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O COMUM

O COMUM
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EDIÇÕES ECOPY
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F 
A Alexandre de Almeida
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C Paulo Ribeiro
C On Demand 51
D L 268452/07
ISBN 978-989-8080-40-0
L Porto
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E  Rua de J. J. Ribeiro Teles, , 1º, Sala J
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edicoes.ecopy@macalfa.pt
C   Biblioteca Nacional de Portugal
ALMEIDA, Alexandre de, 1983-
O comum. – (On demand ; 51)
ISBN 978-989-8080-40-0
CDU 821.134.3-31”20”
— Índice —

Introdução ...................................................9
Capítulo 1 ................................................. 11
— Amizade .............................................. 11
Capítulo 2 ................................................ 29
— Pernet Triste ........................................ 29
Capítulo 3 ................................................. 43
— Três Irmãos Pobres ............................... 43
Capítulo 4 ................................................. 63
— Clarisse ............................................... 63
Capítulo 5 ................................................. 93
— Rosário ................................................ 93
Capítulo 6 ............................................... 113
— Um Passado Miserável ........................ 113
Capítulo 7 ............................................... 161
— O Serão ............................................. 161
Capítulo 8 ............................................... 179
— A Felicidade Por Fim .......................... 179
 

Introdução

Olhamos para o sol; mesmo que ele nos cegue não po-
demos evitá-lo. Sentimos o seu calor, a beleza que nos arre-
bata, que faz com que queiramos voar, tocá-lo, senti-lo, por
mais absurdo que isso possa parecer. É neste estado de êxta-
se, quase permitindo tocar o céu, que nos vem à memória,
muito de repente, inesperado, alguém capaz de nos encher o
corpo e a alma de serenidade e calor, alguém que amamos,
aquele ser tão especial, capaz de nos arrancar o sentimento
mais puro, profundo e pacífico que, afinal, desconhecíamos
ter. Pensamos e não compreendemos, por mais que se quei-
ra, o porquê.
Porque somos capaz de sentir e ver o sol, o seu ca-
lor que nos aquece, estando ele a milhões de quilómetros,
quase alcançando o infinito perante a impossibilidade de
ser tocado por mão humana. Então torna-se confuso e por
vezes desesperante quando simplesmente não somos capaz
de sentir o corpo, cheirar o perfume, ver os olhos e nem
tocar a face da pessoa que mais amamos estando ela apenas
a poucas centenas de metros; distâncias intoleráveis muitas
vezes multiplicadas por invejas sem sentido e ódios tempes-


  

tuosos de humanos que por vezes nem merecem o título de


“pessoa”.
Sentimentos tão complexos e, por vezes, incompreen-
síveis, em seres tão simples. Sentimentos como o amor, tão
incontroláveis por ser a mando do coração e não do raciocí-
nio lógico; mas olhando mais atentamente, isso é comum;
sofrer por esses sentimentos, isso é comum; lutar por eles,
isso é comum; morrer-se por eles, isso é comum.
Para infelicidade de inúmeros amantes de paixões fo-
gosas e amores verdadeiros, o destino reserva, por vezes,
uma realidade bem mais cruel que condiciona a liberdade
de se amarem.
Porém o amor e a relação perfeita existe: sempre que o
sol se põe e a lua nasce, por um breve instante eles tocam-se,
mesmo sendo um momento breve e fugaz; esse momento é
sublime e eterno.
Comum, também, é a existência de obstáculos, sejam
pessoas ou medos, físicos ou mentais, que teimam em inter-
por-se entre um amor perfeito e divinal. Essas pessoas no-
jentas não têm a mínima consciência do que é amar ou ser
amado; só entendem o ódio, jamais serão livres ou felizes.
Mas o amor trata-se, muitas vezes, de sofrimento e
dor, de muitas noites sem dormir, outras tantas a chorar,
mergulhado apenas em pensamentos, na tristeza.
Quando, no fim, tudo for ultrapassado, esse amor
chegara finalmente a um lugar etéreo que chamará seu, res-
plandecendo de perfeição… talvez!


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Capítulo 1
— Amizade —
— Pedro, está tudo pronto para o serão da noite de hoje?
— Perguntou com serenidade a seu mordomo, sabendo que
ele levaria o seu trabalho e suas ordens a bom porto. — Não
irei tolerar qualquer tipo de falha da sua parte. Ouviu bem?
O senhor Pernet tinha um gozo secreto em provocar
Pedro pela simples razão de ele ser tão eficiente e meticulo-
so no seu trabalho de mordomia. Gostava de testar a sua pa-
ciência; no entanto, o mordomo respondia-lhe sempre com
um sorriso, dando a entender que conhecia bem as inten-
ções do seu patrão.
A pergunta era, de facto, retórica, pois Pernet confiava
totalmente na sua competência.
— Sim, senhor Pernet, encontra-se tudo conforme or-
dens e indicações do senhor. — Respondeu Pedro com o
sorriso que Pernet bem conhecia e com um olhar de satisfa-
ção que lhe percorria as rugas do rosto, bem barbeado, até
aos finos fios de cabelo branco penteado para trás e seguro
com pouco gel.


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— Ordenei a Isabel que preparasse a mesa para doze


pessoas, com os talheres de prata, os copos de cristal e os
pratos com borda de ouro, tudo disposto sobre a toalha de
mesa bordada de linho branco.
Isabel era a criada e cozinheira de Pernet. Mulher sim-
pática de sorrisos calorosos e acolhedores; os olhos cor de
âmbar pareciam dotados de vida própria com movimentos
de chamas bem alimentadas quando neles incidiam qual-
quer tipo de luz, fosse de vela, sol, ou mesmo de luar.
Um caracol de cabelo — Espreitando pelo barrete da
sua farda preta com avental branco rendado no rebordo —
que lhe percorria a testa, passando ao lado da sua vista direi-
ta, tocava ténue nos lábios finos de contornos graciosos, fi-
nalmente terminando sublime ao fundo do queixo pequeno e
arredondado; era cor de fogo, um ruivo intenso que prendia e
enchia de luz o olhar de qualquer ser sensível; era causador de
invejas a essas senhoras de posses que gastam fortunas com a
sua aparência o que nem por isso as torna mais formosas.
De facto, Isabel tinha uma pele bonita, sedosa e com
brilho certo, ligeiramente corada nas maçãs do rosto cuja
fina pele cobria os ossos salientes. É certo que a sua nun-
ca vira qualquer tipo de cosméticos, nem mesmo cremes
para cuidado da pele. A beleza dos seus gentis trinta e oito
anos de vida deve-se apenas à natureza do que ela é. Bela e
simples, dir-se-ia que aparentava, no máximo, trinta anos.
Aquela mulher de corpo raro e de proporções certas incen-
diava a alma de qualquer homem que a visse, levando-os,
por vezes, à gaguez.
— E a biblioteca? Está já preparada? Tem em atenção
que iremos receber, como convidados, professores universi-


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tários, intelectuais e membros da alta sociedade. Tudo tem


que estar perfeito para este serão. — Perguntou Pernet, sa-
bendo que, certamente, Pedro já teria tudo preparado; ele
apenas testou de novo a sua paciência.
— Sim, senhor, a biblioteca encontra-se pronta. O
sofá disposto como foi ordenado, a lareira já arde intensa
com vida própria. Uma fornalha de amores ardentes inex-
tinguíveis que se consomem com real paixão!
Aquele homem tinha um não sei quê de poético que
muito agradava e inspirava a alma de Pernet.
— Obrigado, Pedro.
— Não se preocupe senhor. O serão irá ser um tre-
mendo sucesso. — Assegurou Pedro com certo brilho no
olhar.
— Bem sei, meu amigo, sei-o porque és tu que me es-
tás a organizar tudo.
De facto, a confiança que Pernet tinha pelo seu mor-
domo, mas acima de tudo bom amigo, atingia um pata-
mar elevado, chegando mesmo à totalidade num piscar de
olhos.
O patrão afeiçoou-se muito a Pedro, que esteve sem-
pre do seu lado, quer fosse nos bons ou nos maus momentos
de existência. Tornaram-se muito amigos. Ambos sabiam
no coração que o outro estaria sempre presente e preparado
para ajudar a sarar feridas que tanto magoam na alma, a le-
vantar o outro sempre que um deles caía. Disposto a entrar
naquela gruta escura, fria e húmida, que é a solidão, resga-
tar a alma das trevas nas alturas em que ela se fecha numa
redoma de vidro inquebrável sem ajuda exterior, o outro a
destruiria com a simples coragem e vontade de ajudar um


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amigo que cai ao fosso. A amizade sincera, o apoio incondi-


cional e a compreensão, por vezes, é o suficiente para salvar
um amigo e ajudá-lo a escalar as paredes frias do fosso em
que se encontra perdido.
Quando um precisava de apoio, o outro estaria sempre
presente, disposto a ouvir os queixumes e mozambices que
os poderiam atormentar, procurando sempre dar os melho-
res conselhos e apoiarem-se o mais eficazmente que sabiam.
Acaso acontecesse encontrarem-se ambos num infinito fosso
de tristeza, arranjavam forças um no outro e lá conseguiam
subir de novo, a custo é certo, mas subiam.
Cair no fosso é tão mais fácil, mas a capacidade e for-
ça para sair é o que nos torna especiais e únicos, é a vontade
intrinsecamente humana de viver. Infelizmente, nem todos
possuem ou encontram no âmago esse fervor pela vida. Não
é fácil a luta contra demónios que nos atormentam e ras-
gam a carne, arrancando-a dos ossos, mas não é uma luta
invencível; pode-se vencer, basta ter o desejo e um pouco de
ajuda.
Há quatro anos que Pernet e Pedro se conheciam. Gra-
dualmente, a relação de patrão e empregado foi-se transfor-
mando numa amizade incrível. Eles desabafavam tudo um
ao outro, falavam dos passados distantes e de experiências
de vida, por vezes, muito duras. Daquele modo foram-se
tornando unidos, inseparáveis, os melhores amigos que a
vida e o destino conseguiu juntar.
Durante aquelas conversas, foram-se conhecendo cada
vez mais e melhor, ambos sabiam; mais do que isso, tinham
a certeza de o quão verdadeiro o outro era e que, sem dúvi-
da, podiam confiar. Daí tiraram a conclusão que um estaria


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sempre presente para o outro quando fosse necessária a aju-


da e o apoio de um bom amigo, sempre na certeza de que
as falhas de amizade seriam raras — na verdade, eram mais
que raras, eram inexistentes.
Viam o quão parecidos eles realmente eram. Mesmo
separados por décadas de vida e experiência, partilhavam
os mesmos ideais e as mesmas ideias. Nunca a riqueza de
Pernet foi objecção à amizade que os unia. Duas grandes
mentes pensam de maneira semelhante.
Jamais, mas jamais, eles se abandonariam nos tempos
mais difíceis; sempre que um chamasse, o outro estaria lá,
disposto a enfrentar qualquer dificuldade, porcaria ou con-
sequência que a vida — na sua maior crueldade — lhes pu-
desse atirar à cara.
A união faz a força: eles juntos eram uma força inaba-
lável.
É basicamente nisto que se define uma relação ver-
dadeira e inegável de amizade, é no facto de sabermos que
podemos contar com um amigo. Isso deixa qualquer pessoa
tranquila, por que não, mais segura de si própria.
— Muito me elogia o senhor. Porém, faço apenas o
meu trabalho, não susceptível nem merecedor de tais elo-
gios por parte do senhor. São compromissos e obrigações
que de bom grado aceitei ao assinar o contrato proposto
pelo senhor. — Disse Pedro, prostrado ao lado direito de
Pernet que se encontrava sentado frente à secretária de cere-
jeira do escritório.
— Que besteiras me dizes, Pedro. Um contrato não
passa de um pedaço de papel redigido por Alvim, meu ad-
vogado; bem sabes. Para mim, tem a mesma importância


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que a cinza de um cigarro pousada no fundo de um cinzeiro


de vidro. — Assegurou, não entendendo o porquê das pa-
lavras do mordomo. — Quantas vezes te disse já que não
és apenas mordomo? Quantas vezes te disse já para não me
tratares por senhor mas sim por Xavier? Há quantos anos
nos conhecemos? Diz-me, Pedro!
— Há já quatro anos, senhor.
— Senhor, não: Xavier!
— Peço desculpa: Xavier.
— Assim já nos entendemos! Pedro, tudo o que fazes
merece elogios. Dou-tos como amigo, não como patrão.
— Mesmo nestes quatro anos creio que ainda não me
acostumei a isso. A separar amizade de trabalho. Foram mui-
tos mais os anos a trabalhar para gente tão diferente de ti.
— Não, Pedro, já trabalhas para mim há muito. So-
mos amigos há muito. Deves juntar amizade ao trabalho,
não separar! Não somos amigos apenas quando um de nós
precisa, mas sim a todos os minutos do dia.
— A culpa reside em ter sido mordomo toda a vida,
não estou habituado de outra maneira. Nunca um patrão
me permitiu tais liberdades, nunca nenhum foi meu amigo
como é o senhor. — Confessou, mostrando alguma emoção
e com certa humidade nos olhos.
— Pedro! — Disse, abrindo mais os olhos. O mordo-
mo entendeu.
— Amigo como tu és, Xavier. — Corrigiu.
— Amigos como nós somos. Apenas é mister trata-
res-me por senhor em frente a convidados. Às vezes as pes-
soas não têm capacidades sentimentais para entender que
empregado e patrão possam ser amigos.


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— Que se há-de fazer, Xavier… É a sociedade em que


vivemos.
— Pois é, Pedro! Bastava às pessoas terem um pouco
de consciência e as coisas podiam ser diferentes e melhores.
Após uma breve pausa em que pôs as mãos sobre os
olhos, esfregou levemente retirando-as de seguida, conti-
nuou, dizendo:
— Mas não pensemos nisso agora. Para que horas está
marcado o jantar?
— Para as vinte e trinta, sensivelmente a uma hora de
distância. — Respondeu, olhando para o relógio que Pernet
lhe oferecera num Natal.
Xavier deu um trago no seu James Martin, trinta anos,
e pousou-o novamente no lenço branco que se encontrava
sobre a secretária, de modo a não manchá-la. Duas pedras
de gelo acompanhavam o néctar, tornando-o fresco no copo
de cristal que reluzia, iluminado pelo candelabro de madei-
ra e vidro que se encontrava directamente em cima da mesa
de cerejeira.
Apesar de saber que o gelo altera o sabor do whisky, só
assim o conseguia tragar. Pedro trouxera-lho minutos antes,
ao entrar no escritório a pedido de Pernet.
O escritório era para ele um local de refúgio, um pa-
raíso de madeira e livros que se estendiam do chão ao tecto;
onde ele tinha por costume ir sempre que se achava mais
pachorrento ou em baixo. Por vezes, era também uma pri-
são, quando ele estava embrenhado no seu trabalho: a ges-
tão dos seus vários hotéis espalhados pelo país.
Uma cópia da obra de Victor Hugo, Les Misérables,
grande clássico da literatura francesa, encontrava-se aberta


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sobre a secretária onde se lia a seguinte passagem sublinha-


da pela caneta de Pernet:

“O que se via era o escuro, o vácuo, as trevas, uma ne-


blina de Inverno, envolta com o vapor de um túmulo, uma
espécie de paz que assustava, um silêncio de que não se recolhia
coisa alguma, nem mesmo alguns suspiros, uma sombra em que
não se distinguia nada, nem mesmo alguns fantasmas.”

Sempre, ao ler esta passagem, ele ficava triste, pois


vinha-lhe à memória uma vida passada, uma existência de
sofrimento, dor e morte, fantasmas invisíveis de um passa-
do recente, escuro, frio e sombrio, numa altura em que se
encontrava enevoado de espírito e incapaz de pensar logi-
camente; um momento interminável de uma vida que ele
tenta mas não consegue esquecer.
As paredes, outrora brancas, do escritório encontra-
vam-se forradas de estantes de cerejeira, do chão ao tecto,
repletas de livros, desde poesia, romances, passando por fic-
ções e várias enciclopédias, atlas e alguns manuscritos do
próprio Pernet. Amante da poesia, havia dias em que passa-
va horas a pôr no papel aquilo que lhe preenchia a mente e
lhe ocupava o coração; escrevia sempre no escritório.
Um telefone antigo de disco, preto, adornava a secre-
tária escura, bem como um candeeiro com pé de madeira
e abajur de um bege salpicado de pintas castanhas, folhas
soltas e documentos que clamavam a atenção e requeriam
a assinatura dele estavam imaculadamente organizados em
montes e por prioridades, à espera de serem lidos. Secretá-
ria essa que se prostrava bem no centro daquele esplendoro-


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so paraíso privado de papel e madeira. O cheiro de ambos,


combinado com o aroma do tabaco de enrolar de Pernet,
um Unitas Exellent com travo a manga, enchiam o ar de
odores agradáveis que evocavam sensações prazerosas ao
inalar a névoa que por vezes se acumulava lá dentro, fazen-
do por vezes arder os olhos.
Pernet adorava o seu tabaco de enrolar. Fazia os cigar-
ros sem recorrer a máquinas. Dava-lhe prazer enrolá-los à
mão; para ele ficavam com outro sabor, mais agradável.
Adorava o seu refúgio, ver-se rodeado de obras-primas
e muitas primeiras edições, adorava lá fumar, beber o seu
whisky e ter as suas conversas com Pedro. Sentia-se into-
cável naquela redoma de livros, protegido da ignorância de
gente que se julga superior, mas que de superior só têm a
estupidez e as manias, injustificadas, de grandeza. A verda-
deira grandeza reside na simplicidade e na modéstia de ser e
de estar na vida, coerente do princípio ao fim.
Pernet, sentado no seu cadeirão de madeira forrado a
veludo vermelho, fez sinal a Pedro para que este se sentasse
e disse:
— Bem sabes, meu amigo, como este jantar é impor-
tante para mim. Dá-me a oportunidade de esclarecer alguns
assuntos que têm sido debatidos sobre mim.
Enrolou um cigarro, de suave travo a manga, e acendeu-
-o com o seu zippo de prata que ostentava um  gravado que
entretanto tirara do bolso esquerdo das calças de linho azul.
Deu uma puxada, expirou uma ligeira nuvem de fumo e dei-
xou-o a descansar apoiado no cinzeiro redondo de vidro.
A camisa que trajava era de pureza branca, a gravata
azul.


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Entretanto, Pedro já se havia sentado na cadeira simples


de madeira frente a Pernet, do outro lado da secretária, fican-
do a porta maciça a poucos metros do seu ombro direito.
— Bem sei, Xavier. Concordo que é chegada a altura
de esclarecer a sua posição e maneira de estar perante essa
gente, suposta, da alta-sociedade. Pouco me têm agradado
as palavras ditas sobre ti por pessoas que, nem de vista, te
conhecem, mas se acham no direito de julgar.
Pernet não era bem visto por grande parte da alta socie-
dade portuguesa. Era tido na conta de revolucionário e rebel-
de, que não seguia a fina e rigorosa etiqueta que aquela classe
lhe exigia. Não tinha por hábito vestir-se de marcas e tinha
uma maneira de pensar e de estar que entrava em conflito
com os ideais de aparência da alta. Ele fazia simplesmente o
que o levava a sentir-se bem, fosse a indumentária que trajasse
ou a maneira de falar; não o fazia para agradar a ninguém.
A alta exigia-lhe uma postura de acordo com o seu estatuto
social; aquilo pouco ou nada lhe interessava. Talvez eles tives-
sem medo que ele denegrisse a imagem que os caracteriza.
Muitos nem sequer queriam ouvir o seu nome, por não
ter nascido em berço de ouro; mas também não o criticavam
nem julgavam. Subiu na vida às custas do seu próprio sofri-
mento, de “vagabundo” passou a magnata da hotelaria. Isso
provocava inveja e consequente desprezo por certos mem-
bros da alta. Os que o aceitavam exigiam-lhe mudança, mas
é inconcebível mudar o que já de si é bom, mudar para o
que não se é não tem sentido.
Pernet era grande filantropo. Doava milhares de euros
todos os anos por várias instituições, fundações e a quem
quer que ele achasse merecedor. Era algo incompreendido


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neste ponto por alguns da sociedade que diziam ser um des-


perdício desnecessário de dinheiro gastá-lo em desconheci-
dos e em coisas que não são para proveito próprio ou reco-
nhecimento público.
Ele desprezava aquela maneira de pensar; é nojenta e
inacreditável a incompreensão deles do porquê. Não enten-
dem que ajudar o próximo, ou quem mais precisa, é ainda
mais valioso que qualquer posse física de um objecto fútil e
muitas vezes desnecessário, só para se gabarem que o têm e
exibi-lo perante o resto da sociedade.
Aquele jantar era bem necessário a Pernet. Tinha que
“fazer as pazes” com a alta, pois esta estava a publicar arti-
gos e a dizer todo o tipo de boatos barbáricos a respeito da
sua vida. Chegaram mesmo ao cúmulo de insinuarem que
o império dele foi alcançado ilegalmente. Acusações graves
por parte de quem nunca lhe ouvira a voz ou vira a cara.
O jantar era a oportunidade dele de pôr os pontos nos
is, esclarecer e averiguar o porquê do que tem sido dito e
escrito, de expressar e explicar a sua postura perante a vida;
o não sujeitar-se às exigências ridículas que lhe eram impos-
tas. No entanto, se realmente necessário, cumpriria algu-
mas delas, as que ele achasse condignas da sua existência,
tudo para que não lhe roubem o que de si ele de bom grado
dava.
A razão principal daquele jantar é mostrar que ele não
é um inimigo, mas que apenas pensa e age de modo diferen-
te dos restantes. Era perigoso para ele ter inimigos naquele
meio; desprezava-os, mas eram-lhe necessários para preser-
var tudo o que de bom ele fazia com os mais indigentes,
para manter viva a chama que lhe incendiava a alma sempre


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que via o sorriso sincero de contentamento de uma pobre


criança a quem ele desse um pouco do que era seu.
O pouco para uns pode ser muito e um momento de
felicidade para os outros.
Pernet sentia-se feliz ao dar, mas nada lhe sossegava
mais a alma do que aquilo que recebia em troca: o sorriso
de alguém. Era por aquilo que ele lutava, foi para aquilo
que ele construiu o seu império, a simples bondade e vonta-
de de um homem bom querer tornar a vida mais suportável
para alguns. O seu coração era bom, a sua alma sofrida,
mas carregada de compaixão; só era feliz quando via a feli-
cidade nos outros.
Os ricos, quanto mais têm, mais querem. Pernet,
quanto mais tinha, mais queria dar; era para isso que ele vi-
via, só assim se sentia verdadeiramente vivo. Era muito rico
por certo, possuidor de coisas caras, casas, inúmeros auto-
móveis, vivia bem, muito bem, mas, no entanto, dava mais
do que retinha para si; deste modo, vivia ainda melhor, com
um pouco de felicidade e sossego de espírito.
Ele não compreendia a alta sociedade e pouco lhe inte-
ressava o que sobre ele era dito, mas não podia tolerar nem
permitir que eles destruíssem todo o bem que ele faz. Era
perigoso não se relacionar; por isso, era imperativo que ele
se integrasse, mesmo não sendo seu desejo ou prerrogati-
va. Infelizmente, era mister poder mover-se livremente num
meio que desprezava. Odiava-os por terem tanto e não par-
tilharem nada.
— Sim, Pedro, eles julgam-me sem ter esse direito,
sem perceberem a essência do que eu sou. Também eu não
me acho no direito de julgar quem quer que seja, mas não


 

sou obrigado a tolerar as suas acções ou atitudes. Enoja-me


a visão deles sobre os mais indigentes a que eles, com des-
prezo, chamam de “ralé”. O que não entendem é que essa
“ralé” torna possível o estatuto deles. Deviam ter mais res-
peito por aqueles que espezinham enquanto exibem sorrisos
falsos nos lábios grosseiros. Nojentos! Tenho que os gramar,
não por mim, mas por aqueles que tento ajudar. Só eles me
interessam, só eles me percebem. — Discursou Pernet com
um ligeiro cerrar de olhos que exprimiam um leve ódio.
Deu um travo no cigarro por si enrolado, soltou o
fumo que cheirava a manga exótica e pousou-o novamente
no cinzeiro.
— Sinto o mesmo que tu, Xavier, mas não há como
mudá-los. São e serão sempre uns parasitas que se agarram e
alimentam da boa vontade e ingenuidade dos mais simples
e modestos. Mas tens que te dar bem com eles, salvaguardar
o bom que és e bem que tens feito. — Aconselhou Pedro,
fitando os olhos de Pernet com inegável compreensão.
— Odeio-os, Pedro! Não suporto os seus sorrisos fal-
sos cheios de segundas intenções.
Pernet pegou o cigarro do cinzeiro e deu uma grande
puxada, queimando intensamente tabaco e papel, a ponta
fervendo de raiva; porém, a sua raiva era ainda maior.
— Apenas me sossega o espírito saber que nem todos
eles são assim, que ainda os há que são bons e sinceros, que
ainda existem os que realmente se preocupam com as pes-
soas e que, como eu, dão a ajuda que podem sem procurar
nada em troca. Esses, sim, são os que deviam ser conside-
rados como alta sociedade. Título merecido por actos ge-
nerosos e não pela extensão das contas bancárias. — Disse,


  

enquanto expelia fumo saboroso, segurando o cigarro entre


os dedos.
— Também os há que nem têm onde cair mortos; no
entanto, são tão convencidos! Dá-me vontade de rir quando os
vejo e sei que é tudo aparência, que na realidade são uns po-
bretanas. — Explicou Pedro, ajeitando-se melhor na cadeira.
— Bem verdade, meu amigo. A mim também dá von-
tade, é deveras ridículo.
Ambos se riram ao lembrarem-se de alguns persona-
gens que assim eram, só aparência.
Ouviram bater levemente na porta do escritório.
— Entre, Isabel. — Autorizou Pernet, ainda a sorrir.
— Peço desculpa por interromper. — Disse ela no seu
jeito meigo e envergonhado, após ter aberto a porta.
— Não tem qualquer importância. Esteja à-vontade!
— Sossegou.
Isabel só ali trabalhava há cerca de seis meses e ainda
não se sentia muito à-vontade.
Pernet apagou o cigarro pressionando-o contra o fun-
do do cinzeiro.
— Queria só perguntar uma coisa ao Pedro. — Disse
num tom quase imperceptível.
— Sim, diz lá então Isabel… De que precisas? — Per-
guntou Pedro, dirigindo para ela o seu olhar.
Isabel manteve-se imóvel junto da entrada e disse:
— Queria saber que guardanapos ponho: os de pano
ou os de papel?
— Talvez seja melhor os de pano. Dobra-os em forma
triangular. — Aconselhou com um sorriso acolhedor.
— Está bem. Com licença.


 

Isabel saiu e fechou a porta levemente, sem fazer ba-


rulho.
— Diz-me, Pedro. Que horas são?
— Neste momento, são oito menos um quarto, Xa-
vier. — Disse após consultar o seu relógio de pulso, coisa
que Pernet raramente usava.
— Estou-te muito agradecido, Pedro.
— Porquê, Xavier? — Perguntou indignado.
— Por teres tornado possível a realização deste serão.
— Explicou.
— Ora, é o meu trabalho. — Respondeu a sorrir.
— Eu sei, mas agradeço-te igual.
De facto, os elogios feitos por ele a Pedro eram mere-
cidos. Pedro era um homem alto e magro, muito composto
e charmoso, apesar das finas rugas do cabelo branco pró-
prio de um homem com cinquenta e oito anos de vida. As
expressões dos seus olhos castanhos eram sérias; era possível
ver-se neles a honestidade de alguém digno de valor; relu-
ziam mesmo a sabedoria de pessoa experiente. Filosóficos
na sua maneira de pensar, os seus ideais iam ao encontro
dos de Pernet. Ele odiava a pretensão da classe alta. Melhor
que ninguém, ele conhecia bem as intrigas tantas vezes cria-
das no seio da alta-roda. Com dezoito anos, já trabalhava
em casas de famílias ricas. Foi criado e mordomo de famí-
lias na França, Suiça e na Inglaterra. Aos seus olhos, eram
todos iguais. Por vezes, tratavam-no como se nem gente fos-
se. Conhecia de perto a crueldade de que alguns eram ca-
pazes, tendo mesmo o desplante de destruir outras famílias
e levá-las, por vezes, à ruína não só financeira mas também
emocional.


  

Pessoas que só olham o dinheiro, esquecendo que o


resto do mundo existe; cruéis e frias, não conhecem o que é
a humanidade. Olham de cima para os outros como se eles
fossem inferiores, uns vermes a pisar.
Farto daquela gente insensível, ele regressou para Por-
tugal. Não procurava emprego como mordomo, mas ele fo-
ra-o toda a vida; teve conhecimento de que um sujeito pro-
curava mordomo: tentou a sua sorte, até porque não conse-
guiria outro tipo de emprego; ninguém quer dar trabalho a
um velho.
Quatro anos depois ainda trabalhava para aquela pes-
soa simpática que lhe dera emprego. Ele viu que Pernet era
diferente dos outros para os quais já trabalhara.
Pedro andava sempre vestido com um fato preto, ca-
misa branca e lenço vermelho enrolado ao pescoço. Pernet
disse-lhe que podia vestir-se como se sentisse mais confortá-
vel, mas ele sentia-se bem e à-vontade com o fato que sem-
pre usara, consequência de o ter envergado praticamente
toda a vida. Habituara-se a ele. Encontrou no novo patrão
mais que um mero patrão, encontrou um amigo.
Pedro sempre fora competente e eficiente no seu trabalho;
fazia-o com gosto. Um empregado fiel e um homem íntegro.
Fora Pedro quem organizou aquela noite. Enviou os
convites, escolheu a ementa e preparou a casa para receber
os convidados.
Concordou com Pernet que a necessidade exigia que
aquele jantar fosse feito para esclarecer certos assuntos que
implicavam o seu amigo; o que considerava injusto. Enfim,
Pedro era um homem de bem, iria apoiar o seu amigo quais-
quer que fossem as consequências.


 

— Bem, Xavier, vou ver se o fogo ainda arde. — Dis-


se, levantando-se da cadeira em que se encontrava, dirigin-
do-se à porta.
— Ainda não sei como a Clarisse me convenceu a re-
alizar o jantar. Pouco me interessa o que dizem de mim. É
frustrante, porque é necessário, mas não devia; eu deveria
ser aceite como sou.
— Infelizmente, não é essa a verdade.
— Pois não. — Reconheceu Pernet com um olhar de
tristeza.
— O mal é uma virtude dos mais poderosos! O jantar
ajudará a evitá-los.
— Bem sei. — Suspirou.
— Estás, então, contente por teres aceite o conselho
da menina Clarisse?
— Veremos, Pedro. Veremos!
Pedro abriu a porta do escritório e saiu, dirigindo-se à
biblioteca.


 

Capítulo 2
— Pernet Triste —
Duas semanas antes, mais dia, menos dia, Pernet es-
tava no seu refúgio a ler calmamente a sua cópia de Les Mi-
serables, um copo de whisky e o tabaco de enrolar sobre a
secretária. Embriagado com os seus próprios pensamentos e
memórias tristes de um passado cruel que em nada conse-
guia evitar na mente, entregou-se à tristeza, sentindo-se um
inútil sem razão para viver.
O silêncio ensurdecedor que se ouvia no escritório foi
interrompido pelo bater na porta. Pernet saiu do seu estado de
pasmo ao ouvir as pancadas secas que ecoavam pelas pratelei-
ras de livros. Parou a leitura e, olhando para a porta, disse:
— Podes entrar, Pedro.
— Acabei de falar com a menina Clarisse ao telefone.
Não ouviu este tocar? — Perguntou, enquanto entrava na-
quela divisão, ficando de pé frente ao Xavier, do outro lado
da mesa.
— Não, Pedro, creio que não ouvi. Oh, Pedro, estou
naqueles dias...


  

— O que tens, Xavier? Em que pensas tu? — Pergun-


tou com ar extremamente preocupado.
— Oh, Pedro, nem eu sei. Estava a tentar ler mas não
conseguia encontrar sentido para as palavras. Tinha a men-
te muito ocupada.
— Com o quê?
— Ai está, Pedro, nem eu sei. Estava a pensar em tan-
ta coisa ao mesmo tempo que cheguei ao ponto de não con-
seguir pensar em nada. Não fui capaz de me isolar num só
pensamento ou memória, já nem sei bem qual dos dois era.
As revoluções de tudo o que tenho aprisionado na cabeça são
confusas e dispersas. Penso em nada e em tudo ao mesmo
tempo. O meu crânio parece prestes a explodir. Oh, Pedro,
nestas alturas não consigo perceber qual o sentido da minha
vida, falta-me a vontade por ser incapaz de me entender. Só
existe em mim a vontade de desistir. É tão mais fácil.
— És incapaz de pensar ou entender os porquês do teu
passado. O problema é que ele ainda existe camuflado no teu
ser; as sensações que sentiste na altura ainda te correm nas
veias, ainda as sentes debaixo da tua pele! Podes não ser capaz
de recordar esses momentos; a tua mente fechou-se algures, mas
o teu corpo ainda as sente. Quando falas em desistir, a que te
referes ao certo? — Perguntou, enquanto puxava pela cadeira
sentando-se de seguida e fitando os olhos tristes de Pernet.
— Sabes bem do que falo! Da morte!
Pedro já fazia ideia que fosse isso; receava-o pois con-
seguia ver nos olhos do amigo que ele falava a sério.
— Vê bem, Xavier. Tu tens mais razões para viver do
que morrer. Não podes desistir, não podes abandonar aque-
les a que tão bem fazes. Não tem sentido!


 

— Ajudar os outros é o que ainda me mantém vivo.


Mas, Pedro, a falta de vontade às vezes é maior e eu não
tenho força suficiente para evitá-lo.
— Oh meu amigo! Diz-me que posso eu fazer para
te ajudar! — Suplicou com uma lágrima sincera a querer
soltar-se e gritar.
— Nada, Pedro. Nem tu nem ninguém. Tem que ser
por mim, sozinho. Apenas preciso que me ouças, meu amigo.
— Estarei sempre aqui para te ouvir! Sabes disso, não
sabes?
— Sei, claro que sei. É em momentos como este que
a morte faz sentido e que se alcança o odor apelativo dessa
última instância, momentos em que a vontade de desistir se
torna mais saborosa que o desafio constante de lutar pela
vida. Lutar! Palavra insistente que existe ao virar de cada
esquina e que às vezes choca contra nós sem que nos aper-
cebamos, mas que eu não consigo ouvir. A questão eterna
ainda permanece fervendo em mim! Para que raio continuo
a lutar? Será que ainda vale a pena? A vontade pura de lu-
tar só faz sentido a quem ainda possui esse desejo, mesmo
a esses acredito que a força, a vontade de lutar e viver vai
diminuindo e dissolvendo-se lentamente até ao nada. Em
momentos como este, em que me vejo obrigado a questio-
nar-me se valerá a pena ou se desistir é a saída mais fácil e
talvez mais eficaz.
— Bem, Xavier, realmente é o método mais fácil. Mas
diz-me, é mais eficaz para quem? Não é para aqueles que
ajudas e dependem de ti. Criaste tudo o que tens com o
objectivo de ajudar. Agora queres abrir mão de tudo isso e
desistir de quem és e do que fazes! Não creio que seja justo,


  

nem para ti, nem para as pessoas e crianças que já ajudaste.


