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Vanessa da Paixão Alves Trabalho sobre a Escola dos Pós - Keynesianos apresentado ao curso de

Vanessa da Paixão Alves

Trabalho

sobre

a

Escola

dos

Pós

-

Keynesianos

apresentado

ao

curso

de

Mestrado

de

Ciências

Econômicas

do

Programa de Pós-Graduação em Economia da UFPA como requisito

parcial

para

obtenção

de

nota

da

Disciplina de Macroeconomia, solicitado pelo Prof. Dr. David Ferreira Carvalho.

Belém

2012

PÓS – KEYNESIANOS

Os Pós – Keynesianos revelaram-se um heterogêneo grupo de economistas unidos pela rejeição da síntese neoclássica, muitos dos modelos heterogêneos explorados por eles eram meramente variantes da teoria ortodoxa clássica e não eram baseados na revolução teórica fundamentada a partir da Teoria Geral de Keynes (1936). Segundo Holt (1997) os pós-Keynesianos podem ser divididos em dois grupos: Keynesianos europeus de Cambridge e os Keynesianos Americanos ou fundamentalistas.

O primeiro grupo era formado por Geoff Harcourt, Richard Kahn, Nicholas Kaldor, Michal Kalecki, Joan Robinson e Piero Sraffa questionaram a teoria ortodoxa "keynesiana" a partir das óticas do crescimento e da distribuição de renda. O intitulado grupo europeu, como todos os economistas clássicos, enfatizavam o comportamento e o funcionamento da economia real enquanto ignoravam, ou pelo menos, davam menor importância às implicações financeiras e monetárias.

O grupo dos americanos era formado por Victoria Chick, Alfred Eichner, Jan Kregel, Hyman Minsky, Basil Moore, George Schackle, Sidney Weintraub e Paul Davidson. Para essa concepção keynesiana, o objetivo deles consistia em mostrar que as decisões de investimento, poupança e financeiras são determinadas em uma economia monetária, onde, havendo uma incerteza sobre o futuro, o processo de produção demanda certo tempo.

Os economistas pós – Keynesianos aceitavam o princípio da demanda efetiva de Keynes como a base para toda a teoria macroeconômica que era aplicável para uma economia empresarial, nesse sentido a abordagem revolucionária de Keynes quanto às funções da moeda em uma economia monetária da produção era questão chave para entender o funcionamento real da economia.

Todas as variantes da teoria macroeconômica do mainstream, seja ela ligada as expectativas racionais (novos clássicos), monetarismo (velho clássico), teoria dos velhos Keynesianos (síntese neoclássica) ou novos Keynesianos, são fundamentadas sobre três postulados clássicos fundamentais: (i) o axioma de substituição bruta; (ii) o axioma da neutralidade da moeda e (iii) o axioma de um mundo econômico ergôtico.

O princípio da demanda efetiva de Keynes basicamente refutou os três postulados clássicos básicos e a partir daí pode demonstrar logicamente por que a Lei de

Say não é uma verdade absoluta quando modelamos uma economia que possui características de um mundo real. Keynes se contrapõe à Lei de Say através do princípio da demanda efetiva, uma vez que para ele a idéia de que toda oferta gera sua própria demanda não se aplicava para as novas sociedades industriais. A luz de uma analogia com a geometria, a teoria dos pós – Keynesinos pode ser chamada de economia não Euclidiana.

As características do mundo real que Keynes acreditava que poderia ser modelada somente a partir do descarte daqueles axiomas eram: (i) a moeda importa no curto e no longo prazo; isto é, moeda e preferência pela liquidez não são neutros, eles afetam as tomadas de decisões; (ii) o sistema econômico se movimenta sob o tempo calendário a partir de um passado irrevogável para um futuro incerto.

Decisões importantes envolvem produção, investimento e atividades de consumo que são tomadas em um ambiente de incerteza; (iii) contratos ex-post em termos monetários são uma instituição humana para funcionar eficientemente e organizar o tempo de produção e consumo e os processos de troca. O contrato em salário monetário é o mais onipresente de todos os contratos. (iv) desemprego, invés de pleno emprego, é uma situação de laissez-faire em um mercado orientado pela lógica da economia monetária da produção.

