL (Baco. das interdições morais. conforme o tempo e o lugar. durante os quais era proibido comer carne. com um largo sorriso de prazer satisfeito. no estado de embriaguez. Junto com a cor vermelha. O crítico russo M. os cristãos festejavam a véspera da quarta feira de cinzas. carnavalesco)Dionísio “Não me leve a mal. liberando o uso do álcool e de roupas extravagantes. hoje é Carnaval” (canção carnavalesca) Do italiano “Carnevale”. tomar vinho. é o id freudiano que. Entre os atos carnavalescos que legitimam o mundo às avessas o mais importante é o rito da “entronação” bufonesca do Rei do Carnaval. dionisíaco. e outra dialógica. Predomina o vermelho. conforme a dicotomia apolíneo/dionisíaco. O Carnaval reveste-se de características próprias. chamados de “bacanais”. fundada no contato livre e familiar entre todos. que questionam a realidade. termo formado a partir da expressão do latim medieval carnem vale. do alto e do baixo.

2) para os católicos. Matrimônio. pois escritos por revelação divina. o teatro shakespeareano. explicitam as verdades da Fé. Atualmente. que em grego significa “universal”. o altar. no norte da Itália. o Decameron de Boccaccio. dos Mártires que. Apresentamos o texto e a tradução de um . Catulo nasceu em Verona (87 a. fundindo crenças e rituais pagãos com a nova tradição cristã. CARTESIANISMO (de Cartesius. dedicou-se ao culto do amor. Paulo VI e João Paulo II. quando ele fala ex cathedra sobre assuntos de doutrina religiosa. cidade da Bitínia que quase um milênio depois passou a ser sede do Império Bizantino. o Catolicismo é a religião cristã professada por quem reconhece o Papa de Roma como chefe espiritual do mundo. Sua existência foi marcada por uma forte paixão por uma dama romana. Os discos solares egípcios tornaram-se as auréolas dos santos católicos. pouco a pouco. dos Santos.. Nobre e rico.C. com o exemplo de suas vidas e suas pregações. nos mistérios da Santíssima Trindade (Pai. que lhe confere. epitalâmios e traduções de poemas gregos. contando com mais de 700 milhões de fiéis. Extrema-Unção. o ato de “comer Deus”. mas continua na Tradição oral e escrita dos Apóstolos. o termo grego que indica a universalidade.36 sátira greco-romana. o Grande. Ordem. a narrativa de Kafka e de outros autores. 4) a fé católica é sustentada pela crença num Deus único e trino. mas passou a maior parte da sua breve vida (33 anos) em Roma. pois receptores da Graça divina): Batismo. como religião oficial. nasceu em 325 d. e Cristo como Filho de Deus e Redentor da Humanidade: isso o Catolicismo tem em comum com todas as outras igrejas cristãs. O Catolicismo. A essência sincrética do catolicismo é assim descrita pelo estudioso Dan Brown ( O Código da Vinci): “Os vestígios da religião pagã na simbologia cristã são inegáveis. Don Juan. forma latina do nome Descartes) CASANOVA (mito da sedução masculina: Páris. a literatura picaresca. por assim dizer – foram diretamente copiados de religiões pagãs místicas mais antigas”. Crisma. da Encarnação. a Igreja Romana manifesta disposição à convivência e ao diálogo com outras confissões religiosas.). esposa do cônsul Metelo Céler e irmã do tribuno Clódio. já podem ser percebidas as características da religião católica: l) considerar os ensinamentos contidos no Antigo e no Novo Testamento (Bíblia) como sagrados. 5) a Igreja Católica reconhece a eficácia de sete Sacramentos (atos sagrados. a Revelação de Deus não está apenas nos textos bíblicos. Eucaristia. que ele imortalizou sob o pseudônimo da Lésbia: os momentos felizes da paixão. da Ressurreição. a infalibilidade. Os pictogramas de Ísis dando o seio a seu filho Hórus milagrosamente concebido tornaram-se a base para nossas modernas imagens da Virgem Maria com o Menino Jesus no colo.Valentino)Adônis CATOLICISMO (Igreja universal romana)Cristo De Katholikos. Vaterii Catulli liber). Filho e Espírito Santo). em que estão reunidos poemas curtos e de assunto amoroso (Nugae) e elegias. dos Evangelistas. dando peculiar relevo à obra de Dostoievski. a bela e lasciva Clódia. A religião católica. o romance realista. Confissão. epigramas. tenta ao “Ecumenismo”. mas concentrados na Europa Ocidental e na América Latina. junto com o primado da jurisdição. A poesia de Catulo reflete a trajetória de seu amor por esta mulher. CATULO (poeta lírico latino) “Odi et amo” Maior poeta lírico da Literatura Latina. da amizade e da arte literária no dissoluto mundo cortesão da capital da imensa República. quando o imperador romano Constantino. R. pelo Iº Concílio de Nicéia. resolveu unificar as várias religiões sob a égide da cruz. Deixou-nos uma coletânea de 117 poesias (C. desde suas remotas origens da pregação do Evangelho para todos os povos. o sofrimento pela traição e pela degradação moral da mulher amada. Este é o motivo principal das constantes viagens internacionais dos últimos Papas. E praticamente todos os elementos do ritual católico – a mitra. da Vida Eterna. a doxologia e a comunhão. da Imaculada Conceição. João XXIII.C. Pelo nome “Igreja Católica Apostólica Romana”. do partido democrático. 3) quem configura esta sempre renovada Tradição do Catolicismo é o Papa de Roma. esparsos em todo o planeta. dos Padres da Igreja. eleito a um mandato vitalício por um conclave de bispos.

Sobrinho de Mário e inimigo do ditador aristocrata Sila. participando do primeiro triunvirato com Pompeu e Crasso (no ano 60 a. Em 58. No Novo Testamento. na sua aprendizagem do cultivo da terra.C. no outono e no inverno. onde ficou dez anos. o cereal mais importante para a alimentação dos gregos antigos. nome latino do grego HadesInferno). ao pé da estátua de Pompeu. Eleito cônsul em 59.37 poema composto de apenas um dístico. procurara a ajuda do Senado e do partido aristocrático. Percorreu todos os degraus da carreira política.) foi uma das principais figuras do período áureo da cultura romana. César. a vida sobre a terra florescia. temeroso do poder de César. foi também um grande escritor. quando Prosérpina passava a outra metade do ano (primavera e verão) com a mãe no Olimpo. das muitas obras que ele escreveu nos vários gêneros literários. filho adotivo de César. fili mi?” Caio Júlio César (100? . O mito de Ceres. lutando contra os latifundiários. e continuou o sonho dos irmãos Graco de acabar com os latifúndios). Começava a Guerra Civil contra Pompeu que. ultrapassou o rio Rubicão. era recordado ritualmente nos Mistérios de Elêusis e tinha direta ligação com uma tentativa de explicação da morte e da ressurreição da vida vegetal. chefiados por Cássio e Bruto. como escritor. Infelizmente. fortasse requiris. mostrou logo sua simpatia pelo partido democrático. guerreando contra os bárbaros. pronunciando a famosa frase Alea jacta est! (“A sorte está lançada!”). no Senado de Roma. a deusa Ceres era a mãe de Pluto (não confundir com Plutão. e de Prosérpina. desobedecendo à ordem de Pompeu.e da maioria dos povos europeus. começou uma grande reforma agrária. num estilo rápido e límpido. junto com o de sua filha Prosérpina.44 a. então fronteira entre a Gália e a Itália. como se o sujeito da enunciação não fosse a mesma pessoa do sujeito do enunciado. feita por um escritor participante dos fatos. as sementes brotavam e as árvores davam seus frutos. o trigo é consagrado como sinônimo de alimento: “dái-nos o pão de cada dia”! Se Ceres simbolizou o progresso material do homem. Ceres foi sempre adorada como deusa da terra e da agricultura. só nos restam seus Commentarii de Bello Gallico e Commentarii de Bello Civili. César derrotou Pompeu em Fársalo e.). sendo a protetora do trigo. deus da abundância. Quando sua filha. Um grupo de republicanos extremados. nome latino da grega “Perséfone”. CERES (Deméter grega)Terra Dai-nos o pão de cada dia Filha de Saturno e de Cibele. falando de si próprio em terceira pessoa. o mito de Prosérpina foi inventado para explicar o progresso espiritual da humanidade em busca do conhecimento das forças do subconsciente: a celebração dos Mistérios de Elêusis talvez tivesse esta finalidade. em que estão registradas as vitórias conseguidas por César sobre seus inimigos externos e internos. objetivo. Brutus. diminuindo o poder do Senado. mas sinto que é assim e sofro terrivelmente). nos idos de março (dia 15) de 44. para saborearmos a profunda intensidade do seu lirismo: “Odi et amo. Em 49. Nescio: sed fieri sentio et excrucior” (Odeio e amo. e exigira que César dissolvesse seu exército. vivia com seu marido no mundo subterrâneo. O nome de César passou à história como exemplo de grande general e de . ele obteve o governo da Gália. uma espécie de reportagem jornalística. Quare id faciam. talvez perguntes: não sei. antes consideradas quase como bens particulares da oligarquia senatorial. além de ter sido importante como general (anexou várias províncias ao domínio romano) e como homem político (centralizou o poder sobre as províncias. vi e venci”). como o arroz é para os orientais. CERVANTES (ficcionista espanhol)Dom Quixote CÉSAR (general e escritor latno)Roma “Tu quoque. o de número 86. raptada por Plutão. Como isso é possível. os cereais se encontravam na fase de incubação.C. vidi. matou o ditador com vinte e três punhaladas. depois da rápida campanha vitoriosa no Egito ( Veni. avançou sobre Roma e se fez eleger Dictator. como homem político e como grande general. vici: “Cheguei.

portanto. que por essência queima. tanto que os Imperadores romanos. os céticos apresentam cinco argumentos: 1) a discordância (entre os estudiosos de um assunto). que criou o gênero literário do “ensaio” para expressar seu pensamento filosófico. Suas profundas reflexões. São usados. Quem quiser se curar da ignorância precisa confessá-la. ateu (“a” + theos = “deus”). duvidando de tudo.). aquele que não tem fé. agnosticismo. prefixo negativo + gnosis = “conhecimento”).. apelidado de “O Empírico”. não existindo nenhuma certeza absoluta). 2) a regressão ao infinito (qualquer prova remete sempre a outra prova). aquele que afirmou que “não sabia nada: a única coisa que sabia era de não saber nada”. cujo pensamento foi retomado por Sexto Empírico. Ainda hoje. entre os fenômenos (as aparências) e os nôumenos (as substâncias abstratas). que levaram o pensador francês à concepção de um Humanismo. A doutrina cética repousa na suspensão do julgamento: nada pode ser afirmado. prefixo negativo latino. distingue duas seitas de filósofos: os “cépticos”.. 3) a relação (um conhecimento implica num outro. divindade greco-romana)Mitologia Terra . incredulidade) “A evanescência da verdade” Do grego skepticos (de sképtis = “busca”). Apenas se opõe ao dogmatismo. os que acham ter descoberta a verdade. pois acredita que a única fonte de conhecimento é a experiência. se não houver provas irrefutáveis. e os “dogmáticos”. que se aproxima do moderno Existencialismo. O mais ilustre da primeira escola seria Sócrates. de Montaigne (1533-1592). o ceticismo se inclina para o conhecimento empírico.. Vamos deixar a natureza seguir seu caminho. Platão (Idealismo) e Aristóteles (Materialismo). médico e pensador grego do início do séc. em alemão) são chamados vários imperadores germânicos. às verdades acreditadas sem nenhum fundamento científico.38 exímio estadista. os dogmáticos colocam um postulado indemonstrável). ela entende do negócio melhor que nós. de Shakespeare. chegando à conclusão de que é impossível encontrar a verdade e a justiça. cético indica aquele que procura mas não acha e. durante o apogeu de Mussolini na Itália. não é correto achar que o cepticismo seja uma corrente nihilista. são elementos combinados de Estoicismo. Em seus Essais. pela sua postura ideológica. Proibir é despertar o desejo. O Ceticismo teve seguidores na Renascença e na Idade Moderna. Sócrates é um animal). que são os que “continuam a investigar”. Este nome é também usado como marketing de uma tradicional e popular cerveja! A figura de César inspirou várias obras históricas e literárias. atribuíam-se o título de “César”. CETICISMO (escola filosófica grega: ateísmo. que o tornaram imortal. acaba não crendo. O pensador grego Sexto. 5) o círculo vicioso (o falso silogismo que leva ao engano: o homem é um animal // Sócrates é um homem // logo. a partir de Adriano. Ceticismo e Epicurismo.. outro pensador céptico-empírico: “o fogo. os termos: agnóstico (do “a”. discorre sobre as contradições inerentes à própria natureza humana.C. Contra qualquer forma de dogmatismo. Lembramos apenas a encenação da peça Júlio César. quem não acredita na existência de um ente transcendental. para apontar a semelhança entre os dois ditadores italianos. falamos da Roma dos Césares e de Kaiser (César. No jogo das oposições.. na segunda linha de pensamento poderíamos encaixar os criadores dos grandes sistemas filosóficos. Portanto..C. Leonardo da Vinci disse que “nada nos engana tanto como a nossa própria opinião”. O mais ilustre foi o pensador francês Michel E. Algumas afirmações de Montaigne passaram a povoar o ideário popular: Seria melhor não ter lei alguma do que ter tantas leis quantas temos. quem não admite a possibilidade de um saber além da experiência material. II a.. o Ceticismo foi fundado por Pirro de Élis (séc. especialmente Guilherme II. causa a cada um a representação de ser quente”. O Ceptismo é uma doutrina essencialmente “fenomenológica”. CÉU (Urano. Citando Diógenes Laércio. que acontece na alma humana. além das escolas menores do Estoicismo (felicidade = virtude) e do Epicurismo (felicidade = prazer). incrédulo (de “in”. 4) a hipótese (para escapar do regresso ao infinito. IV a. + credo). quase como sinônimos de céptico. que induza o homem ao nirvana. Como sistema filosófico.. montada pelo diretor Orson Welles em Nova York. sendo utilizada também na arte cinematográfica e na estatuária.

discursos jurídicos. Mas. Cato maior. são exemplos do vigor do estilo picaresco pré-renascentista.39 CHAPLIN (o criador de “Carlitos”)Cinema CHATEAUBRIAND (poeta romântico francês) Multidão. 4 orações contra Catilina. foi chamado de "Pai da Pátria". mesclando o realismo social com a sátira das aspirações burguesas. Seus contos. seu nome. teorética (Academica. ele é o maior escritor em língua latina pela variedade e quantidade de suas obras. As Catilinárias. onde Cícero acusa o jovem democrata de perturbar a ordem pública: “Até quando. em que. Verre. Por este seu saber enciclopédico. narrativa picaresca) Quem nada empreendeu nada terminará Geoffrey Chauser (1340-1400). muito embora não possa ser considerado um poeta. marcou a entrada da literatura britânica no contexto da cultura européia. denunciando sua conspiração para derrubar o poder do Senado. para vingar-se. Tusculanae. mostra e explica”. Ao exemplo de Rousseau (Confissões). acusado de ter assassinado Clódio. vasto deserto de homens François René. pretor da Sicília.). acusado de corrupção. que influenciou fortemente sua narrativa ficcional. Laetius. durante o primeiro Triunvirato (ano 60 a. pela sua obra Contos de Canterbury. Catilina. descreve a beleza das paisagens exóticas e as relações sentimentais que envolvem os personagens romanescos. onde deve ter conhecido o florentino Giovanni Boccaccio. pode ser definido como um eclético. o autor da famosa obra Decameron. Esteve na Itália em missão diplomática. em defesa do aristocrata Milão. De officiis). 2) Obras de Retórica: De oratore. Por ter descoberto a conjuração do democrata Catilina contra o regime aristocrático vigente. De natura deorum) e moral (De finibus bonorum et matorum. De família aristocrática. A citação em epígrafe faz parte das Catilinárias. 6 discursos contra C. isto é.) de César. por pertencer à oligarquia dominante e por estar sempre defendendo os direitos dos senadores. Os estudiosos costumam dividir as obras de Cícero em quatro grupos: 1) Obras de Eloqüência: escreveu mais de 100 Orações. mandou decapitar Cícero. eloqüência. Orator.C. Brutus. caiu na ira dos democratas que o exilaram e lhe confiscaram os bens. A melhor versão cinematográfica da obra de Chauser foi o filme de Pier Paolo Pasolini: Os Contos de Canterbury (1998). CÍCERO (erudito latino. Apontamos os mais importantes: In Verrem. Escreveu tratados sobre filosofia política (De Republica.14 orações. como pensador. De Legibus). figura expressiva do partido democrático. contidos no livro O Gênio do Cristianismo. direito e poesia com os melhores mestres da época. especialmente). a luta civil entre César e Pompeu possibilitou seu retorno a Roma e a retomada de sua atividade de advogado e de escritor. contra o triûnviro Antônio que. que é a história da eloqüência em Roma.C. visto que não escreveu nenhuma obra de ficção. estudou em Roma filosofia. sendo a mais notória a segunda. Depois de ter aperfeiçoado sua cultura na Grécia. 3) Obras de Filosofia: Cícero. em que apresenta os traços do orador exemplar. foi o verdadeiro iniciador do Romantismo francês. vai abusar da nossa paciência?” . Pro Annio Milone. Após um ano de exílio. “Cicerone” em italiano (do acusativo latino ciceronem). Suas obras de ficção mais importantes são os dois romances René e Atala. abutere patientia nostra? Marcus Tullius Cícero (106-43 a. endereçadas a familiares e amigos. “cicerone”) Usque tantum. em que Cícero aponta os requisitos essenciais para a formação de um perfeito orador. visconde de Chateaubriand (1768-1848). CHAUSER (contista inglês. herdeiro do pré-romântico Rousseau. Catilina. 4) Cartas: quase mil missivas. Filípicas. sem criar um sistema próprio ou adotar uma teoria em particular. pois expõe o que havia de melhor nas escolas filosóficas de sua época (Estoicismo e Epicurismo. passou a designar “quem sabe. ele também cultiva a autobiografia ficcional: Memórias de além-túmulo. Pompeu e Crasso. voltou para Roma e iniciou a sua carreira de advogado e de político. quase jornalístico. além de contribuírem para a fixação da língua inglesa. logo depois. num estilo retórico. tratando dos assuntos mais variados. A sua produção literária é imensa.

El cantar de mio Cid é um poema épico. tendo Charlton Heston no papel de El Cid e Sofia Loren. dando chance a Hollywood de afirmar-se como a capital mundial do cinema. civilização) Cultura CIÊNCIA (o saber pela observação e experimentação)> Conhecimento CINEMA (origem e evolução) A oitava arte: a imagem em movimento A palavra “cinema” é um termo médio. que descrevem a vida e as ações heróicas de Ruy Diaz em suas lutas contra os mouros e as intrigas palacianas: seu exílio de Castilha. previamente registradas numa película. XX. A cena final do “Campeão” em cima do cavalo. pôr em movimento) + grapho (“desenho”). exibida em 28 de dezembro de 1895. a uma altíssima velocidade. durante a chamada “guerra das patentes” (1897-1906). Este manuscrito contém três cantares. o movimento artístico antipassadista que. também . Duas décadas depois. baseado na popularidade dos atores através da uma poderosa montagem propagandística. com o estouro da I Guerra Mundial (1915-1918). dirigida por Anthony Mann.40 CID. não o posso evitar. Rodolfo Valentino (Adônis). Estamos ainda na época do cinema mudo. continua como mito da beleza masculina. a Europa fica paralisada do ponto de vista artístico. As imagens se moviam. substantivo formado do verbo kinéo (“mover”. especialmente através do Surrealismo. projetando numa tela imagens fixas. CIDADANIA (cidade. “A chegada do trem à Estação”. do retrato. O cinematógrafo é de origem francesa: foram os irmãos Lumière que criaram uma máquina que atendesse às duas condições indispensáveis para o funcionamento daquela que passou a se chamar “a oitava arte”: registrar o movimento e projetar filmes. para um público de 36 pessoas. a cinematografia começa a utilizar a Literatura e o Teatro: atores famosos passam do palco para os estúdios de cinemas. com o projeto Films d’ Art. consegue transmitir a misteriosa sensação de que realmente a figura do herói é imortal. que relata os feitos de Ruy Díaz de Vivar. no papel da bela esposa Jimena. Mas. produtores independentes se refugiam na Califórnia. El Cantar de mio (epopéia espanhola) “Entrarei em batalha. causou um verdadeiro pânico: os expectadores saíram correndo do Salon du Grand Café. sociedade. que morreu em 1099. Marilyn Monroe (1926-1962). influenciado pela Vanguarda européia. O único manuscrito que ficou remonta ao ano de 1307.. fundando Hollywood. o sentimento popular o elevou a herói nacional e exaltou a memória de suas façanhas através da criação de vários cantares ou poemas. do jovem sedutor irresistível. A Itália também passa a destacar-se como grande produtora de filmes. comandando sua última batalha. que se torna a Meca do cinema. Deriva do grego kinematos (“movimento”). a partir do início do séc. personagem da história da Espanha medieval. de autoria anônima. encarnando o mito do valor bélico espanhol. o que Salvador Dali foi para a pintura surrealista. É lá que se cria o Star System. Logo após sua morte. a estrela hollywoodiana mais famosa. A data provável do surgimento dos primeiros cantares em torno da figura do Cid é de 1140.. com seus próprios olhos verão como se ganha o pão”. de Paris. Se a Pintura é arte da imagem fixa. O cinematógrafo é um aparelho capaz de nos dar a ilusão do movimento. interpretando personagens extraídas de obras literárias clássicas. românticas e realistas. entre o inteiro e originário “cinematógrafo” e o moderno e abreviado “cine”. A primeira película. "senhor") ou pelo qualificativo "Campeador" ("batalhador" ou "campeão"). A figura épico-histórica do herói espanhol passou da Literatura para o Cinema pela belíssima película El Cid (1961). mas só foi descoberto e publicado em 1779. Na França. o cinema se torna uma indústria. Nos Estados Unidos. Luis Buñuel foi para o cinema espanhol. após violentas brigas pelos direitos autorais. as núpcias infelizes das filhas e a vingança contra os genros. o Cinema é a arte da imagem em movimento. denominando-o preferivelmente pelo apelido "Cid" (em árabe. até hoje. uma máquina de fazer dinheiro. com medo que o trem as atropelasse. dando uma ilusão de realidade. empresta recursos técnicos à produção de películas.

Pastor de almas (1923). em sete episódios.. melhorou a produção fílmica com a invenção do Cinerama e do Cinemascope. Em 1927. feito com poucos recursos técnicos. de grande sucesso mundial. comédia e lirismo. fantástico. musical e western. de Mille. foi a película de James Cameron Titanic (1997). e astros que se tornaram mitos: Marlene Dietrich. até agora. Capra. em quatro episódios. Apenas numa década. O Grande Ditador (1940). Luzes da Ribalta (1952).41 foi mito do cinema por várias décadas. Em busca do ouro (1925). em dez episódios. Pasolini. “No fim. E o cinema continua cada vez mais vivo. A Condessa de Hong Kong (1965). o avanço tecnológico e econômico dos norte-americanos se. de Visconti. Outros sucessos estrondosos foram Parque dos Dinossauros (1993).2003) do diretor inglês Anthony Minghella. Guerra nas Estrelas. Enquanto as maiores nações européias se massacravam. Chaplin produzia filmes e interpretava o personagem “Carlitos”. Em 1935 é a vez do filme a cores. Trata- . “o cinema é uma arte de voyeurismo. com as estrelas Leonardo de Caprio e Kate Winslet. Errol Flynn. que o imortalizou. E o cinema. Com a crise econômica de 1929. a Itália. aos 36 anos. que espiona as pessoas que estão espiando quem está à sua volta”. entre outros. encontra na arte cinematográfica a melhor forma de representar aquele momento histórico: surge o cinema “neo-realista” italiano. inclusive pelo presidente Jonh Kennedy. John Ford. Seu suicídio. Independence Day (1996) e Homem-Aranha (2002). Como afirma Brian de Palma. de Rossellini. Jude Law e Renée Zellweger. cidade aberta (1945). o cinema sonoro de Hollywood encontra uma forma de escapismo nos gêneros épico. Marylin Monroe. tudo é uma piada”. de outro lado. ainda está envolto no mistério. onde foi sócio da United Artists. diretor e ator. A Hora do Pesadelo. Greta Garbo. de um lado. aproximando o cinema da poesia: Antonioni. Entre suas películas mais geniais. evitando as horríveis legendas e obrigando os atores a tomar aulas de dicção. Com o fim da guerra. apenas como exemplo. Mas já estamos no início da II Guerra Mundial: Walt Disney produz outra forma de cinema escapista com seus desenhos animados. já tinha feito e interpretado mais de 50 filmes. o cômico mais humano. Na década de 60. assim. estrelado por Nicole Kidman. sendo amada por personalidades ilustres. pois explora algo que é substancial ao ser humano: o espírito da curiosidade. que chega a sua magnitude com a película de Victor Fleming “E o vento o levou” (1939). usando apurada tecnologia e criando surpreendentes “efeitos especiais”. Luzes da cidade (1931). destruída pelos bombardeios aéreos dos Aliados e pelo terrorismo da retirada nazista. Visconti. o cinema italiano retoma sua primazia com diretores de primeira linha que abordam problemas psicológicos e conflitos existenciais. imitando a técnica televisiva de contar uma história dividida em vários capítulos: Jornada nas Estrelas. outro diretor norteamericano de primeira linha. atuando como produtor. se tornou um clássico do gênero. Tubarão. Tempos modernos (1936). Fellini. quando surgem grandes diretores. Um Rei em Nova York (1957). segundo fofocas. A terra treme (1947). Filho de artistas de music-hall ingleses. o Garoto (1921). Bertolucci. enquanto Hitchcock e Orson Welles ( Cidadão Kane. Clark Gable. em cinco episódios. Humphrey Bogart. Grandes obras literárias são reestudadas e adaptadas ao mundo moderno para a realização de filmes de idéias. como Marlon Brando. alimentando o imaginário masculino pela sua beleza e sensualidade. Na década de 50. Aparecem novos mitos que contestam os padrões de comportamentos sociais convencionais. apontamos na linha cronológica: Vida de cachorro (1918). 1941) se tornam os mestres do filme de suspense. Gary Cooper. em dez episódios. produzindo filmes em séries. o filme começa a falar. como Cecil B. mas com muita arte e humanidade. o recente filme Cold Montain (USA. Em sua obra encontramos uma mistura de sátira social e política. A partir dos anos 80. passou a maior parte de sua vida em Hollywood. o seriado de Harry Potter: Pedra Filosofal (2001). Como ele bem disse. O Circo (1928). entre 1913 e 1923. Sexta-Feira 13. Todos os filmes desses seriados tiveram grande sucesso. pastelão. Sociedade do Anel (2001) e Câmara Secreta (2002). Lubitsch. de Vittorio De Sica. mas o campeão de bilheteria. A película E. Mais importante é observar que o cinema se tornou o meio mais utilizado atualmente para a divulgação do nosso patrimônio cultural.T. que encantam especialmente o público juvenil. penetrou dentro do lar de bilhões de cidadãos em todos os cantos do mundo. o cinema foi “reinventado” pelo gênio de Steven Spielberg com seus filmes espetaculares. Mas a figura mais importante da fase do cinema mudo é Charles Chaplin (1889-1977). Citamos. Ladrões de bicicletas (1946). que trata da amizade de um extraterrestre com uma criança. Outros cineastas também aderiram ao cinema-espetáculo. James Dean. Películas imortais são: Roma. O avanço tecnológico proporcionou verdadeiras revoluções na técnica cinematográfica. apresentou um forte concorrente: a Televisão! Mas a diminuição do número de espectadores nas salas de cinema foi compensada pela produção de filmes feitos especificamente para serem projetados nos aparelhos televisivos.

O cinema. dá nova vida ao teatro de variedades italiano. construindo todo o enredo pelo monólogo interior das personagens. Ele disse a Alexandre. e ele. o Grande: “Quero apenas a luz do sol”. buscando a felicidade no autodomínio dos desejos e das paixões. Ao longo dos tempos. CINISMO (escola filosófica: Antístenes e Diógenes) Estamos mais preocupados em entender os sonhos do que as coisas que vemos acordados (Diógenes) Do grego kunós. nas neves da montanha. quer pelas viagens realizadas. no dizer do crítico Alfredo Bosi. com o filme Ginger & Fred. que encanta o público espectador. continuarei escrevendo Clarice Lispector (1925-1977). surgida pela crise dos valores humanos. passando a indicar insensibilidade. o cinismo nasceu como uma radical oposição aos valores culturais. Em seus melhores romances e coletâneas de contos (Perto do coração selvagem. literatura e teatro. de Virgínia Woolf. o grande mestre do suspense. H. o cinismo é uma forma de vida. fundada por Antístenes de Atenas (444-365) e retomada por Diógenes de Sínope (404?-323). ucraniana de nascimento. curtem o sentimento amoroso de um modo intenso. Diz-se que Diógenes morava num tonel e renunciara a usar o copo. estabelecendo relações não só com mito. os cínicos partiram para um anticonvencionalismo radical. Os filmes “musicais” expressam ações e sentimentos pela linguagem do corpo e pelo ritmo de instrumentos sonoros. Considerando que seria impossível adequar as convenções sociais e morais às exigências de uma vida segundo a natureza. Ginger Rogers. em 1986. contentando-se com o mínimo necessário para a sobrevivência. cada qual obedecendo a um voto íntimo e inconfessado de fidelidade. põe em releve o poder ilusionista do cinema: “Se eu filmasse Cinderela. A peculiaridade de sua ficção é “o salto do psicológico para o metafísico”. Laços de família. que significa “cão”. de Faulkner. Alfred Hitchcock. Mas essa temática se torna difícil de ser percebida devido ao recurso estilístico recorrente do fluxo da consciência. que produziam enormes desigualdades no seio de uma coletividade. aproveita de todo o passado cultural. mas também com a música e a dança. quer pelas suas leituras. os dois jovens. a doutrina cínica. Clarice é a escritora brasileira que melhor possui a consciência da cultura ocidental. a arte cinematográfica cria um mundo de imaginação e de sonho. a bela Ada. Mais do que uma filosofia. Ser “cínico” implicava em viver como um cachorro. ela tenta renovar a estrutura do gênero narrativo. A maçã no escuro. os cínicos propunham o regresso à natureza. A paixão segundo G. Na verdade. o animal-símbolo da impudência. Durante os três anos de ausência. O cineasta italiano Federico Fellini. Genne Kelly. adapta o mito de Ulisses e Penélope ao mundo moderno: o jovem Inman é obrigado a deixar seu grande amor para se arrolar no exército sulista e lutar contra os ianques na sangrenta Guerra Civil americana para acabar com a escravidão dos negros. Face aos egoísmos individuais e de classes e à hipocrisia da sociedade. até o reencontro final. CLARICE Lispector (ficcionista de introspecção psicológica) Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas. Suas trilhas sonoras utilizam músicas de árias de Ópera ou de canções populares.) nota-se a tentativa de superar a postura egolátrica em prol da comunhão do eu com os seres e os objetos que constituem a realidade circunstante. apregoava a volta do homem à natureza. indiferença e descaramento. por sua vez. Enfim. o termo “cínico” adquiriu sentidos pejorativos. quando percebeu que podia tomar água na palma da mão. de Proust. por ser a forma de arte mais nova. calcado no sapateado americano. No rastro de Joyce. CLASSICISMO (Cânone social e artístico) O que não se parece a nada não existe (Paul Valéry) . Quer pela origem familiar. viajou por várias cidades da Europa e dos Estados Unidos. desprezando os bens materiais. Este último imortalizou a melodia Singing in the rain (“Cantando na chuva”Dança). antes de fixar-se no Rio de Janeiro. no fogo da guerra.42 se de uma versão cinematográfica de um romance do norte-americano Charles Frazier que. a platéia pensaria que deveria haver um cadáver na carruagem”. Neste tipo de arte tornaramse famosos artistas como Fred Astaire.

culminando. O critério que usa é a fortuna que os gênios tiveram ao longo dos tempos. na sua Poética. Com referência às letras. em lugar de clássico. enquanto Shakespeare afirma a transitoriedade e a introspecção do que é humano. Rococó. Esta concepção estética dominará a cultura ocidental ao longo de mais ou menos quatro séculos. dos cavaleiros. para selecionar os homens que ele considera os criadores da cultura ocidental.) a que um cidadão romano pertencia e que o distinguia da grande massa do povo (os “desclassificados’’. os valores renascentistas são cultuados sós a partir da segunda metade do século XVI. por exemplo. E Camões é também um autor canônico por ser o modelo em que se inspiraram vários poetas líricos e épicos de língua portuguesa que o sucederam. Além do princípio da imitação ( Mimese). Virgílio. sem transcendência alguma. mas possui a equivalência da verdade. com uma diferente concepção de vida e de arte. o poeta grego Homero é considerado um autor canônico ou clássico. Maneirismo. Tasso e outros poetas da Renascença européia. com os poetas da Plêiade. Assim. que é a característica indicadora do ‘‘poder ser” ou do “poder acontecer”. Em verdade. os dois maiores autores canônicos de todos os tempos foram Dante Alighieri e William Shakespeare. no chamado Neoclassicismo francês. Já Shakespeare. Ariosto. de excelência. Eliot. A partir da Renascença. a intemporalidade da beleza artística. escreve uma descontínua “Comédia Terrena”. quando começa seu declínio na Itália. Horácio. A estética romântica surgirá em franca oposição à poética clássica. Homero.] diferem. enquanto o vate inglês constitui o pilar da dramaturgia ocidental. quando se dará a viragem. no início do século seguinte. épica e simbolista. que significava uma classe social (a classe dos senadores. enriquecendo-a com a filosofia de vida medieval. homem da Renascença inglesa. o classicus scriptor era o autor que se distinguia da maioria pela correção lingüística e pela beleza das imagens poéticas. Preciosismo. sim. inicia sua ascensão na Espanha. ainda hoje persiste e pertence à linguagem cotidiana: falamos de um clássico do cinema ou de uma disputa esportiva. Esta conceituação de clássico como excelente. afirma: “Com efeito. dando início a um novo ciclo cultural. Basta notar que o fenômeno da Renascença. o termo Classicismo começa a adquirir uma conotação estética. O crítico norte-americano Harold Bloom ( O Cânone Ocidental) usa o termo “canônico”. Barroco. Junto com o preceito da imitação de modelos. conferida pela conformidade com seus . a Divina Comédia é uma outra Escritura Sagrada. pelas suas peças. por ter sido imitado pelo escritor romano Virgílio e este é também clássico por ter sido o modelo de Camões. a conveniência. a longa época do Classicismo apresenta relevantes variações no tempo e no espaço.. tornandose uma doutrina que ensina que a criação poética deve imitar os modelos artísticos construídos pelos autores greco-romanos. a partir da década de 1530. até chegarmos à época do Romantismo.S. Arcadismo. Distinguimos uma verossimilhança “interna” à própria obra. O poeta italiano é o mestre da poesia lírica. a verossimilhança. não é verdadeira. Na França. A este sentido sociológico está ligada a idéia de preeminência. César. por não estar diretamente relacionada com um referente do mundo exterior. A obra de arte.43 A etimologia do termo “clássico’’ vem do latim classis. a cultura clássica não se desenvolveu de modo uniforme em toda a Europa. O metro da vitalidade de um autor é o fato de ter sido imitado por outros artistas ou cientistas a ele posteriores. a que se deram nomes peculiares: Renascença. um mais Novo Testamento. pois seus personagens são a encarnação artística dos vícios e das virtudes humanas. que completa a Bíblia cristã canônica. Para Bloom. em que diz um as coisas que sucederam e o outro as que poderiam suceder’’ . Dante enfatiza a imutabilidade do que é sagrado. tais como a verossimilhança. Assim.. Mas. a ruptura. quando o poeta e teórico Nicolas Boileau ditará definitivamente as normas da estética clássica. porque constituíam “modelos” a serem seguidos e suas obras eram estudadas nas classes das instituições escolares. o largo uso da mitologia pagã. Neoclassicismo. dos magistrados etc. a plebe). apontamos outros pressupostos que governam a arte inspirada nos modelos greco-romanos: Verossimilhança interna e externa O princípio da verossimilhança foi estabelecido por Aristóteles quando. o gosto pela perfeição formal. modelar. chegando lá ao apogeu na época chamada barroca. a forma mais rígida e ortodoxa. Cícero eram considerados escritores clássicos. não diferem o historiador e o poeta por escreverem em verso ou em prosa [. a necessidade de observar regras. exemplar. Segundo o poeta e crítico inglês T. a estética clássica apresenta outros princípios.

que disciplina os impulsos da imaginação e do sentimento. por exemplo. O artista deve deixar-se guiar pela razão. de tempo e de lugar. de que fala Platão. de um modo geral. o paralelismo etc. A estética clássica proíbe a representação ou a descrição de ações que possam ferir a sensibilidade do receptor da mensagem artística. que é a técnica ou arte. dizemos que a obra é incoerente ou aloucada. definida como ‘‘harmonia de formas”. que confere ao imaginário a caução formal do real. O texto clássico evita tudo o que é chocante. vulgar. o recurso ao fantástico.. se faltar a verossimilhança externa. dominaram na cultura européia durante a segunda metade do séc. aproximando-se do não-sentido. que os franceses chamam de bienséance. aprenda a pensar”. a equivalência dos atributos e das ações das personagens. porque se consegue alcançar o que há de essencial na natureza cós-mica e na psicologia humana. aliada à prática de uma longa aprendizagem. o poeta clássico segue normas técnicas ditadas pela tradição da composição literária. imutável e universal. A lucidez intelectual.44 postulados hipotéticos e pela coerência de seus elementos estruturais: a motivação e a causalidade das seqüências narrativas. Razão e labor A concepção do ato criador como esforço lúcido. ao dizer: “antes de escrever. deve-se focalizar em primeiro plano e no começo da obra um episódio fundamental e. A beleza clássica. entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. Uma verdadeira obra de arte é fruto da conjugação de dois elementos fundamentais: um dom natural. engenho ou inspiração. Quanto à verossimilhança externa. do escritor moderno Franz Kafka. medida. a íntima comoção do gênero lírico. É preciso entender que as tão criticadas regras da estética clássica têm um valor mais didático do que prescritivo. e uma verossimilhança “externa”. Se faltar a verossimilhança interna. que não ultrapasse a duração de um dia. a intensidade da ação dramática. Observância de regras Para disciplinar o ato criador. definido por Todorov como uma “hesitação” entre o estranho e o maravilhoso. equilíbrio. e um elemento adquirido. tem sempre uma explicação de ordem religiosa ou mágica. Essas e outras regras de composição. isto é. O fator “racionalidade” foi bem identificado pelo codificador do Classicismo. pelo respeito às regras do bom-senso e da opinião comum. a homorritmia. Essas regras. independentemente do tempo e do espaço. Entre o poeta “inspirado”. Por exemplo. não apresenta nenhuma cena de sangue: as ações violentas acontecem fora do palco e os espectadores são informados pela fala dos atores e do coro. que chamamos de aptidão. contar o que aconteceu antes. têm a finalidade de estabelecer as coordenadas para caracterizar o estilo dos gêneros literários. através do processo técnico da retrospecção. a transformação de Lúcio em asno é explicada pelo fato de que o jovem protagonista tomou uma bebida preparada por uma feiticeira. embora arbitrárias e definidas a posteriori. tem um valor absoluto. apesar de tratar de crimes monstruosos. a estética clássica confere uma maior importância ao segundo elemento. grosseiro. tudo aquilo que não pode ser apresentado no palco perante o público. pois apresentam uma grande coerência formal e semântica. A longa narrativa do gênero épico deve começar in medias res. pois a criação artística é o resultado de um longo trabalho de estruturação formal. O assunto de uma peça teatral deve concentrar-se numa única ação importante. isto é. em As Metamorfoses. codificadas por Boileau na sua obra L’Art poétique. quando acontece. O chamado “neoclassicismo” francês produziu obras maravilhosas nos vários . faz com que os autores clássicos evitem atos indecorosos. que não se preocupa nem um pouco com o cânone da verossimilhança. Conveniência e decência O termo pan-românico “obsceno”. Assim. etimologicamente significa ‘‘fora da cena’’. por exemplo. XVII e a primeira metade do séc. já na Metamorfose. tendo como centro de irradiação a França. confere à obra de arte clássica um caráter objetivo. e o poeta ‘artífice’’. O respeito para com o público. o poeta francês Boileau. a partir de lá. entendida como bom-senso. o gênero dramático deve seguir a lei das três unidades: de ação. o princípio da verossimilhança interna. A tragédia grega. servem mais para a compreensão do que para a criação do texto literário. hediondo. Os textos literários da época clássica seguem. do escritor latino Apuleio. XVIII. não é fornecida nenhuma explicação pela repentina transformação de Gregor Samsa num inseto hediondo. é outro postulado da estética clássica. segundo a concepção de Aristóteles. cenas repugnantes e uma linguagem de baixo calão. entramos no domínio do gênero fantástico. representada num único cenário. desde que tenha uma cultura geral razoável. Daí a sua inteligibilidade: os elementos formais e os conteúdos ideológicos da obra clássica são facilmente compreensíveis por um receptor. Sem elas seria difícil individualizar a grandiosidade do estilo épico. a isotopia.

Baco. pelo uso do vinho. segundo uma seqüência de ações chamada Kómos. peças de fundo didático. Na Espanha. de Dante Alighieri. vícios ou fraquezas. a comédia de Molière. teve como poeta maior Aristófanes (445-386 a. enfeixando tais manifestações orgiásticas num enredo. Em Portugal. acabou sendo proibido por lei. nos castelos senhoriais. à chamada “comédia nova”. A obra mais importante produzida na Baixa Idade Média.. em plena época barroca. o fato é que nenhuma peça. A Itália renascentista e barroca cultivou mais o gênero cômico do que o trágico. nem ao épico.45 gêneros literários. Na Renascença. estando submetido às "moralidades". reagiu contra os vulgares estereótipos da “Comédia de Arte”. embora se chame “Comédia” e seja considerada como a epopéia italiana. em procissão. a fábula de La Fontaine. é relevante o teatro de Gil Vicente. bebendo e dançando. cômica ou trágica. No século VI a. representado por um enorme fálus. a Comédia tem suas origens relacionadas ao culto do deus Dionísio (Baco). A estrutura e a temática da comédia de Menandro foram conhecidas através das obras dos imitadores latinos Plauto e Terêncio. cujo mestre foi Menandro (342-292 a. dançarino. ao mesmo tempo. participava do cortejo de Baco. feiras livres. o gênero cômico. chegou até nós. com ela. Veja-se a tragédia de Corneille e Racine. Acrescente-se ainda que. Mas o maior poeta dramático do Neoclassicismo (e talvez de todos os tempos) é o inglês Shakespeare. no século III a. Sua etimologia. É bom lembrar. de outro. Chegamos. COLOMBO (as Grandes Navegações e a Revolução Comercial)Renascimento COMÉDIA (teoria dos gêneros. cantor. que “todo verdadeiro criador é clássico”. enfim todos os devotos mascarados simulavam disputas e brigas. o espírito satírico dos cantos dionisíacos.C. Os espetáculos profanos. feita de ataque pessoal. Na Idade Média. os gregos adoravam o deus da alegria que. com o mesmo nome de kómos. La Divina Commedia. de certo. que propiciavam evoluções coreográficas próximas de encenações dramáticas. os movimentos histriônicos dos participantes das procissões. Em verdade. com a perda da independência política da Grécia. O deus Kómos era representado como um jovem belo e ruborizado. quando as artes em geral se emanciparam dos dogmas eclesiásticos para aderirem . Carlo Goldoni.C. o poeta Epicarmo. inclusive levando para o palco o nome de ilustres cidadãos de Atenas.). os amigos do noivo. Momo. o retorno do vigor sexual. o drama satírico se reduziu à caricatura da vida social e moral da classe média. La Mandragola. drama greco-romano)DanteBalzac Castigat ridendo mores Assim como a Tragédia. A comicidade ficava a cargo do menestrel que era. coroado de flores. junto com outra divindade amiga.C. Nos festivais ithiphállicos. dramaturgo e ator. homens gordos. com o dramaturgo Eugène Ionescu. não desapareceram por completo. A primeira forma de comédia completamente estruturada.C. deu origem ao drama cômico na Grécia. palhaço. seguindo os moldes clássicos e o exemplo de Molière. músico. Infelizmente. dois elementos dessas festas religiosas concorreram para o surgimento da Comédia: de um lado. é duvidosa: a opinião mais aceita é que a palavra Komoidía derive de kómos (procissão festiva) e oidé (canto). é um vasto poema “didático-alegórico” (Dante). A relação do kómos com a vida sexual é evidenciada pelo fato de que cantos semelhantes eram retomados nos ritos matrimoniais: durante as festas de casamento ( gamos). porém. momos. Esse tipo de comédia. não pertence nem ao gênero dramático. De qualquer forma. como outras formas dramáticas. visando apontar os caminhos da salvação da alma. sátiros. chamada de “velha” para diferenciá-la de outro tipo cultivado por Menandro mais tarde. chegavam até a casa dele. não teve vida própria. assim. tendo a missão de divertir o patrão e o público com suas extravagâncias e tiradas hilariantes. acrobata. é o primeiro exemplo de comédia “burguesa” da era moderna. de Nicolau Maquiavel. E.. Tratar-se-ia de um canto religioso pelo qual os camponeses gregos festejavam a chegada da primavera e. das 108 peças que ele escreveu. imitando os escritores clássicos greco-romanos e renascentistas. o maior comediógrafo do Setecentos italiano.). produzida na Idade Média. tentando reaproximar o teatro da realidade humana.. recitando poemas licenciosos e caçoando de seus defeitos. enquanto o povo entoava cânticos de agradecimento. gigantes. surgem dois dramaturgos de projeção internacional: Lope de Vega e Calderón de la Barca. praças públicas. era carregado em procissão. mas ficaram confinadas ao interior dos feudos. só restam alguns fragmentos.

ainda hoje constantemente representada ou imitada nos palcos e nas telas cinematográficas: Nícia. a figura profundamente humana de Carlitos. da farsa medieval e do teatro popular da renascença italiana. A comicidade passou a ser expressa por formas teatrais mais populares. A partir de um simples esquema de enredo (canovaccio). saco de pancadas). Escola de mulheres (ataque contra a falsa moralidade das senhoras da sociedade). As variações eram facilitadas por tratar-se de companhias itinerantes. na Espanha. mas apenas dramaturgos. Entre as suas 28 comédias. há cenas de rara beleza idílica. de Lope de Vega. Colombina (moça bonita e leviana). Além das tragédias e dos dramas históricos. Mattamoro (exterminador dos mouros). Plauto e Terêncio. destacando-se Nicolau Maquiavel (1469-1527) com sua comédia A Mandragora. Na Espanha. A França do Neoclassicismo oferece à humanidade o maior escritor de comédias de todos os tempos: Jean-Baptiste Poquelin. mais conhecido pelo pseudônimo de Molière (1622-1673). destacamos: As preciosas ridículas (investida contra as damas da sociedade parisiense que. a partir do início do nosso século: o cômico de pastelão do cinema americano com a famosa dupla do Gordo (Oliver Hardy) e o Magro (Stan Laurel). o soldado fanfarrão. O avarento (imitação da Aulularia de Plauto: exploração do tema da avareza). como music-hall. Mas tal variedade era limitada por recursos técnicos repetidos: o uso de máscaras. o primeiro teatro público urbano com o palco coberto e o lugar da platéia a céu aberto. ator. Tartufo (um hipócrita que enriquece à custa da credulidade de alguns beatos). a comédia recuperou o antigo fulgor da época greco-romana. aproxima-se dela com a ajuda do frei Timóteo e do amigo Ligúrio. Lope de Vega (1582-1635) e seu discípulo Calderón de la Barca (1600-1681) criaram a chamada comedia nueva. Os atores acabavam fixando-se num único papel. marido de Lucrécia. os intérpretes improvisavam diálogos e achados cômicos ao sabor das circunstâncias. nos salões literários. diretor e produtor de peças. Na Itália. já não existem mais comediógrafos. anulando-se no drama burguês. a moça leviana. Paralelamente a esse tipo de comédia clássica.XVI. Tudo está bem quando bem termina. pois a tragédia e a comédia se fundiram no drama moderno. com a diferença de que o escritor francês se sentiu atraído apenas pelo drama cômico. junto com a hilaridade cruel do realismo burguês. na etiqueta). Com o início do Romantismo. Criaram-se. a comédia teatral perdeu sua força de gênero distinto. deixa-se enganar pelo jovem Calímaco que. a chamada “comédia de arte”. Podemos afirmar que. Molière colocou sua arte a serviço da luta contra a hipocrisia das convenções sociais. desejoso da paternidade.46 à ideologia humanista. obraprima do teatro renascentista italiano. de Buster Keaton. o velho libidinoso. Moliêre foi um homem que dedicou sua vida exclusivamente ao teatro. o maior expoente do teatro elizabetano. provocando o ódio e a vingança dos moralistas e dos beatos. a crítica do american way of life. O misantropo (denúncia da falsa moralidade apregoada pela rígida ética jansenista). Escola de maridos (imitação dos Adelphoe de Plauto: questionamento sobre a educação dos filhos). Brighella (criado burro. As alegres comadres de Windsor. assim como fora cultivado por Menandro. o riso de barriga. O assunto licencioso acusa as influências do Decamerón de Boccaccio. trajes carnavalescos. ou transferiu-se do palco para o circo ou para a tela do cinema. um tipo de comicidade popular. oferecendo uma beberagem para sua mulher engravidar. em consonância com a máscara que usavam. tendo sido autor. Dottore (advogado gago e charlatão). cultivavam o preciosismo na linguagem. O tipo de comédia mais cultivado no séc. A comédia shakespeariana é o resultado da elaboração artística de elementos provenientes do teatro latino de Plauto. feita . surgiu e se desenvolveu. que se libertou da tradição cênica medieval e das regras aristotélicas e foi representado nos corrales. o vaudeville. na mesma península italiana. Na Inglaterra brilhou o gênio de William Shakespeare (1564-1616). chamado “Commedia dell’ A rte”. a imortal personagem criada por Charles Chaplin. o criado astuto. E a comicidade era garantida pelas próprias “máscaras”: tipos fixos cujo simples aparecimento em cena já provocava as gargalhadas da massa popular: Capitan Spaventa (oficial espanhol brutal e fanfarrão). geralmente apresentando um casal de namorados em luta contra a proibição paterna. Arlecchino (criado esperto). no vestuário. entre as quais destacamos: Sonho de uma noite de verão A megera domada. Don Juan (sátira do casamento e da fidelidade conjugal). A tempestade. pantomima popular. Como Shakespeare. foi o de capa e espada: El Acero de Madrid. o modelo clássico de comédia. é atribuída ao imortal dramaturgo inglês a autoria de dezesseis comédias. enquanto o inglês produziu também excelentes peças de Tragédia. a ópera-bufa. que exploravam os costumes e as peculiaridades de cada cidade que visitavam. Pulcinella (sujeito falador e mentiroso). mas. como o jovem apaixonado. Muito barulho para nada. a gargalhada. assim. teve ilustres cultores. Pantalone (comerciante vítima das burlas da esposa e do amante dela). a partir da segunda metade do século XVIII. por permitir aos atores os recursos da improvisação. estereótipos inconfundíveis.

a comédia se diferencia da tragédia por dar maior importância à personagem “Prólogo” e anular quase completamente a função do coro: como o assunto e as personagens da peça cômica não eram conhecidos de antemão pela platéia. o núcleo problemático do enredo se resolve com a punição e a conversão dos culpados. Embora não pareça. de um certo ponto de vista. não como ela é na realidade. deuses e semideuses) e perseguem um fim nobre. isto é. tem em mente defender a verdadeira realidade desejada para o Estado. Na comédia. a Religião e a Arte. No barroco italiano. por exemplo.47 pelo cômico Jerry Lewis. as contradições e os absurdos com que o homem é obrigado a conviver. a figura do Prólogo era dispensável. a recuperação do riso perdido da infância. Tal conteúdo é profundamente ideológico. a mania das discussões forenses. no fim do século passado (O mambembe. Assim. que teve atores cômicos do gabarito de Grande Otelo. A mesma intenção teve Honoré de Balzac ao descrever a sociedade burguesa da Paris oitocentesca. A Capital Federal). Num outro lugar da Poética. a natureza do assunto da comédia dispensava as graves reflexões sobre os acontecimentos. que é a passagem da felicidade para a infelicidade. A essência do cômico Aristóteles nos dá a primeira pista para individualizar o gênero: a poesia cômica pertence à “mimese inferior". a comédia recebeu um lema em língua latina que ainda hoje tem seu valor: castigat rídendo mores ("corrigem-se os costumes pelo ridículo"). nos programas humorísticos da televisão (Juca Chaves. Isso porque o conteúdo colocado no término da peça cômica é sempre o triunfo do sonho. a libertação dos impulsos reprimidos. ao final apresenta uma clara manifestação do espírito apolíneo (Apolo). com suas comédias de costumes (As casadas solteiras. denominando sua coletânea de romances de Comédia humana. a arte cômica dificilmente tem por escopo a mera diversão. da virtude. da fantasia. era a representação dos vícios e das virtudes do homem "ignóbil" (sem nobreza). no ensaio sobre a teoria dos arquétipos. Segundo a teoria clássica. o velho avarento ou luxurioso etc. O casamento dos protagonistas. o estudioso norte-americano Northrop Frye (Anatomia da crítica). No Brasil. na "chanchada" do nosso cinema nacional.) e a vitória sobre eles representam. ridicularizando a valorização desmedida do dinheiro. em oposição . quanto ao coro. a comédia deve apresentar o racional e o justo. Nesse sentido. embora impregnada do espírito dionisíaco ( Dionísio). mais do que ligada ao ridículo. ridicularizando as inconseqüências e incongruências. na gozação. uma das características fundamentais do gênero cômico. da terra estéril para a vitória do amor e da vida. a moderna comédia do cinema norte-americano. o princípio da autoridade. a comédia. que é o fecho de ouro da maioria das comédias. Oscarito. É por isso que. Outro aspecto característico da comédia é o seu fim moralizante. Enfim. triunfando os valores ideológicos do amor. não deixa de ser uma forma de estimular a correção das deficiências individuais e sociais. Por essa razão. Zé Trindade e Ankito. estruturalmente. Aristóteles afirma que a comédia é a passagem da infelicidade para a felicidade. varões de ilustre prosápia. seu admirador). a comédia. enfim. sendo os mitos de conhecimento público. O juiz de paz na roça. A luta contra os personagens agressores (o pai tirano. assim. O noviço). a moral retrógrada e hipócrita. do velho agressor. Como toda forma artística autêntica. Jô Soares). em linguagem psicanalítica. relaciona a comédia com o mito da Primavera: a sociedade dos jovens rebela-se contra a sociedade do senex. da pureza dos sentimentos. querendo dizer que tratava apenas da vida cotidiana e dos problemas existenciais dos cidadãos florentinos de sua época. Apontar as falhas estruturais e circunstanciais da sociedade. Está declarado. do desejo da realização amorosa do casal de jovens. com filmes antológicos como Deu a louca no mundo e Um convidado bem trapalhão. quando Aristófanes satiriza os políticos corruptos e demagogos. o gênero cômico encontrou seus melhores cultores no teatrólogo romântico Luís Carlos Martins Pena. contrariamente à tragédia. Foi nesse sentido que se entendeu o termo “comédia” na Idade Média e no período clássico da cultura moderna: Dante Alighieri intitulou seu imortal poema didático-alegórico de Comédia (o adjetivo “Divina” foi acrescentado posteriormente pelo contista Boccaccio. sugere que a felicidade conquistada será duradoura. já na tragédia. pois os obstáculos foram eliminados para sempre. a ação da comédia move-se da lei para a liberdade. as personagens da comédia imitam ações iguais ou inferiores às ações praticadas pelos homens comuns. implícito na sátira. Quer dizer. a comédia representa a “tragicidade” das pessoas comuns. o palavreado estéril dos sofistas. portanto. o principio do happy end. que vigorou por um longo tempo na tradição cultural do Ocidente. Chico Anísio. ao passo que as personagens da tragédia e da poesia épica são seres superiores (heróis guerreiros. entre outros. fazia-se necessária uma introdução explicativa. no teatro de revista de Artur de Azevedo. pois mostra a vida como desejaríamos que fosse. na ironia. a burocracia estúpida.

à família e ao Estado. o altruísmo e a beneficência. Lao-tse. me parece mais desesperador que o trágico”. como gênero cultural. pela prática de um severo código de conduta. estando centrados na idéia de que duas coisas são fundamentais: o aperfeiçoamento de si próprio e o conhecimento da realidade. a claridade. Mais importante do que tudo é o amor ao trabalho bem executado. Hegel.C. Diferentemente. se a comédia. Outro Mestre chinês. o Yin e o Yang.C. acaba atingindo o universo todo. o que caracteriza o cômico é o bom humor que permite ao homem elevar-se acima da própria contradição. de desespero etc.48 vitoriosa contra todos os inconvenientes e contra tudo o que há de insensato na realidade existencial. entre o fim e os meios. o instinto individual. séc. estamos perante um relacionamento de estilo cômico. Outra característica da comédia. essa moral severa e conservadora do “confucionismo” se espalhou pelo Extremo Oriente. sem nenhuma preocupação metafísica. Chamado “Venerável Mestre Kung”. distingue o “ridículo” do “cômico”: todo o contraste entre o essencial e a representação exterior. pode ser ridículo. de pessoa a pessoa. Confúcio era mais filósofo e pedagogo do que religioso e pregador. com uma riquíssima liturgia. Seus pensamentos nos foram transmitidos pelos discípulos. irremediavelmente. a racionalidade. que contrasta com a tragédia. sendo a intuição do absurdo. a justiça social.). As virtudes a serem praticadas são a honra. em sua Estética. a lua. cada qual tornando-se útil à comunidade. Shakespeare. coreana e japonesa. visando a integração do homem com a natureza. verte sempre sobre um assunto sério. Isso nos lembra um pouco a oposição entre . viveu na China entre o séc. Daí o conhecido achado de que a tragédia faz com que o espectador se identifique com o personagem. O Taoísmo é uma religião e uma filosofia de vida. o calor. refere-se ao relacionamento palco-platéia. as melhores comédias são aquelas que apresentam problemas universais: daí a eterna modernidade das peças cômicas de Plauto. embora tratado de forma leve. “Quem não sabe o que é a vida – ele perguntava – como saberá o que é a morte?” O enriquecimento interior de cada um se expande ao seu redor e. fundou o Taoísmo. o sábio indiano seu contemporâneo. vigorando ainda hoje. Com a difusão da civilização chinesa. geralmente focalizando os problemas contemporâneos do autor. também chamado “Laozi”. especialmente entre sociedades de cultura chinesa. O tema.IV a. que representaria a feminilidade. URSS) Marx CONFÚCIO (Mestre chinês: I Ching. Diferentemente de Buda. (551-479). Confúcio. Quando o espectador pode se envolver com a personagem. temos uma relação de estilo grave. pelo contrário. em vez de sofrer e sentir-se infeliz e desgraçado. em oposição ao Yin. na comédia. se propõe estimular o riso. quando o espectador rejeita a personagem-protagonista. de modo a quase se identificar com ela. os infortúnios físicos. numa coletânea de aforismos ( Analectos: c.VI e V a. situando-se num mundo do qual ele se julga distante. Sua finalidade é mostrar o caminho correto ( tao). a harmonia entre os dois princípios universais. a força. Stalin. Molière. O riso cômico ocorre ao se pôr em evidência a diferença entre a realidade e a idealização da vida: o velho que se obstina em namorar a mocinha. O princípio Yang (“brilho do sol”) simboliza a masculinidade. Edward Wright (Para comprender el teatro actual) aponta os meios mais comuns de que se serve a peça cômica para suscitar o riso: os estratagemas do argumento. o elemento frio. Ele incentivou o culto aos mais velhos. verossímil. a incongruência das personagens. Lao-tse. de desprezo. a verdade. a obscenidade. Entretanto. a hipocrisia de quem condena nos outros o que ele mesmo faz ocultamente. mas em levantar toda vez que caímos”. existe um riso de escárnio. COMPUTADOR (Internet)Informática COMTE (filósofo francês)Positivismo COMUNISMO (utopia socialista. ele identifica o personagem com seu vizinho. O dramaturgo Ionesco quase anula a diferença entre os dois gêneros: “o cômico. Lênin. próprio do drama trágico. da palavra chinesa tao = “caminho”. etc. Taoísmo) Buda “A nossa glória não está em nunca cair. A comédia mais elevada é a das idéias ou da sátira de costumes: ela estimula um riso reflexivo. deve-se reparar que nem todo riso é cômico. o engenho verbal. o dinheiro do avarento que adquire um valor de culto e não apenas de troca. contemporâneo de Confúcio. Mas. enquanto. que leva ao absoluto.

cuja tradição oral teve início com o prórpio nascimento da China. teria sido revelada por entes superiores a seres privilegiados. É preciso. da criação de animais. Enquanto a doutrina taoísta está mais ligada à religiosidade. o saber “como” fazer algo e conhecer os meios para a realização de tarefas. o prazer da conjunção carnal etc. deixou marcas profundas na sua cultura. Assim. Islamismo etc. cognição. do grego tecné. que se serve da “experiência”. facas). todavia. construir pontes. de culto (templos. das sensações. Mas. bem como seu comportamento moral. da cura de doenças. de rituais para o convívio social e o culto religioso. para a fabricação de qualquer objeto. do grego empeirikós. não confundir o conhecimento empírico vulgar. científico. Sem técnica não seria possível fazer cinema. do cultivo da terra. do dia-a-dia. Podemos distinguir diferentes tipos de conhecimento: Empírico.).. ciência. O Budismo. que teriam criado o Universo e ditadas as normas do viver em sociedade. que tem suas antigas origens no I Ching (o “Livro das Mudanças”: c.1500 a. constitui a religião autóctone da China. Tal conhecimento. por não ter nenhuma fundamentação lógica ou racional. estátuas de divindades) ou de arte (poemas. realizar um bom jogo de futebol. através de perseguições sangrentas. a satisfação que nos proporcionam a bebida e a comida. é comum a todos os seres vivos. Nas sociedades modernas. o homem aprendeu a técnica da pesca. da fabricação de objetos de uso (sapatos. um filão da especulação filosófica.. Da mesma forma. sustentase apenas no princípio da autoridade: a verdade sobre a criação do mundo. VII e o IX. È o know how. discente. sendo até hoje característico dos agrupamentos tribais. Trata-se de um dos primeiros esforços da mente humana para encontrar seu lugar no Universo e tentar arrumar as razões para explicar fenômenos e comportamentos. CONHECIMENTO (teoria e tipologia do saber)Método Pensar pede audácia.) exigem o ato de fé: . que serve principalmente para satisfazer os dois instintos fundamentais.C. ignorante. os dois movimentos ético-religiosos chineses estiveram sempre em luta contra credos e filosofias estrangeiras. estudado no verbete próprio. pois requer a intervenção da razão que estabelece regras de procedimento para a fabricação de objetos ou o exercício de diversas atividades. de cujo acusativo participial “scientem” se originou uma família de termos nas línguas modernas européias. a fé em seres sobrenaturais. o medo da escuridão. Para derrubar seu poderio. animais e vegetais. apóstolos e evangelistas. O conhecimento mítico. porém. pinturas). da prática cotidiana. ciente. que da Índia se estendeu pela China a partir do séc. que surgiu quase na mesma época. todos relacionados com a faculdade da mente humana de perceber objetos pela inteligência ou pela experiência. com o Empirismo teórico. humanos. quer de uso. Técnico. pois refletir é transgredir a ordem superficial que nos esmaga (Lya Luft) Do latim cognoscere. tendo seu apogeu entre o séc. tem como fundamento a “crença”. taoístas e confucionistas reuniram-se e. ao longo da sua evolução existencial. scire. O principal rival do Taoísmo e do Confucionismo foi o Budismo. a ponto de se falar de “budismo chinês”Buda. a aprendizagem é indispensável para qualquer atividade humana. Mítico. histórias fantásticas inventadas para explicar a origem de fenômenos naturais ou de comportamentos humanos. scientific. conseguiram debelar as forças da religião estrangeira. A Bíblia (os livros sagrados do Velho e do Novo Testamento) contém o conjunto das doutrinas supostamente reveladas pelo deus do Judaísmo e do Cristianismo a profetas.49 Classicismo e Romantismo (ou do apolíneo e dionisíaco) na cultura ocidental. o Confucionismo se configura como um código educacional. das sensações que o contato com o mundo exterior estimula em nós: o sentido do calor à aproximação de uma fonte de energia térmica. teológico ou religioso em geral. junto com o Confucionismo. quer de arte. da observação ingênua. que tem como cognatos os verbos noscere. da caça. science. O Taoísmo.I d. agnóstico. que pode ser traduzido por “saber fazer”. O conhecimento técnico está na base da profissionalização. proporcionado pela “aprendizagem”: este tipo de conhecimento já não deriva apenas do instinto. com ou sem o “s” inicial: scienza. a origem e o destino do homem. outros sistemas religiosos (Budismo. apesar das diferenças entre si.C. a conservação própria (pela alimentação) e a conservação da espécie (pela cópula). do grego mithos (Mito). néscio etc.

não por meio da crença numa revelação transcendental. Científico. que o pensamento abstrato peculiar da pesquisa filosófica. do certo e do errado. do grego philos (amigo) e sophia (sabedoria). que analisa os conceitos do bem e do mal. que formula hipóteses para explicar a origem do universo. cartógrafo. Lutar para suplantar um credo por outro é um ato de insânia. que investiga a essência do belo e suas relações com o útil. Aristóteles. sociais. a Ética. num sentido amplo. A característica principal do conhecimento científico é o método rigoroso de investigação. Toda religião é uma utopia salutar. sangrentas lutas religiosas envergonharam e continuam envergonhando até povos considerados civilizados. sempre em benefício do homem. infelizmente. o homem culto. Através dos tempos. Até à Renascença. escultor. formulando leis e dominando os elementos naturais. se não acreditasse na possibilidade de uma vida melhor após a morte. Os dois sistemas mais importantes. por suposto. pela “razão” ou pensamento reflexivo. devendo a liberdade de culto ser uma norma inviolável. Por este tipo de conhecimento. o homem tenta suplantar o princípio da autoridade. a fome. de indivíduos ou de grupos étnicos. podendo viver separada do corpo perecível. geólogo. por exemplo. vários pensadores criaram sistemas filosóficos globalizantes. Outro motivo da crença na divindade é a impotência do indivíduo em resolver seus problemas existenciais: a doença. induz o fiel a matar ou a matar-se em nome de Deus que. o termo científico relaciona-se apenas com o estudo da natureza física. a Epistemologia ou Teoria do Conhecimento. retórica. De onde se originou o cosmos? Existe outra vida após a morte? Matéria e espírito são inseparáveis? Além da aparência existe uma essência das coisas? O que é a consciência. se conforma com o absurdo da morte. deve ser respeitado. que estuda as regras do raciocínio correto para se chegar a qualquer tipo de conhecimento verdadeiro. tendo inventado maquinárias que o tornaram precursor da aviação. a razão. praticada por todos os povos. não é assim: ao longo da história. Sua finalidade é a busca da distinção . a palavra ciência diz respeito a qualquer tipo de saber: por isso falamos de ciências físicas. animais. Portanto. é o criador da vida!  Religião. estética. que tem como objeto de pesquisa a natureza da verdade. que constituíram a espinha dorsal do saber filosófico. próprio do saber religioso. É uma verdade indiscutível que o sentimento religioso é conatural ao ser humano. a maldade. ética. visando a compreensão de seus fenômenos. sonhando com a continuação da vida num além e imaginando a alma como uma entidade imortal. as normas morais do comportamento humano. Mas. que não acredite em seres sobrenaturais ou que não pratique alguma forma de culto. na sua forma mais extrema. satisfazendo os instintos individuais. sustentáculo próprio do saber teológico. Exemplo luminoso foi o italiano Leonardo da Vinci que. física. além de filósofo. portanto. pois não existe nenhuma sociedade. suplantando assim quer o princípio da autoridade. a dor fomentam o desejo da existência de outro mundo. o método correto de investigação. O fanatismo religioso. era comum encontrar homens com um saber enciclopédico. a Estética. é quem procura respostas para os interrogativos fundamentais da existência. E isso porque homem nenhum. a verdade? Qual é o fundamento do sentimento ético? A felicidade reside no exercício do livre arbítrio. uma ofensa contra a inteligência humana. astronomia. a Lógica. É preciso aceitar o fato incontestável de que não existe nenhuma religião “ortodoxa”. Mas. da acústica. onde seria feita justiça. na tentativa de responder de forma coerente a todas essas indagações. em sentido absoluto.50 a pressuposição da intervenção sobrenatural na criação do mundo (Cosmologia) e no regimento da vida em sociedade (Ética). Filósofo. ou na observância dos preceitos sociais? Para responder a essas e outras perguntas existenciais. porque toda religião é válida apenas para quem acredita nela. porque o homem não conseguiria suportar a angústia da existência. do étimo latino scientia. além do imortal pintor do quadro Mona Lisa. primitiva ou civilizada. humanas etc. são o Idealiasmo e o Materialismo. físico. quer dizer verdadeira. zoologia. foi também poeta. classificando as espécies humanas. aquele que sabia das coisas. mas mediante o raciocínio lógico. vegetais e minerais. política. a confiabilidade do saber. da hidráulica. que tiveram suas origens respectivamente no pensamento de Platão e Aristóteles. Filosófico. da óptica. Na época greco-romana não havia uma distinção clara entre as várias atividades do espírito: era chamado de “sábio”. em lugar e tempo algum. arquiteto. o homem exercitou sua inteligência em várias áreas do saber filosófico: a Cosmologia. escreveu obras sobre poética. qualquer sentimento religioso. a injustiça. num sentido estrito. servindo-se da “observação” e da sucessiva “experimentação”. porque espiritual. os bons sendo premiados e os maus punidos.

em carne e ossos. além de imaginário. na polifonia. embora possa aumentar de tamanho). Assim. Muito pelo contrário: a figura de Capitu é mais autêntica do que qualquer mulher do mundo da realidade. Credulidade e raciocínio são superados pelo experimento! Artístico: a Arte é uma forma de conhecimento da realidade. assim como a Filosofia e todas as Ciências. Isso explica por que. o conhecimento artístico está centrado no dialogismo. da inteligência criadora de seu autor. Enquanto a verdade científica é unívoca ou monológica. Uma vez observada a ocorrência de um fenômeno. Tal liberdade faz com que as criações artísticas possam exprimir as verdades mais profundas do ser humano. que contrariam as convenções ético-sociais. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente” Só que o conhecimento artístico é falso apenas no plano histórico ou da realidade física: Capitu. Explicamos: o ser humano. tudo isso importa em captar uma parcela de sentido do mundo. fantasioso.51 entre o verdadeiro e o falso por meio de uma demonstração irrefutável. Admirar um templo ou um quadro. que cada obra de arte tem dentro de si. A compreensão das formas e dos conteúdos de uma obra de arte literária ou plástica é inesgotável. portanto. assistir a um filme ou a uma peça teatral. físico. podendo atingir a própria contradição: algo pode ser e não ser ao mesmo tempo. não estando sujeita às leis do tempo e do espaço. na ambigüidade. mentiroso. dependendo da perspectiva. tanto que Fernando Pessoa. uma vez descoberto e comprovado o princípio ou a lei. pois o fato é ou não é. mas é apenas fruto da fantasia. da estatística (o número dos homens casados é exatamente igual ao número das mulheres casadas).) se servem da observação e da comprovação. séculos após séculos. Alcançar um saber é a finalidade primordial de qualquer atividade humana. não está sujeito a apreensões ou ao medo de sofrer penalidades. Dependendo do grau de cultura e de sensibilidade de quem o admira. cinema. visto que. Eis a estrofe. a possibilidade de captar múltiplos sentidos ao mesmo tempo ou em espaços e épocas diferentes. biológico etc. porque não nasceu da união carnal de um homem e de uma mulher. as várias formas de arte (literatura. sem nunca manifestar nossas aspirações mais secretas. teatro etc. do ponto de vista do leitor ou do espectador. é vítima das normas sociais e dos preconceitos morais. ainda representamos tragédias de Shakespeare. peculiar de seu estilo. Segundo a bela expressão do escritor Franz Kafka. da geometria (um quadrilátero conserva seus lados sempre iguais. o eterno. O que irmana todas as artes é o recurso à ficção. ela tornou-se imortal. Mas o fato de não ser real não quer dizer que a personagem de ficção não seja verdadeira. não é um ser existente no plano da realidade material. faz-se uma rigorosa experimentação e só então se formula uma lei que não admite contestação. “a Literatura é sempre uma expedição à verdade”. A arte seria. Morreu o autor. o objeto de arte adquire sentidos sempre renovados. “Ficcional”. chama o poeta de “fingidor”. vivendo de uma forma hipócrita. pode significar inexistente.) têm como meio de expressão a fantasia. mas não sua criatura artística. não se admite mais discussão. a gente acaba ocultando as idéias e os desejos mais recônditos. atingindo o universal. ainda admiramos estátuas gregas. de Machado de Assis. que se tornou famosa: “O POETA é um fingidor. uma bela mentira. observa-se a freqüência de sua repetição. são absolutamente verdadeiros alguns princípios da matemática (a soma é maior do que suas partes). a imaginação. Isso não acontece com o ser ficcional que. que são muitas vezes inconfessáveis. falso. sendo possíveis várias e diferentes interpretações. Recorremos. no poema “Autopsicografia” de seu Cancioneiro. Pelo sentimento do pudor ou por medo de sofrer sanções. por ser apenas fruto da fantasia. O que diferencia a aprendizagem científica da artística é apenas o meio utilizado: enquanto os vários tipos de conhecimento científico (matemático. o magnetismo terrestre atrai os corpos sempre para baixo) etc. integrados no convívio social. pintura. ouvir uma sinfonia ou uma canção. ler um poema ou um romance. E por ser uma entidade espiritual. a imortal personagem do romance Dom Casmurro. Outra peculiaridade do conhecimento artístico é sua polissemia. pois objetivamente documentada. ainda nos encantamos com versos do poeta latino . usando a figura do paradoxo. ao uso da máscara psicológica de seres bem comportados. portanto. A obra de arte nunca encerra um único sentido. o absoluto. da física (pela lei da gravidade. cognato de fictício. químico.

de origem anônima e coletiva. como se este fosse natural. crônica Tentando salientar as peculiaridades desta forma de narratividade. será feliz para sempre. ainda na fase da oralidade. 5) contos religiosos. de travalíngua. sobre a origem de objetos ou de costumes. assim como as passagens bíblicas para os hebreus. Sob a denominação de conto popular. onde predomina o elemento sobrenatural. mas o questionamento. Além de retomar o gênero fabulístico da tradição greco-romana (Esopo e Fedro) e o gênero novelístico medieval da escola toscana (Decameron.Conto maravilhoso Forma mais universal de transmissão da cultura de um povo. 12) ciclo da morte. Expressão da psicologia coletiva. a beleza física e espiritual. histórias de fadas. que induz a uma ação adequada. de Shakespeare. cujo catálogo foi traduzido e aperfeiçoado pelo inglês Smith Thompson. porque o que deveria ser geralmente não é. em grande parte. 7) contos de adivinhações. costumes. dividindo as narrativas em três grupos gerais com várias subdivisões: contos de animais. e gracejos e anedotas. do cinema e da informática). é de se deduzir que ainda vive no desejo dos ouvintes. fórmulas jurídicas. tinham o papel fundamental de ensinar os homens a viver em sociedade. que produz a sabedoria. O julgamento moral da massa popular é absoluto porque sentimental. espectadores ou leitores. 4) contos de animais: as fábulas. de fadas ou da carochinha . do conto erudito. qualquer tipo de saber. não a verdade factual. filosófico. em contraste com o mundo da realidade. de Fernando Pessoa. após superar vários obstáculos. então para que fazer?”. agrupam-se inúmeras narrativas de temas e motivos os mais variados. E isso porque. Vida nossa que é uma contínua aprendizagem: “ se sabemos exatamente o que fazer. Reflete as inclinações do ser humano para o maravilhoso. antes de tudo. se não morreu na história ficcional. A história ficcional é ambígua porque na arte não importa a resposta. mas a verossimilhança psicológica. a verdade. autor do famoso Dicionário do folclore brasileiro. CONSTANTINO (Imperador romano. 10) natureza denunciante: um ato criminoso é revelado por um elemento natural. Segundo Leonardo da Vinci. a palavra conto significa a narração de uma história. Pablo Picasso”. no início da década de 1930. trechos poéticos de Dante. o começo do saber está no coração e não na mente: “todo nosso conhecimento tem princípio nos sentimentos”. Istambul. de Camões. o interesse pelo conto popular teve início com o neoclássico La Fontaine ( Fábula). se perguntava o grande gênio da pintura moderna. de Carlos Drummond de Andrade continuam exercendo a função de lições de vida. tendo semelhanças com outras formas do gênero narrativo: romance. com a intervenção divina. No Brasil. 2) contos de exemplo. de contos de nunca acabar. a justiça. o amor romanticamente vivido. com intenção moralística. 6) contos etiológicos. elaborado artisticamente por ficcionista profissionais. ainda discutimos sobre a traição de Capitu e a verdadeira paternidade de seu filho. anedotas e patranhas. técnico. de Machado de Assis. novela. Na Europa. de Boccaccio). sempre com o triunfo do bem sobre o mal. apresenta uma outra classificação temática: 1) contos de encantamento. Luís da Câmara Cascudo. 0 método Aarne-Thompson individualizou 2 499 motivos. 8) contos acumulativos. da carochinha e de magia. tem como disposição mental uma ideologia conformista: as coisas se passam como nós gostaríamos que acontecessem. Enfim.52 Catulo. Ainda hoje. de fada ou maravilhoso. histórias populares. sonhando com a bondade. I . casos de intertextualidade. deve seguir o mesmo processo: a informação inicial tem que ser trabalhada para levar ao conhecimento por dentro. o conto popular desafia a própria morte: o casal de jovens apaixonados. folclore. Uma tentativa que obteve certo êxito foi a do estudioso alemão Antti Aarne. científico ou artístico. Apresentar uma classificação coerente é tarefa quase impossível. seja ele empírico. etc. para ser realmente eficaz e produtivo. um especialista do assunto. 9) facécias. 3) casos edificantes. 11) demônio logrado: a vitória sobre o princípio do mal. distinguimos. que é trágico. ele reelaborou o belíssimo . o conto popular ou feérico documenta usos. Bizantino)Helenismo CONTO (história ficcional curta)Gênero literário FábulaNarrativa “A história está acabada e sua boca cheia de marmelada!” Do latim “contare”. Isso porque o ser artístico transcende o padrão individual. buscando alcançar um protótipo universal. Os poemas de Homero para os habitantes da Grécia antiga. o conto popular. pelo progresso da televisão. Rompendo as barreiras do real. apesar do relaxamento do hábito da leitura (provocado.

que pode ser o pretérito. Quanto à sua estrutura. a partir do início do século XVIII: As mil e uma noites. oralidade. tornando-se paradigmático. escritos por autores famosos (Hoffman. ou seja. Além de não conhecermos o nome do autor e do narrador. em épocas anteriores à descoberta da imprensa e com meios de comunicação muito precários. Ele coletou e redigiu as histórias para crianças contadas pelas amas (Contos de Mamãe Gansa). mas também o cinético (movimentos corporais miméticos). O foco narrativo geralmente é único: centrado ou no narrador onisciente ou numa personagem.".. por exemplo. mas em dose diminuta. é um desafio à inteligência dos estudiosos do assunto. da China. especialmente na Alemanha e em oposição ao Classicismo. o marujo. da Alemanha. não verdadeiro porque ficcional. a língua inglesa denomina o conto de “short story”. de forma semelhante à do francês Perrault. o dramático (encenações).53 conto popular de "Amor e Psique". o receptor participa ativamente da transmissão da mensagem através de perguntas e comentários ou fica tão atento que interrompe as atividades mais elementares. a fada madrinha. lembramos as pesquisas filológicas dos irmãos Grimm que. De outro lado. Mas trata-se de trabalhos realizados a partir de fontes eruditas. pois a atitude mental que dele se depreende não é idealizar. Numa sua narrativa encontra-se a passagem humorística que se tornou famosa: “Mas o Imperador está pelado”. além de assinalar a entrada no mundo mágico da ficção. publicados entre 1835 e 1872.O conto erudito Duas características principais distinguem o conto literário. o fato narrado não aconteceu no mundo físico. coletaram e redigiram um grande número de histórias para a infância e adolescência. O conto erudito distingue-se do romance e da novela por ser uma narrativa curta. Mas o pai da literatura infanto-juvenil européia é considerado o escritor dinamarquês Hans Christian com seus Contos. que se encontra no Asno de ouro. As personagens são pouquíssimas. Símbad. eterno. também as personagens que vivem os fatos são inominadas. A fábula é reduzida apenas a um episódio de vida. chorou a criancinha. O mistério da presença das mesmas histórias em países geograficamente muito distantes. O que distingue essa forma narrativa de outras é o caráter de internacionalidade. anonimato e persistência. que denominamos erudito ou culto. do Brasil. dando-lhe o titulo de Histoire de Psyché. Não aparece o nome dos países ou das cidades onde os fatos acontecem. Um conto infantil alemão termina assim: “a história está acabada e sua boca cheia de marmelada”! II . Aladím e a lâmpada maravilhosa. Poe e outros). do conto popular: ele é produzido por um autor historicamente conhecido e refere-se a um episódio da vida real. pois o passado mítico se renova constantemente. cinderela. a bruxa. O processo da enunciação dá-se in praesentia: o contador de histórias dirige-se diretamente aos ouvintes. o presente ou o futuro. Tal indeterminação atinge também as categorias do tempo e do espaço. três na maioria dos casos. mas poderia acontecer. como a de comer. constituindo o famoso triângulo . Na época do Romantismo. No Brasil. pela função que exercem ou por atributos: o príncipe. o conteúdo temático permanece o mesmo. Embora seja possível apontar exceções de contos fantásticos. sobressai a estraordinária figura de Monteiro Lobato (Monteiro). A fórmula "Era uma vez. Ali Babá e os quarenta ladrões. Embora existam variantes regionais devido à diferença do ambiente mesológico (flora e fauna). Trata-se de transmigração ou devemos pensar na existência de um fundo arquetípico universal? A história de Chapeuzinho Vermelho. do formalista russo Vladimir Propp (Mito FunçãoNarrativa). foram valorizadas as forças vitais e a beleza própria da realidade popular nacional. mas contestar os valores sociais. o caçador. da linguagem e de usos e costumes. Ele possui todos os ingredientes do romance. As semelhanças genéricas e as diferenças específicas das narrativas feéricas encontram-se analisadas na obra Morfologia do Conto.A. com recurso ao sobrenatural.. a narrativa popular apresenta peculiaridades inerentes às suas características de anonimato e de oralidade. Também contribuiu decisivamente para despertar o interesse pela literatura infanto-juvenil a tradução em línguas européias de coletâneas de contos orientais. da Rússia. O conto popular tem em comum com as demais formas simples de narratividade as características de antigüidade. a regra do conto erudito é ater-se ao real. É com Charles Perrault (1628-1703) que o conto passa a ser estudado na sua origem popular. E. mas verossímil. não fugindo do principio da verossimilhança. é contada para as crianças da Itália. usando não apenas o código lingüístico. Com muita propriedade. São identificadas por uma competência interiorizada. de Apuleio(Metamorfoses). remete a um tempo indefinido. Especificamente quanto ao conto popular. o fonético (variedade de entoações). o lobo. neste gênero.

O tempo da fábula também é muito limitado. Mas. hoje em dia. videocassete. Na Baixa Idade Média. quando existem. mas acaba tendo uma grande vitória sobre os mouros invasores. têm a paciência de ler um longo romance. Em última análise. uma pequena história vivida por algumas personagens cujo desfecho leva o leitor a deduzir a parcela de sentido do mundo que a narrativa encerra. quando percebe que Rodrigo quer morrer no duelo não se defendendo. desvinculando-se do romance e da novela. apaixonado por Ximena. solicitados pelos atuais meios de comunicação cultural (rádio. cinema. Sem falarmos dos episódios das Sagradas Escrituras (Bíblia) que podem ser considerados contos (filho pródigo. apresentando contistas mundialmente famosos: Maupassant. cuja protoforma é a antológica narrativa Os crimes da rua Morgue. o amor vence o ódio e acaba suplicando o jovem amado a lutar pata obter a vitória. Exemplos esparsos podem ser encontrados em alguns autores da Renascença. para vingar a morte do pai. Salomé. Na modernidade. é obrigado a matar seu futuro sogro num duelo. Rodrigo procura a morte no campo de batalha. No texto corneliano.) e limitando-nos apenas à literatura ocidental. uma peça teatral em novela de televisão ou vice-versa. Essa peça acirrou as discussões sobre a obediência ou não aos preceitos da confecção da obra teatral conforme se . reflexões. Machado. a intercomunicabilidade entre várias formas de arte é um fato corriqueiro hoje em dia: um romance é transformado em filme. Ximena. cujos protagonistas. para salvar a honra de seu pai. etc. Para fugir ao remorso. Eça. Quanto à tipologia do conto. publicada em 1631. A peça termina com o casamento de Rodrigo e Ximena. como exemplo. Inventa. ela não difere muito da classificação do romance. televisão. no conto temos uma condensação do sentido que se revela ao leitor de uma forma mais rápida e surpreendente. personagens. Lembramos. além do Decameron do florentino Boccaccio. Enquanto no romance o conteúdo textual encontra-se diluído na multiplicidade de ações. Dependendo do tamanho. Ele foi o inventor do conto policial. resolveu desenvolver a mesma história numa narrativa longa. então. etc. própria da era da máquina: poucos leitores. têm a história de suas vidas intercalada pela narração de histórias secundárias encaixadas na principal. inserido no contexto do Satiricon: uma viúva inconsolável acaba preferindo o amante vivo ao corpo do marido morto.54 amoroso. A diminuição dos elementos estruturais confere ao conto uma grande densidade dramática. O criador da moderna short story pode ser considerado o norte-americano Edgar Allan Poe. A peça tem como referente remoto a epopéia espanhola EI cantar de mio Cid( ) e como fonte próxima a obra Las mocedades del Cid. cuja lucidez mental o levara a preferir a história curta. A categoria do espaço está reduzida a um ou dois ambientes. descrições. Um exemplo dessa verdade “acaciana” nos é fornecido pelo imortal escritor português Eça de Queirós: depois de ter escrito o conto Civilização. O conto erudito tem uma larga tradição cultural. forma mais apta a expressar a intensidade dramática. Mas. espaços. Judite. CONTRA-REFORMA (Protestantismo. de Guillén de Castro. O que acontece. internet). podemos considerar o conto como um romance condensado e o romance como um conto diluído. Entendido. Tcheckov. é a partir da época romântica que o conto erudito. o conto “A Matrona de Éfeso”. As descrições e reflexões. o herói Rodrigo. de romance ou de conto de terror. adquire o estatuto de gênero literário à parte. são muito rápidas. A época do realismo consagra definitivamente o sucesso da narrativa curta. teatro. encontramos exemplos contidos nas obras de escritores latinos. Aliás. especialmente Petrônio (Satíricon) e Apuleio (O asno de ouro ou Metamorfoses). falamos de romance ou de conto policial. Tribunal da Inquisição)Lutero COPÉRNICO (revolução na Astronomia) Galileu CORÃO (texto sagrado dos muçulmanos)Maomé CORNEILLE (dramaturgo do Neoclassicismo francês)Tragédia Quem perdoa com facilidade incita a ofender novamente O primeiro grande drama do teatro clássico francês é Le Cid. Encólpio e Lúcio. do barroco e do arcadismo. escrito em 1636 por Pierre Corneille (1606-1684). respectivamente. O contista tem uma idéia fundamental a expressar. porém. porque melhor responde à exigência da rapidez. que a diferença entre o conto e o romance não é apenas quantitativa: a brevidade ou a extensão de uma história ficcional importa nas diferenças estruturais já apontadas acima. um conto numa tela de pintura ou numa estátua. tempos. o conto é a forma narrativa mais cultivada. avultam os contos satíricos e licenciosos do inglês Chauser: Canterbury Tales. criando o romance A cidade e as serras. deseja a destruição de Rodrigo e induz um seu pretendente a desafiar o herói.

O historiador britânico Edward Gibbon (1737-1794). na obra clássica A Ética Protestante e o . sistema criado pelo filósofo persa Zoroastro e adotado pelo Judaísmo. assim. personagens e leitor se sentem perdidos. É a concepção de uma ética aristocrática. governadas por ditadores. mas seu adversário político. A partir de Jesus Cristo. até encontrarem o centro. O maior milagre que circunda a figura de Cristo foi o de ter conseguido concentrar na sua pessoa o que houve de bom antes e depois dele: o monoteísmo. mas ao mundo inteiro (Gandhi) O aparecimento da figura de Cristo dividiu a história da Humanidade em duas épocas: Antes e Depois DELE. Medéia. ao mesmo tempo. Jesus veio ao mundo para inverter esta lógica milenar com um ensinamento simples: amar a Deus é amar o próximo. em oposição ao Caos)Mitologia Terra CRISTO. Sua narrativa pode ser enquadrada na corrente estética do realismo crítico e fantástico. Basta citar dois episódios semelhantes. também o final feliz de Le Cid contraria a definição aristotélica da tragédia: “a passagem da felicidade para a infelicidade”. a da civilização cristã. Horácio. a Palavra de Cristo revolucionou o curso da humanidade. Os deuses pagãos e o deus do Velho Testamento foram substituídos pelo Deus da misericórdia. no Jogo da amarelinha e em outros romances e contos. antes de Cristo. permanece eterna a concepção corneliana de herói. recorrendo ao modo simbólico. configura a representação artística de um protótipo ideológico: o homem. o estatuto de obra clássica. Em décadas passadas. O protagonista deste drama. um ligado ao Politeísmo greco-romano e outro ao Judaísmo hebraico. negando-lhe. encontra no sentimento da “honra” e na aspiração á “glória” a sua realização existencial. pois Corneille não obedece ao princípio clássico da unidade de ação. A narrativa é concebida como um “jogo” ou um “labirinto” em que narrador. o ponto nevrálgico capaz de desvendar o mistério da realidade existencial. o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920). CORTÁZAR (ficcionista argentino: “realismo fantástico”) Na Literatura. relevando a mistura do gênero trágico com o cômico. era obrigada a usar disfarces. Daí que a academia francesa. a define como uma “tragicomédia”. provocaram o surgimento de um tipo de arte que. devido às diferentes possibilidades de montagem e de leitura da obra. COSMOS (a ordem no Universo. como de outros do mesmo autor (Cinna. que está pronto a sacrificar à vingativa deusa Diana sua jovem filha Ifigênia. a utopia socialista de Platão. não há bons ou maus temas: somente há um bom ou um mau tratamento do tema. a observância das normas morais que se encontram no Velho Testamento ( Bíblia).55 encontram na Poética de Aristóteles. a “NOSSA ERA”. Após sua morte. e Abraão. em consonância com o aspecto renascentista da cultura clássica francesa. acima dessas questões técnicas. o ser que está ao nosso lado e a realidade que nos circunda. incestuosa e vingativa. individualista. por simpatizar com a ideologia marxista. solicitada a dar sua opinião sobre esta obra de Corneille. na sua vasta obra em cinco volumes. muito cultivada por autores americanos de língua espanhola. Mas. Declínio e Queda do Império Romano. profundamente eufórica. cuja lembrança ofende indelevelmente a inteligência e o sentimento humano: Agamenão. disposto a matar seu filho Isaac para superar o “teste” de obediência a que o submeteu o caprichoso Jeová. para contestar os regimes políticos opressores da liberdade. Polieucte). A cultura ocidental. criou-se um novo calendário. de tempo e de lugar. Julio Cortázar (1914-1984). era dominada por uma concepção religiosa mesquinha. em conflito entre o dever e a paixão. Essa nova concepção da divindade atravessou toda a história das religiões. começando uma nova Era. o pacifismo e a tolerância ensinados pelos textos dos Vedas da Índia (Budismo). patrício de Borges. a crença num único deus. De outro lado. defende a tese de que o Cristianismo foi a causa principal da decadência da maior potência da Antiguidade pela sua pregação pacifista e por projetar a felicidade num mundo sobrenatural. Além de infringir o princípio da verossimilhança no palco. JesusReligiãoCatolicismo Protestantismo Igreja Ortodoxa Cristo não pertence ao Cristianismo. as nações latinas. está preocupado em criar uma nova técnica de construção romanesca. o que levou Racine a afirmar que suas peças acumulam “tal quantidade de incidentes que precisariam de um mês para ser representadas”.

estaria na “Ética do Trabalho”. ao redor do ano 30. aparecendo a seus discípulos. Após a flagelação. na sua versão luterana e calvinista. Os fariseus não aceitavam sua concepção de messianismo (a palavra “christus” é uma transcrição literal do grego Khristos que. O Cristo. por sua vez. a partir do século passado. especialmente após as contribuições de Freud e de seus discípulos para o estudo das profundidades da alma e o empenho dos historiadores. na época em que Herodes governava na Galiléia. a mensagem de Cristo era politicamente perigosa. segundo Weber. com o consenso do povo hebreu. pelo exame do famoso quadro A Última Ceia. Transmitiu sua mensagem de paz e de amor através de discursos e de parábolas. foi capaz de derrubar o maior império antigo e de construir a maior potência da atualidade? As notícias sobre sua personalidade encontram-se. Para os hebreus. sendo considerado um taumaturgo. poderia abalar a crença na divindade de . é a tradução do hebraico mashiah. revelando seu aspecto profundamente humano. na língua aramaica e gravado numa pedra. ele teria ressuscitado na Páscoa. Na época pós-freudiana. nortearam a construção da maior potência do mundo atual. referindo-se propriamente ao Filho da Virgem Maria. que contem a essência da doutrina cristã. Jesus era visto pelos cristãos e pelos romanos (o historiador Tácito faz referência a ele) apenas como um grande profeta e um homem milagroso. Procurador romano. O pouco que sabemos sobre a pessoa histórica de Jesus Cristo pode ser assim resumido: de religião judaica. sem sair da Palestina e sem escrever uma linha sequer. o Messias. Mas. filho de Maria e do carpinteiro José. com a qual teria tido vários filhos. está o ossuário de Tiago. Segundo a tradição cristã. Os escritos do Novo Testamento. a identidade verdadeira de Jesus de Nazareth. descobertos recentemente na Palestina. Entre os poucos documentos arqueológicos. a pessoa consagrada pela unção). cativando a atenção dos mais humildes. foi crucificado sob a acusação de ser um agitador público. que significa “Messias”. nasceu em Belém. quem foi este “Jesus Cristo” que. devia ser não um pobre descalço. a tese herética de que Jesus seria amante de Maria Madalena. propugnada nos evangelhos e nas epístolas do apóstolo Paulo e praticada principalmente por ingleses e americanos. se deu apenas “por votação” dos bispos no Concílio de Nicéia (325). mostra como os princípios do Cristianismo. deixando de pagar os impostos. uma urna funerária em que se lê. através dos tempos. Jesus Cristo foi vítima de uma coalizão entre dirigentes judeus e a autoridade romana. essencialmente. província romana. Recentemente. através dos séculos. o império econômico dos Estados Unidos da América do Norte. saiu publicado no Brasil o best-seller americano O Código Da Vinci. ressaltando a dimensão humana da existência de Cristo. romance de Dan Brown. depois de um ou dois anos de apostolado itinerante. nos quatro evangelhos (Bíblia). filho de Deus. irmão de Jesus”. Assim. o crítico norte-americano observa que o reconhecimento de Jesus Cristo como “Filho de Deus”. convencidos de que a riqueza é um sinal da benção divina. A base do sucesso da civilização anglo-saxônica e norte-americana. pois lhes foi dada a missão de difundir para o mundo todo os ensinamento de Cristo. independentemente da crença na sua filiação divina. Corroborou sua palavra com atos milagrosos. em que o autor tenta demonstrar. após três dias de sepultamento. na pesquisa sobre a figura histórica de Cristo. foram submetidos a várias interpretações. o Evangelho começou a ser lido à luz da psicanálise (Psiquê). começou sua pregação. Se esta inscrição fosse historicamente verdadeira. e capturado quando estava em Jerusalém. As histórias escritas pelos quatro evangelistas contêm elementos simbólicos que merecem novas interpretações. anunciado no Velho Testamento. acabou matando o Jesus homem! As discussões sobre a humanidade e a divindade de Cristo se tornaram cada vez mais calorosas e estão longe de ter um fim. Mas sua fama começou a incomodar judeus e romanos. Nesta mesma obra . no início da nossa Era (Idade). pois podia sublevar a massa popular contra o Império. afinal. Também para os romanos. de Leonardo da Vinci.56 Espírito do Capitalismo. mas um Rei poderoso que libertasse o povo do jugo de Roma. Judas Iscariota. filho de José. o seguinte epitáfio: “Tiago. Já com trinta anos (por volta do ano 27 ou 28). que se tornaram Apóstolos. mais de três séculos depois de sua morte. junto com João Batista. Infelizmente. Traído por um dos seus discípulos. Anteriormente. que em grego significa “Enviados”. foi eclipsada pelo mito da esfinge devoradora que mata quem não souber decifrar seu enigma. foi julgado e condenado à morte por ordem de Pôncio Pilatos.

além da psicanálise clássica e moderna. do americano Martin Scorsese e. A Vida de Brian (1979). o segundo é a “interpretação”. Munido destes conhecimentos. O romancista José Saramago (O Evangelho segundo Jesus Cristo) e o cineasta Pier Paolo Pasolini (O Evangelho segundo São Mateus). agradabilidade. como se lê nos evangelhos escritos por seus discípulos. Os dois credos não foram aprovados no exame da história: após mais de dois milênios. o ato de emitir opinião. o homem. um romance. pode ser considerado uma reencarnação de Cristo. da razão pura. esportiva etc. a faculdade que homem tem de poder distinguir o verdadeiro do falso. do ator-diretor Mel Gibson. uma mulher bonita (por que não?). Esta modalidade de abordagem do texto literário é centrípeta. o egoísmo individual e de classes. quer seja o credo num Cristo. a justiça social. Um bom crítico deve conhecer a técnica das duas formas de estudo de uma obra de arte. ao mesmo tempo. diferenciando-a da abordagem externa ou cultural. influenciando filosofia. tendo em comum a contradição de serem. artes e literatura. Je vous salue. Neste Dicionário. corrupto e tirano. conveniência. uma estátua. católicos e comunistas. Goldspell (1973). .). a condenação de qualquer forma de violência e a constante exortação ao amor estruturaram o pensamento ocidental. o Protestantismo (nas suas diferentes seitas Lutero). independentemente do autor e da época. com base no “critério”. o novo enviado de Deus. apontando valores ocultos numa obra de arte. como o Comunismo. um quadro. A figura de Jesus. de Davis Greene. e a revolução comunista se espatifou perante o muro de um estadismo burocrático. pois os dois métodos são complementares e não excludentes. do suíço Jean-Luc Godard (1985). seja como for. utilidade. o que é palpável e infinitamente importante do ponto de vista cultural é que os episódios e os ensinamentos evangélicos são metáforas da nossa vida cotidiana: o filho pródigo. consistindo no estudo dos elementos constitutivos e de suas relações entre si. permanece incontestável no bojo do sentimento religioso da maioria dos povos que habitam a terra. já a análise externa estuda os componentes ideológicos ligados ao tempo e ao espaço. A Paixão de Cristo (2004). se sente tentado a analisar as partes componentes do objeto e a julgar sobre sua formosura. Em Cristo estão centrados o Catolicismo. provocada pela decepção com o cristianismo europeu. pelo amor. na Idade Média) e as Igrejas Ortodoxas do Oriente. passando a ser considerado o precursor do socialismo. mais recentemente. teatral. onde se dá o julgamento de valor. a pregação evangélica continua a mesma. uma narrativa. A atividade crítica surge junto com a Filosofia e as Artes: falamos de crítica da razão dialética. a análise dos elementos estruturais (o olhar por dentro) é utilizada em vários verbetes (TextoMitoPersonagemNarrativa e em outros lugares. o estímulo ao trabalho. quer na crença num ideal de justiça social contrastante com o profundo egoísmo individual e de grupos. pois Ele não seria mais o “Filho Único de Deus”. etimologicamente. um filme. Marie. por serem ambos ideológicos. Com base nesta distinção. Perante um objeto de arte. O Cristianismo. do iconoclasta Terry Jones. são igualmente utópicos. Aqui apresentamos vários tipos de crítica extrínseca (o olhar de fora). a palavra “crítica”. O assunto é polêmico pela sua própria natureza. as escolas e movimentos literários que lhe forneceram os cânones estéticos e o complexo ideológico em que viveu. Outros filmes polêmicos de grandes diretores sobre a figura de Jesus: Viridiana (1961). do espanhol Luis Buñuel. a ressurreição de Lázaro. o bom samaritano. o crítico inicia a análise e a interpretação de um texto dado. onde se fala dos elementos constitutivos de uma obra de arte ou se interpreta um poema. de cinema. o Islamismo (o profeta Maomé.57 Cristo. Ambos consideram a figura histórica de Jesus como um doce e pacífico provocador que queria vencer. da razão prática. significa “aptidão para julgamento”. o belo do feio. uma peça dramática. com resultados irrelevantes no que toca o ponto crucial da vida humana. Redentor da Humanidade. pois todo o ato de acreditar sempre traz em si algo de místico. filho de Deus. naturalmente. composto do verbo krinein (julgar) + tekhne (técnica). O primeiro momento é chamado de “análise”. seja ele um poema. A Última tentação de Cristo (1988). da seta inglesa Monty Python. as condições socio-culturais que formaram sua personalidade. são exemplos de intelectuais contemporâneos que estudaram a figura de Cristo. crítica literária. CRÍTICA (análise e interpretação de uma obra de arte)Texto Do grego kriticos. Independentemente da verdade histórica. os estudiosos da obra de arte literária falam de uma crítica interna ou estrutural. no sentido de que a atividade critica parte de fora para dentro: estuda-se a biografia do autor. O primeiro tipo de abordagem se preocupa com a obra em si.