Não consigo perceber como és capaz de conseguires sequer
conceber essa ideia.
— Está seguro em mim, uma existência saturante de
vícios, ócio e fraqueza de espírito que apenas me conduzem
a um último reduto, ao desespero e ao cansaço, à falta total
de vontade.
— O que queres dizer com isso? — Perguntou, semi-
cerrando os olhos, com ar incrédulo.
— Quantas vezes já tu me vieste aqui buscar, tomba-
do sobre a mesa, embriagado com whisky e me levaste para
o quarto às tuas costas?
— Já bastantes, Xavier, é verdade.
— Estou sempre aqui fechado, sei que não me faz bem
algum, mas aqui sinto-me seguro; o silêncio me acompa-
nha.
— Não percebo por que passas a maior parte do teu
tempo aqui fechado, em silêncio, sozinho.
Às vezes, nem Pernet sabia bem por quê. Alguma coisa
que ele não sabia explicar o levava a isolar-se, sem desejo
de ver vivalma, sem vontade alguma. Por vezes, fazia um
enorme esforço para chorar, porém nunca conseguia, não
era capaz de pôr o seu desabafo em lágrimas. Não se sentia
humano, por não o conseguir.
— Oh, Pedro, há muito que não choro. Deus bem sabe
que tento, não sei se estou mais forte ou, pelo contrário,
mais fraco, mais ausente, olvidado por sentimentos interio-
res! Esqueci já o sabor de uma lágrima que tanto anseio.
Procuro no silêncio respostas a questões inexistentes, nem
sequer a mim, que as procuro, fazem sentido algum. Vivo


 

assombrado por pensamentos que vêm e vão, pensamentos


cujo significado não entendo, mas que me conduzem a um
mundo de dúvidas cada vez maior e assustador. É este de-
sespero que me frita a mente e me mergulha na incerteza
do que realmente sou. A ausência de sossego para o meu
espírito inquieto transforma-me num revoltado contra mim
mesmo, alguém que eu não quero ser. Às vezes, sou capaz
de distinguir melhor as coisas com os olhos fechados, por-
que só vejo o que quero ver, do que com eles bem abertos, já
que sou obrigado a ver o que não quero.
Pedro ouvia o seu amigo atentamente, assustado com
a convicção exprimida por Pernet, temendo pela sua própria
sanidade.
— Xavier, o que te posso dizer é que não podes desis-
tir, não deves. Tens que lutar, por ti, por tudo o que cons-
truíste em teu redor, por aqueles que ajudas, que te respei-
tam e admiram pela pessoa bondosa que és. Desistir agora
é deitar por terra todas as coisas que já fizeste. Por favor,
pensa! — Pediu Pedro com voz trémula de desassossego.
— As coisas que fazemos não têm qualquer impacto
no universo, já que ele, no fim, voltará a ser o que era no
princípio: nada!
— Sim, Xavier, concordo contigo, mas vê bem: o que
faz diferença e tem impacto é o que se faz no entretanto. É
isso, meu amigo, que te torna na pessoa maravilhosa e gran-
diosa que és. É pelo que fazes no momento, não pelo passa-
do ou o que vieres a fazer no futuro, mas sim pelo agora.
Enquanto Pedro falava pausadamente, já com uma
calma sedutora na voz, Pernet enrolou mais um cigarro e
acendeu-o com o zippo que repousava sobre a mesa.


  

Pernet estava mal, com mau aspecto, barba por fa-


zer, olhos vermelhos de cansaço por ter passado a noite em
branco, fechado no seu recanto solitário. O cinzeiro repleto
de beatas e uma garrafa solitária de James Martin quase va-
zia. Passara ali toda a noite sem conseguir pregar olho, sim-
plesmente a olhar o vazio, fumando, bebendo e tentando
pensar. Em vão, apenas se sentia mais cansado e confuso.
É triste ver alguém nesse estado, sem vontade de se mover,
sem forças para nada, entregue apenas a vícios que não con-
segue controlar nem evitar os impulsos que o deterioram.
— Oh, Pedro, não sei como fugir a este estado de es-
pírito! — Suspirou Pernet.
— Creio que não há como evitar, mas é necessário
lutar conta isso.
— Sim, Pedro, lutar! Só é possível para quem ainda
tem força e vontade para isso.
— E tu, já não tens? — Perguntou com ar meio zan-
gado, meio incrédulo.
— Diz-me, Pedro, achas cobardia o suicídio? — In-
quiriu, fugindo à pergunta, pois nem ele próprio sabia a res-
posta.
— Não, Xavier, apenas julgo que é necessário mais co-
ragem para viver do que morrer.
Pernet entendeu bem a intenção da resposta proferida
pelo amigo. Incitava-o a ter coragem e a ser forte, a lutar de
modo a manter tudo o que tinha. Ele já lutara tanto ao lon-
go da sua vida; de quando em quando simplesmente faltava-
-lhe a vontade e a força para continuar.
— Oh, Pedro, às vezes é-me tão difícil, quando tudo o
que vejo é sempre tão negro. Dizem que o mundo é o equilí-


 

brio entre o bem e o mal, o positivo e o negativo; então onde


está o balanço quando tudo o que consigo ver é apenas o ne-
gro e o negativo? É uma luta constante e esgotante tentar en-
contrar uma resposta que me satisfaça. O meu céu é tão negro
de dia como é de noite. Estou numa luta interior pela minha
própria sobrevivência; a minha mente destruída, muitas vezes
ausente e ébria, insiste em dizer para desistir enquanto que
o meu corpo tenta desesperadamente resistir a pensamentos
tenebrosos, obscuros e cegos. Então, pergunto a mim mesmo
o que será mais forte: o corpo ou a mente? Mas, então, não é a
mente que controla o corpo? Ele só faz o que o cérebro ordena
ou terá vontade própria? Que confusão! Nesse sentido será que
a mente está a lutar contra ela própria, tentando agarrar-se a
algo que a force manter-se viva? Uma parte, a maior, diz que
o melhor a fazer é mesmo esquecer a vida e ir ao encontro da
saída mais fácil. Outra parte, ínfima, grita: “aguenta”. Porém,
não explica as razões pelas quais aguentar. Fico a pensar que
a mente luta, de facto, contra si própria e que a ínfima parte,
com a mais pequena e simples vontade de lutar, se sobrepõe
à falta de vontade de viver. Mas não é do interesse da mente
sobreviver? Eu acredito que sim! Então por que razão me diz
ela para desistir!? Sou incapaz de entender! A minha mente
insiste, mas o meu corpo resiste.
— Dizes, então, que estás numa luta interior pela tua
própria sobrevivência. Que uma pequena parte te mantém
vivo, porque te agarras a algo, ainda que a razão seja incons-
ciente para ti. É isso? — Perguntou Pedro, após um breve
silêncio, com olhar de quem compreendeu as palavras que
foram ditas.
— Creio que será isso.


  

— Sabes qual é a coisa a que te agarras?


— Não, Pedro, não consigo encontrá-la!
— Penso que sei.
— Se sabes, por favor, diz-me.
— Creio que te agarras à esperança que tudo melhore,
que te agarras àqueles a quem ajudas. Eles são a razão pela
qual lutas. — Disse com verdadeira sinceridade, espelhada
nos olhos vítreos.
— Sim, creio que será essa a razão mais lógica.
Seguiu-se uma longa pausa em que Pernet fumava,
de olhos fechados, tentando encontrar algum sentido num
pensamento que lhe ocorreu naquele momento. Pedro limi-
tou-se a fitá-lo, compreensiva e pacientemente, aguardando
que o amigo falasse. O silêncio inquietante foi interrompi-
do por Pernet quando disse:
— Agora apercebo-me de que a parte ínfima que diz
para lutar é a que obriga o corpo a resistir, mas a outra teima
em bombardear-me com pensamentos que dizem “luar para
quê?”; então a batalha recomeça. É um ciclo vicioso de que
não me consigo livrar. Ainda me pergunto quem vencerá: o
positivo — uma diminuta parte, o corpo — Ou o negativo —
O que os meus olhos apenas conseguem alcançar neste mo-
mento, num esforço constante e diário pela sanidade? Por en-
quanto eu resisto, mas sem a certeza de quanto tempo mais.
— Tu agora estás no fundo e não sabes se consegues
aguentar. Mas não te esqueças que já uma vez saíste dessa
tristeza que te domina. Eu sei que conseguirás fazê-lo no-
vamente. — Sossegou Pedro com estas palavras verdadeira-
mente esperançadas.
— Espero, sinceramente, conseguir.


 

— Vais conseguir, tenho fé em ti. Eu sei que não é


fácil, mas também conheço a força que tens, que te move.
Acredito em ti, sei do que és capaz.
— És um grande amigo, Pedro. Agradeço a confiança
que depositas em mim, mesmo quando eu não a tenho.
Pernet deu um último travo no cigarro e extinguiu-o
no cinzeiro que abarrotava de cinza. O seu olhar comovido
revelava a amizade que sentia pelo mordomo.
— Sabes, Xavier, consigo compreender, de certa ma-
neira, o que sentes. Espero que o que te quero dizer agora
possa despertar em ti uma maneira diferente de ver as coi-
sas. Tudo o que quero é ajudar-te, meu amigo.
— E ajudas! — Assegurou Pernet.
— Estás disposto a ouvir os conselhos de um velho? —
Perguntou, franzindo ainda mais as rugas da testa, olhando
para ele com esperança da sua resposta.
— Não és um velho e, sim, claro que sim, és meu ami-
go. Ouvir-te-ei, digas tu o que disseres. — Retorquiu.
A resposta muito agradou ao Pedro, era a que ele an-
siava.
Pernet enrolou mais um cigarro, meteu-o à boca e
acendeu-o enquanto Pedro principiava a falar, dizendo com
honestidade e solene:
— Quando te sentes só, mesmo que te encontres rode-
ado de amigos, não consegues evitar não sorrir mesmo que
eles tentem roubar um da tua face triste, assombrada por
pensamentos indesejados. Apesar de todos os amigos, gran-
des amigos que possas ter, não és capaz de evitar sentir-te
só, porque não pertences a lugar algum, porque o mundo
está a conspirar contra ti. Simplesmente, não tens paciência


  

para suportar a tua vida, queres desistir porque de algum


modo te julgas um miserável. Não o és, de todo. Vê só a
vida que tens, o bom que fazes e és.
— Todo o bem que faço será esquecido com o passar
do tempo! — Interrompeu Xavier, dando um pequeno golo
do whisky.
— Até pode ser verdade, até pode ser esquecido, mas,
neste momento, é louvável.
Pernet silenciou-se ao ver-se incapaz de encontrar algo
que refutasse a afirmação do seu amigo. Deu mais um trago
e pousou o copo sobre o lenço. O cigarro ainda ardia entre
os dedos, dava uma passa de vez em vez, enquanto Pedro
continuava:
— Peço-te, por favor, que acredites em mim quando
te digo que ainda vale a pena lutar pela vida; ela vale todo
o sofrimento e dor que já experimentaste. Acredites ou não,
vale a pena viver. E se tu, simplesmente, tentasses encontrar
o melhor de todos os maus momentos pela qual já passaste?
Vais conseguir perceber que, afinal de contas, ainda exis-
tem todas aquelas coisas maravilhosas neste mundo deca-
dente que tu simplesmente negligenciaste! Pára e pensa por
um bocado. Estar vivo ainda é grandioso. Todos os maus
momentos que passamos ao longo da vida, devemos apro-
veitá-los para crescer como pessoa e são compensados pelos
momentos bons que se passa ou que ainda estão para vir.
Tenho consciência que possa não parecer fácil, mas não é,
de todo, impossível; então, não vale a pena ficar num canto
a chorar ou a lamentar-se. Por favor, pensa, simplesmente,
em tudo o que te rodeia, em todas as coisas boas e magní-
ficas; pensa no sol que te aquece, nos pássaros, em todas as


 

árvores verdes e lindas, resplandecentes de vida, dando-te o


ar que respiras; o céu, as estrelas, a lua, o mar azul e tantas
outras coisas mais que existem para que possamos viver.
Pernet interrompeu-o. Escutava-o atentamente e suas
palavras gentis estavam já a surtir efeito:
— Tens razão, Pedro, mas às vezes, como tu dizes,
é difícil pensar no bom quando tudo o que se vê é mau.
Às vezes, sou atingido por uma evasão de sentidos. Minha
consciência torna-se abstracta, focada no nada, pensar sem
pensar, sentir sem sentir, tudo e nada ao mesmo tempo; nas-
cer, viver, no fim, morrer.
— Compreendo isso, Xavier, mas é o ciclo natural da
vida a que fomos destinados. Estar vivo é tudo isto, bons e
maus momentos, dor e alívio, mágoa e alegria, chorar e sor-
rir, vida e morte. Por isso não penses que o esforço é inútil;
simplesmente assim é a vida: lutar diariamente pela sobrevi-
vência. Isso, meu amigo, torna-a num desafio interessante.
Ela poderia ser muito mais simples se deixássemos. Tenta e
verás: é simplesmente único estar-se vivo.
As palavras sábias de Pedro davam a entender o ho-
mem que ele era, culto, filosófico, com um grande fervor
pela vida, capaz de identificar o bem que poderia existir no
mal. Homem vivido, de grande experiência, sentia na alma
as palavras que ele próprio dizia com emoção na voz e pers-
picácia nos olhos.
— Agradeço, em muito, as tuas palavras, Pedro. Pode
parecer que não, mas têm, na verdade, muito valor para
mim. Agradeço a tua ajuda e amizade. Tornou-se tudo mui-
to claro para mim; num sonho real eu percebi a razão e o
porquê, eu estava embriagado em divagações irracionais e


  

inconstantes de reflexos negros. Então eu vi tudo, mas não


recolhi nada e a confusão continua a mesma; ao menos já
sei por que estou confuso e só a ti posso agradecer esta elu-
cidação. — Confessou Pernet, apagando mais um cigarro
no monte de cinza que se acumulara.
Em verdade, as palavras de Pedro realmente ajudaram
Pernet. Compreendeu a razão pela qual se sentia confuso;
esta mantinha-se mas já a percebia. Foi um bom princípio.
— Muito me agrada ter conseguido ajudar-te. — Dis-
se Pedro com um sorriso.
— Obrigado, Pedro!
— Sempre que precisares estarei aqui.
— Eu sei.
Pedro levantou-se e dirigiu-se para a porta. Deteve-se
por um instante em que se voltou para Pernet dizendo:
— Ah, é verdade! Com toda esta conversa, já me ia
esquecendo do que me trouxe aqui.
— Diz, meu amigo.
— Clarisse telefonou, pedindo que se encontrassem
amanhã em casa dela por volta das três da tarde. Irás, Xa-
vier? Disse que seria muito do teu interesse.
— Sim, Pedro, eu vou. Mais uma vez, obrigado.
Pedro saiu fechando a porta atrás de si. Pernet reto-
mou a sua leitura já mais calmo e sereno após as palavras
reconfortantes do seu amigo. Pouco depois foi jantar. Sen-
tia-se sozinho, razão pela qual convidou Isabel e Pedro a
fazerem-lhe companhia. Não queria estar sozinho.
Tinha por hábito comer só, fechado no escritório. Na-
quela noite, porém, não o fez: sentia necessidade de alguma
companhia.


 

Juntaram-se na cozinha, normalíssima, móveis de pi-


nho colocados à altura dos olhos, com portas vidradas ex-
pondo copos variados, algumas jarras e canecas. Uma banca-
da de mármore azul cobria as paredes brancas do lado norte
e este. Uma janela sobre a banca deixava sorrir o sol, que du-
rante a tarde aquecia as plantas colocadas em recipientes de
barro sobre o parapeito interior. Uma mesa de madeira rode-
ada por oito cadeiras, também de madeira, com assentos em
vime entrançado, situava-se no centro. Sobre a mesa, uma
toalha branca, muito simples, onde repousavam três pratos
brancos, talheres e copos, colocados em fila, lado a lado.
Pernet sentou-se no meio, Isabel à esquerda e Pedro
à direita. Uma travessa branca colocada no centro da mesa
exalava um cheiro agradável a legumes e especiarias. Isabel
preparara como refeição uma massada de cherne; serviu-os
e, por último, a si própria. Pernet levou uma garfada à boca
e degustando disse:
— Isabel, o jantar está óptimo, cheira maravilhosa-
mente bem. Como sempre.
— Gosta, menino Xavier? — Perguntou com um sor-
riso envergonhado.
— Sim, está muito bom.
— Muito bom mesmo. — Concordou Pedro após le-
var um pouco de comida à boca.
— Como é que uma senhora como você ainda não é
casada? — Indagou Pernet com um sorriso de malandrice.
— Oh, menino, os homens não me acham graça! —
Respondeu, envergonhada, corando ligeiramente.
— O quê?! Isso não pode ser verdade! Uma bela se-
nhora como você?


  

— Também não tenho tempo para essas coisas. —


Confessou.
— Saia mais vezes Isabel, sempre que quiser; dou-lhe
autorização para isso. Precisa divertir-se e o Pedro poderia
ir consigo.
— Com todo o gosto! — Disse o mordomo.
— Obrigado, menino. Você é muito bom e generoso
comigo. — Disse, comovida.
Pernet olhou para ela e sorriu.
Durante o jantar, os temas de conversa foram banais,
serviram para distrair Pernet um pouco da sua tristeza.
Acabaram de jantar, Isabel pediu licença para se levan-
tar, Pernet concedeu-lhe, ergueu-se e começou a recolher a
louça para em seguida lavá-la.
Ainda sentados à mesa, Pedro perguntou:
— Como te sentes, Xavier?
— Estou melhor, mais aliviado, graças a ti, amigo.
— Ainda bem, Xavier, ainda bem.
— Creio que hoje vou dormir bem. Estou cansado,
vou-me deitar.
— Vai lá, Xavier! Boa noite.
— Para ti também, Pedro.
Pernet levantou-se e saiu da cozinha, Pedro seguiu-lhe
os passos com um olhar animador; depois levantou-se tam-
bém e foi ajudar Isabel.


 

Capítulo 3
— Três Irmãos Pobres —
Haviam de ser cerca das nove e meia quando Pernet
acordou, na manhã seguinte. Arremessou os lençóis e o
edredão que o cobriam, rolou para a direita, sentando-se
e pousando os pés descalços sobre o tapete fofo e branco
como neve meiga. Esfregou a cara e os olhos, passando em
seguida os dedos por entre o curto cabelo castanho-claro.
O seu quarto era um espanto, cheio de brancos e pre-
tos. A cama era não sei de que madeira preta, com a base
tipo caixa, bem como as mesas-de-cabeceira. Ambas ti-
nham um candeeiro branco, com base arredondada e um
simples abajour igualmente branco; o da direita tinha um
relógio despertador negro com os dígitos de um azul néon
sobre ela. Um guarda-fatos embutido na parede à direita da
cama com amplas portas pretas. Por norma, ele dormia no
lado direito da cama que, ao fundo, tinha uma cómoda pre-
ta; sobre ela repousava um pequeno televisor ; a poucos
passos dela estava a porta de saída do quarto. Uma pequena
mesa redonda encontrava-se no lado oposto à porta, no can-


  

to esquerdo ao fundo da cama; a cobri-la estava uma toalha


redonda e branca que terminava ao encontrar-se com o chão
de tacos de madeira pintados de preto. Uma cadeira com o
assento forrado de tecido branco prostrava-se junto a ela. A
alguns centímetros da mesa via-se a porta de acesso à casa
de banho privativa.
O sol espreitava brilhante mas timidamente por entre
os frisos do estore verde entreaberto. Pernet levantou-se da
cama trajando apenas uns boxers brancos. Dirigiu-se à casa
de banho, abriu a porta, entrou e fechou-a novamente. Os
mosaicos da parede eram pretos e brancos, dispostos num
padrão axadrezado. O móvel que sustentava o lavatório de
porcelana branca era preto, com as duas portas laterais e as
três gavetas centrais pretas com pequenos puxadores bran-
cos; sobre ele, um grande espelho desprovido de caixilho.
Os restantes sanitários eram de porcelana branca, assentes
sobre um chão de mosaico com padrões triangulares a preto
e branco. Uma imponente e luxuosa banheira de hidromas-
sagem manifestava gloriosamente a sua presença no centro
daquela divisão.
Pernet virou as torneiras da água quente e fria, ajus-
tando a temperatura ao seu gosto; o duche jorrava água e
vapor. Despiu os boxers, entrou e deixou a gostosa chuva
molhar-lhe o corpo e aquecer-lhe o rosto.
Desfez a sua barba de cinco dias não sem algum custo.
Vestiu um fato de treino bege e calçou um par de ténis azuis so-
bre meias desportivas brancas. Penteou o cabelo e saiu do quar-
to. Desceu a escadaria de madeira nua dirigindo-se à cozinha.
Pernet desconhecia a razão pela qual adorava o con-
traste entre o preto e o branco. Talvez se identificasse com


 

o seu espírito atormentado, um misto de paz e desassossego,


luz e trevas.
Deteve-se junto à porta vidrada da cozinha que se
encontrava fechada. Ficou a ver Isabel debruçada sobre a
banca, a lavar alguns legumes que Pedro comprara logo de
manhã cedo. O sol iluminava-lhe as feições e incendiava-lhe
a madeixa cor de fogo entrando alegre e sem vergonha pela
janela aberta. Pernet abriu a porta sorrateiramente e apro-
ximou-se de Isabel, que estava de costas voltada, sem que
esta se apercebesse. Subitamente, deu-lhe um beijo na face
direita e exclamou com voz alegre:
— Bom dia, Isabel!
A mulher, surpresa, estremeceu e soltou um gritinho
assustado, depois corou.
— Ai menino, que susto!
— Desculpa, Isabel, estava na brincadeira. — Disse
com um sorriso alegre.
— Vejo que hoje está bem disposto! Está com bom
aspecto. — Elogiou, enquanto tinha a mão direita pousa-
da sobre o peito ofegante que ainda recuperava do pequeno
susto.
— Creio que sim, Isabel. Dormi bem, acordei sem
pensar em nada, tenho a mente sossegada.
— Folgo em sabê-lo, menino! Andava tão em baixo,
com ar triste. Eu não gosto nada de vê-lo assim.
— Pois sei, Isabel, mas hoje estou bem. Agradeço a
tua preocupação. Diz-me: sabes do Pedro? — Perguntou.
— Sei sim, menino. Está lá fora no quintal a limpar a
piscina.
— Vou lá ter com ele.


  

— Vai querer pequeno-almoço?


— Ah, sim, Isabel. Prepara-me um leite com café e
um par de torradas. Depois, serve-mo lá fora. Pode ser?
— Sim, menino.
Pernet dirigiu-se à porta de alumínio branco da co-
zinha que dava acesso ao quintal. Saiu e tornou a fechá-la.
Isabel continuou o seu trabalho.
Foi pelo caminho ladrilhado que lembrava uma serpente
escondida entre a relva verde e fresca. Naquele imenso cam-
po relvado, contavam-se dois pessegueiros, algumas macieiras,
pereiras e laranjeiras espalhadas aqui e ali; alguns pares de ro-
seiras de variadas cores e tamanhos; por fim, uma grandiosa e
imponente cerejeira que parecia querer crescer até à eternida-
de, viva em todo o esplendor e fascínio da sua natureza.
Pernet abriu a porta da cerca que isolava a luxuosa
piscina azul do relvado. Da cerca metálica até ao rebordo
de mármore branco da piscina existia um chão de cimento
com dois metros em todo o seu redor. Pousados sobre ele,
algumas espreguiçadeiras de plástico verde muito sólidas,
ao vento.
Pedro segurava nas mãos firmes uma longa vara de
metal com uma rede fina na extremidade com a qual coava
insectos e alguma folhagem morta e amarelada para fora da
piscina, despejando os restos num saco de lixo preto.
— Bom dia, Pedro!
O mordomo voltou-se para ele com um sorriso, pou-
sou a vara sobre o cimento nu e disse:
— Bom dia, Xavier! Denoto boa disposição na tua
voz. Estás com boa cara. Pareces mais radioso, com brilho
nos olhos.


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— Também me sinto dessa maneira. Devo-a à nossa


conversa de ontem. Devo-o a ti! Vou tentar, como tu dizes,
encontrar o bom que existe em mim e no que me rodeia.
— Ainda bem! Muito me agrada saber ter-te sido útil
dessa forma. — Disse com um sorriso satisfeito e sincero
impregnado nos lábios, repuxando as rugas daquele rosto
sábio.
Estava um dia solarengo que convida a estar-se ao ar
livre, nem muito calor nem muito frio; a temperatura at-
mosférica era a ideal, soprava uma ligeira brisa que acari-
ciava meigamente o rosto. Pequenos aglomerados de nuvens
brancas enfeitavam um belo céu azul. Os raios solares eram
reflectidos enquanto bailavam em ligeiras ondas na água, já
limpa, da piscina. Pequenos bandos de aves voeiravam ale-
gres pelo céu, chilreavam, algumas pousavam em descanso
nas árvores do quintal de Pernet. Cheirava ao esplendor da
Primavera; odores frescos que incentivam paixões sem limi-
tes; as árvores, carregadas de folhagem verde e viva, ofere-
ciam já o prazer dos seus frutos.
Pernet fechou os olhos, abriu as narinas e inspirou a
Primavera, aquele ar limpo e fresco que lhe acalmou um
pouco o espírito inquieto. Sentiu-se ainda melhor, mais vivo
e revigorado, mais sereno.
— Fazes-me companhia ao pequeno-almoço?
— Já tomei, Xavier.
— Mesmo assim, agradava-me a tua companhia. —
Pediu.
— Então, aceito. — Assentiu Pedro sorridente.
Creio que a natureza, o seu encanto, o dia caloroso
que se fazia sentir muito contribuíram para a sua boa dis-


  

posição. Ele estava, de facto, radioso; o seu olhar brilhante


de confiança; o seu ar seguro e sereno deixava transparecer
alguma paz de espírito de que ele tanto necessitava.
— Menino Xavier! — Gritou Isabel.
— Sim, Isabel, diz.
— O pequeno-almoço está pronto, menino. — Avisou.
— Obrigado, Isabel, vou já.
Depois, dirigiu a sua fala para o amigo.
— Vens comigo, então.
— Vou, sim.
Saíram da área onde se encontravam e percorreram o
caminho ladrilhado até chegarem junto à majestosa cerejei-
ra. Era a árvore mais próxima da cozinha. Sentaram-se am-
bos num par de cadeiras de metal, trabalhadas com formas
florais e pintadas de branco. A mesa redonda, igualmente
pintada e trabalhada, era rodeada por quatro dessas cadei-
ras. Gozavam a sombra que a árvore oferecia.
— Está um belíssimo dia hoje, Pedro! — Reparou,
partilhando a sua visão com o amigo.
— É verdade, Xavier, um dia perfeito para se tirar par-
tido de tudo o que a natureza proporciona. — Concordou.
Isabel, que, entretanto, tinha ido à cozinha buscar o
pequeno-almoço do seu patrão, saiu trazendo consigo, sobre
uma bandeja redonda de metal, uma caneca branca de leite
com café e um prato com um par de torradas bem doura-
das. Aproximou-se deles e retirou-as da bandeja pousando-
-as sobre a mesa.
— Aqui tem, menino.
— Obrigado, Isabel. — Agradeceu, exprimindo um
sorriso alegre.


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Isabel iniciava o seu caminho de volta à cozinha quan-


do, subitamente, sem que nada o fizesse prever, um objec-
to aterrou sobre a mesa de metal com um rugido violento,
espalhando pelo ar leite e torradas, partindo tanto a cane-
ca como o prato. Ambos deram um salto surpreso fora das
cadeiras que tombaram sobre a relva, espantados e com o
peito a palpitar. Pernet foi apanhado pelo leite que voou,
manchando-lhe o fato de treino. Pedro teve mais sorte, ape-
nas salpicos escoriam dos sapatos recentemente engraxados
de preto. Cacos e pão humedecido com o leite davam uma
decoração peculiar à mesa de metal.
Isabel virou-se, soltando um ligeiro gemido assustado:
— Ai, meu Deus! O que foi isso? — Perguntou, com
as mãos sobre o peito.
Viu os dois homens já de pé, o fato de treino manchado
e a confusão que se encontrava sobre a mesa que escorria.
Pernet olhou em seu redor, viu a bola de futebol que
batera na mesa e que rolara alguns metros até parar ao em-
bater na copa de um pessegueiro que ainda vibrava ligeira-
mente.
— Não te preocupes. Foi só uma bola. — Disse, apon-
tando para o objecto, sossegando o coração da pobre.
— Ai menino, que susto! Já é o segundo de hoje. Va-
lha-me Deus, quantos mais me esperam? — Desabafou li-
geiramente ofegante.
Pedro foi apanhar a bola estática; estava algo velha
e gasta, mas ainda bem inchada de ar. Ouviu-se um bater
ligeiro e envergonhado na porta de madeira, à direita da
cozinha, a alguns passos de mesma, e que possibilitava a
saída do quintal para um descampado triste e seco de terra


  

e pedra. O muro, que separava relva verde e fresca daquela


desolação de terra morta, era de tijolo cimentado à chapada
e pintado de branco (media cerca de um metro e noventa);
rodeava por completo a grande casa de Pernet.
Dirigiu-se à porta, seguindo sobre os ladrilhos que
nela terminavam; correu o ferrolho e abriu-a. Do outro lado,
prostrava-se um rapazinho envergonhado, com os olhos fi-
tos no chão, as mãos atrás das costas, cruzadas.
— Bom dia, senhor! Peço desculpa, mas acho que a
nossa bola foi aí para dentro. Pode devolver-ma, por favor?
— Disse o rapaz, timidamente.
— Pois está cá dentro! Partiu-me louça e estragou-me
a roupa! — Disse com voz séria e grave, porém condescen-
dente, que tentava conter um sorriso.
O menino ergueu os olhos, deparou-se com a roupa
manchada de Xavier e adivinhou o que a sua bola provocara.
— Oh! Senhor, peço que me desculpe. Foi sem querer!
— Suplicou com ar transtornado e triste.
— Pois foi. E, agora, quem vai pagar isto?
— Oh, senhor, desculpe! Eu não tenho como lhe pa-
gar. Desculpe! — Disse numa vozinha meiga e receosa.
Pernet correu o seu olhar pelo menino. Tinha um
aspecto extremamente pobre; a carinha suja de pó e terra,
uma t-shirt verde já velha e gasta, cheia de pequenos bura-
cos e rasgos; calças de bombazina beges, sujas e rotas pouco
abaixo do joelho direito esfolado e com ligeiras pintas de
sangue já coagulado e seco. Pernet espreitou o descampado
e viu mais dois meninos, vestidos praticamente da mesma
maneira, sujos e rotos. Eram os três muito parecidos, o mes-
mo corte de cabelo à tigela, negros de cor; os mesmos olhos


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castanhos um pouco tristes. Esperavam pacientes mas ner-


vosos o regresso do outro com a bola, de modo a voltarem
para a brincadeira.
— Quem são aqueles dois?
— São os meus irmãos, senhor. — Respondeu após os
olhar de relance.
— O que aconteceu ao teu joelho?
— Eu estava à baliza, senhor. Caí para agarrar a bola,
senão era golo. — Respondeu, olhando para o joelho ligei-
ramente esfolado.
Pernet espreitou novamente e viu a baliza improvisada
com duas grandes pedras. Olhou para o pequeno com um
sorriso nos lábios.
— Já sei como podes pagar-me os estragos.
— Como, senhor? — Perguntou muito tristinho com
olhos de quem vai chorar.
O sentido de responsabilidade e honestidade do rapaz
levá-lo-ia a fazer o que fosse necessário para saldar a sua
dívida. Admitiu a sua culpa apesar de ter sido um acidente.
Porém a resposta não foi, de modo algum, a que o rapaz
trémulo esperava.
— Ora como! Vindo jogarem à bola aqui para dentro,
no meu quintal. A relva é fofa e podes atirar-te ao chão à
vontade, porque não te aleijas. — Explicou, olhando para o
rapaz com um sorriso acolhedor e compaixão na alma.
Os olhos do rapaz abriram-se mais e brilharam de ale-
gria; ficou com a voz mais sossegada enquanto, comovido,
dizia:
— A sério, senhor? Eu e meus irmãos podemos brin-
car no seu quintal?


  

— Claro que sim! Chama-os lá.


O pobre mas alegre rapaz fez sinal com a mão cha-
mando os seus irmãos para junto dele. Estes vieram a correr
e pararam junto ao irmão mais velho que lhes disse:
— O senhor deixa-nos jogar no quintal dele. É relvado.
— A sério?! Obrigado! — Agradeceram em uníssono,
com os olhos brilhantes de contentamento.
— Vá, entrem! — Disse, desviando-se da entrada para
deixar para deixar os pequenos passar.
Entraram correndo e pulando, cheios de alegria e vi-
vacidade. O mais velho entrou juntamente com Pernet. Ao
fechar a porta de madeira, o rapaz disse:
— Mais uma vez peço-lhe desculpa e agradeço muito
deixar-nos brincar na relva.
— Não peças desculpa, não teve qualquer importân-
cia. Há males maiores! — Sossegou.
— Obrigado! — Disse e correu para junto dos irmãos.
Pedro devolveu-lhes a bola, agradeceram e começaram
a jogar de novo, visivelmente mais contentes. Depois, Pedro
juntou-se a Pernet que, entretanto, entrara na cozinha e fa-
lava com Isabel:
— Podes preparar-me o pequeno-almoço novamente?
Tenho fome.
— Claro que sim! — Respondeu a mulher sorrindo.
— Não te importas?
— Por amor de Deus, menino, claro que não.
— Obrigado, Isabel. Vou trocar de roupa e já venho.
Isabel saiu da cozinha com um pano amarelo, uma vas-
soura pequena e um saco de lixo; foi limpar a confusão em
cima de mesa de modo a deixá-la novamente pronta a usar.


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As crianças jogavam alegremente com a bola no vasto


quintal verde.
— O senhor é muito bondoso. — Disse Pedro com
um enorme sorriso.
— Achas? — Perguntou Pernet, virando-se para ele,
apercebendo-se do seu sorriso aprovador.
— Tenho a certeza, Xavier.
— Viste o sorriso com que eles ficaram? É isto que
todas as crianças deveriam ter. O sorriso deles dá-me forças
e ânimo para continuar a lutar. É por eles que eu ainda me
esforço. — Confessou.
— Eu sei, Xavier.
— O mais pequeno sorriso neles chega para me fazer
sentir melhor e mais feliz.
— Eu sei.
Sorriram um para o outro durante breves segundos. O
ar satisfeito de Pernet agradava muito a Pedro, que se sentia
feliz simplesmente por ver que o seu amigo também estava.
— Venho já. Depois fazes-me companhia lá fora no-
vamente?
— Sim, claro.
Pernet virou costas e dirigiu-se ao seu quarto. Che-
gado lá, tirou do guarda-fatos umas calças de ganga, uma
t-shirt branca e um casaco, igualmente de ganga que, após
despir o fato de treino sujo, vestiu.
Regressou à cozinha onde Pedro o esperava. Juntos fo-
ram sentar-se novamente à sombra da cerejeira. Pouco de-
pois, Isabel serviu-lhe o pequeno-almoço.
— Obrigado, Isabel — Agradeceu.
— De nada menino — Disse com um sorriso a bela criada.


