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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL FACULDADE DE EDUCAÇÃO DEPARAMENTO DE ESTUDOS BÁSICOS EDU03022

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL

FACULDADE DE EDUCAÇÃO

DEPARAMENTO DE ESTUDOS BÁSICOS

EDU03022 - POLÍTICAS DA EDUCAÇÃO BÁSICA

A Sociologia na Reestruturação do Ensino Médio: O caso do Colégio Rio Branco de Porto Alegre

Guilherme Sumariva, João Paulo Buchholz, Luiz Otávio Fleck e Murilo Gelain

Porto Alegre, 25 de junho de 2013

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Temática e justificativa

As políticas de implementação do ensino politécnico nas escolas Estaduais do Rio Grande do Sul iniciaram-se no ano de 2011. Com elas, a estruturação do currículo do Ensino Médio foi alterada, de forma a dar margem à interdisciplinaridade das grandes áreas. Estas áreas são (1) Ciências Humanas e suas tecnologias, (2) Ciências Naturais e suas tecnologias, (3) Linguagens e suas tecnologias e (4) Matemática e suas tecnologias, e o objeto de nosso estudo se encontra na primeira área, a das Ciências Humanas. Nela, estão contidas, se comparadas com o currículo clássico, as matérias de Filosofia, História, Geografia e Sociologia 1 . Este trabalho analisará com mais profundidade o ensino de Sociologia.

A importância do ensino das teorias sociológicas no Ensino Médio se faz evidente: um ser humano que não possui conhecimentos básicos sobre a formação e o funcionamento da sociedade onde vive terá dificuldades em compreender o seu papel como ser social. A sociologia deve ser um dos conhecimentos fundamentais a ajudar no desenvolvimento do cidadão, tornando-o um ser crítico e capaz de transformar a si mesmo e à sua conjuntura social. Tomando isso como base, as políticas educacionais aplicadas devem ser constantemente repensadas e reavaliadas, já que a sociedade se transforma a todo o momento, possibilitando ao corpo educacional e estudantil se desenvolverem constantemente. A proposta aplicada pelo governo do estado do RS, e aceita 2 pela escola, se torna objeto de estudo, para que tentemos mensurar as suas aplicabilidades, benfeitorias e transformações, bem como suas dificuldades, seus transtornos e reações contrárias.

2 Objetivos e Procedimentos Metodológicos

Usando de entrevistas, visitação à escola, observação participante e aporte teórico textual, buscamos saber do desenvolvimento das novas formas de currículo no Colégio Rio Branco de Porto Alegre. Para compreendermos melhor a situação do corpo docente, entrevistamos o diretor da escola, bem como o professor responsável pelo ensino de Sociologia no Ensino Médio. Quanto ao próprio ensino, acompanhamos duas aulas para

1 É importante frisar que, no documento da proposta educacional redigido pela Secretária da Educação, as áreas abordadas dentro do conhecimento humano são “conhecimentos filosóficos, geográficos e sócio-históricos(grifo nosso), assumindo a natural interdisciplinaridade entre, por exemplo, História e Sociologia. Disponível em: http://www.educacao.rs.gov.br/dados/ens_med_proposta.pdf, pp.26. Acessado em 10 de junho de 2013.

2 A proposta feita pelo Governo do Estado não obriga todas as escolas a implementar o novo currículo. Neste trabalho, nos referiremos ao Colégio Rio Branco de Porto Alegre, que a aceitou e vem trabalhando com ele.

turmas de primeiro e segundo ano, tentando verificar a aceitação e a compreensão por parte dos alunos, bem como o desenvolvimento da aula ministrada pelo professor.

Além do material coletado nas visitas ao Colégio Rio Branco, foi utilizado a experiência proporcionada pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência, como monitoria na Escola de Ensino Médio Padre Réus, e dados coletados em uma pesquisa sobre o tema chamada “A Sociologia no Ensino Médio”, coordenado pela Prof. Drª Luiza Helena Pereira, do departamento de Sociologia da UFRGS.

