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Adolescência:

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Kalimeros

Escola Brasileira de Psicanalise

Rio de Janeiro

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Apresentaçiio

Sonia Alberti

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Copyright © 1996, Kalimeros

Organizaçao Gerai

Heloisa Caldas Ribeiro e liera Pollo

Conselho Editorial

Maria Anita Carneiro Ribeiro, Sonia Alberti e Nelisa Guimariies

Comissao de Publicaçao

Consuelo Almeida, Elisa Monteiro, Inis Autran Dourado Barbosa,

Rosa Guedes Lopes e liera Avellar Ribeiro

Capa

Jorge Marinho

Ilusuaçao

Paula Delecave

Produçao Editorial

Casa da Palavra

Copidesque e Composiçâo

FlAvia Cunha

Adolescência: 0 despertar 1 Kalimeros - Escola Brasileira de Psicanalise - Rio de Janeiro. Heloisa Caldas Ribeiro e Vera Pollo (Orgs.) ­ Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1996. 188 p.; 14 x 21cm

de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1996. 188 p.; 14 x 21cm ISBN 85-86011-03-7 1. Psicanalise. 2.

ISBN 85-86011-03-7 1. Psicanalise. 2. Psicanalise da adolescência. 1. Caldas Ribeiro, Heloisa, org. II. Pollo, Vera, org. III. Kalimeros. Escola Brasileira de Psicanalise. IV. Titulo.

CDD 150.195

CDU 159.964.2

1996

Todos os direitos desta ediçao reservados à

Contra Capa Livtatia Ltda. Rua Barata Ribeiro, 370 - Loja 208 22040-000 - Rio de Janeiro - RJ lèl (55 21) 236-1999 Fax (5521) 256-0526

SUMÂRIO

Apresentaçiio

01

Sonia Alberti

Estrutura e Romance Familiar na Adolescência Serge Cottet

o Adolescente Freudiano 21 Hugo Freda

Nunca Houve Historia Mais BeIA Maria Anita Carneiro Ribeiro

31

o Decl/nio da Adolescência

43

Stella ]imenez

Grafito: 0 Nome do Nome do Nome Heloisa Caldas Ribeiro

49

o Beijo

Ondina Maria Rodrigues Machado

57

Adolescência: quê despertar? 69 Maria do Rostirio C do Rêgo Barros

Afinidades entre Adolescência e SemblAnte 81 Mirta Zbrun

Ciume e Repartiçiio do Gozo Nelisa Guimariies

Adoleiscente: contra a ordem e 0 progresso? Carlos Eduardo Leal

87

Existe uma Adolescência Feminina? i7era Pollo

Em Nome do Pai - Eliane Schermann

103

adolescência e morte

95

113

07

Casos Clinicos

George, a Menina-mofa que Queria Tèr um Pênis: releitura de um caso clinico Sonia Alberti e Ana Paula Rangel Rocha

A rosa - e 0 retorno do Mo dito 135 Elizabeth da Rocha Miranda

o Que é Ser um Homem? Maria Luisa Duret

Deixar Cair -

141

­

147

Deixar Cortar

Consuelo Pereira de Almeida

Adolescentes e Tristeza 151 Monica Damasceno

De Garoto Estranho a Homem Monstro 157 Silvia M Freitas 7àrga

o Monstro Nervoso Maria Helena Martinho

Adolescência Tèm Fim? GlOria Justo S. Martins

(1]u Nilo l-iJu Ler'~' uma adolescente débil? Andréa Vilanova

161

169

175

123

débil? Andréa Vilanova 161 1 6 9 175 1 2 3 • APRESENTAÇÂO Enfocar a adolescência

APRESENTAÇÂO

Enfocar a adolescência coma despertar do sujeito aos encontros e desencontros é também nao mais supô-Ia e imagina-la uma aurora buc6lica da vida. Me1hor tentar levantar esse véu romântico que, coma diz Serge Cottet em seu texto, esconde 0 faro do sujeiro ser, desde sempre, causado pe10 objero perdido e, portanto, passive1 de reduzir-se à pr6pria perda. 0 texto de Stella Jimenez, entre outros, ao analisar 0 livro de Maria Mariana e a peça deWedekind, retoma bem essa quescio. Desperta­ se para 0 mal-estar, para a peste coma dizia Freud, para a discordância entre 0 sujeito que surge coma produto dividido do recalcamento ­ posterior ao momento que Freud chamava de latência - e 0 mundo das puls6es. Primeira vez em que a dicoromia se faz tao presente, a adolescência nao permite mais 0 recurso, utilizado pela criança, de lançar mao do Outro parental para fazer frente a este desencontro entre 0 sujeiro dividido e a pulsao. 0 Outro parental, que neste momento ja esci estruturado a partir da funçao paterna, é sempre falho nas respostas. Como 0 formula 0 tcxro 0 adolescente fteudiano em suas quatro teses

e1aboradas a partir do tex:to de Freud Algumas reflex5es sobre a psicologia

do escolar. Deparar-se corn essa falha é a mais dificil das tarefas da adolescência porque exige uma referência cxplicita à castraçao.

o sujeito dividido é submetido à castraçao, ao impossive1 de inserir no campo da linguagem, e e1e se encontra, ou me1hor, se desencontra corn a positivaçao do que esta fora desse campo. De forma que ha algo impossive1 a suportar para 0 sujeito e este impossive1 designa, latu sensu, "0 afeto do real, impossive1 a evitar e intoleravel. Seu campo é 0 do sofrimento, no qual Freud distinguia très fontes: 0 corpo, 0 mundo cxterior, as relaç6es corn os outros"l.

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Sonia Alberti

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É justamente do desencontro e desse campo do sofrimento que as experiências clinicas do psicanalista e daquele que se forma para sê-Io mais têm a dizer no que tange a adolescência. Se alguém soube dizer alguma coisa a respeito disso antes de um psicanalista, certamente tratava­ se de um paeta. Como no caso de Shakespeare, em Romeu e Julieta, drama trabalhado no texto Nunca houve historia mais bela, no qual "nem no ato final" os dois "se encontraram, ele bebendo 0 veneno, que naD era dela, e ela, bainha do punhal, que naD era e1e". É do desencontro que também nos fala 0 beijo, através da citaçao de algumas observaçôes de adolescentes sobre esse momento absolutamente ûnico do primeiro beijo. Por exemplo, a fala de Mariana, Il anos: "A cara dele é cheia de espinhas vai tudo passar para mim!", exclamaçao na qual se verifica, claramente, que estamos longe do romantismo quando se trata do (des)encontro corn 0 sexo.

Freud localizou na funçao paterna a possibilidade do sujeito estruturar-se de forma a ter algum recurso para lidar corn esse impossivel

a evÎtar. É ela que inscreve 0 sujeito na Lei do Desejo que, na adolescência,

é sempre testada. Assim, a tentativa é muitas vezes de inscrever, corn um tinico traço, Grafito: 0 Nome do Nome do Nome- coma analisa 0 texto de Heloisa Caldas Ribeiro -, uma marca que singularize a ex-sistência de cada um, na tentativa de "se responsabilizar pela sua 'posiçao de sujeito''', questao da qual trata 0 texto Adolescência: quê despertar?

Mas 0 sofrimento, em seu tripé, 0 corpo, 0 mundo exterior e a relaçao corn os outros, naD tem maior expressao do que neste periodo da vida no qual justamente 0 corpo transforma-se, colocando em questao 0 imaginario do sujeito, as exigências do Outro diversificam-se, obrigando

a um posicionamento no mundo, e desfaz-se a ligaçao corn os pais da infância, corn os modelos identificat6rios, exigindo novas relaçôes corn os outros. Que lugar entao para esse sujeito adolescente?

Mirta Zbrun verifica que justamente naD hâ lugar permanente para ele, chegando a sugerir a existência de um verdadeiro adolescente 40

Adolescência

lado do objeto, para quem "adolescência e ser SaD dois semblantes solidirios", 0 "que consiste em produzir uma aparência sem substâncià'. 56 que nem sempre é assim, coma nos mostra 0 texto Ciume erepartiçlio ckJgozo, exemplo claro de negaçao da impossibilidade, "de nao sustentaçao da falta-a-ser na demanda de ser-para-o-outro", onde 0 sujeito estamuito mais perdido nas suas relaçOes nardsicas de amor e 6dio do que assumido como inconsistente do lado do objeto.

No compasso de duas geraçôes, a nossa e a de nossos filhos, ha diferenças, coma cita Carlos Eduardo Leal a partir de Hegel: 0 homem

é fùho de seu tempo. E isso também faz dele um ser poHtico, diante do

) seria

que é forçosa uma posiçao frente à Lei. ''A rebeldia adolescente ( uma forma de se engajar contra a 'Ordem e Progresso'?"

Tantas questôes sistematizadas fmalmente nos dois trabalhos te6rico­ clinicos de Vera Pollo e Eliane Schermann, abrindo a série de relatos clinicos que testemunham a razao mesma de nossas Jornadas.

Vera Pollo aborda 0 caso de Glôria -

uma moça de 18 anos ­

que depara-se corn 0 impossive1 de dizer do real do sexo e do real da morte. Eliane Schermann estuda 0 caso de Abram - um rapaz de 15 anos - impossibilitado de sustentar-se "como desejante frente ao pai descrito como imagem de todo-poder". Ha uma diferença entre a adolescência da moça e a do rapaz. A dificuldade de posicionar-se nessa diferença, ja dizia Freud, traz inumeras vicissitudes clinicas. Assim é 0

caso de George, a menina-moça que queria ter um pênis para fazer frente à

fantasia de invasao, releitura de um caso do International Journal of

Psychoanalysis.

o casa de Rosa naD é 0 unico de uma tentativa de suiddio e mostra coma "0 naD dito retorna em forma de ato, que comporta uma verdade

que naD se sabe", escreve Elizabeth da Rocha Miranda. Ambas as moças

têm dificuldade de barrar 0 gozo do Outro e ambas

apresentam a questao: 0 que sou no desejo do Outro?

- Georgee Rosa -

3

Sonia Alberti

Pergunta que Paulo formula assim: 0 que é ser um homem? para minha mae, tentando "responder corn a homossexualidade, razao pela qua! sua mae vern pracurar tratamento para ele". Por nao poder formular a pergunta sobre 0 desejo do Outra, C. faz a tentativa de suiddio, que s6 poderâ ser avaliada coma bem diferente daquela de Rosa a partir de uma referéncia estrutural fundamental ao analista na direçao do tratamento. "Ta1 coma Robert, 0 menino-lobo, que tenta cortar seu pénis - referência que Consuelo Pereira de Almeida raz a um casa de Rosine e Robert Lefort -, C. vern inscrever no rea1 de seu corpo aquilo que, a meu ver, nao estâ inscrito no simb6lico", 0 que atesta a foraclusao do Nome-do­ Pai da psicose.

Além da ausência de perguntas que apontam para a certeza psic6tica assina1ada por Lacan desde 1955, a1ém das perguntas do sujeito neur6tico pelo desejo do Outra, respondidas de maneiras as mais variadas conforme a particularidade de cada sujeito, hâ também a ausência de respostas, a inércia em nao pracurâ-las, coma nos mostra

o texto Adolescentes e a tristeza: "Um tom nostâlgico se abate muitas

vezes sobre os adolescentes, em relaçao a um tempo que imaginarizam coma melhor, a infâncià' e que pode ser interpretado coma "uma certa 'retirada estratégica', por vezes necessâria até poder ser criada uma saida coma sujeito desejante". Cada sujeito é chamado a criar a sua saida, mesmo se para uns 0 trauma a ser elaborado de a1guma forma é mais vislvel do que para outros.

o que é da ordem do trauma estâ fora do campo da linguagem causando entao esse sofrimento que advém do corpo, do mundo externo

e da relaçao corn os outras, ou seja, das referências identificat6rias, tanto corn 0 peqm:no outra, quanto corn 0 grande Outra, à medida que estas referências sempre apomam para uma mortificaçao. Necessârios remanejamentos da gestalt do corpo, que agora pode exercer-se coma

sexuado, sao sempre difkeis. De garoto estranho a homem monstro e 0

monstro nervoso relatam dois casos em que essa gestalté monstruosa, cada um a seu modo. No primeira, hâ a tentativa desesperada de um rapaz

4

Adolescência

para elaborar 0 fato de que, por causa de uma mâ-formaçao, fora operado aos seis meses e, por erra médico, perdeu um testiculo. No segundo, 0 monstra, à medida que estâ referido à mae, encobre 0 sujeito posicionado na partilha dos sexos. É somente corn a anâlise que consegue operar a1guma separaçao da mae e, pela primeira vez, pode fa1ar sobre sexo. Assim também Andréa Vilanova verifica, num caso de uma adolescente estigmatizada coma débil, que so quando pode separar-se desse estigma é que surge um sujeito, agora histérico, a assistir, da fresta de sua janela, os 'amassos' dos namoras das primas.

Adolescência tem fim? é finalmente um casa de um sujeito cuja aparência monstruosa -"cabelos longos, lisos e oleosos caem sobre 0 seu rasto. Ta1vez, para esconder sua pele clara e marcada por acne e espinhas C Quanto ao aparelho fixo nos dentes, me diz que nao pode disfarçâ-lo quando beijà' - poe a nu a peste em jogo no momento em que por todos os poras grita a1go de inumano, coma jâ dizia Torless no texto de Robert Musil.

).

Nada de humanismo ao abordarmos psicana1iticamente 0 ado­ lescente, pois ele sabe, em a1gum lugar, que para a1ém do pai hâ a fa1ta, a pulsao, 0 goza e 0 sintoma. Antes, trilhar corn ele os caminhos da Lei na qual procura 0 desejo, naD para fina1mente anulâ-la, mas para testemunhar corn esse jovem sujeito adescobertade que ela também é fa1ha e que ele tem de 'se virar' corn isso.

Rio de Janeiro, 15 de outubro de 19%.