  

Isabel voltou para a cozinha, já refeita do susto que


apanhou, e continuou à banca lavando os legumes com o
sol a aquecer-lhe o rosto.
Pernet comeu as suas torradas e bebeu o leite com café en-
quanto Pedro lhe fazia companhia para depois lhe perguntar:
— Sempre vais a casa da Clarisse?
— Vou.
— Julgo que fazes bem. A companhia da menina Cla-
risse será boa para si.
— Talvez, Pedro. Tudo depende do que ela quiser conver-
sar.
— Verdade, mas far-te-á bem saíres um pouco de casa
e apanhar outros ares.
— Fazes-me um favor? — Perguntou.
— Claro! — Respondeu, surpreendido com a mudan-
ça de assunto.
— Podes chamar o rapaz mais velho? Quero conversar
um pouco com ele. — Pediu.
— Com certeza. — Assentiu, sorrindo.
Pedro levantou-se, indo em direcção às crianças que brin-
cavam, alheias à cruel vida que, por vezes, existe. Riam-se. Gri-
tavam, brincavam como se não existisse mais nada, sem cons-
ciência da crueldade do mundo, protegidos com a inocência
inerente da criancice. Crianças. Pequenos seres que animavam
a vida solitária de Pernet; ele adorava-as, não encontrava nelas
a maldade dos adultos. Quando era criança, ele queria ser ho-
mem; agora, que é homem, sonha em ser criança. Desejava ain-
da ter a liberdade de sonhar, a inocência de quem é inconsciente
do que o mundo e a vida realmente são: uma luta diária, cheia
de problemas, altos e baixos, por vezes difícil de suportar.


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A sobrevivência da humanidade reside nas mãos des-


sas crianças; devem ser felizes enquanto jovens para que o
futuro seja feito de felicidade, sorrisos e paz.
Pedro chegou junto dos pequenos que pararam de
brincar ao vê-lo. Dirigiu um olhar meigo ao rapaz que pare-
cia ser o mais velho dos três e disse-lhe:
— Olha, o senhor Pernet quer falar um pouquinho
contigo. Pode ser?
— Sim. — Respondeu o rapaz, acenando positiva-
mente com a cabeça.
— Podem continuar a brincar, ele vem já. — Disse
para os restantes irmãos.
Então eles continuaram a sua brincadeira.
O rapaz acompanhou Pedro até à mesa onde Pernet se
tinha mantido.
— Quer falar comigo, senhor? — Perguntou o rapaz,
de pé, com as mãozinhas cruzadas atrás das costas.
— Sim, quero. Senta-te.
— Vou ver se a Isabel precisa de ajuda. — Disse Pedro.
Enquanto o rapaz se sentava, fez-se a caminho da cozinha.
— Então, diz lá. Como te chamas e que idade tens?
— Perguntou com um sorriso, entrançando os dedos, de
cotovelos apoiados sobre a mesa.
— Meu nome é Rodrigo, senhor. Tenho doze anos. —
Respondeu, sentindo-se algo envergonhado, sentado muito
direitinho na cadeira com as mãos sobre o colo.
— Ah! Então e os teus irmãos?
— O do meio tem dez anos e chama-se Henrique; o
mais novo, que tem oito, é o Luís. — Explicou.
— E gostas dos teus irmãos?


  

— Claro, senhor! Sou eu que tomo conta deles! —


Disse o pequeno muito orgulhoso, exprimindo responsabili-
dade no olhar sereno.
— Muito bem. E onde moras, Rodrigo?
— Não muito longe, numa casinha já velhinha feita
de pedra.
— Gostas da tua casa?
— Gosto, senhor, mas é pequena. Ás vezes faz tanto
frio! À noite, na cama, fico com os pés gelados e custa-me
adormecer, mesmo calçando dois pares de meias. A lareira
na cozinha não chega para aquecer o resto da casa. As pe-
dras estão sempre tão frias quando lhes toco!
O coração de Pernet comoveu-se ao ver o olhar triste
do Rodrigo enquanto falava com voz terna, porém trémula.
Ele tinha que fazer algo; a sua generosidade o obrigava a tal.
Uma ideia fulminou-lhe o espírito.
— O teu pai trabalha?
— Não, senhor, o meu pai já morreu. Trabalhava nas
obras quando escorregou e caiu de um andaime, do tercei-
ro andar. Partiu o pescoço — Explicou o rapaz. Lágrimas
vieram-lhe aos olhos na recordação daquela morte e da falta
que sentia do seu pai.
Pernet convencia-se cada vez mais que iria fazer algo
para ajudar aqueles três irmãos que tanto lhe tocaram na
alma.
— Lamento muito! E a tua mãe?
— Trabalha. Numa fábrica de calçado nos arredores
daqui. Ganha pouco mas trabalha muito. O dinheiro mal
chega para comermos ou para os medicamentos do Luís.
— O que tem ele?


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— Asma, tem asma senhor, e os tratamentos são caros


para nós. Sabe, senhor, às vezes vejo a minha mãe a chorar!
Ela não diz, mas eu sei porquê.
— Sabes?
— É que ela gosta muito de nós. Ela queria poder
dar-nos mais coisas, mas o dinheiro não chega. Então cho-
ra.
— Como se chama a tua mãe?
— É Rosário. Gosto muito dela, mas anda sempre tão
triste. Eu tento animá-la, dou-lhe muitos beijinhos e ela sor-
ri. Abraça-nos aos três e diz que nos ama muito. Depois
chora.
Pernet comoveu-se ainda mais ao aperceber-se de que
aquela criança tão nova e inocente já sofria na pele e na alma
a crueldade da vida. Era tão jovem e no entanto deveras ho-
menzinho; a vida roubava-lhe a infância e obrigava-o a cres-
cer demasiado rápido. A sua voz era tão triste e no entanto
tão meiga e doce como se ele perdoasse a sujidade que a vida
lhe atirava à cara limpando-a com lágrimas injustas e con-
descendentes, como se aceitasse a dor e sofrimento com na-
turalidade, como se fosse comum porém, os olhos carrega-
dos de coragem e força. Talvez pela sua tenra idade ele ainda
não fosse capaz de questionar o porquê das coisas, mas Per-
net sabia no âmago que esse dia, inevitavelmente, chegaria e,
quando viesse, o rapaz seria ainda mais triste. Xavier queria
evitá-lo, devolver-lhe a infância antes que ele a perdesse por
completo, para sempre, e o tornasse num adulto revoltado,
infeliz e incompleto. Tomou a fácil decisão de ajudar aquela
família pobre. Devolver aos irmãos o brilho nos olhos que
eles já perderam, mas possível de reencontrar.


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A vida deveria ser benevolente com as crianças. Não é


justo nem correcto que elas sofram quando deveriam rir e
brincar em paz.
— O que vão almoçar? — Perguntou, após soltar um
sentido suspiro.
— Vou aquecer uma açorda de peixe que a minha mãe
deixou, feita ontem à noite. Não é do que mais gostamos,
mas tem que ser. — Confessou o rapaz com a voz carregada
de tristeza mas com muita ternura nos olhos vivos.
— E a tua mãe? Almoça convosco?
— Não, senhor. Come lá na fábrica. Costuma levar
um pão com manteiga. — Esclareceu.
— E não come mais nada? — Perguntou surpreso.
— Não, mais nada — Gaiou tristemente, baixando o
olhar que se fixou nas mãos sujas.
— Rodrigo, queres cá almoçar com os teus irmãos?
São quase horas do almoço. — Ofereceu com um sorriso.
O rapaz levantou a cabeça, fitou os olhos do seu novo
amigo e, numa explosão de alegria, disse:
— A sério, senhor? Podemos cá almoçar?! Eu e os
meus irmãos?
— Claro que sim, os três. — Confirmou sorrindo.
— Sim, gostaríamos muito.
— Então, está bem. Isabel! — Chamou.
Isabel saiu da cozinha sacudindo água das mãos e dis-
se:
— Sim, menino?
— Põe mais três pratos na mesa aqui para os nossos
amigos. Prepara uns bons bifes com batata frita. Hoje te-
mos convidados especiais.


 

— Com certeza.
Dito isto, regressou à cozinha onde pôs a mesa com os
três lugares extra e começou a fazer o almoço.
— Vai lá brincar e diz aos teus irmãos que cá almo-
çam. Depois, eu chamo quando for para comer.
— Obrigado, senhor! Você é muito bom.
Levantou-se e foi a correr para junto dos irmãos.
Soube bem a Pernet ouvir aquelas palavras ditas por
Rodrigo, por uma criança sofredora que ele ansiava apazi-
guar. Só quem sofre agradece com verdadeira sinceridade.
Animou-lhe o espírito e sentiu-se invadido por um calor se-
reno e acolhedor. Olhava contente para as alegres crianças,
a brincar com a bola; ele sorria, sentindo-se feliz.
Os outros dois irmãos alegraram-se ao saber do convi-
te para almoçar. Aguardavam ansiosamente, já tocados pela
fome.
Alguns minutos passados, Isabel espreitou pela porta
aberta da cozinha e chamou:
— Menino Xavier!
Não obteve resposta, viu Pernet imóvel recostado na
cadeira sólida.
— Menino Xavier! — Repetiu com mais fôlego.
— Sim, Isabel! Desculpa, estava distraído a ver os pe-
quenos brincar.
— Não tem mal nenhum, menino. O almoço já está
pronto. — Declarou.
— Obrigado, Isabel.
Pernet ergueu-se majestoso da cadeira, com verdadeiro
porte de rei. Chamou os irmãos:
— Rodrigo, venham comer!


  

Os pequenos largaram a brincadeira e vieram a correr to-


dos contentes. Entraram na cozinha com Xavier ao lado. Sen-
taram-se os três por ordem de idade num dos lados da mesa
onde se encontravam os pratos já cheios de comida. Pernet,
Isabel e Pedro sentaram-se defronte às crianças, do outro lado.
— Não tenham vergonha! Comam. — Disse Pernet a
sorrir.
Precipitaram-se sobre os pratos, empalando as bata-
tas com garfadas generosas e que devoravam sofregamente,
cortavam grandes bocados de carne tenra que lhes enchia a
boca esfomeada, quase sem respirar, entre garfadas. Isabel
achou piada e perguntou:
— Então, estão a gostar?
— Oh sim, está muito bom.
Isabel esboçou um sorriso orgulhoso após tão sincero
elogio.
— Ah! Lembrei-me! Desculpem, ainda não vos apre-
sentei. Esta simpática senhora é a Isabel, este senhor chama-
-se Pedro.
— Muito prazer em conhecê-los. — Disseram após
engolir o que tinham na boca. Eram visivelmente muito
bem-educados.
— Estes três meninos são o Rodrigo, o Henrique e o
Luís. — Apresentou, apontando conforme ia enunciando os
nomes dos rapazes.
— Muito gosto. — Responderam Pedro e Isabel jun-
tos, com um sorriso de acolhimento.
O almoço passou-se entre risos e brincadeiras. Para
Xavier foi um dos melhores almoços da sua vida, um de ne-
gócios não se poderia comparar-lhe. Ver três crianças con-


 

tentes, tão cheias de alegria, encheu-lhe o coração e a alma


de calor e o espírito de esperança e paz.
O almoço acabou. Henrique e Luís correram para o
quintal e brincavam de novo. Rodrigo quedou-se no seu lu-
gar, fitou os olhos de Pernet durante alguns segundos e, por
fim, disse, solene e verdadeiro:
— Você tem uns olhos muito bons, cheios de gene-
rosidade e gentileza, mas também são tristes como os da
minha mãezinha.
Pernet ficou surpreendido com a perspicácia do rapaz
e com capacidade que ele teve em ler-lhe os olhos; isso as-
sustou-o ligeiramente, pois sabia ser verdade.
— Consegues ver isso?
— Consigo, senhor.
Pernet espreitou lá para fora, onde os dois pequenos
jogavam com a bola.
— A vossa bola já está velha, pois é?
— Sim, mas gostamos dela na mesma; é a única que
temos.
— Já venho, espera aqui um pouco.
— Está bem, senhor.
Xavier levantou-se e foi ao escritório. Demorou-se ape-
nas breves minutos. Rodrigo esperava-o. Entretanto, Pedro
ajudou Isabel a levantar a mesa e a lavar a louça.
Pouco depois, Xavier voltou, trazendo consigo algo na
mão direita. Sentou-se ao lado do rapaz e disse:
— Olha, Rodrigo, dá isto à tua mãe. Diz-lhe que é para
vos comprar uma bola nova e medicamentos para o Luís.
— Oh, senhor… A sério? Não está a enganar-me? —
Perguntou desconfiado de tanta bondade.


  

— Claro que não! Acreditas em mim?


— O senhor é muito bom. Como um anjo.
— Acreditas em anjos?
— Sim, olham por mim e pelos meus irmãos.
Pernet sorriu e entregou um envelope branco selado
onde se lia “Rosário”. Rodrigo pegou no envelope aceitan-
do-o com um radioso sorriso.
— Não podes perdê-lo. É muito importante!
— Não perco.
— Olha, eu agora tenho que ir. Se quiseres podem cá
ficar em minha casa a brincar. Depois, peçam à Isabel que
vos prepare um bom lanche. E, se quiserem, podem voltar
amanhã. São muito bem vindos. Agora somos amigos. Não
te esqueças de dar isso à tua mãe.
— Está bem, senhor. Eu não esqueço. Obrigado por
tudo.
— Vá, divirtam-se — Disse, levantando-se da cadeira.
Rodrigo saiu para o quintal.
— Já vais, Xavier?
— Sim, vou, Pedro.
— A casa da Clarisse?
— Sim.
— Faz bem. — Sorriu.
— Então, já venho.
— Sim, Xavier.
Pedro ficara contente por ele ter aceite encontrar-se
com Clarisse. Achava-a uma bela moça.
Pernet abandonou a cozinha dirigindo-se à garagem.


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Capítulo 4
— Clarisse —
Pernet entrou na garagem pela porta maciça de ma-
deira escura e tornou a fechá-la atrás de si, ecoando pela
ampla área. Paredes brancas de cimento ostentavam posters
de carros, de motas e barcos. Largos pilares aguentavam
sem esforço o tecto alto de madeira carregado de focos de
luz que ele acendera ao entrar. Elas tornavam visível a vasta
colecção de maravilhas a motor que ele detinha. A luz bri-
lhava, reflectida sobre o metal lavado e bem cuidado dos
veículos. Percorrendo a vasta garagem encontravam-se três
Lamborghinis: um Murcielago verde, um Contach preto de
oitenta e oito e um Diablo roxo. Existiam lá outros mais
como um Maseratti 3200 GT cinzento, um Viper GTS azul
com duas listas brancas que o atravessavam do capô à mala,
um raro Cheverolet Corvette rosa de cinquenta e sete, dois
Ferrari, ambos vermelhos: um F50 e o outro 250 Testarossa
de cinquenta e sete; e um Jaguar XKR preto. Tinha especial
admiração por um carro amarelo, antigo: era um Alfa Ro-
meu 2300 Spider do ano de trinta e dois.


  

Pernet gostava muito de máquinas velozes, era a única


coisa em que ele despendia mais dinheiro. Porém, já tinha
gasto mais em carros, carrinhas e ambulâncias que ele doa-
ra a instituições e aos bombeiros voluntários de todo o país.
O automobilismo era a sua paixão.
Retirou uma chave do pequeno expositor de vidro que
se encontrava à sua direita e dirigiu-se ao Jaguar. Entrou,
inseriu a chave na ignição e rodou-a; imediatamente o mo-
tor soltou um rugido de satisfação e largou algum fumo
pelo escape.
Carregou no botão do comando que trazia consigo e
o grande portão verde de metal rolou nas calhas para a di-
reita, deixando o sol inundar aquele espaço, dando o prazer
da sua visita.
Pisou ligeiramente o acelerador, o carro moveu-se e
saiu, virando para a direita, rolando sobre uma estrada de
gravilha que percorria toda a largura da fronte da casa e que
avançava cerca de quatro metros, suficiente para dar espaço
de manobra a qualquer carro. Virou novamente à direita;,
poucos metros depois sem contornar a rotunda imposta por
uma fonte de pedra e cimento. Um querubim em posição
de quem está prestes a disparar a sua flecha, cuspindo um
grosso fio de água pela boca; de cabeça erguida, enchia o
anel de cimento com água cristalina, orgulhoso do seu lu-
gar central na fonte.
Pernet percorreu o resto da estrada dentro de um cor-
redor de choupos-tremedores cuja folhagem verde se fecha-
va sobre o caminho, assemelhando-se a um túnel onde finos
raios de sol penetravam e iluminavam ligeiramente a gra-
vilha, acentuando o pó que se erguia com a passagem dos


 

pneus ao afastar-se cada vez mais da casa. O resto do espaço


aberto era completo com relva verdejante que terminava nos
limites dos muros. Passou pelo alto portão de ferro que se
encontrava sempre aberto de par em par, deixando para trás
a sua grandiosa casa pintada de branco e de arquitectura
moderna, que ele possuía em Gouveia, a poucos quilóme-
tros da Serra da Estrela.
Olhou para o relógio do carro. Ainda era cedo. Razão
pela qual ele decidira ir pelo caminho mais longo, passando
por Seia e Nelas, conhecida pelo seu vinho, aproveitando
assim o belo dia que estava e que o convidava a ter pen-
samentos animadores. Aproveitar um pouco a paisagem e
sentir-se mais ligado à natureza, pondo em prática os conse-
lhos de Pedro; depois, chegaria finalmente a Viseu e, poste-
riormente, a Marzovelos, onde Clarisse habitava.
Rapidamente chegaria ao seu destino; o potente Jaguar
pô-lo-ia lá num instante.
O “Palácio do Gelo” já se avistava à distância; decidi-
ra fazer uma breve paragem. Estacionou perto da entrada
principal. Um grupo de rapazes que passava ficou a admirar
a imponente máquina. Xavier passou as portas automáticas,
subiu um lance de escadas-rolantes, depois outro. Entrou
na tabacaria e comprou o seu tabaco de eleição, um Exellent
de manga. Comprou também filtros e mortalhas. Pagou,
desceu a escadaria de mármore e saiu. Entrou no carro e
arrancou em direcção a Marzovelos, impaciente e ansioso
por saber qual era o assunto importante que Clarisse lhe
reservara.
Pouco depois, Xavier parou o carro frente ao prédio
onde Clarisse possuía o seu apartamento T3, algures nos


  

arredores do conhecido hotel Monte Belo. Saiu do Jaguar,


subiu os breves degraus até à entrada principal do prédio e
premiu o botão de chamada do apartamento da rapariga no
vídeo-hall; este emitiu um ligeiro sinal sonoro. Segundos
depois, ouviu uma voz suave, meiga, doce e carregada de
ternura, como a de um anjo, fazendo o desgraçado respirar
fundo ao ouvi-la dizer:
— Olá, Xavier. Já te abro a porta.
— Olá, Clarisse. — Retribuiu o cumprimento num
tom de voz imensamente suave.
Ouviu-se um ruído, após o qual a porta de alumínio
pintado de branco se descolou do trinco magnético que a
mantinha firmemente fechada. Ele entrou e os focos de luz
do tecto de estuque branco acenderam-se automaticamente;
o corredor foi inundado por uma música ambiente qualquer.
Aproximou-se do elevador, premiu o botão de chamada, es-
perou breves segundos; a porta de metal cromada abriu-se,
entrou e viu-se ao espelho que ocupava a parede traseira;
estava com bom aspecto. Pressionou o botão para o andar
da Clarisse, a porta fechou-se e o elevador deu um ligeiro
solavanco ao iniciar a subida. Xavier estava nervoso e ansio-
so por ver a amiga. Já não se falavam nem viam há muito.
As pernas tremiam-lhe ligeiramente, a respiração tornara-se
mais rápida, o coração bombeava-lhe o sangue com mais
vigor. Finalmente, com um solavanco desconfortável, o ele-
vador parou e a porta abriu-se deixando entrar uma lufada
de ar fresco que lhe arrefeceu um pouco o rosto quente e
corado. Ele não sabia por que estaria assim, mas tudo se
multiplicou ao vê-la, parada à entrada, encostada na porta
aberta do apartamento.


 

Fitou-a nos belos e expressivos olhos verde-esmeralda,


raros, únicos; ele nunca vira igual. Às vezes tinha a sensa-
ção de que o penetravam e lhe perscrutavam a alma, fazen-
do-o sentir-se ligeiramente incomodado, como se estivessem
prestes a ler-lhe o coração e a desvendar-lhe um passado que
ele tanto queria esquecer. O cabelo ondulado e comprido
terminava serenamente a meio das costas; era negro com
madeixas caju, bailava levemente em ondas ligeiras, pro-
vocadas por uma brisa que provinha não se sabe de onde,
talvez soprada por boca divina, mas que lhe conferia um
ar ligeiramente selvagem e no entanto harmonioso. A testa
altiva, sinal de pessoa inteligente que ela, na verdade, era.
Pele morena e sedosa cobria um corpo alto e magro, quase
roçando a perfeição nas medidas. Um narizinho pequeno
mas fofo, bem como os lábios rosados, não muito carnudos,
mas apetitosos; exalavam uma respiração leve, calma e doce
com um agradável odor a morango das pastilhas que tinha
por costume mascar.
Ela estava linda, ela era linda, transpirava beleza por
todos os poros. Homem que cruzasse o olhar com ela não fi-
cava indiferente. Clarisse captava pasmos de desejo por parte
deles e de inveja pelo lado das senhoras que não se lhe com-
paravam em beleza e atitude por mais que se esforçassem ou
maquilhassem. A beleza daquele anjo de carne era natural,
moldada certamente por mão divina numa lucidez do que
é belo, quase perfeito. Falava sempre com voz meiga, pelo
menos para Pernet, num tom suave, doce e cativante que
dava gosto ouvir e que tocava no âmago, nas profundezas
das emoções de quem quer que fosse que a ouvisse, homem
ou mulher. Inteligente, honesta, deveras natural e coerente


  

na forma de ser e de estar. Tudo nela era uma simplicidade


atractiva. Graciosa nos seus movimentos leves e suaves, por
vezes parecia não caminhar, mas sim, flutuar sobre o chão
que se vergava a cada passo seu, sublime. Por vezes, dava a
impressão de que a própria natureza se envergonhava por
não ser tão bela e radiosa quanto ela; os pássaros pareciam
interromper o voo, pousando em árvores apenas para a con-
templarem e renderem-se à sua beleza, única.
Vestia umas calças pretas, muito justas; calçava sapati-
lhas brancas que davam a perceber pés pequenos e ligeiros.
Uma t-shirt branca, decotada em V insinuava um pouco dos
generosos e salientes seios. A vestimenta contornava a sua
silhueta provocante e quase perfeita. Tudo nela despertava
o desejo, incendiava o espírito e o corpo até daquele que se
julga mais resistente… Mas é impossível resistir ao divinal.
Lembrava um anjo perfeito, ou talvez um demónio que nos
engana, envenenando-nos com palavras doces que nos pren-
dem a atenção e enfraquecem o corpo e alma. É certo que
ela tinha muito de anjo e quase nada de demónio, a não ser
a cobiça alheia que provocava sem intenção mas que a rode-
ava constantemente. Era um ser puro e verdadeiro que ema-
nava luz harmoniosa cheia de paz e serenidade. Seu coração
era um universo de bondade… como o de Pernet.
Davam-se bem, as suas longas conversas nunca termi-
navam em discussão, todavia já não estavam juntos há al-
guns meses.
Pernet apercebeu-se de que estava algo nervoso, mas
conseguiu controlar-se.
— Olá, Xavier, como estás? Pelo menos pareces bem, com
bom aspecto. — Elogiou a rapariga com um sorriso acolhedor.


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— Olá, Clarisse! Ando bem.


Cumprimentaram-se com um par de suaves beijos nas
faces, o que aqueceu a alma de ambos.
— Já não te via há três meses! Que saudades! Como
estás da tua tristeza? — Perguntou com ar de sincera preo-
cupação e interesse.
— Hoje ando bem. Amanhã não sei. É assim, vai e
vem. Tu também estás com um óptimo aspecto, aliás, como
sempre. — Respondeu, elogiando-a.
— Oh! És tão querido! — Exclamou passando a mão
ao de leve na face esquerda do rapaz. Uma carícia muito
bem-vinda.
Muito modesta que ela era, mesmo tendo consciência
da bela mulher que era e das reacções e sensações que pro-
vocava nos outros. Com ele não era diferente.
Sentiu com intensidade o leve toque da sua mão gentil
e suave como seda, o seu coração pausou um ínfimo instan-
te para depois bater ligeiramente mais forte, como se tocado
por um anjo. Um arrepio quente e gostoso percorreu-lhe a
espinha.
— Entra, Xavier.
Entraram lado a lado, ombro a ombro, Clarisse fechou
a porta de madeira clara, muito simples, porém sólida.
Quem entrasse, do lado direito, deparava com uma pe-
quena mesa redonda sobre a qual assentava um telefone digital
branco. Em frente, uma porta de madeira escura e vidrada que
dava para um pequeno hall onde se encontravam os acessos
aos quartos, à casa de banho e a um pequeno escritório. No
canto esquerdo adjacente, um alto bengaleiro sustentava um
comprido casaco de cabedal preto que ainda cheirava a novo.


  

Uma porta perpendicular à do hall ocultava atrás de si uma


ampla cozinha ricamente mobilada. Perpendicular a esta, e ao
lado esquerdo da entrada, achava-se a sala de estar. Um tapete
preto e branco com padrões circulares estendia-se no centro,
completando deste modo o hall quadrado da entrada.
Entraram na sala, harmónica na sua simplicidade.
Mobilada com pequenos móveis de cerejeira, como a mesa
redonda envolta por seis pousios e que descansava sobre um
tapete bege, de modo a não riscar o chão de tacos enverniza-
dos com o movimento inevitável das cadeiras forradas a li-
nho branco. Ao lado, dois sofás bege em forma de L, de três
lugares cada, fechavam-se sobre uma mesa de centro com
os pés em madeira e o tampo de vidro ligeiramente azulado
sobre um tapete fofo; a adorná-la, achava-se um tabuleiro
de xadrez a três dimensões com as casas dispostas a alturas
diferentes e as peças ordenadas correctamente. Defronte aos
sofás reconhecia-se uma lareira de design moderno embuti-
da na parede branca; sobre esta, um imenso ecrã de plasma.
Focos de luz espreitavam desavergonhadamente de um tecto
falso e iluminavam a sala com luz acolhedora. Uma varanda
aberta deixava entrar uma brisa agradável e luminosidade
natural, tornando a bela Clarisse ainda mais radiosa, ao de-
finir-lhe os contornos das feições com mais esplendor, cheia
de luz e sombras. Todo o apartamento irradiava uma beleza
natural e a juventude da sua dona de vinte e dois anos.
Clarisse convidou-o a sentar-se. Assim fez, escolhendo
o sofá mais à direita, mais próximo da varanda. A rapariga
sentou-se ao seu lado, de pernas sobre o sofá e ombro ferra-
do contra o encosto. Pernet ajeitou-se da mesma maneira,
de modo a ficarem cara a cara.


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— Pedro disse-me que querias falar-me sobre um as-


sunto importante.
— Sim, Xavier. Tenho uma proposta a fazer-te. Receio
que seja necessário.
— Ah sim! E qual é? — Perguntou curioso.
— Creio que seja necessário realizares um jantar em
tua casa. Convidando pessoas influentes da classe alta. —
Explicou.
— Oh, Clarisse! Sabes bem que não gosto desses jan-
tares. São uma maçada, a maior parte deles servem apenas
para coscuvilhices e falar mal dos que não estão presentes.
São tão fúteis e quase sempre desnecessários, ideais para os
exibicionistas, não para são convívios; e, na maior parte,
por interesse. Detesto!
— Eu também penso isso! A verdade é que este é ne-
cessário e temo que inevitável. — Concordou.
— Mas por quê, Clarisse? Não vejo a importância de
um jantar desses. Não tenho interesse nenhum em fazê-lo e
não sou exibicionista.
— Eu sei, Xavier, mas é preciso! Os meus pais foram a
um jantar social. Só fui porque a minha mãe insistiu, disse
que tinha saudades minhas. Se não fosse por ela, eu nem
iria. Ainda não perdoei o meu pai e, acredita, custou-me
tanto olhar para aquela cara.
A moça provinha de uma família abastada. O seu pai
era um médico proeminente e conhecido, fundador de uma
cadeia de clínicas privadas bastante procuradas. A sua mãe
era enfermeira no hospital São Teotónio, um dos melhores;
era tida em muita consideração e era a mais simpática para
com os doentes e especialmente as crianças. Um dia, ten-


  

do Clarisse acabado de tomar um duche, achava-se no seu


quarto, em casa dos pais, enrolada numa toalha cor-de-rosa.
Como era normal, tinha a porta fechada, mas não tinha por
costume trancá-la. No exacto momento em que deixou cair
ao chão a toalha que embrulhava o seu corpo nu, a porta
abriu-se de súbito e o seu pai prostrava-se à entrada, olhan-
do perverso para ela.
— Pai! Sai daqui! — Gritou, tentando tapar-se o mais
que as mãos permitiam.
Ele não se moveu, ficando a regalá-la fixamente.
— Sai daqui! — Berrou novamente.
— Ora, qual é o problema? Sou o teu pai, sou médico.
Já vi muitos corpos nus.
— Não me interessa! Sai! — Gritou deveras incomo-
dada com aquele abuso de violação à sua privacidade.
— Sabes que tens um corpo bem feito e muito bom?
— Perguntou com ar malicioso e perversão no olhar.
Estas palavras ferveram-na. Precipitou-se sobre ele e
empurrou-o para fora do quarto com algum esforço. Fechou
a porta com um estrondo e, trancando-a à chave, gritou vi-
vamente e irada:
— És um porco!
Não obteve qualquer réplica. Ficou furiosa com o ve-
lho. Já fora a segunda vez que ele invadia a sua privacidade e,
da primeira, ela convenceu-se de que fora acidental, mas da-
quela reparou no olhar perverso do pai. Já fora há dois anos.
Nunca o perdoou, não pelo que fez mas pelo que disse. Saiu
de casa e comprou o apartamento com dinheiro que havia
posto de parte para esse efeito; apenas não esperava que fos-
se tão cedo. Decidiu seguir os passos da mãe e estava já no


 

terceiro ano do curso de enfermagem no Instituto Jean Pia-


get. O pai dava-lhe uma mesada choruda, comprou-lhe um
belo carro, talvez procurando pagar-se pelo seu acto; porém,
não comprava o perdão nem recuperava o amor da filha por
mais que investisse. Ele sempre fora um pai ausente, insensí-
vel e boémio, ao invés da mãe que era fortemente querida e
atenciosa com a filha única; davam-se lindamente, a relação
assemelhava-se mais à de irmãs do que mãe e filha.
Clarisse continuou dizendo:
— Nesse jantar, como tu dizes, as conversas eram su-
perficiais e eu não estava a prestar muita atenção. Mas foi
quando ouvi o teu nome que despertei. O que diziam não
era agradável.
— Oh, Clarisse. — Interrompeu — Bem sabes que
pouco me importa o que dizem da minha pessoa. Eu sou
quem sou!
— Eu sei, mas o que foi dito nem foi a respeito da tua
personalidade.
— Então era em relação a quê? — Perguntou, franzin-
do ligeiramente a testa.
— Foi dito que a instituição que criaste, “A Casa do
Órfão”, foi erguida com a intenção de explorares as crian-
ças, obrigando-as a fazer sandes para os teus hotéis. — Ex-
plicou.
— Ora, Clarisse! É lógico que é mentira e bem ridí-
cula. Até porque mantenho a instituição com dinheiro do
meu bolso.
— Eu sei disso, mas eles não. Dizem também que al-
guns dos teus hotéis são fachada para outro tipo de negócios
menos próprios ou legais. — Acrescentou a rapariga.


  

— Que outro tipo de negócios? — Perguntou com ar


sério e incrédulo.
— Não sei. Isso não foi dito, apenas que é ilegal. —
Explicou.
— Só mentiras! — Exclamou, semicerrando os olhos.
— Eu sei. Mas são acusações graves. Podem custar-te
tudo aquilo por que lutas. Podes perder tudo devido a estes
boatos, caso se espalhem mais e atinjam um nível perigoso
sem retorno. Já vi isso acontecer a pessoas do meu conheci-
mento. Aqueles que ajudas correm o risco de ficarem sem
nada outra vez.
— Isto não pode ser verdade! Quem inventaria uma
barbaridade destas?
— É muito verdade e muito grave. Estou a tentar des-
cobrir o responsável pelo lançamento dos boatos, mas não
está a ser fácil.
— Ora, Clarisse, as pessoas devem saber que se trata
apenas de boatos. — Disse, confortando-se a si mesmo.
— Não sei, Xavier. As pessoas acreditam mais rapida-
mente no mal do que no bem.
— Mas têm conhecimento do bem que faço e do di-
nheiro que já doei.
— É certo. Mas a acreditarem nestas mentiras isso
não terá qualquer valor ou importância. Ver-te-iam como
um hipócrita. — Explicou.
— Meu Deus, então o jantar é mesmo imprescindível!
— Disse, com as mãos a suarem-lhe.
— Infelizmente, é! Pelas piores razões. Tens que des-
mentir esses boatos. Tens que proteger o que construíste.
Estas mentiras podem destruir-te.


