Varal do Brasil - Maio/Junho de 2013

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Literário, sem frescuras!
ISSN 16641664-5243

Ano 4 - Julho/Agosto de 2013— 2013—Edição no. 24
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LITERÁRIO, SEM FRESCURAS
Genebra, Verão de 2013 Edição no. 24 julho/agosto de 2013

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EXPEDIENTE
Revista Literária VARAL DO BRASIL NO. 24- Genebra - CH - ISSN 1664-5243 Copyright : Cada autor detém o direito sobre o seu texto. Os direitos da revista pertencem a Jacqueline Aisenman. O VARAL DO BRASIL é promovido, organizado e realizado por Jacqueline Aisenman Site do VARAL: www.varaldobrasil.com Blog do Varal: www.varaldobrasil.blogspot.com Textos: Vários Autores Ilustrações: Vários Autores Foto capa: Lvnel - Fotolia com Muitas imagens encontramos na internet sem ter o nome do autor citado. Se for uma foto ou um desenho seu, envie um e-mail aqui para a gente e teremos o maior prazer em divulgar o seu talento. Agradecemos sua compreensão. Revisão parcial de cada autor Revisão geral VARAL DO BRASIL Composição e diagramação: Jacqueline Aisenman

A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. A revista está gratuitamente para download em seus site e blog. Informações sobre o 28o Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra e sobre o stand do VARAL DO BRASIL: varaldobrasil@gmail.com

BLOG DO VARAL Você pode contribuir com artigos, crônicas, contos, poemas, versos, enfim!, você pode escrever para nosso blog. Também pode enviar convites, divulgação de seus livros, pinturas, fotografias, desenhos, esculturas. Pode divulgar seus eventos, concursos e muito mais. No nosso blog, como em tudo no Varal, a cultura não tem frescuras! (www.varaldobrasil.blogspot.com) Toda contribuição é feita e divulgada de forma gratuita e deve ser enviada para o e-mail varaldobrasil@gmail.com
PARITICIPE DAS PRÓXIMAS EDIÇÕES: • Até 25 de setembro você pode enviar texto para a edição de novembro, nossa edição de quarto aniversário que trará o tema livre. Escreva em verso ou em prosa, envie poemas, crônicas, contos, artigos! Proponha uma coluna! Até 25 de outubro você pode enviar textos para nossa edição especial de Natal! (Apenas textos relacionados ao Natal e Ano Novo). Prosa ou verso. As inscrições podem ser encerradas antes se um número ideal de participantes for atingido.
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COLUNAS

A VIDA IMITA A ARTE - Cintia Medeiros ARTE E LITERATURA - Luiz Carlos Amorim ARTES NA VISÃO DE - Jacob B. Goldemberg CULTÍSSIMO - Ana Rosenrot FALANDO DE CULTURA - Marluce Alves Ferreira Portugaels HISTÓRIA DO BRASIL SOB A ÓTICA FEMININA - Hebe C. Boa-Viagem A. Costa HISTÓRIAS DOS PROFISSIONAIS DE INFORMÁTICA - Sheila Ferreira Kuno LITERATURA COM - Isabel C. S. Vargas LITERATURA E ARTE - Luiz Carlos Amorim LUPA CULTURAL - Rogério Araújo (ROFA) NO UNIVERSO DE Guacira Maciel REFLEXÕES COMTEMPORÂNEAS - Júlia Rego REFLEXÕES E PRÁTICAS GEOGRÁFICAS Ricardo Santos Almeida VARAL DOS FILMES E LIVROS - Valquíria Imperiano

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E a alegria do Varal retorna ainda mais viva este mês em que chegamos até vocês contando segredos e pecados! Mas antes disto vamos falar de algo que para nós e para muitos escritores e leitores foi uma das maiores emoções: nossa participação no 27o Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra. Tivemos este ano um grande estande com cerca de trinta e cinco autores presentes para autógrafos, mais de cento e cinquenta títulos expostos e até mesmo música ao vivo com a voz e o violão de Marcos Assumpção. Passamos cinco dias em plena festa literária, comemorando a felicidade que é trazer a literatura brasileira e portuguesa, em Português, para este país que nos acolheu com as portas abertas, a Suíça. Entre os bate-papos e o encontro com os leitores, sessões de autógrafos e exposições de artes plásticas (pinturas de Richard Calil Bulos) e de artesanato indígena (bonecas Ritxocô), tivemos a honra de receber a visita do escritor Paulo Coelho, sucesso internacional incontestável e que veio ao Salão especialmente para conhecer o Varal. Nos visitou também a Presidente do Salão do Livro, Senhora Isabelle Falconnier, mostrando que sim, a literatura sem frescura tem sua vez! No dia dois de agosto próximo estaremos lançando nossa terceira coletânea em Florianópolis. O livro Varal Antológico 3 vem coroar esta série de antologias lançada pela nossa revista e que já é sucesso entre os leitores. O livro conta com quarenta coautores de várias regiões do Brasil, residentes no Brasil e no exterior e também um autor de Angola. Prosa e verso, nossa nova literatura com certeza encantará você também. Nosso I Prêmio Varal do Brasil de Literatura foi um sucesso! Dia 2 de agosto, no dia do lançamento do Varal Antológico 3, faremos o anún-

cio oficial dos vencedores, mas você já pode ver aqui na revista o resultado desta fantástica experiência. Desde primeiro de junho lançamos o regulamento para o livro Varal Antológico 4 que será lançado em 2014 na Suíça e no Brasil. Você encontrará nesta edição o regulamento para participação em nosso livro. Já falando de nossa revista de setembro, sabem qual o tema que traremos? O homem! Exatamente, o homem. Falamos sempre da mulher, fizemos edições especiais sobre a mulher. Mas desta vez queremos também falar do homem, de suas facetas todas. Faremos do homem, a nossa estrela! Desagradável de escrever, de pensar, a violência contra os animais continua em evidência, como se o ser humano cada dia mais se perdesse e assim também perdesse o cordão etéreo de amor que o liga a todos os seres e ao universo que o abriga. Por isto cada vez mais e mais forte nossa campanha para que protejamos os animais. Pais que educam os filhos a amar e proteger os animais, estão educando filhos que também protegerão e amarão o planeta, o seu semelhante, a vida em seu todo. Deem o exemplo, amem e protejam os seres indefesos que por nós só têm amor! Amigos, obrigada por estarem sempre presentes, por fazerem parte de nossa história. Saber que vocês nos leem é uma alegria muito grande ao fazermos a revista. E agora vamos aos segredos e pecados que se espalham pelas páginas desta edição para o seu deleite! Boa leitura!

Jacqueline Aisenman Editora-Chefe
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ALEX MONTEIRO A.M. NARCISO ANA ROSENROT ANGELA GUERRA ANNA BACH ANNA RIBEIRO ANTONIO FIDELIS AUDELINA MACIEIRA BERTOLINA MAFFEI BETO ACIOLI CAMILA GOMES CARMEN DI MORAES CIDA SEPÚLVEDA CINTIA MEDEIROS DILERCY ADLER DOMINGOS NUVOLARI EDIANE SOUZA ELENA LAMEGO EMANUEL MEDEIROS VIEIRA ESTHER ROGESSI EVELYN CIESZYNSKI FLÁVIA ASSAIFE GERALDO SANT’ANNA GERMANO MACHADO GILBERTO N. DE OLIVEIRA GIRLENE MONTEIRO PORTO GRAÇA CAMPOS GUACIRA MACIEL GUILHERME H. CAVALCANTE

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HEBE C. BOA-VIAGEM A. COSTA HILTON LEAL ISABEL C. S. VARGAS IVANE LAURETE PEROTTI IVONITA DI CONCILIO JACOB GOLDEMBERG JACQUELINE AISENMAN JAN BITENCOURT JEANNE C. B. PAGANUCCI JÔ MENDONÇA ALCOFORADO JOSÉ CAMBINDA DALA JOSÉ CARLOS PAIVA BRUNO JOSÉ HILTON ROSA JUCA CAVALCANTE JULIA OLIVEIRA GODOY JÚLIA REGO L. MIDAS LENIVAL NUNES ANDRADE LEOMARIA M. SOBRINHO LEONIA OLIVEIRA LU TOLEDO LUZINETE SOARES LY SABAS MARIA SOCORRO DE SOUSA MAGNO OLIVEIRA MARCOS MAIRTON SILVA MARIA DALVA LEITE MARIA EMILIA ALGEBAILE MARIA JOSÉ V. JUSTINIANO
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MARIA LINDGREN MARIA (NILZA) DE C. LEPRE MARIANA SALOMÃO CARRARA MARIANE LOBO MARILU F. QUEIRÓZ MARIO FILIPE C. DE S. SANTOS MARIO REZENDE MARLUCE PORTUGAELS MARLY RONDAN MIRIAN MENEZES DE OLIVEIRA NILZA AMARAL NORÁLIA DE MELLO CASTRO NUBIA STRASBACH ODENIR FERRO PABLO MATEUS RAFAEL ZEN RAQUEL ROCHA RAQUEL SÁ RAUL LONGO RENATA IACOVINO RICARDO BELÍSSIMO RICARDO SANTOS DE ALMEIDA ROBINSON SILVA ALVES

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ROGÉRIO ARAÚJO (ROFA) ROSELIS BASTISTAR ROSSANDRO LAURINDO SEBASTIANA SANCHEZ SELMO VASCONCELLOS SHEILA FERREIRA KUNO SID SUMMERS SIDINEIA MUNIZ SILVANA BURGNI SONIA NOGUEIRA SONIA RODRIGUES SUZANA VILAÇA TANIA DINIZ TIAGO ANDRÉ VALDECK ALMEIDA DE JESUS VALQUIRIA GESQUI MALAGOLI VALQUIRIA IMPERIANO VARENKA DE FÁTIMA VERA SALBEGO VICÊNCIA M. F. JAGUARIBE VÓ FIA WALNÉLIA C.PEDERNEIRAS YARA DARIN

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Segredo
Por Leomária Mendes Sobrinho

Aproximei-me da janela. Vi o dia começar lindo. Meus pensamentos eram dela. Você olhou pra mim sorrindo. Ninguém sabia o meu segredo. Só o meu coração e o tempo. Esquecer eu juro , eu tento. Vivo sempre com medo. De descobrirem esta paixão. O s meus olhos não falam. Apenas toda em meus braços. Vida correndo em emoção. Escondido, mal curado. Amor desequilibrado. Não quer dizer que seja errado. É uma questão de visão. Viver em clima de embaraços. Os meu s segredos que se calam. Você longe de mim, na ilusão. Quero sair e alcançar lá fora. Pular esta janela, ver você agora. Mais é um segredo que me impede. A responsabilidade é quem mede. Ambos com filhos, nós somos casados. E pelas famílias, nós somos ligados.

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SONATA EXISTENCIAL
Por Germano Machado Caí abismos sobre meus abismos interiores... Sacudi-me tempestades... Abalai-me vós demônios de Lúcifer... Vinde, levantai-vos deuses de barro, quebrados e sepultados... (E não vieram) Só nas areias dos desertos... Só nas neves eternas dos polos... Só nas noites negras dos infernos... Só nos dias brancos dos céus... (Para lá voei) O desejo de amar; O desejo de voar; O desejo de dar corda nos relógios do tempo, Vendidos ao implacável senhor 60 minutos; O desejo de roubar o cetim das pálpebras das flores; O desejo de possuir as montanhas do mundo soterrado; O desejo de sacudir as energias cósmicas... (Desejo de tudo procurarei) Parte inacessível da alma humana; Mistério a governar o destino dos homens; Alma ignota; alma sofredora; Alma dilacerante; alma de Miguel e de Lusbel, Fulgurantes e diversas, Alma míope e alma de horizonte: ...quem és? onde estás? onde te escondes? de que és? (Desejo, quimera, sonho, baixeza e altura, pobreza e riqueza, todos Mendigos de Deus, Mendigos de Absoluto)...

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Pêndulo
Por Renata Iacovino O horário cinza e suas badaladas pendulam sempre às voltas deste meu, que é tão seu... coração... em cavalgadas pulsantes... como tudo, então, se deu! Tempestades, de noite, são aladas, cumprindo o que o destino prometeu a duas almas tristes e fadadas àquilo que um ser torpe jamais creu. Pululo, na aridez das madrugadas, confusa: sou você?... ou apenas eu? Nossas vestes... ah!... vejo-as desfraldadas, brancas bandeiras são, no Coliseu. Na arena, pelo tempo embalsamadas, nossas peles desenham-se no breu.

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SEGREDOS E PECADOS
Por Maria Aparecida Felicori (Vó Fia) Por melhores ou mais ricas as famílias, todas tem seus esqueletos no baú, isso é inevitável e algum dia alguém vai dizer: parece que foi ontem, que Zélia a filha do doutor Marcos engravidou de Zé Bedão e se matou de vergonha, mas doze anos já são passados e ninguém se esqueceu do triste acontecimento; em conversas as pessoas se lembram e não perdoam, comentam e revivem assuntos que deviam ser esquecidos. O ser humano gosta de lembranças ruins e se delicia com elas, porque se esquece que todos tem seus segredos e seus pecados e que esses comentários sempre tem consequências, porque assuntos graves do passado, certamente ofenderá alguém no presente e foi o que aconteceu com a história de Macarmo acontecida em tempo muito distante e que causou uma inimizade enorme. Maria do Carmo Soares era uma moça de boa família, educada em colégio interno em regime de internato, era bonita, tocava piano, falava francês tinha tudo para ter sucesso na vida e era chamada de Macarmo pela família e amigos; ao voltar do internato esperava-se que ela arranjasse logo um bom casamento, mas a vida muda de rumo de repente e os planos vão por água abaixo. Macarmo era cercada de agrados pelos filhos das melhores famílias, mas ela não se mostrava nem um pouco interessada e ninguém entendia porque ela agia daquela forma e o tempo passando e a moça parecia não notar, porque as moças de boa estirpe se casavam assim que saiam do colégio, mas a atitude de Macarmo deixava sua família muito preocupada, mas foram levando com paciência. Como tudo no mundo tem uma explicação, o desprezo da bonita moça, pelos garbosos jovens se explicou da pior maneira: Macarmo apareceu grávida e foi um susto para sua família e uma rápida decisão foi tomada, no dia seguinte espalharam a noticia que a jovem ia viajar para a Europa com uma tia para estudar em Londres e poucos dias depois viajou mesmo e o escabroso assunto foi encerrado. Na cidade de Jambeiro onde Macarmo vivia ninguém desconfiou de nada e assim o tempo passou e todos acreditaram que ela estava estudando na Europa; dois anos depois ela voltou acompanhada da tia e de um lindo menino, que foi apresentado como uma criança achada perdida em uma rua de Londres, mas o menino era mulato e muito parecido com o Tião filho da cozinheira da família. Algumas pessoas desconfiaram da história, mas se calaram porque ninguém tinha provas e pouco tempo depois Macarmo se casou com um primo pobre que de repente ficou rico, ai o assunto morreu de vez, porque senhoras casadas são sempre respeitadas, mas o acontecido é cochichado pelos cantos da cidade, causando muitos aborrecimentos, porque segredos sempre terminam por escapar do controle.

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CARTA
Por Walnélia Corrêa Pederneiras

Querido, Inclua, se possível, este texto naquele verso não concluído...

Nossa cidade anda triste pelos cantos das ruas sujas e viradas ao avesso onde a pressa revela prantos...

Por isso não respondi quando perguntou como vamos todos por aqui?! Já que ocorre uma tristeza coletiva, minha resposta torna-se impessoal.

Minha cidade bela e arborizada emoldurada de azul agora está parada. Nossa praça está lotada de gente e de solidão Pelas ruas e bairros caminha o desencanto social

Mais um dia anormal configurado na normalidade.

Saudade.

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cordas.
Por Rafael Zen eu era menino. perseguia minha sombra, trocava meus pais por bola, me vendia por um chiclete ou dois mas amei como ainda amo em lembrança eram pés de joão-bolão, dias a fio sem banho, permanecer acordado de madrugada. palavras que me assustavam: arquidiocese, obséquio, bexiga baixa, laringite, santo-anjo, antônia.

Imagem by jungshan

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RAZÃO E EMOÇÃO
Por Isabel C S Vargas Queria ter o poder de tocar teu coração e com isso romper as barreiras que te mantém distante de mim, Queria que teus sentimentos fluíssem como uma torrente capaz de romper os diques da razão. Queria uma explosão que derrubasse todas as tuas barreiras tuas reservas e resistências, pudores e preconceitos a ponto de te fazer perder a razão e a prudência. Queria ver o outro lado deste homem controlado, calmo, sensato, que pensa cada palavra que diz e as controla temendo mostrar-se ou comprometer-se. Eu te queria razão e emoção, por inteiro para mim.

Imagem do site: h#p://space2live.net/

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VARAL DO BRASIL Anuncia o resultado do I PRÊMIO VARAL DO BRASIL DE LITERATURA 2013 VENCEDORES CONTOS – A minha aldeia tem janelas – Maria João Saraiva CRÔNICAS – Breviarium – Fabiana de Almeida POEMAS – Se é preciso dizer adeus – Sandra Nascimento 2º LUGAR CONTOS – Amor sem volta Ivane Laurete Perotti CRÔNICAS – Discutindo a relação Marcos Mairton POEMAS – Luto – Camila Mossi de Quadros MENÇÕES HONROSAS AOS SEGUINTES PARTICIPANTES (sem ordem ou categoria definidas)
O amor em 3 dimensões – José Anchieta F. Mendes Meu pequeno salvador – Leni André A decisão – Rui Pinheiro O sequestro da noiva – Maria Josefina Nóbrega Ferida qualquer – Ricardo Belíssimo

Aposentadoria – Maria Edviges Machado Primavera – Marly Rondan O farol – Júlia Rego Sentimento de uma primavera – Yara Darin A professora – Evanise Gonçalves Varal – Silvana Pinheiro Desejo do poeta – Vera Lúcia Erthal Que dança é essa? – Dalila Lubiana Inventei manhãs - Maria João Saraiva O Silêncio e a Palavra – Angela Guerra Mais uma de amor – Vítor Deischmann Poesia-Menina – Onã Silva O Romance internautês – Onã Silva A Rosa Vermelha – Iris Berlink O Prêmio – Roberto Saturnino Braga Lulu, ou as coisas que não têm alma – Rejane Machado O Diálogo que não ocorreu (Shampoo) – Fátima Rodrigues Infinito Alvorecer – Daniele Fernanda Eckstein O Amor é cego, surdo e mudo?! Rogério Araújo Chuva de Verão – Vicência Freitas Jaguaribe Memórias da Infância – Isis Berlink Renault Varal – Sonia Maria de Araújo Cintra Canção de Ninar – Maria Aparecida Felicori (Vó Fia) Recônditos do silêncio de uma mulher – Jeanne Paganucci Trombando com o Inúmero – Gaiô (Maria Aparecida Rezende Gaiofatto) O Varal do Brasil agradece a todos os participantes e congratula a cada um pelo excelente nível dos trabalhos enviados. O Varal do Brasil agradece à comissão julgadora que teve o difícil encargo de ler e escolher entre os tantos trabalhos enviados aqueles que hoje aqui se encontram. Em breve os textos serão publicados na revista Varal do Brasil (revista de novembro, edição de aniversário). O anúncio oficial será feito dia 2 de agosto de 2013 em Florianópolis, durante o lançamento do livro Varal Antológico 3. O resultado também estará em nosso site: www.varaldobrasil.com Em nosso blog www.varaldobrasil.blogspot.com Em nossa página no Facebook http://www.facebook.com/varaldobrasil

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e sintáticas. Essa luta para levar alunos e professores (estes últimos nos cursos de Especialização no Ensino da Língua Portuguesa ou da Literatura) a uma visão mais textualista da Por Vicência Jaguaribe arte literária me rendeu situações inusitadas, surpreendentes e engraçadas. Uma delas diz respeito à preocuAo longo de minha vida como professora, empenhei-me para que o ensino da lite- pação com o certo e o errado, na hora de ratura se voltasse para o texto, sem que se atribuir um sentido ao texto, o que leva o desprezassem, naturalmente, os outros elealuno à clássica pergunta: Mas será que o mentos — autoria, contexto sócio-histórico- escritor quis mesmo dizer isso? Por mais cultural, estilos de época com suas caracteque se diga que o texto, depois de pronto, rísticas e outras coisinhas mais. Mas que ele acaba sendo uma entidade autônoma em retivesse como ponto de partida e de chegada, lação ao seu autor; por mais que se mostre e como núcleo, o texto, naquilo que ele pos- que o leitor tem uma participação ativa — sui de mais específico, de mais peculiar em responsiva, como diz Bakhtin — na atribuirelação aos textos não literários. Essa ideia ção de sentidos ao texto, sendo, portanto, ainda me é cara e defendo-a sempre que se um coautor da obra e podendo, por isso, encontrar sentidos que não passaram pela cafala na precariedade e pobreza da maioria das aulas de literatura no curso médio e nos beça do escritor na hora de escrever; por cursos de letras. mais que se diga que o texto oferece pistas ao leitor, por conseguinte é ele, o texto, que A tese que defendo é que o aluno se aproprie do texto, pela atribuição de um sen- autoriza ou desautoriza leituras e significatido a ele, e não pelo simples reconhecimen- dos, e não o autor, lá vem o aluno, de vez em quando, repetindo a pergunta: Mas será to das características do estilo de época em que o autor quis mesmo dizer isso? que o texto está inserido (e, às vezes, nem está). Que ele se delicie com a descoberta Sobre esse primeiro ponto, tenho o desse sentido — pois só assim a literatura exemplo de um episódio que aconteceu coestará cumprindo um de seus mais importan- migo. Escrevi uma crônica sobre minha tentes papéis: o de dar prazer. Não nos esqueçamos de Horácio, que já entre os séculos 14 e tativa de encontrar uma estatueta de porcela13 a.C. dizia ser a obra ideal aquela que en- na branca, que eu achava — e ainda acho — que possuía e que desapareceu (ou guardei-a sinava e dava prazer ao mesmo tempo: e esqueci o lugar onde a guardei?). Mandei Arrebata todos os sufrágios quem mis- o texto, via e-mail, para alguns amigos, e um deles me respondeu: tura o útil e o agradável, deleitando e ao mesmo tempo instruindo o leitor; esse livro, sim, rende lucros aos Sósias; esse transpõe os mares e dilata a longa permanência do escritor de nomeada.

O texto no ensino da literatura

É isso o que ele diz e que está resumido na famosa expressão utile e dulce (útil e agradável). E que o aluno se delicie, também, com a descoberta do que há de especial na linguagem literária — nas suas invenções lexicais, nas suas inovações semânticas
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(Segue)
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to é aberto, mas não escancarado. Isso significa que as leituras aceitas são aquelas apoiadas pelas pistas textuais. Pois há leituras para as quais o texto não oferece suporte. São as leituras não autorizadas, por isso não aceitas. Essa questão, se perturba o aluno, perturba muito mais o professor, que se sente vulnerável. O que o aluno pensará dele, se aceitar tudo o que for dito em sala de aula? Pensará que, por não saber a resposta certa, vai aceitando qualquer coisa que o aluno diz. Garanto-lhes que não há esse problema. O professor não se impõe ou deixa de se impor, por aceitar ou não a opinião do aluno. O que é decisivo nessa questão — diria eu, o grande problema — é o professor acreditar ou não naquilo que está fazendo e passar essa impressão ao aluno. Aí, pergunto: quando Bem, quando escrevi a crônica, não diz ao aluno que o texto literário é aberto a pensei — digo francamente — em dar um mais de um sentido, que as leituras são autosegundo sentido nem à estatueta nem à mirizadas pelo texto e não pelo autor, o profesnha busca por ela. E daí? Agora vejo que sor acredita no que diz? meu amigo fez a sua leitura do texto, que O aluno é perspicaz; ele consegue capme deixou, aliás, muito feliz. Ele me mostar a segurança e a insegurança do professor trou haver-se apropriado da crônica e, pornas ideias que afirma. Na verdade, o que letanto, haver entrado no texto com alma, corazón e vida, como dizem os cantores de bo- va o professor a perder-se na sala de aula, lero (boleristas? – acreditam que não há ne- quando ensina literatura, não é a complexidade, a plurissignificação do conto, do poenhuma palavra em português derivada de ma, da novela, do romance que estuda com a bolero, para indicar aquele que compõe ou canta bolero, ou ainda aquele aficionado por turma, mas a sua postura em face das ideias em que ele realmente acredita. Certa ocasiesse ritmo?). ão, quando terminava um curso de especialiUm segundo ponto, muito importante, e zação destinado a professores de literatura, este se refere mais aos professores, no entan- uma aluna deu este depoimento: Uma coisa to perturba mestres e discípulos, é a pluriseu aprendi nesta disciplina: sempre que cosignificação do texto literário. Um texto po- meçar a estudar um texto em sala de aula, de ser lido de mais de uma maneira, em épo- eu vou balançá-lo, porque agora sei que decas diferentes ou em uma mesma época, por le pode cair muita coisa. Essa muita coisa a leitores diferentes ou pelo mesmo leitor. E que ela se referiu são as várias significações essas leituras podem ser aceitas, desde que que um texto pode conter. Como gosto de coerentes e autorizadas pelo texto. Os alunos dizer aos meus alunos, qualquer texto — e perturbam-se com essa abertura do texto limais especificamente o literário — existe terário, porque aluno gosta de certezas, de em potência, esperando alguém que o atualiverdades absolutas. E vem a preocupação: E ze em uma ou mais leituras. na hora da prova, professora, a senhora vai aceitar a resposta que eu der? Então, toda (Segue) leitura é aceita, é correta? Aliás, um amigo meu — professor — gostava de dizer: O tex“Vicência amiga. Paz e Bem! Li e reli ‘Por onde anda minha linda estatueta de porcelana branca?’ Adorei. A resposta: Ela está colocada no coração daqueles que a têm como amiga e, com você, se alegram . Não a procuram porque não a perderam e, também, como você, a acham a mais bonita. Essa estatueta de porcelana é a amizade que você tem por nós e que nós temos por você. Às vezes, a gente não a encontra. Parece que ela se perdeu. Não. Ela não se perdeu nem se acabou. Ela existe firme e forte. Não são lapsos de memória. O esconderijo dela é provocado, como dizem os ingleses, pela ‘struggle for life’ - a luta pela vida, que não nos deixa procurar a nossa estatueta de porcelana”.
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Deixo como exemplo um pequeno texto que nos mostra a possibilidade de fazermos de uma página literária pelo menos duas leituras: uma no nível mais superficial, considerando os elementos na sua concretude, e outra no nível mais profundo, vendo os elementos concretos do texto como representantes de uma abstração. O texto é de Lygia Fagundes Telles, extraído da obra “A disciplina do amor”: “Abro uma antiga mala de velharias e lá encontro minha máscara de esgrima. Emocionante o momento em que púnhamos a máscara — tela tão fina — e nos enfrentávamos mascarados, sem feições. A túnica branca com o coração em relevo no lado esquerdo do peito, ‘olha esse alvo sem defesa, menina, defenda esse alvo!’ — advertia o professor e eu me confundia e o florete do adversário tocava reto no meu coração exposto”.

do a máscara, por exemplo, como a tentativa de esconder os sentimentos (daí, ela permitir que os dois se enfrentem sem feições); o coração bordado em alto relevo na túnica branca, como os sentimentos da aluna pelo professor, que a deixam sem defesa. A qualquer investida dele, ela sucumbirá, pois é um alvo fácil — está gostando dele; o florete, como a investida afetiva do professor, que a atingiu realmente, conquistado-a, o que acontecerá? Então tudo muda. Temos, no mínimo, duas leituras desse texto. Alguma delas é inaceitável? Claro que não, temos que admitir que as duas são autorizadas pelo texto. Só que uma é uma leitura pobre, por superficial, e a outra é uma leitura mais profunda, portanto mais rica. Essa leitura mais profunda exige treino, vivência com a literatura. É preciso, também, certo lastro cultural, para que as analogias possam ser efetuadas. Jamais me esquecerei do que aconteceu em um estudo de um poema de Manuel Bandeira, em uma aula de Estilística no Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará. O poema é “Discurso em louvor da aeromoça”, do qual transcrevo apenas os versos iniciais: Aeromoças, aeromoças, Que pisais o chão Com donaire novo, Não pareceis baixar dos céus atuais Mas dos antigos, Quando na Grécia os deuses ainda vinham se misturar com os homens. Píndaro gostaria de cantar o vosso cotidiano heroísmo, tão simples, a vossa graça, a vossa bondade No entanto, nada mais moderno do que vós, ó sorrisos bonitos de chegada e partida nos aeroportos. Quem sem verdade e sem alma vos classificou de aeroviárias A vós autênticas aeronautas, irmãs intrépidas dos aviadores? [.............................................................. .........................................]
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A primeira leitura que se pode fazer desse texto, considerando os elementos somente em sua concretude, é a seguinte: tratase da recordação de uma aula de esgrima, em que aluna e professor se enfrentam, e ele vai orientando-a: “olha esse alvo sem defesa, menina, defenda esse alvo!” Ela reage com certo nervosismo, não se defende suficientemente e é atingida pelo mestre. Essa é a leitura mais simples, que se encontra, como se diz, à flor da pele. Uma leitura que só considera a isotopia material. Se, no entanto, tentarmos dar aos elementos concretos uma outra leitura, ven-

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Afinal, menina frajola, Ora, para descobrir as conotações de aeronautas, seria necessário que o leitor tiOnde é que você rola? vesse certo conhecimento da mitologia e da Na corda cultura gregas. Teria que saber, por exemplo, como se comportavam os deuses gregos em ou na roda? suas relações com os homens. Teria de saber que Píndaro foi o cantor, por excelência, dos heróis gregos, principalmente os heróis Na roda ou na corda, olímpicos. Teria que ter conhecimento da a menina dança e cantarola, lenda dos argonautas, para poder descobrir tocando castanhola. as relações morfológicas e semânticas que as duas palavras – aeronautas e argonautas – podem ter. Sem esse pequeno lastro cultural, Desse jeito, mais parece a leitura não seria efetuada. E foi o que aconteceu. Nenhum aluno tinha os conhecio cão comendo mariola. mentos necessários a essa leitura. Outro problema é fazer o aluno entender que o estudo de um texto literário não pode ser feito como o estudo de um texto de Filosofia, de História ou de Sociologia, por exemplo. Nesses textos, só interessa ao leitor o significado, isto é, o que é dito. No texto literário, não; o leitor deve interessar-se igualmente pelo que é dito e pela maneira como é dito o que é dito; isto é, pelo significante e pelo significado. E há textos – a poesia infantil, por exemplo –, em que o signifiO que se tem a apreciar, principalcante é até mais importante do que o signifimente, nesse poema? As rimas e o ritmo, cado. É o caso do poema infantil de minha que encantam a criança pequena. O texto soa autoria: como uma brincadeira, uma parlenda, quase um trava língua. É um poema feito para envolver a criança no prazer da leitura pela A menina na roda combinação dos sons das palavras, pelo embalo do ritmo. Voltando a Horácio, dizemos A menina na roda, que é um poema em que predomina o dulce — o agradável —, e não o utile — o útil. brincando de corda. Em um poema como o seguinte, A menina brincando, da poetisa cearense Mônica Magalhães Cana corda de roda. valcante, deve-se analisar com a mesma preocupação o significado e o significante. A menina na corda, O poema é uma alegoria, texto em que brincando de roda. o autor fala de uma coisa para significar ouA menina brincando, tra. Na alegoria, pensamentos, ideias e qualina roda de corda. dades são representados de forma figurada, cada elemento do texto disfarçando a ideia que substitui. - Ó menina! Como está tua cachola? (Segue) Cheinha de caraminhola?

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colocar o narrador de 3ª pessoa no centro dos acontecimentos (ele será um dos siris?). Dois siris em rimas opostas Os versos que compõem essa parte são marCavam e recuam cados por frases verbais, o que ajuda a difeFlanqueando o mesmo passo. renciá-los dos versos que compõem a segunDois buracos simétricos da parte. Observe-se, ainda, que são todos Na dissimetria da vida. verbos de ação, uma marca das sequências Dois siris que se encontram narrativas: cavam, recuam, flanqueando, enNos extremos do Japão contram, voltam, vigiam. - voltam e vigiam. A segunda parte, formada pelos versos Dois buracos em vão 4, 5, 9 e 10 — Dois buracos simétricos / Na Nos amores compartidos. dissimetria da vida. / Dois buracos em vão / Nos amores compartidos. —, chama logo a Temos um texto curto e aparenteatenção por apresentar somente estruturas mente simples; de forma livre, com um vonominais e não mais falar dos siris. cabulário e uma sintaxe sem complicações. Temos, então, uma parte que faz uma Que é um texto simples parece a impressão narrativa particular (conta a história dos dois decorrente da primeira leitura, a leitura da siris) e outra parte que conceitua; desloca o simples decodificação dos signos reunidos. discurso do nível do particular para o nível Essa impressão se esvai na segunda leitura, da universalidade. A estrutura nominal corquando principia o aprofundamento, quando robora esse raciocínio, porque é uma das cao leitor tenta levantar o véu do aparente, a racterísticas de boa parte das máximas ou querer ler nas entrelinhas. É nesse momento provérbios, como se pode observar: Cada que o leitor começa a inquietar-se porque a macaco, no seu galho; Casa de ferreiro, essimplicidade do poema começa a ser negada. peto de pau; A grandes males, grandes remédios; A palavras loucas, orelhas moucas; A inquietação ocorre porque o leitor Muito riso, pouco siso. Pode-se dizer, nesse sabe, conscientemente ou intuitivamente, caso, que a leitura mais superficial do poema que o significado mais rico — não o único — do texto literário não está na superficiali- coincide com os elementos da primeira pardade. Dizer que o autor fala de dois siris que te, enquanto a leitura mais profunda corresponde aos elementos da segunda. Se levarse encontraram no Japão não convence ninguém. Os dois versos finais do poema, Dois mos em consideração o que se disse sobre a alegoria, no início desta análise, conclui-se buracos em vão / Nos amores compartidos, porque não se aplicam a siris, obrigam o lei- que os siris são usados de forma figurada, portanto representam e ao mesmo tempo tor a um aprofundamento da leitura, com o objetivo de encontrar elementos que o levem mascaram alguma ideia que a autora, por algum motivo, quer transmitir disfarçadamena outro significado. te. O poema apresenta uma estrutura dual, isto é, uma estrutura em que se podem observar duas partes que se intercalam: 1ª parte – Dois siris em rimas opostas / Cavam e recuam / Flanqueando o mesmo passo. / Dois siris que se encontram / Nos extremos do Japão / - voltam e vigiam; 2ª parte: Dois buracos simétricos / Na dissimetria da vida. / Dois buracos em vão / Nos amores compartidos. A primeira parte é composta por uma (Segue) pequena narrativa com o verbo no presente do indicativo, escolha linguística que parece
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Ciladas da vida

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Há, na segunda parte, elementos importantes que precisam ser considerados, para que se possa chegar ao tema do poema: buracos simétricos / dissimetria da vida; buracos em vão / amores compartidos. No primeiro par de elementos, que se opõem, temos a ideia de desarmonia. No segundo par, a ideia de divisão, de afastamento, uma vez que o adjetivo compartido, além de ser sinônimo de compartilhado ou partilhado, pode significar também dividido em compartimentos, portanto separado. A escolha da forma compartido produz maior efeito estilístico, uma vez que ela, além de ser um cognato de partir e de partido, traz em sua estrutura fonológica o adjetivo partido, inteirinho. Considere-se que uma das acepções de partido é quebrado, fragmentado, significado relacionado à dor física e moral. Não nos esqueçamos de que, ao nos referirmos aos males do amor, costumamos falar em “coração partido”, e à ação que nos trouxe o sofrimento nos referimos com “Ele (a) partiu meu coração”. O poema traça, pois, uma boa alegoria dos desencontros da vida, do afastamento a que as vicissitudes do dia a dia nos levam. São inúteis as tentativas de reencontro, de retomada em um relacionamento desgastado — não adianta os dois siris se darem o trabalho de cavar até o Japão, pois estão cavando paralelamente; e, até onde se sabe, retas paralelas só se encontram ou... se reencontram no infinito. É isto. Ensinar literatura não é ensinar teoria da literatura, história da literatura, sociologia da literatura... muito menos ensinar gramática, utilizando as construções do texto. Aliás, o texto literário talvez seja o menos indicado para ensinar gramática normativa, uma vez que ele é, por sua própria natureza, a-normal. Como diz Jean Cohen, referindo-se à poesia: O poeta é poeta não pelo que pensou ou sentiu, mas pelo que disse. Ele é criador não de ideias, mas de palavras. Todo seu gênio reside na invenção verbal. Ensinar literatura é pôr o aluno em contato com o texto e incentivá-lo a levantar-lhe o véu para desvendar os seus mistérios. Para isso, ele deve atribuir-lhe sentidos e apreciar suas invenções linguísticas.

INCENTIVE A LEITURA! DÊ LIVROS DE PRESENTE, TROQUE LIVROS QUE VOCÊ JÁ LEU, DOE LIVROS A BIBLIOTECAS COMUNITÁRIAS! LER ABRE MUNDOS!

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UM LUGAR ESTRANHO EM UMA NOITE ESTRANHA
Por Marcos Mairton Valdomiro acordou no meio da noite com a boca amargando e uma incômoda vontade de urinar. Abriu os olhos, mas não enxergou nada. O lugar estava um breu. Sentia apenas que estava deitado em uma cama e que a cama parecia estar girando. A cabeça doía, latejava. Artérias pulsavam de cada um dos lados da fronte, como se ameaçassem estourar. Valdomiro ficou parado por alguns segundos, esperando que os olhos se acostumassem à escuridão, embora mal conseguisse mantê-los abertos, por causa da dor de cabeça. Precisava reagir. A primeira coisa a fazer era levantar e encontrar um vaso sanitário. A vontade de urinar incomodava cada vez mais. Ainda deitado, começou a se mover e percebeu que não estava usando seu costumeiro pijama, mas calça jeans e uma camisa de mangas compridas. “Como assim?”, pensou. “Será que bebi tanto que adormeci sem trocar a roupa?”. Sim, havia adormecido sem trocar de roupa. E tinha mesmo bebido. Agora começava a lembrar. Saíra do trabalho com o Flávio e o Gerson para tomar uns uísques no Skina Bar. Três amigas do Gerson apareceram por lá. Preferiram beber vinho. Valdomiro exibiu seus conhecimentos enológicos, que não eram lá grande coisa, mas suficientes para uma das moças ficar interessada na conversa. Valdomiro lembrou de ter bebido vinho com ela. Bonitinha a moça. Mas as lembranças de Valdomiro foram rapidamente interrompidas. A vontade de urinar reclamava a sua atenção. Retomando sua intenção de procurar um banheiro, conseguiu sentar na beirada da cama. Já enxergava alguma coisa, mas, do pouco que via, nada reconhecia. E tudo continuava a se mover, como se ele estivesse dentro de um barco, em uma noite de tempestade. Um lugar estranho em uma noite estranha. “Como vim parar aqui?” – pensava. Enquanto se preparava para ficar de pé, mais imagens vinham-lhe à mente. Na saída do bar, carros estacionados na rua, muitos. O de Val-

domiro não estava lá. “Claro! Eu estava de carona com o Gerson!”. Mas, teria voltado com ele? Não lembrava, embora fosse o mais provável… A não ser que tivesse passado para o carro daquela amiga do Gerson… Como era mesmo o nome dela…? Esses pensamentos passavam pela cabeça de Valdomiro em uma velocidade espantosa, enquanto ele, ainda sentado na beirada da cama, tentava firmar os pés no chão. As pernas tremiam, os braços também. Ao primeiro esforço para se erguer, a cabeça deu um giro tão rápido que o obrigou a permanecer sentado. Sentiu vontade de vomitar. Manteve o controle. “Se foi mesmo ela quem me trouxe para cá, deve ter ficado decepcionada. Não tirei nem a roupa! Não deve ter acontecido nada aqui…”. Pensou nisso e voltou imediatamente o olhar para o outro lado da cama. Os olhos já habituados à falta de luz o permitiram vislumbrar a silhueta da mulher deitada, envolta no lençol, de costas para ele. Valdomiro agora tinha certeza da comédia de mau gosto que protagonizara. Preparou-se para mais uma tentativa de se erguer e sentiu algo incomodando no bolso da calça. Era o telefone celular. Pegou o aparelho e olhou as horas. Três e vinte e sete da madrugada. “Meu Deus! Se a Marilda ligar agora, eu vou dizer o quê?”. Sim, havia Marilda, a mulher de Valdomiro. Ela não se incomodava muito que ele saísse de vez em quando com os amigos e bebesse um pouco, mas ficar até tão tarde na rua era algo que ainda não havia acontecido nos seus quase seis anos de convivência. Valdomiro tentou imaginar o que poderia acontecer, mas a cabeça, latejando de dor, não permitia raciocínios complexos. O que ele sabia mesmo é que tinha que sair dali e que, antes, precisava de um banheiro. Já não estava mais suportando a vontade de urinar. Teve uma ideia. Acendeu o painel do celular, pensando em usá-lo para iluminar o ambiente. Finalmente de pé, não resistiu à tentação de apontar sua lanterna improvisada para aquela mulher com quem acabara de compartilhar a cama, mas de quem sequer lembrava o nome. A luz deve tê-la incomodado, porque ela virouse em direção a Valdomiro e, protegendo os olhos com a palma da mão esquerda, perguntou mal-humorada: (Segue)
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- Que porra é essa Miro? Ainda tá bêbado? Era a Marilda. Valdomiro até hoje não sabe dizer se levou um susto ou se sentiu um alívio ao reconhecer a esposa. Talvez os dois. O certo é que, um segundo depois, reconheceu também o abajur que ela acabava de acender, a cama, o quadro na parede… Valdomiro agora tinha ciência de todas coisas ao seu redor. Sem pronunciar uma palavra, cambaleou em direção ao banheiro. As mãos tentando abrir o zíper da calça. Não conseguiu. Dominado por movimentos antiperistálticos, ajoelhou-se diante do vaso sanitário e sentiu como se as vísceras lhe quisessem escapar pela boca. Enquanto vomitava, a urina lhe descia pelas coxas e formava uma poça junto aos joelhos. Debilitado, mas confortado por saber que estava na segurança de seu apartamento, Valdomiro agora se preocupava apenas com a reação de Marilda quando o dia amanhecesse. Mas foi ela mesma quem pôs fim a suas preocupações, ao dizer em tom compassivo tudo o que ele precisava ouvir: - Porra, Miro. Que cachaça foi essa? Nunca te vi assim. O Flávio e o Gerson te trouxeram praticamente carregado nos braços. Veja se você consegue tomar um banho frio, que enquanto isso eu vou preparar um caldo com um resto de carne moída que tem na geladeira.

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A LITERATURA DE JACQUELINE AISENMAN
Márcio Almeida

Sobre Lata de Conserva Com que leveza escreve Jacqueline Aisenman! Com que estilo viscoso atrai o leitor para contextualizar a imagética do seu pensamento! Com que nobreza ela trata a Literatura! Em meio a tanto experimentalismo e distorções que sangram talentos em vão, de rebuscamentos sôfregos da linguagem, de psicologismos que esvaziam o ser humano de sua essência até a medula do nada, - esta autora é simples com profundidade, mergulha onde a gente é por ser o que é e traz a verdade de cada um no que somos de humanidade. São comoventes textos como Bilhete no caderno preto, Flor dos meus olhos, Frank e Lara, Diálogos supostos e Alice (brilhantes!), Era uma vez, Água no feijão, Insubordinação, A dançarina, Irrealidade, O calor do asfalto, Rictus, Comer e saborear, Lua de mel, Em preto e branco e tantos outros do livro Lata de conserva (Design Editora, 2011,Sc).

Jacqueline Aisenman escreve com uma dignidade impressionante. Escreve com visgo. Tem uma capacidade incrível de amarrar situações frásicas que prendem o olhar à razão leitoral. De coçar a curiosidade para pensar detalhes de personagens fugazes, que entram no contexto dos textos como bolhas. “Desculpe a demora para lhe retornar o caderno, mas com ele nas mãos, lembrei-me do seu rosto de todas as noites, folheando a lendo, seu rosto que nunca sorri enquanto toma o café e escreve. Mas notei que estava escrevendo num guardanapo” = insinuação de mestre, observação de voyeur. Deliciosa. “Já estava quase aceitando, quase tendo a certeza de que realmente seria capaz. Até que ela apareceu, lá do outro lado da calçada, com aqueles cabelos balançando e o sorriso que ele sabia que o mundo não tinha como imitar em outra pessoa” = um travelling antológico. Perfeito como uma cena de Antonioni. O realismo mágico, mas sobretudo, muito real de “A bailarina”. O mesmo realismo que aflora na “Irrealidade” e do realismo sensualerótico subentendido de “O calor do asfalto”, belíssima síntese que vai se repetir em “Lua de mel”, por exemplo, que por sua vez remete ao realismo consentido de “Rictus”, que evoca a Lei Maria da Penha. Em nível de narrativa curta a autora é mestre. Porque tem capacidade nata para a síntese-atômica, para o resumoboom. Lata de conserva desintoxica a alma. Deixa o leitor feliz.

(Segue)

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Menu: O calor do asfalto

Irrealidade

Pisava descalça o asfalto. Era Tomou um susto quando a viu pasquente. E quente ainda estava por den- sando tão perto. Era a mesma do pritro depois de descer do caminhão. O meiro dia, da primeira vez e do primeiro olhar. E cá estava ela, tão perto novacalor do asfalto era pura sugestão. mente do seu coração, separada apenas pelas circunstâncias de duas vidas Lua de Mel que não se encontravam mais desde os Pijama ou camisola? Trocar no tempos de antes. Seguiu adiante e virou quarto ou no banheiro? Avisar? Pergun- -se para mais uma vez vê-la. Só para tar? Como adivinhar? Passou tanto tem- ter a certeza de que ela era real e que a po pensando a respeito que nem perce- irrealidade estava tão somente no insbeu que o tempo já tinha passado por tante em que havia pensado: nós! seu corpo e sua vida, levando a primeira noite para um lugar longe, chamado nunca mais.

Sobre Briga de Foice

Os leitores se identificam com as personagens de Briga de foice (Design Frank e Lara, diálogos perdidos Editora, 2012, Sc), que, como o anterior tanto pode ser um livro de minicontos quanto um romance desmontável, por- Frank, a loucura pode me levar a que eles se interligam a lugares comuns algum lugar? do cotidiano em suas formas cruas e re- Pode, ela é um caminho. ais (há sempre um “vulto a povoar a escuridão dos meios sombrios”, p.43), me- Há risco de eu me perder? lancólicas e tristes, alegres e humora- Sempre há. Mesmo dentro de ca- das, erradas e prazerosas, tortas e sa a gente pode se perder. exemplares. A dançarina Era tudo uma grande mentira. O que era. O que pensavam que era. Tudo uma grande mentira. Ela dançava para viver e um dia havia amado a música. Hoje era só uma obrigação fazer o corpo dar voltas e os sons que a guiavam nada mais eram do que notas perdidas. Músicas cansavam e seu corpo precisava urgentemente de um descanso, que só o silêncio poderia trazer.