A teoria platônica do poeta “inspirado” e a teoria aristotélica do poeta “artífice” encontram uma reformulação na oposição nietzschiana de espírito “dionisíaco” e espírito “apolíneo”. por exemplo. no pleno gozo de suas faculdades intelectuais. mas quando se preocupa com a “compreensão” da significação da obra. Dela se diferencia. A interação escritor-sociedade é proveniente dos seguintes fatores: a) o “emissor” (o escritor) é um ser socializado. Ela tem valor estético não quando. visa à “explicação” do fenômeno literário.58 visando especialmente verificar até que ponto o autor é “filho de sua época”. então. por salientar mais a personalidade do escritor do que as condições sociais e o espírito da época. enfim. Nessa linha de pesquisa trabalha também o crítico brasileiro Antônio Cândido. O mito da “Musa” inspiradora. de comunicação inter-humana. por mais que o escritor possa “operar” sobre a linguagem. Apesar da concepção antitética de Aristóteles que considera o poeta como um ser lúcido. é vista como semelhante à gênese dos Livros Sagrados e o poeta é considerado um sacerdos. que considera o fator social não apenas como “matéria” de que se serviria o artista. não é uma mônade estética: ela é determinada pelas convenções e pelos gêneros literários próprios de uma época. A crítica sociológica considera a literatura. A análise de tipo sociológico encontra no estudioso alemão Erich Auerbach ( Mimésis: a representação da realidade na literatura ocidental) um valioso cultor. o artista tem o intuito de atingir um público que vive os problemas estéticos e ideológicos de sua época. a par das outras atividades artísticas. onipresente na épica clássica. esta possa ser usufruída também por leitores posteriores. como produto e expressão da cultura e da civilização de um povo nas diversas fases de seu desenvolvimento. segundo o método do estruturalismo genético de Lucien Goldman. buscando seus antecedentes causais na realidade socio-econômica (como costuma fazer uma vertente da crítica socialista Marx). coletivo. porém. b) o “código” (a língua) de que se serve não é um fator individual. nascida da produção para o mercado. apesar de ser ficcionalmente “virtual”. mas também e especialmente como um “agente de estrutura” e. o fator social deixa de ser um fator puramente externo para tornar-se interno e a critica sociológica toma-se uma crítica estética. Ë muito antiga a concepção da arte como fruto de uma personalidade psiquicamente excepcional. A gênese da obra literária. destacamos algumas que nos parecem ter tido bastante sucesso: a critica sociológica . Visto desta maneira. A critica psicológica tem em comum com a critica sociológica o olhar para a obra de fora para dentro. se cristianiza na estética neoplatônica de Marsílio Ficino: as musas são substituídas pelo Espírito Santo. seu estilo peculiar só pode ser entendido a partir de um contraste com a literatura preexistente. devido ao caráter polissêmico e universalizarite da verdadeira obra de arte. fruto híbrido de um amor . sociais. Entre as várias modalidades deste enfoque histórico e externo da obra artística. reproduzindo as formas estéticas e o conteúdo ideológico do grupo e do movimento literário. chamamos de “arquetípica”. cuja função primordial não é artística. embora. éticos) de seu grupo. a teoria platônica da inspiração artística como “dom” divino impregna as concepções sobre a criação literária da cultura ocidental. Dionísio (na mitologia grega) ou Baco (na mitologia romana). como uma determinante do valor estético. investido de um saber transcendental. dos homens com os outros homens. um “artífice” que estrutura livre e conscientemente o material poético. a crítica psicológica e outro tipo de crítica que. estabelecendo homologias entre as estruturas do universo da obra e as estruturas mentais de certos grupos sociais. no ato da criação artística ele participa da mesma realidade social do escritor. c) a “mensagem” (o texto produzido). religiosos. nas pegadas de Lukács e de Girard. Existe uma homologia rigorosa entre a forma literária do romance. Platão concebe o poeta como um indivíduo temporariamente “possesso” pela divindade: ele só pode criar nos momentos em que está “inspirado” pelos deuses. muito embora fruto de uma individualidade poética. mas institucional. por extensão. mas prática. que sente e vive os problemas humanos (políticos. quer dizer. ele apresenta a seguinte hipótese: “a forma romanesca parece-nos ser a transposição para o plano literário da vida cotidiana na sociedade individualista. o certo é que a parole artística só é possível a partir de uma langue. usando do método das ciências exatas. por falta de um nome mais apropriado. numa sociedade produtora para o mercado”. e. Mesmo quando o artista é um renovador de formas estéticas e de conteúdos ideológicos. que são estabelecidos pela sociedade e não pelos indivíduos. tal como acabamos de definir. A critica sociológica explora a análise destes quatro fatores e procura inserir a obra literária num contexto socio-cultural. usando-a de um modo particular. portanto. pois ele estabelece uma estreita ligação entre o estilo do autor e a estrutura social nas obras que analisa. desviando-se da norma lingüística. No que toca especificamente o estudo do romance. e a relação cotidiana dos homens com os bens em geral e. d) o “destinatário” (o leitor).

também fazem distinção entre um tipo de literatura fruto de espíritos estética e humanamente inconformados e um tipo de literatura produto das convenções literárias e sociais. então. A critica psicológica tem valor literário somente quando. Enfim. frustrações. utilizando apenas elementos teóricos extraídos da psicologia. estética e ideologicamente indicativas de valores constantes. a escolha do crítico não consiste em utilizar. isto é. tem o texto como objeto de pesquisa. na história da literatura. ilustrada pelos fatos externos de sua vida e por elementos outros. Pensamos na oposição entre literatura “dialógica” e “monológica” de M. A concepção do autor “inspirado” e do autor “artífice” representaria duas “invariantes”. mas como atitudes estéticas e espirituais. fáceis de serem apontadas: a) não serviriam para a análise de obras cujo autor seja anônimo ou suas notícias biográficas escassas. Pensamos nos quatro tipos de . As modernas teorias da psicanálise. quer individual (Freud). no meio das configurações “variáveis” de que se reveste cada período literário. experiências traumáticas e neuroses. ou o que quer que seja — e valer-se de tal teoria para esclarecer cada uma de suas obras” A biocrítica e a psicocrítica. d) quando alcançam seu intento. suas idiossincrasias. a corcunda de Leopardi. no estado de embriaguez. entendendo-se estes termos não na sua concepção histórica de movimentos literários. b) admitem implicitamente que qualquer obra literária seja imbuída do espírito dionisíaco e possua uma ideologia revolucionária. durante a celebração ritual. quando aplicadas ao estudo da obra literária. que enformam as várias fases da evolução artística. Também as categorias do espaço e do tempo ficcional podem ser relacionadas com estados psicológicos. Contrastando com Dionísio. não atingindo a compreensão da forma estética. sem se referir explicitamente às teorias de Platão e de Aristóteles acerca da gênese da criação poética ou à oposição encontrada pelo filósofo alemão F. suas contradições. um técnico que conhece o ofício. A poesia ditirâmbica é um tipo de arte produzida por pessoas “transformadas”. Neste sentido. Apolo é um deus integrado no convívio celeste. “fases” e “modos”. num desequilibro emocional do autor. a metalinguagem crítica pode valer-se de elementos conceptuais oriundos das ciências psicológicas para explicar o comportamento de uma personagem. que declinam momentaneamente de sua personalidade real. conseguem apenas “explicar” a gênese da produção literária. consciente ou inconscientemente. ou não. Mas a crítica psicológica com pretensões científicas afasta-se dessas especulações míticas ou supra-históricas e procura encontrar a gênese da criação artística na carga biopsíquica de que o autor é portador. tais como cartas e documentos que tenham o caráter de confissões. sentiam-se “possessos” pelo deus e compunham seus cantos sob a inspiração direta de Dionísio. Bakhtine. c) confundem o “eu” do narrador com o autor. pois é impossível analisar e interpretar um texto literário sem lançar mão de processos psicológicos. Pode-se até chegar à determinação da estrutura poética de um texto. Sátiros e Bacantes. centradas sobre o estudo da personalidade real do autor. a psicologia. etc) ou por um desajuste psíquico (teoria dos “complexos”). O poeta seria um ser excepcional. com isso. que sublimiza na arte os recalques do subconsciente. de uma forma plena ou parcial. construir uma teoria sobre a personalidade desse autor — seus conflitos. A gênese do “furor” poético residiria. inadaptado ao meio-ambiente. sua evolução emocional. na exata proporção das partes com o todo. suas reações ao ambiente ou o relacionamento psíquico que une ou separa os agentes ficcionais. Nietzsche entre o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo. têm várias falhas. A critica arquetípica constrói seu arcabouço a partir de concepções gerais sobre a cultura e a civilização. Esta dicotomia pode ser expressa pela oposição romântico vs clássico. quer coletivo ou rácico (Jung) Conforme o crítico David Daches (Posições da crítica em face da Literatura). Quer dizer. teríamos uma alternância da postura romântica e da postura clássica perante a arte e a vida. não aceito no Olimpo. têm substituído o pensamento antigo da inspiração como dádiva divina pela teoria da arte como neurose. da mesma forma que vimos em relação à crítica sociológica. mas em utilizar a psicologia do senso comum ou a psicologia científica. transferindo elementos do mundo real para o mundo ficcional. quando as leis e os princípios da psicologia e da psicanálise são aplicados não ao estudo do autor mas das personagens ficcionais. entre fase “irônica” (Mithos do Inverno) e fase “romanesca” (Mithos do Verão) de Northrop Frye . rastejando. errou pela terra e ensinou aos homens o cultivo da uva e a produção do vinho. Ele é o deus da luz e da ordem.59 divino-humano. “pode-se considerar a biografia de um autor. O artista que se inspire em Apolo é um ser que lúcida e conscientemente constrói suas mensagens. e. insistindo principalmente sobre convenções e gêneros literários e descuidando do estudo das obras em si. Seus fiéis. causado ou por defeitos físicos (a cegueira de Homero. na história da literatura. Outros críticos. entre escritores “apocalípticos” e escritores “integrados” de Umberto Eco. A essência da beleza apolínea reside na harmonia de formas.

Pensando assim. é sempre bom lembrar a advertência do dramaturgo Eugène Ionescu: “os críticos devem descrever. b) crítica “etológica”. Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro Bebeu Cantou Dançou Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. a crônica esportiva. política. que põe em evidência a vida das pessoas ilustres. o autor da Anatomia da critica é coerente. a crônica policial. Prosa. de corridas automobilísticas etc. que apresenta a crítica de eventos culturais (cinema. mas crítica da literatura. No primeiro caso. Lírica). a crônica pode ser considerada como a mais curta forma de narrativa literária. cronologia) “Aprenda de ontem. a crônica de arte. para que haja crítica. c) critica “arquetípica” propriamente dita. entre outros) e prosadores (Machado de Assis. geralmente formados por faculdades de história. não prescrever”. CRÔNICA (policial. a crônica social. pintura. Saturno em Roma. que registra a ocorrência de atos criminosos. a crônica literária é produzida por poetas e ficcionistas que. que não existe aprendizado direto da literatura. é preciso distinguir a crônica científica da crônica literária. que o que se apreende não é literatura. escritores que se especializaram nessa forma sucinta de narratividade. que comenta as disputas de tênis. a crônica é o registro de acontecimentos num tempo e num espaço determinados. que um poema é imitação de outros poemas. Há. de jornalismo ou de comunicação. Diferentemente. Pertence a essa categoria a crônica histórica. Paulo Mendes Campos.60 crítica propostos por Northrop Frye: a) crítica “histórica”. com base na teoria dos modos (trágico. que significa "tempo". sendo conhecidos principalmente como cronistas: Rubem Braga. do Outono = Tragédia. transformam a realidade do dia-a-dia pela força criadora da fantasia. uma crônica atinge o nível de arte literária somente quando consegue superar os limites da transitoriedade própria da notícia cotidiana. d) crítica “retórica”. A maior ressalva que pode ser feita a esse sistema crítico proposto por Northrop Frye é que ele não considera a obra de arte como uma produção individual. qualquer tipo de crítica está sempre condicionada aos conhecimentos e à mundividência do sujeito pensante. de futebol. do Verão = Romance. Enfim.. mítica e anagógica). fundamentada nos símbolos (fase literal. ela não pode ser considerada como obra de arte. por exemplo). Raquel de Queirós e tantos outros. relacionada com os mitos primordiais (mito da Primavera = Comédia. e que. Em primeiro lugar. Evidentemente.). Tais cronistas. mas algo construído a partir de um cabedal cultural coletivo. pois na “Introdução polêmica” à sua obra afirma que a crítica é uma estrutura do pensamento autônomo em relação à arte. social. dependendo do pendor do autor para o gênero lírico ou narrativo. cômico e temático). teatro etc. que é uma lista de fatos arranjados conforme a ordem linear do tempo. embora possam apoiar-se em fatos acontecidos. Fernando Sabino. Um bom exemplo nos é dado por Manuel Bandeira: POEMA TIRADO DE UMA NOTICIA DE JORNAL JOÃO GOSTOSO era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número. . artística: a narrativa do dia-a-dia) Do grego Krónos. Daí decorre que suas crônicas são ou poemas em prosa ou pequenos contos. viva para hoje. Drama. é necessário que a obra examinada seja relacionada com os dados de um quadro conceptual formado por referência indutiva a uma perspectiva do conjunto da literatura num determinado contexto histórico e espacial. De um modo geral. música. Especialmente no Brasil. do Inverno = Ironia. fruto de convenções e gêneros. inclusive. colhendo o universal dentro do particular. portanto. Mas. o gênero “crônica” foi cultivado pelos melhores poetas (Carlos Drummond de Andrade. CRONOS (deus do Tempo. são profissionais que possuem um saber específico e usam uma metodologia científica em seu trabalho cotidiano. que repousa na teoria dos gêneros (Ëpos. formal.

podemos discernir duas constantes. mas também uma revolução. E há muitas divergências também: tradicionalmente. sendo objeto de estudo de várias áreas de conhecimento: Mitologia. época de reflexão. modificar. o Classicismo. A ele estão relacionados termos como diacrônico. Artes (Literatura e Cinema). independentemente das teorias sobre sua natureza. fantástico. um produto da nossa consciência. morais e . indica não apenas uma sucessão no tempo. simbolista. A definição de uma “época” é determinada apenas por uma sucessão temporal. em relação a um passado ou a um futuro. alterar. para explicar o caráter dos fenômenos da linguagem humana em sua evolução. O estudo diacrônico da cultura enfrenta problemas e controvérsias.61 tenha esperança no amanhã” (Einstein) O Krónos grego. o Barroco.). Barroco. pois não sabemos se existe independentemente da realidade exterior (tempo absoluto) ou se é apenas uma ilusão. modernista e contemporânea) serão analisadas em verbetes específicos. Alternância semelhante já fora intuída pelo filósofo napolitano Gianbattista Vico que. ora a critérios puramente artísticos (estilo rococó). apresenta a tese dos “cursos e recursos” históricos: a evolução dos povos não progride de uma forma linear. Sua essência é indefinível. Diferentemente. mas alguns críticos recuam seu início até os primeiros documentos escritos nas línguas modernas (séc. que pode ser dividido em várias “épocas”: Renascença. bem como no triunfo dos valores que compõem a ideologia social (ordem. por ser a expressão dos anseios de um grupo social que acredita nos valores humanos e na possibilidade do conhecimento da verdade. passando da idade “divina” período primitivo. No que toca a civilização ocidental. por exemplo. que podem incluir uma década (geração de 30) ou um milênio (Idade Média). o conceito de movimento. De uma forma quase aleatória. pois surge como manifestação consciente de oposição à concepção de vida e de arte do movimento anterior. podendo retornar outra vez à fase primordial. e assim vai. realista. Já o conceito de “movimento” é diferente do de época. é uma continuação do Renascimento. renascentista. com um olhar globalizante. uma revolta em relação aos cânones estéticos e aos conteúdos ideológicos do período anterior. ora se recorre a rótulos políticos (época elisabetana). ora a motivos culturais (Renascença). dinheiro. cada qual englobando várias Épocas ou Períodos. subverter. expressão da revolta do indivíduo contra a fixidez dos cânones estéticos e contra a opressão das injunções sociais. o termo diacronia e seu antônimo sincronia foram utilizados por F. romântica. à margem das variedades de estilos e de significados que caracterizam cada período cultural. conservadora). romana. bondade etc. podemos verificar a existência de uma alternância de formas e conteúdos relacionados com o código “cultura” (exaltação do social) e formas e conteúdos relativos ao código “natureza” (exaltação do indivíduo). anacrônico. beleza. tanto quanto a análise sincrônica ou estrutural. pois nada está imune à ação do tempo. do verbo “mover”. de Saussure. correspondente ao superconsciente e subconsciente freudiano (Freud). Com fundamento na oposição nietzschiana (Nietzsche) entre espírito “apolínio” (Apolo) e espírito “dionisíaco” (Dionísio). Filosofia. Tal teoria explicaria por que nações de apurada civilização voltaram à barbárie (Egito. Astronomia. cujo sema remete a remexer. Do grego diá (“através de”) e Krónos (“tempo”). na sua obra Ciência Nova. que se interessa apenas pelo objeto em si. Mas. é uma categoria da nossa mente. independentemente do tempo e do espaço. a Idade Moderna começa com a Renascença (séc. Psicologia. para a fase “humana”. caracteriza um tipo de arte dialógica (pluralidade de vozes. justiça. Matemática. o Romantismo é realmente um “movimento” cultural. poder. podemos adotar como base a divisão tradicional da Literatura em três Idades (ou Eras). Cabe aqui relevar. barroca. de racionalidade. Assim. Arcadismo. Mas as Idades (Antiga. contrariamente. Mas é evidente que o conceito de diacronia pode ser aplicado a todas as áreas do conhecimento. equivalente ao Tempus latino. o conceito de tempo está envolvido profundamente na nossa existência. ora a momentos históricos. que se repetem e ligam entre si vários momentos históricos. que nos faz imaginar como real algo que é apenas a memória do que foi ou a expectativa do que poderá ser (tempo subjetivo). que. já o código natural. contestatória) ou “carnavalizada”. amor. sincrônico.XV). para outros é uma oposição à estética clássica. O código cultural caracteriza um tipo de arte que o crítico russo Mikhail Bakhtine chama monológica (uma voz só. para termos um parâmetro da evolução da cultura através dos tempos. que nos faz distinguir o “agora”. medieval. mas cíclica. sem critérios estéticos ou ideológicos definidos.XI). o pai da Lingüística moderna. por exemplo). para alguns. Média e Moderna) e as épocas culturais (grega.

símbolo da fixação no passado. imaginado como o fluir da existência de todas as coisas. Umberto Eco distingue os cientistas. filósofos e artistas “integrados” dos “apocalípticos”. Filósofos posteriores chegaram à formulação de duas categorias temporais: 1) o tempo “absoluto”. Romantismo e Simbolismo. automotivo. Um . presente. a entidade impiedosa que devora o passado e começa sua implacável cavalgada rumo ao futuro.62 religiosas. divindade correspondente ao latino Saturno. se tornou o todo poderoso Senhor do Olimpo. Nasceu. que é a morte. tem como destino final a morte. gramatical. na tentativa de explicar a sensação do tempo. mas sei-o só quando não tenho de dizê-lo: quando não mo perguntam. sugere a idéia de um tempo que passa como manifestação de uma Presença que não passa. do conservadorismo. A história da cultura no Ocidente apresentaria. diacrônico. abrem-se e formam uma alvíssima espuma. em lugar do último fedo. Neoclassicismo e Realismo. atômico. O passado é o que persiste na nossa memória. cuja predominância se alternaria ao longo da sucessão das várias épocas: o espírito dionisíaco estaria mais presente na Idade Média. enquanto pura espiritualidade. A integração dos três tempos. Mas o fluxo da continuação do mundo é irrefreável: o sangue e o sêmen do deus Céu escorrem sobre a terra e sobre a água e mais uma vez a natureza é fecundada: suas genitália. solar. visceralmente ligado à materialidade. com quem começa a “história” da Mitologia grega. ao definir o Tempo como “a imagem móvel da Eternidade”. Cibele resolveu dar um fim ao infanticídio sistemático. Platão. os seres espirituais. atmosférico. que é eterno. o pai de todos os deuses. Ajudada por Gaia. a deusa da beleza e da paixão amorosa. ricos e pobres. Da mitologia para a sabedoria popular: Tempus fugit irreparabile (“O tempo foge sem retorno”). universal. enquanto o espírito apolíneo prevaleceria na Renascença. Assim. E o poeta Milton constrói uma imagem belíssima a respeito da fugacidade do tempo. enganando o marido: ofereceu-lhe para comer uma pedra. fluindo de uma forma constante e direcional. Ele pertence às chamadas “divindades primordiais”. da qual emerge Afrodite ( Vênus). pode vencer o Tempo. reconhece que a noção do tempo é algo paradoxal: “Eu sei o que é o tempo. Barroco. caindo no mar. Cronos simboliza o Tempo. pois não depende de eventos físicos. quando mo perguntam. Zeus ( Júpiter) que. temos o tempo sideral. duas linhas de força. casado com a irmã Réia (Cibele). Na Mitologia: os gregos. anacrônico). na tentativa de esconjurar o oráculo que predissera que ele seria destronado por um dos seus filhos. O Tempo. com a consciência da realidade: a alma é a verdadeira medida do tempo. A iconografia o representa com uma foice afiada. No Modernismo encontraríamos a confluência das duas tendências. herdadas da civilização greco-romana. sincrônico. o futuro é a expectativa que temos dos eventos a partir da atenção sobre o momento presente. O calendário ( Gregoriano) e o relógio são os instrumentos mais objetivos de que a ciência se serve para medir o tempo. forças misteriosas criadoras do Universo. Nas Ciências: as diversas áreas do conhecimento científico utilizam a categoria do tempo conforme fins peculiares. então. que precederam o surgimento de Júpiter. sem relacionar-se com qualquer realidade externa: é o tempo homogêneo de uma ordem matemática. que leva embora primeiro o que é mais bonito: “a rosa vive uma hora e o cipreste cem anos”. cronograma. filósofo e Padre da Igreja Católica. Filho de Urano (Céu) e de Gaia (Terra). sei-o. a arma de que se serviu para cortar os testículos do pai Urano. preexistentes à natureza. não compostos de partes. as 24 horas do dia e os sessenta minutos da hora são exata e democraticamente iguais para todos. Na Filosofia: a questão de definir a natureza da categoria “tempo” intrigou os melhores pensadores. é bem salientada por Nicolau Maquiavel: “para predizer o que vai acontecer é preciso saber o que ocorreu antes”. musical. devorava cada uma de sua própria prole ao nascer. então. Cronos (Saturno). Na mesma linha de pensamento. em suas Confissões. Apenas a Eternidade. Arcadismo. Os 365 dias do ano. relacionado com o espírito humano. 2) o tempo “subjetivo”. diziam os antigos romanos. mas com uma terminologia diferente. informático etc. no diálogo Timeu. não o sei”. destronando o pai. os deuses. Sant’ Agostinho. do idealista Platão ao existencialista Heidegger. da qual só escapam os entes imateriais. cronômetro. criaram o mito de Cronos (que deu origem aos termos cronologia. passado e futuro.

dias) ou pelo relógio (horas. fazendo cada coisa no tempo certo. Os valores cronológicos são regidos pelo princípio de causalidade: o hoc post hoc leva naturalmente ao hoc propter hoc. Para fazer luz no emaranhado das várias determinações temporais. tempo para trabalhar e tempo para descansar. Analisar o tempo do autor ou do leitor. pelo contrário. só deveria ser narrado mais tarde. no ato de ser rememorado. portanto. Felizes são os homens que conseguem gerenciar seu tempo e tirar da sua transitoriedade o melhor proveito. tarde. Os romancistas . das personagens e do leitor. especialmente na Literatura. perde sua pureza de passado e torna-se presente. Já o tempo da Fábula (Mito) é o tempo dos acontecimentos. preocupadas em criar uma ilusão de realidade. mensurável através de padrões fixos. velhice. referente à sucessão dos dias. a ficção literária é uma arte predominantemente temporal: toda diegese pressupõe um começo. As experiências intermediárias entre o evento passado e o momento da lembrança fazem com que esse passado não possa mais ser recuperado na sua integridade. Com efeito. leva à reflexão sobre o sentido da vida. é invertido quando o narrador nos diz antes um fato que aconteceu depois ou viceversa. Enquanto as artes plásticas são espaciais. que pode ser cronológico ou psicológico. em sua função de locutor. primeiramente. poucos instantes de felicidade ou de sofrimento podem perdurar na memória da personagem por um longo período de tempo e. além de muito difícil. Assim. segundos). sendo difícil distinguir um do outro. da história narrada. O tempo do discurso é o tempo do plano da “enunciação”. verão. entidades intratextuais. temporalidade e causalidade são dois conceitos que vão quase sempre juntos. um meio e um fim. que implica na existência de dois momentos temporais. Podemos falar.63 dos Reis da antiga Israel. Um romance é constituído por um complexo de valores temporais. do relato. do presente e do futuro são abolidas. outono. mediante o recurso técnico-estilístico da retrospecção. que é um suceder-se de nascimento e de morte: todo amanhecer acaba num pôr do sol e este numa nova alva. porque é o tempo da percepção da realidade. o narrador apresentando-se como narrador. inverno. porque se transformou pelo decorrer do tempo. primavera. revelada pelo aparelho formal da enunciação (Discurso). e os mecanismos aspectuais: incoativo-durativo-terminativo. meses. pois são personagens. O relevo do aspecto temporal é mais importante para o estudo do narrador e do narratário. No tempo psicológico. onde não há anterioridade de um sobre o outro. porque é no momento que nasce o filho que o homem se torna pai. o segundo. o narrador informa o leitor do início dos acontecimentos. as fronteiras do passado. É um pouco como a relação entre pai e filho. relativos e complementares: o tempo do eu que fala e o tempo do tu que ouve. do tempo da história ou do enunciado. O tempo da enunciação pode ser linear ou sofrer inversões: é linear quando a narração segue a ordem cronológica dos fatos. convergência do passado modificado pela memória e do futuro pressentido pelo espírito. de tempo do discurso só quando esse tempo está representado dentro da obra. minutos. mormente em narrativas de grande coerência diegética. das estações e da existência (manhã. O passado. O tempo psicológico. noite. distinguir o tempo do discurso ou da enunciação. a narração começa pelo meio ou pelo fim e só mais tarde. é necessário. juventude. a temporalidade é um importante componente sintático-semântico de qualquer texto. de um fato que. O tempo cronológico é aquele que é medido pela natureza. dizia que há tempo para tudo: tempo para plantar e tempo para colher. morte) ou pelo calendário (anos. pessoas externas ao texto. não é um tempo absoluto. portanto. em obediência à cronologia diegética. tempo para amar e tempo para guerrear. A relatividade do tempo do narrador e do tempo do leitor deriva do fato de que um pressupõe o outro e os dois tempos se complementam na instância do presente contínuo da enunciação. especialmente dos dias e das estações. É o tempo interior à personagem e a ela relativo. inversamente. quer dizer. em que se implicam os tempos do autor. nascimento. a quem é atribuído a autoria do livro bíblico Eclesiastes. não teria tanta relevância: seria pura curiosidade tentar saber quanto tempo levou o autor para escrever determinada obra ou se o leitor gastou um dia ou um mês para ler o texto. A observação da passagem cíclica do tempo. de “analepse”: o início da trama não coincide com o início da fábula. em proporcionar uma informação verossímil. é apenas o presente existencial. É pela categoria do tempo que se salientam as relações: passado-presente-futuro. Nas Artes. O que resta. da duração de um dado acontecimento no espírito da personagem. no plano do discurso. anos inteiros de vida rotineira podem passar despercebidos. O primeiro tipo de inversão temporal é chamado de “prolepse”: antecipação. do narrador. é o ato da leitura que instaura o ato da escritura e vice-versa. o sábio Salomão.

solilóquio e descrição onisciente. que pode ter como material as idéias. O Monólogo interior direto dá-se quando a personagem apresenta o conteúdo da sua consciência sem a interferência do narrador implícito e sem presumir a existência de um destinatário. que no Ulisses. mas como se passam na psique de uma ou mais personagens.64 que mais focalizaram o tempo psicológico (Proust. mas não que essas técnicas sejam exclusivas e que não se encontrem nessas obras trechos que apresentam o uso da descrição onisciente. o uso do monólogo interior se alterna com o uso da descrição onisciente. quer na sua função de ator que participa dos acontecimentos. A memória. da imaginação e dos sentidos. tempo histórico. de outro. tempo discursivo. predomina a técnica do monólogo interior e que em Enquanto agonizo. Devemos observar. É lícito afirmar. é impossível distinguir o que do como. Virgínia Woolf. de James Joyce. é preciso salientar o elemento comum. em terceira pessoa. descreve. que procuram tratar as neuroses pelo retrocesso ao “tempo de origem”. Clarice Lispector. porque a presença real ou fictícia do espectador é um elemento insubstituível do gênero dramático. pela liberdade expressiva do narrador e. através da memória. pela filosofia intuicionista de Bergson (especialmente pelo seu conceito de durée) e pelas teorias psicanalíticas. as sensações ou os sentimentos. todavia. evidentemente. os sentimentos e os processos de associação. em relação ao decorrer do tempo do mundo exterior. o mesmo autor aponta quatro tipologias básicas: monólogo interior direto. pode ser afetada pelo tempo psicológico. relacionada à primeira por elementos conjuntivos (semelhanças) ou por elementos . No solilóquio desaparece a interferência do narrador geral da narrativa que. Entende-se por “consciência” a área dos processos mentais. A Descrição onisciente é a técnica mais tradicional de focalização. que distingue uma narrativa de fluxo de consciência de outra tradicional: a “livre associação psicológica”. seja qual for a técnica usada. O crítico Robert Humphrey ( O fluxo da consciência) releva que “o campo da vida com o qual se ocupa a literatura do fluxo da consciência é a experiência mental e espiritual. Camus. quer na sua função de narrador que conta a história. Em outras palavras. Há um narradorobservador que sabe tudo a respeito de todos e descreve. O Solilóquio é diferente do monólogo interior pelo fato de que a personagem que narra se dirige formalmente a um destinatário ou admite implicitamente a presença de um público. sensações e acontecimentos não segundo a ordem do tempo cronológico. podemos ter um solilóquio (o ator que fala sozinho). entre outros) foram influenciados. à sua maneira. funciona como elo de ligação entre personagem e destinatário implícito. por exemplo. por exemplo. por exemplo. A forma lingüística que o distingue é o uso da primeira pessoa do singular e a "visão" que temos dos estados psíquicos é “com” o ator: percebemos fatos e sensações exclusivamente através dos olhos dessa personagem. lembranças. A diferença entre um romance convencional e um romance de fluxo de consciência reside no fato de que o narrador descreve idéias. De qualquer modo. ao tempo em que um acontecimento qualquer se fixou no subconsciente e causou um complexo. Essa técnica tem como recurso estilístico principal o chamado “discurso indireto livre” que se caracteriza. concepções e intuições. É a descrição da vida interior. analisa e comenta o que se passa na consciência da personagem. com suas incoerências e anacronismos. de William Faulkner. imaginações. na técnica do monólogo interior indireto. enquanto o “fluxo” é o caminho de um estado psíquico para outro. a tela sobre a qual se projeta o material romanesco. O “que” inclui as categorias de experiências mentais: sensações. Na representação de uma peça teatral. Podemos apenas falar da preferência de um autor (e em determinada obra) para a utilização de uma técnica em lugar de outra. de um lado. e a comunicação se estabelece diretamente entre ator e público. A consciência. num texto literário. o “como” inclui as simbolizações. tanto seu quê quanto seu como. que funciona como narrador de seu estado de espírito. pela completa adesão do narrador à vida interior da personagem. Muitas vezes. Numa narrativa de fluxo de consciência. ao estado puro. tem a faculdade de associar uma coisa com outra coisa. Na narrativa de “fluxo da consciência” a personagem de ficção. monólogo interior indireto. a personagem fala de seu mundo interior pela boca de outra personagem. que nenhuma das técnicas expostas se encontra. O Monólogo interior indireto diferencia-se do primeiro pelo fato de que a psique da personagem é desvendada pela intervenção do narrador que. tempo diegético). mas nunca um monólogo. é relevante o emprego do solilóquio. faz parte do conteúdo mental ou será um processo mental?” Quanto às técnicas usadas na apresentação do fluxo da consciência. o íntimo das personagens. tempo mítico ou de origem. a passagem entre várias categorias temporais (presente-passado-futuro. Joyce.

os soldados dos exércitos cruzados. semeie o grão. Realmente. adorado na cidade de Jerusalém. de tal forma que cada lado de um objeto. se tornaram as primeiras potências econômicas da Era medieval. em Paris. chamados de “espiritonovistas”. O termo “cubismo” foi inventado por Matisse. no afã de captar a estrutura profunda das coisas. de um plano. reconstruindo ambientes e costumes daquela época histórica e lendária (Medievalismo). do cone.65 disjuntivos (contrastes). independente das leis que regem a causalidade do mundo exterior. Do Cubismo ao Abstracionismo (a completa ausência de figurativismo). CUBISMO (corrente artística) Vanguarda. instrumento de madeira onde se pregavam os condenados à morte. Pisa e Veneza. ocorreram oito Cruzadas. numa exposição de 1908. o passo é breve. este movimento da Vanguarda européia está mais relacionado com as artes plásticas. o culto do objeto vai conduzir à destruição do real: a análise e a decomposição sistemática do objeto. Sociedade)ConhecimentoTrabalho “Se seus projetos são para um ano. desarticulando a forma e reduzindo-a a elementos puramente geométricos. O Cubismo literário apresenta um tipo de poesia em que a realidade é fracionada e expressa através de planos superpostos e simultâneos. dando uma visão do real fragmentada. isto é. estilhaçada. ocupada pelos turcos em 1077. foi a primeira revolução comercial. Os cubistas. através da percepção. Em 1907. se são para dez anos. o que ocorreu após a passagem do primeiro Milênio da história ocidental cristã. O alvo principal de expulsar os mouros de Jerusalém. CRUZADAS (luta entre cristãos e mouros)Medievalismo Do latim crux. o Salão de Outono. pela qual a realidade só pode ser apreendida de um ponto de vista único. René Magritte. Rompendo o cerco muçulmano no mar Mediterrâneo. Cézanne afirmava que a arte devia “reconstruir a natureza através do cilindro. O nome se explica porque os guerreiros cristãos se distinguiam pelo emblema de uma grande cruz estampado no peito. eduque o povo” . apresentou uma retrospectiva da obra do pintor Cézanne. Férnand Léger. imitados em seguida por Piet Mondrian. chefiadas por príncipes de Estados cristãos da Europa. Numa sua carta. que inclui a noção do tempo dentro do espaço. difundiam no Ocidente a cultura literária e artística dos bizantinos e dos árabes. A visão cubista faz ver “simultaneamente” aquilo que através da visão natural só poderia ser visto sucessivamente. o todo em perspectiva. Gênova. desenvolvendo um intercâmbio comercial regular com o Levante. mas as grandes expedições tiveram uma importância fundamental do ponto de vista cultural e econômico. cuja teoria poética influenciou autores europeus e brasileiros. Picabia. ao observar quadros de Braque. Esse chamamento psicológico forma uma cadeia cujos elos são ligados por uma coerência interior. O primeiro núcleo de pintores cubistas foi composto pelo encontro de Braque e Picasso. de que se beneficiaram principalmente as cidades marítimas italianas. de vários lados. Gauguin) já contestara a perspectiva euclidiana. se são para toda vida. Van Gogh. especialmente cinematográficas. As Cruzadas continuam sendo fonte de inspiração para obras literárias e artísticas. influenciados pela incipiente física quântica e pela teoria da relatividade (Einstein). Cidadania. Marc Chagall. De 1096 a 1270. se dirija para um ponto central”. Enquanto o Impressionismo procurava apreender a realidade “tal como a vemos”. O maior poeta desta tendência é Apollinaire. CULTURA (Educação. Picasso Do nome da figura geométrica “cubo”. o Cubismo tenta apresentar a realidade “tal como ela é”. que provocara o isolamento dos Estados europeus por cinco séculos. afastam a arte da verdade da aparência. Seus trabalhos principais são: Calligrammes (poemas que antecipam a nossa poesia “concreta”) e L ‘esprit nouveau (ensaio crítico). Mas. Foram chamadas “Cruzadas” as expedições militares promovidas pelo papado de Roma com o fim de libertar o Santo Sepulcro de Cristo. paradoxalmente. morto no ano anterior. plante a árvore. de uma forma definitiva. como se o mundo estivesse sendo visto através da refração de muitos espelhos. os cruzados estabeleceram um florescente comércio entre os povos da Europa e do Oriente Médio. O Impressionismo (Cézanne. começam a representar o objeto de um ponto de vista alternativo. Juan Gris. título também de uma revista. quando de sua volta. Enquanto introduziam estruturas feudais nos Estados maometanos. amigo íntimo de Picasso. não foi atingido. da esfera. A importância foi tanta que alguns estudiosos consideram as Cruzadas como a causa principal do primeiro Renascimento da Europa.

66

(Provérbio oriental) O sábio grego Sócrates dizia: “é preciso bem conhecer para bem agir”. O conhecimento é fundamental para o progresso social. A “informação” tem que levar ao “conhecimento”, este à “sabedoria”, terminando na “ação” adequada. De um modo geral, o termo “cultura” indica um conjunto de conhecimentos que enriquecem o espírito, apuram o gosto estético e desenvolvem o espírito crítico. Tal significado tem muito a ver com o sentido de outros significantes: cidadania, educação, instrução, trabalho, nação, sociedade, povo, civilização. Por baixo de diferentes etimologias pode ser encontrada uma semelhança semântica, que diz respeito ao modo de viver em sociedade. A palavra cultura vem do latim colere (“lavrar”), cultivar o campo que, nas línguas românicas, passou a indicar também cultivar a mente, adquirir conhecimentos através da “instrução”. Educação, do latim educationem, substantivo do verbo educere (e+ducere = “levar para fora”, fazer nascer, criar). Cidadania vem dos cognatos latinos civis, civitas, civitatanus, relacionados com o conceito de “cidade”, o reduto social que oferece a seus membros vários direitos, especialmente o de escolher seus governantes através do voto democrático: c ivis romanus sum (“sou um cidadão romano”) dizia orgulhosamente quem gozava dos privilégios da cidadania da antiga Roma, diferenciando-se dos escravos e dos estrangeiros. À cidadania está ligado o conceito de “Nação” (de nationem, relacionado com o verbo nascere = nascer), de “Povo” (de populum, o habitante do mesmo lugar, que fala a mesma língua e tem os mesmos costumes) e de “Civilização” (de civilis, civilitatem, do mesmo étimo de civis, o conjunto das características próprias que identificam a vida econômica, intelectual e moral de certas sociedades). Civilização é autocontrole. A repressão dos impulsos individuais é indispensável para viver em sociedade. Não sempre o que se deseja é bom para nós. Às vezes é até prejudicial. De outro lado, viver em sociedade implica numa renúncia de parte da liberdade da personalidade individual. É o preço que se deve pagar para gozarmos dos benefícios que a vida em sociedade nos proporciona. A sociedade humana passou por diversos ciclos de cultura, que a levaram a profundas transformações: nômade, agrícola, guerreira, comercial, industrial. Atualmente vive sob a égide da tecnologia, baseada na cultura da informação, que se tornou fundamental para o progresso: quando não há informações precisas, não pode se chegar a lugar algum. Mas apenas a informação é insuficiente: os dados adquiridos devem ser estudados, interpretados, para se chegar ao verdadeiro conhecimento, o saber que transforma a realidade, adaptando-a às sempre renovadas necessidades. Os diplomas obtidos por ter freqüentado cursos universitários, em si, não são suficientes, não garantem emprego algum. Como disse Benjamin Franklin, “um idiota letrado é muito mais idiota que um ignorante”, ou, segundo afirmou Paul Valéry, “não hesito em declarar: o diploma é o inimigo mortal da cultura”. O que se pede é inteligência e, sobretudo, competência, que se adquire pelo esforço do aluno em acompanhar o conteúdo das aulas com leituras e pesquisas em casa ou em bibliotecas. A relevância da leitura para a formação da personalidade individual é assinalada pelo poeta Mário Quintana, por um jogo de palavras: “livros não mudam o mundo; quem muda o mundo são as pessoas; os livros só mudam as pessoas”. É tão importante o estudo a domicílio que alguns países mais avançados estão instituindo a prática da Homeschooling: o ensino doméstico, ministrado por familiares e professores particulares, substituindo a escola pública, para melhorar a qualidade da aprendizagem, evitar o contato com gente de baixo nível e esconjurar o perigo do uso de drogas. A prática da educação em casa começou com o movimento hippies (Liberalismo), na década de 1960, que defendiam um tipo de ensino livre do sistema educacional conformista. A filosofia e a ética hippie surgiram em oposição à “Era da Repressão”, que até então dominara na educação da juventude. As bandeiras “Paz e Amor”, “Faça o Amor e não a Guerra”, “Faça o que quiser desde que não faça mal a ninguém” e semelhantes introduziram a “Era da Permissividade”. Pena que o ideal de liberdade praticado pelo modo de vida dos hippies tenha descampado para o uso da droga e da vagabundagem. Faltou acrescentar o item Trabalho à Paz e ao Amor. Não é justo que gente adulta tem que viver às custas do trabalho de outros. Seria uma nova forma de escravidão. O homeschooling, mais tarde, foi adotado por grupos de cristãos fundamentalistas, que queriam preservar valores morais e religiosos. Hoje, a educação em casa é um sistema de aprendizagem reconhecido pela maioria das Universidades inglesas e americanas, especialmente após a difusão dos sites de busca e das Universidades Livres via eletrônica pela Internet ( Informática). Mas, apesar dos sucessos obtidos, o ensino caseiro deve ser visto apenas como uma alternativa possível em alguns grupos

67

sociais privilegiados. A educação pública é insubstituível na maioria das sociedades, especialmente as mais pobres, pois estimula a ajuda mútua e o espírito corporativo, além da competição. Deve-se, isso sim, melhorar o ensino público, porque está comprovada uma estreita relação entre o nível educacional e o desenvolvimento econômico de regiões e países. Já os antigos romanos diziam: “non scholae sed vitae discimus” (devemos aprender para a vida e não para a escola), pois não adianta passar de ano, tirar um diploma e não saber nada. Fundamental é criar o hábito da leitura em casa, o meio insubstituível da aprendizagem pois, no dizer de do dramaturgo Ionesco, “a inteligência é como ferro; sem usar, enferruja”. Como afirma o escritor japonês Hateiva, “não há artesão sem ferramentas, nem sábio sem livros”. O que realmente importa, dá satisfação e recompensa monetariamente é a competência, o know hou, o saber como fazer alguma coisa. Educação, Trabalho e Economia são três fatores diretamente proporcionais: sem um bom nível de escolaridade não se consegue nenhum emprego decente e sem uma boa profissão não se ganha dinheiro honestamente. É um fato documentado por várias estatísticas que o crescimento econômico está ancorado na educação, haja visto que as nações mais desenvolvidas são as que mais investem em escolas, esportes, artes, na cultura física e intelectual de seus cidadãos, especialmente das crianças. Para se chegar à “sociedade do conhecimento” faz-se necessária uma “educação continuada”. Ninguém pode parar de se atualizar, devendo usar qualquer meio a sua disposição: cursos de pós-graduação, de reciclagem, de aperfeiçoamento profissional; acompanhar os progressos das ciências e das artes através da leitura de jornais e revistas; participar de congressos e exposições; assistir filmes, peças teatrais, bons programas televisivos; recorrer a sites de busca da Internet para obter mais informações culturais; não dispensar a orientação de docentes e pesquisadores especializados nos vários assuntos; e, sobretudo, ler muito, mesmo sob a forma de autodidatismo, pois a leitura, além das viagens, é o meio mais estimulante para a reflexão sobre a vida. Um ditado japonês ensina: “o pai que quer bem ao filho, o faz viajar”. Se não puder aprender diretamente através de viagens, que leia pelo menos! Se uma sociedade quer ver seus sonhos realizados deve promover a educação do seu povo, pois o bem-estar, individual ou coletivo, está na dependência de uma contínua aprendizagem. Ter um nível intelectual alto não está relacionado necessariamente com o emprego conseguido: nos Estados Unidos há universitários dirigindo táxi ou servindo em lanchonete; na Europa é comum uma moça fazer um curso universitário apenas para adquirir mais cultura, o que lhe permite ajudar os filhos a fazer suas tarefas de escola, compreender melhor as pessoas e a realidade em que vive, sentir a importância de uma obra de arte. Isso é civilização! A essência da educação de um povo reside no estudo das humanidades para desenvolver idéias, sentimentos e espírito crítico, além de qualquer objetivo prático. Mas é claro que inovações tecnológicas e temas atuais de física, biologia e genética não podem ser descuidados, devendo ser ensinados também nos chamados “departamentos de humanas”. Não faz mais sentido estabelecer barreiras entre as várias ciências e as artes. Um cientista sem cultura geral pode ser tão nocivo à sociedade quanto um humanista sem nenhum conhecimento científico. A escola pública e privada, nas várias áreas e nos vários níveis (não apenas no universitário), tem a função de fazer a cabeça do aluno e do cidadão, estimulando a curiosidade, o livre pensamento, a atividade criadora e julgadora. As seguintes perguntas do poeta e crítico T.S. Eliot indicam a necessidade da seqüência lógica, seguindo a linha informaçãoconhecimentosabedoriavivência: Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação? O polêmico historiador norte-americano David Landes, no seu livro A Riqueza e a Pobreza das Nações (1998), retoma, de uma forma mais ampla e fora do conflito religioso, a tese já clássica de Max Weber (1864-1920), exposta na famosa obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (Lutero). Para os dois estudiosos, a disparidade de crescimento entre os diversos países dos vários continentes tem como causa fundamental a falta de cultura e do espírito de trabalho. Com efeito, a análise histórica da decadência de civilizações outrora florescentes (Egito, China Imperial, Europa medieval, Islamismo atual) apresenta como elementos comuns determinantes, além do baixo nível do ensino público, os costumes

68

conservadores, a projeção da felicidade humana no além-túmulo, a falta de liberdade e de democracia, o espírito quietista e contemplativo, o desestímulo ao progresso e à criatividade. Os países que, deixando de lado o absolutismo fetichista, ignorante e supersticioso, de deuses e reis, investiram maciçamente na educação e na cultura de todas suas camadas sociais, com liberdade e democracia, estimulando a criatividade e o trabalho, atualmente são os mais desenvolvidos: USA, Japão, Alemanha e outras nações européias. No fritar dos ovos, só uma forte cultura laica e democrática pode levar a um desenvolvimento social, econômico e artístico, que possa ser duradouro por atingir a grande massa de um povo. E uma Nação, sozinha, não consegue alcançar o ideal de propiciar a felicidade a seus cidadãos, se estiver circundada de povos incultos e economicamente subjugados, pois seu poderio vai semear ódio e vingança, provocando guerras e terrorismo. O pesquisador americano Samuel Huntington, pelo influente livro O Choque das Civilizações, publicado em meado dos anos 90, é considerado o profeta da era moderna, pois parece ter previsto o desastre de 11 de setembro de 2001, quando o terrorismo islâmico derrubou as Torres Gêmeas de Nova York, ao escrever que haveria um choque iminente entre o Ocidente e o mundo muçulmano. Ele identifica oito tipos de civilização contemporânea: a chinesa, a japonesa, a islâmica, a russa ortodoxa, a ocidental, a latino-americana, a africana e a indiana. A que domina o mundo, atualmente, sem dúvida, é a Ocidental, que engloba os Estados Unidos da América do Norte e a maioria dos países europeus mais avançados. E também não há dúvida de que esta é a civilização mais progressista, pois fundamentada em princípios sólidos, herdados das instituições constitucionais que se sucederam à Revolução Francesa: democracia liberal, mercado livre e forma de governo laico. Através do processo de Globalização, a civilização Ocidental tenta impor sua cultura aos outros povos. O exemplo é o milagre da Comunidade Européia. No dia 1º de maio de 2004, mais uma dezena de países do Leste do Continente aderiram ao Mercado Comum, totalizando 25 nações que aboliram fronteiras e moedas. Mas, no Oriente Asiático, a missão é mais difícil, pois modernizar civilizações implica na perda da identidade cultural e religiosa de povos que têm tradições milenares. A mais problemática é a civilização islâmica pela sua extensão territorial, pela massa populacional e, sobretudo, pelo imenso poder que a Religião muçulmana exerce sobre o governo do Estado. E a história nos ensina que todo o regime teocrático é “involutivo”, pois qualquer tipo de “fundamentalismo” é retrógrado, impedindo o livre exercício da liberdade e da criatividade. Veja-se, por exemplo, o atraso em que ficou a Europa durante a era da dominação cristã, do séc. V ao XI. É impressionante constatar que por mais de seiscentos anos, afogada a cultura greco-romana, nenhum país europeu produziu um filósofo, um cientista um artista, sequer! Alguém conhece algum homem ilustre que viveu durante esses longos seis séculos? Não é uma vergonha para a Humanidade? (Medievalismo) O fanatismo religioso, de qualquer credo, é a perene causa da guerra, da injustiça, da miséria, da ignorância e da escravidão ética e econômica de um povo. Deus está muito bem no Céu, mas, quando desce na Terra e assume o poder público pelas mãos de padres, pastores, talibans ou aiatolás, é uma desgraça cívica, na certa! Infelizmente, a maioria das culturas religiosas, enraizada em tradições seculares, impõe um tipo de vida que contraria a própria natureza, tolhendo ao homem o seu dom mais precioso, o de pensar e agir livremente. Como afirmou Marcel Proust, “a persistência de um costume está, geralmente, em relação direta com o seu absurdo”. É desalentador constatar como a cultura de massa generaliza a imbecilidade! O que nos chamamos de vida social ou de moral burguesa, no fim, é uma grande hipocrisia que, o que é pior, nos faz viver numa estado de infelicidade no maior tempo de nossa existência.. Stendhal definiu a sociedade como um “ignóbil baile de máscaras”. Quem sabe, um dia, o homem aprenda a fazer correto uso da sua racionalidade e crie uma sociedade onde predomine o bom senso, fundamento de um possível viver em tranqüilidade! CUPIDO (deus do Amor, filho de Afrodite)Eros Psiquê Vênus CYRANO de Bergerac (peça teatral de Edmond Rostand) Refletir é desordenar os pensamentos... Eu não tenho verdades, somente convicções. (Rostand)

69

Edmond Eugène Alexis Rostand (1868-1918), poeta e dramaturgo francês, representa a reação neo-romântica ao teatro naturalista. A obra que o tornou internacionalmente famoso foi Cyrano de Bergerac. O personagem-título é uma adaptação teatral de uma figura histórica, um homônimo que viveu na época barroca, soldado e poeta, que adquiriu fama pelo seu nariz descomunal e pelas suas Cartas de amor. Rostand faz de Cyrano um herói tipicamente romântico, com nuances de cavaleiro medieval: gentil, de nobres sentimentos, apreciador do amor sincero, da amizade, do altruísmo, que luta contra a covardia, a hipocrisia, a opressão dos poderosos. O centro romanesco: Cyrano, homem maduro e com um nariz enorme, ama a linda Roxana, sua prima. Mas ela está mais ligada na beleza do jovem Cristiano, amigo de Cyrano. Só que o rapaz não possui a arte de seduzir as mulheres, pois lhe falta o brilhantismo verbal, os ditos inteligentes e espirituosos, que tanto encantam Roxana. Cyrano, então, renuncia ao seu amor pela prima em favor do amigo, ensinando-lhe como conquistar o coração da jovem. O plano tem pleno êxito: Roxana se apaixona pelas belas palavras e pelas cartas inflamadas de Cristiano que, na verdade, são de autoria de Cyrano. Somente no fim da peça, anos depois da morte do marido Cristiano, Roxana vai perceber a nobreza de sentimentos e o amor profundo que seu primo sentira por ela. Mas é tarde demais: Cyrano também morre, vítima de um ferimento. Esta peça teve, tem e continuará tendo grande sucesso de público, pois o personagem-título simboliza o que poderíamos chamar de “romantismo eterno”. O sentimento profundamente altruísta da renúncia do próprio amor, ajudando o rival a conseguir o afeto da jovem, objeto do seu próprio desejo, encanta a vasta camada de público que gosta de ver projetado no palco, como na tela do cinema ou da televisão, a imagem do ser humano idealizado, capaz de sublimar seus instintos. Acrescente-se ainda que um motivo tão sublime é tratado sem nenhum pedantismo ético ou religioso, mas com um tom alegre, divertido, pois a feiúra do nariz de Cyrano contrasta com a beleza de seu coração e de seus ditos espirituosos. A peça Cyrano de Bergerac teve a melhor adaptação cinematográfica com o nome de Roxanne (1987), com direção de Fred Schepisi e interpretação de Steve Martin, Daryl Hannah e Rick Rossovich. DADAÍSMO (movimento estético do Modernismo europeu)Vanguarda O movimento artístico da vanguarda suíça, que ocorreu entre 1916 e 1921, teve seu nome “dadá” (as primeiras sílabas faladas por uma criança) escolhido ao acaso, quando Tristan Tzara abriu o dicionário Larousse, no cabaré “Voltaire” de Zurique. Ele e outros intelectuais e artistas, revoltados contra os horrores da I Guerra Mundial, tentaram substituir a cultura do passado por algo de novo, sem saberem exatamente o que fosse. O movimento se caracterizou por um cunho fortemente anárquico, expressando a rebelião da geração jovem contra os poderosos círculos internacionais e a burguesia acomodada. Foi uma tentativa essencialmente contestatória, antiarte por excelência pois, através de arruaças, exposições extravagantes, agitações anárquicas, banquetes excêntricos e tumultuados, os dadaístas gritavam a sua trágica revolta, ridicularizando tradições e valores institucionalizados. A única norma estética era a “lei do acaso”, apregoando a poesia e a pintura automáticas: faziam poemas remexendo alguns recortes de jornais no fundo de um chapéu; misturavam tintas sem nenhum critério; convidavam os visitantes de suas exposições a quebrarem os quadros à vontade, pois achavam que não tinham nenhum valor eterno; choravam nas cerimônias nupciais; davam risadas durante os enterros; enfim, pregavam e praticavam o mais absoluto inconformismo. Da Suíça o movimento se espalhou para o mundo, sendo cultivado especialmente em Nova Iorque, onde expuseram seus objetos Picabia, Man Ray e Duchamp, e em Paris, conseguindo a adesão, no campo literário, de André Breton. Mas este poeta francês logo renegou o Dadaísmo por achar que não levava a nada e, em 1921, deu origem à corrente surrealista (Surrealismo). DAFNE (e Dáfnis: o mito da virgindade glorificada e a origem do loureiro) Em grego, a palavra dafne significa “louro” e, por ser uma planta que permanece verde no inverno europeu, passou a simbolizar a “imortalidade”, adquirida pela “glória”. Consagrada ao deus Apolo, suas folhagens eram usadas para coroar os heróis das guerras e dos esportes, os poetas e os sábios. Na origem das crenças e dos cerimoniais está o mito de Dafne, que teve várias versões, mas que, na sua essência, pode ser reduzido à seguinte história ficcional: uma jovem e bela ninfa consagra-se a Diana, deusa da virgindade, fazendo voto de renunciar ao amor e ao casamento. Mas o deus Apolo se apaixona por ela e a persegue, tentando convencê-la a ceder à paixão amorosa. Ela resiste, se esconde, foge, até que, quando

70

está para ser violentada, Júpiter intervém e a transforma em loureiro. Triste e arrependido, Apolo consagra o vegetal ao seu culto. A lenda da jovem Dafne, na mitologia grega, tem um correspondente masculino: Dáfnis, um semideus siciliano, abandonado pela mãe num bosque de loureiros consagrado às ninfas. Estas ensinaram ao belo rapaz como pastorear, Apolo o instrui na arte de tocar flauta e a deusa Diana o treinou para a caça. Os mitos de Dafne e de Dáfnis estão entre os mais explorados, junto com os de Orfeu e de Édipo. Encontramo-los em várias manifestações artísticas da cultura ocidental: Literatura, Teatro, Dança, Artes plásticas, Cinema. A fábula de Dafne aparece na Grécia, documentada a partir do séc. III a.C. Uma das primeiras narrativas ficcionais em prosa da língua grega é o romance pastoral Dáfnis e Cloe, de autoria de Longo (Longus em latim e Lóggos em grego). O poeta latino Virgílio faz várias referências ao mito de Dafne na Eneida e nas Bucólicas; mas é o lírico romano Ovídio, o poeta do amor, que, em suas Metamorfoses, melhor dramatiza a história de Dafne, dando-lhe inclusive alguns toques de volúpia: o vento levanta sua roupa durante a fuga, como que para mostrar melhor seus encantos ao perseguidor. A partir do fim da Idade Média, mas especialmente ao longo do Renascimento, Barroco e Arcadismo, a figura de Dafne é cristianizada, chegando a ser identificada com a Virgem Maria, fecundada por Deus e continuando Imaculada. Dafne é a eterna configuração do amor que, não sendo satisfatória sua realização ao nível carnal, se transfigura e atinge a imaterialidade, a eternidade. É a representação da mulher angelical que resiste ao assédio sexual, pois quer que o homem amado a deseje num outro nível, o espiritual. É a mulher sonhada pelos poetas provençais (Trovadorismo), é a Laura de Petrarca, a Beatriz de Dante, a Dulcinéia de Cervantes. DALI, Salvador (pintor espanhol)Surrealismo DANÇA (clássica, moderna, de salão, sapateado, biodança)Música Uma úlcera é uma dança não dançada, uma aquarela não pintada, um poema não escrito (Jonh Ciardi) O étimo é do antigo francês dancier, atual danser, enquanto os termos afins baile e balé derivam do verbo latim ballare. Os gregos usavam o verbo orkeomai , cognato do substantivo “orquestra”, para indicar a ação da dança que, na sua essência, é a linguagem do corpo, resultando da soma de duas artes: Coreografia e Música. Mas ela estabelece relações com outras artes também: com o Teatro , pela representação cênica (o dramaturgo sueco Strindberg intitula uma sua peça A dança da morte, em que põe em cena o “vai-vem” monótono da vida conjugal, que torna marido e mulher dois adversários mesquinhos e sórdidos); com o Cinema, especialmente os filmes musicais, dancings, sapateados; com o show artístico e folclórico, com a Pintura (o quadro mais famoso com o título “A Dança” é de Henri Matisse), a Escultura (o modelo em gesso, de Jean-Baptiste Carpeax, também chamado “A Dança”). Fora do campo das artes plásticas, a dança estabelece uma relação profunda com a Religião, especialmente nas suas formas primitivas e rituais dos grupos tribais e nos cerimoniais sagrados orientais. A dança é uma das artes mais presente nas manifestações culturais de todos os povos e em todos os tempos. A universalidade do uso da dança talvez encontre sua explicação no inconsciente coletivo, simbolizado pelos gregos através do mito do andrógino: o irresistível desejo da volta à primordial conjunção do ser masculino e feminino, separados por vontade de Júpiter. Na dança, especialmente em suas modalidades mais sensuais, o homem e a mulher se entrelaçam, tentando reconstruir a perdida unidade. Nos povoados primitivos a dança, praticada muito mais do que nas sociedades civilizadas, funciona como uma espécie de terapia ocupacional, uma fuga da monotonia do cotidiano e, sobretudo, um aprendizado, pois ritos, ritmos e coreografias servem como iniciação nos mistérios da vida, representando fertilidade, casamento, guerra, morte. Mesmo nas sociedades aculturadas, a prática da dança, especialmente a de salão, tem seu aspecto educativo. Como afirma Stephen Kanits, há trinta anos (anteriormente à moda da música de discoteca), os adolescentes escolhiam seu par em bailes de salão organizados por clubes ou igrejas. Nestes bailes, as moças acabavam conhecendo o caráter dos futuros maridos pelo modo como o jovem conduzia a parceira, planejava o rumo dos passos, lidava com o fracasso, quando um pisasse no pé de outro. O olho no olho, o carinho do toque, o cheiro da pele, o romantismo da música e das letras estimulava a atração física e espiritual.

71

A dança, como qualquer outra atividade humana, evidentemente, evoluiu ao longo dos tempos, adquirindo várias denominações: primitiva, religiosa, folclórica, de salão, de corte, latina, caribenha, carnavalesca etc. Ela é praticada por diferentes ritmos e movimentos, nas várias modalidades. Uma importante divisão é feita entre dança “clássica” e dança “moderna”. Até o início do do século XX, paralelamente às formas populares de bailado, era cultivada a chamada dança clássica, de escola ou de salão, rigorosa quanto aos ritmos, à coreografia, aos calçados e às vestimentas; até que a dançarina norteamericana, de origem irlandesa, Isadora Duncan (1878-1927), revolucionasse o conceito de dança, libertando esta arte das amarras dos modelos rígidos ensinados especialmente nas escolas francesas de “La Belle Époque”. Duncan, retomando o modelo da dança primitiva da Grécia, vestida com uma simples túnica, descalça, movimentava-se ao som de músicas que não tinham sido compostas especificamente para a dança. Nascia, então, a dança “livre” ou moderna, sem nenhuma regra fixa quanto a ritmo, movimento ou coreografia. Portanto, a tipologia contemporânea da dança apresenta três macro-gêneros, cada qual com suas variadas espécies: l) a dança popular ou folclórica; 2) a dança clássica; 3) a dança moderna. Evidentemente, tal divisão, como qualquer classificação, é apenas didática, nunca rígida, podendo-se encontrar formas intermediárias ou misturadas. Eis uma pequena revista dos principais ritmos de danças e bailados: Sapateado: dança de origem espanhola, mas que chegou à glória máxima nos EUA ( tap-dance) com o teatro de vaudeville, o showbiz e o cinema de Fred Astaire. Sua característica é marcar o ritmo musical com a ponta e o salto dos sapatos, às vezes munidos com chapas metálicas. Um personagem do filme de Fellini Ginger & Fred afirma, com uma boa dose de sarcasmo, que a origem do sapateado está no sistema de comunicação entre os escravos que trabalhavam nos algodoeiros americanos. Eles usavam as batidas dos pés como uma linguagem secreta, uma espécie de alfabeto Morse, para não serem entendidos pelos patrões, fazendo do sofrimento um show. Habanera: de Havana, era um bailado afro-cubano que, com seu compasso binário, tendo o primeiro tempo fortemente acentuado, influenciou a maioria das danças populares dos países ibéricos e hispano-americanos, especialmente o maxixe (dança carioca da década de 1870-1880, substituída pelo samba), a milonga e o tango. Bolero: dança e canto de origem castelhana, tradicionalmente acompanhada de castanholas, guitarras e tamborim. Na sua versão mexicana, o bolero começou a ser cultivado em toda América Latina, a partir do início do séc. XIX. Na da década de 20, com o surgimento da primeira fábrica de discos, o bolero mexicano invadiu o mercado da música latino-americana. Forrô: o étimo mais aceito é do inglês for all (“para todos”). No Nordeste brasileiro, os donos de engenhos e outros ricaços estrangeiros, após suas festas, liberavam os terreiros para os escravos e outros serviçais se divertirem, bailando ao ritmo da sanfona, zabumba e triângulo O ritmo popular, dançado nos pés-de-serra, se urbanizou e do Nordeste se espalhou pelo país todo, sendo hoje em dia a música mais tocada nos bailes de salão, especialmente durante as festas juninas. Mambo: do zulu im-amba (“cobra”), o mambo é uma dança de origem cubana. O ritmo é mistura de rumba (outra dança cubana de origem africana) e de swing (“balanço”), também chamado de soltinho, uma qualidade rítmica do jazz norte-americano em voga na década de 40, chamada a “era do swing”, tocado pelas big bands. Neste tipo de bailado bem sensual, o compasso de 2/4 é realçado pela percussão e pelo jogo dos quadris, alternando o lado. Milonga: o étimo é de origem africana, a língua falada pelos Quimbundos, indígenas de Angola, que chegaram na baia do rio de La Plata, nos fins do século XIX, morando nos subúrbios de Buenos Aires e Montevidéu. O sentido primitivo de milonga é “palavra”, daí a expressão em língua portuguesa “deixa de milongas”, de palavreado longo, vazio, mentiroso. Mas milonga significa também um canto platino dolente ao som do violão e uma dança em ritmo binário, uma mistura de habanera e tango andaluz que, embora ofuscado pelo tango argentino, ainda tem seus cultores. Tango: em suas origens, a palavra “tango” indica um tambor africano e a dança executada ao som desse instrumento musical. Em fins do séc. XIX, surgiu nos subúrbios de Buenos Aires, o famoso “tango argentino”, que se tornou uma das mais famosas e duradouras dança de salão sul-americana. A perfeição

72

de sua configuração rítmica e coreográfica, em suas múltiplas variantes, foi conseguida pela convergência de várias danças anteriores: a cubana habanera, a africana milonga, o tango andaluz e outros ritmos populares europeus, além do candomblé brasileiro. Dança muito sensual pelo forte entrelaçamento dos corpos do casal, no começo era praticada por mulheres levianas que, na zona do porto do rio de La Plata, proporcionavam diversão aos marinheiros e viajantes. Mas, aos poucos, começou a ser aceita pela sociedade, tornando-se dança de salão, sendo ensinada e praticada nas mais importantes cidades da Argentina e da América do Sul, ultrapassando inclusive as fronteiras continentais. Tarantela: do italiano Tarantella, nome topográfico da cidade siciliana Taranto, é uma dança popular do Sul da Itália. De ritmo bem alegre, a música é acompanhada de tambor ou de castanholas e, geralmente, também pelo canto coral. Esteve na moda entre o fim do século XVIII e o início do XIX. Atualmente faz parte do folclore da Itália Meridional. No Brasil, a Tarantela ainda é cultivada por grupos de origem italiana e por simpatizantes, dançada durante festas a caráter. Valsa: do alemão walzer, do verbo walzen (“girar”). É uma dança de salão padronizada, em três tempos, caracterizada pelo rodopio dos casais. De origem austríaca, passou a substituir o minueto nas festas da alta burguesia euopéia. Além da valsa-dança, temos a “valsa de concerto”, que teve muitos cultores na música sinfônica. Famosa é a valsa vienense, de ritmo bem vivo e rápido, cujos clássicos foram Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Weber, Chopin, Liszt e os três irmãos Strauss (Johann, Joseph e Eduard). No Brasil, a valsa costuma ser tocada e bailada em ocasiões especiais e solenes, como festas de formatura e de aniversários. A valsa passou a identificar o bailarino: é chamado “pé-de-valsa” quem dança bem. A dança contemporânea: a partir dos anos 50, quer os ritmos latinos, quer os norte-americanos, apresentam a tendência a separar os casais, prestigiando a dança solta, individual ou em grupo, embalada pelo ritmo frenético do saxofone, das trombetas e dos instrumentos de percussão. Uma série de modas se sucede: swing, salsa, calipso, cha-cha-cha, twist, rock-and-roll, hully-gully, iê-iê-iê, jazz ( Música). Nas discotecas, as novas gerações se divertem acompanhando o ritmo dos metaleiros com movimentos livres, improvisados, sem condução do parceiro, cantando numa língua que a maioria não conhece. É uma pena que a percussão esteja matando a melodia e a dança não entrelace mais homem e mulher, que é a melhor configuração artística da conjunção do masculino e do feminino! Mas, felizmente, ainda há gente de bom gosto (especialmente adultos) que prefere o som harmônico da dança de salão à barulheira da discoteca. À biodanza dedicamos um verbete específico. DANTE, Alighieri (poeta símbolo da Itália: A Divina Comédia) Lasciate ogni speranza voi che entrate “Deixai qualquer esperança, vós que entrais”: este famoso verso se encontra na porta de entrada para o Inferno, a primeira parte de La Divina Commedia, a obra-prima de Dante, da literatura italiana e da cultura da Idade Média. Apesar do nome “Comédia”, e do sentido de “Epopéia”, a obra não faz parte do gênero dramático e nem do épico, sendo um longo poema “didático-alegórico”, por ter uma finalidade educativa e porque os ensinamentos são ministrados por uma cadeia de "símbolos", isto é, signos materiais que remetem à espiritualidade. Mas, se a obra máxima de Dante não é propriamente a epopéia de um homem ou de um povo, ela se configura como o epos de toda a humanidade, na busca do caminho da justiça social e da perfeição moral. A grandeza do poeta italiano reside em ter conseguido elevar à categoria da universalidade os problemas seus e de sua terra natal, através da força transformadora da arte. É por isso que seu poema parece ser sempre atual ao leitor de qualquer tempo e de qualquer lugar. De outro lado, é evidente o estrito parentesco da Divina Comédia com a poesia épica greco-romana. Virgílio, junto com o próprio Dante e a amada Beatriz, é uma das três personagens principais do poema. O autor da Eneida é escolhido como mestre e guia espiritual e poético. A idéia central da obra dantesca, expressa através da imagem da vida como longa peregrinação em busca das origens divinas do homem, já se encontra na Odisséia e na Eneida: Ulisses, que volta para sua terra natal, e Enéias, que chega à terra de seus ancestrais, são os protótipos de Dante, que, exilado, não conseguindo retornar a sua Florença, torna-

Por isso que A divina comédia é. entrou em luta com a casa dos Wibling. cujos principais heróis foram Mazzini (com suas progressistas idéias filosóficas e políticas) e Garibaldi (com sua ação militar). A própria Divina Comédia. que apoiava o imperador em suas pretensões de domínio. imaginando voltar para o seio de Deus ( Paraíso). Mas sua vida política era perturbada pelas lutas externas (com outros principados) e internas. de cânones estéticos e morais. O conflito entre o partido dos Guelfos e dos Guibelinos. toda a herança da cultura clássica é transubstancializada pela cosmovisão da Idade Média (Medievalismo). no Asno de ouro (Metamorfoses).73 se cidadão do mundo. de onde a humanidade emanou. a ficção mais fantástica que o gênio humano foi capaz de produzir. O partido dos . do povo italiano do fim da Idade Média. Mas este aspecto particular. quer do poder papal. onde a casa nobiliar dos Wolf. o autor da Divina Comédia se apresenta na obra com sua pessoa física. a predestinação do herói. No poema. cada qual recorrendo à ajuda estrangeira. personagem do mundo imaginário. A Florença da época de Dante. porque Virgílio vai embora. tornara-se o centro da cultura italiana. a amada Beatriz chama-o pelo nome verdadeiro: Dante. que defendia os direitos dos pequenos Estados feudais. vivendo quase de esmolas. foi a realidade histórica e social. após o movimento romântico. sendo o berço de poetas e artistas. de pequenas indústrias e de artesanato. o recurso aos personagens da mitologia greco-romana. Na Itália. peregrinando de uma cidade para outra. A motivação. É também a “história de um povo”. pois seu protagonista assume o papel simbólico de cidadão do mundo. e o "narrador". no mês de maio de 1265. Antes. pessoa do mundo real. o recurso dos sonhos e da sua interpretação simbólica. e como fará mais tarde Cervantes. está impregnada de um profundo realismo. que ele apresenta em seus traços verdadeiros. Dante Alighieri nasceu em Florença. de instituições políticas e sociais. pois chorar te convém por outra dor. Como já fizera Apuleio. o 'eu" que narra não é diferente do "eu" que vive os fatos e do "eu" que escreve a história. a pátria de Dante viveu por longos séculos desmembrada em vários pequenos Estados. Além do motivo central da viagem. É de se lembrar que a Itália só adquiriu unidade e independência política no século XIX. não chore ainda. devido ao cunho autobiográfico que ele quis infundir em seus trabalhos literários. em Dante quase se anula. Nele. teve nome e origem na Alemanha. de uma modesta família guelfa. que deu origem ao “Risorgimento” italiano. comparável às "sumas" filosófica e teológica de Tomás de Aquino. que assolou a Itália por vários decênios. pois em todas elas temos referências explícitas à sua vida. no Dom Quixote. sendo seus contemporâneos. Dante deve a Homero e a Virgílio uma série de topos próprios da poesia épica. A maioria de seus personagens pertence ao mundo de Dante. quer do poder imperial. que faz parecer o poema de Dante quase como uma "crônica" da Florença de sua época. confirmados pelo testemunho de historiadores. Notícias sobre o autor e a época As principais fontes biográficas de Dante Alighieri são suas obras. é sublimado pelo poder da arte. Enumeramos os mais importantes: a descida ao inferno e a subida aos campos Elíseos. Mas. que sofre e luta para alcançar os ideais cívicos da união. A diferença que hoje se costuma estabelecer entre o "autor". o que é mais importante. que confere universalidade a episódios contingentes. da justiça e do amor nesta terra e a fé num mundo melhor no além. A divina comédia é a “história de um homem” que viveu seus últimos vinte anos de vida no exílio. ainda não chore. enquanto o dos Guibelinos defendia o direito do imperador germânico. dividido em várias cidades-Estado em contínuas lutas pela sobrevivência política. “a história da humanidade toda”. E. após uma longa viagem de sofrimento (Inferno) e de purificação (Purgatório). a fonte doutrinal do poema dantesco. enquanto o poeta latino Virgílio foi sua fonte estética. A divina comédia se constitui no compêndio da civilização medieval: nesta obra se condensam e revivem em forma de arte dez séculos de concepção filosófica e religiosa. referindo-se à sua realidade existencial. o antagonismo do espírito pagão e do espírito cristão é superado pela síntese das duas posturas perante a vida. em Dante. sobretudo. minúscula república opulenta por ser um centro de comércio. que determinou a colocação da enorme bagagem cultural de Dante em forma de arte. Podemos considerar a obra de Dante como a "suma" poética da Idade Média. vítima de ódios políticos. o partido dos Guelfos estava a favor do poder papal. o uso da invocação às musas. a profecia dos eventos futuros.

74

Guelfos que, na época de Dante, governava a cidade, estava dividido em duas facções: uma, chefiada pela família dos Donati, representava a nobreza tradicional; outra, comandada pelo clã dos Cerchi, era formada pela burguesia que, enriquecida pelas suas atividades industriais e comerciais, aspirava a uma participação efetiva no governo da cidade. De um conflito entre famílias da vizinha cidade de Pistoia, as duas facções tomaram o nome de “Bianchi” (de Bianca Cancellieri) e de “Neri” (Negros, em oposição). Os primeiros constituíam, por assim dizer, o partido democrático, ciosos como eram de suas liberdades cívicas; os segundos, o partido tradicional e aristocrático, favorável à tutela e à intervenção do papa nos negócios internos de Florença. Saliente-se que a briga entre famílias poderosas pelo governo de um pequeno Estado era comum na Itália do fim da Idade Média. Lembramos a rivalidade das famílias Montecchi e Capuleto, em Verona, que originou a imortal história de Romeu e Julieta. Apesar deste clima de lutas, a infância de Dante foi tranqüila. Recebeu a primeira formação intelectual no convento de Santa Cruz dos padres franciscanos, completando os estudos literários, retóricos e filosóficos com o mestre Brunetto Latini e nas universidades de Bolonha e de Paris. Ainda quando tinha nove anos, ficou deslumbrado ao defrontar-se, numa festa, pela primeira vez, com Beatriz Portinari, um ano mais nova, menina de uma beleza angelical. A visão de Beatriz marcou profundamente a psique do futuro poeta. Mas este amor puro não lhe impediu de ter relações amorosas com outras senhoras. Beatriz morreu em 1290, e Dante, já há tempo órfão, acabou contraindo matrimônio com Gemma Donati, com quem teve três filhos. Sua tranqüilidade teve fim quando começou a participar da vida pública, inscrevendo-se na corporação dos médicos. Ocupou cargos importantíssimos como membro do Conselho dos Cem, várias vezes embaixador e um dos seis priores, que constituíam o poder executivo da cidade. Sua ação política visou sempre a apaziguar as facções rivais, não escondendo todavia sua simpatia pela causa dos Bianchi, o partido mais humilde. Seu parecer de expulsar da cidade os homens mais violentos das duas greis foi aprovado pelo Conselho dos Cem, mas, na execução da ordem, os mais atingidos foram os Neri, entre os quais se encontrava o poeta Guido Cavalcanti, o maior amigo de Dante. Este fato atirou sobre o poeta o ódio do partido, que pediu a ajuda do papa Bonifácio VIII. Este solicitou a intervenção do rei da França, Felipe o Belo, que enviou a Florença seu irmão Carlos de Valois para punir a facção dos Bianchi. Com a ajuda do papa e da casa da França, em fins de 1301, os Neri expatriados retornaram a Florença e perpetraram a vingança, depondo os Bianchi do poder e saqueando suas residências. Era a vez de os Bianchi serem exilados. Dante, durante a viagem de regresso de Roma, onde fora em embaixada para evitar a intervenção papal, tomou conhecimento da vitória dos Neri e de sua condenação a uma multa de cinco mil florins e ao exílio por dois anos. O poeta, sem dinheiro, indignado pela injusta sentença e temeroso de enfrentar seus inimigos exacerbados pelo ódio, ficou na vizinha cidade de Siena. O não-pagamento da pena pecuniária provocou outra sentença bem mais rigorosa: o confisco dos bens e o exílio perpétuo, com a pena de morte, caso voltasse à cidade natal. De 1302 a 1321, ano de sua morte na cidade de Ravenna, Dante peregrinou por vários Principados do centro e do norte da Itália, tentando sempre em vão o almejado retorno a Florença e vivendo da compreensão dos nobres italianos, que começavam a admirar seu gênio poético. Esta frase sintetiza a vida atribulada do poeta: “não há dor mais profunda do que se lembrar do tempo feliz quando se está na miséria” Composição da obra A Divina Comédia é composta de três partes, chamadas de cânticos: "O Inferno", "O Purgatório" e "O Paraíso". Cada cântico se compõe de trinta e três cantos, com exceção do primeiro que contém trinta e quatro, pois inclui o primeiro canto, que é introdutório ao poema todo. A obra é constituída, portanto, de cem cantos. Cada canto, com uma média de cento e trinta versos, é composto de um número variável de tercetos, de versos decassílabos e de rima alternada. A primeira coisa que impressiona, ao estudar A divina comédia, é a capacidade de estruturação de seu autor. O número três, que na Idade Média era considerado mágico, acusa sua presença constante ao longo da obra: três cânticos, três vezes trinta e três cantos, estrofes de três versos, três feras no primeiro canto, três senhoras no segundo, nove "círculos" no inferno, nove "patamares" no purgatório, nove ''ceus'' no paraíso. Apenas mais uma particularidade da estrutura rígida da obra: as três partes terminam todas com a palavra ''estrelas”. Poderia se pensar que esta organização rigorosa, que torna A divina comédia a obra mais "fechada" de que temos

75

notícia, pudesse prejudicar a inspiração poética de seu autor. Isso não acontece porque o gênio artístico de Dante não conhece separação entre estrutura e poesia. Ele soube estabelecer um equilíbrio perfeito entre os conteúdos ideológicos de seu mundo e a forma artística apta a expressá-los. A leitura da obra dá-nos a impressão de que Dante não pensou primeiro no conteúdo para, em seguida, dar-lhe forma, mas que os versos, com suas rimas, metros e acentos, iam saindo espontaneamente de seu espírito poético. Nenhum elemento do metaforismo estético do poema, repleto de imagens, comparações e símbolos, em momento algum, parece ser artificial e forçado. O halo da poesia que brota de seu espírito supera e sublima os esquemas estruturais e os modelos da cultura medieval . Quanto à configuração espacial do mundo dantesco, o poeta italiano imaginou o Inferno formado por uma profunda voragem, em forma de funil, provocada pela queda do anjo rebelde Lúcifer quando, derrotado por Deus, foi lançado no centro da terra, nas proximidades de Jerusalém. Dante, evidentemente, acreditava no sistema ptolemaico, vigente na época, que considerava a terra o centro do Universo, ao redor da qual giravam os astros. Na cratera, composta de nove círculos, sempre mais estreitos na medida em que se desce, estão distribuídas as almas dos pecadores condenados às penas do inferno. O Purgatório é representado como uma montanha formada pelo deslocamento da massa de terra provocado pela queda de Lúcifer: o solo, empurrado pelo anjo rebelde, elevou-se do outro lado da terra, no hemisfério austral, aos antípodas de Jerusalém. Também o Purgatório se divide em nove partes: na base da montanha, o antipurgatório; ao longo da encosta, sete patamares, de forma circular, parecendo terraços; no topo, o paraíso terrestre. As almas, na medida em que se purificam, vão subindo a montanha. Como se pode perceber, o espaço do poema dantesco é "vertical", sendo que, no Inferno, a direção é para baixo, enquanto que, no Purgatório, a direção é para cima. O Paraíso , imaginado acima do Purgatório, é composto de nove céus, que regem os planetas Lua, Mercúrio, Vênus etc. Sobre os nove céus está colocado o “empíreo”, composto de pura luz, onde vivem a Santíssima Trindade, a Virgem Maria e as almas santificadas, envolvidas pelos nove coros angélicos, que irradiam sem parar as ondas luminosas da graça de Deus. Aqui, o movimento não é nem ascendente, nem descendente, mas ''circular'', a indicar a comunhão constante da visão beatifica de Deus. Quanto às determinações temporais, o tempo da enunciação (Discurso) corresponde, de um certo modo, ao tempo empregado pelo autor na composição da obra: Dante escreveu A divina comédia durante o exílio, no último decênio de sua existência (1310-1321). Muito mais curto é o tempo do enunciado (Mito). Dante imaginou fazer sua viagem no mundo ultraterreno em uma semana: da noite da Sexta-Feira Santa, dia 8 de abril, até quinta-feira da semana seguinte, no ano de 1300. O motivo da escolha desta data prende-se ao fato de ser o primeiro "Ano Santo" da história do Catolicismo: o papa Bonifácio VIII determinou que o primeiro ano do novo século fosse considerado "jubilar", concedendo indulgências dos pecados a todos os peregrinos que fossem rezar em Roma (note-se a semelhança com a obrigação dos muçulmanos visitarem a Meca, capital do Islamismo). Quanto ao título do poema, Dante chamou sua obra de "comédia", por dois motivos: por ser a história de uma viagem que começa com a tristeza (inferno) e termina com a alegria (paraíso) e por utilizar o estilo simples e a linguagem popular. Essas características distinguiam as duas formas literárias mais tradicionais naquela época: a tragédia, de assunto e de estilo mais elevado, e a comédia, que era a representação da vida cotidiana. Evidentemente, Dante chama sua obra de “comédia” por um sentimento de humildade. O adjetivo "divina" foi acrescentado pelo poeta Boccaccio, anos depois. Sentido do poema dantesco A viagem imaginária de Dante nos três reinos do mundo do além-túmulo, assim como concebidos pela religião cristã, é uma alegoria da peregrinação do homem em busca da perfeição espiritual. Esta, evidentemente, só pode ser conseguida no contexto de uma estrutura social onde reine a justiça, a paz e o amor. Daí o fato de ter a obra dantesca por finalidade não apenas a salvação espiritual do indivíduo, mas também o aperfeiçoamento das instituições políticas e sociais. O Inferno é a representação poética do “extravio” e da perversão humana, cuja causa é a “alienação” da comunidade. O homem dedica-se à violência, à usura, à inveja, a todos os pecados, enfim, apenas se e quando rompe os laços de amor que o deveriam ligar a seus semelhantes. A maior culpa do homem é seu egoísmo e este tem sua origem na

76

desordem político-social, que priva o ser humano de qualquer ideal cívico ( Cultura). A própria Igreja, traindo sua função espiritual, persegue bens materiais, sendo representada como uma prostituta. Esta idéia de falta de união social, que leva à degradação humana, é expressa artisticamente por vários componentes poemáticos: 1) Personagens: os atores que povoam as regiões infernais não têm nenhum sentimento de caridade ou de compaixão com seus companheiros de sofrimento, mas acusam-se e denigrem-se mutuamente. A galeria dos tipos de condenados e os lugares e os modos de seu penar são descritos de modo a pôr em evidência o ódio que invade as almas dos que vivem no isolamento espiritual. O fim do sistema de vida feudal que, através da vassalagem ascendente e descendente, unia, de uma certa forma, a sociedade humana, provoca, pela passagem para o sistema de Comunas, Senhorias e Principados, a desagregação política. O preço das liberdades cívicas é o egoísmo dos indivíduos, dos clãs familiares, das classes sociais. 2) Espaço: o verticalismo, no Inferno, assume a direção para baixo. Quanto maior for a culpa do condenado, mais inferior e mais intenso é seu lugar de sofrimento. E quanto mais se desce, mais o ambiente é fétido e oprimente. Além disso, contraposto ao movimento circular e harmonioso do Universo, o espaço infernal é representado como uma voragem, dirigida do exterior e por uma força cega, símbolo da falta de orientação do espírito. 3) Tempo, representado pela eternidade das penas, é negada sua transitoriedade. A perda da esperança da salvação faz com que o Inferno simbolize tudo aquilo que é irremediavelmente fixo, o espessamento espiritual. Dante tenta resolver a grande contradição da religião crista, que consiste no contraste entre a infinita misericórdia de Deus e o dogma da condenação perpétua dos pecadores, sugerindo que a punição eterna não reside na vontade de Deus, visto como justiceiro, mas na autoobstinação dos condenados, na falta de um querer penitenciar-se e melhorar-se. Com efeito, a suprema forma de degradação espiritual é fornecida por Lúcifer ( Satã), representado enrijado no gelo, privado de qualquer movimento, visto como símbolo da insensibilidade. Enquanto a eternidade é a fixação no tempo, a estaticidade é a fixação no espaço. Ambas as noções estão ligadas à idéia da morte, ao passo que o dinamismo indica a vida. Ainda com relação à categoria do tempo, é bom lembrar que a viagem de Dante no Inferno se realiza de noite, representando as trevas, o extravio e a impossibilidade do encontro do equilíbrio existencial. Enquanto o Inferno é o reino da fixidez eterna, no Purgatório predomina o “movimento” que acusa o caráter de transitoriedade desta parte da viagem, indicando a “passagem” do sofrimento para a felicidade. O verticalismo, sentido espacial próprio da estética medieval (vejam-se as catedrais góticas, por exemplo), aqui adquire a direção para o alto: Dante sobe a montanha do Purgatório, em sua caminhada rumo ao céu. A escalada do monte, evidentemente, é o símbolo da ascese espiritual. Esta é expressa plasticamente pelo apagamento, a cada patamar, de um dos sete p (pecados), impressos na fronte do poeta. Mas o p é também a letra inicial de "peso": o princípio da gravidade, que puxa para baixo e dificulta a subida da montanha. O sentido espiritual desta subida material é a “purificação” da alma humana, que se realiza pela passagem das trevas da ignorância (pecado) para a luz da verdade (virtude). O sentido da “visão” que predominará no Paraíso, onde tudo é luz brilhantíssima, já marca sua presença no reino do Purgatório, em oposição ao espaço infernal, completamente escuro. E sintomático o fato de que a viagem pelos sete patamares só se realiza de dia. Ao cair da noite, Dante e Virgílio interrompem a caminhada, pois sem a luz do sol (a inteligência), não é possível o progresso espiritual do homem. O mesmo sono (inconsciência e morte) é vivificado pelo sonho: Dante, durante as várias noites que passa no Purgatório, tem visões que iluminam seu subconsciente. O conhecimento da profundeza da miséria humana, adquirido pela viagem no Inferno, coloca o protagonista em condição de poder "purgar-se" de suas culpas. É o princípio da Psicanálise (Psiquê): somente a descoberta da origem do complexo pode propiciar a cura da doença espiritual. Ao individualismo egoísta e ao ódio recíproco que caracterizam as almas que vivem no Inferno, opõe-se o sentimento de compreensão mútua que irmaniza as almas do Purgatório. A passagem do espírito individual ao espírito coletivo e comunitário é expressa através dos diálogos, dos

77

cantos litúrgicos corais e das cerimônias religiosas. A comunhão abrange não apenas as almas que habitam o Purgatório, mas se estende a criaturas que vivem na terra e no céu. Muitos espíritos pedem a Dante que, quando de sua volta junto aos mortais, solicite a seus parentes preces e obras de bem para a diminuição das penas. A instituição da "indulgência" é uma forma de estabelecer uma ligação amorosa entre o mundo dos vivos, o mundo dos mortos e o mundo dos santos. Reciprocamente, as almas do Purgatório (e do Paraíso) não são insensíveis à sorte dos mortais. Se o Inferno é a epopéia do passado, a descrição do que já foi, do imutável, o Purgatório é a epopéia do futuro, da “esperança” de felicidade, que se dá pelo término do sofrimento presente. A esperança de dias melhores não é apenas das almas penadas, mas também dos homens que vivem sobre a terra. Perante sua cidade e sua península, dilaceradas por guerras intestinas, fomentadas pelo ódio e pela cobiça, Dante, colocando-se acima de seus problemas pessoais, sonha com o advento de um imperador enviado por Deus, que possa governar a Itália e a Europa com justiça e ordem. Este seu desejo é compartilhado pelas almas do Purgatório e do Paraíso, que predizem uma era de paz e amor. Mas, diferentemente do que acontece nos outros poemas épicos, onde todas as profecias se efetuam, porque já são realidades no tempo da enunciação, as profecias de A divina comédia não ultrapassam o plano do desejo de seu autor. Por isso, a profecia, mais do que uma predição, é uma exortação aos italianos para que, deixando de cultivar ódios e egoísmos, criem as condições necessárias ao estabelecimento de um governo justo. A finalidade educativa e moralizante da profecia dantesca está evidente na insistência de Beatriz (e de outras almas) para que Dante não se esqueça de referir a seus patrícios exatamente o que ele viu e ouviu: Toma nota: e assim como as expressei estas palavras transmita aos vivos, cujo viver é um correr para a morte. Em verdade, o futuro, antes de ser predito, quer ser “provocado", pois a teologia do Purgatório é toda voltada para o conseguir a “conversão”, a mudança de direção, a renovação de mentalidade, quer no plano individual-espiritual, quer no plano coletivo-social. O sentido mais profundo do Purgatório reside na consideração de que a culpa humana está no apego aos bens materiais que são alienantes, enquanto os bens espirituais (o amor, a fé, o ideal da pátria) promovem a harmonia social e o progresso civilizacional. A harmonia sonhada por Dante se realiza na última parte do poema, no Paraíso . Antes de tudo, este é o reino da “harmonia cósmica”. Com base na ordem astrológico-teológica, assim como concebida na Idade Média, Dante constrói sua visão do Universo. Este é regido por Deus, o motor imóvel que tudo move: sua luz, criadora e fecundadora, é transmitida aos céus e, através destes, à Terra. Os céus, ao rodarem incessantemente, irradiam luz e emitem sons melodiosos que extasiam as almas que os habitam. O espaço celeste não tem o sentido de verticalidade, mas de "circularidade", envolvendo todos os elementos criados, pois nada pode estar fora da esfera da influência de Deus. Junto com o concerto cósmico, é preciso salientar a “harmonia social”. Os espíritos do Paraíso, apesar de ocuparem céus diferentes e de gozarem, portanto, de uma maior ou menor proximidade com Deus, todos vivem igualmente felizes, não havendo possibilidade de inveja, pois cada qual recebeu a parcela de glória proporcional aos seus méritos e à sua capacidade de gáudio. Esta estrutura paradisíaca expressa, alegoricamente, o desejo de Dante de ver construída uma sociedade civil em que se realizasse a unidade da comunidade na diversidade das vocações e dos ofícios. Estamos próximos do ideal de vida comunitária , do sonho do estabelecimento de um Estado em que cada homem, sem inveja e sem egoísmo, ocupando o lugar a que suas qualidades naturais e sua formação profissional o habilitem, trabalhe para o bem-estar e o progresso da coletividade. O Paraíso é ainda o reino da harmonia individual . Sendo o homem a primeira célula da sociedade, é evidente que esta só pode ter vida harmoniosa se seus membros conseguirem conquistar a perfeição moral. Para tal fim, são necessários três elementos: 1) a luz da inteligência humana (o "saber"), personificada por Virgílio: sem a faculdade de discernimento, que propicia uma clareza intelectual, é impossível o início do progresso espiritual do homem; 2) a vontade do sujeito (o "querer"), personificada pelo protagonista da narrativa, o próprio Dante: se é preciso saber o que se quer, também é necessário desejar ardentemente o objeto procurado, pois na origem de toda busca existe sempre um ato de amor; 3) a ajuda necessária para o conseguimento do objeto (o "poder"), fornecida por Beatriz, símbolo da graça divina. É a posse

78

cumulativa dessas três modalidades (saber + querer + poder) que fornece ao homem a "competência", a capacidade da realização do ato. Para o homem medieval, o fator mais importante para se conseguir a "performance" da perfeição espiritual era, sem dúvida, a graça divina. Antes do querer humano, deve existir o querer divino que predestina o indivíduo ao conseguimento da salvação. É Deus, por intercessão de Beatriz, o destinador da redenção espiritual do poeta. No Paraíso, os olhos de Beatriz são constantemente apresentados como fonte de luz e de amor. É neles que Dante encontra a solução de suas dúvidas metafísicas e morais, além da força, sustentada pelo sentimento amoroso, para levar a termo sua viagem. A mulher amada, segundo os padrões estéticos e ideológicos da poética trovadoresca (Trovadorismo), é o único refúgio, o porto de salvação, quando a nau da vida é balançada pelas procelas das paixões, que provocam a dor de existir. DARWIN (a teoria evolucionista: A Origem das Espécies)Genética É sempre recomendável perceber claramente nossa ignorância O evolucionismo cultural é uma teoria que visa explicar a natureza e a diversidade das sociedades humanas como produtos de um processo único de desenvolvimento. Ele está intimamente ligado à doutrina da evolução biológica, que foi uma disciplina fundamental dos estudos antropológicos do século passado. O teorizador mais famoso do Evolucionismo foi o cientista inglês Charles Robert Darwin (18091882). Na sua obra Viagem de um naturalista ao redor do mundo (1836), expõe as experiências de uma viagem de cinco anos no barco Beagle, coletando mais de duzentas e trinta toneladas de material animal e vegetal exótico. Mas sua obra mais famosa é A origem das espécies (1859), que escandalizou o mundo da época, sendo execrada por alguns e exaltada por outros estudiosos, que a consideraram a “nova Bíblia”. Sua tese fundamental é a seguinte: substituindo a teoria bíblica, chamada de criacionista ou “fixista”, segundo a qual as espécies são tantas quantas criadas por Deus, jamais se transformando, Darwin propõe a teoria evolucionista: as espécies animais se derivam uma da outra, mutuamente, conforme a lei da seleção natural, da sobrevivência do mais forte. A tese de Darwin tem como predecessores: 1) Carlos Lineu (1707-1778), botânico sueco, responsável pela classificação das plantas e dos animais em gêneros e espécies; 2) o naturalista francês J.B. de Monet Lamarck (1744-1829) que, em 1809, já tinha exposto sua tese da herança dos caracteres adaptativos adquiridos pelo indivíduo durante a vida, isto é, a transmissão hereditária de caracteres adquiridos pela necessidade do meio ambiente, dando o exemplo famoso da girafa que, de tanto esticar o pescoço para alcançar as folhas no alto, acabou gerando crias de pescoço comprido; 3) também a divulgação da descoberta do frade tcheco Gregor Mendel (1822-1884) de que a hereditariedade é determinada por partículas genéticas serviu para confirmar a tese de Darwin. A polêmica teoria do cientista inglês ainda continua palpitante, tornando-se mais atual pelas recentes pesquisas no campo da genética, especialmente após a descoberta e os estudos realizados acerca do DNA, o código genético de todos os seres vivos. Em maio de 2003, o cientista americano Morris Goodman publicou uma pesquisa, sugerindo que os chimpanzés (Pan troglodytes) fossem incluídos no gênero Homo pois, pela análise comparativa de amostras de DNA humano e de chimpanzés, eles estão mais próximos (99,4% de semelhança) do homem do que de outros primatas como os orangotangos e gorilas. O Darwinismo Social realiza o salto da Genética para a Antropologia. Herbert Spencer (18201903) aproveita a descoberta de Darwin para corroborar sua teoria da “autoregularização” da sociedade. Segundo ele, a sociedade humana, deixada sozinha, se governaria pelo princípio da “sobrevivência do mais forte”, que movimentaria a estrutura social na direção de uma crescente coerência, estabilidade e diversidade. Mas, diferentemente do evolucionismo biológico de Darwin, o pensamento sociológico de Spencer é profundamente conservador, prestando-se como sustentação ideológica do Nazismo ( Hitler). Com efeito, se colocada em prática, a teoria spenceriana levaria a um materialismo mecanicista, de que falava o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679): o homem, conforme a lei cósmica da ação e reação dos corpos em movimento, sofrendo pelo desejo e o temor, é vítima de uma situação de conflito

79

permanente. A guerra é de todos contra todos, sendo o homem lobo do homem ( homo homini lupus , como ele dizia). Mais recentemente, o psicólogo evolucionista Steven Pinker, da Universidade de Harvard, especialmente em suas obras Como a Mente funciona e Tabula Rasa, demonstra que o darwinismo não se aplica apenas ao estudo da Genética, invadindo, além da Biologia, também as áreas das ciências Sociais, da Psicologia e das Artes. Como de outros verdadeiros gênios da humanidade (Leonardo, Freud, Marx, Einstein, Picasso), o pensamento de Darwin se caracteriza pelo poder de “generalização”, no sentido de que ultrapassa os limites da disciplina específica e atinge o homem como um todo, apresentando uma nova visão da realidade. O cientista canadense, retomando o espírito do velho Humanismo renascentista, propõe que os princípios da nova psicologia evolucionista sejam aplicados à educação, à política, à arte, à ética, para uma renovação da consciência social, desmistificando doutrinas que se tornaram obsoletas. Assim, por exemplo, a idéia de que o homem é bom por natureza e de que a violência é uma perversão das sociedades modernas, conforme o mito romântico, retomado por indianistas e políticos de esquerda, se esfacela perante o avanço dos estudos genéticos e a descoberta arqueológica da existência de guerras entre tribos primitivas. No tocante o gosto estético, Pinker dá a entender que o conceito de beleza é continuamente manipulado pela evolução modernista, via marketing, pois a descoberta sobre o funcionamento da mente humana nos demonstra que o ser humano, instintivamente, busca o inteligível, que se encontra na harmonia das formas, e não no incompreensível, no hermético. A concepção de beleza clássica, conforme a tradição greco-romana e renascentista, portanto, passaria a adquirir o estatuto de uma verdade científica. Também as correntes radicais do feminismo, que não admitem nenhuma diferença entre a psicologia do homem e da mulher, são contestadas pelo cientista canadense. Conforme recentes pesquisas da neurociência, o cérebro feminino e o masculino têm configurações diferentes. En face da comprovação da biodiversidade, por que a mulher se esforça tanto de ser igual ao homem? Diferença não quer dizer inferioridade! DECAMERON (coletânea de contos satíricos do ficcionista italiano Boccaccio) O Decameron (“dez dias”, em grego) é um conjunto de cem historinhas, em italiano chamadas de “novelle” (de novas, pequenas notícias: não confundir com o gênero atual da televisão Novela), de autoria do florentino Giovanni Boccaccio, publicadas em 1350. O autor imagina que dez jovens, três moças e sete rapazes, para fugirem à peste que assola Florença, se refugiam numa colina e, durante dez dias (daí o nome da coletânea), passam o tempo contando histórias que, na sua maioria, não passam de piadas ampliadas. Os temas são os mais variados, misturando-se cenas de amor idílico com narrações escabrosas sobre o erotismo dos clérigos. Enfim, é a descrição de quadros de vida da Florença trecentista, feita por um artista da palavra, de uma forma refinada e livre de qualquer preconceito religioso ou moral. Estamos no fim da Idade Média (Medialismo), já prenunciando o espírito da Renascença européia. Os contos de Boccaccio retomam a linha da narrativa satírico-picaresca dos autores latinos Petrônio (Satiricon) e Apuleio (Metamorfoses ou “O Asno de Ouro”). E Boccaccio, por sua vez, se torna o mestre do inglês Chauser (1340-1400: Os Contos de Canterbury) e de todos os outros autores que cultivaram a narrativa curta de cunho realístico e humorístico, nas línguas modernas do Ocidente. O Cinema aproveitou várias histórias satíricas do Decameron. Famosa é a película Boccaccio’70, que aproveita quatro contos, cada qual dirigido pelos melhores Diretores da época (Federico Fellini, Luchino Visconti, Vittorio De Sica, Mario Monicelli) e interpretado por divas belíssimas: Sophia Loren, Anita Ekberg, Romy Schneider. Outra belíssima versão cinematográfica da obra de Boccaccio foi realizada por Pier Paolo Pasolini, em 1971: Il Decameron. DÉDALO (o gênio construtor do Labirinto, pai de Ícaro) DEMÉTER (Ceres, em Roma, deusa da Agricultura)Terra DEMOCRACIA (sistema de governo, República)Política Democracia é quando eu mando em você,

80

Ditadura é quando você manda em mim. (Millôr Fernandes) A palavra grega demokratía é composta de demos (povo) e krátros (poder), significando o governo exercido em nome da coletividade. Neste sentido, é quase sinônimo do termo “República”, que vem de res (coisa) + publica (de todos). No aspecto geral de “coisa pública”, portanto, República se identifica com Democracia para indicar o governo de uma nação exercido por representantes do povo, eleitos por um determinado período de tempo (Política). O filósofo Platão intitula Democratía (“Republica”, em latim) um seu diálogo que trata do governo do Estado, pois, na cultura greco-romana, democracia era igual a república. Realmente, há uma certa semelhança entre o conceito de “política” (administração de uma póleis = cidade) e “público” (interesse do demos = o povo, uma coletividade), pois o que é direito de todos não pode ser usurpado por um (monarquia), nem por alguns (oligarquia). Apenas povos ou grupos sociais, que não tenham bem desenvolvida uma consciência de cidadania ou que não gozem do direito da liberdade de sentir, pensar e agir, podem suportar governos despóticos. A nosso vê, é incorreto e falso chamar de “República” sistemas de governo não democráticos, tipo URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) ou RAU (República Árabe Unida). “Republicano” é o adjetivo que deve qualificar apenas um sistema democrático, fundamentado num pluripartidarismo, cujos governantes são escolhidos pelo voto livre e direto. Qualquer forma de Democracia (representativa, social etc.) deve ter por base a soberania popular, a liberdade eleitoral e a divisão dos três poderes (legislativo, judiciário e executivo), não podendo admitir a perpetuação e a transmissão do poder por direito teocrático, de hereditariedade ou pela força das armas (Absolutismo). Afinal, quem faz a riqueza de uma Nação não é Deus, o Rei, o Presidente ou o General, mas o povo com seu trabalho e com seus impostos. É justo, portanto, que seja o povo a escolher livremente seus representantes. Acontece, porém, que nos países subdesenvolvidos a grande massa popular não tem consciência dos direitos de cidadania e se deixa facilmente manipular por lideres carismáticos ou por grupos econômicos (Cultura). Nenhuma democracia funciona sem “meritocracia”, o sentimento de justiça que faz com que cada qual ganhe conforme sua competência. É por isso que ainda hoje, após cerca de 24 séculos, o estado democrático ocidental apresenta o mesmo funcionamento descrito por Platão: “a Democracia, uma forma charmosa de governo, cheia de variedade e desordem, dispensa um tipo de igualdade para iguais e desiguais igualmente”. Mas, como afirmou o arguto estatista inglês Sir Winston Chrchill (1874-1965), “a democracia é a pior forma imaginável de governo, à exceção de todas as outras que foram até agora experimentadas”. DEMÓCRITO (filósofo grego)Atomismo “Mesmo que a verdade exista, não nos é dado conhecê-la” Pensador e cientista pré-socrático, Demócrito de Abdera, (Grécia, 470-361), é considerado o pai do Atomismo. Seus trabalhos filosóficos e científicos verteram sobre a constituição da matéria, a pluralidade dos mundos, a via Láctea, os fornos reversos, o prenúncio da existência dos espermatozóides. Seu agnosticismo está expresso em alguns fragmentos de suas obras, que chegaram até nós, como o citado acima. DEMOGRAFIA (planejamento familiar, malthusianismo)Cultura Trabalho O direito de ter pais é maior do que o direito de ter filhos Do grego demos (povo) + graphein (escrever), a demografia é a ciência que estuda a densidade populacional, pesquisando, com o auxílio da Estatística, as taxas de natalidade, de morte, de casamentos, etc., em várias regiões e países. Infelizmente, os governantes, de um modo geral, não aproveitam, na prática, os dados colhidos pelos cientistas, visando o melhoramento da sociedade humana. O economista e religioso inglês Thomas Robert Malthus (1766-1834) tornou-se famoso pela sua obra Ensaio sobre o princípio da população. Ele sustenta a tese de que, enquanto a produção de alimentos cresce em progressão aritmética, a população mundial tem a tendência de aumentar em progressão geométrica. Tal desproporção teria como conseqüência inevitável o aumento da pobreza no mundo. Quando essa

Convencido de que a moral é algo de variável no tempo e no espaço. Descartes afirma que quem não usa o cogito. matemático. igualando-se aos animais. Daí a verdade que colocamos em epígrafe: o direito dos filhos terem pais responsáveis é maior do que o direito de um homem ou de uma mulher ter um filho. deixou de publicar . escola. A primeira dessas certezas inabaláveis é a própria existência humana: “se duvido. conformista em relação às injunções de ordem política. Discurso sobre o Método)Racionalismo “Cogito. alegria. a pena é coletiva. como os conceitos da matemática. Rejeita. por exemplo. parente ou empregada. é uma questão de ignorância e pouco se faz para lutar contra este mal monstruoso. O cogito. aumentam sua população de uma forma irresponsável. a criança é candidata a se tornar delinqüente. em fim. que vivem numa extrema penúria. a própria natureza cria organismos de defesa. Um menino abandonado pelos pais ou mal criado por uma avó. Mas a alma do estudo realizado no fim do séc. vários pontos da tese malthusiana. mas essencialmente social. como a Alemanha e a Itália. a mente pensante. existo”. porque comuns a todos os homens. É uma pena que a clareza e a coerência perseguida por Descartes no campo dos conhecimentos filosófico e científico não atingisse também a esfera da ética. social e religiosa. e se deixa levar pelas paixões. pois sem qualificação para um tipo de trabalho é quase impossível encontrar um emprego decente para prover a subsistência sua e da família. DEMÔNIO (o princípio do mal. Deus criador (ser perfeitíssimo) do mundo criado (seres imperfeitos). ladrão. Diabo) Satã DESCARTES (cartesiano. Se a culpa é individual. Spinoza e Leibniz seus melhores cultores. a clareza e a distinção. Tudo. por exemplo.81 realidade ultrapassar o limite de tolerância. penso. não aprende nada. pois tem o direito de sobreviver. conscientizando o povo de que ninguém pode pôr um filho no mundo se não tiver meios para lhe propiciar sustento e educação de bom nível? Como afirma a escritora Lya Luft. Que adianta fazer programas de ajuda social. Descartes. ergo sum” O pai do Racionalismo moderno foi o francês René Descartes (1596-1650). reafirmando o poder convincente do princípio da causalidade. É preciso se entender que o nascimento de uma criança não é apenas um problema individual ou familiar. é altíssima nas povoações mais pobres e com prole numerosa. assaltante. A solução que o cientista sugere para este grave problema seria aconselhar as povoações pobres a se absterem sexualmente para diminuir a taxa de natalidade. ele propõe uma ética “provisória”. têm um índice demográfico quase zero. Ninguém. países da África e da América Latina. propiciando-lhe casa. distinguindo-se o ser pensante da coisa pensada. se não puder garantir ao filho o direito de ter pais responsáveis. assim. a alma do corpo. Ele estava certo: a miséria humana avançou muito mais do que a tecnologia e os países e as regiões mais pobres são os que mais geram filhos. No livro Tratado das Paixões. que só criam confusões. Formulando a “dúvida metódica’’. em sã consciência. se penso. minada por uma corrente cética e pessimista. Hoje em dia. Não assistida adequadamente. XVIII ainda está viva. se não se corta o mal pela raiz. para aceitar apenas as idéias ‘‘inatas’’ que. o único pecado realmente capital da humanidade. “deviam decretar que ninguém tenha mais filhos do que pode decentemente alimentar”. que pretendeu encontrar o caminho para superar as incertezas da sua época. Assim. provocando epidemias e guerras. pois a falta de cultura está na raiz de todas as desgraças. saúde. publicada em 1798. ergo sum torna-se o parâmetro de qualquer conhecimento. que acaba sofrendo as conseqüências da marginalidade. é levado a duvidar de tudo aquilo que não tenha a mesma característica das noções da matemática: a evidência. lança as bases da corrente racionalista que encontrará em Malebranche. A taxa de desemprego. o sujeito do objeto. estão superados pelo avanço tecnológico da agricultura e pelo progresso da ciência médica que levou à fabricação de vários tipos de anticonceptivos. pode se arrogar o direito de ter filhos. são axiomáticas. torna-se um problema para todo o mundo. as idéias “factícias’’ (as que se referem ao mundo exterior em contínua mudança) e as “fictícias” (as forjadas pela imaginação que variam segundo a vontade do sujeito). tipo “fome zero” ou aumento de creches. carinho. evidentes e estáveis. pois o desejo de gente irresponsável acaba ferindo o “direito de terceiros”: daquele que não pediu para vir ao mundo e da comunidade onde vive. não pode se desenvolver. Enquanto nações desenvolvidas. cientista e filósofo. E ele próprio dá o maior exemplo desse conformismo: quando ficou sabendo da condenação de Galileu.