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O coração batia-lhe forte e acelerado no peito com a


surpresa daquela notícia inesperada e disse:
— Mas eu não faço ideia de quem deva convidar!
— Não te preocupes. Já elaborei uma lista com onze
convidados. Entrega-a ao Pedro, diz-lhe que trate dos con-
vites. Ele saberá o que fazer. — Aconselhou.
Clarisse levantou-se, pegou numa folha dobrada que
tinha em cima da mesa de jantar e entregou-lha, sentan-
do-se novamente.
— Obrigado. Também estás nesta lista?
— Claro, não te ia deixar enfrentar as raposas sozi-
nho! Estarei do teu lado. — Afirmou convictamente com os
olhos a brilhar.
— Oh, Clarisse, no que a humanidade se tornou. Men-
tiras e maldade sobrepõem-se à verdade e bondade. — Solu-
çou tristemente.
— Por vezes as pessoas confundem ambas as coisas.
Não deixam o coração entregar-se à bondade, porque o pró-
prio mundo é um lugar cruel.
— É então necessário este jantar. — Disse, já confor-
mado com a ideia e alguma tristeza no olhar.
— Sim, com urgência.
— Para quando?
— Digamos, de hoje a quinze.
— E dá tempo para preparar tudo?
— Dá.
— Muito bem, assim seja.
— Não te preocupes, vai correr tudo bem.
Pernet desdobrou a lista e deu uma rápida vista de
olhos. Dobrou-a novamente e enfiou-a no bolso interior do


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casaco de ganga; retirando ao mesmo tempo o tabaco, os


filtros e as mortalhas que trazia consigo.
— Clarisse, importas-te que fume?
— Não, claro que não! Aliás, enrola um também para
mim. Vou buscar um cinzeiro.
Clarisse levantou-se e foi à cozinha enquanto Pernet
fazia os cigarros. Regressou pouco depois trazendo consigo
um cinzeiro de vidro que reluzia e pousou-o sobre a mesa de
centro. De seguida, tornou a sentar-se na mesma posição.
Ambos levaram o cigarro à boca. Pernet retirou o zippo do
bolso direito e acendeu-o; deu lume à Clarisse, depois apro-
ximou o isqueiro ao seu, fechou-lhe a tampa, extinguindo
a chama que exalava um odor a gasolina e pousou-o sobre
a mesa com o X virado para cima. Um cheiro agradável a
manga perfumou o ambiente com ligeiras nuvens do fumo
emanado.
— Isto não tem nada a ver com o tabaco dito normal.
É mais suave, mais saboroso. — Disse, após dar um travo e
soltado o fumo.
— É por isso que gosto tanto dele. Não fumo outro tipo.
— Explicou, agradado com o elogio feito ao seu tabaco.
O aroma doce e calmante despertou-a ainda mais para
os sentimentos que já existiam na sua alma. Fê-la sentir-se
mais romântica, mais corajosa, e por que não, mais desini-
bida. Então, solenemente, disse aquilo que há muito queria
dizer mas para o que sempre lhe faltou a coragem; enquanto
olhava meigamente nos olhos do rapaz:
— Já alguma vez colheste uma flor e, ao cheirá-la, da-
res por ti a pasmá-la e pensar que não existe nada mais sim-
ples e bonito? Chegas a tornar-te parte do universo dela e


 

esqueces, por momentos, a confusão que o mundo e a vida


se tornaram. Fica tudo muito mais simples e claro. Às vezes,
basta um abraço ou um simples beijo, dado pela pessoa cer-
ta, e o efeito é o mesmo, talvez ainda maior.
— Não, creio que não! Mas vou experimentar com
certeza. — Disse timidamente, após alguns segundos de si-
lêncio, enquanto tentava perceber e articular uma resposta,
surpreso com a inesperada pergunta.
A bela rapariga sorriu face a esta resposta, pois viu que
ele não percebera o que ela realmente queria dizer. Fora a
primeira vez que o rapaz a ouvira falar de maneira tão poé-
tica com um não sei quê de filosófica. Ficou espantado e a
verdade é que, ao princípio, não entendera o significado.
— Xavier, conheces aquela sensação de formigueiro na
barriga, a cabeça leve como se desprendesse do corpo, aquele
aperto no coração que nos faz respirar mais profundamente
e soltar leves suspiros, as pernas sem força e as mãos trému-
las? Aquele nó na garganta que a deixa seca e nos impede de
dizer o que nos vai na alma? Conheces, Xavier? — Pergun-
tou ela, fitando-o com olhinhos meigos.
— Sim, é o que se sente quando se está apaixonado
por alguém. — Disse, reconhecendo a sensação mas sem
entender o porquê da pergunta.
— É o que eu sinto quando estás perto!
Pernet ficara deveras surpreendido com esta confissão.
A velocidade com que o seu coração batia aumentou, as mãos
suavam-lhe, as pernas tremiam e a respiração ficou mais
ofegante enquanto um pensamento lhe fulminou a mente,
atravessando-lhe corpo e alma; então ele apercebeu-se duma
verdade inquestionável e inequívoca… Ele sentia o mesmo!


  

Não sabia se o queria, mas tinha consciência de que não po-


dia; por vezes, a consciência também se engana.
— Estás a querer dizer-me que te sentes apaixonada
por mim?
— Sim, Xavier, já to queria dizer há muito. — Con-
fessou, suspirando.
— Oh, Clarisse! Perdoa-me por te fazer sentir dessa
maneira. Mas eu não me posso dar ao luxo de me apaixonar
por ti ou de me aproximar. Tenho medo. — Disse com ar
triste que lhe invadiu o olhar.
— Mas tens medo de quê, Xavier? De amar? Ou de
seres amado?
— Não sei! — Soluçou. — Talvez um pouco dos dois.
Eu nunca te conseguiria fazer feliz, não quando eu próprio
não o sou.
— Mas podias ser! Ao meu lado, eu faria tudo para
te ver sorrir, para te ver alegre e feliz — Disse, tentando
convencê-lo, enquanto o fitava com olhar sincero.
— Tenho medo de me magoar, mas principalmente de
te magoar a ti, porque eu estaria sempre com um pé atrás.
— Explicou.
— Não tens o direito de pensares que me vais magoar.
Eu é que sei se estou pronta a ser magoada ou não, mas sei
que nada do que te poderia dizer te fará pensares de outra
maneira. — Esclareceu ela com voz meiga.
Olhavam-se nos olhos, ambos visivelmente entristecidos.
Então Pernet tentou explicar melhor as razões do seu medo.
— Às vezes, quando me encontro deitado sobre a mi-
nha cama, as lágrimas querem correr mas sou incapaz de
as soltar. Sou inundado por pensamentos dolorosos pois ve-


 

jo-me inábil de me esquivar a um passado que, teimosamen-


te, me persegue a todo lado que vá e me impede de dormir.
Então, por vezes, enrolo um charro e, por breves momentos
fugazes e fugidios, sou capaz de esquecer tudo, mas apenas
por breves minutos; adormeço para, no dia seguinte, passar
por tudo novamente. Caminhar entre a dor e sofrimento, dia
após dia; assombrado de noite por imagens, cheiros, sensa-
ções e memórias do passado em pesadelos que me atormen-
tam e fazem acordar aos gritos completamente encharcado
em suores frios e arrepios de medo. Tremo só no pensamento
de que vou ter de dormir, por isso tento evitar sequer fe-
char os olhos. A verdade é que até tenho medo de adorme-
cer! Perguntaste-me, numa altura, por que não falo do meu
passado. Mas vê bem, falar ou desabafar não me vai fazer
esquecer, bem pelo contrário, traz tudo novamente à memó-
ria; só o facto de perguntares obriga-me a pensar em tudo de
novo. Disseste que era por não confiar em ti, mas vê, não é
por falta de confiança, apenas não quero que imagines, que
cries imagens do que eu já passei, nem quero que me vejas
como um coitado ou tenhas pena de mim. São coisas que
acontecem, estou ciente disso, fazem parte da vida que me
foi destinada, mas não implica que consiga esquecer ou safar
da memória os vestígios de um passado cruel que ainda me
devora os sentidos de diversas maneiras. Nem a poeticidade
que tanto me esforço por dar à vida me faz sorrir.
Pernet apagou o cigarro, já no fim, o qual nem chegou
a saborear; só o provou quando o acendeu. Clarisse já fu-
mara e extinguira o dela enquanto o ouvia atentamente.
— Oh, Xavier, se tu deixasses, eu ajudar-te-ia a esque-
cer esse passado.


  

— Não consigo! É-me muito intrínseco, é difícil es-


quecer ou deixar de sentir a dor.
— Mas podes tentar! Fazes tanto pelos outros mas não
fazes nada por ti. — Disse meigamente.
— Sabes, às vezes dou comigo a pensar, quando olho
para o céu e vejo grandes sombras majestosas, no que senti-
rão os pássaros. Será que conhecem o medo, a alegria, dor,
tristeza, amor ou ódio, egoísmo, ambição ou mesmo paixão?
Talvez tenham a sorte de serem desprovidos de tais senti-
mentos que nos destroem e nos dilaceram a carne como gar-
ras afiadas! Às vezes desejo poder ser tão livre, até conseguir
voar ao lado do mais livre dos seres, tão livre que só teria o
céu como limite e não estar sujeito a sentimentos cruéis e
muito dolorosos. Será que ao menos sabem que existem? Ou
serão eles de tal maneira livres que nem disso têm consciên-
cia? Sonho em voar alto e mergulhar em nuvens brancas e
fofas como neve e sentir a doce brisa acariciar-me o rosto ao
passar. Criar asas e voar em direcção ao interminável, sem
preocupações, sem medos ou até sem pensar! — Disse com
ar de quem sentia cada palavra a libertar-se da alma.
— Esse tipo de liberdade é um mundo de ignorância
e inconsciência de ti próprio. — Refutou a rapariga após
ouvi-lo atentamente com o coração aos pulos.
— Talvez! Mas seria feliz! — Explicou.
— Então já sonhaste em voar?
— Já, Clarisse!
— E sabes o que significa?
— Não, na verdade não faço ideia.
— Pois eu faço! Penso nisso constantemente, mais
vezes do que queria. Representa a liberdade, o poder e o


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controlo absoluto sobre corpo e mente. Existem momentos


nesses sonhos em que simplesmente não somos capazes de
controlar o voo. É um sentimento intenso e sufocante de
desespero. Então, iniciamos uma queda vertiginosa em di-
recção ao solo e à morte certa. Já alguma vez sentiste isso
num dos teus sonhos, Xavier?
— É verdade que já. — Confessou.
— Isso exibe-nos a verdade terrível da nossa existên-
cia, revela-nos que somos incapazes de ser totalmente livres,
que tristemente somos escravos do nosso corpo e mente, que
nada podemos fazer para alterar essa assustadora verdade:
nós não temos qualquer controlo sobre a nossa vida, somos
limitados por ela, dirigidos ao sabor dos seus caprichos mais
mesquinhos. Se, algum dia, num desses sonhos, formos ca-
paz de controlar o voo, rompemos com todas as barreiras,
sobrevoamos todos os obstáculos, quebramos todas as re-
gras e rebentamos as algemas que nos escravizam. Seremos,
então, capaz de voar livremente até às nuvens, onde per-
maneceremos deitados, simplesmente a pensar, talvez numa
paixão, na vida e até mesmo na liberdade. Dessa nuvem
branca em que repousamos, arrancamos um pedaço e dele
moldamos uma almofada. No instante em que nela deita-
mos a cabeça somos invadidos por uma sensação pacífica e
harmoniosa pois sabemos que não há nada a temer; somos
desprovidos de quaisquer preocupações ou assombros e es-
tamos finalmente em paz. Pensamos nessa paixão que faz o
coração palpitar mais apressado, provocando aquela estra-
nha sensação na barriga, aquele arrepio quente e formiguei-
ro que nos percorre o corpo quando estamos apaixonados
e nos faz suspirar demoradamente enquanto fechamos os


  

olhos e adormecemos sem medos, pois sabemos que, quando


acordarmos, ainda seremos livres, que a paixão arrebatadora
será ainda maior e mais poderosa. Teremos, enfim, coragem
para falar a essa pessoa, tão especial, da nossa paixão, que
acabará por se transformar em amor. Nessa altura, sabere-
mos o que é ser realmente livre. Tudo o que fizeres estará
bem, tudo o que disseres será bom e ninguém te julgará pelo
que fizeste ou possas vir a fazer. És livre de fazeres as tuas
próprias escolhas e julgar-te a ti mesmo; és livre de pensar,
de sentir, de viver, de morrer e de amar. E, no dia seguinte,
ao acordares na tua cama, acordarás feliz, já que, por um
pequeno instante, mesmo sendo num sonho, foste verdadei-
ramente livre. Nós não controlamos a nossa vida. É impos-
sível, só nos resta aceitá-la e fazer dela o melhor que poder-
mos. Ser livre não se trata só de fazermos o que queremos,
mas também do que podemos fazer pelos outros e, nesse
aspecto, tu és livre. — Discursou Clarisse filosoficamente,
com lágrimas a dançarem-lhe nos olhos verdes carregados
de serenidade, ânsia e crença profunda nas suas palavras.
De certa maneira, também confessou a paixão imensa que
sentia, os seus sonhos e desejos de partilhar a vida com ele,
mas este não percebeu a mensagem subtil, pois seu coração
sofria de clausura inconsciente.
— Oh, Clarisse! Eu desejo tanto essa liberdade de que
falas. Apenas não a consigo encontrar em mim. — Confessou.
— Claro que consegues! Eu sei que consegues! Só tens
que a procurar com mais força.
— Não consigo. Nunca desejaste uma coisa, acima de
todas as outras, desejá-la tão desesperadamente que dás em
doida? Não sentindo mais nada, ser completamente cega que


 

só vês e só pensas naquilo que desejas? Já alguma vez ador-


meceste a chorar — agora nem isso consigo — que acordas
com o peito a palpitar com tanta força que chegas a pensar
que vai explodir? Já desejaste alguma coisa como eu desejo
a liberdade de espírito? Oh! E desejo-a tanto, mas não a en-
contro. — Disse suspirando em cima de algumas palavras,
com os olhos fixos nos dela.
— Já, Xavier! A ti! — Revelou segurando nas suas as
mãos dele.
— Oh, Clarisse, desculpa! — Suspirou.
— Não peças desculpa. Não a tens, eu permiti apaixo-
nar-me. Simplesmente agora já não consigo suportar o sol,
nem a lua, nem as estrelas, nem as árvores, nem o frio ou o
calor, ou mesmo a paz e o sorriso de uma criança, até o nas-
cer de uma flor; não suporto a solidão, nem o azar ou a sor-
te! Não suporto a vida se tiver que a passar sem ti. É um va-
zio o que sinto quando não estás comigo. Apercebi-me disso
nestes meses que passei sem te ver. — Manifestou, soltando
lágrimas sinceras dos lindos olhos, agora algo tristes.
— Oh, Clarisse, desculpa. Não estou preparado, não
sei o que te diga! — Bradou sentindo uma enorme culpa
apoderar-se do seu espírito entristecido.
— Diz-me só uma coisa! — Suplicou apertando-lhe
um pouco mais as mãos trémulas.
— Sim, Clarisse.
— Sentes alguma coisa, por mais pequena que seja,
alguma coisa especial por mim? — Soluçou.
— Sim, Clarisse, não consigo evitá-lo. — Revelou.
Ficaram parados, pasmados no olhar um do outro por
largos segundos que se aproximavam de uma eternidade in-


  

tocável. Clarisse não percebia se ele tinha sentimentos calo-


rosos por ela que eram sublimemente correspondidos; qual
era a razão que Pernet tinha para não se entregar nos seus
braços carentes, desejosos de o agarrar. Ela estava mais que
apaixonada, só ele poderia preencher o vazio que sentia. Xa-
vier afirmou que não a queria magoar, mas foi inevitável
pois todo o seu ser maravilhoso já gemia perante a impossi-
bilidade insistente de Pernet de se entregar nos braços dela.
Aquela confissão foi, para o pobre rapaz, verdadeira-
mente inesperada. Porém, ao ouvi-la, entendeu que sentia
o mesmo, ficou chocado, surpreendido e assustado consigo
próprio. No âmago a sua vontade era tomá-la nos braços e
arrebatá-la contra o peito, abraçá-la com vontade infinita,
porém o seu coração já sofrera muito. Os medos insistentes
do passado propagavam-se no tempo em vácuo com ecos si-
lenciosos até ao presente e impediam-no de se entregar e se
deixar arrebatar por sentimentos gostosos de corpo e alma,
em toda a sua plenitude e capacidade. O seu coração ferido,
que teimava em não cicatrizar, era incapaz de se abrir aos
amores e de arder em chamas de infinitas paixões. Pernet
estava consciente do que sentia por ela mas não conseguia
dar-se, era mais forte que o seu espírito deprimido, que a
sua alma cheia de dor e mágoa, que o seu coração satura-
do de sofrimento e medos mais fortes que a sua mente sem
vontade.
Clarisse sentia-se como se vivesse em oceanos de pai-
xão azul, cobertos de bruma negra de tempestades impre-
visíveis, ondas de solidão aninhadas em margens areosas,
arrastadas por sopros dementes vivendo em desafio, rolando
no mesmo sentido… a busca por um lugar no peito de Per-


 

net, um lugar etéreo a que possa chamar seu. Ela desejava-


-o, queria habitar eternamente serena nesse local divino que
via nele através dos seus olhos vítreos e tristes.
O espírito e a alma do pobre rapaz vagueavam no céu,
perdidos por entre nuvens sombrias onde desaparecera o seu
anjo num suspiro silencioso! Se permitisse, encontrá-lo-ia
de novo, escondido nos olhos meigos e inocentes da sua pai-
xão, nos olhos verdes da Clarisse.
O pasmo apaixonado com que se regalavam foi inter-
rompido por um ruído. Era o vídeo-hall que tocava. Cla-
risse levantou-se do sofá com um pulo, largando de súbito
as mãos suadas e trémulas do Xavier. Enxugou as peque-
nas lágrimas esfregando o rosto com as delicadas mãos, não
deixando perceptível qualquer vestígio de que estivera a
chorar.
— Vou ver quem é.
Dirigiu-se ao aparelho suspenso na parede, junto à
porta de entrada. Ligou o ecrã vendo um cara conhecida a
preto e branco.
Pernet endireitou-se no sofá, apoiando os cotovelos so-
bre os joelhos; passou ao dedos por entre o cabelo, tentando
perceber exactamente o que acabara de suceder, refazendo-se
ligeiramente da confissão apaixonada da Clarisse que o dei-
xara deveras confuso. Arrumou as suas coisas que pousara
sobre a mesa de vidro, enfiando-as nos bolsos, de onde as
tirara, depois de se erguer do confortável sofá, achando que
talvez fosse altura de se retirar.
— Ah, Ricardo, és tu. — Disse sem qualquer ânimo
e com tom de voz que exprimia indiferença. — Sobe, vou
abrir-te a porta.


  

Ricardo entrou no prédio e esperou o elevador; em


chegando, saltou para o seu interior.
Clarisse deixou a porta do apartamento aberta e vol-
tou para a sala onde encontrou Xavier, já de pé.
— Vais embora? — Perguntou tristemente.
— Vou, Clarisse, penso que deva. Desculpa.
Ricardo entrou de rompante amaldiçoando o seu pró-
prio fado:
— Raios partam a minha sorte! Demorei quarenta e
cinco minutos só para atravessar a Avenida da Europa! Ve-
nho de Lamego onde fui visitar o meu primo. Um acidente
defronte do tribunal novo dificultava a passagem. Quaren-
ta e cinco minutos! Porra de sorte! Não houve feridos, por
Deus, mas tanto tempo, que grande maçada.
Ricardo entrava na sala quando viu Pernet junto de
Clarisse. Dirigiu-se a ele apertando-lhe a mão, cumprimen-
tando-o:
— Olá, Xavier! Tu, por aqui? Então, meu amigo, como
tens passado?
Amigos?! Que gozo, não passava de um conhecido com
que Pernet falara numa ocasião que já nem se lembrava.
— Bem, obrigado. — Respondeu, como se ele tivesse
algo a ver com isso.
— E tu, Clarisse? Sempre linda! — Disse cumprimen-
tando-a com dois beijos no rosto e um abraço desnecessário.
— Vou andando. — Respondeu sem interesse e afas-
tando-o.
— Bom, Clarisse, vou indo.
— Está bem. — Acedeu, não sem um breve suspiro
desanimado.


 

— Então, adeus, Xavier. — Disse Ricardo como se o


estivesse a mandar embora, dando-lhe a entender que estava
a mais para seu gosto.
— Pois, adeus. — Disse Xavier, percebendo o olhar
impaciente de Ricardo para que ele se retirasse.
Pernet saiu do apartamento. Clarisse acompanhou-o
à porta, despediram-se e a pobre rapariga ficou a ver sua
paixão dissolver-se num elevador frio, sem a certeza se o
voltaria a ver antes do, ainda distante, jantar. Fechou a
porta e voltou para a sala. Ricardo atirou-se brutamente
para o sofá fazendo-o deslocar-se um pouco sobre o chão
envernizado.
— Tem cuidado! És tão bruto! Riscas-me o chão! —
Protestou.
Mal Pernet tinha saído e Ricardo já manifestava o seu
desagrado pelo rapaz; tão simpático que foi à sua frente e
agora satisfeito de o ver pelas costas.
— Que fazia aquele gajo aqui? Convidaste-o? Para
quê? — Perguntou em tom ríspido e chateado, franzindo a
testa.
— Ora, Ricardo, não tens nada a ver com isso. Não
preciso de motivos para convidar um amigo a minha casa.
Afinal, que tens contra ele? — Perguntou, mostrando-se in-
dignada.
— Nada de especial. Apenas não vou com a cara dele.
Nem com gente se sabe vestir.
— Eu achei que estava muito bem. — Refutou.
— Pois, pois, claro que sim. Acreditas realmente que
alguém do estatuto dele faz bem em andar vestido com gan-
gas? Que falta de classe!


  

— Não sejas parvo! Qual é o problema?


— Pronto, nenhum. Não te irrites — Disse, agitando
os braços no ar.
Ricardo era adepto fervoroso da etiqueta, aparência e
rigores da alta sociedade. Frequentava muito acontecimentos
da alta; era, por isso, bem conhecido entre eles. Provinha de
uma família endinheirada; o seu pai era dono de pedreiras
algures nos arredores de Castro Daire; uma já não dava pe-
dra, as outras, quase esgotadas, não providenciavam pedra
de boa qualidade. Estavam endividados até à nudez, mas
nunca deixaram de ostentar uma vida rica perante a alta
que desconhecia a quase falência dos seus negócios. Tudo
naquela família vergonhosa era à base da aparência; não
queriam admitir que estavam à beira da bancarrota, man-
tendo sempre a postura cruel e fria que os caracterizava.
Ricardo trazia vestido um pólo verde-escuro que os-
tentava o crocodilo orgulhoso da Lacoste no peito; debaixo
deste, uma camisa cinzento-escuro de Pierre Cardin. Umas
calças pretas de vinco de um fato Armani; um par de sapa-
tos Gucci calçavam-lhe os pés e uma gravata preta apertada
à volta das carnes gordas do seu pescoço.
Ele estava já há muito apaixonado pela bela jovem.
Disse-lho uma vez, mas de uma maneira bruta e sem ro-
mantismo; nada convenceu Clarisse a dar-lhe sequer uma
breve oportunidade. Ela não se sentia minimamente atraída
por ele, quer fisicamente, quer emocionalmente. Ricardo era
gordo e baixo, qualquer coisa que vestisse assentava-lhe ridi-
culamente sobre a sua pança balofa que caía em cima do cin-
to, com a fivela, por vezes, a ferrar-lhe nas gorduras deixan-
do marcas vermelhas cravadas na carne. Muito bochechudo


 

e vermelho, os seus olhos castanhos eram pequenos e pare-


ciam esforçar-se para não serem escondidos com a gordura;
tinham um não sei quê de perverso, chegavam a emitir bri-
lhos de pura maldade. As orelhas grandes e pontiagudas es-
preitavam por entre o cabelo preto encaracolado, cheio de gel
rasca que o fazia parecer palha-de-aço e em que eram visíveis
os resíduos secos do gel, pequenas bolas chegavam mesmo a
soltar-se do cabelo, caso ele o agitasse com um pouco mais
de violência. Lábios grosseiros, sempre vermelhos, pareciam
pintados a batom. O nariz grande era, de facto, ridículo e
algo hilariante; narinas amplas, cheias de pêlo, a espreitar,
que vibravam com a sua respiração pesada e nauseabunda…
Lembrava o focinho enlameado de um porco.
Aparecia muitas vezes em casa da moça sem ser con-
vidado; era incómodo quando Clarisse queria estar sozinha
para estudar. Ele não tinha a consciência de quando estava
a mais e que era um empecilho. Talvez por se ter a ele pró-
prio em boa consideração, achava-se uma boa companhia
e bom conversador. A verdade é que quem ouvisse os seus
discursos aborrecidos rapidamente se fartava da sua voz es-
ganiçada que acabava por ferir os tímpanos.
Rondava sempre a casa da Clarisse como aquelas mel-
gas chatas que nos zunem ao ouvido, irritantes e que, por
mais que as enxotemos simplesmente não desaparecem. Era
um chato, mas Clarisse tinha vergonha de o mandar embo-
ra, ou talvez tivesse medo de ferir os sentimentos daquele
monstro de trinta e um anos, se é que os tinha.
A Clarisse é que era muito paciente e generosa mas,
por vezes, já não prestava atenção às suas conversas banais e
de maldizer. Era uma verdadeira seca.


  

— Então, menina, que tens feito? — Perguntou com


um sorriso amarelado.
— Olha, desde que cá estiveste ontem não fiz grande
coisa!
Ela detestava quando ele a chamava de menina.
— Como vão os estudos?
— Perguntaste isso ontem! Vão bem, como já te tinha
dito — Respondeu pouco interessada.
— Que vais fazer agora? — Perguntou o chato com
um sorriso.
— Nada de especial — Confessou, já esperando um
convite dele. Era tão previsível!
— Então, queres vir comigo lanchar à Galeria? —
Convidou. — Pago eu.
Ela já estava à espera; não tinha coragem para recusar.
Ele ainda levava a mal, razão pela qual aceitou, relutante-
mente, o convite.
Clarisse estivera o tempo todo de pé. Ricardo levan-
tou-se e, juntos, saíram pela porta e desceram no elevador.
Poucos minutos depois entraram no café, após um
curta caminhada.
Algum tempo antes, Pernet entrara no seu Jaguar e
arrancara. Desta vez decidiu ir pelo caminho mais rápido,
atravessando Mangualde. Lembrava-se das palavras da Cla-
risse que se lhe cravaram na alma como a inscrição de um
túmulo que demora séculos a desgastar-se. A alegria que
sentiu ao acordar desvaneceu-se dando, de novo, lugar à
tristeza. Sentia-se confuso, perdido em si próprio. Tentava
não pensar nela mas não conseguia. Sentia raiva de si mes-
mo por não permitir deixar-se amar; ele tinha consciência


 

de que a culpa era dele, mas, no entanto, era algo inevitável


para o seu coração.
Chegou finalmente a casa, já o sol não se via; percor-
reu a estrada de gravilha até que entrou na garagem. Lá fi-
cou, com os braços e cabeça sobre o volante, confuso, triste,
preenchido de pensamentos inexplicáveis, inconstantes e,
talvez, ilógicos.


 

Capítulo 5
— Rosário —
Uma leve pancada na porta de madeira, quase podre, cha-
mou a atenção dos três meninos que brincavam com carritos de
lenho que o falecido pai lhes construíra. Eles adoravam aqueles
brinquedos. Além de terem sido fabricados pela própria mão do
pai amado, eram, na verdade, os únicos que possuíam. Três car-
ritos de madeira, um para cada; a imaginação encarregava-se do
resto. Brincavam sobre o chão de cimento nu e frio, sentados
ou ajoelhados. Rodrigo largou o seu carrito e, num pulo, correu
para a porta, abriu-a euforicamente dizendo com sincera alegria:
— Mãe! Já chegaste!
Rosário pegou no rapaz abraçando-o, dando beijinhos de
saudade na face suja e fria com muita vontade e amor de mãe.
— Sim, filhinho, cheguei! Tive saudades vossas. E vo-
cês, meus queridos, tiveram da mãe?
— Sim, mãe! Claro que tivemos!
Pousou Rodrigo, entrando em casa. Fechou a porta
que rangeu das dobradiças enferrujadas e gastas que torna-
vam a porta mais pesada.


  

— E vocês? Não dão um abraço à mãe? — Perguntou


para os outros dois filhos, de braços bem abertos.
— Claro que sim! — Responderam.
Levantaram-se do cimento com um salto imperial e
agarraram-se à cintura da mãe com força e vontade. Rosário
fez festinhas no cabelo dos pequeninos que sorriam.
A relação entre eles e a mãe era algo única, deveras co-
movente; meigos, carinhosos e atenciosos, amavam-na for-
temente e ela correspondia aos seus afectos. A troca de ca-
rinhos entre eles era comum. As crianças sentiam-se felizes
sempre que a mãe estava ao lado; o amor que eles lhe davam
era mais que suficiente para que Rosário encontrasse forças
para continuar a lutar e com vontade de viver, nem que fos-
se só para eles. Não suportava ver os seus meninos tristes,
feria-lhe a alma. Fazia de tudo para que eles não se aper-
cebessem das suas preocupações e tristezas mas, às vezes,
eles davam conta, principalmente o Rodrigo, que era mais
perspicaz. Então, ela tentava fazê-los rir e acabava por se rir
também; esquecia-se, por momentos, das dificuldades que
passavam. A alegria de um dava força aos outros, deixavam
de se sentirem tão tristes. Aquela família sem pai esquecia
as tristezas quando um deles sorrisse ou contasse uma histó-
ria engraçada; isso bastava. Eram todos fortes, sorriam ante
desgraças que se lhes pudessem abater, na crença profunda
de que, um dia, tudo ficaria melhor. Amavam-se, era o sufi-
ciente para se manterem unidos e felizes. Nada era mais for-
te que aquele amor. Nem mesmo a pobreza que os rodeava
lhes diminuía a riqueza de espírito ou a alegria de viver.
Eram de facto, muito pobres. Moravam numa peque-
na e velha casa feita de pedra; mais se assemelhava a antigas


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cavalariças. Era um autêntico cubo, com apenas quatro di-


visões. Uma divisão rectangular ocupava meia casa e servia
de sala de jantar, de estar e de cozinha, muito vazia e gela-
da. Apenas lá existia uma mesa redonda, onde só cabiam
quatro pessoas à sua volta, cheia de marcas de pequenas
pancadas e lascas de madeira que de vez em vez se soltavam.
Porém, era o suficiente para eles. Um já velho e desgastado
fogão de quatro bicos sobre o forno que já não tinha por-
ta, encontrava-se solitário, com o esmalte branco estalado,
deixando perceptíveis pequenas manchas de ferrugem por
entre fissuras esfaceladas. Ao seu lado, um modesto móvel
rasteiro de madeira humedecida e mole em que duas portas
já haviam apodrecido e caído; o espaço aberto deixado pela
falta delas tornava visíveis as tubagens de cobre já calcina-
do. Servia de banca a uma pequena pia esmaltada a branco
mas cujo fundo, com o uso, se desgastara e adquirira um
tom amarelo-torrado. Existia também uma lareira de pedra
feita a um canto; o calor que emanava não era o suficiente
para aquecer as paredes frias de pedra que dividiam a casa.
A outra metade era composta por dois pequenos quartos,
que apenas encerravam em si as camas; muito frios. Num
dormia a mãe, noutro os três irmãos, na mesma cama: assim
sempre conseguiam aquecer-se um pouco nas noites frias de
Inverno. Finalmente, a última divisão era um pequena casa
de banho que só tinha uma sanita, um lavatório e um chu-
veiro. Era visível toda a tubagem, que as fendas nas ripas de
madeira do tecto podre denunciavam. A humidade que nele
se acumulava era igualmente visível, formando manchas ne-
gras que o apodreciam cada vez mais e que, por vezes, quan-
do chovia mais pesadamente, pingava e deixava água correr


  

nas paredes nuas de pedra fria. Jantavam sempre à luz de


vela, não tinham electricidade, por isso não possuíam elec-
trodomésticos; sempre que tinham necessidade de conservar
algo fresco pediam a uma vizinha simpática que os deixava
depositar o que quer que fosse no seu frigorífico.
Rosário era uma mulher muito trabalhadora, honesta,
íntegra, tão simples que, por vezes, roçava a ingenuidade. O
seu corpo franzino e frágil encerrava em si um espírito lu-
tador, forte e confiante. O seu coração bombeava um amor
verdadeiro pelos seus filhos que percorria todas as veias e
artérias do seu corpo. Os olhos castanhos, sempre raiados
de sangue, sobre umas olheiras profundas, diziam que ela
dormia pouco e mal. A sua pele clara, quase roxa, maltra-
tada pela vida, denunciava já rugas de cansaço acentuadas,
tendo ela apenas trinta e cinco anos de vida. O cabelo cas-
tanho e curto era deveras seco e espigado, parecendo um
tapete velho, desalinhado e desfiado. A pobre mulher era
algo feia, mas não se importava, preferindo dar o seu pou-
co tempo livre aos filhos que ao seu aspecto. As suas mãos
ósseas e calejadas, de tanto sapato coser à mão, tremiam
muito; às vezes, deixava escorregar coisas por entre os dedos
cansados, como se não tivessem força para as segurar e er-
guer. Porém, a sua força vinha do coração e do espírito, não
do corpo. Uma grande mulher, um imenso coração, presos
num corpo tísico.
Têm sorte as crianças que vivem na ignorância, prote-
gidas pelo escudo da inocência, pois não conhecem verda-
deiramente a tristeza nem têm consciência da real cruelda-
de da vida. Porém, não era o caso dos três pobres irmãos,
muito menos do Rodrigo, pois era o mais consciente. Mas


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ainda havia tempo para os resgatar de volta à inocência da


meninice. Pernet certificar-se-ia disso.
Rosário trazia vestida uma bata azul, que lhe chega-
va pelos joelhos, sobre uma camisola de lã com gola alta e
umas calças de ganga desgastadas que lhe ficavam largas;
calçava umas sapatilhas sujas e já rotas que mostravam as
meias pretas de algodão grosso.
— Vão lá brincar, meus queridos.
Os três irmãos ajoelharam-se de novo e brincavam ale-
gres, simulando o ronco dos motores com a própria voz.
A mesa estava vazia, ela não viu nenhuns pratos sujos.
Foi até ao fogão e levantou a tampa de um tacho de inox,
espreitou lá para dentro. A açorda de peixe não fora tocada,
estava toda como ela a deixara.
— Então, meus queridos! Não almoçaram? Têm de
comer, não podem ficar de barriguinha vazia o dia todo. —
Disse com voz de preocupação, por pensar que os filhos não
tinham almoçado.
— Não almoçámos em casa. Mas almoçámos. — Res-
pondeu o Henrique sem se distrair da sua brincadeira.
— Então onde foi que comeram? — Perguntou, sur-
preendida com a resposta do irmão do meio.
— Foi em casa daquele senhor rico. — Respondeu
Rodrigo largando o seu carro e olhando para a mãe.
— Ai, meu Deus, foram incomodar o senhor!
— Não, mãe, juro! Foi ele que nos convidou. A sério
que foi! — Disse com os olhos muito abertos, com receio de
que a mãe não acreditasse.
— Ah sim! Então porquê? — Perguntou com um sor-
risinho de desconfiança condescendente.


  

— Não sei! Mas ele gostou muito de nós. É nosso


amigo! Deixou-nos jogar à bola no quintal dele. É grande! E
disse que podíamos lá voltar amanhã. Oh, mãe, podemos?
Sim, tu deixas. — Suplicou meigamente o pobre rapaz.
— Se ele vos convidou, então, deixo.
— Oh, mãe, obrigado! Ele é muito simpático. — Con-
cluiu com um sorriso rasgado de contentamento.
— E comeram bem?
— Sim, comemos.
— Ainda bem, isso é que interessa! Bom, acho que já
temos jantar. — Disse, voltando a pousar a tampa sobre o
tacho, fechando-o.
Rodrigo tornou a pegar na sua brincadeira, voltado as
costas à mãe.
Era, ao vê-los aos três juntos, a brincar que, por vezes,
Rosário se apercebia e tomava consciência de uma verdade
inequívoca: eles eram como as três cordas de uma trança:
sozinhos corriam o risco de quebrar, porém juntos forma-
vam uma resistência incomensurável.
Ao olhar para Rodrigo, reparou que tinha um envelo-
pe branco a espreitar-lhe do bolso de trás das calças.
— Que papel é esse que trazes no bolso? — Perguntou
com real curiosidade.
Rodrigo ergueu-se e retirou o envelope, que não do-
brou, e entregou-o à mãe, dizendo:
— Pois é! Já me ia esquecendo! Aquele senhor pediu
para te dar isto, que é para nos comprares uma bola nova e
para remédios do mano. Compras a bola, mãe? Sim, com-
pras, por favor… Queríamos tanto!
— Está bem, eu compro.