Sonia Alberti

\ SOLER, Colette. Impossible à supporter. In: Les feuillets du Courtil. nO 6. fev.

1993, p. 9.

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ESTRUTURA E ROMANCE FAMILIAR NA ADOLESCÊNCIA

Serge Cottet

A.ME da École de la Cause Freudienne. Membro da Escola Brasileira de Psicandlise. Doutorado do Campo Freudiano e Doutor de Estado.

Existe uma noçao especificamente psicana1itica da adolescência fora dos critérios de faixa ed.ria e de desenvolvimento? QuaI é 0 valor dessa categoria para 0 campo freudiano? Sabendo-se que este, evidentemente, naD é um problema proprio da adolescência.

Para começar,

0 qu~ é a criança freudiana?

Nao se pode defini-la a partir de urna maturaçao biologica ou de critérios de afetividade. Tudo 0 que Freud pôde dizer dela naD é 0 produto da observaçao, 0 que ji é urn paradoxo em relaçao aos critéqos puramente psicologicos. É a partir dos sonhos do adulto ou de suas lembranças, em todo casa de sua pa1avra, que Freud nos transmitiu 0 que constitui a sexualidade infantil. E para a psicana1ise é um problema ba1izar especificamente seu campo em relaçao à psicologia da criança, em particular àquela que se funda numa perspectiva desenvolvimen­ tista, coma a corrente piagetiana. Os especia1istas, na historia da psicana1ise da criança, naD puderam evitar apreender 0 sujeito a partir dos estigios e, portanto, historicizar 0 complexo de Édipo, evocando perîodos que se situam antes ou depois. Melanie Klein fez retrocederem os limites corn 0 que ela chama de supereu precoce: ja naD é mais entre os três e cinco anos, mas aos seis meses e, par que nao, durante 0 proprio perîodo da gravidez.

Adolescência Na outra vertente, a partir de 1931, Freud se da conta de que a

Adolescência

Na outra vertente, a partir de 1931, Freud se da conta de que a menina nao sai jamais do complexo de Édipo, que existe algo coma um limite assintotico que toma problematico 0 fim do Édipo na menina e ind~finidaa relaçao da mulher corn a castraçao. Considera que 0 complexo de Edipo na menina é antes defensivo, meio que ela acha de escapar da colagem corn a mae. Ele pode, entao, durar um certo tempo. Dai 0 esforço de Lacan, levando em conta a necessidade de arrancar a criança 1" e 0 adolescente de uma abordagem evolucionista ou de esragios, para introduzir critérios unicamente estruturais e desprender-se do que, em

A ciência e a verdad) , ele chama a ilusao arcaica.

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É preciso tomar cuidado para nao cair nessa ilusao do arcaico e do desenvolvimento, e fazer valer de fato os critérios estruturais. Sem duvida, o proprio Freud fez esse esforço ao descrever a criança a partir de seu goza, ou tomando como critério do infantil nao um estagio, mas um modo de goza conhecido pela célebre denominaçao de perverso polimorfo. Mas ele se da coma que isso também pode durar um longo tempo. a autor a que Lacan se refere para denunciar justamente essa ilusao arcaica, Lévi-Strauss, faz valer uma outradimensao, referindo-se a outros teoricos da criança. É _~i~lle_Lacan introduz um critério

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o adolescente psicanalitico?

Fariamos um belo esforço de metodologia, caso quiséssemos construir analicicamente a categoria de adolescente. Também aqui somos enganados pelo desenvolvimento e pelas faixas etirias, esquecendo talvez um cipa de enunciado fTeqüente do adu1to em anilise, em partirular, a queixa recorrente do sujeito de continuar sendo um adolescente, assim coma a fasànaçao que exerce sobre ele, no lugar do romance familiar de Freud, 0 romance de sua adolescência.

8

Serge Coftet

Nao seria razaavel tomar 0 lugar do analisante que pensa esse romance demro das categorias do atraso historico; essa permanência deve, ela também, ser pensada coma um traço de estrutura do desejo. Freud, que nao distinguia senao a criança e 0 adulto, nao se perde demasiadamente nos emaranhados do imaginario romanesco e faz vigorar 0 tinico critério valido a seus olhos, critério real que é 0 momento da puberdade.

As tormentas da puberdade •

Resta, entao, fazer uma articulaçao entre 0 momento que é evidentemente impulsionado do real etiologico e, de outro lado, a construçao romanesca que dele parece advir. Construçao romanesca relativamente recente, ja que os historiadores da infância sublinham que é essencialmente no final do século XVIII e na esteira da Revoluçao Francesa que 0 interesse se volta para a criança e para 0 adolescente coma distintos do adtJ.1to. Particularmente no Emilio, no qual Rosseau, no capitulo IX, 0 qualifica, de uma maneira modema, de momento cdtico. Momento cdtico que requer certas medidas pedagogicas para que esta passagem possa se realizar suavemente.

Mas é sobretudo 0 século XIX que consagrara a puberdade e a adolescência coma fases cdticas, insistindo nos métodos educativos coercitivos, e mesmo policialescos, para que, contrariamente a Rosseau, essa passagem se eferue 0 mais rapidamente possivel, e sem fazer estragos. É a época em que se considera 0 jovem perigoso, violento: 'a juventude ., tem que passar', da mesma maneira que se quer ver uma tormenta acabar rapidamente.

Freud herda essa d1nica espantânea das tormentas da puberdade. Nos nao podemos proceder coma os sociologos, penso em Ariès 2 ou em Foucaulr3, que vêem necessariamente nesse recorte, nessa representaçao da criança ou do adolescente, uma ideologia. Ou seja, que a criança e

9

Adoiescência

o adolescente sao produtos de um discurso, 0 que se verifica no século

XIX corn a importância dos romances de èducaçao. De fato, nao

podemos nos deter nesse relativismo sociolôgico ou discursivo, se

levamos em conta al.nfase que Freud poe s()_bre 0 real do sexo, ~ec~samentenessa encruzilhad; d-;-~yoluçâo. --------- - -­

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É observavel que a adolescência esci no centro das tarefas educativas e de adestramento no século XIX. Concede-se uma grande atençao à homossexualidade dos adolescentes, à masturbaçâo, que sao as idéias fixas de médicos. 0 tema desgastado da revolta do adolescente, grande dichê da literatura do século XIX e da doxa reinante, é considerado por Freud coma produto de um real incontornavel.

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Nao podemos, portanto, permanecer paralisados na atitude que consiste em dissolver estas categorias construîdas no século XIX, uma vez que elas

satisfazem às necessidades de uma ideologia tranqüilizante. É preciso levar em conta 0 fato de que 0 conjunto desses dichês foi avalizado pelo prôprio Freud. Hi ai, no minimo, um nô de gozo espedfico, que constitui, em certa medida, 0 nudeo racional da ganga imagiruiria formada pelo conjunto de enunciados que se pode sustentar sobre 0 caciter perigoso do adolescente e

sobre 0 momento de crise.

De minha parte, levarei agua a este moinho de opiniâo, seguindo à risca alguns enunciados dissicos da histôria da psicanalise que evidenciam hem 0 carater sintomatico, mesmo patolôgico, da relaçâo do sujeito corn 0 sexo nessa época da puberdade. Quando essa categoria foi consagrada pelos

alunos de Freud, sobretudo por Anna Freud em 0 ego e os mecanismos de

1 dejèsd, mas tarnbém por Bernfeld nos anos vinte, 0 que impressionou os disdpulos de Freud foi precisamente 0 prolongamento da adolescência.

Foi Bernfeld que, em 1922, aiou a categoria, engraçada para nôs, de 'adolescente Prolo~q9',nao se dando conta de que isto era ~ p!~_!1:a5mo-,­ Arazâo dëSte prolon~ento se encontra na prôp.Eiaestruturadasexualidade::,

~a rela~ do sujei_t~_~~-o~qüe ca~~§~~:,~~~~_~~dadedur~te ~

10

Serge Cattet

puberdade. A ficçâo da adolescênciadeve ser considerada, efetivamente, èomo ocorijunto de ficç6es segredadas por essa maldiçâo. - -: ---------,

-----_:.-.------

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Esta maldiçâo, que segundo Freud se deve à puberdade, é estruturada de uma certa maneira, à medida que a sexualidade se constrôi em dois tempos. Desse ponto de vista, é interessante reler os textos de Freud

sobre essa questao nos Três ensaios sobre a teoria da sexualiti.a#, porque é

uma época ainda virgem, por razoes evidentemente histôricas, da influência da Psicologia do ego. Ha uma grande distorçâo entre os alunos de Freud, notadamente Anna Freud, mas também Aichhorn, 0 especialista em delinqüentes nos anos vinte, que se interroga sobre o supereu se colocando a questao de saber se os delinqüentes têm um supereu. A pergunta é desviada pelos eixos da segunda tôpica, ainda que, para além' das interrogaçoes sobre 0 ego forte ou fraco dos adolescentes, a relaçâo do sujeito corn a funçâo paterna nao seja esquecida.

Aichhorn 6 justarnente recusava considerar 0 delinqüente coma um sujeito vitima, avassalado por seus instintos ou por sua pulsao associal. Corn efeito, antes da questâo ser enrijecida pela Psicologia do ego, os especialistas tteudianos da adolescência nos anos vinte estavam bem orientados tratando coma sintomas um certo nlimero de distorçOes nas relaçOes do sujeito corn

a realidade socialmente determinada; sintomas relativos à inscriçâodOsuj~tCl­

na funçâo paterna.

Os dois tempos da sexualidade

Corn Freud, as coisas se passaram da seguinte maneira: seu discurso sobre a puberdade foi relativamente encoberto, porque se reteve, sobretudo,

a tese muito forte que esci no cerne da doutrina psicanalitica da sexualidade,

a saber, que a sexualidade nao começa na puberdade. Anna Freud? observa que toda uma geraçâo de analistas entre 1905 e 1920 considerava que a fantasiasexual, insralada desde os três-anco anos, era reativada na puberdade

de uma maneira exclusivamente quantitativa.

11

Adolescência

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Isso Imphcava esquecer Justamente um eixo da doutrina freudiana sobre a sexualidade da criança, que é estruturada em dois tempos. Atualmente, transcrevemos esses dois tempos da sexualidade coma um modo de divisao do sujeito entre, de um lado, 0 que Freud charna de ternura pré-genital e, de outra, os aparelhos de gow coneetados à maturaçao da puberdade. Sabe-se que a sexualidade para Freud é traumatica, mas sempre aposteriori, ageniralidade sendo constituida muito depois da fantasia sexual, a qual na primeira infância se apé>ia na relaçao aos pais.

A reativaçao durante a puberdade desse periodo da in8ncia é um casa exemplar do muhtraglich, de aposteriori, coma se precisamente na adolescência, quando tudo deveria contribuir para 0 encontro sexual, este mo fussesema mais traumatizante. Freud di conta da sexualidade coma traurnitica a partir da puberdade. Em geral, vê-se ai urna concepçao retardaciria. Em 0 nascimento dapsicand!is!, Freud teria tratado da sexualidade a partir da puberdade porque na época ele ainda ignorava a sexualidade infàntil. &sa é uma conclusao ùm

pouco apressada, pois, retificando esse ponto de vista a partir de 1905 nos

Trés

ensaiossobreateoriadaso:ua/id:ulé!,Freudmoabandonaestaprimeiracondusao

dos efeitos traumaticos, especificos do encontro corn a sexualidade durante a puberdade. Ha, portanto, um real incontornivel que Freud articula a partir da disjunçao entre a corrente tema e a corrente sensual:

o mito da puberdade

. Freud na~fala da puberdade coma uma maturaçao, mas coma um

, A

mIto, 0 da conJunçao de todas as puls6es parciais em torno da genitalidade sobre um nova objeto apas a fase de latência e, portanto, para além do!!JI.~

recalcamento. Todavia, 0 desejo sexual, à medida que desperta a antiga corrente, reativa 0 Édipo. Ha ai algo coma um efeito de lupa sobre a sexualidade pré-pûbere. E ha bem mais que isso: uma reativaçao da escolha do objeto interdito.

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.0 qu~é para Freud paradigmatico desta época é um mise au point do ~deseJo gerutal sobre esse arnor ed1pico. &sa coincidênàa ja teve lugar

12

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Serge Couet

inf"ancia, mas desta vez é reativada numa época mais além do reealque corn

esse novo elemento que é a genitalidade. 0 desejo sexual reativa uma interŒçao, 0 que pOe em evidência a imposslvel harmonia entre a puIsao sexual ea corrente terna sobre 0 mesmo objeto. Se a psicanilise descobre que ha tantas dificuldades para alcançar 0 que os ingleses charnarn de genitallove,

e se para Lacan 0 genitalloveé 0 mito constrllido pela corrente inglesa para

contornar 0 impasse da relaçao sexual, é justamente essa época da puberdade

que pode fornecer 0 seu paracligma. Paracligma no qual se vê a relaçao ao outra sexo contaminada pelo interdito.

Isso pode ser dito de outra forma, de maneira estrutural, a saber, que a geniralidade, longe de ser uma fuse que sucede ao pré-genital, simplesmente nao existe. É uma tese lacaniana que retoma 0 nûcleo racional da teoria

kleiniana das puls6es. Esta coloca que a pulsao éparcial. A Ganzsexualstrebung

é 0 mito de uma totalizaçao das pulsôes parciais finalmente reunidas para a

maior satisfaçao do parceira. Freud, na MetapsicologialO, diz que é precisa mo sonhar demasiadamente corn isso. 0 genital, ele pr6prio, extrai suas

forças da fantasia da eriança e acha seu vetor no pré-genital.

