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ARISTÓTELES: O SER COMO HORIZONTE!

Todos os homens desejam por natureza saber, afirma o estagirita em Met. I 1,2. Sinal disso é o prazer causado pelo exercício da visão pelo qual podemos aprender um maior número de características das coisas, diferenciando-as entre si. O filho de Nicômaco, aluno de Platão, mas pesquisador que valorizava a experiência sensível levou às últimas e radicais consequências a primeira e magnífica afirmação da sua Metafísica.

I Mas o que é conhecer?

Conhecer é responder a pergunta: o que é isso? Ao captarmos a essência de cada coisa indagada, conhecemos. Conhecer, pois, é possuir intelectualmente o ser [essência] das coisas, pois o anthropos [animal racional e político] é capaz de abstrair das impressões sensoriais a forma de cada ente [abstrair = separar de].

Como conhecemos?

Entramos, primeiramente, em contacto com o objeto exterior através dos sentidos próprios. Num segundo momento, o sentido interior organiza as primeiras impressões. O intelecto, passivamente, recebe essas informações. Finalmente, o intelecto atua [é ativo], separando a forma dos resquícios de materialidade ainda presentes. Quando separamos completamente a forma da matéria, completa-se o processo, acontece o conhecimento.

Importante: forma não é formato. Trata-se do princípio imaterial que organiza o ente, que ordena a matéria sensível comum [ex. a alma racional é a forma do corpo humano].

O primeiro passo do conhecimento, então, é a elaboração do conceito. Uma vez elaborado o conceito [noção mental que responde o que a coisa é], podemos realizar juízos, isto é, ligar conceitos afirmando ou negando algo sobre determinado sujeito. Finalmente, relacionando conceitos, raciocinando, pensamos em sentido pleno, atualizando nossas faculdades intelectuais.

Exemplo:

Todos os homens são mortais [Premissa maior] Sócrates é homem [Premissa Menor] Logo: Sócrates é mortal [Inferência].

Se a premissa maior [universal] revelar algo de necessário da natureza humana, se o termo médio estiver presente em nas premissas anteriores, se Sócrates é homem [exemplo], logo, a conclusão é verdadeira.

Podemos, provisoriamente, concluir que nada chega à mente sem que antes tenha passado pelos sentidos. No processo do conhecimento, pela capacidade abstrativa, ao separar matéria de forma, captando a essência do ente, de fato conhecemos a natureza das coisas. As ideias de Platão, agora, encontram-se no mundo, existem nas realidades singulares. Para Aristóteles, portanto, o Ser é o singular.

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II A cosmologia de Aristóteles

Segundo o filósofo do Liceu, todas as coisas estão compostas de um substrato sensível comum sobre o qual atua uma forma. Essa teoria denomina-se teoria do hilemorfismo universal.

Potencialmente, a matéria sensível comum conteria todas as formas, as formas, por sua vez [imateriais] ordenariam a matéria sensível comum. Em realidade não há matéria sem forma e nem forma sem matéria [Exceção: o Primeiro Motor Imóvel e as inteligências separadas].

Os seres terrestres e os corpos celestes são constituídos de matéria e forma. A forma [princípio de determinação]

é singularizada pela matéria [princípio de individualização].

A hierarquia do ser em Aristóteles compreenderia:

1 matéria e forma

2

elementais

3 mistos

4

vegetativos

5 sensitivos

6 racionais

7 corpos celestes [movidos por inteligências separadas]

8 Primeiro Motor Imóvel [pensamento do pensamento, Substância simples, causa da ordem no universo, destituído de matéria e, portanto, causa do movimento enquanto causa final: move por atração tal qual um imã atrai objetos metálicos].

A Teoria do hilemorfismo supõe, também, que o movimento seja a passagem da potência [possibilidade] ao ato [plenitude]. O tempo é a medida desse processo da potência ao ato. No movimento de passagem do potencial ao atual, na medida em que a potência não é o não-ser absoluto, há uma causa eficiente que sustenta o processo de transformação. A causa última, contudo, diferenciando-se das causas intermediárias

é causa final. Qual será essa causa eminente? Qual é o melhor nome para indicá-la?

Existem movimentos acidentais: que não corrompem a substância [exe.: João perdeu cabelos, ficou calvo, mas continua a viver]. Há movimentos substanciais [ex. pela morte separam-se corpo e alma e o indivíduo humano deixa de existir].

Para Aristóteles, os astros seriam eternos, pois realizariam [na ordem da execução] movimento circular. Já os seres terrestres estão sujeitos à corrupção. A natureza, entretanto, encontrou uma maneira de preservar a vida:

o processo de geração. Pelo processo de geração João continuará, de algum modo, existindo através de seus filhos e netos. A espécie, portanto, é imortal enquanto que o indivíduo perece, deixa de existir.

Observação: a) Nos movimentos de corrupção, na medida em que um princípio formal deixa de atuar sobre a matéria, passa a existir outro ser [Ex. a semente torna-se árvore]. b) Os astros, executando, eternamente, movimento circular, permanecem inalterados.

Num mundo eterno, governado por um Primeiro motor imóvel, cujo centro é a terra circundada pelos astros [lua, sol e planetas] e pelo céu das estrelas fixas, tudo é ordem, pois a natureza opera segundo o bem de todos. O esferocentrismo de Aristóteles orientará as especulações cosmológicas e astronômicas durante um longo tempo, mas, a partir do renascimento, tendo em vista as descobertas no campo científico e astronômico, será, gradativamente, superada. Conceitos, como ordem, causa, movimento, ato e potência, sublinhamos, continuam atuais e auxiliam nas tarefas da Filosofia e da ciência.