 

Abraçou a mãe agradecendo e regressou para junto dos


irmãos.
Rosário abriu o envelope selado e retirou dele uma fo-
lha de papel com as mesmas dimensões do envelope que o
transportara. Ficou pasmada durante alguns segundos que
lhe pareceram eternos ao ler o que nele estava escrito. De-
pois, deixou-se cair sobre uma cadeira quase podre que ran-
geu em protesto.
— Ai, meu Deus, não pode ser verdade! — Disse,
num longo suspiro, com a respiração ofegante e com suor a
principiar a correr-lhe na testa.
Rodrigo ergueu-se com um salto. Os outros dois pa-
raram de brincar e ficaram a olhar, muito sérios e de olhos
bem abertos, para a querida mãe. Preocupados com aquela
reacção, esperavam que ela dissesse algo.
— O que foi, mãe!? — Perguntou Rodrigo, sobressal-
tado com a voz de Rosário.
— Ai, meu Deus! — Olhou para o filho com ar sur-
preendida. — Disseste que é para comprar uma bola e al-
guns remédios!?
— Sim, foi o que o senhor Pernet disse.
— Então isto não pode estar certo! Enganou-se de
certeza, é a única explicação.
— O que é mãe? — Perguntou impaciente.
— Nós não podemos aceitar isto, é muito, enganou-se!
— Então já não compras a bola?
— Não sei, Rodrigo, mas tenho que devolver isto ao
senhor. — Confessou.
— E os remédios para o Luís?
— Não sei, arranjaremos outra maneira.


  

— Oh, que pena! Não faz mal, mãezinha. — Disse


tristemente mas conformado.
O coração de Rosário batia forte no peito, surpreen-
dida e incrédula com o papel que segurava entre os dedos
finos com as mãos trémulas. Decidiu que iria a casa do se-
nhor Pernet para lho devolver.
— Meus filhos, tenho que ir falar com o senhor. Vo-
cês ficam aqui a brincar que eu já venho — Disse, levantan-
do-se da cadeira.
— Está bem! Não te preocupes, mãe, ele é um homem
bom. Mas não demores muito! — Pediu Rodrigo.
Voltou a enfiar o papel dentro do envelope que pousou
sobre a mesa enquanto despia a bata. Pegou nele novamen-
te, segurando-o firmemente com os finos e gretados dedos.
Dirigiu-se à porta que rangeu ao abrir.
— Volto já. — Assegurou.
Saiu e tornou a fechá-la. Rodrigo voltou para junto
dos irmãos.
— O que era? — Perguntou Henrique curioso.
— Não sei! A mãe não disse. — Respondeu Rodrigo.
Encolheram os ombros e retomaram a brincadeira,
sem pensarem mais nisso, enquanto esperavam que Rosário
regressasse para junto deles.

A mulher passou o grande portão aberto, caminhou


pela estrada de gravilha cujas pedras azuis roçavam a seus
pés; ficou a admirar a imponente fonte durante os breves se-
gundos que os seus olhos demoraram a distinguir a silhueta
escura do querubim envolta pelo negro da noite. Subiu os
três degraus de mármore azul que sentia frios sob os pés


 

mal aconchegados e que lhe fez um arrepio subir-lhe pela


espinha. Parou, viu uma campainha e premiu o botão ilu-
minado. Alguns segundos mais tarde, a porta maciça abriu-
-se. Um homem charmoso, de fato, sorriu-lhe e disse:
— Boa noite, minha senhora. Em que posso ser-lhe
útil?
— Boa noite, o meu nome é Rosário. Creio que os
meus filhos almoçaram aqui hoje. Queria saber se existe a
possibilidade de falar com o senhor Pernet. — Disse com a
voz um pouco trémula e com timidez nos olhos.
— Sim, minha senhora, creio que o senhor está. Ouvi
a garagem abrir faz cinco minutos. Não o vi subir, por isso,
creio que ainda lá se encontre. Mas, diga-me, por gentileza,
qual o assunto que deseja falar-lhe?
— Com certeza! Queria agradecer-lhe a simpatia que
teve para com os meus três meninos. — Explicou, mas não
era só essa a razão da sua visita e Pedro bem lho viu nos
olhos ansiosos.
— Muito bem, minha senhora. Siga-me, vou levá-la
ao escritório. Depois chamo o meu senhor. — Disse, sorri-
dente.
— Não incomodo? — Perguntou tímida.
— Não. O senhor Pernet terá muito gosto em falar
com a senhora. Então, siga-me, por favor.
Rosário entrou e seguiu o mordomo. Ficou maravilha-
da com a grandeza do hall de entrada que terminava numa
escadaria que, a meio, divergia em dois lances: um, para a
direita, e outro, logicamente, para a esquerda.
Pedro abriu a porta do escritório, convidou Rosário a
sentar-se e disse:


  

— Aguarde um momento que o meu senhor vem já.


Fique à-vontade.
Ele saiu, deixando a porta aberta e fez-se à garagem.
Rosário nunca vira tantos livros juntos. Certamen-
te Pernet seria um homem de elevada cultura, pensou ela.
Sentia-se nervosa com a expectativa de que iria falar com
alguém que era o oposto da sua condição social. Ela era po-
bre e sem posses, o senhor era visivelmente rico. Tinha um
não sei quê de medo a correr-lhe nas veias; era a primeira
vez que falaria com alguém daquele estatuto e não queria
passar vergonha devido a algo que pudesse dizer. Esperava
uma pessoa rude e fria, mas enganara-se.
Pedro entrou na garagem, acendendo as luzes. Viu o
seu amigo deitado sobre o volante do Jaguar, o que fez o seu
coração palpitar mais pesadamente. Aproximou-se do carro,
preocupado, bateu no vidro do lado de Pernet, que, ao ouvir
o barulho, ergueu a cabeça. Vendo Pedro, abriu a porta e
saiu do veículo.
— Estás bem, Xavier? — Perguntou, franzindo as ru-
gas de preocupação.
— Oh, Pedro, estou tão confuso! — Confessou ao
amigo.
— Tem alguma coisa a ver com a menina Clarisse? —
Perguntou, sabendo no âmago que a resposta seria positiva.
— Sim, tem!
Era a resposta que Pedro temia ouvir.
— Xavier, está cá a mãe dos pequenos. Deseja falar
contigo. Levei-a ao escritório. Depois, se quiseres, podes
dizer-me o que se passou na casa da Clarisse. — Disse ele,
dispondo o seu ombro amigo.


 

— Sim, Pedro, agradecia-te muito que me ouvisses.


Vou ver então o que a senhora quer. Ah!, é verdade, e as
crianças? Divertiram-se?
— Sim, Xavier, lancharam cá, ficaram muito conten-
tes por cá passarem a tarde. — Assegurou com ar satisfeito.
— Ainda bem, Pedro, fico contente em sabê-lo. Va-
mos lá então.
Saíram juntos. Pernet apagou as luzes e fechou a por-
ta. Pedro ficou-se pela cozinha na companhia da Isabel en-
quanto ele subiu a escadaria em direcção ao escritório onde
a mulher o esperava pacientemente. Entrou, ela ficou sur-
preendida ao ver que era um moço tão jovem. Levantou-se
quando Xavier esticou o braço para a cumprimentar.
— Boa noite, Rosário. Como está? — Perguntou a
sorrir.
— Boa noite, senhor. Sabe o meu nome? — Pergun-
tou envergonhada enquanto lhe apertava a mão, não se lem-
brando que o dera ao Pedro.
— Sente-se, minha senhora. Sei, o Rodrigo disse-mo.
É bom rapaz!
Rosário sentou-se novamente e Pernet acomodou-se
gentilmente no seu cadeirão.
— É sim, senhor. — Concordou.
— Estão, Rosário, a que devo este prazer?
— Oh, senhor, o prazer é certamente meu. Quero
agradecer-lhe a simpatia que teve para com os meus filho-
tes. — Agradeceu com ar tímido.
— Ora, não foi nada, gostei muito deles e da compa-
nhia que me fizeram. Eu é que devo agradecer. — Confes-
sou num sorriso.


  

— Sim, gostou? São bons rapazes, os meus meninos.


— Disse, orgulhosa. — Não incomodaram?
— De modo algum, Rosário! Foi bom para mim vê-los
divertidos no quintal. Animaram-me. — Revelou sorrindo,
ao lembrar-se de os ver brincar, tão alegres.
— Mas agradeço-lhe igual. O senhor é muito bom.
Ainda queria falar-lhe de outra coisa, senhor. Posso? — Per-
guntou timidamente.
— Com certeza, Rosário! Então diga.
Ela retirou o papel do interior do envelope que trazia
nas mãos e envergonhadamente disse:
— O senhor deu isto ao meu filho mais velho, ao Ro-
drigo, para eu lhes comprar uma bola nova e alguns medi-
camentos para o mais novo. Mas veja bem, senhor, é demais
para isso, deve ter-se enganado.
— Deixe ver, Rosário — Pediu esticando a mão.
Ela entregou-lhe o papel, ele olhou-o e entregou-lho
novamente.
— Não, Rosário, não me enganei. Está correcto. —
Assegurou.
— Mas, senhor, eu não posso aceitar isto! É um che-
que no valor de quinze mil euros, não posso mesmo aceitar,
é muito. — Confessou a pobre já com o braço estendido
para lho devolver.
— Muito, Rosário?! Eu ainda penso que é pouco.
A mulher deixou cair a mão que segurava o cheque
sobre o colo e tentou falar:
— Mas, senhor…
Pernet interrompeu-a, perguntando:
— A senhora ama os seus filhos?


 

— Claro, senhor! Mais que a minha vida! — Disse


com verdadeira convicção.
— Nesse caso, faria tudo para os ver felizes?
— Claro, senhor!
— Morreria por eles?
— Sem hesitar, senhor!
— Ainda bem, Rosário. Sendo assim, pode facilmente
aceitar um cheque. — Explicou.
— Tem razão, senhor, mas nada fiz para o merecer. —
Tentou explicar.
— Acredita mesmo que nada fez? — Perguntou, fitan-
do-lhe os olhos raiados de sangue.
— Não percebo, senhor! — Disse confusa.
— Merece mais do que possa julgar. Olhe bem para
os seus três meninos. Olhe para o Rodrigo, para o Henri-
que e para o Luízinho. Olhe-os bem e diga-me que nada
fez para o merecer. A Rosário ainda merecia muito mais.
— Explicou, fazendo-a aperceber-se dessa verdade maravi-
lhosa.
— Oh, senhor, as suas palavras são tão generosas. —
Elogiou, começando a chorar.
— Não chore! Devia estar feliz!
— Eu choro de felicidade, senhor. Nunca ninguém se
interessou por nós, por mim e por meus filhos. E o senhor
faz isto!
Pernet comoveu-se ainda mais ao ver a simplicidade, a
modéstia e a honestidade daquela pobre alma. Decidiu que
ainda haveria mais a fazer por eles. Adorou os pequenos e
viu nos olhos cansados da mãe a tristeza desvanecer-se um
pouco. Ele queria vê-la desaparecer por completo.


  

— A senhora trabalha na fábrica de calçado, não é


verdade? — Perguntou.
— Sim. Oh, senhor, é tão duro e cansativo, mas ne-
cessário para os meus meninos. — Soluçou.
— Tenho um trabalho para si, se o quiser aceitar. —
Ofereceu.
— Oh, senhor, dá-me tanto dinheiro e ainda me ofe-
rece trabalho! Você é um anjo e eu acredito em anjos. Se-
nhor, aceito o trabalho.
— Aceita-o sem saber do que se trata? — Perguntou
surpreendido.
— Sim, porque trabalharia para um homem como o
senhor, a fazer o quê pouco me importa. — Confessou.
— Mas vou dizer-lhe, Rosário. Tenho uma casa à bei-
ra-mar na Quarteira, no Algarve. Já lá não vou há muito.
Quero que a senhora vá para lá morar com os seus filhos e
que me tome conta da casa. — Esclareceu.
— A sério? Não está a enganar-me? Eu e os meus me-
ninos? — Perguntou, abrindo muito os olhos com a surpre-
sa da magnífica proposta.
— Claro, Rosário. Pago-lhe bem. Todos os dia um de
cada mês recebe um cheque de mil e quinhentos euros.
— Mas, senhor! É muito dinheiro para tomar conta
de uma casa. — Disse, surpreendida e com honestidade.
— Rosário, não se fala mais nisso. Eu é que sei quanto
me vale o seu trabalho. Direi a Pedro para vos levar amanhã
bem cedinho, pode ser?
— Oh, senhor, pode. Mas… E o meu patrão da fábrica?
— Não se preocupe mais com isso, esqueça a fábrica.
Eu falo com o seu patrão. — Sossegou.


 

Rosário levantou-se de um salto e dirigiu-se a Pernet


que se ergueu. Ela abraçou-o com tamanha força e vontade
enquanto chorava, gritando:
— Obrigado, senhor! Muito obrigado! Você é um ver-
dadeiro anjo! Só pode ser anjo! É o homem mais generoso
do mundo! Não existe ninguém igual a si, é impossível! Oh!
Obrigado! Mil vezes obrigado.
— Pronto, Rosário, não me agradeça mais. Não sou
um anjo, sou apenas um homem comum.
— Não senhor, de comum pouco tem. Se todos os ho-
mens fossem comuns como o senhor diz que é, o mundo
seria o paraíso. Diga-me, senhor, que posso eu fazer por si?
— O melhor que pode fazer por mim, a única coisa que
quero e peço em troca é que você cuide bem dos seus meninos
e lhes dê uma vida digna, feliz e plena. — Explicou.
— É também o que eu mais desejo: ver os meus ra-
pazitos felizes. E o senhor tornou-o realidade, ofereceu-nos
essa possibilidade. — Disse, soluçando.
Os seus olhos brilhavam de novo, cheios de esperança.
A tristeza que neles habitava dissolveu-se, tornaram-se mais
vivos. Para isso bastou a bondade e o coração grande de um
grande homem.
— Vá lá, Rosário, vá ter com os seus meninos. Con-
te-lhes a novidade. Vão descansar, que amanhã levantam-se
cedo. Pedro irá buscar-vos a casa. — Assegurou, sorrindo.
— Sim, senhor! Então vou! Mais uma vez obrigado! O
senhor viverá sempre no meu coração.
Rosário soltou Pernet dos seus braços e correu pela
porta aberta. Galgou a escadaria com pressa, cheia de an-
siedade de contar a boa-nova aos filhos; abriu a porta e saiu


  

em direcção a casa, esquecendo-se de a fechar. Pedro viu-a


sair deveras excitada, fechou a porta de entrada e subiu ao
escritório para saber notícias do amigo.
Xavier alegrara-se no pensamento de que tinha aca-
bado de mudar para melhor a vida de quatro pessoas. Num
simples gesto caridoso, devolveu a esperança e o brilho aos
olhos de uma pobre desgraçada que sempre fora maltratada
pela vida; porém, não mais. Sentia-se principalmente alegre
com o que fez por três crianças que nada tinham, deu-lhes
um pouco de conforto para que tivessem uma infância ple-
na e cheia de azuis e verdes, paz e esperança.
Pedro entrou no escritório e deparou-se com o seu
amigo a sorrir, de costas aconchegadas no veludo vermelho
do seu cadeirão.
— Então, Xavier, estás a sorrir! O que fizeste por
aquela pobre família? — Perguntou, reconhecendo aquele
sorriso. Era o sorriso satisfeito de quem acabava de ajudar o
próximo.
Sentou-se na cadeira frente a Pernet, que lhe contou a
conversa que tivera com a Rosário e a oportunidade que lhe
proporcionou.
— Assim sendo, não te importas de os levar ao Algar-
ve amanhã? — Perguntou.
— Claro que não! É com muito gosto que o faço. —
Respondeu a sorrir.
No dia seguinte, Pedro teria a honra privilegiada de
levar aquela família rumo a um futuro prometedor, só pos-
sível graças à bondade de um grande homem: o seu bom
amigo. Sentiu-se bem por ir levá-los a uma vida nova, mais
serena.


 

— Então, como foi a conversa com Clarisse? O que te


queria ela? — Perguntou ansioso.
Pernet contou-lhe da sugestão dela, que era para o me-
lhor, que era necessário e que ele aceitou. Pegou na lista que
estava sobre a mesa e entregou-a ao Pedro, dizendo:
— Esta é a lista. Tratas-me disso?
Pedro agarrou na lista e deu-lhe uma vista de olhos.
— Sim, trato. Conheço alguns destes nomes. Um é
professor, um é juiz muito conhecido e influente. Algumas
famílias ricas e um político. Este não sei quem é. — A sua
expressão ficou séria ao ler o último nome da lista — Ricar-
do também vem!? Acho esse personagem abominável. Infe-
lizmente, a sua influência social é alta.
— Concordas, então, com o jantar?
— Sim, Xavier, pelos piores motivos é imperativo.
— Então tratas-me de tudo?
— Sim, logo que regressar do Algarve.
A expressão de Xavier tornou-se mais grave e triste; o
sorriso com que Pedro o encontrou desvanecera-se.
— Não foi só isso que conversámos!
Pedro não pôde deixar de reparar na tristeza dos seus
olhos e, preocupado, perguntou:
— Então que mais, meu amigo?
Pernet contou-lhe o resto da história. Porém, Pedro
não se mostrou surpreendido, como se de algum modo já
soubesse — na verdade não sabia, mas imaginava —, já se
tinha apercebido da maneira como ela o contemplava; de
olhos bem abertos para não deixar escapar nenhum porme-
nor e brilhantes de paixão. Desconfiava que ela sentia algu-
ma coisa, porém nunca o revelou ao amigo.


  

— Oh! Pedro, não sei se ela é anjo que me aquece


ou demónio que me ferve! Não sei se a amo, mas sei que a
adoro! Sinto-me perdido em mim, algures entre pensamen-
tos perturbadores do passado e sentimentos silenciosos dos
quais não consigo recolher sensação alguma, por mais que
me esforce para os sentir. Estou tão confuso que me per-
gunto onde está a Lua, que me prometeu luz durante a noi-
te. Onde está o Sol que me prometeu aquecer durante o dia?
Tudo o que desejo é sentir a sua na minha pele, ver o brilho
e a cor dos olhos trespassantes que me seduzem a alma. Que
pasmo é este que me impede de desviar o olhar quando a
vejo? Onde está o sonho quando acordo? Onde está a vida
que a morte me prometeu? Onde está ela, afinal? Toda a
minha vida sonhei com alguém assim e, agora, nem sequer
a consigo encontrar em mim! Num fôlego de desassossego,
vejo-a acariciada por uma brisa que o bater de asas de um
anjo criou. Oh, como o invejo, ele pode senti-la e levá-la
ao paraíso! Eu, nem sequer a encontro no meu coração! —
Disse. com profundo pesar.
— Vais ter que encontrar essas respostas por ti mesmo.
Quando isso acontecer, eu sei que vai acontecer, encontrar-
-te-ás a ti próprio e depois irás deixá-la entrar. Aí, vais con-
seguir encontrá-la, na tua própria alma. Xavier, em todas as
trevas existe um raio de luz, em toda a luz existe uma névoa
de trevas. Nada é perfeito, mas, para teres um pouco de feli-
cidade, basta encontrares a luz de que precisas. Acredito que
essa luz reside na Clarisse.
Pernet ainda se lembrava do dia em que a conheceu,
ou melhor, a viu pela primeira vez, ano e meio antes. Ele
tinha ido a Viseu; foi dar um passeio no parque da cidade,


 

ver se conseguia pôr as ideias em ordem. Foi numa manhã


de Inverno, envolta de um intenso nevoeiro, que ela invadiu
os seus sonhos sem pedir licença. Viu-a, então, surgir dessa
névoa misteriosa, como quem vê a maravilhosa aparição de
um anjo, anjo que flutua, que caminha sem tocar o chão,
que brilha com luz própria. O seu belo, longo e sedoso ca-
belo, castanho e ondulado, bailava ao capricho de uma leve
brisa suave que parecia soprada por entre lábios divinos. O
corpo dela, cheio de perfeição, movia-se com a suavidade
com que uma garça voeira no céu azul, à medida que se
aproximava mais e mais dele. Os seus olhos verde-esmeral-
da, angelicais, delicados como cristal fino, eram meigos e
despertaram nele algo que só Deus poderia explicar. Fitou-
-a nos olhos e conseguiu ver-lhe a alma, cheia de alegrias,
de inocência, de pureza, serenidade e meiguice, de perfei-
ta harmonia, sem qualquer vestígio de malícia, enfim, um
anjo. Sorria no mais caloroso sorrir da terra e do céu; os
seus lábios gentis escondiam as pérolas mais luminosas e
valiosas do mundo.
Bastava um sorriso dela para deixar qualquer um numa
loucura de paixão (ou luxúria), num pasmo de criança que
se vê nos braços da sua mãe pela primeira vez e a contempla
com carinho.
Passou por ele com esse sorriso único, olhou-o com
aqueles olhos misteriosos — dos quais ele desejou saber os
segredos — e perturbadores, obrigando-o desejar perder-se
neles.
O corpo dela flutuava cada vez para mais longe. Aque-
le maldito nevoeiro reclamava-a para ele, roubava-a dos seu
olhar e ela desapareceu mais veloz que aquela maravilhosa


  

aparição; evaporou repentinamente, dissolvida no meio da


névoa. O corpo do rapaz estremeceu na lembrança de, tal-
vez, nunca mais a vislumbrar.
Sossegava seu espírito, mergulhado em vaga memó-
ria; queria apenas recordá-la. Realimentava sonhos entor-
pecidos, incapaz de a definir claramente, sabendo-a perdida
entre a névoa. Viu-a uma vez, isso bastava-lhe. Que seriam
dos seus sonhos sem ela?
Um mês após a ter visto pela primeira vez conheceu-a
num jantar de amigos, ficou ainda mais fascinado. Deram-
-se bem.
Pedro fitava os olhos tristes do amigo, via nele a con-
fusão instalada, dividido entre o passado e o presente, tal-
vez até com medo do futuro.
— Oh, Pedro, tenho todo este dinheiro e nenhuma
paixão com quem o partilhar. Não porque não queira, mas
porque não posso, não consigo; os medos do passado ainda
me dominam e impedem.


 

Capítulo 6
— Um Passado Miserável —
Com vinte e quatro anos, Xavier Pernet era já um dos
homens mais ricos de Portugal, senão o mais rico. Dono de
um vasto império hoteleiro, possuía-os de três, quatro e cin-
co estrelas, do norte ao sul do país. Era rico, deveras rico,
vivia confortavelmente na sua luxuosa casa em Gouveia,
perto da belíssima Serra da Estrela. No entanto, a maior
parte da sua fortuna era investida em actos caridosos. Dava
o mais que podia a instituições de caridade e solidariedade.
Fundou, do seu bolso, uma obra a que chamou “Casa do
Órfão”, sedeada na cidade de Castelo Branco. Quando abriu
as portas procurou voluntários que cuidassem do prédio de
seis andares que compunham a “Casa do Órfão”. Uns para
cozinharem, outros para a limpeza e gestão e ainda mais
para simplesmente darem companhia e carinho às cinquen-
ta e seis crianças que a “casa” albergava, a serem para elas
os pais que perderam ou que as abandonaram. Sim, quem é
abandonado pelos pais também é órfão, assim pensava Per-
net. Os voluntários que lá se aguentaram um mês foram


  

compensados com uma agradável surpresa. Devido à von-


tade que manifestaram em querer ajudar as crianças, Xa-
vier decidiu retribuir-lhes a bondade. Os que ficaram, os
verdadeiros homens e mulheres, a partir do primeiro mês,
dava-lhes, de boa vontade, um salário duas vezes superior
ao mínimo nacional e apenas prestavam voluntariado três
dias por semana, quatro horas de cada vez; porém, a bon-
dade não tem preço. A única coisa que Xavier Pernet pedia
em troca era o sorriso das crianças: vê-las felizes e a brincar,
alheias ainda ao mundo cruel que existia fora das paredes
protectoras da “casa”. Desejava retardar ao máximo a, futu-
ra, dor das crianças inocentes que já haviam sofrido com a
morte dos pais. Preocupava-se mais com elas do que consigo
próprio, davam sentido à sua vida. Era rico, mas não neces-
sariamente feliz. A única felicidade que conhecia era a que
encontrava nos olhos brilhantes e vivos de contentamento
dos pequenos, de cada vez que os ia visitar e ouvia deles
um “obrigado” deveras sentido e sincero. Não o fazia por
uma questão de aparência, mas sim porque o seu coração e
espírito necessitavam de um pouco de paz; ele encontrava-a
ao ajudá-las, nos seus sorrisos e na inocência do olhar. Para
ele, a pouca felicidade que tinha era provocada pelos ecos
dos risos que provinham dos seus meninos e meninas. Era
necessário para a sua alma dar-lhes carinho e conforto; só
assim conseguia sentir-se vivo. O espírito caridoso daquele
verdadeiro homem manifestava-se na vontade sincera com
que ajudava os seus pares; sem nunca pedir, ele dava. Aquilo
era o mínimo das coisas boas que ele fazia. A sua filantro-
pia estendia-se de norte a sul. Desejava abrir mais e mais
“Casas do órfão”, queria chegar a todos. Por vezes, sentia-se


 

frustrado e desesperado por não o conseguir, porém não de-


sistia, era a única coisa que lhe incutia vontade de viver:
manter a sua promessa, honrar uma memória, homenagear
o seu anjo, lembrar a sua irmã. Precisava mais das crianças
do que, talvez, elas dele. Possivelmente sobreviveriam sem
ele, mas sem elas ele não vivia. Procurava e encontrava nas
crianças o sossego de espírito e alguma paz de alma que a
vida teimosamente lhe continuava a negar. Todo o dinheiro
que ele alguma vez pudesse vir a ter era insuficiente para lhe
dar a paz que ele tanto ansiava e era ao dar que recebia um
pouco do que procurava.
Pernet era um belo homem, inevitavelmente cobiçado
por mulheres. Umas desejavam-no pelo seu aspecto, outras
mais interessadas pelo seu dinheiro e ainda outras por am-
bas as razões. O seu cabelo castanho-claro tinha, por ve-
zes, quando nele incidia qualquer luz, uns traços dourados;
penteado de forma elegante mas algo selvagem, com risco
ao lado, era curto e liso. A sua testa altiva era reveladora de
inteligência e sentimentalismo. Os olhos esverdeados eram
verdadeiramente melancólicos. Os lábios finos e provocantes
inflamavam desejo a mulheres que se perderiam num beijo
seu pois pareciam doces, suaves e meigos. As mãos demo-
radas de dedos finos e alongados lembravam as de um ar-
tista, pintor ou pianista; tinham movimentos leves e ternos
cujo simples toque era capaz de levar uma mulher ao êxtase,
pareciam possuir o toque de Midas. Era alto e magro, com
um corpo bem definido e tonificado, que lembrava o de um
deus grego, capaz de rivalizar com Adónis e provavelmente
de o envergonhar. O seu corpo era harmonioso, tão diferente
e separado do seu espírito triste, destruído pela dor e sofri-


  

mento de um passado que em nada o poupou; tornando-o


num homem inseguro, incapaz de se encontrar a si próprio,
confuso; desprovido da capacidade de entender o sentido da
vida, fechava-se em si mesmo, não se permitindo a sentimen-
tos saborosos como o amor, a paixão ou alegria. Não tinha
esperança de vir a encontrar a paz que ansiava, transforman-
do-o num eterno descontente cheio de revolta contra o mun-
do em que habita, enclausurado em desespero e sofrimento
que não conseguia evitar que lhe dominassem a alma satu-
rada de medos. Achava-se um fraco, porém era mais forte
do que alguma vez poderia imaginar; poucos corações su-
portariam um passado miserável e sofrido como fora o dele.
Pernet era rico, porém acreditava ser um desgraçado. Todo
o seu império, tudo o que tem, mereceu-o, pagou-o com o
próprio sangue! O seu passado teimava em assombrar-lhe o
presente, impedindo a felicidade de um futuro.
A sua chegada à riqueza foi tudo menos feliz. Come-
çou da maneira mais trágica e dolorosa possível: a morte de
uma pessoa muito amada por ele!
Aos dezasseis anos era um jovem adolescente normal
como qualquer outro, alegre e brincalhão. Aos dezasseis a
vida a que se habituara desmoronou-se, perdeu o seu anjo, a
sua irmãzinha, a pequena Clara.
Na altura ele vivia com os pais, numa casa modesta
algures nos arredores da cidade. Não ganhavam mal, era su-
ficiente para se sustentarem e terem algum conforto. Eram
gente simples que levava uma vida normal. A sua mãe era
uma senhora simpática, telefonista no hospital São. Teotó-
nio. O seu pai era um homem algo rígido e severo mas que
amava os filhos, amava o Xavier e a Clara, embora por vezes


 

não o soubesse demonstrar. Era servente na construção ci-


vil.
A pequena Clara era tudo para o Xavier: a menina dos
seus olhos, a sua irmãzinha querida, a sua alegria e razão de
viver, o seu anjo.
Ela tinha sete aninhos, era uma menina tão fofinha,
com os seus expressivos olhos azuis e cristalinos, o seu cabe-
linho louro e fino, a carinha muito fofa e suave de tez bran-
ca e corada. Lembrava uma bonequinha frágil de porcelana.
O seu corpinho pequeno e delicado necessitava da atenção
que se dá a uma princesa. Toda ela era alegria e inocência.
Por vezes tão sossegada que parecia nem ter vida, outras,
pelo contrário, exprimia-se como um sopro inesgotável de
energia e vivacidade, comum à curiosidade natural de uma
criança tão jovem. Adorava o irmão mais velho; ele era o
seu protector e por vezes fazia o papel de pai, mãe e irmão
dedicado, tudo ao mesmo tempo. Davam-se com tal per-
feição, apesar da diferença de idades. Raramente ou talvez
nunca discutiam; de qualquer maneira, isso seria impensá-
vel para Xavier: não se levanta a voz a um ser tão frágil, tão
inocente, tão cheia de meiguice. Xavier amava-a acima de
tudo e de todos.
Foi num dia quente de Agosto que ele a perdeu para
sempre, que ele perdeu o seu anjo. Levou a sua irmãzinha ao
parque da cidade, para que ela se pudesse divertir no parque
infantil que lá existe e gozar da companhia de outras crian-
ças da sua idade. Ele adorava vê-la rir-se enquanto brincava
no baloiço que Xavier ia embalando.
O parque Aquilino Ribeiro é um lugar verdadeiramen-
te maravilhoso, um paraíso de verdes e castanhos e outras


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cores resplandecentes de vida; cheio de carvalhos e tantas


outras arvores que ofereciam a sua sombra aos namorados
que lá se podem encontrar em manifestações de afecto e
paixão, sentados nos bancos de jardim feitos de madeira e
ferro que por lá se espalham. Um grande espaço verde e rel-
vado fornece um óptimo local de repouso onde se pode lan-
char e aproveitar as carícias do sol, olhando para um lago
artificial, perto da velha capela.
O parque fica à distância de uma estrada que a separa
do edifício que se ergue à sua frente: a Escola Secundária
Alves Martins, mais conhecida por liceu, e que conta a ida-
de de cento e cinquenta anos.
Os estudantes vão lá passar algum do seu tempo. Muitos
têm que o atravessar de modo a alcançar a escola. Xavier não
era excepção: conhecia bem aquele lugar e algumas das histó-
rias que ele inspira, porém a sua foi, de longe, a mais trágica.
Xavier observava o seu pequeno anjo a brincar alegre-
mente com outras crianças de tenra idade, sempre sorriden-
tes, decerto acompanhadas pelos pais que ali se encontra-
vam e que aproveitavam o belo dia de sol para passear ou
relaxar, dedicando algum do seu tempo aos filhos. As crian-
ças brincavam, saltavam, sorriam, emitiam aqueles ligeiros
gritinhos de alegria que contêm pingos leves de histerismo;
os pais observavam-nos, babados.
A pequena Clara deslizava pelo escorrega de metal o
mais rápido que conseguia e Xavier recomendava-lhe, com
natural preocupação:
— Clarinha, não andes tão rápido! Ainda te aleijas!
— Não te preocupes, mano! Já estou treinada! — Sos-
segou com aquela voz pura de anjo.


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— Eu sei. Mas tem cuidado!


— Está bem! Eu tenho — Assegurou com alegria no
olhar.
Uma senhora, já de considerável idade, passeava ali per-
to; tinha boa aparência, o cabelo branco e curto penteado ele-
gantemente. Um rosto rugoso e deveras maquilhado de onde
se impunham uns expressivos olhos claros e vítreos, um azul
aquoso que quase se aproximava do branco, um olhar pertur-
bador que parecia capaz de ler a alma de quem neles pasmava.
Vestia um sobretudo preto com a grande gola feito do pêlo de
algum animal sobre uma camisa branca com padrões renda-
dos, uma saia preta cuja bainha dava pouco abaixo dos joelhos
que se escondiam dentro de meias de lycra pretas. Estava acon-
chegada apesar do tempo quente que se fazia sentir. Movia-se
vagarosamente apoiada numa bengala de madeira trabalhada
a relevo com corpos esguios de animais. A pega curva parecia
feita de marfim e ostentava a cabeça de uma águia; um peque-
no taco de borracha na ponta que tocava o chão. Era segura
com a trémula mão direita. Na esquerda transportava um saco
de plástico branco. Nos dedos ósseos exibia alguns anéis de
ouro; nas orelhas, brincos com uma pérola branca; um cruci-
fi xo de ouro pendia de um fio de cabedal preto que quase lhe
atrofiava a longas e severas rugas do pescoço.
Ela passeava sorridente quando, nada o fazia prever,
escorregou em algo e foi de encontro ao chão, de mãos e
peito ferrados contra o pavimento, bem perto do recreio
onde Clara brincava com as outras crianças.
A bengala voou para um lado, o saco que carregava
espalhou laranjas que iam rolando pelo chão numa aparente
tentativa de fuga.


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Toda a gente que assistiu àquele espectáculo de voo


e aterragem desatou aos risinhos irritantes ou gargalhadas
descontroladas de ligeira malícia e muita estupidez. Xavier
tentava perceber a razão de tanto riso e comentário trocista;
após olhar em volta viu a pobre desgraçada estendida no
chão e não encontrou a piada, porém achou a revolta contra
os que riam. Correu em seu auxílio, fê-lo enquanto os ou-
tros apenas riam com vontade não se mexendo para ir ver
da velha. Chegou junto à senhora idosa e, agarrando-a pelo
braço, ajudou-a a erguer-se. Enquanto ela sacudia alguma
folhagem seca do casaco e esfregava as mãos esfoladas, Per-
net foi reaver a bengala e devolveu-lha.
— Obrigada, meu jovem! — Agradeceu com a voz
trémula e transparente sem olhar para ele.
Xavier pegou no saco e foi apanhar todas as laranjas
que conseguiu encontrar e colocou-as de novo lá dentro.
Aproximou-se da velha com a mão estendida e devolveu-lhe
a fruta.
— Tome. Não sei se estão todas. Só consegui encon-
trar estas.
— Oh, obrigado, meu rapaz. És muito querido! —
Agradeceu, elogiando-o com um acentuado sotaque fran-
cês.
— Ora, de nada! — Assegurou com um sorriso mei-
go.
A mulher ergueu os olhos que se fixaram nos de Xa-
vier. A sua expressão agravou-se e ficou séria, abriu muito os
olhos, como se assustada por algo. Ouvia-se o seu coração
a palpitar mais pesadamente no momento breve de silêncio
em que apenas se fitavam estranhamente.