Eis 0 que dari bastante trabalho aos te6ricos da recapitulaçao das puls6es da irillncia no adulto, por exemplo Ernest Jones 11 nos anos 1924-1925. A puberdade é efetivamente uma recapitulaçao de ,todas as antigas puls6es

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el1 a prOlrnçao. rOIS, se a

sexualidade pré-genital é 0 arsenal do qual a fantasia do adolescente se

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Ha, em Freud, um bom exemplo dessa distorçao no Homem

dos lobos1 2 :

A partir dos 14anos [

I,

com 0

surgimento Jas tormentas sexuais da puberdade,

ele ousou tentar com sua irmii (0 agente da tentativa de seduçiio, que !he contava

histôrias obscenas sobre 0 jardineiro) uma aproximaçiio fisica intima. Depois que ela 0 repeliu com decisiio e destreza, ele desvwu imediAtamente seu desejo dela para depositd-lo em uma jovem camponesa, que estava a seus serviços e

13

Adolescência

Adolescência que tinha 0 mesmo nome que sua irmii. Dessa maneira ele havia realizado um passo

que tinha 0 mesmo nome que sua irmii. Dessa maneira ele havia realizado um passo decisivo para sua escolha heterossexual de objeto, jd que todas as jovens das quais se enamorou posteriormente - amiude com fiancos sinais de compulsiio - eram igualmente serviçais que possuiam tanto uma educaçao como uma inteligência necessariamente inferiores às suas. Se todos esses objetos de amor eram substitutos da irma que havia se recusado a ele, niio se pode negar que uma tendência a rebaixd-la (0 famoso rebaixamento freudiano, Erniedrigung), apôrfim a essa superioridade intelectual que naquela época 0

;1 A ïP havia esmagado tanto, tenha conseguido desempenhar um papel decisivo em sua escolha objetaL

"f\A'Ô

.

Aqui, uma mudança de objeto sexua1 é efetuada precisamente sobre a base de uma denegaçao de seu prot6tipo, sobre a base de um recalcamento do desejo por este objeto prototîpico. Se Freud atribui um papel ao rebaixamento é coma sobredeterminaçao dessa denegaçao, sem que sejamos absolutamente obrigados a ver al a entrada na neurose obsessiva. A 16gica dessa escolha de objeto, sem duvida, anima a distorçao do desejo sexual no homem, objeto ideal

- objeto rebaixado.

Mas, na medida que Freud insiste sobre 0 prot6tipo e sobre a primeira escolha feita na imancia, nos damos conta de que ele faz existir uma estrutura, inscrita no cerne mesmo da sexualidade, de duplo gatilho, sem que sejamos conduzidos necessariamente a encontrar al um traça obsessivo. Alias, em A degradaçao da vida amorosa 13 de 1912, Freud nao insiste bastante sobre a correlaçao entre essa dissociaçao do objeto e a neurose obsessiva. Antes, faz desta um traço espedfico da sexualidade masculina.

Apoiados em certas observaçôes, alguns contestarn a existência mesma do periodo de latência. Seria melhor considera-lo coma uma construçao necessâria para dar conta do reca1que do desejo ed1pico, corn todos os efeitos de retorno do reca1cado que se manifestarn na adolescência. Esse retorno das puls6es pré-genitais na puberdade é freqüentemente conside­ rado, principalmente por Anna Freud em 0 ego e os mecanismos de defesd 4 ,

Serge Cottet

coma um sintoma; 0 conjunto dos traças de caciter sao vistos, nem mais nem menos, coma fOrmaçôes reativas, quer dizer, 0 endurecimento dos traças de caciter é destinado a sufocar 0 despenar dos desejos ed1picos. Podemos compreender que, numa época em que se opunha gmsseiramente na segunda t6pica de Freud 0 eu e 0 isso, Anna Freud nao teve outros meios de entrever a divisao do sujeito semo recorrendo ao modo de defesa obsessivo. Independentemente do cadter grosseiro de sua construçao, ela mo pOSSula meios de conceber a adolescência semo coma sintoma, quer se tratasse dos traças de arrogância e de agressividade, quer, ao contririo, do que pode valer coma uma espécie de apelo ao mestre.

o despertar do mal-estar sexual

A esseprop6sito, e apesar das diferenças de perspectiva, é precisa destacar

queocorre al

Hi uma passagem célebre de Tèlevislid 5 consagrada ao sexo-esquerdismo. Evidentemente Lacan nao mergulha nas raizes do pré-genital. Entretanto, constr6i os l'odos de relvindicaçao da juventude de maio de 1968 sobre 0 modelo do disœrso hi~térico.Eles queriam um mestre. Ou seja, que em relaçao a um certo nÛ.'11:;[0 de sintomas do social Lacan nao hesitou em aplicar-lhes, pura e Sinl~)k: a estrutura do sintoma clînico, 0 que, na

époea, mo era tao evidentl

acan

abordar a quesrao da juventudeem tennos de um sintoma.

~mcnte,

É ainda a prop6sito do encontro sexual na adolescência que Lacan descreve a relaçao sexual coma imposslve1. É quando a doxa consagra paradoxalmente a relaçao sexual coma POSSlVel, no momento da maturaçao, que a relaçao sexua1 se revela coma imposslve1. Lacan desenvolve este ponto de vista em seu Prefdcio ao Despertar da primavera de Wedekind 6 , peça 17 traduzida por François Regnault nos anos setenta, e que ji tinha sido objeto de discussao na Socidade PSicana1ltica de Viena em 1907.

Aobrade Wedekind-este, umdos mestres de Brecht-era sufici­ entemente conhecida na época de Freud para [he servir de exemplo

Adolescência

adequado das tormentas da puberdade e mostrar, em particular, coma a literatura naD se iludia sobre 0 exilio da relaçao sexual, sobre 0 que naD funciona entre as moças e os rapazes. 0 que mais chama a atençao é que essa questao é ilustrada pelo homem de teatro e demons­ trada por Freud a partir do exemplo mais rebelde à demonstraçao. É no momento em que 0 rapaz satisfaz aos ideais de sua virilidade e a moça se instala na identificaçao, momento de assunçao do desejo, que 0 encontro fracassa. Esse era 0 meio usado por Freud naquela época para designar

o mal-estar sexual e, coma diz Lacan nesse pequeno texto, 0 que faz 'furo no real'. Quando chega a hora do rapaz fazer amor corn as moças,

pr~cis() que sonhe comîsso, antes de· começar a disso·se-ûcupar. Donde 0 comeritario lacaniano do titulo da peça: 0 despertar da

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primavera.

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Isso nos explica também 0 tom critico de Freud a respeito do desgastado tema literario dos amores adolescentes e dos numerosos romances 'cor-de-rosà da época. A esse 'cor-de-rosà Freud acrescenta

o objeto perdido, dando-Ihe assim um toque de amargura. Se, nestes

romances, a primeira garota é idealizada, Freud observa que se trata na verdade de mascarar outra coisa. Avesso do cenario relativamente aparente no romance francês de adolescência a partir de Balzac, de Volûpia de Sainte-Beuve e explicito corn A educaçiio sentimentalde Flaubert. Aparece entao claramente que 0 avesso do cenario idealizado e 0 conjunto das formas clandestinas do gozo se repartem ', entre 0 café literario e 0 bordel. Freud seria entao autorizado, pela literatura, a consagrar 0 momento dos primeiros amores coma paradigmatico do impasse da relaçao sexual, e naD coma uma fase do desenvolvimento.

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Vou lhes dar um exemplo tomado emprestado de 0 adolescente de Dostoievski lB , autor ao qual Freud recorreu em varios momentos, precisameme quando se trata de correlacionar esse impasse do sexo à funçao paterna. Trata-se de uma passagem que resume bastante bem 0 que os psicanalistas atribuem às puls6es pré-genitais: a grosseria, a obscenidade

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Serge Cottet

mesmo dos adolescentes em relaçao às moças, assim coma 0 tema maciço do companheiro corn os ranços de homossexualidad~que ai pesam. Tanto a infância quanto a adolescência de Dostoievski nos SaD restituidas nesse texto; 0 autor coloca particular ênfase na historia do mau encontro entre seu pai e sua segunda mulher, sua mae, e no rebaixamento de que esta fora objeto, decorrendo dai seu proprio questionamento de sua legitimidade.

Apos LUna errância, que acompanha os traços dissicos sob os quais é descrito na literatura russa 0 rapaz que esci em conflito corn sua familia, ele se encontra sob a influência de LUn îndividuo inquietante, mais velho que ele, de alguma formaseu duplo narcisico, outro tema maior em Dostoievski. Esse personagem enrao habitua nosso autor à seguinte pcitica:

Nos passedvamos juntos pelas avenidas até avistarmos uma mulher como procurdvamos, quer dizer, sem ninguém a sua volta; nOs, entilo, nos coidvamos a seu fado, sem lhe dizer uma palavra, ele de um fado e eu do outro, e com 0 ar mais tranqüilo do mundo, como se nem sequer a vissemos, empreendfamos a mais

os objetos por seus nomes com uma smedade natural das coisas, para explicar toda sorte

de indecências e de infdmias, entrdvamos em detalhes que a imaginaçilo mais suja do mais sujo desavergonhado jamais teria imaginado. Naturalmente eu havia adquirido todos esses conhecimentos nas escolas, no liceu etc. A mulher se assustava, apressava 0 passo, mas nos fazlamos 0 mesmo e continudvamos com maior prazer ainda. Nossa vitima, evidentemente, niio podia fazer nada, nem gritos, nem testemunhas, inclusiveporque seria extravagante ir queixar-se de algo semelhante. Dedicamos uns oito dias a esta atividade. Niio entendo como isso pôde me dar praze,J9.

escabrosa das conversas. Nomedvamos

imperturbdvel e com~se fOsse a mais

Trata-se de um romance e naD de um traço dinico. Eis a genialidade do escritor, que nos permite localizar um viés da fantasia muito apropriado. 0 que nos é mostrado é a vomade de fazer balançar um ponto do pudor feminino, e isto de forma bem mais interessante que em uma va psicologia analitica referindo-se ao pré-genital.

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Adolescência

A escolha do ser

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No que concerne à menina, Freud uriliza um procedimento comparivel, sem contentar-se em apontar sua dificuldade no encontro corn um companheiro em uma determinada idade, mas se interessando sobretudo por uma estrutura do desejo e por um viés de sua fantasia. Em 1938, em Os complexosjàmiliare?O, Lacan faz coincidir esse momento da puberdade corn a emergência do ideal, que ele charna, j nessa época, de viril no rap~a moça, ideais sobre os quais 0 minimo que se pode dizer é que nao sao adequados para um encontro harmonioso corn 0 parceiro sexual. Pensemos na escolha da feminilidade para a moça, que deve acompanhar-se do recalque da masculinidade, momento de admirivel ambigüi.dade sexual nas jovens, quando elas nao sabem coma vestir-se, nem que caminho seguir.

É precisarnente durante este periodo de tensao maxima corn 0 alter-ego masculino que se coloca a questao da escolha. Mais do que

uma escolha de objeto, trata-se de fato de uma escolha do sujeito. Compreende-se que esta escolha possa ser definitiva. É 0 que atesta

justamente um dos célebres casos de Freud L () casa de perversao 0

um sintoma perverSQ. e~JPuma moça chamada i A jovem homossexuaL Trata-se de um'momentonoqWifse cOloca justamente a questao da identificaçao quoad matrem, à mulher coma mae. A concorrência da jovem corn sua pr6pria mae durante a gravidez desta, quando ela desejava um filho do pai, introduz a jovem numa decepçao que lhe abre precisarnente a alternativa da identificaçao. É comohomem que

JJ.Jie.

a alternativa da identificaçao. É comohomem que JJ.Jie. ela arnara as damas. Freud nao tinha nenhuma

ela arnara as damas.

Freud nao tinha nenhuma ilusao sobre as possibilidades de intervençao de uma psicanaIise para retificar a escolha de objeto, mais de acordo corn 0 desejo dos pais, pois ele entende que 0 ponto nodal nao é 0 de uma escolha de objeto mas sim de uma escolha do pr6prio ser do sujeito. Em relaçao à homossexualidade, faça uma observaçao

Serge Cottet

idêntica a respeito do rapaz. Aqui Freud também faz repousar sobre a época da puberdade a escolha subjetiva, quando, por exemplo, um rapaz esci concorrendo corn seu pr6prio irmao. É a partir do momento em que se colocaci a questao do interesse pelas mulheres que um dos dois abandonaci suas prerens6es e deixar.i espaça livre para tornar-se, ele mesmo, homossexual. Freud faz da puberdade um momento de verdade e, além dissa, um modelo da genèse da homossexuaIidade masculina.

o adolescente moderno

Apesar da adolescência nao ser de modo algum uma categoria lacaniana, Lacan nao deixa de aborda-la, principalmente em seu Prefdcio

ao Despertar da primavera de Wedekind e em Tèl.evisao. Retomando 0

vocabul:irio da época que qualifica 0 adolescente de 'jovem', constata que sua relaçao ao sexo é marcada por dois afetos modernos, 0 tédio e a morosidade. 0 curiosa é que Lacan fazia essa constaraçao em uma época na qual os direitos ao gow compunharn uma boa parte das reivindicaçaes, coma no sexo-esquerdismo. Ele se aproveitava dessa ocasiao para fazer girar a roda em outro sentido e designar uma espécie de infelicidade do ser no fato dos jovens se devotarem ao exercicio de relaçaes sem repressao.---

se devotarem ao exercicio de relaçaes sem repressao.--- Isso era visto na época coma uma posiçao

Isso era visto na época coma uma posiçao ao menos conservadora, coma se Lacan fizesse a apologia da repressao sexual. Tratava-se de fato de deduzir a estrutura desse impasse, estrutura que ele referia à 16gica, ao . menos à aritmética, isto é, ao gow do Dm, ideal de uma beatitude na quaI o parceiro é reduzid~ao semelhant~.Lacan notava, entao, a intolerância Jo adolescenreerr:;~onsagrar0 outro coma objeto a, em enraizar seu desejo ou sua causa em um objeto que nao fosse 0 semelhante idealizado. Intolerância que, sublinhemos, é completarnente adequada para 0 tratamento psicanalitico.

