Caio Navarro de Toledo

O Governo Goulart E o Golpe de 64

Índice

Um governo no entreato golpista O "golpe branco" ou "a solução de compromisso" A crise político-institucional na versão parlamentarista Um governo no trapézio A politização da sociedade — esquerda e direita mobilizam-se O golpe político-militar Conclusões Indicações para leitura

Um governo no entreato golpista

O governo João Goulart nasceu, conviveu e morreu sob o signo do golpe de Estado. Se, em agosto de 1961, o golpe militar pôde ser conjurado, em abril de 1964, no entanto, ele deixaria de se constituir no fantasma — que rondou e perseguiu permanentemente o regime liberal-democrático inaugurado em 1946 — para se tornar numa concreta realidade. No dia 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros resignava sem ao menos completar sete meses na Presidência da República. Na cartarenúncia — autêntica paródia e pastiche da carta-testamento de Getúlio Vargas, como observaram diversos autores —, Quadros não formulou uma única razão convincente para explicar e justificar o seu teatral gesto. Se, naquele momento, a denúncia do golpe janista soava como uma mera especulação, hoje restam poucas dúvidas a esse respeito. A rigor, a renúncia constituía-se no primeiro ato de uma trama golpista. Julgava o demissionário que os ministros militares não apenas impediriam a posse de João Goulart, como também procurariam impor, juntamente com o massivo e sonoro "clamor popular", o retorno do "grande líder". Na sua fantasia, Quadros voltaria, pois, nos "braços do povo". As ilusões do renunciante, contudo, logo se desvaneceram. Nem os ministros militares e, menos ainda, as massas populares tomaram qualquer iniciativa no sentido de reivindicar a volta de Quadros. Em várias partes do país, os setores populares e democráticos sairiam às ruas para defender, isto sim, a posse de João Goulart, ameaçada por um arbitrário veto militar, plenamente respaldado pela UDN e demais setores conservadores. As manifestações populares, associadas com as de políticos democráticos e de militares nacionalistas, conseguiram impedir o golpe militar que se configurava em agosto de 1961. Assim, com a diferença de poucos dias, duas tentativas de golpe se sucediam: a de Jânio Quadros e a dos setores militares. Três anos depois, tendo sido alcançada uma forte coesão ideológica no seio das Forças Armadas, os militares impuseram, juntamente com a significativa mobilização política das classes dominantes e de setores das classes médias, uma nova ordem político-institucional no país. Os setores populares e democráticos, a partir de então, pagariam um preço muito elevado pela resistência oferecida aos golpistas em 1961. Foi, portanto, no entreato de alguns ensaios golpistas e de um golpe político-militar, plenamente vitorioso, que existiu o governo João Goulart. Nos seus dois anos e meio de vigência (setembro de 1961 a março de 1964), um novo contexto políticosocial emergiu no país. Este novo quadro caracterizou-se por uma intensa crise econômico-financeira, freqüentes crises políticoinstitucionais, extensa mobilização política das classes populares, ampliação e fortalecimento do movimento operário e dos trabalhadores do campo, crise do sistema partidário e acirramento da luta ideológica de classes. Este período da história política brasileira é significativo

então o período de 1961/1964 deve ser visto como um momento privilegiado da vida política brasileira posto que nele ocorreu uma polarização política e ideológica com dimensões inéditas e com características singulares. corrupção. ao definir os "tempos de Goulart" como a expressão acabada de toda a perversidade social (subversão. Decorridos menos de 20 anos da queda do regime liberal-democrático. As esquerdas — não obstante reconheçam os reais avanços sociais e políticos ocorridos no período —. os "tempos de Goulart" só podem ser encarados como trágicos "tempos do caos e da anarquia".ainda pois nele se intensificam e se condensam alguns dos impasses e dos conflitos da democracia burguesa. desordem etc). . pois. procura justificar a implantação do regime autoritário e a perpetuação do poder de Estado militarizado. buscam. Para os que vêem nos conflitos e nos antagonismos o sinal da desagregação social. Se entendemos que as contradições sociais são processos constitutivos da formação social capitalista e de seus regimes políticos. 1964 é. fundamentalmente. motivações antagônicas parecem estar presentes em algumas dessas interpretações. investigar as razões dos limites e das impossibilidades da democracia burguesa com características "populistas". crise de autoridade. A nosso ver. um marco divisor e uma referência obrigatória em qualquer avaliação sobre o passado recente. A direita. não deixam de ser ainda conflitantes as interpretações sobre o período Goulart.

Ao mesmo tempo que difundiam estas informações. da parte de expressivos círculos militares. na Presidência da República. sem dúvida alguma. Jango simbolizava tudo aquilo que havia de "negativo" na vida política brasileira: demagogo. os congressistas manifestaram-se contra aquela arbitrária e ilegal exigência. tais setores estimulavam e apoiavam o golpe militar. Por uma expressiva maioria. uma forte oposição à posse constitucional de João Goulart na Presidência da República. No dia 28 de agosto. João Goulart constituirse-á. Através de um manifesto à nação. Seria o "diabo" tão vermelho como o pintavam? Goulart: por um capitalismo "humano" e "patriótico" . os meios de comunicação do país passavam a divulgar versões — cuja veracidade seria confirmada nos dias seguintes — segundo as quais haveria. os ministros militares voltariam à carga. agora se dignavam a explicitar as razões do veto a João Goulart. o Congresso Nacional. No dia 30. Imediatamente.O "GOLPE BRANCO" OU "A SOLUÇÃO DE COMPROMISSO" O veto militar Com a renúncia de Jânio Quadros. a Ranieri Mazzilli (presidente da Câmara dos Deputados). vários jornais da chamada grande imprensa — expressando a opinião política dos setores conservadores das classes dominantes — conclamavam as Forças Armadas a assumirem um papel decisivo na crise política que se configurava com a renúncia de Jânio Quadros. o sr. João Goulart. como estavam decididos a detê-lo no momento em que pisasse o território nacional. em regime que atribui ampla autoridade e poder pessoal ao chefe do governo. na anarquia. Todas estas "previsões" eram feitas na base do passado político de Goulart. Na ótica dos militares e dos demais setores civis golpistas. afirmava o documento: "Na Presidência da República. na luta civil". reunido extraordinariamente no dia 25 de agosto de 1961. os três ministros militares buscaram impor ao Congresso a aprovação de uma breve nota onde — sem qualquer justificativa — era vetada a posse de Goulart. subversivo e implacável inimigo da ordem capitalista. A certa altura. através do presidente-interino. Tal solução era encontrada em virtude de se encontrar ausente do país o vice-presidente da República. Em outras palavras. As notícias iam mais longe: afirmava-se que os ministros militares não apenas desaconselhavam o retorno imediato de Goulart. no mais evidente incentivo a todos aqueles que desejam ver o País mergulhado no caos. dava posse.

esteve seriamente ameaçado de perder o mandato parlamentar. sua diferença em relação a estes residia na sua aspiração a um capitalismo mais "humanizado" e "patriótico". o "corrupto negociante"? Pior ainda. Jango dizia opor-se àquilo que hoje se convencionou chamar de "capitalismo selvagem". por Vargas. num Ministério do Estado. Fazendo blague.. Como herdeiro de imensa fortuna pessoal e grande proprietário de terras ("um latifundiário com saudável instinto de propriedade privada". Vargas. ou seja. Goulart sofreu contundentes ataques pela imprensa..Nos primeiros anos de sua rápida trajetória política. que o operariado brasileiro. Pretenderse-ia. prognosticavam: controlando e manipulando a classe operária e as massas populares. mas iradamente. eleito em 1950. Como deputado pelo Rio Grande do Sul. Seu maior sonho. Destacando-se neste tipo de atividade. afirmam ainda seus críticos. transformara-se num autêntico "ministro dos Trabalhadores". o "demagogo sindicalista". expressou com muita clareza a estratégia do Estado democrático-burguês quanto à questão sindical: "(. "Não passa de torpe intriga o boato de que sou contra o capitalismo. para o cargo de ministro do Trabalho. indagavam os setores de direita e liberais conservadores. não acreditasse nos poderes constitucionais?" (grifo nosso).. ao invés de ser ministro do Trabalho.) essa confiança do proletariado na secretaria de Estado que dirijo deveria constituir-se num motivo de tranqüilidade (para os patrões). como afirmou um de seus colaboradores). já tão desencantado. desde então. asseverava ele. o "chefe do peronismo brasileiro". Enquanto Goulart defendia publicamente um aumento de 100% para os trabalhadores que ganhavam salário mínimo. através de seu ministro da Guerra. tal como seus críticos de direita. Como ministro do Trabalho. os estreitos laços de amizade mantidos com o ex-ditador — seu vizinho de estância na longínqua São Borja (RS) — transformavam Goulart em figura altamente suspeita aos olhos dos setores antigetulistas. humano e patriótico. Dedicava-se às suas tarefas de presidente do Diretório Estadual do PTB e. No entanto. talvez." Pouco mais de oito meses permaneceria no Ministério do Trabalho do segundo governo Vargas. tomava conhecimento de um documento ("Memorial dos Coronéis") assinado . Ã frente do Ministério do Trabalho estou pronto a estimular e a aplaudir os capitalistas que fazem de sua força econômica um meio legítimo de produzir riquezas. Diante desta lamentação. Como admitir. a partir do Ministério do Trabalho. Jango se constituiria numa peça importante para o sucesso de um novo golpe de Estado que estaria sendo engendrado pelo "maquiavélico" Vargas.. pois raramente comparecia à Câmara Federal. seria o de implantar no Brasil a "República sindicalista" nos moldes do justicialismo peronista. orientava toda a sua ação política em direção ao movimento sindical. foi escolhido. Numa entrevista. um fiel defensor do capitalismo. dando sempre às suas iniciativas um sentido social. Goulart era. Goulart é diariamente acusado de insuflar greves e de pregar a luta de classes. um influente periódico das classes dominantes denunciava que Jango. a resposta de Goulart seria extremamente elucidativa. Foi um "deus nos acuda". e nunca de alarme. em 1953.

etc. mesmo ostensivamente. Golbery do Couto e Silva. dez anos mais tarde. pois. razões para lhe negar o direito de assumir a Presidência da República. com a liberal-democracia. seja na de vice-presi-dente) contribuía objetivamente para um melhor controle do Estado burguês sobre as atividades sindicais. estes setores afinavamse com o nacionalismo reformista. entidades de empresários (CONCLAP). Desta forma. comprometidos com as ideologias liberal-conservadora e de direita. redigido pelo então ten. Governadores de estados. durante o qüinqüênio desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek. Euler Bentes. aqueles setores deixavam de perceber que — tal como concebia e exercia suas funções políticas e administrativas — Jango era uma eficiente porta-voz. ainda há pouco.cel. pois. Deixavam. exaltando o êxito das comunas populares". mas a conseqüência da sua divulgação pela imprensa foi a sua imediata demissão do Ministério do Trabalho. Igualmente. estudantes e alguns setores militares. (Entre os signatários do documento. na ótica dos políticos e militares. da ideologia populista do Estado protetor e "acima das classes". Dos governadores estaduais que declararam seu apoio à posse de Goulart (Carvalho Pinto. Syzeno Sarmento. Nele se advertia o Exército e a Nação dos perigos do "comunismo solerte sempre à espreita". Ideologicamente. tornou clara e patente sua incontida admiração ao regime destes países. Obstinadamente reacionários e intransigentemente anticomunistas. sabido é que usou sempre de sua influência em animar e apoiar. São Paulo. Mauro Borges. de nada adiantava Goulart reiteradamente afirmar a sua crença no capitalismo. Ney Braga. foram estes . estavam militares que. No manifesto de agosto de 1961. com a esquerda revolucionária. Ednardo D'Ávila. Não viam. Rio Grande do Sul). A luta pela legalidade Nem todos os setores sociais e políticos. como representante oficial em viagem à URSS e à China Comunista. desfalques e malversação de verbas". E. se manifestavam em defesa da ordem constitucional.por 81 oficiais do Exército. no entanto. os ministros militares alinhavam algumas acusações: "No cargo de vice-presidente. Em nenhum instante o nome de Jango era citado no "Memorial". de reconhecer que a atuação política de Jango (seja na condição de ministro de Trabalho.) Como vice-presidente da República. do "clima de negociata. afastariam Goulart definitivamente da vida política brasileira: Amaury Kruel. nos meios sindicais e populares. não conseguiam deixar de representar Jango na figura de "perigoso agitador" e de "demagogo sindicalista". interpretavam nessa direção a trajetória política de João Goulart. da "crise de autoridade" que solapava a coesão de "classe militar" etc. sindicatos de trabalhadores. parlamentares federais e estaduais. João Goulart não deixaria de estar sob o fogo cerrado da direita e de setores liberais-conservadores. Goiás e Leonel Brizola. Paraná. manifestações grevistas promovidas por conhecidos agitadores. Sílvio Frota.

foi a partir de Porto Alegre que se unificou a oposição nacional ao golpe militar. Militares nacionalistas (o mal. Várias entidades de classe condenavam os golpistas e defendiam a posse de Goulart. os dois grandes partidos conservadores (UDN e PSD) articulavam. um golpe político. Brizola mobilizou amplos recursos de seu estado. chegando. A UNE decretou "greve nacional". pois afirmavam ter evitado uma "guerra civil" no país. taxativamente. era perpetrado contra o regime vigente. Guanabara e até mesmo em Brasília. altos-oficiais do Exército. bancários. a se dispor a distribuir armas à população civil para combater eventuais ataques das forças golpistas. Por 236 votos a favor e 55 contra (40 eram do PTB). almirantes. transportes. Apesar de proibidas e reprimidas. expressando o sentimento geral dos setores democráticos e populares. organizações militares sediadas nos estados do Pará. a emenda constitucional era aprovada no Congresso Nacional. em virtude da decidida ação política de seu governador e da adesão do III Exército. . desde as primeiras horas da crise. metalúrgicos.dois últimos os que mais intensamente se empenharam na" "defesa da legalidade". Para os ideólogos burgueses da Ciência Política. dava uma excelente lição daquilo que denominam de "realismo político" ou da "arte de conciliação".) culminam numa greve nacional em "defesa da legalidade". portuários. sob o comando do gal. Goiás. a chamada "solução de compromisso": a emenda constitucional que instituía o regime parlamentarista no País. negava-se. transferindo-a para o espaço reduzido da Câmara Federal. associavam-se ao movimento contra a solução conspiratória. Um outro significado deste "golpe branco" é que a emenda parlamentarista retirava a eleição do presidente da República do âmbito popular. na Bahia os estudantes criavam a Frente de Resistência Democrática. Machado Lopes. no primeiro momento. comícios. São Paulo. o Congresso. Através das emissões da "Rede da Legalidade". neste episódio. Na verdade. A "solução de compromisso" O Congresso Nacional. Contudo. embrião do CGT. a transigir com os golpistas. panfletagem etc). Se o golpe militar era derrotado. no entanto. Inúmeras greves políticas em diversos setores (têxtil. deflagrada pelo Comando Geral da Greve (CGG). Os congressistas julgavam-se vitoriosos. Minas Gerais. através de sua maioria conservadora e liberal-democrata — com o incentivo dos militares dissidentes e com a anuência dos golpistas —. Rio Grande do Sul. Lott fora preso por ter lançado um manifesto contra o golpe). pois a carta de 1946 proibia. etc. pois o avanço das forças populares passava a se constituir numa ameaça política indesejável. o Congresso Nacional. manifestações populares sucediam-se nos grandes centros urbanos (passeatas. acompanhava-se o desenrolar dos acontecimentos em todo o país e articulava-se o movimento antigolpista em nível nacional. Contudo. toda e qualquer reforma constitucional num clima insurrecional. adiantouse em oferecer tal solução. inclusive.

João Goulart não apenas concordou com a emenda constitucional. João Goulart iniciava. que seria a sua posse dentro do sistema presidencial".. orientar a política externa. elaborar propostas de orçamentos.Alguns analistas afirmam. assim. previa a realização de um plebiscito que viesse a decidir acerca da "manutenção do sistema parlamentar ou volta ao sistema presidencial". Ao presidente competiria nomear o presidente do Conselho de Ministros (primeiro-ministro) ou chefe do governo e. que o parlamentarismo não se configurava. O governo se efetivava fundamentalmente através do Conselho de Ministros que. perdendo a sua iniciativa de elaborar leis. posto que o crescimento da participação popular e a ampliação dos setores políticos e militares antigolpistas punham na defensiva e em minoria as forças reacionárias. transformava-se o presidente da República em autêntico chefe de Estado. hoje. Como sugere o ex-deputado Almino Afonso: "Com mais alguns dias de resistência política do presidente João Goulart teria havido a solução normal. Na verdade. faria ele de tudo para abreviar a vida do novo regime. não apenas reinar. naquela conjuntura. João Belchior Marques Goulart recebia no Congresso Nacional a faixa presidencial. nas suas Disposições Transitórias. o Poder Executivo passava a ser exercido pelo presidente da República e por um Conselho de Ministros (Gabinete Parlamentar). conforme confessaria a um assessor. No dia 7 de setembro de 1961. Ao contrario disso. Argumentam que o tempo corria na direção favorável à manutenção do regime presidencialista. Queria governar. dependia permanentemente do voto de confiança do Congresso Nacional. a quem caberia a "direção e a responsabilidade da política do governo. De acordo com a emenda parlamentarista. Recusava-se a representar o papel de uma "Rainha Ehzabeth". assim como a administração federal". Sob rédeas relativamente curtas. Mas. . como se apressou em escolher uma solene efeméride nacional para ser empossado. seu governo na versão parlamentarista. os demais membros ministros de Estado. etc. como uma saída política inescapável. A emenda constitucional nº 4.. Tal consulta popular devia ocorrer nove meses antes do término do período presidencial de Goulart. por indicação deste. sob o manto do regime parlamentarista. por sua vez.

