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UM MAR DE ROSAS

RAQUEL RODRIGUES

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“Qualquer semelhança entre factos e personagens* não é uma mera

coincidência. Este romance é um retrato fiel de um dos acontecimentos mais infelizes que se passaram na minha família em princípios de 2000 e do qual todos os intervenientes saíram profundamente afectados. Mas tal como em qualquer outra família, os laços que unem uma mãe a uma filha dificilmente são destruídos. São antes eternos e capazes de ultrapassar os maiores obstáculos. Por isso, um conselho que ofereço a todos os que lerem este romance é que aproveitem cada página porque todas elas me trouxeram risos, lágrimas e um prazer inenarrável de escrita…”

* Apenas os nomes das personagens são fictícios.

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Infelizmente terminou e não deixou nada de bom a não ser os dois filhos do casal. ditaram o fim de um casamento que tinha tudo para dar certo. cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros. Muitas vezes. Mas infelizmente não deu. Seis horas e quarenta e cinco minutos. 4 . de quinze anos e Daniel de dez. e para o cúmulo dos cúmulos. o despertador tocou ruidosamente. e Madalena descobriu esse carácter ao fim dos dezasseis anos em que esteve casada com ele. faltas de respeito e negócios esquivos envolvendo uma assinatura sua. Madalena dava-se consigo a pensar se realmente tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para manter um casamento. quando estava prestes a adormecer. com o trabalho e com as amantes que arranjava aqui e ali? Diante de tudo isto. Traições. até porque o seu único objectivo era oferecer-lhes uma família “normal”. o que não deixava de ser um dos requisitos fundamentais para ser o melhor na sua profissão. Será que tinha jogado todas as cartas que possuía na manga? Será que não deveria ter engolido o pouco do orgulho que lhe restava e tentar salvar as cinzas de um amor que parecia adormecido aos seus olhos e aos olhos do ex. também ele tinha um carácter duvidoso. Essa era a rotina de Madalena Soares. Jorge era um advogado de quarenta e dois anos que ganhava a vida a defender empresários corruptos e outras pessoas de carácter no mínimo duvidoso. realmente não restou outra alternativa a Madalena a não ser pedir os papéis e tentar encontrar alguma paz de espírito. uma mulher de quarenta anos. ela passou anos e anos a pensar nos efeitos que a sua separação teria em Sara e Daniel. uma excelente forma física tamanho trinta e oito e que já havia superado um divórcio e todas as frustrações que rodearam a sua vida durante os anos em que esteve casada com Jorge Albuquerque. Mas como poderia oferecer essa família se o ex. em frente ao espelho da casa de banho enquanto analisava os primeiros fios de cabelo branco. Bem. Infelizmente tinha chegado a hora de levantar. na verdade. era no entanto estável e confortável. marido se mostrava muito mais preocupado com o próprio umbigo.CAPÍTULO I As chuvas torrenciais e as fortes trovoadas não a deixaram dormir durante a noite. marido? E os filhos? Também não deveria ter pensado neles? Na verdade. olhos escuros bem delineados. tomar um banho e acordar os filhos para a escola. Sara. que apesar de há muito não ser feliz.

ela percebeu que havia pelo menos seis meses que a filha fazia questão de a contrariar em tudo.O quê?! . pensando melhor. Depois disso. já que mais uma vez Sara se encontrava com os malditos auscultadores nos ouvidos. contou até dez e continuou a preparar o pequeno-almoço a toda a velocidade.Nem penses que vais sair de casa sem comer – respondeu Madalena poisando o fervedor de leite sobre a mesa.Não sei. . Mas a verdade é que Madalena não se lembrava de ter sido uma adolescente tão problemática e muito menos de ter dado tanto trabalho aos seus pais. A pergunta não obteve qualquer resposta.Estudaste?! . 5 . . – Ouviste-me – insistiu a mãe sacudindo-lhe o braço. tentava convencer-se disso.Eu como lá na escola.Sim – respondeu Sara baixando o volume do mp3. .Mas eu já ia … . Acho que sim. .. . É da adolescência. Seria pedir muito que a sua filha também fizesse o mesmo consigo? O pequeno-almoço da família foi degustado em meia hora e depois disso seguiu-se a correria em direcção ao carro debaixo de um frio de cortar à faca. foram os ingredientes para começar bem o dia enquanto o rádio divulgava as primeiras notícias da manhã e os ponteiros indicavam que havia pelo menos vinte minutos que estavam presos numa fila de quase dez quilómetros. Portas abertas. Ao ouvir a resposta da filha. E enquanto ignorava o barulho ensurdecedor dos desenhos animados que passavam na televisão e do mp3 que Sara fez questão de ouvir aos altos berros. acho que prefiro os cereais – respondeu a jovem alcançando os Kellogs sobre a mesa. nunca ousou levantar a voz aos pais e muito menos desrespeitá-los diante de quem quer que fosse. o elemento mais novo da família. . – Queres cereais ou uma tosta mista? – perguntou Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou. Sara viu-se obrigada a acatar as ordens da mãe.Não tenho fome – foram as primeiras palavras de Sara quando entrou na cozinha e encontrou a mãe a preparar o pequeno-almoço. mãe! Já disse que vou comer cereais. Com quinze anos tudo o que fazia de mais escabroso era faltar às aulas de vez em quando para passear pelas lojas da cidade com as suas amigas.Eu também quero – interferiu Daniel. .Já estás a comer os cereais por isso não tens espaço para a tosta – respondeu Madalena alcançando a embalagem do pão de forma.Já disse que não! Senta-te e come como deve ser! Após um longo suspiro. . .Perguntei se não era hoje que ias ter um teste. tal como já vinha acontecendo há meses. – Não era hoje que ias ter um teste? – perguntou Madalena parando o carro diante de um sinal vermelho. – É mais rápido. Madalena deu-se por vencida e voltou a guardar a embalagem do pão de forma num dos muitos armários da cozinha. De resto. – Sara. cintos de segurança colocados e o trânsito infernal na segunda circular.Sabes. .Tosta mista. queres a tosta com duas fatias de fiambre ou só uma… .Cereais.

.Não sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos quando percebeu a vontade de Sara em mudar de assunto. Sem outro remédio. e a primeira paragem. – Porque é que estás tão irritadiça nestes dias? . . Diz! Fiz-te alguma coisa? . e ao abrir a porta.Porque se fiz. não me apetece falar.Para quê? . podes dizer-me e nós podemos conversar sobre isso para tentar… . .Se o pai não nos vier buscar este fim-de-semana. senão fujo de casa… .Estás sim! Já viste a maneira como tens andado a falar comigo ultimamente? Quase com quatro pedras na mão. Passava já das nove quando ela conseguiu chegar ao local pretendido. Publicidade. – Assim pelo menos passaste menos tempo em frente à televisão e estudaste mais. foi o colégio de Sara.Porque não?! . – Preciso ir buscá-la.Eu não estou irritadiça.Achas?! Ou se estuda ou não se estuda.Vou torcer por ti! . . Seguro. . 6 .Não precisas desejar-me sorte.Mãe. . Água.És mesmo parvo – adiantou-se Sara empurrando-o contra os bancos de trás. . Devias esquecê-la mais vezes para ver se me consegues levantar as notas a Português e a Matemática. surgiu-lhe à frente a visão sempre assustadora da correspondência acumulada durante o fim-de-semana. Um acidente numa das pequenas ruelas da cidade obrigaram Madalena a optar por um outro caminho infinitamente mais longo em direcção à floricultura que dirigia ao lado da melhor amiga e que outrora havia pertencido à sua mãe. – Ele ainda não ligou a avisar se vos vem buscar ou não. As notícias no rádio transformaram-se na banda sonora perfeita para que Madalena levasse os filhos à escola. . ela abaixou-se e alinhou as cartas e jornais com um suspiro de cansaço por uma semana que só na altura tinha começado.Eu deixei a minha Playstation lá – interferiu Daniel esgueirando o pescoço em direcção aos bancos da frente. – Boa sorte – exclamou ela quando a filha abandonou o carro levando a mochila às costas.Porque não me apetece – respondeu Sara fulminando-a com os olhos. . Realmente nada a que já não estivesse habituada durante os seis anos em que dirigia aquele negócio.declarou Daniel sob as risadas da mãe.Posso te fazer uma pergunta? O silêncio da filha fê-la avançar nos seus propósitos.. para quê?! Para o teste… .Não. Ninguém acha que estudou. por ser a mais próxima. . eu peço-lhe para me trazer a Playstation! Não passo mais uma semana sem ela.Sabes que eu até acho que foi muito bom teres esquecido aquela maldita Playstation na casa do teu pai!? – respondeu Madalena. .Oras.Já disse que não é preciso – respondeu Sara atravessando a rua sem sequer olhar para trás.Vamos passar o fim-de-semana em casa do pai? .

.O mesmo digo eu de ti – respondeu Madalena terminando de analisar a correspondência sobre a secretária.Não! Porquê?! – perguntou Madalena largando as cartas sobre a secretária.Tinha-me esquecido completamente desse casamento. . Só estava ali no café a tomar o pequeno-almoço. até pela excelente relação que a sua mãe mantinha com as clientes mais antigas e que fez questão de cultivar ao longo dos quarenta e cinco anos de existência da loja. havia pelo menos dois anos que Madalena não recebia flores de ninguém. Anos depois. Alice Santos.O espaço era amplo. Madalena decidiu aceitar o desafio e para isso contou com a preciosa ajuda da sua melhor amiga. Beatriz é. Mas um súbito ataque cardíaco e posteriormente a sua morte trouxeram à filha um dilema que poucos apostaram que ela fosse conseguir resolver. era o que muitas vezes dizia à melhor amiga.É daqui a quatro meses se não estou em erro. uma das poucas pessoas que sempre acreditou nas suas capacidades. Impressionante como um casamento nos pode fazer perder a nossa própria identidade. mas a floricultura deixada pela mãe. Não seria esse facto demasiado deprimente para a dona de uma floricultura? Ela achava que sim. Louca do jeito como a D. que apesar de serem antigos. que na altura também se encontrava desempregada e à espera de dias melhores. Manter ou não manter o negócio da família? Mediante o aconselhamento do pai. uma das avenidas mais nobres da cidade lisboeta repleta de buzinas dos carros em hora de ponta. . primavam pelo bom gosto e pelo requinte de quem não se importava de pagar muito para viver bem. eu já tinha chegado há muito tempo. . iluminado e ficava situado em plena Avenida de Roma.Ainda bem que não tenho filhos – exclamou Alice pendurando o casaco no bengaleiro.A D.Pois eu atrasei-me a levar os miúdos à escola. . da movimentação frenética das pessoas e dos prédios. marido de Madalena pois ele desejava ardentemente que a mulher continuasse a ser a perfeita dona de casa sempre atenta às suas necessidades e às dos filhos. . Mas por mais irónico que parecesse. Obviamente que os apoios não foram muitos. 7 . A floricultura de Madalena era também uma das mais visitadas da avenida. ainda é capaz de nos furar os tímpanos se não tivermos todos os arranjos feitos dentro do prazo. Beatriz já telefonou? . de resto.Porque ela ficou de cá vir para escolher uns arranjos para o casamento da filha.Hoje mesmo vou ligar ao fornecedor. veio um certo sentimento de alívio e uma necessidade de auto afirmação que nunca pensou existir dentro de si. Mas a verdade é que Madalena não foi na conversa e conseguiu levar a sua adiante livrando-se das amarras que a mantinham presa a uma casa quase sempre vazia. especialmente os vindos do ex. casamentos ou outras datas especiais que as pessoas faziam questão de celebrar com flores.Nem sabes como te invejo – riram-se as duas. . . esta ainda continuava a gerar lucros atrás de lucros. aniversários. .Por favor. . mas o que poderia fazer se até à data não havia encontrado nenhum homem minimamente interessante para lhe oferecer flores? – Até que enfim chegaste – disse uma voz jovial entrando pela loja adentro. Todos os dias surgiam encomendas.Para a tua informação. faz isso! Temos uma reputação a manter… – riram-se as duas amigas. o casamento terminou. Cortadas essas amarras. . Temos já que começar a contactar com os fornecedores para termos tudo pronto a horas.

não se esqueçam de nos arranjar suportes para os arranjos… . Não sabiam? . Quero que saibam que só aceitei trabalhar com esta floricultura porque conhecia a mãe da Madalena há muitos anos e foi ela quem me arranjou as flores para o meu terceiro casamento. A boda. foi a mãe.Por acaso não. .Sim! A cerimónia vai ser de manhã. Mas agora que ela já não está aqui entre nós. algo que Beatriz fez questão de discutir com a floricultura contratada para o efeito. por isso é bom que sejam flores do campo em tons neutros. o local da boda reservado numa Quinta em plena vila de Sintra.Hã. o único detalhe a acertar era o arranjo das flores e a decoração da igreja. – Tudo tem que estar perfeito… – dizia Beatriz. – Tudo vai ser feito como o combinado. e tal como se era de esperar. Mas por sorte. ou pelo menos as suficientes até que Madalena e Alice deixassem as divagações das duas clientes falar mais alto. a boda e também as flores que vamos utilizar na decoração da igreja.Não. – Não é.É claro que não se vai decepcionar. argumentos e alguns comentários mais ou menos hilariantes. Sim. a entrada de um outro cliente na loja apressou a saída de Beatriz e Joana e trouxe de volta a paz de espírito que Alice e Madalena perderam durante aquela interminável conversa. Outra coisa. uma legítima tia falida do jet-set.Trigo?! Porquê? . muitas vezes Madalena e Alice foram obrigadas a concordar com tudo o que ela dizia: E sim. não foi o que disseram?! . Sim. que Deus a tenha. – Além disso. Flores do campo. estávamos também a pensar em utilizar arruda ou trigo no meio dos arranjos. – Os nossos fornecedores fabricam esses suportes sem custos adicionais. Tudo iria ser feito para a agradar.O casamento de Joana Dias estava marcado para dali a quatro meses. quanto a isso não se precisam preocupar – respondeu Madalena apontando todos os pedidos num pequeno bloco de notas. sendo que naquela segunda-feira não foi excepção. claros e suaves – informou a noiva. a responsável pela organização de todo o evento. Beatriz – adiantou-se Alice beliscando o braço de Madalena a fim de tentar trazê-la de volta à realidade. . Beatriz Dias. 8 . e pelo amor de Deus. a luade-mel e outros assuntos tão interessantes como o modelo da lingerie que a noiva estava disposta a vestir na sua noite de núpcias. – Voltamos a falar daqui a duas semanas para saber como é que está a correr a história das flores – disse Beatriz levantando-se de uma cadeira onde esteve sentada durante três horas. …claro – respondeu a última apertando a caneta que tinha nas mãos. e a igreja escolhida para que os cerca de duzentos e cinquenta convidados por Beatriz. A conversa prolongou-se por mais algumas horas. – O vestido. Ao ouvirem as suas ideias. espero não me vir a decepcionar… . – Todas as mulheres da nossa família sempre escolheram arranjos de trigo porque simbolizam sorte e prosperidade.Pois ficam a saber! E ficam também a saber que vão ter que arranjar algumas espigas para colocar nos arranjos da igreja e também no local onde se vai realizar a boda. Lena? . D. foram dissecados até à exaustão e fizeram as duas funcionárias da floricultura revirarem os olhos vezes sem conta.É uma superstição – respondeu Beatriz à pergunta de Alice. De facto. O vestido foi adquirido numa viagem que fizeram a Paris.

9 . – Deixaste as luzes acesas? – perguntou ela.Claro. – Então!? Já estão prontos? . – Ainda temos muitos outros detalhes a acertar. . até porque a vontade de estar com Jorge era nula.De qualquer maneira. marido a estacionar em frente ao jardim. foi a resposta ouvida. São mais de duzentos e com certeza vai sair um balúrdio. – Nem um minuto a mais. assim como o desejo de lhe ouvir a voz ou até mesmo o barulho das chaves que ele fazia questão de manter nas mãos enquanto ordenava a Sara e ao Daniel para que se despachassem e não o fizessem esperar em demasia numa sala que durante quinze anos também foi sua. Não se demorem – gritou Madalena aos filhos quando ouviu a campainha tocar. .Oito e um quarto – respondeu Jorge lançando os olhos ao seu relógio de pulso. Apesar da chuva miudinha foi visível que o motor ainda estava trabalhar. . . Ainda agora vamos falar com a empresa que está a organizar a decoração da igreja e depois vamos também tratar da impressão dos convites. marido. . ainda temos muito tempo até ao dia do casamento – respondeu Madalena levando mãe e filha em direcção à porta.Portem-se bem – adiantou-se Madalena sugando as bochechas de Daniel enquanto ele vestia o casaco a uma velocidade fantasmagórica.Alguém!? . O olhar da ex. façam os trabalhos de casa e comam todas as refeições. Deveria ficar contente por vê-lo? Obviamente que não. – Que tipo de amiga? .Não é assim tanto tempo – exclamou Joana retirando os óculos escuros da mala.…uma amiga.. Por sorte. que educação… .Que seja! Simplesmente não quero. nem um minuto a menos. ou melhor.Claro. .Claro – murmurou Madalena não querendo relembrar à sua cliente que ela já estava na falência há muitos anos e que o único motivo para aquele casamento tão apressado era o facto de não se querer afundar ainda mais. – Podemos ir? . encabulado. . – Não fiquem acordados até tarde.Uma amiga!? – indagou Madalena levando a mão ao peito.Entra lá! . .Uma amiga. – Chegaste cedo – abriu ela a porta. ao fechar uma das janelas da sala. e depois disso seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à porta.Não me irrites – resmungou Madalena lançando os olhos ao carro do ex. – Já estava a ver que nunca mais – disse ele recebendo um beijo de cada um.Já – respondeu Sara levando a mochila às costas. . Na sexta-feira seguinte. senão imagina o que era?! Íamos logo à falência. . Já vai. Madalena observou o carro do ex.Sim – respondeu Jorge. mulher foi peremptório e não deixou outra escolha a Jorge a não ser baixar os braços e aguardar a chegada dos filhos à sala.Os nossos filhos queres tu dizer. obriguem o vosso pai a fazervos todas as refeições. os pais do meu genro é que estão a pagar todas as despesas.Bem. . – Meninos! O pai já chegou. não é mãe? .Escuta Jorge! Eu não quero que ponhas os meus filhos a conviver com as tuas amigas. – Tenho alguém lá dentro.

Nessa altura. Abril. mas infelizmente os seus intentos não surtiram qualquer efeito no momento em que o carro arrancou e a rua tornou a ficar deserta.Ligo amanhã para falar com vocês. amor! Estás sempre a falar dela… – adiantou-se Vanessa voltandose novamente para a Madalena. Madalena aproximou-se da janela e observou a caminhada do ex. Quem seria ela? Uma namorada? Um caso de uma noite? Ou simplesmente uma amiga como ele fez questão de lhe frisar? Ao sentar-se no grandioso sofá com uma almofada sobre o colo.Porquê?! .. muito prazer – sorriu ela estendendo a mão a Madalena.Mesmo assim! Amanhã eu ligo. não é?! . Vanessa Figueiredo era o apogeu que todos os homens acima dos quarenta sonhavam apresentar às ex. . – Só falo de vez em quando.Está bem.Oras… . Março. – Tchau. . Cansada era como Madalena se sentia cada vez que olhava para si e para o que a sua vida se tinha transformado desde que assinou os papéis do divórcio. de facto. Ainda tentou forçar um pouco mais a vista e tentar vislumbrar os traços físicos da mulher que estava sentada no banco da frente. . mãe. marido e dos filhos em direcção ao carro. – Porque o Jorge está sempre a falar de si e dos vossos filhos. . Jorge. – Olá. .Nem tanto assim – defendeu-se o advogado tentando esquivar-se aos olhares aterradores que a ex. Diante daquela possibilidade no mínimo assustadora.Confesso que estava curiosa para a conhecer. mulheres. loira e com as curvas perfeitas de uma top model. Sim.Sim! Madalena.Tchau. São só dois dias. – Madalena o seu nome.Muito prazer – respondeu Madalena aceitando o cumprimento de uma forma muito menos efusiva. Cada dia que passava.riu-se Vanessa. e apesar da relutância. Madalena lançou os olhos as paredes e sentiu-se pela milésima vez sozinha. . e foi também o tempo necessário para que o calor regressasse em força em todos os pontos do país. Lena! .Não precisas ligar – disse Sara abrindo a porta. Jorge resolveu levar os filhos para duas semanas de férias ao Algarve. Quando a porta da rua se fechou com um pequeno ruído. Maio e Junho foram os meses que passaram a passo de caracol. . . 10 . A sua melhor amiga tinha razão quando lhe disse que era mil vezes mais fácil para os homens refazerem a sua vida após um divórcio do que para uma mulher depois dos quarenta. meninos – exclamou Jorge lançando um último olhar à ex. – O pai traz-nos no domingo à noite. pois acabaria sozinha e sentada naquele sofá até ficar velha e caquéctica. . mulher lhe lançou. cada semana ou cada mês. e era também um sinal de que não valia a pena lutar contra o inevitável. era um tempo que não voltaria a recuperar ainda que quisesse. duas lágrimas caíram-lhe dos olhos e ela não teve outro remédio a não ser detê-las com as mãos. Madalena viu-se obrigada a baixar as guardas e a concordar que Sara e Daniel seguissem viagem com o pai e também com a nova namorada que ele lhe fez questão de esfregar à cara quando foi buscar os filhos. Alta como uma torre.Vamos.Não sejas mentiroso. mulher.

Porque ela tem um negócio para gerir. da namorada e do ex.. Está perfeita…! . quando ambas jantaram juntas naquela noite. mas era sem sombra de dúvida a primeira vez que não se sentia minimamente enciumada com a cena. .Pois eu acho que vou conseguir sobreviver. a melhor amiga de Madalena. – Mas lá diz o ditado que cada um tem aquilo que merece.Hã… não me parece – respondeu Madalena tentando desenvencilhar-se daquele convite no mínimo inoportuno. . – Eu disse-te que ela era dona de uma floricultura. . Era a quinta vez que Madalena observava a entrada dos filhos. . .Provavelmente – respondeu Madalena bebendo um gole de vinho. Vanessa. Rapazes de preferência! . 11 . bem… transformaram-se em autênticos monstros de tão gordas e flácidas que ficaram… – riu-se Vanessa sob o olhar incrédulo de Jorge.Conheço várias mulheres que depois que tiveram filhos. marido no carro. Crianças!? Enfim.Porquê?! .A sério?! .Define-me burra – riram-se as duas. já viste o que era passarmos um ano inteirinho sem férias?! Acho que morria… .Obrigada. . Vanessa – adiantou-se Jorge temendo que a namorada pronunciasse mais alguma loucura. claro! Esqueci-me. . deve estar arrasada. a tal loira mais alta que uma torre e com as medidas perfeitas de uma top model não passava de um corpo desprovido de cérebro ou qualquer outro sinónimo que pudesse fazer jus à sua beleza física.Acredito que sim – murmurou Madalena levando a mão ao peito. .A sério. – Por isso é que eu nunca quis ter filhos e nem estou a pensar em ter. .Acho que não! Eu vou lá acima despachá-los.Para o Algarve. .!Iria ser divertido passarmos as férias todos juntos. Deus! Como se rebaixou por tão pouco? Como é que sequer desejou um corpo igual àquele quando Deus a havia favorecido com algo que Vanessa nunca iria ter por mais cirurgias plásticas que fizesse: Inteligência e bom senso.Madalena quero que saiba que a admiro imenso! Sou a sua fã número um… . lembraste!? .Sabe que eu até estive a dizer ao Jorge para a levar connosco.Não acredito! Bem. .Coitado do Jorge! Será que ele está assim tão desesperado? . – Estás a gozar?! Ela é assim tão burra? – perguntou Alice. não?! Amor.Levar para onde? . não é!? Pois então! Ele só está a ter aquilo que merece.Os miúdos ainda vão demorar muito? – perguntou Jorge ignorando o sorriso irónico que a ex. mulher lhe lançou.Hã.Porque… . . Sinceramente não sei como é que consegue manter essa forma depois de ter dado à luz dois filhos.Faz isso porque não quero chegar muito tarde ao Algarve.Infelizmente este ano não vou poder ter férias – concluiu Madalena cruzando os braços. realmente não são o meu forte! Dou-me bem melhor com adolescentes.

mas pelo menos está lá a divertir-se e a viver uma vida que eu também queria viver – discursou Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos.Sei lá! Sinto falta de… ter alguém com quem conversar. . – Estou sozinha – disse ela por fim. abraçá-las e fazê-las sentirem-se seguras. Alguém! Um homem de preferência. . . se queres realmente que te diga. marido! Especialmente depois de tudo o que ele te fez… .Tens razão – concordou Madalena limpando as lágrimas quando percebeu que também ela fazia parte daquele vastíssimo leque. . nem com isso fiquei! Só fiquei com os cornos. .O que é que aconteceu ao dinheiro? . . Eu acho que ele só fez aquilo para se conseguir safar e também porque é um otário de primeira. até fico toda arrepiada. 12 .Às vezes fico a pensar se ele não fez de propósito. até pode estar com a mulher mais burra do mundo. . .Então é o quê!? .E tu estás a adorar. abraçar-me e fazer-me sentir segura. nada tinha mudado.Foi confiscado.Eu também sinto falta – respondeu Alice deixando escapar os seus pensamentos mais secretos.Podias pelo menos ter ficado com algum – riu-se Alice. Alguém que me possa ouvir. De facto.É assim tão evidente – respondeu Madalena arrancando uma leve gargalhada à melhor amiga. .. – E eu estou aqui jogada às traças para mais de dois anos e sem a mínima hipótese ou a mais remota possibilidade de… . Aliás. .Sabes bem o que eu quis dizer. claro! Era dinheiro sujo dos negócios que ele fazia com os clientes dele. animada. Não.Eu bem te avisei.Eu também e olha que nem foi comigo – disse Alice devorando o soufflé de camarão cozinhado por Madalena. . . Infelizmente Madalena foi obrigada a concordar com as palavras da sua amiga e também com a certeza de que tudo continuava exactamente igual naquela cozinha. Alice também foi obrigada a concordar com um silêncio. eu acho que não. não é?! Nem todas as mulheres nasceram para ter um homem que as possa ouvir.Olha. . eu é que sou burra! Burra por ter aguentado tanta nojeira e ainda acabar com uma mão à frente e outra atrás. .Nem me digas nada! Só de me lembrar do dia em que a polícia me bateu aqui à porta. aliás.E a lata dele em forjar a minha assinatura no banco e ainda fazer uma carinha de inocente à frente dos polícias como se não fizesse a mínima ideia de onde aquele dinheiro tinha saído. tens toda a razão em ficar tão contente com a desgraça do teu ex.Mas tens razão.Não é só sexo. com os filhos e com esta casa a cair aos bocados enquanto ele se pavoneia no Algarve com a Vanessa loira burra.E eu?! Sou um fantasma? .O quê?! Ter depositado aquele dinheiro na tua conta só para ires presa? Não. – Mas o que é que havemos de fazer. isso foi o cúmulo dos cúmulos… . – Ele está lá no Algarve.Voltar a fazer sexo outra vez – concluiu Alice bebendo um gole de vinho.

. Estaria o amor intimamente ligado ao casamento? Bem. A única coisa que fazem é levantar as nossas expectativas.Sim – respondeu Alice forçando uma gargalhada que não foi de todo correspondida pela melhor amiga.Naquela altura ainda estavas casada com o Jorge e eu senti-me ridícula só de pensar na ideia de tocar nesse assunto contigo. se estivesse era óptimo.Meu Deus! Ainda existem gajos desses no planeta terra? .riu-se Alice enquanto se tentava recordar de alguma. Os arranjos florais para o casamento de Joana Dias e Rafael Saraiva primaram pelo requinte e tudo graças ao bom gosto de Beatriz. . não fazia qualquer diferença. Com certeza irias pensar que eu era uma pobre coitada… . que fez questão de escolher pessoalmente as flores e os suportes de decoração que iriam estar presentes na igreja e também no local da boda. para aquela tia do jet-set nada poderia dar errado pois não era somente o nome da sua filha que estava em jogo.Assim tipo… . mas caso contrário. 13 .Agora imagina-me ouvir frases dessas durante todo o jantar numa sexta-feira treze? Saí do restaurante mortinha de medo e nunca mais lhe atendi a nenhuma chamada. mas o problema é que era demasiado filosófico e atirava cada frase que eu até ficava com os cabelos em pé. .Sabes. mas depois quando conhecemos as pessoas. .Podes crer que existem e eu já saí com muitos. mas sim o de toda a sua família que via nos laços do matrimónio a oportunidade ideal para se livrar das privações monetárias e outros apertos resultantes da sua falência desde há gerações. mas acho que prefiro continuar solteira a andar com um sábio africano – riram-se as duas amigas completamente indiferentes ao adiantado das horas. – Gostaria de ser um sábio africano apenas para desvendar os segredos mais misteriosos da humanidade.Obrigadinha pela parte que me toca! . desilusão é a palavra de ordem. – No primeiro o gajo era um idiota de todo o tamanho e até chegou a fingir que tinha esquecido a carteira em casa apenas para não pagar o jantar.Que tipo de frases? .E deu certo algum desses encontros? – perguntou Madalena não escondendo a sua curiosidade. houve uns tempos em que eu estava tão desesperada que até cheguei a arranjar encontros na Internet.Tive dois – confessou Alice bebendo um gole de vinho.Porque é que nunca me contaste? . a mãe da noiva.No segundo. confesso que até tive algumas esperanças! À primeira vista o gajo parecia ser simpático. encantar as pessoas com os meus dons e encontrar uma fórmula secreta para ser imortal… . Na verdade.Não me leves a mal.Que horror – riram-se as duas.A sério?! . Por isso é que desisti desses encontros virtuais.O quê?! – indagou Madalena soltando uma ruidosa gargalhada. . .Só espero nunca chegar a esse ponto. . inteligente e até era bonito. . .. .

. 14 . Por isso é que o meu casamento não demorou muito – respondeu Alice levando as mãos à testa encharcada de suor. Era uma mãe galinha.O. Madalena e Alice abandonaram o veículo da floricultura e regalaram-se com a magnífica vista do Mosteiro dos Jerónimos. sorriu. a vinte e quatro horas do tão aguardado casamento. Pensou nos filhos. eu vou lá dentro ver se encontro alguém para nos ajudar a tirar essas flores cá para fora.Não saias daí. um nariz esculpido à lupa e dois lábios bem delineados. elegância e uma masculinidade difícil de explicar. – Era aqui onde eu gostaria de me ter casado – disse Alice abrindo as portas da carrinha. . Madalena não conseguiu acreditar que ele era real. que lhes vasculhava todas as gavetas numa tentativa desesperada de encontrar algo escabroso e que passava praticamente todas as horas do dia a pensar neles. – Trouxe ajuda – ouviu-se finalmente a voz de Alice. . Mas ao vê-lo diante de si. visto o Mosteiro considerado como um dos edifícios mais emblemáticos da cidade lisboeta. . não achas?! Provavelmente deve ter morrido lá dentro. Todo ele exalava beleza.A sério – respondeu Madalena poisando no chão o primeiro arranjo floral que retirou do interior do veículo. os últimos raios de sol começaram a desaparecer no horizonte e a brisa trazida pelo rio retirou as réstias do calor sentido durante o dia. Como era belo. em como eles se deveriam estar a divertir no Algarve e nas saudades que sentia deles apesar de apenas se terem passado vinte e quatro horas desde a última vez que os vira. até mesmo para ela. Uma mãe que não sabia quando dar espaço e privacidade aos filhos.E eu que me tive que contentar com uma capelinha em Alvalade… . Características físicas? Altíssimo. isto para não falar da facilidade quase sobre humana que tinha em incluir os seus nomes em todas as conversas. .Sim! É óptimo. Diante daquela paisagem tão interessante. meu Deus! E de onde tinha saído aquela perfeição? – Encontrei este senhor simpático lá dentro e ele foi o primeiro a oferecer-se para nos ajudar – informou Alice trazendo a sua amiga de volta à realidade.Olá – disse o desconhecido forçando um sorriso a Madalena. traços faciais definidos.Um pouco difícil. . De facto. olhos tão verdes como duas esmeraldas. cabelos escuros perfeitamente aparados. os noivos souberam escolher o local perfeito para uma ocasião também ela perfeita.Já não é mau.Estás a gozar? . um imponente monumento que impunha admiração até aos olhos dos mais leigos. Madalena cruzou os braços e encostou-se à carrinha pensando em tudo menos nas flores que deveria retirar do porta-bagagem. Nessa altura.Sabes que este mosteiro nunca me disse nada?! .No dia seguinte. – Sempre o achei um pouco sombrio e cinzento. foram as palavras que Madalena utilizou para caracterizar a excessiva demora de Alice quando ao olhar para o relógio de pulso viu que nele estavam assinaladas dezoito horas e trinta e dois minutos.k! . Os olhos de Madalena não conseguiram esconder o fascínio quando viram à frente um dos seres mais belos do planeta terra. embalada pelos jardins de Belém e pela torre imponente. – Bem.

Podem colocá-las junto ao altar que depois os responsáveis da decoração tratam do resto. Mas não me peçam para ajudar na decoração porque não percebo nada disso – respondeu ele arrancando um sorriso tímido a Madalena. Raios. – Que bom que chegaram… – disse Beatriz caminhando em direcção a Madalena e Alice assim que as duas entraram na capela. . . No fundo do corredor.Obrigada! Mais um olhar e mais uma vontade descomunal de Madalena em atirar-se para os braços daquele desconhecido que em poucos segundos conseguiu algo que nenhum outro homem havia conseguido em dois anos. . um sorriso irrompia-lhe o rosto pronto a fazê-la corar de vergonha.São bonitas.Não se preocupe porque nós também não percebemos nada de decoração – interferiu Alice. enquanto na sacristia.Ainda bem! Já estávamos todos impacientes à espera deles. a noiva e a mãe do noivo trocavam as últimas palavras com o padre que iria presidir à cerimónia.. uma voz imperiosa invadiu a igreja deixando todos os presentes estupefactos com a irritação que ela trazia. . por Alice.Claro que sim. Realmente não deveria estar a observá-lo com tanta atenção porque a qualquer momento ele poderia voltar-se para trás e surpreendê-la com os olhos postos em si. Ou seja. Não parecia ter mais do que trinta e cinco anos e muitas experiências para contar visto o seu olhar transparecer uma inocência digna de um adolescente de dezasseis.Já vi que precisam mesmo de ajuda. Até parecia que o estava a fazer por prazer. . nos seus ombros largos e nas pernas ligeiramente arqueadas que lhe conferiam um ar demasiado sexy para ser apenas um simples mortal. À sua volta encontravam-se cerca de duas dezenas de pessoas em movimentos frenéticos tentando desesperadamente terminar os últimos detalhes da decoração da igreja. Contudo. .Só viemos trazer as flores – concluiu Madalena recuando dois passos quando ele se agachou e levantou do chão o primeiro arranjo. – Trouxemos os arranjos tal como o combinado – respondeu Alice forçando um sorriso a Beatriz. . prender a sua atenção e deixar-lhe as pernas completamente bambas.Aonde é que podemos colocar as flores? – perguntou Madalena sustendo um enorme suporte nas mãos. na última vez que Madalena sorriu. – Só sou um dos fotógrafos contratado para a cerimónia.Nem sabe o quanto – respondeu Alice mostrando-lhe os inúmeros arranjos florais no interior da carrinha. foi impossível para Madalena não reparar nas suas costas bem formadas. . . Muito pelo contrário. e a cada esbarro com Madalena perto do altar. – Acha que nos pode ajudar a levar tudo isto à capela? . encontrava-se um homem que não aparentava ter mais do 15 .…olá. Enquanto ele caminhava em direcção à capela com dois grandes arranjos florais nas mãos. mas também pelo fotógrafo que teve a amabilidade de as ajudar a tirar da carrinha todos os arranjos florais sem sequer pestanejar ou oferecer algum comentário menos agradável. completamente descontrolado. um pouco mais atrás. As ordens de Beatriz foram imediatamente obedecidas não só por Madalena.

foi o que todos se perguntaram quando o viram a caminhar em direcção ao altar com uma expressão verdadeiramente aterradora. . bem tinha todas as razões do mundo para não o fazer. pois que o seu único objectivo era casar a Joana com um homem rico.Não me chames de amor – gritou ele assustando-a com a sua voz imperiosa. . . enquanto Joana tentava ignorar os olhares curiosos de todas as pessoas presentes na capela.Chame a sua filha agora antes que eu perca a paciência… Beatriz nunca vira aquela expressão nos olhos do genro e muito menos pensou que em algum dia ele iria ousar levantar a voz contra si. Com o primeiro otário que lhe aparecesse à frente e que tivesse uma conta bancária choruda.Então vá chamá-la! . tudo o que Joana lhe ofereceu foram mentiras e traições. Quem era.Tudo. Silêncio foi a palavra de ordem.Rafael!? . Nunca a vou perdoar. – Pensei que tinhas dito que ias ficar preso numa reunião.Eu já descobri tudo. Teria acontecido alguma coisa? Sim. – O que é que aconteceu contigo. E na verdade. – Mas talvez seja melhor conversarem na sacristia ou noutro local. sua ordinária…! . amor!? . . eu não vim aqui para falar do pai! Eu vim falar com a Joana.Mãe. meu filho? Estás todo desgrenhado. – Aonde é que ela está? – perguntou ele fora de si. . Os momentos que se seguiram foram tensos e tudo porque Rafael não arredou pé do local onde estava. ele aguardou a saída da sua noiva da sacristia repetindo para si mesmo: Nem por decreto de lei a vou perdoar. Com certeza devia saber.que vinte e oito anos. – Amor! Tu por aqui – exclamou ela chegando ao altar acompanhada pela sogra e pela mãe. equilibrado e totalmente imune à palavra escândalo.Tem calma! A Joana está na sacristia com a tua mãe. já que durante cinco anos de relacionamento.Não sabia. .Precisamos falar.Chame a sua filha agora – interrompeu o noivo não se deixando levar pelos argumentos da futura sogra. – Houve algum problema lá na empresa? E o teu pai? Não falaste com ele antes de saíres do… . . filho? – perguntou a mãe de Rafael pressentindo-lhe a cólera no olhar. Sempre com as mãos nos bolsos. Não era esse o vosso plano? 16 . Claro que tinha. – O que é que se passa. com um olhar perdido e uma das pernas a tremer. As duas estão a falar com o padre. cabelos loiros e uns olhos azuís inchados de tanto chorar.O que é que aconteceu. Beatriz!? Eu quero falar com ela agora – gritou ele assustando todos os presentes. D. Aqui não é o lugar ideal e tu estás muito nervoso… . – Nunca mais te atrevas a chamar-me de amor. Beatriz?! Não sabia que a sua filha andava a ter um caso com o melhor amigo? Ou será que sabia? Claro.Para quê?! . todo transpirado… . – Está bem! Eu vou chamá-la – concordou Beatriz ignorando os olhares de todos os funcionários presentes na capela.Aonde é que está a sua filha.Rafael!? – indagou Beatriz tentando acalmar o ímpeto do seu futuro genro. até mesmo porque Rafael sempre fora um rapaz sensato. o quê? – indagou Beatriz esbugalhando os olhos.

Depois disso. já sei de tudo e nem adianta sequer inventares mais uma das tuas milagrosas desculpas porque o Eduardo confessou tudo quando eu o encostei à parede hoje à tarde. Como não o conseguiu da primeira vez. mas por sorte.Será que ainda não percebeste.Não me toques – vociferou ele atirando-lhe o suporte de uma vela com o único intuito de a matar. .Estás a ver tudo isto – vociferou ele arrancando as fitas decorativas presas nos bancos da capela. .Enquanto ouviam o discurso confuso daquele pobre rapaz. tentou uma segunda.…acho que sim – respondeu Alice passando as mãos pela testa e deparando-se com uma mancha de sangue nos dedos. – Porra – exclamou. – A culpa foi toda tua! Foste tu que estragaste tudo e agora não adianta fazeres esse ar de arrependida porque eu já não acredito em mais nenhuma palavra que venha de ti.Rafael. Madalena e Alice não deixaram de trocar um olhar constrangedor. – O gajo partiu-me a cabeça toda! 17 . Um azar que consequentemente acertou em cheio na testa de Alice e a fez cair junto ao altar ainda sem saber o que realmente tinha acontecido.A culpa foi tua – gritou Rafael calando-lhe os argumentos. Perplexidade foi o sentimento geral. – Só que o otário aqui abriu os olhos a tempo – concluiu Rafael não se deixando amolecer pelos olhos chorosos da sua noiva. Ele que sempre fez tudo para a fazer sorrir. . Joana!? Será que ainda não percebeste que a tua máscara caiu diante desta gente toda? Eu já descobri a verdade. – E podem crer que não me vão arrancar nem mais um tostão.Rafael… . – Pára com isso! .Acabou! Acabou tudo! Já não vai haver porcaria de casamento nenhum… Fitas. Como se enganou com Joana? Como se arrependia do dia em que a tinha conhecido e como queria nunca a ter pedido em casamento.A culpa foi dele. – Estás bem? – perguntou Madalena observando o ferimento na testa da melhor amiga. . – É lixo! Tudo isto é lixo e não vai servir para mais nada.dizia ela. Mas na verdade.Não me toques! . – Pára com isso! .Rafael… .Sinto nojo de ti – gritou ele com os olhos marejados de lágrimas. Joana abaixou-se a tempo e livrou-se de um dos maiores azares da sua vida. ele só estava a fazer todo aquele escândalo para tentar extravasar a vergonha sentida quando descobriu que durante cinco anos havia sido traído pela noiva e pelo melhor amigo. assim como os primeiros murmurinhos e a voz imperiosa do padre que comandou imediatamente a retirada de Rafael de um recinto que para ele ainda continuava a ser sagrado.Estás nervoso! Não sabes o que dizes. velas e flores. . por favor… . – Rafael. – Não podes estar a falar a sério! Não podes estar-me a fazer isso a vinte e quatro horas do nosso casamento… . . . .Pára – exclamou Joana tentando controlar-lhe os braços furiosos. a vítima foi imediatamente socorrida. tu só podes estar a brincar – respondeu Joana limpando as lágrimas e tentando retirar sobre si a vergonha de estar a ser publicamente humilhada pelo noivo. para a tornar na mulher mais feliz do mundo e aquela era a paga que recebia depois de lhe ter entregado o seu coração e a sua conta bancária de mão beijada. tudo foi totalmente destruído por Rafael e pela fúria que se apossou de si no interior daquela igreja. desesperada.

Disse alguma piada? 18 . – O que foi? – perguntou ele. – Não a queria magoar. isso não significa que também eu tenha que ficar com um alto na testa. Madalena tentou encontrar alguém que a pudesse ajudar a socorrer a melhor amiga. mas ainda assim foi impossível para ela conter um riso abafado. – Quer dizer. A resposta de Sérgio não pretendia ser irónica. mas acho que vai precisar de alguns pontos. Madalena percebeu. . – Ela já foi atendida? – perguntou Sérgio aproximando-se de Madalena quando finalmente conseguiu estacionar a carrinha no parque de estacionamento do hospital. é o que é – respondeu Alice levantando-se do altar com a ajuda da melhor amiga. A vela acertou mesmo em cheio.Sim! Vamos fazer o que o Sérgio disse. mas também lhe foi informado que teria que preencher uma ficha de entrada antes que se pudesse efectuar qualquer tipo de tratamento a Alice. tem calma – pediu Madalena tentando acalmar-lhe a cólera. Mas o pior nem era isso.riu-se ele timidamente. – Confesso que nunca me tinha visto numa cena daquelas. .Levaram-na agora lá para dentro – respondeu ela esgueirando o pescoço em direcção à enfermaria. Apesar dos vários pedidos de desculpa que recebeu dos noivos enquanto caminhava pelo corredor da igreja.É melhor irmos para o hospital – interferiu o fotógrafo analisando-lhe o corte profundo na testa.Bem… . encontrou uma enfermeira.Sérgio – adiantou-se o fotógrafo lançando-lhe um olhar intenso. . . mas é que… .Peço desculpas – disse Rafael mostrando-se envergonhado pelo seu acto. e quando isso aconteceu. – Não sou um especialista.. Vamos ao hospital tratar desse corte antes que se torne nalgo mais grave.Alice. peço desculpas… . – Lá porque levou cornos da sua noiva.Eu posso ir com vocês – disse ele. . por isso… . . aceitar impávida e serena ao pedido de desculpas de duas crianças infantis e imaturas que não sabiam resolver os seus próprios problemas sem envolver pessoas estranhas e alheias ao caso. Foram precisos cerca de vinte minutos para que as portas automáticas das urgências se abrissem. Por sorte. . – Vamos embora! Vamos fazer o que… . . – Acho que foi levar pontos.Desculpe! Desculpe. acho que estão demasiado nervosas para conduzir.Muito menos a sua amiga que acabou por ficar com um galo na testa.Nem eu – respondeu Madalena lançando os olhos às paredes da sala de espera. humilhada e metida numa confusão que nem era sua. O pior era a dor descomunal que estava a sentir na sua testa quando passou as mãos por ela e recebeu um lenço de Madalena para estancar o sangue que ainda lhe continuava a jorrar da cabeça e que se tornava cada vez mais intenso à medida que Sérgio conduzia a carrinha da floricultura em direcção ao hospital mais próximo.Você é louco. – E acho que tão cedo não a vou esquecer.Tudo bem – concordou Madalena levando a melhor amiga nos braços. . Era só o que faltava depois de ter sido agredida. Alice manteve-se resoluta em não aceitar nenhum.

o que é que faz? . – Ainda não sei o seu nome – disse ele.O quê? .Concordo. .Vender flores.Eu acho que é… – respondeu ele arrancando-lhe um sorriso. eu sei que não deveria estar a rir da desgraça alheia. encabulada.Não. aliás. sinta-se à vontade… – concluiu Madalena ao perceber que muito provavelmente já havia abusado da boa vontade daquele fotógrafo desconhecido. Ela entrou há pouco. – É igual às outras.Sou dona de uma floricultura – respondeu Madalena sentindo-se completamente perdida quando ele sorriu novamente para si. estava a trabalhar quando… .Eu sei! Peço desculpas. sabia?! . claro que não – respondeu Madalena tentando controlar os risos cada vez mais intensos. – Ou pelo menos hoje tornou-se.Não sei.Eu trabalho por conta própria. embora a loja tivesse pertencido à minha mãe antes de ela morrer. – Eu sei que eu e a minha amiga já tomámos muito do seu tempo e que com certeza você deve ter alguma coisa para fazer. E sim. . eu e a minha amiga somos sócias. . . . – Quer dizer. esses foram alguns dos estratagemas utilizados por ela para se conseguir controlar.Tem a certeza? – perguntou Sérgio fulminando-a com aqueles malditos olhos verdes.Madalena Soares – respondeu ela compondo os cabelos quando o seu olhar se cruzou novamente com o dele no meio daquela sala tão grandiosa. E a cena também! Ao olhá-la mais uma vez.Digamos que a minha vida é recheada de flores. . Levar a mão à boca. Um novo silêncio irrompeu a sala. . . – Está a ser má para a sua amiga. .O.Hã… nem tanto – riu-se Madalena. .A sua profissão é que deve ser interessante. Não tem nada de interessante.k…! . . Mas a verdade é que nada surtiu efeito.É fotógrafo profissional!? . . mas desta vez foi completamente impossível para Sérgio resistir aos risos abafados de Madalena. por favor. .Sim. mas o que você disse teve piada. . afinal de contas.Deve ser uma profissão interessante – murmurou Madalena tentando fugir àqueles olhos verdes tão lancinantes. baixar o rosto e até virá-lo..Ai é?! .Como assim?! . – Mas é que….Tenho um estúdio de fotografia – respondeu Sérgio colocando o casaco sobre o colo. 19 . Sérgio sorriu e abanou a cabeça.Mas se precisar ir embora.E você? Para além de aparecer em casamentos recheada de flores. A única coisa que fez foi aumentar ainda mais o fascínio que Sérgio sentiu por ela logo no primeiro minuto em que a viu. especialmente porque se trata da minha melhor amiga.Acha que a sua amiga ainda se vai demorar muito? .

Nessa altura.Como é que te sentes? . Talvez fossem os olhos verdes. talvez por o sol já se ter posto. Com a cabeça encostada ao ombro da melhor amiga.Quem sabe um dia não venha a cobrar esse favor. o nariz esculpido. tal como a sua. A resposta do fotógrafo não poderia ter sido mais insultuosa e isso ficou provado pelo olhar fulminante que Alice lhe lançou do interior do carro. . saíram Alice.Confesso que estava a fazer de tudo para não cometer nenhuma. obrigada mais uma vez! Ficamos-lhe a dever uma… . Madalena e Sérgio no mais absoluto silêncio. 20 . não é?! – respondeu Madalena deixando-se mergulhar pelo olhar que Sérgio lhe lançou. o médico de serviço receitou-lhe alguns antibióticos para que as dores e o inchaço diminuíssem em poucas horas. . – Acredite que já fez muito por nós. mas realmente havia qualquer coisa que não a fazia tirar os olhos dele. . Sérgio era realmente divertido e sedutor. – Foi um verdadeiro cavalheiro ao contrário do estupor que me atirou a vela. porque é que foi ela a única escolhida para receber aquela valente pancada? .Que é isso. e quando ela finalmente se viu livre daquela tarefa tão desagradável. a barba aparada. . – A minha profissão é realmente muito interessante. mas também possuía qualquer coisa que a intrigava a deixava quase sem fôlego. Madalena não precisou de muito tempo e nem de muito esforço.Obrigada por tudo – interferiu Alice mal conseguindo manter os olhos abertos. Raios. .Hã… peço desculpas! Eu não quis … .Ninguém é perfeito. Alice desejou encontrar a sua cama quando regressasse a casa e desejou também esquecer todos os azares que lhe haviam acontecido durante o dia. não acha!? – concluiu ele. – Bem. .Eu também acho – respondeu Sérgio arrancando-lhe um outro sorriso tão ou mais encantador que o primeiro. e para encontrar todas essas características. . . o verde-esmeralda deu lugar a um verde acinzentado e isso só deixou os olhos dele mais lindos do que naturalmente eram. e por ela.Não faz mal – riram-se baixinho.Digamos que fica com uma história para contar aos seus netos. .Silêncio foi a resposta dela.Não – respondeu Madalena ajudando Alice a entrar no carro.Dói-me tudo até o último fio de cabelo! Só quero ir para casa antes que pense em cometer suicídio… As portas automáticas das urgências abriram-se novamente.Sim. – Ela não tem filhos e muito menos netos – afirmou Madalena voltando-se para Sérgio ainda com o casaco nas mãos.Não precisam de mais nada? – perguntou Sérgio quando chegaram à carrinha. Porque de todas as pessoas presentes naquela maldita igreja. ou talvez fossem as três coisas misturadas numa só. – Tem razão – concordou ela após um longo minuto de silêncio. – Então?! – perguntou Madalena saltando da cadeira quando Alice surgiu na sala de espera com a cabeça totalmente enfaixada. – Já está tudo? . – Se fosse assim tão desinteressante não estaríamos aqui neste hospital. Sim. – Digamos que essa foi a sua única gafe para connosco. Ele era tudo isso e muito mais. Meia hora foi o tempo que as enfermeiras precisaram para suturar os ferimentos na testa de Alice.

foi o que o fotógrafo leu quando o veículo desapareceu do parque de estacionamento levando consigo uma das mulheres mais bonitas e interessantes que lhe haviam atravessado caminho até à data. Avenida de Roma. 21 . loja 132 F. Mar de Rosas.Sinta-se à vontade para fazê-lo – respondeu Madalena não tardando muito a enfiar-se no interior da carrinha sob o olhar atento de Sérgio..

A Marrocos?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. – Sim – respondeu voz de Jorge com um longo suspiro. 22 .Então passa-lhe o telefone agora! Aqueles foram os cinco segundos mais longos de toda a sua vida. Eram eles. E essa realidade era a de que ela não queria passar mais nenhum dia estritamente necessário para voltar a estar com os filhos. . lembraste?! .Tens tanta lata. um apelido carinhoso que Madalena encontrou para caracterizar a nova namorada do ex.Por que raios queres levar os meus filhos para Marrocos? . .Vocês só podem estar a gozar comigo. muitas foram as vezes que Madalena tentou controlar a voz embargada e as lágrimas de desespero por se ver tantos dias longe dos filhos.Será que eu ouvi bem aquilo que o Daniel disse ou provavelmente devo ter batido a cabeça nalgum móvel aqui na cozinha?! . Enquanto lhes ouvia as peripécias dos primeiros dias de férias no Algarve. e ao saber bem quem era. marido. não?! – afirmou Madalena passeando pela cozinha completamente esbaforida.Mas não tinha ficado combinado que as férias iriam ser até ao Algarve? .Sim! Deixas-nos ir? .Lena.Está. – O pai quer levar-nos a Marrocos… – saltou essa frase no meio de uma conversa amena que Daniel estava a ter com a mãe.O pai disse que havia uma promoção bué fixe na agência de viagens e que podíamos prolongar as férias por mais alguns dias. Madalena largou a chávena de chá sobre a bancada da cozinha desejando ouvir as vozes das duas pessoas mais importantes da sua vida. . sinceramente não percebo qual é o problema de irmos todos a Marrocos.Nossos filhos – corrigiu Jorge refugiando-se na varanda do hotel para que ninguém ouvisse mais uma discussão com a ex. Daniel era o mais animado de todos e foi também aquele que mais falou sobre os banhos de piscina. mas ainda assim. – Daniel! Passa-me o telefone ao teu pai. Madalena não desistiu dos intentos em falar com o ex. não queiras ser irónica porque isso não faz minimamente o teu estilo. enquanto esperava por eles.Lena. marido e tentar trazer-lhe à realidade. . . . os passeios pela vila e os presentes que a cada duas horas recebia do pai e de Vanessa loira burra.CAPÍTULO II O telefone tocou ao fim de quarenta e oito horas de um silêncio ensurdecedor. mulher. Ele está aí ao pé? . É mesmo aqui ao pé e vamos de barco. – A Sara e o Daniel também são os meus filhos. Sara e Daniel. .

pai! Desculpa.Estás a morrer de ciúmes.Exactamente – respondeu Madalena levando a mão à cintura.. .Antes do final do mês. Jorge.Eu?! – indagou Madalena levando a mão ao peito. – Tu nem penses que eu… . Aposto que te ia fazer muito bem. o que é que iriam fazer para além de ficarem sentados em frente à televisão enquanto tu vais cuidar das tuas flores!? . Que mal é que tem? São só mais duas semanas.Hei! Olha que assim me assustas – disse-lhe uma voz suave no outro lado da linha. Além disso.O Jorge. .O que foi!? Não me digas que discutiram outra vez? 23 . É como te disse! São só mais duas semanas. a minha opinião não importa para nada. Aproveita para sair. nem mesmo tu.Estás a ver?! Estás a ver como é que falas comigo quando eu… O discurso de Jorge até poderia ter continuado não fosse o ímpeto de Madalena em desligar o telefone e atirá-lo contra o lava-loiça enquanto o seu queixo tremia de raiva e os seus braços se cruzavam numa tentativa desesperada de não partirem qualquer objecto no interior daquela cozinha. Além disso.Só por cima do meu cadáver. devias aproveitar essas férias para incrementar a tua vida social e esquecer um pouco o papel de mãe galinha. – Mas pensa bem no que te estou a dizer. . mulher. eu só estou a pedir para que sejas razoável. marido. Vá lá! Tu sabes que a Sara e o Daniel iriam adorar… Silêncio foi a resposta de Madalena enquanto ela meditava acerca de proposta do ex.Não sejas ridículo.Pois eu falei com os nossos filhos e eles mostraram-se muito contentes com a ideia de conhecer Marrocos. foi o primeiro nome que lhe apeteceu chamar.Sim! Tu. – Ainda há pouco estava a falar com ele e nem vais acreditar… . .Hã… és tu.Vamos?! Quer dizer. .…e quando é que voltavam de Marrocos? .Desculpa – riu-se Jorge. .Hã. Jorge!? . embora o telefone tivesse interrompido os seus pensamentos a tempo. Não suportas a ideia de estarmos todos a divertir-nos enquanto estás aí a secar em Lisboa. . Idiota. . Só pode ser ele outra vez. se as crianças voltassem a Lisboa. .E se fosses à merda.Percebeste o quê? .Cuidado! Olha que milagres acontecem – respondeu Jorge tentando espicaçar a ex. . eu pensei que fosse o… . não é? Já é um assunto tão resolvido com a tua querida namorada mais inteligente que uma porta que nem sequer te interessa a minha permissão… . – Então!? O coronel dá-nos licença para abandonarmos o país sem sermos perseguidos na fronteira? . – Lena.Impressionante como não perdes uma oportunidade para menosprezar o meu trabalho. . conhecer novas pessoas. Conhecer Marrocos é uma oportunidade única que nem todas as crianças conseguem ter. Ninguém vai morrer por causa disso. já percebi – riu-se Jorge secamente.

Leonor Soares era sem sombra de dúvidas o pilar que sempre sustentou a família. tudo o que ele lhe ofereceu foi amor sem cobranças. minha cara – respondeu Alice levantando-se da secretária quando pressentiu a entrada de mais um cliente na loja. . e sem ela. De facto.A mesma frase da tua mãe – riu-se Afonso Soares quando se recordou de uma das muitas citações da sua falecida esposa. se mais exemplares seus apenas estragariam um 24 . . . – De mais pessoas como tu é que o mundo precisava.Bem! Infelizmente não me aconteceu nada de emocionante nas últimas duas semanas. ou se pelo contrário. . o meu casamento estava insuportável! Depois veio a separação.Aí é que te enganas. – Mas eu sinto que a Sara guarda rancores. . mas já te disse que não precisas preocupar-te. .Precisas de alguma coisa? .E achas que só te telefono quando preciso de alguma coisa? .Um clone meu era tudo o que o planeta terra não precisava! . Achas isto normal? . . especialmente de mim. . . .É.Claro que não – respondeu Madalena encostando-se à bancada. .Eu sei.Sabes.Isso é porque ela não sabe o verdadeiro sacana que o pai dela é! Devias contar a verdade.Na altura.Eu até acho que os teus filhos reagiram bem à tua separação com o Jorge.E tu? Como é que tens andado? ..Não posso fazer uma coisa dessas.E porque é que não levaste? – perguntou Alice evidenciando fisicamente que ainda não se havia recuperado da pancada que sofrera na cabeça quatro dias antes. Madalena não deixou de se perguntar se o mundo de facto necessitava de outras pessoas iguais a si. . Enquanto a melhor amiga atendia um dos inúmeros clientes que habitualmente passavam pela loja. terias que ser inventada. as bases estremeceram.Será que não há maneira de vocês se entenderem? Pelo menos pelo bem dos vossos filhos. . . o divórcio e a sensação de que me tinha que focar nos meus filhos para não os traumatizar. a única pessoa com quem podia contar incondicionalmente e também o único homem que nunca teve coragem de a decepcionar em toda a sua vida.Quando ela morreu eu pensei seriamente em levar o meu pai lá para casa – confessou Madalena. talvez… – respondeu Madalena deixando a caneta cair-lhe das mãos.Quase! Descobri que ele quer levar os meus filhos a Marrocos. sem restrições e também a infância que todas as crianças desejavam ter. O único abalo sofrido na relação de ambos aconteceu aquando da morte da sua mãe e do tremendo sofrimento pelo qual o pai foi obrigado a vivenciar durante meses a fio.Quem sabe um dia quando os ponteiros do relógio começarem a girar ao contrário.Porque não tenho o direito de destruir a imagem que ela tem do pai.Porque não?! . Desde que nasceu. Afonso era o seu porto seguro. às vezes acho que se tu não existisses. Ainda continuo rijo como um pêro! A voz do pai trouxe algum conforto a Madalena e isso ficou provado pelas inúmeras risadas que ela soltou enquanto falava com ele pelo telefone. – Já vi que são iguaizinhas. – Apenas perguntei porque me preocupo contigo. mas cá me vou aguentando. .

esse acontecimento entrou pela floricultura adentro trazendo consigo um perfume que rapidamente se entranhou em todos os cantos da loja. já que os seus antibióticos contra as dores tinham terminado sem qualquer aviso prévio. Raios. mas acho que você me pode ajudar. gostaria de saber se pretende oferecer flores a algum familiar.…olá. Alice interrompeu-lhe os pensamentos e informou que iria aproveitar a hora de almoço para passar pela farmácia.Então este é que é o “ Mar de Rosas” – murmurou Sérgio lançando os olhos àquele espaço repleto de flores. marido razão? Será que ela estava realmente a morrer de inveja da felicidade alheia? Ao tentar responder essa pergunta pela vigésima vez.Não. – Queres que te traga alguma coisa da rua? – perguntou ela alcançando o casaco no bengaleiro junto à porta. . Quer dizer. . . ela muniu-se de uma calculadora. se não for muita indiscrição minha perguntar. mas eu gostaria que fosse.Não.Veio comprar alguma coisa? – saltou essa pergunta estúpida dos lábios de Madalena. Talvez nem fizesse aos filhos já que eles preferiam uma estúpida viagem a Marrocos do que estar consigo. 25 . seria muita presunção sua pensar que fazia falta a quem quer que fosse.Até já. – Confesso que é exactamente como eu imaginei que era. Era ele. não percebo muito desse assunto.Está bem então! Vemo-nos daqui a uma hora.Que tipo de flores? .Claro que não – respondeu Madalena desfazendo-se dos óculos de leitura. . . . – Quando voltares eu como qualquer coisa ali no café da esquina. . . eu não sou casado – riu-se Sérgio.Hã… sim – respondeu ele aproximando-se lentamente dela. Na verdade.Espero não ter vindo numa má hora. ela ainda não é bem uma amiga. mas nem isso retirou a concentração de Madalena em frente ao computador pois era urgente terminar a tabela dos fornecedores e também os preços dos novos produtos da floricultura. Meu Deus. Como é que a descobriu ali? .Olá – disse Sérgio Almeida retirando as mãos dos bolsos assim que ela se levantou da secretária surpresa por o ver ali.planeta já por si mesmo estragado. . – Mas que coincidência vê-lo por aqui! Eu… . dos seus óculos de leitura e também do silêncio que se apoderou da loja enquanto a pouco e pouco as unhas roídas evidenciavam que a hora de almoço estava a passar sem qualquer acontecimento importante. O fotógrafo. . – Queria comprar flores para uma pessoa especial. A porta voltou a fechar-se com algum estrondo. Para isso. à sua namorada ou até mesmo à sua esposa… . – Bem.Claro – respondeu Madalena levando-o em direcção à bancada onde estavam depositados os melhores arranjos da loja. Teria o ex. Mas quando o relógio marcou treze horas e vinte e cinco minutos.Não sei bem! Na verdade. luz e um encanto fora do normal. não precisas preocupar-te – respondeu Madalena analisando a tabela dos fornecedores no seu computador. – E as flores são para uma amiga.

Mas será que valia a pena 26 . parece-me que você quer que ela seja muito mais do que uma amiga. – Estou à espera que a minha amiga chegue da hora de almoço dela. O que é que me diz? Um almoço e escolhe você o restaurante. A proposta não poderia ser mais tentadora. . Tudo nele gritava perigo. como é que ela está depois da pancada que levou na cabeça? . . mas acho que ela é uma mulher forte.Tem um café ali na esquina.Sim! Quando ela sorri.Hum! Acho que ainda continuo um pouco indeciso.Ou se não gostar de tulipas.Já almoçou? .Bem. Parece ser doce também. – Tome! Estas são as flores ideais para essa mulher. pela discrição que me ofereceu.Um sorriso esmagador – murmurou Madalena sabendo perfeitamente que esse sorriso era o seu. . Hum! Vejamos o que mais!? É simpática. – Ela está bem agora. os olhos dela brilham tanto. mas tanto. . excitação e novidade. ele atreveu-se a perguntar: . que é quase impossível resisti-los. fascinante e com uma personalidade vincada. . assim como o sorriso que ele lhe ofereceu em seguida.Fui assim tão indiscreto? .O galo desceu – riram-se os dois. Não quero errar na escolha. posso também mostrar-lhe estas orquídeas.Se o diz. mas devo estar despachado em menos de uma hora. e enquanto elas trabalhavam à velocidade da luz. . . As mãos experientes de Madalena conseguiram fazer um embrulho perfeito para o vaso de orquídeas que Sérgio escolheu sob sua orientação. claro. Como não estou com muita fome apenas vou comer uma sandes ou algo assim. Quer dizer.Claro! Então diga-me quais são as características dessa sua amiga.Bem… na verdade não a conheço muito bem. é que… . você vai almoçar nalgum restaurante aqui perto? .Por falar nisso.Não – respondeu Madalena rasgando-lhe um sorriso. embora tente não demonstrar essa qualidade logo à primeira.Eu ainda tenho que fazer umas compras de um material fotográfico aqui por perto.Almoçar consigo? .Um pouco – respondeu Madalena mostrando-lhe um vaso de orquídeas. mas Madalena sabia que se aceitasse aquela proposta irrecusável nada mais seria como antes. da pessoa que você quer que se torne sua amiga… . pois cada minuto que passava ao lado de Sérgio era uma eternidade difícil de aguentar. .A sério?! . Porque não!? . especialmente com pessoas que não conhece. sou obrigado a concordar. .Bem.Então nesse caso sugiro estas tulipas brancas. .Sim.Então eu convido-a para almoçar comigo – respondeu Sérgio parando-lhe o movimento das mãos com aquele convite tão inesperado. e tem um sorriso absolutamente esmagador… .. São perfeitas para demonstrar respeito e afectividade a quem quer que seja. percebe?! .E… quando ela vier.

ela teve a certeza que sim. . mais uma vez Alice atrasou-me. – Até logo – foram as últimas palavras de Madalena antes de abandonar a floricultura a uma velocidade fantasmagórica e atravessar a rua sem sequer olhar para trás.enfrentar todos esses perigos? Diante de mais um sorriso que ele lhe ofereceu.Não faz mal! Eu também não.É bom saber isso. . seguiu-se uma caminhada interminável pela avenida e a certeza que a sua pressa para almoçar prendia-se com tudo menos com a fome que disse estar a sentir à melhor amiga. tenho a certeza que irá querer ser. Madalena sentiu que não havia outra escapatória a não ser caminhar em direcção à mesa e forçar-lhe um pequeno sorriso. e para ajudar à festa. Madalena acompanhou o seu único cliente em direcção à porta desejando que os próximos sessenta minutos passassem o mais depressa possível. Depois disso. O olhar perdido enquanto falava ao telemóvel ainda a fizeram hesitar em aproximar-se.Não tem de quê! Bem… quer beber alguma coisa? 27 . . e ela pôde ter essa certeza quando o viu instalado numa mesa próxima à janela. . – Encontramo-nos daqui a uma hora então – ele disse. . algo que foi imediatamente correspondido. – Posso escolher o restaurante? . . .É claro que ela não se enganou – respondeu Madalena recebendo o arranjo com um doce sorriso. . . Chama-se “Luminosa” e as portas são de madeira. . . Sem mais palavras para lhe dizer e depois de ter aceitado o pagamento das flores. . .Ela ainda não é minha amiga.O único problema é que não me posso demorar muito. claro que não! Coisas relacionadas com o trabalho. . . – Espero não ter interrompido nenhuma conversa importante – disse ela quando Sérgio desligou a chamada e poisou o telemóvel sobre a mesa. Será que Sérgio já se encontrava no interior do restaurante? Será que ele tinha sido pontual e cavalheiro o suficiente para não a deixar à espera? Claro que sim. .Tome! São para si – disse Sérgio entregando-lhe o ramo de orquídeas assim que ela se sentou à mesa.Ainda bem.Tenho a certeza que a sua amiga irá gostar muitíssimo delas.Daqui a uma hora – respondeu ela mantendo a porta entreaberta. – A dona da floricultura disse-me que essas eram as flores ideais para oferecer a uma amiga especial e eu confiei nela! Espero que não se tenha enganado.Obrigado pela ajuda! Sem si não saberia como escolher as flores.Então está bem! Encontramo-nos daqui a uma hora no restaurante no final desta avenida.Depois destas flores.Acho que já sei qual é. os sessenta minutos seguintes passaram lentamente. mas quando os seus olhares se cruzaram. Tal como o esperado. lembra-se?! .Não.E continua? .Claro! Normalmente não costumo voltar atrás quando dou a minha palavra. – Obrigada.Claro que sim – respondeu Sérgio recebendo-lhe o embrulho de orquídeas das mãos.Estava a combinar fazer uma sessão fotográfica com uma modelo e ela telefonou-me para saber se a sessão ainda continuava de pé.

a Alice… .Deve ser uma autêntica mina de ouro. .pediu Sérgio.E você?! Quais são as flores que mais gosta? . Foi também a primeira vez que Madalena se sentiu absolutamente à vontade na companhia de um homem do qual não sabia muito mais que o nome ou a profissão. Madalena regressou a casa com um sorriso nos lábios e nem sequer se importou com o facto de não ter os filhos consigo.Um sumo de manga. ele tem cinquenta e a minha amiga. não?! . até mesmo antes de eu nascer … . – Ela tem cinco por cento. e enquanto conversava com ele e se deixava perder pela sua sensualidade casual. Pela primeira vez desde há anos. Tão livre e ciente de que a vida lhe tinha voltado a sorrir após tantas tristezas. .…muitas – respondeu Madalena deixando-se encantar por aquela conversa tão amena e agradável.A que ficou com um galo na testa. Quase quarenta e cinco. Impressionante também era o facto de saber que em menos de vinte e quatro horas todo o peso que sentia sobre os ombros desapareceu sem deixar rastro deixando apenas uma estranha sensação de doçura nos lábios.Sim. Eram as flores que ela mais gostava.Morreu?! . . a loja está no nome do meu pai. .Então com certeza não existia há tantos anos assim. . . É quase como se fosse uma sociedade. O almoço entre os dois desconhecidos revelou-se mais agradável do que se poderia esperar quando a refeição foi trazida à mesa por um dos empregados do restaurante e a conversa amena os embalou durante vários minutos.Pouco original da minha parte. . – Mas talvez orquídeas. por favor. – Mas a loja tem realmente muitos anos.Exactamente – riram-se novamente..Digamos que sim.Obrigada pelo elogio – riram-se os dois. . e pela primeira vez também desde há anos.E você ficou à frente do negócio? .Então eu também vou tomar o mesmo. – Digame… . “ Um mar de Rosas”. . – Há quanto tempo tem a sua floricultura? .Sim. Quer dizer. os sapatos e o casaco de malha.Confesso que fiquei encantado com o local e também com o nome. eu sei. a floricultura era da minha mãe e já existia há muitos anos.Já estava à espera dessa resposta – disse Sérgio forçando um sorriso.Sim. Eu tenho quarenta e cinco por cento. Impressionante como se estava a sentir tão bem. mas sou eu quem dirige aquilo tudo. Há seis anos atrás. Foi a sua mãe que escolheu? . – Tem um significado especial porque pertenceu à minha mãe e é uma das poucas lembranças que ainda tenho dela. ela caiu no sofá como uma pluma deixando para trás a mala. eu acho que é! Pelo menos para mim – respondeu Madalena compondo os cabelos soltos. Seria normal sentir-se assim só por causa de um almoço informal com um fotógrafo do qual não conhecia muito mais que o nome? 28 . . pensou.Na verdade. os ponteiros do relógio pararam no tempo.