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Nem todas têm tipicidades únicas, aliás, a maioria nem tem tipicidade alguma, podendo muitas serem encontradas na vidinha interiorana ou no tumulto metropolitano. O que as distingue, no entanto, são suas (des)razões de ser nas pinças da narrativa aisenmaniana, nos olhares de uma autora muito atenta ao modus vivendi da gente brasileira, mas também da gente estrangeira, a considerar sua experiência de 20 anos de moradora em Genebra. O que lhe importa fazer, em nível de personagens é valorizar o convívio entre as diferenças, o que Foucault denominou de heterotopia. Por isso, os fragmentos considerados pela autora constituem o que outrora Lukács nomeou de chantefables ou acontecimentos afeiçoados nos quais permanecem realidades isoladas típicas da representatividade da “objetivação épica” humana portadora de um sentimento infinito, cuja experiência vivida pelas personagens autoriza a qualquer um(a) o sentimento do mundo em nível individual, em sua significação secreta e pessoal. Mesmo as situações caóticas vivenciadas pelas personagens raramente nomeadas por Jacqueline Aisenman “são reflexos de um cotidiano banal, que representa a angústia existencial” de um ser humano “desabrigado e fragilizado, tendo em vista que ele está despido de sua própria identidade em um mundo complexo”, diria Silva Oliveira (1). Por esse viés, porém, entrelaçam no livro figuras enigmáticas e nem tanto, quando também a persona da narradora -autora se põe a expor sua perplexidade ficcional em percepções que envolvem desde a condição das mulheres na pós-

modernidade à de desfavorecidos socialmente, da prevalência de situações narrativas emblemáticas urbanas a um realismo feroz, de uma poeticidade estilística própria que ameniza a violência da própria realidade à tematização de sua própria escritura. Tudo em estado de tensão, mas com um jeito próprio de dizer sem agredir o leitor. Como alguém que não pede desculpa para ser realista e diz ”até a próxima tempestade” (p.23). A verdadeira briga de foice ceifa tristeza e alegria, injustiça e engano, ilusão e surpresa, construção e arrependimento, ousadia e remissão, destino e sorte, princípio e desdém, impertinência e decomposição, filtro e esquecimento, superação e recomeço, enfim, humanidades. Aisenman, sem ser em nada trágica nem cômica, mas encarnando a essência da linguagem micro para dizer muito, quer dizer, como disse Lukács (2), que “vegetamos sem lançar frutos ao rés do chão e longe do céu.”

(Segue)
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Ela tenta – e consegue – salvar o sujeito comum, anônimo, do esquecimento da sujeição e da alegoria do nada, do sujeito que se apaga por falta de transcendência e do “delírio esquizofrênico” (p.39). Ela sabe que no pósmoderno o anti-herói, mas sobretudo a anti-heroína, é o (a) personagem que forja o (seu) cotidiano de surpresa com a força do seu sofrimento pela sobrevivência, pela consagração de sua diferença justamente por ser igual a todos os que lutam em aberto pela vida. A mãe que anuncia não ter em casa o que comer, no texto Balas perdidas (p.27); a vontade de “atravessar o túnel e desertar da infame vida nada fácil da cidade” (p.36); de sentir “a impressão de ser bailarina” e de em seguida ir servir café “p.37); da anunciação de “porque todos os seus filhos já estavam pela rua pedindo comida e dinheiro para melhorar a vida da casa e ela não tinha mais tempo nem vontade de passar aqueles primeiros anos de choro” (p.117); do cara cujo cheiro “era de suor e desodorante misturado com fritura” (p.193).

do artista isolou do todo” (Lukács). Quem preferir poderá ler Briga de foice com as três dominantes propostas por Beatriz Resende (3) para se analisar a prosa contemporânea: a presentificação, que se dá no sentido de urgência, latência do presente no temário e nas formas da narrativa, incidente na minificção de Aisenman; a presença do trágico, contextualizada nas personagens, se bem que, aludiu-se, sem o rigor da tragédia visceral, amenizada por opção autoral; e a violência, recorrente à própria angústia existencial latente na grande cidade, na relação de troca, na inversão de valores e no não reconhecimento de valores. Briga de foice é um livro para quem gosta de ler e acredita que a Literatura ainda existe - apesar dos críticos.

Tem-se uma certeza quando se lê Jacqueline Aisenman: “quanto mais o fragmento da vida é importante e pesado de sentido, mais será necessário que cresça a força desse lirismo imediato e manante. O equilíbrio da obra depende daquilo que se estabelece entre o sujei- Notas to que a cria e o objeto que ele apresenOLIVEIRA, Vanderleia da Silva. Caminhos da ficta e exalta (...); quer dizer na forma de ção brasileira: considerações sobre temas narrativa que considera isoladamente o dominantes na prosa contemporânea. Unique a vida contém de surpreendente e versidade Estadual de Maringá, Anais, ISSN de problemático, esse lirismo deve ain2177-6350, jun.2010. da dissimular-se inteiramente atrás das linhas rigorosas de um lado que o buril (Segue)
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Varal do Brasil - Maio/Junho de 2013 Lukács, Georg. Teoria do romance. Trad. Alfredo Margarido. Porto: Editorial Presença, 1962. Resende, Beatriz. Contemporâneos: expressões da literatura brasileira no século XXI. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, Biblioteca Nacional, 2008.

Contato com a editora: www.designeditora.com.br Com a autora: coracional@bluewin.ch

Karaokê a capela (extratos) Escrevo porque é mais simples do que falar. É mais simples do que muita coisa. E quando não escrevo é como se sangrasse PA dentro numa hemorragia interna preenchendo todas as frestas que não têm como conter tanto sangue. Escrevo porque é a minha vida e a minha vida é soltar de mim o que só sai escrevendo. (...) Antes de soltar de mim as palavras, tenham elas o peso das âncoras. Sejam elas banhadas no mel. Possam elas ancorar seguras no coração de quem me ouve. (...) A pior palavra é a que você não quer ouvir. (...) Não existem palavras silenciosas. No momento exato em que você decidiu ser algo mais do que a sua imagem no espelho, os seus gestos irão tocar alguém. Isto é vida. (...) As palavras saem do fundo da mente ou do fundo ventre. De quem mente ou de quem sente. As palavras soam, zoam, passam, vibram, voam...(...) No meu silêncio encontram-se palavras que não querem vida: não querem sair, não querem dizer, não querem tornarem-se vivas. No meu silêncio as emoções circulam sem se fazer notar. E dentro dele, do meu silêncio, consigo existir sem a ameaça dos ecos. (...) Palavras devem ser bênçãos, jamais maldições.

Márcio Almeida é mestre em Literatura, escritor, crítico de raridades. marcioalmeidas@hotmail.com

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QUINDIM
Ingredientes da receita: 100 gramas de coco fresco ralado ou então seco e sem açúcar acrescentando 1/2 xícara de água

· 100 gramas de coco fresco ralado ou seco sem açúcar com 1/2 xícara de água · 15 gemas inteiras · 50 gramas de manteiga da sua marca preferida · 500 gramas de açúcar Como preparar a receita: Bata bem as 15 gemas, não esquecendo de tirar aquela pelezinha em volta dela para que não fique com cheiro, separe a pele com uma peneira, . Coloque o açúcar, a manteiga e mais o coco ralado. Misture bastante e deixe descansando por 20 minutinhos. Unte uma forma pequena com manteiga, polvilhe com açúcar e coloque o quindim. Leve para assar em banho-maria por volta de 30 minutos. Para tirar da forma, deixe esfriar e coloque sobre uma panela com água quente (sobre o vapor). Para fazer quindins de tamanho pequeno, use forminhas, aquelas de empadas de alumínio. Dica – Use as claras que sobraram para fazer cocadas alemãs. Com as clara que sobraram você poderá fazer cocadas Alemãs. Fonte: http://coisaspraver.blogspot.com/

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LADRÕES DE ESTAÇÕES
Por Leonia Oliveira

Do meu seio farto e doce, Como vampiros que bebem o sangue de menarcas Sabendo nunca saciarem suas sedes E que suas asas podres só voam

Vejo em mim Que minha estação É lua cheia, Não estou em época de plantio. Em novembro havia em mim Tanta primavera E eram ricos os mananciais. Por que deixe se aproximarem de minhas flores Os galhos secos despidos de flores E que, até então, Só conheciam da água o visgo violento Das curvas dos rios?

Por conta do sangue alheio.

Vejo em mim Que queimei o verão Em praias que eu sabia serem duvidosas E, mesmo assim – por que não? – Eu lhes garanti o sol e o sustento E a possibilidade de terem turistas Por todo um verão. Em dezembro se fez o outono Rico em seiva E alimentei Os galhos secos que não podem Se erguer mais, Que não podem sofrer Uma transfusão de seiva, Que nunca souberam o que é seiva, Mas que ávidos beberam Da seiva farta

Quando amanheci Na lua nova, Já é inverno: Encho minha banheira feita de sal Com água quente Para aquecer meu útero, E me sentir de novo em útero seguro. Recupero a energia Que a ti mantinha E que agora não tens mais. Quando, na crescente, o primeiro galho rachar Tu saberás o que é Não poder contar com a minha primavera. Torno a ver-te em uma hospedaria mísera Sem sangue e sem sal, Foto indistinta de uma luz amarelada...

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Não é meu inverno época de plantio, Mas de retomada. Não me fazem falta as estações puladas, Delas sinto apenas o ardor confuso Causado pela diferença dos fusos horários Que o sol estabelece entre as estações. Nunca me farão falta estas estações, Só as pude dar porque era o que havia em meu coração. Dele, também, tiro as fibras para a roupa deste inverno de fevereiro Coso as veias do sangue que se doava Para curar tua leucemia emocional, Fecho meu campo magnético Que fluía para tentar fechar As chagas do teu desespero.

VARAL DO BRASIL UM PROJETO SEM FRESCURAS!
O Varal do Brasil é um projeto de literatura sem frescuras que vem sendo realizado desde 2009 em Genebra, na Suíça, agregando escritores de língua Portuguesa, amadores e/ ou profissionais que desejam apenas uma coisa: escrever! Levando a prosa e o verso até o leitor sem frescuras, o VARAL DO BRASIL vem conquistando espaço na internet e no coração dos leitores e escritores. Escreva você também! Toda participação é gratuita e para participar é muito simples: solicite nosso formulário de inscrição e envie, juntamente com seu texto, para o e-mail varaldobrasil!gmail.com Venha você também para a alegria que é o

Vejo em mim que Eu sabia que tratava com corsários, Mas não sabia que havia ladrões de estações.

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Uma carta ao coração
Por Alex Monteiro

Sofrer tuas ilusões Já escuto teus soluções Tuas rosas vão murchar

Sou cumplice de tua inquietação E este teu ritual místico me perturba Tanta preparação me aflige e me amedronta O futuro sempre é incerto Vejo que te adornas de risos Te enfeitas de laços e entrelaças tua emoção Teu jardim tão florido perfumado ficou Há bromélias, orquídeas, Tão singelas tuas rosas, isso é um perigo. Senti você fazer festa Havia ritmo acelerando A cada batida um descompasso E muitos passos desajustados Inquieto estavas com o amor Que te prometeu chegar Mas te trago em mãos palavras tristes O amor não virá! Não é preciso te dizer mais nada Pode derramar teu pranto molhar teu sagrado chão Chorar tua dor

É uma pena! Eram tão lindas e perfumadas Para esse amor que te prometeu chegar.

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CULTíssimo
Por @n[ Ros_nrot

O que seria do mundo Cult sem os pecados e as mentiras? Ele simplesmente não existiria, porque esse universo tão amplo se baseia nas ações e sentimentos humanos mais íntimos, verdadeiros e pecaminosos... E afinal, quem peca e mente mais, o homem ou a mulher? Os dois, pois ninguém pode viver completamente sem pecados e somente de verdades. Mentimos, na maioria das vezes, como forma de sobreviver em sociedade (já repararam que todos se afastam de pessoas muito sinceras?) e pecamos sem perceber, simplesmente porque os sete pecados capitais são coisas simples que fazem parte de nosso cotidiano, claro que os excessos são sempre punidos (ou não). Gula, cobiça, luxúria, vaidade, preguiça, inveja e ira, nossos temidos (e queridos) pecados capitais; quem nunca comeu aquele docinho a mais, quis mais do que precisava, adoraria ter “brincado” daquele jeito diferente, faz de tudo para ser lindo (custe o que custar), daria a vida para não ter que se levantar de manhã, deseja ser melhor que todo mundo (fica até verde) e já quis arrancar a cabeça de alguém? É, acho que todos nós já pensamos ou fizemos algo assim pelo menos uma vez (várias) na vida, portanto somos todos mentirosos e pecadores. O mundo Cult nos representa, revelando toda a obscuridade que existe dentro do mais “normal” dos mortais. Para esse tema mais que especial e controverso escolhi três filmes de épocas diferentes que irão representá-lo muito bem: Entre Deus e o Pecado (Elmer Gantry1960), é um filme baseado na obra homônima do primeiro escritor americano a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 1930, Sinclair Lewis. Brilhantemente dirigido por Richard Bro-

oks e protagonizado por Burt Lancaster no papel de Elmer Gantry (que lhe rendeu merecidamente o primeiro Oscar) um sujeito lindo e imoral, vendedor fracassado e beberrão desonesto que descobre uma maneira “fácil” de ganhar dinheiro ao se juntar com a Irmã Sharon Falconer (Jean Simmons em ótima atuação), pregando o Evangelho pelos Estados Unidos nos anos 20, a beleza, carisma e oratória convincente de Gantry consegue torná-los milionários, verdadeiras celebridades, liderando até um grupo de fanáticos seguidores. Mas ele esbarrará nos pecados de seu passado e terá que enfrentar as consequências. Proibido em várias cidades americanas e em alguns países, Entre Deus e o Pecado é uma obra sensacional com um final extraordinário. Vencedor de três Oscars: de melhor ator para Burt Lancaster, de atriz coadjuvante para Shirley Jones (a prostituta e ex-caso de Elmer Gantry) e de melhor roteiro adaptado para Richard Brooks. Vale a pena conferir.

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Seven (Se7en)− Os sete Crimes Capitais (Estados Unidos, 1995)

É um filme eletrizante dirigido por David Fincher onde o macabro e o violento se unem, com um horror sugerido pior que o mostrado, possui cenas criadas para assustar sem poupar ninguém (não recomendado para os muito sensíveis). Estrelado por Brad Pitt no papel do policial novato David Mills e por Morgan Freeman como o policial veterano William Somerset, eles tem a árdua missão de investigar e prender um assassino em série que mata suas vítimas usando como tema os sete pecados capitais. Conta também com Kevin Spacey no papel de John Doe. Nauseante, surpreendente, com atuações brilhantes e exageradas (que se encaixam perfeitamente) Seven − Os sete Crimes Capitais é um dos filmes mais importantes dos anos 90, um verdadeiro clássico.

Pecado da Carne (Israel/Alemanha/França 2009) É a estreia do diretor Haim Tabakman em longa metragens e trata de um tema polêmico: a homossexualidade. Aaron Fleishman (Zohar Strauss), vive num bairro ultra-ortodoxo de Jerusalém, ele é casado, tem quatro filhos e administra um açougue kosher (herança de família); seu mundo muda completamente com a chegada do estudante Ezri (Ran Danker). Ambos começam a se encontrar e a passar cada vez mais tempo juntos, fazendo com que Aaron (entregue a um conflito interior) tenha que tomar uma decisão importante: voltar à sua vida comum ou se entregar a essa relação considerada pecaminosa. Um filme emocionante, mostrando como a questão da homossexualidade é vista por outras culturas, envolvendo questões sociais, familiares, religiosas e principalmente sentimentais.

Para contato e/ou sugestões é só mandar uma mensagem: anarosenrot@yahoo.com.br
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PROFISSIONAL Por Jan Bitencourt

Tinha um consultório chique na Oscar Freire e métodos nada ortodoxos de cura. R$500,00 a consulta e nenhum convênio. Na placa, alguma terapia de nome complicado. Na sala, as mais diversas práticas sexuais com os pacientes. De todos os sexos. Os amigos de infância se encontraram na sala de espera. Primeiro veio a inveja de quem seria atendido primeiro. No olhar, a dúvida se ela aplicava no outro o mesmo remédio dele. Depois a possibilidade de marcarem os 2 o mesmo horário. Ela entendeu e atendeu o desejo. A partir daí viu a chance de curar mais pessoas em menos tempo. Três delas de uma vez, no caso. Só assim pra dar conta da clientela que dobrou de tamanho.

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Segredos e Pecados
Por Flávia Assaife

Sob as cortinas de nosso interior Avesso a se expor Oculto em um misto de alegria e dor Trancado a sete chaves: segredos e pecados! Histórias de toda uma vida Memória viva e grafada Na pele marcada Na face enrubescida Desejos sigilosos Sonhos indecorosos Vícios escabrosos Atos impróprios Corações sofridos De amores vividos Saudade persistente Povoa a mente insistentemente Imagens se confundem com a realidade Nostalgia sem idade Confidência sem maldade Pecado é não viver a felicidade Preservar uma paixão Segredar um baú de confissão Navegar por um oceano de sonhos Mergulhar no silêncio dos desejos Selar o segredo com um beijo

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MINHAS ENTRANHAS

Por Mirian Menezes de Oliveira Foto de Gilmar Dueñas

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Testemunhas
Por Ly Sabas

O corpo estava caído em alguma parte do jardim. Talvez entre o poste rococó e o canteiro de gardênias. Estava caído lá e só quem viu seus últimos tropeços foi o anão velho desbotado. Depois veio o gato preto. Encontrou os dois copos no banco de pedra do caramanchão. Fugiu, eriçado, para cima do muro. E de lá viu, com suas pupilas dilatáveis, a mulher dar a última tragada no cigarro, entrar no conversível vermelho, acelerar e partir...

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Sibulino
Por Julia Oliveira Godoy
Pés descalços corriam no quintal de terra batida. Sob seus olhos infantis, o minúsculo quintal parecia do tamanho do mundo. Era o seu mundo. Uma imensa galinha amarela com manchas negras e olhos vermelhos e furiosos devorava as inúmeras baratas que, desesperadas, corriam pela terra, enfiando-se nas fendas do solo. Tudo em vão. A galinha, caçadora experiente, cravava, sem piedade, suas ferozes garras nos insetos castanhos e penetrava sua comprida língua em seus esconderijos subterrâneos, buscando, não apenas as baratas, mas também, suculentos vermes brancos e cegos. O garoto perseguia a galinha, percorrendo círculos invisíveis pelo quintal e gargalhando muito. Era o seu jogo favorito.

.. . era a procissão dos devotos de Salafrânio que Prisioneira daquela casa, se aproximava, sua mãe cozinhava batatas velhas e verrugosas em uma sendo seguida panela escura, cuja superfípela banda local. cie estava coberta de fuligem. Picotou alguns aspargos que secavam nos buracos da parede de barro, protegidos pelas divindades enfileiradas em um precário altar de cera. Os fungos que se formavam na escuridão daqueles buracos proporcionavam um sabor especial à refeição. Era dia de São Salafrânio e, por isso, a mãe se empenhava especialmente naquele almoço. Nem se importava com o som do galope do menino lá fora, que chegava aos seus ouvidos sensíveis como o estrondo do martelo de Thor, nem com seus agudos ganidos, que secavam seus tímpanos como ameixas deixadas ao sol. Sonhava com o dia em que seu filho mais novo teria idade suficiente para deixar a casa materna, como fizeram todos os outros antes dele. Já o havia suportado por sete anos e meio, muito mais do que lhe obrigava sua condição de mãe (era o que diziam as vizinhas, aquelas velhas mexeriqueiras), mas ela era

uma mulher condescendente, aprendera a ignorar as anciãs do vilarejo, que perfuravam suas têmporas com seus olhares inquisidores, e tinha pena daquela criança louca com passos desequilibrados de trovão. Por isso o mantinha ali, apesar da idade avançada, fingindo não notar os imensos buracos que o menino, em suas sandices, fazia pelo chão do barraco. Agora, uma insuportável cacofonia se somava aos ruídos produzidos por seu filho: era a procissão dos devotos de Salafrânio que se aproximava, sendo seguida pela banda local. O ribombar dos tom-tons e a vibração das pandeiretas destoavam do som abafado do antigo flugelhorn em forma de meia-lua. Nada era harmônico na desafinada bandinha formada por adolescentes espinhentos, gordas solteironas e velhos senis do pequeno vilarejo camure. Como mandavam as tradições locais, as criancinhas que corriam aos berros atrás da banda distribuíam fitinhas coloridas em todas as casas por onde passava a procissão e recebiam, em troca, umbus e sirigüelas maduros. As crianças que não haviam se comportado bem durante o ano, ganhavam, em vez das suculentas frutas, nacos de carne podre enrolados em barbante, que deveriam ser enterrados ao pé de uma jaqueira virgem (o que era cada vez mais difícil de encontrar, pois a promiscuidade se espalhava como um câncer entre árvores da região). Acreditava-se que esse ritual traria juízo àquelas pequenas cabeças imundas por onde corriam piolhos displicentes. Sibulino nunca participava das procissões e outros eventos, na verdade ele raramente saía de casa. A mãe já se acostumara com a presença a cada dia mais invisível de seu filho, sempre entre as paredes do casebre, enfiando -se escorregadio pelos buracos onde cresciam trufas almiscaradas e fungos de cores vivas e exuberantes. “Não coma os fungos”, ela dizia sem muita convicção. Não acreditava que o garoto pudesse entender qualquer palavra que ela dissesse.
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As palavras escapavam de sua boca mecanicamente, como um resmungo. Qual um verme, ele devorava ruidosamente o barro e tudo o que nele habitava. Saciado, dormiu pesadamente, enrodilhado como uma criatura comprida e cheia de pernas, semelhantes a pequenos pêlos pretos, por toda a extensão do seu corpo esguio. Ainda assim, a mãe encaixou uma batata fumegante em um dos buracos do barro. O cheiro penetrou pelos seus poros, despertando-o aos poucos. Movimentou lentamente o seu corpo pesado, que já não cabia naquele túnel estreito, o que fez surgirem crepitantes rachaduras na velha parede. Afrouxando as longas pálpebras, exibiu dois pontinhos negros e brilhantes. Seriam olhos? Esticou uma boca segmentada, estendendo seus anéis viscosos, e sugou a imensa batata, destruindo-a em segundos. “Estava muito gostoso, mamãe. Obrigado!” Por um instante, a mãe vislumbrou o sorriso inocente do seu pequeno anjinho, emoldurado por bochechas rosadas. Recobrando a pouca razão que lhe restava, lembrou-se que o menino há vinte anos já não habitava mais aquela casa. Num lampejo, destruiu a vassouradas furiosas o monstro que se escondia na parede.

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VARAL DO BRASIL: SUCESSO NO 27o SALÃO INTERNACIONAL DO LIVRO DE GENEBRA!
Sábado, dia 27 de abril: inicia-se o período de montagem para a feira do livro que dali a poucos dias abrirá suas portas para o público. Entro, vejo o estande, maior do que aquele que tivemos em 2012 e me encho de ansiedade: nossa! Quanta responsabilidade! Mas começamos então: limpeza, ordem dos móveis, preparação. Domingo, dia 28 de abril: lá vamos nós novamente para o Palexpo, local onde acontecerá o evento. Desta vez vamos carregados de livros, caixas e mais caixas de livros. É importante que estejam bem embalados, separados, prontos para ir para as estantes que hoje montamos com afinco. Segunda-feira, dia 29 de abril: com as estantes montadas iniciamos o melhor de tudo, ou seja, colocar os livros no lugar. Um por um, os livros vão para os seus lugares (de onde, metodicamente, serão trocados diariamente durante os dias de evento). Mais limpeza, mais ordem, mais preparação. Terça-feira, dia 30 de abril: os livros estão nas prateleiras, vamos trazendo aos poucos todos os objetos que farão parte do nosso ambiente durante os próximos dias. Muito cuidado para não esquecer nada. E alegria de ter autores já chegando, encontros que já acontecem! Quarta-feira, dia 1º de maio: Ainda não são oito horas e já estou no local. Tiro o pó, ajeito os livros, preparo a mesa para os primeiros autógrafos do dia. Dali a pouco mais de uma hora e meia as portas se abrirão para o 27º Salão Internacional do Livro de Genebra. Autores chegarão de várias regiões do Brasil e da Suíça, de Portugal, da Bélgica, da França, da Suécia. O público “invadirá” o Salão e estará aberta a maior feira literária da Suíça! E tudo começou assim. Foram cinco dias maravilhosos, produtivos, felizes, dias onde mais uma vez se percebeu que trabalhar vale a pena, que todo esforço é recompensado.

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Diretamente da Bahia autografou o jornalista e escritor Valdeck Almeida de Jesus que já estava conosco no ano passado. Seus livros Memorial do Inferno, Sim, sou Gay e Daí?, juntaram-se aos novos livros: Fala Escritor, Abre a Boca Calabar e Prêmio Valdeck Almeida de Jesus. Em seguida tivemos, vinda de Bienne, Suíça, a alegria em seu estado mais puro, Lúcia Amélia Brullhard, que lançou o livro infantil Mada-Leninha e o Desaparecimento de Bubu, em Português e em Francês. Lúcia Amélia, através de seu novo livro, faz um alerta e mostra às crianças e aos pais a importância de estar atento sobre esta questão de desaparecimento de crianças. Vinda de Minas Gerais, a doce Deucélia Maciel nos presenteou com seus livros infantis Léa e Lua, Bento Bentinho e seu mais novo lançamento, A Biblioteca Encantada. Deucélia, sempre assessorada por seu esposo e grande companheiro, o escritor Carlo Montanari, fez a alegria de muitas crianças. Em seguida, tivemos a aura de paz que invadiu o estande através de Eder Roberto Dias, autor de muitos e muitos livros e que apresentou seu romance O Amor Sempre Vence. Assessorado pelo eficiente Luis Gomes, Eder conseguiu passar a todos os visitantes uma energia muito positiva com suas palavras de confiança, fé e alento. Logo depois, ainda neste primeiro dia, tivemos a organizadora da antologia II Coletânea Poetas Fazendo Arte em Búzios, Sonia Medeiros Imamura, que trouxe com ela, através de um banner, todos os participantes do livro. Autografou no mesmo momento o cantor e compositor carioca Marcos Assumpção, que também tem seus versos no livro. O primeiro dia encerrou suas sessões de autógrafo com a potiguar doce e inteligente, Jania Souza. Jania apresentou ao público três de seus livros: Magnólia a Besourinha Perfumada, Rua Descalça e Fórum Íntimo. Nem é preciso dizer que Jania conquistou a todos e ainda nos presenteou com antologia organizada por ela no Rio Grande do Norte.

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A quinta-feira iniciou suas sessões de autógrafos com a fotógrafa paulista Leni André que trouxe o livro Cores de São Paulo. Um livro de fotografias onde São Paulo é totalmente dissociada de sua imagem cinzenta e chega aos olhos do público colorida e alegre. A talentosa Deucélia Maciel retornou para autógrafos e logo após iniciou-se o lançamento do livro Viagem pelo Mundo, coletânea infantil organizada pela incrível presidente da Associação Literarte, Izabelle Valladares. Presentes para o lançamento, os escritores Ana Maria Stoppa, Deucélia Maciel e Carlo Montanari. Continuando as sessões de autógrafos tivemos então Jan Bitencourt, vinda de Jundiaí, São Paulo, uma faísca de juventude e alegria que invadiu totalmente o estande e todos os demais, autores e visitantes. Com seu talento comprovado no livro Versão Beta, Janine distribuiu savoirfaire. Logo em seguida tivemos a presença de Clara Machado que esbanjou não só simpatia, mas energia muito positiva ao apresentar seus livros de autoajuda Se a vida te der um limão, A Paz DOeu, Da água para o vinho e O Despertar da Delicadeza. Enquanto aguardamos para daqui a alguns meses o seu novo livro sobre o sofrimento das mulheres na época da ditatura (Almas Feridas), pudemos constatar o sucesso de Clara com o público. Voltou logo depois à cena a Literarte, com sua Conselheira Representante Dyandreia Portugal e as autores Adina Worcman, Betty Silberstein e Myriam Loureiro que lançaram com muito êxito o belíssimo livro Elas Pintam, Elas Pensam. O livro, em sua versão em Inglês e apresentação luxuosíssima, destacouse e destacou as participantes, mostrando a arte brasileira em suas mais belas formas. Dyandreia, aliás, veio com seu jornal e SEM FRONTEIRAS fazer a cobertura da participação do Varal do Brasil no evento. Dedicação, simpatia, muitas mais seriam as palavras para descrever o profissionalismo e atenção de Dyandreia Portugal. Após um dia intenso fomos todos para o restaurante Les Brasseurs, onde aconteceu maravilhosa confraternização. Muitos declamaram, cantaram, discursaram. Foi emocionante! E a voz de Marcos Assumpção cantando sonetos de Florbela Espanca musicados por ele invadiu a todos nós e nos preencheu de harmonia.

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A sexta-feira chegou com o talento de Roselis Batistar e o frescor de Rita Varino (Ainoha Leporello). Roselis, professora universitária na França e que já viveu e lecionou em países como México e Rússia, presenteou-nos com seu talento poético através dos livros Cristais de Orvalho, Lírica nem sempre amorosa (ambos bilíngues Português e Espanhol) e também o livro Compromisso com a Verdade, meio século de jornalismo, escrito com e para seu pai, o jornalista Oduvaldo Batista. A juventude de Rita Varino, autora portuguesa vinda de Portugal, foi como uma primavera dentro do estande. Rita, em seu livro de poesias Fragmentos de uma alma, mostrou doçura e maturidade. Momento de euforia, a sessão de autógrafos da autora Irma Galhardo, de Tocantins e da ilustradora Narubia Werreria Iny, representante da tribo Karajá. As duas representantes da cultura do belo estado de Tocantins incendiaram o estande com flores e cores e com as belíssimas bonecas Karajá. Narubia fez pinturas índias no rosto de vários autores e de várias crianças. Uma festa! Saskia Brígido, cearense de Fortaleza, esbanjou sorrisos e sua alegria contagiou as crianças. Seus livros, As Férias de Analuz, O Jardim Secreto de Analuz, Uma Cidade no Fundo do Mar e Pedagogia do Encanto, literalmente encantaram a todos. Voltou para nos encantar com seu talento Jania Souza e autografou também nesta tarde Gorete Newton, vinda da cidade suíça de Winterthur. Gorete trouxe o livro Ostracilda, a ostrinha infeliz. O livro Ostracilda, em seis idiomas, foi parar nas mãos de muitas crianças que dali saíram muito felizes. Tivemos logo depois o dinamismo e a coragem de Jô Ramos, vinda do Rio de Janeiro, que com seu livro Violência contra a Mulher, dê um Basta! falou sobre a triste realidade que ainda nos dias de hoje acontece com centenas, milhares de mulheres em todo o Brasil e também brasileiras no exterior, que sofrem com a violência.

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Em seguida autografou o autor pernambucano Samuel Lira que nos trouxe o seu talento, sua simpatia seu livro onde realiza uma instigante discussão teórica, trazendo como objeto de estudo a obra de Gilvan Lemos, o Anjo do Quarto Dia. Autografou logo depois a autora Flávia Assaife, autora nascida em Brasília e residente no Rio de Janeiro. Flávia, que já havia nos brindado com sua presença no ano passado, assim como Valdeck Almeida de Jesus e Lúcia Amélia Brulhardt, veio este ano lançar três livros: o já apreciado Viajantes da Lua, seu novo livro Segredos do Coração e o infantil Princesa Júlia e o Guerreiro Artur. Flávia Assaife, autora que a cada dia se firma mais no cenário literário nacional, deixou por aqui sua indelével marca! Pela primeira vez na Suíça tivemos a oportunidade de apreciar e comprovar o talento do escritor Paulo Levy, nome já consagrado nacionalmente no Brasil por seus livros Réquiem para um assassino e Morte na Flip. Paulo Levy, que já impressionou os críticos e leitores por todo o Brasil com seu detetive e seus romances policiais, mostrou que a língua não é barreira quando o talento é mestre. Fechamos a sexta-feira com um coquetel e o lançamento internacional do livro Varal Antológico 3, terceira coletânea da revista Varal do Brasil. Com a presença dos coautores Jania Souza, Dyandreia Portugal, Flávia Assaife, Caroline Baptista Axelsson, Luiz Carlos Amorim e Roselis Batistar, pude, feliz, lançar aos três anos e meio de existência da revista Varal do Brasil, esta celebração de nosso trabalho. Ao final da apresentação o livro foi distribuído ao público presente.

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Nosso sábado iniciou-se com os autógrafos da autora de Búzios Sonia Medeiros Imamura e do catarinense Luiz Carlos Amorim. Amorim, vindo diretamente de Florianópolis, veio nos brindar com a apresentação de seu novo livro O rio de minha cidade e também com os livros Borboletas nos jacatirões e Nação Poesia. Trouxe-nos também a revista do Grupo A Ilha, edição especial sobre o Salão Internacional do Livro de Genebra e que foi distribuída aos presentes, autores e visitantes. Presença do Paraná, Leonia Oliveira veio de Curitiba lançar seus livros Trigo e Astrolábio. Também autografou O Fio de Ariadne e Guia prático do pior vendedor do mundo. Autora de peças de teatro entre outros estilos, Leonia vem consolidando-se com um talento seguro a ser seguido e admirado. Vencedora de prêmios, tendo um de seus livros o projeto de se tornar filme no próximo ano, a autora do Espírito Santo Tamara Ramos irradiou simpatia entre os autores e demais presentes. Autora de Um neurótico no divã (sucesso nacional no Brasil), do livro de fantasia Fiona e o Jardim Secreto e do seu mais recente lançamento Um tango para Alice (que será transformado em filme), Tamara trouxe ainda, para alegria dos visitantes, canecas e almofadas caracterizadas com imagens de seus livros. Leni André, Saskia Brígido e Gorete Newton, Jan Bitencourt, Irma Galhardo, Narubia Werreria Iny e Roselis Batistar voltaram a nos alegrar com suas presenças e Paulo Levy, que uma vez mais autografou conosco viu-se diante de um quase dilema: poucos exemplares do livro Morte na Flip ali estavam pois todos já tinham saído! Veio também brindar nosso estande, vinda diretamente da Bélgica, a autora portuguesa de livros infantis Dulce Rodrigues. Dulce, que é autora de muitos títulos já conhecidos do público europeu, escreve em Português, Francês e Inglês, tendo sucessos como Era uma vez uma casa e Papai Noel está gripado. Nova confraternização no sábado a noite reuniu autores, novos amigos, admiradores que pelo estante passaram... e ficaram!

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E enfim chegou o domingo, o último dia! Neste dia tivemos o retorno de Valdeck Almeida de Jesus, Eder Roberto dias, Jô Ramos, Leonia Oliveira, Clara Machado, Tamara Ramos (que também viu-se praticamente sem livros!), Dulce Rodrigues, Luiz Carlos Amorim, Saskia Brígido! E tivemos a forte presença da piauiense residente no Rio de Janeiro, a escritora Ana Rocha com seu pungente livro sobre as trabalhadoras brasileiras: As Trabalhadoras da FAET que conta o drama atual das mulheres que trabalham fora, em indústrias principalmente e ainda têm que dar conta de tanto mais nas suas duras vidas. Na alegria do ambiente de nosso estande tivemos a enorme e grata surpresa de receber a visita do renomado escritor internacionalmente conhecido Paulo Coelho. Paulo Coelho, que ouviu falar de nosso trabalho através do amigo comum Luis Gomes, veio ao Salão do Livro expressamente para conhecer o Varal do Brasil. Sua visita foi emocionante e gratificante, ainda mais quando, pouco tempo depois de sua partida, voltou Paulo Coelho ao estande e me apresentou a Presidente do Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra, Isabelle Falconnier.

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Emocionante! Palpitante! Fantástico! Estas, entre outros eram as palavras utilizadas para descrever como seria o Salão 2013. Pois posso, sinceramente, dizer isto e muito mais do que foi para nós estar presente com nosso estande VARAL DO BRASIL. Cumprimos nosso objetivo: divulgamos nossos autores, apresentamos nossos talentos! Levamos mais longe a nossa Língua Portuguesa! Com harmonia, alegria, muita emoção, terminamos nossa participação. Sete e meia da noite cantávamos, já desmontando: Ai, ai, ai, está chegando a hora... e lágrimas, muitas lágrimas já de saudade banharam nossos rostos felizes. MUITO OBRIGADA AOS AUTORES QUE EM NÓS CONFIARAM! MUITO OBRIGADA A TODOS OS QUE NOS VISITARAM! MUITO OBRIGADA AO ESCRITOR PAULO COELHO POR TER VINDO PRESTIGIAR O QUE LUTAMOS TANTO PARA ESTABELECER: O VARAL DO BRASIL HOJE É SÍMBOLO DA LITERATURA SEM FRESCURAS! ATÉ 2014, QUANDO ESTAREMOS NOVAMENTE NO PALEXPO LEVANDO MAIS DA NOSSA MARAVILHOSA LITERATURA!

Mais fotos em nosso site: www.varaldobrasil.com ou no blog www.varaldobrasil.blogspot.com
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PLANALTO

Por Emanuel Medeiros Vieira O Planalto é sempre: antes e depois, pedras, rios, sol, entardecer, pessoas (céu sem mediação, espaços abertos, seca, chuva, manga madura no chão.) O Planalto não passa: nós é que passamos. O pó volta a terra, mas queremos permanecer: algo de papel, algo de carne, um jeito de menino que foi nosso, riso, boininha, gaita-de-boca ah, um desajeitamento, estranho no mundo, um lenço, cheiro de naftalina no guarda-roupa, macaco em loja de louça. Já faz tempo que o homem existe, mas o Planalto é mais antigo. E uma ilha, que fica ao Sul do efêmero, pandorga, vento, tainha inundado de água: aqui, no Planalto, que não passa, nós é que passamos.

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QUINDÃO INGREDIENTES 1 coco PEQUENO ralado 2 colheres (sopa) de manteiga 15 gemas ½ kg de açúcar

Junte todos os ingredientes e misture bem com o batedor de ovos até obter uma massa lisa e homogênea. Deixe descansar, coberta, por 1 hora. Unte uma forma para pudim, com manteiga e polvilhe com açúcar. Coloque a massa, cubra e deixe descansar por mais 2 horas. Pré-aqueça o forno. Asse tampado, em banho-maria. Retire do forno e deixe esfriar. Desenforme. Fonte: h#p://marlenybu#er.blogspot.com

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Nunca diga adeus
Por Audelina Macieira As pessoas que lhes sorriem E lhes estendem as mãos Elas lhe dão afeto Nunca diga a elas adeus Diga, vou aqui e volto já Deixe a esperança brotar do reencontro Brotar é viver Com esperança Nunca diga adeus As pessoas que te dizem eu te amo! O tempo já faz isso O tempo todo Um dia já não haverá Saudade E até logo! O adeus É certo E o final será eterno.

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Edgar Rizzo e Carlito Maia, a arte que faz história
Por Cida Sepulveda

Hoje, acompanhei doze alunos de 8º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Maria Pavanatti Fávaro ao teatro para assistirmos à peça escrita e dirigida por Edgar Rizzo, Carlito Maia, do Sagrado ao Profano. Teatro Castro Mendes, belíssimo e lotado. Os alunos sentaram-se na 1ª fileira, curiosos, surpresos, felizes e respeitosos. Edgar anunciou o espetáculo, falou que hoje é o dia mundial do teatro e aniversário do grupo Tespis, 39 anos. Impressionou-me a qualidade do trabalho como um todo: texto, direção, montagem, música, figurino, voz, interpretação - há uma riqueza de detalhes em todos esses elementos e nos quadros que compõem a peça. Baseada em fatos reais, mas sem compromisso de retratar fielmente a história de Carlito Maia, a peça aborda diversos temas que estão presentes na atualidade: homossexualismo, preconceito, autoritarismo, sensibilidade, solidão, política, corrupção, entre outros. O diferencial do texto e da montagem está no lirismo que permeia toda a composição. Um lirismo lapidado. Não há arestas ou excessos que provoquem tédio ou irritação. A peça é contagiante: a gente se emociona, ri, aprende e sonha. Meus alunos e eu aprendemos muito sobre o artista Carlito Maia, filho rebelde, e seu pai, homem autoritário, político importante de Campinas, Orozimbo Maia; sobre a chegada da luz elétrica na cidade. Os jovens certamente não tinham ideia de que eram transmitidas as novelas nos anos 30 e 40 do século XX. Uma das cenas mais engraçadas da peça é justamente a apresentação de um capítulo de melodrama, através do rádio. Campinas ganha um presente, um espetáculo que tem força poética - resultado de experiência, profissionalismo e sensibilidade. Não é pouca coisa em tempos de vacas magras nas artes em geral.

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A VIDA IMITA A ARTE
Cintia Medeiros

Oi Varal, bom estar novamente com vocês! E ai, preparados pra mais uma coluna “A vida imita a arte”?! Eu também, mas antes acho melhor cada um tirar a roupa do varal, porque tá nublado e vem chuva por ai! O tema que eu escolhi pra esse mês foi “a arte da infância”; responda rápido, já fez alguma arte quando criança? Alguma peripécia que lhe rendeu um belo de um castigo ou uma surra memorável? Aposto que a resposta a essas perguntas foi sim, e aposto um doce que você lembrou de um feito genuíno que cometeu. Tem uma música de autoria do Milton Nascimento e do Fernando Brant, que diz assim:

Bola de Meia! Bola de Gude! O solidário não é solidão Toda vez que a tristeza Me alcança O menino me dá a mão... Há um Menino! Há um Moleque! Morando sempre no meu coração Toda vez que o adulto balança Ele vem pra me dar a mão...

Sempre que eu a escuto, eu confesso que me coloco em algum momento lá atrás na minha infância, reencontro a Cintia pentelha e viajo em alguma travessura cometida com meus irmãos ou com meus primos, verdade seja dita, ser criança é muito bom! E como sempre fui uma menina tímida, quietinha, estava quase fora de suspeita nas artes, exceto pro meu pai, que sempre me pegava no ato; ele costumava dizia que eu gostava de esconder as unhas. Pode uma coisa dessas?! Não sei se concordo muito, mas aprontei um pouquinho!! Eu escolhi falar da infância, porque é uma época maravilhosa, uma preparação para a vida adulta; na verdade vejo com um escape, ser adulto não é fácil, e é na infância que somos instruídos sobre valores, é quando aprendemos a valorizar as relações com a família, a socializar nas brincadeiras com os amigos, a opinar sobre gostos e cheiros, e de forma geral, a aprender lidar com os problemas e com a rotina da vida. (Segue)

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A minha infância foi, digamos assim, um misto de criança e adulto; desde cedo eu e meus irmãos precisamos ajudar nossos pais no trabalho, as condições financeiras da época não eram fáceis, brinquedos então foram poucos; mas nós tínhamos uns aos outros, e criatividade nunca nos faltou, pelo contrário, todo dia era uma artimanha nova...exemplo disso eram os dias de chuva, se tornavam verdadeiros festivais de brincadeiras. Aliás, alguém aqui já tomou um banho de chuva?

que cresceram tendo tudo, mas que não tiveram amor. Assisti alarmada outro dia, uma reportagem que mostrava pais dando uma mini espingarda a um menino de 5 anos (nesse país é super comum), detalhe carregada, sem querer ele matou a irmã. Bom, eu posso estar errada, mas não vejo uma arma como um brinquedo. Brinco com meus amigos que quando for mãe, quero criar meus filhos no interior, pra eles terem o contato com a terra, com a natureza, com os animais. Para um adulto uma rua asfaltada é sinal de zelo da prefeitura com os impostos pagos, mas para uma criança uma rua de barro é sinal de liberdade...de poça d’água na chuva, de bolinhas de gude correndo, de pipas dançando no céu, de pião correndo, de queimada e pega-pega. São coisas tão simples, alguns aqui podem achar que isso seja clichê, mas eu acredito que uma criança precisa crescer rodeada de outras crianças, precisa brincar, dar-se o direito de ter uma infância. Jogos eletrônicos são ótimos, computadores são ótimos, tudo isso faz parte da modernidade de hoje, mas tem que visto como complemento no dia-a-dia, não prioridade. Portanto Jovem! Adulto! Adolescente! Acordem, libertem suas crianças interiores, e permitam que as de hoje tenham uma infância de verdade...feliz! Há um Menino! Há um Moleque! Morando sempre no meu coração Toda vez que o adulto balança Ele vem pra me dar a mão...

Confesso que nunca mais vi alguém fazer isso, mas adorava...eu literalmente pulava nas poças d’água, chegava em casa uma porquinha, mas minha mãe não brigava...dizia que era pra criar anticorpos...meus primos então, corriam pro campinho de cima pra jogar bola. Minha infância tem gosto de manga tirada no pé, de cirandas criadas com os amigos, de final de copa torcida na rua com os amigos, de pequenos complôs de crianças (onde os motivos eram bobos, línguas eram estiradas, o dedo mindinho simbolizava uma amizade rompida, ninguém se machucava e no final todo mundo ria). Foi uma época muito gostosa; o que eu tive na minha infância, os amigos que eu conquistei, as brincadeiras que eu participei e os valores que eu aprendi...vejo que nos tempos atuais isso seria muito mais complicado, hoje uma criança de 5 anos não tem mais liberdade de brincar na rua, nem num parquinho, a maioria não; tanto por questão de segurança como por comodidade, outros “brinquedos” nada comuns deram espaço às brincadeiras antigas: são tablets, computadores e videogames; a convivência com os amigos está ficando fora de moda, e acaba-se por formar adultos solitários, incapazes de se relacionar com outras pessoas, tire os últimos crimes de serial Keller e atentados como exemplo, são pessoas sós,

C Contatos com a colunista: c cintia.bonidoci@gmail.com

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Deslumbramento

Por Maria Lindgren Oitenta e cinco anos e uma vida de desejos cada dia mais difíceis de realizar, eu sei. Exercito meu corpo, minha maior preocupação e, por que não dizer, alegria. Desportista amador em time de vôlei de areia organizado pelo meu pessoal do banco em que trabalhava. A contragosto, passei para a corrida no calçadão, depois, passinhos bem rápidos, finalmente, caminhadas de passo lento. Deixei meio tristonho os colegas ao pé da rede, mas conformado: ninguém gosta de gente brocha na vida esportiva. Se encontro com eles, aperto o passo: não dou o braço a torcer. Aliás, nem sei porque essa vaidade toda. Meus amigos praianos daqui a pouco vão estar que nem eu: aposentados do caixa de banco, sem grana e cheio de dores. Joelho, então...

