17623244 Livro Romance Um Mar de Rosas

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UM MAR DE ROSAS

RAQUEL RODRIGUES

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“Qualquer semelhança entre factos e personagens* não é uma mera

coincidência. Este romance é um retrato fiel de um dos acontecimentos mais infelizes que se passaram na minha família em princípios de 2000 e do qual todos os intervenientes saíram profundamente afectados. Mas tal como em qualquer outra família, os laços que unem uma mãe a uma filha dificilmente são destruídos. São antes eternos e capazes de ultrapassar os maiores obstáculos. Por isso, um conselho que ofereço a todos os que lerem este romance é que aproveitem cada página porque todas elas me trouxeram risos, lágrimas e um prazer inenarrável de escrita…”

* Apenas os nomes das personagens são fictícios.

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Infelizmente tinha chegado a hora de levantar. era no entanto estável e confortável. com o trabalho e com as amantes que arranjava aqui e ali? Diante de tudo isto. que apesar de há muito não ser feliz. olhos escuros bem delineados. e Madalena descobriu esse carácter ao fim dos dezasseis anos em que esteve casada com ele. também ele tinha um carácter duvidoso. marido se mostrava muito mais preocupado com o próprio umbigo. uma excelente forma física tamanho trinta e oito e que já havia superado um divórcio e todas as frustrações que rodearam a sua vida durante os anos em que esteve casada com Jorge Albuquerque. de quinze anos e Daniel de dez. realmente não restou outra alternativa a Madalena a não ser pedir os papéis e tentar encontrar alguma paz de espírito. em frente ao espelho da casa de banho enquanto analisava os primeiros fios de cabelo branco. Madalena dava-se consigo a pensar se realmente tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para manter um casamento.CAPÍTULO I As chuvas torrenciais e as fortes trovoadas não a deixaram dormir durante a noite. até porque o seu único objectivo era oferecer-lhes uma família “normal”. quando estava prestes a adormecer. Sara. marido? E os filhos? Também não deveria ter pensado neles? Na verdade. Infelizmente terminou e não deixou nada de bom a não ser os dois filhos do casal. faltas de respeito e negócios esquivos envolvendo uma assinatura sua. e para o cúmulo dos cúmulos. Bem. 4 . o que não deixava de ser um dos requisitos fundamentais para ser o melhor na sua profissão. Jorge era um advogado de quarenta e dois anos que ganhava a vida a defender empresários corruptos e outras pessoas de carácter no mínimo duvidoso. Seis horas e quarenta e cinco minutos. ditaram o fim de um casamento que tinha tudo para dar certo. uma mulher de quarenta anos. Essa era a rotina de Madalena Soares. Mas como poderia oferecer essa família se o ex. na verdade. Mas infelizmente não deu. Traições. cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros. tomar um banho e acordar os filhos para a escola. ela passou anos e anos a pensar nos efeitos que a sua separação teria em Sara e Daniel. Muitas vezes. o despertador tocou ruidosamente. Será que tinha jogado todas as cartas que possuía na manga? Será que não deveria ter engolido o pouco do orgulho que lhe restava e tentar salvar as cinzas de um amor que parecia adormecido aos seus olhos e aos olhos do ex.

mãe! Já disse que vou comer cereais. nunca ousou levantar a voz aos pais e muito menos desrespeitá-los diante de quem quer que fosse. Ao ouvir a resposta da filha.Já disse que não! Senta-te e come como deve ser! Após um longo suspiro.Já estás a comer os cereais por isso não tens espaço para a tosta – respondeu Madalena alcançando a embalagem do pão de forma.O quê?! .Eu como lá na escola. . .Sabes.Mas eu já ia … .Estudaste?! .Perguntei se não era hoje que ias ter um teste. A pergunta não obteve qualquer resposta. já que mais uma vez Sara se encontrava com os malditos auscultadores nos ouvidos. Madalena deu-se por vencida e voltou a guardar a embalagem do pão de forma num dos muitos armários da cozinha. – Ouviste-me – insistiu a mãe sacudindo-lhe o braço. 5 . . Portas abertas.. Depois disso. contou até dez e continuou a preparar o pequeno-almoço a toda a velocidade. queres a tosta com duas fatias de fiambre ou só uma… . tal como já vinha acontecendo há meses. .Não sei. – Queres cereais ou uma tosta mista? – perguntou Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou.Tosta mista. Mas a verdade é que Madalena não se lembrava de ter sido uma adolescente tão problemática e muito menos de ter dado tanto trabalho aos seus pais. – Sara. o elemento mais novo da família.Sim – respondeu Sara baixando o volume do mp3.Eu também quero – interferiu Daniel. Sara viu-se obrigada a acatar as ordens da mãe. De resto. É da adolescência.Cereais. – É mais rápido. Com quinze anos tudo o que fazia de mais escabroso era faltar às aulas de vez em quando para passear pelas lojas da cidade com as suas amigas. . cintos de segurança colocados e o trânsito infernal na segunda circular. . .Nem penses que vais sair de casa sem comer – respondeu Madalena poisando o fervedor de leite sobre a mesa. . Acho que sim. acho que prefiro os cereais – respondeu a jovem alcançando os Kellogs sobre a mesa. E enquanto ignorava o barulho ensurdecedor dos desenhos animados que passavam na televisão e do mp3 que Sara fez questão de ouvir aos altos berros. . . tentava convencer-se disso. Seria pedir muito que a sua filha também fizesse o mesmo consigo? O pequeno-almoço da família foi degustado em meia hora e depois disso seguiu-se a correria em direcção ao carro debaixo de um frio de cortar à faca. pensando melhor. – Não era hoje que ias ter um teste? – perguntou Madalena parando o carro diante de um sinal vermelho.Não tenho fome – foram as primeiras palavras de Sara quando entrou na cozinha e encontrou a mãe a preparar o pequeno-almoço. foram os ingredientes para começar bem o dia enquanto o rádio divulgava as primeiras notícias da manhã e os ponteiros indicavam que havia pelo menos vinte minutos que estavam presos numa fila de quase dez quilómetros. ela percebeu que havia pelo menos seis meses que a filha fazia questão de a contrariar em tudo.

Estás sim! Já viste a maneira como tens andado a falar comigo ultimamente? Quase com quatro pedras na mão. Seguro. . para quê?! Para o teste… . . foi o colégio de Sara. e ao abrir a porta. – Boa sorte – exclamou ela quando a filha abandonou o carro levando a mochila às costas. Passava já das nove quando ela conseguiu chegar ao local pretendido. . As notícias no rádio transformaram-se na banda sonora perfeita para que Madalena levasse os filhos à escola.Para quê? . ela abaixou-se e alinhou as cartas e jornais com um suspiro de cansaço por uma semana que só na altura tinha começado.És mesmo parvo – adiantou-se Sara empurrando-o contra os bancos de trás. – Ele ainda não ligou a avisar se vos vem buscar ou não.Não.Vou torcer por ti! .declarou Daniel sob as risadas da mãe.Porque não?! . Realmente nada a que já não estivesse habituada durante os seis anos em que dirigia aquele negócio. não me apetece falar.Achas?! Ou se estuda ou não se estuda. Água. por ser a mais próxima. – Assim pelo menos passaste menos tempo em frente à televisão e estudaste mais. .Eu deixei a minha Playstation lá – interferiu Daniel esgueirando o pescoço em direcção aos bancos da frente.Eu não estou irritadiça.Se o pai não nos vier buscar este fim-de-semana. Ninguém acha que estudou. – Porque é que estás tão irritadiça nestes dias? . Diz! Fiz-te alguma coisa? ..Vamos passar o fim-de-semana em casa do pai? . .Não sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos quando percebeu a vontade de Sara em mudar de assunto. 6 . e a primeira paragem. surgiu-lhe à frente a visão sempre assustadora da correspondência acumulada durante o fim-de-semana.Mãe. .Oras. podes dizer-me e nós podemos conversar sobre isso para tentar… .Já disse que não é preciso – respondeu Sara atravessando a rua sem sequer olhar para trás.Porque não me apetece – respondeu Sara fulminando-a com os olhos. . – Preciso ir buscá-la. .Posso te fazer uma pergunta? O silêncio da filha fê-la avançar nos seus propósitos.Não precisas desejar-me sorte. .Porque se fiz. Sem outro remédio. Publicidade. Um acidente numa das pequenas ruelas da cidade obrigaram Madalena a optar por um outro caminho infinitamente mais longo em direcção à floricultura que dirigia ao lado da melhor amiga e que outrora havia pertencido à sua mãe. . . Devias esquecê-la mais vezes para ver se me consegues levantar as notas a Português e a Matemática. senão fujo de casa… .Sabes que eu até acho que foi muito bom teres esquecido aquela maldita Playstation na casa do teu pai!? – respondeu Madalena. eu peço-lhe para me trazer a Playstation! Não passo mais uma semana sem ela.

ainda é capaz de nos furar os tímpanos se não tivermos todos os arranjos feitos dentro do prazo.Nem sabes como te invejo – riram-se as duas. Obviamente que os apoios não foram muitos.O mesmo digo eu de ti – respondeu Madalena terminando de analisar a correspondência sobre a secretária. de resto.Por favor.Hoje mesmo vou ligar ao fornecedor. Madalena decidiu aceitar o desafio e para isso contou com a preciosa ajuda da sua melhor amiga. A floricultura de Madalena era também uma das mais visitadas da avenida. Impressionante como um casamento nos pode fazer perder a nossa própria identidade. . . Beatriz já telefonou? .É daqui a quatro meses se não estou em erro. iluminado e ficava situado em plena Avenida de Roma.Ainda bem que não tenho filhos – exclamou Alice pendurando o casaco no bengaleiro. . . . eu já tinha chegado há muito tempo.Tinha-me esquecido completamente desse casamento. Mas por mais irónico que parecesse. até pela excelente relação que a sua mãe mantinha com as clientes mais antigas e que fez questão de cultivar ao longo dos quarenta e cinco anos de existência da loja. Só estava ali no café a tomar o pequeno-almoço.O espaço era amplo. . da movimentação frenética das pessoas e dos prédios. . Temos já que começar a contactar com os fornecedores para termos tudo pronto a horas. que apesar de serem antigos. mas o que poderia fazer se até à data não havia encontrado nenhum homem minimamente interessante para lhe oferecer flores? – Até que enfim chegaste – disse uma voz jovial entrando pela loja adentro. Manter ou não manter o negócio da família? Mediante o aconselhamento do pai.Para a tua informação. uma das avenidas mais nobres da cidade lisboeta repleta de buzinas dos carros em hora de ponta. uma das poucas pessoas que sempre acreditou nas suas capacidades. marido de Madalena pois ele desejava ardentemente que a mulher continuasse a ser a perfeita dona de casa sempre atenta às suas necessidades e às dos filhos. esta ainda continuava a gerar lucros atrás de lucros.A D. especialmente os vindos do ex. Beatriz é. que na altura também se encontrava desempregada e à espera de dias melhores.Não! Porquê?! – perguntou Madalena largando as cartas sobre a secretária. faz isso! Temos uma reputação a manter… – riram-se as duas amigas. Mas a verdade é que Madalena não foi na conversa e conseguiu levar a sua adiante livrando-se das amarras que a mantinham presa a uma casa quase sempre vazia. . Louca do jeito como a D. Cortadas essas amarras. Todos os dias surgiam encomendas. primavam pelo bom gosto e pelo requinte de quem não se importava de pagar muito para viver bem. . Anos depois. aniversários. 7 . Mas um súbito ataque cardíaco e posteriormente a sua morte trouxeram à filha um dilema que poucos apostaram que ela fosse conseguir resolver. era o que muitas vezes dizia à melhor amiga. Não seria esse facto demasiado deprimente para a dona de uma floricultura? Ela achava que sim. o casamento terminou. veio um certo sentimento de alívio e uma necessidade de auto afirmação que nunca pensou existir dentro de si. havia pelo menos dois anos que Madalena não recebia flores de ninguém. . Alice Santos.Pois eu atrasei-me a levar os miúdos à escola. mas a floricultura deixada pela mãe. casamentos ou outras datas especiais que as pessoas faziam questão de celebrar com flores. .Porque ela ficou de cá vir para escolher uns arranjos para o casamento da filha.

que Deus a tenha. Não sabiam? . e tal como se era de esperar. a entrada de um outro cliente na loja apressou a saída de Beatriz e Joana e trouxe de volta a paz de espírito que Alice e Madalena perderam durante aquela interminável conversa.O casamento de Joana Dias estava marcado para dali a quatro meses. Sim.Pois ficam a saber! E ficam também a saber que vão ter que arranjar algumas espigas para colocar nos arranjos da igreja e também no local onde se vai realizar a boda. foi a mãe. o único detalhe a acertar era o arranjo das flores e a decoração da igreja. claros e suaves – informou a noiva. Mas agora que ela já não está aqui entre nós. por isso é bom que sejam flores do campo em tons neutros.Trigo?! Porquê? . Sim. Beatriz – adiantou-se Alice beliscando o braço de Madalena a fim de tentar trazê-la de volta à realidade.É uma superstição – respondeu Beatriz à pergunta de Alice. ou pelo menos as suficientes até que Madalena e Alice deixassem as divagações das duas clientes falar mais alto. e pelo amor de Deus. De facto. – Não é.Sim! A cerimónia vai ser de manhã. Quero que saibam que só aceitei trabalhar com esta floricultura porque conhecia a mãe da Madalena há muitos anos e foi ela quem me arranjou as flores para o meu terceiro casamento. Ao ouvirem as suas ideias. a responsável pela organização de todo o evento. Flores do campo. a luade-mel e outros assuntos tão interessantes como o modelo da lingerie que a noiva estava disposta a vestir na sua noite de núpcias.É claro que não se vai decepcionar. Outra coisa. uma legítima tia falida do jet-set. quanto a isso não se precisam preocupar – respondeu Madalena apontando todos os pedidos num pequeno bloco de notas.Não. – Tudo vai ser feito como o combinado. A boda. espero não me vir a decepcionar… . a boda e também as flores que vamos utilizar na decoração da igreja. A conversa prolongou-se por mais algumas horas. muitas vezes Madalena e Alice foram obrigadas a concordar com tudo o que ela dizia: E sim. – Tudo tem que estar perfeito… – dizia Beatriz. – Voltamos a falar daqui a duas semanas para saber como é que está a correr a história das flores – disse Beatriz levantando-se de uma cadeira onde esteve sentada durante três horas. . Tudo iria ser feito para a agradar. estávamos também a pensar em utilizar arruda ou trigo no meio dos arranjos. O vestido foi adquirido numa viagem que fizeram a Paris. argumentos e alguns comentários mais ou menos hilariantes. e a igreja escolhida para que os cerca de duzentos e cinquenta convidados por Beatriz. D. 8 . – Todas as mulheres da nossa família sempre escolheram arranjos de trigo porque simbolizam sorte e prosperidade. – O vestido. – Os nossos fornecedores fabricam esses suportes sem custos adicionais. o local da boda reservado numa Quinta em plena vila de Sintra. …claro – respondeu a última apertando a caneta que tinha nas mãos. sendo que naquela segunda-feira não foi excepção.Hã. não foi o que disseram?! . Mas por sorte. Beatriz Dias. foram dissecados até à exaustão e fizeram as duas funcionárias da floricultura revirarem os olhos vezes sem conta. – Além disso. não se esqueçam de nos arranjar suportes para os arranjos… . Lena? . . algo que Beatriz fez questão de discutir com a floricultura contratada para o efeito.Por acaso não.

Claro.Uma amiga!? – indagou Madalena levando a mão ao peito. encabulado. . – Não fiquem acordados até tarde. marido.Portem-se bem – adiantou-se Madalena sugando as bochechas de Daniel enquanto ele vestia o casaco a uma velocidade fantasmagórica. ao fechar uma das janelas da sala. os pais do meu genro é que estão a pagar todas as despesas. – Meninos! O pai já chegou. .Uma amiga. Madalena observou o carro do ex.Não é assim tanto tempo – exclamou Joana retirando os óculos escuros da mala. Já vai. São mais de duzentos e com certeza vai sair um balúrdio.Claro – murmurou Madalena não querendo relembrar à sua cliente que ela já estava na falência há muitos anos e que o único motivo para aquele casamento tão apressado era o facto de não se querer afundar ainda mais.Oito e um quarto – respondeu Jorge lançando os olhos ao seu relógio de pulso. assim como o desejo de lhe ouvir a voz ou até mesmo o barulho das chaves que ele fazia questão de manter nas mãos enquanto ordenava a Sara e ao Daniel para que se despachassem e não o fizessem esperar em demasia numa sala que durante quinze anos também foi sua. nem um minuto a menos. – Deixaste as luzes acesas? – perguntou ela. ou melhor.Já – respondeu Sara levando a mochila às costas. . . – Que tipo de amiga? . – Nem um minuto a mais. até porque a vontade de estar com Jorge era nula.De qualquer maneira. mulher foi peremptório e não deixou outra escolha a Jorge a não ser baixar os braços e aguardar a chegada dos filhos à sala. . – Então!? Já estão prontos? . Por sorte. .Alguém!? . – Tenho alguém lá dentro. . obriguem o vosso pai a fazervos todas as refeições. 9 . Deveria ficar contente por vê-lo? Obviamente que não.Que seja! Simplesmente não quero. Não se demorem – gritou Madalena aos filhos quando ouviu a campainha tocar. ainda temos muito tempo até ao dia do casamento – respondeu Madalena levando mãe e filha em direcção à porta. façam os trabalhos de casa e comam todas as refeições.Escuta Jorge! Eu não quero que ponhas os meus filhos a conviver com as tuas amigas.Sim – respondeu Jorge. – Já estava a ver que nunca mais – disse ele recebendo um beijo de cada um. . . marido a estacionar em frente ao jardim.Bem.Não me irrites – resmungou Madalena lançando os olhos ao carro do ex. – Chegaste cedo – abriu ela a porta. Na sexta-feira seguinte. que educação… . . – Podemos ir? . senão imagina o que era?! Íamos logo à falência. O olhar da ex. . foi a resposta ouvida..Entra lá! . não é mãe? . – Ainda temos muitos outros detalhes a acertar. Apesar da chuva miudinha foi visível que o motor ainda estava trabalhar.Os nossos filhos queres tu dizer. e depois disso seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à porta.…uma amiga.Claro. Ainda agora vamos falar com a empresa que está a organizar a decoração da igreja e depois vamos também tratar da impressão dos convites.

Cansada era como Madalena se sentia cada vez que olhava para si e para o que a sua vida se tinha transformado desde que assinou os papéis do divórcio.Nem tanto assim – defendeu-se o advogado tentando esquivar-se aos olhares aterradores que a ex. muito prazer – sorriu ela estendendo a mão a Madalena. amor! Estás sempre a falar dela… – adiantou-se Vanessa voltandose novamente para a Madalena.Sim! Madalena. Quem seria ela? Uma namorada? Um caso de uma noite? Ou simplesmente uma amiga como ele fez questão de lhe frisar? Ao sentar-se no grandioso sofá com uma almofada sobre o colo. cada semana ou cada mês. mulheres.Ligo amanhã para falar com vocês. – O pai traz-nos no domingo à noite. – Madalena o seu nome. . duas lágrimas caíram-lhe dos olhos e ela não teve outro remédio a não ser detê-las com as mãos. e apesar da relutância.Tchau. . Madalena lançou os olhos as paredes e sentiu-se pela milésima vez sozinha.Confesso que estava curiosa para a conhecer.. – Só falo de vez em quando. . mulher. Quando a porta da rua se fechou com um pequeno ruído. Abril. – Olá. pois acabaria sozinha e sentada naquele sofá até ficar velha e caquéctica. . 10 . Lena! . Março. . .Muito prazer – respondeu Madalena aceitando o cumprimento de uma forma muito menos efusiva. meninos – exclamou Jorge lançando um último olhar à ex. e foi também o tempo necessário para que o calor regressasse em força em todos os pontos do país. Maio e Junho foram os meses que passaram a passo de caracol. marido e dos filhos em direcção ao carro.Mesmo assim! Amanhã eu ligo. era um tempo que não voltaria a recuperar ainda que quisesse. Cada dia que passava.Não precisas ligar – disse Sara abrindo a porta. Jorge resolveu levar os filhos para duas semanas de férias ao Algarve. Sim. mas infelizmente os seus intentos não surtiram qualquer efeito no momento em que o carro arrancou e a rua tornou a ficar deserta. e era também um sinal de que não valia a pena lutar contra o inevitável.Oras… . mãe. Ainda tentou forçar um pouco mais a vista e tentar vislumbrar os traços físicos da mulher que estava sentada no banco da frente. Madalena aproximou-se da janela e observou a caminhada do ex. loira e com as curvas perfeitas de uma top model. . – Porque o Jorge está sempre a falar de si e dos vossos filhos. Diante daquela possibilidade no mínimo assustadora.Vamos. São só dois dias.Não sejas mentiroso. Alta como uma torre. Jorge. . mulher lhe lançou. de facto. Nessa altura. .riu-se Vanessa. não é?! . Vanessa Figueiredo era o apogeu que todos os homens acima dos quarenta sonhavam apresentar às ex. A sua melhor amiga tinha razão quando lhe disse que era mil vezes mais fácil para os homens refazerem a sua vida após um divórcio do que para uma mulher depois dos quarenta. Madalena viu-se obrigada a baixar as guardas e a concordar que Sara e Daniel seguissem viagem com o pai e também com a nova namorada que ele lhe fez questão de esfregar à cara quando foi buscar os filhos.Está bem.Porquê?! . – Tchau.

claro! Esqueci-me. Deus! Como se rebaixou por tão pouco? Como é que sequer desejou um corpo igual àquele quando Deus a havia favorecido com algo que Vanessa nunca iria ter por mais cirurgias plásticas que fizesse: Inteligência e bom senso.A sério?! .Porquê?! . Está perfeita…! .Acho que não! Eu vou lá acima despachá-los. Sinceramente não sei como é que consegue manter essa forma depois de ter dado à luz dois filhos.Porque ela tem um negócio para gerir. . realmente não são o meu forte! Dou-me bem melhor com adolescentes.. não?! Amor. – Mas lá diz o ditado que cada um tem aquilo que merece.Define-me burra – riram-se as duas.Provavelmente – respondeu Madalena bebendo um gole de vinho. lembraste!? .Hã. Vanessa.!Iria ser divertido passarmos as férias todos juntos. . . Era a quinta vez que Madalena observava a entrada dos filhos. Crianças!? Enfim. – Por isso é que eu nunca quis ter filhos e nem estou a pensar em ter. Rapazes de preferência! . 11 . mulher lhe lançou. a tal loira mais alta que uma torre e com as medidas perfeitas de uma top model não passava de um corpo desprovido de cérebro ou qualquer outro sinónimo que pudesse fazer jus à sua beleza física.Porque… . marido no carro. bem… transformaram-se em autênticos monstros de tão gordas e flácidas que ficaram… – riu-se Vanessa sob o olhar incrédulo de Jorge.Os miúdos ainda vão demorar muito? – perguntou Jorge ignorando o sorriso irónico que a ex.Para o Algarve. – Estás a gozar?! Ela é assim tão burra? – perguntou Alice. a melhor amiga de Madalena. . .Madalena quero que saiba que a admiro imenso! Sou a sua fã número um… . .Faz isso porque não quero chegar muito tarde ao Algarve. – Eu disse-te que ela era dona de uma floricultura.Não acredito! Bem. deve estar arrasada. .Sabe que eu até estive a dizer ao Jorge para a levar connosco.Pois eu acho que vou conseguir sobreviver. já viste o que era passarmos um ano inteirinho sem férias?! Acho que morria… .Infelizmente este ano não vou poder ter férias – concluiu Madalena cruzando os braços. . .Coitado do Jorge! Será que ele está assim tão desesperado? .Levar para onde? . Vanessa – adiantou-se Jorge temendo que a namorada pronunciasse mais alguma loucura.A sério. .Hã… não me parece – respondeu Madalena tentando desenvencilhar-se daquele convite no mínimo inoportuno. mas era sem sombra de dúvida a primeira vez que não se sentia minimamente enciumada com a cena. quando ambas jantaram juntas naquela noite.Acredito que sim – murmurou Madalena levando a mão ao peito. .Obrigada. da namorada e do ex. . não é!? Pois então! Ele só está a ter aquilo que merece.Conheço várias mulheres que depois que tiveram filhos.

com os filhos e com esta casa a cair aos bocados enquanto ele se pavoneia no Algarve com a Vanessa loira burra. . . nem com isso fiquei! Só fiquei com os cornos. nada tinha mudado.Tens razão – concordou Madalena limpando as lágrimas quando percebeu que também ela fazia parte daquele vastíssimo leque. Infelizmente Madalena foi obrigada a concordar com as palavras da sua amiga e também com a certeza de que tudo continuava exactamente igual naquela cozinha. 12 .Eu também sinto falta – respondeu Alice deixando escapar os seus pensamentos mais secretos. abraçá-las e fazê-las sentirem-se seguras. Aliás.Eu também e olha que nem foi comigo – disse Alice devorando o soufflé de camarão cozinhado por Madalena. claro! Era dinheiro sujo dos negócios que ele fazia com os clientes dele. tens toda a razão em ficar tão contente com a desgraça do teu ex. .E a lata dele em forjar a minha assinatura no banco e ainda fazer uma carinha de inocente à frente dos polícias como se não fizesse a mínima ideia de onde aquele dinheiro tinha saído. Alguém! Um homem de preferência. – Ele está lá no Algarve. Alice também foi obrigada a concordar com um silêncio. até fico toda arrepiada..E eu?! Sou um fantasma? .Podias pelo menos ter ficado com algum – riu-se Alice.O quê?! Ter depositado aquele dinheiro na tua conta só para ires presa? Não. abraçar-me e fazer-me sentir segura. animada. mas pelo menos está lá a divertir-se e a viver uma vida que eu também queria viver – discursou Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos.Nem me digas nada! Só de me lembrar do dia em que a polícia me bateu aqui à porta. Não. . não é?! Nem todas as mulheres nasceram para ter um homem que as possa ouvir. .O que é que aconteceu ao dinheiro? . eu é que sou burra! Burra por ter aguentado tanta nojeira e ainda acabar com uma mão à frente e outra atrás.Olha. até pode estar com a mulher mais burra do mundo.Sei lá! Sinto falta de… ter alguém com quem conversar. aliás.Sabes bem o que eu quis dizer. marido! Especialmente depois de tudo o que ele te fez… .Eu bem te avisei. . . . .Não é só sexo.Às vezes fico a pensar se ele não fez de propósito. – Mas o que é que havemos de fazer. se queres realmente que te diga. De facto. isso foi o cúmulo dos cúmulos… . .Então é o quê!? .Voltar a fazer sexo outra vez – concluiu Alice bebendo um gole de vinho.Foi confiscado. . – Estou sozinha – disse ela por fim.E tu estás a adorar. .Mas tens razão. – E eu estou aqui jogada às traças para mais de dois anos e sem a mínima hipótese ou a mais remota possibilidade de… . . . Eu acho que ele só fez aquilo para se conseguir safar e também porque é um otário de primeira.É assim tão evidente – respondeu Madalena arrancando uma leve gargalhada à melhor amiga. eu acho que não. Alguém que me possa ouvir.

.Só espero nunca chegar a esse ponto. não fazia qualquer diferença. desilusão é a palavra de ordem.riu-se Alice enquanto se tentava recordar de alguma. .Porque é que nunca me contaste? . . .Tive dois – confessou Alice bebendo um gole de vinho. 13 . encantar as pessoas com os meus dons e encontrar uma fórmula secreta para ser imortal… . para aquela tia do jet-set nada poderia dar errado pois não era somente o nome da sua filha que estava em jogo. inteligente e até era bonito.Sim – respondeu Alice forçando uma gargalhada que não foi de todo correspondida pela melhor amiga.Obrigadinha pela parte que me toca! .A sério?! . – Gostaria de ser um sábio africano apenas para desvendar os segredos mais misteriosos da humanidade. Na verdade.Assim tipo… .Não me leves a mal. mas caso contrário. a mãe da noiva. se estivesse era óptimo. . mas depois quando conhecemos as pessoas. que fez questão de escolher pessoalmente as flores e os suportes de decoração que iriam estar presentes na igreja e também no local da boda.Que tipo de frases? . houve uns tempos em que eu estava tão desesperada que até cheguei a arranjar encontros na Internet. Estaria o amor intimamente ligado ao casamento? Bem. Por isso é que desisti desses encontros virtuais. mas acho que prefiro continuar solteira a andar com um sábio africano – riram-se as duas amigas completamente indiferentes ao adiantado das horas. – No primeiro o gajo era um idiota de todo o tamanho e até chegou a fingir que tinha esquecido a carteira em casa apenas para não pagar o jantar.No segundo..Podes crer que existem e eu já saí com muitos. .Agora imagina-me ouvir frases dessas durante todo o jantar numa sexta-feira treze? Saí do restaurante mortinha de medo e nunca mais lhe atendi a nenhuma chamada.O quê?! – indagou Madalena soltando uma ruidosa gargalhada. . A única coisa que fazem é levantar as nossas expectativas. Os arranjos florais para o casamento de Joana Dias e Rafael Saraiva primaram pelo requinte e tudo graças ao bom gosto de Beatriz. confesso que até tive algumas esperanças! À primeira vista o gajo parecia ser simpático.Sabes.Meu Deus! Ainda existem gajos desses no planeta terra? . . . mas sim o de toda a sua família que via nos laços do matrimónio a oportunidade ideal para se livrar das privações monetárias e outros apertos resultantes da sua falência desde há gerações. .Naquela altura ainda estavas casada com o Jorge e eu senti-me ridícula só de pensar na ideia de tocar nesse assunto contigo. Com certeza irias pensar que eu era uma pobre coitada… . mas o problema é que era demasiado filosófico e atirava cada frase que eu até ficava com os cabelos em pé.Que horror – riram-se as duas.E deu certo algum desses encontros? – perguntou Madalena não escondendo a sua curiosidade.

Uma mãe que não sabia quando dar espaço e privacidade aos filhos. . Características físicas? Altíssimo.Não saias daí.Olá – disse o desconhecido forçando um sorriso a Madalena.O.k! . Por isso é que o meu casamento não demorou muito – respondeu Alice levando as mãos à testa encharcada de suor. . Madalena e Alice abandonaram o veículo da floricultura e regalaram-se com a magnífica vista do Mosteiro dos Jerónimos. embalada pelos jardins de Belém e pela torre imponente. até mesmo para ela. – Bem. a vinte e quatro horas do tão aguardado casamento.Sim! É óptimo. – Trouxe ajuda – ouviu-se finalmente a voz de Alice. um nariz esculpido à lupa e dois lábios bem delineados. Todo ele exalava beleza. cabelos escuros perfeitamente aparados.Estás a gozar? . Madalena cruzou os braços e encostou-se à carrinha pensando em tudo menos nas flores que deveria retirar do porta-bagagem. . foram as palavras que Madalena utilizou para caracterizar a excessiva demora de Alice quando ao olhar para o relógio de pulso viu que nele estavam assinaladas dezoito horas e trinta e dois minutos. os últimos raios de sol começaram a desaparecer no horizonte e a brisa trazida pelo rio retirou as réstias do calor sentido durante o dia. olhos tão verdes como duas esmeraldas. traços faciais definidos. que lhes vasculhava todas as gavetas numa tentativa desesperada de encontrar algo escabroso e que passava praticamente todas as horas do dia a pensar neles.Já não é mau. Como era belo. Pensou nos filhos. em como eles se deveriam estar a divertir no Algarve e nas saudades que sentia deles apesar de apenas se terem passado vinte e quatro horas desde a última vez que os vira. meu Deus! E de onde tinha saído aquela perfeição? – Encontrei este senhor simpático lá dentro e ele foi o primeiro a oferecer-se para nos ajudar – informou Alice trazendo a sua amiga de volta à realidade. De facto. Os olhos de Madalena não conseguiram esconder o fascínio quando viram à frente um dos seres mais belos do planeta terra.A sério – respondeu Madalena poisando no chão o primeiro arranjo floral que retirou do interior do veículo. Madalena não conseguiu acreditar que ele era real. . sorriu.E eu que me tive que contentar com uma capelinha em Alvalade… .Sabes que este mosteiro nunca me disse nada?! . . . os noivos souberam escolher o local perfeito para uma ocasião também ela perfeita. eu vou lá dentro ver se encontro alguém para nos ajudar a tirar essas flores cá para fora. – Sempre o achei um pouco sombrio e cinzento.Um pouco difícil. Era uma mãe galinha. um imponente monumento que impunha admiração até aos olhos dos mais leigos. Diante daquela paisagem tão interessante. não achas?! Provavelmente deve ter morrido lá dentro. visto o Mosteiro considerado como um dos edifícios mais emblemáticos da cidade lisboeta. Mas ao vê-lo diante de si.No dia seguinte. isto para não falar da facilidade quase sobre humana que tinha em incluir os seus nomes em todas as conversas. Nessa altura. elegância e uma masculinidade difícil de explicar. – Era aqui onde eu gostaria de me ter casado – disse Alice abrindo as portas da carrinha. 14 .

por Alice. . foi impossível para Madalena não reparar nas suas costas bem formadas.Claro que sim. . enquanto na sacristia.Podem colocá-las junto ao altar que depois os responsáveis da decoração tratam do resto. – Acha que nos pode ajudar a levar tudo isto à capela? . e a cada esbarro com Madalena perto do altar. – Só sou um dos fotógrafos contratado para a cerimónia. . .Nem sabe o quanto – respondeu Alice mostrando-lhe os inúmeros arranjos florais no interior da carrinha. – Trouxemos os arranjos tal como o combinado – respondeu Alice forçando um sorriso a Beatriz.Aonde é que podemos colocar as flores? – perguntou Madalena sustendo um enorme suporte nas mãos. prender a sua atenção e deixar-lhe as pernas completamente bambas. No fundo do corredor. uma voz imperiosa invadiu a igreja deixando todos os presentes estupefactos com a irritação que ela trazia. a noiva e a mãe do noivo trocavam as últimas palavras com o padre que iria presidir à cerimónia. um pouco mais atrás. À sua volta encontravam-se cerca de duas dezenas de pessoas em movimentos frenéticos tentando desesperadamente terminar os últimos detalhes da decoração da igreja.São bonitas. nos seus ombros largos e nas pernas ligeiramente arqueadas que lhe conferiam um ar demasiado sexy para ser apenas um simples mortal. .Não se preocupe porque nós também não percebemos nada de decoração – interferiu Alice.Já vi que precisam mesmo de ajuda. . completamente descontrolado. . na última vez que Madalena sorriu. Ou seja.Ainda bem! Já estávamos todos impacientes à espera deles. . mas também pelo fotógrafo que teve a amabilidade de as ajudar a tirar da carrinha todos os arranjos florais sem sequer pestanejar ou oferecer algum comentário menos agradável. . Contudo. Enquanto ele caminhava em direcção à capela com dois grandes arranjos florais nas mãos. encontrava-se um homem que não aparentava ter mais do 15 . Não parecia ter mais do que trinta e cinco anos e muitas experiências para contar visto o seu olhar transparecer uma inocência digna de um adolescente de dezasseis. Muito pelo contrário.…olá. Até parecia que o estava a fazer por prazer.. – Que bom que chegaram… – disse Beatriz caminhando em direcção a Madalena e Alice assim que as duas entraram na capela.Obrigada! Mais um olhar e mais uma vontade descomunal de Madalena em atirar-se para os braços daquele desconhecido que em poucos segundos conseguiu algo que nenhum outro homem havia conseguido em dois anos.Só viemos trazer as flores – concluiu Madalena recuando dois passos quando ele se agachou e levantou do chão o primeiro arranjo. Realmente não deveria estar a observá-lo com tanta atenção porque a qualquer momento ele poderia voltar-se para trás e surpreendê-la com os olhos postos em si. Raios. As ordens de Beatriz foram imediatamente obedecidas não só por Madalena. um sorriso irrompia-lhe o rosto pronto a fazê-la corar de vergonha. Mas não me peçam para ajudar na decoração porque não percebo nada disso – respondeu ele arrancando um sorriso tímido a Madalena.

Teria acontecido alguma coisa? Sim. . sua ordinária…! . eu não vim aqui para falar do pai! Eu vim falar com a Joana. . . já que durante cinco anos de relacionamento. Quem era. . .Então vá chamá-la! .O que é que aconteceu. – O que é que aconteceu contigo. amor!? . Beatriz?! Não sabia que a sua filha andava a ter um caso com o melhor amigo? Ou será que sabia? Claro. – Nunca mais te atrevas a chamar-me de amor.Rafael!? . equilibrado e totalmente imune à palavra escândalo.Mãe.Eu já descobri tudo. – Mas talvez seja melhor conversarem na sacristia ou noutro local. – Pensei que tinhas dito que ias ficar preso numa reunião. Aqui não é o lugar ideal e tu estás muito nervoso… . – Houve algum problema lá na empresa? E o teu pai? Não falaste com ele antes de saíres do… . Silêncio foi a palavra de ordem. enquanto Joana tentava ignorar os olhares curiosos de todas as pessoas presentes na capela.Chame a sua filha agora antes que eu perca a paciência… Beatriz nunca vira aquela expressão nos olhos do genro e muito menos pensou que em algum dia ele iria ousar levantar a voz contra si. filho? – perguntou a mãe de Rafael pressentindo-lhe a cólera no olhar. foi o que todos se perguntaram quando o viram a caminhar em direcção ao altar com uma expressão verdadeiramente aterradora. até mesmo porque Rafael sempre fora um rapaz sensato. Com o primeiro otário que lhe aparecesse à frente e que tivesse uma conta bancária choruda. – Está bem! Eu vou chamá-la – concordou Beatriz ignorando os olhares de todos os funcionários presentes na capela.Chame a sua filha agora – interrompeu o noivo não se deixando levar pelos argumentos da futura sogra. – O que é que se passa.Não me chames de amor – gritou ele assustando-a com a sua voz imperiosa. meu filho? Estás todo desgrenhado. Com certeza devia saber. Não era esse o vosso plano? 16 . ele aguardou a saída da sua noiva da sacristia repetindo para si mesmo: Nem por decreto de lei a vou perdoar.Para quê?! . com um olhar perdido e uma das pernas a tremer. – Amor! Tu por aqui – exclamou ela chegando ao altar acompanhada pela sogra e pela mãe.que vinte e oito anos. pois que o seu único objectivo era casar a Joana com um homem rico. cabelos loiros e uns olhos azuís inchados de tanto chorar. Os momentos que se seguiram foram tensos e tudo porque Rafael não arredou pé do local onde estava. todo transpirado… .Aonde é que está a sua filha. Nunca a vou perdoar.Não sabia. . Beatriz!? Eu quero falar com ela agora – gritou ele assustando todos os presentes.Tudo. As duas estão a falar com o padre. – Aonde é que ela está? – perguntou ele fora de si. D. o quê? – indagou Beatriz esbugalhando os olhos.Precisamos falar.Tem calma! A Joana está na sacristia com a tua mãe. . tudo o que Joana lhe ofereceu foram mentiras e traições. Claro que tinha. Sempre com as mãos nos bolsos. E na verdade.Rafael!? – indagou Beatriz tentando acalmar o ímpeto do seu futuro genro. bem tinha todas as razões do mundo para não o fazer.

. mas por sorte. tentou uma segunda.Não me toques – vociferou ele atirando-lhe o suporte de uma vela com o único intuito de a matar. velas e flores. tu só podes estar a brincar – respondeu Joana limpando as lágrimas e tentando retirar sobre si a vergonha de estar a ser publicamente humilhada pelo noivo.Acabou! Acabou tudo! Já não vai haver porcaria de casamento nenhum… Fitas. – A culpa foi toda tua! Foste tu que estragaste tudo e agora não adianta fazeres esse ar de arrependida porque eu já não acredito em mais nenhuma palavra que venha de ti.Estás a ver tudo isto – vociferou ele arrancando as fitas decorativas presas nos bancos da capela.dizia ela. – Rafael. Como se enganou com Joana? Como se arrependia do dia em que a tinha conhecido e como queria nunca a ter pedido em casamento. . para a tornar na mulher mais feliz do mundo e aquela era a paga que recebia depois de lhe ter entregado o seu coração e a sua conta bancária de mão beijada.A culpa foi tua – gritou Rafael calando-lhe os argumentos. – Só que o otário aqui abriu os olhos a tempo – concluiu Rafael não se deixando amolecer pelos olhos chorosos da sua noiva.A culpa foi dele. – Estás bem? – perguntou Madalena observando o ferimento na testa da melhor amiga.Sinto nojo de ti – gritou ele com os olhos marejados de lágrimas. – Porra – exclamou.Rafael.Estás nervoso! Não sabes o que dizes. Madalena e Alice não deixaram de trocar um olhar constrangedor. Ele que sempre fez tudo para a fazer sorrir. a vítima foi imediatamente socorrida.Enquanto ouviam o discurso confuso daquele pobre rapaz. tudo foi totalmente destruído por Rafael e pela fúria que se apossou de si no interior daquela igreja. Depois disso.Não me toques! . Como não o conseguiu da primeira vez. – O gajo partiu-me a cabeça toda! 17 . – Pára com isso! . assim como os primeiros murmurinhos e a voz imperiosa do padre que comandou imediatamente a retirada de Rafael de um recinto que para ele ainda continuava a ser sagrado. . .Rafael… . por favor… . . – Pára com isso! . já sei de tudo e nem adianta sequer inventares mais uma das tuas milagrosas desculpas porque o Eduardo confessou tudo quando eu o encostei à parede hoje à tarde. – É lixo! Tudo isto é lixo e não vai servir para mais nada. desesperada.…acho que sim – respondeu Alice passando as mãos pela testa e deparando-se com uma mancha de sangue nos dedos.Será que ainda não percebeste. Um azar que consequentemente acertou em cheio na testa de Alice e a fez cair junto ao altar ainda sem saber o que realmente tinha acontecido. – Não podes estar a falar a sério! Não podes estar-me a fazer isso a vinte e quatro horas do nosso casamento… . Joana!? Será que ainda não percebeste que a tua máscara caiu diante desta gente toda? Eu já descobri a verdade. Mas na verdade. . . ele só estava a fazer todo aquele escândalo para tentar extravasar a vergonha sentida quando descobriu que durante cinco anos havia sido traído pela noiva e pelo melhor amigo. Perplexidade foi o sentimento geral. .Pára – exclamou Joana tentando controlar-lhe os braços furiosos.Rafael… . Joana abaixou-se a tempo e livrou-se de um dos maiores azares da sua vida. – E podem crer que não me vão arrancar nem mais um tostão.

Alice. . acho que estão demasiado nervosas para conduzir. mas também lhe foi informado que teria que preencher uma ficha de entrada antes que se pudesse efectuar qualquer tipo de tratamento a Alice. tem calma – pediu Madalena tentando acalmar-lhe a cólera. A vela acertou mesmo em cheio. mas ainda assim foi impossível para ela conter um riso abafado.. mas é que… . – O que foi? – perguntou ele. – Não sou um especialista.Desculpe! Desculpe. – Não a queria magoar. isso não significa que também eu tenha que ficar com um alto na testa. – Lá porque levou cornos da sua noiva. . encontrou uma enfermeira.riu-se ele timidamente. por isso… .Sérgio – adiantou-se o fotógrafo lançando-lhe um olhar intenso. .Eu posso ir com vocês – disse ele. . Vamos ao hospital tratar desse corte antes que se torne nalgo mais grave.Disse alguma piada? 18 . – Confesso que nunca me tinha visto numa cena daquelas. Por sorte. – E acho que tão cedo não a vou esquecer.Peço desculpas – disse Rafael mostrando-se envergonhado pelo seu acto. Alice manteve-se resoluta em não aceitar nenhum. . – Acho que foi levar pontos.É melhor irmos para o hospital – interferiu o fotógrafo analisando-lhe o corte profundo na testa. Mas o pior nem era isso. – Vamos embora! Vamos fazer o que… . peço desculpas… . . Madalena percebeu.Nem eu – respondeu Madalena lançando os olhos às paredes da sala de espera. Foram precisos cerca de vinte minutos para que as portas automáticas das urgências se abrissem. Apesar dos vários pedidos de desculpa que recebeu dos noivos enquanto caminhava pelo corredor da igreja. A resposta de Sérgio não pretendia ser irónica. .Bem… . e quando isso aconteceu.Você é louco.Tudo bem – concordou Madalena levando a melhor amiga nos braços. .Muito menos a sua amiga que acabou por ficar com um galo na testa.Levaram-na agora lá para dentro – respondeu ela esgueirando o pescoço em direcção à enfermaria. – Quer dizer. é o que é – respondeu Alice levantando-se do altar com a ajuda da melhor amiga.Sim! Vamos fazer o que o Sérgio disse. humilhada e metida numa confusão que nem era sua. mas acho que vai precisar de alguns pontos. Madalena tentou encontrar alguém que a pudesse ajudar a socorrer a melhor amiga. O pior era a dor descomunal que estava a sentir na sua testa quando passou as mãos por ela e recebeu um lenço de Madalena para estancar o sangue que ainda lhe continuava a jorrar da cabeça e que se tornava cada vez mais intenso à medida que Sérgio conduzia a carrinha da floricultura em direcção ao hospital mais próximo. aceitar impávida e serena ao pedido de desculpas de duas crianças infantis e imaturas que não sabiam resolver os seus próprios problemas sem envolver pessoas estranhas e alheias ao caso. Era só o que faltava depois de ter sido agredida. . – Ela já foi atendida? – perguntou Sérgio aproximando-se de Madalena quando finalmente conseguiu estacionar a carrinha no parque de estacionamento do hospital.

. . . por favor. . aliás.Digamos que a minha vida é recheada de flores.Tenho um estúdio de fotografia – respondeu Sérgio colocando o casaco sobre o colo. – Ainda não sei o seu nome – disse ele. – Está a ser má para a sua amiga. – Mas é que…. eu sei que não deveria estar a rir da desgraça alheia. – Quer dizer.Vender flores.A sua profissão é que deve ser interessante. E sim. eu e a minha amiga somos sócias. Mas a verdade é que nada surtiu efeito.Hã… nem tanto – riu-se Madalena. .. .Madalena Soares – respondeu ela compondo os cabelos quando o seu olhar se cruzou novamente com o dele no meio daquela sala tão grandiosa. E a cena também! Ao olhá-la mais uma vez. 19 . encabulada.É fotógrafo profissional!? . . A única coisa que fez foi aumentar ainda mais o fascínio que Sérgio sentiu por ela logo no primeiro minuto em que a viu. o que é que faz? .Eu acho que é… – respondeu ele arrancando-lhe um sorriso. . Sérgio sorriu e abanou a cabeça.Ai é?! . embora a loja tivesse pertencido à minha mãe antes de ela morrer. esses foram alguns dos estratagemas utilizados por ela para se conseguir controlar.Tem a certeza? – perguntou Sérgio fulminando-a com aqueles malditos olhos verdes. Não tem nada de interessante. especialmente porque se trata da minha melhor amiga.E você? Para além de aparecer em casamentos recheada de flores. claro que não – respondeu Madalena tentando controlar os risos cada vez mais intensos.Sim. baixar o rosto e até virá-lo. sabia?! . – Ou pelo menos hoje tornou-se.k…! .Mas se precisar ir embora. mas desta vez foi completamente impossível para Sérgio resistir aos risos abafados de Madalena. Ela entrou há pouco. afinal de contas.Sou dona de uma floricultura – respondeu Madalena sentindo-se completamente perdida quando ele sorriu novamente para si. sinta-se à vontade… – concluiu Madalena ao perceber que muito provavelmente já havia abusado da boa vontade daquele fotógrafo desconhecido.Não sei. mas o que você disse teve piada.O quê? . estava a trabalhar quando… . – É igual às outras.Eu sei! Peço desculpas. .O. . .Como assim?! . . Um novo silêncio irrompeu a sala.Acha que a sua amiga ainda se vai demorar muito? . Levar a mão à boca. – Eu sei que eu e a minha amiga já tomámos muito do seu tempo e que com certeza você deve ter alguma coisa para fazer. .Eu trabalho por conta própria.Deve ser uma profissão interessante – murmurou Madalena tentando fugir àqueles olhos verdes tão lancinantes. .Não.Concordo.

. não acha!? – concluiu ele. tal como a sua. o médico de serviço receitou-lhe alguns antibióticos para que as dores e o inchaço diminuíssem em poucas horas. Raios. talvez por o sol já se ter posto. Sim. não é?! – respondeu Madalena deixando-se mergulhar pelo olhar que Sérgio lhe lançou. Madalena não precisou de muito tempo e nem de muito esforço.Ninguém é perfeito. . . Nessa altura. e por ela.Sim. .Obrigada por tudo – interferiu Alice mal conseguindo manter os olhos abertos. porque é que foi ela a única escolhida para receber aquela valente pancada? . . Com a cabeça encostada ao ombro da melhor amiga. Sérgio era realmente divertido e sedutor. a barba aparada.Dói-me tudo até o último fio de cabelo! Só quero ir para casa antes que pense em cometer suicídio… As portas automáticas das urgências abriram-se novamente. – Tem razão – concordou ela após um longo minuto de silêncio.Silêncio foi a resposta dela. 20 . Ele era tudo isso e muito mais.Confesso que estava a fazer de tudo para não cometer nenhuma. . Alice desejou encontrar a sua cama quando regressasse a casa e desejou também esquecer todos os azares que lhe haviam acontecido durante o dia. A resposta do fotógrafo não poderia ter sido mais insultuosa e isso ficou provado pelo olhar fulminante que Alice lhe lançou do interior do carro. Porque de todas as pessoas presentes naquela maldita igreja. saíram Alice. . Talvez fossem os olhos verdes.Não precisam de mais nada? – perguntou Sérgio quando chegaram à carrinha. – Já está tudo? . – Foi um verdadeiro cavalheiro ao contrário do estupor que me atirou a vela. .Não faz mal – riram-se baixinho. – Se fosse assim tão desinteressante não estaríamos aqui neste hospital.Hã… peço desculpas! Eu não quis … . – Bem. . e quando ela finalmente se viu livre daquela tarefa tão desagradável. Madalena e Sérgio no mais absoluto silêncio.Não – respondeu Madalena ajudando Alice a entrar no carro. – Acredite que já fez muito por nós. mas realmente havia qualquer coisa que não a fazia tirar os olhos dele. obrigada mais uma vez! Ficamos-lhe a dever uma… . ou talvez fossem as três coisas misturadas numa só.Que é isso.Quem sabe um dia não venha a cobrar esse favor.Como é que te sentes? . – Digamos que essa foi a sua única gafe para connosco. Meia hora foi o tempo que as enfermeiras precisaram para suturar os ferimentos na testa de Alice.Digamos que fica com uma história para contar aos seus netos. o nariz esculpido. mas também possuía qualquer coisa que a intrigava a deixava quase sem fôlego. – Então?! – perguntou Madalena saltando da cadeira quando Alice surgiu na sala de espera com a cabeça totalmente enfaixada. – A minha profissão é realmente muito interessante.Eu também acho – respondeu Sérgio arrancando-lhe um outro sorriso tão ou mais encantador que o primeiro. o verde-esmeralda deu lugar a um verde acinzentado e isso só deixou os olhos dele mais lindos do que naturalmente eram. – Ela não tem filhos e muito menos netos – afirmou Madalena voltando-se para Sérgio ainda com o casaco nas mãos. e para encontrar todas essas características.

foi o que o fotógrafo leu quando o veículo desapareceu do parque de estacionamento levando consigo uma das mulheres mais bonitas e interessantes que lhe haviam atravessado caminho até à data. loja 132 F. Mar de Rosas.Sinta-se à vontade para fazê-lo – respondeu Madalena não tardando muito a enfiar-se no interior da carrinha sob o olhar atento de Sérgio. Avenida de Roma.. 21 .

Tens tanta lata.CAPÍTULO II O telefone tocou ao fim de quarenta e oito horas de um silêncio ensurdecedor. Enquanto lhes ouvia as peripécias dos primeiros dias de férias no Algarve. Madalena largou a chávena de chá sobre a bancada da cozinha desejando ouvir as vozes das duas pessoas mais importantes da sua vida.Está. . Ele está aí ao pé? .Então passa-lhe o telefone agora! Aqueles foram os cinco segundos mais longos de toda a sua vida. – O pai quer levar-nos a Marrocos… – saltou essa frase no meio de uma conversa amena que Daniel estava a ter com a mãe.Será que eu ouvi bem aquilo que o Daniel disse ou provavelmente devo ter batido a cabeça nalgum móvel aqui na cozinha?! .Lena. Eram eles.A Marrocos?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos.Lena. – Sim – respondeu voz de Jorge com um longo suspiro. os passeios pela vila e os presentes que a cada duas horas recebia do pai e de Vanessa loira burra. e ao saber bem quem era. mas ainda assim. marido e tentar trazer-lhe à realidade.Sim! Deixas-nos ir? . . não queiras ser irónica porque isso não faz minimamente o teu estilo. . sinceramente não percebo qual é o problema de irmos todos a Marrocos. enquanto esperava por eles. . marido.Vocês só podem estar a gozar comigo.Nossos filhos – corrigiu Jorge refugiando-se na varanda do hotel para que ninguém ouvisse mais uma discussão com a ex. muitas foram as vezes que Madalena tentou controlar a voz embargada e as lágrimas de desespero por se ver tantos dias longe dos filhos. E essa realidade era a de que ela não queria passar mais nenhum dia estritamente necessário para voltar a estar com os filhos. 22 .O pai disse que havia uma promoção bué fixe na agência de viagens e que podíamos prolongar as férias por mais alguns dias. não?! – afirmou Madalena passeando pela cozinha completamente esbaforida. . mulher. – A Sara e o Daniel também são os meus filhos. . Madalena não desistiu dos intentos em falar com o ex. Sara e Daniel. . lembraste?! . É mesmo aqui ao pé e vamos de barco. um apelido carinhoso que Madalena encontrou para caracterizar a nova namorada do ex. – Daniel! Passa-me o telefone ao teu pai. Daniel era o mais animado de todos e foi também aquele que mais falou sobre os banhos de piscina.Por que raios queres levar os meus filhos para Marrocos? .Mas não tinha ficado combinado que as férias iriam ser até ao Algarve? .

conhecer novas pessoas. Aproveita para sair. – Ainda há pouco estava a falar com ele e nem vais acreditar… .Impressionante como não perdes uma oportunidade para menosprezar o meu trabalho. . . – Tu nem penses que eu… . já percebi – riu-se Jorge secamente. marido. nem mesmo tu. se as crianças voltassem a Lisboa. Jorge.Exactamente – respondeu Madalena levando a mão à cintura.Hã. o que é que iriam fazer para além de ficarem sentados em frente à televisão enquanto tu vais cuidar das tuas flores!? . a minha opinião não importa para nada. . eu pensei que fosse o… . mulher. – Mas pensa bem no que te estou a dizer.Pois eu falei com os nossos filhos e eles mostraram-se muito contentes com a ideia de conhecer Marrocos.Só por cima do meu cadáver. Jorge!? . não é? Já é um assunto tão resolvido com a tua querida namorada mais inteligente que uma porta que nem sequer te interessa a minha permissão… .Cuidado! Olha que milagres acontecem – respondeu Jorge tentando espicaçar a ex. – Lena. É como te disse! São só mais duas semanas. . .…e quando é que voltavam de Marrocos? .Vamos?! Quer dizer. Ninguém vai morrer por causa disso.Antes do final do mês.O que foi!? Não me digas que discutiram outra vez? 23 . Que mal é que tem? São só mais duas semanas. . Só pode ser ele outra vez.Hã… és tu. devias aproveitar essas férias para incrementar a tua vida social e esquecer um pouco o papel de mãe galinha. Além disso.O Jorge. eu só estou a pedir para que sejas razoável. embora o telefone tivesse interrompido os seus pensamentos a tempo. . Aposto que te ia fazer muito bem. pai! Desculpa.Hei! Olha que assim me assustas – disse-lhe uma voz suave no outro lado da linha.Percebeste o quê? . .Sim! Tu. . Idiota. foi o primeiro nome que lhe apeteceu chamar.Estás a morrer de ciúmes. . Além disso. Não suportas a ideia de estarmos todos a divertir-nos enquanto estás aí a secar em Lisboa..Estás a ver?! Estás a ver como é que falas comigo quando eu… O discurso de Jorge até poderia ter continuado não fosse o ímpeto de Madalena em desligar o telefone e atirá-lo contra o lava-loiça enquanto o seu queixo tremia de raiva e os seus braços se cruzavam numa tentativa desesperada de não partirem qualquer objecto no interior daquela cozinha.E se fosses à merda. Vá lá! Tu sabes que a Sara e o Daniel iriam adorar… Silêncio foi a resposta de Madalena enquanto ela meditava acerca de proposta do ex. – Então!? O coronel dá-nos licença para abandonarmos o país sem sermos perseguidos na fronteira? .Eu?! – indagou Madalena levando a mão ao peito.Desculpa – riu-se Jorge. Conhecer Marrocos é uma oportunidade única que nem todas as crianças conseguem ter.Não sejas ridículo. .

E porque é que não levaste? – perguntou Alice evidenciando fisicamente que ainda não se havia recuperado da pancada que sofrera na cabeça quatro dias antes.Aí é que te enganas. – De mais pessoas como tu é que o mundo precisava. o divórcio e a sensação de que me tinha que focar nos meus filhos para não os traumatizar.Eu sei.Isso é porque ela não sabe o verdadeiro sacana que o pai dela é! Devias contar a verdade. . . e sem ela. .Quem sabe um dia quando os ponteiros do relógio começarem a girar ao contrário. Achas isto normal? .Um clone meu era tudo o que o planeta terra não precisava! . . às vezes acho que se tu não existisses. a única pessoa com quem podia contar incondicionalmente e também o único homem que nunca teve coragem de a decepcionar em toda a sua vida. Ainda continuo rijo como um pêro! A voz do pai trouxe algum conforto a Madalena e isso ficou provado pelas inúmeras risadas que ela soltou enquanto falava com ele pelo telefone. . . minha cara – respondeu Alice levantando-se da secretária quando pressentiu a entrada de mais um cliente na loja..Porque não tenho o direito de destruir a imagem que ela tem do pai.Claro que não – respondeu Madalena encostando-se à bancada. mas cá me vou aguentando.Eu até acho que os teus filhos reagiram bem à tua separação com o Jorge. . terias que ser inventada. – Apenas perguntei porque me preocupo contigo.E achas que só te telefono quando preciso de alguma coisa? . . .Será que não há maneira de vocês se entenderem? Pelo menos pelo bem dos vossos filhos.Bem! Infelizmente não me aconteceu nada de emocionante nas últimas duas semanas.Sabes.Não posso fazer uma coisa dessas. .É. O único abalo sofrido na relação de ambos aconteceu aquando da morte da sua mãe e do tremendo sofrimento pelo qual o pai foi obrigado a vivenciar durante meses a fio. especialmente de mim. tudo o que ele lhe ofereceu foi amor sem cobranças.Porque não?! .Na altura.Quase! Descobri que ele quer levar os meus filhos a Marrocos. .A mesma frase da tua mãe – riu-se Afonso Soares quando se recordou de uma das muitas citações da sua falecida esposa. . . Madalena não deixou de se perguntar se o mundo de facto necessitava de outras pessoas iguais a si. as bases estremeceram. De facto. . Enquanto a melhor amiga atendia um dos inúmeros clientes que habitualmente passavam pela loja.E tu? Como é que tens andado? . sem restrições e também a infância que todas as crianças desejavam ter. .Quando ela morreu eu pensei seriamente em levar o meu pai lá para casa – confessou Madalena. Leonor Soares era sem sombra de dúvidas o pilar que sempre sustentou a família. se mais exemplares seus apenas estragariam um 24 . ou se pelo contrário. o meu casamento estava insuportável! Depois veio a separação. Desde que nasceu.Precisas de alguma coisa? . – Já vi que são iguaizinhas. – Mas eu sinto que a Sara guarda rancores. mas já te disse que não precisas preocupar-te. talvez… – respondeu Madalena deixando a caneta cair-lhe das mãos. Afonso era o seu porto seguro.

Olá – disse Sérgio Almeida retirando as mãos dos bolsos assim que ela se levantou da secretária surpresa por o ver ali. . à sua namorada ou até mesmo à sua esposa… . ela ainda não é bem uma amiga. luz e um encanto fora do normal. ela muniu-se de uma calculadora. Talvez nem fizesse aos filhos já que eles preferiam uma estúpida viagem a Marrocos do que estar consigo. Como é que a descobriu ali? .Hã… sim – respondeu ele aproximando-se lentamente dela. gostaria de saber se pretende oferecer flores a algum familiar. eu não sou casado – riu-se Sérgio. já que os seus antibióticos contra as dores tinham terminado sem qualquer aviso prévio. dos seus óculos de leitura e também do silêncio que se apoderou da loja enquanto a pouco e pouco as unhas roídas evidenciavam que a hora de almoço estava a passar sem qualquer acontecimento importante. – Confesso que é exactamente como eu imaginei que era. Meu Deus. – Queres que te traga alguma coisa da rua? – perguntou ela alcançando o casaco no bengaleiro junto à porta. Para isso.planeta já por si mesmo estragado.Veio comprar alguma coisa? – saltou essa pergunta estúpida dos lábios de Madalena.Claro – respondeu Madalena levando-o em direcção à bancada onde estavam depositados os melhores arranjos da loja. não precisas preocupar-te – respondeu Madalena analisando a tabela dos fornecedores no seu computador. Na verdade.Então este é que é o “ Mar de Rosas” – murmurou Sérgio lançando os olhos àquele espaço repleto de flores. mas acho que você me pode ajudar.…olá. mas eu gostaria que fosse. . Quer dizer. Raios. .Que tipo de flores? . 25 .Não. . . A porta voltou a fechar-se com algum estrondo. – Quando voltares eu como qualquer coisa ali no café da esquina. . . marido razão? Será que ela estava realmente a morrer de inveja da felicidade alheia? Ao tentar responder essa pergunta pela vigésima vez. esse acontecimento entrou pela floricultura adentro trazendo consigo um perfume que rapidamente se entranhou em todos os cantos da loja. – Queria comprar flores para uma pessoa especial.Não. não percebo muito desse assunto. Alice interrompeu-lhe os pensamentos e informou que iria aproveitar a hora de almoço para passar pela farmácia.Espero não ter vindo numa má hora. – Mas que coincidência vê-lo por aqui! Eu… . Era ele.Até já. . Mas quando o relógio marcou treze horas e vinte e cinco minutos. – E as flores são para uma amiga.Não sei bem! Na verdade. – Bem. . Teria o ex. mas nem isso retirou a concentração de Madalena em frente ao computador pois era urgente terminar a tabela dos fornecedores e também os preços dos novos produtos da floricultura. . O fotógrafo.Claro que não – respondeu Madalena desfazendo-se dos óculos de leitura.Está bem então! Vemo-nos daqui a uma hora. se não for muita indiscrição minha perguntar. seria muita presunção sua pensar que fazia falta a quem quer que fosse.