Através da famigerada Instrução 204 da SUMOC.2 bilhões de dólares. a expansão da demanda de alimentos. De outro lado. instituiu-se o regime de liberdade cambial (enganosamente denominado de "verdade cambial"). aumentando o endividamento externo" (Cibilis Viana. Reformas de Base e a Política Nacionalista de Desenvolvimento). "como o investimento externo fazia-se com a regalia da Instrução 113. acúmulo de estoques invendáveis de café adquiridos pelas autoridades monetárias. o atendimento do déficit fez-se. crescimento insuficiente da oferta de produtos agrícolas e oligopolização do comércio atacadista de gêneros alimentícios" (Idem. No período Kubitschek. agravada fundamentalmente pela "deterioração das relações de troca. passaram a ocorrer. "a produção agrícola apresentou a taxa anual média de crescimento de 4. o parlamentarismo — sistema natimorto. através de empréstimos a curto prazo e de atrasos comerciais. sem cobertura cambial. a partir de 1961. conseqüentemente. ibidem). Com o insuficiente crescimento da produção agrícola para o mercado interno. como alguns o denominaram — teria os seus dias contados dentro da vida republicana brasileira. A partir de agora. principalmente. o governo parlamentarista não apenas herdava as profundas distorções da política desenvolvimentista do governo Kubitschek como também tinha de fazer face às conseqüências imediatas das medidas econômicofinanceiras postas em prática pela fracassada administração Quadros.A CRISE POLlTICO-INSTITUCIONAL NA VERSÃO PARLAMENTARISTA Na curta existência do regime parlamentarista (setembro de 1961 a janeiro de 1963). as importações passavam a ser realizadas a taxas de mercado . Ainda segundo o autor acima. além de se defrontar com o agravamento de sua situação econômico-financeira e se debater ainda com novas crises político-institucionais. A taxa inflacionária elevou-se significativamente nos últimos anos do governo Kubitschek. isto é. Administrativamente ineficiente e politicamente inviável. o país veria sucederem-se três Conselhos de Ministros. Com o aumento da população urbana (75% entre 1952 a 1961) e um aumento do poder de compra dos assalariados em geral. No período desenvolvimentista anterior. mostram os dados oficiais. No período 1956/60. Do ponto de vista econômico. Além desses problemas. houve. agudas crises de abastecimento. houve um acentuado descompasso entre o crescimento do setor industrial e o da agricultura. o déficit nas transações correntes (mercadorias e serviços) alcançou a elevada cifra de 1. o governo que se empossava tinha de enfrentar as graves conseqüências da reforma cambial precipitadamente realizada por Quadros. gerando inquietações sociais e movimentos reivindicatórios de grande extensão nos campos e nas cidades.3% inferior a de todos os demais períodos". ao se optar por um elevado nível de investimentos e ao se manter as importações de equipamentos necessários ao desenvolvimento econômico. apelou-se para um progressivo endividamento externo.

assim. ao partido do qual o presidente da República era o presidente nacional. o primeiro gabinete representava uma nítida derrota do movimento popular que. o pensamento que orientava a assessoria econômica de Goulart (Goulart e Tancredo tinham assessorias distintas). onde 4 ministros representavam o PSD e 2 a UDN. revelando-se. alguns dias antes. conciliação com os golpistas" (Paulo M. Em matéria de política econômica. conhecida figura do PSD mineiro. Não seria este. antagônicos ao ideário do nacionalismo desenvolvimentista" (Cibilis Viana. não se fazia nenhuma crítica à reforma cambial implementada pelo governo anterior. sob muitos aspectos. Embora majoritariamente conservador. particularmente daqueles produtos que eram fundamentais no orçamento das classes trabalhadoras. Composta de petebistas e nacionalistas-reformistas. havia empolgado o país. pois. coube apenas uma pasta: o Ministério das Relações Exteriores. PTB. na figura de Francisco San Tiago Dantas. no entanto. conquistar o apoio do FMI e das autoridades financeiras norteamericanas. tratava-se de um autêntico "gabinete de conciliação": "conciliação para evitar que fossem colhidos os frutos da vitória popular. trigo e papel. a assessoria de Goulart buscaria influir sobre a orientação conservadora do gabinete ao defender. o Congresso Nacional aprovava o primeiro Conselho de Ministros. ficando suprimidos os subsídios governamentais às compras de petróleo. Segundo este programa. pode-se afirmar que "o programa do Conselho de Ministros obedecia aos mesmos princípios conservadores enunciados nos efêmeros governos Café Filho e Jânio Quadros. altamente comprometido no governo Kubitschek. Procurava-se. Uma vez mais. por exemplo. Nos seus primeiros pronunciamentos. Como as esquerdas viriam a denunciar. Lima. Na justificativa oficial. A vitória das forças politicamente conservadoras do Congresso evidenciava-se mediante a composição do Gabinete. in Revista Brasiliense. era ele presidido por Tancredo Neves. por exemplo. O importante Ministério da Fazenda teve sua responsabilidade entregue ao banqueiro Walter Moreira Salles — ideologicamente identificado com os manuais ortodoxo-conservadores em matéria de política econômico-financeira. o gabinete de Tancredo .livre. A eliminação dos subsídios teve como conseqüência uma brusca e imediata alta do custo de vida. a fórmula da "união nacional" era desenterrada do arsenal ideológico das classes dominantes a fim de encobrir a existência de conflitos e antagonismos no interior da conjuntura política. buscava-se alcançar o equilíbrio das transações com o exterior. Goulart faria críticas ao regime de "verdade cambial" e postularia a realização das Reformas de Base. Goulart e Tancredo denominaram o gabinete de "união nacional". Um gabinete de "união nacional" No dia 8 de setembro de 1961. op. cit.). o fortalecimento do setor estatal da economia. Conciliação com os imperialistas. Na verdade. nº 22).

o governo brasileiro demonstrar sua "boa vontade" face ao capital estrangeiro. logo nos seus primeiros meses de existência. diante da perspectiva de outras estatizações. cunhado de João Goulart. que determinava a suspensão de qualquer ajuda aos países que desapropriassem bens americanos. classificando o ato de Brizola como um 'passo atrás' nos planos da Aliança para o Progresso (. no Rio Grande do Sul.. anunciou — demagogicamente — que expropriaria empresas estrangeiras em seu estado). em plena "guerra fria"). tomou duas decisões amplamente apoiadas pelos setores progressistas e nacionalistas. O Governo João Goulart). aprovou uma declaração onde se afirmava a "incompatibilidade entre um regime marxista-leninista e os princípios democráticos do sistema interamericano". subsidiária da International Telephone & Telegraph (ITT). Procurava. Cedendo parcialmente às fortes pressões norte-americanas. A rigor. adequada e efetiva" (Moniz Bandeira. entre os presidentes do Brasil e dos EUA. Uruguai. As relações norte-americanas/brasileiras sofreriam ainda um sério abalo quando. governador da Guanabara. Diante de futuras tentativas de encampações (Carlos Lacerda. "O Departamento do Estado protestou. o governador Leonel Brizola. Roberto . rompimento das relações comerciais e diplomáticas) contra Cuba. No entanto. energicamente. assim. o governo federal apressou-se em declarar sua disposição em negociar um acordo geral com as empresas de serviços públicos de propriedade estrangeira. ao mesmo tempo tentava limpar o terreno dos possíveis obstáculos que poderiam dificultar as conversações a serem mantidas. A outra decisão que repercutiu favoravelmente nos meios progressistas do país foi o restabelecimento das relações diplomáticas com a URSS (rompidas no governo Dutra. reunia-se a Organização dos Estados Americanos (OEA) a fim de debater a situação de Cuba. assim. uma prova decisiva teria de enfrentar a política externa independente do Brasil. Por proposta do ministro das Minas e Energia. após seu governo revolucionário ter-se definido oficialmente pelo socialismo. estas duas medidas nada mais faziam do que concretizar estudos oriundos do governo Quadros. O Brasil se opôs a qualquer forma de sanção (militar.Neves. continuidade à política externa independente cujos princípios básicos ("não intervenção de um Estado nos negócios internos de outro" e "autodeterminação dos povos") foram enunciados no governo do contraditório Jânio Quadros. contudo.) E o Congresso dos EUA. desapropriou os bens da Companhia Telefônica Nacional. pretendiam estes fazer aprovar sanções contra o governo presidido por Fidel Castro. proposta pelos EUA. duas semanas após o encerramento da reunião da OEA. Dava-se. Além da expulsão. nas semanas seguintes. sem indenização imediata. o governo brasileiro se absteria na votação que propunha a expulsão de Cuba da OEA. o Conselho de Ministros cancelava todas as autorizações feitas ao truste norte-americano Hanna Corporation (companhia de mineração que explorava jazidas em Minas Gerais). votou a emenda Hinckenlooper.. Em Punta Del Este. Exatamente dois meses depois. Gabriel Passos (um nacionalista quase solitário na "constelação entreguista" da UDN). econômica. Assessorado pelo embaixador brasileiro nos EUA.

e por Moreira Salles. etc. o presidente da República tinha se pronunciado acerca da urgência de o Executivo e de o Congresso aprovarem as reformas estruturais exigidas para a superação dos graves problemas econômicos. a direita mais conservadora prestou-lhe homenagens. a viagem de Goulart aos EUA rendeu-lhe alguns proveitos. De Getúlio a Castelo). as concepções acerca do seu sentido social e político. Porém. defendeu enfaticamente a participação do capital privado estrangeiro no desenvolvimento brasileiro. Sentiam-se pessimistas. em Volta Redonda. Goulart chamou sobre si a fúria dos conservadores. A UDN. sociais e institucionais enfrentados pelo país. Entre outros temas. A partir do dia 1º de maio. saudou a sua performance nos EUA como a de um verdadeiro estadista. Goulart X Gabinete Internamente. Não confiavam em que Jango tivesse o desejo.. Goulart elogiou a iniciativa de Kennedy (provocada pela Revolução Cubana). nem o poder de continuar o duro programa antiinflacionário empreendido por Jânio" (Thomas Skidmore. Como observou um estudioso: "(. Embora revelasse preocupações quanto às dificuldades de execução do programa reformista da Aliança para o Progresso. Herbert Levy. A campanha das Reformas. farão inevitável a revolução violenta". em toda a sua carreira política. através de seu líder na Câmara. Apesar de todas as "juras de fidelidade e de amor" feitas por Goulart à democracia e ao capital estrangeiro. na Igreja. no Congresso. a guerra novamente lhe seria declarada. etc. Em reiteradas oportunidades. o país pouco lucraria com a festejada viagem de Goulart aos EUA e México. Goulart manifestou a adesão de seu governo aos "princípios democráticos". — o reconhecimento da necessidade da Reforma Agrária.. nas associações e confederações rurais.Campos. Não obstante se pudesse afirmar que era praticamente consensual — no Gabinete. o presidente brasileiro fez seu o ideário reformista de Kennedy: "Aqueles que tornarem impossível a revolução pacífica. muito curto seria o período de tréguas que a oposição conservadora concederia ao governo de Goulart. aprovou o princípio da "justa compensação" nos casos de desapropriações de empresas estrangeiras operando no Brasil. Advertindo sobre os perigos que representaria o fracasso deste programa para os "povos democráticos". nas Forças Armadas. No seu discurso de 1º de maio. o presidente Goulart — no discurso pronunciado perante o Congresso norte-americano e no comunicado conjunto dos presidentes do Brasil/EUA — procura tranqüilizar a opinião pública e os homens de negócios norte-americanos quanto aos caminhos a serem trilhados pelo governo brasileiro nos próximos anos. nas organizações de trabalhadores rurais. da sua extensão e das pré-condições legais à sua realização eram conflitantes. pela primeira vez.) o FMI e os outros principais credores do Brasil voltaram à sua atitude de esperar-para-ver dos últimos anos do governo Juscelino. Jango se opôs à forma moderada e . Embora não explicitamente.

Reconhece-se. indicado por Jango para presidir o novo gabinete. Como observou a autora acima. a sua . o que provocou a violenta reação dos setores de direita foi o apelo do presidente ao Congresso no sentido de este realizar uma reforma da Carta de 1946. unem-se proprietários rurais. O febril anticomunismo da direita brasileira jamais poderia perdoar-lhe o reatamento das relações diplomáticas do Brasil com a URSS. nessa data. que fazia parte da chamada "esquerda positiva".conciliadora pela qual o gabinete de Tancredo Neves vinha encaminhando o debate do anteprojeto de Reforma Agrária de autoria do ministro da Agricultura. congressistas liberais e conservadores. A vigência de tal preceito constitucional. notabilizara-se. seja porque significou o afastamento político do presidente da República face ao Conselho de Ministros e ao regime parlamentarista propriamente dito. in Brasil Republicano). a "revolução agrícola" deveria se fixar na "obediência aos preceitos constitucionais aliada ao interesse prioritário pelo estímulo à produção" (Aspásia Camargo. o conhecido usineiro pernambucano Armando Monteiro (PSD). pela condução da política externa independente. Sem o apoio do presidente da República. Na ótica desses grupos. "A Questão Agrária". As crises de Gabinete A formação do 2º gabinete parlamentarista implicou uma complicada batalha política para o presidente Goulart. A rigor. impedia — pelos altos recursos a serem despendidos pelo governo — a realização de uma Reforma Agrária que implicasse uma ampla redistribuição de terras àqueles que nela efetivamente trabalhavam. uniam suas forças para rejeitar o nome do petebista San Tiago Dantas. Apesar de ter criado importantes assessorias técnicas (Superintendência da Reforma Agrária. nos meses anteriores. Diante da proposta do presidente da República. igualmente. o início da intensificação da luta pela antecipação do Plebiscito. e o Conselho Nacional de Reforma Agrária). SUPRA. As razões da recusa eram evidentes: San Tiago. também. imprensa etc. A reforma constitucional reivindicada por Goulart visava basicamente a alterar o § 16 do Art. Os dois grandes partidos conservadores do Congresso. para denunciar a "reforma agrária radical" cogitada. segundo eles. o primeiro gabinete não chegou a enviar nenhum projeto de Reforma Agrária ao Congresso. na prática. 141 que condicionava as desapropriações de terra à "prévia e justa indenização em dinheiro". PSD e UDN. todos os membros do Gabinete Tancredo pediram demissão em junho. Sob o pretexto de terem de cumprir a exigência legal de desincompatibilização funcional a fim de poderem concorrer às eleições de outubro de 1962. por Goulart. o Gabinete Tancredo Neves tinha os seus dias contados. o discurso de Volta Redonda pode ser considerado como um importante marco político: seja porque representou o primeiro esforço concentrado do governo em torno da realização das Reformas de Base (o segundo momento dessa campanha ocorreria a partir de abril de 1963). setores da Igreja.

a greve foi igualmente vitoriosa pois. recebia voto de confiança no dia 13 de julho. estado onde se concentrou praticamente todo o movimento paredista. Nova derrota de Goulart e do gabinete. este conselho distinguiu-se basicamente por duas iniciativas políticas. a lei que instituiu o 13º salário. a elevação dos níveis de salário mínimo na base de 100%. a qualquer sanção contra Cuba socialista lhe valeria a pecha de "traidor da pátria". A greve — considerada pelo líder comunista Jover Telles como a maior da história do movimento operário brasileiro — foi igualmente vitoriosa pelo fato de o presidente Goulart sancionar. o Comando Geral do Trabalhadores (CGT). Goulart apresentou um outro candidato: Auro Soares de Moura Andrade. A primeira consistiu num projeto de lei enviado ao Congresso visando antecipar a realização do Plebiscito. Amad Costa. não cederam veículos de seu uso para transporte público e também participaram das negociações para a libertação dos líderes sindicais reprimidos pela polícia do reacionário governador da Guanabara. na madrugada de 15 de setembro (data fixada para a paralisação dos trabalhadores). propunha-se o dia 7 de outubro. nova greve geral seria decretada pelas lideranças sindicais. o senador do PSD desistia da sua indicação a primeiro-ministro. vinham defendendo a formação de um "Conselho de Ministros nacionalista e democrático". suspendia a greve. Posto que o governo prometeu realizar estudos no sentido de atender àquelas reivindicações. Além do mais. Carlos Lacerda (S. Embora tivesse uma extensão menor do que a anterior. . a sanção da Lei de Remessa de Lucros (aprovada pelo Congresso mas ainda não regulamentada pelo Executivo). No entanto. etc. por parte dos setores conservadores. tinha agora seu dia definido: 6 de janeiro de 1963. porém. Tratava-se de um gabinete de centro com orientação reformista. a greve não reivindicava apenas a convocação do referendum popular. presidente do Senado. CGT e as Lutas Sindicais Brasileiras). uma das principais reivindicações da greve geral. Nos seus dois curtos meses de existência. era um elemento da estrita confiança de Goulart. presidido por Brochado da Rocha (PSD). dentro da OEA. o Comando Geral da Greve (CGG) decretou uma greve geral em todo o país para o dia 5 de julho. uma semana depois. data marcada para as eleições da renovação do Congresso e escolha de alguns governadores de estado. os militares do I Exército — sob o comando do general nacionalista Osvino Alves — colaboraram com os grevistas. esta decisão desagradou as lideranças sindicais comprometidas com a luta pelas Reformas e que. O Plebiscito. No dia anterior. Diante da negativa face ao nome de San Tiago e da eminente aprovação do Conselho de Ministros a ser chefiado pelo conservador Moura Andrade. também. finalmente. Apesar da renúncia de Moura Andrade e dos insistentes apelos de Jango. O novo gabinete. Na Guanabara. inteiramente solidário na luta que este movia contra o parlamentarismo e a favor das reformas de base. a greve foi mantida. recentemente criado. pois.intransigente oposição. o Congresso aprovou um projeto conciliador dos pessedistas Gustavo Capanema e Benedito Valadares. No entanto. exigia. estando. Sendo forçado a buscar apoio no PSD. desde o mês de junho.

5 Anos que Abalaram o Brasil). bem como da burguesia associada ao capital multinacional. Victor. abuso do poder econômico. financistas. op. o Congresso cedia quanto à convocação do Plebiscito. empreiteiros e integrantes da velha oligarquia brasileira" (apud M. mas a sua maioria não abriria mão de sua condição de intransigente defensora dos interesses das classes proprietárias e dos setores politicamente conservadores e de direita. Como viria a assinalar mais tarde o último premier do governo parlamentarista: "Vivia-se no país uma atmosfera mais presidencialista que parlamentarista" (Hermes Lima — apud M. sobre as Reformas de Base. em sua maioria. A campanha do plebiscito O terceiro e último Conselho de Ministros. de latifundiários. Desta forma. Expressando os interesses dos proprietários e das associações rurais. regulamentação do direito de greve. Uma vez mais. Brizola se encarregaria de expressar a insatisfação dos movimentos populares e das correntes políticas nacionalistas e de esquerda: "O povo não poderia esperar outra coisa de um Congresso constituído.A segunda importante iniciativa do Gabinete Brochado da Rocha consistiu numa mensagem enviada ao Congresso na qual se solicitava a autorização deste para que o Conselho de Ministros pudesse legislar. Prevendo a iminente derrota no plenário do Congresso. Brochado da Rocha demitiu-se. ricos comerciantes e industriais representantes da indústria automobilística. através de decretos. A rigor. remessa de lucros. a aliança PSD/UDN fechava a questão contra a "delegação de poderes" pedida pelo gabinete. etc. . Hermes Lima. presidido pelo exministro do Trabalho. cit). a partir de meados de setembro de 1962. Bandeira. deve-se reconhecer que o Gabinete provisório — oficialmente empossado dois meses depois — estava inteiramente solidário com o mais importante objetivo político perseguido por Goulart naquele momento: articular as forças políticas e sociais do país a fim de derrotar o parlamentarismo na eleição plebiscitária de 6 de janeiro. Nesse sentido. o comando do Executivo passava praticamente para as mãos do presidente da República. duraria pouco mais de 4 meses.