19

Adolescência

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1LACAN, Jacques. La science er la veriré. Écrits. Paris: Seuil, 1966.

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1

2ARIÈS, Philippe.

3FouCAULT, Michel. Hisroire de la sexualité, Tomo 1. In: La volonté de savoir. Paris, Gallimard, 1976.

4FREUD, Anna. Le moi et les mécanismes de défense. Paris, PUF, 1967. 5FREUD, Sigmund. Les trois essais sur la théorie de la sexualité, 1905. Paris:

Gallimard, 1971. 6AICHORN. Jeunesse à l'abandon. Toulouse: Privat, 1973. 7FREUD, Anna. Le moi et les mécanismes de défense, op. cir. 8FREUD, Sigmund. La naissance de la psychanalyse. Paris: PUF, 1956. 9FREUD, Sigmund.Les trois essais sur la théorie de la sexualité, op. cit. IOFREUD, Sigmund. Métapsychologie, 1915. Paris: Gallimard, 1968. 11JONES, Ernest. Théorie et pratique de la psychanalyse. Paris, Payor, 1969. I2FREUD, Sigmund. Extrair de l'hisroire d'une névrose infantile. LHomme aux loups-1918. In: Cinq psychanalyses. Paris: PUF, 1970, cap. 3, p.336. 13FREUD, Sigmund. Sur le plus général des rabaissements de la vie amoureuse­ 1912.In: La vie sexuelle. Paris: PUF, 1973. 14FREUD, Anna. Le moi et les mécanismes de défènse, op. cit. 15LACAN, Jacques. Télévision. Paris: Seuil, 1974. 16LACAN, Jacques. Préface à LÉveil du printemps de Wedekind. In: Ornicar (, n" 39. Paris: Navarin, 1986-1987. 17WEDEKIND, Frank. L'Éveil du printemps. Tragédie enfantine. Paris:

Gallimard, 1974.

18DoSTOIEVSKI, F.M. L'adolescent.

Eenfimtetla viefamilialesous l'ancien régime. Paris: Seuil, 1973.

Paris, Gallimard, 1949.

19DoSTOIEVSKI, F.M. L'adolescent, op.cit., p.91.

20LACAN, Jacques.

Les complexes familiaux, 1938. Paris: Navarin, 1984.

• Do original- COTIET, Serge. Scrrurure er roman familial à l'adolescence. In:

L1ncomcient de Freud à Lacan. Tese de dourorado, Universidade de Paris I, Panrhéon­ Sorbonne, Paris, 1993, v. II, p. 406 a 424, forocopia. &re rexro foi originalmente publicado em L1mproptu psychanalitique, Bulletin du Groupe d'Érudes Psychanaliriques de Saint­ Quentin, maio de 1989. Traduçâo de Maria Elisa Delecave Monreiro, membro aderenre da &cola BrasiIeira de Psicanilise. R.evisâo de Sonia A1berri, membro da &cola Brasileira de Psicanilise.

o ADOLESCENTE FREUDIANOI

Hugo Freda

A.E.

da École de la Cause Freudienne. Direror da Association centre

d'accueil et de soin pour les toxicomanes

A primeira pergunta que é preciso responder: por que trabalhar sobre a 'adolescêncià? Vocês sabem que, desde 1985, eu trabalho corn Bernard Lecoeur numa proposta que chamamos As novas formas do sintoma. Essa formula, que começa a tomar uma certa consistência, nasceu de uma constataçao dinica que, hoje, resumo da seguinte maneira:

existem manifestaçoes, comportamentos que se apresentam como assintomaticos. 0 quefaz irrupçao nao é um sintoma no sentido c1assico do termo, mas sim um 'fazer' que nao deve ser confundido corn uma passagem ao ato. Esse 'fazer' -jaavançado por Lacan - tem uma série de funçoes, das quais a mais importante, verossimilmente, é a de restituir a figura do pai. Portanto, uma das hipoteses dessa linha de trabalho é imerrogar os avatares dafunçao do pai num momento particular da historia do homem marcado corn 0 selo dos progressos da ciência.

Em nossa opiniao, essa modificaçao da funçao do pai tem

e

conseqüências diretas sobre a forma adquirida pelo sintoma, onde se 'ikf-­

presentifica uma certa gestao do goza que estabiliza um tipo de t cf vi

comportamento. Esta toma a forma de uma soluçao no sentido freudiano do termo. Nessa configuraçao, 0 'social' adquire uma funçao especial à medida que reveza na funçao do pai 2 Dentro desse quadro conceitual, me permiti colocar a interrogaçao sobre a adolescência.

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Nao é minha intençao definir 0 que nos ocupa coma uma nova forma de sintoma. Entretanto, podemos muito bem formular a hip6tese

Adolescência

~.

de que 0 adolescente de hoje, do final do século, nao pode ser pensado corn as mesmas categarias que aquele do inkio do século, e de que ha talvez algum interesse em observar 0 fenômeno que nos ocupa corn um olhar um pouco diferente daquele que estâvamos acostumados até

agora. Mas, antes de aventurar-se par novos caminhos, é necessârio rever

as arientaçôes estabelecidas, que adquiriram seus titulos de nobreza.

Dito isto, trabalhar a adolescência a partir das idéias depreendidas

do documento intitulado

das fases finais de nosso programa. Consideremos, agora, as vias de acesso ao nosso problema. A primeira que se impôe é uma revistio,

a mais precisa possive~ do sentido e da historia da palavra adolescência.

A partir de minhas pesquisas, bastante incompletas evidentemente,

permito-me esboçar algumas orientaçôes que me parecem necessârias à compreensao do fenômeno.

As novas fOrmas do sintoma sera, talvez, uma

fenômeno. As novas fOrmas do sintoma sera, talvez, uma Encontramos alguns traços da palavra Adolescens numa

Encontramos alguns traços da palavra Adolescens numa comédia

de Plauto, par volta de 193 a.c. A palavra 'adolescêncià instalou-se de

modo de6nitivo no dicionârio no pedodo que vai de 1865 a 1880. Entre esses dois momentos, ela sofreu uma série de modi6caçôes, cuja

logica é dincil encontrar. Dm unico p0nto aparece de forma constante:

o critério de passagem e de momento. As idades da adolescência podem variar; a terminologia nao é a mesma, quer se trate de um homem ou

de uma mulher, e as obrigaçôes atribuidas ao menino ou à menina nao

sao idênticas.

Apesar disso, ha um traço que éconstante: aadolescênciaé sempre um momento da vida que encontra sua especiflcidade no fato de fechar um cielo que vai da infância à vida adulta. Entre esses dois momentos, situa-se a adolescência. Nada de espedflco caracteriza

o momento enquanto tal. É uma v~dadeLrawna de passagem: um

~riodoque encourra ~ de ~eremSïID-~l11sâo.0 ponto

final da-;:aolescenèla que da sentido a esse lapso de tempO: seja porque

o sujeito se prepara para a vida ativa, seja pelas modiflcaçôes fisicas

22

Hugo Freda

que 0 tornam apto à pracriaçao, e pela pressao de algumas 6guras mais ou menos de6nidas, em funçao da época ou do contexto social onde ele evolui. Podemos constatar que essa concepçao da adolescência como um momento de passagem predomina em uma certa orientaçao da teoria psicanalitica, em uma primeira leitura dos textos de Freud.

A segunda via de acesso sera interrogar os escritos freudianos corn 0 objetivo de desvelar se existe realmente um adolescente rreudiano diferente daquele que emerge das de6niçôes anteriares. Neste ponto, abrirei meu estudio e lhes direi, imediatarnente, como trabalho. A leitura dos titulos 4.os escritos de Freud permite constatar, salvo erra meu, que nao ha um 56

t~o dediCâdo, de modo exd~iv~,ao

adoles~n~-Luà adolescência. ,-

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Ha, efetivamente, muitos escritos dedicados à criança, também ao adulto, mas nenhum ao adolescente. Sabemos muito hem que toda a obra de Freud é atravessada por questôes e reflex6es em torno da criança. De

1907 -

0 esclarecimento sexutllJas crianças-

até 1923 -

A organimçiio

genital infàntil-, a preocupaçao de Freud pela inB.ncia e seus avatares constitui um dos nucleÜs ârduos de sua reflexao.

Eu precisava, portanto, encontrar um ponto de apoio para entrar no labirinto rreudiano corn minha quesrao sobre a adolescência. Lendo e relendo a lista de textos de Freud, encontrei um cujo ritulo chamou minha atençao.

Trata-se de um texto de 1914 intitulado Alg;umas reflex5es sobre apsicologUt

do escolar. 0 termo escolar, par si s6, me perrnitiu rapidamente a conexao:

escolar= adolescente.

Sem ter lido esse texto, decidi arbitrariamente fazer dele um texto de referência sobre a adolescência. Num segundo tempo, estabeleci a lista de textos escritos par Freud no mesmo ano corn a hip6tese de que poderia traçar um 60 tematico e conceitual para esclarecer a questao do adolescente. Em seguida, li 0 texto mencionado; minha surpresa foi grande ao encontrar nele uma verdadeira maquete para uma possive! conceitualizaçao da adolescência.

23

AdoLescência

A propria historia desse texto tem sua importância. Freud 0 escreveu,

em 1914, para cdebrar 0 50° aniversirio do colégio onde de fez seus estudos secundarios: de passou oito anos de suavidanesse estabdecimento, entre os nove e os 17 anos. Trata-se de uma reflexao feita 41 anos apos 0 final de seus estudos. Trata-se de um texto encomendado - parte de um

conjunto -, par ocasiao de uma publicaçao coletiva.

É um texto, de certo modo autobiogrifico, que da alguma idéia do jovem Sigrlllmd, do adolescente Sigmund Freud. A partir desse texto e de outras referências, tais coma as cartas de sua juventude, podemas conhecer quai era a concepçao de Freud, naquda época, sobre 0 mundo e as coisas. É evidente que a leitura do texto naD permite que se faça uma idéia do conjunto das interragaçôes de um adolescente. Dm tema brilha por sua ausência: a prablematica sexuaI e amorasa que foi tratada par Freud seguidas vezes em outras escritos.

A analise do texto 0 situa em ruptura às orientaç6es gerais de Freud,

no que concerne à adolescência, cujo traço fundamental é 0 despertar da sexualidade, 0 que induz, inevitavdmente, a uma leitura desse momento à luz do Édipo e seus avatares. A leitura desse texto nos permite traçar uma série de coordenadas que poderao constituir 0 quadro de uma possivd conceitualizaçao dos prablemas referentes à adolescência.

Quera enumerar as hipoteses possiveis que dele se depreendem, sem privilegiar uma em relaçao à outra. A ordem foi estabelecida segundo sua emergência no texto. Para cada tese, faço um comentario pravisorio na intençao de traçar um retrato tipo do adolescente, a fim de construir, eventualmente, uma clinica psicanalitica que leve em consideraçao essas variaveis.

] todo esse perfodo era percorrido peLo pressentimento

de uma tarifa, que so se esboçava, de infcio, em voz baixa, até que eu pudesse, em minha dissertaçao de concLusao dos meus estudos, vestf-Lo corn paLavras sonoras: eu queria Legar, durante minha vida, uma contribuiçao ao nosso saber humano.

Primeira tese - (

uma contribuiçao ao nosso saber humano. Primeira tese - ( Hugo Freda A colocaçao em palavras

Hugo Freda

A colocaçao em palavras de um desejo, de uma

intençao, mais precisamente, da inscriçao de um desejo no campo do

Outra. 0 Outra de Freud era, evidentemente, 0 saber humano. Abre-se

um espaça de reflexâo:

Comentdrio -

a),A noçâ;o de inscriçao, quer dizer,_ 0 momento da passagem, na<?_de lI!!!- estado a outra, da inEl.nci~.ao adulto, mas sim de wu pensamento a .wuato. Podemos muitolJ~!U-!:epertoriar os sint0!TIas, os comportamentos_ que sao possiveis diante da impossibilidade dessa inscriçao. Penso no autismo; no suiddio dos adolescentes; na toxicomania coma soluçao; nos rituais de alguns adultos que realizam, par intermédio de algumas atividades, geralmente infantis, sonhos de infância jamais realizados; nos jogadares; nos atos de delinqüência juvenil, cuja intençao é encontrar uma inscriçao no Outra. Em geral, eles saD interpretados coma comp0rtamentos de transgressao ou coma determinados por um sentimento de culpa inconsciente, embara naD seja essa talvez a rmo que os determil}e. Parece-me possivel estabdecer uma lista bastante precisa

desses sintomas, sob 0 ti~ulo Sintomas da inscriçao ou da nao inscriçao.

r''''''

D'ro

b) As formas do Outra para cada sujeito é 0 que permite ou toma possivel a passagem do 'pressentimento' à definiçao. Existem muitos

exemplos da constituiçao desse Outra. Para Picasso, por exemplo, 0 Outra

é a 'pinturà; para Borges, a 'literaturà; para Papin, 0 'futebol'; para

Talleyrand, a 'Françà; para um de meus pacientes, 0 'teatra'; para um outra, 0 'casal'; para Freud, 0 'saber'; para Lacan, a 'psicanalise'; para outra paciente, 0 'dinheira'. Os exemplos podem ser infinitas. '(/0 - no-

Essa constataçao nos permite diferenciar duas coisas: a primeira

é que, em termos absolutos, sabemos bem 0 que é 0 Outra, mas ele

tem um NOME muito pteciso para cada sujeito. Reside ai a diferença entre os sujeitos. A segunda pravém dos fàtos dinicos: 0 'eu 000 sei' dos adolescentes

pode encontrar sua razâo na impossibilidade de nomear esse Outra, dai a possivd instabilidade de alguns adolescentes. Nao me parece inteiramente ilusorio estudar casas em que essa prablematica se apresente.