Parece ser doce também. e tem um sorriso absolutamente esmagador… . . mas Madalena sabia que se aceitasse aquela proposta irrecusável nada mais seria como antes. os olhos dela brilham tanto. e enquanto elas trabalhavam à velocidade da luz.Tem um café ali na esquina. São perfeitas para demonstrar respeito e afectividade a quem quer que seja. assim como o sorriso que ele lhe ofereceu em seguida. mas acho que ela é uma mulher forte. pela discrição que me ofereceu.Já almoçou? .Hum! Acho que ainda continuo um pouco indeciso. parece-me que você quer que ela seja muito mais do que uma amiga. da pessoa que você quer que se torne sua amiga… . posso também mostrar-lhe estas orquídeas. .Bem. mas tanto. como é que ela está depois da pancada que levou na cabeça? . .Não – respondeu Madalena rasgando-lhe um sorriso. Porque não!? . Mas será que valia a pena 26 . fascinante e com uma personalidade vincada. . . . embora tente não demonstrar essa qualidade logo à primeira.Um sorriso esmagador – murmurou Madalena sabendo perfeitamente que esse sorriso era o seu.Fui assim tão indiscreto? . A proposta não poderia ser mais tentadora.Sim. Hum! Vejamos o que mais!? É simpática. é que… . você vai almoçar nalgum restaurante aqui perto? .Sim! Quando ela sorri.O galo desceu – riram-se os dois.Eu ainda tenho que fazer umas compras de um material fotográfico aqui por perto.Então eu convido-a para almoçar comigo – respondeu Sérgio parando-lhe o movimento das mãos com aquele convite tão inesperado. pois cada minuto que passava ao lado de Sérgio era uma eternidade difícil de aguentar. percebe?! . – Estou à espera que a minha amiga chegue da hora de almoço dela. que é quase impossível resisti-los. – Tome! Estas são as flores ideais para essa mulher. excitação e novidade.A sério?! .Então nesse caso sugiro estas tulipas brancas.Por falar nisso. . . claro. .Um pouco – respondeu Madalena mostrando-lhe um vaso de orquídeas. ele atreveu-se a perguntar: .Se o diz.Almoçar consigo? . Quer dizer.Bem… na verdade não a conheço muito bem. – Ela está bem agora.E… quando ela vier. Não quero errar na escolha.Bem.. sou obrigado a concordar. Como não estou com muita fome apenas vou comer uma sandes ou algo assim. mas devo estar despachado em menos de uma hora.Ou se não gostar de tulipas. especialmente com pessoas que não conhece.Claro! Então diga-me quais são as características dessa sua amiga. . As mãos experientes de Madalena conseguiram fazer um embrulho perfeito para o vaso de orquídeas que Sérgio escolheu sob sua orientação. O que é que me diz? Um almoço e escolhe você o restaurante. Tudo nele gritava perigo.

– A dona da floricultura disse-me que essas eram as flores ideais para oferecer a uma amiga especial e eu confiei nela! Espero que não se tenha enganado. .Tenho a certeza que a sua amiga irá gostar muitíssimo delas. lembra-se?! .Tome! São para si – disse Sérgio entregando-lhe o ramo de orquídeas assim que ela se sentou à mesa.Não. . claro que não! Coisas relacionadas com o trabalho. . Madalena acompanhou o seu único cliente em direcção à porta desejando que os próximos sessenta minutos passassem o mais depressa possível. ela teve a certeza que sim.Não faz mal! Eu também não. e ela pôde ter essa certeza quando o viu instalado numa mesa próxima à janela. – Encontramo-nos daqui a uma hora então – ele disse.Estava a combinar fazer uma sessão fotográfica com uma modelo e ela telefonou-me para saber se a sessão ainda continuava de pé.Ainda bem. seguiu-se uma caminhada interminável pela avenida e a certeza que a sua pressa para almoçar prendia-se com tudo menos com a fome que disse estar a sentir à melhor amiga. mais uma vez Alice atrasou-me.É claro que ela não se enganou – respondeu Madalena recebendo o arranjo com um doce sorriso.Daqui a uma hora – respondeu ela mantendo a porta entreaberta.Ela ainda não é minha amiga. os sessenta minutos seguintes passaram lentamente. algo que foi imediatamente correspondido.Claro! Normalmente não costumo voltar atrás quando dou a minha palavra.Depois destas flores. – Posso escolher o restaurante? . mas quando os seus olhares se cruzaram. .Então está bem! Encontramo-nos daqui a uma hora no restaurante no final desta avenida. Chama-se “Luminosa” e as portas são de madeira.Acho que já sei qual é. O olhar perdido enquanto falava ao telemóvel ainda a fizeram hesitar em aproximar-se. . tenho a certeza que irá querer ser. . . e para ajudar à festa. – Obrigada. . . Depois disso.E continua? . Madalena sentiu que não havia outra escapatória a não ser caminhar em direcção à mesa e forçar-lhe um pequeno sorriso. Tal como o esperado.enfrentar todos esses perigos? Diante de mais um sorriso que ele lhe ofereceu. . Será que Sérgio já se encontrava no interior do restaurante? Será que ele tinha sido pontual e cavalheiro o suficiente para não a deixar à espera? Claro que sim. – Até logo – foram as últimas palavras de Madalena antes de abandonar a floricultura a uma velocidade fantasmagórica e atravessar a rua sem sequer olhar para trás. .O único problema é que não me posso demorar muito. . .É bom saber isso.Não tem de quê! Bem… quer beber alguma coisa? 27 .Claro que sim – respondeu Sérgio recebendo-lhe o embrulho de orquídeas das mãos. Sem mais palavras para lhe dizer e depois de ter aceitado o pagamento das flores. – Espero não ter interrompido nenhuma conversa importante – disse ela quando Sérgio desligou a chamada e poisou o telemóvel sobre a mesa. . .Obrigado pela ajuda! Sem si não saberia como escolher as flores. .

– Ela tem cinco por cento.Sim. Eram as flores que ela mais gostava. . – Há quanto tempo tem a sua floricultura? .Sim. Madalena regressou a casa com um sorriso nos lábios e nem sequer se importou com o facto de não ter os filhos consigo.Confesso que fiquei encantado com o local e também com o nome. até mesmo antes de eu nascer … . . e pela primeira vez também desde há anos. Quase quarenta e cinco. Impressionante também era o facto de saber que em menos de vinte e quatro horas todo o peso que sentia sobre os ombros desapareceu sem deixar rastro deixando apenas uma estranha sensação de doçura nos lábios.Então com certeza não existia há tantos anos assim. É quase como se fosse uma sociedade.A que ficou com um galo na testa. eu acho que é! Pelo menos para mim – respondeu Madalena compondo os cabelos soltos. Eu tenho quarenta e cinco por cento. Impressionante como se estava a sentir tão bem.pediu Sérgio. – Digame… .Exactamente – riram-se novamente.E você ficou à frente do negócio? . Foi a sua mãe que escolheu? . os sapatos e o casaco de malha.Então eu também vou tomar o mesmo. . mas sou eu quem dirige aquilo tudo.. eu sei.Obrigada pelo elogio – riram-se os dois.Digamos que sim. Tão livre e ciente de que a vida lhe tinha voltado a sorrir após tantas tristezas. Seria normal sentir-se assim só por causa de um almoço informal com um fotógrafo do qual não conhecia muito mais que o nome? 28 . . não?! . ele tem cinquenta e a minha amiga. a floricultura era da minha mãe e já existia há muitos anos. . os ponteiros do relógio pararam no tempo. “ Um mar de Rosas”. Pela primeira vez desde há anos. – Tem um significado especial porque pertenceu à minha mãe e é uma das poucas lembranças que ainda tenho dela. O almoço entre os dois desconhecidos revelou-se mais agradável do que se poderia esperar quando a refeição foi trazida à mesa por um dos empregados do restaurante e a conversa amena os embalou durante vários minutos.Já estava à espera dessa resposta – disse Sérgio forçando um sorriso. – Mas a loja tem realmente muitos anos.Na verdade.Sim. pensou.…muitas – respondeu Madalena deixando-se encantar por aquela conversa tão amena e agradável. por favor. Há seis anos atrás.Morreu?! . . a Alice… . Foi também a primeira vez que Madalena se sentiu absolutamente à vontade na companhia de um homem do qual não sabia muito mais que o nome ou a profissão.Pouco original da minha parte.Um sumo de manga. e enquanto conversava com ele e se deixava perder pela sua sensualidade casual. a loja está no nome do meu pai. .Deve ser uma autêntica mina de ouro. . . Quer dizer.E você?! Quais são as flores que mais gosta? . – Mas talvez orquídeas. . ela caiu no sofá como uma pluma deixando para trás a mala.

Só na segunda-feira é que vão para Marrocos. – Por falar nos miúdos.Tu sabes que eu não bebo a não ser em ocasiões especiais. .O Jorge é uma boa pessoa – afirmou Afonso cerrando os olhos quando o fumo do tabaco lhe atravessou os olhos.Ele não é um idiota! . .Não. genro.Não brinques com coisas sérias – afirmou Madalena colocando as compras do supermercado em dois grandes sacos. a uma altura dessas a tua filha ainda estaria presa por um crime cometido por ele. . tu só podes ter bebido antes de cá vir – afirmou Madalena fechando as alças dos sacos de compras.O quê?! . mas talvez o jantar que tinha combinado com Sérgio no Sábado seguinte fosse a razão primordial para aquela alegria tão espontânea. É por isso que não tenho queixas dele. . . .Não precisavas preocupar-te com isso! Já te disse que me arranjo. – Comprei-te algumas coisas – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico quando o pai a visitou a poucas horas do seu encontro com Sérgio Almeida.Só que ele sempre foi prestativo para mim e para a tua mãe e também sempre foi um bom genro. não precisou de muitos rodeios até porque Afonso era o seu grande conselheiro e também uma das poucas pessoas a quem se sentia 29 . . está bem – riu-se Afonso enquanto levava o cigarro à boca.Também não foi assim. – Claro que tem defeitos.Só tenho sessenta e oito e tratas-me como se já tivesse passado dos oitenta.É! Quem não tem – disse Madalena num tom debochado. . . não é?! .De cigarros já estou a ver.Não.Ai não?! Pois deixa-me que te diga que se fosse só por causa do teu querido ex. e depois disso ela sentiu-se tentada a revelar algo muito importante ao pai.Estou-me a alimentar muito bem se queres que te diga – respondeu Afonso acendendo um cigarro junto à janela. .Acho que foste demasiado precipitada em pedir o divórcio. .Estou-te a achar muito magro! Tens a certeza que te estás a alimentar como deve ser? .E existe algum alimento melhor? .Impressão minha ou tu ainda continuas a adorar o Jorge apesar de saberes que ele é um idiota de todo o tamanho?! . Na verdade. por mim vocês ainda continuavam casados. . Uma risada foi a resposta de Madalena. .Sim. eu acho! Falei com eles ontem à noite e ainda estavam no Algarve.Não. e se queres que te diga. realmente a minha estadia na esquadra foi apenas uma imaginação da minha cabeça.Está bem.Fizeste bem em deixá-los ir com o Jorge. . muito pelo contrário! Eu trato-te como trato o Daniel porque psicologicamente ainda nem chegaste aos dez. . de facto não era.Afinal de contas eles também precisam do pai. – Já te disse várias vezes que devias deixar de fumar. mas quem não tem. . . especialmente por causa da tua idade.Estão bem. . como é que eles estão lá de férias com o pai? . – Ponho-te tudo num saco para levares.Sinceramente não sei – respondeu Madalena fechando a porta do frigorífico com força.

– Juízo! . . os cabelos e a maquilhagem primaram pela simplicidade. assim como os brincos que fez questão de colocar à frente do espelho do corredor. 30 . branco. – Tens aqui um belo património – confessou Sérgio enterrando as mãos nos bolsos das calças. . marido não restou absolutamente nada ou qualquer réstia da sua presença. uma simplicidade bastante apreciada por Madalena. no decote do vestido e ela sentiu-se pronta a encarar o rosto de Sérgio Almeida. . minha menina – afirmou Afonso puxando-lhe o nariz tal como fazia quando ela era pequena. Trajado com umas simples calças de ganga e uma camisola preta. Sérgio aceitou o convite com um sorriso e não tardou a chegar à sala onde a arrumação.Estes são os teus filhos? – perguntou ele alcançando um porta-retratos sobre a mesinha.Ainda não sei! Ele ficou de escolher o restaurante. Ele chegou e já não havia mais nada a fazer a não ser abrir a porta e permitir-lhe a entrada. . .Homem!? Que homem? . Por isso. – Sabes de uma coisa?! . .Hum! Não estou a gostar nem um pouco dessa história. sem hesitações.Vê lá o que é que fazes.Claro que não – respondeu Madalena fulminando o pai com os olhos. Dos antigos móveis comprados pelo ex.Obrigada. – Com um homem.Com a Alice? . – Olá! . Nele encontrava-se uma fotografia de Sara e Daniel. os móveis sofisticados. Um novo retoque nos cabelos.Hoje tenho um jantar. .Claro. Chegou.O quê? .E aonde é que vai ser esse tal grande jantar? . .É uma história comprida que talvez um dia te venha a contar. aqui tens a tuas compras da semana! Leva-as e deixa-me preparar para o meu grande jantar.Por isso. Ao olhar-se no espelho da casa de banho depois de escolhido um dos primeiros vestidos que lhe passou pelas mãos. Sérgio exalava uma simplicidade fora do normal. . os tapetes e cortinados claros eram a palavra de ordem na nova decoração que Madalena fez questão de produzir após o seu divórcio. Madalena chegou à conclusão que aquela realmente não era a melhor opção para si e nem para a noite que prometia ser bastante especial tendo em conta a sua companhia. Mas por agora a única coisa que precisas saber é que vou jantar fora com uma pessoa muito simpática e interessante.Olá – respondeu ele desarmando-a com o seu sorriso.Entra – disse ela. E sim. De resto. Foi nessa altura que a campainha tocou e lhe provocou um pequeno sobressalto. De resto.Dás-me licença? . .Vou tentar. ela voltou a abrir as portas do roupeiro e encontrou um novo vestido.totalmente segura para contar todos os segredos que rodeavam a sua vida. tudo o que o Jorge não é e nem nunca foi. cintado e perfeito para uma mulher que não saía para jantar fora há pelo menos seis meses.

– Fico feliz por saber que o teu avô cuidou de ti durante esse tempo todo – confessou Madalena poisando o guardanapo sobre o colo. A resposta de Sérgio trouxe um novo olhar e também um sorriso que Madalena fez questão de lhe oferecer enquanto se perdia na magnitude daquele momento.Sim. continuaram a degustar a refeição escolhida e o vinho especialmente indicado por um dos empregados do restaurante. Para além disso.Uau – exclamou Madalena compondo os cabelos no meio de um sorriso. e ele até tem dinheiro para comprar uma melhor. . Diz que jamais seria capaz de sair de uma casa onde a mulher deu à luz a filha. . Soube que ele morava num pequeno apartamento nos arredores de Lisboa. .Sim! Porque não? . – É realmente muito querido da parte dele..É claro que é um elogio – riram-se os dois. 31 . ou pelo menos nenhum que soubesse. da televisão ou das cadeiras a arrastar conseguiram desviar a atenção de Madalena e Sérgio. .Tenho a certeza que irias gostar da vila – afirmou Sérgio não se deixando distrair por mais nada naquele restaurante a não ser pelo sorriso dela.Bem.Eu?! . . fujo para lá e passo os dias a pescar com o meu avô. mas a verdade é que nem o barulho das pessoas. confesso que me apanhaste de surpresa. – Ele mora numa pequena casinha toda pintada de azul e branco. que submersos numa conversa amena. especialmente às lembranças da minha avó e da minha mãe.São bastante parecidos contigo. – Talvez seja melhor irmos andando antes que se faça mais tarde – disse ela tentando esconder o nervosismo. No seu interior. partindo do pressuposto que seja um elogio… . mas sempre que tenho algum tempo faço questão de aparecer por lá – respondeu Sérgio poisando os braços sobre a mesa após o término do jantar.E vocês vêem-se com muita frequência? . . É uma casa simples. O restaurante escolhido por Sérgio era simples. – Sempre que me sinto cansado do trabalho e quero descansar um pouco. mas o problema é ser demasiado apegado às lembranças do passado. . e dele. casual e encontrava-se situado numa das ruas mais movimentadas da cidade. ele tudo queria saber.Parece ser um programa interessante. muito simples. . nunca fora casado. havia uma quantidade exorbitante de clientes.Quem sabe um dia não te levo lá.Obrigada! Quer dizer.Só fomos obrigados a separarmo-nos quando eu vim para Lisboa fazer o curso de fotografia. filhos não teve. . era órfão desde os dois anos e o único familiar vivo que lhe restava era um avô que morava no Alentejo e que ele fazia questão de visitar sempre que podia. aliás. e passava a maior parte dos dias enfiado no estúdio de fotografia que abrira com a ajuda de um amigo muito especial. ela fez questão de dissecar todos os detalhes.Não tanto quanto gostaria. Dela.Claro! Vamos. .

. especialmente pelo meu pai. essa foi a melhor notícia da noite – disse ele arrancando-lhe uma gargalhada ruidosa. mas… tal como te disse. os meus filhos também.Eu também acho.A sério?! . obrigada por tudo. ninguém estava à espera que aquilo acontecesse. cheia de energia.Sinto muito. Foi com uma música bem conhecida a tocar no rádio que Sérgio levou Madalena a casa. Deu tempo para que se conhecessem. .Uff – suspirou Madalena largando os ombros. – Foi a pior fase da minha vida.Teve um ataque cardíaco repentino.O meu pai também é o meu melhor amigo. . Acho que não conseguiria imaginar a minha vida sem ele.Deve ter sido muito difícil quando a tua mãe morreu. era só uma questão de tempo e sentido de oportunidade e ele soube aproveitar essa oportunidade na perfeição. . Nessa altura. para que conversassem sobre assuntos triviais e também para que ela se sentisse suficientemente confortável para tocar naquele assunto tão delicado e pessoal. . . De facto.Um casal! Perfeito – sorriu Sérgio levando a mão ao queixo. o seu único desejo era que ela se prolongasse por mais algumas horas.Obrigada! Aliás. . não?! .Sim. . foi repentino. até por ser filha única e essas coisas todas. até porque ela sempre foi uma mulher saudável.Eu gostaria muito de conhecer o teu avô.E os teus filhos.…vamos para o quintal e assamos o nosso jantar. . …não! Sou divorciada. não é?! . . – Entregue – disse Sérgio quando Madalena abriu o portão de casa. Sim. a noite tinha sido maravilhosa em todos os aspectos.Tens ar de menina do papá.Como é que se chamam? . o relógio assinalou vinte e três horas e quarenta e cinco minutos. . e pela primeira vez desde há muito.Espero que tenhas gostado do jantar. . mas ele sempre me deu todo o carinho do mundo. . . . o tempo propício para que a noite pudesse ser encerrada e para que ela absorvesse as luzes da cidade que teimavam em invadir-lhes o carro. – Mas pelo menos ainda me resta o meu pai. . Ele parece ser igual ao meu pai. . 32 .Eu também – respondeu Madalena tentando esconder a tristeza que lhe assombrou o rosto. Nesse aspecto tive muita sorte.Óptimo! A seguir ao golo que o Benfica marcou há bocado.E… se não for muita indiscrição minha perguntar… és casada? A pergunta de Sérgio não a tomou de assalto e tudo porque Madalena já esperava que mais cedo ou mais tarde ele a fosse fazer. Na verdade.. . De facto.A mais velha chama-se Sara e tem quinze anos e o rapaz chama-se Daniel e tem dez.E sou – riu-se ela alegremente.Ela morreu do quê?! – perguntou Sérgio com alguma cautela.Podes acreditar que é! E quando voltamos da pescaria com… um peixe e meio nos baldes… – Madalena não resistiu a soltar uma ruidosa gargalhada. – Sou mesmo! Confesso que sempre fui muito mimada pelos meus pais.

Após mais um dia exaustivo de trabalho onde foi obrigada a levar vários caixotes pesados ao armazém ao lado de Alice e do motorista que trouxera as encomendas dos fornecedores. .Um jantar. um almoço ou até mesmo um café. – Será que liguei numa má hora? – perguntou Sérgio com uma voz absolutamente irresistível. E em casa. Ele que estava a bater acelerado. Mas nada.Por mim tudo bem.Será que… .Sair para onde? .Tu também. um sorriso atravessou-lhe os lábios e fê-la recuar nos seus intentos de um banho.Sei que é meio em cima da hora.Semanas? Meses? Anos? 33 . Madalena sorriu e levou a mão ao peito numa tentativa desesperada de manter o coração ali dentro. despediu-se da melhor amiga e caminhou apressada em direcção ao carro ansiando chegar a casa. tomar um banho. Mas teriam os seus planos algum tipo de fundamento? Ao ouvir o telemóvel tocar no bolso do casaco e mais tarde o nome da pessoa que a estava a telefonar.Sim! Bairro Alto. enquanto atendia algum cliente.Ligo-te ainda esta semana. Pode ser?! . O que é que te parece? . deixava o aparelho sobre a caixa de velocidades e quase tinha acidentes quando os seus olhos saíam da estrada. Nenhuma chamada importante a não ser a dos filhos para contar as maravilhas que estavam a viver em Marrocos.Gostei imenso. .…podemos repetir um dia destes? . Madalena deu-se por vencida e fechou a loja mais cedo do que o habitual. .ele hesitou.Boa noite! Dorme bem. ..Para dançar – respondeu ele. Depois disso. uma refeição em casa e uma cama vazia. Na floricultura. Ao vê-lo a desaparecer pelos portões e a enfiar-se no carro estacionado a poucos metros da sua casa. qualquer ruído era suficiente para que pensasse que era o telefone a tocar. . descompassado e tudo por causa de Sérgio que sem querer acabou por o trazer de volta à vida. muitas eram as vezes em que se dava consigo a olhar para o visor. Durante a condução para casa. . mas estava a pensar em convidar-te para sair hoje à noite. Qualquer coisa! .Pode – respondeu Madalena sentindo-se como uma verdadeira adolescente quando ele se debruçou e a beijou na face. comer alguma refeição ligeira e cair na cama sem pensar em mais nada a não ser no dia seguinte. isto para não falar das inúmeras vezes que lançou os olhos ao telemóvel ansiando uma mensagem de texto ou até mesmo um toque que lhe trouxesse um sinal da existência do fotógrafo. .Não! Claro que não – respondeu Madalena moderando os passos ao longo da avenida. . .Tu sabes há quanto tempo eu não vou ao Bairro Alto!? . Cinco dias foi o tempo que Madalena teve que esperar para voltar a ter notícias de Sérgio.O quê!? O jantar? .Dançar?! .

Eu não queria que… . .Podemos procurar um outro bar menos movimentado! Existem muitos por aqui. Eu quero dançar e quero dançar contigo! Não aceito outra companhia… Era uma loucura. havia décadas que não pisava um local daqueles. – A que horas? . mas… . . marido. Quando se viu no interior de um dos bares mais requisitados do Bairro Alto. por isso não tens desculpas. .. .Pois hoje vamos dançar e eu não aceito um não como resposta.Mas o quê?! . – Toma – disse ele voltando à mesa alguns minutos mais tarde. Uma Cosmopolitan para ela e um whisky para si. eu não sei … .Podemos ir embora se quiseres. mesas e cadeiras degradadas e a música rock a ecoar-lhe nos ouvidos como se fossem verdadeiras bombas atiradas lá para os lados do Iraque. Havemos de encontrar algum que seja mais interessante. não estou muito habituada a este tipo de ambientes. pelas mesas e cadeiras sofisticadas e por um ambiente muito menos explosivo. A perfeição do recinto ficou marcada pela sua decoração tipicamente tradicional. Madalena sabia-o. . . o facto de se ter esbarrado com uma dessas mulheres à saída apenas veio a cimentar as suas convicções. .Até acho que isto está cheio demais! Nem sequer têm mesas vazias e iríamos acabar por ter que ficar no balcão. De resto.Estou. De facto. mas ainda assim houve algo na voz de Sérgio que a fez hesitar e querer seguir em frente com aquela loucura tão deliciosa.Pode – respondeu ela abrindo as portas do carro. – Não é nada disso. – Estás bem? – perguntou Sérgio percebendo-lhe o desconforto patente nos olhos.Não – adiantou-se ela tocando-lhe no peito sem querer. Apesar de ser frequentado por pessoas mais velhas. .Prepara-te! . – Mas só espero não dormir antes de chegares. um local repleto de gente jovem.Está bem – respondeu Madalena sentindo-se aliviada quando abandonou aquele bar propício para mulheres que ainda não haviam passado dos vinte e que desejavam urgentemente engatar o primeiro homem que lhes aparecesse pela frente. Vamos para um outro bar aqui ao pé. Não. .Vou-te buscar assim que sair do estúdio. Aquele realmente não era o local ideal para si. – Antes de a minha filha ter nascido. Madalena sentiu-se no seu verdadeiro habitat quando Sérgio a ajudou a sentar-se numa das poucas mesas vazias e caminhou em direcção ao balcão pronto a pedir as primeiras bebidas da noite. Madalena foi obrigada a respirar fundo e a assimilar tudo aquilo que lhe estava a acontecer. . fumo de cigarros.Este é perfeito – respondeu Madalena voltando-se para ele com um sorriso radiante.Sérgio. 34 .Então está bem! Fico à espera. Por volta das dez e meia! Pode ser? .Tal como te disse. .Prometo que não me vou demorar muito.Décadas – respondeu ela arrancando-lhe uma leve gargalhada. Sim.Disseste-me que os teus filhos estavam a passar férias com o teu ex. .Não te preocupes porque eu vou estar mais do que preparada. – E este? – perguntou Sérgio quando entraram num bar completamente diferente do anterior. outras drogas ilegais.

telefonar a fornecedores.Sim! Mas eu gostei imenso. . almoçar. encerrar o expediente com a nítida certeza que faria exactamente a mesma coisa no dia seguinte. receber as encomendas da carrinha que dia sim.. . . Abrir a sua floricultura.Sim! Está a passar uma música que eu gosto muito e que não quero desperdiçá-la de maneira nenhuma. .Aonde é que aprendeste? 35 . tudo deixou de ter importância quando as mãos dele percorreram-lhe as costas e se enterraram nos seus cabelos soltos. já se encontravam outras pessoas a dançar “At Last” da cantora norte-americana Etta James.Obrigada. Ali. O sorriso de Sérgio convenceu Madalena a oferecer-lhe a mão e a seguir com ele em direcção à pista de dança. .Tens razão. podes dizer – concluiu ela entre risos. . dia não lhe surgia à frente da porta da loja.Lá isso é verdade – riu-se Madalena enquanto bebia o primeiro gole da sua Cosmopolitan.Obrigado pelo elogio. . E quando o fez.Para mim só o facto de saber que respiras já é o suficiente para achar a tua vida fascinante… .É um pouco escondido. Sérgio encostou Madalena contra si e permitiu que ela fechasse os olhos sem se importar com as pessoas à sua volta ou com o adiantado das horas. . Uma música absolutamente irresistível.Claro que não! Adorei saber tudo o que fazes. Quero saber tudo o que te aconteceu desde que saíste da cama até à hora que te telefonei a marcar este encontro – respondeu Sérgio não tirando os olhos dela um só segundo.Então conta-me lá como é que foi o teu dia. não danço? – perguntou ela voltando a encarar-lhe o rosto.respondeu ele encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. . – Danço muito mal.Confesso que nunca tinha entrado neste bar e olha que já frequento o Bairro Alto há anos. Literalmente nua. .És um cavalheiro e é por isso que não dizes a verdade. pagar algumas contas. Madalena sentiu-se nua.Agora?! . – Queres dançar? . Um arrepio na espinha foi o que Madalena sentiu.Nem por isso – respondeu ele fazendo-a girar sobre os pés.Foi normal! Absolutamente normal. não é?! . – Para mim danças perfeitamente. – A minha vida é uma seca. . . . atender novos clientes.Não existem músicas do nosso tempo! Existem músicas intemporais e esta é uma delas.Tu também não ficas atrás. . onde por sorte ou não. atender clientes. Sem mais palavras para lhe dizer. e depois disso. Pelo menos dá para conversar sem termos que berrar aos ouvidos um do outro. encostou a cabeça nos ombros de Sérgio deixando-se levar pelo momento mais especial da noite. segundo as palavras do fotógrafo – Esta música é do meu tempo.Mas mesmo assim eu quero saber. não tendo outro remédio a não ser contar as pequenas tarefas que realizou durante o dia. e por fim. naquele bar tão acolhedor e destinado a seres humanos acima dos trinta. . sabias!? – disse Madalena quando se viu envolvida numa balada verdadeiramente romântica.

Por isso. acho que nem sequer me vou deitar porque… . Madalena não pensou duas vezes em acatar-lhe o pedido.Isso quer dizer que a nossa noite terminou? . quanto a isso não havia dúvidas.Eu costumava praticar ballet quando era mais nova – respondeu ela envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. Ambos. até porque a dança tinha conseguido um feito inédito. manteve-se de olhos abertos numa tentativa desesperada de convencer-se que nada daquilo 36 .Já é quase de manhã e eu acordo cedo. – Digamos que é um talento natural.E tu? Aonde é que aprendeste a dançar assim? .Não acreditas nas minhas palavras? .Só acredito se me disseres isso ao ouvido. . . . e mesmo ela tendo tentado desviar-se dos braços dele à volta da sua cintura.Então quer dizer que tenho aqui nas minhas mãos uma verdadeira bailarina!? Madalena sorriu. mas ainda assim. . . – E querias-me convencer que não sabias dançar? Aposto que só estás a dizer isso para não me fazer sentir mal.. O feito de livrá-la de todas e quaisquer inibições relativamente à sua idade. – Danças muito bem – sussurrou ela. a verdade é que foi completamente impossível resistir-lhe à voz rouca e desafinada nos ouvidos. não sou?! . . A mão levada ao peito e o virar do rosto em direcção ao quintal do vizinho foram alguns dos indícios que fizeram antever a resposta de Madalena. enquanto Madalena.O quê?! . .É melhor ires – respondeu ela tentando resistir àqueles olhos verdes. Sérgio não tinha todo o tempo do mundo para esperar por ela.Confesso que não aprendi em lado nenhum – respondeu ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. Beijá-la. Naquele momento. ainda continuavam a cantar um dos temas mais marcantes do serão. não duas.Não são as tuas palavras. Quer dizer. ele aproximou-se dela e tomou-a nos braços com um beijo absolutamente esmagador.Não! São as minhas palavras e eu estou a cantá-las para ti… .Que pena – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. – Talvez tenha aprendido aí. mas sim inúmeras vezes até conseguir saciar o desejo e a vontade de tê-la só para si.Posso beijar-te?! – interrompeu ele. não sei… .Diz! Podes confessar. .Uau! Não és nem um pouco convencido. . Não tinha e nem queria sair daquele jardim sem fazer algo pelo qual havia ansiado desde o início da noite.Estou-te a perguntar se te posso beijar. Perto de ti sou um verdadeiro aprendiz. – És louco – riu-se ela quando Sérgio lhe caiu sobre os ombros.Já disse que danças muito bem. . Três horas e vinte e cinco minutos foi a hora que Madalena abriu os portões da sua casa após uma noite maravilhosa passada ao lado de Sérgio. Beijá-la não uma. ao seu estado civil e também ao seu desejo de aventurar-se nos ouvidos de um homem que mal conhecia. . É a letra de uma música. – Por mim continuava a dançar contigo até de manhã.Eu acho que sim. pé ante pé. ainda surpresa pela audácia dele.Claro que não – respondeu ela não contendo os risos. um pouco embriagados.

Que se calhar com a minha idade eu não deveria reagir tão mal por causa de um beijo.Um pouco.O que é que queres dizer com isso? – perguntou Sérgio. que Madalena se deixou encostar à parede permitindo que Sérgio a livrasse do vestido que ela utilizou para o fascinar durante toda a noite. Madalena e Sérgio entraram pela casa adentro sem se importarem com mais nada.Sérgio… – murmurou ela. E foi ali. deveria estar a pensar nos filhos e também na floricultura que teria que reabrir de manhã…. – Isto é de doidos… .Uma mulher divorciada. . Como sonhou descobrir o que estava por debaixo dele. – O que foi? . .suspirou Madalena sentindo-se prestes a cair num abismo. mas a verdade é que não estava. . pensou.Na tua casa? . 37 .Sim – respondeu ele desarmando-a novamente com o seu olhar. Madalena sorriu e não evitou pensar que deveria estar em todos os lugares menos ali. claro que não. no meio de uma escuridão avassaladora. baixinho.Já reparaste que passas a vida a falar da tua idade? .Não. enfim! Deveria estar a pensar em tudo aquilo.Eu?! .Desculpa – disse ele. Um sonho do qual vou acordar daqui a cinco segundos e não me vou lembrar de absolutamente nada. . . mãe de dois filhos adolescentes… .Só estou a constatar um facto. que és divorciada e que tens dois filhos adolescentes… .O que é que tu queres de mim? .Pois bem! Então deixa-me que te diga que não é esse facto que me vai fazer afastar de ti. – Pára – pediu ela desesperadamente. Nem sequer com o tapete do corredor que quase os fez escorregar junto ao bengaleiro.Fiz mal?! . abraços e tropeções. – Eu sei que devo parecer ridícula… . . mas não só… – respondeu ela arrancando-lhe uma ruidosa gargalhada. – Quer dizer… sim! . intrigado. É um sonho.A pergunta é: o que é que tu queres que eu queira de ti? Ao ver-se metida num verdadeiro dilema. Voltou a beijá-lo e pela primeira em toda a sua vida tomou a iniciativa de se atirar para os braços de um homem que não o seu marido. – Exagerei?! . ela puxou Sérgio contra si e realizou todos os desejos que manteve escondidos durante a noite. E não é que foi isso que fez? Sem pensar nas consequências.Queres entrar? . Sérgio sorriu. Deveria estar na cama há horas.Não – adiantou-se ela.Talvez – riram-se os dois.estava a acontecer. .Sim ou não?! . foram os pensamentos do fotógrafo quando o tecido caiu ao chão. Estava antes diante de um dos homens mais fascinantes que lhe haviam atravessado o caminho e a sua única vontade era voltar a enterrar-se na boca dele e sugar-lhe todo o sabor que ele a fizera provar momentos antes.Também. – A sério! Pára…! . – Estás sempre a insinuar que és muito mais velha que eu.Diz! . Submersos em beijos.

Sérgio e Madalena despediram-se à porta de casa com um longo beijo e com a promessa de tornarem a reencontrar-se assim que possível. .O quê?! – perguntou Sérgio devorando-lhe o pescoço.Ir para a cama com um homem que mal conheço – respondeu Madalena soltando um outro suspiro quando ele mordiscou a sua orelha direita. .Adorei cada minuto.Ligo.Nós vamos repetir tudo outra vez. passámos uma noite fantástica e … eu fiz sexo – exclamou Madalena arrancando 38 . Precisavam ver-se. como poderia sequer pensar em trabalhar quando a sua única vontade era continuar ali deitada para sempre de olhos postos no tecto? Ou estariam antes postos no céu? De facto. . o quê? .Bem. . mas realmente não é isso que importa! O que importa é que ontem saímos para dançar. na altura.. não sabia.Isto. meu Deus! Não faças isso… Quando os primeiros raios de sol se impuseram nas janelas e demonstraram que era altura de voltar à realidade. – E assim que puder eu ligo-te.Eu nunca fiz isto.Tchau! . as horas de prazer que passaram juntos não deixaram outra alternativa. Depois disso. os braços musculados que ele tinha e a forma como se deixou entregar a ele durante horas a fio. . .Quero repetir tudo outra vez! .Então eu vou – disse ele beijando-a novamente. Como é que poderia dormir se nada daquilo lhe saía da cabeça? Aliás. esperneios e uma dança absolutamente ridícula ao longo do corredor. – Achas que deva acreditar? . . – Ai. precisavam sentir-se e precisavam urgentemente ter-se um ao outro sem pensar nas consequências que aquele caso poderia trazer às suas vidas.Então se for assim eu deixo-te ir. nada disso importou.Disse que tinha tido muito trabalho durante a semana e que por isso não teve tempo para me ligar antes – respondeu Madalena levando a mão ao queixo.Aleluia – foi a reacção de Alice na manhã seguinte quando Madalena lhe contou todos os detalhes que rodearam a sua noite com o Sérgio. . cada segundo… . – Adorei … .Nem eu! Confesso que até já tinha perdido esperanças que ele te voltasse a ligar.Tchau… .Claro que sim.Prometes?! . Ele não tinha razões para te mentir.confessou Sérgio.Prometo. .Nunca pensei que pudesse acontecer tão rápido.Eu também.Cada milésimo de segundo – riu-se Madalena ainda colada aos lábios dele. . Não lhe importou a sua triste figura enquanto subia as escadas pois tudo o que ela queria era continuar a sentir os lábios de Sérgio. .respondeu Madalena permitindo que Sérgio se afastasse com um largo sorriso e encontrasse o carro estacionado a poucos metros da sua casa. ela voltou a fechar a porta e deixou que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo em forma de gritos. Contudo. . De resto.Ligas hoje? . . . .

Não. Sexo… . no sofá e no quarto. Mais tarde. Na verdade. a pouco e pouco. a simples ideia de que as coisas voltassem a ser o que eram antes. provocava-lhe um verdadeiro ataque de histeria. acho que me enganei. dois toques e a porta foi aberta por uma jovem altíssima. era uma proposta irrecusável e ela aceitou-a sem pestanejar já que os filhos só chegariam a Lisboa no Sábado de manhã repletos de histórias para contar e presentes que juraram ter adquirido para si.Está à procura de…?! – perguntou a jovem passando as mãos pelos cabelos com uma descontracção fora do normal. E foi exactamente à procura de uma história que ela subiu as escadas do edifício onde se encontrava instalado o estúdio de Sérgio.Estou tão contente como se tivesse acontecido comigo. . . saltos altos e uma lingerie que tapava apenas o essencial. Um toque. um pouco degradados. Acordar cedo. Naquela sexta-feira.É?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. . Com o endereço nas mãos. principalmente por saber que não teria tanto tempo para estar com Sérgio e muito menos a possibilidade de o levar para a sua casa e fazer amor com ele no corredor. mas tal como disse. sair a tempo de buscar o filho mais novo ao colégio e voltar para casa onde a preparação do jantar era a palavra de ordem. . Lingerie e Madalena pôde ter essa certeza quando a observou dos pés à cabeça. E assim. morria feliz. 39 . . tudo isso faria parte do passado.…eu acho que me enganei. a carta de alforria que ela havia conseguido quando os filhos partiram de viagem foi-se esgotando no prazo de validade. abrir a floricultura. Não. Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser os encontros fortuitos de Madalena e Sérgio ao final da tarde que muitas vezes culminavam com um jantar e uma noite de prazer na casa dela. de cabelos loiros. olhando novamente para o papel que tinha nas mãos. não foi muito difícil para Madalena encontrar o estúdio de Sérgio que ficava exactamente situado num dos pontos mais movimentados da cidade.Eu sei – riram-se alegremente. Contudo. Faltavam apenas vinte e quatro horas para que Sara e Daniel regressassem de Marrocos e para que a vida de Madalena retomasse o curso habitual. . .vários pulos de alegria por parte da sua melhor amiga. Sim. mas com imensas histórias para contar. ou pelo menos escondido até que tivesse coragem de lhes contar que a mãe finalmente havia encontrado alguém para lhe aquecer os pés nas noites frias de Inverno e para lhe destapar os lençóis nas noites quentes de Verão. – Acreditas nisto?! Eu fiz sexo! Fiz sexo. A Rua do Carmo. preparar os filhos para a escola.Não – afirmou Alice sentando-se à frente dela. minha amiga! Que homem! . não se enganou! É aqui mesmo. após um dia cansativo na floricultura. Diante da chegada dos filhos. Madalena aceitou o convite de Sérgio para conhecer pela primeira vez o estúdio fotográfico que ele dirigia. divorciada e com filhos consegue arranjar um homem que se interesse por ela. será que não percebes?! Tu és a prova viva que uma mulher acima dos quarenta. Uma rua famosa pelos seus prédios antigos. percebeu que tinha chegado ao destino. – Tu não podes morrer nunca. E que homem.Hã! Do estúdio de um fotógrafo chamado Sérgio Almeida. Ele deu-me o endereço.Acho que se morresse hoje.

– Ele está a fotografar uma outra rapariga… . . . a única vontade de Madalena era fugir e fingir que nunca estivera ali. assim como as poses sensuais que a modelo fotografada fazia questão de oferecer às lentes de Sérgio. – Inclina um pouco mais a cabeça.São os novos fios dentais da Vitoria Secret. é minúsculo.Vou pensar no caso – murmurou Madalena desejando desaparecer o mais rapidamente possível. pois quando Sérgio a convidou para conhecer o seu estúdio fotográfico. . para criar alguma vergonha na cara e para não se iludir com um homem que parecia viver rodeado de modelos belas e esculturais. .Assim!? – perguntava a modelo sem sequer se aperceber dos olhares aterradores que Madalena lhe fez questão de lançar de longe. por favor… . Porque apesar de tudo. .Sim. Eu é que acho que vim numa má hora. – Quer dizer. um famoso anúncio televisivo dos anos noventa.Uma campanha de lingerie.Está tudo óptimo.dizia ele totalmente concentrado no que estava a fazer. Era como se algo lhe gritasse aos ouvidos para desaparecer. .É giro – respondeu Madalena segurando nas mãos um pequeno pedaço de tecido. I just wanna make love to you.Eu?! Não! Definitivamente não.Sim. ela também já tinha tido vinte e cinco anos. . – Esses são muito bons para nos levantar o rabo..Isto é para quê? – perguntou Madalena aos ouvidos da modelo que lhe havia aberto a porta minutos antes. De facto. Ainda tentou beijá-la.Olá! . – Você também veio fotografar? . Tem que comprar. . até mesmo porque essa seria a atitude mais sensata a tomar tendo em conta as pernas bem definidas e o busto daquela modelo que não aparentava ter mais do que vinte e cinco anos.informou a jovem caminhando com Madalena pelo pequeno corredor quase às escuras.Desculpa! Já chegaste?! Não te vi entrar – disse Sérgio quando finalmente se apercebeu da presença de Madalena no estúdio. 40 .Pois devia – respondeu a modelo bebendo um gole de água com a ajuda de uma palhinha fluorescente. Na aparelhagem soava igualmente uma música bastante insinuante que muito lembrou a hora Coca light.Chegámos – exclamou a modelo parecendo ignorar a última frase de Madalena quando abriu a porta e a encandeou com as luzes vindas do estúdio. Muito bom! Estás óptima. mas eu não costumo usar fios dentais. nada poderia ser mais provocante e explícito.Está tudo bem? . tudo o que ela não imaginava era encontrar duas mulheres seminuas que em muito lhe faziam lembrar os seus vinte e cinco anos. – Isso! Isso mesmo! Agora reflecte a perna e olha para mim… . .Uau! .Obrigada. . Entre! Na verdade. mas é giro. Sim. . mas por sorte ela desviou-se a tempo para que as duas modelos não descobrissem a sua verdadeira identidade.Gosta? – questionou ela mostrando o fio dental sobre uma das mesas do estúdio. .

Vera parecia muito mais segura de si. tudo bem. era também perceptível que a presença de Madalena a incomodava mais do que qualquer outra coisa. – São simpáticas. computadores e outros aparelhos electrónicos que utilizava para trabalhar. Eu espero – respondeu Madalena lançando os olhos àquela sala desarrumada.Só falta fotografar a Natália e depois fico despachado por hoje. ao olhá-la com um pouco mais de atenção. imponente e profissional o quanto bastante para nem sequer lhe dirigir a palavra ou esboçar qualquer expressão facial quando os seus olhares se cruzaram pela vigésima vez. Ao lançar os olhos para o cenário improvisado.Não.Claro que não – respondeu ele poisando a máquina fotográfica sobre uma mesa repleta de cabos. – Já tínhamos combinado.As tuas modelos. lembraste?! . quanto a isso não havia dúvidas.Com a Natália não. mas com a Vera sim. especialmente quando a viu tão perto de Sérgio e percebeu que algo os unia. Madalena não resistiu a observar a forma como Vera bebia a água pela garrafa.. .Ainda vai demorar muito a sessão? . mas ainda assim. Para além disso. Madalena percebeu que não era apenas a beleza a única característica que a diferenciava de Natália. Importaste de ficar à espera só mais uma hora?! É que nos atrasámos por causa das luzes e também porque a equipa da maquilhagem e dos cabelos só nos apareceu por aqui depois das quatro. É a primeira vez que trabalhas com elas? . 41 . Era uma jovem bonita. .Quem?! . Seriam namorados? Amigos? Ou qualquer outra coisa pelo meio? De qualquer maneira não devia ser nada sério visto ela aparentar ser mais velha que ele.

Estás todo bronzeado.Obrigada.Ainda bem – respondeu Madalena compondo-se na sua camisola de malha. – Então. vocês deviam ter… .Tivemos que parar duas vezes no caminho para ela vomitar – disse Daniel recebendo alguns afagos na cabeça por parte da mãe.Mãe.Olá! .Porque é que não a convidaste para entrar? . – Porque é que tens sempre que te meter aonde não és chamada? 42 . voltámos todos são e salvos.Como vês. . . – E a… Vanessa? Não veio com vocês? . mãe! Foi bué fixe! . . Daniel e Sara. – E vimos golfinhos. Os seus filhos que após um mês de férias resolveram regressar a casa e brindá-la com as suas risadas e brincadeiras.CAPÍTULO III O aspirador foi desligado na sala quando faltavam poucos minutos para as onze da manhã e tudo porque a porta da rua se abriu sem qualquer aviso prévio trazendo consigo as duas pessoas que Madalena mais desejava ver na altura.Eu também tive saudades tuas. o pai já disse que não foi nada importante – resmungou Sara sob o olhar incrédulo de Madalena. Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso.Fomos à praia todos os dias – respondeu ele.Mesmo assim.Deve ser coisas de mulheres – respondeu Jorge não querendo adiantar muitos detalhes acerca do assunto.A Vanessa está no carro. .Claro – respondeu ela obedecendo ao pedido sem muito entusiasmo enquanto o pai arrastava as malas para o interior da moradia.Porque ela veio um pouco mal disposta da viagem.Olá. . animado. .Estás bonita. . .Que bom que se divertiram – disse Madalena rasgando alguns olhares à sua filha que ao contrário do irmão nem sequer se dignou a cumprimentá-la com um abraço.A sério? Porque é que não passaram por um hospital? . . – Mãe – exclamou Daniel correndo em direcção à sua progenitora e aninhando-se nos braços dela. Sara?! Não me vais dar um beijo? .Ai que saudades! . . . .

– Que raios! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? . .Ela só tem quinze anos.E o que é que vais dizer? Que a culpa é minha? .Só te estou a avisar.Claro – riu-se Jorge secamente. . .Por isso mesmo! É uma adolescente e não uma criança. Agora sai! . .Nós sempre nos demos bem.Sai – exclamou Madalena abrindo a porta de rompante. Não iria almoçar. – Daniel! Sobe e vê se tomas um banho antes do almoço – pediu Madalena trocando um olhar cúmplice com o ex.É claro que é tua – respondeu Madalena tentando manter a voz baixa.Sabes qual é o problema da Sara contigo? Madalena calou-se. .Boa! Quando sentes que perdes a razão.Eu nunca coloquei os nossos filhos contra ti – respondeu ele largando os braços. não era?! 43 . .O que foi? – perguntou Jorge sabendo à partida que iria ser criticado por algo que ainda nem sabia o que era. Não. eu estou a jogar limpo contigo.E tu irias adorar se isso acontecesse. . – Então continua assim para ver se a Sara não se afasta de ti de vez. mas ela já não é uma criança. – O problema é que tu a tratas como se ela fosse uma criança. Aonde é que foram? O que é que fizeram? Como é que o pai se portou? Comeram todas as refeições? Não. aliás.Sara?! . . Estas foram as últimas palavras de Sara antes de agarrar nas suas malas e subir as escadas em direcção ao quarto. – Preciso falar com o pai. marido.Jorge. Será que não percebes que é essa tua mania de a quereres proteger de tudo e de todos.Lena. ..Que raiva! Se soubesse tínhamos ficado mais uns dias no Algarve. eu sempre joguei! Mas não queiras colocar os nossos filhos contra mim porque eu não vou admitir uma coisa dessas. eu não tenho a culpa que tu e a Sara nunca se tenham dado lá muito bem. reages sempre assim… . mulher à razão.Tens a certeza!? .Tu viste como é que a Sara falou comigo? . . . – Foi contigo que ela esteve nestas últimas quatro semanas e olha só como é que ela voltou?! . não iria jantar e nem queria sequer responder às perguntas da mãe que com certeza seriam as mesmas.E?! Ainda perguntas… e…?! Ela nunca me enfrentou dessa maneira. afinal de contas ele ainda é uma criança. – Com o Daniel até pode resultar. .Eu não perdi a razão! Eu tenho razão.Está bem – respondeu o último subindo as escadas a correr. . Um local onde pretendia trancar-se durante vinte e quatro horas e não sair de lá nem por decreto de lei. Ela realmente não tinha paciência nenhuma para as responder.E… . de a encheres de mimos e de a sufocares com regras que a está a fazer afastar-se de ti? – discursou Jorge tentando trazer a ex. mas com a Sara já não resulta e tu tens que meter isso na cabeça.

para Madalena foi completamente impossível realizar tal tarefa. perguntou-se. – Nada de especial! Agora estou para aqui a ver se consigo melhorar as fotos para a campanha da Vitória Secret. – O quê?! . Eu ligo-te depois.Aquela campanha de ontem? . Uma chamada não atendida. . eu não iria adorar. .Algum problema?! . . Pelo menos eles vieram animados. .Isso é o que importa. infelizmente vou ter que desligar. A revelação de Jorge não podia ser mais bombástica e prova disso foi o recuo de dois passos por parte de Madalena. já disse! Mas eu entendo o porquê de ela se quer ir embora cá de casa.Eu não quero tirar a Sara de ninguém. – Escuta. .Não precisavas ter despachado a pessoa com quem estavas a falar só por minha causa… – afirmou Sara servindo-se de um copo de sumo sobre a mesa da cozinha.Estive a trabalhar – respondeu Sérgio analisando algumas das fotografias que tirou durante a tarde. – Desculpa – pediu ela retornando a ligação assim que terminou de arrumar a loiça do jantar..…claro – disse Madalena tentando esquivar-se aos olhares lancinantes que a filha lhe lançou enquanto abria a porta do frigorífico. Sara entrou na cozinha e surpreendeu a mãe encostada ao lava-loiça completamente submersa numa conversa telefónica.Isso mesmo que ouviste! Ela quer morar comigo.Acho que correu bem.Não faz mal – respondeu ele. marido continuou a ecoar-lhe nos ouvidos durante a tarde toda.E eu odeio-te! .É. . – Imaginei que estivesses com os teus filhos. . Mas para que tenhas um rasgo de clarividência. um número perdido e a raiva que sentiu ao final da noite quando descobriu que a pessoa que lhe tinha tentado ligar era Sérgio. nenhum.E tu? Como é que te correu o dia? . E a verdade é que estava tão submersa nos seus pensamentos que nem sequer se apercebeu do telemóvel a vibrar sobre a bancada da cozinha. Sabes porquê!? Porque tu és insuportável. . . – Só vi a tua chamada agora. não.Sim! Tenho que entregar tudo pronto na semana que vem. deixa-me dizer-te que durante estas férias a nossa filha pediu para morar comigo. 44 . Com quem estaria a conversar.Advinha lá!? O sentimento é recíproco… – respondeu Jorge saindo porta fora.Apesar de não acreditares.Está bem – respondeu Sérgio desligando a chamada quando se deu por vencido.Não. .Obrigado pelo elogio – riram-se os dois. Podemos falar mais tarde? . . eu mato-te! .Jorge. Nessa altura. se tu me levares a Sara daqui. . pois a discussão com o ex.Tenho a certeza que te vais sair muito bem! És um excelente fotógrafo. . Apesar de ter tentado controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. eu estava – murmurou Madalena tentando esconder o facto de não ter visto a filha mais velha desde a hora do almoço quando ela resolveu trancar-se no quarto com uma música rock aos altos berros.Como é que foi a viagem? .

. Sara! Ele contou-me que tu pediste para ir morar com ele.Sei?! .Eu quero que morras… A resposta efusiva de Sara tomou Madalena de assalto. mas nem por isso a inibiu de oferecer à filha uma valente bofetada no rosto que a fez recuar dois passos e suster a face com a mão. . .Sara… .Apesar de odiares a ideia de que eu adore o meu pai. – Nunca mais na tua vida te atrevas a levantar-me a voz. O olhar de ódio disse tudo.Eu quero passar uns tempos em casa do pai.E tu sabes bem qual foi o assunto.Achas bem aquilo que fizeste?! .Ai é?! .Não me levantes a voz. Silêncio foi a resposta de Sara embora os seus olhos estivessem a vermelhar de raiva. sapatos e computadores!? O que é que queres mais? .Não foi por tua causa – disse Madalena largando o seu telemóvel sobre a mesa.Foste tu que o escolheste para ser o nosso pai. é melhor esperares sentada… – afirmou Madalena tentando manter a expressão aterradora que tinha no rosto. nunca te passou isso pela cabeça? .Não! Se tu estás à espera de um pedido desculpas.O quê?! . .. . tu é que vais ter que esperar sentada.Sim – respondeu a jovem com toda a calma do mundo. . – Mas ainda bem que te ponho os olhos em cima porque precisava esclarecer uma coisa contigo.Não te faças de desentendida. 45 . lembraste?! Não fomos nós.Estive a conversar hoje com o teu pai. Podemos ter uma opinião diferente. hã – vociferou Madalena aproximando-se bruscamente dela. – Lá porque tu decidiste que eu e o Daniel tínhamos que ficar contigo.Nem sequer falaste comigo sobre os teus planos quando sabes muito bem que sou eu quem tem a tua guarda e a guarda do Daniel. porque eu ainda continuo a querer que morras – respondeu Sara abandonando a cozinha sem sequer terminar o sumo que deixou sobre a mesa e deixando Madalena a sentir-se o pior ser humano à face da terra. . – Diz lá! Não tens tudo aquilo que precisas? Não tens um tecto. Porque é que se estava a sentir assim. Sara – imperou Madalena calando-lhe os argumentos.Que opinião?! .Eu tenho todo o direito de querer escolher com quem quero ou não morar – respondeu Sara poisando o copo de sumo sobre a mesa. – Se estás à espera de um pedido de desculpas.Qual é o teu problema. É verdade? . um quarto só para ti. .O que é que foi que eu fiz? . . . .Tu não vais a lado nenhum! . roupas. comida.Eu não acredito que me estejas a dizer uma coisa dessas. a verdade é que eu adoro e tu vais ter que te habituar a essa ideia. foi a pergunta que imperou no ar enquanto os seus olhos mais uma vez lutavam contra as lágrimas. isso não significa que nós queiramos realmente ficar contigo.Não me podes impedir de morar com ele! Ele é o meu pai. .

.Porque os tempos eram outros! No nosso tempo.Faz uma experiência! Diz que aceitas que ela vá morar com o pai e que não te opões em nada.Achas que a culpa é minha? – perguntou Madalena encostando-se ao expositor da loja. – Devias ter tido filhos.Bem. . tratar da roupa e das compras do supermercado.Claro que estou. Achas que eu sou uma má mãe? .Deixá-la ir morar com o pai. .Claro que não. 46 . Se ela quiser ir. Mas diz lá qual é o problema concreto desta vez! .O Jorge disse-me que a culpa era minha porque eu ainda não me tinha dado conta que a Sara já não era uma criança e que não adiantava nada enchê-la de mimos e regras porque isso só faria com que ela se afastasse ainda mais de mim… – discursou Madalena cruzando os braços. . ela que vá! Apesar de nunca ter tido filhos. acredita que de adolescentes eu percebo bem e sei que quanto mais nos mostrarmos contra alguma coisa. . sabias!? . era exactamente assim que iria reagir. em menos de duas semanas estava de volta. mas eles a querem fazer. .foi o desabafo de Madalena à melhor amiga várias semanas mais tarde. lá isso é verdade. . .Culpa do quê? . – E tu estás preocupada com isso? . . Quando ela tiver que cozinhar. . não sei. .Pois eu acho que devias. – Achas que ele tem razão? .O Jorge é um idiota.Achas?! – perguntou Madalena não muito segura das palavras da melhor amiga.O quê?! . . Eu não quero que ela vá morar com o Jorge sabendo bem que ele é um irresponsável de todo o tamanho.Garanto-te que se a Sara fosse morar com o pai.A Sara quer morar com o pai. .Eu só queria saber o que é que se passa com ela.É claro que devias – ripostou Alice ajeitando um ramo de margaridas encomendadas pela manhã. nem mesmo a brincar.Tu és uma caixinha de surpresas – afirmou Madalena sugando-lhe a face. ou esse azar.A minha adolescência não foi assim e a tua também não. .…volta a correr para a maravilhosa mãe que anda a desperdiçar. . – Não lhe devia ter dado aquele estalo.Alice!? Estás louca?! .Sinceramente não sei o que fazer… .Culpa do comportamento da Sara. Lena! . – Onde já se viu?! Ninguém deve desejar a morte da própria mãe. volta para casa com o rabinho entre as pernas e ainda te trata a pão-de-ló. ai de nós se levantássemos a voz aos nossos pais! Era logo um par de estalos e assunto encerrado. . Desde há uns meses para cá tem andado estranha e fala com as pessoas como se as quisesse bater. .Estás a gozar!? – riu-se Alice enquanto terminava o arranjo de margaridas.Infelizmente nunca tive essa sorte. Lena! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? .A adolescência é assim.Quando ela perceber o traste do pai que tem – riu-se Alice. Mas se tivesse uma filha como a Sara.

Olá. – Estás-me a dizer que eu posso ir morar com o pai… . . Ponto final. Por isso. E logo ele que sempre pensou que a ex. Alice estava certa quando disse que todas as tarefas domésticas recairiam sobre os ombros de Sara enquanto ela estivesse em casa de Jorge. Ela tinha razão. . Jorge mal conseguiu acreditar que o seu pior pesadelo se tinha concretizado sem qualquer aviso prévio. mulher nunca iria ceder às chantagens de Sara ou sequer permitir que ela saísse de uma casa onde tinha nascido e crescido. . Já te tinha dito isso há quase dois meses. O que devia fazer para descalçar aquela bota? Ao desligar o telefone do escritório. Sim. mas se mesmo assim os seus planos saíssem furados. Mas e se a filha não voltasse? E se ela continuasse a morar com o pai para sempre? Não. – E quem sabe me vá embora já esta semana. limpar o pó ou fazer a própria cama? Diante daquela catástrofe apenas comparada à Segunda Guerra Mundial. ela não hesitaria um segundo em arrancar a filha da casa do pai com as próprias mãos.Pois então! Fala com o teu pai e combinem um dia para ele te vir buscar. com certeza não aguentaria mais do que duas semanas. A Sara lá em casa? Uma adolescente de quinze anos em sua casa? Uma casa que normalmente costumava levar as suas amigas para umas noitadas de copos.Pensei melhor – mentiu Madalena. – É o teu falecido – sussurrou Alice passando a chamada. mas eu fiquei sem entender uma coisa… . ele lançou os olhos a um quadro pendurado na parede e por momentos tentou encontrar uma maneira de se livrar daquele problema. Não valia a pena opor-se à ideia de Sara em morar com o pai pois ela continuaria a fazer-lhe a vida negra caso se mostrasse contra aquela resolução estapafúrdia. Raios. – Ou não me digas que já não queres ir? . É isso mesmo que vou fazer. .É claro que quero. mulher a convencer a filha de que a sua saída lá de casa realmente não era a melhor ideia.foi a surpresa de Sara quando a mãe lhe informou sobre a sua decisão após o jantar. decidiu Jorge enquanto digitava o número da loja de Madalena. assim que chegasse a casa naquela noite. para umas visitas turísticas ao seu quarto e também onde passava as poucas horas livres que o trabalho lhe deixava durante o dia sem sequer se preocupar em lavar a loiça.Sim! Podes. diria que tinha pensado melhor e que era totalmente a favor da sua partida. tudo bem?! Escuta! A Sara ligou-me há pouco.O quê!? 47 .Diz Jorge – exclamou Madalena recebendo o auscultador das mãos da melhor amiga.k! Então amanhã vou ligar ao pai – afirmou Sara não cabendo em si de contente por finalmente se ver os seus desejos concretizados. Quando recebeu o telefonema da filha no dia seguinte. . Duas semanas era o prazo que Madalena tinha estipulado para aguentar aquela prova de fogo. a única coisa que lhe restava era tentar convencer a ex.O.E posso saber porque é que mudaste de ideias? . Sim. . e logo ela que sempre foi preguiçosa até para fazer a própria cama. Claro que não.A conversa foi interrompida com a chegada de um cliente à loja. mas nem por isso Madalena se esqueceu das palavras de Alice enquanto o atendia.

– Tenho a certeza absoluta que uns dias na tua casa apenas lhe iriam fazer bem. Afinal de contas já o conhecia há tantos anos que não foi muito difícil para si descobrir o verdadeiro motivo daquela chamada telefónica tão inapropriada. – Sim! É verdade.Está lá cima a terminar de fazer as malas – respondeu Madalena permitindo-lhe a entrada. abrevia por favor – interrompeu Madalena percebendo bem qual era o estratagema do ex.Jorge. – Demoraste. . – Apanhei um trânsito infernal no caminho.Sim. Quem sabe tu me podes ajudar a fazer isso? O que é que achas?! – discursou Madalena sob uma ruidosa gargalhada que Alice não conseguiu evitar. desculpas… . Inventam mentiras. . filho. os seus planos e desculpas saíram furadas levando-o àquela verdadeira situação de desespero. Apesar de tudo. a única coisa que eu posso fazer é apoiá-la. mulher. Sexta-feira foi o dia em que Jorge percebeu que já não lhe restava nenhuma outra alternativa a não ser buscar a filha à casa da ex.A Sara disse-me que tinhas concordado com a ideia de ela vir morar comigo. . isso não aconteceu.Porque não!? Ela não te adora tanto? Se a Sara quer morar contigo.Por enquanto vai só a Sara.Fogo! Eu também queria ir. – Ela já está pronta? . a única coisa que quis foi que a relva do jardim o engolisse. Sabes como é que são os jovens quando querem realmente uma coisa. Mas já estás pronta? .Eu?! .Estou – respondeu ela passando as mãos pelos cabelos soltos.Quer dizer.Bem. marido.Estás a gozar.. – Estás aí? . . . Um olhar aterrador foi o que Jorge voltou a lançar a Madalena enquanto Sara descia ao primeiro piso sala carregada com duas enormes malas e uma mochila preta que a acompanhava todos os dias à escola. Jorge! Tenho a certeza que vais adorar.Porque é que eu também não posso ir? – perguntou Daniel para grande desespero do pai.O meu esquema?! Eu não tenho esquema nenhum – respondeu Madalena tentando ignorar as risadas de Alice quando colocou a chamada em conversação alta. provavelmente devo ter percebido mal.É. além de que estavas certo quando disseste que eu tenho que parar de a tratar como se fosse uma criança. .Sim e não faças essa cara de sonsa – exclamou Jorge caminhando apressado em direcção à sala onde encontrou o filho mais novo a jogar Playstation. O que é que se passa? Qual é o teu esquema? .Fizeste de propósito.Então queres convencer-me que queres realmente que a Sara venha morar comigo? É isso?! . eu sei – respondeu Jorge passado as mãos pelos cabelos aparados. primeiro disseste que me matavas caso eu me atrevesse a tirar a Sara lá de casa e agora ela liga-me toda contente a pedir para que eu a vá buscar nesta sexta-feira. . pai – disse ela. não foi!? . 48 . Quero ver-te com a Sara vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. . não?! . É verdade? Silêncio foi a resposta de Madalena. Por azar.A gozar porquê? . . e enquanto abria os portões da moradia.Então vamos.