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Em contrapartida. Nas últimas semanas de 1962. Cid Sampaio. importantes figuras da oficialidade militar posicionaram-se a favor da volta do presidencialismo. divergiam quanto aos seus programas e prioridades de governo — dificultava a tomada de decisões que a realidade econômica e social do país urgentemente demandava. A rigor. Entre eles se incluíam Juscelino Kubitschek.Pode-se afirmar que este gabinete esteve inteiramente envolvido com a campanha do Plebiscito. pois. O regime parlamentarista fracassou pois se revelou altamente ineficaz do ponto de vista administrativo. partido dos três últimos. como também pelo fato de ter-se constituído numa fonte permanente de crises institucionais e políticas. defendia a manutenção do parlamentarismo). aquelas interpretações que atribuem exclusivamente à "má vontade" ou ao "desinteresse" de Goulart a responsabilidade pela "triste sorte" que veio a ter o parlamentarismo no país. constituiu-se. Importantes figuras políticas nacionais (algumas delas particularmente interessadas em se candidatar. Excluída a direita mais ardorosamente anticomunista e antijanguista (a maioria da UDN IPES/ IBAD. assim. Não se sustentam. a luta pela retomada do presidencialismo significava. etc). Magalhães Pinto. no. simplesmente. NÃO aos exploradores do povo. depois de uma intensa e dispendiosa campanha político-publicitária contra o regime parlamentarista — comandada por Goulart e financiada por setores da burguesia brasileira —. um NÃO grande ao parlamentarismo". inúmeras foram as entidades e organizações que se empenharam na batalha política pelo retorno do presidencialismo. cerca de 13 milhões de eleitores compareciam às urnas. Durante a campanha do Plebiscito. Juraci Magalhães e Carlos Lacerda (a UDN. sendo majoritariamente conservador. rejeitava-se o regime implantado na crise políticomilitar de agosto de 1961. NÃO à carestia e à fome. para a sucessão presidencial de Jango) apoiaram ostensivamente a derrubada do regime parlamentarista. Ressalte-se que o gabinete presidido por Brochado da Rocha buscou agilizar as decisões no campo administrativo e econômico. dia 6 de janeiro de 1963. para os trabalhadores. Poucas razões igualmente tinham os trabalhadores para apoiarem o regime parlamentarista. imprensa conservadora. em eleições diretas. Leonel Brizola. num forte obstáculo ao . poucos "moveram uma palha" em defesa do parlamentarismo. Portanto. O Congresso que encerrava a sua legislatura em 1962. Numa proporção de 5 votos para 1. companheiro. assinalem o NÃO: NÃO à espoliação do país. mas as Reformas de Base e outras medidas que estavam previstas para serem implementadas esbarraram na intransigente oposição da aliança PSD/UDN. a CNTI (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria) conclamava os trabalhadores brasileiros a comparecer ao referendum: "Todos. além de disputarem o controle do Executivo. dar um "voto de confiança" ao presidente da República que vinha defendendo publicamente a realização de reformas fundamentais na estrutura da sociedade brasileira. No dia 6 de janeiro de 1963. O caráter híbrido e dualista do sistema — o presidente da República e o Conselho de Ministros.

em certa medida. foram bemsucedidos nesse intento. os dois maiores partidos conservadores apressaram-se em instituir no país um regime que lhes permitiria deter maiores possibilidades para o controle do Executivo.encaminhamento de políticas de caráter reformista oriundas do Executivo (seja da Residência da República. No entanto. . Como vimos. seja do Gabinete). o parlamentarismo — forjado a toque de clarim e em ritmo marcial — não resistiu às inúmeras crises políticas que seu funcionamento provocou e não conseguiu resolver. Na crise político-militar de agosto de 1961. pois conseguiram impor limites e barreiras à ação do Executivo reformista — reconhecidamente mais eficazes do que aqueles tradicionalmente utilizados em regime presidencialista.

A este respeito deve-se ressaltar que os tempos de Goulart constituíram-se em anos "extremamente férteis" na medida em que neles se processaram intensos debates sobre os rumos e direções que deveriam ser trilhados pela economia e sociedade brasileiras. julgava poder . petebistas do grupo "fisiológico" (San Tiago Dantas e José Ermírio de Moraes — um dos expoentes da chamada "burguesia nacional"). No Ministério encontravam-se políticos conservadores do PSD (Antônio Balbino e Amaral Peixoto). técnicos "apartidários" como Celso Furtado e militares "duros" como o gal. A política econômica não foi indiferente a este contexto social mais complexo" (Carlos Lessa. todas as indagações políticas resumiam-se na seguinte: conseguiria o governo presidencialista de Goulart superar a crise econômico-financeira. 15 Anos de Política Econômica) . bem como o exame crítico do Plano Trienal. aliviar as tensões sociais e afastar as crises políticas que vinham continuadamente desgastando a administração pública? Não seria exagerado afirmar que — entre os diferentes setores sociais — era praticamente consensual o reconhecimento de que da solução da crise econômicofinanceira dependia fundamentalmente o encaminhamento satisfatório dos demais problemas que afetavam o país. o Executivo anunciava que o seu Plano de Governo tinha condições de resolver em profundidade os impasses e as dificuldades enfrentados pelo conjunto da sociedade brasileira. A análise da composição do primeiro ministério presidencialista. A concepção e a execução do Plano Trienal — bem como as reações dos diferentes setores sociais e políticos a ele — contribuem de forma significativa para entendermos o que foi o governo Goulart. segundo o julgamento de um jornalista político. anunciavam muito expressivamente o estilo conciliador que iria predominar durante o governo Goulart — autêntico "governo de trapézio". não deixavam de ter orientações diferentes e. por vezes. Amaury Kruel.Um governo no trapézio No dia 23 da janeiro de 1963. do déficit da balança de pagamentos. Após o malogro da experiência parlamentarista. o Plano Trienal. Por outro lado. tendo sido elaborada pelo economista Celso Furtado (ministro do Planejamento). Como tende a ocorrer em todo regime democrático-burguês. antagônicas. As propostas que as diversas classes sociais e grupos políticos ofereciam para resolver os problemas da inflação. da continuidade do desenvolvimento econômico etc. Essa ambiciosa proposta foi denominada de "Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico-Social: 1963-1965". João Goulart reassumia os plenos poderes que a Carta de 1946 conferia ao presidente da República. um petebista do "grupo compacto" ou "ideológico" (Almino Afonso). nestes anos novos agrupamentos passaram a fazer ouvir sua voz no processo de decisão social. em que reduzidas minorias controlavam a formulação política. com a revogação da emenda parlamentarista. na sua formulação teórica. com a colaboração de San Tiago Dantas (ministro da Fazenda). Como observou um economista: "Ao contrário dos anos anteriores.

Quais os principais objetivos e propostas do Plano? Plano Trienal: "combater a inflação com desenvolvimento" Diante das duas mais importantes tendências do comportamento da economia brasileira no início dos anos 60 — "aceleração inflacionária" (37% em 1961 e 51% em 1962) e "desaceleração do crescimento"-(taxa de 7. de proprietários e trabalhadores assalariados. o Plano constituía-se numa nova capitulação ao latifúndio e ao imperialismo: não se propunha a eliminação dos subsídios ao setor latifundiário-exportador nem se reconhecia o papel inflacionário representado pelas remessas ao exterior de "juros. contudo. Destacava. lucros e royalties. não deixariam de ser objeto de intensas polêmicas. Como reconheciam os setores de esquerda. caso o plano de estabilização falhasse) — teria toda a sua atividade econômica paralisada e. Paralelamente a estes dois objetivos principais. Para as esquerdas.4% em 1962) —. nº 16). diretamente e através de isenções de impostos e favores cambiais" (H. amortizar dívidas com a entrada de capitais estrangeiros agravaria ainda mais o nosso endividamento no exterior.3% em 1961 e 5. in Estudos Sociais. Hoffmann. além do mais. Do lado do setor externo. Em relação ao setor público. Tanto a análise feita pelo Plano sobre as causas do processo inflacionário. o Plano pretendia contribuir para uma melhor distribuição dos frutos do desenvolvimento econômico. Contudo.harmonizar e satisfazer interesses contraditórios — de patrões e empregados. como as soluções ali apontadas. e a entrega de enorme soma de recursos públicos às grandes companhias estrangeiras. passaria a ser o palco de perigosas lutas sociais. que se o processo inflacionário não fosse reduzido a limites toleráveis. o Plano constituía-se num avanço em relação às teses ortodoxas dominantes. porém. o Plano Trienal. Enfatizava. o País — com uma iminente hiperinflação (prevista em 100% para fins de 1963. a estratégia adotada para reduzir a pressão inflacionária consistia num "conjunto de medidas de ação convergente". "O Plano Trienal e a Inflação". admitiam as esquerdas que era correta a afirmação segundo a qual a inflação era provocada pela drenagem de recursos de recursos para o exterior (através da "deterioração das relações de trocas") e pela transferência de renda (na forma de subsídios governamentais) para o setor exportador. a "redução do dispêndio público programado" como o mais importante fator responsável pela inflação . juntamente com "a redução das desigualdades regionais de níveis de vida". o Plano trienal pretendia compatibilizar o combate ao surto inflacionário com uma política de desenvolvimento que permitisse ao país retomar as taxas de crescimento do PIB (em torno de 7%) alcançadas durante o período de 1957 a 1961. conseqüentemente. os "remédios" propostos — "refinanciamento da dívida externa" e "entrada de recursos externos" para a amortização de empréstimos anteriormente contraídos — eram praticamente ineficazes como medidas antiinflacionárias. pois buscava combater o processo inflacionário "sem sacrifício do desenvolvimento".

a partir de 1958. provisoriamente. simplesmente.. nem reivindicações salariais nem a pressão por maiores lucros. no entanto. Logo nos primeiros dias de fevereiro um manifesto do CGT revelaria que seria tormentosa a administração do presidente Goulart. o apetite por lucros crescentes. tipicamente. que "o País não suportaria. em virtude do apoio que o Plano recebia de associações das "classes produtoras" (a Confederação Nacional da Indústria.. Nesse documento combatia-se a política financeira do Plano Trienal. houve uma acentuada deterioração do salário mínimo real. Como se verá mais adiante.. a realidade não deixará de dar razão a esses críticos. na prática. pois. dos latifundiários e dos grandes grupos econômicos nacionais. a dos trabalhadores assalariados. com a única exceção de 1961. San Tiago Dantas. "Crítica à Razão Dualista".) (Francisco de Oliveira. maiores sacrifícios às classes populares e trabalhadoras. Introdução à Revolução de 1964). Contra esta perspectiva. O entusiasmo governamental começou a se esboçar em fevereiro e março. Na perspectiva do governo. Um plano antipopular e capitulacionista Para o ministro da Fazenda.. Um crítico de esquerda assinalaria: "(. o Plano pedia aos trabalhadores — como sempre o fazem os planos de "salvação nacional" — "colaboração". contudo. Ora. "paciência" e "patriotismo". bem se sabia que tais reivindicações visavam. impunha. (Como mostrou um economista. e as medidas que se adotam para evitar que à conjuntura desemboque num colapso financeiro devem ter a compreensão e a colaboração dos dirigentes das classes produtoras e dos sindicatos de trabalhadores" (Carlos Castello Branco.. nivelavam-se.) o Plano Trienal visa a combater a inflação sem reduzir o crescimento econômico do país. Mas. de governadores de estados etc. de outro. suas greves e reivindicações — por salários mais elevados. no que se manifesta. as "boas vontades": de um lado. CNI).no País. que (novamente) "apertassem os cintos". o êxito da política econômico-financeira passava a depender da "compreensão geral das áreas oficiais e não oficiais" acerca da "dramática situação" que enfrentava o País. nos círculos oficiais.. Era voz corrente. assim. a inspiração da burguesia nacional. a dos empresários que deveriam moderar. ele sofreria seus primeiros e fortes abalos com as críticas vindas de setores sindicais e das organizações políticas nacionalistas e de esquerda. in Estudos Cebrap.) o nível de gastos públicos não pode ser comprimido se se quer que a economia se desenvolva" (Paul Singer. que deveriam deixar de pressionar — adiando.) Apesar da sua formulação teórica não considerar os salários como fatores inflacionários. críticos à esquerda advertiam: "(. Do ponto de vista dos defensores do Plano esta seria uma razão suficiente para que . recompor para a classe trabalhadora um nível de participação menos deteriorado na renda nacional. pois enquanto este deixava intactos os lucros fabulosos do capital estrangeiro. Análise Crítica do Plano Trienal). acima de tudo. por outro lado. no momento.

Mas. op. no segundo trimestre de 1963. Diante das "violentas críticas" destes setores — encampadas pela própria CNI — haverá.4 bilhões de cruzeiros contra a expansão projetada de 74. o que ocorria não era uma transferência de capitais dos EUA para o Brasil e.). US$ 2. "o que afetou definitivamente o esquema do Plano Trienal" (C. um escoamento de recursos do Brasil para os EUA". "grupo compacto" do PTB. sim. A verdade é. deixava. Em fevereiro. unânime por parte dos setores sindicais e populares e das organizações políticas de esquerda (CGT. pois. "O Plano Trienal e o Combate à Inflação".1 bilhões. As críticas avolumaram-se e se intensificaram a partir do momento em que as conseqüências da política de eliminação de subsídios ao trigo e ao petróleo (uma das medidas prioritárias no combate à inflação) começaram a ser sentidas pelos setores populares. o índice geral dos preços subiu 16%. etc. colidiu com os interesses de Goulart" (Moniz Bandeira. como o CGT.os trabalhadores o apoiassem.814 milhões e "saíram no mesmo período. porém.). Nos três primeiros meses de 1963. UNE. enquanto no mesmo período de 1962 o índice de aumento foi de 8%. cit. No caso brasileiro.os EUA. op. "na verdade. PUA.... A condenação ao Plano. Lessa. mas uma razão burguesa e. Os aspectos antinacionais da política econômico-financeira do governo Goulart ficariam também evidenciados quando das conversações entre Brasil e EUA acerca da negociação da assistência econômica norte-americana e refinanciamento da dívida externa. fevereiro de 1963). Entre 1947 e 1960 entraram (empréstimos e investimentos) US$ 1. Do lado dos empresários (particularmente da poderosa indústria automobilística concentrada em São Paulo) havia "queixas generalizadas de falta de crédito". de ser informado que. PUA. além de exigirem um compromisso formal por parte do governo brasileiro de que o plano "não ficaria apenas no papel". ao contrário. San Tiago Dantas viajava a Washington com um forte argumento para convencer o governo norte-americano a fornecer assistência financeira ao Brasil: o Plano Trienal era a decisiva prova de que o País passava a se enquadrar dentro do receituário econômico-financeiro propugnado pelo governo dos EUA e pelo FMI. portanto. cit. subsidiária da Bond & Share). calculou-se que o fim da política de subsídios aumentaria o custo do transporte em 40% e o preço do trigo e do pão em 177%. Novos Rumos. ao fortalecer as direções operárias mais independentes. o relaxamento da política monetária que fará os meios de pagamento crescerem de 179. etc).459 milhões sob a . Em março de 1963. na medida em que a "diretriz de Almino Afonso no Ministério do Trabalho. iria ter repercussões dentro do próprio Ministério. impuseram ainda uma nova condição para a concessão do empréstimo solicitado: o governo Goulart deveria resolver com a máxima urgência a questão da desapropriação da AMFORP (American Foreign Power. (Entre os políticos norte-americanos circulava a versão de que a chamada "ajuda externa" dos EUA era freqüentemente desperdiçada pela má administração aos governos latino-americanos. Duas cartas de Goulart foram entregues a Kennedy por intermédio de San Tiago Dantas: nelas o governo brasileiro comprometia-se a cumprir as duas exigências norte-ameri-canas. que esta não é uma razão suficiente. FPN. inaceitável para os trabalhadores" (Jacob Gorender.

inclusive os setores conservadores não lhe pouparam duras críticas.) Para tornar ainda mais complicada a situação do governo brasileiro nas negociações de Washington. Enquanto retirava os subsídios para o trigo e o petróleo e cortava alguns investimentos públicos.667 milhões.forma de remessas de lucros e juros. prometendo USS 314. O caso da compra da AMFORP — o "escândalo da AMFORP" como ficou conhecido na imprensa da época — transformou-se em grave problema político para a administração Goulart. Embora os "brios nacionalistas" do governo brasileiro fossem feridos — noticiou-se que San Tiago Dantas ameaçara abandonar as negociações com os EUA —. antes. op. (Em outubro de 1964. perfaziam um total de USS 1. constituindo-se em verdadeiro "ferro velho". pois. cit. caso as medidas de contenção inflacionária fossem efetivamente aqui aplicadas. o governo brasileiro anunciava. Apesar das duas cartas do governo brasileiro (onde se garantia o acatamento às exigências norte-americanas) e de uma solene declaração oficial que negava a existência de "esquerdistas" na assessoria governamental. Tais denúncias tiveram ampla repercussão Política. ao ser conivente com negociações que os grupos nacionalistas classificavam de autêntico "crime de lesa-pátria". Gordon enviados regularmente da embaixada norte-americana no Brasil — alertava a opinião pública de seu país sobre a "perigosa atuação de comunistas" dentro da assessoria técnica de Goulart. Castelo Branco adquiria a AMFORP. por ser ele um "refinado entreguista") tinham acertado com os representantes da empresa norte-americana o valor da transação: 188 milhões de dólares. os EUA aprovaram um empréstimo de apenas USS 84 milhões. protelando a realização da compra. "razões pragmáticas" fizeram com que as imposições norte-americanas fossem aceitas. o governo do mal. um porta-voz do Departamento de Estado — baseado nos relatórios de Mr. demonstrando eloqüente "boa vontade" para com os empresários e governo dos EUA. um volume considerável de dólares foi transferido do Brasil para os EUA.022 milhões. Rigorosamente. deveriam elas ser aprovadas por uma comissão do FMI. remessas de lucros clandestinas. Goulart recuou. Para os setores nacionalistas. em fins de abril. para desagrado do governo norte-americano. sob a rubrica Serviços. "acrescidos de US$ 1. estava-se diante de uma imensa negociata. que se ultimavam os entendimentos para a compra da AMFORP (que congregava 12 empresas de serviços públicos). San Tiago Dantas e Roberto Campos (que a esquerda nacionalista ironicamente chamava de "Bob Fields". um grupo de trabalho integrado por técnicos brasileiros (CONESP) — dissolvido logo a seguir por Goulart — avaliava os bens da AMFORP em torno de 57 milhões de dólares. O . deixando um saldo negativo da ordem de USS 645 milhões" que. as 12 usinas norte-americanas estavam obsoletas. exportávamos muito mais capitais do que recebíamos" — Moniz Bandeira. ou seja. cuja visita ao Brasil estava prevista para meados de 1963. Em suma.) O prestígio político de Goulart foi seriamente abalado neste episódio. conforme se verificou através do acordo Dantas/ Bell. contudo.5 milhões para o ano fiscal de 1964. além do preço extorsivo. Na mesma ocasião. sob o pretexto de combater a inflação. num período de 13 anos.