No dia da aposentadoria, que festa que os colegas me fizeram! Até Prosecco tinha. Claro que champanhe não dava para os bolsos furados. As moças trouxeram salgadinhos e um bolo brigadeiro incrível. Nunca fui tão feliz. Nem nos tempos em que achava que banco pagava bem e me metí a estudar para o concurso, com uma garra! Trinta anos de caixa, gente, é danado pra qualquer um. A bunda não aguenta mais ficar assentada numa cadeira dura o dia todo. O corpo fica moído. Depois, estranhei a falta da rotina. Quase fiquei deprimido. O doutor do Plano de Saúde que me deu um antidepressivo e um conselho sábio foi quem me salvou: - Jamais pare de fazer exercício com o corpo! Moro perto da praia dos maduros e quase-caducos de velhice: Copacabana. Um verdadeiro presente. Chuva fina ou sol mais ou menos, lá vou eu ao passeio pelo calçadão. Durante anos, com minha mulher; sozinho, depois de viúvo. Talvez minha passada seja ridícula de pequena, meu joelho não dobre bem, mas ainda tenho bastante garra. Do Posto Cinco ao Leme, lá vou eu devagar e sempre, impulsionado por vento e vista, na praia mais linda do Rio. A que atrai mais turistas, até hoje. Paro para uma água de coco, respiro fundo e continuo, mais refrescado, mais atrevido. Sinto-me bem, um atleta ainda e sempre. Enquanto há vida, há atletismo, sinônimo de saúde. Tosas as manhãs e à tardinha, o mesmo programa: caminhar, ver gente animada de todas as idades. Nem preciso botar despertador: às seis e meia, me levanto , tomo café da manhã e... praia. Estou morenão, com a careca protegida pelo boné, que não sou bobo. Ganhei um de meu filho mais velho que mora sabe onde, na Bulgária. ´E todo vermelho, com letras brancas na frente, escrito Sofia, Bulgary. Acho que ainda é homenagem ao comunismo que já acabou há muito tempo. A dor de cabeça, a tonteira e a voz sumida, caso de minutos. Pânico geral. Doutores da melhor qualidade vaticinaram o acidente vascular cerebral grande, sem cura, por certo. Eu não entendia nada. Aos poucos, disseram
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Ganhava uma miséria, mesmo com as greves seguidas que fazíamos. Eu, claro, aderia, No tempo de caixa, eu vivia me queixando. - Meu sem pestanejar. Deus, ter que lidar com dinheiro é fogo. Quanta gente chata! A velha reumática sem acompanhante nenhum não sabe nem o número da conta, que dirá senha de cartão. A moça aposentada por neurose treme tanto que o cartão cai várias vezes no chão e os vizinhos de fila têm que apanhá-los. O moço uniformizado de não sei quê é burro demais: custa a entender que dia de pagamento o banco fica cheio e reclama comigo que não tenho nada a ver com isso. A curadora do filho doente pensa que tudo se justifica, só ela tem problema, exige atenção especial até do gerente... Eu achava que um dia eu dava um berro, mandava todos para o inferno. Ou, mais simples e menos pecaminoso, à merda. Aposentei-me com os famigerados trinta anos de serviço público, que meu banco é público. É tempo pra burro. Eu não aguentava mais. Ganhava uma miséria, mesmo com as greves seguidas que fazíamos. Eu, claro, aderia, sem pestanejar. Até para a porta do banco eu me mandei, com risco de receber uma cacetada da polícia, que teve que ser chamada muitas vezes, para acalmar a turba.

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não sei a quem que o coágulo se ajeitaria no cérebro ou se diluiria. Com o tempo, se não houvesse nenhuma complicação. Quero falar, quero me mexer na cama, nada: apenas rostos embaçados a minha volta. Nem sei como tomo líquidos. E toca de exercícios, toca de esforços: uma infinidade. Nem assim. Ah!, meu Deus! Que saudade do tempo em que vivia a brisa da praia no outono bonito da cidade! Ou mesmo no inverno de pouco frio! No verão tórrido, menos, confesso. Respiro melhor, balbucio palavras, como se perguntasse à moça de branco o que tinha havido, quando ia poder sair de casa. Ela disfarçava, não dizia coisa com coisa. Caso muito grave, pensa ela. Levaria meses até que pudesse transformar os sons em palavras articuladas. Fazia pequenos movimentos, mais tarde gestos, soltava gemidos altos que só faziam irritar as pessoas. Braços, mãos, pernas...tudo esquisito. Estou melhor um pouco, não sei. Olho para o lado da cama e vejo uma cadeira à minha espera. Ah! É uma cadeira de rodas. Nem que seja para andar pelo quarto, ir até à janela, aos poucos, quem sabe, à sala, à varandinha... Olhar pela janela já é pedir demais. Embutido em mim mesmo, autista sem o ser, eu definho, eu sei, mais por falta de interesse do que de músculos. Depois de um tempão, decidem me colocar a muque na cadeira. Que drama! Muita agonia, muito suor e, afinal, aleluia! Sentado, levam-me para a janela do quarto, mas não dá para ver grandes vistas. Uma nesga de céu e olhe lá. Consigo ver a chuva, que bom! Não saio há meses. Se ao menos morasse em casa com quintal, logo perdia essa cor amarelada, todos concordam. - Coitado, está melhor. Parece que quer dizer alguma coisa importante e a gente não entende -, fala a enfermeira. Reza, choro, ranger de dentes e ínfimos progressos. Pode-se dizer que eu me limito a abrir a meia-boca para comer as papinhas, que não me pedem esforço brutal. Não sinto fome, sede, nadinha do que um ser humano necessita para minimamente alimentar o corpo e viver. Nem vontade de fazer xixi. Que dirá, cocô. Os pensamentos, esses, não estancam. Misturo lembranças do passado, com medo do presente. Não penso na morte porque tudo é pouco nítido, quanto mais uma coisa que ninguém conhece antes da hora. Depois de um ano de labuta médica,

enfermeira trocada mil vezes por implicância familiar – aí incluidos a filha casada e os netos maiores – o som da primeira palavra articulada: pppraaaia. Aleluia! Falei e disse! Contente da vida, a acompanhante mais ágil que o resto me coloca na cadeira quase sem esforço, porque quando se quer se consegue – meu lema atual. Vai comigo até o elevador acho que de serviço, porque cadeira de roda não serve para elevador social. Pede ao porteiro que abra a porta da frente do prédio e... a rua, gente! Parece Lisboa mais bonita ainda, com suas pedras portuguesas bem colocadinhas todas. Carros e carros, que progresso! Cada prédio, mama mia! Encho meus olhos de lágrimas: pura alegria. A cadeira empurrada pelos dois quarteirões que me separam da Avenida Atlàntica, o vistão. O sol parece luz de quase cegar, a pleno vapor, o céu azul claro ainda mais nítido que no verão, a brisa do outono fresco a me bater suave no rosto. Estou no calçadão de meus amores, enfim. Olho o estirão de areia que me parece muito limpa, passo a vista nas as ondas a baterem amantes em dia de amor calmo, no verde-azulado do marzão que vai dar na África. Inspiro o ar mais e mais, saído de um pesadelo, sorrio para a acompanhante mais simpática e eficiente deste planeta e, em muito menor esforço de cabeça e boca, peço à moça : á...gua de cooo....co. Desse dia em diante, quem passar às oito horas da manhã pela praia urbana mais famosa do mundo, verá no calçadão um senhor todo de branco – bermudas, camiseta e tênis, chapéu de caçador em safari na cabeça – não se passa para ridículos bonés -, sentado numa cadeira que brilha ao sol, acompanhante sorridente ao lado: o nosso homem em franca recuperação. Nem eu mesma quero perder o dia em que o vir em pé, ensaiando os passinhos curtos que o levarão de vez à felicidade.

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ARIANA
Por Graça Campos À luz do Sol, estrela matutina Vislumbro o novo, permito o nascimento Que salta desse fogo ariano, anseio de vitória Coragem preenchida do desejo de resgates Provações dos embates atrevidos, Crença do mito, pelo desafio...

No vermelho de Marte, E nas cores brilhantes Do amarelo, e o escarlate A coragem, otimismo ante a vida.

Eu sou semente, que reza o início Amor fecundo, cristal me lapidando Impaciente, em fases e desvios Quando, impulsiva, vou me aventurando...

As minhas vestes são a transparência De mil viagens de meus pensamentos E, aos tormentos, busco a fé bendita Trago no peito a pedra ametista Recolho-me à sombra do Carvalho E busco na beleza estelar Fios dourados no brilho do carneiro Para vestir a nova criação!

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A Gata
Por Mariana Salomão Carrara Já todas as luzes no escuro e as portas fechadas e o barulho hesitante do teclado do meu computador na única sala acesa dentre tantos corredores. O vazio, as sombras, as reminiscências das tantas gentes que passaram durante o dia, os choros, abraços, o tilintar das algemas, chinelos, crianças: tudo no silêncio jurídico da meia noite dentro do fórum criminal. E é nesse lugar, nessa noite lenta, que ela sai das suas trevas no jardim central – esse impossível antro de vida selvagem na estufa de ar condicionado e sol fosforescente em mil lustres de licitação – para uivar o lamento agudo de mais um cio solitário. É aqui que ela chora o seu cio bandido, clandestino, seu cio de ferro. A gata sozinha entre moitas quase sintéticas e passarelas negras por onde já não vê doutores, senhores, louvores, nem mesmo já não vê desgraças, só a sua fúria uterina a lhe contorcer os ovários, a pulsar no ventre esse fruto que não vinga, esse despontar de fertilidade desaproveitada. A gata malhada a gritar, a espalhar pelo eco a sua força, a sua dor de ausência, a embaralhar entre as letras do meu computador o chamado doído do seu desejo. Uma pausa minha a cada frase, o meu grito calado em respeito a esse miado louco desatendido porque não há animal que alcance a fêmea nessa impenetrável clausura. Nesse lugar cheio de prisão vem ela escancarar sua escravidão maior, sua ânsia insaciável dentro desse grande bloco de concreto. A gata no seu lamento cada vez mais alto, insuportável desespero que nenhum afago abranda, nenhum copo de leite. A cada berro fica em mim a certeza de uma energia linda, fulgurosa, única, que ela dissipa em tremores de um cio desencantado de cárcere e solidão. Apago a última luz e deixo a gata sozinha com o eco insistente de todo o seu amor. Lá fora uma súbita lua dourada num calor de inferno, que me segue até o carro, até a casa, até a cama.

Foto de Ryan Lee Turton

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Pecados na Noite
Ana Rosenrot Te esperei até altas horas, no bar lotado, sozinha... Procurava em cada rosto seu sorriso, que não vinha... No ambiente opressivo os sons se misturavam, estranha sinfonia... A cada drink o mundo se transformava, ampliava, coloria... A tristeza em vapores alcoólicos, desvanecia... Uma misteriosa figura se senta ao meu lado, sua mão toca a minha, úmida e fria... Esqueço completamente quem eu esperava, a mente esvazia... Meus lábios se unem aos do estranho, sede, calor, nostalgia... Saímos pela rua sem rumo, seus olhos me olham cheios de promessas, de luxúria, pecado, fantasia... Deixo-me levar em direção à escuridão, nossos desejos em perfeita comunhão, telepatia... Amamo-nos em desespero, temendo perder a magia e enfrentar o censor dos amantes, a luz do dia.

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QUASE

Por Carmen Di Moraes Eu só senti de leve, a tua boca, Eu só senti de leve, a tua barba. Mas não foi só de leve, que eu senti... Que o meu corpo despertava. Com aquela sensação, De ser quase beijada... Ou ser quase querida... E como o quase, Faz parte da minha vida, Já não tenho mais mágoas, Nem feridas... Dos meus quase. Eu não quero perder O teu carinho de amigo, Apenas por um quase. Mas eu daria Quase... toda a minha vida, Para que tu não fosses Na minha vida... Só... um quase...

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A AMA DE CHAVES
Por Roselis Batistar *(lembrando-me que fui a ama de chaves na dublagem do desenho animado russo "O Castelo de Canterville" baseado na obra homônima de Oscar Wilde; agora podia voltar a se-lo, mas na realidade, como a ama de chaves de minha propria mae em sua propria casa).*

Tenho as chaves: sou a ama de chaves do castelo baixo De rés-do-chão, Como caminho de mesa, Com a ventarola dos pomais Agora mais imaginários Das reais mangueiras que murcharam. Tenho as chaves Tenho o núcleo; Até as bordas do poder Franzem nossa alegria, mãe! Sou tua ama de chaves a que veio para te liberar Da masmorra que se havia tornado O paraíso familiar. Vim mãe, Arrebatei as chaves Os cadeados e as correntes invisíveis Com que te tolhiam qual pequena rola branca, frágil, dilacerada, Não amada pelas bestas invasoras. Es outra vez hoje a rainha desta ama de chaves que repicara o sino Abaulado na alegria da liberação.

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FALANDO DE CULTURA
Marluce Alves Ferreira Portugaels

Manaus profundamente. Ao Norte do Brasil, há duas metrópoles oriundas do fausto do látex: Manaus do Amazonas e Belém do Pará. Ambas passaram por diversas fases de desenvolvimento, com momentos de glória e períodos de decadência. Manaus, às margens do Rio Negro, o mais importante afluente do Rio Amazonas, dizem ter crescido de costas para o rio. Fundada em 1669, como o Forte de São José da Barra do Rio Negro, Manaus, encravada no meio da maior floresta do mundo, experimentou o apogeu econômico do ciclo da borracha em fins do século 19. Na década de 1960, a Zona Franca de Manaus foi criada, dando início ao modelo de desenvolvimento de livre comércio. Tanto o período da exploração da borracha, quanto o da Zona Franca marcaram O ciclo da borracha transformou a então modesta cidadezinha da beira do Rio Negro em cidade pungente com construções suntuosas e vida mundana sofisticada. O período da Zona Franca tirou Manaus do marasmo em que tombou com o encerramento do ciclo da borracha, ao mesmo tempo em que lhe devolveu parte do élan perdido. O charme de antanho, porém, ficou longe de ser recuperado, pois a época já era outra. A história do apogeu da riqueza advinda do látex é contada no livro A Ilusão do Fausto: Manaus, 1890-1920, da Professora Edinea Mascarenhas Dias, da Universidade Federal do Amazonas. (Segue)

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Hoje, os tempos são outros, sendo a opulência marcada por modernas rodovias de natureza prática, porém, desprovidas de encanto e beleza. Dos casarões de outrora, restam alguns exemplares milagrosamente salvos da especulação imobiliária. Felizmente, depois de algumas transformações dolorosas, o Teatro Amazonas, ícone do Norte do Brasil, continua de pé, dominando seu entorno, o Largo de São Sebastião, embora com alguns desafios. É nessa joia de teatro que há dezessete anos se realiza um festival de ópera. Dizem que tudo começou quando em 1996, um turista ao assistir a um ensaio do então Coral do Teatro Amazonas, que executava um trecho da ópera Nabucco, de Verdi, perguntou por que razão não se apresentavam espetáculos de ópera no Teatro Amazonas, aparentemente, construído obedecendo às características de um teatro de ópera. A ideia foi estudada e, no ano seguinte, nos meses de abril e maio, foi realizado o primeiro Festival Amazonas de Ópera, com artistas vindos de companhias europeias. Foi, então, criada a Orquestra Amazonas Filarmônica, com musicistas de outros países. A partir daí, o Festival não cessou de se realizar, tornando-se um evento artístico importante no Brasil. Festejando seu décimo sétimo aniversário, o Festival Amazonas de Ópera continua atraindo uma plateia seleta que se desloca a Manaus para assistir a espetáculos grandiosos que nos fazem sonhar. O repertório deste ano incluiu as óperas Rei Roger, de Szymanowski (1882-1937), Um Baile de Máscaras, de Verdi (1813-1901), As Aventuras da Raposa Astuta, de Janacek (1854-1928). Para encerrar a temporada, a opereta O Morcego, de Johann Strauss Filho (1825-1899) será apresentada ao ar livre, no Largo de São Sebastião, para que o grande público possa assistir a tão belo espetáculo. Diz a lenda que o grande tenor Enrico Caruso cantou no Teatro Amazonas. No campo da pura ficção, o filme Fitzcarraldo (1982), de Werner Herzog, cuja história se desenrola em Manaus e na Floresta Amazônica, parece ser uma premonição do que se tem, hoje, no belo Teatro Amazonas: uma orquestra sinfônica tocando no meio da selva, tal e qual sonhara sua personagem representada pelo ator Klaus Kinski. A grande importância desse movimento artístico que há dezessete anos acontece em Manaus é que, além da promoção de entretenimento à população local com a apresentação

de óperas e concertos variados nos meses de abril e maio, criou-se, também, uma atmosfera artística efervescente. Graças à colaboração de alguns centros artísticos da Europa, está sendo formada em Manaus uma elite de musicistas e cantores líricos. A esperança é que no

futuro o Teatro Amazonas conte com sua própria trupe, sem, no entanto, deixar de receber artistas renomados, com acontece hoje. Fiel aos princípios de miscigenação que o formaram, o Brasil, com o Festival Amazonas de Ópera realiza um intercâmbio artístico plenamente positivo. Quem sabe, um dia, o Teatro de Manaus não será uma das grandes referências mundiais do canto lírico?

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ESCONDIDINHO DE CARNE MOÍDA

Ingredientes • 500 gramas de carne moída • 2 colheres de (sopa) de manteiga • Margarina para untar • ½ xícara de (chá) de leite • Sal à gosto • 1 e ½ quilos de batata • 2 e ½ xícaras de (chá) de molho de tomate peneirado • 300 gramas de queijo mozarela ralado 1 cebola picada Modo de Preparo

Cozinhe as batatas sem a casca por 40 minutos e escorra. Deixe amornar e amasse. Adicione o leite, a manteiga, sal e mexa até formar um purê. Em uma panela, coloque a carne moída, a cebola e refogue em fogo médio até cozinhar a carne. Acrescente o molho de tomate e refogue por 10 minutos. Em um refratário grande untado, coloque uma camada de purê, uma de molho e o queijo mozarela por cima. Leve ao forno médio, pré aquecido, por 20 minutos ou até dourar. Retire e sirva.

Fonte: h#p://www.recei%nhas.com.br

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Segredos e pecados
Por Angela Guerra

Pecados são segredos – ou, pelo menos, assim deveriam permanecer até o confessionário, onde os depositaríamos, acreditando no perdão dos céus... Mas a recíproca não é verdadeira; segredos não são pecados, pelo menos, não sempre... Quantos segredos guardamos para não ferir o próximo? Quantos segredos guardamos para proteger o próximo? Segredos e pecados pertencem a quem os tem e a quem os cometeu, respectivamente. Se essas pessoas resolvem desabafar e confiá-los a um amigo, este só será, realmente, amigo, se o mantiver secreto – atitude esperada por ter sido escolhido para confidente! Trair a confiança desse amigo que dividiu com o outro sua tristeza, seu arrependimento, seu desespero, ou, até mesmo, sua raiva, seu ressentimento, sua vingança, vem a ser, talvez, um comportamento mais mesquinho e indigno que o de um pecador, considerando-se, é claro, a gravidade do caso... Quantos segredos mantivemos ou mantemos em nossa vida? Quantos pecados ou pecadilhos teremos cometido? Atire a primeira pedra aquele ser invicto, quem nunca teve um segredo ou jamais cometeu um pecado... Não consegui enquadrar ninguém nesse perfil... Segredos e pecados aprisionam-nos a alma, oprimem-nos o peito, enfraquecemnos o espírito... Aí, entram o amigo, o padre confessor, até mesmo um estranho, como confidentes, para nos aliviar do peso da culpa e possibilitar um recomeço de vida...

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As Respostas Foram Sopradas ao Vento
Por Sidney Fortes Summers

De que adiantou ter lido a obra completa de Nietzsche e Freud? De que serviu desvendar os segredos de Rembrandt e Caravaggio? Começo o dia cedo para desbravar um amontoado de panelas sujas com os restos dos alimentos apodrecidos desde a noite passada. Ao menos vivencio as misérias do mundo em que eu estou conscientemente imerso. Seria apenas mais um dia comum entre tantos dias comuns de pessoas inespecíficas. Apenas mais um se uma flor não me pedisse um copo. Em seus olhos vi as brasas vivas que faiscavam em sua alma, uma alma atormentada pela privação, mas que guardavam em si o opulento rutilar das mais belas estrelas. Era obvio que ela se tornaria uma grande mulher em breve. Permito-me ornar minha fronte com os louros da vitória, ainda que seja uma vitória falsa de uma batalha desigual e perdida. Eu seria capaz de me cobrir com guirlandas das mais diversas cores e misturar seus perfumes aos meus. Agarro-a sem palavras. As delicadezas do amor nem sempre se aplicam ao inferno. Levo com as mãos seus seios até minha boca e sinto o sabor das frutas que estão prestes a amadurecer. A porta da cozinha está aberta, o risco eminente da demissão não assusta. Não há motivos para repressão se a consequência de perder o conforto que sequer existe é bem menor que tudo o que está em jogo. Com a firmeza de um tutor dirijo sua cabeça rumo ao ato que reciprocamente desejamos e que telepaticamente é entendido e comunicado. Ela me dá prazer e em jatos desenha sua própria face na ânsia de uma sede insaciável. Ela me olha durante goladas espessas e eu percebo, naquele ínfimo instante, o quanto a vida vale a pena. O doce sabor da vitória é comemorado no mercadinho durante a hora do almoço, há tempos eu não me permitia o luxo de um refrigerante. Leio no jornal a notícia que em um país (cujo preconceito permite-me apenas alcunhá-lo como árabe) uma mulher que foi abusada sexualmente pelo seu padrasto foi penalizada com 100 chibatadas por ter feito sexo fora do casamento. Realmente vivemos no paraíso sem perceber. Agradeçamos nossa hipocrisia essencial, a hipocrisia dos bons cristãos.

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PRIMEIRO FRUTO
Por Anna Back Esperei-te muito! Imaginei-te. Moldei-te! Te vi em sonhos, Em meus planos, No meu cotidiano E em minha fantasia... Preparei-me cem vezes! Um ninho quentinho eu fiz, No íntimo de meu ser Para receber-te. Me vi gestante... Modificada. Tua gestação durou muito, Atropelada pela expectativa, Foi longa... Cheia de surpresas, Mais que as demais. O primeiro coraçãozinho a bater Dentro do meu, compassado na emoção. O primeiro chute, ai, seu danadinho... Que doces conversas... E cantigas de amor, te dediquei. Tua espera chegou, um dia... E nasceste especial demais. Chegaste somando, acrescentando, E muito mudou em nós, teus pais. Hoje, te vemos crescido... Filho, elo transformador! Ao longo da tua, de nossas vidas, Só temos a agradecer ao Pai Criador, Por nos ter dado você, filho, Sinônimo de AMOR!

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SEGREDO DE UM CORAÇÃO
Por Norália de Mello Castro

- Um segredo? Eu gostaria de saber... - Não, não lhe contarei. Segredo é segredo. Você terá de descobrir o meu segredo. - Mas, como? Que terei de fazer? - Escute seu coração que saberá o meu segredo...

Miriam deixa sua casa, situada numa montanha perto da Serra dos Três Irmãos. Segue em direção à praça central da Vila Santana. Uma minúscula vila situada entre montanhas, em área de resquícios das fazendas de seus ancestrais. Ela vem rápida, passos largos, toda vestida para a cerimônia anual do Dia de Reis: um congado tradicional, quando todos se põem a caráter e entoam cantos sertanejos, louvando aos céus as bênçãos recebidas. Subitamente, numa curva da estrada, já quase chegando à praça central, Miriam se vê frente a frente a uma jovem morena, desconhecida, que se dirige a ela com um sorriso e lhe pergunta: - O que vai fazer lá na praça? - Você não sabe? Vou me encontrar com nosso povo para dançar nos festejos: amanhã é Dia de Reis. Mas não conheço você, me diga seu nome. - Sim, Miriam, você, me conhece demais! Meu nome, bem que você sabe... - Não me recordo de você. O que deseja? - Quero que você me acompanhe até o monjolo da praça... - Isto é fácil... nunca deixo de ir até o monjolo quando venho à Vila. Ótimo! Vamos juntas! Eu venho aqui todos os Dias de Reis. - Talvez porque nunca tenha me olhado. Estou sempre aqui. E as duas jovens, lado a lado, vão caminhando em direção à Vila. - Sabe... - continua a jovem desconhecida- há muito tempo contaram-me a história do menino Deus, que nasceu numa estrebaria, numa noite em que uma grande estrela apareceu no céu... - Conheço esta história também. Eu a acho comovente. - Pois bem. Desde que tomei conhecimento desta história, um desejo enorme se instalou no meu coração e eu o guardo, desde então, como o mais precioso segredo.

- Eu sempre gostei do Dia de Reis. Aqui cantamos, dançamos, vamos em reverência de casa em casa, levando uma boa palavra. E eu imagino os reis magos vindo homenagear o recém-nascido. Vêm vestidos ricamente, trazendo ouro, prata, incenso e mirta. Peço sempre a eles que me presenteiem também. Gostaria de ter um presente dos Reis. Como eu gostaria... - Eu também! - diz a jovem desconhecida. - Sonhei muito com presentes de Reis. Quando sua mãe nasceu, no Dia de Reis, foi o maior presente que ganhei... - Uauu... conheceu minha mãe? - Sim, conheci. Como conheci sua avó e bisavó. - E minha tetravó Custódia, você conheceu? A desconhecida deu um largo sorriso, silencioso. - Conheceu? Miriam não recebeu resposta. Intrigada, olhando pelos cantos dos olhos a jovem que tinha ao seu lado, disse: - Estamos quase chegando. - É mesmo. Foi um prazer falar com você. Lá chegando, não deixe de ir até o monjolo. - Certamente irei! Vamos apressar os passos, pois a hora do congado se impõe! Venha, vamos correr... - Está bem, responde a desconhecida, estendendo-lhe um pedaço de papel dobrado. Vamos correr e depois leia o que lhe entrego agora. E as duas se puseram a correr lado a lado. Miriam colocou o papel por entre os seios. Na vila, que estava bem próxima, havia uma luz dourada intensa sobre a praça, como em sinal de bom agouro. Muitas pessoas já haviam chegado. Todas vestidas para aquela festa, já dançavam e cantavam. Sentiu-se contagiada pela música, o que a fez diminuir a
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correria e se pôs a gingar o corpo ao ritmo das músicas. Chegou ao grupo de amigos. Virou-se para falar com sua companheira de correria, não a encontrou. Procurou-a com um longo olhar, por toda a praça e não a viu. - Guido, procuro a jovem que estava ao meu lado, ao chegar. Guido olhou-a cismado. Abaixou a cabeça e não respondeu. - Paula, você viu ou sabe onde está aquela jovem morena que me acompanhava? - Não vi! - Deve ter ido para o monjolo. - murmurou Miriam. - E você, Juvento, viu a moça que me acompanhava? Conhece aquela moça? - Não vi não! - respondeu aquele amigo - Nem vi que você veio acompanhada! - Vim, sim! - Você chegou sozinha. - disse-lhe Arnaldo, percebendo certa ansiedade na amiga. - Você chegou sozinha. Não tinha ninguém com você. - apoiou outra amiga. Intrigada pelas respostas ouvidas, até mesmo encabulada, Miriam sentou-se num banco, ao lado de Orlando, observando todos na praça. Olhou um a um e não viu a jovem desconhecida. - Que estranho! Vim com uma companheira pela estrada e aqui chegando não a encontro mais. Orlando olhou-a intensamente e lhe disse: - Vi você chegar e você chegou sozinha. - Não é possível! Vim com uma jovem morena, conversando muito e não mais a vejo. Ela... Lembrou-se do papel que a jovem lhe dera. Retirou-o dos seios, abriu-o lentamente. Nele estava um desenho: três traços em ondas, como que se movimentando... um belo desenho de mandala. Reconhece o desenho do quadro que tem na sala principal da fazenda, feito de ferro batido com algumas nuances em prata... Um pequeno quadro herdado de... disseram-lhe seus pais. Um talismã de boa sorte, passado de geração a geração, iniciado por Custódia. Assim é contada a história das mulheres de sua família. “Preciso encontrar a companheira” pensou Miriam. “Preciso decifrar este enigma da desconhecida presenteá-la com desenhos

bem cuidados, numa folha de papel, de algo tão familiar... Talvez ela estivesse lá no monjolo, esperando-a.” Levantou-se e foi em direção àquele recanto da praça. Aquela peça, tão original, trabalhava sem parar, subindo e descendo, água jorrando. O riacho se movimentava velozmente. Uma água cristalina, que jogava gotinhas para fora. Miriam o alcançou, mergulhou as mãos na água e levou-a até o rosto, banhando-se. Mergulhou mais as mãos e colocou os pés na água. Não viu a companheira; ela ali também não estava. Sentiu uma certa tristeza. Mergulhou o rosto na água, lavou-o bem. A tristeza estava nela ainda, quando viu um grande galho de mirta junto dela. Um belo galho de mirta todo florido. Pegou-o das mãos que o estendia. Com olhos fixos na mirta, Miriam foi acompanhando com o olhar, o galho que estava lhe sendo estendido, pela desconhecida do caminho. Finalmente encontrara a moça! Miriam sorriu. Pegou a mirta. Constatou que aquele galho tinha a forma de um grande C. Ela, bem baixinho, disse: “Obrigada, Custódia, pelo presente! – diz Miriam reconhecendo a jovem que a acompanhara, acarinhando a mirta, que lhe anuncia o amanhã, já vibrante no seu ventre. E repete baixinho aquele nome: - Custódia. - Sim, responde-lhe a outra, sou eu, minha tetraneta. Sou eu. Sou Custódia. Vim lhe trazer o meu presente de Reis, uma mirta para que acompanhe você na sua dança. Sempre estou presente quando alguma descendente está ou vai ficar prenha. Quero muito ver minha descendência feminina produzir mais e mais e a dançar pela vida, leve, feliz, mais realizada. A mirta tem este poder de sublimar as tristezas do caminho. Eleva a alma, mais do que o ouro ou o incenso. É com carinho que lhe entrego este presente... Faça seu coração rir mais, dançar mais e mais, e que a nova vida que aí está seja mais harmoniosa.. - Você viu então o meu segredo, que guardei até hoje, Custódia. - Sim, o seu é igual ao meu. Também guardei segredo até ter certeza de que estava prenha... Feliz, Miriam riu, sorriu para Custódia, apalpou seu ventre e dançou ali mesmo, com a mirta rodopiando nas mãos... Foi contar para seu amor e seus amigos que, em breve, nova pessoinha estaria ali com eles, e se chamaria Custódia.
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Após o sucesso do lançamento de nossas duas coletâneas Varal Antológico 1 em 2011 e Varal Antológico 2 em 2012

É com imenso prazer que convidamos para o lançamento do livro Varal Antológico 3, terceira coletânea da revista Varal do Brasil. O lançamento acontecerá nas dependências da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina em Florianópolis, no dia 2 de agosto de 2013, às 19h00. Um coquetel será servido.

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LUPA CULTURAL
Por Rogério Araújo (Rofa)
pecável. A melhoria da educação no país pas-

Um povo cultural

sa pela leitura e pode ser de qualquer tipo, desde as mais simples até as mais intelectuais. Uma das desculpas mais utilizadas para não ler: os altos preços dos livros. Mas esta

Um país que tem um povo culto é o terror dos governantes. E sabe por quê? Simplesmente porque pensa. E essa chamada “cultura” não tem a ver, necessariamente, com estudar muito, frequentar as melhores faculdades e instituições afamadas e, sim, em ler, refletir no que se leu e fazer uma crítica construtiva. Muitos pensam que assistir um teatro ou a um filme é um lazer puro e simples. Porém, não é bem assim. Em produções teatrais e cinematográficas estão presentes preciosas ideias que podem ser utilizadas como um alerta para o povo. Não é à toa que na época da ditadura peças eram censuradas para não “falar mal do governo”. Como se todos fossem obrigados a concordar com os horrores praticados. E os artistas faziam malabarismos para burlar o órgão censor com referências indiretas sobre o cotidiano. Ler livros abre a mente de qualquer um de forma incrível. Melhora o vocabulário, o jeito de escrever e de falar. Conheço pessoas que não terminaram nem o ensino fundamental, mas que pronuncia as palavras de maneira im-

parece meio esfarrapada, pois como se explica que tem gente que mesmo com essa dificuldade financeira, não sai de bibliotecas, livrarias e bancas de jornal, pegando “carona” nas obras ali expostas?! E ler ajuda muito na alfabetização de um povo. Os governos que pensam na educação com luxuosos prédios e recursos tecnológicos e não disponibiliza livros para seus alunos, ignora a importância dos livros na vida de cada um. Falando em tecnologia, ela também pode ajudar na tarefa da leitura, estimulando a todos com ótimos recursos e na disponibilidade de obras raras, literárias na vida de um país. A força de vontade é que faz a pessoa ler e continuar pelos caminhos da leitura.

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Crianças desde muito novinhas não são estimuladas a ler. E ainda tem o fator complicador de que seus pais, avós, nunca tiveram esses hábitos e a maioria nem recursos e possibilidades para ler. E os mais antigos ainda falavam para as pessoas não lerem muito, pois iriam ficar malucas. Talvez, pensavam assim, porque a maioria não chegava a ser alguém de destaque e nem estudava muito na vida. Mas, como é bonito ver alguém que da vida nada recebeu, tendo tudo contra para ser um nada e conseguiu subir degrau por degrau e chegou a uma posição jamais sonhada por sua família que, muitas vezes, até desestimula por achar que a geração está fadada a ser o que sempre foi e nunca crescer. E estes que chegam acima do que imaginava não pode esquecer-se de onde veio. Caso fique metido e se achando grande coisa, nada do que passou o fez crescer e aprender as preciosas lições. E que a leitura e o estudo ajudem às pessoas a viver bem, filtrar o que leu e não absorver tudo. Assim, teremos um “povo cultural” mais preparado para a vida e muito menos propenso a ser ludibriado pelos políticos especialistas em enganar quem não sabe pensar e tomar decisões por sua própria cabeça. Um forte abraço do Rofa!

* Escritor, jornalista, autor do livro “Mídia, bênção ou maldição?” (Quártica Premium), dentre participações em diversas antologias no Brasil e exterior; vencedor de prêmios literários e culturais; membro de diversas academias literárias no Brasil e exterior.

O que achou da coluna “Lupa Cultural” e deste texto? Contato direto: rofa.escritor@gmail.com

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Cecília
Por Juca Cavalcante

tenha havido, é bom, então, que eu seja bem mais claro ainda. Porque, de repente, você pode estar pensando assim: Será que esse cara acha tudo isso mesmo? Desde a primeira vez que nós fomos almoçar naquele restaurante chinês, eu achei você especial. O seu jeito metódico, organizado, suas observações inteligentes e sensatas. Tudo isso me cativou de imediato. Eu nunca vou me esquecer das outras vezes em que almoçamos juntos, dos passeios pelas lojas e pelas ruas da cidade quando eu tentava captar toda sua energia e vivacidade. Mesmo lembrando que isso faz parte das minhas noites maldormidas. Noites em que às vezes eu desejava acordar como aquele personagem de Kafka, só para não ter que enfrentar a minha realidade. Você é daquele tipo de pessoa que faz com que a gente acredite que o mundo não é totalmente ruim como pensamos. Que existem pessoas legais que se preocupam com o próximo e com o que não está próximo também. Portanto aquele cartão faz sentido. Principalmente a frase “obrigado por você existir”. Pode ser que tudo isso que eu estou escrevendo seja um amontoado de bobagens, mas eu não estou nem aí pra isto. O importante é que eu possa atingir meu objetivo, ou seja, ficar bem contigo. Bem, é claro, que não é só isso que eu tenho pra dizer, mas por enquanto creio que está bom. Espero que você tenha paciência para ler tudo e tirar suas próprias conclusões. Eu iria me sentir exultante ao saber disso. Eu te desejo tudo de melhor que houver no mundo. Um beijo e até a próxima vez que a gente se encontrar pelos corredores da empresa. Tá legal? PEDRO. PS. Em lembrança àquela vez em que você ao ver um florista, observou que fazia pelo menos uns dois anos que não recebia flores. Aí vai um botão de rosa. TCHAU. (Segue)
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Você fez, indiretamente, com que eu viesse a praticar uma coisa em que não me saio muito bem, ou seja, escrever. Mas essa dificuldade em falar contigo pessoalmente me fez ter essa ideia. Espero que surta algum efeito, afinal, talvez isso acabe com essa minha intranquilidade. Você deve estar achando estranho tal obstinação, mas eu não gosto de deixar uma questão no ar, mal resolvida, uma espécie de fantasma pairando eternamente, tirando a minha paz. Eu estou estranhando um pouco essa sua relutância em aceitar meus convites, que talvez eu até possa entender, afinal você tem suas razões e isso eu não discuto. Longe de mim interferir em seus pensamentos ou em qualquer coisa que lhe diga respeito. Quero ser castigado se fizer tal coisa e a sua indiferença já seria o suficiente. O que eu estou querendo é ordenar meus pensamentos. Mas já que eu tive a ideia de expor os fatos através das letras, vou tentar ser o mais claro possível. Aí você poderá ler com calma, na quietude de sua intimidade, sem estar sentindo qualquer espécie de pressão. Quando eu falei em entender suas razões, me referia a um possível medo em me ouvir, desconhecendo o que eu tinha pra falar. Claro, isso é compreensível, pois eu acho que houve uma mudança de situação quando eu dei aquele cartão com aquela mensagem escrita. Houve um efeito contrário, ao invés de aproximar, ele afastou, como uma espécie de ponto negativo. Depois eu também achei que foi uma coisa um tanto quanto precipitada da minha parte, que você ia achar um exagero o que estava escrito ali, apesar de bonito. No curto espaço de tempo que tivemos juntos, talvez não coubesse tudo o que vinha escrito no dito cujo. E foi justamente esse fato que talvez tenha provocado o tal efeito contrário e te amedrontado. Mas se houve exagero, e pode ser que

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PS DO PS.: Não mostre isso a mais ninguém, tá legal? Afinal é o máximo que minha timidez ousa pedir. Tchau! Agora em definitivo. O sujeito chamado Pedro refletiu mais uma vez sobre o que havia escrito e tomou uma decisão. Como se encontrava numa das amuradas da ponte Rio- Niterói, ele olhou lá para baixo e contemplou por alguns instantes a beleza maltratada da Baía da Guanabara. Pensou mais uma vez no que ia fazer e, então, fez. Amassou o papel que estava em sua mão, fez uma bola com ele e o jogou com toda sua força de encontro às águas já não tão limpas da baía. O bolo de papel ficou fazendo parte da poluição. A dor que percorreu seu peito foi tão intensa que ele pensou que fosse fazer o mesmo percurso que o papel. Foi como uma chaga corroendo suas entranhas. Mas logo passou. Naquela ponte, entre o vaivém dos carros, ele sente no peito a força daquele sentimento desatado que ele mesmo ajudara a criar. Olha em volta onde quase nada mais fazia sentido. Estende a mão chamando esperança, mas ela já não está. E aquele botão de rosa queimando em seu peito.

O AMOR É INSANO
Por Girlene Monteiro Porto Não há moinhos de vento Que me afastem de você E nem poderia a mesquinha sensatez Ser mais esperta que a loucura Do amor que sinto e que me dá forças Para lutar contra tempestades em alto mar. Mar que me leva a viajar Para distantes terras, mas mesmo cansado do caminho, Sempre volto louco para o seu amor, meu amor.

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ESCONDIDINHO DE CARNE SECA COM MANDIOCA
Ingredientes:

Purê de mandioca: -1 kg de mandioca amassada -1 caixa de creme de leite -1 colher de sopa de manteiga ou margarina -1 copo de leite -Sal a gosto

Carne seca:

-400 g de carne seca (depois de ficar 12 horas de molho, cozinhar e desfiar) -100 g de bacon -1 tomate (picado em cubos) -1/2 pimentão verde (picados em cubos) -Cheiro verde a gosto -1 copo de requeijão culinário -1 dente de alho moído -1 pacote de queijo ralado -1 cebola grande (picada em rodelas) -1 tomate médio sem pele -Molho de pimenta (opcional a gosto) Preparo: Purê de mandioca: Em uma panela, colocar a manteiga, o sal, a mandioca e o leite. Depois de bem misturado colocar o creme de leite e deixar reservado Carne seca: Em uma panela colocar a carne seca, o bacon, o pimentão, o dente de alho, o tomate, a cebola, o cheiro verde, o molho de pimenta e refogar bem em fogo médio( não colocar sal). Colocar em um refratário ou forma. Acrescentar por cima o purê , o requeijão e o queijo ralado. Levar ao forno em fogo baixo por aproximadamente 30 minutos. Fonte: h#p://uraonline.com.br/culinaria/

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Feliz Dia das Mães, Mamãe!
Por Marluce Alves Ferreira Portugaels

Minha tia sempre diz que “mãe é tudo igual, só muda o endereço”. Mas será que é mesmo? Dizem que há mães e mães! O nosso consolo é pensar que para um punhado de mães incapazes de avaliar a importância de sua tarefa de bem criar seus filhos, há as mães detentoras do instinto materno, que se dedicam de corpo e alma aos rebentos que puseram no mundo. É para essas mães que há um dia no calendário. Mesmo que esse dia seja travestido de propaganda comercial visando a vender muitos dos presentes que serão ofertados às mães. A literatura e a vida nos revelam muita coisa. A relação intrínseca entre mãe e filho é uma delas. A vida mostra que para uma mãe os filhos mesmo adultos serão sempre “as crianças”. Isso me faz lembrar minha mãe que todas as noites antes de dormir precisa conferir se seus rebentos espalhados pelo mundo estão bem. Igualzinho como fazia quando éramos pequenos. Relendo as rememorações de infância do escritor Marcel Proust, no livro No Caminho de Swann (1913), vamos encontrar o narrador relembrando que seu único consolo ao ter que ir para a cama cedo, quando criança, era saber que sua mãe viria dar-lhe um beijo de boa noite. Sua frustração era querer a presença de sua mãe por mais tempo do que ela podia ficar. Assim, ele desejava que a visita de sua mãe se passasse o mais tarde possível, para que ele pudesse prolongar o prazer do tempo de espera. O momento doloroso era justamente quando ele ouvia os passos de sua mãe no corredor e o farfalhar de sua saia à medida que ela se aproximava do quarto. Esse momento era de intenso sofrimento, pois anunciava o que viria a seguir, que era a curta visita de sua mãe. Assim, ele preferia que o tempo de espera de felicidade total se prolongasse. Sentimos o sofrimento do narrador, pois nos lembramos de nossa angústia quando crianças ao ficarmos longe de nossa mãe. Do mesmo modo, sentimos sua felicidade, parecida com a nossa quando estávamos com ela. Neste Dia das Mães, queremos sentir a felicidade de estarmos perto de nossa mãe, de desejarlhe Feliz Dia das Mães, mesmo que virtualmente, pela distância ou ausência.

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PASSOS ERRADOS: PAIXÃO PROIBIDA Por Silvana Brugni Confesso, apaixonei-me pelos teus erros passos errados de um tango sem ensaio e em desacerto. Apaixonei-me pelo que vi. Em tua sombra o meu reflexo era o inverso de mim. Segui o destino cega sabendo estar em desatino e no compasso do passo, ao proibido, fiz de mim entrega. Entrelaçando nossas vidas em perigosa armadilha, qual areia movediça quanto mais revolvia, mais aprisionava-me a ti. Canso da luta, desisto do desafio quieta permaneço e silencio: Não me movo...Já não quero sair.

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SÍLICA GEMA
Por Geraldo Sant’Anna

quero vagar por uma praia de areias azuis sílica gema em pequenos grãos reluzentes refulgindo na incidência solar harmonia materializada que se fez viva para petralizar-se em compaixão feminina, bela, gema criadora mônada nutridora em ascensão

sílica gema linguagem da luz deusa em vestes vaporosas o tom mais puro, revestido de encantamento, Mãe Divina que se aninha em minh´alma conexão com o sagrado alegria, espiritualidade e calma

desce resplandecente em tua luz etérea acolhe-me, envolve-me, alinha-me nos tons do hoje, ontem e amanhã em anéis sucessivos de energia intensamente azul e nesse verde me revele em verdade e pureza

vivo em um manto sílica gema de proteção mente central do Universo Teia Sophia Beleza, paz e harmonia.

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Projeto de Poesias dos Opostos (tela e poesia) FOGO DO AMOR Por Jô Mendonça Alcoforado

Corpos sedentos Chama de amor Sangra ilusão Vibra coração Bocas ávidas Para beijar PINTOU O AMOR!

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DO OUTRO LADO DA VIDA
Por Gilberto Nogueira de Oliveira Do outro lado da vida, Reina o anarquismo. Não tem governo, Também não tem desgoverno. Tem conselheiros Mas não tem conselhos, Porem, as pessoas São livres até para errar. Quem governou a terra, Lá, é um mero participante Da vida anárquica e livre. Quem fez o mal na terra, Também fará do outro lado, Porque pensa que o lado de lá Tem os mesmos costumes Que o lado de cá. Mas o tempo vai passando E as pessoas vão se moldando. Uns melhoram e evoluem, Outros pioram E continuam corrompendo. Do outro lado da vida As pessoas se ajudam Porque não existe dinheiro. As pessoas se completam Porque são livres para amar As pessoas são felizes Porque tem tempo para pensar. O outro lado da vida É o outro lado da morte.

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Segredos e Pecados
Por Anna Ribeiro Ah, se eu morresse amanhãQual seria o pecado?! Se eu morresse amanhã Qual sentir por virPerdão teria pelos pecados, Não chorarias por não me ver no amanhã... Mas neste outono ainda tenho, O sépia da paisagemComo as folhas sopradas ao vento, vagueiam meus pensamentos Se eu morrer amanhã Para coroar a partida Cobre-me com uma rama das folhas sépia Enfim... Da paisagem em agonia, Segredos e Pecados!

Foto de Light Scape

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quatro páginas (a totalidade dos textos somando quatro paginas) para avaliação. Todos os textos deverão vir já revisados. 2.2. Não serão aceitos textos que pertençam ao universo de personagens já existentes criados por outro autor. Também não serão aceitos textos politica ou religiosamente tendenciosos, que expressem conteúdo racista, preconceituoso, que façam propaganda política ou contenham intolerância religiosa de culto ou ainda possuam caráter pornográfico. Também não serão aceitos textos que possam causar danos a terceiros ou que divulguem produtos ou serviços alheios. 2.3 Os textos não deverão ter ilustrações ou gráficos. 2.4 Serão recusados os textos que não vierem na formatação requisitada, assim como os textos que chegarem colados no corpo do e-mail. 2.5. Os textos recebidos serão examinados por uma banca formada pela equipe do VARAL DO BRASIL® e alguns escritores e/ou críticos convidados. A avaliação se dará com base nos seguintes critérios: criatividade e originalidade do texto, assim como a qualidade do mesmo. 2.6 Os textos deverão vir acompanhados de uma pequena biografia. A biografia, escrita na terceira pessoa, deverá conter no máximo dez linhas (A4, letra Times New Roman 12, espaço 2). Lembre-se sempre que numa biografia, como em muito na vida, menos é mais. 2.7. Os textos não deverão conter formatação ou caracteres especiais que dificultem a leitura ou a futura diagramação. Deverão ser enviados para o e-mail: varaldobrasil@gmail.com, juntamente com as coordenadas de inscrição. 2.8. Ao se inscrever na Antologia o autor autoriza automaticamente a veiculação de seu texto e imagem, sem ônus para a revista VARAL DO BRASIL® nos meios de comunicação existentes ou que possam existir com a intenção de divulgar a antologia. 2.9. Os textos não necessitam ser inéditos.
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REGULAMENTO PARA PARTICIPAÇÃO NO LIVRO VARAL ANTOLÓGICO 4

DA SELEÇÃO E DA PARTICIPAÇÃO 1.1. O livro Varal Antológico é promovido pelo VARAL DO BRASIL®, revista literária eletrônica realizada na Suíça (ISSN 1664-5243) responsável também pela promoção e divulgação de autores brasileiros e de língua portuguesa na Suíça e no Brasil. 1.2 Serão consideradas abertas as inscrições a partir de 1º de junho até 30 de setembro de 2013. Caso o número de participantes ideal seja atingido, as inscrições poderão ser encerradas antecipadamente. 1.3. Poderão participar da antologia todas as pessoas físicas maiores de 18 anos, de qualquer nacionalidade ou residentes em qualquer país, desde que escrevam na língua portuguesa. 1.4. A coletânea terá tema livre e será composta por diversos gêneros literários, o escritor podendo enviar contos, poemas, trovas, haicais, sonetos, crônicas ou outros. DA ACEITAÇÃO DOS TEXTOS 2.1. Serão aceitos textos em língua portuguesa, com tema livre, em documento MS Word ou equivalente (.doc), formato A4, espaço 2, fonte Times New Roman de tamanho 12, e que não ultrapassem quatro páginas. O texto ou os textos que ultrapassarem as 4 páginas serão eliminados automaticamente. Os textos deverão vir acompanhados das coordenadas de inscrição (ver abaixo). Os candidatos podem enviar mais de um texto de até

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SOBRE AS INSCRIÇÕES PARA A SELEÇÃO: 3.1. As inscrições para a Antologia serão abertas no dia 1º de junho 2013 e encerradas no dia 30 de setembro de 2013, podendo ser encerradas antes, caso o número de textos recebidos e avaliados sejam aprovados antes da data, no formato e padrão já descritos. O livro será publicado em 2014. As inscrições só poderão ser feitas pelo e-mail varaldobrasil@gmail.com OS NOMES DOS SELECIONADOS SERÃO DIVULGADOS DURANTE O MÊS DE OUTUBRO DE 2013. 3.2. Para participar os candidatos deverão, além de enviar um ou mais textos de acordo com as regras estabelecidas neste regulamento, fornecer o formulário anexo preenchido. 3.3. Só serão aceitas inscrições através dos procedimentos previstos neste regulamento. Os dados fornecidos pelos participantes, no momento das inscrições, deverão estar corretos, claros e precisos. É de total responsabilidade dos participantes a veracidade dos dados fornecidos à organização da Antologia. 3.4. Todo autor é proprietário dos direitos autorais dos textos por ele enviados para publicação no livro e cuja autoria seja comprovada pela declaração enviada; 3.5. Em caso de fraude comprovada, o texto será excluído automaticamente da antologia. Cada autor responderá perante a lei por plágio, cópia indevida ou outro crime relacionado ao direito autoral. 3.6 Todo autor é livre para divulgar, preparar lançamentos, noites de autógrafos, individuais ou em conjunto, do livro VARAL ANTOLÓGICO 4, desde que se responsabilize por todas as despesas - preparativos para lançamento, custos administrativos e convites, compra de exemplares a mais do que os recebidos pela participação – pertencendo também ao participante o valor das vendas dos livros em questão. Para tanto, o participante deverá entrar em contato com a revista através do e-mail varaldobrasil@gmail.com para que o número de exemplares lhe seja enviado mediante paga-

mento (preço da editora / remessa), notandose aqui a antecedência requerida. O VARAL DO BRASIL® reserva-se o direito de estar ou não presente nos lançamentos organizados pelo autor. 3.6.a As datas dos lançamentos da antologia na Suíça e no Brasil serão divulgadas posteriormente. O VARAL DO BRASIL® reserva-se o direito de não realizar lançamentos físicos do livro, podendo, se as circunstâncias assim permitirem, realizar lançamentos virtuais do livro. 3.7. Os participantes concordam em autorizar, pelo tempo que durar a antologia com a editora, que a organização faça uso do seu texto, suas imagens, som da voz e nomes em mídias impressas ou eletrônicas para divulgação da Antologia, sem nenhum ônus para os organizadores, e para benefício da maior visibilidade da obra e seu alcance junto ao leitor.