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Destaquemos alguns conceitos:

Ato e Potência / Matéria e forma / Movimento / Causa.

Nesse sentido, o que é causa? Tudo aquilo que contribui à existência de algum ente. Para Aristóteles são quatro as causas:

Material [exe.: mármore] Formal [exe.: imagem de Sócrates] Eficiente [ex. escultor] Final [ex. glória de Sócrates.

O escultor extrai do bloco de Mármore a imagem de Sócrates, segundo sua concepção de como seria Sócrates e

visando a glória de nosso filósofo.

A natureza também opera dessa maneira. Como? Todo movimento é passagem da potência ao ato segundo

uma causa eficiente. E o Primeiro Motor Imóvel? É causa final, pois move as outras causas enquanto todos desejam ser como ele: perfeito, pensamento do pensamento, eterno. O Deus de Aristóteles sabe que é causa última de todos os processos cósmicos, mas, desde sua perfeição absoluta, não pode pensar os entes que atrai, pois o conhecimento dos entes que o admiram e para ele dirigem-se, imperfeitos, contaminariam sua eterna perfeição. O anthropos, dado admirável, quando pensa a causa última do real faz-se semelhante a Deus.

III A Metafísica de Aristóteles

Na classificação dos saberes [Met I 1,2 e Ética a Nicómaco VI], Aristóteles propõe uma hierarquia das ciências considerando seu objeto, grau de autonomia e abrangência. Assim encontramos:

I As Artes [técnicas]: ciências aplicadas à produção dos bens necessários à vida humana [exe.: medicina, poética, agronomia, etc.].

II A Filosofia Prática [Política, Ética e Economia]: reflexão voltada à realização da felicidade do

anthropos enquanto indivíduo [Ética], membro da polis [política] e de uma família [economia]. Se o fim da ética é a felicidade de um indivíduo, o fim da política é o bem comum. Por isso a Ética é um capítulo da política.

III Ciências teórico-particulares: aquelas que examinam um aspecto particular do ser [exe.: física = movimento / biologia = seres vivos / astronomia: a organização do cosmo, etc.].

IV Filosofia Primeira: tem por objeto as causas primeiras ou últimas do ser enquanto ser.

A Filosofia Primeira é, pelo grau de abrangência, autonomia e gratuidade a mais completa das ciências. Ela não

recebe, mas doa os princípios, sendo descrição totalizante de tudo aquilo que é. A Filosofia primeira torna-se Teologia, pois o discurso sobre as causas do Ser encaminha o Filósofo à demonstração e descrição da vida daquele que é o penhor todas as coisas: Deus ou Primeiro Motor Imóvel.

IV A Metafísica [ou Filosofia Primeira] é um tratado sobre a substância!

Qual é o objeto da Filosofia Primeira? O ser enquanto ser e suas causas últimas. Mas, o ser acontece como substância [ousia no grego indicaria aquilo que é capaz de receber qualidades, sofrer movimentos e, também, agir]. A substância, o ser na sua singularidade, composto de matéria e forma, é o objeto da Filosofia Primeira. Tudo que chega a ser é substância, nela e a partir dela tudo acontece [cf. Met. I, 2].

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O que é ousia? Traduzimos, provisoriamente, conforme a tradição aristotélica por Substância. Daí podermos

apresentar a divisão material e lógica do ser substância, ou a tábua das categorias:

1 Substância: ser que é em si [a quem compete existir em si e por si].

2 Acidente [ser por outro: depende da substância]:

a) quantidade

b) qualidade

c) relação

d) ação

e) paixão

f) lugar

g) posição

h) tempo

i) posse.

Os dois primeiros acidentes afetam intrinsecamente as substâncias. Os demais afetam extrinsecamente as substâncias.

V O Primeiro Motor Imóvel

Se Deus é a causa última do movimento, como governa o Mundo? Dizíamos: enquanto todos os entes desejam ser como ele [perfeitos, plenos, eternos, imperecíveis], Deus move por atração os entes ao Ser. Cada coisa, desde sua unidade aspira continuar existindo e dirige-se, assim, ao Primeiro Motor Imóvel, expressão pela qual Aristóteles denomina Deus.

Como Aristóteles demonstra a existência do Primeiro Motor Imóvel? Vejamos alguns argumentos do Livro XII da Metafísica, brevemente adaptados.

Se tudo que chega a ser, o chega por uma causa, para além das causas intermediárias [material, formal e eficiente] precisamos indagar pela existência de uma causa final, que ordenaria eternamente o movimento, sendo causa do Ser e da regularidade que do kosmos. Se, de fato, não podemos inquirir ao infinito, logo, há um Ser que move o cosmo sem ser movido, que sendo substância simples, destituído de matéria, isento de movimento, é eternamente [pleno]. Tal ser é Deus, pensamento do pensamento e penhor de tudo aquilo que é!

Breves Conclusões

A influência de Aristóteles sobre todos nós é inequívoca, seja através da interpretação autorizada de Santo

Tomás de Aquino, seja por sua continua referência na História da Filosofia. Ao final cabe, entretanto, uma indagação: até que ponto o Primeiro Motor Imóvel de Aristóteles não realiza a compreensão daquilo que é o Bem para Platão. Parece-nos, em breve conclusão, que em muitos aspectos Aristóteles permaneceu discípulo de Platão. Sua compreensão de Deus, penhor do kosmos, confirma, pensamos, nosso postulado. Não devemos, portanto, sempre, pura e simplesmente, opor Aristóteles a Platão. Aristóteles lê Platão em nova ótica, inaugurando original modo de fazer Filosofia, mas, à sua maneira, continua discípulo de Platão.