antipopulares e antinacionais das medidas concretas ali propostas. o governo — face às reivindicações de setores industriais — voltaria atrás em suas medidas de contenção do crédito. Razões econômicas e sociais impunham a . Afirmava o Plano. sim. inviabilizava-se política e economicamente. (Como se encarregavam de divulgar os confidentes e cronistas palacianos. no entanto. quando estava previsto apenas 40%. na visão dos governantes. Nem os emprésários. Fiscal. tomava uma decisão inteiramente contrária às projeções do Plano. Razão. apenas a partir do instante em que se começou a perceber o malogro do Plano Trienal. etc). Estado e Planejamento Econômico no Brasil). diante das fortes pressões dos assalariados. Urbana. ao lado do planejamento. a fim de que o capitalismo industrial brasileiro pudesse alcançar um nível de desenvolvimento superior.. nº 44). enfim. Administrativa. Eleitoral. Revista Brasiliense. pois.. por exemplo.) Reconhece-se. Qual seria. Em maio. análises feitas pelas esquerdas não apenas denunciavam o "cozimento em água fria das reformas" — amplamente agitadas por Goulart durante a campanha do Plebiscito —. Recorde-se que esta problemática fazia parte dos programas dos três gabinetes parlamentaristas e agora aparecia como um dos objetivos básicos do Plano Trienal. o Ministério da Fazenda. Houve. Goulart queria notabilizar-se na história política do Brasil como o "presidente da Reforma Social". As reformas: como garantir a propriedade e impedir a "convulsão social" Outra batalha política que esteve em pauta durante todo o governo Goulart foi a das Reformas de Base (Agrária. inflação sem desenvolvimento. tinham os críticos de esquerda quando — denunciando a retórica progressista do Plano — advertiam para os aspectos recessionistas. de forma mais enérgica. que as reformas fiscal e agrária eram essenciais se se pretendesse a "eliminação de entraves institucionais à utilização ótima dos fatores de produção". ao conceder um aumento de 70% aos funcionários civis e militares. "se não houvesse Reformas de Base (. antes de completar 6 meses de duração. que a bandeira das Reformas passou a ser empunhada pelo governo. significava isso — conforme o reconhecimento do próprio Plano Trienal — que as Reformas de Base eram indispensáveis. como também passavam a duvidar do conteúdo efetivamente transformador de que poderiam se revestir as propostas governamentais (Caio Prado Jr. nem os trabalhadores lhe ofereciam qualquer apoio. no período presidencialista. nem aceleração do crescimento foram alcançadas. O malogro do Plano se revelou de forma completa ao se proceder ao balanço do ano de 1963: nem desaceleração da inflação. Logo nos primeiros meses do ano.plano. como já foi mencionado. De outro lado. a perspectiva oficial acerca das Reformas de Base? Assinala um sociólogo que.. Bancária.) não se criariam as novas 'condições institucionais' para o desenvolvimento de outra etapa da economia brasileira" (Octavio Ianni.

se o número de proprietários rurais fosse elevado de 2 para 10 milhões. idêntica foi a reação desses grupos. op. acerca da concepção que este defendia de Reforma Agrária: "(. grifos nossos). queria fazer a Reforma Agrária para defender a propriedade e assegurar a fartura. realimentados pela aceleração da eclosão de conflitos rurais.urgente realização das reformas. A diferença estava no fato de que naquele momento Goulart não tinha ainda formulado oficialmente a sua proposta de Reforma Agrária e de Reforma Constitucional. ao mesmo tempo que se buscava criar um mercado interno mais amplo para os bens manufaturados. cit. Enquanto setores do PSD — apesar dos fortes compromissos do partido com os proprietários rurais — chegaram. a alteração dos preceitos constitucionais sob a alegação de que — caso isso viesse a ocorrer — corria-se o risco de ser invalidado o estatuto da propriedade privada no Brasil. no período parlamentarista. de setores da Igreja Católica. por exemplo. Ele dizia sempre que. conforme assinalou um historiador. a UDN fechava a questão contra qualquer alteração constitucional. de um lado. Tais temores eram. e simultaneamente possibilidades maiores seriam abertas a mais gente de comer mais. de se educar melhor. Apesar de não ter nenhum sentido revolucionário. sem dúvida. De outro lado. num primeiro momento. particularmente no Legislativo. latifundiário. a Reforma Agrária proposta por Goulart será objeto de intensa e constante oposição por parte dos proprietários rurais e seus setores políticos. educacional etc. de outro lado.) Tais setores não admitiam. Além do mais. pois. correspondendo. que cada vez mais se orientavam para a ocupação de terras" (Aspásia Camargo. a aceitar a discussão do anteprojeto do Executivo. evitando o desespero popular e a convulsão social" (Darci Ribeiro. prevendo-se situações incontroláveis de tensões e distúrbios sociais. à estratégia da dominação social burguesa. É exemplar a este respeito o testemunho de um dos mais íntimos colaboradores de Goulart. não por seus defeitos".. (Recorde-se que. a propriedade seria muito melhor defendida. sem dúvida. matérias-primas para a expansão industrial etc). de viver mais dignamente. "Governo Goulart caiu por suas qualidades. propunha-se uma melhor redistribuição da terra (em mãos de um reduzido número de latifundiários e freqüentemente mantida de forma improdutiva).. era preciso aumentar a produção agrícola (alimentos que suprissem as demandas da população urbana em crescimento. dentre elas a que mais debates provocou naquele período: a Reforma Agrária. in A História Vivida II — O ESP. as demais reformas propostas (eleitoral. a .). De um lado. A preocupação política maior das classes dominantes diante das possíveis mudanças no campo são ressaltadas por uma estudiosa: "Havia. Por isso é que Jango.. o incontrolável temor de se ver ingressar na cena política camadas sociais constituídas em 'clientelas políticas' que pudessem ser enquadradas.) o que Jango tentava fazer não tinha nada de muito ousado nem de radical. etc..) poderiam implicar a "alteração do equilíbrio político" e permitia até então a hegemonia das forças conservadoras e de direita. Mas. tal como o fora a classe operária com Getúlio Vargas. às necessidades da consolidação do capitalismo industrial e.

ao mesmo tempo que denunciam o reacionarismo do Congresso controlado pelo PSD UDN e pelo "milionário IBAD". criticavam Goulart pela sua indecisão e indefinição em relação a uma série de medidas concretas de caráter nacionalista e popular que poderiam ser tomadas pelo governo. Tal fato mostrou-se de forma evidente na votação da "emenda Bocaiúva" (emenda constitucional.) Idêntica missão foi confiada a Tancredo Neves (PSD) ao ser indicado líder da bancada do Governo na Câmara. ilustres figuras do partido defenderam a intervenção das Forças Armadas e dos EUA a fim de porem termo ao "comunismo legal" de Goulart. FMP. assim. o fosso entre o PTB e o PSD aprofundava-se na razão direta da aproximação deste com a UDN. UNE. Em busca de apoio. a emenda seria rejeitada na Comissão Especial da Câmara. o PSD recuará definitivamente face às suas primeiras conversações com o governo. esta reunião da UDN teve um papel decisivo: nela. tornavam a questão agrária em autêntico "negocio agrário". a partir do veto na Comissão Especial. comandados principalmente pela Confederação Rural Brasileira(CRB). serão infrutíferos os esforços do novo ministro da Justiça. afastou toda a "assessoria gaúcha". os setores nacionalistas e populares exigem "reformas já!". os setores nacionalistas desencadeariam uma campanha de pressão nacional sobre o Congresso para a imediata aprovação das reformas. figura de relevo do PSD. os setores nacionalistas e de esquerda. em outubro. aceita mudanças no anteprojeto de Reforma Agrária do executivo. mas "engavetada" pelo Executivo). Através de comícios. Por 7 votos (PSD. Entre essas medidas — algumas delas defendidas pelo próprio presidente em seus discursos — ressaltavam as seguintes: regulamentação da Lei de Remessa de Lucros (aprovada pelo Congresso. frigoríficos e . Porém. passeatas. a "desordem" e a "comunização crescente do país" promovidas — segundo estes — por Goulart. Goulart — apesar das fortes críticas vindas dos grupos nacionalistas e de esquerda — volta-se novamente para o PSD. pelo PTB e pelas "forças subversivas" (CGT. Abelardo Jurema. moinhos. aceitável para o conservadorismo do PSD. Em Plenário. a emenda foi derrotada. manifestos. graças à aliança PSD e UDN — após intensa mobilização dos proprietários rurais. no mês de maio. (Na cronologia do golpe de 64. que não concordava em fazer "concessões programáticas" no anteprojeto.) Influenciado pelas manifestações das chamadas "bases" da UDN. etc). Para isso.posição do PSD será outra a partir da Convenção da UDN realizada em abril de 1963. os quais se alarmavam com a "agitação social".) De outro lado. independentes de qualquer reforma constitucional. (Jurema sintetizaria a visão conciliadora do governo através de uma famosa frase: "O PSD sem o PTB irá para a reação. (Brizola diria que o PSD e a UDN. nacionalização das concessionárias de serviços públicos. De outro lado. o PTB sem o PSD irá para a Revolução". UDN e PSP) contra 4 (PTB e PDC). a fim de torná-lo "menos radical" e. Como ainda observaria a autora acima. Porém. ao exigirem o pagamento prévio e em dinheiro. apresentada pelo PTB. após ter sido batido na Comissão Especial. a quem foi atribuída a específica tarefa de articular a antiga aliança PSD/PTB. vinculada politicamente a Leonel Brizola. que buscava tornar financeiramente viável a Reforma Agrária).

SP. Explicitamente eram indicadas algumas das situações internas que perturbavam a ordem institucional: "manifestações coletivas de indisciplina" nas polícias militares de alguns estados. por outro lado.indústria farmacêutica. usou a típica linguagem de direita ao proibir um congresso "comuno-fidelista"). monopólio das operações de câmbio pelo Banco do Brasil. pois o governo reservava os cargos mais importantes da administração federal (particularmente aqueles responsáveis pelapolítica econômico-financeira) apenas para os representantes das classes dominantes. A ambigüidade e a debilidade política do governo se mostrariam de forma definitiva no episódio do Estado de Sítio. intervenção no mercado de gêneros alimentícios. pois. as freqüentes reivindicações salariais que passavam a "ser fatores de agravamento da crise político-social" (na ocasião ocorria a greve dos bancários em São Paulo e o PUA anunciava a decretação de uma greve geral caso aquela paralisação fosse julgada ilegal por parte da justiça trabalhista) e. afastava colaboradores ideologicamente progressistas. O isolamento e debilidade política do governo A sucessão de crises políticas advinha das contradições em que se debatia o governo: ao mesmo tempo que agitava a bandeira do nacionalismo e das Reformas — solicitando. o Congresso apresentaria em 1963 um dos seus períodos de maior improdutividade legislativa. monopólio das exportações de café pelo IBC. da mesma forma. indicava também "duros" das Forças Armadas para estratégicos postos de comando e mantinha compromissos com o conservador PSD. Administrativamente pouco se realizava. etc. na cidade de Marília. As concessões à reação não se reduziam a estes fatos. havia — do ponto de vista administrativo — "uma pasmaceira geral contaminando todas as hostes governistas". ampliação do monopólio estatal do petróleo. o fato de existirem governadores de importantes estados "conspirando contra a Nação". Sob a permanente desconfiança da direita e da esquerda. pois o governo se consumia em sucessivas crises políticas. condenava abertamente iniciativas políticas de esquerda (em abril de 1963. o presidente da República encaminhava ao Congresso mensagem solicitando a decretação do Estado de Sítio em todo o território nacional. . Esta realidade dava munição aos setores de direita que alardeavam a "incompetência administrativa" do Executivo e a "crise de autoridade". A justificativa do Ministério da Justiça esclarecia que o Executivo necessitava de poderes especiais para impedir "grave comoção intestina com caráter de guerra civil" que punha em "perigo as instituições democráticas e a ordem política". por fim. protelava indefinidamente a realização de medidas populares. o apoio das massas populares e dos setores políticos de esquerda — Goulart. Como assinalavam os observadores políticos. o governo Goulart acabaria isolando-se politicamente. combatia os setores independentes (não pelegos) do movimento sindical. pelo prazo de 30 dias. No dia 4 de outubro. "sublevação de graduados e soldados" (Revolta dos Sargentos) que punha em risco a disciplina e hierarquia militares.

havia ridicularizado a autoridade do presidente da República. posteriormente. poderia "rolar a cabeça" do governador de São Paulo. imediatamente. além de insinuar que os militares brasileiros estavam confusos e desorientados diante de uma administração inteiramente "desastrosa" para o país. Embora a denúncia fosse negada por oficiais militares. indagavam os setores de esquerda: quem garantiria que Miguel Arraes também não fazia parte da "lista de saneamento" elaborada pelos militares. Mas. que havia escapado. caso manifestasse solidariedade ao seu aliado da Guanabara. presidido por um "totalitário à moda sulamericana" e que "descambava para a esquerda". Não havia dúvida de que o Estado de Sítio objetivava. Coerente com a "vocação golpista" de seu partido. a UDN e o PSD conseguiram aprovar a constituição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito a fim de apurar a denúncia de Lacerda. de um atentado por parte de um comando páraquedista a mando de Goulart. naqueles dias. em entrevista a um jornal norte-ameri-cano (Los Angeles Times).A ira de Goulart e de seus ministros militares voltava-se particularmente contra o governador da Guanabara que. com a inteira complacência de Goulart? Idêntica pergunta faziam as lideranças sindicais e populares de todo o País acerca do destino que viriam a ter as organizações em que militavam. . Adhemar de Barros — acusado de fornecer armas (contrabandeadas da Bolívia) a grupos paramilitares ("milícias patrióticas"). (Carlos Lacerda afirmaria. a intervenção na Guanabara e a conseqüente derrubada do conspirador-mor da UDN. Carlos Lacerda conclamava o Departamento de Estado a deixar de lado sua "passividade" face à grave situação em que se encontrava o Brasil.) Logo a seguir.

então. as esquerdas — que não deixavam de denunciar a trama golpista da direita — levantavam suspeitas e desconfianças face ao governo.Embora por razões distintas. Levavam em conta. como assinalou um cronista político. Na visão da direita era Goulart quem o articulava através de seu "dispositivo militar" e com a colaboração de setores de esquerda. tal como o fizera Getúlio Vargas em 1937. para a efetiva realização das Reformas de Base e para se impedir o golpe. por seu lado. o fantasma do golpe de Estado. uma nota do CGT: "Somos. as esquerdas entendiam que não lhes convinha romper politicamente com Goulart. Ainda no mês de outubro. Esta também seria uma condição fundamental. todos os grupos políticos e associações de classe — à direita e à esquerda — opuseram-se à concessão do Estado de Sítio (apenas os setores "pelegos" do movimento sindical e fração do PTB tradicionalmente fiel a Goulart tentaram o apoio inútil à medida de força).! Alguns fatos pareciam comprovar essa observação: substituição de Bocaiúva Cunha ("grupo compacto") . face a uma "ditadura esquerdizante". autorização da chamada "operação Arraes" (treinamento o IV Exército. concedida em novembro a uma revista de ampla circulação em todo o País. Embora criticassem o governo. cujo objetivo foi o de fazer uma "clara advertência" ao "governador esquerdista" de Pernambuco) e a condenação. Uma longa entrevista de Goulart. ao mesmo tempo que provocava contundentes críticas da direita (os líderes da UDN . Afirmava. era vincular-se de forma inequívoca e definitiva com os setores populares e progressistas. estaríamos. por Doute1 de Andrade. Novamente a esquerda nacionalista buscaria convencer Goulart de que a sua única "saída". via no Estado de Sítio uma tentativa de golpe tramada por Goulart a fim de permanecer no poder. argumentavam os setores de esquerda. para tal decisão. o avanço golpista da direita. contactos com o PSD. diante do seu crescente isolamento político. ressurgiria. por parte do governo. Diferentemente da ditadura estadono-vista. por exemplo. de um congresso das forças populares e de esquerda programado para fins de outubro em Recife. verberando o "golpe de Jango". em virtude de suas constantes "idas e vindas". mais vigorosamente ainda na cena política. Enquanto a direita promovia uma sistemática campanha alarmista. as esquerdas se sentiriam "abandonadas por Goulart". Os setores nacionalistas e de esquerda viam no Estado de Sítio uma grave ameaça às liberdades democráticas e aos movimentos progressistas. contrários ao Estado de Sítio porque entendemos que a manutenção e ampliação das liberdades democráticas são meios insubstituíveis e necessários às lutas contra os inimigos do Brasil e aos interesses da povo". por princípio. A direita. proclamavam os setores de direita. Quem dará o golpe? Nos meses seguintes ao frustrado pedido de Estado de Sítio — retirado pelo governo tão logo se deu conta da fragorosa derrota que sofreria no Congresso —.