A Teoria Geral de Keynes foi desenvolvida a partir de uma análise das funções de demanda e oferta agregada para alcançar um ponto de demanda efetiva. A função de oferta agregada está relacionada com as expectativas de vendas dos empresários conivente com o nível de emprego que eles contratarão para qualquer volume de receita esperada. Esta função de oferta agregada indica que quanto maiores às expectativas de vendas mais trabalhadores serão contratados. A função de demanda agregada relaciona os fluxos de gastos dos compradores com qualquer nível de emprego dado.

Segundo a Lei de Say, todo gasto (demanda agregada) com produtos da indústria é igual ao custo total da produção agregada (oferta agregada) incluindo lucros brutos. Em outros termos, todo custo de produção será sempre recuperado pela venda do produto, nunca há falha de demanda efetiva. As curvas de oferta e demanda agregada sempre coincidem. Na economia da Lei de Say não existe obstáculos para o pleno emprego.

Com o objetivo de aprimorar a Lei de Say para torná-la coerente com o mundo real, Keynes desenvolveu um modelo onde às funções de demanda e oferta agregada não coincidem. Desse modo, Keynes dividiu a demanda agregada em duas classes, D1 representaria todos os gastos que dependem do nível de renda agregada e, assim, do nível de emprego e D2, representaria todos os outros gastos que não dependem da renda. Com isto, Keynes proclamando uma lei psicológica fundamental associada com os fatos da experiência onde a propensão marginal a consumir é sempre menor do que uma unidade, impedindo, dessa maneira, que a função de demanda agregada nunca coincidirá com a função de oferta agregada em um mundo real se D2 = 0. Assim, a Lei de Say não poderia ser aplicada sob a hipótese de ‘fatos da experiência’.

Outra crítica a Lei de Say era feita sob a ideia de preferencia de tempo, na visão clássica toda renda ganha em um período de tempo era sempre gasta com produtos da indústria. Na análise de Keynes, a preferencia de tempo determina quanta renda ganha atualmente é gasta em bens de consumo produzidos atualmente e quanto não é gasto com bens de consumo, mas em vez disso poupada com a compra de ativos líquidos.

De acordo com o sistema de Keynes, existe um segundo degrau de decisão, preferência pela liquidez, onde o arrendatário determina quais ativos líquidos eles irão reter, dessa forma, a renda será estocada a fim de transferir o poder de compra para um período futuro. Desde que todos os ativos líquidos tenham a propriedade essencial de não produtividade e não substitutividade para os produtos da indústria, eles demandaram ativos líquidos que não criam uma demanda por produtos industriais. Keynes desenvolveu sua teoria da preferencia pela liquidez a fim de demonstrar que qualquer explicação de desemprego involuntário requeria as propriedades essenciais da moeda e do juro, que diferenciava a teoria dele da teoria dos velhos e novos clássicos, dos velhos e novos Keynesianos.

As propriedades essenciais são: (i) a elasticidade da produtividade de todos os ativos líquidos incluindo a moeda é zero ou insignificante, ou seja, a moeda é não neutra, “a moeda não cresce em arvores”; (ii) a elasticidade de substituição entre ativos líquidos (incluindo moeda) e bens reprodutíveis é zero ou insignificante, ou seja, a existência de bens não reprodutíveis, moeda e ativos líquidos, que seriam demandados são gastos tanto no curto quanto no longo prazo com produtos produzidos por trabalhadores.

Keynes deu grande atenção para a diferença entre incerteza e probabilidade, principalmente em relação às decisões envolvendo a acumulação de riqueza e a posse de liquidez. A essência de sua Teoria Geral envolve preferencia pela liquidez e intuição (animal spirits) dominando as escolhas de gastos reais. A moeda desempenha um papel único dominando a situação das escolhas entre todos os ativos e ela é não neutra tanto no curto quanto no longo prazo.