4) DO PAGAMENTO PELO SISTEMA DE COTAS 4.1. A participação se dará no sistema de cotas, sendo que cada autor deverá proceder ao pagamento da seguinte forma: (a) Cada autor pagará o valor de BRL 650,00 (seiscentos e cinquenta reais) quando inscrever-se no Brasil; ou CHF 320,00 (trezentos e vinte francos suíços) quando inscrever-se na Suíça ou para os demais países EUR 300,00 (trezentos euros). (b) Participantes do VARAL DO BRASIL (mínimo 3 edições anteriores a julho de 2013 e/ou participação em eventos com o VARAL DO BRASIL) pagarão o preço especial de BRL 550,00 (quinhentos reais) ou CHF 280,00 (duzentos e oitenta francos) quando na Suíça, ou EUR 260,00 (duzentos e sessenta euros) para os demais países. Os pagamentos poderão ser feitos à vista ou em duas parcelas. Sendo o primeiro pagamento até 30 de novembro de 2013 e o segundo e último pagamento até 31 de dezembro de 2013. (Segue)
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(c) O pagamento deverá ser feito através de depósito bancário, sendo que a taxa de transferência deve ficar por conta do depositante (pessoa que se inscreve). Não serão aceitas transferências feitas por Western Union ou semelhantes. 4.2. A cada depósito o comprovante deve ser enviado imperativamente para o e-mail varaldobrasil@gmail.com 4.3. O recebimento do pagamento total dá ao autor a garantia de sua participação na coletânea. O não recebimento do pagamento total até o dia 10 de janeiro de 2014 anula a participação do autor. 4.3.a Não serão devolvidos os pagamentos aos autores que desistirem do projeto após 30 de novembro de 2013. 4.4. O pagamento parcial do valor cooperativo não dá direito à participação no livro. Caso o autor não termine o pagamento acordado, será substituído por outro participante e comunicado através de e-mail. Parcelas pagas poderão ser devolvidas se a desistência for anterior a 30 de novembro de 2013, ficando o Varal do Brasil com o valor de CHF 100,00 para pagamento de taxas e afins. Desistências a partir de 1 de dezembro de 2013 não serão reembolsadas. 4.5. No dia 15 de janeiro de 2014 considerarse-á o livro fechado. 4.6. O (s) depósito (s) deverá (ão) ser feito (s) em nome de: (Solicitar por e-mail) *É imperativo que o comprovante de depósito seja enviado para nosso e-mail para confirmação do pagamento. 4.7. Não haverá prorrogação dos prazos de depósito em respeito a todos os participantes selecionados. Pequenos atrasos podem ser considerados desde que avisados através do e -mail varaldobrasil@gmail.com e em acordo com a equipe organizadora. 4.8. Os participantes receberão um total de 10 exemplares da Antologia pela participação total. 4.9. O livro terá aproximadamente 250 páginas e: Formato padrão (14 x 21 cm)

Capa nas medidas 14 x 21 cm fechado; Laminação BOPP Fosca (Frente); Capa em Supremo 250g/m² com 4 x 0 cores; Miolo Fechado em Pólen Soft 80g/m² com 1 x 1 cores 4.9 a Os serviços prestados serão de editoração completa: Leitura e seleção Revisão * Projeto gráfico criação de capa ISBN e ficha catalográfica impressão *Mesmo os textos sendo revisados por profissionais, eles deverão vir, imperativamente, revisados pelo autor ou por revisor contratado pelo autor. Textos com excesso de erros gramaticais e/ou ortográficos, assim como com problemas de compreensão, serão devolvidos ao autor. 4.10. A presente antologia será editada pela Design Editora com o selo editorial Varal do Brasil, será registrada e receberá ISBN, mas cada autor é responsável por registrar suas obras (textos) junto à Biblioteca Nacional do Brasil ou de seu país. 4.11. A remessa dos exemplares para o endereço do autor que não se encontrar presente (residente no Brasil ou em qualquer outro lugar) quando do lançamento do livro será paga pelo mesmo, independente do valor pago pela participação. Em caso de lançamento na Suíça, só serão entregues os livros aos autores presentes que sejam residentes na Europa. A remessa acontecerá após o lançamento do livro e o autor deverá solicitar o valor do frete pelo e-mail atendimento@designeditora.com.br / Os autores que desejarem receber seus exemplares durante um dos lançamentos organizados pelo VARAL DO BRASIL ® deverão avisar com antecedência e ir busca-los no endereço que lhes será comunicado. NÃO ENTREGAREMOS LIVROS DURANTE AS SESSÕES DE AUTÓGRAFO. (Segue)

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5) OUTRAS INFORMAÇÕES 5.1. Dúvidas relacionadas a esta antologia e seu regulamento poderão ser enviadas para o e-mail varaldobrasil@gmail.com 5.2. Todas as dúvidas e casos omissos neste regulamento serão analisados por uma comissão composta pela equipe organizadora e sua decisão será irrecorrível. 5.3. Para todos os efeitos legais, o participante da presente Antologia, declara ser o legítimo autor dos textos por ele inscritos, isentando os organizadores e a editora de qualquer reclamação ou demanda que porventura venha a ser apresentada em juízo ou fora dele. 5.4. O VARAL DO BRASIL ® reserva-se o direito de alterar qualquer item desta Antologia, bem como interrompê-la, se necessário for, fazendo a comunicação expressa aos participantes. 5.5. A participação nesta Antologia implica na aceitação total e irrestrita de todos os itens deste regulamento. 5.6. A data prevista para a entrega dos exemplares do livro VARAL ANTOLÓGICO 4 é durante o lançamento do mesmo em 2014 (data a ser agendada) e pelos correios em média vinte a trinta dias após o lançamento (O autor se responsabilizará por pagar o frete caso deseje receber seus livros pelos correios). Será oportunamente discutida uma noite de autógrafos organizada pela revista VARAL DO BRASIL ® na cidade de Genebra, Suíça e no Brasil. 5.7. Os livros ficarão à disposição na editora para serem solicitados por TRÊS meses após o lançamento e/ou aviso aos autores por parte do VARAL DO BRASIL®. O autor que não recuperar os seus livros em 3 (três meses) após o lançamento dos mesmos, estará abdicando de seus direitos e o VARAL DO BRASIL® poderá dispor dos livros como for conveniente. 5.8. O fórum para qualquer recurso é situado em Genebra, Suíça. 6. O VARAL DO BRASIL® reserva-se o direito de recusar qualquer candidatura sem ter que expressar os motivos de tal recusa.

6.1 Os autores presentes no livro Varal Antológico 4 estarão automaticamente convidados a autografar os livros, sem mais ônus, nos lançamentos que forem realizados na Suíça e/ou no Brasil (aqui não se incluem lançamento de livros individuais, mas apenas a antologia). Genebra, em 30 de maio de 2013 Jacqueline Aisenman Editora-Chefe VARAL DO BRASIL Organizadora do Varal Antológico 4

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LITERATURA COM
Isabel C. S. Vargas
A ARTE DE ESCREVER SEGUNDO SCHOPENHAUER
Este é o título de uma obra de Schopenhauer. O Autor, filósofo, nascido em 1788 na Prússia, atual Polônia, viveu até 1860. Diplomou-se na Alemanha, era contemporâneo de Hegel com quem tinha acirrada rivalidade. Influenciou Freud, Nietzsche e Bergson. O livro em questão foi traduzido por Pedro Süssekind. Transcrevo aqui, algumas idéias do autor, sobre a leitura, os autores e o aprendizado de um idioma estrangeiro. -Classifica três tipos de autores: os que escrevem sem pensar, a partir da memória, de lembranças ou a partir de livros alheios; os que pensam para escrever, melhor dizendo pensam enquanto escrevem; por último os que pensam antes de começar a escrever. Escrevem porque pensaram. _ O título de uma obra deve ser significativo, curto, conciso, lacônico, expressivo. É contra os títulos prolixos, os ambíguos, os que não dizem nada. - A primeira regra do bom estilo é que se tenha algo a dizer. A afetação no estilo é comparável às caretas que deformam o rosto. _Querer escrever como se fala é tão condenável quanto querer falar como se escreve, que resulta num modo de falar pedante e difícil de entender. _Deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela.

_ A verdade fica mais bonita nua, e a impressão que ela causa é mais profunda quanto mais simples for sua expressão. Em parte, porque ocupa assim toda a alma do leitor, desimpedida e sem a distração de pensamentos secundários. Todo efeito provém do próprio assunto. (Segue)

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_Alguns escrevem como um arquiteto constrói: esboçando primeiro um projeto e considerandoo detalhadamente. A maioria escreve como jogamos dominó. No jogo, às vezes segundo uma intenção, às vezes por mero acaso, uma peça se encaixa na outra. O mesmo se dá com o encadeamento e a conexão das frases. _Nenhuma qualidade literária (capacidade de persuasão, riqueza de imagens, dom de comparação, ousadia, amargura, concisão, graça, leveza de expressão, argúcia, contrastes, laconismo, ingenuidade) pode ser adquirida pela leitura dos que possuem tal qualidade. Quem já possui as qualidades em potencial pode evocá-las, trazer à consciência, ver o uso que é possível fazer delas, ser fortalecido na inclinação, na disposição para usá-las, julgar o efeito de sua aplicação em exemplos e assim aprender a maneira correta de usá-las. É a única maneira da leitura ensinar a escrever, na medida em que ela mostra o uso que pode ser feito com os próprios dons naturais, pressupondo sempre a existência deles. _ Cada livro importante deve ser lido duas vezes. As coisas são mais bem compreendidas em seu contexto na segunda vez, pois a leitura é acompanhada de outra disposição e outro humor. Também porque o início é entendido corretamente quando já se conhece o final.

_ Não se encontra, para cada palavra de uma língua, um equivalente exato em todas as outras línguas. Nem todos os conceitos designados pelas palavras de uma língua são exatamente os mesmos que as palavras das outras expressam, por mais que essa identidade se verifique na maioria dos casos. Com frequência são só conceitos semelhantes e aparentados, que podem ser diferenciados por alguma modificação no sentido.

_Quando se aprende uma língua, a dificuldade está em reconhecer cada conceito para qual essa língua tem uma palavra. mesmo que a própria língua de quem aprende uma língua estrangeira não possua palavra que corresponda com exatidão a tal conceito, o que é frequente. Não aprendemos palavras apenas, adquirimos conceitos. _Mediante o aprendizado de uma língua, tomamos consciência de uma quantidade infinita de sutilezas, semelhanças, diferenças, relações entre as coisas. Nosso pensamento ganha uma nova modificação e tonalidade. É um meio direto de formação espiritual. _Para ser imortal uma obra precisa ter tantas qualidade que não possam ser entendidas todas por uma única pessoa, mas reveladas ao longo dos séculos, quando é apreciada em vários sentidos sem nunca esgotar-se por completo. Embora escritos na metade do século 19 os conceitos de A. Schopenhauer devem ser apreciados e sobre eles refletirem todos os que lidam com a palavra como ferramenta de trabalho, como forma de expressão, como arte, como meio de autoconhecimento, como forma de aprimoramento espiritual.
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SOU IMPURO E IMORAL
Por Antonio Fidelis Imundo e fraco sou impuro e imoral sedento e imperfeito sou impuro e imoral quente e vibrante sou impuro e imoral sou tudo que não compreendo sou tudo que não entendo sou o pecado mais carnal a ira, a gula a avareza e a vaidade sou impuro e imoral a luxúria, a preguiça e a inveja sou impuro e imoral sou todos os pecados reunidos da humanidade. Sou impuro e imoral sou um ser inconstante querendo ser constante sou um ser racional querendo ser irracional sou tudo de errado da humanidade sou impuro e imoral sou o erro em pessoa, sou as coisas mais trágicas que acontece no mundo sou a própria morte sou o próprio desejo sou mais que o pecado sou impuro e imoral...

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SEGREDOS

Por Varenka de Fátima Araújo

Noite iluminada Guardou nosso segredo Mas a lua prateada Sumiu com enredo Esse meu intimo sente E com volúpia dizer Esse segredo da mente Que é preciso esquecer

Segredos e pecados
Por José Hilton Rosa Anjos e pecadores famintos e alimentados fracos e fortes caminhantes e sonâmbulos feitiço para os maus padres com suas batinas discurso para os leigos flamulas de saudações rios que recebem a poluição humana pássaros que cantam em qualquer estação nuvens sem chuva olhos que choram enfermos a espera de milagre

Pintura de Jill-Ba#aglia

segredos e pecados escondidos em cada ser

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MATA

Por Selmo Vasconcellos Hoje me matas violentamente com este machado. Mas, amanhã, das minhas flores te farão uma coroa, do meu caule tua urna mortuária. Aí sim, irás ao encontro da minha raiz. Eu te esperarei lá embaixo.

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ESCONDIDINHO DE FRANGO
Ingredientes: 1ª camada: . 1 peito e 2 sobrecoxas de frango temperadas e cozidos . 2 colheres (sopa) de óleo . 1 cebola grande picada . 2 dentes de alho picados . 3 tomates . ½ xícara (chá) de molho de tomate . 1 cubo caldo de frango . Sal e pimenta a gosto . ½ xícara (chá) de água . ½ xícara (chá) de temperos a gosto orégano, manjericão, etc . 1 copo de requeijão cremoso 2ª camada: . 3 mandioquinhas grandes cozidas e espremidas quentes . 1 caixa de creme de leite (200 g) . Sal, pimenta e noz-moscada ralada a gosto . 1 xícara (chá) de leite Cobertura: . 2 xícaras (chá) de queijo mussarela ralado . 4 colheres (sopa) de queijo parmesão ralado Modo de preparo: 1ª camada: Desfie o frango e reserve. Aqueça o óleo e refogue a cebola e o alho, junte o tomate, o molho, o caldo e a água e deixe ferver. Adicione a carne desfiada e cozinhe por 5 minutos, em fogo brando, com a panela tampada. Verifique o tempero, se necessário acrescente mais. Se tiver muito caldo, polvilhe com 1 colher (sopa) de farinha de trigo e cozinhe um pouco mais. Passe para um refratário e reserve. 2ª camada: Misture ao purê de mandioquinha o creme de leite, sal, pimenta e noz-moscada a gosto e o leite. Montagem: Sobre o frango, ponha o requeijão em colheradas e cubra-o com o creme de mandioquinha. Polvilhe a mussarela e o parmesão. Leve ao forno, preaquecido, a 220 ºC até aquecer dourar. Retire do forno e sirva.

Fonte: h#p://mdemulher.abril.com.br
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Antes
Por Raul Longo – muito antes desses meninos de luz e fumaça que se lambuzam, lambem a gosma do globo dos seus olhos, antes dessas putas e rufiões assando churrascos de seus rins e bexiga, fígado e tripas, antes desses cães cachorros cadelas mascando a pasta crua do seu cérebro esfacelado espalhado no paralelepípedo ilógico dessa Lapa de arcos e Lua, de bonde e miséria, de ainda antes desses tenros telhados derramados sobre nuas janelas de espelhos e penteadeiras, de pais tarados e mães cafetinas, sem rendas nem cortinas que prendam, aprendam o tempo antes da Lua afogada no meio da baía de um delírio Guanabara e uma vontade garra gana de nascer para não ser o fim da história de si mesmo, que acaba antes do protagonista entrar em cena e já acena o desespero de ser antes; antes do fim, quando assim salta lançando no abismo do morro um grito louco doido endoidecido “quero nascer! quero nascer! quero nas...” o grito doído para morrer, porque desde antes sempre quis ser o que seria antes da beira do abismo, do passo à frente na beira do abismo para ser, enfim, antes; antes teve de escorrer pela ladeira, correr da porta aberta, fugir da mãe fugida, do grito da mãe desaguado em ranho e lágrima, chamando da porta aberta, clamando reclamando o que não chorou antes quando chamava gemia amava, até quando a mulher louca boba abobada calada muda tremia, tremia e chorava “meu filho! tu é meu filho! é tu meu filhinho que deixei no sertão, meu filhinho da barriga da miséria que fugi, fugi, fugi antes”; antes a mulher-amante que lhe comeu a virgindade, lhe deu o prazer que nunca dantes do que essa a revelar “tua avó, Vitó, é a minha mãe que larguei mais tu, na caatinga que nunca imaginei, nunca imaginei antes tu, aqui, agora, comigo, tua mãe e puta que te pariu antes, ainda Virgem que me perdoe agora, que me mate antes” ou depois do gozo, desmistificados mistérios gozosos e o perguntar do passado-menino, seus antes a contar por contar anteriores cruas passagens, dura vida fugindo da morte de vós e avós, perseguindo a mãe desconhecida perdida fugida sumida nos suis dos Brasis de antes das histórias de medo, abandono e solidão, histórias de antes do depois de paus de arara, estradas de retorno em torno do nada, da vida danada, e o rio, aquele Rio de tantos janeiros e setembros e marços antes daquele marco de nova

esperança, de um morrer sertão e nascer carioca no colégio, nas aulas do colégio e os colegas a exigir ser homem de verdade, deixar de ser paraíba para ser malandro esperto aberto como carioca que vai ao mangue se dar bem com mulheres-mães perdidas, fugidas de secas e sertões de antes que a virgindade buscasse o amor fácil na vida difícil do mangue daquele Rio de Janeiro de paraíbas errantes, na Lapa dos sambas e mulatas e, entre elas, ela que de tão bela era sertão, por ser tão ela era bela, tão bela era ela que pouco importa se velha, e colegas que reclamam da idade dela ser sua mãe, a mãe que o perdão releva, revela nas lembranças de seu antes da mulher que sufoca em desejo e gozo, para depois se afogar em ranho e lágrima “meu filho! tu é meu filhinho! eu sou Socó! eu sou Socorro, tua mãe! filha desse teu avô Odulando Ferraz, e dessa avó Vitorina, dita Vitó, sou tua mãe daquele sertão de antes”; antes a mulher que o sempre menino quis mãe e agora ao quase homem amamenta instinto e prazer em peitos, bundas e coxas, na boca que descoloriu em volúpia de beijo e engoliu seu pejo sugando ensejos de macho-menino no calor que acalenta seu sexo, seu antes, ainda feto, o desafeto do pai de si mesmo, a incógnita de si mesmo, de antes ainda mais que agora que ainda gora o primeiro amor-mulher, quase eternizado no a querer ser só sua, toda nua em suor, pele e desejo, pra toda vida só sua, só pra ser a mulher que quis na mãe que perdeu no sul, na mãe que não quis na mulher que achou no sul, que achou antes de perder seu norte e desabalar, despencar no abismo antes da morte para nascer da mãe de um outro sonho de infeliz cidade, de antes de luz e Lua, Lua e luz antes; antes, antes, muito -

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@RTES N@ VISÃO DE
J@COB B. GOLDEMBERG

Bonito MAR

se sucedem, uma após outra, entre salas e pavimentos; belo trabalho de curadoria e museo-

O mar é logo ali; bem em frente. Atravessando a antiga praça de trânsito tumultuado, a Mauá, por entre tapumes e obras tumultuando o espaço atual, o novo MAR: o Museu de Arte do Rio — é bonito. Parceria da Prefeitura do Rio com a Fundação Roberto Marinho, dois edifícios de antigas e diversas épocas e funções foram reformados, mantendo a datação de seus estilos arquitetônicos, unidos por uma ondulada laje de concreto que paira no ar/MAR, qual nuvem aglutinadora. Sobe-se ao sexto andar de um deles, o da Escola, com o terraço sob a nuvem. A vista lá está, desde sempre: o mar, a ponte RioNiterói, o Porto e os enormes transatlânticos. É bonito tudo aquilo. Como num passe de mágica, por um inteligente jogo de rampas, lá se está no terceiro andar do outro edifício, o das Exposições, que

grafia. Bom, muito bom. E bonito.

Imperdível para quem ama o belo, a arte e para quem não, ainda. A região, da Praça Mauá à Gamboa, mistura de progresso desordenado, eclético e decadência urbana, está em obras. Toda. É o Porto Maravilha, projeto de recuperação e redenção do todo: Porto, o zoneamento residencial, comercial, cultural, a reordenação do trânsito, o tecido urbano. E a presença da Arquitetura “fireworks”, principalmente pelos “stararchitects” internacionais, cujas empresas estão sempre alertas para as oportunidades políticas de ouro; azar dos nativos! Isto não é bonito, principalmente para nós, arquitetos.

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Um algo é notável; a diferença é flagrante: as mudanças de fisionomias, de postura e do vestir dos frequentadores. Nada criticável, nada recriminável, longe disso mas muito interessante observar: camisa do Flamengo, chinelos de dedo, bonés funk, colares e relógios douradões, uns vestidos para festa, outros na maior informalidade, de vários matizes, misturados aos típicos frequentadores de museus, de arte e os bichos grilo (sim, ainda existem...). É o povo da região, da redondeza, que não se deslocava aos museus, ou porque não tinha notícia, ou porque era longe, ou caro, ou mesmo intimidava. E agora o museu veio a eles. A preços acessíveis, no seu território — aí a gente vai, a gente gosta, a gente curte. Assim se vai formando a cultura de um povo, sua educação, seus valores, sua evolução. Desta vez os políticos acertaram; pelo menos os que viabilizaram o MAR. Foi realmente bonito isto. Está sendo. Tudo.

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Anjo Pecador
Por Valdeck Almeida de Jesus Sou capeta o dia todo Sou Deus de vez em quando Fumo, bebo, roubo e mato Finjo ser santo, por trás do manto. Sou puto, confuso, mentiroso Desafio às leis e regulamentos Desobedeço, sempre, a tudo Iludo, engano, sou um jumento. Uso drogas, me masturbo Faço tudo o que é proibido Uivo louco na libido. Não tenho medo do inferno Só não quero viver no inverno De uma vida sem poesia.

Imagem de Skategirl
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O sangue do filho
Por Bertolina Maffei Joana, menina moça de seus quinze anos de idade sempre gostou de tudo o que é bom e bonito. Filha mimada, com seus grandes sonhos e obsessões da vida, sonhava com um príncipe encantado, desejava estudar muito, morar sozinha, trabalhar e ser dona de seu próprio nariz. Estudante do ensino médio Joana tinha suas metas e sonhos para o futuro e tudo ia dando certo, até conhecer um novo amigo do colégio! Joana ficou encantada. Ele era bonito, inteligente e tinha todas as qualidades de um moço culto da cidade. Tinha seu carro, roupas finas e bonitas. Joana se apaixonou a primeira vista. O nome dele era Marcos, ele tinha tudo o que Joana tinha imaginado! Certo dia ele se aproximou dela e disse “Joana, sabe, eu gosto de você”. Ela quase desmaiou! Era muito bom ouvir aquilo. Ela já estava apaixonada. Joana passou a noite pensando em Marcos: “Meu Deus! Como é bom conhecer a pessoa dos meus sonhos!” No outro dia na escola, Marcos encontrou Joana no pé da escada e disse: “Joana quer namorar comigo?” – “Sim, Joana respondeu, eu quero, estou louca por você!” A partir daquele momento em diante não se largaram mais. Era “eu te amo” de cá, era “eu te amo” de lá. A paixão daqueles dois jovens adolescentes duraria para sempre? O tempo foi passando, dias, semana e meses. Aquele amor seguia um muito feliz, mas o que estava para vir Joana nem em sonho imaginava! Certo final de semana Marcos disse a Joana: “Vamos fazer um passeio este final de semana?” – “Onde vamos?” – “Na festa de aniversario, respondeu Marcos, de meu amigo lá na capital . Nós vamos com meu carro. Peça para seus pais. Será que eles deixarão você ir?” Os pais de Joana eram muito católicos e não deixavam Joana sair sozinha. Ela era ainda uma adolescente, mas como o namoro estava sério, eles deixaram, mas com muitas recomendações: “Cuide bem de minha filha! Vá dormir na casa de seus pais! Não a deixe sozinha...” No outro dia de manhã começou a grande viagem, foram em direção a capital. As coisas mudariam para sempre a partir daquela viajem. O rumo de suas vidas tomaria outra direção. Joana e Marcos apaixonados, a longa viagem

cansativa... bateu aquela vontade de descansar um pouco. Eles pararam num restaurante a beira da estrada. Marcos disse: “Vamos comer alguma coisa, já viajamos muito e estamos cansados, precisamos descansar um pouco”. Pediram o almoço e ficaram por ali um pouco após almoçar. De repente Marcos diz: “Aqui tem um hotel, vamos passar a noite aqui!” Joana assustada diz: “Está louco? O que meus pais vão dizer?” – “Bobinha... respondeu Marcos, eles nem precisam saber!” “Mas como, argumenta Joana, não precisam saber e se acontece qualquer coisa, uma gravidez indesejada por exemplo?” – “Não vai a acontecer nada, afirmou Marcos com cara de cafajeste. Joana vamos aproveitar, vamos, ninguém vai saber nada” – “Mas é claro que vão saber, meus pais me deixaram ir na casa de seus pais e não dormir na estrada” – “Nós dizemos que estamos lá, amorzinho”. “Mas você não pode me obrigar...” – “E você tem outra opção? Perguntou Marcos. Deixa de ser bobinha Joana, nós estamos apaixonados, o que um quer o outro quer também, não é isto?” Marcos tanto insistiu que no fim Joana acabou cedendo: “Está bom. Eu te amo muito e quero estar sempre nos seus braços. Vai ser a primeira noite com você e logo nós vamos nos casar e viver junto até que a morte nos separe”. Passaram a noite juntos. Joana estava muito apreensiva. Ela não imaginava como se enganou com aquele moço que dizia ser o amor de sua vida. No outro dia acordaram tarde e Joana perguntou: “e o aniversário?” – ”Não tem aniversário nenhum, hoje a tarde voltamos para casa e você não diz nada a ninguém!” Chegaram de volta em casa, Joana com muito medo que seus pais descobrissem, o que tinha acontecido na viagem, era para ser coisa só deles. No outro dia no colégio Marcos a tratou com frieza, quase não falou com ela. Foi ai que ela passou a conhecer verdadeiro Marcos, o cafajeste mentiroso a quem ela se entregou. Aos poucos a mascara de bom jovem estava caindo, mas Joana não sabia o que estava por vir. De repente Joana começa a desmaiar e Marcos não está nem ai! “Gente, disseram suas amigas, vamos levar Joana para o hospital, ela estava pálida com vômitos, o que será que comeu que está passando mal. Alguns colegas e professores socorreram Joana e ligaram para seus pais. O médico examinou e mandou fazer exames enquanto isto seus pais chegaram e foram conversar com o médico. (Segue)
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Quando os exames ficaram pronto, o Dr. chamou os pais dela e disse! Joana está grávida! Eles ficaram pasmos: “mas como? Ela é solteira! Ah foi a viagem que aquele cafajeste fez com nossa filha”. Os pais foram conversar com ela que ainda nem sabia ainda! “Você não é mais nossa filha!” foi dizendo o pai logo que a viu. “Mas pai, o que aconteceu? Por que você está revoltado?” – “Você sabe muito bem o que deixou aquele cafajeste fazer.” – “Não estou entendendo, pai?” – “Mas é claro que sabe...” Nisto chegou o Dr Murilo: “o que está acontecendo aqui? Se acalme, seu Juvenal, agora a Joana precisa de repouso para que o bebê possa crescer forte”. – “Não tem bebê nenhum!” exclamou o pai ainda furioso. “Eu só quero encontrar aquele seu namoradinho e se ele não casar com você, acabo com a raça dele agora mesmo!” Joana estava muito triste, angustiada e não parava de chorar. Passou a noite acordada, no outro dia ganhou alta. O que fazer agora? O seu pai não a queria mais em casa. Ela mandou chamar Marcos e contou as dificuldades que estava passando. Marcos nem deu bola, um filho não estava nos meus planos. “Agora estou indo embora da cidade” afirmou ele. “Não quero saber de filho para estragar minha vida!” - “Estragar sua vida?” perguntou Joana “E a minha você não conta? Meus pais não me querem mais em casa, o que era para ser um segredo só nosso acabou vindo à tona”. Marcos não assumiu e não casou. Joana foi morar com sua avó uns tempos e quando o pequeno Renan nasceu, seus pais a perdoaram e foram buscar Joana e Renan para morar com eles. Agora é só alegria na casa de seus pais. Renan cresceu, estudou e se formou em uma cidade grande. Agora ele é médico. Um certo dia chegou ao Hospital onde Renan trabalhava um homem que tinha foi atropelado, entre a vida e a morte, ele precisava de uma cirurgia mas não tinha seu tipo sanguíneo e não encontraram a família para pedir um doador, o que fazer? O Dr. Renan disse: “Eu vou doar o meu sangue para salvar este desconhecido”. Quando o homem começou a melhorar perguntaram seu nome e outras informações. “Marcos, meu nome é Marcos” ele disse ainda meio atrapalhado. “Marcos se chamava meu pai”, disse o Dr. Renan, começando uma conversa com o doente, “Mas eu nunca o conheci...” Aos poucos Marcos começou a melhorar e foi contando sua história. Agora ele estava ali, di-

ante de seu filho. O pai que um dia abandonou tudo por aventuras. Veja a vira volta que o mundo dá: o filho, um dia abandonado sem remorsos, salva seu pai, doando seu próprio sangue!

À Sombra do Pecado
Por Beto Acioli

O desejo impuro na mente dorme Consequente de um instinto aguçado Permanece latente enquanto pode Oportuno outrora é manifestado

Como um abraço na noite o tempo corre De um porre adormeço em teus braços Disfarço como quem bem lento morre Uniforme amanheço em outro espaço

Como um louco perdido e atordoado Confuso com o sonho que ainda dorme Me desperto na sombra do pecado

O veneno nas veias ainda transcorre Impetuoso desejo é revelado Consumando a avidez ao erro incorre

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Relicário
Por Valquíria Gesqui Malagoli

Perdi o sono... perdi de vez, porque a criança pequenina acorda à noite, e eu regressei ao berço por você. De tão perdida, eis que me encontro, enfim! Do tempo, toda a gente estranha o açoite – ah, mas se eles soubessem sobre mim... Vendavais, intempéries causam medo, e a forma como o mundo ruma ao fim... Porém, mais me amedronta esse segredo. Ter que guardá-lo, santo, em relicário; ver que escorre, então, por um e outro dedo. Dizê-lo apenas em confessionário. Um coração que é um cofre: isso é pavor! Tê-lo indefeso e imóvel qual armário, guardando os caros bens do seu senhor.

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A sentença
Por Sonia Regina Rocha Rodrigues Por que não morre? O pensamento passou leve como a lembrança da fala pertencente a uma personagem ausente em um drama distante. Quase a adormecer de cansaço, ela estremeceu. E nunca mais seu coração descansou. Ela recordava como olhara com prazer e orgulho as bochechas rosadas do caçula no sono profundo dos bebês desejados. À memória vinha também o riso gargarejante, as mãozinhas buliçosas, o olhar curioso do garotinho tão amado até que... Ele não se sentou na idade em que os bebês costumam sentar-se, começou a engasgar, a respirar mal e o chocalho lhe caía das mãos. A rotina da casa transformou-se. Os médicos se contradiziam, os exames tardavam, as agendas lotavam-se de fisioterapias, consultas a especialistas, internações. O nome da doença degenerativa progressiva involutiva crônica ela não entendeu. Só soube que o filho ia piorar, não tinha cura, não passava para os irmãos mas necessitava de cuidados constantes. Imersa em dor ela nem percebeu que as semanas viraram meses e depois anos. Agora, enfermeira em tempo integral, afastara-se do emprego, privava-se dos benefícios do trabalho. a pós-graduação que iniciara foi abandonada. Evitava os amigos e desestimulava as visitas dos parentes, fosse algum trazer do mundo exterior algum vírus letal ao doentinho. As crianças mais velhas recebiam beijos apressados e olhares distraídos. Desde o início da doença, o pai passara a levar os maiores para a escola, ia buscá-los e nos fins de semana afastava-se com eles para o futebol. E uma tarde, estando o caçula hospitalizado, ela retornou para uma casa vazia. O marido requereu o divórcio e aa guarda dos filhos maiores, com total apoio dos sogros. Do leito frio para os corredores silenciosos, ela se consumia entre fraldas, alimentos, remédios e inaladores. Ora, aconteceu de o garoto da esquina, portador de síndrome de Down, falecer a cami-

nho do hospital. A vizinha se descuidara do médico, atarefada entre entregas de iogurte caseiro e a lavagem das roupas das clientes. Em um ano procurara o pediatra uma única vez e recusara-se a ouvir que o filho, além de diferente também fosse doente cardíaco, apesar de perceber o rosto inchado e da respiração difícil do garoto. Nesta noite ela soube, conversando com amigos pediatras, que alguns médicos consideram grande parte das mortes acidentais de crianças deficientes como homicídio inconscientemente elaborado. Esquecendo a torneira da banheira aberta, a panela de água fervente com o cabo para fora, medicamentos em locais de fácil acesso, um janela aberta....um acidente libera os pais daquele pesado fardo. O descaso pelo acompanhamento médico de um garoto Down, segundo estes médicos, enquadrava-se na definição do tal ‘homicídio inconscientemente elaborado’. Ela ouvia aterrorizada, discordando, pois o coração de qualquer mãe desdobra-se em sacrifícios pela prole! Não é sempre assim? Aquela noite, ao debruçar-se sobre o rostinho adormecido de seu próprio filho, o pensamento apenas sugerido: Por que não morre? Ah, como ela desejava de volta a sua vida – seu trabalho, sua tese, seu lazer, seus cuidados pessoais, seus amigos, seu marido. Quando ela era uma menina, o professor de catecismo, em uma aula, leu da Bíblia estas palavras cruéis e definitivas: “Pois eu lhes digo que aquele que olhar com desejo para a mulher do próximo, em seu coração já cometeu adultério.” Ela escutou as explicações do padre, inconformada por ser tão difícil ser bom! Revoltou-se: Então, padre, quando a gente pensa em mentir mas conta a verdade e quando uma pessoa pensa em roubar mas não rouba, se segura e faz o que é certo? Então, isto não vale nada? E o padre confirmou: Pequena, aquele que pensou no pecado, já pecou em seu coração. Ela tumultuou a aula. Tanto sacrifício para nada! Jesus era um deus muito exigente!
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Desse dia em diante, ela passava o dedo no glacê dos bolos de aniversário às escondidas e roubava biscoitos no pote guardado no armário. Se já pecara mesmo... O professor de catecismo dizia umas coisas esquisitas, algumas ela jamais entendera, mesmo que estivessem na Bíblia, este livro cheio de mistérios. A angústia da noite em que ela pensou “por que não morre?” não se aliviou em lágrimas, antes tirou-lhe o sono, o apetite e até a alegria de cuidar do doentinho. Ela contratou duas enfermeiras para garantir que cada gesto seu fosse vigiado, tal o medo que passara a sentir de adormecer em hora imprópria, misturar os frascos dos remédios, esquecer de agasalhar o menino em uma noite fria. Nunca o pequeno fora tão bem lavado, penteado, perfumado e enfeitado. Com que capricho ela mantinha seu quarto imaculadamente limpo! Com que cuidado escolhia para ele os legumes mais fresquinhos e as frutas mais saborosas! Ela ia definhando a cada dia sem que ninguém suspeitasse que, por detrás das olheiras e das faces pálidas, ela agora compreendia como ninguém outra das estranhas afirmações do professor de catecismo: “Deus não castiga ninguém. É o pecado que traz em seu bojo o seu próprio castigo.”

CIRCO LEGAL NÃO TEM ANIMAL!

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Varal do Brasil - Maio/Junho de 2013

SEGREDOS & PECADOS Por Camila Gomes

Tenho um segredo que preciso confessar namoro escondido o irmão do meu amigo.

Trabalha comigo ajudando a tirar pessoas das ruas e levar para o abrigo.

Resolvi escrever uma carta contando tudo o que estava acontecendo.

Seu irmão não aceitou me disse que isso está errado que amar outro homem é pecado.

Que seria mais adequado deixar o Eduardo que está triste e magoado por saber que não poderá mais me ver.

Mas não é assim não ele terá que escolher entre eu que sou o seu irmão e você Quem ele irá escolher?

Seu irmão apareceu e a pergunta ele respondeu disse que ia ficar com Eduardo que está louco por ele e completamente apaixonado!!!

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BARCO
Por Marly Rondan

Foi feito pra navegar, levar e trazer saudades, criado para enfrentar maré alta e tempestades. Em porto seguro, tolo! Prefere assim ficar ... Não afundar é um consolo, mas feito pra navegar. Quem sabe desapareça, solto no mar à deriva, sua preservação esqueça. Pode naufragar! Faz parte, é a sua vida ativa... Foi feito pra navegar.

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NA NOITE EM QUE MORRI
Por Tiago Gonçalves Capítulo 1 Naquele fatídico 19 de Abril, a noite corria pelo sangue derramado que no passeio parecia navegar. A faca que, culpadamente, rasgou o meu imigrante amigo Miguel, era observada por todos nós que testemunhámos o pavoroso acto e inquirimos o nevoeiro se tudo aquilo era necessário e justificado. O culpado que, furtivamente, fugia horrorizado com as suas acções, berrava ao longe e expiava o seu pecado imperdoável. As pedras da calçada secam as lágrimas de todos nós, espectadores, amigos, camaradas de tantas noites. Ah! Belas noites que vivemos juntos e que não mais viveremos porque agora já não vives. Tratamos-te por tu como sempre tratamos, desde que te conhecemos. Tu que tinhas o irreverente à vontade para falar com quem possuías a mais ínfima das afinidades mas que em determinado momento partilhavas o mais pequeno e próximo dos espaços. Agora apenas te guardamos no coração, pois a mente ficará ocupada com esta imagem de ti, estendido no passeio, com as mãos no estômago, as pernas torcidas com dor e a boca a gritar um último adeus. O choro invade progressivamente o espaço que partilhámos, nesta improvisada homenagem de quem assistiu à tua morte. A revolta cresce em quem se zanga com o assassino, que se vingou desse nada, que foi tudo na tua vida e na tua morte. Ninguém o previu e por isso não travou essa avalanche que culminou nesta tragédia, da qual os deuses se riem, julgando a mesquinha patetice humana como inerente ao fraco espírito e inferior intelecto. O sangue que vemos correr faz vibrar o que em nós corre, faz ferver nas veias a ira que cresce e nos fortalece, por este crime cometido contra um de nós. O ambiente, agora tenso, faz-nos julgar o réu como culpado e incentiva-nos a procurar uma forma rápida de vingança e de justiça. Ansiamos por um juiz que nos intitule jurados e carrascos, para perseguirmos o assassino cuja morada habitual conhecemos. Isto caso não fuja. Ah pois, cobarde como foi, certamente fugirá da justiça humana, tentando fugir assim da sua consciência. Esse cobarde cujo acto demoníaco só é menos temível que o seu sorriso na altura do

crime, como que orgulhoso pela sua própria maldade. Esse sorriso que ninguém procurou suprimir e assim suprimir o crime cometido. Esse sorriso que revelou tudo o que não conhecíamos do assassino. Ah, maldito que tantas vezes por nós passaste… Capítulo 2 Vamos para os carros com a boca seca e um nó na garganta que não nos permite beber. Eu vou sozinho e assim prefiro, pois o isolamento ajuda-me para chorar toda a morte do meu imigrante amigo. Vejo a tristeza no rosto de todos que assistiram à morte desse grande rapaz. Os vários carros afastam-se para que a polícia termine o seu trabalho e o corpo seja levado para a morgue. Rasgando pelo nevoeiro nocturno e sufocante, fugimos sem grandes despedidas mas com muito em que pensar. Antes de mais, devíamos pensar na melhor forma de vingança para aquela atrocidad. A sede de sangue foi bem aguçada pela quantidade que vimos dançar na calçada. É bem tentadora a vontade de saciar essa sede, mas pouco racional, e por isso convém ponderar na tentação. A justiça policial, a mais morosa, mas mais lógica e a única que não tem qualquer perigo. O tempo que demora e a ínfima possibilidade de fuga ou inocência do assassino são desvantagens, e logo um risco. Devemos também pensar que isto foi uma calamidade e que a nossa vida continua, após a vingança. Devemos esquecer a atrocidade e relembrar apenas em altura de homenagem. O falecido será falado, brindado e lembrado, nunca o seu nome deixará de ser honrado, mas fora esses momentos, será esquecido, isolado na memória, para pudermos viver plenamente, tendo este desastre não como um marco importante, mas como um acto isolado, tal é a tristeza que o rodeia. Ligo o rádio, a música ajudará a viagem e facilitará os pensamentos. A música calma e penetrante faz-me esquecer como a vida é madrasta por vezes, exemplo disso a feia sorte do meu falecido amigo. A irregular estrada passa-me despercebida, tamanho o hábito de por ela viajar. Bailo nela com o meu carro, percorro uma triste valsa embalada pela triste noite, consciente da difícil tarefa que será esquecer tudo o que aconteceu. (Segue)
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Capítulo 3 Fecho a porta do carro e rodo a chave num adeus. Gosto mais dele hoje, pois foi o meu pronto-socorro para fora dali. Caminho para casa fitando o chão, mas quando para ela olho, ao levantar a cabeça, vejo a sua cor mudar. Hoje está mais vermelha, vermelho rubro, creio. Páro, abano a cabeça, e agora a cor começa a desaparecer por a tinta escorrer, do telhado para a porta, até inundar a fachada, como o imigrante Miguel inundou com sangue a calçada. A sarjeta é a fechadura da porta enquanto eu revejo a cena, desta vez na minha casa, como se de um projector se tratasse, insensível à náusea do público. Procuro fugir acelerando o passo e rapidamente abro a porta. Com as mãos trémulas e os olhos inundados, entro e vou logo ver televisão. Preciso de novas imagens para tirar as que pairam na minha memória. Vejo sem ver, oiço sem ouvir. Simplesmente liberto a mente e a alma, sou um mero corpo. Era disto que precisava, acho, o hipnotismo cativante de um programa absorvente que me suga para o ecrã, junto com todos os espectadores que, tal como eu, flutuam enquanto alguém brinca e joga com o nosso cérebro. Regresso do ecrã para apanhar o vodka na garrafa mais perto, ali na prateleira. Bebo, bebo, bebo, para esquecer, vomitar o mal, para tudo de mim excomungar. Do sofá para a sanita, e depois para a cama, para o amanhã.

há muito tempo e como tal o que se passou não teve significado, procurando uma concordância através da força demonstrada nesta sua nova personalidade que não reconheço, e apenas serve para me deixar pensar que muito fez a Joana para me mentir este tempo todo. Reajo quase sem pensar. Sinto-me infectado e como um anticorpo quero matar este micróbio! Mostro complacência e sopro um “se é o que queres, tudo bem”, apesar de achar que o melhor seria o tempo ditar o futuro. Ela sorri-me um “ainda bem, até logo” e eu despeço-me com um arrogante “preferes usar o bode expiatório mais vulgar, o álcool, certo? Até logo”. Ela desliga a chamada e fico certo de estar enganado sobre a Joana. Penso que foi bom não desenvolver o que por ela sentia. A insensibilidade da Joana perante a morte em si e a satisfação com aquele fim, com aquela resposta, enquadram-se no meu engano sobre quem ela é. Todos os acontecimentos da noite passada provam isso mesmo. Foi bom tudo ficar por aqui. Até me desligou o telefone na cara, a estúpida. Capítulo 5 Acordo lado-a-lado com um ódio visceral, acho que é a Joana, vou comer alguma coisa para o estômago não chorar muito a bomba que vou preparar. Preciso digerir mais esta dor, o raio da Joana ainda me fez pior. Como se já não bastasse a nauseante morte que nada deixa parar no estômago, agora mais esta, logo pela manhã. Vou abrindo os armários até parar no pão, para juntar o que houver no frigorífico. Penso que nas próximas horas o álcool será uma constante para viver. Vou ligar a televisão para me esquecer. Não consigo parar de pensar. Nem o álcool ajuda. É pouco, não consigo afogar o cérebro. Estou a dar em louco, vou ligar ao Fernando. Ele atende quase de imediato, devia estar a pensar o mesmo que eu. Pergunto como se sente, procurando alguma empatia, ao que ele me responde soturnamente “sinto-me angustiado”, digo-lhe que compreendo e inquiro sobre o que vai fazer quanto a isso, ao que me sussurra “acho que vou viajar”.