no "novo governo". deveria estar garantida a "participação de representantes das 'forças populares' em (seus) setores fundamentais".. Durante o mês de dezembro.). Para o Ministério da Fazenda foi designado um banqueiro.identificavam no depoimento do presidente um "esforço de preparação de ambiente subversivo"). por outro lado. nacionalista e progressista". fiel à sua formação política e aos compromissos que tem com as massas trabalhadoras. capaz de elaborar e executar um programa democrático. afirmava a nota do governador de Pernambuco: "(. tratava-se de um burocrata "despreparado para o cargo". além de bloquearem suas relações comerciais com o país (Carlos Castello Branco. PSD e UDN ameaçaram com represálias imediatas. deseja superar nossa aguda crise interna e manter nossa política externa independente. com este ato. por algumas semanas. Goulart reiterou a urgência das reformas ("desejo evitar que a crise caminhe para um desfecho caótico e subversivo"). Para a direita. Interpretando recente decisão política da Frente de Mobilização Popular. responsabilizou a "deterioração das relações de trocas" como principal causa das dificuldades cambiais do País e defendeu enfaticamente a "intervenção dos trabalhadores na vida pública". iria expressar o programa das forças populares face ao governo. tentando revitalizar algumas medidas de estabilização propostas pelo Plano Trienal. (Afirmavam os "brizolistas" que o novo ministro. Segundo era voz corrente. Miguel Arraes. op. em substituição a Carvalho Pinto. No depoimento.) Governadores de Estado (com a exceção de Pernambuco. em tom pessimista e quase patético. o rompimento de um . a nomeação teria o sentido inequívoco de uma "provocação" e seria a prova definitiva da consolidação da esquerda dentro do governo.. Depois de alimentar.) se o presidente da República. No plano internacional. decretaria a "moratória no plano internacional". que se alarmava com a intensa mobilização popular (um dos slogans dizia: "Contra a espoliação. após se referir ao importante depoimento de Goulart. A certa altura. Sergipe e Piauí). ele precisa apoiar-se nas 'forças populares' e com elas estabelecer um novo governo. cit. o próprio Goulart — que tinha ainda vivo na memória o episódio da desastrada indicação de "Bejo" (Benjamim Vargas) para a chefatura de polícia do Distrito Federal em 1945 — encarregou-se de "jogar água fria" na febril agitação dos brizolistas. assim. a FMP — particularmente o seu setor "brizolista" — acalentou a esperança de ver Brizola ocupar o cargo de ministro da Fazenda. segundo esses setores. pois Carvalho Pinto — tido como um eficiente administrador — vinha. Brizola é a solução"). Mais abaixo era esclarecido que. os EUA — através da embaixada no Brasil — declaravam que suspenderiam todas as operações de financiamento e assistência. denunciou as "forças reacionárias" antireformistas. reforçar as expectativas das esquerdas de influírem sobre a composição de um novo Ministério e de um novo programa de governo. um "homem de centro-direita" (Brizola diria que. Goulart afastava as forças populares da "ante-sala do Ministério da Fazenda"). logo após a sua posse. A demissão de Carvalho Pinto representou. as ilusões das esquerdas. Igualmente tal decisão desagradou frações das classes dominantes. ia. Nei Galvão.

o déficit da caixa do Tesouro Nacional atingiu 500 bilhões de cruzeiros (previa-se 300 bilhões). a política deixou de ser privilégio do parlamento. num curto período de tempo. a taxa do PIB chegou ao ponto mais baixo que se conhecia nos últimos anos. os meios de pagamentos cresceram de 65% (previa-se 34%). para alcançar de forma intensa a fábrica. do governo e as classes dominantes. Os "tempos de Goulart" singularizamse dentro da história política brasileira: neles. 1. o campo. O balanço do ano de 1963 revelaria de forma dramática o fracasso da política econômica do governo: o índice geral dos preços alcançou 78% (previa-se 25%). o quartel.5%.dos últimos elos que a burguesia brasileira ainda mantinha com o governo de Goulart. . ao surgimento de tantos movimentos reivindicatórios. o descontentamento passa a ser generalizado: nunca o País assistiu. Sem crescimento econômico e com uma vertiginosa inflação.

a lei de remessa de lucros. etc. O Sistema Partidário Brasileiro). em toda a sua extensão. a correlação de forças existentes no interior da formação social.A POLITIZAÇÂO DA SOCIEDADE — ESQUERDA E DIREITA MOBILIZAM-SE O recrudescimento da luta de classes no início dos anos 60 foi responsável por uma intensa politização de inúmeros movimentos sociais. freqüentemente. assistiu-se à formação de "esdrúxulas" alianças entre o PTB e UDN. contrariamente às perspectivas da maioria dos membros do partido — comprometida com a defesa dos grandes proprietários rurais e dos "industriais tradicionais" —. como o número de alianças e coligações (em alguns estados. — teses a que se opunha energicamente a ortodoxia reacionária dos setores dirigentes do partido (Maria Victoria Benevides. 47% dos eleitos pela Câmara Federal vieram de coligações). O PSD — partido que sempre se beneficiou da máquina administrativa do Estudo (no nível federal e estadual) — não deixou de ter os seus "dissidentes". Igualmente era reconhecido que tais agremiações políticas reproduziam com pouca fidelidade a diversidade das tendências e dos conflitos ideológicos que perpassavam a realidade social do País (O. anti-reformismo) e acerca do nacionalismo (antiimperialismo. verificou-se tanto um aumento do número de votos em branco e nulos ("votos de protesto").. a política externa independente. a "ala moça". nas duas últimas eleições. a democratização do ensino. A crise do sistema partidário: FNP versus ADP A "crise de representatividade" dos partidos políticos evidenciava-se por alguns sintomas característicos. A UDN e o Udenismo). além de implicar transformações no sistema partidário e na vida parlamentar. cujos pontos de vista sobre aquelas questões eram. que defendeu as Reformas (inclusive a reforma constitucional). entreguismo) implicará na divisão dos grandes partidos em alas e facções. Brasil de Lima Jr. ao contrário dos outros dois partidos. teve um significativo . os dois maiores partidos conservadores do País (PSD e UDN) — em 1962 detêm. este pequeno núcleo do PSD condenava o anti-reformismo visceral de suas "elites" e apoiava as Reformas de Base e algumas propostas nacionalistas. juntos. A UDN também teve a sua ala progressista: a "Bossa Nova". irreconciliáveis. "modernização-conservadora". A luta ideológica de classes — que se expressava pelo confronto entre diferentes orientações acerca das reformas sociais ("radical". Uma das dimensões da crise do sistema partidário brasileiro residiu no fato de que os partidos políticos legais — em número de 13 nas eleições de 1962 — mostravam-se incapazes de refletir. 54% da representação na Câmara Federal — refletiram em suas fileiras a polarização ideológica que ocorreu no período de Goulart. Neste sentido. nacionalismo moderado. O PTB — que.

não aos partidos aos quais pertenciam. igualmente se encontrava fraccionado. respectivamente.. FPN e ADP. passaram a ter existência nominal (. suas decisões encaminhadas por estas duas entidades.)" (Abelardo Jurema. principalmente na Câmara. pragmática. na verdade. realizava-se. tratava-se de uma "esquerda positiva" — "construtiva". O chamado "realinhamento do sistema partidário". o "grupo compacto" identificava-se com os demais setores da esquerda nacionalista brasileira.crescimento em todo o período liberal-democrático —. "progressistas" e "conservadores" que atuavam nos diferentes partidos políticos. Enquanto o primeiro procurava manter uma linha de independência face ao comando populista de Goulart. a ADP tinha seu núcleo básico proveniente da aliança PSD/UDN/PSP e dos demais pequenos partidos. sem a menor restrição. pois.) estas duas frentes parlamentares. o "grupo compacto" destacou-se por uma negação da tradicional política clientelística desenvolvida pela "velha guarda" petebista que controlava a burocracia sindical e a máquina da Previdência Social. que acumulava também a função de presidente nacional do PTB. A Frente Parlamentar Nacionalista (FPN) e Ação Democrática Parlamentar (ADP) surgirão na cena política com o propósito de articular. Esta facção do partido postulava a realização de reformas sociais "não radicais" e. "não ideológica". entendia este grupo que o PTB deveria ter uma atuação política que correspondesse a uma orientação ideológica mais nítida e mais definida.. Quase que os partidos desapareceram e as lideranças. Sexta-feira 13). O partido — cujos quadros provinham principalmente do Ministério do Trabalho — apresentava-se dividido em duas grandes facções: o "grupo compacto" (ou "ideológico") e o "grupo fisiológico". através desses dois "superpartidos" dentro do Congresso. Na formulação de San Tiago Dantas. a política de conciliação do presidente da República. de governo e de oposição. em muito concorreram para a balbúrdia que se instalou no Congresso. . Por seu lado. Ao defender a realização de reformas de base de cunho radical e propugnar medidas político-econômicas de caráter anti-imperialista. defendia uma maior aproximação com o PSD. o segundo aceitava. Até mesmo alguns deputados do PTB — de uma diminuta "ala direita" — alinhavam-se com o reacionarismo e o entreguismo da ADP. assim. a fidelidade dos parlamentares era dada. Nas votações em plenário. nos anos 60. Esta situação levava algumas lideranças políticas conservadoras a lamentar a debilidade dos partidos e a "desordem" da vida parlamentar: "(. Os mais importantes projetos e discussões que passavam pelo Legislativo tinham. Enquanto a FPN reunia a maioria dos deputados federais do PTB e do PSB (mais os setores "nacionalistas" do PSD.. UDN e PDC). para isso. Contra o "fisiologismo". mas a uma daquelas organizações. na demonstração eloqüente do aguçamento das contradições sociais e da conseqüente intensificação da luta ideológica de classes no seio da formação social brasileira. Tais organizações suprapartidárias constituíam-se.. em muitas ocasiões. durante todo o governo Goulart.

elas alcançaram seus mais significativos desdobramentos a partir do momento em que envolveram outros setores da sociedade brasileira. uma tentativa no final frustrada pela Justiça — do então ministro do Trabalho. a Igreja. No mês seguinte. lideranças comunistas e trabalhistas que apoiavam o governo de Goulart criaram o Comando Geral de Greve a fim de coordenar uma greve nacional em defesa de um "gabinete nacionalista". no governo Kubitschek. o CGT e outros organismos de alianças intersindicais tiveram uma intensa atuação política. negação do Estado de Sítio. no triênio 61/63. no entanto. o Fórum Sindical de Debates de Santos (SP). De um lado. o CPOS. assistiu-se à formação de diferentes organizações de coordenação que agrupavam sindicatos de tendências diferentes" (L. ameaçada pelos EUA por ocasião da "crise dos mísseis".. No triênio 61/63. o PAC. etc. Da mesma forma que as demais uniões sindicais. foi o seu crescente engajamento nas lutas partidárias dessa conjuntura de crise. Algumas das razões dessas decisões foram: defesa da posse de Goulart em. por ocasião do IV Encontro Sindical Nacional. em abril de 63. alcançou um dos seus momentos de mais intensa atividade (de 1958 a 1960. apesar dos veementes protestos das classes dominantes. O sindicalismo brasileiro. apoio aos sargentos. defesa da Revolução Cubana. etc. de outro. os militares. agosto de 1961. os líderes do CGT eram freqüentemente reconhecidos como interlocutores do presidente da República e de importantes lideranças políticas do País.. no sentido de legalizar esta central sindical nacional. pelo contrário. o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) nasceu de movimentos grevistas: em 5 de julho de 1962. etc. Martins Rodrigues. Almino Afonso. Sindicalismo e Classe Operária). porém. enquanto nos três anos seguintes foram deflagradas um total de 435 paralisações). estariam os trabalhadores urbanos e rurais. Para afronta dos setores de direita. os empresários. pressão sobre o Congresso para a aprovação das Reformas de Base. pressão para convocação do Plebiscito. os soldados. em fins dos anos 50 e início de 60. . não estiveram reduzidas à esfera político-institucional. Foi assim que surgiram. Embora contrariasse a legislação sindical brasileira — que ainda hoje proíbe a criação de organizações sindicais horizontais — o CGT funcionou até abril de 64. tinham ocorrido no País cerca de 177 greves. Daí a fama que passaram a ter de "Quarto Poder" da República. os estudantes. o que mais distinguiu o movimento sindical nestes 3 anos. o PUA.A politização à esquerda A luta política e a luta ideológica. "O envolvimento dos sindicatos nas lutas políticas tornou mais urgente a necessidade de unificar a ação dos sindicatos cujas direções seguiam a mesma orientação política. Diversos acontecimentos e circunstâncias políticas levaram o CGT e estes órgãos a decretarem (ou ameaçarem) greves políticas. inclusive. três mil trabalhadores propuseram a transformação do CGG em CGT. Deste modo. na medida em que as disputas ideológicas envolviam o sindicalismo brasileiro. houve.

como a ele se referia Jango) ficou definitivamente evidenciada quando. o controle político da entidade por parte de comunistas e petebistas de esquerda sempre foi aceito com muitas reservas por parte de Goulart. do que um organismo sindical propriamente dito" (L. cit. Erickson. Ressaltou um pesquisador que a maioria das greves políticas alcançou sucesso quando obteve o "apoio tácito dos militares". Sindicalismo no Processo Político do Brasil). a classe operária brasileira assistiu — sem nenhuma resistência — à preparação e ao desfecho dó golpe antipopular e antioperário. Razão parece ter um estudioso quando observa: "o CGT foi mais uma organização política das lideranças comunistas e nacionalistas. em abril de 1964. A politização dos movimentos de trabalhadores do campo igualmente se constituiu numa realidade nova dentro da história política brasileira. apoiando-o publicamente na maioria de suas iniciativas políticas. Nazareth Wanderley. dando origem ao que se chamou globalmente de 'movimento camponês'" (M. Como comprovação desta última afirmativa. De outro lado. entre outras. A debilidade político-organizativa deste chamado "Quarto Poder" (ou "V Exército". do apoio de Goulart à fracassada UST e ao arquipelego Ari Campista por ocasião da eleição para a renovação da diretoria do CNTI. por exemplo. Capital e Propriedade Fundiária). Martins Rodrigues. em 1963. As Ligas Camponesas nasceram da resistência — muitas vezes armada — dos foreiros (pequenos agricultores e não proprietários) contra a ten- . —. sendo praticamente nula a participação do operariado de São Paulo (empresas privadas. pela defesa das liberdades democráticas. etc. pela ampliação do papel do Estado na economia. a amplitude que assume a proletarização da força de trabalho e suas repercussões na conjuntura política do momento permitiram que se manifestasse uma reação massiva dos foreiros e dos trabalhadores rurais. tentativas foram feitas pelo governo para "criar a sua própria base no meio sindical" – foi o caso. Igualmente é sublinhado o fato de tais greves coincidirem com períodos onde ocorria um pronunciado declínio do salário real. op. Ou seja. o CGT colaborou estreitamente com o governo. o CGT deixou de realizar um trabalho permanente junto às bases sindicais. pois "a inflação predispunha os trabalhadores a sair às ruas" (K. cita-se. Contudo. absorvido pelas grandes batalhas nacionais — lutas pelas reformas estruturais. pela limitação do capital estrangeiro espoliativo. a preocupação secundária do CGT com o fortalecimento dos sindicatos no interior das empresas. destinada a ampliar seu poder de pressão na coligação nacional-populista.). deve ser observado que as greves políticas deflagradas pela organização tiveram êxito apenas junto às empresas estatais ou controladas pelo governo. nacionais e estrangeiras) nessas paralisações de caráter político.Não obstante tenha demonstrado uma relativa independência face ao comando de Goulart e de sua assessoria sindical — particularmente por ocasião de algumas crises políticas e durante a realização de algumas greves —. Tal compromisso era justificado pelo fato de a ideologia nacional-reformista elaborada pelo PCB e hegemônica dentro do CGT ser convergente com as propostas reformistas do governo Goulart. "No final dos anos 50.

através de comícios. tais organizações tivessem uma orientação distinta à das Ligas — partindo do pressuposto de que no campo predominavam relações capitalistas. movida pelos proprietários. o inimigo é o latifundiário". tal como era caracterizado nessas matérias — onde se enfatizava também a Presença de "perigosa literatura subversiva" no seio das Ligas —. cit. diminuiu consideravelmente a importância política das Ligas.. no padre. igualmente não se concretizou. Como observou a autora acima. a dominação política e econômica a que estavam secularmente submetidas as massas rurais.. a principal bandeira empunhada pelas Ligas foi a Reforma Agrária Radical. um controle mais direto sobre as atividades sindicais dos trabalhadores rurais —. setores da Igreja católica fomentam a criação de sindicatos rurais "democráticos". as Ligas tiveram uma acelerada expansão em todo o Nordeste. a escola. a partir de 1962. o hospital. N. o 13º mês. deputado federal por Pernambuco. clamam pela realização das Reformas de Base. progressivamente os sindicatos incorporam em suas reivindicações a luta pela Reforma Agrária. No entanto. Embora. irá na frente. Wanderley. etc. manifestos. que não depende do Ministério do Trabalho. pressões diretas sobre o Congresso. a maternidade. os sindicatos buscavam reforçar a "consciência proletária" dos trabalhadores rurais. no comunista. durante muito tempo. diante da expansão do sindicalismo rural. Com orientação ideológica antagônica à dos movimentos populares de tendência esquerdizante. passeatas. O essencial é a terra" (M. são migalhas. as Ligas associam-se às demais organizações políticas de todo o País que. abrindo o caminho e lembrando a todos que nem o salário. as férias. no industrial. —.. a atuação concreta de ambas tornou irrelevantes as suas diferenças ideológicas. de 1959 a 1962. de início. Após a promulgação do Estatuto do Trabalhador Rural (março de 1963) — do qual um dos significados é a tentativa do Estado de exercer. e o que entra no Sindicato permaneça na Liga(. estimular as greves. ocorreram conflitos armados entre "camponeses" e proprietários de terra. alarmados com a politização das massas rurais. Look etc]).tativa de expulsão das terras onde trabalhavam. As Ligas contestavam. grifos nossos).. nem o 13º mês são suficientes. cuja legendária fama advinha da liderança que exercia sobre as Ligas. postulam que os trabalhadores .) A Liga. Julião propõe que as Ligas se constituam na vanguarda política dos sindicatos rurais. as indenizações. lideranças camponesas serão perseguidas e assassinadas a mando dos latifundiários. estava a um passo de uma "guerra camponesa". Em algumas localidades. Para Francisco Julião. O Nordeste faminto e sedento. "Quem faz parte da Liga. Neste sentido.) O Sindicato pedirá o aumento dos salários. O vanguardismo que Julião a elas pretendia conferir.. abertamente. uma casa decente (. a luta é contra o latifundiário: "não vemos inimigo no soldado. Condenando Julião e as lideranças de esquerda. (Julião e as Ligas Camponesas. os trabalhadores rurais organizam-se através de sindicatos. op. no estudante. foram objeto de extensas reportagens em conhecidas revistas semanais do País e do exterior [Time. Na luta pela Reforma Agrária. entre no Sindicato. deve-se reconhecer que.) Paralelamente. à maneira da CLT.