.Tu sabes que eu não bebo a não ser em ocasiões especiais. É por isso que não tenho queixas dele.De cigarros já estou a ver. . está bem – riu-se Afonso enquanto levava o cigarro à boca.Está bem.Estão bem. muito pelo contrário! Eu trato-te como trato o Daniel porque psicologicamente ainda nem chegaste aos dez. . como é que eles estão lá de férias com o pai? .Só que ele sempre foi prestativo para mim e para a tua mãe e também sempre foi um bom genro. mas talvez o jantar que tinha combinado com Sérgio no Sábado seguinte fosse a razão primordial para aquela alegria tão espontânea.Não. . – Ponho-te tudo num saco para levares.Não precisavas preocupar-te com isso! Já te disse que me arranjo.Não. – Já te disse várias vezes que devias deixar de fumar. .O quê?! . e se queres que te diga.Não brinques com coisas sérias – afirmou Madalena colocando as compras do supermercado em dois grandes sacos.Impressão minha ou tu ainda continuas a adorar o Jorge apesar de saberes que ele é um idiota de todo o tamanho?! . Na verdade.É! Quem não tem – disse Madalena num tom debochado. . eu acho! Falei com eles ontem à noite e ainda estavam no Algarve. realmente a minha estadia na esquadra foi apenas uma imaginação da minha cabeça.Afinal de contas eles também precisam do pai. .Ai não?! Pois deixa-me que te diga que se fosse só por causa do teu querido ex. .Ele não é um idiota! . tu só podes ter bebido antes de cá vir – afirmou Madalena fechando as alças dos sacos de compras. – Claro que tem defeitos. . e depois disso ela sentiu-se tentada a revelar algo muito importante ao pai. .Não.Só tenho sessenta e oito e tratas-me como se já tivesse passado dos oitenta. genro.Estou-me a alimentar muito bem se queres que te diga – respondeu Afonso acendendo um cigarro junto à janela. .E existe algum alimento melhor? . Só na segunda-feira é que vão para Marrocos.Estou-te a achar muito magro! Tens a certeza que te estás a alimentar como deve ser? . .O Jorge é uma boa pessoa – afirmou Afonso cerrando os olhos quando o fumo do tabaco lhe atravessou os olhos. não precisou de muitos rodeios até porque Afonso era o seu grande conselheiro e também uma das poucas pessoas a quem se sentia 29 . . .Também não foi assim.Sinceramente não sei – respondeu Madalena fechando a porta do frigorífico com força. . por mim vocês ainda continuavam casados.Acho que foste demasiado precipitada em pedir o divórcio. a uma altura dessas a tua filha ainda estaria presa por um crime cometido por ele. – Por falar nos miúdos. de facto não era. . – Comprei-te algumas coisas – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico quando o pai a visitou a poucas horas do seu encontro com Sérgio Almeida. especialmente por causa da tua idade.Sim. mas quem não tem. Uma risada foi a resposta de Madalena. não é?! . .Fizeste bem em deixá-los ir com o Jorge. .

marido não restou absolutamente nada ou qualquer réstia da sua presença. Ele chegou e já não havia mais nada a fazer a não ser abrir a porta e permitir-lhe a entrada.Claro que não – respondeu Madalena fulminando o pai com os olhos.Obrigada. os tapetes e cortinados claros eram a palavra de ordem na nova decoração que Madalena fez questão de produzir após o seu divórcio.E aonde é que vai ser esse tal grande jantar? . Foi nessa altura que a campainha tocou e lhe provocou um pequeno sobressalto. Dos antigos móveis comprados pelo ex. 30 . . E sim.Homem!? Que homem? .O quê? . . Sérgio aceitou o convite com um sorriso e não tardou a chegar à sala onde a arrumação. – Tens aqui um belo património – confessou Sérgio enterrando as mãos nos bolsos das calças. Sérgio exalava uma simplicidade fora do normal. branco. . Mas por agora a única coisa que precisas saber é que vou jantar fora com uma pessoa muito simpática e interessante. De resto.Com a Alice? .Hum! Não estou a gostar nem um pouco dessa história.Por isso. os cabelos e a maquilhagem primaram pela simplicidade.Estes são os teus filhos? – perguntou ele alcançando um porta-retratos sobre a mesinha. – Olá! .Dás-me licença? . Madalena chegou à conclusão que aquela realmente não era a melhor opção para si e nem para a noite que prometia ser bastante especial tendo em conta a sua companhia.Vou tentar. . .Vê lá o que é que fazes. assim como os brincos que fez questão de colocar à frente do espelho do corredor. . . .É uma história comprida que talvez um dia te venha a contar. Um novo retoque nos cabelos.Ainda não sei! Ele ficou de escolher o restaurante. cintado e perfeito para uma mulher que não saía para jantar fora há pelo menos seis meses.totalmente segura para contar todos os segredos que rodeavam a sua vida. aqui tens a tuas compras da semana! Leva-as e deixa-me preparar para o meu grande jantar. minha menina – afirmou Afonso puxando-lhe o nariz tal como fazia quando ela era pequena. Por isso. – Sabes de uma coisa?! . uma simplicidade bastante apreciada por Madalena. Trajado com umas simples calças de ganga e uma camisola preta. ela voltou a abrir as portas do roupeiro e encontrou um novo vestido. os móveis sofisticados. – Juízo! .Olá – respondeu ele desarmando-a com o seu sorriso. Ao olhar-se no espelho da casa de banho depois de escolhido um dos primeiros vestidos que lhe passou pelas mãos. sem hesitações. Nele encontrava-se uma fotografia de Sara e Daniel. . . no decote do vestido e ela sentiu-se pronta a encarar o rosto de Sérgio Almeida. Chegou.Hoje tenho um jantar.Claro. – Com um homem. tudo o que o Jorge não é e nem nunca foi.Entra – disse ela. De resto.

casual e encontrava-se situado numa das ruas mais movimentadas da cidade.É claro que é um elogio – riram-se os dois. continuaram a degustar a refeição escolhida e o vinho especialmente indicado por um dos empregados do restaurante. e dele.Não tanto quanto gostaria. mas o problema é ser demasiado apegado às lembranças do passado. que submersos numa conversa amena.Claro! Vamos. 31 .Uau – exclamou Madalena compondo os cabelos no meio de um sorriso. . e ele até tem dinheiro para comprar uma melhor.Sim! Porque não? . .Quem sabe um dia não te levo lá. mas a verdade é que nem o barulho das pessoas.Tenho a certeza que irias gostar da vila – afirmou Sérgio não se deixando distrair por mais nada naquele restaurante a não ser pelo sorriso dela. – Fico feliz por saber que o teu avô cuidou de ti durante esse tempo todo – confessou Madalena poisando o guardanapo sobre o colo. É uma casa simples. filhos não teve. Para além disso. confesso que me apanhaste de surpresa.São bastante parecidos contigo. ou pelo menos nenhum que soubesse. Diz que jamais seria capaz de sair de uma casa onde a mulher deu à luz a filha.Parece ser um programa interessante. da televisão ou das cadeiras a arrastar conseguiram desviar a atenção de Madalena e Sérgio. – Sempre que me sinto cansado do trabalho e quero descansar um pouco.Bem. A resposta de Sérgio trouxe um novo olhar e também um sorriso que Madalena fez questão de lhe oferecer enquanto se perdia na magnitude daquele momento. . .Sim.Só fomos obrigados a separarmo-nos quando eu vim para Lisboa fazer o curso de fotografia. ela fez questão de dissecar todos os detalhes. e passava a maior parte dos dias enfiado no estúdio de fotografia que abrira com a ajuda de um amigo muito especial. ele tudo queria saber. muito simples. . . era órfão desde os dois anos e o único familiar vivo que lhe restava era um avô que morava no Alentejo e que ele fazia questão de visitar sempre que podia.Eu?! . – Ele mora numa pequena casinha toda pintada de azul e branco.E vocês vêem-se com muita frequência? . Soube que ele morava num pequeno apartamento nos arredores de Lisboa. aliás. .Obrigada! Quer dizer. – É realmente muito querido da parte dele. O restaurante escolhido por Sérgio era simples. Dela. mas sempre que tenho algum tempo faço questão de aparecer por lá – respondeu Sérgio poisando os braços sobre a mesa após o término do jantar. . nunca fora casado. especialmente às lembranças da minha avó e da minha mãe.. partindo do pressuposto que seja um elogio… . – Talvez seja melhor irmos andando antes que se faça mais tarde – disse ela tentando esconder o nervosismo. No seu interior. . havia uma quantidade exorbitante de clientes. fujo para lá e passo os dias a pescar com o meu avô. .

Nessa altura. especialmente pelo meu pai. Acho que não conseguiria imaginar a minha vida sem ele. – Sou mesmo! Confesso que sempre fui muito mimada pelos meus pais. Deu tempo para que se conhecessem. obrigada por tudo.Um casal! Perfeito – sorriu Sérgio levando a mão ao queixo. 32 . mas… tal como te disse.Eu também – respondeu Madalena tentando esconder a tristeza que lhe assombrou o rosto. . . .…vamos para o quintal e assamos o nosso jantar.A sério?! . – Mas pelo menos ainda me resta o meu pai. Na verdade. – Entregue – disse Sérgio quando Madalena abriu o portão de casa. até porque ela sempre foi uma mulher saudável. Foi com uma música bem conhecida a tocar no rádio que Sérgio levou Madalena a casa. De facto. . o relógio assinalou vinte e três horas e quarenta e cinco minutos. . ninguém estava à espera que aquilo acontecesse. foi repentino. . . Ele parece ser igual ao meu pai.Espero que tenhas gostado do jantar.Eu também acho. . não?! .Deve ter sido muito difícil quando a tua mãe morreu.Teve um ataque cardíaco repentino. Sim.Sim.Sinto muito.. mas ele sempre me deu todo o carinho do mundo.Tens ar de menina do papá. .Eu gostaria muito de conhecer o teu avô.Podes acreditar que é! E quando voltamos da pescaria com… um peixe e meio nos baldes… – Madalena não resistiu a soltar uma ruidosa gargalhada.Ela morreu do quê?! – perguntou Sérgio com alguma cautela. não é?! . . . . …não! Sou divorciada. o tempo propício para que a noite pudesse ser encerrada e para que ela absorvesse as luzes da cidade que teimavam em invadir-lhes o carro. essa foi a melhor notícia da noite – disse ele arrancando-lhe uma gargalhada ruidosa.Como é que se chamam? .Obrigada! Aliás. .E sou – riu-se ela alegremente. até por ser filha única e essas coisas todas.Óptimo! A seguir ao golo que o Benfica marcou há bocado. .E… se não for muita indiscrição minha perguntar… és casada? A pergunta de Sérgio não a tomou de assalto e tudo porque Madalena já esperava que mais cedo ou mais tarde ele a fosse fazer.Uff – suspirou Madalena largando os ombros. – Foi a pior fase da minha vida. . era só uma questão de tempo e sentido de oportunidade e ele soube aproveitar essa oportunidade na perfeição. . o seu único desejo era que ela se prolongasse por mais algumas horas. cheia de energia.O meu pai também é o meu melhor amigo. .E os teus filhos. De facto.A mais velha chama-se Sara e tem quinze anos e o rapaz chama-se Daniel e tem dez. Nesse aspecto tive muita sorte. . a noite tinha sido maravilhosa em todos os aspectos. os meus filhos também. e pela primeira vez desde há muito. para que conversassem sobre assuntos triviais e também para que ela se sentisse suficientemente confortável para tocar naquele assunto tão delicado e pessoal.

Ele que estava a bater acelerado. despediu-se da melhor amiga e caminhou apressada em direcção ao carro ansiando chegar a casa. comer alguma refeição ligeira e cair na cama sem pensar em mais nada a não ser no dia seguinte. – Será que liguei numa má hora? – perguntou Sérgio com uma voz absolutamente irresistível.Pode – respondeu Madalena sentindo-se como uma verdadeira adolescente quando ele se debruçou e a beijou na face.Sei que é meio em cima da hora. mas estava a pensar em convidar-te para sair hoje à noite.ele hesitou. Cinco dias foi o tempo que Madalena teve que esperar para voltar a ter notícias de Sérgio. .Ligo-te ainda esta semana. Pode ser?! . enquanto atendia algum cliente. descompassado e tudo por causa de Sérgio que sem querer acabou por o trazer de volta à vida. O que é que te parece? .Semanas? Meses? Anos? 33 .Não! Claro que não – respondeu Madalena moderando os passos ao longo da avenida.Por mim tudo bem.O quê!? O jantar? . .Gostei imenso. . . . uma refeição em casa e uma cama vazia. E em casa. deixava o aparelho sobre a caixa de velocidades e quase tinha acidentes quando os seus olhos saíam da estrada.. Após mais um dia exaustivo de trabalho onde foi obrigada a levar vários caixotes pesados ao armazém ao lado de Alice e do motorista que trouxera as encomendas dos fornecedores.Um jantar.Sair para onde? . Mas nada. Ao vê-lo a desaparecer pelos portões e a enfiar-se no carro estacionado a poucos metros da sua casa. Mas teriam os seus planos algum tipo de fundamento? Ao ouvir o telemóvel tocar no bolso do casaco e mais tarde o nome da pessoa que a estava a telefonar.…podemos repetir um dia destes? .Dançar?! . Madalena sorriu e levou a mão ao peito numa tentativa desesperada de manter o coração ali dentro. . Durante a condução para casa. Depois disso. Madalena deu-se por vencida e fechou a loja mais cedo do que o habitual. .Boa noite! Dorme bem. tomar um banho. . Na floricultura. Nenhuma chamada importante a não ser a dos filhos para contar as maravilhas que estavam a viver em Marrocos. . isto para não falar das inúmeras vezes que lançou os olhos ao telemóvel ansiando uma mensagem de texto ou até mesmo um toque que lhe trouxesse um sinal da existência do fotógrafo. qualquer ruído era suficiente para que pensasse que era o telefone a tocar.Tu sabes há quanto tempo eu não vou ao Bairro Alto!? .Será que… .Para dançar – respondeu ele. Qualquer coisa! .Tu também. muitas eram as vezes em que se dava consigo a olhar para o visor. um sorriso atravessou-lhe os lábios e fê-la recuar nos seus intentos de um banho.Sim! Bairro Alto. um almoço ou até mesmo um café.

pelas mesas e cadeiras sofisticadas e por um ambiente muito menos explosivo. .Prometo que não me vou demorar muito. – Antes de a minha filha ter nascido. havia décadas que não pisava um local daqueles. Sim. fumo de cigarros.Disseste-me que os teus filhos estavam a passar férias com o teu ex. mesas e cadeiras degradadas e a música rock a ecoar-lhe nos ouvidos como se fossem verdadeiras bombas atiradas lá para os lados do Iraque. Vamos para um outro bar aqui ao pé. Havemos de encontrar algum que seja mais interessante.. . . Eu quero dançar e quero dançar contigo! Não aceito outra companhia… Era uma loucura. . Madalena sentiu-se no seu verdadeiro habitat quando Sérgio a ajudou a sentar-se numa das poucas mesas vazias e caminhou em direcção ao balcão pronto a pedir as primeiras bebidas da noite.Então está bem! Fico à espera.Está bem – respondeu Madalena sentindo-se aliviada quando abandonou aquele bar propício para mulheres que ainda não haviam passado dos vinte e que desejavam urgentemente engatar o primeiro homem que lhes aparecesse pela frente.Prepara-te! .Mas o quê?! . Uma Cosmopolitan para ela e um whisky para si.Não – adiantou-se ela tocando-lhe no peito sem querer. . – Não é nada disso. De facto. – A que horas? .Vou-te buscar assim que sair do estúdio. Madalena foi obrigada a respirar fundo e a assimilar tudo aquilo que lhe estava a acontecer. Aquele realmente não era o local ideal para si. – Estás bem? – perguntou Sérgio percebendo-lhe o desconforto patente nos olhos. outras drogas ilegais. .Podemos procurar um outro bar menos movimentado! Existem muitos por aqui. A perfeição do recinto ficou marcada pela sua decoração tipicamente tradicional. . Não. Quando se viu no interior de um dos bares mais requisitados do Bairro Alto. Por volta das dez e meia! Pode ser? .Eu não queria que… . o facto de se ter esbarrado com uma dessas mulheres à saída apenas veio a cimentar as suas convicções. – Toma – disse ele voltando à mesa alguns minutos mais tarde. não estou muito habituada a este tipo de ambientes. marido. – E este? – perguntou Sérgio quando entraram num bar completamente diferente do anterior. . 34 . . um local repleto de gente jovem. .Pois hoje vamos dançar e eu não aceito um não como resposta. eu não sei … .Tal como te disse.Décadas – respondeu ela arrancando-lhe uma leve gargalhada.Podemos ir embora se quiseres.Até acho que isto está cheio demais! Nem sequer têm mesas vazias e iríamos acabar por ter que ficar no balcão. De resto. .Pode – respondeu ela abrindo as portas do carro. mas ainda assim houve algo na voz de Sérgio que a fez hesitar e querer seguir em frente com aquela loucura tão deliciosa. mas… .Sérgio. Apesar de ser frequentado por pessoas mais velhas. – Mas só espero não dormir antes de chegares. por isso não tens desculpas.Não te preocupes porque eu vou estar mais do que preparada.Estou. Madalena sabia-o.Este é perfeito – respondeu Madalena voltando-se para ele com um sorriso radiante. .

E quando o fez. não tendo outro remédio a não ser contar as pequenas tarefas que realizou durante o dia. – Danço muito mal. onde por sorte ou não. – Queres dançar? .Sim! Está a passar uma música que eu gosto muito e que não quero desperdiçá-la de maneira nenhuma.Agora?! .Tens razão.Então conta-me lá como é que foi o teu dia. Madalena sentiu-se nua. . .Obrigada. encostou a cabeça nos ombros de Sérgio deixando-se levar pelo momento mais especial da noite. . não é?! .Não existem músicas do nosso tempo! Existem músicas intemporais e esta é uma delas. . naquele bar tão acolhedor e destinado a seres humanos acima dos trinta. Sem mais palavras para lhe dizer. telefonar a fornecedores.Obrigado pelo elogio. Sérgio encostou Madalena contra si e permitiu que ela fechasse os olhos sem se importar com as pessoas à sua volta ou com o adiantado das horas. já se encontravam outras pessoas a dançar “At Last” da cantora norte-americana Etta James. podes dizer – concluiu ela entre risos. Literalmente nua.Confesso que nunca tinha entrado neste bar e olha que já frequento o Bairro Alto há anos.Nem por isso – respondeu ele fazendo-a girar sobre os pés.Foi normal! Absolutamente normal. tudo deixou de ter importância quando as mãos dele percorreram-lhe as costas e se enterraram nos seus cabelos soltos. O sorriso de Sérgio convenceu Madalena a oferecer-lhe a mão e a seguir com ele em direcção à pista de dança. .Para mim só o facto de saber que respiras já é o suficiente para achar a tua vida fascinante… . atender novos clientes. .Mas mesmo assim eu quero saber. Abrir a sua floricultura.. . Quero saber tudo o que te aconteceu desde que saíste da cama até à hora que te telefonei a marcar este encontro – respondeu Sérgio não tirando os olhos dela um só segundo.Tu também não ficas atrás. Uma música absolutamente irresistível.És um cavalheiro e é por isso que não dizes a verdade.É um pouco escondido. não danço? – perguntou ela voltando a encarar-lhe o rosto. . – A minha vida é uma seca. . atender clientes. sabias!? – disse Madalena quando se viu envolvida numa balada verdadeiramente romântica.Lá isso é verdade – riu-se Madalena enquanto bebia o primeiro gole da sua Cosmopolitan. Ali. e depois disso.Sim! Mas eu gostei imenso. Pelo menos dá para conversar sem termos que berrar aos ouvidos um do outro. . . . . encerrar o expediente com a nítida certeza que faria exactamente a mesma coisa no dia seguinte. dia não lhe surgia à frente da porta da loja. receber as encomendas da carrinha que dia sim. e por fim. segundo as palavras do fotógrafo – Esta música é do meu tempo.respondeu ele encontrando-lhe o pulso sobre a mesa.Claro que não! Adorei saber tudo o que fazes. Um arrepio na espinha foi o que Madalena sentiu. pagar algumas contas. – Para mim danças perfeitamente.Aonde é que aprendeste? 35 . almoçar. . .

mas sim inúmeras vezes até conseguir saciar o desejo e a vontade de tê-la só para si.Não! São as minhas palavras e eu estou a cantá-las para ti… . Três horas e vinte e cinco minutos foi a hora que Madalena abriu os portões da sua casa após uma noite maravilhosa passada ao lado de Sérgio. – Digamos que é um talento natural. É a letra de uma música. acho que nem sequer me vou deitar porque… . não sou?! .Eu acho que sim.Não são as tuas palavras. . – Talvez tenha aprendido aí. pé ante pé. .. Não tinha e nem queria sair daquele jardim sem fazer algo pelo qual havia ansiado desde o início da noite. .Já é quase de manhã e eu acordo cedo.Que pena – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. Ambos. ainda surpresa pela audácia dele. manteve-se de olhos abertos numa tentativa desesperada de convencer-se que nada daquilo 36 . quanto a isso não havia dúvidas. . Madalena não pensou duas vezes em acatar-lhe o pedido. Sérgio não tinha todo o tempo do mundo para esperar por ela.Posso beijar-te?! – interrompeu ele. Perto de ti sou um verdadeiro aprendiz.Diz! Podes confessar.É melhor ires – respondeu ela tentando resistir àqueles olhos verdes.Isso quer dizer que a nossa noite terminou? . a verdade é que foi completamente impossível resistir-lhe à voz rouca e desafinada nos ouvidos. Quer dizer.Uau! Não és nem um pouco convencido. enquanto Madalena.Então quer dizer que tenho aqui nas minhas mãos uma verdadeira bailarina!? Madalena sorriu. Beijá-la não uma. – Danças muito bem – sussurrou ela. ainda continuavam a cantar um dos temas mais marcantes do serão. um pouco embriagados. . . mas ainda assim.Não acreditas nas minhas palavras? . A mão levada ao peito e o virar do rosto em direcção ao quintal do vizinho foram alguns dos indícios que fizeram antever a resposta de Madalena. . . Beijá-la. ao seu estado civil e também ao seu desejo de aventurar-se nos ouvidos de um homem que mal conhecia. não duas. . Por isso. .Já disse que danças muito bem.Só acredito se me disseres isso ao ouvido. – És louco – riu-se ela quando Sérgio lhe caiu sobre os ombros.Eu costumava praticar ballet quando era mais nova – respondeu ela envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. e mesmo ela tendo tentado desviar-se dos braços dele à volta da sua cintura.Estou-te a perguntar se te posso beijar. até porque a dança tinha conseguido um feito inédito.Claro que não – respondeu ela não contendo os risos. ele aproximou-se dela e tomou-a nos braços com um beijo absolutamente esmagador. Naquele momento. O feito de livrá-la de todas e quaisquer inibições relativamente à sua idade. . não sei… .O quê?! . – Por mim continuava a dançar contigo até de manhã.E tu? Aonde é que aprendeste a dançar assim? .Confesso que não aprendi em lado nenhum – respondeu ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. – E querias-me convencer que não sabias dançar? Aposto que só estás a dizer isso para não me fazer sentir mal.

Pois bem! Então deixa-me que te diga que não é esse facto que me vai fazer afastar de ti. . . . Voltou a beijá-lo e pela primeira em toda a sua vida tomou a iniciativa de se atirar para os braços de um homem que não o seu marido. 37 . – Eu sei que devo parecer ridícula… . . . Submersos em beijos. Madalena sorriu e não evitou pensar que deveria estar em todos os lugares menos ali. Um sonho do qual vou acordar daqui a cinco segundos e não me vou lembrar de absolutamente nada. que Madalena se deixou encostar à parede permitindo que Sérgio a livrasse do vestido que ela utilizou para o fascinar durante toda a noite.Não – adiantou-se ela. enfim! Deveria estar a pensar em tudo aquilo. – Exagerei?! . Deveria estar na cama há horas.Na tua casa? .Desculpa – disse ele. Como sonhou descobrir o que estava por debaixo dele.estava a acontecer.Eu?! . E foi ali. Sérgio sorriu. E não é que foi isso que fez? Sem pensar nas consequências. mãe de dois filhos adolescentes… . Estava antes diante de um dos homens mais fascinantes que lhe haviam atravessado o caminho e a sua única vontade era voltar a enterrar-se na boca dele e sugar-lhe todo o sabor que ele a fizera provar momentos antes.Também. – A sério! Pára…! . foram os pensamentos do fotógrafo quando o tecido caiu ao chão.Um pouco. É um sonho.Diz! . deveria estar a pensar nos filhos e também na floricultura que teria que reabrir de manhã…. que és divorciada e que tens dois filhos adolescentes… .O que é que tu queres de mim? . pensou.Não.Uma mulher divorciada. Madalena e Sérgio entraram pela casa adentro sem se importarem com mais nada. Nem sequer com o tapete do corredor que quase os fez escorregar junto ao bengaleiro. no meio de uma escuridão avassaladora.Que se calhar com a minha idade eu não deveria reagir tão mal por causa de um beijo.Queres entrar? . claro que não.Já reparaste que passas a vida a falar da tua idade? . – Estás sempre a insinuar que és muito mais velha que eu. .Só estou a constatar um facto. – O que foi? .suspirou Madalena sentindo-se prestes a cair num abismo.Fiz mal?! .Sim ou não?! . abraços e tropeções.Talvez – riram-se os dois. mas a verdade é que não estava. intrigado.Sim – respondeu ele desarmando-a novamente com o seu olhar. – Isto é de doidos… . – Quer dizer… sim! .Sérgio… – murmurou ela. . mas não só… – respondeu ela arrancando-lhe uma ruidosa gargalhada.A pergunta é: o que é que tu queres que eu queira de ti? Ao ver-se metida num verdadeiro dilema.O que é que queres dizer com isso? – perguntou Sérgio. baixinho. – Pára – pediu ela desesperadamente. ela puxou Sérgio contra si e realizou todos os desejos que manteve escondidos durante a noite.

Adorei cada minuto. . .Nós vamos repetir tudo outra vez.Nunca pensei que pudesse acontecer tão rápido.Prometo. ela voltou a fechar a porta e deixou que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo em forma de gritos. mas realmente não é isso que importa! O que importa é que ontem saímos para dançar.Prometes?! . . Como é que poderia dormir se nada daquilo lhe saía da cabeça? Aliás.Ligo. .respondeu Madalena permitindo que Sérgio se afastasse com um largo sorriso e encontrasse o carro estacionado a poucos metros da sua casa.Isto.Disse que tinha tido muito trabalho durante a semana e que por isso não teve tempo para me ligar antes – respondeu Madalena levando a mão ao queixo. .Ir para a cama com um homem que mal conheço – respondeu Madalena soltando um outro suspiro quando ele mordiscou a sua orelha direita.Cada milésimo de segundo – riu-se Madalena ainda colada aos lábios dele. os braços musculados que ele tinha e a forma como se deixou entregar a ele durante horas a fio. – Achas que deva acreditar? . . Não lhe importou a sua triste figura enquanto subia as escadas pois tudo o que ela queria era continuar a sentir os lábios de Sérgio. as horas de prazer que passaram juntos não deixaram outra alternativa. .Eu nunca fiz isto.. o quê? .Eu também. – E assim que puder eu ligo-te. não sabia. Precisavam ver-se.Bem. .Claro que sim.Ligas hoje? . Contudo. como poderia sequer pensar em trabalhar quando a sua única vontade era continuar ali deitada para sempre de olhos postos no tecto? Ou estariam antes postos no céu? De facto.Nem eu! Confesso que até já tinha perdido esperanças que ele te voltasse a ligar.Quero repetir tudo outra vez! . – Ai. Depois disso. esperneios e uma dança absolutamente ridícula ao longo do corredor.Então se for assim eu deixo-te ir. precisavam sentir-se e precisavam urgentemente ter-se um ao outro sem pensar nas consequências que aquele caso poderia trazer às suas vidas. meu Deus! Não faças isso… Quando os primeiros raios de sol se impuseram nas janelas e demonstraram que era altura de voltar à realidade. cada segundo… . De resto.Tchau! .Então eu vou – disse ele beijando-a novamente. passámos uma noite fantástica e … eu fiz sexo – exclamou Madalena arrancando 38 .Tchau… . . nada disso importou. .Aleluia – foi a reacção de Alice na manhã seguinte quando Madalena lhe contou todos os detalhes que rodearam a sua noite com o Sérgio. Ele não tinha razões para te mentir. Sérgio e Madalena despediram-se à porta de casa com um longo beijo e com a promessa de tornarem a reencontrar-se assim que possível. . na altura. . – Adorei … .confessou Sérgio. .O quê?! – perguntou Sérgio devorando-lhe o pescoço. . .

a simples ideia de que as coisas voltassem a ser o que eram antes. E que homem. tudo isso faria parte do passado. não foi muito difícil para Madalena encontrar o estúdio de Sérgio que ficava exactamente situado num dos pontos mais movimentados da cidade. . um pouco degradados. Lingerie e Madalena pôde ter essa certeza quando a observou dos pés à cabeça. minha amiga! Que homem! . 39 . a pouco e pouco. . . Madalena aceitou o convite de Sérgio para conhecer pela primeira vez o estúdio fotográfico que ele dirigia. Diante da chegada dos filhos. provocava-lhe um verdadeiro ataque de histeria. Uma rua famosa pelos seus prédios antigos.Estou tão contente como se tivesse acontecido comigo.…eu acho que me enganei. dois toques e a porta foi aberta por uma jovem altíssima. E assim. Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser os encontros fortuitos de Madalena e Sérgio ao final da tarde que muitas vezes culminavam com um jantar e uma noite de prazer na casa dela.vários pulos de alegria por parte da sua melhor amiga. A Rua do Carmo. . divorciada e com filhos consegue arranjar um homem que se interesse por ela. Um toque. Na verdade. mas tal como disse. saltos altos e uma lingerie que tapava apenas o essencial. Faltavam apenas vinte e quatro horas para que Sara e Daniel regressassem de Marrocos e para que a vida de Madalena retomasse o curso habitual.Acho que se morresse hoje.Está à procura de…?! – perguntou a jovem passando as mãos pelos cabelos com uma descontracção fora do normal. Acordar cedo. principalmente por saber que não teria tanto tempo para estar com Sérgio e muito menos a possibilidade de o levar para a sua casa e fazer amor com ele no corredor.Eu sei – riram-se alegremente. de cabelos loiros. olhando novamente para o papel que tinha nas mãos. Não. Mais tarde. ou pelo menos escondido até que tivesse coragem de lhes contar que a mãe finalmente havia encontrado alguém para lhe aquecer os pés nas noites frias de Inverno e para lhe destapar os lençóis nas noites quentes de Verão. . Com o endereço nas mãos. acho que me enganei. será que não percebes?! Tu és a prova viva que uma mulher acima dos quarenta. sair a tempo de buscar o filho mais novo ao colégio e voltar para casa onde a preparação do jantar era a palavra de ordem. Ele deu-me o endereço. Contudo. era uma proposta irrecusável e ela aceitou-a sem pestanejar já que os filhos só chegariam a Lisboa no Sábado de manhã repletos de histórias para contar e presentes que juraram ter adquirido para si. morria feliz.Não. não se enganou! É aqui mesmo. a carta de alforria que ela havia conseguido quando os filhos partiram de viagem foi-se esgotando no prazo de validade. preparar os filhos para a escola. – Tu não podes morrer nunca. Naquela sexta-feira. . E foi exactamente à procura de uma história que ela subiu as escadas do edifício onde se encontrava instalado o estúdio de Sérgio.Hã! Do estúdio de um fotógrafo chamado Sérgio Almeida. Sexo… .É?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. após um dia cansativo na floricultura. percebeu que tinha chegado ao destino. . – Acreditas nisto?! Eu fiz sexo! Fiz sexo.Não – afirmou Alice sentando-se à frente dela. abrir a floricultura. mas com imensas histórias para contar. no sofá e no quarto. Sim.

São os novos fios dentais da Vitoria Secret.Está tudo bem? . pois quando Sérgio a convidou para conhecer o seu estúdio fotográfico. . mas eu não costumo usar fios dentais. Porque apesar de tudo.Sim. tudo o que ela não imaginava era encontrar duas mulheres seminuas que em muito lhe faziam lembrar os seus vinte e cinco anos. . a única vontade de Madalena era fugir e fingir que nunca estivera ali.Olá! . Tem que comprar. .Desculpa! Já chegaste?! Não te vi entrar – disse Sérgio quando finalmente se apercebeu da presença de Madalena no estúdio. . – Isso! Isso mesmo! Agora reflecte a perna e olha para mim… . – Ele está a fotografar uma outra rapariga… .Vou pensar no caso – murmurou Madalena desejando desaparecer o mais rapidamente possível.Está tudo óptimo. até mesmo porque essa seria a atitude mais sensata a tomar tendo em conta as pernas bem definidas e o busto daquela modelo que não aparentava ter mais do que vinte e cinco anos.dizia ele totalmente concentrado no que estava a fazer. Sim.Isto é para quê? – perguntou Madalena aos ouvidos da modelo que lhe havia aberto a porta minutos antes. . Na aparelhagem soava igualmente uma música bastante insinuante que muito lembrou a hora Coca light. . Ainda tentou beijá-la. . Muito bom! Estás óptima. mas é giro. – Quer dizer. assim como as poses sensuais que a modelo fotografada fazia questão de oferecer às lentes de Sérgio. nada poderia ser mais provocante e explícito. De facto. – Inclina um pouco mais a cabeça.Gosta? – questionou ela mostrando o fio dental sobre uma das mesas do estúdio. por favor… . um famoso anúncio televisivo dos anos noventa.Obrigada.Uau! . . para criar alguma vergonha na cara e para não se iludir com um homem que parecia viver rodeado de modelos belas e esculturais. é minúsculo.Eu?! Não! Definitivamente não. . 40 . Eu é que acho que vim numa má hora. .. mas por sorte ela desviou-se a tempo para que as duas modelos não descobrissem a sua verdadeira identidade. I just wanna make love to you.Pois devia – respondeu a modelo bebendo um gole de água com a ajuda de uma palhinha fluorescente. .É giro – respondeu Madalena segurando nas mãos um pequeno pedaço de tecido.informou a jovem caminhando com Madalena pelo pequeno corredor quase às escuras. – Esses são muito bons para nos levantar o rabo. Era como se algo lhe gritasse aos ouvidos para desaparecer.Chegámos – exclamou a modelo parecendo ignorar a última frase de Madalena quando abriu a porta e a encandeou com as luzes vindas do estúdio. Entre! Na verdade. ela também já tinha tido vinte e cinco anos.Sim.Uma campanha de lingerie.Assim!? – perguntava a modelo sem sequer se aperceber dos olhares aterradores que Madalena lhe fez questão de lançar de longe. – Você também veio fotografar? . .

É a primeira vez que trabalhas com elas? .Ainda vai demorar muito a sessão? . Vera parecia muito mais segura de si. 41 . quanto a isso não havia dúvidas. mas ainda assim.. Madalena percebeu que não era apenas a beleza a única característica que a diferenciava de Natália. . – São simpáticas. Seriam namorados? Amigos? Ou qualquer outra coisa pelo meio? De qualquer maneira não devia ser nada sério visto ela aparentar ser mais velha que ele. lembraste?! . – Já tínhamos combinado. era também perceptível que a presença de Madalena a incomodava mais do que qualquer outra coisa. computadores e outros aparelhos electrónicos que utilizava para trabalhar. Ao lançar os olhos para o cenário improvisado. imponente e profissional o quanto bastante para nem sequer lhe dirigir a palavra ou esboçar qualquer expressão facial quando os seus olhares se cruzaram pela vigésima vez.Com a Natália não. Era uma jovem bonita. mas com a Vera sim.As tuas modelos. tudo bem.Claro que não – respondeu ele poisando a máquina fotográfica sobre uma mesa repleta de cabos. Eu espero – respondeu Madalena lançando os olhos àquela sala desarrumada. Importaste de ficar à espera só mais uma hora?! É que nos atrasámos por causa das luzes e também porque a equipa da maquilhagem e dos cabelos só nos apareceu por aqui depois das quatro. Madalena não resistiu a observar a forma como Vera bebia a água pela garrafa.Quem?! . ao olhá-la com um pouco mais de atenção.Não. especialmente quando a viu tão perto de Sérgio e percebeu que algo os unia. Para além disso. .Só falta fotografar a Natália e depois fico despachado por hoje.

Obrigada. . .Como vês. .Estás bonita.Que bom que se divertiram – disse Madalena rasgando alguns olhares à sua filha que ao contrário do irmão nem sequer se dignou a cumprimentá-la com um abraço. – Então.Tivemos que parar duas vezes no caminho para ela vomitar – disse Daniel recebendo alguns afagos na cabeça por parte da mãe. .Deve ser coisas de mulheres – respondeu Jorge não querendo adiantar muitos detalhes acerca do assunto. . – Mãe – exclamou Daniel correndo em direcção à sua progenitora e aninhando-se nos braços dela. o pai já disse que não foi nada importante – resmungou Sara sob o olhar incrédulo de Madalena. . mãe! Foi bué fixe! . vocês deviam ter… .Estás todo bronzeado.A sério? Porque é que não passaram por um hospital? . voltámos todos são e salvos. – E vimos golfinhos. .Ainda bem – respondeu Madalena compondo-se na sua camisola de malha.Ai que saudades! .Fomos à praia todos os dias – respondeu ele. – E a… Vanessa? Não veio com vocês? . Daniel e Sara. .A Vanessa está no carro. .Olá! .Claro – respondeu ela obedecendo ao pedido sem muito entusiasmo enquanto o pai arrastava as malas para o interior da moradia.Porque é que não a convidaste para entrar? . animado. Os seus filhos que após um mês de férias resolveram regressar a casa e brindá-la com as suas risadas e brincadeiras. .Porque ela veio um pouco mal disposta da viagem.Eu também tive saudades tuas. .Olá. – Porque é que tens sempre que te meter aonde não és chamada? 42 .Mesmo assim. .Mãe. Sara?! Não me vais dar um beijo? . Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso.CAPÍTULO III O aspirador foi desligado na sala quando faltavam poucos minutos para as onze da manhã e tudo porque a porta da rua se abriu sem qualquer aviso prévio trazendo consigo as duas pessoas que Madalena mais desejava ver na altura.

de a encheres de mimos e de a sufocares com regras que a está a fazer afastar-se de ti? – discursou Jorge tentando trazer a ex.Só te estou a avisar. – Com o Daniel até pode resultar.Jorge. mas ela já não é uma criança.Está bem – respondeu o último subindo as escadas a correr.Por isso mesmo! É uma adolescente e não uma criança. – Daniel! Sobe e vê se tomas um banho antes do almoço – pediu Madalena trocando um olhar cúmplice com o ex. Será que não percebes que é essa tua mania de a quereres proteger de tudo e de todos. Agora sai! . Um local onde pretendia trancar-se durante vinte e quatro horas e não sair de lá nem por decreto de lei. marido.Eu nunca coloquei os nossos filhos contra ti – respondeu ele largando os braços. . aliás.Eu não perdi a razão! Eu tenho razão. mulher à razão. Ela realmente não tinha paciência nenhuma para as responder. – Então continua assim para ver se a Sara não se afasta de ti de vez.Claro – riu-se Jorge secamente.E?! Ainda perguntas… e…?! Ela nunca me enfrentou dessa maneira.. eu estou a jogar limpo contigo. não era?! 43 . . mas com a Sara já não resulta e tu tens que meter isso na cabeça. . reages sempre assim… . . eu não tenho a culpa que tu e a Sara nunca se tenham dado lá muito bem. . . .Que raiva! Se soubesse tínhamos ficado mais uns dias no Algarve. .Tu viste como é que a Sara falou comigo? . . – Preciso falar com o pai. afinal de contas ele ainda é uma criança.Boa! Quando sentes que perdes a razão.E… .Lena. Não iria almoçar.E tu irias adorar se isso acontecesse.Tens a certeza!? .O que foi? – perguntou Jorge sabendo à partida que iria ser criticado por algo que ainda nem sabia o que era. eu sempre joguei! Mas não queiras colocar os nossos filhos contra mim porque eu não vou admitir uma coisa dessas.Sabes qual é o problema da Sara contigo? Madalena calou-se. .Sara?! . .Sai – exclamou Madalena abrindo a porta de rompante. – Foi contigo que ela esteve nestas últimas quatro semanas e olha só como é que ela voltou?! .E o que é que vais dizer? Que a culpa é minha? .Ela só tem quinze anos.É claro que é tua – respondeu Madalena tentando manter a voz baixa. Não. .Nós sempre nos demos bem. . Aonde é que foram? O que é que fizeram? Como é que o pai se portou? Comeram todas as refeições? Não. – Que raios! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? . Estas foram as últimas palavras de Sara antes de agarrar nas suas malas e subir as escadas em direcção ao quarto. – O problema é que tu a tratas como se ela fosse uma criança. não iria jantar e nem queria sequer responder às perguntas da mãe que com certeza seriam as mesmas.

. . E a verdade é que estava tão submersa nos seus pensamentos que nem sequer se apercebeu do telemóvel a vibrar sobre a bancada da cozinha.Isso é o que importa. . . . se tu me levares a Sara daqui.Aquela campanha de ontem? . – Desculpa – pediu ela retornando a ligação assim que terminou de arrumar a loiça do jantar. pois a discussão com o ex.Algum problema?! . já disse! Mas eu entendo o porquê de ela se quer ir embora cá de casa.Jorge. deixa-me dizer-te que durante estas férias a nossa filha pediu para morar comigo.Está bem – respondeu Sérgio desligando a chamada quando se deu por vencido.Tenho a certeza que te vais sair muito bem! És um excelente fotógrafo. . Uma chamada não atendida.Não.Sim! Tenho que entregar tudo pronto na semana que vem.E eu odeio-te! .É. marido continuou a ecoar-lhe nos ouvidos durante a tarde toda. – Nada de especial! Agora estou para aqui a ver se consigo melhorar as fotos para a campanha da Vitória Secret. Eu ligo-te depois.Não precisavas ter despachado a pessoa com quem estavas a falar só por minha causa… – afirmou Sara servindo-se de um copo de sumo sobre a mesa da cozinha.Não faz mal – respondeu ele. nenhum.Eu não quero tirar a Sara de ninguém. Com quem estaria a conversar. Apesar de ter tentado controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. – Só vi a tua chamada agora. .Isso mesmo que ouviste! Ela quer morar comigo. .Advinha lá!? O sentimento é recíproco… – respondeu Jorge saindo porta fora. – Imaginei que estivesses com os teus filhos. Sabes porquê!? Porque tu és insuportável. Nessa altura. Mas para que tenhas um rasgo de clarividência. infelizmente vou ter que desligar. A revelação de Jorge não podia ser mais bombástica e prova disso foi o recuo de dois passos por parte de Madalena. 44 .Apesar de não acreditares.Obrigado pelo elogio – riram-se os dois.…claro – disse Madalena tentando esquivar-se aos olhares lancinantes que a filha lhe lançou enquanto abria a porta do frigorífico.Como é que foi a viagem? . um número perdido e a raiva que sentiu ao final da noite quando descobriu que a pessoa que lhe tinha tentado ligar era Sérgio. perguntou-se. Pelo menos eles vieram animados. eu estava – murmurou Madalena tentando esconder o facto de não ter visto a filha mais velha desde a hora do almoço quando ela resolveu trancar-se no quarto com uma música rock aos altos berros. eu não iria adorar.Acho que correu bem..E tu? Como é que te correu o dia? . – O quê?! . . . .Estive a trabalhar – respondeu Sérgio analisando algumas das fotografias que tirou durante a tarde. Sara entrou na cozinha e surpreendeu a mãe encostada ao lava-loiça completamente submersa numa conversa telefónica. . – Escuta. não. . Podemos falar mais tarde? . eu mato-te! . para Madalena foi completamente impossível realizar tal tarefa.

sapatos e computadores!? O que é que queres mais? . .Achas bem aquilo que fizeste?! .Eu quero passar uns tempos em casa do pai.Eu quero que morras… A resposta efusiva de Sara tomou Madalena de assalto. .Estive a conversar hoje com o teu pai. . tu é que vais ter que esperar sentada.Não me podes impedir de morar com ele! Ele é o meu pai. – Se estás à espera de um pedido de desculpas. .E tu sabes bem qual foi o assunto. nunca te passou isso pela cabeça? . lembraste?! Não fomos nós. porque eu ainda continuo a querer que morras – respondeu Sara abandonando a cozinha sem sequer terminar o sumo que deixou sobre a mesa e deixando Madalena a sentir-se o pior ser humano à face da terra.Sim – respondeu a jovem com toda a calma do mundo. um quarto só para ti. a verdade é que eu adoro e tu vais ter que te habituar a essa ideia.Qual é o teu problema. roupas. Sara – imperou Madalena calando-lhe os argumentos. Porque é que se estava a sentir assim.O que é que foi que eu fiz? .Eu tenho todo o direito de querer escolher com quem quero ou não morar – respondeu Sara poisando o copo de sumo sobre a mesa. – Diz lá! Não tens tudo aquilo que precisas? Não tens um tecto.Ai é?! .Sara… . mas nem por isso a inibiu de oferecer à filha uma valente bofetada no rosto que a fez recuar dois passos e suster a face com a mão.Não foi por tua causa – disse Madalena largando o seu telemóvel sobre a mesa.Eu não acredito que me estejas a dizer uma coisa dessas.. comida. – Nunca mais na tua vida te atrevas a levantar-me a voz. 45 . É verdade? . O olhar de ódio disse tudo.Não! Se tu estás à espera de um pedido desculpas.Nem sequer falaste comigo sobre os teus planos quando sabes muito bem que sou eu quem tem a tua guarda e a guarda do Daniel. hã – vociferou Madalena aproximando-se bruscamente dela. é melhor esperares sentada… – afirmou Madalena tentando manter a expressão aterradora que tinha no rosto. .Que opinião?! . . . isso não significa que nós queiramos realmente ficar contigo. . – Lá porque tu decidiste que eu e o Daniel tínhamos que ficar contigo.O quê?! . foi a pergunta que imperou no ar enquanto os seus olhos mais uma vez lutavam contra as lágrimas.Não me levantes a voz. . Silêncio foi a resposta de Sara embora os seus olhos estivessem a vermelhar de raiva.Apesar de odiares a ideia de que eu adore o meu pai. Sara! Ele contou-me que tu pediste para ir morar com ele.Sei?! . . . – Mas ainda bem que te ponho os olhos em cima porque precisava esclarecer uma coisa contigo.Não te faças de desentendida. .Tu não vais a lado nenhum! . Podemos ter uma opinião diferente.Foste tu que o escolheste para ser o nosso pai.

Bem. Mas diz lá qual é o problema concreto desta vez! . lá isso é verdade.Sinceramente não sei o que fazer… . ou esse azar. Quando ela tiver que cozinhar.Achas?! – perguntou Madalena não muito segura das palavras da melhor amiga.Culpa do comportamento da Sara.Achas que a culpa é minha? – perguntou Madalena encostando-se ao expositor da loja. – Não lhe devia ter dado aquele estalo. . – Devias ter tido filhos.Claro que não. .O quê?! .Porque os tempos eram outros! No nosso tempo.Quando ela perceber o traste do pai que tem – riu-se Alice. . Lena! . tratar da roupa e das compras do supermercado. Eu não quero que ela vá morar com o Jorge sabendo bem que ele é um irresponsável de todo o tamanho.foi o desabafo de Madalena à melhor amiga várias semanas mais tarde. em menos de duas semanas estava de volta.O Jorge é um idiota. . .Infelizmente nunca tive essa sorte. volta para casa com o rabinho entre as pernas e ainda te trata a pão-de-ló.É claro que devias – ripostou Alice ajeitando um ramo de margaridas encomendadas pela manhã. Desde há uns meses para cá tem andado estranha e fala com as pessoas como se as quisesse bater.O Jorge disse-me que a culpa era minha porque eu ainda não me tinha dado conta que a Sara já não era uma criança e que não adiantava nada enchê-la de mimos e regras porque isso só faria com que ela se afastasse ainda mais de mim… – discursou Madalena cruzando os braços. . era exactamente assim que iria reagir.A minha adolescência não foi assim e a tua também não.Faz uma experiência! Diz que aceitas que ela vá morar com o pai e que não te opões em nada. acredita que de adolescentes eu percebo bem e sei que quanto mais nos mostrarmos contra alguma coisa. . ai de nós se levantássemos a voz aos nossos pais! Era logo um par de estalos e assunto encerrado. mas eles a querem fazer. – Onde já se viu?! Ninguém deve desejar a morte da própria mãe.A adolescência é assim.A Sara quer morar com o pai.Garanto-te que se a Sara fosse morar com o pai. Lena! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? . nem mesmo a brincar. .Estás a gozar!? – riu-se Alice enquanto terminava o arranjo de margaridas. . Se ela quiser ir. Mas se tivesse uma filha como a Sara. – E tu estás preocupada com isso? .Pois eu acho que devias. – Achas que ele tem razão? . não sei.Eu só queria saber o que é que se passa com ela. 46 . . . ela que vá! Apesar de nunca ter tido filhos. .…volta a correr para a maravilhosa mãe que anda a desperdiçar. Achas que eu sou uma má mãe? .Alice!? Estás louca?! . .Tu és uma caixinha de surpresas – afirmou Madalena sugando-lhe a face. .Culpa do quê? .Deixá-la ir morar com o pai. . sabias!? .Claro que estou. ..

mulher nunca iria ceder às chantagens de Sara ou sequer permitir que ela saísse de uma casa onde tinha nascido e crescido. limpar o pó ou fazer a própria cama? Diante daquela catástrofe apenas comparada à Segunda Guerra Mundial. tudo bem?! Escuta! A Sara ligou-me há pouco.A conversa foi interrompida com a chegada de um cliente à loja. – Ou não me digas que já não queres ir? . mas eu fiquei sem entender uma coisa… .Diz Jorge – exclamou Madalena recebendo o auscultador das mãos da melhor amiga. . Claro que não. . e logo ela que sempre foi preguiçosa até para fazer a própria cama.O quê!? 47 .O. para umas visitas turísticas ao seu quarto e também onde passava as poucas horas livres que o trabalho lhe deixava durante o dia sem sequer se preocupar em lavar a loiça. ele lançou os olhos a um quadro pendurado na parede e por momentos tentou encontrar uma maneira de se livrar daquele problema. .É claro que quero.Olá. decidiu Jorge enquanto digitava o número da loja de Madalena. mas nem por isso Madalena se esqueceu das palavras de Alice enquanto o atendia. diria que tinha pensado melhor e que era totalmente a favor da sua partida. Mas e se a filha não voltasse? E se ela continuasse a morar com o pai para sempre? Não. É isso mesmo que vou fazer. – É o teu falecido – sussurrou Alice passando a chamada.foi a surpresa de Sara quando a mãe lhe informou sobre a sua decisão após o jantar. Já te tinha dito isso há quase dois meses. Alice estava certa quando disse que todas as tarefas domésticas recairiam sobre os ombros de Sara enquanto ela estivesse em casa de Jorge. ela não hesitaria um segundo em arrancar a filha da casa do pai com as próprias mãos. Não valia a pena opor-se à ideia de Sara em morar com o pai pois ela continuaria a fazer-lhe a vida negra caso se mostrasse contra aquela resolução estapafúrdia. mas se mesmo assim os seus planos saíssem furados. a única coisa que lhe restava era tentar convencer a ex.k! Então amanhã vou ligar ao pai – afirmou Sara não cabendo em si de contente por finalmente se ver os seus desejos concretizados. O que devia fazer para descalçar aquela bota? Ao desligar o telefone do escritório. . . Quando recebeu o telefonema da filha no dia seguinte. – Estás-me a dizer que eu posso ir morar com o pai… .Pensei melhor – mentiu Madalena. Raios. – E quem sabe me vá embora já esta semana. Duas semanas era o prazo que Madalena tinha estipulado para aguentar aquela prova de fogo. Por isso.Sim! Podes. Sim. Jorge mal conseguiu acreditar que o seu pior pesadelo se tinha concretizado sem qualquer aviso prévio. com certeza não aguentaria mais do que duas semanas. . Ponto final. Sim.Pois então! Fala com o teu pai e combinem um dia para ele te vir buscar. assim que chegasse a casa naquela noite. A Sara lá em casa? Uma adolescente de quinze anos em sua casa? Uma casa que normalmente costumava levar as suas amigas para umas noitadas de copos. mulher a convencer a filha de que a sua saída lá de casa realmente não era a melhor ideia. E logo ele que sempre pensou que a ex. Ela tinha razão.E posso saber porque é que mudaste de ideias? .

Quer dizer. Um olhar aterrador foi o que Jorge voltou a lançar a Madalena enquanto Sara descia ao primeiro piso sala carregada com duas enormes malas e uma mochila preta que a acompanhava todos os dias à escola. Apesar de tudo.Estás a gozar.Bem. . Quero ver-te com a Sara vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. . mulher.Jorge. .Sim. filho. a única coisa que eu posso fazer é apoiá-la. não?! . primeiro disseste que me matavas caso eu me atrevesse a tirar a Sara lá de casa e agora ela liga-me toda contente a pedir para que eu a vá buscar nesta sexta-feira.Eu?! .Então vamos. – Estás aí? . – Demoraste. pai – disse ela.A Sara disse-me que tinhas concordado com a ideia de ela vir morar comigo. Quem sabe tu me podes ajudar a fazer isso? O que é que achas?! – discursou Madalena sob uma ruidosa gargalhada que Alice não conseguiu evitar. . e enquanto abria os portões da moradia. .Estou – respondeu ela passando as mãos pelos cabelos soltos. Sabes como é que são os jovens quando querem realmente uma coisa. Jorge! Tenho a certeza que vais adorar.O meu esquema?! Eu não tenho esquema nenhum – respondeu Madalena tentando ignorar as risadas de Alice quando colocou a chamada em conversação alta. desculpas… . O que é que se passa? Qual é o teu esquema? .Fogo! Eu também queria ir.É.Porque não!? Ela não te adora tanto? Se a Sara quer morar contigo. . isso não aconteceu. . provavelmente devo ter percebido mal. – Ela já está pronta? .Então queres convencer-me que queres realmente que a Sara venha morar comigo? É isso?! .A gozar porquê? . abrevia por favor – interrompeu Madalena percebendo bem qual era o estratagema do ex.Está lá cima a terminar de fazer as malas – respondeu Madalena permitindo-lhe a entrada. além de que estavas certo quando disseste que eu tenho que parar de a tratar como se fosse uma criança. Afinal de contas já o conhecia há tantos anos que não foi muito difícil para si descobrir o verdadeiro motivo daquela chamada telefónica tão inapropriada. Por azar.Por enquanto vai só a Sara. – Apanhei um trânsito infernal no caminho. Mas já estás pronta? .Sim e não faças essa cara de sonsa – exclamou Jorge caminhando apressado em direcção à sala onde encontrou o filho mais novo a jogar Playstation. Sexta-feira foi o dia em que Jorge percebeu que já não lhe restava nenhuma outra alternativa a não ser buscar a filha à casa da ex. 48 .Fizeste de propósito.Porque é que eu também não posso ir? – perguntou Daniel para grande desespero do pai. a única coisa que quis foi que a relva do jardim o engolisse. Inventam mentiras. . É verdade? Silêncio foi a resposta de Madalena. não foi!? . – Tenho a certeza absoluta que uns dias na tua casa apenas lhe iriam fazer bem.. marido. – Sim! É verdade. os seus planos e desculpas saíram furadas levando-o àquela verdadeira situação de desespero. eu sei – respondeu Jorge passado as mãos pelos cabelos aparados. .

. .Outra mala?! – indagou Jorge esbugalhando os olhos.O que é que queres?! Tenho que levar as minhas coisas nalgum lado.Eu ligo daqui a dois. – O que é que eu posso fazer para animar essa voz? . . afastou-se sem sequer olhar para trás e enfiou-se no carro do pai enquanto ele terminava de ajeitar as malas. Ela vai voltar.Não! Tenho mais uma outra mala lá em cima que não consegui trazer junto com estas. Nessa altura. cintos de segurança colocados e a partida. . mulher. Quem sabe não seria Sara para lhe dizer que queria voltar? De qualquer maneira não custava nada sonhar. . Portas fechadas. . não achas?! . 49 . e pela primeira vez. – Vê lá se ligas… .Sim! Filhos. está bem! Eu vou lá acima buscá-la. . . – Desculpa por não ter ligado nesses dias. tentou enfiar essas palavras na sua cabeça e acreditar no que Alice lhe dissera dias antes quando a aconselhou a baixar as guardas e permitir a saída de Sara lá de casa.É claro que ela vai voltar. .Diz-me – interrompeu Sérgio caminhando calmamente pela rua. .Tchau – disse Sara despedindo-se da mãe com um beijo na face e do irmão com um pequeno empurrão nos ombros.Infelizmente não. Madalena assustou-se com a terrível ideia de que a sua filha havia partido para sempre quando fechou a porta do quarto e deu por terminada a noite. tomou um banho e vestiu uma camisola confortável com o intuito de dormir como uma pedra e esquecer-se do dia em que viu a filha escapar-se-lhe por entre os dedos sem nada poder fazer. foram algumas das cenas que Madalena observou de longe enquanto o seu coração se apertava e a companhia de Daniel era a única coisa que não a deixava desmoronar.Desculpa – sorriu Madalena percebendo imediatamente a sua gafe. Depois disso.Quem me dera poder acreditar nisso. enquanto estava completamente submersa nos seus pensamentos. sendo que essa tarefa enfadonha recaiu inteiramente sobre os ombros de Sara.A minha filha foi morar com o pai. Foram precisos apenas cinco minutos para que Jorge regressasse novamente ao primeiro piso e tivesse a seu cargo cerca de três malas para arrastar em direcção ao carro.Está bem. Pela primeira vez desde sempre o lugar de Sara não foi ocupado durante o jantar.Podias fazer tantas coisas – riram-se os dois. . saiu e nem sequer se dignou a despedir da ex.A sério?! . três dias. Depois disso. Depois disso.Problemas?! .pediu Madalena tentando controlar as lágrimas quando percebeu que a partida da filha era inevitável. – Mas infelizmente estás longe. o telemóvel vibrou sobre a mesinha de cabeceira e fê-la estender o braço em direcção a ele. ..Foi-se embora hoje e eu tenho medo que nunca mais volte. – Mas já estás com duas na mão. Sabes o que isso é? . – Já que Maomé não vai à montanha… – afirmou Sérgio com a mesma voz jovial de sempre.Está bem.

Por sorte. – És louco – disse Madalena ouvindo-lhe as risadas através do telefone. E mais palavras não foram precisas para que ela subisse os estores e se deliciasse com a figura de Sérgio sob o portão. anos… .O meu pai vem almoçar no domingo e eu estava a pensar em deixá-lo a tomar conta do meu filho por algumas horas. . – Que bom que estás aqui – disse ela enterrando-se nos braços dele e tentando absorver-lhe todo o calor do corpo. e quando abriu a porta de saída. talvez para não acordar o filho. mas a verdade é que ela resolveu utilizar as mãos para saber onde estava.E o que é que eu vou comer para o pequeno-almoço? 50 . a visão de Sérgio foi a primeira coisa que a fez sorrir naquela sexta-feira particularmente triste e sombria.k . mas Madalena recusou-se a acender as luzes. conseguiu alcançar o corredor sem se esbarrar em nenhum móvel. não é!? .Eu sei. – Esquecime de passar pelo supermercado esta semana. – Foi por isso que vim. mas no entanto parecia uma eternidade. .Quem disse!? Silêncio e surpresa foram as reacções de Madalena.O.riu-se Madalena. pois as únicas coisas o que viu à sua frente foram loiças sujas do jantar. . . eram essas as características que melhor o definiam. – Pai! Tu não tens nada que se coma aqui dentro. O que é que eu vou comer? Realmente nada tendo em conta o que viu nos armários e nas gavetas vazias.Desce! Estou à tua espera. Na verdade.Algumas horas é tudo o que eu preciso para matar as saudades que sinto de ti. .Li os teus pensamentos – riram-se os dois.Mas foi bom teres vindo! Nem sabes como estava a precisar de um beijo teu. Uma das mãos nos bolsos das calças. não lhe importou absolutamente nada a não ser tê-la nos braços e matar todas as saudades que sentira desde a última vez que estiveram juntos. talvez por preguiça.Não – respondeu ela com um sorriso malicioso. .Temos que combinar alguma coisa.. . O dia amanheceu ensolarado e foi com algum custo que Sara se dirigiu à cozinha crente de que iria encontrar um belíssimo pequeno-almoço à sua espera. – Então fica assim combinado? No domingo depois do almoço? .Claro! Assim conheces a minha casa.Eu também morri de saudades tuas. – Mas não posso. – Mas estou ansiosa para ir.O quê?! . – Sai à janela – pediu ele. Tinha sido apenas há uma semana.Algumas horas?! Hum! Parece-me interessante. baixinho. . Sérgio afundou-se nos lábios de Madalena e beijou-a com toda a paixão que possuía dentro de si.Pois eu iria precisar de semanas. . o telemóvel nos ouvidos e o sorriso estampado no rosto. . algumas migalhas de pão sobre a bancada e o frigorífico às moscas. Pura ilusão? Talvez.Não consegui aguentar de saudades. . Ainda não foste lá.Raios – exclamou Jorge levando as mãos à cabeça quando entrou na cozinha. . Tal como sempre as escadas que ligavam os dois pisos encontravam-se às escuras. . – Eu juro que te convidava a entrar – disse ela segurando-lhe a face com firmeza. Quando voltou a encarar-lhe o rosto iluminado pelas luzes das escadas. meses.

Mas podes ir tu ao supermercado se quiseres. Podia fazer tudo aquilo que quisesse.Aproveita que hoje não tens aulas e vai! Jorge demorou apenas cinco minutos para engolir o café que fizera.Eu nunca lá fui sozinha.Mas pai… . despediu-se da filha deixando-lhe o cartão de multibanco e a certeza de que não voltaria a casa antes de o anoitecer. .Mas pai… . Eu deixo-te dinheiro. – Tens que ir ao supermercado.Então bebe sumo! Acho que ainda tem o resto do frango do jantar.. e por fim.Claro – respondeu Jorge beijando-lhe a face.Não acredito que a tua mãe nunca te tenha levado ao supermercado – respondeu Jorge alcançando o pote de açúcar sobre a bancada.E o que é que eu vou comprar lá? . . . 51 . ir ao supermercado é a coisa mais fácil do mundo e tens um aqui mesmo ao pé. o que é que se compra num supermercado? Comida. .Oras. . e depois de vestir o casaco às pressas. Essas coisas! . – Vou passar o dia todo no escritório às voltas com uns arquivos que tenho que rever. .k! . – Não acredito! Que pervertido… . e antes que desse por si. ela viu-se pela primeira vez a tocar num preservativo.Compra carne. E quando finalmente percebeu. – Gostas dele forte ou com leite? . a sua única vontade foi de experimentá-lo.Até logo.riu-se ela às gargalhadas quando descobriu quantidade exorbitante de filmes pornográficos e oito caixas de preservativos na mesinha de cabeceira do pai. . massas. A curiosidade foi aguçada ao abrir uma das embalagens. enjoou-se com o cheiro.Vou comer frango ao pequeno-almoço?! Só podes estar a gozar – resmungou Sara não vendo outro remédio a não ser obedecer às ordens do pai. . Sim. . arroz.O. Em cinco minutos estás lá. .Posso?! .Posso sair? Combinar alguma coisa com as minhas amigas? . . Podia ouvir música aos altos berros. desenrolou-o numa tentativa desesperada de perceber como aquele objecto funcionava. intrigou-se com a oleosidade.Café – respondeu ele aproximando-se da máquina sobre a bancada. bolachas. – Depois do supermercado. estás livre para fazer aquilo que quiseres. .Eu não bebo café. Cheirou-o. fruta.Sim. – Além disso. Podes aquecê-lo no microondas se quiseres. dançar sobre o sofá como uma louca e vasculhar todas as gavetas lá de casa sem medo de ser apanhada por alguém.Hoje não posso – respondeu Jorge retirando uma chávena de café dos armários. .E o que é que eu faço para passar o tempo? – perguntou Sara acompanhando-o à porta.Até logo – respondeu Sara fechando a porta com um largo sorriso e com a certeza que a sua estadia em casa do pai iria ser no mínimo maravilhosa.Podes fazer o quiseres.