,

Adolescêneia

Diferencio, aqui, 0 problema da identificaçao infantil ao Outro, ao adulto coma dizia Freud, pela via do desejo de querer exercer a atividade profissional do Outro - polkia, coma meu tio; advogado, coma meu

pai -, e a identificaçao ao sintoma do Outra - caso tipico da histeria
1 -, da nomeaçao do Outro.

'

Segunda tese - Uma confissiio de Freud: "eu niio sei 0 que nos instigou mais fortemente e foi para nos 0 mais importante: 0 interesse dedicado às eiências que nos ensinavam ou 0 que dedicdvamos às personalidades de nossos mestres':

Comentdrio - Essa tese é 0 desenvolvimento da precedente e estabelece uma tensao entre 'interesse' e 'encontra'. Ela concilia esses dois termos para fazer brotar a imponância dos professores nessa época da vida do sujeito. Os professores, naD tanto em sua funçao de magistério, mas antes, coma 0 que permite ao sujeito verificar 0 alcance de seu 'interesse', uma cena interrogaçao entre um desejo inscrito por raz6es diversas e uma certa complacência, até mesmo submissao ao mestre.

Por outro lado, essa tese perrnite interrogar 0 lugar do prafessor no 'social' moderno e as conseqüências possiveis do seu desaparecimento. Pode-se estabelecer uma diferença entre 0 professor moderno, tal coma Lacan 0 define, e 0 mestre de antigamente, tendo coma alvo, por exemplo, o papel da escola na sociedade atual e os problemas do fracasso escolar.

Terceira tese - De qualquer forma, em todos nos, uma corrente subterrânea jamais interrompida dirigia-se para esses ultimos e em muitos de nos 0 caminho para as ciências passava, unicamente, pelas pessoas dos mestres; muitos permaneceram parados nesse caminho que, para alguns inclusive - por que niio conftssa-Io? - fti assim barrado de modo duradouro,

Comentdrio - Trata-se de um desenvolvimento da primeira tese; de fato, Freud poe em evidência coma 0 saber retorna ao sujeito através do Outro. Pode-se dizer que Freud postula naD haver aquisiçao de saber sem 0 Outro, assinalando, ao mesmo tempo, de que modo uma falha

26

Hugo Freda

do mestre -

aqui uma figura composita do saber, onde este, sem 0 mestre, naD existe.

do Outro -

pode tornar impossivd 0 acesso ao saber. Temos

É preciso, talvez, diferenciar esse saber transmissivel do saber

inconsciente propriamente dito. Assinalo que essa separaçao que estabeleço entre esses dois saberes naD é, de fato, uma separaçao:

pode-se dizer que 0 saber transmissivel e saber inconsciente se entrecruzam. Todavia, a figura do Outro, 0 professor moderno, que barra a estrada para 0 saber, naD pode ser posta no mesmo pIano que a figura demoniaca do supereu, que pode impedir a um sujeito 0 acesso

a um saber. Retira-me, constantemente, às preocupaç6es do adolescente corn 0 objetivo de tentar delimitar alguns pontos espedficos, proprios

a esse periodo da vida.

A colocaçao em exergo da figura do mestre so pode conduzir a

reflexao de Freud à figura do pai, de onde decorre, na minha opiniao,

o que chamarei a tese central desse artigo.

Quarta tese - Freud difereneia uma primeira parte da infâ'ncia, na quaI

o pai é 0 ideal, de uma

nessa Jase do desenvolvimento do jovem individuo que sobrevém seu encontro com 0 mestre': "Tudo 0 que distingue a nova geraç'iio, tanto 0 que éportador de esperanç'a quanto 0 que choca, tem como condiç'iio esse desli­ gamenzo do pai':

segunda, na quaI 0 pai deixa de ser 0 mais poderoso.

Comentdrio- Disse, anteriormente, que se tratava da tese de peso do texto. Tudo gira em torno do lugar do pai e sua substituiçao pela

figura do professor. É a substituiçao e 0 desligamento do pai que definem

a nova geraçao. Dediquemos toda a atençao ao carater de condiçao

estabelecido por Freud. Assinalemos, de saida, que 0 desligamento do pai naD deve ser entendido coma 'fazer sem 0 pai', figura proposta por Freud na anaIise do texto sobre Leonardo da Vinci. Esse desligar-se do pai, insisto, é principalmente para pôr em evidência a imponância do pai. Sem pai, naD ha desligamento.

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1

t

1 t Adolescência A partir deste primeiro comentario poderfamos delinear figuras do desligamento e ver as

Adolescência

A partir deste primeiro comentario poderfamos delinear figuras do desligamento e ver as articulaçaes possiveis à noçao de recusa corn a finalidade de esdarecer wn pouco mais 0 que chamamos comwnente de crise da adolescência. A crise da adolescência pode ser definida coma ~a crise do .~

.e

P~~o lado, a propria etimologia da palavra crise nos ajuda, na

medida em que crise sigrufica, ao mesmo tempo, 'fase decisivà e 'decisao'.

-------

-----~

Hi, portanto, wna crise do pai e é essa crise que fàz nascer a nova geraçao. Mas ha também wna decisao do rapaz para fàzer dessa crise wna condiçao do sujeito. É, enrao, necessario saber se a crise pode ser assimilavel à recusa. Creio que ha interesse em diferencia-las, mantê-las separadas.

A recusa do adolescente pode ser interpretada, nwn segundo momento,

coma wn produto da crise, mas pode, igualmente, ocultar wna tentativa

de fàzer-se wn pai, por este nao ter nmcionado inteiramente. fw.er wn pai

evoca, de modo evidente, 0 que Lacan indica varias Veles a partir de 1975, e que encontra sua condusao no seminario sobre Joyce.

fusa diferenciaçao permitici estudar nao apenas a crise da adolescência, mas tarnbém as conseqüências de wna cerra degradaçao da nmçao do pai na sociedade moderna. Podemos entrever os sintomas dessa degradaçao. Se f1zermos nossa a formula de Lacan que indica que 0 social pode tomar a nmçao do pai, poderemos ter wna segunda visao de toda wna série de fenômenos proprios da adolescência de hoje, para a quai 0 social é apenas wn substituto do pai.

Limita-me hoje, nesse programa, ao que posso chamar 0 primeiro capitulo. Sera preciso expandi-lo na direçao da Introduçfio ao narcisismo, corn 0 objetivo de diferenciar entre a sublimaçao e a idealizaçao, fazer um giro pelo Moisés de Michelangelo, para colocar em relevo esse traço de passagem que implica um sacrificio da païxao em nome de uma tarefa, ponanto 0 gow, e, depois, mergulhar no Mal-estar da civilizaçfio

para saber se a resposta freudiana à felicidade e ao amor se articula corn

a recusa de urna certa decadência da nmçao do pai. Isso é urna via de exploraçao.

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Hugo Freda

Guardemos assim, semprea citulo exploratorio, essas nomenclaturas dos sintomas:

a) sintoma da inscriçao ou da nao inscriçao.

b) sintoma do Outro nao nomeado.

c) sintoma da degradaçao do pai.

1 Conferência pronunciada em 22/10/1992 na École de la Cause Freudienne,

Paris. Esta foi apresentada sob a forma de uma orientaçâo àqueles que haviam respondido à proposta de trabalho feita pelo autor aos responsaveis pela iniciaüva

île de France. No original: Je vouspresente aujourd'hui un Programme, l'orientation que je proposerai à ceux qui on respondu à la proposition de travail que j'ai faite aux responsables de l'iniciative fie de France.

2No original: dans la meiUre où il va prendre le relais de la ftnction du père.

Referências bibliograficas

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Flammarion, 1968.

FREUD, Anna. Le moi et les mecanismes de défense. Paris: PUF, 1946.

FREUD, Sigmund. Sur la psychologie du lycéen. In : Resultats, idées, problemes. Tome 1, Paris: PUF, 1984. Le Moïse de Michel-Ange. Paris: Gallimard, 1914. Introduction au narcissisme. Paris: PUF, 1914 La vie sexuelle. Paris: PUF, 1914 Lettres de jeunesse. Paris: Gallimard. HEURRE, Patrice H.; PACAN-REYMOND, Martine; REYMOND, lean-Michel.

L'adolescence n'existe pas: histoire des tribulation d'un artifice. Paris: Edi­

tions Universitaires, 1990.

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Adolescência

SAUVAGNAT, lèrançois (dir). Destins de l'adolescence. Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 1992. Iü:smM13ERG, Evelyne. Uidentité et l'identification chez les adolescents.

1 Psydûatrie 1/~rantile, 1962. LEl30VlG, Serge. Les modes d'adaptation des adolescents. 6 th Congress In­ ternational of Association for Children Psychiatrie.

• Traduçao de Véra Avellar Ribeiro. Membro aderente da Escola Brasileira de Psicandlise.

,

,

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NUNCA HüUVE HIST6RIA MAIS BEIA

Maria Anita Carneiro Ribeiro

Membro da Escola Brasileira de Psicandlise

o que 0 estudo da adolescência pode nos ensinar sobre a

psicanâlise? Muita, e nao é por acaso que a mais bela histôria de amor

de

de William Shakespeare.

tados os tempos é uma histôria de adolescentes: Romeu e Julieta,

A histôria em si é, por muitos autores, considerada veridica, tendo ocorrido, segundo algumas fontes, no século XIV. Assim sendo, como a maioria das obras de Shakespeare, nao era original:

seu texto é baseado hum poema, A historia trdgica de Romeu e Julieta, traduzido para 0 inglês por Arthur Brooke, do original

italiano de Bandello. A traduçao é de 1562 e a peça de Shakespeare de 1596, ou seja, esta. completando 400 anos. Tai como em Hamlet,

e em varias outras peças, a grandeza da tragédia nao esta na origi­

nalidade de seu tema, mas naquilo que da verdade 0 artista nos aponta no poema. Talvez aqui, mais do que em outras obras, a beleza do manejo da linguagem se explicite de tal forma, que toma toda

traduçao uma palida traiçao do original.

o enredo é por demais conhecido: Julieta é uma menina, "ainda nao fez catarze anos", e Romeu um garoto um pouco mais velho que, como os adolescentes costumam fazer, anda em bando. Seu grupo de amigos inclui Mercucio, um piadista brilhante, mestre do trocadilho e de insinuaç6es maldosas, e Benvôlio, cujo nome ao pé da letra é Bem-querer, seu primo e alma fiel que deseja a paz

e a tranqüilidade. A intriga se desenrola a partir de uma luta de

Adolescêneia

poder que se configura em inimizade mortal entre as familias dos dois jovens: os Montecchios, familia de Romeu, e os Capuletos, de Julieta.

No terceiro capitulo dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade,

dedicado às metamorfoses da puberdade, Freud da ênfase ao encontro corn 0 real do sexo coma a questao crucial do advento da adolescência.

Como em todos os outros casos em que deve se produzir no organismo novos enlaces e novas composiçoes em mecanismos complexos, também aqui po­ dem sobrevirperturbaçoespatolOgicaspor interrupçiio destes reordenamentos.

A peça de Shakespeare é isto: das perturbaç6es patol6gicas pela

irrupçao dos reordenamentos necessirios à inclusao da nova variavel­

a sexualidade possivel na adolescência, a partir da puberdade. Devernos

aqui distinguir entre a sexualidade possivel- e a peça indui uma cena explicita pos-coiro entre os jovens - e a relaçao sex:ual impossivel, que é

o proprio kit motiv da tragédia.

Do encontro contingente entre os dois inimigos de nome ­

Momecchio c Capuleto -

os jovens partem para 0 encomro possivel na

cama, e dai para 0 impossivel do encomro harmônico, no qual a morte vern, muito fi-eudianamente, represemar a impossibilidade defi.nitiva.

A sexualidade pOSSIVel s6 assim 0 é mediada pelo Falo, significante da

falta que permite aos sujeitos femininos e masculinos se inscreverern na dialética do ter, e no amor darem 0 que nao têm. Mas se 0 encontro possivel no ato sexual depende do Falo como intermediirio, a pr6pria condiçao do Falo coma 'significante imaginirio', ou seja, semblante por excelência, ja denota este encontro possivel como fugaz e 0 ato coma falho. Como diz Lacan em 0 Despertar da Prima vera, "0 despertar dos sonhos nao é satisfat6rio para todos, mas se fracassa, é para cada um". A historia de Romeu e Julieta é sobre 0 malogro do despertar dos sonhos, sobre a fUgacidade do encontro possivel e sobre a impossibilidade radical da relaçao entre os sexos.

32

Maria Rita Cameiro Ribeiro

A pr6pria beleza exasperada do texto é utilizada pelo autor para levar 0 leitorlespectador à perplexidade. Pois se nos arrebata a abundância de metaforas sublimes ("Oh, fala de nova radioso anjo") , aliada à pregnância imaginaria de uma hist6ria de paixao exacerbada, os trocadilhos, os jogos de palavra e as piadas inesperadas (sobretudo na boca de Mercucio) esvaziam subitamente 0 excesso de sentido produzido, levando aquele que ou assiste a peça a se confrontar corn 0 vazio desconcertante da significaçao.

Um exemplo disso é 0 fragmento de dialogo entre Romeu e Mercucio na cena IV do 1 0 ato:

R: live um sonho esta noite

1 dreamt a dream tonight

M: E eu, outra.

And so did l

R: Bem, quai foi 0 teu?

Weil, what was yours?

M: Que os sonhadores quase sempre mentem

That dreamers often lie

R: No [eiro dormem, sonhando coisas verdadeiras.

In bed asleep, while they dream things true

Ha ai um trocadilho, jogando corn a homofonia e homografia do verbo to lie, mentir ou deitar, que configura um equivoco bem ao gosto de Lacan no L'Étourdit, e que aponta para 0 que 0 poeta sabe da verdade: que ela se enuncia no sonho - Freud, 1900 - e que tem a estrutura de ficçao - Lacan, 1975. É das mentiras do sonhador _ conteudo manifesto, diria Freud - que algo de sua verdade - da causa de seu desejo, diria Lacan - vai se tecer no emaranhado dos conteudos latentes, nas associaç6es que interpretam 0 sonho.