Capítulo 4 Acordo rabugento pelas poucas horas de sono patrocinadas pela chamada da Joana. Maldigo de imediato o nome dela e só depois me apercebo de que a experiência de ontem com ela merece mais algum respeito. Atendo atencioso mas logo questiono a razão do telefonema madrugador, mostrando o desagrado que tento engolir. Com uma firmeza incaracterística, a Joana diz que temos de falar do que se passou. Sempre foi pouco assertiva ela, este movimento por parte dela desequilibrame. Retorno com a afirmação que tem razão, e pergunto ensonado qual a melhor forma de vingarmos o Miguel, para intencionalmente alimentar um julgamento colectivo do culpado. Vingar o quê, inquire-me e esquiva-se, referindo que a policia já está a tratar disso. A Joana prossegue anunciando que temos de falar do que se passou entre nós, que somos amigos

(Segue)

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Indigno-me e ataco, acuso-o de fuga e cobardia quando a justiça é necessária. Ele zanga-se e pressupõe “já estás bêbedo”, afirmando que “justiça fazem os tribunais”. Mostro -lhe a minha tristeza, soletro que nunca o vi como alguém assim, que não o conheço assim, ao que ele retribui com “eu é que não te estou a reconhecer” e, paternalista, prossegue “até estou, estás bêbedo, vê lá se dormes, sei que te custou muito tudo o que se passou”. Concluo com “estou desiludido contigo, Fernando, mas com a tua consciência lidas tu”. Ele despede-se com um “está bem, até logo”. Frustração e desilusão, é o que ganho nesta conversa com o Fernando. Capítulo 6 O nevoeiro era uma persistente companhia naquela noite, daquelas que nos rodeia e sufoca, fazendo-se lembrar só pela teimosia. O fumo dos lógicos cigarros confundia-se com o chato nevoeiro, e ambos acompanhavam abençoadamente as constantes bebidas alcoólicas que, ao ar livre e gelado, nos aqueciam como um vulcão, tornando-se o aquecimento ideal nocturno. As bebidas eram eternas nas mãos de todos que ali estavam, estranhos, conhecidos ou amigos comuns, cujos movimentos corporais se resumiam a bailar com as bebidas e os cigarros, apregoando com esporádicas gargalhadas as conversas e as contínuas viagens ao balcão para pedir mais e mais e mais. O ambiente era fraterno e aconchegante como sempre, típico de uma multidão cujo objectivo era exactamente o mesmo, o calor da diversão misturando vários prazeres. Sucediam-se conversas e proximidades. Ali manifestavam as afinidades que partilhavam e alinhavavam os planos para a noitada que, para quase todos, apenas estava a começar. Como era habitual, o falecido imigrante era o centro da nossa festa, a nossa festa particular que, junto com outras tantas, formava aquela massa. Ele bebia, ria, brincava, fumava, sem qualquer ordem, e até dançava. Quem não o conhecia, passava a conhecer. Era quase impossível não gostar. Como não estimar aquele fanfarrão e brincalhão, de ânimo tão leve? A sua simpatia transparecia nos seus gestos e a sua alma era reconfortante para qualquer um. Eu enroscava-me na Joana, como sempre aconteceu desde que nos vimos. Enleavame nela e misturávamos constantemente os nossos sorrisos num só. A sua cuidadosa beleza e generosa amizade era um bom acom-

panhamento da sua perspicácia e compreensão. Era uma afeição à primeira vista, tamanha a química. Sempre nos agradámos mutuamente por isso mesmo. Acredito que de alguma forma a encantei. Desde logo pressenti que ia ser bem agradável a nossa relação, e algo me dizia que, naqueles momentos, ia poder comprovar isso. A partilha da bebida era bem mais intensa, os olhares bem mais sugestivos, a proximidade bem mais atrevida. O Fernando, por sua vez, procurava pela Maria na confusão, enquanto distraidamente conversava com o João e a Paula. A Maria bem poderia se chamar Wally naquela noite, tal a impossibilidade de a encontrar no meio daquele mar de gente. O telemóvel não colaborava, sem bateria, e o Fernando desesperava à procura da sua simpatia actual, a Maria. Era encantadora ela, de facto, na resplandecência dos seus cabelos loiros e altivez dos seus cento e sessenta centímetros de altura. Ela fazia notar a sua presença sem nada dizer, era somente a musa que o Fernando desejava, ele que é um romântico por natureza, um constante marinheiro de um só barco que não descobrira. Foi na travessia para mais uma cerveja que o falecido imigrante tropeçou no assassino. Um encontrão e umas bocas, como é possível! Tudo começou assim! Um encontrão e umas bocas. No primeiro round, mais preocupado com a cerveja, ouvi sem ouvir. Era mais um a querer libertar as frustrações, pensei. O falecido imigrante virou costas, para revolta do assassino. O falecido imigrante apenas sorriu e foi atrás da sua cerveja. No segundo round, nos últimos passos do falecido, o Fernando pergunta alto e aponta “não é aquela a Maria?”. O assassino projectou-se no falecido. Um breve confronto, até a faca sair do bolso para a barriga do cadáver. Foram empurrões e umas bocas, como é possível! Tudo começou aí! E nós sem tempo para o salvar. Uma luz entre as sombras, a faca brilhou até ficar coberta do vermelho sangue. Sem mais, uns empurrões, umas bocas, uma faca, e uma fuga no meio da inércia. Nós, parados, os culpados espectadores.

Capítulo 7 Liberto-me e acordo do pesadelo vivo. Porra, agora até nos sonhos a morte goza.

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Não me sai da cabeça e não posso mais adiar, já decidi o que fazer para descansar e não enlouquecer com isto. Vou ligar ao João, vou ver se alguém me pode ajudar. Está desligado. Percebe-se. Se bem o conheço, está de tal forma afectado que se isolou. A Paula deve estar com ele mas não tenho o número dela. Que raio de confusão baila na minha cabeça. No telemóvel o visor pisca, o Fernando liga-me, deve ter mudado de ideias. Atendo com “sabia que não me ias falhar”, ele concorda com “nunca te falho”, e eu alegro-me. Sei bem quem é o Fernando. Pergunto “então como vamos fazer isto?”, ele começa então a discursar “é assim, marcaram o funeral para daqui a uma semana, dá tempo para prepararmos tudo com calma e da melhor forma. Ele era bastante religioso, por isso vamos todos à missa. A família dele vem para Portugal, vai estar toda a gente da vida dele presente. Vai ser lindo, vai ser a melhor cerimónia de despedida para ele. Estamos a preparar uma coisa fantástica para a campa dele. Não vai ficar só enterrado, sabes? Vamos fazer uma recolha de fundos, e vai ficar uma coisa em condições. Mas vai ser levado para o país dele, vamos deixar uma homenagem física cá”. Estou mudo. Estou mesmo, não consigo falar. Desligo só, as lágrimas lavam-me a cara do sono, por estar só. Não posso pensar sequer no funeral sem antes eu mesmo viver.

ro, sou um homem com um alvo na mente. O alvo de tudo isto que me enlouqueceu, toda a minha vida ridícula, todos os erros constantes e sucessivos, todos os insultos e humilhações, todas as nuvens negras que me pesaram nos ombros durante tantos anos. Ele é a culpa, ele nada mais é do que o minúsculo insecto que despoletou em mim toda a raiva e ódio que estavam latentes. As mãos tremem ansiosas, ganhando vida própria, sem me obedecer. A electricidade do corpo há muito que tomou conta de mim, estou em piloto automático, a Razão nada manda. Dentro de mim grito o que fazer a cada momento, a voz que sempre escolhi ignorar. A voz autoritária e afirmativa, vingativa e impiedosa, que toda a minha vida desejei. A voz que se resume ao que sempre quis falar, a voz que incentiva e motiva, a voz que culpo pelos actos, cobardemente, a voz que manda e eu obedeço, sendo o veículo e arma. Tempo e espaço não mais existem para mim, o caminho nada mais é que uma contínua recta que termina no meu objectivo, pintado a vermelho, pedindo o retorno, pedindo a libertadora morte. A minha saída é essa, sem opção ou escolha, apenas uma linha cujo fim é ele. Eu, um mero carrasco sem capuz, cujas pernas se movem ordeiramente. A pena? Só uma. Apenas cumpro ordens e faço justiça. As minhas ordens, a minha justiça, a mesma que executarei. Tudo se resume a mim. A minha voz que ignorei, o meu mundo que ignorei, as minhas leis que ignorei. Sou o juiz e o carrasco. Olho por olho, dente por dente, e terei o meu equilíbrio no meu universo. Já o vejo. Sorrateiro, salto agilmente e espeto uma faca no seu pescoço, e corro. Corro enquanto recupero o meu sorriso e o descanso na consciência. Traiçoeiro, como mereceu. A linha terminou aqui e a minha vida também. Capitulo 9 Que bonito o sangue na calçada, limpando toda a sujidade humana e desta sociedade podre, onde o mau se ri por último, onde o mau é mais feliz, porque o bom é fraco, porque as maldades são perdoadas, ignoradas ou ilibadas, porque o mundo é injusto e os maus actos catalogados como oportunismo, esperteza, irresponsabilidade, negligência ou loucura. Por isso fiz justiça pelas próprias mãos, para repor um suposto equilíbrio. (Segue)
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Capítulo 8 Corro a passo com um alvo na cabeça. Uma imagem viva que me cobre o olhar e prende o coração, uma imagem repleta de emoções, ardendo como fogo na minha mente. Uma imagem que se mistura com o sentimento de dever e de justiça que carrego nas mãos. Uma imagem que é a minha missão, uma imagem que não é mais que o futuro fim da minha vida. Corro firmemente, sou um turbilhão de emoções com o sangue a girar por todo o corpo, sem controlo e sem cessar. Sou uma bomba-relógio que anseia por explodir. O meu coração bate ofegante e derrotado, sabe da sua função vital mas que agora é ignorada, tamanhas são as façanhas vindouras. Corro lentamente, sinto que o mundo e a vida passam por mim à velocidade da luz, contudo não me apresso. Concentrado e segu-

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Acredito neste equilíbrio, apesar de saber que é impossível. A dura vingança do bom torna-o mau, descaracteriza-o pela gravidade das suas acções, por muito que seja justa a vingança. Mas que equilíbrio é viável para este triste e moribundo mundo em que o bem tarda ou falha, em que o mal se ri da impunidade e goza da injustiça, goza na cara do fraco, fraco não pelo bem que faz, mas antes pelo bem que não faz. Fiz justiça mas agora sou eu também o mau, mau como o que matei. No fundo todos somos maus, certo? Porque assim o mundo nos fez, assim o mundo nos tornou, porque são as nossas acções que nos definem e a acção certa nem sempre é a boa acção. A justiça é justa, não bondosa, acho eu, contudo será que assim tem de ser? Nunca vou esquecer o momento que definiu quem sou e sempre fui, mas sempre quis sufocar, por isso matei e voltaria a matar. Matei pelo imigrante Miguel que estava no lugar errado na hora errada, pelo Fernando que se arrepende de o ter chamado, pela Paula e pelo João que se sentem impotentes, pela Joana que me prometeu felicidade, mas sobretudo pelo momento que me retirou qualquer chance de felicidade para não mais viver. E agora Joana, pergunto-te, porque não me fizeste viver?

Culpas Por Tania Diniz
Amava-o assim mesmo, sem grandes emoções, pois que o tempo as acalmara, havia muito. Não importava a gagueira, ouvia-o com infinita paciência e até sofria pela aflição dele em querer dizer palavras inteiras, sem sucesso. Afinal, ele ficara assim por ela, pelo grande susto que levara ao quase poeminhas perdê-la um dia, para o rei de vizinho país. (Ao lembrar-se do distante episódio, ainda um pequeno travo amargou-lhe a boca, pela saudade do que poderia ter sido.) E assim, acomodou-se na cadeira de balanço, tomou da linha e da agulha e, pacientemente, começou a alinhavar-lhe as palavras.

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NO UNIVERSO DE GUACIRA MACIEL

Estética da Literatura A um primeiro olhar os meus textos literários poderiam ser considerados uma espécie de transgressão, mas não é assim...o meu interesse em relação à Literatura é tentar entender (e desvendar) uma compreensão muito pessoal, intima mesmo, da escrita como arte; em sendo assim, não posso submetê-la a cânones, sejam quais forem eles, mesmo que acadêmicos, da língua materna, e muito menos de uma reforma ortográfica com a qual eu não tive nenhum envolvimento. Um texto literário, como criação, é tão plástico quanto uma pintura, um desenho e, dessa forma, como estes, não pode ser submetido a regras quanto ao que o seu autor deve falar, por se tratar de percepção, de sentimento, o que é muito subjetivo. Quando deixo escorregar o pincel sobre a tela, embora tenha uma ideia inicial do que penso pintar, não tenho total controle sobre o resultado final...muitas vezes o pincel é arrebatado e o trabalho escapa à minha determinação. Assim é o ato de criar escrevendo; a Literatura, diferentemente de um texto acadêmico, é simbolista, metafórica, carregada de subjetividade, de representações... Faço literatura, escrevo, para me expressar, para me fazer representar em meu tempo humano, para deleite pessoal e de quem me lê, sem obrigação de legitimar a gramática (as vírgulas então...), até porque, posso ser lida por uma diversidade tão grande de pessoas, com histórias pessoais também tão diversas que deixo de ter controle sobre o que escrevi. O meu trabalho pode ser lido (espero...) por qualquer público, inclusive aquele caracterizado por alguns como iletrado, que poderá interpretá-lo (estão liberados...) segundo sua condição ou necessidade, ou entendimento dele e de mundo, uma vez que uma obra depois de publicada, depois de entregue ao público não pertence mais ao seu autor no sentido do domínio interpretativo e terá tantos coautores quantos o possam ler... Além dessa estética do texto escrito, no sentido mais profundo, eu também preciso expor a estética da minha percepção daquilo sobre o que escrevo. A minha literatura em poesia ou prosa é muito impressionista e compõe a minha fantasia, aliada ao que percebo da vida, das relações, das coisas, da paisagem, das pessoas que, às vezes, apenas passam por mim ou daquelas que cruzam o meu caminho e me afetam por instantes que poderão jamais se repetir...e tudo isso tem uma forte dimensão de "nonsense". Sendo impressionista, o meu texto é mesmo imperfeito, como eu, pois minhas metáforas e meu ritmo e pausas vão evidenciar o meu sentimento naquele exato momento, a dramaticidade que quero demonstrar, aliados à atmosfera externa e minha atmosfera intima, na tentativa de 'imprimir' ou capturar aquele fragmento de tempo através da escrita..
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Danny Sem Noção
Por Raquel Rocha
Danny: 13 anos Perfil: Super legal, super feliz, super amiga, super. . . Qualquer outra coisa Amigas da Danny: Fe, Le, Re, Pri, Dri, Gi, Taty, Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Cí e Paty. Passatempo preferido da Danny: Testes de revistas para adolescentes. Certo dia o avô da Danny, um senhor de 86 anos, foi buscá-la na escola. Combinaram de encontrar os pais dela na cidade vizinha. Viagem longa, uma hora de ônibus. Sem as amigas, sentiu-se um tanto deprimida. Nada para fazer. Tédio total! Sacou da mochila uma dessas revistas para adolescentes. Leu, releu. Que saco! – bufou. Mais uma folheada e encontrou um superteste “Você sabe levar um fora e sair numa boa?”. Sem nenhuma amiga por perto resolveu fazer o teste com o vovô, que estava lá, na sua, olhando a paisagem, alheio a tudo. Vô olha só, vou fazer um teste com você. Ókééi? Hrum – resmungou sem entender nada, continuava alheio olhando a paisagem. Ó presta atensaum! Você tem que responder as alternativas a, b ou c. C. Que c? Alôôôôuuu!! Ainda naum comeceei! “Você sai pra balada e encontra aquela gatinha e ela não te da a menor bola. O que você faz? a) Vai embora com os amigos pra outra balada; b) Nem liga e fica com outra gatinha; c) Vai para um canto chorar no ombro de um amigo.” C. Ah, fálá sério! Tá continuado, “Você descobre através de um amigo que o seu melhor amigo ficou com a garota que você ficava. O que você faz? a) Nem liga, você só ficou mesmo; b) Fica chateado mas, não perde a amizade; c) Procura os dois pra tirar satisfação, dá na cara
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da garota e sai na porrada com o amigo.” C. Crééédo! “Você convida uma gatinha pra balada, ela recusa e diz que no sábado à noite vai levar o irmãozinho ao cinema”. O que você faz? a) Convida outra menina; b) Fica furioso e decide nunca mais convidá-la; c) Compreende e acha lindo.” C. Que C o quê! Dãããããã! Ô si liga! Ninguém troca uma balada de sábado à noite pra levar irmãozinho pro cinema! Hum, cada uma! Vai, continuando, “Você vai dançar num baile de debutante, daí convida a garota que você esta super afim e ouve um sonoro ‘Ããããhhh! Ta loco!? Viajou você, heim! ’. O que você faz? a) Chora a noite inteira; b) Dá risada na cara dela e diz ‘tava zoando contigo bruxa!’; c) Convida outra garota, afinal, a fila anda.” C. Aêêêêê! Suuuuper! É isso ai, gostei! Vâmbora, “Depois de um longo namoro de uma semana, a garota vira pra você e diz ‘Méu, tipo assim, acho que a dgentchi naum tem nada a vê’. O que você faz? a) Tudo bem, estava mesmo com saudades dos amigos e das baladinhas; b) Arma o maior barraco; c) Implora para ela não te deixar, pois, não vive sem ela”. C. Sério!? Bom, agora, vamos ver quantos pontos você fez. Caraca! Só dez pontos! Ó presta atensaum, vou ler o seu perfil. “Você precisa aumentar sua autoestima. Levar um fora é super normal. Curte a vida, as baladas, afinal, você ainda tem muito para aproveitar. Isso é só o começo”. Nooosaaaa! Suuuuper legal! Eu adoro esses testes dão suuuuper certo!!

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SEGREDOS DA CHUVA ... Por Marilu F Queiroz Chuva que bate mansinho nos pensamentos da gente... deixando em pérolas, o chão úmido da rua. Chuva que respira harmonia... que se expande em reflexos pelas luzes do asfalto, como a eternidade de um sonho. Chuva, eu e você percorremos... o infinito ilusório e esquecido, da noite esguia e da brisa que se balança em olhares morenos. Chuva que se excede em carinhos... que me molha os cabelos e me faz buscar em você... a beleza do olhar e o calor de um sorriso!

Imagem: h#p://arpc167.epfl.ch/alice/WP_2012_SA/meystre/

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2x1: FIM DE JOGO
Por Jacob B. Goldemberg

não acha? — Você, por favor! Senhor é para os antigos, o que, pelo visto, não é o nosso caso. Mas então, tá sabendo como é a casa, quais as condições? — Ah é, o senh... você tinha me perguntado isso, até me perdi. Não repare, às vezes me empolgo, atropelo e pulo etapas. A vida é muito dinâmica, e é assim que deve ser, não acha? Eu pelo menos sou, ninguém me segura! Mas pode me chamar a atenção que a gente retoma do ponto de partida. O que é mesmo que você perguntou? — A casa, como ela é, se sabe ou não sabe. — Ah é, não, não sei nada. Me diga, não me esconda nada... Fale agora ou cale-se para sempre! Não é bonitinho? — Amém! Seja feita a vossa vontade! São duas salas, lavabo, cozinha planejada, área de serviço e dependências; isso, no térreo. No segundo pavimento são dois quartos com armários e um banheiro completo, mais uma suíte master, quarto, banheiro e closet, muito bom para abrir gavetas, pendurar as roupas e fechar a porta: ninguém vê a bagunça. No terceiro, uma sala maior, que eu usava como rometiter, conforme dizem os corretores, e um terraço, onde dá pra botar uma piscina pequena ou uma churrasqueira, enfim, ao gosto. No subsolo, um escritório e a garagem. Duas vagas na escritura. Documentação cem por cento. Quantas vai querer? — Aproveitando a sua pausa pra respirar, devo dizer que, se não for conversa de corretor, me parece ótimo. Agora, condomínio, IPTU e a facada final. — Coisa pouca, madame! — Parece até camelô! — Olha, meu jovem, não é nada que me faça cair pra trás, nem pra frente; certamente ainda tem conversa, não? Ou estou tratando com um jovem teimoso que nem um velho?

Preliminar Tan, tan!... Tan, tan!! Tan, tan, tan tannnn!!!..., o celular tocou. Tocou, não. Entoou, porque telefone moderno não toca: inicia um recital. A não ser os que, humildemente, ainda se acham um aparelho telefônico, daqueles que serviam para falar. Coisas dantanho! Então. O celular tocou. (É, eu sou dantanho.)

1º Tempo — Á-louu! — Pronto. — Daonde fala? — Quer falar com quem? — É sobre uma casa que está à venda. O porteiro me deu seu telefone. É o proprietário, não é? — Sim, sou eu. A senhora é corretora? — Não, Deus me livre. É para mim mesma, melhor dizendo, para minha filha. Sou uma avó moderna, vou à luta, enquanto ela trabalha. Procuro uma casa para ela, o marido e o filhinho pequeno, meu neto, uma graça, o senhor precisa ver! — Ok, então é comigo mesmo. Também sou um avô moderno, vejo que temos algo em comum, podemos nos entender. A senhora está a par das condições? Tamanho, preço, etc., etc.? — Ah, que bom! O que eu não gosto é de tratar com velharia. Não tão com nada, só querem saber de passado, lembranças mal lembradas, saudades imorredouras, “no meu tempo é que era bom”, um saco! Meu negócio é o futuro, a partir do aqui e agora, o senhor

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— Quê isso, menina?! É conversando que a gente se conecta. Estamos aqui pro que der e vier, ou melhor, como querem os jovens, pra quem vier e der. Com todo o respeito. — Tá certo, tô sabendo... Então vamos, quando é que eu posso dar, desculpe, ver o imóvel? — É só marcar, veja aí quando pode, você, sua filha, o resto da família. Estou à sua disposição. — Não, primeiro vou eu. Se a casa atender ao perfil da minha tropa, aí sim, marco com eles. Assim tem sido, eles preferem que passe primeiro pelo crivo de mamãe, e eu também: afinal, o financiamento vai sair pelo Bancomãe S.A.. — Faz muito bem. Assim é que se age. Nada de moleza, dureza é que resolve. Não acha? — Ora, se. É comigo mesma. Mas me diga mais, e a redondeza? Calma, agito, à noite? Me ilumine, dia e noite?

se ouve nada. É sopa no mel... — Já eu, preferiria Mimosa! — New Yorker? — Também; mas me realizo mesmo é no circuito Elizabeth Arden. — Londres, Paris, Nova York. Sabe das coisas! — Você não gosta? — Não gosto de gostar tanto: tem sempre a viagem de volta! Uma tristeza! Mas um dia, chego lá, e perco o caminho da roça. Sei que mereço, Deus está vendo tudo, só que não toma as devidas providências. Oremos, pois. — Pois é, a gente é sempre credora das bênçãos divinas, difíceis de baixar; só não quero é ter que cobrar Dele pessoalmente!

— Local tranquilíssimo; sem barulho, segurança absoluta, que nem as pensões de minha juventude: estritamente familiar. Quieto. Olhando para cima, vê-se o Cristo, e pela manhã, se ouve o chilrear dos pássaros. — E à noite, o Dona Marta, com suas balas traçantes, certo?

Certo, mas bem ao longe. Afinal, estamos no Rio de Janeiro, capital do Iraque. Sem problemas por aqui, a distância é suficiente para que reine a paz.

— Que nada, aqui se faz, aqui se paga e aqui se pega. Você mesma disse, ainda há pouco, que o que vale é o aqui e agora. Eu, de minha parte, aproveito cada minuto, do dia e da noite. Praia, trabalho, cinema, teatro, os melhores restaurantes, viagens, fins de semana; e pelo que estou sentindo, você também se posiciona bem diante de nosso tempo. — E detrás também. Mas, e a visita? Como podemos marcá-la? Aí continuamos o papo, assaz agradável e instigante. Prefiro pessoalmente, muito tempo ao telefone me dá um pequeno zumbido no ouvido, só num deles, deve ser interferência eletrônica, sabe como é, não? — Ora, se não sei! Essa tecnologia atual ainda não se adaptou perfeitamente ao ser humano; é difícil, mas eles um dia chegam lá. Façamos o seguinte: sábado, às dezesseis horas, te espero, está bem? — Perfeito, me aguarde!
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— Certo, mas bem ao longe. Afinal, estamos no Rio de Janeiro, capital do Iraque. Sem problemas por aqui, a distância é suficiente para que reine a paz. — Comércio? — Tudo, do bom e do melhor. Um verdadeiro bairro, como não se faz mais hoje em dia. Tudo o que necessitar e mais alguma coisa. E à noite, pra quem quiser, ainda tem o bochincho na Cobal, o point do Polo Gastronômico de Botafogo. É a um passo daqui, mas não

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Intervalo Sempre fora assim, desde a adolescência. E não seria agora, nesta altura do campeonato, que iria mudar. Diante de uma situação inusitada, ou de possíveis resultados promissores, pro bem ou pro mal — “é agora ou nunca!” — ficava ultra-ansioso. Dormia mal na véspera, se é que dormia; criava todo um teatrinho perturbando o pensamento, com mil diálogos imaginados — “se ele disser isso, eu digo aquilo”; “com calma, não se afobe, sem brigas”; “calma, o importante é não perder o foco”; “claro, você tem razão, porém, quem sabe...” Ficava pronto muito tempo antes da hora, “e esse tempo que não passa!” Assim, calculadamente, uma hora antes, por via das dúvidas, tomou uma pilulinha azul e partiu para a guerra, “Seja o que Deus quiser, e se não quiser, eu ajudo Ele! Afinal, do que vem por aí... de corretagem, Ele não entende, e o resto, não lhe faz gosto.”

— Ora, que sugestivo... Mimosas! Está me ganhando. Isso não é conversa de corretor para engambelar comprador, ou é? — Que isso?! Apenas singelos votos de sucesso, para ambos, seja lá que objetivos nos imponhamos, daqui pra frente. — E pra trás. Hum... uma delícia; quem fez? — Euzinho, receita original. — Então vamos logo, depois repetimos. — Vamos, ops!, desculpe o encontrão, machucou? — Não foi nada, a escada é apertada pra dois. Com o tempo a gente se acostuma. — Então, sala, lavabo... — Bonito, muito bom gosto. — Cozinha, veja só: uma profusão de armários, área de serviço, dependências de empregada — de pouco uso, hoje em dia, elas ganharam independência, né? — Preconceituoso! Politicamente incorreto! — Politicamente, e otras cositas más! Agora, a parte íntima. Da casa! Dois quartos com armários e um banheiro completo. Mais armários. E aqui, a suíte master: quarto, closet e banheiro, com vista indevassável para aquele jardim. Não acha um charme? — Ora, se é. Pelo visto, um ambiente romântico e atrevido. Ainda bem que as paredes não falam, senão, o quanto se saberia sobre o passado de uns e outros, hein? — Já devem ter te dito que tens uns olhos lindos, não? Brilho intenso, mais até: falam. — Falam e ouvem. Por eles vejo tudo, ouço tudo, capto tudo. Um perigo, para os malintencionados. — Dependendo do que seja máintenção.

2º Tempo — Boas-tardes! Uma avó moderna, ao seu dispor. Desculpe a antecipação, mas estava ansiosa para ver o imóvel e o móvel, não necessariamente nesta ordem... — Uau! Vamos entrar, teje a cômodo, é um prazer! — Não decepcionei, pois não? — De jeito e maneira, muito pelo contrário! Não acredito na ansiedade porque desde ontem ela está comigo, já estamos íntimos. Mas, então, foi fácil chegar aqui, não? O que achou do entorno? Agradável, não lhe parece? É ultra-silencioso, tranquilo, bem frequentado, sem favela visível. Meio-paraíso, em se tratando de Rio. — Gostei, gostei muito. Mas vamos ver a casa logo. Me guie, sou toda olhos, ouvidos e tudo o mais. — Antes, um brinde à nossa iminente viagem.

(Segue)
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— É verdade, há muito boas másintenções. É uma questão de perspectiva, do ponto de fuga; melhor, sem fuga. — No terceiro andar, mais uma sala, onde eu tinha o som, a TV, o DVD, enfim, o maior lazer; e o terraço, dá pra uma piscina, ou um ofurô. — Faz mais meu gênero. Em noite de lua cheia, então! — Agora vamos lá embaixo: no nível da garagem, temos um escritório e duas vagas, na escritura. — Sim, vamos, mas gostaria de ver a suíte antes, mais uma vez. Senti um astral, uma sensação altamente positiva lá. Promete. Gostaria de absorvê-la, para poder transmitir para a minha filha. — Com todo prazer. Aproveito a pausa no sightseeing e vou buscar mais duas Mimosas. Topas? — Como não? Bebo, sim. — Me aguarde. — Venha logo!

genários, camisa e blusa semidespidas, botões rasgados, como em qualquer primeiro encontro incontrolável num filme qualquer de Angelina Jolie e Brad Pitt. No chão, duas taças vazias do que se identificou ser Mimosa — o drink preferido por onze entre dez New Yorkers. — Segundo o legista, o dela fulminante, e o dele, o segundo. — Foi a idade que derrubou os coroas? — Foi. Nada que não pudessem fazer, mas com parcimônia. Foi o ímpeto, a sofreguidão, coisas da juventude... Terminamos. — Tadinhos! — Nada, cara. Vamos tomar um chope, em homenagem à gloriosa morte em serviço; devem estar olhando aqui pra baixo, cheios de si, sorriso nos lábios. Com certeza!

Resultado final Mais uma vez, ainda que nem de longe viessem a perceber, ambos causariam reboliço e estresse junto à família. A de cada um, individualizadas; conjunta, somente a reação inicial: — Tá ficando impossível, desse jeito vamos ter que internar. Vive aprontando. Onde será que se meteu agora? Mas desta vez, a preocupação começou tarde da noite, atravessou-a inteira, e vários dias após, só justificada quando um antigo vizinho estranhou as janelas abertas e um mau odor vindo da casa. Telefonou, alertando a família dele; a dela, foi a policia quem avisou. Sobre a cama de casal, único móvel que ainda não havia sido retirado da casa, jaziam dois corpos: um casal, certamente septuawww.varaldobrasil.com 116

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PURO DESEJO

Por Mário Rezende

Até hoje eu não sei se foi invenção do meu olhar ou artimanha do desejo, puro desejo, que enchia o meu pensamento. Eu acho que foi um sonho, mas ainda não tenho certeza se foi imaginação ou realmente aconteceu, quando ela apareceu de repente naquela tarde de domingo azul, os olhos cheios de feitiço e com os lábios molhados, sorriu para mim um sorriso voraz. “Sou para você, de mais ninguém”. Eu a ouvi cantar e senti o corpo arder até o limite da vaidade. Naquele momento eu percebi: era tarde demais para enganar o destino.

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Tudo de bom
Por José Cambinda Dala

Estava tudo bem Até quando o sono Insistiu em me levar para cama Não queria... Lavei a cara várias vezes Mas, foi em vão Não resultou Tive que ceder Deixar o bom filme na TV E ir dormir Na cama De repente Outra cena começa Era um grande filme Melhor que da televisão Nele, eu era um personagem Graças ao sonho que me levara lá Sentia-me num mundo puro Onde não havia guerra Ódio e maldade Inveja e corrupção Tudo de mal Que o filme da TV mostrara Ali não havia Era só amor Paz, sinceridade Justiça e tudo de bom!

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CIRCO LEGAL NÃO TEM ANIMAL!
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AMOR PLATÔNICO Por Vera Salbego Somos duas almas. Que se buscam. Num sentimento firme e calado. Finges não perceber o meu querer. Mas traíste ao meu olhar. Ah! Se tu soubesses o quanto o teu olhar Transmitem-me ao clímax de todos os sonhos. Não farias sofrer tanto este coração Que só faz amar-te à distância. Sei que não queres deixar este sentimento Ultrapassar as raízes da alma. Mas ,por favor ,deixa ao menos te dizer: -Que teus olhos são as luzes do meu caminhar sereno. E meu amor platônico será a essência do meu viver.

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REFLEXÕES COMTEMPORÂNEAS
JÚLIA REGO

Tristeza tem fim, Felicidade não!
Tenho observado uma tendência contemporânea para a dissimulação da tristeza nos meios sociais. Em tempos remotos, esse sentimento, tão natural quanto a alegria, era visto como fundamental para a vivência e crescimento do homem, e, inclusive, aceito com naturalidade, entretanto, hoje, obriga-se às pessoas extirpar, a qualquer custo, todo e qualquer vestígio de melancolia que insista em aflorar de forma intensa nos indivíduos. Mostrar-se o tempo todo com ares de intensa felicidade é quase que uma imposição nas relações sociais, cada vez mais superficiais e fugazes, que não permitem em suas rodas de bate-papos temas que remetam a um mundo de sofrimento de quem quer que seja nem por quaisquer motivos que se justifiquem. O luto necessário para se processar um acontecimento funesto não é mais bem-vindo, sequer, admitido. Seja esse pela perda de um ente querido, ou provocado por uma situação adversa, e a forma de lidar com isso é, essencialmente, pessoal, o estado de espírito, digamos, melancólico de cada um deve ficar acorrentado em suas entranhas sob pena de se sofrer uma discriminação e, até mesmo, uma exclusão do grupo social do qual faz parte. Vivemos tempos em que a frenética busca pela felicidade ultrapassa os limites sensatos e reais da condição humana, numa tentativa insana de camuflar quaisquer manifestações de aflição, desgosto, mágoa ou pesar, inerentes

ao ser humano, que ameacem o projeto de felicidade eterna imaginado pela maioria. Os comerciais de televisão e os outdoors, onde os personagens estão sempre sorrindo um riso irretocável a vender alegria e bem-estar a todos os mortais, ou, melhor, a todos os viventes, nos levam a crer que a tristeza está fora de moda, induzindo os figurantes à culpa por carregarem dentro de si, ainda que momentaneamente, sensações espontâneas de infelicidade. Como permitir caras tristes, lágrimas, reclamações, desabafos, quando se tem pressa de ser feliz? Quando muito, concede-se um ombro para o lamento de um amigo mais chegado, um abraço frouxo, acompanhado de palavras “encorajadoras”, contanto que isso não se torne recorrente. Aí o amigo já é tachado de depressivo e o mais indicado a fazer é afastar-se dele porque “energias negativas contaminam”. Mas será que o vazio e o mal-estar percebidos na sociedade atual não são consequências, justamente, da proibição, velada, de se viver o luto, pelo tempo que for necessário, e por alguma ou nenhuma razão? Estar, ou ficar, triste não invalida a necessidade real de se ter alegria. Ninguém é alegre o tempo inteiro, sem que esse estado também possa ser considerado patológico. A vida não traz um script pronto, ao contrário, nos surpreende todos os dias com acontecimentos felizes e infelizes. Negar o lado obscuro da vida é negar-se a si mesmo. Contato com a colunista: jc.requiao@bol.com.br
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AS NUANCES DOS SEGREDOS E PECADOS
Por Luzinete da Silva Tôrres Soares

Somos um poço de segredos e pecados. Um não se desvencilha do outro, antes se imbricam, se entrelaçam, se fazem um só para completar-se na sequiosidade e avidez de uma íntima fluência. Os segredos desembocam nos pecados e se irrompem imprevidentes nas tortuosas malhas da obscuridade. Caminham lado a lado, quando os primeiros se escondem atrás do medo de algo que não comporta revelação, que não se pode ser noticiado nem dito. Todos têm segredos e pecados. Não há como fugir deles. Os primeiros aparecem, por vezes, como algo que se tem que carregar sob a alegação de que não podem vir à tona, pois, tenebrosos ou não, são capazes de mudar vidas. Os segundos, não diferentes dos primeiros, sinalizam para um doce ou amargo caminho. Por que, não? Segredos e pecados podem, também, comunicar momentos bons, sentidos, vividos e arrebatadores, porém irreveláveis, como também infortúnios sentimentos contidos, presos e domesticados nas entranhas do medo, igualmente incomunicáveis. Como não ter segredos e pecados se somos humanos, propensos ao erro, seja bom, seja ruim? Como fugir desse emaranhado de desejos embutidos nessas duas vertentes tão presentes, persuasivas, capazes de confundir e enredar toda uma vida? Segredos e pecados povoam mentes, tornam vidas absurdamente reféns, comunicam alegria e doçura, também pavor e descontentamento, mas são realidades desconcertantes que, inevitavelmente, fazem parte ou estão à espreita de vidas humanas diariamente.

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O Véu
Por A.M.Narciso & L.Midas

‘Quando o elemento de insatisfação adentra em si o natural é buscar preenchê-lo, seja o tempo, o sentimento ou o contato. Os interesses que se sobrepõem acima de todas as circunstâncias, são verdadeiros véus’. Miriam fecha o livro “O Véu de Vênus” não sem antes pensar se o que estaria para acontecer não a transformava em uma das personagens desta que era sua obra predileta. Levanta-se de sua aconchegante poltrona e faz um check-list mental. Constata que ainda tem tempo e abre o laptop. Spam, e-mail da sua irmã reclamando da vida. Abre o Facebook. Conforme noticiou na grande rede social, estava na Europa participando de um Congresso de Artes. “Sim, será uma breve temporada que promete muitas aventuras.” A mais importante delas, minuciosamente planejada, um encontro com uma paquera do Facebook. Um homem, brasileiro, super sensual que a conquistou no primeiro “inbox”. Ele devia saber que ela estava pelas terras medievais (afinal, estava “anunciado” no Facebook para quem quisesse ver) mas a Europa é grande. Ele, da última vez, perguntou se poderiam se encontrar, mas ela explicou que a agenda seria muito movimentada com diversas exposições e palestras. E que, como curadora de arte, não poderia faltar: Afinal, haviam pago a passagem e hotel de primeira classe exatamente pela sua presença. O que ele não sabia é que Miriam adorava o elemento-surpresa: no dia anterior havia feito o checkin no aclamado hotel londrino, visto de perto o Big Ben, passeado no London Eye. Caminhadas que lhe inspiraram lembranças. Como se dantes já conhecesse aquela paisagem de forma tão nítida. Como se já tivesse esperado antes por um amante desconhecido. Era tudo fácil. Afinal, há muito sabia, através dos emails trocados quando o Facebook não dava vazão aos sentimentos devido ao fuso horário, a assinatura com contatos profissionais: Carlos E. Souza, “Chief Information Officer, British Telecom”, telefone +44 32 4567689. Horas antes,

teclara este número e do outro lado uma voz masculina adentrara por seus ouvidos, e de imediato sentiu um arrepio na espinha e na barriga como o primeiro beijo de adolescente. Procurou ser curta, ele queria muitas explicações, mas se desculpou dizendo que não podia falar no momento, ela sabia que ele abriria o espaço na agenda custe o que custasse. Horário, data e local acertados na verdade ela confere o relógio: faltam cinco minutos. Fecha o laptop. O virtual é um mundo paralelo, uma realidade paralela, uma inexistência real, uma simulação, um simulacro talvez, um sonho... É a conta de conferir os últimos detalhes e o telefone do quarto toca avisando da chegada do visitante. Carlos se depara com a porta do quarto, toca a campainha e ouve uma voz feminina pedindo que entrasse, trancasse a porta e se acomodasse no divã da sala do apart. Adentra e depara-se com luzes apagadas, velas acesas por todos os lados. O coração bate acelerado. Ainda tenta se acostumar com a penumbra do quarto. Vislumbra em cima do mezanino o livro “O véu de Vênus” de Anita Iset que foi “a causa” do contato inicial no Facebook. Não consegue visualizar a presença de sua conquista virtual quando vê ao longe uma sombra saindo de um canto da suíte com um hobby vermelho transparente. Sua visão parece embaçada pelas fumaças das velas e pelo choque da iluminação forte do corredor em contraste com a penumbra da suíte. Sabe que há muito desejava estar neste lugar, havia meses que sonhava com este momento. Viu o contorno de curvas de uma mulher de salto alto, usando um corpete e cinta-liga vermelhos, pele branca e cabelos ruivos e reluzentes. A boca vermelha complementa o conjunto que reluz sob o treme-treme das luzes das velas. Ela é direta e pede-o que não se mova um dedo sequer e fique em silêncio apenas observando-a de pé ao lado do mezanino...e assim ele obedece deslumbrado com a cena...novamente o sonho... conforme uma vez haviam virtualmente combinado que assim seria. “Tudo tão surpreendente, inesperado, inacreditável. Sonhos às vezes se tornam realidade”. (Segue)
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Custa a acreditar na sua sorte, mas miragem ou não, sente algo dentro de suas calças latejando violentamente, como querendo saltar para fora da cueca que agora lhe apertava chegando a provocar uma dor deliciosa. Ela vai se aproximando e cumprimenta-o com o olhar de entendimento mútuo que diz “essa era a nossa fantasia”. Ela percorre seu rosto e sua respiração por todo o rosto dele e deixa-o ainda mais louco com aquela troca de calor sem poder sequer se mexer e ou tocá-la, afinal, ela é uma desconhecida, ambos são na realidade desconhecidos um para o outro. Ela o mantém dominado pelo olhar, e percorre a mão por cima da camisa branca e começa a desabotoá-la. Descortina um peito branco e macio. Ele sentiu aquele primeiro toque tão desejado. Em um reflexo, tenta mexer a mão e é repreendido de imediato. “Carlos, lembra o que combinamos?” diz ela. A voz é sedosa e sensual, mas não deixa dúvidas que aquilo era uma ordem. As pernas nuas dela deslizam entre as suas, a mão dela desliza cada vez mais embaixo e vai de encontro com seu mastro já latejante e rubro. Sem a menor sombra de pudor e sem dizer uma palavra ela apenas sorri um sorriso sedutor que o deixa mais louco. A esta altura, ela desabotoa o cinto da calça e a protuberância de macho se aloja entre as pernas de ambos. A deusa de vermelho senta-se em cima do mezanino e puxa-o entrelaçando entre as suas coxas prendendo-o a si fisicamente, ambos sabem que é o sinal para a realização física das ideias virtuais que trocaram por meses a fio. Ele traz para perto de seu rosto a sua boca vermelha e quente, ela contorna suas mãos no pescoço dele e ambos se puxam reciprocamente, no beijo ardente que faz ambos entenderem que as preliminares já estavam feitas. Num movimento rápido ele desenlaça o hobby que a envolve e a olha fundo como se a conhecesse de outras vidas, de outras encarnações. Ali no mezanino eles se atracam, se enlaçam e se penetram...jogam as roupas ainda por tirar ao lado e nus transam rápidos, frenéticos e desesperadamente. Toda uma volúpia de desejo e paixão se exala dos corpos que se envolvem, durante horas, no mezanino, no divã e na cama...molhados de paixão, suores se misturam em meio ao êxtase e rastros por toda parte. Ele a penetra devagar, sentindo-a a cada palmo de seu interior, de seu calor vaginal. Como ela é quente, apertada e deliciosa. Ele geme e beija-a demasiadamente como se matasse naqueles beijos alucinados a sede da água e do sabor daquele néctar feminino exalando dentro de si. Mais uma, outra e mais outra estocada e ele novamente expelindo o de-

sejo guardado. De todas as posições, a inicial do encontro ainda reinava soberana, pois ela havia sido capaz de imobilizá-lo só pelo poder sexual emanado dos seus olhos, da mente... de imaginar que estaria por realizar seus desejos virtuais. Os corpos, este sim, reais, agora se esfregam frêmitos de gozo, prazer e tesão. Gritos e gemidos de prazer real ecoam em seus ouvidos e líquidos jorraram entre os lençóis. Suas mãos deslizam por entre as pernas dela, descortinam seus segredos, sua púbis, seu prazer. Ela lhe olha, ainda mais sedutora que nunca, estendendo-lhe uma taça de champanhe para molhar-lhe a garganta seca de tanto lamber, chupar, beijar. Estava suado, cansado, mas ainda desfrutaria muito daquela mulher. Tinham muito tempo ainda. No balde de gelo, vislumbrou ainda uma segunda garrafa. Entendeu a mensagem da segunda garrafa: “Não foi à toa que ela disse que adorava servir de copo...” Miriam o vê acordar, subitamente, de um tranco. Parece atordoado. Nota-lhe o olhar, inicialmente turvo, desanuviar. Ele parece não entender porque está ali. Ou quem ela é. Nota-o lentamente recobrando os sentidos, tentando colocar juntas as lembranças que lhe chegam faltando pedaços. “Oi”, ele diz, por fim. “Olá”, ela retruca com um grande sorriso. “Você tem ideia que horas são?”, ele pergunta. “São 22:30” “Quê? Como? Quanto tempo dormi? Nossa, o que aconteceu? Tenho uma dor de cabeça terrível” “Querido, deve ter sido a champagne. Você bebeu quase duas garrafas.” E aponta para o balde de gelo, duas garrafas vazias comprovavam o fato. “Você não se lembra?” “Na verdade.... hummm... preciso ir ao banheiro. Acho que estou passando mal”. Ele levanta-se, atordoado, quase perdendo o equilíbrio. Nem sabe onde é o banheiro, mas obviamente era para o lado direito. Devia ser para lá. Corre, nu, segurando-se nas paredes. Miriam ouve a porta bater, e um barulho de vômito. “Pobrezinho,” ela pensa. (Segue)

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Ouve o chuveiro. Ele sai de lá, lívido. Parece um pouco recuperado. Tem uma toalha envolta na cintura. Vai ao casaco, checa o celular. Pelo visto estava cheio de mensagens. Ele parece mexer no aparelho por alguns minutos. Ela nota-o observando-a de soslaio, estudando-a. Ela finge estar concentrada na TV, mas ela também o segue com os olhos discretamente. Vê-o retirar a carteira da jaqueta, abrir, e discretamente conferir o conteúdo. Ele abre a maleta, com a desculpa de procurar um cartão ou algo semelhante, mas na verdade está observando se o laptop está lá dentro. Parece satisfeito com o exercício, porque dá meia volta e vem ao seu encontro na cama. Tem a toalha envolta na cintura, mas ela nota que por baixo está nu. “Desculpa querida, me senti muito mal. Acho que foi o champagne. Isto nunca me aconteceu”. “Você vomitou? Ouvi um barulho.” “Sim, mas já estou bem melhor. Bebi água e escovei os dentes com a escova gratuita do hotel. Espero não estar com gosto ruim.” “Só vou saber testando”, ela sorri, oferecendo a boca. Se beijam. Ela desliza a mão por entre a toalha, pegando no membro flácido. “Querida, está tarde, perdi tanto tempo dormindo...” A mão dela já acaricia o membro. Ela lhe cala com um beijo, enquanto trabalha com a mão. Com a outra, usa o controle remoto para desligar a TV e num ato contínuo, abaixa a cabeça e engole todo o membro. Durante a tarde, antes do sono profundo, ela mal aguentou engolir 1/3 do membro. Agora, a boca dela encostava nas suas bolas quase engolindo-as, a língua mexia de um lado para o outro. Ele gemia, gostava. Ela sorvia o membro em toda a sua extensão que continuava flácido. Sentiu que o tempo passava e o homem começou a dar sinais de impaciência... “Querida, isso nunca me aconteceu... quer dizer, acontece sim, se bebo muito. Acho que não vou conseguir mais... e estou preocupado, porque já é tarde... não avisei em casa...”