Está bem. enquanto estava completamente submersa nos seus pensamentos. .É claro que ela vai voltar.Infelizmente não. o telemóvel vibrou sobre a mesinha de cabeceira e fê-la estender o braço em direcção a ele. – Desculpa por não ter ligado nesses dias. .Tchau – disse Sara despedindo-se da mãe com um beijo na face e do irmão com um pequeno empurrão nos ombros.A minha filha foi morar com o pai. Pela primeira vez desde sempre o lugar de Sara não foi ocupado durante o jantar. Depois disso. Portas fechadas. Quem sabe não seria Sara para lhe dizer que queria voltar? De qualquer maneira não custava nada sonhar. tomou um banho e vestiu uma camisola confortável com o intuito de dormir como uma pedra e esquecer-se do dia em que viu a filha escapar-se-lhe por entre os dedos sem nada poder fazer.Desculpa – sorriu Madalena percebendo imediatamente a sua gafe. .Outra mala?! – indagou Jorge esbugalhando os olhos. . está bem! Eu vou lá acima buscá-la. ..Não! Tenho mais uma outra mala lá em cima que não consegui trazer junto com estas. e pela primeira vez. tentou enfiar essas palavras na sua cabeça e acreditar no que Alice lhe dissera dias antes quando a aconselhou a baixar as guardas e permitir a saída de Sara lá de casa.Está bem.Foi-se embora hoje e eu tenho medo que nunca mais volte. Depois disso. Madalena assustou-se com a terrível ideia de que a sua filha havia partido para sempre quando fechou a porta do quarto e deu por terminada a noite.Problemas?! . não achas?! . afastou-se sem sequer olhar para trás e enfiou-se no carro do pai enquanto ele terminava de ajeitar as malas.Quem me dera poder acreditar nisso. três dias. saiu e nem sequer se dignou a despedir da ex. sendo que essa tarefa enfadonha recaiu inteiramente sobre os ombros de Sara.Sim! Filhos. – Mas já estás com duas na mão. cintos de segurança colocados e a partida. . foram algumas das cenas que Madalena observou de longe enquanto o seu coração se apertava e a companhia de Daniel era a única coisa que não a deixava desmoronar.Podias fazer tantas coisas – riram-se os dois. . mulher.A sério?! . – Já que Maomé não vai à montanha… – afirmou Sérgio com a mesma voz jovial de sempre. Depois disso. . Foram precisos apenas cinco minutos para que Jorge regressasse novamente ao primeiro piso e tivesse a seu cargo cerca de três malas para arrastar em direcção ao carro. . . – Mas infelizmente estás longe. . Sabes o que isso é? . – O que é que eu posso fazer para animar essa voz? . 49 . Nessa altura.O que é que queres?! Tenho que levar as minhas coisas nalgum lado.Diz-me – interrompeu Sérgio caminhando calmamente pela rua. . – Vê lá se ligas… .pediu Madalena tentando controlar as lágrimas quando percebeu que a partida da filha era inevitável. Ela vai voltar.Eu ligo daqui a dois.

– Esquecime de passar pelo supermercado esta semana.Mas foi bom teres vindo! Nem sabes como estava a precisar de um beijo teu.Claro! Assim conheces a minha casa. Uma das mãos nos bolsos das calças. – És louco – disse Madalena ouvindo-lhe as risadas através do telefone. . . anos… . Na verdade. Por sorte. talvez por preguiça. eram essas as características que melhor o definiam.Quem disse!? Silêncio e surpresa foram as reacções de Madalena. mas a verdade é que ela resolveu utilizar as mãos para saber onde estava. e quando abriu a porta de saída. Tal como sempre as escadas que ligavam os dois pisos encontravam-se às escuras. meses. .Algumas horas é tudo o que eu preciso para matar as saudades que sinto de ti. Tinha sido apenas há uma semana.O quê?! .k . – Pai! Tu não tens nada que se coma aqui dentro. . .Temos que combinar alguma coisa. – Então fica assim combinado? No domingo depois do almoço? . algumas migalhas de pão sobre a bancada e o frigorífico às moscas. E mais palavras não foram precisas para que ela subisse os estores e se deliciasse com a figura de Sérgio sob o portão. o telemóvel nos ouvidos e o sorriso estampado no rosto. Quando voltou a encarar-lhe o rosto iluminado pelas luzes das escadas. não é!? . O dia amanheceu ensolarado e foi com algum custo que Sara se dirigiu à cozinha crente de que iria encontrar um belíssimo pequeno-almoço à sua espera. – Eu juro que te convidava a entrar – disse ela segurando-lhe a face com firmeza.Eu também morri de saudades tuas.Desce! Estou à tua espera. – Mas não posso.E o que é que eu vou comer para o pequeno-almoço? 50 . – Foi por isso que vim.O meu pai vem almoçar no domingo e eu estava a pensar em deixá-lo a tomar conta do meu filho por algumas horas.O. . .. – Sai à janela – pediu ele. pois as únicas coisas o que viu à sua frente foram loiças sujas do jantar. O que é que eu vou comer? Realmente nada tendo em conta o que viu nos armários e nas gavetas vazias. Pura ilusão? Talvez.Pois eu iria precisar de semanas. . a visão de Sérgio foi a primeira coisa que a fez sorrir naquela sexta-feira particularmente triste e sombria. mas no entanto parecia uma eternidade. Sérgio afundou-se nos lábios de Madalena e beijou-a com toda a paixão que possuía dentro de si. – Que bom que estás aqui – disse ela enterrando-se nos braços dele e tentando absorver-lhe todo o calor do corpo.Não consegui aguentar de saudades. . . mas Madalena recusou-se a acender as luzes.Raios – exclamou Jorge levando as mãos à cabeça quando entrou na cozinha. – Mas estou ansiosa para ir. não lhe importou absolutamente nada a não ser tê-la nos braços e matar todas as saudades que sentira desde a última vez que estiveram juntos. baixinho. Ainda não foste lá.Algumas horas?! Hum! Parece-me interessante.Li os teus pensamentos – riram-se os dois. . . talvez para não acordar o filho.riu-se Madalena.Eu sei. conseguiu alcançar o corredor sem se esbarrar em nenhum móvel.Não – respondeu ela com um sorriso malicioso. .

Eu nunca lá fui sozinha. .riu-se ela às gargalhadas quando descobriu quantidade exorbitante de filmes pornográficos e oito caixas de preservativos na mesinha de cabeceira do pai. – Além disso. bolachas. .Não acredito que a tua mãe nunca te tenha levado ao supermercado – respondeu Jorge alcançando o pote de açúcar sobre a bancada. estás livre para fazer aquilo que quiseres. ela viu-se pela primeira vez a tocar num preservativo. . .Compra carne.Hoje não posso – respondeu Jorge retirando uma chávena de café dos armários. enjoou-se com o cheiro. A curiosidade foi aguçada ao abrir uma das embalagens.Então bebe sumo! Acho que ainda tem o resto do frango do jantar. Cheirou-o.E o que é que eu vou comprar lá? . . Podia ouvir música aos altos berros.Mas pai… .k! .Vou comer frango ao pequeno-almoço?! Só podes estar a gozar – resmungou Sara não vendo outro remédio a não ser obedecer às ordens do pai. dançar sobre o sofá como uma louca e vasculhar todas as gavetas lá de casa sem medo de ser apanhada por alguém.Podes fazer o quiseres. Podes aquecê-lo no microondas se quiseres. – Depois do supermercado.Aproveita que hoje não tens aulas e vai! Jorge demorou apenas cinco minutos para engolir o café que fizera. arroz.Posso?! .E o que é que eu faço para passar o tempo? – perguntou Sara acompanhando-o à porta.Até logo – respondeu Sara fechando a porta com um largo sorriso e com a certeza que a sua estadia em casa do pai iria ser no mínimo maravilhosa. E quando finalmente percebeu. Podia fazer tudo aquilo que quisesse. ir ao supermercado é a coisa mais fácil do mundo e tens um aqui mesmo ao pé.Mas pai… . Em cinco minutos estás lá.Até logo. . despediu-se da filha deixando-lhe o cartão de multibanco e a certeza de que não voltaria a casa antes de o anoitecer. e antes que desse por si. Eu deixo-te dinheiro. Sim. a sua única vontade foi de experimentá-lo. – Vou passar o dia todo no escritório às voltas com uns arquivos que tenho que rever.Eu não bebo café. Mas podes ir tu ao supermercado se quiseres. o que é que se compra num supermercado? Comida. – Tens que ir ao supermercado. .Claro – respondeu Jorge beijando-lhe a face. . . massas.. .Oras. Essas coisas! .O. fruta. intrigou-se com a oleosidade. . desenrolou-o numa tentativa desesperada de perceber como aquele objecto funcionava. . e por fim. 51 . e depois de vestir o casaco às pressas. .Café – respondeu ele aproximando-se da máquina sobre a bancada.Posso sair? Combinar alguma coisa com as minhas amigas? . – Gostas dele forte ou com leite? . – Não acredito! Que pervertido… .Sim.

.Como assim? Para onde é que ela foi? .Pensei que fosses demorar mais – respondeu Sara escondendo as caixas de DVD por detrás das almofadas do sofá.Infelizmente naquele Sábado as horas demoraram a passar. e a terceira.Mais ou menos – respondeu Daniel seguindo-o em direcção à cozinha onde Madalena se encontrava a ultimar os preparativos do almoço. – Então rapaz… .Posso pôr a lasanha no forno se quiseres. A primeira tinha ido passar o fim-de-semana ao Douro.Volta mesmo?! 52 . Vestiu uma das suas melhores indumentárias. a única alternativa que restou a Sara foi devorar todos os filmes pornográficos do pai enquanto devorava também as pipocas que havia comprado no supermercado da esquina. Jorge não desconfiou de nada e nem sequer teve a brilhante ideia de abrir as gavetas para se certificar que o seu pequeno tesouro que demorou dois anos a ser construído não tinha sido drasticamente usurpado pela própria filha.Não! Chegaste na hora. quando entrou à socapa no quarto do pai e ouviu o barulho do chuveiro a trabalhar. . e mesmo tendo a tarde livre para fazer o que quisesse. – Andas-te a portar bem? .Fui ao supermercado – disse ela assim que ele entrou na sala.exclamou Afonso afagando os cabelos do neto e entrando pelo corredor adentro sem quaisquer cerimónias. . – Cheguei – gritou Jorge da porta sem sequer imaginar que a poucos metros a filha se encontrava na sala a esconder os filmes que lhe havia retirado do quarto. Assim sendo. agarrou no seu velho Opel Corsa e estacionou-o a poucos metros da vivenda onde a filha e o neto moravam. Por sorte. . .Consegui despachar-me mais cedo do que estava à espera. – Bem. Só me falta fazer a salada. .A Sara já não mora mais connosco – respondeu Daniel para grande surpresa do avô. uma boa notícia – exclamou Jorge espreguiçando-se com vontade.Olha.A Sara?! .Ela foi passar uns dias com o pai – informou Madalena provando o molho da carne assada junto ao fogão. Tal como sempre. E assim. .Hã… já vieste pai?! . Aliviada foi o que se sentiu. após ter a certeza que se tinha livrado de boa. – Mas volta! . A segunda estava nos treinos de judo e não se iria despachar antes das sete tarde.Isso era óptimo! Assim quando saísse do banho já tinha alguma coisa para comer. Alguns minutos mais tarde. Sara voltou a sair do quarto e encostou a porta com um longo suspiro. a verdade é que Sara não conseguiu a companhia de nenhuma das suas amigas da escola. . Sara não teve dúvidas de que aquela era a altura ideal para repor os filmes que lhe havia retirado da mesinha de cabeceira. não tinha a permissão dos pais para sair de casa sem a presença de alguém mais velho. acho que vou tomar um banho porque estou a estoirar de dores de cabeça. . Aquele era um ritual que fazia praticamente todos os domingos e daí a pouca surpresa de pequeno Daniel quando abriu a porta e se deparou com a figura do avô. Afonso Soares foi pontual para o almoço em casa da filha. .Cheguei cedo? – perguntou ele recebendo um beijo da filha.

Em apenas dois meses. respondeu ela esboçando-lhe um sorriso malicioso que disse tudo. foi impossível não acenar de longe e receber um outro aceno de volta. e depois disso. – Meu Deus – exclamou Madalena às gargalhadas quando ele a arrastou directamente para o quarto. acho que sim. um beijo tão ou mais apaixonado que o primeiro enquanto se deixava levar em direcção à cama sem se importar com o barulho das obras do vizinho do segundo andar.Ainda bem – respondeu ela ajudando-o a desfazer-se da camisa.Número cento e cinquenta e dois. Depois do almoço. terceiro esquerdo. Madalena precisou de quinze minutos para conseguir estacionar o carro.Tu sabes que eu gosto de me esconder. Por sorte. os dois amantes tiveram-se um ao outro e deixaram os seus sentidos perderem-se naquela habitação minúscula dotada de poucos móveis e com uma simplicidade que conferia a Madalena toda a paz e conforto pelo qual havia ansiado durante semanas. Não precisam de ajuda.Até já… .O meu fica atrás. correu apressada em direcção à rua de Sérgio pronta a descobrir o número cento e cinquenta e dois e também o andar que ele lhe indicara momentos antes.Hã… numa rua chamada Alecrim. . – O. no seu melhor amigo e também no seu grande confidente. Era uma mentira pegada. . em muito mais.Tu já me tens só para ti. Três andares depois e a porta abriu-se. E sim. pois o fotógrafo permaneceu na varanda apenas para ter a certeza que a sua visita não se iria perder pela segunda vez. . Madalena desapareceu do quarteirão e rumou ao centro da cidade com o único intuito de cair nos braços de um fotógrafo que já não lhe era tão desconhecido quanto isso. Não. mais te tenho só para mim… . Afonso percebeu no minuto em que a filha saiu à rua e se enfiou no carro estacionado na garagem. 53 . a tarefa não foi tão difícil quanto isso. Mas quando conseguiu esse milagre lisboeta em pleno fim-de-semana. . Depois disso.Olha que eu acredito. – Não podias ter escolhido uma rua mais escondida para morar? .Então já estás mesmo aqui ao pé – respondeu Sérgio saindo à varanda.Claro que volta.Pois podes acreditar – respondeu ele sugando-lhe o pescoço. Era ali que ela se sentia segura. tinha-se transformado no seu amante.respondeu ele desligando a chamada com um largo sorriso. Na verdade.Aonde é que estás? . Madalena despediu-se de Afonso e Daniel dizendo que demoraria apenas algumas horas para ajudar a sua amiga Alice a mudar alguns móveis lá de casa. – Acho que estou perdida. protegida e ciente de que nada e nem ninguém a poderia separar de Sérgio. deves acreditar! Um sorriso radiante foi o que Madalena ofereceu a Sérgio.O. . aliás.k! Até já. Conheces?! . Sérgio tinha-se transformado em algo mais. Tens que dar a volta. Sempre em movimentos contínuos e frenéticos. . – Aliás. .. foi a pergunta do pai. .Sim. .Está bem! Já agora diz-me outra vez o número do prédio e o andar. – Consegues ver uns prédios verdes? .k – riu-se ela quando ele atendeu o telemóvel. E ao vê-la. – Porque quanto mais escondido estiveres.

Vai demorar – disse Sérgio sentando-se à secretária e ligando o computador com uma expressão no mínimo entediada. .Impossível não sentir saudades tuas – respondeu Sérgio arrancando-lhe um sorriso – Eu por exemplo passo a minha vida a sentir saudades tuas.Seja quem for. Está suado. mas é que… . encabulado. . Fiz mal? . – Estás à espera de alguém? .. Era ela outra vez. .Estas cerejas estão maravilhosas – confessou ela devorando um dos que ele lhe colocou na boca. . Os cabelos também se encontravam desalinhados e as costas vermelhas pareciam ter sido marcadas por unhas de uma mulher. – Queres todas as fotos? . – Acreditas que desde que ela foi morar com o pai nem sequer me ligou? .Não tenho pressa – respondeu Vera debruçando-se sobre ele enquanto prendia os seus longos cabelos com a mão e se deixava deliciar pela maravilha que era vê-lo em tronco nu.Eu também – disse Madalena aconchegando-se no peito dele e fechando os olhos sem se importar com o irritante toque da campainha. já disse que não. – Vai lá! Pela pressa parece ser importante. – Vera! . não deixes entrar no quarto.Ainda a história da tua filha? . .É rápido! Só queria umas cópias para colocar no meu book. Era ela.disse ela recorrendo ao seu sexto sentido quase sempre infalível.São muitas.Não.Não.Obrigada – riram-se os dois.Queria escolher algumas.respondeu Sérgio. . ele reconheceu imediatamente a sua visita. mas é que tínhamos combinado ver aquelas fotos da sessão. lembraste?! Como nunca mais disseste mais nada. . eu resolvi aparecer hoje outra vez.Olá – respondeu a modelo esboçando um doce sorriso assim que a porta lhe foi aberta pelo fotógrafo. Teria interrompido alguma coisa? – Espero não ter vindo numa má hora… . 54 .Porquê?! . . – Deve ser algum vizinho ou assim. – Obrigada também por me tirares da cabeça todos os meus problemas. .Porque prometi que não faria isso! Quero que ela sinta saudades minhas. Mas ao olhar através do espelho da porta. Dois minutos foi o tempo que Sérgio precisou para sair do quarto e caminhar em direcção à porta com uma enorme vontade de esganar o vizinho inoportuno que teve a desfaçatez de interromper o seu descanso ao lado de Madalena. foi a primeira coisa que reparou.Porque é que não ligas tu? . embora seja óbvio que ela não sente. .Comprei especialmente para ti.Tudo bem – respondeu ele abrindo-lhe passagem em direcção à sala onde se encontrava o seu computador portátil e também a Pen drive repleta de fotografias que havia tirado a Vera semanas antes. – Desculpa vir sem avisar.Porque eu não quero que me apanhem assim toda descascada – respondeu Madalena arrancando-lhe uma leve gargalhada. .Não – respondeu Sérgio apressando-se a encontrar as calças de ganga no meio das inúmeras roupas espalhadas pelo chão. .Sim – respondeu Madalena deitando a cabeça sobre a almofada.

Por essa visita inesperada. pelo menos devias levá-las. . Vera. 55 . – Não! Eu é que peço desculpas. não achas!? . Aliás. vinte minutos mais tarde.Estranho o facto de essa rapariga ter aparecido do nada. Sérgio.Só não quero que me enganes – respondeu ela voltando-se para ele. E assim. A primeira reconheceu-a de imediato porque era a de Sérgio.Então?! Se te vieste até aqui.Costumas receber as tuas clientes cá em casa? .Como nada? E essa cara? .As duas estiveram cá?! . – Hã… desculpem! Não sabia que estavam aí … A expressão facial de Vera pareceu mudar radicalmente quando ao voltar-se para trás a figura de Madalena encandeou-lhe a visão. .Nada – respondeu ela desviando-se dele. – Desculpa – pediu Sérgio regressando à sala depois de a ter acompanhado à porta. . Fomos tomar um café e como lhes disse que as fotografias tinham ficado muito boas.Claro que não – respondeu ele forçando um sorriso que não foi de todo correspondido por Madalena. Senão era um desperdício de tempo. . As revelações de Sérgio realmente não caíram nada bem a Madalena e prova disso foi o longo suspiro que ela lançou a fim de acalmar os estúpidos ciúmes que estava a sentir.Sim. mas… . mas a segunda só o conseguiu fazer quando entrou na sala e se deparou com a figura da modelo a quem havia encontrado semanas antes no estúdio dele. Estiveram! . . Devias ter-me dito que estavas ocupado.Mas eu não te estou a enganar.Há algumas semanas atrás. . Vera! Não vieste buscar as tuas fotos? . como é que ela sabia onde moravas? Já aqui esteve alguma vez? .Sim – respondeu Sérgio com toda a calma do mundo.Vim.Só achei estranho… . elas pediram para vê-las.Quando? . Infelizmente também se lembrava do nome dela e também de todos os seus atributos físicos.Que é isso – afirmou Madalena percebendo o embaraço da modelo.Estranho o quê?! . – Veio com a Natália.Desculpa porquê?! – perguntou Madalena. depois de ter escolhido as fotografias tiradas por Sérgio. recebeu-as num CD despedindo-se com um sorriso e com a certeza de que nunca mais voltaria a uma casa sem ser convidada. – Podes ficar à vontade. – O que foi? . Eu voltava numa outra hora ou então procurava-te no estúdio.O barulho ensurdecedor no quarto deixou Madalena impaciente e fê-la caminhar pé ante pé em direcção à sala onde lhe pareceu ter ouvido algumas vozes. – O que foi? O que é que estás para aí a pensar? .Claro – respondeu a jovem voltando-se novamente para o ecrã do computador quando pressentiu que Madalena havia descoberto o seu disfarce em pouco menos de cinco segundos. .

com quem quero fazer amor e a quem quero apresentar a todos os meus amigos como sendo a minha namorada… . Não quero que gozem comigo! Nem tu.Eu sei.Desculpa – pediu ela mantendo-se de costas para ele.Lena.…eu não sabia que estávamos a namorar. . – O facto de não acreditares nas tuas qualidades. Madalena tapou o rosto com as mãos e desejou que um buraco se abrisse por debaixo dos seus pés. das rugas que te aparecem no canto dos olhos quando sorris ou da celulite que tens nas pernas. .Hã… esqueci-me! Mulheres acima dos quarenta também não podem namorar.. aliás. – Eu não quero criar expectativas.Eu não acredito que estejas a pensar que estou a gozar contigo. mas infelizmente também tinham sido verdadeiras e foi isso que a levou ao mais profundo desespero. . . na tua inteligência e de julgares que todas as mulheres são melhores que tu! Infelizmente já percebi que o teu ex. Pelo menos assim vou saber no que é que me estou a meter.Tu tens quarenta e eu tenho trinta e dois.Então o que é que um homem como tu quer de uma mulher como eu?! Porque é óbvio que tu podes ter qualquer uma que te passe pela frente. Enquanto passeava por aquela sala minúscula e se dava conta da triste figura que fizera momentos antes.Sabes qual é o teu problema? Madalena manteve-se em silêncio. nem as tuas amigas e muito menos essa… Vera… . 56 . ela pensou. . não tenho mais idade para criar expectativas e nem quero fazer papel de idiota. – A tua insegurança – respondeu Sérgio à sua própria pergunta.Será que não percebes que estou contigo porque gosto de ti? Porque gosto realmente de ti e não quero estar com mais nenhuma outra mulher? A surpresa fez com que Madalena se voltasse novamente para ele.Uma conversa que se calhar já deveríamos ter tido há mais tempo – respondeu ela cruzando os braços.respondeu Madalena não escondendo a sua surpresa perante uma palavra que já não ouvia há muitos anos. mas é que… . que conversa é essa? . – Talvez tenhas razão – interrompeu ele. Sim. marido conseguiu convencer-te disso durante os anos em que vocês estiveram casados e é uma pena que ainda continues a pensar assim mesmo depois de te teres separado dele. eu prefiro que me digas. . – Talvez já devêssemos ter tido esta conversa há mais tempo. para além dos dois fios de cabelo branco que tens aí à frente. nem precisas sair de casa porque elas batem-te à porta e cercam-te como se fosses… . . – Mas eu também não quero passar a vida toda a tentar enfiar-te isso na cabeça e nem quero ver as tuas desconfianças sempre que me aparecer uma mulher de vinte anos à frente. Eu consigo ver a mulher com quem quero estar. aliás.Porque se isto for um caso sem importância. As palavras que Sérgio lhe dissera tinham sido cruéis. . – Fui uma idiota! Não devia ter dito aquilo que disse.Não é nada disso. E daí? Será que a idade importa assim tanto? Será que não consegues ver mais nada em mim para além do meu bilhete de identidade? Porque eu consigo ver muitas coisas em ti para além disso.Namorada?! .

ouvir os teus problemas. baixinho. Quero participar na tua vida. .Acreditas agora em mim? .Pois nós estamos a namorar – informou Sérgio trazendo-a contra si.ele pareceu hesitar. . Eu quero tudo isso porque … . Estava dito. – Leva-me para o quarto – pediu ela ansiando que o seu pedido fosse realizado o mais rapidamente possível. até porque diante da imensidão daquele momento. . marido se for preciso. a verdade é que Sérgio não pensou duas vezes em proferir aquelas palavras que manteve guardadas a sete chaves no seu coração. o teu pai e até o idiota do teu ex. Pronto. 57 . – Ou ainda não tinhas reparado nisso? . tudo pareciam apenas detalhes sem qualquer importância.Acredito – respondeu Madalena atirando-se para o colo de Sérgio sem se importar com mais nada à sua volta e nem com as palavras duras que trocaram minutos antes. conhecer os teus filhos.… porque eu te amo. Quero ser muito mais do que isso. e apesar de se ter odiado por ter sido o primeiro a dizêlo. Estava feito.Eu não quero ser o tal com quem só estás uma vez por semana quando arranjas algum tempo na tua agenda.. – Eu também te amo muito. – Eu também te amo – confessou ela por fim. Todas elas foram transpostas sob o olhar incrédulo de Madalena enquanto os ouvidos dela tentavam assimilar aquela declaração no mínimo surpreendente.Por acaso não – riu-se Madalena.

CAPÍTULO IV
Era a primeira vez que iria chegar atrasada à escola e tudo porque ninguém a acordou e o despertador recusou-se a tocar. Mas ainda assim, Sara saltou da cama, vestiu-se às pressas e arrumou a mochila enquanto o relógio da mesinha de cabeceira assinalava dez para as oito. Depois disso, seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à cozinha e o desespero de encontrar o pai para que ele a levasse à escola. – Quem és tu? – perguntou Sara surpreendendo-se com a figura de uma mulher perto do fogão. - Hã… deves ser a filha do Jorge, não?! - O meu pai? - Ele está a tomar banho – respondeu a mulher bebendo um gole de sumo. – Olá! Eu sou a Carla. - Ele vai demorar muito? – perguntou Sara ignorando-lhe o cumprimento. - Não sei! Acho que não. - Eu preciso que ele me leve à escola senão chego atrasada. - Já estou pronto, Carlinha… – interrompeu Jorge entrando pela cozinha longe de sequer imaginar que a sua filha também ali estava. – Filha?! Ainda por aqui? Pensei que já tivesses saído. - Como é que eu podia sair?! Preciso de alguém que me leve à escola e precisava também de alguém que me acordasse – respondeu Sara lançando um olhar aterrador à nova amante do pai. – Vou chegar atrasada por tua causa. - Esqueci-me. - Então?! Levas-me ou não? - Escuta querida… - pediu Jorge aproximando-se de Sara com alguma cautela. – E se o pai te pagasse um táxi para ires à escola, hã? - Um táxi!? - Sim! É que eu já tinha prometido levar a Carla a casa e olha que ela mora no outro lado do rio. Se fosses de táxi irias despachar-te muito mais depressa, garanto-te! - Tu preferes levar a… Carla a casa do que levar-me à escola? – perguntou Sara, incrédula. - Não é nada disso, querida. Não estás a compreender o que o pai está a tentar… - Deixa lá! Eu vou de autocarro. Apesar dos inúmeros chamamentos de Jorge, Sara abandonou a cozinha como a mochila às costas e com a certeza de que todas as coisas para o pai eram mais importantes do que ela. Saiu sem sequer olhar para trás e atreveu-se também a bater com a porta quando o fez. Depois disso, alcançou o elevador e desceu à rua pronta a encontrar o primeiro autocarro
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que a pudesse levar ao destino pretendido: Escola. Era lá onde deveria permanecer as oito horas seguintes e aprender Inglês, Geometria e Física, conversar com as suas amigas nos intervalos e comportar-se como uma jovem de quinze anos cujo maior erro foi ter pedido à mãe para morar com o pai. Mas será que era mesmo isso que queria fazer? Ao passar de autocarro por uma Sex Shop, Sara teve dúvidas e por isso desceu na paragem seguinte. Mais tarde, caminhou dez metros em sentido contrário e viu-se com os olhos postos na montra da loja enquanto tentava decifrar o que eram todos aqueles objectos e também para que serviam. Ali, completamente alheia ao movimento das pessoas, ela deixou-se ficar e só se afastou quando um dos funcionários da loja saiu à rua para fumar um cigarro. – Isto não é para a tua idade, menina – disse-lhe ele. – Não devias estar na escola? Sara assustou-se quando ouviu a pergunta e tentou igualmente passar despercebida no meio da multidão enquanto os olhos do funcionário continuaram a segui-la pela avenida a fora. Adolescentes, murmurou ele abanando a cabeça. Faltavam apenas alguns minutos para as onze quando Madalena atendeu o seu terceiro cliente do dia. Este, que tal como todos os homens à face da terra, não percebia nada de flores, ficou-lhe extremamente grato pela indicação de um ramo de camélias japonesas acabadinhas de chegar. Só então ele ficou a saber que essas eram as flores ideais para pedir perdão à esposa. – Ele traiu-a e ela descobriu – disse Alice assim que o cliente abandonou a loja. - Não faças juízos sem saberes a verdade – respondeu Madalena. - Lena, um homem que chega aqui a dizer que precisa de umas flores para a mulher que simbolizem arrependimento, isso só significa uma coisa. Traição! E traição da grossa. - De qualquer maneira, não nos compete a nós julgar! Cada um sabe de si. - Dizes isso porque agora és só sorrisinhos, paz e amor – riu-se Alice, animada. - Como assim?! - Desde que começaste a andar com o tal fotógrafo que já não falas mal dos homens, tratas todos os clientes a pão-de-ló e passas a vida a suspirar pelos cantos, isto para não falar das vezes que olhas para o telemóvel à espera que ele toque. - É assim tão evidente? - Define-me evidente – riram-se as duas amigas. - Tu nem acreditas, Alice… - Só acredito se me contares. - Ontem estive com ele – discursou Madalena deitando no caixote de lixo as fitas que utilizara para fazer o embrulho das camélias japonesas. – Fui conhecer-lhe a casa. - Uau! Mas isto já vai assim? - E tu nem sabes o que ele me disse. - O quê? - Que me amava – revelou Madalena deixando-se contagiar pelas gargalhadas da melhor amiga. – O que foi? Não acreditas? - Acredito. Claro que acredito – respondeu Alice levando a mão ao queixo. – E tu? O que é que lhe disseste? - Oras! Disse que também o amava. - Gostava de ser uma mosquinha para ter visto a cena.
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- Achas que fiz bem!? Quer dizer, eu gosto dele e pelos vistos ele também gosta de mim, mas será que não foi demasiado rápido? - Não foi ele o primeiro a dizer que te amava? - Foi. - Então?! Não tens responsabilidade nenhuma. Se acontecer alguma coisa, ele disse primeiro e tu só respondeste por educação – respondeu Alice arrancando uma ruidosa gargalhada a Madalena. Naquela tarde, Sara faltou a todas as aulas sem qualquer justificação, e depois de ter passado o dia inteiro a passear pelas ruas da cidade, regressou a casa, trancou-se no quarto e visionou os restantes filmes pornográficos que o pai fazia sempre questão de esconder na sua mesinha de cabeceira. Foi também a primeira vez, enquanto os via, que ela atreveu a acariciar-se por debaixo das cuecas e a experimentar um prazer que nunca pensou sentir nos seus tenros quinze anos. E se experimentasse ter relações sexuais a sério, passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Com um rapaz da sua escola? Ou até mesmo com qualquer um que estivesse disposto a ajudá-la a superar a curiosidade que se havia apossado de si desde que descobriu a pornografia e os prazeres que ela trazia consigo? Subitamente, algo que deveria ser apenas um divertimento para passar a tarde, transformou-se num vício demasiado perigoso que a perseguia para onde quer que fosse. Na casa de banho, na cama e até nas escadas de serviço do prédio do pai, todos esses lugares serviram para que Sara se masturbasse e tentasse remover todo o stress de cima dos seus ombros. Não estaria ela a levar aquilo demasiado a sério? Não estaria a ficar viciada em sexo e pornografia? - Ficas bem cá em casa? – perguntou Jorge chegando à sala após duas horas a tentar escolher a roupa perfeita, o penteado perfeito e o perfume perfeito para a uma noite que prometia também ser perfeita. - Fico – respondeu Sara fingindo estar mais interessada a ler a revista que tinha nas mãos. - Prometo que não me vou demorar muito. - Com quem é que vais jantar desta vez? Com a Vanessa? A Carla ou a Antónia? - Vou fingir é que não ouvi o que acabaste de dizer – respondeu Jorge vestindo o casaco às pressas. – Então? Como é que estou? - Bem. - Qualquer coisa e liga-me para o telemóvel! Vou mantê-lo sempre ligado pela via das dúvidas. Mas não te esqueças também de telefonar à tua mãe – discursou Jorge alcançando as chaves do carro sobre a mesinha. – Não quero que ela pense que sou eu quem te está a impedir de lhe ligar. - Se me lembrar, eu ligo. - Vai! Porta-te bem. - Tu também. - O pai porta-se sempre bem – respondeu ele piscando o olho e deixando a filha completamente sozinha em casa. A vontade de Sara de sair foi imperiosa, assim como a de conhecer um lugar onde já havia passado várias vezes durante o dia. O Intendente. Uma pequena localidade no centro de Lisboa conhecida pela sua antiguidade, mas também pela sua má fama, pois era ali onde se reuniam a maioria das prostitutas, drogados e imigrantes ilegais numa estreita colaboração com o crime e a má vida. E sim. Ao ver-se à saída do metro, Sara sentiu que tinha cometido
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mas desaparece daqui enquanto é tempo.Estava a ir para casa.Eu não devia estar-te a dizer isto. . .Se têm muitos clientes ou não.É bom que ela se assuste mesmo – respondeu a última sem desviar os olhos de Sara.Pastilhas também servem – afirmou a mais velha permitindo que Sara se aproximasse lentamente da porta onde estavam encostadas.Milene. Até porque este é um lugar para putas ou ainda não tinhas percebido isso? .Vocês costumam ter muitos clientes por aqui? Quer dizer. – Escuta! O que é que andas a fazer por estas bandas? Não és daqui! . . sujas e com intenso cheiro a urina e outros dejectos humanos. .Além de corajosa é curiosa também… – riram elas sob o olhar atento daquela jovem que aparentava ter toda a segurança e experiência do mundo. Trazia consigo uma mini-saia vermelha. e ao voltar-se para trás.Não! Só ofereci porque não tenho cigarros. . permaneciam duas mulheres um pouco mais novas intoxicadas de perfumes e outras roupas provocantes. querida? Achas que só estamos aqui encostadas por desporto?! É claro que somos putas. .Corajosa! .Eu não me assustei. .Por acaso estás a insinuar que temos mau hálito? – interferiu uma das prostitutas lançando-lhe um olhar desafiador. uma mulher de meia-idade atreveu-se a chamá-la. diz lá! . Depende dos excelentíssimos clientes que apanhamos. 61 . apenas conseguiram embrulhar-lhe o estômago e fazê-la perguntar-se que raios estava a fazer quando a sua única vontade era fugir e fingir que nunca ali estivera. . Mas como podia ela ter se não deveria ter mais do que dezasseis anos e também muita lata para meter conversa com três prostitutas em pleno horário de serviço. Isto não é lugar para miúdas como tu. – Tens cigarros? – perguntou ela encostando-se a uma porta de madeira degradada.Vocês são … . enquanto lutava contra a sua indecisão. Contudo. Querem? . As ruas algo desertas. . há dias que rende menos.Não – respondeu Sara hesitando alguns segundos a responder. meias de renda pretas e um top decotado que deixava transparecer o soutien em tons de cor de rosa choque. – O que é que achas. Sara pôde ter essa certeza. aparecem muitos homens a querer ter sexo com vocês? .uma loucura quando resolveu lá colocar os pés. – O que é que queres saber.…mas tenho pastilhas de menta. . – Há dias que rende mais. Depois disso.Depende – respondeu Milene levantando o braço para cumprimentar um velho conhecido da zona. não assustes a coitada da miúda.Só estava a passar – respondeu Sara à cautela. . enquanto ao seu lado. Era mais um dos inúmeros drogados a passar no outro lado da rua. as mãos foram estendidas e as pastilhas entregues àquela que parecia ser a líder do grupo.Putas?! – indagou com uma gargalhada a que parecia ser mais nova.Porquê?! .

.E vocês cobram para irem para a cama com eles? – perguntou Sara tentando ignorar as risadas que ecoaram por toda a rua. – Só estava curiosa.Queres trabalhar para mim? . pensou.Já se está a gabar só porque é a que cobra mais caro – resmungou Arlete enfiando uma pastilha elástica na boca. . a escola e esquece isto! Esquece isto porque isto é uma merda… As palavras de Milene permaneceram-lhe nos ouvidos durante largos minutos.Não – ela voltou a responder. mas excelentíssimos!? Essa é nova cá no bairro. Chamava-se Arlete. . . Minutos depois. Era um lugar sujo. – Queres coca? . triste e guardava na fachada dos prédios toda a decadência humana de pessoas que tinham perdido totalmente a vontade de viver. – Lá porque estamos para aqui a rir e a contar piadas.Então não tens pedalada para isto! Vai lá. .Por nada – respondeu a jovem compondo os cabelos.Queres boleia? A voz grossa vinda do interior de um carro parado a poucos metros do passeio foi o impulso que Sara precisou para se voltar para trás e encarar o rosto daquele homem de 62 . – Para quê que querias saber quantos clientes tínhamos por dia e quanto lhes cobrávamos? . Sim.Não me digas que estás a pensar em juntar-te aqui ao clube VIP!? . minhas amigas… . . sempre tinha algum conforto e segurança. – Já ouvi chamarem-lhes muitas coisas. nome inscrito no colar que trazia no pescoço.Excelentíssimos… – riu-se a prostituta mais velha. . . – Eu sou a estrela do bairro. e enquanto se afastava dela e lhe observava os últimos traços físicos. apesar de não se sentir muito bem-vinda. Elas estavam certas ao dizer que aquele não era lugar para si e nem para ninguém. Sara deu-se por vencida e abandonou aquela rua semi-deserta completamente coberta pelo casaco que fez questão de levar consigo. Salva e pronta a regressar para uma casa. as luzes da avenida ofuscaram-lhe os olhos e trouxeram igualmente o ar que há muito ela havia deixado de respirar enquanto esteve metida naquele bairro tão degradado. Quem quiser tem que pagar e tem que pagar bem porque não ando aí a fazer favores a ninguém.Eu tenho que ir – interferiu Sara ao perceber que já estava ali a mais.Estás a gozar não!? – respondeu Milene levando a mão à cintura.Nem tudo o que reluz é ouro – concluiu Milene evidenciando no rosto os anos de uma das profissões mais ingratas do mundo. rapariga! Vai para casa porque este não é o lugar mais indicado para ti. . onde. não penses que somos felizes por termos cinco homens por noite e pouco mais de quinhentos euros de manhã.Não! Eu não seria capaz de cobrar para ir para a cama com alguém. Aproveita a tua juventude. Estava salva.E não é verdade?! Olhem bem para mim – disse Milene girando sobre os pés e mostrando todos os atributos que Deus lhe ofereceu ao longo dos seus vinte e seis anos de vida. – Achas que vou abrir as pernas de graça para qualquer um que me apareça à frente? Eu sou puta.. não a Madre Teresa de Calcutá.Não – respondeu ela desviando-se de um dos inúmeros traficantes.Espera – chamou Arlete. .

– Não. . facto que fez questão de salientar durante a condução pelas ruas da cidade. . Paulo Figueira tinha quarenta e cinco anos. 63 . Sim. bastante educado. – Diz-me! Para onde queres que te leve? . já deu para reparar. Mas os olhares esguios. – Meu nome é Paulo – ele disse.Assim que puder eu ligo – respondeu Sara encontrando no cartão a deixa perfeita para abandonar o carro de Paulo e atravessar a rua em direcção ao prédio onde morava. era professor universitário.Parque das Nações. rasgou-lhe um olhar assustado e correspondeu-lhe ao sorriso. .Posso saber o que fazes sozinha a essas horas da noite? . a portaria abriu-se ruidosamente. . Sara. mas talvez tenha sido esse facto que mais a fascinou naquele senhor de meia-idade que em muito lhe fazia lembrar o seu professor de Química. o virar do rosto e a sensação de que não estaria a fazer nada de mal se aceitasse uma boleia de um perfeito desconhecido. divorciado e pai de duas filhas com a mesma idade de Sara. e as mãos que fez questão de manter sempre apoiadas sobre o colo. . essa foi a questão que durante vários minutos rondou a cabeça de Sara enquanto ela se tentava decidir e tentava igualmente fugir à forte ventania produzida pela noite.Nesta zona?! .Olá! Sara. – Estás entregue. ela voltou-se para trás e correspondeu ao aceno do professor com a clara certeza que estaria para muito breve um novo encontro dos dois.Obrigada.Porquê?! O que é que tem? . cordial e seguro do que dizia. . . Nessa altura.Está bem.Nada – respondeu Paulo enfiando a chave na ignição do carro.E onde é que moras? .Posso voltar a vê-lo – saltou essa pergunta dos lábios de Sara enquanto se desfazia do cinto de segurança. . Mas enquanto o ouvia falar sobre assuntos perfeitamente triviais para duas pessoas que mal se conheciam e que tinham uma diferença abismal de idades.Vim visitar uma amiga – mentiu ela. .Para casa. No fundo. Porque é que não entras? Entrar ou não entrar. ele era velho demais para si. obrigada – respondeu ela.meia-idade.Estás com frio. . devidamente instalada no banco da frente.Muito prazer.Podes ligar quando quiseres. Sara sentiu um calor percorrer-lhe as pernas. fizeram com que ela retirasse uma das mãos do bolso e alcançasse a porta do carro sem pensar nas consequências daquele acto no mínimo irreflectido. De facto. Mais tarde. – Toma! Tens aqui o meu número de telefone e também da universidade onde dou aulas.Claro – respondeu ele apressando-se a encontrar um cartão no porta-luvas. começaram a suar desalmadamente. . . barba aparada e um sorriso desenhado nos lábios. até parecia ser boa pessoa.

– A surpresa é claro.Eu também morri de saudades tuas – respondeu Sérgio beijando-a no interior do carro.Adorei – respondeu ela voltando a sugar-lhe os lábios. . – Daniel. o que foi óptimo porque assim não tive que dar muitas desculpas para sair de casa – riram-se. .Pensei que não nos fossemos ver hoje. . – Mas a Sara não sei. não sei. vou pôr o lixo lá fora – exclamou ela passando pelo corredor como um foguete. 64 . Liberdade foi o que Madalena sentiu quando alcançou os portões do jardim e caminhou apressada em direcção ao contentor de lixo mais próximo. deitou nele um saco minúsculo e correu em direcção ao carro da única pessoa que a poderia levar à rua àquela hora. juro que te apresento aos meus filhos e vamos ficar os quatro sentados no sofá a ver televisão.Eu não quero me esconder. . .Vou pôr o lixo lá fora. Mas nem o frio arrepiante que se fazia sentir lá fora conseguiu demovê-la da ideia de aceitar o convite do fotógrafo quando soube que ele se encontrava a poucos metros da sua casa.O Daniel está bem! Estava agarrado à Playstation dele. .O telefonema de Sérgio tomou Madalena de assalto enquanto ela terminava de arrumar a cozinha e retirava do congelador a carne que iria assar no dia seguinte. – Ouviste? .E quando é que vamos deixar de nos encontrar às escondidas dentro do meu carro? . Mais tarde. . – Não vim aqui para te deixar triste.Está bem – respondeu ele mostrando-se muito pouco interessado naquela tarefa tão rotineira. Há pelo menos quatro dias que não sei nada dela. muito pelo contrário. – Lembras-te daquilo que te disse no outro dia? Que não quero ser o tal que só vês quando tens algum tempo na tua agenda? .Hã…!? .Os teus filhos? Como é que estão? .Então?! O que é que te está a impedir de me deixares entrar na tua vida? Madalena optou pelo silêncio como forma de resposta. .Tens a certeza?! Se não tivéssemos nada a esconder. – Dá-me só mais algum tempo … – pediu ela. mas depois voltou a reerguer o rosto em direcção a Sérgio. e como ele morava aqui ao pé.Eu sei! Mas bem.É que eu tive que deixar uns rolos na casa de um amigo.Tu nunca me deixas triste.É – respondeu Madalena não muito convicta disso. Depois disso. .Sérgio… .Nós não nos estamos a encontrar às escondidas. . Lena – afirmou ele acariciando-lhe a face enquanto os seus olhos mergulhavam nos dela. . – Mas eu queria que ela estivesse aqui comigo. – Que saudades – confessou ela conseguindo finalmente enterrar-se nos braços dele. .Deve estar bem com o pai. eu teria tocado à tua porta. . tu tinhasme deixado entrar para conhecer o teu filho e estaríamos agora os três sentados no sofá a ver televisão ou a jogar Playstation. – Pelo menos até a minha filha voltar para casa e as coisas regressarem à normalidade. resolvi fazer-te uma surpresa. .E nem eu quero que sejas esse tal. mas esquece esse assunto – pediu Sérgio voltando a encontrar-lhe os lábios. enfiado no carro e à sua espera.

Não.Está bem – concordou Sara deixando-se encantar pelo sorriso que Paulo lhe lançou. como passear pelas ruas da cidade sem se importar com as choras de chegar a casa. resolveu fazer algo há que muito se tinha predisposto. imediatamente após se ter masturbado pela terceira vez consecutiva naquela tarde. . Ao sabor de um delicioso sumo de pêra.Gosto – respondeu ela. – Eu também cheguei quase agora.Por mim tudo bem – disse ela tentando acalmar a voz trémula.Não – respondeu Sara esboçando um sorriso quando Paulo se sentou à sua frente. apesar das inúmeras tentativas que Madalena efectuou para trazer a filha de volta a casa. o professor universitário que lhe ofereceu um boleia dois dias antes. que nada tinham em comum para além de serem dois seres humanos.…eu não bebo café – confessou ela tentando acalmar as mãos nervosas ao colocá-las por debaixo da mesa. Trazia também um à vontade e um carisma difícil de explicar aos olhos de uma adolescente de quinze anos cujo maior desejo era continuar a ouvi-lo e perceber o que é que ele tinha de tão especial para a fascinar.Então vou pedir dois cafés para nós. .Iria adorar. . Dez minutos mais tarde essa companhia chegou trajada com um elegante fato. e tudo porque encontrava sempre coisas mais interessantes para fazer. . . os mesmos cabelos grisalhos e a barba aparada.Então se quiseres posso emprestar-te alguns livros que tenho lá em casa. e uma brisa de final de Verão que em tudo embalou os pensamentos dela enquanto esperava impacientemente pela sua companhia.Marcamos um outro encontro e eu trago-tos! . – Podemos combinar um café para amanhã ao final da tarde – foi a resposta que obteve no outro lado da linha.Então peço um sumo. Telefonar. Sara recusou-se terminantemente a voltar dizendo que se encontrava bastante feliz a viver com o pai. – Gostas de ler? – perguntou Paulo no meio da conversa. . – Aonde?! A faculdade de Paulo ficava no Alto da Ajuda e foi por isso que Sara concordou encontrarse com ele numa pequena esplanada perto de Algés. os dois personagens.Havia pelo menos uma semana que Sara não colocava os pés na escola. . . Mas a verdade é que o verdadeiro motivo da sua recusa prendia-se única e exclusivamente com Paulo Figueira. comer ou não as refeições e continuar a assistir a filmes pornográficos quase todos tirados da Internet. onde reinava a boa disposição dos clientes.Já pediste alguma coisa? . conversaram durante largas horas e esqueceram-se de tudo o resto que os rodeava. dormir até quando quisesse. aquele era o seu pequeno vício. Numa dessas vezes em que pensou nele. De facto. .Pode. Telefonar a um homem que tinha idade para ser seu pai e tentar marcar um encontro com ele. Na semana seguinte. na sua maioria turistas. conciso e bastante sedutor. uma coisa que adorava fazer quase todas as horas do dia e do qual não parava de pensar especialmente quando se lembrava de Paulo Figueira. o professor universitário que 65 . . Pode ser? . – Olá! Espero não me ter demorado muito – disse ele. Paulo era um excelente conversador e demonstrava toda a sua inteligência através de um discurso claro.

Da minha idade? A resposta foi dada com um aceno positivo. Ela tremia.Eu não me interesso por rapazes da minha idade.Quão mais velhos!? .Gostas de homens mais velhos? . o prazer da leitura e a certeza de que as horas tinham deixado de passar para os dois. – Não repares na desarrumação! O meu pai é mesmo assim. os telefonemas quase diários e troca de algumas confidências apenas fizeram Sara sonhar com um possível relacionamento entre os dois. Sonhou também fazer amor com ele embora tivesse a plena consciência que a diferença de idades que os separavam iam muito além de uma mera faixa etária. Completamente despida. .Mais ou menos. E não. seguiu-se um olhar absolutamente esmagador que só culminou com um novo beijo e a loucura de Sara em permitir que um homem de quarenta e cinco anos a tocasse como nenhum outro homem a havia tocado até então.Claro – riram-se os dois enquanto chegavam à sala. .Pois devias! És uma rapariga muito bonita. Depois disso. O hálito de Paulo sabia a menta e as mãos não tardaram a percorrer as costas de Sara num movimento lento e contínuo em direcção às pernas. ela entregou-lhe a única coisa 66 .…não te achas bonita? – foi a surpresa de Paulo quando Sara lhe falou sobre as suas inseguranças relativamente à sua aparência física. ele pôde perceber isso quando a deitou sobre o sofá e lhe afagou os cabelos lisos. e a outra verdade é que os seus intuitos saíram na perfeição quando Paulo elogiou o sabor e a temperatura. . . – Bem.Não?! . Talvez fossem todas essas coisas.Não – respondeu ela arrepiando-se quando ele lhe tocou suavemente na mão.Não – respondeu Sara voltando a sentir o mesmo arrepio quando Paulo lhe encontrou os dedos e entrelaçou a mão neles. . mas a verdade é que se voltasse para a casa da mãe jamais teria a chance de voltar a encontrar-se com Paulo e muito menos de levá-lo ao apartamento vazio do pai. .Não sei.Tenho sumo. . café ou chá. queres beber alguma coisa? . Depois disso. De resto.O que tiveres para me oferecer. . . – Entra – disse ela deixando que ele invadisse o corredor. . . Provavelmente ninguém compreenderia as razões que a faziam suspirar por um homem de quarenta e cinco anos quando deveria interessar-se somente por rapazes da sua idade.Aceitava um chá. O chá foi servido em poucos minutos num pequeno tabuleiro e em duas chávenas de porcelana que Sara fez questão de escolher nos armários da cozinha.conheceu por um mero acaso. mas que agora não se imaginava a viver sem ele. Na verdade ninguém diria que àquela tinha sido a primeira vez que se atrevera a fazer um chá. – Fico contente por saber isso – disse ele. seguiu-se uma conversa interessante sobre novos escritores contemporâneos. . Mas a verdade é que o fez. Aposto que todos os rapazes lá da tua escola devem correr atrás de ti. Seria apenas uma fixação? Uma cisma? Um desejo? Talvez.Então eu vou fazer – respondeu Sara abandonando a sala sob o olhar atento de Paulo.Não te preocupes! Já vi coisas piores. Não te esqueças que também moro sozinho. .

. mais mentecapto e mais irresponsável do que eu pensava. . . . Mas vendo bem.preciosa que há muito sonhava entregar a alguém.O que eu estou a dizer Jorge. eu não quero voltar para casa! Eu quero ficar aqui. inteiramente tua – vociferou Madalena apontando-lhe o dedo.Pai. . Diz que precisa falar connosco. mas não custa nada ouvir o que a tua mãe tem para dizer.Vieste cedo – disse Jorge deparando-se com a figura de Madalena especada sobre o patamar de entrada. a tua mãe ligou-me hoje lá para o escritório. Era também sua por permitir a loucura da filha em ir morar com o pai. – Queres o quê? Que toda a gente oiça as tuas histerias? . O que é que aconteceu contigo quando nasceste. .Sabes o que é isto!? . Madalena percebeu que já não lhe restava outra alternativa a não ser arrancar a filha das garras do pai. e de uma conversa com directora de turma. ausente e sem as mínimas condições morais para tomar conta dos filhos. – Tem calma! Não venhas ofender-me aqui dentro da minha própria casa. . hã? Será que a tua mãe te atirou contra a parede? .O quê? . marido.Não. A sua virgindade.Meu Deus – exclamou Madalena soltando uma gargalhada seca a fim de acalmar os nervos que se apossaram de si.E nem devias! Olha. . não é?! Além de que parecia irritada. É um facto! Uma realidade! A Sara está quase a chumbar por faltas e tu estás pouco te importando com isso. Após a leitura de uma carta escolar que dava conta das sucessivas faltas de Sara às aulas. .Eu sei. a culpa não era só dele. . Jorge sempre fora um pai irresponsável. – Ou devo dizer antes.Ainda não o li.Aonde é que está a Sara? 67 . da tua companheira de quarto? .Tem calma! Olha os vizinhos aí do lado – disse ele puxando-a para o interior do seu apartamento.Eu nem sequer sabia que ela andava a faltar às aulas.O que é que estás para aí a dizer? .Hei – imperou Jorge não gostando nem um pouco da ironia. é que a Sara está prestes a ultrapassar o limite de faltas injustificadas do primeiro período e a culpa é tua. – Tu és ainda mais demente. .Uma carta da escola da tua filha… – respondeu Madalena atirando-lhe o envelope ao peito. Onze Minutos era o nome da obra. – De quem é este livro? – perguntou-lhe o pai quando descobriu um exemplar do escritor Paulo Coelho sobre a mesa da sala. sabias!? .Este livro não é para a vossa idade. especialmente de Sara.Porquê? Não a tens levado à escola? .Hã… foi uma amiga que mo emprestou – respondeu Sara apressando-se a arrancar o livro das mãos do pai.Não são histerias. eu… . foi o que Madalena decidiu durante a sua condução pelas ruas da cidade. Aquela seria a última vez que iria pisar a casa do ex.

oito a Química e cinco a Geometria que ela conseguiu arrecadar em apenas dois meses. .Não existe nada para falar – imperou Madalena gesticulando furiosamente os braços. .Eu só quero que me apoies uma vez na vida e não fujas com o rabo à seringa apenas para não ser o mau da fita. .Fui passear. ou pelo menos também tu devias estar se te preocupasses minimamente com a tua filha. já disse – respondeu ele abrindo os braços. ou não?! Para te dar a ti e ao Daniel um futuro melhor e tu estás a desperdiçar tudo isso.disse Sara surpreendendo-se com a presença da mãe ali. – Aonde é que te meteste? . – A tua mãe tem razão! Não é certo andares a faltar às aulas porque essa é a tua única obrigação para connosco. Durante horas permaneceram sentados em diferentes sofás sem trocar uma palavra.Sara – interrompeu Jorge.Começa já explicar – exclamou Madalena levantando-se do sofá.O meu maior erro foi ter deixado a Sara vir morar contigo e está-me a cheirar que ainda me vou arrepender muito mais desse erro daqui para a frente. . nós falamos com ela. – Olá… . A fechadura sofreu uma ligeira pressão quando faltavam poucos minutos para as dezoito horas.Sara. deixaste ela sair de casa sozinha? . Se te damos tudo.. a tua mãe está chateada contigo e tem boas razões para isso. tu não brinques comigo! .O que se passa é que a tua directora de turma me ligou lá para casa a dizer que estás em perigo de chumbar o ano – respondeu a mãe atirando-lhe a carta para as mãos. A expressão de Sara não se alterou nem um pouco quando leu as informações expostas naquela carta e talvez tenha sido esse facto que mais tenha irritado Madalena.Vamos esperar ela voltar da rua! Quando ela vier.Pronto! Vai começar… . – Nós estamos chateados com ela.Saiu para onde? .Eu não tenho nada para dizer.Não digas que eu estou chateada com ela – interrompeu Madalena voltando-se para o ex.Sara.À Baixa – mentiu Sara despindo o seu casaco de ganga.Aonde? . – Lê! Lê e vê qual foi o resultado das tuas brincadeiras. – A Sara vai voltar comigo e ponto final! Aqui ela não fica nem mais um dia. É para isso que eu e a tua mãe andamos a trabalhar. marido. doze a Matemática.E tu acreditaste?! Ou melhor.Não sei. . mas já nessa altura. 68 . – Não vais dizer nada em tua defesa? . . o mínimo que deves fazer é ir à escola e tirar boas notas. .Querias o quê? Que lhe prendesse o pé à mesa da sala? .Não sei. nem Madalena e nem Jorge tiveram forças para esboçar qualquer movimento corporal. ela saiu. – Saiu de manhã para fazer umas compras. . . – Já tinha dito ao pai! Lembraste pai?! .O que é que se passa? – perguntou Sara interrompendo a discussão dos pais. um olhar e desejando apenas que a chegada da filha lhes trouxesse respostas paras as dezoito faltas a Português. . .

é isso?! . não vês?! . Sara! Com ela vais ficar melhor.Desculpem lá – repetiu Madalena num tom sarcástico.Eu acho que a tua mãe tem razão – afirmou Jorge para grande desespero da filha que sem outro remédio viu-se obrigada a afastar-se dele e a deixar duas enormes lágrimas caíremlhe dos olhos. não é?! Só queres trazer as tuas namoradas cá para casa e não ter ninguém que te atrapalhe… . – Não deixes que ela me leve daqui! Não deixes! Será que não vês que ela está a fazer isso de propósito para nos separar? Ela não gosta de ti e também não quer que eu goste de ti. Eu adoro ter-te cá em casa.O.É claro que não. se tu me deixares ir com a mãe.Eu só vim chamar-te à razão! Dizer que está errado aquilo que fizeste e que não estás autorizada a repeti-lo! Foi para isso que eu vim. – Tu não gostas de mim.Nunca mais voltes a dizer uma barbaridade dessas. – Não bastava teres ligado? Mas não.Já disse que… . .Sara… . – Eu não tenho … como é que hei-de dizer…! Eu não tenho condições para te ter cá em casa.Tu queres que eu me vá embora. – Tu vais voltar lá para casa e ponto final. . eu nunca mais falo contigo. .Queres sim – gritou Sara.Sinceramente não sei o que é que vieste cá fazer – disse a jovem desviando-se bruscamente de Madalena. – Tu achas que é só pedires desculpas e está tudo resolvido? . pai?! Nunca mais falo contigo! .E o que é que queres que eu faça?! Que me ajoelhe aos teus pés e te peça perdão? . – Ouviste.Eu não vou.Pai. Trabalho até tarde. .Pai… . . . esbaforida.Pai – suplicou Sara alcançando os braços do progenitor a fim de encontrar um aliado contra a mãe. . . tenho sempre encontros com clientes de última hora e até já cheguei a desmarcar várias viagens de trabalho apenas para não te deixar sozinha. . . já disse para não brincares comigo! .…é melhor ires com a tua mãe. É tudo um plano. 69 .Isso mesmo que ouviste e nem adianta espernear porque eu já conversei com o teu pai e juntos chegámos a um acordo – respondeu Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou.Sara… .O quê – foi a reacção intempestiva de Sara..Queres que me vá embora.k – respondeu ela largando os braços. filha. Mas tu só queres saber de ti. mulher.Já pedi desculpas. . mas o problema é que não tenho tempo para cuidar de ti como a tua mãe tem.Sara. .Se gostasses não me deixavas ir com a mãe quando sabes muito bem que nós nunca nos demos bem e que eu a odeio de morte. . não fales assim com a tua mãe – interferiu Jorge saindo em defesa da ex. não é! Tinhas que aparecer para dar o teu show de mãe dedicada e extremosa. – Desculpem lá! .Vai arrumar as tuas coisas ao quarto! Voltas hoje comigo para casa. Silêncio foi a resposta de Jorge.Sara.

. Sara tentou encontrar várias soluções para o grande sarilho em que estava metida. no mais profundo silêncio. no meu tempo era assim que se educavam as crianças. Sara aproximou-se do carro da mãe. repetiu várias vezes a si própria enquanto tentava convencer-se que tudo aquilo não passava de um pesadelo. foi a resposta que obteve após oito tentativas consecutivas. foi o próprio que se encarregou de tal tarefa.As palavras do pai soaram-lhe como uma bomba aos ouvidos e por vários segundos foi inevitável para Sara não derramar as últimas lágrimas que lhe restavam de uma relação que pensava ser perfeita. Mas a verdade é que nada disso pareceu ter qualquer fundamento quando Sara se atreveu a digitar-lhe o número de telemóvel. O número já não existe. Não. – Nós vamos bem sozinhas. . – Vai arrumar as tuas coisas ao quarto – disse Madalena interrompendo os olhares de ódio que a filha lançou ao pai e deixando-a sair da sala completamente esbaforida. deixando a ex. Talvez fosse ele a ajuda que tanto necessitava e o anjo da guarda que desde o primeiro momento pareceu ser na sua vida.Ela odeia-me – murmurou Jorge. foram as palavras de Afonso Soares quando a porta se abriu. Não. por ter conseguido encontrar outra solução. . Meia hora mais tarde. Depois disso.Claro! E tu? – perguntou Afonso voltando-se para a neta.Não – respondeu Madalena. mas que a tinha traído no momento em que mais precisava dela. Enquanto passeava pelo quarto. – Não querem que vos leve? – perguntou ele.Bem-vindo ao clube – respondeu Madalena largando os braços. Sim. Não depois de ter prometido que a levaria a morar consigo caso a relação dos dois resultasse ou de ter jurado enfrentar os seus pais apenas para ficar com ela. Ele vai-me ajudar. alcançou o corrimão das escadas e subiu em direcção ao quarto onde foi audível o estrondo violento de uma porta a fechar. . Vou ligar ao Paulo. Não posso voltar para a casa. De resto.Precisas impor-lhe disciplina! Pelo menos. Até que enfim chegaram. Sara. Claro.Sinceramente não sei o que fazer com ela – suspirou Madalena levando as mãos à cabeça. veio um sabor amargo a derrota e a engano que a levou às lágrimas. e a sua neta. era tudo o que pensava enquanto roía as unhas e tentava encontrar uma maneira miraculosa de se livrar das garras da mãe. . e por ela entraram a sua filha. . fez-se luz.Achas que sou uma péssima mãe. Madalena. mulher livre para enfiar a mochila da filha no banco de trás. – Está cada vez pior e estes dias na casa do pai só a pioraram ainda mais. – Pai! Ajudas-me a trazer as malas que estão no carro? – pediu Madalena. – Achas bem aquilo que fizeste? Achas bem andar a faltar às aulas? . Não depois de tudo aquilo. Mais tarde. O número que marcou não está atribuído. .Não me chateies – respondeu Sara para grande surpresa do avô. . não após de tantas juras amor que lhe segredou aos ouvidos ou depois de lhe ter entregado a sua virgindade. enquanto no porta-bagagem foram-lhe colocadas as três malas que tinha levado para morar com pai. não é!? 70 . O número já não existe. Traiu-a diante da sua mãe e por isso ela nunca mais o iria perdoar. Jorge traiu-a. resoluta.A miúda está louca. Paulo não podia ter desaparecido sem deixar rastro.