V a. O Teatro começou quando os episódios da vida do deus Dionísio deixaram de ser narrados por um único narrador (chamado de “rapsodo” na poesia épica) para serem representados por um ator dialogando com o corifeu e. uma única voz. dialética significa a linguagem em movimento. Com referência à importância da hereditariedade na formação do caráter. chegando a tentar demonstrar que até a conformação craniana de um marginal é diferente da do homem normal. no sentido de que são apenas impostos ou desejados. fraternidade. cuidando do dissídio entre os donos do poder e a classe dos trabalhadores. A verdade. O diálogo. O Determinismo. por Sócrates. da confecção artística da personagem de ficção. estudando a relação entre Graça divina e livre arbítrio. assim como foi utilizado pelos sofistas. químicas e biopsíquicas ocasionariam fenômenos. portanto. injusto. Segundo ele. de ideologia conservadora. mais tarde. são ideológicos e não reais. foi apresentada a tese de que as ações humanas e os acontecimentos do universo são determinados pelo princípio da causalidade: as leis físicas. A oposição “monológico / dialógico” passou a diferenciar duas formas de atividade artística: a obra monológica ou de inspiração apolínea. por Platão.82 um trabalho científico onde ele também sustentava a tese do movimento da Terra. várias vezes e em diferentes modalidades. E a dialética não existe apenas no campo filosófico ou sociológico. segundo o estudioso .C. aplicado para a solução de problemas da realidade existencial. caprichoso acaba negando a própria essência da divindade. que apresenta o confronto entre duas tomadas de posição. mas não realmente vividos. chegou a pensar que ninguém poderia se salvar sem a vontade de Deus.. do ambiente (Espaço) em que a pessoa ou a personagem vive. meio e momento” como condicionante do comportamento humano e. o método dialético deve descer do céu para a terra. renunciando à luta pelo descobrimento da verdade e pelo avanço civilizacional. é a base dramática a partir da qual se desenvolveu todo o teatro ocidental. para o sociólogo Karl Marx. DESTINO (divindade greco-romana)Fado DETERMINISMO (corrente filosófica)Positivismo Realismo Maktub! (“Está escrito”) No decorrer da história da filosofia. DEUS (divindade)Religião DIACRONIA (oposição diacrônico / sincrônico)Cronos Crítica DIALÉTICA (forma de argumentar: Diálogo em oposição ao Monólogo) Do grego dia (prefixo “através”) + logos (“palavra”) + tecné (técnica). Para o filósofo alemão Hegel (Idealismo). Sant’ Agostinho. a luta física ou intelectual. taras. é também uma postura religiosa. além de uma doutrina filosófica e científica. Foi o historiador e crítico literário francês Hipólito Adolfo Taine (1828-1893) que apresentou a famosa tese da tríade “raça. é conveniente citar a contribuição do médico e criminologista italiano Cesare Lombroso (18351909). desde porém que ela não nos prejudique! Essa será a essência da moral burguesa: os valores humanos da sinceridade. desde suas origens no séc. Mahatma Gandhi (Hinduísmo). O aspecto prático da dialética é o diálogo. Pensamento não muito distante do de outro religioso. com um segundo e terceiro ator. por extensão. imbuída do espírito dionisíaco ou “carnavalizada”. A dramaturgia. que transmite caracteres. Há fanáticos que se conformam com o “Maktub”. desconsiderando o fator do livre arbítrio. honestidade. Mas tal concepção mecanicista do universo. inclusive econômica. utiliza o diálogo como o meio mais apropriado para exprimir os problemas existenciais. algumas pessoas nascem com estigmas físicos e psíquicos tais que é impossível sua recuperação. O interlocutor surgiu como oponente ao protagonista na representação do agon. Esta concepção de um Deus fatalista. do momento histórico (Cronos). aquele que fala sozinho. a arte de argumentar e discutir. A conduta de um ser real ou imaginário seria determinada pela tríplice ação da hereditariedade (Genética). fidelidade. Sua tese sobre o “criminoso nato” teve muito sucesso na época. O antônimo do diálogo é o monólogo (do grego monos. que oferece as circunstâncias existenciais. fatos e comportamentos. liberdade. justiça. e a obra dialógica. o discurso. Sua obra mais conhecida é O homem delinqüente. sim. teve amplo sucesso apenas no seio da doutrina positivista que dominou a cultura durante a segunda metade do século XIX. que afirmou: “aquele que Deus quer salvar pode fazer o que quiser e será preservado”. a que os romanos deram o nome de “solilóquio”). que nega o livre-arbítrio. tendências. independentemente de uma vontade divina ou humana. a dialética é um modo de conhecimento da realidade colhida na sua estrutura contraditória.

na princesa texana Sêmele e. oposição apolíneo / dionisíaco)Carnaval Duplamente filho de Júpiter que o gerou. vingativa. na embriaguez do estado dionisíaco. a deusa do lar. Este dualismo estético. encontra-se bem expresso num trecho da obra Origem da Tragédia. Sua característica principal foi a virgindade. Pela consecução do estado místico. que sofreu terrivelmente para escapar da vingança de Juno. a mitologia grega apresenta Diana como uma deusa austera. abandonada por Teseu na ilha de Naxos. de outro lado. região montanhosa. bacantes (mênades). onde se dedicava à caça. não quis consumar.83 russo Bakhtine (Crítica). talvez. vivido também nas saturnálias romanas. Dionísio propiciava aos homens e aos deuses alegria e felicidade. Além disso. de F. esquecido de seu status. Dionísio. cruel. Era um coro de pessoas "transformadas" que. e lhe ocupara o lugar perto de Júpiter. o grotesco misturava-se ao sublime. mais tarde. deus "solar". primeiro. Charles (romancista inglês)Realismo DIÓGENES (filósofo grego)Cinismo DIONÍSIO (Baco romano. DIANA (Ártemis grega: deusa da caça. representada com um archote na mão. Ariadne. punham de lado a máscara social e manifestavam sua verdadeira personalidade. Em contraste com o irmão Apolo. o homem divinizava-se. a inversão dos valores sociais: fora ele que destronara Héstia. Dionísio sempre foi considerado pelos gregos como um deus "estrangeiro" e "subversivo". céu e terra. DI CAVALCANTI (artista brasileiro)Pintura DICKENS. Diana é o símbolo da necessidade de repressão dos instintos sexuais. Nietzsche: “Teremos dado um grande passo e promovido o progresso da ciência estética quando chegarmos não só à indução lógica. depois de ter exigido o sacrifício de Ifigênia. o escravo emancipava-se. já estava marcado pela vingança da ciumenta Juno. Daí Camões ter escolhido Baco como o maior inimigo mítico da expedição lusitana à Índia: se não fosse o Destino ( Fado). a liberdade e o prazer sem limites. a esposa traída. filha de Agamêmnon. continuou a gestação do feto numa sua coxa. foi o embrião da tragédia antiga. de cunho revolucionário. sacrifício que. Errou pelo mundo até então conhecido e conseguiu o caminho da glória pela descoberta da uva e do vinho. castigando deuses e mortais que atentaram contra a castidade sua ou de suas ninfas. persiste em todas as manifestações de festas . simbolizando a castração feminina. filha do rei Minos. O espírito dionisíaco encontrou sua primeira manifestação artística no coro ditirâmbico que. o homem sentia-se membro de uma comunidade universal em que se quebravam as barreiras de classes. acompanhado pelo cortejo de sátiros. que simboliza a satisfação erótica. ofuscassem a glória de seus feitos e substituíssem o culto a Baco pela fé cristã. pois contesta os valores sociais. entrando em transe histérico.) e que a psicanálise identifica no id e no superego (Freud). em oposição a Vênus. Nos momentos de excitação orgíaca. mas também à certeza imediata deste pensamento: a evolução progressiva da arte resulta do duplo caráter do espírito apolíneo o do espírito dionisíaco tal como a dualidade dos sexos gera a vida no meio das lutas que são perpétuas e por aproximações que são periódicas”. Entre seus triunfos. Fruto híbrido de um amor divino-humano. embora descendentes de seu filho Luso. a vida do instinto. alma e corpo etc. mesmo antes de vir à luz. com a morte desta. e dar a luz os gêmeos Apolo e Ártemis. Deusa da caça e da pureza. Por isso. desposou e levou para o Olimpo uma mortal. Ajudou o pai na guerra contra os Gigantes e lutou ao lado dos troianos na Guerra de Tróia. notável é a conquista da Índia. Escolheu como lugar de residência a Arcádia. Dionísio nunca deixaria que os portugueses. a crueldade tornava-se prazer. dominando o povo pelo seu poder místico. Enquanto durava o estado de embriaguez. segundo a maioria dos estudiosos da literatura grega. não foi aceito no Olimpo e precisou conquistar o direito à imortalidade por suas próprias forças. Diana é uma divindade "lunar". Tocando flautas ou tamborins. seus devotos sentiam a presença do deus do vinho dentro de si e se deixavam levar pelos ritos orgíacos. símbolo da virgindade) Filha de Júpiter e de Latona. pois nunca admitiu qualquer contato carnal. junto com seu séqüito de ninfas e amazonas. centauros e pelos deuses Sileno e Pã. que é uma representação do dualismo cósmico (a oposição entre noite e dia. Este espírito dionisíaco. pois ele personificava a desobediência à ordem e à medida.

aprendei. o Diretor é peça fundamental! DISCURSO (ato da comunicação humana. ele mesmo definindo-se um “demônio dionisíaco”. cinematográficas e televisivas) Do latim vulgar directorem. o papel do encenador enriqueceu-se cada vez mais até chegar à função do moderno diretor de teatro. enunciação. é eterna.. havia um magistrado. onde o poeta exalta a dança e a embriaguez dionisíacas: Elevem seus corações. portanto. ele passou também a ter consciência do significado artístico de sua função. sendo o coordenador de todos os elementos constitutivos de uma peça: texto. meus irmãos! Eu santifiquei o riso. Tudo isso sempre em função de alcançar o objetivo que ele tem em mente: ou a fidelidade ao texto do autor. embora não toque nenhum instrumento. Se o dramaturgo é o autor do texto. portanto.en-scène. durante o apogeu de Mussolini na Itália: os conspiradores que assassinaram o grande líder democrata da Roma antiga usavam camisas negras. essa coroa de rosas. enquanto texto literário. através da interpretação dos atores. um elo de comunicação entre . a orientação dos técnicos da cenografia e da sonoplastia. Ele deve ter a percepção profunda do gênio. e com a platéia. ao longo da nossa história. perspectiva)Narrador Do latim discursus. pois a representação de uma obra teatral antiga só tem sentido se ela tiver uma relação alegórica com a atualidade. ou a adaptação da peça à nova realidade da época. o termo indica a exposição de um conhecimento sobre alguma coisa.. Além de encarregar-se da organização objetiva do espetáculo. Na arte mais moderna. de metteur. Na Grécia da época de Péricles. de um filme ou de um programa televisivo. A obra do filósofo-poeta alemão F. como anteriormente. tem de saber encontrar o equilíbrio entre a empatia e o distanciamento estético: a peça deve parecer suficientemente real para assemelhar-se à vida. indica quem dirige qualquer tipo de instituição ou é responsável pela produção artística de uma peça. atores. No teatro. Ele tem de estabelecer o sentido que o texto teatral irá adquirir em contato com o palco. sociais e éticas determinadas. é uma pessoa que possui um saber e quer transmitir história. De lá para cá. o uniforme registrado dos fascistas. a rir! DIREITO (Jurisprudência)Justiça DIRETOR (encenador de obras teatrais. Veja-se. o sucesso da encenação da peça Júlio César. vocês que dançam bem e cada vez melhor. chamado “Comissário das Delícias”. Estabelece-se. num sentido amplo. homens superiores. que funcionava como diretor do coro: a ele cabia dispor o espaço físico para a representação teatral. em circunstâncias históricas. composta de um público dado. vós. A ele cabe a escolha do texto. Como o maestro de uma orquestra sinfônica. conferindo uma interpretação pessoal à obra dramática. no começo do século XX. Duas de suas obras são fundamentais para entendermos a importância do mito de Baco na evolução do pensamento e da arte européia: A Origem da Tragédia e Assim falou Zaratustra. até mesmo de cabeça para baixo!. o estudo apurado do script. a indicação dos atores capazes de interpretar os caracteres das personagens. O sujeito do discurso. idéias e sentimentos para outro ser humano. cenografia. de Shakespeare. Essa coroa de risos. o Cinema. Além disso. e o público. eu vos lanço. escolher e orientar os atores. imprimindo-lhe a marca de sua genialidade. a consciência especial do dançarino. tem a função de “encenador”. cinematográfica ou televisiva. O mito de Dionísio invadiu Literatura e Artes. e suficientemente irreal para que ninguém se esqueça de que é pura arte. o diretor é o autor do espetáculo. fiquem de pé. Essa segunda hipótese é a mais aconselhável. embora não com esse nome e com atribuições tão específicas. O diretor é o mediador entre a obra que. Nietzsche está toda ela impregnada do espírito báquico.84 carnavalescas na cultura ocidental (Carnaval). Desta última obra transcrevemos dois trechos. com o intuito de conseguir uma perfeita reconstrução histórica. montada pelo diretor Orson Welles em Nova York. por exemplo. assim. o diretor tem a função de dirigir o trabalho de todos os elementos do conjunto. que teve início com André Antoine. A função do diretor é muito antiga. público. que se modifica constantemente. meus irmãos! Elevem cada vez mais! E não se esqueçam das pernas! Elevem as pernas também. o ouvido apurado do músico. sonoplastia.

Após uma noite de vigília das armas. é relevante não apenas para a compreensão do texto literário. mas de todo e qualquer escrito. confundindo a ficção com a realidade. pois. Aí pede ao dono da hospedaria (o senhor do castelo) que o consagre cavaleiro. o fidalgo provinciano Alonso Quijano. e o gordo. depois de ter limpado velhas armas. Quixote contra moinhos de vento. procedem a um expurgo da biblioteca de nosso herói. Quixote. que têm inveja de sua futura glória. Segue-se o episódio da luta contra dois monges. pois os resultados são contrários aos esperados: proíbe a um camponês de castigar um moleque. Aterrado pela pá de um dos moinhos.Todorov prefere usar o termo “discurso” em lugar de enunciação e “história” em lugar de enunciado. D. é recolhido do chão e reconduzido à sua residência. Quixote retoma seu caminho. se presta ao jogo e o aconselha a arrumar dinheiro e escudeiro. iniciam uma longa série de aventuras. narrador ou destinador (o sujeito que diz) e um receptor. Quixote à leitura dos livros de Cavalaria. que para nosso herói são duas nobres damas. para compensar o longo jejum. escolhendo por dama de seu coração e de suas façanhas uma camponesa. tirania) Júpiter Imperialismo Absolutismo DOM QUIXOTE (romance de Cavalaria do ficcionista espanhol Cervantes) Sonhar um sonho impossível. que ele idealiza como uma nobre princesa e a quem passa a chamar de “Dulcinéia del Toboso”. enquanto a mensagem transmitida. na sua imaginação. o escudeiro ignorante e grosso. Para uma melhor compreensão deste importante tópico da narratologia. de que surgiram os derivados “quixotismo” e “quixotesco”. A importância de saber quem é o sujeito da enunciação. resolve pôr em prática os ideais dos cavaleiros andantes e ir a busca de aventuras para restabelecer na terra a paz. Quixote profere um belo discurso . chamando a si próprio de Dom Quixote da Mancha e a seu cavalo de Rocinante. remetemos ao verbete Narrador. montado num burrinho. Mas D. os fatos relatados. que. a ama e os dois melhores amigos. que aceita ser seu escudeiro em troca da promessa do governo de uma ilha virtual. incendiando a maioria dos livros de literatura cavaleiresca. o “ele” de quem se fala. o mito. D. verdadeiras peripécias. a cavalo. pertencem ao Plano do Enunciado Já T. ao afastar-se o nosso herói. Após um dia de viagem. narratário ou destinatário (o sujeito que ouve). Quixote é objeto de riso por uns carreteiros. percebendo a doidice do forasteiro. Quixote justifica seu fracasso dizendo a Sancho que a transformação dos gigantes em moinhos é obra de inimigos feiticeiros.. Acolhidos por pastores. atribuindo a loucura de D. fiel ao seu sonho. é uma criatura de alma ingênua e generosa. o vigário e o barbeiro. chega a uma taverna. exige de uns mercadores que declarem a beleza incomparável da desconhecida Dulcinéia: o resultado é que D. J. Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares 1547-Madri 1616) é o mais famoso escritor da Espanha. o dono da estalagem. ajudado por duas prostitutas. cansado e faminto. a justiça e o amor. é um castelo. parte. pela segunda vez.. durante a qual D. mais conhecida pelo título abreviado Dom Quixote. sendo o autor de uma obra fundamental na Literatura Ocidental: El engenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha. parte à procura de aventuras. pois a substância é a mesma: identificar quem diz o quê ao longo de uma narrativa. conforme a terminologia do semanticista francês A. idéias e sentimentos expressos adquirem credibilidade e diferente avaliação. Seguem-se as duas primeiras desastradas aventuras. O taverneiro. dependendo da autoria do discurso. agora acompanhado pelo inculto camponês Sancho Pança. mas. O magro. o cavaleiro culto e delicado. o menino é espancado com maior brutalidade. Greimas. num dado momento. fatos. DITADURA (despotismo. realiza a cerimônia da investidura. o Plano da Enunciação. envolto em sua ridícula armadura. que se deixa envolver pela leitura dos livros de Cavalaria a tal ponto que. enquanto Sancho come até não poder mais. em nome da justiça e do respeito à pessoa humana. a literatura com a história. Numa madrugada. tomados por bandidos que raptaram uma princesa. Reconhecido por um seu conterrâneo. D. É apenas uma questão de metalinguagem crítica diferente. A relação entre o “eu” que diz e o “tu” que escuta constitui. Quixote é derrubado do cavalo e espancado.85 um emissor. Já armado cavaleiro. Resumo do enredo O protagonista do romance. o dono do saber. A primeira proeza da segunda saída é a luta de D. tomados por enormes gigantes. As duas familiares e os dois amigos. deixando a sobrinha.

ele é ridicularizado e maltratado. A jovem consente em aparecer a D. a duquesa e o pessoal da corte se divertem muito com a loucura do cavaleiro e a burrice de seu acompanhante. por sua vez. D. Chegam a uma segunda estalagem. que persegue umas bonitas éguas. que está em busca do amado Fernando. o que provoca a raiva e a vingança de camponeses. Quixote sonha com os antigos paladinos e com o encantamento de Dulcinéia. que maltratam D. Na Segunda Parte do romance.86 sobre a “Idade de ouro”. Retomando o caminho das aventuras. antes de Cervantes publicar a segunda parte do seu romance. característica essencial da estética clássica. Sancho é apanhado e sofre maus tratos. Quixote. entretanto. Mas. Dorotéia. onde D. publicara a continuação da história do Engenhoso Fidalgo. D. O estratagema tem resultado. um enterro com o rapto de um cavaleiro ferido. Cardênio. aconselha D. onde dão com a bela Dorotéia. compreende as aventuras das duas primeiras saídas do protagonista. resolve seguir o exemplo de Cardênio e ficar na serra Morena para fazer penitência. Ao saírem sem pagar a conta. enlouquecido pela presumida traição da amada Lucinda. que estão procurando D. fora encontrá-lo para reconduzi-lo a sua casa. Quixote adoece e morre. O pivô do suicídio. Quixote. outra vez Sansão Carrasco. Quixote a refugiar-se na serra Morena. que assume o nome de ‘‘Cavaleiro da Triste Figura’’. um fora-da-lei que vive à margem da sociedade. Enquanto dormem. Reiniciada a viagem em busca de aventuras. nosso herói vai até o Toboso para despedir-se da amada Dulcinéia. A caminho de Saragoça. editada em 1605. Quixote em enfrentar um leão manso e do rapto da bela Quitéria pelo amado Basílio. narram aos dois hóspedes a triste aventura do jovem Crisóstomo. Quixote como a princesa Micomicona. suicidando-se por um amor não correspondido. Juntos vão à serra Morena. A força irresistível do instinto sexual é confirmada por Rocinante. que consegue derrotar nosso herói. Os pastores. D. Quixote atribua às artes mágicas de seu imaginário perseguidor a transformação de Dulcinéia. Ordena a Sancho que leve uma carta a Dulcinéia. D. porque D. publicadas separadamente. Quixote atrapalha o amor da jovem empregada Maritornes com um carreteiro e cria uma enorme confusão. A maior brincadeira é a eleição de Sancho a governador da ilha de Barataria. Aí encontram o jovem Cardênio. privado de seu ideal de aventuras. Quixote comete uma série de qüiproquós: confunde uma manada de ovelhas com um exército inimigo. expulsa do seu reino. que perdera a carta. Roque Guinart trata os dois com benevolência e os aconselha a pedirem a proteção de seus amigos em Barcelona. seguindo as leis da Cavalaria. Esta idade deverá voltar mercê da atuação dos cavaleiros andantes. Quixote. Quixote e Sancho são aprisionados pelo bando de Roque-Guinart. Mas seu escudeiro. uma moça feia e malcriada. Quixote ao lar. Aí são novamente objetos de gozação. O barbeiro e o vigário conseguem reconduzir D. apresenta como sendo Dulcinéia a primeira camponesa que encontra. Outro autor. obrigando-o a voltar para sua casa. pois defende a tese de que o amor é um ato de livre escolha recíproca. por um equívoco. O choque com a realidade faz com que outra vez D. agora transformado no “Cavaleiro da Branca Lua”. Após a descida na caverna de Montesino. época em que reinava paz e justiça na terra. Seguem-se os episódios da coragem de D. publicada posteriormente. a bela Marcela. Lucinda. outra vez tomada por castelo. História e estrutura do romance O Dom Quixote é composto de duas partes. está presente à narração e proclama sua não-culpabilidade. sob o pseudônimo de Alonso de Avellaneda. pois o conceito de imitação. camuflado em “Cavaleiro dos Espelhos”. Sempre acompanhado por Sancho. Sancho encontra na conhecida estalagem o vigário e o barbeiro. Ao voltarem à hospedaria. O duque. Chega. com medo da vingança policial. passou a ter . D. Sancho. Tal aproveitamento não deve estranhar. Quixote dá razão à moça. afirmando que só a Deus pertence o direito de julgar e punir. aproveitando o sucesso do romance cervantino. Quixote liberta um grupo de condenados às galeras. ouvem que todos os personagens das histórias encaixadas reatam seus fios: Anselmo encontra Camila. Enfim. uma aventura real: D. A primeira parte. em que explica os motivos de seu isolamento. o herói e seu escudeiro são hóspedes dos nobres moradores de um verdadeiro castelo. e Fernando. sob juramento. Quixote luta contra o bacharel Sansão Carrasco que. começa a terceira saída de D. D. uma bacia de barbeiro com o elmo de Mambrino. D. Durante a viagem de volta. Preso na dura realidade da vida cotidiana. Quixote logo resolve colocar-se a serviço da princesa e assim sai da serra e inicia o caminho de volta. Quixote e Sancho. exigindo que os bandidos fossem até à região do Toboso para prestarem homenagem à sua dama.

imaginando uma fonte histórica para a sua narrativa. completando a história do seu herói até à morte. pelo modo deceptivo. que interpreta a história e emite seus julgamentos de valor: é a voz do “eu”. da lenda. à força: a primeira vez. se apressou a publicar a segunda parte de seu romance. porque dotado de nobres sentimentos e a serviço da justiça e do amor. o reencontro da razão e a morte. são as visões de vida de D. que. Devido a esta invenção artística. c) o ponto de vista dos narradores intradiegéticos (homodiegéticos ou heterodiegéticos): são as falas das personagens do romance que. enjaulado. b) o ponto de vista de um narrador em primeira pessoa. Quixote já tem adquirido a competência necessária para a realização de suas façanhas de cavaleiro andante. personificada na figura de Cide Hamete Benengeli. confundida com um castelo. aonde D. mas analisadas. implicitamente. a partir do poema medieval francês La Chanson de Roland: o Morgante. nas duas primeiras saídas. que saiu em 1615. por três focalizações: a) o ponto de vista de um narrador onisciente. desde o início. Já as aventuras da terceira saída. interrompem o discurso em terceira pessoa do narrador onisciente para relatar fatos que aconteceram a elas próprias ou a outras personagens. ao longo da narrativa. nos prólogos às duas partes do romance e. para neutralizar a obra de seu concorrente. que se tornara famosa. do taverneiro etc. principalmente. e ao longo da viagem. que compõem a segunda parte do romance. principalmente no castelo do duque e em Barcelona. ele inicia sua missão consciente de ser um herói invencível. se relacionam com a história principal. É neste lugar tópico que os nós das várias histórias encaixadas encontram sua resolução e. a segunda vez. Quixote e Sancho chegam. Conseqüência desta prova malsucedida é manter o pacto de voltar para sua terra e de deixar de ser cavaleiro andante por um ano. Acompanhado pelo ajudante Sancho Pança. quase todas. se desenvolvem. Foco narrativo Cervantes finge que a história de D. da cultura. extradiegético. D. pelo dono da primeira hospedaria. Cervantes pretende dar a impressão de realidade à ficção. Por este recurso técnico. Quixote é derrotado. admite a superioridade do rival. após o rito de purificação da vigília das armas.Quixote e Sancho são objeto de riso e de escárnio. a vontade de debelar as injustiças do mundo. visto como o dono do saber: esta visão nos fornece todo o conteúdo factual. D. que pode ser confundida com a voz do próprio Cervantes. Com efeito. todas as histórias intercaladas acabam com o triunfo do amor sobre o ódio. o Orlando enamorado. Na época barroca. o plano da enunciação se apresenta composto. provocadas pelo conflito insuperável entre a ilusão e as situações reais. Este é realmente seu único retorno consciente. esparsamente. de Sancho Pança. Quixote parte. Efetivamente. era comum trilhar o caminho aberto por outros. O centro nevrálgico das aventuras da segunda saída é a segunda hospedaria. Quixote é uma tradução e adaptação de um original árabe escrito pelo historiador Cide Hamete Benengeli. Na segunda saída. mas. interpretadas. busca aventuras. Quixote volta para sua casa involuntariamente. da imaginação. Cervantes. . D. explorando a invenção de um tema ou a criação de uma personagem. No conjunto das duas partes. Desta vez. As sucessivas derrotas. falta-lhe o saber e o poder. dez anos depois da primeira. O episódio mais importante é a segunda luta de nosso herói com Sansão Carrasco. Estas modalidades lhe são conferidas. Quixote. do barbeiro. como na Renascença. o herói possui apenas o querer. o investe cavaleiro e o aconselha a providenciar um escudeiro e meios econômicos. carregado por um concidadão. esta visão se encontra. O terceiro retorno é definitivo porque a razão vence a quimera. que fala em terceira pessoa: é a voz da história. ele não atribui o fracasso às forças ocultas do inimigo. basicamente. ideologicamente. pelas três camponesas. no modo irônico.87 um sentido depreciativo só a partir do Romantismo. o romance apresenta uma composição circular e uma estrutura ternária: por três vezes D. volta e meia. da justiça sobre a prepotência. são atribuídas às forças mágicas de um imaginário oponente. que coincide com o fim do sonho. retorna. de onde partem e aonde voltam várias vezes. expressar suas idéias ou externar seus sentimentos. do vigário. A primeira saída pode ser considerada como preparatória ou iniciática: no começo da narrativa. A segunda parte se caracteriza pela maior importância conferida ao aspecto reflexivo: as aventuras não são apenas descritas. da verdade sobre as aparências. Lembramos a série de poemas épico-cavaleirescos centrados na lendária figura do herói Rolando. por quem D. o Orlando furioso.

enfrentando dificuldades e perigos. pela reconquista da razão e pela morte do protagonista. do amor puro e sincero contra o egoísmo e a falsidade. fazer-se cavaleiro andante. é o de que é inútil e insano lutar contra a ordem social. da crítica posterior. o baixo realismo da narrativa picaresca. o idealismo amoroso da lírica provençal. do espírito e da matéria. é superado pela postura céptica de Cervantes face à possibilidade de resolução dos problemas humanos e sociais. o romance de Cavalaria era um gênero literário profundamente ideológico. A existência de um herói idealizado. o discurso grandiloqüente da retórica. investigadores dos romances policiais. faz-se necessária perante a degradação da sociedade humana. como verdadeira obra aberta. profundamente antitéticos. vencedor. o cavaleiro andante era considerado incorruptível e invencível. desfazendo todo gênero de agravos. ir pelo mundo com suas armas e cavalo. D. já fraco da razão. teve o mais estranho pensamento que jamais nutrira outro louco neste mundo: pareceu-lhe conveniente e necessário. Na de Cervantes. do indivíduo e da sociedade. pois é proibido sonhar com um mundo ideal. se presta a várias interpretações. simbólico. sugerido pela derrota. O fidalgo D. é visto por Cervantes sob o modo irônico. cujas marcas são abundantes na literatura barroca espanhola. As aventuras de seu protagonista não são exaltadas. O herói era visto como o representante dos valores sociais. recorrendo a uma interpretação simbólica de que se revestem os dois personagens principais. E agradava às moças. tão bem descrito por Cervantes. super-homens da ficção científica). mas satirizadas. Por este sentido denotativo. Na descrição da tensão entre estas duas forças opostas. atribuindo-lhe proezas acima da força humana. que todo o homem sente dentro de si e toda a sociedade acusa em seu . a intercalação de poemas em versos que quebravam o continuum da narração em prosa. Mas todo este complexo ideológico. que deliravam com as lânguidas declarações de amor. não vividos. em busca de aventuras e exercitar-se em tudo o que havia lido sobre os cavaleiros andantes. O conteúdo colocado no fim do romance. Cervantes. mantendo-se distante de suas personagens: como bom humorista. as elucubrações mentais e o rigor lógico da filosofia escolástica. Mais interessante é tentar captar um sentido mais conotativo na obra de Cervantes. da religião cristã sobre o opressor muçulmano. cuja missão é a de “defender as moças. predestinado pela divindade a salvar seu povo. pela audição das aventuras descritas nos romances de Cavalaria. Toda época tem sua literatura de massa. tomados. conotativo. O conflito existencial. respectivamente. pudesse granjear fama e nome eternos. Quanto ao conteúdo. amparar as viúvas e socorrer os órfãos e os necessitados”. Quixote é considerado um louco por não enxergar a realidade que o circunda e tentar mudar a ordem das coisas. com a promessa de eterna fidelidade e com a exaltação da beleza incomparável da mulher amada. O mito da passagem da idade de ouro para a idade de ferro. sonhando com a volta a uma hipotética fase primitiva da humanidade. Perante a antítese entre o real e o ideal. denotativo. pois ele lutava pelo triunfo da justiça sobre a violência. O sentido denotativo é o que transparece da própria obra: o romance é uma sátira aos livros de Cavalaria e tem por finalidade propiciar aos leitores uma honesta diversão. que envolve a figura do cavaleiro andante e de todo herói da literatura de massa. não toma partido. Dois sentidos igualmente importantes devem ser ressaltados: um. tanto para acréscimo da sua honra como para servir a Nação. criado pelo inconsciente coletivo.Quixote. Este gênero literário agradava aos homens. simplesmente descreve e sorri. da fé e da razão. que se extasiavam com as proezas fantásticas dos cavaleiros andantes. Quixote e Sancho Pança. o romance é uma finíssima paródia da literatura cavaleiresca. D. a grande maioria do povo alimentava seu espírito pela leitura ou. do ideal e do real. outro. o cavaleiro andante passou a ocupar o lugar do herói mítico da literatura clássica. melhor. comparáveis às aventuras extraordinárias dos heróis da hodierna literatura de massa (mocinhos das narrativas de faroeste. porque expressava os sonhos e os anseios da coletividade. como símbolos do cavaleiro e do burguês. quando teriam reinados a paz e o amor sobre a terra. tomado pelo desencanto da vida. Pelas suas qualificações excepcionais. mas desejados pelo povo.88 Sentidos da obra O romance de Cervantes tem sido ininterruptamente estudado e. próprio da época do autor. é uma criação ideológica com vistas à luta contra as injustiças sociais. onde os ideais dos heróis andantes são magistralmente satirizados. literal. A missão do protagonista encontra-se explicitada no início da primeira saída. A forma livre do romance de cavalaria permitia a convergência de gêneros diferentes: a aventura heróica da poesia épica. obriga a humanidade a criar suas defesas: o cavaleiro andante. onde. Na fantasia coletiva.

A consciência da coexistência no ser humano dessas duas forças antitéticas. simbolizada por Sancho Pança. o superego freudiano que esmaga os desejos do indivíduo. no papel de Alonso Quijana / Miguel de Cervantes. uma camponesa vulgar e feia. idealismo da adolescência. DON JUAN (Casanova. onde predomina a descrição do fundo humano das criaturas. cria o conflito existencial. televisão. até hoje é submetida a uma grande variedade de interpretações. que sonha em estabelecer na sociedade um conjunto de valores ideológicos. Lembramos apenas o sucesso internacional do musical O Homem de la Mancha (EUA. tentam influenciar-se reciprocamente: o escudeiro sonha com o governo de uma ilha. as manadas de ovelhas. pode ser visto na representação de D. compaixão pelo pecador. fruto da oposição barroca entre a alma e o corpo. manifestação lingüística da sabedoria prática. Nestas obras. A crítica costuma dividir sua vastíssima obra de ficção em três partes: 1) Novelas da juventude (Pobre gente. na belíssima dama de seus pensamentos. Sancho Pança. e Sophia Loren. Quixote como a fantasia poética em contraste com a verdade histórica. caminhando juntos. Coração frágil. O humorismo sutil de Cervantes reside na consciência da impossibilidade de o homem poder superar o eterno divórcio que existe entre a poesia e a história. entra continuamente em choque com a realidade contingente. D. Apenas pela força de seu querer. Quixote. que castra o sonho do universal poético. de uma forma plena. extravasamento da vida na arte. teatro. as aventuras amorosas. já vislumbramos alguns dos traços mais característicos da ficção dostoievskiana posterior: traços autobiográficos (recordações da infância. Noites brancas. seu pensamento sobre moral e religião (crença no destino. as experiências . exprimindo-se por provérbios. contrastivamente. Quixote consegue criar um outro mundo. Ele representa a força das convenções sociais. complexo de Édipo). mais profundo e mais universal. portanto. Outro dualismo antitético. 1972). entre outras). expressão do real social. crítica às modas estrangeiras e apego à natureza). A arte. a honestidade.89 meio. acusação da injustiça social. A obra de Cervantes. que será explorado posteriormente. No mundo de sua imaginação. o modo peculiar de construir os personagens (esboços de vários tipos humanos que encontrarão seu acabamento perfeito nas obras da maturidade). é a personificação do prático. posição social etc. O bom-senso de Sancho. na literatura e nas outras artes do Romantismo e do Modernismo. “deben de ser y son”. em exércitos. sendo explorada por várias artes: pintura. e a loucura de D. a verdade. Louco ou “quixotesco” é todo o homem que luta em vão para modificar a dura realidade em que vive. do útil. duas prostitutas. a beleza. do vulgar. seu dono acaba se convencendo de que o mundo da cavalaria é um sonho impossível de se realizar. com sua ternura e espírito de abnegação. inspiradora e destinatária de seus feitos heróicos. entendida como reflexo do absoluto. predominância do uso do narrador em primeira pessoa. que pretendia depor o czar Nicolau 1. a humildade e o sofrimento como catarse. considerado o pai do romance psicológico. elementos de sua estética (crítica à literatura retórica e divorciada da vida real. condenado aos trabalhos forçados por integrar o grupo revolucionário de Pietrachevski. no qual. escultura. O protagonista D. timidez. símbolo do mundo ideal. os moinhos de vento transformam-se em gigantes. Ele torna-se. Quixote é considerado um louco porque decide fechar os olhos à realidade e viver num subjetivismo absoluto: “ yo pienso y es así”. introspecção analítica. um mundo ideal. em elmo. constituem um divisor de águas na produção literária de Dostoievski. que constituem a fase ainda romântica de Dostoievski. devem reinar a justiça. o amor puro. por ser altamente polissêmica. necessariamente. Na prisão. o símbolo do homem utópico. Páris. o conjunto dos valores reais (dinheiro.). reside a beleza humana e poética do romance. preferência pelos cenários noturnos e tempestuosos). dirigido por Arthur Hiller e interpretado por Peter O ‘Toole. o nobre e intelectual Fedor entra em contato direto com a camada do povo russo mais miserável e começa seu amadurecimento espiritual. que se completará com as viagens ao exterior. descrição da vida do estudante pobre. o mito da sedução masculina)Adônis Narciso DOSTOIEVSKI (o escritor símbolo da Literatura Russa) Sofrer e chorar significa viver Fedor Mikhailovitch Dostoievski (1821-1881) é o maior romancista da Literatura Ocidental. 2) Obras de transição: os quatro anos (1850-1854) passados na Sibéria. todavia. caráter introspectivo. em delicadas donzelas. uma bacia de barbeiro. cinema. representando Alonza / Dulcinea.

as personagens de Dostoievski “transpõem” seus caracteres. O idiota. piedade. Outro aspecto relevante é sua complexidade: o gênero dramático (Teatro) engloba a Literatura e outras Artes. onde são representadas as peças que se tornaram imortais. consciência da culpa vs. para ser representada no teatro de Atenas e continua sendo apresentada. Daí alguns estudiosos considerarem o gênero dramático como uma arte à parte. Quanto à temática. Mas. DRAMA  Gênero literárioTragédia Comédia Ópera Do étimo greco-latino drama. compaixão para com os fracos e os degradados. O fundamento psíquico da intenção ou do ato criminoso é o complexo de Édipo. o acesso às obras mais bonitas da dramaturgia ocidental seria proibido a um público que não mora nas metrópoles ou que não tem poder aquisitivo para freqüentar teatros majestosos. uma representação. Daí. tendências socialistas. musicais. A essência do drama é o diálogo entre as personagens. o texto escrito perde seu aspecto propriamente literário para adquirir os caracteres da dramaticidade. o motivo mais explorado pelo romancista é o sentimento de culpa que aflige o homem na sua tentativa de reparar as injustiças individuais e sociais através de um meio moralmente condenado. O intertexto de Dostoievski acusa a existência de homólogos. personagens. No contexto da representação. em várias versões. No seu intuito de explorar os subterrâneos da alma humana. pode ser estudado como texto literário. ironia. A frase “eu te amo” pode sugerir sentimentos opostos: paixão. em função do tom de voz. Se isso não fosse possível. tempo.90 desastrosas no jogo. significa uma “ação” feita em público. coreografia. O mesmo diga-se do gênero lírico: em suas origens e ainda hoje na canção popular. assinalamos a técnica da “transposição”. O jogador. não se limita apenas ao tratamento deste motivo. sentido de humanidade. O eterno marido. de imagens especulares. pronunciada pelo ator. o sofrimento físico causado pela epilepsia e a dor moral provocada pela penúria econômica. suas implicações intrínsecas com a arte da palavra. sonoplastia). sendo composto de uma constelação de signos: o texto escrito encontra-se entrelaçado por imagens visuais. poderá deliciar-se com a leitura do texto escrito. canoras. quem não tiver a sorte de assistir ao espetáculo teatral. analisando alguns elementos estruturais comuns ao gênero narrativo (fábula. Quanto ao aspecto formal. complementando-se e diferenciando-se. Assim. A palavra. Mas a temática de seus romances. pictóricas e plásticas. interdições socio-morais vs. diálogos) e imaginando outros específicos do dramático (cenografia. A peça Édipo Rei foi escrita por seu autor. numa mesma obra e de uma obra para outra. de desdobramentos de personalidade. separada da literatura. própria da estrutura artística da narrativa dostoievskiana. Os demônios. espaço. Memórias da casa dos mortos e Memórias do subterrâneo. mas reparte fatos e características psicológicas de forma a poderem ser vistos de vários ângulos. livre-arbítrio. formando uma intertessitura harmoniosa. embora mantenha sua significação lingüística. de prismas que refrangem a plurifacetação do ser humano. em todos os teatros do mundo. Sófocles. de outro lado. sendo signo de um objeto. indiferença. publicado em 1866) medeiam uma meia dúzia de trabalhos literários que atestam a gradativa passagem da primeira para a segunda fase. O sucesso da peça dá-se quando o diretor consegue combinar as diferentes linguagens de modo a anular cada uma delas em função da apresentação de uma visão do conjunto. abrangendo quase todas as contradições da época em que viveu: forças do instinto versus misticismo religioso. os versos . evidentemente. O adolescente e Os irmãos Karamazov) em que Dostoievski atinge a plenitude de sua técnica formal e consegue expressar sua mundividência pela temática existencial e pela construção de personagens que se tornaram imortais. cada qual expondo seu ponto de vista a respeito do acontecido. 3) Romances da maturidade: é o conjunto das sete narrativas (Crime e castigo. o crime. que o leva a odiar qualquer forma de tirania. Entre as obras da fase juvenil e o primeiro grande romance da época da maturidade (Crime e castigo. se é verdade que o texto teatral é escrito para ser representado e não apenas lido. na qual o espectador não consiga destacar nenhuma linguagem de modo especial. consubstanciada na figura do pai que submeteu a esposa e os filhos a uma autoridade brutal. Mas. pode mudar de sentido na dependência da maneira como é pronunciada. auditivas. violência vs. da mímica do rosto ou das mãos. imperialismo czarista vs. de duplos. Lembramos os romances Humilhados e ofendidos. Se contem um “script” que usa a linguagem poética. da postura corporal do ator. não podemos negar. o grande escritor russo não cria suas histórias e não constrói seus personagens de um modo linear e acabado. de embriões. a presença do “conflito” como elemento caracterizador do gênero dramático.

pois não conseguem proporcionar a felicidade almejada. descobre a “idéia-força” do estilo teatral na união falagesto: as palavras não passam de símbolos abstratos e. Outros críticos acham que a essência dramática está no conflito. além da linguagem. esta não apresenta a tristeza separada da alegria. Toda boa peça provoca no espectador a reflexão sobre a eficácia da observância dos valores ideológicos. O renascentista-barroco inglês Shakespeare coloca elementos cômicos em suas tragédias e elementos trágicos em suas comédias. Conflito que gera constantemente surpresa e tensão. com a sociedade. Comédia. onde não existe mais a oposição maniqueísta entre a peça trágica. geralmente no contexto de um show apresentado por bandas e cantores: mas isso não impede o prazer da leitura de um poema de Manuel Bandeira ou da letra de uma canção de Chico Buarque de Holanda no aconchego do lar. tratando de todos os problemas existenciais. que podem envolver o homem consigo próprio. havendo muitas homologias entre os três gêneros literários: um drama. Mais do que isso: para alguns estudiosos a poesia dramática é considerada a síntese da poesia épica e da poesia lírica. Demonstrando que certos valores são falsos e hipócritas. Aliás. na colisão entre os diferentes objetivos das personagens.91 poéticos estão ligados ao acompanhamento musical. mas que hoje não se sustenta mais na prática teatral. com a família. Quanto às “formas” do gênero dramático. elas precisam ser materializadas no contexto sensorial dos sons vocais aos quais os significados da emoção e do sentimento são inerentes por natureza . se a arte é imitação da vida. Na verdade. tem um enredo vivido por personagens num certo tempo e num determinado lugar. da máscara. também do aspecto físico do ator. Nele encontramos elementos narrativos (episódios de vida) e líricos (expressão de sentimentos). dramaturgos famosos nunca foram completamente fiéis ao principio da pureza dos gêneros. das vestimentas apropriadas. para que seja revelado seu pleno significado dramático. o drama sugere a mudança de costumes. com a divindade. Outra característica diferenciadora do gênero dramático é o aspecto temporal: se o gênero narrativo sempre se refere ao passado (conta uma história que já aconteceu) e o lírico se refere ao presente (exprime um sentimento que o eu poemático está vivendo aqui e agora). um sentido de vida. tem a função de induzir o homem à reflexão sobre a realidade em que vivemos. R. com certeza. Mas o poeta trágico foi severamente criticado por isso. ela pertence. Aqui vamos tratar apenas do “Drama Moderno”. Já o dramaturgo grego Eurípides misturara elementos cômicos à tragédia ao colocar um final feliz em suas peças centradas sobre o ciclo mítico troiano. Ópera) e menores: Farsa (incluindo o Mimo. dos gestos. de assunto nobre. inventado por Aristóteles a partir da análise das obras que ele conhecia. mesmo nos períodos de triunfo da estética clássica. Ifigênia em Áulis. destinamos verbetes específicos a peças maiores (Tragédia. de assunto vulgar. Ifigênia em Táurida. da iluminação adequada. desde que uma peça teatral contenha um texto escrito em linguagem poética. o Momo e o Vaudeville) e o teatro de Marionetes. também à arte da literatura. que faz rir. ocupando o justo meio entre a extensão da épica e a concentração da poesia lírica. indiscutivelmente. sofrendo ataques violentos do comediógrafo conservador Aristófanes. exprimindo um tema. o dramático visa o futuro: expõe a problemática dolorosa de uma situação existencial com o fim de estimular a catarse. o neoclássico francês . geralmente em conflito com a visão dos demais personagens. terminam com o happy end. a forma dialógica é a característica mais marcante da arte teatral. O que varia entre um gênero e outro é o modo como a história ficcional é contada e os meios diferentes de que o dramaturgo pode lançar mão. pois. Portanto. não apenas às artes cênicas. que os antigos chamavam de “Tragicomédia”. a pureza dos gêneros literários é um postulado teórico. e a peça cômica. O drama reúne a objetividade da epopéia com o princípio subjetivo da lírica. no teatro temos várias perspectivas ideológicas: o espectador fica sabendo dos fatos através da fala das personagens. Um estudioso do assunto. como um romance ou uma balada. Orestes e Electra. O gênero dramático. Enquanto no gênero narrativo predomina o ponto de vista de um narrador e no lírico a focalização está concentrada no eu poemático. Ao longo da evolução do gênero dramático. com a agravante de que personagens nobres casam-se com gente plebéia.Peacock (Formas da literatura dramática). no choque entre vontades opostas. que faz chorar. do cenário. mais do que qualquer outro tipo de arte. Tensão essa expressa formalmente através do diálogo. cada qual expondo idéias e sentimentos do seu ponto de vista. apesar de serem tragédias. a purificação dos sentimentos e a mudança do status quo. Daí a importância. um problema existencial.

cujo título oximórico já indica o tema da indagação sobre o mistério do Universo. O poeta Victor Hugo. minha mãe ficava sentada cosendo. que se encontra especialmente na coletânea Rosa do povo (1943-1945). foi cunhado pelo escritor latino Plauto: no Prólogo de Anfitrião. Eis a primeira estrofe do poema-título da coletânea “Sentimento do mundo” (19351940): Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. realiza a síntese do trágico e do cômico. morre comigo uma certa forma de ver O mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é o nosso “poeta maior”. a ação dramática pode provocar riso e choro. porque o teatro não tem apenas a finalidade de divertir ou fazer chorar. define essa sua obra dramática como uma tragicomédia. A fina inteligência e a sensibilidade apurada levam Drummond a uma percepção da realidade de uma forma mais autêntica e subjetiva. sobretudo. mas estou cheio de escravos. 4) A poesia metafísica. transcendental e banal. ao mesmo tempo. um verme. combinando os princípios estruturais e ideológicos dos dois gêneros. Da coletânea Claro enigma (1948-1951). para justificar a presença de personagens nobres (o deus Júpiter) junto com seres vulgares (o escravo Sósia). intuições. ia para o campo. antes separados. Entre os dois mestres da literatura nacional. o próprio termo tragicomédia. as personagens nobres e vulgares. no Prefácio à peça Cromwell.92 Corneille põe como desfecho de sua tragédia Le Cid o casamento de Rodrigo e Ximena. mas uma “tragicomédia”. Em 1934. 2) A poesia intimista do “eu retorcido”. A concepção do drama moderno nega a oposição sistemática entre o cômico e o trágico. a de fazer pensar e refletir sobre a nossa realidade existencial. que indica uma peça em que estão misturados elementos trágicos e cômicos. nomeado chefe de gabinete do ministro da Educação Gustavo Capanema. AIguma poesia (1923-1930). exercendo a profissão de funcionário público e de jornalista. qualificativo de . Mas é a partir da revolução estética promovida pelo Romantismo que a dramaturgia. símbolos e outras armas promete ajudar a destruí-lo como uma pedreira. onde permanece até sua morte. A problemática pode ser. Exemplificamos com o poema “Nosso tempo”: O poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras. há algo em comum: o senso de humor com que retratam o triste espetáculo da vida. mas. 3) A poesia política. comparável ao que foi Machado de Assis na prosa ficcional. Da primeira coletânea de poemas. Em Drummond podemos distinguir várias linhas poéticas: 1) A poesia saudosista da família e da terra natal. uma floresta. transcrevemos o início do poema “Infância”: Meu pai montava a cavalo. O drama burguês passa a substituir a tragédia e a comédia. de participação social. criando uma tal polêmica que obrigou a Academia Francesa de Letras a intervir. que inclina Drummond para um existencialismo niilista. minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. proclama o fim do mito da pureza dos gêneros. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé. deixa Minas Gerais e transfere-se para o Rio de Janeiro. escolhemos o soneto abaixo. O lexema “ingaia”. DRUMMOND (o “poeta maior” da Literatura Brasileira) Quando eu morrer. conscientemente. junto com a denúncia das outras prerrogativas da estética clássica. definindo a obra não como uma tragédia clássica. comprida história que não acaba mais. a melhor produção do gênio literário no campo da poesia brasileira. afastando-se dos padrões impostos pela opinião comum. Aliás. de reflexão sobre a essencialidade do ser humano. Meu irmão pequeno dormia.

Vejamos a primeira estrofe do poema Isso é aquilo: O FÁCIL o fóssil O míssil o físsil a arte o enfarte o ocre o canopo a urna o farniente a foice o fascículo a lex o judex o maiô o avó a ave o mocotó o só o sambaqui Seu poema antológico. telegráfico. dos ócios. se destroem no sonho da existência. Transcrevesmos aprimeira estrofe: E agora. em que os substantivos. o poeta mineiro formou o termo a partir do adjetivo “gaio”. à moda do futurista italiano Marinetti. também romancista e teatrólogo. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. marca da negação. José? A festa acabou. é um interrogativo sobre a busca de solução neste beco sem saída que é a nossa vida. O próprio título do conjunto de poemas escritos entre 1959 e 1962. parece sugerir tal interpretação. em que predomina o estilo sintético. o agudo olhar. a luz apagou. ilustrando o famoso adágio popular “Quem eu amo não me ama e quem me quer não me convém”: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. dos quebrantos. de étimo provençal. usando uma linguagem coloquial. Lição de coisas. João foi para os Estados Unidos. acessível ao grande público. onde o poeta mineiro trata do amor não correspondido. e agora. que significa “alegre”. você? 6) A poesia-prosa: a lírica de Carlos Drummond de Andrade é uma profunda e lúcida indagação sobre a essência e a existência humana. pois lhe mostra o mundo como um “círculo vazio”. à compreensão profunda da realidade. A relação do título com o corpo do poema seria essa: quando o homem consegue o dom de chegar à maturidade. Vejamos a não menos famosa Quadrilha. Maria ficou para tia. Raimundo morreu de desastre. Tal artifício técnico teria a intenção de representar esteticamente a coisificação da vida humana. . A linguagem poética é reduzida a um puro nominalismo. uma “cela”. assonâncias.93 “ciência”. A nosso ver. não se encontra dicionarizado e. O agudo olfato. José. chamado de “pai” para distingui-lo do seu filho natural homônimo. feita através da apresentação de quadros do cotidiano. DUMAS (o romance de capa e espada) Alexandre Dumas (1802-1870). portanto. Teresa para o convento. acrescentando-lhe o prefixo latino in. A relação é estabelecida apenas por elementos fônicos: aliterações. José? e agora. e nada pode contra sua ciência e nem contra si mesma. privados de qualquer adjetivação. a mão. 5) O poema-objeto. livre de encantos. ecos. são justapostos sem nenhum nexo sintático ou semântico. o povo sumiu. rimas internas e externas. o dinamismo da era da máquina. destruindolhe o “sonho da existência”. Uma estrofe de A ingaia ciência: A madureza sabe o preço exato dos amores. “iovial”. teve enorme sucesso com suas narrativas de “capa e espada”. Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. exige uma explicação. essa sabedoria o torna infeliz. a noite esfriou. simples.

Com o novo nome de Claire Zahanassian chega de trem junto com a sua comitiva e oferece milhões para soerguer a cidade. Esta é a fábula. A dramaturgia de Dürrenmatt não faz concessões ao público: irônica. da vingança. volta à cidade natal. sendo exploradas. a justiça vingadora. Dürrenmatt não acredita na possibilidade de uma transformação social. de família humilde e ainda de menor idade. os cientistas tomam a heróica decisão de internar-se num hospício com o fim de evitar que suas descobertas sejam utilizadas pelas grandes potências para destruir-se mutuamente. cega mas de boa memória. então. pois. pela ascensão social. agora casado e com filhos. Mas o poder da corrupção torna inútil seu sacrifício. é a seguinte: a jovem Clara Waescher. Um anjo vem a Babilônia retrata a fragilidade das instituições políticas e religiosas. um juiz reacionário e um idealista revolucionário) são derrotados por um oportunista sem escrúpulos. Denominada “comédia trágica”. se tornaram uma verdadeira literatura de massa. pela arte cinematográfica. acontece exatamente o contrário. DUMONT. que temem qualquer inovação mesmo que venha do céu. pois tivera relações sexuais com outros rapazes. A Velha Senhora vai embora. o Grande. um moço filho de um ricaço de uma cidade provinciana. As pessoas mais influentes da cidade. As instituições sociais. reconhecem a ignomínia de Alfred e decretam sua morte. sentimento irresistível do ser humano que a mitologia grega personificou na figura de nêmesis. O espectador fica sabendo de todo o conteúdo fabular pela fala das personagens ao longo do drama. acompanhada por dois maridos. O egoísmo humano atinge não só os indivíduos. mas a família do rapaz. A cidade de Gullen encontra-se num estado de total decadência: indústria parada. A peça mais famosa de Friedrich Dürrenmatt é A visita da velha senhora. Na representação da comédia Rômulo. casas abandonadas. Os três mosqueteiros e O conde de Monte Cristo. superficialmente cômica e muito divertida. é seduzida por Alfred Schill. inclusive a própria esposa e os filhos. que se tornaram pura utopia: capitalismo. mais tarde. em três atos. desiludido da vida. tornara-se um avicultor! Em O casamento do senhor Mississipi. Sua dramaturgia apresenta a crise de todos os grandes ideais da humanidade. Mas há um preço: a cabeça de Alfred Schill. legando à cidade o cheque prometido. mas inteiras coletividades. comércio fraquíssimo. Com o musical Frank V. a mocinha pede justiça. Assim caluniada. religião. arruma falsas testemunhas e prova no tribunal que ela era uma moça leviana. disposta a vingar a afronta sofrida na sua mocidade. Obrigada a prostituir-se para poder sobreviver. A trama da peça começa com a chegada de trem de Clara a Gullen e a festiva recepção. amor. pelo dinheiro. face às trágicas conseqüências das duas Guerras Mundiais de 1914-1918 e de 1939-1945. Apaixonada e grávida. especialmente a justiça. Santos (o sonho de o homem voar)ÍCARO DÜRRENMATT (dramaturgo suíço) O grande dramaturgo Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) confessou as influências de Strindberg e de Brecht. feroz. A visita da Velha Senhora é a tragédia do ressentimento. consegue casar-se com o milionário Zahanassian. a deixa herdeira de uma fabulosa fortuna. Clara é expulsa da cidade. pois as fórmulas são vendidas pela Diretora do manicômio. ao morrer. ironiza o fanatismo de um comerciante anabatista que se priva de seus bens para fazer uma experiência de vida comunitária. A dura realidade da existência é a luta pela satisfação dos instintos. socialismo. o sétimo e o nono. os três nobres pretendentes à mão da bela Anastásia (um intelectual aristocrata. . com respeito a Alfred. A peça de estréia. especialmente o antiilusionismo dramático e o recurso a fatos históricos do passado. mas profundamente trágica porque realista e verdadeira. sua fábula. palco e platéia são empestados pelo cheiro de bosta de galinhas: o último Imperador de Roma. por um mordomo e por seguranças. fraternidade. Sua ironia chega ao pessimismo mais absoluto. com relação a Clara. Em Os físicos. embora de fundo trágico. acaba perdendo a criança com apenas um ano de idade. para impedir o casamento. É também a comédia da moral burguesa regida pela lei do estômago: os acusadores de ontem se tornam os defensores de hoje. Seu teatro deve mais ao primeiro do que ao segundo autor. são facilmente corruptíveis porque ninguém resiste à força do dinheiro e ao jogo de interesses. Quanto ao sentido. que a tira de um bordel e. É este desencanto que justifica sua predileção pelo tom irônico e pela comédia. Mas não deixa de ter sorte: bonita e inteligente. Schill é assassinado pela coletividade e em público. atraídas pela força irresistível do dinheiro. isto é. a seqüência das ações em sua ordem cronológica. heroísmo. embora tenha utilizado algumas inovações técnicas de Brecht. Dürrenmatt faz uma hilariante sátira da vida dos banqueiros. satírica. A Velha Senhora. Está escrito. seu antigo sedutor e caluniador.94 Suas obras principais.

” Nos primeiros parágrafos do conto. Trata-se. depois. guarda-livros de um armazém de panos do tio Francisco.. acontecidos. onde ataca o falso moralismo da sociedade burguesa. Um deles. como intermediário entre o protagonista Macário (elemento do mundo da ficção). o que não contas ao teu amigo. eu calo-o. uma bonita loira de 20 anos. e o leitor virtual (elemento do mundo real). Singularidades de uma rapariga loura. Podemos considerar este primeiro momento do conto como a situação inicial da “trama”..... Suas melhores obras de ficção são: O crime do padre Amaro. calvo. moço de 22 anos.. gordo.. de óculos etc.. Resumo da fábula A situação inicial da “fábula”. solteirão inveterado. O primeiro encontro. durante uma viagem. de quem é receptor. Era singular que Macário não se lembrava. rápido e inconseqüente. de cabelos pretos. e. que o próprio Macário lhe contara. O narrador funciona.. de um narrador heterodiegético. Eça foi também um ótimo escritor de contos. que moram num sobrado fronteiriço ao armazém onde o jovem trabalha. casto e simples. de uma bela viúva de 40 anos. Eça de Queirós (1845-1900) é o maior escritor português da escola realista. Macário contou-me.. agora já no plano do enunciado (ou da história Mito) e não mais no plano da enunciação (Discurso). recorre ao longo do conto.95 EÇA (ficcionista português)Realismo “O que não contas à tua mulher. parte de um projeto inacabado de descrição da totalidade social através de romances seriados (o nome do programa era Cenas da vida portuguesa). A serenidade de vida deste jovem aplicado e comportado. renovando constantemente a conexão da transmissão do saber entre os dois narradores e o leitor: “Macário disse-me que nesse tempo. Essa função de elo de ligação entre o mundo imaginário e o mundo real confere ao narrador uma visão objetiva. Após cinco dias de tímido flerte.. Os Maias. Mas esse caso. de que o ficcionista português foi um mestre. “Começou por me dizer que o seu caso era simples e que se chamava Macário. na cidade de Lisboa. apresenta o protagonista. uma personagem ad hoc. para quem é transmissor da mensagem. numa noite de outono) e descreve as características psicossomáticas daquele que irá ser a personagem principal da narrativa: velho de sessenta anos. na estalagem”. o narrador relata como conheceu Macário (numa estalagem da região portuguesa do Minho. então. que compartilha o quarto do albergue. seguindo o exemplo de Balzac. mas que não participa dos fatos narrados. em que retrata a lascívia. Macário se apaixona pela jovem de cabelos loiros que nas tardes se debruçava na janela.. O primo Basílio. volta e meia. que ainda não conhecera os prazeres do sexo. no ano de “1823 ou 33”. O fingimento de apresentar a ficção como se fosse verdade é uma peculiaridade marcante de estilo da escola realista. é perturbada pela vista. a hipocrisia e a insensibilidade do clero de sua época. conta-o a um estranho. alto. Além de romancista. o “caso” amoroso que lhe acontecera na juventude e que marcara profundamente o destino de sua vida.” Problema do narrador O início deste conto de Eça de Queirós mostra a peculiaridade do foco narrativo empregado ( Discurso Narrador): o leitor vai tomar conhecimento da história ficcional do personagem Macário através de um narrador que fala em primeira pessoa. dá-se no armazém . primeiro. vividos e narrados por uma terceira pessoa. mas. Macário não pôde dar todos os pormenores . pois sua postura é a de quem narra fatos e descreve sentimentos. portanto. nos servirá como exemplo de análise da narrativa realista. colocada no conto com a única função de transmitir ao leitor o caso de vida do protagonista da história. pela aparecimento da filha desta. em que o autor cria a atmosfera propícia para Macário se dispor a revelar ao desconhecido. focalizando particularmente as causas psíquicas e ambientais que induzem a protagonista Luísa ao adultério. A presença de Macário como primeiro narrador ocorre não só no início da narrativa.. Segundo me disse Macário ..

A revelação final desta “singularidade” do caráter da protagonista é precedida por vários índices: a) o uso de um leque chinês. com características físicas que induzem o protagonista masculino e o leitor a ter dela a imagem de um ser angelical: cabelo loiro (a cor loira é a imagem simbólica da luz solar). mão pequena etc. O empregado da joalheria colhe o flagrante do furto e Macário. muda de idéia a seu respeito. que uns teóricos chamam personagens “planos’’ ou “de costumes”. podem ser encontradas ao nível do tema principal. No conto em estudo. mas de uma doença. inocente. pois ninguém queria desagradar o velho. b) o desaparecimento de uma caixa de lenços da Índia. Quando está disposto a tentar outra vez a fortuna no além-mar. pura. portanto. a moça Luísa. ao nível da qualificação dos personagens. c) o desaparecimento de uma moeda de ouro. que participam diretamente do desenvolvimento do enredo: 1) A personagem-título. os sinais de seu vício predominante são evidenciados pelo contraste entre a apatia com relação ao sentimento amoroso (nos encontros noturnos com o namorado chega a ter sono) e o fascínio que sente pelos objetos de alto valor material: veja-se a atração pelo rolar da moeda de ouro em cima da mesa e o alvoroço com que . Macário é obrigado a saldar a dívida do canalha e fica outra vez na miséria. passa maus momentos. O jovem. porque é impelido a agir por um determinismo atávico ou ambiental. Trata-se. não existem culpas subjetivas. com traços identificadores e imutáveis. Mas. e outro na própria residência das Vilaça. No além-mar. durante uma reunião social na residência de uma família amiga. pois é a hereditariedade ou o meio social que induzem o ser humano aos desvios da norma de conduta. pois a jovem Luísa estava prestes a se casar com um homem abastado e não precisava furtar um objeto que o noivo lhe estava oferecendo como presente. pede desculpas e paga a vultosa quantia correspondente ao preço do anel roubado. Seguem-se mais dois encontros: um. a cleptomania. se sacrifica e consegue acumular uma pequena fortuna. sem perder a calma. Percebemos como a estética realista cultivou a exploração de temas ligados a deficiências biopsíquicas. Desesperado. Nível das personagens: A narrativa da época do Realismo constrói personagens de uma marcante coerência psicológica. num sarau em casa de um tabelião letrado. pede-lhe para ser fiador de uma grande quantia e foge com o dinheiro e a mulher de um alferes. o jovem abandona Luísa. se descobre a identidade da pessoa que praticara os outros roubos. que fazem com que o sujeito de ações criminosas seja isentado da responsabilidade de seus atos. Marcado o dia do matrimônio. Conforme a doutrina do Positivismo e do Determinismo. Ao nível do parecer. chamando-a de “ladra”. quando. inesperadamente. de grande valor. ao nível da descrição do ambiente (Tempo e Espaço) e ao nível da metalinguagem ( Retórica). não de uma necessidade. filha de uma viúva pobre. Sentido do conto As características do Realismo. Tais indícios preparam o leitor para a compreensão do desfecho do conto. que não aceita a idéia. verificamos a presença de três personagens principais. o amigo “do chapéu de palha”. não existindo nenhuma complexidade psíquica. com o episódio do furto do anel de pérolas. vai visitar o tio Francisco que. Macário decide casar-se com Luísa e comunica esta sua determinação ao tio Francisco. verdadeiros “tipos”. Macário aceita o convite de uma firma para ir trabalhar no Cabo Verde. como vimos. Macário leva a noiva a fazer compras e Luísa rouba um anel com duas pérolas. perdido o emprego e a residência. magnífico.96 onde a viúva e a filha foram comprar mercadorias. desde o começo. exerce o papel temático de cleptomaníaca. uma anormalidade psíquica que consiste num impulso irresistível de roubar sem necessidade. luta. não sendo aceito em nenhuma outra firma comercial. pele fina. não querendo renunciar ao amor de Luísa. Chegando na esquina. No dia seguinte parte para a província. ela é descrita como uma jovem ingênua. ao nível do ser. que lhe arrumara o negócio no Cabo Verde. fruto de uma tara. neste conto de Eça. recatada. Os personagens são qualificados. no dia em que a mãe e a filha Vilaça foram no armazém do tio Francisco com o pretexto de comprar casimiras pretas. que não condizia com a posição social de Luísa. Nível temático: Eça explora artisticamente o tema da “cleptomania”. Voltando a Lisboa. o roubo do anel não tem uma explicação lógica. Enquanto os outros furtos poderiam ser atribuídos às precárias condições econômicas das duas senhoras que viviam sem o amparo de um homem. O que caracteriza a anormalidade psíquica da personagem ladra é a gratuidade do ato. consentindo com o casamento e dando-lhe participação na sua firma.

como em outras obras. mas prático nos negócios. Sua oposição ao casamento do sobrinho. a chorar. a recordação nostálgica dos tempos passados e dos lugares longínquos. honesto e de uma retidão moral inabalável. podemos observar o cuidado com que o autor descreve os ambientes físicos. na estalagem”. referências ao movimento literário. Fazemos referência apenas a duas ocorrências. citando um antigo provérbio: “o que não contas à tua mulher. mas homem de bem”. oculta pela aparência de severidade e intransigência. outra ao do enunciado (história): a) No início do conto. assume a dívida daquele que considerara seu amigo. o som da rabeca de um vizinho. Que o ambiente era propício à revelação sentimental é declarado pelo próprio narrador que nos reconta a história de Macário. Sentimentalmente tímido. que morava em frente. mas de oponente. que casara em Vila Real. o pano de fundo. por ter assinado a fiança. é o protótipo do jovem de princípios. porque se deixa embrulhar pelo “amigo do chapéu de palha”. A lágrima que lhe corre pela face enrugada. porque não compreende a doença de sua noiva. conta-o a um estranho. que criam a atmosfera propícia ao acontecimento de um fato ou à revelação de um sentimento. que ainda não tinha “sentido Vênus”. quando deveria procurar-lhe um médico. solteirão e misógino. Selecionamos algumas expressões que nos parecem significativas: . neste aspecto. uma pertencente ao plano da enunciação (discurso). deixando-se levar pela paixão amorosa. antes de todas as seqüências narrativas importantes. a comparação de si próprio com “os gatos sensíveis que se esfregam”. o autor evidencie. condenando-se a uma perpétua e infeliz solidão. Nível descritivo: a representação minuciosa do ambiente. lhe faz pressentir que o sobrinho seria infeliz no seu relacionamento amoroso. a lembrança dos cabelos negros e dos alvos braços da senhora Vilaça. Homem de bem. explícita ou implicitamente. porque. confundindo cleptomania com roubo e ameaçando de entregá-la à polícia. com relação ao seu progresso profissional e econômico. que induz o jovem a mudar o rumo de sua vida: a noite quente de julho. estúpido. em que a atmosfera estava “elétrica e amorosa”. a lembrança do amigo comum Peixoto. Nível metalingüístico: o envolvimento de Eça de Queirós com a escola realista faz com que. jovem “estúpido. Ele exerce a função de ajudante do protagonista. pode ser entendida como o desejo de preservá-lo da desgraça da união com uma mulher. a monotonia da vida de um jovem solteiro. é uma característica peculiar da escola realista e Eça. porque vive de acordo com seu código de honra: por ter beijado Luísa. b) O surgimento da paixão amorosa de Macário pela bela loira também é precedido pela descrição do ambiente físico. Seu tio o define muito bem como “estúpido. Eça prepara toda a atmosfera propícia às revelações confidenciais: a viagem de carruagem através de uma região pitoresca. Tudo isso leva Macário. É o determinismo psíquico que induz a personagem a procurar o que realmente satisfaz sua necessidade existencial. sente-se obrigado a casar com ela. mas homem de bem”. relativamente à sua aspiração ao casamento. revela a sua faceta profundamente humana. o encontro de dois homens solitários. paga o preço do anel e abandona a moça. que era o motivo da sua realização existencial. por ter descoberto o furto da noiva. Ao longo da narrativa. o outono.97 examina e experimenta nos dedos os anéis na loja do ourives. 2) O protagonista Macário é descrito como um jovem pertencente à “burguesia cautelosa”. na noite em que faz as pazes com Macário. que constitui o cenário. renuncia ao emprego que lhe dava segurança econômica. a chegada numa estalagem desconhecida. A experiência do velho. cidade onde os dois homens viveram parte de sua vida. o espaço (o meio) e o tempo (o momento) são fatores importantíssimos para a formação do caráter e elementos indispensáveis para a compreensão da conduta. inteligente. mais do que um capricho de seu autoritarismo. Segundo as teorias positivistas e deterministas. é a prova máxima do imenso afeto que sente pelo sobrinho. 3) O tio Francisco é qualificado como um velho autoritário e tirânico. a noite. onde os personagens agem e expõem seus sentimentos. é um mestre. No conto em análise. o que não contas ao teu amigo. Estúpido. neste conto. estúpido. podem ser relevadas umas séries de enunciados em que o narrador denuncia sua adesão aos cânones estéticos e ideológicos do Realismo e sua ojeriza aos ideais artísticos do Romantismo. mas sem malícia. velho de sessenta anos. cuja família cultivava a velha tradição de “honra e de escrúpulo”. É o único personagem que apresenta uma mudança psicológica: no fim do conto. conhecedor da vida. predispondo-o a revelar a um conhecido ocasional o episódio mais importante de seu passado.

casa e cidade) A cidade é uma casa grande. conforme o relato que se encontra na pastoral Dáfnis e Cloe do romancista grego Longus. Para vingar-se. A figura mítica dessa bela jovem foi criada pelos gregos para explicar a origem do fenômeno físico do “eco”. ECO (o mito da repetição sonora) Narciso Orfeu “Aquela que não sabe falar em primeiro lugar. na Mesopotâmia. amigo das musas. referindo-se a seu estado de espírito sentimental e romântico. a lenda de Eco teve múltiplas versões literárias e musicais. pois Eco. Esta lenda. Segundo uma versão do mito. que se encontra descrita nas Metamorfoses do poeta latino Ovídio.C. Por essa versão. não conseguia declarar-lhe seu amor. aproximando Eco de Orfeu. “iconografia”): como Narciso reflete seu rosto na fonte. serralhos. A cidade de Ur. ECOLOGIA (e Economia: a conservação do ambiente: natureza. A par de outros mitos fecundadores.C. cria uma imagem sonora. na figura do tabelião (homem letrado. e que repete apenas os últimos sons da voz que lhe chega” (Ovídio).. desesperada. a figura mitológica de Eco liga-se aos poderes espirituais da música. sendo por ele abandonada. de homens. duplamente vítima de Pã. A campina era o espaço coletivo. separando o ambiente fechado (cidade) do aberto (campo). sendo-lhe permitido apenas pronunciar a última sílaba de uma palavra. sultanas cor de âmbar. Sua voz passou a imitar todos os sons: de deuses. pertencente ao séqüito de Hera (Juno). quando fala dos “velhos poetas pitorescos”. A atividade econômica (sustento da casa) e ecológica (preservação do ambiente) têm muito em comum. pela repetição do som. na realidade e na arte ” A ironia sobre o Romantismo aparece também aqui e acolá: quando. o mais matemático ou o mais crítico. Quando a ciumenta Juno se apercebeu do estratagema. cheias de perfume de aloés onde paxás decrépitos acariciam leões”. a casa é uma cidade pequena (ditado grego) O étimo oikos. o deus dos bosques. que não pode calar-se quando alguém fala com ela. de instrumentos.. piratas do arquipélago. A ninfa. associa o mito de Eco ao de Narciso. no IV Milênio a. surgiram códigos de condutas. O castigo foi cruel. e salas rendilhadas. Para estabelecer o equilíbrio entre as propriedades privadas e públicas. enquanto o deus todo poderoso ficava paquerando as ninfas. que é um espaço maior com mais habitantes. quando. de nariz adunco e fatal. séc. de objetos. era circundada por um muro e um fosso.. Eco era uma ninfa das montanhas. de canudo na mão). satiriza “as primeiras audácias românticas” .. relacionando o nome da ninfa com o étimo eikôn. nas margens dos rios Tigre e Eufrates. que possui o dom da música e do canto. filha de uma ninfa. desde as origens do primeiro agrupamento humano de que temos notícias. Pã “suscitou um acesso de furor nos pastores e guardadores de cabras”. cultivando a terra. castigou a jovem ninfa privando-a da fala. de onde cada comunidade tirava o sustento. latinista.. assim Eco. considera que “não se pode ser mais estúpido”. Este deus castigou a moça quer porque lhe invejava a beleza do seu canto quer porque ela lhe recusara seu amor. visando o uso das . mas cúmplice de Júpiter: com seu canto e sua tagarelice entretinha a esposa divina. de cabelos compridos. que despedaçaram o corpo da bela jovem e “espalharam pela terra seus membros que cantavam ainda”. Com efeito. (Dafne) Aqui. II d. gerenciar uma casa tem muito a ver com governar uma cidade. deu origem aos termos Ecologia e Economia. de gritos de bichos. Já uma variante do mito de Eco relaciona a ninfa com Pã. embrenhou-se nos bosques e foi definhando até restar dela apenas uma voz que faz eco nas montanhas.98 “Sou naturalmente positivo e realista. que significa “imagem” (de onde veio “ícone”. que significa “casa” ou lar. apaixonada por Narciso. a continuada repetição de um som a longa distância. em que “a poesia apossava-se vorazmente deste mundo novo e virginal de minaretes. o atual Iraque. Eco é uma mortal.

da democracia. a Itália e o Japão (que no após-guerra adotou o modelo “ocidental” de sociedade). que se acelerou o processo de devastação da natureza. deixando seus filhos sem alimentos. Atenta-se ao paradoxo: um homem que maltrata os animais ou suja as águas de um rio. a partir do séc. durante a Idade Média. o mais perigoso. autopeças. Todas as grandes nações se desenvolveram usando a ferrovia como meio de transporte a longa distância. O estudioso David Landes. Mas no nosso país a ferrovia virou sucate. vimos um monumental moinho de vento. não deixando que ideologias utópicas ou crenças religiosas atrapalhassem seu desenvolvimento econômico. florestal (não permitir o desmatamento sem o plantio de novas árvores). O poder público. Infelizmente. distribuindo esmolas via cesta básica e outros paliativos. além de não sofrer penalidades. mais barato e menos poluente. diminuindo o oxigênio necessário para a vida dos peixes. A preocupação ecológica deve ser o encontro de um equilíbrio entre o progresso da sociedade e a preservação do meio ambiente. Portanto. ao mesmo tempo em que se proporcionava uma melhor qualidade de vida. a maravilhosa ilha do Nordeste brasileiro. Nenhuma ajuda será suficiente se não houver o espírito patriótico de promover o progresso da coletividade. países massacrados na II Guerra Mundial. Está na hora de todas as pessoas de bem se unirem num coro de vozes para sacudir a consciência cívica e exigir dos governantes a solução dos problemas estruturais que impedem o progresso da nossa nação. educacional (escolas suficientes e de bom nível para todos os habitantes de uma cidade). que cultivavam as terras. em lugar de por panos quentes. a ecologia. No fundo. É muito cômodo culpar o Capital estrangeiro pelo atraso cultural e pela pobreza. mais seguro. que somente a adoção dos valores europeus da liberdade. desativado porque tinha causado a morte de uma ave. aumentando os aglomerados urbanos. Como diz um provérbio chinês: “todas as flores do futuro estão nas sementes de hoje”. só se fala em indústria automotiva e em estradas de rodagem. Em Fernando de Noronha. combustíveis.99 águas e outras relações de vizinhanças. aéreo e hidroviário. Foi com a Revolução Industrial. que é o mais caro. preconceitos religiosos e ganância de grupos econômicos. Os países subdesenvolvidos. pneus. Sem falar dos políticos. O dinheiro irá se perder nos meandros da burocracia inepta e dos políticos corruptos. o rodoviário. A Alemanha. Na Europa Ocidental. Há sempre ecologistas de plantão mais sensíveis ao corte de uma árvore. país de uma extensão enorme. considerada um paraíso ecológico. além de uma escolaridade deficiente. urbano (não inchar a cidade de habitações sem infraestruturas). tem que olhar para o futuro para melhorar o macro-ambiente. caminhões. Ele sugere que os países subdesenvolvidos têm que aprender. qualquer problema ecológico deságua na falta de cultura de um povo. Daí a necessidade do planejamento familiar (não permitir a fábrica de seres humanos se não há meios de sustentá-los). tem raízes longínquas. uma vez por toda. da educação de todos. É uma vergonha constatar que no Brasil. deixa bem claro que a história do desenvolvimento econômico ensina que é “a cultura que faz toda a diferença”. do transporte (privilegiar os meios coletivos e antipoluentes). XVIII. a natureza e a sociedade humana como um todo. que é mais rápido. pois seu funcionamento contraria os interesses econômicos de grupos brasileiros e internacionais que querem vender carros. do estímulo à criatividade e o apreço pelo trabalho podem levar uma nação ao progresso e à independência econômica. é merecedor da ajuda solidária de entidades assistenciais. considerada como proteção ambiental. o mais lerdo e o mais poluente. O regime feudal (Medievalismo) apresenta o “Castelo” com seus muros e fosso circular. construído para captar a energia solar. impedem olhar para o futuro e preocupar-se com o bem estar da coletividade. que visam apenas lucros imediatos. acontece algo de semelhante. é condenado por um crime hediondo. na sua obra A Riqueza e a Pobreza das Nações (1998). a quem caberia a obrigação de zelar para o bem público. têm o mais alto índice demográfico e o pior tipo de transporte. . já o homem que gasta o dinheiro com drogas ou outros vícios. estando mais preocupados com a morte de um passarinho do que em promover uma campanha a favor do transporte ferroviário. que separavam a moradia do Senhor dos casebres onde viviam os habitantes do burgo. do que ao sofrimento de crianças abandonadas nas calçadas. tornaram-se grandes potências porque os governos democráticos investiram na educação e no trabalho do seu povo. os próprios ecologistas não atinam para a importância desses problemas cruciais. mas carente de água e eletricidade.

revolucionando os estudos da psicologia pela descoberta do pansexualismo e da imensa força do inconsciente no comportamento humano. sem saber. Após vários anos de reinado e de casamento feliz. seduziu o príncipe Crisipo. Etéocles e Polinice. inconsolável pela perda do filho. porque um oráculo dissera que a cidade que possuísse a tumba de Édipo seria protegida pelos deuses. Para esclarecer a dúvida. o adivinho Tirésias que acaba revelando a verdade: Édipo. decretam a morte do recém-nascido. . além de ter sido objeto de encenação pelos três maiores poetas dramáticos do período ático da Grécia antiga (Ésquilo. o norte-americano Eugene O'Neill. entre tantos outros. Édipo em Colona. mas Édipo se recusa a retornar. após a morte do pai Édipo. Entretanto. se tivesse algum. abençoado pelo nascimento de quatro filhos (Etéocles. o rei de Tebas. acabando por matarem-se mutuamente. o dramaturgo grego Sófocles constrói sua trilogia trágica. Laio e Jocasta. teve um largo sucesso na história do teatro no Ocidente: o dramaturgo romano Sêneca. um monstro metade mulher e metade leão. esse mito influenciou a realização de obras ficcionais do gênero narrativo e lírico. inspiraram-se no mito de Édipo para elaborar peças imortais. Já moço. amaldiçoou Laio e todos seus descendentes. sem saber que era seu pai. Creonte.100 ÉDEN (o espaço do sonho) Paraíso Utopia ÉDIPO (mito e complexo)Tragédia Sófocles Freud “Não tenhas medo da cama de tua mãe: quantas vezes em sonho um homem dorme com a mãe!” (Jocasta a Édipo) O mito de Édipo é um dos mais empolgantes entre os inventados pela genialidade do povo grego. Antígona e Ismênia). o pai da psicanálise. salvo por um pastor. Políbio e Peribéia (no texto de Sófocles a mãe adotiva de Édipo é chamada de Mérope). Na tentativa de evitar a terrível predição. este seria a causa da sua morte! Sobre este mito. a caminho para Tebas. a que lhe dera amparo na hora da desventura. E não somente a literatura. nas proximidades de Atenas. solicitam sua volta. O rei Pélope. ao saberem pelo oráculo de Delfos que o filho nascedouro seria o assassino do próprio pai. onde Sófocles retoma o assunto já tratado por Ésquilo no drama Os sete contra Tebas: Antígona. Mas. Chegado em Tebas. que narra como o herói. ele foge de Corinto e. que devorava os viajantes que não conseguissem desvendar o seu enigma. Outra peça é Antígona. mas também outras artes tiveram sua fonte de inspiração no mito de Édipo: pintura. escultura. liberta a cidade da Esfinge. durante uma estada na corte do rei da Frigia. Sófocles e Eurípides). a resposta é de que a peste não cessaria enquanto permanecesse na cidade de Tebas o assassino de Laio. depois de longas viagens. mas o assunto é retomado também em mais duas obras. acaba matando um desconhecido. o que mais contribuiu para a vulgarização desse mito foi o interesse do cientista e pensador austríaco Sigmund Freud. As buscas ordenadas por Édipo são infrutíferas. Édipo ouve insinuações sobre a sua verdadeira filiação. A fábula edipiana. acompanhado apenas pela filha devotada Antígona. passa-lhe o trono e lhe oferece a rainha em casamento. preferindo que seus restos mortais abençoem a pólis de Atenas. volta para Tebas e assiste impotente à luta fratricida dos irmãos Etéocles e Polinice para o mando da cidade. o francês Corneille. televisão. irmão de Jocasta e regente de Tebas pela recém-morte do rei Laio. governada por Teseu ( Ariadne). após a expulsão de Tebas. o inglês Shakespeare. O bebê. Consulta-se. uma misteriosa epidemia começa a dizimar os habitantes de Tebas. Creonte. e os dois filhos de Édipo. cinema. rogando a praga de que ele jamais tivesse filho ou. vai interrogar o oráculo de Delfos que lhe revela que mataria o pai e casaria com a mãe. Por este ato heróico. Foi ele que transformou o mito em "complexo de Édipo". então. o raptou e depois o abandonou. O mito A tradição oral e escrita sobre a figura de Édipo narra que os soberanos de Tebas. durante uma altercação numa encruzilhada. quando jovem. que o criam como filho. que analisaremos a seguir. O Édipo Rei é a peça central. Além do Teatro. causando a morte do jovem amante. Jocasta se suicida por enforcamento e Édipo vaza os próprios olhos e é expulso da cidade. por suicídio. Polinice. encontra acolhida na Ática. é entregue aos soberanos de Corinto. Em face de tal monstruosa revelação. O sofrimento de Édipo é a conseqüência de um pecado atávico: seu pai Laio. sem dúvida. Consultado novamente o oráculo de Apolo. escolhendo por moradia o burgo de Colona. matara seu pai e casara com sua mãe.

que começava in medias res. Édipo decreta. Mais tarde. vão contando aos espectadores o que acontecera antes. expressando o sentimento da coletividade. Como durante a altercação de Édipo e Tirésias. enquanto ele estava em Tebas. faz com que os personagens. A única dissonância era o fato de que o servo que se salvara dissera que Laio fora morto por um bando de salteadores e não apenas por um homem só. então. O rei responde ao sacerdote que já tomara providências. o entregara a um pastor.101 Desobedecendo à ordem de Creonte. libertara Tebas dos horrores da Esfinge. Após a insistência de Édipo. começa a lembrar o passado de Édipo. Usando a mesma técnica do poema épico. que desvendara o enigma e destruíra o terrível monstro. mas por eles adotado quando. O rei Édipo rechaça as acusações de Tirésias. apresentando a situação inicial da peça no momento em que o protagonista. morreria pelas mãos do próprio filho. aos poucos. Segue-se a terrível proclamação de Édipo contra o assassino de Laio. Atena ( Minerva). que se sente ofendido por ter sido acusado de conspiração. filho de Creonte. ele fora morto assassinado por bandidos numa encruzilhada. com o intuito de acalmar Édipo. acusa-o novamente dos delitos involuntariamente cometidos e profetiza todas as desventuras de que ele será vítima. invoca a ajuda das várias divindades cultuadas em Tebas: Zeus ( Júpiter). de tempo e de lugar. em que estão contidas várias antecipações do que irá acontecer no final da peça. fora encontrado no monte Citerião. então. matara um velho senhor e alguns servos que o acompanhavam. Mas ele se recusa a falar. quando. entra em cena o cego e vidente Tirésias. que quer usurpar-lhe o trono de Tebas. ela dá sepultura ao corpo do irmão Polinice. Sófocles escolhe um dos momentos mais dramáticos do mito sobre Édipo e. O emissário informa que a criança fora-lhe entregue por um pastor da casa de Laio. o habilitaria a conhecer a causa da pestilência. dirige suas palavras ao povo que chegara ao seu palácio. desesperado com a morte da jovem. acusando-o também de uma concupiscência incestuosa. velho muito respeitado pelo dom da adivinhação. também agora. se mata também junto ao cadáver da amada. salvando outra vez a cidade. para demonstrar a verdade desse seu pensamento. o emissário acaba fornecendo a pista principal para a solução do enigma: revela que Édipo não é o filho dos soberanos de Corinto. assume o papel de conciliador e sugere a intervenção da rainha. O pastor é chamado em cena e acaba revelando que a rainha Jocasta lhe entregara o recém-nascido. segundo a profecia. na realidade. revela que estava predito que seu primeiro marido. Faltando-lhe a coragem de assassinar o bebê. então. O sacerdote. razão pela qual é presa. Além de ser a tragédia do amor filial e fraternal. Expulso Tirésias. enviando o cunhado Creonte para interrogar o oráculo de Delfos. afirma que as profecias são falácias e. quando. pedindo ajuda contra a peste que dizimava a cidade. de igual para igual. ela se estrangula no cárcere. usando do recurso técnico do flash-back. já rei de Tebas. a rainha se mata por enforcamento e Édipo vaza . com os tornozelos amarrados (Édipo. que fala em primeira pessoa. no lugar descrito por Jocasta e numa época aproximada. com a ordem de matá-lo. a partir daí. este. Jocasta exulta com esta notícia. uma investigação para descobrir o autor do crime e o coro. responde ao rei. entra em cena Creonte. o coro. Este particular coloca Édipo na pista certa: lembra-se de que. durante uma briga pela precedência da passagem. Apolo. Édipo. significa "de pés inchados"). Jocasta. Dionísio (Baco). Ártemis ( Diana). Perante tal terrível anagnórisis (revelação). A trama da peça: Édipo Rei Sófocles. então. insinua que é ele próprio o assassino que Édipo procura. aduzindo que a revelação da verdade magoaria o próprio rei. criança. chegando à cidade. fugindo de Corinto a caminho de Tebas. O adivinho. Mas fica ainda a possibilidade de Édipo casar com sua mãe. Creonte volta e relata a resposta de Apolo: a causa da peste é a permanência em Tebas do assassino de Laio. A sabedoria excepcional de Édipo. visto que morrera de velhice em Corinto. Enquanto se manda chamar o escravo. Laio. etimologicamente. Antígona apresenta também um conflito romântico que terá muito sucesso na literatura ocidental. Para afastar também este temor do espírito do rei. pela necessidade dramática da unidade de ação. Segue-se uma violenta altercação durante a qual Édipo ofende Tirésias. insiste em saber a sua verdadeira filiação. retomado especialmente por Shakespeare na peça Romeu e Julieta: o noivo de Antígona. pelas palavras do corifeu. pois pode provar a falácia das profecias: Édipo não tem mais motivo de temer de matar seu pai. chega um emissário de Corinto com a notícia do falecimento do rei Políbio. opera um corte no material fabular preexistente sobre o mito de Édipo. afirmando que o velho é cúmplice de Creonte. personagem que em nome da massa popular dirige a súplica ao rei.

Políbio é o homem "de muitos bois". ele é essencialmente um "ser que se sacrifica" em beneficio de seus súditos. o rei acumula os dois poderes.). então. quando se deu a fixação na terra de povos anteriormente nômades. o poder. especialmente pelo drama Édipo em Colona. dominado por um profundo sentimento de absolutismo.102 seus olhos com alfinetadas. e esta leva à maquinação de crimes: “Ó riqueza. Mas.pois quem matou Laio talvez me esteja preparando o mesmo fim: ao justiçá-lo. sendo a rainha Jocasta sua principal sacerdotisa. é a mim que sirvo”. conforme as próprias palavras de Édipo. É nesse sentido que Sófocles confere a Édipo um caráter de sacralidade: seus restos mortais serão o penhor da bênção divina para a terra que os possua! Podemos ver na figura de Édipo a representação mítico-artística da passagem do regime matriarcal para uma sociedade patriarcalista. a separação da Igreja e do Estado.. Enfim. o rei-sacerdote é tido como a encarnação da própria divindade. O estrangeiro Édipo seria o representante dos aqueus invasores que. A Esfinge seria uma divindade pré-helênica. que de igual para igual eu te responda: o que é direito. Após admitir publicamente este seu temor. apesar da integridade do seu caráter. Apontamos os tópicos mais explorados: 1) Tema do poder (o triunfo do patriarcalismo teocrático) “Fala diante de todos: a dor dos meus vassalos importa mais do que a minha vida!” Essas palavras de Édipo dirigidas a Creonte são um sinal de que ele tem consciência de ser um arconte justo e dedicado ao bem-estar do seu Estado. segundo o mito da realeza arcaica. tornando-se injusto. é um privilégio meu! Não é a ti que eu sirvo: eu sirvo a um deus. tem o fim patriótico de exaltar a cidade de Atenas. mas o direito manda. mas também por minha causa . Peribéia é a senhora "circundada pelo gado". por volta do século XIII a. venerada em Tebas. a tragédia Édipo Rei foi objeto de várias interpretações. Já com referência à época do autor da peça (século V a. deusa lunar. É que. sem prova alguma. A esta nova civilização. C.C. Alguns sentidos possíveis: ao longo do tempo. nunca estive a serviço de Creonte!” Mas tal distinção de poderes não agrada a Édipo. e não só pelos outros. sabedoria. tema dos mais discutidos ao longo da história ocidental. porque os acusa por mera suposição. a representação do mito de Édipo. A vitória de Édipo sobre a Esfinge simbolizaria a substituição do calendário lunar de três estações pelo calendário solar de quatro estações e a passagem de uma sociedade matriarcal ao patriarcado. Considerando-se mediador entre os deuses e o seu povo. “Hei de lavar a nódoa deste sangue. Édipo se deixa transtornar pelo medo da perda do poder. fundamentada nas liberdades democráticas. Com efeito. causador de terríveis conflitos em vários países. .C. poder. quando passa a imaginar que o seu poder está ameaçado pelo cunhado Creonte. significa "possuidor de gado". relacionada com a constelação da Virgem. a riqueza e a sabedoria naturalmente geram a inveja. etimologicamente. pode ser verificada também pela onomástica predominantemente pastoril: Laio. o herói suplica a Creonte para que o expulse da cidade.. penetraram na Grécia e substituíram os velhos cultos creto-micênicos pela religião dos deuses do Olimpo. A relação do mito de Édipo com a mudança social havida na Grécia ao redor do século XII a. que comenta dolorosamente o fatídico acontecimento. A peça termina com a voz do coro. tem que se integrar a antiga cultura teocrática e patriarcalista de Tebas. quanta inveja trazeis em vosso bojo!” Outra observação a ser feita é a distinção entre o poder político e o poder religioso. Tirésias diz a Édipo: “Tu és o rei. O soberano adquire o estatuto de "vitima sacrifical": nos Estados teocráticos. investe contra ele e Tirésias. A luta entre os dois poderes ainda hoje é um assunto palpitante.