Os principais objetivos da experiência empírica foram os de observar as condições nas quais as aulas eram ministradas (as características físicas da escola, o tempo de aula e etc.), a análise do corpo docente (diretoria, professor de sociologia e etc.), as condições administrativas (recursos humanos, verba, capacitação e etc.) e o corpo discente (desenvolvimento do conhecimento, entendimento do aporte teórico, condições de aprendizagem e etc.). A análise da experiência empírica nos possibilitou, de maneira geral, chegar às conclusões, que serão explicitadas adiante, quanto à implementação desta política pública.

3 A administração e o corpo docente

Para buscar mais informações acerca da proposta de reestruturação do Ensino Médio, no dirigimos primariamente à direção do colégio. Conversamos com Cesar Augusto Piccinini, diretor do turno da manhã. Em sua fala, notava-se que era favorável à implementação do novo currículo, porém não da forma como foi implementado. De forma geral, é possível dizer que a interdisciplinaridade 3 trouxe aspectos favoráveis (maior abrangência e comunicação entre as áreas, para o corpo discente) e aspectos a serem superados (dificuldade de realização de trabalhos colaborativos entre os professores, devido, principalmente, às suas formações específicas).

Dentre as dificuldades, é impossível não citar a falta de recursos. Na parte de recursos humanos, o principal problema é a falta de capacitação 4 por parte dos docentes quanto à

3 Entenda-se por interdisciplinaridade a tentativa de mesclar conhecimentos específicos de matérias dos conhecimentos fundamentais entre si, de forma avaliá-los conjuntamente. 4 Evidentemente que quando nos referimos à capacitação estamos levando em conta os fundamentos da educação superior brasileira atual. São poucas as propostas e tentativas de formar um profissional interdisciplinar correntemente no Brasil. Universidades como a UFJF possuem cursos de bacharelado em Ciências Humanas, por exemplo, o quê é uma tentativa de inovação nesta área, apesar de não ser uma licenciatura. Mais informações em http://www.ufjf.br/bach/, acessado em 10 de junho de 2013.

proposta de interdisciplinaridade. Na observação do diretor, quanto mais acostumado e experiente é o professor na sua área, maior é a dificuldade em conseguir desenvolver projetos com professores de outras áreas. Nesse sentido, falta um apoio do próprio governo estadual, que ofereceu a transformação do ensino, mas não os recursos para a capacitação e o desenvolvimento dos professores. Por isso, apesar de ser majoritariamente aceito, o novo EM sofre resistências, principalmente pelas alas mais conservadoras do colégio. Não cabe aqui trocar em miúdos quais são as variantes (sua área de formação, sua idade, sua orientação política) que predispõem um professor a resistir a essas medidas, mas cabe dizer que por mais que haja resistências o programa avança, mesmo em condições precárias.

Além dos problemas específicos, ainda persistem os problemas crônicos que assombram a educação pública no Brasil: pouco investimento, que resulta na falta de professores, de material e de condições físico-estruturais adequadas.

Dentre os profissionais que avaliam como bom o novo currículo, o principal argumento, dentre outros, é o de quê o índice de frequência e de aprovação por parte dos alunos subiu, demonstrando que os alunos gostaram da proposta, ou que pelo menos os grupos de alunos que não mantinham frequência e boas notas tem se interessado mais pelo ensino. Além disso, a frequência na biblioteca da escola aumentou desde que a política foi implementada, demonstrando que os alunos têm buscado mais contato com a leitura. Outro ponto positivo, que se revela o grande desafio desta política, é a Interdisciplinaridade antes referida. É possível notar certa polarização quanto ao entendimento deste tipo de atividade. Enquanto alguns têm dificuldade (ou não concordam) com esta medida, outros trabalham autonomamente para desenvolvê-las, levando em conta o fato do governo não trazer auxílio adequado para este aspecto. De fato, os professores que tem conseguido aplica-la de maneira mais clara e didática para os seus alunos, vêm evidenciando uma melhora nos seus “níveis” intelectuais 5 . Tendo em vista o fato de quê a interdisciplinaridade proposta pela política não prevê um desenvolvimento específico da educação (como a obrigatoriedade de vincular um conteúdo de uma matéria com um conteúdo de outra matéria, especificamente), é dedutível que o professor ganha autonomia para desenvolver o seu trabalho. O problema que vem com