Mas por outro lado. Por sorte. Fosse com quem fosse. ou se pelo contrário. a rolha saltou para o tecto e Madalena bateu palmas maravilhada. a temperatura arrefecendo. ele sabia. Mas de uma coisa tinha certeza. boa comida e outras coisas que ela corou só de o ouvir falar ao telefone. Sexta-feira foi o dia do aniversário do Sérgio e por isso Madalena estava excitadíssima. Precisava fazer sexo. . Depois disso. Ele adorava-a. – Entra! 71 . – …garanto-te a minha tarefa era bem menos complicada. embora Sérgio muitas vezes pedisse para que se vissem todos os dias.E tu ainda nem viste nada – respondeu Sérgio entregando-lhe a taça de champanhe após um longo beijo. Chorava. mas ainda assim não custava nada tentar ter um pouco mais de espaço na vida de Madalena quando a sua única vontade era tê-la só para si. – Tu és uma boa mãe. especialmente num homem. Por vezes. o desejo sexual experimentado com Paulo continuava a dominar-lhe a mente. O dia do seu aniversário era a ocasião ideal. de ter medo de alguém e há muito tempo que ela já não tem medo de ti. prolongar-se durante anos e anos. pelo companheirismo e pela paixão que a cada semana crescia ainda mais nos seus corações. e tudo para que ela pudesse passar um maravilhoso serão ao lado de Sérgio. provavelmente repleto de champanhe.Bem! Que recepção… . assim como a sua vontade em devorar toda a espécie de pornografia que encontrava na Internet. não sabia. ela perdia-se em justificações sem fundamento para não se sentir tão ingénua e usada. Por sorte e após muito esforço.Bem. Seria um jantar romântico no apartamento dele. E sim. Sérgio era um homem compreensivo. Madalena conseguiu convencer o seu pai a buscar os netos à escola e ficar com eles durante a noite. Com os problemas de Sara a atormentarem-lhe os pensamentos.É claro que não – respondeu Afonso segurando os ombros da filha. de facto sobrava pouco tempo para se dedicar a ele. não é isso que está em causa. . enquanto se encontrava sentada sobre o alpendre da janela do quarto. Impossível.Se ao menos aquele imprestável do Jorge servisse para alguma coisa – disse Madalena limpando as tímidas lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. Mas a Sara precisa de limites. primava pelo amor. Na verdade. mesmo tendo sido mantida em segredo. os dias tornando-se mais curtos e tristonhos e Sara percebendo que nunca mais voltaria a ter notícias de Paulo Figueira. a relação de ambos. ela adorava-o e não havia nada melhor do que terem-se um ao outro para se confortarem com palavras carinhosas repletas de amor. .. – Pontual como sempre – disse ele abrindo a porta com um largo sorriso e com uma garrafa de champanhe nas mãos. Não sabia também se essa vontade descontrolada de se tocar iria passar com o tempo. Estaria ela doente por passar a vida a pensar em sexo ainda que fosse na escola. vamos lá buscar as malas ao carro! As semanas foram passando. odiava-se e repetia a si própria que nunca mais voltaria a confiar em quem quer que fosse. enquanto voltava para casa no carro da mãe e especialmente à noite quando se trancava no quarto e utilizava o computador para satisfazer a sua curiosidade? De facto. o falso professor universitário que a única coisa que quis foi retirar-lhe a virgindade como se de um prémio se tratasse. Nunca forçou a sua entrada na vida de Madalena e era por isso que ela lhe era tão grata.

. eu acho que posso começar a pensar um pouco mais em mim.Está bom? . .Veremos – respondeu Madalena não resistindo a desabotoar-lhe os primeiros botões da camisa. o mundo parou e não foram precisas mais palavras para que ela entendesse tudo o que ele queria fazer naquele momento. . Tê-lo perto. . .Fico muito contente por ouvir isso – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos soltos.O quê? – perguntou Sérgio enterrando-se no pescoço dela. mas que se prolongou até o Outono e tinha esperanças de ultrapassar o Inverno.Não demores a conseguir esse sinal verde.Podes deixar – respondeu ela mergulhando-lhe nos lábios e também naquela sensação tão fantástica que era tê-lo só para si.Ultrapassar a prova de fogo que vai ser conhecer as minhas três pestinhas!? . pela conversa amena e também pelas velas que Sérgio fez questão de acender sobre a mesa enquanto Madalena se ria às gargalhadas e lhe confessava não se lembrar da última vez que degustara uma refeição às escuras.O quê? . . Mas a verdade é que naquela chuvosa noite de sexta-feira. .…em levar-te a conhecer o meu pai e os meus filhos – respondeu ela após um pequeno suspense. O jantar primou pela simplicidade. Quero que fiques e me ajudes a enfrentá-los também.O nosso jantar já está pronto! Só falta tirar do forno. 72 . que a minha filha já não anda a faltar às aulas. .Claro que não. ouviste?! . Depois disso.Está óptimo.Obrigada – disse ela saboreando o primeiro gole da bebida. Degustou não só a refeição. sentir a humidade da sua boca. ela degustou. um pouco mais em nós. combinamos um jantar ou um almoço em minha casa. divertida. .Foste tu que cozinhaste? – perguntou Madalena. – Estive a pensar… . Uma relação que tinha todos os ingredientes para ser apenas um amor de Verão. os braços fortes à volta da sua cintura e o corpo completamente colado ao seu. e depois. . Aliás. .E quando é que vou ter a honra de conhecer as tuas três pestinhas? – perguntou Sérgio colocando-lhe os cabelos atrás dos ombros.Agora que as coisas estão um pouco mais calmas lá em casa.E tu queres que eu fuja? . .Primeiro vou falar com eles.Achas que vais conseguir? .Claro ou o que é que pensas?! Nunca te falei sobre os meus dotes culinários? . Submersos.Os dotes que eu conheço são outros – respondeu ela enterrando-se nos lábios dele enquanto se deixava levar em direcção à sala. quando conseguir um sinal verde. – Veremos se não vais fugir a sete pés quando os vires enfileirados à frente do sofá.. os dois amantes deitaram-se no sofá e retiraram as respectivas roupas enquanto a música que os embalou na dança continuou a tocar durante minutos a fio. . .Aleluia – riram-se os dois. mas também os lábios de Sérgio quando dançou com ele a mesma música que ambos tinham dançado no início da sua relação.Por ti sou capaz de ultrapassar tudo.

Apareceu como um anjo caído do céu e era ele a única razão para que Madalena estivesse enfiada naquela cozinha a ultimar os preparativos do jantar. .Óptimo – murmurou Madalena com um sorriso radiante. Pensei que eles se fossem opor.Fizeram uma cara como se tivessem acabado de ser atropelados por um camião. Uma semana foi o tempo que Madalena precisou para conversar com o pai a respeito de Sérgio. Contudo. nem sabes o peso que me tiraste dos ombros.Contaste-lhes sobre nós? . 73 .Bem. . o que ele tinha para a fazer tão feliz e os motivos que a faziam querer apostar numa relação mais séria e duradoira com o fotógrafo. o que vendo bem. Acho que se atrasou a sair do estúdio e apanhou algum trânsito pelo caminho. . E Afonso. ficar contra nós ou assim… . Achas que vais poder vir na próxima quartafeira? .Está tudo certo – disse Madalena quando falou com Sérgio ao telefone no final da noite. Nada poderia dar errado para aquele que prometia ser o jantar mais importante da sua vida e também a única e derradeira oportunidade para que os filhos e o seu pai caíssem de amores por Sérgio e se deixassem encantar por ele. Se ele te faz feliz. não viu outro remédio a não ser apoiá-la. . força. O mundo dava muitas voltas. foram as palavras de encorajamento que ditou a Madalena e que a deixaram muito mais aliviada. Mas Sérgio apareceu. – Mas pelo menos não se negaram a conhecer-te. . . apesar de ter ficado um pouco surpreso com todas aquelas revelações.Ainda falta o meu – riram-se baixinho. as compras foram feitas no supermercado mais próximo e a mesa da cozinha decorada com algumas flores que Madalena trouxera da sua floricultura. E não.Que bom! . O jantar foi marcado para quarta-feira. ao contrário do que esperava.Também não estão a favor – confessou ela.E eles? – perguntou Sérgio sem conseguir esconder o nervosismo.Contei! .Prometo que vou fazer tudo para ir. especialmente por causa da Sara. .Este foi sem dúvida o melhor aniversário que já tive – confessou ele encarando-lhe o rosto após a ter possuído sem quaisquer restrições.Ele ligou-me há pouco.. explicando-lhe primeiro como se conheceram. . – O moçoilo nunca mais chega – resmungou Afonso lançando os olhos ao seu relógio de pulso enquanto a filha terminava de temperar a salada a uma velocidade fantasmagórica. a reacção de Sara não foi nem um pouco agradável e a de Daniel primou pelo embaraço de não saber se aquela era uma boa notícia ou não. pregava inúmeras partidas e reservava as maiores surpresas para uma mulher que havia perdido totalmente a esperança de amar e ser amada em proporções iguais. mas o meu pai ajudou-me a controlar os danos – respondeu Madalena ouvindo uma leve risada no outro lado da linha. Hoje não consegui parar de pensar noutra coisa a não ser na conversa com os teus filhos. já é um bom caminho para nos mantermos optimistas.Optimismo é o que não me falta – respondeu Sérgio arrancando-lhe uma leve gargalhada. .Para a semana já podemos marcar o jantar.

. A cozinha cheirava bem.Bem… acho que não me esqueci de nada! Pratos. Cheirava a pato assado.O Jorge não tem mais nada a ver com a minha vida e nem tu devias estar a falar dele já que daqui a poucos minutos vais conhecer o meu novo namorado – afirmou Madalena guardando o azeite num dos armários da cozinha. . O que será que eles iriam pensar de si? Iriam adorá-lo? Detestá-lo? Isso era uma incógnita até para os deuses lá de cima. Mais tarde. Ao vê-los. – Estás todo carregado – riu-se Madalena enquanto repartia com Sérgio o peso dos presentes.Está bem. e quando digo perfeito.Claro! O vinho – lembrou-se Madalena correndo em direcção ao frigorífico. .Obrigado – respondeu ele acedendo-lhe o pedido com alguma cautela e também com um aperto discreto na mão esquerda. por favor! . . Sérgio pôde senti-las quando abriu o portão da casa de Madalena e se preparou para lhe conhecer o pai e os filhos. um ramo de rosas. pois as mãos começaram a suar. depois de um longo suspiro e de ter composto os cabelos soltos. As suas mãos estavam trémulas. aliás.Olha lá. Conhecer os filhos e o pai de uma namorada? Não. segundo as palavras de Madalena enquanto o empurrava pela costas e o fazia ganhar forças para enfrentar a maior prova de fogo que alguma vez havia enfrentado em toda a sua vida. duas caixas de chocolate e uma garrafa de vinho comprada pelo caminho.Pai – exclamou Madalena fulminando-o com os olhos. Mais tarde. copos. . Daniel a jogar na sua playstation portátil e Afonso a espreitar o pato trinchado sobre a bancada. guardanapos… . tal como já disse. emocionalmente inexperientes e sem qualquer bagagem familiar. – Eu atendo – gritou ela apressando-se pelo corredor quando a campainha tocou. Sara encontrava-se de olhos postos na televisão. talheres. Sérgio pensou seriamente em fugir. duas janelas amplas e também por três pessoas que nem sequer se aperceberam da chegada de Sérgio e Madalena.Porque é o teu ex.Não te estás a esquecer do vinho? – interferiu Afonso encontrando um maço de cigarros no bolso das calças.Já não começa bem. o Jorge por acaso sabe que estás a namorar com outro homem? . De facto. a arroz e batatas fritas. girou a maçaneta e encontrou o seu convidado especial carregado com um sorriso. para além do calor que o forno fazia questão de lançar naquela grandiosa habitação composta por inúmeras mobílias sofisticadas. – Comporta-te. seguiu-se a caminhada em direcção à cozinha onde se encontravam os três pestinhas da família. aquilo nunca lhe tinha acontecido até porque todas as namoradas que teve durante os seus trinta e poucos anos de vida sempre foram solteiras. – Por isso. que penses ou sequer que te lembres dele! Este jantar tem que ser perfeito. .Por pouco e não comprava o supermercado todo. . está bem.Entra! . comportate! Não quero que fales do Jorge.Porque é que ele haveria de saber?! . marido e pai dos teus filhos. digo perfeito em todos os sentidos. mas a verdade é que ele estava disposto a fazer de tudo para que as pessoas mais importantes da vida de Madalena também gostassem de sim. o coração bateu mais forte e as pernas permaneceram paralisadas sobre o alpendre da porta pedindo 74 . . não quero que fales.

E ele trouxe presentes – interferiu Madalena empenhando duas caixas de chocolate e as flores trazidas pelo namorado. militar tentou acalmar o namorado da filha com perguntas leves e humoradas. Sérgio. . . acredite! Fico contente que tenha aceitado jantar connosco. ela reparou. por isso… . eu sei bem o que estavas a fazer. . . Sara e Daniel viraram-se imediatamente em direcção àquele desconhecido que agora também iria fazer parte das suas vidas. – É o meu trabalho. .É.Bem que eu gostaria de ter tido um trabalho igual ao teu quando tinha a tua idade. . pelo menos alguém que sabe avaliar as minhas qualidades – riu-se o ex.Olá – respondeu o jovem aceitando o cumprimento com alguma cautela.Obrigado! Bem.Não faz mal! Também adoro rosas. O jantar foi servido às nove horas em ponto. .Não te cansas de fotografar mulheres bonitas? . . Analisaram-nos dos pés à cabeça e por momentos fizeram-no sentir como um verdadeiro extraterrestre vindo de um planeta distante. Queria saber tudo.Lá isso é verdade – respondeu Afonso aceitando o aperto de mão por parte de Sérgio. – Pessoal – exclamou Madalena.Por acaso não – riu-se Sérgio. o meu pai é um rapazinho de dezoito anos preso num corpo de sessenta e oito. . senhor Afonso! . . – Os meus filhos! Daniel e Sara… . – Sérgio – disse Madalena apressando-se a fazer as apresentações e a terminar-lhe com aquele calvário. e na mesa sentaram-se cinco pessoas no mais completo silêncio prontas a partilhar uma refeição cozinhada por Madalena. diga-se de passagem. . Sérgio estava nervoso. profissão.Muito prazer. .E este é o meu pai… – afirmou Madalena alheia aos pensamentos da filha.Olá – respondeu ela pensando que pelo menos a sua mãe tinha bom gosto.Eu é que gostaria de ter um espírito jovem igual ao seu. . detalhes sobre a família e pequenas curiosidades como o facto de estar sempre rodeado de modelos profissionais. senhor Afonso – afirmou Sérgio largando os talheres sobre o prato. são! Confesso que queria trazer orquídeas. A idade. encabulado. mas como não consegui encontrar e depois também já estava a ficar um pouco tarde.Olá Sara. Um sonho de qualquer homem. . mas ainda assim. militar levando uma taça de vinho aos lábios.Eu é que agradeço o convite.Olá Daniel – exclamou o fotógrafo estendendo-lhe a mão quando se aproximou da mesa.É. Sérgio volta-se para eles e sorria-lhes como se 75 . não ligues! Tal como já te tinha dito. – O senhor Afonso Soares que já há muito te queria conhecer. e foi por isso que o ex.O que foi? Só estava a elogiar-lhe o trabalho.Pai – exclamou Madalena fulminando Afonso com os olhos.qualquer tipo de socorro diante daquela situação tão constrangedora. . – O vinho é para o senhor Afonso. . não quis chegar mais atrasado do que cheguei. e as flores… . mas Afonso também. A conversa entre os três adultos prolongou-se por vários minutos deixando Daniel e Sara de fora.O prazer é todo meu. . – Este é o Sérgio! As cabeças de Afonso.Os chocolates são para a Sara e para o Daniel – adiantou-se Sérgio tentando esconder o nervosismo que ainda estava a sentir. sempre que podia.São para mim – interrompeu Madalena não escondendo o seu sorriso de orelha a orelha.

Mas obrigado pelo jantar. encontrava-se exactamente à sua frente.ainda estivesse à procura de algum sinal de aprovação. O que lhe teria passado pela cabeça para fazer uma coisa daquelas? O quê? A pergunta parecia não ter qualquer resposta e nem mesmo depois de ter sido levado à rua por Madalena. sendo que quase todas elas se encontravam relacionadas com o trabalho. – Mas amanhã tenho uma sessão bem cedo e queria dormir pelo menos oito horas para… enfim… ter mais disposição para fotografar.Claro! Claro que entendo.Acidentes acontecem – interferiu Afonso sob o olhar assustado fotógrafo. Depois disso. após um pequeno período de reflexão achou melhor manter a sua opinião guardada a sete chaves não fosse ela estragar uma noite que apesar de tudo até foi especial. . bebidas. mas também de luxúria e pecado.Nem acredito que deu tudo certo – disse Madalena enterrando-se nos braços de Sérgio.O que é que achaste do meu pai? . vários calores começaram a subir-lhe pelas pernas e encontraramse nos seios e nas pontas dos dedos das mãos. Gostei muito. .E os meus filhos!? O que é que achaste deles? O Daniel parece ser um bom rapaz. mas a tua filha Sara é uma maluca de todo o tamanho.Não faz mal. – São duas crianças maravilhosas.Porque é que não haveria de dar? 76 . Desculpas atrás de desculpas foi o que Sérgio inventou para se livrar daquele malfadado jantar. ela sorriu e o fotógrafo quase que desmaiou de susto. desculpem. . Entendes. . . Um sinal que Sara estava mais do que disposta a oferecer quando os seus olhos se cruzaram com os dele pela última vez naquela mesa repleta de alimentos. Eram calores estranhos. por coincidência ou não. E enquanto bebia um gole de sumo.…estou – respondeu ele tentando ignorar os risinhos de Sara. calores que a acompanhavam desde há muito. – Vou buscar um pano para não manchar a mesa. Mas seria mesmo aquele o motivo para que se quisesse ir embora? Obviamente que não. ela lhe desapareceu do pensamento.Eu também – mentiu Sérgio. foi essa a resposta que Sérgio se sentiu tentado a oferecer à namorada. . ele arrastou a cadeira. . até porque a única coisa que ele não queria era continuar a olhar para a cara de Sara e lembrar-se da loucura que ela cometera à mesa quando o apanhou completamente desprevenido.Estás bem? – perguntou Madalena poisando-lhe a mão sobre o ombro. – Desculpa! Aliás. Eu não sei o que é que me aconteceu. . Ao encontrar-lhe o sexo. Sujei a toalha toda. e calores que a fizeram cometer uma das maiores loucuras da sua vida quando se atreveu a tirar o pé do sapato esquerdo e levá-lo em direcção as pernas de Sérgio que. nomeadamente quando descobriu o sexo e a pornografia na casa do pai. – Gostei muito deles – voltou ele a mentir. . – Agora já sei a quem puxaste. – Queria tanto que pudesses ficar mais tempo – disse ela encontrando-lhe a mão. Contudo. Está tudo bem – disse Madalena levantando-se da cadeira onde estava sentada.Um senhor fantástico – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. derrubou o resto do vinho sobre a mesa e lançou um olhar esmagador à filha da sua namorada numa tentativa desesperada de encontrar justificações para aquele acto no mínimo leviano. . não entendes!? .

mas nem por isso retirou o sorriso que ela fez questão de estampar no rosto.Não há nada para contar – foram as palavras da sua filha antes de desaparecer da cozinha.Mais ou menos – respondeu Sérgio lançando um olhar lancinante a Sara. . Os três dias que se seguiram foram vitais para que Sérgio se conseguisse convencer que o que acontecera à mesa com Sara não tinha sido mais do que um mal entendido e que não valia a pena levar em consideração as brincadeiras de uma menina de quinze anos. – Tu és uma criança. O que é que achas? A expressão embaraçada do namorado deixou Madalena apreensiva. De qualquer forma. E na verdade foram precisos apenas poucos minutos para que Madalena se conseguisse livrar da conversa ditada por Alice e entrar na habitação com um largo sorriso nos lábios.Sei lá! Fiquei com medo que acontecesse alguma coisa. Por isso. se os seus filhos e o seu pai adoraram Sérgio.suspirou ele largando as travessas sujas no lava-loiça.Claro – respondeu Sérgio deixando-se beijar por ela. ou melhor.Mesmo assim! Para mim ainda és uma criança. .Sara… . . – Depois combinamos melhor – foi a resposta do fotógrafo. Sara adiantou-se: .. – Já estão a arrumar a loiça? – perguntou ela não imaginando sequer que tudo aquilo que tinha não passava de uma mera ilusão. Mas por sorte não aconteceu e eu até acho que eles gostaram de ti. Ele amava-a.O que é que deu nela? . . podes deixar. . – Não queres fazer sexo comigo? . .E o que é que vocês me queriam contar? 77 . aceitar um convite para almoçar no domingo foi irrecusável.Então?! Não me vão contar? – riu-se Madalena. enquanto Madalena atendia uma chamada telefónica da melhor amiga no corredor da casa. . Sara aproximou-se de si na cozinha e perguntou-lhe aos ouvidos. – Eu ligo. Os seus filhos.Se não fizeres sexo comigo eu digo à minha mãe que tentaste estuprar-me – disse Sara.Eu não sou uma criança! Já tenho quinze anos e em Janeiro faço dezasseis.Temos que começar a pensar num novo jantar. o amor que sentia por Madalena era forte demais para que se deixasse levar por todas aquelas desconfianças sem sentido.Não sei – respondeu Sérgio forçando um sorriso. – Na verdade estávamos à tua espera para te dizer uma coisa… Ao perceber que o namorado da mãe estava realmente disposto a contar a verdade dos factos.Não te preocupes! Eu próprio vou contar-lhe assim que ela chegar à cozinha. mas para tê-la por inteiro teria que amar os seus filhos e fazer de tudo para se dar bem com eles. quanto a isso não havia a menor dúvida.Eu também acho que sim. Algo que realmente não deveria ter feito. a melhor amiga.Vou para o quarto. No seu rosto era visível uma felicidade extrema por ter tudo aquilo que sempre quis ter na sua vida. Se tinha dado tudo certo. . . . num almoço para o próximo fim-de-semana. chegou a essa conclusão quando no final do almoço.Ligas-me quando chegares a casa? . era o que ela mais queria. a prosperidade nos negócios da floricultura e o namorado mais lindo do mundo. então porque não promover uma maior aproximação entre eles? Na altura. . . Não devias estar a pensar nessas coisas.

Fico contente que tu e a Sara se estejam a dar tão bem. Nada de especial! ..Hã… era uma coisa engraçada que tinha passado ali na televisão. E já que Sérgio não queria ser a vítima então ela teria que arranjar outra. . mal o conseguia encarar de frente quando se cruzavam no corredor e esqueceu completamente as loucuras de ir para a cama com o namorado da mãe.É – respondeu Sérgio. 78 . a frase do fotógrafo não poderia ter sido mais acertada e tudo porque depois daquele malfadado domingo Sara nunca mais se atreveu a colocar-lhe propostas ordinárias aos ouvidos. De facto. – Mas acredito que a partir de hoje nos vamos dar ainda melhor. Mas ainda assim a palavra sexo não lhe saiu da cabeça até o Natal. Passou a respeitá-lo como futuro padrasto.

Talvez trouxesse para Sara. era ali que ela queria estar. . O que estaria à procura? O que fora fazer quando a avisou que tudo era melhor do que estar ali? Sem conseguir encontrar resposta às suas perguntas. mas ela continuava a lembrar-se perfeitamente do rosto da jovem por não ser muito comum adolescentes como ela pisarem aquele local.O quê? . tinha faltado às aulas e estava no centro de um bairro degradado quando de longe uma mulher a avistou e percebeu que aquela não era realmente a primeira vez que tinha visto Sara ali.…falar sobre trabalho. – Tu por aqui outra vez!? . não precisando ele de ser bonito. . – E tu? Lembraste daquilo que te disse? . Aquele realmente não era o lugar indicado para raparigas como Sara.CAPÍTULO V Era a segunda vez que colocava os pés naquele local. um traficante à porta de um café e duas prostitutas de serviço completamente alheias ao tempo e ao espaço.Que tipo de trabalho? 79 . . Depois disso. a mulher levou o cigarro à boca e enfiou o isqueiro na mala a tiracolo. apesar de todos os riscos. . Era meio-dia. uma jovem de dezasseis anos acabados de fazer que ainda continuava a ter sonhos eróticos todas as noites e que desejava experimentar a sensação de ter sexo com todo e qualquer homem que mostrasse minimamente interessado em nela. mas ainda assim. Na verdade. só precisava satisfazê-la e nada mais.Eu não tenho nada para conversar contigo.Que isto não era lugar para miúdas como tu. De facto. rico ou proveniente de uma raça previamente estipulada. Estou a trabalhar! . o Intendente era o local propício para encontrar alguém assim. A expressão séria que Milene fez questão de colocar no rosto não deixou sombra para dúvidas. calmamente e sem quaisquer pressas.Olá! .O que é que queres? – questionou Milene rispidamente. e era também a segunda vez que dava consigo a desviar-se de três toxicodependentes. E sim. atravessou a rua e encontrou a sua presa. – Será que podíamos conversar num outro sítio? – perguntou Sara após um longo período de meditação.É só um minuto. inteligente. Na verdade.Claro que me lembro – respondeu a prostituta levando mais uma vez o cigarro à boca. . esse cenário repetia-se todos os dias e não trazia nada de novo para as centenas de pessoas que habitavam o bairro do Intendente. Tinham-se passado várias semanas.Lembra-se de mim?! .Hã …olá – respondeu Sara abrindo um sorriso quando reconheceu a pessoa que a levara ali.

. se quisesse realmente submeter a uma profissão tão humilhante como a prostituição.Trabalhar no quê? – questionou Milene franzindo o sobre olho. Sara sentiu-se prestes a cair num abismo.Tu estás mesmo a falar a sério? .Espera aí… . – Podemos fazer um acordo. Tu. Pudor e vergonha de admitir que era viciada em sexo. . Eu quero trabalhar aqui. .E o que é que queres saber sobre o meu trabalho para além do que já sabes? Sara pareceu hesitar por alguns instantes e Milene percebeu essa hesitação quando lhe encarou o rosto sério e os olhos assustados. que nem sequer tens dezoito anos. e foi isso que Milene tentou fazer durante vários minutos. – Desculpa a desarrumação… . Mas por fim. de cortinados e a cama desfeita demonstrava que ainda não havia passado muito tempo desde a última vez que Milene se deitara ali com outro homem.riu-se Milene nervosamente enquanto passeava pelo quarto.Disseste que querias falar comigo sobre o meu trabalho. – O que é que queres saber? . tal como o tapete junto à cama. as paredes encontravam-se sujas. Para além disso. . a surpresa deu lugar à estupefacção. . .Como prostituta. pois claro. Finalmente tinha arranjado coragem para estar ali e no fundo não se sentia nem um pouco arrependida da escolha que tinha feito pois havia pensado nela durante semanas a fio e só não a havia concretizado por receio de perder o que na verdade já não tinha. queres ser prostituta e queres também que eu te ajude a arranjar clientes! É isso? . e ao subir as barulhentas escadas daquele edifício a cair aos bocados.Como prostituta!? . Na verdade. Quero que me ajudes a… a trabalhar aqui! .Estou. Não a levou em consideração.Sim – respondeu Sara voltando-se para ela.Como… prostituta. que aparentemente tinha todas as regalias e todos os mimos dos pais. .Ajudar-te?! . – Fala – imperou ela terminando o quinto cigarro do dia. gastas.Não faz mal. Trabalhar como prostituta? Ela repetiu a pergunta enquanto se ria a bom rir e levava uma das mãos ao peito.O mesmo trabalho que você faz – respondeu Sara surpreendendo-a com a sua resposta. – Deixa-me ver se estou a perceber.Entra – disse Milene largando a porta assim que chegaram ao quarto. Sara reparou. 80 . Era pequeno. Um cliente. não quis acreditar nela e recusou-se a aceitar o facto de que uma jovem de dezasseis anos. . a oferta de Sara era de tal maneira descabida que nem sequer deveria ser levada em consideração.Eu quero que me ajudes – respondeu Sara cortando-lhe as palavras. . Estava ali.disse Milene quando observou os olhos curiosos de Sara a olhar para os cantos do quarto.Sim – respondeu a jovem largando a mochila no chão.Sim. A pensão onde costumava alugar um quarto para se encontrar com os seus clientes foi o local escolhido por Milene para aquela conversa que prometia ser no mínimo interessante.. – Não tive muito tempo para ajeitar as coisas. quando os seus olhos se cruzaram com os dela naquele quarto e percebeu que a expressão de Sara permaneceu impávida e serena. Era também desprovido de móveis luxuosos. . A resposta de Sara conseguiu arrancar uma ruidosa gargalhada por parte de Milene.

mas não penses que essa profissão é pêra doce. Mesmo que te convidem para ir a hotéis luxuosos.Se me ajudares a arranjar clientes.. certas coisas que eles nos pedem para fazer e para não vomitares com o cheiro de alguns.Aconteça o quê? – perguntou Sara. mas ainda assim quis desafiar Sara com uma pergunta: .Sim! Se eu gostar.Hã… outra coisa importante que já me ia esquecendo. podes ficar com todo o dinheiro que eu conseguir.Que acordo!? . 81 . resoluta. – Escuta! Eu também já tive a tua idade. vou-me embora… Quando o cigarro terminou. não aceites. . e pede para que ele se lave antes de sequer se atrever a colocar-te as patas em cima – Sara acenou com a cabeça embora os seus olhos ainda demonstrassem algum medo – Outra coisa! Nada de beijos na boca mesmo que te peçam. que vá para casa foder com a mulher porque nós não estamos aqui para apanhar as doenças deles. elas que apanhem! E… o que mais? Hã. É preciso ter-se muito estômago para aguentar certos homens. Não seria muita pretensão dela achar que iria gostar de ser prostituta? Será que ainda não se havia dado conta dos perigos que estava a correr ao entrar numa vida completamente desregrada.Eu não quero o dinheiro para nada. Elas que se casaram. sombria e desleal? Na verdade.O. . assustada. eu não preciso dele. Uma ruidosa gargalhada foi a resposta de Milene: .Se queres experimentar porque é que não arranjas um namorado? Garanto-te que ele te iria tratar muito melhor do que certos clientes costumam tratar as prostitutas que vão para a cama com eles – Sara calou-se. Trás também alguns produtos de higiene para te lavares. Usa sempre preservativo e não te deixes ir naquela conversa de que sem ele é melhor.Então o que é que queres? . mas que tu nunca te podes esquecer.Só queria experimentar.Claro. aliás. Escusado será dizer que o mesmo se aplica ao sexo anal.E quando é que queres começar? . os encontros são sempre feitos em locais escolhidos por ti. Não penses que é divertido abrir as pernas para o primeiro que aparece ou então para aquele pagar mais. garanto-te que vais ficar desapontada! Muito desapontada. Se não gostar. nada de sexo oral se não os conheceres ou então ires para a cama com eles pelo menos umas três vezes. Milene apagou-o num dos cinzeiros sobre a cómoda e lançou um olhar desafiador àquela jovem que parecia ter toda a experiência do mundo. . Preservativos.Pode ser amanhã?! . continuo. também já fui curiosa.Mesmo assim eu quero experimentar – afirmou Sara.Sem receber um tostão por isso!? . ela tinha algumas dúvidas. . – Arranja-te bem! Depila-te em todas as partes do corpo porque quanto menos pêlos tiveres menos contacto físico tens com o cliente. .Estás-me a propor que eu me torne na tua chula? . Quem não consegue manter uma erecção com preservativo. Estás iludida! Andaste a enfiar coisas na tua cabeça que não correspondem à realidade. .k! Amanhã – respondeu Milene aproximando-se lentamente dela. Este bairro é a nossa salvação e vais encontrar sempre alguém para te ajudar caso aconteça alguma coisa… . mas quando descobrires e viveres essa realidade.

As explicações de Milene continuaram durante largos minutos. tal como já vinha acontecendo há várias outras.Agora não dá – gritou Sara passando o chuveiro pelas pernas depiladas. não sabes!? . a excitação apoderou-se do seu corpo. Não desconfia de nada.Sabes que se a bófia te apanhar por estas bandas. a única coisa que lhe interessava era ter alguém que a quisesse e a desejasse nem que fosse apenas por alguns minutos. – Nesta pensão eles não se vão atrever porque temos alguns amigos especiais que tomam conta de nós na recepção. feito tantos planos.…não. A televisão teimou em não calar-se e os olhos de Sara muitas vezes se cruzaram no rosto despreocupado de Madalena. a corda vai arrebentar para o meu lado. – Estou aflito e preciso ir à casa de banho. . mas no entanto havia algo que a fazia hesitar e Milene foi a primeira pessoa a reparar nessa hesitação perfeitamente normal para uma iniciante. que a achasse bonita e que não tivesse olhos para nenhuma outra mulher a não ser para ela. – Se não vieres amanhã.Eu sei! Podes ficar descansada. ela conseguisse encontrar alguém assim.Nunca te atrevas a atender um cliente na rua e também nunca te atrevas a denunciar-me à polícia.disse-lhe Milene à saída da pensão. . Não o estava a fazer por carências financeiras. basta ofereceres uns troquinhos antes de subires e tens a vida salva. Algumas horas depois e enquanto a mãe preparava o jantar na cozinha.Caso alguém tente espancar-te. Depilar-se dos pés à cabeça e preparar-se psicologicamente para o que a esperava no dia seguinte. mesmo não tendo a mínima ideia de como seria o seu primeiro cliente. violar-te ou obrigar-te a consumir drogas – respondeu Milene afastando-se calmamente. Eu não vou desistir! . e nem esperava sequer encontrar ali o seu príncipe encantado. . ali. pensou a jovem. Depilar-se. porque se fizeres isso. Tinha pensado tanto tempo sobre o assunto. e enquanto a ouvia com a máxima atenção. eu vou dizer que não te conheço de lado nenhum e que tu simplesmente enlouqueceste. – Ainda estás a tempo de desistir. o jantar foi silencioso apenas interrompido pelo bater dos talheres nos pratos. Sara resolveu trancar-se na casa de banho com o intuito de fazer aquilo que Milene lhe pedira durante a tarde. E talvez. Não desconfia de nada e nem nunca iria desconfiar. De 82 .A polícia não me vai apanhar. Na verdade. – Vai à outra lá em baixo! Naquela noite. eu vou compreender… . Alguém que lhe retirasse do peito aquele sentimento horrível de vazio e carência afectiva. só de pensar na ideia. em pleno Intendente.Eu venho – respondeu Sara desaparecendo do bairro com a sua mochila às costas. Para isso. de como reagiria quando ele a tocasse e como ficaria o seu estado de espírito depois de se entregar a um perfeito desconhecido em troca de dinheiro. Faltavam poucos minutos para as duas da tarde quando Sara se despediu de Milene com a promessa de voltar no dia seguinte e iniciar a profissão que tinha escolhido para si.. Sara deu-se consigo a perguntar se não estaria realmente a cometer uma loucura ao enfiar-se na toca do lobo. . Não.Deixa-me entrar – disse Daniel batendo à porta da casa de banho. . . Mas surpreendentemente. não queria saber do dinheiro para nada até porque tinha ficado acordado com Milene que seria ela a receber todos os lucros.

Eu disse-te que vinha.O que é que andam a tramar? . – Fiz aquilo que me mandaste – disse Sara largando a sua mochila sobre a cama. – Vieste – exclamou a prostituta ao abrir a porta. até quando vais continuar com essa ideia absurda de não querer falar com o teu pai? Já se passou tanto tempo desde que saíste da casa dele e tens que convir que foi melhor assim. . – Ela é parva e o Sérgio é fixe. . Minutos depois. . e o avô.Sara. apesar de fingir que adora o teu namorado e que acha super normal a filha andar com homens mais novos. era completamente impossível para uma mãe imaginar que a sua filha estava a vinte e quatro horas de se prostituir pela primeira vez. . a porta do quarto de Milene surgiu-lhe diante dos olhos e tocar nela foi inevitável. . 83 . .facto.Eu – respondeu Madalena levando as loiças sujas em direcção ao lava-loiça.Não ligues – disse Daniel tentando animar a mãe. com o meu irmão e também com o teu querido namorado que agora não sai cá de casa. No dia seguinte.Pois… .Eu não me ando a prestar a papel nenhum. .O Sérgio é muito simpático para ti e para o Daniel! Ele trata-vos muito bem. Sara foi interceptada por um homem mal-encarado. magro. Sara acedeu ao pedido e aproximou-se da cama onde estava estendido apenas um lençol branco e duas almofadas cansadas pelo uso. . – Hoje o teu pai ligou para falar contigo – disse Madalena.Nada! Só acho ridículo que uma mulher da tua idade se ande a prestar a um papel destes. . . O pai também acha ridícula a tua relação com esse Sérgio.Podes.Tens a certeza?! Sim.Entra lá! Sem hesitações.Vim ter com a Milene – respondeu Sara recuando dois passos.Nada! Então?! Posso subir ou não? . .Sara.Eu não quero falar com ele. ao entrar na pensão onde tinha combinado encontrar-se com Milene. trazia um palito e no corpo um fato de treino verde que em tudo lhe acentuava os ossos das pernas. Seria demasiado sórdido sequer pensar numa coisa dessas. .Quem é que te disse isso? . também deixou escapar no outro dia que não acredita lá muito que o vosso namoro vá dar certo. – O teu lugar é cá em casa comigo e com o teu irmão.Só te quis avisar – respondeu a jovem abandonando a cozinha sob o olhar magoado da mãe. .Não vou trazer ninguém – foi a resposta de Sara enquanto subia as escadas a correr e se preparava para aquela que seria a sua primeira experiência no mundo da prostituição. eu acho melhor ires-te deitar! Amanhã ainda é dia de aulas e não convém chegares atrasada – afirmou Madalena fitando-a furiosamente. Mas é bom que não me tragas nenhuma confusão e muito menos a bófia.resmungou Sara terminando a tangerina que tinha nas mãos.Contigo. . – O único problema é ser quase dez anos mais novo que tu. . – O que é que queres? . Na boca. – O que é que queres dizer com isso? . de olhos e cabelos escuros. porque não sou só eu quem pensa assim. A resposta da filha deixou Madalena surpresa.

. Por isso é que quando somos novas temos que abrir os olhos e fazer um pé-de-meia para nos sustentarmos. toalhas e tudo o resto. – Até já! Os minutos que se seguiram foram de algum nervosismo.O quê? . e tudo porque Sara não conseguiu controlar as mãos trémulas. vou buscar o gajo! Estás pronta? . nunca perdia a pose e a dignidade. especialmente se não tem família.Aquela tua amiga… . Quantos anos é que ela tem? . aquela sensualidade que parecia transpirar-lhe de todos os poros e a confiança de uma mulher que apesar de saber que era prostituta. a que estava contigo na primeira vez que cá vim. .adiantou-se Sara curiosamente. . pois não?! . – Mas uma coisa que tens que saber é que uma prostituta depois dos trinta e cinco já não tem muitas opções de escolha. . .Quem!? . Sara não soube como.…não. Essa Arlete armou-se em parva e acabou sem nada. Quem já passou dos trinta que se lixe. . – Eu já falei com ele.E ainda continua a ser prostituta? .Menos-mal – respondeu Milene alcançando a porta do quarto. gel de banho. Queria ter aquele corpo absolutamente escultural. . essa – riu-se Milene. Assim era Milene e era assim que Sara também gostaria de ser. fecho a loja e desapareço sem deixar rastro.Está bem. . .Hã.Sim. . filhos ou qualquer outra coisa interessante.O que é que queres?! Quem entra nesta vida já não sai. Está no segundo piso e é um dos meus melhores clientes também. mas subitamente passou a admirá-la. É por isso que ainda anda na vida. .Por acaso não és virgem. querendo um dia ser como ela. – Cinquenta e dois. Nunca mais ninguém aqui neste bairro vai ouvir falar de mim. as pernas bambas e o coração que mais parecia que 84 .És boa ouvinte – respondeu Milene acendendo um cigarro.O quê!? . a profissão ou sequer o estado civil. – Bem. – Mas eu também fiz aquilo que me pediste.Se ele quiser. Paga bem. mas eu.Como é que ele se chama? – perguntou Sara à cautela. Disse que só tinhas dezasseis anos e o gajo excitou-se todo. É só um cliente. também não perguntes – afirmou Milene calçando os seus saltos em frente ao espelho do quarto..Acho que sim – respondeu a jovem demonstrando alguma ansiedade na voz. vem-se depressa e não pede para que lhe façam muitas coisas esquisitas.A Arlete.A sério?! . .Depilei-me e trouxe sabonete. Enquanto observava Milene arranjar-se ao espelho e a compor a maquilhagem.Ela tem muitos clientes também? . . quando chegar aos trinta.Uns gatos-pingados … – respondeu Milene ajeitando os cabelos compridos em frente ao espelho.Arranjei o teu primeiro cliente.Para quê que isso te interessa? Não precisas saber o nome. Depravados esses homens pá! Só querem saber de carne fresca. ele diz-te o nome! Se ele não disser.

A carteira abriu-se e do seu interior saíram duas notas de cem e uma de cinquenta.…era desta rapariga que te estava a falar. Ele queria-a. sendo que a primeira pessoa a entrar foi Milene e logo a seguir. . O pânico apoderou-se de si. Quando a porta do quarto se fechou com um pequeno estrondo e Sara se viu completamente sozinha naquele quarto ao lado de um desconhecido que tinha praticamente 85 . Pensava em oferecê-las a Sara. foi a primeira coisa que Sara reparou.Duzentos e cinquenta!? Estás a gozar com a minha cara? . .iria saltar pela boca. é?! .Não te metas aonde não és chamado – respondeu ela enfiando as notas no decote da camisola. – Mas tu é que sabes! Se não quiseres ou não tiveres dinheiro para pagar. Não estou a desconfiar de ti! .Qual é?! Vais reclamar do preço? Estou-te a fazer uma oferta dessas e tu ainda reclamas? Já olhaste bem para a cara da miúda? O corpo? Tens sorte é de estar-te só a pedir duzentos e cinquenta.Então?! Queres ou não? . – Como é que te chamas? Silêncio foi a resposta que obteve. a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta abriu-se. o preço duplicava ou triplicava – discursou Milene demonstrando bem todos os anos de experiência que conseguira adquirir para si. Por fim. assustada. Realmente não era todos os dias que uma rapariga daquelas lhe passava pelas mãos e desperdiçá-la seria burrice. Era alto.Parece ser interessante – respondeu ele lançando um olhar intenso a Sara que a gelou dos pés à cabeça. Não era muito bonito. Milene adiantou-se dizendo: . Queria-a não só pela idade. pelo corpo. quando finalmente se conseguiu sentar na cama. A miúda parece ter mais idade do que aquela que me disseste. – Tudo bem eu pago.Hã pensei.Dezasseis – respondeu Sara.Obrigada! .O. duzentos e cinquenta – respondeu Milene batendo o pé no soalho. . se te portares mal.Duzentos euros! Ou melhor. .Queres o BI? – perguntou Milene voltando-se rispidamente para o cliente. Luísa? . mas também pelo rosto inocente que ela aparentava ter.k – interrompeu o cliente alcançando a carteira no bolso das calças. . – Chama-se Luísa – mentiu Milene.Tens a certeza? . Seria ele o seu primeiro cliente.Só queria confirmar. O Nuno está lá em baixo. – Bem… . o cliente. princesa.adiantou-se Milene. mas pelo menos estava bem vestido e aparentava não ter passado dos trinta e cinco.…é claro que quero – respondeu ele observando Sara dos pés à cabeça. .Tem calma. apoderou-se mais do que poderia imaginar e qualquer ruído ou movimento da porta era um sobressalto seu.Quantos anos tens. É só descer lá em baixo e… . Sim. mas assim que ele estendeu o braço.Agora viraste chula. – Quanto é? . já sabes o que te acontece. afinal de contas era ela quem lhe iria prestar o serviço. – Ou vais-me dizer que não acreditaste quando te disse que a gaja ainda era menor? . . – E vê lá se tratas bem a minha colega. ouviste?! É uma gaja fixe! Por isso. porque noutro lado. eu arranjo outro cliente num piscar de olhos. não parecia ser muito simpático.

Já pagaste. uma onde de nervosismo voltou a atravessar-lhe o corpo e os pensamentos. A intenção era a de se aliviar e de retirar dos ombros todo o stress a que foi submetido durante a semana. Os chinelos foram calçados para que não tivesse que pisar o chão imundo da casa de banho e a roupa interior vestida em silêncio enquanto regressava ao quarto. . . veio uma sensação de alívio. Depois disso. – Não queres falar sobre o assunto não fales. pois na verdade.Despe-te! Foi horrível do princípio ao fim.O.Ela não me está a explorar – respondeu ela enrolando-se no lençol da cama. o pescoço e atirou-se novamente para o chuveiro para se consciencializar de que se tinha realmente prostituído pela primeira vez.idade para ser seu pai.Em todo o caso é um aviso que te dou! Se quiseres continuar nesta vida tens que abrir os olhos – entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. Lavou os cabelos com o Shampoo que trouxe de casa.És servida!? . – Toma! Guarda para ti.exclamou ela quando se deparou com a figura de Milene a devorar a comida chinesa comprada num dos muitos restaurantes asiáticos do bairro.Estás a gozar comigo.k – conformou-se Milene com a falta de pormenores fornecidos pela jovem.Como é que foi? . . não era essa a sua intenção. – Essas putas são muito espertas e aproveitam-se de novatas como tu. – Não deves deixar que a Milene te explore – disse ele a Sara enquanto vestia as suas roupas.Ele foi muito bruto contigo? . não?! O que é que acabaste de fazer? .Foi normal – respondeu Sara encontrando a suas calças de ganga sobre o cadeirão. – Guarda! A primeira coisa que Sara fez quando o cliente desapareceu foi enfiar-se por debaixo do chuveiro e retirar do corpo todas as marcas e vestígios que ele lhe deixara no corpo durante os quarenta minutos em que a possuiu como se ela fosse apenas um mero pedaço de carne. . . e durante largos minutos. Seria tarde demais para fugir? Tarde demais para se arrepender de um pecado que nem sequer havia cometido? Sim. 86 .Não é nada disso! Só não estava à espera de te encontrar aqui. obrigada. . as pernas. .Não! Hoje estou de folga.Hoje não vais trabalhar? . foi doloroso.Não.Não sejas parva – respondeu ele enfiando-lhe a nota nas mãos. Era tarde e isso ficou provado pela ordem do cliente: . Mais tarde. – Ai! Que susto… . . .Mais ou menos. esfregou os braços.Não sabia que era assim tão feia – respondeu a última levando dois pauzinhos à boca. O cliente não foi nem um pouco cuidadoso com ela. veio a sensação de alívio e a vontade de desaparecer daquele quarto para voltar ao trabalho. de calmaria e o enxugar do corpo com uma toalha. .Como é que foi o quê!? . Sara viu-se metida num verdadeiro inferno sem tempo e sem hora para acabar. .Não sabia que vocês tiravam folgas durante a semana. .Não é preciso.

Percebeu também que por mais magistral que tivesse sido a sua desculpa para fugir à questão Sara não se deu por vencida.És curiosa.Se não quiseres não contes – respondeu Sara sentando-se numa das pontas da cama quando terminou de se vestir.E achas que esse não é um emprego a sério – riram-se as duas enquanto Sara terminava de se vestir em frente à cama. até porque ela também trabalhava no restaurante. – Foste despedida? . Milene percebeu isso em poucos minutos.Fui despedida porque fiquei grávida. – Queres um emprego mais cansativo do que estar deitada numa cama de pernas abertas à espera que o teu cliente se venha? Isto quando não é de pé num beco qualquer! A sorte é que a maioria não se aguenta mais do que vinte minutos.Que pergunta?! . Eu aceitei o cheque claro. .Se nunca tiveste um emprego a sério? A miúda é esperta. .Na hora H não tive coragem. . .. acobardei-me! Tive medo de morrer.Aonde é que ela está? 87 . de ficar doente sem ter ninguém que cuidasse de mim e tive medo de perder a minha filha.Eu.O filho da mãe do meu patrão despediu-me quando descobriu que a miúda era dele. .Mas o quê?! . . – Até me deu dinheiro para isso desde que desaparecesse e nunca mais me pusesse a vista em cima.Ele queria que eu fizesse um aborto – respondeu Milene continuando a devorar o almoço improvisado.E porque é que saíste de lá? Uma outra hesitação foi a resposta oferecida por Milene.E tu? . até estava disposta a fazer a porcaria do aborto só para me livrar da criança. Mas… .Porquê?! .Foste despedida só por causa disso? .Uma filha – emendou Milene largando a sua cerveja sobre a mesinha.ela pareceu hesitar.Pelo menos essa é uma das vantagens de se ser puta – respondeu Milene bebendo um gole de cerveja pelo gargalo da garrafa.Não respondeste à minha pergunta. e deu-me um pontapé no rabo. hã?! .O que é que fizeste? . Não pago rendimentos mínimos a ninguém… .…sim. . Não quis que a mulher soubesse.Nunca tiveste um emprego a sério? . . .Trabalhaste no quê? .Num restaurante lá para os lados de Odivelas. . . e se queres que te diga. – Tu é que fazes os teus próprios horários! Não tens nenhum patrão chato para te dar ordens e também não tens que descontar para a segurança social. o quê? .Tiveste um filho? . .…já – respondeu ela após um longo silêncio. Sei lá.

. Era também a sensação de que o cheiro dele estava entranhado na sua pele. Lembraste quando te disse que um dia te iria apresentar a ele? Pois então! O senhor Luís quer conhecer-te. A miúda é a minha cara… – riram-se. mas o que importa é o dinheirinho sempre conta no primeiro dia do mês.A adolescência passa. .No teu quarto? . a estúpida sensação de querer repetir aquela experiência assim que possível. . . a sensação de que tinha feito algo de mal embora não soubesse bem o quê e. .Eu não tenho fome.Fora de Lisboa!? .Aonde é que te meteste? – interrogou Madalena assim que ela entrou na sala e se deparou com a figura sempre exasperante do namorado da mãe. .Não demores muito a descer.Olá Sara – disse Sérgio lançando-lhe um breve aceno.…e em breve também vais poder dormir cá.Que coisa? . . quer lá saber! Posso morrer com Sida. E não era só isso. . – Então?! Ficas para jantar? .Ai é!? Muito bom ouvir isso. Quando regressou a casa após uma tarde inteira passada no Intendente. ser espancada ou parar à prisão.Ainda bem – riram-se baixinho. . – Tudo bem? . O jantar já está pronto. sabias?! . por fim. eu acho! Mas com a Sara tudo é imprevisível. Sara lançou um suspiro e quase que desejou cair no corredor de tão cansada que estava. – Já és cá de casa. Só tinha atendido um cliente. . estive a pensar numa coisa… . . 88 .Tudo! Bem.Sim! No meu quarto. . . mas não de uma boa forma. o que vai fazer…! Enfim! É uma autêntica caixinha de surpresas.Mas também não vais dormir sem comer – respondeu Madalena vendo a filha a desaparecer da sala sem sequer olhar para trás ou responder à sua ordem. – A sério! É toda espevitada.Em passarmos um fim-de-semana fora de Lisboa.. vou subir para o meu quarto.Falaste-lhe sobre mim? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. – Sabes.Sabe – interrompeu Milene não escondendo a voz amarga. mas ainda assim parecia que um batalhão lhe tinha caído em cima.Tu não precisas ser convidado – afirmou Madalena mostrando-lhe um doce sorriso.A tua mãe sabe que tu és… .Bem.Estive com umas amigas – mentiu a jovem.Se for convidado. .Como é que ela se está a portar nesses dias? – perguntou Sérgio após o longo suspiro lançado pela namorada. .Sim! Queria levar-te a conhecer o meu avô ao Alentejo. Nunca sei o que ela está a pensar. tem mania que sabe tudo e anda sempre a ver se me consegue sacar as roupas e os sapatos. . – Mas para ela desde que mande dinheiro todos meses para me tomar conta da miúda.No Porto com a minha mãe! Chama-se Daniela e tem seis anos. .Mal posso esperar por isso – respondeu Sérgio beijando-lhe os lábios.

Vamos ver se ele me consegue ficar com os miúdos. .Várias vezes. mulher havia encontrado alguém que se interessasse por ela. Jorge aceitou tomar conta dos filhos durante o fim-de-semana.São só dois dias – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos lisos. ajudar o meu avô no pomar que ele tem.Um fim-de-semana – suspirou Madalena sentindo-se bastante tentada a aceitar aquele convite tão aliciante.Durante o fim-de-semana todo? . Mas a verdade é que Madalena não perdoou. Ouviu as explicações de Madalena. Depois disso. aliás. 89 .Porque é que não deixas a Sara e o Daniel com o teu ex. Madalena livrou-se das acusações e pediu igualmente o divórcio ao marido com a clara certeza que nunca mais o voltaria ver com os mesmos olhos. . tinha sido a humilhação máxima ser presa por um crime cometido pelo marido e por ele nem sequer se ter dignado a comparecer à polícia enviando apenas um outro advogado com as instruções exactas para que não o comprometesse.Na sexta-feira só se for depois das seis e meia. – Estás aí?! . foi um choque o pedido de divórcio que Madalena fez questão de lançar em tribunal e um choque também encontrar as suas malas à porta de casa quando estava certo que ela o perdoaria por ter passado uma noite inteirinha na prisão.Então eu vou falar com o Jorge amanhã. Não posso ausentar-me durante um fim-de-semana inteiro.Eu também acho – concordou Madalena deixando-se levar pelos braços dele em direcção à cozinha. . vamos fazer grandes passeios. marido ou até mesmo com o teu pai!? . Apesar da relutância inicial.É claro que ele fica – respondeu Sérgio oferecendo-lhe um outro beijo.Então podes vir buscar os miúdos este fim-de-semana? .. apanhar ar puro. . Na verdade. . Foi um milagre de facto. tu sabes disso! Mas o problema são os meus filhos. continuava a radiar uma beleza igual ou superior à de muitas mulheres de vinte. Tinha sido a gota de água.Eu adoraria conhecer o teu avô. E vai ser divertido! Vou-te ensinar a pescar.Não – riu-se ela. – No Alentejo… . muito pelo contrário. Jorge lembrou-se de todas estas características que durante anos lhe passaram despercebidas. o dinheiro extraviado de uma empresa de telecomunicações foi devolvido ao Estado. – Vais ver! O nosso fim-de-semana vai ser inesquecível. Então?! O que é que me dizes? . mordeu o lábio inferior quando ela confessou que iria passar dois dias no Alentejo na companhia do namorado e tentou igualmente esconder os ciúmes que sentiu quando percebeu que a ex.Na sexta-feira à noite e voltávamos no Domingo. . pois apesar de já ter chegado aos quarenta.Hã… estou – respondeu Jorge voltando ao planeta terra quando ouviu a voz no outro lado da linha. – No domingo à noite já estamos de volta.Exactamente! Queres coisa melhor? . E enquanto falava com ela ao telefone. – E quando é que íriamos? . não porque Madalena não fosse uma mulher bonita e interessante. desde que te conheci que não lhe tenho falado sobre outra coisa.

Madalena e Sérgio iriam passar dois dias na pequena vivenda do avô dele e aproveitar toda a paz.Daí que estava a pensar em passar hoje à noite pelo bairro.Escuta. o que as unia era uma relação estritamente profissional.Não sei – respondeu Daniel sentando-se no sofá de braços cruzados. – A minha mãe vai viajar este fim-desemana… . entregava o dinheiro ganho e abandonava o quarto da pensão sentindo-se imunda. Não há problema – disse Madalena observando os movimentos dos seus clientes na floricultura. . . Ouviste o que o gajo disse no outro dia? Que eu pareço muito mais velha do que sou. mas com uma enorme vontade de voltar. A prostituta arranjava-lhe clientes e ela satisfazia as suas vontades sexuais quase diárias.Festa?! Que festa? .Hoje não vai dar – respondeu Milene observando com atenção o movimento dos carros não fosse um deles parar com um cliente lá dentro. Para isso.Estás louca – riu-se Milene com uma gargalhada seca. o pai não vem? – foi a pergunta de Daniel quando entrou na sala com cara de poucos amigos . – Queres que comece já a levar as coisas para o carro? – perguntou Sérgio arrastando as malas em direcção ao corredor. ela arrumou uma pequena mala assim que chegou a casa e enfiou no seu interior apenas roupas práticas. A mochila estava pronta e o casaco sobre a cama. decidido e tratado..Vá lá – pediu Sara encarecidamente. – Leva-me a essa festa! 90 . . Todas as semanas vamos lá à cata de algum ricalhaço que esteja disposto a pagar bem. . – Vou ficar com o meu pai. – Está trancada no quarto.Tudo bem. Depois disso. Tudo estava combinado.Mãe. esses momentos iriam ser muitos. mas ele é muito mais liberal que ela. Então?! Leva-me contigo! Prometo que não te vou atrapalhar. – Tenho uma festa para ir. calmaria e tranquilidade que a região do Alentejo oferecia aos seus visitantes. – Não tens idade para lá entrar.E daí? . .Tu já me atrapalhas. .Se for contigo tenho a certeza que ninguém vai desconfiar que eu ainda não tenho dezoito anos. E de facto. temos bebidas de graça e os clientes são um pouco mais civilizados que os de cá.Se calhar era melhor – respondeu Madalena descendo os estores da janela. mas ainda assim Sara encontrou tempo para telefonar à sua nova amiga Milene.Ele chega sempre atrasado.Nada de especial.Deve estar quase a chegar. . É só uma festa que costumam organizar num clube de streap lá para os lados do Bairro Alto.Não me podes levar a essa festa? . . querido! Tem só mais um pouco de paciência. Achas que me consegues arranjar algum cliente? . onde é que a tua irmã se meteu? Ela já arrumou as coisas dela? . – Fico à tua espera então. ela tinha certeza. . alguns objectos pessoais e uma máquina fotográfica com a qual pretendia fotografar todas os momentos especiais da viagem. Ouve-se boa música. Ou será que não seria demasiado precipitado chamá-la de amiga? Na verdade. .começou ela por dizer a Milene.

. – Será que ele vai gostar de mim? . força de vontade era tudo o que não lhe faltava. na sala. especialmente quando sabia bem que aquela seria uma das oportunidades raríssimas para ter Madalena só para si durante dois dias. A viagem ao Alentejo correu sem quaisquer sobressaltos e só terminou perto da meia-noite quando Sérgio estacionou o carro em frente a uma pequena moradia pintada de azul e branco. mas eu também tenho compromissos e também trabalho tanto quanto tu – respondeu Madalena fechando a porta enquanto os dois homens se fitavam vorazmente. pois apesar de nunca se terem cruzado antes.Já estão prontos à tua espera. .Então eu vou chamá-los porque não me quero demorar muito por estas bandas. marido. O tempo estava ameno. Não parecia muito simpático. mas também tens que compreender que eu tenho compromissos e que trabalho… – respondeu Jorge não conseguindo esconder os seus ciúmes quando Sérgio também entrou pelo corredor adentro. sem o stress de uma cidade tão agitada e barulhenta como Lisboa e também sem olhar para o relógio. Madalena não conseguiu evitar o sorriso que lhe atravessou o rosto e a sensação de que tinha acabado de chegar ao paraíso. olhos claros e cabelos castanhos. O fim-de-semana iria ser especial e ele pôde ter essa certeza quando tornou a fechar o porta-bagagem sob o olhar atento de um homem de estatura elevada. Não foi preciso muito esforço para perceber quem ele era. – Boa tarde – disse Jorge com uma cara de poucos amigos. enquanto a poucos metros. encontrou o casaco de Madalena e pendurou-o no bengaleiro atrás da porta. e depois disso. – Até que enfim chegaste – disse Madalena abrindo a porta ao ex. – Boa tarde – respondeu Sérgio observando-lhe a entrada pelos portões da casa. as parecenças com Daniel e Sara fizeram-no antever que era o pai deles e consequentemente o ex. as malas foram colocadas a um canto do corredor. Porque é que não haveria de gostar – respondeu ela seguindo-lhe os passos em direcção à porta principal enquanto o seu coração voltava a bater mais forte e Sérgio se esfalfava para encontrar as chaves que guardara no bolso do casaco. .É claro que vai. mas ainda assim. sem filhos. Porque é que não haveria de gostar? .As malas da viagem foram colocadas no porta-bagagem do carro e para isso Sérgio precisou apenas de dois braços e alguma força de vontade. . isso era um facto. Por sorte. ao ver-se diante dela.Não! Ele está à nossa espera. marido de Madalena. Não era uma casa muito grande ou luxuosa. ouviu-se o barulho de uma 91 . Não viste que a luz da sala continua acesa? . a porta abriu-se sem muito esforço.Será que o teu avô já não dormiu? . mas também era compreensível que não fosse tendo em conta aquele encontro no mínimo constrangedor em frente a uma casa que um dia também foi sua.Eu sei que tens compromissos e que trabalhas.Meu Deus – riu-se Madalena.Os miúdos!? . – Vamos entrar? – perguntou Sérgio levantando do chão as malas que trouxeram de Lisboa.Tens razão. Sérgio sorriu. Aliás. na altura. as árvores não evidenciavam qualquer sinal de que estavam a ser levadas pelo vento e as estrelas no céu fizeram os seus olhos brilhar de alegria e emoção.Sei que estás louca para o teu fim-de-semana. .