A força inelutável do Fado é expressa retoricamente através da figura da "peripécia". Ele tem consciência disso. que foge de Corinto para não matar o pai e casar-se com a mãe. onde se encontram seus verdadeiros pais. A culpa de Édipo.. pode aniquilar nações e ameaça a sobrevivência de toda a humanidade. nem na palavra divina (oráculo de Apolo). definida por Aristóteles. vai a Tebas. encontra a sua explicação ao nível do discurso. maldito assassino do próprio pai!” E na voz do coro: “Ah. é a soberba. Fechado no seu narcisismo. visto que o desejo de conhecer a verdade. até chegar à solução final do enigma. Contra essa força é inútil lutar. não tem a humildade de conformar-se com a ignorância de sua origem. o homem teima em desafiar o Destino. ironicamente. daí surge uma nova pista (Édipo não era filho do rei de Corinto). Édipo não acredita em ninguém. quando diz a Jocasta. como a de Adão. que Tirésias dirige a Édipo. é imputado ao homem como um pecado. quando teve esse destino?” Encontrada uma pista (um homem sobreviveu à chacina). . Édipo. constitui o núcleo central da tragédia sofocliana. tentando por todos os meios fugir do que está designado. ao menos. o desenvolvimento bélico desenfreado de uma superpotência. nem na palavra humana (cunhado Creonte). O drama fundamental do protagonista reside no descobrimento de sua verdadeira filiação. orgulhosa do seu poder. de quem és nascido?” Essa pergunta. será a própria tentativa de fuga que levará o homem ao cumprimento do seu destino. Édipo configura o ateniense da época de Sófocles que. configuração de uma força cósmica superior aos próprios deuses. as ações humanas conseguem um resultado oposto ao esperado. ao leito nupcial de onde saíste filho voltaste como esposo. na sua Poética. o excesso de orgulho: ele. Édipo famoso.103 2) Tema do saber (a busca da própria identidade) “Sabes. sucessivamente. pergunta a Creonte: “Laio estava no palácio ou em campanha ou em viagem. eu não quero mais te ver! Filho maldito. Neste sentido. o pecado capital que causara a sua desgraça. onde o protagonista revela ser o avesso do que deveria ter sido: “Horror! Horror! Horror! Tudo verdade! Luz do dia.. estruturada por seqüências narrativas equívocas. que assume o papel do investigador. A não-aceitação da ordem divina que impõe limites ao saber humano é a sua hybris.. excede os limites da condição humana e sua ousadia irreverente acabará por levá-lo a uma crise ética . o decifrador de enigmas. nem na palavra profética (adivinho Tirésias).. marido maldito. um sacrilégio. prerrogativa dos deuses. A fábula de Édipo. Édipo rei é a tragédia do saber humano. no contrário". Apresentado um despistamento (a morte natural do pai adotivo de Édipo). E aí que reside a ironia da tragédia: Édipo. o orgulho. logo se dá um despistamento (Laio fora morto por um bando de ladrões). E assim. Todavia. como "a súbita mutação dos sucessos.. Tecendo uma comparação com a nossa época. que lhe pede desistir da busca: “Hei de seguir a trilha até o fim: eu não posso deixar de esclarecer o enigma do meu próprio nascimento!” Tal perquirição confere à tragédia de Sófocles o sabor de uma narrativa policial com o entrecho das duas investigações típicas do gênero: a história do crime e o inquérito do detetive.. quer dizer. orgulhoso do seu saber e do seu poder. 3) Tema do Destino: o inocente culpado “O que está por vir virá” A peça Édipo Rei ilustra de uma forma cabal o sentido mais profundo da tragédia grega: a luta inglória da vontade humana contra os desígnios do Fado. Mas.

pelo estudo da atividade do inconsciente. o sofrimento. O impulso mais poderoso no homem é o erótico. O que caracteriza a tragédia é que a hibrys. mas. ordena o infanticídio. não porque quer pecar. O filho paga a pena de uma culpa cometida pelo pai. quando moço. o teatro. ao mesmo tempo. ele é vítima. se encontra exposto o princípio da “Partenogênese”: a Mãe-Terra. é o contato com o corpo da mãe. não pode dizer que foi feliz” Essas são as palavras do coro. pois a catarse só pode ser uma conseqüência do pathos. o pecado. Antes de réu. causando sua morte. livre da censura dos imperativos sociais e morais. Édipo é um herói trágico porque é culpado de ter cometido dois crimes hediondos (parricídio e incesto). no mito das Divindades Primordiais. tanto tempo em silêncio acolher o teu grão?” A essência do trágico reside na forma oximórica da coexistência de dois sememas opostos: inocência e culpabilidade. isto é. não conhecia psicanálise. porque o Fado assim determinara. na infância. com as quais Sófocles termina a peça em tela. como pôde o chão que teu pai semeou. dá origem ao Universo. mata o pai (parricídio) e se casa com a mãe (incesto). No verbete Andrógino. sentindo-se ameaçado pelo nascimento do filho Édipo (como Saturno ou Cronos). O médico austríaco. mas o entrega a um pastor. Antes. não pode não-matar o pai. é inocente porque não sabia que iria matar o pai e se casar com a mãe. sozinha. visam à mesma finalidade fundamental do ser humano: tentar explicar a luta da força do instinto individual contra as injunções éticas. Como o Céu estrelado. Assim na tragédia grega como na religião cristã: Adão cometeu o pecado de orgulho e todos seus descendentes devem pagar as conseqüências. seduzira e abandonara o jovem Crisipo. se não for posteriormente superada com a substituição por outra mulher. pessoal. Ao herói trágico faltam as três modalidades que compõem a competência: o querer. Aristóteles afirma. O parricídio e o incesto de Édipo são o castigo pela violência homossexual praticada por Laio. a mãe Jocasta (como Gaia ou Terra). e a psicanálise. o brilho do saber e do poder do . se torna uma fixação. teve a intuição de que o mito de Édipo era uma versão humana do mito criado por seus ancestrais sobre as Divindades Primordiais ( Mitologia). possivelmente. criando o complexo do amor materno. O mito de Édipo não deixa de ser uma configuração humana do mito divino pelas impressionantes coincidências: o pai Laio (como o deus Urano ou Céu). o desejo de satisfazer os apetites naturais sem qualquer preocupação de ordem ética. só adquire sua verdadeira dimensão quando mutilado por Cronos (o Tempo). Desta forma. Sófocles. 4) Tema do incesto: interpretação psicanalítica “Não tenhas medo da cama de tua mãe: quantas vezes em sonho um homem dorme com a mãe!” Estas palavras de Jocasta dirigidas a Édipo inspiraram Freud na formulação do famoso "complexo de Édipo". É bom lembrar que o oráculo sobre Édipo está diretamente relacionado com a maldição que pesava sobre Laio e seus descendentes pela culpa do pai de Édipo que. mediante a representação dramática. ao nível do inconsciente. sentindo pena do recémnascido. Édipo não quer matar o pai. É por isso que Aristóteles afirma que a finalidade da tragédia é excitar "terror e piedade”: terror pela ação violenta representada e piedade pelo ser humano que sofre sem ter culpa. E porque a primeira fonte de prazer do ser humano. religiosas e sociais. assim Édipo somente adquire uma grandeza venerável após o sofrimento da cegueira e do exílio. não sabe que mata o pai. através da criação de histórias fantásticas. Ele peca. Édipo adulto.104 Ah. o saber e o poder. mas porque pesa sobre ele uma maldição ancestral da qual não pode escapar. filho do rei da Frigia. do herói não é individual. o mito. estudando o mecanismo e o sentido dos sonhos. dá completa vazão à força do instinto individual e egoísta. essa concupiscência. inconscientemente cumprindo o destino. evidentemente. na sua Poética. o sonho seria "a realização disfarçada de um desejo recalcado". se torna "libido". mas. mas atávica. o instinto sexual que. expõe a sua tese de que a mente humana. durante a atividade onírica. não o mata. 5) Tema da catarse: o sofrimento como condição da felicidade “Enquanto alguém deixar esta vida sem conhecer a dor. Assim. que a tragédia tem por efeito a purificação dos sentimentos.

E é este monumento de Arquitetura antiga. quando foi dominado pela Macedônia. o Egito é um país que vive do passado. deu origem à dinastia dos Lágidas. O antigo deus Rã de Mênfis adquiriu as feições do tebano Amon e grandiosas construções foram erguidas em honra de Amon-Rã. o Colosso de Rodes. Ao redor do Terceiro Milênio antes de Cristo. Egito helenístico: o domínio do império macedônico no Egito durou três séculos. os historiadores distinguem três Impérios (Antigo. encontráveis nas duas margens do sagrado rio Nilo.C. da Assíria. Alexandria. na fraqueza. será somente através deste que o homem. Durante a chamada Baixa Época (1085-333). que acabou com o domínio dos Faraós. da “Cidade dos Mortos”. Os estudiosos distinguem. Mas foi durante o Novo Império (1580-1085) que Tebas se tornou a capital do Egito. a satrapia do Egito foi ocupada por Ptolomeu que. deitada no Mediterrâneo. que se juntou ao cônsul romano Marco Antônio para salvar seu reinado. na época de Alexandre o Grande. No Médio Império (2160-1600). que. bizantino. o Egito foi anexado a Roma. porque fundado no desconhecimento da própria identidade. depois de Atenas (Grécia) e antes de Roma. onde se reuniam os maiores sábios de todo o mundo grego: Arquimedes. dando origem a duas soberanias: a de Tebas e a do Delta.C. contam-se 30 dinastias de Faraós. nisto reside o supremo saber. o Egito é uma República Árabe do nordeste da África. A última grande soberana da dinastia lágida foi Cleópatra VII. Mas o “sacrifício” foi inútil pois. da Pérsia e. que deságua no mar Mediterrâneo. na margem oriental do Nilo. Fundou Alexandria. deus do rio Nilo e da vegetação sempre renascente. do Sudão.). como o deus Urano. além de uma “Baixa Época”. uma cidade do Alto Egito (não confundir com a Tebas grega da região da Beócia). no abandono: reencontrar-se na impotência. Quéfren e Miquerino. muçulmano e moderno. Calímaco. o deus-sol que dá a vida. Neste longo período de civilização egípcia. em Éfeso). tendo apenas duas cidades importantes: o Cairo (Capital) e a histórica Alexandria.). se reencontra na dor. o Templo de Artemisa. filho do nobre Lagos. o Farol de Alexandria. No Império Antigo (2800-2160) dominaram as primeiras dez dinastias. Apolônio de Rodes.105 rei Édipo era falso. centrada em Tebas. distinguindo-se a “Cidade dos Vivos”. anterior à cultura grega. aos poucos foi se enfraquecendo o poder central pelas lutas intestinas. Após sua morte (323 a. Alexandre Magno levou menos de dois anos (332-331) para ocupar o Egito. permanecendo quase intactas até hoje. Das Sete Maravilhas do Mundo Antigo (a Estátua de Zeus. Médio e Novo). foi o centro difusor da cultura helenística. apenas as Pirâmides do Egito venceram as barreiras do tempo. com a vitória do rival Otávio em Actium (31 a. deitada ao longo do rio Nilo. Nesta época. Teócrito. Até o ano de 331 a. associando o poder cívico e o religioso.. explorado cultural e turisticamente. romano. sendo Mênfis a capital. o rei Narmer unificou os dois reinos então existentes: o do Alto Egito (coroa branca) e o do Baixo Egito (coroa vermelha). arrogando-se o papel de libertador. em Olímpia. começou a se desenvolver o culto de Osíris. o Mausoléu de Halicarnasso. helenístico. além da pré-história. que se tornou o novo mercado marítimo e o centro de expansão da cultura helênica. da Macedônia. em fim. Como a Grécia. passando o Faraó a ser considerado o filho de Rá. A civilização do Egito foi a mais importante do Oriente Médio. adquirindo a verdadeira dimensão de sua essência. junto com a beleza dos remanescentes Templos faraônicos. Foi neste lugar do . se o conhecimento da verdade nos leva ao sofrimento. que abriga sepulturas e conjuntos funerários das mais antigas dinastias de faraós. com palácios e templos monumentais (Luxor e Karnak). EDUCAÇÃO (conceito de cidadania e de convívio social) Cultura EGITO (a grande civilização antiga do Oriente Médio) “O Egito é um dom do Nilo” (Heródoto) Atualmente. Os sacerdotes eram encarregados de preservar a “vida” dos defuntos: a sobrevida do corpo era garantida pela mumificação. que reinou de 305 a 30. de outro lado. a necrópole da margem ocidental. terá condição de ser feliz. com inúmeras dinastias estrangeiras.C. o famoso “Vale dos Reis”. várias fases de civilização: o Egito faraônico. O herói trágico. O maior ensinamento da tragédia grega é que. proporciona ao Egito a principal fonte de riqueza. com a XI dinastia. O Farão se identificou como o “bom pastor” do povo. famosa pela escrita em “papiros” e pelo Museu-Biblioteca. Egito faraônico. sendo o país invadido por tropas da Líbia. foram construídas as famosas pirâmides de Quéops. os Jardins Suspensos de Babilônia.

de ventre repleto e seios pendentes. O patriarca de Alexandria. O presbítero de Alexandria. A dinastia curda. o coronel Gamal Agdel Nasser depôs o rei Faruk I e o Egito adotou o regime republicano. o governo egípcio precisou indicar para os postos-chave da sua economia diplomatas e técnicos franceses e ingleses. A cheia e suas riquezas são representadas pelo deus Hápi. da Literatura e das outras Artes. quando o vento que desce dos planaltos da Abissínia provoca as enchentes. da Filosofia. e daí se difundiram pelo mundo todo. chegando até nós (Alexandre). o Egito foi uma colônia romana. Com efeito. em nome da unidade da fé. Com a expedição de Napoleão Bonaparte (1798-1801). o ódio aos gregos a ao poder imperial de Constantinopla estava no auge.106 Egito Antigo que foram preservadas as obras mais importantes da Ciência. Os mamelucos.C. Lá se desenvolveram novas formas de vida religiosa. até o advento do Islamismo. chefe de um contingente albanês. ligando o Mediterrâneo Oriental ao mar Vermelho. até o Egito tornar-se uma província do império otomano. sendo posteriormente condenado pelo Concílio de Nicéia. em média. governado por um paxá. Mas. Egito moderno: em 1805. visando assegurar a hegemonia egípcia. após a derrota da Guerra dos Seis Dias (1967). quando os árabes invadiram o Egito. Em 969. inundando as margens. especialmente para a construção do canal de Suez (de 1859 a 1869). Equipou seu exército com a ajuda de países socialistas e financiou a construção da barragem de Assua junto à antiga URSS. todas privilegiando a vida contemplativa: monge. Engajou-se numa política pan-árabe. nomeado anualmente. a assistência britânica se transformou em Protetorado. Egito bizantino (Helenismo): de 395 a 642. se outorgou poder absoluto. negava a humanidade de Cristo. Os egípcios de cultura pagã fundaram uma escola neoplatônica onde lecionaram Orígenes e Plotino. A prosperidade do Egito nasce da ação . governaram de 1250 a 1517. encampou a heresia monofisista que. se apoderou da maioria dos Estados do Levante. Em 1945. uma dinastia xiita fundou a cidade do Cairo. Mas logo os sunitas voltaram a predominar no Egito. A Guerra Árabe-Israelense desmoralizou o regime monárquico. o Egito seria apenas uma parte árida do deserto do Saara.C. Seus sucessores contraíram dívidas enormes. em nome do Monoteísmo. apoiando tentativas de acordo entre palestinos e judeus. em 1914. os habitantes do Egito sempre consideraram gregos e romanos como povos exploradores. Mas ele foi logo excomungado. desembarcou no Egito e derrotou as forças napoleônicas. Anteriormente à construção da barragem de Assuan. A conquista muçulmana foi fácil. ao longo de muitos séculos (de 642 a 1805). em 325. Sem o Nilo. vítima de ações violentas praticadas por grupos da Irmandade Muçulmana. Foi assassinado em 1981. colocando um fim à soberania otomana. dissolvendo todos os partidos da Irmandade Muçulmana. são as águas do rio que. vários hordas de árabes se encarregaram da islamização do Egito. anacoreta. Egito muçulmano: após o advento de Maomé. o Egito caiu nas mãos dos franceses. O monofisismo foi condenado pelo Concílio de Caldedônia. Seus sucessores no governo da República egípcia têm adotado uma política pacifista. em 415. fundado por Saladino. impunha teorias e práticas que contrastavam os costumes coptas. Sua cheia chega mais forte no verão. Em 1952. que invadiu o recém-formado Estado de Israel ( Jerusalém). Egito romano: de 30 a. em 451. negou a divindade de Cristo. um milímetro de lodo por ano. Importância do rio Nilo e da cultura egípcia Já o historiador grego Heródoto dizia que “o Egito é um dom do Nilo”. dando origem à heresia ariana. Nasser foi obrigado a aceitar as condições da ONU. Com efeito. Com o tratado anglo-egípcio de 1936. até que. o Nilo depositava nas terras cultiváveis. perdendo seu fulgor e se tornando rapidamente cristã. tornam as terras férteis. Egito republicano: a República foi proclamada em 1953 e Nasser. eremita. em 1187. tomando a cidade de Jerusalém. repudiando a cultura bizantina que. uma oligarquia de escravos-soldados da Turquia. Dióscoro. Ário. proclamando-se paxá vitalício. o partido nacionalista conseguiu a independência. a 395 d. Para compensar a dívida não paga. pois. reinando até 1848. Mehemet Ali. Famosas foram as querelas sobre a identidade de Jesus. o Egito passou a fazer parte do Império Romano Cristão do Oriente. Mas a violência da multidão cristã provocou seu fechamento. mas o clero e os monges do Egito foram induzidos a separar-se da Igreja de Constantinopla. o Egito chefiou a Liga Árabe. reforçando o movimento nacionalista. freira.

Sofrendo de dificuldade de fala na infância. ambos elevados pelos egípcios à categoria de deuses. com apenas 26 anos. que faz a síntese da mecânica clássica. o que acontece. mas se apaixona por Radamés. Aída narra a história de amor entre o guerreiro Radamés e a escrava Aída. encenada no Cairo em fins de 1871. Negando o princípio do Determinismo. surpreendeu o mundo científico quando começou a publicar suas teses revolucionárias sobre a Física. construída ao redor do ano de 2500. Ela ama sua pátria. lembramos Aída. que ainda hoje suscitam a admiração dos visitantes. Também na vida amorosa não teve muita sorte. publicou cinco artigos. A escrava Aída é. a cheia seria inútil. Ao longo das duas margens do rio. com exceção do Rei etíope. a pirâmide de Quéfren é guardada por uma Esfinge. A mente que se abre a uma idéia jamais voltará ao seu tamanho original Albert Einstein (1879-1955). onde percebe que Aída se havia escondido para morrer com ele. Einstein desenvolve a nova idéia de equivalência entre massa e energia. Com a vitória. teoria da Relatividade)Atomismo. Uma cheia muito fraca não alimenta bem a terra e muito forte devasta os campos. e que a massa é uma grandeza relativa e não absoluta. entre os prisioneiros capturados. Zurique. Eternizaram sua memória pela construção de Pirâmides. filha de Amonasro. Ela é representada como um leão deitado. a Radamés é ofertada a mão da princesa Amneris. os egípcios criaram uma rica civilização. Além de físico e . Seu biógrafo Armin Hermann relata que Einstein só chorou duas vezes ao longo dos seus 76 anos de idade. revolucionou a Física newtoniana (Galileu). Amneris canta sobre a cripta o amor perdido. físico alemão. variando com o movimento. Sem o transbordar das águas o sol seria devastador e. dedicando-se apenas ao estudo da matemática. sendo um corolário do precedente ensaio. na verdade. em 1940. Radamés revela o segredo a Aída.107 conjunta do rio Nilo e do astro Sol (Helios). foi galardoado com o Prêmio Nobel de Física. chegou a ser considerado quase um deficiente mental. cuja cabeça é a mesma do faraó. O sol provoca o renascimento da vegetação. Radamés não aceita trocar o casamento com Amneris pela liberdade e é condenado à prisão na cripta. Os gregos herdaram dos egípcios o culto da Esfinge. nos seus dois casamentos. sendo E a energia. sem o sol. Nos "Anais da Física". Ao quinto artigo deu o título de "A inércia de um corpo depende do seu conteúdo em energia?". mas relativos. Mas a civilização egípcia não está presente apenas na cultura grega e helenística. Ela está lá. Na cidade grega de Tebas. EINSTEIN (cientista judeu. rei da Etiópia. Durante o julgamento. perto do Cairo. escolhido pelos sacerdotes para liderar o exército contra os invasores etíopes. em que estava ancorada a ciência desde os antigos egípcios e gregos. exaltando suas divindades e seus governantes com palácios e templos majestosos. O herói pede que os prisioneiros sejam libertados. encomendada pelo governo do Egito para marcar a inauguração do Canal do Suez. O quarto. lecionando nas Universidades de Milão. Somente para apresentar um exemplo. Princeton. ela devora o forasteiro que não consegue decifrar seu enigma. É a teoria da relatividade especial. Os sacerdotes descobrem a traição e Radamés é capturado. Na cidade de Gizé. Em 1921. Ópera em quatro atos do compositor italiano Guiseppe Verdi. Apenas Édipo conseguiu desvendar seu mistério. da óptica e da teoria eletromagnética de Maxwell. judeu naturalizado norte-americano. é aí que se encontra a famosa fórmula E=mc2. Mas. intitulado "Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento". como símbolo do mistério do além túmulo. Aída vê o pai. Foi muito mal na aprendizagem escolar. em 1905. Ela deixou sua marca em todo o mundo ocidental. Berlim. O rio impregna os campos de uma água carregada de aluviões extremamente férteis. no Egito antigo. ele descartou definitivamente o postulado da existência de um meio que se pudesse considerar o “repouso absoluto”. m a massa e c a velocidade da luz. bem como da paixão da princesa Amneris por Radamés. Nele demonstrou que o espaço e o tempo não são independentes entre si. naturalizado norte-americano. O povo egípcio reza para que haja equilíbrio entre os dois elementos da natureza. bem como o “movimento absoluto”: tudo é relativo. é um gênio da humanidade. a mais antiga do Egito. Praga. estando tudo e sempre relacionado com as categorias do espaço e do tempo. O príncipe egípcio vence a batalha e. capturada numa das guerras. Aída conversa com o pai e este a convence a descobrir por onde entrará o exército na Etiópia.

onde se encontram sobrepostas citações e alusões a várias fontes culturais. Norte-americano do Estado do Missouri. 458 a. é composta quase exclusivamente de poemas. que. (poeta e crítico anglo-americano) Nunca é tarde demais para ser O que você deveria ter sido A lírica em língua inglesa teve excelentes cultores no continente e nas colônias. além de ser explorado pela filmografia e pela televisão. Sua obra literária. foi representada com o título Electra e os fantasmas. Como Eliot costumava dizer. em que constrói a imagem do homem ideal. “Uma partida de xadrez”. a criança pode se apaixonar pelo pai. especialmente dramáticas. inspirou muitas obras de arte. Da era moderna. É um dos seus poemas longos The waste land (“A terra devastada”) que o tornou mundialmente famoso. Trata-se de um vasto mosaico. “monarquista” na política e “luterano” na religião. seu poeta preferido. de outro lado. além de dois dramas (Assassínio na catedral e Reunido em família).). de Dante Alighieri. Depois de uma fase de fixação afetiva na mãe. onde O´ Neill alcança seu sonho de realizar uma peça respeitando a lei das três unidades detectadas pela Poética de Aristóteles: unidade de tempo. Lembramos a peça Do dramaturgo norte-americano Eugene O’ Neill. Por causa de tantos e variados conhecimentos. desde a adolescência sentiu um grande fascínio pela cultura do Velho Continente. junto com o irmão Orestes.). Inversamente do patrício romântico E. Sua poesia acusa as influências dos simbolistas franceses. A obra está dividida em cinco partes: “O enterro dos mortos”. do conterrâneo e contemporâneo Ezra Pound. aquela mata a mãe para vingar a morte do pai. Na Era Moderna. ELIOT. sem dúvida. “Morte por água”.C. de ação e de local. o maior de todos é.S Eliot introduz a moda do poema longo na lírica contemporânea. que vulgarizou o uso da narrativa curta. T. Electra. Poe. adúltera. e do irmão do pai. Thomas Stearns Eliot (1882-1965). assassino. Sua característica principal é o fragmentarismo. “O que disse o trovão”. Sua história ficcional foi objeto de várias peças da tríade dos poetas trágicos da Grécia antiga. Ésquilo (Coéforas. pode causar graves neuroses. sem nenhuma lógica e nenhuma ordem de tempo ou de espaço. poeta muito controvertido porque se. de um lado. deixando-nos belos pensamentos sobre vida. quando a mãe e o tio Egisto matam seu pai.G. durante a primeira infância. Filha de Agamenão e Clitemnestra (soberanos de Micenas). “a verdadeira poesia deve comunicar antes de ser compreendida”.). O luto fica bem em Electra (1931).C. atravessado pelo poético rio Mississipi. não resolvido de uma forma adequada. estudou na Sorbonne e tornou-se cidadão britânico. dos poetas metafísicos ingleses. maquina a morte da mãe.C. O texto já apresenta o início de um processo que iria desembocar em Longa jornada de um dia noite adentro . A psicanálise de C. a polifonia. cunhou-se o termo “eliotizar” para indicar a assimilação de culturas diferentes. ELDORADO (o mito do espaço feliz)Utopia ELECTRA (personagem mito-trágica) Édipo Agamenão A figura de Electra é o equivalente feminino do mito de Édipo: enquanto este mata o pai e casa com a mãe. O' Neill transfere toda a tragédia de Ésquilo para a guerra de secessão norte-americana. T.108 matemático. arte e religião. De ideologia conservadora. Jung chama de “Complexo de Electra” à atração sexual não sublimada que uma filha possa sentir pelo próprio pai. Electra simboliza este amor incestuoso da filha pelo pai que. Logo emigrou para a Europa. A. Sófocles (Electra. proclamou-se “classicista” na poesia. 415 a. de Roma e do Oriente (conhecia até o sânscrito). no Brasil. cujo abandono é apontado como causa da destruição da cultura européia. e da cultura antiga da Grécia.S. Deleitava-se no silêncio da reflexão científica e filosófica. após voltar da Guerra de Tróia (Ilíada). Eurípides (Electra. . junto com a representação de aspectos da prosaica vida londrina. O mito de Electra. Einstein foi também um grande e profundo pensador. é um saudosista dos tempos clássicos. como o de Édipo . “O sermão do fogo”. o dialogismo intertextual ( Dialética). 415 a. o assunto foi retomado por vários dramaturgos e romancistas. é um dos grandes inovadores da poética contemporânea.

ENCICLOPÉDIA (movimento cultural francês) Iluminismo ENEIDA (poema épico romano)Virgílio Estou reconhecendo.109 ELISABETE (Rainha da Inglaterra: período elisabetano) “Todas as minhas possessões por uma fração de tempo” (A Rainha. John Locke. . Bacon tenta demonstrar que as idéias se originam na experiência sensível. devendo-se evitar especulações abstratas e propostas hipotéticas. Como a O disséia. Bacon. pois narra a viagem marítima de Enéias. a rainha Elizabeth. anterior à realidade concreta. sendo a "epopéia da guerra''. também a Eneida começa in medias res. Segundo o filósofo e teórico político inglês John Locke (1632-1704). sucedeu a sua meia-irmã Maria Tudor. Austrália. A era elisabetana caracteriza-se pela afirmação do poderio político e econômico da Inglaterra e por um surpreendente renascimento cultural. “observar ou ler fornece conhecimento à mente. imita a Ilíada. Apesar das divergências quanto á origem do conhecimento. que contém os primeiros seis livros. os sinais da antiga chama (A rainha de Cartago. filha de Henrique VIII e de Ana Bolena. mas submeteu a Igreja ao Estado. baseado na experiência sensível e nas sucessivas experimentações. sob a inspiração da matemática. já se encontra perto de Cartago. Além de vencer todas as lutas intestinas. no sentido de que ambos estão voltados para os problemas do conhecimento da realidade existencial. imita o assunto da Odisséia. enquanto "epopéia do mar". ao passo que pensar incorpora o que vimos ou lemos”. dentro de mim. George Berkeley e David Hume. unificando a Inglaterra e construindo a base do que seria mais tarde a Commonwealth . de Tróia até o Lácio. A fábula da epopéia latina. “nada havendo no intelecto que antes não houvesse passado pelos sentidos’’. ao apaixonar-se pelo herói Enéias) Para um melhor conhecimento do autor da obra mais importante da Literatura Latina. Fortaleceu o Anglicanismo. proclamada em 1649 pelo lorde-protetor Oliver Cromwell. EMPIRISMO (a primazia da experiência) Método A Verdade é filha do Tempo e não da Autoridade (Bacon) Francis Bacon (1561-1626) inaugura uma nova vertente do pensamento moderno. governou com firmeza. consultem-se também os verbetes Virgílio e Roma. Nova Zelândia e África do Sul. região de Roma. podendo ser dividida em duas partes: a primeira. Inteligente e culta. O Racionalismo e o Empirismo são duas formas de Antropocentrismo. O pensamento reflexivo e o conhecimento científico devem estar em contínua evolução para serem úteis à sociedade. convencido de que a “Verdade é filha do Tempo e não da Autoridade”. ocupa doze livros ou cantos. Na sua obra Novum organum. além dos principias países colonizados pelos britânicos: USA. não possuindo nenhuma idéia inata. que sempre contestara a legitimidade do reinado de Elizabeth. Basta dizer que a Rainha foi a patrocinadora-mor do teatro de Shakespeare. destruindo sua “Invencível Armada” (1588). a comunidade britânica. fugindo de Tróia destruída. propõe um novo método de investigação científica. cujo centro é o homem. Dido. A mente humana é uma ‘‘tábua rasa”. empreende uma luta contra o estagnatismo e o dogmatismo do saber de sua época. viúva. quer sensível) e não a autoridade civil ou eclesiástica. obteve uma estrondosa vitória sobre a Espanha. a segunda. Irlanda e Escócia. que passou a abranger Inglaterra. o pensamento de Descartes e de Bacon coincide num ponto fundamental: a verdade é obra do homem e o critério de legitimidade do conhecimento é a evidência (quer inteligível. visto que o casamento de Henrique VIII e Ana Bolena fora anulado pela Igreja de Roma. pois descreve as lutas pela fundação do reino latino. intitulada Eneida. provocando a ira dos calvinistas puritanos e dos católicos partidários de Maria Stuart. oposta ao racionalismo cartesiano que reduzia todo conhecimento científico às idéias claras e distintas. seguida mais tarde por Thomas Hobbes. equipando a marinha. composta dos últimos seis livros. no meio da história: Enéias. antes de morrer) Elizabeth I (1533-1603). rainha da Escócia.

110

quando inicia a trama. Mais tarde, atendendo ao pedido da rainha Dido, ele conta as peripécias da viagem de Tróia até lá. Mas esta inversão temporal não dificulta o entendimento da história, pois o início da fábula é narrado logo no começo do segundo livro e, a partir daí, o relato segue a ordem cronológica dos acontecimentos. Os primeiros versos da Eneida contêm o “Exórdio”, constituído pela “Proposição” (antecipação sintética da matéria que será narrada) e pela “Invocação” à musa , seguida pelo inicio da “Narração”: Eu canto as armas e o herói que, primeiro, proscrito pelos fados, veio da costa de Tróia para a Itália e as praias de Lavínio. Ele muito sofreu em terra e no mar, por vontade dos deuses celestiais, por causa do rancor da cruel Juno... O narrador do poema se apresenta em primeira pessoa, pedindo à deusa da poesia épica que lhe lembre os fatos míticos e lendários que envolvem a figura do herói troiano. Diferentemente dos dois poemas homéricos, cujo narrador é apresentado como sendo a própria musa, o poeta funcionando apenas como intermediário entre a divindade, possuidora do saber, e a humanidade, destinatária deste saber, quem conta a fábula da Eneida se apresenta a nós como um ser humano, que pede a ajuda divina para poder lembrar, narrar e compreender os altos desígnios do Destino e a grandeza do sofrimento humano. A este respeito, a interrogação posta no fim da invocação, "pode existir tanta ira nas almas divinas?", é um sintoma da perplexidade que se apossa do espírito do poeta, no ato de cantar a aventura de Enéias. Mas, excluindo o exórdio e mais algumas passagens ao longo do poema, em que o narrador se manifesta pelo uso dos pronomes de primeira pessoa, pelo presente da enunciação ou por algumas formas modais que implicam julgamentos de valor, o grosso da narração da Eneida se dá na terceira pessoa, o narrador se apresentando com uma visão objetiva, dotado de onisciência e de onipresença, características do enunciador épico. A mudança de foco narrativo é necessária para distinguirmos o ponto de vista limitado do narrador de primeira pessoa, que transfere para a narrativa seus sentimentos e seus critérios de valor, da perspectiva panorâmica do narrador de terceira pessoa, que personifica a voz do mito, da lenda e da história. Cabe lembrar que Virgílio, como Homero, não é o inventor do material épico, mas apenas o elaborador artístico dos fatos históricos e mitológicos preexistentes a ele e que constituíam o patrimônio cultural da coletividade. A fábula do poema de Virgílio está dividida em 12 livros, cujos assuntos, por motivo de espaço, sintetizamos nos seguintes sintagma-títulos: I) Chegada de Enéias a Cartago e história de Dido; 2) Narraçao da destruiçao de Tróia; 3) As viagens de Enéias; 4) Amor e morte de Dido; 5) Viagem rumo à Itália: estadia na Sicília; 6) No reino dos mortos ; 7) No Lácio, terra prometida; 8) Preparativos de guerra; 9) Vitória parcial dos Rútulos; 10) Enéias volta com aliados; 11) Trégua para a sepultura; 12) Vitória final de Enélas. A Eneida é uma epopéia "reflexa", quer porque imita poemas épicos anteriores, quer porque o material mítico e lendário é utilizado não ingenuamente, mas com um intuito peculiar e, às vezes, com espírito crítico. Veja-se, por exemplo, o verso do exórdio “Pode, por acaso, existir tanta ira nas almas divinas?”, profunda reflexão do poeta sobre a crença na concepção de uma divindade maldosa e vingativa! O imortal poema tem um sentido patriótico, pois se trata de uma obra engajada no programa de Augusto de restaurar os costumes. Os antigos mitos gregos e itálicos são revestidos de razões ideológicas para que o vasto Império Romano da época de Otávio seja interpretado como conseqüência da vontade divina. A lenda grega de Enéias, filho de Vênus e genro de Príamo, é misturada com a fábula itálica de Dárdano, príncipe etrusco que teria emigrado para Tróia. A conexão entre a Itália e a Tróade, imaginada pelo acoplamento das duas lendas, permite a Virgílio fazer remontar as origens de Roma, não a um punhado de bandidos aventureiros (conforme as lendas de Rômulo e Remo e do Rapto das Sabinas Roma), mas à antiga e rica civilização troiana. Caio Júlio César Otávio Augusto, conseqüentemente, é apresentado como direto descendente de Júlio, filho de Enéias. Quanto à imitação dos poemas épicos anteriores, especialmente dos dois atribuídos a Homero, é relativamente fácil salientar os pontos de convergência entre a poesia épica grega e a latina. Realmente, vários tópicos, temas e motivos (o valor militar dos heróis, as viagens aventurosas em frágeis embarcações, a descida ao inferno para o conhecimento do passado e do futuro, o sentimento da amizade, a paixão amorosa, a confecção das armas

111

por Vulcano, as intervenções dos deuses nos acontecimentos humanos, a força do Destino ( Fado) que impõe ao protagonista uma missão predeterminada, e outros assuntos, além das imitações de estilo), são tirados do contexto da Ilíada e da Odisséia e adaptados para a composição da E neida. Mas o conceito de imitação, que para nós tem um sentido depreciativo, pois implica ausência de originalidade, na época de Virgílio indicava capacidade artística. Efetivamente, é na época de Augusto que toma corpo o espírito do Classicismo, entendido como consciente fidelidade aos modelos da literatura grega, considerados como protótipos de perfeição artística e humana. A concepção de Aristóteles de a arte ser mimese da natureza física ou espiritual é acrescida, por Horácio, Virgilio e outros poetas da época áurea da literatura latina, com o conceito de a arte ser imitação dos que, imitando a natureza, tinham criado formas e objetos artísticos de inigualável perfeição. Mas, se Virgílio se aproveita de um gênero literário e de um material épico preexistentes, o espírito que lhes dá forma é bastante diferente, espelhando outra realidade histórica. O sentimento do pathos virgiliano é absolutamente ausente em Homero. O drama íntimo do protagonista Enéias reside no contraste entre sua personalidade dócil e triste e o destino que o impele a lutar. Mais do que a exaltação dos heróis de guerras, encontramos na E neida o canto da dor do ser humano em face da crueldade do destino, que ceifa a vida de jovens criaturas inocentes. Vejam-se, por exemplo, as passagens relativas ao triste fim da rainha Dido, dos amigos Euríalo e Niso, do jovem Palante, do piloto Polinuro, da amazona Camila. A descrição destes episódios menores salienta a grande sensibilidade humana e poética de Virgilio e comove, até hoje, seu leitor. Com o poeta mantuano, notamos a passagem da narrativa mitológica e heróica para a narrativa propriamente "humana". O protagonista da E neida é qualificado recorrentemente como pius. Este adjetivo, além de indicar a resignação à vontade divina e a observância dos rituais litúrgicos, exprime o caráter de Enéias, apresentado como homem justo e honesto, que sente piedade pelo sofrimento do ser humano, vítima do ódio, das guerras e do desamor. Caberia à crítica psicológica dizer quanto de Virgílio existe em Enéias! ENUNCIAÇÃO (ato da comunicação humana)Discurso ÉPICA (Epopéia: poema narrativo em versos) Gênero literário Narrativa Do grego épos (canto heróico), a poesia épica ou epopéia é um longo poema narrativo, que exalta as origens ou façanhas heróicas de um povo. Na Literatura Ocidental, os primeiros poemas épicos, chamados de “primitivos” pois elaborados ainda na fase arcaica da cultura grega, são A Ilíada e A Odisséia, atribuídos ao rapsodo Homero. Já na Roma Antiga temos o primeiro grande exemplo de epopéia “reflexa”, de autoria conhecida (o poeta latino Virgílio), composta a partir dos poemas gregos preexistentes: A Eneida. Na Idade Média encontramos vários poemas épicos, de autoria desconhecida, que exaltam as façanhas de heróis nacionais: o francês Roland, o espanhol Cid, o alemão Sigfrido (Nibelungos). A Itália medieval nos deixou a obra literária mais completa e mais fascinante: A Divina Comédia, de Dante Alighieri, a que dedicamos um estudo mais detalhado, pois, antes de ser apenas mais um poema épico, é uma obra didático-alegórica sobre toda a humanidade, colhida no penoso caminho da passagem do pecado para a purificação e a glória. Com o Humanismo e o Renascimento, a partir do século XIV, junto com a descoberta e a valorização da cultura e da civilização greco-romana, é reativado também o filão da poesia épica medieval, especialmente no tocante ao espírito da Cavalaria. A Itália renascentista cultiva abundantemente a memória coletiva do herói histórico-mítico Rolando, que se torna o protagonista de vários poemas épico-cavaleirescos. Mudando, por eufonia, o nome de Roland para “Orlando” e misturando as aventuras guerreiras, próprias do ciclo carolíngio (Carlos Magno), com as aventuras amorosas, extraídas do ciclo bretão (Graal), os renascentistas italianos criam um personagem, ao mesmo tempo, valoroso na guerra e apaixonado no amor. Luigi Pulci, inspirando-se no poema anônimo popular Orlando, cria o seu Morgante (1483), poema cavaleiresco que trata das aventuras militares e da morte do grande herói mítico francês. O tema é retomado por Matteo Maria Boiardo, no seu Orlando Enamorado, obra inacabada pela morte do poeta (1494). Mas o poema que mais artisticamente trata do assunto é o Orlando Furioso (1516), de Ludovico Ariosto. O poeta italiano pretende continuar a obra inacabada pelo Boiardo, começando a história de onde este tinha terminado. Ele se inspira não só nas

112

tradições bretã e carolíngia, mas também na poesia épica greco-romana. O pretexto histórico é a descrição da luta entre muçulmanos e cristãos pela posse da cidade de Paris, mas o núcleo da narrativa é o amor de Orlando por Angélica. Este amor chega primeiramente à paixão e depois leva o protagonista à loucura, quando descobre que sua amada se casa com o negro Medoro. Nesta aventura principal encaixam-se várias outras histórias de amor, passionais e infelizes, em que se exalta o idealismo cavaleiresco, retratado especialmente na fidelidade ao sentimento amoroso. Outro poema épico-cavaleiresco italiano é a Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, que tem como fundo histórico a primeira Cruzada dos cristãos para a libertação da Cidade Santa do domínio dos infiéis, no fim do século XI. Mas a guerra entre cristãos e muçulmanos é apenas um pretexto para o poeta cantar os amores aventurosos das duplas RinaldoArmida e Tancredi-Clorinda. Esta obra, terminada em 1575, já na época do Barroco italiano, espelha o clima austero da Contra-Reforma (Lutero). O poeta, de constituição doentia e de sensibilidade melancólica, exprime artisticamente o contraste entre a força da paixão amorosa e o medo do pecado. Mas o poema épico que melhor expressa os ideais da Renascença é Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, a que dedicamos um estudo mais detalhado, pois o poema camoniano reflete os dois postulados principais da cultura renascentista: a imitação dos modelos artísticos da Antiguidade greco-romana e a exaltação do homem na sua conquista de novos caminhos marítimos, com vistas a ampliar suas atividades comerciais. Outro poema famoso, mais religioso do que épico, é O Paraíso Perdido, do escritor inglês John Milton. Para o estudo da poesia épica no Brasil, cabe ressaltar que à Literatura Brasileira faltaram os dois fatores, entre si estritamente relacionados, indispensáveis para a produção de um verdadeiro poema épico: um grande herói nacional e um grande poeta capaz de exaltar o sentimento de brasilidade. Aos dois maiores poemas considerados épicos, O Uraguai, de Basílio da Gama e o Caramuru, de Santa Rita Durão, conforme análise feita nos respectivos verbetes, faltam as características principais do gênero: os assuntos não estão centrados sobre ações gloriosas e grandiosas, realizadas em benefício da nacionalidade brasileira; os protagonistas não são heróis nacionais; acontecimentos e personalidades são realidades históricas ou invenções literárias que não sofreram a recriação carismática do mito popular. Como sabemos, o material do verdadeiro poema épico não é invenção do autor, pois acontecimentos e personagens já existiam no cabedal cultural do povo. Isso não acontece com a poesia épica brasileira: Cacambo e Lindóia, Caramuru e Paraguaçu são personagens que começam a existir na consciência popular após e não antes da produção poética. Pertencem, portanto, mais ao mundo da criação líricoromanesca do que ao universo da ficção heróico-épica. Produzidos na época do Arcadismo brasileiro, os dois poemas acusam a principal característica do Neoclassicismo: a imitação dos mais importantes gêneros literários cultivados na Renascença européia, quando se deu o retorno ao estudo dos autores clássicos da literatura greco-romana. Com o Romantismo acabou o ciclo da poesia épica na cultura ocidental, passando a ser o romance o gênero narrativo mais adequado para expressar os anseios da nova classe social, a burguesia. Estudamos, em verbetes separados, os principais poemas épicos da Literatura ocidental. Mas, além das peculiaridades de cada obra, existem elementos em comum, que nos possibilitam determinar e qualificar o gênero épico. É bom apontar algumas características fundamentais. Antes de tudo, é preciso distinguir a poesia épica primitiva do poema épico reflexo. A forma primeira está nas origens das nacionalidades ainda na fase da cultura arcaica e oral, quando a grande massa popular se alimenta apenas das narrações míticas e lendárias, que a imaginação coletiva foi criando a partir de um acontecimento histórico. Após a fase da transmissão oral, quando um povo começa a dominar o alfabeto e a ter uma língua ou dialeto escrito, as histórias, mitos ou lendas são elaboradas por um poeta que lhes dá uma veste literária e as consagra para sempre. Assim aconteceu na Grécia Antiga: ao redor da Guerra de Tróia, que se deu em meados do século XII a.C., foram-se criando lendas sobre os heróis gregos e troianos que participaram do fabuloso evento. O fato histórico, ao longo do tempo, foi deturpado pela fantasia do povo que, misturando as ações humanas com as intervenções das divindades, transmitiu oralmente cantos que exaltavam o valor guerreiro de Aquiles, a astúcia de Ulisses, a beleza sedutora de Helena, a fidelidade de Penélope, a prepotência de Agamenão, o poder supremo de Júpiter, a rivalidade das deusas Juno e Minerva com relação a Vênus, a força inelutável do Destino ( Fado). Tais cantos, referentes ao chamado “ciclo troiano”, no século VIII

113

a.C., quando o dialeto iônico começou a ser escrito, encontraram um poeta, chamado de rapsodo (costureiro), Homero, segundo a tradição, que os enfeixou nos dois poemas chegados até nós: A Ilíada e A Odisséia. Coisa semelhante aconteceu na Europa, na Baixa Idade Média, nos alvores das civilizações nacionais modernas. Ao redor do século XI, quando vários povos chegaram à independência lingüística pela formação de idiomas nacionais, derivados da antiga língua latina não mais falada, escritores anônimos criaram poemas épicos recolhendo os fatos gloriosos de sua terra transmitidos pela tradição oral. Na Alemanha, as lendas surgidas ao redor da invasão da Burgúndia por Átila, rei dos hunos, deram origem ao poema Os Nibelungos; na Espanha, a luta entre cristãos e muçulmanos motivou El Cantar de mio Cid; na França, a guerra de Carlos Magno contra os mouros foi o motivo de La Chanson de Roland. Este último poema pertence às chamadas “canções de gesta” , palavra latina que significa “ação ilustre”, tendo quase o mesmo sentido de épico. Outra variante de épico é a palavra de origem norueguesa “saga”, que mais tarde passou a indicar a história de uma família ilustre ( The Forsyte Saga, de John Galsworthy) ou Uma jornada heróica, de Érico Veríssimo. Notamos, de passagem, que gesta e saga, como formas simples, antes de serem absorvidas por uma forma culta (poesia épica ou romance), podem apresentar sentidos próprios, diferenciados. Assim, a saga é uma lenda pagã em torno de uma família, cuja disposição mental leva a construir o universo em termos de clã, de árvore genealógica, de relações de sangue. Alguns romances cíclicos podem ser considerados sagas: Rougon-Macquart (“Histoire naturelle et sociale d’une famille sous le Seconde Empire”), de Émile Zola; O tempo e o vento, de Érico Veríssimo. Já a gesta está mais ligada à movimentação de povos (gregos, semitas, germânicos), sendo o herói nacional o representante das altas virtudes de uma raça, como foi a figura de Roland para os franceses ou de Sigfrido para os germânicos. Até agora falamos da poesia épica “primitiva” , aquela que brota espontaneamente do seio de um povo na fase arcaica de sua formação cultural, sendo que nem sequer sabemos o nome do autor que deu forma artística aos cantos heróicos provenientes da tradição oral. Diferente é a epopéia “reflexa” , criada por um poeta historicamente conhecido que, vivendo no apogeu político e cultural de sua nacionalidade, teve a intenção explícita de exaltar os fatos gloriosos de seu povo. É o caso da Eneida, de Virgílio, e de Os Lusíadas, de Camões. A primeira foi escrita sob o Principado de Octávio César Augusto (por encomenda, segundo alguns críticos) com o fim de estabelecer uma conexão entre a civilização troiana e a latina através da figura lendária de Enéias, ascendente semidivino da família Júlia; a segunda, na época da Renascença, para exaltar o ciclo das grandes navegações, especialmente a contribuição portuguesa no início da Revolução Comercial provocada pelo deslocamento do eixo do comércio do Mediterrâneo para o oceano Atlântico. Essas e outras epopéias são chamadas reflexas, quer porque imitam poemas preexistentes (Camões imitou Virgílio, que imitou Homero), quer porque não se acredita ingenuamente nos fatos narrados: eles são submetidos ao crivo da reflexão. Quanto à sua estrutura genérica, o poema épico é composto de uma parte introdutória, que compreende a Proposição (antecipação do assunto que será tratado), a Invocação (pedido de ajuda à divindade) e, às vezes, a Dedicatória (a um homem ilustre), e da parte maior chamada de Narração. Esta, geralmente, não segue a ordem cronológica na exposição dos fatos, mas começa in medias res: a trama tem início com a narração de um episódio importante e, a partir daí, através do recurso técnico da retrospecção, uma personagem nos conta o que aconteceu anteriormente. O foco narrativo está centrado sobre um narrador onisciente, mas volta e meia aparecem outras focalizações evidenciadas pelas falas das personagens ou pela intervenção do eu poemático. O estilo é solene, a linguagem rebuscada e a composição estrófica, rímica e métrica segue cânones rígidos apropriados a esse gênero literário. Outra característica relevante é o recurso ao maravilhoso religioso ou lendário, pagão ou cristão: as divindades participam ativamente das ações humanas, privilegiando-se a força do destino que dirige os acontecimentos e as condutas dos heróis. Quanto ao sentido, a epopéia é o canto da totalidade da vida de um povo em determinado estágio de sua civilização. A narração épica, além de verter sobre um fato bélico grandioso, historicamente acontecido, mas idealizado pela imaginação coletiva criadora de mitos e de lendas, está diretamente relacionada com o surgimento ou o progresso de uma nacionalidade. A totalidade implica a transcendência: o herói épico, ser híbrido, pois humano dotado de prerrogativas divinas,

114

representa o elo de ligação entre o humano e o divino, o sonho da humanidade de superar sua natureza contingente e de aproximar-se do absoluto. A trajetória de herói épico é longa e acidentada porque o interesse do poeta vai além da narração das aventuras de um homem, estando preocupado mais em explicar a origem de lugares, de objetos e de comportamentos, em descrever ambientes, costumes, organizações sociais, crenças religiosas, enfim, toda uma civilização. Daí o conceito de “épico” transcender os limites de uma forma narrativa em versos, aplicando-se também a outros tipos de manifestação cultural nos quais predomine a grandiosidade. É por isso que falamos de teatro épico, de cinema épico, de romance épico. EPICURO (o prazer ponderado: Hedonismo) Ou Deus pode e não quer evitar o mal: então não é bom; ou quer mas não pode: então não é onipotente. Em cada qual das duas hipóteses: ele não existe! Juntamente com Sócrates, Epicuro (341-270) é considerado o maior sábio do mundo grego. Seu pensamento reflexivo segue a linha de Demócrito. Ensinou em Samos, Mitilene e Atenas o materialismo atomístico, considerando todos os objetos existentes formados de átomos, partículas indivisíveis, cuja combinação aleatória provoca a diferenciação dos seres. Ele chama de clinamen a inclinação da trajetória dos átomos que constituíam a matéria. Sendo esta declinação incontrolável, o mundo é dirigido pelo acaso. O indeterminismo da combinação atômica se traduz, no plano ético, em termos de liberdade. E, realmente, é no plano da moral que seus ensinamentos tiveram um maior sucesso. Para Epicuro, a natureza é boa e dela devemos extrair o que é mais importante para homem, o que constitui a finalidade última de qualquer ação humana: o prazer! Só que este prazer deve ser “ponderado”, calculado, pesado, evitando-se qualquer excesso. Nunca usufruir um prazer se sua conseqüência possa ser deletéria. Se, por exemplo, alguém comer a menos do que precisa para se alimentar (o “dietista”), vai sofrer por inédia; se comer a mais (o guloso), vai sentir dor de estômago. O escritor afro-romano Lucius Apuleius, autor do famoso romance O Asno de Ouro (Metamorfoses), diz a respeito do vício da bebida: “o primeiro copo sacia a sede; o segundo traz alegria; o terceiro dá prazer; o quarto é o da insensatez”. É o equilíbrio entre os prazeres possíveis que constitui o grande ensinamento de Epicuro e não a busca exclusiva da sensualidade e da luxúria, que os adversários atribuíram à sua doutrina. Entre os grandes discípulos de Epicuro, destacamos dois grandes poetas da Roma antiga: Lucrécio e Horácio. É deste último a verdade proverbial : in medio stat virtus (a virtude está no meio termo). O epicurismo deu origem à doutrina moral do Hedonismo, do grego hedone, que significa “prazer”. Colocar o prazer como finalidade da vida é de alguns privilegiados que sabem e podem viver bem. Os hedonistas entendem que comer não é só se alimentar; que fazer amor não visa apenas ter filhos; que vestir não significa proteger-se das intempéries ou preservar o pudor; que viajar não é só fazer negócios ou visitar familiares. Em qualquer ato da vida tem que ser procurada uma satisfação prazerosa, juntando o agradável ao útil, curtindo as sensações mais variadas, cultivando o senso estético. Ele afirmou categoricamente: “É impossível viver com prazer sem viver bem, sábia e justamente, e é impossível viver bem, sábia e justamente sem viver com prazer! Epicuro foi o primeiro pensador ocidental a negar claramente a possibilidade da existência de uma “Transcendência Providente”, de uma divindade que se preocupasse com a dor humana. Seu dilema, simplificado na epígrafe deste verbete, tornou-se famoso: se existisse um Deus poderoso e bondoso, não haveria tantos cataclismas cósmicos, tantas guerras, ódios, injustiças e doenças incuráveis. A contradição da existência do mal, junto com a crença na bondade divina, inquietou não apenas Epicuro, mas também outros sábios posteriores que procuraram encontrar uma explicação racional, especialmente Santo Agostinho e Kierkgaard. A resposta de que Deus deu ao homem o “livre arbítrio”, pelo qual ele pagaria o preço da maldade cometida, só satisfaz gente obstinadamente crédula. Como acreditar num Deus Onipotente e Misericordioso face à dor das vítimas inocentes de um terremoto ou de um desastre aéreo? Que dizer, então, de genocídios, de ódios étnicos, de bolsões de miséria extrema? Em verdade, o mal, em qualquer uma de suas formas, constitui um mistério racionalmente inexplicável para quem acredita na

115

existência de um Ser Transcendental que, por ser Deus, deve ser “Perfeito”, possuindo todas as virtudes, no máximo grau, na virtualidade e na ação. O epicurista prefere não se inquietar com problemas religiosos insolúveis à luz da razão, vivendo apenas o momento presente, da forma mais natural e prazerosa possível, atento apenas em respeitar a liberdade e os direitos do seu semelhante. ERA (período ou época) Idade EROS (“Cupido” romano, erotismo, amor, Sexo) PsiquêVênus “Erótica é a alma” (Adélia Prado) Eros é uma das “Divindades Primordiais”, aquelas que pertencem à “pré-história” da Mitologia grega. Segundo o pensamento órfico, Eros nasceu do Caos ou Ovo primordial, engendrado pela Noite, cujas metades se separaram, dando origem à Terra e ao Céu. Ele é o princípio da atração universal, que leva as coisas a se juntarem, criando a vida. Eros é a força que assegura a coesão interna do Cosmos e a continuidade da vida na terra. Para Platão, ele seria um daimonion, uma força espiritual intermediária entre a divindade e a humanidade. Na cultura romana, Eros é confundido com Cupido, o deus do amor, representado como uma criança alada, nua, armada com arco e flechas ou com espada e escudo, símbolo da paixão arrebatadora. Acontece que, com o passar do tempo, se desfigurou o sentido etimológico da palavra “erótico”, reduzindo o conceito a um tipo de satisfação carnal proibida (“ sexo sem pecado é como ovo sem sal”, diria o cineasta Luís Buñuel), à nudez, à sacanagem, aos filmes pornôs. Confundiu-se Eros com Priapo, o deus do sexo! O dramaturgo Nelson Rodrigues afirma que “sexo é o que restou da PréHistória, do vil passado do homem”. Já o escritor, jornalista e poeta, Arnaldo Jabor ( O amor é prosa, sexo é poesia), ao analisar a origem etimológica da palavra “sexo”, do radical “sec” do verbo secare (separar, cortar, dividir em duas partes), vê o ato sexual como uma “reintegração de posse”: o amor une o que a divindade dividiu (veja o mito do Andrógino). Citando, literalmente: “Nosso amor é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e o óvulo se interpenetrando”. Mas, embora sendo profundamente natural, o ato do amor transcende a matéria, pois aspira ao eterno e ao infinito. Conforme o autor citado, “o amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver”. O Eros verdadeiro é o deus do amor no seu sentido integral, que engloba corpo e alma. A atração puramente física é animalesca e não humana. É apenas o bicho que tem o período do cio. O homem e a mulher se amam (ou deveriam se amar!) sempre e em todos os lugares por uma comunhão de sentimentos que transcende o aspecto corporal. O erotismo, que verdadeiramente funciona e que faz perdurar a atração recíproca por longo tempo, está no olhar apaixonado, na admiração que o amante sente pelas qualidades físicas e espirituais que consegue enxergar na pessoa amada. O erotismo, que realmente e de uma forma mais duradoura estimula o desejo, se encontra na poesia lírica, na pintura, na dança, nos filmes sentimentais, na arte em geral, pois supera o nível do real e penetra no mundo da fantasia, do sonho, do vago sentimento do inacessível. Por esse prisma, os Cantos de Salomão e a poesia trovadoresca são mais eróticos do que o Kama Sutra. O erotismo está mais no sugerir do que no mostrar totalmente, no claroescuro, na promessa do idílio, no mistério a ser desvendado, na repetição do ato do amor como se fosse sempre pela primeira vez. Como diz a poeta Adélia Prado, “erótica é a alma”! Só que conhecer o espírito de alguém é bem mais difícil do que lhe conhecer o corpo. Manuel Bandeira nos oferece uma reflexão interessante a respeito: “deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque corpos se entendem; as almas, nem sempre”. E, sobre a renovação do desejo erótico, esta bela imagem do poeta Mário Quintana: “amar é mudar a alma de casa”. Enfim o erotismo, entendido como prática do amor num sentido bem geral, é onipresente a qualquer atividade humana bem sucedida. A escritora Lygia Fagundes Telles afirma acertadamente: “Vocação é ter a felicidade de ter como ofício a paixão”. Mas é a escritora existencialista francesa, Simone de Beauvoir, amante de Sartre, quem melhor define a essência da relação carnal: “ O erotismo implica uma reivindicação do instante contra o tempo, do indivíduo contra a sociedade”. ESCRAVIDÃO (discriminação, racismo, eugenia, etnia)Hitler.

116

A palavra “escravo” deriva do grego bizantino sklábos, que significa “eslavo”, povo da Europa oriental, passando pelo latim medieval sclavus, indicando um ser humano que vive num estado de absoluta servidão. A origem da escravidão se perde nos tempos, sendo a primeira forma de sociedade dividida entre dominados e dominadores. Historicamente, sinais de trabalhos escravos se encontram entre os hebreus e nas dinastias faraônicas do Egito Antigo. Mas foi na Grécia que se generalizou o uso de escravos, pela separação entre propriedade pública e propriedade privada. Foi, porém, com a expansão do domínio romano, a partir do séc. III a.C. que tomou corpo a sociedade escravizada: como resultado das conquistas bélicas, soldados e povos vencidos foram submetidos ao regime de servidão gratuita. E foi na Sicília, região da Magna Grécia dominada por Roma, onde se deu a primeira revolta de escravos. A façanha de Espártaco passou à história. Camponês da Trácia, escravizado e obrigado a lutar como gladiador, no ano de 73 a.C., se revoltou contra a prepotência romana, liderando um exército de quase cem mil escravos que desejavam a liberdade. Foi derrotado, mas sua figura se tornou motivo de arte literária, escultural e cinematográfica. Na Idade Média, pelo regime predominantemente agrário do Feudalismo e pelo isolamento da Europa ocidental (Medievalismo), a escravatura foi substituída pela servidão. No Renascimento, com as grandes navegações e os descobrimentos de novos mundos, começou o tráfico de africanos para serem escravizados no continente americano. O estudioso Eric Williams ( Capitalismo e Escravidão) fala de um “comércio triangular”: as metrópoles européias forneciam artigos manufaturados (armas, tecidos, bijuterias), que eram trocados na África por escravos que, por sua vez, eram trocados, nas plantações americanas, por produtos coloniais (açúcar, cacau, café) consumidos na Europa. Este comércio triangular fomentava a indústria, que fomentava o comércio. A Grã-Bretanha, onde o nascente capitalismo industrial se chocava com a concorrência da mão-de-obra escrava, tomou a frente do movimento abolicionista, condenando o tráfico de seres humanos no Congresso de Viena (1815). Nos Estados Unidos da América do Norte, a Abolição provocou a Guerra de Secessão, que terminou em 1865, vencida pelos abolicionistas. No Brasil-Colônia, a Coroa de Portugal autorizava cada senhor de engenho a importar até 120 escravos por ano, permitindo no máximo 50 chicotada por dia, como castigo de escravos revoltosos ou preguiçosos. A reação levou à formação de “quilombos”, redutos de escravos fugitivos. O mais importante foi o de Palmares, no atual estado de Alagoas, que durou um século, formado por quase vinte mil habitantes, chefiados pelo negro Zumbi, assassinado por jagunços, em 1695. A Abolição dos escravos foi proclamada no Brasil em 13 de maio de 1888, mas práticas escravistas, embora ilegais, continuam ainda hoje em várias regiões rurais. O sistema escravagista marcou de uma forma indelével parte do povo brasileiro: desde a Abolição, os descendentes dos escravos ficaram nas camadas mais humildes da nossa sociedade. Infelizmente, escravidão se confunde com miséria e negritude. A raça negra ainda é tratada como “minoria” subdesenvolvida em algumas culturas ocidentais ( Hitler). ESCULTURA (formas e evolução) Do verbo latino sculpere, o substantivo sculptura é arte da estatuária, lavrando madeira, mármore e outros materiais, com diversas ferramentas, para criar formas e volumes de objetos em três dimensões ou apenas relevos sobre um fundo ou esculturas só de ornamento. A origem da Escultura, como de outras artes, se perde ao longo dos tempos, existindo nas civilizações mais primitivas (egípcia, grega, romana, indiana, chinesa, americana pré-colombiana). Na mitologia grega, aparece a figura de Dédalo ( Ícaro), considerado o primeiro grande escultor. Para atender ao desejo da rainha de Creta, Pasífae, apaixonada por um touro, ele construiu a estátua de uma vaca, revestida de couro, onde a esposa do rei Minos se ocultou para ser emprenhada pelo animal, parindo o Minotauro, um ser com cabeça de touro e corpo humano, vencido pelo herói Teseu (Ariadne). A arte da Escultura, inicialmente, estava ligada à religiosidade, esculpindo-se, predominantemente, estátuas de divindades, grandes (para o culto coletivo) e pequenas (estatuetas domésticas). Com o Renascimento, a arte da estatuária se tornou também profana, com fins puramente estéticos. É desta época o maior gênio da escultura, Michelangelo, a quem dedicamos um verbete à parte. Durante as monarquias européias, do séc. XVII ao XIX, a escultura foi largamente

O espaço indica a distância entre dois pontos. 1880. como já foi dito.37 m de altura. A espacialidade.). o espaço da enunciação ( Discurso). onde estaria o espaço divino ou sobrenatural. tomada como instrumento de análise de uma obra de arte. Além do mármore e do bronze. consideradas ignóbeis: cabeça. mares. possui seu espaço. Segundo a terminologia de Gaston Bachelard. todo texto literário. referido aos deuses do mundo subterrâneo. cidade. ruas. que atrai pelo fascínio do mistério: é onde vive o inimigo da sociedade (florestas. em relação ao subsolo etc. mais direcionado para o alto. Na segunda metade do séc. em grego. Também nas artes plásticas. sendo. atmosfera.117 utilizada para a decoração de palácios e praças públicas com estátuas e bustos comemorativos. e de “baixo”. da aventura. especialmente pela famosa obra Figura Reclinada. na medida em que encerra um pedaço da realidade. conforme limites determinados. cama. em relação aos pés. representa a ordem do Cosmos. por ser o espaço desconhecido. O espaço interior é o espaço subjetivo. navegação. apresenta a oposição do espaço interior ou fechado e do espaço exterior ou aberto. é o lugar da imaginação e do desejo: o céu. madeira. A expressão “espaço tópico”. Paraíso). e as partes inferiores. conectando-se ao renascentista Michelangelo. enquanto. onde se distinguem as partes superiores. ferro. Enquanto a categoria do tempo tem como objeto o estudo da “continuidade”. como qualquer obra de arte. mas essa terminologia metalingüística. No início do séc. pode apresentar vários aspectos. relacionado com os deuses superiores ou celestes. atópico. Entre os artistas do escalpelo. astronomia. o espaço é formulado a partir do princípio da “extensão”. É objeto de estudo de várias disciplinas: filosofia. passaram a ser usados outros metais: cobre. onde se vive em segurança. . O espaço humano distingue-se também pela sua topicidade: “tópico” é o lugar conhecido. em oposição à desordem do Caos. além de distinguir o tópico do atópico e utópico. “atópico” é o espaço estranho.exterior ou interior . como o tempo com o qual está intimamente conectado. o espaço exterior refere-se ao mundo dos objetos. os conceitos de “alto”. o espaço tópico é o espaço conhecido. O espaço utópico. XIX. alumínio. elemento estrutural de uma obra de arte)Utopia O termo latino spatium. casa. do eu que fala. cavernas). no Brasil. por exemplo (  Urano Olimpo. o não-dimensional. cujo limite seria o “eterno”. tidas como nobres. própria do espaço humano ou natural. topografia etc. Sua arte ultrapassa o Realismo e o Romantismo. psicologia. o escultor francês mais famoso. materiais nobres tradicionais. as várias correntes estéticas da Vanguarda na Europa ampliaram a riqueza potencial da Escultura. uma construção lógica que expressa relações baseadas na experiência existencial. estabelecendo uma fronteira entre ela e o mundo imaginário. em oposição à verticalidade. utilizando materiais e técnicas mais avançadas. infinito. enquanto o atópico é o espaço hostil. a grandiosa arte barroco-rococó do Aleijadinho é posta ao serviço do culto religioso. onde as personagens vivem seus atos e seus sentimentos. é uma redundância pois. útero. áreas ou volumes. topos. difuso. com as divindades benfazejas. é preciso reparar numa espacialidade dimensional. aplicam-se também ao espaço humano. sendo o meio . ESPAÇO (Topologia. vista como deusa. O espaço da ficção constitui o cenário da obra. resinas sintéticas e outros materiais plásticos. a determinação do componente espacial é tão importante quanto a percepção da categoria temporal. Outra noção é da horizontalidade. às divindades maléficas ou demoníacas. ao enunciado ( Mito). estátua moderna de 1. amante e procriadora. que tenta transmitir a emoção do eterno tema da mulher. possibilita uma tipologia espacial conforme uma escala progressiva. geometria. em si. de quem se considerou discípulo. utópico. com suas coordenadas e eixos direcionais. aflora Auguste Rodin (1840-1917). o espaço do sofrimento e da luta. montes. englobada num “infinito”.no qual tudo se move. Em primeiro lugar. Evidentemente. astrologia. indo de um lugar genérico até ao espaço de máxima intimidade: país. O trabalho artístico que o imortalizou foi a escultura em bronze O Pensador. Suas obras mais importantes encontram-se no atual Museu de Rodin. bairro. religião. Ele. Todavia. em Paris. quarto. da felicidade. distinta de um espaço incomensurável. que em 1948 recebeu o Prêmio Internacional de Escultura da Bienal de Veneza. corresponde à palavra grega “topos” (tópico. gesso. familiar. “utópico” é o imaginário. rua. XX. o estudo da categoria do espaço tem sua relevância. Para o estudo do texto literário. Outro tipo de espaço. enfim. não podemos esquecer o britânico Henry Moore. As descrições de cidades. já significa “espaço”.

1843) e de outros magnetizadores que faziam girar e falar mesas. que pode ser humano. animal ou até vegetal. paisagens abertas = sensação de liberdade). literalmente. pois. que tem em Alan RobbeGrillet. Olimpíadas) Olímpo ÉSQUILO (poeta grego)TeatroDrama Tragédia . publicada pela primeira vez em 1857. Tal crença está na base de várias religiões orientais. A correspondência da isotopia espacial com o tema geral da obra se dá particularmente na estética do Realismo. Para esses ficcionistas. significa a “transmigração” da alma de um corpo para outro. constituindo índices da condição social da personagem (rica ou pobre. Espiritismo) Psiqué Inteligência=>Budismo “Um dos maiores pecados do mundo é diminuir a alegria dos outros” (Chico Xavier) Do latim spiritus. remonta à segunda metade do séc. O estudioso francês. famoso por suas sessões mediúnicas em Uberaba e pela psicografia de mensagens de homens ilustres do passado. Pestalozzi (Como Gertrudes ensina seus filhos. cuja leitura de cabeceira era a obra de Kardec. móveis etc. da natureza dos Espíritos e de suas relações com os homens. o espaço é o meio vital onde toma forma a atividade humana: nada existe fora do espaço e do tempo! ESPÉCIE (A Origem das espécies)Darwin Gênero Genética ESPÍRITO (alma.H. tanto quanto o tempo. Hinduísmo e Budismo. Sua feição é cristã e seu caráter evangélico. quadro. analisando os fenômenos mediûnicos das irmãs Fox (EUA. que significa “sopro” ou alma. especialmente do Bramanismo. seja qual for a obra de arte (poema. da vida presente e da futura. Para algumas narrativas contemporâneas. tal como o concebemos hoje. que confere extrema importância às influências do ambiente na constituição da psique da personagem.118 casas. sendo cada vida determinada pelas ações da pessoa na vida anterior. O Brasil pode ser considerado a atual pátria do Espiritismo. Enfim. O termo grego metempsicose. a descrição do espaço físico é fundamental. Pensamos na denominada “escola do olhar”. que concebem o Karma como o elo de uma cadeia de vidas (sansara). sendo o espiritismo brasileiro compromissado com as obras de assistência social e a confraternização da humanidade. com estrondoso sucesso no mundo todo. Sua obra. romance. Em certas obras literárias. codificado por Allan Kardec (1804-1869). O maior médium brasileiro foi o mineiro Chico Xavier (1910-2002). sobrevivendo à morte corporal. Mas o Espiritismo. O Livro dos Espíritos. a reencarnação do espírito. um indisfarçável determinismo leva a prever com exatidão quais são as ações e as reações do personagem. ESPORTES (o culto do corpo. discípulo do pedagogo suíço J. na cultura ocidental. se trata de algo que transcende a natureza física. independentemente da referência a uma ação ou a uma atitude do personagem. para a doutrina espírita (ou qualquer outra forma de religiosidade). porque os objetos são os verdadeiros atores de suas narrativas e são criados pelo próprio movimento da descrição. que os materialistas identificam apenas com a inteligência e a imaginação. enquanto. pois os objetos são descritos em si. monumento). uma vez descrito seu espaço vital. após a morte. independentemente da ligação a um personagem ou a um acontecimento. num outro ser vivo. o espaço adquire uma importância particular. nobre ou plebéia) e de seu estado de espírito (ambiente fechado = angústia. XIX. fala da imortalidade da alma. 1801). A crença religiosa na existência da alma separada do corpo estimula a ciência a investigar o poder que a mente humana tem de influenciar o mundo físico. encontrando-se em quase todas as religiões. existindo aqui o maior número de kardecistas do mundo todo. é fundamental para captar sua significação a análise dos elementos espaciais. funcionam como pano de fundo dos acontecimentos. A crença na existência de “almas de outro mundo” e de sua comunicação conosco é bem remota. a parte incorpórea do ser humano. convenceu-se de que realmente eram as almas do outro mundo que se comunicavam com os vivos. das leis morais. A moderna “noética” (lógica mental) estuda as quase infinitas possibilidades da atividade cerebral. estátua. Jean Ricardou e Nathalie Sarraute seus melhores expoentes.

composta de três tragédias (Agamenão. Resumimos os assuntos das outras quatro peças de Ésquilo. o pensador alemão Hegel confirma a tradição crítica. Os Persas: tragédia histórica. A visão de uma mulher de traços delicados. cintura fina e quadris largos. por exemplo. a quererem ampliar seus domínios. mas proporcionais ao rosto. que pune o homem quando ele ultrapassa os limites estabelecidos. A Lei do mais Belo. mas essa verdade artística é “subjetiva” ou “objetiva”? Quer dizer. Os valores morais do teatro de Ésquilo estão fundamentados sobre um misticismo fatal: as ações humanas não são determinadas pela razão. a percepção do que é bonito. considerada uma variável no espaço e no tempo. conforme a concepção clássica ou objetiva da beleza. mas pela força cega do destino. por esse crime de soberbia e rebeldia ele foi acorrentado a um rochedo. A tragédia a s Eumênides (“espíritos benfazejos”) encerra o ciclo da tragédia familiar. tais como Helena de Tróia. ameaçada pelo imperialismo persa. Ésquilo (524456) lutou valorosamente em várias batalhas para defender sua pátria. com relação à atração sexual. portanto. o coro de mulheres que carregavam as oferendas na tumba de Agamenão. filhos do rei de Micenas. Sua obra mais importante é a trilogia Oréstia. Platão foi o primeiro filósofo a indagar a essência da Arte. pode apresentar protótipos universais e eternos. atenderia ao desejo dos homens e todas as mulheres do mundo teriam o corpo da modelo Gisele Bünchen. ou pelas ondas disformes de uma tempestade marítima. A Divina Comédia. A beleza. pele nova e firme. sem nunca envelhecerem. passando a proteger os habitantes de Atenas e da Ática. de Dante Alighieri ou o quadro La Gioconda de Leonardo da Vinci. Escreveu muitas peças. O pior é que a culpa individual se torna maldição hereditária. A palavra grega aisthetiké significa o sentimento. deusas da vingança e do ódio. o tio Egisto. de quem a imensa comunidade judaico-cristã herda a culpa e a pena do pecado original! ESTÉTICA (concepção do “belo”. Sim. apenas pela cor dos olhos de uma mulher. olhos grandes. e o doou aos homens. existindo o belo no equilíbrio. quando de sua volta da guerra contra Tróia. As Suplicantes: as cinqüenta filhas de Dânao (Danaides). O assunto da primeira peça trata do assassínio de Agamenão. tem como assunto a vingança de Orestes e de Electra. célebre pelo Santuário de Apolo. perpetrado pela esposa Clitemnestra e pelo amante Egisto. no Peloponeso. existem parâmetros inquestionáveis para determinar o que é belo e o que é feio? Segundo a concepção clássica. O homem romântico pode se apaixonar por uma peculiaridade fora de um contexto. com uma relação . afirmando que “o belo se define como a manifestação sensível da verdade”. A segunda peça. considerado um tesouro precioso. patrocinada pela Universidade americana de Harvard. Aristóteles já afirmara que “a beleza é o esplendor da forma”. Parece comprovado cientificamente que a química do cérebro de homens heterossexuais é realmente estimulada ao olhar o espetáculo de uma mulher linda. Mas esta peça trágica tem um final feliz: o tribunal dos deuses acaba absolvendo Orestes de seu crime e as Erínias se tornam Eumênides. que matam a mãe e seu amante. e o mito bíblico de Adão. trata das conseqüências funestas da ambição (hybris) que leva os imperadores da Pérsia. estilística)ArteRetórica Se Deus realmente existisse. As Coéforas e As Eumênides) que formam um ciclo sobre a tragédia familiar que se abateu sobre o rei de Micenas. relacionando a beleza com o bom. mas só restaram sete. rei da Líbia. é interessante ler a recente publicação da pesquisa de Nancy Etcoff. Os Sete contra Tebas: representa a trágica luta fratricida entre Etéocles e Polinice. cidade da Ática. Prometeu acorrentado: é a encenação do mito de Prometeu que roubou dos deuses o fogo. Dario e Xerxes. que se transmite de geração em geração! Há uma relevante semelhança entre o mito pagão de Édipo. representando a dor do remorso do matricida Orestes. perseguido pelas Erínias (as Fúrias). a arte é “harmonia de formas”. Já a concepção romântica da arte é subjetiva. Sobre a objetividade da beleza. o próprio irmão do soberano. foram obrigadas a fugir do Egito e a refugiarem-se em Argos. na proporção entre as partes. pelo poder sobre Tebas.119 Não é sábio quem sabe muitas coisas e sim quem sabe coisas úteis Filho de fazendeiros de Elêusis. intitulada as Coéforas (“as portadoras de libações”). que sofre pelo pecado do pai. filhos de Édipo e Jocasta. o útil e o verdadeiro. Na mesma linha do Idealismo.

Foi Claude Lévi-Strauss que deu notoriedade ao termo “estrutura” ao transferi-lo da Lingüística para a Antropologia. fundamentalmente. que usam indiferentemente forma ou estrutura. (Martin Seymour-Smith. o problema do julgamento estético está sempre ligado a uma concepção filosófica. mas na mulher a beleza é fundamental”. Sem força de vontade. jogos de azar. “as feias que me desculpem. entendida como relação entre as parte de um conjunto. pois na mulher considerada bonita (tipo estrela do cinema ou modelo de passarela) existe algo de objetivo. a beleza (feminina ou masculina.. nada fazendo a mais nem a menos. Também o poeta Stendhal tinha um gosto estético refinado. Como diria o nosso grande poeta Vinicius de Morais. ESTOICISMO (corrente filosófica: a virtude. A teoria levistraussiana está fundamentada no princípio do isomorfismo entre as leis do pensamento e as leis do real.. O valor de cada um é relacionado com o valor das coisas às quais deu importância. O escritor latino Lucano dizia que “cada qual é responsável pelo seu próprio naufrágio”. cientificamente provado. onde se falava de filosofia). nem nos héteros na presença de uma mulher feia ou de um homem de corpo bem feito. chamada de “Escola do Pórtico” (o átrio em Atenas. Segundo esta teoria. modernista etc. sempre foi e continua sendo cultuada como um valor. nos ajudam a entender a postura estóica perante a vida: Não poderás ser mestre na escrita e na leitura sem ter sido antes aluno. O mesmo efeito não se produziu no cérebro dos homossexuais.. Alguns trechos extraídos da obra do imperador romano Marcus Aurelius Antoninus (121-180). a inteligência.. matemáticas e humanas.. Assim. álcool. sem prejudicar ninguém”. Já. fala ou pensa. onde se confunde com conceitos afins. provocando a mesma reação química de outros vícios que criam dependência.. “conjunto”. o saber. o conceito de estrutura. Sêneca e Marco Aurélio. “organismo”. tal como a juventude. o termo “estrutura” encontra-se em Saussure e nos Formalistas russos. a estrutura não poderia ser . “modelo”. positivista. olhando uma mulher bonita. a riqueza. Posidônio. sujeita a contínuas mudanças. A doutrina estóica preocupa-se. pode ser rastejado em antigas noções das ciências naturais. tais como cocaína. algo de permanente. considerando negativa qualquer forma de passividade. com o ensinamento moral. que tempera o caráter. Captar as estruturas de determinados comportamentos humanos significa expressar racionalmente o inconsciente meta-individual que sustenta as regras do funcionamento social. Lembra-te sempre disto: para viver-se com felicidade. Para os estóicos. É a crença no Panteísmo. cujo teto era sustentado por colunas. basta pouco. falamos de estética ou de estilo de vida e de arte romântica. “forma”. acima de tudo) “O homem sábio deve ficar satisfeito se tiver feito. sinceramente. o poder. do ponto de vista teórico. Adapta-te ao gênero de vida que te tocou por sorte. Enfim. Aplicado à lingüística por Wilhelm Humboldt. pois os homens que se submeteram aos testes eram de culturas diferentes. que é a virtude. E esta reside na capacidade do ser humano viver conforme a natureza. O Estoicismo ensina que Deus é o próprio Universo e a alma humana uma centelha divina... Ele definiu a beleza como “a promessa de felicidade”. o homem adepto do estoicismo se torna impassível antes à dor e à adversidade. Os resultados da pesquisa levam ao triunfo da concepção clássica do belo. objetiva ou subjetiva). que se desprende dessa matéria imensa e a ela retorna. diferentemente da moda. começou a ser divulgada a partir de Zenão de Cítio (335-264). ESTRUTURALISMO Formalismo Função Texto Crítica Do latim structura. clássica. causa um frisson nas áreas mais primitivas do cérebro do ser masculino hétero. seguido por Panécio. A doutrina estóica. Quais aborrecimentos evita aquele que não procura saber o que o seu vizinho diz. em qualquer tipo de sociedade. o melhor possível. não se alcança o sumo bem. definindo o Estoicismo) Do grego stoikós (“em linha reta”). válido em qualquer tempo e em qualquer lugar. Meditações. como “sistema”. Nada se consegue sem sacrifício. a noção da matéria está fortemente ligada à noção do esforço.120 harmoniosa entre peso e altura.

os traficantes de droga do Comando Vermelho invadiram o reduto dos rivais do Terceiro Comando e cometeram horrores. para a compreensão do texto literário. Ou progredimos ou desaparecemos. sendo adaptado para cinema. de onde a palavra “favela” foi transplantada para o Rio de Janeiro. Euclides analisa ambientes. composto de três eixos: “querer ” (sujeito/objeto).Todorov estuda as categorias da narrativa literária. favela do Rio de Janeiro. dividida em várias partes. revelou aos intelectuais da época e aos futuros escritores regionalistas a miséria das povoações nordestinas. pela sua obra Os sertões. Os sertões é. comuns a este e a outros objetos do mesmo grupo ou da mesma espécie). Como salienta o citado crítico. passagem ao ato e resultado) e de dois processos (melhoramento ou degradação). Claude Bremond procura captar a rede de possibilidades lógicas. visto que construiu seu modelo a partir da análise de um corpus. deve ser salientada a enorme relevância dos estruturalistas. ensaísta da revista Veja. o Diretor paulistano Zé Celso Martinez fez de Os Sertões uma verdadeira epopéia teatral. a “forma”. travada no interior da Bahia. acrescentando. ETNIA (Racismo. mas de qualquer tipo de narrativa. e a rebelião dos presos de Benfica. entre 1896 e 1897. Centrado sobre a revolta de Canudos. as funções integrativas ou paradigmáticas (índices e informantes). Quanto às personagens. um verdadeiro “romancedocumento”. Distinguiríamos. à “prova” e à “viagem” do herói. as “sete esferas de ação” de Propp são transformadas. pelo semanticista francês. constituído de cem narrativas fabulosas. às funções distributivas ou sintagmáticas (núcleos e catálises). Aplicado aos estudos literários. através da distinção de três momentos (virtualidade. a “forma” (o todo orgânico de um objeto concreto) da “estrutura” (o modelo geral elaborado pela análise dos elementos constitutivos e invariáveis. tece um interessante paralelo entre a Guerra de Canudos. especialmente franceses. Trilhando o caminho percorrido por V. Em Canudos. própria do historiador. personagens e fatos. Depois de mais de 100 anos. que engendram a narratividade. Euclides da Cunha (1866-1909). a história do Brasil apresenta “constantes perturbadoras!” O romance épico euclidiano se tornou um mito na cultura brasileira. eles procuram ampliar seu método de trabalho. T. mutilando corpos após a matança. no que toca o estudo da narrativa ficcional. J. as coincidências entre os dois tristes episódios são espantosas. o romance histórico do enviado especial do jornal O Estado de S. não teria descoberto a “morfologia”. A. Propp (Formalismo Função). isto é. enquanto as mulheres dos facínoras entoavam hinos evangélicos. estendendo-o à análise não só do conto popular. na semana entre maio e junho de 2004. com 13 horas de duração e com apresentações também no exterior. então. Eugenia) Escravidão Hitler EUCLIDES da Cunha (Guerra de Canudos. na favela carioca de Benfica. o conceito de estrutura de Lévi-Strauss levaria a uma redenominação do trabalho proppiano A Morfologia do Conto: o formalista russo. mas a “estrutura” do conto fantástico. televisão e teatro. “saber” (destinador/destinatário) e “poder” (ajudante/oponente). . tentando descobrir as causas de comportamentos humanos típicos. Antônio Conselheiro: Os Sertões) Estamos condenados à civilização. Holocausto. Greimas reduz as 31 funções a três categorias básicas: as ações que dizem respeito ao “contrato”. portanto. Vladimir Propp. À margem das questões teóricas acerca do conceito de “forma” e “estrutura”. Recentemente. os jagunços devotados a Antônio Conselheiro eram assassinos tomados de um fervor religioso. mas num “modelo” teórico formulado a partir da análise de vários objetos. que buscava no fanatismo religioso uma válvula de escape para a miséria econômica e cultural. especialmente do Estado da Bahia.Paulo descreve o isolamento material e espiritual em que vivia o povo da serra nordestina. tão ao gosto da escola realista-naturalista. Roland Barthes amplia o conceito proppiano de função. Com o rigor científico do engenheiro e com a preocupação com a verdade. nas seis figuras do “modelo actancial”. estabelecendo uma dicotomia entre “história” (a análise lógica das ações e das relações entre as personagens) e o “discurso” (a análise do processo da enunciação: o eu emissor e o tu receptor). Roberto Pompeu de Toledo. O vasto material geográfico e histórico é transformado em obra de arte pela grande seriedade com que o autor tenta desvendar o mistério do homem e da terra brasileira.121 individualizada num objeto particular.

mas só pode ser vivida olhando-se para frente. o comediógrafo Aristófanes. considerada estúpida e fonte de infelicidade. seres ou comportamentos.122 EURÍDICE (mito do amor após a morte)Orfeu EURÍPIDES (dramaturgo grego)Tragédia Teatro Não desperdice lágrimas novas com tristezas antigas O poeta trágico Eurípides (480-406) nasceu na Macedônia. etimologicamente. Mas. talvez. o chefe da expedição grega: Ifigênia em Áulis. desenvolveram doutrinas antropocêntricas. onde está representado o sofrimento das principais senhoras de Tróia. Eurípides é considerado o precursor do moderno drama burguês. Agamenão é assassinado pela própria esposa. Orestes e Electra. Em compensação. significa “o que está ai” e. Eurípides não mais acredita cegamente nos deuses da mitologia antiga. do homem e da natureza. as peças de Eurípides revelam um aspecto mais natural. Escreveu sessenta e sete tragédias e sete dramas satíricos. Nesta tragédia. Ulisses sofre por dez anos antes de voltar a Ítaca). Por isso é violentamente atacado pelo seu contemporâneo. Pode-se relevar que a tragédia grega apresenta um processo de gradativa humanização do mito. Espírito cético em relação aos deuses e ao destino. há quatro peças. preocupados especialmente com a problemática da existência humana. Ájax enlouquece. O filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855) é considerado o fundador do Existencialismo . ainda acerca do ciclo troiano. Centradas sobre o mito de Ifigênia. condenou a guerra. nas pegadas de Sócrates e Pascal. centrada sobre o mito dos Argonautas. filha dos soberanos Príamo e Écuba. a viúva de Heitor. Num sentido restrito. durante os ritos orgiásticos. portanto. na tentativa de alcançar-se a autenticidade através da prática do conhecimento de si próprio e da rejeição das ideologias aprisionadoras. Andrômaca. na sua exaltação profética. a escravidão a que eram submetidos os vencidos. As Bacantes: é a tragédia que representa os horrores a que pode levar o fanatismo religioso. “Existencialistas” foram chamados alguns filósofos contemporâneos que. (Kierkegaard) A reflexão sobre a existência do mundo e do homem é bem antiga. o rei Penteu não quer reconhecer Dionísio como deus. aproximando-se do conceito de “sistema”. prediz a desgraça dos gregos vencedores ( Aquiles é morto. mas viveu na Grécia. conjunto de idéias abstratas para explicar a natureza profunda de objetos. “existência” se opõe à “essência”: o primeiro conceito. os assuntos míticos para torná-los mais aderentes à realidade. referindo-se a qualificações genéricas de seres e objetos. filho de Aquiles. Já o conceito de “essência” é algo lógico. vê seu filhinho Astíanax jogado do alto de uma torre para evitar o perigo da restauração do reino de Tróia. cujas paixões eram mais vergonhosas do que os vícios humanos. não havendo filósofo que não se colocasse tal problemática. mais humano e mais popular. Já a peça Hipólito diz respeito ao mito de Fedra. a concepção das divindades mesquinhas e ridículas. Ifigênia em Táurida. ele sentiu muito as influências do pensamento sofista: o valor do homem mede-se pelos seus dotes individuais e não pela nobreza do nascimento. portanto. Então. EVOLUCIONISMO (visão diacrônica da cultura) Darwin Genética EXISTENCIALISMO (teoria filosófica: Kierkegaard. Sua preocupação principal é a representação artística das paixões humanas. Baco se vinga inspirando na mãe de Penteu um tal furor que ela acaba despedaçando o próprio filho. causado pela guerra. por incentivar a luxúria e os maus costumes. Discípulo dos filósofos Anaxágoras e Protágoras. Isso num sentido amplo. a peça mais importante de Eurípides seja Medéia. Em Tebas. das quais as mais importantes são: As Troianas: trata-se de uma tragédia "episódica". criticando seus atos indecorosos. mas com particular relevo a Agamenão. Eurípides contesta os principais valores ideológicos da sua época: a necessidade das ações bélicas. que lhe atribui a causa da decadência do teatro clássico grego. mas só nos restam dezoito peças dramáticas. Altera. Face à tragédia transcendente e fatalista de Ésquilo e aquela heróica e clássica de Sófocles. deixando de lado as especulações transcendentais sobre a essência de Deus. Heidegger) Sartre A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás. identifica-se com o real. Cassandra. e torna-se escrava de Neptólemo.

que permite a abertura para uma projeção no futuro. a livraria e galeria de arte Derem Sturm reuniu os trabalhos de alguns pintores chamados de “expressionistas”. não se trata da palavra comum ou técnica. dramaturgo e romancista. considerada esta como o receptáculo da verdade a que tende o homem que pretenda viver a sua totalidade existencial. Das artes plásticas. permitiram a sublimação do patético e a exaltação das paixões. Esse ideal ele defende através do diário “Libération” que ele funda em 1973. O Existencia/ismo é um Humanismo. mas com a existência como tal. instaurando o princípio do livre-arbítrio. chegando até ao amor. Sobre o conceito de ironia. estabelece uma íntima comunicação com os outros. que não diz mas evoca. Sartre supera a dicotomia do “ser” e do “parecer”. O desespero humano. Sartre identifica a corrente existencialista com um Humanismo radical. contemporaneamente ao Futurismo na Itália. os cortes surpreendentes. A angústia só se supera pela “inquietação”: o homem é um ser em contínua busca de atualização de suas possibilidades. Segundo ele. portanto. está condensado em quatro obras reflexivas: O ser e o nada. a estética expressionista passou também a ser utilizada pela literatura. Entre suas numerosas obras assinalamos: Ou Isso / Ou Aquilo: Um Fragmento de Vida. contrariamente ao Impressionismo da época realista. mecanizada. a simpatia para com o mundo dos miseráveis e dos injustiçados. a consciência das coisas. EXPRESSIONISMO (rótulo de uma forma de arte. a crítica à sociedade. pela solidão espiritual e pela angústia do pecado. destacamos: Ser e tempo. Homem profundamente religioso. Em Berlim. que não pode ser compreendida dentro de um sistema filosófico abstrato. operando de dentro para fora. teatro. a liberação do homem só se pode dar pela “palavra”. a angústia não está relacionada com problemas religiosos. Filósofo. Em literatura. mas da palavra poética. Crítica da razão dialética. atacando autoritarismo e hipocrisia. Sartre considera o homem responsável por tudo aquilo que é ou faz. Abstracionismo)Vanguarda A explosão da estética expressionista começou na Alemanha. Seu lema é a liberdade em todas as formas da atividade humana. Na última fase da sua especulação filosófica. em 1956. As combinações rítmicas. O que transcende o fenômeno é chamado de “ser-para-si”. do centro para a periferia. O interesse pelo social leva o Existencialismo de Jean-Paul Sartre até o Socialismo. Por não aderir ao Nazismo foi por ele . Questão de método. Heidegger vê o homem como um “ser-em-comum” que. Militante do Partido Comunista ( Marx). Mais ainda: superando o subjetivismo de Kierkegaard. estudantis e da opressão das nações do Terceiro Mundo pelo capitalismo selvagem. Da vasta produção filosófica. em 1912. É que Sartre é avesso a qualquer forma de opressão. marcado profundamente pela Fenomenologia de Husserl e pelo Existencialismo de Heidegger. sendo um ser destinado à morte. pois considera que não há outra realidade fora do fenômeno. Naturalmente. pelo produto do seu trabalho e pelas relações de solicitude. quer venha da direita quer da esquerda. pelo sentimento de fraternidade universal e pelo desprezo da civilização materialista. cuja estética estava baseada no movimento de fora para dentro. É a projeção no porvir que dá sentido à existência. pois o homem está colocado face a face com o nada. o jogo de imagens ousadas. mas dele se difere pelo pacifismo.123 moderno por ter sido o primeiro a insurgir-se contra os macro-sistemas especulativos do Racionalismo francês e do Idealismo alemão. possibilitando a escolha e. Contestando as metafísicas tradicionais. Com base nessa concepção do ser. encontra no lirismo sua manifestação mais apropriada. “comemora” a realidade mais autêntica do ser. colocando sua vida de homem e de intelectual ao serviço das causas proletárias. O seu pensamento filosófico. O movimento expressionista tem em comum com o Futurismo a disposição de demolir a cultura passada e criar um novo homem. cinema. vivendo num tempo mediano entre o passado e o futuro. o pensamento heideggeriano se aproxima da poesia. especialmente da pintura. Para Martin Heidegger (1889. critica todavia o desvirtuamento dos ideais marxistas quando o governo soviético ordena a intervenção militar na Hungria. visto por uma nova ótica moral. atormentada pela sua finitude. afirmando o valor irredutível da vida individual. Os temas mais explorados pelos poetas expressionistas são o sexo. música. O processo técnico usado era a extrema liberdade léxica. dança. sintática e semântica. O conceito de angústia. contestando a tese determinista da dependência dos fatores do ambiente e da hereditariedade. porque para eles a arte era “expressão” do “eu” subjetivo.1976). Sobre a essência da verdade. Kierkegaard sente o peso da condição humana. Da experiência do pensar. o “ser-em-si”. Que é a metafísica?. industrial.

Fedro foi um escravo macedônico alforriado por Augusto. Autodidata. mais famintas. gênero literário) Mito Conto Narrativa “O que você fez durante o verão? . I d. – 54 d.Então. No Brasil. O gênero fabulístico. e a raposa respondeu: “não”. A fábula seria a história na sua ordem cronológica. EZRA Pound (poeta norte-americano) “A dança do intelecto entre as palavras” Escritor de ideologia conservadora. apresentando no final uma lição de ética comportamental (“moral da fábula”). portanto. Entende-se por “fábula” uma narração alegórica. dizendo antes o que irá acontecer depois ou vice-versa. enquanto a trama é a história na sua ordem artística. Osvaldo Goeldi.) e chegou ao apogeu no Neoclassicismo francês com La Fontaine..C. os fatos sendo narrados com inversões temporais. de Dante. transmitidas oralmente e colocadas em escrita por ficcionistas posteriores. o estudo semântico da poesia. em oposição à “trama”. escrevendo 123 fábulas inspiradas no grego Esopo. novas pulgas. não tendo deixado nenhum escrito. eruditíssimo. quando viu um cordeiro e lhe disse: “Você está sujando minha água”! .). pois não sabemos quase nada sobre o local e a data de seu nascimento. Mas é preciso distinguir a fábula como elemento estrutural de uma narrativa e a fábula como gênero literário à parte. continuou em Roma com Fedro (séc. virão me atormentar”! Viva.C.C. O nome latino Personae significa “máscaras” e este título tem sua explicação no fato de que Pound assume diferentes vozes e dicções de poetas do passado. conhecedor de muitos idiomas ocidentais e orientais. argumentando que aquelas pulgas já estavam cheias e não sugavam tanto sangue. antigos e modernos. Emiliano Di Cavalcanti. a reeleição dos políticos! Já do outro fabulista. relata que Esopo. Esopo é uma figura mais lendária do que histórica. a palavra “mito” ou fábula foi usada pelos Formalistas russos. a partir de 1933.124 destruído. em que ele mostra “a dança do intelecto entre as palavras”. com predominância do estrato óptico e gráfico do poema.. cujos personagens são animais. onde ensina que contra a força não há argumento. fala-se de nível “fabular” quando são analisadas as ações de uma narrativa na sua ordem cronológica. a “fanopéia”. Musicalidade. Por exemplo. Sua poesia está recolhida em dois volumes: Personae e Cantos. A tradição lhe atribui a autoria de mais de 400 fábulas. inventara a fábula da raposa e o ouriço (mamífero roedor e espinhoso): o animalzinho perguntou à raposa se podia ajudá-la a remover as pulgas que estavam infestando seu corpo. embora de origem oriental. que escreveu em língua latina. o Expressionismo marcou uma forte influência no teatro de Oswald de Andrade e de Nélson Rodrigues e na pintura: Portinari (especialmente as cinco telas da série Emigrantes). Assim. condenado como espião de Mussolini nos Estados Unidos. Ezra Pound (1885-1972) foi propagador do Fascismo. C. de Rimbaud e de outros autores. Aqui vamos examinar o termo fábula como gênero literário. e a “logopéia”.). Para o primeiro sentido. uma lenda de origem anônima e coletiva. Eis o resumo: um lobo estava tomando água num rio. remetemos ao verbete Mito. Famosa é a sua fábula O Lobo e o Cordeiro. Ele enriqueceu a poesia latina com o gênero novo. que acrescentou o nome da família Júlia: Caius Julius Phaedrus (10 a. intriga ou entrecho. em 330 a.Eu cantei! . Foi cultivado na Grécia por Esopo (ao redor do séc. inclusive japoneses e chineses. Já a estrutura da coletânea Cantos apresenta três modalidades: a “melopéia”. o filósofo grego Aristóteles. figurativismo e intelectualização: essas três características da poética de Pound influenciaram fortemente quase todos os poetas posteriores a ele.C. FÁBULA (história ficcional. quando Hitler subiu ao poder. onde estão agrupados os poemas que valorizam o nível fônico. o termo “fábula” corresponde ao grego mithos como história ficcional. VI a. Deixou-nos uma vasta obra poética e brilhantes ensaios de crítica literária. temos dados históricos. lançando mão da figura retórica da anacronia com suas variações. agora dança!” (diálogo entre a cigarra e a formiga) Do homônimo latino. tem longa tradição ocidental. e complementando: “se você as tirar de mim. para defender um político corrupto. traduziu livremente poemas de Catulo. Neste sentido. Lasar Segall.

Chegada a neve. e Á tropos.se eu ainda não tinha nascido?” “Então foi seu pai que me ofendeu”! Dito isso avançou no cordeiro e o comeu. através de uma dupla imagem. a cigarra. quando a vida devia chegar ao fim. discórdia. Com efeito. teve muito sucesso a obra A Revolução dos Bichos. Nessa espécie de fingimento. Algumas vezes oponho. o mundo correria o risco de voltar para o Caos . mas não no sofrimento do trabalho para conseguílos. A fábula mais conhecida de sua autoria é a da Formiga e da Cigarra: a formiga trabalha arduamente. vivendo numa boa. reclamando seus direitos mas esquecendo-se de seus deveres. Na “versão moderna”. comandado pelos próprios bichos. Outra auxiliar importante do Fado era a “Fortuna”. enquanto outros sofrem com frio e fome. Mas o novo governo. é preciso instruir e agradar. Uma moral nua provoca o tédio: o conto faz passar o preceito com ele. divindade primordial. velhice. então pergunta: “O que você fez durante o verão?” “Eu cantei”. fatal. de George Orwell.disse o cordeiro--. simboliza a necessidade da manutenção da ordem do universo. a que "fixava" o tamanho do fio. mas a todos os virtuais leitores: "Sirvo-me de animais para instruir os homens. Procuro tornar o vício ridículo. Mais célebres são as Fábulas do poeta francês Jean de La Fontaine (1621-1695). “Então agora dança”.125 “Como é possível isso? ---respondeu o cordeiro---se a água desce de você para mim?” “Mas o ano passado você falou mal de mim”. O Destino tinha como divindades auxiliares as três “parcas” (moiras): Cloto. sonhos (Hipnos). me parece coisa de pouca monta". o vício à virtude. pedindo abrigo. por partenogênese. representada com os olhos vendados e segurando um timão na mão. e mãe. a sorte (Tiké. No Prefácio de sua primeira coletânea das Fábulas. se as vontades individuais pudessem sobrepor-se aos desígnios do Fado. superior à vontade dos deuses e dos homens. a que "tecia" o fio da vida de cada homem. que popularizou esse gênero literário na Idade Moderna. É sempre assim: exige-se a igualdade no gozo dos bens. quando recebe a visita da cigarra enregelada. que deu origem aos termos fado. FADO (Destino. gerada pelo Caos (Terra). entendido pelos gregos como uma força cósmica. pretendendo saber por que razão é permitido à formiga estar bem aquecida e alimentada.. a tolice ao bom senso. sono. La Fontaine torna bem explícita a intenção com que escrevera tais estórias. é mais opressor do que primeiro. que denunciavam misérias. convoca uma conferência de imprensa para denunciar a situação em que vive. o Fado era concebido pelos gregos antigos como filho da Noite.. destinadas não apenas ao filho do Rei e às crianças da corte da França. fada. símbolo do acaso que dirige a vida humana. fatídico. na prática. figura mitológica)Determinismo Do latim fatum (correspondente à moira grega). pois contar por contar. O Destino. La Fontaine não tocou no caráter ou na simbologia que seus antecessores atribuíram aos animais. retruca a formiga. A cigarra. debaixo de um calor arrasador. Láquesis. responde a cigarra. miséria. que retoma o gênero fabulístico: animais oprimidos pelo dono da Granja do Solar derrubam o governo e implantam um novo sistema. engano. a formiga está confortavelmente instalada no seu buraquinho e bem alimentada. retrucou o lobo. construindo a sua casa e armazenando mantimentos para agüentar o frio inverno europeu. enquanto a cigarra caçoa dela. Na década de 1940. parcas. em grego). a que "cortava” o fio. durante todo o verão. de varias divindades representativas do mundo do mistério: morte (Tânatos). Embora tenha alterado ou enriquecido substancialmente os argumentos e o espírito das fábulas que retomou de Esopo e de Fedro. As fábulas do autor francês são textos alegóricos. “Como pode ser? --. desequilíbrios e injustiças de sua época. por não poder atacá-lo com braço de Hércules.