que denegou o recurso de dois sargentos eleitos no ano anterior. serviços de telefonia e telegráficos. 650 sargentos da Marinha e da Aeronáutica. integraram-se também na frente antilatifúndio e antiimperialista. combatem. aos estudantes. que contavam com o controle de 8 federações. os "democratas". que lhes vedava um direito elementar da "cidadania": o direito de serem eleitos. Era conhecida a tradição política do movimento estudantil brasileiro. reivindicado por altos comandos das Forças Armadas. a "propriedade privada é um dos pilares da civilização democrática e cristã". assim. Amad. os atos de "insubordinação" e de "rebeldia" à hierarquia militar. Uma das primeiras decisões da CONTAG foi a de se filiar à CGT. nosso instrumento de trabalho: o fuzil". À frente antilatifúndio e antiimperialista também esteve vinculado o Movimento Nacional dos Sargentos. usaremos. Apesar de terem sido "exemplarmente punidos" — os líderes do movimento foram transferidos para as mais longínquas guarnições do País —. a UNE. O CGT. 3 da AP e 2 "independentes". afirmam. A primeira diretoria da CONTAG passou a ser constituída por 4 membros do PCB. (Ficou célebre uma declaração pública de um líder do movimento: "Se os reacionários não permitem as reformas. da anistia aos presos políticos.rurais apenas devem defender os seus direitos trabalhistas. a UNE. alterações dos rígidos regulamentos disciplinares etc. o CGT ameaçou decretar greve geral. empunhou as bandeiras da redemocratização. rebelaram-se em Brasília. Ao lado das federações e sindicatos "democráticos". 26 federações de todo o País se reúnem para a fundação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG). Embora tivessem a Reforma Universitária como reivindicação específica. aos parlamentares nacionalistas na luta pelas reformas e na denúncia da espoliação imperialista.). às mobilizações conduzidas pelas forças nacionalistas (S. prosseguiriam até abril de 1964. como tarefa . Em dezembro de 1963. na madrugada do dia 12 de setembro de 1963. caso o governo solicitasse o Estado de Sítio. da defesa do ensino público. por parte dos politizados setores subalternos das Forças Armadas. saem derrotados. op. cit. do nacionalismo.) As manifestações dos setores subalternos das Forças Armadas — severamente contestadas pela maioria da oficialidade — culminaram com um grave acontecimento: a fim de protestarem contra a decisão do STF. Pouco mais de 12 horas foram suficientes para tropas militares dominarem os sublevados. As associações de sargentos de todo o país — muitas delas vinculadas à liderança brizolista — uniam-se aos trabalhadores rurais e urbanos. os estudantes. através de sua entidade nacional. integrando-se. assim. 138 da Carta de 1946. equipamentos de rádio. Em décadas recentes. criam-se outros sob a direção dos nacionalistas (PCB) e da "esquerda católica" (Ação Popular). a FPN solidarizaram-se com o movimento dos sargentos. Postulam. as camadas subalternas das Forças Armadas manifestavam-se contra a manutenção do Art. Graças a uma aliança entre a AP e o PCB. para realizá-las. qualquer envolvimento dos sindicatos na luta por uma Reforma Agrária radical posto que. etc. Apoderaram-se de vários edifícios militares. Além de reivindicarem melhores condições salariais.

política imediata e decisiva, a formação de uma "aliança operárioestudantil-camponesa" (Constituição da UNE, 1963). Como observou um estudioso, para os estudantes que militam na UNE, a Reforma Agrária e a Reforma Universitária são simples momentos da "dialética social". Argumentava, assim, um documento da entidade: "A aliança com os operários, camponeses, intelectuais progressistas, militares, democratas e outras camadas da vida nacional deve ser incrementada na certeza de que, entrelaçando nossas reivindicações, torná-las-emos infinitamente mais fortes. Esta aliança implica em fazer da reforma agrária bandeira dos estudantes, do mesmo modo que as transformações em nosso ensino possam ser objetiva e subjetivamente aspiração de operários e camponeses; e assim por diante" (Octavio Ianni, O Colapso do Populismo no Brasil, grifos nossos). Na UNE defrontavam-se, neste momento, diferentes tendências da esquerda brasileira: PCB, PC do B, AP, Política Operária (POLOP), Quarta Internacional e outros grupos menores. Na luta ideológica que aí se trava, todos combatem o PCB. O apoio político que este oferecia ao governo — excepcionais foram os seus desacordos com a "política de conciliação" de Goulart — bem como a sua subordinação aos estreitos limites da ideologia nacional-reformista, foram algumas das duras críticas que o PCB sofria das demais correntes de esquerda. Todas estas tendências — que se autoproclamavam de "esquerda revolucionária" — condenam a estratégia, oficialmente propugnada pelo PCB, de aliança do proletariado com a "fração progressista" da burguesia brasileira como "exigência histórica" para a consolidação da "revolução democrático burguesa" — etapa prévia e necessária para a passagem ao socialismo. Algumas dessas correntes de esquerda, postulando o marxismo-leninismo, propõem uma "frente de esquerda" — e não uma "frente única" como defendia o PCB — a fim de libertar a luta de massas do "reformismo" e da "política pequeno-burguesa da colaboração de classes". Embora aquelas tendências pouco ortodoxas fossem encontradas no interior do movimento estudantil, a UNE não deixou de participar ativamente da ampla frente antilatifúndio e antiimperialista coordenada pela Frente de Mobilização Popular (FMP). À FMP vinculavam-se o CGT, as Ligas Camponesas, a FPN, a UNE, o movimento dos sargentos. Em certa medida, o "radicalismo" do movimento estudantil, onde o confronto entre as diversas correntes de esquerda era bastante visível, contribuía para UNE pressionar o governo de Goulart e a FMP mais para a "esquerda". A contramobilização de direita Não foram apenas os setores populares e progressistas que politicamente se mobilizaram nesse período. Os empresários — bem como os militares e setores da Igreja Católica — organizaram-se para defender seus interesses e para combater o avanço político dos movimentos sociais de orientação nacionalista e de esquerda. Num estudo recentemente publicado, documenta-se, ampla e exaustivamente, a atuação político-ideológica dos empresários,

aglutinados em torno do complexo IPES/IBAD, o qual teve um papel decisivo na contramobilização de direita. (Todo este item se baseia no trabalho de R. Armand Dreifuss, 7964: A Conquista do Estado.) O Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), criado em fins da década de 50, propunha-se o "ambíguo propósito de defender a democracia"; durante os "tempos de Goulart" sincronizou suas atividades às de organizações paramilitares e anticomunistas, tais como o Movimento Anticomunista (MAC), a Organização Paranaense Anticomunista (OPAC), a Cruzada Libertadora Militar Democrática (CLMD) etc. Intimamente associado à Aliança Democrática Parlamentar, o IBAD financiou generosa e ostensivamente os candidatos apoiados pela ADP nas eleições de 1962 (cerca de 650 que postulavam as Assembléias Legislativas, 250 a Câmara Federal e vários governos estaduais). Em julho de 1962, o IBAD uniu-se ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), pois seus objetivos programáticos eram plenamente coincidentes. O IPES é fundado em fins de 1961; seus criadores são empresários — particularmente aqueles vinculados ao "bloco de poder multinacional e associado" — que "visavam a uma liderança política compatível com sua supremacia econômica e ascendência tecnoburocrática". Tal objetivo era buscado, pois se afirmava que a "direção do país não podia mais ser deixada somente nas mãos dos políticos". Com essa proposição, os empresários pretendiam dizer, pelo menos, duas coisas: a) o país não deveria ser dirigido por políticos de "esquerda"; b) diante do crescente debilitamento político e ideológico dos partidos conservadores e de direita, não deviam as classes dominantes confiar apenas nos mecanismos tradicionais de representação junto ao Estado burguês. O complexo IPES/IBAD procurou desempenhar, assim, o papel de "verdadeiro partido da burguesia — a vanguarda das classes dominantes — e seu estado-maior para a ação política, ideológica e militar". Entre os objetivos perseguidos pela organização, destacavam-se: impedir a solidariedade da classe operária; conter a sindicalização dos trabalhadores rurais e a mobilização dos camponeses; apoiar as facções de direita dentro da Igreja Católica; dividir o movimento estudantil; bloquear as forças nacional-reformistas no Congresso e nas Forças Armadas; mobilizar a alta oficialidade militar e as "classes médias" para a desestabilização do regime "populista". A tarefa "construtiva" do IPES/IBAD estaria na sua proposta de uma nova ordem sócio-política sob a hegemonia do capital multinacional e associado. A ação política do complexo IPES/IBAD se fazia através de inúmeros grupos de trabalho — constituídos por intelectuais, burocratas e especialistas — que tinham acesso direto às Forças Armadas, ao Executivo, ao Congresso, às associações de empresários, aos sindicatos, à Igreja, aos partidos políticos, aos meios de comunicação, etc. O IPES/IBAD igualmente financiou ativos grupos "democráticos" e "anticomunistas" que atuavam nesses diferentes setores, tais como o Movimento Sindical Democrático, a Frente da Juventude Democrática, o Grupo de Ação Patriótica, o Movimento de Arregimentação Feminina (MAF), a Campanha da Mulher pela Demorada (CAMDE), o Serviço de Orientação Rural de Pernambuco

(SORPE), a Federação dos Círculos Operários, etc. A ação ideológica do complexo direitista fez-se de múltiplas formas: financiamento de importantes ornais da "grande imprensa" e revistas que se alinhavam na luta anticomunista e anti-Goulart; na edição de livros, jornais, revistas, panfletos, com ou sem a chancela do IPÊS; realização de ciclo de conferências e estudos, seminários, fórum de debates; patrocínio de programas de rádio e de TV;produção de filmes, slides, cartuns, histórias em quadrinhos; financiamento de centros de pesquisa, etc. O complexo IPES/IBAD intensificava sua "ação conspiratória" à medida que a crise econômica e a mobilização nacional-popular aprofundavam-se; contando em sua fundação com cerca de 80 membros, esse número, em meados de 1963, saltou para 500 empresários. Em São Paulo, 70% da liderança da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) faz parte da organização de direita. Os recursos financeiros do complexo IPES/IBAD provinham de industriais brasileiros e estrangeiros, de banqueiros nacionais e multinacionais, de proprietários rurais (cafeicultores, usineiros, pecuaristas etc), de companhias de segurança e de publicidade, etc. Miguel Arraes demonstrou com documentos que o IBAD recebeu contribuições da Texaco, Shell, Ciba, Schering, Coca-Cola, IBM, Esso, Cigarros Souza Cruz, Hanna Mining Corp., General Motors, etc. O IPES conseguiu ajudas financeiras de 297 corporações norteamericanas; contribuições também vieram da Alemanha Ocidental, Inglaterra, Bélgica, etc. Recursos da Central Intelligence Agency (CIA), agência governamental norte-americana, foram igualmente canalizados para as campanhas do IBAD. Diante das denúncias de deputados da FPN, criou-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o envolvimento do IBAD e do IPES na "corrupção eleitoral" ocorrida em 1962. Como assinala o autor em cujo estudo nos apoiamos: "O IBAD foi fechado por haver sido considerado culpado de corrupção política. O IPES foi absolvido com base no fato de que não havia sido realizada pelo Instituto nenhuma atividade incomum que infringisse os seus objetivos publicamente declarados (...) em sua Carta". O IPES, pois, agia "sem aparecer", enquanto o IBAD era a sua "tropa de choque". Esta estratégia da direita golpista foi sintetizada por Raul Pilla — venerável liberal que saudou com entusiasmo a derrubada do regime constitucional — ao observar que "duas instituições muito úteis foram organizadas, uma visando estudos doutrinários para disseminar idéias e esclarecer os cidadãos, a outra para a ação política, levando-as a cumprir seus deveres patrióticos" (grifos nossos). Nesta "feliz associação" entre ciência e ideologia "iluminista", por um lado, e ação política, por outro, ficava, pois, sintetizada a práxis golpista. Em abril de 1964, cumprindo seus "deveres patrióticos", setores da chamada "sociedade civil" e do Estado, com o apoio do Departamento de Estado norte-americano, "salvariam" a Nação. Através de um movimento político-militar, os "revolucionários" — como afirmou um de seus líderes, na comemoração do 18º aniversário do golpe de 64 — buscavam repudiar um conjunto de realidades, ditas "perversas": "as greves políticas que duravam meses, a desorganização econômica, a inversão dos valores, a subversão dos

princípios da hierarquia e da disciplina. o oportunismo político e. em suma. a anarquia". a incompetência administrativa. .

as paralisações de trabalhadores rurais no Nordeste foram intensas. a inversão caiu " não porque não pudesse realizar-se economicamente. de outro. A incontrolável alta do custo de vida. atingia o expressivo número de 1500 em março de 1964). Era igualmente significativo que as paralisações. cerca de 300 mil trabalhadores em engenhos e usinas desencadearam uma greve política. em Pernambuco. Numa certa medida. cit. 300 em meados de 1963. Em fevereiro e março. os trabalhadores — a fim de evitar a intervenção federal no estado governado por Miguel Arraes —. fatores de ordem estrutural contribuíam decisivamente para neutralizar o combate às pressões inflacionárias. Na Paraíba. As esquerdas apóiam Goulart. foi responsável pela eclosão de sucessivas greves durante todo o período — greves que não mais se limitavam aos centros urbanos. Contudo. Como foi anteriormente observado. o caráter transitório e instável dessas medidas não se devia apenas a uma "incompetência administrativa". Incentivada pelo governo Goulart. Minas Gerais e Goiás as invasões de terras eram denunciadas com grande alarde pelos meios de comunicação.. um autor assinalou que o "governo vagava quase sem rumo no mar tempestuoso das dificuldades da situação econômico-financeira do País". Pernambuco. tendo como conseqüência uma drástica redução do poder aquisitivo dos salários. deixavam de acontecer predominantemente no eixo Rio—São Paulo. grifos do autor). mas sim porque não poderia realizar-se institucionalmente" (F. A direita "fecha o cerco". op. a partir dos anos 60. desconfiando. como proclamavam os críticos conservadores. 65% das greves foram deflagradas fora dos dois maiores centros industriais do País. Em 1963. aventado pelas classes patronais. . ocorreram 17 greves na Guanabara.O GOLPE POLÍTICO-MILITAR Analisando a política econômica brasileira nos últimos seis meses do governo Goulart. por exemplo. De um lado. o reduzido crescimento econômico — que se expressava pela diminuição do nível de inversão — deitava também as suas raízes na polarização política que caracterizava a conjuntura brasileira nos anos 1962/1963. suspenderam a greve de protesto. O ano de 1964 prenunciava ser também bastante agitado em termos de movimentos reivindicatórios: em apenas 15 dias do mês de janeiro. as medidas econômico-financeiras adotadas pela administração federal — a partir do reconhecimento do fracasso do Plano Trienal — passaram a se revestir de um sentido praticamente errático. as vicissitudes e dificuldades da política econômico-financeira — a desaceleração do crescimento econômico e a aceleração do ritmo inflacionário — advinham de circunstâncias que escapavam parcialmente ao controle governamental. Em 1963 ocorreram em todo o país 172 greves de trabalhadores. Diante do lock out. de Oliveira. cresceu a sindicalização no campo (calculava-se que o número de sindicatos rurais. Como formulou um estudioso.

bem como uma elevada alta do custo de vida. Afirmava-se que. gal. ao liberar o câmbio. além de "distribuir armas a sindicatos rurais e marítimos". com a proposta de Reforma Constitucional. tratava-se do início da intensificação da "guerra psicológica" contra o governo constitucional. presidente da UDN e porta-voz político do chefe do Estado-Maior do Exército. Igualmente. com a realização das reformas sociais e com o apoio das forças populares e de esquerda. pois nenhuma prova concreta foi oferecida quanto à veracidade dos fatos denunciados. Entre eles estavam Juscelino Kubitschek. causava "viva desconfiança nos meios progressistas a abertura de negociações . a lei dispensa até mesmo as provas. Em meados de janeiro. para forte desagrado dos investidores estrangeiros. Ou seja. Para a direita brasileira e para a embaixada norte-americana. tendo ampla cobertura da imprensa em geral. Goulart regulamentou a Lei de Remessa de Lucros que tinha sido aprovada pelo Congresso há mais de 16 meses. por exemplo. Calculava a direita que. A outra denúncia dizia respeito às "manobras continuístas" do presidente da República. nem todos os setores de esquerda apoiavam incondicionalmente o presidente da República.As classes dominantes tinham. sob intensas críticas de setores da burguesia associada ao capital multinacional e dos credores estrangeiros. a "guerra revolucionária" já teria alcançado a sua terceira fase — a da "subversão da ordem e obtenção de armas". Jango seria imbatível nas eleições previstas para 1965. assim. esta. divulgou um documento onde se declarava que estava em curso no país uma "guerra revolucionária". Denunciava a direita que o governo Goulart insuflava as invasões de terra. Embora tivessem tido um comportamento unânime. que o governo mantivesse em vigência a Instrução 263 da SUMOC. Bilac Pinto. as greves operárias e de trabalhadores do campo. as esquerdas consideravam inadmissível. provocou forte desvalorização do cruzeiro. O liberal Bilac Pinto assim justificaria a completa ausência de provas: "em caso de fatos notórios. não cabiam mais dúvidas quanto à "esquerdização" do governo Goulart. Goulart visava a alteração do dispositivo legal que vedava a reeleição do presidente da Republica.) Se a direita "fechava o cerco" sobre o governo federal. ao aplaudirem as medidas nacionalistas do início do ano. Castelo Branco. Magalhães Pinto e Leonel Brizola. o país estava prestes a assistir à "tomada do poder pelos comunistas". (Esta possibilidade levou importantes políticos — com os olhos voltados para a presidência da República — a se afastarem ou hostilizarem Goulart. Os tribunais diariamente condenam na base da notoriedade dos fatos". o presidente Goulart emitiu um decreto que implicava a "completa revisão de todas as concessões governamentais na indústria de mineração". Na verdade. com a extensão do voto aos analfabetos. mais especificamente. Algumas semanas atrás. com grande alarde. Duas graves denúncias passavam a circular com insistência nos meios políticos. motivos para verem aumentadas as suas apreensões: seus lucros e suas propriedades — tal como apregoavam seus propagandistas — estavam sendo ameaçados e os trabalhadores em greve não eram reprimidos pelas forças federais.