5 Referimo-nos às melhoras nas notas dos alunos, relativos a conceitos, e não de uma dada inteligência referencial. Se a nota representa, também, uma melhora no aspecto crítico do aluno, se sua vida “melhora” com a implementação desta política, não cabe a este trabalho mensurar, tendo em vista a complexidade e a subjetividade de tal tarefa.

esta autonomia é outro: como é possível mensurar o conhecimento adquirido pelo aluno se o quê está sendo ensinado é novo, sem precedentes e, portanto, sem pontos de referência? 6

4 O professor e os alunos

pontos de referência? 6 4 – O professor e os alunos O resultado final de qualquer

O resultado final de qualquer política educacional relacionado ao currículo é percebido, finalmente, na sala de aula. Ao entrevistarmos o professor Leandro Lied 7 , ministrante de sociologia para turmas de primeiro e segundo ano do Ensino Médio do Colégio Rio Branco, nos foi relatado quê o comprometimento por parte dos alunos, tanto quanto a construção de seus conhecimentos, obteve uma melhora significativa. Para o professor, em muitos anos não aconteciam coisas como o surgimento de dúvidas por partes dos alunos, o interesse em pesquisa autônoma (relacionada

6 Frisamos que, aqui, não estamos fazendo uma análise própria, e sim demonstrando a “preocupação” por parte de alguns setores da sociedade quanto a esta política. De fato, a pergunta que deveria ser colocada é “por que devemos avaliar, de qualquer forma tradicional, o aluno? Se a política visa o desenvolvimento de uma nova educação, por quê não buscar novas formas de avaliar (ou não avaliar) os discentes?”. 7 Leandro Lied é professor graduado em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo. O fato de não ser graduado na área onde atua não parece atrapalhá-lo no processo educacional. Pelo contrário, parece estimulá-lo a aprender mais (não se excluindo o fato de quê já lecionava sociologia antes do novo currículo). Com isso demonstra-se, ou pode-se supor, que o professor tem a capacidade de lecionar um outro conteúdo que não o de sua carga acadêmica superior. A discussão acerca das variantes que capacitam, ou estimulam, um profissional a adquirir conhecimento autonomamente não cabe neste momento.

ou não à implementação dos Seminários Integrados) e o aumento já citado de frequência escolar.

Pensando acerca do ensino próprio dos conteúdos de sociologia e sua integração com outras áreas, o professor buscou outras formas que não as convencionais de orientar os estudos de seus alunos, bem como as formas de avaliação. A imagem da página 5 demonstra uma forma nada convencional de avaliação: a exposição da experiência pessoal e a reflexão sobre ela no mundo do trabalho. De acordo com o professor, a possibilidade que existia no currículo anterior, porém com menos liberdade de problematizar os conteúdos de outra forma foi possível com a ligação dos conteúdos, tanto quanto as suas relações com os Seminários Integrados. O professor relata, entusiasmado, que “fazia muitos anos que os alunos não se entusiasmavam com a matéria. O interesse deles me ‘obrigou’ a fazer pesquisa de metodologia novamente, o quê me deixou muito feliz.”. No caso, o professor se referia ao seu retorno ao estudo de métodos investigativos de conjunturas (como nível de abstração) sociais, para orientar um aluno que gostaria de fazer uma pesquisa.