A esse gênero Todorov chama de “maravilhoso”. O fantástico. especificamente. enfim. o motivo do lobisomem (licantropia) é visto como uma doença mental em que o enfermo se julga transformado em lobo ou num outro animal cruel (aranha. que se sobrepõem à atividade racional. mãe e filha. todas as formas de religião e de arte são fantásticas. atravessar paredes. FANATISMO (intolerância e violência)Religião FANTÁSTICO (Bruxaria e magia: gênero literário)Kafka “No creo en las brujas. o Paraíso dos cristãos ou dos maometanos. não existindo na realidade. por força de um regresso à selvageria anti-social: a fera é o aspecto do ser humano que se recusa a participar do convívio comunitário. assim como idealizado por Edgar Allan Poe. entendendo o estranho como o sobrenatural “explicado” e o maravilhoso como o sobrenatural apenas aceito. Já o sobrenatural propriamente dito dá-se quando o fato extraordinário não apresenta nenhuma explicação racional e só pode ser admitido pela fé na religião e na magia. a fantasia. aterrorizante (dionisíaco). chamamos fantástica uma obra de arte literária. que nos obriga à prática da racionalidade. Caso típico é o conto policial. O fenômeno do sparagmos (dilacerações. Outros motivos fantásticos são a inversão do visível e do invisível: a alma se torna visível (espectros dos mortos) e o corpo invisível (casas assombradas). Fantásticas são todas as formas de religiosidade que admitem a transcendência da realidade material. cujas portas e janelas estão fechadas pelo lado de dentro. Em face de um acontecimento extraordinário. fatores capazes de libertar as forças do instinto. imaginando a existência de um mundo superior (ou inferior) ao da nossa experiência sensorial. que foge às leis normais da natureza física e da razão humana. sem nenhuma justificação. que se fechara ao animal fugir. Os poemas épicos e a poesia dramática da literatura greco-romana encontram beleza artística e riqueza de sentido na luta inglória da vontade humana contra a predestinação do Fado. pois um outro habita nele. na magia. que transcende o real. o imaginário que nos protege: o mundo das fadas. o discípulo de Freud. pois as circunstâncias dos crimes não fazem entrever nenhuma solução possível. teatral ou pictórica. duas mulheres. partes separadas do corpo: a mão. Temas e personagens da literatura fantástica podem ser relacionados com os arquétipos de que fala Jung. no decorrer do enredo. Os crimes da rua Morgue. criadas pela fantasia. são construções ideológicas. assim define o fantástico: “uma hesitação entre o estranho e o maravilhoso”. fala por sua boca. das divindades benfazejas. Pelo segundo tipo de fantástico. A este pode ser associado o motivo da dupla personalidade. um personagem ou o leitor virtual é tomado por um sentimento de medo. da loucura e dos efeitos das drogas. etc. que significa “visagem”. fantástico é o que é apenas imaginado. for apresentada uma explicação racional do fenômeno extraordinário. estaria numa . segundo ele. o que parece inexplicável. por exemplo. age por suas mãos. o homem é súcubo da sedução da imortalidade. no terror ou na ficção científica. a intervenção sobrenatural causa terrores imaginários no seio do mundo real. pero que las hay. o criador desse gênero narrativo. Podemos distinguir um fantástico eufórico ou feérico (apolíneo) de um fantástico disfórico. da justiça. estaríamos perante o gênero que Todorov chama de “estranho” . seu conceito aproximando-se do sentido de “ficção”. Mas. assim como credos indígenas. urso). no sobrenatural. O Olimpo dos gregos. O vampiro expressa o medo da morte e o desejo do não-envelhicimento: sugando o sangue (considerado a essência da vida) dos outros homens e praticando uma sexualidade sem limites. sendo o devaneio. até um sagaz detetive não solucionar o enigma: o assassino fora um orangotango que trepara pelo muro externo da casa e alcançara a janela do quarto. las hay” (Ditado espanhol) Da palavra grega phantasma.. de horror ou de simples curiosidade. do hipnotismo. Assim. Tzvetan Todorov.) diz respeito ao tema da posse: o homem já não é livre. são encontradas selvagemente mutiladas dentro de um quarto. no seu livro Introdução à literatura fantástica . dos “anjos-da-guarda”. regresso de pessoas do outro mundo. Se. No conto. De um modo geral. pois ficcionais. as alterações do princípio da causalidade: bilocaçoes. A narrativa coloca o leitor perante o mistério. da bondade. do id freudiano. baseando-se no sonho. o olho. tudo o que infringe o sistema coerente estabelecido pela estrutura cósmica e pela razão humana. Ao primeiro tipo pertence o maravilhoso “cor-de-rosa”.126 inicial.

os mimos medievais passaram a ser encenados nas feiras livres por companhias ambulantes. Na literatura contemporânea. a farsa utiliza enredos e personagens estereotipados: a troca de filhos gêmeos. de cabelo assanhado e com uma estranha cicatriz em forma de raio na testa. apresentando uma gama de variações. FARSA (forma teatral: Mimo. Talvez. caracterizada pelo uso das máscaras. a moça ingênua. centrado mais sobre quadros da vida real do que sobre um enredo com início. em oposição às encenações religiosas dos mistérios da fé cristã. de onde vem “farto”. predomina a ação sobre o diálogo e o caráter das personagens. era uma peça em prosa coloquial. sua finalidade é despertar o ridículo. A etimologia da palavra “vaudeville” é incerta: talvez derive de voix (voz) de villes (cidades). apenas como escape. e se confundiu com o Vaudeville. a interpretação só pode ser simbólica. Dos livros para a tela do cinema o passo foi fácil.C. entreatos.127 hesitação entre o estranho e o maravilhoso. que vai do estranho puro ao maravilhoso puro. Relacionado com o mimo está o momo. com o gênero mômico pelo recurso às máscaras e. a farsa aproxima o cômico do burlesco pelo exagero do ridículo e pela paródia de coisas sérias. de magia e bruxaria. a risada irrefletida. O mimo. Para entendermos melhor a diferença entre os vários tipos de fantásticos. centradas na figura do menino Harry Potter. ao passo que Gregor Samsa. podemos comparar duas famosas obras literárias que tratam do mesmo tema: As Metamorfoses (romance vulgarmente conhecido com o título “O Asno de Ouro”) do poeta latino Apuleio e a Metamorfose. recuperando a forma humana pela intervenção da deusa Ísis. Na arte teatral. A farsa originou-se na Idade Média francesa como representação laica divertida. que em grego significa "imitação" (Mimese). Vaudeville)Mimese A farsa está para a comédia como o melodrama para a tragédia. com o gênero cômico por ser uma espécie de filha bastarda da comédia. indicando as canções e as histórias contadas nas ruas urbanas por menestréis ou jovens apaixonados. assim como o vaudeville e o music-hall norte-americano. em seguida. portanto. a farsa das penínsulas ibérica e italiana. Proibidos de serem representados nas cidades. Como gênero literário e teatral à parte. uma atividade dramática especifica. consistia nos gestos obscenos. O assunto de ambas é fantástico. apresentava a vitória final do vilão esperto sobre o bonzinho estúpido. Um bom exemplo é a Farce de Mâitre Pathelin. com o gênero mimético pelas imitações ridículas. o termo momo passou a significar a máscara ou o ator mascarado e. Ela contém todos os ingredientes da comédia. assim. tendo como destinatário a grande massa popular. o fantástico aparece freqüentemente sob a forma de ficção científica. . personificação do sarcasmo e da atividade crítica. Momo. cheio de várias coisas. a de Kafka a transformação de um homem em Barata. pois visa apenas provocar o riso escrachado. conto do escritor moderno Franz Kafka. estejam as representações miméticas da Magna Grécia que remontam ao século V a.K.Rowling varreu o planeta com suas histórias fantásticas. em que o espetáculo cênico adquire aspectos circenses pela mistura de danças cantos e piruetas. A farsa. Com o tempo. Estruturalmente. nome de uma divindade grega. o princípio clássico da verossimilhança não é respeitado. o pai severo etc. Portanto. revertendo. o protagonista do conto kafkiano. A obra de Apuleio narra a transformação do protagonista Lúcio em Asno. em oposição ao teatro moralizante da Idade Média. ao acordar de manhã. os valores ideológicos em prol da afirmação da praxe realista. passando pelo fantástico-estranho e pelo fantástico-maravilhoso. representação teatral do barroco francês. ela teve um certo sucesso no início da Renascença quando. Enfim. evidentemente. de caráter licencioso e irreverente. em que a comicidade. repentinamente. meio e fim. passou a funcionar apenas como “Intermezzo”. mais do que nos rápidos diálogos. só que no primeiro caso estamos perante um estranho explicado. desbragada. fascinando leitores e expectadores com a série de Harry Potter. Mas a farsa não teve longa vida como peça teatral autônoma. pois Lúcio foi metamorfoseado em asno pelas artes mágicas de uma feiticeira. percebe que está transformado num inseto hediondo sem saber como e porque se deu a metamorfose. pode estar relacionada com o gênero burlesco pelo uso da paródia. no começo da Renascença. em seu bojo. com algumas peculiaridades: o assunto é episódico. tendo como finalidade comum provocar o riso fácil de um público que quer apenas se divertir. o reconhecimento surpreendente da verdadeira identidade. A escritora britânica contemporânea J. a alcoviteira. o amante no armário. Do latim farcire (rechear). não são muito diferentes do “teatro de variedades”.

onde Fausto. audacioso aventureiro. um mês antes de sua morte. O Segundo Fausto é um drama bem diferente do primeiro pelo assunto e pelo sentido. O primeiro Fausto é a obra mais conhecida. Está feita a aposta entre O Senhor e Mefistófeles. sua fantasia entrou em contacto com a figura lendária de Fausto. como se fossem pequenos capítulos (“Noite”. Se me dás permissão de levá-lo comigo e de traçar-lhe a sina. desafia Deus: Que queres apostar? Perdê-lo-ás. Para vencê-la. A temática preferida de Faulkner é a indagação sobre a natureza do mal e sua expiação. No prólogo encontramos o que na poesia épica se chama de “proposição”. a ruína dele será fatal. o Diabo irá seduzir Fausto na terra. através de narradores diferentes. “Em frente à porta da cidade”. humanista. Desta primeira peça apresentamos um resumo da fábula e uma tentaiva de interpretação. Foi qualificado por historiadores como um pseudomédico. são condenados a pagarem pelos pecados cometidos pelos pais. As raízes do mal são encontradas no trabalho escravo que afastara o homem branco do contato com a natureza. apesar da homonímia. O drama é composto de uma parte introdutória (“Dedicatória”. causadas pela Guerra da Secessão. AbsalãoAbsalão. Logo após sua morte. milagreiro e charlatão. O Senhor aceita o desafio: Ora seja! Permito a dura experiência! Vê se afastá-lo tentas da divina origem. Sua peculiaridade estilística é a plurifocalização: ações e personagens são vistas por várias perspectivas. Em verdade. A trama começa com uma cena. O Senhor diz a Mefistófeles que logo o jovem devoto Fausto. pelas suas qualidades intelectuais e espirituais. . Tente ser melhor do que você mesmo. a proposta do assunto da obra. a fonte das posteriores obras científicas e literárias sobre esse personagem.) a miséria e a degradação do homem do sul dos Estados Unidos (região do Mississipi). desde a juventude.128 FASCISMO (período de ditadura na Itália) Mussolini FAULKNER (romancista norte-americano) Sempre sonhe e mire mais longe do que espera alcançar. conseguirá a “Luz Divina”. Em 1808. William Faulkner (1897. até os últimos meses de sua vida. Já em 1587. “Prólogo no teatro” e “Prólogo no céu”) e de vinte e seis cenários. FAUSTO (o pacto com o Diabo)Goethe Se estiver com lazer num leito de delícias. saiu publicado O livro de Fausto.). Os filhos e os filhos dos filhos. por várias gerações. “Fausto e Wagner” etc. Réquiem por uma prostituta etc. saiu a primeira edição do drama Fausto. se queixa da inutilidade do saber humano: . citando alguns trechos da tradução de Sílvio Meira. com ele estabelecendo o famoso pacto da troca da alma pelos bens materiais.1962) descreve em suas obras ficcionais (O som e a fúria. através de um longo solilóquio. não me importa morrer! Assim fico liberto! (Fausto ao diabo Mefistófeles) O Doutor Fausto foi uma figura que existiu no mundo real tendo vivido na Alemanha entre 1480 e 1540. As famílias tradicionais e abastadas são arruinadas pela abolição da escravidão e com elas a desgraça atinge as povoações dos brancos e dos negros. praticante de alquimia e de magia. O poeta alemão trabalhou a vida inteira nas sucessivas elaborações do protagonista do seu drama. luxurioso e homossexual. então. num quarto com decoração gótica. isto é. mais representada e a que melhor encarna os ideais do Sturm und Drang. o manifesto da estética romântica. seguro está do rumo a percorrer na vida. O Diabo. cada qual com um título. posteriormente chamado de Urfaust (O primeiro Fausto) para distingui-lo de O Segundo Fausto. especialmente as relacionadas com um pacto que o Doutor Fausto teria estabelecido com o Demônio (Satã). a sua singular personalidade foi envolta por lendas. quando. Não se importe apenas em ser o melhor que seus contemporâneos ou predecessores. com o intuito de penetrar a camada mais íntima do ser humano. que lhe resolverá todas as dúvidas. quando ainda tentou retocar a obra já várias vezes publicada. Mas foi com o poema dramático de Goethe que a figura de Fausto se tornou mundialmente famosa. A aldeia. a última obra do poeta. pela primeira vez. na véspera da Páscoa. publicada em 1832.

enfim. profissão essa que lhe dará mais oportunidade para satisfazer o vício da luxúria. que lhe se torna visível. O diabo descarta o direito. Margarida reprova Fausto pela sua incredulidade e se queixa da assídua presença de Mefistófeles. e assim me encontro eu. Invocando ardorosamente a lua cheia. É preciso. Continua o diálogo entre os dois. tão sábio e tão instruído quanto fora outrora! Como se vê. Margarida não resiste ao fascínio de um presente encontrado no seu armário: um cofre cheio de jóias preciosas. após vários galanteios. Irritado com os latidos do cão. escrita ao redor de 1550. A ele confidencia suas angústias e aspirações. após ter emprestado sua longa beca a Mefistófeles. O diálogo entre Fausto e o Espírito é interrompido pela entrada em cena do discípulo Wagner. e corrige Verbo por Inteligência. Fausto reprocha-lhe a interrupção de suas meditações e. sente-se um ser desprezível e é tentado a tomar o veneno contido numa ânfora antiga. prazeres! alegria! Se podes me encantar com coisas saborosas. qual pobre tolo. Este assim se define: Eu sou aquele Gênio que nega e que destrói! E o faço com razão. Folheando o livro. por Ação. Entusiasmado. vê passar na rua a belíssima Margarida.129 Estudei com ardor tanta filosofia. direito e medicina. que deseja conversar com o mestre e dele receber lições de vida. ficando outra vez só. Goethe retoma o tema bíblico da vanitas vanitatum e o adágio socrático de que o verdadeiro sábio é aquele que tem consciência de não saber nada. Mas o tocar dos sinos anuncia a festa da Ressurreição de Cristo. honesta e religiosa. uma sua amiga. de mulheres e de discípulos entram no seu quarto cantando hinos de aleluia. Seria bem melhor se nada fosse criado. mocinha de quinze anos. sugerindo-lhe um curso de medicina. já rejuvenescido por um elixir da bruxa. pessoa de que ela não gosta. a tudo investiguei com esforço e disciplina. pede conselhos sobre a profissão a seguir. Fausto descobre o sinal do Gênio do Universo e o sinal do Espírito da Terra. e fulminantemente se apaixona por ela. ou também “destruição” ou simplesmente “o Mal” constitui meu elemento eleito e natural. Na cena do Jardim de Marta. em que se encarna o diabo Mefistófeles. Entra um estudante que. É bom salientar também que a característica principal da personagem Fausto apresenta fortes traços de semelhança com a biografia do histórico Fausto e do próprio Goethe. numa outra cena que se passa no seu pobre aposento. Esta. a filosofia e a teologia. Reflete sobre a passagem do Gênese “No princípio era o Verbo”. ter paciência e armar todo um plano de sedução. abre o livro de Nostradamus. Fausto decide dedicar-se ao estudo da magia. Batem à porta. . sente eflúvios inebriar-lhe o corpo e calorosamente invoca o Espírito. pressentindo algum dano. Mefistófeles explica ao discípulo que sobre uma tal criatura o diabo não tem poderes. a obra da Criação Caminha com vagar para a destruição. transformando-se numa nuvem negra e depois num estudante andarilho. Fausto. Por isso. Fausto. e coros de anjos. Nos três perfis psicológicos encontramos a ansiosa aplicação ao estudo de matérias biológicas e humanísticas e a conseqüente frustração. não me importa morrer! Assim fico liberto! Se podes me enganar com coisas deliciosas. recolhe-se ao seu escritório. então. agora. culminando com o estabelecimento do pacto. acontece a primeira troca de beijos ardorosos entre Fausto e Margarida. revela a forte paixão que lhe tirou a paz de espírito. pensando Mefistófeles ser Fausto. autor florentino famoso pela sua obra profética Centúrias. pois é pura. Para superar este estado de insatisfação. através de um solilóquio. e infelizmente até muita teologia. Mas a jovem recusa a corte do protagonista. Numa outra cena. tudo aquilo a que chamas pecado. depois por Força e. Fausto. adquirindo um aspecto monstruoso. doçuras a sentir. que seja para mim o meu último dia! Quero firmar o acordo. Fausto: Se estiver com lazer num leito de delícias. tenta expulsá-lo do seu gabinete. mas o cachorro começa a inchar-se. Fausto sai. então. Seguem-se as cenas da Adega de Auerbach e da Tenda da Feiticeira. Na cena do jardim. seguido de um estranho cachorro. Segue-se um longo diálogo entre Fausto e Mefistófeles. de noite.

em ambientes dos mais fechados (quartos e celas) aos mais abertos (montanhas e planícies). causada pelo remorso da sua relação pecaminosa. Cai o pano. lugar da festa. de outro lado. O cenário seguinte representa a cela de uma prisão. Fausto e Mefistófeles desaparecem. Vozes vindo do Alto anunciam que ela está salva. cujos sons parecem cantos. Falta-lhe a luz da vida.. figuras da mitologia nórdica. Na cena da Catedral. embora indefinido. Este entra em cena junto com Mefistófeles. Margarida é tomada por um forte sentimento de culpa. No meio de estranhas visões. com a ajuda do Diabo. nem de tempo. um general. pela riqueza e multiplicidade dos cenários e pela complexidade e diluição . A peça não apresenta unidade de ação. ou o espectador. intima os dois a saírem. que fazem do Fausto a tragédia mais representativa da estética e da ideologia do Romantismo. aparecendo do lado de fora. nesta noite misteriosa os demônios e as feiticeiras se amavam nas montanhas. A jovem está num estado de alucinação. irmão de Margarida. canta trechos de liturgia fúnebre em latim. aquela que outrora fora um exemplo de virtude e agora seu nome está na boca do povo por ter-se tornada amásia de Fausto. Mas. coincidindo com as festas pagãs pelo início da primavera. pois o dia se aproxima e seus corcéis não cavalgam à luz do sol. o soldado Valentim. onde se vê Margarida acorrentada. A cena seguinte. Reconheço esses seios. um autor de livros. iluminados por um fogo-fátuo. intitulada “Sonho da noite de Valburga”. que lhe parece ser o de Margarida: Os olhos. O soldado os ataca e Fausto. O tempo de duração das ações. os fatos acontecem em vários lugares diferentes. A morte espreita. sente falta de ar e cai desfalecida. manifesta sua dor pela desonra da irmã.. nele repousei. Dialogam sobre as belezas da paisagem. ligados à história encaixante por um nexo muito frouxo (“Adega de Auerbach”. rompendo definitivamente com as regras da dramaturgia clássica. um novo-rico. Os dois amigos. “Floresta e caverna”. pois viera para salvá-la. Após essa breve reconstrução do enredo. Mas Margarida se recusa a sair do cárcere: Lá fora é a sepultura. encontram bruxas que cantam em coros. Valburga é o nome de uma santa muito popular. Margarida sente horror à presença do Diabo e prefere entregar-se à Justiça de Deus. Reconheço o seu corpo. Segundo a lenda. penso eu. de noite. são de alguém que morre. deixa supor uma longa extensão: Fausto leva quinze dias para fazer a corte a Margarida. uma jovem de nome Bela. O tema do episódio é a festa das bodas de ouro de Oberon e Titânia. Fausto afirma que seu crime não é mais que pura fantasia. suplicando pela salvação da sua alma. Enfim. Durante a longa caminhada rumo ao monte Brock. Acorrem Marta e Margarida e o soldado. Como temos visto. nem de lugar. portanto. inspirado em duas peças de Shakespeare: Sonho de uma noite de verão e A tempestade. é um interlúdio lírico. Pede a Fausto para ser sepultada perto da mãe e do irmão com o nenê no peito. fica. “Noite de Valburga”). fere mortalmente Valentim. o gênio do ar. A ação principal do drama (o pacto entre Fausto e Mefistófeles e a conseqüente conquista do amor de Guida) é interrompida por vários episódios secundários. Vais embora? Oh Henrique. Esta seria a causa da prisão e do seu temor de ser justiçada. na noite de 30 de abril. ficamos sabendo que ela matara a mãe e o seu filhinho. Ela chega até delinear a localização de seu túmulo. deu-mos Margarida. passamos a apontar alguns aspectos estilísticos e semânticos. A presença de quadros líricos e folclóricos também prejudica a intensidade dramática. um ministro. que teve a finalidade de facilitar a compreensão do conteúdo fabular da complexa peça goetheana. é atroz abandonar-te Quisera acompanhar-te! Mefistófeles. ao som do órgão. sem saber se a culpa de Margarida é real ou imaginária. Desta última. escura! Vem para a Eternidade E nenhum passo adiante. Não teve uma só mão carinhosa a cerrá-los. custando a reconhecer o próprio amante Fausto. Fausto e Mefistófeles.130 aconselha a namorada a ministrar um soporífero a sua mãe para poder passar a noite com ela no seu quarto. reprova a conduta indecorosa da irmã. O coro. “A noite de Valpurga” é um cenário que apresenta uma montanha da Alemanha. O leitor. esta tem um filho do seu amante. cujos festejos se realizavam no dia primeiro de maio. Em frente à casa da jovem. admirando as montanhas verdejantes e os lindos rios. Fausto suplica à amante a acompanhá-lo fora da prisão. andam por caminhos íngremes. aparece o mesmo personagem Ariel. Pela sua fala aloucada. Fausto percebe um rosto pálido. antes de morrer.

não prestando culto a Afrodite ( Vênus). a Televisão (a novela “O Clone” da TV Globo). quando este. acusando-o daquilo que ele não quisera fazer. vários dramaturgos elaboraram peças. que é a representação da frustração da humanidade na sua busca de um ideal impossível. insatisfeito com a sua condição de mortal. por vingança. tinha um filho jovem e bonito. são idealizações de revolta do homem contra as leis do Universo. invertendo. ridículo ou irônico. Desire unter the elms. puro. Dos clássicos Sófocles e Eurípides. a virgem Diana. símbolo da sedução e do encanto dos desejos carnais. chegamos a moderno Eugène O’Neill: sua peça. o amante de Margarida e o amigo de Mefistófeles. Outro aspecto romântico da dramaturgia de Goethe é a sua linguagem extremamente variada. na medida em que vai deixando de ser produzida como gênero à parte. que do mais alto lirismo desce até expressões tão vulgares a ponto de palavras e gestos deverem ser eliminados em edições ou representações para jovens. misturando o mito de Fedra com o de Medeia. o governo. Daí a conseqüência trágica da loucura de Margarida. Hipólito é executado e Fedra se enforca. como a irmã. de Mefistófeles. É que a epopéia. ora recorrendo ao arquétipo psicanalítico da paixão incestuosa. está Fausto. A irreverência de Mefistófeles se traduz numa crítica mordaz contra todas as classes sociais e atividades humanas. desprezava a paixão amorosa. sinistro. símbolo da alma romântica constantemente balançando entre o ideal do sonho e o grotesco da vida real. que deveria restringir-se a focalizar apenas um problema existencial. com o nome simples de Desejo) pelo diretor Delbert Mann. a medicina. O moço. já velho. Joyce. em 1962). movendo contra ele um processo por assédio sexual. inspirado nos dois mitos gregos. tudo é apresentado pelo seu lado negativo. Talvez a beleza desta peça de Goethe esteja mesmo na representação do mundo angelical. Outro filme famoso e mais recente (1994). em 1958. A renúncia à alma imortal em troca de bens materiais só poderia resultar numa degradação. ora o drama da fraqueza humana de Fedra. filho da amazona Antíopa e devotado à deusa da caça. A mistura do sublime e do grotesco envolve o tratamento do próprio tema central do Fausto. foi convertida no filme homônimo (no Brasil. casou com o herói argonauta Teseu. Hipólito. acusa o enteado do crime que o rapaz não quisera cometer. Tolstoi. dizendo que nunca trairia a confiança do pai. a amizade. Só que o processo se desenvolve pelo modo irônico: chegar a Deus pela ajuda do Demônio. para punir a arrogância de Hipólito. e de Parsífae. o amor. os papéis de sedutora à vítima seduzida. vítima de sua paixão desenfreada. quando Fedra lhe revelou o ardente desejo sexual. Ícaro. com a interpretação de Sophia Loren e Antony Perkins nos papéis principais. Titãs. passa a transferir para outros gêneros literários a sua função de representar a vida humana em toda a sua complexidade. dirigido por Barry Levinson e estrelado por Michael Douglas e Demi Moore: a bela executiva Meredith Johnson.a jovem esposa se apaixona pelo enteado e mata o próprio filho. Prometeu. Aspectos épicos podem ser encontrados também em obras de outros autores românticos. FEDRA (Personagem mítica e trágica. esposa do herói Teseu) Como Ariadne. quando se sente rejeitada. a religião. é Assédio Sexual. ora focalizando a arrogância de Hipólito. o grande herói Teseu. Atraído pelas duas visões de vida contrárias. E. por uma carta.131 das ações. então. nunca num melhoramento. sendo rejeitada pelo seu subordinado Tom Sanders. e do mundo diabólico. de 1994. a personagem Fedra inspira o Teatro da Ópera (a homônima tragédia coreográfica de Jean Cocteau: Paris. o Fausto de Goethe nos dá a impressão de estarmos mais diante de um poema épico do que de uma peça dramática. A insatisfação do homem com a sua condição de ser contingente. a Dança moderna (Fedra. assim. tenta destruir a carreira do colega fiel à sua esposa. conquistar um amor angelical mediante trapaças diabólicas. nascido para a morte. realistas ou modernistas. FENOMELOGIA (corrente filosófica. Além do Cinema. A deusa. e. pelo neoclássico Racine. fez com que a madrasta se apaixonasse perdidamente pelo lindo enteado. Guimarães Rosa. personificado em Margarida com seu sonho do primeiro amor virginal. recorre a qualquer meio para realizar seu sonho de atingir a eternidade. criou mitos belíssimos na cultura ocidental. 1950). Da cólera à vingança foi um breve passo: Fedra. O velho herói pediu ao deus Netuno que castigasse seu filho pelo grave pecado cometido. Hipólito a repudiou. tendo aspirações infinitas e realizações efêmeras. destacando Hugo. A ciência. na tentativa de se igualar à divindade. de Martha Graham. ser feliz renunciando à própria alma. rei de Creta. nasceu de Minos. A partir do mito sobre o triângulo amoroso Perseu/Fedra/Hipólito. modalidade do conhecimento)Formalismo . Também aqui. O personagem Fausto de Goethe é a versão romântica da utopia do homem que.

de qualquer modelo de análise preestabelecido. não fiz senão extravasar-me. “outro nome”. O principal propósito da Fenomenologia é descrever a essência. que esta estratificação só existe graças ao esforço analítico do crítico. quer dizer: é o estudo do fenômeno que nos dá o conhecimento. afastando de si as influências de qualquer tradição literária. Despi-me. A consciência intencional é o elemento invariável do saber. um caso de “desdobramento de personalidade”: da aparente unidade psíquicointelectual de Fernando Pessoa emanam e se substancializam diferentes modos de sentir o mundo e a poesia. isto é. Transbordei. distinguindo-se em sua produção poemas atribuídos a Alberto Caeiro. pois o texto é percebido pelos sentidos e pela consciência. estando próxima do Formalismo e do Estruturalismo. lexical.132 Phainomenon. um nome imaginário a quem é atribuída a autoria de coletâneas de poesias. colocando para fora de si as diversas tendências humanas. etimologicamente. autodefinindo-se “um novelo embrulhado para o lado de dentro”. a Álvaro de Campos e a Fernando Pessoa ele mesmo ou “ortônimo” (= nome verdadeiro). “fingimento”: “pessoa” vem de persona. É preciso não confundir “heterônimo” com “pseudônimo”. sintático. “um modo de ver” e um “método”. aos fenômenos da natureza. Que eu quero sentir tudo De todas as maneiras. pois Fernando Pessoa não se limitou a assinar seus poemas com nomes fictícios.. Os princípios da fenomenologia só recentemente foram aplicados ao estudo da literatura por Roman Ingarden (A obra de arte poética. O enfoque fenomenológico limita-se à descrição da obra literária. É preciso salientar. fônico. E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente. Para me sentir. que estavam confusas no seu espírito: Multipliquei-me. substantivo composto pelo . uma forma homogênea. O método consiste no modo de ver e este modo de ver constitui o método. precisei sentir tudo. junto com cada nome. todo conhecimento está na consciência que vê e analisa as coisas da vida. apregoando o “retorno às coisas”. Para Husserl. uma personalidade humana e poética com biografia. pois é ela que confere unidade à série dos sucessivos esboços apresentados pelos fenômenos exteriores. A experiência perceptiva é o fundamento de todas as operações da consciência. A Fenomelogia seria. ao mesmo tempo. “Heterônimo” significa. A heteronímia é. O próprio sobrenome do poeta português significa. para me sentir. Ver tambémCrítica. mas criou. Sua obra lírica leva a assinatura de vários “heterônimos”. mas especialmente por ter inventado personalidades poéticas distintas de si próprio. FERNANDO Pessoa (o inventor dos “heterônimos”) “O que em mim sente. à primeira vista. a Ricardo Reis. portanto. O poeta português. O pai da fenomenologia foi o filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938). Outros críticos literários que.. como um todo orgânico. filosóficas e artísticas. significa “o que aparece”. procura desembrulhar-se. considerada como um “fenômeno”. figurado.. que negava o valor das teorias científicas. literalmente. em grego. de qualquer autoridade crítica. A fenomenologia é. a estrutura dos objetos e dos acontecimentos. “máscara”. estão ligados à fenomenologia: Jean-Paul Sartre e Marleau-Ponty. ideológico etc. a doutrina da aparência. definida por Hegel (Fenomenologia do Espírito) como “a ciência da experiência que faz a consciência”. de algum modo. o fato natural constatado. Ela põe em evidência o aspecto óptico. está pensando” Fernando Pessoa (1888-1935) tornou-se imortal não apenas pela beleza de seus versos e pela acuidade de seus pensamentos críticos sobre a vida e sobre a arte literária. O crítico fenomenológico aproxima-se da obra com mente pura. o objeto da experiência. porém. cosmovisão e tendências literárias próprias. portanto.. entreguei-me. Importante é a contribuição da Fenomenologia para a análise e a crítica literária. A análise fenomenológica distingue no objeto artístico vários “aspectos” ou “estratos”. segundo o étimo latino. de qualquer pressuposição lógica sobre a constituição do objeto artístico. que significa “nome falso” de uma mesma pessoa. 1965) ligado à escola fenomenológica de Husserl. como ela “aparece” aos olhos e à intuição do observador. Os heterônimos foram concebidos como seres diferentes de seu autor. A abordagem fenomenológica do texto ou do objeto artístico é uma variante da análise “interna” de uma obra. Quebro a alma em pedaços E em pessoas diversas Essas “pessoas diversas” são os heterônimos.

enquanto o neurótico é súcubo de suas obsessões. para a gênese dos heterônimos concorreram vários fatores: 1) A constituição biopsíquica do poeta português. Deixam-se primeiro apodrecer as sensações. fazendo com que o poeta descubra. sumariamente apontados. Fernando Pessoa “ele mesmo” não é mais real ou menos ficcional do que qualquer outro heterônimo. drama íntimo. pela alquimia e pelas ciências ocultas . no começo do século XX. A convivência com uma tia médium levou Fernando Pessoa a participar de sessões espíritas. Evidentemente. O fundamento psíquico da criação heterônima reside na complexidade do ser humano: o espírito é um “pseudo-simplex”. A nosso ver. Como releva Octavio Paz. a certa altura de sua vida. então. tanto que. em carta a Adolfo Casais Monteiro. de tendências. traduzindo para a língua portuguesa livros encomendados pela Sociedade Teosófica. de sentimentos. ano em que imagina ter andado “viajando a colher maneiras-de-sentir”. Persona era chamada a mascara que os atores do teatro grecoromano usavam para camuflar sua figura física. Mas. A introversão induz à introspecção. dentro de si. que apenas num dia (8 de março de 1914) escreveu. se familiarizou com a história. Devemos acreditar nele quando. ainda. é atribuída ao heterônimo Alexander Search. finalmente se sublimam pela expressão”. que muitas vezes são contraditórios. quer para a unidade humana e poética de sua personalidade. de idéias. sendo conhecidos pelo público apenas através de sua voz. o conhecimento da alquimia fez-lhe estabelecer uma comparação entre o processo da criação poética e a atividade alquimista: “O génio é uma alquimia. os seres imaginários que diz o habitarem não são senão as várias posturas ideológicas e estéticas que ele viveu ao longo de sua vida. dentro de si faculdades mediúnicas. Paralelamente. que Fernando Pessoa inventa os três heterônimos melhor acabados e mais importantes. A coexistência de várias pessoas. a distância é grande. se atentar quer para a grande lucidez mental do poeta português. de desdobrar sua personalidade ou. trinta e tantos poemas. cria um tormento no espírito do poeta: daí a necessidade de quebrar “a cadeia de ser um”. Esta hipótese é insustentável. Além disso. fingimento artístico. Mas é a partir de 1914. quer para o lado materialista de seu espírito. que se autodefinia “um histérico-neurastênico”. chegando a praticar a escrita automática e a comunicar-se com o mundo dos espíritos. afirma. Yeats). Baudelaire. como outros poetas de sua época (Novalis. os seis poemas da Chuva oblíqua. com o título O guardador de rebanhos. As experiências mediúnicas e os conhecimentos das ciências ocultas. daí a admitir a hipótese da gênese patológica dos heterônimos. se interessou pelos fenômenos parapsicológicos e pelas doutrinas místicas. de pé e a fio. induziram certa crítica biográfica a admitir a hipótese de serem os heterônimos “cristalizações de eus superterrestres” no ser real de Fernando Pessoa. Cada um de nós encerra dentro de si uma pluralidade de vozes. se manifesta em Fernando Pessoa desde a infância: com apenas seis anos de idade cria o primeiro heterônimo. 4) sublimação. entre 1903 e 1909. tivesse uma dificuldade grande em se relacionar afetiva e sexualmente com mulheres e procurasse no álcool a fuga da realidade. com o nome de Alberto Caeiro. Enfim. analise e dê vida própria às contradições que o habitam.133 prefixo per (através de) e sonun (som). de se “outrar”. se olhasse mais para dentro do que para fora. jogo cerebral e poético. em seguida rubificam-se com a imaginação. de vários seres. que proliferavam na Europa. mesmo quando estiver fundamentada nos próprios escritos de Fernando Pessoa. cultivasse poucas amizades. Descobriu. de “vozes” diferentes no mesmo ser. A criação heterônima deve ser considerada. teve a intenção de profissionalizar esses conhecimentos e abrir um consultório de astrólogo. e. o caráter excessivamente sensível de Fernando Pessoa contribuiu para que se ensimesmasse. com o intuito de combater o racionalismo e o naturalismo dominantes. o artista as domina e as transforma. atribuindo-lhes a autoria das Ficções do interlúdio. entre vida e arte. 3) rubificação. a unidade do eu não passando de um preconceito. de desejos. o estudo da astrologia levou-o a admitir a influência dos astros no destino humano. Fernando Pessoa consegue superar artisticamente esta contradição imaginando a coexistência. em cujo nome “escrevia cartas dele a mim mesmo”. depois de mortas embranquecem-se com a memória. ficção. um certo Chevalier de Pas. para usar seu neologismo. A produção dos poemas em língua inglesa da juventude. a doutrina e a simbologia da ordem rosa-cruziana. em seu nome verdadeiro? Não esqueçamos que Fernando Pessoa chamou a todo verdadeiro poeta de “fingidor”. e nele é difícil estabelecer limites entre realidade e fantasia. independentemente de qualquer “inspiração” momentânea ou “influxo” . A nosso ver. É sabido que Fernando Pessoa. 2) O interesse pela teosofia. de libertar-se do sofrimento dos contrastes acumulados dentro de si. Poe. O processo alquímico é quádruplo: 1) putrefação. apesar da diversidade das facetas com que ele se nos apresenta. por exemplo. cada qual indicando uma faceta peculiar de seu espírito. 2) albação. essencialmente. A capacidade de sentir várias coisas ao mesmo tempo. Qualquer relação que se possa estabelecer entre a gênese dos heterônimos e a vida real do escritor português é fadada a ser uma mera conjectura.

contraindo a mãe novas núpcias com o cônsul português em Durban.S. as quatro personalidades poéticas de Fernando Pessoa: I . O conhecido verso de Fernando Pessoa “ O que em mim sente. pondo para fora e expressando em forma de arte os diferentes modos de ver o mundo e de sentir a poesia. ao mesmo tempo.Fernando Pessoa “ortônimo”: o poeta do saudosismo português A biografia de Fernando Pessoa. especialmente com os simbolistas franceses e o incipiente movimento futurista. quando procurava a solução de um problema estético. como pessoa física. que pairava no ambiente cultural da época em que Fernando Pessoa viveu. ele funciona também como crítico da corrente divergente ou contrária. constituindo-se as várias correntes humanas. Poe. sentia-se um doublé. Fernando Pessoa. como T. O “pensamento sentido” e o “sentimento pensado” enformam a matéria da poesia de Fernando Pessoa. o pai do Existencialismo. tinha a impressão de ser o autor de um diálogo entre os dois lóbulos de seu cérebro. o lírico espanhol Antonio Machado inventa “os poetas apócrifos” para transformar-se em outros “eus”. a um drama vivido por vários poetas. cartas e trabalhos críticos e filosóficos em inglês. deve ter influenciado o poeta português na criação de seus heterônimos. onde fica dez anos. Suas leituras preferidas são os poetas Milton. Fernando Pessoa fica em Lisboa. Eliot. quando refletia. dois anos depois. demonstram que. Essa nova concepção da personalidade. Valéry. poética e estética andam de braços dados. Tendo os pais regressados a África do Sul. criador e crítico de sua poesia. A análise do processo da criação poética e a preocupação crítica procedem paralelamente à construção da obra de arte. e se diferencia da poética clássica pela atitude crítica do autor perante a gênese e o processo de sua construção artística. Assistimos. dentro do mesmo Poeta. um construtor de seus versos. nos melhores poetas modernos. escrevendo poemas. o dogma antigo da personalidade una e compacta entra em crise e vários escritores procuram expressar em forma de arte a multivocidade do ser humano. poéticas e estéticas. faculdades do espírito que por longo tempo foram consideradas antitéticas. o escritor francês Renan. sem todavia tirar-lhe o brilho da genialidade. Mas é a . 4) A intelectualização dos sentimentos: a poética moderna se diferencia da romântica pelo fato de que o poeta. monolítico e indivisível. quer porque foi expressa artisticamente de um modo todo peculiar. desdobrou-se em vários autores pela necessidade de se manter imparcial ante o desenrolar do seu pensamento dialético. o poeta dramático é o melhor de todos. Na medida em que cada heterônimo é a encarnação de uma tendência literária. o poeta Unamuno coloca à base do sentimento trágico da vida a luta. de onde nunca mais sairá. e exercendo a profissão de tradutor. Só em Fernando Pessoa a heteronímia chegou ao ponto da “dramaticização”. pela difusão das várias correntes psicanalíticas e pelo progresso das teorias científicas sobre a relatividade. o russo Evreinoff no drama O teatro da alma. cria personagens com vida própria. pela influência da filosofia existencialista. Pirandello. de que seu autor tem plena consciência. A criação heterônima é fruto de longa maturação humana e poética. Maiakovski e outros poetas modernos. entre a “Inteligência” (= as forças racionais) e a “Vida” (= as forças irracionais). dramaturgos e poetas: Kierkegaard. porque só ele consegue despersonalizar-se. XX. 3) Os antecedentes culturais: a partir do início do séc. Pensamento e sentimento. como se fosse duas pessoas distintas. independentes de seu criador. Em 1905 volta definitivamente para Portugal. sua conjunção e sua simbiose. P. personificada por outro heterônimo. Poe. considera as personagens como várias sub-individualidades componentes desse “pseudo-simplex” que se chama espírito. considerando o vital como irracional e o racional antivital. Entra em contatos mais estritos com a literatura da Europa continental. O fenômeno pode ser relevado em filósofos. E. Nele. na peça Seis Personagens em busca de um Autor. está pensando” expressa bem esta tomada de consciência do poeta perante o ato da criação artística. vivendo um pouco só. completa os estudos secundários e se familiariza com a língua e a literatura anglo-americana. Keats. mais do que se sentir um “inspirado”. dentro do mesmo indivíduo. na época de Fernando Pessoa. é.134 sobrenatural que possa ter tido como pessoa física. no intuito de arrancar a poesia do mito do mistério e da inspiração divina (a figura da musa inspiradora é posta de escanteio) e apresentar o poético como um produto do homem para o homem. quer porque em nenhum outro escritor a despersonalização foi sentida tão fortemente. a personalidade humana não era mais considerada como algo coerente. em seus Diálogos filosóficos afirma que. que existiam dentro dele. Valèry revela que. cada qual estando ao centro de duas estéticas diferentes e divergentes— a clássica e a romântica —. citados ao acaso. Apresentamos. encontram. Byron. se transfere para a África do Sul. pode ser reduzida a alguns dados essenciais: nasce em Lisboa em 1888. então. reputando-se o espírito como um agregado de sensações e idéias diferentes e contraditórias. opera como um “artífice”. em seres autônomos que lutam entre si.A. a seguir. Estes fatos e testemunhos. Segundo Fernando Pessoa. fica órfão de pai em 1893 e. um pouco na companhia de uma tia espírita.

A primeira parte. ocupa uma pequena importância no itinerário estético de Fernando Pessoa. Verlaine. porque nenhum povo pode viver sem crenças que lhe expliquem a causa dos fenômenos e lhe determinem o comportamento a seguir. Para o estudo do poeta português “ele próprio”. O nome é um derivado de “paul” (= “pântano”). o poeta nos dá a sua definição do mito. os três “ismos” — Paulismo. Teixeira de Pascoais. o de Ulisses. “O encoberto”. na mesma cidade natal. onde está inserido o poema Ulisses. contém uma série de poesias que enaltecem os fundadores da nacionalidade portuguesa. sucessivamente inventados pelo poeta português. personagem da Odisséia. Camilo Pessanha e Teixeira de Pascoais são seus poetas preferidos. que indica a não-existência. Na primeira estrofe. a terceira parte. Sem o conhecimento deste mito é impossível entender este texto de Fernando Pessoa. Sua inovação realmente original em matéria de teoria estética e que deu. o mito é tudo do ponto de vista espiritual. com várias subdivisões. o tropo de sentido. fundamentada numa identificação de termos contrários: O mito é o nada que é tudo O sintagma evidencia uma figura retórica chamada “oxímoro”. Valérie. “Mar português”. o poema todo está baseado na oposição dialética do “ser” e do “não-ser”. chegou e não chegou. cuja etimologia é Ulissipona (“a cidade de Ulisses”). nome que se encontra na capa da primeira edição da obra Mensagem. A explicação do título “Ulisses” é indispensável para a compreensão do poema por um motivo muito peculiar: quando o ciclope Polifemo. Os três versos medianos são formados por três oxímoros de contraditoriedade: Ulisses existiu e não existiu. Fernando Pessoa. o primeiro sendo movimento literário de origem francesa ( Baudelaire. tem como assunto poemático as conquistas ultramarinas de Portugal. A partir de Antero de Quental.135 tradição poética portuguesa que mais o atrai: Antero de Quental. e sua predicação adjetiva “tudo”. procura motivar o ressurgimento das letras e da civilização portuguesas com base na grandiosidade do passado político e literário de Portugal. foi a criação dos heterônimos. cada estrofe sendo formada de quatro heptassílabos e de um verso mais curto. Mas o Paulismo. é preciso estabelecer a escala de valores em que o mito pode ser considerado um nada e uma outra escala de valores pela qual o mito é tudo: o mito é nada do ponto de vista da realidade histórica. do “tudo” e do “nada”. relevante é o poema Ulisses. anteriormente à criação dos heterônimos — fenômeno que começa em 1914 —está ligada visceralmente ao Simbolismo e ao Saudosismo. fruto da cultura autóctone. A coletânea de poesias Mensagem. para poder explicar a origem das coisas. Ulisses. porque é fruto da imaginação popular que inventa biografias e façanhas acerca de entes sobrenaturais que não tiveram existência real. Junto com Mário de Sá Carneiro. Nesse primeiro verso temos duas formas oximóricas encadeadas: 1) “O mito é”. que indica a existência. lançando inclusive um movimento literário novo. Mallarmé. Ora. que consiste na predicação de um termo contrário ou contraditório. juntamente com o Cancioneiro. Interseccionismo e Sensacionismo —. em relação ao sujeito da oração. O título do poema tem como referente extratextual um dos personagens mais famosos da mitologia grega. Rimbaud) e o segundo. que indica uma totalidade negativa. obra atribuída ao poeta grego Homero. que indica uma totalidade positiva. recolhendo as aspirações dos poetas que o precederam. de quatro sílabas. que é um Saudosismo intelectualizado. o “Paulismo”. sucessivamente (“Águia”. foi e não foi suficiente. Para entendermos a figura retórica. e a sua predicação “o nada”. na primeira fase de sua produção. A poética de Fernando Pessoa. adere a esta poética. perguntou a Ulisses qual era o seu nome. A segunda estrofe refere-se à ação de um mito específico. são de pouca relevância teórica. com rima alternada de esquema ABABA. Morreu em 1935. como podemos constatar. nas pegadas dos melhores escritores da história literária de Portugal. Também para o entendimento do mito peculiar de Ulisses é . refere-se ao mito do Sebastianismo. José Régio e outros poetas exponenciais da época. publica poemas e escreve artigos de fundamentação teórica em três revistas literárias. “Brasão”. a poesia portuguesa se caracteriza pela fuga da realidade e pelo refúgio no mundo do sonho. 2) “nada”. a segunda parte. no campo da poética. fruto da atmosfera “decadente” dos ultra-românticos. a única obra publicada em vida. “Orpheu” e “Presença”). sugerindo um tipo de poesia estagnada. Divide-se em três partes. o herói astuciosamente respondeu: “Meu nome é Ninguém”. Aliás. contém a produção poética de Fernando Pessoa ‘‘ele mesmo’’ e expressa sua faceta lírico-patriótico-saudosista. que chega na costa atlântica e dá origem à cidade de Lisboa. A obra Mensagem foi estruturada para oferecer um painel simbólico e artístico da história das grandezas de sua terra. em que predomina o sentimento do vago e do sutil. O poema é composto de três pentásticos. brilhantes frutos. que tentavam uma renovação da poesia e da cultura portuguesas.

mas ele existiu no plano espiritual. inspirada pelo contato direto e imediato com a natureza: A minha poesia é natural como levantar-se o vento Ele é o poeta da realidade objetiva. que nasceu em Lisboa em 1889. mas o poeta definiu o mito como um nada-tudo e portanto a vida “metade de nada” é igual à vida “metade de mito”. como os elementos da natureza. que cultivava o vago e o imaginário. paradoxalmente. os seres humanos. Para além da realidade imediata não há nada. o subjetivo espiritual pelo objetivo real. subjetivismo. longe de qualquer elucubração mental. Alberto Caeiro. espontânea. cada qual seguindo seu curso e seu destino. A oposição da parte espiritual do homem. porque descreve o que vê e o que sente. ao pensamento teórico. da pobreza lexical. Para Caeiro. e da sua parte material. a toda sorte de psicologismo. segundo ele. em companhia de uma tia velha. Caeiro está fazendo filosofia. mas a visão: Eu nem sequer sou poeta: vejo. são imutáveis. alimentada pelo mito. não havendo nem possibilidade nem necessidade de modificações. feito de fidelidade aos cânones métricos. ao Simbolismo. Fernando Pessoa apresenta Caeiro como um jovem loiro. além de negar a possibilidade de o homem filosofar (porque. interiorismo. Raras vezes Há duas árvores iguais. portanto. é apresentada mediante um dúplice oxímoro de contrários: “vida” x “morte” e “metade” x “nada”. “nada” sendo uma totalidade negativa. foi o primeiro alter ego a se esboçar por inteiro no espírito do poeta português. se revela como um grande poeta e um exímio pensador. e morreu tuberculoso em 1915. considerado por Fernando Pessoa como “o mestre” dos outros heterônimos e de si próprio. Na biografia imaginária traçada para este heterônimo. se perpetua continuamente no seio da humanidade. que exaltava o passado. flores etc. a reflexão pela visão direta das coisas. Quer dizer. mas viveu toda sua vida na roça. ele também recusa todo tipo de estética. Os entes naturais são como são porque são assim. O que “morre” no ser humano é a sua parte material. Sua formação escolar não passou do curso primário e sua poesia pretende ser como sua vida: simples. Evidentemente. Se quisermos atribuir um . no próprio momento em que se confessa antifilósofo e antipoeta. ele cria uma nova estética (especialmente por isso é considerado “o mestre”). ao Futurismo. Sua aversão. pela força da realidade. Não me importo com as rimas. aproximando a poesia da prosa. pela força do mito e. de olhos azuis e infantis. sol. II -Alberto Caeiro: o poeta da natureza O heterônimo Alberto Caeiro. que espiritualizava a natureza. a do “versolivrismo”. A matéria de sua poesia é o mundo que o circunda: árvores. A indiferença de Caeiro perante o sofrimento humano é uma denúncia da impostura dos ideais filantrópicos apregoados por cristãos e humanitaristas. é uma postura mental proposital..136 preciso recorrer às duas escalas de valores diferentes: Ulisses não existiu no plano histórico. Este heterônimo. expressa pelo advérbio de lugar “em baixo”. no próprio ato de negar a filosofia. que é perecível. por ser espiritual. porque a crença numa origem sobrenatural estimulou o povo português a imitar as façanhas de seu fundador. da aproximação de termos e conceitos opostos. visto que seus versos são gerados sob o signo da dialética e da polêmica com os cultores do pensamento especulativo. Com efeito. humanitarismo. ovelhas. Caeiro procura substituir o pensamento pelas sensações. que funciona como contraponto às cosmovisões e às linguagens poéticas de Fernando Pessoa ortônimo e dos outros heterônimos. O órgão-guia de Alberto Caeiro não é nem o cérebro nem o coração. porque é uma lenda. que enaltecia a vida socializada e mecanizada. do polissíndeto. da linguagem discursiva: Por mim escrevo a prosa dos meus versos E fico contente. da repetição. real. não existe uma “constituição íntima das coisas”. Mas. rítmicos e retóricos. inimigo de todas as filosofias. uma ao lado da outra. não pode ter uma “metade”. mais do que pertencer à estrutura de sua personalidade. a vida humana é regida. instintiva.: Eu nunca passo para além da realidade imediata. sendo os seres e os objetos apenas fenômenos da natureza) e de proibir qualquer subjetivismo (que levaria à distorção da realidade objetiva). de outro lado. ao Decadentismo. O mesmo acontece em relação à estética literária: no momento em que se opõe e critica o modo de poetar tradicional. ao passo que o elemento mítico. A última estrofe tem como momento ideológico a proliferação do mito: este fecunda a realidade e se espalha entre os povos. sendo fator de seu progresso civilizacional.. à poética formal e a qualquer tipo de cientificismo. aventurando-se no mar para o conhecimento e a descoberta de novos mundos. de um lado. A poesia de Caeiro pode ser vista como reação a quase todas as orientações filosóficas e poéticas da época: opõe-se ao Saudosismo.

Poemas inconjuntos. porque universal e atemporal. sem nenhuma abstração e sem a intervenção do pensamento reflexivo. são gerais e universais. a crítica fenomenológica tem muito em comum com o tipo de abordagem da obra de arte. Estes temas são frutos da observação da natureza e da condição humana e. 2) O sensacionismo: para Reis. sendo apreendida pela experiência que deles temos. e que pode ser analisado em seus elementos constitutivos. visto que a idéia que ele tem de Deus é imanente. Sob este aspecto. que afirmava a verdade dos seres e dos objetos estar em si mesmos. O conselho de vida que ele dá a si mesmo e aos seus leitores também não é original. virtudes. mas “pan”. A obra poética de Fernando Pessoa. a inconstância do amor. que quer viver ao contato da natureza. Os temas que trespassam suas odes são tópicos explorados pela poesia milenária e que se encontram especialmente em Horácio. Deve-se ressaltar. enfeixando-os em estrofes rimadas e ritmadas. O objeto artístico deve ser visto como algo que está a nossa frente. Mas discorda de seu mestre quanto à prática deste objetivismo. que lhe causam sofrimentos. seu discípulo propõe um “panteísmo racionalista”. acha que. O aspecto moralista da poesia de Reis reside nesse esforço de indagar quais são os sentimentos comuns à coletividade humana e sugerir soluções para os problemas que a vida apresenta. de Edmund Husserl. estruturalistas e semanticistas. Reis tenta criar um ideal de vida e de arte “científico”. não acredita na existência das divindades que pululam suas odes. válido para sempre e para qualquer lugar. Com efeito. como um “fenômeno”. porém. numa linguagem clara. enquanto Caeiro está inclinado para um “panteísmo cósmico”. mas são apenas concretizações de idéias humanas acerca do universo.137 “ismo” à poética de Alberto Caeiro. o heterônimo Ricardo Reis foi inventado por Fernando Pessoa não para expressar sua . 3) O panteísmo: a concepção religiosa de Reis difere da idéia de Deus de seu mestre pelo fato de que. Segundo ele. consta de três coletâneas de poemas: O guardador de rebanhos. gozando dos prazeres que a vida lhe oferece. o artista deve usar técnicas histórica e universalmente consagradas. não adianta perseguir valores absolutos. problemas e realidades humanas. a efemeridade da juventude. um “teórico” do Classicismo. Do ponto de vista da estética formal. mas quer compreendê-los e expressá-los artisticamente de um modo objetivo. Fernando Pessoa pode ser visto como uma realização poética do pensamento filosófico a ele contemporâneo: a Fenomenologia. o desejo da inteligibilidade. representações tradicionais de vícios. portanto. Quanto ao conteúdo. Como podemos perceber. O pastor amoroso. seguindo os esquemas e os cânones da poética tradicional. pela postura teórica e pela atividade poética de Caeiro. a imparcialidade e a imprevisibilidade da morte. III . sem deixarse dominar pelas paixões. Enfim. Os deuses não existem nem dentro nem fora da natureza. à margem de qualquer especulação teórica. o que mais lhe convém é o “Sensacionismo”: a poesia deve descrever. Para que isso se torne possível. independentemente de sua origem e de sua relação com outros objetos. praticado atualmente por lingüistas. não transcendendo a natureza. a observar e a contemplar os fenômenos do mundo exterior. como para Caeiro. em oposição ao subjetivismo dos românticos e dos simbolistas e aos exageros da arte moderna. e sem abater-se perante as adversidades. Reis estrutura seus versos. a inanidade dos bens terrenos. é sábio quem vive o dia-a-dia. É evidente que esta postura estética e poética aproxima Ricardo Reis do ideal greco-romano de vida e de arte: o equilíbrio dos sentimentos. que são também elas passageiras. Ricardo Reis pode ser considerado. os seres e os objetos assim como são apreendidos pelos sentidos. a força do destino. para reprimir a emoção. a nossa sensibilidade deve ser depurada de todo elemento subjetivo para que possa atingir a universalidade. a harmonia de formas. Reis não se limita. Contra o versolivrismo de Caeiro. Sua concepção religiosa pode ser considerada panteísta. a poesia deve entender e expressar a realidade objetiva assim como é vista e sentida pela generalidade dos homens e não através de um prisma individual que a deforma. a essência da vida e da arte está nas sensações que temos do universo circunstante. Reis. assinada com o nome de Alberto Caeiro. ver e sentir a realidade assim como ela é. evidentemente. ele propõe um classicismo acrônico e atópico: mais do que se referir a um tipo de classicismo limitado a um espaço ou a um tempo determinado. portanto. pois está fundamentado na filosofia moral do Estoicismo e do Epicurismo: em face da relatividade de qualquer bem humano. É fácil perceber que. a superioridade da poesia sobre a prosa consiste em submeter a emoção a uma forma rigorosa. as normas da conveniência e da decência e a representação do mundo real fazem deste heterônimo a expressão mais acabada de um vir classicus. algo que aparece a nós.Ricardo Reis: a herança clássico-pagã A filiação deste heterônimo ao “mestre” Caeiro se fundamenta em três pontos básicos: 1) O objetivismo: Reis herda de Caeiro o culto da realidade material e humana que nos circunda. que o classicismo de Reis não é “neo”. os deuses pagãos estão aí apenas como figurações simbólicas. Mas. o seu poeta clássico preferido: a fugacidade do tempo. a qual leva fatalmente ao subjetivismo. o espírito “apolíneo”. Alberto Caeiro expressa a faceta humana e poética de Fernando Pessoa. como faz Caeiro. se quisermos transmitir a outros a nossa experiência do mundo (e é essa a finalidade da arte). é necessário a intelectualização da sensibilidade e a reflexão crítica sobre as sensações.

poeta italiano fundador do Futurismo. Este segundo tema está formalizado alhures e mais sinteticamente pelo mesmo poeta Horácio: é o proverbial carpe diem (aproveite do dia que passa). a qualquer momento. inventada por Fernando Pessoa. IV. A título de exemplo. A solução que oferece Reis é a de um esteta requintado. a extrema brevidade da vida nos impede de alimentar esperanças longas”!) Nesses versos encontram-se condensados os dois temas principais. em verdade. sabemos que Álvaro nasceu em Tavira. mais do que um “futurista”. exilado no mundo moderno.Álvaro de Campos: o poeta da Era Moderna Este heterônimo é também imaginado como discípulo de Caeiro. o fascínio e a repulsa. poeta norte-americano em sua época considerado escandaloso. venha e nos faça voltar ao nada de onde viemos. O substrato filosófico desse preceito ético encontra-se na filosofia de Epicuro. só que de formação e de tendência apostas às de Ricardo Reis. Outros elementos tradicionalistas de sua personalidade são os estudos de medicina e o seu monarquismo. 2) a exortação ao gozo dos prazeres da vida. o heterônimo Ricardo Reis. o sábio grego do século IV a.138 crença no paganismo ou propor uma volta aos ideais do mundo greco-romano. de que sente. tentar alcançar a perfeição formal. comuns à poética de Horácio e de Ricardo Reis: 1) a igualdade dos homens perante a morte. quer pela forma de sua poesia (verso livre e vocabulário de baixo calão). O ideário de vida e de arte de Ricardo Reis está de acordo com seus traços pseudobiográficos: Fernando Pessoa imagina Ricardo Reis “educado num colégio de jesuítas”. se afasta de sua terra natal e se refugia no Brasil. a ausência de preocupações. evidentemente. ao mesmo tempo. como à dos palácios. e cultivar a justa medida na prática dos prazeres. Talvez que já nos toque No ombro a mão. e de Marinetti. Acusou as influências literárias de Walt Whitman. tirando o diploma de engenheiro naval pela Universidade de Glasgow. Este heterônimo. Mas. e estudou na Escócia. a civilização industrial. O beati Sesti. em vista da efemeridade da existência e da imprevisibilidade do futuro.C. “latinista por educação alheia” e “semi-helenista por educação própria”. Eis uma “ode” para saborearmos a poesia do heterônimo Ricardo Reis: Como se cada beijo Fora de despedida. Segundo seu pensamento. O texto espelha a visão do mundo pagão de Fernando Pessoa. sofrer o mínimo possível e esperar que a morte. filho de judeus portugueses. o universo das máquinas. Ele sente-se como o último homem pagão e clássico. que chama A barca que não vem senão vazia. cético e hedonista: refugiar-se no mundo da arte. que se preocupou principalmente com o problema da felicidade humana. expressa artisticamente através da poesia do heterônimo Ricardo Reis. além. descontente com o novo regime político. que é o da busca da felicidade. com o qual trava constantes lides acerca do ideal de vida e do modo de poetar. ter sensibilidade para o belo em todas suas manifestações. o filão português do Modernismo europeu. o Classicismo está na base da formação escolar de Ricardo Reis e a cultura grecoromana é sua matéria de escolha. Álvaro de Campos expressa a faceta de Fernando Pessoa voltado para o mundo moderno.. da afirmação da validade atual da poética clássica. amando. autodefinindo-se como “o poeta das sensações”. Pela biografia ficcional. Vitae summa brevis spem nos vetat inchoare longam! (“A pálida morte bate com golpes iguais à porta dos casebres. quer pelo conteúdo (exaltação da sensualidade impudica). em 1890. mas também físico: com a proclamação da República em Portugal. feliz Sesto. Oh. Álvaro de Campos é o poeta do “sensacionismo”. beijemo-nos. ele. Como se vê. o homem para ser feliz deve conseguir o estado da “ataraxia”. É evidente nesse poema (como na quase totalidade da obra poética de Ricardo Reis) a influência epicurista e horaciana. mas apenas para oferecer uma tentativa de resposta ao problema crucial do homem. E que no mesmo feixe Ata o que mútuos fomos E a alheia soma universal da vida. transcrevemos e traduzimos três versos do poeta latino Horácio: Pallida mors aequo pulsat pede pauperum tabernas Regumque turres. em 1910. O exílio não é apenas espiritual. afirma postulados humanos próprios: . aproveitar moderadamente dos prazeres que a existência apresenta aos nossos sentidos e à nossa inteligência. Minha Cloe.

na vida e na arte. No tocante à Cultura Ocidental. que colocou a matemática a serviço da moral.139 Sentir tudo de todas as maneiras. fictício)Arte Fantástico FIGURAS de estilo (metáfora. é o saber. Heráclito (550-480). Fernando Pessoa. sem os artifícios dos esquemas e das imagens retóricas da poesia tradicional. hipérbatos.. é realizado por uma estética que ajusta a forma à essência das coisas: à liberdade que goza a substância do conteúdo corresponde a mesma liberdade na forma da expressão. que estudou os elementos da natureza para explicar a cosmologia. quer ao nível da substância do conteúdo (sensacionismo. É a reflexão sobre as formas do pensar. como a do mestre Caeiro. Seu objetivo. rasgos lingüísticos e estruturais comuns). motivos e temas que se repetem na poesia ortônima e heterônima). Sintetizando: unidade dentro da pluralidade em Fernando Pessoa. dialética dos contrastes. No fundo. as bases do pensamento reflexivo encontram-se na Grécia com os pensadores chamados “présocráticos”: Pitágoras (570-500). de qualquer tipo que elas forem. “Datilografia”. Esta diversidade. Menos Prozac” (Marinoff) Do grego philo (amante) e sophia (sabedoria). Enquanto o homem da ciência experimenta e o poeta imagina. A este heterônimo devemos algumas das mais belas páginas da poesia portuguesa moderna: “Opiário”. A poesia de Álvaro de Campos procura adequar o ritmo poético ao sabor dos objetos de suas sensações. o fundador do “atomismo”. O ritmo corre livre. a constatação de que tudo é ilusão e que. o filósofo reflete! A atitude filosófica é conatural ao ser humano. que significava sábio (de sophia = sabedoria). que é o mesmo de todas as ciências e as artes. o conhecimento. preocupado em expressar artisticamente os problemas vitais que o afligem: a luta dramática entre o livre-arbítrio e a limitação imposta pelas determinações naturais e sociais. o pastor. a poesia de Álvaro de Campos. pois exercia a profissão de pedagogo. se compõe de verso livre. mas em questionar o mundo. “Ode triunfal”. FEUDALISMO (sistema social) Medievalismo FICÇÃO (fantasia. “Ode marítima”. cada heterônimo mostrando um ângulo diferente da concepção humana e literária do grande poeta português. A nosso ver. apesar de suas características individuais até antitéticas. “Tabacaria”. a filosofia é a atividade do espírito humano em busca de uma resposta aos interrogativos mais cruciais da existência: quem sou eu. imaginação. a consciência crítica da experiência existencial considerada em sua totalidade. Mas os grandes sistemas filosóficos só apareceram em civilizações bem desenvolvidas. encontrável quer ao nível da forma da expressão (paralelismos. para onde irei após a morte. o pensamento como destruidor da beleza original das coisas. Apresentamos. o ponto de partida doutrinal do materialismo. Este conteúdo programático. “Ode marcial”. metonímia etc. Construiu vários modos de viver e de poetar para que se negassem reciprocamente. do sentir e do agir humano. Diferentemente da do heterônimo Ricardo Reis e da de Fernando Pessoa ortônimo. é um grande cético. por que eu vivo? Segundo o poeta simbolista Paul Valéry.) Retórica FILOSOFIA (conceito e evolução) “Mais Platão. porém. Mas a grandeza da poesia não reside em dar respostas definitivas e satisfatórias aos problemas humanos. Demócrito (470-361). não vale a pena acalentar valores reputados absolutos. a hipocrisia humana. que afirmara que “o homem é a medida de todas as coisas”. a indiferença perante a prática de um ideal clássico ou moderno de vida. de onde eu venho. Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo. Ele foi um “sofista” no sentido primeiro da palavra. portanto. o médico e o engenheiro. em rápidos esboços. expressando em forma de arte seus absurdos. não anula a unidade da personalidade poética de Fernando Pessoa. sem metro. Viver tudo de todos os lados. O que distingue o filósofo do cientista ou artista é o meio de que se serve para alcançar tal objetivo: o pensamento reflexivo. anticristianismo. sendo esta atividade o fator principal que distingue o gênero humano da vida vegetativa e animal. o tradutor. “são as perguntas que fazem o filósofo”.. Protágoras (480-410). Com Sócrates (470-399). considerado o pai dos números. repetições. a filosofia deu um passo decisivo. devem ser considerados como configurações diferentes de um mesmo ser. como Machado de Assis. transitando da cosmologia para a ética. culto da natureza. “Poema em linha reta”. centrado na exteriorização das sensações. sem divisão estrófica regular. a plurifacetação de Fernando Pessoa. sem rima. .

Sêneca. Estava aberto o caminho para a ética cristã! Efetivamente. o Existencialismo (Kierkegaard: 1813-1855. Seguindo a ordem cronológica. que começou a impor sua visão do mundo. a filosofia moral do Estoicismo difundiu-se pelo mundo durante o período do helenismo alexandrino e romano. ora a visão do mundo positivista ou material. neoplatônicos ou neo-aristotélicos. Marco Aurélio) dá mais importância à “virtude”. se preocupou quase exclusivamente com o problema da felicidade humana. Cícero. predominando. os principais dogmas da fé católica. também filósofo. A sutileza está na passagem do plano ontológico para o ético. fundamentada no monoteísmo e na transcendência. espelham o chamado “dualismo cósmico”. Só mais tarde o termo “sofisma” adquiriu um sentido pejorativo. infinito e inatingível. evidentemente. adquirindo. medido. Mas o Renascimento. que se encontram tratados em verbetes próprios: o Empirismo inglês (Francis Bacon: 1561-1626). Seu lema é: “suporta e abstém-te”. junto com a corrente oposta do Materialismo. considerado o pai da filosofia moderna). Pedro é um animal”. foi o primeiro a criar um sistema filosófico completo e coerente. Sua base teórica foi o Humanismo. céu/terra. que em grego significa “argumento”: colocadas duas proposições. que constituem dois macro-sistemas.). a constituição do mundo. o voluntarismo (Nietzsche: 1844-1900). pois os escritores. inevitável. agüentando silenciosamente qualquer desventura. o mais importante Doutor da Igreja Romana. A doutrina escolástica “cristianizou” o sistema filosófico de Aristóteles (a concepção do Deus cristão é semelhante ao aristotélico “motor imóvel”. o Positivismo (Comte: 1798-1857). colocando ênfase no “prazer” calculado. logo. cujo pensamento filosófico e religioso dominou o universo cultural da Alta Idade Média (Medievalismo). Pedro é homem. sendo obrigada a servir à religião católica: a filosofia passou a ser ancilla (escrava) da teologia. afirma que Sócrates “foi o primeiro a fazer descer a filosofia do céu e a instalou nas cidades e a introduziu nos lares. retomando o uso do silogismo sofista. verão/inverno. o chamado “século das luzes”. formulado de propósito para induzir o interlocutor ao erro. obrigando-a a indagar acerca da vida e dos costumes. que desaguou no Iluminismo enciclopédico do séc. embora de sentido duvidoso ou enganoso. com base na “teoria das idéias”: a corrente do Idealismo que. ora a postura idealista ou espiritual. do III antes ao III depois de Cristo. O primeiro grande pensador cristão foi Santo Agostinho (354-430). aspectos peculiares na dependência do tempo e do espaço. Heidegger: 1889-1976 e Sartre: 1905-1980). o Idealismo alemão (Kant: 1724-1804 e Hegel: 1770-1831). Os sofistas usavam muito o silogismo. o Intuicionismo (Bergson: 1859-1941). se limitaram a retomar a herança cultural greco-romana. são as duas vertentes fundamentais da história da filosofia ocidental. o maior pensador da filosofia “escolástica”. outro mestre do pensamento grego. pela qual a investigação filosófica deixou de ser um fim em si mesma. podemos apontar os seguintes momentos evolutivos do pensamento moderno e contemporâneo. o pensamento filosófico não evoluiu muito. discípulo de Sócrates. com o estupendo progresso das ciências e das artes. Epicuro (341-270). que consiste em viver segundo a natureza. tudo move). a Fenomelogia (Husserl: 1859-1938). Esses arquétipos da filosofia. a terceira. desaguando no oceano teocrático da Igreja Católica de Roma. o famoso escritor latino. Na Renascença européia. através de um discurso serrado e coerente. quase de uma forma alternada. corpo/alma etc. tornava-se uma dedução formalmente certa. estudando apenas as relações entre os homens. o . Um exemplo de silogismo sofista: “o homem é um animal. pelo nome dele apelidada de “tomismo”. Já o Estoicismo (Zenão. o Determinismo (Taine: 1828-1893). o Racionalismo francês (Descartes: 1596-1650. Sócrates é considerado o pai da filosofia porque deixou de se preocupar com o Universo físico. tentando explicar racionalmente. XVIII. a psicanálise e a sexualidade (Freud: 1859-1939). chamadas “premissas”. passando a indicar um argumento falso. o Materialismo histórico (Marx: 1818-1883). em suas Tusculanas. ao longo de seis séculos. do bem e do mal” Platão (427-347). chamada “conclusão”. até o advento de Tomás de Aquino (1227-1274). perceptível na alternância dos princípios opostos da natureza (noite/dia. o que. preparou as bases ideológicas para o início da filosofia moderna.140 ensinando a desenvolver o raciocínio e a criar habilidades para o uso da palavra como principal meio de convicção. implícita no pensamento do seu discípulo Aristóteles (384-322).

desistindo da sua prerrogativa de “Homo Sapiens”. apenas como exemplo. Também no campo das ciências. assim como o produto artístico. no arranjo estético do material utilizado. Como dizia Machado de Assis. Estudar uma obra de arte implicava apenas no conhecimento da vida do autor e do lugar e tempo da sua produção. o filósofo canadense Lou Marinoff lançou um livro. O formalismo muda esse postulado básico. A filosofia está se tornando uma alternativa ao tratamento psicanalítico. O suíço Alain de Botton ( Consolações da Filosofia) utiliza as idéias do grego Epicuro e do romano Sêneca para resolver problemas de frustrações profissionais. XIX. Como corrente de crítica literária. lexemas. de carência afetiva. a estrutura do texto literário (fonemas.Althusser). filosóficos ou sociológicos). flores e folhagens são o material de que se serve a florista para compor o arranjo estético. ela nos ajuda a viver! A importância do conhecimento filosófico. Conforme as teorias do Positivismo e do Naturalismo. é estudar os elementos componentes e as relações entre eles. sons. O ensino filosófico começa a extravasar a sala de aulas e a se prolongar no consultório e nas publicações de matérias em jornais e revistas. A organização do material deve ser feita segundo um . o objeto artístico era visto apenas no contexto cultural. o Formalismo teve suas influências. A tese formalista é que os elementos externos (traços biográficos. o Formalismo surgiu na Rússia. o caráter humano. O enfoque formalista é uma postura metodológica da crítica que substitui a oposição tradicional entre forma e conteúdo pela relação entre material (os elementos fônicos. quando o regime soviético. Este se convenceu de que “as pessoas preferem uma boa conversa intelectualizada a tratamentos contra depressão ou ansiedade”. etc. a teoria “gestáltica” na Psicologia. Jakobson) para outros países. mas também das outras artes: pintura. Propp. em nossos dias. Fundamental. portanto. massas e até vazios. cores. entre 1914 e 1930. sememas. pode ser medida pelo sucesso continuado na cultura ocidental da obra ficcional-didática O Mundo de Sofia. linhas. provocou a transferência de seus principais representantes (Chklovski. alguns filósofos modernos começam a vender seus conselhos de vida. nos balneários ou nas academias de ginástica. com o título Mais Platão. do professor norueguês Jostein Gaarder. que vigoraram na segunda metade do séc. no processo. Com esta obra. teatro. quando Sócrates dialogava com cidadãos atenienses em praça pública. que é o aspecto ou aparência em que se encontram organizados os elementos de um objeto: sinais gráficos. Retornando às origens. Citamos. O surgimento do Formalismo russo foi fundamental para o estudo de todo tipo de obra de arte. como a poesia. o Relativismo (Albert Einstein : 1879-1955). ritmo. que se tornou bestseller mundial. formulados pela escola russa. música. era fruto do binômio hereditariedade e meio-ambiente. psicológicos. a maneira pela qual o material é manipulado para produzir o efeito estético. FLAUBERT (autor do romance Madame Bovary)Realismo FORMALISMO (método analítico)EstruturalismoTexto Crítica Termo derivado do latim “forma” (morphé. pois a essência da arte reside no prion. Marinoff demonstra que a filosofia pode ser aplicada também aos problemas cotidianos.. isto é. escultura. lexicais. Tinianov. Por exemplo. de economia empresarial e familiar. Dois filósofos californianos também estão tendo sucesso: Tom Morris (Se Aristóteles dirigisse a General Motors: A Nova Alma dos Negócios) e Christopher McCullough. mas o próprio indivíduo. o buquê (a obra de arte). com a docência no City College de Nova York e com palestras (também no Fórum Econômico de Davos). figuras de estilo.). A importância da reflexão filosófica é uma verdade incontestável. pois lançou as bases da passagem da crítica “externa” para a “interna”: até então. Menos Prozac. dando prioridade ao estudo dos elementos internos da obra de arte literária. Às vezes a filosofia.pois as coisas valem pelas idéias que nos sugerem”. Eikhenbaum. que ensina princípios estóicos a investidores fracassados. pois o ser que não pensa deixa de ser “humano”. Recentemente. contrário a esse movimento artístico.. cinema. Tomachevski. embora detectáveis. em grego). uma hora de aconselhamento custando tanto quanto uma sessão de psicoterapia. Os princípios de análise estética. pode conseguir frutos também práticos Com certeza. sintáticos e semânticos do texto) e priom (processo ou procedimento). não são fundamentais para a interpretação da obra.141 Estruturalismo e a Antropologia social (Lévi-Stauss e L. não se aplicam apenas ao estudo da Literatura. Não refletir sobre a existência humana e seus problemas é um erro profundo que prejudica não apenas o viver em sociedade. E não somente nos EUA. “há em todas as coisas um sentido filosófico.

Os impulsos do id. ou são “recalcados” ou são “sublimados”. 1904. que escandalizou o mundo cultural da época. 3) o ego (“eu”). gera uma sensação dolorosa de impotência. No segundo caso. o ego sofredor. e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. formado pela consciência moral. da fantasia à realidae. Chklovski. pois verdades existenciais foram vasculhadas por pesquisadores que se tornaram imortais. Insatisfeito com os resultados obtidos pelo hipnotismo. 2) o superego. consiste no arranjo estético do material. O grande mérito de Freud foi ter ressaltado que a libido. sinal da conservação individual. Sendo o princípio da forma o traço distintivo da percepção estética. 1905). Freud distingue três níveis de consciência: 1) o infra-ego. Para este caminho de regresso às origens de um trauma. por não serem satisfeitos. No primeiro caso. fecundando e secando. considerando os sonhos como compensações dos desejos insatisfeitos na fase de vigília (A interpretação dos sonhos. junto com o apetite. são os dois eixos fundamentais para cuja satisfção se direciona qualquer atividade humana. reside numa “ambivalência” constante: sentimentos iguais e. misturados fluem e refluem. onde se encontram localizados os nossos desejos inconfessáveis. O século passado foi denominado o “século da Psicanálise”. chamado também de id ou “isso”. que leva a uma visão peculiar do objeto. consegue canalizar a força do id para objetivos socialmente mais nobres. isto é a differentia specifica que faz com que um produto de linguagem seja considerado uma obra literária. e o id. impulsionado pelas forças opostas do instinto e das convenções sociais. inventou o método que até hoje é usado pela psicanálise: o das “livres associações” de idéias e de sentimentos. Sigmund Freud representou para o conhecimento do inconsciente humano. animal ou vegetal. com a ajuda da hipnose e em colaboração com os colegas Joseph Breuer e Martin Charcot (Estudos sobre a histeria. quer dizer. temos a formação do “complexo”. FREUD (o pai da Psicanálise: libido. Começou estudando casos clínicos de comportamentos anômalos ou patológicos. Mas a grande novidade de Freud. ligando seu nome ao séc. mas o descreve como se o visse pela primeira vez e trata cada incidente como se acontecesse pela primeira vez". especialmente a libido. se não superada pelo relacionamento afetivo com outras crianças. Picasso para a pintura e Proust para a literatura. que está acima do eu. cria uma dependência tão forte a ponto de tornar-se traumática e provocar desvios de comportamento (Psicopatologia da vida cotidiana. ainda no período infantil. um conjunto de desejos que. que manifesta o instinto de perpetuação da espécie. A essência de toda relação entre o superego. Sigmund Freud (1856-1939) conseguiu acender luzes nas camadas mais profundas da psique humana: o inconsciente e o subconsciente. Devido ao dinamismo psíquico. 1895). foi a apresentação da tese de que toda neurose é de origem sexual. XX. que está em baixo. 1899). . resultante da força disciplinadora e educadora do super-ego sobre o id. ao mesmo tempo. passando pela fase oral. A "literariedade" do texto. A atração que o menino sente pela mãe (complexo de Édipo) e a menina pelo pai (complexo de Electra). o procedimento de singularização nas obras de Leon Tolstoi "consiste no fato de que ele não chama o objeto pelo seu nome. estimuladas pelo terapeuta por palavras dirigidas ao paciente com o fim de descobrir a fonte das perturbações mentais. Jung e os “arquétipos”)Psiquê Édipo A arte é a trilha que leva de volta. constituído pelas forças instintivas do inconsciente. temos um processo de compensação: dá-se a sublimação dos instintos quando o ser humano. A “libido”. marca profunda e inconscientemente a psique humana. Incalculável é a contribuição do famoso neurologista austríaco no tocante aos estudos sobre a formação da personalidade humana. libertando a percepção do automatismo. Segundo V.142 procedimento de "singularização". que é o conjunto de injunções éticas e religiosas que a sociedade aos poucos vai introjetando na nossa psique. O que Einstein foi para a Ciência. o crítico tem por oficio analisar o priom da obra para descobrir-lhe a especificidade que torna o texto literário um objeto estético. o nível consciente. o “eu” consciente está continuamente em luta. Freud se utilizou especialmente da linguagem onírica dos pacientes. consciente ou inconscientemente. alternativamente. Quanto à estrutura da personalidade. anal e genital. a tendência à satisfação sexual.

Estudando um corpus de cem narrativas populares. afirma: Em sonho. transmitidas pelos mitos e pelos contos populares. vê no meio da multidão um homem muito parecido consigo. . corresponde a função emotiva. físicas. ora estabelecendo relações profundas da psicanálise com outras disciplinas humanísticas: antropologia. sim!” FUNÇÃO (ação integrada)NarrativaFormalismo Mito Num texto literário tudo é funcional. Já o conceito de função usado por outro estudioso russo. sociologia e lingüística. 5) ao fator “código” corresponde a função metalingüística.). em 1928. teve vários seguidores que tentaram aperfeiçoar técnicas e métodos. Ordena que se aproxime e pergunta: “Sua mãe esteve empregada em meu palácio?” -“Não. algo que transcende o sexo. reflexões importantes sobre a alma humana e o comportamento social. 4) ao fator “contato” está relacionada a função fática. da beleza. que tem o fim de atingir o receptor.mas meu pai. pois significativo. função é uma ação. Lacan. as influências entre poesia e psicanálise são recíprocas. denominando “arquétipos” as experiências milenares da humanidade. e tudo é significativo. a expressão subjetiva de uma idéia ou sentimento. encontrou elementos comuns e invariáveis. Freud. Neste sentido amplo. Em contrapartida. sentir e agir.143 A teoria psicanalítica. especialmente à estrutura do plano do enunciado. todo menino gostaria de deitar-se com a mãe. que se manifestam ocasionalmente.. 6) o fator “mensagem”. para acalmar Édipo preocupado com o oráculo que lhe dizia ser predestinado a matar o pai e casar com a mãe. que atua sobre as próprias palavras. que estabelece o meio de comunicação a ser usado. Ao inconsciente individual de Freud ele acrescentou o “inconsciente coletivo”. a execução de um encargo visando alcançar um objetivo. existiriam os arquétipos do amor. Ele transformou a libido freudiana em “energia vital”. dentro de nós. destacamos o psiquiatra suiço Carl Gustav Jung (1875-1961). evidentemente com sentidos peculiares (funções matemáticas. decorativas etc. Abraham. Veja-se o enfoque psicanalítico da obra de arte. pois é funcional Do substantivo latino functionem. ora divergindo das teses fundamentais do mestre. muitos escritores que exploraram a psicologia profunda em seus personagens de ficção. Os arquétipos seriam os tipos modelares. as imagens psíquicas do inconsciente coletivo. em fim. Entre os mais importantes discípulos de Freud (Adler. direta ou indiretamente. No campo da Lingüística. É sabido que Freud encontrou numa passagem da peça Edipo rei. subajacentes ao nosso pensar. Flein. E não somente Autores. do dramaturgo grego Sófocles. Roheim). ao nível do fazer. A publicação de sua obra. o estudioso russo Roman Jakobson encontra uma estreita relação entre os fatores da Comunicação e as funções da Linguagem. o termo é usado por quase todas as áreas do conhecimento humano. o eu que fala. Com relação à Literatura. constitui um marco fundamental na história da análise do texto literário. da guerra. Morfologia do conto. da maternidade. caminhando por seus domínios. da prepotência. dando a elas multivocidade e sentidos conotativos. ligados entre si pela relação causa / efeito. que indica o dito ou o feito e suas circunstâncias. ao estudo dos contos de fada. A esposa Jocasta. biológicas. a teoria freudiana influenciou. ao lado de outros variáveis e peculiares de cada conto. Os primeiros. está relacionado com a função poética da linguagem. no verbete Crítica. apresentou. da força. 3) o fator “contexto” tem como correspondente a função referencial da linguagem. mas também muitos estudiosos da Literatura e das outras Artes. Propp. como bom psicólogo. constituem o . inventada por Freud. Como exemplo. mas à Narratologia. Assim. Horney. diz respeito não à Lingüística. transformando o mito de Édipo em complexo psicanalítico. que ele denomina “funções”. muitas vezes usando o modo irônico. ao conjunto dos fatos que ocorrem numa obra do gênero narrativo. estabelecendo seis correspondências: l) ao fator “remetente”. a não ser que fosse menina. em certos momentos e em espaços adequados. que visa estabelecer a comunicação entre emissor e receptor. inspiração para a formulação da sua tese fundamental. da bondade etc. reproduzimos uma historinha contada por ele: Um príncipe. em seus escritos. senhor – responde o homem. o formalista V. 2) ao fator “destinatário” está correlata a função conativa. Mead. substituindo a abordagem externa pela interna. caso em que desejaria o pai.

partida/retorno etc. o ir e vir das personagens e a alienação. Analistas e críticos literários posteriores alteraram o modelo funcional de V. O formalista russo inventariou 31 funções. por sua correlação com outro elemento. indicando o “fazer” das personagens. atribuindo funcionalidade não só às ações das personagens. encontráveis em todos os contos populares. o castigo do vilão. outros ampliando o conceito de função. o estruturalista francês considera a alma da função como seu germe. o chamamento à distância) do que o sintagmático (a contigüidade das funções). seguida da reintegração na sociedade. segue uma démarche oposta à de Greimas. as funções disjuncionais estão relacionadas com o deslocamento no espaço. estabelecendo dois grupos: l) as funções “distribucionais”.Propp. na medida em que tudo significa por ser tudo correlato.. através do acasalamento: operando sobre o caráter binário das funções. um meio e um final feliz. o “Manifesto Futurista”. mas a qualquer elemento narrativo que. as que compreendem as três provas a que o herói é submetido: a prova “qualificante” (funções: tarefa/resolução) tem como conseqüência o recebimento de uma ajuda para enfrentar o inimigo. uns reduzindo o número das funções. definida do ponto de vista de seu significado no desenrolar da intriga”. que gostam de uma história linear. acopla em duplas todas as funções que possuem uma interação. a proibição. então. Acrescenta. enfim. chamadas de Vanguarda. as funções performanciais. A proposta essencial era a destruição de todas as formas tradicionais de cultura. Exemplos: interdição/violação. possa tornar-se significativo. que são as ações-chave relacionadas entre si. a luta. o dano. Outra contribuição importante de Greimas ao modelo proppiano é o arranjo das funções em três categorias: as funções contratuais. uma nova classe de funções à inventariada por V. Para Propp. As funções principais são: o afastamento. de um conto ou de um poema épico. luta/vitória. Enquanto este se inclina para a condensação. na sua reelaboração do modelo funcional de Propp. operando mais sobre o eixo paradigmático (usando o princípio da similaridade. no jornal “Le Figaro” de Paris.Propp para adaptá-lo ao estudo de narrativas mais complexas. as que dizem respeito ao estabelecimento ou à ruptura do contrato entre o indivíduo e o grupo social (ordem/transgressão. a prova “principal” (luta/vitória) leva à reparação do dano e a prova “glorificante” (tarefa/êxito) permite o reconhecimento do herói e a sua premiação. então. Partindo do princípio de que numa narrativa tudo é funcional. Os índices são unidades que remetem a outros elementos no eixo paradigmático. 2) as funções “integrativas”. que leva à transgressão. Junto com outro estruturalista russo enraizado na França. subdivididas em núcleos (ações principais) e catálises (ações secundárias). para ser considerada uma função. nas narrativas escritas para as massas. a vitória. função é “a ação de uma personagem. Já Roland Barthes. que tenha um começo. o prêmio do herói. reparação do dano/prêmio). T. Ele alarga o conceito de função. que toda função é uma ação. que se implicam mutuamente. Barthes está interessado na expansão do conceito de função.Todorov. a função) de um elemento da obra é sua possibilidade de entrar em correlação com outro elemento desta obra e com a obra inteira”.Greimas reduz o número de funções a 20. publicando em 1909.144 arcabouço da fábula de qualquer obra do gênero narrativo. FUTURISMO (movimento artístico italiano) Vanguarda “O sofrimento de um homem não é para nós mais interessante de que o sofrimento de uma lâmpada atingida pelo curto-circuito” (Marinetti) O poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti. Deduz-se. correspondentes às definidas por Propp. dava origem às várias correntes artístico-literárias. distribuídas no eixo sintagmático conforme o princípio da contigüidade e a figura retórica da metonímia. subdivididas em índices (elementos paramétricos com investimento semântico) e informações (elementos dispensáveis cuja função principal é apenas conferir um aspecto de realidade à ficção). Barthes redefine assim a função: “a significação (isto é. que leva à reparação. Não precisa dizer que os estudos desses formalistas e estruturalistas são de importância fundamental para a análise e a interpretação do texto narrativoCrítica. O semioticista francês AJ. susceptível de fecundar e dar seus frutos. estabelecendo chamamentos à distância. a ação de uma personagem deve estabelecer relações de causa ou de efeito com outras ações distribuídas ao longo do eixo sintagmático de um romance. mas a recíproca não é verdadeira porque. do objeto-valor que estava na posse do inimigo. a serem .

o Futurismo pode ser interpretado como expressão da ambição nacional italiana no início do século XX: a Itália. “Uma bofetada ao gosto do público” (Maiakóvski e outros escritores russos. o dinamismo e a mudança rápida da vida moderna com cores berrantes (vermelho. do prazer da destruição). e Arte dos ruídos. Apollinaire e Maiakóvski. tendo como nota comum o antipassadismo e a revolta contra o academicismo pedante e medíocre. então socialista e futurista. papelão. durante um minuto reina um silêncio mortal. laranja) espalhadas em composições chocantes. Tal síntese fazia com que a peça tradicional se tornasse apenas um sketch. inventou e patenteou um colossal engenho produtor de ruídos. sociais e religiosas. roncadores.145 substituídas por uma arte mais condizente com a era da máquina. cartazes de publicidade e partituras musicais. revistas. A este primeiro manifesto seguiram-se outros. Quanto ao foco visual. 1914). vê e sente. Marinetti imaginava orquestras inteiras constituídas por instrumentos ruidosos e acionadas por eletricidade. O vanguardismo deveria atingir não apenas a literatura. influenciou as peças vanguardistas de Alfred Jarry. mas pelo dinamismo econômico e militar. Russolo. Luigi Russolo. que seriam os franceses. e cai o pano. sirenistas. lata. dos ruídos e dos odores”. recém-unificada. cobre. russos. com a intenção de mostrar o dinamismo das informações consumidas pelo homem moderno. de Marinetti e de seus seguidores. inventando-se a arte “polimatérica”: madeira. verde. Para as outras artes. No que toca mais especificamente a Literatura. 1914) Para a arquitetura foram tentadas experiências idênticas às da pintura e da escultura. “Manifesto do Futurismo inglês” (Marinetti e Nevinson. Severini. Fazendo um balanço das contribuições do Futurismo. inventaram a técnica da colagem. tornou-se também intervencionista. 1912). na medida em que esta transmite uma síntese de tudo aquilo que ele lembra. a escultura. Foram os comícios futuristas que levaram à intervenção italiana na Primeira Guerra Mundial. pelo envolvimento do espectador. propondo novas ideologias. intutulada A detonação. pintor e músico. No contexto político. Pelo gosto do barulho. O teatro sintético futurista. traduzindo o princípio estético da sinestesia e da simultaneidade dos estados da alma na obra de arte. o Futurismo insere-se na corrente de pensamento que vai de Nietzsche (a quem foi atribuída a concepção da raça pura. da juventude. 1915) A dramaturgia futurista tentava representar a rapidez do mundo das máquinas pela cenografia múltipla. Música: Manifesto dos músicos. podemos salientar aspectos positivos (atmosfera de libertação artística. através de imagens desconcertantes. de repente. ouve-se um tiro de revólver. Deixando-se guiar apenas pela intuição. 1913: “A pintura dos sons. Escultura: Manifesto técnico da escultura futurista (Boccioni. Neste sentido. Balla e outros pintores futuristas tentaram retratar a velocidade. Também na escultura se usaram materiais heterogêneos. mas também a pintura. da alucinação. que tiveram a colaboração de escritores famosos como Giovanni Papini e Giuseppe Ungaretti. junto com a pedra e o mármore. pela simultaneidade das ações. transpuseram para o quadro. a arquitetura. para a defesa dos “povos poéticos” (a expressão é de Marinetti). Teatro: Manifesto do teatro sintético (Marinetti. a relação do Futurismo com o Fascismo é muito forte. considerada a “higiene do mundo”. a música concreta e a música eletrônica dos nossos dias seriam extensões do movimento futurista. amarelo. destruir a tradição cultural. Não . levar o antihumanismo até o anti-humanitarismo pela exaltação da guerra. da virilidade. “Lacerba” e “A voz”. utilizando pedaços de jornais. Quanto ao material usado. Um bom exemplo é uma “tragédia”. a “forma-cor” dos românticos e a “forma-luz” dos impressionistas. de anti-convencionalismo e de rebeldia que alimentaria a arte contemporânea) e negativos (fazer “tábula rasa” do passado. Arquitetura: Manifesto dos arquitetos (Sant’Elia. 1912) Boccioni pretendia fazer “viver os objetos”. Aliás. chamado “intonarumore”. italianos. contra os “críticos pedantes” (alemães e austríacos). os pintores futuristas pretendiam fazer com que o espectador ficasse no centro da obra. em si sem muito sucesso. as duas principais revistas da Vanguarda italiana. Soffici. eis uma súmula dos princípios estéticos apregoados pelo Futurismo: Pintura: Manifesto de Carrà. Segundo alguns especialistas. de Francesco Gangiullo: no cenário vê-se uma rua escura e deserta. além de tentar verter implicitamente as instituições políticas. os futuristas foram apelidados de “rumoristas”. Eugêne Ionesco. Mussolini. 1913. 1912). temas do inconsciente. Carrà. do sonho. 1911. do super-homem e da super-nação) ao Nazismo (Hitler). Num concerto futurista. a música. algo de anedótico. desejava imporse ao mundo. havido em Milão em 1914. não apenas pelo seu passado arqueológico. aplicando linhas de força: o conceito de “forma-força” passou a substituir a “forma-linha” dos neoclássicos. assinalamos: “Manifesto técnico da literatura futurista” (Marinetti. gargarejadores. a orquestra era composta por explodidores. ingleses e japoneses.