Vai-me jogar esse facto à cara para o resto da minha vida – respondeu Sérgio voltando-se para Madalena com uma felicidade que não passava despercebida a ninguém. Adorou. mas vocês devem estar cansados da viagem.Bem …eu também estava muito ansiosa para o conhecer! O Sérgio falou-me imenso a seu respeito – respondeu Madalena retirando a expressão esbugalhada dos olhos.Quero – respondeu ela à pergunta de Sérgio e Luís com um largo sorriso. Eram muito unidos. mas sim com um inesperado abraço. – Vô. . Ao ouvi-la. Uma da sua falecida mulher e outra da sua falecida filha. o cumprimento de Luís não veio com um aperto de mão.Achas que ia falar mal de ti. Contudo. não?! – adiantou-se Luís levando os seus convidados em direcção à sala. com certeza já te teria jogado esse facto à cara. E prova disso era os dois porta-retratos que ele fazia questão de manter sobre a mesinha junto à janela. senhor Luís – disse ela estendendo-lhe a mão com um largo sorriso enquanto desejava que ele não a deixasse ali especada. algo que a deixou deveras surpresa. .Nem tanto – respondeu Sérgio largando o casaco de cabedal sobre o sofá enquanto Madalena tentava dissecar discretamente toda a decoração existente naquelas quatro paredes. . vô? – interferiu Sérgio poisando-lhe a mão sobre o ombro. . este é o meu avô! O grande senhor Luís Restelo. amor?! .Muito prazer. agradecia. – Não querem beber um chá? – perguntou ele interceptando os olhares perdidos de Madalena. Sérgio abriu um largo sorriso e rapidamente se apressou a cumprimentar o avô oferecendo-lhe um longo abraço e também um beijo na face.Então vou pôr a chaleira no lume! Já venho – disse o dono da casa desaparecendo da sala. homem – exclamou uma voz grossa irrompendo o corredor.Falou bem.Bem. – Não precisavas ter medo de nada. a mãe de Sérgio. esta é a Madalena! A pessoa de quem tanto te falei – fez Sérgio as apresentações. . os pequenos barquinhos de madeira sobre as estantes.Ainda bem que não jogou – riram-se baixinho. . . Era como se ela estivesse à espera do momento exacto para o fazer e como se encontrasse a paciência necessária para não o ter feito antes.Já estava a ver que nunca mais a conhecia – exclamou ele. – Madalena. . Não havia dúvida de que aquela casa era habitada por um homem ligado ao passado e às recordações de uma vida que nem sempre teve momentos felizes. Adorou os móveis velhos clássicos.Também era o que mais faltava depois de te ter trocado as fraldas desde que nasceste. – Aliás. . foi a primeira impressão de Madalena quando lhes ouviu as risadas e se sentiu um verdadeiro peixe fora de água à espera de ser salvo da morte certa. . ao contrário do que ela estava à espera. . . . espero?! .O teu avô é muito simpático. . Se ele não tivesse gostado de ti.O que é que eu te disse? – indagou Sérgio envolvendo os braços à volta da cintura de Madalena. um quadro pintado a óleo e as centenas de livros amontoados a um canto da sala.Queres um chá. 92 .Claro! Claro que falou bem.pequena cadeira de descanso guinchar ruidosamente.Estou muito contente que estejas aqui comigo. . – Até que enfim.

O. Trajada com uma mini-saia. – Olha quem é ele – exclamou Milene abrindo um sorriso radiante quando um homem se aproximou de si a surpreendeu um longo abraço. passou-lhe essa pergunta pela cabeça enquanto lançava os olhos ao relógio de pulso via que nele estavam marcadas doze horas e cinquenta e nove minutos.Só?! E já tens esse corpo? . querida. Será que ela vem. longe de tudo.Boa – riu-se uma das prostitutas.Dezasseis – respondeu Sara.Mesmo assim – disse Milene que de todas era a que mais jogava pelo seguro. naquela noite. Mas por sorte.Para quê? – perguntou Sara compondo os cabelos soltos. O clube situava-se numa das ruas mais recônditas do Bairro Alto. . .Ainda perguntas!? Com a tua idade não estás autorizada a entrar em clubes de streap. em Lisboa. – Se te pedirem o BI.k – respondeu Sara aceitando a identificação com alguma cautela.Trouxe-te um BI falso – disse Milene retirando da mala um cartão com a fotografia e o nome de uma mulher de vinte e um anos. – Ela também vai connosco. vindo acompanhada por mais duas colegas de profissão visivelmente embriagadas. – Mais uma para a concorrência. Se a bófia faz uma rusga por lá estás lixada e eu também. . Mas nem a promessa de uma possível tempestade impediu Sara de sair do quarto e fechar a porta com cuidado para que o pai e o irmão mais novo não se apercebessem dos seus planos mais secretos. . A fila de espera para entrar estendia-se para lá dos dez metros e quase todos os clientes aguardavam a sua vez. esta aqui é a Sara – fez ela as apresentações. o céu tornou-se carregado e cheio de nuvens. Ao contrário das estrelas no céu que o Alentejo apresentou. – Eu também estou muito contente de estar aqui contigo. .Longe dos problemas. – Quantos anos é que ela tem? . ela encontrou as chaves e saiu com o único intuito de passar uma noite completamente diferente a todas que havia passado até então. – Meninas. Quanto aos porteiros tens que ter cuidado quando eles te pedirem o BI… . Apanhou o último metro da noite e em pouco tempo viu-se no local onde havia combinado encontrar-se com Milene.Eu também – confessou Madalena encontrando-lhe os lábios no meio daquela sala desprovida de quaisquer luxos desnecessários.. de todos… . Milene não a deixou esperar em demasia naquela rua deserta e ventosa. . nunca imaginou que aquele estabelecimento sempre fechado durante o dia tratava-se de um clube de streap frequentado à noite por pessoas das mais variadas raças e estratos sociais. .Também – riram-se eles ainda com os lábios colados no outro. meias de renda pretas e um casaco que lhe cobria o corpo todo. e mesmo Sara tendo passado por aquela zona umas milhares de vezes. – Desaparecido! 93 . muitas vezes acompanhada pelo pai ou pela mãe.Isto se lhe pedirem – interferiu uma das prostitutas. mostras sempre com um dos dedos sobre a fotografia e passas rápido para que eles não fiquem a olhar muito tempo para o cartão. animados pela noite e também pela música barulhenta que se fazia ouvir no interior do edifício.

Vem comigo! Foram precisos apenas trinta minutos para que Marco retirasse as roupas de Sara num dos muitos quartos em que guardava as suas mercadorias para serem levadas ao Algarve. para além de fisicamente também o ter agradado bastante. E ela respondeu dizendo. alguns apalpões habituais em cada esquina do clube e a sensação de que a pouco e pouco ambos se estavam a envolver. . que Sara se entregou a ele pela primeira vez não sentindo de maneira nenhuma que o estava a fazer como prostituta. .Sabes como é que é – respondeu ele rasgando alguns olhares curiosos a Sara. – És muito bonita – segredou-lhe Marco aos ouvidos. – És nova por aqui? . este é o Marco. Só vim buscar as minhas mercadorias e vou-me embora no domingo que é quando as estradas estão mais vazias.Estamos – respondeu uma das prostitutas que acompanhava Milene. – Estão na fila para entrar? – perguntou ele. pastilhas ecstasy e haxixe. todos os clientes conseguiram entrar no clube e o divertimento tornou-se ainda maior. .Se quiseres posso ser o teu cliente. – Agora ando mais lá para os lados do Algarve a tratar dos meus negócios.Uma… amiga – respondeu Milene hesitante.Não sei – respondeu ela com um longo suspiro.Para onde? – perguntou ela apreensivamente.Então venham comigo. Mas quando ele as atirou ao chão e deitou Sara sobre a cama. . – Obrigada. mas sim como uma mulher que encontrara o verdadeiro prazer nos braços de um traficante de droga.Não confias em mim? A pergunta de Marco tomou Sara de assalto. . não é – riu-se Milene enquanto levava uma garrafa de whisky à boca. 94 . – É a Sara! Sara. especialmente se fosse bonito. musculado e que trazia consigo uma confiança que poucos homens brancos possuíam. . . Pago bem! Vamos?! .A bófia é uma seca. Marco era um jovem mulato. Demonstrava também não ter medo de nada.Olá – disse ele cumprimentando-a na face.Mais ou menos – respondeu Sara tentando esconder a timidez que sentia cada vez que um homem se aproximava de si. seguiram-se vários beijos. Sara deixou-se levar pelos braços de Marco quando ele a levou para um canto recôndito. algo perfeitamente compreensível para um homem de vinte e sete anos que passara a maior parte da adolescência em bairros degradados e em esquemas criminosos longe do conhecimento da polícia.. . tudo o resto deixou de importar. . por isso era natural que quisesse saber quem era. – Não confias?! .Avisaram-me para nunca aceitar encontros em locais que não conheço. que pequenas doses de cocaína. como caso de Marco. . Ponho-vos lá dentro num instante! Em pouco mais de uma hora. Depois disso.Tenho um sítio perfeito para nós. Foi ali. e pela primeira vez. naquele quarto minúsculo. A pista encheu-se de pessoas. a música tornou-se cada vez mais barulhenta.Há quanto tempo andas nisto? – foi pergunta de Marco quando acendeu o terceiro cigarro da noite. inclusive a chuva a cair no tejadilho da janela. o cheiro a mofo das almofadas e a presença de uma arma de fogo sobre a mesinha de cabeceira. mercadorias essas que eram nada mais. . Nunca a tinha visto. .E esta rapariga quem é? – perguntou o desconhecido não escondendo a sua curiosidade por Sara. nada menos.

Um favor que pela primeira vez fez a uma prostituta. .Porque quero. Sara era diferente de todas as outras. – Gosto de fazer sexo. . A cozinha cheirava a café quando Sérgio e Madalena entraram nela de mãos dadas e com um sorriso rasgado no rosto. Queria saber como é que era! . . .Então quer dizer que és prostituta porque gostas.Porquê!? . .Podes deixar.Queres uma passa? – perguntou Marco mostrando-lhe o cigarro que tinha em punho. até porque ele não sabia até que ponto ela tinha levado aquela noite em consideração.Não sei! Nunca fumei. .Só entrei para experimentar. qual era o mal de fumar uma passa? Quando os primeiros vestígios do dia começaram a surgir. bonita e trazia nos olhos a inocência de uma menina que infelizmente se tinha perdido na vida.Eu não moro cá em Lisboa. – Pronto! Já estás entregue – exclamou ele desligando o motor do carro assim que o estacionou em frente ao prédio que Sara lhe indicara. Tinha um ar mil vezes mais angelical. do pai. Havia algo nela e naqueles olhos inocentes.Então não estou a perceber porque é que… . Quando vieres. procura-me… O sorriso de Sara trouxe algumas hesitações a Marco. . Apesar de alguma hesitação. senão troco logo a porcaria do número.Toma – afirmou Marco oferecendo-lhe um papel rasgado e também um beijo na boca.Vou voltar a ver-te? – perguntou ela desfazendo-se do cinto de segurança. mas ela nunca se atreveu a cometer tal acto.Então?! Para saber. Mas sim. ou talvez até mesmo por culpa sua. várias amigas suas já fumavam. . .Vais gostar. . . Sexo entre um cliente e uma profissional e nada mais. era doce. Se já tinha experimentado coisas tão bizarras como fazer sexo com desconhecidos em troca de dinheiro. Marco levou Sara a casa.. Sara aceitou o cigarro das mãos de Marco e levou-o à boca ansiando experimentar pela primeira vez qual era a sensação de fumar. Na escola. Talvez por culpa da mãe.E porque é que entraste na vida? Os teus pais expulsaram-te de casa? .Só comecei na semana passada! A Milene arranjou-me os primeiros clientes. Só venho de vez em quando. É bom para relaxar. mas eu moro com a minha mãe.Para quê!? . – Eles são separados. . . mas que na verdade não se arrependeu nem um pouco.Bem – riram-se os dois. – A isso é que se chama ter amor à profissão. . De facto.E eu dou-te o meu… – adiantou-se Sara.Mais ou menos – respondeu ela observando-lhe a expressão surpresa. Por sorte. Tinha sido só sexo.Mas não me ligues a toda a hora. algo que o fez hesitar e cometer uma das maiores loucuras da sua vida – Vou-te dar o meu número.Mesmo assim.Eu não vejo isto como uma profissão.Não – respondeu Sara. Mas raios. É isso? . tinham dormido maravilhosamente bem no quarto de hóspedes preparado por Luís e mal esperavam para começar o dia com um longo 95 . . . Gosto de estar com homens e só penso nisso a toda a hora.

Eu?! – indagou ela voltando-se para Sérgio – Pescar? . . mas acordámos – respondeu Sérgio arrastando uma cadeira a Madalena.Vou tentar levar isso como um elogio – disse Luís levando o pão fresco à mesa. rapidamente percebeu que lhe faltava conhecer tanta coisa em apenas um fim-de-semana relâmpago. especialmente uma hóspede tão bonita como você. . Além de que a pesca é uma boa forma de relaxamento. . o mercado repleto de feirantes que vendiam de tudo um pouco. Madalena não se escusou a tirar inúmeras fotografias para registar uma das viagens mais interessantes que fizera pelo país. Já viste bem o meu avô? – interferiu Sérgio servindo dois cafés em frente à bancada. Ansiavam também conhecer todos os cantos turísticos e passar um dia no mínimo agradável sem olhar para os ponteiros do relógio. . Esta. – Para mim um hóspede é sagrado. – Muita fome. . – E o meu avô é um grande professor.Não se matem hoje – respondeu Luís servindo-se do chá de ervas que costumava beber todas as manhãs. admirar as pessoas à sua volta que ao contrário das que moravam em Lisboa caminhavam sem pressa de chegar a algum lugar e com a certeza que o mundo não acabaria no dia seguinte. agradeceu a gentileza e sentou-se à mesa perguntando em seguida ao dono da casa se este precisava de ajuda. eu não quero desapontá-lo senhor Luís. sem se importarem com o trabalho e muito menos com o facto de serem obrigados a voltar a Lisboa no dia seguinte.Aonde é que vão? . 96 . mas acho que vai ter um grande trabalhão comigo – disse Madalena arrancando uma risada geral.Bem. nem pensar – respondeu ele.Não muita! Confesso que de manhã não costumo comer muito. – Apesar de tudo ainda têm o dia de amanhã.Estavas certo quando disseste que os dois se pareciam imenso – respondeu ela. . e enquanto visitavam os locais onde Sérgio havia passado grande parte da sua infância. depois passear pelo parque e quem sabe se o tempo ajudar terminamos o passeio no lago. – …espero que voltes comigo aqui outra vez – disse Sérgio quando as suas taças se tocaram sobre a mesa à hora do almoço. Faltava conhecer a igreja da região trabalhada em arte barroca. Leva-nos os pensamentos para longe e faz-nos pensar nas coisas com mais clareza… O passeio pela vila tomou-lhes toda a manhã. – E dizes tu que o teu pai parece uma criança de oito anos. .passeio pela vila. Ela que se considerava uma portuguesa de gema e conhecedora de quase todas as cidades de Portugal. .Um pouco tarde. .Vamos visitar o centro da vila. .Aposto que não vou ter mais trabalho do que tive aqui com o meu neto.Sim. – Não. .Acordaram? – foi a primeira pergunta de Luís assim que entraram na cozinha. garanto-te – respondeu ele. Faltava cheirar a terra molhada. Madalena riu-se alegremente.Eu também quero cá vir muitas vezes. mas amanhã queria que ensinasses a Lena a pescar. Faltava aventurar-se pelas ruelas estreitas. – Hoje temos um longo passeio pela frente. . e faltava-lhe também sonhar em um dia terminar os seus dias num lugar assim. muitas delas pintadas com cores alegres e suaves.Vais gostar. com um sorriso. Madalena? .Pois vais ter que comer – interrompeu Sérgio entregando-lhe o café em mãos. desde frutas a produtos artesanais. absorver a beleza das casas caiadas.

Tenho os meus filhos.Sérgio. não é?! – indagou Sérgio largando-lhe a mão. – Daqui a alguns anos. mas… . eu sei que me amas.Quero que venhas morar comigo aqui nesta vila.Como assim?! .Filhos – respondeu ela sem desviar os olhos dele.Porquê!? Não gostavas de morar num local onde não existe hora de ponta.Queria muito acreditar nisso. .Eu sei. – Quer dizer.No máximo teria idade para ser a filha dele. Para mim. vocês já são todos da minha família. Durante vários minutos.Mas o quê? . por exemplo? . eles já gostam de mim tal como eu também gosto deles.Não estás a perceber.. não tos vou poder dar e tu vais acabar por me jogar esse facto à cara. mas isso é uma questão de tempo até eu conseguir conquistar a confiança dela. . e durante vários minutos apenas se ouviram o barulho das conversas dos clientes que se encontravam igualmente a almoçar duas mesas atrás.E será que até lá ainda vamos estar juntos? . por mais que eu tente.Sérgio. problemas… . Sérgio! Eu só estou a constatar um facto. – Estás a gozar.É claro que vamos – respondeu Sérgio com uma expressão séria. . eu também te amo muito. . .O meu avô também te considera uma neta. eu tenho a minha vida toda em Lisboa. o silêncio apoderou-se da mesa onde Madalena e Sérgio estavam sentados. – Mais uma vez estás a falar da nossa diferença de idades. . mas… . poluição.Mas nós já somos uma família – interrompeu Sérgio encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. . . mas… existem coisas que um dia vais querer e eu não te vou poder dar. casados e não nos restar absolutamente mais nada para fazer em Lisboa. ele desviou o olhar e assim a refeição terminou com um sabor amargo de derrota.Então é isso. E quanto ao Daniel e ao teu pai. stress.Não é nada disso. . Ela olhou-o. E esse facto é de que daqui a uns anos tu vais querer ter os teus próprios filhos e eu não tos vou poder dar. – Não vamos estragar 97 . .Tu sabes que eu nunca faria isso. Madalena riu-se. . a minha floricultura… enfim! Tenho tudo.O quê.O quê?! .Mas eu não estou a dizer para nos mudarmos agora – adiantou-se ele. Por mais que eu queira. eu sei que a Sara não vai lá muito com a minha cara.Mas também quero manter os pés no chão – respondeu Madalena poisando a sua taça de vinho sobre a mesa. – Nós vamos ficar juntos para sempre.Mas pensarias e só isso já me faria sentir mal. quando os teus filhos estiverem crescidos. não?! . – Uma família… . .

E nem mesmo o facto de saber que ela era mais velha que Sérgio conseguiu diminuir a admiração que sentiu ao conhecê-la pessoalmente.Quem sabe um dia não nos vai visitar a Lisboa – disse ela.E porque é que me queres levar a esse lago? . cresci também e não iria saber mexer-me noutro sítio. Madalena se encarregou de fazer a salada e de retirar as loiças dos armários. O mundo parou. Está uma delícia. passou essa certeza pela cabeça de Sérgio quando a viu sorrir para si. . Madalena percebeu todas as razões que fizeram Sérgio levá-la àquele lago. . . Além disso.Tu é que estragaste. . enquanto mais tarde. Sérgio e Madalena regressaram a casa e encontraram à sua espera o cherne grelhado na brasa preparado por Luís Restelo. o tempo ameno permitiu que a refeição fosse servida sem quaisquer atrasos. Era a primeira vez que cometia uma loucura na sua vida. – Nem por isso! Está óptima – respondeu Sérgio. Em poucos minutos. Nasci aqui. Ele era belo. – Nunca pensou em morar noutro local que não aqui? – perguntou Madalena voltando-se para o dono da casa. o avô de Sérgio não poderia ter ficado mais contente com o elogio da namorada do seu neto. – Isto parece um sonho – confessou ela.O que é que vamos fazer agora? . mas também era a primeira vez que tinha a oportunidade de se atirar de cabeça ao desconhecido sem pensar nas consequências que esse acto poderia acarretar. na cozinha. o sol voltou a brilhar quando as nuvens desapareceram do horizonte e os corpos dos dois amantes conjugaram-se na perfeição. .Quero mostrar-te o lago onde costumava brincar quando era criança. – Está bem. Depois disso. E de facto. . ela pôde ter essa certeza quando lhe encarou o rosto depois de o ter pertencido sem quaisquer restrições.Quando lá chegarmos vais perceber. Algumas horas mais tarde. O barulho dos pássaros deixou de ser ouvido. quando ao retirar as roupas atirou-se para a água e sentiu-se a mergulhar até a um metro e meio de profundidade. – Acredite que teria muito gosto em recebê-lo na minha casa e assim você até poderia conhecer o meu pai. Luís adorou a simplicidade de Madalena.Isto é um sonho – respondeu ele sugando-lhe os lábios no interior de um lago onde havia passado a maior parte da sua adolescência. 98 .o nosso dia – pediu Madalena voltando a encontrar-lhe a mão sobre a mesa. radiante. Sim. a sua beleza e a candura que o seu sorriso transparecia a quilómetros de distância. . – Estava a ser tão bom. ele montou uma mesa improvisada no jardim das traseiras. E ela era a mulher da sua vida. foi o elogio que Luís ouviu de Madalena quando ela degustou a primeira garfada do cherne acompanhada de um gole de vinho.Não te queria chatear. Desculpa! Infelizmente Sérgio foi obrigado a fazê-lo. – A água está a ficar fria – riu-se Madalena. lembraste? .Não! Nunca tal ideia me passou pela cabeça. Aposto que histórias em comum não vos iriam faltar. voltou novamente à superfície e encontrou nos braços de Sérgio o conforto perfeito para se apoiar. Por sorte.Quem sabe um dia não faço isso. Fica a poucos minutos se formos de carro.

era sem dúvida a leitura e a escrita de vários sentimentos que guardava dentro de si. 99 . . Mas apesar de tudo ele sabia ainda lhe restava o neto.Que milagre?! .Conseguiste que o meu avô prometesse uma ida a Lisboa. aí sim já poderíamos morrer felizes. ele sentia-se muito mais leve e apto a aguentar uma vida repleta de percas e desgostos.Não sejas exagerado – defendeu-se Luís encabulado com os risos dos seus convidados. pela primeira vez Luís percebeu o porquê de ter conseguido arranjar forças para se manter vivo. enquanto olhava para Sérgio e o via completamente embevecido por Madalena. meses e anos de solidão.. Depois de a ver. . Aquela felicidade que parece colar-se à nossa pele e não nos deixar um só segundo. E naquela noite em especial. Foi para ver a felicidade estampada no rosto do neto.Bem! Já conseguiste um milagre. A noite terminou em beleza com um poema lido por Luís. amor… – exclamou Sérgio voltando-se para Madalena com um largo sorriso nos lábios. dias. cujo principal divertimento para ocupar as longas horas. tais como a morte da sua mulher e da sua única filha. ainda lhe restava a única razão que o havia impedido de cometer suicídio quando à sua volta tudo pareceu ruir. Depois disso.

– Pensei que viessem mais cedo. essa percepção estava a matá-lo por dentro.Duvidas porquê?! .Daniel! Sara! Vão já lavar as mãos – gritou Madalena enquanto eles subiam as escadas a correr. Entrar ou não entrar? Enfrentar ou não Madalena e o novo namorado que ela tinha feito questão de lhe esfregar na cara semanas antes? Com certeza ambos já haviam regressado do maldito fimde-semana no Alentejo e com certeza que a felicidade estampada no rosto da ex.Está bem – responderam os dois quase em uníssono.Desculpa. onde ele adquiriu a certeza absoluta que Madalena nunca se iria conseguir refazer da separação e muito menos encontrar outro homem que se mostrasse interessado por ela.Nós é que pensámos que viesses mais tarde – respondeu Jorge observando a entrada dos filhos pelo corredor adentro. Depois disso. mulher iria ser algo difícil de suportar. Depois disso. . – O que foi? – perguntou ela ao vê-lo a olhar fixamente para si. . . tu sabes bem a fazer o quê! . Levei-te à casa de férias de um amigo meu e passámos quarenta e oito horas no quarto a … bem.Há quanto tempo tu e esse rapaz estão a namorar? . .CAPÍTULO VI O fim-de-semana tinha chegado ao fim.Nada – respondeu ele enfiando as mãos nos bolsos das calças. aliás.Duvido – respondeu ele surpreendendo-a com tal afirmação. . .Foi bom!? Pela tua cara deve ter sido horrível. – Então?! Como é que foi o tal fim-de-semana romântico no Alentejo? . . Percebeu também que tinha cometido um grande erro ao destruir casamento de dezasseis anos. mas eu realmente já não me consigo lembrar desse fim-de-semana – respondeu Madalena poisando as mãos na cintura. acompanhou os filhos em direcção ao portão principal e viu-se metido num enorme dilema interno. – Mas não se demorem porque senão o jantar arrefece. mulher. foi o que Jorge pensou quando estacionou o seu carro a poucos metros da casa da ex.Não.Em primeiro lugar o Sérgio não é um rapaz. marido sobre o alpendre. fez-se um silêncio ensurdecedor no corredor. foi o melhor fim-desemana que já tive até hoje. . as portas dos quartos fecharam-se com estrondo e Madalena encontrou forças para voltar a encarar o rosto de Jorge. .Até que enfim – foram as palavras de Madalena quando abriu a porta e se deparou com a figura dos filhos e do ex.Porque o melhor fim-de-semana que tiveste até hoje foi comigo. Após o divórcio. e que aos poucos e poucos. Jorge começava a chegar à conclusão que as suas certezas foram infundadas e precipitadas.Foi bom. . 100 . Jorge! O meu fim-de-semana foi realmente muito bom. lembraste!? O primeiro que passámos juntos quando começámos a namorar.

. . . Muito pelo contrário. encontravam-se todos numa das zonas mais degradadas de Lisboa. .Telefono depois para saber dos miúdos. – Já percebi que esse assunto te incomoda. enquanto do lado de fora do bairro. não recebia ordens e conselhos de ninguém e vivia conforme as suas vontades e desejos. . Nas semanas seguintes. talvez pela sua idade ou aparência física.k! Boa noite.Porquê?! . . por acaso não me incomoda nem um pouco.O que esteve connosco naquela festa no Bairro Alto.Ele não é assim tão mais novo que eu. 101 .É alguma coisa séria? . severo e sem a mínima margem de manobra para que ele continuasse a fazer-lhe mais perguntas. .Não. Em pouco tempo. . . Mas por mais estranho que parecesse. era ali que Sara se sentia bem. . Era habitual para quem passava por lá observar-lhes as gargalhadas.Boa noite também para ti – respondeu Jorge afastando-se da porta sob o olhar atento da ex. o tempo e o espaço pareciam completamente alheios à decadência que ali se vivia.Esse Marco?! Só podes estar a gozar.Acho que não – respondeu Milene apressando-se a vestir as cuecas. mas mais do que a resposta. Era ali que ela não se sentia julgada. despertando a inveja de algumas das prostitutas mais experientes da zona. Ele disse que morava no Algarve.k – riu-se Jorge num tom sarcástico.Que Marco?! .Não – respondeu Sara apreensivamente. – Bem … eu já vou indo. marido.Fazer o quê? – perguntou Sara curiosamente. – Só nos falámos duas vezes por telefone e foi assim meio rápido.O. Arlete e outras prostitutas do bairro.Quando é que achas que vamos voltar a ver o Marco? . mulher. cruel foi o olhar que ela lançou ao ex. O que me incomoda é o facto de estar a falar sobre esse assunto contigo. pois a sua vida. raras foram as vezes que Sara colocou os pés no interior de uma sala de aulas. a única que parecia nutrir um especial apreço por aquela jovem perdida na vida.É muito mais novo que tu. . E mesmo ele tendo pensado várias vezes em voltar-se para trás e encarar-lhe o rosto pela última vez. O Intendente. Era lá onde ela passava várias horas do dia e deambulava pelas ruas ao lado de Milene.Ele não te contou qual é a cena dele no Algarve? . – Gripe! Mas sabes como é que a minha mãe é! Faz um bicho-de-sete-cabeças só para que eu vá ver a miúda.Vou ver a minha filha! A minha mãe ligou-me a dizer que a miúda estava doente.Claro – disse Madalena sustendo a porta com as mãos. os seus novos amigos e vícios. por isso é um rapaz. passou a angariar cada vez mais clientes. excepto de Milene. A resposta de Madalena não poderia ter sido mais cruel. . senão nem sequer tinha ligado.Porquê?! . uma força oculta conseguiu levá-lo ao carro de costas voltadas. . De certeza que deve estar a precisar de dinheiro. . as roupas extravagantes e também a procura de clientes.Porque é algo que não te diz respeito. – Amanhã vou ao Porto – disse ela saindo da casa de banho enrolada numa toalha.O.. Frio. não? Desse gajo quero mais é distância.

- Ele é traficante de droga, querida! E não é um traficante qualquer. É um da pesada. Coisa para gente adulta, não sei se me entendes. - Como é que sabes?! - Toda a gente conhece a fama dele – respondeu Milene vestindo uma camisola de malha em frente ao espelho. – O gajo nunca foi flor que se cheire, mas meteu-se com gente errada e acabou por fugir para o Algarve quando lhe mataram o irmão no bairro onde ele morava. Acho que a bala era para ele, mas como era de noite, confundiram os dois irmãos e o mais novo é que acabou por morrer no lugar dele. - Que horror. - Por isso é que ele só vem a Lisboa de vez em quando, mas não pára muito tempo para não ser apanhado… Sara sentiu-se atordoada ao ouvir o discurso de Milene, mas pior ainda ficou quando percebeu que Marco não era o homem ideal para qualquer mulher. A sua vida, cheia de actos criminosos e outras histórias escabrosas por contar, não parecia de maneira nenhuma conjugar-se com a dela. Mas ainda assim, havia qualquer coisa que não a deixava esquecelo. O que seria? Ou melhor, seria normal? No fundo, Sara sabia que não, até porque há muito que a palavra normalidade tinha deixado de fazer parte do seu vocabulário. – Bem, deixa-me ir andando – interrompeu-lhe Milene os pensamentos. - Aonde é que vais? - Vou-me encontrar com um cliente no hotel Ritz. - Uau! Que chique – riram-se as duas. - O gajo é podre de rico, tens que ver! Conheci-o há dois anos numa festa e desde então nunca mais me largou. - É giro?! - Não muito – respondeu Milene escovando os cabelos molhados. – Tem quase idade para ser o meu pai, mas pelo menos é simpático, paga bem e trata-me como uma verdadeira rainha. Depois do serviço gosta de conversar sobre política. - Estás a gozar, não?! – riu-se Sara animadamente. - Que me dera, mas não! E logo eu que não percebo nada disso. Mas o gajo sabe tudo. Também é presidente de uma empresa multinacional e tem uma data de conhecimentos. Quando começa a divagar, eu só aceno com a cabeça que sim e finjo que o estou a ouvir. Acho que o gajo nem percebe que a minha única vontade é desaparecer de lá com o dinheiro na mão. Tal como todas as noites, o jantar foi servido às oito horas por Madalena, e o convidado especial encarregou-se de colocar a mesa sob o barulho ensurdecedor da televisão da cozinha. Era a terceira vez naquela semana que Sérgio privava da companhia da namorada e dos filhos dela, restando poucas dúvidas de que também ele já fazia parte da família. Aos poucos e poucos, a sua amizade com o pequeno Daniel e o pai de Madalena foi-se consolidando, mas o mesmo não se podia dizer de Sara, que ainda continuava a ver no namorado da mãe um verdadeiro alvo a abater. Na verdade, o desejo da jovem em vê-lo pelas costas era imperioso desde o terrível incidente em que ela lhe colocou os pés por debaixo da mesa. Foi um acto irreflectido, os dois sabiam-no bem, mas o clima continuava tenso sempre que se viam nos corredores da casa ou eram obrigados a privar de uma refeição familiar. Depois do jantar, normalmente
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quando todos se refugiavam na sala a ver televisão, os olhares que Sara lançava aos constantes carinhos trocados pelo futuro padrasto e pela sua mãe eram esmagadores e ditavam uma verdade irrefutável: Ela odiava ver-lhes a felicidade estampada no rosto. - O Sérgio vai dormir cá em casa hoje – avisou Madalena já perto do final da noite. - Vou-me deitar – disse Sara desaparecendo da sala com uma expressão aterradora. Desde essa noite, várias foram as vezes que o fotógrafo pernoitou em casa de Madalena. Normalmente aparecia à hora do jantar, após um dia cansativo a fotografar nos estúdios e trazia consigo pequenas guloseimas para os filhos da namorada. Além das guloseimas, foram também trazidas as primeiras mudas de roupa, a escova de dentes e outros objectos pessoais que faziam claramente antever a sua mudança. Não achas que é demasiado cedo, foi a pergunta de Alice à melhor amiga, e Madalena, sempre com um sorriso, respondia que não e que se encontrava totalmente segura na sua relação com Sérgio. Mas a verdade é que essa relação não era bem vista por todos, especialmente por Sara, que só encontrava um aspecto positivo para o facto de o fotógrafo passar as noites em sua casa, e esse aspecto era o de ela conseguir escapulir-se a meio da madrugada para se encontrar com os seus novos amigos sem medo de ser apanhada pela mãe. Muitas vezes, encontrava-se com esses eles em bares nocturnos pouco apropriados para a sua idade, nos arredores do bairro e em cafés da zona onde clientes e prostitutas misturavam-se com o cheiro dos cigarros e da luxúria. Sexta-feira era o dia da semana mais movimentado no bairro do Intendente. Era usual os cafés e os bares encontrarem-se abarrotados de gente, e também era usual a polícia fazer algumas rondas pela zona apenas para se certificar que tudo estava a decorrer dentro da normalidade. Sempre que apareciam, Sara conseguia a ajuda necessária para se esconder e só voltava a surgir aquando do desaparecimento dos agentes de autoridade. Sim. Eram momentos de algum aperto, mas por sorte ela conseguia sempre fugir com a ajuda de Milene. Aquela noite não foi excepção. Os polícias fizeram as rondas habituais, pediram a identificação de várias pessoas estranhas ao local e logo desapareceram pelas ruas do bairro trazendo de volta o alívio a quem não tinha sido apanhado. – Anda – disse Milene fazendo um sinal a Sara para que ela pudesse sair da pensão onde permaneceram escondidas durante trinta e cinco minutos. – Os gajos já se foram embora. - Tens a certeza? – perguntou Sara olhando para todos os lados. - Claro. Anda lá! Foram precisos apenas alguns minutos para que Milene e Sara atravessassem a rua em direcção a um dos bares mais movimentados da zona. Mais uma vez, o estabelecimento encontrava-se apinhado de gente. Na aparelhagem soava uma música rock infernal e na única televisão do bar colocada na parede, passava um filme não muito conhecido. Aliás, o filme era tão pouco conhecido, que quase ninguém presente no local se dignou a levantar o rosto em direcção ao ecrã. Estavam todos entretidos em conversas informais, a beber e a confraternizarem entre si. Outros dançavam, riam-se às gargalhadas e tentavam esquecer-se de todos os problemas que rodeavam as suas vidas. Milene e Sara foram algumas dessas pessoas. – Ainda te lembras de mim?

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A voz não lhe era estranha, e ao voltar-se para trás com uma garrafa de cerveja nas mãos, Sara abriu um sorriso radiante. Era ele. Era Marco. Após dois meses de ausência onde apenas se comunicaram através do telefone, parecia quase um sonho tornar a vê-lo novamente. – Nem acredito! És mesmo tu? - Carne e osso – respondeu Marco levantando os braços. - Pensei que não viesses a Lisboa tão cedo. - Vim tratar de uns negócios, mas no domingo já estou de volta ao Algarve. E tu? O que é que andas a fazer por estas bandas? - Eu sou destas bandas, lembraste?! - Ainda na vida?! - E tem algum mal nisso? - Por mim não – respondeu ele pedindo uma imperial ao empregado do bar. – Só tenho pena que uma miúda como tu ande para aí a deitar-se com qualquer um. Especialmente com os gajos que passam por este bairro. Mereces melhor. O discurso de Marco mereceu um sorriso por parte de Sara. – Queres que te pague uma outra cerveja? - Claro. Pode ser – respondeu ela terminando a sua num só gole. Completamente alheios ao tempo e ao espaço, foi assim que Sara e Marco se sentiram enquanto conversavam perto do balcão acompanhados pelas suas respectivas cervejas, pelo barulho infernal da música e a movimentação das pessoas à volta. Obviamente que nenhum deles falou sobre assuntos importantes, não conversaram sobre a família, os amigos e muitos menos projectos futuros, mas ainda assim sempre que os seus olhares se cruzavam era como se o mundo parasse e tudo deixasse de ter significado. – Queres ir para outro lado? Isto aqui está barulhento – disse ele ignorando um telefonema inoportuno. - Tudo bem. Podemos ir. Pagas as bebidas, Marco e Sara saíram de mãos dadas e só voltaram a largá-las quando interceptados por Milene à saída. – Aonde é que vão? – perguntou ela, curiosa. - Vamos dar uma volta – respondeu Marco levando o cigarro à boca. – Porquê?! - Vão dar uma volta aonde? - Qual é a tua, Milene?! Viraste puritana agora, é? Ou vais-me dizer que resolveste adoptar a Sara como filha? - Eu só não quero que ela se meta em confusões. - Eu não me vou meter em confusões – interrompeu Sara sob o olhar aterrador de Milene. - Acho melhor ires para casa, Sara! Eu peço a um amigo meu para te levar. - Ela não vai com nenhum amigo teu – interferiu Marco puxando Sara contra si. – Vai comigo. - Sara… - Eu vou com ele – respondeu a jovem, resoluta. – Tchau, Milene! Depois falamos. O cheiro a tabaco tinha-se entranhado nos estofos do carro de Marco, mas nem o odor intenso ou o espaço reduzido dos bancos de trás, acalmaram o desejo e a excitação de Sara por ele. Submersa naquela pele achocolatada e naqueles braços musculados marcados por duas tatuagens, ela entregou-se e permitiu-se ser possuída sem quaisquer restrições. Com Marco era diferente, ambos sabiam-no bem. Com ele não o fazia por dinheiro, por luxúria,
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. Mas também não penses que te vou passar a mão pela cabecinha ou sentir-me mal por te ter oferecido dinheiro.Já – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. . . .Eu ligo-te depois – disse Marco apressando-se a retirar uma nota de cinquenta euros da carteira. . 105 .Eu não quero ser tratada de maneira… .Podemos ver-nos amanhã. na cozinha. . – Toma! Para ti. Depois disso.Eu não quero que me pagues – respondeu Sara indignada por tal gesto. a verdade é que não conseguiu tal feito quando chegou ao quarto e caiu na cama como um verdadeiro peso morto. e ao vê-la a caminhar apressada em direcção aos portões de casa. .k – respondeu ele oferecendo-lhe uma outra nota de cinquenta. é?! . Madalena ultimou os preparativos do almoço que contaria não só com a presença do namorado. Afonso Soares. Só não quero que te falte nada. – Paga-me! Apesar de se ter sentido surpreso com a reacção de Sara. Ainda era demasiado cedo para sentir uma coisa dessas. mas também com a do pai. E mesmo tendo tentado controlar as lágrimas.Posso voltar a ver-te antes de ires para o Algarve? – perguntou ela quando ele a levou a casa. Seria amor? Não. mas havia realmente algo que a prendia a Marco e a deixava completamente rendida a ele. mas ainda assim Sara arranjou forças para abrir os portões e correr em direcção a casa sem sequer olhar para trás ou observar a expressão mortificada de Marco. – Já separaste as tuas roupas sujas para pôr na máquina? – perguntou ela à filha quando a viu a entrar na cozinha.Quero aquilo que mereço.Queres mais. . uma presença habitual lá em casa.Vou no domingo. não és?! Não estás sempre a encher a boca para dizer que vais para a cama com homens porque gostas? Porque é que queres ser tratada de maneira diferente? . O domingo amanheceu ensolarado e foi por essa razão que Sérgio resolveu regar o jardim com a ajuda de Daniel. – Já te chega? A humilhação tinha sido imensa.mas sim por um sentimento estranho que ela nunca pensou sentir por alguém.Tu estás-me a pagar – foram as últimas palavras dela antes de abandonar o carro e fechar a porta com força. Entretanto. . – É pouco – afirmou ela não desviando os olhos dele. O que é que achas? .Tudo bem – respondeu ela estendendo a mão com um olhar aterrador. Marco acatou a ordem e entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. . Marco seguiu-a e alcançou-lhe os braços pedindo desculpa.O.Quem está na chuva é para se molhar. – Tu achas que eu sou igual a todas as outras.Sara.Não é nada disso… – defendeu-se ele. És puta mesmo.Mas talvez eu seja mesmo! Talvez eu seja só mais uma prostituta a quem todos os homens pagam para irem para a cama.Não é um pagamento. . não é?! . agarrou-se à almofada e fechou os olhos inchados numa tentativa desesperada de adormecer. esquece! Não queres os cinquenta euros azar o teu. Porque é que irias pensar que eu era diferente? Já me conheceste nesta vida. .

k – disse Marco tentando ignorar os olhares de Madalena e Sérgio atrás das cortinas da janela. passou essa pergunta pela cabeça de Sara.Mesmo assim! Não queria sair de Lisboa sem te pedir desculpas primeiro. . – Porquê? Fiz mal? . atirou-o contra o lava-loiça e por fim preparou-se para sair da cozinha não fosse a figura de Sérgio ter-se atravessado no seu caminho. Enquanto ele caminhava calmamente em direcção ao carro. era Marco.Não. e essa pessoa. E o homem que viste aqui no jardim não é o meu pai.Porque estás aqui à minha frente – respondeu Madalena cortando os legumes sobre a bancada.Não é por causa deles.Não queres dar uma saída? Levava-te a almoçar num sítio qualquer. Não. – Então nesse caso acho melhor ir andando. . . . . mas deixou Sara especada sobre os portões com os olhos postos em Marco. A resposta trouxe um pesado suspiro por parte de Sara.Posso ligar-te um dia destes? . – Eu sei que fui um bocado parvo contigo na sexta-feira passada. – O que é que estás aqui a fazer? . Ficaste chateada. Não poderia ser. muito menos a desconhecidos. – Tens uma visita lá fora. já que ela nunca se atreveu a fornecer a sua verdadeira morada a ninguém.. – Não posso sair agora.Vim te ver – respondeu ele apoiando-se sobre os portões.…podes. Bebeu um copo de água.Estão aceites. – Então?! Posso ligar ou não? . Sara – afirmou ele desfazendo-se das luvas de borracha que utilizou para regar as plantas e a relva do jardim.Pensei que já tivesses voltado para o Algarve – afirmou Sara tentando manter uma expressão fria e altiva.Só vou hoje à noite. .Eu também acho. não foi? .Não – respondeu Sara com poucas palavras.Porque é que não aproveitas para a fazer antes do almoço? Já que não estás a fazer nada.Para saber de ti – respondeu ele encolhendo os ombros.Como é que sabes que eu não estou a fazer nada? .Então… o que é que queres? . . .O. . mas ainda assim a jovem achou por bem acatar as ordens da mãe. A despedida foi rápida e fria. ela poisou as 106 . .Não te esqueças também de fazer a tua cama de lavado. . a única alternativa que lhe restava era sair ao jardim e ver com os seus próprios olhos quem tinha tido a audácia de a procurar.Não me disse o nome – respondeu Sérgio sob o olhar atento de Madalena. nem um pouco.Quem!? .Não?! Pensei que era.Para quê?! .Faço mais tarde.Por causa dos teus pais?! . – Apenas disse que era um amigo e que precisava falar contigo. Assim sendo.Pedir-te desculpas – respondeu Marco. Seria algum cliente. . .Ele é só o namorado da minha mãe. ao contrário de todas as suas expectativas. . . .

não teve outro remédio a não ser aceitar o convite e a prometer uma visita sua para dali a uma semana.Estranho o quê?! . .São só coisas da tua cabeça – respondeu Sérgio beijando-lhe os cabelos. . – Eu não sou nada preconceituosa em relação a esse assunto. talvez devesse ter-se atirado para os braços de Marco e dito que o adorava acima de tudo. – Quem era aquele rapaz? – foi a primeira pergunta que Sara ouviu da mãe assim que entrou em casa. – É melhor ires andando.Se ela disse isso é porque era mesmo só um amigo – respondeu Sérgio começando a colocar a mesa do almoço. Após inúmeros telefonemas e convites. . . o avô de Sérgio a passar a comemoração festiva em sua casa. 107 .Tens a certeza que era só um amigo? A pergunta não obteve qualquer resposta quando Sara voltou a trancar-se no quarto fechando a porta com força. .Não. amor! Não deixes o teu avô à espera na estação – afirmou Madalena enquanto ultimava os preparativos para o grande almoço de família.Meu Deus! Que mentirosa – riram-se os dois às gargalhadas. Reprimiu esse desejo e no fim odiou-se por isso. E também não gostei nada do ar dele. . . Quantos e quantos rapazes não foram à tua procura quando tinhas a idade da Sara? . E a verdade é que essa semana passou a uma velocidade fantasmagórica.Pois não devias – respondeu Madalena envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço.Eu não sei.Era só um amigo – respondeu ela subindo as escadas a correr. entendes?! Bati os olhos e não gostei.mãos sobre a cerca e permitiu que os seus pensamentos voassem dali para fora.Se calhar da escola. .Não – afirmou Madalena instintivamente. Faltavam poucos dias para a Páscoa quando um verdadeiro milagre aconteceu. Madalena conseguiu convencer Luís Restelo. . Mas a verdade é que não o fez. o cabrito adquirido e os vinhos guardados no frigorífico para a ocasião especial. . Eu era uma menina muito bem-comportada se queres que te diga. Achei estranho. claro que não – defendeu-se Madalena de imediato.Por ser preto?! . Nunca dei trabalho aos meus pais e também nunca fiz nada de errado… . sentindo-se honrado.A conversa dos dois. – Ele parece ser muito mais velho! E também duvido que com aquela pinta ainda ande na escola. As amêndoas foram compradas. – Ela disse que era só um amigo – afirmou Madalena entrando novamente na cozinha. – Eu fui a adolescente mais bem-comportada do mundo.Bem-comportada. . Mas não sei! É o jeito dele.Lena esquece esse assunto! Estás a fazer um bicho-de-sete-cabeças de uma coisa absolutamente natural.Não foram tantos assim.E de onde é que a Sara o conhece? . e o último. Deveria sentir-se feliz com aquela visita? Talvez sim. é?! Duvido… .

mas mesmo muito atrasado – disse Sérgio largando as mãos sobre o volante.O que é que aconteceu? . ele encontrou o telemóvel sobre a caixa de velocidades e digitou o número de Madalena. – Queres que te traga alguma coisa da rua? . . lembraste? O pior é que a Sara também ainda não chegou. 108 . – O meu pai. .Hã… esqueci-me – berrou Madalena levando as mãos à cabeça. Um.Não acredito – resmungou Madalena.Apanhei um acidente no caminho e resolvi mudar o percurso. era nada mais.Obrigada! És um anjo. a filha da sua namorada. O pior é que não valeu de nada! Estou preso numa outra rua por causa de umas obras que estão a fazer. . dois. então nesse caso vou indo. O percurso em direcção à estação de camionetas poderia ter sido mais fácil se não fosse um aparatoso acidente ao qual Sérgio tentou contornar por um outro caminho mais demorado.A Sara ainda não chegou? .Bem.Eu não sei. está bem – respondeu Sérgio observando a figura de Sara a desaparecer pela rua acima.Não! Disse que ia entregar um presente a uma amiga que fazia anos mas que não se ia atrasar para o almoço. não é preciso. convencer-se a si próprio que o que estava a ver era fruto da sua imaginação ou então uma terrível coincidência.Não. Nessa altura.Podes deixar – respondeu Sérgio beijando-a nos cabelos.Já vou andando – respondeu Sérgio vestindo o casaco às pressas.O que é que tem o teu pai? . Alheio a tudo o que se estava a passar à sua volta. Escuta! Eu já te ligo. três toques e ela atendeu a chamada. Não sei se me vou conseguir despachar a tempo de ir buscar o meu avô e o teu pai. Ainda tentou forçar a vista. o relógio assinalou onze horas e quarenta e cinco minutos e o trânsito pura e simplesmente parou. Já tentei ligar-lhe para o telemóvel uma data de vezes e dá sempre no serviço voice mail… As lamúrias de Madalena continuaram a ecoar-lhe nos ouvidos. – Estou?! . .Hã… estou.É só para te avisar que estou muito. – Estás aí? – perguntou Madalena após um longo silêncio que ele fez questão de lhe oferecer ao telefone. . O meu avô vai-me matar.Será que eras capaz de o apanhar? Ele telefonou-me ontem à noite para me dizer que o carro dele deu o berro e que está a arranjar na oficina. mas a verdade é que lhe restaram poucas dúvidas de que aquela jovem que tinha acabado de sair de uma pensão nos braços de um outro homem mais velho. que Sara. . mas já nessa altura.. . Sérgio concentrou todas as suas atenções para uma cena chocante que se estava a passar diante dos seus olhos. .Não consegues ir buscar o teu pai? . nada menos. Eu não queria que ele apanhasse transportes públicos para vir almoçar connosco. Tenho o cabrito no forno. . . foram as palavras que o fotógrafo repetiu vezes sem conta enquanto as buzinas dos carros começavam a ecoar naquela rua verdadeiramente estreita. – Eu vou buscá-lo.

mas ainda assim Madalena hesitou em aceitá-la.Já vi que não perdeste o jeito. Alice. 109 . . mulher à volta do lava-loiça. a Sara não está – afirmou Madalena não se deixando afectar pelos elogios baratos do ex. e depois disso.Não é preciso.Mas eu faço questão! Já passa da uma e tu sabes que o teu pai gosta de almoçar cedo. que também foi convidada para o almoço. . . . marido. . Raios. O que é que vieste cá fazer? . Raios. quando Sérgio lançou a cabeça para fora da janela. Seria Sara? Seria a sua melhor amiga. vai atender – pediu ela ao filho enquanto levava o cabrito novamente ao forno.Olha. Daniel saltou da cadeira da cozinha e correu a abrir a porta.A sério?! Pensei que a Sara e o Daniel fossem os nossos filhos. . O que é que ele tinha lá ido fazer? .Claro! O problema é que está desligado. Mas o pior é que já devia ter voltado. Sara e o senhor desconhecido que a acompanhava desapareceram sem deixar rastro.Aonde é que ela foi? . eu preciso de uma panela… . Só estou à espera dela para ir buscar o meu pai a casa – respondeu Madalena escorrendo a água da massa. Aonde é que se tinham metido? Faltavam poucos minutos para a uma da tarde quando Madalena sentiu a campainha tocar. . .Não da minha família. Era Jorge. .Se quiseres posso ir buscar o teu pai – afirmou Jorge para grande surpresa de Madalena.Eu sei.Oras! Vim ver os meus filhos.Olá – respondeu ela largando uma toalha sobre a bancada. O seu ex. ou teria Sérgio conseguido o milagre de trazer o avô e o pai dela em tempo recorde? – Daniel. . lembraste?! .Disse que ia entregar um presente de aniversário a uma amiga da escola. marido.Cabrito. . – O que foi?! Trago o teu pai num instante. eu não quero e nem vou discutir contigo agora! Tenho uma quantidade enorme de coisas para fazer. Pai foi a palavra que Madalena ouviu enquanto fechava a porta do forno.Jorge.Olá Lena… .Pensei que também fizesse parte da família.disse ele entrando na cozinha alguns minutos mais tarde. . Por isso. . Sabes lá a que horas é que a Sara pode aparecer por aqui… A proposta do ex.E porque é que haverias de ser convidado?! . mas ainda assim. . É Pascoa.Já vi que toda a gente foi convidada para este almoço.O telemóvel foi desligado e atirado novamente contra a caixa de velocidades.Já lhe ligaste para o telemóvel? – perguntou Jorge apoderando-se de uma maçã sobre a fruteira da cozinha. marido era deveras tentadora. – Que surpresa ver-te por aqui. se não te importares de sair da frente do armário. alguns passos vindos do corredor. menos eu – resmungou Jorge trincando a maçã enquanto observava os gestos da ex. Ao ouvir a ordem da mãe.Cheira bem – disse Jorge apontando para o forno. .

quase dezasseis. E Madalena pôde ter essa certeza quando ao lançar os olhos à bancada da cozinha foi obrigada a deparar-se com os restos da maçã que o ex.Águas passadas – riu-se Jorge enquanto terminava de comer a sua maçã.Posso subir? – perguntou Sara num tom debochado. 110 .Nunca te vi tão animada.Só se for no banco da frente. Jorge fazia parte do passado. De um passado repleto de discussões. esmeraste-te… . . murmurou ela levando o caroço ao caixote de lixo. . – Mas não se atrasem. – Fui ter com uma amiga. – E tu. Ele tratou-me tão bem quando fui passar aquele fim-de-semana à casa dele que eu queria retribuir-lhe a gentileza.disse ela ajudando a colocar a mesa da sala. A primeira pessoa a chegar para o almoço foi Alice. – Bem.Podes – respondeu Madalena percebendo-lhe o sarcasmo na voz.Tudo só porque o avô do Sérgio vem cá almoçar? . oh pestinha!? Não queres vir com o pai?! . – Quer dizer. . .…está bem – concordou Madalena.Já te tinha dito – respondeu Sara rasgando alguns olhares a Alice. – Também não se atrasou tanto assim. Quando éramos casados cansava-me de ir buscar o teu pai e a tua mãe a casa. – Até que enfim! Aonde é que estiveste? . a melhor amiga de Madalena.A quilómetros de distância! Não há dúvidas de que o Sérgio te está a fazer muito bem. Afonso? .Está bem! Vais no banco da frente então.Nem tanto assim – respondeu Madalena distribuindo os talheres pelos pratos. Já viste que horas são? Quase duas da tarde.Eu não sei. . . Anda lá! A visão através da janela da cozinha dos dois homens da família a entrarem no carro fez com que Madalena voltasse a recordar os anos em que esteve casada com Jorge. Para além disso. Com certeza deve ter ficado à conversa com a amiga e as duas perderam a noção das horas. . Saíste daqui às dez.Lena. e consigo trouxe duas sobremesas especialmente adquiridas numa pastelaria perto da sua casa. traições e faltas de respeito. .. …um pouco. marido deixou antes de sair. Continua o mesmo. pelo amor de Deus! . coitada da rapariga – interferiu Alice continuando a colocar a mesa. . . Foram muitos.E eu lembro-me que não gostavas nem um pouco de fazer isso.Vá lá.Nota-se assim tanto? . . Lena! Até parece que nunca fiz isso antes. mas ainda assim não lhe trouxeram qualquer saudade. A resposta de Alice culminou com a entrada de Sara na sala e também com o olhar aterrador que Madalena fez questão de lançar à filha quando se deu conta do seu atraso imperdoável. – Mas vê se tomas banho antes de desceres para o almoço. mas também de não dar mostras de querer desaparecer tão cedo.Claro que não – riram-se as duas.Podes deixar – respondeu ele voltando-se para Daniel. . levou igualmente a boa-disposição que lhe era característica em momentos festivos.Pois! Mas disseste também que não te irias demorar. – Então?! Posso ir buscar o Sr.

Foram precisos vários minutos até que a porta se voltasse a abrir com as chaves levadas por Daniel, e atrás de si, vieram o avô e o pai envolvidos numa conversa divertida, algo não muito incomum entre dois homens que sempre se deram muito bem e que nunca esconderam a admiração mútua que sentiam um pelo outro. – Olá, pai – disse Madalena correndo a cumprimentar Afonso quando todos entraram na sala. – Como é que estás? - Estou óptimo – respondeu ele despindo o casaco. – E tu? - Cansada, mas bem! O almoço já está pronto. Vieste na hora certa. - Então vamos almoçar. Estou a morrer de fome. - Não, ainda não. Ainda vamos ter que esperar mais alguns minutinhos – respondeu Madalena rasgando alguns olhares ao ex. marido. – Falta ainda o Sérgio e o avô dele. Os dois apanharam algum trânsito pelo caminho, mas o Sérgio ligou-me há pouco para me dizer que já estão quase a chegar. - Hã… claro. - Bem, nesse caso, eu já vou andando – disse Jorge quando se deu conta que a sua presença não era muito bem-vinda. - Porquê?! – interrompeu Afonso. – Fica para almoçar connosco. - Eu?! - Claro! Foste tão gentil em ter-me trazido até cá. O mínimo que podias fazer era dar-nos o prazer da tua companhia, não achas? Por momentos, Madalena pensou estar a sonhar quando ouviu o discurso do pai e o convite estapafúrdio que este fez a Jorge sem sequer a consultar. Será que Afonso tinha perdido totalmente a noção da realidade? Será que ele não a ouvira a dizer que o seu novo namorado e o avô dele estavam a poucos minutos de chegar à sua casa? - Bem… - disse Jorge, encabulado. - …eu não sei se a sua filha concorda com o seu convite, Sr. Afonso! - É claro que ela concorda. Não concordas, Lena?! O silêncio mantido por Madalena foi deveras constrangedor. – Não concordas? – insistiu Afonso fulminando-a com os olhos. – As crianças iriam gostar de passar a Páscoa com o pai. Não foi preciso esperar muito tempo para que Sérgio Almeida e Luís Restelo tocassem à campainha e para que Madalena lhes abrisse a porta com um largo sorriso imediatamente correspondido pelos dois. Depois disso, seguiram-se os cumprimentos habituais perto do corredor e a tentativa de fazer Luís sentir-se em casa. – Atrasados, nós sabemos – disse Sérgio. – Mas a culpa não foi minha. - Eu sei! A culpa foi do trânsito – respondeu Madalena forçando um sorriso ao avô do fotógrafo. – Espero que tenha feito uma boa viagem, Sr. Luís. - Não foi tão má como pensei que seria. Apenas alguns solavancos no caminho, mas por sorte não cheguei partido. - Que bom! Mas entre, por favor. Fique à vontade. - Obrigado – respondeu Luís aceitando o convite com alguma cautela. Nessa altura, Sérgio encarregou-se imediatamente de lhe guardar o casaco e o chapéu no bengaleiro. – Será que era possível ir à casa de banho? - Claro, vô – respondeu Sérgio apontando-lhe uma porta ao fundo do corredor. – É ali. - Obrigado – agradeceu Luís seguindo a direcção apontada.
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- Desculpa ter-te deixado sobrecarregada com os preparativos do almoço, mas é que nem fazes a mínima ideia de como é que estava o trânsito lá para os lados das Amoreiras. - Não, tudo bem – respondeu Madalena impedindo Sérgio de sair do corredor quando lhe alcançou os braços. - O que foi? - É que… eu precisava contar-te uma coisa antes de irmos para a sala. - O quê?! A expressão doce e sorridente de Sérgio fê-la sentir-se pior do que mal, mas a verdade é que Madalena não tinha outra opção a não ser contar que a lista de convidados se havia estendido para além do previamente estipulado. – Estás-me a dizer que o teu ex. marido também veio almoçar? - Eu sei que parece uma loucura, uma coisa ridícula. Aliás, não parece, é – interrompeu Madalena segurando-lhe o pulso com força. – Mas tens que acreditar que a culpa não foi minha! Foi o meu pai que o convidou. - E porque é que o teu pai o convidou? - …o Jorge veio ver o Daniel e a Sara, e eu sem querer acabei por lhe dizer que precisava de alguém para ir buscar o meu pai porque tu me tinhas ligado a avisar que estavas atrasado. Então ele ofereceu-se para ir buscar o meu pai e… - E tu aceitaste? – perguntou Sérgio tentando controlar os ciúmes que se apossaram de si. - Só porque não tive outra opção. A Sara ainda não tinha chegado da rua, eu tinha o almoço no lume e também não podia deixar o Daniel sozinho em casa. - O.k! - Então quando eles chegaram, eis que o meu pai teve a brilhante ideia de convidar o Jorge para almoçar connosco. Eu não queria, mas… - Tudo bem, Lena! Esquece. - Desculpa – disse ela observando-lhe a expressão desagradada. – Eu sei que é uma situação horrível, principalmente por causa do teu avô, mas eu não tive culpa. Foi algo que fugiu ao meu controle. Acredita em mim…! - Eu vou lavar as mãos à cozinha – afirmou Sérgio deixando-a especada no corredor a remoer todas as culpas por aquela situação no mínimo caricata. Tal como se era de esperar, o almoço tornou-se sombrio para Sérgio e Madalena, já que a visão de Jorge sentado à mesa retirou-lhes todo o apetite e trouxe um certo desconforto a Luís Restelo por perceber o desconforto do neto diante daquela verdadeira afronta a que ele tinha submetido. Talvez Afonso e as crianças não tivessem percebido o pouco à vontade dos restantes convidados, talvez estivessem demasiado entretidos com as piadas contadas por Jorge, mas a verdade é que nenhuma dessas piadas surtiu efeito para Madalena, Sérgio, Luís ou Alice. – Ainda não perdeste o jeito para a cozinha, Lena… – foi a gota de água dita pelo advogado no final do almoço. - Bem, eu vou buscar as sobremesas – respondeu ela recolhendo as loiças sujas. - E eu ajudo-te – interferiu Alice desejando sair daquela mesa tanto quanto a sua melhor amiga. Quando chegaram à cozinha, o estrondo das loiças a caírem no lava-loiça fizeram antever todo o ódio que Madalena estava a sentir, não só pelo seu ex. marido, mas também pelo seu

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pai, o responsável por toda aquela situação no mínimo caricata. – Eu devia suicidar-me… – disse ela. - Toma – respondeu Alice entregando-lhe um facalhão. - Obrigada pelo apoio moral. - Eu até acho que o almoço não está a correr assim tão mal. - Só podes estar a gozar – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico a fim de retirar as sobremesas que havia prometido aos seus convidados. - Achas que o teu pai fez de propósito? - O que eu acho é que ele está a ficar velho e senil. - Para mim a culpa é do Jorge. - A sério?! Não me digas. Nem tinha percebido uma coisa dessas. - Aposto que foi ele que manipulou o teu pai durante o caminho para que ele o convidasse para o almoço. É a cara do Jorge fazer uma coisa dessas! O gajo nem sequer consegue disfarçar que está a morrer de dores de cotovelo. - Dores de cotovelo porquê?! - Lena, não me digas que ainda não percebeste? Ele está louco para atrapalhar o teu namoro com o Sérgio – respondeu Alice colocando as taças das sobremesas no interior do tabuleiro. – Aposto também que ele quer voltar para ti. - Shiuuuu! Fala baixo! - Que mal é que tem? Está na cara de todos. Só um cego é que não consegue ver que o Jorge ficou cheio de dores de cotovelo quando soube que havia um outro homem interessado em ti. Isso é perfeitamente natural nos ex. maridos! Pensam sempre que nós nunca nos iremos conseguir recuperar do divórcio, que vamos acabar secas, sozinhas e a fazer tricô no sofá da sala, enquanto eles ficam livres e soltos para aproveitar a vida com rapariguinhas de vinte anos. Diz lá qual é a novidade nisso? Já era assim no tempo da minha avó. - Só me sinto mal por causa do Sérgio e do avô dele – disse Madalena levando as sobremesas à mesa da cozinha. – Imagino a impressão que Sr. Luís teve ter tido de mim. Ele deve pensar que eu sou uma descarada. Que ando com dois homens ao mesmo tempo. - Claro que não – riu-se Alice alegremente. – Acredita que deixaste bem claro à mesa que odeias o teu ex. marido de morte. - Deus queira que sim! Era a segunda vez que a observava a sair da sala e era também a segunda vez que lhe passava pela cabeça confrontá-la com o que vira horas antes. Foi por isso que Sérgio interceptou Sara à frente das escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e parou-lhe todos os movimentos com uma frase rápida e seca. – Vi-te hoje. Surpresa com a interpelação, a jovem voltou-se para trás e encarou-lhe a expressão séria. - Desculpa?! - Vi-te hoje numa rua perto de Campolide! Estavas a sair de uma pensão com um homem que tinha quase idade para ser o teu pai. - E o que é tu tens a ver com isso? - O que é que estavas a fazer com ele? - Não é da tua conta – respondeu Sara apoiando-se sobre o corrimão das escadas.