Nitidamente enrubescido e envergonhado, ele levanta-se da cama. “Desculpa”. “Quando você vai embora mesmo?” “Amanhã cedo” “Ah. Que pena. Olha, eu tenho de ir...” Ele começa a se vestir. Está envergonhado. Ainda mais ele, que se gabava de ser incansável em suas conversas pela internet. Que dizia que gozava muitas vezes seguidas. Tudo mentira... Ou seria mesmo o efeito da champagne... “Querida, quando bebo muito isso acontece... que diabos, como bebi tanto assim?” Despedem-se com um longo beijo na porta do quarto. “Na próxima... sem bebidas, tá”, ele diz para ela sorrindo. “Querido... você provou que tudo que disse era verdade... antes de dormir... não se preocupe... eu adorei!!! Espero revê-lo em breve...” manda-lhe um beijo enquanto o vê sumir elevador adentro. Fecha a porta e o sorriso se esvai. Tem de sair dali, rápido. Pelo sim, pelo não, arriscar é bobagem. Existe software que não evita, mas pode alertar o que aconteceu. Talvez ele descubra ao chegar em casa. Talvez nunca. Recolhe as coisas, rapidamente. A esta altura Carlos já deve estar razoavelmente longe. Telefona para a recepção, pede que fechem a conta e solicitem um táxi. “Para aonde?” pergunta o recepcionista. “Enxerido” ela pensa. “Aeroporto!” “Qual?” ele insiste. “Ai, que merda... que cara chato”. “Stansted” Vê-se nua no espelho. As pernas são lindas, a pele branca, sem varizes, sem rugas na face. Tem 35 anos, mas passa por menos de 30. O rosto, a boca, os olhos...todos perfeitos. Mas os seios são ainda seu maior diferencial. Obviamente siliconados são grandes e firmes. Duros. (Segue)
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O tamanho, relativamente desproporcional ao seu corpo embora sem grandes exageros, prova que se trata de uma intervenção artificial na natureza. O único problema é que quando um homem toca aqueles dois montes voluptuosos ele entende que aquilo tudo é carne, não há cicatriz, nunca existiu mão de cirurgião, ali quem operou foi somente a mãe natureza. Ela pondera quanto tempo ainda tem em que eles continuarão a desafiar a gravidade. “Bem, já que todo mundo acha que sou siliconada, se eles caírem e eu colocar silicone ninguém nem vai saber mesmo, hahahaha” ela sorri para si mesma, e pensa que um dia se aproveitará dos avanços tecnológicos da ciência que fazem da mulher cada vez mais atemporal. “Um caso típico de profecia auto-realizadora”, ela ri para si mesma. Vai no banheiro e abre um potinho de metal. Pega cuidadosamente uma pequena pílula branca. Abre aquele que é o seu grande mimo: um anel, com uma pedra azul que carrega no dedo médio. A pedra azul se destaca e revela um interior oco. Coloca cuidadosamente uma pílula no anel, fechando-o novamente. Cada pílula, comprada no mercado negro custa cinquenta dólares. Garantem um sono profundo de no mínimo duas horas e no máximo quatro com pouca ou nenhuma ressaca ou efeito colateral. Nada mais do que o que seria causado por duas garrafas de champagne. Sempre sente um pouco de tristeza ao jogar fora o resto da champagne da qual consumiram apenas dois cálices. Mais tristeza ainda ao abrir e imediatamente esvaziar uma garrafa inteira na privada. Ainda mais ela que adora champagne. Mas hora de beber, beber... hora de trabalhar, trabalhar.... Já está pronta. Desce, puxando uma pequena mala marrom com emblemas das letras L e V estilizados atrás de si. No ombro, uma bolsa grande. O check-out é rápido e eficiente, o táxi a espera. “Madam, it is the airport of Stansted, right?” pergunta o motorista, apenas por cortesia. “No, not really. Eurostar terminal” retruca de forma firme e decidida.

Com um pouco de sorte, ainda pegaria o último trem. Sempre existem lugares vagos na primeira classe. Amanhã de manhã já estaria na França, pensou, enquanto o típico táxi preto londrino deslizava nas ruas com pouco movimento. Ao seu lado, dentro da bolsa, estava o seu laptop. Quando estivesse no hotel, em Paris, faria o upload da cópia dos dados do laptop de Carlos que havia criado no seu próprio computador. Na cidade-luz não teria outro encontro até o fim da semana: poderia passear e se distrair um pouco. Rever o Louvre, subir a torre Eiffel a pé relendo os inúmeros pôsteres explicativos ao longo do percurso de centenas de degraus. O próximo amante “virtu-real” seria Bernt Kone, um Suíço figurão do mundo dos negócios estando no conselho de administração não apenas do conglomerado ABB o qual presidiu por vários anos mas também outras 4 multinacionais dos mais diversos setores. Quais segredos industriais estariam no laptop deste senhor certamente nem os próprios compradores, que pagavam fortunas por este material, saberiam em detalhes. Para Miriam, era tudo um jogo, era tudo virtual, não se envolvia. Fechou os olhos, lembrou-se da hora em que ele a penetrou profundamente, o orgasmo dela não foi virtual, foi real. “Bem, pelo menos não precisei fingir”, pensou absorta vendo a paisagem se movimentar ante aos seus belos olhos azuis. Ainda manteria contato com o Carlos pela rede social, até para saber se ele descobriu algo ou não. “Sempre é bom mantê-los por perto”, já dizia Sun Tzu mas sabia que nunca mais iria vê-lo e assoprou um beijo mental para o amante daquela tarde enquanto saía do táxi. “E adeus para você também, Londres”.

O conto “O Véu” é um fanfic concebido por A.M Narciso e inspirado no livro “Redes Sensuais” de L.Midas, o qual colaborou com a adaptação e revisão final. Redes Sensuais está disponível gratuitamente no seguinte link: http://www.ge.tt/78mDJLP

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Escondidinho de Bacalhau
Típica comida de barzinhos chiques, bem simples de fazer e muito gostosa. Fica show servida com azeite apimentado ou alguma conserva de pimenta. Acompanha muito bem um arroz soltinho.

Ingredientes p/ o recheio: 500g de bacalhau desfiado 1 cebola cheiro verde Azeite português Azeitonas pretas Sal e pimenta do reino 250g de catupiry Ingredientes p/ o purê: 5 batatas grandes Um pouco de leite Uma bolota de manteiga Sal e pimenta do reino Para finalizar: Fatias de Mussarela e Parmesão Afervente o bacalhau desfiado e reserve a água. Refogue no azeite a cebola cortada em meia lua. Junte as azeitonas e o bacalhau. Tempere com sal (se necessário) e pimenta do reino a gosto. Desligue o fogo e junte o cheiro verde e o catupiry. Reserve. Use a água que você aferventou o bacalhau e cozinhe as batatas cortadas em 4 e sem casca. Escorra e passe no espremedor. Coloque de volta na panela e leve ao fogo. Junte uma bolota de manteiga e um pouco de leite morno. Misture e vá adicionando leite até ficar bem macio o purê, mas tome cuidado para não virar uma papa. Ajuste o sal e de uma pitada de pimenta do reino. Unte um refratário com azeite e faça uma camada de purê, depois espalhe todo o bacalhau reservado por cima e cubra com o restante do purê. Finalize com fatias de mussarela e parmesão ralado. Leve ao forno quente e deixe até gratinar. Retire e enfeite com cheiro verde e azeitona. Fonte: h#p://cozinhadotenso.blogspot.com

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MEUS AMORES

Por Lenival de Andrade

Eu tive amores com facilidade Mas os perdi na mesma velocidade Me bate uma saudade Por onde eu ando na cidade

Já não tenho mais idade Mas tenho capacidade Perdi minha mocidade Implicando nessa vaidade

Pagarei minha anuidade Ó DEUS de bondade Me faça essa caridade

A minha nacionalidade Tenho necessidade Senhor tende piedade Pois tive amores com facilidade

Mas os perdi na mesma velocidade

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GANA PELA VIDA
Por Lu Toledo Eu nunca pensei que um dia estaria rodeada por eles, esses encantadores felinos, meus gatos. Nunca tive um em minha infância. Sempre gostei muito de cachorros. Mas morando em apartamento e sozinha muito tempo e trabalhando o dia inteiro, achava que seria muito difícil ter animais de estimação. Sempre curtia os cachorros da casa da mamãe, sempre muito sensível a eles, às suas necessidades, à troca de carinho, ao amor incondicional que eles têm de sobra para ensinar ao ser humano. Mas em janeiro de 2009 isso mudou. Tínhamos nos mudado havia alguns meses para um apartamento um pouco maior, com uma área privativa, em uma rua que, depois fomos ver era povoada por gatos. No nosso carro, todos os dias encontrávamos marcas daquelas pequenas patinhas. Isso nunca nos incomodou. Pelo contrário, ríamos sempre ao perceber os rastros de nossos visitantes noturnos. Descobrimos também nessa rua, pessoas muito bacanas que cuidavam dos felinos, deixando comida e água em suas garagens e algumas que também os resgatavam e os levavam para morar com eles em suas casas. Mas também descobrimos, dolorosamente, após ver um a um gatinho desaparecendo ou aparecendo morto nas calçadas (enterramos vários) que havia também pessoas muito cruéis que os atropelavam, jogavam pedras, envenenavam àqueles pequenos seres de alma livre. Fico sempre pensando nisso e me dói muito ver como alguns seres humanos conseguem ser tão cruéis com os animais... Mas vejo que são cruéis antes com os da própria espécie e consigo mesmos... Muito temos que aprender com esses seres que consideramos ‘inferiores’. Eu aprendi muito e aprendo a cada dia.

Voltando a janeiro de 2009, um dia, do nada, apareceu uma caixa de papelão no meio ao lixo que seria recolhido no passeio em frente à casa de minha irmã, em Betim. Minha irmã ouviu os miadinhos e antes que o caminhão da limpeza urbana passasse, recolheu aquela caixa e abrindo-a, nos chamou para ver seu conteúdo: cinco gatinhos ainda muito pequenos, filhotinhos retirados de sua mamãe antes do desmame e deixados ali em meio ao lixo, a morrer de maneira lenta e dolorosa.

Ficamos ali sem saber o que fazer, minha irmã dizendo que não ia ficar com aquela incumbência e que déssemos um jeito de levá-los de lá. Fiquei surpresa com a reação do Jamil, que na mesma hora disse: “vamos levá-los... vamos tentar salvá-los”. E tentamos. Com todas as nossas forças, sem nenhum conhecimento sobre eles, fomos à uma Pet Shop para saber como alimentar aqueles bichinhos sem o leite da mãe... Orientaram-nos a não dar leite de vaca, que o melhor era fazer uma papinha com ração para filhotes, que já continha leite e dar a eles na mamadeira ou em algum conta-gotas. Estávamos indo passar uns dias em Milho Verde e como não achamos ninguém para cuidar deles durante os dias que passaríamos viajando, lembrei de uma amiga, a Toínha que morava lá e era amante dos bichos. Lembrei-me que ela tinha um gatinho, o Raí, que eu ficava encantada (quando hospedada em sua pousada) da maneira como ele respondia ao chamado dela com um miado de manha, de dengo, totalmente diferente do seu miado normal. Era uma comunicação, um diálogo lindo de se ver.

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Ela e o Sr. Nelson, donos da pousada, tinham vários bichos... e todos tratados com um carinho maternal, com um cuidado amoroso que era de deixar qualquer observador tocado. Eu sempre ficava.

vei um pequeno CD. Lembrei-me na hora daquela canção, por causa do título. Tengo Ganas. Tenho desejos, tenho ânsias. Achei que era um nome muito apropriado para aquela gatinha pretinha de pelinhos arrepiados, de olhinhos verdinhos, que lutava bravamente contra a infecção, a parasitose, contra a falta do leite materno, contra a morte. Gana pela vida. Quando conseguimos trocar a peça do carro e voltamos correndo para Belo Horizonte, no meio do caminho tentando achar uma cidade que tivesse um veterinário, só havia dois gatinhos, um já agonizando e morrendo antes da ajuda veterinária, sobrando só a Gana, a minha primeira e mais amada gatinha pretinha dos olhos verdinhos. Linda. Alegre, vivaz. Cheia de energia pela casa. Enchendo-me de uma alegria jamais experimentada antes. Eu que nunca tinha sido mãe, me sentindo meio mãe – às vezes, inteiramente mãe – daquela menininha pretinha que nos acordava todos os dias cedinho com um miado forte e insistente, pedindo sua mamadeira.

Imagem de Formiguinha

Resolvemos levar quatro gatinhos (um ficou com uma colega de minha irmã) para tentar ajuda com a Toínha lá em Milho Verde. Lá eles estariam a salvo, achamos. Porém, ao chegar naquela pequena vila no alto da serra, entre Serro e de Diamantina, quebrou uma peça de nosso carro e o pior, não encontramos mais a nossa amiga. A pousada havia sido fechada e ela estava fazendo tratamento de saúde no Rio de Janeiro (sua terra). Meu Deus, que sofrimento foi aqueles dias intermináveis ao ver que os gatinhos começaram com uma infecção e uma diarreia com sangue e foram morrendo um a um sem que conseguíssemos fazer nada, completamente impotentes e sem uma alma viva para nos ajudar, sem qualquer sensibilidade ao sofrimento de um serzinho tão indefeso. Todos achando que aquilo era normal e inevitável mesmo. Rezava para que a peça do carro chegasse a tempo para que pudéssemos levá-los correndo para o primeiro veterinário que tivesse no caminho, mas nada. Mas entre os gatinhos havia uma pretinha que resistia bravamente... Que queria muito viver, que já brincava e era voraz na hora em que eu dava a papinha. Espertinha, mais que aos outros, desde o primeiro dia a observamos encantados. Eu tinha acabado de voltar de um mestrado em Cuba, também tinha aproveitado os dias finais em Matanzas, para gravar umas canções lá mesmo. Uma das canções se chamava “Tengo Ganas” – da compositora e cantora cubana - Martha Roche – com quem gra-

Nessa altura já havíamos descoberto um leite próprio para filhotes animais e ela havia tomado uma injeção dolorida de benzetacil e curado de sua infecção e já livre de seus vermes parasitas. Ficava me lamentando o tempo todo, me culpando por não ter sabido disso a tempo dos outros quatro gatinhos se salvarem (o que ficou com a amiga de minha irmã também morreu). Achávamos lindo como ela sugava a pequena mamadeira. Mas ao mesmo tempo doía lembrar que se ela estivesse com a verdadeira mamãe, todos ainda estariam vivos. Gana foi crescendo e achamos que ela estava ficando muito sozinha e resolvemos encontrar um outro gatinho para lhe fazer companhia. (Segue)

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Descobri que na FAFICH/ UFMG tinha um grupo que resgatava os gatos (entre os inúmeros que habitam as dependências da Universidade) e fazia campanhas de adoção responsável. Fui atrás da Mailce e encontrei o Pares – um lindo gatinho amarelo, que em outra oportunidade conto a sua história. Pouco tempo depois, no dia do meu aniversário em 2010, apareceu outro gatinho preto, veio até mim como presente, de pelinho arrepiado como o da Gana quando filhote, de grandes olhos amarelos, faminto, sedento, mas acolhido por mim sem pensar duas vezes, pois não rejeito um presente divino. Chamei-o de Fiotti. Alguns meses se passaram e também chega até mim a Aila, outra gatinha pretinha de olhos verdes, que atropelada pequenininha por seu próprio dono, que não quis gastar com hospital para salvá-la, foi resgatada por mim, toda em sangue e com a patinha e a bacia quebradas. Nunca me arrependi pelo dinheiro gasto com cirurgias e internação (que não foi pouco), só pela dádiva que essa menininha é para a minha vida. E por último, chegou a quinta gatinha, também pretinha e de olhos amarelos, que apareceu para o Jamil e veio em seu colo quietinha. Pequenininha, essa gatinha subverteu toda a ordem em casa e acabou sendo batizada como ‘Pagu’. Estávamos novamente com cinco gatinhos, desses, quatro pretinhos. Lembrava sempre da pesquisa que fiz sobre feminilidade e psicanálise, em que descobri com dor no coração que milhões de mulheres e seus gatos foram brutalmente assassinados, queimados nas fogueiras da inquisição, acusados de bruxaria, durante a Idade Média. Sentia-me uma bruxinha, uma feiticeira rodeada de seus gatos, à despeito das crendices idiotas de que gato preto dá azar, me sentia a mais sortuda das mulheres. Mas a Gana me marcou para sempre, me marcou profundamente. Foi através da Gana, daqueles olhinhos verdes lutando pela vida, que comecei a ver a vida de maneira diferente. Comecei a ver os olhos da Gana, lutando pela vida nos olhos de todos os animais. Não consegui mais comer carne, porque lembrava sempre dos olhos da Gana, nos olhos do bezerro sendo arrancado de sua mãe-vaca antes da primeira mamada para ser barbaramente assassinado e levado às mesas como ‘babybeef’ dos restaurantes – carne de bebê, o bebê sendo arrancado do seio da mãe, cujo

leite é depois lhe sugado para a indústria perversa, para a perversa cultura humana em que a carne é forjada como alimento indispensável. Via os olhos da Gana, nos olhos doces dos porquinhos, seres tão inteligentes e sensíveis, impedidos de viver em sua dignidade para meses depois virarem lombos e filés nas mesas de homens vorazes. Via os olhos da Gana, nos olhos assustados e inquietos das galinhas na granja, que sem poderem ciscar os terreiros, botar e chocar seus ovos da maneira como naturalmente deveria ser, são colocadas para botar e botar e botar até se esvaírem todas as suas forças e elas também virarem assados e ensopados nas mesas das famílias “normais”. Via os olhos da Gana nos olhos de todos os animais, silvestres ou domésticos, lutando pela vida, sem entender porque lhes era tirado o direito à vida ou o direito à liberdade. Como me dói ver um pássaro engaiolado, ansiando apenas o céu como limite de seu voo. O direito sagrado de viver e de voar... Não o direito apenas do ser humano, mas o direito de qualquer ser vivente. Mas a Gana não me ensinou apenas isso. A Gana me pôs novamente em contato com o meu feminino, tão massacrado nos últimos anos, devido às constantes exigências da racionalidade e do trabalho tedioso. Descobri no Egito uma deusa igual a Gana – de pelos negros e olhos verdes: a Deusa Bastet, que segundo o site “A Deusa-gata”, era uma divindade associada ao Sol, mas também à Lua e protegia os partos e as mulheres grávidas de doenças e dos maus espíritos. Também era tida como símbolo do amor materno, da fecundidade e da doçura, da intuição feminina, protegia os lares nas dinastias de mais de dois mil anos antes de Cristo. E eu, sem ter sido mãe, passo a descobrir um profundo amor materno por todos os seres, uma vontade imensa de protegê-los e de cuida -los. Gana dormia sempre ao meu lado. Batia insistentemente na nossa porta de madrugada e não sossegava enquanto eu não a abria. Ela subia com seu corpinho leve e ágil e se aninhava na beiradinha da minha cama, encostadinha na minha barriga. Eu costumava às vezes acordar no meio da noite e buscava aquele pelinho macio com as mãos só para sentir o seu leve ronronado, respondendo ao meu carinho.
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Mas em janeiro de 2012, no dia de Folia de Reis, no sétimo dia de morte, da perda dolorosa de um grande amigo, aconteceu o inesperado. O inimaginável, aquilo que só agravaria ainda mais a minha dor. A Gana e todos os outros gatinhos começaram a ter uma diarreia com sangue. Entrei em pânico. Busquei logo a ajuda de nosso amigo veterinário, o Guilherme, amante como nós dos gatos. Fizemos os exames, saiu o resultado. Era um protozoário – Isóspora. Começamos a tratar a todos, mas observava que os sintomas na Gana persistiam e eram mais fortemente sentidos do que nos demais. Talvez pelo fato dela não ter sido amamentada pelo tempo que deveria. Talvez pelo fato de por isso ter uma saúde um pouco mais frágil. Na noite anterior ao desaparecimento da Gana, passei em claro, intuindo que algo terrível iria acontecer com ela... Busquei novamente o veterinário, para me certificar de que o tratamento era aquele mesmo e me tranquilizar de que ela iria melhorar. Na noite seguinte, voltamos da missa de sétimo dia do meu querido amigo Jonas (do qual já escrevi a história). Medicamos todos os gatinhos no horário certo. Certificamo-nos de que Gana estava melhor (aparentemente) e fui dormir mais tranquila. Mas às sete da manhã não a encontramos mais. Não a encontramos nunca mais. Ela que nunca havia fugido de casa, que podia ver todos os portões e portas abertas e jamais havia colocado os pés no passeio do prédio, pulou (achamos) de um lugar, o muro da área privativa, que jamais nenhum dos nossos gatinhos havia pulado. Foi aterrador. Havia perdido o Mestre Jonas, minha referencia amiga, musical e agora havia perdido a Gana, minha referencia de amor maternal... De encontro com o feminino, com o meu lado intuitivo. Minha referencia de amor pelos bichos, de Gana pela vida. Perdi minha Gana... Passei meses procurando -a. Passei meses chorando-a. Passei meses sangrando-a. Todo esse lado feminino se desequilibrou. Mas o tempo passa e apazigua a dor, e inevitavelmente, aos poucos vou tentando estancar as lágrimas. Reerguer-me e voltar a olhar para a vida com os olhos de Gana. Vou tentando reencontrar a Gana, nos olhos de cada um dos meus gatinhos, nos olhos assustadinhos do Chico, um gatinho cinza que apareceu um mês depois que a Gana se foi (completando nova-

mente os cinco). Vou tentando reencontrar a Gana, em cada um dos gatinhos que resgatamos e damos para a adoção. Vou tentando reencontrar a Gana nos olhinhos suplicantes e amorosos da Petit, a cadelinha pretinha que resgatamos porque, aleijada de uma patinha, foi abandonada ainda pequenina na rua. Vou tentando reencontrar a Gana nos olhos dos meus amigos. Nos olhos das crianças com quem convivo. Nos olhos, nos meus próprios olhos... Vou tentando reencontrar a Gana dentro de mim. Ainda assim, de vez em quando, na calada da noite, busco em vão os pelinhos pretinhos e macios da Gana, o seu suave ronronar no toque das minhas mãos, ao meu lado na cama. E ainda choro.

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HISTÓRIA DO BRASIL SOB A ÓTICA FEMININA Hebe C. Boa-Viagem A. Costa

Comandantes de Capitanias Hereditárias, as “capitoas”
Elas não vieram para o Brasil como comandantes de capitanias. Nem o rei as nomearia, pois não acreditava que elas fossem capazes de desempenhar essa função. Os maridos é que foram designados. Na sombra, elas foram o apoio do marido e, muitas vezes assumiram o posto, por pouco ou muito tempo e, em caso de doença ou morte do marido, o tempo que fosse necessário.

Quando o filho voltou de Portugal ela lhe passou o comando. Todavia isto foi por pouco tempo, pois o filho retornou a Portugal e lá morreu. Novamente ela passou a governar a Capitania e esta floresceu quando conseguiu a paz com os índios caeté. Gilberto Freyre lhe dedicou apenas três linhas na sua famosa obra Sobrados e Mocambos ressaltando que os colonos ainda não estavam tão preocupados em estabelecer diferenças de atividades entre os sexos. Afinal, eles precisavam da ajuda feminina, embora não o confessassem, para o desempenho de suas funções. Daí o relato de Gilberto Freyre: Foi nesse período de relativa indiferenciação, que uma capitania poderosa – a Nova Luzitania – chegou a ser governada por uma ilustre matrona: D. Brites, mulher de Duarte Coelho. Brites faleceu em 1584.

Ana Pimentel
Era esposa de Martim Afonso de Souza, donatário da capitania de São Vicente. Foi ela que iniciou o cultivo da laranja, do arroz, do trigo e a criação de gado na região, tornando a capitania muito próspera. Martim Afonso ficava livre para outras atividades que seu cargo exigia. E eram muitas! Um ano depois de ter fundado a cidade de São Vicente, Martim Afonso, a pedido do rei, voltou para Portugal. Outras missões o aguardavam. Ana ficou à frente da capitania administrando-a de 1534 a 1544.

Brites Mendes de Albuquerque
Era esposa de Duarte Coelho Pereira e assumiu o comando da Capitania de Pernambuco, em 1554, após a morte do marido.
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Luiza Grimaldi
A italiana Luiza Grimaldi, casada com Vasco Fernández Coutinho Filho, assumiu o comando da capitania do Espírito Santo depois da morte do marido, ocorrida em 1589. Nessa ocasião, os frades franciscanos, Antonio dos Mártires e Antonio das Chagas chegaram à capitania e iniciaram a construção do Convento de São Francisco em terras doadas por Luiza, em Vitória. Em 1592 o pirata inglês Thomas Cavendish, com cinco naus, se aproximou da baía de Vitória. Colonos e índios se uniram para o confronto com os invasores. Mulheres e crianças se refugiaram na mata enquanto os piratas avançavam. A primeira nau, a Leicester, encalhou na ilha do Boi. Usando duas lanchas, os ingleses tentaram desembarcar em Penedo, mas foram atacados pelo fogo e flechas das trincheiras do norte e tiveram que recuar. Tentaram atacar no sul e também foram repelidos e, depois de muitas baixas, desistiram de saquear a vila de Vitória. A partir desse incidente, os índios goitacás que antes eram hostis aos colonos, não mais os importunaram. O perigo comum serviu para que índios e colonos se entendessem. Durante quatro anos Luiza Grimaldi administrou a Capitania do Espírito Santo provando que tinha capacidade para tanto. Em 1593, retirou-se para Portugal após o reconhecimento dos direitos de Francisco de Aguiar Coutinho, parente de Vasco Fernandes Coutinho Filho. Esse reivindicador, entretanto, só assumiu o posto depois de 1605. Ao chegar em Portugal, Luiza recolheuse ao Convento Dominicano do Paraíso, em Évora. Foi uma das depoentes no processo de beatificação de Anchieta. Faleceu em Évora, em 1626.

Certa vez, quando o governador e todos os homens estavam ausentes, três naus corsárias francesas apareceram no horizonte, em frente da Baía de Guanabara. Talvez o Rio de Janeiro fosse uma presa fácil, devem ter pensado os corsários. E teria sido mesmo se Inês de Sousa não tivesse iniciativa e criatividade. Com o apoio do administrador eclesiástico da capitania ela pode por em prática o seu plano para evitar que os corsários atacassem e saqueassem a vila. Mandou que todas as pessoas vestissem armaduras masculinas e forjassem manobras de defesa nas praias. Em pouco tempo todos estavam a postos e deram inicio as atividades combinadas. O plano deu certo. Os franceses, vendo toda aquela movimentação, desistiram da pilhagem e se afastaram da vila. Mais adiante, entretanto, extraíram pau-brasil do litoral. Afinal, Inês com sua estratégia fez acontecer dos males, o menor. N.B. Historias de outras mulheres dessa época : Qual delas gostariam de conhecer? Vitima da Inquisição - Lourença Coutinho // De ex –escrava a mulher de prestigio – Chica da Silva// Escritora – Bárbara Heliodora// defensora de uma pátria livre – Soror Joana Angélica. Para saber mais: Costa, Hebe C. Boa-Viagem A. – Elas,, as pioneiras do Brasil – A memorável saga dessas mulheres _ Ed. Scortecci – SP -2005 Continua na próxima edição

Ines de Sousa Uma hábil estrategista
Salvador Correia de Sá viera ao Brasil (1578-1598) com o cargo de Governador e se instalara com a família no Rio de Janeiro. Volta e meia precisava afastar-se do povoado para explorar o interior, aprisionar índios. Nessas ocasiões ia acompanhado por todos os homens da vila. Nela ficavam as mulheres, os velhos e as crianças. Os problemas rotineiros sua esposa, Ines de Sousa, ficava encarregada de resolver.
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Intergaláctico
Por Mariane Lobo Quando tu, menina, ouvires meu nome, talvez encontre nele algo que é teu. Algo que vistes nas estrelas e não me dissera “Não, não vou contar, é segredo. Surpresa.” Será minha aura mudando de cor? É, eu misturo as magias, sou mesmo um babaca. Mas eu faço isso pra tentar te rodear, misturar teu corpo no meu. Ou vai dizer que Peixes e Aquário não tem nada a ver? Nego um futuro feliz lido nas minhas mãos , só para deslizá-las sobre tua pele nua e fazer do presente o único tempo existente pra nós dois. Faço duma cratera na lua o nosso quarto – ou será que vo-

cê prefere sentir os ventos revoltos de Júpiter a nos envolver? Será que se eu comprar uma ametista te sentirei perto de mim quando não puder ter seu corpo ao meu lado? Quem sabe? Em verdade, não só meu nome é teu, mas também o coração que palpita quando o ouço saindo languidamente dos seus lábios – que unidos num silêncio angustiante, me consolam formando um pequeno botão rosa. De novo, eu sou um babaca, mas também, que posso eu contra o magnetismo cósmico do teu corpo e da tua alma, ô menina?

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Segredos e Pecados
Por Maria Socorro de Sousa

Atrai-me a magia do teu olhar Seduz-me a complexidade... Segredos e pecados Secretos, imunes, imutáveis, Desnuda-me ardentemente Entre luzes, vinho tinto, música suave, Adequado olhar... Súplica ao vazio Doce tentação formidável O amor toma conta de mim Você é o meu terrível desejo Deixe–me amar sem limites Os teus lábios são magníficos Simplesmente irresistível Perfeita armadilha extática Vinculo em complacência Deixa eu te amar...

Suficiência... Mágico ao tempo... Apaixonar-me.

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Imagem do site Imikimi

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VARAL DOS FILMES E LIVROS

VALQUIRIA IMPERIANO
Bom dia, Boa tarde, Boa noite aos Varalgistas da Suíça e do mundo. Sou uma fanática por cinema e por livros. Gosto de quase todo tipo de filme desde que sejam bons, sobretudo o roteiro. Uma boa historia na mão de um diretor criativo nos desliga da realidade e nos faz prisioneiros das cenas. Fico hipnotizada com as cenas que se desenrolam. Graças a internet podemos visionar filmes que sequer saíram das prateleiras do comercio cinematográfico. Produções independentes maravilhosas, que valem à pena serem vistos, por isso resolvi escrever aqui no varal algumas sugestões de filmes nacionais excelentes. Todos filmes postados no Youtube que você pode carregar no computador. Mas antes do cinema é preciso que o texto seja criado, e dai a importância dos livros. Ler abre a mente, informa e ajuda a desenvolver um espírito crítico e criativo, desenvolve o vocabulário, desenvolve a capacidade de escrever e até viajamos no tempo e no espaço. Aproveito para indicar alguns autores e romances que passaram sob meus olhos e me preencheram as horas em que a inercia tentou me cercar. Espero que façam bom uso das dicas.

A Máquina - filme nacional.2005 rmvb
Um filme futurista, o diretor usou de efeitos especiais, que são bem feitos, não chega a ser um efeito especial como os de Hollywood, mas fiquei surpreendida que o Brasil esteja avançando nesse caminho. A historia é muito bem bolada, excelente, cenário bom, os atores, são ótimos. Vale a pena ver. Recomendo fortemente. Um dos melhores filmes brasileiros, não deixem de ver.

Pendurando Filmes
Vida de Menina - filme brasileiro completo - ano 2004
filme de época, aconselho a não desistir e avançar na historia. Os primeiros minutos são lentos, mas a historia se torna interessante. Um diário encenado. Bonita fotografia, boa atriz, filme ingênuo e apropriado para crianças.
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Saneamento básico o filme - completo (Wagner Moura e Fernanda Torres) .avi
Caros amigos, sem brincadeira não deixem de ver esse filme, é lindo, bucólico, engraçado, ecológico e crítico. Um filme dirigido e escrito por Jorge Furtado. Fernanda Torres e Paulo José, nem precisa comentar, são ótimos.

La vérité sur L’affaire Henry Quebert – Joël Dickerl Escritor suíço. O romance gira em trono de uma investigação. Um crime desenterrado dos arquivos leva o autor a colocar no papel sua investigação. O desenrolar é bem pensado os fatos que se sucedem são bem entrelaçados. Somos aprisionados pelo enredo desde a primeira página.

Meu Nome Não é Johnny
Filme brasileiro de 2008, do gênero drama, dirigido por Mauro Lima, contando a história verídica de João Guilherme Estrella. Educação, família, droga, tráfico. Um bom filme com Selton Mello.

Pequena Abelha – Chris Cleave Romance bem escrito. Uma historia linda mas triste. A força, a coragem, o medo, o abuso do ser humano pelo ser humano. Drama. O autor não afirma a veracidade da historia, mas não está longe de fatos que se passam em países africanos .

Pendurando livros
Va où ton coeur te porte – Susanna Tamaro Um diário escrito com o coração, emocionante e realista. A descoberta da alma . Maravilhoso.

La petite fille de Monsieur Linh – Philippi Claudel Maravilhoso livro, surpreendente um conto cheio de sensibilidade. Um a historia tocante. Aconselho fortemente.

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O Pequeno pecado
Por Jacqueline Aisenman

Cometeu o pecado e pensou em avisar logo, contar de uma vez, confessar, livrar-se do peso. Queria vomitar, devolver, voltar o tempo, esquecer. Mas era um pecado tão pequeno! Pensou um pouco. Tão pequeno... Mais pensava e mais diminuía o pecado. No final do dia já tinha quase desaparecido. Sem peso e nem medidas mais drásticas resolveu enterrá-lo junto de outros entulhos naquela parte do cérebro onde a memória era curta e vasta era apenas a área do esquecimento. E lá se foi o pequeno pecado habitar a casa de ninguém, onde cercas não havia. Apenas fossos imensos e separadores que não deixariam mais ninguém chegar até ele, o pequeno pecado, nascido para ser esquecido.

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NOTURNO
Por Ricardo Belíssimo As folhas úmidas silenciavam os seus passos. Ele nunca havia se infiltrado por uma trilha onde a mata era tão cerrada, tão sufocante. Isso só lhe agravou a sensação de que jamais sairiam com vida dali. Mas por ela, pensou, entraria em qualquer lugar. Até mesmo no inferno. Os galhos retorcidos dos arbustos também formavam um labirinto vivo de sombras, enquanto a copa das árvores, tão próximas umas das outras, impedia assim o vento remoinhar entre os troncos e, com isso, dissipar a névoa espessa que chegava sempre com o início do crepúsculo. Ela permanecia dois passos à sua frente e estranhamente calada, o que também lhe acentuou o mistério em torno daquela palidez profunda, quase cadavérica. Assim que atravessaram um córrego de água lôbrega, muito fria, ela finalmente parou e segurou em sua mão. Foi a primeira vez, em dias, que ela lhe tocara. Nesse momento, ela lhe pareceu ainda mais bonita, perigosamente linda, e pouco depois pôde aspirar um olor intenso de musgo em seus cabelos. De seu ventre, ainda sentiu um cheiro de madeira embebida no que parecia ser algum destilado e que logo o associou ao rum. Ela voltou a caminhar e, dali em diante, não largou uma única vez a sua mão. Com a noite se avultando, notou também que a treva se assentava muito bem à silhueta dela, demarcada por um vestido branco muito justo e muito decotado. Esse mesmo branco agora começava a se fundir ao tom leitoso da bruma que os enregelava e os envolvia. Em pouco tempo, sua carne já havia se unido ao que restava da sombra dela, antecipando uma cumplicidade sorrateira. Irreversível, talvez. Sem parar de caminhar, ela de repente o encarou, sorriu um sorriso perolado, e confessou que gostava dali porque o sol era sempre escuro e a lua muito radiante. E que também era o único lugar onde o sonho e a realidade faziam parte de um mesmo encanto. Um mesmo destino. O lugar perfeito para compartilharem segredos e pecados. Aqui é possível viver só de amor, ela ainda disse, e continuou a conduzi-lo ao pântano onde se banhava todos os dias.

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Escondidinho de camarão

Mesma base do escondidinho de carne moída porém, você pode colocar também catupiry ou um bom requeijão intercalando com a base e o camarão. O camarão você refoga com alho, cebola, cheiro verde e coloca no refratário intercalando. Em cima, camarão só para enfeitar.

Fonte: http://vovoqueensinou.blogspot.com

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Por Sheila Ferreira Kuno
uma, Fernando diminuía a velocidade e às vezes, parava, fazendo comentários. Fernando nos levou ao Pelourinho, um lugar incrível, cheio de histórias. Como tínhamos saído de uma reunião de negócio, estávamos mal vestidos para aquele ambiente. Meu gerente de terno e gravata, eu de “tailleur” e salto. Quando vi aquelas pedras, imediatamente tirei o salto e coloquei meus chinelos, que estavam na mala. Caminhamos muito naquelas ruas e Fernando sempre contava a história de cada lugar. Na hora do almoço, escolhemos um restaurante bem simples, eu pedi uma comidinha leve, pois não estava bem. Meu gerente e o Fernando optaram por uma comida regional, “moqueca de peixe”, que é um ensopado de peixes com tomate, cebola, leite de coco e temperos especiais. No final do dia, a caminho do aeroporto, Fernando diminuiu a velocidade para nos mostrar os Orixás no Lago. Eu passei o dia tomando remédio para baixar a febre e naquela altura do dia, eu já me sentia muito mal. Durante o voo, meu gerente começou a sentir os efeitos daquela comidinha nada leve que ele havia comido no almoço. Conclusão: Ele não saia do banheiro. E eu estava super enjoada de tanto tomar remédio. Para piorar, quando chegamos ao aeroporto de Guarulhos, o avião ficou sobrevoando uns 20 minutos, até conseguir pousar. Como eu tenho um pouco de “fobia” a lugares fechados, me deu desespero, levantei e comecei a andar pra lá e pra cá no corredor do avião. Meu gerente piorou e ficou trancado no banheiro. Demos um show naquele voo Que dupla complicada!

Viagem a Trabalho

Não viajo muito a trabalho, mas as viagens que fiz foram bem interessantes. Uma delas foi à Salvador com meu gerente. Passamos apenas uma noite, pois teríamos uma reunião na tarde do primeiro dia e outra pela manhã do segundo dia. No dia da viagem, eu acordei com a garganta inflamada e febril, mas viajei assim mesmo. Chegando a Salvador, participei da reunião. Depois fui direto para o hotel, pois eu não me sentia bem. No dia seguinte, a reunião foi bem rápida, terminou às 10 horas da manhã e como nosso voo estava marcado para as 19 horas, o diretor da empresa onde estávamos trabalhando, chamou um motorista e disse: - Fernando, leve-os para conhecer Salvador. Então formos. Fernando é um homem de uns 35 anos, muito simpático e atencioso. Primeiro ele nos levou para conhecer a Igreja do Senhor do Bonfim, onde nem conseguimos descer do carro, pois assim que paramos em frente à igreja, um aglomerado de pessoas se formou em volta do carro, querendo vender fitinhas a preço de ouro. Não adiantou dizer que não queríamos, ficamos sem saída, ou comprávamos as fitinhas ou atropelávamos aquelas pessoas. Então compramos. Depois fomos ao Mercado Modelo, um lugar muito colorido, cheio de artesanatos, onde compramos alguns presentinhos. Apenas visualizamos o elevador Lacerda, que tem a função de transporte publico, levando as pessoas da Cidade Baixa para a Cidade Alta. Passamos por várias igrejas e em cada

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Oh!
Por Maddal Só e livre. Gosto mais que ser acompanhada e só. Todo mundo pensa saber onde dói mais do que a própria pessoa. Pode?

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Desabafo do Poeta
Por Magno Oliveira Eu preciso me encontrar, Me adaptar... A vida sem você parece não ter razão, É como se tudo fosse escuridão. Sem você é triste a caminhada. Mas tenho que seguir! Toda essa luta não pode ser por nada, Ainda tenho fé, Vou sorrir. O que eu preciso é me focar... Me concentrar... Mesmo que o mundo diga não, Mesmo que maltratem o meu coração, Tenho que continuar, A linha de chegada ultrapassar. Mesmo sem você seguirei meu voo com tranquilidade Em busca de um pouso que me traga felicidade. Hoje estou sozinho... Me sinto assim... Tristeza? Não! Pura imaginação, Fantasia, Utopia. Tenho amigos que seguem comigo no caminho E é isso o que importa para mim... Esse é o verdadeiro amor, com sua natural beleza. Eles são a minha salvação Eles são a minha fortaleza. Quando eu estiver perdido, Abalado, magoado, com o coração ferido, Quando eu estiver triste, preocupado, Se eu estiver desconsolado, Sei para quem ligar, Sei com quem desabafar, Sei para quem e com quem contar, Sei quem poderá me ouvir. Eu posso não saber de tudo Eu posso não saber as respostas para as perguntas do mundo. Mas sei em quem eu posso confiar. Eu sei o suficiente, e o que eu não sei utilizo a meu favor, Em busca da flor, Do amor, Da paz, Em busca do bem, Do bom, eu quero mais, Eu quero alguém.
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LEMBRANÇA DORIDA
Por Dilercy Adler Dói saber que não te posso tocar abraçar amar a não ser na lembrança! dói saber que te tive tanto e tão junto tão dentro em mim tantas vezes e hoje não te tenho mais dói saber que fui tão feliz contigo e hoje o que tenho comigo são milhares de recordações... recordações que podem se apagar que podem não te trazer mais que podem me fazer te esquecer esquecer teu rosto... teu toque teu corpo... você!

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Dormentes

Por Yara Darin

Os dormentes da minha vida me sabotam num emaranhado de pensamentos confusos difusos e sem futuro. Expectativas sem trilhos adormecem pelos caminhos traçam rotas sem destino travam a engrenagem onde minha emoção descarrila. Assim como um trem desgovernado sem saber racionalmente solucionar o conflito deste medo me aflijo me calo, sentindo que os dormentes literalmente boicotam a minha liberdade. (felicidade)

Foto de Werner Bischof

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SURPRESA

Por Mario Filipe Cavalcanti de Souza Santos

Hoje olhei aquele menino da foto... Álbum antigo, baú de espantos... Menino peralta, macacão vermelho gritando alegrias...

Olhei tão feliz menino indagando os porquês de felicidades tamanhas. Vir ao mundo? Ah, menino tolo, nada sabes do mundo! E além do mais, não é para tanto o mundo!

E disse àquele menino da foto: “sossega, pequeno, o mundo é oco!” E aquele menino respondeu-me Com risos ainda maiores...

Aquele menino da foto Depois soube era eu...

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O mar por testemunha
Por Elena Lamego

Um bordado de espumas espraia-se na areia O cheiro da maresia aguça-lhe os sentidos A mão tateia os grãos em seu corpo Entumecem-se os seios. Seus olhos se fixam na boca vermelha. Ao cair da tarde No frio da praia O fogo incendeia. Gemidos, sussurros, misturam-se ao eco das ondas. Seus corpos encharcados nas águas do mar. Enquanto a lua adormece O prazer O êxtase A volúpia Os aquece. Despedem-se, Um beijo Um segredo.

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Ogros e sapos
Por Núbia Estela Strasbach

Dia desses, querido Diário, resolvi entrar no bate papo da internet, numa tentativa frustrada de encontrar um grande amor. O perfil do meu homem ideal, eu já tinha traçado, teria que ser inteligente de óculos e artista. Foi então que entrei com o sugestivo nick ”Monalisa”, para ver se fisgava o “peixe”. Veio o primeiro com um Oi, tudo bem? Odeio isso, será que não pode ser mais original, poético, criativo? Enfim, comecei o bate papo, que transformou-se num sexo explícito por parte dele, que me deu nojo. Deletei, então veio o segundo, com o nick padre sozinho! Pensei: O que um padre estaria fazendo num bate papo? Comecei a conversa assim: Como sozinho, não está com Deus? E ele: Sim, mas estou aqui sozinho, quer me fazer companhia? Senti suas segundas intenções e pulei fora dessa canoa furada. Então veio o terceiro, já me dava sono tudo aquilo.... Começou como sempre com um Oi, tudo bem? Eu quase respondi: Não está nada bem, o mundo virtual está infestado de ogros e sapos. Mas me segurei ao máximo e devolvi a pergunta com a resposta: Tudo! De onde tecla? O que gosta de fazer? Está afim de uma rapidinha? Poxa, será que só pensam nisso? Por que não compram uma mulher inflável, ao invés de internet. Coisa mais chata! Enfim, querido diário, não sei como tem amigas minhas que casaram com homens de internet, acho que ainda não viram o tamanho do ogro que tem ao lado. Desisti da internet....hoje prefiro olho no olho, sabe aquela química gostosa, que acontece quando menos se espera? Mas como sou míope, ainda não enxerguei o meu homem ideal...fazer o que ?

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Uma releitura de nós... Relendo a nossa história e reescrevendo novos capítulos...
Por Ediane Souza Quero dizer o que sinto, mas desta vez tenho medo de pelo avesso me deixar mostrar. Quero expressar o que vai em minh’alma, mas há segredos que nem ao silêncio ouso contar. Queria compreender a linha tênue entre ‘o posso, mas não devo’, entre o temor e a coragem. Queria fazer tudo o que desejo sem pensar se pode ou não ter volta esta viagem. Meu peito anda desconcertado, vontades absurdas meu corpo reclama, é como me sinto. Busco pesar o certo e o errado, mas quero atender aos apelos dos meus desejos, eu não minto. Divido-me entre o ‘reler alguns capítulos da nossa história’ e o ‘deixar o livro fechado’. Deveria pensar numa reescrita ou dar o texto por completamente encerrado? Insisto numa releitura, descubro páginas amareladas, cuja tinta teu cheiro exala. Fecho os olhos, me embriago, mergulho no passado e todo o meu corpo fala. Arrepio-me imaginando o toque de tua pele; divago alucinada por este perfume. Sufoco os anseios de não estar em teu colo agora, não ser tua neste instante é o meu queixume. Uma simples troca de olhar, um sorriso reciprocado, nada mais há em volta, apenas nossa magia. Parágrafo a parágrafo, vamos inserindo novas linhas, criando e vivendo nossa fantasia. Vou me perdendo em teu mistério, creio ser o que dizes: a tua biografia. Conheço cada parte do teu corpo, tenho em mim tatuado cada palmo de tua anatomia. A mim, tu me conheces por inteira, sabes das minhas reticências, vírgulas e travessões. Cada trecho que em mim escreves em nada duvidas, descobres uma a uma as minhas indagações. Interrogas-me, me exclamas, dize-me “tremas”, a gramática é nossa, não faz mal. Entendes cada vez que preciso de um acento e sabes sempre chegar ao meu ponto final. Tantos encontros, desencontros, reencontros, e o mesmo gosto, o mesmo aroma, o mesmo calor. Os intervalos são longos, mas os desejos seguem intensos, apreciamos a cada dia o nosso sabor. Nossa história foi há mais de 30 anos escrita e quando menos esperamos nova página é inventada. São capítulos infinitos, uma novela sem fim, de tempos em tempos reeditada. Que venham novas páginas, intermináveis parágrafos, capítulos infinitos, deles não vou fugir. Quero vivê-los intensamente cada vez que clamarem para um novo trecho eu inserir. Somos capa, contracapa, orelha, dorso, um livro inteiro de nós dois. Convido-te a uma nova leitura e reescrita e o 'será' e o 'talvez', o 'podemos' e o 'não devemos'... editaremos depois.

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Segredos dos Pecados
Por Rossandro Laurindo Segredos segregados à alma Lama dos sentidos sufocados Lançados ante a face ressecada Amores transgressores vários Desvarios de loucuras incessantes Amantes dos prazeres à carne A derme crua dos sentidos vagueia Ante ácaros estáticos dos anseios Devaneios delirantes, mascarados O pecado bate à porta noite e dia Não descansa ou desaparece Empobrece o espírito passivo Nocivo aos corações ocos Cegos e imperceptíveis demagogos Veem só o que está adiante Não percebe o inimigo solto Carece de socorro sempre Caleja a língua ao orar frequente Mas no íntimo deseja forte As chamas incandescentes Dos mais vis pecados ardentes Cada olhar uma semente Basta uma fragrância para despertar O desejo aparente de se saciar É veneno tomado no café Servido à mesa do jantar Almoço exposto ao paladar

Os sentidos são os rios Os fluxos que conduzem ao ser Viver as falhas incansavelmente É o labutar diário para vencer A si mesmo e os segredos petrificados Nos corredores, nos bastidores da alma Quem vencerá os enigmas? Aqueles que circundam o pensar Sentir somente o que se conhece É existir lutando contra si e os próprios eus Que incrustam na razão do espírito nu

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Valores Controversos
Por Ivonita de Concilio

Impossível podermos aquilatar comportamentos existenciais, como a prostituição ou o homossexualismo, como se essas práticas fossem atuais, pois elas são exercidas, comprovadamente, através dos séculos. Alguns segmentos da sociedade, principalmente as comunidades religiosas, chegam ao absurdo de encarar esses assuntos como se fossem, ambos, consequência da modernidade. Absolutamente! Cito aqui dois trechos da Bíblia, como atestado da antiguidade das duas formas de “pecado”: Rm 1:26-27 Pelo que Deus os entregou a paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza; semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para como os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro. (ARA) Dt 23:18 não trarás o salário da prostituta nem o aluguel do sodomita para a casa do Senhor teu Deus por qualquer voto, porque uma e outra coisa são igualmente abomináveis ao Senhor teu Deus. (ARA) Num exercício de revisão da História Universal iremos encontrar, sempre, a prostituição e o homossexualismo de mãos dadas na Grécia e Roma antigas e nas cortes da Inglaterra, França e China – em destaque por serem as mais romanceadas, inclusive por escritores dos próprios países.