O papel do teatro. foi matemático. pensando na Terra. se move”). ele é um dos mais férteis romancistas da América latina. Em 1982. o Papa João Paulo II. é posto em evidência na peça A Vida de Galileu pelo dramaturgo alemão Bertold Brecht. sendo um dos últimos grandes ficcionistas latino-americanos ainda vivo. que deu nome ao novo sistema astronômico. o mito da cidade fantástica do extraordinário romance Cem Anos de Solidão (1967). Além de escritor. embora dotado de uma invejável inteligência: ele gosta de comer bem. aspira a ser rico. mas estimular o público a lutar pela mudança do status quo. e predecessor do físico inglês Isaac Newton (1642-1727). 1623. Seu pensamento crítico.. segundo Brecht. Prêmio Nobel da Literatura em 1982. Para a exploração deste tema Brecht recorre à pessoa histórica de Galileu Galilei. mas da coletividade. O sentido mais evidente desta peça é a representação do problema do conflito do intelectual no seio da sociedade em que vive. na Colômbia. físico e astrônomo. o experimento e a formulação matemática do resultado da experiência passaram a ser os fundamentos das ciências exatas. afirmando: “se consegui enxergar mais longe. Mas. teria exclamado: Eppur si muove (“No entanto. em 1928. que reconheceu a dívida aos dois cientistas. para disfarçar. sendo regida por um estatuto de filiação religiosa ou política. Diálogo sobre os grandes sistemas do universo. mas como um ser comum. Galileu descobriu as leis do pêndulo e da queda dos corpos. 1632. Experimentador.146 foi por acaso que os grandes centros de desenvolvimento industrial e comercial (Milão e Turim) transformaram-se também nos maiores focos da arte futurista. não há nenhuma idealização. Talvez a passagem. não é apenas apontar os costumes falsos e degradados. por ensinar que era a Terra a mover-se ao redor do Sol. pois o processo dialético que leva ao melhoramento cívico não é obra de um indivíduo. antecipando a formulação do princípio gravitacional e da atração terrestre. o candelabro que oscilava no alto. 1934: esta é sua obra mais importante. tem medo de sofrer quando vê os instrumentos de tortura e renega suas convicções científicas para salvar a pele. junto com Michelangelo e Leonardo da Vinci. Ele é o autor de “Macondo". Acusado perante o Tribunal da Inquisição. reconhecendo a importância histórica do gênio pisano. o sistema sideral ptolemaico baseado na fixidez da Terra e outras crenças sem embasamento científico. Tornou públicas suas descobertas através de algumas obras importantes: Me nsageiro das estrelas. grandiosa crônica de um século de opressão militar e de resistência civil. pelo qual observava a composição estelar da Via Láctea e do planeta Vênus . Entre sua vasta obra literária. como acontece com o herói épico e trágico da literatura clássica. estando na Catedral de Pisa. . apesar da fragilidade física e psíquica de Galileu. Mas o que ela recorda e como o recorda Gabriel García Márquez nasceu em Acarataca. com 360 anos de atraso. irônico às vezes. Isso só acontece num sistema social em que a ciência não tem autonomia. Gabriel (escritor colombino) A vida de uma pessoa não é o que aconteceu. conhecida pelo título sintético I Discorsi (“Os Discursos”). que resume a obra toda. tendo como princípio estético o chamado “realismo fantástico” (Narrativa). foi condenado à prisão domiciliar. GALILEU (cientista e artista do Renascimento italiano) “Eppur si muove” Galileo Galilei (1564-1642). teoria considerada herética naquela época. assinalamos também Crônica de uma morte anunciada e O Amor nos tempos do cólera. retirou as acusações de heresia feitas pela Inquisição contra Galileu. Teorias e provas matemáticas sobre duas novas ciências . contestando as teorias aristotélicas. Narra-se que Galileu recebera a ordem judicial. é porque procurei ver acima dos ombros dos gigantes”. Portanto. Por esta nova postura. GÊNERO: na literaturaÉpico-narrativoLírico Dramático. 1610. Ele foi sucessor do astrólogo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543). Ao render-se. O protagonista não é apresentado como um herói. polêmico. Brecht nos faz perguntar se é justo que um cientista tenha que sofrer por ter descoberto uma verdade cósmica. Construiu um poderoso telescópio. que revolucionou o pensamento científico e filosófico. pois o passado nos ajuda a compreender o presente. concordando plenamente com a teoria heliocêntrica de Copérnico. forma a tríade genial da Renascença italiana. seja este diálogo entre os dois personagens principais: André Sarti: “Desgraçado o país que não tem heróis” Galileu: “Desgraçado o país que necessita de heróis” GANDHI (Mahatma e Indira)Hinduísmo Paz GARCÍA MÁRQUEZ. mas olhando .

a palavra “representada”. o filósofo e crítico grego estudou a produção poética do séc. Não existindo antes dele a arte literária em prosa. distinguindo os três gêneros que se tornaram tradicionais. fizeram com que se desse o nome de satura à primeira forma de poesia campestre latina. perante um auditório. A tripartição das obras literárias em gênero narrativo (poesia épica. que acompanhava a declamação de um poeta que expressava um sentimento de amor. ópera lírica etc. Aristóteles foi o primeiro a se preocupar em distinguir. do “emocional” (o lírico é um estado de alma. indicando o distanciamento entre o poeta e o mundo representado). que exprime o presente da recordação) e do “lógico” (o drama visa o futuro. encenação de um problema existencial transmitido por atores perante espectadores.(gênero narrativo): uma história ficcional. conto etc. a antiga satura deu nome ao filão da literatura “satírica”. o povo começou a participar através da dança e do canto coral. no seu sentido mais amplo. Mas tal divisão da produção poética nos gêneros épico. contada em 3ª pessoa. Assim. A satura (cheia) lanx (tigela) era o ‘‘prato cheio’’ das primícias da terra que os antigos camponeses itálicos ofereciam aos deuses durante as festas religiosas. lírico e dramático só foi possível posteriormente. onde vários elementos artísticos se misturavam: os versos recitados por jograis eram acompanhados por instrumentos musicais. o ditirambo. trata-se da palavra “narrada”.147 na biologia: gênero/espécieGenética Darwin. com base na sua concepção de arte como mimese. o fato glorioso). ode. quais a música. e também por filósofos e psicólogos que. às vezes. tendo vários objetivos: agradecer a divindade pela boa colheita. tais gêneros não eram distintos. a linguagem na fase da expressão “figurativa” (juventude).) e dramático (tragédia. mais tarde. semelhanças genéricas e diferenças específicas. Os semas de “abundância” e de “mistura”. após serem narradas (forma épica) e cantadas (gênero lírico). generis. pelo diálogo entre o chefe do coro e os coreutas: este ditirambo dialogado estaria. por um narrador onisciente. sendo usada até hoje. na origem da tragédia. de exaltação etc. Já das primeiras formas artísticas do povo latino temos algumas notícias mais precisas. perante agrupamentos de gente analfabeta. a linguagem na fase da . um velho sábio apenas recitava as façanhas do deus (o épos. indica uma classe de seres ou objetos. passou a ter uma estrutura dramática. No tocante à Literatura.) tornou-se tradicional. de tristeza. de lira. transmitir elementos de cultura e entreter o povo. quando a cultura e a civilização do povo grego já se encontravam num estado avançado de evolução. Devido ao tom jocoso e. lírico (hino. o dramático. estando estritamente relacionada com rituais sagrados. romance. no tempo da pré-história helênica. as histórias sobre o deus Baco começaram a ser encenadas (surgimento do drama). na sociologia: as discriminações EscravidãoNietzsche Do latim genus. respectivamente. de assunto glorioso. instrumento musical a corda. pois coloca um problema existencial a ser resolvido). debochado. presentes no étimo do adjetivo “sátura”. reestudada por vários teóricos da arte da palavra. o épico. entre as obras literárias até então produzidas. Imaginamos o que devia acontecer na Grécia pré-histórica. durante as festas dionisíacas: num primeiro momento. Nas origens. comédia. a dança. canção etc. através do diálogo: 2ªpessoa. por uma plausível evolução. de épos. gênero. por várias formas de expressão artística. correspondentes. segundo Aristóteles. As primeiras formas de criação literária não estavam separadas de outras formas de arte. mais tarde. Poesia lírica. imitação da realidade: Poesia épica. englobando várias “espécies” ou subclasses a ele relacionadas. estabeleceram relações dessa diferenciação genérica com posturas antropológicas. Emil Staiger (Conceitos fundamentais da poética) afirma que os adjetivos “épico” (ou narrativo). por danças e por representações miméticas. ao domínio do “figurativo” (a história contada é sempre um tempo passado. mais tarde. Já o filósofo alemão Cassirer (A filosofia das formas simbólicas) relaciona os gêneros literários com os três planos da linguagem: o lírico representaria a linguagem na fase da expressão “sensorial” (idade pueril).). Poesia dramática: de drama. A arte primitiva de qualquer povo tem sempre uma origem religiosa e agrária. transcendendo o interesse puramente literário. em versos e em prosa. “lírico” e “dramático” são conceitos da ciência da literatura que exprimem virtualidades fundamentais do ser humano. a mímica. que possuem características semelhantes (“genérico”) e origem comum (“genético”). o canto. anteriormente à época homérica. hino em honra do deus Dionísio (o romano Baco) que. em 1ªpessoa: era a palavra “cantada”. VIII ao III.

descobriu o princípio do id. o drama. orientada para a expressão do subjetivismo do emissor. Bakhtine considera carnavalizado todo o filão das obras que contestam os valores sociais: a sátira menipea dos gregos. a pessoa a quem se destina a mensagem. O médico e cientista austríaco Sigmund Freud. E a Antropologia e a Sociologia. o romance renascentista Pantagruel e Gargantua. a coletânea de contos Decameron. Nelas predominam as formas oximóricas. não é exclusiva da Literatura. Em verbetes específicos (lírica. E. orientada para o contexto objectual. amor etc. criando. distingue o espírito “dionisíaco” (de Dionísio ou Baco. ópera etc) verificamos as peculiaridades das várias formas literárias. a relatividade. Frye estuda a teoria dos gêneros em seu aspecto formal. de Cervantes. “poema narrativo” ou “drama lírico”. masculino. que estão mais preocupados em agradar o grande público do que em denunciar os absurdos da condição humana. assim. o da poesia dramática na marcação da função “conativa”. caracterizada pelo ritmo da “associação”. A literatura. o Romance com o mito do “verão”. do trecentista italiano Boccaccio. não pela exclusividade. estudando a psicologia profunda do ser humano. bem como no triunfo do complexo de virtudes que compõem a ideologia social (ordem. e toda a grande literatura produzida pelos gênios da arte ficcional. dividindo a literatura em quatro gêneros principais: o épos. por estarem centradas no polimorfismo e na polifonia. caracterizada pelo ritmo da “continuidade”. Essa divisão da literatura em três gêneros fundamentais é apenas paramétrica ou didática pois. em oposição aos textos ideológicos ou conservadores. relacionando as funções da linguagem com os fatores da comunicação humana. caracterizado pelo ritmo do “decoro”. a prosa.). em oposição ao superego. que não deixa de ser uma forma de antropologia. Nietzsche. do francês Rabelais. animal. lírico ou dramático. orientada para o destinatário (espectador). outros. distinguindo humano. outras. O filósofo alemão F. tragédia. da harmonia). o tu do receptor (formas dramáticas). como Northrop Frye ( Anatomia da crítica). conto. dando particular relevo à obra do maior escritor da sua terra (A poética de Dostoievski). também. há outras divisões possíveis: alguns estudiosos preferem a distinção entre obras em versos e obras em prosa. A questão do “Gênero”. beleza. deus da luz. dialógica. no estudo do ser humano. a descrença nos valores religioso-ético-sociais. e de “integrados” os escritores conservadores. Tal distinção está baseada no fato de que algumas espécies de obras literárias focalizam a pessoa que fala. vê o princípio diferenciador da poesia lírica na predominância da função “emotiva”. pode ter sua produção examinada e dividida a partir dessas macro-concepções da realidade. nenhum texto literário é exclusivamente narrativo. os paradoxos. tanto é que não está errado falar de “romance dramático”. a pessoa de quem se fala. os romances em língua latina Satíricon e Metamorfoses. os anseios individuais. Em outras passagens da mesma obra. romance. o Dom Quixote. vegetal. As obras de estrutura e de conteúdo monológicos. Também as ciências biológicas agrupam os seres em gêneros e espécies. o eu do narrador (formas líricas). embora com uma terminologia diferente: o crítico italiano Umberto Eco chama de “apocaliptos” poetas e prosadores da linha contestatória. relacionando a Comédia com o mito da “primavera”. evidenciam . a irreverência. a Tragédia com o mito do “outono”. a necessidade de obedecer ao conjunto de normas impostas pela sociedade. outras. em verdade. caracterizadas pela univocidade. o do gênero narrativo na preferência para a função “referencial”. da desordem) do espírito “apolíneo” (de Apolo. feminino (GenéticaDarwin). deus da embriaguez. A classificação de uma obra num gênero é feita. Já Mikhail Bakhtine sugere uma distinção com base em dois princípios estéticos e ideológicos: monologismo e dialogismo ( Dialética). justiça. outra divisão genérica da literatura: as obras “carnavalizadas”. caracterizado pelo ritmo da “repetição”. o ele do enunciado (formas épicas e romanescas).148 expressão “conceitual” (idade adulta). já as obras de fundo dialógico representariam a contestação. expressariam os anseios de um grupo social que acredita nos valores humanos e na possibilidade do conhecimento da verdade. os poemas satíricos de Horácio. mas apenas pela predominância de uns caracteres sobre outros. a vontade de satisfazer as forças do instinto. Tal bipolaridade pode ser percebida em outros eruditos. a revolta contra a tradição estético-cultural. recorrem à teoria dos arquétipos. e a lírica. O crítico russo sustenta a tese de que as formas e os conteúdos da arte dialógica estão ligados aos ritos e ao espírito do Carnaval. e a Sátira com o mito do “inverno”. Roman Jakobson (Lingüística e Comunicação). revolucionária. na sua famosa obra Origem da Tragédia.

Entre os que permanecem revolucionários. as interpretações de O balcão se renovam e se multiplicam a cada montagem ou leitura. Sua obra literária é composta de poemas (O condenado à morte.. engajando-se na luta em favor das minorias. Entre estas.. lá fora está acontecendo uma Revolução que quer derrubar o poder constituído. as fantasias! Redistribuir os papéis. de roubo e de prostituição. A dona desta casa de ilusões. sua obra-prima. encontrando na palavra artística o meio de lutar contra o mundo. a balança.. Diário de um ladrão). Chefe de Polícia e Madame Irma. em contacto com intelectuais. outro se transforma em Juiz e interroga uma ladra. Enfim. não importa quem vista esses símbolos. assumir o meu.. acusado de furto. O símbolo da ordem restaurada é um pênis gigantesco.149 diferenças raciais e minorias (Escravidão Hitler). Há um desfile das principais figuras que povoam o bordel: Bispo. Madame Irma.. O povo não pode viver sem seus ídolos: o cetro.. meu bem. Segundo as palavras do próprio Genet. é preciso voltar para casa onde tudo. sendo encenada em vários países. Enfim. amante de Madame Irma.. ah. exercem um fascínio poderoso sobre a multidão. Os biombos e O balcão. destacamos: As criadas. A representação da peça O balcão é um desafio para qualquer diretor de teatro. será ainda mais falso que aqui. por sua vez.. saiam.. Camus) ele consegue a liberdade e viaja por vários países.. Um dos sentidos possíveis é a inutilidade das revoluções.. A parada). a mitra. pela cultura. A galera.. que lhe proporcionou fama internacional. não duvidem. que desenvolve seus dotes literários. o líder da Revolução. generais. sentindo a necessidade de ser aquilo que os outros o julgavam ser. pelo beco. acender tudo de novo... e cubra os móveis. inclusive no Brasil. Pela intercessão de escritores famosos ( Sartre.. O Chefe de Polícia. por ser extremamente complexa quanto à forma e quanto ao sentido. ajuda os franceses a satisfazerem suas vontades: um se veste de Bispo e recebe a confissão de uma prostituta que. Que o mal venha a explodir sobre o palco. “Que o mal venha a explodir sobre o palco” Homossexual assumido e marginal consciente. especialmente negra e homossexual. Vivendo de mendicância.. a dramaturgia de Genet pode ser definida como um teatro de “duplos”: o espectador tem que ver. pois os homens podem mudar mas as instituições corruptas ficam. Juiz.. revoltosos que deixam a revolta congelar. bispos. Cocteau. Já é de manhã. Jean Genet (1910-1986) transforma sua vida em obra de arte. como ele próprio não sabe ou não quer se . onde fica até os 21 anos. Abandonado por sua mãe e entregue a um orfanato. será preciso recomeçar. ele assume o papel de marginal. outro quer ser um General e ter relações sexuais com uma moça do bordel que se deve transformar no seu cavalo preferido. Chantal é assassinada e Roger se entrega às fantasias do Grande Balcão. Daqui a pouco. se serve das prostitutas do Grande Balcão para obter informações sobre os planos dos revoltosos. Um canto de amor. “é a realidade que vocês têm diante de si que é uma ilusão e o que vocês captam em minha ficção teatral é a análise lúcida da sociedade apodrecida. preparar o de vocês...” Obra completamente aberta. GENET (dramaturgo francês) discriminadas pelo sexo. A leviana Chantal apaixona-se por Roger. de ensaios e de obras teatrais. há seres que exteriorizam seus desejos inconfessáveis.. Num cenário labiríntico. e age como contra-espiã. como numa imagem refletida num espelho. por sua vez escolhida como Rainha da Contra-Revolução. camareiros. pelo biótipo etc. juizes. Passem à direita.. Reajam e encontrem as soluções”. Tranque as portas. aos dez anos. transformando-se nos mitos em que a sociedade acredita. vou preparar meus trajes e os salões para amanhã. Entretanto. quer ser uma Madalena arrependida... A peça encerra-se com Irma apagando as luzes e dizendo que daqui a pouco tudo vai recomeçar: “Cármen.. que representa um requintado bordel.. General.. Vestir-se. castrando-se no recém-inaugurado Salão Funerário. a revolta é dominada. na personagem interpretada pelo ator o seu próprio ser.. sendo escolhida como símbolo revolucionário. pela cor.. Tanto é verdade que não existem duas encenações iguais. Agora. é recolhido a um reformatório. É na prisão. de narrativas ficcionais (Nossa Senhora das flores.

Auto da Índia). Esse fantasma reflete os outros fantasmas do convívio social como um jogo de máscaras. GÊNIO (genialidade)Inteligência GIL Vicente (teatrólogo português da Renascença) Em Portugal. A ação dramática tem a finalidade de evidenciar a grande verdade existencial da máscara social: o homem.6% de DNA. após a descoberta e os recentes estudos sobre o DNA. que leva a espécie do Homo Sapiens ao domínio sobre a natureza e à produção de obra de artes que desafiam o tempo. Duardos. Escreveu 46 peças. Acabou a crença na existência de super. a partir daí. cujas implicações para o conhecimento das características hereditárias dos homens e dos animais são ainda imprevisíveis. como já ensinara o sociólogo brasileiro Roberto Freyre. enquanto a personalidade autêntica de cada um de nós fica escondida. Anteriormente a ele. uma espécie de ampla “Comédia Humana” dos fins da Idade Média e princípios da Renascença. genital. Para os religiosos. GIOTTO (artista italiano da Idade Média)Pintura . A importância da genética está salientada no verbete Darwin. os animais da terra dos peixes do mar? A resposta se tornou mais complexa ainda. em 1933. Auto da alma. Hoje em dia. Evolução das Espécies) Darwin Do radical grego gen. passaram a seguir caminhos próprios. Quanto à diferença entre o homem e o macaco. Maria de Castela. Gil Vicente começou a introduzir o teatro regular na corte de D. O velho da horta. Manuel e D. a diferença reside na inteligência e no raciocínio da mente humana. aí estaria o dedo de Deus. gênero. o comediógrafo compôs uma única peça. gentílico etc. Monólogo do vaqueiro). a teoria mais moderna opina que as duas espécies se diferenciaram há 6 milhões de anos e. As diferenças entre os povos se devem mais a fatores ambientais e culturais do que a raciais. a espécie homem da mulher. de assuntos variados: religioso (Auto da fé. para os descrentes.raças e super. Tendo como modelo o dramaturgo espanhol Juan Del Encina. conhecido pela sigla DNA. pelo implante de células de uma ovelha de 6 anos no óvulo de outra. Como o Gênesis é o livro da Bíblia que trata da criação do mundo conforme a crença religiosa judaica e cristã. GENÉTICA (Genoma. implicando em problemas éticos. que possibilitou o mapeamento do gene humano nos anos 90. o código genético importa mais que a forma para determinar o agrupamento em gêneros e espécies. a arte dramática estava reduzida à representação de “mistérios” e “milagres” representados nas praças das igrejas e a “entremezes” (entreatos. amargurando uma triste solidão espiritual.150 ver. escravo do papel que é obrigado a representar no meio em que vive. Auto de Amadis de Gaula). com o intuito de obter rebanhos com uma maior concentração de proteínas. que faz a diferença entre o homem e o chimpanzé. Mais ainda.nações. pastoril (Auto pastoril castelhano e Auto pastoril português). nas línguas ocidentais se formou uma família de palavras: gene. que estuda a origem dos gêneros e das espécies. assunto de forte polêmica entre os geneticistas. Acima de qualquer polêmica. cada uma dessas peças ou “autos” representaria algo como uma das muitas sessões de arte cênica que criou para o gozo estético da fidalguia do tempo: parece que. em verdade. O feito escocês abre o caminho para a possibilidade da clonagem humana. genético. em 1997. que significa “raiz”. do ponto de vista científico. está condenado a usar uma imagem que não é a da sua verdadeira essência. é preciso ressaltar que o conhecimento da raiz biológica do homem está revolucionando a medicina e a farmacologia. dividida em quarenta e seis atos (= autos). geralmente constituídos de breves farsas) e “momos” (cenas de mímica). cavaleiresco (D. assim a Genética é o ramo da Biologia. “origem”. permitindo diagnosticar doença ainda no estado fetal e produzir novos remédios para a cura de patologias hereditárias. a ovelha Dolly tornou-se famosa por ser o primeiro clone de um mamífero. DNA. O que distingue o gênero humano dos animais. Inês Pereira. satírico (Quem tem farelos?. as origens do teatro estão ligadas à figura de Gil Vicente (1465-1536). No dizer de Massaud Moisés. quando saiu publicada sua obra Casa-Grande e Senzala. Trilogia das barcas. pois a ciência demonstra que pode haver mais semelhança entre o DNA de um sueco e de um africano do que de dois homens da raça branca. A engenharia genética iniciou em 1953 pela descoberta da forma helicoidal do ácido desoxirribonucléico. Resta muito a descobrir sobre o 0. que começam a modificar os critérios de classificação dos seres vivos. em português e em castelhano. antes predominantemente morfológicos.

botânica. encabeçada pelo governador. a quem contava a ridícula aventura que . comida e outras regalias. Enfim. sem contar as aventuras passageiras. neta de uma antiga amante. Maria Stuart. com Bettina Brentano. é a elaboração artística do mito deFausto. encontrou na estima do poeta Puchkin o apoio de que sua arte precisava. que encabeçou o movimento do Sturm und Drang ( Romantismo). medicina. Goethe sempre foi um elitista. épico e lírico. Seu protagonista tornou-se o protótipo do herói romântico. que o aliena do real. O capote é o primeiro conto imortal da literatura russa. narra o medo da administração de uma cidade interiorana à notícia da chegada de um inspetor. que almejou ter um filho com o velho poeta. consiste no esmagamento do indivíduo por um sistema social opressivo e degradante. Em Diário de um louco enfrenta o tema da esquizofrenia. segundo Gogol. que estava lá de passagem. de revolta contra a estética e o espírito do Classicismo. Talvez a sua característica mais romântica seja o seu alto grau de passionalidade. De caráter fraco e inseguro. Amou intensamente durante toda sua longa vida. então. também ele um grande dramaturgo (Os bandoleiros. O romance Almas mortas descreve o regime de servidão em que vivia o povo do seu país. Nasceu em Frankfurt. Ele se aproveita do equívoco e procura tirar vantagens da situação. em cinco atos. Guilherme Tell). foi também um exímio romancista e um excelente poeta lírico. Os corruptos e os incompetentes temem que a sindicância possa revelar suas mazelas. estimulando o estudo do folclore e encontrando nos mitos e nas lendas populares as origens da verdadeira cultura alemã. melancólico. pois a natureza diabólica. Sua obra propriamente dramática mais conhecida é O inspetor-geral. O hóspede do albergue é o jovem Khlestakov. A loucura é confundida com o demônio. demoníaco e angelical. romântico ou clássico? Goethe teve uma personalidade complexa e contraditória. Seu realismo foi interpretado como crítica à sociedade conservadora e ao absolutismo do regime czarista. apressase a corromper o forasteiro. de família burguesa. só consegue sentir-se importante num estado de alucinação. teve o primeiro caso de amor com Gretchen. Esta comédia. Gogol entrou numa profunda crise existencial. filósofo e literato. Nascido na Ucrânia começou sua produção literária descrevendo a miséria do povo da sua região através de pequenas narrativas. Aos quinze anos. exaltado e equilibrado.151 GOETHE (poeta alemão) Romantismo Fausto Todas as coisas são metáforas Johann Wolfgang Goethe (1749-1832) é o poeta nacional da Alemanha. GOGOL (dramaturgo e contista russo) “Todo o mundo recebeu o que merecia. O homem. que encontra no suicídio a solução do problema fundamental do homem romântico: a impossibilidade de adequar as aspirações ao absoluto do “eu” com as limitações da vida cotidiana. Outra amizade benéfica para Goethe foi a de Schiller. o primeiro grande escritor da União Soviética a ser conhecido além das fronteiras de seu País. (Czar Nicolau I) Nicolai Gogol (1809-1852) é considerado o pai da moderna literatura russa. pagão e devoto. inconformado. As atrocidades da Revolução Francesa também contribuíram para que seu espírito se afastasse cada vez mais dos ideais democráticos de vida e de arte. considerado por alguns críticos como o maior expoente do classicismo alemão. A classe dirigente. aos oitenta e um anos. moça mais velha do que ele. começando a detestar a arte romântica. drama inacabado. como a época a que pertenceu. pensando que o inspetor é um jovem hospedado no hotel da cidade. política e literatura em Estrasburgo. Teve uma dúzia de mulheres entre esposas e amantes. Ao mesmo tempo. No fundo. Este conto foi adaptado para o teatro francês e encenado também no Brasil. o último. E quando o amigo faleceu. onde conheceu Herder. Além de um grande poeta dramático. em troca da promessa de interceder na capital contra os impostos abusivos da administração local. O contato com as belezas artísticas e literárias do Classicismo equacionou sua concepção estética. Estudou Direito em Leipzig. Mas a obra que tornou Goethe mundialmente famoso. trágico e cômico. Dos comerciantes extorque dinheiro. além de Prometheus. oferecendo-lhe dinheiro. Mas uma carta endereçada a um amigo de Petersburgo. um modesto funcionário público de São Petersburgo. Eu mais do que o resto”. aceita também namorar a filha do governador e ainda tenta seduzir-lhe a esposa. que analisamos no verbete específico. refugiando-se no misticismo e deixando-se morrer de inédia. de que é vítima um humilde funcionário público. Além do dinheiro e dos presentes. homem doente. como Dante da Itália e Shakespeare da Inglaterra. O romance Os sofrimentos do jovem Werther teve larga repercussão internacional. Uma viagem à Itália fez com que Goethe arrefecesse seus arroubos românticos.

que suscitou e suscita polêmicas apaixonadas entre admiradores e denegridores. apresenta. o poeta espanhol encontra insuspeitados parentescos entre os objetos mais diferentes.. portanto. GOLDONI (comediógrafo italiano do Setecentos) Carlo Goldoni (1707-1793). mas também e principalmente o intuito de satirizar toda a estrutura social do governo absolutista da Rússia. segundo os cânones estéticos da Renascença. mientras con menosprecio en medio el llano mira tu blanca frente el lírio bello. transcendental. XVIII. en sombra. dando nome a uma nova escola poética. Se a lírica de Góngora. Góngora. de suscitar o riso. composta por poemas pequenos e metros curtos (letrillas e “romances’’). Luis de Góngora y Argote (1561-1627) é o maior poeta lírico do barroco europeu. A locandeira. o galo em “doméstico del Sol nuncio canoro”. que retratam ambientes sociais (A casa nova. el Sol relumbra en vano. O peculiar estilo poético de Góngora. harmonia de formas e racionalidade. em que o poeta espanhol descreve a vida cotidiana com fina ironia.152 estava vivendo. Sua produção literária divide-se em duas partes não separadas cronologicamente: uma lírica popular. oro bruñido. antes que lo que fue. cansado da brincadeira. pelo bucolismo e pela exploração de muitos temas e motivos clássicos.. é interceptada no correio e o equívoco é desfeito. em algumas passagens. até hermética. e comédias de costumes. labio y frente. Um curioso acidente. O governador e os outros dirigentes.se vuelva. en polvo. Eu mais do que o resto”. segundo os moldes clássicos e o exemplo de Molière. o mar em “úmido templo de Netuno”. en humo. que contrastam com a grande simplicidade formal do Classicismo. O casmurro benéfico). a grande maioria na língua toscana. cabello. .. A confeitaria). ainda revoltados pela trapaça sofrida e pelas ofensas contidas na carta. e do Barroco em geral. através de poemas longos em versos decassílabos. em que prevalece a representação de tipos humanos (O mentiroso. em busca de uma beleza absoluta e. teria exclamado: “Essa é uma peça e tanto! Todo o mundo recebeu o que merecia. Como exemplo de sua poesia. irreal: fábula de Polifemo y Galatea. Como se vê. extremamente culta e. en nada”. dela se distancia pelas sutilezas estilísticas. o maior dramaturgo da Itália do séc. de influência italiana. onde predominam as inversões e os anacolutos. ela não tem apenas a finalidade de entreter os espectadores. em que Góngora. enigmática. onde é retomado o tema horaciano (Horácio e Epicuro) do carpe diem (“aproveitar o momento presente”): Mientras por competir con tu cabello. depois de assistir a esta comédia. uma sintaxe complexa. aspira a um tipo de beleza diferente: oximórica. tentando reaproximar o teatro da realidade humana. revolucionando a linguagem poética da época. de origem autóctone. além de neologismos de origem greco-latina e de abundantes reminiscências mitológicas e bíblicas. Khlestakov. está ainda ligada à estética renascentista pelo uso da mitologia greco-romana. Escreveu cento e vinte comédias. trata-se de uma típica comédia de “equívocos” Diferentemente. cansado da concepção de beleza como clareza. já saíra da cidade. Sonetos. transformando as montanhas cobertas de neve em “gigantes de cristal”. e uma lírica aristocrática. comédias de caráter. Para produzir o efeito de estranhamento. expressão máxima do espírito da sociedade aristocrática do século XVII. algumas em dialeto vêneto. apresentamos seu mais famoso soneto. que caracteriza toda a lírica barroca. en tierra. A crítica goldoniana costuma distinguir três tipos de peças: comédias de entrecho. O leque). D. GÓNGORA (poeta espanhol)Barroco “Goza cuello. Conta-se que o czar Nicolau I. Mas é na construção das metáforas e no abundante uso das hipérboles que o gênio de Góngora se revelou melhor.. Soledades. da comédia clássica greco-romana e renascentista.. entretanto. o “gongorismo’’. reagiu contra os vulgares estereótipos da Comédia de Arte.. recebem a notícia da chegada do verdadeiro inspetor-geral. em que a comicidade reside na complicação da intriga (A viúva sabida. porém.. idealiza os sentimentos mais profundos do ser humano.

rosas se tornou até proverbial: a juventude é comparada metaforicamente a uma flor que se estraga se não for colhida no tempo apropriado. rompendo o paralelismo fônico. labio y frente. a descrição decrescente dos elementos corporais da amada (do cabelo ao pescoço). convém fazer referência a uma questão de edóctica. Encontramo-lo na poesia grega e na literatura em língua latina. O sujeito de ‘‘relumbra’’. cabello. no sólo en plata o viola truncada se vuelva. Optamos pelo texto da edição Aguilar porque nos parece mais lógico sintática e semanticamente. Com efeito. síguen más ojos que al clavel temprano. os lábios são mais vermelhos do que o cravo. encontra-se “al” Sol. As quatro orações subordinadas adverbiais temporais (duas em cada quadra) estabelecem comparações de superioridade entre elementos do corpo da amada e elementos da natureza: o cabelo é mais loiro do que a luz do Sol. lábio e fronte. apresentam uma exortação ao gozo da juventude antes que a idade madura ou a velhice façam murchar o fruto delicioso da mocidade. Em Góngora. A composição deste soneto de Góngora apresenta um único período sintático. clavel. cabelo. faz com que a alegria do gozo da juventude seja perturbada pelo sentimento da efemeridade da vida e da chegada irremediável da morte. em que se deu a “descrição” da beleza da amada. É visível aqui a influência da ideologia do Concílio de Trento (Contra ReformaLutero) sobre o grande poeta espanhol. e uma estrutura sintática paralelística. a fronte é mais branca do que o lírio. de uma beleza inigualável pela enumeração decrescente. en polvo. esse motivo tópico é revestido de peculiaridades estilísticas e ideológicas próprias do Barroco: o exagero do elemento metafórico (os cabelos da amada são mais luminosos do que a luz do sol. por cogello. Do ponto de vista do sentido. que nasceste do pó e em pó te converterás!”. descritos nas duas quadras anteriores: colo. na mesma quadra. é muito antigo na lírica ocidental. não seria “el Sol”. pois o tempo passa irreparavelmente. goza cuello. etc. no início do primeiro terceto. que vai do elemento mais sólido (terra) ao elemento imaterial (nada). Antes de analisarmos este soneto. é mais original do que a metáfora de uso do cabelo da mulher comparado ao brilho do ouro.153 mientras a cada labio. o pescoço é mais reluzente do que o cristal. a forma “el Sol” estabelece. Mas o que mais distingue este soneto de um poema renascentista é a velada presença da morte. en sombra. en humo. onde a expressão collige. o homem. que tudo aniquila. o cromatismo das palavras e o prestígio dos metais preciosos (a exaltação do ouro com relação à prata). passando por elementos aeriformes (fumo e pó) ou sem consistência alguma (sombra). As duas quadras revelam um mesmo campo fônico. . que compara o cabelo cor de ouro da amada com a luz do Sol.). pela qual o prazer se reveste de amargura. en nada. y mientras triunfa con desdén Lozano de el luciente cristal tu gentil cuello. pois todos os versos ímpares começam pelo advérbio temporal “mientras”. mas “oro bruñido”. mas tú y ello juntamente en tierra. existindo apenas um ponto final no término do poema. sintático e semântico das quadras. cristal luciente. virgo. a falta do artigo determinativo leva-nos a considerar “oro bruñido” mais como aposto de “cabello” do que como sujeito de “relumbra”. um paralelo sintático com “el lilio”. entendemos que a imagem poética. O último verso. Góngora traduz em linguagem poética a advertência contida na reza da Quarta-Feira de Cinzas: “lembra-te. “goza”. O tema do aproveitamento do momento presente. Em algumas edições gongorinas aparece uma variante no segundo verso da primeira quadra: em lugar de “el”. antes que lo que fue en tu edad dorada oro. O verbo da oração principal encontra-se lá em baixo. Além disso. lilio. Os dois tercetos. que é um imperativo exortativo. pelo mesmo esquema rímico ABBAABBA. dirigido aos quatro elementos do corpo da amada.

Filho de proletários. chega a um castelo onde recebe hospedagem. jorrado do costado aberto pela espada de um centurião romano. o termo foi usado para indicar o vaso de que se serviu Jesus na Última Ceia. se suicida trespassando seu corpo com a espada de Galaaz. que pode ser considerado o pai do realismo socialista. a observância da norma da distinção entre as classes sociais que não permite a união de uma jovem nobre e rica com um cavaleiro andante sem família e sem bens econômicos. conforme o costume medieval. símbolo da graça divina. não cede ao apelo erótico da moça e esta. Perceval e Boors. Após o triunfo da Revolução Bolchevique. Nas origens do Cristianismo. Após várias peripécias. mas também por narrativas biográficas (Recordações sobre Lênin. Memórias de Anton Tchekhov) e obras didáticas (Antologia de escritores proletários). esta espada. o principio da verossimilhança é um preceito quase exclusivo da estética clássica. ciclo cultural bretão) O nome “graal” vem do latim gradalis. Ainda jovem. que se revolta contra todos os valores ideológicos. Esta e outras contradições se explicam pelo caráter de oralidade das primitivas narrações. a proibição do relacionamento sexual fora do casamento. Galaaz encarna o código cultural da Idade Média: a consagração de sua alma e de seu corpo a Deus. Ora. a honra. A personagem da donzela. enfim. Colaborou fervorosamente para a divulgação e a consolidação dos ideais socialistas. que conta as aventuras dos cavaleiros em busca do vaso sagrado. não somente através de obras de ficção. escreveu dramas e narrativas. não tido em conta pela arte medieval. logo depois. romancista e dramaturgo. GÓTICO Medievalismo Arte GRAAL (A Demanda do Santo Graal: o mito do Rei Artur. Nele o discípulo José de Arimatéia teria guardado o sangue de Cristo na cruz. ela sequer teria a força física suficiente para fazer com que a espada lhe furasse o corpo inteiro. De noite. havendo vários contadores da mesma história. seja o episódio da "Tentação de Galaaz". ela penetra no quarto do jovem e se deita na cama junto dele. ideologia comunista)Marx Após a Revolução Soviética de 1917. onde representa o sofrimento do proletariado. Por esta sua postura de intelectual participante. quando ocorreu a unificação dos povos anglos e saxões e se introduziu o Cristianismo na Inglaterra. e participou de movimentos revolucionários estudantis. Fundamental é o fator ideológico. se encontra no quarto onde o jovem está dormindo e é usada pela moça. ao redor do séc. a virgindade. este vaso teria chegado a Grã-Bretanha. tornando-se o expoente máximo da intelectualidade comunista. durante uma de suas andanças. a gratidão pela hospedagem recebida.154 GORKI (romancista e dramaturgo russo. conforme lendas do ciclo “bretão”. é Máximo Gorki (1868-1936). De outro lado. Gorki foi perseguido e várias vezes aprisionado. Do ponto de vista estrutural. Mas. que era o vaso em que se colocavam os alimentos. uma "fremosa donzela" de 15 anos. a preferência da castidade à satisfação amorosa. na infância e na juventude conheceu a miséria de sua família e da grande massa do povo russo escravizada pelo imperialismo czarista. a mais famosa é o romance de cavalaria A Demanda do Santo Graal. sem que Galaaz sequer suspeite de ser o objeto do desejo da mocinha. sendo libertado pela intervenção de escritores influentes ( Tolstoi e Tchekhov). Mas Galaaz. poderíamos notar vários elementos de inverossimilhança neste episódio da Demanda. Talvez o texto mais expressivo desta saga romanesca. a honestidade. Mais importante é ressaltar a inverossimilhança psicológica da personagem feminina: tamanha audácia amorosa não é admissível numa jovem de apenas quinze anos. que tinha feito voto de castidade. na entrada do castelo.V. que são os principais valores do homem medieval. onde melhor aparecem os valores ideológicos do Medievalismo. O herói. conforme seu peso. O herói. que apresenta o choque entre os dois códigos antitéticos do ser humano: natureza versus cultura. de camisola. do peito as costas. o martírio do corpo. apaixona-se pelo cavaleiro à primeira vista e perdidamente. em . de forma “gradual”. A filha do dono do castelo. que é a salvação da própria alma. na corte do lendário rei Artur e de seus Cavaleiros da Távola Redonda. sentindo-se rejeitada. O maior escritor russo. exigiram dos intelectuais da época sua colaboração para a formação da ideologia socialista na União Soviética. o todo-poderoso e autoritário dono do castelo. os dirigentes do partido comunista russo. pelo contrário. passou a ser considerado por Lênin herói nacional. o respeito à vontade do pai da moça. representa o código oposto: a força do instinto da natureza. Entre as várias histórias fantásticas que se inventaram acerca do rei Artur e dos heróis castos Galaaz. como se sabe. Organizou também associações e revistas literárias para divulgar o ideal marxista. especialmente Stalin. é obrigado a deixar sua espada na casa das armas. em vista de atingir o bem supremo.

A temática da opressão e da tirania encontrase nos seus principais romances: Infância (tirania paterna). ser idealizado e objeto de um amor apenas platônico. de classe média. que afastava dos bens de consumo a grande massa do povo. sendo o monte Parnaso considerado o refúgio dos poetas e tendo a seus pés Delfos. O personagem de ficção (que geralmente é um homólogo do ser real) da Idade Média ou é um ser angélico ou um ser diabólico e. O impulso erótico dessa moça de apenas quinze anos e educada no ambiente fechado do castelo é tão violento que a leva a quebrar todas as barreiras sociais. Angústia (a degradação moral vista como uma força fatídica que leva o homem ao crime e ao suicídio). O labor literário era considerado por ele uma arma para lutar contra a angústia existencial causada pelo meio físico e hostil e pelo sistema social injusto e competitivo. GRÉCIA (Atenas: o berço da cultura ocidental)Helenismo Distinta da Grécia moderna. A capital desta região. O território grego era composto de uma parte continental. porém. a princesa Genebra. pelo teatro. tendo referências simbólicas ao sagrado feminino. morais e religiosas. O cinema produziu muitos filmes de aventuras. o que lhe causou a acusação de subversivo e a humilhante prisão de quase um ano (1936-1937). Jorge Amado e outros). A tradução em língua portuguesa saiu em 2004. O que impressiona é a irredutibilidade desses dois princípios. Bulgária e Macedônia. Se cotejar a caracterização dessa personagem de A demanda do Santo Graal com a configuração da dama angelical. podemos verificar como o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo estão igualmente presentes na estética e na prática de vida medieval. era a cidade de Atenas. O segredo milenar. com o título O Único e Eterno Rei. centrados sobre episódios e personagens do ciclo cultural da Bretanha: o rei Artur. de autoria de T. o amante Lancelot. o mago Merlin. ela encontra na morte violenta a solução de sua angústia existencial. cujos sacerdotes emitiam oráculos. teria sido guardado sigilosamente pelos Templários no séc. raras vezes se apresenta como um ser “humano” no sentido mais profundo do termo. visto que na psicologia humana o id e o superego (Freud) sofrem vitórias e derrotas alternadas. a Grécia Antiga. acusar momentos de fraqueza e momentos de heroísmo. aderir á moda do experimentalismo formal de uns ou da temática populista de outros. Raquel de Queirós. Outra parte era peninsular: o Peloponeso. com o título A Espada na Pedra. Caetés (tirania do meio provinciano). chamada Ática. O compositor alemão Wagner tratou do assunto na Ópera lírica Parsifal. sendo utilizada também por artistas plásticos. praticou jornalismo e política.H. sem. portanto. não significaria um cálice. O grande prosador alagoano. começou a ser publicada uma série de cinco volumes. E. da poesia trovadoresca e da escola do "doce estilo novo" (Petrarca). Vidas secas (tirania do meio agreste). A lenda do Santo Graal. a espada mágica Excalibur. considerada o berço da civilização de todo o Ocidente. mais montanhosa. A saga do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda foi fonte de inspiração para muitas obras literárias e cinematográficas. Nesta obra. pela dança. deixando transparecer sua simpatia para com os movimentos esquerdistas. Seu compromisso de homem e de literato sempre foi a denúncia das estruturas sociais opressivas e da miséria do homem do campo. recentemente. ter vícios e virtudes. instigante e polémica. chamada de Hélade. enfim nunca ser totalmente anjo ou totalmente demônio. a cidade consagrada ao deus Apolo. Osman Lins. a palavra “Santo Graal”. mas o conjunto dos documentos que revelariam uma suposta relação amorosa entre Jesus Cristo e Maria Madalena. Esta parte continental da Grécia fazia limite com Albânia. pela ópera lírica. que leva à prática da doutrina maniqueísta do dualismo cósmico. A partir dos anos 30. foi reinterpretada pelo ficcionista norte-americano Dan Brown no seu best seller O Código Da Vinci ( Leonardo). era uma grande região do sudeste da Europa.155 nome da satisfação de seus desejos carnais. GRACILIANO Ramos (romancista brasileiro) Graciliano Ramos (1892-1953) conviveu com o grupo de escritores da vanguarda literária nordestina (José Lins do Rego. XI e pelo Priorado de Sião. da qual Leonardo da Vinci teria sido membro. quando percebe que seus esforços para obrigar Galaaz a fazer dela uma mulher sexualmente satisfeita são inúteis. São Bernardo (tirania do senhor da terra e do marido). Memórias do cárcere (tirania policial). com cidades . Porque ser humano é sentir-se feito de carne e de espírito. pela etimologia francesa Sangreal.White. sociedade secreta renascentista.

a cidade de Atenas. Literatura. composta por uma constelação de ilhas esparsas ao longo dos mares jônico. ática. era a cidade principal da Ática. egeu e mediterrâneo. descendo das planícies da Rússia e da Polônia. gozou de meio século de paz.C. cidade governada por um homem poderoso. Nos dois poemas atribuídos a Homero (Ilíada e Odisséia). outra tribo da Grécia central. os gregos são chamados de aqueos. nunca houve um poder centralizador. amantes de pilhagens. ao longo da sua história antiga e moderna. V a. Argos e Micenas. Várias tribos gregas formaram a Confederação Acaia para manter o domínio do mar Egeu. Arquitetura. Aqui. O próprio nome política vem de polis. argivos ou dânaos. sem o poder de interferir na organização política e social de outras cidades. pátria etc. assimilar a civilização minóica que reinava nas terras banhadas pelo mar Egeu. Mas falar de “Império” com relação ao povo grego é uma impropriedade. começou a invadir a Grécia central e insular. referentes às diferentes épocas e às várias áreas do conhecimento humanístico: Mitologia. Estes aqueus. cujo centro cultural era a ilha de Creta. chegando ao seu apogeu no século V. franceses.156 importantes como Esparta. na época das Grandes Navegações e Descobertas Marítimas. que exercia a função de governante ou rei (basileus). odes (de assuntos variados: amor. pois. quando se dá a passagem da oralidade para a escrita. na época clássica. dando origem à chamada “talassocracia” (o império marítimo). durante a pré-história da Grécia. os traços da civilização grega clássica. Creta e Rodes. criadores de cavalos. do étimo Athínai. Dança . emigraram para o litoral da Ásia Menor. clássico e helenístico. Enfim. depois das famosas Batalhas de Maratona (490 a. Atenas. após a decadência de Atenas.. Teve seu esplendor máximo no séc.C. de civilização muito refinada. barbudos. Escultura. deslocando-se o eixo civilizacional da Grécia insular para a peninsular. a poesia didática de Hesíodo e os fragmentos de poesia lírica de Safo e de outros poetas que escreveram elegias (cantos saudosos). Muitos aqueus. será a parte continental da Grécia a conseguir a hegemonia: nos fins do século XII. os mitos religiosos. ligadas ao continente pelo istmo de Corinto. transmitidos pela tradição oral. Roma (na Itália e nas colônias do Império Romano do Ocidente). povo de raça indoeuropéia que. Samos. foram-se moldando. de Péricles ou de Atenas) corresponde ao período mais importante da cultura grega quando. a Magna Grécia (no Mediterrâneo). Seu nome (com o acréscimo distintivo do “s”) é o mesmo da divindade Atena. O domínio dos aqueus sobre os cretenses provocou a passagem gradativa da civilização minóica para a micênica. 1) A fase arcaica ou das origens vai do séc VIII ao V. a Europa renascentista e as regiões colonizadas por italianos. descritos como loiros. que vai do século XI ao VIII. A falta de união e a dispersão territorial eram compensadas pelo uso da mesma língua. pelos mesmos costumes e pela mesma crença nas divindades. ao redor do ano 1400). procuraram dominar e. neta do último Minos). Constantinopla (Império Romano do Oriente). a invasão dórica . quando foi instituído o regime democrático e foram criados os fundamentos da cultura no Ocidente. provocando a famosa Guerra de Tróia. Filosofia. ao redor do ano 2000. ladrões de mulheres. cujas cidades mais florescentes foram Corinto. as lendas populares e os ensinamentos de vida. Testemunhas desta cultura primitiva são os dois poemas épicos atribuídos a Homero (Ilíada e Odisséia).C. portugueses. progressivamente. a romana Minerva. sendo as mais importantes Lesbos. ao mesmo tempo. Teatro. começam a ser escritos por letrados. . pastores de bois e de carneiros. 2) A fase clássica (áurea. a quem a cidade fora consagrada. A incalculável influência da cultura grega no desenvolvimento dos povos ocidentais está tratada em verbetes específicos. Alexandria (no Egito). epitalâmios (sobre a vida nupcial). o período chamado de “Idade Média Helênca”. espanhóis. então. holandeses e ingleses. epinícios (celebração de vitórias esportivas). apresentamos apenas um esboço da divisão tradicional da cultura grega em três períodos: arcaico. a região mais importante da Grécia continental.). Pintura. uma parte insular. quando apareceram os primeiros documentos escritos.). Assim. Tirinto e a própria Micenas.) e de Salamina (480 a. Os cantos heróicos. Os centros irradiadores da cultura helenística. esconjurado o perigo da invasão persiana. pôs fim ao domínio de Micenas. Música. ora através de pactos amistosos (o lendário casamento do chefe aqueu Atreu com Érope. sucessivamente. Mais tarde. ora através da força bruta (saque de Cnossos. mas escolhido democraticamente por todos os cidadãos. passaram a ser. nas várias áreas do conhecimento. especialmente durante o governo de Péricles. centro da cultura bizantina ( Helenismo) e otomana.

outras atividades humanas alcançam seu ponto alto de expressão. da filosofia e da história. GREGORIANO (Música. Os mais importantes para a cultura ocidental foram São Gregório I. também chamado de canto gregoriano. além da literatura. que apresentam modelos acabados de beleza estética. Para os romanos. música composta sobre textos litúrgicos latinos. X. Calendário) O termo “gregoriano” está relacionado a vários santos e papas homônimos. quando houve a separação entre o Império Romano do Ocidente e do Oriente. Assim. A poesia lírica. que se tornou a segunda capital cultural do mundo ocidental. Em 1834. A Comédia "antiga”. passou a ser o centro do império cristão greco-oriental. Parténon. Por vários séculos. e a "nova". Este canto tradicional do Catolicismo é pura melodia. pórtico das Êumenes). especialmente com Píndaro e Safo. deu nome a uma nova cidade. com o nome de Constantinopla. . no Egito. que tem na cidade de Atenas seu centro propulsor. e o declínio se acentuou com a derrota de Queronéia (338). então já cristianizado. tendo 28 dias. sucessivamente. deus da guerra e fevereiro era o último mês do ano. leve sátira dos costumes da época. o ano começava em março. Veja-se a tríade dos autores trágicos: Ésquilo. com a vitória final da cidade rival Esparta. física. colônia grega no Bósforo que. consegue expressar em forma de arte os mais nobres sentimentos humanos. o porto do Pireu e o passeio pelas Ilhas maravilhosas dos vários mares. após a guerra da independência. Tucídides e Xenofonte seus principais cultores. Os dois foram papas. instituindo o “cantochão”. se lançam as bases da pesquisa científica. Esta é a época da maturidade do espírito grego.C. existia o calendário “juliano”. Hoje em dia. imposto pela divindade. o Grande (540-604). por isso é o mais curto. sob o nome atual de Istambul. O primeiro se tornou famoso pela reorganização disciplinar e litúrgica da Igreja Romana. praça da Ágora. tornando-se a capital do reino da Grécia moderna. Odeon de Péricles. fevereiro tem 29 dias. de Marte. ofuscada pela cultura bizantina. Já o nome do papa Gregório XIII está ligado à reforma do calendário. de Aristófanes. e o livre arbítrio a que aspira o ser humano. com exceção de quando é bissexto: de quatro em quatro anos. É neste período que o gênio ático produz os fundamentos da civilização ocidental. violento ataque político e social. pois sua região arqueológica (Acrópole. homofônica e de ritmo livre. 3) A fase helenística: o domínio de Atenas começou a enfraquecer após a guerra do Peloponeso (431-404). é o gênero literário mais indicado para a crítica social. especialmente durante o governo democrático de Péricles (469-429 a. Alexandria. suplantando a fase de superstição e de empiria.C. tem a função de suplantar a crença mítica pelo pensamento reflexivo. são visitados constantemente. cultivada especialmente pela outra tríade (Sócrates. pois os imperadores romanos Júlio César e César Augusto foram homenageados. a função de divulgar o helenismo. através de uma gama imensa de realizações culturais. e Gregório XIII (1502-1585). A Retórica se constitui em gênero literário pela eloqüência política de Demóstenes que. matemática. que era tocada nos cultos católicos durante a Baixa Idade Média (Medievalismo). escultura e pintura). e nas ciências naturais (astronomia. Alexandre o Grande. tenta precaver os gregos contra os perigos da hegemonia da Macedônia A História tem em Heródoto.). A Filosofia. que circundam a cidade de Atenas. herdeiro do Império Romano do Oriente e. Sófocles e Eurípides. nas artes plásticas ( arquitetura. que sucedeu à fase primitiva de Homero e Hesíodo impregnada da crença ingênua na intervenção do sobrenatural na vida humana. chegando ao apogeu no séc. mesmo nos períodos helenístico e romano (os latinos ocuparam Atenas no ano de 196 a. Mas Atenas continuou a irradiar cultura. quando foi dominada por Felipe II.157 tornando-se o centro político e cultural da Grécia. medicina) onde. de Menandro. monarca da Macedônia. Apenas no século IV da nossa era. da família Júlia. sugerida pela articulação das palavras em seus acentos tônicos. A Tragédia retoma os mitos fixados pela poesia épica e evidencia o conflito entre o destino (Fado).). em suas Filípicas. acontecida em 1582. O filho deste. emprestando seus nomes a dois meses: julho (de Júlio) e agosto (de Augustus). Nesta época de apogeu da civilização grega. Antes. Atenas foi dominada pelo poderio turcomuçulmano. Atenas vive especialmente do turismo. foi assumida por Bizâncio. Canto. Platão e Aristóteles). teatro de Dionísio. A explicação científica é que a translação (o movimento da terra ao redor do Sol) ocorre ao longo de 365 dias e seis horas. capital do Império Otomano. templo de Hefesto. A partir de 1456. conseguiu sua emancipação. a cidade de Atenas levou uma vida precária.

estabelece um nexo intrínseco e necessário entre significante e significado. por expressar toda a epicidade e a poeticidade do homem sertanejo.) até à dominação romana (31 a. onde a religião cristã tem seus adeptos. que se estende da perda da independência da Grécia até à queda do Império Romano do Oriente. enquanto o ano litúrgico tem início variável. historicamente. que domina toda a obra ficcional de Guimarães Rosa. helênico é igual a grego. mas criador de realidades.C). o jagunço Riobaldo e o rapaz/moça Diadorim. indicando o início e o fim. o senhor sabe: tudo incerto. que domina durante o período áureo e imperial da cultura latina. que vai da conquista da Grécia e do Oriente Médio (Irã. durante o período clássico da Grécia. elevando o sertão mineiro à categoria do universal. HEDONISMO (o prazer. GUERRA (o instinto humano da violência levado ao paroxismo)Marte GUIMARÃES Rosa (ficcionista mineiro) Sertão é isto. assim como falado pelos sertanejos mineiros. imagens metafóricas. até à queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C). o tormento de paixões inconfessáveis. pois o nome da Grécia Antiga era Hélade. a semana é mais importante do que o mês para a contagem do tempo. em primeiro lugar)Epicuro HEGEL (filósofo alemão) Idealismo HEIDEGGER (filósofo alemão)Existencialismo HELENA (causa mítica da Guerra de Tróia)Ilíada HELENISMO (difusão cultural)Grécia AlexandriaRoma Num sentido geral. o autor trabalha esse material. na medida em que composto de palavras-signos de realidades. V. onomatopéias. na divisão da cultura grega em vários períodos. o presente e o passado). O discurso de Guimarães Rosa não é referencial. médico e diplomata mineiro. estendendo-se durante a vigência do Império Romano do Ocidente e do Oriente (de 395 a 1453) e que perdura até hoje. aparecendo em primeiro plano no relacionamento amoroso entre os protagonistas de Grande sertão: veredas. É a fase da “divulgação” da produção artística produzida nos séc. a coexistência do mal e do bem.C. Tendo por base o português arcaico. desvios sintáticos). os dias da semana coincidissem sempre com os mesmos dias dos meses. A rivalidade entre coronéis e seus bandos de jagunços pela posse de territórios e pelo mando sobre povoados. tudo certo João Guimarães Rosa (1908-1967). elipses. Egito e toda a bacia do Mediterrâneo) pelo imperador macedônico Alexandre o Grande (+323 a. Em suas coletâneas de contos ( Sagarana. distinguindose várias épocas: 1) Helenismo alexandrino. do ano 313). Turquestão. pois depende da lua cheia do mês judaico de “nisan” que corresponde. Para o povo judeu. velhas devotas etc. neologismos. com o dúplice efeito de expressar o que se passa no subconsciente dos personagens e de obrigar o destinatário a refletir sobre as palavras lidas e os problemas da existência humana. são linhas de força que criam um campo de ambigüidade. que inicia a partir da liberdade de culto concedida pelo imperador Constantino (Edito de Milão. operou a renovação da abúlica narrativa “regionalista” tradicional. o ano civil começa em janeiro (januarius. o helenismo seria a fase pós-clássica.) se encontram representados em suas lutas pela sobrevivência e pela afirmação de indivíduos ou de grupos sociais. ao mês de abril do calendário romano. daí a dificuldade de integrar as semanas com os meses de forma que. jagunços. Corpo de baile. prostitutas. Alexandria está entre Atenas e Roma na difusão da cultura grega. lançando mão de todos os recursos da linguagem poética (aliterações. pois . Notável é ainda que o mundo sertanejo é representado por uma linguagem altamente poética. os personagens que povoam o sertão brasileiro (coronéis. quando acontece a Páscoa. comparações ousadas.158 Atualmente. ativando constantemente a função poética da linguagem. aproximadamente. peões. pois. oxímoros. a tradição do passado e as incertezas do futuro. em todos os anos. a crença nas forças demoníacas e a fé em Deus. o deus latino de duas faces. o volumoso romance Grande sertão: veredas. 2) Helenismo romano. Tutaméia. de Jano. elementos rítmicos. Primeiras estórias) e na obra-prima. A semana bíblica é intocável. moças de família. Mas. anacolutos. 3) Helenismo cristão.

até a proclamação da Republica da Turquia. que vigorou durante o império cristão greco-oriental. está impregnado da cultura greco-romana. Mas não foi sempre tão “macho” assim! O mito narra que Hércules. a antiga colônia grega. Após diversas proezas. na ausência de retórica no seu discurso poético. estendendo-se pelos Bálcãs. Hércules. Para expiar este crime. O estilo jornalístico faz-se sentir nas frases curtas. tornou-se a capital do Império Otomano. durante os três anos que foi escravo da rainha Ônfale. a luta do homem e do animal nas touradas (Morte na tarde). casou-se com Mégara.159 o Cristianismo (Cristo). 8) domar os cavalos de Diomedes. Participou da expedição dos Argonautas. a partir do séc. 4) capturar o javali de Erimanto. que separa a Turquia asiática da parte européia. 5) abater as aves do lago Estinfális. sustentadas pelo gigante Atlas. as duas profissões influenciando-se reciprocamente. no séc. que estabeleciam o fim do mundo antigamente conhecido. Aos 18 anos. A cultura bizantina se irradiou pela bacia do Mediterrâneo. estrangulou as cobras com as mãos. que sucedeu ao Império Romano do Oriente. gente e não personagem. Mais uma vez. filha de Creonte. rei de Tebas. a impotência do regressado em se readaptar às convenções familiares e sociais (O lar do soldado). a vingança de Juno se fez presente: Hércules. Mas Hércules. a ponto de o adjetivo “bizantino” se vulgarizar para indicar um requinte excessivo nas discussões teológicas ou nas formas artísticas. 12) acorrentar o cão Cérbero.VII a. irmã e esposa de Júpiter)Juno HÉRCULES (Héracles grego: a personificação da força.C. para vingar-se da traição do marido com a concubina Íole. fez outras façanhas.. fundada por helenos provenientes de Megara e Argos. quase telegráficas. matou um leão que assolava os rebanhos no monte Citerão. Igreja Ortodoxa ). 6) limpar as cavalariças do rei Áugias. Sua ultima esposa foi Dejanira que. 10) capturar os bois de Gerião. armado de sua clava. envia duas serpentes para devorar o bebê de oito meses. acabou matando esposa e filhos. sucessivamente. Protestantismo {Lutero}. Libertou Prometeu. já demonstrando para que veio ao mundo. que marca a herança do imperador romano Constantino. no estreito do Bósforo. Os sentimentos humanos mais poderosos são expressos por diálogos rápidos e envolventes. 7) capturar o touro de Minos em Creta. pois a cada cabeça cortada nasciam duas). “Istambul”. a esposa de Júpiter (Zeus). caracterizado por uma sutileza extrema. tendo um estilo próprio. A ciumenta Juno (a Hera grega). que é uma caricatura Ernest Hemingway (1898-1961) dividiu sua vida entre jornalismo e literatura. 4) Helenismo bizantino. além destes Doze Trabalhos. quando Ancara passou a ser a capital. denominação atual: arrasada pelos cruzados em 1204 e tomada pelos turcos em 1453. 9) apoderar-se do cinturão da amazona Hipólita. Hércules nasceu de uma relação híbrida de Júpiter com a princesa Alcmena. tomando a feição do marido Anfitrião. Síria e Egito. 11) colher os frutos de ouro do jardim das Hespérides. Ásia Menor. usando roupas de mulher e manejando a roca.IV . Separou os rochedos de Gibraltar (perto da costa hispânica) e de Ceuta (perto do litoral africano). com a qual passou uma tórrida noite de amor. formando as famosas “Colunas de Hércules”. fez com que Hércules . que a lenda chamou de os doze trabalhos de Hércules: 1) matar o leão de Neméia. a ditadura nazi-fascista e a Guerra Civil Espanhola (Por quem os sinos dobram). na falta de subordinação e na parcimônia da adjetivação. filha do rei de Micenas. por vingança. precisou superar várias provas. A temática de seus romances está diretamente relacionada com suas experiências de vida: os horrores da Primeira Guerra Mundial (Adeus às armas). HERA (nome grego da rainha do Olimpo. A história da civilização bizantina está intimamente relacionada com os três nomes que. “Constantinopla”. 2) matar a hidra de Lerna (o trabalho mais desgastante. os 12 Trabalhos) Segundo o mito. acorrentado ao monte Cáucaso. passaram a denominar a capital do vasto império: “Bizâncio”. 3) capturar a corsa cerinita. Este episódio encontra-se encenado magistralmente pelo escritor latino Plauto numa comédia que leva por título o nome do esposo traído. sendo recompensado com o amor das 50 filhas de Téspio. enlouquecido por artimanhas da deusa. deixou-se por ela dominar até se efeminar. em 1923. o Grande. em seus diferentes credos (Catolicismo. HEMINGWAY (romancista norte-americano) Um escritor deve criar gente real.

atribuindo-lhes onipotência. Mercúrio exerce a função de transmissor das ordens de Júpiter e dos recados dos outros deuses.C. de mensageiro. foi venerado como protetor do comércio. representado com corpo humano e cabeça de íbis ou de cão (cinocéfalo). de enganador com palavras e de hábil comerciante. Na poesia épica. A figura de . Os gregos da entrada da nossa era identificaram Mercúrio com o deus egípcio Thot. aquele que dissipa as nuvens do espírito. vende e desvenda Conforme a versão do mito mais conhecida. conseguiu o amor de Vênus (com quem gerou Hermafrodito. viajando constantemente do Olimpo para a Terra e vice-versa. O filósofo Platão. da Comunicação e da Interpretação) Sob as asas de Mercúrio. É o deus da prosperidade econômica. Reboou um trovão imenso e o herói foi elevado ao Olimpo. o deus da magia. diz que o nome de Hermes está ligado etimologicamente ao nome grego hermeneus (“intérprete”). origem das palavras românicas “hermenêutica” e “hermético”. O adjetivo “hercúleo” se incorporou ao dicionário panromânico como símbolo da força sobre-humana. tirou vários deuses de situações embaraçosas. Boccaccio (Genealogia dos Deuses) vê nele o intérprete dos segredos. o juiz que pesava as almas dos mortos. Hércules. teosofia. dos viajantes e dos esportistas. é este Mensageiro divino que coloca no seio da primeira mulher o sêmen da mentira e do engano para atormentar a vida do homem. através das representações folclóricas mais variadas. ao longo de uma tradição cultural. do lucro e das viagens. coloca a “dialética” na esfera de Mercúrio. O poeta Dante Alighieri (Divina Comédia). transporta. denominado “Hermes Trimegisto” (três vezes grande). d. onde fez as pazes com Juno. especialmente a lenda de seus Doze Trabalhos. Para esta simbiose da mitologia grega com a egípcia e da divindade com a humanidade (o “deus escritor”) contribuiu muito o advento do “evemerismo”. Júpiter o escolheu como mensageiro dos deuses do Olimpo. Desde a mais tenra idade. Por essas suas qualidades. todas essas atividades relacionam-se com o poder do discurso”. rouba. alquimia. considerado o inventor da escrita. Petrarca fala do mensageiro divino no seu poema épico África. o filósofo grego Evêmero (340-260) expunha a tese de que os deuses são apenas homens importantes que o temor e a ignorância colocaram num pedestal. desesperado de dor. vende. foi objeto de muitas obras iconográficas (pinturas e esculturas). o pintor Botticelli retrata o deus pagão no seu famoso quadro La Primavera. ao poder da exegese. oculta. Literalmente: “(o nome Hermes) parece relacionar-se com o discurso (logos). No mito de Pandora (Prometeu). teatrais e cinematográficas. Hermes é filho de Júpiter e de Maia. de desenvolto no furto. HERMAFRODITO (ser bissexuado)Andrógino HERMES (“Mercúrio” em Roma. tecendo um paralelo entre os planetas e as sete artes liberais. paralelamente a esta faceta “clássica” do mito de Hermes-Mercúrio. A este Thot-Mercúrio são atribuídos vários livros que tratam de astrologia. filha do gigante Atlas e da deusa Plêione. revela o sentido oculto das coisas. narrativas. Mercúrio deu mostras de grande astúcia e habilidade para fazer trapaças: saiu das faixas que o envolviam quando bebê e foi roubar os rebanhos de Apolo. Quase contemporâneo de Platão. às artes mágicas. deus do Comércio. o mito de Hermes se encontra citado nos maiores artistas italianos. Na Idade Média cristã. trapaça. e agrupados sob o título geral de Corpus hermeticum. Ajudou o pai Júpiter na luta contra os Gigantes. atribui a Mercúrio qualidades relacionadas entre si: ele perscruta. ser bissexuadoAndrógino). as características de intérprete (hermeneus). surgiram inúmeras variantes que ligam a figura do deus à alquimia. ao longo da cultura ocidental. de outras deusas e de mulheres mortais. datados a partir do II séc.160 vestisse uma túnica feita com filtro mágico que se colou à pele do herói. queimando-a como fogo. conforme a narração do poeta Hesíodo. uma das sete plêiades ou atlântidas. abrindo as nuvens para clarear a atmosfera. o homem rouba. que lhe deu como esposa sua própria filha Hebe. no diálogo Crátilo. O imaginário culto e popular. subiu ao monte Eta e se lançou numa grande pira.. Mas. deusa da eterna juventude e dos trabalhos domésticos. esoterismo. O mito de Hércules. Representado com asas nos pés e com uma bolsa na mão.

Os Vedas. da nossa Bíblia. Conforme a mitologia grega. o espírito tomava forma humana alada.161 Hermes serve também como ligação entre a cultura greco-romana e a consciência muçulmana. Nasceu na Beócia. para que a cobrisse por todo e fosse para sempre a mansão segura dos deuses bem-aventurados. com o seu tamanho. ligado a povos inclinados para o comércio e a mobilidade. A Terra gerou primeiro o Céu constelado. A transcrição do seguinte trecho serve melhor do que qualquer comentário para sentirmos o sabor da obra: “Primeiro que tudo houve o Caos. a atividade artística preocupada com o ensinamento da realidade cotidiana. Gerou ainda as altas montanhas. correspondente ao deus latino Sono. era Filho da Noite. suporte inabalável de tudo quanto existe. por sua vez. 2) Preceitos sobre a agricultura e a navegação. ele é um deus “intermediário”. Sonho. ora é madrasta. com . Perses que. e aparecia em seus sonhos. HESÍODO (escritor grego do período arcaico: poesia didática) Um dia. O motivo fundamental que percorre o poema todo é a existência da dor no mundo (mito da passagem da Idade de Ouro para a Idade de Ferro). Idris-Hermes é chamado de “Triplo Sábio”. se apoderou também da parte pertencente a Hesíodo. a hipnose é um estado artificial de dormência provocado por sugestão. sendo um “profeta sem rosto”. domina o espírito e a vontade esclarecida. Seu discípulo Sigmund Freud. irmão gêmeo da Morte (Tânatos) e pai de Morfeu. como o Trimegisto egípcio. filho de um comerciante marítimo. Brahma. mas sua identidade é inapreensível. Mas. Enfim. judeu ou árabe. tratado mitológico sobre as origens dos deuses e do mundo. depois de ter dissipado a sua parte da herança paterna. O tratado está dividido em quatro partes: 1) Exortação ao trabalho. e da Noite. Hesíodo é um dos primeiros poetas da Grécia Antiga de que temos traços biográficos historicamente comprovados. egípcio.. Hermes é uma configuração semítica: fenício. corrompendo os juízes. num primeiro momento. Do mito para a ciência. cujo cheiro fazia os homens adormecerem. Hipnos. no século VII a. No começo da “hégira” (a era maometana). mais do que grego. Sono. com uma papoula na mão. Gandhi)Buda HIPNOS (Morfeu. O nome morfeu em grego significa “forma”. que habitam os montes cercados de vales”. Teve um irmão. historiadores e hagiógrafos identificam o deus grego com Idris do Corão. Hipnose)Tânatos. mas essa dor pode ser mitigada pela prática do trabalho e da justiça entre os homens. que amolece os membros e. distinguindo as convulsões histéricas das que ocorrem nos ataques epilépticos. Do Caos nasceram o Érebo e a negra Noite. dedicando o longo poema ao próprio irmão. no peito de todos os homens e deuses. onde exalta a importância do sentimento da justiça e do trabalho. Ele foi o maior expoente da poesia “didática”. O poeta faz referência a esse episódio de sua vida na obra que o tornou imortal.C. 4) Calendário sobre os dias bons e os dias ruins para o cultivo da terra. morada aprazível das deusas Ninfas. tentou tratar a histeria com a hipnose. ora é mãe. também se serviu da hipnose e da interpretação dos sonhos para conseguir o efeito terapêutico da catarse. o mais belo entre os deuses imortais. especialmente da vida campesina.3) Preceitos sobre a vida moral. Os trabalhos e os dias. e depois a Terra de peito ingente. e Eros. semelhante ao livro Gênese. indicando a função dessa divindade: de noite. HINDUÍSMO (primitiva religião indiana. O neurologista francês Jean Martin Charcot (1825-1893). Outro poema importante de Hesíodo é a Teogonia. o Éter e o Dia.

Ele foi o primeiro estudioso do corpo humano a utilizar a observação clínica. no ano seguinte tornou-se presidente do Reich. escravizado pelo exército de Roma e vendido como gladiador. pintor e cabo na I Guerra Mundial. Passado à história como Pai da Medicina. mas também o silêncio: “você não é responsável apenas pelo que você diz. indica qualquer agrupamento humano com estrutura familiar.162 o desenvolvimento da psicanálise. Função do médico é ajudar a natureza a reagir para restabelecer o equilíbrio orgânico. cuja unidade repousa numa comunidade de língua. duas coisas diferentes: saber e crer de saber. dedicou sua vida à luta desarmada pelos direitos civis dos negros nos EUA. Gorou. apareceu o horror do “Holocausto”: as tropas americanas. camponês da Trácia. etnia)Nietzsche Quanto maior a mentira. verdadeiramente. Adolf Hitler (1889-1945). formando um exército de quase cem mil homens no Sul da Itália. então. eleito Chanceler da Alemanha em 1933. ainda hoje repetido pelos formados em Medicina no ato de receber o diploma. Famoso é o seu “Juramento”. de costumes e de religião. junto com ciganos de várias nacionalidades. em 71 a. mas também pelo que não diz”. uns seis milhões de judeus. quando viu Berlim arrasada pelos Aliados. tornou-se mundialmente famosa a figura do pastor negro norte-americano Martin Luther King (1929-1968) que. por grupo étnico se entende uma minoria que vive numa sociedade culturalmente diferente. o intento nazista de demonstrar. No mundo moderno. Ele liderou a revolta dos escravos. a tese. encontraram os restos das câmaras de gás. no estado do Tenessee. promovido por Adolf Hitler. remontando aos Impérios da Era Antiga (assírio. HIPÓCRATES (cientista grego. O Juramento de Hipócrates reza o compromisso dos médicos com a honestidade e a ética no exercício da função. que significa “raça”. por ser negro. Etnia. Conquistou a simpatia popular por pôr em prática um ambicioso plano de recuperação econômica. foi barbaramente assassinado. econômica e social homogênea. Lembramos o personagem histórico Espártaco (Escravidão). judeus e negros. A ciência consiste em saber. racismo. durante as Olimpíadas de Berlim. eugenia. montou uma poderosa máquina bélica e. Cometeu suicídio em 1945. macedônico. HITLER (nazismo. ao chegarem ao campo de concentração de Buchenwald. dando início à II Guerra Mundial (Marte). Estes. que costumavam tratar como escravos os povos por eles subjugados. o tratamento de distúrbios pela hipnose desapareceu quase completamente do campo psicoterapêutico. em 4 de abril . foram vítimas do processo de “limpeza étnica”. da superioridade da raça ariana! Apoiado por industriais e banqueiros. onde se calculam que foram mortos. romano). por aquela competição mundial. a ignorância em crer que se sabe. Ele condenou não apenas a discriminação.C. Segundo ele. Hitler se negou a entregar a medalha de ouro ao corredor norte-americano Jesse Owens. Em 1936. deixou uma vasta obra com o nome Corpus Hippocraticum. erroneamente atribuída ao pensamento de Nietzsche. as doenças são conseqüência das alterações dos humores do organismo. em 1939. Ao liderar mais uma campanha pela integração racial. do grego ethnos. O maior médico da Antiguidade viveu entre 460 e 377. alimentando o ódio nacional contra marxistas. aproximadamente. Mas. sendo derrotado pelo triúnviro Crasso. A luta pela coexistência pacífica de várias etnias numa mesma nação e pela igualdade racial é bem antiga. Neste mesmo ano. inspirado na figura pacifista do indiano Gandhi (Hinduísmo). invadiu a Polônia. maior a chance de todos acreditarem nela. holocausto. pai da medicina) Há. em Memphis. ao longo de mais uma década (de 1933 a 1945). hoje em dia. De origem austríaca. filho de um fiscal de alfândega. Assim falamos de raça ou de etnia negra com referência aos africanos e descendentes que vivem fora de seu continente ou de etnia judaica com relação aos hebreus que vivem longe do Estado de Israel.

Hoje em dia. montara um laboratório experimental em Cold Spring Harbor (Long Island) para pesquisas genéticas e coletâneas de dados sobre linhagens humanas. “bem” e gene. inclusive de Voto. é o problema da autoria dos poemas. estimulando a prática da esterilização compulsória de mulheres e de homens considerados nocivos para a sociedade. foram atribuídos pela tradição clássica a Homero. em 1993. Montenegro e Macedônia. O argumento básico é que a escritura não era conhecida . compostos ao redor do séc. Mas o sentimento vergonhoso do racismo humano não se dirige apenas contra judeus e negros. A Woolf ( Prolegômena a Homero). após os estudos avançados sobre o genoma humano ( Genética). influenciado pelas idéias românticas sobre o gênio criativo da coletividade nacional e baseado nas constantes repetições e nas aberrantes contradições (os famosos "cochilos" de Homero). XIX. A própria palavra “eugenia” (do grego eu. foram esterilizados cerca de 60. aviões da Otan bombardearam Belgrado e outras regiões da Sérvia. as diferenças que possam existir entre vários grupos sociais são de origem educacional e não genética. após 27 anos de prisão política. Já os norteamericanos eram a favor de uma eugenia negativa. mãe solteira de 18 anos. finalmente. a Ilíada e a Odisséia. que sentiu na carne a problemática do preconceito étnico. Como se pode ver. quando a prática foi proibida. no fim do séc. em 1984. A ciência demonstrou que as discrepâncias de DNA entre etnias diferentes são irrelevantes: dois suecos podem ser menos parecidos geneticamente entre si do que um negro e outro sueco. “nascido”) foi cunhada (na Inglaterra e não na Alemanha!) por um primo de Darwin.. que acreditava na hereditariedade do talento. tido como o papa da eugenia. que se encontram nas duas epopéias. A lenda envolve totalmente a figura deste poeta. Basta constatar que oito cidades do mundo helenístico disputam a honra de terem sido a pátria de origem do imortal poeta. empurrando-os para as fronteiras com a Albânia. não faz mais sentido falar de superioridade racial. afirmara: “A descriminação contra o negro é uma discriminação contra homens que não foram educados para ser cidadãos brasileiros”. nenhum dado sendo historicamente provado.000 norte-americanos.163 de 1968. O biólogo puritano Charles Davenport. Outro negro ilustre foi Nelson Mandela que. O judeu Albert Einstein. o erudito alemão Fr. justificada pela qualificação genérica de “débil mental”. Mas. acabou a “guerra étnica” na antiga Iugoslávia: por decisão da ONU. Gilberto Freyre. em 1904. um ilustre brasileiro chegara a esta conclusão pela pesquisa sociológica. Portanto. até o fim da década de 70. Antes do avanço da ciência biológica. degradações morais. Francis Galton. conseguiu acabar com a apartheid na África do Sul. transmitidos oralmente de geração para geração e redigidos pela sociedade dos "Homeristas". A Guerra contra os fracos. Famoso foi o caso de Carrie Buck. No ano seguinte. de origem anônima e popular. pois suas notícias biográficas são fantasiosas. maior do que a dúvida sobre a identidade histórica de Homero (a famosa “questão homérica”). fundada por Pisístrato de Atenas. o jornalista Edwin Black demonstra que os Estados Unidos foram pioneiros no racismo científico. impedindo a reprodução de seres supostamente considerados inferiores. tentando descobrir padrões hereditários que explicassem a origem de deformações físicas. que conduziria ao holocausto europeu. Em1999. instintos criminosos e condições de miséria. que estimulasse os mais talentosos a cruzar entre si. O autor Edwin Black calcula que. cuja condenação à esterilização foi ratificada pela Suprema Corte dos USA. com o objetivo de acabar com a “limpeza étnica” contra os muçulmanos de origem albanesa que habitam a província do Kosovo. Foi um único escritor ou vários e em épocas diferentes? No começo do séc.C. Martim Lutero King foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz de 1964 e o dia da sua morte foi consagrado como Feriado Nacional nos USA. E o pior foi que a tese da eugenia saiu do campo científico e se infiltrou na sociedade americana. Hitler não foi o único nem o primeiro governante insano! Num livro recente. o sarampo da humanidade”. em 1927. o presidente-ditador Slobodan Milosevic foi afastado do poder e acusado por crimes contra a humanidade. HOMERO (poeta lendário da Grécia)Ilíada OdisséiaÉpica Os dois poemas épicos da Grécia Antiga. lança a tese de que os dois poemas atribuídos a Homero não são senão coletâneas de vários cantos heróicos. XIX. Mas sua luta não foi em vão: os negros conseguiram todos os Direitos Civis. Os sérvios tinham expulsado um milhar de muçulmanos. definiu o nacionalismo como “uma doença infantil. Seu intento era implementar uma eugenia positiva. VIII a.

Ocorreu que. A presença dos deuses homéricos. o estudioso alemão Werner Jaeger (Paidéia) tem ressaltado a grande influência da poesia épica na formação social e cultural da Grécia Antiga. ideais humanos.164 na Grécia antes do século VI a. tirados do mito. se tornaram protótipos humanos. como opinam outros. que exercem influência duradoura sobre a realidade grega. por ter exercido uma grande influência entre os poetas cultos de todos os tempos e por ter criado versos e expressões que se tornaram memoráveis: “carpe diem” (aproveitar o momento). HORÁCIO (poeta lírico e satírico romano) “Carpe diem” Junto com Virgílio. revela não só a condição humana. ou dois poetas diferentes. o “pathos” heróico da Ilíada e a ética aristocrática da Odisséia são imagens ideais de vida. e o redator da Odísséia. A verdade. ao redor do século X. Homero adulto. Os principais heróis gregos e troianos tiveram suas façanhas enaltecidas em versos épicos. como sempre. mas trabalharam sobre o material épico preexistente. visto que os mitos religiosos. Encontramos. perto da Ásia Menor e berço da civilização grega. O fator educador da poesia consiste em manter viva a lembrança da glória do passado. em que hoje ninguém pode mais acreditar. Homero. ou o que chamamos falta de lógica rigorosa de "composição". Aquiles. Os gregos de todos os tempos encontraram em Homero respostas quanto à conduta da vida. contradições e diferenças estilísticas que levam a pensar numa originária pluralidade de autores. “est modus in rebus” (há uma maneira . constituindo os fundamentos da cultura humanística. Que o redator da Ilíada. Evidentemente. que eram recitados durante as celebrações patrióticas. o pensamento dos críticos positivistas que. fundamentados em descobrimentos arqueológicos. a análise textual dos dois poemas acusa repetições. Homero. A esta tese se opõe. Ulisses. teve o mérito inestimável de reunir e de dar forma artística a este material épico primitivo. poesia ritual sobre a morte e a descida aos infernos. Homero jovem. antes do século X a. Já que o poeta compõe com tantos materiais diversos um poema do qual cada parte era feita para ser cantada separadamente e cujo conjunto deve ter sido composto parceladamente.C. por definição. a criação artística coletiva e anônima é um mito romântico. muitos destes cantos se perderam e o que nos legou a tradição foram apenas dois poemas épicos. Carpeaux (História da Literatura Ocidental). nas duas obras de arte literária. Quanto ao valor educativo dos poemas homéricos. demonstraram a existência da escrita na Grécia e na Ásia Menor. Quintus Horatius Flaccus (65-8) é um dos maiores poetas da literatura ocidental. de outro lado. Se. A poesia épica representa o primeiro esforço artístico dos gregos para eternizar normas ideais. de uma pintura ou de uma estátua. o mistério sobre o autor ou os autores da Ilí ada e da Odisséia não fere o brilho das duas criações artísticas. não inventaram os assuntos poemáticos. entre outros heróis da epopéia grega. as façanhas e os sentimentos das personagens épicas assumem o papel de paradigmas ideológicos para qualquer situação de vida. O conteúdo e até a arte perderam a importância principal. Como releva O. considerando-se a força superior da tradição ética. como sustentam alguns críticos.C. está longe dos extremismos. se criou uma série de lendas e de cantos épicos. no começo do século passado. talvez até duma unidade de estilo e de inspiração? Enfim. lendas recentes e antigas. atribuindo a autoria da Ilíada e da Odísséia a um único poeta. deveremos espantar-nos pelo fato de encontrar essas contradições. comove os ânimos dos ouvintes ou espectadores e desperta o desejo de imitar as ações e os caracteres nobres dos heróis de sua pátria. mas também a capacidade dos homens de superá-la. Enéias. definido por Carpeaux (História da Literatura Ocidental) como poet's poet. é um fato incontestável. Os filósofos socráticos já consideraram Homero como o educador da Grécia toda. que tinham como núcleo central o longo assédio dos navios gregos à cidade de Tróia. no começo curtos e isolados. de um lado. mitologia contemporânea e lembranças de antigos deuses transformados em heróis e conservados com todo o aparato ritual que seu culto comportava.. cujos valores estéticos e humanos tiveram reflexos nas melhores produções literárias do Ocidente. pois na idade primitiva de um povo os valores estéticos não se separam dos valores éticos. O que os gregos chamavam de "psicacogia" é o poder da arte de estimular uma conversão espiritual: a beleza do texto literário. ou outro rapsodo de nome desconhecido.M. O instrumento da intenção pedagógica é a criação de exemplos ideais. as festividades religiosas e os banquetes dos cortesãos e ricos senhores. lembranças de guerras gloriosas e do exílio dos aqueus na Ásia. que são. na Iônia.

imitou os sábios do Renascimento italiano. O homem que ri (1869). especialmente os italianos Petrarca e Boccaccio. Precursores do Humanismo foram vários escritores da Baixa Idade Média. o Humanismo sempre existiu e sempre existirá. em que é exposto o pensamento horaciano sobre conceito e estrutura da poesia. romance de personagem e de espaço. As melhores coletâneas de poemas líricos: Odes et ballades. à divindade. O pensamento humanista devolve ao homem a liberdade de construir seu próprio projeto de vida. De sua prosa de ficção. retórica. obra juvenil. independentemente de qualquer valor transcendental. no seu sentido etimológico. Os miseráveis (1862). da última fase da vida do poeta: 2 livros de Epístolas. a obra-prima da ficção romântica em prosa. HUMANISMO (fundamento teórico do Renascimento) O Humanismo. sendo o homem considerado como tal. Cícero. prefácio ao drama Cromwell (1827). Os trabalhadores do mar (1866). Pérsio e Juvenal. Les voix intérieures. que lecionou na Universidade de São Paulo e estudou a cultura de tribos indígenas do Brasil ( Tristes Trópicos). Direito. considerado como o manifesto do movimento romântico na Europa. o amor e a amizade. HUGO. O sofista Protágoras de Abdera. Tommaso Campanella) e irradiado nos Países Baixos (Erasmo de Rotterdam) e na Inglaterra (Thomas Morus e Francis Bacon). “in medio stat virtus” (a virtude está no meio termo). intitulada O Existencialismo é um Humanismo. fora das amarras das instituições medievais do Império e da Igreja. Sêneca. onde aparece o motivo preferido pelo epicurista Horácio: carpe diem. Les rayons et les ombres. ética). inebriando-nos com o vinho. Mas. no sentido estrito ou histórico do termo. seguindo o exemplo da Poética de Aristóteles. 17 poemas que criticam pessoas de sua época. Pintura. os ápices da . Neste sentido amplo. Podemos distinguir três fases na sua produção poética: 1) poesia satírica. 2) poesia propriamente lírica. é La légende des siêcles. Bug-Jargal (1826). as Odes apresentam também outros motivos convencionais: o amor à pátria.165 de fazer as coisas). da época da maturidade: 4 livros de Odes. paralelamente a este tema central. As “Humanidades” constituíam um conjunto de disciplinas (gramática. posteriormente denominada Ars Poetica. durante os séculos XV e XVI. Mas. Filosofia. A qualidade básica do seu gênio é a imaginação. . que preparavam o homem para o exercício da sua liberdade cívica e da sua atividade profissional. Feuilles d’automne. escondidos nas bibliotecas dos monastérios. “aproveitemos o momento presente”. está relacionado com a palavra latina humanitas. Marsílio Ficino. Grandes pensadores humanistas antigos foram Sócrates. Victor (escritor romântico francês) A melancolia é a felicidade de estar triste Victor-Marie Hugo (1802-1885) é o maior poeta e romancista do Romantismo francês. romance de aventura no estilo de Walter Scott. Como bom antropólogo. ou canções. composições versejadas. Outro grande humanista francês foi Claude Lévi-Strauss. Les châtiments. Les contemplations. pela sua famosa frase “o homem é a medida de todas as coisas”. o Humanismo é o substrato ideológico da Renascença: movimento filosófico e literário. pode ser considerado o primeiro humanista. 3) poesia reflexiva. do período juvenil de sua vida: dois livros que contêm 18 Satiras. superando de longe o predecessor Lucílio e seus sucessores. por serem conversações leves sobre os costumes de seu tempo. de assunto filosófico-moral-literário. Contrariando a moda da “especialização”. “erexi monumentun aere perennium” (minha poesia é mais duradoura do que o bronze) etc. Música. iniciado na Itália (Pico della Mirandola. que escreveu uma obra muito importante a respeito. Nos tempos modernos. que expressava a essência da educação romana. pois achava que a cultura geral era fundamental para o conhecimento do ser humano. Lorenzo Valla. Chants du crépuscule. Horácio foi o maior poeta latino. no gênero da sátira literária. uma verdadeira epopéia pelo imenso afresco histórico. política. entre outros. sendo a expressão de uma corrente do pensamento que afirma a importância dos valores humanos. inclusive o epigramatista Marcial. A mais famosa epístola de Horácio é a última do segundo livro. “odi profanum vulgus” (odeio a vulgaridade). estudou Lingüística. à glória poética. que se deram ao trabalho de descobrir e divulgar textos da cultura greco-romana. chamados de Epodos ou Jambos. um grande humanista foi o filósofo e poeta francês JeanPaul Sartre. Les chansons des rues et des bois. Realmente. também chamadas de Sermones. Orientales. Ad Pisones. que seguia a moda do romance “negro”. dirigidas em forma de cartas a amigos ausentes. assinalamos as seguintes obras: Han de Islândia (1823). seguindo o modelo do poeta grego Arquíloco. Notre-Dame de Paris (1831). de que se serve para renovar a linguagem poética. Sua obra poética de maior fôlego.

Ibsen monta sua peça sobre a caracterização da protagonista Alving: sufocada pelos espectros das convenções sociais. Aderindo à concepção da escola positivista. devendo-se viver segundo a natureza. Mas tal revolução ideológica não se dá fora do Cristianismo. base da filosofia “escolástica” de Tomás de Aquino. que considera o ser humano determinado por fatores hereditários e ambientais. não deixa de ser uma figura fascinante. mais tarde canonizado pela Igreja de Roma. Ibsen tinha o dom de compreender profundamente e saber retratar artisticamente a psicologia feminina. evitandose quer privações quer excessos. época em que predominou o pensamento de Aristóteles. ou encena a figura do anti-herói. O frei agostiniano Erasmo de Rotterdam (1466-1536). que tem em Camões seu melhor representante. Ibsen inicia sua fase realista: as mulheres e os operários. a ausência de preocupações. e o amor espiritual. Apesar disso. que vê na beleza física da amada apenas uma imagem da beleza eterna. o pensador mais influente da época. Os mesmos ideais utópicos de vida social serão mais tarde apregoados pelo filósofo italiano Campanella. diálogo de Platão sobre o amor. o personagem falso e mentiroso (Peer Gynt). A cidade do Sol. retoma o tema de O banquete. A crítica costuma distinguir três fases na produção dramática do grande escritor norueguês Henrik Johan Ibsen (1828-1906): romântica. Mas este humanismo somente será vivido e expresso em forma de arte a partir do Renascimento quando. o homem poderá novamente retomar a busca do equilíbrio existencial. ou representa a utopia da vivência de um Cristianismo integral (Brand). Na sua famosa obra Utopia. onde a protagonista Nora. não sendo mais apresentada como vítima. consideradas formas de vida antinaturais. carnal. quando afirmou que in medio est virtus: a virtude está no meio-termo. especialmente através de sua obra de inspiração platônica. O conceito de amor platônico constitui o substrato ideológico de uma vertente da lírica renascentista. com o tratado In convivium Platonis sive de amore. não somente do espírito mas também do corpo. abandona marido e filhos para conquistar sua liberdade existencial. Daí a condenação da vida monástica e contemplativa. A terceira fase do teatro ibseniano. a religião cristã perdendo seu caráter opressivo. publicado em 1468. mas como algoz: a protagonista desta peça arruína o marido e o amante. Marsílio Ficino. o humanista e jurista inglês Thomas Morus (1478-1535). O neoplatonismo do humanista italiano afirma a nítida distinção entre o amor venéreo. publicada em 1602. Rosmerholm e A dama do mar. O centro de interesse da cultura se desloca da transcendência (Teocentrismo) para a imanência (Antropologia Naturalista). ela desmascara seu casamento infeliz com o marido libertino. que se apega a uma forma corporal. entre os impulsos do instinto e as forças racionais do homem. Os heróis de Helgeland. o verdadeiro princípio do Humanismo foi intuído pelo poeta e filósofo epicurista Horácio. Seu melhor amigo. os dois pilares sociais. tenta a conciliação dos dogmas da religião crista com as virtudes naturais humanas encontráveis na tradição clássico-pagã. realista e simbolista. Do ponto de vista propriamente filosófico. ou revive o folclore popular (Uma festa em Solhaug). O pensamento ético retoma o princípio epicurista de que o sumo bem é o prazer.166 pirâmide do sistema feudal (Medievalismo). e a virtude reside na “ataraxia”. o Humanismo foi importante pela revalorização da filosofia de Platão. HUMOR (postura humana e artística perante a vida) Ironia IBSEN (dramaturgo norueguês) “A multidão é a negação da verdade”. Mas o drama ibseniano que está mais próximo do ideário realista é Espectros. defende a religião católica contra o anglicanismo de Henrique VIII. no equilíbrio entre o real e o ideal. Casa de bonecas. tentando conciliar as exigências da sua natureza física com os valores espirituais. a mulher troca de papel. Na fase romântica e nacionalista ele exalta as virtudes do seu povo primitivo em luta contra a opressão da Dinamarca (Dona Inger em Oestraat. Em 1877. preterida na Idade Média. critica o sistema político da época e apresenta um modelo ideal de governo comunitário e genuinamente evangélico. Com Hedda Gabler. a do simbolismo. . Em verdade. rebelando-se contra a mentira e a hipocrisia da vida doméstica. Segue-se a representação da mais bela peça. Os pretendentes da Coroa). são os mais marginalizados pelas instituições legais. é composta por peças em que a realidade cotidiana é apresentada através de símbolos O que acontece especialmente em O pato selvagem. ou faz a sátira dos partidos políticos (A aliança da mocidade). sente repelida sua atração sexual pelo pastor Manders e revela como seu corpo fora o veículo de transmissão de uma doença venérea (a sífilis) do marido para o filho. Já viúva. com a encenação de Os pilares da comunidade. Este é o motivo pelo qual todos os círculos feministas escolhem o escritor norueguês como seu dramaturgo preferido.

o direito à felicidade individual pode ser considerado o motivo recorrente na dramaturgia de Henrik Ibsen. em Creta: 1) a construção de uma “Vaca” de madeira. o arquiteto da liberdade: o sonho de voar)Argonautas E volava. A verdade é sempre “paradoxal”. no diálogo final com Torvald Helmer. Junto com o resgate da figura feminina. igualmente sagrados . os artistas da palavra. obrigou Dédalo a mudar de profissão: de carpinteiro passou a ser engenheiro para construir o “Labirinto”. apaixonada pelo touro de Posêidon ( Netuno). sociais e morais. The Maze-Maker (1968: “O Construtor do Labirinto”). que a maioria das pessoas lhe daria razão. antes de abandonar o lar.. aprisionando-os no Labirinto.167 Mas. do pincel e do escalpelo criaram obras maravilhosas.. mas não consigo convencer-me de que as leis sejam justas. o primeiro grande inventor da humanidade. revestida de couro. Para comigo mesma. dipinto di blù! Felice di stare lassù. geralmente falsos e castradores das individualidades. para esconder o vergonhoso parto de sua esposa. mas. Um personagem do drama Um inimigo do povo afirma: “A multidão é a negação da verdade”. o antigo mito cretense: O Testamento de Dédalo (1962: coletânea de desenhos. O inglês Michael Ayrton compõe várias obras importantes para reviver. construiu duas asas de madeira. ora exaltando a figura do artesão-escultor (Dédalo). há um motivo recorrente em todas as peças de Ibsen. monstro com corpo de homem e cabeça de touro. O romance do irlandês James Joyce... O homem mais forte do mundo inteiro é o que está mais só”. ÍCARO (filho de Dédalo. uma mulher não tem o direito de poupar seu pai agonizante nem de salvar a vida do marido. O calor fez derreter a cera e ele caiu no mar. 3) quando o herói Teseu conseguiu sair do Labirinto pela ajuda de Ariadne.. desobedecendo à ordem paterna. tem uma fala ainda mais esclarecedora: “Eu acredito que antes de tudo eu sou um ser humano . à opinião comum. Retrato do Artista quando . é fundamental que o homem alcance a sinceridade. Torvald. o rei de Creta puniu o arquiteto e seu filho Ícaro. onde a rainha Pasífae. a aventura desmedida. a hipocrisia social.. Enquanto o pai representa o princípio racional da vida criativa. (canção italiana) O mito de Ícaro é inseparável das lendas que envolvem a figura de seu pai Dédalo. E Nora. Nel blù. Eu aprendi também que as leis são muito diferentes do que eu pensava. vou ver se consigo entender quem está com a razão. contos e poemas). centradas na corte do rei Minos. volava nel cielo infinito. Não consigo acreditar nisso . ora representando o homem-pássaro (Ícaro). a filha de Minos que lhe forneceu o fio fabricado por Dédalo. Eu tenho que pensar por mim mesma. na vida”.. sendo castigado pela sua ambição. aos costumes políticos. a coerência interior. fixando-as com cera nos ombros do filho. e que essa é a opinião que se encontra nos livros. a sociedade ou eu . além de uma estátua e de um filme sobre Dédalo. Eu tenho outros deveres.. De acordo com elas. ao longo da cultura ocidental. o filho simboliza o princípio heróico. se ocultou para seduzir o volumoso animal: desta medonha união nascera o “Minotauro”. o sonho. que se alimentava de carne humana. a protagonista de Casa de bonecas. se quiser compreender as coisas .. Dédalo.. Ícaro alçou vôo por cima do mar. 2) o rei Minos. então. não obstante essa possível diferenciação de várias posturas estéticas ao longo da sua produção dramática.. que constitui a marca mais profunda da sua genialidade: a luta do espírito humano contra o comodismo covarde. Eu sei muito bem. cuja réplica se encontra em outras passagens de Ibsen: “A minoria está sempre certa”.. Mas eu não posso mais me contentar com a opinião da maioria das pessoas nem com o que está nos livros.. Três são as maiores façanhas relacionadas a Dédalo e Ícaro. quis voar muito alto. confirmado por mais esta sua observação: “O verdadeiro espírito de rebelião consiste precisamente em exigir a felicidade aqui. Ao redor desse mito.”. Para Ibsen. a autenticidade. no sentido de que se opõe à doxa. na era moderna. chegando perto do Sol. onde foi abrigado o Minotauro.. Mas agora eu vou tentar. a falsidade consigo mesmo.

no tempo anterior à culpa de Adão. deuses e mortais têm a mesma origem” (Hesíodo) O mito da Idade de Ouro nasceu na Suméria há 4. Espacialmente. o aeroplano chamado 14-Bis. Em 1965.000 anos. a Idade de Ouro é representada pelas imagens do “Jardim de Javé”. Do ponto de vista político. representa o personagem mítico como o arquiteto da liberdade. a bordo da nave especial Vostok. E o sonho de Ícaro não cessa de se realizar: o ser humano. do campo de Bagatelle em Paris. constituindo-se num arquétipo utópico da felicidade do homem sob os olhares providentes da divindade. Mas ele pode ser detectado em outras civilizações também. com uma máquina mais pesada que o ar. chegamos à era do satélite: o lançamento de Intelstat I. foi o grande inspirador da aviação moderna. os EUA. sobrenome do pai do protagonista Stephen. aspira á conquista daquilo que jamais poderá alcançar: o Infinito! As aventuras dos modernos “Astronautas” são replicas das aspirações dos antigos Argonautas. Sicília. não precisando trabalhar. é preciso dizer que uma experiência semelhante já tinha sido feita. Ícaro. após encantar os franceses com uma série de 14 balões dirigíveis. quando a antiga União Soviética lançou ao espaço o primeiro satélite artificial com o nome de Sputnik. este mito é explorado por vários estadistas que sonharam com a possibilidade da construção de uma sociedade justa. Yuri Gagarin. Como. poeticamente chamado de “Pássaro da madrugada”. A semelhança entre a cultura judaica. O esforço da outra potência mundial. greco-romana e cristã é muito relevante. A Idade de Ouro no mundo grego é identificada com o mito de Cronos (Saturno. Expulso do Olimpo pelo filho Júpiter. para superar a façanha soviética deu origem à corrida espacial. anuncia a vinda de um Priceps para restaurar a paz. quando o homem gozava dos dons “preternaturais”: era imune da dor e da morte. assim o poeta latino Virgílio. que originariamente caracterizaram a Idade de Ouro e que desapareceram na Idade de Bronze. demonstrando que o homem podia superar a lei da gravidade. propiciando um grande progresso para as telecomunicações no mundo pela colocação em órbita de satélites cada vez mais sofisticados. o primeiro homem a se levantar da terra usando asas. quando falam de Saturnia regna (os reinos de Saturno). Mas. Neil Armstrong é o primeiro homem a pisar na Lua. a sociedade ideal apregoada pelo Comunismo (Marx). mas com a grande diferença de que eles utilizaram uma plataforma de lançamento para catapultar o avião do solo. deu uma volta completa ao redor da Terra em 108 minutos. pois ajuda a rainha Pasífae e o herói Teseu a derrubar a tirania de Minos. pela primeira vez. que pertence à “pré-história” mítica. “A terra é azul” dizia Gagarin. Depois do avião. pelos irmãos Wright nos USA. Por bem da verdade. possam considerar Santos Dumont o pai da navegação aérea. Em 1969. três anos antes. Quatro anos após o lançamento do Sputnik. O poeta grego Ángelos Sikelianós (1884-1951). na tragédia Dédalo em Creta.Era Antiga. que se sucede à invenção do rádio por Marconi. Saturno reinou em várias regiões do Mediterrâneo (África. quando começou a reinar a maldade e a violência. a antiga URSS coloca um homem no espaço. o Paraíso terrestre. Esta Era de prosperidade encontra-se exaltada pelo poeta grego Hesíodo e pelos escritores latinos Horácio. Lácio. a Idade de Ouro é representada pelo Éden. insatisfeito com sua condição de mortal. pois a terra produzia os frutos espontaneamente. O brasileiro Alberto Santos Dumont (1873-1932). conforme prometido por Jeová. Ver também o verbete Utopia. das Ilhas Afortunadas. com razão. Virgílio e Ovídio. do Olimpo e do monte Parnaso. a tradição costuma dividir nossa civilização em três Idades ou Eras (do latim aera ou aevum = “idade”). do “milagre do oásis”. ensinando aos homens o cultiva da vinha e a produção do vinho para aumentar a alegria de viver. em Roma). passando do mito para a história e limitando-nos à cultura ocidental. a abundância e a justiça. Na cultura judaica. o povo hebreu estava esperando a chegada de um Messias-Salvador. Tal diferença faz com que os brasileiros. onde dominasse o amor e a fraternidade: a República de Platão. em 1906. na sua IV Bucólica. a Cidade de Deus (Santo Agostinho). veio a conquista do espaço sideral. conforme variantes da lenda). em 1957. inaugura uma nova fase nas comunicações a longa distância. IDADE (o mito da “Idade de Ouro” . cada qual tendo . sob a forma de “mito de Dilmun”. A Cidade do Sol (Campanella).168 Jovem (1917). alçou vôo (do chão!). Medieval e Moderna) “Pois. os Evangelhos (Cristo). a este respeito. após o pecado original. é traduzido para o francês com o título Dédalo.

baliza do fim da Era Antiga). durante mais de seis séculos não se produziu absolutamente nada na Europa. quando o imperador Constantino concedeu a liberdade de culto aos cristãos. encontram-se muitas identidades culturais. período helenístico. a Era Moderna começaria pelo movimento renascentista. Alexandria. a Idade Média ocupa quase um milênio. Este período helenístico ou romano. Boccaccio. quer na época imperial. apesar de ter sido escravagista.C ao V d. o Grande). V ao XI) e Baixa Idade Média (do séc. quer no regime republicano. até o ano 476.C. Tomás de Aquino. Essas várias fases constituem o “período clássico” da Era Moderna. a crítica costuma dividir este longo período em duas épocas: Alta Idade Média (do séc. continuado em Roma e difuso por toda a Europa com nomes e datas diferentes.C. de cultura em língua latina. que vai de 480 (Batalha de Salamina: vitória dos gregos sobre os persas) a 323 (morte de Alexandre.C. segundo a divisão tradicional. movimento cultural surgido na Alemanha e na Inglaterra. caracterizado pela oposição à cosmovisão medieval e pela retomada dos princípios estéticos e ideológicos da época greco-romana. Beato Angélico. letrados e artistas gregos para serem pedagogos dos filhos dos nobres romanos. a Baixa (porque mais perto de nós) Idade Média. Esta Era pode ser dividida em três épocas denominadas pelas cidades hegemônicas: período ático ou de Atenas. a tragédia da tríade Ésquilo-Sófocles-Eurípedes. Apenas à primeira fase caberia o rótulo de “obscurantismo” ou de “período das trevas”. soube admirar e respeitar a superioridade da cultura grega. VIII a. Para a crítica tradicional. pois (constatação vergonhosa!). a história de Heródoto. com a conseqüente passagem da oralidade para a escrita dos cantos épicos atribuídos a Homero) até o séc. junto com o surgimento das línguas européias modernas (neolatinas e anglo-saxônicas). A Idade Antiga é também chamada de “greco-romana” porque.C. Não pode ser considerada como retrógrada uma época de gênios da produção artística e do pensamento reflexivo. surgido em Florença. cuja cultura se produziu ao longo de quase um milênio: do séc. quando. em 1453.V d. do ano 313. Para evitar inverdades. Assim. quando predominou a capital do Egito. quando o exército muçulmano tomou a cidade de Constantinopla. Imperial (durante a dominação dos vários imperadores ) e Cristã (do Edito de Milão. Já o segundo período. começaria com o Renascimento ou. a lírica de Píndaro e Safo. Petrarca. Pelo critério de periodização convencional. A Idade Média: assim chamada por ser mediana ou “medianeira” entre a cultura clássica grecoromana e a cultura moderna que. tais como Dante Alighieri. que estão analisados no verbete Medievalismo. (data do surgimento do alfabeto na Grécia. apesar das diferenças de línguas e costumes entre os dois povos. Áurea (de César e Augusto). O Renascimento italiano é seguido pelo Barroco espanhol. na segunda metade do séc. data de deposição do último imperador de Roma. conforme uma corrente crítica mais recente (e mais coerente!).169 várias épocas ou períodos: Idade Antiga. a comédia de Menandro. período latino. I a. os deuses gregos foram cultuados em Roma com um nome latino. Com o Romantismo. Prova disso é a importação de filósofos. a oratória de Demóstenes. se deu a queda do Império Romano do Ocidente. pintores. A maior contribuição cultural propriamente latina está restrita ao campo da jurisprudência: o “Direito Romano” é uma disciplina ainda ensinada na maioria das Faculdades. séculos III e II a. tentando mais imitá-la do que destruí-la. que abrange a herança greco-romana. XI. pelo Neoclassicismo francês e pela Arcádia na Itália e na península ibérica. deve ser considerado como uma prérenascença pelo desabrocho cultural. pode se subdividido em várias fases: época arcaica ou das Origens. histórica e religiosa. iniciaria no séc. em 476. inicia uma nova época que se opõe frontalmente à concepção clássica . Duns Scoto. antiga Bizâncio ( Helenismo) e hodierna Istambul. XI ao XV). começando pela queda do Império Romano do Ocidente (476) e terminando com a queda do Império Romano do Oriente. dos “rapsodos” de cantos épicos. dos escritores de novelas de Cavalaria. o Ocidente sofrendo uma paralisia provocada por vários fatores de ordem lingüística. A Idade Moderna: o conceito de “moderno” encontra-se estudado no verbete Modernismo. os literatos tiveram por modelos a poesia épica de Homero. O Estado romano. pelas invasões barbáricas. no séc. sem falar dos trovadores provençais. sob o domínio de Roma: do séc. impondo pesados tributos aos povos conquistados pela força das armas.. XV. Giotto. O que justifica a inclusão tradicional deste período na Era Medieval é apenas o aspecto religioso: o pensamento reflexivo e a atividade artística ainda estão dominados pela influência da Igreja Católica. XVIII. escultores e arquitetos passaram a imitar templos e monumentos gregos.

provocara a ira de Diana. Algo só pode existir. então. Diana apiedou-se da jovem vítima e mandou que fosse substituída por uma cabrita. O mito de Ifigênia . Kant. discípulo de Platão. ao longo da história da Filosofia no Ocidente. claras e distintas” de Descartes. XX. influenciado pelas correntes filosóficas do Positivismo e do Determinismo e pela teoria científica do Evolucionismo (Darwin). O que. A primeira revolta contra o pensamento e a estética do realismo materialista deu-se com o Simbolismo.170 da vida. as “formas” universais e perfeitas. de essências ultraterrenas. que durou aproximadamente um século. E termina a narração do episódio com o seguinte comentário: “até que ponto a religião pode induzir o homem a cometer crimes”! De Áulis. conforme a “Teoria das Idéias” do filósofo Platão. irmaniza os vários tipos de Idealismo é o subjetivismo. a filosofia tenta responder a estas três perguntas fundamentais: O que preciso saber? O que devo fazer? O que posso esperar? IFIGÊNIA (a vítima da crueldade paterna e da vingança divina)Agamenão Vestida de branco. Mas. significando. para o casamento que gera a vida. movimento francês de curta duração. O Idealismo. encarregada de sacrificar os estrangeiros. por vingança. mas para morrer O mito de Ifigênia é um dos mais comoventes. estavam no mundo das idéias. O Modernismo brasileiro está visceralmente ligado aos movimentos da vanguarda francesa e italiana pela moda antipassadista. se e conforme uma mente pensar nele. que revolucionaram a cultura ocidental. então. buscava a estátua de Diana Táurida. Em Micenas. Ao movimento romântico. O rei. IDEALISMO (sistema filosófico: Platão. que surgiu em oposição ao período romântico. Segundo Emanuel Kant. o ato de conhecer sendo um movimento de dentro para fora. com relevantes variações: as idéias “inatas. que se fazem presentes pela “reminiscência”. a subordinação de toda a existência a um ser pensante. onde observa que o pai. Filha do rei de Micenas. conforme uma lenda. Ifigênia vai para a Táurida (atual Ucrânia). Esta passagem encontra-se descrita de uma forma lírica estupenda pelo poeta latino Lucrécio. o idealismo subjetivo de George Berkeley (1685-1753). o modelo geral de cada coisa ou noção abstrata. preexistente ao espírito humano. está aos antípodas do Realismo. no momento da imolação. a jovem é levada para o altar. com o pretexto de dá-la em casamento ao herói Aquiles. ela foge com eles. as idéias “simples e complexas” de John Locke (1632-1704). Ifigênia se casa com Pílades. obtido o perdão de Diana pela intervenção da deusa Atena. mandou buscar a jovem em Micenas. antes de habitarem o corpo. segundo o qual não existe objeto sem um sujeito pensante. Cubismo e Surrealismo). Aristóteles. mas que pode ser considerado como precursor das correntes estéticas da Vanguarda européia (Futurismo. entrega a filha no altar da morte. Os objetos do mundo exterior ou qualquer sensação ou sentimento seriam apenas “fantásmatas”. Expressionismo. como aconteceu no episódio bíblico do sacrifício de Isaac por Abraão. em lugar de levar ao altar a jovem. a lembrança do tempo em que. pediu ao deus Éolo que parasse todos os ventos no porto de Áulis. tentando novas possibilidades de expressão artística. não para casar. o idealismo crítico da “razão pura” e da “razão prática” de Emanuel Kant (1724-1804). o Espírito Absoluto de Friedrich Hegel (1770-1831). de 1850 a 1890. paralisando os navios gregos chefiados por Agamenão e prontos a zarparem para a guerra de Tróia. Descobrindo que um dos forasteiros lá chegados era seu irmão Orestes que. A linha de contraste entre a estética e a mundividência clássica e romântica encontra-se exposta no verbete Romantismo. O adivinho Calcante explicou que Diana só seria apaziguada se Agamenão sacrificasse sua filha Ifigênia. é obrigada a sofrer por uma culpa de seu pai: Agamenão. de alguma forma. com o amigo Pílades. como sistema filosófico. que nos permite conhecer a realidade. O idealismo platônico foi retomado por vários pensadores. sucedeu a época do Realismo. corrente de pensamento que não admite nenhuma forma de transcendência e que teve num outro sábio grego. afirmando ser tão bom caçador quanto a deusa. Esta. na sua obra De Rerum Natura. imagens ou reproduções imperfeitas. seu precursor. vestida de branco. tornando-se sacerdotisa da deusa Diana. Dadaísmo. Hegel) A filosofia é o tempo capturado no pensamento (Hegel) A palavra “idéia” é de origem grega. a partir do início do séc.

deveria atribuir a um ser humano as prerrogativas da onipresença e da onividência.). anteriormente à tomada e à destruição da cidade pela confederação grega. constituído pelos fatos narrados e pelas personagens que vivem a história ficcional. é composto pela “Invocação” à divindade protetora dos poetas e pela “Proposição”. a época em que viveu Homero. o mito é retomado pelo poeta alemão Goethe: Ifigênia em Táurida (1787). porque. Simplificando ao máximo. diferentemente do autor do poema. coloca como narrador dos fatos épicos a própria divindade ("canta. e o divino Aquiles”. Traduzimos o começo do poema: “Canta. no poema.C. limitando-se apenas a fazer referências e alusões a fatos já conhecidos pela coletividade grega. Seu intuito é focalizar o herói Aquiles (o titulo preciso da obra deveria ser "Aquileida". o tempo da enunciação se renova continuamente. de outra forma. o aparelho formal que evidencia a presença do narrador do canto épico. o passado "precipitou". Este trecho inicial do canto primeiro enseja perceber bem a distinção entre o plano da enunciação . sendo um patrimônio cultural de conhecimento popular. vítima do hieratismo paterno e da vingança dos deuses. O presente "canta" acusa o tempo do discurso. o Olimpo. sobressai a tragédia de Racine Ifigênia em Áulis. ILÍADA (poema épico sobre a guerra de Tróia) Homero A Ilíada (de Ílion. em seus vinte e quatro cantos. necessárias para o conhecimento de fatos que se passaram em lugares diferentes. um distanciamento de mais de quatro séculos entre o tempo do "discurso" e o tempo da "história". desde a contenda que separou o Atrida. fixado para sempre num passado remoto. todavia que. a lenda de Ifigênia invade o mundo da Ópera. O autor da Ilíada. construída pelo rei Ilo. e de sentimentos e pensamentos dos seres divinos e humanos que participaram dos eventos. que só pode tornar-se presente pela ação da memória que recorda os episódios acontecidos. fazendo parte do chamado "ciclo troiano". a personagem mítica de Ifigênia passou à história como símbolo da inocência sacrificada. não narra toda a história da Guerra de Tróia. a proposta que. que causou inumeráveis dores aos aqueus e precipitou no Hades almas de heróis sem conta. isto é. a cólera de Aquiles. assume o papel de narrador da fábula. rei de guerreiros. ó deusa"). mas uma personagem de ficção que. porque muda o destinatário a quem o narrador se dirige.171 encontra-se tratado artisticamente em duas tragédias de Eurípides: Ifigênia em Áulis (405 a. ó deusa. transcrito acima. enquanto o tempo do enunciado permanece imóvel. As lendas sobre a antiga cidade. Quanto ao plano do enunciado ou da história. reduzimos o arcabouço fabular da Ilíada aos seguintes núcleos de narratividade. Como se vê. apesar do título. não é um ser real (Homero ou outro rapsodo). Este fingimento é indispensável para que o canto épico tome um semblante de realidade. a Ilíada. inclusive na morada dos deuses. No Neoclassicismo francês. Na época do Romantismo.C. nome primitivo de Tróia) é formada pela rapsódia (o étimo grego significa "costura") dos cantos acerca da primeira famosa luta entre as nações do mundo ocidental.. Há. a “Guerra de Tróia”. Este narrador. filho de Peleu. centrados em três “iras”: . Na segunda metade do séc XVIII.). cólera funesta. "tornou" etc. o provável autor do poema (século VIII a. mas apenas alguns episódios que se deram no nono ano do assédio grego. portanto. especialmente em suas ações e paixões relacionadas com a participação na Guerra de Tróia. a cada leitura do poema. se refere à época em que os fatos narrados aconteceram (Guerra de Tróia: século XII a. É preciso notar. jogando seus corpos como pasto para cães e pássaros carniceiros: cumpria-se a vontade de Zeus. antecipa o assunto do poema épico: "a cólera de Aquiles". eram muitas e variadas. do ser humano doce e generoso. É a ficção que quer ser vista como não-ficção.C. o ato da locução. o exórdio . Homero não sentiu a necessidade de cantar nem o início nem o fim da Guerra de Tróia. em versos hexâmetros. Os libretistas proporcionaram ao compositor Gluck duas notáveis obras de arte lírica: Iphigènie en Aulide (1774) e Iphigènie en Tauride (1779). para não cair na inverossimilhança. e o plano do enunciado . Enfim. sinteticamente. Por isso. denominação que condensaria melhor a substância poemática).) e Ifigênia em Táurida (412) e lembrado em outras obras de vários escritores greco-romanos. da narração.