San Tiago Dantas. Setores da FMP — particularmente os "brizolistas" que aí tinham hegemonia — também levantavam suspeitas quanto às intenções "continuístas" de Goulart que. O "programa mínimo" da Frente incluía emendas constitucionais concedendo voto aos analfabetos. segundo aqueles grupos. elegibilidade dos praças e sargentos. Mas. forjada pela direita. o "golpe tramado pelas esquerdas". com todas as letras. o Executivo pretendia também pressionar o Congresso Nacional no sentido de que este aprovasse rapidamente os projetos a ele encaminhados. revisão do art. aglutinavam-se e passavam à ofensiva contra o governo Goulart. enquanto os grupos de direita. O comício do dia 13. apenas ocorreria com o "Comício de 13 de março" — o comício das Reformas. legalização do PCB e negociação de uma moratória da dívida externa. a proposta de aliança com o PSD contribuiu para aumentarem as suspeitas quanto à persistência da política de conciliação de Jango. em princípios de fevereiro. sexta-feira As desconfianças de setores da esquerda face ao governo Goulart ainda eram muito intensas.) Incumbido por Goulart. pretendia-se garantir a aprovação das reformas e o fortalecimento político do governo diante das ameaças golpistas vindas da direita. Crockat de Sá e outros). cerca de 200 mil pessoas demonstraram de forma muito significativa o elevado grau de politização que começava a atingir diferentes setores da sociedade brasileira. em sua bem informada coluna: "Março passou a ser o mês do golpe" Direita e esquerda acusam-se reciprocamente quanto à a autoria desse possível "ato contra a democracia". Como objetivos imediatos. Com a exceção do PCB. 141 da Constituição (que impunha o pagamento à vista e em dinheiro nos casos de desapropriações de terra). civis e militares. No extenso mar de . todos os demais grupos de esquerda rejeitavam a inclusão do PSD numa possível frente de "forças progressistas". A efetiva "guinada para a esquerda" do governo Goulart. teria o apoio da direção do Partido Comunista Brasileiro. este nem tinha o pleno apoio das esquerdas nem estas conseguiam superar suas divergências internas para uma ação comum antigolpista. nunca passou de arma propagandística. um experiente jornalista político escrevia. Além disso. poucos atos públicos tiveram tanto impacto e repercussão política quanto o comício daquela sexta-feira 13. Organizado pelo CGT e pela assessoria sindical de Goulart (Gomes Talarico. Com amplo apoio oficial e sob a proteção dum rigoroso esquema de segurança montado pelo I Exército. na visão das esquerdas. tentaria unificar os setores políticos progressistas através de uma Frente Ampla — que iria do PSD ao PCB. (A rigor. No dia 15 de janeiro. Na história da chamada "democracia populista" brasileira.para o reescalonamento das dívidas do Brasil com seus credores em bases confusas". o comício da Guanabara — ao qual deveriam seguir-se outros nos maiores centros urbanos do País — visava demonstrar o apoio popular às propostas de Reformas de Base do governo.

lideres estudantis comprimiam-se ao lado do presidente da República. . pediu.). o mesmo político advertiria para as possíveis vacilações de Jango: "O presidente João Goulart — como disseram Arraes e Brizola — conta com o povo para a grande transformação. além de palavras. alguns setores destacaram. grifos nossos). decisões audazes e rápidas e o reconhecimento de que o dia 13 foi a iniciação de uma nova etapa da história brasileira" (Neiva Moreira. Prometeu também enviar ao Congresso outros projetos de reformas (agrária. "Defenderemos as Reformas à bala!". A rigor. Goulart atacou "democracia dos monopólios nacionais e internacionais". a "mistificação do anticomunismo". Mas é preciso não esquecer que. os "privilégios das minorias proprietárias de terras". Leonel Brizola. a campanha dos "rosários da fé contra o povo". Texaco. cit. o "radicalismo das manifestações populares". perdeu-se numa teia de pequenas manobras (. Após 3 horas de inflamados discursos. in Paulo Schilling. etc. um dos líderes brizolistas comentaria: "Perante cerca de 200 mil pessoas. Criticando severamente o Legislativo ("controlado por uma maioria de latifundiários. assim. reacionários e ibadianos"). um pouco mais adiante.cartazes e de faixas empunhados pela massa popular. Brizola. Shell. comemoraram com entusiasmo o significativo comparecimento popular ao comício. as "associações de classes conservadoras". etc).. a política de conciliação". militares.. op. No seu discurso. "yankees. liam-se alguns slogans que inquietariam as classes dominantes e atemorizariam as classes médias: "Reformas ou Revolução". de outro lado. universitária e constitucional). o líder nacionalista propôs a "derrogação do atual Congresso". a palavra de ordem do brizolismo seria: "Constituinte sem golpe!"). "Legalidade para o PCB". através de um eloqüente discurso. foi sepultada. "Reeleição de Jango!". eleitoral. As esquerdas. governadores de estado. os dois decretos emitidos pelo governo tinham efeitos bastante limitados: o da nacionalização das refinarias não atingia senão as empresas nacionais (a lucrativa distribuição dos produtos petrolíferos continuava com a Esso. o decreto da SUPRA — como o próprio Goulart reconheceu em seu discurso — não era senão o "primeiro passo" na direção da Reforma Agrária. Goulart encerrou o ato anunciando a promulgação de dois decretos: o da nacionalização das refinarias particulares de petróleo e o da desapropriação das propriedades de terras (com mais de 100 hectares) que ladeavam as rodovias e ferrovias federais e os açudes públicos federais. controle dos preços etc). O momento exige. Contudo. na Legalidade e no Plebiscito. dirigentes S1ndicais. o povo também se mobilizou e tudo parecia encaminharse para as decisões almejadas. No palanque. no entanto. a convocação de uma Assembléia Constituinte (nos dias seguintes. deputados. anunciou ainda que nos próximos dias decretaria algumas medidas urgentes "em defesa do povo e das classes populares" (tabelamento de aluguéis. na praça da República. Neste sentido. Mas. go home". com grande regozijo. ministros de Estado. "Forca para os gorilas!".. o radicalismo esquerdizante ficou por conta do líder nacional dos "Grupos de Onze". O governo vacilou. defendeu o fim da "política de conciliação" e postulou a emergência de um "governo nacionalista e popular". Pouco antes da fala de Goulart.

"intervenção federal na Guanabara.Entre as "decisões audazes e rápidas". Minas Gerais e Rio Grande do Sul". São Paulo. "congelamento dos preços". etc. "revogação da Instrução 263". "afastamento dos militares suspeitos e golpistas". esses setores nacionalistas exigiam: "ministério nacionalista e popular". .

sob a bandeira do anticomunismo e da defesa da propriedade.De fato. num memorando de caráter reservado à alta hierarquia do Exército. da fé religiosa e da moral. no dia 19 de março. Estas manifestações civis — onde praticamente era inexistente a presença popular e operária — nunca foram "espontâneas". Apesar de ter sido precipitada pelo comício do dia 13. Uma semana após o comício do dia 13. tais demonstrações públicas tinham o propósito de "criar clima sócio-político favorável à intervenção militar. 13 de março de 1964 pode ser considerado um marco decisivo na recente história política brasileira. Entre estas manifestações civis. realizada em São Paulo. de setores da Igreja Católica. democrático e popular mas. na verdade. reunindo cerca de 500 mil Pessoas. saíram às ruas em diversas capitais a fim de Pedir o impeachment do governo federal. o dia 13 significaria não a emergência de um governo nacionalista. Castelo Branco . Na perspectiva da alta oficialidade militar. a Marcha foi encerrada com eloqüentes discursos de deputados do e da UDN contra o governo de Goulart. A partir do dia 13 de março — enquanto as esquerdas se dividiam em discussões acerca da composição da frente ampla —. Organizada por movimentos femininos — com a inteira colaboração do governo do estado de São Paulo. da Sociedade Rural Brasileira —. "crise de autoridade". vol. setores das classes médias e da burguesia. empossado na chefia do Estado-Maior do Exército em setembro de 1963. a direita passava inteiramente à ofensiva do movimento social. vários acontecimentos ocorridos no período. envolvendo as forças armadas (Revolta dos Sargentos. o gal. A ofensiva golpista Desde o início de março. Como observou um estudioso. Se naquela ocasião era reduzido o número dos "conspiradores de primeira hora". além de se inspirarem em campanhas anticomunistas realizadas em outros países. destacou-se a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade". "subversão da lei e da ordem". "caos administrativo". vinha sendo preparada desde os primeiros dias em que Goulart tomara posse no regime parlamentarista. In: Brasil Republicano. da FIESP. Castelo Branco. sim. contribuíram para aumentar o quadro dos descontentes. inicialmente desarticulada e dispersa em várias "células de oficiais". 3). a intervenção das Forças Armadas. conseguiu unificar-se mediante a liderança do gal. Para grande decepção das esquerdas. A conspiração nos meios militares. "Classe Média e Política". o último ato da chamada "democracia populista". sempre foram estimuladas e incentivadas pelos conspiradores na área militar. bem como de incitar diretamente as forças armadas ao golpe de Estado" (Décio Saes. atritos entre oficiais e setores políticos nacionalistas. Estado de Sítio. no País e no interior da corporação vinham sucedendo-se "situações intoleráveis": "quebra da disciplina e da hierarquia". freqüentes substituições de ministros militares no governo etc).

julgava-se que o consenso quanto à "solução cirúrgica" ainda não tinha sido conseguido no interior da alta oficialidade. em poucas horas estes sairiam livres. Segundo um historiador. Nesta altura. algumas horas antes. falava-se na existência de um "sólido dispositivo militar" de sustentação do governo. No entanto.). Jango . levando-os presos a um quartel. a fim de comemorar o segundo aniversário da proibida Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil. Neste dia estava prevista outra "passeata-monstro" de oposição no centro da Guanabara. naqueles dias. O Clube Militar e o Clube Naval denunciaram com veemência o "ato de indisciplina acobertado pela autoridade constituída. mas para garantir os poderes constitucionais. A partir de agora. Tendo como intermediário o . Foi a chamada "Revolta dos Marinheiros". mais de 1000 marinheiros e fuzileiros navais reuniam-se no Sindicato dos Metalúrgicos (Guanabara). Além dos "moderados" ou "legalistas". destruindo o princípio da hierarquia". muito menos a sua propaganda. (Comentou-se que este oficial tinha sido escolhido por Goulart. Calculava-se que esta "manifestação civil" daria a suficiente "cobertura política para a intervenção militar (T. cit. o seu funcionamento e a aplicação da lei". No discurso que pronunciou. Uma nova revolta no seio dos setores subalternos das Forças Armadas contribuiu para que o problemático consenso fosse imediatamente alcançado. selada a sorte de Goulart. assim. anistiados pelo novo ministro da Marinha. o aniversário da Associação dos Suboficiais e Sargentos da Polícia Militar da Guanabara.faria graves considerações sobre a situação político-institucional do país. o golpe tinha data marcada: dia 2 de abril. o governo convenceu os rebelados a se entregarem. Neste documento advertia-se para o perigo representado pela convocação de uma Constituinte ("a ambicionada Constituinte é um objetivo revolucionário pela violência com o fechamento do atual Congresso" que implicaria a "instituição de uma ditadura síndico-comunista") e para o desencadeamento de "agitações generalizadas do ilegal poder do CGT". Aqui estava a senha para o início da ofensiva na área militar. Comemorava-se. CGT. enviado para prender os manifestantes. A retirada do apoio militar ao governo Goulart foi sintetizada no seguinte trecho: "os meios militares nacionais e permanentes não são propriamente para defender programas de governo. op. no dia 30 de março. Contudo. transmitido por rádio e televisão. No dia 26 de março.) A sublevação dos marinheiros. Estava. a data para a deflagração do movimento visando à derrubada do governo Goulart ainda não tinha sido decidida pelos altos comandos militares. Apesar dos evidentes sinais da trama golpista. Goulart surpreenderia os seus mais íntimos e diretos assessores ao decidir comparecer a uma reunião no Automóvel Clube. Castelo Branco dissera aos conspiradores civis que a demissão do ministro da Marinha seria o sinal para a deposição de Jango". "o gal. a partir de uma lista elaborada pelo "ilegal CGT". a anistia e a nomeação do novo ministro atingiram a alta oficialidade das forças armadas como uma "verdadeira bomba". insubordinou-se e solidarizou-se com seus camaradas revoltosos. na oportunidade. Um contingente de fuzileiros navais. Skidmore.

) O discurso não passou de uma justificativa para a História. Mourão Filho (comandante da IV Região Militar. sob o comando do gal. mais uma vez. Na tarde de 1º de abril. Esta iniciativa tinha sido aprovada pelos governadores de São Paulo e de Minas Gerais que incentivaram a antecipação da ação militar. De outro lado. cit). Relata a "crônica do golpe de 1964" que. o PUA. Diante da notícia de que Goulart havia abandonado o Rio rumo a Brasília e informado ainda das "intenções pacifistas" do presidente da República. Tendo na memória a "crise de agosto de 1961". além do I Exército. Kruel teria "lavado as mãos" e ordenado que as tropas de São Paulo se movessem para o Rio de Janeiro a fim de se unir às do gal. prometia o militar. teria ele garantido o seu mandato presidencial. No entanto. Kruel exigia que Goulart proibisse o CGT. Jango voaria para Porto Alegre. a luta armada que parecia ser iminente foi rapidamente afastada. mas o suicídio político" (Paulo Schilling. encaminhavam-se para um confronto. Os golpistas vindos de Minas aguardavam. antes de tomar a sua "grave decisão". não o suicídio físico como Vargas. os setores democráticos esperavam.denunciou as pressões que vinha sofrendo da direita. Kruel telefonou para o presidente da República instando-o para "abrir mão de suas bases políticas". chefe do "dispositivo militar". a decisão do comandante do II Exército. Kruel na Academia Militar de Agulhas Negras — desistia do combate. na madrugada do 31 de março. Amaury Kruel. por parte de quem já tinha decidido. passava com suas tropas para o lado dos golpistas. Em outras palavras. nem "guerra civil" Dois dias antes da data marcada pela alta oficialidade golpista. a tentativa de golpe contra o seu governo estava sendo financiada pelo imperialismo e pela burguesia associada. Algumas horas depois de chegar a Brasília. Julgava-se até aquele momento que. no entanto. porém. no Vale do Paraíba. Diante da recusa de Jango. a UNE e todas as demais "entidades subversivas". Kruel. o gal. o III Exército (extremo sul do País) se posicionaria ao lado da defesa da ordem constitucional. Setores militares dispostos a defender a "legalidade" foram dissuadidos por Goulart a não se envolverem numa "luta fratricida". Mourão. mas a completa falência do comando do gal. o dramático pronunciamento de Goulart tinha ressonâncias semelhantes às da carta-testamento de Vargas. ainda leais ao governo. Âncora — reunido com o gal. Assis Brasil. . fariam ainda algumas tentativas de resistir ao golpe. Para ele.. fez frustrarem-se rapidamente esses esforços isolados.. que até aquele momento vacilava em aderir a uma ação conjunta contra o I Exército. "(. o gal. Como vários autores comentaram. op. O golpe vitorioso: nem resistência. o gal. que a "salvação" viesse do Sul. os soldados do I Exército. outros. o gal. ordenou às suas tropas que se movimentassem em direção ao Rio de Janeiro. com as tropas do gal. MG). sediado no Rio. Em troca. gal. Âncora.

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) Gordon era assíduo freqüentador do palácio presidencial. Sugeria nomes para compor os Ministérios. Tudo que visava a minar o poder do Executivo federal era incentivado pelos EUA. Apesar dos veementes apelos de Brizola. até mesmo antes. governadores de estado. o presidente dos EUA. Ranieri Mazzilli. nenhuma coincidência no fato de seus governadores serem notórios e importantes "conspiradores civis" — respectivamente. os estados da Guanabara. Novamente Goulart invocou a inutilidade dos gestos heróicos que implicariam no "derramamento do sangue inocente" (Moniz Bandeira. declarou a respeito: "quando assumi o cargo. (Tal era a intervenção do seu embaixador. cit. Documentos do Departamento de Estado norte-americano. O golpe político-militar: made in Brazil? Este telegrama. informado sobre importantes defecções dentro do III Exército. secretário de Estado para Assuntos Interamericanos. e antes de chegar ao cargo já tínhamos uma política destinada a ajudar governadores de certos estados". deputados. Jango rumava para o exílio no Uruguai. através de um telegrama. eram convidados permanentes do ativo embaixador. Tal política ficou conhecida com o significativo nome de "ajuda às ilhas de sanidade administrativa". Não havia. Lincoln Gordon. não poderia causar muita surpresa. o presidente da República. foram beneficiados. Thomas Mann. Durante todo o período. Poucas horas depois. Lincoln Gordon!".. que o humor popular criou e difundiu o seguinte slogan: "Basta de intermediários: para Presidente. Entidades políticas e sindicais que faziam sistemática oposição a Goulart foram generosamente contempladas com recursos financeiros do governo norte-americano. Na madrugada do dia 2 de abril. contudo. empresários e dirigentes sindicais. entre outros. o presidente da Câmara dos Deputados. Três dias antes. Consistiu ela na liberação de verbas da Aliança para o Progresso apenas para aqueles estados cujos governadores eram hostis ao governo federal. Adhemar de Barros e Magalhães Pinto. recusou a última cartada em defesa da legalidade democrática. No dia 4 de abril. censurava as escolhas de "esquerdistas" para as assessorias do presidente. Lyndon Johnson. era empossado como presidente da República. que tentava convencer Goulart acerca da necessidade de uma resistência armada. estando João Goulart ainda em território nacional.).. saudava calorosamente o novo governo brasileiro. op.Os tempos eram outros. criticava abertamente projetos e iniciativas governamentais. Militares. Desta forma. São Paulo e Minas Gerais. . pois. Carlos Lacerda. a direita conseguia no Congresso Nacional aprovar a declaração de vacância da Presidência da República. de uma forma rápida. nos assuntos de exclusivo interesse do governo brasileiro. estávamos conscientes de que o comunismo estava corroendo o governo do Presidente João Goulart. foi intensa a atuação da embaixada norteamericana no combati político ao governo constitucional de Goulart.

que previa uma "guerra civil" prolongada no Brasil. Sobretudo.. No dia 31 de março aprovou-se. Carlos Lacerda ouviria de Mr. Gordon a seguinte declaração: "Vocês fizeram uma coisa formidável! Essa revolução sem sangue e tão rápida! E com isso pouparam uma situação que seria profundamente triste. evidenciam o grau de participação e de envolvimento dos EUA na conspiração e execução do golpe de abril de 1964. "64: o Fracasso das Esquerdas". não se deve concluir — como insistem certas interpretações mecanicistas — que o "golpe começou em Washington" ou que a "CIA esteve por detrás de tudo". navios de munições e navios de mantimentos. aviões-tanques e um posto de comando-transportado deveriam se deslocar para o Rio de Janeiro. desagradável e de conseqüências imprevisíveis no futuro de nossas relações: vocês evitaram que tivéssemos que intervir no conflito" (Carlos Lacerda. foram algumas das razões da "arrasadora derrota" sofrida pelas esquerdas em 1964. in Movimento. Depoimento). numa reunião no Departamento de Estado um plano militar que consistia no envio às costas brasileiras de um porta-aviões de ataque pesado (o Forrestal). antes mesmo de ser efetivada. Não obstante todas estas evidências demonstrem o envolvimento norte-americano no processo de derrubada de Goulart. petroleiros bélicos. Desta maneira. mas com idêntica solenidade. Gorender. Nessa versão.)" (J. Este fato permitiu ao solerte embaixador norte-americano proclamar com muita alegria. .. os agentes internos — decisivos na preparação e no desencadeamento do golpe político-militar — não passariam de meros instrumentos da política do Pentágono. Em qualquer caso. Examinemos aqui apenas o caso da chamada "Operação Brother Sam". aviões de caça. não era inevitável.. As esquerdas: uma derrota inevitável? Parte das razões que explicam a tranqüila e rápida vitória da direita. destróieres de apoio. um autor. subordinação política ao reformismo populista. residiu no comportamento político das esquerdas brasileiras durante os "tempos do populismo". a sigilosa "Operação Brother Sam" pôde ser cancelada. material e militar" aos golpistas. que a "revolução de 1964" tinha sido um "produto 100% brasileiro"! Três dias após o golpe. arrasadora e desmoralizante (. comentou: "na pior das hipóteses. O objetivo de toda esta aparatosa operação era a de fornecer "apoio logístico. os "revolucionários de abril" não precisaram disparar praticamente um só tiro para derrubar o governo de Goulart. Avaliação incorreta da correlação de forças existentes. aviões transportando armas e munições (110 toneladas). Alguns telefonemas foram suficientes para que o golpe fosse vitorioso. nº 299).. radicalização apenas no nível da retórica. assim.recentemente revelados à opinião pública. não era inevitável que fosse tão rápida. Contrariando os próprios prognósticos da CIA. isolamento político em relação às grandes massas. a derrota era provável. Analisando o "fracasso das esquerdas" em 1964.