. Tal como sempre. Sara voltou a sair do quarto e encostou a porta com um longo suspiro. e mesmo tendo a tarde livre para fazer o que quisesse. .Infelizmente naquele Sábado as horas demoraram a passar. quando entrou à socapa no quarto do pai e ouviu o barulho do chuveiro a trabalhar.Cheguei cedo? – perguntou ele recebendo um beijo da filha. . Sara não teve dúvidas de que aquela era a altura ideal para repor os filmes que lhe havia retirado da mesinha de cabeceira. Só me falta fazer a salada. não tinha a permissão dos pais para sair de casa sem a presença de alguém mais velho. – Bem. .A Sara?! . acho que vou tomar um banho porque estou a estoirar de dores de cabeça. Alguns minutos mais tarde. Aquele era um ritual que fazia praticamente todos os domingos e daí a pouca surpresa de pequeno Daniel quando abriu a porta e se deparou com a figura do avô. agarrou no seu velho Opel Corsa e estacionou-o a poucos metros da vivenda onde a filha e o neto moravam. – Andas-te a portar bem? . uma boa notícia – exclamou Jorge espreguiçando-se com vontade.Fui ao supermercado – disse ela assim que ele entrou na sala. Aliviada foi o que se sentiu.Posso pôr a lasanha no forno se quiseres.Hã… já vieste pai?! .Olha.Consegui despachar-me mais cedo do que estava à espera.exclamou Afonso afagando os cabelos do neto e entrando pelo corredor adentro sem quaisquer cerimónias.Pensei que fosses demorar mais – respondeu Sara escondendo as caixas de DVD por detrás das almofadas do sofá. a única alternativa que restou a Sara foi devorar todos os filmes pornográficos do pai enquanto devorava também as pipocas que havia comprado no supermercado da esquina. A primeira tinha ido passar o fim-de-semana ao Douro. . Afonso Soares foi pontual para o almoço em casa da filha. – Cheguei – gritou Jorge da porta sem sequer imaginar que a poucos metros a filha se encontrava na sala a esconder os filmes que lhe havia retirado do quarto. Por sorte. .Como assim? Para onde é que ela foi? . – Então rapaz… . . A segunda estava nos treinos de judo e não se iria despachar antes das sete tarde.Não! Chegaste na hora. E assim. .Mais ou menos – respondeu Daniel seguindo-o em direcção à cozinha onde Madalena se encontrava a ultimar os preparativos do almoço. Jorge não desconfiou de nada e nem sequer teve a brilhante ideia de abrir as gavetas para se certificar que o seu pequeno tesouro que demorou dois anos a ser construído não tinha sido drasticamente usurpado pela própria filha. e a terceira.Isso era óptimo! Assim quando saísse do banho já tinha alguma coisa para comer.A Sara já não mora mais connosco – respondeu Daniel para grande surpresa do avô. após ter a certeza que se tinha livrado de boa. Vestiu uma das suas melhores indumentárias. – Mas volta! . Assim sendo.Volta mesmo?! 52 . . .Ela foi passar uns dias com o pai – informou Madalena provando o molho da carne assada junto ao fogão. a verdade é que Sara não conseguiu a companhia de nenhuma das suas amigas da escola.

. – Porque quanto mais escondido estiveres.Tu sabes que eu gosto de me esconder. . deves acreditar! Um sorriso radiante foi o que Madalena ofereceu a Sérgio. terceiro esquerdo. E ao vê-la. Três andares depois e a porta abriu-se. Tens que dar a volta. Na verdade. acho que sim. tinha-se transformado no seu amante.Pois podes acreditar – respondeu ele sugando-lhe o pescoço. Madalena precisou de quinze minutos para conseguir estacionar o carro.Tu já me tens só para ti. foi impossível não acenar de longe e receber um outro aceno de volta. .respondeu ele desligando a chamada com um largo sorriso. – Acho que estou perdida. Conheces?! .Aonde é que estás? . Em apenas dois meses. Era uma mentira pegada.k – riu-se ela quando ele atendeu o telemóvel. Depois disso. – O.Hã… numa rua chamada Alecrim. mais te tenho só para mim… . Sérgio tinha-se transformado em algo mais.Ainda bem – respondeu ela ajudando-o a desfazer-se da camisa.Claro que volta. Sempre em movimentos contínuos e frenéticos. . foi a pergunta do pai. protegida e ciente de que nada e nem ninguém a poderia separar de Sérgio. . no seu melhor amigo e também no seu grande confidente. um beijo tão ou mais apaixonado que o primeiro enquanto se deixava levar em direcção à cama sem se importar com o barulho das obras do vizinho do segundo andar. aliás. Afonso percebeu no minuto em que a filha saiu à rua e se enfiou no carro estacionado na garagem. . Madalena despediu-se de Afonso e Daniel dizendo que demoraria apenas algumas horas para ajudar a sua amiga Alice a mudar alguns móveis lá de casa.Sim. . 53 . Madalena desapareceu do quarteirão e rumou ao centro da cidade com o único intuito de cair nos braços de um fotógrafo que já não lhe era tão desconhecido quanto isso.Então já estás mesmo aqui ao pé – respondeu Sérgio saindo à varanda. – Aliás. Por sorte. a tarefa não foi tão difícil quanto isso. e depois disso. correu apressada em direcção à rua de Sérgio pronta a descobrir o número cento e cinquenta e dois e também o andar que ele lhe indicara momentos antes. – Não podias ter escolhido uma rua mais escondida para morar? . – Consegues ver uns prédios verdes? .O meu fica atrás.O. em muito mais. Não. . . os dois amantes tiveram-se um ao outro e deixaram os seus sentidos perderem-se naquela habitação minúscula dotada de poucos móveis e com uma simplicidade que conferia a Madalena toda a paz e conforto pelo qual havia ansiado durante semanas. Era ali que ela se sentia segura.Olha que eu acredito.Até já… . . pois o fotógrafo permaneceu na varanda apenas para ter a certeza que a sua visita não se iria perder pela segunda vez.Número cento e cinquenta e dois.k! Até já. Depois do almoço. respondeu ela esboçando-lhe um sorriso malicioso que disse tudo.Está bem! Já agora diz-me outra vez o número do prédio e o andar. Não precisam de ajuda. Mas quando conseguiu esse milagre lisboeta em pleno fim-de-semana. – Meu Deus – exclamou Madalena às gargalhadas quando ele a arrastou directamente para o quarto. E sim.

. Teria interrompido alguma coisa? – Espero não ter vindo numa má hora… . .Impossível não sentir saudades tuas – respondeu Sérgio arrancando-lhe um sorriso – Eu por exemplo passo a minha vida a sentir saudades tuas.Tudo bem – respondeu ele abrindo-lhe passagem em direcção à sala onde se encontrava o seu computador portátil e também a Pen drive repleta de fotografias que havia tirado a Vera semanas antes.Olá – respondeu a modelo esboçando um doce sorriso assim que a porta lhe foi aberta pelo fotógrafo. – Vai lá! Pela pressa parece ser importante. eu resolvi aparecer hoje outra vez. embora seja óbvio que ela não sente. Os cabelos também se encontravam desalinhados e as costas vermelhas pareciam ter sido marcadas por unhas de uma mulher. mas é que… . – Deve ser algum vizinho ou assim. não deixes entrar no quarto. . – Queres todas as fotos? .Ainda a história da tua filha? . Fiz mal? . já disse que não. . .Não.respondeu Sérgio. .Não – respondeu Sérgio apressando-se a encontrar as calças de ganga no meio das inúmeras roupas espalhadas pelo chão. . – Acreditas que desde que ela foi morar com o pai nem sequer me ligou? .Não. – Desculpa vir sem avisar.Comprei especialmente para ti. mas é que tínhamos combinado ver aquelas fotos da sessão. Dois minutos foi o tempo que Sérgio precisou para sair do quarto e caminhar em direcção à porta com uma enorme vontade de esganar o vizinho inoportuno que teve a desfaçatez de interromper o seu descanso ao lado de Madalena. – Estás à espera de alguém? . Mas ao olhar através do espelho da porta..Estas cerejas estão maravilhosas – confessou ela devorando um dos que ele lhe colocou na boca. Está suado. .Obrigada – riram-se os dois.disse ela recorrendo ao seu sexto sentido quase sempre infalível. . 54 . Vai demorar – disse Sérgio sentando-se à secretária e ligando o computador com uma expressão no mínimo entediada. . lembraste?! Como nunca mais disseste mais nada. .Porquê?! .Eu também – disse Madalena aconchegando-se no peito dele e fechando os olhos sem se importar com o irritante toque da campainha. foi a primeira coisa que reparou. . Era ela. Era ela outra vez. – Obrigada também por me tirares da cabeça todos os meus problemas.Porque eu não quero que me apanhem assim toda descascada – respondeu Madalena arrancando-lhe uma leve gargalhada. ele reconheceu imediatamente a sua visita.São muitas.É rápido! Só queria umas cópias para colocar no meu book. – Vera! .Porque prometi que não faria isso! Quero que ela sinta saudades minhas.Queria escolher algumas. encabulado.Seja quem for.Porque é que não ligas tu? .Sim – respondeu Madalena deitando a cabeça sobre a almofada.Não tenho pressa – respondeu Vera debruçando-se sobre ele enquanto prendia os seus longos cabelos com a mão e se deixava deliciar pela maravilha que era vê-lo em tronco nu.

Vim.Estranho o facto de essa rapariga ter aparecido do nada. como é que ela sabia onde moravas? Já aqui esteve alguma vez? .Como nada? E essa cara? . Vera! Não vieste buscar as tuas fotos? .Por essa visita inesperada. mas a segunda só o conseguiu fazer quando entrou na sala e se deparou com a figura da modelo a quem havia encontrado semanas antes no estúdio dele. . Fomos tomar um café e como lhes disse que as fotografias tinham ficado muito boas.Claro que não – respondeu ele forçando um sorriso que não foi de todo correspondido por Madalena. – O que foi? . – Veio com a Natália. – Podes ficar à vontade. Aliás. Eu voltava numa outra hora ou então procurava-te no estúdio.Costumas receber as tuas clientes cá em casa? .Só achei estranho… .Então?! Se te vieste até aqui. Infelizmente também se lembrava do nome dela e também de todos os seus atributos físicos. não achas!? . – Desculpa – pediu Sérgio regressando à sala depois de a ter acompanhado à porta. .Há algumas semanas atrás. – Não! Eu é que peço desculpas. 55 . pelo menos devias levá-las. – O que foi? O que é que estás para aí a pensar? . Estiveram! . . Sérgio. Devias ter-me dito que estavas ocupado. Vera. depois de ter escolhido as fotografias tiradas por Sérgio.Que é isso – afirmou Madalena percebendo o embaraço da modelo. vinte minutos mais tarde.Sim – respondeu Sérgio com toda a calma do mundo.Sim. mas… .Mas eu não te estou a enganar. .Só não quero que me enganes – respondeu ela voltando-se para ele. recebeu-as num CD despedindo-se com um sorriso e com a certeza de que nunca mais voltaria a uma casa sem ser convidada.Desculpa porquê?! – perguntou Madalena. As revelações de Sérgio realmente não caíram nada bem a Madalena e prova disso foi o longo suspiro que ela lançou a fim de acalmar os estúpidos ciúmes que estava a sentir. . – Hã… desculpem! Não sabia que estavam aí … A expressão facial de Vera pareceu mudar radicalmente quando ao voltar-se para trás a figura de Madalena encandeou-lhe a visão.Nada – respondeu ela desviando-se dele.As duas estiveram cá?! . .Estranho o quê?! .O barulho ensurdecedor no quarto deixou Madalena impaciente e fê-la caminhar pé ante pé em direcção à sala onde lhe pareceu ter ouvido algumas vozes. elas pediram para vê-las.Claro – respondeu a jovem voltando-se novamente para o ecrã do computador quando pressentiu que Madalena havia descoberto o seu disfarce em pouco menos de cinco segundos. E assim. Senão era um desperdício de tempo.Quando? . . A primeira reconheceu-a de imediato porque era a de Sérgio.

nem precisas sair de casa porque elas batem-te à porta e cercam-te como se fosses… .Namorada?! .Lena.. marido conseguiu convencer-te disso durante os anos em que vocês estiveram casados e é uma pena que ainda continues a pensar assim mesmo depois de te teres separado dele.Desculpa – pediu ela mantendo-se de costas para ele. aliás. – Talvez tenhas razão – interrompeu ele.Então o que é que um homem como tu quer de uma mulher como eu?! Porque é óbvio que tu podes ter qualquer uma que te passe pela frente. na tua inteligência e de julgares que todas as mulheres são melhores que tu! Infelizmente já percebi que o teu ex. 56 .Tu tens quarenta e eu tenho trinta e dois. Madalena tapou o rosto com as mãos e desejou que um buraco se abrisse por debaixo dos seus pés.Eu não acredito que estejas a pensar que estou a gozar contigo. Pelo menos assim vou saber no que é que me estou a meter.Porque se isto for um caso sem importância.respondeu Madalena não escondendo a sua surpresa perante uma palavra que já não ouvia há muitos anos. – Fui uma idiota! Não devia ter dito aquilo que disse. – Talvez já devêssemos ter tido esta conversa há mais tempo. Eu consigo ver a mulher com quem quero estar.…eu não sabia que estávamos a namorar. . . . Enquanto passeava por aquela sala minúscula e se dava conta da triste figura que fizera momentos antes.Será que não percebes que estou contigo porque gosto de ti? Porque gosto realmente de ti e não quero estar com mais nenhuma outra mulher? A surpresa fez com que Madalena se voltasse novamente para ele. mas infelizmente também tinham sido verdadeiras e foi isso que a levou ao mais profundo desespero.Sabes qual é o teu problema? Madalena manteve-se em silêncio. – A tua insegurança – respondeu Sérgio à sua própria pergunta. ela pensou. com quem quero fazer amor e a quem quero apresentar a todos os meus amigos como sendo a minha namorada… . nem as tuas amigas e muito menos essa… Vera… . mas é que… . que conversa é essa? . Não quero que gozem comigo! Nem tu. – O facto de não acreditares nas tuas qualidades.Não é nada disso. Sim. aliás.Uma conversa que se calhar já deveríamos ter tido há mais tempo – respondeu ela cruzando os braços. . . . das rugas que te aparecem no canto dos olhos quando sorris ou da celulite que tens nas pernas. eu prefiro que me digas. – Eu não quero criar expectativas. – Mas eu também não quero passar a vida toda a tentar enfiar-te isso na cabeça e nem quero ver as tuas desconfianças sempre que me aparecer uma mulher de vinte anos à frente. para além dos dois fios de cabelo branco que tens aí à frente.Eu sei. . não tenho mais idade para criar expectativas e nem quero fazer papel de idiota.Hã… esqueci-me! Mulheres acima dos quarenta também não podem namorar. E daí? Será que a idade importa assim tanto? Será que não consegues ver mais nada em mim para além do meu bilhete de identidade? Porque eu consigo ver muitas coisas em ti para além disso. . As palavras que Sérgio lhe dissera tinham sido cruéis.

– Eu também te amo – confessou ela por fim.Pois nós estamos a namorar – informou Sérgio trazendo-a contra si. Pronto. 57 . baixinho. . . a verdade é que Sérgio não pensou duas vezes em proferir aquelas palavras que manteve guardadas a sete chaves no seu coração. Quero ser muito mais do que isso.ele pareceu hesitar. – Eu também te amo muito. – Ou ainda não tinhas reparado nisso? . tudo pareciam apenas detalhes sem qualquer importância. . Quero participar na tua vida.Por acaso não – riu-se Madalena. ouvir os teus problemas. – Leva-me para o quarto – pediu ela ansiando que o seu pedido fosse realizado o mais rapidamente possível.. e apesar de se ter odiado por ter sido o primeiro a dizêlo. Eu quero tudo isso porque … . até porque diante da imensidão daquele momento. Todas elas foram transpostas sob o olhar incrédulo de Madalena enquanto os ouvidos dela tentavam assimilar aquela declaração no mínimo surpreendente. Estava dito.… porque eu te amo.Acredito – respondeu Madalena atirando-se para o colo de Sérgio sem se importar com mais nada à sua volta e nem com as palavras duras que trocaram minutos antes.Eu não quero ser o tal com quem só estás uma vez por semana quando arranjas algum tempo na tua agenda. conhecer os teus filhos. marido se for preciso. Estava feito.Acreditas agora em mim? . o teu pai e até o idiota do teu ex.

CAPÍTULO IV
Era a primeira vez que iria chegar atrasada à escola e tudo porque ninguém a acordou e o despertador recusou-se a tocar. Mas ainda assim, Sara saltou da cama, vestiu-se às pressas e arrumou a mochila enquanto o relógio da mesinha de cabeceira assinalava dez para as oito. Depois disso, seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à cozinha e o desespero de encontrar o pai para que ele a levasse à escola. – Quem és tu? – perguntou Sara surpreendendo-se com a figura de uma mulher perto do fogão. - Hã… deves ser a filha do Jorge, não?! - O meu pai? - Ele está a tomar banho – respondeu a mulher bebendo um gole de sumo. – Olá! Eu sou a Carla. - Ele vai demorar muito? – perguntou Sara ignorando-lhe o cumprimento. - Não sei! Acho que não. - Eu preciso que ele me leve à escola senão chego atrasada. - Já estou pronto, Carlinha… – interrompeu Jorge entrando pela cozinha longe de sequer imaginar que a sua filha também ali estava. – Filha?! Ainda por aqui? Pensei que já tivesses saído. - Como é que eu podia sair?! Preciso de alguém que me leve à escola e precisava também de alguém que me acordasse – respondeu Sara lançando um olhar aterrador à nova amante do pai. – Vou chegar atrasada por tua causa. - Esqueci-me. - Então?! Levas-me ou não? - Escuta querida… - pediu Jorge aproximando-se de Sara com alguma cautela. – E se o pai te pagasse um táxi para ires à escola, hã? - Um táxi!? - Sim! É que eu já tinha prometido levar a Carla a casa e olha que ela mora no outro lado do rio. Se fosses de táxi irias despachar-te muito mais depressa, garanto-te! - Tu preferes levar a… Carla a casa do que levar-me à escola? – perguntou Sara, incrédula. - Não é nada disso, querida. Não estás a compreender o que o pai está a tentar… - Deixa lá! Eu vou de autocarro. Apesar dos inúmeros chamamentos de Jorge, Sara abandonou a cozinha como a mochila às costas e com a certeza de que todas as coisas para o pai eram mais importantes do que ela. Saiu sem sequer olhar para trás e atreveu-se também a bater com a porta quando o fez. Depois disso, alcançou o elevador e desceu à rua pronta a encontrar o primeiro autocarro
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que a pudesse levar ao destino pretendido: Escola. Era lá onde deveria permanecer as oito horas seguintes e aprender Inglês, Geometria e Física, conversar com as suas amigas nos intervalos e comportar-se como uma jovem de quinze anos cujo maior erro foi ter pedido à mãe para morar com o pai. Mas será que era mesmo isso que queria fazer? Ao passar de autocarro por uma Sex Shop, Sara teve dúvidas e por isso desceu na paragem seguinte. Mais tarde, caminhou dez metros em sentido contrário e viu-se com os olhos postos na montra da loja enquanto tentava decifrar o que eram todos aqueles objectos e também para que serviam. Ali, completamente alheia ao movimento das pessoas, ela deixou-se ficar e só se afastou quando um dos funcionários da loja saiu à rua para fumar um cigarro. – Isto não é para a tua idade, menina – disse-lhe ele. – Não devias estar na escola? Sara assustou-se quando ouviu a pergunta e tentou igualmente passar despercebida no meio da multidão enquanto os olhos do funcionário continuaram a segui-la pela avenida a fora. Adolescentes, murmurou ele abanando a cabeça. Faltavam apenas alguns minutos para as onze quando Madalena atendeu o seu terceiro cliente do dia. Este, que tal como todos os homens à face da terra, não percebia nada de flores, ficou-lhe extremamente grato pela indicação de um ramo de camélias japonesas acabadinhas de chegar. Só então ele ficou a saber que essas eram as flores ideais para pedir perdão à esposa. – Ele traiu-a e ela descobriu – disse Alice assim que o cliente abandonou a loja. - Não faças juízos sem saberes a verdade – respondeu Madalena. - Lena, um homem que chega aqui a dizer que precisa de umas flores para a mulher que simbolizem arrependimento, isso só significa uma coisa. Traição! E traição da grossa. - De qualquer maneira, não nos compete a nós julgar! Cada um sabe de si. - Dizes isso porque agora és só sorrisinhos, paz e amor – riu-se Alice, animada. - Como assim?! - Desde que começaste a andar com o tal fotógrafo que já não falas mal dos homens, tratas todos os clientes a pão-de-ló e passas a vida a suspirar pelos cantos, isto para não falar das vezes que olhas para o telemóvel à espera que ele toque. - É assim tão evidente? - Define-me evidente – riram-se as duas amigas. - Tu nem acreditas, Alice… - Só acredito se me contares. - Ontem estive com ele – discursou Madalena deitando no caixote de lixo as fitas que utilizara para fazer o embrulho das camélias japonesas. – Fui conhecer-lhe a casa. - Uau! Mas isto já vai assim? - E tu nem sabes o que ele me disse. - O quê? - Que me amava – revelou Madalena deixando-se contagiar pelas gargalhadas da melhor amiga. – O que foi? Não acreditas? - Acredito. Claro que acredito – respondeu Alice levando a mão ao queixo. – E tu? O que é que lhe disseste? - Oras! Disse que também o amava. - Gostava de ser uma mosquinha para ter visto a cena.
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- Achas que fiz bem!? Quer dizer, eu gosto dele e pelos vistos ele também gosta de mim, mas será que não foi demasiado rápido? - Não foi ele o primeiro a dizer que te amava? - Foi. - Então?! Não tens responsabilidade nenhuma. Se acontecer alguma coisa, ele disse primeiro e tu só respondeste por educação – respondeu Alice arrancando uma ruidosa gargalhada a Madalena. Naquela tarde, Sara faltou a todas as aulas sem qualquer justificação, e depois de ter passado o dia inteiro a passear pelas ruas da cidade, regressou a casa, trancou-se no quarto e visionou os restantes filmes pornográficos que o pai fazia sempre questão de esconder na sua mesinha de cabeceira. Foi também a primeira vez, enquanto os via, que ela atreveu a acariciar-se por debaixo das cuecas e a experimentar um prazer que nunca pensou sentir nos seus tenros quinze anos. E se experimentasse ter relações sexuais a sério, passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Com um rapaz da sua escola? Ou até mesmo com qualquer um que estivesse disposto a ajudá-la a superar a curiosidade que se havia apossado de si desde que descobriu a pornografia e os prazeres que ela trazia consigo? Subitamente, algo que deveria ser apenas um divertimento para passar a tarde, transformou-se num vício demasiado perigoso que a perseguia para onde quer que fosse. Na casa de banho, na cama e até nas escadas de serviço do prédio do pai, todos esses lugares serviram para que Sara se masturbasse e tentasse remover todo o stress de cima dos seus ombros. Não estaria ela a levar aquilo demasiado a sério? Não estaria a ficar viciada em sexo e pornografia? - Ficas bem cá em casa? – perguntou Jorge chegando à sala após duas horas a tentar escolher a roupa perfeita, o penteado perfeito e o perfume perfeito para a uma noite que prometia também ser perfeita. - Fico – respondeu Sara fingindo estar mais interessada a ler a revista que tinha nas mãos. - Prometo que não me vou demorar muito. - Com quem é que vais jantar desta vez? Com a Vanessa? A Carla ou a Antónia? - Vou fingir é que não ouvi o que acabaste de dizer – respondeu Jorge vestindo o casaco às pressas. – Então? Como é que estou? - Bem. - Qualquer coisa e liga-me para o telemóvel! Vou mantê-lo sempre ligado pela via das dúvidas. Mas não te esqueças também de telefonar à tua mãe – discursou Jorge alcançando as chaves do carro sobre a mesinha. – Não quero que ela pense que sou eu quem te está a impedir de lhe ligar. - Se me lembrar, eu ligo. - Vai! Porta-te bem. - Tu também. - O pai porta-se sempre bem – respondeu ele piscando o olho e deixando a filha completamente sozinha em casa. A vontade de Sara de sair foi imperiosa, assim como a de conhecer um lugar onde já havia passado várias vezes durante o dia. O Intendente. Uma pequena localidade no centro de Lisboa conhecida pela sua antiguidade, mas também pela sua má fama, pois era ali onde se reuniam a maioria das prostitutas, drogados e imigrantes ilegais numa estreita colaboração com o crime e a má vida. E sim. Ao ver-se à saída do metro, Sara sentiu que tinha cometido
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Além de corajosa é curiosa também… – riram elas sob o olhar atento daquela jovem que aparentava ter toda a segurança e experiência do mundo.Depende – respondeu Milene levantando o braço para cumprimentar um velho conhecido da zona. Contudo. permaneciam duas mulheres um pouco mais novas intoxicadas de perfumes e outras roupas provocantes. e ao voltar-se para trás. – Escuta! O que é que andas a fazer por estas bandas? Não és daqui! . Até porque este é um lugar para putas ou ainda não tinhas percebido isso? .Se têm muitos clientes ou não. uma mulher de meia-idade atreveu-se a chamá-la. apenas conseguiram embrulhar-lhe o estômago e fazê-la perguntar-se que raios estava a fazer quando a sua única vontade era fugir e fingir que nunca ali estivera.Pastilhas também servem – afirmou a mais velha permitindo que Sara se aproximasse lentamente da porta onde estavam encostadas. Sara pôde ter essa certeza. 61 . . Querem? . aparecem muitos homens a querer ter sexo com vocês? .…mas tenho pastilhas de menta.uma loucura quando resolveu lá colocar os pés. querida? Achas que só estamos aqui encostadas por desporto?! É claro que somos putas. Depende dos excelentíssimos clientes que apanhamos. diz lá! . . Isto não é lugar para miúdas como tu.Não! Só ofereci porque não tenho cigarros.Só estava a passar – respondeu Sara à cautela. enquanto lutava contra a sua indecisão. . mas desaparece daqui enquanto é tempo.É bom que ela se assuste mesmo – respondeu a última sem desviar os olhos de Sara.Eu não me assustei. As ruas algo desertas. Era mais um dos inúmeros drogados a passar no outro lado da rua. Depois disso. . . . Mas como podia ela ter se não deveria ter mais do que dezasseis anos e também muita lata para meter conversa com três prostitutas em pleno horário de serviço. .Estava a ir para casa.Eu não devia estar-te a dizer isto. . não assustes a coitada da miúda. – O que é que achas. . Trazia consigo uma mini-saia vermelha.Corajosa! . . as mãos foram estendidas e as pastilhas entregues àquela que parecia ser a líder do grupo.Vocês costumam ter muitos clientes por aqui? Quer dizer. – O que é que queres saber. enquanto ao seu lado.Putas?! – indagou com uma gargalhada a que parecia ser mais nova. – Há dias que rende mais.Vocês são … .Porquê?! .Não – respondeu Sara hesitando alguns segundos a responder. há dias que rende menos. – Tens cigarros? – perguntou ela encostando-se a uma porta de madeira degradada. . meias de renda pretas e um top decotado que deixava transparecer o soutien em tons de cor de rosa choque.Por acaso estás a insinuar que temos mau hálito? – interferiu uma das prostitutas lançando-lhe um olhar desafiador.Milene. sujas e com intenso cheiro a urina e outros dejectos humanos.

Queres boleia? A voz grossa vinda do interior de um carro parado a poucos metros do passeio foi o impulso que Sara precisou para se voltar para trás e encarar o rosto daquele homem de 62 . triste e guardava na fachada dos prédios toda a decadência humana de pessoas que tinham perdido totalmente a vontade de viver. – Só estava curiosa. . . Era um lugar sujo. – Achas que vou abrir as pernas de graça para qualquer um que me apareça à frente? Eu sou puta.Não – ela voltou a responder. Estava salva. Elas estavam certas ao dizer que aquele não era lugar para si e nem para ninguém. . Minutos depois. .Espera – chamou Arlete. as luzes da avenida ofuscaram-lhe os olhos e trouxeram igualmente o ar que há muito ela havia deixado de respirar enquanto esteve metida naquele bairro tão degradado.Nem tudo o que reluz é ouro – concluiu Milene evidenciando no rosto os anos de uma das profissões mais ingratas do mundo. pensou. mas excelentíssimos!? Essa é nova cá no bairro.Por nada – respondeu a jovem compondo os cabelos.E não é verdade?! Olhem bem para mim – disse Milene girando sobre os pés e mostrando todos os atributos que Deus lhe ofereceu ao longo dos seus vinte e seis anos de vida. Aproveita a tua juventude.. Sara deu-se por vencida e abandonou aquela rua semi-deserta completamente coberta pelo casaco que fez questão de levar consigo.Estás a gozar não!? – respondeu Milene levando a mão à cintura. apesar de não se sentir muito bem-vinda. Chamava-se Arlete.Queres trabalhar para mim? .E vocês cobram para irem para a cama com eles? – perguntou Sara tentando ignorar as risadas que ecoaram por toda a rua. Sim.Não me digas que estás a pensar em juntar-te aqui ao clube VIP!? . .Já se está a gabar só porque é a que cobra mais caro – resmungou Arlete enfiando uma pastilha elástica na boca. nome inscrito no colar que trazia no pescoço. – Queres coca? .Excelentíssimos… – riu-se a prostituta mais velha. – Lá porque estamos para aqui a rir e a contar piadas. sempre tinha algum conforto e segurança. rapariga! Vai para casa porque este não é o lugar mais indicado para ti. . – Já ouvi chamarem-lhes muitas coisas. Quem quiser tem que pagar e tem que pagar bem porque não ando aí a fazer favores a ninguém. – Para quê que querias saber quantos clientes tínhamos por dia e quanto lhes cobrávamos? . minhas amigas… .Não – respondeu ela desviando-se de um dos inúmeros traficantes. não penses que somos felizes por termos cinco homens por noite e pouco mais de quinhentos euros de manhã. e enquanto se afastava dela e lhe observava os últimos traços físicos. onde.Então não tens pedalada para isto! Vai lá. .Não! Eu não seria capaz de cobrar para ir para a cama com alguém. – Eu sou a estrela do bairro. . não a Madre Teresa de Calcutá.Eu tenho que ir – interferiu Sara ao perceber que já estava ali a mais. . a escola e esquece isto! Esquece isto porque isto é uma merda… As palavras de Milene permaneceram-lhe nos ouvidos durante largos minutos. Salva e pronta a regressar para uma casa. .

essa foi a questão que durante vários minutos rondou a cabeça de Sara enquanto ela se tentava decidir e tentava igualmente fugir à forte ventania produzida pela noite. No fundo. a portaria abriu-se ruidosamente. cordial e seguro do que dizia. . começaram a suar desalmadamente.Obrigada. .Muito prazer. bastante educado. De facto. Mas os olhares esguios. Nessa altura. e as mãos que fez questão de manter sempre apoiadas sobre o colo.Posso saber o que fazes sozinha a essas horas da noite? . . Sim. barba aparada e um sorriso desenhado nos lábios. .Para casa.Porquê?! O que é que tem? . – Diz-me! Para onde queres que te leve? . Paulo Figueira tinha quarenta e cinco anos. mas talvez tenha sido esse facto que mais a fascinou naquele senhor de meia-idade que em muito lhe fazia lembrar o seu professor de Química.E onde é que moras? . . . . Porque é que não entras? Entrar ou não entrar. – Toma! Tens aqui o meu número de telefone e também da universidade onde dou aulas. Mais tarde. ele era velho demais para si. facto que fez questão de salientar durante a condução pelas ruas da cidade. – Estás entregue. o virar do rosto e a sensação de que não estaria a fazer nada de mal se aceitasse uma boleia de um perfeito desconhecido. fizeram com que ela retirasse uma das mãos do bolso e alcançasse a porta do carro sem pensar nas consequências daquele acto no mínimo irreflectido.Podes ligar quando quiseres.Claro – respondeu ele apressando-se a encontrar um cartão no porta-luvas. – Não. obrigada – respondeu ela.Nesta zona?! . devidamente instalada no banco da frente.Estás com frio. até parecia ser boa pessoa. ela voltou-se para trás e correspondeu ao aceno do professor com a clara certeza que estaria para muito breve um novo encontro dos dois. 63 . divorciado e pai de duas filhas com a mesma idade de Sara.meia-idade. .Posso voltar a vê-lo – saltou essa pergunta dos lábios de Sara enquanto se desfazia do cinto de segurança. Sara sentiu um calor percorrer-lhe as pernas. rasgou-lhe um olhar assustado e correspondeu-lhe ao sorriso.Parque das Nações. . era professor universitário.Vim visitar uma amiga – mentiu ela. . já deu para reparar.Olá! Sara. – Meu nome é Paulo – ele disse.Assim que puder eu ligo – respondeu Sara encontrando no cartão a deixa perfeita para abandonar o carro de Paulo e atravessar a rua em direcção ao prédio onde morava. Sara.Nada – respondeu Paulo enfiando a chave na ignição do carro. . Mas enquanto o ouvia falar sobre assuntos perfeitamente triviais para duas pessoas que mal se conheciam e que tinham uma diferença abismal de idades.Está bem. .

.E quando é que vamos deixar de nos encontrar às escondidas dentro do meu carro? . – Ouviste? . .O Daniel está bem! Estava agarrado à Playstation dele.É – respondeu Madalena não muito convicta disso. . enfiado no carro e à sua espera. eu teria tocado à tua porta. Lena – afirmou ele acariciando-lhe a face enquanto os seus olhos mergulhavam nos dela. mas esquece esse assunto – pediu Sérgio voltando a encontrar-lhe os lábios. . tu tinhasme deixado entrar para conhecer o teu filho e estaríamos agora os três sentados no sofá a ver televisão ou a jogar Playstation.É que eu tive que deixar uns rolos na casa de um amigo. 64 . . . deitou nele um saco minúsculo e correu em direcção ao carro da única pessoa que a poderia levar à rua àquela hora. vou pôr o lixo lá fora – exclamou ela passando pelo corredor como um foguete. Mais tarde. – Não vim aqui para te deixar triste. . . . – Que saudades – confessou ela conseguindo finalmente enterrar-se nos braços dele.Os teus filhos? Como é que estão? . Há pelo menos quatro dias que não sei nada dela.Tens a certeza?! Se não tivéssemos nada a esconder.Está bem – respondeu ele mostrando-se muito pouco interessado naquela tarefa tão rotineira. mas depois voltou a reerguer o rosto em direcção a Sérgio.Deve estar bem com o pai. . – A surpresa é claro.O telefonema de Sérgio tomou Madalena de assalto enquanto ela terminava de arrumar a cozinha e retirava do congelador a carne que iria assar no dia seguinte.Eu não quero me esconder. o que foi óptimo porque assim não tive que dar muitas desculpas para sair de casa – riram-se.Eu também morri de saudades tuas – respondeu Sérgio beijando-a no interior do carro. Depois disso. – Lembras-te daquilo que te disse no outro dia? Que não quero ser o tal que só vês quando tens algum tempo na tua agenda? . – Daniel.Tu nunca me deixas triste.Nós não nos estamos a encontrar às escondidas. – Pelo menos até a minha filha voltar para casa e as coisas regressarem à normalidade.Pensei que não nos fossemos ver hoje.Vou pôr o lixo lá fora. resolvi fazer-te uma surpresa. – Mas a Sara não sei.E nem eu quero que sejas esse tal.Sérgio… . Mas nem o frio arrepiante que se fazia sentir lá fora conseguiu demovê-la da ideia de aceitar o convite do fotógrafo quando soube que ele se encontrava a poucos metros da sua casa. muito pelo contrário. . – Dá-me só mais algum tempo … – pediu ela. juro que te apresento aos meus filhos e vamos ficar os quatro sentados no sofá a ver televisão. . – Mas eu queria que ela estivesse aqui comigo.Então?! O que é que te está a impedir de me deixares entrar na tua vida? Madalena optou pelo silêncio como forma de resposta.Adorei – respondeu ela voltando a sugar-lhe os lábios.Hã…!? . . Liberdade foi o que Madalena sentiu quando alcançou os portões do jardim e caminhou apressada em direcção ao contentor de lixo mais próximo. não sei. e como ele morava aqui ao pé.Eu sei! Mas bem. .

Marcamos um outro encontro e eu trago-tos! .Iria adorar. Telefonar. .Não.Está bem – concordou Sara deixando-se encantar pelo sorriso que Paulo lhe lançou. apesar das inúmeras tentativas que Madalena efectuou para trazer a filha de volta a casa. Dez minutos mais tarde essa companhia chegou trajada com um elegante fato. .Não – respondeu Sara esboçando um sorriso quando Paulo se sentou à sua frente. – Podemos combinar um café para amanhã ao final da tarde – foi a resposta que obteve no outro lado da linha. que nada tinham em comum para além de serem dois seres humanos. . o professor universitário que lhe ofereceu um boleia dois dias antes. . – Gostas de ler? – perguntou Paulo no meio da conversa. o professor universitário que 65 . . imediatamente após se ter masturbado pela terceira vez consecutiva naquela tarde. comer ou não as refeições e continuar a assistir a filmes pornográficos quase todos tirados da Internet. Na semana seguinte. Sara recusou-se terminantemente a voltar dizendo que se encontrava bastante feliz a viver com o pai.Já pediste alguma coisa? .Então vou pedir dois cafés para nós. Paulo era um excelente conversador e demonstrava toda a sua inteligência através de um discurso claro. na sua maioria turistas.Gosto – respondeu ela. uma coisa que adorava fazer quase todas as horas do dia e do qual não parava de pensar especialmente quando se lembrava de Paulo Figueira. Trazia também um à vontade e um carisma difícil de explicar aos olhos de uma adolescente de quinze anos cujo maior desejo era continuar a ouvi-lo e perceber o que é que ele tinha de tão especial para a fascinar. . . .Pode. dormir até quando quisesse. – Olá! Espero não me ter demorado muito – disse ele. Telefonar a um homem que tinha idade para ser seu pai e tentar marcar um encontro com ele.Havia pelo menos uma semana que Sara não colocava os pés na escola. Mas a verdade é que o verdadeiro motivo da sua recusa prendia-se única e exclusivamente com Paulo Figueira. – Eu também cheguei quase agora.Por mim tudo bem – disse ela tentando acalmar a voz trémula. os dois personagens. como passear pelas ruas da cidade sem se importar com as choras de chegar a casa. os mesmos cabelos grisalhos e a barba aparada.…eu não bebo café – confessou ela tentando acalmar as mãos nervosas ao colocá-las por debaixo da mesa. Ao sabor de um delicioso sumo de pêra. . conciso e bastante sedutor. – Aonde?! A faculdade de Paulo ficava no Alto da Ajuda e foi por isso que Sara concordou encontrarse com ele numa pequena esplanada perto de Algés.Então se quiseres posso emprestar-te alguns livros que tenho lá em casa.Então peço um sumo. resolveu fazer algo há que muito se tinha predisposto. De facto. e uma brisa de final de Verão que em tudo embalou os pensamentos dela enquanto esperava impacientemente pela sua companhia. onde reinava a boa disposição dos clientes. e tudo porque encontrava sempre coisas mais interessantes para fazer. aquele era o seu pequeno vício. Pode ser? . . Numa dessas vezes em que pensou nele. conversaram durante largas horas e esqueceram-se de tudo o resto que os rodeava.

.Não – respondeu ela arrepiando-se quando ele lhe tocou suavemente na mão. ela entregou-lhe a única coisa 66 . Depois disso. .Pois devias! És uma rapariga muito bonita. os telefonemas quase diários e troca de algumas confidências apenas fizeram Sara sonhar com um possível relacionamento entre os dois. o prazer da leitura e a certeza de que as horas tinham deixado de passar para os dois. – Não repares na desarrumação! O meu pai é mesmo assim. Mas a verdade é que o fez. Seria apenas uma fixação? Uma cisma? Um desejo? Talvez. O hálito de Paulo sabia a menta e as mãos não tardaram a percorrer as costas de Sara num movimento lento e contínuo em direcção às pernas. ele pôde perceber isso quando a deitou sobre o sofá e lhe afagou os cabelos lisos. – Entra – disse ela deixando que ele invadisse o corredor. Completamente despida. e a outra verdade é que os seus intuitos saíram na perfeição quando Paulo elogiou o sabor e a temperatura.Não sei.Não?! . Depois disso. . De resto. .Não te preocupes! Já vi coisas piores. – Fico contente por saber isso – disse ele. café ou chá. Na verdade ninguém diria que àquela tinha sido a primeira vez que se atrevera a fazer um chá. E não. – Bem. Ela tremia.Aceitava um chá. O chá foi servido em poucos minutos num pequeno tabuleiro e em duas chávenas de porcelana que Sara fez questão de escolher nos armários da cozinha. mas a verdade é que se voltasse para a casa da mãe jamais teria a chance de voltar a encontrar-se com Paulo e muito menos de levá-lo ao apartamento vazio do pai.Não – respondeu Sara voltando a sentir o mesmo arrepio quando Paulo lhe encontrou os dedos e entrelaçou a mão neles.Então eu vou fazer – respondeu Sara abandonando a sala sob o olhar atento de Paulo. seguiu-se uma conversa interessante sobre novos escritores contemporâneos.…não te achas bonita? – foi a surpresa de Paulo quando Sara lhe falou sobre as suas inseguranças relativamente à sua aparência física.O que tiveres para me oferecer.Quão mais velhos!? .Mais ou menos. Provavelmente ninguém compreenderia as razões que a faziam suspirar por um homem de quarenta e cinco anos quando deveria interessar-se somente por rapazes da sua idade.conheceu por um mero acaso. .Claro – riram-se os dois enquanto chegavam à sala. . mas que agora não se imaginava a viver sem ele.Gostas de homens mais velhos? . . Sonhou também fazer amor com ele embora tivesse a plena consciência que a diferença de idades que os separavam iam muito além de uma mera faixa etária. .Da minha idade? A resposta foi dada com um aceno positivo. .Eu não me interesso por rapazes da minha idade. . Não te esqueças que também moro sozinho. . Aposto que todos os rapazes lá da tua escola devem correr atrás de ti. queres beber alguma coisa? . seguiu-se um olhar absolutamente esmagador que só culminou com um novo beijo e a loucura de Sara em permitir que um homem de quarenta e cinco anos a tocasse como nenhum outro homem a havia tocado até então. . .Tenho sumo. Talvez fossem todas essas coisas.

E nem devias! Olha. .Tem calma! Olha os vizinhos aí do lado – disse ele puxando-a para o interior do seu apartamento.Hã… foi uma amiga que mo emprestou – respondeu Sara apressando-se a arrancar o livro das mãos do pai. inteiramente tua – vociferou Madalena apontando-lhe o dedo. O que é que aconteceu contigo quando nasceste. . Jorge sempre fora um pai irresponsável.Ainda não o li. marido. a culpa não era só dele. É um facto! Uma realidade! A Sara está quase a chumbar por faltas e tu estás pouco te importando com isso. da tua companheira de quarto? . . .Uma carta da escola da tua filha… – respondeu Madalena atirando-lhe o envelope ao peito.Não são histerias. hã? Será que a tua mãe te atirou contra a parede? .Aonde é que está a Sara? 67 .Este livro não é para a vossa idade. é que a Sara está prestes a ultrapassar o limite de faltas injustificadas do primeiro período e a culpa é tua. Madalena percebeu que já não lhe restava outra alternativa a não ser arrancar a filha das garras do pai. não é?! Além de que parecia irritada. .O que eu estou a dizer Jorge.Sabes o que é isto!? .O quê? . eu… . .Hei – imperou Jorge não gostando nem um pouco da ironia.O que é que estás para aí a dizer? . – De quem é este livro? – perguntou-lhe o pai quando descobriu um exemplar do escritor Paulo Coelho sobre a mesa da sala. e de uma conversa com directora de turma.preciosa que há muito sonhava entregar a alguém. . . Após a leitura de uma carta escolar que dava conta das sucessivas faltas de Sara às aulas. foi o que Madalena decidiu durante a sua condução pelas ruas da cidade. – Queres o quê? Que toda a gente oiça as tuas histerias? .Não.Porquê? Não a tens levado à escola? . . A sua virgindade.Vieste cedo – disse Jorge deparando-se com a figura de Madalena especada sobre o patamar de entrada. ausente e sem as mínimas condições morais para tomar conta dos filhos. mais mentecapto e mais irresponsável do que eu pensava.Meu Deus – exclamou Madalena soltando uma gargalhada seca a fim de acalmar os nervos que se apossaram de si. especialmente de Sara.Eu nem sequer sabia que ela andava a faltar às aulas. Aquela seria a última vez que iria pisar a casa do ex. sabias!? . – Ou devo dizer antes. – Tu és ainda mais demente.Eu sei. . eu não quero voltar para casa! Eu quero ficar aqui. . Mas vendo bem. mas não custa nada ouvir o que a tua mãe tem para dizer.Pai. Onze Minutos era o nome da obra. a tua mãe ligou-me hoje lá para o escritório. Diz que precisa falar connosco. – Tem calma! Não venhas ofender-me aqui dentro da minha própria casa. Era também sua por permitir a loucura da filha em ir morar com o pai.

Aonde? . marido.Saiu para onde? . mas já nessa altura.Não sei. A fechadura sofreu uma ligeira pressão quando faltavam poucos minutos para as dezoito horas. . já disse – respondeu ele abrindo os braços. – Olá… . nem Madalena e nem Jorge tiveram forças para esboçar qualquer movimento corporal. ela saiu. – Nós estamos chateados com ela. . o mínimo que deves fazer é ir à escola e tirar boas notas. 68 .Eu não tenho nada para dizer.Não sei.Não digas que eu estou chateada com ela – interrompeu Madalena voltando-se para o ex.Pronto! Vai começar… .Sara – interrompeu Jorge. ou não?! Para te dar a ti e ao Daniel um futuro melhor e tu estás a desperdiçar tudo isso.Fui passear.Sara.Começa já explicar – exclamou Madalena levantando-se do sofá.. . – Saiu de manhã para fazer umas compras. Durante horas permaneceram sentados em diferentes sofás sem trocar uma palavra.O que é que se passa? – perguntou Sara interrompendo a discussão dos pais. . . – A Sara vai voltar comigo e ponto final! Aqui ela não fica nem mais um dia.Sara. deixaste ela sair de casa sozinha? . um olhar e desejando apenas que a chegada da filha lhes trouxesse respostas paras as dezoito faltas a Português. ou pelo menos também tu devias estar se te preocupasses minimamente com a tua filha. . – A tua mãe tem razão! Não é certo andares a faltar às aulas porque essa é a tua única obrigação para connosco.Vamos esperar ela voltar da rua! Quando ela vier. .O meu maior erro foi ter deixado a Sara vir morar contigo e está-me a cheirar que ainda me vou arrepender muito mais desse erro daqui para a frente. – Aonde é que te meteste? . nós falamos com ela. doze a Matemática. .À Baixa – mentiu Sara despindo o seu casaco de ganga.O que se passa é que a tua directora de turma me ligou lá para casa a dizer que estás em perigo de chumbar o ano – respondeu a mãe atirando-lhe a carta para as mãos.Não existe nada para falar – imperou Madalena gesticulando furiosamente os braços. – Lê! Lê e vê qual foi o resultado das tuas brincadeiras. A expressão de Sara não se alterou nem um pouco quando leu as informações expostas naquela carta e talvez tenha sido esse facto que mais tenha irritado Madalena. Se te damos tudo.Querias o quê? Que lhe prendesse o pé à mesa da sala? . – Já tinha dito ao pai! Lembraste pai?! .disse Sara surpreendendo-se com a presença da mãe ali. . É para isso que eu e a tua mãe andamos a trabalhar. . tu não brinques comigo! . a tua mãe está chateada contigo e tem boas razões para isso.Eu só quero que me apoies uma vez na vida e não fujas com o rabo à seringa apenas para não ser o mau da fita. – Não vais dizer nada em tua defesa? .E tu acreditaste?! Ou melhor. . oito a Química e cinco a Geometria que ela conseguiu arrecadar em apenas dois meses.

Silêncio foi a resposta de Jorge.Se gostasses não me deixavas ir com a mãe quando sabes muito bem que nós nunca nos demos bem e que eu a odeio de morte. filha.Sara… . mas o problema é que não tenho tempo para cuidar de ti como a tua mãe tem.Eu não vou.Queres sim – gritou Sara. já disse para não brincares comigo! . – Ouviste.Já disse que… . Sara! Com ela vais ficar melhor. se tu me deixares ir com a mãe. – Tu vais voltar lá para casa e ponto final.O. não é! Tinhas que aparecer para dar o teu show de mãe dedicada e extremosa. não vês?! . .Já pedi desculpas.k – respondeu ela largando os braços.Tu queres que eu me vá embora. pai?! Nunca mais falo contigo! .O quê – foi a reacção intempestiva de Sara. .Sara.Sara. Trabalho até tarde. 69 .Pai – suplicou Sara alcançando os braços do progenitor a fim de encontrar um aliado contra a mãe. – Tu não gostas de mim. Mas tu só queres saber de ti. . – Eu não tenho … como é que hei-de dizer…! Eu não tenho condições para te ter cá em casa. – Não bastava teres ligado? Mas não. eu nunca mais falo contigo. .Isso mesmo que ouviste e nem adianta espernear porque eu já conversei com o teu pai e juntos chegámos a um acordo – respondeu Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou.Nunca mais voltes a dizer uma barbaridade dessas.Desculpem lá – repetiu Madalena num tom sarcástico.Eu acho que a tua mãe tem razão – afirmou Jorge para grande desespero da filha que sem outro remédio viu-se obrigada a afastar-se dele e a deixar duas enormes lágrimas caíremlhe dos olhos. É tudo um plano. . mulher. .Sara… . .Sinceramente não sei o que é que vieste cá fazer – disse a jovem desviando-se bruscamente de Madalena. .Pai… .Queres que me vá embora. não fales assim com a tua mãe – interferiu Jorge saindo em defesa da ex. é isso?! . Eu adoro ter-te cá em casa.Eu só vim chamar-te à razão! Dizer que está errado aquilo que fizeste e que não estás autorizada a repeti-lo! Foi para isso que eu vim. não é?! Só queres trazer as tuas namoradas cá para casa e não ter ninguém que te atrapalhe… . . . – Tu achas que é só pedires desculpas e está tudo resolvido? . . – Não deixes que ela me leve daqui! Não deixes! Será que não vês que ela está a fazer isso de propósito para nos separar? Ela não gosta de ti e também não quer que eu goste de ti.…é melhor ires com a tua mãe. – Desculpem lá! .Vai arrumar as tuas coisas ao quarto! Voltas hoje comigo para casa. .E o que é que queres que eu faça?! Que me ajoelhe aos teus pés e te peça perdão? . tenho sempre encontros com clientes de última hora e até já cheguei a desmarcar várias viagens de trabalho apenas para não te deixar sozinha..Pai.É claro que não. esbaforida. .

– Achas bem aquilo que fizeste? Achas bem andar a faltar às aulas? . e por ela entraram a sua filha. mulher livre para enfiar a mochila da filha no banco de trás. veio um sabor amargo a derrota e a engano que a levou às lágrimas.A miúda está louca. Não depois de tudo aquilo. . – Vai arrumar as tuas coisas ao quarto – disse Madalena interrompendo os olhares de ódio que a filha lançou ao pai e deixando-a sair da sala completamente esbaforida.Sinceramente não sei o que fazer com ela – suspirou Madalena levando as mãos à cabeça. Vou ligar ao Paulo. Até que enfim chegaram. Sara aproximou-se do carro da mãe.As palavras do pai soaram-lhe como uma bomba aos ouvidos e por vários segundos foi inevitável para Sara não derramar as últimas lágrimas que lhe restavam de uma relação que pensava ser perfeita. foram as palavras de Afonso Soares quando a porta se abriu. Não. – Nós vamos bem sozinhas. Claro. no meu tempo era assim que se educavam as crianças. Não depois de ter prometido que a levaria a morar consigo caso a relação dos dois resultasse ou de ter jurado enfrentar os seus pais apenas para ficar com ela. resoluta. Sara tentou encontrar várias soluções para o grande sarilho em que estava metida. Ele vai-me ajudar. alcançou o corrimão das escadas e subiu em direcção ao quarto onde foi audível o estrondo violento de uma porta a fechar.Achas que sou uma péssima mãe. Mas a verdade é que nada disso pareceu ter qualquer fundamento quando Sara se atreveu a digitar-lhe o número de telemóvel. Jorge traiu-a. – Não querem que vos leve? – perguntou ele. – Está cada vez pior e estes dias na casa do pai só a pioraram ainda mais. . De resto. Não posso voltar para a casa.Claro! E tu? – perguntou Afonso voltando-se para a neta.Não – respondeu Madalena. fez-se luz. O número já não existe. mas que a tinha traído no momento em que mais precisava dela. O número que marcou não está atribuído. Talvez fosse ele a ajuda que tanto necessitava e o anjo da guarda que desde o primeiro momento pareceu ser na sua vida. foi o próprio que se encarregou de tal tarefa. O número já não existe. deixando a ex.Bem-vindo ao clube – respondeu Madalena largando os braços. por ter conseguido encontrar outra solução. Sara. enquanto no porta-bagagem foram-lhe colocadas as três malas que tinha levado para morar com pai. repetiu várias vezes a si própria enquanto tentava convencer-se que tudo aquilo não passava de um pesadelo. . e a sua neta. era tudo o que pensava enquanto roía as unhas e tentava encontrar uma maneira miraculosa de se livrar das garras da mãe. não é!? 70 . Sim. no mais profundo silêncio. – Pai! Ajudas-me a trazer as malas que estão no carro? – pediu Madalena. . Depois disso.Ela odeia-me – murmurou Jorge. Não. . foi a resposta que obteve após oito tentativas consecutivas. Madalena. . Meia hora mais tarde. . Traiu-a diante da sua mãe e por isso ela nunca mais o iria perdoar.Precisas impor-lhe disciplina! Pelo menos. Mais tarde. . Enquanto passeava pelo quarto. não após de tantas juras amor que lhe segredou aos ouvidos ou depois de lhe ter entregado a sua virgindade.Não me chateies – respondeu Sara para grande surpresa do avô. Paulo não podia ter desaparecido sem deixar rastro.

a rolha saltou para o tecto e Madalena bateu palmas maravilhada. Impossível.Bem! Que recepção… . – Pontual como sempre – disse ele abrindo a porta com um largo sorriso e com uma garrafa de champanhe nas mãos. embora Sérgio muitas vezes pedisse para que se vissem todos os dias. a relação de ambos. e tudo para que ela pudesse passar um maravilhoso serão ao lado de Sérgio. Depois disso. Não sabia também se essa vontade descontrolada de se tocar iria passar com o tempo. pelo companheirismo e pela paixão que a cada semana crescia ainda mais nos seus corações. de facto sobrava pouco tempo para se dedicar a ele. Chorava. enquanto voltava para casa no carro da mãe e especialmente à noite quando se trancava no quarto e utilizava o computador para satisfazer a sua curiosidade? De facto. – Entra! 71 . – …garanto-te a minha tarefa era bem menos complicada. ela adorava-o e não havia nada melhor do que terem-se um ao outro para se confortarem com palavras carinhosas repletas de amor. assim como a sua vontade em devorar toda a espécie de pornografia que encontrava na Internet. Mas de uma coisa tinha certeza. Por sorte. Ele adorava-a. Seria um jantar romântico no apartamento dele.Bem. não é isso que está em causa. – Tu és uma boa mãe. Sérgio era um homem compreensivo. Madalena conseguiu convencer o seu pai a buscar os netos à escola e ficar com eles durante a noite. ele sabia.. Mas por outro lado. prolongar-se durante anos e anos. o desejo sexual experimentado com Paulo continuava a dominar-lhe a mente. o falso professor universitário que a única coisa que quis foi retirar-lhe a virgindade como se de um prémio se tratasse. mesmo tendo sido mantida em segredo. ou se pelo contrário. Na verdade. O dia do seu aniversário era a ocasião ideal. especialmente num homem. os dias tornando-se mais curtos e tristonhos e Sara percebendo que nunca mais voltaria a ter notícias de Paulo Figueira. de ter medo de alguém e há muito tempo que ela já não tem medo de ti. Sexta-feira foi o dia do aniversário do Sérgio e por isso Madalena estava excitadíssima. . E sim. Por sorte e após muito esforço. Fosse com quem fosse. a temperatura arrefecendo. . não sabia. odiava-se e repetia a si própria que nunca mais voltaria a confiar em quem quer que fosse. boa comida e outras coisas que ela corou só de o ouvir falar ao telefone. provavelmente repleto de champanhe. vamos lá buscar as malas ao carro! As semanas foram passando. enquanto se encontrava sentada sobre o alpendre da janela do quarto. Com os problemas de Sara a atormentarem-lhe os pensamentos. Precisava fazer sexo. . ela perdia-se em justificações sem fundamento para não se sentir tão ingénua e usada.Se ao menos aquele imprestável do Jorge servisse para alguma coisa – disse Madalena limpando as tímidas lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. Por vezes. Mas a Sara precisa de limites. mas ainda assim não custava nada tentar ter um pouco mais de espaço na vida de Madalena quando a sua única vontade era tê-la só para si. Nunca forçou a sua entrada na vida de Madalena e era por isso que ela lhe era tão grata. primava pelo amor.É claro que não – respondeu Afonso segurando os ombros da filha.E tu ainda nem viste nada – respondeu Sérgio entregando-lhe a taça de champanhe após um longo beijo. Estaria ela doente por passar a vida a pensar em sexo ainda que fosse na escola.

mas que se prolongou até o Outono e tinha esperanças de ultrapassar o Inverno.Obrigada – disse ela saboreando o primeiro gole da bebida. eu acho que posso começar a pensar um pouco mais em mim.Está óptimo. O jantar primou pela simplicidade. – Veremos se não vais fugir a sete pés quando os vires enfileirados à frente do sofá.Primeiro vou falar com eles. um pouco mais em nós. que a minha filha já não anda a faltar às aulas. ela degustou.Aleluia – riram-se os dois.Foste tu que cozinhaste? – perguntou Madalena.Fico muito contente por ouvir isso – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos soltos. o mundo parou e não foram precisas mais palavras para que ela entendesse tudo o que ele queria fazer naquele momento. os braços fortes à volta da sua cintura e o corpo completamente colado ao seu. .Veremos – respondeu Madalena não resistindo a desabotoar-lhe os primeiros botões da camisa.Ultrapassar a prova de fogo que vai ser conhecer as minhas três pestinhas!? . . Uma relação que tinha todos os ingredientes para ser apenas um amor de Verão. Degustou não só a refeição. Depois disso. . – Estive a pensar… .Não demores a conseguir esse sinal verde.Está bom? . divertida. mas também os lábios de Sérgio quando dançou com ele a mesma música que ambos tinham dançado no início da sua relação. . ouviste?! . . pela conversa amena e também pelas velas que Sérgio fez questão de acender sobre a mesa enquanto Madalena se ria às gargalhadas e lhe confessava não se lembrar da última vez que degustara uma refeição às escuras.O quê? .O quê? – perguntou Sérgio enterrando-se no pescoço dela. . e depois.Podes deixar – respondeu ela mergulhando-lhe nos lábios e também naquela sensação tão fantástica que era tê-lo só para si.…em levar-te a conhecer o meu pai e os meus filhos – respondeu ela após um pequeno suspense. Aliás. os dois amantes deitaram-se no sofá e retiraram as respectivas roupas enquanto a música que os embalou na dança continuou a tocar durante minutos a fio. . .O nosso jantar já está pronto! Só falta tirar do forno. . . quando conseguir um sinal verde.Claro ou o que é que pensas?! Nunca te falei sobre os meus dotes culinários? . Submersos.E tu queres que eu fuja? . 72 .Os dotes que eu conheço são outros – respondeu ela enterrando-se nos lábios dele enquanto se deixava levar em direcção à sala. .E quando é que vou ter a honra de conhecer as tuas três pestinhas? – perguntou Sérgio colocando-lhe os cabelos atrás dos ombros. . combinamos um jantar ou um almoço em minha casa. Tê-lo perto.. Quero que fiques e me ajudes a enfrentá-los também.Agora que as coisas estão um pouco mais calmas lá em casa. . Mas a verdade é que naquela chuvosa noite de sexta-feira.Por ti sou capaz de ultrapassar tudo.Claro que não.Achas que vais conseguir? . . sentir a humidade da sua boca.

Também não estão a favor – confessou ela.Bem. ficar contra nós ou assim… .Está tudo certo – disse Madalena quando falou com Sérgio ao telefone no final da noite. .Que bom! . Acho que se atrasou a sair do estúdio e apanhou algum trânsito pelo caminho.Óptimo – murmurou Madalena com um sorriso radiante. O mundo dava muitas voltas. Hoje não consegui parar de pensar noutra coisa a não ser na conversa com os teus filhos.Este foi sem dúvida o melhor aniversário que já tive – confessou ele encarando-lhe o rosto após a ter possuído sem quaisquer restrições. Nada poderia dar errado para aquele que prometia ser o jantar mais importante da sua vida e também a única e derradeira oportunidade para que os filhos e o seu pai caíssem de amores por Sérgio e se deixassem encantar por ele. . o que vendo bem.Optimismo é o que não me falta – respondeu Sérgio arrancando-lhe uma leve gargalhada. Achas que vais poder vir na próxima quartafeira? . E não. especialmente por causa da Sara. apesar de ter ficado um pouco surpreso com todas aquelas revelações. o que ele tinha para a fazer tão feliz e os motivos que a faziam querer apostar numa relação mais séria e duradoira com o fotógrafo. Mas Sérgio apareceu.Ainda falta o meu – riram-se baixinho. 73 . ao contrário do que esperava. E Afonso. . Apareceu como um anjo caído do céu e era ele a única razão para que Madalena estivesse enfiada naquela cozinha a ultimar os preparativos do jantar. . . – O moçoilo nunca mais chega – resmungou Afonso lançando os olhos ao seu relógio de pulso enquanto a filha terminava de temperar a salada a uma velocidade fantasmagórica. já é um bom caminho para nos mantermos optimistas. nem sabes o peso que me tiraste dos ombros. foram as palavras de encorajamento que ditou a Madalena e que a deixaram muito mais aliviada. .. força.Prometo que vou fazer tudo para ir. .Fizeram uma cara como se tivessem acabado de ser atropelados por um camião. .Contaste-lhes sobre nós? . Se ele te faz feliz. as compras foram feitas no supermercado mais próximo e a mesa da cozinha decorada com algumas flores que Madalena trouxera da sua floricultura.Ele ligou-me há pouco. a reacção de Sara não foi nem um pouco agradável e a de Daniel primou pelo embaraço de não saber se aquela era uma boa notícia ou não. O jantar foi marcado para quarta-feira.E eles? – perguntou Sérgio sem conseguir esconder o nervosismo. Uma semana foi o tempo que Madalena precisou para conversar com o pai a respeito de Sérgio. Pensei que eles se fossem opor.Para a semana já podemos marcar o jantar.Contei! . Contudo. – Mas pelo menos não se negaram a conhecer-te. mas o meu pai ajudou-me a controlar os danos – respondeu Madalena ouvindo uma leve risada no outro lado da linha. . pregava inúmeras partidas e reservava as maiores surpresas para uma mulher que havia perdido totalmente a esperança de amar e ser amada em proporções iguais. não viu outro remédio a não ser apoiá-la. explicando-lhe primeiro como se conheceram.

que penses ou sequer que te lembres dele! Este jantar tem que ser perfeito. guardanapos… . duas janelas amplas e também por três pessoas que nem sequer se aperceberam da chegada de Sérgio e Madalena. De facto. – Eu atendo – gritou ela apressando-se pelo corredor quando a campainha tocou. Sérgio pensou seriamente em fugir. O que será que eles iriam pensar de si? Iriam adorá-lo? Detestá-lo? Isso era uma incógnita até para os deuses lá de cima. Mais tarde. duas caixas de chocolate e uma garrafa de vinho comprada pelo caminho. . Daniel a jogar na sua playstation portátil e Afonso a espreitar o pato trinchado sobre a bancada.Está bem. – Estás todo carregado – riu-se Madalena enquanto repartia com Sérgio o peso dos presentes. mas a verdade é que ele estava disposto a fazer de tudo para que as pessoas mais importantes da vida de Madalena também gostassem de sim. não quero que fales. marido e pai dos teus filhos. a arroz e batatas fritas.Pai – exclamou Madalena fulminando-o com os olhos. talheres. comportate! Não quero que fales do Jorge. . Cheirava a pato assado. para além do calor que o forno fazia questão de lançar naquela grandiosa habitação composta por inúmeras mobílias sofisticadas. – Por isso. segundo as palavras de Madalena enquanto o empurrava pela costas e o fazia ganhar forças para enfrentar a maior prova de fogo que alguma vez havia enfrentado em toda a sua vida. está bem. – Comporta-te.O Jorge não tem mais nada a ver com a minha vida e nem tu devias estar a falar dele já que daqui a poucos minutos vais conhecer o meu novo namorado – afirmou Madalena guardando o azeite num dos armários da cozinha. e quando digo perfeito. um ramo de rosas. digo perfeito em todos os sentidos. girou a maçaneta e encontrou o seu convidado especial carregado com um sorriso. . A cozinha cheirava bem. o coração bateu mais forte e as pernas permaneceram paralisadas sobre o alpendre da porta pedindo 74 .Por pouco e não comprava o supermercado todo.Não te estás a esquecer do vinho? – interferiu Afonso encontrando um maço de cigarros no bolso das calças.Claro! O vinho – lembrou-se Madalena correndo em direcção ao frigorífico.Olha lá.Bem… acho que não me esqueci de nada! Pratos. emocionalmente inexperientes e sem qualquer bagagem familiar. Sara encontrava-se de olhos postos na televisão. pois as mãos começaram a suar. Ao vê-los.Porque é o teu ex. As suas mãos estavam trémulas. aquilo nunca lhe tinha acontecido até porque todas as namoradas que teve durante os seus trinta e poucos anos de vida sempre foram solteiras. o Jorge por acaso sabe que estás a namorar com outro homem? . aliás. Conhecer os filhos e o pai de uma namorada? Não. por favor! .Já não começa bem. . depois de um longo suspiro e de ter composto os cabelos soltos. . . . Sérgio pôde senti-las quando abriu o portão da casa de Madalena e se preparou para lhe conhecer o pai e os filhos. tal como já disse.Obrigado – respondeu ele acedendo-lhe o pedido com alguma cautela e também com um aperto discreto na mão esquerda.Porque é que ele haveria de saber?! .Entra! . Mais tarde. copos. seguiu-se a caminhada em direcção à cozinha onde se encontravam os três pestinhas da família..

Pai – exclamou Madalena fulminando Afonso com os olhos. o meu pai é um rapazinho de dezoito anos preso num corpo de sessenta e oito. são! Confesso que queria trazer orquídeas.Eu é que gostaria de ter um espírito jovem igual ao seu.Olá Daniel – exclamou o fotógrafo estendendo-lhe a mão quando se aproximou da mesa. eu sei bem o que estavas a fazer. . – É o meu trabalho.Lá isso é verdade – respondeu Afonso aceitando o aperto de mão por parte de Sérgio.Muito prazer. . . . diga-se de passagem. Sara e Daniel viraram-se imediatamente em direcção àquele desconhecido que agora também iria fazer parte das suas vidas. mas como não consegui encontrar e depois também já estava a ficar um pouco tarde.Bem que eu gostaria de ter tido um trabalho igual ao teu quando tinha a tua idade. A conversa entre os três adultos prolongou-se por vários minutos deixando Daniel e Sara de fora. . e as flores… . Um sonho de qualquer homem. A idade. sempre que podia. . . Sérgio. .E este é o meu pai… – afirmou Madalena alheia aos pensamentos da filha. pelo menos alguém que sabe avaliar as minhas qualidades – riu-se o ex.Os chocolates são para a Sara e para o Daniel – adiantou-se Sérgio tentando esconder o nervosismo que ainda estava a sentir. Sérgio volta-se para eles e sorria-lhes como se 75 . acredite! Fico contente que tenha aceitado jantar connosco. – O senhor Afonso Soares que já há muito te queria conhecer. – Os meus filhos! Daniel e Sara… . e foi por isso que o ex.Por acaso não – riu-se Sérgio. O jantar foi servido às nove horas em ponto. militar tentou acalmar o namorado da filha com perguntas leves e humoradas.Olá – respondeu ela pensando que pelo menos a sua mãe tinha bom gosto.Não faz mal! Também adoro rosas. mas ainda assim. . Queria saber tudo.O prazer é todo meu.Obrigado! Bem. .São para mim – interrompeu Madalena não escondendo o seu sorriso de orelha a orelha. encabulado.Olá Sara. . . senhor Afonso! . . – Sérgio – disse Madalena apressando-se a fazer as apresentações e a terminar-lhe com aquele calvário.É. e na mesa sentaram-se cinco pessoas no mais completo silêncio prontas a partilhar uma refeição cozinhada por Madalena. não quis chegar mais atrasado do que cheguei.E ele trouxe presentes – interferiu Madalena empenhando duas caixas de chocolate e as flores trazidas pelo namorado. ela reparou.qualquer tipo de socorro diante daquela situação tão constrangedora. mas Afonso também.É. . senhor Afonso – afirmou Sérgio largando os talheres sobre o prato. militar levando uma taça de vinho aos lábios. Sérgio estava nervoso. – O vinho é para o senhor Afonso. Analisaram-nos dos pés à cabeça e por momentos fizeram-no sentir como um verdadeiro extraterrestre vindo de um planeta distante.Não te cansas de fotografar mulheres bonitas? . . profissão. por isso… . .Eu é que agradeço o convite. – Pessoal – exclamou Madalena. não ligues! Tal como já te tinha dito.O que foi? Só estava a elogiar-lhe o trabalho.Olá – respondeu o jovem aceitando o cumprimento com alguma cautela. detalhes sobre a família e pequenas curiosidades como o facto de estar sempre rodeado de modelos profissionais. . – Este é o Sérgio! As cabeças de Afonso.