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E obrigado também pelo almoço. Infelizmente tinha chegado a hora de voltar ao Alentejo e à sua vida reclusa. conhecimentos e deixar de olhar os ponteiros do relógio à espera que por milagre eles andassem mais depressa. Nessa altura. – E desculpe qualquer coisa.Eu vou levar o meu avô a casa – interferiu Sérgio abrindo a porta da rua. . Passei uma tarde bastante agradável. a mãe de Sérgio. O ex.Sim! E provavelmente vou lá dormir para não vir a conduzir tão tarde.Já disse que não é da tua conta. poucas dúvidas restaram relativamente à afinidade dos dois senhores e à excelente ideia de Madalena em juntá-los no mesmo espaço. Ou será que ainda não percebeste que durante o almoço tu e o teu avô estavam ali a mais!? Silêncio foi a resposta de Sérgio enquanto Sara continuava o seu discurso venenoso. Era bom poder conversar com outras pessoas.. – Tem a certeza que não quer passar a noite connosco? – perguntou Madalena observando os gestos de Luís a vestir o casaco junto ao bengaleiro do corredor. . Por acaso essa amiga morava naquela pensão? . De facto. projectar as suas experiências. . não queiras distorcer as coisas… . e quando deu por si. cuja idade era praticamente idêntica à de Luís Restelo. não hesitou em contar a todos os presentes algumas das peripécias passadas durante a guerra colonial. os convidados deliciaram-se com as sobremesas confeccionadas por Madalena e divertiram-se com as conversas animadas de Afonso Soares. oh! Apesar do mal-estar inicial que a presença de Jorge provocou. naquele domingo particularmente ventoso. o de avô Sérgio. Luís sentiu-se entre amigos e afastou dos ombros a sombra da solidão. – Tem razão! Espero que faça uma boa viagem então. .Desculpar o quê?! O sorriso confiante e paternal de Luís permitiu que Madalena se sentisse menos culpada pela presença do ex. as horas pareceram voar.Eu se fosse a ti preocupava-me mais com a tua vida e menos com a vida dos outros. . mas obrigado pelo convite.Ao Alentejo? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. Luís também contou histórias iguais. o almoço decorreu sem quaisquer outros incidentes. E para a surpresa das surpresas.Pensei que tinhas dito à tua mãe que ias entregar um presente a uma amiga. faltavam poucos minutos para as sete da tarde.Não.Eu pensei que … o Sr. marido e também para que percebesse que nem mesmo esse acontecimento menos feliz destruiu a boa imagem que o avô de Sérgio tinha de si. Pela primeira vez desde a morte da mulher e da sua única filha.Obrigada eu por ter vindo – respondeu ela apertando-lhe as mãos com força.E se estiver? O que é que tu tens a ver com isso? Também não te andas a relacionar com mulheres mais velhas? . Luís fosse voltar de camioneta. . militar. – A minha única alegria é saber que falta bem pouco para a minha mãe te dar um pontapé no rabo e voltar para o meu pai! Falta um pouquinho assim.Sara. 114 . Sentados nos sofás e em algumas cadeiras espalhadas pela sala. . é isso?! . .Tu andas a relacionar-te com homens mais velhos.

mas ainda assim o sono teimou em não aparecer. . ela não.Magoado porquê? .O que é que se passa. . Já vi que não há santo que lhe consiga mudar de ideias. e embora as estrelas no céu levassem para longe alguns dos seus pensamentos mais sombrios. Madalena não pregou olho. . mas… . mas o Sérgio quer levar-me a casa.Nada – mentiu Sérgio interiorizando a serenidade que aquele quintal lhe trazia.Eu não fugi de Lisboa.Não.. quanto a isso não dúvidas.Claro – disse Madalena forçando um sorriso quando percebeu os verdadeiros motivos para que o fotógrafo quisesse levar o avô a casa. . rapaz? . Luís! À noite as estradas são um pouco perigosas.Fugiste de Lisboa porquê? .Então qual é o problema não estou a perceber. mas será que só isso bastava? Será que só isso chegava para que continuasse a lutar por ela? Diante de tudo o que tinha acontecido naquela tarde. e o pai. Só precisava de… algum tempo para recompor as minhas ideias e pensar no que devo fazer. três vezes. – Eu também acho melhor que vá com o seu neto. a verdade é que nem todas conseguiram tal feito.Por me ter sentido a mais! Por ter sentido que era eu o intruso e não ele. marido dela no almoço. – A filha dela odeia-me. Sentado sobre o alpendre da porta com um chocolate quente nas mãos.Falamos amanhã – foram as últimas palavras de Sérgio a Madalena antes de se afastar dela com uma expressão fria e carregada. Era óbvio também que ele se havia magoado com a presença de Jorge e com a certeza que o ex. Foi só nessa altura que ela chegou à conclusão que o que lhe estava a faltar eram os braços de Sérgio e o peito dele para que pudesse encostar a cabeça. . . 115 . Virou-se na cama. Amava-a. uma. ele começou a ter algumas dúvidas. – Magoado. – Pensei que estivesses a namorar só com a Madalena.Chateado não é bem o termo – respondeu Sérgio permitindo que o seu avô se sentasse ao seu lado nas escadas. marido também. talvez. genro. . . – Até já tinha comprado bilhete ida e volta. .Não! Perdi o sono. Naquela noite.Não sabia que estavas a namorar com essas pessoas todas – respondeu Luís.Eu também – respondeu Luís enfiando o chapéu na cabeça. o ex. duas. .É a Madalena.De onde é que foste buscar uma ideia dessas? Por acaso a Madalena tratou-te como se fosses um intruso? . não é?! Ficaste chateado por ver o ex. embora seja simpático comigo. – Pensei que já te tinhas ido deitar – disse-lhe o avô. Sérgio baixou o rosto. Mas será que não fazia? Será que Sara tinha razão quando disse que faltava muito pouco para que Madalena e Jorge voltassem ao casamento de ambos? Foram essas algumas das perguntas que também retiraram o sono de Sérgio em casa do avô. Mas era óbvio que os acontecimentos daquele horrível almoço de Páscoa ditaram o afastamento do fotógrafo da sua cama. eu sei que no fundo ele torce para que a filha volte para o ex. o fotógrafo lançou os olhos ao céu e tentou encontrar motivos para continuar a lutar por Madalena. Sr. marido de Madalena ainda fazia parte daquela família.

Desculpa – pediu Madalena correndo ao encontro dele. Tudo o resto são detalhes. Madalena resolveu engolir o seu orgulho e procurá-lo à hora de almoço. mas ainda assim.Precisava de tempo – respondeu Sérgio. O maldito almoço de Páscoa.Estás muito ocupado? . mas parece que tu não estás disposta a fazer isso por mim.O que é que eu podia fazer? . – Porque é que não me ligaste? . pensou Madalena enquanto se livrava da mala e do casaco que tinha nas mãos. . A única coisa que eu queria era ter a certeza que o teu ex. por sorte naquela tarde o trânsito ajudou e por sorte ela conseguiu chegar ao estúdio do fotógrafo em apenas vinte e cinco minutos.Não. Por sorte. para ficar sozinho… . – …olá… . . – Não fui eu que convidei o Jorge para almoçar. – Que tal ter dito ao teu ex.Não. as mãos começaram a suar e os nervos a apoderaram-se de si. . – Desculpa! Eu não queria ter feito o que fiz. mas a verdade é que não fizeste nada para o impedir.Então pergunta-lhe – respondeu Luís abandonando o quintal e também todas as dúvidas que o neto carregava dentro do peito. Foi o meu pai… .Não sei – respondeu Sérgio não escondendo a sua fúria. Alice disponibilizou-se a tomar conta da floricultura. . .São sim! É só com a opinião de Madalena que te deves preocupar e nada mais. Tempo para pensar.E qual será a opinião dela? – perguntou Sérgio voltando-se para o avô.Eu não queria ter que te desculpar.Pode até ter sido o teu pai. entra – pediu ele abrindo-lhe passagem em direcção ao estúdio.Porque eu pensei que também precisavas pensar e ficar sozinha. .Desculpa! Eu devia ter ligado. 116 . marido que era ridículo sequer imaginar a ideia de o sentar à mesma mesa comigo e com o meu avô!? Quer dizer.E porque é que querias pensar e ficar sozinho? .Não. Após quarenta e oito horas sem qualquer notícia ou telefonema de Sérgio.As coisas não são assim tão fáceis.Já te disse que a culpa não foi minha – afirmou Madalena largando os braços. . .Não sei. Era só isso que eu queria. vô… .Tempo?! Tempo para quê? . põe-te no meu lugar! Tu humilhaste-me … .Tu humilhaste-me e tens consciência disso porque senão não tinhas cá vindo – afirmou Sérgio calando-lhe todos os argumentos. Foram precisos apenas dois toques.Não sabes?! . Os momentos que se seguiram foram preenchidos com um silêncio ensurdecedor e com a certeza de que havia muita coisa a ser esclarecida desde o último almoço de domingo. ela conseguiu arranjar forças para subir e para também tocar à campainha. eu não … .disse ela quando os seus olhos se cruzaram com os de Sérgio. marido já não faz parte da tua vida. Desculpa! . Que ele não tem acesso directo à tua casa e que não aparece lá sempre que lhe apetece. Ao subir os degraus das escadas. o seu coração disparou.. .

esbaforida.E o que é que queres que eu faça? – gritou Madalena. – Não quero. quanto a isso não havia dúvidas. – Eu não sei.Então vamos esquecer tudo o que aconteceu neste domingo. por uma relação que lhe estava a consumir todas as forças. Foi por isso que eu me resolvi afastar.Lena. .Eu também não. 117 . Depois disso. – Eu não quero ficar sem ti – repetiu. eu não quero discutir. – Tu nem sabes… .Boa! E depois a culpa é minha?! E depois eu é que estou a fazer de tudo para que a nossa relação não resulte? . Eu prometo que vou fazer de tudo para afastar o Jorge de nós. ela teve dúvidas. mas principalmente.Eu também. mas… . Vamos colocar uma pedra sobre o assunto. . Esgotado por aquela discussão.Mas o Jorge já não faz parte da minha vida – respondeu Madalena num tom desesperado. pelos seus medos. nada mais importou. Lena! Mas eu não sei se vou conseguir lidar com isto tudo.Tens a certeza? Diante da pergunta de Sérgio. Não sei se vou conseguir lidar com o facto de ser obrigado a olhar para a cara do teu ex. Prometo! A promessa da Madalena pareceu ter surtido efeito quando Sérgio lhe encontrou os lábios e os beijou com toda a paixão que possuía dentro de si.murmurou ele com os olhos rasos de lágrimas.Eu não sei – respondeu Sérgio aos gritos dela. ela deixou-se envolver e os dois acabaram caídos no divã à espera que os beijos e as carícias pudessem apagar todas as palavras amargas que disseram momentos antes. Isto para não falar da Sara! Todos eles estão a torcer para que a nossa relação não dê certo e o pior é que tu estás a deixar que isso aconteça… . . . receios e inseguranças.. as coisas eu que tenho aguentado… . . marido sempre que ele resolve aparecer ou então com a vontade do teu pai em querer que voltes para ele. . – Eu amo-te. Sérgio encostou-se à secretária e levou as mãos à cabeça. . – Não termines comigo – disse Madalena levantando-lhe o rosto com as mãos. Ele envolveu-a nos braços.Se tu soubesses como me tenho esforçado para que isto dê certo.A única coisa que eu sei é que eu te amo e que não quero ficar sem ti – respondeu ela amparando-lhe uma lágrima com os lábios. – Eu amo-te.Nós já estamos a discutir! Ao ver-se pela primeira vez sem argumentos. Estava esgotado.

Madalena seguiu à risca as promessas que fez.Sim! Eu quero que te mudes para a minha casa definitivamente.Tens mesmo a certeza que é isso que queres? . . Madalena não conseguiu esconder a emoção.CAPÍTULO VII Os dias seguintes trouxeram alguma calmaria perdida após aquele fatídico domingo de Páscoa. . – Estás-me a pedir em casamento? .A sério? Nem tinha percebido uma coisa dessas. De resto.Olha que eu sou muito desarrumado. . Sérgio conseguiu definitivamente conquistar o coração dela ao oferecer-lhe um maravilhoso anel de compromisso. Sérgio tentou dissipar a suas dúvidas relativamente ao ex. e assim o casal continuou a projectar planos para um futuro que apesar de tudo parecia promissor. Ao ver-se com aquele discreto. 118 .E os teus filhos? . marido dela. – Talvez ela se vá opor um pouco. – É lindo! .Viver contigo?! .Nunca me lembro de levantar a tampa da sanita. .O. é claro.Não tens que agradecer. . mas eu sei como lhe dar a volta. . Só o tens que usar. . .O.Nem mesmo a Sara? . baixinho.Adorei – riram-se os dois apertando as mãos sobre a mesa.Não vou tirá-lo do dedo nunca. Quero dormir ao teu lado todas as noites e acordar contigo todas as manhãs. . Com um jantar romântico à luz de velas num restaurante italiano chamado Cipriani.Eu vou falar com eles.Achei que fosses gostar.Acho bem – respondeu Sérgio beijando-lhe a mão direita. mas lindíssimo anel no dedo. – Eu quero muito. .Mas só com uma condição.Tenho – respondeu Madalena sem quaisquer hesitações.riram-se os dois. tenho o péssimo hábito de deixar a toalha molhada sobre a cama e quase nunca dobro as minhas camisas… .Ainda não – respondeu ele esboçando um sorriso carinhoso. Mas eu tenho a certeza que nenhum deles se vai opor. – Mas é um passo importante para isso.Que condição? .k – riram-se os dois. – Obrigada. o aniversário de Madalena provou isso mesmo. .k! Pensando melhor… .Que venhas viver comigo – respondeu Madalena tomando-o de assalto com aquele convite inesperado. . .

Chega. Como é que ela se atrevia a colocar um perfeito desconhecido lá em casa. A mudança de Sérgio aconteceu duas semanas mais tarde. disse-lhe. claro que não! Por tua causa. encontrava-se ao lado daquele perfeito desconhecido. – Eu também quero morar contigo.Eu sei! E eu já sinto isso. Alguma vez te deixei ficar mal? 119 . foi a pergunta que a jovem gritou aos ouvidos de Madalena vinte e quatro horas antes de Sérgio se mudar de armas e bagagens. Sei lá! Combinávamos num sítio qualquer e eu levava-te comigo. Um facto que passou completamente despercebido o Sara enquanto o ouvia com atenção e se deliciava com a sua voz grave e grossa ao telefone.Não te precisas preocupar com isso – afirmou Sérgio envolvendo-lhe os braços à volta da cintura. Depois disso. ele estava no Algarve metido nos seus inúmeros negócios esquivos e pretendia regressar a Lisboa no final da semana para entregar algumas mercadorias ilícitas. – Não queres vir comigo ao Algarve? – perguntou ele já perto do final da conversa. .E quando é que voltávamos? .Por causa da mamã?! . a pensar no bem-estar dos filhos e a viver em função deles..É claro que eu sou de confiança. e embora não tivesse sido aprovada pela maioria. Chega de passar a vida a pensar nos outros. aliás. não penses – disse ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. A semana não poderia ter começado melhor para Sara quando recebeu um telefonema de Marco a meio da madrugada. e a sua felicidade. .Deixei-te também duas gavetas livres e uma outra na casa de banho. .Vamos. .Por minha causa? . . a porta do quarto de Sara fechou-se com um enorme estrondo e não se ouviu mais nenhum barulho durante a noite. Dali para frente. .…eu não sei se vou poder ir – disse Sara sentindo-se mais do que tentada a aceitar aquele convite no mínimo inesperado. . . feliz ou infelizmente.Não. . Tal como sempre.Está óptimo. .Devo aparecer aí por Lisboa na próxima sexta-feira e volto no mesmo dia. – Porque não sei se és de confiança.Ir ao Algarve? Quando? .Não. . Eu quero que te sintas em casa. o facto é que aconteceu e pouco ou quase nada houve a fazer por Sara que mais uma vez viu na presença do fotógrafo uma afronta especial oferecida pela sua mãe.No domingo. Mas a verdade é que nem os gritos histéricos da filha impediram Madalena de levar os seus planos adiante.Ainda bem – respondeu Madalena sugando-lhe os lábios no meio de um sorriso radiante.Então vamos morar juntos – respondeu Madalena entrelaçando os dedos nos dele. .Nem pensar. – Achas que este espaço te chega? – perguntou Madalena abrindo as portas do seu roupeiro a Sérgio.Sim – respondeu ela sorrindo ao telefone. ela iria tentar ser feliz. – Já te disse que me arranjo. . eu quero que sintas que esta é a tua casa. .

Aonde é que vais? . – Mas tudo bem. – Atrasei-me. Sara sabia-o melhor do que ninguém e sabia também que quando voltasse do seu fim-de-semana com Marco. – Os teus pais por acaso não desconfiam que andas a faltar às aulas para vir para cá? . . A minha especialidade.Vou trabalhar. Infelizmente. e para ajudar à festa.Chateado porquê? 120 . . eu não sou a tua mãe. A chegada a casa aconteceu quando faltavam poucos minutos para às oito.Escuta! Eu sei que o Marco anda metido em negócios estranhos. . Sérgio já havia iniciado os preparativos de um jantar no mínimo improvisado enquanto Daniel se entretinha a jogar na sua playstation portátil em frente à televisão da cozinha. De qualquer maneira.Hum! Está óptimo. naquela sexta-feira.Já vi que sim – respondeu Madalena apressando-se a beijar a face do filho. ele trata-me muito bem! Não me trata como uma prostituta. o trânsito infernal que apanhou durante o caminho apenas lhe trouxe uma enorme dor de cabeça. mas também arriscado. Mas a paixão que sentia por ele valia a pena? De certo que sim. o que é que isso importa? Já estou chumbada mesmo – riu-se a jovem. . . Vou-me encontrar com ele no Campo Grande. por isso não me deves satisfações e nem eu te devo conselhos. . . . desiludo-me. .O.Esparguete à bolonhesa. as compras do supermercado prenderam Madalena mais tempo do que estava à espera.Normal.Não! Eu consigo sempre apanhar as cartas da escola no correio. – Anda lá! Não me posso atrasar.…está bem – respondeu Sara dando-se por vencida. – Desculpem! Desculpem – pediu Madalena entrando pela cozinha adentro carregada de sacos de compras. – Prova o molho! Vê se está bom? .Então?! Vem comigo e eu prometo-te que vais passar um fim-de-semana inesquecível.Ele não presta! Estás iludida. . Queres pagar para ver? Paga! Tal como já me disseram. amor? Como é que foi a escola? .Não faz mal – respondeu Sérgio entregando-lhe uma colher à boca. . – Tu não sabes com quem te estás a meter – avisou-lhe Milene a dois dias da fuga. – E tu. – Se queres que te diga.k! Se eu estiver iludida. . mas nessa altura.Eu também tenho um cliente marcado para as três e meia.Maluca – exclamou Milene empurrando-lhe as costas. . O plano parecia ser perfeito. ao contrário dos outros. tudo iria desmoronar à sua volta tendo em conta a histeria da mãe. mas isso não significa que ele seja má pessoa – respondeu Sara saltando da cama. . – Eu vou fazer tudo para ir contigo..Ouve lá – disse Milene voltando-se para Sara.Não.O problema é que quando fizeres isso já vai ser tarde demais – afirmou Milene vestindo o seu casaco às pressas. .Estás com uma cara! O que é que aconteceu? .Estou chateado – respondeu Daniel afastando-se bruscamente da mãe.

Desculpa?! .Ela não está aí contigo? . marido e a sorte que foi em ele ter ouvido a chamada. mas tal como deves calcular.Qual encobrir qual quê – exclamou ele levantando-se da cama.Estou-te a perguntar se a Sara está aí contigo – repetiu Madalena. encontrava-se fora de área. impaciente.Porque é que o pai não me levou também? – interrogou Daniel não escondendo a sua irritação. já disse que não! Não falo com ela desde quarta-feira.Então aonde é que ela se meteu. Depois disso. .Acho que é por isso – interferiu Sérgio entregando a Madalena um bilhete escrito por Sara horas antes.” . foi a conclusão a que Madalena chegou após ter reflectido pela primeira vez. .Não sei! Quando chegámos ela já não estava cá em casa – respondeu Sérgio.Um problema?! . E a última. – Alguma vez fui buscar a Sara e o Daniel sem te avisar primeiro? Na verdade não.Não. não está – disse ele tentando desenvencilhar-se dos braços de uma mulher.Não. O número de Sara foi imediatamente digitado. . . . – Disse à mãe que estava comigo. então com quem ela estava? – Já lhe tentaste ligar para o telemóvel? – perguntou Jorge. – Porque é que a Sara haveria de estar comigo? . eu estou a ir para aí! Qualquer coisa entretanto e não hesites em ligar-me. – A Sara está aí contigo? . mulher. mas tal como sempre. Não sei aonde é que aquela maluca se meteu.Aonde é que vais? – perguntou a mulher que estava na cama de Jorge.Porque ela deixou um bilhete escrito a dizer que ia passar o fim-de-semana contigo e que eu não precisava preocupar-me em ligar! Jorge. . Está tudo bem. mas está desligado.Isto está-me a cheirar muito mal – murmurou Madalena correndo a alcançar o telefone sobre a bancada.O Jorge veio buscá-la? – perguntou Madalena depois de ter lido o bilhete vezes sem conta. seguiu-se número do ex. ao reconhecer a letra. mas vou ter que ir à casa da minha ex. Mas se a filha não estava com o pai.E tu vais-me deixar aqui sozinha? 121 . . por favor… .A minha filha desapareceu – disse Jorge enfiando-se nas suas calças. . Tens a certeza que não sabes nada da Sara? .Jorge! Responde à minha pergunta. mentiu. Aconteceu um problema. . encostou-se à mesa para melhor o ler: -“ Mãe! Fui passar o fim-de-semana com o pai e volto no Domingo.Claro que sim.Não sabes de alguma amiga com quem ela possa estar? Encontra um número – afirmou Jorge começando a ficar preocupado com o súbito desaparecimento da filha.. . meu Deus?! . se ela estiver aí contigo e tu a estiveres a encobrir… .Está bem – respondeu Madalena desligando o telefone sem muitas delongas. Não precisas ligar. – Olha. .Desculpa Catarina.

Estou – foram as primeiras palavras de Madalena quando a sua chamada foi atendida por uma das melhores amigas da sua filha. foram as palavras que repetiu vezes sem conta enquanto revistava gavetas e armários com a ajuda de Sérgio.Então liga-lhe. já te disse. ele deixou de ter dúvidas. princesa?! É claro que eu sei que não és uma prostituta. eu não sou uma prostituta – afirmou Catarina levantando-se da cama. Amigas da escola.Jorge.Quem é que te disse isso?! .Eu sinto muito. apenas veio a cimentar a suas desconfianças. Sim.Que é isso. – Não vens? .Sim. mas é que eu precisava saber se a Sara por acaso não está aí contigo… 122 . É da turma da Sara. Sérgio foi o único a encontrá-la. Como é que podes pensar uma coisa dessas? . marido. – Graças a Deus encontrei! . esbaforida. lingerie provocante e outros artigos escabrosos que nenhuma rapariga de dezasseis anos deveria ter em sua posse. Mas a verdade é que estava tão cega e obcecada em encontrar o que procurava.. .Vou ligar da sala – respondeu Madalena correndo em direcção à porta. preservativos. Sérgio voltou a abrir as portas do roupeiro a fim de encontrar a caixa de cartão que continha alguns dos objectos mais íntimos de Sara. coisas que até ele não queria imaginar quando se lembrou que dias antes a havia visto a abandonar uma pensão ao lado de um homem muito mais velho. Ao segurá-los nas mãos.Bem que me tinham dito que tu não eras de confiança – resmungou Catarina apressandose a encontrar a suas roupas espalhadas pelo chão. . Eu conheço-a. a tua fama já corre pela cidade inteira ou ainda não sabias?! Seguindo os conselhos do ex. . a mãe da Sara! Desculpa estarte a ligar a estas horas.Não! Eu vou ficar para ver se consigo encontrar outros números… . é! Olha. . . Coisas que ninguém sabia e que ninguém tinha coragem de imaginar. os seus olhos esbugalharam-se de surpresa e consternação.Que tal porque me estás a tratar como uma? . Mas a verdade é que Sara tinha. cinquenta e cem.Tudo bem.Tens a certeza que é isso? . Quando a porta do quarto se encostou com cuidado e os passos de Madalena se perderam pelo corredor. Escuta! Se quiseres dou-te boleia até a uma praça de táxis mais próxima. . amigas da escola. – Mariana?! Sou eu. e a outra verdade é que Sérgio começava a chegar à conclusão que existiam muitas mais coisas para além do comportamento rebelde da jovem. tem aqui o número da Mariana. Não posso ficar aqui contigo sem saber o que realmente aconteceu com ela.Não tenho outra escolha. Madalena subiu ao quarto de Sara e apressou-se a encontrar qualquer objecto que contivesse números de telefone de pessoas próximas à filha.Jorge. que nem sequer se apercebeu ou se deu conta de uma grandiosa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro. Eram dezenas de filmes pornográficos. e quando a abriu com alguma discrição para que a namorada não se apercebesse do que estava a fazer. mas tenho mesmo que ir! A minha filha desapareceu. – Encontrei – exclamou Madalena erguendo uma pequena agenda cor-derosa. O que estaria Sara a fazer para ganhar tanto dinheiro? . Além disso. o facto de ter encontrado quinhentos euros em notas de vinte.

.Tem calma. Meu Deus! Será que eu estava cega? . .Tem calma – disse Sérgio tentando alcançar-lhe os ombros embora Madalena se tivesse desviado a tempo. . Madalena. . Ainda não.Hã. Lena – disse Sérgio pressentindo o seu desfalecimento. Mais do que conseguiu imaginar nos seus piores sonhos e uma realidade que apesar de cruel. Os passos nervosos e descontrolados de Madalena deixaram Jorge alerta no minuto em que ele pisou a sala. também o desespero tomou conta do advogado quando terminados todos os números da lista de contactos de Sara. 123 . – Mariana. pois o desejo de encontrar Sara era mais forte do que tudo.Posso entrar?! . .Tens a certeza que ela não tem ido às aulas? . Mas … eu pensei que tinha conseguido resolver esse problema quando a tirei da casa do pai. .Eu vou lá atender – disse Sérgio correndo em direcção à porta enquanto na sala Madalena tentava convencer-se a si própria que tudo aquilo não passava de um horrível pesadelo. . – A Sara chumbou de ano. parecia também ser a mais provável. Ninguém tocou ou se lembrou dele. a Sara não tem ido às aulas? Enquanto ouvia a resposta de Mariana através do telefone. .Como é que… como é que eu não percebi isso antes?! Eu não recebi nenhuma carta. pensou. .Claro – respondeu Sérgio percebendo-lhe um certo tom de sarcasmo na pergunta. .Não é melhor ligar primeiro para os hospitais? – interferiu Sérgio. Contudo.Isso não quer dizer nada. os olhos marejados de lágrimas e um desespero patente por não ter a mínima ideia de onde a sua filha se tinha metido. Encontrou-a com as mãos sobre a cabeça.Porque eu ia levá-la todas as manhãs à escola.. Nessa altura. Aquilo era mais do que podia suportar. . – Vou ligar para a polícia – disse Jorge encontrando o telemóvel no bolso das calças.Não. – Chumbou por faltas a meio do segundo período. não! Eu há muito tempo que não a vejo. tu sabias disso? A tua irmã disse-te alguma coisa? . Madalena apenas teve forças para se encostar ao sofá e levar uma das mãos à cabeça. ninguém sabia do seu paradeiro. boquiaberta.Como não?! Vocês não são da mesma turma? Ocorreu um silêncio ensurdecedor no outro lado da linha.Daniel.Será que é ela? .A minha filha já apareceu? – foi a pergunta ríspida de Jorge quando Sérgio lhe abriu a porta. Chumbou por faltas! E o pior é que eu não me posso dizer surpresa porque no primeiro período recebi uma carta da escola a avisar-me que ela estava em perigo de chumbar.A Mariana acabou de me confirmar isso – respondeu Madalena ignorando o olhar curioso de Daniel sobre si. Nenhum telefonema da directora de turma… . entendes?! Eu via-a a entrar nos portões. – Há dois meses que a Sara não põe os pés na escola – afirmou ela voltando-se para Sérgio. o relógio assinalou vinte e duas horas e o esparguete à bolonhesa cozinhado por Sérgio esfriou sobre o fogão. D.Não – respondeu o pequeno assustando-se quando ouviu a campainha tocar.

que alheia a tudo o que se estava a passar em Lisboa.Já liguei – respondeu Madalena voltando-se para o fotógrafo com os olhos inchados de tanto chorar. .Eu nunca namorei com ninguém.Posso te fazer uma pergunta? . .A polícia encarrega-se de fazer isso por nós – respondeu Jorge tentando controlar a imensa vontade de ver o namorado da ex. . .Adivinha – respondeu Marco encontrando-lhe os lábios.Lena. não compliques pelo amor de Deus! Estamos todos nervosos.. 124 .Um pouco – respondeu Sara envolvendo as pernas à volta da cintura de Marco enquanto as ondas do mar teimavam em levar-lhes para longe. o que de todo não deixou Madalena menos preocupada. foi a pergunta que os pais. Alguém que pudesse ter alguma ideia do seu paradeiro ou até mesmo um mínimo sinal de vida oferecido pela jovem. despediram-se dos donos da casa e prometeram empenhar-se na procura de Sara. Depois destes procedimentos legais. Foram precisos poucos minutos para que a polícia tomasse conhecimento do desaparecimento de Sara e também para que se deslocassem à moradia de Madalena para recolher algumas informações adicionais e fotografias recentes da jovem desaparecida. mas não vale a pena entrarmos em desespero antes da hora. a verdade é que as horas passadas deixavam poucas dúvidas de que Sara tinha desaparecido sem deixar rastro.Não faz mal! Eu aqueço-te. – Tens frio? . ela mergulhou no mar e encontrou nele o amparo necessário para se esquecer da loucura que tinha cometido ao fugir de casa sem qualquer aviso prévio aos pais. mulher pelas costas.Eu já estou desesperada. – O que é que fazemos agora? – perguntou Madalena quando os policiais se foram embora.Até recebermos alguma informação da polícia.Tornaste a ligar ao teu pai? Às vezes ela pode estar com ele. Aliás. ele até queria vir.E se não recebermos nenhuma informação da polícia?! . e embora ninguém quisesse transparecer qualquer tipo de desespero. O silêncio apoderou-se da sala por largos minutos. – interferiu Sérgio.O que é que nós somos?! . – Ela não está com ele. . .Esperamos – respondeu Jorge passeando pela sala. . Cada um tentava se lembrar de um local onde ela poderia estar. A única boa notícia era o facto de saber que a filha não havia sido registada em nenhum hospital público da cidade.O que é que nós somos? .Esperamos até quando?! .Sim – respondeu Sara passando-lhe as mãos pelo peito musculado. . a poucos minutos das duas horas da madrugada.E como é que vais fazer isso? . namorados ou… . Aonde é que ela está. mas eu disse-lhe que não era preciso. . deixou-se cair nos braços de Marco numa das praias mais movimentadas do Algarve. o irmão e Sérgio se fizeram entre si.O quê?! . – Somos amigos. Ali.

- Não queres namorar comigo? - Eu não iria conseguir namorar com uma gaja que vai para a cama com qualquer um. Se fosses a minha namorada, irias ter sair da vida! Não gosto nada de dividir aquilo que é meu. - E se eu saísse da vida?! Namoravas comigo? Marco sorriu. – Ouve! Eu não sou o tipo de gajo ideal para ti. - Eu sei. Eu sei dos teus esquemas! Sei que andas metido na droga e que o teu irmão mais novo foi assassinado porque o confundiram contigo. Eu sei de tudo isso. - Quem é que te contou? Aposto que foi a otária da Milene… - Foi ela sim, mas ela não fez por mal, eu é que perguntei. - Então se já sabes de tudo isso, o que é que estás aqui a fazer comigo? - Será que ainda não percebeste que eu não me importo?! Eu gosto de ti – respondeu Sara sem desviar os olhos dele. – Eu quero ser a tua namorada. Apesar de Marco não ter feito o pedido oficial, de resto, algo absolutamente impossível para um homem como ele fazer a qualquer mulher, Sara sentiu-se como a sua legítima namorada quando foi apresentada no dia seguinte a alguns dos seus amigos mais próximos. Quase todos pareceram gostar dela, e ela também gostou de todos, embora tivesse percebido alguns olhares menos simpáticos por parte de duas raparigas presentes no bar onde Marco a levou. Mas nem mesmo esse facto fez com que Sara esmorecesse ou sequer largasse a mão do seu novo namorado pois era com ele que ela queria estar. Era ele quem a mantinha naquele perfeito estado de euforia e era também o único que a fazia sentir-se feliz, bonita e desejada. – Toma – disse-lhe ele entregando-lhe um majestoso fio de ouro e uma pulseira de diamantes. – É teu. - É um presente? – perguntou Sara colocando o fio em frente ao espelho do quarto. - Sim. Gostaste? - Adorei! Mas isto deve custar uma fortuna. - A mim não me custou nada – respondeu Marco sugando-lhe o pescoço perfumado. - É roubado?! - Digamos que foi adquirido sem muito esforço. - E tu costumas oferecer presentes destes a todas as raparigas com quem andas? - Não. Só às mais especiais! - Então quer dizer que eu sou especial? - O que é que achas? - Que sou especial – riu-se Sara quando ele a beijou nos lábios. Vinte e quatro horas sem pregar olho fizeram de Madalena um verdadeiro zombie andante. Cada minuto parecia uma eternidade, qualquer barulho na porta a certeza de que Sara tinha regressado a casa e o toque do telefone uma réstia de esperança de a filha tinha sido encontrada por vivalma. Mas a verdade é tudo isso não passavam de fantasias quando confrontada com a dura realidade, e essa realidade era a de que Sara tinha desaparecido. - Devíamos ligar à polícia – dizia Afonso a cada dez minutos. – Pode ser que já tenham notícias. - Não vale a pena – respondeu Jorge levantando-se do sofá. – Eu vou dar mais uma volta de carro pelas redondezas. - Eu vou contigo – disse Afonso seguindo o ex. genro em direcção à porta.
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- Queres que faça alguma coisa para comer? – perguntou Sérgio a Madalena assim que a porta da rua se fechou com algum estrondo. - Eu não consigo comer nada – respondeu ela continuando a passear pelos quatro cantos da sala. – Enquanto não encontrar a Sara nada me vai descer pela garganta. - Tens que descansar! Não podes ficar nesse stress senão não aguentas. - Aonde é que ela se meteu, meu Deus?! Aonde? Já ligámos para toda a gente, já falámos com a polícia, contactamos hospitais, esquadras…! Ninguém sabe de nada. Parece que ela evaporou no ar. - Eu tenho a certeza que ela vai voltar – disse Sérgio para grande surpresa de Madalena. - Como é que podes ter certeza disso? - Se ela tivesse fugido para não voltar, teria levado todas as roupas dela e outros objectos pessoais, não achas? Mas ela não levou quase nada. Só uma mochila. Ninguém iria fugir só com uma mochila às costas. - E se alguém a levou? E se ela foi raptada? - Lena, pensa bem! Ela deixou-te um bilhete. Ninguém a obrigou a escrever aquilo. - Eu não sei. - Com certeza a Sara deve ter ido passar o fim-de-semana com uma amiga… ou com… um amigo… - Claro – exclamou Madalena voltando-se bruscamente para trás. – Aquele rapaz… - Que rapaz?! - Aquele rapaz que apareceu aqui uma vez à procura dela. Lembraste?! Eu disse-te que não tinha gostado nem um pouco dele e tu disseste que eram só coisas da minha cabeça. Mas quem sabe a Sara não está com ele? - Pode ser. É uma ideia. - Ele não te disse como é que se chamava? - …não sei – respondeu Sérgio tentando recorrer à sua memória. – Mas também não falámos muito! Ele só me perguntou se a Sara estava em casa e se ele podia falar com ela. Eu respondi que sim, mas depois entrei em casa para a avisar. Não! Lembrando agora, ele não me disse o nome. - O meu coração está-me a dizer que ela está com esse rapaz. Ela fugiu com ele. - Tem calma! Não nos vamos entrar em julgamentos precipitados. - Merda – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando Sérgio a abraçou com força. - Vamos esperar mais algumas horas. Se a Sara continuar sem dar notícias, contamos à polícia sobre esse rapaz. - Ainda te lembras da cara dele? - Lembro, claro – respondeu Sérgio tentando acalmá-la com um outro abraço. - Vamos esperar só até à meia-noite então! Só até lá. - O.k! Tal como o combinado, à meia-noite em ponto, Sérgio e Madalena forneceram outra pista à polícia relativamente ao desaparecimento de Sara. A cada hora que passava, a probabilidade da jovem se encontrar na companhia daquele rapaz desconhecido era quase certeira, e se assim fosse, não havia tempo a perder. Era preciso fazer um retrato robot e tentar encontrar-lhe o paradeiro, algo que Sérgio fez exemplarmente quando tentou recorrer
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à sua memória fotográfica. O rapaz tinha 1,80 m, a cabeça praticamente rapada, era mestiço, trazia dois brincos nas orelhas, calças de ganga um pouco largas, uma t-shirt azul escura e vinha a conduzir um BMW conversível. Os olhos também eram escuros, os lábios não muito grossos e o nariz comprido. - Tem a certeza que não se esqueceu de mais nada? – perguntou um dos policiais destacados para o caso. – Acho que não – respondeu Sérgio seguro de tudo o que havia dito. - Vão à procura desse rapaz, não vão?! – interferiu Jorge impacientemente. - Claro que sim – respondeu o agente. – Se ele tiver cadastro, vai ser muito fácil conseguirmos localizá-lo. Por sorte, naquele domingo, as estradas que ligavam o Algarve a Lisboa encontravam-se praticamente vazias, e enquanto seguiam por elas, Marco e Sara não resistiram a trocar várias gargalhadas, beijos e brincadeiras dignas de dois adolescentes completamente alheios aos problemas e responsabilidades. E na verdade, era assim que Sara se sentia cada vez que estava com Marco. Perdia a noção do tempo, do espaço e do perigo que um homem como ele poderia trazer à sua vida. – Pára – dizia ele cada vez que ela tentava lhe desviar o volante das mãos. - Tens que me ensinar a conduzir. - Ainda és muito nova para andar com uma máquina dessas. - Posso aprender… As últimas palavras de Sara coincidiram com uma brusca inversão de marcha que Marco fez em plena auto-estrada. Razão para ele ter cometido tal loucura? A presença da polícia numa das portagens à entrada de Lisboa. – O que foi? – perguntou Sara, assustada. - Cala-te e mete-me a merda do cinto de segurança – gritou Marco deixando-a completamente petrificada quando ao voltar-se para trás a visão de dois carros de polícia e as suas sirenes ruidosas tomaram conta da auto-estrada. Foi a primeira vez que ela se viu metida num verdadeiro filme de terror. Foi também a primeira vez que chorou de medo por se ver diante da morte iminente e por perceber que mostrador de velocidade do carro de Marco havia atingido os duzentos quilómetros por hora enquanto ele se desviava de alguns dos automóveis que circulavam em sentido contrário. O último culminou com um aparatoso capotamento no meio da auto-estrada e com o alívio que Marco sentiu ao ver que os carros da polícia haviam permanecido presos no acidente. Pronto. Estava feito. Ele tinha-se conseguido safar mais uma vez e a saída em direcção a Santarém trouxe-lhe de volta a calma perdida. - Sai – ordenou ele abandonando o carro num descampado. - Aonde é que estamos? - perguntou Sara completamente desnorteada. - Anda! Vou-te meter no primeiro táxi e vais para casa. Hoje ninguém me vê em Lisboa! - E tu? Como é que vais voltar? Vais deixar o teu carro aí? - Esse carro já não existe mais – respondeu Marco arrancando a matrícula e furando os quatro pneus, algo que já estava habituado a fazer em vários outros automóveis. Depois disso, abriu o porta-bagagem e retirou do seu interior a mochila que Sara tinha levado para aquele malfadado fim-de-semana. – Toma as tuas tralhas! Vamos… Apesar de ter jurado não derramar uma lágrima sequer após o maior susto que apanhou na sua vida, a verdade é que durante a viagem em direcção a Lisboa, várias foram as vezes que Sara se viu obrigada a limpar as lágrimas e a engolir o choro para que o taxista não se
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Depois disso. e por fim. saltaram dos seus respectivos lugares e puseram-se alerta. Pareceu-lhe também ouvir uma voz interior a confirmar toda a sua irresponsabilidade e falta de bom senso.Não era preciso.Pode ficar com ele. e ao forçar um pouco mais a vista através da janela do táxi.Espere. Entrar ou não entrar?! Essa foi a questão que Sara se colocou durante vários minutos. – Meu Deus! Faltavam poucos minutos para as sete da tarde quando Sara finalmente se viu diante da sua casa. o corpo do condutor que havia tido a infelicidade de lhes atravessar caminho momentos antes. a única coisa que lhe restava era pagar pelos seus erros.apercebesse de nada. e deitado no chão. pareceu-lhe sentir o peso do mundo sobre os ombros e uma enorme vontade de desaparecer. Quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e mais tarde se ouviu o guincho da porta. a visão de Sara com uma mochila nas mãos. Algo maléfico. – Shiiiii! Morreu – exclamou o taxista levando uma das mãos à cabeça. – He lá! Ainda não o tiraram dali – disse ele quando passou pelo local do acidente provocado por Marco. e esse momento foi absolutamente arrepiante para as duas. apesar de ter plena consciência do que a esperava. inúmeros polícias à volta do local. Sara apercebeu-se da dimensão da tragédia que ela e Marco haviam causado. Por fim. . Madalena. . havia qualquer coisa no olhar dela que obrigou Sara a recuar dois passos. Os seus olhos amedrontados não deixaram sombra para dúvidas. .Com ninguém – respondeu ela desviando-se dos braços do pai. Pela primeira vez desde que chegou à sala. Madalena envergava as quarenta e horas que passou sem dormir. .Aonde é que te meteste? – interferiu Afonso fazendo os possíveis para se conseguir aproximar da neta. Nessa altura. – Tome – disse ela entregando o pagamento ao taxista. duas ambulâncias. – Filha – exclamou Jorge correndo a tomá-la nos braços.Ao Algarve? O que é que foste fazer ao Algarve? Aliás. a jovem não podia desejar um outro lugar para se esquecer dos verdadeiros momentos de horror a quem tinha sido submetida.Aonde é que estavas? – perguntou Jorge sacudindo-lhe os ombros. O carro que havia capotado duas horas antes encontrava-se completamente destruído. quando na verdade já era tarde demais para sentir qualquer coisa parecida. coberto com um manto branco.Já disse que pode ficar com ele – respondeu Sara fechando a porta e voltando-se para os portões da sua casa. – Meu Deus! Ainda bem que não te aconteceu nada. . ouviram-se passos lentos vindos do corredor. os olhos inchados de tanto chorar e a mesma roupa que trouxe vestida desde sexta-feira. – Fui sozinha. . Sérgio. . Naquela altura. Afonso. . Uma longa fila de carros. Estava assustada e não tinha a mínima noção de qual iria ser a reacção dos seus pais. Mas ainda assim. No rosto.São vinte euros. os olhos de Sara cruzaram-se com os da mãe. – Estávamos aqui todos a morrer de preocupação. e agora. Ela tinha errado. Daniel e até Alice que lá tinha aparecido para oferecer algum apoio moral à sua melhor amiga. Jorge. e quando todos 128 . com quem é que foste? .Fui passar o fim-de-semana ao Algarve – respondeu Sara para surpresa de todos. Ainda bem! . gélido e que se mostrava cada vez mais aterrador à medida que ela se aproximava da filha. menina! Falta o troco.

. que a mãe não iria deixar. mulher.Foi com aquele rapaz que apareceu cá em casa no outro dia. ou pelo menos. mas ainda assim Sérgio conseguiu impedir que Madalena levasse os seus intentos adiante quando a segurou pelos braços e permitiu que Sara fugisse da sala. . .Eu já disse que fui passar um fim-de-semana ao Algarve. a jovem subiu as escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e trancou-se no quarto numa tentativa desesperada de manter o fio de lucidez que lhe restava.Eu já disse! Só queria passar um fim-de-semana fora. 129 . Tinha levado um estalo. – Nunca mais voltes a fazer o que fizeste… – imperou Madalena.Sara. morta?! .Porque é que não avisaste então? – perguntou-lhe o pai.estavam menos à espera. Madalena não hesitou um segundo em soquear-lhe vezes sem conta. . – Sara! Abre a porta! Abre-a agora imediatamente! Silêncio foi a resposta. – Porque da próxima vez. Mais tarde. a jovem deparou-se com a visão assustadora dos seus progenitores sobre o alpendre da porta e com a certeza de que apenas agora os seus problemas estavam a realmente começar. . mulher no meio do corredor. – Trancou-se aí dentro? – perguntou Jorge encontrando a ex. – Isto não vai ficar assim – disse Madalena libertando-se dos braços de Sérgio e seguindo a filha a toda a velocidade.Não é da tua conta.Lena! . não levantes a voz – disse-lhe o pai veemente.Podes bater-me à vontade! Eu não vou dizer nada. mas a verdade é que as mãos de Sara atreveram-se a destrancar a fechadura.Já disse que não é da tua conta. não foi? . eu mato-te de pancada! . O maior estalo de toda a sua vida que a fez inclusive sangrar da boca. – Quer dizer. Sara teve a brilhante ideia de se trancar no interior do quarto.Sim e não quer abrir.Com quem!? – perguntou Madalena perdendo as estribeiras. Depois disso. . Os momentos que se seguiram foram tensos.É mesmo hoje que te mato – gritou Madalena lançando-se contra a filha com todas as forças que possuía dentro de si. – Se não a abrires.Eu não vou pedir desculpas se é isso que estás à espera – gritou Sara com os olhos vermelhos de raiva. .Porque eu já sabia que vocês não iriam deixar. . – Começa já a explicar qual foi a loucura que te passou pela cabeça para sair de Lisboa sem a nossa autorização – imperou Madalena entrando pelo quarto adentro na companhia de Jorge. . . . abre a porta – imperou o advogado. mas tal como se era de esperar. Ao ver-se diante da porta do quarto da filha.Eu vou lá – exclamou Jorge adiantando-se ao namorado da ex.Sara. deixas-nos à beira de um ataque de nervos e ainda achas que tens razão?! Tens a noção da gravidade do que acabaste de fazer? E se te tivesse acontecido alguma coisa? E se tivesses sido raptada. eu arrombo-a! Não se soube se foi a voz do pai ou a sua ameaça. ouviu-se o valente estrondo de Sara a cair sobre uma das mesinhas da sala. . Tentou também girar a maçaneta. desapareces sem qualquer explicação.

não é?! Fazes o que te apetece. Não tens idade para passar fins-de-semana sem a supervisão de um adulto e muito menos para sair da cidade sei lá com quem! Porque é óbvio que tu não foste sozinha ao Algarve. . . antes de nos decidirmos a assinar os papéis do divórcio. Foi por vossa causa que estivemos casados durante tanto tempo. – O que foi? Ficaste surpreendida? Ou será que pensavas que nós nunca iríamos descobrir que andavas a faltar às aulas para fazer sabe-se lá o quê?! Julgaste muito esperta. já disse. – Mas iria adorar saber. Só pensaste em ti. .os olhos de Sara cerraram-se. filha? .É claro que eu não iria deixar – interferiu Madalena. – Fui sozinha. A juntar a isso. Só pensaste no teu bem-estar e na vontade que tinhas em voltar a ser solteira outra vez … . e que se não fosse por ele.Tu destruíste a minha vida. Porque é que não acreditam em mim? . mas mesmo muito. – Aliás.O.k! . viajas sem dar satisfação a ninguém…! É uma alegria! . . ainda enfiá-lo cá em casa. Várias vezes… . – Não fales de coisas que não sabes.Sinceramente eu não sei o que fiz para me odiares tanto – disse Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. . e pior.Não. Eu traí a tua mãe. não é – interrompeu Jorge calando os gritos da filha.Isso não é verdade. . Foste com alguém.Não te atrevas a falar assim do Sérgio! .Com que é que tu foste. – Tu não tens idade para andar sozinha por aí.Sara! Cala-me essa boca imediatamente – imperou Jorge para grande surpresa da filha. utilizei a assinatura dela para um negócio que estava a fazer com alguns sócios meus na altura. já nos tínhamos separado muito antes. esbaforida. – E ela sempre me perdoou porque queria que tu e o Daniel crescessem numa família minimamente estável. Uma casa que é do meu pai. Sara! A tua mãe e eu pensámos muito. tu só nos dás motivos para desconfiar do teu carácter e da tua falta de responsabilidade. – É por tua causa que todos os fins-de-semana temos de andar de um lado para o outro sem saber aonde e a quem pertencemos. O problema é que o tal negócio não deu certo e… a polícia judiciária 130 .Não – respondeu Madalena cruzando os braços num gesto de deboche. porque senão. mandas e desmandas cá em casa. e tal como se não bastasse. não terias sequer como sustentá-la… .Eu fui porque precisava ficar dois dias sem olhar para a tua cara e sem olhar para a cara daquele homenzinho que resolveste colocar cá em casa.Eu falo como eu quiser! Não sou obrigada a gostar dele e muito menos a fingir que acho normal uma mulher da tua idade andar com um homem muito mais novo.Não fui com ninguém – respondeu Sara largando os braços. .É sim! E tu sabes que é. será que não entendes?! É por tua causa que eu e o Daniel deixámos de ter uma família – respondeu Sara não se deixando amolecer pelas lágrimas da mãe.Sabes porque é que eu fui passar o fim-de-semana ao Algarve? .. raivosa. .Porque tu não nos dás motivos para acreditar em ti – interrompeu Madalena. Porque tu não pensaste nem um segundo nós quando te resolveste separar do pai.Ou pensas que já não sabemos que chumbaste o ano por faltas? A pergunta da mãe tomou Sara de assalto.

Ela não te odeia. Entre mortos e feridos salvaram-se todos.Será que acabou mesmo!? . não está?! .Ela odeia-me – exclamou Madalena voltando-se para Sérgio com os olhos inchados de tanto chorar. quando ela perceber a mãe maravilhosa que tem. essa fase vai passar. fui eu o único culpado pela nossa família ter terminado. Por isso.Ela odeia-me sim! E eu não posso fazer nada para que ela deixe de me odiar. Seria demasiado egoísta da sua parte se todas as culpas acerca do término do seu casamento recaíssem sobre os ombros da ex. Ela ama-te muito e é por isso que faz estas coisas só para chamar a tua atenção. desesperada. e Madalena foi a primeira pessoa a levantar-se para preparar o pequeno-almoço na cozinha. E a verdade é que o ex. . como vês. militar não poderia estar mais certo. Foi fraco ao não fazê-lo. a calmaria voltou a rondar a casa quando Sara regressou sã e salva. dos estalos e dos gritos. somos capazes de superar as nossas fraquezas interiores.Com a tua ajuda está – respondeu Madalena abandonando o quarto debaixo das lágrimas que a filha não conseguiu conter. . A tua mãe não teve culpa de nada! . Quem sabe com o tempo Sara não entendesse? Quem sabe ela não percebesse que nem sempre as relações entre adultos eram fáceis. Só que essa conta estava no nome da tua mãe. .O que é que isso importa?! – perguntou Sara largando os braços.Não – respondeu ela permitindo que ele se sentasse ao seu lado. .descobriu algumas irregularidades numa conta offshore que eu tinha. e ela acabou por… ser presa no meu lugar! Foi só uma noite. mas acho que foi a suficiente para que ela se fartasse de mim e pedisse a separação – discursou Jorge rasgando alguns olhares a Madalena. mulher.Bom dia.Melhoraste da dor de cabeça? 131 . E não. – Está tudo destruído. Nessa altura. Acabou tudo bem. . . mas sim. talvez por medo que ela deixasse de o ver como um herói. . . não lhe aconteceu nada. sim. e nem sempre. – Portanto. Apesar das discussões.É só uma fase. . transparentes e vitoriosas? Nem sempre elas são como queremos que sejam. Na verdade. A casa amanheceu silenciosa. por mais que tentemos. Ela não te odeia. coisa que ela não sabia porque eu não lhe contei. o relógio marcou meia-noite e quarenta e cinco minutos. Vai passar! Quando ela crescer. as forças para fazer tal tarefa eram praticamente nulas. Madalena conseguiu pela primeira vez engolir algo comestível e Jorge desapareceu com a clara certeza de que já deveria ter contado a verdade à filha há muito tempo. . mas ainda assim ela conseguiu aguentar as fortes dores de cabeça e a vontade quase incontrolável de passar o dia inteiro na cama sem olhar ou falar com vivalma. um claro contraste tendo em conta a noite anterior.A Sara já está cá em casa.Pelo menos acabou tudo bem.Estás bem? – perguntou Sérgio encontrando Madalena sentada sobre as escadas que ligavam os dois pisos da casa. – Bom dia – disse Sérgio beijando-lhe os cabelos quando se deparou com a mesa do pequeno-almoço totalmente composta. foram as últimas palavras de Afonso Soares no final daquela tarde particularmente cinzenta e tumultuosa.

Eram passados a meditar em todas as coisas de errado que fez e também em Marco. . a caixa não se encontrava mais lá. Passou-se uma semana e Sara percebeu que estava de castigo quando lhe foram retirados do quarto. – O que é que queres comer? – saiu-lhe essa pergunta a muito custo. Como será que ele estava depois dos dois quase terem sido apanhados pela polícia? Será que ele chegou a saber que o condutor do carro que capotou morreu por culpa da irresponsabilidade dos dois? Diante de tantas dúvidas.Hoje a mãe está um pouco mal disposta. Claro. o leitor de CD e a televisão.. Sara mantinha as suas reservas escondidas a sete chaves. . – Eu quero a minha caixa – foram as primeiras palavras de Sara assim que o fotógrafo chegou da rua e a encontrou sozinha em casa. . ela percebeu. Sara começou a perder as esperanças de encontrar a sua preciosa caixa. também não estava autorizada a sair de casa e muito menos a comunicar-se com qualquer pessoa através do telefone. E assim. Prisioneira talvez fosse a palavra que melhor a definiria durante três semanas. o computador. Com certeza. Desta forma. tanto a mãe como a filha encontravam-se tão cansadas de lutar.Cereais – respondeu Sara baixando o rosto. Sara escolheu uma cadeira à mesa para se sentar e Madalena voltou-se de frente para o lava-loiça. pois as horas custavam a passar e o seu vício aflorava-se a cada minuto.Não acredito nisto… – foram as palavras que ela murmurou enquanto os olhos e as mãos reviravam todo o roupeiro. numa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro.Um dia vais-me agradecer. os seus olhares se desviaram. Contudo. – Eu levo-te.Nojento ou não. ao contrário de todas as suas expectativas. mas a pouco e pouco. Será que tinha sido a mãe? Não.Eu não sei do que é que estás a falar.Mais ou menos. – Não acredito! As minhas coisas…! Não acredito… A procura desesperada continuou por todo o quarto. . uma caixa a qual só ela tinha acesso e que muitas vezes lhe trazia o prazer que não conseguia alcançar com indivíduos do sexo oposto. Só podia ser outra pessoa. que foi completamente impossível para elas trocarem qualquer palavra mais amarga àquela hora da manhã. Sara começou a sentir-se confusa e ansiosa. Mas quem?! Quem? Desesperou-se. 132 . Madalena teria dito alguma coisa ou feito um escândalo. Dani – respondeu Sérgio servindo-se de uma chávena de café. Impaciente também. As últimas palavras do fotógrafo coincidiram com a chegada de Sara à cozinha e também com o constrangimento de Madalena ao vê-la diante de si. – Aquilo era nojento. O Sérgio. . Contudo. Sexo. Alguém a havia tirado dali. . . .Eu só deitei fora aquela porcaria – respondeu Sérgio largando o seu equipamento fotográfico no chão. era meu e tu não tens o direito de mexer em nada do que é meu! . Mas tal como qualquer outro dependente. os dias eram passados no interior de um quarto completamente desprovido de tecnologia. Para além disso. naquela tarde. envergonhada.Mãe! Vais-me levar à escola? – perguntou Daniel. Começou a pensar em sexo e na falta que aquele acto que costumava praticar todos os dias lhe fazia. principalmente para uma rapariga da tua idade. e o pior é que ela nada podia para contrariar a decisão da mãe devido ao apoio incondicional que o seu pai lhe ofereceu aquando do castigo.Sabes sim! Foste tu que andaste a mexer nas minhas coisas! Roubaste-me a caixa.

. Só que ao contrário dos teus pais.Eu nunca te vou agradecer por nada – gritou Sara. estás a começar a entrar em ressaca. Apesar de nunca ter encontrado a verdadeira definição para o seu desejo sexual compulsivo.Não! Eu queria que fosses tu contar. Fizeram com que cometesse loucuras atrás de loucuras.Tu és ninfomaníaca. que se deitasse com inúmeros homens e que vendesse o seu corpo.Escuta! Porque é que estás tão irritada? Eram só alguns filmes pornográficos. e ela. . Sara – disse Sérgio incendiando-lhe o olhar.. Aliás. . eu consigo ver as coisas do lado de fora e podes crer que não precisei de muito esforço para juntar todas as peças deste puzzle. – E tu também sabes.Eu sei muito bem o que estou a dizer – respondeu Sérgio enfrentando-lhe os olhos raivosos. Sabia também que esses sintomas começaram meses antes quando descobriu a pornografia em casa do pai. Podes muito bem viver sem isso ou não?! . Por isso. – Tu estás doente.Eu nunca vou fazer isso. Mas sim. . não é?! . 133 .Eu odeio-te! . o sexo é a tua droga. E precisas também deixar de te prostituir… . A mãe nunca iria compreender as razões que a levavam a querer sexo tanto quanto um ser humano desejava ar para respirar. que já não sabia o que fazer. o sentimento de repulsa que todos iriam sentir de si quando soubessem a verdade. Tu és dependente de sexo. Ali estava. Passaram-se cinco dias e o círculo estava pouco e pouco a fechar-se. essa brincadeira e essa curiosidade apossaram-se não só da sua mente como também do seu corpo. mas por um prazer que queria ver saciado. talvez Sérgio tivesse razão. Nem a mãe e muito menos o pai.Então não me deixas outra escolha – disse Sérgio alcançando o corrimão das escadas.Cala-te! Tu não sabes o que dizes… .Ou será que estás tão obcecada por sexo que a simples ideia de te veres sem a tua caixa te deixa assim?! Sara calou-se. Sara decidiu que não iria contar. . O prazo que Sérgio dera a Sara para contar a verdade a Madalena esgotou-se. vibradores e outras coisas.Cala-te – gritou ela completamente descontrolada. daí a vergonha. mas porque quer?! . A verdade nua e crua da qual Sara não podia escapar e que infelizmente lhe foi jogada à cara pela pessoa que mais odiava no mundo. Nunca ninguém iria saber da sua doença e ela passaria despercebida aos olhos de todos até o final dos seus dias. A príncipio tentou levá-la como uma simples brincadeira. – Vais contar à minha mãe? – perguntou ela. mas em muito pouco tempo.E como não já não consegues sair de casa. – Precisas tratar-te e eu estou a falar a sério. . uma curiosidade. . não porque precisa. tal como um toxicodependente é dependente de droga. Nunca iria contar. Sara sabia que ele existia e que a pouco e pouco já havia controlado toda a sua vida. desesperou-se. não por dinheiro. .Isso não é da tua conta. já não tens a tua caixa.Cala-te – afirmou Sara recuando dois passos. Pensando melhor.Já pensaste no desgosto da tua mãe quando ela descobrir a verdade? Quando ela descobrir que a filha dela se anda a prostituir. raivosa.