A libertinagem entre os nobres era usual e tolerada pelo clero, que compactuava muito mais do que se vê nos filmes ou na literatura. Tendo entre outros famosos personagens, o rei Henrique VI e até Elizabeth I, que foi sua ilustre prisioneira por dois meses, a Torre de Londres encarcerou, ou submeteu a torturas em suas masmorras, incontáveis homossexuais e prostitutas que transitavam livremente nos palácios, alguns fortemente incrustados nas intrigas usuais da corte.

Na França, ainda seguindo pesquisas fornecidas pela História, o ambiente da Corte não era muito diferente do inglês. Por sua vez, a China, seguindo as cruéis tradições do concubinato e do séquito de eunucos – ambos aceitos como honraria – proporcionavam práticas tanto de prostituição quanto de homossexualismo. Jovens eram escolhidos entre o povo e, também, nas camadas nobres e enviados aos palácios reais. As moças, necessariamente virgens eram confinadas e preparadas, diariamente, para um eventual chamado do Imperador. O chamado poderia vir a qualquer momento ou... Nunca! Ao contrário de um convento, onde as mulheres dedicam sua vida a uma entidade superior, exercitando a castidade, as mocinhas chinesas eram preparadas, manipuladas e excitadas para o sexo. O que poderia acontecer com elas, quando o próprio organismo exigisse o prazer prometido?

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Por seu lado, os rapazes eram castrados (honrosamente!) e formavam a segurança do palácio, do Imperador e das frágeis e fogosas concubinas. Em muitos casos, eles não se efeminavam e conservavam a libido. Nos salões de repouso do Imperador eles induziam ao inevitável corpo-a-corpo. Nos pavilhões das mulheres havia, sem dúvida, assédios, chantagens e uma “troca de favores” sutis e perigosos, pois a ameaça maior era, nas brincadeiras, um dedo mais invasor desvirginar a concubina e a desonrar ante a corte e a própria família. Deixando os dramas dessas distantes e históricas cortes iremos encontrar, nos dias atuais e no cotidiano, uma situação muito semelhante, no que toca às tentações e (in) consequentes resultados. Mudam os nomes das casas de encontros, de quem trabalha ou alicia e das sevícias, mas o enredo é e sempre será o mesmo. Independente do país, da região, da cultura ou da situação financeira as polêmicas tendências jamais serão erradicadas. São parte da Humanidade queiram os moralistas ou não. Mesmo que sofram objeções e sejam modificadas suas formas de manifestação através dos tempos serão perpetuadas.

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O Reencontro
Por Domingos Nuvolari Se eu te encontrasse hoje. O céu se abriria em nuvens brancas, O sol ardente encheria de brilho o azul anil do céu infinito. Das noites restaria apenas o pequeno brilho de estrelas infinitas. A lua já mais perto brilharia para sempre nesse universo vago, Escuro e infinito e faria do tempo, uma eterna noite, Na qual só viveriam a alegria e o amor. O mar acalmaria o seu eterno galopar de solidão, As águas se igualariam, seus habitantes subiriam das profundezas E receberiam os raios fugitivos do imenso astro. Das praias a areia se tornaria tão branca, que a neve ao seu lado seria escura. O verde das florestas seria igualado a um enorme feltro que ao brilhar, Refletiria as gotas de orvalho que desceram da noite. A terra a lápis marrom se inundaria de vida, Seus animais sairiam de seus esconderijos para verem, sorrindo, Os campos se abrindo. A poluição cessaria sua subida através dos degraus do oxigênio Até a planície suspensa que se forma. Um imenso DEUS surgiria no céu como um símbolo de verdade e sinceridade. As noites iriam se reunir e decidiriam ficar juntas, Ignorando o mundo triste de solidão. A felicidade e a alegria brincariam juntas, Ririam e cantariam como duas crianças. E quando chegasse a festa dos natais, As árvores dançariam ao som de luzes repetindo cores. Assim dias passariam, anos chegariam, mundos viriam, Só para ver a escalada da alegria de viver pelas montanhas difíceis da imaginação.

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TOC, TOC!
Por Pablo Mateus dos Santos Jacinto Então me vejo sozinho pela primeira vez em muito tempo, dentro da minha casa. Eles se foram, programadamente, há dez minutos, por julgarem que eu já estava pronto para recomeçar com minhas próprias pernas. As companhias telefônicas devem achar que esta região é pouco densa demograficamente, e que investir na presença de sinal telefônico aqui não é fonte de lucros, então não tenho esta alternativa de contato, então eles não estarão disponíveis, a partir de agora. Não os culpo. São jovens, assim como eu, e ficaram comigo até mais tempo do que eu esperava. Minha única forma de comunicação com o mundo exterior é a televisão cheia de chiados e com mais fantasmas do que a minha cabeça. Na televisão, eles seguem a imagem já falsamente projetada, enquanto os da minha cabeça se encontram livres para me iludirem ou para me mostrar outras maneiras de pensar, e se divertem por saberem que, diferente de mim, suas asas ficam maiores conforme aumenta a minha solidão. Minha casa não é grande, logo, não há muito espaço a ser preenchido. Uma sala, um quarto, um banheiro e uma cozinha. Todos divididos por vãos marcados por cortinas. Portas, só a da entrada e a dos fundos. Não sinto tristeza, remorso, nem nada do tipo, devido ao meu estado atual. Sinto incapacidade, apenas. Desde o ocorrido, não sei ao certo como farei para voltar à minha vida real. Checo o armário da cozinha. Acho um bom começo; servirá para que eu me programe melhor para os próximos dias, ao menos. A despensa está vazia. Devo ter comida para mais um dia, e logo terei que sair para comprar mais. Olhando por cima, vejo uns dois pacotes de biscoito, e duas latas de atum. É. Deve servir para o resto do dia, sim, e talvez ainda sobre um pouco para o outro. Quanto à água, eles juram que quando ela sai da companhia de tratamento, qualquer pessoa pode beber, mas não garantem a mesma pureza nos canos que a transportam. Não sei se devo temer,

pois não tive experiências ruins e não acredito que esse país permita que ocorram surtos destas doenças que vemos na televisão, naquelas reportagens sobre países paupérrimos devastados por desastres naturais. Abro o pacote de biscoito e me sento em frente à TV, no intuito de assistir algo que faça o tempo passar mais lentamente. Encontro um programa no qual pessoas desconhecidas debatem sobre temáticas irrelevantes. Perfeito. Já é manhã e eu acordo ouvindo o som da TV, que ontem me agradava, mas hoje soa apenas irritante. Droga! Eu devia tê-la programado para desligar. Este seria um belo momento para me preocupar com a conta de luz que chegaria no mês seguinte, se eu não estivesse desconfiado de que aquilo não me afetaria em nada. Em vez disso, como o resto de biscoito que sobrou da minha aventura noturna, vou ao banheiro e preparo minha escova de dentes. Sempre tive mania de escovar os dentes andando pela casa, e assim o faço. No meu trajeto, passo pela sala e observo a porta. A chave está na fechadura, e certamente não está girada, já que quando eles saíram, só poderiam bater a porta por fora – o que traz certa segurança, pois essa porta só pode ser aberta, sem a chave, pelo lado de dentro. Isto significa que, caso eu queira sair, devo apenas girar a maçaneta que a porta se abrirá sem maiores dificuldades. Não tenho motivos para isto agora, por ter tudo o que preciso dentro da minha casa: comida, água e um mês de eletricidade a ser esbanjada antes que cortem a luz por falta de pagamento. Termino e me sento mais uma vez em frente à TV. Só que desta vez, a minha intenção é outra. Quero ler. Não guardo muitos livros em casa, pois nunca precisei realmente deles. Meu antigo trabalho nunca exigiu nenhum grande nível intelectual, e só agora eu sinto a vontade de ler alguma coisa – e num intuito outro: não adquirir conhecimento, mas prender os fantasmas. Já me falaram uma vez que quando se lê, se abre uma porta mental para um universo de infinitas possibilidades. Talvez seja assim, mas creio que essas infinitas possibilidades não são tão infinitas quanto os fantasmas que pipocam no meu imaginário nessa condição de estar só, então o livro vai
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servir para que eu consiga focar meu pensamento em algo concreto, por alguns instantes. Encontro um livro em uma mala que eu havia preparado, há alguns meses, para doar a um asilo, com coisas desnecessárias que disputavam espaço comigo no meu lar diminuto. A história era sobre um homem comum que se perdia no mar e era capturado por uma sociedade de pessoas minúsculas (ou sobre pessoas comuns que capturavam um homem gigante que invadira o seu espaço, como preferirem). Enquanto lia, minha visão periférica funcionava perfeitamente, me fazendo enxergar a porta da frente, à minha direita, e a dos fundos, à minha esquerda. Era meu segundo dia de solidão, e a leitura era o suficiente para fazer das portas apenas objetos figurantes no espaço. Fecho o livro precisamente na metade, utilizando um pedaço do plástico que se soltava do sofá, para marcar a página exata, caso eu resolvesse voltar e finalizar a leitura. Levanto e vou cozinhar. Se é que fazer “sanduíches” de biscoito com recheio de atum é cozinhar. Ao menos isto serve para que eu passe mais o tempo. Me perco no tempo e acabo utilizando todo o material que tenho. Como até me saciar e guardo o restante. Pego roupas limpas, e parto para um banho. Enquanto estou no chuveiro, contemplo o fato de a entrada do banheiro conter uma cortina. Aprecio o luxo de poder usar um banheiro naquelas condições. Naquela tarde, ouvi um barulho de carro. Aquilo não me amedrontou tanto quanto eu imaginei que amedrontaria. De fato, após o ocorrido, fui transportado de carro, e também de carro, me trouxeram para cá. Não, o carro não me causava medo. Entretanto, eu estava na expectativa de saber que carro era aquele, mas minha casa com janelas translúcidas não me permitiam enxergar com nitidez. Julguei ser o correio, pois era o mais provável naque-

Era o correio, com certeza, pois agora eu podia ouvir o som da caixa postal se fechando.

la região. Era o correio, com certeza, pois agora eu podia ouvir o som da caixa postal se fechando. Como range! Eu sabia que deveria ter lubrificado as dobradiças há algum tempo! Agora eu tinha correspondência. Quem sabe alguém me visitaria e eu poderia pedir para que este alguém trouxesse a carta e passasse por baixo da porta? Me volto para a janela, imagino a sensação de estar lá fora, naquele final de tarde. Respirar novamente o ar puro do meu jardim, ar que vem dos bosques próximos, com um grau de refrescância que contrastam com o calor dessa região. Lembro que após o ocorrido, fiquei com dificuldades de respirar por um bom tempo. No início, o tanque de oxigênio ficava ao lado do meu leito, para qualquer inconveniente. Fora isso, não tive muitos danos. Certamente, fui o mais sortudo da ocasião. Decido que quero estar envolto naquele ar do crepúsculo, de qualquer forma. Afinal, basta eu agarrar a maçaneta, que a gravidade faz o resto. Foi o que fiz: girei a maçaneta da porta da frente, e ouvi o barulho do trinco destravando. Mas o que se segue foi desesperador... eu não podia empurrar a porta. Eu não queria fazer aquilo. Algo estava faltando. Simplesmente empurrar a porta não era o suficiente para mim. Soltei a maçaneta, ouvi a porta voltando a se travar, e me sentei-me à mesa da cozinha, devorando o restante de biscoito com atum que restava do almoço. Sentia-me fraco. Não pela falta de alimentação, que era uma realidade atual, mas pela minha falta de ação diante de uma situação tão banal. Eu precisava me sentir gente, mais uma vez. Eu precisava me sentir homem. Ou isso, ou a certeza de que eu murcharia enquanto ser, e não viraria o jogo. Esta era uma ocasião que a dúvida era a entidade mais confortável. A dúvida entre ter ou não um futuro depois de tudo o que eu tinha passado e de tudo o que eu estava passando, enquanto consequência.
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Deixei de lado as migalhas da refeição que havia feito e acendi as bocas do fogão. Todas elas. Observava as chamas em sua forma anelar e sua cor azulada. Aquilo estava longe do que eu tinha passado. Não me fazia recordar a situação. Não serviria de enfrentamento de medo. O fogo era diferente, mais vivo. Abri a primeira gaveta do armário da cozinha e puxei um dos panos de prato com estampa de dia da semana. Enquanto o repousava em uma das bocas acesas do fogão, suava ao ver os pontos pretos que surgiam se transformando em chamas amarelas, alaranjadas, vermelhas, exalando uma fumaça preta, típica da queima de tecido. Tremíamos, o fogo e eu. Eu tremia mais. Àquele ponto, eu já tinha me arrependido da ousadia. Qual a razão? Forçar um enfrentamento não parecia mais uma boa ideia. Joguei o pano de prato em chamas dentro da pia, mas não liguei a torneira. Esperei as chamas consumirem o tecido, sustentando um pouco de dignidade perante a ocasião. Após o episódio, passaram-se três, quatro dias, e eu me sustentando apenas com a água da torneira. Meus momentos de paz eram durante o banho, quando eu fechava os olhos e, enquanto ouvia o barulho do chuveiro, me imaginava na beira de um rio (às vezes ia mais longe, e tentava sentir o cheiro do mar). Não que eu outrora tivesse experienciado bons momentos nestas paisagens, mas era o mais próximo que eu conseguia chegar do mundo de fora, estando preso na minha própria casa. Não sei se por delírio da fome, ou artifício do desespero, certo momento do dia uma raiva imensa me atingiu. Naquele momento, eu não via mais paredes, mas o cenário externo. Como se estivesse envolto por uma redoma de vidro. Eu via as árvores cercando a minha casa, e tentava sentir remorso por meus genitores terem me deixado apenas este lugar isolado, para viver. Então me lembrava de todas as oportunidades que tive de ir para uma cidade maior, mais movimentada. Todas recusadas, sob a alegação da tranquilidade. Mas eu estava numa cúpula, agora, e aquilo não me agradava. Agarrei tudo o que podia carregar – cinzeiros, o livro, algumas cadeiras – e atirei

sem piedade, um item por vez, na porta dos fundos. A ira passou, e o que me restava era uma pilha de lixo a mais, bloqueando minha saída por aquela via. Entretanto, eu ainda mantinha na memória a imagem dos arredores da minha casa. O típico caso da residência isolada, exceto pela caixa de correio, que era uma ligação incontestável com o mundo civilizado. Viver afastado do centro urbano me obrigava a sustentar uma rotina peculiar. Vez ou outra, eu buscava suprimentos na cidade, planejando sempre que durassem por muito tempo. Porém, às vezes alguma quantidade não era bem calculada, e só me restava sair para comprar. Como eram compras menores, eu preferia fazê-las na loja de conveniências do posto de gasolina que ficava em um ponto da estrada, há menos de dois quilômetros da minha casa. Um senhor simpático alugava o ponto e ficava indescritivelmente feliz sempre que alguém da “vizinhança” comparecia no seu estabelecimento. Foi nesta circunstancia que aconteceu. A última vez que eu abri a porta da minha casa. Não me recordo do que fui comprar. Acabou não sendo tão importante. Era meio dia, e eu abri a porta. Saí e não tranquei por fora, usufruindo do benefício da falta de criminalidade naquela região. Caminhei pela beira da estrada, embora houvesse um atalho pelo bosque. Não valia a pena. Pela estrada, talvez eu me deparasse com algum ser humano. Grande engano, nenhum carro passou. Cumprimentei o frentista, entrei na loja, peguei uma cesta e comecei a recolher os itens faltantes. Como de costume, o senhor simpático sorriu e me disse alguma mensagem de bom dia. A loja de conveniência era uma construção simples, com uma porta de vidro na frente, e um corredor ladeado pelo banheiro e pelo depósito, nos fundos, com uma porta de metal de saída. Eu estava na prateleira mais próxima do corredor, quando ouvi o estrondo. Não conseguiria definir quanto tempo demorou para que eu notasse com convicção o ocorrido. Perfurando a parede frontal da loja, uma caminhonete que se consumia em chamas.
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Dentro dela, um homem desacordado envolto na névoa preta. Sob ela, o senhor simpático, inconsciente, rodeado de estilhaços de vidro, e com uma flanela presa aos dedos. A esta hora, eu já estava sentado no chão, com lágrimas nos olhos e com nenhum pensamento coerente ou atitude programada. Alguém gritava lá fora, certamente o frentista, e ouvindo seus gritos, eu apaguei. Acordei ouvindo estrondos na porta dos fundos, ainda com um calor infernal e com uma quantidade muito maior de fumaça. Quando notei as sirenes luminosas, percebi que jogavam água na parte da frente. Mais um golpe na porta dos fundos e enquanto ela desabava, entrava uma bombeira negra, com postura firme, e exalando um perfume peculiar de flores. Aquele perfume era único, trazia segurança. Enquanto ela me abraçava, eu sentia seu cheiro e sabia que estava salvo. Nos fundos da loja, dois homens me aguardavam com uma maca no chão, e vários equipamentos nas mãos. Enquanto me deitavam, a bombeira voltou para dentro. Ainda havia chamas, mas ela voltou. Ela sabia que mais duas pessoas estavam por lá, embora não soubesse em qual situação. Enxerguei um clarão e apaguei mais uma vez. Enquanto eu me recuperava, me disseram que aconteceu outra explosão. Foi um acidente com três vítimas fatais. Agora estou em casa, acabou a comida, o livro é um saco e a TV não me satisfaz. Tenho um chuveiro, medo, incompletude, e duas portas. A porta dos fundos está obstruída e tirar aquelas tralhas não vale o esforço. E apesar da porta de a frente estar livre, eu não poderia abri-la sem a combinação certa de fatores. Como a bombeira o fez. Faltavam as características daquela mulher, que uma vez me libertou, e agora me aprisionava. Ao menos não havia mais nada com o que me preocupar. Minha vida convergia naquelas circunstancias, e talvez eu pudesse aproveitar aquilo tudo que estava vivendo. Talvez. Lembro-me nitidamente de um professor de biologia, do ensino médio, que era daquelas pessoas que se esquecem de já ter passado alguma informação, e a repassam vez ou outra, julgando ser novidade. Ele dizia que um homem adulto conseguiria viver até três semanas, sem comida, mas morreria caso ficasse três dias sem água. Pelos meus cálculos, ainda tenho duas semanas, e alguns panos de prato para queimar.

PARITICIPE DAS PRÓXIMAS EDIÇÕES: • Até 25 de setembro você pode enviar texto para a edição de novembro, nossa edição de quarto aniversário que trará o tema livre. Escreva em verso ou em prosa, envie poemas, crônicas, contos, artigos! Proponha uma coluna! Até 25 de outubro você pode enviar textos para nossa edição especial de Natal! (Apenas textos relacionados ao Natal e Ano Novo). Prosa ou verso. As inscrições podem ser encerradas antes se um número ideal de participantes for atingido.

28o SALÃO INTERNACIONAL DO LIVRO E DA IMPRENSA DE GENEBRA—SUÍÇA - 2014

Em breve informações de como participar de um dos mais prestigiados eventos literários de toda a Europa! Veja no site do Varal do Brasil fotos de nossas participações em 2012 e 2013! www.varaldobrasil.com

Programe-se: de 30 de abril a 4 de maio de 2014, Genebra abrirá as portas da literatura para você, para o seu livro! Venha fazer parte desta história de sucesso!

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Na venda do velho imigrante
Por Nilza Amaral

Todos os sábados à tarde, o espetáculo acontece. O homem montado ao contrário no pangaré mambembe, agarrado ao rabo do animal, sai pelas ruas do vilarejo, na demonstração gratuita aos poucos passantes que param para um momento de riso. Porém, absortos em seus afazeres, retomam seu caminho, sem atinar porquê aquele caipira de alpargatas, calça rancheira e chapéu de palha, atravessa o vilarejo todos os sábados à tarde, fazendo as palhaçadas em cima daquela égua magra. O ponto de partida e de chegada do caipira montador, é a venda do velho imigrante __ cheio de nostalgia de sua Veneza, das gôndolas e do cheiro do mar, da sua terra natal da qual fugira devido à inundação que quase engolira a ilha no ano dezoito. O velho cobra caro pelo gole de cachaça ofertado aos fregueses de fim de semana, os sitiantes que vêm comprar suas mercadorias para abastecer seus sítios. A cobrança é em performance, não em dinheiro. É o ônus pela felicidade que tem essa gente humilde de poder permanecer em seu país, ignorantes às ameaças políticas ou catástrofes da natureza. Depois do quarto ou quinto gole de fernéte, ou no terceiro copo de cachaça, o sitiante faz a vontade do dono da venda, e distrai sua cabeça dos pensamentos da terra de origem, bancando o palhaço de circo, enquanto sua mulher de pele curtida pelo sol da lavoura, com as roupas domingueiras, meias soquetes com os canos comidos pelas alpargatas, espera pelo final do espetáculo de cabeça baixa e olhos fixos no chão. Cada vez que o marido passa agarrado ao rabo do cavalo, imitando os cavaleiros de rodeio, puxando a rédea, fazendo empinar a bunda do animal que relincha de dor a cada puxão do freio, disparando coices para todos os lados, a mulher estampa na face um riso amarelo e insosso. Não é um riso de vergonha ou de opressão. Talvez um amuo de humildade. O sitiante, consciente de sua responsabilidade de bêbado, com uma das mãos

agarrada ao rabo do animal e a outra à crina, ao chegar à porta da venda faz evoluções arriscadas terminando o espetáculo invariavelmente com uma queda espetacular. As evoluções despertam o riso adormecido do velho vendeiro, e tudo se finda sempre com a internação do sitiante na santa casa do lugar, o único hospital disponível. Então se dando por satisfeito, o vendeiro enxota a mulher com as suas mercadorias, ¨xô, xô, xô, vada via,vada via¨. Ela atrela o cavalo velho à carroça das compras e vai providenciar os cuidados médicos para o marido. O vendeiro descarrega a sua infelicidade nos sitiantes e estes usufruem a bebida do vendeiro. Pode-se classificar essa relação como uma relação politicamente amistosa entre duas raças. Depois da apresentação insólita, o velho e o cônsul __ também oriundi __ sentam-se sobre os sacos de batatas à porta do armazém e relembram passagens da terra natal, carregados de emoção, sentimento e saudade. __ Alora sono um vecchio, non torno piu, desabafa o vendeiro.__ É, somos velhos meu amigo, jamais voltaremos, arremata o cônsul. Muitas vezes as palavras são substituídas por longos silêncios e sentidos suspiros, logo suplantados pelos comentários sobre os patrícios recém chegados, pelos apartes sobre a riqueza dos mais antigos lá na capital. ¨Temos até políticos¨, ¨temos o paisano dos museus¨, e a conversa sempre termina com os elogios do cônsul ao amigo vendeiro afirmando que este conseguira um pouco do poder da vila, pois afinal é dono dos prédios da prefeitura, da igreja, e da gleba do cemitério. __ Mas falta reconhecimento, diz o vendeiro, reconhecimento. __Reconhecimento e o cheiro do mar, completa o cônsul. Mais tarde, quando a noite cai e o cônsul se retira, ele recolhe das portas os sacos de estopas de mantimentos, e aí sim, uma pontinha de remorso pela humilhação imposta aos fregueses simplórios, pica-lhe o coração, mas somente por segundos, logo volta toda a inveja pelos nativos da terra e ele sorri feliz pensando nas palhaçadas fazem por um copo de aguardente. Então engole seu fernéte, coloca no velho tocadiscos suas óperas italianas, principalmente, a Tosca, e noite sim noite não, toma seu banho quente.
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Giulia, a mulher do vendeiro, procura a sua terra natal todos os dias pelas ruas da cidadela Não sabe quem é, ou quem foi. O espelho lhe mostra uma figura que ela não reconhece: uma bruxa gorda de cabelos brancos. Ela procura pela sua antiga imagem: a bela italiana de pernas grossas e cintura fina. Toda a manhã, depois de tomar o desjejum feito pela empregada, percorre quilômetros em busca da casa de seus pais e de sua identidade. Pára horas, defronte o riacho que divide o lugar, achando que aquele é o Tibere de sua Roma, senta-se sob uma árvore e conversa muito com formigas, ratazanas, borboletas, conta-lhes fatos passados, de como sente falta da sua verdadeira vida que ela não mais sabe onde está. Volta sempre em segurança pelas mãos de algum morador já ciente das suas andanças infrutíferas, para o seu velho marido. Este a olha ternamente, acaricia seus cabelos brancos e compridos enrolados num grande ¨birote¨, e a conduz com cuidado à cadeira de espaldar alto, ¨o trono de minha rainha¨ ignorando o riso abobalhado da mulher que o contempla insegura. Passa a noite ouvindo suas óperas até o sono bater forte. Então, o velho conduz a mulher até o seu quarto e coloca o terço entre seus dedos trêmulos. E ela, fica ali, tentando lembrar o que se faz com aquela fileira de contas que todas as noites o homem que se diz seu marido, enrola em suas mãos, dizendo¨reze, reze, para recobrar a memória¨. Ajoelhada ante a imagem da santa, ela passa as horas, sem saber se é noite ou dia, até que sentindo dor nas pernas, joga-se na cama. Porém, um toque de magia se instala nessa noite surpreendente. Ela não se joga na cama quando vem o cansaço. Fica ali, extenuada, as pernas doendo, os olhos ardendo, apertando aquelas contas, querendo extrair delas a sua significação. Ele apronta tudo para o ritual do banho, esquentando as roupas e a toalha na chapa do fogão elétrico, preparando o copo duplo de fernéte, abrindo ao máximo a água da torneira da banheira, amarelada e antiga, até a fumaça da água quente inundar o banheiro e a cozinha contígua. Então mergulha seu corpo velho e dolorido na água relaxante, e fica horas submerso, bebericando o fernéte, perdido nas recorda-

ções no meio a fumaça abundante, pedindo a Deus que lhe dê uma morte sem a dor da vida. Nessa noite, diferente das outras, um aroma de mar, invade o quarto. Ele liga o seu rádio Galena, uma relíquia. trazida da terra natal e que funciona quando a sorte ajuda.Entre chiados e interrupções ouve o locutor dizer: ¨ a escória dos países estrangeiros está invadindo o país, os imigrantes, escorraçados de sua pátria de origem, vêm dar com os costados em nossa terra trazendo na bagagem crimes sem punição e costumes inferiores¨. O velho imigrante que não fora criminoso no seu país, e crescera ouvindo seu pai cantar óperas, dá um murro no rádio que para sua sorte em vez de cair na água se estraçalha na porta do banheiro, causando um barulho infernal no recinto silencioso e fechado. Infeliz, o velho dobra a dose do fernéte. E mergulha de cabeça na água tépida, inunda-se de um estranho odor de maresia, e permanece ali um longo tempo.Tempo suficiente para perceber estranhos ruídos de carroça, alarido de vozes, som abafado de bate-estacas, gente se instalando..Ante seus olhos abrem-se imagens futuristas de ruas se formando, vilas aumentando, grandes fazendas se compondo, o dinheiro surgindo. Ainda mergulhado na água assiste as imagens se sobrepondo, a prosperidade chegando, banqueiros se alojando. As cenas persistem, e ele reconhece seus conterrâneos contribuindo para o crescimento da cidade, um deles o que até fundara museus, trouxera exposições de todo o mundo para esse país que os acolhera como a escória, nada diferente do modo que haviam recebido os escravos da África.A água amorna-lhe o corpo, relaxa-lhe os sentidos, e ele se revê jovem, esperançoso, casando-se com sua Giulia, aumentando sua família, doze filhos brasileiros, que são marceneiros, alfaiates, comerciantes, e contribuem com seus esforços para a riqueza da nação. O filme de sua vida passa ante os seus olhos até o momento em que sentindo uma dor lancinante no peito ele os fecha para sempre. (Segue)

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No seu quarto, Giliua ainda tenta descobrir para o quê servem as continhas enfileiradas. Então sem mais nem menos as palavras da oração brotam-lhe do cérebro e saem pelos lábios e ela recita a Ave Maria com devoção, sentindo umedeceremse os seus olhos e os da imagem de Nossa Senhora, umidade essa que se transformando em lágrimas de felicidade, encharcam o chão ladrilhado de vermelho. De repente, as palavras esquecidas no fundo da memória aparecem aos borbotões, faíscas de lembranças da sua terra natal, do navio que a trouxera ao país estrangeiro, do marido que tanto ama, de seus filhos. Mal acreditando na graça recebida, reza fervorosamente, todas as orações que sua família italiana orava unida. E então sim, o anseio de tantas recordações é demais para o seu coração. Abraçada à imagem, ali permanece estática, até que o aroma da água do seu rio italiano predominante no ar, cesse por completo. O estalido do rádio quebrando-se contra a porta volta no tempo nessa noite mágica e o barulho agora ensurdecedor, estremece a casa, entorna a água do banho, que se junta às lágrimas de Giulia e às da santa, inundam a casa, transportam a banheira pelos cômodos todo, para no quarto de Giulia, recolhe-a e a imagem da santa, em seu bojo, juntamente com o corpo passivo de Giuseppe. Aquele barco improvisado navegando nas águas salgadas das lágrimas misturadas à água doce da banheira, serve-lhes de leito. Ao amanhecer, os filhos chegam com uma surpresa para os pais. E encontram o casal inerte, com um riso de felicidade estampado nas faces, mais a imagem da santa vertendo lágrimas, boiando na banheira antiga na casa inundada. Não estranham o acontecido, afinal ainda perdura a mágica do tempo. São enterrados, em um grande ataúde, dignos de um imigrante que gosta de óperas. A imagem da santa vertendo lágrimas é colocada sobre o túmulo. Como homenagem ao vendeiro, os sitiantes chegam, embebedam-se com aguardente, e seguem o féretro fazendo as habituais palhaçadas sobre os seus pangarés, diante dos olhares das mulheres de pele curtida ao sol da lavoura, orgulhosas de poderem contribuir para a regozijo do acontecimento. Dessa vez os passantes param para prestar a última homenagem ao casal que se fora, e re-

verenciar-se aos pés da imagem da santa que chora. A pedra de mármore, a surpresa que não chegou a tempo, serve como lápide, e nela se lê: ¨A Câmara Municipal homenageia o senhor Giuseppe Ancona e família, e os considera cidadãos brasileiros em reconhecimento por haverem contribuído para o progresso da cidade.¨ O último a se retirar é o cônsul italiano, abatido e desapontado. Afinal o pedido feito à Câmara dos Vereadores não fora atendido em tempo útil. Ao acariciar a lápide com saudade, um odor de maresia penetra-lhe as narinas, os botões de rosa recém plantados abrem -se em flor, ao mesmo tempo em que uma grande paz acalma o seu coração. Passando pelo portão de ferro, não resiste à saudade e vira-se para um último olhar. E dessa vez lá estão Giuseppe e Giulia abraçados sobre a lápide do túmulo. Acenando daquela distância, o casal lhe parece extremamente jovem. Ainda perdura o estranho toque de magia. Nunca a nostalgia da pátria doera tanto no coração de um cônsul.

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O AMANTE DA MORTE
Por Robinson Silva Alves TODOS TEM MEDO DE TI MAS EU ESPERO ANSIOSO FEITO AMANTE EM PLENO GOZO DE SUA FRIA RAZÃO ÉS A ÚNICA SOLUÇÃO PARA TIRAR-ME DA SOLIDÃO VEM AMADA MORTE POIS NÃO TIVE A SORTE DE AMAR VEM AMADA MORTE POIS ESQUECI-ME DE SONHAR VEM DEUSA DOS SONHOS NEGROS DE TI NÃO TENHO MEDO DESVENDAS MEU SEGREDO ARDE NO PEITO UM GRITO INCESSANTE É MORTE, MORTE,

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Valsa
Por Evelyn Cieszynski e eu girei girei girei girei girei girei até ficar tonta e cair

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Carma Coletivo, Carma Planetário
Por Suzana Villaça Lá vamos nesta nave espacial chamada Terra rumo ao campo infinito das possibilidades, recolhendo nossas culpas e desculpas fruto de nossas atitudes. Rever cada passo desta trajetória é imperativo para toda a humanidade. Neste rolo cósmico de situações massificadoras muita coisa tem influência de lições não compreendidas e valorizadas. Por exemplo, as ligações político-sociais com a miséria coletiva é mais que castigo é uma falta total de sensibilidade para com o futuro das novas gerações, pois as instituições são ocupadas por uma gama de seres humanos pouco éticos e criativos. Deixando que seus erros deixem um rastro de egoísmo e oportunismo e sofremos todos com esta falta de visão “de que o que é ruim para uns é péssimo para todos” . Haverá um momento em que seremos vítimas destas incoerências, no carma coletivo as verdades mais simuladas aparecem impreterivelmente. E os bons e maus legisladores serão atropelados por suas ações. Neste efeito boomerang ninguém fica livre de arcar com o prejuízo. Com relação à preservação dos recursos naturais, às catástrofes e às dificuldades latentes para a sobrevivência humana são evidentes os reflexos desta ausência de mau uso dos bens da natureza. Água poluída e escassa em muitos continentes traz uma previsão inquietante que já assusta o mundo. A devastação gradativa das florestas e ausência de verde nos centros urbanos já mobiliza jovens e crianças, pelo simples fato: o programa desenvolvido em diversas escolas leva até as crianças um envolvimento cheio de vivência e padrões informativos enriquecidos com detalhes positivos. Enquanto a liberdade de expressão diminui o exercício da criatividade, pois existe uma vertente de cabeças pensantes que se automatizam no lucro imediato e na falta de perspectivas para gerar estímulos conscientes. Todos estes processos se acumulam e nos tornam capazes de ignorar onde estão sendo estabelecidos o início desta onda de energias destrutivas. Posicionando as tendências do consu-

mo desordenado ao princípio básico da sobrevivência – consumir com equilíbrio, compartilhar qualquer excesso. Para que a ventura de viver com dignidade seja uma benção e nunca ameaça. Permitindo perceber as diferenças poderemos resistir às chamadas glamurosas onde o ego humano se deixa levar por tantos “ismos” que nada fortalece a leitura da alma e seus vigorosos sistemas para construir uma história mais simples e humana. Nesta violência sutil, sentenciamos nosso futuro, onde o vazio fica fortalecido em crenças estagnadas e de pouca soluções. Existem muitos mistérios a serem decifrados na área dos relacionamentos humanos. Aprimoramos o desenvolvimento tecnológico e científico mas em aberto está à prática espiritualista do exercício da alegria de receber as bênçãos da Natureza, do irmão de jornada e da prosperidade em seu sentido mais amplo Construir a nova esfera social para todos os habitantes do planeta Terra será uma necessidade na escala de valores que interligam o coração e a razão, reestruturando um novo modelo de adaptação às conquistas tecnológicas, a realidade atual e a sensibilidade impessoal, pois o carma coletivo e planetário a cada dia é mais severo e imparcial, e está nos deixando muitas vezes impotentes enquanto pessoa e população mundial. Para tanto precisaríamos fortalecer os laços das diferenças, investindo na humildade e na sinceridade ao assumirmos, com responsabilidade, o nosso futuro. Deixando de ouvir os mecenas do poder arbitrado pela indiferença e deixando seguir serenamente as lições espirituais destas mudanças tão aceleradas. Isso porque, as sementes do amor incondicional poderá nos permitir encontrar um meio de transmutar tantas profecias desanimadoras. Seria como deixar a suave brisa da esperança nos levar aos mistérios sagrados da existência e reverenciar o Deus do Universo atemporal sem constrangimento; como crianças que sabem ser o caminho da Paz, resultado de uma ação espelhando alegria de viver a cada minuto da sua existência com liberdade e consciência do preço da vida e suas consequências.

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Óleo quente, Metafísica e Ressurreição
Por Hilton Leal Eram dias em que eu andava cansado demais para concatenar especulações metafísicas. A patroa de mau humor há algum tempo andava me vigiando os bolsos e resmungando suspeitas sobre suspeitas, no trabalho todo dia o serviço aumentava e mesmo assim os boatos sobre demissões se renovavam a cada semana. O Ezequiel gostava de conversar enquanto carregava os pacotes de carvão para dentro do cilindro do filtro, onde o óleo da mamona passava por um processo de limpeza antes de se misturar com a soda cáustica. - A realidade existe ou é um sonho? Ezequiel interrompia o silêncio (quer dizer, o barulho) da fábrica com essas perguntas cretinas sem nenhuma razão específica. Às vezes eu precisava de alguns minutos antes de me dar conta do que ele estava falando. - Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe. -Mas é uma questão crucial! Sabe, os budistas tibetanos dizem que se entoarmos o mantra correto na hora da morte... -Ezequiel, por favor! Sobreviver já é complicado demais sem essas suas perguntas. Pegue outro saco de carvão e vá colocar no cilindro, é a sua vez agora. Ele dava um risinho com o canto da boca e descia as escadas para colocar mais carvão no filtro. Estava convencido de que eu era um místico enrustido. Imbecil. Para mim ele era apenas mais um sujeito procurando por um bote salva vidas ao invés de aprender a nadar. Eu ficava na refinaria de olho na pressão do óleo quente. Isso sim era importante. Um colega nosso, o Prospício, perdeu o controle da pressão e um dos filtros estourou cobrindo o sujeito de óleo fervente. Pobre diabo. Nunca mais iria conseguir encontrar nada que quisesse trepar com ele sobre a face da terra. É isso que acontece com quem se distrai. A menos que você tenha um papai e uma mamãe fazendo linha de frente para você, é crucial nunca ficar desatento. Essa sim é uma lição que vale a pena ensinar. Preocupe-se com o próprio couro, a menos que alguém esteja fazendo isso por você. É o que diferencia os sobreviventes desses menininhos e menininhas encantadas, sonhando com marijuana, revolu-

ção, nirvana e amor eterno. O alarme da bomba de óleo tocou: era hora de folgar as prensas, separar as imensas placas de metal e raspar a borra quente que ficava presa nas lonas do filtro. A borra era uma espécie de lama endurecida, preta e quente, que raspávamos com uma espátula para dentro de uma imensa tigela que ficava embaixo dos filtros. Depois retirávamos tudo com uma pá para um carro de mão e jogávamos no lixo o material. Isso tudo era feito entre as 10:00 da noite e às 06:00 da manhã. Não tínhamos sonhos. Eu viva um dia de cada vez, e quando sobravam alguns trocados enchia a cara de cachaça vagabunda e ia dormir. Ezequiel ia a um puteiro e deixava tudo com as garotas que aceitavam as mixarias que ele podia pagar. Um dia Ezequiel não foi trabalhar. Fiquei preocupado. Eu sabia que faltar ao trabalho significava demissão. O patrão, um cearense tosco que se chamava Nero, não assinava nossas carteiras, não nos dava uniformes, e demitia por atraso, falta, corpo mole ou simplesmente por não ter ido com a cara do sujeito. Ezequiel não foi mais trabalhar e eu não o vi mais durante muito tempo. Um dia descobri que Ezequiel havia entrado para o MST. Continuava um sujeito esquisito, sem noção da estrutura prática da realidade, mas pelo menos agora ele estava usando isso a seu favor: montado em uma máquina partidária Ezequiel descobriu como transformar o deslumbramento idealista em um modo de ganhar dinheiro. Um dia meu dente, um dos últimos 5 que eu ainda possuía na parte superior da arcada, inflamou e eu fiquei com a cara inchada como se estivesse com uma bola de golfe na boca. Não fui trabalhar e me demitiram. A mulher foi embora na semana seguinte, um motorista de ônibus havia lhe oferecido condições mais interessantes de existência: achei muito razoável da parte dela. No meio de toda aquela crise, desempregado, sem mulher, banguelo, eu ficava em casa comendo arroz com ovo cozido durante a semana inteira: Uma vez por mês minha mãe conseguia um quilo de frango que eu dividia em minúsculas porções e por isso duravam uns 10 dias. Cheguei a pesar 7 quilos. Comecei a ler os livros que Ezequiel havia deixado comigo. Trigeirinho, Paiva Neto, Paulo Coelho, Osho, Kardec e todas essas coisas começaram a me parecer razoáveis. De repente minha miséria já não era assim tão miserável. (Segue)

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Aliás, eu começava a me achar um sujeito muito melhor que a maioria. Passei a frequentar um centro espírita e rapidamente me integrei na coisa toda. Em face da minha situação de penúria uma das dirigentes do centro me auxiliava com uma sexta básica e algum trocado de vez em quando. Minha ex-mulher me visitava às vezes e eu lhe pregava imensos sermões metafísicos. Ela dividia minha cama comigo e depois voltava para o motorista. Eu me sentia culpado e passava o dia seguinte inteiro entoando mantras, mas na semana seguinte ela sempre voltava. Um dia ela apareceu grávida, disse que queria voltar e eu deixei. Claro que eu me separei um pouco depois. Mas o mais importante é que aquela criança mudou toda a lógica de meu raciocínio. O além não iria dar de comer aquela criança e nem eu conseguiria fazer isso se continuasse correndo atrás dele. Pensar desse modo fez toda diferença pra mim.

O SORRISO QUE O TEMPO NÃO APAGOU! Por EstherRogessi Há coisas que o tempo não apaga. Quando criança, na cidadezinha do interior onde nasci – região da mata canavieira de Pernambuco -, Palmares-BR, sempre que me assentava à frente da nossa casa, eu via passar aquela jovem mulher trazendo, um sorriso contínuo em seus lábios. Apesar de minha pouca idade, aquele sorriso adentrava em meu ser. A minha alma indagava o porquê de àquela mulher ter sempre um sorriso nos lábios?... Como ela era bonita! Assentada no chão – coisa de criança – , ela passava, e olhava-me de cima a baixo... Até os seus olhos sorriam. Que poder tem um sorriso! O tempo passou, porém, em mim... Ficou o sorriso daquela linda mulher. Após os longos anos que se passaram, bem sei... Tudo nela mudou: os seus cabelos embranqueceram; surgiram as rugas... Aquela pele, clara e rosada mudou a sua textura, mas aquele sorriso... Certamente venceu o tempo. Encantava-me, transmitia-me um estado de "Graça.” Oro, para que ela não o tenha perdido. Não perdi a sua doce lembrança... Tudo isso que parece sem importância, docemente, fez-me aprender, o quão importante é o quase nada do presente, na construção das lembranças futuras; nas vidas dos que, hoje, são crianças.

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ENTRE O AMOR E A ESPERANÇA HÁ SEGREDOS E PECADOS GUARDADOS EM BANHO-MARIA Por Ivane Laurete Perotti VIVER É POESIA CRUA "Para conquistarmos algo na vida não basta ter talento, não basta ter força, é preciso também viver um grande amor!" Wolfgang Amadeus Mozart Ao abrirmos os olhos pela manhã o dia impõe seu ritmo e a vida embala-se em maior ou menor grau de poesia. Poesia? Colocaram pão com manteiga na mão do poeta e ordenaram-lhe que tomasse o ônibus lotado até o serviço que lhe espera na porta de cara amarrada. Tá! Pão de sal rima com palavras amenas e o poeta deixou em casa a amada recém-conquistada para sempre e sempre a eterna apaixonada. A poesia voeja entre um e outro e senta aos pés dos que ainda não acordaram e, principalmente, dos que não mais acordarão. Os que não mais abrirão os olhos procuram a rima dos sentidos sem sentidos. Verdades improváveis sacolejam na mala da alma. Depende do quanto cada um viveu o quê viveu. Só isso? E o amor? E a esperança? O tipo da bagagem descreve o conteúdo intocável: cada qual com o seu próprio fardo. Então, a crua realidade se faz poesia concreta. Arde nos olhos que se abriram na esperança de reescrever o dia. Ai! Dia de sonhar, dia de esperar, dia de sentir o vento lá fora. Dia de tocar a mão próxima e beijar os lábios de quem passa. A vadiagem do destino deixa órfãos pelas estações despidas de segurança. Alguns acreditam no amor e o buscam sem freios. Outros usam freios a vácuo para proteger-se dele. Amor? Lucra quem não o conhece e ganha quem o despede. Foi-se o tempo sem tempo do romantismo piegas. Foi-se? Onde se instalaram as diferenças? Que diferenças? Entre amor e amor há tão somente a escala dos tipos não catalogados pela força da obviedade. Amar é deixar-se enfraquecer pelo desejo de estar onde não produzimos nem inventamos novidade. Lei da poesia. Lei crua da vida dos

fortes e amorosos homens universais, vivos e sobreviventes, todos órfãos de si mesmos. Somos "crias" do medo, único timoneiro de cara lavada a transitar sem rodeios pelas vias sinceras escondidas na parte de trás de nossos olhos esbugalhados. Medo de amar é medo de esperar o espelho nos dar as costas. Tememos perder a imagem gloriosa de nós mesmos. Amar é quebrar o espelho que nos reflete ao contrário, é andar descalços por caminhos desconhecidos, é abrir espaço para o incomum. Aí começam os segredos e os pecados, revelados ou não, a depender de quem profana a poesia e de quem esconde a alma vazia. A força e o talento vêm em forma de herança para alguns. Mas o amor... ah! O amor é um direito transcrito nas entrelinhas dos contratos de nascimento. Quem nasce tem passagem livre, mas o mapa das vias abertas virou-se de cabeça para baixo e rodou várias vezes por mãos secas de vontade. Mãos áridas de luz, mãos vazias de bondade, mãos disfarçadas em garras afiadas, mãos esculpidas a ferro em brasa. A poesia está nua. Os segredos tornaram-se claros e não há pecado sem pecador. São muitos os olhos que não voltarão a abrir-se para especular o dia. De mochila nas costas, lindas almas esperam pelo trem da esperança que irá levá-los para o outro lado do sol. Segredos? Não escondem o pecado de acreditar uma vez mais, outra vez, mais uma vez. Aos que fazem versos pelas calçadas da vida, aos que não temem a força de um grande amor, que a sorte lhes seja irmã: casta e pura, pois os castos, dizem os iniciados, não sucumbem ao ciúme mortal.