. Enquanto Aquiles. fica com a jovem Criseida. junto com outros donativos. O adivinho Calcas revela que a peste. o deus do mar. e os troianos tornam a vencer. ajudado por Hera e Atena. ordena a Hera e a Posêidon retirarem-se da guerra. Num duelo particular entre os dois maridos de Helena. Agamenão. Na divisão do butim duma destas incursões. Todos os dias. dá mostras de grande valor. chefiados por Heitor. amigo de Aquiles. suplica ao deus para que vingue sua desonra e suas lágrimas. ofendido. Os pais. além de não devolver a jovem. está relacionada com a ofensa sofrida pelo sacerdote. ofende e ameaça o velho sacerdote de Apolo. costumavam saquear pequenas cidades ao longo da costa asiática. Heitor é alcançado. Os mirmidões organizam jogos e esportes. privados da ajuda divina de Hera ( Juno) e Atena (Minerva). Aquiles persegue Heitor. para se proverem de comida.172 A ira de Apolo (contra os gregos) Os aqueus. Após a terceira volta. transgride a interdição. infunde coragem no chefe grego e Hera. O herói é consolado por sua mãe. levado pelo entusiasmo. Mas estes. irmão de Heitor. Com seus gritos monstruosos afugenta os troianos. o principal herói grego. divindades protetoras dos troianos. acordando. O herói grego se desespera e jura vingança. apesar do grande valor de Ajax. que prediz próxima a morte do herói. conseguindo adormecer Zeus. Para aplacar a ira do deus. Agamenão. filho do rei Príamo. Diomedes. obrigado a restituir sua escrava. conseguem grande vantagem sobre os aqueus que. sacerdote de Apolo. Apesar da profecia do cavalo Xanto. mas também Vênus e Ares. A segunda ira de Aquiles (contra Heitor) Pátroclo. Mas Criseida é filha de Crises. Andrômaca. Mas o herói persiste no seu propósito de abster-se da guerra. pois Agamenão está disposto a devolver-lhe a escrava Briseida. Os troianos pressionam cada vez mais o exército grego. O herói troiano mata o amigo de Aquiles e se apossa de suas armas. Crises. Recebidas as armas. consegue permissão para lutar e chefiar o exército dos mirmidões. de mulheres e de outros bens. os gregos recomeçam as ações bélicas perto dos muros de Tróia. renuncia a lutar. ajudado por Ajax. mas adverte o amigo para não guerrear longe do acampamento grego. este é salvo por Apolo e Enéias por Posêidon. Aquiles empresta-lhe as armas. O herói grego Diomedes. enviam Ulisses à tenda de Aquiles para suplicar-lhe que volte à luta. avança até os muros de Tróia e ataca o próprio Heitor. obtêm várias vitórias e conseguem romper parte do muro dos acampamentos gregos. durante os longos anos de permanência de seus navios nas proximidades de Tróia. a deusa Tétis. então. Apolo acolhe a prece de seu fiel servidor e lança contra os navios gregos flechas mortais que dizimam homens e animais. consegue recuperar o corpo de Pátroclo e o leva ao acampamento de Aquiles. a intervenção de Vênus salva o troiano Páris. enquanto a mãe Tétis vai pedir a Hefestos (Vulcano). provocada pelas setas de Apolo. ameaçando inclusive de abandonar o assédio de Tróia e retornar para sua pátria. Príamo e Hécuba. chefe da confederação dos príncipes aqueus. exige dos confederados uma recompensa equivalente. que está para ser morto pelo grego Menelau. são obrigados a construir um muro e um fosso para protegerem seus acampamentos e seus navios. Agamenão. e a esposa. Ulisses e Menelau. Agamenão reconhece seu erro. volta a ajudar os gregos: os troianos são rechaçados e Heitor é ferido. restitui-lhe Briseida e oferece-lhe outros presentes. morto e despojado de suas vestimentas bélicas. E porque é Aquiles que se opõe à exigência de Agamenão. Menelau. choram a morte do herói. Aquiles convoca todos os chefes gregos para a batalha. Mas Zeus. Voltando ao acampamento grego. os gregos devolvem a jovem ao pai. Aquiles presta as honras fúnebres ao amigo Pátroclo. a confecção de novas armas. este lhe toma a escrava Briseida. Pátroclo. Aquiles se lança à luta. Agamenão chega a propor o abandono do assédio de Tróia. A primeira ira de Aquiles (contra Agamenão) O prepotente chefe grego. matando vários troianos e ferindo não só o herói Enéias. que consegue de Zeus a promessa de que os gregos não triunfariam sobre os troianos até que a injustiça feita a Aquiles fosse reparada. conseguindo até incendiar um navio grego. que foge ao redor dos muros de Tróia. proibidas por Zeus (Júpiter) de intervirem na guerra. o deus do fogo. enquanto cabe a Aquiles. Mas Posêidon (Netuno). exterminando todos os troianos que lhe aparecem na frente: mata Polidoro. a posse da linda Briseida. que se aproxima dos navios gregos e oferece um bom resgate em troca da libertação de sua filha. Os gregos.

caracterizando marcadamente personagens que se tornaram protótipos humanos. Não se curvando à prepotência do chefe Agamenão. ele é prepotente. Caracterizado como homem prudente. o protagonista do poema. Mesmo conhecendo a vontade do Destino. mas o Destino (Fado). o rei Príamo e seu . Ele tem apenas a jactância de chefe. piedade. Os que mais sofrem com o assédio. Regressando a Tróia. Agamenão. sua beleza divina exerceu um fascínio irresistível sobre os homens. matando quem lhe tirara a vida. sendo o correspondente humano do deus Júpiter. A Guerra de Tróia é apenas um pretexto para que o poeta possa articular. são realizados os funerais de Heitor. Mas o povo da Grécia Antiga o considerou seu herói nacional especialmente pela sua portentosa força física (fora alimentado com entranhas de leões!) e pela extrema perícia na arte da guerra. filho do rei Peleu e da deusa Tétis. no poema representa o “autoritarismo”. é-lhe proibido lutar contra Heitor e nas batalhas goza sempre da proteção de outros gregos. Enfim. no rio infernal Estige. rei de Micenas e chefe da expedição grega contra Tróia. fraco. constitui a razão do assédio contra Tróia. nos momentos de crise. foi imerso. Características das personagens A Ilíada é a exaltação do heroísmo guerreiro. Amedronta-se perante o mínimo sucesso do exército troiano e está sempre pronto a ordenar o fim do assédio e a volta dos príncipes gregos para suas cidades. Mas. mormente dos heróis Ajax e Diomedes. religiosidade). Casada com Menelau e raptada por Páris. Devido à extrema importância da figura de Menelau na economia mítico-ideológica da Ilíada. A Ilíada. paralelamente à expressão desta atividade coletiva. especialmente de Agamenão. só volta à luta contra os troianos para vingar a morte do amigo Pátroclo. Filha de Júpiter e da mortal Leda. entender a caracterização de seus personagens principais. além de seu valor bélico. pois intimamente é egoísta. Ainda menina. ora pela delicadeza dos sentimentos (amizade. covarde e incapaz de incentivar seus liderados ao cumprimento da missão militar. Na Ilíada. Como todo chefe autoritário. é a descrição de uma gama variegada de tipos.173 Aquiles arrasta o corpo de Heitor em torno do túmulo de Pátroclo. é a reconquista de sua esposa Helena. a preservação da vida deste herói é uma preocupação constante dos príncipes gregos. E seu sentimento de ira contra Heitor é superado apenas pela piedade perante as lágrimas do velho pai do herói troiano. que prescrevera que sua morte se seguiria à de Heitor. E por isso que. Aquiles representa a encarnação artística do homem na idade juvenil que se deixa dominar ora pela violência das paixões (agressividade. Educado pelo centauro Quirão. é apresentado pelo mito grego como semideus. provocou a guerra contra Tróia. que se tornaram “arquétipos” na cultura ocidental: Aquiles. teve inúmeros pretendentes. Helena é o pivô da Guerra de Tróia. ao nascer. filho de Saturno (Cronos) e mestre de príncipes e heróis. o poema ressalta os valores individuais. cujas águas sagradas o tornaram invulnerável. foi raptada por Teseu ( Ariadne) Salva pelos irmãos Dióscuros. Príamo chega até o acampamento grego para suplicar a Aquiles que lhe devolva o cadáver do filho. ele não hesita em honrar a morte do amigo Pátroclo. Menelau. que na sua obra Aquileida procura coletar todas as lendas sobre o herói. essencialmente. ira. vaidoso e. Compreender o poema significa. porém. no poema homérico. O herói se comove perante as lágrimas do velho pai e lhe restitui o filho morto. é exaltado seu sentimento de “honra”. rei de Esparta e irmão de Agamenão. cada qual representando um aspecto ou uma aspiração da vida humana. ódio). pois o motivo da guerra dos gregos. Aquiles cultivou todas as artes. consciente de sua missão. apesar de seu grande valor militar. Segundo o poeta romano Estácio. na idade do casamento. pelo qual pode ser considerado o primeiro "cavaleiro" do mundo ocidental. a não ser no calcanhar pelo qual foi segurado. relacionar entre si e fixar para sempre a galeria de heróis que a tradição cultural foi criando aos poucos. Menelau configura a luta pela preservação dos valores ideológicos da união conjugal e do respeito pelos bens alheios. É a representação mítico-artística da luta dos gregos primitivos em seu desejo de conquistar novas cidades e ampliar seus domínios. A sorte de Agamenão é que está bem assessorado: Nestor e Ulisses são seus inteligentes conselheiros que. Homero. não culpa Helena. que causou desgraças e mortes a gregos e troianos. tolo. lhe indicam a resolução certa a ser tomada. portanto. mais do que a expressão de um ideal de vida.

As lágrimas de Andrômaca sobre o cadáver de Heitor são fortemente expressivas. eximindo-a de qualquer responsabilidade. já de solteira experimentara o sofrimento pela morte do pai e dos sete irmãos. visto que era vontade da deusa Vênus que tal coisa acontecesse. ela tem pressentimentos do aproximar-se de novas desgraças e pede ao marido que lhe poupe a sua viuvez e a orfandade do filho Astíanax. Mesmo nos breves períodos de paz. em seu Elogio a Helena. a educação estava centrada na areté. estava o sentimento da "honra". Auxiliado pelos deuses Apolo e Marte e amado pelo seu povo. estimulado pelo irmão Heitor e sob a proteção da deusa Vênus. Heitor é o maior herói troiano. Heitor é mais humano e mais sensato.174 filho Heitor. Durante o assédio grego a Tróia. eis que Helena se despe na sua frente. da mãe e do filho. a cujo fascínio ninguém pode resistir. Com efeito. o dever e o prazer das lutas se manifestavam nas várias formas de atividades esportivas. descrita no canto VI. é ele quem preside as assembléias. a ratio é impotente diante do pathos: a força instintiva dos sentidos. elegante e amoroso (Adônis). A função que o Destino lhe prescrevera era a de amar. A presença do corpo de Helena evoca os desejos sexuais latentes no subconsciente do príncipe grego. é mais forte do que as prescrições e interdições socio-morais. A virtude estava sempre ligada à nobreza e ao valor bélico. pois o sentimento do dever cívico supera qualquer egoísmo. Heitor é o protótipo do governante justo e sábio e do chefe de família devotado. no confronto. e Agamenão. Homero compara Heitor aos heróis gregos Aquiles. É a paixão que triunfa sobre a razão. de outro lado. Filho do rei Príamo e da rainha Hécuba. Ele luta por uma causa justa. Intimamente relacionado com o conceito de virtude. Helena é o símbolo da criatura seduzida e sedutora. ela se une maritalmente a outro filho de Príamo. Deífobo. conceito que o nosso termo "virtude" traduz apenas parcialmente: era o ideal cavaleiresco de vida. quer em vida. Filha do rei de Tebas. contrastando com Helena. quando de sua passagem para a época da filosofia. elevando-se a protótipo de mulher fatal. Andrômaca. apesar de ser o maior responsável pelo assédio dos gregos contra sua cidade. subjugado como estava pela beleza divina da esposa grega. Daí a grande importância conferida aos funerais dos heróis e à comemoração do aniversário de sua morte. de seu patrimônio e de sua família. quanto ao valor militar. Comovente é a cena familiar. contra os gregos invasores. unido a uma conduta cortesã e ao heroísmo guerreiro. Só vai ao combate nos momentos de perigo. toma as decisões e chefia a guerra contra os gregos. são também os maiores defensores da jovem grega. ILUMINISMO (Enciclopédia: movimento cultural do Setecentos)Racionalismo O Racionalismo francês desaguou no Iluminismo ou Ilustração. a esposa de Heitor. acima de qualquer outra coisa. a paixão. antes de ir para a luta. quanto ao poder de chefia das ações bélicas. A honra era satisfeita pelo reconhecimento público do valor do indivíduo: o contentamento íntimo será uma aquisição posterior da cultura grega. é a mais bela configuração da fidelidade conjugal e da devoção ao lar. que anulam seu propósito de vingança. caracterizada pelas grandes emigrações. homem justo e digno. pois a ética grega. Mas. Prefere as delicias do amor de Helena à luta contra os inimigos. exigia o respeito ao ser humano. ele não recusa o duelo com o inimigo grego. que é a defesa de sua cidade. e. a simpatia dos leitores da Ilíada tende para o herói troiano. quando vê ameaçada a segurança do lar. sendo este trecho considerado um dos mais comoventes do poema. massacrados por Aquiles. ela não tem culpa de ter sido seduzida pela beleza de Páris. Após a tomada de Tróia. A Ilíada é a expressão artística da idade guerreira do povo grego. Helena vive apenas em função do amor. quer após a morte. seduzindo novamente seu marido e voltando a ser sua esposa. Mas. sabe que a vontade do Destino deve realizar-se: Heitor. corrente do pensamento que . Páris. no poema é apresentado como fraco e covarde. Representada como a correspondente humana de Vênus. quando se despede da esposa. Morto Páris. Mesmo cônscio de que é vontade do Destino que morrerá lutando contra Aquiles. quando Menelau se aproxima dela com a intenção de castigá-la com a morte pela sua traição. A tradição fez de Páris o protótipo do homem belo. mesmo então. Como já observara o sofista Górgias. Se Aquiles é mais forte e Agamenão mais prepotente. Neste estágio de civilização. não pode afastar-se da luta para evitar a morte.

XX: o Expressionismo. entre cientistas e intelectuais. Du Marsais (gramático). A pintura impressionista será entendida melhor se comparada à corrente oposta. A beleza clássica busca colher o eterno e o imutável. Convencidos de que o desenvolvimento das ciências naturais levaria inevitavelmente o homem a dominar as forças da natureza. igualdade e fraternidade”. espaço do sofrimento transcendental)Dante “L’ Enfer sont les autres” (Sartre) . INFERNO (Hades. O Impressionismo está dentro da estética do Realismo e esta dentro da estética clássica. A uma certa distância. eles criaram uma pincelada distinta. cujas obras lançaram os fundamentos ideológicos da Revolução Francesa. Paul Cézanne (Curva da estrada. 1898). não escondendo excessos e deformidades. Edgard Degas (Depois do banho. apoiada sobre os dados fornecidos pelos sentidos. Turgot (economista). O pensador mais importante da corrente iluminista foi John Locke (Liberalismo). estes borrões e manchas se fundem. jogando cartas. que surgirá no começo do séc. Rousseau e Montesquieu. pontual. porém. colaboraram uns sessenta escritores. o Determinismo à filosofia e o Naturalismo às ciências.175 vigorou ao longo do século XVIII. O Impressionismo está à pintura como o Realismo à prosa de ficção. borrões irregulares que vibram energia como o brilho da luz sobre a água. Os quadros dos impressionistas retratam cenas de gente à beira do rio Sena. enquanto a segunda tenta retratá-la assim como ela é. Voltaire. des Artes et des Métiers. Condillac (sensualista). Para mostrar estas qualidades voláteis da luz. os iluministas sonhavam com a idéia de que a sociedade humana pudesse ser reorganizada em bases estritamente racionais. Daí começaram a chamar de “impressionistas” telas de pintores franceses do último quarto do séc. curta. Além de Monet. Os pintores desta escola perceberam que a cor não é uma característica intrínseca e permanente. Paul Gauguin (De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?. impregnada de uma grande euforia. em 1874. Tal atmosfera cultural. surtiu seus efeitos práticos na elaboração da Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences. A diferença entre a estética clássica e a realista é que a primeira idealiza a natureza. a fonte do conhecimento. Vincent van Gogh (Auto-Retrato. De 1751 a 1766. cuja obra influenciou a proclamação da Constituição americana e o regime democrático de outros povos. Tártaro. banindo-se qualquer tipo de preconceito religioso. 1863. apregoando os ideais democráticos de “liberdade. IMPERIALISMO (forma de governo) Absolutismo Política IMPRESSIONISMO (estilo de Pintura) Realismo O nome desta escola de arte está relacionado com uma tela de Claude Monet. Helvetius (materialista). mas muda constantemente de acordo com os efeitos da luz. 1876). Numa exposição de Pintura em Paris. Buffon (naturalista). fazendo piquenique em jardins. que considera a arte come mimese. do reflexo ou do clima sobre a superfície do objeto. 1882). destacando-se Denis Diderot e Jean Le Rond D’Alembert (os idealizadores e executores do projeto). já o estilo de arte impressionista tenta apanhar o momento fugaz. é um dos nus femininos mais discutidos). participando de festas. religioso ou ético). é dada por um movimento de “fora para dentro”. dando formas mais ou menos definidas de objetos ou seres retratados. 1897). Barão d’Holbach (ateísta). Aderindo a um novo conceito de razão. Esta teve como ideal fundamental acabar com qualquer forma de Absolutismo (político. Seu principal objetivo é dar-nos uma "impressão" da luz sobre tudo. ele deu ao quadro O nascer do Sol o título de “Impressão”. isto é. o chamado “século das luzes”. mas uma razão “operativa”. o Parnasianismo à poesia lírica. não a dedutiva cartesiana fundamentada no axioma das idéias inatas. ou naturezas mortas (frutas. 1889). na confecção desta obra monumental. “imitação da realidade”. Tal conjunto estético e ideológico tem como centro de irradiação a França da segunda metade do Oitocentos. os impressionistas mais famosos são Édouard Manet (o óleo sobre tela Olympia. várias vezes interrompida pela censura eclesiástica. além da famosa tríade de escritores. apresentado pelo jogo da luz e das cores. os teóricos da Ilustração tiveram como meta a luta contra a ignorância e a superstição. daí o nome de Iluminismo ou de Ilustração. Auguste Renoir (Nu ao sol. flores). XIX. Plutão. A percepção dos objetos. em vista de que todo o poder emana do povo.

o Aqueronte. O primeiro modelo de computador (de con + puto = “pensar junto”. A Eneida e A Divina Comédia descem até o fundo do inferno para conhecerem o passado e terem a premonição do futuro. A porta do inferno era guardada por Cérbero. os mistérios da psique humana. forças misteriosas. um habitante da Patagônia. e as boas para os Campos Elíseos. O deus do inferno era Plutão (Hades. Hoje. Os protagonistas dos poemas épicos A Odisséia. sua irmã e esposa e mãe de Júpiter. O Tártaro é o senhor impiedoso. contra o consenso da mãe Ceres (Terra). na barca de Caronte. cão com três cabeças e com serpentes envolvendo seu pescoço. pesava 30 toneladas. com aparente contraste. sob encomenda do Exército americano. representando a derrota definitiva (pois irremediável) de uma existência. via Internet.176 O mundo infernal era imaginado pelos gregos como situado no interior da Terra: a palavra latina infernus é composta a partir do prefixo infra (“abaixo”). No passado. A essência íntima do Inferno é a crença em pecados atávicos. para calcular trajetórias de mísseis na II Guerra Mundial. calcular). A rede mundial de computadores nasceu em 1969. pelo qual as religiões e as ideologias vivem atormentando o ser humano. para ler Platão (em grego antigo. A palavra “Inferno” é. a humanidade dispõe de uma quase infinita quantidade de informação a baixo custo. o conhecimento só era possível de uma forma bem limitada e a custos elevados. o Hospital Sírio-Libanês de São Paulo transmitiu para o mundo a primeira telecirurgia. Atualmente. as Górgonas. filho de Saturno (Cronos) e de Cibele. ocupava uma área de 450 metros quadrados e utilizava mais de 18 mil válvulas. em inglês ou na língua dele) ou assistir um jogo de futebol na . Tisífone e Megera. tendo como auxiliares várias divindades menores: Hécate (deusa da feitiçaria). lugar de sofrimento. príncipe da riqueza e das trevas (o sarcasmo dos opostos!). já no contexto da religião cristã. físicos americanos da Bell Telephone. monstro com cabeça enorme e cabeleira de serpentes. lugar de gáudio. por mais que se ponha nele. no sentimento de culpabilidade. exclamar na sua peça Entre quatro Paredes: “O Inferno são os outros!”. que revolucionou a indústria eletrônica. que reinava sobre os mortos. onde o poeta italiano descreve o sofrimento das almas que pecaram neste mundo. não fica maior nem mais pesado (Bill Gates) A Informática é a ciência do tratamento automático e lógico da informação. Cocito. o maior fenômeno tecnológico da década de 90: a comunicação mundial pela Internet. Plutão raptou e desposou Prosérpina. era também venerado como deus da vida e da reprodução. três irmãs das quais a mais famosa era a Medusa. Ele julgava as almas que chegavam no Inferno e enviava as más para o Tártaro. especialmente crianças e almas. Alecto. as almas deviam atravessar. Internet) A grande qualidade de um notebook é que. INFORMÁTICA (ciência da computação. a entrada sendo localizada em Cumas. pela compra de livros ou consulta em bibliotecas. as três Fúrias ( Erínias). Era o primeiro passo para o surgimento da Net (“rede”). região vulcânica perto do golfo de Nápoles. possibilitou a interligação em circuitos. um dos cinco rios infernais (os outros eram Estige. da comunicação eletrônica a longa distância. construído pelos engenheiros Jonh Mauchly e Presper Eckert. permitindo o surgimento de uma nova geração de computadores. o título do terceiro cântico (os outros são “Purgatório” e “Paraíso”) do famoso poema alegórico de Dante Alighieri. que se tornou o marco da globalização de final de século. Flegetonte e Lete). conscientes ou inconscientes. vingadoras dos crimes contra a família ou a sociedade. a Morte (Tánatos). Plutão. A Divina Comédia. conhecido pela sigla ENIAC (Calculador e Integrador Numérico Eletrônico). cem vezes menor e sem o aquecimento da antiga válvula. Plutão. por computador. as Harpias. Daí o poeta existencialista francês. Jean-Paul Sartre. cruel. que não dá trégua a nenhuma vítima caída no abismo eterno. O transistor. “recalcada” por pecados atávicos ou pessoais. também. aves com cabeça de mulher. na Grécia). o Sono (Hipnos). No ano 2000. Além de deus da morte e da destruição. que raptavam tudo. melhorando e barateando os equipamentos eletrônicos. quando um programa do Pentágono conectou entre si. quatro universidades norte-americanas. simboliza as profundidades do mundo interior. pois protegia as sementes ocultas embaixo da terra. inventaram o transistor. Em1949. Para passarem do mundo dos vivos para o mundo dos mortos.

Fidel Castro etc. pois sua obra famosa. pois é só um músculo bombeador de sangue!). movida pelo princípio da seleção natural. indicando a rapidez da apreensão mental. O filósofo e economista alemão exaltou a importãncia do trabalho humano como meio de produção. estabelecendo direitos e deveres entre as várias classes sociais. que teria como centro o coração e não a cabeça. O exemplo mais luminoso deste tipo de inteligência é a do físico alemão Albert Einstein. que se consideraram messias ou . entendendo o que eles pensam. XXI! INQUISIÇÃO (tribunal religioso. A figura do cientista inglês Charles Darwin sobressai. o mundo não é criação divina. que estabeceu novas e surpreendentes equações entre as categorias do Tempo e do Espaço. do psicólogo americano Daniel Goleman. costuma ser distinta do fator emocional. uma possível tipologia de inteligência: 1) Inteligência lógica: por ela o homem conhece as relações abstratas que existem entre os objetos. o criador da Teoria da Relatividade. O ser humano que consegue desenvolver essa modalidade de inteligência acaba se tornando dono de si. tornou-se best seller na primeira metade da última década. que podem ser medidos por testes de “quociente de inteligência” (QI). É a inteligência peculiar de poetas e ficcionistas. É o milagre da tecnologia. por telefone. 7) Inteligência transcendental: esta é própria dos grandes líderes religiosos (Moisés. O ser humano é apenas um elo na cadeia evolutiva do universo. Economia. Reforma e Contra-Reforma) Lutero INTELIGÊNCIA (vários tipos. animal e vegetal. Por essa inteligência. embora numa escala diferenciada. 6) Inteligência interpessoal: conquistar a simpatia do público é fundamental para certas categorias profissionais. apresentando vários graus e estágios de desenvolvimento. identificando flora e fauna e estabelecendo semelhanças e diferenças entre a vida humana. Shakespeare. considerada a nova Bíblia. Aministração de Empresas) tiveram na figura de Karl Marx seu ilustre mentor. Chegar à revelação da origem de um trauma é encontrar sua cura. especialmente para políticos e artistas. Quem alertou para a grande força do inconsciente e do subconsciente individual foi o médico e pesquisador austríaco Sigmund Freud. revolucionou a sociedade moderna. ressaltamos o irlandês James Joyce. Fernando Pessoa e tantos outros). de acordo com fatotres genéticos e ambientais. a inteligência (= alma espírito) é múltipla e qualquer ser humano tem a possibilidade de desenvolver a pluralidade de tipos nela virtualmente existentes. A atividade celebral. aproveitando as experiências boas ou más. É a qualidade dos grandes líderes laicos. mas fruto de uma constante evolução. estando sujeito às mesmas regras. a inteligência é a capacidade própria do ser humano de compreender. Hitler. 4) Inteligência social: é o modo de pensar que relaciona o homem com seus semelhantes. genialidade)Espírito Conhecimento Do latim inter + legere (“ler por dentro”). Maomé). Dante. Inteligência Emocional. que conseguiram se impor a uma grande massa social: Júlio César. Mas estudos mais recentes têm demonstrado que a inteligência não é unívoca ou dual (razão e sentimento). formulando conceitos e idéias. Estudada especilamente pela Psicologia. rádio ou cabo. Virgílio. As modernas “Ciências Sociais” (Sociologia. sentem e desejam. a seguir. 2) Inteligência poética: é a capacidade de interpretar o mundo através das palavras. É possuída em alta escala por filósofos e cientistas. O pai da Psicanálise encontrou na libido a energia que impulsiona a vida ativa e a criatividade humana. Uma obra que fala a respeito disso. Cristo. apontando as injustiças que vinham sendo cometidas pelo capitalismo selvagem. tradicionalmente. a inteligência já foi objeto de múltiplas definições. 3) Inteligência naturalista: é o modo de conhecimento que nos permite interagir com o ambiente circunstante. Entre os vários escritores famosos analisados neste “dicionário cultural” (Homero. que está dando um novo vulto ao séc.177 Inglaterra. Apresentamos. A Origem das Espécies. Política. Mussolini. Antropologia. de uma forma imediata e quase gratuita. 5) Inteligência intrapessoal: olhar para dentro de si para tentar ver o que existe por trás da consciência. válidas para todas as criaturas vivas. Quem consegue desenvolver a inteligência interpessoal encontra uma maior facilidade em se relacionar com os outros. Buda. basta apenas estar conectado à rede eletrônica mundial. dono de uma inteligência lingüística assombrosa. Concentrada apenas no cérebro que é o único centro do saber e do sentir (o coração não sente nada. usando uma linguagem sempre renovada pela figura da metáfora.

servindo-se desse moderno meio de comunicação. junto com a capacidade de criar com rapidez. artes que estão entre si estritamente relacionadas. também austríaco. a justiça e a felicidade não fossem apenas sonhos ou utopias. pois é o homem que programa o computador para realizar várias operações de “robótica” (visão e atividade motora). A História da Arte apresenta a evolução deste tipo de inteligência através dos tempos. representados em código binário. faz de uma pessoa um “gênio”. O cultivo deste tipo de inteligência requer a interação entre o conhecimento intuitivo das leis da física. Essa inteligência é. onde a paz. sendo de uma utilidade incalculável para quase todas as atividades humanas. O mais alto grau de capacidade intelectual. Apenas a habilidade física e o treino corporal não levam à genialidade: o movimento deve ser guiado por um tipo peculiar de inteligência.. visando apresentar um objeto do ponto de vista do artista. por ter deixando obras estupendas em vários ramos da atividade humana. pode ser considerado o pai da moderna Música. a orientação espacial integrada com a temporal. 11) Inteligência artificial: é a área da ciência da computação ( Informática). Escultura e Pintura). Picasso. Decodificar melodias e ritmos é o modo mais sublime de conhecer a realidade. a feição pictórica da arte da Vanguarda européia. O autor da Flauta Mágica é o melhor exemplo do que é a inteligência musical. 9) Inteligência figurativa: outro meio de conhecimento da realidade é através das artes plásticas (Arquitetura. Filho de professor de música. o fundador do Cubismo. portanto. apregoam a existeência de um outro mundo. como se fosse um ser humano. pela engenharia de hardwares e softwares (discos duros e moles). Henri Bergson (1859-1941) foi um dos maiores expoentes da revolta contra as doutrinas materialistas e mecanicistas. A grande revolução aconteceu no início do séc. fundamentada no conceito clássico de harmonia de formas. bem diferente daquela até então praticada. que surgiu na década de 1950 e continua evoluindo a largos passos. sentindo-se inspirados por uma força superior. junto com a dança. sistematizada por H. o tipo de inteligência de que as pessoas humanas são dotadas varia de um indivíduo para outro. simplesmente. Trata-se de pessoas com uma fortíssima carga interior. de “linguagem natural” (interpretação automática de textos) etc. pensador e literato. que nos faz distinguir os sons e suas combinações. que vem produzindo vários filmes di ficcção científica. o único a quem a natureza reservou o dom do raciocínio. cores e materiais os mais variados também é uma atividade bem antiga. Genética e ambiente contribuíram para a formação da sua genialidade. computador)Informática INTUICIONISMO (doutrina filosófica. que dominaram a cultura européia na segunda metade do século XIX. aos cinco anos já compôs seus primeiros trabalhos. enviados pela divindade para salvar a humanidade. 10) Inteligência cinética: está centrada sobre a técnica e a arte do movimento. O renascentista italiano Leonardo da Vinci seria o “gênio dos gênios” pois.Bérgson) Pantarrei (“Tudo corre”) (Heráclito) Francês. emocional ou física. Trata-se de uma máquina “que pensa”. A inteligência artificial está sendo utilizada também pelas artes.178 profetas. O computador é um aparelho que reproduz processos complexos e inteligentes. Suas figuras são retorcidas e fragmentadas. especialmente pelo cinema. esportistas e dançarinos. XX com a genialidade do espanhol Pablo Picasso. INTERNET (WEB. 8) Inteligência musical: como Freud é considerado o pai da psicanálise. Mas foi apenas a partir do tardio Barroco que a Europa tomou consciência da importância da inteligência musical. que chamamos de “cinética”. inventou uma nova forma de pintar. É essa inteligência que faz a diferença entre a genialidade de Pelé e os milhares de jogadores de futebol ou entre o russo Barichinicov e os outros bailarinos. foi definido como “o mais completo dos homens”. apresentadas por uma perspectiva múltipla. Sua reflexão espiritualista sobre a vida e a existência humana . que. a partir da manipulação de símbolos. de origem irlandesa. “artificial”. que a mente humana pode alcançar numa determinada área de conhecimentos. Como podemos ver. assim Wolfgang Amadeus Mozart. o canto e a poesia. o amor. utilizando linhas. com o intuito de representarem sua força interior. Modelar figuras. E o mais antigo também: os agrupamentos humanos primitivos são os que mais cultivam a música. sendo fundamental para atletas. na dependência de fatores de hereditariedade e do meio ambiente. que transcende a nossa realidade.

época aproximada do episódio histórico.. filha de Araquém. Duração e simultaneidade.179 encontra-se consignada em obras famosas: Ensaio sobre os dados imediatos da consciência. mestre-de-campo do exército português. especialmente a indígena Iracema. A fábula romanesca inicia quando a bela tabajara Iracema. pela descoberta do psicológico. tivera a clara consciência da distinção entre o raciocínio discursivo (diánoia) e a apreensão intelectual das essências ou idéias (nóesis). O pensamento e o movente. os Tabajaras (“senhores das aldeias”) que habitavam no interior do Ceará e os Tupinambás (“parentes dos Tupis”) que.. primeiro núcleo do futuro Ceará (“canto da jandaia”). moço de raça branca que perdera de vista o companheiro Poti. a história registra o valor guerreiro de Martim Soares Moreno. Além do aspecto formal. meio poema épico e meio poema lírico. de comparações entre elementos do mundo vegetal. data da primeira publicação de Iracema). A evolução criadora. Esta história é a lenda de Iracema. Mas é Bergson a valorizar decisivamente o papel da intuição. de metáforas delicadas. ao tempo e ao espaço. “a virgem dos lábios de mel”. uma energia dinâmica que estimula sua constante evolução no tempo. Reflexões sobre a intuição como forma de conhecimento da realidade encontram-se também nas obras de Descartes. repleta de elementos sonoros. também chamado de “tempo-emoção”. se aliaram aos franceses do Maranhão. em que encontramos a confluência de dois gêneros literários: o lírico e o épico. Kant. especialmente na construção da personagem modelada e no romance de fluxo de consciência. o lírico se depreende da exaltação da flora e da fauna da terra brasileira e do idealismo sentimental com que são retratadas as personagens principais. após uma luta inglória contra os portugueses da Bahia. Ao redor deste núcleo histórico. Iracema é a personagem-título do romance mais famoso de José Alencar. e do índio Poti. movida pelo élan vital. que opõe o conhecimento direto e imediato da realidade ao pensamento analítico e reflexivo. de imagens sugestivas. animal e humano. A energia espiritual. além do regionalista e indianista. Com um distanciamento de dois séculos e meio (1615. no início do século XVII. Os indígenas Potiguaras (“comedores de camarão”). encontra na floresta cearense Martim. IRACEMA (romance de José de Alencar: o mito indígena da virgem dos lábios de mel) Verdes mares bravios de minha terra natal. porque consagrou sua virgindade ao deus. seu pai. a partir de um fato histórico: a luta pela colonização do Ceará e de outras regiões do nordeste brasileiro. Matéria e memora. a apreensão pela intuição estabelece uma comunicação direta entre o “eu profundo” (que muda continuamente) e a interioridade dinâmica das coisas. As verdades humanas. não têm valores absolutos. Ela o leva até a cabana do Pajé. o conceito de duração apresenta a vida como um contínuo fluxo. o povo nordestino criou a lenda do português Martim. A interação entre o pensar e o viver encontra-se sintetizada na famosa expressão de Bérgson: “pense como um homem de ação e aja como um pensador”. O conceito de “intuição”. intimamente ligado à noção de durée (duração). portanto. que visava colonizar a região à foz do rio Jaguaribe. estabeleceram relações de amizade com os portugueses para defender-se de inimigos comuns. e 1865. por sua vez. Apontamos apenas duas idéias que nos parecem fundamentais no pensamento filosófico de Bergson: o Intuicionismo. irmão do chefe potiguara Jacaúna. mas ela lhe revela que não poderá amá-lo. Tal lenda se formou no seio do povo nordestino. O aspecto épico do romance se relaciona com o assunto: o narrador anuncia que está relatando “uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci”. mas relativos ao sujeito. Já o pré-socrático Heráclito de Éfeso exprimia a consciência da fugacidade das coisas e da relatividade da verdade através da bela imagem do homem que não consegue banhar-se duas vezes nas mesmas águas de um rio. e o élan vital (a energia da vida). que ajudou os portugueses a expulsar os holandeses. O jovem português Martim Soares Moreno participou da expedição do nobre paraibano Pero Coelho. que tinha . quer de raça indígena. Leibniz. durante uma caçada. provenientes da segmentação das frases e da repetição de sintagmas. que se apaixona pela índia Iracema e cultiva um forte sentimento de amizade pelo indígena Poti. A percepção da mudança. enquanto o conhecimento através de conceitos apresenta a realidade como algo de estático e imutável. A “jurema” era um licor preparado com o suco da fruta da árvore homônima. Platão. Bem recebido. é bem antigo na história da filosofia no Ocidente. O estilo lírico é evidenciado pela “prosa poética”. quer de raça branca: os invasores franceses e holandeses. índio potiguara. e de outros recursos retóricos próprios da poesia lírica. Sua expressão pantarrei (“tudo corre”) se tornou universalmente conhecida. que habitavam o litoral nordestino. o grande chefe da tribo. José de Alencar explora artisticamente os fatos histórico-lendários e cria um romance curto. Da mesma forma. O rir. batizado com o nome de Antônio Felipe “Camarão”. Martim se apaixona pela linda Iracema. Segundo ele. Daí o pensamento bergsoniano ter tido influências decisivas na ficção modernista. Spinoza. conhecedor dos segredos do deus Tupã. Nesta luta pela colonização do nordeste brasileiro. sendo guardiã do segredo da jurema e do mistério do sono. Schelling ( Racionalismo Idealismo).

o maior guerreiro tabajara. Iracema e seu irmão Caubi acompanham Martim em sua viagem de volta. Não é sem motivo. no romance de Alencar. peripécia) Retórica Machado . apesar de ter assimilado língua e costumes indígenas. Cada vez mais fraca. sem que Martim o perceba. Irapuã e mais de cem índios os atacam e exigem a entrega do moço branco. Iracema pode ser considerada a personagem símbolo da terra mãe que. antropófago (Caramuru) ou como simples elemento da natureza. ameaça chupar o sangue do jovem branco. perdido na floresta dos Tabajaras. após quatro anos de ausência. está em perigo. bem ao estilo romântico. Considerada uma bebida divina. retorna definitivamente ao Ceará e. beberagem que lhe faz rever em sonho sua pátria natal. Mas. inculto (Uraguai). tomado pelo ciúme e pelo ódio. voltara para Portugal. tendo traído o voto de virgindade feito a Tupã. percebendo o amor que está crescendo entre Iracema e Martim. Aproveitando do sono profundo destes. que habitam o litoral cearense e travam amizade com os “guerreiros do fogo”. Iracema. Com efeito. assumindo até o nome de Coiatabo (“guerreiro pintado”). pois excitava a fantasia e proporcionava alucinações agradáveis. se aflige com a tristeza de Martim. preferindo a companhia de Poti para a guerra e para a caça. ainda sente saudade de sua terra e de seus familiares. Neste sentido. Enterrada a jovem esposa à sombra de um coqueiro. tomado pela saudade de sua terra de origem. Durante o caminho. Iracema embebeda o jovem branco com o vinho de Tupã. portanto. na terra dos potiguaras. o personagem-título possui uma personalidade bem mais marcante do que a do protagonista branco. Leva-o até o bosque sagrado de Tupã e lhe dá de beber a jurema. O Guarani e Ubirajara). A vida de Martim. apenas na companhia de um cão fiel. ela leva Martim até o lugar onde se esconde o amigo Poti. onde a índia Paraguaçu adota o nome cristão de Catarina e vai casar-se “legalmente” com Diogo na corte do rei da França. e não vice-versa. durante a viagem rumo à praia cearense. De noite. está em ponto de morte. Acabando o leite. escrito nos alvores do movimento nacionalista. Dias felizes de amor. mesmo sabendo que o amor lhe causará a morte. afasta-se cada vez mais de sua cabana. que a elaboração artística e idealizada da lenda de Iracema se tornou a melhor expressão literária do indianismo brasileiro e um marco importante do nosso nacionalismo poético. que. o capítulo final do romance é bem expressivo: Martim. O romance Iracema é o mais acabado exemplo de literatura “indianista”. Entretanto. Aí revela a Martim que é sua esposa e que não pode mais abandoná-lo. os estrangeiros de outra raça e de outra religião. O índio como tema literário já fora explorado na época do Arcadismo. grávida. a literatura romântica promove a exaltação do aborígine brasileiro. Na cabana à beira-mar. e com ele tem relação sexual. Enfim. vivificando os sonhos e tornando realidade os desejos. É Iracema que seduz Martim. enquanto o fraco Martim se deixa levar pela nostalgia da terra distante. Iracema sugere que Martim espere seu irmão Caubi chegar da caça para que seja acompanhado em sua viagem de volta à tribo dos potiguaras. como acontece no Caramuru. a jurema. quando chegam Martim e Poti. O casal de indígenas defende Martim e o leva de volta à cabana do Pajé. Martim leva num frágil barco o filho e o cão fiel. ela oferece o seio a cachorrinhos para estimular sua produção e alimentar Moacir. A idealização do elemento indígena é. é a cultura primitiva dos aborígines que predomina sobre a civilização européia. no romance Iracema (como também nas duas outras ficções indianistas de Alencar. exorta os de sua tribo a lutarem contra os índios potiguaras. aprendendo a língua e os costumes indígenas. que. cinismo. o índio potiguara Poti vem ao encontro de seu amigo branco. que é de raça branca e amigo da tribo rival. ao redor do túmulo da índia. a par do néctar dos deuses da mitologia grega. o marco mais peculiar do romantismo brasileiro. O jovem português sente a alegria da paternidade misturada à dor da viuvez. Portugal. O herói lusitano. Martim sonha com a chegada de um barco que o possa levar de volta ao seu país natal. É Martim que se acultura. seus familiares e sua namorada de infância. sem dúvida. dá início à civilização brasileira. Irapuã (“Mel-Redondo”). seduz o estrangeiro que vem ao Brasil e o induz a aqui ficar. pelos seus encantos. insinuando que a raça indígena é cultural e humanamente superior à raça branca dominadora. enquanto a poesia épica de Santa Rita Durão e de Basílio da Gama considerou o indígena ou como ser de raça inferior.180 um poder narcótico. fruto do acasalamento da raça portuguesa com a raça indígena evangelizada. O guerreiro índio Irapuã. mas não ousa aproximar-se da cabana de Araquém. sua fabricação era um segredo só conhecido pelo Pajé e por sua filha devotada ao culto de Tupã. Iracema prepara muito licor de jurema para os guerreiros tabajaras. Iracema. Durante uma festa em honra de Tupã. A paixão amorosa da jovem índia. em contraste com o egoísmo estrangeirista dos portugueses. dá à luz Moacir (“o nascido do sofrimento”). Ela nunca se arrepende da escolha feita e seu amor em momento algum vacila. é mais forte do que seu voto religioso e seu afeto à família e à tribo. não resiste ao chamamento da terra de Iracema e. IRONIA (humor.

doença neurológica humilhante . caindo num relativismo que lhe impede de acreditar em qualquer valor absoluto. especialmente pelas suas obras satíricas Zadig e Micromégas (contos). escritor irlandês do começo do séc. Jonathan Swift. Verdadeiro gênio é quem consegue sublimar em motivos artísticos suas inquietações espirituais. Diálogos dos Mortos. pela qual tudo é maldade e sofrimento (postura pessimista). Cândido. a ironia é uma figura retórica. 4) o fundamento filosófico da ironia: o Ceticismo. e divulgada no mundo helenizado por Sexto Empírico. o bem e o mal. e a conseqüente descrença numa possibilidade de melhoramento (postura cética) se transformam. religiosa. autor da famosa obra As Viagens de Gulliver. em duas atitudes . sobre as obras de Machado de Assis. o licito e o ilícito. a teoria luterana da corrupção fundamental do homem pelo pecado original. social e moral.C. inventado por algum grego da decadência. Lúcio ou O Asno). dizendo o contrário do que se pensa. as regras que regem o comportamento social e os critérios que determinam o certo e o errado. O ceticismo está fundamentado sobre dois pressupostos basilares: a contradição dos dados do conhecimento e a equivalência das razões contrárias. a razão e a loucura. cheio de mistérios. III a. Mas pouco importa indagar qual seja o fator ou o conjunto de fatores que subjazem ao pessimismo de Machado de Assis. assim define a ironia: “Esse movimento ao canto da boca. o que melhor cultivo o estilo irônico de escrever ficções foi. a ironia tem seus principais cultores nas épocas de decadência política. retor e sofista grego do séc. adquirindo um parâmetro de universalidade. A doutrina cética ensina que é impossível conhecer a verdade (ceticismo gnoseológico). Segundo a tese sustentada por Vianna Moog ( Os heróis da decadência). Uma breve análise da definição acima revela as seguintes características desta figura de estilo: 1) a atitude física do homem irônico que. escola fundada pelo grego Pirrão de Élida no séc. “interrogação”. Voltaire. XVIII. ou uma forma de argumentar pela qual se põe em dúvida alguma afirmação do interlocutor. segundo a qual o homem já nasce com o seu destino traçado por taras hereditárias e lhe é impossível qualquer melhoramento. o normal e o anormal. porque. o patriarca da cultura francesa do séc. Machado de Assis. tem apontado vários fatores biopsíquicos e socio-culturais para explicar o motivo do seu pessimismo: o complexo de inferioridade por causa da cor. referente ao modo de expressar um pensamento. II d. XVIII. a origem primeira das coisas (ceticismo metafísico). inclusive como método didático: a famosa “ironia socrática”.C. Enfim. feição própria dos céticos e desabusados”. origem humilde.. Deus (ceticismo religioso). A crítica externa. Na literatura brasileira. perante o fracasso dos ideais. liberal e anticlerical. como postura dialética do espírito em busca da verdade. Mais importante do que determinar o motivo dos complexos machadianos. pelo seu sorriso enigmático. com sutileza e humor. contraído por Luciano. citando alguns escritores irônicos: Luciano de Samosata. é tentar verificar como as suas contradições existenciais se tornaram formas e temas literários. questionando. A Donzela (poema herói-cômico). O Homem de Quarenta Escudos (romances). Evidentemente. expressa a descrença nos valores ideológicos. A visão negativista do mundo e do homem. trata-se de “uma ignorância simulada”. a distinção do bem e do mal (ceticismo ético). sem dúvida. o pessimismo filosófico de Schopenhauer. satirizou os costumes da época. sendo a salvação possível apenas pela predestinação e pela graça divina. no Machado da maturidade artística. derivado da concepção do mundo como dor e maldade. ridicularizando os preconceitos socio-morais. transmitido a Swift e Voltaire. pois nos interessa estudar a obra e não o homem. a influência da teoria determinista de sua época. a epilepsia. foi considerado “o mestre da ironia”. é colhido pelo desencanto da vida. ridicularizou as várias seitas do cristianismo e atacou violentamente a vida pública da Inglaterra. o jansenismo pascaliano que nega a liberdade humana. principalmente. a ironia já fora praticada pelos sofistas e pelo filósofo Sócrates. no conto Teoria do Medalhão.181 “O humor é a quintessência da verdade” (Millôr Fernandes) Do grego eiróneia. 3) a figura de estilo é usada por vários autores. Na base da ironia machadiana podemos encontrar um pessimismo radical. para quem a ironia é uma disposição de espírito provocada pela reflexão sobre as contradições da alma humana e do convívio social. o ficcionista Machado de Assis e o crítico Vianna Moog se limitam a tratar da ironia no plano estético e moral. O Ingênuo. quando o homem. Machado de Assis. 2) o espaço e o tempo das primeiras manifestações da ironia: a Grécia da época da decadência. fazendo perguntas que demonstrem sua ignorância sobre o assunto em discussão. através de suas conferências e de seus escritos (Diálogos dos Deuses.

por mais duas vezes. cristãos e muçulmanos)Cruzadas Etimologicamente. A Cidade Santa é a fonte perene de inspiração para . foi dominada pelos mamelucos e. Jerusalém se tornou a capital do reino de Judá. correspondente. De 1260 a 1517. à atual Palestina. que existe o que não existe.XII e XIII). Após várias disputas entre povos rivais dos judeus. a essência do cômico reside no desvio da normalidade. suas marcas. porque. quando está no poder ou com o poder. Finalmente. cristã e muçulmana). proclamada cidade internacional e dividida em duas partes (zona israelense e jordaniana). a Cidade e o Templo foram destruídos por Nabucodonosor e reconstruídos sob o império persa. Na medida em que o Cristianismo ia perdendo sua força no Oriente Médio. além do Museu Nacional de Israel. após dois milênios de diáspora a que os castigou o Império Romano. constituem a expressão artística da ironia do destino: o homem consegue. encenada pela primeira vez em 1977. como figura de estilo. portanto. já capital da Palestina. surpreendendo continuamente as conjeturas do leitor. perguntada por uma amiga sobre o segredo do sucesso matrimonial. que se sucederam e. várias vezes. Jerusalém foi arrasada pelo império romano. A protagonista. em seguida. a cidade santa voltou a ser cristã. se torna cinismo: o tirano esclarecido pode dizer que é o que não é. aproximadamente. é inútil qualquer programa de vida ou o recurso a qualquer tipo de adivinhação porque o destino é indevassável e imutável. foi proclamada capital do Estado de Israel. a “Cúpula do Rochedo” (o monumento islâmico mais antigo) e outras igrejas e mesquitas. no contrário. como sabemos. A esta forma irônica está ligado. pois os acontecimentos tomam um rumo contrário ao esperado. além de humorista. é um “metassemema” (Retórica). tornando-se cidade santa do Islamismo (Maomé).182 estéticas: a forma irônica e o conteúdo humorístico. onde se instalaram os hebreus nos séc. que consiste em dizer o contrário daquilo que se está pensando. os chamados “humoristas”. ISLAMISMO (religião muçulmana)Maomé ISRAEL (povo e religião judaica da Palestina) Jerusalém JERUSALÉM (a Cidade Santa de judeus. sobressai o escritor carioca Millôr Fernandes que. As três civilizações (judaica. A ironia. figura peculiar da narrativa dramática. Na época das Cruzadas (séc. um conteúdo humorístico. Historiadores. na atualidade. vários cultores da ironia “cômica”.C. apoiados numa resolução da Assembléia Geral da ONU do ano anterior. o contrário do que espera. Os contrastes fortuitos. estudiosos das religiões e das artes ou simples turistas visitam constantemente a Cidade Santa para admirar o “Muro das Lamentações” (construído na época romana). figura de sentido. Além da ironia “trágica” de cunho machadiano. se cruzaram. em 70 d. deixaram na cidade de Jerusalém. lutando bravamente contra os muçulmanos. uma divindade originária da terra de Canaã. em 15 de maio de 1948. carinho e a liberdade de levantar a perna ao pé da árvore que ele escolher. a ironia machadiana se aproxima do conceito de peripécia. Os atos humanos são dirigidos pelo acaso e. Durante o reinado de Davi (Bíblia). sendo construído em seus muros o Templo de Salomão. característicos do enredo machadiano. construído em 1965 . A ironia.. acabando com o Estado da Palestina. Jerusalém significa “fundamento de Shalem”. foi ocupada pelos árabes. VI. Mas as sangrentas lutas entre judeus e muçulmanos não pararam: rechaçando o ataque árabe na Guerra dos Seis Dias (de 5 a 10 de junho de 1967). Reergueu-se no período bizantino como metrópole da religião católica (Cristo) mas. indissoluvelmente. é também jornalista e dramaturgo. na Literatura Brasileira. os descendentes do bíblico patriarca Abraão. a igreja do “Santo Sepulcro”. Entre eles. em 1922. os judeus anexaram outros territórios e Jerusalém. Jerusalém. em 1980. que governou em Jerusalém até 1917. passou para o poder britânico. passado o primeiro milênio. assim definida por Aristóteles: “a peripécia é a súbita mutação dos sucessos. há. cada qual. que é bom o que é mal. em 638. XIII a C. pelo império otomano. Neste sentido. Machado faz da ironia uma técnica narrativa constante: sua estrutura fabular preferida apresenta a frustração de uma expectativa. reunificada. quase sempre. onde trata do relacionamento conjugal. voltaram a ter uma pátria. Ao longo do séc. responde que basta tratar o marido como se cuida de um cachorro: dar-lhe comida. que destinava aos judeus um território de 12 mil quilômetros quadrados ao redor de Jerusalém. e esta inversão deve produzir-se de modo verossímil e necessário”. Sua peça mais significativa se intitula É. as comunidades judaicas começaram a retornar para Jerusalém.

aos 13 anos. Com exceção do irreverente Voltaire que. Esta obra. a festa é muito diferente do que era aos 20. entre os quais destacamos A Paixão de Joana d’ Arc (1928). Após várias insistências. como outras personagens que se tornaram lendárias. dá um espaço enorme à libertadora de Orléans. todos os que se servem do tema exaltam a figura extraordinária da jovem francesa. sendo queimada viva na praça do mercado. da “vítima inocente” passa a povoar o imaginário artístico de poetas. Outro grande estudioso da heroína francesa é Jules Quicherat que. em 1853. que estava escondido em Reims. a menina ouviu “vozes divinas” que lhe ordenaram de salvar Orléans. vem sendo continuamente lembrada no imaginário popular a partir de fatos históricos. O escritor irlandês George Bernard Shaw (Saint Joan. na sua Pucelle d’ Orléans. Capturada e vendida aos ingleses por 10. em 30 de maio de 1431. enfraquecida por lutas internas e contra a Inglaterra invasora. ela seria também uma precursora do Protestantismo. na região da Lorraine. o sexo sempre foi uma festa. já na época do Barroco italiano. sem dúvida. aos 50. que tem como fundo histórico a primeira cruzada dos cristãos para a libertação da Cidade Santa do domínio dos infiéis. Narram seus biógrafos que. e Procès de Jeanne d’ Arc (1962). Nasceu em Domrêmy. ao longo da história da França. Sua imagem foi reabilitada e inocentada. desfigura a personagem para atacar a Igreja Católica de uma forma libertina. A luta para a libertação total da França continuou. põe ênfase no drama do “erro judiciário”. O poeta alemão Schiller faz de A Donzela de Orléans (1800) uma tragédia romântica. começa sua aventura de guerreira e de mártir. tendo como pano de fundo a cidade de Jerusalém com sua problemática étnica e religiosa. Prenunciando a vinda de Lutero.000 escudos. em Rouen. no fim do século XI. de Robert Bresson. conseguiu autorização para viajar e encontrar-se com o rei Carlos VII. Carlos VII foi consagrado Rei da França em Reims.183 poetas e artistas. Lembramos apenas a Jerusalém Libertada do poeta italiano Torquato Tasso. envolta numa auréola de misticismo. Joana obteve outras vitórias. Convenceu o soberano da sua missão divina e vestiu uma armadura com o estandarte “Jhesus Maria”. V da sua Histoire de France. Nele Michelet aponta os principais temas que envolvem sua figura: 1) o amor à pátria. no mesmo ano de 1429. à arte cinematográfica. mas foi ferida em Paris. além de ser uma apóstola do Nacionalismo. filha devota de camponeses. Aos 82 anos. Nas duas películas aflora a vida interior da santa-heroína. acusada de heresia (por vestir roupas masculinas!) e condenada pelo Tribunal da Inquisição. de Carl Dreyer. no vol. uma obra-prima do cinema mudo. heroína da França) A figura da jovem francesa Joana d’Arc (1412-1431). da “salvadora da pátria”. ela é uma vítima da luta pela afirmação do juízo individual contra o magistério e o julgamento absolutista da Igreja de Roma. 3) a renovação da Paixão de Cristo: o sacrifício de Joana para libertar a França é comparado ao sofrimento de Jesus para redimir a humanidade. JORGE Amado (o folclore da Bahia) Para mim. o tomo é reeditado separadamente com o título Jeanne d’ Arc. passando a chefiar o último exército francês. Derrotou as tropas anglo-borgonhesas e adentrou a cidade de Orléans. de constituição doentia e de sensibilidade melancólica. espelha o clima austero da Contra-Reforma. exprime artisticamente o contraste entre a força da paixão amorosa e o medo do pecado. quando a França estava desmembrada. sitiada pelos ingleses. Mas a grande popularidade da figura de Joana d’ Arc deve-se. 2) a liberdade de pensamento (o direito de sentir “as vozes” dentro de si). terminada em 1575. O mito da “virgem guerreira”. condensada nos últimos dois anos de sua vida. Ele demonstra que todas as acusações contra Joana d’ Arc eram infundadas e ela foi vítima de juízes inescrupulosos. nos cinco volumes dos Processos (18411849). Mas a guerra entre cristãos e muçulmanos é apenas um pretexto para o poeta cantar os amores aventurosos das duplas Rinaldo-Armida e Tancredi-Clorinda. O poeta. sendo santificada em 1920. Mas quem valoriza de uma forma definitiva a imagem da heroína francesa é o grande historiador Michelet que. Trata-se de um poema épico-cavaleiresco. Ela inspirou cerca de vinte filmes. 1923) apresenta uma tese nova e muito interessante: Joana d’ Arc. Aos 17 anos. JESUS (o Filho de Deus encarnado) Cristo JOANA d’Arc (o mito da Donzela de Orléans. foi submetida a um longo processo. mesmo aos 60: . dramaturgos e músicos. Devido ao sucesso da história da heroína.

análise de Ulisses)Odisséia O irlandês James Joyce (1882-1941) é considerado o pai da ficção modernista. a esposa fiel por antonomásia. adulterando a linguagem e inovando as técnicas formais da prosa de ficção. busca um pai de verdade. Tieta do Agreste (1977). povo antropófago). Por exemplo. com Érico Veríssimo. economia. se combinam: a atmosfera naturalista. sem nenhuma pontuação e com inúmeras extravagâncias morfológicas e sintáticas. portanto.). Mas. agente publicitário casado com Molly. as obsessões dos personagens. literatura e artes plásticas. do refinamento. de dimensões míticas. vai ao banheiro etc. de idéias. de Homero: o enterro do amigo Dignam (descida de Ulisses ao HadesInferno). A narrativa de Joyce. cravo e canela (1958). visita ao bordel (episódio de Circe) etc. através da técnica da corrente do pensamento e das associações de sensações. Leopold se levanta da cama e. consciência moral.É a parte mais longa do romance e tem como paralelo mítico as viagens do herói homérico Ulisses. citado na epígrafe. O cavaleiro da esperança e O mundo da paz. fazendo concessões à censura e ao público e tornando-se. no seu espírito. apresenta a mistura do mundo mítico. fazia propaganda política e lia a literatura proletária da União Soviética. publicidade. ciências naturais e médicas. Seu pensamento sobre a prática da sexualidade. na cidade de Dublin. as frustrações. psicologia do subconsciente. o escritor baiano se acomoda à nova realidade política brasileira. procurando saber notícias sobre o retorno do pai Ulisses. os desejos. acordando. separadas por algarismos romanos: I . atriz de cabaré. do sentimental. Os estudiosos da biografia do romancista baiano Jorge Amado (1912-2001) costumam distinguir uma primeira fase em que. sociologia. que reduz seus personagens ao absurdo do heróico-burlesco. demonstra um traço autobiográfico presente nas melhores personagens por ele criadas. após realizar as ações corriqueiras (toma café. Pelas três da madrugada. criada pela descrição das minúcias da vida cotidiana. é descrita como uma mulher lasciva. sai de casa para enfrentar a vida agitada da metrópole. política. a protagonista Molly. visto que seu progenitor natural vive bêbado. O Ulisses está dividido em três partes. Desta segunda fase destacamos: Gabriela. tendo abandonado a família na miséria. perplexidades religiosas oscilantes entre o helenismo e o hebraísmo (Jerusalém). na tentativa de representar a fragmentação espiritual do mundo em que vivemos. sentimentos e sensações passadas. Desta concordantia oppositorum surge o aspecto irônico da obra. III . mais traduzido. Seu protagonista é Leopold Bloom. presentes e futuras. do típico. ligado ao Partido Comunista Brasileiro. O volumoso romance. mas misturados com as lembranças. que nos releva o encavalgamento. do sensual. com seus arquétipos . As oito da manhã. tomando como título o nome latino do protagonista da obra de Homero (“Odisseu”.Corresponde à “Telemaquia” de A Odisséia. sensível aos chamamentos do sexo. o almoço (episódio dos Lestrigões. de Homero. II . colocando perante nossos olhos todas as áreas do conhecimento humano: reflexões filosóficas. é uma espécie de epopéia do homem moderno (gênero épico). Leopold. remói toda sua vida passada num longo monólogo interior. Assim. volta para sua casa e encontra sua mulher dormindo. pois de sua obra beberam todos os romancistas que tentaram afastar-se da narrativa tradicional. capital da Irlanda do Sul. inconscientemente. Dona Flor e seus dois maridos ( 1966). bem cedo. A protagonista desta última parte é Molly que. onde se descreve a viagem de Telêmaco a Pilos e a Esparta. pondo seu veio poético a serviço da descrição do pitoresco. em grego e Ulisses. do regional. em latim). Este brevíssimo resumo da fábula do Ulisses de Joyce nos fornece apenas uma pálida idéia da estrutura da obra. Sua obra mais famosa. mas sofrendo inicialmente ostracismo na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. As cenas que se sucedem tem correspondências com episódios de A Odisséia. junto com Stephen (símbolo do encontro entre o pai e o filho). que universaliza e eterniza ações e sentimentos. toda a última parte é composta de um único período. JOYCE (a Epopéia moderna. numa ordem cronológica. embora opostas. e o simbolismo épico. mais televisionado e mais cinematografado. para expressar o fluxo ininterrupto da consciência da personagem.184 é uma festa que é feita da experiência. que é extremamente complexa. Na obra de Joyce devemos ressaltar duas tendências que. um professor de história que. Ulisses. e descreve o que acontece a Leopold Bloom num dia comum (16 de junho de 1904). O protagonista desta primeira parte é Stephen Dedalus. pronta a se entregar ao primeiro amante que aparecer. que deveria ser a correspondente atual da mítica Penélope. jornalismo. Frutos dessa adesão são os romances comprometidos com a ideologia marxista Os subterrâneos da liberdade. está calcado sobre A Odisséia. Os fatos não são apresentados de uma forma linear. o romancista mais lido.Corresponde ao retorno de Ulisses a Ítaca e o reencontro com sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco. publicada em 1922.

auxiliado pela mãe Terra. JUDAÍSMO (religião hebraica. . e do mundo da realidade cotidiana. anos depois. O fluxo da consciência. com começo. não há ficcionista da Vanguarda que não acuse influências joycianas. Rabugenta e ciumenta. Moisés)Abraão JerusalémBíblia. Seus atributos principais foram a onipotência e a previdência. rei de Tróia. a aglutinação de palavras e de frases. que acaba esmagando os . Nessa vertente da narrativa modernista. majestoso. encontrou sérias resistências nos ambientes puritanos da época. quer reestruture fábulas e personagens. autoritarismo. o mito de Júpiter exprime o arquétipo do chefe da família patriarcal. Como Saturno desposou a irmã Cibele. O abuso do poder pode criar uma neurose. meio e fim.T. correspondente à romana Juno. Mas. ajudado pela mãe Cibele. barbudo. ninfas e mulheres mortais. Em Psicologia . A iconografia o representa como homem maduro. Representada como mulher jovem e bonita. O romance Ulisses. A comédia greco-romana apresenta Júpiter como o protótipo do conquistador incorrigível. A “história” mítica de Júpiter é muito semelhante à de seu pai Saturno ( Cronos). foram atribuídas a Zeus várias relações extraconjugais com deusas. é expresso poeticamente mediante a deformação lingüística. do pai. era celebrada como deusa da fecundidade e da fidelidade matrimonial. Lembramos o romance intimista de Otávio de faria. que tem como emblema o raio (símbolo do domínio sobre as forças atmosféricas e de sua força vingativa). que julgara Vênus como a deusa mais bonita. a divindade grega Hera. partilhou o domínio do mundo com os dois irmãos: reservou para si o reino do céu e da terra. pois utiliza signos sem referentes extratextuais. pela crítica elogiosa de Stuart Gilbert. de Cornélio Pena. T. a linguagem não é mais considerada apenas um meio para a representação do real. Hera está sempre contra os troianos e a favor dos gregos. denominando "complexo de Júpiter" à tendência do subconsciente ao autoritarismo. deixando para Netuno o domínio do mar e para Plutão o domínio do Inferno. além deste matrimônio "legítimo". Joyce fez escola: Virgínia Woolf pode ser considerada sua melhor aluna. considerado por Homero o pai dos deuses e dos homens. a narrativa de introspecção psicológica foi cultivada por vários escritores modernistas e atuais. mas é a transfiguração artística das associações de idéias e de sentimentos que invadem o espírito dos personagens. era a rainha do Olimpo. mas é criadora de novas realidades. quando publicado em Paris. correspondente à grega Hera) Filha de Saturno e de Cibele. JUNG (psiquiatra suíço: “os arquétipos” e o inconsciente coletivo)Freud JUNO (divindade latina. de qualquer chefe. assim Júpiter casou-se com a irmã Juno (Era). “as novas criações lingüísticas agem de maneira direta. então. Preterida pelo julgamento do jovem Páris. com o auxílio dos tios Ciclopes e Hecatônquiros e dos irmãos Netuno e Plutão. o cetro (símbolo do poder) e a águia (símbolo da longividência). "juventude". Conseguindo a vitória. o romance teve o merecido sucesso e foi traduzido para as principais línguas da Europa. passou a ser considerado o grande inovador da prosa de ficção e sua técnica narrativa passou a fazer escola. como "jovem". S. e o estado de consciência a ser projetado traduz-se em uma nova sintaxe e em composições vocabulares ousadas”. com o cetro na mão (símbolo do poder) e o pavão (símbolo da beleza). do professor.185 ideológicos. que o consideraram uma obra obscura e obscena. Em verdade. No Brasil. escapou de ser devorado pelo pai Saturno e. enfim. O romance não tem mais por objeto de representação uma história linear. Joyce. em que o homem é solicitado pelas baixas exigências do viver individual e social. irmã e esposa de Júpiter. Eliot e Edwin Muir. Como releva o crítico E. violência) Zeus-Júpiter é a maior divindade do mundo greco-romano. que escondia os filhos no seio da Terra. de Lúcio Cardoso. Mas. desconexo e fragmentário. filho de Príamo. a criação de novos termos. em grego: complexo de Júpiter. a consciência lingüística impõe-se decididamente no processo da formação da obra. que pode se encontrar na figura do governante. lutou por dez anos contra o pai e os outros Titãs (Mitologia). de Autran Dourado. o que salienta o caráter repetitivo dos mitos: como Saturno. derrotou seu pai Céu (Urano). além de ser o símbolo do princípio feminino. pelo mecenatismo de uma amiga do escritor. as orações paratáticas. em 1922. quer inove a linguagem romanesca. sendo inumerável sua descendência.Rosenthal. assim Júpiter. JÚPITER (Zeus. A raiz de seu nome latino “Juno” está ligada a palavras que indicam a força vital. perseguia todas as amantes do marido e os filhos que nasciam dos relacionamentos ilegítimos. Mas a técnica do monólogo interior para expressar a corrente do pensamento é usada de uma forma exemplar por Clarice Lispector.

simboliza também o cortar justo no meio as razões apresentadas pelos dois lados. filha de Júpiter (o “Poder”) e de Themis (a “prudência”). Evidentemente.186 sonhos individuais. que tentaram dar uma forma plástica a sua ideologia. Já o Presidente da antiga Iugoslávia. A figura feminina está sentada. diferente da vingança selvagem. segurando na mão esquerda uma balança e na direita uma espada. ela segura a balança com as duas mãos. JUSTIÇA (A Diké grega e a Iustitia latina: a vingança civilizada) “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”. Infelizmente. divindade alegórica. cansada de apanhar. o lucro. mas a vítima. significando a imparcialidade nos julgamentos. A justiça não de deixa de ser uma “vingança civilizada”. majestosa. Ao longo dos tempos. na frente do Supremo Tribunal Federal. Na Política e na Sociologia. como na selva. “a maior parte daqueles que não querem ser oprimidos quer ser opressora”. o protagonista da peça Otelo. De olhos bem abertos. reagindo de uma forma imprevista e violenta ao extremo. sem a balança. XIII retrata a Justiça ao lado da Prudência conversando nas nuvens. A feição recente do mito de Júpiter é o bullyng. legal ou particular. sendo julgado e condenado pelo Tribunal Internacional de Haia. Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci. o sentimento subconsciente da reparação de um dano feito ao indivíduo ou à sociedade. sem recurso aos tribunais. sofreu uma “vingança civilizada”. famílias desarticuladas). . colocada no alto da escadaria. em geral. pois. O termo se formou pela mistura de boy com a palavra pitbull. tentando fazer o que elas não querem. um tipo de comportamento cruel e ameaçador. de Shakespeare. não se é educado a respeitar o direito e a vontade do semelhante. casernas. estabelece relações desumanas. A vingança. a história e a arte estão repletos de “vinganças selvagens”: Medéia vinga-se da traição do marido Jasão matando os dois filhos. irmã da “Verdade”. através de brincadeiras de mau gosto. a espada. bairros. estimulando apenas a competição. suspeita de adultério. Sem a espada. qualquer autoritarismo. Em Brasília. isso acontece não apenas no Rio de Janeiro e em barzinhos. indicando claramente que a Justiça verdadeira só existe lá no Céu. Comportamento semelhante ao bullyng americano é o dos pitboys cariocas. pois é lá que se encontra o justo (ison=isonomia). não deixa de ser um sentimento prazeroso. a Justiça recebeu várias configurações por escultores e pintores. beirando a loucura. A força está na palavra: jurisdição significa jus dicere (“dizer o direito”) e lex (“a lei”) tem como étimo o verbo legere (“ler” em voz alta. A estatuária grega representa a Justiça como uma mulher majestosa. a lei do mais forte vigora em qualquer lugar onde. sacrifica sua esposa Desdêmona. Já os romanos representavam a deusa Justitia com os olhos vendados. Na entrada da Suprema Corte da capital norteamericana. representada como uma mulher nua. isolada. como a moderna ciência explica. O mito. observa o equilíbrio entre os dois pratos. com a espada descansando sobre suas pernas. assediam mocinhas em boates. como sinal de firmeza. responsável por uma satisfação igual à da recompensa. Como disse Napoleão. a Justiça é representada por uma estátua colossal. segurando na mão direita a Constituição de 1787. que se dá quando o acerto de contas é feito diretamente pelas mãos do ofendido. de esquerda ou de direta. A prepotência dos homens mais sarados está presente em quase todos os agrupamentos sociais (escolas. Diké era a deusa dos julgamentos. (Martin Luther King) Para os gregos. pode acabar se revoltando. intrínseco nas relações interpessoais. a exploração. uma pintura do séc. de porte majestoso. ela ativa o núcleo caudado do cérebro. para ser ouvido por todos). o carrasco Slobodan Milosevic. Na visão medieval. uma raça canina muito feroz. foram mortos e pendurados numa praça de Milão. além de indicar a força. em que os mais fortes convertem os mais frágeis em objetos de diversão. especialmente depois de beber. de olhos vendados. após a queda do Fascismo. pode-se contemplar a escultura de Alfredo Ceschiatti: o Poder Judiciário é representado por uma mulher pequena. sempre em pé. O “bullyng” é uma forma de intimidação muito usada entre os traficantes de drogas e os marginais. talvez para não enxergar as mazelas dos Três Poderes. vestida solenemente. O mito da Justiça foi inventado para explicar o arquétipo da “vingança”. O rótulo caracteriza garotos musculosos e violentos que. O mito de Júpiter está muito mais presente na nossa sociedade do que possa aparecer ao nível superficial.

complemento obrigatório de sua formatura em Direito. existe justiça ou. As coisas devem ser entregues a quem melhor as serve. Executivo e Judiciário. A construção da Muralha da China. existe corrupção na própria Justiça. austero e autoritário. pior sem ela”! KAFKA (análise de O Processo. eles contratam os melhores advogados que. mas profundas amizades: Oscar Pollak. fazendo o que lhe compete. dificilmente pagam pelos seus delitos. sem invadir o espaço alheio e ganhando com base no seu mérito. suas leituras preferidas foram as obras de Goethe. por poucos dias. O castelo e A metamorfose. comerciante abastado. de Bertolt Brecht: “Vocês que conhecem a história do círculo de giz. o jovem Kafka sentia-se estrangeiro na sua própria cidade natal. e Max Brod. quer por ser judeu. Dickens. A condenação. testamentário e editor. as carruagens aos bons condutores para que a viagem seja boa. fez poucas. Machado de Assis é mais explícito: “é claro que a justiça. provocado por uma série de fatores: a rígida educação familiar. Essa justiça natural está descrita de uma forma bem simples na peça O Círculo de Giz Caucasiano. e direito. Desde a primeira juventude. às quais daremos destaque. sendo seu biógrafo. Enfim. que apoiavam os interesses do império austro-húngaro. América. se existir. de que a cidade dependia politicamente. a tuberculose que o acompanhou da primeira hemoptise (1917) até a . e o vale aos que vão irrigá-lo para que a colheita seja abundante”. assinalamos. além do emaranhado absurdo do sistema judiciário e da incompetência de seus membros. Um artista da fome. desenvolvendo a teoria da separação dos poderes Legislativo. a fraca constituição física. Um médico rural. Mas será que. Cada qual no seu lugar. referente do romance O Processo. que o acompanhou ao longo de sua vida. que codificou o direito natural das coisas na sua obra Do Espírito das Leis (1748). ela é igual para todos? Não é mais um mito cultivado por agrupamentos civilizados? A verdade é que seu rigor só é aplicado aos pobres e aos indefesos. Eu quero dizer. que herdou do ambiente familiar. Tendo o poder econômico. O grande problema humano de Kafka foi o sentimento de solidão espiritual. Da Justiça podemos dizer o mesmo que se costuma falar sobre a Democracia: “ruim com ela. que está na base da maioria dos atuais governos constitucionais. Sem dizer que. quer por ser alemão. começou a dedicar-se à prática da arte da palavra. lembrem-se da opinião dos antigos. Os grandes criminosos. 2) a cultura cristã da Tchecoslováquia em que viveu. Entre as numerosas obras ficcionais de Franz Kafka. como dizia Martin Luther King. Como diziam os antigos romanos: atque custodem quis custodiat? (“e quem toma conta do guarda?”). tem que ser justa pois. procrastinam a condenação ad infinitum. Flaubert e Thomas Mann. além de O processo. Na Universidade Alemã de Praga. na expressão do escritor contemporâneo Norberto Bobbio: “ quem controla os controladores?”. descrita artisticamente em O Castelo. Suas atividades profissionais serviram-lhe como experiência preciosa para coletar o material necessário à sua ficção: o ano de estágio nos Tribunais de Praga (1906). não vê se é vista. e então não cora”. Balzac. refugiando-se no mundo fantástico da Literatura. compondo pequenas peças teatrais. onde estudou química. Dostoievski. que morreu jovem. 3) a cultura alemã de uma minoria dos habitantes de Praga. O Castelo)Fantástico Tema recorrente: “o desespero do homem ante o absurdo da existência” Franz Kafka nasceu em Praga em 1883. Mas Kafka sempre se manteve alheio à vida política e social. filho de um judeu alemão. sendo cega. Sua formação humana e intelectual deve-se relacionar com a encruzilhada de várias culturas diferentes e conflitantes: 1) a cultura judaica. na realidade. Metamorfose. encenadas com a ajuda de suas irmãs. também os juizes estão sujeitos às limitações da nossa espécie. o emprego em duas companhias de seguros pôs nosso autor em relação com a máquina burocrática. publicadas postumamente e contra sua vontade. foi Montesquieu. Mas que vai se fazer: como os outros humanos. especialmente os que assaltam o erário público. desprezado pela minoria alemã por ser judeu e malvisto pela maioria dos praguenses. colocou Kafka em contato com os meandros da prática forense. A Justiça não pode ser substituída pela caridade. Qualquer coisa. o precursor da Revolução Francesa. até a prescrição do crime. Além da Bíblia. sem nenhuma paixão. os sanguessugas da sociedade. antes de ser boa. Na colônia penal. aproveitando das brechas que se encontram nas leis e da morosidade da máquina burocrática da justiça. as crianças às pessoas mais maternais para crescer e florescer. suas obras-primas. 4) a cultura tcheca da maioria no meio no qual Kafka viveu. As investigações de um cão. “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo o lugar”. ou.187 Na cultura ocidental.