É também Mercucio que, ferido de morte por Teobaldo, joga ainda corn 0 trocadilho, dizendo a Romeu: "Pergunta por mim amanha, e encontraris um homem sério como um tumulo" (~kfor

me tomorrow and JOU shallfind me a grave man"). Grave significa sério

33

li

Adolescência

e tUmulo e portanto grave man é tanto um homem sério coma homem tûmulo, ou seja, morto. Shakespeare, muito lacaniano, sabe que 0 homem sério é 0 homem morto. 0 riso, ultimo recurso frente à anglistia, permite ao homem rir da morte e do sem-sentido do seu pr6prio destino.

Assim sendo, a pr6pria estrutura da peça, jogando corn 0 leitorl espectador 0 conduz a um para-além do dito, e convoca 0 dizer do ator (ou leitor) a encarnar a ambigüidade sublinhada pelo autor. No Semindrio 6, Lacan comenta, a prop6sito do Hamletde Shakespeare,

que nâo é à toa que varios atares ganharam a celebridade interpretando

o desafortunado principe da Dinamarca. Podedamos nos perguntar quantos atares estariam à altura de interpretar um Romeu ou um Mercucio e, sobretudo, quâo poucas atrizes estariam aptas a encarnar, corn um minimo de veracidade, a imortal Julieta.

Pois se ousamos dizer que a peça de Shakespeare pode falar da adolescência e nos ensinar sobre a psicanalise, éparque 0 saber que 0 poeta tem do inconsciente se encarna em personagens precisos, sobretudo nos her6is principais. Dois adolescentes, tâo diversos, que buscam a uniâo imposslve1 para além da uniâo dos carpos na c6pula, esta sempre posslve1, exceto para aque1es que e1evam-na à impossibilidade ou à insatisfaçâo por confundi-Ia corn a re1açâo sexual.

Na peça de Shakespeare, os dois her6is adolescentes investem corn furia num para além das aparências, num para além dos semblantes que os transforma nos ancestrais dos cara-pintadas, que pintavam 0 rasto para denunciar 0 que estava por trâs das aparências de um governo corrupto. Romeu, cara-pintada, denuncia as aparências das palavras pintadas:

Oh, tantas coisas primeiramente criadas do nada! Oh, pesada ligeireza, séria vaidade, InfOrme caos de sedutoras fOrmas! penas de chumbo, fumaça luminosa, chama gelada,

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Maria Rita Carneiro Ribeiro

Saude enferma, sono em perpétua vigilia, Que niio é 0 que é! Tai é 0 amor que sinto, sem sentir em tal amor, amor nenhum! Niio ris?

o questionamento de Julieta é ainda mais radical. Ela investe contra 0 nome e 0 denuncia coma 0 semblante por excelência:

j Oh Romeu, Romeu, porque és Romeu? Renega teu pai e recusa teu nome; ou se nao 0 quiseres, jura apenas que me amas

e nao serei mais uma Capuleto!

No entanto, para Julieta nâo ser mais uma Capuleto nâo é grande façanha. Par amor, as mulheres renunciam a tudo, nos diz Lacan, a seus bens e a seu nome, que na verdade é 0 nome de seu pai. Mas 0 que Julieta visa é mais, é, para além do nome, 0 âmago do ser de Romeu:

a que hd em um nome?

a que chamamos rosa, com outro nome

Exalaria 0 mesmo perfume tao doce;

E assim Romeu, se nao se chamasse Romeu

Guardaria esta querida perfeiçao que possui sem 0 tltulu. Romeu, despoja-te do teu nome

E em troca de teu nome, que niio Jàz parte de ti, Toma-me por inteira!

Tal é a subversâo proposta pela paixâo, 0 que nos fàz indagar se os adolescentes, sob 0 impacto da descoberta do sexo, mo sâo, coma as mulheres (segundo Miller), amigos do real. No entanto, 0 amar, paixâo do ser, cria um mura contra 0 real, mas é um a-mura &âgi1, contingente. Os dois adolescentes que se amam nâo amam do mesmo modo.

Romeu ama antes de tudo 0 amor, e encontra uma be1a dama, sua mulher inesquecive1, em cada esquina. Poderiamos mesmo especular se

35

1

~

Adolescência

"

este nao seria 0 destino de sua paixao por Julieta, caso as intrigas da peça

nao 0

1 0 ato, cena l, se desespera pelo

arnor de Rosalina, e ja na cena ~ tendo entrado de penetra corn seus arnigos na festa dos Capuletos, diz ao ver Julieta:

tivessem levado ao fatidico fun. No

Porventura meu coraçiW amau até agora?

Jurai que niio, olhos meus.

Jamais conheci a verdmkira beleza.'

Porque até esta noite

Este é 0 mesmo Romeu que na cena II dizia sobre Rosalina:

Uma mulher mais bekt que minha amada? o sol que tudo vê, nunca viu Outra semelhante, desde a aurora dm tempos!

Romeu arna 0 arnor, as belas formas, ama enfun a beleza. Este é 0 arnor dos homens, segundo 0 poeta. Freud aponta 0 olho como uma wna erogena privilegiada, que pode ser estimulada mesmo à distância pelos encantos do objeto sexual. "Parece-me indubicivel que 0 conceito de belo tem sua raiz no campo da excitaçao sexual, e originariarnente significou 0 que excita sexualmente". A palavra alema Reizsignifica tanto

estimuia quanto encantos.

A propria Julieta parece suspeitar da leviandade do arnado, na inesquecivel cena do balcio:

R' Senhom, juro por essa lua que coroa de prata as copas das drvores ftut/feras

l Oh, MO jures pekt lua, a incomtante lua que muda totWs os meses sua orbita circuktr, a fim de que teu amor niio se mostre igualmente incomtante. R: Por que devo jurar?

l Hiio jures de totW ou, se quiseres, jura pekt tua graciosa pessoa, que é 0 deus de minha idokttria, e acreditar-te-ei!

a arnor de Julieta é diverso do de Romeu: para além da 'querida perfeiçao' do arnado, seu desejo é desejo de desejo e, neste sentido, ela encarna 0 terrivel sujeito do desejo, coma Pensée de Coûfontaine na

36

Maria Rita Carneiro Ribeiro

trilogia de Claudel l No Seminario A Transferência, Lacan comenta que, à diferença do heroi da tragédia dassica, cujo destino esci nas maos dos deuses e que nao sabe, coma Édipo, do seu crime e carninha cego para 0 castigo, na tragédia moderna, Deus esta mono.

a heroi por excelência da tragédia moderna é 0 Harnlet, tarnbém

de Shakespeare. Ja desde 0 inicio da peça 0 pai esta morto e retorna das profundezas do inferno para darnar por vingança. É um pai mono

e humilhado pois morreu "na flor dos seus pecados". a heroi aqui

tem que enfrentar nao a fUria dos deuses, mas as vacilaç6es do seu proprio desejo. Ao contrario de Édipo, Harnlet sabe: sabe da morte do pai, sabe do crime, dos pecados do pai e do gow sem barreiras da mae.

Na trilogia de Claudel, 0 pai tarnbém é humilhado. Na primeira peça, a heroina defende 0 nome Coûfantaine, acredita no nome, e

para salvar 0 Papa, 0 pai de todos, destr6i sua vida e entrega seu nome

e seu corpo ao inimigo. A segunda peça encena a morte do pai em

pleno palco: um pai indigno, vilao, que recusa ao filho 0 proprio nome. Na terceira, fitlalmente, Pensée vern, pela via do desejo, redimir

o destino destroçado dos Coûfontaine, apontando que um nome é so um nome, e que s6 se pode aceiti-lo verdadeiramente quando se sabe que ele encobre 0 vazio do impossivel de dizer. Pensée,

a heroina cega, encarna 0 implac:ivel sujeito do desejo, e de tanto desejar se transmuta no proprio objeto do desejo, tal coma Julieta.

Julieta é, enrao, uma digna antepassada de Pensée, que se pergunta, afinal de contas, 0 que é um nome e que nao se deixa tomar, em nome do pai, pela inimizade entre os Capuletos e os Montecchios.

Desde a primeira cena em que aparece, a heroina é marcada coma uma mulher especial pelo poeta (cena III do 1 0 ato). A ama conta repetidas vezes uma anedota ocorrida no dia do seu desmame, uma historieta graciosa que salienta a precocidade da menina. Filha arnavel

e obediente, nao reluta, em nome do arnor, em enganar e mentir. Nem mesmo a morte do primo Teobaldo, seu grande arnigo, pelas

37

Adolescência

maos de Romeu, 0 que num primeiro momento a lança em desespero, nem mesmo isto, a afasta de seu desejo:

Devo faltlr mal de quem émeu esposo? Ah, pobre senhor meut

Que

lîngua exaltard teu nome quando eu

Hd três horas tua esposa, a injuriei?

a desejo ardente que a move desde que conheceu Romeu a faz agir corn uma fàlta de modéstia pouco comum nas donzelas casadouras. Ja no primeiro enamtro, da festa ern sua casa em que Romeu entra de penetra, permite que 0 rapaz a beije, sem ao menas saber seu nome, e diz à sua ama:

Vtli perguntar-Ihe 0 nome. Se for casado, temo que 0 mmulo serd meu leito nupcial!

E ao saber de quem se trata, exclama:

Meu unico amor nascido do meu unico odio! Cedo demais 0 vi, sem conhecê-Io, 1àrde demais 0 conheci.

A propria Julieta se encarrega de esclarecer ao amado, na cena do

balcio, a rmo de sua conduta ousada:

Em verdade, arrogante Montecchio, sou muito apaixondvel e por causa disto poderds pensar que minha conduta seja bem leviana; mas acredita­ me, gentil-homem, mostrar-me-ei mais fiel do que aquelas que têm mais destreza em dissimular. Devo confèssar que deveria ter-me mostrado mais reservada. se nao tivesses surpreendido minha verdadeira paixao amorosa antes que eu me desse conta. Perdoa, portanto, e nao atribuas a um amor leviano esta ftaqueza minha que a noite escura revelou.

Porém, mesmo a impladve1 Julieta, que investe contra os semblantes em nome do amor e do desejo, em nome deste mesmo amor e desejo, deixa-se enganar e tenta enganar 0 outro. Apos a

38

Maria Rita Cameira Ribeiro

unica noire de amor dos jovens, Romeu deve partir para 0 exilio por ter matado Teobaldo - sac ordens do principe. Julieta, apaixonada, tenta deter seu amado: '

l

t

Queres ir embora? 0 dia ainda nao estd proximo. Foi 0 rouxinol e nao a cotovia quefèriu teu ouvido receoso. Todas as noites ele canta naquela romiizei­ ra. Acredita, amor, foi 0 rouxinol.

Mas era a cotovia que corn seu canto anunciava a aurora e os dois jovens devern se separar para se reencontrarem depois, uma Unica vez, no momento que sela seus destinas tcigicos. Julieta, para escapar ao casamento contratado por seus pais, toma urna droga que lhe permite fingir-se de morta. Romeu vern a seu encontro e, acreditando-a morta, toma um veneno e morre. Julieta desperta e vendo morto 0 seu amado, toma seu punhal bradando: "Oh, bendita adaga.!" e apontando para 0 peito "esta é

a tua bainha. Enferruja ai e deixa-me morrerl" e apunhalando-se cai morta sobre 0 corpo de Romeu.

Enquanto os jovens adolescentes investem contra os semblantes

os adultos - os pais - aqui

comparecem coma figuras fracas, tibias. Frei Lourenço, corn suas intrigas,

fazJulieta fingir, mentir e trapacear, e termina, cheio de boas intençOes, por levar os jovens à morte. Também aqui, trata-se do pai humilhado da tragédia moderna: os pais dos jovens se dao conta tarde demais da vanidade de suas desavenças, e é sobre os corpos dos fùhos que aprendem

a liçao. Tarde demais; 0 pai humilhado nao salva seu filho.

em nome da verdade de sua paixao,

Sao estas as liç6es que a adolescência nos da e que 0 poeta nos ensina através da tragica historia de amor: um nome é sa um nome, e por tris dele nada ha; a uniao perfeita nao existe, nem na mais ardente paixao; e 0 pai naD salva, 0 pai é fraco, 0 pai naD protege seu filho da morte. Sobre 0 cadaver de Romeu, 0 velho Montecchio chora:

Oh tu, leviano, que modos sao estes De te lmçares para 0 mmulo antes de teu pail

39

Adolescência

A morte dos jovens, na flor da idade, no despertar dos sonhos,

recai sobre os pais impotentes. Diz a senhora Capuleto:

Ai de mimI

Este espetdculo de morte

. É como um sino que chama minha velhice para 0 sepulcral

Se 0 pai tem tantos nomes: Frei Lourenço, Capuleto, Montecchio, 0

principe, "é que naD ha um 56 que lhe convenha, a naD ser 0 Nome do Nome do Nome". Se SaD tantos nomes, é que nenhum nome ha para salvar 0 filho. Alertados pdas mortes precoces sobre a va mesquinhez de

suas disputas, os Montecchios e os Capuletos s6 podem se reconciliar quando tudo esci perdido.

Ao principe, pai humilhado, chefe de estado cuja autoridade naD pode impedir, corn uma açao enérgica, a matança, s6 resta concluir:

Uma lugubre paz acompanha estd alvorada. o sol niio mostrard sua face devido an nosso luto. Saiamos daqui para falarmos mais longamente sobre os acontecimentos Um seriio perdoados e outros seriUJ punidos, Pois nunca houve histOria mais triste Do que estd de Julietd e Romeu.

Que se amaram de forma tao diversa, que nem no ato final se encontraram, de bebendo 0 veneno, que nao era dda, e da, bainha do punhal, que nao era de.