– Mas amanhã tenho uma sessão bem cedo e queria dormir pelo menos oito horas para… enfim… ter mais disposição para fotografar.Estás bem? – perguntou Madalena poisando-lhe a mão sobre o ombro.Porque é que não haveria de dar? 76 . .Nem acredito que deu tudo certo – disse Madalena enterrando-se nos braços de Sérgio. encontrava-se exactamente à sua frente. . Gostei muito. Depois disso. Está tudo bem – disse Madalena levantando-se da cadeira onde estava sentada. O que lhe teria passado pela cabeça para fazer uma coisa daquelas? O quê? A pergunta parecia não ter qualquer resposta e nem mesmo depois de ter sido levado à rua por Madalena. . . Ao encontrar-lhe o sexo. .Um senhor fantástico – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso.O que é que achaste do meu pai? . bebidas. por coincidência ou não. . ela sorriu e o fotógrafo quase que desmaiou de susto. – Agora já sei a quem puxaste. após um pequeno período de reflexão achou melhor manter a sua opinião guardada a sete chaves não fosse ela estragar uma noite que apesar de tudo até foi especial. – Vou buscar um pano para não manchar a mesa. – São duas crianças maravilhosas.Mas obrigado pelo jantar. . nomeadamente quando descobriu o sexo e a pornografia na casa do pai. vários calores começaram a subir-lhe pelas pernas e encontraramse nos seios e nas pontas dos dedos das mãos. foi essa a resposta que Sérgio se sentiu tentado a oferecer à namorada.Acidentes acontecem – interferiu Afonso sob o olhar assustado fotógrafo. Desculpas atrás de desculpas foi o que Sérgio inventou para se livrar daquele malfadado jantar. e calores que a fizeram cometer uma das maiores loucuras da sua vida quando se atreveu a tirar o pé do sapato esquerdo e levá-lo em direcção as pernas de Sérgio que. . Contudo. .Não faz mal. mas a tua filha Sara é uma maluca de todo o tamanho. – Queria tanto que pudesses ficar mais tempo – disse ela encontrando-lhe a mão. Eram calores estranhos. – Gostei muito deles – voltou ele a mentir. sendo que quase todas elas se encontravam relacionadas com o trabalho. calores que a acompanhavam desde há muito. mas também de luxúria e pecado. ela lhe desapareceu do pensamento.E os meus filhos!? O que é que achaste deles? O Daniel parece ser um bom rapaz.Eu também – mentiu Sérgio. Sujei a toalha toda. Entendes. Mas seria mesmo aquele o motivo para que se quisesse ir embora? Obviamente que não. ele arrastou a cadeira. . derrubou o resto do vinho sobre a mesa e lançou um olhar esmagador à filha da sua namorada numa tentativa desesperada de encontrar justificações para aquele acto no mínimo leviano. E enquanto bebia um gole de sumo. não entendes!? .Claro! Claro que entendo. Eu não sei o que é que me aconteceu.…estou – respondeu ele tentando ignorar os risinhos de Sara. Um sinal que Sara estava mais do que disposta a oferecer quando os seus olhos se cruzaram com os dele pela última vez naquela mesa repleta de alimentos. desculpem. – Desculpa! Aliás.ainda estivesse à procura de algum sinal de aprovação. até porque a única coisa que ele não queria era continuar a olhar para a cara de Sara e lembrar-se da loucura que ela cometera à mesa quando o apanhou completamente desprevenido.

era o que ela mais queria. . . O que é que achas? A expressão embaraçada do namorado deixou Madalena apreensiva.Se não fizeres sexo comigo eu digo à minha mãe que tentaste estuprar-me – disse Sara.E o que é que vocês me queriam contar? 77 . . Não devias estar a pensar nessas coisas. Se tinha dado tudo certo. . De qualquer forma. . – Tu és uma criança. aceitar um convite para almoçar no domingo foi irrecusável. a prosperidade nos negócios da floricultura e o namorado mais lindo do mundo. a melhor amiga.suspirou ele largando as travessas sujas no lava-loiça.Sei lá! Fiquei com medo que acontecesse alguma coisa. Os três dias que se seguiram foram vitais para que Sérgio se conseguisse convencer que o que acontecera à mesa com Sara não tinha sido mais do que um mal entendido e que não valia a pena levar em consideração as brincadeiras de uma menina de quinze anos. se os seus filhos e o seu pai adoraram Sérgio. num almoço para o próximo fim-de-semana. .Mesmo assim! Para mim ainda és uma criança. o amor que sentia por Madalena era forte demais para que se deixasse levar por todas aquelas desconfianças sem sentido. chegou a essa conclusão quando no final do almoço. então porque não promover uma maior aproximação entre eles? Na altura.Sara… . mas nem por isso retirou o sorriso que ela fez questão de estampar no rosto. . – Não queres fazer sexo comigo? . . No seu rosto era visível uma felicidade extrema por ter tudo aquilo que sempre quis ter na sua vida. Por isso.Claro – respondeu Sérgio deixando-se beijar por ela.O que é que deu nela? . E na verdade foram precisos apenas poucos minutos para que Madalena se conseguisse livrar da conversa ditada por Alice e entrar na habitação com um largo sorriso nos lábios. . quanto a isso não havia a menor dúvida. Os seus filhos. . Sara aproximou-se de si na cozinha e perguntou-lhe aos ouvidos. podes deixar.Temos que começar a pensar num novo jantar..Não há nada para contar – foram as palavras da sua filha antes de desaparecer da cozinha. . enquanto Madalena atendia uma chamada telefónica da melhor amiga no corredor da casa.Mais ou menos – respondeu Sérgio lançando um olhar lancinante a Sara. Algo que realmente não deveria ter feito. Ele amava-a.Eu não sou uma criança! Já tenho quinze anos e em Janeiro faço dezasseis.Não te preocupes! Eu próprio vou contar-lhe assim que ela chegar à cozinha. Mas por sorte não aconteceu e eu até acho que eles gostaram de ti. mas para tê-la por inteiro teria que amar os seus filhos e fazer de tudo para se dar bem com eles.Não sei – respondeu Sérgio forçando um sorriso.Eu também acho que sim.Então?! Não me vão contar? – riu-se Madalena. ou melhor. Sara adiantou-se: .Ligas-me quando chegares a casa? .Vou para o quarto. – Depois combinamos melhor – foi a resposta do fotógrafo. – Já estão a arrumar a loiça? – perguntou ela não imaginando sequer que tudo aquilo que tinha não passava de uma mera ilusão. – Eu ligo. . – Na verdade estávamos à tua espera para te dizer uma coisa… Ao perceber que o namorado da mãe estava realmente disposto a contar a verdade dos factos.

a frase do fotógrafo não poderia ter sido mais acertada e tudo porque depois daquele malfadado domingo Sara nunca mais se atreveu a colocar-lhe propostas ordinárias aos ouvidos. Passou a respeitá-lo como futuro padrasto. .Fico contente que tu e a Sara se estejam a dar tão bem. – Mas acredito que a partir de hoje nos vamos dar ainda melhor.Hã… era uma coisa engraçada que tinha passado ali na televisão. 78 . De facto. E já que Sérgio não queria ser a vítima então ela teria que arranjar outra.É – respondeu Sérgio. Nada de especial! . Mas ainda assim a palavra sexo não lhe saiu da cabeça até o Natal. mal o conseguia encarar de frente quando se cruzavam no corredor e esqueceu completamente as loucuras de ir para a cama com o namorado da mãe..

Depois disso.…falar sobre trabalho. apesar de todos os riscos. mas ainda assim. era ali que ela queria estar.O que é que queres? – questionou Milene rispidamente. mas ela continuava a lembrar-se perfeitamente do rosto da jovem por não ser muito comum adolescentes como ela pisarem aquele local. .Que isto não era lugar para miúdas como tu. E sim. – E tu? Lembraste daquilo que te disse? . inteligente.CAPÍTULO V Era a segunda vez que colocava os pés naquele local. A expressão séria que Milene fez questão de colocar no rosto não deixou sombra para dúvidas.Lembra-se de mim?! .Hã …olá – respondeu Sara abrindo um sorriso quando reconheceu a pessoa que a levara ali. o Intendente era o local propício para encontrar alguém assim. tinha faltado às aulas e estava no centro de um bairro degradado quando de longe uma mulher a avistou e percebeu que aquela não era realmente a primeira vez que tinha visto Sara ali. Na verdade. Aquele realmente não era o lugar indicado para raparigas como Sara. e era também a segunda vez que dava consigo a desviar-se de três toxicodependentes. rico ou proveniente de uma raça previamente estipulada. . esse cenário repetia-se todos os dias e não trazia nada de novo para as centenas de pessoas que habitavam o bairro do Intendente. Tinham-se passado várias semanas. atravessou a rua e encontrou a sua presa. um traficante à porta de um café e duas prostitutas de serviço completamente alheias ao tempo e ao espaço. uma jovem de dezasseis anos acabados de fazer que ainda continuava a ter sonhos eróticos todas as noites e que desejava experimentar a sensação de ter sexo com todo e qualquer homem que mostrasse minimamente interessado em nela. De facto. não precisando ele de ser bonito.Eu não tenho nada para conversar contigo.Que tipo de trabalho? 79 . – Será que podíamos conversar num outro sítio? – perguntou Sara após um longo período de meditação. Talvez trouxesse para Sara. . .O quê? .Claro que me lembro – respondeu a prostituta levando mais uma vez o cigarro à boca. calmamente e sem quaisquer pressas. Estou a trabalhar! . Na verdade. só precisava satisfazê-la e nada mais. O que estaria à procura? O que fora fazer quando a avisou que tudo era melhor do que estar ali? Sem conseguir encontrar resposta às suas perguntas. Era meio-dia. a mulher levou o cigarro à boca e enfiou o isqueiro na mala a tiracolo.Olá! . – Tu por aqui outra vez!? . .É só um minuto.

A pensão onde costumava alugar um quarto para se encontrar com os seus clientes foi o local escolhido por Milene para aquela conversa que prometia ser no mínimo interessante.Como prostituta. . queres ser prostituta e queres também que eu te ajude a arranjar clientes! É isso? . – Podemos fazer um acordo. a surpresa deu lugar à estupefacção.Disseste que querias falar comigo sobre o meu trabalho.Como prostituta!? . e ao subir as barulhentas escadas daquele edifício a cair aos bocados..O mesmo trabalho que você faz – respondeu Sara surpreendendo-a com a sua resposta.Tu estás mesmo a falar a sério? . .Trabalhar no quê? – questionou Milene franzindo o sobre olho. Era também desprovido de móveis luxuosos.E o que é que queres saber sobre o meu trabalho para além do que já sabes? Sara pareceu hesitar por alguns instantes e Milene percebeu essa hesitação quando lhe encarou o rosto sério e os olhos assustados.Como… prostituta. gastas. . Não a levou em consideração. as paredes encontravam-se sujas.disse Milene quando observou os olhos curiosos de Sara a olhar para os cantos do quarto. . Estava ali. 80 . Finalmente tinha arranjado coragem para estar ali e no fundo não se sentia nem um pouco arrependida da escolha que tinha feito pois havia pensado nela durante semanas a fio e só não a havia concretizado por receio de perder o que na verdade já não tinha.riu-se Milene nervosamente enquanto passeava pelo quarto. . – Desculpa a desarrumação… . . A resposta de Sara conseguiu arrancar uma ruidosa gargalhada por parte de Milene.Não faz mal. que nem sequer tens dezoito anos.Eu quero que me ajudes – respondeu Sara cortando-lhe as palavras.Sim – respondeu a jovem largando a mochila no chão. – Deixa-me ver se estou a perceber.Sim – respondeu Sara voltando-se para ela. – Fala – imperou ela terminando o quinto cigarro do dia. . Era pequeno. Um cliente. que aparentemente tinha todas as regalias e todos os mimos dos pais. a oferta de Sara era de tal maneira descabida que nem sequer deveria ser levada em consideração.Espera aí… . . não quis acreditar nela e recusou-se a aceitar o facto de que uma jovem de dezasseis anos.Estou. Tu. Mas por fim. de cortinados e a cama desfeita demonstrava que ainda não havia passado muito tempo desde a última vez que Milene se deitara ali com outro homem. Na verdade. Para além disso.Ajudar-te?! . Sara reparou. e foi isso que Milene tentou fazer durante vários minutos. quando os seus olhos se cruzaram com os dela naquele quarto e percebeu que a expressão de Sara permaneceu impávida e serena. Pudor e vergonha de admitir que era viciada em sexo. Trabalhar como prostituta? Ela repetiu a pergunta enquanto se ria a bom rir e levava uma das mãos ao peito. Quero que me ajudes a… a trabalhar aqui! . – O que é que queres saber? . Eu quero trabalhar aqui. se quisesse realmente submeter a uma profissão tão humilhante como a prostituição. . – Não tive muito tempo para ajeitar as coisas. .Entra – disse Milene largando a porta assim que chegaram ao quarto.Sim. pois claro. tal como o tapete junto à cama. Sara sentiu-se prestes a cair num abismo.

Mesmo assim eu quero experimentar – afirmou Sara. e pede para que ele se lave antes de sequer se atrever a colocar-te as patas em cima – Sara acenou com a cabeça embora os seus olhos ainda demonstrassem algum medo – Outra coisa! Nada de beijos na boca mesmo que te peçam. Usa sempre preservativo e não te deixes ir naquela conversa de que sem ele é melhor. Preservativos.k! Amanhã – respondeu Milene aproximando-se lentamente dela. garanto-te que vais ficar desapontada! Muito desapontada. Milene apagou-o num dos cinzeiros sobre a cómoda e lançou um olhar desafiador àquela jovem que parecia ter toda a experiência do mundo. .Aconteça o quê? – perguntou Sara. ela tinha algumas dúvidas. – Escuta! Eu também já tive a tua idade. Elas que se casaram. os encontros são sempre feitos em locais escolhidos por ti.Que acordo!? .O.Então o que é que queres? . . mas que tu nunca te podes esquecer.E quando é que queres começar? . – Arranja-te bem! Depila-te em todas as partes do corpo porque quanto menos pêlos tiveres menos contacto físico tens com o cliente.Só queria experimentar. nada de sexo oral se não os conheceres ou então ires para a cama com eles pelo menos umas três vezes. Uma ruidosa gargalhada foi a resposta de Milene: . Não seria muita pretensão dela achar que iria gostar de ser prostituta? Será que ainda não se havia dado conta dos perigos que estava a correr ao entrar numa vida completamente desregrada. . mas quando descobrires e viveres essa realidade.Se queres experimentar porque é que não arranjas um namorado? Garanto-te que ele te iria tratar muito melhor do que certos clientes costumam tratar as prostitutas que vão para a cama com eles – Sara calou-se. aliás. Não penses que é divertido abrir as pernas para o primeiro que aparece ou então para aquele pagar mais. 81 . vou-me embora… Quando o cigarro terminou. podes ficar com todo o dinheiro que eu conseguir.Hã… outra coisa importante que já me ia esquecendo. Mesmo que te convidem para ir a hotéis luxuosos. Quem não consegue manter uma erecção com preservativo. .Pode ser amanhã?! . mas ainda assim quis desafiar Sara com uma pergunta: . eu não preciso dele. também já fui curiosa. Estás iludida! Andaste a enfiar coisas na tua cabeça que não correspondem à realidade. não aceites. . sombria e desleal? Na verdade. mas não penses que essa profissão é pêra doce.Se me ajudares a arranjar clientes. .Eu não quero o dinheiro para nada.Estás-me a propor que eu me torne na tua chula? . Escusado será dizer que o mesmo se aplica ao sexo anal. Este bairro é a nossa salvação e vais encontrar sempre alguém para te ajudar caso aconteça alguma coisa… .Sim! Se eu gostar. É preciso ter-se muito estômago para aguentar certos homens. Trás também alguns produtos de higiene para te lavares.. certas coisas que eles nos pedem para fazer e para não vomitares com o cheiro de alguns. resoluta. continuo. assustada. Se não gostar. elas que apanhem! E… o que mais? Hã.Claro. que vá para casa foder com a mulher porque nós não estamos aqui para apanhar as doenças deles.Sem receber um tostão por isso!? .

eu vou compreender… . E talvez. a excitação apoderou-se do seu corpo. a única coisa que lhe interessava era ter alguém que a quisesse e a desejasse nem que fosse apenas por alguns minutos. e enquanto a ouvia com a máxima atenção.Agora não dá – gritou Sara passando o chuveiro pelas pernas depiladas.disse-lhe Milene à saída da pensão. – Vai à outra lá em baixo! Naquela noite. – Se não vieres amanhã. – Nesta pensão eles não se vão atrever porque temos alguns amigos especiais que tomam conta de nós na recepção. mesmo não tendo a mínima ideia de como seria o seu primeiro cliente.A polícia não me vai apanhar. basta ofereceres uns troquinhos antes de subires e tens a vida salva. que a achasse bonita e que não tivesse olhos para nenhuma outra mulher a não ser para ela. eu vou dizer que não te conheço de lado nenhum e que tu simplesmente enlouqueceste. a corda vai arrebentar para o meu lado. . Não. Sara deu-se consigo a perguntar se não estaria realmente a cometer uma loucura ao enfiar-se na toca do lobo. não queria saber do dinheiro para nada até porque tinha ficado acordado com Milene que seria ela a receber todos os lucros. ali. . pensou a jovem. o jantar foi silencioso apenas interrompido pelo bater dos talheres nos pratos.. Alguém que lhe retirasse do peito aquele sentimento horrível de vazio e carência afectiva.Nunca te atrevas a atender um cliente na rua e também nunca te atrevas a denunciar-me à polícia. Para isso. Depilar-se. Não o estava a fazer por carências financeiras.Caso alguém tente espancar-te. de como reagiria quando ele a tocasse e como ficaria o seu estado de espírito depois de se entregar a um perfeito desconhecido em troca de dinheiro.Sabes que se a bófia te apanhar por estas bandas. A televisão teimou em não calar-se e os olhos de Sara muitas vezes se cruzaram no rosto despreocupado de Madalena. Não desconfia de nada e nem nunca iria desconfiar. violar-te ou obrigar-te a consumir drogas – respondeu Milene afastando-se calmamente. e nem esperava sequer encontrar ali o seu príncipe encantado. . porque se fizeres isso. Eu não vou desistir! .Deixa-me entrar – disse Daniel batendo à porta da casa de banho. feito tantos planos. As explicações de Milene continuaram durante largos minutos. Algumas horas depois e enquanto a mãe preparava o jantar na cozinha. não sabes!? .Eu sei! Podes ficar descansada. Sara resolveu trancar-se na casa de banho com o intuito de fazer aquilo que Milene lhe pedira durante a tarde. tal como já vinha acontecendo há várias outras. ela conseguisse encontrar alguém assim.Eu venho – respondeu Sara desaparecendo do bairro com a sua mochila às costas. Na verdade. – Estou aflito e preciso ir à casa de banho. Mas surpreendentemente. Tinha pensado tanto tempo sobre o assunto. só de pensar na ideia. – Ainda estás a tempo de desistir. Faltavam poucos minutos para as duas da tarde quando Sara se despediu de Milene com a promessa de voltar no dia seguinte e iniciar a profissão que tinha escolhido para si. Não desconfia de nada. mas no entanto havia algo que a fazia hesitar e Milene foi a primeira pessoa a reparar nessa hesitação perfeitamente normal para uma iniciante. . . em pleno Intendente. De 82 . Depilar-se dos pés à cabeça e preparar-se psicologicamente para o que a esperava no dia seguinte. .…não.

– Ela é parva e o Sérgio é fixe. – O único problema é ser quase dez anos mais novo que tu. . .Nada! Então?! Posso subir ou não? . ao entrar na pensão onde tinha combinado encontrar-se com Milene. Mas é bom que não me tragas nenhuma confusão e muito menos a bófia. 83 .Quem é que te disse isso? . Seria demasiado sórdido sequer pensar numa coisa dessas. porque não sou só eu quem pensa assim. Sara foi interceptada por um homem mal-encarado. de olhos e cabelos escuros.Só te quis avisar – respondeu a jovem abandonando a cozinha sob o olhar magoado da mãe. . era completamente impossível para uma mãe imaginar que a sua filha estava a vinte e quatro horas de se prostituir pela primeira vez.Sara.resmungou Sara terminando a tangerina que tinha nas mãos. . . – Hoje o teu pai ligou para falar contigo – disse Madalena. . . a porta do quarto de Milene surgiu-lhe diante dos olhos e tocar nela foi inevitável.Eu não quero falar com ele. Sara acedeu ao pedido e aproximou-se da cama onde estava estendido apenas um lençol branco e duas almofadas cansadas pelo uso. – O que é que queres? .Sara.Não ligues – disse Daniel tentando animar a mãe.Tens a certeza?! Sim. e o avô.Entra lá! Sem hesitações.Vim ter com a Milene – respondeu Sara recuando dois passos.facto. apesar de fingir que adora o teu namorado e que acha super normal a filha andar com homens mais novos. . com o meu irmão e também com o teu querido namorado que agora não sai cá de casa. – Fiz aquilo que me mandaste – disse Sara largando a sua mochila sobre a cama. .Eu – respondeu Madalena levando as loiças sujas em direcção ao lava-loiça.Não vou trazer ninguém – foi a resposta de Sara enquanto subia as escadas a correr e se preparava para aquela que seria a sua primeira experiência no mundo da prostituição.O Sérgio é muito simpático para ti e para o Daniel! Ele trata-vos muito bem.Pois… .O que é que andam a tramar? . . . – O teu lugar é cá em casa comigo e com o teu irmão.Eu não me ando a prestar a papel nenhum. O pai também acha ridícula a tua relação com esse Sérgio. Na boca. A resposta da filha deixou Madalena surpresa. No dia seguinte. Minutos depois.Eu disse-te que vinha. magro. .Podes. trazia um palito e no corpo um fato de treino verde que em tudo lhe acentuava os ossos das pernas.Contigo. – Vieste – exclamou a prostituta ao abrir a porta. – O que é que queres dizer com isso? .Nada! Só acho ridículo que uma mulher da tua idade se ande a prestar a um papel destes. . . também deixou escapar no outro dia que não acredita lá muito que o vosso namoro vá dar certo. eu acho melhor ires-te deitar! Amanhã ainda é dia de aulas e não convém chegares atrasada – afirmou Madalena fitando-a furiosamente. até quando vais continuar com essa ideia absurda de não querer falar com o teu pai? Já se passou tanto tempo desde que saíste da casa dele e tens que convir que foi melhor assim. .

as pernas bambas e o coração que mais parecia que 84 . vou buscar o gajo! Estás pronta? . quando chegar aos trinta.Está bem. pois não?! . também não perguntes – afirmou Milene calçando os seus saltos em frente ao espelho do quarto.E ainda continua a ser prostituta? . . Por isso é que quando somos novas temos que abrir os olhos e fazer um pé-de-meia para nos sustentarmos. a profissão ou sequer o estado civil.Arranjei o teu primeiro cliente.Uns gatos-pingados … – respondeu Milene ajeitando os cabelos compridos em frente ao espelho. – Cinquenta e dois. mas eu. Enquanto observava Milene arranjar-se ao espelho e a compor a maquilhagem. Quantos anos é que ela tem? . . . Disse que só tinhas dezasseis anos e o gajo excitou-se todo. É por isso que ainda anda na vida. . .Por acaso não és virgem.Ela tem muitos clientes também? . É só um cliente. . – Até já! Os minutos que se seguiram foram de algum nervosismo.Quem!? . fecho a loja e desapareço sem deixar rastro.O quê!? .…não. – Mas uma coisa que tens que saber é que uma prostituta depois dos trinta e cinco já não tem muitas opções de escolha.Acho que sim – respondeu a jovem demonstrando alguma ansiedade na voz.Menos-mal – respondeu Milene alcançando a porta do quarto. Paga bem.Depilei-me e trouxe sabonete. . querendo um dia ser como ela. Essa Arlete armou-se em parva e acabou sem nada. – Eu já falei com ele.Hã.A sério?! . .A Arlete. Queria ter aquele corpo absolutamente escultural. Nunca mais ninguém aqui neste bairro vai ouvir falar de mim. – Mas eu também fiz aquilo que me pediste. essa – riu-se Milene. – Bem. toalhas e tudo o resto. nunca perdia a pose e a dignidade.Se ele quiser. mas subitamente passou a admirá-la. Depravados esses homens pá! Só querem saber de carne fresca.adiantou-se Sara curiosamente. gel de banho. Assim era Milene e era assim que Sara também gostaria de ser. .Aquela tua amiga… . vem-se depressa e não pede para que lhe façam muitas coisas esquisitas. ele diz-te o nome! Se ele não disser. . . .És boa ouvinte – respondeu Milene acendendo um cigarro..Para quê que isso te interessa? Não precisas saber o nome. filhos ou qualquer outra coisa interessante. Sara não soube como.Sim. Quem já passou dos trinta que se lixe.O que é que queres?! Quem entra nesta vida já não sai.O quê? . especialmente se não tem família. a que estava contigo na primeira vez que cá vim. e tudo porque Sara não conseguiu controlar as mãos trémulas. aquela sensualidade que parecia transpirar-lhe de todos os poros e a confiança de uma mulher que apesar de saber que era prostituta. Está no segundo piso e é um dos meus melhores clientes também.Como é que ele se chama? – perguntou Sara à cautela. .

.iria saltar pela boca. . foi a primeira coisa que Sara reparou. Ele queria-a. – Chama-se Luísa – mentiu Milene. mas pelo menos estava bem vestido e aparentava não ter passado dos trinta e cinco. – Tudo bem eu pago.Hã pensei.Tens a certeza? .Duzentos e cinquenta!? Estás a gozar com a minha cara? . Pensava em oferecê-las a Sara. mas assim que ele estendeu o braço.Quantos anos tens. .Obrigada! .…é claro que quero – respondeu ele observando Sara dos pés à cabeça. Queria-a não só pela idade.Qual é?! Vais reclamar do preço? Estou-te a fazer uma oferta dessas e tu ainda reclamas? Já olhaste bem para a cara da miúda? O corpo? Tens sorte é de estar-te só a pedir duzentos e cinquenta. – E vê lá se tratas bem a minha colega. O Nuno está lá em baixo.Só queria confirmar.adiantou-se Milene.Tem calma. pelo corpo. . Sim.Dezasseis – respondeu Sara. – Ou vais-me dizer que não acreditaste quando te disse que a gaja ainda era menor? . Quando a porta do quarto se fechou com um pequeno estrondo e Sara se viu completamente sozinha naquele quarto ao lado de um desconhecido que tinha praticamente 85 . já sabes o que te acontece. se te portares mal. sendo que a primeira pessoa a entrar foi Milene e logo a seguir.…era desta rapariga que te estava a falar. Não estou a desconfiar de ti! . É só descer lá em baixo e… . .O. . eu arranjo outro cliente num piscar de olhos. Luísa? .k – interrompeu o cliente alcançando a carteira no bolso das calças.Duzentos euros! Ou melhor. Milene adiantou-se dizendo: .Agora viraste chula. – Como é que te chamas? Silêncio foi a resposta que obteve. princesa. o preço duplicava ou triplicava – discursou Milene demonstrando bem todos os anos de experiência que conseguira adquirir para si. mas também pelo rosto inocente que ela aparentava ter. afinal de contas era ela quem lhe iria prestar o serviço. Seria ele o seu primeiro cliente. a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta abriu-se.Queres o BI? – perguntou Milene voltando-se rispidamente para o cliente. assustada. . Era alto. O pânico apoderou-se de si. – Mas tu é que sabes! Se não quiseres ou não tiveres dinheiro para pagar. ouviste?! É uma gaja fixe! Por isso. o cliente. A carteira abriu-se e do seu interior saíram duas notas de cem e uma de cinquenta. – Quanto é? . – Bem… . é?! . A miúda parece ter mais idade do que aquela que me disseste.Então?! Queres ou não? . não parecia ser muito simpático. Não era muito bonito.Parece ser interessante – respondeu ele lançando um olhar intenso a Sara que a gelou dos pés à cabeça. duzentos e cinquenta – respondeu Milene batendo o pé no soalho. porque noutro lado. apoderou-se mais do que poderia imaginar e qualquer ruído ou movimento da porta era um sobressalto seu. quando finalmente se conseguiu sentar na cama.Não te metas aonde não és chamado – respondeu ela enfiando as notas no decote da camisola. Por fim. Realmente não era todos os dias que uma rapariga daquelas lhe passava pelas mãos e desperdiçá-la seria burrice.

pois na verdade. – Não queres falar sobre o assunto não fales. Lavou os cabelos com o Shampoo que trouxe de casa. . foi doloroso. veio a sensação de alívio e a vontade de desaparecer daquele quarto para voltar ao trabalho.Não! Hoje estou de folga.Não é preciso. veio uma sensação de alívio. Era tarde e isso ficou provado pela ordem do cliente: .Ela não me está a explorar – respondeu ela enrolando-se no lençol da cama. de calmaria e o enxugar do corpo com uma toalha. . . 86 .És servida!? . uma onde de nervosismo voltou a atravessar-lhe o corpo e os pensamentos.Não é nada disso! Só não estava à espera de te encontrar aqui. Mais tarde. – Essas putas são muito espertas e aproveitam-se de novatas como tu.Estás a gozar comigo.Não sejas parva – respondeu ele enfiando-lhe a nota nas mãos. Sara viu-se metida num verdadeiro inferno sem tempo e sem hora para acabar. o pescoço e atirou-se novamente para o chuveiro para se consciencializar de que se tinha realmente prostituído pela primeira vez. as pernas. A intenção era a de se aliviar e de retirar dos ombros todo o stress a que foi submetido durante a semana.Não sabia que vocês tiravam folgas durante a semana.Não sabia que era assim tão feia – respondeu a última levando dois pauzinhos à boca.Como é que foi o quê!? . não?! O que é que acabaste de fazer? . obrigada. . . – Ai! Que susto… .Não.k – conformou-se Milene com a falta de pormenores fornecidos pela jovem.O.Foi normal – respondeu Sara encontrando a suas calças de ganga sobre o cadeirão.Hoje não vais trabalhar? . .Como é que foi? . .idade para ser seu pai. Já pagaste. . .exclamou ela quando se deparou com a figura de Milene a devorar a comida chinesa comprada num dos muitos restaurantes asiáticos do bairro. O cliente não foi nem um pouco cuidadoso com ela. e durante largos minutos. – Não deves deixar que a Milene te explore – disse ele a Sara enquanto vestia as suas roupas.Ele foi muito bruto contigo? . Seria tarde demais para fugir? Tarde demais para se arrepender de um pecado que nem sequer havia cometido? Sim.Em todo o caso é um aviso que te dou! Se quiseres continuar nesta vida tens que abrir os olhos – entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. .Despe-te! Foi horrível do princípio ao fim. . esfregou os braços. – Toma! Guarda para ti. . – Guarda! A primeira coisa que Sara fez quando o cliente desapareceu foi enfiar-se por debaixo do chuveiro e retirar do corpo todas as marcas e vestígios que ele lhe deixara no corpo durante os quarenta minutos em que a possuiu como se ela fosse apenas um mero pedaço de carne. Depois disso.Mais ou menos. não era essa a sua intenção. Os chinelos foram calçados para que não tivesse que pisar o chão imundo da casa de banho e a roupa interior vestida em silêncio enquanto regressava ao quarto.

O que é que fizeste? .Trabalhaste no quê? . – Até me deu dinheiro para isso desde que desaparecesse e nunca mais me pusesse a vista em cima.Fui despedida porque fiquei grávida.Foste despedida só por causa disso? . .O filho da mãe do meu patrão despediu-me quando descobriu que a miúda era dele.Uma filha – emendou Milene largando a sua cerveja sobre a mesinha.Tiveste um filho? .Nunca tiveste um emprego a sério? .Num restaurante lá para os lados de Odivelas.Se não quiseres não contes – respondeu Sara sentando-se numa das pontas da cama quando terminou de se vestir. . .Não respondeste à minha pergunta. – Tu é que fazes os teus próprios horários! Não tens nenhum patrão chato para te dar ordens e também não tens que descontar para a segurança social. Mas… .Aonde é que ela está? 87 .…sim.. Não pago rendimentos mínimos a ninguém… . .Mas o quê?! . – Queres um emprego mais cansativo do que estar deitada numa cama de pernas abertas à espera que o teu cliente se venha? Isto quando não é de pé num beco qualquer! A sorte é que a maioria não se aguenta mais do que vinte minutos. Não quis que a mulher soubesse.E achas que esse não é um emprego a sério – riram-se as duas enquanto Sara terminava de se vestir em frente à cama. .Que pergunta?! . . até estava disposta a fazer a porcaria do aborto só para me livrar da criança.E porque é que saíste de lá? Uma outra hesitação foi a resposta oferecida por Milene. até porque ela também trabalhava no restaurante.Na hora H não tive coragem. . – Foste despedida? .Porquê?! . . o quê? .És curiosa. hã?! . .Se nunca tiveste um emprego a sério? A miúda é esperta. .Ele queria que eu fizesse um aborto – respondeu Milene continuando a devorar o almoço improvisado. Percebeu também que por mais magistral que tivesse sido a sua desculpa para fugir à questão Sara não se deu por vencida.Eu. acobardei-me! Tive medo de morrer. de ficar doente sem ter ninguém que cuidasse de mim e tive medo de perder a minha filha. Sei lá. .…já – respondeu ela após um longo silêncio. Eu aceitei o cheque claro. Milene percebeu isso em poucos minutos. .ela pareceu hesitar.Pelo menos essa é uma das vantagens de se ser puta – respondeu Milene bebendo um gole de cerveja pelo gargalo da garrafa. e deu-me um pontapé no rabo. e se queres que te diga.E tu? .

Como é que ela se está a portar nesses dias? – perguntou Sérgio após o longo suspiro lançado pela namorada. Sara lançou um suspiro e quase que desejou cair no corredor de tão cansada que estava. A miúda é a minha cara… – riram-se. .Sim! No meu quarto.Em passarmos um fim-de-semana fora de Lisboa. .Sim! Queria levar-te a conhecer o meu avô ao Alentejo. sabias?! .Bem.Olá Sara – disse Sérgio lançando-lhe um breve aceno. Quando regressou a casa após uma tarde inteira passada no Intendente. mas ainda assim parecia que um batalhão lhe tinha caído em cima. a estúpida sensação de querer repetir aquela experiência assim que possível. tem mania que sabe tudo e anda sempre a ver se me consegue sacar as roupas e os sapatos. – Mas para ela desde que mande dinheiro todos meses para me tomar conta da miúda.A tua mãe sabe que tu és… . – Então?! Ficas para jantar? . eu acho! Mas com a Sara tudo é imprevisível. .Sabe – interrompeu Milene não escondendo a voz amarga. – Já és cá de casa. Lembraste quando te disse que um dia te iria apresentar a ele? Pois então! O senhor Luís quer conhecer-te.No Porto com a minha mãe! Chama-se Daniela e tem seis anos. ser espancada ou parar à prisão.. a sensação de que tinha feito algo de mal embora não soubesse bem o quê e.…e em breve também vais poder dormir cá. . . mas o que importa é o dinheirinho sempre conta no primeiro dia do mês.Tudo! Bem. por fim. .Tu não precisas ser convidado – afirmou Madalena mostrando-lhe um doce sorriso. Era também a sensação de que o cheiro dele estava entranhado na sua pele. Nunca sei o que ela está a pensar.Eu não tenho fome. . 88 . quer lá saber! Posso morrer com Sida. . O jantar já está pronto. vou subir para o meu quarto. . .Fora de Lisboa!? .Ai é!? Muito bom ouvir isso. – A sério! É toda espevitada.Ainda bem – riram-se baixinho. .Estive com umas amigas – mentiu a jovem.Aonde é que te meteste? – interrogou Madalena assim que ela entrou na sala e se deparou com a figura sempre exasperante do namorado da mãe.Falaste-lhe sobre mim? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. .Se for convidado. . . E não era só isso. .Não demores muito a descer. .Que coisa? . mas não de uma boa forma.A adolescência passa. . o que vai fazer…! Enfim! É uma autêntica caixinha de surpresas.No teu quarto? . Só tinha atendido um cliente.Mas também não vais dormir sem comer – respondeu Madalena vendo a filha a desaparecer da sala sem sequer olhar para trás ou responder à sua ordem.Mal posso esperar por isso – respondeu Sérgio beijando-lhe os lábios. – Tudo bem? . – Sabes. estive a pensar numa coisa… .

– No domingo à noite já estamos de volta.É claro que ele fica – respondeu Sérgio oferecendo-lhe um outro beijo. pois apesar de já ter chegado aos quarenta. . Apesar da relutância inicial. Mas a verdade é que Madalena não perdoou. Madalena livrou-se das acusações e pediu igualmente o divórcio ao marido com a clara certeza que nunca mais o voltaria ver com os mesmos olhos. marido ou até mesmo com o teu pai!? .Na sexta-feira à noite e voltávamos no Domingo. E vai ser divertido! Vou-te ensinar a pescar. Tinha sido a gota de água. . desde que te conheci que não lhe tenho falado sobre outra coisa.Eu adoraria conhecer o teu avô. tu sabes disso! Mas o problema são os meus filhos.Eu também acho – concordou Madalena deixando-se levar pelos braços dele em direcção à cozinha. ajudar o meu avô no pomar que ele tem. o dinheiro extraviado de uma empresa de telecomunicações foi devolvido ao Estado. . mordeu o lábio inferior quando ela confessou que iria passar dois dias no Alentejo na companhia do namorado e tentou igualmente esconder os ciúmes que sentiu quando percebeu que a ex. aliás. mulher havia encontrado alguém que se interessasse por ela. foi um choque o pedido de divórcio que Madalena fez questão de lançar em tribunal e um choque também encontrar as suas malas à porta de casa quando estava certo que ela o perdoaria por ter passado uma noite inteirinha na prisão. . – Vais ver! O nosso fim-de-semana vai ser inesquecível. – Estás aí?! . Vamos ver se ele me consegue ficar com os miúdos.Não – riu-se ela. .Exactamente! Queres coisa melhor? . Depois disso. Jorge aceitou tomar conta dos filhos durante o fim-de-semana. Jorge lembrou-se de todas estas características que durante anos lhe passaram despercebidas.Durante o fim-de-semana todo? . Então?! O que é que me dizes? . – No Alentejo… .Na sexta-feira só se for depois das seis e meia.. 89 . muito pelo contrário. tinha sido a humilhação máxima ser presa por um crime cometido pelo marido e por ele nem sequer se ter dignado a comparecer à polícia enviando apenas um outro advogado com as instruções exactas para que não o comprometesse. Foi um milagre de facto.Porque é que não deixas a Sara e o Daniel com o teu ex. apanhar ar puro.Hã… estou – respondeu Jorge voltando ao planeta terra quando ouviu a voz no outro lado da linha. Ouviu as explicações de Madalena. – E quando é que íriamos? .Então podes vir buscar os miúdos este fim-de-semana? .Então eu vou falar com o Jorge amanhã. não porque Madalena não fosse uma mulher bonita e interessante. Na verdade. continuava a radiar uma beleza igual ou superior à de muitas mulheres de vinte.Várias vezes.Um fim-de-semana – suspirou Madalena sentindo-se bastante tentada a aceitar aquele convite tão aliciante. vamos fazer grandes passeios. E enquanto falava com ela ao telefone. Não posso ausentar-me durante um fim-de-semana inteiro.São só dois dias – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos lisos. .

Vá lá – pediu Sara encarecidamente.Escuta. É só uma festa que costumam organizar num clube de streap lá para os lados do Bairro Alto.Se calhar era melhor – respondeu Madalena descendo os estores da janela. mas com uma enorme vontade de voltar.Festa?! Que festa? . Madalena e Sérgio iriam passar dois dias na pequena vivenda do avô dele e aproveitar toda a paz. E de facto. . temos bebidas de graça e os clientes são um pouco mais civilizados que os de cá.Deve estar quase a chegar. – A minha mãe vai viajar este fim-desemana… . Tudo estava combinado. ela arrumou uma pequena mala assim que chegou a casa e enfiou no seu interior apenas roupas práticas. . Ouviste o que o gajo disse no outro dia? Que eu pareço muito mais velha do que sou.E daí? .começou ela por dizer a Milene. Não há problema – disse Madalena observando os movimentos dos seus clientes na floricultura.Não me podes levar a essa festa? . . mas ele é muito mais liberal que ela. Achas que me consegues arranjar algum cliente? .. .Estás louca – riu-se Milene com uma gargalhada seca. . .Daí que estava a pensar em passar hoje à noite pelo bairro. onde é que a tua irmã se meteu? Ela já arrumou as coisas dela? . – Está trancada no quarto.Hoje não vai dar – respondeu Milene observando com atenção o movimento dos carros não fosse um deles parar com um cliente lá dentro. Depois disso. – Tenho uma festa para ir. calmaria e tranquilidade que a região do Alentejo oferecia aos seus visitantes. esses momentos iriam ser muitos. . .Mãe. mas ainda assim Sara encontrou tempo para telefonar à sua nova amiga Milene. – Vou ficar com o meu pai. Ouve-se boa música. – Não tens idade para lá entrar. – Leva-me a essa festa! 90 . o pai não vem? – foi a pergunta de Daniel quando entrou na sala com cara de poucos amigos . o que as unia era uma relação estritamente profissional.Não sei – respondeu Daniel sentando-se no sofá de braços cruzados. Então?! Leva-me contigo! Prometo que não te vou atrapalhar.Tu já me atrapalhas.Nada de especial.Ele chega sempre atrasado. . entregava o dinheiro ganho e abandonava o quarto da pensão sentindo-se imunda. – Queres que comece já a levar as coisas para o carro? – perguntou Sérgio arrastando as malas em direcção ao corredor. querido! Tem só mais um pouco de paciência. .Tudo bem. alguns objectos pessoais e uma máquina fotográfica com a qual pretendia fotografar todas os momentos especiais da viagem. ela tinha certeza. A prostituta arranjava-lhe clientes e ela satisfazia as suas vontades sexuais quase diárias. Ou será que não seria demasiado precipitado chamá-la de amiga? Na verdade. Todas as semanas vamos lá à cata de algum ricalhaço que esteja disposto a pagar bem. decidido e tratado. A mochila estava pronta e o casaco sobre a cama. Para isso.Se for contigo tenho a certeza que ninguém vai desconfiar que eu ainda não tenho dezoito anos. – Fico à tua espera então.

na altura. Aliás. A viagem ao Alentejo correu sem quaisquer sobressaltos e só terminou perto da meia-noite quando Sérgio estacionou o carro em frente a uma pequena moradia pintada de azul e branco. sem filhos. mas eu também tenho compromissos e também trabalho tanto quanto tu – respondeu Madalena fechando a porta enquanto os dois homens se fitavam vorazmente. Sérgio sorriu. sem o stress de uma cidade tão agitada e barulhenta como Lisboa e também sem olhar para o relógio.Tens razão. Não foi preciso muito esforço para perceber quem ele era. . – Será que ele vai gostar de mim? . – Boa tarde – respondeu Sérgio observando-lhe a entrada pelos portões da casa. Não era uma casa muito grande ou luxuosa. enquanto a poucos metros. pois apesar de nunca se terem cruzado antes. ouviu-se o barulho de uma 91 . força de vontade era tudo o que não lhe faltava. . Porque é que não haveria de gostar – respondeu ela seguindo-lhe os passos em direcção à porta principal enquanto o seu coração voltava a bater mais forte e Sérgio se esfalfava para encontrar as chaves que guardara no bolso do casaco.Sei que estás louca para o teu fim-de-semana.Eu sei que tens compromissos e que trabalhas. mas ainda assim. as árvores não evidenciavam qualquer sinal de que estavam a ser levadas pelo vento e as estrelas no céu fizeram os seus olhos brilhar de alegria e emoção.Será que o teu avô já não dormiu? . Porque é que não haveria de gostar? . marido. . a porta abriu-se sem muito esforço. olhos claros e cabelos castanhos. – Boa tarde – disse Jorge com uma cara de poucos amigos. especialmente quando sabia bem que aquela seria uma das oportunidades raríssimas para ter Madalena só para si durante dois dias. ao ver-se diante dela. O fim-de-semana iria ser especial e ele pôde ter essa certeza quando tornou a fechar o porta-bagagem sob o olhar atento de um homem de estatura elevada. Não viste que a luz da sala continua acesa? . Não parecia muito simpático. . Por sorte. O tempo estava ameno. marido de Madalena.Já estão prontos à tua espera.Meu Deus – riu-se Madalena.As malas da viagem foram colocadas no porta-bagagem do carro e para isso Sérgio precisou apenas de dois braços e alguma força de vontade. as parecenças com Daniel e Sara fizeram-no antever que era o pai deles e consequentemente o ex. mas também tens que compreender que eu tenho compromissos e que trabalho… – respondeu Jorge não conseguindo esconder os seus ciúmes quando Sérgio também entrou pelo corredor adentro.Então eu vou chamá-los porque não me quero demorar muito por estas bandas. na sala.Os miúdos!? . e depois disso. – Até que enfim chegaste – disse Madalena abrindo a porta ao ex. mas também era compreensível que não fosse tendo em conta aquele encontro no mínimo constrangedor em frente a uma casa que um dia também foi sua. Madalena não conseguiu evitar o sorriso que lhe atravessou o rosto e a sensação de que tinha acabado de chegar ao paraíso.É claro que vai. isso era um facto. – Vamos entrar? – perguntou Sérgio levantando do chão as malas que trouxeram de Lisboa. .Não! Ele está à nossa espera. encontrou o casaco de Madalena e pendurou-o no bengaleiro atrás da porta. as malas foram colocadas a um canto do corredor.

– Não precisavas ter medo de nada.Muito prazer. Contudo.Nem tanto – respondeu Sérgio largando o casaco de cabedal sobre o sofá enquanto Madalena tentava dissecar discretamente toda a decoração existente naquelas quatro paredes. os pequenos barquinhos de madeira sobre as estantes. – Não querem beber um chá? – perguntou ele interceptando os olhares perdidos de Madalena.Também era o que mais faltava depois de te ter trocado as fraldas desde que nasceste. a mãe de Sérgio.Bem …eu também estava muito ansiosa para o conhecer! O Sérgio falou-me imenso a seu respeito – respondeu Madalena retirando a expressão esbugalhada dos olhos. . mas sim com um inesperado abraço. senhor Luís – disse ela estendendo-lhe a mão com um largo sorriso enquanto desejava que ele não a deixasse ali especada. homem – exclamou uma voz grossa irrompendo o corredor.Estou muito contente que estejas aqui comigo. foi a primeira impressão de Madalena quando lhes ouviu as risadas e se sentiu um verdadeiro peixe fora de água à espera de ser salvo da morte certa. agradecia. amor?! . – Vô. 92 .O que é que eu te disse? – indagou Sérgio envolvendo os braços à volta da cintura de Madalena.Claro! Claro que falou bem. . E prova disso era os dois porta-retratos que ele fazia questão de manter sobre a mesinha junto à janela. o cumprimento de Luís não veio com um aperto de mão.pequena cadeira de descanso guinchar ruidosamente.Queres um chá. espero?! . .Quero – respondeu ela à pergunta de Sérgio e Luís com um largo sorriso. este é o meu avô! O grande senhor Luís Restelo.Bem. Não havia dúvida de que aquela casa era habitada por um homem ligado ao passado e às recordações de uma vida que nem sempre teve momentos felizes. . Se ele não tivesse gostado de ti. Sérgio abriu um largo sorriso e rapidamente se apressou a cumprimentar o avô oferecendo-lhe um longo abraço e também um beijo na face. mas vocês devem estar cansados da viagem. com certeza já te teria jogado esse facto à cara. esta é a Madalena! A pessoa de quem tanto te falei – fez Sérgio as apresentações. Ao ouvi-la.Ainda bem que não jogou – riram-se baixinho. Eram muito unidos. .Vai-me jogar esse facto à cara para o resto da minha vida – respondeu Sérgio voltando-se para Madalena com uma felicidade que não passava despercebida a ninguém. ao contrário do que ela estava à espera. Era como se ela estivesse à espera do momento exacto para o fazer e como se encontrasse a paciência necessária para não o ter feito antes. .O teu avô é muito simpático. Adorou os móveis velhos clássicos. não?! – adiantou-se Luís levando os seus convidados em direcção à sala. – Aliás.Então vou pôr a chaleira no lume! Já venho – disse o dono da casa desaparecendo da sala. . Uma da sua falecida mulher e outra da sua falecida filha. – Até que enfim. . vô? – interferiu Sérgio poisando-lhe a mão sobre o ombro. . .Falou bem. algo que a deixou deveras surpresa. – Madalena.Achas que ia falar mal de ti. . Adorou. . . . um quadro pintado a óleo e as centenas de livros amontoados a um canto da sala.Já estava a ver que nunca mais a conhecia – exclamou ele. .

Só?! E já tens esse corpo? . mostras sempre com um dos dedos sobre a fotografia e passas rápido para que eles não fiquem a olhar muito tempo para o cartão. Milene não a deixou esperar em demasia naquela rua deserta e ventosa.Mesmo assim – disse Milene que de todas era a que mais jogava pelo seguro.Isto se lhe pedirem – interferiu uma das prostitutas. . Mas por sorte. Mas nem a promessa de uma possível tempestade impediu Sara de sair do quarto e fechar a porta com cuidado para que o pai e o irmão mais novo não se apercebessem dos seus planos mais secretos. . Trajada com uma mini-saia.Eu também – confessou Madalena encontrando-lhe os lábios no meio daquela sala desprovida de quaisquer luxos desnecessários. querida. meias de renda pretas e um casaco que lhe cobria o corpo todo. . – Olha quem é ele – exclamou Milene abrindo um sorriso radiante quando um homem se aproximou de si a surpreendeu um longo abraço. de todos… . – Quantos anos é que ela tem? .Também – riram-se eles ainda com os lábios colados no outro. vindo acompanhada por mais duas colegas de profissão visivelmente embriagadas. passou-lhe essa pergunta pela cabeça enquanto lançava os olhos ao relógio de pulso via que nele estavam marcadas doze horas e cinquenta e nove minutos. Ao contrário das estrelas no céu que o Alentejo apresentou. .Boa – riu-se uma das prostitutas. Será que ela vem. . Apanhou o último metro da noite e em pouco tempo viu-se no local onde havia combinado encontrar-se com Milene. Se a bófia faz uma rusga por lá estás lixada e eu também.O. O clube situava-se numa das ruas mais recônditas do Bairro Alto.Trouxe-te um BI falso – disse Milene retirando da mala um cartão com a fotografia e o nome de uma mulher de vinte e um anos. o céu tornou-se carregado e cheio de nuvens. A fila de espera para entrar estendia-se para lá dos dez metros e quase todos os clientes aguardavam a sua vez. longe de tudo. ela encontrou as chaves e saiu com o único intuito de passar uma noite completamente diferente a todas que havia passado até então. muitas vezes acompanhada pelo pai ou pela mãe.Longe dos problemas. animados pela noite e também pela música barulhenta que se fazia ouvir no interior do edifício. – Desaparecido! 93 . . – Meninas. – Eu também estou muito contente de estar aqui contigo.Dezasseis – respondeu Sara. e mesmo Sara tendo passado por aquela zona umas milhares de vezes. naquela noite. .Ainda perguntas!? Com a tua idade não estás autorizada a entrar em clubes de streap. em Lisboa. – Ela também vai connosco..Para quê? – perguntou Sara compondo os cabelos soltos. esta aqui é a Sara – fez ela as apresentações. nunca imaginou que aquele estabelecimento sempre fechado durante o dia tratava-se de um clube de streap frequentado à noite por pessoas das mais variadas raças e estratos sociais.k – respondeu Sara aceitando a identificação com alguma cautela. – Mais uma para a concorrência. Quanto aos porteiros tens que ter cuidado quando eles te pedirem o BI… . – Se te pedirem o BI.

todos os clientes conseguiram entrar no clube e o divertimento tornou-se ainda maior. . pastilhas ecstasy e haxixe. a música tornou-se cada vez mais barulhenta.Para onde? – perguntou ela apreensivamente. . e pela primeira vez. por isso era natural que quisesse saber quem era.Tenho um sítio perfeito para nós. o cheiro a mofo das almofadas e a presença de uma arma de fogo sobre a mesinha de cabeceira. Demonstrava também não ter medo de nada. tudo o resto deixou de importar. nada menos. Depois disso. seguiram-se vários beijos. Mas quando ele as atirou ao chão e deitou Sara sobre a cama.Mais ou menos – respondeu Sara tentando esconder a timidez que sentia cada vez que um homem se aproximava de si. como caso de Marco. para além de fisicamente também o ter agradado bastante. Sara deixou-se levar pelos braços de Marco quando ele a levou para um canto recôndito. que pequenas doses de cocaína. – És muito bonita – segredou-lhe Marco aos ouvidos.Vem comigo! Foram precisos apenas trinta minutos para que Marco retirasse as roupas de Sara num dos muitos quartos em que guardava as suas mercadorias para serem levadas ao Algarve. . musculado e que trazia consigo uma confiança que poucos homens brancos possuíam.Então venham comigo. Nunca a tinha visto. .Estamos – respondeu uma das prostitutas que acompanhava Milene. . . Só vim buscar as minhas mercadorias e vou-me embora no domingo que é quando as estradas estão mais vazias. A pista encheu-se de pessoas. não é – riu-se Milene enquanto levava uma garrafa de whisky à boca. mercadorias essas que eram nada mais. alguns apalpões habituais em cada esquina do clube e a sensação de que a pouco e pouco ambos se estavam a envolver.Olá – disse ele cumprimentando-a na face. naquele quarto minúsculo. – Agora ando mais lá para os lados do Algarve a tratar dos meus negócios.Avisaram-me para nunca aceitar encontros em locais que não conheço. especialmente se fosse bonito.Não confias em mim? A pergunta de Marco tomou Sara de assalto. . inclusive a chuva a cair no tejadilho da janela.Sabes como é que é – respondeu ele rasgando alguns olhares curiosos a Sara.Há quanto tempo andas nisto? – foi pergunta de Marco quando acendeu o terceiro cigarro da noite.Se quiseres posso ser o teu cliente. algo perfeitamente compreensível para um homem de vinte e sete anos que passara a maior parte da adolescência em bairros degradados e em esquemas criminosos longe do conhecimento da polícia. Marco era um jovem mulato.Uma… amiga – respondeu Milene hesitante.Não sei – respondeu ela com um longo suspiro. Ponho-vos lá dentro num instante! Em pouco mais de uma hora. E ela respondeu dizendo.E esta rapariga quem é? – perguntou o desconhecido não escondendo a sua curiosidade por Sara. 94 . .. – És nova por aqui? . – Estão na fila para entrar? – perguntou ele. . – Não confias?! . Foi ali. Pago bem! Vamos?! .A bófia é uma seca. – É a Sara! Sara. – Obrigada. . mas sim como uma mulher que encontrara o verdadeiro prazer nos braços de um traficante de droga. . este é o Marco. . que Sara se entregou a ele pela primeira vez não sentindo de maneira nenhuma que o estava a fazer como prostituta.

Tinha um ar mil vezes mais angelical. . bonita e trazia nos olhos a inocência de uma menina que infelizmente se tinha perdido na vida.Só entrei para experimentar.Porquê!? . . – A isso é que se chama ter amor à profissão. mas que na verdade não se arrependeu nem um pouco. Havia algo nela e naqueles olhos inocentes. É isso? . Mas raios. Um favor que pela primeira vez fez a uma prostituta. Sara era diferente de todas as outras. Marco levou Sara a casa. De facto.Então não estou a perceber porque é que… . .Mesmo assim. Talvez por culpa da mãe.E porque é que entraste na vida? Os teus pais expulsaram-te de casa? . – Gosto de fazer sexo. .Vais gostar. . algo que o fez hesitar e cometer uma das maiores loucuras da sua vida – Vou-te dar o meu número. – Pronto! Já estás entregue – exclamou ele desligando o motor do carro assim que o estacionou em frente ao prédio que Sara lhe indicara. Só venho de vez em quando. ou talvez até mesmo por culpa sua.Só comecei na semana passada! A Milene arranjou-me os primeiros clientes.Toma – afirmou Marco oferecendo-lhe um papel rasgado e também um beijo na boca. A cozinha cheirava a café quando Sérgio e Madalena entraram nela de mãos dadas e com um sorriso rasgado no rosto.Não – respondeu Sara. do pai.Podes deixar. É bom para relaxar. era doce. mas eu moro com a minha mãe. procura-me… O sorriso de Sara trouxe algumas hesitações a Marco.Vou voltar a ver-te? – perguntou ela desfazendo-se do cinto de segurança.Bem – riram-se os dois.Então?! Para saber. – Eles são separados. Tinha sido só sexo. qual era o mal de fumar uma passa? Quando os primeiros vestígios do dia começaram a surgir. Queria saber como é que era! . Se já tinha experimentado coisas tão bizarras como fazer sexo com desconhecidos em troca de dinheiro. . Gosto de estar com homens e só penso nisso a toda a hora. várias amigas suas já fumavam. Na escola. Sara aceitou o cigarro das mãos de Marco e levou-o à boca ansiando experimentar pela primeira vez qual era a sensação de fumar. Mas sim. . . . . tinham dormido maravilhosamente bem no quarto de hóspedes preparado por Luís e mal esperavam para começar o dia com um longo 95 .Para quê!? . .Mas não me ligues a toda a hora..Mais ou menos – respondeu ela observando-lhe a expressão surpresa. .Eu não moro cá em Lisboa. Apesar de alguma hesitação. . Sexo entre um cliente e uma profissional e nada mais. Por sorte.E eu dou-te o meu… – adiantou-se Sara.Queres uma passa? – perguntou Marco mostrando-lhe o cigarro que tinha em punho. . mas ela nunca se atreveu a cometer tal acto.Porque quero. até porque ele não sabia até que ponto ela tinha levado aquela noite em consideração.Então quer dizer que és prostituta porque gostas. senão troco logo a porcaria do número. .Não sei! Nunca fumei. Quando vieres.Eu não vejo isto como uma profissão. .

. desde frutas a produtos artesanais. e faltava-lhe também sonhar em um dia terminar os seus dias num lugar assim. . Madalena riu-se alegremente. Já viste bem o meu avô? – interferiu Sérgio servindo dois cafés em frente à bancada. .Um pouco tarde. mas amanhã queria que ensinasses a Lena a pescar. Faltava aventurar-se pelas ruelas estreitas.Sim. – …espero que voltes comigo aqui outra vez – disse Sérgio quando as suas taças se tocaram sobre a mesa à hora do almoço. . 96 . Madalena não se escusou a tirar inúmeras fotografias para registar uma das viagens mais interessantes que fizera pelo país.Aonde é que vão? . .Estavas certo quando disseste que os dois se pareciam imenso – respondeu ela. Ela que se considerava uma portuguesa de gema e conhecedora de quase todas as cidades de Portugal.Pois vais ter que comer – interrompeu Sérgio entregando-lhe o café em mãos. absorver a beleza das casas caiadas. mas acordámos – respondeu Sérgio arrastando uma cadeira a Madalena. – Hoje temos um longo passeio pela frente. – Apesar de tudo ainda têm o dia de amanhã. nem pensar – respondeu ele.Eu também quero cá vir muitas vezes. agradeceu a gentileza e sentou-se à mesa perguntando em seguida ao dono da casa se este precisava de ajuda.Vou tentar levar isso como um elogio – disse Luís levando o pão fresco à mesa.Acordaram? – foi a primeira pergunta de Luís assim que entraram na cozinha. depois passear pelo parque e quem sabe se o tempo ajudar terminamos o passeio no lago. . – Para mim um hóspede é sagrado. admirar as pessoas à sua volta que ao contrário das que moravam em Lisboa caminhavam sem pressa de chegar a algum lugar e com a certeza que o mundo não acabaria no dia seguinte. . com um sorriso. Faltava conhecer a igreja da região trabalhada em arte barroca. Esta.Não se matem hoje – respondeu Luís servindo-se do chá de ervas que costumava beber todas as manhãs.Não muita! Confesso que de manhã não costumo comer muito. rapidamente percebeu que lhe faltava conhecer tanta coisa em apenas um fim-de-semana relâmpago.passeio pela vila. sem se importarem com o trabalho e muito menos com o facto de serem obrigados a voltar a Lisboa no dia seguinte. e enquanto visitavam os locais onde Sérgio havia passado grande parte da sua infância. garanto-te – respondeu ele. . – Muita fome. o mercado repleto de feirantes que vendiam de tudo um pouco.Vamos visitar o centro da vila.Bem. especialmente uma hóspede tão bonita como você. Ansiavam também conhecer todos os cantos turísticos e passar um dia no mínimo agradável sem olhar para os ponteiros do relógio. . – E dizes tu que o teu pai parece uma criança de oito anos. . Faltava cheirar a terra molhada.Vais gostar. eu não quero desapontá-lo senhor Luís.Aposto que não vou ter mais trabalho do que tive aqui com o meu neto. – Não. muitas delas pintadas com cores alegres e suaves. Leva-nos os pensamentos para longe e faz-nos pensar nas coisas com mais clareza… O passeio pela vila tomou-lhes toda a manhã. . mas acho que vai ter um grande trabalhão comigo – disse Madalena arrancando uma risada geral. – E o meu avô é um grande professor. .Eu?! – indagou ela voltando-se para Sérgio – Pescar? . Além de que a pesca é uma boa forma de relaxamento. Madalena? .

mas… .Sérgio. por exemplo? . não é?! – indagou Sérgio largando-lhe a mão. mas isso é uma questão de tempo até eu conseguir conquistar a confiança dela. E quanto ao Daniel e ao teu pai.Como assim?! . eles já gostam de mim tal como eu também gosto deles. – Estás a gozar. Tenho os meus filhos. .Tu sabes que eu nunca faria isso. . – Não vamos estragar 97 . – Daqui a alguns anos.Queria muito acreditar nisso.Mas também quero manter os pés no chão – respondeu Madalena poisando a sua taça de vinho sobre a mesa. . Madalena riu-se. quando os teus filhos estiverem crescidos. poluição. eu sei que a Sara não vai lá muito com a minha cara. – Uma família… .Eu sei.Mas o quê? . .É claro que vamos – respondeu Sérgio com uma expressão séria. não tos vou poder dar e tu vais acabar por me jogar esse facto à cara. Ela olhou-o.Mas nós já somos uma família – interrompeu Sérgio encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. casados e não nos restar absolutamente mais nada para fazer em Lisboa.. o silêncio apoderou-se da mesa onde Madalena e Sérgio estavam sentados. problemas… . E esse facto é de que daqui a uns anos tu vais querer ter os teus próprios filhos e eu não tos vou poder dar. . – Mais uma vez estás a falar da nossa diferença de idades. mas… existem coisas que um dia vais querer e eu não te vou poder dar. a minha floricultura… enfim! Tenho tudo.Não é nada disso.Quero que venhas morar comigo aqui nesta vila.Filhos – respondeu ela sem desviar os olhos dele. eu tenho a minha vida toda em Lisboa. . – Quer dizer. não?! . .O meu avô também te considera uma neta.Não estás a perceber. Por mais que eu queira.Porquê!? Não gostavas de morar num local onde não existe hora de ponta. eu também te amo muito. . .Então é isso. .O quê. – Nós vamos ficar juntos para sempre. . . e durante vários minutos apenas se ouviram o barulho das conversas dos clientes que se encontravam igualmente a almoçar duas mesas atrás. vocês já são todos da minha família.Mas eu não estou a dizer para nos mudarmos agora – adiantou-se ele. por mais que eu tente.Sérgio.No máximo teria idade para ser a filha dele. Para mim. Sérgio! Eu só estou a constatar um facto. stress.O quê?! . ele desviou o olhar e assim a refeição terminou com um sabor amargo de derrota.E será que até lá ainda vamos estar juntos? . eu sei que me amas.Mas pensarias e só isso já me faria sentir mal. mas… . Durante vários minutos.

voltou novamente à superfície e encontrou nos braços de Sérgio o conforto perfeito para se apoiar.Quando lá chegarmos vais perceber. ela pôde ter essa certeza quando lhe encarou o rosto depois de o ter pertencido sem quaisquer restrições. – Está bem. cresci também e não iria saber mexer-me noutro sítio.Quem sabe um dia não faço isso. Algumas horas mais tarde.Isto é um sonho – respondeu ele sugando-lhe os lábios no interior de um lago onde havia passado a maior parte da sua adolescência. Fica a poucos minutos se formos de carro.Não te queria chatear. – Acredite que teria muito gosto em recebê-lo na minha casa e assim você até poderia conhecer o meu pai. o avô de Sérgio não poderia ter ficado mais contente com o elogio da namorada do seu neto. Era a primeira vez que cometia uma loucura na sua vida. ele montou uma mesa improvisada no jardim das traseiras. . O mundo parou. quando ao retirar as roupas atirou-se para a água e sentiu-se a mergulhar até a um metro e meio de profundidade. a sua beleza e a candura que o seu sorriso transparecia a quilómetros de distância. . . Em poucos minutos.Não! Nunca tal ideia me passou pela cabeça. passou essa certeza pela cabeça de Sérgio quando a viu sorrir para si. – Nunca pensou em morar noutro local que não aqui? – perguntou Madalena voltando-se para o dono da casa.E porque é que me queres levar a esse lago? . . . mas também era a primeira vez que tinha a oportunidade de se atirar de cabeça ao desconhecido sem pensar nas consequências que esse acto poderia acarretar. Luís adorou a simplicidade de Madalena. foi o elogio que Luís ouviu de Madalena quando ela degustou a primeira garfada do cherne acompanhada de um gole de vinho. Está uma delícia. o tempo ameno permitiu que a refeição fosse servida sem quaisquer atrasos.Tu é que estragaste. Sim. – Nem por isso! Está óptima – respondeu Sérgio. .Quero mostrar-te o lago onde costumava brincar quando era criança. Além disso. Nasci aqui. E de facto. o sol voltou a brilhar quando as nuvens desapareceram do horizonte e os corpos dos dois amantes conjugaram-se na perfeição.O que é que vamos fazer agora? . Depois disso. Sérgio e Madalena regressaram a casa e encontraram à sua espera o cherne grelhado na brasa preparado por Luís Restelo. na cozinha. Desculpa! Infelizmente Sérgio foi obrigado a fazê-lo. 98 . E ela era a mulher da sua vida.Quem sabe um dia não nos vai visitar a Lisboa – disse ela. – Isto parece um sonho – confessou ela. enquanto mais tarde. E nem mesmo o facto de saber que ela era mais velha que Sérgio conseguiu diminuir a admiração que sentiu ao conhecê-la pessoalmente. Madalena se encarregou de fazer a salada e de retirar as loiças dos armários. lembraste? . Madalena percebeu todas as razões que fizeram Sérgio levá-la àquele lago. radiante. Por sorte.o nosso dia – pediu Madalena voltando a encontrar-lhe a mão sobre a mesa. Aposto que histórias em comum não vos iriam faltar. – A água está a ficar fria – riu-se Madalena. – Estava a ser tão bom. O barulho dos pássaros deixou de ser ouvido. Ele era belo. .