Quanto ao material didático, a política também é inovadora: o livro não retorna para o Colégio no final do ano ou do período que deveria ser usado. O professor os distribui, um para cada aluno, e eles o tomam como patrimônio. O efeito deste tipo de política ainda deve ter seus resultados avaliados futuramente. O professor, com um palpite, baseado principalmente no fato de ter aumentado o interesse por parte dos alunos, reflete que isso pode, sim, ser algo extremamente positivo:

apesar do maior gasto por parte do governo (o quê não é ruim, tendo em vista a parca utilização de verbas nessa área) tendo de comprar livros constantemente, não reutilizando-os nos anos seguintes com outros estudantes, trará benefícios para os alunos. Admitindo-se a triste realidade a qual muitos alunos não têm o hábito de serem leitores, o livro como patrimônio deles pode ser útil e uma ferramenta para a vida. Como o livro traz muitas reflexões relacionadas ao mundo do trabalho

deles pode ser útil e uma ferramenta para a vida. Como o livro traz muitas reflexões

realidade que será (e é) vivida, precocemente na maioria das vezes, pela maioria dos alunos

daquela escola pode ser usado 8 futuramente pelo jovem trabalhador, recordando o quê refletiu no período escolar. De fato, Leandro coloca quê dá duas ênfases para sociologia com seus alunos: a sociologia do trabalho, para aqueles que não pretendem continuar os seus estudos, pelo menos em um curso superior, e a sociologia para o Vestibular (principalmente ENEM) para aqueles que buscaram uma vaga nas Universidades Federais. Desta forma, acredita, que a matéria se torna útil para todos os tipos de alunos, com suas realidades e expectativas para o futuro.

5 Pareceres individuais

Guilherme Sumariva

A importância de se buscar novas alternativas e métodos educacionais se mostra evidente. Apesar das críticas feitas à tentativa, que partiu do governo do estado de maneira relativamente autoritária -, de reformular o EM, o modelo se mostra cabível à realidade do Colégio Rio Branco. Apesar das imensas dificuldades acerca da interdisciplinaridade, principalmente relativas às formações específicas de seu corpo docente, a política pública como proposta e objetivo se mostram inovadoras. À partir do momento em que uma proposta ajuda os professores a lecionarem de forma a trazer os conceitos para a realidade com mais facilidade, como no caso da sociologia que se relaciona com outros conteúdos da área das humanidades, o conhecimento se torna aplicavelmente útil. De fato, uma das grandes dificuldades que os educadores (e o sistema educacional como um todo) têm de fazer com quê

o aluno tenha interesse pela disciplina, é a sua “visibilidade” no mundo cotidiano. O exemplo

de Leandro, que se utiliza das experiências dos alunos e as relaciona com as teorias sociológicas fundadoras (marxiana, weberiana, durkheiniana) relativas ao trabalho, demonstra a preocupação dos docentes e da proposta como um todo de trazer novas ideias ao campo da pedagogia. Isso é, evidentemente, se comparado ao arcabouço iluminista do século XVIII, um avanço considerável.

Não é possível negar, todavia, que ainda há muito o quê se fazer. Deve-se aumentar o investimento em educação pública e de qualidade. Deve-se estimular uma educação autônoma

8 Não nos referimos ao livro como uma arma libertadora por si só. Mas é impossível dizer que há libertação sem autonomia intelectual, e o livro faz parte de vários se não todos os processos de reflexão autônoma humana, considerando que a própria ação de ler é reflexiva. Para mais, ver FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia, (1996) e Pedagogia da Esperança (1968), ambas da Editora Paz e Terra, São Paulo/SP.

e relativizadora (que respeite as conjunturas regionais e que se relacione com as conjunturas

nacionais e, por que não, globais), que possa abranger diferentes realidades, classes, etnias,

tradições e formações. A intenção de mesclar os conhecimentos da área das humanidades, de forma interdisciplinar, é um avanço. Mas é necessária avançar mais, evidentemente que com planejamento e cautela. Existem, ainda, problemas estruturais dentro das próprias disciplinas que precisam ser repensados (como a maneira conteúdista a qual a disciplina de História é ensinada; a maneira nada relativizadora a qual a língua materna é lecionada, ignorando dialetos, variações e se inclinando até mesmo ao preconceito linguístico).

Tudo faz parte de um processo: não adianta implementar uma política a qual nem mesmo os alunos estariam aptos ou suscetíveis a aceitar. No entanto, o processo precisa ser contínuo. Não basta parar por aqui. A autocrítica é fundamental para qualquer ciência que admita a dialética, como a pedagogia. Cabe a nós aguardarmos seus resultados e os interpretar futuramente.