 

Aquele olhar incomodou Xavier, nunca tinha visto


olhos tão penetrantes como aqueles. Amedrontaram-no,
perturbaram-no, provocaram suores frios e arrepios desco-
nhecidos; o coração bateu mais forte e a sua respiração ace-
lerou-se. Uma sensação desconfortável invadiu-lhe o corpo
e o pensamento, não conseguindo fazer sentido dela.
Os olhos da velha exprimiam um não sei quê de me-
donho, ao mesmo tempo triste e assustado.
A velha quebrou o silêncio perguntando com sotaque
francês:
— Como te chamas, meu jovem?
— Eu sou o Xavier Pernet! A senhora está bem? —
Perguntou, num tom de voz trémula.
As pessoas que lá se encontravam, bem como as que
iam passando, ficaram a olhar para ambos, talvez pressen-
tindo alguma coisa pesada no ar que respiravam e que se
tornou mais grosso com um travo sufocante.
Ficaram mais alguns segundos, imóveis, com o olhar
fixo um no outro. Xavier parecia esperar por algo.
Ela passou a bengala para a mão esquerda e ergueu a
direita pousando-a ao de leve na face do jovem e disse, num
tom triste, soturno e sombrio, com um ligeiro toque de re-
conforto no seu sotaque francês:
— Meu pobre rapaz! Vejo nos teus olhos o que te espe-
ra. Vais ter que ser forte, vais ter que aguentar sempre mais
um pouco. Nunca o faças, quando te surgir na alma, espe-
ra sempre pelo dia seguinte, não desistas da vida, mesmo
quando pensares que ela desistiu de ti; serás recompensado.
Oh, meu Deus! A culpa é minha! Aguenta, rapaz, e um dia
serás feliz. Perdoa-me, Xavier! O teu destino começa agora!


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Retirou suavemente a mão da cara dele, os olhos dela


pareciam ter lágrimas prestes a correr. Afastou-se até se per-
der de vista.
Xavier ainda ficou algum tempo estático no mesmo
sítio, sem encontrar sentido algum para o que acabara de
passar-se. O que queria ela dizer? Quem era aquela velha
que tanto o perturbou? Eram as perguntas que lhe faisca-
vam os neurónios e que não tinham, ainda, resposta.
O pasmo e espécie de transe em que ele se via, após
ter ouvido um pedido de desculpas que não fazia sentido,
foram interrompidos por sons perturbadores e aterradores.
O chiar ensurdecedor de uns pneus que se imobili-
zaram, uma ruidosa pancada seca, um gritinho assustado
e surpreendido, silêncio, depois muitos gritos de horror e,
finalmente, novo silêncio.
Xavier olhou à sua volta, confuso, olhou para os baloi-
ços, para o escorrega. A Clara não se via, já não estava no
parque. O seu coração acelerou-se ainda mais, parecia que-
rer romper-lhe pelo tórax, a sua respiração ofegante e pesada
parecendo que o ar se recusava a sair dos pulmões provocan-
do um aperto ansioso e doloroso no peito. Foi invadido por
um tremor que lhe percorreu o corpo dos pés à cabeça, uma
tontura de confusão que o obrigou a fechar os olhos e levar
as mãos à cabeça. Tudo isto lhe fulminou os sentidos num
breve instante sem fim; depois apercebeu-se de que não via
a sua irmãzinha em lugar algum. O seu corpo e espírito
diziam-lhe que algo sucedera com a Clara.
As pernas trémulas finalmente obedeceram-lhe e correu
para fora do parque, passando pela grande fonte e galgando
a escadaria de pedra. Um grupo de pessoas petrificadas en-


 

contravam-se aglomeradas e a fitarem seriamente o chão, uns


com as mãos na boca, outras com elas na cabeça, algumas es-
tavam mesmo a chorar perante aquela visão desoladora, junto
à entrada principal do liceu. Xavier atravessou a estrada de
paralelos, chegou junto da multidão imóvel e abriu caminho
por entre elas com alguns empurrões. O seu cérebro demorou
alguns segundos até assimilar o que via e considerar a imagem
como real e transmitir os sentimentos ao coração. Xavier fi-
nalmente caiu em si, apercebeu-se da terrível verdade chocan-
te. Clara jazia inanimada sobre a calçada salpicada de sangue,
o seu corpo frágil já não se mexia, os seus olhos abertos já não
brilhavam, o seu cabelo já não dançava.
— É da família? — Perguntou alguém.
— É a minha irmã! — Gritou.
— Lamentamos muito, rapaz! Está morta!
Xavier deixou-se cair de joelhos, sem força nas pernas,
fulminado por aquela verdade. Pegou na menina com o seu
vestidinho branco manchado de sangue, apertou-a contra o
peito, chorando e gritando:
— Não é verdade! Não pode estar morta! É a minha
irmã, o meu anjo! Por favor, digam-me que é mentira! Que
ela está a fingir! Que Deus não é assim tão cruel!
— Lamento, ela… ela saltou para… não a vi… não
consegui parar… eu… Oh, meu Deus, o que fui eu fazer?
— Disse o condutor do carro que a atropelara, desatando a
chorar, sentindo uma culpa enorme que o marcaria para o
resto da vida.
Não poderia ser evitado, foi assim, porque teve de ser,
porque era o destino reservado ao Xavier. Ele não acreditava
no destino, talvez por isso tenha sido tão cruel.


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A bonequinha de porcelana era agora uma boneca de


trapos, manchada de sangue, a roupinha rasgada, o cabelo
sobre a face ensanguentada, mas um sorriso ainda existia
nos lábios frios e sem cor. O corpinho frágil, partido, ar-
ranhado; os olhos sem brilho e sem vida; o frio das suas
mãozinhas pequenas; tudo isso iria assombrar os pesadelos
do rapaz; a imagem de um anjo caído, o seu anjo.
A pequena foi a enterrar no cemitério da cidade. O
dia estava enublado e ameaçava chover. Os pais do Xavier
choravam e lamentavam a perda da filha enquanto o padre
dizia palavras acerca da vida e do valor que a breve passa-
gem da filha teve.
A chuva caía levemente sobre as campas e pedras tu-
mulares de mármore, pequenos pássaros voeiravam de volta
para os seus ninhos em busca de abrigo e Xavier, que triste-
mente contemplava o céu, sentia o meigo bater das pingas
frescas que lhe acariciavam o rosto pálido, à espera de um
qualquer sinal de perdão. À espera que a morte viesse re-
clamar aquela vida que já não tinha sentido. As lágrimas
jorravam dos olhos e corriam-lhe no rosto com vontade,
lamentando-se, soluçando e gaiando pesadamente, sentindo
que, juntamente com o seu anjo, ele também tinha morrido,
já não queria viver mais, não merecia estar vivo. Eram os
pensamentos que lhe cruzavam a alma pois acreditava que a
culpa fora sua, só queria o perdão da irmã e dos pais — se
alguma vez o perdoassem — para encontrar na morte a paz
que jamais encontraria na vida. Então, foi inundado por um
intenso sentimento de remorsos que lhe revolvia as entra-
nhas; ele distraiu-se por um breve instante da irmã para aju-
dar uma velha desconhecida e por isso a Clara desaparecera


 

eternamente da sua vista, morta. Encontrava alguma tran-


quilidade, consciente de que a irmã teria querido que ele
ajudasse a velha de qualquer maneira, pois foi a única das
crianças presentes que não achou piada ao desajeitado tom-
bo. Certa vez, em conversa com o irmão, ela revelou-lhe:
— Sabes, mano, eu não tenho medo de morrer!
— Ai não, Clara? Ainda bem!
— Não tenho, porque sei que vou para o céu e vou
brincar com os anjos pequenos. Sabes, eu era capaz de mor-
rer por ti, depois tinha um lugar mais especial no céu. Há
lugares assim para quem morre a ajudar alguém, eu sei.
— Pois há, Clara, mas não vai ser preciso morrer por
alguém de modo a ires para o céu. Tu já és um pequeno
anjo, o teu lugar estará sempre à tua espera. Mas só daqui a
muitos anos.
Pernet não entendeu por que razão ela saíra do par-
que. Nunca tinha feito tal coisa; normalmente não se afas-
tava muito do irmão. Com a morte da Clara, Xavier quase
perdera a sanidade. Com ela morreu o seu coração, a sua
alegria e vontade de viver, o seu espírito entorpeceu-se, já
nada lhe fazia sentido. Como poderia Deus permitir tama-
nha crueldade?
Não encontrou nele as forças nem a vontade de conti-
nuar os estudos. Abandonou a escola contra a vontade dos
pais, mas já não aguentava, não conseguia pensar lucida-
mente, não valia a pena. Às vezes, estava nas aulas e desa-
tava a chorar quando se lembra do seu anjo. Não conseguia
estar fechado em nenhuma das salas, não suportava. Perde-
ra a única pessoa que era tudo na sua vida, o mundo dele só
era aturável porque ela existia nele; perdera o seu anjo, a sua


  

razão de sorrir e viver. O seu olhar, que antes era alegre, bri-
lhante e cheio de vida, foi conquistado pela tristeza e falta
de vontade; perdeu o brilho que, outrora, neles reluzia. Sa-
bia que os pais o consideravam culpado pela morte da filha.
Eles nunca lho disseram, mas via-o na forma com que, por
vezes, o fitavam e na maneira fria como lhe falavam. Não
perdera apenas a sua querida irmãzinha, perdera igualmente
o amor dos pais. Para o seu coração já destrocado pela dor,
a forma como os pais o tratavam feria-o um pouco mais.
No entanto, nunca deixaram de o sustentar após abandonar
a escola, mesmo sendo contra a vontade deles. Apesar de
tudo, ainda era filho; podiam até culpá-lo pela morte da
menina, mas isso não lhes dava o direito de o renegarem.
Nos anos que se seguiram, o ambiente familiar des-
fez-se em gritos: os pais passavam a vida a discutir por ra-
zões tão estúpidas como ilógicas. Xavier raramente saía do
quarto, quase sempre deitado sobre a cama a fitar, pasma-
do, o tecto; tentando impedir a imagem da irmã cheia de
sangue que se lhe cravara no espírito; porém, era inevitável.
Raramente ia ter com os amigos.
Ainda não conseguira esquecer aquele dia. Estava fres-
co na sua memória e sentia tudo como se tivesse aconteci-
do ontem. Nunca mais recuperaria; a saudade desesperada
da sua irmãzinha era sufocante. Pensava constantemente no
suicídio, consumido por um sentimento avassalador de cul-
pa, mas ainda não o fizera para que o seu anjo não fosse
esquecido, para que continuasse viva na sua memória.
Pernet dava-se mal com os pais. Raramente falavam,
mas ele amava-os na mesma. Afinal, sempre foram eles que
lhe concederam o dom da vida.


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Aos dezoito anos, outra desgraça abateu-se sobre ele,


atirando-o impiedosamente para o fundo de um fosso sem
fim. Xavier ouviu bater à porta do quarto haviam de ser cer-
ca das oito e meia da manhã. Já estava acordado, tinha dor-
mido pouco mais que duas horas, como era costume. Após
a morte da irmã, tinha dificuldade em adormecer tranqui-
lamente.
— Pode entrar. — Disse com tom pouco convidativo
e melancólico.
A porta abriu-se e o pai espreitou lá para dentro, ven-
do o filho deitado e pasmado a olhar o tecto branco. Com
voz severa e rude disse:
— Eu e a tua mãe vamos até à praia da Barra. Se qui-
seres, também podes vir.
— Não, não quero. Vou ficar aqui sossegado.
— Como queiras.
Sem mais palavra saiu, fechando a porta com um es-
trondo irritado, pouco animador.
Os pais enfiaram-se no velho Ford Escort vermelho e
arrancaram em direcção a Aveiro.
Pernet detestava aqueles passeios familiares. Aca-
bavam em discussão entre todos, fazendo com que ele se
sentisse ainda mais miserável. A maior parte do tempo os
pais ignoravam a sua presença, olhando-o como se fosse um
fardo. Suportavam-no por uma qualquer obrigação. Odiava
sentir-se daquela maneira, razão pela qual evitava aqueles
passeios desanimadores. Para os pais era indiferente se ele
fosse ou não. Aliás, sentiam-se melhor sem a presença dele,
pois assim não tinham que recordar a falecida menina. Per-
deram a filha num acidente, mas perderam o filho porque


  

quiseram. Que falta de humanidade e de amor. Que estupi-


dez! Deveriam ter sentido vergonha e pôr mãos na consciên-
cia, mas já não foram a tempo. Foi desígnio divino, castigo
talvez.
Xavier já se havia levantado, a meio da tarde e sem
nada no estômago, os olhos raiados de sangue e pesadas
olheiras negras provocadas por muitas noites sem dormir.
Estava sentado no sofá a ver televisão, sentindo-se miserável
por o seu anjo não estar sentado a seu lado. Olhava para as
imagens mas não as via realmente, fechado em si próprio,
com recordações da pequena. Sentia tanto a sua falta, a falta
de um sorriso encorajador, da sua alegria contagiante, da
sua vivacidade deslumbrante e das brincadeiras que parti-
lhavam. A reflexão que o dominava foi interrompida pelo
som da campainha. Era alguém que estava à porta. Levan-
tou-se arrastando-se, foi abri-la, deparou-se com dois agen-
tes da GNR barrigudos, um novo, outro já de meia-idade
que disseram:
— Boa tarde. O senhor é o Xavier Pernet?
— Sou, sim! — Confirmou com ar espantado.
— Isto é muito difícil para nós! Detestamos ser porta-
dores de más notícias. — Disse o mais velho, fitando Xavier
com compaixão.
— Más notícias? — Perguntou o rapaz com um arre-
pio a subir-lhe a espinha.
— Tenta manter-te calmo enquanto te conto isto, ra-
paz.
— É importante que te mantenhas calmo e que ouças
com muita atenção. — Disse o agente mais jovem.
— Está bem! — Garantiu Xavier.


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— Hoje, por volta das dez e um quarto, ocorreu um


acidente na IP5 entre as saídas de Vouzela e São Pedro do
Sul. Um camião carregado de móveis teve um furo num dos
pneus dianteiros e o condutor perdeu o controlo do veículo,
que veio a embater em vários automóveis que circulavam
em sentido contrário. O Ford Escort vermelho registado em
nome do teu pai foi um deles. Houve feridos… e outros. —
Explicou o mais velho, com o bigode negro a agitar-se.
— Ah, um acidente. Os meus pais tiveram um aciden-
te. É isso? — Perguntou surpreendido.
— Sim, Xavier.
— Eles estão bem? — Perguntou sem ainda descon-
fiar da realidade.
— Xavier, receio que não tenhas entendido. — Disse
o mais novo.
O agente mais velho gaiou profundamente e com um
olhar triste de compaixão gaguejou:
— Xavier… Os teus pais… A tua mãe e o teu pai…
tiveram… eles… eles morreram, Xavier!
O rapaz ficou a pasmar os dois agentes, surpreendido
e chocado com a notícia. A tristeza, a dor e o sofrimento
vieram bater-lhe à porta, multiplicando aquela que já sen-
tia. Primeiro o seu anjo, agora os pais. Naquele momento,
a sua vida alterou-se para sempre. Sentia-se culpado pela
morte da irmã, agora sentia-se culpado de não ter feito um
esforço para manter o resto daquela família unida. A morte
roubou-lhe a possibilidade de dizer aos pais que os amava e
isso persegui-lo-ia até ao fim da vida. O seu coração esta-
lado acabava de partir. Perdera tudo: a alegria, o sorriso, a
própria vontade de viver. Todos os que ele amava morreram


  

e acreditava ser o único culpado por essas mortes. A espe-


rança abandonou-o.
Não conseguia chorar a morte dos pais, embora o qui-
sesse. Todas as suas lágrimas foram gastas com a Clara.
Não encontrou em si a coragem de assistir ao enterro
dos pais, a alguns metros da campa onde Clara jazia, no
cemitério de Viseu.
Xavier Pernet era um jovem que agora se encontrava
sozinho no mundo, abandonado pela vida, sem rumo, sem
esperança no futuro, um ser errante que vagueia perdido
num céu negro sem estrelas que o guiem e que é visto como
um pobre coitado de quem as pessoas apenas conseguem
sentir pena.
Rapidamente, o dinheiro que tinha posto de parte ao
longo da infância e adolescência, oferecido pelos seus anos e
que ganhou fazendo pequenos trabalhos, esgotou-se. Viu-se
obrigado a vender a casa dos pais, mas que felizmente estava
em seu nome, por um valor deveras baixo tal era a necessi-
dade e o desespero.
Com o lucro comprou um velho Renault 5 branco
com traços de chapa enferrujada e que lhe servia de quarto.
Costumava estacioná-lo no Fontelo e lá dormia, ou tentava,
acompanhado pelo som dos pavões e de pássaros que chilre-
avam e faziam os seus ninhos nas árvores altas. Nas noites
de Inverno custava tanto, era tão frio! Todo ele começou a
deteriorar-se, o seu aspecto, a própria sanidade que o con-
duzia a um mundo crescente de incertezas, falta de fé e de
crença num futuro benevolente; perdera a vontade de viver
e a auto-estima. Deixou o cabelo crescer-lhe até aos ombros,
desalinhado, sempre despenteado, muito seco e sujo; alguns


 

fios chegavam mesmo a partir-se, sendo atirados para longe


com o vento. Os seus olhos sempre vermelhos e cansados,
os lábios secos e gretados, as mãos e os dedos carregados de
frieiras, barba que, por vezes, não via lâmina por um mês.
Sempre que a achava mais pesada e incomodativa ia cortá-la
à casa de banho de um qualquer posto de abastecimento.
Depois, deixava-a crescer novamente. Um jovem bonito ti-
nha agora o aspecto feio de um velho cansado.
Viva assim uma existência errante, triste e miserável,
sem sentido ou esperança. Sobrevivia ou talvez apenas se
arrastasse pela lama que lhe fora atirada à cara por um des-
tino cruel que lhe fora pouco benevolente. No entanto, e
apesar de tudo, continuava vivo, agarrado a um qualquer
fio invisível de uma força persistente que ninguém saberá
qual é, nem mesmo ele.
Às vezes, procurava conforto no fumo de um charro; de
pouco lhe valia, pois não o encontrava, por mais que fumasse.
Durante o dia ele tinha por hábito ir almoçar — a
única refeição que tomava — ao Sports Bar, gastando o
pouco dinheiro que ainda ia sobrando, mas tinha de comer.
Habituara-se àquele bar, já o frequentava quando era aluno
no liceu. Costumava lá ir com os amigos à hora do almoço
para tomarem café e gozarem do convívio. No fim de um
dia de aulas, lá se encontravam e tinham conversas normais
de adolescentes, mas tudo isso mudara. O bar fica apenas a
escassos metros do liceu, do outro lado da estrada, tocando
a orla esquerda do parque da cidade, à esquerda de quem o
via do liceu.
Xavier entrou após as portas automáticas de vidro se
abrirem de par em par. O lugar era todo dedicado aos des-


  

portos, como o próprio nome deixa antever. O chão era de


um mosaico quadrado amarelo-torrado; sobre ele, várias
mesas quadrangulares envoltas por quatro cadeiras de ma-
deira. Os tampos eram de tábua, tinham vidros encaixilha-
dos sobre elas e sob o qual se encontravam algumas imagens
diversas alusivas ao desporto, desde o golf ao automobilis-
mo. Existiam, também, algumas mesas redondas cercadas
por seis cadeiras. Tantas televisões ali espalhadas nas pare-
des e nos pilares que se perdia a paciência para contá-las to-
das, tornando, assim, possível visioná-las de qualquer ponto
onde se sentasse. Nas paredes, igualmente amarelas-torra-
das, estavam pendurados quadros com fotografias e recortes
de antigos e já extintos jornais desportivos. Também se en-
contravam expositores de vidro com camisolas autografadas
e com objectos antigos utilizados em certos desportos. Uma
mota pendia do tecto, que era maioritariamente feito em
blocos de cortiça pintados de branco e de onde espreitavam
focos de luz que reluziam nos vidros das mesas o que, por
vezes, ofuscava. Havia, também, uma mota pendurada so-
bre a entrada, do lado de fora. Podiam encontrar-se objectos
desportivos, já antigos e ultrapassados, suspensos na parede,
como esquis de ripa, chuteiras, sacos e luvas de boxe de cou-
ro castanho e desgastado, entre muitos outros. A parede do
lado direito era feita de grandes placas de vidro que iam do
chão ao tecto; dava vista para o parque. Entre os pilares que
sustentavam o vidro, estava uma velha canoa de madeira e
os seus dois remos, tangente ao tecto alto. A poucos pas-
sos da entrada e do lado esquerdo, uma escadaria dava para
uma varanda superior, decorada de modo semelhante. Na
parede paralela à escadaria contavam-se posters antigos dos


 

jogos olímpicos realizados em cidades diversas; sobre cada


poster, um relógio de ponteiros, redondo e de fundo bran-
co, cujos braços negros indicavam a hora do local a que o
poster se referia.
Mal Xavier passou a entrada, ouviu o que já se acos-
tumara:
— Olha, o vagabundo já chegou! — Disse a Vanessa,
num cruel tom de desprezo, e depois riu-se.
É claro que ouvir aquilo o deixava triste, porém ten-
tava não dar muita importância. Xavier sentou-se só a uma
mesa.
Vanessa era a típica menina do papá, mimada até à
exaustão, filha de pais endinheirados. O seu cabelo loiro,
tão falso como ela, longo e liso e os seus olhos azuis faziam
dela uma verdadeira convencida e achava-se superior aos
outros. Era tão cheia de si, em dose exagerada. Tinha por
costume sentar-se a uma mesa redonda, bem junta à entra-
da, com as suas três amigas. Não tinham nada de especial;
sem personalidades próprias, deixavam-se influenciar pela
manipulativa Vanessa. Ela era uma espécie de líder daque-
le grupo de quatro raparigas. Rondavam todas os dezasseis
anos. Tinham por hábito e simples maldade troçar do pobre
miserável.
— Fogo, ele é tão feio! Mete medo! — Disse uma de-
las.
— Parece um bicho-do-mato! — Observou outra.
Uma mais tímida disse:
— Oh, coitado. Não tem culpa de ser assim.
Xavier ouvia-as, mas não ligava muito. Ele sabia bem
quem e o que era: estava com um aspecto cansado e deslei-


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xado, os olhos pesados e a barba de quinze dias; não estava


com bom aspecto e sabia-o.
Marisa foi atendê-lo:
— Olá, Xavier. Então, vieste almoçar?
— Olá! Sim. Olha, podias trazer-me um prego no prato.
— Tudo bem. E um fino, não é? — Adiantou.
— Sim, é isso.
Marisa era empregada de mesa e trajava o uniforme
do bar: camisola preta, calças pretas e um pequeno avental
cor de laranja à volta da cintura. Ao longo do tempo tra-
vou uma ligeira amizade com a empregada de cabelo preto
amarrado num rabo-de-cavalo e de olhos castanhos. Marisa
afastou-se e efectuou o pedido à cozinha. Minutos depois,
serviu-lhe o almoço.
— Obrigado, Marisa.
— De nada. — Disse com um sorriso simpático e foi
atender gente que entrou e se sentou.
— Olhem, o vagabundo tem dinheiro para comer!
Andou a estacionar carros! Ou, se calhar, foge sem pagar!
— Disse a cruel rapariga em voz alta para que toda a gente
a pudesse ouvir. As outras riram-se. Não o deixaram comer
sossegado, dirigindo-lhe aquelas piadas estúpidas:
— E sabe usar faca e garfo! Muito bem, já está a apren-
der.
Aquilo magoava-o, julgavam-no sem o conhecerem,
alheias à cruel vida que se lhe impôs e que ele determinada-
mente suportava, mas continuou a comer sem se manifestar,
sem descer ao nível delas e perder a sua dignidade.
Acabou de almoçar e esperava a chegada da sua amiga
para juntos tomarem café. As quatro raparigas murmura-


 

vam qualquer coisa e depois riam-se; ele não conseguia ou-


vir o que diziam, mas era, sem dúvida, sobre ele.
Estava um dia quente. Xavier trazia vestida uma t-shirt
verde-escuro, crivada de pequenos buracos, calças de bom-
bazina pretas, já rafadas e rasgadas nos joelhos e a bainha
desfiada que não escondia por completo os ténis azuis, que
mais pareciam pretos, rotos e com a sola já quase toda gas-
ta; entrava a humidade, não tinha meias. O seu aspecto era
extremamente miserável e susceptível de dó.
A porta de vidro abriu-se. Uma rapariga muito bonita
entrou. Tinha cabelo preto, sedoso e longo, olhos grandes e
castanhos, rosto moreno, lábios carnudos e sensuais. Vestia
umas calças de ganga, uns ténis brancos e uma camisola
de alças, preta, que ficava justo aos contornos acentuados
do corpo magro e alto. A moça dirigiu-se à mesa de Xavier,
puxou uma cadeira e sentou-se. Tinha a mesma idade do
rapaz: vinte anos.
— Olá, Xavier, estás bom? — Perguntou sorridente.
— Olá, Mónica. Vou indo. Umas vezes bem, outras
mal. Como sempre! — Respondeu, retribuindo o sorriso
caloroso.
Mónica era uma amiga dos tempos do liceu, a única
com a qual manteve contacto, a única pessoa amiga que lhe
restava. Ela era simpática e estava, quase sempre, a sorrir.
Encontravam-se lá muitas vezes.
— Então, já almoçaste?
— Já.
— Então vou pedir os cafés.
Mónica chamou Marisa. Ela foi à mesa e disse:
— Então, Mónica, tudo bem?


  

— Está tudo. Olha, traz dois cafés.


— É para já.
Virou costas e foi buscar os cafés.
— Pareces mais animado hoje, não é? — Perguntou
com ligeira preocupação.
— Estou! Mas não sei porquê! — Soluçou.
Marisa voltou, trazendo os cafés que fumegavam, pou-
sando-os sobre o vidro. Ambos abriram o pacote de açúcar
e despejaram-no na chávena, pegaram na colher e agitaram
o café, dissolvendo por completo o açúcar.
— Olha, vou-te cravar um cigarro. — Disse Xavier.
— Estás à-vontade.
Xavier retirou um cigarro do maço de Marlboro e
acendeu-o com o isqueiro branco que Mónica pousara sobre
a mesa; deu um travo, expeliu o fumo e bebeu o café. Mó-
nica fez o mesmo.
Xavier ficou alguns segundos a pasmar o fundo da
chávena vazia sem saber porquê, não pensando em nada,
com a mente vazia. O silêncio entre os dois era estranho e
foi interrompido pela rapariga quando perguntou:
— Posso dizer-te uma coisa?
Xavier levantou a cabeça e olhou-a:
— Claro que podes!
— Acho que estás assim porque queres!
Aquela afirmação foi uma surpresa. Era completamen-
te inesperada e Xavier estacou longos segundos até racioci-
nar e entender o sentido das palavras. Finalmente conseguiu
dizer:
— O quê?! Achas que alguém quer viver assim? Jul-
gas que estou triste porque quero? Que sou um miserável


 

porque quero? Não me foi dado a escolher. Ninguém me


perguntou se era assim que eu queria viver. Fui forçado. A
vida não sorri para mim. Não estou assim porque quero…
Estás tão enganada.
— Pára de sentires pena de ti próprio! O teu problema
é que não tens força de vontade para lutares nem para viver.
Vê lá se te esforças um bocadinho.
Xavier ficou deveras surpreendido com a amiga; não
conhecia aquela sua faceta. Normalmente, era tão compre-
ensiva e doce. Ele não entendia o que se passava com ela.
— Tu tens consciência do que estás a dizer? Não me
parece que faças a mínima ideia do que isto é! Não podes
pedir a alguém que esteja cheia de febre e a vomitar para
que baixe a febre e pare de vomitar, não cabe na cabeça de
ninguém. São coisas que não controlamos, tal como eu não
consigo controlar o que sinto, o que penso, o que vejo, o
que me vai na alma ou até a dor que me aperta o coração
e me faz suspirar. É impossível controlar ou impedir estas
coisas. Entendes o que quero dizer?
— Anda lá, tu não tens é vontade de fazer coisa alguma.
— Vontade?! Vou-te falar de força de vontade! Eu tenho
mais do que tu pensas! Não imaginas o esforço que é apenas
manter-me vivo e aguentar alguma sanidade, não pensar em
coisas más. Chego à noite completamente esgotado e sem
forças para mais nada. — Explicou, ligeiramente alterado.
— Até parece que estares vivo é um sacrifício tão can-
sativo que não aguentas.
— É! Mais do que possas imaginar! Às vezes, quando
estou a conduzir, vejo o muro de uma casa que fica numa cur-
va e penso: “Seria tão fácil enfaixar-me nele! Acabava tudo.”


  

Não imaginas o esforço e a força de vontade que preciso de ter


para conseguir virar o volante e evitar esborrachar-me contra
o muro! Espero, sinceramente, do fundo do que sou, que nun-
ca venhas a sentir o que eu sinto. É muito doloroso.
— Eles já morreram há muito tempo. Está na hora de
os esquecer e seguir em frente.
— Como te atreves a dizer uma coisa dessas?! Vê-se
logo que nunca passaste pelo mesmo. Eu amava-os e preciso
recordá-los! Que raio de amiga diz isso?!
— Tu é que és um cobarde! — Gritou.
— O quê?! É preciso muito mais coragem para viver e
recordar do que para morrer! Não deves ter consciência do
que estás a dizer. Não tens o direito de me julgar dessa manei-
ra! E eu não consigo estar com alguém que julga conhecer-me,
mas que não faz a mínima ideia de quem sou. — Explicou,
subindo um pouco o tom de voz. Xavier levantou-se repenti-
namente e apagou furiosamente o cigarro no cinzeiro.
— Onde vais, Xavier? — Perguntou ela, irritada. —
Não me vires as costas.
— O que é que isso interessa? Vou-me embora! Não te
quero ouvir mais! — Gritou.
Enquanto Xavier se dirigia à caixa para pagar, Vanessa
disse num tom sarcástico:
— Olha, coitado do vagabundo, está chateado e vai
embora! Que pena!
— Logo agora que não fazia cá falta nenhuma! Já vi-
ram! — Disse uma delas friamente.
Xavier saiu, sentindo-se magoado e desesperado. Aque-
la não era a Mónica que ele conhecia. O pobre rapaz estava
tão confuso, já não sabia o que pensar da amiga.


 

Mónica ficou estática ao vê-lo desaparecer por entre o


arvoredo do parque. Continuou sentada ainda durante lar-
gos minutos, fumou um cigarro, depois enfiou o maço na
carteira preta e levantou-se, foi à caixa. Xavier já tinha pago
tudo. Dirigiu-se à saída mas deteve-se ao ouvir Vanessa:
— Olha, desculpa lá, aquele gajo é teu namorado?
— Não! — Respondeu secamente.
— É que, às vezes, vejo-vos aí juntos e pensei. Mas
ainda bem. Ele é tão feio! Olha, senta-te aqui ao pé de nós.
— Convidou.
Aceitou o convite, puxou de uma cadeira e sentou-se
ao lado da Vanessa.
— Ele era o rapaz mais giro que já conheci. Somos
apenas amigos. — Explicou.
— Eu estava a ouvir a conversa e, desculpa que te diga,
mas um amigo não te ia falar assim.
A víbora deitava as suas palavras envenenadas aos ou-
vidos da Mónica.
— Oh, ele não tem culpa! Eu sei que fui dura com ele.
Não devia ter dito o que disse. Mas só o queria ajudar.
— Cá para mim, ele só gosta de ti quando lhe dás
apoio. Agora que foste mais dura com ele, chateou-se.
— Eu também lhe disse coisas que não devia.
— Não vês que só se está a aproveitar de ti para des-
carregar a raiva que sente por ele próprio?
— Não sei! — Disse confusa.
— Olha, eu tenho a certeza. — Garantiu Vanessa com
os olhos bem abertos.
— Tentas ajudá-lo e ainda te trata mal. Grande ami-
go! — Disse uma delas.