Até que o sol não brilhe, acendamos uma vela na escuridão". Confúcio

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Entre sem bater...
Por José Carlos Paiva Bruno O Estado Palestino far-se-á reconhecer de “entidade observadora” em “Estado observador não membro”, na vindoura assembleia geral das Nações Unidas. Declaram-se firmes, França e Áustria recentemente. Já não é sem hora, pois que definindo Estado, pelo apoio europeu configurado em seguidores da civilidade napoleônica e boa música de Mozart; certamente serve-nos apropriada metáfora com sua célebre sonata para piano e violino em mi menor. Estilo definido por Einstein como inédita concepção de equilíbrio entre os titulares instrumentos. Considerando que o melhor destino unânime é Paz, diletantes cremos derivada e necessária demarcação territorial; se anterior à guerra de 1967, ou com ajustes bilaterais: judaicopalestinos. Importa é o respeito recíproco, para que definitivamente cessem o ódio e interesses mesquinhos. Incluídos evidentemente o comércio mercenário de armas e almas... Principalmente tornar findo o ódio irracional, em morte igual, transmitido como herança quase genética postular! Fábrica covarde... Questão que se arrasta até então como divisor de águas em deserto do mundo árabe. Que com a preservação e respeito aos credos e raças, costumes e taças o mundo assista a um brinde pacífico, inspirado efetivamente na liberdade, igualdade e fraternidade. Busca de todos, sejam protagonistas ou expectadores, coadjuvantes ou leitores... Assim uma Terra oásis! Desejo novamente seguidores de Khalil Gibran, escrevendo irrequietos amores nascidos em paisagem dos cedros milenares, fim dos rancores... Ares dum bem vindo Estado Palestino! Assim oriente médio máximo... O amor só dá de si mesmo, e só recebe de si mesmo. O amor não possui nem quer ser possuído. Porque o amor basta ao amor. E não penseis que podeis guiar o curso do amor; porque o amor, se vos escolher, marcará ele o vosso curso. O amor não tem outro desejo senão consumar-se. KG Vejo um permanente ânimo de todos: judeus e palestinos, em suas – especialmente jovens – atrizes e atores, que com reconhecimento doutras nações, cessarão a maldita vaidade em negarem-se respeitar... Ceder por conquistar o respeito e a harmonia, receitas do equilíbrio oportuno aqui de novos Prolegômenos, que combinados aos agostinianos cristãos... Farão com que façamos um inesquecível Natal de irmãos! Então que a ONU funcione como eficaz juízo arbitral, afinal ética traduz uma estrada da mão dupla cujo destino é porta da Paz!

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@RTE E LITER@TUR@
LUIZ C@RLOS @MORIM
PRESENÇA DO ESCRITOR BRASILEIRO EM GENEBRA
Genebra, como já disse em outras ocasiões, é uma cidade belíssima. E o Salão Internacional do Livro de Genebra é uma festa para todos os sentidos. Ontem participei, dentre outras coisas, do lançamento da antologia Varal do Brasil 3, da qual participo com mais escritores brasileiros e também autores do Grupo Literário A ILHA, como a Fátima de Laguna e a Jacqueline, organizadora do livro e coordenadora do Varal. Digo que é uma festa para todos os sentidos, pois além do colorido das gentes e dos livros enchendo os olhos da gente, do barulho das pessoas falando e vivendo livros e literatura, do cheiro de livro novo e dos cheiros que recriamos lendo as obras tantas que estão sendo apresentados no Salão, existe o contato com os escritores do Brasil e de Portugal, o abraço amigo que nos acolhe. E poder abraçar toda essa gente, conhecê-los, não tem preço. Como querer mais do que isso? Mas tem mais, tem a delícia de poder confraternizar com essa plêiade de nômades escritores saboreando os vinhos tinto e branco aqui da terra, da Suíça, que o Paulo e a Jacqueline serviram no coquetel de lançamento do Varal Antológico, e nos restaurantes da cidade. Aliás, esses dois são únicos na excelência do receber bem a gente. A Jacqueline, batalhadora incansável na missão de divulgar a literatura brasileira fora do Brasil é artífice desta iniciativa memorável de trazer escritores brasileiros para brilhar no Salão Internacional do Livro de Genebra. Sem ela, certamente não estaríamos aqui, não haveria um stand de escritores brasileiros neste evento literário que é, talvez, o maior da Suíça e um dos maiores da Europa. Então quero prestar meu tributo a essa nobre escritora catarinense pela garra e determinação em realizar esse projeto que nos dá a oportunidade de alcançar um público novo. Ah, mas em Genebra não se fala o português. Na Suíça fala-se italiano, francês, alemão, mas não o português. Mas há aqui uma comunidade bastante acentuada de gente que fala português: há portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos vivendo aqui, e por aí afora. E em outros países europeus, sem contar Portugal, é claro. É impressionante como em quase todo lugar que a gente vai, aqui em Genebra, há um português, ou mesmo um brasileiro, alguém de Cabo Verde, etc. Então me sinto em casa, com a acolhida da Jacqueline e do Paulo e de todos os escritores brasileiros e portugueses que participaram do Salão Internacional do Livro de Genebra. Já sinto saudades e espero poder estar em Genebra para o Salão Internacional do Livro de 2014.

Por Luiz Carlos Amorim é escritor e editor das Edições A ILHA – Http://luizcarlosamorim.blogspot.com
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Raimundo
Por Guilherme Henrique Cavalcante

Chama-se Raimundo, mas todos o conhecem por Mundinho. O apelido reduzido, faz jus ao seu corpo magro, angular; a cabeça pequena, coroada por um chapéu de couro cobrindo-lhe os cabelos que já se acinzentam é um complemento a figura do homem; a vesta, também de couro, fica sobre a sela do cavalo quando ele não está nos matos no rastro de alguma rês desaparecida. É um vaqueiro do grande sertão. Mundinho é caboclo de pele curtida ao sol das secas compridas; de fala arrastada e dicção que troca os Vs pelos RRs. O corpo é de uma magreza vulgar, seus ossos furam-lhe a pele como os ossos daqueles garrotes e bois que ele persegue caatinga adentro durante os largos verões. Anda sempre com uma corda amarrada à sela, montado num bom cavalo ou burro mulo, às vezes também leva alguns pedaços de rapadura para enganar o estômago fundo quando está pelos matos. Além de toda a indumentária típica a esses pegadores de boi – perneiras, peitoral, vesta, botinas de couro e esporas – Mundinho sempre carrega uma meia dúzia de boas histórias na lembrança, parte delas é colorida pela sua imaginação de sertanejo lutador: aumenta aqui, diminui ali, confunde-se com as arrobas de um touro do patrão, ou com uma perseguição a garrotes em plena mata de juremas. Todos os ouvintes já sabem desses floreios feitos pelo vaqueiro, entretanto, no fim, divertem-se e põem-se a dar boas gargalhadas com suas invenções. Acredito que tenha pelos cavalos o mesmo amor que tem pelos filhos. Cresci vendo-o derreado sobre a sela quando de passagem pela (fazenda) São Luiz para ir buscar algum bicho do “Seu Zé”, como ele mesmo se refere ao patrão. Tinha tudo para ser um homem embrutecido como as macambiras secas da serra, mas não. Sempre se esforçava em agradar os “meninos do seu Ivo”, trazia-nos pirulitos – aos quais ele chamava de cabeções – e certa vez até presenteou minha irmã com um casal de galinhas da Índia, um regalo muito precioso para o caboclo. Desconfio que ele nunca tenha feito outra coisa na vida, e se já foi de outro ramo, não devia desenvolver seus trabalhos tão bem como no trato com o gado. É pertencente a uma classe já em avançado processo de extinção no Nordeste, a dos vaqueiros da caatinga, mas Mundinho representa tão bem o grupo como figura mítica que dá uma pena saber: daqui a algum tempo não existirão mais sertanejos como ele. Alguns dos filhos seguem a mesma linha resignada do pai, todavia, não por muito tempo. Um dia, como todos os outros homens fazem, irão embora para a cidade buscando melhorar a vida. Provavelmente não terão sucesso por não dominarem instrução suficiente, e descobrirão na angústia encontrada nas casas da rua, um sentimento pior que o sol quente e as matas em brasa da caatinga. Mundinho é mito encarnado do sertão, parte integrante do cavalo que monta. É sertanejo lutador e um pedaço da minha memória.

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SEGREDOS E PECADOS
Por Odenir Ferro

canismos tão complexos: que são ainda, e ainda muitos os são, - muitos, muitos deles, indesvendáveis segredos. Tudo o que se mantêm oculto às luzes, esclarece-se – através das dores da sabedoria convencional, entrelaçada entre as pessoas – como sendo os verdadeiros Segredos. Este é um tipo de Segredo entrelaçando-se aos outros tipos de Pecados. E juntos, se tornam os Pecados Mortais: que são tipos dos quais não poderemos nunca dominá-los e nem de abolirmo-nos dele: pois são Pecados Mortais! - Pecados e Segredos, são Mortais, ou Vivenciais, ou Viscerais?! Tanto os mecanismos dos Segredos, assim como os dos Pecados, são os múltiplos funcionais do nosso organismo; juntamente, com todas às complexidades mais fantásticas, do nosso corpo humano. Pois ambos atuam, ainda, como sendo os verdadeiros segredos pecadores. - E o que poderemos dizer, mesmo que seja para nós mesmos, então, em relação ao nosso Eterno Espírito que é uma Obra perpétua de Deus?! - Quais são os nossos pecados?! Serão os mortais?! Aqueles que destroem os nossos sonhos, as nossas formações familiares, desvinculando-nos – perpetuamente dos laços afetivos das famílias – ao conduzirmo-nos ao alheamento cercado de egocentrismos... Das falsas visões de status e de poderes – além das muitas carências afetivas, feitas de profundas mágoas envoltas em inúmeros desolamentos e solidão... - Quais são as fontes inesgotáveis da Vida, circulando-se em formas de transcendentais, carismáticas e de irradiantes belezas, estando envolvidas dentro das formas mais atuantes em nossa plenitude existencial, e que se compactua com a Eternidade do nosso Espírito? - A vida de cada qual de nós, contêm-se – dentro de si mesma – vivendo dentro de cada segmento de nós, vivenciando os milhões dos fabulosos segredos que se circundam entre nós e a vida... E convivendo com isto tudo, estamos nós, juntando-nos com os pecados explícitos! Todos! Os que estão na falta das partilhas, das solidariedades humanas. Os pecados concentram -se, - acima de tudo -, dentro do egocentrismo.
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O Segredo – quando ele se faz presente em nossa vida -, ou, na vida de quem quer que seja, dentro da nossa igualdade de sermos realmente iguais, - tornando-se ele, indesvendável, então, ele será um profundo e incomunicável segredo. O Mundo – desde os mais antiquíssimos registros documentando-se através das Eras, desde as mais remotas Eras, - até os dias atuais, sempre foi envolto em segredos. Já os pecados, são o tudo do todo do quanto o que se representa, ou, o que se apresenta, como sendo o lado negativo de um resultado que deveria ter sido exatamente o oposto daquilo que se mostra: ou seja, pecado é a própria Cultura, vivenciando-se dentro de si mesma, algumas inversões de valores – onde, dentro destas inversões, o mal se mascara de bem. Mas, alguns segredos, sendo tão enigmáticos, são o que são: e, até a presente atualidade, são indecifráveis. Muitos segredos são os verdadeiros Enigmas: quanto mais os pesquisadores, os historiadores, os cientistas, se atrevem que quererem desvendá-los, mais eles se se aprofundam em outras fontes de possibilidades: reveladoras num sentido, mas, que não nos deixam os espaços para concluirmos – nada, quase nada, ou muito pouco – sobre um determinado foco em questão: - Nós vivemos cercados de inumeráveis segredos! Muito embora os inúmeros, muitos, segmentos das mídias sociais, os meios das comunicações, as propagandas, com as suas mensagens subliminares, fazem intensamente, todos os jogos de inversões de valores, enaltecendo o pecado. Classificando – desta forma – uma comunicação em massa – onde os valores morais, intelectuais, comportamentais, sociais, de crenças, culturas e etnias, além da sexualidade – se corrompem; se desvirtuam. Estabelecendo-se cada vez mais, dentro dos padrões comportamentais, todos os alheios ao que deveria ser: os corretos! E, dentro dos Segredos, o Mundo tem os me-

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E os pecados, não têm forças para atuarem no Teocentrismo! A Humanidade está – atualmente – muito ausente dos Valores Teológicos! E estamos vivendo as nossas experiências, dentro de várias e falsas noções de liberdade! Pois os laços dos domínios malignos estão cerceando a todos nós. A Humanidade sempre foi – em todas as Eras Planetárias – muito envolvida e sequiosa por inúmeros desejos em querer realizar-se, ardentemente em realizar e desejar e realizar, ao desvendar-se, dentro dos segredos incógnitos da Criação! A Criação pertence, sempre pertenceu e permanecerá desta forma, pertencente a Deus! A Humanidade sempre se recriou – dentro das belezas, naturais belezas, do Planeta Terra, olhando para o Universo! Sempre – dentro de várias tentativas egocêntricas – de imitar o Criador! Desejando – querer -, desvendar os segredos envoltos: dentro dos mecanismos das suas magníficas Obras! São estes os padrões culturais – constituídos através dos milênios – resultantes dentro de tudo o que fazemos envoltos entre os pecados e os segredos: vivenciando-nos a todos, dentro destes padrões feitos em desenvolturas sociais que são o que podemos classifica-las como sendo: pecados Mundiais! Creio que os Segredos que nos envolve – dentro do Universo -, são alavancas que nos despertam para a imaginação. E incentiva-nos a prosseguirmos pelos espaços da vida afora – numa tentativa emocionante, por querermos descobrimo-nos: através das razões equacionadas nas dimensões imensuráveis das emoções que nos perduram e mantêm-nos arquibilionários, dentro deste magnífico Planeta emocional que se chama Terra! - Vivemos, e vivenciamo-nos, dia a dia, dentro desta razão lógica: a realidade de estarmos aqui! Tudo isto se soma em segredos e pecados dentro da lógica ilógica, do por que: estamos aqui! Por quê?! - Nós, seres humanos ilógicos que somos, estamos sendo privados de exercermos as nossas verdades – sejam elas, as intelectuais ou as emocionais: nós estamos sendo privados até de vivenciarmos a essência maravilhosa que Deus nos deixou, naturalmente, dentro de nós: que é o fato de existirmos, confiando-nos a Sua Credibilidade de Existirmos dentro da

Eternidade D’Ele! - Nós, seres humanos, estamos sendo privados de exercermo-nos, dentre o convívio mais simples de nós mesmos, a nossa verdadeira Cidadania. Não estamos podendo nos expor com os nossos verdadeiros anseios e nem mesmo estamos podendo nos interagir, dentro dos verdadeiros diálogos: pois os segmentos pecaminosos que nos são impostos – fazem com que percamos os nossos poderes de conquistas – perante o mal! Mas creia, Deus é fiel a todos nós! - A verdadeira alternativa para nos desvencilharmos de todos os malefícios causados pelo pecado, é buscarmos ou rebuscarmo-nos, ou reencontrarmo-nos, dentro dos exercícios do Verdadeiro Amor Fraternal, através da nossa Luz Interior. Muito embora, penso que o Mundo é ilógico; os segredos que O compõe, nas dinâmicas do nosso Planeta, são ausentes de emoções; ausente de raciocínio. Portanto, consequentemente, ausente de razões e também, de qualquer de tipo de ações ou reações que se o possa enquadrar – dentro das estruturas concepcionais e convencionais, - que atuam nos parâmetros da nossa lógica irracional humana. Entre segredos e pecados, penso que tudo o que não compartilhamos com nenhuma pessoa sequer, além de nós mesmos – tudo o que não compartilhamos nem mesmo para o nosso melhor amigo ou amiga – então, podemos designar este íntimo conhecimento ou íntima compreensão de algo ou alguém – como sendo de forma conotativa ou subjetiva ou mesmo impregnado por impressões reais, - como sendo um segredo. Isto, devido ao fato de estarmos guardando-o somente para nós. Creio que a maioria de todos nós, convivemos com algum tipo de segredo. Há pessoas que têm dentro de si, o dom de guardarem um ou mais segredos, por anos a fio. Muitas delas, pela vida toda. Creio que no decorrer da história, muitas mulheres souberam (e muito bem) esconderem ou esconderem-se, dentro do seu adultério. Muitas delas morreram, sem revelarem, ou revelarem-se, para os seus filhos, a verdadeira identidade dos seus pais biológicos. Nisto eu creio – ocorreu tanto no passado, como ainda ocorre, dentro da nossa atualidade.
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Um grande segredo
Por Maria (Nilza) de Campos Lepre

Só existe uma coisa que me irrita profundamente, é quando encontro uma pessoa que afirma de boca cheia que nunca mentiu em sua vida. Somente o fato de fazer esta afirmação já prova que é um grande mentiroso. Não existe pessoa, que em algum momento, não tenha deixado escapar uma mentirinha, ou que não tenha algum segredo escondido bem no fundo de sua alma. Muitas vezes deixamos de confirmar uma verdade, e isso também acaba se transformando em uma grande mentira, e também em um enorme pecado. Quando ainda era muito jovem, aconteceu um fato, que acabou sendo o maior pecado e ao mesmo tempo o maior segredo de minha vida. Foi um episódio compartilhado, por mim, e meus dois irmãos, durante muitos e muitos anos. Só revelamos nosso feito, quando já estávamos adultos, e mesmo assim, nossos pais não se conformaram com o que havíamos feito. Ficaram muito bravos conosco, apesar de já haver se passado muitos anos. Na ocasião eu devia ter uns dez anos. Como eu era a mais velha dos três irmãos, deveria ter um pouco mais de discernimento, mas não foi assim que aconteceu naquele dia. Estávamos no período das férias escolares, e alguns amigos de meus irmãos e duas amigas minhas vieram passar uns dias conosco na fazenda. Acordávamos cedo, tomávamos o café, e partíamos em busca de aventuras. Às vezes nos embrenhávamos pelas trilhas da mata que nos conduziam até o rio São Lourenço, e por ali ficávamos, pescando por algum tempo. Em um destes dias, resolvemos explorar o paredão de pedra que ficava na entrada da fazenda. Não sei qual a sua altura real, mas

na ocasião, como éramos crianças nos parecia ser enorme. Atravessamos a ponte, que passava sobre o rio, que corria lá em baixo, e ficamos observando a imensa parede, coberta de plantas, que afloravam dela no meio das rachaduras da rocha. Muitas samambaias, e flores de varias cores se encontravam abertas, e davam a esse paredão um ar alegre e convidativo. Ficamos apreciando a beleza dele por algum tempo, quando meu irmão que era o mais atirado de todos gritou: - vou descer até o rio pelo paredão, quem me acompanha? Ficamos pensando por algum tempo, mas depois resolvemos segui-lo. Uma de minhas amigas era gordinha, e não tinha a mesma agilidade nossa. Ficou na duvida, mas acabou decidindo nos seguir. Tudo estava correndo as mil maravilhas, até que ela ao segurar em uma das plantinhas acabou escorregando, e ficou pendurada a uma delas, segurando se com apenas uma das mãos. Neste momento, começou a gritar e a chorar desesperadamente. Eu e meu irmão subimos até onde ela se encontrava, e com muito esforço, conseguimos leva-la para cima. Foi um resgate complicado. Minha amiga se encontrava apavorada, e não facilitou em nada a nossa árdua tarefa. Nossa aventura acabou por aí, nunca mais a repetimos. Depois de passado o susto, fizemos um pacto de honra, nunca revelaríamos o que havia se passado neste dia. E assim foi feito. O tempo passou, mas esse episódio continuou a me perturbar, até que um dia em uma reunião familiar resolvi contar a nossa molecagem. Foi um grande alivio poder revelar esse segredo guardado a sete chaves ha tanto tempo. Apesar de já haver passado mais de uma década, e nada de mal ter ocorrido, somente a simples possibilidade de que minha amiga poderia hoje não estar entre nós, me perseguia em sonhos durante todos estes anos. (Segue)
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Resgatei a minha paz de espírito, ao revelar esta traquinagem perigosa, não é nada bom guardar segredos e muito menos esconder pecados. A verdade acaba sempre prevalecendo. Nada melhor do que ter a consciência limpa, tranquila, e sem segredos.

AS LÁGRIMAS

Por Maria José Vital Justiniano

Gotículas amargas Gotículas incolores Gotículas ... apenas gotículas...

Lágrimas... Quem não as conhece? São companheiras no sofrimento

Se são companheiras, Por que as recusa? Elas incomodam porque espalha na face aquilo que é mais íntimo em ti. Sua própria miséria. “Quão mísera me sinto quando vejo as estrelas” As estrelas são longínquas, tanto quanto aquilo que lhe fez chorar Receba-as com alegria

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RISCO INTERIOR

buscando respostas no vento meu outro olho me lembra

Por Maria Emilia Algebaile

que o perigo está dentro. não sei se espio escondido

Não ria nem faça graça não conte o que não viu mesmo com festa na praça sofro no meu covil e o que passa em minha vida como novela barata não está ao alcance da vista não acontece a troco de nada por mais que me traia a noite o dia nasce é verdade e o entulho de meu pensamento confirma que sou covarde não sei o que vejo, mas sinto que não posso controlar o perigo me assusta o perigo é sentimento o perigo é esse amor o perigo está ardendo mil olhos me veem passar mil janelas a me espreitar basta um trejeito, um aceno pra guiar o meu olhar e meu olho não sabe nunca se olha pra fora ou pra dentro e meu olho salta aos olhos
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por detrás daquele muro não sei se sou espreitado no mais íntimo ato impuro sempre tem a luz do sol chegando antes que eu entre calando a frase na boca matando o feto no ventre.

Este poema compõe o livro “Fratura Exposta”, de Maria Emilia Algebaile, lançado em abril de 2013, no Rio de janeiro, pela Editora Verve.

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ESCONDIDINHO DE BANANA
NGREDIENTES: Banana Caramelada. 8 bananas nanica bem madurinha. 2 xícaras de açúcar 1/2 xicara de água Na panela de pressão, coloque o açúcar e deixe caramelizar, em seguida coloque as bananas picadas e água, tampe a panela e assim que pegar pressão conte 3 minutos. Creme 500ml de leite. 1 lata de leite condensado 2 colheres de sopa de amido de milho Leve tudo ao fogo até engrossar. Suspiro 3 claras 1 e 1/2 xícara de açúcar Raspas de limão Na batedeira coloque as claras e bata em neve, junte o açúcar as raspas e bata por 10 minutos. Montagem Em uma travessa coloque o creme, em seguida a banana caramelada, e o suspiro e leve ao forno para assar o suspiro, retire quando dourar.

Fonte: generosoreceitas.blogspot.com

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A hiper ideia de Raul Casquilho
Por Raquel Sá

Já que esta é minha primeira publicação no Varal do Brasil vou tentar me sentir à vontade. Primeiro vou dá aquela espreguiçadinha e segundo vou tentar controlar as batidas do meu coração pela emoção que sinto: bum, bum, bum... Escrever não é nada fácil, já ouvi falar isso pela boca de muitas pessoas mais experientes que eu. Ah! E o que é fácil nesta vida? Mas, já que aqui no varal é literatura sem frescura, que não exige uma forma padrão da literatura tradicional, vou de fato me soltar sem medo. A escritora Clarice Lispector disse uma vez a um leitor seu: “Um escritor com medo não é um escritor”. E para começar a me soltar (sem o tal medo) vou me apresentar: Me chamo Raquel, sou escritora, minha cor preferida é rosa, moro em Fortaleza e o que mais gosto de fazer é ler e escrever, desenhar e cantar. Meu objetivo aqui é trazer um amigo, ou seja, um personagem meu, um filho, sei lá como posso me referir a ele... E eu o trouxe para que você o conheça. Ele é um macaco. Ele é também filosofo e tem uma mochila cheia de ideias da qual chama de “depósito de ideias”. E o nome dele é Raul Casquilho, tem cinquenta anos e usa um óculos maneiríssimo. Ele quer ser seu amigo. Bem, ele é meio tímido e fica assim bem vermelho quando alguém o elogia ou o abraça. Mas, ele é um cara superbacana e sabe sorrir também. E ele teve uma ideia (ele tem várias ideias). Essa ideia ele quer dividir com você que agora está lendo isto. É com você Raulzito... - Olá pessoal! Como a minha criadora já me apresentou não precisarei mais dizer meu nome, idade e coisa e tal que você já sabe. Humm, espera aí que vou coçar meu pé (pé de macaco coça muito). Pois bem, tenho uma mochila a qual chamo de meu deposito de ideias (como também já foi citada). Minhas ideias são escritas em um bloquinho de papel. Dentro da minha mochila também guardo livros de literatura e de filosofia e também jornais e revistas para que eu possa ficar bem informado. Eu posso dividir uma ideia com você? Pois bem, quando eu vinha vindo para casa vi de longe duas onças discutindo. Resolvi me esconder atrás de uma jaqueira para ouvir aquele blábláblá... De repente quando a coisa estava ficando boa, com aquela fofoca esquentando, uma jaca caiu de cheio na minha cabeça. Daí pensei assim, bem assim mesmo, um assim bem pensado: “Nossa se eu tivesse seguido a estrada, sem me preocupar com que as duas onças discutiam a jaca não teria caído na minha cabeça”. O que aconteceu foi que acabei sendo visto e as onças ficaram aborrecidas comigo. Uma delas falou: “Vai cuidar da tua vida e deixa a nossa em paz!”. Fiquei morto de vergonha e fui para casa cabisbaixo. Ao chegar em casa penteei meu pelo com pente de macaco, passei colônia (afinal macaco também quer ficar cheiroso) e fui comer uma bananinha porque ninguém merece ficar com fome. Depois me deitei na minha rede para esfriar a cuca e filosofar um pouco. Pensei nas duas onças briguentas e no que uma delas tinha me falado. Ora, mas por que quem se importa com a vida alheia acaba se dando tão mal? Pensei. Minha ideia é esta: “VAMOS PARAR DE SE IMPORTAR COM A VIDA ALHEIA”. A escrevi no meu bloquinho e fiquei lendo até adormecer. No outro dia tentei aplicá-la e deu certo. Nada de jaca na cabeça. Nada de dor de cabeça. Entendeu?

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Dentro da Gente
Por Nelci Lourdes Back Oliveira

Dentro da gente Tem uma coisinha Que faz a gente crescer E brincar de casinha. Dentro da casinha Mora um menino Que a gente viu Andando sem destino. Com lápis de cera Riscou o céu Surgiu um arco-íris Usando chapéu. Dentro da gente Moram histórias de fadas De bichos, de bruxas, De crianças levadas. Dentro da gente Mora rei e rainha Lá dentro... mora tudo O que a gente quiser.

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O homem que desafiou o sol

Por Sidinéa Muniz

Durante muito tempo, precisamente há três décadas... não sei...ninguém sabe...Zé de Tabira vagou sertão adentro, desatinado, em busca do seu destino. Sua vida sofrida era revelada através de marcas que insistiam em definir sua expressão. Hoje, ele passa horas fitando o infinito, num desvario, lutando para não ser atingido novamente pelos sentimentos, por aqueles raios, por aquele astro. Agitado, amarrado, algo parece pinica-lo , então ele consegue se transportar para lá novamente, ele volta a sentir as gotas de suor em seu rosto, cada gota significando que em breve ele nem teria mais forças...o sol e seu desfavor...ah! o sol. - Porque fazes isso comigo? Porque essa malquerança? Não vês que nem chapéu tenho para me proteger de ti? Você faz isso comigo porque não sou páreo para você! Olhe aqui... Zé apontava para o sol: - Quando eu chegar em casa vou subir numa montanha bem alta e vou ficar de cara com você... aí sim vai ser um duelo de homem para sol. Nesse momento você está sendo desleal... não tenho forças, não consigo nem te encarar de frente... você fica me lançando seus raios, turvando minha visão... nem lutar honestamente você sabe. Depois, ainda te chamam de astro. Zé de Tabira gesticulava, apontava para o céu, exprimia através de sons ora perceptíveis, ora imperceptíveis sua consternação, seu aborrecimento. – Ora bolas, eu aqui em pleno sertão brabo, procurando chegar na minha terrinha de palmeiras onde canta muito sabiá e o sol não me dá trégua. Insiste em me seguir, em me importunar, forçando meu corpo até então frágil e humano a derramar rios de suor...Nem água tem aqui meu Deus! – Ai Tabira! Quanta saudade eu tenho de ti...Sua cor não consigo descrever... oras te vejo marrom, lisinha como bago de jaca, ora tenho visões futurísticas, te enxergo seca, áspera como essa terra queimada pelo sol que agora piso. – Quando eu tenho esses pensamentos eu confesso: não sei se prossigo viagem ou volto para a cidade grande que tinha nome de santo que não abençoava ninguém. – Veja só seu

sol! Fui para São Paulo mas o povo de lá vivi numa correria parecendo uns doidos. Não quis isso para mim não...senti muitas saudades de Tabira...eu tiro o chapéu para ela sabia??? – Seus versos, sua história me encantam. Por isso estou voltando... Seu sol... Gritou Zé. – Porque ao invés de ficar me seguindo você não adianta os passos e avisa que estou chegando? Quem sabe Tabira faz festa para mim!!! Bolo, mungunzá, vaca atolada... Três dias se passaram... a andança era persistente. Em breve Zé ouviria o badalar dos sinos, o vigário fazia questão de ser pontual quando a homenageada era a Virgem Maria. Seus olhos agora pareciam perdidos, e ele começou a grunhir, a se desesperar, se revoltar novamente contra seu inimigo declarado: Agora eu me revoltei, estou por demais aperriado... se prepare que ta chegando... vou te mostrar que sou forte também. Zé caminha a passos largos, a caatinga parece distante, seu último olhar para aquela paisagem, seu último adeus para a terra seca... seu primeiro sorriso de vitória. - Blém... Blém... Seu coração dispara, seus ouvidos tornam-se atentos... seu cérebro envia a mensagem... as pernas obedecem... num instante a casinha, a varanda, os sussurros, as lágrimas, os tiros, a decepção... - Não... não... Ele correu desembestado em direção a montanha, despiu-se e passou dias desafiando o astro rei. Ele sabia que seu corpo queimado era o sinal de que não era páreo para ele, mas também do que adiantaria viver ou tentar lutar agora, se ele era apenas mais um Zé... Tabira não mais existia... - Me dê o raio de misericórdia agora seu sol... exigia ele desesperado. O sol já havia decretado a sentença de Zé (que não era mais de Tabira) por isso o último raio foi fulminante... Agora, meio borocoxô, meio dopado, meio que nem sei o quê... ele tenta sem sucesso desprender-se dessa camisa esquisita. Esgotado, sem forças nem consegue mais resistir, apenas vira a cabeça para a janela e recebe os raios: não existia mais Tabira, não existia mais Zé.

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Fora de Moda
Por Sonia Nogueira
Se não estivesse fora de moda eu falaria sobre o AMOR. Amor família, fraterno, conjugal. Amor eterno, que compartilha, divide, respeita, move a vida, dignifica a alma, engrandece a convivência, cria laços inseparáveis, enobrece os sentimentos e tudo faz para que a vida se torne mais serena em meio ao turbilhão de insensatez, que o mundo atravessa. Se não estivesse fora de moda eu falaria sobre o PERDÃO. Perdão tão distante das criaturas que não conhecem a quietude que o pensamento necessita. Falaria que o perdão lava o espírito, abre o sorriso, pede abraço, ameniza a tempestade, traz a paz interior. Se não estivesse fora de moda falaria da AMIZADE. Na amizade verdadeira, há confiança, mola mestra de todo relacionamento, abre as portas ao diálogo, compreende que o outro é um ser individual sujeito a acertos e erros, que a perfeição não traz um molde preestabelecido. Nada está pronto. Aprendemos, conquistamos, amamos, e somos felizes à medida que a aula da vida mostra suas facetas e com ela o aprendizado diário e permanente. Se não estivesse fora de moda falaria de FAMÍLIAS. Parece que a argamassa do alicerce está mal estruturada, rui à menor ventania. A prole anda sem freio, a porta permanece aberta, qualquer hora entra e sai um vendaval, que os arrasta em todas as direções, os casais se dispersam, formam novos lares muitos insustentáveis e infelizes. Se não estivesse fora de moda falaria de FELICIDADE. Segundo o dito popular não há felicidade, “apenas momentos felizes”. Tantos textos em prosa e versos falam do desamor, solidão, e me pergunto: Onde andam este dois parceiros inseparáveis, “o amor e a felicidade”? Estão dentro de todos nós e não sabemos conquistá-los. Se não estivesse fora de moda falaria de PAZ. Sabemos sem contestação que as drogas destroem os lares; a libertinagem, o sexo livre, a AIDS, traz doenças irreversíveis; as guerras desestruturam as nações; a violência dizima os culpados e inocentes. Só a paz salva a humanidade. Se não estivesse fora de moda falaria de DEUS. Deus criador do universo e de tudo que nele habita seres animados e inanimados. Os que não creem dizem que os tolos obedecem à religião por medo do inferno e a justiça por medo da prisão. Por esta razão grande percentagem habitam o inferno da vida, fazem moradia nas prisões abarrotadas de incrédulos, como se fosse seu habitat. Deus seja louvado.

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Ser estrangeiro é

Sempre guardar um sotaque da tua língua Ter uma cor de pele diferente, Adorar o seu pais de origem É sempre torcer para a Seleção, É ter orgulho da nossa bandeira, muito mais do que os que ficam no país. As vezes penso que sou covarde por ter saído do pais, ter deixado minha família, meus amigos de infância, meus colegas de trabalho. Agora sou discriminada, sou subempregada, nunca serei novamente brasileira 100% e nem outra coisa qualquer. Serei uma mescla de Brasil e outras culturas. Me sinto mais rica, por ter aprendido outras línguas, outros costumes, por descobrir outros paladares, sentir outros climas e ver outras paisagens... Por Sebastiana Sanchez

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A ARTE E LITERATURA DISCUTEM IMAGENS DO PECADO E SEGREDOS CLÁSSICOS

realizado.

Por Jeanne Paganucci

O vocábulo pecado provém do latim peccatu e significa transgressão da lei ou preceito religioso. A palavra está ligada semanticamente à noção de tentação, culpa, vício, defeito ou falta cometida. Nesse aspecto, Joseph Campbell (1990, 4-5) “(...) a única maneira de você descrever verdadeiramente um ser humano é através de suas imperfeições.”. Essa afirmação acerca da realidade e condição humana perpassa a arte, a literatura e principalmente o conceito de pecado, pois as imperfeições são detentoras do pecado. No que diz respeito à arte, o pecado parece ser tão fascinante que toca os desejos mais escondidos da humanidade, para recordar alguns pecados a observação em torno da obra O Beijo do Auguste Rodin (1888-1889) expõe a cena do beijo como sensualidade, o toque da pele, a apreciação dos corpos, a figura do homem e da mulher delineados com suavidade e precisão tornam-se naturalmente revelador da condição humana na ausência do pecado. Nessa escultura em mármore, o artista inspirou-se nos delírios de sua assistente Camille Claudel. Em se tratando do pecado, a escultura apresenta um casal que não se beija realmente, os lábios que não se tocam sugere um acontecimento interrompido pela morte. Nesse aspecto, o pecado não se torna real, mas algo presumivelmente interrompido, não
www.varaldobrasil.com 183 http://flickriver.com/ photos/ hugocesar/4913516401/
http://pizzaburnets.wordpress.com/2011/04/13/hoje-e-dia-do-beijo-2/

Outro exemplo acerca do pecado é a obra O Êxtase de Santa Teresa, que é uma escultura de Gian Lorenzo Bernini (1589-1680), grande escultor do Século XVII. A escultura representa Santa Teresa de Ávila em uma experiência mística a qual é atingida por uma seta de amor divino onde um anjo idealiza a sensibilidade. Foi esculpida no período que compreende 1645-1652, trabalhada no estilo barroco. A luz e sombra delineadas em sua escultura demonstra os gestos alongados e expressivos em que a Santa se expressa numa cena emocionante. A obra que inicialmente seguia os padrões de arte religiosa (sacra) e deveria cumprir com o realismo, com o estímulo à religiosidade, recorda as noções do pecado e na época foi julgada pela Igreja Católica Romana como uma ofensa à Igreja, pois revelava uma Santa em êxtase, com aspectos da luxúria e do pecado em sua constituição.

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Atrelado ao pecado está o segredo que participa da história da humanidade como um tempero mágico, fantástico e impressionante. Segundo Joseph Campbell (1990, 5)“(...) Penso que o que estamos procurando é uma experiência de estar vivos, de modo que nossas experiências de vida, no plano puramente físico, tenham ressonância no interior de nosso ser e de nossa realidade mais íntimos, de modo que realmente sintamos o enlevo de estar vivos.” Por isso, os experimentos que temos durante a vida tornam-se necessárias para dar sentido à experiência de estar vivo. No que diz respeito ao significado, o vocábulo segredo é proveniente do latim secretum (segredar, segredo) e diz respeito ao que deve ser mantido oculto, que não deve ser revelado a ninguém ou é mantido confidencialmente entre algumas pessoas. Um exemplo do segredo na literatura é o casal mítico Romeu e Julieta de William Shakespeare (1564-1616) que mantém um relacionamento escondido por conta da inimizade entre as famílias Capuleto e Montecchio que finaliza em tragédia.
REFERÊNCIAS:
http://www.lpm-blog.com.br/?tag=romeu-e-julieta

Outro exemplo bastante conhecido no que diz respeito ao segredo é o amor trágico do infante D. Pedro com Inês de Castro. Trata-se de uma história real que inspirou diversos escritores e poetas a escreverem poemas, cantata, romances e composições distintas para narrar o episódio da Castro. De Fernão Lopes, Camões, Garcia de Resende, Manuel Maria Barbosa Du Bocage, António Patrício e tantos outros, o segredo de amor que finalizou o romance e tornou-se tragédia, inspira a arte, a literatura e mantém vivo o mito em torno do casal apaixonado.

CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. (org.) Betty Sue Flowers. – São Paulo: Palas Athena, 1990. www.aule.com.br http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/ index.php? lingua=portuguesportugues&palavra=segredo http://www.releituras.com/ wshakespeare_menu.asp http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/ romeuejulieta.pdf
http:// literaturaparaasobremesa.blogspot.com.br/2012/09/ romeu-e-julieta-william-shakespeare.html

http://www.revistapindorama.ifba.edu.br/files/ Almir%20Valente%20Costa%20IFMA.pdf
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REFLEXÕES E PRÁTICAS GEOGRÁFICAS

Ricardo Santos de Almeida

“O PARQUE MUNICIPAL DE MACEIÓ/AL: AÇÃO ANTRÓPICA E TRANSFORMAÇÃO DA PAISAGEM”

há um espaço garantido para a construção da nova sede da Secretaria Municipal de Proteção ao Meio Ambiente (SEMPMA). Devido à localização do parque em área “central” da cidade, possuindo ao seu entorno baixo nível de urbanização fomentam pressões socioespaciais que impactam negativamente a continuidade de um trabalho árduo que não está sob o controle dos órgãos de fiscalização da prefeitura. Foram perceptíveis, mesmo em relativa distância ouvir músicas e perceber em alguns locais resquícios da ação humana, como a existência de materiais residuais sólidos, em trilha (ver Figura 2).

Nesta coluna estarão expostas as experiências e reflexões do processo de formação acadêmica em Geografia. Neste primeiro relato estará em ênfase à aula de campo e a especificidade encontrada na análise da paisagem do Parque Municipal de Maceió/AL. Os relatos abaixo fazem parte de relatório de aula de campo ministrada no dia 04 de maio de 2011 pela Profa. Dra. Ana Paula Lopes da Silva dos cursos Geografia Licenciatura e Geografia Bacharelado da Universidade Federal de Alagoas, na disciplina Geografia de Alagoas. Os alunos discentes encontraram-se na Praça Coronel Lucena Maranhão, bairro Bebedouro às 13h15 e a partir das 13h30 percorreu rumo ao Parque Municipal de Maceió, capital de Alagoas. O referido parque tem área de 82 hectares. No decorrer da caminhada percebemos a estrutura das edificações dos residentes, de modo a configurarem-se autoconstruções. Chegamos à área do parque às 13h53 e não fomos muito bem recepcionados. Na entrada flagramos pessoas retirando sedimentos do rio do Silva, infelizmente não fotografamos. Esperamos um pouco todo o grupo do curso, mas andamos sozinhos em alguns pontos do parque. Percebemos também que independente de estar chovendo, havia um fluxo razoável de pessoas circulando no parque, e que não necessariamente estariam lá para aproveitar o momento. Identificamos também que

Figura 1. Futura sede da Secretaria Municipal de Proteção ao Meio Ambiente. Fonte: ALMEIDA, Ricardo Santos. 2011.

Com a chegada da Professora Dra. Ana Paula Lopes da Silva às 14h07, foram salientadas algumas informações preciosos, como a existência na Mata Atlântica de alto índice de biodiversidade, bem como a diferença entre estratos herbáceos, arbustivos e arbóreos.

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Foi destacado também que o rio Silva fez parte do contexto histórico maceioense enquanto um dos recursos naturais explorados para a captação de água, até meados do início da década de 1980. O Parque está inserido na formação barreiras e a configuração do solo é latossolo e polissolo.

O senhor Valdir nos comunicou sobre as especificidades do Parque Municipal de Maceió, como a sua constituição:
Com a promulgação da Lei Municipal 2.514, de 27 de julho de 1978, foi oficialmente criado o Parque Municipal de Maceió, inicialmente vinculado à Superintendência Municipal de Obras e Viações – SUMOV. A formação do mesmo aconteceu a partir da cessão de um terreno com área igual a 30,85 hectares, pelo Grupo S.A Leão Irmãos – Açúcar e Álcool, em 21 de julho deste ano à Prefeitura Municipal de Maceió, em troca dos 35% de área verde obrigatórios, destinados ao loteamento Jardim Petrópolis, pertencente a este grupo, situado no bairro do Tabuleiro do Martins (Silva et al. 2002). De acordo com a Lei Municipal 2.514/78, o Parque Municipal de Maceió não poderia ter área inferior a 50 hectares. A prefeitura incorporou à área negociada com o grupo Leão, um terreno vizinho à mesma com área igual a 51, 55 hectares, pertencente à Companhia de Abastecimento de Água e Saneamento de Alagoas (CASAL). Neste terreno, havia umas antigas e abandonadas instalações desta companhia. Neste caso, a área foi cedida à Prefeitura Municipal de Maceió através do comodato nº 166, celebrado no dia 13 de novembro de 1978, publicado no Diário Oficial do município no mesmo dia e ano. Firmou-se um prazo de dez anos, podendo sofrer prorrogação. Em troca, a prefeitura cedeu à CASAL, o prédio da Intendência Municipal. (SILVA, Valdir Martiniano Ferreira, 2010, p. 7).

Figura 2. Material residual sólido na fotografia, quase imperceptível aos olhos humanos, mas não da natureza. Fonte: ALMEIDA, Ricardo Santos. 2011.

Também foi perceptível que muito não poderia ser mostrado, acredito que mesmo com o tempo nublado, quem não deve não teme. A presença do senhor Engenheiro Agrônomo Valdir Martiniano Ferreira da Silva durante toda a nossa aula de campo permeou essa sensação, principalmente por “roubar” a cena da professora que iniciou com explicações condizentes com a realidade. Um dos casos mais marcantes foi o citado pelo senhor Valdir, quanto a expansão urbana maceioense relacionando a Mata Atlântica enquanto floresta ombrofila densa, e no caso do Parque Municipal possuir alto índice pluviométrico no mês de maio (mês da aula de campo), temperatura entre 20º C e 29º C.

Enfim, percebe-se que a existência do parque não se dá única e exclusivamente devido a uma bonança do poderio da agroindústria canavieira e tampouco do poder público, uma vez que, a topografia do parque, em alguns pontos não propicia a construção de autoconstruções. Com funcionamento entre terça e domingo para o público, são identificáveis algumas ações humanas, como a utilização do parque apenas como balneário ou local de consumo de drogas, que contrapõem uma educação ambiental sob perspectiva crítica.

Figura 3. Professora Ana Paula Lopes da Silva explicando aos alunos a importância do parque e os agentes externos potencializando a poluição existente nele. Fonte: ALMEIDA, Ricardo Santos. 2011. Figura 4. Materiais de serraria e de antigos trilhos de trem armazenados. www.varaldobrasil.com 186

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FiViveiro de mudas. Fonte: ALMEIDA, Ricardo Santos. 2011.

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5.

Municipal é produzido pelo homem, pois está existindo devido ao sistema de leis, é natureza transformada, recebendo ação do homem direta e indiretamente. Não nos basta apenas criticar a pífia ação dos órgãos públicos, pois detectamos ao longo do percurso a pé rumo ao parque Municipal dejetos sendo despejados no rio. Além disso, dentro do próprio parque em conversa com colegas e comentários dos presentes quanto ao despejo de resíduos sólidos não apenas por pessoas que residem em autoconstruções, mas também as residentes em conjuntos habitacionais, que mesmo inconscientemente os moradores fortalecem a degradação do rio Silva. REFERÊNCIAS

A transformação da paisagem pela ação antrópica explicitam-se ao longo das trilhas, mesmo não havendo impermeabilização do solo são nítidas a existência de galpões funcionando como viveiros (ver Figuras 4 e 5) ou armazenando alguns insumos para fortalecer as mudas que lá são cultivadas. Outro destaque vai para a “Floresta da Fama” que conta com algumas espécies que não condizem com a configuração da Mata Atlântica plantadas por alguns artistas de outras cidades.

SILVA, Valdir Martiniano Ferreira. A Educação Ambiental em Unidades de Conservação com ênfase no Parque municipal de Maceió. 2010. Lavras: UFLA-MG. WIKIPÉDIA. Mata Atlântica. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Mata_Atl%C3% A2ntica>. Acesso em: 12 mai. 2011. Contato com o autor: ricardosantosal@gmail.com

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Figura 6. Erosão ao lado da “Floresta da Fama”. Fonte: ALMEIDA, Ricardo Santos. 2011.

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Negro Amor, do escritor paulista Ricardo Bellissimo, é um livro ríspido e ágil, que crava as suas garras narrativas no imaginário mítico oculto por trás da alma feminina em sua trevosa odisseia na busca pelo amor. Não é, contudo, uma história de amor convencional. Pelo contrário. Insurge-se como uma espécie de fábula às avessas, onde os mistérios psicológicos incrustados sob os instintos humanos irrompem como o único alicerce para se tentar conhecer o inconhecível: o real caráter de alguém.

SUFOCO, do escritor paulista Ricardo Bellissimo, é um livro tecido com uma linguagem laboriosa e surpreendente, que envolve o leitor desde a primeira página. Um thriller alucinante que mistura ainda elementos de novela de televisão com suspense e pitadas de um enredo policialesco, muitas vezes hilário em sua escancarada ironia e intrigante trama. Sua dinâmica rebuscada e inteligente deixa, por isso, o leitor sem fôlego. Personagens inesquecíveis e muito bem construídos desfilam pelo cenário kitsch do imaginário paulista, criado por Bellissimo. É um romance que deixa o leitor ávido para chegar ao final, e descobrir o desfecho desta história cheia de ação e diálogos, dignos de um romance inspirado em um filme de Tarantino.

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O Essencial do Livro dos Livros é para quem: nunca leu a Bíblia; já tentou ler e desistiu; no cree en brujas, pero que las hay, las hay; diz que leu mas não leu de verdade e gostaria de ter lido; não entendeu; entendeu logo, ou acha que; voyeurs do bem; discípulos de São Tomé. Versa sobre crenças, sem crer: assim é se lhe parece, Pirandello já dizia; a versão é mais importante que o fato, há muito dizem os mineiros... Mais vale uma imagem do que nenhuma. Recomenda-se: deixar a vaidade de lado e pegar os óculos; a não leitura, se não tiver espírito forte e mente aberta; a compra de exemplares individuais, caso contrário, o casal pode ter que discutir a relação; relaxar e gozar, no bom sentido; no ótimo atrapalha a leitura. Ebook www.amazon.com.br PESQUISA: B007GPFKZC

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Revista Varal do Brasil A revista Varal do Brasil é uma revista independente, realizada por Jacqueline Aisenman. Todos os textos publicados no Varal do Brasil receberam a aprovação dos autores, aos quais agradecemos a participação. Se você é o autor de uma das imagens que encontramos na internet sem créditos, façanos saber para que divulguemos o seu talento!

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VARAL DO BRASIL No 24

Voltaremos em setembro com o no. 25!

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