Mas seriam as coisas assim tão simples? No fundo. . sendo que quando isso aconteceu. mas sim Sara. a porta da casa de banho sofreu uma ligeira pressão e abriu-se sem que ele se apercebesse disso. completamente desnuda. . os passos lentos e quase silenciosos de um corpo esbelto e a abertura da cabina pelas suas mãos delicadas.Já disse que não.Eu?! Louca? Claro que não! Só te queria fazer uma surpresa. – Foste rápida… . Estas foram as últimas palavras de Madalena antes de sair da casa de banho levando consigo várias roupas nas mãos e também a certeza de que assim que se despachasse da tarefa enfadonha de as colocar na máquina. Cada vez que se encontravam nos corredores. – Estás louca? . pois a presença de Sérgio em sua casa lembrava-lhe que estava entre a espada e parede.Veste-te – ordenou ele entregando-lhe o robe caído sobre o tapete.Podes deixar.Dá-ma! Vou pô-la na máquina. ela tinha consciência que não. foi impossível ouvir o barulho do robe a cair sobre o tapete. cozinha ou até mesmo na sala. . Com a pressão da água a cair sobre o polibã. veste-me esse roupão agora! .Sara. era como se o fotógrafo lhe lançasse olhares fulminantes com mensagens claras e peremptórias: Conta.Tens alguma roupa branca para lavar? – perguntou Madalena enquanto Sérgio se preparava para tomar um duche na casa de banho. .É só me despachar da máquina que venho a correr – respondeu ela cedendo-lhe um longo beijo nos lábios. O desejo parecia ser recíproco quando Sérgio abriu o chuveiro da cabina e se enfiou lá para dentro sentindo os primeiros pingos de água quente caírem-lhe sobre o rosto e o corpo desnudo. A única coisa que sabia era que teria que afastar Sérgio da sua vida de uma vez por todas e consequentemente todas as ameaças que ele fazia questão de lhe incutir. E sim. . Mas os gritos de Sara para se tentar livrar dos braços do fotógrafo não tardaram a ecoar por toda a casa. nas escadas.Vê lá se não te demoras muito! Prometeste que me irias fazer companhia no banho. Madalena voou em direcção ao 134 .Pois fui – respondeu uma voz angelical que o fez gelar dos pés à cabeça.Não – respondeu ela com um sorriso maléfico que o irritou de imediato. foram as palavras de Sérgio enquanto enfiava a filha da sua namorada no robe que ela havia retirado minutos antes de o surpreender no banho. Nada pôde exemplificar o terror sentido por Sérgio quando ele percebeu que a pessoa que tinha acabado de entrar na cabina não era Madalena. . . iria correr para os braços de Sérgio e presenteálo com um final de tarde no mínimo inesquecível. com olhos de quem o queria comer e sem qualquer pingo de remorso por ter cometido um acto no mínimo insano. – O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Sérgio abandonando a cabina e encontrando uma toalha com a qual se pudesse tapar. . Conta. Ali estava a filha da sua namorada. Mas ela não contou e essa ideia nem sequer lhe passou pela cabeça. . . Conta. Nessa altura.exclamou Sérgio abrindo um sorriso de orelha e orelha quando sentiu dois braços à volta da sua cintura. Aquilo já tinha passado todas as marcas. .Só esta camisola – respondeu ele tirando-a do corpo.Não te demores.

minha louca? – disse Sérgio agarrando o braço de Sara com força.Essa é a verdade. . . Acho que deve ter sido por engano. que ali. – O que foi. no interior daquela casa de banho. mas tu não me quiseste ouvir. . – Mas fica aí no teu quarto. mãe? – perguntou Daniel surpreendendo a sua progenitora no corredor. E a verdade é que o mesmo se estava a passar com Madalena. .Isso não é verdade.Porque é que não contas à minha mãe? Porque é que não lhe contas que me andas a assediar desde que nos conhecemos?! .segundo piso pronta a inteirar-se do que se estava a passar. Não saias! Ao ouvir as ordens da mãe.Eu posso explicar. – A verdade é que tu me chamaste para vir ter contigo.Viste o que acabaste de fazer. Daniel tornou a encostar a porta e ignorou os gritos de Sara que a cada minuto tornavam-se mais agudos e intensos. . tal como se estivesse a ser espancada ou violentada por alguém.Eu não tenho estômago para continuar a ouvir isto… – murmurou Madalena abandonando a casa de banho com os olhos rasos de lágrimas. . sentiu como se o mundo tivesse acabado de desabar sobre os seus ombros. Ela é louca. Eu nunca tive nada com a tua filha.Eu nunca te assediei – vociferou Sérgio sentindo-se prestes a perder a sua sanidade mental. Foi por isso que resolveste morar cá em casa. lembraste?! .Então explica! Explica porque eu não estou a perceber.respondeu Sérgio largando os braços de Sara e deixando-a quase semi-nua sobre a sanita.O que é isto?! – repetiu Madalena. – Porque é que não lhe contas a verdade? . Mãe.Não. não é – respondeu Sara enfrentando o olhar confuso de Sérgio. . mas …eu estava a tomar banho e de repente a Sara entrou na cabina. não é nada disso que estás a pensar… . . – Lena! Tu tens que acreditar em mim. o que é que eu posso fazer? 135 . . – O que vem a ser isto? – murmurou Madalena sentindo-se quase sem ar para respirar quando encontrou o namorado e a filha completamente atracados na casa de banho. .Eu era uma criança até tu teres feito o que fizeste.Não sei – respondeu ela. tu achas que a minha mãe vai acreditar numa coisa dessas? – interrompeu Sara para grande espanto e surpresa do fotógrafo.Isso não é verdade – vociferou Sérgio voltando-se para ela. No fundo querias ficar com as duas. Eu assustei-me. disse que não podia ter nada contigo porque era o namorado da minha mãe.Lena.Eu disse-te para não te meteres no meu caminho.Eu não sei como é que aconteceu. mas tu disseste que isso não te importava. ela chamava com todas as forças. – Eu nunca tive nada contigo. Eu era só uma criança e tu sabias muito bem disso quando me obrigaste a ir várias vezes para a cama contigo… .Sérgio. . Tu não passas de uma criança… . incrédula. – Tu é que me obrigaste! Eu bem tentei fugir. ela também e eu estava a tentar a… .Eu é que não queria ter nada a ver contigo – interrompeu Sara compondo-se no seu roupão. .

ele abandonou a casa de banho ainda enrolado numa toalha e correu ao encontro de Madalena no quarto divido pelos dois.…tens razão – concordou Sérgio baixando o rosto. Uma dimensão a qual só ela tinha acesso e que Sérgio não sabia se poderia entrar.murmurou Sérgio. . – Eu não mereço que acredites em mim. – Eu não sei nada sobre ti e hoje cheguei a essa conclusão. ela agarrou-se ao edredão numa tentativa desesperada de acalmar a dor que estava a sentir. . o que é que eu sei sobre ti!? . – Tu conheces-me! . e quando isso aconteceu. ou algo semelhante. . por favor – disse Madalena sentindo-se completamente morta por dentro. Como se pôde enganar tanto com elas? Como é que pôde acreditar nelas e entregar a Sérgio tudo o que de melhor possuía dentro de si? 136 .Eu não te queria dizer isto. .Será que eu sei? – perguntou Madalena voltando-se para ele com uma expressão mortificada. incrédulo. mas sim por não veres algo que está mesmo à frente do teu nariz! Mas quando perceberes esse erro.Põe-te no meu lugar! Em quem acreditarias? No teu namorado que só conheces há poucos meses ou na tua filha que já conheces há dezasseis anos? . . tão… apaixonada que não ouvi o que as outras pessoas me disseram. tu não podes acreditar naquilo que a Sara disse! Eu nunca tive nada com ela e nem nunca seria capaz de a tocar. acho que já vai ser tarde demais… Da janela do quarto. sem tempo a perder. Sara observou os movimentos de Sérgio a enfiar as suas malas no carro. Tu sabes disso.Não adiantava nada continuar a trocar palavras vãs e dementes com uma rapariga também ela vã e demente. encontrou-a em frente à janela. . o veículo arrancou e a rua tornou a ficar deserta.Lena.Porque vendo bem. A almofada sobre a cama não precisou de muito tempo para ficar totalmente encharcada com as lágrimas de Madalena. foi a conclusão a qual Sérgio chegou quando a olhou pela última vez e se deu conta que Sara realmente não conhecia a palavra limite. a conviver com os meus filhos e nem foi preciso muito tempo para perceber que cometi um grande erro – discursou Madalena com os olhos rasos de lágrimas.Há quanto tempo? Nove. dez meses… Sérgio manteve-se calado. que a deixava quase sem ar para respirar e que a matava por dentro a cada minuto que se lembrava das palavras de amor que Sérgio tantas vezes lhe sussurrou aos ouvidos. – Lena… . Parecia ter sido atingida por um raio.Não me toques – foi a resposta que o fez recuar dois passos. Por isso.Lena…. Viu as suas mãos fecharem o porta-bagagem com força e mais tarde a sua entrada no banco da frente.Como assim? O que é que estás para aí a dizer? . Dois minutos depois. mas… um dia vais perceber que cometeste um grande erro. Pus um perfeito desconhecido dentro da minha casa.Vai-te embora. . Não por não teres acreditado em mim.murmurou ele tentando alcançar-lhe os ombros com as mãos.Tu não acreditas em mim. . Acho que estava tão cega. Era uma dor que parecia ter-selhe entranhado por todo o corpo. e parecia também ter entrado numa dimensão só dela. Tal como esperava. de costas voltadas e completamente imóvel.

Sara afastou-se da porta e fechou-a com algum cuidado. Podes fazer o quiseres… Ao ouvir as palavras da mãe. pois o céu e as estrelas pareceram desabar sobre a sua cabeça quando ela o encontrou nos braços da filha naquela maldita casa de banho. – Era por causa disso que eu não gostava dele – ouviuse a voz de Sara sob o alpendre da porta. Madalena continuou deitada e fechou os olhos inchados de tanto chorar. Mas por outro lado. – Foi melhor ter-se ido embora! Agora vamos voltar a ser uma família outra vez. .Já. Depois disso. Ele que lhe devolveu novamente a alegria de viver. o seu corpo e a sua alma a um perfeito desconhecido. Há quanto tempo aquilo estava a acontecer. O meu castigo já acabou? . como é que se podia recriminar se tudo o que Sérgio lhe havia dito parecia tão real? Se tudo o que ele fazia parecia tão real.Talvez devesse ter sido mais cuidadosa em não oferecer o seu coração. Nada disso realmente aconteceu. foi a pergunta que Madalena se fez ao limpar as novas lágrimas que teimavam em cair-lhe no rosto. .Já se passaram três semanas. 137 . fez-se um silêncio ensurdecedor e Madalena desligou a luz da mesinha de cabeceira ansiando que o comprimido que havia tomado surtisse efeito e a fizesse dormir.Deixa-me sozinha – respondeu Madalena com uma voz rouca. – E ele também não gostava de ti – continuou a jovem ansiando qualquer reacção por parte da mãe. que a fez voltar a acreditar no amor e que lhe prometeu o céu e as estrelas apenas em troca de um beijo? Mas não. Sem forças para sequer erguer a cabeça.

Contou a Milene todos os detalhes do louco fimde-semana que passou ao lado de Marco no Algarve. isso podia notar-se a quilómetros de distância cada vez que acenava a velhos amigos e retomava um quotidiano que já conhecia tão bem.Não me queres contar? E foi o que Sara fez minutos mais tarde.Tu és louca – foram as palavras que Milene murmurou vezes sem conta. O namorado dela era um otário e estava a um passo de lhe contar que me ando a prostituir.Às vezes eu acho que tu não és deste planeta.Pena porquê?! Eu até lhe fiz um favor. O que é que querias que eu fizesse? Ele não me deu outra escolha.A minha mãe é forte! Ela vai saber esquecer esse Sérgio num estalar de dedos. e por fim. Mas o mais intrigante de tudo era perceber que ela não se tinha arrependido nem um pouco do que fizera.Mas diz-me uma coisa – interrompeu Milene acendendo um cigarro e atirando o isqueiro contra a cama. . – Desaparecida – disse Milene abrindo-lhe a porta do quarto.CAPÍTULO VIII Era a primeira vez desde há semanas que Sara podia sair de casa sem a supervisão da mãe ou os constantes telefonemas do pai. e tal como se era de esperar. – Tu e o Marco andam mesmo a namorar ou é só uma brincadeira? . do acidente que provocaram em plena auto-estrada.Ele disse que queria que eu largasse a vida – respondeu Sara com um largo sorriso. – Diz que não admite dividir a mulher dele com ninguém. . o local escolhido para comemorar a sua liberdade foi o bairro do Intendente.Coitada da tua mãe! Não tens pena dela? . os seus passos rápidos em direcção a uma pensão que habitualmente frequentava não deixaram dúvidas de que o seu maior desejo era reencontrar uma pessoa que lhe era muito especial.Posso entrar? . . Estava animada.Estive de castigo – afirmou Sara entrando com um largo sorriso.Tu nem sabes o que é que me aconteceu nestas três semanas. a reacção dos pais quando regressou a Lisboa.Porquê!? . Para além disso. não?! . . . onde logo à entrada encontrou alguns amigos de longa data. . .Claro. .E tu vais deixar a vida por causa dele? 138 .Bem. . o castigo deve ter sido óptimo. . a forma magistral como se livrou da presença do futuro padrasto lá em casa.

Pelas minhas qualidades – respondeu Sara arrancando uma ruidosa gargalhada de Milene.Não passas de uma criança! Ainda tens muito que aprender. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar. . Houve tiros e tudo… . Que tal a Sara ter mentido!? . Atendida que estava a segunda cliente da tarde.Não – riu-se Milene. Foi o maior escândalo. Milene sorriu.A Sara não iria inventar uma coisa dessas – respondeu Madalena limpando as últimas lágrimas da tarde.Tu só pensas nisso. Não sei se vou conseguir ficar um mês sem ir para a cama com ninguém.A sério? – riram-se as duas..A sério! A bófia veio. . largo mesmo.Tu não acreditas mesmo que ele gosta de mim. – Precisas é de um colete-de-forças. já reparaste?! .Tens mesmo a certeza que foi isso que aconteceu? – perguntou Alice quando ela lhe contou a cena grotesca que vira na sua casa de banho.Não sei. Não sejas parva. . . – Conheci uma gaja que também era assim. Vinha muitas vezes ao bairro porque dizia que o marido não a conseguia satisfazer na cama.O ex. . . levou o pessoal para a esquadra e a gaja nunca mais apareceu por estas bandas. – O que foi? Achas piada? .Eu prometi ao Marco que iria deixar de me prostituir. Tinham-se passado três dias desde o término do seu namoro com Sérgio.Eu acho que é possível um homem gostar de mim pelo que eu sou. Porque é que tudo terminou daquela forma tão abrupta? Porque é que uma história de amor que tinha todos os ingredientes para dar certo evaporou-se no ar sem qualquer razão aparente? Por mais justificações que Madalena tentasse encontrar.Porque não!? Se ele quiser.disse Sara atirando-se contra a cama. Cada lembrança dele era um suplício. não é?! . mas não sei se vou conseguir manter a minha promessa.O que mais pode ter acontecido? . Procurou um psicólogo e descobriu que era ninfomaníaca. Mas há uns meses atrás a Arlete encontrou-a na rua e ela disse-lhe que se tinha curado.Tu acreditas!? . – Eu gosto dele – continuou Sara. .Qual? . .Então acho que se calhar também preciso de um psicólogo. o marido seguiu-a e apanhou-a numa pensão aqui perto. – Ela pode ter muitos defeitos. nenhuma delas lhe trazia de volta a paz de espírito. cada minuto era difícil de suportar e a certeza de que nunca mais o voltaria a ver destroçava-lhe o coração.Mas só tem um problema… . mas eu sei que ela não iria mentir sobre uma coisa tão séria. namorado da minha mãe disse que eu era ninfomaníaca! Sabes o que isso é? . Madalena despediu-se dela com um sorriso forçado e voltou a encostar a porta da sua floricultura.Não vês que o gajo só te anda a fazer de otária? Ele anda com todas as gajas que lhe aparecem pela frente ou pensas que um idiota como ele só se contenta com uma miúda de dezasseis anos?! Tu vais largar a vida. – Mas também gosto de sexo e ele está sempre longe. .Já ouvi falar – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. . Então um dia. 139 . mas ele vai continuar com a dele.

deixaram muito a desejar. Não foi imaginação. O Verão trouxe novamente consigo os dias de sol e de calor. . algo que ele aceitou de bom grado.E até quando vais continuar a viver nesse inferno? . O seu comportamento escolar.Lena. a verdade é que Jorge não podia ter ficado mais contente pela notícia. mas principalmente o familiar. Alice! Eu vi com os meus próprios olhos ele a agarrá-la. – Era bom se pudesses vir connosco. eu não posso abandoná-la. mas ao contrário dos anos anteriores. Agiu nas tuas costas e traiu-te também. cientes de que a filha precisava de um castigo.Tudo bem – disse Alice segurando-lhe as mãos frias. . desesperada. . os seus olhos e a sua expressão facial não mentiam. não foi um boato.. mas e a Sara? O que é que vais fazer com ela? . – Por mais que ela me odeie. deixa-me que te diga que ela também foi.Eu vi.Não podes deixar que ela continue assim.Obrigado – respondeu o advogado rasgando alguns olhares à ex. e embora nunca tivesse sabido o verdadeiro motivo para que Madalena e Sérgio se tivessem separado. uma. .Às vezes os pais têm que abandonar os filhos para que eles aprendam a dar-lhes valor. e mesmo se a tivesse obrigado a ir para a cama com ele. .Não sei! Até quando conseguir… – respondeu Madalena encolhendo os ombros.Eu não sei! Eu não sei se com a Sara não será pior. e os pais. – O Sérgio está fora da tua vida. Ainda estava triste. apesar de não quereres aceitar a realidade. ela não te contou nada. não custava nada sonhar com essa possibilidade. eu não sei! O Sérgio não parece ser desse tipo… .Eu sei – disse Jorge segurando malas do filho. – Acabou! Agora só quero esquecer essa história e seguir em frente. Ela sabia muito bem o que estava a fazer. É só isso que eu quero.Lena. Quem sabe ela não voltaria a vê-lo com outros olhos? Quem sabe ela não perceberia que durante meses o seu maior desejo era voltar para casa e para o casamento de ambos? De qualquer maneira.Bem! Vamos pestinha?! Senão perdemos o voo. – De qualquer maneira foi só um convite. Sara não teve direito a férias. Ela é a minha filha – respondeu Madalena. . a Sara já não é nenhuma criança de colo.Sinceramente não sei o que te dizer. . E também tem a Sara… .Mas eu tenho a certeza que tu e o Dani se vão divertir imenso sem mim – afirmou Madalena afagando os cabelos do filho. duas ou três vezes. Apenas Daniel foi convidado a acompanhar o pai numas pequenas férias a Madrid. mulher. . Se o Sérgio foi culpado por tudo aquilo que aconteceu. por mais que me faça a vida negra. foi a verdade… .Não digas nada – respondeu Madalena assoando-se com um lenço de papel. Ele não agiu sozinho. privaram-na de qualquer tipo de divertimento que não se cingisse a Lisboa. Lena! Não podes deixar que ela assuma o controlo da situação e te faça a vida num inferno. 140 . .Ele estava a obrigá-la.Como assim?! . será que não entendes?! . .Sabes bem que não posso deixar a Alice a tomar conta da floricultura sozinha.E o que é que queres que eu faça!? Eu não posso pô-la para fora de casa tal como fiz com o Sérgio. – Façam uma boa viagem – disse Madalena observando a animação do filho quando Jorge o foi buscar. .

um dos delinquentes mais temidos do bairro.Sai-me da frente. – Ai estás aqui. Depois de um breve aceno e de se ter assegurado que o carro do ex. Madalena fechou a porta e lançou um longo suspiro. 141 . Depois disso. Nessa altura. puto! Tenho quase idade para ser a tua mãe. . mãe! .Marco – exclamou Sara surpresa por o ver ali. uma das prostitutas mais antigas do bairro. vários homens que se encontravam no bar insurgiram-se a Marco por aquele acto de violência no mínimo gratuito.k – respondeu Daniel despedindo-se da mãe com um longo abraço seguido de um beijo na face. Sozinha. Madalena tentou impor horários rígidos e perguntou sempre para onde ela tinha ido. marido partira sem deixar rastro. Sabes bem que as duas não se largam. Não valia a pena pois Sara chegava a casa cada vez mais tarde e também recusava-se a passar os fins-de-semana com o pai desde que soube que fora ele o responsável pelo término da família. . Milene apressou-se a socorrer a sua amiga temendo que Sara tivesse desmaiado com o impacto do golpe. não havia absolutamente nada que Madalena pudesse fazer para voltar a controlá-la. e quando voltava. . – Ligamos assim que chegarmos ao hotel. raras eram as vezes que Sara parava em casa. depois de se ter desviado de várias pessoas e retirado algumas cadeiras da sua frente. e essa certeza tornou-se incontornável quando pela primeira vez a filha passou a noite fora de casa.Tem calma – respondeu Arlete assustando-se com a agressividade do jovem. fugia para o quarto sem dar quaisquer explicações acerca do seu desaparecimento. assim como a cólera que se apossou dos seus olhos. ela desistiu de tal coisa. Assim sendo. Nas primeiras vezes. Iria passar duas semanas com Sara na mesma casa. – Ela está lá dentro com a Milene.A tua namoradinha é?! .Hei! Vê lá.Está bem. . ao ver à sua frente a figura de Marco. quase sempre ao príncipio da noite. Duas semanas.Diz antes que eu perca a minha paciência… . – Até que enfim apareces por estes lados… ..Tchau. encontrar a visão de Sara sentada na mesma mesa que Milene e outros dois homens desconhecidos foi inevitável.Tens quase idade para ser minha avó. . – Tchau. – Não estavas no Algarve? A resposta do jovem foi dada com um valente soco no estômago que a fez cair e derrubar uma cadeira das inúmeras cadeiras colocadas em frente ao balcão. . A resposta da prostituta trouxe a Marco o ímpeto que ele precisava para entrar no bar sem quaisquer cerimónias.O.Olha quem é ele – exclamou Arlete. Arlete – respondeu ele empurrando-o contra a porta do bar. Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. minha puta?! . De férias. queres tu dizer! Diz lá! Aonde é que a Sara se meteu? .O.k! Boa viagem. – Animal – gritou ela voltando-se para Marco. Sem ninguém para a amparar e sem certezas do comportamento da filha que a cada semana piorava gradualmente. enquanto no chão. mas com o passar do tempo e com a perca de forças.Porta-te bem! Não faças asneiras e obedece ao teu pai.

.Queres uma aposta como vou? . nem sequer a remota possibilidade de ser apanhado por alguns dos seus inimigos ou então pela polícia. Sem que ninguém o impedisse. Se chamares. nada lhe pareceu importar. Sei tudo o que se passa… 142 .Eu não ando a chular ninguém – afirmou Milene não se deixando intimidar pelas palavras de Marco. Ou ainda achas que isso não é chular? Fica quietinha mais é que é para não sobrar para ti.Sim.. tudo o que ele queria era extravasar o ódio que sentiu quando lhe foi informado que Sara continuava a prostituir-se com qualquer homem que lhe aparecesse à frente. a primeira a ir em cana és tu… . Sara – exclamou ele alcançando-lhe os braços e fazendo-a levantar-se do chão quase à força. Tu. traiu-o e fê-lo sentir-se a chacota do bairro. enquanto pontapeava e soqueava Sara.Se levares. Num beco escuro do bairro. – Ainda temos muito que conversar. minha cabra! Ou achas que ninguém vai contar que andas a chular uma miúda de dezasseis anos? . Na verdade.Cala-te! Só dizes merda tu… – respondeu Milene encontrando a sua mala sobre a mesa. Ele não conhecia limites. . Mas não te esqueças de uma coisa. eu chamo a polícia! . – Chama a bófia que eu tenho a certeza que todo o pessoal que está aqui vai adorar. Se ela morrer. – Pensavas o quê?! Que eu não ia descobrir nada? Que não ia saber que me andavas a meter os cornos com outros? Pois fica sabendo que aqui dentro deste bairro eu tenho informações diárias.Eu?! . Marco levou Sara pelo braço e deixou todos os presentes estupefactos com a cena que tinham acabado de assistir.Não a vais levar daqui – adiantou-se Milene puxando a amiga contra si. E ao saber dessa verdade irrefutável. não tinha nada a perder e há muito que deixara de conhecer palavras como: compaixão. Milene mordeu os lábios e sentiu o sangue fervilhar-lhe nas veias por não ter tido a coragem de livrar a melhor amiga das garras daquele homem tão perigoso. – Eu avisei-te para afastares a Sara daqui – afirmou Arlete compondo o decote do seu vestido. Mas ela não merecia nenhuma dessas jóias e muito menos esse dinheiro.Ai eu é que digo merda!? Tu melhor do que ninguém sabe do que esse Marco é capaz. – Vaca – exclamou ele encostando-lhe o rosto à parede. pois os seus cinquenta e dois anos de vida deram-lhe a sabedoria necessária para saber que com homens como Marco não era permitido brincar. Sara enganou-o.Ai chamas a polícia?! Então chama que eu quero ver – respondeu Marco enfrentando a fúria da prostituta. ele regressou propositadamente a Lisboa para tirar a história a limpo. lembraste?! Partiu-te toda há uns tempos atrás e vai acabar por fazer o mesmo com essa pobre coitada.Levanta-te daí. perdão e humanidade. a culpa é tua! Arlete não podia estar mais segura das suas palavras. . A única coisa que merecia era o seu desprezo e também a sua ira. abre as pernas e tu ficas com metade dos lucros dela. logo ele que constantemente lhe enviava jóias e dinheiro através do correio. – Agora ela vai apanhar e bem que é para aprender a não meter cornos num traficante de droga. Nessa altura.Andas a chular sim que eu sei! A miúda trabalha. . . Mesmo tendo prometido que iria ser só sua.

Então fica assim combinado – respondeu Marco segurando-lhe o queixo com força. com quem e muito menos a fazer o quê. Os beijos. Tinha adormecido cansada de tanto esperar. No corpo ainda trazia as marcas deixadas por Marco.O que é que queres que eu faça? . Ouviste!? . Conseguido esse milagre. mas não. mas no entanto era o único que a fazia sentir-se genuinamente desejada e especial. surpreendentemente ou não. 143 . . ela sabia-o. Assim sendo. Ele podia espancá-la à vontade pois nem mesmo isso iria mudar aquilo que ela sentia por ele. Era com ele que ela sonhava todas as horas. Marco podia não ser o homem mais romântico do mundo. – Andas a gozar com a minha cara. . .Ouvi – respondeu Sara entregando-se de corpo e alma a um homem que minutos antes a havia espancado brutalmente. – Faz qualquer coisa. foi a pergunta que Marco se fez quando ouviu um ligeiro risinho proveniente da boca de Sara.Não sei como é que consegues aguentar uma situação dessas – foram as palavras de Alice quando Madalena lhe contou que mais uma vez a filha não tinha dormido em casa. era com ele que ela desejava passar os dias. a jovem adormeceu e só acordou às duas da tarde com a agradável surpresa de que a sua mãe tinha saído para trabalhar apenas deixando um bilhete sobre a mesa da cozinha: “ Tens o almoço no forno”. pois na altura a única coisa que queria era cair na cama e esquecer-se de todos os acontecimentos menos felizes que rodearam a sua noite. mas nos olhos. .E gosto mesmo! Mas só gosto de apanhar de ti.Ouviste?! . a certeza que tinha passado a noite inteira em bebedeiras e outros actos menos lícitos. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara abriu a porta de casa. que se lixasse tudo o resto.k.Impressão sua ou ela estava a rir-se. encontrava-se deitada no sofá da sala tapada com um pequeno cobertor. . . sua cabra?! . Não queria explicar a Madalena onde tinha passado as últimas dezasseis horas.Não – respondeu ela voltando-se para ele completamente marcada nos braços e nas pernas. pois tinha nódoas no corpo que podiam comprovar essa teoria.Sei lá! Enfia-a num colégio interno – respondeu Alice terminando os arranjos de margaridas sobre a bancada da floricultura. Ela estava realmente a rir-se e aquilo não era uma alucinação sua.O problema é mesmo esse! Ela sente que tu estás a perder as forças e vai ficando cada vez pior.Já estou a perder as forças. – Só gostei de saber que tens ciúmes de mim. Ainda pensou estar enganado. . Sara percebeu.O.Já vi que és daquelas que gosta de apanhar. os abraços e o toque das suas mãos foram muito mais marcantes do que os murros e os pontapés que ele lhe ofereceu. . Não. Mas nem isso pareceu importar quando ele a tomou nos braços e fê-la sentir-se nas nuvens. Foram esses os motivos que a fizeram caminhar pé ante pé pelo corredor e fazer todos os possíveis para não acordar a mãe que. as noites e a quem dedicava todos os seus sentimentos mais profundos. – A partir de hoje só apanhas de mim. mas nem isso a demoveu do intuito de chegar ao quarto e trancar-se a sete chaves.

Madalena tornou a levar uma colher de sopa à boca e sem querer lançou os olhos ao braço da filha. . O que teria mudado tanto? Meses antes.Tu é que fizeste bem em não ter filhos – disse Madalena arrancando-lhe uma leve risada.Mais cedo ou mais tarde ela iria ter que saber a verdade. Por sorte. mas não estaria também ela a destruir a vida da mãe e a impedir-lhe de ter uma família normal? Enquanto pensava no assunto.Depende! Olha que o Daniel não te dá trabalho nenhum. o coração de Madalena disparou de medo. Pareciam antes ter sido feitas por alguém e propositadamente. eu juro que já vou ficar satisfeita. não é? Pelo menos a ele a Sara deve ter algum respeito.Então o que é que eu faço? Diz-me porque eu já não sei – discursou Madalena largando os braços..Filho criado trabalho redobrado. deixaram de ter interesses comuns e viam na outra a encarnação do pior pesadelo. embora a camisola de Sara estivesse estrategicamente colocada para os tapar. E não. – Mas se me der só metade do trabalho que a Sara me está a dar. – Ele é o pai. Mas a verdade é que pela primeira vez os seus sentidos gritaram-lhe para estar alerta e para não ignorar as evidências.No braço. 144 .O Jorge? O que é que ele tem a dizer sobre isto tudo? . sempre fiz de tudo para que ela não descobrisse o sacana que o pai dela era. . mas ela simplesmente não me houve. minha amiga! Realmente não gostava de estar na tua pele. as duas afastaram-se. – O que é que tens aí no braço? . o quê?! . Embora não tivesse ficado minimamente convencida com aquela desculpa esfarrapada. O jantar foi silencioso e não constituiu qualquer surpresa para Madalena e Sara. Sara desviou-se a tempo dizendo: – Caí. . . .Eu sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos. E só de imaginar essa ideia. .O Jorge!? Achas mesmo que eu posso contar com ele? . Madalena achou por bem não levantar mais questões.Eu tenho pena de ti. As marcas no corpo de Sara não pareciam ser fruto de uma simples queda nas escadas rolantes. Aos poucos e poucos.Acho que já nem ao pai ela respeita! Desde que ele lhe contou a razão do nosso divórcio ela nunca mais quis passar o fim-de-semana com ele. – E talvez a culpa tenha sido minha.Caíste aonde!? .Ontem quando estava a correr para apanhar o metro. Simples bons dias e boas noites não contavam para aquilo a que se poderia chamar de uma conversa interessante. bati. . já proibi. Subitamente pareceu-lhe ver uma nódoa negra e um pequeno arranhão. e agora olha só no que é que deu?! . fiz tudo o que estava ao meu alcance. castiguei. .A quem o dizes. Caí nas escadas rolantes. .Ainda – respondeu Madalena caminhando em direcção à sua secretária. – Já briguei. já que havia pelo menos cinco dias que mãe e filha não trocavam qualquer palavra no interior daquela casa. Sara disse a Madalena que havia sido ela a destruir a sua vida e a possibilidade de ter uma família normal. Sempre a quis proteger. desesperada.Essa nódoa – respondeu Madalena tentando alcançar-lhe o pulso. .Devias – respondeu Alice furiosamente.

Ai é?! Fizeram o quê? . . .Está bem. Foi uma pena tu e a Sara não nos terem acompanhado. . . .Tens a certeza? – perguntou Jorge encontrando na voz da ex. E a última. Assistimos a um treino e no final até conseguimos autógrafos de alguns jogadores.É um estádio de futebol.discursou Jorge.Estou óptima.Ela não está em casa? Gostava de falar com ela e entregar-lhe os presentes.Lá isso é verdade. Quer dizer. conhecemos o estádio Santiago Bernabéu… . E hã. . .Não?! Aonde é que ela foi? . . mulher uma certa hesitação. Pode ser que aos poucos e poucos ela comece a entrar nos eixos. museus. animado. . . agradeceu-lhe com um sorriso e permitiu que ele a acompanhasse em direcção à sala. Estava mais magra. . Jorge e Daniel regressaram de férias trazendo consigo caras felizes e também vários presentes. . Claro que tenho.Bem – mentiu Madalena depositando os presentes sobre o sofá.Dois dias mais tarde.Esperemos bem que sim.k! Então eu deixo os presentes e depois entregas. . mas mesmo assim não consegui resistir.Estás mais magra – ele não resistiu a fazer essa observação.E esse estádio é…?! .Hã… claro – respondeu Madalena forçando um sorriso.Eu sei que o futebol nunca foi o teu forte. . Jorge reparou enquanto a seguia pelo corredor. .Impressão tua – respondeu ela compondo-se na sua camisola azul.Ainda bem então. demos uma escapadela a Barcelona. .Deve ter saído com amigas.E tu? Como é que estás? . . não é que ela mereça.A Sara não está em casa.Claro. – Como é que estão as coisas por aqui? . quase todos oferecidos a Madalena.Está bem. marido o principal impulsionador de todas aquelas compras. mas ainda assim ele manteve essa impressão guardada a sete chaves para não ser inconveniente. eu já vou indo! Ainda tenho que organizar algumas papeladas para amanhã.Acompanhas-me à porta?! Madalena acenou que sim e em seguida conduziu-o em direcção à saída.Eu e o Daniel divertimo-nos imenso.Tenho.…portou-se bem.Bem. . Tenho uma audiência que adiei e que agora não posso faltar. . .Mas o Daniel estava ansioso para conhecer.A Sara? Como é que ela se portou nestas semanas? . sabendo bem que havia sido o ex. . . Do Real Madrid. – Estou na mesma. 145 . .O. O Dani depois mostra-te. .Muita praia! Visitámos monumentos. não sei – respondeu Madalena cruzando os braços.

e tentou encontrar nela toda a doçura e inocência que ela detinha quando se casaram e prometeram diante do altar amarem-se. Mas não. já reparaste?! . Assim sendo. provavelmente no teu lugar também não acreditaria. agradeceu a passagem cedida pela assistente 146 .Para quê?! . da nossa casa… . .Podes não acreditar. E tu também devias começar a fazer… . Jorge arranjou forças para abrir a porta e também para dizer algo que já havia ensaiado várias vezes durante as duas semanas que passou em Madrid: . Talvez alguma coisa que comera na noite anterior? Ou seria antes a ressaca por ter bebido duas garrafas de whisky numa festa? Sem conseguir resposta às suas perguntas. .foi a resposta desesperada de Madalena. não lhe restou outra alternativa a não ser afastar-se da porta e deixá-la especada sobre o alpendre. Depois disso. Sara e Milene deram entrada na clínica onde a última costumava fazer exames periódicos. fosse na pobreza.Não Jorge… . Por sorte. mas ultimamente tenho sentido muitas saudades tuas… . Sem cerimónias. Sara acordou mal disposta.Lena… . ao sangue. na riqueza. – Faço sempre esses exames de seis em seis meses para não ter nenhuma surpresa desagradável. dos miúdos. Tinha a cabeça à roda. Raios. mulher apenas trouxe uma certeza a Jorge. Nunca se havia sentido tão mal em toda a sua vida e nem sabia sequer o que teria causado tamanha indisposição. – Tenho sempre que fazer tudo por ti. Na primeira manhã de Agosto.Não me podes marcar os exames?! Ao ouvir o pedido de Sara. – Marquei uns exames para a semana – disse-lhe Milene ainda naquela tarde. mas… eu ainda acho que existe uma possibilidade de voltarmos a ser uma família outra vez.Exames ginecológicos. Preencheram as fichas oferecidas pela recepcionista e mais tarde escolheram duas cadeiras discretas para se sentarem. e essa certeza era de que não havia a mais remota possibilidade de ela o aceitar de volta. pois ela já não existia. voltou ao quarto e respirou fundo sentindo-se grata por ter conseguido sobreviver àquela autêntica prova de fogo. Jorge! Vai! A expressão dura da ex.Oras! Para saber se está tudo bem – respondeu a prostituta calçando as suas sandálias sentada na cama. naquela tarde. . Morreu ao longo dos dezasseis anos de casamento que mantiveram. na saúde e na doença. Na semana seguinte. Tenho sentido muita falta de ti. Eu vou contigo. Infelizmente Jorge não conseguiu encontrar essa mulher.Exames de quê?! . a jovem puxou o autoclismo e manteve-se inerte no chão durante vários minutos. foi inevitável. Fazemos os exames juntas! E assim foi. Milene revirou os olhos e lançou um pesado suspiro.Marca no mesmo dia.Nessa altura. algo que fez assim que saltou da cama e se trancou na casa de banho. à urina… ao HIV. não havia muitas pessoas para realizar exames e Milene foi a primeira a ser chamada pela assistente de serviço.Esta casa já não é tua – respondeu ela calando-lhe os argumentos. respeitarem-se e nunca se abandonarem. o estômago apertado e uma vontade descomunal de vomitar. Depois disso. . ela despediu-se de Sara e entregou-lhe os seus pertences para que os vigiasse. Olhou-a mais uma vez.Por favor.Eu sei que tens todas as razões para não acreditares no que te estou a dizer.

– Quer dizer… às vezes com o Marco esqueço-me… . . .Coitado do velho! Deve ter ficado com os cabelos em pé quando lhe disseste isso. O silêncio de Sara deixou Milene alerta.ª Sara Albuquerque!? – chamou a assistente do corredor. por favor! . fazer coisas estúpidas só para provar que és a maior e que ninguém pode contigo. .Sei lá – respondeu Milene acendendo um cigarro assim que viraram a esquina.Mas porque é que temos que esperar oito dias até os exames ficarem prontos? . – Se estiveres numa de estragar a tua vida. . .Vai – ordenou Milene empurrando a jovem pelas costas quando lhe pressentiu algum nervosismo. e por sorte. .Perguntou-me se os meus pais sabiam que eu tinha vindo fazer um teste de HIV… . Podem vir buscar os exames daqui a oito dias.Porra. Mas não contes comigo para te amparar em todas 147 . Quinze horas e trinta e cinco minutos. por mim estou-me a lixar. .O que é que querias que ele te dissesse? É claro que te iria pregar um sermão.Tem calma… . Porque é que ele não se cala. . Só espero que isto não demore.Nem que tivesse sido só uma vez e muito menos com o Marco. pensou. . . nunca! Nem em sonhos! .Sou eu – respondeu Sara saltando da cadeira. pá – gritou Milene chamando a atenção de algumas pessoas que iam a passar na rua. – É sempre assim. disse-lhes a recepcionista. deixando Sara a olhar para o relógio pendurado na parede.Pois eu tenho medo.Normal! O de sempre – respondeu a prostituta vestindo o casaco às pressas. Sem preservativo. mas psicologicamente. Fisicamente não custou.e desapareceu com ela pelos corredores da clínica.É claro que não – respondeu Sara desviando-se bruscamente.Não! Ao contrário de certas malucas que andam para aí. pensou. eu cuido-me bem. – És parva ou fazes-te?! . – Olha lá – exclamou ela segurando-lhe o braço com força. Sara conseguiu desaparecer do consultório com a clara certeza que não voltaria ali a pôr os pés tão cedo. Sara sentiu-se incomodada. enquanto ouvia os sermões do médico de serviço acerca da sua conduta sexual não muito aconselhável e da sua tenra idade para realizar exames como àquele (HIV).Escuta aqui – exclamou Milene apontando-lhe o dedo ao rosto. . – Então?! Como é que foi? – perguntou ela assim que Milene pisou a sala de espera.Sr.Só deves ter medo se não te cuidares. – Não custa nada.E o que é que tu respondeste? . – Aquele médico era um otário – resmungou a jovem à saída da clínica.Venha comigo. – Tu não me digas que tens andado a trabalhar sem preservativo? . os exames não demoraram a ser feitos.Tem calma! Eu disse que é só às vezes e é só com o Marco.Não tens medo dos resultados? . .Que eles até me tinham aconselhado a fazê-lo – respondeu Sara às gargalhadas. Por sorte.

e se queres saber.Não! E tu? Não vais abrir o teu? Ao olhar para o envelope que tinha de encontro ao peito. encheu-se de coragem e tornou a procurar Milene combinando com ela um local onde se pudessem encontrar. que sem conseguir aguentar tanta pressão. Mais uma vez.Milene… Tarde demais foi o que Sara percebeu quando ao chamá-la pela última vez Milene pura e simplesmente desapareceu sem deixar rastro. Se ao menos as pessoas fizessem a mínima ideia de como ela se estava a sentir miserável. Os oito dias que se seguiram foram longos. nem paciência também! . E se estivesse doente? E se tivesse apanhado o HIV? Eram as perguntas que lhe assombravam os pensamentos todas as horas do dia.as tuas merdas porque eu já não tenho idade para isso. as pessoas na rua pareceram-lhe desfocadas e as suas mãos suaram como se estivessem a ser encharcadas por uma torneira aberta.Não tens nada? . Agora já não há como voltar atrás. – Não sou a tua mãe. lembraste?! . . extenuantes e stressantes. não só por ter tido relações sexuais sem qualquer protecção. Não houve uma única noite em que Sara tivesse conseguido pregar os olhos enquanto esperava pelo resultado das análises. – Ainda estás chateada comigo? . quando finalmente chegou a altura de receber os exames. sentou-se num pequeno pilar junto ao edifício da clínica.Não! Pior! Estás grávida. – Quer dizer. as duas amigas voltaram a sair à rua no mais completo silêncio. agora para outras… Os momentos que se seguiram foram expectantes.O que foi?! Tenho Sida? . Sara hesitou. . tanto para Milene. Recebidos que estavam os exames. – Estou limpa – exclamou Milene depois de ter analisado os seus exames com a máxima atenção. O que está feito está feito. não lhe restou outra alternativa a não ser voltar para casa e dar-se conta da grande asneira que tinha cometido.Não consegui parar de pensar no resultado dos exames! Estou a morrer de medo. – Estás lixada – exclamou Milene aproximando-se dela. 148 . para umas coisas és corajosa. . Por momentos. as duas amigas dirigiram-se à recepcionista e aguardaram que ela procurasse nos arquivos dois grandes envelopes castanhos. Nessa altura. mas também por levar uma vida desregrada cheia de más companhias e outras histórias escabrosas para contar. Um no nome de Milene dos Santos e o outro de Sara Soares Albuquerque. mas principalmente para Sara. Se não menos elas parassem um pouco só para lhe perguntar o porquê de ter tomado as decisões que tomou. Por fim. começou a sentir a sua cabeça a andar à roda.Não estou chateada – respondeu Milene apressando os passos em direcção ao metro mais próximo.Pensasses nisso antes de te teres armado em parva. Mas ninguém parecia estar minimamente preocupado consigo e também já não havia como voltar atrás. – Dá-me cá esta merda – disse Milene arrancando-lhe o exame das mãos. As palavras de Milene permaneceram nos ouvidos de Sara quando ambas entraram na clínica onde estavam depositados os exames.

Já foi teu cliente?! 149 ..Eu tenho a certeza que é. não?! – respondeu Milene apressando-se a acender um cigarro para acalmar os nervos.Bem. .Olha aqui a luz. queres ver! Porque é que achas que até hoje ele nunca foi pai? Sorte. contar à tua mãe que estás grávida e decidir se queres ou não ter o bebé. – A luz é que vais chegar a casa. Aonde é que eu estava com a cabeça.Não vai valer de nada. pelo menos não tenho Sida.O que é que foi? Ainda te estou a tentar ajudar e tu vens-me com essas cenas?! .E se não for? .Não acredito – murmurou Sara arrebatando-lhe o envelope das mãos. . meu Deus? Era certo e sabido que iria acabar por sobrar para mim. .Só acho que sabes mais coisas do Marco que eu não sei. . não é?! . minha cara – exclamou Milene segurando-lhe a face com força. é só pedires o número de uma clínica a qualquer prostituta lá do bairro. .Acho que vou falar com o Marco primeiro.Só preciso de uma luz.Eu sabia que esta cena dos exames iria dar merda. já te disse! Ele não te vai ajudar.Bem. .Não me vais abandonar agora. entre Sida e gravidez venha o Diabo e escolha. .É! Devem estar mesmo errados. estás lixada! Ele não vai assumir a criança e ainda é capaz de te mandar fazer um aborto.E dói fazer um aborto?! .Sei lá! Nunca fiz nenhum – respondeu Milene voltando a largar-lhe o rosto.Às vezes parece que o conheces até demais – afirmou Sara interceptando-lhe os passos. – O que é que eu faço? – repetiu Sara. . . não faria.Ele não faria isso – murmurou Sara não conseguindo esconder os seus olhos assustados. . . Depois disso. Eu conheço-o. não é?! . . . Eu sabia! Tipo sexto sentido estás a ver?! . Vai confiando nisso que daqui a nove meses vais ver o erro – respondeu Milene levando uma das mãos à cintura. . . – Não pode ser. – O pior é que tu nem sabes quem é o pai.Então se for.É natural! Já o conheço há muitos anos e ele também já foi meu cliente.Então o que é que queres fazer? Um aborto? Se quiseres fazer isso. . . .Ai agora perguntas-me a mim? Eu sei lá o que é que fazes! Não tenho nada a ver com isso. Garanto-te que números não te vão faltar.O que é que eu faço? Silêncio foi a resposta de Milene. não?! .Eu não posso fazer isso! A minha mãe iria matar-me.Só pode ser o Marco. Não te fiz o filho. .O meu maior erro foi ter-te dado ouvidos naquele dia em que me foste procurar para ser prostituta.Será que os exames não estão errados? .Ui. . rapariga! Grávida! Vais ter um bebé. – Tu ainda não percebeste a gravidade da situação!? Estás grávida. – A única vez que fiquei grávida tive a criança. abri as pestanas e nunca mais me armei em parva de engravidar outra vez.

Ele não presta. . Mas por outro lado. – E não bebas a água do frigorífico! Só te faz mal à garganta. e a sua vida nunca mais teria paz e sossego. – Vais ter que meter os papéis da matrícula na escola. podes crer que todas as responsabilidades vão cair sobre os teus ombros. Na verdade.Porque nunca veio ao caso! Tens a noção da quantidade de clientes que já tive? . Grávida aos dezasseis anos de um homem que era tudo menos de confiança e com um grande dilema nas mãos: Contar ou não a verdade aos seus pais. ou melhor. para se sustentar e muito menos sustentar uma criança que não foi de todo planeada ou desejada. eu só quero que abras os olhos e deixes de ser ingénua. Pensar no que fazer. . nem como namorado. . Sara chegou a casa antes de o anoitecer. ela guardou-os discretamente no bolso das calças. O Marco nunca te vai ajudar se resolveres ter essa criança. e pela expressão facial marcada não foi muito difícil perceber que tinha também passado a tarde inteira a chorar e a lamentar-se da sua triste sorte. sobre os ombros dos teus pais porque tu nem sequer tens idade para arranjar um emprego decente. Pela primeira vez naquela semana. Sara aceitou os comprimidos com alguma cautela. O que é que iria fazer dali por diante. ela não tinha ninguém a quem recorrer. A sua única doença era não saber o que fazer quando todos descobrissem que estava grávida.Agora não adianta chorar. . Se resolveres ter o bebé.Não é depois! Vais ter que tratar desse assunto o quanto antes para não perderes vaga. . Vou andar sempre em cima de ti para me certificar que não andas a faltar às aulas. a única opção que lhe restava era continuar a pensar. quando fazer. e principalmente. mãe… – murmurou a jovem servindo-se de um copo de água..Gripe.Um namoro muito torto se queres que te diga – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. que mais alternativas lhe restavam? Tal como Milene lhe dissera horas antes. não é!? O mal já está feito. . Fariam um escândalo.Porque é que nunca me contaste isso antes? .Toma – disse Madalena atirando-lhe uma caixa de compridos. Com certeza que nenhum deles iria compreender.k. . não tinha idade para arranjar um emprego decente.O. Diante daquela situação no mínimo catastrófica.Estou doente – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. . muito pelo contrário.Depois vejo isso. . – Daqui nada entramos em Setembro… – disse-lhe Madalena enquanto provava o molho do frango na panela.Eu sei – murmurou Sara limpando as tímidas lágrimas que lhe caíram dos olhos. não estava doente e nem nada que se parecesse. mas quando a mãe se voltou para o fogão. E este ano nem penses que te vou dar descanso! Muito pelo contrário. – Que milagre! Até para estranhar. . – Escuta Sara.Sim – respondeu Milene revirando os olhos quando percebeu que tinha falado demais. .Mas o Marco é diferente! Tu sabes que nós namoramos. . perguntou-se. 150 . como fazer.Se não andasses na rua até tarde não apanhavas doenças.O que é que tens? . principalmente a sua mãe.Hã… já chegaste – disse-lhe a mãe ao vê-la a entrar na cozinha. nem como homem e muito menos com pai.

meninas?! . – Mulher grávida não bebe. Milene? . Na mesma mesa também se encontrava Arlete.E tu. . aventuraram-se na procura dos primeiros nomes. trouxe-lhe uma calmaria difícil de explicar. . Com um misto de sensações diferentes. – Estás grávida.Imagina se não andasse – respondeu Madalena voltando-se para o fogão.Vou para o meu quarto. dizer que a amava e que juntos iriam criar o filho que fizeram. estão a ouvir?! – resmungou o empregado quando ouviu as gargalhadas das três prostitutas. A notícia da gravidez de Sara foi recebida com alguma apreensão por parte da maioria das prostitutas do Intendente. Quem sabe Marco até não fosse gostar da ideia de ser pai. Algumas alertaram-na para o destino cruel que a esperava.Por acaso! Olha que até hoje não tenho tido muitas razões de queixa. lembraste? Não podes beber.A velha tem razão – concordou Milene. .Nem pensar – interferiu Arlete.Velha é a tua mãe – defendeu-se Arlete ameaçando uma bofetada enquanto Milene e Sara se riam a bom rir. passou-lhe essa ideia maluca pela cabeça enquanto enfiava uma almofada por debaixo da camisola e se imaginava com nove meses de gestação. desde que soube que estava grávida. foram as palavras que Sara proferiu baixinho enquanto examinava a sua barriga à frente do espelho do quarto. tal como se era de esperar. No fundo. .O mesmo que elas. . não sabia até que ponto aquele filho iria mudar a sua vida. e no fim. – Mania pá! Tomara muitas mulheres nos cinquenta estarem assim como eu.Uma imperial também! De qualquer maneira não há nada melhor nessa espelunca. . Não sabia muito bem o que era. . Imaginou que ele a fosse tomar nos braços. – Estás muito contente – disse Milene a Sara quando ambas se sentaram numa das esplanadas mais frequentadas do bairro. e outras ainda.Não te tranques lá dentro! O jantar está quase pronto. 151 .O que é que vão pedir. Mas de facto. diz lá o que é que queres! .. – Sara.Mas… . . .Ui! Clientes é o que não te faltam… – riu-se Milene.Hei! Isto aqui é um estabelecimento de primeira.Tu já andas sempre em cima de mim. . Sara caiu na cama e fechou os olhos tentando imaginar a reacção de Marco. Que estúpida! Ainda não dá para ver nada.Para mim pode ser uma imperial – respondeu Arlete abanando-se com a mão. .Acho que já me habituei à ideia – respondeu Sara observando a chegada do empregado de mesa. ninguém conseguiu chegar a nenhum consenso. não seria uma loucura tão grande imaginar um desfecho risonho para aquela verdadeira história de terror. mas o simples facto de saber que ele existia e que estava no interior do seu ventre. houve qualquer coisa em si que mudou. – Está um calor de rachar. se for rapaz chama-lhe aquilo. . outras optaram por a parabenizar. Se for rapariga chama-lhe isto.

contaria a verdade aos pais e quem sabe até moraria com Marco no Algarve onde embalados num clima paradisíaco os dois criariam o filho. . Morri de saudades tuas. Milene atravessou a rua. .Estou-me a preparar para a próxima semana – respondeu Sara.Porquê?! . 152 . – Espera – disse ela. mas naquela sexta-feira de Agosto particularmente friorenta e cinzenta. .Ninguém sabe de nada – respondeu Milene levantando-se da mesa enquanto terminava o último gole da sua cerveja. está bem! Já não está aqui quem falou.Tenho um cliente daqui a quinze minutos e ainda tenho que me preparar para o receber. foram as primeiras palavras que ele disse quando viu Sara diante de si. O dever me chama. . . não sei se me entendem. . .Ficaste?! – insistiu Sara. Arlete perguntou: . Esperava também encontrar nos braços de Marco a confirmação de que tudo iria correr bem e de que podia contar com ele para o que quer que fosse. não é?! – perguntou Sara franzindo o sobre olho e encarando os rostos constrangidos das duas prostitutas. Pensam que fiquei com a cena e com o dinheiro.E vai ser cá uma surpresa – exclamou Arlete terminando a sua imperial. .Uns gajos andam atrás de mim por causa de uma mercadoria que não consegui devolver a tempo. entendes?! .Ele desconfia de alguma coisa? – perguntou Milene. ela esperava encontrar todas as respostas às suas perguntas. nem faz ideia sequer! Eu quero que seja surpresa. Sara e Marco subiram as escadas aos beijos e abraços e não tardaram a abrir a porta do quarto para ali dentro matarem todas as saudades que tinham sentido um do outro. fecha o bico – imperou Milene. não havia como prever a sua reacção. – Bem meninas! Tenho que ir. ela voltaria a casa. . Nessa altura.A animação e as risadas das três prostitutas continuaram por vários quartos de hora. . . e depois disso. .E ficaste? Marco esboçou um sorriso e logo se apressou a retirar a sua arma por detrás das costas. – Sabem e não me querem contar. apreensiva. Os dias seguintes trouxeram alguma ansiedade a Sara e tudo porque ela continuava sem saber qual iria ser a reacção de Marco à sua gravidez. .Está bem. Sarita?! Quando é que vais contar ao Marco que ele vai ser papá? .Boa sorte – riram-se Sara e Arlete. sorridente.Porquê?! – perguntou Sara. – Sinceramente não gostava de estar na tua pele. Acedida à ordem.Não.O que foi? – perguntou Marco. Depois disso. – Combinámos que ele vinha ter comigo. Ficaria contente? Ficaria confuso? Irritado? Furioso? De facto.Tem calma! Temos a noite toda.Aonde é que vais? .E então.Já te disse que hoje não vou poder dormir em Lisboa. . e enquanto Sara saboreava o seu sumo de laranja natural. o relógio assinalou vinte e três horas e o dono da pensão entregou-lhes a chave do quarto dezoito com um aviso claro e severo para que não fizessem muito barulho tendo em conta o adiantado das horas. . impaciente.Arlete.Vocês sabem alguma coisa do Marco que eu não sei. Física e mentalmente.

Marco. tu hoje estás com muitos truques. – Olha bem para mim e diz se eu tenho escrito na testa a palavra otário!? .E se esquecesses esse assunto.O que foi?! Bem. 153 . Sara… .Hiii! Já não estou a gostar nada da brincadeira.De mim? . . abrevia porque eu não tenho muito tempo.O que é que isso importa? . O que é que foi? Andaste a fazer coisas que não devias.Marco!? . – Espera – exclamou ela livrando-se dos braços dele. Claro que ela odiava o facto de Marco andar em negócios estranhos. . Sara viu-se obrigada a obedecer às ordens de Marco e a brindálo com um longo beijo nos lábios.Marco… .Está bem – respondeu ela sentando-se numa das pontas da cama.Porquê?! Não queres estar comigo? .Oras.Então cala-te e beija-me! Sem outro remédio à vista. e… eu soube que… estava grávida… .E tu estás à espera que eu acredite nisso? .Tu nem sabes quem é o pai dessa criança. – Eu não vim aqui para falar nesses filhos da mãe! Vim para estar contigo.pediu Marco colocando-se à frente dela. .O. .Sim.Sara. hã? – respondeu ele puxando-a contra si. o seu coração apertou-se de tal forma que por momentos foi-lhe praticamente impossível respirar. .Olha bem para mim. – Diz lá! .Não é nada disso! Mas é que… eu tenho uma coisa para te contar. sabes como é que é! A Milene está cansada de fazer esses exames e disse que eu também os devia fazer para… .Prometes que não ficas chateado? . esse pessoal é perigoso! . .Grávida?! – exclamou Marco levantando-se bruscamente da cama.O quê? – perguntou Marco apoiando os cotovelos sobre a cama. .De quem?! .É claro que quero. de quem!? De ti… – respondeu Sara surpreendendo-se com tal pergunta.Eu não estou à espera de nada. mas odiava ainda mais perceber que muitas vezes ele perdia a noção do perigo por ser tão ganancioso e inconsequente ao ponto de brincar com traficantes de droga. Mas a verdade é que enquanto o fazia.k! Eu prometo – respondeu ele revirando os olhos. Uma coisa que descobri há duas semanas. Pode ser qualquer um que tenha passado pelo bairro. . . .Há dias atrás eu e a Milene fomos fazer uns exames só para saber se estava tudo bem connosco.Sim! De ti! Eu tenho a certeza porque a data coincide com uma vez que estiveste cá em Lisboa. Coisa de rotina. . Grávida! . é isso? . Tu tens que acreditar nisso. .. – Na semana passada fomos buscar os exames.Só conto se prometeres que não ficas chateado.

Se engravidaste.Ou vais negar? – perguntou ele lançando-lhe um olhar desafiador. eu vou-te dar um conselho! Podes já começar à procura de outro palhaço para sustentar o teu filho porque eu estou fora… – afirmou Marco encontrando a sua arma sobre a mesinha e o seu casaco sobre a cama.Sara. o desespero tomou conta de Sara e ela não teve outro remédio a não ser segui-lo pelas escadas da pensão completamente lavada em lágrimas e implorando-lhe para que ele não a abandonasse.Tu não podes fazer isso – exclamou ela segurando-lhe o braço. Durante meses. Como se iludiu com um homem que não conhecia nada de si e que nem sequer estava disposto a conhecer. – Mas eu se fosse a ti tirava mesmo o bebé! Ainda és muito nova para ser mãe e irias acabar por te arrepender mais tarde. mas que na verdade não conhecia nada da vida. Eu não fui feito para ser pai! Nem para ser pai e muito menos para me prender a uma gaja da vida – respondeu Marco terminando-lhe com todas as esperanças de um possível romance entre os dois. por fim. 154 . o que é que ela sabia da vida? Do mundo que a rodeava? Das pessoas que a rodeavam? Não sabia nada. – Já vi que perdi o meu tempo – disse Marco. ela deu-lhe tudo o que podia. se eu soubesse que era por causa disso. Aliás. . Enquanto ouvia o discurso amargo de Marco. Quando o viu a desaparecer pela porta. Sentiu também como se o mundo tivesse desabado por debaixo dos seus pés e que não houvesse absolutamente nada para a amparar. mas isto já se está a tornar demasiado sério para o meu gosto. já ando eu farto. otária! De gajas como tu. Acabou! A sério! Foi divertido enquanto durou. Como se enganou com ele. Sara sentiu duas enormes lágrimas rolaremlhe pela face.O que é que foi? Estavas à espera que eu ficasse contente? Que te fosse pedir em casamento e ainda escolher o nome do puto? Acorda.O filho é teu – murmurou Sara com os olhos rasos de lágrimas.Eu tiro o bebé – afirmou ela segurando-lhe a manga do casaco. Se não quiseres eu tiro! . pensou. A última vez foi contigo e eu disse-te que ia largar a vida por tua causa. . De um sonho de uma miúda de dezasseis anos que se julgava muito esperta. chegou a essa conclusão. Não és a primeira e nem vais ser a última a tentar dar-me a volta.Mesmo se tirares. . – Sara! Sara – disse ele sacudindo-lhe os ombros quando ambos saíram à rua. problema teu! Resolve. colocou-o num pedestal e chegou inclusive a sonhar com um futuro promissor ao lado de um traficante de droga. – Acabou! Mete isso na tua cabeça.E achas mesmo que eu acredito em ti? . ela percebeu que tudo não tinha passado de um sonho infantil. Não sabia absolutamente nada e talvez nunca viesse a saber. gostei de estar contigo. eu estou-te a dizer que este bebé é teu.Há semanas que não tenho ido para a cama com ninguém. Mas ali. – Eu tiro. nem sequer tinha vindo. Acabou! . Tu fizeste-me prometer isso. Eu não tenho razões para te mentir! . – Aliás. naquele quarto de pensão e de volta à realidade.Marco. . – Vais negar que durante esse tempo todo não tens trabalhado como prostituta? .Marco… ..

A jovem chorava. Para ela. . – Não preciso dele para nada. a sua amiga Sara lavada em lágrimas com a cabeça de Marco sobre o colo. . e por fim. Ao ouvir os tiros vindos da rua. ela murmurou levando a mão à boca. não tem idade para aqui estar. talvez a cena mais chocante de todas. . – Hei! Vais-me deixar assim? – perguntou o cliente quando ela voltou ao quarto e encontrou as suas roupas espalhadas pelo chão. . Meu Deus.Pode até ser – respondeu ele encolhendo os ombros enquanto se afastava lentamente dela e a deixava sozinha no meio daquela rua deserta. ela abriu a porta e saiu do quarto ainda a tentar calçar as sandálias. Por acaso os seus pais sabem que está aqui? 155 . . o carro que continha os três mandatários do crime arrancou a alta velocidade deixando para trás um rastro de destruição. o seu coração parou de bater por breves instantes. enquanto algumas pessoas. ela aproximou-se da janela e abriu o vidro para tentar perceber que raios se estava a passar. e além disso. de vinte e oito anos cujo último desejo em vida foi o de não querer ser pai. um jovem traficante de droga.Vai ter que nos acompanhar. sangue e os gritos de Sara. Dito isto. – Sara – chamou Milene tentando trazê-la de volta à realidade. Pé ante pé. procuraram um local perfeito para se esconder. Estava apenas a dormir.Toma a merda do dinheiro. mas por sorte conseguiu chegar à rua onde um aglomerado de pessoas já se havia juntado à volta de Sara e do corpo de Marco. – Sara. ao vê-lo cair inanimado no chão. Não está morto…! As sirenes da polícia e da ambulância não tardaram a ser ouvidas no bairro. Viu pessoas a correrem de um lado para o outro. ouviu-se um berro no outro lado da rua. mas ainda assim. Meus Deus.Não – gritou ela enfrentando o rosto da amiga.Porque era a única pessoa presente na rua na altura do crime. Tinha sido um abate perfeito. mas a dormir. a área à volta do crime foi delimitada. quase tropeçou no tapete à entrada. Foi também a primeira vez que Sara se deu conta que Marco tinha realmente morrido. quando os ouviu. e para isso bastou apenas as portas da ambulância fecharem-se com um enorme estrondo. larga-o! Ele está morto. Depois disso. Profundamente. aquela não era a primeira vez que escutava tiros no bairro. E foi nessa altura que ele se voltou para trás sendo posteriormente surpreendido com cinco de tiros de caçadeira. De facto. Mais tarde. com um cadastro um pouco mais duvidoso.Será que não percebeste o que é que se passou? Mataram um homem lá em baixo. imbecil – respondeu Milene atirando-lhe as duas notas de cem euros. Correu pelas escadas da pensão.Porquê?! . procuraram-se identificações. Não.. – Ele não está morto! Não está…! Ele não está morto. . Marco não tinha morrido. ouviu os estores dos prédios a subirem a uma velocidade fantasmagórica. gritava e não permitia que ninguém lhe retirasse o pai do seu filho dos braços. testemunhas e recolheu-se o corpo da vítima. quase todos cravados no seu peito. – Mas eu não o quero! E tu não me podes obrigar a querê-lo… MARCO. menina – disse um dos policiais aproximando-se dela após todas as burocracias resolvidas. sem margem para erros e que retirou a vida de Marco. Milene afastou-se do cliente e saltou da cama atordoada.Mas eu paguei.