1 A trilogia de Claudel, 0 refém, 0 plio duro e 0 pai humilhado é referida por

Lacan ji em 1948, no Mito individual do neurotico, e analisada no Semindrio 8, A transferência. •

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Maria Rita Carneiro Ribeiro

Referências bibliograficas

FREUD, Sigmund. Tres ensayos de teoria sexual y otras obras. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu Ed., v.VII, 1995.

LACAN, Jacques. El despertar de la primavera. Intervenciones y textos, 2.

Buenos Aires: Ed. Manantial, 1988. SHAKESPEARE, William. Obra completa, v. 1. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar,

1995.

The Most Excellent and Lamentable Tragedy of Romeu and Juliet.

The complete works, 1991.

• As referências sobre 0 texra de Shakespeare foram retiradas tanra do original quanra da traduçao em porruguês. No enrusiasmo pelo rrabalho, algumas vezes a aurara arriscou sua pr6pria rraduçao.

41

~

ü DECLINlü DA ADüLESCÊNCIA

t

Stella Jimenez

Membro da Escola Brasileira de Psicandlise

~

Se parece possive! verificar 0 começo da adolescência, que

identificamos corn 0 inicio da puberdade, é mais dificil determinar

q uando este periodo acaba.

Tal coma Freud, começarei analisando as respostas que 0 saber

popular dâ para estaquestao. Diz-se que a adolescência acaba quando

o jovem adquire uma vida afetiva e financeira independente dos pais.

Entretanto, 0 que escutamos na dinica nos mostra que a independência afetiva dos pais às vezes-nao se produz nunca, e a financeira é também

muito variâvel. Ou, por vezes, 0 sujeito tornou-se independente dos pais mas nao de outras pessoas, corn as quais reproduz a relaçao que tinha corn des. Poderiamos dizer que 0 sujeito s6 sai da adolescência ap6s ter se separado por completo do Outro? Cairiamos na falâcia de pensar que apenas a anâlise permitiria ao sujeito sair da adolescência e, corn isso, fariamos coincidir 0 conceito de adolescência corn 0 de neutose. IS10 permitiria conduir que essa resposta é superficial, e que

a cl1nica nao a corrobora.

Todavia, 0 conceito de adolescência se imp6e ao saber popular nao s6 como um momento de transiçao entre a vida infantil e a vida adulta, mas coma um momento de crise. Crise da adolescência, crise da puberdade, crise de identidade sao termos usados comumente.

Ora, na psicanâlise sabemos que crise é a palavra vulgar corn que se define os periodos da aventura humana em que as respostas, sem pre

Adolescência

enganosas, dificilmente conseguidas, se demonstram falhas. Momentos de encontra corn a Real traumatico em que a vida do ser falante, na sua diacrania significante, mostra-se descondnua.

De todas as crises que a ser humano enfi-enta é, certarnente, essa da adolescência a mais radical: todas as velhas respostas sao percebidas coma 'furadas'.

A esperança infantil de que crescendo a relaçao sexual existiria se

demonsua fàlsa. Para adiar a encontra corn a ma relaçao sexual, ou pela menas para ritualiza-la, as adolescentes brasileiros encontraram a f6rmula doficar, compacivel a essa outra invençao humana conhecida pela nome de amor cortés. Agora sao as pr6prias grupos de adolescentes que sancionam

se as regras r!gidas do fiearforam ou ma respeitadas. Esta engenhosa pcitica mereceria um uabalho

o corpo, etema alteridade absoluta, mascaravaseu carater de esrrangeiro corn a enganosa mestria da identificaçao especular. Mas na adolescência 0 corpo se impôe coma Outra, e a sujeito perde a mestria sobre ele. 0 sujeito se confronta corn a estranhamento do encontro corn a mO-'e5pecularizavel do estidio do espelho. Isto tem coma correlato a sentimento de despersonalizaçao, que deve ser diferenciado da despersonalizaçao psic6tica. ~I Também neste ponta os adolescentes brasileiras se demonstram sabios, ja que a pcitica exaltada de esportes, danças e gin:isticas minimiza as diferenças

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e a corpo thes aparece coma domesticivel.

Os pais sao percebidos na sua necessaria pequenez em relaçao ao que tinham sida chamados a encarnar e ao que continuam encarnando no inconsciente: a Outra. A autoridade frente a qual até a momento se posicionavam é relativizada. Os ideais vacilam, e os adolescentes saem à procura de novas ideais.

Enfim, (1 sint~Jlla;resposta corn que se tinha satisfeito até a momento

a pergunta:

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44

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Stella ]immez

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corn este significante e neste mundo infantil que a sujeito, até entao,

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assegurava de seu lugar no Ourra. Uma adolescente me dizia outra

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dia: "Estou na idade do nadà'.

Nao surpreende que a adolescência seja um momento privilegiado para a eclosao da psicose. A suspensao d;lS respostas opera coma um chamado ao Nome-do-Pai e a sujeito, em cuja estrutura a Nome-do­ Pai nao esd bem amarrado, corre a risco da separaçao dos registras Real, Simb6lico e Imaginario, e a da praduçao de um surto.

Sabemos que

~a adolescência se revive a complexa de Édipo.

Mas para além do Edipo este é um momento de relançamento, de suspensao da alienaçao significante. Uma época em que se repete a mita da escotha forçada do sujeito. Corn maior ou menor consciência disso, segundo cada casa, a sujeito se vê chamado a renascer para se colocar a questao que, em surdina, sempre acompanha oser falante: a Supremo Bem é a vida ou é a morte? Concorda corn Sonia Alberti' ,/ quando ela coloca que a morte para os adolescentes é uma questao·1. ética e nao 056 a resultaclo da noçao psicologizante da tendência a agir.Y;

Em ,oda cr;"', quando se p",seocifica 0 n,mm" da vida, essa

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ques~a~apar:ce. Que face do desejo escolher? Aquela que nos leva a \1)).

sua umca satlsfaçao possivel na morte ou aquela que nos faz desejar continuar a desejar?

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A questao da morte sempre esta explicita na adolescência. Mesmo num livra tao light coma a de Maria Mariana a questao da morte . aparece. Mas agora a escolha ja nao é entre se alienar ao desejo do Outra ou escolher a morte coma prindpio de inércia, tal coma se poderia pensar que aconteceu quando do nascimento do sujeito. Trata-se, neste momento, de uma escolha entre se alienar ou se destruir, ou seja, entre alienaçao ou pulsao de morte propriamente dita.

A tentaçao de se optar pela morte é muitas veres intensa. Pode ser

também acompanhada, coma coloca Lacan no Semiruirio da Érica, da

45

Adofescência

fantasia de começar tudo de novo. Wedekind, em 0 Despertar da Primavera, da um certo 'toque' sobre isto quando Moritz pergunta porque ele havia nascido e naD outra fùho. Parece que Moritz, ao morrer, daria aos pais outra chance de ter 0 ftlho desejado, que ele naD era.

outra chance de ter 0 ftlho desejado, que ele naD era. fu fugas, as situaç6es de

fu fugas, as situaç6es de risco, os acidentes de repetiçao, as ::i experiências corn dragas sac outras formas de demostrar essa vacilaçao :1 entre morte e vida. Sao situaç6es que, seja na vertente acting out­ ::. ~ ~"elepode me perder?"- , para tentar se escrever coma falta no Outra,

Stella ]imenez

uteis para manter vivo 0 desejo. Musil, em 0 Jovem Torless, demostra, sem ter lido Lacan, que a significaçao do sujeito é um nllinero imaginario, colocando a interragaçao implicita na aventura - "quem sou eu?"­ sob a forma da interragaçao explicita sobre os nllineras imaginarios.

A resposta que encontra é radical: 0 sujeito pode assumir qualquer

significaçao, pode chegar a desempenhar qualquer papel, dependendo das circunstâncias. Wedekind nos mostra Melquior, no cemitério, tendo que optar pela morte ou pelo homem mascarado. A resposta é em tudo semelhante à praduzida por um praceso analitico. Se 0 Supremo Bem

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F- seja na vertente passagem ao aw - 'hao quero saber mais nada disso"-,

é a morte, 0 sujeito nao perde por esperar, ja que a morte é necessaria.

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êm 0 valor de pôr em jogo a fantasia da prépria morte.

A morte, diz Lacan, tem a estrutura de um ato falho, pois 0 sujeito a

A depressao e a tristeza sem causa aparente, definidas por Lacan

coma covardia moral, tao freqüentes na adolescência, mostram que 0 sujeito naD quer saber 0 que deseja - frente ao dilaceramento da questao prefere nada saber. 0 sujeito abdica do desejo para naD ter' que decidir sobre questao tao crucial, e nao pode mais responsabilizar

o Outra pela resposta. f\

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A saida da adolescência corresponderia a uma opçao, uma escolha,

ainda que transit6ria. 0 adolescente acaba, normalmente, por escolher novas alienaç6es significantes. Infelizmente, naD todos. Novos ideais, novas significaç6es, novos sentidos para a vida. Novos sintomas. A adolescência acaba quando as perguntas se acalmam. 0 sujeito opta ou por se tomar 0 que se chama vulgarmente de uma pessoa de bem, levando em conta 0 que significa 0 Bem coma barreira em relaçao à . satisfaçao dos desejos, ou por ser um canalha, direcionando para fora seu desejo de destruiçao. Até a pr6xima crise, essas respostas funcionam.

Mas a adolescência fica para sempre na lembrança coma 0 momento crucial de interragaç6es. Como demostra Sonia Alberti em seu livra, quando um autor retoma a adolescência e a ramantiza em um trabalho semelhante ao analitico. Na literatura, 0 adolescente resolve' suas quest6es percebendo que todas as respostas sac ficç6es, mascaras

concebe coma contingente apesar de ser estritamente necessaria.

E escolher a vida s6 pode ser sob a forma de uma mascara.

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GRAFITO: 0

NOME DO NOME

DO NOME

Heloisa Caldas Ribeiro

Membro da Escola Brasileira de Psicandlise

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Cetta ocasiao ouvi a pergunta indignada de wna mae à sua filha que havia sido flagrada na escola pichando as paredes. A mae ja nao conseguia compreendt:r porque sua filha, antes tao dace e meiga, havia se tornado rebelde e agressiva. Entendia menos ainda como wna adolescente de classe média, sem nenhwna carência social grave, podia se dedicar a esta

atividade que, a seu ver, expressava a rebeldia da juventude causada pelas marginalizaç6es e distorçOes sociais. ApOs wn longo sermao em que discorre sobre as provaveis causas des tes jovens, a mae questiona a filha:

- "Você é wna rebelde sem causa?", ao que a filha, corn frieza insolente, teria respondido: - " É isso mesmo. Sou wna rebelde sem causal"

Proponho que façamos nossa a pergunta desta mae, modificando-a wn pouco, para indagar quai é a causa que move os jovens da nossa época e os leva a esta manifestaçao de tudo marcar corn traças estranhos e aberrantes. Em especial, porque algo mudou nas U1timas décadas e 0 antigo habito de pichar deixou de ser wna forma de veicular mensagens de cunho politico ou pornografico, para se tornar a escritura de formas ininteligiveis e indecifraveis que nao comporcam nenhum sentido. Por esta rmo, por nao se tratar de wna mensagem no sentido mais comwn do termo, passo a denominar esta escritura de grafito, pois este termo esca mais vinculado à noçao de inscriçao ou desenho toscamente riscado. 0 dicionirio, inclusive, 0 aponta coma relativo a épocas antigasl . o que pode ser tao eterno que faz do que é mais antigo na atividade da escrita um fenômeno moderno?

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Adolescência

No Semindrio 9, A identificaçâo, Lacan comenta a importância da escrita anterior ao que hoje conhecemos coma transcriçao da linguagem oral. Muito antes de se utilizar um alfabeto que pudesse transpor graficamente a fala oral, 0 homem ja inscrevia, como pravam os intimeras achados arqueol6gicos. Nao se tratava de uma escrita fonetizada coma veio a se desenvolver, mas de uma inscriçao significante, na medida que marca, representa e se oferece à leitura. Ainda que nao seja possivel descobrir 0 que esta dito nestas inscriç6es pré-hist6ricas, sabe-se, corn certeza, que elas portam um querer dizer. A articulaçao entre 0 significante e 0 desejo, um traço e 0 querer dizer de um sujeito, é 0 que de eterno existe na relaçao do homem corn a letra. Os grafltos têm exatamente esta caractedstica: sao desenhos que estilizam as letras conhecidas ou criam formas novas, podem ser palavras estrangeiras completamente descontextualizadas, parecem logomarcas nada 6bvias e, 0 que é mais interessante, constituem um nova nome pr6prio para 0 grafiteira que as praduz. É sabido que cada jovem inventa sua inscriçao e a usa coma uma forma de identificaçao. Quando muito, 0 grafito quer dizer que um, aquele daquela marca, esteve ali. Visto desta forma 0 grafito porta uma mensagem minima - eles dizem de cacia um que hi um, eles permitem a identificaçao de um seri alguém passou por ali e deixou sua pegada indelével nas pedras e muras do deserto da cidade.

A caractedsrica bisica do significante, outros significantes, esta presente no grafito -

cada graflteiro. Lacan salienta, no referido seminirio, a identificaçao ao traça

- einziger Zug- que Freud aponta em

e diz: ''A fUndlÇio do um, que constitui este traça, mo é em nenhuma parte tamada noutro lugar semo em sua unicidade: coma ta! mo se pode dizer dele outra coisa semo que de é 0 que tem de comum todo significante, de ser antes de tudo constituido coma traça, por ter este traça por SUportè'2. 0 jovem grafiteiro garante desta forma sua ex:-sistência, traça sua presença no mundo, desaparecendo simulraneamente por detris do nome fantasia. A quem se dirige nesta mensagem bizarra?

distinguir-se pela oposiçao a um desenho diferente para

Psicologja rias massas e andlise

do eu

50

Heloisa Caldas Ribeiro

o grafito é associado à pessoa que 0 desenha por muito poucos, em geral, apenas por aqueles que fazem parte daquele bando de grafiteiras. Ha, portanto, outros imaginirios, semelhantes, para quem esta identincaçao se dirige. Inclusive, é freqüente a rivalidade entre os bandos. 0 grafiteira risca por cima do grafito do inimigo, coma que

o invalidando, e acrescenta 0 seu ao lado. 0 fenômeno é da mesma

ordem de outras da linguagem, caractedsticos da adolescência, coma

a giria ou a utilizaçao de um nova alfabeto que codifica mensagens.