  

— Ele não merece a tua amizade — Afirmou a víbo-


ra.
— Não vale a pena manter uma amizade quando ape-
nas um faz o esforço para não a perder. — Disse outra das
amigas.
Mónica ficou parada, com um ar pensativo e intros-
pectivo e, por fim, tristemente, cedeu e concordou:
— Pois é! Têm razão. Ele não merece que me preocu-
pe com ele. Afinal, estou a perder o meu tempo, nunca há-
-de vir a ser alguém. Não quer saber. Não preciso dele para
nada, ele é que precisa de mim.
— É assim mesmo! Nunca passará de um miserável
vagabundo. É feio e mal cuidado, ninguém o quer assim!
Não vale nada! O melhor é mesmo esquecê-lo, fazer de con-
tas que não existe, ignorá-lo antes que ele te arraste pelo
chão e te torne numa triste miserável igual a ele. Desliga-te
daquela aberração, antes que seja tarde! — Disse Vanessa,
cuspindo o seu veneno por entre os dentes afiados.
— Obrigado, vocês fizeram-me ver a realidade, abri-
ram-me os olhos. A partir de agora vou ignorá-lo. Já não
existe Xavier Pernet para mim.
Mónica acabava de trair a confiança de um bom e
verdadeiro amigo, apenas porque este se encontrava numa
fase menos boa da vida; não estava mais para suportá-lo ou
ajudá-lo. Simplesmente, fartou-se. Desistiu dele, da amiza-
de que os unia. Ela o fez, não ele. Abandonou-o quando
ele mais precisava do seu apoio e de uma palavra amiga;
influenciada por palavras envenenadas e manipulativas de
uma rapariga insensível e cruel, que goza com o azar dos
outros porque nunca o teve. Era uma nojenta e Mónica aca-


 

bava de se juntar a elas. É verdade que tentou ajudá-lo, pu-


xando por ele, mas não foi capaz de perceber que era a ma-
neira errada de o fazer.
Como é possível a existência de gentinha sem coração
como o grupinho da detestável Vanessa?
As cinco lá ficaram o resto da tarde, a falar mal de
uma pobre alma perdida cuja existência era um universo de
dor e sofrimento. Quem eram elas para o julgar? As nojen-
tas!
A noite arrefecera. Xavier estacionara o carro no Fon-
telo, escondido entre duas árvores, algures por detrás do jar-
dim infantil Nossa Senhora de Fátima, o mais fora de vista
possível. Tremia de frio, enrolado em posição fetal no banco
de trás do velho carro; a manta de tecido fino com que ten-
tava cobrir-se era insuficiente para aquecer o seu corpo ge-
lado, já a ficar roxo e com as mãos tão geladas que já tinha
dificuldade em movimentá-las; via o vapor da sua respiração
a dançar-lhe diante dos olhos vermelhos. Lembrava-se da
discussão com a Mónica, não tentava fazer sentido nas pa-
lavras que foram trocadas. Apenas se sentia arrependido da
sua reacção tempestuosa. Então decidiu que no dia seguinte
pediria desculpa à sua única amiga. Ela magoara-o muito,
mas pediria desculpa, estava disposto a esquecer pois não
queria perder aquela amizade por um acontecimento que ele
até considerava trivial, mas pediria desculpa, perdoava e es-
quecia. Não conseguiu dormir nada a noite toda por causa
do frio e a pensar no sucedido.
Seriam já três horas da tarde do dia seguinte quando
Xavier transpôs as portas do Sports Bar. Recebeu o habitual
cumprimento da Vanessa:


  

— Olá, vagabundo!
Não ligou a mínima importância. Estava mais preocu-
pado em fazer as pazes com a sua amiga. Aquelas quatro ví-
boras passavam lá a vida, sempre sentadas no mesmo lugar,
à mesa redonda perto da entrada.
Xavier sentou-se num lugar qualquer virado para a
entrada, defronte ao ninho das cobras que, de vez em vez,
olhavam para ele, murmuravam qualquer besteira e depois
desatavam às gargalhadas.
— Olá, Xavier. Vais querer alguma coisa? — Pergun-
tou simpaticamente a Marisa.
— Olá, traz-me só um café. — Pediu.
Xavier não sentia fome, apenas um aperto de ânsia no
estômago enquanto esperava ver a Mónica passar a entrada.
Entretanto, o seu café chegou; bebeu-o e aguardou
mais um pouco a chegada da amiga, cada vez mais ansioso.
Dez minutos depois, Mónica transpôs a entrada. Xa-
vier viu-a e olhou-a com um sorriso, contente por ela ter
vindo, animado com a ideia de se desculpar com ela. Po-
rém, o seu sorriso carinhoso depressa se dissolveu em triste-
za. Mónica apenas olhou para ele de relance, ignorando-o;
sentou-se à mesa com as suas novas amigas. Elas olharam
para ele e, em voz alta, num tom sarcástico, Vanessa disse:
— Olha! Coitadinho do vagabundo, ficou triste! A
amiga já não gosta dele!
Todas se riram às gargalhadas insensíveis que ecoa-
ram pelo bar, quase cheio de gente. Vanessa fitou-o com
um olhar perverso e um sorriso malicioso, como se tives-
se acabado de conquistar alguma vitória. Dir-se-ia que fez
tudo de propósito, desde o momento que convidou Mónica


 

a sentar-se ali, em que obteve o gozo máximo que ela pre-


tendia.
Xavier ergueu-se com um salto, deveras surpreendido
e confuso com o que acabava de acontecer. Saiu a correr, es-
quecendo-se de pagar. Fora ali com o intuito de pedir per-
dão à amiga e esta, simplesmente, lhe virou a cara, como se
não o conhecesse. Entrou no parque e deixou-se cair sobre
o primeiro banco que encontrou, com os cotovelos apoiados
sobre os joelhos e a cabeça enfiada entre as mãos. Ele não
conseguia acreditar no que aconteceu, não percebia por que
razão a amiga teve aquela atitude, mas culpava-se. Ficou de-
solado, desesperado, sem saber o que fazer. Agora não tinha
ninguém na sua vida, perdeu o seu anjo, os pais e, agora, a
única amiga que lhe restava. Ele acreditava ser o culpado do
seu azar. Pobre rapaz!
Minutos depois, um cigano de mau aspecto abordou-o:
— Então, amigo? Estás em baixo? Queres comprar
ganza? Eu tenho aqui, é da boa!
Xavier levantou a cabeça e encarou o cigano que lhe
tentava vender droga.
— Não, hoje não quero comprar. Ainda tenho. Ama-
nhã.
— Então e uma arma?
— Uma arma?! — Disse parecendo deveras interessa-
do.
— Sim, é um revolver, quase novo e está carregado.
Vendo-te por quarenta euros.
— Deixa ver! — Pediu.
O cigano tirou a arma do bolso e mostrou-a ao Xavier.
Ficou a examiná-la com os olhos bem abertos e um pensa-


  

mento disparou-lhe na mente, tocando-lhe a alma; pensou


no suicídio.
— É boa! — Garantiu o cigano.
— Fico com ela. — Disse, sem pensar duas vezes.
Levantou-se, deu o dinheiro e recebeu o pequeno re-
volver em troca. Enfiou-o no bolso que se avolumou. O ci-
gano afastou-se, todo contente, sem dizer mais uma única
palavra. Xavier voltou a sentar-se. Acariciava a arma com a
mão no bolso, como se ela fosse a sua nova amiga. Apenas
um pensamento lhe enchia a alma e o coração: o suicídio!
Pouco faltava para a meia-noite e Xavier encontrava-se
no Fontelo, ajoelhado frente ao lago dos patos. Rodava a
arma nas mãos, fitando-a seriamente e com ar decidido.
Um pato grasnou, Xavier olhou para ele; estava à sua
frente, atrás da cerca.
— Apesar de estares ai preso, és mais livre que eu; até
tu tens uma vida melhor que a minha.
Puxou a culatra do revólver atrás, olhou em volta, não
viu ninguém; segurando-o na mão direita, pressionou o
cano contra a cabeça, fechou os olhos. O seu dedo já fazia
leve pressão sobre o gatilho quando, surpreendido por uma
voz, se deteve.
— O que pensas que estás a fazer?
O coração do rapaz acelerou-se com a surpresa. Ele ti-
nha a certeza de que não viu ninguém por perto. Segundos
depois, e com a voz trémula, referiu o evidente:
— Não vês?! Vou-me matar! — Disse, abrindo os olhos
sem desviar a arma.
— Se te matares, juro que nunca mais falo contigo. —
Disse a voz calma.


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Xavier virou o olhar em direcção à voz, à sua direita.


Desviou o cano apontado à sua cabeça e baixou o braço. O
homem que lhe falava era alto, tinha cabelo grisalho que lhe
tocava os ombros. Vestia um fato de treino branco. Tinha
um aspecto simpático, calmo, sereno e harmonioso.
— Por que queres morrer? — Perguntou.
— Já não quero viver!
— Não queres viver porquê?
— Porque já não vale a pena! Todos os que amei, per-
di-os. Morreram ou abandonaram-me. E o pior é que sei ser
minha a culpa. Estou sozinho, não tenho ninguém, é por
isso.
— Meu rapaz, tu não és responsável pela vida dos ou-
tros, muito menos pelas suas escolhas; essa responsabilidade
cabe a alguém superior a ti. Não tens esse poder. Dizes que
não vale a pena viver, mas querer morrer não faz sentido.
— Eu já não consigo suportar a vida. Ela abando-
nou-me, não eu a ela! Eu não vivo, nem sequer sobrevivo,
apenas me arrasto na lama. Sou como a merda que se igno-
ra. E já chega de viver assim.
— Concordo, já chega de viveres assim, mas, ouve-me
bem e acredita, pois só conheço a verdade. Sobreviveste até
agora, de um dia para outro, um dia de cada vez. Por ti pró-
prio, por mais ninguém. Faz-te um favor e arrasta-te mais
uma vez, arrasta-te até amanhã. Garanto-te que não vive-
rás mais assim, não imaginas quem serás. Se, depois, ain-
da achares que não vale a pena… mata-te! Mas espera pelo
amanhã.
— Mas… Quem és tu? — Perguntou confuso.
— Dá-me a arma! — Ordenou estendendo a mão.


  

Xavier ergueu-se, ficando cara a cara com o desconhe-


cido. Sem saber porquê, fez o que ele pediu e entregou-lhe o
revólver. O homem sorriu e disse:
— Amanhã, Xavier. Amanhã!
Depois, desapareceu por entre o mato, envolvido de es-
curidão. Xavier ficou lá mais alguns minutos, de pé, pasmado
no nada, confuso e incrédulo com o que acontecera. Aquela
pessoa estranha que surgiu da noite salvara-lhe a vida.
Pouco depois, Xavier enfiou-se no banco de trás do
carro, cobriu-se e tentou adormecer, mas a palavra “ama-
nhã” ocupava-lhe o pensamento, bem como a incompreen-
são de como aquele desconhecido sabia o seu nome. Não
encontrou respostas. Por fim, lá adormeceu.
Eram cerca das dez e um quarto da manhã quando Xa-
vier entrou no Sports Bar. Não era normal ir tão cedo, mas
uma força desconhecida o levou a fazê-lo. Enquanto se sentava,
de costas viradas para a entrada, Marisa aproximou-se e disse:
— Bom dia, Xavier! Hoje vieste cedo. Queres peque-
no-almoço?
— Olá, Marisa. Não, traz-me só um café. — Pediu.
Daquela vez não recebeu os habituais cumprimentos
cruéis, pois Vanessa e as suas amigas não estavam lá; decer-
to estariam nas aulas.
Marisa trouxe-lhe o café. Ele pediu-lhe um cigarro,
ela deu lho, tomou o café e fumou o cigarro. Depois ficou
pasmado a olhar para nada, simplesmente à espera, porém
não sabia de quê.
Só lá estavam mais dois grupinhos de amigos que con-
versavam e tomavam o pequeno-almoço, antes de irem para
as aulas.


 

Um homem de fato entrou no bar, olhou em volta. Tra-


zia uma pasta preta na mão. Viu Marisa e dirigiu-se a ela.
— Bom dia. — Disse. — Sabe dizer-me onde o Xavier
Pernet se encontra?
— Bom dia. É aquele que está ali sozinho. — Disse,
indicando o pobre rapaz.
— Ah! Já o vi. Obrigado, menina.
O homem dirigiu-se à mesa do Xavier, puxou uma ca-
deira e sentou-se, dizendo em alívio:
— Até que enfim que te encontro! Já te procuro há
mais de uma semana!
— Quem é o senhor?! — Perguntou surpreendido.
— Peço desculpa! Chamo-me Alvim, sou advogado. —
Apresentou-se, esticando a mão e cumprimentando o jovem.
Alvim era um homem com boa apresentação. O cabe-
lo espesso e penteado com risco ao lado já começava a ficar
grisalho junto às têmporas. Olhos escuros, mas honestos.
Encorpado, de ombros largos, vestia um fato cinzento com
camisa branca e gravata preta. Tinha um ar simpático e o
seu sorriso galante inspirava confiança.
— Advogado?! O que é que me quer? — Perguntou
sem ter ideia do que o esperava.
— Trago-lhe boas notícias! — Revelou o homem a sorrir.
— Ai é?! Boas notícias? Isso ainda existe? — Pergun-
tou num tom ligeiro de sarcasmo.
Alvim sorriu. Pousou a pasta preta sobre a mesa e
abrindo-a. Retirou dela uma folha de papel que fitou por
alguns segundos. Xavier mirava-o, desconfiado.
— O senhor conheceu a condessa Josephine Des-
Champ? — Perguntou, olhando seriamente para ele.


  

— Nunca ouvi falar! — Respondeu, confuso com a


pergunta, semicerrando os olhos com ar indignado.
— Pois parece que a senhora o conhecia a si.
— Não estou a perceber!
— A condessa DesChamp é francesa, veio para Por-
tugal após a morte do marido, não tinha filhos. Eu sou o
advogado dela. Morreu há quase duas semanas, mas sem
deixar herdeiros à sua fortuna. Dias antes de falecer, como
último pedido, encarregou-me de procurar o rapaz simpáti-
co que a ajudara a erguer-se quando sofreu uma queda no
parque Aquilino Ribeiro, aqui ao lado, o único dos espec-
tadores que não se riu a que a ajudou. Um rapaz que dava
pelo nome de Xavier Pernet e cuja irmã morreu atropelada
nesse mesmo dia, poucos minutos depois de ajudar a senho-
ra. Você é o Xavier Pernet? Não estou enganado?
— Não, não está, é tudo verdade — Disse tristemente.
—. Mas não entendo por que razão mandou procurar-me.
— Pelo simples facto de que ficou comovida. De certa
forma, achou-se culpada pela morte da sua irmã. Se você
não a tivesse ajudado talvez a pequena ainda estivesse viva.
A culpa não lhe abandonava o coração, sabia que nada pode
compensar a morte de alguém amado, ainda menos a de uma
criança pequena. Achou mister à sua paz de alma ajudá-lo a
si, dar-lhe um pequeno conforto, razão pela qual o seu nome
é o único a constar no testamento que me confiou. — Expli-
cou, comovido com as suas próprias palavras.
— Testamento?! Mas que… Não estou a perceber.
— Xavier, a condessa era muito rica. Deixou-lhe toda
a sua fortuna, fê-lo em consciência, procurando alguma paz
na morte. Xavier, você está rico!


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— Estou o quê?! Mas… não… não pode ser verdade,


é gozo! Você está a brincar comigo, está a ser cruel. Quem
lhe pediu para fazer esta brincadeira? — Disse, confuso, de-
veras confuso.
— Não estou, Xavier! É verdade, veja. — Garantiu
entregando-lhe a folha que segurava nas mãos.
Xavier agarrou o testamento e leu-o, espantado, incré-
dulo, com os olhos bem abertos. O coração palpitava-lhe
forte no peito ao ver que, afinal, o que lhe disse Alvim era
muito verdade. Ele gaiou levemente dizendo:
— Meu Deus! O meu anjo tem o seu lugar especial no
céu, de lá olha por mim!
— Como disse? — Perguntou Alvim, não ouvindo as
palavras do jovem.
— Nada, nada! É difícil acreditar, no entanto vi o tes-
tamento.
— Acredita, Xavier, é muito real.
A vida de Pernet acabava de mudar radicalmente; de
um pobre vagabundo roto passara a príncipe rico. Custou a
refazer-se daquela inegável verdade. O seu corpo ainda tre-
mia de surpresa e, estupefacção!, quando Alvim disse:
— Vamos, Xavier, vamos sair daqui e fazer de ti um
homem rico.
Xavier devolveu o testamento ao advogado que o guar-
dou novamente na pasta. Levantaram-se. O homem pagou
o café do rapaz. Marisa ficou pasmada a vê-los sair juntos,
alheia ao que acabava de acontecer ao miserável, que deixara
de o ser em poucos minutos.
Almoçaram no Solar Verde Gaio (onde o receberam
bem, apesar do seu aspecto) e o resto da tarde foi passa-


  

da num barbeiro, onde Xavier recebeu um corte de cabelo


fazendo-lhe uma hidratação para tirar aquele aspecto em-
pastado; lá desfizeram a sua barba grossa de quinze dias, fi-
cando com a pele macia e radiosa. Depois, visitaram várias
lojas de roupa para homem e Alvim acabou por pagar um
fato da sua escolha ao novo-rico.
Nessa noite, Xavier dormiria no hotel Monte Belo.
Alvim havia-lhe reservado um quarto. Depois teve que ir
ao Porto tratar de outros assuntos. Combinou com Xavier
encontrarem-se no hotel às seis da tarde do dia seguinte.
Pela primeira vez em dois anos, o pobre rapaz dormiu
numa cama confortável ao invés do banco de trás de um
carro gelado. Deitou-se na cama, cobrindo-se até ao queixo
com os lençóis brancos que exalavam um agradável odor
fresco e de lavado. Ajeitou a fofa almofada e inspirou fun-
do o cheiro suave dos lençóis. Confortável, aconchegado
e quente, adormeceu rápido e sem dificuldade. Uma vida
nova, uma vida de sonho aguardava-o.
Era cerca do meio-dia quando um belíssimo rapaz
transpôs as portas de vidro do Sports Bar. Os olhares femi-
ninos colaram-se àquele deus grego que chegava do Olimpo
para regalar as vistas das raparigas que viam nele feições ex-
tremamente agradáveis. Os olhares seguiram-no até se sentar
só a uma mesa. Xavier estava com um aspecto deveras agra-
dável e apresentável, bem diferente do dia anterior. O fato
cinzento-claro que vestia sobre uma camisa branca, adorna-
da na gola com uma gravata, igualmente cinzenta, davam-lhe
um ar galanteador. Os olhos vermelhos e as olheiras roxas
tornaram-se quase imperceptíveis após a noite bem dormi-
da. O seu cabelo lavado e sedoso, a sua barba desfeita foram


 

o suficiente para lhe transformar o aspecto desleixado num


outro completamente oposto, muito galante e atraente.
Vanessa e as amigas estavam lá, sempre à mesma mesa
redonda. Admiravam a sua beleza e a víbora disse:
— Aquele gajo é todo bom! Nunca o tinha visto por
aqui.
— Podes crer, é lindo! — Disse uma.
— E aquele corpo? Que sonho! — Disse outra.
— Tenho de saber quem é! — Decidiu Vanessa.
Rasgou uma folha do seu caderno de capa preta, pegou
numa caneta e nele escreveu. Chamou a Marisa e, quando
esta se aproximou, disse:
— Olha, faz-me um favor: entrega isto àquele bonitão.
Marisa pegou no papel e foi atender o belo desconhe-
cido.
— Boa tarde. Vai querer alguma coisa?
— Olá, Marisa. Queria um prego no prato. E um
fino.
A rapariga pareceu surpreendida por ele saber o seu
nome. Depois lembrou-se que o exibia num crachá que tra-
zia ao peito e não fez caso. Xavier sorriu ao aperceber-se de
que ela não o reconhecera.
— Peço desculpa. Aquela rapariga loira pediu-me para
lhe dar isto — Disse ela, apontando para Vanessa, e entre-
gou-lhe a folha dobrada.
— Obrigado. — Disse. E Marisa foi atender outros
clientes.
Era hora do almoço, havia muita gente no bar e Mari-
sa via-se em dificuldade, mesmo estando lá outros dois em-
pregados.


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Xavier desdobrou o papel e leu-o:

“Acho-te muito giro! Não te queres vir sentar ao pé de nós?


Não mordemos! Como te chamas? Vá, vem lá, estamos muito inte-
ressadas em conhecer-te melhor. Olha que sou muito simpática.”

Xavier olhou para elas e sorriu; ficaram todas conten-


tes. Tirou uma caneta do bolso da camisa, virou a folha, es-
creveu qualquer coisa no verso e voltou a dobrá-la. Entretan-
to, Marisa trouxe-lhe o almoço e ele aproveitou para pedir:
— Já agora, não te importas de devolver isto à Vanessa.
— Não, não me importo — Disse, surpreendida por sa-
ber o nome da loira. Se calhar estava no bilhete, pensou ela.
Pegou no papel e deu-o à Vanessa que sorriu ao rece-
bê-lo. Mas o sorriso depressa se desvaneceu ao lê-lo:

“Achas-me giro?! Antes chamavas-me feio. Tu és tudo menos


simpática. Nunca quiseste saber se as tuas palavras me magoavam
e agora queres conhecer-me?! És realmente cínica! Pensas que por
vestir um fato, cortar e pentear o cabelo, desfazer a barba e tomar
um banho faz de mim uma pessoa diferente? Não faz! Continuo a
ser eu, o mesmo, sempre. Queres saber o meu nome?! Mas já sabes,
foste tu quem mo deu! Para ti vou ser sempre aquele miserável
com quem tu gozavas. Vou ser sempre o feio Vagabundo.”

Vanessa amarrotou o papel e saiu do bar a correr, en-


vergonhada, para espanto das amigas que não perceberam o
porquê daquela reacção.
Xavier almoçou serenamente. De vez em quando,
olhares de luxúria chegavam até ele. Esperou ver Mónica,


 

mas ela não apareceu. Levantou-se e pediu a um grupo de


amigas se lhe dispensavam uma folha. Uma rapariga simpá-
tica arrancou uma do caderno e deu-lha sorrindo, corando
ligeiramente. Ele agradeceu e voltou ao seu lugar, estendeu
a folha sobre a mesa, pegou na caneta e escreveu:

“Éramos bons amigos, eras a minha única amiga e aconte-


ceu o que mais temia: perdi-te. Ou, talvez, perdemo-nos, mas sei
que a culpa foi minha. Apesar de tudo, o que passámos juntos, de
todas as nossas conversas e todo o apoio que me deste, acabei por
te afastar; é do que, neste momento, mais me arrependo e que me
dá um aperto no coração. Apesar de teres traído a confiança que
tinha em ti, vou recordar sempre a amizade que me deste. Nunca
esquecerei o que fizeste por mim e, daqui a muitos anos, quando
já for um velho e estiver numa cama prestes a morrer, um dos
meus últimos pensamentos irá para a pessoa que, outrora, foi a
minha melhor amiga.”

Acabou de escrever, dobrou o papel, ergueu-se e foi


pagar. Depois, fez um último pedido à simpática Marisa:
— Faz-me um favor: juro que não te peço mais ne-
nhum. Sabes quem é a Mónica? Costuma, agora, estar com
a Vanessa.
— Não tem problema. Sim, conheço a Mónica.
— Quando a voltares a ver, dá-lhe isto, por favor.
— Está bem! — Disse, agarrando o papel que Xavier
lhe confiou.
Ele já ia a meio da saída quando Marisa se lembrou de
perguntar:
— De quem lhe digo que é?


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Sem se voltar, estando de costas voltadas para ela, ape-


nas respondeu:
— Do Xavier!
Saiu e ela ficou pasmada, com ar surpreso, a vê-lo de-
saparecer pela rua São João de Deus. Nunca mais voltaria
ao Sports Bar.
Ainda faltavam um par de horas para o reencontro
com Alvim no hotel. Parou numa florista onde comprou
um ramo de margaridas. Pouco depois, entrava no cemité-
rio de Viseu. Dirigiu-se à campa da Clara, frente à qual se
pôs de cócoras, segurando o ramo entre as mãos.
— Olá, meu anjo. Já não te via há muito tempo. Tenho
muitas saudades tuas, da tua carinha alegre, do teu sorriso
lindo que me tocava a alma e me dava vida. Olha para mim,
de fato! Não está bonito o teu mano? Eu sei que me vês e
ouves. Amo-te muito, minha linda, fazes-me tanta falta. Eu
sei que velas por mim do teu, tão desejado, lugar especial no
céu e que Deus te deu. Sabes, maninha, já não estou zangado
com Ele! Sei que Ele te deixa ver-me, isso dá-me algum con-
forto. Oh, minha linda, porque tiveste de deixar-me sozinho?
Viver não tem sentido sem ti! Sei que o teu coração é puro e
bondoso, sei que ficavas muito triste e envergonhada de mim
se o teu mano não tivesse ajudado aquela senhora levantar-se
do chão. Ela deu-me muito dinheiro, mas acho que tu já sabes
isso. Vou usá-lo para ajudar todas as pessoas que conseguir, as
crianças em especial. Assim, o teu toque estará em todos os
gestos bondosos que eu fizer; assim, sentir-te-ei viva na minha
alma. Eu sei que é isso que tu queres, por isso vou fazê-lo por
ti, meu anjo. Vai ser a minha razão de viver: ajudar os outros
em tua honra, em nome da tua inocência, pureza e bondade


 

carinhosa. Vou fazê-lo, porque tu me deste essa oportunidade,


salvaste-me, sei que salvaste! Foste tu quem mandou aquele
homem na noite em que tudo ia acabando, disseste-lhe o meu
nome. Foste tu, não foste? Sei que sim! Senti a tua generosi-
dade nele. Oh!, meu anjo, vou sentir para sempre a tua falta,
mas sei que olhas por mim e que vais estar comigo. Eu sei-o!
Sinto-o no meu coração! Vou tentar ser o melhor homem que
conseguir, fazer o melhor que puder. Sei que é esse o teu dese-
jo e quero que te orgulhes de mim. Amo-te tanto, meu anjo!
Não me leves a mal se nunca mais te vier visitar neste lugar
desolador. É apenas porque quero pensar em ti como um anjo
que olha por mim do céu e não recordar-te como corpo de-
composto sob uma lápide de mármore. Eu sei que não levas a
mal. Adeus, meu anjo, estarás sempre comigo.
Xavier tirou duas margaridas do ramo e pousou as
restantes ao fundo da campa do seu anjo. Ergueu-se, foi à
campa do pai e lá deixou uma margarida.
— Adeus, pai!
Dirigiu-se à campa da mãe e lá deixou a outra flor.
— Adeus, mãe!
Estava na hora de se encontrar com Alvim no hotel. Saiu
do cemitério e aquela terra nunca mais foi pisada por seus pés.
Ainda com vinte anos, Xavier já morava na sua casa
em Gouveia, já tinha Pedro como mordomo e amigo, já ti-
nha feito muitas coisas boas e ajudado muita gente. Com-
prou um hotel, depois outro e mais outro. Fez-se ainda mais
rico e assim ajudou muito mais gente.
Ganhou o hábito de ir de Gouveia a Viseu, de modo
a ir a um bar qualquer na zona da Sé; podia bem com a
despesa, dinheiro já não era problema. Costumava sentar-se


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sempre no mesmo lugar frente ao balcão de madeira. O seu


aspecto galante não passava desapercebido aos olhares fe-
mininos que lhe devoravam o corpo bem feito. Frequentava
aquele sítio, quase todas as noites. Inevitavelmente desper-
tou o interesse de uma bela rapariga que também tinha por
costume ir lá todas as noites com as amigas.
Estava deveras interessada nele. Os seus olhos não se
desviavam dele por mais que um minuto, com medo de o
perder de vista. Costumava comentar com as amigas que o
achava lindo, elas concordavam.
Numa noite, após Xavier ter abandonado o bar, ela foi
ao balcão e falou com a empregada que se encontrava atrás:
— Sabes quem é aquele homenzarrão que costuma es-
tar aqui sentado?
— Não sei. — Respondeu a empregada loira e alta de
olhos verdes.
— Mas sabes o nome dele? — Insistiu.
— Não faço a mínima ideia. Ele fala pouco. Tem uns
olhos sempre tão tristes. E ele é tão bonito! Vem sempre sozi-
nho, chega por volta das vinte e uma, bebe um ou dois finos,
depois sai por volta da meia-noite. As únicas palavras que
ouço dele é quando pede o fino e diz “obrigado”, numa voz
tão triste. — Explicou, com as mãos apoiadas no balcão.
— Então, não sabes nada dele?
— Nada mesmo.
— Hum! Um homem misterioso. Que bom! — Co-
mentou, passando a língua pelos lábios secos. Depois, vol-
tou para junto das amigas.
— Descobriste alguma coisa, Márcia? — Perguntou
uma delas, sorridente.


 

— Não, mas vou descobrir. Amanhã falo com ele. —


Respondeu decidida.
— Não te preocupes, tu consegues sempre aquilo que
queres — Disse outra.
A Márcia era, de facto, muito atraente. Vistosa, de ca-
belo liso e negro cujas pontas lhe focavam os ombros, olhos
escuros e grandes que chamavam a atenção. Alta e magra,
vestia sempre roupas que lhe contornavam o corpo curvo e
que atraía olhares de desejo dos homens. Tinha um não sei
quê de sedução natural que a tornava ainda mais provocan-
te e sensual. Movia-se lentamente e ligeira, como um gato
que se aproxima sorrateiramente da sua presa.
Na noite seguinte, Márcia estava sentada a uma mesa
com as amigas, quando viu Xavier entrar e sentar-se ao bal-
cão. Ela não perdeu tempo, levantou-se, dizendo às amigas:
— Eu já venho.
Caminhou em direcção ao rapaz, puxou um banco
alto e sentou-se ao seu lado, frente ao balcão. Olhou para
ele com um sorriso, ele olhou-a surpreendido.
— Desculpe, não costumo fazer isto, mas vejo-o aqui
todos os dias… Tem sempre um ar tão triste. Eu sou a Már-
cia.
— Eu sou o Xavier. — Apresentou-se, com um sorri-
so.
Cumprimentaram-se com dois beijos no rosto.
— Achas mesmo que tenho um ar triste?
— Sim, existe alguma coisa que eu possa fazer para
que te sintas melhor, Xavier? — Perguntou, fitando-o mei-
gamente.
— Existe… Podes fazer-me companhia — Revelou.


  

— Isso é fácil. — Assegurou a rapariga.


Xavier sorriu e perguntou:
— Também costumas cá vir todas as noites?
— Sim, venho com as minhas amigas. Aliás, podias
vir fazer-nos companhia.
— Está bem. — Acedeu, sorrindo.
Durante as semanas que se seguiram, ele passou a
encontrar-se com Márcia e as amigas. Conversavam sobre
tudo: a vida, o mundo, as coisas bonitas que existem, a ami-
zade, a morte, enfim, sobre tudo.
Márcia costumava fazer-lhe festinhas na cara e falar
com ele meiga e suavemente. Ele sentia-se bem a seu lado e
o inevitável acabou por acontecer: apaixonara-se por ela.
Numa noite eterna, ele levou-a à sua casa em Gouveia.
Foram em carros separados. Entraram pela garagem. Pedro já
dormia. Foram para o seu quarto preto e branco. Beijavam-se,
despiam-se lentamente, sentindo o suave toque do outro no cor-
po nu; uniram-se num amor terno e meigo, cheio de paixão.
Ficaram abraçados sobre os lençóis macios, ela com a
cabeça deitada sobre o peito nu der Xavier.
— Oh!, Xavier, acho que te amo! Nunca conheci nin-
guém como tu, tão doce e meigo. Tu completas-me e sabe
tão bem estar contigo. És tudo o que sempre sonhei para
mim. És lindo, sabias? Quero ficar contigo para sempre,
nunca te vou deixar.
— Oh, Márcia, és tão querida comigo, penso que não
te mereço. Amo-te.
E beijou-a na testa.
Na manhã seguinte, Márcia levantou-se. Xavier ainda
dormia, vestiu-se e murmurou-lhe:


 

— Desculpa-me, Xavier, não merecias isto. És diferen-


te dos outros.
Saiu da casa e partiu para Viseu no seu carro, que fi-
cara à porta.
Xavier passou o dia inteiro a lembrar-se da noite ante-
rior. Sentia-se apaixonado e feliz, ansioso para que a noite
voltasse e fosse hora de ir ter com ela.
A noite chegou por fim. Ansioso, Xavier abriu a porta
do bar, esperando ver a sua paixão. Entrou, mas ficou pas-
mado a olhar incrédulo um quadro dantesco: Márcia estava
sentada ao colo de outro rapaz, beijando-o sofregamente,
segurando-lhe a cabeça entre as suas mãos perversas. O co-
ração de Xavier quase parou ao deparar-se com aquela cena;
não conseguia perceber se era real ou cruel imaginação.
Caiu em si. Infelizmente, o que via era bem real. Márcia
nem chegou a vê-lo. Tornou a sair, não soltando uma única
lágrima, já não era capaz. A única coisa que sentiu foi de-
solação. Não esperava ver aquilo, ficou confuso, não con-
seguia entender. Ainda na noite anterior lhe fizera juras de
amor e agora estava com outro; não compreendia as razões,
mas rapidamente deixaram de lhe interessar. O inexplicá-
vel não tem explicação em si. Fora traído novamente por
uma mulher e a única coisa que passou a considerar delas
é que eram todas iguais: indignas de confiança. Naquele
momento, o seu coração fechou-se; não deixaria entrar mu-
lher alguma. Encerrou-se aos sentimentos da paixão e aos
amores, não iria permitir-se magoar de novo por uma mu-
lher. Os seus medos cresceram ainda mais: o medo de amar
para depois perder encarcerou-lhe o espírito e a alma aos
intensos sentimentos de prazer. Novamente sofria. Cada vez


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mais se convencia de que perdia todos os que amava, fosse


pela morte ou nojenta traição. Nunca mais acreditaria nas
palavras carinhosas de uma mulher, nas promessas que elas
lhe pudessem fazer, nem mesmo no amor. A tristeza domi-
nava-o novamente e o medo de voltar a confiar. A partir
daquela altura começou a enclausurar-se no seu escritório,
horas, dias, sem contacto com o mundo exterior que o ma-
goara. Pedro tentava animá-lo o melhor que podia; umas
vezes conseguia, outras não. Umas vezes, Xavier até andava
bem, mas a maior parte dos dias estava em baixo, desola-
do, fechado no seu refúgio, com álcool, tabaco e livros a
fazerem-lhe companhia. Estava zangado com a vida, não
compreendia a crueldade e o ódio que esta lhe tinha. Pernet
era um homem despedaçado por um passado miserável. Era
rico, mas, nem por isso, feliz.
Pobre Pernet! Tanto dinheiro e nenhuma riqueza!


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Capítulo 7
— O Serão —
Faltava meia hora para o início do aguardado jantar
quando um Audi A3 cinzento parou à porta da casa de Per-
net e dele saiu uma jovem. Ouviu-se tocar à campainha e
Pedro foi abrir a porta.
— Ah! Boa noite, menina Clarisse. Como está? —
Perguntou sorrindo.
— Vou bem, Pedro, obrigado.
— O senhor Pernet está no escritório. Pode subir me-
nina.
— Então vou lá ter com ele.
Pedro sorriu, fechou a porta e Clarisse subiu a escada-
ria em direcção ao escritório.
Pernet lia atentamente o seu Les Miserables quando se
sobressaltou com um bater na porta.
— Podes entrar — Disse.
Clarisse entrou, no seu ar deslumbrante e radioso. Ilumi-
nou o escritório e os olhos de Pernet. Este levantou-se rapida-
mente e, cumprimentando-a com dois beijos no rosto, disse:


  

— Já chegaste? Que bom ver-te, Clarisse. Estás linda.


— Obrigada, Xavier, desculpa vir mais cedo. Queria
falar contigo.
— Não faz mal nenhum! Até agradeço que sejas a pri-
meira dos convidados que eu veja.
Ela estava linda no seu vestido de noite branco e com-
prido de alças, muito decotado, coberto por um pequeno
casaco de malha preto. O cabelo caía-lhe solto e livre sobre
os ombros, os seus olhos faiscavam um brilho acolhedor e
sedutor em que Pernet não deixou de reparar, sentindo um
calor percorrer-lhe o corpo.
— Tomei a liberdade de telefonar aos convidados para
confirmar os que viriam. Espero que não te importes. —
Explicou meigamente.
— Claro que não! Até agradeço, não me tinha lembra-
do disso.
— O senhor e a senhora Castro recusaram o convite.
O presidente da câmara e a esposa já tinham um compro-
misso prévio e não podem vir. Os restantes vêm todos.
— Ah! Obrigado, Clarisse, pela atenção.
— Há ainda outra coisa que te queria dizer.
— Sim? O quê?
— O juiz Paulo Martins é muito meu amigo. Conhe-
ce-me desde criança, gosta muito de mim. Na semana pas-
sada, cruzei-me com ele e falei-lhe do teu caso. Ele achou
tudo muito estranho, porque já alguém tinha falado com
ele a teu respeito. Falando-lhe das desconfianças que tinha
por ti, assegurou-lhe que conseguiria provas em relação a
isso. Enviou-lhe uma carta, que eu li, e que compromete a
pessoa que a enviou, pois o que li eram mentiras. Essa carta


 

está na minha posse. O juiz cedeu-ma por achar tudo muito


estranho! — Explicou ela.
— Não estou a entender, Clarisse! Tens uma carta
comprometedora?
— Sim, Xavier, já descobri o responsável pelos boa-
tos.
— Já?! Mas isso é óptimo! Quem é, Clarisse? Diz-me
o nome desse canalha!
— Calma, Xavier. Direi durante o serão, na presença
do juiz e do jornalista Marco Pereira. Quero ver se ele tem
coragem de negar. É perfeito! O Marco pode publicar um
desmentido após ouvir por ele próprio que não passam de
boatos e mentiras.
— Muito bem, Clarisse. Esperarei! Apenas quero ver
isto resolvido o mais rápido possível.
— Não te preocupes! Não vai passar da noite de hoje.
— Assegurou.
— Oh, Clarisse, obrigado, obrigado por tudo! —
Agradeceu, dando-lhe um beijo carinhoso na face. Clarisse
sorriu ao recebê-lo, aqueceu-lhe a alma e o coração.
O jantar começou. Já todos os convidados se encon-
travam sentados à mesa após terem sido feitas as apresenta-
ções entre eles e anfitrião.
Na lista que Clarisse elaborara, os convidados eram
todos personalidades conhecidas e influentes da sociedade.
O juiz Paulo Martins, amigo da Clarisse; o jornalista e es-
critor Marco Pereira; o professor de história na Universida-
de de Aveiro e conhecido historiador João Nogueira; o casal
Monte Branco, donos de uma companhia petrolífera, muito
endinheirados, e claro, Ricardo.