99 . Depois disso.Não sejas exagerado – defendeu-se Luís encabulado com os risos dos seus convidados. tais como a morte da sua mulher e da sua única filha. amor… – exclamou Sérgio voltando-se para Madalena com um largo sorriso nos lábios. Mas apesar de tudo ele sabia ainda lhe restava o neto. pela primeira vez Luís percebeu o porquê de ter conseguido arranjar forças para se manter vivo.Conseguiste que o meu avô prometesse uma ida a Lisboa. dias. Depois de a ver. enquanto olhava para Sérgio e o via completamente embevecido por Madalena. . ele sentia-se muito mais leve e apto a aguentar uma vida repleta de percas e desgostos.Bem! Já conseguiste um milagre. Aquela felicidade que parece colar-se à nossa pele e não nos deixar um só segundo. ainda lhe restava a única razão que o havia impedido de cometer suicídio quando à sua volta tudo pareceu ruir. E naquela noite em especial. cujo principal divertimento para ocupar as longas horas. . Foi para ver a felicidade estampada no rosto do neto. aí sim já poderíamos morrer felizes.. meses e anos de solidão. A noite terminou em beleza com um poema lido por Luís. era sem dúvida a leitura e a escrita de vários sentimentos que guardava dentro de si.Que milagre?! .

foi o melhor fim-desemana que já tive até hoje. Levei-te à casa de férias de um amigo meu e passámos quarenta e oito horas no quarto a … bem. . essa percepção estava a matá-lo por dentro. aliás. acompanhou os filhos em direcção ao portão principal e viu-se metido num enorme dilema interno. Depois disso.Duvidas porquê?! . marido sobre o alpendre. mulher iria ser algo difícil de suportar.Está bem – responderam os dois quase em uníssono. .Foi bom!? Pela tua cara deve ter sido horrível. lembraste!? O primeiro que passámos juntos quando começámos a namorar. Depois disso. Entrar ou não entrar? Enfrentar ou não Madalena e o novo namorado que ela tinha feito questão de lhe esfregar na cara semanas antes? Com certeza ambos já haviam regressado do maldito fimde-semana no Alentejo e com certeza que a felicidade estampada no rosto da ex.Desculpa. Após o divórcio. . mas eu realmente já não me consigo lembrar desse fim-de-semana – respondeu Madalena poisando as mãos na cintura.Há quanto tempo tu e esse rapaz estão a namorar? . . fez-se um silêncio ensurdecedor no corredor. Jorge começava a chegar à conclusão que as suas certezas foram infundadas e precipitadas.Nós é que pensámos que viesses mais tarde – respondeu Jorge observando a entrada dos filhos pelo corredor adentro. – O que foi? – perguntou ela ao vê-lo a olhar fixamente para si. onde ele adquiriu a certeza absoluta que Madalena nunca se iria conseguir refazer da separação e muito menos encontrar outro homem que se mostrasse interessado por ela.Até que enfim – foram as palavras de Madalena quando abriu a porta e se deparou com a figura dos filhos e do ex.Daniel! Sara! Vão já lavar as mãos – gritou Madalena enquanto eles subiam as escadas a correr.CAPÍTULO VI O fim-de-semana tinha chegado ao fim.Duvido – respondeu ele surpreendendo-a com tal afirmação.Em primeiro lugar o Sérgio não é um rapaz.Não. . 100 . . as portas dos quartos fecharam-se com estrondo e Madalena encontrou forças para voltar a encarar o rosto de Jorge.Foi bom. Jorge! O meu fim-de-semana foi realmente muito bom. . tu sabes bem a fazer o quê! . . . mulher. Percebeu também que tinha cometido um grande erro ao destruir casamento de dezasseis anos. e que aos poucos e poucos. – Pensei que viessem mais cedo. foi o que Jorge pensou quando estacionou o seu carro a poucos metros da casa da ex. – Então?! Como é que foi o tal fim-de-semana romântico no Alentejo? . . – Mas não se demorem porque senão o jantar arrefece.Nada – respondeu ele enfiando as mãos nos bolsos das calças.Porque o melhor fim-de-semana que tiveste até hoje foi comigo.

Muito pelo contrário. – Já percebi que esse assunto te incomoda.Ele não te contou qual é a cena dele no Algarve? .Claro – disse Madalena sustendo a porta com as mãos.Telefono depois para saber dos miúdos..Vou ver a minha filha! A minha mãe ligou-me a dizer que a miúda estava doente.Porquê?! . . .Esse Marco?! Só podes estar a gozar. – Amanhã vou ao Porto – disse ela saindo da casa de banho enrolada numa toalha. Era lá onde ela passava várias horas do dia e deambulava pelas ruas ao lado de Milene. O Intendente.O. era ali que Sara se sentia bem. . excepto de Milene. . – Bem … eu já vou indo.Ele não é assim tão mais novo que eu. a única que parecia nutrir um especial apreço por aquela jovem perdida na vida.O que esteve connosco naquela festa no Bairro Alto.É muito mais novo que tu.Quando é que achas que vamos voltar a ver o Marco? .Boa noite também para ti – respondeu Jorge afastando-se da porta sob o olhar atento da ex. uma força oculta conseguiu levá-lo ao carro de costas voltadas. O que me incomoda é o facto de estar a falar sobre esse assunto contigo. .k – riu-se Jorge num tom sarcástico. o tempo e o espaço pareciam completamente alheios à decadência que ali se vivia. . passou a angariar cada vez mais clientes. não? Desse gajo quero mais é distância. Em pouco tempo. encontravam-se todos numa das zonas mais degradadas de Lisboa. . . severo e sem a mínima margem de manobra para que ele continuasse a fazer-lhe mais perguntas.É alguma coisa séria? . Era habitual para quem passava por lá observar-lhes as gargalhadas. por acaso não me incomoda nem um pouco.k! Boa noite. Frio. .Não. De certeza que deve estar a precisar de dinheiro. Arlete e outras prostitutas do bairro. . raras foram as vezes que Sara colocou os pés no interior de uma sala de aulas.Porque é algo que não te diz respeito. – Gripe! Mas sabes como é que a minha mãe é! Faz um bicho-de-sete-cabeças só para que eu vá ver a miúda.O. mas mais do que a resposta. marido. 101 .Que Marco?! . Era ali que ela não se sentia julgada. os seus novos amigos e vícios. por isso é um rapaz. Nas semanas seguintes. A resposta de Madalena não poderia ter sido mais cruel. talvez pela sua idade ou aparência física.Acho que não – respondeu Milene apressando-se a vestir as cuecas. . despertando a inveja de algumas das prostitutas mais experientes da zona.Não – respondeu Sara apreensivamente.Porquê?! . mulher. E mesmo ele tendo pensado várias vezes em voltar-se para trás e encarar-lhe o rosto pela última vez. pois a sua vida. cruel foi o olhar que ela lançou ao ex. .Fazer o quê? – perguntou Sara curiosamente. enquanto do lado de fora do bairro. não recebia ordens e conselhos de ninguém e vivia conforme as suas vontades e desejos. senão nem sequer tinha ligado. . Mas por mais estranho que parecesse. Ele disse que morava no Algarve. . as roupas extravagantes e também a procura de clientes. – Só nos falámos duas vezes por telefone e foi assim meio rápido.

- Ele é traficante de droga, querida! E não é um traficante qualquer. É um da pesada. Coisa para gente adulta, não sei se me entendes. - Como é que sabes?! - Toda a gente conhece a fama dele – respondeu Milene vestindo uma camisola de malha em frente ao espelho. – O gajo nunca foi flor que se cheire, mas meteu-se com gente errada e acabou por fugir para o Algarve quando lhe mataram o irmão no bairro onde ele morava. Acho que a bala era para ele, mas como era de noite, confundiram os dois irmãos e o mais novo é que acabou por morrer no lugar dele. - Que horror. - Por isso é que ele só vem a Lisboa de vez em quando, mas não pára muito tempo para não ser apanhado… Sara sentiu-se atordoada ao ouvir o discurso de Milene, mas pior ainda ficou quando percebeu que Marco não era o homem ideal para qualquer mulher. A sua vida, cheia de actos criminosos e outras histórias escabrosas por contar, não parecia de maneira nenhuma conjugar-se com a dela. Mas ainda assim, havia qualquer coisa que não a deixava esquecelo. O que seria? Ou melhor, seria normal? No fundo, Sara sabia que não, até porque há muito que a palavra normalidade tinha deixado de fazer parte do seu vocabulário. – Bem, deixa-me ir andando – interrompeu-lhe Milene os pensamentos. - Aonde é que vais? - Vou-me encontrar com um cliente no hotel Ritz. - Uau! Que chique – riram-se as duas. - O gajo é podre de rico, tens que ver! Conheci-o há dois anos numa festa e desde então nunca mais me largou. - É giro?! - Não muito – respondeu Milene escovando os cabelos molhados. – Tem quase idade para ser o meu pai, mas pelo menos é simpático, paga bem e trata-me como uma verdadeira rainha. Depois do serviço gosta de conversar sobre política. - Estás a gozar, não?! – riu-se Sara animadamente. - Que me dera, mas não! E logo eu que não percebo nada disso. Mas o gajo sabe tudo. Também é presidente de uma empresa multinacional e tem uma data de conhecimentos. Quando começa a divagar, eu só aceno com a cabeça que sim e finjo que o estou a ouvir. Acho que o gajo nem percebe que a minha única vontade é desaparecer de lá com o dinheiro na mão. Tal como todas as noites, o jantar foi servido às oito horas por Madalena, e o convidado especial encarregou-se de colocar a mesa sob o barulho ensurdecedor da televisão da cozinha. Era a terceira vez naquela semana que Sérgio privava da companhia da namorada e dos filhos dela, restando poucas dúvidas de que também ele já fazia parte da família. Aos poucos e poucos, a sua amizade com o pequeno Daniel e o pai de Madalena foi-se consolidando, mas o mesmo não se podia dizer de Sara, que ainda continuava a ver no namorado da mãe um verdadeiro alvo a abater. Na verdade, o desejo da jovem em vê-lo pelas costas era imperioso desde o terrível incidente em que ela lhe colocou os pés por debaixo da mesa. Foi um acto irreflectido, os dois sabiam-no bem, mas o clima continuava tenso sempre que se viam nos corredores da casa ou eram obrigados a privar de uma refeição familiar. Depois do jantar, normalmente
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quando todos se refugiavam na sala a ver televisão, os olhares que Sara lançava aos constantes carinhos trocados pelo futuro padrasto e pela sua mãe eram esmagadores e ditavam uma verdade irrefutável: Ela odiava ver-lhes a felicidade estampada no rosto. - O Sérgio vai dormir cá em casa hoje – avisou Madalena já perto do final da noite. - Vou-me deitar – disse Sara desaparecendo da sala com uma expressão aterradora. Desde essa noite, várias foram as vezes que o fotógrafo pernoitou em casa de Madalena. Normalmente aparecia à hora do jantar, após um dia cansativo a fotografar nos estúdios e trazia consigo pequenas guloseimas para os filhos da namorada. Além das guloseimas, foram também trazidas as primeiras mudas de roupa, a escova de dentes e outros objectos pessoais que faziam claramente antever a sua mudança. Não achas que é demasiado cedo, foi a pergunta de Alice à melhor amiga, e Madalena, sempre com um sorriso, respondia que não e que se encontrava totalmente segura na sua relação com Sérgio. Mas a verdade é que essa relação não era bem vista por todos, especialmente por Sara, que só encontrava um aspecto positivo para o facto de o fotógrafo passar as noites em sua casa, e esse aspecto era o de ela conseguir escapulir-se a meio da madrugada para se encontrar com os seus novos amigos sem medo de ser apanhada pela mãe. Muitas vezes, encontrava-se com esses eles em bares nocturnos pouco apropriados para a sua idade, nos arredores do bairro e em cafés da zona onde clientes e prostitutas misturavam-se com o cheiro dos cigarros e da luxúria. Sexta-feira era o dia da semana mais movimentado no bairro do Intendente. Era usual os cafés e os bares encontrarem-se abarrotados de gente, e também era usual a polícia fazer algumas rondas pela zona apenas para se certificar que tudo estava a decorrer dentro da normalidade. Sempre que apareciam, Sara conseguia a ajuda necessária para se esconder e só voltava a surgir aquando do desaparecimento dos agentes de autoridade. Sim. Eram momentos de algum aperto, mas por sorte ela conseguia sempre fugir com a ajuda de Milene. Aquela noite não foi excepção. Os polícias fizeram as rondas habituais, pediram a identificação de várias pessoas estranhas ao local e logo desapareceram pelas ruas do bairro trazendo de volta o alívio a quem não tinha sido apanhado. – Anda – disse Milene fazendo um sinal a Sara para que ela pudesse sair da pensão onde permaneceram escondidas durante trinta e cinco minutos. – Os gajos já se foram embora. - Tens a certeza? – perguntou Sara olhando para todos os lados. - Claro. Anda lá! Foram precisos apenas alguns minutos para que Milene e Sara atravessassem a rua em direcção a um dos bares mais movimentados da zona. Mais uma vez, o estabelecimento encontrava-se apinhado de gente. Na aparelhagem soava uma música rock infernal e na única televisão do bar colocada na parede, passava um filme não muito conhecido. Aliás, o filme era tão pouco conhecido, que quase ninguém presente no local se dignou a levantar o rosto em direcção ao ecrã. Estavam todos entretidos em conversas informais, a beber e a confraternizarem entre si. Outros dançavam, riam-se às gargalhadas e tentavam esquecer-se de todos os problemas que rodeavam as suas vidas. Milene e Sara foram algumas dessas pessoas. – Ainda te lembras de mim?

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A voz não lhe era estranha, e ao voltar-se para trás com uma garrafa de cerveja nas mãos, Sara abriu um sorriso radiante. Era ele. Era Marco. Após dois meses de ausência onde apenas se comunicaram através do telefone, parecia quase um sonho tornar a vê-lo novamente. – Nem acredito! És mesmo tu? - Carne e osso – respondeu Marco levantando os braços. - Pensei que não viesses a Lisboa tão cedo. - Vim tratar de uns negócios, mas no domingo já estou de volta ao Algarve. E tu? O que é que andas a fazer por estas bandas? - Eu sou destas bandas, lembraste?! - Ainda na vida?! - E tem algum mal nisso? - Por mim não – respondeu ele pedindo uma imperial ao empregado do bar. – Só tenho pena que uma miúda como tu ande para aí a deitar-se com qualquer um. Especialmente com os gajos que passam por este bairro. Mereces melhor. O discurso de Marco mereceu um sorriso por parte de Sara. – Queres que te pague uma outra cerveja? - Claro. Pode ser – respondeu ela terminando a sua num só gole. Completamente alheios ao tempo e ao espaço, foi assim que Sara e Marco se sentiram enquanto conversavam perto do balcão acompanhados pelas suas respectivas cervejas, pelo barulho infernal da música e a movimentação das pessoas à volta. Obviamente que nenhum deles falou sobre assuntos importantes, não conversaram sobre a família, os amigos e muitos menos projectos futuros, mas ainda assim sempre que os seus olhares se cruzavam era como se o mundo parasse e tudo deixasse de ter significado. – Queres ir para outro lado? Isto aqui está barulhento – disse ele ignorando um telefonema inoportuno. - Tudo bem. Podemos ir. Pagas as bebidas, Marco e Sara saíram de mãos dadas e só voltaram a largá-las quando interceptados por Milene à saída. – Aonde é que vão? – perguntou ela, curiosa. - Vamos dar uma volta – respondeu Marco levando o cigarro à boca. – Porquê?! - Vão dar uma volta aonde? - Qual é a tua, Milene?! Viraste puritana agora, é? Ou vais-me dizer que resolveste adoptar a Sara como filha? - Eu só não quero que ela se meta em confusões. - Eu não me vou meter em confusões – interrompeu Sara sob o olhar aterrador de Milene. - Acho melhor ires para casa, Sara! Eu peço a um amigo meu para te levar. - Ela não vai com nenhum amigo teu – interferiu Marco puxando Sara contra si. – Vai comigo. - Sara… - Eu vou com ele – respondeu a jovem, resoluta. – Tchau, Milene! Depois falamos. O cheiro a tabaco tinha-se entranhado nos estofos do carro de Marco, mas nem o odor intenso ou o espaço reduzido dos bancos de trás, acalmaram o desejo e a excitação de Sara por ele. Submersa naquela pele achocolatada e naqueles braços musculados marcados por duas tatuagens, ela entregou-se e permitiu-se ser possuída sem quaisquer restrições. Com Marco era diferente, ambos sabiam-no bem. Com ele não o fazia por dinheiro, por luxúria,
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Ainda era demasiado cedo para sentir uma coisa dessas. O domingo amanheceu ensolarado e foi por essa razão que Sérgio resolveu regar o jardim com a ajuda de Daniel.k – respondeu ele oferecendo-lhe uma outra nota de cinquenta.Sara. .Eu não quero que me pagues – respondeu Sara indignada por tal gesto. Depois disso.Eu não quero ser tratada de maneira… .Quero aquilo que mereço. mas ainda assim Sara arranjou forças para abrir os portões e correr em direcção a casa sem sequer olhar para trás ou observar a expressão mortificada de Marco. é?! .Quem está na chuva é para se molhar. Madalena ultimou os preparativos do almoço que contaria não só com a presença do namorado. Mas também não penses que te vou passar a mão pela cabecinha ou sentir-me mal por te ter oferecido dinheiro.Posso voltar a ver-te antes de ires para o Algarve? – perguntou ela quando ele a levou a casa. . És puta mesmo. agarrou-se à almofada e fechou os olhos inchados numa tentativa desesperada de adormecer. Marco seguiu-a e alcançou-lhe os braços pedindo desculpa. a verdade é que não conseguiu tal feito quando chegou ao quarto e caiu na cama como um verdadeiro peso morto. não é?! . – Tu achas que eu sou igual a todas as outras. na cozinha.Não é nada disso… – defendeu-se ele. esquece! Não queres os cinquenta euros azar o teu. Afonso Soares. – Já separaste as tuas roupas sujas para pôr na máquina? – perguntou ela à filha quando a viu a entrar na cozinha. . uma presença habitual lá em casa.Podemos ver-nos amanhã.Vou no domingo. Seria amor? Não.Já – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. – É pouco – afirmou ela não desviando os olhos dele. . não és?! Não estás sempre a encher a boca para dizer que vais para a cama com homens porque gostas? Porque é que queres ser tratada de maneira diferente? . E mesmo tendo tentado controlar as lágrimas.O.Tudo bem – respondeu ela estendendo a mão com um olhar aterrador. mas havia realmente algo que a prendia a Marco e a deixava completamente rendida a ele.Não é um pagamento. . . – Paga-me! Apesar de se ter sentido surpreso com a reacção de Sara. 105 . . Só não quero que te falte nada. . Entretanto. .Tu estás-me a pagar – foram as últimas palavras dela antes de abandonar o carro e fechar a porta com força. – Já te chega? A humilhação tinha sido imensa. e ao vê-la a caminhar apressada em direcção aos portões de casa. mas também com a do pai. Marco acatou a ordem e entregou-lhe uma nota de cinquenta euros.Mas talvez eu seja mesmo! Talvez eu seja só mais uma prostituta a quem todos os homens pagam para irem para a cama.Eu ligo-te depois – disse Marco apressando-se a retirar uma nota de cinquenta euros da carteira. . – Toma! Para ti. . O que é que achas? . . Porque é que irias pensar que eu era diferente? Já me conheceste nesta vida.Queres mais.mas sim por um sentimento estranho que ela nunca pensou sentir por alguém.

– Então nesse caso acho melhor ir andando. . Não. . Assim sendo. era Marco. .k – disse Marco tentando ignorar os olhares de Madalena e Sérgio atrás das cortinas da janela.Não te esqueças também de fazer a tua cama de lavado. – Tens uma visita lá fora.Então… o que é que queres? . Bebeu um copo de água. E o homem que viste aqui no jardim não é o meu pai. passou essa pergunta pela cabeça de Sara. .Vim te ver – respondeu ele apoiando-se sobre os portões. – Não posso sair agora. e essa pessoa. não foi? . já que ela nunca se atreveu a fornecer a sua verdadeira morada a ninguém. A resposta trouxe um pesado suspiro por parte de Sara. .Porque é que não aproveitas para a fazer antes do almoço? Já que não estás a fazer nada. .Estão aceites.Não?! Pensei que era. mas deixou Sara especada sobre os portões com os olhos postos em Marco. . .Pensei que já tivesses voltado para o Algarve – afirmou Sara tentando manter uma expressão fria e altiva. muito menos a desconhecidos.Ele é só o namorado da minha mãe. nem um pouco.Mesmo assim! Não queria sair de Lisboa sem te pedir desculpas primeiro. atirou-o contra o lava-loiça e por fim preparou-se para sair da cozinha não fosse a figura de Sérgio ter-se atravessado no seu caminho. ela poisou as 106 . – Então?! Posso ligar ou não? . .Não me disse o nome – respondeu Sérgio sob o olhar atento de Madalena.Só vou hoje à noite. A despedida foi rápida e fria. .Para saber de ti – respondeu ele encolhendo os ombros. Enquanto ele caminhava calmamente em direcção ao carro.Pedir-te desculpas – respondeu Marco. Sara – afirmou ele desfazendo-se das luvas de borracha que utilizou para regar as plantas e a relva do jardim.Não. Ficaste chateada. mas ainda assim a jovem achou por bem acatar as ordens da mãe.Eu também acho. . a única alternativa que lhe restava era sair ao jardim e ver com os seus próprios olhos quem tinha tido a audácia de a procurar.Faço mais tarde.…podes.Quem!? . . .Não – respondeu Sara com poucas palavras.Porque estás aqui à minha frente – respondeu Madalena cortando os legumes sobre a bancada..Por causa dos teus pais?! .Não queres dar uma saída? Levava-te a almoçar num sítio qualquer. – O que é que estás aqui a fazer? .Não é por causa deles. ao contrário de todas as suas expectativas. – Apenas disse que era um amigo e que precisava falar contigo.Como é que sabes que eu não estou a fazer nada? . . – Porquê? Fiz mal? . . . Não poderia ser.Posso ligar-te um dia destes? . – Eu sei que fui um bocado parvo contigo na sexta-feira passada. Seria algum cliente.O.Para quê?! .

Se ela disse isso é porque era mesmo só um amigo – respondeu Sérgio começando a colocar a mesa do almoço. – Eu fui a adolescente mais bem-comportada do mundo. – Ela disse que era só um amigo – afirmou Madalena entrando novamente na cozinha.Meu Deus! Que mentirosa – riram-se os dois às gargalhadas. . .Era só um amigo – respondeu ela subindo as escadas a correr.Pois não devias – respondeu Madalena envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. Eu era uma menina muito bem-comportada se queres que te diga.Bem-comportada.E de onde é que a Sara o conhece? . amor! Não deixes o teu avô à espera na estação – afirmou Madalena enquanto ultimava os preparativos para o grande almoço de família.mãos sobre a cerca e permitiu que os seus pensamentos voassem dali para fora. Mas a verdade é que não o fez. . E a verdade é que essa semana passou a uma velocidade fantasmagórica. Quantos e quantos rapazes não foram à tua procura quando tinhas a idade da Sara? . – Quem era aquele rapaz? – foi a primeira pergunta que Sara ouviu da mãe assim que entrou em casa. Nunca dei trabalho aos meus pais e também nunca fiz nada de errado… . entendes?! Bati os olhos e não gostei. . 107 . Achei estranho. Faltavam poucos dias para a Páscoa quando um verdadeiro milagre aconteceu. Deveria sentir-se feliz com aquela visita? Talvez sim. sentindo-se honrado.Lena esquece esse assunto! Estás a fazer um bicho-de-sete-cabeças de uma coisa absolutamente natural.Não. – Eu não sou nada preconceituosa em relação a esse assunto.Se calhar da escola. .Por ser preto?! .Eu não sei. Reprimiu esse desejo e no fim odiou-se por isso. claro que não – defendeu-se Madalena de imediato.São só coisas da tua cabeça – respondeu Sérgio beijando-lhe os cabelos. E também não gostei nada do ar dele. . Madalena conseguiu convencer Luís Restelo. . o avô de Sérgio a passar a comemoração festiva em sua casa. . Após inúmeros telefonemas e convites.Não foram tantos assim.A conversa dos dois. – Ele parece ser muito mais velho! E também duvido que com aquela pinta ainda ande na escola. talvez devesse ter-se atirado para os braços de Marco e dito que o adorava acima de tudo.Estranho o quê?! . As amêndoas foram compradas. . . . o cabrito adquirido e os vinhos guardados no frigorífico para a ocasião especial. é?! Duvido… . Mas não sei! É o jeito dele.Tens a certeza que era só um amigo? A pergunta não obteve qualquer resposta quando Sara voltou a trancar-se no quarto fechando a porta com força. e o último.Não – afirmou Madalena instintivamente. não teve outro remédio a não ser aceitar o convite e a prometer uma visita sua para dali a uma semana. – É melhor ires andando.

Obrigada! És um anjo.Não consegues ir buscar o teu pai? .O que é que tem o teu pai? . – O meu pai.É só para te avisar que estou muito. Nessa altura.Hã… esqueci-me – berrou Madalena levando as mãos à cabeça.Apanhei um acidente no caminho e resolvi mudar o percurso.Bem. Sérgio concentrou todas as suas atenções para uma cena chocante que se estava a passar diante dos seus olhos. mas já nessa altura. foram as palavras que o fotógrafo repetiu vezes sem conta enquanto as buzinas dos carros começavam a ecoar naquela rua verdadeiramente estreita. . era nada mais..A Sara ainda não chegou? . O pior é que não valeu de nada! Estou preso numa outra rua por causa de umas obras que estão a fazer. Tenho o cabrito no forno. mas a verdade é que lhe restaram poucas dúvidas de que aquela jovem que tinha acabado de sair de uma pensão nos braços de um outro homem mais velho. Eu não queria que ele apanhasse transportes públicos para vir almoçar connosco. . O percurso em direcção à estação de camionetas poderia ter sido mais fácil se não fosse um aparatoso acidente ao qual Sérgio tentou contornar por um outro caminho mais demorado.Não. – Queres que te traga alguma coisa da rua? . . convencer-se a si próprio que o que estava a ver era fruto da sua imaginação ou então uma terrível coincidência. lembraste? O pior é que a Sara também ainda não chegou.Eu não sei. a filha da sua namorada. – Estás aí? – perguntou Madalena após um longo silêncio que ele fez questão de lhe oferecer ao telefone. que Sara. . então nesse caso vou indo. está bem – respondeu Sérgio observando a figura de Sara a desaparecer pela rua acima. O meu avô vai-me matar. . Já tentei ligar-lhe para o telemóvel uma data de vezes e dá sempre no serviço voice mail… As lamúrias de Madalena continuaram a ecoar-lhe nos ouvidos. três toques e ela atendeu a chamada. 108 . . dois. . – Eu vou buscá-lo.Hã… estou. Ainda tentou forçar a vista. ele encontrou o telemóvel sobre a caixa de velocidades e digitou o número de Madalena.O que é que aconteceu? .Não! Disse que ia entregar um presente a uma amiga que fazia anos mas que não se ia atrasar para o almoço.Não acredito – resmungou Madalena. nada menos.Podes deixar – respondeu Sérgio beijando-a nos cabelos. . Alheio a tudo o que se estava a passar à sua volta. Escuta! Eu já te ligo. mas mesmo muito atrasado – disse Sérgio largando as mãos sobre o volante. – Estou?! . não é preciso.Será que eras capaz de o apanhar? Ele telefonou-me ontem à noite para me dizer que o carro dele deu o berro e que está a arranjar na oficina. Não sei se me vou conseguir despachar a tempo de ir buscar o meu avô e o teu pai. Um.Já vou andando – respondeu Sérgio vestindo o casaco às pressas. . . o relógio assinalou onze horas e quarenta e cinco minutos e o trânsito pura e simplesmente parou.

marido era deveras tentadora.Não é preciso. . É Pascoa. marido.Cabrito. Só estou à espera dela para ir buscar o meu pai a casa – respondeu Madalena escorrendo a água da massa. Pai foi a palavra que Madalena ouviu enquanto fechava a porta do forno.Olá – respondeu ela largando uma toalha sobre a bancada. eu preciso de uma panela… . – Que surpresa ver-te por aqui. . . mas ainda assim.Já vi que não perdeste o jeito. . Sabes lá a que horas é que a Sara pode aparecer por aqui… A proposta do ex. . – O que foi?! Trago o teu pai num instante. menos eu – resmungou Jorge trincando a maçã enquanto observava os gestos da ex. que também foi convidada para o almoço. . vai atender – pediu ela ao filho enquanto levava o cabrito novamente ao forno.A sério?! Pensei que a Sara e o Daniel fossem os nossos filhos. eu não quero e nem vou discutir contigo agora! Tenho uma quantidade enorme de coisas para fazer.Se quiseres posso ir buscar o teu pai – afirmou Jorge para grande surpresa de Madalena.O telemóvel foi desligado e atirado novamente contra a caixa de velocidades. O seu ex. Daniel saltou da cadeira da cozinha e correu a abrir a porta.Disse que ia entregar um presente de aniversário a uma amiga da escola. Mas o pior é que já devia ter voltado. Raios.Olha. . Aonde é que se tinham metido? Faltavam poucos minutos para a uma da tarde quando Madalena sentiu a campainha tocar. .Já lhe ligaste para o telemóvel? – perguntou Jorge apoderando-se de uma maçã sobre a fruteira da cozinha. marido.Mas eu faço questão! Já passa da uma e tu sabes que o teu pai gosta de almoçar cedo. lembraste?! . Alice.Olá Lena… . Raios. Era Jorge. .disse ele entrando na cozinha alguns minutos mais tarde. 109 . ou teria Sérgio conseguido o milagre de trazer o avô e o pai dela em tempo recorde? – Daniel. . . . Seria Sara? Seria a sua melhor amiga.Cheira bem – disse Jorge apontando para o forno.Pensei que também fizesse parte da família. quando Sérgio lançou a cabeça para fora da janela.Aonde é que ela foi? . .E porque é que haverias de ser convidado?! . e depois disso. O que é que vieste cá fazer? . O que é que ele tinha lá ido fazer? . alguns passos vindos do corredor. Ao ouvir a ordem da mãe.Claro! O problema é que está desligado. mulher à volta do lava-loiça. se não te importares de sair da frente do armário. Por isso.Já vi que toda a gente foi convidada para este almoço. mas ainda assim Madalena hesitou em aceitá-la. .Oras! Vim ver os meus filhos.Não da minha família. a Sara não está – afirmou Madalena não se deixando afectar pelos elogios baratos do ex. .Jorge. Sara e o senhor desconhecido que a acompanhava desapareceram sem deixar rastro.Eu sei.

Afonso? . Continua o mesmo. . e consigo trouxe duas sobremesas especialmente adquiridas numa pastelaria perto da sua casa.E eu lembro-me que não gostavas nem um pouco de fazer isso.disse ela ajudando a colocar a mesa da sala. Já viste que horas são? Quase duas da tarde. – Mas vê se tomas banho antes de desceres para o almoço. .…está bem – concordou Madalena. esmeraste-te… . – Fui ter com uma amiga.Tudo só porque o avô do Sérgio vem cá almoçar? . . De um passado repleto de discussões. Foram muitos. murmurou ela levando o caroço ao caixote de lixo.Podes deixar – respondeu ele voltando-se para Daniel.Podes – respondeu Madalena percebendo-lhe o sarcasmo na voz. oh pestinha!? Não queres vir com o pai?! . . – Até que enfim! Aonde é que estiveste? . Saíste daqui às dez. mas também de não dar mostras de querer desaparecer tão cedo. – Mas não se atrasem. – Bem.Posso subir? – perguntou Sara num tom debochado.Vá lá. A resposta de Alice culminou com a entrada de Sara na sala e também com o olhar aterrador que Madalena fez questão de lançar à filha quando se deu conta do seu atraso imperdoável. . Jorge fazia parte do passado.. E Madalena pôde ter essa certeza quando ao lançar os olhos à bancada da cozinha foi obrigada a deparar-se com os restos da maçã que o ex. mas ainda assim não lhe trouxeram qualquer saudade. marido deixou antes de sair.Claro que não – riram-se as duas. – E tu. .Já te tinha dito – respondeu Sara rasgando alguns olhares a Alice. Anda lá! A visão através da janela da cozinha dos dois homens da família a entrarem no carro fez com que Madalena voltasse a recordar os anos em que esteve casada com Jorge. A primeira pessoa a chegar para o almoço foi Alice.Nem tanto assim – respondeu Madalena distribuindo os talheres pelos pratos. …um pouco. .Só se for no banco da frente. . Quando éramos casados cansava-me de ir buscar o teu pai e a tua mãe a casa. Com certeza deve ter ficado à conversa com a amiga e as duas perderam a noção das horas.Nota-se assim tanto? . pelo amor de Deus! . traições e faltas de respeito.Pois! Mas disseste também que não te irias demorar. – Também não se atrasou tanto assim. 110 . .Nunca te vi tão animada. Ele tratou-me tão bem quando fui passar aquele fim-de-semana à casa dele que eu queria retribuir-lhe a gentileza. .Eu não sei. coitada da rapariga – interferiu Alice continuando a colocar a mesa.Está bem! Vais no banco da frente então. . levou igualmente a boa-disposição que lhe era característica em momentos festivos.Águas passadas – riu-se Jorge enquanto terminava de comer a sua maçã. – Então?! Posso ir buscar o Sr. . Lena! Até parece que nunca fiz isso antes. Para além disso. – Quer dizer. quase dezasseis.Lena.A quilómetros de distância! Não há dúvidas de que o Sérgio te está a fazer muito bem. a melhor amiga de Madalena.

Foram precisos vários minutos até que a porta se voltasse a abrir com as chaves levadas por Daniel, e atrás de si, vieram o avô e o pai envolvidos numa conversa divertida, algo não muito incomum entre dois homens que sempre se deram muito bem e que nunca esconderam a admiração mútua que sentiam um pelo outro. – Olá, pai – disse Madalena correndo a cumprimentar Afonso quando todos entraram na sala. – Como é que estás? - Estou óptimo – respondeu ele despindo o casaco. – E tu? - Cansada, mas bem! O almoço já está pronto. Vieste na hora certa. - Então vamos almoçar. Estou a morrer de fome. - Não, ainda não. Ainda vamos ter que esperar mais alguns minutinhos – respondeu Madalena rasgando alguns olhares ao ex. marido. – Falta ainda o Sérgio e o avô dele. Os dois apanharam algum trânsito pelo caminho, mas o Sérgio ligou-me há pouco para me dizer que já estão quase a chegar. - Hã… claro. - Bem, nesse caso, eu já vou andando – disse Jorge quando se deu conta que a sua presença não era muito bem-vinda. - Porquê?! – interrompeu Afonso. – Fica para almoçar connosco. - Eu?! - Claro! Foste tão gentil em ter-me trazido até cá. O mínimo que podias fazer era dar-nos o prazer da tua companhia, não achas? Por momentos, Madalena pensou estar a sonhar quando ouviu o discurso do pai e o convite estapafúrdio que este fez a Jorge sem sequer a consultar. Será que Afonso tinha perdido totalmente a noção da realidade? Será que ele não a ouvira a dizer que o seu novo namorado e o avô dele estavam a poucos minutos de chegar à sua casa? - Bem… - disse Jorge, encabulado. - …eu não sei se a sua filha concorda com o seu convite, Sr. Afonso! - É claro que ela concorda. Não concordas, Lena?! O silêncio mantido por Madalena foi deveras constrangedor. – Não concordas? – insistiu Afonso fulminando-a com os olhos. – As crianças iriam gostar de passar a Páscoa com o pai. Não foi preciso esperar muito tempo para que Sérgio Almeida e Luís Restelo tocassem à campainha e para que Madalena lhes abrisse a porta com um largo sorriso imediatamente correspondido pelos dois. Depois disso, seguiram-se os cumprimentos habituais perto do corredor e a tentativa de fazer Luís sentir-se em casa. – Atrasados, nós sabemos – disse Sérgio. – Mas a culpa não foi minha. - Eu sei! A culpa foi do trânsito – respondeu Madalena forçando um sorriso ao avô do fotógrafo. – Espero que tenha feito uma boa viagem, Sr. Luís. - Não foi tão má como pensei que seria. Apenas alguns solavancos no caminho, mas por sorte não cheguei partido. - Que bom! Mas entre, por favor. Fique à vontade. - Obrigado – respondeu Luís aceitando o convite com alguma cautela. Nessa altura, Sérgio encarregou-se imediatamente de lhe guardar o casaco e o chapéu no bengaleiro. – Será que era possível ir à casa de banho? - Claro, vô – respondeu Sérgio apontando-lhe uma porta ao fundo do corredor. – É ali. - Obrigado – agradeceu Luís seguindo a direcção apontada.
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- Desculpa ter-te deixado sobrecarregada com os preparativos do almoço, mas é que nem fazes a mínima ideia de como é que estava o trânsito lá para os lados das Amoreiras. - Não, tudo bem – respondeu Madalena impedindo Sérgio de sair do corredor quando lhe alcançou os braços. - O que foi? - É que… eu precisava contar-te uma coisa antes de irmos para a sala. - O quê?! A expressão doce e sorridente de Sérgio fê-la sentir-se pior do que mal, mas a verdade é que Madalena não tinha outra opção a não ser contar que a lista de convidados se havia estendido para além do previamente estipulado. – Estás-me a dizer que o teu ex. marido também veio almoçar? - Eu sei que parece uma loucura, uma coisa ridícula. Aliás, não parece, é – interrompeu Madalena segurando-lhe o pulso com força. – Mas tens que acreditar que a culpa não foi minha! Foi o meu pai que o convidou. - E porque é que o teu pai o convidou? - …o Jorge veio ver o Daniel e a Sara, e eu sem querer acabei por lhe dizer que precisava de alguém para ir buscar o meu pai porque tu me tinhas ligado a avisar que estavas atrasado. Então ele ofereceu-se para ir buscar o meu pai e… - E tu aceitaste? – perguntou Sérgio tentando controlar os ciúmes que se apossaram de si. - Só porque não tive outra opção. A Sara ainda não tinha chegado da rua, eu tinha o almoço no lume e também não podia deixar o Daniel sozinho em casa. - O.k! - Então quando eles chegaram, eis que o meu pai teve a brilhante ideia de convidar o Jorge para almoçar connosco. Eu não queria, mas… - Tudo bem, Lena! Esquece. - Desculpa – disse ela observando-lhe a expressão desagradada. – Eu sei que é uma situação horrível, principalmente por causa do teu avô, mas eu não tive culpa. Foi algo que fugiu ao meu controle. Acredita em mim…! - Eu vou lavar as mãos à cozinha – afirmou Sérgio deixando-a especada no corredor a remoer todas as culpas por aquela situação no mínimo caricata. Tal como se era de esperar, o almoço tornou-se sombrio para Sérgio e Madalena, já que a visão de Jorge sentado à mesa retirou-lhes todo o apetite e trouxe um certo desconforto a Luís Restelo por perceber o desconforto do neto diante daquela verdadeira afronta a que ele tinha submetido. Talvez Afonso e as crianças não tivessem percebido o pouco à vontade dos restantes convidados, talvez estivessem demasiado entretidos com as piadas contadas por Jorge, mas a verdade é que nenhuma dessas piadas surtiu efeito para Madalena, Sérgio, Luís ou Alice. – Ainda não perdeste o jeito para a cozinha, Lena… – foi a gota de água dita pelo advogado no final do almoço. - Bem, eu vou buscar as sobremesas – respondeu ela recolhendo as loiças sujas. - E eu ajudo-te – interferiu Alice desejando sair daquela mesa tanto quanto a sua melhor amiga. Quando chegaram à cozinha, o estrondo das loiças a caírem no lava-loiça fizeram antever todo o ódio que Madalena estava a sentir, não só pelo seu ex. marido, mas também pelo seu

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pai, o responsável por toda aquela situação no mínimo caricata. – Eu devia suicidar-me… – disse ela. - Toma – respondeu Alice entregando-lhe um facalhão. - Obrigada pelo apoio moral. - Eu até acho que o almoço não está a correr assim tão mal. - Só podes estar a gozar – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico a fim de retirar as sobremesas que havia prometido aos seus convidados. - Achas que o teu pai fez de propósito? - O que eu acho é que ele está a ficar velho e senil. - Para mim a culpa é do Jorge. - A sério?! Não me digas. Nem tinha percebido uma coisa dessas. - Aposto que foi ele que manipulou o teu pai durante o caminho para que ele o convidasse para o almoço. É a cara do Jorge fazer uma coisa dessas! O gajo nem sequer consegue disfarçar que está a morrer de dores de cotovelo. - Dores de cotovelo porquê?! - Lena, não me digas que ainda não percebeste? Ele está louco para atrapalhar o teu namoro com o Sérgio – respondeu Alice colocando as taças das sobremesas no interior do tabuleiro. – Aposto também que ele quer voltar para ti. - Shiuuuu! Fala baixo! - Que mal é que tem? Está na cara de todos. Só um cego é que não consegue ver que o Jorge ficou cheio de dores de cotovelo quando soube que havia um outro homem interessado em ti. Isso é perfeitamente natural nos ex. maridos! Pensam sempre que nós nunca nos iremos conseguir recuperar do divórcio, que vamos acabar secas, sozinhas e a fazer tricô no sofá da sala, enquanto eles ficam livres e soltos para aproveitar a vida com rapariguinhas de vinte anos. Diz lá qual é a novidade nisso? Já era assim no tempo da minha avó. - Só me sinto mal por causa do Sérgio e do avô dele – disse Madalena levando as sobremesas à mesa da cozinha. – Imagino a impressão que Sr. Luís teve ter tido de mim. Ele deve pensar que eu sou uma descarada. Que ando com dois homens ao mesmo tempo. - Claro que não – riu-se Alice alegremente. – Acredita que deixaste bem claro à mesa que odeias o teu ex. marido de morte. - Deus queira que sim! Era a segunda vez que a observava a sair da sala e era também a segunda vez que lhe passava pela cabeça confrontá-la com o que vira horas antes. Foi por isso que Sérgio interceptou Sara à frente das escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e parou-lhe todos os movimentos com uma frase rápida e seca. – Vi-te hoje. Surpresa com a interpelação, a jovem voltou-se para trás e encarou-lhe a expressão séria. - Desculpa?! - Vi-te hoje numa rua perto de Campolide! Estavas a sair de uma pensão com um homem que tinha quase idade para ser o teu pai. - E o que é tu tens a ver com isso? - O que é que estavas a fazer com ele? - Não é da tua conta – respondeu Sara apoiando-se sobre o corrimão das escadas.

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o de avô Sérgio. . E para a surpresa das surpresas. Luís também contou histórias iguais. as horas pareceram voar. – Tem a certeza que não quer passar a noite connosco? – perguntou Madalena observando os gestos de Luís a vestir o casaco junto ao bengaleiro do corredor. . De facto. O ex. Por acaso essa amiga morava naquela pensão? .Já disse que não é da tua conta. Pela primeira vez desde a morte da mulher e da sua única filha. – E desculpe qualquer coisa. Passei uma tarde bastante agradável. E obrigado também pelo almoço.Sara.. Era bom poder conversar com outras pessoas. faltavam poucos minutos para as sete da tarde. Luís fosse voltar de camioneta. – A minha única alegria é saber que falta bem pouco para a minha mãe te dar um pontapé no rabo e voltar para o meu pai! Falta um pouquinho assim. . não queiras distorcer as coisas… . marido e também para que percebesse que nem mesmo esse acontecimento menos feliz destruiu a boa imagem que o avô de Sérgio tinha de si. mas obrigado pelo convite. os convidados deliciaram-se com as sobremesas confeccionadas por Madalena e divertiram-se com as conversas animadas de Afonso Soares. . 114 . o almoço decorreu sem quaisquer outros incidentes.Sim! E provavelmente vou lá dormir para não vir a conduzir tão tarde.Eu pensei que … o Sr. é isso?! .Desculpar o quê?! O sorriso confiante e paternal de Luís permitiu que Madalena se sentisse menos culpada pela presença do ex.Eu vou levar o meu avô a casa – interferiu Sérgio abrindo a porta da rua.Pensei que tinhas dito à tua mãe que ias entregar um presente a uma amiga. Sentados nos sofás e em algumas cadeiras espalhadas pela sala. e quando deu por si. . – Tem razão! Espero que faça uma boa viagem então. militar. cuja idade era praticamente idêntica à de Luís Restelo. Luís sentiu-se entre amigos e afastou dos ombros a sombra da solidão. . . Ou será que ainda não percebeste que durante o almoço tu e o teu avô estavam ali a mais!? Silêncio foi a resposta de Sérgio enquanto Sara continuava o seu discurso venenoso. projectar as suas experiências. oh! Apesar do mal-estar inicial que a presença de Jorge provocou. não hesitou em contar a todos os presentes algumas das peripécias passadas durante a guerra colonial.Tu andas a relacionar-te com homens mais velhos. Infelizmente tinha chegado a hora de voltar ao Alentejo e à sua vida reclusa. poucas dúvidas restaram relativamente à afinidade dos dois senhores e à excelente ideia de Madalena em juntá-los no mesmo espaço.Não.Eu se fosse a ti preocupava-me mais com a tua vida e menos com a vida dos outros.Obrigada eu por ter vindo – respondeu ela apertando-lhe as mãos com força. .E se estiver? O que é que tu tens a ver com isso? Também não te andas a relacionar com mulheres mais velhas? . Nessa altura. a mãe de Sérgio. conhecimentos e deixar de olhar os ponteiros do relógio à espera que por milagre eles andassem mais depressa.Ao Alentejo? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. naquele domingo particularmente ventoso.

mas… .Fugiste de Lisboa porquê? . a verdade é que nem todas conseguiram tal feito. Sérgio baixou o rosto. – Até já tinha comprado bilhete ida e volta. eu sei que no fundo ele torce para que a filha volte para o ex. Foi só nessa altura que ela chegou à conclusão que o que lhe estava a faltar eram os braços de Sérgio e o peito dele para que pudesse encostar a cabeça. duas. o fotógrafo lançou os olhos ao céu e tentou encontrar motivos para continuar a lutar por Madalena. marido de Madalena ainda fazia parte daquela família. Já vi que não há santo que lhe consiga mudar de ideias. .Não. ela não. – Eu também acho melhor que vá com o seu neto. . ..Falamos amanhã – foram as últimas palavras de Sérgio a Madalena antes de se afastar dela com uma expressão fria e carregada.É a Madalena. uma. Sr. Mas será que não fazia? Será que Sara tinha razão quando disse que faltava muito pouco para que Madalena e Jorge voltassem ao casamento de ambos? Foram essas algumas das perguntas que também retiraram o sono de Sérgio em casa do avô. Naquela noite.Eu também – respondeu Luís enfiando o chapéu na cabeça. Virou-se na cama.Magoado porquê? . não é?! Ficaste chateado por ver o ex.Chateado não é bem o termo – respondeu Sérgio permitindo que o seu avô se sentasse ao seu lado nas escadas. 115 . e o pai. Sentado sobre o alpendre da porta com um chocolate quente nas mãos. – Pensei que já te tinhas ido deitar – disse-lhe o avô. rapaz? .De onde é que foste buscar uma ideia dessas? Por acaso a Madalena tratou-te como se fosses um intruso? . mas o Sérgio quer levar-me a casa.Claro – disse Madalena forçando um sorriso quando percebeu os verdadeiros motivos para que o fotógrafo quisesse levar o avô a casa. – A filha dela odeia-me. . talvez. Madalena não pregou olho.Por me ter sentido a mais! Por ter sentido que era eu o intruso e não ele. Só precisava de… algum tempo para recompor as minhas ideias e pensar no que devo fazer. mas ainda assim o sono teimou em não aparecer. . e embora as estrelas no céu levassem para longe alguns dos seus pensamentos mais sombrios. o ex.Não sabia que estavas a namorar com essas pessoas todas – respondeu Luís. . .Não! Perdi o sono. – Pensei que estivesses a namorar só com a Madalena. ele começou a ter algumas dúvidas. marido também.Nada – mentiu Sérgio interiorizando a serenidade que aquele quintal lhe trazia. – Magoado.Então qual é o problema não estou a perceber. Luís! À noite as estradas são um pouco perigosas. Amava-a. marido dela no almoço. mas será que só isso bastava? Será que só isso chegava para que continuasse a lutar por ela? Diante de tudo o que tinha acontecido naquela tarde. .O que é que se passa. genro. quanto a isso não dúvidas. embora seja simpático comigo. . três vezes. Era óbvio também que ele se havia magoado com a presença de Jorge e com a certeza que o ex. Mas era óbvio que os acontecimentos daquele horrível almoço de Páscoa ditaram o afastamento do fotógrafo da sua cama.Eu não fugi de Lisboa. .

vô… .E porque é que querias pensar e ficar sozinho? .Eu não queria ter que te desculpar.Tempo?! Tempo para quê? . marido já não faz parte da tua vida. Tempo para pensar.Não. Madalena resolveu engolir o seu orgulho e procurá-lo à hora de almoço. Foram precisos apenas dois toques. eu não … . Ao subir os degraus das escadas. mas ainda assim. . – Que tal ter dito ao teu ex.Estás muito ocupado? . por sorte naquela tarde o trânsito ajudou e por sorte ela conseguiu chegar ao estúdio do fotógrafo em apenas vinte e cinco minutos.Não. – …olá… . . .Não sabes?! . – Porque é que não me ligaste? . Desculpa! .Tu humilhaste-me e tens consciência disso porque senão não tinhas cá vindo – afirmou Sérgio calando-lhe todos os argumentos. – Desculpa! Eu não queria ter feito o que fiz.Não sei – respondeu Sérgio não escondendo a sua fúria.O que é que eu podia fazer? . põe-te no meu lugar! Tu humilhaste-me … .Não sei. para ficar sozinho… . o seu coração disparou. Por sorte. O maldito almoço de Páscoa. marido que era ridículo sequer imaginar a ideia de o sentar à mesma mesa comigo e com o meu avô!? Quer dizer. – Não fui eu que convidei o Jorge para almoçar. . ela conseguiu arranjar forças para subir e para também tocar à campainha.Já te disse que a culpa não foi minha – afirmou Madalena largando os braços. Alice disponibilizou-se a tomar conta da floricultura.Precisava de tempo – respondeu Sérgio. Os momentos que se seguiram foram preenchidos com um silêncio ensurdecedor e com a certeza de que havia muita coisa a ser esclarecida desde o último almoço de domingo.São sim! É só com a opinião de Madalena que te deves preocupar e nada mais.Pode até ter sido o teu pai. Após quarenta e oito horas sem qualquer notícia ou telefonema de Sérgio. .Desculpa! Eu devia ter ligado. .disse ela quando os seus olhos se cruzaram com os de Sérgio. A única coisa que eu queria era ter a certeza que o teu ex.Porque eu pensei que também precisavas pensar e ficar sozinha. . 116 . mas a verdade é que não fizeste nada para o impedir.Desculpa – pediu Madalena correndo ao encontro dele.As coisas não são assim tão fáceis. Tudo o resto são detalhes. as mãos começaram a suar e os nervos a apoderaram-se de si. Que ele não tem acesso directo à tua casa e que não aparece lá sempre que lhe apetece.E qual será a opinião dela? – perguntou Sérgio voltando-se para o avô.Não. .Então pergunta-lhe – respondeu Luís abandonando o quintal e também todas as dúvidas que o neto carregava dentro do peito. mas parece que tu não estás disposta a fazer isso por mim. entra – pediu ele abrindo-lhe passagem em direcção ao estúdio.. . Foi o meu pai… . pensou Madalena enquanto se livrava da mala e do casaco que tinha nas mãos. Era só isso que eu queria.

pelos seus medos. – Tu nem sabes… .Tens a certeza? Diante da pergunta de Sérgio. Isto para não falar da Sara! Todos eles estão a torcer para que a nossa relação não dê certo e o pior é que tu estás a deixar que isso aconteça… . Lena! Mas eu não sei se vou conseguir lidar com isto tudo. . 117 . marido sempre que ele resolve aparecer ou então com a vontade do teu pai em querer que voltes para ele. Sérgio encostou-se à secretária e levou as mãos à cabeça. Ele envolveu-a nos braços. quanto a isso não havia dúvidas. ela teve dúvidas.A única coisa que eu sei é que eu te amo e que não quero ficar sem ti – respondeu ela amparando-lhe uma lágrima com os lábios. Prometo! A promessa da Madalena pareceu ter surtido efeito quando Sérgio lhe encontrou os lábios e os beijou com toda a paixão que possuía dentro de si. Depois disso. eu não quero discutir.Eu também. mas principalmente.Então vamos esquecer tudo o que aconteceu neste domingo.Boa! E depois a culpa é minha?! E depois eu é que estou a fazer de tudo para que a nossa relação não resulte? . receios e inseguranças. – Eu amo-te. as coisas eu que tenho aguentado… . .. – Eu não sei.Mas o Jorge já não faz parte da minha vida – respondeu Madalena num tom desesperado. Estava esgotado. Vamos colocar uma pedra sobre o assunto. . – Não quero.Eu não sei – respondeu Sérgio aos gritos dela. .Nós já estamos a discutir! Ao ver-se pela primeira vez sem argumentos.Eu também não. Eu prometo que vou fazer de tudo para afastar o Jorge de nós. – Não termines comigo – disse Madalena levantando-lhe o rosto com as mãos. esbaforida.Se tu soubesses como me tenho esforçado para que isto dê certo.E o que é que queres que eu faça? – gritou Madalena. – Eu não quero ficar sem ti – repetiu.murmurou ele com os olhos rasos de lágrimas. Foi por isso que eu me resolvi afastar. Não sei se vou conseguir lidar com o facto de ser obrigado a olhar para a cara do teu ex. . nada mais importou. – Eu amo-te. . por uma relação que lhe estava a consumir todas as forças.Lena. Esgotado por aquela discussão. . ela deixou-se envolver e os dois acabaram caídos no divã à espera que os beijos e as carícias pudessem apagar todas as palavras amargas que disseram momentos antes. mas… .

.Nem mesmo a Sara? .riram-se os dois. marido dela.Não vou tirá-lo do dedo nunca. . baixinho.Achei que fosses gostar.Viver contigo?! . e assim o casal continuou a projectar planos para um futuro que apesar de tudo parecia promissor. . . . – Mas é um passo importante para isso. . . .CAPÍTULO VII Os dias seguintes trouxeram alguma calmaria perdida após aquele fatídico domingo de Páscoa.k! Pensando melhor… .Ainda não – respondeu ele esboçando um sorriso carinhoso. é claro. .Tens mesmo a certeza que é isso que queres? . mas eu sei como lhe dar a volta. o aniversário de Madalena provou isso mesmo.A sério? Nem tinha percebido uma coisa dessas.Não tens que agradecer. – Talvez ela se vá opor um pouco. Ao ver-se com aquele discreto.Que venhas viver comigo – respondeu Madalena tomando-o de assalto com aquele convite inesperado. . Quero dormir ao teu lado todas as noites e acordar contigo todas as manhãs. Com um jantar romântico à luz de velas num restaurante italiano chamado Cipriani. . .Adorei – riram-se os dois apertando as mãos sobre a mesa.O. Mas eu tenho a certeza que nenhum deles se vai opor.Nunca me lembro de levantar a tampa da sanita. Sérgio tentou dissipar a suas dúvidas relativamente ao ex. Madalena não conseguiu esconder a emoção. tenho o péssimo hábito de deixar a toalha molhada sobre a cama e quase nunca dobro as minhas camisas… . – Eu quero muito. – Estás-me a pedir em casamento? .k – riram-se os dois.Eu vou falar com eles. Sérgio conseguiu definitivamente conquistar o coração dela ao oferecer-lhe um maravilhoso anel de compromisso. mas lindíssimo anel no dedo. – É lindo! . – Obrigada. De resto.E os teus filhos? .Tenho – respondeu Madalena sem quaisquer hesitações.Que condição? .Acho bem – respondeu Sérgio beijando-lhe a mão direita.O. .Mas só com uma condição. 118 . Madalena seguiu à risca as promessas que fez. Só o tens que usar.Olha que eu sou muito desarrumado.Sim! Eu quero que te mudes para a minha casa definitivamente.

Nem pensar.Não..Então vamos morar juntos – respondeu Madalena entrelaçando os dedos nos dele. .Devo aparecer aí por Lisboa na próxima sexta-feira e volto no mesmo dia. . Eu quero que te sintas em casa. disse-lhe. . Depois disso. – Não queres vir comigo ao Algarve? – perguntou ele já perto do final da conversa.Ainda bem – respondeu Madalena sugando-lhe os lábios no meio de um sorriso radiante.E quando é que voltávamos? . – Eu também quero morar contigo. foi a pergunta que a jovem gritou aos ouvidos de Madalena vinte e quatro horas antes de Sérgio se mudar de armas e bagagens.Vamos. e a sua felicidade. Sei lá! Combinávamos num sítio qualquer e eu levava-te comigo.Sim – respondeu ela sorrindo ao telefone. Chega.Não te precisas preocupar com isso – afirmou Sérgio envolvendo-lhe os braços à volta da cintura. . A mudança de Sérgio aconteceu duas semanas mais tarde. não penses – disse ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. Chega de passar a vida a pensar nos outros.Por causa da mamã?! . Tal como sempre. . Um facto que passou completamente despercebido o Sara enquanto o ouvia com atenção e se deliciava com a sua voz grave e grossa ao telefone. ela iria tentar ser feliz.Eu sei! E eu já sinto isso. . . . . Alguma vez te deixei ficar mal? 119 .Deixei-te também duas gavetas livres e uma outra na casa de banho. ele estava no Algarve metido nos seus inúmeros negócios esquivos e pretendia regressar a Lisboa no final da semana para entregar algumas mercadorias ilícitas. – Porque não sei se és de confiança.Não.Por minha causa? . claro que não! Por tua causa.Ir ao Algarve? Quando? . eu quero que sintas que esta é a tua casa. aliás. . Como é que ela se atrevia a colocar um perfeito desconhecido lá em casa.Está óptimo. .No domingo. e embora não tivesse sido aprovada pela maioria. . – Já te disse que me arranjo.É claro que eu sou de confiança. Dali para frente. – Achas que este espaço te chega? – perguntou Madalena abrindo as portas do seu roupeiro a Sérgio. A semana não poderia ter começado melhor para Sara quando recebeu um telefonema de Marco a meio da madrugada. . encontrava-se ao lado daquele perfeito desconhecido. Mas a verdade é que nem os gritos histéricos da filha impediram Madalena de levar os seus planos adiante.…eu não sei se vou poder ir – disse Sara sentindo-se mais do que tentada a aceitar aquele convite no mínimo inesperado. a porta do quarto de Sara fechou-se com um enorme estrondo e não se ouviu mais nenhum barulho durante a noite. a pensar no bem-estar dos filhos e a viver em função deles. . feliz ou infelizmente. o facto é que aconteceu e pouco ou quase nada houve a fazer por Sara que mais uma vez viu na presença do fotógrafo uma afronta especial oferecida pela sua mãe.

o que é que isso importa? Já estou chumbada mesmo – riu-se a jovem.O. . De qualquer maneira. .Normal. as compras do supermercado prenderam Madalena mais tempo do que estava à espera. Sérgio já havia iniciado os preparativos de um jantar no mínimo improvisado enquanto Daniel se entretinha a jogar na sua playstation portátil em frente à televisão da cozinha. ao contrário dos outros.…está bem – respondeu Sara dando-se por vencida. . Infelizmente.Ouve lá – disse Milene voltando-se para Sara. – Desculpem! Desculpem – pediu Madalena entrando pela cozinha adentro carregada de sacos de compras.Já vi que sim – respondeu Madalena apressando-se a beijar a face do filho.k! Se eu estiver iludida.Não. – Anda lá! Não me posso atrasar. naquela sexta-feira. . – Eu vou fazer tudo para ir contigo.O problema é que quando fizeres isso já vai ser tarde demais – afirmou Milene vestindo o seu casaco às pressas. .Maluca – exclamou Milene empurrando-lhe as costas. – Se queres que te diga. O plano parecia ser perfeito. . .Ele não presta! Estás iludida. mas isso não significa que ele seja má pessoa – respondeu Sara saltando da cama. . o trânsito infernal que apanhou durante o caminho apenas lhe trouxe uma enorme dor de cabeça.Então?! Vem comigo e eu prometo-te que vais passar um fim-de-semana inesquecível.Hum! Está óptimo. tudo iria desmoronar à sua volta tendo em conta a histeria da mãe. Queres pagar para ver? Paga! Tal como já me disseram. eu não sou a tua mãe. A minha especialidade.Chateado porquê? 120 . desiludo-me.Eu também tenho um cliente marcado para as três e meia. e para ajudar à festa. amor? Como é que foi a escola? . Mas a paixão que sentia por ele valia a pena? De certo que sim.Esparguete à bolonhesa. .Não faz mal – respondeu Sérgio entregando-lhe uma colher à boca. – Tu não sabes com quem te estás a meter – avisou-lhe Milene a dois dias da fuga. . mas nessa altura. Vou-me encontrar com ele no Campo Grande.Estás com uma cara! O que é que aconteceu? .Escuta! Eu sei que o Marco anda metido em negócios estranhos.Não! Eu consigo sempre apanhar as cartas da escola no correio. por isso não me deves satisfações e nem eu te devo conselhos.Vou trabalhar. – E tu. .Estou chateado – respondeu Daniel afastando-se bruscamente da mãe. – Atrasei-me. A chegada a casa aconteceu quando faltavam poucos minutos para às oito. . mas também arriscado. ele trata-me muito bem! Não me trata como uma prostituta. . – Prova o molho! Vê se está bom? .. . Sara sabia-o melhor do que ninguém e sabia também que quando voltasse do seu fim-de-semana com Marco.Aonde é que vais? . – Mas tudo bem. . – Os teus pais por acaso não desconfiam que andas a faltar às aulas para vir para cá? .

Estou-te a perguntar se a Sara está aí contigo – repetiu Madalena.Desculpa?! . – Alguma vez fui buscar a Sara e o Daniel sem te avisar primeiro? Na verdade não. . . eu estou a ir para aí! Qualquer coisa entretanto e não hesites em ligar-me. – Porque é que a Sara haveria de estar comigo? .Um problema?! .” .Jorge! Responde à minha pergunta. Não sei aonde é que aquela maluca se meteu. mas tal como deves calcular. .Claro que sim. impaciente. – Olha.Qual encobrir qual quê – exclamou ele levantando-se da cama.Porque é que o pai não me levou também? – interrogou Daniel não escondendo a sua irritação. meu Deus?! .Não sabes de alguma amiga com quem ela possa estar? Encontra um número – afirmou Jorge começando a ficar preocupado com o súbito desaparecimento da filha. encostou-se à mesa para melhor o ler: -“ Mãe! Fui passar o fim-de-semana com o pai e volto no Domingo. . .O Jorge veio buscá-la? – perguntou Madalena depois de ter lido o bilhete vezes sem conta.Está bem – respondeu Madalena desligando o telefone sem muitas delongas. ao reconhecer a letra. se ela estiver aí contigo e tu a estiveres a encobrir… . Está tudo bem. marido e a sorte que foi em ele ter ouvido a chamada. Tens a certeza que não sabes nada da Sara? .Isto está-me a cheirar muito mal – murmurou Madalena correndo a alcançar o telefone sobre a bancada. E a última.Acho que é por isso – interferiu Sérgio entregando a Madalena um bilhete escrito por Sara horas antes. mas vou ter que ir à casa da minha ex.Não.Então aonde é que ela se meteu. mulher. mas está desligado. . não está – disse ele tentando desenvencilhar-se dos braços de uma mulher. Aconteceu um problema.Não sei! Quando chegámos ela já não estava cá em casa – respondeu Sérgio.Não.Porque ela deixou um bilhete escrito a dizer que ia passar o fim-de-semana contigo e que eu não precisava preocupar-me em ligar! Jorge. então com quem ela estava? – Já lhe tentaste ligar para o telemóvel? – perguntou Jorge. já disse que não! Não falo com ela desde quarta-feira. O número de Sara foi imediatamente digitado. – A Sara está aí contigo? . encontrava-se fora de área.Aonde é que vais? – perguntou a mulher que estava na cama de Jorge. . mentiu.A minha filha desapareceu – disse Jorge enfiando-se nas suas calças. . por favor… . Depois disso. Não precisas ligar. foi a conclusão a que Madalena chegou após ter reflectido pela primeira vez.E tu vais-me deixar aqui sozinha? 121 . . .. mas tal como sempre. seguiu-se número do ex. .Ela não está aí contigo? .Desculpa Catarina. – Disse à mãe que estava comigo. Mas se a filha não estava com o pai.

Eram dezenas de filmes pornográficos. é! Olha.. a tua fama já corre pela cidade inteira ou ainda não sabias?! Seguindo os conselhos do ex. princesa?! É claro que eu sei que não és uma prostituta.Vou ligar da sala – respondeu Madalena correndo em direcção à porta. Quando a porta do quarto se encostou com cuidado e os passos de Madalena se perderam pelo corredor. preservativos. Escuta! Se quiseres dou-te boleia até a uma praça de táxis mais próxima. os seus olhos esbugalharam-se de surpresa e consternação. Além disso. coisas que até ele não queria imaginar quando se lembrou que dias antes a havia visto a abandonar uma pensão ao lado de um homem muito mais velho. Ao segurá-los nas mãos. lingerie provocante e outros artigos escabrosos que nenhuma rapariga de dezasseis anos deveria ter em sua posse. . e a outra verdade é que Sérgio começava a chegar à conclusão que existiam muitas mais coisas para além do comportamento rebelde da jovem. eu não sou uma prostituta – afirmou Catarina levantando-se da cama. marido.Jorge.Sim. já te disse. Sérgio foi o único a encontrá-la. ele deixou de ter dúvidas. . mas é que eu precisava saber se a Sara por acaso não está aí contigo… 122 . foram as palavras que repetiu vezes sem conta enquanto revistava gavetas e armários com a ajuda de Sérgio. .Não! Eu vou ficar para ver se consigo encontrar outros números… . apenas veio a cimentar a suas desconfianças.Então liga-lhe. Amigas da escola. esbaforida. Mas a verdade é que estava tão cega e obcecada em encontrar o que procurava.Tudo bem.Que é isso.Estou – foram as primeiras palavras de Madalena quando a sua chamada foi atendida por uma das melhores amigas da sua filha. cinquenta e cem. Mas a verdade é que Sara tinha. amigas da escola. Não posso ficar aqui contigo sem saber o que realmente aconteceu com ela.Tens a certeza que é isso? . Sérgio voltou a abrir as portas do roupeiro a fim de encontrar a caixa de cartão que continha alguns dos objectos mais íntimos de Sara. O que estaria Sara a fazer para ganhar tanto dinheiro? . – Encontrei – exclamou Madalena erguendo uma pequena agenda cor-derosa. .Jorge. que nem sequer se apercebeu ou se deu conta de uma grandiosa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro. É da turma da Sara. mas tenho mesmo que ir! A minha filha desapareceu. . Sim. Coisas que ninguém sabia e que ninguém tinha coragem de imaginar.Bem que me tinham dito que tu não eras de confiança – resmungou Catarina apressandose a encontrar a suas roupas espalhadas pelo chão.Não tenho outra escolha. . Eu conheço-a. a mãe da Sara! Desculpa estarte a ligar a estas horas. e quando a abriu com alguma discrição para que a namorada não se apercebesse do que estava a fazer. Como é que podes pensar uma coisa dessas? . o facto de ter encontrado quinhentos euros em notas de vinte. tem aqui o número da Mariana.Que tal porque me estás a tratar como uma? . Madalena subiu ao quarto de Sara e apressou-se a encontrar qualquer objecto que contivesse números de telefone de pessoas próximas à filha.Eu sinto muito. – Graças a Deus encontrei! .Quem é que te disse isso?! . – Não vens? . – Mariana?! Sou eu.