Era o caso. longe de desqualificar a importante atividade desenvolvida pela organização. significa estar junto ao poder político real. no fundo. foi reduzido o trabalho do CGT junto às bases sindicais. Se amanhã alguém tentar levantar os 'gorilas' contra a Nação. resolvi freqüentar mais esta Casa. no breve período em que existiu. A "força revolucionária" das Ligas Camponesas igualmente revelou-se numa decepcionante realidade para as esquerdas brasileiras. no entanto. de Francisco Julião. De outro lado. assim. No dia 31 de março de 1964. sem que os camponeses — desarmados e desorganizados — nada pudessem fazer diante da bem armada e bem organizada repressão militar.Em virtude do CGT ter tido uma intensa e ativa participação nas diferentes crises políticas do período. o líder nacional das Ligas Camponesas faria uma solene declaração: "Senhor presidente. fracassou. abrigado no Congresso Nacional. pois resolvi que este ano há de ser para mim o ano parlamentar. Para isso contribuíam as freqüentes declarações de seus líderes. deve-se ressaltar que ela se manteve indiferente aos insistentes apelos feitos pelo CGT em defesa da greve geral antigolpista. os "gorilas" do IV Exército davam ordem de prisão ao governador de Pernambuco. a partir da sindicalização rural. reafirmar aqui que o CGT constituiuse mais num organismo político — controlado pela esquerda nacional-reformista — do que num organismo propriamente sindical. terem entrado numa fase de declínio. porque a minha no Nordeste já está arrumada. Este acontecimento. somente uma pequena resistência foi tentada por alguns líderes populares junto aos trabalhadores rurais e foreiros do Nordeste. apenas a Guanabara teve paralisados os seus serviços de transporte (a repressão militar caiu imediatamente sobre a liderança sindical. Reflexões Sobre a Agricultura Brasileira). impedindo-a. Apesar de as Ligas. constatariam amargamente as esquerdas. por exemplo. igualmente. desconsiderava-se que o sucesso de algumas greves políticas — o "grande trunfo" do CGT — deveu-se. em parte ao apoio oficial. brandida tantas vezes ameaçadoramente contra os setores de direita. A greve geral. Todas essas tentativas foram rapidamente vencidas pelo forte aparato repressivo. No golpe. traduzia uma inquestionável realidade: durante todo o período 1962/1963. deve-se. O acesso fácil das suas cúpulas dirigentes aos corredores e gabinetes palacianos — realidade possível em algumas "democracias populistas" — e a retórica radical de seus pronunciamentos confundiram as esquerdas acerca do "poderio do CGT". Nem sempre estar próximo do governo. de Nazateth Wanderley e outros. passou-se a acreditar que ele teria uma força política capaz de barrar o caminho de qualquer ação golpista de direita. mantinha-se ainda uma elevada expectativa política em relação a elas. como se viu. Não obstante a classe operária brasileira não tenha participado do golpe nem aderido aos "vitoriosos". senhores deputados. no dia 31 de março. No dia seguinte. a maioria dessas paralisações pouco êxito obteve junto aos operários das empresas privadas. de comandar a greve geral). . Miguel Arraes. já podemos dispor — por isso ficamos no Nordeste o ano todo — de 500 mil camponeses para a responder aos 'gorilas' " (in M. deixo esta tribuna prometendo ocupá-la mais vezes.

com sabor de anedota. etc. Numa autocrítica recente.) As precipitações infantis desse movimento (. a expressão ganharia um significado real e concreto. op. Voltava-se também a difundir o velho chavão: "militar é o povo fardado". como advertiu um autor. movimento dos sargentos. op.). porém. Na época falava-se freqüentemente nos "generais do povo" que constituíam o inquebrantável "dispositivo militar" do gal. a "questão militar".. um ex-militante brizolista.. o secretário-geral do PCB. tragicamente. revelaram-se frágeis demais para se anteporem a qualquer ação golpista. os adeptos de Brizola limitaram-se. as forças armadas tinham de reagir com violência às ameaças à sua estabilidade hierárquica e ideológica. viria no segundo semestre (. através das ondas da Rádio Mayrink Veiga. Memórias de um Soldado). Talvez uma das maiores fantasias construídas pelas esquerdas nacionalistas tenha sido a de crer no "legalismo das forças armadas". julgava-se que "segurança do regime democrático. Se. esperávamos o golpe e estávamos preparando-nos febrilmente.. "enfatizou que (... cit. 'os golpistas teriam as suas cabeças cortadas'" (Jacob Gorender. Fragmentadas em diferentes correntes ideológicas e isoladas das grandes massas rurais e urbanas. que o golpe. num trecho de seu depoimento. Grupos de Onze. na retórica do líder comunista.. tal como foi interpretada por Gorender: "por sua coesão institucional essencialmente conservadora e antidemocrática. de oficiais nacionalistas e.De semelhante radicalismo verbal padeceu também a liderança de Leonel Brizola. repousava nos sargentos" (N. criados a partir de fins de 1963. a 4 dias do desencadeamento do movimento militar.). Numa palestra pronunciada na ABI.) só fizeram enrijecer a reação conservadora da instituição militar" (Jacob Gorender. seguindo a tradição brasileira. e do governo Goulart. cit. Se este ocorresse. as "cabeças cortadas" tinham um valor simplesmente metafórico. na prática dos "vencedores de abril". assim. Acreditávamos. foram as esquerdas e os setores populares que tiveram as suas "cabeças cortadas". Luiz Carlos Prestes — conforme o depoimento de um ex-membro do CC do PCB à época do golpe de 1964 —. . sobretudo. Igualmente acreditou-se no chamado "sargentismo". para enfrentá-lo. Ameaças advindas da formação de uma ala. Ligas Camponesas.) e. "dispositivo militar" constituído de "oficiais nacionalistas e democráticos". A rigor. Seus famosos Grupos de Onze. com todas as forças.. minimizando o poder dos adversários. Desconsiderava-se. Werneck Sodré. não foi observada nenhuma atuação significativa dos brizolistas durante o movimento golpista. porém. op. as esquerdas não conseguiam enxergar o golpe de direita "virando a esquina".)" (Paulo Schilling. pequena porém influente. do surgimento de um movimento explosivo de sargentos e marinheiros (. Superestimando as suas forças (CGT.. Rio de Janeiro. Assis Brasil. Embora a direita denunciasse sistematicamente o perigo representado por esses grupos. em geral. a conclamar o povo a lutar contra os "gorilas". grifos do autor).. observou: "sim. cit.) Goulart tornava-se o porta-bandeira da revolução brasileira e que não havia condições para um golpe reacionário. em particular. conseqüentemente.

Como um "castelo de cartas" desmoronou o frágil e incipiente poder das organizações e entidades que buscavam representar as classes populares e trabalhadoras. se explicaria em virtude de uma incorreta. o imobilismo das esquerdas. pois idealista. em geral. subordinadas e vinculadas ao "populismo janguista". .Desta forma. avaliação da correspondência de forças existentes nos meses anteriores a abril de 1964. de outro lado. não conseguiram as esquerdas nacionalistas visualizar e implementar uma ação independente em relação à política capitulacionista de Goulart.

Elucidativo a este respeito foi o caso da proposta mais polêmica e mais intensamente defendida pelo governo: a Reforma Agrária. julgava-se que a chamada burguesia nacional — cujos interesses o Executivo pretendia representar — não podia senão se integrar na defesa da política nacionalreformista. pois o Executivo aceitou e se submeteu às pressões contrárias vindas do governo dos EUA e da burguesia brasileira associada ao capital multinacional. no entanto. ou seja. Recorde-se que o projeto tinha sido aprovado pelo Congresso e aguardou mais de 16 meses para ser sancionado. contudo. Estas reformas visavam. assim. verifica-se a emergência. que nunca foi politicamente significativo o compromisso da burguesia brasileira com a realização das reformas. a conciliação com o imperialismo constituiu-se numa constante durante os "tempos de Goulart". Se o governo Goulart não podia senão prever a oposição dos grandes proprietários rurais — o que de fato ocorreu durante todo o período —. Em outras palavras. sociais e políticas). posteriormente. que — apesar de não poder ser considerado . A propósito do chamado nacionalismo do governo Goulart. O nacionalismo da burguesia brasileira sempre teve um caráter pragmático. que teria ele o respaldo da burguesia industrial brasileira para a consecução de seu programa reformista. pois nunca conseguiram ser implementadas — seja pela negativa do Congresso Nacional (que expressava a oposição de expressivos setores da chamada "sociedade civil"). teve seu caminho barrado pelo golpe. nenhum caráter transformador. Tais Reformas. setores da burguesia brasileira se opõem ou se associam ao capital multinacional. constituíram-se em simples consignas políticas. Reconheça-se. para igual decepção de setores da esquerda nacionalista — que postulavam a estratégia da aliança de classes —. Não tinham. quando o governo Goulart passou a demonstrar um maior empenho na aprovação das Reformas. no entanto. como apregoavam setores das classes dominantes. a resolver alguns dos impasses enfrentados pelo capitalismo brasileiro no início dos anos 60. Em contrapartida.Conclusões No período de 1961 a 1964. de um Executivo que se distinguiu fundamentalmente pela tentativa de realizar um amplo programa de Reformas (econômicas. Como se viu. basicamente. dependendo das circunstâncias e das suas conveniências. A mais importante medida de caráter nacionalista tomada pelo governo — a promulgação da Lei de Remessa de Lucros — somente se efetivou depois de intensas manifestações dos setores populares. no interior do Estado burguês. seja pela ambigüidade ou incapacidade política do governo (no parlamentarismo e no presidencialismo). Tal reforma buscava responder às necessidades de expansão do capitalismo industrial brasileiro ao mesmo tempo que atendia aos imperativos da preservação da ordem burguesa. Ficou comprovado. deve se afirmar que foi ele muito mais retórico do que uma efetiva realidade. muito menos revolucionário. Conclusão análoga pode ser retirada acerca da questão do nacionalismo. supunha-se.

etc. da extensão da legislação trabalhista ao campo. Esta aproximação com as organizações políticas das classes populares e trabalhadoras fazia-se através do reconhecimento da legitimidade de suas reivindicações. A derrubada do governo contou com a participação decisiva das forças armadas. interpretada com muitas reservas. por parte dos setores populares e de esquerda. as quais — a partir de meados de abril de 1964 — impuseram ao país uma nova ordem político-institucional com características crescentemente militarizadas. Repudiando o nacional-reformismo. Até o momento em que se constata o malogro do Plano Trienal. na execução inicial do Plano Trienal etc). Durante todo o período. somente ocorre de forma mais intensa quando o governo verifica que não lhe resta nenhuma alternativa de sustentação política. As medidas populares e nacionalistas. levou o conjunto das classes dominantes e setores das classes médias — apoiados e estimulados por agências governamentais norte-americanas e empresas multinacionais — a condenar o governo Goulart. em reverter a tendência de estagnação da economia e. A "guinada para a esquerda" foi. o governo conseguiu um relativo apoio político de expressivos setores da burguesia industrial brasileira (na posse. como se tentou mostrar — provocou a unificação política das classes dominantes. No limite. do respeito às liberdades políticas. de outro. por exemplo. A crescente radicalização política do movimento popular e dos trabalhadores. difundiam os ideólogos da direita. op- . Foi ressaltado. no entanto. etc). inclusive. A crise econômica e o avanço político-ideológico das classes populares e trabalhadoras passavam a ser encarados como realidades sociais inaceitáveis. da não repressão às greves políticas. Tal ameaça — embora objetivamente remota. nem se legitimava face ao conjunto das classes dominantes. PUA. as classes subalternas buscariam impor soluções não burguesas à crise econômico-social. aprofundaram a chamada "guinada popular e de esquerda" do governo populista de Goulart. o governo Goulart nem conseguia o pleno respaldo das classes populares e trabalhadoras.um governo eminentemente nacionalista — o Executivo denunciou freqüentemente a "espoliação imperialista" e sempre manteve estreitas relações com os setores nacionalistas e populares. diante da incapacidade do Executivo — de um lado. através do Estado burguês militarizado. Mas. sempre foram muito fortes. pressionando o Executivo a romper os limites do "pacto populista". as desconfianças. em pôr fim às crescentes reivindicações e greves das classes trabalhadoras —. pois se desconfiava das "manobras continuístas" de Goulart. no Plebiscito. Mas esta relação não se deu sem dificuldades e sem problemas. tomadas no início de 1964 e que culminaram com o Comício do dia 13. as classes dominantes. do apoio às entidades ditas ilegais (CGT. As reformas exigidas pelo capitalismo brasileiro seriam agora implementadas. em relação ao governo Goulart. a quase totalidade da burguesia nacional passou a conspirar ativamente contra o governo. que o mais importante documento produzido pelo governo (Plano Trienal) tinha um inegável sentido antipopular e antioperário. Esta vinculação com os movimentos populares e de esquerda. Desta forma.

excluindo. as classes trabalhadoras e populares da cena política e pondo fim à democracia populista.tariam pela chamada "modernização-conservadora". ------------xxxxxxxxxxxx----------Revisão: Argo – www.org . assim.portaldocriador.

A Quarta República. Economia brasileira no período: Carlos Lessa. Jacob Gorender. Marcos Sá Corrêa. idem e outros. Caio Prado Jr. Paulo Schilling. "64: O Fracasso das Esquerdas". 1964: O Papel dos Estados Unidos no Golpe de Estado de 31 de Março. documentos esparsos sobre o governo e sobre o período em questão encontram-se em Edgard Carone. Edmar Morei.Indicações para leitura I. Cibilis Viana. Sextafeira. 1964: Visto e Comentado Pela Casa Branca. O governo João Goulart: As Lutas Sociais no Brasil. Armand Dreifuss. Paul Erickson. nº 299. Revistas com artigos sobre o período e sobre o golpe de . políticos e sociais) do governo Goulart existe apenas uma obra na literatura política brasileira: Moniz Bandeira. Hélio Silva. S. CGT no Brasil. 13. Sobre o golpe político-militar: R. II. III. constitui-se numa interessante introdução para o conhecimento dos fatos relevantes no período Goulart. uma visão jornalística das principais questões políticas: Mário Victor. Maria Conceição Tavares. 1964: A Conquista do Estado. in Movimento. Sindicalismo no Processo Político Brasileiro. Como se coloca a direita no poder (I e II). Do ponto de vista documental. Cebrap.. in Seleções. Um relato jornalístico comentado do período que vai de meados de 1962 a abril de 1964 é oferecido em Carlos Castello Branco. Os Idos de Março.. 5 anos que abalaram o Brasil. tomo III de O Brasil Republicano. Abelardo Jurema. Phyllis Parker. contendo importantes ensaios sobre o período. Octávio Ianni. o livro de Thomas Skidmore. O golpe começou em Washington. Processos políticos e movimentos sociais no período: Francisco Weffort. V. CGT e as Lutas Sindicais no Brasil. O Populismo na Política Brasileira. de Almeida Neves. L. Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro. Brasil: De Getúlio a Castelo. Francisco de Oliveira. Abordando os diferentes aspectos (econômicos. O Colapso do Populismo no Brasil. A Revolução Brasileira. Há um elevado número de relatos jornalísticos e de memórias sobre os eventos de março/abril de 1964. 75 Anos de Economia Brasileira. IV. Citam-se aqui apenas alguns deles: Alberto Dines e outros. Recentemente foi publicado o 3º vol. Política e Revolução Social no Brasil. Introdução à Revolução de 1964. As Reformas de Base e a Política Nacionalista de Desenvolvimento. Octavio Ianni. 1964: Golpe ou Contragolpe?. "Crítica à Razão Dualista". Amad Costa. K. Estado e Planejamento Econômico no Brasil.

1964: Revista Brasileira. Estudos Sociais. Revista Civilização . Brasiliense.