  

Os homens estavam praticamente vestidos de maneira


semelhante: de fato e gravata.
A mesa estava elegantemente posta na sala de jantar.
Era um vasto espaço de paredes brancas repletas de qua-
dros que evocavam o espírito triste de Pernet. Focos de luz
espreitavam do tecto de madeira e iluminavam os copos de
cristal.
Primeiro foi servida a sopa de cenoura por Isabel e Pe-
dro. Depois, seguiu-se um requintado polvo assado.
O jantar decorreu normalmente, com as habituais
conversas fúteis e desinteressantes.
Já tinham acabado de comer, quando a conversa levou
um rumo inesperado:
— O senhor é um homem religioso? — Perguntou a
senhora Monte Branco a Pernet.
Ela era muito composta. O seu cabelo escuro pentea-
do elegantemente, o vestido vermelho que trajava assentava
bem no seu corpo pouco interessante.
— Bem. Creio que sim e que não, ao mesmo tempo.
— Como assim? — Perguntou, confusa.
— Tenho as minhas crenças religiosas, mas que não
vão totalmente ao encontro da religião católica. Misturo as
minhas crenças com os meus ideais filosóficos e de vida. —
Explicou.
— Ora, senhor Pernet, ou se é religioso ou se não é!
Eu sou devota. — Confessou.
— Diga-me uma coisa, senhora Monte Branco: você é
a favor ou contra o aborto?
— Sou a favor! A mulher tem o direito de fazer o que
bem entender com o seu corpo. É uma liberdade básica.


 

— Então, veja bem. Sabe que a sua igreja condena o


aborto e, no entanto, é a favor. Nesse prisma, você também
conjuga a religião com os seus ideais. — Explicou.
A senhora Monte Branco ficou alguns segundos em
silêncio e com ar pensativo até que disse:
— Parece-me que tem razão. Nunca tinha visto isso
dessa forma.
— Obrigado, senhor Pernet! — Disse o marido, agi-
tando o bigode negro. — Há muito que tento explicar à mi-
nha mulher que a igreja não pode impor-nos a vida que ela
considera digna; muitas vezes não o é, de todo. Quando eu
era jovem, lembro-me de uma certa aula de catequese que o
padre Aurélio nos deu. Apanhei-lhe tamanha raiva quando
ele afirmou uma frase de que nunca me hei-de esquecer. Ele
disse: “Se não vives para servir, não serves para viver.” É
uma frase tão ilógica. Ninguém me diz o que posso ou não
fazer, o que é ou não correcto; isso depende da maneira de
pensar de cada um. Fazemos e seguimos as regras que nos
parecem mais humanas. Para mais, eu só me sirvo a mim e
até tenho vivido bem. Não concorda, senhor Pernet?
— Totalmente. Nascemos livres. Não creio que a igreja
nos possa ditar a forma como levamos a nossa vida. Tenta
retirar-nos o que é nosso por direito: a liberdade de pensar e
acreditar no que quisermos. É verdade que acredito em Deus,
mas não na “igreja” que dizem ser construída em Seu nome.
Dizem que matar é pecado e executaram milhões de inocen-
tes durante a inquisição, simplesmente porque as suas ideias
não eram as da igreja. Não tem lógica! É o que eu penso.
— Que acha o senhor doutor juiz? — Perguntou a se-
nhora Monte Branco.


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— Por favor, tratem-me por Paulo. Não estamos no


tribunal. Eu não sou um homem crente, por isso não tenho
opinião formada acerca desse assunto; não me interessa.
Mas é verdade que vivo segundo os meus próprios códigos
morais e éticos. — Explicou.
O Paulo era um homem culto. Via-se na sua face só-
bria e enrugada; tinha uns olhos inteligentes e a fronte calva
e grisalha.
— Essas questões provocam-me dor de cabeça, não
gosto de pensar nisso. — Disse o inoportuno Ricardo, fa-
zendo uma careta de enjoado. De qualquer maneira, ele não
possuía a capacidade de pensar nisso.
— Eu julgo que essas crenças dependem somente do
pensar de cada um, das experiências que já teve. Varia de
indivíduo para indivíduo, não é algo exacto. — Opinou o
jovem jornalista e escritor, ajeitando o curto cabelo loiro.
— Tem muita razão! Por isso não me tenho no direito
de criticar quem tenha crenças diferentes das minhas. Se-
nhor Pernet? O nome Pernet é francês? — Perguntou a se-
nhora Monte Branco, mudando o assunto da conversa, com
um ar curioso.
— Sinceramente, não faço ideia. Não sei de onde sur-
giu este nome de família. Os meus avós eram todos portu-
gueses. — Responde.
— Não se vê logo que é francês!? — Impôs o barrigu-
do Ricardo.
— Por acaso, não é. Na verdade, é bem português. —
Corrigiu o professor de história, compondo os óculos.
João Nogueira era um homem deveras alto e encor-
pado; a sua voz ruça e grossa impunha respeito. Olhos pe-


 

quenos e sérios atrás de óculos grossos revelavam inteligên-


cia e sabedoria no brilho castanho que emanavam. Cabelo
comprido e escuro que segurava atrás das orelhas grandes
mostrava que era um homem preocupado com o aspecto.
Pudera! Tinha que enfrentar um batalhão de estudantes to-
dos os dias! Não lhes podia dar razões para fazerem troça
da sua aparência.
— Teria mais sorte se tivesse nascido na França! Este
país está uma miséria. Ainda há quem pense que somos
uma província de Espanha. Aqueles que conhecem a nossa
existência como país, apenas o sabem pelos piores motivos.
Somos conhecidos pelo nosso lugar de destaque em todas as
listas negras da Europa! Estamos uma desgraça e não vejo
sinais de melhoria. É uma tristeza! — Disse o senhor Monte
Branco, agitando negativamente a cabeça.
— Por favor, meus senhores, não falemos da política
nem do estado do país. Não tornemos este serão aborrecido.
— Aconselhou o juiz.
— Já sei o que pode tornar este serão diferente de tan-
tos outros. Que tal uma história de amor? — Sugeriu o his-
toriador.
— Pelo amor de Deus! Mas quem é que quer ouvir
histórias lamechas! — Disse Ricardo, semicerrando os pe-
quenos olhos de aborrecimento.
— Eu gostaria! — Declarou Clarisse com os olhos a
brilhar.
— Acho uma ideia interessante. — Concordou a se-
nhora Monte Branco.
— Façamos a vontade às senhoras! Elas querem ouvir
uma história. — Pediu o juiz.


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— Muito bem. Para tal, creio que seria mais acolhedor


ouvi-la na biblioteca. — Disse Pernet.
— Sim! Óptima ideia! — Concordou a doce Clarisse,
olhando para Pernet com ar apaixonado.
— Nesse caso, sigam-me. — Pediu ele.
— Vamos, vamos! — Disse a senhora Monte Branco.
Os convidados levantaram-se da mesa. As senhoras es-
tavam ansiosas por ouvir uma história de amor.
Dirigiram-se para a biblioteca. Pernet abriu a porta e
entrou, seguido pelos convidados que ficaram maravilhados
com o tamanho do local. Se o escritório era para Pernet um
paraíso de livros, a biblioteca era a gaveta que o guardava.
As paredes de três metros de altura eram forradas de es-
tantes de madeira carregadas de livros; as do topo só eram
alcançáveis por meio de uma escada de madeira que estava
abandonada a um canto.
Acomodaram-se no grande sofá de couro castanho e
que descrevia um semicírculo à frente da grande lareira de
pedra. O fogo crepitava com chamas vivas que consumiam
os tocos de carvalho com gulosa vontade.
— Então? Quem vai contar a história? — Perguntou
Clarisse ansiosa.
— Creio que seja justo ser o professor. Afinal, foi ele
quem deu a ideia. — Disse o jovem escritor.
O professor ergueu-se e foi encostar-se à saliência de
mármore da lareira. Depois disse:
— Na altura em que eu dava aulas na escola secundá-
ria Emídio Navarro, eu e meus alunos propusemo-nos fa-
zer a cronologia histórica da escola. Como tal, fui até ao
sótão onde estão guardados os registos e deparei-me com


 

uma pequena caixa de madeira, não maior que uma de sa-


patos. Curioso como sou, abria-a. Lá dentro, encontrei um
documento antigo que datava de há duzentos anos atrás.
Estava escrito numa língua que me era estranha. Felizmente
também lá estava uma tradução; não estava assinada, por
isso não sei quem a efectuou. — Explicou, clareando a gar-
ganta.
— E é bonita a história, senhor João? — Perguntou a
senhora Monte Branco.
— De facto, é. E tudo leva a crer que seja verídica. —
Disse.
— Então, conte, por favor. — Pediu Clarisse ansiosa.
Olhavam todos para ele com ares ansiosos. Todos me-
nos Ricardo, que achava aquela ideia ridícula.
— Então, vou começar. No cimo da folha traduzida
lia-se “Pequeno Tigre”. Creio que seja esse o título da histó-
ria. Aconteceu num tempo longínquo; já não existia memó-
ria, apenas um registo. Passaram duzentos longos anos des-
de que foi escrita, resistindo numas frágeis folhas de papel.
Numa pequena ilha, perdida e olvidada por Deus no meio
de um imenso oceano desconhecido e sem nome, deambula-
va pelas margens areosas e douradas uma lindíssima e ainda
jovem índia. Caminhava descalça sobre areia aquecida pelo
sol, colhendo conchas coloridas, que hoje já não se encon-
tram tão belas, com a intenção de fazer para si um simples,
mas deslumbrante, colar. Nesta procura intensa, embrenha-
da nos seus pensamentos e apenas com o grito silencioso do
morrer das ondas a fazerem-lhe companhia, ela despertou
para um objecto que reluzia com o sol: era um pequeno ces-
to de vime. Encaminhou-se na sua direcção e a cada passo


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que avançava ouvia mais claramente um gemer sereno. Pros-


trou-se junto do cesto, dominada por uma indecisão avassa-
ladora, até que reuniu coragem e retirou a tampa. Os olhos
dela ganharam novo brilho ao aperceber-se de que, no seu
interior, embrulhado num pano branco, se encontrava uma
criança, um bebé de pele branca e com breves meses de vida;
dormia serenamente e gemia por causa de algum sonho. Cer-
tamente foi abandonado num gesto cruel por algum navio
que ali passou. Oh!, é impossível explicar como aquela mu-
lher ficou feliz! Sabia que não podia ter filhos e considerou
o aparecimento daquele bebé como uma bênção, uma oferta
dos deuses. Feliz, e sem pensar em consequências, pegou no
cesto e levou-o com a criança coradinha de volta para o seu
acampamento. Aquela decisão mudaria, para sempre, a vida
dela e as do que a rodeavam, para melhor ou pior; mas, se ela
nunca o tivesse feito, ficaria eternamente na dúvida do que
poderia ter acontecido. A índia, jovem e linda, era a mulher
do chefe tribal que, ao ver a cor da criança, se opôs pronta-
mente à presença daquele ser e propôs mesmo o fim à sua
vida. Foi convocado um concelho tribal e os seus constituin-
tes, principalmente o chefe, acreditavam que a vinda daquela
criança branca era uma maldição provocadora da, eventual,
destruição da tribo. Consideravam que aquele ser frágil, tão
pequeno, era um demónio branco. Apesar de tudo, das suas
crenças e medos, o chefe aceitou a criança, pois acima de
tudo adorava a índia, deixando-a ficar com o bebé visto não
conseguir ter um por si. Apesar daquele gesto amável, talvez
o único da sua existência, ele era um homem frio, brutal
e cruel que todos temiam, mas que a índia conseguia con-
trolar com a sua gentileza. Ironicamente, talvez até por ca-


 

pricho de um destino pouco benevolente, a índia viria a ter


um bebé dois anos depois. Chovia intensamente na noite do
nascimento dessa criança. Numa tenda perdida, entre tantas
outras, encontrava-se o chefe, a bela índia e duas velhas que
assistiram ao complicado e perigoso parto. Após uma luta
titânica pela vida, uma linda menina nasceu, para gáudio
da mão que a segurava apartada contra o peito que palpitava
de exaustão. O chefe saiu para anunciar o nascimento e, por
entre a fenda deixada nos panos da tenda, a índia viu um
pequeno tigre que passeava à chuva e que a fitou nos olhos.
A índia chamou para junto de si uma das velhas e murmu-
rou-lhe que a bebé se chamaria “Tigrinha”. Tristemente, foi
a sua última palavra; morreu lentamente, à medida que os
olhos se fechavam, ainda abraçada à menina. O chefe voltou
e, ao vê-la morta, não proferiu uma única palavra, nem uma
pequena lágrima. A velha disse-lhe o nome escolhido pela
mãe. Arrebatou a criança dos braços mortos daquela mag-
nifica mulher, saiu e, com a menina à chuva, elevada acima
da cabeça, proferiu o seu nome. Anos passaram-se, a prince-
sa Tigrinha e o rapaz branco cresceram juntos, brincando,
sorrindo e, às vezes, chorando. Inevitavelmente, quando ela
tinha dezassete e ele dezanove anos, apaixonaram-se. Cons-
cientes de que a sua relação jamais seria aceite, os seus encon-
tros passionais só existiam às escondidas. Por um desígnio
injusto da vida, eles foram vistos, sem se aperceberem, por
uma criança inocente que por ali passou. Correu a contar ao
chefe que logo enviou quem os encontrasse. Os dois aman-
tes aperceberam-se da agitação que vinha ao seu encontro e
conseguiram escapar sem serem novamente vistos. Viveram
meses juntos, em paz, em sossego, na convicção de que esta-


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riam seguros. Num dia cruel, estando eles sentados, abraça-


dos, a verem uma lindíssima queda de água, foram avistados
por um grupo de cruéis mercenários enviados pelo chefe.
Aproximaram-se lentamente, mas o quebrar de um galho
denunciou-os; os amantes tentaram fugir ao aperceberem-se
deles. Correram e correram, mas, num compêndio de azares
e má fortuna, a princesa ficou com o pé preso numa raiz. O
pobre rapaz bem tentou soltá-la, mas em vão. Ela fitou-lhe
os olhos e implorou-lhe que a abandonasse. Ele chorava de
desespero e disse que jamais o faria. Ela respondeu-lhe que,
se o apanhassem, ele seria certamente morto e que não fazia
sentido morrer e deixá-la sozinha num meio que não a com-
preende. Contrariado e desesperado, acedeu ao seu pedido,
deixando-lhe a promessa de que iria reavê-la. Apanharam-na!
Reuniu-se o conselho tribal que a considera culpada de trai-
ção; não obstante ser filha do chefe, sofreria uma pena. O
chefe olhou-a nos olhos, retirou uma faca que trazia à cintu-
ra, agarrou-lhe o pescoço. Quando ela se viu forçada a abrir
a boca, alguém segurou-lhe a língua com uma tenaz dentada
enquanto aquele nojento, que não merece o nome de pai,
lhe cortou a língua num golpe. A pobre não soltou sequer
um gemido, nem uma lágrima. Semanas passaram. Numa
noite chuvosa, o rapaz branco, corajoso e imprudente, foi
ao acampamento. Um pequeno tigre passou por ele; parecia
ter lágrimas nos olhos tristes. O rapaz entrou na tenda onde
dormia o chefe e a Tigrinha, deitou-se ao seu lado; nenhum
dos dois acordou. Rompendo o silêncio da noite, a tribo foi
desperta por um grito assustador que parecia o rugir de um
animal, um grito de desespero e dor. O chefe reparou que
lhe faltava a sua faca. A princesa fitou o pai com ódio, sen-


 

tiu o que tinha acontecido e lágrimas correram-lhe o rosto,


pela triste face. O rapaz branco pensou que, se ela não podia
falar, então, ele também não tinha esse direito. Num gesto
consciente, cortou a sua própria língua com a mesma faca
que silenciou Tigrinha. Mais tempo passou e, numa noite
em que, novamente, chovia, a princesa abriu os olhos su-
avemente e no interior da tenda estava um pequeno tigre
que a fitava com compaixão. O animal saiu e ela segui-o,
sabendo para onde ele a guiava. Levou-a ao rapaz branco e
desapareceu. À medida que os dois se aproximavam, apenas
se olhavam com paixão; deram as mãos e caminharam para
o precipício que dava para o mar. Não houve necessidade de
palavras. Ambos sabiam o que tinha de ser feito. Olharam-se
por breves segundos, deram um último beijo, num derra-
deiro fôlego lançaram-se para a morte, ou talvez para uma
eternidade, juntos. Só Deus o sabe!
A história acabou. Clarisse e a senhora Monte Branco
tinham os olhos humedecidos, comovidos com o triste con-
to. Os homens estavam como que boquiabertos. O silêncio
reinava na biblioteca, enquanto divagavam sobre o que aca-
baram de ouvir.
O silêncio foi interrompido pelos aplausos de Claris-
se.
— É a história mais bonita e triste que já ouvi e que
me há-de ficar para sempre na lembrança.
— Bravo, João! Magnífica! — Elogiou o senhor Mon-
te Branco, dando uns breves aplausos.
— Não foi nada de especial! Já ouvi melhor. — Disse
Ricardo com ar carrancudo, enterrado no sofá, quebrando o
bom ambiente.


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— Ora, Ricardo, que chato! Foi uma bela história e


sabe-lo bem. Não sejas assim! — Disse a Clarisse ainda com
uma pequena lágrima no canto do olho.
— Nem eu me lembraria de história melhor ou mais
emotiva. — Confessou o escritor. — Senhor João, eu gosta-
ria de a publicar; algo assim merece ser lido. O que acha?
— Ah! Sim, que bela ideia! — Concordou a senhora
Monte Branco secando os olhos com um lenço branco que
retirou da carteira de pele.
— Pode ser. — Acedeu João. — O documento merece
ser publicado.
— Está resolvido! Para a semana, entro em contacto
consigo e combinamos melhor. — Disse Marco, com um
sorriso de satisfação.
Pernet olhou para Clarisse. Esta fitou-o após secar os
olhos com as mãos e acenou positivamente com a cabeça.
Ele levantou-se e prostrou-se junto à lareira.
— Meus senhores. Detesto ter que tornar a noite mais
pesada após uma história destas, que o senhor Nogueira
teve a gentileza de partilhar. Infelizmente é necessário.
— Por quem sois, Xavier! — Disse o juiz.
— Como devem saber, têm sido ditas coisas pouco
elogiosas a meu respeito. Em nada correspondem à verdade,
quero deixar isso bem claro! Não passam de boatos infun-
damentados com o único propósito de prejudicar a minha
imagem. Não posso aceitar isso, não posso tolerar que ten-
tem destruir o bem que faço. — Explicou ele com ar sério e
grave, ao lado do João que o olhava compreensivo.
— É verdade, Xavier. Ouvimos já esses rumores. Mas
eu estou ciente da pessoa que o senhor é e conheço bem a


 

sua obra. Também já fui alvo de rumores, razão pela qual


não dei muita importância ao que ouvi. Por mim, pode ficar
sossegado. Quanto aos restantes, não sei. — Explicou o se-
nhor Monte Branco, com olhar compadecido e voz sincera.
— Quem quer fazer uma maldade dessas é verdadeira-
mente condenável! — Disse Ricardo com ar surpreendido,
como se nunca tivesse ouvido os boatos.
Ao ouvi-lo, Clarisse ergueu-se furiosa e, apontando
para ele, gritou:
— Ricardo, seu nojento! Como és capaz de estar aí
sentado como se nada soubesses?! És um falso, um cínico,
um hipócrita, não vales nada! Eu sei que foste tu quem co-
meçou os boatos!
— Que dizes, Clarisse?! Não é verdade! — Disse Ri-
cardo, começando a ficar vermelho e a esforçar um sorriso.
Ficaram todos surpreendidos com aquela explosão de
Clarisse. Todos os olhos se viraram para Ricardo, que se
mantinha imóvel, enterrando-se no sofá que rangeu.
— Seu mentiroso! Eu tenho provas de como foste tu!
— Gritou, segura do que dizia.
— Provas?! Como assim? — Perguntou com ar assus-
tado e surpreso, abrindo muito os olhos.
Clarisse agarrou a sua carteira do chão, abriu-a rapi-
damente e do seu interior retirou um envelope. Abriu-o,
deixando-o cair ao chão. Desdobrou a folha que lá estava e,
segurando-a entre as mãos trémulas, leu-a em voz alta:
— “Caro Senhor Doutor Juiz Paulo Martins. Decerto
está lembrado da nossa conversa acerca do Xavier Pernet e
das minhas desconfianças em relação a ele. Pois bem, tive
a oportunidade de comprovar com os meus próprios olhos


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aquilo que já suspeitava. Estou na Póvoa de Varzim, hospe-


dado no hotel do senhor Pernet. Receio que seja na verda-
de uma fachada para um negócio de prostituição. Nos dois
dias em que já cá estou, passaram por mim vários homens
de negócio com prostitutas de luxo ao braço. Certa vez, fa-
lei com uma delas; confessou-me que o dono do hotel — e
note que ela referiu o nome de Pernet — permitia que elas
lá fizessem o serviço. Ele, além de receber do homem o alu-
guer do quarto, tinha um acordo com aquelas mulheres: re-
cebia ainda uma comissão delas, uma espécie de imposto de
uso do quarto para aqueles fins. Achei por bem informá-lo
da verdade acerca desse homem que é tido em tão boa con-
ta. Escrevo-lhe na esperança de que sejam tomadas medidas
e que esse homem, que se esconde atrás da filantropia, seja
exposto e tenha o que merece. O país não pode tolerar fal-
sos bem feitores.” Está escrito com a tua letra e com a tua
assinatura. Atreves-te a negá-la?
Atirou-lhe a carta à cara. Atrapalhado, Ricardo pegou
nela e passou-lhe os olhos. Os convidados, bem como Xa-
vier, mantiveram-se imóveis, espantados com a verdade que
foi revelada.
— Não, não nego. Escrevi-a eu. — Confessou com ar
zangado.
— Que vergonha, Ricardo! — Disse a senhora Monte
Branco, com olhar reprovador.
— Por que o fizeste, Ricardo, quando sabes que é
mentira? Por quê?! — Perguntou Clarisse, indignada.
— Porquê?! — Disse, levantando-se do sofá num salto
irado. — Eu digo-vos porquê! Simplesmente odeio-o! Ele
não passava de um merdas antes de ficar rico. A sua bonda-


 

de mete-me raiva e nojo! Eu, que nasci em berço de ouro,


agora não tenho nada e esse gajo tem tanto dinheiro que se
dá ao luxo de o doar. O que é que ele fez para ficar rico?
Nada, absolutamente nada! Simplesmente teve a sorte de a
irmã dele morrer. Ficou rico à sua custa e isso enoja-me!
— Quem és tu para falar assim de mim? Eu daria
tudo o que tenho para ter a minha irmã de volta, tê-la ao
meu lado. Tu não me conheces! Não sou como tu, não me
julgues. Não tens esse direito. Não vales nada! — Gritou
Pernet a plenos pulmões, irritado por Ricardo ter dito o que
disse sobre o seu anjo.
Quem não compreende que um homem trocaria tudo
por carinhos de saudade, não tem a capacidade nem a sensi-
bilidade de alcançar o céu e atingir a iluminação.
— Que coisa horrível para se dizer, Ricardo! Tu não
és gente, não és um homem, és um monstro! — Gritou Cla-
risse, com lágrimas nos olhos.
Irritado, Ricardo virou-se para ela e, semicerrando os
olhos, gritou:
— Tu também me saíste uma bela peça! Eu bem vejo
como olhas para ele. Não entendo como podes estar apaixo-
nada por essa coisa. Era a mim que devias amar!
— A ti?! Nunca serás metade do homem que ele é!
Não tens coração, seu monstro frio. — Gritou. — Porque
dizes essas mentiras...
— É verdade! Fui eu quem inventou essas coisas, fui
eu que lancei o boato, porque nada me daria mais gozo do
que ver esse filho da puta na merda de onde nunca deveria
ter saído! Odeio-o com todas as minhas forças! — Gritou,
muito vermelho de raiva.


  

— És um canalha! Não vales nada! — Gritou Claris-


se, dando-lhe um estalo na bochecha gorda.
Ricardo calou-se e ficou especado a olhar para ela.
Não esperava aquela agressão.
— Ricardo, seu pulha, o que fizeste é muito grave!
É difamação, é crime! Para mais, mentiste a um juiz. Fica
ciente de que os teus actos não passarão sem consequência.
— Gritou o juiz, indignado com as acções do nojento.
O serão ficou por ali, após o triste espectáculo que
apanhou todos de surpresa.
Naquela noite, foi descoberto o responsável pelos bo-
atos e mentiras. Pernet podia agora ficar sossegado, pois a
verdade foi revelada.


 

Capítulo 8
— A Felicidade Por Fim —
Na manhã seguinte, Pernet partiu para o Porto. Tinha
negócios que exigiam a sua presença. Ficaria lá uma sema-
na, hospedado num quarto de luxo de um dos seus hotéis.
Fez o que tinha a fazer e, na segunda noite, estando dei-
tado sobre a cama e a fitar o tecto, vieram-lhe à lembrança os
acontecimentos do triste serão. Finalmente, as suas preocupa-
ções em relação ao seu império foram dissolvidas. Sentia-se se-
guro e confiante. Lembrou-se em especial da triste história de
Tigrinha que João Nogueira teve a sensibilidade de partilhar.
Então, fulminado por um pensamento, chegou à conclusão de
que os dois amantes, de modo a ficarem juntos em paz e pode-
rem entregar-se livremente ao dom do amor e felicidade, tive-
ram de morrer; apercebeu-se de que ele também tinha o amor
a sorrir-lhe dos lábios da bela Clarisse e que não necessitava de
sacrifício algum para alcançar a felicidade. Para tal, bastava
ele abrir, de novo, o seu coração e deixá-la entrar.
Foi no seu quarto, num momento de maior lucidez
e de compreensão de si próprio, que ele chegou à verdade.


  

Chegara a hora, o tempo de deixar o seu espírito, alma e


coração voarem livremente, voarem como uma águia e ser
livre; chegara o momento de ele ter a coragem de se atirar
ao precipício em direcção à liberdade, como os dois aman-
tes. Chegara a hora de ser livre. Pelo menos, uma vez na
sua triste vida. Estava já farto de pensar nas coisas que o
afundavam em muzambices e numa existência incompleta.
Acabou. Era chegada a altura de deixar o passado para trás
e libertar-se dos medos, de tornar a confiar em si próprio.
Estava na altura de começar a viver. Teria ele força suficien-
te para o conseguir? Xavier acreditava que sim, que chegara
o momento de abrir o coração e permitir-se a ser amado. Só
assim ele também conseguiria amar.
Num acesso de lucidez de espírito, levantou-se da
cama, pegou na sua pasta preta e dela retirou um par de
folhas de papel e uma caneta. Sentou-se a uma secretária e
escreveu.
Alguns dias após o serão, Clarisse abriu a sua caixa de
correio e ficou admirada por encontrar uma carta enviada
por Xavier Pernet. Não tinha a direcção do remetente, por
isso, mesmo querendo, não lhe poderia responder.
O seu coração palpitava ansioso ao entrar no aparta-
mento. Sentando-se no sofá, abriu o envelope sem saber o
que iria ler, com algum medo talvez. Inspirou fundo e co-
meçou a ler:

“É aqui, sozinho, neste quarto de hotel, sem ter mais


nada que fazer a não ser olhar o tecto e fumar, sem ter nin-
guém para conversar, que encontro mais tempo e calma para
me concentrar nos meus pensamentos mais profundos e íntimos;


 

então, escrevo estas palavras consciente de uma verdade avassa-


ladora e real que acaba de mudar, para melhor, a minha vida;
o meu mundo tornou-se completo, mudou a minha maneira
de pensar e a perspectiva com que vejo o mundo. Ultimamente
sou capaz, e tenho vontade de, às vezes, quando vejo uma flor
bela e solitária, de me deter para a cheirar; de ficar parado a
olhar o céu azul do dia e a luz das estrelas à noite. Já não que-
ro ser mais aquela pessoa triste e deprimida, fraca e sem vonta-
de de lutar e, por vezes, até mesmo de viver; antes tinha medo
da vida, agora tenho medo de não saber viver; talvez nem seja
bem medo, é mais o querer aproveitá-la ao máximo e ainda es-
tar a aprender como. (Acendi agora um cigarro). Já sou capaz
de apreciar a beleza que existe no mundo e nas coisas; antes,
a minha visão limitada só me permitia ver o lado mais obscu-
ro e feio. Ao escrever esta carta, sinto-me feliz e completo, já
não me vejo mais como o patinho feio. Estou feliz, quero fazer
outras pessoas felizes; assim, sentir-me-ei ainda melhor e mais
vivo. Acaba tudo de mudar, tão rápido que ainda me custa a
crer e ainda não assimilei completamente. E é neste quarto de
hotel, sozinho, que me apercebo da razão, enquanto fumo um
cigarro, e a própria razão disso tem um nome tão simples e, no
entanto, com muito significado; e esse nome é Clarisse. Sim, tu!
Neste momento, quero mudar, quero ser uma pessoa melhor e
feliz. E é ao aperceber-me de como estou apaixonado por ti que
me sinto completo e que tudo tem um novo sentido. Quando
pasmo em teu olhar, cresce em mim a vontade de renascer, de
lutar, de viver. Amo-te cada vez mais e só desejo ficar do teu
lado, disso tenho a certeza. Estou consciente de que me salvaste
de mim próprio, da minha mente e pensamento. Agora vejo
que sou incapaz de não confiar em ti; creio que seria capaz de


  

pôr minha vida nas tuas mãos. Nunca na minha vida pensei
encontrar alguém como tu, que me completasse e me tratasse
da maneira que tu fazes. Se isto é um sonho, eu não quero
mais acordar, quero sentir-te e amar-te para o resto da vida.
Fazes-me tão bem! Graças a ti, já não penso que as mulheres
sejam todas iguais, porque tu és tão diferente! Às vezes, quan-
do estou triste, ou naqueles dias em que nada me faz sentido,
não perguntes o porquê. Às vezes nem eu sei. Tudo de que pre-
ciso para ficar melhor é de um abraço ou sorriso teu. Não gosto
de impor os meus pensamentos aos outros, para não deixá-las
igualmente tristes, não gosto que se preocupem comigo… Mas,
que fazer? Sou assim! Amo-te tão profundamente, tão inten-
samente que, às vezes, desespero por não estar contigo. Estou
grato pela sorte que tive em te conhecer. Acendi mais um ci-
garro, vou parar de escrever e vou ficar aqui deitado na cama
a pensar em ti. Antes de adormecer, o meu último suspiro e o
meu último pensamento vão para ti. Quando estiver a dormir,
vou sonhar contigo, com a pessoa que me ensinou a viver, que
me ensinou a amar, com a mulher que eu amo.”

Quando acabou, apertou a carta contra o peito, des-


feita em lágrimas gentis, comovida com as palavras que aca-
bava de ler, sentindo ainda mais a paixão que por ele nutria,
suspirando profundamente.
Pernet chegou a sua casa em Gouveia, entrou na co-
zinha, com os olhos a brilharem vivamente. Isabel estava a
preparar o almoço, Pedro encontrava-se sentado à mesa e,
ao vê-lo, disse:
— Então, Xavier? Bons olhos te vejam! Como correu
a viagem?


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— Olá, Pedro, Isabel. Correu bem, está tudo resolvi-


do. — Disse.
— Oh, menino, está com ar animado! — Reparou
Isabel.
— Estou sim. Sinto-me muito bem.
— Xavier, a Clarisse telefonou ontem. Eu disse-lhe
que voltarias hoje, lá pela manhã. Ela pediu, se possível,
para te dizer que deseja encontrar-se contigo.
— Sim, Pedro! — Disse ele com um sorriso rasgado e
os olhos abertos cheios de expectativa.
— Pediu que se encontrassem hoje à tarde, por volta
das quinze horas, no parque da cidade, naquele banco junto
ao bebedouro. Parecia ansiosa!
Xavier sentiu um calor a percorrer-lhe o corpo.
— Também estou ansioso por vê-la. — Confessou,
com um brilho apaixonado no olhar. Pedro sorriu.
Almoçou rapidamente e com sofreguidão. Depois, le-
vantou-se num salto, dirigiu-se à garagem, entrou no Jaguar
e arrancou em direcção a Viseu, ao encontro de Clarisse.
Quando entrou no parque, viu Clarisse já sentada no
banco, linda como sempre, com ar radioso intensificado
pelo sol que lhe aquecia o rosto. Xavier sentiu o coração
bater mais forte à medida que se aproximava dela. Clarisse
sorriu. Xavier sentou-se ao seu lado e disse:
— Olá, Clarisse.
— Olá, Xavier. — Retribuiu. — Recebi a tua carta.
Oh! Xavier, sentes mesmo aquilo que escreveste?
— Sim, Clarisse, cada palavra. — Confessou olhan-
do-a fixamente nos olhos verdes e brilhantes de paixão.
— Oh, Xavier! Fico contente. — Suspirou.


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— Na noite em que escrevi a carta sonhei contigo. Vi o


teu corpo, espelhado na água de um mar azul, dançando ao
ritmo da chegada das ondas à margem; estranhamente não
possuíam o dom da rebentação. Aproximo-me de ti sem que
te apercebas, abraço-te, enrolando os meus braços à tua cin-
tura, beijo-te o pescoço carinhosamente, ficamos a observar
a beleza daquele mar azul. Sussurras-me ao ouvido mas não
ouço a tua voz, e queria tanto! Caminhamos sobre a areia
aquecida pelo sol e o teu vestido branco serpenteia ao sa-
bor da brisa, que traz consigo o inconfundível cheiro a água
salgada. Há uma gruta perto, escavada entre as rochas que
povoam aquela imensidão de areia. Entramos. Sentamo-nos
sobre as pedras que lá existem e parecem bancos, feitos pro-
positadamente para nós. Abraço-te e acaricio-te o cabelo,
ficamos a ver o pôr-do-sol e ele desaparece tão lentamente,
arrastando consigo o dourado que pintou sobre aquele mar
azul. As ondas continuam sem rebentar, apenas se dissipam
calmamente ao chegar à margem. À medida que o sol se
esconde, por detrás daquele horizonte azul, tu adormeces
pacificamente nos meus braços, a tua cabeça repousada so-
bre o meu ombro. Anoitece. Beijo-te a testa e fico a ver as
estrelas. Desejo ficar assim contigo para sempre. Acordei e
mesmo, sem te ter tocado, consegui sentir-te. Depois, deses-
perei ao ver que, realmente, não estavas do meu lado e que
fora um sonho. Não quero voltar a sentir isso.
— Oh! Xavier, eu vou estar sempre aqui. Eu amo-te!
— Assegurou com uma lágrima a querer soltar-se.
— Até há bem pouco tempo, eu nunca tinha sentido
o que era o amor. Essa palavra estúpida não tinha qualquer
valor para mim. Desde que perdi o meu anjo, eu tinha dei-


 

xado de acreditar no amor, mas é agora, ao sentir-te dentro


de mim, que descobri sentimentos que se libertaram. Ve-
jo-te cada vez que fecho os olhos, cada vez que adormeço e,
quanto mais penso em ti, mais cresce em mim a certeza…
Apercebi-me de que me ensinaste o que é o amor. Oh!, Cla-
risse, e eu amo-te tanto!
Pequenos pássaros chilreavam de contentamento, vo-
eirando de árvore em árvore, bailando embaladas por uma
leve brisa. Ficaram a fitar-se nos olhos, em silêncio; nos dela,
ele viu o sorriso meigo e inocente do seu anjo. Finalmen-
te, correu-lhe pelo rosto a lágrima que tanto ansiava e teve
um gosto maravilhoso. Lentamente, as suas cabeças apro-
ximaram-se, os lábios roçaram levemente, depois a pressão
aumentou e uniram-se num beijo meigo e apaixonado que
lhes aqueceu a alma e o coração.
De braços abertos, a felicidade esperava-os.


                  

 
        
       


 


 
 

  




     


 

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