Chumbou por faltas! E o pior é que eu não me posso dizer surpresa porque no primeiro período recebi uma carta da escola a avisar-me que ela estava em perigo de chumbar. Ainda não.Não é melhor ligar primeiro para os hospitais? – interferiu Sérgio.Não – respondeu o pequeno assustando-se quando ouviu a campainha tocar. .Não. Mais do que conseguiu imaginar nos seus piores sonhos e uma realidade que apesar de cruel. . boquiaberta. tu sabias disso? A tua irmã disse-te alguma coisa? . – A Sara chumbou de ano.Porque eu ia levá-la todas as manhãs à escola. Mas … eu pensei que tinha conseguido resolver esse problema quando a tirei da casa do pai. a Sara não tem ido às aulas? Enquanto ouvia a resposta de Mariana através do telefone. pois o desejo de encontrar Sara era mais forte do que tudo. – Há dois meses que a Sara não põe os pés na escola – afirmou ela voltando-se para Sérgio. pensou. Lena – disse Sérgio pressentindo o seu desfalecimento. Nessa altura. parecia também ser a mais provável. entendes?! Eu via-a a entrar nos portões. Encontrou-a com as mãos sobre a cabeça..Será que é ela? .Tem calma.Claro – respondeu Sérgio percebendo-lhe um certo tom de sarcasmo na pergunta. não! Eu há muito tempo que não a vejo. Aquilo era mais do que podia suportar. Madalena. o relógio assinalou vinte e duas horas e o esparguete à bolonhesa cozinhado por Sérgio esfriou sobre o fogão. Contudo. . Os passos nervosos e descontrolados de Madalena deixaram Jorge alerta no minuto em que ele pisou a sala. Meu Deus! Será que eu estava cega? . também o desespero tomou conta do advogado quando terminados todos os números da lista de contactos de Sara. .Posso entrar?! . .Isso não quer dizer nada. . ninguém sabia do seu paradeiro.Como é que… como é que eu não percebi isso antes?! Eu não recebi nenhuma carta.Eu vou lá atender – disse Sérgio correndo em direcção à porta enquanto na sala Madalena tentava convencer-se a si própria que tudo aquilo não passava de um horrível pesadelo.A minha filha já apareceu? – foi a pergunta ríspida de Jorge quando Sérgio lhe abriu a porta. Ninguém tocou ou se lembrou dele.Daniel. Nenhum telefonema da directora de turma… .Tem calma – disse Sérgio tentando alcançar-lhe os ombros embora Madalena se tivesse desviado a tempo.Hã. .Como não?! Vocês não são da mesma turma? Ocorreu um silêncio ensurdecedor no outro lado da linha. .A Mariana acabou de me confirmar isso – respondeu Madalena ignorando o olhar curioso de Daniel sobre si. os olhos marejados de lágrimas e um desespero patente por não ter a mínima ideia de onde a sua filha se tinha metido. – Mariana. .Tens a certeza que ela não tem ido às aulas? . D. . 123 . – Vou ligar para a polícia – disse Jorge encontrando o telemóvel no bolso das calças. . Madalena apenas teve forças para se encostar ao sofá e levar uma das mãos à cabeça. – Chumbou por faltas a meio do segundo período.

A única boa notícia era o facto de saber que a filha não havia sido registada em nenhum hospital público da cidade.Adivinha – respondeu Marco encontrando-lhe os lábios. Foram precisos poucos minutos para que a polícia tomasse conhecimento do desaparecimento de Sara e também para que se deslocassem à moradia de Madalena para recolher algumas informações adicionais e fotografias recentes da jovem desaparecida. 124 . e embora ninguém quisesse transparecer qualquer tipo de desespero.Eu nunca namorei com ninguém.Sim – respondeu Sara passando-lhe as mãos pelo peito musculado. mas eu disse-lhe que não era preciso.Esperamos – respondeu Jorge passeando pela sala. . . o que de todo não deixou Madalena menos preocupada. a poucos minutos das duas horas da madrugada. Depois destes procedimentos legais. não compliques pelo amor de Deus! Estamos todos nervosos. a verdade é que as horas passadas deixavam poucas dúvidas de que Sara tinha desaparecido sem deixar rastro. mulher pelas costas. o irmão e Sérgio se fizeram entre si. foi a pergunta que os pais. despediram-se dos donos da casa e prometeram empenhar-se na procura de Sara.Tornaste a ligar ao teu pai? Às vezes ela pode estar com ele. – Tens frio? . . – Ela não está com ele. ele até queria vir.Esperamos até quando?! .Um pouco – respondeu Sara envolvendo as pernas à volta da cintura de Marco enquanto as ondas do mar teimavam em levar-lhes para longe. – O que é que fazemos agora? – perguntou Madalena quando os policiais se foram embora.A polícia encarrega-se de fazer isso por nós – respondeu Jorge tentando controlar a imensa vontade de ver o namorado da ex.O que é que nós somos?! .O que é que nós somos? . Aliás. deixou-se cair nos braços de Marco numa das praias mais movimentadas do Algarve. . Ali. .Já liguei – respondeu Madalena voltando-se para o fotógrafo com os olhos inchados de tanto chorar.E como é que vais fazer isso? . namorados ou… .Eu já estou desesperada.Não faz mal! Eu aqueço-te. .. Cada um tentava se lembrar de um local onde ela poderia estar. Aonde é que ela está.O quê?! . . Alguém que pudesse ter alguma ideia do seu paradeiro ou até mesmo um mínimo sinal de vida oferecido pela jovem.Lena.E se não recebermos nenhuma informação da polícia?! . – Somos amigos.Posso te fazer uma pergunta? .Até recebermos alguma informação da polícia. ela mergulhou no mar e encontrou nele o amparo necessário para se esquecer da loucura que tinha cometido ao fugir de casa sem qualquer aviso prévio aos pais. que alheia a tudo o que se estava a passar em Lisboa. . mas não vale a pena entrarmos em desespero antes da hora. – interferiu Sérgio. O silêncio apoderou-se da sala por largos minutos. .

- Não queres namorar comigo? - Eu não iria conseguir namorar com uma gaja que vai para a cama com qualquer um. Se fosses a minha namorada, irias ter sair da vida! Não gosto nada de dividir aquilo que é meu. - E se eu saísse da vida?! Namoravas comigo? Marco sorriu. – Ouve! Eu não sou o tipo de gajo ideal para ti. - Eu sei. Eu sei dos teus esquemas! Sei que andas metido na droga e que o teu irmão mais novo foi assassinado porque o confundiram contigo. Eu sei de tudo isso. - Quem é que te contou? Aposto que foi a otária da Milene… - Foi ela sim, mas ela não fez por mal, eu é que perguntei. - Então se já sabes de tudo isso, o que é que estás aqui a fazer comigo? - Será que ainda não percebeste que eu não me importo?! Eu gosto de ti – respondeu Sara sem desviar os olhos dele. – Eu quero ser a tua namorada. Apesar de Marco não ter feito o pedido oficial, de resto, algo absolutamente impossível para um homem como ele fazer a qualquer mulher, Sara sentiu-se como a sua legítima namorada quando foi apresentada no dia seguinte a alguns dos seus amigos mais próximos. Quase todos pareceram gostar dela, e ela também gostou de todos, embora tivesse percebido alguns olhares menos simpáticos por parte de duas raparigas presentes no bar onde Marco a levou. Mas nem mesmo esse facto fez com que Sara esmorecesse ou sequer largasse a mão do seu novo namorado pois era com ele que ela queria estar. Era ele quem a mantinha naquele perfeito estado de euforia e era também o único que a fazia sentir-se feliz, bonita e desejada. – Toma – disse-lhe ele entregando-lhe um majestoso fio de ouro e uma pulseira de diamantes. – É teu. - É um presente? – perguntou Sara colocando o fio em frente ao espelho do quarto. - Sim. Gostaste? - Adorei! Mas isto deve custar uma fortuna. - A mim não me custou nada – respondeu Marco sugando-lhe o pescoço perfumado. - É roubado?! - Digamos que foi adquirido sem muito esforço. - E tu costumas oferecer presentes destes a todas as raparigas com quem andas? - Não. Só às mais especiais! - Então quer dizer que eu sou especial? - O que é que achas? - Que sou especial – riu-se Sara quando ele a beijou nos lábios. Vinte e quatro horas sem pregar olho fizeram de Madalena um verdadeiro zombie andante. Cada minuto parecia uma eternidade, qualquer barulho na porta a certeza de que Sara tinha regressado a casa e o toque do telefone uma réstia de esperança de a filha tinha sido encontrada por vivalma. Mas a verdade é tudo isso não passavam de fantasias quando confrontada com a dura realidade, e essa realidade era a de que Sara tinha desaparecido. - Devíamos ligar à polícia – dizia Afonso a cada dez minutos. – Pode ser que já tenham notícias. - Não vale a pena – respondeu Jorge levantando-se do sofá. – Eu vou dar mais uma volta de carro pelas redondezas. - Eu vou contigo – disse Afonso seguindo o ex. genro em direcção à porta.
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- Queres que faça alguma coisa para comer? – perguntou Sérgio a Madalena assim que a porta da rua se fechou com algum estrondo. - Eu não consigo comer nada – respondeu ela continuando a passear pelos quatro cantos da sala. – Enquanto não encontrar a Sara nada me vai descer pela garganta. - Tens que descansar! Não podes ficar nesse stress senão não aguentas. - Aonde é que ela se meteu, meu Deus?! Aonde? Já ligámos para toda a gente, já falámos com a polícia, contactamos hospitais, esquadras…! Ninguém sabe de nada. Parece que ela evaporou no ar. - Eu tenho a certeza que ela vai voltar – disse Sérgio para grande surpresa de Madalena. - Como é que podes ter certeza disso? - Se ela tivesse fugido para não voltar, teria levado todas as roupas dela e outros objectos pessoais, não achas? Mas ela não levou quase nada. Só uma mochila. Ninguém iria fugir só com uma mochila às costas. - E se alguém a levou? E se ela foi raptada? - Lena, pensa bem! Ela deixou-te um bilhete. Ninguém a obrigou a escrever aquilo. - Eu não sei. - Com certeza a Sara deve ter ido passar o fim-de-semana com uma amiga… ou com… um amigo… - Claro – exclamou Madalena voltando-se bruscamente para trás. – Aquele rapaz… - Que rapaz?! - Aquele rapaz que apareceu aqui uma vez à procura dela. Lembraste?! Eu disse-te que não tinha gostado nem um pouco dele e tu disseste que eram só coisas da minha cabeça. Mas quem sabe a Sara não está com ele? - Pode ser. É uma ideia. - Ele não te disse como é que se chamava? - …não sei – respondeu Sérgio tentando recorrer à sua memória. – Mas também não falámos muito! Ele só me perguntou se a Sara estava em casa e se ele podia falar com ela. Eu respondi que sim, mas depois entrei em casa para a avisar. Não! Lembrando agora, ele não me disse o nome. - O meu coração está-me a dizer que ela está com esse rapaz. Ela fugiu com ele. - Tem calma! Não nos vamos entrar em julgamentos precipitados. - Merda – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando Sérgio a abraçou com força. - Vamos esperar mais algumas horas. Se a Sara continuar sem dar notícias, contamos à polícia sobre esse rapaz. - Ainda te lembras da cara dele? - Lembro, claro – respondeu Sérgio tentando acalmá-la com um outro abraço. - Vamos esperar só até à meia-noite então! Só até lá. - O.k! Tal como o combinado, à meia-noite em ponto, Sérgio e Madalena forneceram outra pista à polícia relativamente ao desaparecimento de Sara. A cada hora que passava, a probabilidade da jovem se encontrar na companhia daquele rapaz desconhecido era quase certeira, e se assim fosse, não havia tempo a perder. Era preciso fazer um retrato robot e tentar encontrar-lhe o paradeiro, algo que Sérgio fez exemplarmente quando tentou recorrer
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à sua memória fotográfica. O rapaz tinha 1,80 m, a cabeça praticamente rapada, era mestiço, trazia dois brincos nas orelhas, calças de ganga um pouco largas, uma t-shirt azul escura e vinha a conduzir um BMW conversível. Os olhos também eram escuros, os lábios não muito grossos e o nariz comprido. - Tem a certeza que não se esqueceu de mais nada? – perguntou um dos policiais destacados para o caso. – Acho que não – respondeu Sérgio seguro de tudo o que havia dito. - Vão à procura desse rapaz, não vão?! – interferiu Jorge impacientemente. - Claro que sim – respondeu o agente. – Se ele tiver cadastro, vai ser muito fácil conseguirmos localizá-lo. Por sorte, naquele domingo, as estradas que ligavam o Algarve a Lisboa encontravam-se praticamente vazias, e enquanto seguiam por elas, Marco e Sara não resistiram a trocar várias gargalhadas, beijos e brincadeiras dignas de dois adolescentes completamente alheios aos problemas e responsabilidades. E na verdade, era assim que Sara se sentia cada vez que estava com Marco. Perdia a noção do tempo, do espaço e do perigo que um homem como ele poderia trazer à sua vida. – Pára – dizia ele cada vez que ela tentava lhe desviar o volante das mãos. - Tens que me ensinar a conduzir. - Ainda és muito nova para andar com uma máquina dessas. - Posso aprender… As últimas palavras de Sara coincidiram com uma brusca inversão de marcha que Marco fez em plena auto-estrada. Razão para ele ter cometido tal loucura? A presença da polícia numa das portagens à entrada de Lisboa. – O que foi? – perguntou Sara, assustada. - Cala-te e mete-me a merda do cinto de segurança – gritou Marco deixando-a completamente petrificada quando ao voltar-se para trás a visão de dois carros de polícia e as suas sirenes ruidosas tomaram conta da auto-estrada. Foi a primeira vez que ela se viu metida num verdadeiro filme de terror. Foi também a primeira vez que chorou de medo por se ver diante da morte iminente e por perceber que mostrador de velocidade do carro de Marco havia atingido os duzentos quilómetros por hora enquanto ele se desviava de alguns dos automóveis que circulavam em sentido contrário. O último culminou com um aparatoso capotamento no meio da auto-estrada e com o alívio que Marco sentiu ao ver que os carros da polícia haviam permanecido presos no acidente. Pronto. Estava feito. Ele tinha-se conseguido safar mais uma vez e a saída em direcção a Santarém trouxe-lhe de volta a calma perdida. - Sai – ordenou ele abandonando o carro num descampado. - Aonde é que estamos? - perguntou Sara completamente desnorteada. - Anda! Vou-te meter no primeiro táxi e vais para casa. Hoje ninguém me vê em Lisboa! - E tu? Como é que vais voltar? Vais deixar o teu carro aí? - Esse carro já não existe mais – respondeu Marco arrancando a matrícula e furando os quatro pneus, algo que já estava habituado a fazer em vários outros automóveis. Depois disso, abriu o porta-bagagem e retirou do seu interior a mochila que Sara tinha levado para aquele malfadado fim-de-semana. – Toma as tuas tralhas! Vamos… Apesar de ter jurado não derramar uma lágrima sequer após o maior susto que apanhou na sua vida, a verdade é que durante a viagem em direcção a Lisboa, várias foram as vezes que Sara se viu obrigada a limpar as lágrimas e a engolir o choro para que o taxista não se
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– Filha – exclamou Jorge correndo a tomá-la nos braços. a jovem não podia desejar um outro lugar para se esquecer dos verdadeiros momentos de horror a quem tinha sido submetida. . . gélido e que se mostrava cada vez mais aterrador à medida que ela se aproximava da filha. Depois disso. Mas ainda assim.Aonde é que te meteste? – interferiu Afonso fazendo os possíveis para se conseguir aproximar da neta. duas ambulâncias. No rosto. inúmeros polícias à volta do local. quando na verdade já era tarde demais para sentir qualquer coisa parecida. Daniel e até Alice que lá tinha aparecido para oferecer algum apoio moral à sua melhor amiga. e deitado no chão.apercebesse de nada. Afonso. ouviram-se passos lentos vindos do corredor. – Tome – disse ela entregando o pagamento ao taxista. . os olhos inchados de tanto chorar e a mesma roupa que trouxe vestida desde sexta-feira. o corpo do condutor que havia tido a infelicidade de lhes atravessar caminho momentos antes. Uma longa fila de carros.Fui passar o fim-de-semana ao Algarve – respondeu Sara para surpresa de todos. Madalena envergava as quarenta e horas que passou sem dormir. pareceu-lhe sentir o peso do mundo sobre os ombros e uma enorme vontade de desaparecer.Pode ficar com ele. e agora.Já disse que pode ficar com ele – respondeu Sara fechando a porta e voltando-se para os portões da sua casa. havia qualquer coisa no olhar dela que obrigou Sara a recuar dois passos. Ainda bem! . . . coberto com um manto branco. Madalena. – Fui sozinha. Quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e mais tarde se ouviu o guincho da porta. menina! Falta o troco.Não era preciso. Ela tinha errado.Com ninguém – respondeu ela desviando-se dos braços do pai. – He lá! Ainda não o tiraram dali – disse ele quando passou pelo local do acidente provocado por Marco. – Meu Deus! Ainda bem que não te aconteceu nada. a visão de Sara com uma mochila nas mãos. Jorge.Aonde é que estavas? – perguntou Jorge sacudindo-lhe os ombros. Estava assustada e não tinha a mínima noção de qual iria ser a reacção dos seus pais. Algo maléfico. Pela primeira vez desde que chegou à sala. Naquela altura.Espere. Por fim. Nessa altura. Entrar ou não entrar?! Essa foi a questão que Sara se colocou durante vários minutos. . e quando todos 128 . Os seus olhos amedrontados não deixaram sombra para dúvidas. apesar de ter plena consciência do que a esperava. com quem é que foste? .Ao Algarve? O que é que foste fazer ao Algarve? Aliás. Sara apercebeu-se da dimensão da tragédia que ela e Marco haviam causado. os olhos de Sara cruzaram-se com os da mãe. e ao forçar um pouco mais a vista através da janela do táxi. – Shiiiii! Morreu – exclamou o taxista levando uma das mãos à cabeça. Pareceu-lhe também ouvir uma voz interior a confirmar toda a sua irresponsabilidade e falta de bom senso. O carro que havia capotado duas horas antes encontrava-se completamente destruído. . – Meu Deus! Faltavam poucos minutos para as sete da tarde quando Sara finalmente se viu diante da sua casa. Sérgio. – Estávamos aqui todos a morrer de preocupação.São vinte euros. saltaram dos seus respectivos lugares e puseram-se alerta. e esse momento foi absolutamente arrepiante para as duas. . e por fim. a única coisa que lhe restava era pagar pelos seus erros.

eu arrombo-a! Não se soube se foi a voz do pai ou a sua ameaça. Os momentos que se seguiram foram tensos. . mas tal como se era de esperar.Eu já disse que fui passar um fim-de-semana ao Algarve. Tinha levado um estalo. – Se não a abrires. deixas-nos à beira de um ataque de nervos e ainda achas que tens razão?! Tens a noção da gravidade do que acabaste de fazer? E se te tivesse acontecido alguma coisa? E se tivesses sido raptada. mas a verdade é que as mãos de Sara atreveram-se a destrancar a fechadura. . não foi? . Madalena não hesitou um segundo em soquear-lhe vezes sem conta.Não é da tua conta. – Sara! Abre a porta! Abre-a agora imediatamente! Silêncio foi a resposta. – Porque da próxima vez. abre a porta – imperou o advogado.Eu não vou pedir desculpas se é isso que estás à espera – gritou Sara com os olhos vermelhos de raiva.Sara.Lena! . . Tentou também girar a maçaneta. .Porque é que não avisaste então? – perguntou-lhe o pai.Podes bater-me à vontade! Eu não vou dizer nada.Já disse que não é da tua conta. . Depois disso. – Quer dizer.É mesmo hoje que te mato – gritou Madalena lançando-se contra a filha com todas as forças que possuía dentro de si. . . – Nunca mais voltes a fazer o que fizeste… – imperou Madalena. mulher. a jovem deparou-se com a visão assustadora dos seus progenitores sobre o alpendre da porta e com a certeza de que apenas agora os seus problemas estavam a realmente começar. mulher no meio do corredor. que a mãe não iria deixar. a jovem subiu as escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e trancou-se no quarto numa tentativa desesperada de manter o fio de lucidez que lhe restava.Foi com aquele rapaz que apareceu cá em casa no outro dia. .Sara. desapareces sem qualquer explicação. Ao ver-se diante da porta do quarto da filha. – Trancou-se aí dentro? – perguntou Jorge encontrando a ex. O maior estalo de toda a sua vida que a fez inclusive sangrar da boca. ou pelo menos. morta?! . ouviu-se o valente estrondo de Sara a cair sobre uma das mesinhas da sala.Sim e não quer abrir. – Começa já a explicar qual foi a loucura que te passou pela cabeça para sair de Lisboa sem a nossa autorização – imperou Madalena entrando pelo quarto adentro na companhia de Jorge. . eu mato-te de pancada! . não levantes a voz – disse-lhe o pai veemente. – Isto não vai ficar assim – disse Madalena libertando-se dos braços de Sérgio e seguindo a filha a toda a velocidade.Eu vou lá – exclamou Jorge adiantando-se ao namorado da ex. Sara teve a brilhante ideia de se trancar no interior do quarto. .estavam menos à espera. Mais tarde. . . 129 .Com quem!? – perguntou Madalena perdendo as estribeiras.Eu já disse! Só queria passar um fim-de-semana fora. mas ainda assim Sérgio conseguiu impedir que Madalena levasse os seus intentos adiante quando a segurou pelos braços e permitiu que Sara fugisse da sala.Porque eu já sabia que vocês não iriam deixar.

. mandas e desmandas cá em casa. Foste com alguém. utilizei a assinatura dela para um negócio que estava a fazer com alguns sócios meus na altura. – O que foi? Ficaste surpreendida? Ou será que pensavas que nós nunca iríamos descobrir que andavas a faltar às aulas para fazer sabe-se lá o quê?! Julgaste muito esperta. Foi por vossa causa que estivemos casados durante tanto tempo. viajas sem dar satisfação a ninguém…! É uma alegria! . Sara! A tua mãe e eu pensámos muito. – Tu não tens idade para andar sozinha por aí.k! .Sabes porque é que eu fui passar o fim-de-semana ao Algarve? . . Uma casa que é do meu pai. não é – interrompeu Jorge calando os gritos da filha. raivosa.O. mas mesmo muito. Porque é que não acreditam em mim? . Só pensaste no teu bem-estar e na vontade que tinhas em voltar a ser solteira outra vez … . Não tens idade para passar fins-de-semana sem a supervisão de um adulto e muito menos para sair da cidade sei lá com quem! Porque é óbvio que tu não foste sozinha ao Algarve. filha? . A juntar a isso. Só pensaste em ti. Eu traí a tua mãe. esbaforida.É sim! E tu sabes que é. – Fui sozinha. – Aliás.Não – respondeu Madalena cruzando os braços num gesto de deboche. .Não. Várias vezes… . já nos tínhamos separado muito antes.Com que é que tu foste. O problema é que o tal negócio não deu certo e… a polícia judiciária 130 . será que não entendes?! É por tua causa que eu e o Daniel deixámos de ter uma família – respondeu Sara não se deixando amolecer pelas lágrimas da mãe.É claro que eu não iria deixar – interferiu Madalena.Eu falo como eu quiser! Não sou obrigada a gostar dele e muito menos a fingir que acho normal uma mulher da tua idade andar com um homem muito mais novo.Eu fui porque precisava ficar dois dias sem olhar para a tua cara e sem olhar para a cara daquele homenzinho que resolveste colocar cá em casa.Sinceramente eu não sei o que fiz para me odiares tanto – disse Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos.Tu destruíste a minha vida. ainda enfiá-lo cá em casa.Ou pensas que já não sabemos que chumbaste o ano por faltas? A pergunta da mãe tomou Sara de assalto. .os olhos de Sara cerraram-se. e tal como se não bastasse. – E ela sempre me perdoou porque queria que tu e o Daniel crescessem numa família minimamente estável.Isso não é verdade.Porque tu não nos dás motivos para acreditar em ti – interrompeu Madalena. e pior.Não te atrevas a falar assim do Sérgio! .Não fui com ninguém – respondeu Sara largando os braços. – Mas iria adorar saber..Sara! Cala-me essa boca imediatamente – imperou Jorge para grande surpresa da filha. porque senão. – É por tua causa que todos os fins-de-semana temos de andar de um lado para o outro sem saber aonde e a quem pertencemos. antes de nos decidirmos a assinar os papéis do divórcio. e que se não fosse por ele. não terias sequer como sustentá-la… . . Porque tu não pensaste nem um segundo nós quando te resolveste separar do pai. tu só nos dás motivos para desconfiar do teu carácter e da tua falta de responsabilidade. . . já disse. não é?! Fazes o que te apetece. – Não fales de coisas que não sabes. .

Vai passar! Quando ela crescer.Com a tua ajuda está – respondeu Madalena abandonando o quarto debaixo das lágrimas que a filha não conseguiu conter. Só que essa conta estava no nome da tua mãe. fui eu o único culpado pela nossa família ter terminado. A tua mãe não teve culpa de nada! . sim. .Ela odeia-me sim! E eu não posso fazer nada para que ela deixe de me odiar. coisa que ela não sabia porque eu não lhe contei.Ela não te odeia. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. militar não poderia estar mais certo. o relógio marcou meia-noite e quarenta e cinco minutos. E não. não está?! . quando ela perceber a mãe maravilhosa que tem. Na verdade. Foi fraco ao não fazê-lo. Quem sabe com o tempo Sara não entendesse? Quem sabe ela não percebesse que nem sempre as relações entre adultos eram fáceis. .O que é que isso importa?! – perguntou Sara largando os braços. – Portanto. . . Nessa altura. mas sim. Ela ama-te muito e é por isso que faz estas coisas só para chamar a tua atenção. Madalena conseguiu pela primeira vez engolir algo comestível e Jorge desapareceu com a clara certeza de que já deveria ter contado a verdade à filha há muito tempo.Ela odeia-me – exclamou Madalena voltando-se para Sérgio com os olhos inchados de tanto chorar. e Madalena foi a primeira pessoa a levantar-se para preparar o pequeno-almoço na cozinha. mas ainda assim ela conseguiu aguentar as fortes dores de cabeça e a vontade quase incontrolável de passar o dia inteiro na cama sem olhar ou falar com vivalma. foram as últimas palavras de Afonso Soares no final daquela tarde particularmente cinzenta e tumultuosa.descobriu algumas irregularidades numa conta offshore que eu tinha.Não – respondeu ela permitindo que ele se sentasse ao seu lado. transparentes e vitoriosas? Nem sempre elas são como queremos que sejam. e ela acabou por… ser presa no meu lugar! Foi só uma noite.É só uma fase. Apesar das discussões. . Ela não te odeia. . como vês.Bom dia. . e nem sempre. Acabou tudo bem. dos estalos e dos gritos. um claro contraste tendo em conta a noite anterior. mas acho que foi a suficiente para que ela se fartasse de mim e pedisse a separação – discursou Jorge rasgando alguns olhares a Madalena.Melhoraste da dor de cabeça? 131 . .Será que acabou mesmo!? . E a verdade é que o ex. mulher. . desesperada.Estás bem? – perguntou Sérgio encontrando Madalena sentada sobre as escadas que ligavam os dois pisos da casa. somos capazes de superar as nossas fraquezas interiores.A Sara já está cá em casa. Seria demasiado egoísta da sua parte se todas as culpas acerca do término do seu casamento recaíssem sobre os ombros da ex. – Bom dia – disse Sérgio beijando-lhe os cabelos quando se deparou com a mesa do pequeno-almoço totalmente composta. a calmaria voltou a rondar a casa quando Sara regressou sã e salva. por mais que tentemos. as forças para fazer tal tarefa eram praticamente nulas.Pelo menos acabou tudo bem. – Está tudo destruído. Por isso. . A casa amanheceu silenciosa. essa fase vai passar. talvez por medo que ela deixasse de o ver como um herói. não lhe aconteceu nada.

Contudo. O Sérgio. Eram passados a meditar em todas as coisas de errado que fez e também em Marco. Será que tinha sido a mãe? Não.Hoje a mãe está um pouco mal disposta. – Eu levo-te. Prisioneira talvez fosse a palavra que melhor a definiria durante três semanas. – Eu quero a minha caixa – foram as primeiras palavras de Sara assim que o fotógrafo chegou da rua e a encontrou sozinha em casa. principalmente para uma rapariga da tua idade. As últimas palavras do fotógrafo coincidiram com a chegada de Sara à cozinha e também com o constrangimento de Madalena ao vê-la diante de si. . Claro. naquela tarde. 132 . os seus olhares se desviaram.Nojento ou não. . E assim. . era meu e tu não tens o direito de mexer em nada do que é meu! .Sabes sim! Foste tu que andaste a mexer nas minhas coisas! Roubaste-me a caixa. – Não acredito! As minhas coisas…! Não acredito… A procura desesperada continuou por todo o quarto.Um dia vais-me agradecer. Para além disso. Impaciente também. – Aquilo era nojento. a caixa não se encontrava mais lá. os dias eram passados no interior de um quarto completamente desprovido de tecnologia. tanto a mãe como a filha encontravam-se tão cansadas de lutar. . Sara começou a sentir-se confusa e ansiosa. Mas quem?! Quem? Desesperou-se. . ela percebeu. Alguém a havia tirado dali. Com certeza. – O que é que queres comer? – saiu-lhe essa pergunta a muito custo. o leitor de CD e a televisão. .Eu não sei do que é que estás a falar..Não acredito nisto… – foram as palavras que ela murmurou enquanto os olhos e as mãos reviravam todo o roupeiro. Passou-se uma semana e Sara percebeu que estava de castigo quando lhe foram retirados do quarto. Sara mantinha as suas reservas escondidas a sete chaves. .Eu só deitei fora aquela porcaria – respondeu Sérgio largando o seu equipamento fotográfico no chão. e o pior é que ela nada podia para contrariar a decisão da mãe devido ao apoio incondicional que o seu pai lhe ofereceu aquando do castigo. mas a pouco e pouco. Madalena teria dito alguma coisa ou feito um escândalo. Dani – respondeu Sérgio servindo-se de uma chávena de café. Contudo. numa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro.Mais ou menos. que foi completamente impossível para elas trocarem qualquer palavra mais amarga àquela hora da manhã.Cereais – respondeu Sara baixando o rosto. Só podia ser outra pessoa. envergonhada. uma caixa a qual só ela tinha acesso e que muitas vezes lhe trazia o prazer que não conseguia alcançar com indivíduos do sexo oposto. o computador. Sara escolheu uma cadeira à mesa para se sentar e Madalena voltou-se de frente para o lava-loiça. Como será que ele estava depois dos dois quase terem sido apanhados pela polícia? Será que ele chegou a saber que o condutor do carro que capotou morreu por culpa da irresponsabilidade dos dois? Diante de tantas dúvidas.Mãe! Vais-me levar à escola? – perguntou Daniel. Sexo. Começou a pensar em sexo e na falta que aquele acto que costumava praticar todos os dias lhe fazia. . também não estava autorizada a sair de casa e muito menos a comunicar-se com qualquer pessoa através do telefone. ao contrário de todas as suas expectativas. Sara começou a perder as esperanças de encontrar a sua preciosa caixa. Mas tal como qualquer outro dependente. pois as horas custavam a passar e o seu vício aflorava-se a cada minuto. Desta forma.

que se deitasse com inúmeros homens e que vendesse o seu corpo. daí a vergonha. . o sexo é a tua droga.Já pensaste no desgosto da tua mãe quando ela descobrir a verdade? Quando ela descobrir que a filha dela se anda a prostituir. essa brincadeira e essa curiosidade apossaram-se não só da sua mente como também do seu corpo. Aliás. não porque precisa. Só que ao contrário dos teus pais..Cala-te! Tu não sabes o que dizes… . Apesar de nunca ter encontrado a verdadeira definição para o seu desejo sexual compulsivo. – Tu estás doente. . e ela. Sara decidiu que não iria contar. talvez Sérgio tivesse razão. . Sara sabia que ele existia e que a pouco e pouco já havia controlado toda a sua vida. A príncipio tentou levá-la como uma simples brincadeira.Isso não é da tua conta. desesperou-se.Tu és ninfomaníaca. não por dinheiro. não é?! . o sentimento de repulsa que todos iriam sentir de si quando soubessem a verdade.Escuta! Porque é que estás tão irritada? Eram só alguns filmes pornográficos. já não tens a tua caixa. Por isso. Nem a mãe e muito menos o pai.Ou será que estás tão obcecada por sexo que a simples ideia de te veres sem a tua caixa te deixa assim?! Sara calou-se.Eu nunca te vou agradecer por nada – gritou Sara. A mãe nunca iria compreender as razões que a levavam a querer sexo tanto quanto um ser humano desejava ar para respirar.Cala-te – afirmou Sara recuando dois passos. . 133 .Eu nunca vou fazer isso. Tu és dependente de sexo. mas em muito pouco tempo. mas porque quer?! . – E tu também sabes. eu consigo ver as coisas do lado de fora e podes crer que não precisei de muito esforço para juntar todas as peças deste puzzle. . tal como um toxicodependente é dependente de droga.Não! Eu queria que fosses tu contar. . Nunca ninguém iria saber da sua doença e ela passaria despercebida aos olhos de todos até o final dos seus dias. Fizeram com que cometesse loucuras atrás de loucuras. E precisas também deixar de te prostituir… . . raivosa. Podes muito bem viver sem isso ou não?! .Eu sei muito bem o que estou a dizer – respondeu Sérgio enfrentando-lhe os olhos raivosos. Sara – disse Sérgio incendiando-lhe o olhar. – Vais contar à minha mãe? – perguntou ela. que já não sabia o que fazer.Eu odeio-te! . Ali estava.E como não já não consegues sair de casa. Passaram-se cinco dias e o círculo estava pouco e pouco a fechar-se. Sabia também que esses sintomas começaram meses antes quando descobriu a pornografia em casa do pai. vibradores e outras coisas.Então não me deixas outra escolha – disse Sérgio alcançando o corrimão das escadas. mas por um prazer que queria ver saciado. Nunca iria contar. Pensando melhor. . uma curiosidade. Mas sim. A verdade nua e crua da qual Sara não podia escapar e que infelizmente lhe foi jogada à cara pela pessoa que mais odiava no mundo.Cala-te – gritou ela completamente descontrolada. estás a começar a entrar em ressaca. – Precisas tratar-te e eu estou a falar a sério. O prazo que Sérgio dera a Sara para contar a verdade a Madalena esgotou-se.

Pois fui – respondeu uma voz angelical que o fez gelar dos pés à cabeça. . nas escadas. .Vê lá se não te demoras muito! Prometeste que me irias fazer companhia no banho. mas sim Sara.Dá-ma! Vou pô-la na máquina. . pois a presença de Sérgio em sua casa lembrava-lhe que estava entre a espada e parede.Tens alguma roupa branca para lavar? – perguntou Madalena enquanto Sérgio se preparava para tomar um duche na casa de banho. – O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Sérgio abandonando a cabina e encontrando uma toalha com a qual se pudesse tapar.Não – respondeu ela com um sorriso maléfico que o irritou de imediato. Nada pôde exemplificar o terror sentido por Sérgio quando ele percebeu que a pessoa que tinha acabado de entrar na cabina não era Madalena.Veste-te – ordenou ele entregando-lhe o robe caído sobre o tapete.Sara. os passos lentos e quase silenciosos de um corpo esbelto e a abertura da cabina pelas suas mãos delicadas. Estas foram as últimas palavras de Madalena antes de sair da casa de banho levando consigo várias roupas nas mãos e também a certeza de que assim que se despachasse da tarefa enfadonha de as colocar na máquina. Conta. cozinha ou até mesmo na sala. Madalena voou em direcção ao 134 . Ali estava a filha da sua namorada. Conta. a porta da casa de banho sofreu uma ligeira pressão e abriu-se sem que ele se apercebesse disso. foi impossível ouvir o barulho do robe a cair sobre o tapete. Nessa altura. ela tinha consciência que não. Mas os gritos de Sara para se tentar livrar dos braços do fotógrafo não tardaram a ecoar por toda a casa. . A única coisa que sabia era que teria que afastar Sérgio da sua vida de uma vez por todas e consequentemente todas as ameaças que ele fazia questão de lhe incutir. era como se o fotógrafo lhe lançasse olhares fulminantes com mensagens claras e peremptórias: Conta. . foram as palavras de Sérgio enquanto enfiava a filha da sua namorada no robe que ela havia retirado minutos antes de o surpreender no banho. . Aquilo já tinha passado todas as marcas.É só me despachar da máquina que venho a correr – respondeu ela cedendo-lhe um longo beijo nos lábios. . iria correr para os braços de Sérgio e presenteálo com um final de tarde no mínimo inesquecível. veste-me esse roupão agora! . Mas ela não contou e essa ideia nem sequer lhe passou pela cabeça.Só esta camisola – respondeu ele tirando-a do corpo. .Já disse que não. Cada vez que se encontravam nos corredores.Podes deixar. . O desejo parecia ser recíproco quando Sérgio abriu o chuveiro da cabina e se enfiou lá para dentro sentindo os primeiros pingos de água quente caírem-lhe sobre o rosto e o corpo desnudo. .Mas seriam as coisas assim tão simples? No fundo.Eu?! Louca? Claro que não! Só te queria fazer uma surpresa. – Estás louca? . . – Foste rápida… . completamente desnuda.exclamou Sérgio abrindo um sorriso de orelha e orelha quando sentiu dois braços à volta da sua cintura.Não te demores. Com a pressão da água a cair sobre o polibã. com olhos de quem o queria comer e sem qualquer pingo de remorso por ter cometido um acto no mínimo insano. sendo que quando isso aconteceu. E sim.

respondeu Sérgio largando os braços de Sara e deixando-a quase semi-nua sobre a sanita. disse que não podia ter nada contigo porque era o namorado da minha mãe. ela chamava com todas as forças. . . no interior daquela casa de banho. – Eu nunca tive nada contigo. .O que é isto?! – repetiu Madalena.Eu não sei como é que aconteceu. No fundo querias ficar com as duas. Não saias! Ao ouvir as ordens da mãe.Eu posso explicar. Eu era só uma criança e tu sabias muito bem disso quando me obrigaste a ir várias vezes para a cama contigo… . – O que foi. mas tu disseste que isso não te importava. tal como se estivesse a ser espancada ou violentada por alguém.Eu é que não queria ter nada a ver contigo – interrompeu Sara compondo-se no seu roupão. Tu não passas de uma criança… . lembraste?! . Daniel tornou a encostar a porta e ignorou os gritos de Sara que a cada minuto tornavam-se mais agudos e intensos. ela também e eu estava a tentar a… . incrédula. mas tu não me quiseste ouvir. que ali. – O que vem a ser isto? – murmurou Madalena sentindo-se quase sem ar para respirar quando encontrou o namorado e a filha completamente atracados na casa de banho.Então explica! Explica porque eu não estou a perceber. Eu nunca tive nada com a tua filha. . . Foi por isso que resolveste morar cá em casa. não é – respondeu Sara enfrentando o olhar confuso de Sérgio. . Mãe. Eu assustei-me.Isso não é verdade – vociferou Sérgio voltando-se para ela.Eu nunca te assediei – vociferou Sérgio sentindo-se prestes a perder a sua sanidade mental. .Eu era uma criança até tu teres feito o que fizeste.Porque é que não contas à minha mãe? Porque é que não lhe contas que me andas a assediar desde que nos conhecemos?! .Não.Isso não é verdade.Sérgio. . tu achas que a minha mãe vai acreditar numa coisa dessas? – interrompeu Sara para grande espanto e surpresa do fotógrafo. E a verdade é que o mesmo se estava a passar com Madalena. mas …eu estava a tomar banho e de repente a Sara entrou na cabina.Eu disse-te para não te meteres no meu caminho. .Lena.Viste o que acabaste de fazer. – Porque é que não lhe contas a verdade? . . minha louca? – disse Sérgio agarrando o braço de Sara com força. o que é que eu posso fazer? 135 . – Mas fica aí no teu quarto. mãe? – perguntou Daniel surpreendendo a sua progenitora no corredor. Acho que deve ter sido por engano.Eu não tenho estômago para continuar a ouvir isto… – murmurou Madalena abandonando a casa de banho com os olhos rasos de lágrimas. – Lena! Tu tens que acreditar em mim.Essa é a verdade. . . não é nada disso que estás a pensar… .Não sei – respondeu ela. – Tu é que me obrigaste! Eu bem tentei fugir. – A verdade é que tu me chamaste para vir ter contigo. Ela é louca. sentiu como se o mundo tivesse acabado de desabar sobre os seus ombros.segundo piso pronta a inteirar-se do que se estava a passar.

Dois minutos depois. . dez meses… Sérgio manteve-se calado. ele abandonou a casa de banho ainda enrolado numa toalha e correu ao encontro de Madalena no quarto divido pelos dois. Uma dimensão a qual só ela tinha acesso e que Sérgio não sabia se poderia entrar. mas… um dia vais perceber que cometeste um grande erro. Acho que estava tão cega. Sara observou os movimentos de Sérgio a enfiar as suas malas no carro.Não adiantava nada continuar a trocar palavras vãs e dementes com uma rapariga também ela vã e demente. Como se pôde enganar tanto com elas? Como é que pôde acreditar nelas e entregar a Sérgio tudo o que de melhor possuía dentro de si? 136 . . Viu as suas mãos fecharem o porta-bagagem com força e mais tarde a sua entrada no banco da frente. ou algo semelhante. acho que já vai ser tarde demais… Da janela do quarto. foi a conclusão a qual Sérgio chegou quando a olhou pela última vez e se deu conta que Sara realmente não conhecia a palavra limite. a conviver com os meus filhos e nem foi preciso muito tempo para perceber que cometi um grande erro – discursou Madalena com os olhos rasos de lágrimas. de costas voltadas e completamente imóvel. – Eu não mereço que acredites em mim. . o que é que eu sei sobre ti!? . Parecia ter sido atingida por um raio. tão… apaixonada que não ouvi o que as outras pessoas me disseram.Como assim? O que é que estás para aí a dizer? . e quando isso aconteceu.murmurou ele tentando alcançar-lhe os ombros com as mãos. Era uma dor que parecia ter-selhe entranhado por todo o corpo. ela agarrou-se ao edredão numa tentativa desesperada de acalmar a dor que estava a sentir. Não por não teres acreditado em mim. Tu sabes disso. – Eu não sei nada sobre ti e hoje cheguei a essa conclusão.Lena.Lena…. Por isso.Será que eu sei? – perguntou Madalena voltando-se para ele com uma expressão mortificada.Vai-te embora.Não me toques – foi a resposta que o fez recuar dois passos. por favor – disse Madalena sentindo-se completamente morta por dentro. – Lena… . . Tal como esperava. – Tu conheces-me! . . mas sim por não veres algo que está mesmo à frente do teu nariz! Mas quando perceberes esse erro. o veículo arrancou e a rua tornou a ficar deserta. encontrou-a em frente à janela. tu não podes acreditar naquilo que a Sara disse! Eu nunca tive nada com ela e nem nunca seria capaz de a tocar. .Porque vendo bem. .Põe-te no meu lugar! Em quem acreditarias? No teu namorado que só conheces há poucos meses ou na tua filha que já conheces há dezasseis anos? .Eu não te queria dizer isto.Tu não acreditas em mim. Pus um perfeito desconhecido dentro da minha casa. sem tempo a perder. . que a deixava quase sem ar para respirar e que a matava por dentro a cada minuto que se lembrava das palavras de amor que Sérgio tantas vezes lhe sussurrou aos ouvidos. e parecia também ter entrado numa dimensão só dela.…tens razão – concordou Sérgio baixando o rosto.Há quanto tempo? Nove. A almofada sobre a cama não precisou de muito tempo para ficar totalmente encharcada com as lágrimas de Madalena.murmurou Sérgio. incrédulo.

que a fez voltar a acreditar no amor e que lhe prometeu o céu e as estrelas apenas em troca de um beijo? Mas não.Talvez devesse ter sido mais cuidadosa em não oferecer o seu coração. Podes fazer o quiseres… Ao ouvir as palavras da mãe. como é que se podia recriminar se tudo o que Sérgio lhe havia dito parecia tão real? Se tudo o que ele fazia parecia tão real. – Era por causa disso que eu não gostava dele – ouviuse a voz de Sara sob o alpendre da porta. Madalena continuou deitada e fechou os olhos inchados de tanto chorar. pois o céu e as estrelas pareceram desabar sobre a sua cabeça quando ela o encontrou nos braços da filha naquela maldita casa de banho. 137 . – Foi melhor ter-se ido embora! Agora vamos voltar a ser uma família outra vez. Há quanto tempo aquilo estava a acontecer. . Nada disso realmente aconteceu. Depois disso. Sem forças para sequer erguer a cabeça. – E ele também não gostava de ti – continuou a jovem ansiando qualquer reacção por parte da mãe. o seu corpo e a sua alma a um perfeito desconhecido. Mas por outro lado. foi a pergunta que Madalena se fez ao limpar as novas lágrimas que teimavam em cair-lhe no rosto. Sara afastou-se da porta e fechou-a com algum cuidado. O meu castigo já acabou? . fez-se um silêncio ensurdecedor e Madalena desligou a luz da mesinha de cabeceira ansiando que o comprimido que havia tomado surtisse efeito e a fizesse dormir. Ele que lhe devolveu novamente a alegria de viver.Deixa-me sozinha – respondeu Madalena com uma voz rouca.Já se passaram três semanas. .Já.

– Diz que não admite dividir a mulher dele com ninguém. . O namorado dela era um otário e estava a um passo de lhe contar que me ando a prostituir.Claro. . Estava animada.Tu nem sabes o que é que me aconteceu nestas três semanas.A minha mãe é forte! Ela vai saber esquecer esse Sérgio num estalar de dedos. Mas o mais intrigante de tudo era perceber que ela não se tinha arrependido nem um pouco do que fizera.Porquê!? . .Estive de castigo – afirmou Sara entrando com um largo sorriso.E tu vais deixar a vida por causa dele? 138 . . onde logo à entrada encontrou alguns amigos de longa data. a reacção dos pais quando regressou a Lisboa. Para além disso.Não me queres contar? E foi o que Sara fez minutos mais tarde. o local escolhido para comemorar a sua liberdade foi o bairro do Intendente.Bem. .Coitada da tua mãe! Não tens pena dela? . – Desaparecida – disse Milene abrindo-lhe a porta do quarto.Às vezes eu acho que tu não és deste planeta. . não?! . .Posso entrar? . a forma magistral como se livrou da presença do futuro padrasto lá em casa. .Mas diz-me uma coisa – interrompeu Milene acendendo um cigarro e atirando o isqueiro contra a cama. o castigo deve ter sido óptimo. O que é que querias que eu fizesse? Ele não me deu outra escolha.Pena porquê?! Eu até lhe fiz um favor.Ele disse que queria que eu largasse a vida – respondeu Sara com um largo sorriso.Tu és louca – foram as palavras que Milene murmurou vezes sem conta.CAPÍTULO VIII Era a primeira vez desde há semanas que Sara podia sair de casa sem a supervisão da mãe ou os constantes telefonemas do pai. os seus passos rápidos em direcção a uma pensão que habitualmente frequentava não deixaram dúvidas de que o seu maior desejo era reencontrar uma pessoa que lhe era muito especial. – Tu e o Marco andam mesmo a namorar ou é só uma brincadeira? . . Contou a Milene todos os detalhes do louco fimde-semana que passou ao lado de Marco no Algarve. do acidente que provocaram em plena auto-estrada. isso podia notar-se a quilómetros de distância cada vez que acenava a velhos amigos e retomava um quotidiano que já conhecia tão bem. . e por fim. e tal como se era de esperar.

Tu não acreditas mesmo que ele gosta de mim.Não passas de uma criança! Ainda tens muito que aprender. – O que foi? Achas piada? . Mas há uns meses atrás a Arlete encontrou-a na rua e ela disse-lhe que se tinha curado. nenhuma delas lhe trazia de volta a paz de espírito. já reparaste?! . cada minuto era difícil de suportar e a certeza de que nunca mais o voltaria a ver destroçava-lhe o coração.Então acho que se calhar também preciso de um psicólogo. – Eu gosto dele – continuou Sara. – Conheci uma gaja que também era assim.Porque não!? Se ele quiser. Vinha muitas vezes ao bairro porque dizia que o marido não a conseguia satisfazer na cama. largo mesmo. mas não sei se vou conseguir manter a minha promessa.Não – riu-se Milene. Tinham-se passado três dias desde o término do seu namoro com Sérgio.Tens mesmo a certeza que foi isso que aconteceu? – perguntou Alice quando ela lhe contou a cena grotesca que vira na sua casa de banho.Qual? . . Pelas minhas qualidades – respondeu Sara arrancando uma ruidosa gargalhada de Milene. .A Sara não iria inventar uma coisa dessas – respondeu Madalena limpando as últimas lágrimas da tarde. Não sejas parva.Eu prometi ao Marco que iria deixar de me prostituir. mas eu sei que ela não iria mentir sobre uma coisa tão séria. . Procurou um psicólogo e descobriu que era ninfomaníaca. Porque é que tudo terminou daquela forma tão abrupta? Porque é que uma história de amor que tinha todos os ingredientes para dar certo evaporou-se no ar sem qualquer razão aparente? Por mais justificações que Madalena tentasse encontrar. . .Eu acho que é possível um homem gostar de mim pelo que eu sou. – Ela pode ter muitos defeitos.O ex..A sério! A bófia veio. Cada lembrança dele era um suplício.disse Sara atirando-se contra a cama. Então um dia. 139 .Não sei.A sério? – riram-se as duas. . – Precisas é de um colete-de-forças. mas ele vai continuar com a dele.O que mais pode ter acontecido? .Tu só pensas nisso. Que tal a Sara ter mentido!? . . . Madalena despediu-se dela com um sorriso forçado e voltou a encostar a porta da sua floricultura.Mas só tem um problema… .Não vês que o gajo só te anda a fazer de otária? Ele anda com todas as gajas que lhe aparecem pela frente ou pensas que um idiota como ele só se contenta com uma miúda de dezasseis anos?! Tu vais largar a vida.Já ouvi falar – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar. Milene sorriu.Tu acreditas!? . Não sei se vou conseguir ficar um mês sem ir para a cama com ninguém. Houve tiros e tudo… . levou o pessoal para a esquadra e a gaja nunca mais apareceu por estas bandas. . Atendida que estava a segunda cliente da tarde. – Mas também gosto de sexo e ele está sempre longe. namorado da minha mãe disse que eu era ninfomaníaca! Sabes o que isso é? . . Foi o maior escândalo. não é?! . o marido seguiu-a e apanhou-a numa pensão aqui perto.

eu não sei! O Sérgio não parece ser desse tipo… . por mais que me faça a vida negra.Obrigado – respondeu o advogado rasgando alguns olhares à ex. E também tem a Sara… . ela não te contou nada. Ainda estava triste.Não sei! Até quando conseguir… – respondeu Madalena encolhendo os ombros. Quem sabe ela não voltaria a vê-lo com outros olhos? Quem sabe ela não perceberia que durante meses o seu maior desejo era voltar para casa e para o casamento de ambos? De qualquer maneira. Se o Sérgio foi culpado por tudo aquilo que aconteceu. . desesperada. É só isso que eu quero. privaram-na de qualquer tipo de divertimento que não se cingisse a Lisboa.. Ela é a minha filha – respondeu Madalena. – Acabou! Agora só quero esquecer essa história e seguir em frente. eu não posso abandoná-la. e embora nunca tivesse sabido o verdadeiro motivo para que Madalena e Sérgio se tivessem separado. – Era bom se pudesses vir connosco. . não foi um boato. não custava nada sonhar com essa possibilidade. apesar de não quereres aceitar a realidade. .Lena. duas ou três vezes. algo que ele aceitou de bom grado. – O Sérgio está fora da tua vida.Eu não sei! Eu não sei se com a Sara não será pior. . O seu comportamento escolar. cientes de que a filha precisava de um castigo. foi a verdade… . deixaram muito a desejar. será que não entendes?! .Bem! Vamos pestinha?! Senão perdemos o voo. – Por mais que ela me odeie. mas e a Sara? O que é que vais fazer com ela? . deixa-me que te diga que ela também foi.Ele estava a obrigá-la. Apenas Daniel foi convidado a acompanhar o pai numas pequenas férias a Madrid. uma.Não podes deixar que ela continue assim. . . Lena! Não podes deixar que ela assuma o controlo da situação e te faça a vida num inferno. mas ao contrário dos anos anteriores.Eu sei – disse Jorge segurando malas do filho. 140 . . .Como assim?! .Mas eu tenho a certeza que tu e o Dani se vão divertir imenso sem mim – afirmou Madalena afagando os cabelos do filho. . – Façam uma boa viagem – disse Madalena observando a animação do filho quando Jorge o foi buscar. mulher.Às vezes os pais têm que abandonar os filhos para que eles aprendam a dar-lhes valor. mas principalmente o familiar.Sinceramente não sei o que te dizer. . os seus olhos e a sua expressão facial não mentiam. a Sara já não é nenhuma criança de colo. Ela sabia muito bem o que estava a fazer. e os pais.Eu vi.Tudo bem – disse Alice segurando-lhe as mãos frias. Ele não agiu sozinho. – De qualquer maneira foi só um convite.E o que é que queres que eu faça!? Eu não posso pô-la para fora de casa tal como fiz com o Sérgio. a verdade é que Jorge não podia ter ficado mais contente pela notícia. Alice! Eu vi com os meus próprios olhos ele a agarrá-la. Não foi imaginação. Agiu nas tuas costas e traiu-te também.Sabes bem que não posso deixar a Alice a tomar conta da floricultura sozinha. . Sara não teve direito a férias. e mesmo se a tivesse obrigado a ir para a cama com ele.E até quando vais continuar a viver nesse inferno? .Não digas nada – respondeu Madalena assoando-se com um lenço de papel. O Verão trouxe novamente consigo os dias de sol e de calor.Lena.

Diz antes que eu perca a minha paciência… . Nas primeiras vezes. marido partira sem deixar rastro. Sozinha. De férias. . . Não valia a pena pois Sara chegava a casa cada vez mais tarde e também recusava-se a passar os fins-de-semana com o pai desde que soube que fora ele o responsável pelo término da família. Madalena fechou a porta e lançou um longo suspiro. Iria passar duas semanas com Sara na mesma casa.Tchau. 141 .O. minha puta?! . – Animal – gritou ela voltando-se para Marco. Madalena tentou impor horários rígidos e perguntou sempre para onde ela tinha ido. um dos delinquentes mais temidos do bairro. mãe! . Depois disso. – Não estavas no Algarve? A resposta do jovem foi dada com um valente soco no estômago que a fez cair e derrubar uma cadeira das inúmeras cadeiras colocadas em frente ao balcão. Nessa altura. puto! Tenho quase idade para ser a tua mãe.Marco – exclamou Sara surpresa por o ver ali. mas com o passar do tempo e com a perca de forças.. Milene apressou-se a socorrer a sua amiga temendo que Sara tivesse desmaiado com o impacto do golpe. e quando voltava. .Está bem. – Tchau. fugia para o quarto sem dar quaisquer explicações acerca do seu desaparecimento. assim como a cólera que se apossou dos seus olhos. A resposta da prostituta trouxe a Marco o ímpeto que ele precisava para entrar no bar sem quaisquer cerimónias. Sem ninguém para a amparar e sem certezas do comportamento da filha que a cada semana piorava gradualmente.Tem calma – respondeu Arlete assustando-se com a agressividade do jovem. Arlete – respondeu ele empurrando-o contra a porta do bar. enquanto no chão.Hei! Vê lá. Assim sendo. – Ela está lá dentro com a Milene. – Até que enfim apareces por estes lados… . e essa certeza tornou-se incontornável quando pela primeira vez a filha passou a noite fora de casa.O. – Ligamos assim que chegarmos ao hotel. Duas semanas. . Depois de um breve aceno e de se ter assegurado que o carro do ex.k! Boa viagem. uma das prostitutas mais antigas do bairro. .A tua namoradinha é?! . encontrar a visão de Sara sentada na mesma mesa que Milene e outros dois homens desconhecidos foi inevitável. vários homens que se encontravam no bar insurgiram-se a Marco por aquele acto de violência no mínimo gratuito.Sai-me da frente.Tens quase idade para ser minha avó.Porta-te bem! Não faças asneiras e obedece ao teu pai. ao ver à sua frente a figura de Marco. ela desistiu de tal coisa. queres tu dizer! Diz lá! Aonde é que a Sara se meteu? . – Ai estás aqui. .k – respondeu Daniel despedindo-se da mãe com um longo abraço seguido de um beijo na face. raras eram as vezes que Sara parava em casa. Sabes bem que as duas não se largam. não havia absolutamente nada que Madalena pudesse fazer para voltar a controlá-la.Olha quem é ele – exclamou Arlete. quase sempre ao príncipio da noite. Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. depois de se ter desviado de várias pessoas e retirado algumas cadeiras da sua frente.

ele regressou propositadamente a Lisboa para tirar a história a limpo. nem sequer a remota possibilidade de ser apanhado por alguns dos seus inimigos ou então pela polícia. abre as pernas e tu ficas com metade dos lucros dela. enquanto pontapeava e soqueava Sara. .Queres uma aposta como vou? . Milene mordeu os lábios e sentiu o sangue fervilhar-lhe nas veias por não ter tido a coragem de livrar a melhor amiga das garras daquele homem tão perigoso. Sara – exclamou ele alcançando-lhe os braços e fazendo-a levantar-se do chão quase à força.Ai eu é que digo merda!? Tu melhor do que ninguém sabe do que esse Marco é capaz. nada lhe pareceu importar.Andas a chular sim que eu sei! A miúda trabalha. a culpa é tua! Arlete não podia estar mais segura das suas palavras. logo ele que constantemente lhe enviava jóias e dinheiro através do correio. – Agora ela vai apanhar e bem que é para aprender a não meter cornos num traficante de droga. a primeira a ir em cana és tu… . Mas ela não merecia nenhuma dessas jóias e muito menos esse dinheiro. – Pensavas o quê?! Que eu não ia descobrir nada? Que não ia saber que me andavas a meter os cornos com outros? Pois fica sabendo que aqui dentro deste bairro eu tenho informações diárias. E ao saber dessa verdade irrefutável. . Nessa altura. Ou ainda achas que isso não é chular? Fica quietinha mais é que é para não sobrar para ti. minha cabra! Ou achas que ninguém vai contar que andas a chular uma miúda de dezasseis anos? . .Ai chamas a polícia?! Então chama que eu quero ver – respondeu Marco enfrentando a fúria da prostituta. pois os seus cinquenta e dois anos de vida deram-lhe a sabedoria necessária para saber que com homens como Marco não era permitido brincar. – Ainda temos muito que conversar. Se ela morrer. traiu-o e fê-lo sentir-se a chacota do bairro. . perdão e humanidade. Sem que ninguém o impedisse. lembraste?! Partiu-te toda há uns tempos atrás e vai acabar por fazer o mesmo com essa pobre coitada.Se levares. Mas não te esqueças de uma coisa. A única coisa que merecia era o seu desprezo e também a sua ira. Mesmo tendo prometido que iria ser só sua. Num beco escuro do bairro. Sei tudo o que se passa… 142 .Cala-te! Só dizes merda tu… – respondeu Milene encontrando a sua mala sobre a mesa. Na verdade..Não a vais levar daqui – adiantou-se Milene puxando a amiga contra si. – Vaca – exclamou ele encostando-lhe o rosto à parede.Eu não ando a chular ninguém – afirmou Milene não se deixando intimidar pelas palavras de Marco. tudo o que ele queria era extravasar o ódio que sentiu quando lhe foi informado que Sara continuava a prostituir-se com qualquer homem que lhe aparecesse à frente. Marco levou Sara pelo braço e deixou todos os presentes estupefactos com a cena que tinham acabado de assistir. Tu. – Chama a bófia que eu tenho a certeza que todo o pessoal que está aqui vai adorar. Ele não conhecia limites. Sara enganou-o. – Eu avisei-te para afastares a Sara daqui – afirmou Arlete compondo o decote do seu vestido.Eu?! . eu chamo a polícia! . não tinha nada a perder e há muito que deixara de conhecer palavras como: compaixão. . Se chamares.Sim.Levanta-te daí.

Não – respondeu ela voltando-se para ele completamente marcada nos braços e nas pernas. Ouviste!? . No corpo ainda trazia as marcas deixadas por Marco. Conseguido esse milagre. Mas nem isso pareceu importar quando ele a tomou nos braços e fê-la sentir-se nas nuvens. pois na altura a única coisa que queria era cair na cama e esquecer-se de todos os acontecimentos menos felizes que rodearam a sua noite. Ela estava realmente a rir-se e aquilo não era uma alucinação sua. as noites e a quem dedicava todos os seus sentimentos mais profundos.Sei lá! Enfia-a num colégio interno – respondeu Alice terminando os arranjos de margaridas sobre a bancada da floricultura. .Já estou a perder as forças. Ele podia espancá-la à vontade pois nem mesmo isso iria mudar aquilo que ela sentia por ele. Foram esses os motivos que a fizeram caminhar pé ante pé pelo corredor e fazer todos os possíveis para não acordar a mãe que.Ouviste?! . – Só gostei de saber que tens ciúmes de mim. os abraços e o toque das suas mãos foram muito mais marcantes do que os murros e os pontapés que ele lhe ofereceu.O que é que queres que eu faça? . mas nos olhos. com quem e muito menos a fazer o quê. 143 . a jovem adormeceu e só acordou às duas da tarde com a agradável surpresa de que a sua mãe tinha saído para trabalhar apenas deixando um bilhete sobre a mesa da cozinha: “ Tens o almoço no forno”. Assim sendo.Impressão sua ou ela estava a rir-se. . foi a pergunta que Marco se fez quando ouviu um ligeiro risinho proveniente da boca de Sara.Ouvi – respondeu Sara entregando-se de corpo e alma a um homem que minutos antes a havia espancado brutalmente. ela sabia-o. Marco podia não ser o homem mais romântico do mundo.O problema é mesmo esse! Ela sente que tu estás a perder as forças e vai ficando cada vez pior. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara abriu a porta de casa. .Então fica assim combinado – respondeu Marco segurando-lhe o queixo com força. Tinha adormecido cansada de tanto esperar.Não sei como é que consegues aguentar uma situação dessas – foram as palavras de Alice quando Madalena lhe contou que mais uma vez a filha não tinha dormido em casa. mas nem isso a demoveu do intuito de chegar ao quarto e trancar-se a sete chaves. mas não. Era com ele que ela sonhava todas as horas. – A partir de hoje só apanhas de mim. . – Faz qualquer coisa. sua cabra?! . era com ele que ela desejava passar os dias. Sara percebeu. surpreendentemente ou não. Ainda pensou estar enganado. Não.O. pois tinha nódoas no corpo que podiam comprovar essa teoria. mas no entanto era o único que a fazia sentir-se genuinamente desejada e especial. encontrava-se deitada no sofá da sala tapada com um pequeno cobertor.E gosto mesmo! Mas só gosto de apanhar de ti.Já vi que és daquelas que gosta de apanhar. que se lixasse tudo o resto. . . Não queria explicar a Madalena onde tinha passado as últimas dezasseis horas.k. . – Andas a gozar com a minha cara. Os beijos. a certeza que tinha passado a noite inteira em bebedeiras e outros actos menos lícitos. .

. . 144 . castiguei. O jantar foi silencioso e não constituiu qualquer surpresa para Madalena e Sara. eu juro que já vou ficar satisfeita. E só de imaginar essa ideia.. Embora não tivesse ficado minimamente convencida com aquela desculpa esfarrapada. já que havia pelo menos cinco dias que mãe e filha não trocavam qualquer palavra no interior daquela casa. sempre fiz de tudo para que ela não descobrisse o sacana que o pai dela era. deixaram de ter interesses comuns e viam na outra a encarnação do pior pesadelo. O que teria mudado tanto? Meses antes.Acho que já nem ao pai ela respeita! Desde que ele lhe contou a razão do nosso divórcio ela nunca mais quis passar o fim-de-semana com ele.O Jorge!? Achas mesmo que eu posso contar com ele? .A quem o dizes. . desesperada. . – Ele é o pai. – Já briguei.O Jorge? O que é que ele tem a dizer sobre isto tudo? .Eu sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos. Subitamente pareceu-lhe ver uma nódoa negra e um pequeno arranhão. o coração de Madalena disparou de medo. o quê?! .Caíste aonde!? . – O que é que tens aí no braço? .Ontem quando estava a correr para apanhar o metro. E não. – Mas se me der só metade do trabalho que a Sara me está a dar. Sempre a quis proteger. embora a camisola de Sara estivesse estrategicamente colocada para os tapar. Madalena tornou a levar uma colher de sopa à boca e sem querer lançou os olhos ao braço da filha. mas ela simplesmente não me houve. As marcas no corpo de Sara não pareciam ser fruto de uma simples queda nas escadas rolantes.Depende! Olha que o Daniel não te dá trabalho nenhum. Sara desviou-se a tempo dizendo: – Caí. .Ainda – respondeu Madalena caminhando em direcção à sua secretária. e agora olha só no que é que deu?! . minha amiga! Realmente não gostava de estar na tua pele. . – E talvez a culpa tenha sido minha. Aos poucos e poucos.Filho criado trabalho redobrado.Devias – respondeu Alice furiosamente. Madalena achou por bem não levantar mais questões.Então o que é que eu faço? Diz-me porque eu já não sei – discursou Madalena largando os braços. Sara disse a Madalena que havia sido ela a destruir a sua vida e a possibilidade de ter uma família normal. mas não estaria também ela a destruir a vida da mãe e a impedir-lhe de ter uma família normal? Enquanto pensava no assunto. já proibi. Simples bons dias e boas noites não contavam para aquilo a que se poderia chamar de uma conversa interessante.Eu tenho pena de ti. Caí nas escadas rolantes.No braço.Essa nódoa – respondeu Madalena tentando alcançar-lhe o pulso.Mais cedo ou mais tarde ela iria ter que saber a verdade. . . Por sorte.Tu é que fizeste bem em não ter filhos – disse Madalena arrancando-lhe uma leve risada. bati. não é? Pelo menos a ele a Sara deve ter algum respeito. Mas a verdade é que pela primeira vez os seus sentidos gritaram-lhe para estar alerta e para não ignorar as evidências. as duas afastaram-se. . fiz tudo o que estava ao meu alcance. . Pareciam antes ter sido feitas por alguém e propositadamente.

Estou óptima. . marido o principal impulsionador de todas aquelas compras. animado. . Tenho uma audiência que adiei e que agora não posso faltar.Tens a certeza? – perguntou Jorge encontrando na voz da ex. mas mesmo assim não consegui resistir. . Do Real Madrid. . . agradeceu-lhe com um sorriso e permitiu que ele a acompanhasse em direcção à sala. . .Bem. .Hã… claro – respondeu Madalena forçando um sorriso. .Tenho. demos uma escapadela a Barcelona. Jorge reparou enquanto a seguia pelo corredor. Assistimos a um treino e no final até conseguimos autógrafos de alguns jogadores.A Sara? Como é que ela se portou nestas semanas? . conhecemos o estádio Santiago Bernabéu… . E a última. .É um estádio de futebol.k! Então eu deixo os presentes e depois entregas.Mas o Daniel estava ansioso para conhecer. . sabendo bem que havia sido o ex. Quer dizer.Deve ter saído com amigas. – Como é que estão as coisas por aqui? .Eu sei que o futebol nunca foi o teu forte. não é que ela mereça. mulher uma certa hesitação.A Sara não está em casa. Pode ser que aos poucos e poucos ela comece a entrar nos eixos. .Ai é?! Fizeram o quê? .Ainda bem então. E hã. .Eu e o Daniel divertimo-nos imenso. O Dani depois mostra-te.Dois dias mais tarde.Está bem. . . Foi uma pena tu e a Sara não nos terem acompanhado. mas ainda assim ele manteve essa impressão guardada a sete chaves para não ser inconveniente.Estás mais magra – ele não resistiu a fazer essa observação. . .Muita praia! Visitámos monumentos. .Claro.…portou-se bem. museus. . não sei – respondeu Madalena cruzando os braços. Estava mais magra. . quase todos oferecidos a Madalena. Claro que tenho.Acompanhas-me à porta?! Madalena acenou que sim e em seguida conduziu-o em direcção à saída. eu já vou indo! Ainda tenho que organizar algumas papeladas para amanhã.E esse estádio é…?! .Está bem.Impressão tua – respondeu ela compondo-se na sua camisola azul.Ela não está em casa? Gostava de falar com ela e entregar-lhe os presentes. Jorge e Daniel regressaram de férias trazendo consigo caras felizes e também vários presentes.Lá isso é verdade.discursou Jorge. – Estou na mesma.Esperemos bem que sim.Não?! Aonde é que ela foi? . . . .O. 145 . .Bem – mentiu Madalena depositando os presentes sobre o sofá.E tu? Como é que estás? .

