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Sozinhos nas Ruas”

Há coisas que não acontecem por acaso nas nossas vidas e quando acontecem, devemos interpreta-las e perceber o porquê de nos acontecerem a nós. Vejam bem:

Ainda ontem estava a beber um copo com a minha colega de casa Bárbara. Tinha-mos imensos motivos para festejar, era o início de um novo ciclo. Acabamos a licenciatura! Estava-mos então na esplanada do mesmo café de sempre, quando de repente vem um homem a andar em nossa direção com um ar perdido e assutado. Demos por nós a pensar que conhecíamos aquela cara de algum lado … mas de onde?!

Havia uma praça, no centro da praça era onde aquele homem se encontrava todos os dias, quando eu e Bárbara lá passávamos para ir para a faculdade. De todos os dias que lá passamos o homem estava sempre no mesmo banco, estático, como se fosse uma estátua.

O homem começou a aproximar-se cada vez mais de nós até que começou a

falar connosco. Foi então que a história ficou um pouco bizarra de mais para

nosso gosto. Porque viria aquele homem falar connosco se passamos diariamente por ele e nunca nos falou?! Até que uma mulher chega e diz:

- Não estranhem meninas! Ele é mesmo assim. Às vezes acorda e gosta de falar. Mas não é mau homem, não têm do que ter medo”.

Ainda assim, nós permanecemos de pé atrás. O homem parecia ter uma faca no bolso, ficamos com medo do que seria capaz, do que poderia acontecer num mínimo descuido. Além disso, a mulher que tinha vindo falar connosco

tinha um ar sinistro, debaixo do ombro trazia uma caixa velha preta. A senhora,

já idosa, tinha aspeto de sem-abrigo, parecia a típica “bruxa” que vemos nos

filmes. E nós não acreditamos em bruxas mas que as há, há …

Toda a situação estava demasiado estranha para que deixasse-mos de “jogar à defesa”. Assim, continuamos reticentes, não dando asas à conversa do homem.

Alguém ao longe observava o que estava a acontecer em volta da nossa mesa s decidiu interferir. O que mais viria ai? Esse Alguém apresentou-se, dizendo que se chamava Sérgio e contou-nos o que ninguém sabia, que aquelas pessoas haviam tido vidas complicadas e viviam sozinhas nas ruas da grande cidade. Só precisavam de um pouco de atenção, da nossa atenção que todos os dias passamos por eles e nunca nada percebemos. Pensamos que se calhar não era nada difícil dar atenção a estas pessoas e contribuir para o seu bem-estar. Afinal se calhar não havia mesmo motivo para alarme. Contudo, o inesperado acontece … O homem não gostou de ouvir o que o senhor Sérgio nos tinha acabado de contar. Enervado pegou na faca que tinha no bolso e começou a berrar connosco a dizer:

- Vocês jovens é que nos abandonam, tratam-nos como trapos velhos. São todos iguais aos filhos que criei uma vida e que mal tiveram oportunidade abandonaram-me! Agora que eu mais precisava deles.

Na nossa cabeça aquilo que ouvíamos estava a passar em slow motion. Que culpa tínhamos nós da tragédia que lhe tinha acontecido? Mas ao mesmo tempo porquê que não fazemos nós a diferença e ajudamos este senhor? Foi então que decidi interromper o homem e pedi-lhe para que se sentasse para que nos dissesse o seu nome e acima de tudo que pedisse alguma coisa para comer. O homem ao ouvir as minhas palavras acalmou e decidiu ainda que reticente sentar-se. O homem tem nome e chama-se Jorge. E a mulher de aspeto estranho lembram-se? Essa senhora tem uma história idêntica à do Senhor Jorge e sentou-se ao pé de nós da mesma forma que o senhor Jorge. De repente eramos 5 pessoas em volta de uma mesa a conhecermo-nos, pessoas pelas quais todos os dias passamos e não demos a mínima importância.

Terminada a conversa percebemos que o homem e a mulher não tinham mesmo onde ficar e levamo-los para a nossa casa, já era tarde não havia mais o que fazer. Mas tinha-mos de arranjar uma solução rápida, eles não podiam ficar para sempre em nossa casa.

No dia seguinte, ligamos para várias instituições a explicar o caso, estas disponibilizaram-se a receber o senhor Jorge e a amiga, difícil foi convence-los

a ir. Estavam habituados à vida que levavam na rua. Mas depois de uma boa

conversa acabaram por aceitar com as condições de que os iriamos ligar frequentemente e tentar visita-los de dois em dois meses sempre que possível.

E o tempo passou, passaram-se seis meses desde que aquela história tinha acontecido. E agora? Agora aquelas pessoas que nos abordaram um dia de forma estranha têm um lar, tem roupa lavada, têm comida, têm pessoas que se preocupam com eles, têm pessoas com quem falar e acima de tudo têm a estabilidade que sempre quiseram e mereceram.

Conforme o prometido, eu e a Bárbara, vamos visita-los sempre que podemos

e numa das vistas o senhor Jorge disse-nos:

- Obrigado filhas, devolveram-me a vida, eu já estava perdido. A rua já era a minha casa, mas afinal eu nunca soube o que era ter um lar. Agora sim eu tenho um lar!

Foram as palavras mais bonitas que me disseram. Naquele momento senti, o quão é bom ajudar os outros e senti que fiz a diferença nem que seja na vida de uma pessoa dos milhões que existem por todo o país. Percebi, finalmente, a verdadeira situação do abandono. Uma realidade demasiado próxima mas ao mesmo tempo tão longe que não fazemos nada para a contrariar.

Agora eu e a Bárbara somos voluntárias numa instituição que ajuda sem- abrigos. Já viram o que um simples dia mudou nas nossas vidas? Mudou as nossas e pode mudar a tua basta estares de olhos abertos.