Liquidez e animal spirits são as forças por trás da análise de Keynes que direcionam para o equilíbrio do desemprego de longo período, mesmo em um mundo de preços flexíveis. Nenhuma das probabilidades, objetiva e subjetiva, é suficiente para entender a regra de não neutralidade e as políticas monetárias na análise de equilíbrio do desemprego em Keynes.

A existência da instituição legal na sociedade força o cumprimento de contratos denominados em termos nominais (não reais !) criam um ambiente monetário que é não neutro, mesmo no longo prazo. Estes arranjos legais permitem aos agentes se proteger contra consequências imprevisíveis de decisões atuais com o objetivo de alcançar os recursos reais de suas produções e investimentos de longa duração. Os enforcements legais dos contratos monetários fixados permitem cada parte em um contrato ter expectativas sensíveis que se caso a outra parte não cumpra suas obrigações contratuais, a parte prejudicada tem notoriedade legal para ter uma compensação e não sofrer perda pecuniária.

A instituição social da moeda e a lei dos contratos monetários fixados capacitam os empresários e as famílias a formar expectativas sensíveis considerando fluxos monetários (mas não necessariamente produtos reais) ao longo do tempo e assim lidar com o futuro desconhecido. Dessa forma, as obrigações contratuais fixadas em termos nominais asseguram que as partes contratadas, apesar da incerteza, possam pelo menos determinar as consequências futuras em termos de fluxos monetários.

Contratos monetários fixados ex-post permitem aos empresários (e as famílias) encontrar uma sequencia eficiente para o uso e o pagamento pelos recursos em um tempo de consumo e de produção e os processos de troca. Moeda, em uma economia empresarial, é definida como o significado do estabelecimento de contratos. Isto implica que na teoria monetária Pós-keynesiana, a lei civil de contratos determina o que é moeda em qualquer sociedade com leis eficientes.

A posse da moeda, ou de qualquer ativo líquido (Davidson, 1982), fornece liquidez (um ativo líquido é aquele que é convertível por moeda em um mercado bem organizado). Liquidez é definida como a habilidade de conhecer as obrigações contratuais nominais daqueles quando elas vencem. Em um mundo de incertezas onde as obrigações são especificadas em termos de moeda, a retenção de moeda é uma escolha valiosa.

Quando aumenta o medo dos agentes quanto ao futuro incerto à demanda agregada por ‘esperar’ (mesmo no longo prazo), os agentes desviarão sua demanda ou direcionarão suas rendas da compra de produtos da indústria para demandar liquidez adicional (moeda e ativos líquidos). Consequentemente, a demanda efetiva para o trabalho no setor privado decresce. Somente em um ambiente imprevisível (não ergótico) é possível presumir que faz sentido o desvio dos gastos nesse sentido em oposição aos gastos com os vários produtos da indústria que são comercializados em mercados livres. Nesse sentido, o conceito de incerteza Keynesiano fornece os fundamentos para demanda por liquidez de longo prazo e possivelmente o equilíbrio de desemprego de longo prazo.

A análise revolucionária de Keynes, onde a moeda nunca é neutra e a liquidez é importante, é uma teoria geral de uma economia onde a imprevisibilidade completa do futuro pode ter consequências econômicas importantes. Para problemas envolvendo decisões de investimento e liquidez onde existem grandes chances de mudanças ao logo do período o tempo calendário não pode ser descartado, o modelo de incerteza de Keynes é, dessa forma, o mais adequado. Assim, abordagens que considerem um mundo onde os acontecimentos econômicos são regulares e continuam se comportando dessa maneira pelo futuro e onde a neutralidade da moeda é central fornecerá uma analogia enganosa para o desenvolvimento de políticas macroeconômicas.

Referência Bibliográfica

Snowdon, Brian and Vane, Howard R. (2005). Modern Macroeconomics:its origins development and current state. Cheltenhans, UK, Northanpton, USA, cap. 8. P. 451-472.