à urina… ao HIV. naquela tarde. o estômago apertado e uma vontade descomunal de vomitar. e tentou encontrar nela toda a doçura e inocência que ela detinha quando se casaram e prometeram diante do altar amarem-se. mas… eu ainda acho que existe uma possibilidade de voltarmos a ser uma família outra vez. Na semana seguinte. da nossa casa… . voltou ao quarto e respirou fundo sentindo-se grata por ter conseguido sobreviver àquela autêntica prova de fogo. Por sorte.Exames de quê?! . Depois disso.foi a resposta desesperada de Madalena.Para quê?! . na riqueza. mulher apenas trouxe uma certeza a Jorge. Na primeira manhã de Agosto.Eu sei que tens todas as razões para não acreditares no que te estou a dizer.Nessa altura.Marca no mesmo dia. – Faço sempre esses exames de seis em seis meses para não ter nenhuma surpresa desagradável. Sara e Milene deram entrada na clínica onde a última costumava fazer exames periódicos. a jovem puxou o autoclismo e manteve-se inerte no chão durante vários minutos. Infelizmente Jorge não conseguiu encontrar essa mulher.Por favor. Mas não. Raios. Sara acordou mal disposta. E tu também devias começar a fazer… . não havia muitas pessoas para realizar exames e Milene foi a primeira a ser chamada pela assistente de serviço. Tinha a cabeça à roda. Morreu ao longo dos dezasseis anos de casamento que mantiveram. – Marquei uns exames para a semana – disse-lhe Milene ainda naquela tarde. Sem cerimónias.Esta casa já não é tua – respondeu ela calando-lhe os argumentos. fosse na pobreza. respeitarem-se e nunca se abandonarem.Podes não acreditar.Lena… .Não me podes marcar os exames?! Ao ouvir o pedido de Sara. e essa certeza era de que não havia a mais remota possibilidade de ela o aceitar de volta. . na saúde e na doença.Oras! Para saber se está tudo bem – respondeu a prostituta calçando as suas sandálias sentada na cama. provavelmente no teu lugar também não acreditaria. . mas ultimamente tenho sentido muitas saudades tuas… . . Jorge arranjou forças para abrir a porta e também para dizer algo que já havia ensaiado várias vezes durante as duas semanas que passou em Madrid: . Eu vou contigo. Depois disso. dos miúdos. Olhou-a mais uma vez. já reparaste?! . – Tenho sempre que fazer tudo por ti. Tenho sentido muita falta de ti. Talvez alguma coisa que comera na noite anterior? Ou seria antes a ressaca por ter bebido duas garrafas de whisky numa festa? Sem conseguir resposta às suas perguntas. Milene revirou os olhos e lançou um pesado suspiro. Preencheram as fichas oferecidas pela recepcionista e mais tarde escolheram duas cadeiras discretas para se sentarem. Nunca se havia sentido tão mal em toda a sua vida e nem sabia sequer o que teria causado tamanha indisposição. Fazemos os exames juntas! E assim foi. não lhe restou outra alternativa a não ser afastar-se da porta e deixá-la especada sobre o alpendre.Exames ginecológicos. . foi inevitável.Não Jorge… . ao sangue. agradeceu a passagem cedida pela assistente 146 . ela despediu-se de Sara e entregou-lhe os seus pertences para que os vigiasse. pois ela já não existia. Jorge! Vai! A expressão dura da ex. algo que fez assim que saltou da cama e se trancou na casa de banho. Assim sendo.

. – Aquele médico era um otário – resmungou a jovem à saída da clínica. Mas não contes comigo para te amparar em todas 147 .Sr.Normal! O de sempre – respondeu a prostituta vestindo o casaco às pressas. fazer coisas estúpidas só para provar que és a maior e que ninguém pode contigo. . enquanto ouvia os sermões do médico de serviço acerca da sua conduta sexual não muito aconselhável e da sua tenra idade para realizar exames como àquele (HIV). – Então?! Como é que foi? – perguntou ela assim que Milene pisou a sala de espera.Que eles até me tinham aconselhado a fazê-lo – respondeu Sara às gargalhadas. O silêncio de Sara deixou Milene alerta. – Não custa nada. Por sorte.Não! Ao contrário de certas malucas que andam para aí.Nem que tivesse sido só uma vez e muito menos com o Marco. deixando Sara a olhar para o relógio pendurado na parede.O que é que querias que ele te dissesse? É claro que te iria pregar um sermão. Podem vir buscar os exames daqui a oito dias. – Olha lá – exclamou ela segurando-lhe o braço com força. . disse-lhes a recepcionista. .Só deves ter medo se não te cuidares. .Tem calma! Eu disse que é só às vezes e é só com o Marco. e por sorte. – És parva ou fazes-te?! . – Quer dizer… às vezes com o Marco esqueço-me… . .E o que é que tu respondeste? . . os exames não demoraram a ser feitos.Sei lá – respondeu Milene acendendo um cigarro assim que viraram a esquina.Vai – ordenou Milene empurrando a jovem pelas costas quando lhe pressentiu algum nervosismo. – Se estiveres numa de estragar a tua vida.Perguntou-me se os meus pais sabiam que eu tinha vindo fazer um teste de HIV… .Porra. .Não tens medo dos resultados? .É claro que não – respondeu Sara desviando-se bruscamente. mas psicologicamente.Pois eu tenho medo.Coitado do velho! Deve ter ficado com os cabelos em pé quando lhe disseste isso. . – Tu não me digas que tens andado a trabalhar sem preservativo? . eu cuido-me bem. pensou. . Sara conseguiu desaparecer do consultório com a clara certeza que não voltaria ali a pôr os pés tão cedo.ª Sara Albuquerque!? – chamou a assistente do corredor. Só espero que isto não demore. Fisicamente não custou. – É sempre assim. nunca! Nem em sonhos! . Porque é que ele não se cala. por favor! .e desapareceu com ela pelos corredores da clínica.Mas porque é que temos que esperar oito dias até os exames ficarem prontos? . pá – gritou Milene chamando a atenção de algumas pessoas que iam a passar na rua.Escuta aqui – exclamou Milene apontando-lhe o dedo ao rosto. . por mim estou-me a lixar.Venha comigo. Quinze horas e trinta e cinco minutos. Sem preservativo.Sou eu – respondeu Sara saltando da cadeira. .Tem calma… . pensou. Sara sentiu-se incomodada.

Não! E tu? Não vais abrir o teu? Ao olhar para o envelope que tinha de encontro ao peito. – Quer dizer. as duas amigas voltaram a sair à rua no mais completo silêncio. agora para outras… Os momentos que se seguiram foram expectantes. As palavras de Milene permaneceram nos ouvidos de Sara quando ambas entraram na clínica onde estavam depositados os exames. – Estou limpa – exclamou Milene depois de ter analisado os seus exames com a máxima atenção. encheu-se de coragem e tornou a procurar Milene combinando com ela um local onde se pudessem encontrar. Um no nome de Milene dos Santos e o outro de Sara Soares Albuquerque. Nessa altura. Se não menos elas parassem um pouco só para lhe perguntar o porquê de ter tomado as decisões que tomou. – Não sou a tua mãe. Os oito dias que se seguiram foram longos.Não tens nada? . Não houve uma única noite em que Sara tivesse conseguido pregar os olhos enquanto esperava pelo resultado das análises. extenuantes e stressantes. .as tuas merdas porque eu já não tenho idade para isso.Milene… Tarde demais foi o que Sara percebeu quando ao chamá-la pela última vez Milene pura e simplesmente desapareceu sem deixar rastro. Se ao menos as pessoas fizessem a mínima ideia de como ela se estava a sentir miserável. 148 .Pensasses nisso antes de te teres armado em parva.O que foi?! Tenho Sida? . Mais uma vez. – Estás lixada – exclamou Milene aproximando-se dela. que sem conseguir aguentar tanta pressão. para umas coisas és corajosa. – Ainda estás chateada comigo? .Não consegui parar de pensar no resultado dos exames! Estou a morrer de medo.Não estou chateada – respondeu Milene apressando os passos em direcção ao metro mais próximo. nem paciência também! . Recebidos que estavam os exames. Por fim. Agora já não há como voltar atrás. começou a sentir a sua cabeça a andar à roda. O que está feito está feito. não só por ter tido relações sexuais sem qualquer protecção. quando finalmente chegou a altura de receber os exames. as pessoas na rua pareceram-lhe desfocadas e as suas mãos suaram como se estivessem a ser encharcadas por uma torneira aberta. . Por momentos. sentou-se num pequeno pilar junto ao edifício da clínica. Mas ninguém parecia estar minimamente preocupado consigo e também já não havia como voltar atrás. as duas amigas dirigiram-se à recepcionista e aguardaram que ela procurasse nos arquivos dois grandes envelopes castanhos. não lhe restou outra alternativa a não ser voltar para casa e dar-se conta da grande asneira que tinha cometido. Sara hesitou. mas principalmente para Sara. tanto para Milene.Não! Pior! Estás grávida. – Dá-me cá esta merda – disse Milene arrancando-lhe o exame das mãos. mas também por levar uma vida desregrada cheia de más companhias e outras histórias escabrosas para contar. . e se queres saber. E se estivesse doente? E se tivesse apanhado o HIV? Eram as perguntas que lhe assombravam os pensamentos todas as horas do dia. lembraste?! .

Eu conheço-o. .O que é que eu faço? Silêncio foi a resposta de Milene.Eu não posso fazer isso! A minha mãe iria matar-me.Só acho que sabes mais coisas do Marco que eu não sei. entre Sida e gravidez venha o Diabo e escolha. . é só pedires o número de uma clínica a qualquer prostituta lá do bairro. . não?! .. Não te fiz o filho.Acho que vou falar com o Marco primeiro.Às vezes parece que o conheces até demais – afirmou Sara interceptando-lhe os passos.Não vai valer de nada. não?! – respondeu Milene apressando-se a acender um cigarro para acalmar os nervos. – Não pode ser. – A única vez que fiquei grávida tive a criança. .Ele não faria isso – murmurou Sara não conseguindo esconder os seus olhos assustados. . Aonde é que eu estava com a cabeça.Ai agora perguntas-me a mim? Eu sei lá o que é que fazes! Não tenho nada a ver com isso.Já foi teu cliente?! 149 . Depois disso. abri as pestanas e nunca mais me armei em parva de engravidar outra vez.O que é que foi? Ainda te estou a tentar ajudar e tu vens-me com essas cenas?! . . .Será que os exames não estão errados? .Sei lá! Nunca fiz nenhum – respondeu Milene voltando a largar-lhe o rosto. não é?! . – O que é que eu faço? – repetiu Sara. . minha cara – exclamou Milene segurando-lhe a face com força.Não acredito – murmurou Sara arrebatando-lhe o envelope das mãos.Ui.Só preciso de uma luz.E se não for? .E dói fazer um aborto?! . contar à tua mãe que estás grávida e decidir se queres ou não ter o bebé. Eu sabia! Tipo sexto sentido estás a ver?! . . . . .É natural! Já o conheço há muitos anos e ele também já foi meu cliente.Só pode ser o Marco. – O pior é que tu nem sabes quem é o pai.Eu tenho a certeza que é.Não me vais abandonar agora. .Eu sabia que esta cena dos exames iria dar merda. pelo menos não tenho Sida. . já te disse! Ele não te vai ajudar.Olha aqui a luz.Bem. . estás lixada! Ele não vai assumir a criança e ainda é capaz de te mandar fazer um aborto. Garanto-te que números não te vão faltar. queres ver! Porque é que achas que até hoje ele nunca foi pai? Sorte. meu Deus? Era certo e sabido que iria acabar por sobrar para mim. .Bem. .É! Devem estar mesmo errados. Vai confiando nisso que daqui a nove meses vais ver o erro – respondeu Milene levando uma das mãos à cintura. . rapariga! Grávida! Vais ter um bebé. . – Tu ainda não percebeste a gravidade da situação!? Estás grávida. não é?! . . – A luz é que vais chegar a casa.O meu maior erro foi ter-te dado ouvidos naquele dia em que me foste procurar para ser prostituta. não faria.Então o que é que queres fazer? Um aborto? Se quiseres fazer isso.Então se for.

sobre os ombros dos teus pais porque tu nem sequer tens idade para arranjar um emprego decente.Eu sei – murmurou Sara limpando as tímidas lágrimas que lhe caíram dos olhos. . 150 . mas quando a mãe se voltou para o fogão. e principalmente.Porque é que nunca me contaste isso antes? .Estou doente – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico.Depois vejo isso. ela não tinha ninguém a quem recorrer. Vou andar sempre em cima de ti para me certificar que não andas a faltar às aulas. – Daqui nada entramos em Setembro… – disse-lhe Madalena enquanto provava o molho do frango na panela. . E este ano nem penses que te vou dar descanso! Muito pelo contrário. Sara chegou a casa antes de o anoitecer.. e a sua vida nunca mais teria paz e sossego. não estava doente e nem nada que se parecesse. principalmente a sua mãe. Com certeza que nenhum deles iria compreender. que mais alternativas lhe restavam? Tal como Milene lhe dissera horas antes. .Um namoro muito torto se queres que te diga – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro.Porque nunca veio ao caso! Tens a noção da quantidade de clientes que já tive? . podes crer que todas as responsabilidades vão cair sobre os teus ombros. . A sua única doença era não saber o que fazer quando todos descobrissem que estava grávida. Na verdade. como fazer. mãe… – murmurou a jovem servindo-se de um copo de água. – E não bebas a água do frigorífico! Só te faz mal à garganta. para se sustentar e muito menos sustentar uma criança que não foi de todo planeada ou desejada. não é!? O mal já está feito. . O que é que iria fazer dali por diante. nem como homem e muito menos com pai.k.Hã… já chegaste – disse-lhe a mãe ao vê-la a entrar na cozinha. . Pensar no que fazer. – Que milagre! Até para estranhar. quando fazer. Se resolveres ter o bebé. O Marco nunca te vai ajudar se resolveres ter essa criança. . a única opção que lhe restava era continuar a pensar. Grávida aos dezasseis anos de um homem que era tudo menos de confiança e com um grande dilema nas mãos: Contar ou não a verdade aos seus pais. . Sara aceitou os comprimidos com alguma cautela. eu só quero que abras os olhos e deixes de ser ingénua. muito pelo contrário. não tinha idade para arranjar um emprego decente.O que é que tens? .Não é depois! Vais ter que tratar desse assunto o quanto antes para não perderes vaga. Fariam um escândalo.Mas o Marco é diferente! Tu sabes que nós namoramos. . . ou melhor.Gripe. . – Escuta Sara. e pela expressão facial marcada não foi muito difícil perceber que tinha também passado a tarde inteira a chorar e a lamentar-se da sua triste sorte. ela guardou-os discretamente no bolso das calças. perguntou-se.Sim – respondeu Milene revirando os olhos quando percebeu que tinha falado demais. Diante daquela situação no mínimo catastrófica. Ele não presta. Mas por outro lado. – Vais ter que meter os papéis da matrícula na escola.O.Toma – disse Madalena atirando-lhe uma caixa de compridos.Se não andasses na rua até tarde não apanhavas doenças. nem como namorado. . Pela primeira vez naquela semana.Agora não adianta chorar.

. se for rapaz chama-lhe aquilo. . Na mesma mesa também se encontrava Arlete. A notícia da gravidez de Sara foi recebida com alguma apreensão por parte da maioria das prostitutas do Intendente.Mas… . – Estás muito contente – disse Milene a Sara quando ambas se sentaram numa das esplanadas mais frequentadas do bairro.Velha é a tua mãe – defendeu-se Arlete ameaçando uma bofetada enquanto Milene e Sara se riam a bom rir.Nem pensar – interferiu Arlete. Que estúpida! Ainda não dá para ver nada.Uma imperial também! De qualquer maneira não há nada melhor nessa espelunca. 151 . – Mania pá! Tomara muitas mulheres nos cinquenta estarem assim como eu.Ui! Clientes é o que não te faltam… – riu-se Milene. – Está um calor de rachar. e no fim. Mas de facto. houve qualquer coisa em si que mudou. trouxe-lhe uma calmaria difícil de explicar. outras optaram por a parabenizar. mas o simples facto de saber que ele existia e que estava no interior do seu ventre.Vou para o meu quarto. . passou-lhe essa ideia maluca pela cabeça enquanto enfiava uma almofada por debaixo da camisola e se imaginava com nove meses de gestação. Milene? .Não te tranques lá dentro! O jantar está quase pronto. meninas?! . e outras ainda. No fundo. . desde que soube que estava grávida. tal como se era de esperar.A velha tem razão – concordou Milene.O que é que vão pedir. ninguém conseguiu chegar a nenhum consenso. .Imagina se não andasse – respondeu Madalena voltando-se para o fogão.Por acaso! Olha que até hoje não tenho tido muitas razões de queixa. não seria uma loucura tão grande imaginar um desfecho risonho para aquela verdadeira história de terror.Hei! Isto aqui é um estabelecimento de primeira. aventuraram-se na procura dos primeiros nomes. – Estás grávida. dizer que a amava e que juntos iriam criar o filho que fizeram. Não sabia muito bem o que era. – Mulher grávida não bebe.O mesmo que elas. ..Para mim pode ser uma imperial – respondeu Arlete abanando-se com a mão.E tu. Quem sabe Marco até não fosse gostar da ideia de ser pai. Sara caiu na cama e fechou os olhos tentando imaginar a reacção de Marco. – Sara. Com um misto de sensações diferentes. . estão a ouvir?! – resmungou o empregado quando ouviu as gargalhadas das três prostitutas. foram as palavras que Sara proferiu baixinho enquanto examinava a sua barriga à frente do espelho do quarto. Algumas alertaram-na para o destino cruel que a esperava.Acho que já me habituei à ideia – respondeu Sara observando a chegada do empregado de mesa.Tu já andas sempre em cima de mim. . . Se for rapariga chama-lhe isto. diz lá o que é que queres! . . . Imaginou que ele a fosse tomar nos braços. não sabia até que ponto aquele filho iria mudar a sua vida. . lembraste? Não podes beber.

Pensam que fiquei com a cena e com o dinheiro. . Arlete perguntou: . . .Está bem.Ele desconfia de alguma coisa? – perguntou Milene.O que foi? – perguntou Marco. Acedida à ordem. Física e mentalmente. sorridente. . contaria a verdade aos pais e quem sabe até moraria com Marco no Algarve onde embalados num clima paradisíaco os dois criariam o filho. entendes?! . . O dever me chama.Já te disse que hoje não vou poder dormir em Lisboa.Estou-me a preparar para a próxima semana – respondeu Sara. nem faz ideia sequer! Eu quero que seja surpresa. 152 .Aonde é que vais? .Uns gajos andam atrás de mim por causa de uma mercadoria que não consegui devolver a tempo. não sei se me entendem. . ela esperava encontrar todas as respostas às suas perguntas. Sara e Marco subiram as escadas aos beijos e abraços e não tardaram a abrir a porta do quarto para ali dentro matarem todas as saudades que tinham sentido um do outro. . e enquanto Sara saboreava o seu sumo de laranja natural. – Bem meninas! Tenho que ir.E então. . Os dias seguintes trouxeram alguma ansiedade a Sara e tudo porque ela continuava sem saber qual iria ser a reacção de Marco à sua gravidez. fecha o bico – imperou Milene. Ficaria contente? Ficaria confuso? Irritado? Furioso? De facto.Tem calma! Temos a noite toda. – Sabem e não me querem contar. apreensiva. . – Combinámos que ele vinha ter comigo. foram as primeiras palavras que ele disse quando viu Sara diante de si.E ficaste? Marco esboçou um sorriso e logo se apressou a retirar a sua arma por detrás das costas. e depois disso.Não.Arlete.Ficaste?! – insistiu Sara. . Nessa altura. Sarita?! Quando é que vais contar ao Marco que ele vai ser papá? . Esperava também encontrar nos braços de Marco a confirmação de que tudo iria correr bem e de que podia contar com ele para o que quer que fosse. mas naquela sexta-feira de Agosto particularmente friorenta e cinzenta.Ninguém sabe de nada – respondeu Milene levantando-se da mesa enquanto terminava o último gole da sua cerveja. não havia como prever a sua reacção. .Porquê?! . – Espera – disse ela. impaciente. . . está bem! Já não está aqui quem falou. o relógio assinalou vinte e três horas e o dono da pensão entregou-lhes a chave do quarto dezoito com um aviso claro e severo para que não fizessem muito barulho tendo em conta o adiantado das horas.Boa sorte – riram-se Sara e Arlete. Depois disso. . Milene atravessou a rua. .A animação e as risadas das três prostitutas continuaram por vários quartos de hora. – Sinceramente não gostava de estar na tua pele. não é?! – perguntou Sara franzindo o sobre olho e encarando os rostos constrangidos das duas prostitutas. Morri de saudades tuas.E vai ser cá uma surpresa – exclamou Arlete terminando a sua imperial.Tenho um cliente daqui a quinze minutos e ainda tenho que me preparar para o receber.Porquê?! – perguntou Sara.Vocês sabem alguma coisa do Marco que eu não sei. ela voltaria a casa.

Marco. Tu tens que acreditar nisso.O que é que isso importa? . . – Espera – exclamou ela livrando-se dos braços dele. – Diz lá! . de quem!? De ti… – respondeu Sara surpreendendo-se com tal pergunta.Tu nem sabes quem é o pai dessa criança. o seu coração apertou-se de tal forma que por momentos foi-lhe praticamente impossível respirar. . Uma coisa que descobri há duas semanas. O que é que foi? Andaste a fazer coisas que não devias.Porquê?! Não queres estar comigo? . Grávida! . – Olha bem para mim e diz se eu tenho escrito na testa a palavra otário!? . .Oras.Olha bem para mim. .É claro que quero.Hiii! Já não estou a gostar nada da brincadeira.O.Prometes que não ficas chateado? . Pode ser qualquer um que tenha passado pelo bairro. . abrevia porque eu não tenho muito tempo. Mas a verdade é que enquanto o fazia.Grávida?! – exclamou Marco levantando-se bruscamente da cama.Está bem – respondeu ela sentando-se numa das pontas da cama.Marco!? .E tu estás à espera que eu acredite nisso? . sabes como é que é! A Milene está cansada de fazer esses exames e disse que eu também os devia fazer para… .pediu Marco colocando-se à frente dela. e… eu soube que… estava grávida… . é isso? . .k! Eu prometo – respondeu ele revirando os olhos.Então cala-te e beija-me! Sem outro remédio à vista.E se esquecesses esse assunto.O que foi?! Bem.Eu não estou à espera de nada. . esse pessoal é perigoso! . Coisa de rotina. – Na semana passada fomos buscar os exames.Há dias atrás eu e a Milene fomos fazer uns exames só para saber se estava tudo bem connosco.Não é nada disso! Mas é que… eu tenho uma coisa para te contar. . .Só conto se prometeres que não ficas chateado. tu hoje estás com muitos truques. Sara viu-se obrigada a obedecer às ordens de Marco e a brindálo com um longo beijo nos lábios. Claro que ela odiava o facto de Marco andar em negócios estranhos.Sim. – Eu não vim aqui para falar nesses filhos da mãe! Vim para estar contigo. .De mim? . Sara… . . 153 .De quem?! .Marco… . .O quê? – perguntou Marco apoiando os cotovelos sobre a cama.Sim! De ti! Eu tenho a certeza porque a data coincide com uma vez que estiveste cá em Lisboa..Sara. hã? – respondeu ele puxando-a contra si. mas odiava ainda mais perceber que muitas vezes ele perdia a noção do perigo por ser tão ganancioso e inconsequente ao ponto de brincar com traficantes de droga.

Tu fizeste-me prometer isso. Não és a primeira e nem vais ser a última a tentar dar-me a volta. – Mas eu se fosse a ti tirava mesmo o bebé! Ainda és muito nova para ser mãe e irias acabar por te arrepender mais tarde. chegou a essa conclusão. problema teu! Resolve.O que é que foi? Estavas à espera que eu ficasse contente? Que te fosse pedir em casamento e ainda escolher o nome do puto? Acorda. Enquanto ouvia o discurso amargo de Marco. Acabou! . já ando eu farto. – Acabou! Mete isso na tua cabeça. eu estou-te a dizer que este bebé é teu.O filho é teu – murmurou Sara com os olhos rasos de lágrimas. . otária! De gajas como tu. Se não quiseres eu tiro! . mas isto já se está a tornar demasiado sério para o meu gosto. eu vou-te dar um conselho! Podes já começar à procura de outro palhaço para sustentar o teu filho porque eu estou fora… – afirmou Marco encontrando a sua arma sobre a mesinha e o seu casaco sobre a cama. por fim. Como se enganou com ele. Mas ali.Tu não podes fazer isso – exclamou ela segurando-lhe o braço. gostei de estar contigo.E achas mesmo que eu acredito em ti? . – Eu tiro. nem sequer tinha vindo. A última vez foi contigo e eu disse-te que ia largar a vida por tua causa. – Sara! Sara – disse ele sacudindo-lhe os ombros quando ambos saíram à rua. . Se engravidaste. se eu soubesse que era por causa disso. Sentiu também como se o mundo tivesse desabado por debaixo dos seus pés e que não houvesse absolutamente nada para a amparar. Como se iludiu com um homem que não conhecia nada de si e que nem sequer estava disposto a conhecer. colocou-o num pedestal e chegou inclusive a sonhar com um futuro promissor ao lado de um traficante de droga. pensou. Aliás. Eu não tenho razões para te mentir! . . ela deu-lhe tudo o que podia. Acabou! A sério! Foi divertido enquanto durou.Ou vais negar? – perguntou ele lançando-lhe um olhar desafiador. 154 .. Quando o viu a desaparecer pela porta. mas que na verdade não conhecia nada da vida. – Vais negar que durante esse tempo todo não tens trabalhado como prostituta? . naquele quarto de pensão e de volta à realidade. De um sonho de uma miúda de dezasseis anos que se julgava muito esperta.Mesmo se tirares. – Aliás. ela percebeu que tudo não tinha passado de um sonho infantil.Eu tiro o bebé – afirmou ela segurando-lhe a manga do casaco. Não sabia absolutamente nada e talvez nunca viesse a saber. o desespero tomou conta de Sara e ela não teve outro remédio a não ser segui-lo pelas escadas da pensão completamente lavada em lágrimas e implorando-lhe para que ele não a abandonasse.Sara. Sara sentiu duas enormes lágrimas rolaremlhe pela face.Há semanas que não tenho ido para a cama com ninguém. . Durante meses.Marco. Eu não fui feito para ser pai! Nem para ser pai e muito menos para me prender a uma gaja da vida – respondeu Marco terminando-lhe com todas as esperanças de um possível romance entre os dois. – Já vi que perdi o meu tempo – disse Marco. o que é que ela sabia da vida? Do mundo que a rodeava? Das pessoas que a rodeavam? Não sabia nada.Marco… .

testemunhas e recolheu-se o corpo da vítima. Pé ante pé. mas a dormir. ela murmurou levando a mão à boca. não tem idade para aqui estar. larga-o! Ele está morto. A jovem chorava. enquanto algumas pessoas.Será que não percebeste o que é que se passou? Mataram um homem lá em baixo. de vinte e oito anos cujo último desejo em vida foi o de não querer ser pai. Não. ouviu-se um berro no outro lado da rua. mas ainda assim. Depois disso. Viu pessoas a correrem de um lado para o outro. o seu coração parou de bater por breves instantes. imbecil – respondeu Milene atirando-lhe as duas notas de cem euros. procuraram um local perfeito para se esconder. Para ela. gritava e não permitia que ninguém lhe retirasse o pai do seu filho dos braços. – Hei! Vais-me deixar assim? – perguntou o cliente quando ela voltou ao quarto e encontrou as suas roupas espalhadas pelo chão.Toma a merda do dinheiro. E foi nessa altura que ele se voltou para trás sendo posteriormente surpreendido com cinco de tiros de caçadeira. Milene afastou-se do cliente e saltou da cama atordoada.. procuraram-se identificações. quase tropeçou no tapete à entrada. sangue e os gritos de Sara. ela aproximou-se da janela e abriu o vidro para tentar perceber que raios se estava a passar. . quando os ouviu. ela abriu a porta e saiu do quarto ainda a tentar calçar as sandálias. Ao ouvir os tiros vindos da rua. Correu pelas escadas da pensão. – Sara – chamou Milene tentando trazê-la de volta à realidade. o carro que continha os três mandatários do crime arrancou a alta velocidade deixando para trás um rastro de destruição. ao vê-lo cair inanimado no chão. Dito isto. com um cadastro um pouco mais duvidoso. – Sara. quase todos cravados no seu peito. a área à volta do crime foi delimitada.Porquê?! . – Ele não está morto! Não está…! Ele não está morto. . Meu Deus. menina – disse um dos policiais aproximando-se dela após todas as burocracias resolvidas.Não – gritou ela enfrentando o rosto da amiga.Vai ter que nos acompanhar. aquela não era a primeira vez que escutava tiros no bairro. . ouviu os estores dos prédios a subirem a uma velocidade fantasmagórica. Não está morto…! As sirenes da polícia e da ambulância não tardaram a ser ouvidas no bairro.Porque era a única pessoa presente na rua na altura do crime. Marco não tinha morrido. . um jovem traficante de droga. mas por sorte conseguiu chegar à rua onde um aglomerado de pessoas já se havia juntado à volta de Sara e do corpo de Marco. talvez a cena mais chocante de todas. . e para isso bastou apenas as portas da ambulância fecharem-se com um enorme estrondo. Por acaso os seus pais sabem que está aqui? 155 .Pode até ser – respondeu ele encolhendo os ombros enquanto se afastava lentamente dela e a deixava sozinha no meio daquela rua deserta. – Não preciso dele para nada. Estava apenas a dormir. e além disso. sem margem para erros e que retirou a vida de Marco. a sua amiga Sara lavada em lágrimas com a cabeça de Marco sobre o colo. Profundamente. e por fim. De facto. – Mas eu não o quero! E tu não me podes obrigar a querê-lo… MARCO. Meus Deus. Tinha sido um abate perfeito.Mas eu paguei. Mais tarde. . Foi também a primeira vez que Sara se deu conta que Marco tinha realmente morrido.

– Anda – disse Arlete levando Milene encostada ao ombro. de tristezas.Só me pergunto até quando… . . é a nossa obrigação contactar os pais assim que chegarmos à esquadra. agente! Será que não era possível resolvermos essa situação sem meter os pais dela no meio? – perguntou Milene recebendo um abraço desesperado de Sara. .Eu acho que eles não iriam entender. Que não sonhavam ter uma vida igual à de todas as outras mulheres. Então menina?! Vem connosco? . .Boa sorte! Foram precisos apenas cinco minutos para que Sara fosse levada pelos policiais e o corpo de Marco transportado na ambulância para um hospital mais próximo. deixaram-se de ouvir as sirenes no Intendente e tudo o resto voltou à mais completa normalidade.Sim – respondeu Sara afastando-se de Milene com um estranho aperto no coração. – Eu só conhecia o namorado dela. Madalena acordou sobressaltada imaginando quem seria. ter filhos e viver felizes para sempre. Sete anos de luta.Não sei – respondeu Milene limpando uma tímida lágrima. casar.Eu sinto muito mas as coisas vão ter que ser feitas dentro da lei! Como ela é menor.Queres que vá contigo? – perguntou a prostituta sob o olhar atento do polícia. . qual era o ser humano que não desejava uma coisa dessas? Mas a vida às vezes é demasiado cruel para certas pessoas e nem sempre a felicidade bate à porta de todas. Depois disso.. Por vezes somos obrigados a fazer escolhas. – Já não sei de mais nada. – Vamos para casa! O telefone sobre a mesinha de cabeceira tocou ruidosamente. Nem sempre é possível ter-se tudo aquilo que se deseja ou todas as pessoas que amamos. Que não tinham sonhos.Até quando vamos continuar a viver nesta merda – respondeu Milene tentando engolir o nó que lhe atravessou a garganta. . a tomar caminhos errados e a aprender com os nossos próprios erros. Coincidência ou não. – Até quando. ainda não se tinha perdido na vida e muito menos conhecido a maioria dos habitantes da zona.Não fiques assim. . . Que não desejavam encontrar um grande amor. .Não! Não é preciso. projectos e muito menos sentimentos. . Até porque. fazia precisamente sete anos.Não – respondeu Sara limpando o rosto marcado pelas lágrimas.Sr. O relógio assinalava duas horas e vinte e 156 . e por momentos. – Achas que ela vai voltar algum dia? – perguntou Arlete aos ouvidos de Milene enquanto os carros da polícia desapareciam a alta velocidade. amarguras e um rol infinito de outros acontecimentos que para sempre iriam ficar gravados nas suas memórias. À mesma normalidade que existia quando Sara ainda não frequentava o bairro. rapariga! . . Enganados estavam todos aqueles que pensavam que elas gostavam do que faziam. naquela noite. pagamos bem caro por eles. o que acabou por morrer.Até quando o quê?! .De vista – mentiu Milene. e na maioria dessas vezes. meu Deus?! Porque eu já não sei se aguento muito mais… Era a primeira vez que se abraçavam e choravam juntas desde que se tinham conhecido.Já vi que vocês se conhecem muito bem.Porquê?! .

Na verdade. Como advogado saberia enfrentar aquela situação bem melhor do que ela. Madalena saltou da cama e tentou controlar o pavor que sentiu ao saber que Sara estava presa por ter sido a única testemunha de um homicídio. – Estou – respondeu Madalena tentando encontrar forças para abrir os olhos e reconhecer a voz grossa e formal no outro lado da linha. Mas o pior nem foi isso! Sabes aonde é que a polícia a encontrou?! . Assim sendo. Sara ainda não havia regressado a casa. – A Sara tem muitas coisas para nos explicar. Nunca iriam entender o que aconteceu e muito menos perceber que uma parte de si tinha também morrido naquela noite. Já estou a ir para lá – foi a resposta de Jorge assim que ela lhe explicou todo o sucedido.Vens-me buscar para irmos juntos?! . para quê explicar esse facto quando era notório que os pais não a conheciam minimamente e nem sequer faziam ideia do horror a que ela tinha sido submetida quando viu o seu namorado ser brutalmente assassinado a poucos metros de si? Madalena e Jorge não iriam compreender. eu conto – interferiu Jorge com uma expressão nada amigável. como errou e porque é que errou? . Aonde foi que errou. ela encontrou também Sara com os olhos inchados de chorar e uma t-shirt marcada pelo sangue de Marco. conseguido esse feito. Não tinha e nem queria explicar que naquela noite perdera uma das pessoas mais importantes da sua vida e também da vida do filho que estava à espera. . Mais tarde. Era advogado. Sara? – insistiu a mãe. Mas os seus desejos pareciam difíceis de serem concretizados quando ao olhar para o relógio viu que nele estavam assinaladas quatro horas e vinte e oito minutos. ela tornou a lançar um olhar vazio aos seus progenitores e manteve-se inerte. que fez o coração de Madalena gelar como nunca. – O que é que aconteceu? . não lhe restou outra alternativa a não ser passear por todas as habitações da casa e desesperar-se entre lágrimas e soluços. diz-nos…! . – Por favor. marido.Entra – disse uma voz grave após a abertura da porta. – O que é que aconteceu. O que teria acontecido para que Sara se tivesse desvirtuado daquela maneira. precisamente essa tshirt.Aonde? – perguntou Madalena. – Um amiguinho dela foi morto à caçadeira e parece que ela foi a única testemunha do crime. Depois disso. – Não te preocupes. Mais tarde. tudo apontava para que fosse ela. para além do ex.Sara. pensou. o que é que aconteceu? – perguntou-lhe a mãe. 157 . e por isso.Acho melhor irmos para a sala – respondeu Jorge conduzindo a filha pelo braço enquanto um pouco mais atrás Madalena os seguiu cautelosamente. – A minha filha. Madalena desceu à sala e aguardou que a porta da rua se abrisse a qualquer momento.Se ela não conta. A pergunta não sofreu qualquer resposta quando Sara se afastou dos braços do pai e encontrou na mesa um local perfeito para se apoiar. E foi essa t-shirt. aflita. À espera de notícias.quatro minutos. . Não tinha absolutamente nada para lhes dizer.No Intendente. Era a voz de Jorge. Foram as duas horas mais longas da sua vida. o quê?! Atordoada com todas as revelações feitas pelo agente de autoridade. . marido na agenda com a certeza que só ele a poderia ajudar numa emergência daquelas. perguntou-se vezes sem conta. apressou-se a encontrar o número do ex. apreensiva. é melhor não! Fica em casa! Eu resolvo isto. Madalena pôde ter essa certeza quando voou em direcção ao corredor. raios.Não.

o que é que tu estás a fazer num lugar daqueles? – perguntou Madalena voltando-se bruscamente para a filha.Jorge. – Os homens nunca criam as filhas para as ver no Intendente.Sara. a verdade é que ela estava certa quando lhe disse que a realidade estava mesmo diante do seu nariz. Achas isto normal? .Achas mesmo. Mas não. Satisfeitos!? A pergunta de Sara culminou com uma valente bofetada de Jorge e com o olhar aterrador que ele lhe lançou em seguida.O que é que está diante do nosso nariz? – perguntou Madalena temendo ouvir a resposta.Tu sabes. Sara cerrou os olhos e deixou de os ouvir.Deixem-me em paz! . .Engraçado – respondeu Sara levantando o rosto desfigurado. – Eu sou prostituta sim. não sei… .Não.Sara. marido se lançou contra a filha a fim de extravasar todo o ódio e toda a repulsa que a resposta dela lhe trouxe. Muito pelo contrário.Tu sabes! Mas se quiseres eu posso dizer-te com todas as letras – respondeu Sara gesticulando furiosamente os braços. tu não te atrevas a falar connosco nesse tom – imperou o pai. com paciência.Vocês sabem muito bem o que é que eu estava a fazer no Intendente. Madalena tentou enganar-se. em dezasseis anos. Pronto! Aí está a verdade que vocês tanto queriam saber. . A nossa filha estava no Intendente. . – Tu só podes estar a gozar – murmurou Jorge também ele estupefacto com tudo o que tinha acabado de ouvir. não – gritou Madalena quando o ex. Mas depois. – Eu sou prostituta! PROS-TI-TU-TA! Um esforço sobre-humano foi o que Madalena teve que fazer para se conseguir manter em pé após a revelação da filha.. e embora nunca lhe tivesse passado pela cabeça que Sara se estivesse a prostituir. – Enlouqueceste?! Será que não sabes que nesse lugar só há bandidos. pai!? Achas mesmo que eu estou a gozar? – respondeu Sara mostrando-lhe um sorriso maléfico.Mas a única coisa que não querem é admitir a vocês próprios algo que está e sempre esteve diante do vosso nariz! . Durante meses. quando regressou à realidade e a voz estridente da mãe continuou a ecoar-lhe aos ouvidos. . . ele ousou bater em Sara. a cada semana. as coisas iriam melhorar. E a verdade é que pela primeira vez. . não foi preciso muito tempo para que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo e a fizesse soltar um berro ameaçador: . pensando enquanto o fazia.Sara… . 158 . ela mostrava-se um ser humano odioso e repugnante. tentou convencer-se a si própria que o comportamento da filha era perfeitamente normal para uma adolescente de dezasseis anos. pois a cada dia. e que com o tempo. a cada mês.O quê?! . porque quero e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens. – Eu não andei a criar uma filha para a ver perdida no Intendente. drogados e prostitutas? Enquanto ouvia o discurso moralista dos pais e todas as verdades que eles fizeram questão de lhe jogar à cara durante vários minutos. e sou porque gosto. A príncipio foi como se tivesse entrado numa outra dimensão ou tivesse sido transportada para um lugar longínquo. Nem o tempo e nem a paciência fizeram de Sara uma pessoa melhor. mas no entanto vão lá para procurar as filhas dos outros… .Isso mesmo que ouviste.

Sara alcançou o corrimão das escadas e voou como um foguete em direcção ao quarto. Não sabia o que fazer. Nem as várias tentativas 159 . chegou também a essa conclusão. mulher. Sara perdera-lhe todo o respeito. Não sabia o que fazer para reencontrar a filha que perdera meses antes. pelo irmão ou pelo pai que naquela noite fez questão de lhe dizer com todas as letras que já não se considerava o seu progenitor. – A partir de hoje já não te considero a minha filha… . tudo pareceu desmoronar. – O que é isto? – murmurou ela tentando abrir a porta com vários safanões. Na verdade. Contudo aquela noite veio a provar que já era tarde demais para retomar o seu papel de pai. admiração. pois nunca se mostrou um pai presente. – Jorge… . tudo deixou de fazer sentido e uma sensação de desespero invadiu-lhe o coração já por si destroçado. e na mente.disse ele fazendo um esforço sobre humano para não derramar duas lágrimas que se haviam apossado dos seus olhos. Uma mãe tão desesperada que naquela madrugada não viu outra alternativa a não ser trancar todas as portas de casa para impedir que a filha voltasse a sair por elas. que decisões tomar dali por diante e como superar aquele inferno que estava a viver. trazia uma mala e uma mochila. Madalena sabia. Nessa altura. tornou a murmurar. a porta fechou-se violentamente e os vidros da janela agitaram-se trazendo consigo uma dor aterradora que Jorge nunca pensou sentir em toda a sua vida. . Nas mãos. mas também a única forma de impedir Sara de cometer mais loucuras. pensou.chamou Madalena aproximando-se lentamente dele naquele corredor às escuras.Eu sei – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando o ex.Olha só no que é que a nossa filha se transformou… . Assustada com a ideia de se ver presa naquela casa.que a culpa de tudo aquilo era sua. Jorge alcançou o casaco sobre o sofá e saiu da sala. De facto. – E também não quero que me consideres o teu pai! Sob o olhar desesperado da ex. assim como a que dava acesso às traseiras. Ditas estas palavras. Era uma medida extrema. enfiou a cabeça por entre as pernas e tentou sufocar o choro compulsivo de uma mãe desesperada. Sara correu em direcção à cozinha a fim de encontrar uma outra escapatória. já não pertencia àquela família e nem sequer nutria qualquer tipo de sentimento pela mãe. que tinha morrido há muito tempo e que ele foi o último a dar-se conta desse facto irrefutável. Foi também nessa altura que ele percebeu que a sua filha já não existia. tinha desaparecido sem deixar rastro. já não lhe restava mais nada a fazer naquela casa quando era certo que tinha acabado de perder tudo o que lhe era mais querido na vida. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara voltou a descer ao primeiro piso. – Jorge… . e o que sobrara da menina doce e inocente que ele um dia carregou ao colo. Era o fim.disse ele deixando-a caída no tapete da sala. marido abriu a porta e atravessou o jardim em direcção ao carro. Não. nunca lhe impôs limites e sempre fechou os olhos às loucuras cometidas por ela. – Vai-te embora! Não foi sempre isso que fizeste durante toda a tua vida? Pelo menos agora já não precisas fingir que és pai. Nessa altura. A porta também se encontrava fechada. Já não tinha mais nada a fazer ali. a única coisa que sabia era que precisava de ar para respirar e foi isso que tentou encontrar quando se sentou junto à porta de saída. a vontade incondicional de sair daquela casa. Depois disso. – Vai – gritou ela interceptando-o no corredor.

. . pai! A Sara vai matar a mãe! As últimas palavras de Daniel coincidiram com um estrondo gigantesco vindo das escadas.Já disse que não. O fim de todo o respeito que mãe e filha ainda sentiam pela outra.Dá-me a chave! .Dá-me a chave! . é isso?! . – Pai! A Sara vai matar a mãe. Nenhuma das duas tinha morrido ou tão pouco sofrido lesões mais graves visto as escadas não serem inclinadas. 160 . estalos e gritos. dois. enquanto se aproximava pé ante pé. Um.para forçar a fechadura resultaram e esse facto apenas acrescentou ainda mais o ódio que ela estava a sentir dentro de si. filho – gritou Madalena enquanto se tentava desenvencilhar dos braços de Sara. A única coisa que suplantou a dor da queda foi o susto. – Chama o pai! Sem esperar segunda ordem. – Dá-me a chave – era o que gritava como uma louca. ele viu os corpos da mãe e da irmã estatelados no corredor e não tardou a perceber que ambos tinham caído devido à luta. Mas ela que não pensasse que a iria prender no interior de uma casa onde não desejava estar. Madalena mexeu a perna. – Mãe… – ele gritou. Quero ir-me embora. eu posso sim obrigar-te a fazer aquilo que eu quiser e aquilo que eu achar que é melhor para ti.Não – respondeu Madalena recuando vários passos quando a sentiu demasiado perto de si. . Daniel correu ao telefone que se encontrava no quarto da mãe e digitou o número de Jorge. . Sim. .E eu já te disse que não ta vou dar.O que foi? Vais-me tornar na tua prisioneira.Tu não vais a lado nenhum – respondeu Madalena levantando-se da cama.Dá-me a chave da porta! Eu quero sair. três toques e o advogado finalmente atendeu para grande alívio da criança. Tinha sido a sua mãe a trancar todas as portas só para a prender ali adentro. . Ela que não pensasse sequer numa coisa daquelas. . Aquele tinha sido o princípio do fim. Gritos que fizeram acordar o pequeno Daniel. . – Dá-me a chave – gritou Sara entrando pelo quarto da mãe com uma expressão aterradora. o fim de uma relação de dezasseis anos e a certeza que dali para a frente as coisas nunca mais iriam voltar a ser as mesmas. sem se lembrar que ainda estava ao telefone com o pai.Tu não me podes obrigar a ficar nesta casa.O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Madalena acendendo a luz da mesinha. largou o auscultador pronto a inteirar-se do que se estava a passar. e foi também nessa altura que as duas abandonaram o quarto aos empurrões. E tal como um milagre. . A resposta negativa de Madalena trouxe novamente a fúria de Sara e consequentemente a sua audácia em atirar-se para cima da mãe sem temer as consequências do seu acto irreflectido. volta para o teu quarto! . Tinha sido ela.Eu quero a chave. mas isso foi algo rapidamente esquecido por Sara quando ela tentou agarrar as pernas da mãe e a impedi-la de fugir em direcção à sala.Sara. ao ouvilo. Não. Do cimo das escadas. – Chama o pai. e ele. já disse – gritou a jovem estendendo a mão com um olhar aterrador. A barreira foi quebrada.Enquanto fores menor e estiveres sobre a minha responsabilidade.

Preferiste acreditar em mim em vez de acreditar nele e agora olha para ti?! Estás sozinha e vais ficar assim até ao final dos teus dias porque eu também me vou embora… . se te fiz algum mal. o que é que foi que eu te fiz?! Onde foi que eu errei para que te tivesses transformado nesta… pessoa… – discursou Madalena não conseguindo controlar as lágrimas.O que é que…? . mas há muito tempo! Com as chaves nas mãos. Ouvido o estrondo. . sempre te pus em primeiro plano e sempre abri mão de tudo em prol da tua felicidade… . não é?! – interrompeu Sara surpreendendo-a com tal pergunta.O Sérgio nunca tocou num fio de cabelo meu! Fui eu que apareci na casa de banho para que nos apanhasses e pensasses que ele me estava a estuprar.Larga-me – imperou Madalena conseguindo encontrar numa hesitação da filha a oportunidade ideal para correr em direcção à sala. Madalena manteve-se calada. Mas não. Foi só por isso que eu inventei que ele me tinha violado. aliás. Sara abriu a porta e não resistiu a lançar um último olhar ao irmão que se encontrava sentado nas escadas assustado com tudo o que tinha assistido momentos antes..O quê!? – murmurou Madalena. estava tudo destruído. – Aqui tens… – afirmou Madalena atirando-lhe as chaves contra o peito. . E não. . Madalena! Tudo tem que ser feito quando você quer.Tu és um monstro. – Tudo o que eu queria era que ele desaparecesse. não foi por querer. nem Madalena e nem Sara conseguiram reconhecer-se no interior daquela sala. nada disto teria acontecido. Sara! Um monstro. Na verdade. 161 . ao contrário do que ele estava à espera. Mas no entanto parece que me odeias e que queres fazer tudo para me destruir e para destruir a minha vida. nem quero saber sequer… Perante a resposta da filha. Eu não mereço isto! Eu sei que apesar de tudo eu não mereço o que me estás a fazer. Eu não me importo. ela esboçou-lhe um leve sorriso antes de fechar a porta e desaparecer de uma casa onde tinha vivido durante dezasseis anos. burra como sempre. D. E tu.Porque é que não me dás a chave. como você quer e ninguém está autorizado a contrariá-la… . .Porque se quiseres podes voltar para ele! Já que me vou embora desta casa. Sempre te dei tudo o que estava ao meu alcance.Sara. Não hoje. é isso? É por causa disso? – perguntou Sara encontrando a mãe encostada à mesa ainda com a respiração ofegante. Não foi de propósito. ele pode muito bem voltar.Estás a falar do Sérgio. veio um silêncio ensurdecedor e a certeza de que o inferno finalmente tinha terminado. – Aonde é que ela está? – foi a primeira pergunta de Jorge quando chegou à casa da ex. Se eu errei. Não restava mais nada a não ser um misto de ódio e rancor entre duas pessoas completamente distintas. Contudo. ao contrário do que o teu pai te disse. acreditaste. Ao olharem-se pela última vez. – Eu só queria que tu me dissesses para que eu pudesse entender.Se me tivesses dado a chave. – Estás livre para fazeres o que quiseres com a tua vida porque para mim morreste. . não é?! Mais uma vez quiseste mostrar que és tu que mandas! É sempre assim. hã?! Tens prazer de me ver a correr atrás de ti. incrédula. Nem mesmo os laços sanguíneos que as uniam iriam conseguir reatar aquela relação doentia.Tu estás louca! Completamente louca. mulher. .

o Intendente. mas sim em todos os momentos em que ela fez questão de lhe chamar a atenção enquanto pai. De volta a um bairro que tão bem conhecia.. Sara percebeu que era ali que teria que recomeçar do zero. restaram-lhe poucas alternativas de sobrevivência e ninguém com quem pudesse contar a não ser: – Tu… – disse Milene abrindo a porta do seu quarto com olhos de quem tinha passado a noite toda em branco. sem conforto e com um bebé na barriga. . Sem família.Foi-se embora – respondeu Madalena alcançando o corrimão das escadas com os olhos marcados de tanto chorar e uma voz amarga. Os passos lentos e arrastados de Madalena fizeram Jorge entender que tinha chegado tarde.Saí de casa – respondeu Sara mostrando-lhe as malas. – Deixas-me entrar? 162 . Mas a verdade é que ele nunca percebeu os intentos dela e agora ambos estavam a pagar bem caro por isso. não só naquela madrugada. – Foi-se embora de vez.

e muitas vezes.Nada.Não te preocupes – respondeu Afonso segurando-lhe o ombro esquerdo. Jorge levou Daniel para a sua casa e deixou Afonso livre para cuidar de Madalena. Mas pior do que o sentimento da derrota. Só ele poderia fornecer o carinho e o apoio que a filha necessitava na altura. 163 . fechava os olhos numa tentativa desesperada de esquecer todas as palavras horríveis que Sara lhe dissera momentos antes de sair de casa. Nem sabemos sequer para onde é que ela foi. – Eu fico aqui com ela. Pareciam gravadas na sua memória e traziam-lhe um sentimento angustiante de derrota. Era como as ouvisse vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. porque gosto e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens . outras lamentava-se.Eu também não sei. e cada vez que Madalena se lembrava delas. Por vezes. genro.Está a ser muito difícil para todos nós – respondeu Jorge não escondendo a tristeza estampada no rosto. maior era a vontade de morrer. – Já não sei o que é que hei-de fazer com ela – disse Afonso Soares descendo à cozinha com o ex. mas a verdade é que aconteceu e não há nada que possamos fazer. era talvez o desgosto de saber que a filha se prostituía sem ter qualquer razão plausível para isso. sem dormir e sem mexer qualquer músculo corporal para além do estritamente necessário. . .Não tiveram mais nenhuma notícia da Sara? . A Sara escolheu o caminho dela. algo que só ele como pai o podia fazer exemplarmente. mas… isto?! . Qualquer coisa e aviso-te com antecedência. . Cinco dias em que ela mergulhou na mais profunda depressão. – Como é que ela se foi perder desta forma.Que tragédia – suspirou Afonso levando as mãos à cabeça. Eu também não sei como é isto pôde acontecer. . . . sem comer. foram as últimas palavras de Sara. Tal como disse. meu Deus!? Está certo! Sempre teve um feitio difícil. Sou prostituta porque quero.Eu já tinha pensado nisso – respondeu Jorge limpando uma lágrima que teimou em cairlhe dos olhos. e era exactamente isso que pretendia fazer não fosse o pedido dela para mais uma vez ficar sozinha.CAPÍTULO IX Passaram-se cinco dias sem que Madalena se tivesse conseguido levantar da cama. .Do jeito como a minha filha está. chorava. duvido muito que consiga tomar conta do Daniel.Eu vou levá-lo hoje! Mas também não queria deixar a Madalena sozinha.Acho melhor levares o Daniel para passar uns dias contigo. . embora quase todos fossem unânimes em afirmar-lhe que a culpa não era sua.

Talvez. – Estás bem? – perguntou Sérgio levando-a em direcção à sala. mas também o lugar mais pacífico e confortável do mundo.Descobri tudo – foram as primeiras palavras dela assim que Sérgio abriu a porta de casa e se surpreendeu com o seu rosto marcado pelas lágrimas e por tantos meses de angústia. Vários foram os pensamentos que atravessaram a mente de Madalena enquanto conduzia pelas ruas da cidade e se lembrava de um dos maiores erros que tinha cometido num passado não muito longínquo. . quem sabe. a única alternativa que lhe restava era acatar a decisão e esperar que ela não cometesse nenhuma loucura. Aonde é que Sérgio o havia comprado? Ou teria sido oferecido por alguém especial? Talvez pelo avô quem sabe. – Lena… . Sentiu também que não tinha qualquer direito de procurá-lo ou sequer de lhe implorar perdão.Não me vou demorar muito – respondeu Madalena abandonando a sala sob o olhar atento e preocupado de Afonso. – Levantaste-te!? . Se era o desejo da filha sair. Ao ver-se sozinha naquela sala repleta de móveis e aparelhos fotográficos. pai. 164 . desceu à sala e encontrou um livro para passar o tempo. .Fica aqui.Não – respondeu Madalena mal conseguindo encontrar forças para o encarar de frente.Aonde é que vais? – perguntou Afonso poisando o livro sobre o sofá. Mas o que poderia ele fazer perguntou-se. Afonso achou por bem não levantar mais questões e acatou o desejo de Madalena encostando a porta com cuidado.Entra! Aberta a porta. mas sim na sua filha? Ao ver-se diante do prédio onde muitas vezes se encontraram e passaram várias tardes de amor. Na verdade. era o único objecto que lhe era estranho.Está bem. em passagens simbólicas que não lhe fizessem lembrar a tristeza em que a sua família estava submersa e o desejo de um dia tudo voltar à normalidade. Madalena aceitou o convite e entrou no apartamento do fotógrafo. mas precisava fazê-lo. o erro de não ter acreditado no homem que amava. Continuava pequeno. Continuava o mesmo. tocá-lo e tentar encontrar uma única razão para se manter viva.Queres um chá?! Faço num instante. . . . Madalena teve algumas dúvidas. – Filha – disse ele surpreendendo-se com a figura de Madalena sob o alpendre da porta. Na verdade. só assim conseguisse recuperar a sua sanidade mental. Precisava olhar-lhe o rosto.Procurar uma pessoa. reparou. Depois disso. . Madalena depositou a sua mala sobre o sofá e lançou os olhos a um quadro pendurado na parede. Mas será que Sérgio estaria disposto a perdoála? Será que ele iria compreender os motivos que a fizeram não acreditar nele. . caloroso. do amor que ele dizia sentir por si e de o ter expulsado da sua vida sem qualquer razão. Parecia ter sido pintado a óleo e trazia consigo a imagem de um velho pescador sentado à beira mar.Tens a certeza? Olha que já está tarde.Mesmo não tendo concordado com a ideia. . . Abriu-o na página marcada e mergulhou na leitura durante horas a fio tentando pensar em coisas abstractas.Vou ter que sair. Já volto – disse Sérgio. De ter duvidado do seu carácter.

Costumam dizer que os filhos são a projecção dos pais… . – A culpa não foi tua. e quando as enfermeiras ma deram nas mãos. o tempo foi peremptório em passar. E não sobrou absolutamente nada dela… . Mas… os anos foram passando e… aquela menina que todos adoravam agarrar ao colo e que se ria por tudo e por nada deixou de existir. entendes?! . ela precisa de ajuda. mas… não fiz! . .Então porque é que me sinto uma verdadeira fracassada? . Tinha tudo preparado. Ela era tão linda.interrompeu ela.. Tanta coisa tinha mudado. .Não quis enxergar a realidade e muito menos perceber no que é que a minha filha se tinha transformado. . Eu não tinha o direito de te ter metido nesta embrulhada. – Que eles são aquilo que nós fazemos deles e eu até costumava acreditar nisso.Lena… . – Desculpa por tudo o que te fiz passar. – Vamos tomar o chá na cozinha. que adorava vestir de cor-de-rosa e de fazer totós no cabelo… . É melhor – Madalena acedeu com um sorriso. Era mesmo uma menina que eu queria. e os olhos eram redondos.Vem… – exclamou Sérgio interrompendo-lhe os pensamentos. Desde a última vez que se viram e trocaram as derradeiras palavras. Tinha comprado todo o enxoval e levei todas as coisas para a maternidade porque não queria que lhe faltasse absolutamente nada. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar.Aquela mesma menina que eu costumava levar a passear ao parque. Tu já fizeste tudo o que estava ao teu alcance. Morreu.E não és – interrompeu Sérgio segurando-lhe a mão sobre a mesa. mas antes disso. Lena! A Sara está doente.foram as palavras que saltaram dos lábios dela. Sérgio parecia ter a mesma mágoa no olhar e Madalena não sabia o que fazer para conseguir encontrá-lo naquela cozinha tão minúscula.Será que… és capaz de me perdoar? 165 . Passaram-se dias. escuros.Entendo – respondeu Sérgio aquecendo as mãos na sua chávena de chá. Toda a gente dizia que éramos muito parecidas e eu lembro-me que ficava tão orgulhosa quando ouvia alguém dizer isso.discursou Madalena não conseguindo mais uma vez controlar as lágrimas e os risos nervosos. tinha muito cabelo. meses até. iguais aos meus. Foi o mais feliz da minha vida. – Eu lembro-me bem do dia em que ela nasceu. Madalena e Sérgio serviram-se do chá e permaneceram em silêncio durante largos minutos. Porque para mim ela ainda continuava a ser a minha menina. pelas coisas que tiveste de aguentar por minha causa. .Não me meteste em nada! Eu faria tudo de novo se fosse preciso.…devia ter acreditado em ti… . ela é que tem que querer essa ajuda. Eu não sou essa pessoa horrível em que ela se transformou. ambos sabiam-no bem. eu senti como se tivesse encontrado uma razão para viver.Eu sei. .Desculpa – pediu ela tentando esconder os olhos inchados de tanto chorar. Acho que… estava tão contente por saber que iria ter uma menina que nem sequer me importei com as dores do parto. Mas …eu não quero acreditar que a Sara seja uma projecção minha. .Tu não és uma fracassada. Desapareceu. – Devia ter feito isso. semanas. por causa da minha filha. Sentados nas suas respectivas cadeiras. Ainda assim. Eu sei que não sou… . e se queres que te diga. preto. . fizeste bem mais do que a maioria das mães fariam se estivessem no teu lugar. Pequenina.

Jorge. . Beijos. . e aos poucos e poucos. tal como o meu também ficou apenas com a lembrança de um sorriso teu. nada daquilo era demasiado entusiasmante. Apesar de todos os acontecimentos trágicos do passado. não é?! . . a vida começou a retomar o seu curso.E desta vez vem com um bilhete.“Espero que esta caixa de chocolates seja suficiente para adoçar o teu dia. marido: . mas que dava mostras de um novo fulgor. Para além disso. em que pudesse aproveitar uma refeição agradável ao lado da melhor amiga e uma conversa amena com o pai ao final da noite.Aceitas um convite para jantar?” .O Jorge. . – Precisamos de tempo. .Não sei – respondeu Madalena depositando a caixa de chocolates e o bilhete sobre a secretária.Eu também – sorriram os dois. Quer dizer. Um cartão que cheirava a rosas e que trazia a caligrafia desajeitada do ex.Mas quem sabe um dia se o destino não nos trocar as voltas. . minha amiga! O Jorge. Passaram-se cinco meses. Uma alegria que por momentos pareceu desaparecida aquando do desaparecimento de Sara.Eu amo-te. de espaço… . – Não precisas preocupar-te com isso.Eu já te perdoei há muito tempo – respondeu Sérgio beijando-lhe as mãos frias.Eu sei – concordou ela com um sorriso imensamente triste.. não acabou?! Sérgio pareceu hesitar quando fitou os olhos brilhantes de Madalena e viu nela a mulher a quem um dia chegou a amar mais do que a própria vida. . mas ainda assim conferia-lhe um certo conforto e estabilidade que há muito não encontrava. . – Neste momento não temos nada para nos dar um ao outro – respondeu ele. De facto. Mas a verdade é que poucas dúvidas lhe restavam quanto ao desfecho daquela história de amor. do único filho que lhe restou e dos pequenos acontecimentos que preenchiam o seu dia-a-dia. o ano mudou. .Mas acabou. Madalena ainda ansiava por dias melhores. Hã… PS.Sinceramente não te estou a reconhecer! Logo tu que sempre detestaste o Jorge… 166 .Lê! Ao ouvir o pedido da melhor amiga. A rotina do trabalho. a presença sempre constante do ex.Quem é que escreve PS num bilhete romântico!? – riram-se Alice e Madalena às gargalhadas.E tu vais aceitar? . marido.Impressão minha ou estás a torcer para que eu aceite esse convite? . Madalena esboçou um sorriso malicioso e rapidamente se apressou a retirar o cartão do interior do envelope. é só um jantar.Não é torcer! Só acho que não tem mal nenhum jantar com o teu ex.Não perdes nada se aceitares. . marido e as suas várias tentativas de aproximação faziam-na sentir-se menos sozinha e a pensar se valeria ou não a pena oferecer-lhe uma segunda chance. foram factores importantes para que Madalena recuperasse a alegria de viver. Dias em que pudesse sorrir sem pensar no dia seguinte. – Outra caixa de chocolates – exclamou Alice abrindo um sorriso de orelha a orelha quando Madalena regressou à loja após ter recebido a encomenda de um office boy.

genro a entrar na sala com as mãos nos bolsos. lembraste? . marido acompanhado de um sorriso e também de um lindo arranjo de orquídeas. Madalena não conseguiu conter-se e surpreendeu o filho com um longo e demorado beijo que fez todos os presentes rirem-se às gargalhadas.Porta-te bem. filho. foram os elogios que ouviu do pai e do filho quando chegou à sala.. Enquanto se compunha à frente do espelho. Não. Apesar de tudo. Jorge? Não quero voltar muito tarde – disse Madalena encontrando o seu casaco sobre o sofá. amanhã é dia de escola.Pai! Daniel! Não durmam tarde e nem fiquem a ver televisão até às tantas.Claro. – Entra! . .Bem.Eu sei que fui uma grande impulsionadora na tua separação daquele imprestável.Estás sempre a dar-me beijos.Estás todo janota. . Mas a verdade é que nenhum destes pensamentos conseguiu demovê-la da ideia de cancelar um jantar que apesar de tudo lhe preencheu o imaginário desde manhã. . – Já não te vou dar mais nenhum. Vou voltar a um passado que só me fez mal e que não me trouxe nada de bom. . Jorge – exclamou Afonso ao ver o ex.Ainda bem.Achas que eles vão voltar.Está bem – respondeu Daniel tentando desviar-se dos beijos de Madalena. . militar afagando os cabelos do neto. que ela terminou de se analisar ao espelho trazendo no corpo um vestido preto pelos joelhos e os cabelos soltos um pouco acima dos ombros. – Iremos cumprir as suas ordens à risca. Mais tarde.Sabe como é que é.Cheguei na hora certa? . Estava perfeita. Sr. ou senão. era impossível para ela passar um minuto que fosse sem demonstrar ao filho que o amava acima de tudo. repetia-se vezes sem conta. várias foram as vezes que Madalena pensou em desistir do seu jantar com Jorge. É uma loucura. então que assim fosse.k. . dizia. e se fossemos andando. – Bom jantar – exclamou Afonso observando a saída de Madalena e Jorge da sala e mais tarde do interior da casa.Espero bem que sim – respondeu o ex. – Ainda me lembro que são as tuas flores preferidas – disse ele. Afonso! A sua filha não merece menos – respondeu o advogado arrancando algumas risadas a Daniel e Afonso. E foi assim. De facto.Não queres os meus beijos?! . . Apesar da promessa. mas… as pessoas mudam! E eu acho que o Jorge mudou. . a campainha tocou ruidosamente e ela correu a abrir a porta deparando-se com a figura do ex. – Mas agora vai. .O.O. . general – respondeu Afonso abrindo os braços sobre o sofá. bem perto disso. inclusive Daniel. e se o tivesse que provar com beijos. Sr. .k – defendeu-se ela enquanto levantava os braços. Estou a confundir tudo. .Obrigada – respondeu Madalena recebendo o ramo com alguma cautela. – Espero bem que sim! 167 . vô? . ainda submersa num verdadeiro dilema.Claro! Nem um minuto a mais. nem um minuto a menos.

mais prestígio… . Mas naquela noite particularmente especial. – Só me estava aqui a lembrar da primeira vez que saímos para jantar. Jorge?! . mulher um só segundo e a sua atenção centrou-se nela durante toda a refeição. Nenhuma delas me conseguiu dar o que me deste nestes dezassete anos. Impressionante como nunca se tinha dado conta de como ela era bela. sensual e inteligente.Ui! Se me lembro – riu-se ela forçando uma gargalhada seca. algo a que o advogado estava amplamente habituado nos seus extensos anos de profissão quando se reunia com clientes importantes. – Logo que nos casámos fui aceite numa firma de advogados e ganhei a primeira causa. por favor – pediu ela voltando a depositar a taça de vinho sobre a mesa. . Depois foram sempre voos maiores. – Será que é assim tão tarde? .Mas não fugiste. não achas?! Madalena sorriu. . – Lembraste que tivemos que pagar a conta do jantar a meias? . da nossa casa. nem mesmo quando andava com outras mulheres. algo que há muito ele não via em qualquer outra mulher.Então não mudes. Nenhuma chegou sequer aos teus pés… . Era simples também.Jorge… . .O anel era lindo. . outras causas importantes. mas eu nunca me esqueci de ti! Nunca deixei de sentir saudades tuas. . Lena. Pela primeira vez. Falava tudo aquilo que lhe vinha à cabeça e movimentava-se com uma destreza e segurança fora do normal.Sentimentalismos baratos. não achas!? . Ficava situado no Lapa Palace e era frequentado por um grupo restrito de pessoas a quem tudo era feito para agradar.Percebeste isso um pouco tarde.O restaurante escolhido por Jorge primava pelo requinte e pela sofisticação. . Mas hoje já não sei se vale a pena.Podes não acreditar. eu sei! Estava sempre tão obcecado com o meu sucesso profissional que me esqueci da minha família e da mulher maravilhosa que andava a desperdiçar. Foi por isso que eu aceitei o teu pedido de casamento. . – Lembro-me também que no dia seguinte contei a uma amiga e ela disse-me que o melhor que eu tinha a fazer era fugir de ti. . Não tinha dinheiro nem sequer para te levar ao cinema. Mas mesmo assim tu ficaste comigo e aceitaste o meu pedido de casamento com um anel de plástico da feira popular. .Eu daria tudo para ter ouvido isso há cinco anos atrás. os seus olhos não se desviaram da ex.Já não tinha tempo para ti.Nada – respondeu Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. 168 .Será?! – perguntou Jorge alcançando-lhe a mão sobre a mesa. a única pessoa que Jorge queria agradar era Madalena. eu sei.É! Infelizmente não fugi. .Claro que não! Tu sabes que eu nunca fui sentimentalista. mais dinheiro. – O que foi? – perguntou Madalena bebendo um gole de vinho tinto.Naquela altura era um teso.Mas às vezes é impossível não nos lembrarmos de coisas tão boas.E foi então que o nosso casamento começou a piorar.Mas eu tive sorte – disse Jorge deixando-se iluminar pelos olhos de Madalena quando eles se cruzaram com os seus. . dos nossos filhos.