João Paulo Buchholz

Através da pesquisa e das entrevistas realizadas, percebe-se nitidamente o impacto da reformulação do Ensino Médio na sociedade brasileira. Uma política preocupada em garantir

a interdisciplinaridade e a troca entre professor e aluno produz, enfim, o diálogo dentro de sala de aula. Diálogo no qual tantos pesquisadores definiram como objeto central do aprendizado em sala de aula. Dentre estes autores temos nomes célebres como Jean Piaget e Paulo Freire. Convenhamos que políticas de educação que seguem uma proposta de pesquisadores como Piaget e Freire estão, no mínimo, a par das mais respaldadas contribuições acadêmicas em termos de Pedagogia e Epistemologia.

Apesar de muitos problemas na aplicação deste novo currículo, tais como a inexistência de uma formação adequada dos professores e a falta de condições materiais propícias a aplicação de um projeto interdisciplinar eficiente, torna visível que a reformulação do EM não passa pela valorização do profissional.

Mesmo que não exista uma política de valorização do profissional, o Novo Ensino Médio tem atingido muitos êxitos, tais como:

-Maior frequência em sala de aula;

-Maior desempenho nas avaliações;

-Aumento da procura de livros na biblioteca;

-Aumento da participação dos alunos em sala de aula;

Como vimos, estes foram os aspectos comemorados pelo professor Leandro, do Colégio Rio Branco. Tanto que, como o próprio professor comentou, foi necessário que ele revisasse alguns de seus conteúdos metodológicos. Ou seja, o novo currículo do ensino médio estimula mais os alunos em suas atividades intelectuais e, ao mesmo tempo, renova e atualiza o conhecimento dos docentes.

Outro fator venerável, é a implementação da disciplina de sociologia como obrigatória, isso implica na utilização de um material didático (livro) específico da disciplina que fica em posse do aluno, como patrimônio. Este simples quesito aproxima de maneira potencialmente forte o aluno da leitura de questões sociais. Um aluno com uma carga de leitura de História e Sociologia adquire uma capacidade de questionamento, inegavelmente, muito grande. A leitura destas disciplinas corrobora com um conhecimento questionador, que tende, por consequência, a proporcionar uma autonomia de pensamento fundamental para o aluno, já que é esta a função do ensino fundamental, médio, ou superior: emancipar o aluno. Prática muito diferente do ensino técnico, que procura formar da maneira mais rápida possível uma mão de obra qualificada.

Desta maneira, a implementação de uma disciplina, com um poder de contestação tão grande, como o da sociologia aliada da interdisciplinaridade do Novo Ensino Médio, tornam a escola, realmente ou potencialmente, um local de emancipação.

Luiz Otávio Fleck

A implantação do ensino de sociologia e do Seminário Integrado no Ensino Médio, não está sendo acompanhada por um projeto de reestruturação e de recursos humanos. Primeiro, os professores que ministram as aulas de sociologia, raramente são formados na área. O professor de sociologia que entrevistamos no Colégio Rio Branco, não é formado em ciências sociais, mas em filosofia. Apesar disso não influenciar na qualidade de sua aula, faz com que ele tenha que buscar conhecimento que não foi adquirido durante sua graduação.

O mesmo acontece na grande maioria das escolas públicas. O ensino de sociologia normalmente fica nas mãos de professores formados em história, pedagogia ou filosofia, que muitas vezes não dominam o assunto. São obrigados a atuar fora de sua área de formação, complementando suas horas de trabalho e dando uma “tapeada” na lazeira do ensino público.

Segundo, a implantação do Seminário Integrado (SI) tem apresentado efeitos positivos sobre os alunos. Porém, quanto aos professores têm ocorrido problemas, pois a grande maioria não está capacitada para lidar com a multidisciplinaridade proposta pelo SI. Além

disso, no que toca a estrutura, faltam materiais para realizar as pesquisas, além de apoio financeiro e de recursos humanos, por parte do estado e da União. Não são oferecidos aos professores cursos de capacitação.