Este está doente. mas não há sessão naquele dia. O mundo fantástico da criação literária e a paixão amorosa nutrida por várias mulheres ao longo de sua vida. por ser bonita. conhece o porteiro. despede-se de seu advogado e nunca mais volta a procurá-lo. tendo sabido do processo. Passamos à análise das suas três obras mais importantes: I -Resumo do enredo do romance : O Processo .188 morte (1924). que lhe dá a chave da casa para ele voltar à hora que quisesse. K. nunca está em condições de informá-lo. aconselha K. o ambiente de conflitos raciais. um jovem estudante de direito mantém relação sexual com a lavadeira do prédio. Numa tarde. então. Enquanto K. Os agentes instalam-se no quarto contíguo. mas logo percebe que a acusação é séria. passados cinco anos. A grandeza da obra literária de Kafka reside em ter conferido dimensões universais ao seu sentimento de angústia. o protagonista do romance é visitado no seu quarto de pensão por dois indivíduos que lhe comunicam que está preso. provocado pelo absurdo do viver social. e lhe deixa ver os livros que estão na mesa do juiz: romances e ilustrações pornográficas. que o confunde com um pintor de paredes. Enquanto o tio conversa com o doutor Huld. que se dizem subordinados a uma autoridade superior. Este vive num miserável cubículo. pois ainda está aguardando o momento oportuno para redigir a petição inicial. que pode responder ao inquérito instaurado contra ele em liberdade. pronuncia um longo discurso. Na manhã em que completa trinta anos de idade. onde ficam as secretarias do tribunal. Inutilmente tenta evitar que o castigo seja consumado. Encarregado pelo diretor do banco de acompanhar um cliente italiano numa visita à cidade. onde exerce a função de procurador. Joseph assiste ao açoitamento dos dois funcionários. Num primeiro momento. pensa tratar-se de uma brincadeira.. encontra o comerciante Block. com seu advogado. é obrigada a ser amante de estudantes. marca um encontro na . Na pensão. um íntimo sentimento de culpa. se levanta da cama e se veste. de nome Montag. a jovem Leni. a entrar em contato com Tintorelli. que o leva ao andar superior. se negam a comunicar-lhe o motivo da detenção. pretende travar amizade e se relacionar afetivamente com a senhorita Bürstner. K. e evita a presença de K. Para lutar contra este sentimento de solidão. No Banco. vai pela última vez à residência do advogado para dispensar seus serviços. e a prorrogação ilimitada. K. Chega o estudante Bertold e exige que a mulher fique com ele.. após uma longa discussão. que lhe diz ser a esposa do porteiro e. K. de noite. desanimado com o andamento de seu processo. a qual pode perder seu efeito de uma hora para outra e o acusado ser preso pela segunda vez e irremediavelmente. vai ao primeiro interrogatório: o tribunal está situado num prédio afastado do centro. temeroso de perder o emprego. numa manhã de domingo. sempre de cama.“Mas eu não sou culpado. Um industrial. recebe a visita do tio Karl que. Foi um erro. o autor conta-nos a história ficcional do último ano de vida do personagem Joseph K. O ambiente é tão fétido que Joseph desmaia. sob a fiança da influência de amigos dos juízes. a par do processo que o procurador está sofrendo. Joseph se apresenta ao juiz de instrução. um pintor a serviço dos juízes do tribunal. numa sala de sessões superlotada. K. lhe faz longos discursos sobre a máquina burocrática do tribunal mas. ainda não obteve nenhum resultado. No domingo seguinte. com a complacência do marido. apesar de ter contratado mais cinco advogados e de ter abandonado seus negócios para se dedicar integralmente ao seu processo. Trava um longo diálogo com a lavadeira. tentando demonstrar o absurdo de sua detenção e a corrupção dos funcionários da justiça. Lá. continuando sua vida normal de empregado bancário. Mas esta passa a morar com uma jovem alemã. cliente do banco.. outro cliente do doutor Huld e amante de Leni que. oferece ao sobrinho sua ajuda. Os homens. K. que mantém indefinidamente o processo em sua fase inicial e obriga constantemente o indiciado a estar em contato com os juízes para captar sua benevolência. mas esta também não pode explicar-lhe nada. O pintor está disposto a ajudá-lo e lhe explica que existem três possibilidades de absolvição: a real.. provisória. este. Durante os sucessivos encontros de K. a aparente. K. Comunicam-lhe. se torna amante da empregada do advogado. Leva-o ao advogado Huld. que ninguém nunca conseguiu. volta ao tribunal. enquanto K. mas não deixa de atender os dois no seu quarto. ele encontrou dois aliados: a literatura e o relacionamento sexual. Sua única obrigação é a de apresentar-se aos interrogatórios que se realizarão no tribunal de Justiça. mas é isso que os culpados dizem” Pela voz de um narrador onisciente.” . K. denunciados por ele no tribunal por lhe roubarem suas roupas no dia da prisão. de juízes e de outros moradores do prédio.“Correto. K. foram os dois refúgios que atenuaram seu sofrimento físico e espiritual. habitado pela senhorita Bürstner. solicita a intervenção da senhora Grubach. onde reina um calor insuportável. religiosos e políticos em que vivera. dona da pensão. Ela se oferece também a K. na sala. meio habitado por funcionários. pede informações sobre seu processo que corre na justiça. ora superficial ora profundamente. Avisado pelo telefone. quanto ao seu processo. K. Nesse estranho edifício. Após um disfarçado interesse pela arte do pintor.

na sua generalidade. impedem que se integre no mundo em que vive. Sentido da obra Falar do sentido de uma obra de Kafka é quase um não-sentido. onde.189 catedral. Enfim. despem-no do paletó e da camisa. sua vida de celibatário e de burocrata. A relação sexual praticada por ela deve ser entendida. O ser humano sente-se um estrangeiro no seu próprio habitat. O grande escritor tcheco constrói seu mundo artístico como um heterocosmo estranho. muito embora sua interpretação possa ser considerada subjetiva. a jovem Bürstner vira-lhe as costas. não se relaciona afetivamente com ninguém. sacam de um facão de açougueiro e o matam. Parece que a beleza que se estampa no rosto dos acusados deste misterioso tribunal. porque sem esperança. A necessidade fisiológica da relação sexual é praticada de um modo quase mecânico: uma vez por semana. dobram sua cabeça numa pedra. Propp (Função Narrativa). o colega do banco está à espreita de sua desgraça para tomar-lhe o lugar. Todavia. Aí. de quem aceita a ajuda. da terra de Canaã. O importante é ater-se aos elementos fornecidos pela própria obra de arte. a senhorita Bürstner. o pintor Tintorelli. seus subalternos. mas com a sua condição de acusado. do afastamento definitivo do mundo da existência. Conhece a vizinha de quarto e tenta atar uma relação amorosa com ela. e morreu sem ter acesso à Lei. Com efeito. vai visitar outro hipotético ajudante. recebe a visita do tio. que habita o quarto contíguo ao seu. todos os indiciados serão inevitavelmente condenados. portanto. impedido por uma sentinela de entrar. esta culpa é o “isolamento humano”. visita uma prostituta. O mito do judeu errante(Jerusalém) é transposto para a existência humana. O homem é condenado a errar no deserto do mundo. O pecado capital do herói kafkiano é a exclusão do paraíso. não quer ou não consegue integrar-se no consórcio social. Mas seu esforço é inútil. por ser quase nula a possibilidade de defesa. à hora marcada. contra a indiferença e o alheamento. “os outros” começam a existir para ele. É a instauração do processo contra ele que o obriga a sair de seu isolamento e a estabelecer contatos com o mundo familiar e social. a bela Leni. O mundo da justiça se apresenta a ele como um labirinto sem saída e cheio de segredos indevassáveis. dois agentes do tribunal de justiça. que é um pouco o drama de todo o homem lúcido. o “dano” sofrido por uma personagem é sempre conseqüência de uma “transgressão” a uma interdição ou a uma ordem. vive como se fosse um ser superior. Enfim. Joseph K. pois o tribunal inferior já considera sua culpa provada. agüentando o sótão sufocante. a malcriação impudica das meninas e as telas horríveis. Não nutre simpatia para com a dona da pensão. a chave para a explicação de O processo reside em determinar qual é a culpa de que é acusado o protagonista. O que Leni realmente sente não é amor. especialmente na do tipo “conto popular”. à amizade e ao amor. analisada por V. margeando as raias do absurdo. Segundo nosso entendimento da obra.. sem amigos. Numa narrativa tradicional. da morte iminente. onde vive. E a realidade exterior paga-lhe com a mesma moeda. contra a Justiça. nos quais antes nem sequer reparara. junto a uma pedreira deserta. sente a necessidade da ajuda de um advogado e se relaciona sexualmente com a jovem Leni. Passado um ano do início do processo. Este lhe revela que seu processo vai mal. à semelhança da pessoa real Franz Kafka. esperando seu apoio. o capelão responde narrando-lhe o apólogo do homem que passou longos anos de sua vida perante a porta da lei. numa luta incessante e patética. o capelão da prisão. toma conhecimento da existência de empregados do banco. não se integrando ao meio e não pertencendo a ninguém. a religião se associa à ação vingativa da sociedade civil. de noite. A única personagem que demonstra nutrir verdadeira afeição pelo protagonista é a doméstica do advogado. A personagem reside numa pensão. reside na consciência de que não pode viver só e não consegue . sem contatos com seus familiares. surpreendentemente. o crítico não pode fugir à tentação e o professor de literatura à obrigação de apresentar sua leitura do texto. Mas esta simpatia se relaciona não com a pessoa de K. procuram Joseph K. a janela que dá para a pedreira se fecha e ele é morto “como um cão”. apenas como um meio efêmero e casual de conseguir a derradeira participação do indivíduo no grupo social. ela acha bonitos todos os indiciados que procuram o doutor Huld e de todos se torna amante. Sua profissão de procurador de um banco é exercida de uma forma metódica sem envolvimento afetivo com os colegas ou com os clientes. sua indiferença à família. que não é um lugar tópico ( Espaço) como o lar.. e desconhece a existência de uma bela jovem. Às reclamações de K. Mas lá encontra não o cliente italiano mas um abade. vivendo à margem dos valores ideológicos. O drama de Joseph K. No romance kafkiano. não é evidenciada a culpa pela qual o protagonista é punido. Seu coração frio e vazio. porque é incapaz de compreender a existência e de se adaptar aos absurdos do viver social. Na pensão. mas compaixão pela triste sorte dos acusados. A nosso ver. que esperam horas para serem atendidos. conjugados com dados biográficos e ambientais. embora esta seja extremamente atenciosa e maternal com ele. A personagem de ficção Joseph K. fechado à compreensão do leitor. sem esposa. passa a conhecer o tribunal de justiça e seus funcionários. é um reflexo da próxima dissolução do corpo. sem namorada. na sua pensão e o levam para fora da cidade.

mas é fatalmente condenado porque. têm por representantes seres corruptos e insensíveis. o romance kafkiano pode ser interpretado como a representação artística de qualquer crime que um grupo ou uma classe social. que com seu afeto e doçura procurara mitigar o sofrimento do jovem pela injustiça de que é vítima. pode ser considerado como uma antecipação poética. Kafka acredita no dogma do pecado original. insensível à necessidade de afeto. possa injustamente perpetrar contra a pessoa humana. II. Seus intermediários. da fé religiosa (catedral). e assim comparar-se a Deus. d) Interpretação racial: O processo. denuncia o absurdo do aparelho judicial e a corrupção de seus funcionários. personificado no motivo literário do juiz inatingível.. a culpa de Joseph K. embora ninguém possa fazer nada por ele. Mas seu grito se perde no labirinto das instituições sociais. pela sua incomunicabilidade. é seu anseio de querer comer dos frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal. Na colônia penal. que. em que as instituições sociais. a crítica psicológica viu no tribunal de justiça um símbolo do autoritarismo paterno. é um ser misterioso. advogados e funcionários da corte de justiça. o único meio de salvação é a graça divina. ao ser perseguido por um tribunal misterioso. da realidade. reside no simples fato de existir. É impossível querer compreender a existência humana porque ela é simplesmente absurda: os homens se reúnem em sociedades. continuar sua vida normal e defender-se como quiser). além de acusar o indivíduo de uma culpa que não cometeu. o direito do esclarecimento e da defesa e a possibilidade de salvação. O regime nazista. como a corte de justiça do romance. intransigente. e) Interpretação existencial: num sentido mais geral. representados pelos juízes. vive numa atmosfera de pesadelo. Ao homem é concedido o livre-arbítrio (a possibilidade de K. Como na bela parábola narrada pelo capelão. acusado de uma culpa desconhecida. militares e religiosas para sua proteção material e espiritual e são essas mesmas instituições que esmagam os homens que as criaram. como as irmãs e as amantes do escritor. Enfim. são seres corruptos e ineptos. Como judeu. o protagonista de O processo. que se dará alguns anos depois da morte do escritor judeu. mas o sistema como um todo. Todos sabem que ele é acusado. c) Interpretação religiosa: sempre relacionando o protagonista com o autor. embora ninguém saiba do que. junto com outra obra kafkiana. que ao homem não é dado conhecer diretamente. alguns estudiosos de Kafka insistem no simbolismo religioso desta obra. Enfim. b) Interpretação sociológica: a obra de Kafka seria a representação artística da luta constante e inútil do indivíduo contra a máquina burocrática da vida social. a graça não pode ser alcançada. como o de outras narrativas kafkianas. não havendo possibilidade de comunicação direta entre a divindade e a humanidade. a porta da lei (imagem simbólica da verdade) está guardada por uma sentinela que impede o homem de perscrutar o mistério da vida. de estar no mundo das coisas. sem possibilidade de defesa. A imagem do pai austero.A Metamorfose “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos. Em face deste pecado. perfeccionista. As outras personagens do romance também seriam figuras criadas a partir do subconsciente kafkiano: a senhora Grubach. tem ensejado várias interpretações. mas Deus. sempiterno Adão. de espírito prático. Fazemos referência às mais importantes: a) Interpretação psicanalítica: partindo da constatação de que traços autobiográficos se encontram dispersos em todas as obras de Kafka. é preciso ressaltar que o estudo da temática kafkiana. uma visão profética da explosão do anti-semitismo alemão. simbolizado no juiz supremo da corte de justiça. os condenará aos campos de concentração e ao genocídio pelas câmaras de gás. encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso” . A culpa do homem. do amor (casamento). não é um ser determinado. absurdamente. incapazes de conseguirem sua absolvição. que deveriam zelar pela afirmação dos valores ideológicos da justiça (tribunal). que vive no labirinto da corte de justiça e que condena o protagonista sem que este tenha nenhuma culpa aparente. quem julga e quem condena K. mas herdaram. À margem dessa nossa leitura de O processo. no tribunal simboliza a revolta do ser humano contra Deus. misturando elementos da vida real com figuras provenientes de seu subconsciente de artista e carregando de angústia existencial os acontecimentos corriqueiros da vida. nega-lhe. acusara os judeus da única culpa de pertencerem à religião hebraica e. pelo qual todos os homens são acusados de uma culpa que não cometeram. expressão artística da mãe de Franz.190 intimamente conviver com os outros. teria criado na criança Franz Kafka um complexo de inferioridade e de culpa com relação ao pai. A revolta de K. A organização social destrói a individualidade: quem acusa. todos estão dispostos a ajudá-lo. O bancário Joseph K. que se encontra um pouco em todas as obras do escritor tcheco e que pode ser definida como “o desespero do homem ante o absurdo da existência”. Leni e as outras mulheres desenvolveriam o papel de protetoras. criam instituições civis. civil ou religiosa.

que vê alterado seu hábitat. Ele possui a tipicidade de um herói trágico. a ação do Fado na tragédia grega que determina que tal coisa tem de acontecer. acabam se desentendendo e magoando-se mutuamente. mais por falta de coragem do que de afeto. eis que o inspetor fugiu atemorizado e nunca mais a firma onde trabalhava se interessara por ele. lançando inclusive a suspeita de ladrão. na tentativa de se ajudar. nem sequer de ordem divina. Gregor. Para que a irmã entenda seu desapontamento. por sua vez. por não ter aberto a porta de seu quarto imediatamente. Assim. mas não consegue fazer-se entender. os móveis. pois a firma lhe havia confiado um lote de amostras de fazenda. que toca violino. pois. furioso. falta também a eventualidade de uma explicação de ordem religiosa ou mágica. além da impossibilidade de uma explicação científica.191 Pela leitura desse primeiro parágrafo do texto kafkiano. por isso está apegado a ele com extrema devoção. Mas essa relação afetiva entre os dois irmãos dura pouco tempo. Em face de sua desgraça. fechando a porta pelo lado de fora. porque apenas sofre as conseqüências de uma fatalidade: a mudança da forma de homem para a de um inseto monstruoso. sem que se saiba a causa da desgraça. Ele sente o orgulho de ser o único sustento de sua família. a mãe intensifica seus trabalhos manuais. Mas isso desagrada Gregor. Gregor sente-se cada vez mais rejeitado e abandonado pelos familiares. começa a remover móveis e quadros com a intenção de aumentar o espaço livre. que foge a qualquer possibilidade de explicação racional. acontecida anos atrás. sai do quarto e vai para a sala. A atitude de sua família não é muito diferente. composta dos pais e de urna irmã de dezessete anos. esforça-se em sair da cama para apanhar o próximo trem. A irmã. Mas seu aparecimento nesse ambiente acaba apavorando a mãe. É por isso que pode se perguntar: “o que aconteceu comigo?” Gregor descarta a hipótese do pesadelo ou alucinação porque reconhece o seu espaço vital: as paredes de seu quarto. para tornar menos repugnante o trabalho da irmã. os integrantes da família Samsa são obrigados a providenciar o próprio sustento. independentemente da vontade humana. Mas o desejo de que aquela deformação seja passageira o persegue por um bom lapso de tempo: olhando os minutos que passam no despertador. uma variante do processo de animalização. segundo o modelo funcional de V. Grete retribui a delicadeza do irmão tentando descobrir a espécie de comida de que Gregor gosta mais. Gregor compreende tudo o que se passa ao seu redor. a sua revelia e sem que ele tenha culpa alguma Esse contraste de um destino trágico atribuído a um homem comum é ainda mais surpreendente se considerar que a metamorfose sofrida é um ato gratuito. por exemplo. o inspetor chegara a sua casa e. Funcionário exemplar. que o submete a um processo de degradação. que o conduziria ao trabalho habitual. entra em seu quarto para fazer a limpeza e dar-lhe comida. O pai. O emprego de vendedor de urna firma de tecidos permitelhe alcançar tal objetivo. nem sequer imagina que aquele inseto descomunal possa ter inteligência e sentimentos humanos. A mãe passa semanas sem ver seu filho. consegue um emprego de guarda num banco. após uma falência. da espécie de insetização. vivia sem fazer nada e constantemente adoentado. as amostras de fazendas. o chamara de relapso. o sujeito Gregor encontra-se numa situação de “dano”. duas vezes por dia. encurrala o filho outra vez para o quarto. Estamos em face do tipo mais puro de fantástico. sem nenhuma motivação. que. naquela fatídica manhã. percebendo que Gregor gosta de subir pelas paredes e pelo teto do quarto. uma parte da residência é alugada para três hóspedes. sempre dera o melhor de si e nunca atrasara sequer um minuto no exercício de sua função. pura obra do acaso. até então o . Grete. O pai chega e. E quando Gregor. que desmaia. Tal dano.Propp. Daí sua mágoa quando. como acontece na literatura fantástica anterior a Kafka O protagonista do conto A Metamorfose é um sujeito paciente e não agente. toda vez que percebe sua chegada. abrir a porta e revelar sua nova forma de inseto enorme. A constatação de que a família pode prescindir de seu auxílio. dando um novo ordenamento à economia doméstica: o pai. após esforços dolorosos. a pontapés. conseguiu sair da cama. como se fossem pedras. porque é vítima da crueldade do destino. a irmã começa a trabalhar de garçonete. Na situação inicial da trama. o leitor já sente o impacto de um acontecimento completamente insólito. Uma maçã se lhe incrusta no pescoço e lá acaba apodrecendo. lançando-lhe maçãs. como. esconde-se de baixo do sofá. o obriga a voltar para seu quarto. não é total porque Gregor Samsa ainda goza dos semas humanos do pensar e do sentir. por ter atrasado menos de uma hora. deteriorando-se por causa da falta de comunicação. porém. Apenas a jovem Grete sente compaixão pelo irmão desgraçado e. A finalidade de sua vida é acabar de saldar uma dívida contraída pelo pai e pagar o conservatório da irmã Grete. abandonando-o completamente ao seu destino.

por exemplo. marrom. As descrições do ambiente e das características físicas e espirituais das personagens. A fábula de Gregor Samsa é contada por um narrador onisciente que fala em terceira pessoa. Mas este “nada mais que isso” não é uma . os familiares. lastimavelmente finas.192 único esteio da casa. a degradação funcional. o fato é aceito naturalmente. a empregada doméstica os hóspedes da casa. Suas inúmeras pernas. começa a se considerar também nocivo a sua família. tendo a empregada esquecido de trancar a porta de seu quarto. ele se entrega à morte. E quando. de uma desgraça qualquer. enfim. Esse motivo. mas algo que realmente aconteceu. está adorando a música. constitui a perspectiva principal dessa narrativa. pela incomunicabilidade entre as pessoas. fumando e conversando durante a execução da partitura. como se se tratasse de uma doença comum. pelo completo abandono a que o relega a família. até então a mais compassiva em relação à terrível desgraça acontecida a Gregor. Vivemos num mundo absurdo. Muitas. a degradação afetiva. é encontrado falecido na manhã seguinte ao desagradável acontecimento de sua entrada na sala de visitas para ouvir a música tocada pela irmã. e sua presença naquela família torna-se perfeitamente dispensável. aliado ao abandono a que é relegado devido ao trabalho da irmã e à ocupação de parte da casa pelos inquilinos. ainda mal se sustinha. a empregada encontra Gregor morto e dá um jeito naquele inseto estranho e repugnante. não compreendendo as boas intenções da atitude do irmão. Gregor vai até o corredor para ouvir Grete tocar violino. Günther Anders. se pergunta como tal acontecimento foi possível. esmagado pela burocracia das instituições sociais. de fato. embora volta e meia modificada pela fala dos personagens que se exprimem pelo discurso direto. a tríplice degradação a que é submetido. no topo do qual a coberta. Ao perceber que os três inquilinos faziam pouco caso da irmã. a intenção da ação de Gregor era a melhor possível. como se a metamorfose de Gregor não fosse um fato ocorrido na imaginação. mas situações. A própria irmã. A família recupera sua tranqüilidade e os três podem. pela deformação de seu corpo. faz com que Gregor passe a se sentir inútil. o protagonista do conto: a degradação física. finalmente. Também com referência a esse episódio. No dia seguinte ao repúdio da irmã. porque faz parte integrante da própria existência humana. revoltamse contra o dono da casa e vão embora sem pagar a pensão. decide que não vai suportá-lo mais. assim. não são outras coisas senão funções: um homem é mensageiro e nada mais que isso. querendo que ela entenda que seu irmão. Outro estudioso do escritor checa. situando-se o foco narrativo “por detrás” dos personagens. aos quais deve ser escondida a existência daquele inseto asqueroso. ele avança até a sala e chega perto da irmã para lhe demonstrar sua solidariedade. Tal peripécia constitui a gota d’água que faz transbordar o copo das relações de Gregor com seus familiares. Otto Maria Carpeaux considera Kafka como “um dos maiores criadores de símbolos”. que apresenta os episódios de um ponto de vista objetivo. mas seu resultado é catastrófico. pela perda do emprego. Perante a inexplicável transformação de um homem num inseto descomunal. Pelo contrário. ao perceberem a presença daquele inseto medonho e sujo na residência. fazendo planos para um futuro melhor. Em comparação com o volume do resto do corpo. ninguém. o próprio sujeito da metamorfose. especifica a peculiaridade do simbolismo kafkiano: “O que ele traduz em imagens não são conceitos. além de inútil. Veja-se. pelas leis que não podem ser cumpridas. sucessivamente. são tão precisas e minuciosas que apresentam a ficção fantástica como se fosse pura realidade. nem extraordinário. pelo menos. uma mulher é uma “boa relação” e nada mais que isso. a descrição da nova forma corporal de Gregor Samsa: “Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e. o que mais impressiona na ficção de Franz Kafka é a apresentação de um fato absolutamente absurdo descrito com a maior naturalidade. através do recurso a símbolos e a parábolas. ao levantar um pouco a cabeça. É que para Kafka o absurdo não é estranho. Tal focalização. prestes a deslizar de vez. Com efeito. E é esse absurdo que Kafka tenta expressar em forma de arte. Consome-se. Mas o resultado é o contrário do esperado: os hóspedes. Tal impressão é reforçada pelo aspecto descritivo desse conto kafkiano. especialmente do protagonista. Tremulavam desamparadas diante de seus olhos” Efetivamente. sair juntos a passeio. viu seu ventre abaulado. sem preocupação alguma. As pessoas que Kafka faz entrar em cena são “arrancadas” da existência humana. provoca em Gregor um vazio existencial: passa a recusar a comida quase sistematicamente. especialmente do protagonista. Uma noite. dividido por nervuras arqueadas.

seduz a jovem Frieda. mas que é por dentro de uma coerência absoluta que nos assusta como a inevitabilidade do destino humano. O pai assume um emprego simples. mas já uma moça à espera de marido. O protagonista do romance quer estabelecer-se nas terras do senhor e lá exercer sua profissão. tomando apenas para si funções que deveriam ser distribuídas entre todos. No romance O Castelo. mas mais moderno e melhor localizado. sem querer. O agrimensor K do Castelo apresenta muitas semelhanças com o bancário Joseph K. O adjetivo “kafkiano”. do esmagamento do indivíduo pelas forças sociais. provocada pelo egoísmo grupal. Aquele mundo demoníaco é nosso mundo. pois seus familiares são impulsionados à ação. A irmã aparece aos olhos dos pais não mais como uma menina. onde a incomunicabilidade humana. se sente outra vez sozinho e sem forças para chegar até o dono do castelo. mas que lhe dá orgulho e satisfação. o romance representa a luta do indivíduo na tentativa de integrar-se numa comunidade. E o que representa Gregor Samsa senão um homem engolido pela sua profissão de caixeiro-viajante? Sua redução a inseto é o símbolo. porque. tal situação se modifica. na qual a divisão do trabalho o torna mero papel especial”.O Castelo “Quem sou eu pois?”. Aliás. pela qual a pessoa que ajuda acaba. Eis o assunto das parábolas de Kafka”. o mundo das ruas e casas misteriosas da Praga gótica de todas as cidades. um ser insignificante. do Processo e com o caixeiro-viajante Gregor Samsa da Metamorfose. lógica que parece absurda por fora. sua ação chega a tornar-se prejudicial ao progresso do grupo. é altamente irônica. Estes três protagonistas nos fazem captar a peculiaridade do fantástico de Franz Fafka. que lhe dificultam a chegada até o dono. É o que acontece com Gregor Samsa que. que se agrupam em sociedade para tornar sua vida mais confortável. amante do poderoso funcionário Klamm. saindo do torpor em que estavam. tentam por todos os meios oprimir os outros. Mas é impedido pela hostilidade dos moradores do burgo e dos burocratas do castelo. No dizer do crítico Otto Maria Carpeaux: “o inefável é símbolo de um irrealizável. ao assumir sozinho o encargo de sustentar a família. poderíamos chamar o fantástico kafkiano de “fantástico absurdo”. Mais ainda: quando o indivíduo se sacrifica em benefício de um grupo social. Mas a moça se desinteressa por ele e K. o agrimensor K. sem refletir sobre o fato de que ninguém pode ser feliz no meio de uma desgraça comunitária. o homem poderoso que defende os valores ideológicos. O tema da xenofobia predomina nessa obra kafkiana. Ele acaba perdendo até a noção da própria identidade. ou do judeu que quer ser bem-aceito pelo povo que o hospeda. Simbolicamente. visto que a própria vida. quase toda a ficção kafkiana é profundamente irônica. Lembramo-nos da famosa expressão de Pirandello: “Se nos fosse dado prever todo o mal que pode nascer do bem que pensamos fazer!”. chega uma noite num vilarejo governado por um senhor que vive num castelo sobre a colina. Eles agora não dependem mais da vontade de Gregor: podem planejar a mudança para um outro apartamento. Com a desgraça de Gregor. o comportamento inter-humano é um mistério incompreensível. subliminarmente. que viviam todos às custas do seu trabalho. prejudicando as pessoas que ama. lógica e eticamente inexplicáveis. na qual ele “é” sua profissão. a imagem poética. A Lei não pode ser cumprida: somos culpados e fatalmente condenados. condição indispensável para tentar a escalada até Deus. que reside na descrição artística do desespero do homem ante os contrastes irredutíveis da existência. K. tem seu modelo na realidade moderna. O herói kafkiano é essencialmente um homem comum. o tema da ironia na obra de Franz Kafka mereceria um estudo à parte. pois as situações em que ele coloca suas personagens são física. O contraste entre a consciência do protagonista da Metamorfose de que ele é indispensável ao sustento da família e o fato prático que demonstra que ele é perfeitamente dispensável acabam desferindo um golpe mortal à tradição literária do herói salvador. III . mais vítima passiva das instituições ético-sociais que agente capaz de modificar uma situação injusta e desagradável. visto que a maioria das personagens de seus contos e romances é constituída por seres postos em face de situações inexplicáveis e impossíveis de serem resolvidas. é a causa maior da angústia existencial. acaba determinando a acomodação dos pais e da irmã. uma estupidez logicamente insustentável: os homens. ou do homem comum que luta para obter um trabalho e um lar. tomados pelo egoísmo individual ou de grupo. menor. Tal inversão de perspectiva. fazendo-o inclusive rejuvenescer. com a intenção de penetrar nos meandros da vida da burocracia castelana. regido por uma lógica estranha de motivos e de acontecimentos. . Para uma definição tipológica. da integridade moral da personalidade humana. em virtude da nova função que está exercendo.193 invenção kafkiana.

LENDA (conto popular. no século XIII. Esse substantivo passou a denominar o relato da vida dos santos e mártires da igreja católica. mas apenas dá uma nova forma a materiais preexistentes. da introdução do Cristianismo na Inglaterra pelo rei Artur e os Cavaleiros da “Tavola Redonda” (Graal). enquanto o relato legendário tem como heróis seres humanos cujo alto valor cívico ou espiritual estimula a imitação. na maioria das línguas ocidentais. tem como atitude mental a crença. a definição da matéria pela propriedade de possuir massa. ninguém cria nada a partir do nada. mas foi vítima da Revolução Francesa. com o passar do tempo. assim como na vida humana e na arte. A primeira coletânea foi publicada pelo abade francês Jacques de Voragine. Geralmente. de burocraticamente tortuoso.. Outra peculiaridade da lenda é sua localização no espaço e no tempo. que na Idade Média se substantivou. não acaba mas se transforma em polens de fumaça. pelo qual evidenciou a verdade científica de que no mundo físico. A Convenção determinara a detenção de todos os arrecadadores de impostos: ele foi preso e impiedosamente condenado à guilhotina. nada se destrói: tudo se transforma” Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794) foi o primeiro estudioso a tratar a Química como uma Ciência. assim um cientista. diferentemente do mito e do conto popular.. anotamos: a lei das conservações dos elementos. . de quem leva o nome. Outra diferença consiste no fato de que a lenda se origina a partir de um fato histórico. a introdução do sistema da balança. uma mudança de forma. participando da vida pública como Secretário do Tesouro. de ilógico. forma gerundiva do verbo legere (ler). da edificação de Lisboa pelo herói grego Ulisses. IX) e os heróis cristãos das várias Cruzadas. denominado “Lei de Lavoisier”. O sentido etimológico do nome já sugere a disposição mental: a imitação. "o que se deve ler". Como um cigarro é feito a partir da existência do fumo e do papel e. Aos 25 anos já entrara na Academia. As hagiografias devem ser lidas para que se imitem as virtudes dos heróis religiosos. seja transfigurada pela imaginação popular. filósofo ou artista não inventa nada. enganando os ignorantes. KANT (filósofo alemão) Idealismo KIERKEGAARD (filósofo dinamarquês) Existencialismo LA FONTAINE (retomada do gênero de Esopo e Fedro)Fábula LAVOISIER (químico francês) “Nada se cria. cujas origens são geográfica e cronologicamente indeterminadas. Entre suas contribuições para a ciência. de apavorante. O nome feminino legenda significa. Ele se tornou famoso pelo axioma em epígrafe. embora sua veracidade. especialmente sobre Roland (início do séc. depois de consumido.194 passou a indicar. ligada profundamente a entes sobrenaturais. com o nome de Legenda Sanctorum. Está aqui uma das diferenças entre o mito e a lenda: a história mítica. chama-se lenda ao fato historicamente não comprovado. Picasso foi um gênio da pintura porque inventou o Cubismo. Lavoisier conferiu um rigor científico ao antigo ditado popular latino nihil ex nihilo (“nada do nada”). LEONARDO da Vinci (cientista e artista italiano)Renascimento Muitos fizeram comércio de ilusões e falsos milagres. entre o fim do século XI e meados do século XIII. algo de estranho. as várias lendas sobre a luta entre cristãos e muçulmanos: Carlos Magno e os Paladinos da França. como se depreende do sentido do adjetivo "lendário”. a elucidação do mecanismo de oxidação dos metais. Lembramos algumas lendas mais famosas: da Fundação de Roma por Rômulo e Remo. história fantástica)Mito A palavra lenda vem do latim legenda. exemplos de vida a serem imitados pelos cristãos. etimologicamente. mas a partir da existência do cubo! Qualquer tipo de arte ou de ciência não deixa de ser apenas uma “transformação”. Cegante ignorância nos ilude.

Ela teria sido amante de Cristo. arquiteto. O ficcionista Dan Brown. o moralista do naturalista. cidade da Itália central. estaria sob a guarda de uma sociedade segreda. mas a verdade oculta sobre Maria Madalena. . a meia-luz vaporosa que banha as formas com uma poesia inefável. poeta. o princípio da compressão dos arcos teve seu brilhante resultado arquitetônico: a estrutura da ponte demonstra que. Pela versão de Dan Brown. inaugurada em 2001. perto de Florença. o masculino do feminino! LEOPARDI (poeta lírico italiano da época do Romantismo) “A infinita inutilidade de todas as coisas” Giacomo Leopardi (1798-1837) é o maior poeta romântico italiano e um dos melhores líricos de literatura ocidental. Um defeito físico — era meio corcunda — e o precário estado de saúde o mantiveram. abrindo a janela para a modernidade. o autor apresenta uma surpreendente tese sobre a novela de cavalaria medieval. o Menino Jesus e Sant’ Ana. XV e XVI (Renascimento). Com o grande artista e cientista italiano. encontra o anagrama de Mona Lisa em “Amon L’ Isa”. De família nobre — tinha o título de conde — Leopardi foi educado na severa disciplina dos estudos clássicos (autores gregos e latinos. quanto maior a distância que separa os extremos de um arco. escultor. também chamada de “Gioconda”. na Noruega. ameaçando quem divulgasse a verdade sobre l’ affair de Jesus com Madalena. a Virgem. construída a partir do projeto original do sábio italiano. enquanto os outros continuaram dormindo”. recluso na vasta biblioteca paterna da residência de Recanati. por exemplo. junto com os restos mortais de Madalena. conforme a interpretação tradicional. no abraço entre a arte e a ciência e na conjunção do passado com o futuro! Está também na tentativa de aproximar o católico do herege. o Priorado de Sião. que liga Oslo. Nasceu na cidadezinha de Vinci. sentada ao lado do Mestre na última ceia. pintado entre 1503 e 1507. mas viajou a vida toda. na Suécia. a ponte sobre uma rodovia escandinava. A genialidade de Leonardo da Vinci está aí. maior sua capacidade de suportar o peso. Além das inúmeras obras realizadas nas várias artes. vítima de uma epidemia de cólera. mas de Maria Madalena. a conjunção dos nomes das divindades egípcias Amon e Ísis. a Europa despertou definitivamente do sono medieval. matemático. ao sultão Bayezid II. anatomista.195 Ó miseráveis mortais. pintor. naquela época. A peculiaridade é que a imagem sorri para o observador de qualquer lado que ele a olhe. Aqui aparece bem a técnica pictórica. no seu best seller O Código Da Vinci. mas uma mão empunhando um punhal. Outros indícios da tese irreverente: na mesa não aparece nenhum cálice. de que Leonardo da Vinci era membro. que teria dado nova vida ao mito grego do Hermafrodito (Andrógino). cujo pictograma antigo era L’ISA. onde José de Arimatéia teria recolhido o sangue de Jesus crucificado. o Graal não seria o cálice usado por Cristo na última ceia. a Ceia. vivendo também em Milão. Depois de 500 anos. na cidade de Aas. Esse segredo milenar. outros foram esquecidos e só recentemente recuperados e retomados. A produção lírica de Leopardi está contida num volume chamado Canti (Cantos). A importância da figura luminosíssima de Leonardo da Vinci (1452-1519) só pode ser percebida no contexto da cultura italiana e européia ao longo do séc. engenheiro. Dante e Petrarca). A Virgem dos rochedos. solicitado pelos governantes de outras cidades. para a passagem aérea sobre o Bósforo. Sigmund Freud disse: “foi como um homem que acordou cedo demais na escuridão.. de cuja união carnal nasceram vários filhos. e Estocolmo. A Demanda do Santo Graal. Com isso. Leonardo deixou várias pesquisas e projetos inacabados. Dele. Veneza. Veja-se. apresentado. O pintor florentino faria referência ao relacionamento íntimo de Jesus Cristo com Madalena no famoso afresco A Última Ceia: o rosto andrógino e a pose feminina da figura retratada à direita de Cristo não seriam do apóstolo João. Ele é mundialmente conhecido como o pintor da tela Mona Lisa. passando pela mitologia egípcia sobre a fertilidade e confirmando o pendor pela homossexualidade do grande pintor da Renascença italiana. e falecendo num castelo ao Sul da França. ele tenta demonstrar a androginia da figura pintada por Leonardo. abri os olhos” “O mais completo dos homens”: assim foi definido esse italiano. do “sfumato”. por boa parte de sua breve vida. Outros quadros famosos do grande pintor renascentista italiano: Adoração dos magos. Tratase do retrato da esposa do nobre florentino Francesco Del Giocondo. Roma. inventada por Leonardo. Morreu em Nápoles. Alguns esboços foram catalogados apenas como curiosidades. Mântua. Na mesma obra. com edição brasileira em 2004.

a natureza cósmica é insensível à dor humana. conservadora. e a direita imobilista. feita pelo poeta e crítico Haroldo de Campos. imaginada como um oceano misterioso onde a alma pensante encontra repouso e onde o tempo se traduz no espaço e este naquele. Uma série de fatores — a educação intransigente e preconceituosa. “ser liberal é compreender que a solidariedade será sempre inócua enquanto se fizer pelos outros o que eles podem fazer por si próprios”. Segundo alguns teóricos. do vazio existencial. O limite do livre arbítrio é apenas o respeito à liberdade de outro cidadão ou de outra nacionalidade. e as mortas estações. ético e econômico. que esmaga o livre exercício de pensar e de agir dos cidadãos. trata-se de um fragmento de pura poesia. II sabato del villaggio. que reinava na maioria dos Estados europeus. intermináveis espaços longe dela e sobre-humanos silêncios. além de ser antiprodutiva. Le ricordanze. em oposição ao Absolutismo monárquico e religioso. E assim que nesta imensidade afogo o pensamento: e o meu naufrágio é doce neste mar”. LIBERALISMO (a teoria do filósofo Locke e a prática do presidente Jefferson) É verdade que a liberdade é preciosa. do desgosto. Enfim. contra qualquer forma de imposição. como doutrina política e econômica. de preconceito ou privilégio. onde por pouco não se apavora o coração. Vamos ver. o que mais se aproxima da felicidade é a inconsciência. que pode ser sintetizada na expressão “a infinita inutilidade de todas as coisas”. e aquele infinito silêncio a esta voz vou comparando: e me recordo o eterno. Il tramonto della Luna. Os teóricos mais influentes foram os economistas ingleses Adam Smith e John Stuart Mill. mais fácil de ser sentida do que explicada: “A mim sempre foi cara esta colina deserta e a sebe que de tantos lados exclui o olhar do último horizonte. e quietude a mais profunda. A esmola. onde se encontra mais ou menos sistematizada a sua filosofia da infelicidade humana. quer individual quer social. Neste breve canto. o que nos resta é a morte!). O profundo pessimismo contido nas obras teóricas e poéticas do grande escritor italiano é provocado pelo sentimento da “noia”. mais é destinado a sofrer. e o seu rumor. como um destes temas é expresso artisticamente. Os pontos fundamentais do liberalismo político-econômico são: 1) o regime democrático e a independência dos três poderes. pela leitura de um poema. o poeta italiano exprime o palpitar da imensidade. quanto o homem mais tiver um espírito lúcido e um sentimento nobre. Mas sentado e mirando. L’ infinito. que corresponde ao bíblico Vanitas vanitatum (“Vaidade das vaidades”: tudo é vaidade. de escravatura. começou a tomar corpo a partir do séc. O seu pensamento reflexivo está expresso em duas obras em prosa: Zibaldone (coletânea de correspondências e de escritos vários) e Operette morali. Eis a tradução da lírica mais famosa de Leopardi. no fim. O direito à liberdade deve atingir o ser humano como um todo. religioso. o político brasileiro João Mellão Neto. 2) o direito à propriedade e à liberdade de pensar e de agir. ser liberal é repudiar a esquerda estatizante. a observação dos absurdos da vida em sociedade — provocam no seu espírito convicções negativas que ele sublimiza em obras de alta poesia. aferrada aos privilégios de classe. pois nada leva a nada. XVIII. abrangendo o campo político. eu no pensar me finjo. “é preciso ensinar a pescar e não dar o peixinho de graça”. E o vento ouço nas plantas como rufla.196 onde se encontram os poemas mais famosos: L’infinito. do tédio. À Silvia. a deformidade e a doença física. 3) o livre jogo da concorrência nas relações . Ou. citando o ditado popular. ofende o próprio beneficiário! O Liberalismo. que considera Giacomo Leopardi um teórico precursor da Vanguarda européia. a morte é o fim de todo o sofrimento. La ginestra. Como afirma um liberal de carteirinha. e esta presente e viva. Na base do liberalismo está a justiça e não a caridade. tudo é ilusão: as honrarias são inúteis e passageiras. cujo conteúdo pode ser assim sintetizado: é próprio da natureza humana ser infeliz. Tão preciosa que é preciso racioná-la (Lênin) O Liberalismo pode ser considerado o ponto de equilíbrio entre dois sistemas totalitários: o Comunismo (Marx) e o Nazi-fascismo (Hitler).

entre outras. Entre as contribuições mais importantes. o latim vulgar. antropologia estrutural. sentimentos. Do ponto de vista moral. O método era comparativo e a preocupação dos estudiosos vertia quase exclusivamente sobre as transformações das formas fonéticas e lexicais. denotação e conotação. morfema. a funcional (Martinet. Nascia. passando-se a considerar a língua humana como um fenômeno em contínua evolução. modas. V ao XI Medievalismo). assinalamos vários planos de análise de um texto ou de um objeto: a distinção entre langue (língua) e parole (palavra). promovida pela filosofia “hippie” . e a correlação entre eles para a construção de uma frase no plano sintagmático). lexema. a gerativa (Chomsky). a cultura começou a se desenvolver e surgiram as várias nacionalidades européias. uma visão ideológica da existência. Jakobson e a escola de Praga). na França. com o surgimento da área de conhecimento chamada de “Lingüística”. a chamada lingüística sincrônica ou estrutural. italianos. se um povo não tiver uma língua bem desenvolvida. semema etc. Somente quando alguns dialetos locais começaram a produzir textos escritos. social e econômica foi a falta de línguas nacionais. psicologia. quer porque o sistema lingüístico é a base para a construção de qualquer outro sistema semiótico. a partir do séc. significante e significado. Mas o estudo científico das línguas naturais começou bem mais tarde. metonímico (contigüidade) e metafórico. XX. no início do séc. sintagma e paradigma. A importância do avanço dos estudos lingüísticos transcende o campo da compreensão dos idiomas. considerado o pai da ciência lingüística moderna. da filosofia e das ciências teve como causa fundamental o desenvolvimento de línguas na Itália. a atual. a era da “liberação”. artes. quando a Europa viveu em completo obscurantismo: a causa primordial da decadência cultural. XX. indo cair na denominada “tirania adolescente”. e a era da total “permissão”. 4) redução ao mínimo da intervenção do Estado em assuntos econômicos. no tempo e no espaço. podemos distinguir a era da “repressão”. pois os povos ibéricos. LÍRICA (forma de arte e estado de espírito) Poesia  Gênero literárioTrovadorismo . sincronia e diacronia. qualquer prática social. forma e estrutura. na Península Ibérica: foram os textos escritos que provocaram o progresso artístico. Saussure fez escola e dele procederam as mais recentes correntes lingüísticas: a glossemática (Hjelmslev). entre outros. assim. A “estrutura” de um língua. A partir do Duzentos. sendo a língua de um povo o mais completo sistema semiótico Por linguagem (idioma ou língua) entende-se um conjunto de signos regidos por regras de combinação e apto a expressar um modelo do mundo.197 comerciais. códigos de trânsito. eufórico e disfórico. teoria da literatura. anafórico e catafórico. quer dizer a análise de seus componentes internos (fonema. dando ênfase à tradicional lingüística diacrônica. mitos. enfim). existe uma hierarquia de importância. a distribucional (Bloomfield e a escola norte-americana). Entre os vários critérios. culturas indígenas etc. na Alemanha. criados pelo homem para comunicar idéias. É incontestável o fato de que. (similaridade). só era entendido por poucos privilegiados das duas classes dominantes: clero e nobreza. quando tomaram corpo as pesquisas sobre as mudanças lingüísticas que ocorriam nos idiomas nacionais. o Renascimento das artes. que liberou totalmente as formas de comportamento. semiótica e semântica. que vigorou até o início da segunda metade do séc. sendo que a língua natural deve ser considerada como “o sistema modelizante primário” (Lotman). na Inglaterra. científico e filosófico. na Romênia. começou a ser estudada por Ferdinand de Saussure. pois criou conceitos e modelos de análise de que se beneficiaram também outras áreas de conhecimento: estrutura do texto. falavam dialetos regionais que não eram escritos e a língua escrita oficial. todas suas atividades artísticas e científicas são prejudicadas. que se deu nas décadas de 1960 e 1970. deixando-se guiar pela lei natural da oferta e da procura. franceses. Haja vista o período da Alta Idade Média (do séc. quer porque é o primeiro código de signos que o homem aprende a usar para se comunicar. normas de vida (línguas naturais. LINGÜÍSTICA (a ciência da linguagem)Saussure Metáfora Retórica Todo sistema que serve para a comunicação humana pode ser considerado uma “linguagem”. XIX.

por exemplo. exalta os ideais do povo grego. de uma paisagem. e distinguiam a lírica “monódica” (individual) da “coral”. que os antigos usavam para acompanhar o canto e a dança. parido do ventre da princesa tebana Sêmele e da coxa de Júpiter) e o pean. algo que toca o coração mais que a razão. pelo fato de que suas formas métricas e conteúdos ideológicos tiveram imitadores ao longo da história da lírica do Ocidente. como o passado e o presente. que chamavam de poesia jâmbica. Eram chamados de hinos. emocional. pondo em relevo os elementos constitutivos do poema e a especificidade da linguagem artística. permanecendo até hoje. reduzindo a poesia a algo de misterioso e de insondável. de várias formas. Por essas considerações. que chamava “mélica” (de melos. que abrangeu a cultura alexandrina e romana. em versos líricos. não no conceito.). apelido de Dionísio. Mas. a poesia lírica servia para salientar todas as atividades humanas importantes: o epinício (celebração de uma vitória esportiva). sobre o ritmo. bem mais abrangente: falamos de peça teatral ( Ópera lírica) ou paisagem lírica. para indicar um estado de espírito.). e Anacreonte (564-478 a. tiveram o intuito de demonstrar que também o poema lírico. canção. mas na alma. sobre as figuras de estilo. instrumento musical de corda. Os primeiros poemas curtos (chamados de mélicos ou líricos e diferenciados dos poemas longos da produção épica. a palavra lírica. propostas especialmente pelo Formalismo russo e pelo Estruturalismo francês. publicados. nos ajude a compreender o sentido interno e a captar a parcela de significação da realidade que toda obra poética encerra. Os antigos gregos manifestavam. O clima lírico se estabelece quando. a grande poetisa do amor. cantiga. melodia). lidos. da maravilhosa produção lírica da Grécia antiga só restaram fragmentos. mas nelas e elas em nos. temos a impressão de que o estilo lírico é inexplicável. todas as atividades da vida. entre sujeito e objeto. e não mais apenas cantados. como gênero literário (poema curto. além do sentimento religioso. Os gregos cultivaram também o gênero satírico. uma postura perante a vida. quase todas elas ligadas entre si pelos semas da musicalidade. de um estado de alma. cantor das alegrias da mesa (Skólia) e da . rondó.). pertencem a três grandes poetas: Safo (625-580 a. é posterior a Aristóteles (séc. recitados.C.). lírico é tomado quase como sinônimo de sentimental. fundamentada num subjetivismo absoluto. os mais famosos sendo o ditirambo (“aquele que nasceu duas vezes”. Émil Staiger distingue o substantivo “Lírica”. um panorama e seu observador. a ode (exaltação da pátria. não estão diversificados na poesia lírica. que procuram devassar o pretenso mistério da poesia.C. entre um poema e seu leitor. Píndaro (518-438 a. mesmo quando os versos começaram a ser feitos para serem escritos.198 Do termo greco-romano “lyra”. de paixão. de um quadro. exprimindo essencialmente um sentimento individual e intransferível de prazer. a elegia (canto fúnebre e sentimento de tristeza).C. A poesia lírica é intrínseca à natureza humana. É um “estar-no-outro”. o epitalâmio (celebração de núpcias).C. a palavra poética feita para ser cantada. Tal postura epistemológica. Portanto. O crítico alemão salienta a característica principal do estilo lírico: a recordação. confundindo-se com “poético”. sendo cantados diante dos altares ou durante as procissões e festas sagradas. em honra do deus Apolo. um quadro de arte e seu espectador. sobre o semantismo poético. estabelecendo-se assim uma relação simpatética entre destinador e destinatário de um objeto de arte.) que. de dor. de amor. trágica e cômica) estavam relacionados com o culto religioso. de angústia. de um acontecimento importante. da mulher amada). O leitor ou o espectador não deveria se preocupar em compreender. Este conceito de liricidade não se encontra apenas na poesia. ligada à produção artística em versos. mas também numa paisagem ou numa atitude humana. pode ser submetido a uma analise estrutural que. Os estudos realizados sobre a estrutura do verso. Ainda hoje. infelizmente. III a. Para sentir liricamente é necessária a existência de uma disposição anímica. Mas. etc. mas no sentimento. Os considerados importantes. do canto e da dança: soneto. Recordar significa anular o distanciamento entre passado e presente. o subjetivo e o objetivo. a par da narrativa e da peça teatral. Contra esta tendência impressionista insurgem-se as modernas técnicas de analise poemática. anula qualquer possibilidade de analise e de interpretação do poema lírico. O termo “lírico” afirmou-se ao longo do período helenístico. romântico. a relação de compreensão não está baseada no intelecto. do adjetivo “lírico”. em suas famosas Odes. o encômio (elogio de um varão). A interiorização de toda a objetividade é a essência do lírico: não estamos diante das coisas. em forma de U. bem diferente da “memória”. que nos possibilite sermos “tomados” por algo que está em frente a nós. balada. mas apenas em fruir a beleza de um poema.

Garcilaso de la Vega (1503-1536>. Hugo). E fez escola: o “petrarquismo” foi a moda poética que predominou na Europa até o advento do romantismo. 2) uma lírica formalmente livre. citamos: Lorenzo dei Medici (1449-1492). buscando a perfeição formal. que com intensidade e mais bom gosto estético soube expressar o vazio existencial provocado pelo sentimento da “noia” . Francisco de Quevedo y Villegas (1580-1645). relacionado com a vida no campo: na língua galegoportuguesa temos o exemplo das Cantigas de amigo. iniciada por Mallarmé e continuada por Valéry. O Modernismo e a contemporaneidade apresentam vários filões líricos. Jacopo Sannazzaro (1453-1530). pois o Parnasianismo foi uma retomada da lírica clássica. Torquato Tasso (1554-1595). O Romantismo provocou uma revolução cultural que atingiu também o gênero lírico. Baudelaire). no século XIV. a Toscana. Virgílio e Ovídio. Guido Cavalcanti. Aprofundando a ética romântica. algo misterioso que estabelecesse uma correspondência entre os elementos do mundo humano. que tentaram sacudir o modelo burguês da vida ( Goetbe. de uma forma geral. pois oscilam entre a lucidez intelectual e o impulso anárquico. Na Alta Idade Média (do século V ao XIMedievalismo). do tédio. portugueses. Rimbaud e Valéry. Para tanto. genuinamente nacional e popular. na Provença: a famosa lírica trovadoresca ( Trovadorismo). retomam os filões líricos da Baixa Idade Média ( trovadorismo. partes da liturgia da missa. Byron. Em nome da liberdade de sentir e de se expressar. A poesia provençal fez muito sucesso. Larnartine. autóctone. Metastásio (1698-1782). a poesia lírica em língua latina ficou restrita quase exclusivamente ao culto da religião cristã: hinos. tendo sido imitada por poetas galegos. Ao crítico cabe . iniciada por Rimbaud e elevada às últimas conseqüências pelo poeta surrealista André Breton. Wordsworth. pela qual a poesia deve ser “uma festa do intelecto”. alógica. uma poesia de escola. dos poetas revolucionários. surgida numa região central da Itália. no seu apurado estudo Estrutura da lírica moderna. que se alimentavam de sonhos e ilusões (Novalis. difíceis de serem claramente delineados. Dom Luis de Gongora y Argote (1561-1627). O contraste apontado não deve ser entendido no sentido exclusivista. personificando a insatisfação própria da época romântica. distingue duas polaridades no complexo poético do século XX: 1) Uma lírica intelectualizada. Keats. Só foi destronada pela escola do “dolce stil nuovo”. com a afirmação das línguas românicas. animal e vegetal. Na Baixa Idade Média (do século XI ao XV). castelhanos. o Barroco e o Arcadismo. petrarquismo. Verlaine. do desgosto face à efemeridade de qualquer tipo de prazer. de uma forma geral. salmos. acrescentando-lhes a imitação de formas e conteúdos da antiga poesia grecoromana. Giambattista Marino (1589-1625). John Donne (1. tentando descobrir uma alma universal. Musset Vigny. fazendo com que a palavra poética fosse a real expressão do sentimento. O maior poeta lírico do romantismo europeu foi o italiano Giacomo Leopardi. a Lírica apresenta dois filões: um. Young. que formam o período clássico da cultura moderna. antes. ressuscitada pelos humanistas. de grande rigor formal.199 cama (Erótika). após a fase do Realismo. surgido no sul da França. O estudioso Hugo Friedrich. Os melhores poetas simbolistas foram os franceses Mallarmé. O Renascimento. A lírica de língua latina seguiu. Poetas como Guido Guinizelli. pela qual a poesia deve ser “a derrocada do intelecto”. serviram-se da metáfora sinestética. os poetas românticos deixaram de lado os cânones estéticos do Classicismo para dar larga vazão ao sentimento. primeiro grande poeta introspectivo de língua neolatina. A literatura latina apresenta quatro poetas líricos de primeira grandeza: Catulo. os poetas simbolistas voltaram ao espiritualismo.573-1631). Em verdade. Outro filão. O maior lírico da última fase da Idade Média foi Petrarca (1304-1374). Poe. como indicação apenas da predominância de uma tendência sobre a outra num determinado poeta. embora o conteúdo poemático espelhe a diferente sensibilidade do povo romano. Angelo Poliziano (1454-1494). de origem culta. Dante Alighieri e Francesco Petrarca sentiram a necessidade de quebrar o formalismo da escola trovadoresca. bucolismo). Os estudiosos distinguem a lírica “quietista” dos lake’s poets. que exalta a figura da mulher idealizada. Entre os poetas líricos de maior destaque. a tensão existente entre as forças cerebrais e o impulso anárquico pode ser observada nos melhores líricos do Modernismo. estilnovismo. os modelos criados pelos gregos. rebuscada. Luís Vaz de Camões (1524-1580). Horácio. cada qual poetizando segundo os impulsos de seu subjetivismo. que cria associações entre sensações de campos semânticos diferentes. este último considerado o primeiro teórico da poesia modernista. italianos. O Simbolismo revigorou o gênero lírico. palaciana. Blake. vazio do ponto de vista propriamente poético. Bocage (1765-1805).

A poesia deve provocar no leitor apenas uma “sugestão mágica”. e o romântico as angústias do seu isolamento espiritual. princípios estéticos e ideológicos semelhantes. sem nenhuma perspectiva histórica. no seu “Manifesto Futurista” de 1909. de cada artista. enquanto desfiguradora da realidade. são substituídos por símbolos individuais. o que nos permite perceber a existência de uma estrutura estilística na lírica modernista e contemporânea. da informática. a lírica modernista prescinde da experiência vivida por um “ego”. casa. fragmentos da realidade. a uma matrícula. d) Fragmentação Um dos intuitos da arte moderna é apresentar. mas apenas pedaços. sem prejuízo das fortes individualidades poéticas do nosso século. Quer dizer. Opondo-se especialmente à poesia romântica. Antes dele. sem nenhuma pretensão de ser compreendida. da cibernética. e sua oposição à sociedade robotizada e pragmática. centrada sobre o sentimento individual. que sempre procurou romper os automatismos lingüísticos para dar um novo sentido às palavras. cujas características seriam: a) Antipassadismo Talvez seja essa a característica mais comum a todos os artistas da Vanguarda. existe algo em comum. escada etc. A dinâmica das imagens poéticas substitui o significado dessas imagens. b) Sugestão Como as artes plásticas. na lírica modernista chega ao extremo da não-comunicação. As duas Guerras Mundiais. que tem suas raízes na lírica simbolista. Apesar dessa diversidade toda. Tal despersonalização chega até à desumanização: Marinetti. inspirada no cubismo. assim a poesia da Vanguarda tende mais a sugerir do que a comunicar. abalaram o Ocidente e levaram os intelectuais a questionar a validade da cultura: por que a civilização. é possível delinear uma certa unidade estilística. destruindo-se seus limites espaciais e temporais. colocando. A ruptura com a tradição cultural e o desejo de criar uma nova estética encontram sua justificativa face á crise da humanidade provocada pelos horrores do entre-guerras. seguindo as pegadas das estéticas clássica e romântica. apenas é. alimentando-se do prazer aristocrático de não ser compreendido. Em vez de reproduzir os objetos. o genocídio? Daí a insurreição contra tudo o que é passado e a repulsa da herança cristã. influenciadas pela estética cubista. a injustiça. Talvez seja esta a resposta da arte à pretensão científica de decifrar o mistério do universo. c) Despersonalização A crise do conceito de personalidade. o mar nas . A própria fantasia intelectualiza-se através da ficção científica: o herói atual é dirigido pela parafernália da computação. do confessionalismo. para fazê-la soberana. pela redução do ser humano a um número. porém simplificados e dominados: uma verdadeira magia”. Rimbaud. da escritura automática. sem a pretensão de serem interpretados. apenas fenomenológico. e explora conteúdos sonambúlicos e alucinantes. Ao lado da poesia figurativa. Enquanto o poeta clássico quer transmitir ao leitor sentimentos provenientes da idealização da natureza cósmica ou humana. pois seu conteúdo é constituído pelos próprios objetos representados: automóvel. a opressão. se esta traz em seu bojo o ódio. falando da arte pictórica. ela deve forçar excitações mediante as linhas. não a totalidade da vida. A estilização da arte moderna leva à desvalorização da forma orgânica e à anulação de qualquer sentido humano: o significado de um objeto artístico estaria implícito na sua própria forma. A função poética da linguagem humana. de desagradar o público ledor. que possibilitam a percepção de linhas de força análogas e especificas do hodierno lirismo. estranhos ao código ideológico. já Baudelaire tinha falado em “decomposição” do real: a fantasia teria a função de superar o perceptível. Daí o caráter hermético e alógico da moderna concepção da arte: o poeta trabalha com símbolos autárquicos. temos formas e conteúdos poemáticos tradicionais. chegando a uma neutralidade suprapessoal. o poeta moderno agride o leitor com seus versos inefáveis.200 detectar as características comuns. motivos. afirma: “o sofrimento de um homem não é para nós mais interessante de que o sofrimento de uma lâmpada atingida pelo curto-circuito”. da estatística. os símbolos coletivos. da automatização. O valor da lírica moderna seria. inteligíveis. o passado é feito em pedaços. deformando os objetos e juntando pedaços heterogêneos. por exemplo. enfim. clássica e romântica. Ela não comunica nada. as cores e os contornos colhidos do mundo exterior. afirma: “Temos de arrancar à pintura seu hábito antigo de copiar. a poética modernista se aproxima da “escola do olhar” do nouveau roman francês. Sob este aspecto. de 1915-1918 e de 1939-1944. atinge também o mundo das artes. Os mitos gregos e bíblicos são degradados. então. dos poemas surrealistas. citações e alusões da tradição cultural são colhidas ao acaso e misturadas por montagens. parcelas de sentido de um mundo de cultura. surrealista e abstracionista.

S. altamente estimulantes para a criação artística. “a técnica da fusão”: o sentido de uma palavra se funde com o significado de um termo próximo ou se dá a transposição do que é objetivo em imagens que não existem no mundo real. penetrando no campo do desenho artístico. f) Grotesco A “estética do feio”. parece que as artes procuram romper suas fronteiras. do Modernismo brasileiro e da contemporaneidade. Até o espaço em branco pode ser indicador de sentido. A rigor. o diabólico. contistas e. mas tem um valor intrínseco. Eliot. De Apollinaire aos concretistas brasileiros. artigo definido em lugar do indefinido. contesta a função opositiva do disforme e do desarmônico: o feio não é o contrário do belo. adjetivação paradoxal. provocando a atrofia do espírito.. LITERATURA (a arte mais universal) “A Literatura é uma luta contra as mentiras ortodoxas” (Martin Seymour-Smith) “A Literatura é sempre uma expedição à verdade” (Franz Kafka) A literatura é a forma de arte mais cultivada no tempo e no espaço. permitindo sua visão através de ângulos diferentes. só adquirem sentido num contexto topográfico. Outro aspecto a ser ressaltado: não toda literatura é arte. mas de sílabas cruzadas. o uso da colagem de mensagens lingüísticas recolhidas ao acaso. do observador. não se pode falar de “literatura oral”. delegando a função de representar retratos e paisagens à arte fotográfica. literatura é o . o dissonante. Fernando Pessoa. Todos os povos primitivos têm sua “cultura”. O Cubismo de Picasso apresenta a plurifacetação de seres e objetos. a alteração das funções normais das categorias gramaticais e sintáticas: substantivos sem artigos. Da palavra latina “ littera” (letra). não é feita mais de frases. Garcia Lorca. Na literatura. tende cada vez mais à abolição da figura. pois o correto é considerar literário apenas o que se encontra “escrito”. a semantização de elementos gráficos. de letras maiúsculas em contraste com as minúsculas. de forma que possam ser lidas de diferentes ângulos. mas não todos possuem uma literatura. o idílico com o repugnante. Mario e Carlos Drummond de Andrade.201 montanhas. o estrato gráfico e óptico do poema adquirem uma importância cada vez maior. Ultimamente. podendo-se inverter versos ou estrofes inteiras. Apollinaire. a saída é procurar elementos poéticos no absurdo existencial. da arte pela arte. De um modo geral. Eliot. de palavras que façam sentido entre si. Chega-se. têm seu fascínio e oferecem novos materiais. inversamente. Ungaretti. g) Recursos estilísticos No plano da expressão. João Cabral de Melo Neto. Servindo-se do humor negro. de anagramas. coches no céu. passando pelo Cubismo e pelo Surrealismo. vejam-se os verbetes: Valéry. se aproxima da configuração. inversões etc. buscando pontos de intersecção e trocando técnicas e materiais de composição. a poética vanguardista lança mão de uma série de artifícios. especialmente a chamada “metáfora absoluta”: o tropo estabelece entre os dois termos não apenas uma relação de comparação mas de identidade. As palavras. instituindo novos padrões estéticos. a poesia. em geral. Para o estudo dos melhores poetas da Vanguarda européia. A concepção clássica da beleza torna-se trivial. Falar de “literatura oral” é uma impropriedade lingüística. ao limite extremo da concepção de poesia apenas como “forma”. A poesia. O anormal. o poeta que mais utiliza a técnica da fragmentação é T. “imagens incoerentes”: o poema não apresenta momentos ideológicos seqüenciais. o amor com a morte. o marginal. o uso do “acaso” para captar pedaços de uma conversação desconexa. autônomo. dependendo da capacidade de percepção do leitor ou. chamamos de Literatura ao conjunto das obras escritas por poetas. portanto. segundo essa tendência da Vanguarda. de versos. “as formas oximóricas”: aproximação no mesmo sintagma de objetos semanticamente opostos. o espaço em branco como significante. romancista. a partir da existência de um alfabeto. o artista moderno conjuga o sofrimento com o riso. ou até sílabas ou grafemas. e) Figurativismo Enquanto a pintura moderna. artisticamente dispostas numa página. melhor. predominando a arbitrariedade. assim. Vinicius de Moraes. Ezra Pound. Oswald. por todos os que se preocuparam com a arte da linguagem humana escrita. do puro prazer estético. Manuel Bandeira. em sua longa caminhada do Expressionismo ao Abstracionismo. Face à opressão do real. o tétrico. já proposta pelo Romantismo. formalizado num Texto.

também fazem uso da fala escrita: história. Outra coisa é o conceito de literatura num sentido restrito. o artista recorre à imaginação. para ser literária no sentido estrito. o fogo. romântico. LOPE de Vega (dramaturgo espanhol)Comédia O mar. material ou espiritual. mas abrangente. pelo uso da “linguagem”. Por sua vez.202 que foi escrito sobre algum assunto: assim falamos de literatura médica. O crítico Martin Seymour-Smith (Os 100 Livros que mais influenciaram a Humanidade) afirma que a Literatura é “uma luta contra as mentiras ortodoxas”. que trata da especificidade das formas narrativas. a crítica moderna apresenta vários caminhos possíveis: a teoria do Texto . não constrangida por preceitos morais. que o distingue dos outros seres que habitam o universo. narrador. espaço). biologia e de outras ciências e artes. O que acontece num romance. medieval. O texto literário. esportiva etc. No que diz respeito especificamente à nossa cultura. pode abrir-se para nós em toda sua autenticidade. renascentista. estimulando os leitores a pensar nas palavras e nos sentidos que elas podem exprimir. de uma forma sucinta. a natureza e a função da literatura propriamente dita. jornalismo etc. como arte da palavra. personagem. a sintaxe (inversões) ou a semântica ( metáforas). seus desejos mais recônditos. o amor e a fortuna não pensam no que são . a literatura se diferencia das outras artes que usam diferentes meios de expressão: a imagem fixa ( pintura). à fantasia para tentar compreender o mundo. contemporâneoIdade). que analisa os elementos estruturais comuns a qualquer tipo de texto (fábula ou mito. Enquanto o filósofo lança mão do pensamento especulativo e o cientista se apóia na observação e experimentação dos fenômenos da natureza. mas apenas historicamente inexistente. é a fonte mais fascinante de conhecimento do real. Pela oração adjetiva “que se serve da ficção”. é natural que qualquer atividade do homo sapiens vise o conhecimento de uma realidade exterior ou interior. além de fornecer um prazer estético (o fim lúdico). é um parto da fantasia do autor que. Para o estudo dessa imensidade de obras de arte literária. Daí a função social da literatura que. nunca excludentesCrítica. líricas e dramáticas. num quadro. as duas modalidades de abordagem sendo complementares. artisticamente elaborada”. nos países dos continentes europeu e americano e em algumas regiões costeiras da Ásia e da África. tempo. que estuda as características estéticas e culturais das várias eras e épocas (período greco-romano. modernista. realista. psicologia. portanto. Mas esta linguagem. tem que ser “artisticamente elaborada” para que se diferencie de outras atividades que. A linguagem poética. Esta definição apresenta. “Fictício” não significa falso. numa tela de cinema ou de televisão. do Japão e da Índia. O conceito de literatura como “forma de conhecimento da realidade” irmaniza a atividade literária com as outras operações do espírito humano. que pode ser definida assim: “Uma forma de conhecimento da realidade. estabelece-se a diferença específica entre o conhecimento artístico e o conhecimento reflexivo ou científico. pelo uso das figuras de estilo . Não precisa dizer que o estudo sincrônico ou estrutural do texto é tão importante quanto a visão diacrônica ou evolutiva da Literatura. excluindo-se apenas as civilizações orientais da China. induz o homem a refletir sobre os problemas existenciais. bem como sua diferenciação das outras artes. Se a busca do saber é a característica fundamental do ser humano. cria um universo imaginário onde os valores ideológicos são questionados. a Retórica. enquanto aquela. a Literatura Ocidental engloba os milhares de textos produzidos ao longo de quase 30 séculos. a par da filosofia. por ser fruto da imaginação. pois. tende à ruptura dos automatismos lingüísticos e ideológicos. como a poesia ou o romance. a teoria dos Gêneros. desde a Grécia Antiga até nossos dias. Observa-se que a personagem de ficção é muito mais verdadeira do que a pessoa real. a teoria dos Movimentos . gesso ou madeira (escultura) etc. embora por caminhos diferentes. e tem como meio de expressão a linguagem. e a colocar a máscara que o seu status social requer. diferentemente. jurídica. esta é obrigada a ocultar sua verdadeira essência. que podem atingir o léxico (metaplasmos). mármore. a imagem móvel (cinema). que estuda as figuras de estilo. todas elas voltadas para a compreensão do mundo em que vivemos. da filosofia e da ciência. refletindo sobre a realidade existencial. que se serve da ficção.

vivendo apenas em função da sua poesia e do seu teatro. O tema recorrente na sua obra dramática é o pundonor. Além das 468 peças (426 comédias e 42 autos) que chegaram até nós. quase telúrica ou cósmica. No dia do casamento rapta a antiga namorada e foge para um bosque. ainda. O drama é a representação das fortes paixões. Mais vergonhoso ainda é o fato de o Generalíssimo Francisco Franco. a dissimulação da moça e sua tristeza são sinais de que a Noiva não vai desejar o casamento se realizar. chamado “La Barraca”. Citando suas próprias palavras. Lope Félix de Vega Carpio (1562-1635) pode ser considerado o dramaturgo mais fecundo do teatro no Ocidente. músicos (Manuel de Faria). seus admiradores afirmaram que ele escreveu mais de mil dramas. uma vizinha informa que o antigo namorado da Noiva é Leonardo. chora e se desespera”. O noivo traído consegue alcança-los e os dois amantes da bela jovem se matam mutuamente. Este pertenceu à chamada “geração de 27”. ano do início da Guerra Civil Espanhola. tentar também destruir o espírito. composta pelo cruzamento de vários povos de sangue quente: andaluzes. que tolhe ao indivíduo o livre-arbítrio. Esta força irresistível. dos quais os melhores são: O malefício da borboleta. É muito difícil distinguir nele o poeta lírico do autor dramático. à traição. O amor leva à paixão desenfreada. toda a produção literária é poesia. uma mancha indelével suja o solo de Granada: o poeta e dramaturgo García Lorca é covardemente assassinado por um pelotão do exército espanhol durante a ditadura de General Franco. sobre o Velho e o Novo Testamentos. membro da família inimiga. quem ofende uma senhora casada tem que lavar a desonra com o sangue. tragédia em três atos e sete quadros ou cenas. e. dirigida à Mãe. o impulso da carga biopsíquica da teoria determinista. no último quadro da peça: . A fuga dos dois tornase inevitável. cineastas (Luis Buñuel). a Mãe revela que perdera o marido e um filho. sem ter sido convidado. o aparecimento de uma faca no início da peça funciona como indício do sangrento duelo. sobre costumes de sua época. A casa de Bernarda Alba. de temperamento dócil. o único que tem nome. as peças de Lope são divididas em vários grupos: sobre histórias e lendas da Espanha. pois só ele tem coragem de lutar para satisfazer seu desejo. A sapateira prodigiosa. é o indício da iminência da catástrofe. para Lorca. Sua obra mais conhecida é Bodas de sangue. visto que. árabes. atualmente casado com outra moça. Lorca freqüentou a privacidade de pintores (Salvador Dalí). fala e grita. pois a fonte é uma só. a esposa adúltera tem que pagar com a vida a ofensa feita ao marido. sobre motivos mitológicos e pastoris. à vingança e esta leva à morte. a representação dramática é “a poesia que se levanta do livro e se faz humana e. proibiu a publicação e a circulação de suas obras. Os personagens principais são a Noiva. mandou dar sumiço a seus restos mortais. Mariana Piñeda. num sentido amplo. chora e se desespera”. O clima trágico percorre o drama de ponta a ponta. Escreveu quinze dramas. No início da trama. pertencer ao partido socialista. alegre. de forma que a jovem geração espanhola não pudesse ler e estudar os poemas e os dramas de Lorca. ao fazer-se humana. além de ordenar a morte do corpo. Classificadas por assuntos. e ainda clama pelo castigo dos culpados. A presença de Leonardo na festa dos esponsais. a defesa da honra ultrajada: o homem que seduz uma moça virgem tem que casar com ela. Além de amigo de grandes literatos. A acusação oficial foi a denúncia caluniosa de ser espião da União Soviética. o Noivo. a memória do grande poeta: manteve oculta a circunstância do vil assassínio. a mesma para qualquer atividade artística: a fantasia e o sentimento. cruelmente assassinados. Não havia motivo para o hediondo crime. que estão enraizadas na raça espanhola. com o qual viajou por várias províncias. vítima da ditadura de Franco) “A poesia que se levanta do livro e se faz humana. Isto parece transparecer da emocionante fala da Noiva. fala e grita. prefeito de uma cidadezinha espanhola. que obriga a Noiva a se entregar novamente ao primeiro namorado. amara a jovem que agora é noiva de outro. a Mãe e Leonardo. No verão de 1936.203 e sim em mudar. logo em seguida. Leonardo. LORCA (dramaturgo e poeta espanhol. divulgando as peças mais importantes da dramaturgia espanhola no meio da massa popular. o exuberante grupo de poetas do modernismo espanhol. outrora. Ele organizou um grupo de atores ambulantes. Mas a paixão pelo teatro estava no sangue de Lorca. pois a paixão é indomável. Talvez a sua “culpa” fosse o fato de seu cunhado. mouriscos. sem nunca se ter envolvido em problemas partidários. lembra o fado inelutável da tragédia grega ou. pois Lorca sempre fora apolítico. ao fazer-se humana. Yerma.

Partindo do princípio de que qualquer atitude que foge da normalidade é sinal de loucura. pode ser de origem genética. assim. Eu era uma mulher ferida pelo fogo. e eu não o traí. LOUCURA (Elogio da Loucura. sempre. como um coice. contrária às regras sociais e morais. cheia de chagas por dentro e por fora. mas o outro era um rio escuro. encontrando no devaneio um “condimento” ou antídoto. Quando resolvem atender ao chamamento da natureza. e teria me arrastado sempre. das forças do instinto. Simão Bacamarte. havendo relações muito profundas entre os dois campos de patologia. a figura retórica que Aristóteles chama de “peripécia”: a ação consegue um resultado contrário do esperado. acompanha o homem ao longo da sua história. mesmo que eu fosse velha e todos os filhos do seu filho me agarrassem pelos cabelos!” Talvez a culpa dos dois amantes — Leonardo e a Noiva — esteja na falta de coragem de enfrentar tempestivamente a opinião pública pois. A problemática do homem que age de uma forma insensata. e seu filho era um pouquinho de água. na sua História da Loucura (1961). O Alienista. Na Idade Média ( Medievalismo). pelo casamento de um e pelo noivado da outra. mas antes não se tinham estudado as causas da maluquice. há uma área da medicina que trata especificamente das doenças mentais. com o avanço das teorias psicanalíticas sobre o inconsciente ( Freud). esvazia-se a cidade e lota-se o hospício. Foucault. pois se chegou à compreensão de que existem distúrbios que afetam a alma. E eu corria com seu filho. de onde me chegava o sussurro dos juncos e um murmúrio abafado. cheio de ramagens. o sentimento de honra gritava mais forte do que o direito à felicidade. Erasmo de Rotterdam. a loucura começou a ser tratada como uma doença provocada por traumas da infância. Apenas no início do séc. a Psiquiatria. ouviu bem? Eu não queria! Seu filho era o meu fim. Verifica-se. A manifestação psicótica. Eu não queria. de quem esperava filhos. encontra-se irremediavelmente violado e a desonra tem que ser lavada com o sangue. médico de Itaguaí. que era como um fiozinho de água fria. saúde. resolve dedicar-se a pesquisas psiquiátricas e funda um hospício para cuidar dos dementes. em breve tempo. ensina que somente no final do séc. assim como há doenças que fazem sofrer o corpo. que cria uma ruptura ou uma inadaptação do indivíduo com a família e a sociedade. pois a maioria sofre de desequilíbrio emocional. um ser extravagante era tido como possesso pelo demônio. mas o braço do outro me arrastou como a correnteza do mar. de moça acariciada pelo fogo. física ou ambiental. terra.204 “Porque eu fugi com o outro. e o outro me mandava centenas de pássaros que me impediam de andar e derramavam orvalho nas minhas feridas de mulher fraca e abatida. no seu Elogio da Loucura (1511). A verdade é que é muito difícil estabelecer o limite entre a loucura e o estado da razão. a “Casa Verde”. eu fui! Você também teria ido. No Renascimento. Com a loucura estão relacionadas neuroses e psicoses. a mais comum sendo a maníaco-depressiva. Machado de Assis. Mas. na sociedade espanhola da época de Lorca. já é tarde: o código social. considera a anomalia como o estado de espírito do homem que queria fugir da monotonia da vida cotidiana. XVIII a loucura começou a ser tratada como uma doença mental. considerado herege ou bruxo e condenado à fogueira (Joana d’ Arc). o alienado era posto num asilo. Hoje em dia. no seu famoso conto O Alienista. Quando a doidice se tornava perigosa à sociedade. Diário de um Louco) “O extremo limite da sabedoria é o que as pessoas chamam de loucura” (Jean Cocteau) M. começa a internar na sua clínica todos os cidadãos portadores de defeitos psíquicos. XX. retrata este tema com fina ironia. que é uma doença afetiva. sempre. porque o médico constata que a quase . “A pior loucura – dizia ele – é ser sábio num mundo de loucos”.

Caetano Veloso. porque é anormal. A alienação é. Empédocles e. educado na escola epicurista da Campânia. vítimas de uma série de limitações biológicas e sociais. especialmente. verificaram com base estatística que quase 80% dos entrevistados apresentavam transtornos psíquicos. eletrochoques ou psicoterapias. terremotos e pestilências à ira dos deuses. enfrenta o mesmo tema da esquizofrenia. nossa razão é falsa Poeta de tendência filosófica e científica. Simão Bacamarte passa. que contestam valores que cultuamos automática e inconscientemente e que. pois faz com que o homem. artistas e até cientistas (“cada gênio com a sua mania”!). porque fogem da normalidade que sofre de desequilíbrio emocional. Contraditoriamente. em 2004. A loucura é confundida com o demônio. pois. servindo-se da descoberta dos átomos. C. O homem. pois a natureza diabólica. porque não é difícil conseguir a prática da vaidade. Confirmando o achado do poeta da MPB. há a “loucura” consciente das pessoas que se recusam a viver conforme as convenções sociais e morais. consiste no esmagamento do indivíduo por um sistema social opressivo e degradante. Este conto foi adaptado para o teatro francês e encenado também no Brasil. o protagonista interna no manicômio a si próprio. Num dos trechos mais líricos do poema didático. segundo Gogol. uma profunda verdade existencial: o homem verdadeiramente lúcido é um louco. que deve ser submetida a um tratamento por via de remédios. desta vez ao nível da caracterização das personagens e da inversão dos valores ideológicos: o médico se torna paciente e os que ele reputava doidos lhe ensinam que a loucura reside em querer que os homens. Outra vez vazio o hospício. e nem. do mestre Epicuro. Ora. No seu imortal poema em seis livros. outra peripécia. só consegue sentir-se importante num estado de alucinação. na tentativa de ser autêntico e coerente com os postulados ideológicos. que o equipare à maioria. descrevendo o sacrifício de Ifigênia. a considerar loucas as poucas pessoas equilibradas. que ensinava serem a ignorância e o medo os sustentáculos da religião. se isole da maioria que vive segundo a opinião. do quanto eles sofreram a fim de outorgarem suas dádivas ao mundo”. geralmente poetas. da ira. região ao sul de Roma. não podem nos dar felicidade. é a lucidez mental sintoma de loucura. que o aliena do real. testando um medicamento antidepressivo. a dedução lógica é que a verdade está no contrário de sua teoria. Liberta. único exemplar irredutível de equilíbrio emocional. por serem falsos e aleatórios.. A conclusão da pesquisa foi de que “o normal é não ser normal”! Outra obra ficcional. confirmando o fato de que a arte chega antes do que a ciência na descoberta de verdades existenciais. sejam imunes de paixões e de contradições.. desmistificando assim as superstições que atribuíam raios. do escritor russo Gogol. pratique um vício ou uma fraqueza. Dá-se. as partículas indivisíveis cujo choque causaria os acidentes. assim. então. a maioria e submete a minoria a um tratamento intensivo com a finalidade de conseguir que cada um. assumiu a missão de divulgar a doutrina atomista dos filósofos Demócrito. conduzida à morte pelo próprio pai . em forma de arte. Em pouco tempo. Diferentemente da doença patológica. a que faz coro o escritor francês Marcel Proust. tenta explicar as causas científicas dos fenômenos naturais. esta minoria é sarada. um fenômeno mais coletivo do que individual. Diário de um Louco. Titus Lucretius Carus (98?-55 a. coerentemente. o parecer. se o sintoma da demência é a anormalidade e é a maioria que fornece o parâmetro da regra. portanto. estudiosos do Laboratório de psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. De rerum natura (“Sobre a natureza das coisas”). acima de tudo. São os homens mais lúcidos. pondo em evidência a importância da loucura na história da humanidade: “Tudo de grande que conhecemos veio dos neuróticos. que canta “de perto ninguém é normal”.205 totalidade do povo sofre de loucura. O conteúdo do conto machadiano vem sendo corroborado por recentes pesquisas médicas. de que é vítima um humilde funcionário público. Este conto machadiano expressa.). Já o sábio romano Sêneca observara que “ainda não houve homem de gênio extraordinário sem algo de louco”. da luxúria etc. segundo sua tendência natural. LÚCIFER (Demônio)Satã LUCRÉCIO (poeta e filósofo romano)Epicuro Se os sentidos não são verdadeiros. O mundo nunca tomará consciência do quanto deve a eles. então.

mas se tornou imortal pelas suas poesias líricas e pela epopéia Os Lusíadas. apesar de ser um dos maiores poetas da Renascença européia. O poema épico Os Lusíadas começa com o conhecido verso: As armas e os barões assinalados. evidentemente. além de divulgar o epicurismo e o atomismo. O “narrador” da aventura de Vasco da Gama em busca do caminho marítima para a Índia. Essas várias “vozes” às vezes se entrelaçam. ainda não aprendeu as lições ensinadas por Epicuro e Lucrécio. o poema camoniano apresenta traços de semelhança com a produção poética de outro grande expoente da literatura portuguesa. que ora idealiza a viagem do Gama. Não sabemos a data certa nem o lugar de seu nascimento (Lisboa ou Coimbra?). transitando o poeta lusitano livremente entre a lírica tradicional e a clássica. ate hoje.206 Agamenão para atender à ordem da deusa Diana. Estas (e outras) contradições seriam inexplicáveis sem o recurso estilístico da pluralidade dos sujeitos da enunciação. é o primeiro trabalho de pesquisa que apresenta um modelo sério de investigação científica e de reflexão filosófica. introduzida em Portugal por Sá de Miranda. assim como Inês de Castro. apresentando Camões como profundo conhecedor da cultura clássica e da história do seu país. Quanto à produção lírica. 2) o ponto de vista do narrador onisciente (Já no largo Oceano navegavam): aqui o narrador é um ser onisciente e onipresente. em 1527. A grandiosa obra reflete os dois postulados principais da cultura renascentista: a imitação dos modelos artísticos da Antiguidade greco-romana e a exaltação do homem na sua conquista de novos caminhos marítimos. ora a julga à luz da história. desdobra o próprio “eu” em várias personalidades humanas e poéticas. outras vezes se contradizem. cada qual expressando uma faceta do espírito do poeta. Enfim. filho do deus Baco (Dionísio). a pessoa física de Camões. Considerado sob este aspecto. pela sua “fala”. que sabe tudo a respeito de todos. não é o autor. Sebastião concedeu-lhe uma modesta pensão para alguns anos. ora denuncia os graves defeitos da gente de sua terra. Estamos perante um “eu dividido”. naufrágio e prisão. está acima de qualquer corrente estética.. continuando a matar em nome de Deus! LUSÍADAS (poema épico de Camões) Épica Renascimento Amor é fogo que arde sem se ver Luís Vaz de Camões (1524?-1580). que toma a palavra para expressar. portanto. com vistas a ampliar suas atividades comerciais. Fernando Pessoa que. ó vã cobiça): aqui é o Velho do Restelo. sua opinião sobre os acontecimentos. apesentando ações. mas personagens que assumem o papel de contadores das histórias. 3) O ponto de vista dos personagens-narradores (Ó glória de mandar. poderia ser submetido ao mesmo tipo de análise que M. Ele cultivou todas as formas poéticas da sua época. ora enaltece os heróis e os reis de Portugal. cada qual dependendo de um diverso sujeito do discurso: 1) o ponto de vista do eu poemãtico (eu canto o peito ilustre Lusitano): é a “voz” que interpreta os acontecimentos. ora relata a intervenção dos deuses pagãos nos acontecimentos portugueses. a palavra “lusíada” ou lusitano significa “acerca de Luso”.. Daí a importância deste poema camoniano no contexto da cultura do Renascimento europeu. o Gigante Adamastor e outros personagens em várias passagens d’ Os Lusíadas. a maior obra da Renascença portuguesa. Filho de fidalgos empobrecidos viajou muito. adverte seus contemporâneos. como cidadão de Portugal. O que dói é constatar que a humanidade. idéias e sentimentos através de pontos de vista diferentes. O rei D. Etimologicamente. morreu num hospital de Lisboa na mais negra miséria. considerado o lendário fundador de Portugal. pois. tem uma biografia obscura. Os Lusíadas. em que ressalta a oposição dialética existente dentro do ser humano e o ilogismo e o . ora os considera divindades falsas e mentirosas. Lucrécio exclama: “Tantum religio potuit suadere malorum!” (Até que ponto a religião pôde induzir um homem a cometer maldades!) A obra de Lucrécio teve uma influência incalculável na cultura ocidental. pela sua genialidade. emite julgamento de valores. sofrendo exílio. figura da mitologia greco-romana. Mas o maior poeta lírico da Renascença européia. especialmente pelas colônias portuguesas de ultramar (Goa e Moçambique). através do processo da criação heterônima. os melhores poemas de Camões são os produzidos na chamada “medida nova”. quando de sua volta da Itália. Bakhtine utilizou para a exegese da obra de Dostoievski. Nele convergem todas as correntes poéticas de sua época. acusando a participação subjetiva de Camões. Podemos distinguir três “visões’’ ou ‘‘perspectivas” principais.

Após essa interrupção. ao modo pelo qual o narrador está presente na narrativa. LUTERO (a revolta contra a Igreja de Roma: Reforma Protestante) “Paris bem vale uma missa” (Henrique de Navarra) Apesar do enorme progresso social e cultural que se deu na Europa a partir da Renascença. irmão do capitão-mor. Para tanto. Mas este assunto poemático não é narrado na sua ordem cronológica. de ter criações próprias. Camões descreve a viagem de volta da armada para Portugal e a parada intermediária na utópica ilha dos Amores. Se o plano da enunciação dos Lusíadas. e chegando até os feitos de D. a narração continua linearmente. tendo como principal aspiração a constituição de Estados Nacionais.207 paradoxismo das situações. A massa popular. ainda persistiam estruturas medievais. Mas estava no plano dos Lusíadas cantar também acontecimentos portugueses posteriores à viagem do Gama. começa quando a armada portuguesa já se encontra perto de Moçambique. quando Paulo da Gama. diz respeito ao “discurso” do poema. A matéria-objeto da épica camoniana é a “fábula” do povo português. mostrando aos portugueses de Vasco da Gama as futuras glórias de seu país na Europa. Como os portugueses lá chegaram e por que iniciaram a longa viagem é contado através da narração retrospectiva (flash-back) do capitão Vasco da Gama ao rei de Melinde. vivia num estado de servidão. centradas sobre os poderes absolutistas do Império Romano-Germânico e da Igreja Católica. passando pelo seu fundador histórico. descrevendo as peripécias da viagem da armada portuguesa de Melinde até a Índia. recuando a narração até o início da fundação da nacionalidade lusitana e sintetizando em dois cantos (III e IV) mais de três séculos de história de Portugal. pois denunciam as perplexidades de Camões. começa seu poema in medias res: a trama inicia pelo meio da fábula. explica ao Catual de Calicute o significado das figuras desenhadas nos painéis das bandeiras. de épocas diferentes: a) Presente da enunciação = época da publicação do poema (1572). assim. O início da trama tem. Por isso. O poema. como acabamos de ver. As contradições encontráveis no poema camoniano constituem seu aspecto mais moderno. que lançaram gritos de reformas políticas. religiosas e sociais. Camões. dando particular ênfase à expedição portuguesa. por sua vez. a nobreza aliou-se à burguesia na luta contra o absolutismo político e a exploração econômica do Império e da Igreja. Surgiram. quer em relação à história de Portugal. o ano da expedição do Gama e como elemento espacial a África. Afonso Henriques. seguindo o exemplo de Homero e de Virgílio (“o grego e o troiano”). portanto. A classe nobre (reis e príncipes) também era obrigada a pagar onerosos tributos ao papa e ao imperador. Aí se dá outro flash-back. de caçar. chefiada por Vasco da Gama. que quebram a estrutura fechada e o sentido monológico da poesia épica clássica. nos Lusíadas encontramos a narração entrelaçada de três grupos de acontecimentos mítico-históricos. quase a metade da distância entre Portugal e a Índia. independentes do poder centralizador do Papa e do Imperador. como elemento temporal de referência. desde seu fundador mítico. D. os camponeses abandonavam a roça para tentar melhor sorte nas cidades. Em resumo. Camões propõe-se cantar a história dos fatos gloriosos de Portugal. b) Presente do enunciado = época da expedição do Gama (1498). obrigada a trabalhar com remuneração ínfima e quase sem direitos: os proprietários das terras proibiam de catar lenhas. através de uma visão profética: é o que faz a ninfa da ilha de Vênus. era necessária uma narração prospectiva. o modo pelo qual o conjunto dos fatos é narrado. cada vez mais. filho de Baco. o plano do enunciado se relaciona com a “história”. na África e na Ásia. c) Passado anterior ao enunciado = período de tempo que vai desde a fundação da nacionalidade portuguesa (meados do século XII) até a viagem do Gama. de comércio (a Igreja proibia a usura e o lucro) e de autonomia (exigência de impostos e dízimos). que ocupam o lapso de tempo que decorre da expedição do Gama até a publicação da obra. não havendo coincidência entre “fábula” e “trama”. A nascente burguesia sentia sua atividade obstaculada pela falta de liberdade de locomoção (pesadas taxas alfandegárias de um feudo para outro). rei de Portugal na época da publicação dos Lusíadas. Mas o herói português não conta apenas o início da viagem. Após a narração das transações comerciais e do pacto de amizade entre os dois povos. quer em relação à viagem de Vasco da Gama. em busca do caminho marítimo para a Índia. vários movimentos de protesto. Luso. dividido em dez cantos. Devido a esses fatores. na costa africana. O primeiro movimento reformista aconteceu na . Sebastião.

que se chamou de “Contra-Reforma”. A Reforma luterana provocou várias rebeliões na Alemanha. O próprio Lutero deu o exemplo. Na Suíça. consideradas como novas formas do politeísmo pagão.208 Inglaterra. se do ponto de vista social foi progressista. tentou uma reforma dos costumes. estimulou as insurreições camponesas. em 1381. Considerando o enriquecimento (mesmo ilícito. a massa popular. que perdura até hoje. é justo que todos os bens sejam divididos entre todos. lançou o grito comunitário: se todos os homens são iguais perante Deus. com suas pregações começou a denunciar a venda das ‘‘indulgências”(o perdão dos pecados em troca do pagamento à Igreja de uma certa quantia de dinheiro) e a atacar a riqueza material e a imoralidade do alto clero. Qualquer cristão tem acesso direto a Deus e pode ser salvo pela fé em Jesus Cristo. porque adquire o conhecimento da vontade de Deus pelos textos sagrados e pode arrepender-se de seus pecados pedindo perdão diretamente a Deus. no ano de 1415. As forças conservadoras do clero e dos nobres acabaram decapitando Münzer e os outros dirigentes da liga camponesa. a atividade comercial e a especulação financeira. consumou o cisma com Roma e fundou a Igreja Anglicana que. Tal propósito foi facilitado pela invenção da imprensa e pela tradução do Velho e do Novo Testamento nas línguas vernáculas. John Wycliffe. A execução das resoluções do Concílio foi confiada à “Companhia de Jesus”. rei do Estado nacional. o Calvinismo santificou os empreendimentos industriais. Mas o Calvinismo. que nunca deixou de representar os interesses da burguesia. ordem religiosa fundada pelo cavaleiro espanhol Inácio de . quando bispos de toda a Europa fizeram uma revisão da doutrina católica e impuseram severas normas de conduta moral. O Calvinismo deu à Reforma de Lutero um caráter mais conservador. surgiu o segundo movimento de purificação da Igreja: Jan Huss. a obra famosa do sociólogo e economista alemão Max Weber. Os nobres empobrecidos assaltaram abadias. de 1545 a 1563. Mas a grande Reforma protestante contra a autoridade do papa e os desmandos da Igreja Católica eclodiu na Alemanha. 4) A abolição de cinco sacramentos (ficaram apenas o batismo e a eucaristia) e do celibato eclesiástico: a permissão do casamento dos padres esvaziou paróquias e conventos. Daí o apego dos protestantes à leitura da Bíblia. que vivia faustamente e exigia tributos para sustentar seu luxo. Daí alguns historiadores terem sustentado a tese da existência de uma relação muito estreita entre a ética protestante e o triunfo do sistema capitalista. Mas tal posição extrema foi condenada pelo próprio Lutero. quando. o protestantismo chegou com a motivação de não pagar impostos ao papa. que funcionou ao longo de dezoito anos. o protestantismo se revestiu de um caráter mais propriamente político. Wycliffe foi condenado como herege. Estado eslavo encravado no Sacro-Império e disputado pelos príncipes tchecos e germânicos. Ulrich Zwingli e João Calvino encabeçaram a revolta dos quatro cantões. para contrair novas núpcias com a bela cortesã Ana Bolena. convocou o Concílio de Trento. não evitou violentas lutas por motivos religiosos. insurgindo-se contra a prepotência e a corrupção da Igreja. o estudante de Teologia de Oxford. junto com padres franciscanos que chegaram do continente. exaltando o espírito da burguesia. Veja-se. 2) A negação da autoridade papal: o papa não é infalível e a Igreja Católica não tem poder sobre o Estado ou sobre outras formas de religiosidade. mas suas idéias se difundiram pela Europa toda. Sua sorte foi pior: o papa João XXII o condenou a morrer na fogueira. apontamos: 1) O livre exame da Sagrada Escritura : a palavra de Deus deve ser conhecida diretamente pelos fiéis e não indiretamente pela pregação dos padres católicos. impondo pesadas restrições. Henrique VIII. assim como qualquer tipo de “relíquia”. Na Inglaterra. devem ser destruídas. através da usura) como um sinal da benção divina. No reino da Boêmia. embora respeitasse quase integralmente os dogmas católicos. Aproveitando a recusa do papa Clemente VII de conceder-lhe o divórcio de sua esposa Catarina de Aragão. não queria se submeter à autoridade papal. exigindo que os prelados católicos renunciassem aos bens materiais e obrigassem padres e monges a trabalhar. 3) A iconoclastia: as imagens e as estátuas de Nossa Senhora e dos Santos. para enfrentar a disseminação das várias seitas protestantes. Essa tese fornece o motivo ideológico para a explicação do fato histórico de que os povos de religião protestante são mais ricos e mais desenvolvidos. casando-se com uma freira. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1905). por exemplo. revelou-se extremamente conservador quanto à moral. o monge agostiniano Martinho Lutero afixou na porta de uma igreja da Saxônia suas ‘‘95 teses”. Para tanto. iniciou um movimento de renovação dos costumes. no início do século XVI: em 1517. Ele. O crente não precisa de intermediários. liderada por Thomas Münzer e congregada numa seita chamada de “Anabatista”. Entre os tópicos mais importantes da Reforma luterana. já então um Estado independente do Sacro-Império e governado por ricos burgueses. O Capitalismo marchou junto com o puritanismo na construção de um novo modelo de vida social. A Igreja de Roma. outro estudante de Teologia.

A cavaleiro entre duas épocas — Romantismo e Realismo —. condenou à fogueira aproximadamente duas mil pessoas. figura de projeção internacional pelo caráter universalizante de sua obra. América e Oriente. social e cultural. cujo único romance. narrador-defunto. Os críticos costumam dividir sua vasta produção literária em duas fases. cada qual adquirindo feições locais nas diversas regiões do planeta. foram massacrados aproximadamente trinta mil huguenotes. em 1534. evangélicos. teve a incumbência de processar e condenar cidadãos acusados de outros crimes também. com o fim específico de lutar contra o protestantismo. adquirindo múltiplos aspectos. . tendo seus bens confiscados ( Joana d’ Arc). Mais tarde surgiram as Igrejas das congregações de batistas. abrange todas as obras-primas. apareceram várias correntes dentro da sua doutrina. depois de condenadas nos autos-de-fé. que ainda hoje têm reflexos na Irlanda e em alguns países do Oriente Médio. No Brasil. Mas a Companhia de Jesus. metodistas. mais do que aos escritores filiados à moda naturalista. teve seu apogeu na época barroca. Durante o Concílio de Trento foi reformulada a Inquisição medieval. No decorrer da quarta guerra. Países Baixos. Calvinismo (Suíça. Henrique de Navarra converteu-se ao catolicismo. instituído no século XIII para combater a heresia cátara. o mestre da ironia. pode ser considerado realista antes do tempo. Machado não pode ser filiado a nenhuma escola literária. na famosa Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572). eram queimadas na fogueira. assim como sodomia. A ContraReforma ensejou inúmeras e sangrentas guerras de religião em toda a Europa. Somente na França e apenas durante a segunda metade do século XVI. entre outras. consideradas “bruxas”. tornando-se setas religiosas diferenciadas. embora historicamente pertencente à época do Romantismo. existiam também interesses políticos pela disputa de territórios entre França e Espanha. com sede na Espanha. França e USA). protestantes e judeus. o padre dominicano Tomás de Torquemada. MACHADO de Assis Realismo Romance Conto Ironia Loucura “Não tive filhos. a da maturidade. para terminar as hostilidades. durante os dezesseis anos que ocupou o cargo. poligamia. ao caricaturista brasileiro Manuel Antônio de Almeida.209 Loyola. pentecostais. O primeiro Grande Inquisidor espanhol. Inúmeros colégios jesuítas se espalharam pela Europa. nas regiões recém-descobertas. Coroado rei com o nome de Henrique IV. ele solucionou o conflito religioso. foi acusada de crimes horríveis na tentativa de reprimir hereges e protestantes. o Protestantismo começou a se desenvolver paralelamente ao Catolicismo. sendo que. Junto com o motivo religioso. através do ensino religioso dirigido. A segunda fase machadiana inicia-se com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881). quando se notabilizou por seus métodos arbitrários e cruéis. onde os índios catequizados aprendiam a lavrar a terra e a criar o gado. Com base no seu princípio fundamental da livre interpretação das Escrituras. Memórias de um sargento de milícias. além de perseguir hereges. mas cria os cânones estéticos. a segunda. travaram-se oito guerras entre católicos e protestantes. As pessoas delatadas. romance original que se afasta da narrativa convencional. devemos recorrer aos humoristas ingleses Swift e Sterne. se teve inegável mérito pela sua ação religiosa. Essa Inquisição. criando-se o Tribunal do Santo Ofício. A primeira compreende as narrativas de inspiração romântica. Enfim. a tarefa dos religiosos era evangelizar os indígenas e organizar “reduções’’. não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” (parágrafo final de Memórias Póstumas de Brás Cubas) Machado de Assis (1839-1908) é o maior ficcionista da época do Realismo e de toda a Literatura Brasileira. 1594). quer quanto ao plano da expressão (dedicatória irreverente. estes chamados pejorativamente de “huguenotes”. Anchieta e Vieira. bruxaria. pois segue o filão da narrativa picaresca espanhola. como braço forte da Contra-Reforma. Se quisermos encontrar influências literárias que contribuíram para a formação do estilo e da mundividência machadianos. o nobre apostolado dos jesuítas está substanciado nas ações de três padres que passaram a integrar a história de nossa terra: Nóbrega. ao francês Voltaire. A partir daí. eram submetidas à tortura até à confissão e. concedendo liberdade de culto aos protestantes (Edito de Nantes. Anglicanismo (Inglaterra). Os ramos mais antigos foram: Luteranismo (Alemanha e países Escandinavos). O Tribunal da Inquisição. pois o verdadeiro gênio não segue. pronunciando a famosa frase “Paris bem vale uma missa”.

Em Quincas Borba (1891). Pai contra Mãe (opressão em cadeia). Foi com ela que a escola positivista européia começou a criticar o comodismo conservador da classe burguesa. focalizando problemas existenciais. as aspirações e as lutas cotidianas para conseguirem migalhas de felicidade. Maria Cora (inconseqüência psicológica). técnica da peripécia narrativa). demonismo)Fantástico MALLARMÉ (poeta francês) Simbolismo MALTHUS (economista inglês. a mulher “de olhos de ressaca”. indicando o tema tratado: A Cartomante (a impostura dos profissionais da adivinhação). Quer nas narrativas longas. malthusianismo)Demografia MANET (pintor francês)Impressionismo MANN. tencionavam reconditamente curar os males. de inspiração goethiana. refletindo nas personagens a podridão social. Para o estudo da principal característica estilística de Machado. Quanto à fortuna crítica e ao reconhecimento póstumo da ficção machadiana é dispensável qualquer comentário Suas obras foram e continuam sendo fonte de inspiração para escritores. estilo irônico. Marcos Palmeira. que faz com que as ações humanas consigam um resultado contrário ao esperado. que se tornou a obra-prima do gênero narrativo da literatura italiana. De fundo histórico. I Promessi Sposi (“Os Noivos”). Alessandro (romancista italiano: Os Noivos) Romantismo Nem sempre aquilo que vem depois é progresso Alessandro Manzoni (1785-1873) escreveu um único romance. Esaú e ]aço e Memorial de Aires. quer nas curtas. A montanha mâgica: num sanatório. Trio em Lá Menor (perfeição). onde Mann aborda o tema da solidão do artista. romance que lhe proporcionou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1929: o assunto retrata o declínio de uma família burguesa obcecada pela caça aos valores materiais. Anotamos alguns mais famosos. religião. Capitu é descrita como mestra do fingimento. através de uma análise crua da realidade social. com sua postura de humorista. O Enfermeiro (o crime compensa). Os Buddenbrooks: decadência de uma família. Doutor Fausto. satiriza sutilmente a fé dos pensadores positivistas no progresso moral da sociedade. Último Capítulo (caiporismo). Machado retoma assunto e personagens do romance anterior e. longe da idealização dos românticos e do determinismo dos naturalistas: o adultério de Virgínia não é devido nem a uma paixão avassaladora nem a uma tara hereditária. mas apenas ao desejo de melhorar sua posição econômica). filosofia. MANZONI. interpretando o personagem Bentinho e Bruno Garcia. costumes. ambientado na . o grande escritor do Rio de Janeiro demonstra ser um excelente observador da alma humana e da sociedade urbana da então capital do país. no papel de Capitu. Machado. cujo personagem Miguel é uma adaptação do Escobar do romance de Machado de Assis. veja-se o verbeteIronia. em 2003. A Missa do Galo (a sedução). quer quanto ao plano do conteúdo (novo modo de ver o mundo. já dentro das técnicas estéticas do Modernismo. com um sorriso irônico. Morte em Veneza. superstição. Dele recordamos as obras mais famosas. A Causa Secreta (sadismo).210 inversões temporais. Singular Ocorrência (ato gratuito). através da invenção da filosofia “humanitista”. dramaturgos. O Empréstimo (ambição). Sem o moralismo próprio dos escritores naturalistas que. Machado escreveu também várias coletâneas de contos. ele lhes examina as virtudes e os vícios. narrativa convertida em filme por Luchino Visconti. A Segunda Via (antecipação do conhecimento). O esforço do indivíduo embate-se contra a ironia do destino. fetichismo. no filme DOM. intelectuais burgueses discutem sobre arte. telenovelistas e diretores de cinema. o cineasta Moacyr Góes retoma o tema do romance Dom Casmurro. Thomas (romancista alemão) Thomas Mann (1875-1955) pode ser considerado o último grande escritor da época realista e isso porque a Revolução Industrial chegou atrasada na Alemanha. apontando suas causas. Recentemente. Dom Casmurro (1899) é o romance da dúvida que toma conta do espírito do personagem-título sobre a fidelidade de sua mulher. MADAME Bovary (romance de Flaubert)Realismo MAGIA (bruxaria. O Segredo do Bonzo (opinião vs realidade). A Igreja do Diabo (indivíduo vs sociedade). com Maria Fernando Cândido. acusa um profundo sentimento de ceticismo e de pessimismo. Além de mais dois romances. O Alienista (a loucura generalizada). Distanciando-se de suas personagens.

o Oriente Médio nos legou Alcuíno. na direção da Meca. levado pelo arcanjo Gabriel até o Paraíso. Nascia. entre outros cientistas e artistas. e Jerusalém. chamado Maomé pelos europeus. recolhida no livro sagrado “Corão” (ou Alcorão. A obra possui um profundo sentido patriótico (estímulo à luta pela unificação e independência da Itália) e religioso (a fé em que Deus fará sempre triunfar as forças do bem sobre as forças do mal). Em situação crítica. passou a substituir Jerusalém. constitui a segunda maior religião. continuada por All-Abbas. depois do judaico Moisés (Bíblia) e do palestino Cristo. Averróis. o romance manzoniano. no que se refere aos costumes. Medina. Com as Cruzadas (início do séc. Devemos ao Islamismo a divulgação da cultura grega no Ocidente. famoso pelos comentários à lógica aristotélica. filha de Maomé. do árabe al-Qur’an = a leitura). não produziram sequer um nome ilustre no campo da filosofia. condutor de caravanas. a partir daquela data. na sua totalidade de seitas. a profissão de fé: “Eu testemunho que não há outra divindade além de Alá e que Maomé é seu enviado”. partido de Ali. XX. Órfão e pobre. Atualmente. uma rica viúva quadragenária. cidade onde fica a Caaba (o templo da Pedra Negra). além de ser o modelo de beleza de estilo da língua italiana . Enquanto os seis séculos da Baixa Idade Média Cristã (do séc. organizando um Estado em que os costumes tribais da Arábia foram substituídos pela Sharia (lei corânica) e pela Suna. quando o presidente do Egito. logo depois. Seu nome deriva da expressão " shi at Ali". 2) Salat. como centro religioso. Sua pregação. professa pelos árabes que se separaram do Judaísmo (Jerusalém) e do Cristianismo (Cristo). em 630. em árabe). No ano de 610. 3) o Ramadã. lugar de nascimento de Mohamed. Avicerna. seu tio. encantou as classes desfavorecidas e provocou o ódio de judeus e cristãos ricos. iniciando. pois os europeus nunca tiveram um contato direto com a língua de Homero. Maomé foi obrigado a emigrar para Medina. . em 632. então. das ciências ou das artes (constatação espantosa: seiscentos anos de paralisia cultural em todos os países europeus!). Os lugares mais sagrados do Islamismo são Meca. a Hégira. o mês destinado ao jejum diurno. apresenta um painel da realidade social da época. 5) zakat. Os muçulmanos se dividem em dois grandes grupos principais: os sunitas (da palavra suna. consagrando-lo como o terceiro grande Profeta. cinco vezes por dia. o Islã. A Meca. conjunto de preceitos baseados nos hadith (ditos e feitos do Profeta). começou a inversão: as nações de civilização cristã tentaram impor sua cultura aos árabes muçulmanos. a peregrinação à Meca pelo menos uma vez na vida. com cerca 1. IX). A doutrina islâmica está centrada sobre cinco pilares: 1) Chahada. em 622. Proclamada a Guerra Santa (djihad). a fé islâmica (“Islam” = obediência a Deus). com o Renascimento. V ao XI). Os xiitas (16% dos muçulmanos) também possuem sua própria interpretação da Sharia. impedido pela prepotência do senhorio dominador. o pagamento de esmola. um novo credo. Maomé conquistou sua cidade natal. depois de uma luta sangrenta. o pensador Alfarrabi (870-950). o reformulador da ciência médica. filósofo e cientista (séc. Ele disse que “Deus deu a cada povo um profeta em sua própria língua”. que foi marido de Fátima. o calendário muçulmano. cidade de onde o profeta ascendeu aos céus. Islâmico) “Eu testemunho que não há outra divindade além de Alá e que Maomé é seu Profeta” Mohammed ou Muhammad. então. Maomé se revelou um grande chefe político e militar. Seu período de esplendor se deu na mesma época em que a religião cristã condenara a Europa ao obscurantismo ( Medievalismo). os muçulmanos eram mais tolerantes que os cristãos.211 época do domínio espanhol na província de Milão (século XVII). o caminho) e os xiitas. casou com sua patroa. Nesta época. 4) hadjdj. sede da Caaba (templo da “Pedra Negra”).3 bilhões de adeptos. através da história ficcional do amor de Renzo e Lucia. XII) e. afirmou ter ouvido a voz do arcanjo Gabriel que lhe transmitiu a mensagem de Deus (Alá ou Allah. a prece legal. Os sunitas são os seguidores da tradição do Profeta. A decadência da religião islâmica se tornou evidente nos anos 50 do séc. MAOMÉ (Profeta de Alá: Muçulmano. o grande tradutor de obras gregas para o latim. juntando-se a Moisés e Jesus Cristo. depois do Cristianismo. meditando numa caverna. nasceu na Meca em 570 (provavelmente) e morreu em Medina. Diferentemente dos profetas bíblicos.

na astúcia. a sorte. Nicolau Maquiavel (1469-1527) foi um nobre florentino. a conformar-se com a pobreza e a injustiça social. a lutar até à morte para difundir o credo de Maomé. onde predomina a religião muçulmana. a tolerar a poligamia e o machismo. ao ditado popular de que “não se faz uma omelete sem quebrar os ovos”. atendendo a seus interesses econômicos. usando a linguagem da cozinha. a jejuar durante um mês. Enfim. a teoria maquiavélica ainda vigora sob a forma de barganhas: compram-se os votos em troca de favores. no senso de oportunismo. o elemento conjuntural. e por fim superaram os que se fundaram em sua lealdade”. cujo realismo é de uma impressionante atualidade: “Todos sabem quão louvável é um príncipe ser fiel à sua palavra e proceder com integridade e não com astúcia. chegando até a genocídios. pois está acima do conceito do bem e do mal. sustenta a tese oposta à do renascentista italiano: “Podeis reduzir-me o corpo a cinzas e dispersá-las ao vento. Infelizmente. com a desculpa de que o fim (a aprovação de uma reforma qualquer) justifica os meios (a corrupção). Há a tese de que. que exerceu a função de chanceler e expôs suas idéias sobre o Estado numa obra que se tornou imortal: O Príncipe. nos nossos tempos. Segundo o estudioso italiano. O pior é que a maior potência do mundo ocidental. o americano Abraham Lincoln. que limitam ao máximo a liberdade de pensar. a força das circunstâncias. a insânia é generalizada. onde a violência física é banida. ele acrescenta a “fortuna”. segundo o pensamento do historiador e místico francês Ernest Renan (1823-1892). Ele provocou um movimento de reação. com astúcia. Mesmo em países democráticos. o ditador mais corrupto e cruel da modernidade. no Ocidente e no Oriente. a única capaz de nos dar a idéia do infinito.212 Gamal Abdel Nasser. ofendido pela tentativa de quebra de costumes tradicionais. entendida como ato consciente de escolha. A esta “virtude”. souberam transformar as cabeças dos homens. A falsa idéia da regeneração pela violência e pelo sofrimento está presente em toda a história da humanidade. como livre-arbítrio. Os dois elementos (o engenho ardiloso e o bom aproveitamento do acaso) são indispensáveis para que um governante possa ter sucesso. são regidos por governos absolutistas. a pagar dízimos. a experiência mostra que. dando origem ao que hoje chamamos de “Fundamentalismo”. Muito usada pelos políticos para justificar suas falcatruas. Adeptos fanáticos da doutrina de Maomé se aproveitaram do sentimento popular. só fizeram grandes coisas aqueles príncipes que tiveram em pouca conta as promessas feitas e que. A essência da tese de Maquiavel é que a política é “amoral”. na falta de escrúpulos. Pelo contrário. os fatos vêm confirmar a teoria: quase todos os Estados. sempre em nome de uma justa causa. Os cidadãos que nascem sob o signo de Alá são obrigados a rezar cinco vezes por dia. o soberano do Iraque. do estudioso florentino renascentista até nossos dias. a virtude do “Príncipe” deveria se fundamentar na inteligência. E os transgressores são castigados com penas terríveis. o fim da utopia comunista acabou de demonstrar que todos os fins são nobres apenas para quem os tenta justificar. os USA. para o Islamismo. não pode existir uma sociedade islâmica sem um Estado islâmico absolutista. contudo. de sentir e de agir. MAQUIAVEL (literato e estadista italiano: O Príncipe) Política “O fim justifica os meios” Essa famosa expressão de Maquiavel corresponde. tal expressão não tem fundamento ético nem respalde histórico. que obrigue um político a cumprir o que promete durante a campanha eleitoral. Tiranos políticos e chefes religiosos cometeram as mais nefandas atrocidades. e manipularam os dogmas da fé com finalidades políticas e econômicas. tem apoiado várias dessas tiranias. Já outro estadista. do verdadeiro e do falso. já foi cria do governo americano e teve como modelo para sua brutalidade os partidos nazista e comunista da Europa. decidiu reformar o sistema de vida muçulmana. A religião muçulmana estimularia regimes autoritários. Transcrevemos um trecho deste tratado de política. tentando separar o poder laico do poder religioso. este da era moderna. quando o déspota se demonstrou “amigo”. Saddam Hussein. Podemos apenas culpar a imbecilidade humana. . prescindindo de qualquer fé religiosa ou de princípio ético. a usar burca ou xador. sendo a democracia incompatível com o mundo islâmico.

aponta a versão cristã do mito da “Partenogênese”. especialmente naquela época.