Um tempo onde as suas vidas se conjugavam na perfeição. é tentar proteger os nossos filhos e… ser chato. na altura. . .. .Estranho mas bom. de me tentares chamar à razão e de me fazer entender que para se ser um bom pai não é preciso dizer sim a tudo. Prova disso? O arrepio que sentiu em todos os poros do corpo quando lhe desceu o fecho do vestido. Algo superior às suas forças e também à sua existência. e não o fizeram apenas no espaço.Então um brinde à tua mudança. É muito mais que isso. onde havia planos. Afastou-os de uma forma irreversível e quase que os obrigou a continuar assim. . mas bom… – respondeu ela deixando-se mergulhar no beijo que Jorge lhe ofereceu nos lábios. não fosse esse mesmo destino tornar a juntá-los naquela noite tão especial. É estar presente. eu não queria ser um pai chato! Queria que o Daniel e a Sara me vissem como um pai espectacular capaz de lhes concretizar todos os desejos.Um brinde! As luzes apagadas fizeram antever que não havia absolutamente ninguém acordado naquela casa. 169 .Estarmos aqui os dois depois de tudo. Madalena e Jorge regressaram ao ponto de partida. .Estranho. mas também no tempo. .Eu mudei muito. Por momentos. Mais tarde. Mas só hoje vi o quanto errei. Foi ela a responsável por tudo o que de bom lhe havia acontecido até à data e era também com ela que pretendia passar o resto dos seus dias.Será!? . Lena! Acredita em mim. Ao entrar no quarto que um dia também foi seu. Jorge deslumbrou-se com a grandiosidade daquele momento e experimentou uma das sensações mais avassaladoras que um homem poderia experimentar ao lado de uma mulher.O quê? – perguntou Madalena esboçando um sorriso envergonhado quando Jorge lhe percorreu os braços desnudos.É muito estranho.Um brinde – afirmou Jorge tocando a sua taça na de Madalena.Fico feliz que tenhas percebido isso – respondeu Madalena tentando esquecer a sombra que atravessou o seu peito quando se lembrou da existência de Sara. Mas infelizmente.Esta história que aconteceu com a Sara fez-me abrir os olhos para uma serie de coisas que me eram totalmente estranhas. eu sei! . – E um brinde a tudo o que já vivemos. foi assim que se sentiu até Madalena o levar em direcção à cama e brindá-lo com um longo beijo enquanto o fazia. os dois deitaram-se sobre os lençóis de linho.Mudei mesmo. despiram as respectivas roupas e entregaram-se um ao outro durante horas a fio sem se importar com os carros que passavam a alta velocidade pela rua deserta. Fez-me perceber o porquê de muitas vezes brigares comigo. Depois disso. Antes. ouviu o tecido cair no chão e Madalena suster a respiração descompassada. sonhos e desejos a serem concretizados. e… o quanto esse erro te prejudicou a ti e à nossa filha. não é?! . Após longas horas de ausência. . Algo difícil de explicar. . Parecia um sonho. o destino trocou-lhes as voltas. – Quem diria… . ao que estamos a viver neste momento e… ao que iremos viver daqui para a frente. Madalena era essa mulher.

Mas enquanto passeava pelas habitações de uma casa anteriormente repleta do barulho das crianças. . A resposta de Madalena fez Jorge recuar dois passos e baixar a cabeça num claro sinal de desespero. Os papéis do divórcio foram assinados sem um pingo de remorso. Madalena percebeu que sentia falta delas. Depois. as suas vidas tomaram rumos diferentes.Eu vou pensar – riram-se os dois quando ele atravessou o jardim em direcção ao carro e não tardou mais do que três minutos a arrancá-lo.Estou a pensar – respondeu Madalena encostando a cabeça à parede. – Depois falamos. Jorge! Não posso decidir uma coisa dessas de ânimo leve.Vou viajar este fim-de-semana. deparou-se com o vazio daquela casa e soltou um pesado suspiro ao sentir-se pela primeira vez confusa quanto ao desfecho da sua história com Jorge. Depois disso. ou quem sabe por nada disso. Páscoa e outras celebrações familiares que compunham o ano.Mas quando voltar quero uma resposta – disse Jorge brincando-lhe com os dedos das mãos. .Já te disse que preciso de mais tempo.E então?! Já chegaste a alguma conclusão? . ficava para jantar. mas no fundo sempre existiu uma estranha ligação entre os dois. . . aquela noite não foi excepção.Está bem. . Preciso pensar! Preciso pensar muito.Vai – murmurou ela afastando-o da porta. . disponibilizava-se para colocar a mesa. Quem sabe se voltasse ao ponto de partida? Quem sabe se a volta de Jorge não lhe traria de volta algum do barulho perdido? 170 . Normalmente. – Mas não te esqueças que desta vez é a sério! Se me deres uma nova chance prometo que não te vou desiludir. Madalena fechou a porta.Eu sei – respondeu ele acariciando-lhe a face rosada.Uma viagem de trabalho. das festas de aniversário. sim! Estou-te a dar um prazo. Ano Novo. Porque será que ela continuava sem acreditar nas suas palavras? Porque é que ela tinha um prazer especial em criar uma verdadeira muralha entre eles? – Acho melhor ires – afirmou Madalena encontrando-lhe a mão direita. talvez pelos dezasseis anos em que estiveram casados. ele chegava ao final da tarde com a desculpa de querer estar com o filho.Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser as visitas sempre constantes de Jorge lá a casa. do Natal.Para onde? . algo que nunca fizera em anos e anos de casamento. – Já está tarde.Mais ou menos! Quer dizer…. . . Vou para Bruxelas e devo lá ficar umas duas semanas no máximo. Percebeu também que há muito não ouvia qualquer barulho e que a possibilidade de nunca mais ouvir estava-se a tornar demasiado evidente.Estás-me a dar um prazo? . .Pensa! .Não prometas coisas que não podes cumprir. – Quero que me digas se posso voltar cá para casa. . – Pensaste no que te disse? – perguntou ele quando ela o levou à porta. Mais uma vez. muita coisa se passou e muitas vezes ela disse que o amor e a paixão que os unia tinha terminado sem deixar rastro. Durante os três anos em que estiveram legalmente separados. lavar a loiça. e só se dava por vencido quando Daniel subia ao quarto e Madalena forçava enormes bocejos numa tentativa desesperada de o fazer olhar para o relógio. Talvez por causa dos filhos. .

era o prazo.No Sérgio?! . . . no que poderia ter sido e não foi. entendes?! Mas uma outra parte continua a gritar-me aos ouvidos que se eu voltar para o Jorge tudo vai ser como era antes. sim! Mas hoje.Tu surpreendes-me sempre. .Não! Claro que não… . Não posso culpar ninguém por essa escolha a não ser a mim própria. Às vezes esses milagres acontecem com as pessoas que menos esperamos e com o Jorge aconteceu.Tu sabes que eu nunca fui com a cara do Jorge. mas que apesar de tudo ainda têm concerto.Sim! Podes não acreditar. Fui eu que não quis acreditar no Sérgio mesmo quando ele me disse que nunca tinha tocado num fio de cabelo dela. Jorge partiu para Bruxelas e deixou um ultimato a Madalena para que ela se decidisse a dar-lhe uma segunda oportunidade. – Eu ainda continuo a pensar no Sérgio.Pois eu acho que o devias procurar outra vez – afirmou Alice saltando da montra. marido a poucas horas da sua partida. . a sério… . Se queres realmente saber se deves voltar para o Jorge.Tal como o estipulado.Nem precisas dizer – riram-se as duas. Duas semanas.Claro que não! Só preciso de tempo. nem sei sequer se tenho forças para passar pelo mesmo. . olhando para trás. não é!? – riu-se Alice divertida quando Madalena lhe contou a conversa que tivera com o ex. no que poderíamos ter vivido e não vivemos… . e ela. por muito tempo eu culpei a Sara. no fim-de-semana seguinte. não. . não sabes?! . marido.Eu não sei – respondeu Madalena não escondendo a sua indecisão. E eu não quero passar pelo mesmo. . Disse-lhe que iria pensar cuidadosamente no assunto. Saber se ele 171 . . Foi com essa promessa que Jorge viajou prometendo telefonar assim que tivesse um minuto livre na sua agenda preenchida de reuniões e congressos.Mas queres ou não voltar ao vosso casamento? . Acredito mesmo que ele te ama e que está disposto a concertar todos os erros. e … eu escolhi acreditar na minha filha. negócios atrás das minhas costas e mentiras.Sabes. que não foram poucos.Desde a última vez que o procurei. Eu tinha duas escolhas: Acreditar nele ou acreditar na Sara.Adoras vê-lo a sofrer. mas até hoje eu continuo a pensar nele.Mas eu acho que ele mudou – concluiu Alice captando os olhos de Madalena. mas também como ser humano. resolveu aceitar o desafio proposto pelo ex. eu acho que deves procurar o Sérgio e esclarecer a vossa história de uma vez por todas. aliás. e que assim que ele voltasse.Mas as coisas não assim tão fáceis – respondeu Madalena com um longo suspiro. apesar de se encontrar ainda um pouco confusa. nós sabemos.Por culpa da Sara – interrompeu Alice terminando a decoração da montra da loja.Nunca mais tiveste notícias do Sérgio? . . vejo que a culpa foi inteiramente minha. sabias?! . a resposta lhe estaria na ponta da língua. – Acho que ele cresceu. – Sou uma caixinha de surpresas. não só como homem.A sério! Acho mesmo. . . – Uma parte de mim quer.Eu sei – riu-se Alice. Traições. Eu realmente acredito que ele está arrependido de todas as coisas que fez no passado.

enquanto um pouco mais atrás. telefonar a Sérgio e marcar um encontro onde ambos pudessem conversar sem a mínima possibilidade de serem interrompidos.Há quanto tempo. mas mais do que o toque em si. um pouco contidamente. Só assim vais poder virar essa página da tua vida e seguir em frente… Os conselhos de Alice deixaram Madalena confusa. foi o facto de ter visto o número de Sérgio no visor. Depois disso. Nessa altura. Sim. Mais uma vez. Por outras palavras. uma onda de pânico percorreu-lhe o corpo. se continua a pensar em vocês ou se já está noutra. – Olá. – Mas antes de mais queria pedir-lhe desculpas por tudo o que aconteceu. realmente não foi uma experiência lá muito agradável! Mas que mal vos pergunte. cinco. a porta fechou-se e tornou a abrir-se com duas caras também elas conhecidas. dois toques.Estou óptima – respondeu ela não escondendo o seu sorriso radiante. – Estão frescas – disse ele com um sorriso que imediatamente contagiou as duas funcionárias. o motorista da carrinha não tardou a abrir as portas e a mostrar-lhes as flores encomendadas. Aonde estava com a cabeça? Porque não esquecia Sérgio de uma vez por todas? Seria assim tão difícil quanto isso? O toque do telefone fê-la dar um pulo sobre a cama. friorento e começou com a chegada de uma carrinha de encomendas feitas pela floricultura.É. três. O primeiro dia de Março amanheceu chuvoso. Será que mudou de número. e essa verdade era a de que enquanto não resolvesse a sua história com Sérgio iria ser praticamente impossível reatar a sua história com Jorge. Madalena seguiu-lhe os passos tentando abrigar-se da chuva. Foi por isso que naquela friorenta noite de segunda-feira. Madalena percebeu que já não havia mais tempo a perder e digitou um número que um dia chegou tão bem a conhecer. mas por outro lado. . não é?! . Seguiu-se uma rápida conversa. alertaram-na para uma verdade incontornável. Era ele. os três carregaram as flores para o interior da loja e depositaram-nas perto do balcão. após se ter convencido que nunca mais o tornaria a ver e de que as suas vidas tinham tomado rumos diferentes.ainda continua a gostar de ti. quatro. Era ele. Era realmente muito estranho. voltou-se para a filha e perguntou: – Olá Joana. Beatriz!? – disseram Alice e Madalena sem esconder a surpresa por a ver ali. Como era estranho voltar a ver o nome dele após tantos meses de ausência. Sei que foi horrível ter levado com aquela vela na cabeça quando foram levar as flores para o meu casamento. seis e não houve qualquer resposta. Como estás? . Nessa altura. chegou a haver casamento? 172 .D. ela resolveu cometer uma das maiores loucuras da sua vida. foi a pergunta que imperou no ar quando ela desligou a chamada e voltou a poisar o telefone sobre a mesinha. Depois disso. . Um toque. uma gorjeta ao motorista e a partida do último com a promessa de voltar dali a três dias. Uma onda de dúvidas atravessou-lhe os pensamentos e a certeza de que tinha cometido um erro pareceu mais iminente do que nunca. Quando o relógio sobre a mesinha de cabeceira marcou vinte e três horas e trinta minutos. – Já veio – gritou Alice correndo a abrir a porta. minhas queridas! .Há muito tempo – respondeu Alice apressando-se a cumprimentá-la com um beijo na face. Meu Deus.

essa casa trazia consigo um ambiente ameno.Pois não! Só para quem tem sorte e um rosto lindo como a minha Joaninha – respondeu Beatriz mostrando um sorriso radiante à filha. e para prová-lo. Parece que eles têm lá uma propriedade gigantesca.Ele é um gentleman – afirmou Joana mostrando o seu anel de noivado cravado a ouro e diamantes.Até porque ela agora está noiva de um empresário árabe multi-milionário – concluiu Beatriz. Os dois são completamente apaixonados um pelo outro e até já marcaram a data de casamento para o próximo Verão. . ele achou por bem que eu e a minha mãe ocupássemos a casa até o dia do casamento.Bem. . – Acabámos de receber novas encomendas. a floricultura encerrou às dezanove horas. . Uma casa de chás situada no centro de Lisboa repleta de pessoas de todos os estratos sociais. Queríamos encontrar um arranjo lindo para uma amiga que faz anos hoje. caloroso e bastante agradável. que rápido – murmurou Alice recebendo um discreto beliscão por parte de Madalena. era o local. e como aquilo está às moscas. Na verdade. Nem os seus clientes. . Era uma das mais antigas da cidade. . – Mas bem. . não é. radiante. – Devíamos levá-las. . nem o trânsito caótico que todos os dias inundava a cidade e muito menos o temporal a cair violentamente sobre o pára-brisas do carro. Sinceramente não podia ter encontrado um noivo melhor. .Isto tudo para vos dizer que esta vai ser a última vez que cá vimos – concluiu Beatriz.Uau! Estas túlipas são lindas – exclamou Joana não resistindo a tocá-las.Árabe?! – indagou Alice. amor e amor.Que bom – respondeu Madalena forçando-lhes um sorriso. – Acham mesmo que a minha querida Joaninha iria casar-se com um idiota como àquele? Ela merecia muito melhor e foi óptimo ter desmanchado o noivado antes de cometer o maior erro da vida dela. talvez tivesse uns vinte anos de existência. tudo isso eram pequenos detalhes perto da imensidão do que iria acontecer quando chegasse ao local combinado. Depois dessa elegância. Madalena aproximou-se da porta e virou a placa ao contrário: Fechado. mãe! Tenho a certeza que a Carmo iria adorar.Tiveram sorte – interferiu Madalena levando mãe e filha em direcção à bancada da floricultura. – Faz tudo para me ver feliz e também para me mimar. Finalmente chegara a altura pela qual ela havia ansiado durante meses e nada e nem ninguém a iria fazer atrasar-se àquele encontro. cadeiras e azulejos pintados à mão ressaltavam a sua elegância. Para além disso. o meu noivo. Desde então só tem sido amor.. quando o amor é assim tão… intenso. convidou-nos para irmos morar com ele e com os pais a Dubai. Tal como sempre. as coisas tendem a ser rápidas. surpresa. . 173 . não foi só por causa disso que viemos à loja.O Atif.Sim! Conhecemo-lo num cruzeiro pelo Oriente há seis meses atrás e ele encantou-se tanto pela Joana que nunca mais a quis largar.Porquê?! . .Claro que não – respondeu Beatriz passando as mãos pelos cabelos da filha. – Quer dizer. Será que têm alguma coisa? . vinha a agitação e a correria dos empregados que faziam de tudo para atender os clientes.Uau! Não é para todos – riu-se Alice. mas o aprumo das mesas. . Volte amanhã.

.Claro. .Eu pedi para que ele ficasse lá em casa.Espero que esteja tudo bem com o teu pai. Faz tanto tempo que não nos vemos… . Apanhaste muita chuva enquanto estavas a vir para cá? .Mas tu estás óptima.Então podemos pedir isso se quiseres – respondeu Sérgio chamando gentilmente um dos inúmeros empregados da casa. – Mas eu não me esqueci de ti. – Estás encharcada. 174 .Devo levar isso como um elogio!? . Mas infelizmente o destino foi cruel e separou-os no momento em que ela menos estava à espera. .É. Límpido. Madalena sentou-se à mesa. .Sim! Da Sara – respondeu Madalena não escondendo o constrangimento sempre que falava da filha. jovial. Depois disso. . Sérgio reparou. realmente faz muito tempo – respondeu Sérgio desarmando-a com o seu sorriso e com os seus olhos verdes.Sempre com um sorriso nos lábios. anotavam os pedidos à mesa. – Só tive que correr imenso porque não consegui arranjar um sítio aqui perto para estacionar.Estava à tua espera para pedirmos juntos. nada mais voltou a ser o mesmo.disse ela encontrando a mesa escolhida por Sérgio.Não faz mal! Também só cheguei há cinco minutos – respondeu ele observando-a a arrastar uma cadeira. . Nessa altura. . .Ai é?! Que bom – sorriu Sérgio. arranjou os cabelos molhados pela chuva e ainda teve tempo para sorrir. – Então?! Já pediste alguma coisa? . Impressionante.Bem. as suas vidas tomaram rumos diferentes e criou-se uma estranha percepção de que ainda havia pontos a serem esclarecidos numa relação que apesar de tudo foi intensa. Impressionante como Madalena nunca havia percebido isso até conhecê-lo e entregar-se a ele. um fotógrafo que meses antes havia aparecido na sua vida como um anjo e a virado de pernas para o ar.Claro que sim. .Não muita – respondeu Madalena tentando esconder o nervosismo de estar outra vez à frente do único homem que a conseguiu envolver após o seu divórcio. ainda nem te perguntei como é que estás. – Desculpa o atraso… . . mas acima de tudo sincero.Ouvi dizer que aqui servem uns maravilhosos bolinhos de coco e óptimos chás de menta. Um sorriso que continuava idêntico ao que era. – Estás mais gordo.Tu também não estás nada mal – riram-se os dois. que havia vida para além do divórcio e que nunca era tarde para se acreditar num amor tão ou mais intenso que o primeiro. . com o teu filho… . . bonita e apaixonante. bolos frescos e outras iguarias não muito encontradas em outros estabelecimentos da cidade. sendo que depois dessa separação. fez os pedidos em nome dos dois e aguardou que o funcionário se retirasse da mesa com o mesmo sorriso que trouxe.Está tudo bem com eles! O meu pai está agora a morar comigo. . Está a ocupar o antigo quarto que era da… .Eu também não.Sara. E sim. fugiam para o interior da cozinha e voltavam com chás fumegantes. O tempo passou. Foram esses os motivos que levaram Madalena a escolher aquela casa de chás para se encontrar com Sérgio Almeida. Foi ele quem lhe mostrou que nem tudo estava perdido.

Deves ter ficado surpreso quanto te telefonei ontem à noite. Porque se tu me disseres que… existe essa possibilidade. parecia que tinham tantas coisas em comum e tantas palavras para se dizerem um ao outro. Se não existe a mais remota possibilidade de me quereres de volta e de me perdoares por não ter acreditado em ti na altura que eu devia ter acreditado. . mas ainda assim.Porque eu preciso saber.Primeiro porque… queria ouvir a tua voz. – Que ainda não me tinhas esquecido. Foi por isso que eu resolvi procurar-te de novo… . não é!? – disse Madalena bebendo um gole do seu chá de menta. Mas a verdade é que passou e… . Não porque não quisesse.Como assim?! . .Confesso que fiquei um pouco. . . Foi real. e se me perguntares ou se alguém me perguntar. Mas a verdade é que o fotógrafo não conseguiu interrompê-la a tempo.Que Vera!? – perguntou Madalena tentando manter-se firme perante as revelações que se avizinhavam. mas eu precisava ver-te mais uma vez. Não estava nada à espera. um certo desconforto até.…que provavelmente já deves ter refeito a tua vida. quem sabe… não sei! Quem sabe… .Não sei se te lembras da Vera… .Os chás e os bolos de coco não tardaram a ser trazidos à mesa pelo mesmo empregado que os havia atendido minutos antes.continuou ela. eu preciso mesmo saber se a nossa história terminou. As palavras de Madalena contrastaram com a expressão séria de Sérgio e com o desejo que ele sentiu em contar-lhe toda a verdade antes que ela abrisse o seu coração de uma forma irreversível.Eu também acho que foi! Foi uma das coisas mais reais que aconteceram comigo e eu tenho medo que nunca mais volte a acontecer. eu nunca me esqueci de ti.Lena. e mais uma vez.Que coisa?! Ela sorriu nervosamente. não foi? . .Claro que foi – respondeu Sérgio afastando a chávena de si. Madalena e Sérgio agradeceram a gentileza do funcionário enquanto escolhiam as suas respectivas chávenas e tentavam arranjar espaço numa mesa não muito gigantesca. Porque foi real. Sei lá! Ouvir a tua voz. o que vivemos não foi um sonho. duvido muito que algum dia vá esquecer.Nem eu.E…?! . . . e segundo porque… precisava ter a certeza de uma coisa. foi muito real e inesquecível! Mas o tempo passou e não eu sei como conseguiu passar tão depressa. assim como eu também nunca me esqueci de ti. . cada vez que se olhavam nos olhos.Lena… .Nem tu? Então porque é que me ligaste? – riu-se Sérgio. . mas sim porque não teve forças para isso. Era óbvio o nervosismo demonstrado pelos dois. – Eu sei que já se passou muito tempo… . …ver o teu rosto e ter a certeza que nada do que vivi contigo foi um sonho.discursou Madalena sentindo-se quase sem fôlego. 175 . E tens razão.E os nossos caminhos afastaram-se muito! Mais do que eu queria que se afastassem. Quem começaria primeiro? .

até hoje não sei se sou apaixonado por ela.. e o fim de uma história que tinha tudo para dar certo. lembraste?! . – Mas depois que terminámos por causa daquela história da Sara. Sérgio não contava. – Descobri isso há pouco tempo. – Desculpa! Eu não te queria magoar. Mas a verdade é que foi acontecendo … . Era o fim. pensou. a revelação não poderia ser mais bombástica. – Vais ser pai… . fez-me sorrir nos momentos em que me apetecia chorar e tornou-se numa pessoa importante na minha vida.foi tudo o que ela conseguiu murmurar enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas.Não tens que pedir desculpas. E não.Então porque é que estás com ela? – perguntou Madalena sentindo-se confusa. ela desmoronaria como um baralho de cartas. Aconteceu! Essas coisas acontecem a toda a gente e eu disse-te que um dia iria acontecer contigo.Lembro. . . . trocámos números de telefone e fomos nos conhecendo melhor. e enquanto a tentava assimilar.Apaixonaste-te por ela?! . aliás. o fim do que poderia ter sido e não foi. e tal como deves calcular.E tinham?! . . Quatro semanas! De facto. O fim dos sonhos que ela transportou durante vinte e quatro horas. Ajudou-me imenso quando me senti em baixo. Devo-lhe muitas coisas… . . Durante a condução para casa. entendes?! Mas sei que gosto da companhia dela.Porque ela está grávida. . Não era para ser importante. várias foram as vezes que Madalena tentou 176 . Mas infelizmente nenhum dos seus desejos se concretizou e a visão de Sérgio aos poucos e poucos tornou-se cinzenta e deturpada. Conversámos. Madalena encolheu os ombros e lançou os olhos ao movimento frenético das pessoas à sua volta pensando como era impressionante que ainda ninguém se tivesse dado conta da maior tragédia ocorrida na sua vida. onde praticamente deixou ver o asfalto da estrada devido às lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. eu encontrei-me com ela num desfile de moda.Não foi bem apaixonar – respondeu Sérgio observando-lhe os olhos cintilantes. eu sou o pai… – respondeu Sérgio terminando com todas as dúvidas que ainda assombravam os pensamentos de Madalena. até porque se ele continuasse a olhar para si ou se atrevesse a proferir qualquer outra palavra de arrependimento. na altura eu estava tão magoado que nem sequer me passava pela cabeça ter alguma coisa séria com quem quer que fosse. Sem mais nada para lhe dizer. Ninguém teve a brilhante ideia de olhar para si e confortá-la com alguma palavra ou até mesmo com um abraço. – Aliás.Não! Não a amo. Foi algo muito casual. Meu Deus! Como o mundo dava voltas e como o destino era tão cruel.Uma modelo que eu tinha fotografado no início do nosso namoro. várias foram as vezes que Madalena pensou cometer suicídio ou então abrir um buraco para se esconder por debaixo da mesa.Mas não a amas.Na altura não! Claro que não… – respondeu Sérgio temendo ser mal interpretado.Vou – respondeu Sérgio encontrando-lhe a mão sobre a mesa. Ela apareceu uma vez em minha casa enquanto lá estavas e tu ficaste desconfiada que tínhamos algum envolvimento.

Pai. – Eu tenho a certeza que nenhuma mãe teria aguentado a metade do que eu aguentei.Tenho a certeza que vais querer saber. Depois dessa certeza. pai – suspirou Madalena voltando-se para ele.Encontrei-a na zona do Areeiro – continuou Afonso enquanto Madalena passeava atordoada pelo quarto.Não. – Hoje não! .O que é que aconteceu? Algum problema? .O quê?! . As coisas que ela me disse na noite em que se foi embora até hoje estão-me gravadas na memória e eu nunca vou conseguir esquece-las ou sequer perdoá-las… . mas o que é que querias que eu fizesse mais?! Eu estava cansada de a tentar chamar à razão.Não sei – respondeu Daniel enfiando o rosto no livro que estava a ler. – Estava com duas amigas muito mais velhas e parecia que iam a entrar no metro! Bem. não é?! Só tenho que me habituar a ela.Mas ela é tua filha. mas a verdade é que quando fui atrás delas as três desapareceram sem deixar rastro. não sei se me viram ou não.Que seja. tu tens a certeza do que me estás a dizer? 177 .Preciso contar-te uma coisa que vi hoje. . . E mesmo apesar das pernas cansadas e do esforço de um pobre velho de sessenta e nove anos. por favor … .convencer-se de que a sua história com Sérgio tinha terminado e de que não lhe restava mais nada a não ser lamentar-se da sua triste sorte.A Sara está grávida.Já chegaste!? – perguntou Afonso vendo a filha passar pelo corredor como um foguete sem sequer responder à pergunta.Pai. – O que foi? .Hoje não.Não. Nenhuma mãe teria aguentado o facto de saber que a filha se andava a prostituir em troca de nada… . . . . .Vi a Sara. cansada de a impedir de sair à noite e de a ver chegar bêbada às tantas da madrugada – afirmou Madalena gesticulando furiosamente os braços. . Mas acho que para isso não existe solução. . eu realmente não quero saber da Sara! Sei que é horrível uma mãe dizer uma coisa dessas. . ela abriu a porta de casa completamente encharcada e largou as chaves sobre a mesinha. Preocupado com o comportamento intempestivo da filha. .Talvez assim tenha sido melhor. – Será que aconteceu alguma coisa com a tua mãe? .Ela está grávida – interrompeu Afonso parando-lhe todos os movimentos. pai! Tu sabes que eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para impedir que a Sara saísse de casa. .Podes – respondeu ela apressando-se a limpar as lágrimas junto à janela. A expressão séria de Afonso fê-la hesitar. – Posso?! . mas a verdade é que desde que ela saiu cá de casa a minha vida melhorou e eu não quero ter que voltar ao ponto de partida. não foi muito difícil chegar ao quarto de Madalena e tocar-lhe à porta.Eu não acho. pai! Não há problema nenhum! O único problema é a minha vida em si. Afonso saltou do sofá e alcançou o corrimão das escadas pronto a descobrir que raios se tinha passado com ela.

Bem. . Se quiserem posso mostrar-vos! É mesmo aqui ao pé… . eu sei que só tenho sessenta e nove anos. – Mas que mal vos pergunte. .Ia precisar de um agrado. – Acho que isto deve chegar para o jantar à maneira. 178 . Mas para com o teu neto!? Ele não tem culpa de nada.Claro que conheço. pois não?! .Mas?! .Sei. por favor! . e esta senhora aqui é a minha filha. mas acho que consigo perceber quando uma mulher está grávida ou não – respondeu ele encarando a expressão surpresa de Madalena. mas… . há muito tempo que não vejo a Sara. Gentilmente. E apesar de a foto estar molhada. – Bem.. Só as amigas dela. .Se achas que não tens qualquer responsabilidade para com a Sara. tudo bem. madame! Sabe como é que é! Já são sete horas e um gajo ainda não conseguiu juntar dinheiro suficiente para jantar. e pela barriga. não?! . Contudo. Com uma fotografia na mão. o indivíduo não teve dúvidas: . a mãe da Sara! Viemos conversar com ela. grávida. Afonso interceptou um indivíduo de aspecto algo duvidoso. . continuaram a descer a avenida e continuaram também a perguntar se ninguém havia visto uma jovem de dezassete anos. É a Sarita! O pessoal lá do bairro chama-a assim.Tome – respondeu Afonso entregando-lhe uma nota de dez euros. Lena! É o teu neto. – Eu pensei que ela não tivesse família. Mais lágrimas foi o que Madalena sentiu a brotarem dos seus olhos. nem mesmo o desespero patente nos rostos de Madalena e Afonso conseguiram demover-lhes da vontade incomensurável de seguirem em frente. Em duas ruas paralelas. o que é que vocês querem com a Sarita?! Olhem que é uma gaja fixe! Não lhe vão fazer mal. – A Sara está grávida sim. – Leve-nos até lá. Madalena e o seu pai. .Claro que não – respondeu Afonso perante o desconforto patente nos olhos e nos movimentos de Madalena.Por acaso – disse o indivíduo mostrando-se bastante satisfeito com a recompensa. Parecia ser toxicodependente.Ai é?! – respondeu o indivíduo coçando levemente os cabelos.E sabe aonde é que ela está? – perguntou Madalena não escondendo a sua ansiedade. claro – respondeu Afonso de imediato. o trânsito mais uma vez estava caótico e as esperanças de encontrar quem tanto procuravam tornou-se remota com o passar das horas. Mas acho que ainda deve estar a morar com a Milene na pensão. Era quarta-feira.Conhece esta menina? – foi a pergunta. . olhos escuros e pele clara. de cabelos compridos. interceptaram todas as pessoas que iam a passar debaixo dos seus chapéus-de-chuva. Infelizmente a maioria das respostas foi negativa.Sigam-me – exclamou o toxicodependente fazendo um gesto engraçado e permitindo que Madalena e Afonso se colocassem à sua frente. e aparentava também ainda não ter passado dos trinta. Afonso aproximou-se dele e em seguida mostrou-lhe uma fotografia que continha a imagem de Sara: . mas ao chegarem ao final da avenida Almirante Reis.Claro. chovia torrencialmente. – Eu sou o avô dela.Eu não acredito nisto. já deve ir nos seis ou sete meses. – Este é o pior dia da minha vida – gritou ela atirando o candeeiro da mesinha contra a parede. Afonso. eu até entendo. até pelas vestes que trazia consigo e pela barba há muito não aparada.

– Mas não garanto que a Sara e a Milene estejam aí! Podem ter saído! . vários toxicodependentes a cambalear pelas ruas.Desculpe. militar. madame! . prostitutas encostadas às portas das pensões enquanto seguravam os respectivos chapéus-de-chuva e compunham a pequenez das mini saias.Milene – concluiu Madalena quase gelando dos pés à cabeça quando os seus olhos se cruzaram com os do proprietário da pensão. rapaz – respondeu Afonso permitindo que Madalena entrasse primeiro.Eu sei – afirmou Vítor estendendo novamente a mão. – É aqui. Era a primeira vez em quarenta e dois anos que se atrevia a pisar um local como aquele. . repleto de lixo espalhado pelo chão. Era a primeira vez que estava ali. – Nem sabemos como lhe agradecer… . todos eles compunham o cenário no mínimo degradante onde Sara tinha escolhido ser a protagonista. e quando finalmente avistaram a entrada. essas duas! Conhecem-nas.Sempre a vi sozinha lá no bairro e ela também nunca falou nada. – Não sabíamos que estava aqui alguém. .Porquê!? . Surpreendentemente ou não. amigo – respondeu Afonso mantendo Madalena um pouco mais atrás de si a fim de preservar a sua identidade. entende?! – interferiu Afonso. elas estão lá em cima… – respondeu o dono da pensão mostrando-se um pouco mais calmo por perceber Afonso e Madalena não eram pessoas ameaçadoras ao seu negócio.Nós viemos procurar uma rapariga chamada Sara e uma outra chamada… . – Mas para vos deixar subir. demorou algum tempo a apertar-lhe a mão. seguiu-se a vez de Madalena. mas estava! Eu sou o dono desta pensão e aqui ninguém entra sem passar primeiro por mim.Vítor – respondeu ele abrindo um sorriso enquanto estendia a mão a Afonso. vô! Afonso não viu outro remédio a não ser oferecer uma outra nota de dez euros àquele pobre rapaz que apesar de tudo nem parecia ser má pessoa.Não! Nós gostaríamos que fosse uma surpresa. oh – exclamou Vítor alcançando a porta da pensão que tanto tinham procurado.Sim! Somos amigos. – Aonde pensam que vão? . é?! . despediu-se dele com um novo aperto de mão e acompanhou a sua filha em direcção às escadas sujas e escuras que ligavam os quatro pisos daquela pensão.Eu sei – respondeu ela encarando-lhe a expressão irónica. um misto de sensações e sentimentos atravessaram o coração de Madalena.Sei! Uma surpresa? 179 . que ao contrário do pai. E ao voltarem-se para trás.. vou ter que avisá-las primeiro. – Hei – ouviram uma voz grossa a sair da recepção. um homem de estatura média. o seu cumprimento foi imediatamente correspondido pelo ex. .Bem. Infelizmente. Agora digam lá! Quem são vocês? . vestido com um fato de treino azul e uma expressão facial nada amigável assombrou-lhes a visão.Hã. – Agora é para a sobremesa. . Nessa altura. meu Deus. a visão de imigrantes dos mais variados países. e por fim.Obrigado pela ajuda. rapaz? . . A caminhada em direcção ao bairro do Intendente demorou alguns minutos. .Pois.Como é que é o seu nome. – Eu não mordo. Depois disso.

o cheiro a humidade emanado pelas paredes. assim como o encontro com a filha após seis meses em que estiveram afastadas e não mantiveram qualquer tipo de contacto. – Pois não?! . . O número que para sempre iria ficar gravado na sua memória.Se me derem vinte euros. ainda atordoada perante tal revelação. Milene ouviu um terceiro toque na porta e finalmente deu-se por vencida. E foi por isso que sem muitas cerimónias ela saltou do divã encontrando no espelho o único local para compor os cabelos e o decote da sua camisola preta. era ela quem fazia questão de pagar. tornou a afastar-se da cómoda e alcançou a maçaneta da porta girando-a de uma só vez. – Porquê? Algum problema? .Eu sou a mãe da Sara – interrompeu Madalena para grande surpresa de Milene. pensou. Esta. até porque desta vez.Deixa-me… . Enquanto pensava em todas estas tragédias. Depois disso.Sim. .Você é que é a Milene? – perguntou o senhor. Raios. . O número dois. e Madalena pode ter essa certeza quando se viu pela primeira vez à frente do quarto apontado pelo dono da pensão. – Não vais bater à porta? – perguntou Afonso percebendo a hesitação de Madalena. sou eu – respondeu a prostituta cautelosamente. e logo atrás dela. . é mais caro. E para piorar o cenário.Sim. Afonso e Madalena contaram os degraus até o terceiro piso e muitas vezes se viram submersos numa escuridão aterradora. eu deixo que façam a tal surpresa e até finjo que não estava cá quando subiram! Mas se não derem… . mas para ser surpresa.. o que também poderia prejudicial para o bebé. lançou um olhar à cama onde Sara estava deitada e percebeu que a febre e os tremores da jovem ainda não haviam cessado apesar dos antibióticos.Não. O que mais poderia fazer para que a amiga se recuperasse da pneumonia contraída cinco dias antes? Nem mesmo as emergências do hospital.O quarto fica no terceiro andar e é o número dois.…deixa-me ganhar alguma coragem. . Para além disso. – Podemos entrar? 180 . ela estava grávida. algo que prendeu de imediato a atenção de Milene e que a fez largar a revista que tinha nas mãos.Pois. a sujidade entranhada em todos os cantos não lhes deixaram quaisquer dúvidas de que Sara tinha escolhido um dos piores lugares do mundo para viver. pai! Deixa – exclamou Madalena impedindo que Afonso retirasse mais uma nota da carteira. – Aqui tem os vinte euros. A visão que lhe surgiu à frente foi realmente surpreendente. Depois disso. um senhor de meia-idade trajado com um casaco verde-escuro e calças de ganga aprumadas. . Há muito tempo que não nos vemos e eu tenho a certeza que elas iriam ficar muito mais contentes se nos vissem lá em cima… de surpresa.suspirou ela. A porta sofreu dois toques quase seguidos. .Obrigada! Sob o barulho ensurdecedor das escadas. Uma mulher de cabelos castanhos pelos ombros vestindo uma gabardina preta e um lenço cor de laranja ao pescoço. Quem quer que fosse não a iria deixar em paz. os inúmeros remédios que foi obrigada a adquirir na farmácia de serviço ou os panos húmidos para acalmar as febres altas conseguiram melhorar o estado de saúde de Sara.Como assim?! . não conseguiu produzir qualquer movimento corporal a não ser manter a mão sobre a porta.

Mas como não havia camas vagas no hospital. .Eu vou buscar o carro lá acima – disse Afonso voltando-se para a filha. e Madalena não resistiu a lançar um novo olhar àquelas paredes vazias. quando na verdade.O lugar dela não é aqui e você sabe disso! A afirmação de Madalena não poderia ter sido mais acertada. os cabelos estavam mais compridos e o rosto de menina inocente transformou-se no de uma mulher obrigada a crescer à força. . Ao vê-los ali diante de si. O facto de a sua filha já não existir. não tinha quaisquer razões para se sentir assim. . mandou-a para casa e receitou uns medicamentos que tive que comprar ali na farmácia. ela tinha emagrecido bastante. – Lena! Importaste de ficar aqui a preparar a Sara enquanto trago o carro para a levarmos? . Foram precisos poucos minutos para que Afonso abandonasse o quarto e deixasse Madalena e Milene de olhos postos em Sara. aliás. – Lá é que é o lugar dela! . vulnerável e insegura na presença de Madalena. claro – respondeu Afonso. Madalena lançou os olhos a Sara e por momentos quase não a reconheceu. Depois disso. já não restava mais nada e foi isso que assustou Madalena.É grave? – perguntou Afonso debruçando-se sobre a neta enquanto lhe mexia nos cabelos soltos.Claro – respondeu ela após alguns segundos em suspenso.Ela está assim desde sexta-feira… – disse Milene quando Madalena e Afonso avistaram o corpo de Sara deitado sobre a cama. fez-se um silêncio perturbador. Obrigada! . desprovidas de qualquer luxo ou outros elementos decorativos. – O médico que a assistiu disse que provavelmente era pneumonia. aquela era a primeira vez que se sentia tão nervosa perante a presença de pessoas desconhecidas. pai! Vai lá! . Enquanto ouvia o discurso de Milene. independente e imune à opinião dos outros que era estranho ver-se metida numa situação daquelas. da Sara que todos conheciam.Espero bem que não.Eu não sei se ela vai querer ir – respondeu a prostituta cruzando os braços. Milene sentiu-se mais nervosa do que nunca.Então já vou indo para não perdermos mais tempo.Tudo bem! Eu entendo.. Nem mesmo os antibióticos estão a fazer efeito. . Apesar da gravidez. Milene percebeu isso quando baixou o rosto e perguntou: – Para onde é que vocês a querem levar? . a porta do quarto fechou-se com algum cuidado. E só de pensar que tinha sido ali que a sua filha tinha passado os últimos seis meses de vida. – Entrem! O convite foi imediatamente aceite por Afonso e Madalena. não é?! .Claro que não. mas a febre continua alta! Já não sei o que fazer para a baixar. . – Quer tomar alguma coisa? – perguntou Milene prendendo-lhe a atenção.Sei que deve estar a pensar horrores deste lugar. . 181 . . Era estranho imaginar-se tão pequena.Eu não estou a pensar nada – respondeu Madalena observando os gestos de Milene a retirar as roupas de Sara dos armários. – Nós viemos buscá-la – exclamou ela voltando-se para Milene. Sempre fora tão segura.Hã… não.Para casa. Infelizmente. e em seguida.

para os seus familiares mais próximos e recuperar-se-ia de todos os fantasmas que durante meses a atormentaram.Eu sei – respondeu Madalena encarando-lhe a expressão mortificada. .Está a pensar sim. As últimas palavras de Milene coincidiram com a saída de Madalena e com as lágrimas que não conseguiu suportar perante a partida da sua melhor amiga. Voltaria para casa. Por estar quase inconsciente devido às fortes febres.. ninguém em sã consciência iria perceber os motivos que a fizeram largar tudo aquilo para vir morar no Intendente. sendo que dali para a frente iria ser praticamente impossível voltar a ver o bairro com os mesmos olhos pois Sara tinha retirado dele todo o encanto. Sara nem sequer se apercebeu quando foi carregada ao colo por um dos habitantes do bairro e as suas malas foram levadas pelo avô em direcção ao primeiro piso da pensão. poucas dúvidas restaram quanto ao seu destino. tristezas e discussões. – Esse meu amigo vem cá num instante! Ele vive aqui ao pé. Mas foi aqui que a Sara escolheu ficar. sabendo bem quem eram as pessoas que 182 . mas pelo menos fiz o melhor que sabia. fui eu que tomei conta dela durante estes meses todos. Sara transformou-se na única amiga que um dia teve. Mas de qualquer maneira. Nessa altura. . no seu coração. o que vestir e foi obrigada a ir a todas as consultas pré-natais mesmo quando não queria. uma família que a tratava bem. De facto.. – A sua filha é quase como uma filha para mim embora a nossa diferença de idades não seja assim tão grande. Pelo menos ela nunca foi apanhada por nenhum drogado.…eu sei que provavelmente deve achar que eu sou a culpada de tudo o que aconteceu à sua filha. não foi?! Vá-se lá perceber porquê! Com uma casa de sonho. parecia que a sua história tinha tido finalmente um final feliz. Diante daquele facto irrefutável. teve sempre o que comer..Somos – respondeu Milene lançando um olhar a Madalena enquanto dobrava algumas peças de roupas e as colocava na mala de Sara. – Espere – exclamou Milene interceptando a saída de Madalena do quarto.Vocês são amigas? . Sim. . na sua companheira. durante os meses que passaram juntas. Nessa altura. . Não fiz um grande trabalho. lá isso é verdade. mas ele não vai conseguir aguentar sozinho com o peso da neta e muito menos com as malas dela. mas eu não a recrimino! Eu também sei que este lugar não é nada especial. mas mais do que isso. Confesso que até hoje eu nunca entendi.E só para terminar… queria também que soubesse que a admiro imenso! Nem sabe o que eu daria para que a minha mãe também me tivesse vindo buscar ao Intendente. A resposta de Milene trouxe um novo silêncio e também um novo olhar de Madalena aos cantos daquele quarto. eu gosto muito da Sara e nunca quis que nada de mal lhe acontecesse. Todas as alegrias que passaram juntas. ficaram-lhe gravadas na memória.O seu pai até pode ser forte. .Não é preciso – respondeu Madalena de imediato. não é?! – retorquiu Milene percorrendo a sua lista de contactos através do telemóvel. mas. Faltavam poucos minutos para o anoitecer quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta se abriu ruidosamente. – Eu vou chamar um amigo para vos ajudar a levar a Sara e as coisas dela até ao carro. confidente e também a única pessoa a quem ousava contar alguns dos seus maiores segredos. nunca foi espancada por nenhum chulo. .

Madalena achou por bem utilizá-las em Sara. o primeiro neto de Madalena.Então vemo-nos na sala. passaria as mesmas tristezas e ouviria todas as coisas que nenhuma mãe desejava ouvir nem no pior dos seus pesadelos. Nessa altura. Ela estava viva. Parecia um sonho. Mais tarde. penteou os longos cabelos da filha e passou o chuveiro por eles para que a água retirasse toda a sujidade acumulada durante semanas. . mas o que ela não contava era que as coisas fossem acontecer daquela forma tão rápida. . Neto.tinham chegado a casa. Até porque se pudesse faria tudo de novo. O que não contava era ser obrigada a buscar a sua filha a um bairro como o Intendente e não fazer a mínima ideia de quem era o pai do seu neto. desastrosa e pouco corrente. mas também as pernas. Obviamente que sempre lhe passou pela cabeça ter netos. das pessoas que mais a amavam e que nutriam por ela um amor incondicional.Só mais um pouco! Até ter a certeza que a Sara dormiu – respondeu Madalena. Aliás. dizia Leonor quando ainda era viva. Neto. foi o último pensamento de Madalena quando por fim a conseguiu enrolar numa toalha branca e levá-la novamente ao quarto. ela pensou. Até já! .ouviu-se um murmuro. seguiram-se as roupas e a certeza de que Sara estava realmente grávida.Mãe…. embora essa fosse a realidade nua e crua. os braços. ver os seus filhos casar. formar uma família e serem felizes tal como ela um dia também foi.Até já – disse Afonso encostando a porta com cuidado e deixando Madalena sozinha naquele grandioso quarto com os pensamentos a mil à hora. Sofreria as mesmas angústias. Madalena retirou-lhe os ténis e as meias brancas. . Daniel saltou do sofá e encontrou a visão do avô. e por ter experimentado essas ervas várias vezes durante a sua infância. enquanto a poucos centímetros. grávida e ainda tinha muito para viver dali para a frente.Está bem. não era muito difícil imaginar que lhe faltariam poucas semanas para dar à luz o seu primeiro filho. esfregando-lhe não só as costas. Para acalmar a febre e os delírios de Sara. Madalena resolveu enfiá-la numa banheira de água morna e lavar-lhe o corpo com ervas medicinais que a sua mãe costumava guardar na floricultura.Mãe… Apesar de só ter conseguido ouvir aquela palavra. . 183 . Depois disso. Estava limpa.Vais ficar aí? – perguntou Afonso quando se aproximou do alpendre da porta. . A contar pela sua enorme barriga. . perto dos seus familiares. Era a única palavra que ecoava nos ouvidos de Madalena e que por momentos a deixou à beira do desespero por não saber como lidar com aquela nova etapa da sua vida. Não foi preciso dizer nada. e o pijama vestido provou que era altura de Sara se sentir finalmente em casa. Afonso levou a neta até ao quarto e colocou-a na cama. ninguém disse absolutamente nada pois o regresso de Sara era algo já há muito esperado. a cama encontrava-se pronta para a receber.O que foi? – perguntou Madalena correndo ao encontro de Sara com o coração aos pulos. e consequentemente. Um sonho ter a filha de volta e saber que apesar de tudo não lhe aconteceu nada de mal. . Era remédio santo. Com as poucas forças que lhe restavam. Madalena não precisou de mais nada para se sentir a mulher mais feliz do mundo e para ter a certeza que todos os seus esforços não foram em vão quando resolveu procurar a filha e trazê-la de volta a casa. da mãe e da sua irmã ao fundo do corredor. Era só com isso que não contava.

veio um enorme sentimento de paz manifestado por Sara. se aconchegou nos braços da mãe e se deixou adormecer pela primeira vez sem pensar em mais nada. 184 . E o que perdeu?! Bem.Mas a verdade é que…: O que não a matou tornou-a mais forte. o que não a destruiu ajudou-a a reconstruir-se. que muito atabalhoadamente. isso nem chegava aos pés do que ganhou quando passou as mãos pela barriga da filha. Depois disso.

. fazia-se silêncio. talvez pela sua inexperiência ou pelo pânico das dores. Vamos. cheios de surpresas. . Apenas gritava. não conseguiu assimilar nenhuma dessas explicações. – Bem.Claro – respondeu uma delas recebendo um sinal através do BIP.Não! Não me deixes aqui sozinha. Alice e o pequeno Daniel desesperaram-se com a falta de notícias. – Vai correr tudo bem. Mas Sara.Nasceu – disse Jorge não cabendo em si de contente quando abraçou Daniel com força e se atirou para os braços de Alice.Posso assistir ao parto? . sendo intencionais ou não. Em seguida. pedia ajuda a quem quer que se aproximasse de si e desejava que aquele pesadelo terminasse o mais depressa possível. filha – respondeu segurando-lhe as mãos com força. A respiração. e também por Alice. como Afonso. a melhor amiga de Madalena. alegrias e culminaram com o dia do parto de Sara.CAPÍTULO X Os dois meses que se seguiram foram atribulados. e acima de tudo. – Graças a Deus – exclamou Afonso levantando as mãos ao alto. Tenho medo de morrer. As últimas palavras de Sara. encontrou nos braços do 185 . Sara?! Chegou a hora! As cinco horas que se seguiram foram de grande angústia para todos os que estavam presentes na sala de espera. mas principalmente com os gritos que de vez em quando irrompiam a sala sem qualquer aviso prévio. – Não.Eu tenho medo de morrer. O que será que a filha quis dizer com aquilo? Não seria apenas um medo normal de uma adolescente prestes a dar à luz? No fundo do seu coração. A preparação do parto foi efectuada por algumas das enfermeiras de serviço.Eu vou estar lá fora.Sara… . mãe – gritou ela estendendo a mão a Madalena a fim de a impedir de sair do quarto. fizeram com que Madalena ficasse alerta. mãe! Fica aqui. imprimiam-se novas orações e olhava-se para o relógio pendurado na parede. – Não te vás embora! Não vás… . ainda emocionado. Sempre que isso acontecia. a calma. Tanto Jorge. um acontecimento devidamente presenciado por todos os membros da família Soares. E foi precisamente às dezanove horas e trinta e quatro minutos que se ouviu o primeiro berro do mais novo elemento da família. Madalena desejou que sim e foi por isso que se voltou para as enfermeiras de serviço perguntando-lhes: . Fica aqui! . que muito pacientemente explicaram a Sara todos os procedimentos tidos em conta numa ocasião tão especial como àquela. a sala já está pronta. muita força para conseguir expulsar o bebé para fora.

cheia de medo e não tinha forças para puxar o bebé. até o final da semana espero já estarmos todos em casa.Tem calma – riu-se Madalena alegremente. Quer dizer. claro! O parto foi longo. Assim quando a tua neta crescer. ela estava muito nervosa. .Meu Deus! Pensei que o meu coração não fosse aguentar. Nervoso. a uma sensação de que faltavam notícias para confirmar que tudo tinha corrido bem. eu nem me pronuncio – interferiu Afonso levantando os braços. – E então?! – perguntou Jorge assim que ela se abriu e a figura de Madalena lhe surgiu diante dos olhos.k. forças até tinha. impaciente. o médico também e por sorte correu tudo bem! Aliás. . . Jorge olhou mais uma vez para o relógio e retirou as mãos dos bolsos das calças.Cansada. – Parabéns. – Mas as enfermeiras ajudaram-na imenso.Quando é que as vamos poder ver? – perguntou Jorge. – Afinal de contas. e mais tarde. – Afinal de contas eu também fui avô antes dos quarenta e cinco. . .Podes crer – riu-se Madalena. mas como o parto foi natural e não houve quaisquer complicações. .A Sara?! Como é que ela está? – perguntou Alice não escondendo a felicidade estampada no rosto. Mais tarde. seguiram-se outros cumprimentos igualmente efusivos ao pai. avô – disse Alice oferecendo-lhe um novo abraço. o que é que conta ser-se bisavô nessa família. . . Perante a revelação do ex. – Como é que foi? Como é que está a Sara? O bebé? Nasceu? Está bem? . sogro o apoio necessário para extravasar toda a adrenalina que estava a sentir pelo nascimento do seu primeiro neto. foi a pergunta de Afonso enquanto Alice esfregava as mãos de ansiedade e rasgava alguns olhares para uma porta fechada há mais de cinco horas. – Aqui tens o teu conforto! . . à melhor amiga e ao filho. Ainda não sabemos muito bem quando é que vai ser. – Nasceu! Os momentos de euforia inicial deram lugar a uma relativa calma.Acreditas nisto?! Já sou avó.Bem.Que bom – exclamou Alice correndo a abraçar a melhor amiga. marido e do gesto engraçado que fez ao levar uma das mãos ao peito. – É linda! . – Está tudo bem. mas vocês sabem que ela sempre foi um pouco preguiçosa… – riram-se todos.Era mais fixe se tivesse nascido rapaz – resmungou Daniel não vendo na sobrinha uma boa companhia para jogar à bola. Porque é que ninguém saía daquele quarto para lhes trazer notícias.ex.E ainda nem chegaste aos quarenta e cinco! Isso é bom.Agora estão a limpar a bebé! Depois a Sara vai ser colocada num quarto normal e as duas vão ficar lá até lhes ser dada alta.Não! Chega de homens neste mundo – disse Alice.Oh pai – exclamou Madalena sugando-lhe a face enrugada.O. – É uma menina – disse Madalena passada a confusão. vocês vão poder passear pela rua sem ninguém perceber essa tragédia. – Estamos a precisar é de mulheres! 186 . para além da certeza de que aquele tinha sido o dia mais feliz das suas vidas. as duas estão bem… . . não é?! . avó! .E não vai aqui uma palavra de conforto ao avô?! – perguntou Jorge interrompendo a animação das duas amigas. Madalena atirou-se-lhe para os braços e permitiu que ele a levantasse do chão. – Tu vais ser um bisavô fantástico assim como o Daniel também vai ser um tio excelente.

hã Sr.Não – riram-se todos. .Dá-ma! .Não a largas para nada! Parece que ficaste viciada nela. – Agora é que vais ver o quanto custa ser mãe – disse-lhe Alice enquanto todos paparicavam os gestos e as mãozinhas delicadas da bebé. o ex. – E também já tinha falado com a mãe mais ou menos sobre o assunto… .Não.Só espero que não seja Gertrudes – brincou Alice. Durante muito tempo ela esteve cega ao não dar valor à sua mãe e só agora começava a perceber o quanto errou ao não fazer isso. militar tirou um lenço do bolso das calças e tentou esconder as lágrimas para que ninguém o visse a chorar.Já não tenho idade para estas coisas – respondeu ele arrancando uma risada geral. . . não sabes! Mas vais saber. . todas as dores sofridas durante o parto tinham desaparecido. – Ela acordou? – foi a primeira pergunta que a jovem mãe fez ao ver Madalena a passear a bebé pelo quarto. Madalena decidiu passar a noite na clínica para ajudar a filha em tudo o que ela precisasse. a sua filha já se encontrava deitada num pequeno berço ao lado da sua cama e as primeiras horas da maternidade começavam lentamente a infiltrar-se na sua mente. Descansa.Ele ficou contente. à primeira mamada e observou Sara dormir como uma pedra durante horas sem sequer acordar quando a pequena Leonor abriu o berreiro um pouco antes das quatro da manhã. Mas a verdade é que ela não ignorou e a outra verdade é que Sara começava a perceber o porquê.Que chorão que você me saiu. Emocionado. Porque nenhuma mãe consegue ignorar a existência de um filho faça o que ele fizer. Assistiu também ao primeiro banho. . A homenagem não poderia ter sido mais nobre e foi por isso que Afonso não se conseguiu conter. Impressionante como em tão pouco tempo a sua vida mudou apenas com a existência de um novo ser. . Ao contrário de todos os outros. – Oh avô! Não fiques assim – disse Sara correndo a abraçá-lo sobre uma das pontas da cama. filha – afirmou Madalena mantendo a neta no colo.Já escolheste o nome? – perguntou Jorge completamente embevecido pela neta. Nessa altura. Afonso – exclamou Jorge tentando desanuviar o ambiente do quarto.Estive a pensar – respondeu Sara ajeitando os lençóis sobre o colo. . pois Madalena foi a primeira pessoa a estenderlhe a mão nos momentos em que mais precisou. .Quando a porta se mexeu com um pequeno guincho. – Eu queria que se chamasse Leonor! O nome da avó. . – Era para teres ficado contente.O quê!? . .Impressionante – riu-se Sara. . Sara esgueirou o pescoço através da cortina e aguardou ansiosamente a entrada dos seus familiares no quarto. Levava-te para todo o 187 . Impressionante. – Não te largava nem sequer para ir à casa de banho.Não. . Como todas as coisas que anteriormente não faziam sentido passaram a fazer e como desejava entregar à sua filha tudo o que tinha de melhor. Já se acalmou.Havias de me ver contigo quando nasceste – respondeu Madalena correspondendo ao sorriso da filha.Eu sei.Agora mesmo! Mas não acho que seja fome. – Qualquer coisa e chora logo! . foi a primeira a salvá-la dos perigos e também a primeira a perdoá-la quando tudo o que deveria ter feito era ignorar a sua existência. deixa estar! Eu fico com ela.

Contudo. Quero que a Leonor tenha orgulho de mim… . prestes a completar dezoito. não vais?! . e contou com a participação de inúmeros convidados. colegas de trabalho e um número quase incalculável de animadores infantis contratados para a ocasião. já não havia mais espaço ou tempo para errar. mas mesmo muito dinheiro… . Agora todos tinham atingido um patamar completamente diferente. entre os quais. que tal como se era de esperar. passagens de ano e vários outros acontecimentos sempre relembrados em álbuns de família e afins.Vais-me ajudar a fazer tudo isso. Eram elas. Jorge e Madalena esmeraram-se na preparação da festa. Eu sei que foi horrível. Sara sorriu e deixou-se contagiar por algumas lágrimas teimosas. – Quero curar-me e ser uma boa mãe para a minha filha tal como tu também sempre foste uma boa mãe para mim. as festas de aniversários. – Não faças tantos planos de uma só vez.Que a minha vida eras tu. natais. Acho que… só queria provar a mim mesma que não precisava de ti e que podia muito bem viver sem a tua ajuda.Meu Deus – riram-se as duas. A destacar: os baptizados de Sara e Daniel. adquirido novas experiências e utilizado essas mesmas experiências para seguirem em frente e reparar os erros do passado. amigos. . e com uma filha nos braços. Mas agora os tempos eram outros. 188 . mas foi assim que me senti – Madalena manteve-se calada.Ela vai ter – respondeu Madalena forçando-lhe um sorriso. foi a conclusão tirada por ela quando Leonor se enterrou nos seus ombros e a figura de duas pessoas muito especiais atravessaram os portões da casa. – Eu quero tratarme – ela continuou com os olhos rasos de lágrimas.E tu?! O que é que respondias? . repleta de cabelos cacheados. por todas as coisas que te disse! Eu não sei o que é que me passou pela cabeça. De facto. estúpido e egoísta da minha parte. Perante a resposta de Madalena. Aos dezassete anos. mas sim a semelhança que aquela menina parecia ter com a sua filha.É claro que vou! Vou-te ajudar em tudo o que precisares… – respondeu Madalena oferecendo-lhe a mão e sentindo nela um calor especial de um beijo.Porquê?! . . arranjar um emprego que dê muito.lado e as pessoas até chegavam a perguntar-me: Não te cansas de a ter sempre no colo? Não queres ter uma vida própria? . tinham crescido enquanto pessoas. foi realizada no grandioso jardim da casa. onde já haviam sido vivido alguns dos momentos mais felizes das suas vidas. – Queria pedir-te desculpas… . Tinham aceitado o seu convite apesar das relutâncias e trouxeram consigo não só vários presentes como também uma bela menina de sete anos. familiares próximos.disse ela num tom de voz quase sumido.E depois quero voltar à escola.Por todas as coisas que te fiz. terminar o décimo segundo. não foi o vestido que mais chamou a atenção de Sara. O baptizado da pequena Leonor foi comemorado seis meses mais tarde com toda a pompa e circunstância. . A primeira tentativa era a única e dali para a frente iria ser sempre assim. pele morena e um vestido azul clarinho que em muito acentuavam a sua beleza e inocência. ir para a faculdade. Sara principalmente. os churrascos domingueiros.

– Milene! Arlete! Que bom que vieram… .É – respondeu Milene baixando os olhos.A Daniela é a filha do Marco. .Pois é. – Na altura estavas apaixonada por ele e irias acabar por contar.Sim. – Foi então que eu 189 . A Daniela! Uma outra famosa. . . o meu destino – riu-se Arlete enquanto se afastava em direcção a uma das inúmeras mesas de doces espalhadas pelo jardim e deixava Sara e Milene de olhos postos na outra à espera de forças para terem uma conversa que há muito já deveriam ter tido. – Toma! Para a bebé. – Esta é que é a tua filha? . Bateu-me! Bateu-me mesmo muito! Quase morri e quase que perdi o bebé também – discursou Milene com um longo suspiro. – Serve-te à vontade. até tentei contar-lhe.Era tudo mentira! Foi uma mentira que eu inventei lá no bairro para que ninguém soubesse a verdade. Milene?! – indagou Sara voltando-se para trás. . E eu não queria que o Marco soubesse que eu tinha tido uma filha dele. . .Podias ter-me contado. mas naquela noite ele tinha bebido demais por causa da morte do irmão e… acabou por descarregar as frustrações em cima de mim. não ia… .foi o cumprimento de Sara às suas amigas. mesmo se essa não fosse a tua intenção. não é?! .E tu.Se eu te contasse tu irias contar ao Marco. Daniela obedeceu ao pedido da mãe e beijou a face de Sara. afagou-lhe os cabelos compridos dizendo: .Vai lá – disse Sara. pá! Até acho que já perdi o jeito. . com um sorriso carinhoso.Então aquela história de teres engravidado do teu patrão no restaurante onde trabalhavas… .Leva a Daniela também – pediu Milene.Porque é que nunca me contaste? .Obrigada. Sabias?! . Envergonhadamente.Não. . Daniela dá lá um beijinho à amiga da mãe.Posso segurá-la ao colo? .Tínhamos que vir! Afinal de contas não é todos os dias que… senhoras como nós são convidadas para baptizados.Bem. não é?! – respondeu Arlete mostrando um pequeno embrulho a Sara. com os mesmos cabelos cacheados.Porque eu não queria que ele soubesse e também… não queria que tu soubesses. principalmente o Marco – respondeu Milene compondo os longos cabelos.Era como se estivesse a ver Leonor dali a sete anos.Há tanto tempo que não agarrava numa bebé. . enquanto a última.És muito bonita. . a mesma pele mulata e o mesmo sorriso.Então esta é que é a famosa Leonor!? .Sabia – respondeu a criança arrancando uma risada geral. aquela mesa de doces está-me a chamar – interrompeu Arlete compondo os seus cabelos volumosos.Claro – respondeu Sara entregando a sua filha nos braços de Arlete.Daniela e Leonor! Ai. Daniela. . . . . .Ias sim – interrompeu Milene encarando-lhe o rosto. . – Quando eu descobri que estava grávida.

Verdade?! .Tal como nós. Trabalhei numas porcarias. ganhei misérias de ordenados e já estava a ver a minha vida a andar para trás até encontrar a Arlete outra vez. Era a primeira vez que conseguia apanhar a ex. essas só podiam ser encontradas dentro delas próprias e ao lado das pessoas que sinceramente as amavam. . não sejas má – riram-se os dois. E foi assim que entrei na vida. Jorge congratulou-se.Até que enfim. e por esse milagre.Verdade! Decidi-me há coisa de um mês. uma das únicas adultas suficientemente infantis para se maravilhar com um bolo recheado de chocolate. Ela encontrou-me na rua e levou-me para o hospital.Não?! 190 .São – riu-se Milene para não chorar.Tu sabes bem. acho melhor irmos ter com a Arlete senão ela acaba com os doces. – Vou largar a vida – disse Milene após o longo abraço que recebeu de Sara.Fazes bem.Então quer dizer que as nossas filhas são irmãs!? . . haviam-nas procurado nos braços de vários homens. e agora.O. . já juntei um bom dinheiro que me vai safar até encontrar um emprego decente e… quero começar a aproveitar a minha filhota. fugi para o Porto. .k. Só que eu e a minha mãe nunca nos demos lá bem e eu também não estava para aturar as cenas dela. Foi a única que ficou a saber da verdade. Não te faças de desentendida! Desde a minha viagem a Bruxelas que tens andado a fugir. mulher a sós desde o início da festa.Que resposta? – perguntou ela deliciando-se com a voz do ex.Mas não agora – respondeu ela passando-lhe as mãos pela camisa. Primeiro por causa da volta da Sara.Tal como nós… Enquanto se abraçavam e se tentavam abstrair do barulho infernal inerente àquele jardim. Por isso. onde tal como se era de esperar encontravam-se todas as crianças e também Arlete.Ainda não me deste a resposta. depois. . as nossas histórias não são assim tão diferentes… . Ela disse-me que eu podia ganhar bem mais a trabalhar como prostituta e eu aceitei porque estava desesperada e também porque a minha mãe não parava de me pedir dinheiro para continuar a tomar conta da miúda. mas esqueceram-se que a verdadeira paz e conforto. tudo bem! Eu dou-te a resposta. por isso voltei outra vez para Lisboa. . e tive lá a Daniela. De qualquer maneira.Eu acho melhor esperarmos até a Leonor ir para a faculdade. baixinho. Antes. marido atrás de si. já estou quase a chegar aos trinta. . . . por causa do nascimento da nossa neta. . não tens mais escapatória.Bem. tanto Sara como Milene finalmente encontraram a paz e o conforto que durante meses procuraram incessantemente. . tal como vez. em bebedeiras e em festas desregradas. para a casa da minha mãe.conheci a Arlete. . Ali estava Madalena a arrumar os pratos e os copos de plástico sujos pelos convidados quando ele se aproximou e lhe segredou aos ouvidos uma frase que tinha vindo a projectar desde há meses: .Tens razão – concordou Sara aceitando-lhe a mão e atravessando com Milene todo o jardim em direcção à mesa dos doces. . . Depois.Lena.

.Tenho o meu pai. a verdade é que sobrou um espaço enorme nos corações de todos aqueles que ficaram eternamente registados naquela fotografia. aparece no meu quarto. depois de todos já estarem a dormir. Anda tu também. voltou-se novamente para trás e acenou de longe ansiando que Madalena correspondesse de igual forma.Sabes de uma coisa?! .Claro que não – afirmou Madalena passando um dos seus braços pelo ombro da melhor amiga. E mesmo o jardim sendo pequeno para tantos convidados. . depois da festa. tenho os meus filhos… .Tenho a minha neta que é a coisa mais linda do mundo.Uau – exclamou Alice arrancando-lhe uma leve risada.Não estás? .Não! Hoje à noite.Não acredito que ainda andas a enrolar o gajo… . . . Alice! Rápido! Sem cerimónias e enquanto se riam a bom rir.exclamou Alice interrompendo os olhares do ex.Lá isso é verdade – riram-se as duas. – Obrigada por me teres colocado em último lugar. – Em primeiro lugar. – Anda! Vamos tirar uma foto de grupo.E se mesmo assim não me restar mais ninguém.O quê? . . Fim 191 . Jorge sorriu e afastou-se dela com a máxima discrição. Ao perceber quais eram os intentos da ex. casal quando se aproximou da melhor amiga e a surpreendeu com um sorriso malicioso nos lábios.Só precisava de tempo para me decidir! Mas esse tempo demorou mais tempo do que eu estava à espera – respondeu Madalena arrancando uma ruidosa gargalhada a Alice. tenho-te a ti! .Sim. . o que de facto não tardou a acontecer. Lá eu dou-te a resposta.Tens a certeza? .Eu não ando a enrolar ninguém..Mas quem disse que eu estou sozinha? .Se continuares assim ainda vais acabar sozinha. Mãe ouviu-se a voz de Sara. mulher. . Madalena e Alice correram ao local e não tardaram a misturar-se com as cerca de oitenta pessoas especialmente convidadas para assistir ao baptizado da pequena Leonor. . . .Também. Depois disso.

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