Quanto à sociologia, não há projetos específicos na área, que vai entrando no SI na medida do desenvolvimento dos projetos. Entra, portanto, como uma matéria auxiliar aos projetos desenvolvidos dentro da área das humanas.

Murilo Gelain

Com a implementação da lei federal nº 11.684/08, que torna as disciplinas de sociologia e filosofia obrigatórias no ensino médio, nos deparamos com uma alteração no currículo das escolas. Esta louvável lei representa um avanço na educação pública, do ponto de vista de todos que desejam ver um ensino público formador de pensamento crítico. Muito do que foi observado no Colégio Rio Branco se repete em outras escolas, principalmente no que tange à falta de professores licenciados em sociologia e a precária infraestrutura. Quanto à questão dos professores de outras disciplinas dando aula de sociologia, esta é uma realidade que logo será passado, tendo em vista que desde que a lei foi implementada, diversos concursos vêm sendo abertos buscando preencher as vagas de docentes aptos para exercer a docência de filosofia e sociologia. Com relação à infraestrutura, cabe ao governo federal destinar mais recursos às secretarias estaduais e procurar ampliar ações e programas voltadas para a aquisição de materiais do ensino básico.

No que diz respeito à observação da implementação da sociologia no ensino médio, com minha experiência monitorando aulas na Escola de Ensino Médio Padre Réus, situado na Zona Sul de POA, poderia pontuar algumas coisas.

Em primeiro lugar, que os alunos, de um modo geral, parecem se interessar muito pela disciplina. Talvez por ser uma matéria que os trata como agentes da aula. O diálogo aluno-professor é de extrema importância na aula de sociologia, sendo assim, a participação deles é essencial.

O Padre Réus, diferente da esmagadora maioria das escolas públicas, conta com alguns recursos materiais diferenciados, o que possibilita aulas com utilização de multimídias tais como músicas, vídeos, apresentações em power point, etc.

Sobre o currículo, a direção da escola fez apenas uma exigência: a de que fossem estudados os três clássicos (Weber, Durkheim e Marx) e que fosse dada uma ênfase em Marx. Por um lado, isso possibilita que o professor tenha maior liberdade para

organizar seu planejamento, porém, para professores que não dominam a sociologia, isso pode ser um óbice, logo que a sociologia não é cobrada no vestibular, e em muitas escolas, o ensino médio é tratado como uma antessala ao vestibular.

Os professores de sociologia do Padre Réus são dois, e ambos com formação específica em Sociologia, também diferente de grande parte das escolas públicas. Os concursos trouxeram uma nova leva de professores, uma boa parte deles sendo de recém-formados (como é o caso de um professor do Padre Réus), o que também pode ser um ponto positivo, logo que oxigena o ambiente escolar e leva novas ideias à sala dos professores, literalmente.

Um ponto negativo é o fato de só haver um período por semana destinado à sociologia, o que faz com que os conteúdos sejam trabalhados muito rapidamente, e impossibilitando debates mais extensos. Muitas vezes os próprios alunos querem continuar discutindo um tema e o tempo acaba restringindo, fazendo com que, às vezes, um ou dois alunos fiquem na sala mesmo depois de bater, querendo estender a conversa com o professor.

No mais, só temos a exaltar a implementação de sociologia no ensino público e esperar que o governo cumpra sua parte. Aos que tanto criticaram a lei nº 11.684/08, os tempos presentes nos mostram a importância de se aprender a refletir sobre o meio social e a interpretar fenômenos sociais como os que vemos diariamente.

Referências bibliográficas

BAGNO, Marcos. Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. Parábola Editorial, 2007, São Paulo/SP.

FERREIRO, Emília. Atualidade de Jean Piaget. Editora Artmed, 2001, São Paulo/SP.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Editora Paz e Terra, 1996, São Paulo/SP.

Pedagogia da Esperança. Editora Paz e Terra, 1968, São Paulo/SP.

SECRETARIA ESTADUAL DE EDUCAÇÃO: Proposta de reformulação do Ensino Médio. Disponível em http://www.educacao.rs.gov.br/dados/ens_med_proposta.pdf.