Estas maniJèstaç6es sao dpicas na constituiçao dos grupos e implicam

o narcisismo das pequenas diferenças. A giria visa chocar ou deixar no

ar aquele que nao a entende, assim coma a mensagem em c6digo tanto se dirige para quem tem sua chave coma para quem nao a tem. Um exemplo é 0 da mocinha que afixa no mural de seu quarto um lembrete para si pr6pria, em sofisticados arabescos, nao desconhecendo que os adultos da casa irao vê-Io. Sabemos, porém, que para além do outra imaginario 0 apelo ao Outra também esta presente nestes casos. É quase coma se dissessem: "decifra-me ou te devoro".

casa do grafit6, 0 endereçamento ao Outra simb6lico é patente

e, na medida que nao pode prescindir do espaço ptiblico, salta

ostensivamente da intimidade dos grupos para 0 campo do Outra. Campo diante do qual 0 enigma do Che vuoi?, "0 que 0 Outro quer de mim?", fàz 0 jovem responder corn sua pretensa identificaçao vazia, de forma a inverter e relançar a questao. 0 grafito identifica corn a mesma vacuidade do nome pr6prio, nao diz nada sobre 0 ser e seu gozo, quando muito 0 cifra. A prablematica do sujeito frente ao gow

e sua cifra nao é exclusividade de nenhuma faixa etaria; muito ao

contrario, 0 sujeito da Psicanalise, 0 sujeito do inconsciente, é

atemporal. Por que, entao, esta questao irrompe de forma tao contundente naqueles que designamos pelo termo 'adolescente'?

No

Adolescência nao é um conceito praposto pela teoria da Psicanalise. Na verdade é um termo bastante novo, data do século XIX, e foi estabelecido por toda uma perspectiva hist6rica da

51

Adolescência

educaçao, da sociologia e da psicologia, na qual nao vamos nos deter aqui. Freud, ainda que dessa época, utilizou 0 termo 'puberdade', no qual salienta as transformaç6es do corpo que deixa de ser biologicamente infantil. No entanto, se 0 corpo deixa de ser biologicamente infantil, Freud postula que 0 mesmo nao ocorre corn 0 sujeito do desejo. 0 sujeito do desejo se constitui frente ao impasse da castraçao que tem no complexa de Édipo seu momento decisivo. Desta forma, 0 sujeito na puberdade terâ que se haver novamente corn suas quest6es cruciais para fazer frente às modificaç6es da demanda pulsional. 0 infantil é tempo de postergaçao, sonho e espera. A puberdade provoca um despertar no qual urge concretizar 0 sonho, 0 mesmo sonho de sempre, invariâvel na determinaçao de cada sujeito. 0 adolescente, portanto, adoece desta loucura humana que é a de realizar 0 sonho. Ele nao pode mais esperar, é preciso conduir. 0 tempo lôgico do momento de conduir exige 0 ato. Distinguindo-se da mera açao, 0 ato é um dizer que localiza 0 sujeito do desejo em relaçao à cadeia significante

e à lei da funçao paterna.

Grafitar é um ato. Dm ato porque diz e porque situa um sujeito diante do goza. 0 grafito agride a lei da cidade, suja, invade a propriedade publica e privada, enxovalha irreverentemente e enfeia.

É um ato de ôbvia transgressao. Em Mal-estar na eivilizaçiio, Freud comenta os valores reverenciados pela civilizaçao coma a beleza, 0 asseio

e a ordem, valores construîdos por uma idealizaçao tomada dos

parâmetros de modelos celestes, a qual exige uma rentincia ao que ele considera coma a tendência inata dos seres humanos ao descuido, à irregularidade e à irresponsabilidade. Ou seja, ao que se encontra submetido nao sô ao prindpio do prazer, coma também ao para além do prindpio do prazer 3 0 ser humano, conseqüentemente, vive na cultura um mal-estar. Em termos de goza, este mal-estar decorre do impasse de cada um dever ceder do seu goza todo, em nome de uma via que lhe permita acesso a um quinhao de goza. Isto é 0 que se representa no miro de Totem e tabu, e que se verifica na ordem do Direito, na qual se prescreve 0 uso, porém se proscreve 0 abuso dos

52

Heloisa Caldas Ribeiro

ditos bens, conforme Lacan comenta no Semindrio da Étie"'. 0

repete neste ato de grafitar? Pensamos que é um ato através do qual se

que se

recoloca 0 paradoxo do parriddio.

o complexo de Édipo deixou ao sujeito um legado, a submissao à lei paterna, mas também colocou-o frente ao seu paradoxo: ser exatamente como 0 pai e nao ser como 0 pai, pois sô este tem certas prerrogativas s .A identificaçao ao Nome-do-Pai, longe de ser um paraîso ou uma terra prometida, é um campo de conflito e guerra. Conflito entre dever abrir mao do que justamente se deseja e guerra na qual 0 pai imagin;irio é um rival a exterminar. 0 adolescente vive entao de forma muito aguda 0 mal-estar na cultura. Dm trabalho deve ser realizado sobre 0 que do pubere reaviva 0 despedaçamento do corpo pulsional. Este trabalho sô disp6e coma recurso dos procedimentos de idealizaçao, estabelecidos na infância sobre 0 ideal do eu e a identificaç:ao, e tem a missao impossîvel de dessexualizar as representaçoes incestuosas conduzindo à eleiçao de um objeto menos inadequado. Em termos fFeudianos, é a missao de reconciliar a corrente terna corn a corrente sensual, antes tornadas incompadveis pela interdiçao paterna.

Outra observaçao interessante é que se trata de um ato herôico. o grafiteiro galga alturas coma um homem-aranha para deixar seu traço no topo de prédios e monumentos, na borda de viadutos perigosos pelo trânsito intenso, no domo de catedrais, enfim, onde ficar mais claro que, para além das leis humanas, ele desafia a lei da gravidade e: da segurança, coma se ultrapassasse os limites entre a vida e a morte. Sua inscriçao nao deixa de ter 0 cadter de um poema épico. Segundo Freud, 0 primeiro poeta épico foi aquele que inventou o mito herôico, que disfarçou a verdade corn mentiras consoantes corn seu anseio, 0 de que um homem sozinho pudesse matar 0 pai 6 .

Mas que verdade é esta que Freud aponta? Por que é mentira que se possa matar sozinho 0 pai e tomar seu lugar para de tudo

53

Adolescência

gozar desenfi-eadamente? Freud responde à esta questao corn 0 proprio mito, asseverando que 0 pai é desde sempre morto. 0 pai totémico, que de tudo goza, nao é senao um ideaI inaIcançavel frente ao quai qualquer humano é impotente. A lei nao é portanto 0 exerdcio humano do direito; ao contrario, 0 exerdcio do direito é conseqüéncia de um assujeitamento anterior do sujeito da faIa à lei da castraçao.

A castraçao, do ponto de vista de Lacan, é a propria impossi­ bilidade significante, pois nao ha nenhuma representaçao que possa satisfazer à demanda pulsionaI. 0 objeto a, suposto complemento do sujeito, objero que permitiria 0 acesso ao todo gozar, é inacessivel no pIano do sentido, pois nenhuma paIavra 0 determina. É insuficiente no pIano irnaginario, nenhuma forma do visive1 0 encorpa e, conseqüentememe, ex-siste à cadeia significante coma 0 fura do reaI. o que Freud colocou em termos de impoténcia, Lacan recoloca em termos da impossibilidade inereme à logica significante. Desta forma, tudo que é da ordem da linguagem constroi uma ficçao, uma memira, que acaba por revelar uma verdade que nao esta comida no sentido, mas no nao sentido que cada semido aponta. A verdade da castraçao, que todo neur6tico tenta desesperadamente esquecer, é a faIta de um significante que dé conta do sexo e da morte.

Lacan situa esta questao, em Freud, desde a prablematica da transcriçao da representaçao inconsciente em representaçâo pré­ consciente. 0 significante ao tentar apreender a Coisa, das Ding, dela mais se afasta, apagando-a, de forma que da Coisa 0 que resta inapreensivel pelo significante assume 0 estatuto de causa. Na perseguiçâo da causa, 0 sujeito é condenado a faIar e a cadeia significante é infinira.

Os grafiteiros nao se restringem a deixar sua marca solitiria entre outras. Eles parecem compelidos a repeti-Ia, tanto quanto a oportunidade lhes permite, ao longo do mesmo mura. Todavia nao é exatamente 0 mesmo de wna cadeia significante, onde SI é diferente de 52' Trata-se de um significante monocordico que nao encerra em si nenhum sentido

54

Heloisa Caldas Ribeiro

e nem é ressignificado a posteriori por outro significante. É evidente

que 0 que importa do sentido é justamente 0 nao-sentido. 50 podemos atribuir aIgum sentido a isto se, como ja 0 fizemos, 0 tomarmos como um ato, um ato repetitivo e sintomatico.

Assim como 0 sintoma histérico inscreve no corpo os hiero­ glifos que visam eratizar um goza, podemos pensar 0 ato de grafitar coma uma tentativa de circunscrever um gozo. Um goza que é sempre da ordem de um real do corpo e que empurra um sujeito às representaç6es simbolicas e imaginarias, a ordenar este goza corn seu arsenallogico disponive1, isto é, sua ficçao de identificaçao

e de objeto. 0 que poderiamos também chamar de ordem f:ilica do sujeito.

A ado<;ao de um nome fantasia que substitui seu nome proprio visa dar conta da faIha do Nome-do-Pai. É um nome corn 0 quai busca metaforizar 0 enigma do sexo, 0 indizivel da nao-relaçao sexuaI, da auséncia do objeto de complementaridade e da faIta-a-ser. Como Freud aponta, é uma Identificaçâo ao traço, na quai lia identificaçao apareceu no lugar da escolha de objeto e que a escolha de objeto regrediu para a identificaçao"7. Coincidem desta forma a faIta de sentido da faIta-a-ser e a da faIta-a-rer. 0 grafiteiro, coma bem respondeu a adolescente insolente, é um rebelde sem causa, nao pode explicar a causa coma queria sua mae. Ele desconhece sua causa. Para cada sujeito é precisamente isso que 0 causa.

Em seu comenrario à peça de Wedekind, 0 despertar da primavera, Lacan elogia a perspic:icia do autor em mostrar que algo rateia no ato sexual, apontando para a re1açao do sentido com

o goza. Relaçao que ele assinala ao dizer que é ao se prapor 0 proprio enigma que se encontra 0 sentido do sentido. Pensamos que 0 grafito nao deixa de ser um enigma praposto e encontramos nele 0 semido do sentido: 0 nao-sentido. É um nome que 0 jovem elege desconsiderando qualquer instituiçao da legitimidade dos nomes

55

Adolescência

dos cidadaos e, conseqüentemente, evidencia mais ainda 0 nome em sua funçao de semblante. Convém citar Lacan no texto mencionado:

Mas 0 pai tem tantos nomes e tantos que niio hd Um que lhe convenha, seniio 0 Nome do Nome do Nome. Nenhum Nome que seja seu Nome­ Proprio, seniio 0 Nome como ex-sistência. Ou seja, 0 que, por excelência, faz semblantt!.

1 FERRElRA, Aurélio B. H. Novo diciondrio da lingua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975. 2 LACAN, Jacques. 0 Semindrio 9: a identificaçiio 1961-1962 (inédito), liçao de 22/11/1%1.

3 FREUD, Sigmund. 0

Rio de Janeiro: Imago, 1%9. p.112-114. 4 LACAN, Jacques. 0 semindrio, livro 7: a ética da psicandlise -1959-1960. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ediror, 1988. p.279. S FREUD, Sigmund. 0 ego e 0 id. Op. cit., v.19, 1923. p.49 .

6 Idem, Psicologia do Grupo e Analise do Ego. Op. cit., v. 18, 1921. p.171. 7 Idem, Ibidem. p.135.

Despenar da Primavera. In: Falo, Revista Brasileira do

8 LACAN, Jacques. 0

mal-estar na civilizaçao-1930. Obras Completas v.21.

Campo Freudlano, nO 4-5, 1989. p. 7-9.

Completas v.21. Campo Freudlano, nO 4-5, 1989. p. 7-9. o BEIJO Ondina Maria Rodrigues Machado Correspondente

o BEIJO

Ondina Maria Rodrigues Machado

Correspondente da Seçiio-Rio da EBP

É esse? Niio. É esse? Niio. É esse? É Pêra, Ulla, maçii ou salada mista?

Quem nunca brincou disso? Corn 0 coraçao na boca se fazia a escolha.Pêra- aperto de mao; uva- abraço; maça- beijo; salada mista­ beijo na boca. E se 0 escolhido fosse feio e a escolha fosse salada mis ta? Mas se fosse bonito e a escolha fosse pêra?

Duvidas sempre djvidem 0 sujeito, mas a irresistîvel emoçao em ver de quem se trata precipita a escolha. Tempos nada logicos, pois antes de ver tem-se que conduir. Esta é a incerteza antecipada.

o ftis.îOn que se apossa do sujeito nesta brincadeira nos faz refletir sobre a funçao do beijo na descoberta da sexualidade e no encontra corn 0 outra sexo.

Parece que 0 manto de ramantismo que envolve 0 ato de

beijar 0