O relógio assinalava duas horas e vinte e 156 . o que acabou por morrer. naquela noite. casar.Sim – respondeu Sara afastando-se de Milene com um estranho aperto no coração.Eu acho que eles não iriam entender. Que não tinham sonhos.Até quando vamos continuar a viver nesta merda – respondeu Milene tentando engolir o nó que lhe atravessou a garganta. a tomar caminhos errados e a aprender com os nossos próprios erros. meu Deus?! Porque eu já não sei se aguento muito mais… Era a primeira vez que se abraçavam e choravam juntas desde que se tinham conhecido. Nem sempre é possível ter-se tudo aquilo que se deseja ou todas as pessoas que amamos. de tristezas.Já vi que vocês se conhecem muito bem. e na maioria dessas vezes. . . qual era o ser humano que não desejava uma coisa dessas? Mas a vida às vezes é demasiado cruel para certas pessoas e nem sempre a felicidade bate à porta de todas. – Achas que ela vai voltar algum dia? – perguntou Arlete aos ouvidos de Milene enquanto os carros da polícia desapareciam a alta velocidade.Não – respondeu Sara limpando o rosto marcado pelas lágrimas. .De vista – mentiu Milene.Não! Não é preciso. pagamos bem caro por eles.Queres que vá contigo? – perguntou a prostituta sob o olhar atento do polícia. . . – Anda – disse Arlete levando Milene encostada ao ombro. Madalena acordou sobressaltada imaginando quem seria. projectos e muito menos sentimentos. fazia precisamente sete anos. – Eu só conhecia o namorado dela. Sete anos de luta. Então menina?! Vem connosco? . deixaram-se de ouvir as sirenes no Intendente e tudo o resto voltou à mais completa normalidade.. . Coincidência ou não. – Já não sei de mais nada. Depois disso.Não sei – respondeu Milene limpando uma tímida lágrima. e por momentos. amarguras e um rol infinito de outros acontecimentos que para sempre iriam ficar gravados nas suas memórias.Boa sorte! Foram precisos apenas cinco minutos para que Sara fosse levada pelos policiais e o corpo de Marco transportado na ambulância para um hospital mais próximo. – Até quando.Sr.Porquê?! . – Vamos para casa! O telefone sobre a mesinha de cabeceira tocou ruidosamente. agente! Será que não era possível resolvermos essa situação sem meter os pais dela no meio? – perguntou Milene recebendo um abraço desesperado de Sara. ter filhos e viver felizes para sempre. Que não desejavam encontrar um grande amor. . À mesma normalidade que existia quando Sara ainda não frequentava o bairro. Por vezes somos obrigados a fazer escolhas. . Até porque. . rapariga! .Eu sinto muito mas as coisas vão ter que ser feitas dentro da lei! Como ela é menor.Não fiques assim. Que não sonhavam ter uma vida igual à de todas as outras mulheres.Só me pergunto até quando… .Até quando o quê?! . ainda não se tinha perdido na vida e muito menos conhecido a maioria dos habitantes da zona. . Enganados estavam todos aqueles que pensavam que elas gostavam do que faziam. é a nossa obrigação contactar os pais assim que chegarmos à esquadra.

Se ela não conta. O que teria acontecido para que Sara se tivesse desvirtuado daquela maneira. Na verdade. Sara ainda não havia regressado a casa. perguntou-se vezes sem conta.Sara. não lhe restou outra alternativa a não ser passear por todas as habitações da casa e desesperar-se entre lágrimas e soluços. Já estou a ir para lá – foi a resposta de Jorge assim que ela lhe explicou todo o sucedido. aflita. E foi essa t-shirt. ela encontrou também Sara com os olhos inchados de chorar e uma t-shirt marcada pelo sangue de Marco. apressou-se a encontrar o número do ex. Mas o pior nem foi isso! Sabes aonde é que a polícia a encontrou?! . . diz-nos…! . tudo apontava para que fosse ela. Madalena saltou da cama e tentou controlar o pavor que sentiu ao saber que Sara estava presa por ter sido a única testemunha de um homicídio. Foram as duas horas mais longas da sua vida. eu conto – interferiu Jorge com uma expressão nada amigável.Entra – disse uma voz grave após a abertura da porta.No Intendente. . que fez o coração de Madalena gelar como nunca. e por isso. ela tornou a lançar um olhar vazio aos seus progenitores e manteve-se inerte. Não tinha e nem queria explicar que naquela noite perdera uma das pessoas mais importantes da sua vida e também da vida do filho que estava à espera. – O que é que aconteceu? . Sara? – insistiu a mãe. – Estou – respondeu Madalena tentando encontrar forças para abrir os olhos e reconhecer a voz grossa e formal no outro lado da linha. – Não te preocupes. – Por favor. 157 . Nunca iriam entender o que aconteceu e muito menos perceber que uma parte de si tinha também morrido naquela noite. raios. – O que é que aconteceu. o quê?! Atordoada com todas as revelações feitas pelo agente de autoridade. Aonde foi que errou.Vens-me buscar para irmos juntos?! . é melhor não! Fica em casa! Eu resolvo isto. Madalena desceu à sala e aguardou que a porta da rua se abrisse a qualquer momento. para além do ex. Madalena pôde ter essa certeza quando voou em direcção ao corredor. conseguido esse feito.Aonde? – perguntou Madalena. precisamente essa tshirt. Mais tarde. Era advogado. – A Sara tem muitas coisas para nos explicar. marido na agenda com a certeza que só ele a poderia ajudar numa emergência daquelas. – A minha filha. Mais tarde. Depois disso. para quê explicar esse facto quando era notório que os pais não a conheciam minimamente e nem sequer faziam ideia do horror a que ela tinha sido submetida quando viu o seu namorado ser brutalmente assassinado a poucos metros de si? Madalena e Jorge não iriam compreender. como errou e porque é que errou? . A pergunta não sofreu qualquer resposta quando Sara se afastou dos braços do pai e encontrou na mesa um local perfeito para se apoiar. .Acho melhor irmos para a sala – respondeu Jorge conduzindo a filha pelo braço enquanto um pouco mais atrás Madalena os seguiu cautelosamente. Não tinha absolutamente nada para lhes dizer. À espera de notícias. Era a voz de Jorge. apreensiva. marido.quatro minutos. Mas os seus desejos pareciam difíceis de serem concretizados quando ao olhar para o relógio viu que nele estavam assinaladas quatro horas e vinte e oito minutos. Assim sendo. Como advogado saberia enfrentar aquela situação bem melhor do que ela. pensou. – Um amiguinho dela foi morto à caçadeira e parece que ela foi a única testemunha do crime.Não. o que é que aconteceu? – perguntou-lhe a mãe.

Pronto! Aí está a verdade que vocês tanto queriam saber. a cada semana. . as coisas iriam melhorar. Achas isto normal? .. ele ousou bater em Sara. drogados e prostitutas? Enquanto ouvia o discurso moralista dos pais e todas as verdades que eles fizeram questão de lhe jogar à cara durante vários minutos. tu não te atrevas a falar connosco nesse tom – imperou o pai.Sara… . não sei… . . 158 .Mas a única coisa que não querem é admitir a vocês próprios algo que está e sempre esteve diante do vosso nariz! . . e que com o tempo. marido se lançou contra a filha a fim de extravasar todo o ódio e toda a repulsa que a resposta dela lhe trouxe.Vocês sabem muito bem o que é que eu estava a fazer no Intendente. pensando enquanto o fazia. A príncipio foi como se tivesse entrado numa outra dimensão ou tivesse sido transportada para um lugar longínquo. não foi preciso muito tempo para que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo e a fizesse soltar um berro ameaçador: . pai!? Achas mesmo que eu estou a gozar? – respondeu Sara mostrando-lhe um sorriso maléfico. . – Os homens nunca criam as filhas para as ver no Intendente. mas no entanto vão lá para procurar as filhas dos outros… . – Tu só podes estar a gozar – murmurou Jorge também ele estupefacto com tudo o que tinha acabado de ouvir.Tu sabes! Mas se quiseres eu posso dizer-te com todas as letras – respondeu Sara gesticulando furiosamente os braços. e sou porque gosto. Nem o tempo e nem a paciência fizeram de Sara uma pessoa melhor. e embora nunca lhe tivesse passado pela cabeça que Sara se estivesse a prostituir. – Eu sou prostituta! PROS-TI-TU-TA! Um esforço sobre-humano foi o que Madalena teve que fazer para se conseguir manter em pé após a revelação da filha. não – gritou Madalena quando o ex. a cada mês. . pois a cada dia. Madalena tentou enganar-se.Sara. o que é que tu estás a fazer num lugar daqueles? – perguntou Madalena voltando-se bruscamente para a filha.Não. – Eu não andei a criar uma filha para a ver perdida no Intendente.Engraçado – respondeu Sara levantando o rosto desfigurado. ela mostrava-se um ser humano odioso e repugnante. em dezasseis anos. Muito pelo contrário. Sara cerrou os olhos e deixou de os ouvir.Sara. A nossa filha estava no Intendente. porque quero e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens. quando regressou à realidade e a voz estridente da mãe continuou a ecoar-lhe aos ouvidos.Deixem-me em paz! . com paciência. Durante meses. – Eu sou prostituta sim.Isso mesmo que ouviste. E a verdade é que pela primeira vez.Jorge. Mas depois.O que é que está diante do nosso nariz? – perguntou Madalena temendo ouvir a resposta. a verdade é que ela estava certa quando lhe disse que a realidade estava mesmo diante do seu nariz.Tu sabes. Mas não. . Satisfeitos!? A pergunta de Sara culminou com uma valente bofetada de Jorge e com o olhar aterrador que ele lhe lançou em seguida. – Enlouqueceste?! Será que não sabes que nesse lugar só há bandidos.Achas mesmo.O quê?! . tentou convencer-se a si própria que o comportamento da filha era perfeitamente normal para uma adolescente de dezasseis anos.

e o que sobrara da menina doce e inocente que ele um dia carregou ao colo. enfiou a cabeça por entre as pernas e tentou sufocar o choro compulsivo de uma mãe desesperada. – O que é isto? – murmurou ela tentando abrir a porta com vários safanões.que a culpa de tudo aquilo era sua.disse ele fazendo um esforço sobre humano para não derramar duas lágrimas que se haviam apossado dos seus olhos. Depois disso. – E também não quero que me consideres o teu pai! Sob o olhar desesperado da ex. admiração. já não lhe restava mais nada a fazer naquela casa quando era certo que tinha acabado de perder tudo o que lhe era mais querido na vida. a vontade incondicional de sair daquela casa. Sara correu em direcção à cozinha a fim de encontrar uma outra escapatória. pensou. – Vai-te embora! Não foi sempre isso que fizeste durante toda a tua vida? Pelo menos agora já não precisas fingir que és pai. a porta fechou-se violentamente e os vidros da janela agitaram-se trazendo consigo uma dor aterradora que Jorge nunca pensou sentir em toda a sua vida. marido abriu a porta e atravessou o jardim em direcção ao carro. Madalena sabia. Na verdade. – Vai – gritou ela interceptando-o no corredor. a única coisa que sabia era que precisava de ar para respirar e foi isso que tentou encontrar quando se sentou junto à porta de saída. – Jorge… . Já não tinha mais nada a fazer ali. mas também a única forma de impedir Sara de cometer mais loucuras. mulher. De facto. tudo deixou de fazer sentido e uma sensação de desespero invadiu-lhe o coração já por si destroçado. Nem as várias tentativas 159 . Era o fim. que decisões tomar dali por diante e como superar aquele inferno que estava a viver. chegou também a essa conclusão. Jorge alcançou o casaco sobre o sofá e saiu da sala. A porta também se encontrava fechada. . Sara alcançou o corrimão das escadas e voou como um foguete em direcção ao quarto. nunca lhe impôs limites e sempre fechou os olhos às loucuras cometidas por ela. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara voltou a descer ao primeiro piso. tornou a murmurar. – A partir de hoje já não te considero a minha filha… . Não sabia o que fazer para reencontrar a filha que perdera meses antes. Nessa altura.Eu sei – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando o ex. pois nunca se mostrou um pai presente. Uma mãe tão desesperada que naquela madrugada não viu outra alternativa a não ser trancar todas as portas de casa para impedir que a filha voltasse a sair por elas. Era uma medida extrema. e na mente.disse ele deixando-a caída no tapete da sala. Sara perdera-lhe todo o respeito. Assustada com a ideia de se ver presa naquela casa. tinha desaparecido sem deixar rastro. que tinha morrido há muito tempo e que ele foi o último a dar-se conta desse facto irrefutável. tudo pareceu desmoronar. Não sabia o que fazer. Contudo aquela noite veio a provar que já era tarde demais para retomar o seu papel de pai. Foi também nessa altura que ele percebeu que a sua filha já não existia.Olha só no que é que a nossa filha se transformou… . já não pertencia àquela família e nem sequer nutria qualquer tipo de sentimento pela mãe.chamou Madalena aproximando-se lentamente dele naquele corredor às escuras. Nas mãos. Ditas estas palavras. Não. Nessa altura. – Jorge… . pelo irmão ou pelo pai que naquela noite fez questão de lhe dizer com todas as letras que já não se considerava o seu progenitor. assim como a que dava acesso às traseiras. trazia uma mala e uma mochila.

Madalena mexeu a perna. dois.Enquanto fores menor e estiveres sobre a minha responsabilidade. .O que foi? Vais-me tornar na tua prisioneira. Do cimo das escadas. 160 . A resposta negativa de Madalena trouxe novamente a fúria de Sara e consequentemente a sua audácia em atirar-se para cima da mãe sem temer as consequências do seu acto irreflectido. filho – gritou Madalena enquanto se tentava desenvencilhar dos braços de Sara. . é isso?! . – Dá-me a chave – era o que gritava como uma louca. Sim.Tu não vais a lado nenhum – respondeu Madalena levantando-se da cama. A barreira foi quebrada. Mas ela que não pensasse que a iria prender no interior de uma casa onde não desejava estar. pai! A Sara vai matar a mãe! As últimas palavras de Daniel coincidiram com um estrondo gigantesco vindo das escadas.Dá-me a chave da porta! Eu quero sair.Dá-me a chave! . . . .Dá-me a chave! .O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Madalena acendendo a luz da mesinha. e foi também nessa altura que as duas abandonaram o quarto aos empurrões. Tinha sido a sua mãe a trancar todas as portas só para a prender ali adentro. . Aquele tinha sido o princípio do fim.Tu não me podes obrigar a ficar nesta casa.E eu já te disse que não ta vou dar. – Chama o pai! Sem esperar segunda ordem. estalos e gritos. – Mãe… – ele gritou. A única coisa que suplantou a dor da queda foi o susto.Já disse que não. largou o auscultador pronto a inteirar-se do que se estava a passar. Um. Daniel correu ao telefone que se encontrava no quarto da mãe e digitou o número de Jorge. volta para o teu quarto! . enquanto se aproximava pé ante pé. – Dá-me a chave – gritou Sara entrando pelo quarto da mãe com uma expressão aterradora. . Nenhuma das duas tinha morrido ou tão pouco sofrido lesões mais graves visto as escadas não serem inclinadas. O fim de todo o respeito que mãe e filha ainda sentiam pela outra.Eu quero a chave. Gritos que fizeram acordar o pequeno Daniel. e ele. Quero ir-me embora. eu posso sim obrigar-te a fazer aquilo que eu quiser e aquilo que eu achar que é melhor para ti. ele viu os corpos da mãe e da irmã estatelados no corredor e não tardou a perceber que ambos tinham caído devido à luta. ao ouvilo. sem se lembrar que ainda estava ao telefone com o pai. E tal como um milagre. o fim de uma relação de dezasseis anos e a certeza que dali para a frente as coisas nunca mais iriam voltar a ser as mesmas. – Pai! A Sara vai matar a mãe. mas isso foi algo rapidamente esquecido por Sara quando ela tentou agarrar as pernas da mãe e a impedi-la de fugir em direcção à sala. Não. .para forçar a fechadura resultaram e esse facto apenas acrescentou ainda mais o ódio que ela estava a sentir dentro de si. – Chama o pai. .Sara. Ela que não pensasse sequer numa coisa daquelas.Não – respondeu Madalena recuando vários passos quando a sentiu demasiado perto de si. Tinha sido ela. três toques e o advogado finalmente atendeu para grande alívio da criança. já disse – gritou a jovem estendendo a mão com um olhar aterrador.

Preferiste acreditar em mim em vez de acreditar nele e agora olha para ti?! Estás sozinha e vais ficar assim até ao final dos teus dias porque eu também me vou embora… . Mas no entanto parece que me odeias e que queres fazer tudo para me destruir e para destruir a minha vida. estava tudo destruído. .O quê!? – murmurou Madalena. . veio um silêncio ensurdecedor e a certeza de que o inferno finalmente tinha terminado. é isso? É por causa disso? – perguntou Sara encontrando a mãe encostada à mesa ainda com a respiração ofegante. D.Tu estás louca! Completamente louca. – Aqui tens… – afirmou Madalena atirando-lhe as chaves contra o peito. aliás. .Sara. Sara abriu a porta e não resistiu a lançar um último olhar ao irmão que se encontrava sentado nas escadas assustado com tudo o que tinha assistido momentos antes. burra como sempre.Se me tivesses dado a chave. ela esboçou-lhe um leve sorriso antes de fechar a porta e desaparecer de uma casa onde tinha vivido durante dezasseis anos.. o que é que foi que eu te fiz?! Onde foi que eu errei para que te tivesses transformado nesta… pessoa… – discursou Madalena não conseguindo controlar as lágrimas. acreditaste. Se eu errei. sempre te pus em primeiro plano e sempre abri mão de tudo em prol da tua felicidade… . Eu não me importo.Tu és um monstro. ao contrário do que ele estava à espera. Sara! Um monstro.Porque é que não me dás a chave. Ao olharem-se pela última vez. como você quer e ninguém está autorizado a contrariá-la… . Contudo. se te fiz algum mal. ao contrário do que o teu pai te disse. nem Madalena e nem Sara conseguiram reconhecer-se no interior daquela sala. Madalena manteve-se calada. . nada disto teria acontecido. E tu. – Aonde é que ela está? – foi a primeira pergunta de Jorge quando chegou à casa da ex. não foi por querer. Ouvido o estrondo. mas há muito tempo! Com as chaves nas mãos. Mas não. Foi só por isso que eu inventei que ele me tinha violado.O que é que…? .Larga-me – imperou Madalena conseguindo encontrar numa hesitação da filha a oportunidade ideal para correr em direcção à sala. – Tudo o que eu queria era que ele desaparecesse. Madalena! Tudo tem que ser feito quando você quer.Porque se quiseres podes voltar para ele! Já que me vou embora desta casa. E não. Eu não mereço isto! Eu sei que apesar de tudo eu não mereço o que me estás a fazer. Não restava mais nada a não ser um misto de ódio e rancor entre duas pessoas completamente distintas. . não é?! Mais uma vez quiseste mostrar que és tu que mandas! É sempre assim. – Eu só queria que tu me dissesses para que eu pudesse entender.Estás a falar do Sérgio. Nem mesmo os laços sanguíneos que as uniam iriam conseguir reatar aquela relação doentia. – Estás livre para fazeres o que quiseres com a tua vida porque para mim morreste. ele pode muito bem voltar. 161 . incrédula. hã?! Tens prazer de me ver a correr atrás de ti. Não hoje.O Sérgio nunca tocou num fio de cabelo meu! Fui eu que apareci na casa de banho para que nos apanhasses e pensasses que ele me estava a estuprar. Não foi de propósito. . Sempre te dei tudo o que estava ao meu alcance. não é?! – interrompeu Sara surpreendendo-a com tal pergunta. Na verdade. nem quero saber sequer… Perante a resposta da filha. mulher.

Mas a verdade é que ele nunca percebeu os intentos dela e agora ambos estavam a pagar bem caro por isso. sem conforto e com um bebé na barriga. – Foi-se embora de vez. Sara percebeu que era ali que teria que recomeçar do zero. mas sim em todos os momentos em que ela fez questão de lhe chamar a atenção enquanto pai. Os passos lentos e arrastados de Madalena fizeram Jorge entender que tinha chegado tarde. De volta a um bairro que tão bem conhecia.. o Intendente. Sem família.Saí de casa – respondeu Sara mostrando-lhe as malas. – Deixas-me entrar? 162 . restaram-lhe poucas alternativas de sobrevivência e ninguém com quem pudesse contar a não ser: – Tu… – disse Milene abrindo a porta do seu quarto com olhos de quem tinha passado a noite toda em branco. não só naquela madrugada.Foi-se embora – respondeu Madalena alcançando o corrimão das escadas com os olhos marcados de tanto chorar e uma voz amarga. .

. . embora quase todos fossem unânimes em afirmar-lhe que a culpa não era sua. Mas pior do que o sentimento da derrota.Nada. genro. – Eu fico aqui com ela. porque gosto e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens . Só ele poderia fornecer o carinho e o apoio que a filha necessitava na altura. e muitas vezes. . Sou prostituta porque quero. . maior era a vontade de morrer. algo que só ele como pai o podia fazer exemplarmente. e cada vez que Madalena se lembrava delas.Está a ser muito difícil para todos nós – respondeu Jorge não escondendo a tristeza estampada no rosto. e era exactamente isso que pretendia fazer não fosse o pedido dela para mais uma vez ficar sozinha. . mas… isto?! . sem comer. mas a verdade é que aconteceu e não há nada que possamos fazer. Jorge levou Daniel para a sua casa e deixou Afonso livre para cuidar de Madalena. – Como é que ela se foi perder desta forma. Qualquer coisa e aviso-te com antecedência. fechava os olhos numa tentativa desesperada de esquecer todas as palavras horríveis que Sara lhe dissera momentos antes de sair de casa. 163 . Eu também não sei como é isto pôde acontecer. Cinco dias em que ela mergulhou na mais profunda depressão. chorava. – Já não sei o que é que hei-de fazer com ela – disse Afonso Soares descendo à cozinha com o ex.Que tragédia – suspirou Afonso levando as mãos à cabeça.Eu vou levá-lo hoje! Mas também não queria deixar a Madalena sozinha. .Não te preocupes – respondeu Afonso segurando-lhe o ombro esquerdo.Eu também não sei. Nem sabemos sequer para onde é que ela foi. duvido muito que consiga tomar conta do Daniel. . foram as últimas palavras de Sara.Acho melhor levares o Daniel para passar uns dias contigo. era talvez o desgosto de saber que a filha se prostituía sem ter qualquer razão plausível para isso. A Sara escolheu o caminho dela.Não tiveram mais nenhuma notícia da Sara? . Tal como disse. outras lamentava-se. Pareciam gravadas na sua memória e traziam-lhe um sentimento angustiante de derrota.Eu já tinha pensado nisso – respondeu Jorge limpando uma lágrima que teimou em cairlhe dos olhos. sem dormir e sem mexer qualquer músculo corporal para além do estritamente necessário.CAPÍTULO IX Passaram-se cinco dias sem que Madalena se tivesse conseguido levantar da cama. Era como as ouvisse vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. meu Deus!? Está certo! Sempre teve um feitio difícil. . Por vezes.Do jeito como a minha filha está.

caloroso. – Estás bem? – perguntou Sérgio levando-a em direcção à sala.Aonde é que vais? – perguntou Afonso poisando o livro sobre o sofá. Parecia ter sido pintado a óleo e trazia consigo a imagem de um velho pescador sentado à beira mar.Não – respondeu Madalena mal conseguindo encontrar forças para o encarar de frente. 164 . Continuava o mesmo. Precisava olhar-lhe o rosto. Continuava pequeno. quem sabe. . era o único objecto que lhe era estranho. Mas o que poderia ele fazer perguntou-se.Descobri tudo – foram as primeiras palavras dela assim que Sérgio abriu a porta de casa e se surpreendeu com o seu rosto marcado pelas lágrimas e por tantos meses de angústia. Depois disso.Não me vou demorar muito – respondeu Madalena abandonando a sala sob o olhar atento e preocupado de Afonso. . . . a única alternativa que lhe restava era acatar a decisão e esperar que ela não cometesse nenhuma loucura. . Na verdade. do amor que ele dizia sentir por si e de o ter expulsado da sua vida sem qualquer razão. Afonso achou por bem não levantar mais questões e acatou o desejo de Madalena encostando a porta com cuidado.Vou ter que sair. . em passagens simbólicas que não lhe fizessem lembrar a tristeza em que a sua família estava submersa e o desejo de um dia tudo voltar à normalidade. Madalena aceitou o convite e entrou no apartamento do fotógrafo.Mesmo não tendo concordado com a ideia. mas sim na sua filha? Ao ver-se diante do prédio onde muitas vezes se encontraram e passaram várias tardes de amor. . Talvez. pai.Está bem.Queres um chá?! Faço num instante. mas também o lugar mais pacífico e confortável do mundo.Procurar uma pessoa. Ao ver-se sozinha naquela sala repleta de móveis e aparelhos fotográficos. . Madalena depositou a sua mala sobre o sofá e lançou os olhos a um quadro pendurado na parede.Fica aqui. Sentiu também que não tinha qualquer direito de procurá-lo ou sequer de lhe implorar perdão. Madalena teve algumas dúvidas. De ter duvidado do seu carácter. – Lena… . o erro de não ter acreditado no homem que amava. Na verdade. Abriu-o na página marcada e mergulhou na leitura durante horas a fio tentando pensar em coisas abstractas. desceu à sala e encontrou um livro para passar o tempo. só assim conseguisse recuperar a sua sanidade mental. Mas será que Sérgio estaria disposto a perdoála? Será que ele iria compreender os motivos que a fizeram não acreditar nele. mas precisava fazê-lo. . Aonde é que Sérgio o havia comprado? Ou teria sido oferecido por alguém especial? Talvez pelo avô quem sabe.Tens a certeza? Olha que já está tarde. – Filha – disse ele surpreendendo-se com a figura de Madalena sob o alpendre da porta. tocá-lo e tentar encontrar uma única razão para se manter viva. Já volto – disse Sérgio. Vários foram os pensamentos que atravessaram a mente de Madalena enquanto conduzia pelas ruas da cidade e se lembrava de um dos maiores erros que tinha cometido num passado não muito longínquo. Se era o desejo da filha sair. – Levantaste-te!? . reparou.Entra! Aberta a porta.

. . Sérgio parecia ter a mesma mágoa no olhar e Madalena não sabia o que fazer para conseguir encontrá-lo naquela cozinha tão minúscula. escuros.Será que… és capaz de me perdoar? 165 . Tinha comprado todo o enxoval e levei todas as coisas para a maternidade porque não queria que lhe faltasse absolutamente nada. . preto. – A culpa não foi tua. Tinha tudo preparado. e quando as enfermeiras ma deram nas mãos. semanas.Aquela mesma menina que eu costumava levar a passear ao parque. mas antes disso. ela é que tem que querer essa ajuda.Não me meteste em nada! Eu faria tudo de novo se fosse preciso. . É melhor – Madalena acedeu com um sorriso.discursou Madalena não conseguindo mais uma vez controlar as lágrimas e os risos nervosos.Eu sei. Era mesmo uma menina que eu queria.Vem… – exclamou Sérgio interrompendo-lhe os pensamentos. Lena! A Sara está doente. . – Eu lembro-me bem do dia em que ela nasceu. Desapareceu. tinha muito cabelo. Eu sei que não sou… . por causa da minha filha. ela precisa de ajuda. ambos sabiam-no bem. Pequenina. . Foi o mais feliz da minha vida. meses até. que adorava vestir de cor-de-rosa e de fazer totós no cabelo… . Toda a gente dizia que éramos muito parecidas e eu lembro-me que ficava tão orgulhosa quando ouvia alguém dizer isso. – Que eles são aquilo que nós fazemos deles e eu até costumava acreditar nisso. eu senti como se tivesse encontrado uma razão para viver. fizeste bem mais do que a maioria das mães fariam se estivessem no teu lugar. entendes?! . iguais aos meus. Mas …eu não quero acreditar que a Sara seja uma projecção minha. Ainda assim. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar.Lena… . – Desculpa por tudo o que te fiz passar. Desde a última vez que se viram e trocaram as derradeiras palavras.Tu não és uma fracassada. Mas… os anos foram passando e… aquela menina que todos adoravam agarrar ao colo e que se ria por tudo e por nada deixou de existir. – Vamos tomar o chá na cozinha. Eu não tinha o direito de te ter metido nesta embrulhada.interrompeu ela.E não és – interrompeu Sérgio segurando-lhe a mão sobre a mesa. Sentados nas suas respectivas cadeiras.Costumam dizer que os filhos são a projecção dos pais… . o tempo foi peremptório em passar. pelas coisas que tiveste de aguentar por minha causa. Tu já fizeste tudo o que estava ao teu alcance. . e se queres que te diga. – Devia ter feito isso..Desculpa – pediu ela tentando esconder os olhos inchados de tanto chorar. Morreu. Eu não sou essa pessoa horrível em que ela se transformou. Madalena e Sérgio serviram-se do chá e permaneceram em silêncio durante largos minutos. mas… não fiz! .Entendo – respondeu Sérgio aquecendo as mãos na sua chávena de chá.Então porque é que me sinto uma verdadeira fracassada? . E não sobrou absolutamente nada dela… .foram as palavras que saltaram dos lábios dela. Porque para mim ela ainda continuava a ser a minha menina.…devia ter acreditado em ti… . Tanta coisa tinha mudado. Passaram-se dias. e os olhos eram redondos. Ela era tão linda. Acho que… estava tão contente por saber que iria ter uma menina que nem sequer me importei com as dores do parto.Não quis enxergar a realidade e muito menos perceber no que é que a minha filha se tinha transformado.

. foram factores importantes para que Madalena recuperasse a alegria de viver. é só um jantar.Eu já te perdoei há muito tempo – respondeu Sérgio beijando-lhe as mãos frias. o ano mudou.Sinceramente não te estou a reconhecer! Logo tu que sempre detestaste o Jorge… 166 . – Precisamos de tempo. mas ainda assim conferia-lhe um certo conforto e estabilidade que há muito não encontrava. marido: . em que pudesse aproveitar uma refeição agradável ao lado da melhor amiga e uma conversa amena com o pai ao final da noite. a vida começou a retomar o seu curso. Para além disso. . . Dias em que pudesse sorrir sem pensar no dia seguinte. marido e as suas várias tentativas de aproximação faziam-na sentir-se menos sozinha e a pensar se valeria ou não a pena oferecer-lhe uma segunda chance.Não sei – respondeu Madalena depositando a caixa de chocolates e o bilhete sobre a secretária. do único filho que lhe restou e dos pequenos acontecimentos que preenchiam o seu dia-a-dia. tal como o meu também ficou apenas com a lembrança de um sorriso teu. Hã… PS. Beijos.Eu amo-te. e aos poucos e poucos.Eu também – sorriram os dois. – Não precisas preocupar-te com isso. Passaram-se cinco meses. A rotina do trabalho. Apesar de todos os acontecimentos trágicos do passado.Não perdes nada se aceitares. Uma alegria que por momentos pareceu desaparecida aquando do desaparecimento de Sara. .Lê! Ao ouvir o pedido da melhor amiga. – Neste momento não temos nada para nos dar um ao outro – respondeu ele.E tu vais aceitar? .Quem é que escreve PS num bilhete romântico!? – riram-se Alice e Madalena às gargalhadas. Mas a verdade é que poucas dúvidas lhe restavam quanto ao desfecho daquela história de amor.Aceitas um convite para jantar?” . Jorge. nada daquilo era demasiado entusiasmante.Impressão minha ou estás a torcer para que eu aceite esse convite? . Madalena esboçou um sorriso malicioso e rapidamente se apressou a retirar o cartão do interior do envelope.O Jorge. não acabou?! Sérgio pareceu hesitar quando fitou os olhos brilhantes de Madalena e viu nela a mulher a quem um dia chegou a amar mais do que a própria vida.Mas quem sabe um dia se o destino não nos trocar as voltas. ..Mas acabou. de espaço… .Eu sei – concordou ela com um sorriso imensamente triste. minha amiga! O Jorge. Madalena ainda ansiava por dias melhores. – Outra caixa de chocolates – exclamou Alice abrindo um sorriso de orelha a orelha quando Madalena regressou à loja após ter recebido a encomenda de um office boy. a presença sempre constante do ex. Um cartão que cheirava a rosas e que trazia a caligrafia desajeitada do ex. . . De facto. Quer dizer.Não é torcer! Só acho que não tem mal nenhum jantar com o teu ex. . não é?! . marido.“Espero que esta caixa de chocolates seja suficiente para adoçar o teu dia. . .E desta vez vem com um bilhete. mas que dava mostras de um novo fulgor.

Madalena não conseguiu conter-se e surpreendeu o filho com um longo e demorado beijo que fez todos os presentes rirem-se às gargalhadas. Mas a verdade é que nenhum destes pensamentos conseguiu demovê-la da ideia de cancelar um jantar que apesar de tudo lhe preencheu o imaginário desde manhã. Estou a confundir tudo. genro a entrar na sala com as mãos nos bolsos.Estás todo janota. Jorge? Não quero voltar muito tarde – disse Madalena encontrando o seu casaco sobre o sofá. bem perto disso. Apesar de tudo. Vou voltar a um passado que só me fez mal e que não me trouxe nada de bom.. Jorge – exclamou Afonso ao ver o ex. mas… as pessoas mudam! E eu acho que o Jorge mudou.Bem.Eu sei que fui uma grande impulsionadora na tua separação daquele imprestável. Não. . general – respondeu Afonso abrindo os braços sobre o sofá. E foi assim. filho. – Entra! . . ainda submersa num verdadeiro dilema. e se fossemos andando. militar afagando os cabelos do neto. inclusive Daniel. então que assim fosse. – Já não te vou dar mais nenhum.Porta-te bem. que ela terminou de se analisar ao espelho trazendo no corpo um vestido preto pelos joelhos e os cabelos soltos um pouco acima dos ombros. várias foram as vezes que Madalena pensou em desistir do seu jantar com Jorge. dizia. . . É uma loucura. nem um minuto a menos.k – defendeu-se ela enquanto levantava os braços. Estava perfeita. . .Claro! Nem um minuto a mais.Estás sempre a dar-me beijos. . amanhã é dia de escola.k. Mais tarde. – Espero bem que sim! 167 . foram os elogios que ouviu do pai e do filho quando chegou à sala.Claro. . Sr. – Mas agora vai. . Sr. . Apesar da promessa. a campainha tocou ruidosamente e ela correu a abrir a porta deparando-se com a figura do ex. ou senão.Espero bem que sim – respondeu o ex. – Ainda me lembro que são as tuas flores preferidas – disse ele.Não queres os meus beijos?! .Pai! Daniel! Não durmam tarde e nem fiquem a ver televisão até às tantas. – Iremos cumprir as suas ordens à risca.Sabe como é que é. .Obrigada – respondeu Madalena recebendo o ramo com alguma cautela. era impossível para ela passar um minuto que fosse sem demonstrar ao filho que o amava acima de tudo. De facto.Ainda bem. – Bom jantar – exclamou Afonso observando a saída de Madalena e Jorge da sala e mais tarde do interior da casa. marido acompanhado de um sorriso e também de um lindo arranjo de orquídeas. . repetia-se vezes sem conta. vô? . Afonso! A sua filha não merece menos – respondeu o advogado arrancando algumas risadas a Daniel e Afonso.O.Achas que eles vão voltar.Cheguei na hora certa? . e se o tivesse que provar com beijos.O.Está bem – respondeu Daniel tentando desviar-se dos beijos de Madalena. lembraste? . Enquanto se compunha à frente do espelho.

. dos nossos filhos. . outras causas importantes. – Lembro-me também que no dia seguinte contei a uma amiga e ela disse-me que o melhor que eu tinha a fazer era fugir de ti. – Só me estava aqui a lembrar da primeira vez que saímos para jantar. Nenhuma chegou sequer aos teus pés… .O restaurante escolhido por Jorge primava pelo requinte e pela sofisticação. Nenhuma delas me conseguiu dar o que me deste nestes dezassete anos. mais dinheiro.Mas eu tive sorte – disse Jorge deixando-se iluminar pelos olhos de Madalena quando eles se cruzaram com os seus. eu sei. .Percebeste isso um pouco tarde. mais prestígio… .Então não mudes. a única pessoa que Jorge queria agradar era Madalena.É! Infelizmente não fugi.Naquela altura era um teso. Mas mesmo assim tu ficaste comigo e aceitaste o meu pedido de casamento com um anel de plástico da feira popular. mas eu nunca me esqueci de ti! Nunca deixei de sentir saudades tuas. Era simples também. . Mas hoje já não sei se vale a pena. Impressionante como nunca se tinha dado conta de como ela era bela.Será?! – perguntou Jorge alcançando-lhe a mão sobre a mesa. Pela primeira vez.Sentimentalismos baratos. algo que há muito ele não via em qualquer outra mulher.Mas não fugiste. – Logo que nos casámos fui aceite numa firma de advogados e ganhei a primeira causa. algo a que o advogado estava amplamente habituado nos seus extensos anos de profissão quando se reunia com clientes importantes.E foi então que o nosso casamento começou a piorar. . eu sei! Estava sempre tão obcecado com o meu sucesso profissional que me esqueci da minha família e da mulher maravilhosa que andava a desperdiçar. não achas!? .Ui! Se me lembro – riu-se ela forçando uma gargalhada seca. nem mesmo quando andava com outras mulheres. sensual e inteligente. Depois foram sempre voos maiores. Mas naquela noite particularmente especial. . Não tinha dinheiro nem sequer para te levar ao cinema.Podes não acreditar.Mas às vezes é impossível não nos lembrarmos de coisas tão boas. . Lena. Jorge?! . da nossa casa. 168 . os seus olhos não se desviaram da ex.Claro que não! Tu sabes que eu nunca fui sentimentalista. . . Ficava situado no Lapa Palace e era frequentado por um grupo restrito de pessoas a quem tudo era feito para agradar.Já não tinha tempo para ti.Jorge… . – Lembraste que tivemos que pagar a conta do jantar a meias? . Falava tudo aquilo que lhe vinha à cabeça e movimentava-se com uma destreza e segurança fora do normal. por favor – pediu ela voltando a depositar a taça de vinho sobre a mesa.Nada – respondeu Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. . .O anel era lindo. Foi por isso que eu aceitei o teu pedido de casamento. – O que foi? – perguntou Madalena bebendo um gole de vinho tinto.Eu daria tudo para ter ouvido isso há cinco anos atrás. mulher um só segundo e a sua atenção centrou-se nela durante toda a refeição. não achas?! Madalena sorriu. – Será que é assim tão tarde? .

eu não queria ser um pai chato! Queria que o Daniel e a Sara me vissem como um pai espectacular capaz de lhes concretizar todos os desejos. ao que estamos a viver neste momento e… ao que iremos viver daqui para a frente.É muito estranho. Mas infelizmente. o destino trocou-lhes as voltas.O quê? – perguntou Madalena esboçando um sorriso envergonhado quando Jorge lhe percorreu os braços desnudos. Após longas horas de ausência. Parecia um sonho.Um brinde – afirmou Jorge tocando a sua taça na de Madalena. Mais tarde. Foi ela a responsável por tudo o que de bom lhe havia acontecido até à data e era também com ela que pretendia passar o resto dos seus dias.Esta história que aconteceu com a Sara fez-me abrir os olhos para uma serie de coisas que me eram totalmente estranhas. os dois deitaram-se sobre os lençóis de linho. sonhos e desejos a serem concretizados. É estar presente. onde havia planos. Madalena e Jorge regressaram ao ponto de partida. . . é tentar proteger os nossos filhos e… ser chato..Estranho. Ao entrar no quarto que um dia também foi seu. Madalena era essa mulher. ouviu o tecido cair no chão e Madalena suster a respiração descompassada. .Fico feliz que tenhas percebido isso – respondeu Madalena tentando esquecer a sombra que atravessou o seu peito quando se lembrou da existência de Sara. Por momentos. Fez-me perceber o porquê de muitas vezes brigares comigo.Estranho mas bom.Será!? . foi assim que se sentiu até Madalena o levar em direcção à cama e brindá-lo com um longo beijo enquanto o fazia. Afastou-os de uma forma irreversível e quase que os obrigou a continuar assim. na altura. . É muito mais que isso.Estarmos aqui os dois depois de tudo. Um tempo onde as suas vidas se conjugavam na perfeição. – Quem diria… . .Um brinde! As luzes apagadas fizeram antever que não havia absolutamente ninguém acordado naquela casa. Jorge deslumbrou-se com a grandiosidade daquele momento e experimentou uma das sensações mais avassaladoras que um homem poderia experimentar ao lado de uma mulher.Então um brinde à tua mudança. Depois disso. Mas só hoje vi o quanto errei. despiram as respectivas roupas e entregaram-se um ao outro durante horas a fio sem se importar com os carros que passavam a alta velocidade pela rua deserta.Eu mudei muito. mas também no tempo.Mudei mesmo. 169 . de me tentares chamar à razão e de me fazer entender que para se ser um bom pai não é preciso dizer sim a tudo. . mas bom… – respondeu ela deixando-se mergulhar no beijo que Jorge lhe ofereceu nos lábios. Antes. Lena! Acredita em mim. Algo superior às suas forças e também à sua existência. e não o fizeram apenas no espaço. Algo difícil de explicar. e… o quanto esse erro te prejudicou a ti e à nossa filha. . . não fosse esse mesmo destino tornar a juntá-los naquela noite tão especial. – E um brinde a tudo o que já vivemos. não é?! . eu sei! . Prova disso? O arrepio que sentiu em todos os poros do corpo quando lhe desceu o fecho do vestido.

– Já está tarde. Madalena fechou a porta. Madalena percebeu que sentia falta delas.Eu vou pensar – riram-se os dois quando ele atravessou o jardim em direcção ao carro e não tardou mais do que três minutos a arrancá-lo. Páscoa e outras celebrações familiares que compunham o ano.Uma viagem de trabalho.Mais ou menos! Quer dizer…. . .Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser as visitas sempre constantes de Jorge lá a casa. aquela noite não foi excepção. Mais uma vez. – Quero que me digas se posso voltar cá para casa.Não prometas coisas que não podes cumprir. muita coisa se passou e muitas vezes ela disse que o amor e a paixão que os unia tinha terminado sem deixar rastro. disponibilizava-se para colocar a mesa. Percebeu também que há muito não ouvia qualquer barulho e que a possibilidade de nunca mais ouvir estava-se a tornar demasiado evidente. algo que nunca fizera em anos e anos de casamento. as suas vidas tomaram rumos diferentes. mas no fundo sempre existiu uma estranha ligação entre os dois. e só se dava por vencido quando Daniel subia ao quarto e Madalena forçava enormes bocejos numa tentativa desesperada de o fazer olhar para o relógio.Já te disse que preciso de mais tempo. – Pensaste no que te disse? – perguntou ele quando ela o levou à porta. Jorge! Não posso decidir uma coisa dessas de ânimo leve. . ele chegava ao final da tarde com a desculpa de querer estar com o filho.Para onde? . Talvez por causa dos filhos. . Normalmente. . Vou para Bruxelas e devo lá ficar umas duas semanas no máximo.Estás-me a dar um prazo? .Estou a pensar – respondeu Madalena encostando a cabeça à parede. do Natal. . das festas de aniversário.Mas quando voltar quero uma resposta – disse Jorge brincando-lhe com os dedos das mãos. Preciso pensar! Preciso pensar muito. lavar a loiça. Depois. – Mas não te esqueças que desta vez é a sério! Se me deres uma nova chance prometo que não te vou desiludir. talvez pelos dezasseis anos em que estiveram casados. Depois disso. .Pensa! .Eu sei – respondeu ele acariciando-lhe a face rosada. A resposta de Madalena fez Jorge recuar dois passos e baixar a cabeça num claro sinal de desespero. . deparou-se com o vazio daquela casa e soltou um pesado suspiro ao sentir-se pela primeira vez confusa quanto ao desfecho da sua história com Jorge. . . Quem sabe se voltasse ao ponto de partida? Quem sabe se a volta de Jorge não lhe traria de volta algum do barulho perdido? 170 . – Depois falamos. . sim! Estou-te a dar um prazo. Durante os três anos em que estiveram legalmente separados.Está bem.Vou viajar este fim-de-semana.E então?! Já chegaste a alguma conclusão? . ficava para jantar. ou quem sabe por nada disso.Vai – murmurou ela afastando-o da porta. Mas enquanto passeava pelas habitações de uma casa anteriormente repleta do barulho das crianças. Os papéis do divórcio foram assinados sem um pingo de remorso. Porque será que ela continuava sem acreditar nas suas palavras? Porque é que ela tinha um prazer especial em criar uma verdadeira muralha entre eles? – Acho melhor ires – afirmou Madalena encontrando-lhe a mão direita. Ano Novo.

era o prazo. mas que apesar de tudo ainda têm concerto. marido.Sim! Podes não acreditar. Traições. por muito tempo eu culpei a Sara. – Uma parte de mim quer. . . . não sabes?! . . no que poderia ter sido e não foi. . não só como homem. Fui eu que não quis acreditar no Sérgio mesmo quando ele me disse que nunca tinha tocado num fio de cabelo dela. Disse-lhe que iria pensar cuidadosamente no assunto.Não! Claro que não… . Jorge partiu para Bruxelas e deixou um ultimato a Madalena para que ela se decidisse a dar-lhe uma segunda oportunidade. sim! Mas hoje. Se queres realmente saber se deves voltar para o Jorge. Foi com essa promessa que Jorge viajou prometendo telefonar assim que tivesse um minuto livre na sua agenda preenchida de reuniões e congressos. resolveu aceitar o desafio proposto pelo ex. negócios atrás das minhas costas e mentiras.Eu sei – riu-se Alice. vejo que a culpa foi inteiramente minha. mas também como ser humano. Não posso culpar ninguém por essa escolha a não ser a mim própria.Mas as coisas não assim tão fáceis – respondeu Madalena com um longo suspiro. olhando para trás.Tu sabes que eu nunca fui com a cara do Jorge.Nem precisas dizer – riram-se as duas. entendes?! Mas uma outra parte continua a gritar-me aos ouvidos que se eu voltar para o Jorge tudo vai ser como era antes. Eu realmente acredito que ele está arrependido de todas as coisas que fez no passado.A sério! Acho mesmo. Às vezes esses milagres acontecem com as pessoas que menos esperamos e com o Jorge aconteceu. apesar de se encontrar ainda um pouco confusa. – Eu ainda continuo a pensar no Sérgio. . .Tal como o estipulado. no fim-de-semana seguinte. aliás. – Sou uma caixinha de surpresas. a sério… .Sabes. nós sabemos. não. .Pois eu acho que o devias procurar outra vez – afirmou Alice saltando da montra. que não foram poucos.Adoras vê-lo a sofrer. marido a poucas horas da sua partida. e … eu escolhi acreditar na minha filha. Saber se ele 171 . eu acho que deves procurar o Sérgio e esclarecer a vossa história de uma vez por todas. sabias?! . não é!? – riu-se Alice divertida quando Madalena lhe contou a conversa que tivera com o ex. e que assim que ele voltasse. no que poderíamos ter vivido e não vivemos… .Por culpa da Sara – interrompeu Alice terminando a decoração da montra da loja.Eu não sei – respondeu Madalena não escondendo a sua indecisão. Duas semanas. mas até hoje eu continuo a pensar nele. a resposta lhe estaria na ponta da língua.Claro que não! Só preciso de tempo. E eu não quero passar pelo mesmo. Eu tinha duas escolhas: Acreditar nele ou acreditar na Sara. .Mas eu acho que ele mudou – concluiu Alice captando os olhos de Madalena. Acredito mesmo que ele te ama e que está disposto a concertar todos os erros. . . e ela.Tu surpreendes-me sempre.Mas queres ou não voltar ao vosso casamento? .Desde a última vez que o procurei. nem sei sequer se tenho forças para passar pelo mesmo.Nunca mais tiveste notícias do Sérgio? .No Sérgio?! . – Acho que ele cresceu.

Era ele. Aonde estava com a cabeça? Porque não esquecia Sérgio de uma vez por todas? Seria assim tão difícil quanto isso? O toque do telefone fê-la dar um pulo sobre a cama.ainda continua a gostar de ti. Meu Deus. alertaram-na para uma verdade incontornável. após se ter convencido que nunca mais o tornaria a ver e de que as suas vidas tinham tomado rumos diferentes. Era ele. chegou a haver casamento? 172 . Nessa altura. mas por outro lado. Como era estranho voltar a ver o nome dele após tantos meses de ausência. Como estás? . Sei que foi horrível ter levado com aquela vela na cabeça quando foram levar as flores para o meu casamento. Mais uma vez. Por outras palavras. a porta fechou-se e tornou a abrir-se com duas caras também elas conhecidas. Só assim vais poder virar essa página da tua vida e seguir em frente… Os conselhos de Alice deixaram Madalena confusa. dois toques. foi o facto de ter visto o número de Sérgio no visor. os três carregaram as flores para o interior da loja e depositaram-nas perto do balcão. friorento e começou com a chegada de uma carrinha de encomendas feitas pela floricultura. Quando o relógio sobre a mesinha de cabeceira marcou vinte e três horas e trinta minutos. mas mais do que o toque em si. Seguiu-se uma rápida conversa. foi a pergunta que imperou no ar quando ela desligou a chamada e voltou a poisar o telefone sobre a mesinha. Madalena percebeu que já não havia mais tempo a perder e digitou um número que um dia chegou tão bem a conhecer. cinco. – Olá. três. telefonar a Sérgio e marcar um encontro onde ambos pudessem conversar sem a mínima possibilidade de serem interrompidos. Depois disso. enquanto um pouco mais atrás. Madalena seguiu-lhe os passos tentando abrigar-se da chuva. e essa verdade era a de que enquanto não resolvesse a sua história com Sérgio iria ser praticamente impossível reatar a sua história com Jorge. Depois disso. realmente não foi uma experiência lá muito agradável! Mas que mal vos pergunte. – Já veio – gritou Alice correndo a abrir a porta. um pouco contidamente. Um toque. o motorista da carrinha não tardou a abrir as portas e a mostrar-lhes as flores encomendadas. Será que mudou de número. Sim. Era realmente muito estranho. Beatriz!? – disseram Alice e Madalena sem esconder a surpresa por a ver ali. minhas queridas! .D. – Estão frescas – disse ele com um sorriso que imediatamente contagiou as duas funcionárias. quatro.Há muito tempo – respondeu Alice apressando-se a cumprimentá-la com um beijo na face.Estou óptima – respondeu ela não escondendo o seu sorriso radiante. não é?! . voltou-se para a filha e perguntou: – Olá Joana. uma onda de pânico percorreu-lhe o corpo. . – Mas antes de mais queria pedir-lhe desculpas por tudo o que aconteceu. uma gorjeta ao motorista e a partida do último com a promessa de voltar dali a três dias.É. O primeiro dia de Março amanheceu chuvoso. Foi por isso que naquela friorenta noite de segunda-feira. se continua a pensar em vocês ou se já está noutra. .Há quanto tempo. ela resolveu cometer uma das maiores loucuras da sua vida. Nessa altura. Uma onda de dúvidas atravessou-lhe os pensamentos e a certeza de que tinha cometido um erro pareceu mais iminente do que nunca. seis e não houve qualquer resposta.

tudo isso eram pequenos detalhes perto da imensidão do que iria acontecer quando chegasse ao local combinado. talvez tivesse uns vinte anos de existência. mas o aprumo das mesas. Para além disso.Que bom – respondeu Madalena forçando-lhes um sorriso. e para prová-lo. Na verdade. essa casa trazia consigo um ambiente ameno. Tal como sempre. era o local. . radiante.Ele é um gentleman – afirmou Joana mostrando o seu anel de noivado cravado a ouro e diamantes. . Desde então só tem sido amor. . Uma casa de chás situada no centro de Lisboa repleta de pessoas de todos os estratos sociais. Finalmente chegara a altura pela qual ela havia ansiado durante meses e nada e nem ninguém a iria fazer atrasar-se àquele encontro.Bem. vinha a agitação e a correria dos empregados que faziam de tudo para atender os clientes. – Acabámos de receber novas encomendas. o meu noivo. – Acham mesmo que a minha querida Joaninha iria casar-se com um idiota como àquele? Ela merecia muito melhor e foi óptimo ter desmanchado o noivado antes de cometer o maior erro da vida dela.Sim! Conhecemo-lo num cruzeiro pelo Oriente há seis meses atrás e ele encantou-se tanto pela Joana que nunca mais a quis largar. mãe! Tenho a certeza que a Carmo iria adorar. não é. – Devíamos levá-las. Será que têm alguma coisa? . Sinceramente não podia ter encontrado um noivo melhor. Os dois são completamente apaixonados um pelo outro e até já marcaram a data de casamento para o próximo Verão. Queríamos encontrar um arranjo lindo para uma amiga que faz anos hoje. . e como aquilo está às moscas. convidou-nos para irmos morar com ele e com os pais a Dubai. ..O Atif. . ele achou por bem que eu e a minha mãe ocupássemos a casa até o dia do casamento. caloroso e bastante agradável. . cadeiras e azulejos pintados à mão ressaltavam a sua elegância. – Faz tudo para me ver feliz e também para me mimar. a floricultura encerrou às dezanove horas.Porquê?! .Até porque ela agora está noiva de um empresário árabe multi-milionário – concluiu Beatriz. . Volte amanhã. as coisas tendem a ser rápidas. . – Mas bem. nem o trânsito caótico que todos os dias inundava a cidade e muito menos o temporal a cair violentamente sobre o pára-brisas do carro. Nem os seus clientes. – Quer dizer. amor e amor. 173 .Pois não! Só para quem tem sorte e um rosto lindo como a minha Joaninha – respondeu Beatriz mostrando um sorriso radiante à filha. . que rápido – murmurou Alice recebendo um discreto beliscão por parte de Madalena.Árabe?! – indagou Alice. Depois dessa elegância.Uau! Não é para todos – riu-se Alice. .Tiveram sorte – interferiu Madalena levando mãe e filha em direcção à bancada da floricultura.Isto tudo para vos dizer que esta vai ser a última vez que cá vimos – concluiu Beatriz. quando o amor é assim tão… intenso. Era uma das mais antigas da cidade. não foi só por causa disso que viemos à loja.Claro que não – respondeu Beatriz passando as mãos pelos cabelos da filha. Parece que eles têm lá uma propriedade gigantesca. Madalena aproximou-se da porta e virou a placa ao contrário: Fechado.Uau! Estas túlipas são lindas – exclamou Joana não resistindo a tocá-las. surpresa.

mas acima de tudo sincero.Ouvi dizer que aqui servem uns maravilhosos bolinhos de coco e óptimos chás de menta. . arranjou os cabelos molhados pela chuva e ainda teve tempo para sorrir. nada mais voltou a ser o mesmo.Então podemos pedir isso se quiseres – respondeu Sérgio chamando gentilmente um dos inúmeros empregados da casa. . – Só tive que correr imenso porque não consegui arranjar um sítio aqui perto para estacionar. as suas vidas tomaram rumos diferentes e criou-se uma estranha percepção de que ainda havia pontos a serem esclarecidos numa relação que apesar de tudo foi intensa.Eu também não. . que havia vida para além do divórcio e que nunca era tarde para se acreditar num amor tão ou mais intenso que o primeiro. – Desculpa o atraso… . Foi ele quem lhe mostrou que nem tudo estava perdido. bonita e apaixonante.disse ela encontrando a mesa escolhida por Sérgio. Madalena sentou-se à mesa.Está tudo bem com eles! O meu pai está agora a morar comigo. – Estás mais gordo. bolos frescos e outras iguarias não muito encontradas em outros estabelecimentos da cidade. Apanhaste muita chuva enquanto estavas a vir para cá? . Um sorriso que continuava idêntico ao que era.Sempre com um sorriso nos lábios. – Então?! Já pediste alguma coisa? .Claro que sim.Devo levar isso como um elogio!? . . .Sara. Depois disso. com o teu filho… . anotavam os pedidos à mesa.Não muita – respondeu Madalena tentando esconder o nervosismo de estar outra vez à frente do único homem que a conseguiu envolver após o seu divórcio.Espero que esteja tudo bem com o teu pai. jovial. . Nessa altura. – Estás encharcada. E sim. ainda nem te perguntei como é que estás. . Sérgio reparou. .Tu também não estás nada mal – riram-se os dois. sendo que depois dessa separação. Mas infelizmente o destino foi cruel e separou-os no momento em que ela menos estava à espera. um fotógrafo que meses antes havia aparecido na sua vida como um anjo e a virado de pernas para o ar. fez os pedidos em nome dos dois e aguardou que o funcionário se retirasse da mesa com o mesmo sorriso que trouxe. Foram esses os motivos que levaram Madalena a escolher aquela casa de chás para se encontrar com Sérgio Almeida.Não faz mal! Também só cheguei há cinco minutos – respondeu ele observando-a a arrastar uma cadeira. Impressionante.É. Impressionante como Madalena nunca havia percebido isso até conhecê-lo e entregar-se a ele. .Bem. – Mas eu não me esqueci de ti.Estava à tua espera para pedirmos juntos. . fugiam para o interior da cozinha e voltavam com chás fumegantes. .Sim! Da Sara – respondeu Madalena não escondendo o constrangimento sempre que falava da filha.Mas tu estás óptima. realmente faz muito tempo – respondeu Sérgio desarmando-a com o seu sorriso e com os seus olhos verdes.Ai é?! Que bom – sorriu Sérgio. 174 . Está a ocupar o antigo quarto que era da… . Faz tanto tempo que não nos vemos… .Claro. Límpido.Eu pedi para que ele ficasse lá em casa. . O tempo passou. .

. E tens razão. o que vivemos não foi um sonho. . Sei lá! Ouvir a tua voz. – Que ainda não me tinhas esquecido. Mas a verdade é que passou e… . . …ver o teu rosto e ter a certeza que nada do que vivi contigo foi um sonho. duvido muito que algum dia vá esquecer. As palavras de Madalena contrastaram com a expressão séria de Sérgio e com o desejo que ele sentiu em contar-lhe toda a verdade antes que ela abrisse o seu coração de uma forma irreversível.E…?! .Eu também acho que foi! Foi uma das coisas mais reais que aconteceram comigo e eu tenho medo que nunca mais volte a acontecer. Não estava nada à espera. Foi por isso que eu resolvi procurar-te de novo… . e se me perguntares ou se alguém me perguntar.continuou ela. Era óbvio o nervosismo demonstrado pelos dois. Madalena e Sérgio agradeceram a gentileza do funcionário enquanto escolhiam as suas respectivas chávenas e tentavam arranjar espaço numa mesa não muito gigantesca. . Foi real. assim como eu também nunca me esqueci de ti.Nem eu. . quem sabe… não sei! Quem sabe… . cada vez que se olhavam nos olhos. 175 . .Que Vera!? – perguntou Madalena tentando manter-se firme perante as revelações que se avizinhavam. mas sim porque não teve forças para isso. eu nunca me esqueci de ti. e segundo porque… precisava ter a certeza de uma coisa. . .Como assim?! .Primeiro porque… queria ouvir a tua voz. foi muito real e inesquecível! Mas o tempo passou e não eu sei como conseguiu passar tão depressa. Porque se tu me disseres que… existe essa possibilidade.Deves ter ficado surpreso quanto te telefonei ontem à noite.discursou Madalena sentindo-se quase sem fôlego. Quem começaria primeiro? .E os nossos caminhos afastaram-se muito! Mais do que eu queria que se afastassem.…que provavelmente já deves ter refeito a tua vida. Se não existe a mais remota possibilidade de me quereres de volta e de me perdoares por não ter acreditado em ti na altura que eu devia ter acreditado. . mas ainda assim. mas eu precisava ver-te mais uma vez.Confesso que fiquei um pouco.Porque eu preciso saber. Porque foi real.Lena. um certo desconforto até.Que coisa?! Ela sorriu nervosamente. e mais uma vez.Lena… . não foi? .Nem tu? Então porque é que me ligaste? – riu-se Sérgio. não é!? – disse Madalena bebendo um gole do seu chá de menta. Mas a verdade é que o fotógrafo não conseguiu interrompê-la a tempo. – Eu sei que já se passou muito tempo… . Não porque não quisesse.Não sei se te lembras da Vera… . parecia que tinham tantas coisas em comum e tantas palavras para se dizerem um ao outro. eu preciso mesmo saber se a nossa história terminou.Claro que foi – respondeu Sérgio afastando a chávena de si.Os chás e os bolos de coco não tardaram a ser trazidos à mesa pelo mesmo empregado que os havia atendido minutos antes.

Vou – respondeu Sérgio encontrando-lhe a mão sobre a mesa. – Descobri isso há pouco tempo. Durante a condução para casa. . ela desmoronaria como um baralho de cartas. – Aliás. Ninguém teve a brilhante ideia de olhar para si e confortá-la com alguma palavra ou até mesmo com um abraço.Não foi bem apaixonar – respondeu Sérgio observando-lhe os olhos cintilantes.. Sem mais nada para lhe dizer. Era o fim. . aliás. .E tinham?! . – Desculpa! Eu não te queria magoar.Apaixonaste-te por ela?! . . Aconteceu! Essas coisas acontecem a toda a gente e eu disse-te que um dia iria acontecer contigo. – Vais ser pai… . Mas a verdade é que foi acontecendo … . Não era para ser importante.Uma modelo que eu tinha fotografado no início do nosso namoro. pensou.Na altura não! Claro que não… – respondeu Sérgio temendo ser mal interpretado. Ajudou-me imenso quando me senti em baixo.Mas não a amas. e o fim de uma história que tinha tudo para dar certo. – Mas depois que terminámos por causa daquela história da Sara. Sérgio não contava.Lembro. até hoje não sei se sou apaixonado por ela. eu encontrei-me com ela num desfile de moda. várias foram as vezes que Madalena pensou cometer suicídio ou então abrir um buraco para se esconder por debaixo da mesa. na altura eu estava tão magoado que nem sequer me passava pela cabeça ter alguma coisa séria com quem quer que fosse. Meu Deus! Como o mundo dava voltas e como o destino era tão cruel. e tal como deves calcular.Não! Não a amo. . E não. . fez-me sorrir nos momentos em que me apetecia chorar e tornou-se numa pessoa importante na minha vida.Porque ela está grávida. entendes?! Mas sei que gosto da companhia dela. Devo-lhe muitas coisas… . trocámos números de telefone e fomos nos conhecendo melhor. Ela apareceu uma vez em minha casa enquanto lá estavas e tu ficaste desconfiada que tínhamos algum envolvimento. O fim dos sonhos que ela transportou durante vinte e quatro horas. Mas infelizmente nenhum dos seus desejos se concretizou e a visão de Sérgio aos poucos e poucos tornou-se cinzenta e deturpada. o fim do que poderia ter sido e não foi. Quatro semanas! De facto. Conversámos.Então porque é que estás com ela? – perguntou Madalena sentindo-se confusa. eu sou o pai… – respondeu Sérgio terminando com todas as dúvidas que ainda assombravam os pensamentos de Madalena. Madalena encolheu os ombros e lançou os olhos ao movimento frenético das pessoas à sua volta pensando como era impressionante que ainda ninguém se tivesse dado conta da maior tragédia ocorrida na sua vida. e enquanto a tentava assimilar. a revelação não poderia ser mais bombástica.Não tens que pedir desculpas. até porque se ele continuasse a olhar para si ou se atrevesse a proferir qualquer outra palavra de arrependimento. várias foram as vezes que Madalena tentou 176 . lembraste?! . onde praticamente deixou ver o asfalto da estrada devido às lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. Foi algo muito casual.foi tudo o que ela conseguiu murmurar enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas.

Hoje não. por favor … . pai! Tu sabes que eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para impedir que a Sara saísse de casa.Tenho a certeza que vais querer saber. . E mesmo apesar das pernas cansadas e do esforço de um pobre velho de sessenta e nove anos. . Preocupado com o comportamento intempestivo da filha.Não. As coisas que ela me disse na noite em que se foi embora até hoje estão-me gravadas na memória e eu nunca vou conseguir esquece-las ou sequer perdoá-las… . não sei se me viram ou não. Nenhuma mãe teria aguentado o facto de saber que a filha se andava a prostituir em troca de nada… . . mas a verdade é que desde que ela saiu cá de casa a minha vida melhorou e eu não quero ter que voltar ao ponto de partida. pai – suspirou Madalena voltando-se para ele. cansada de a impedir de sair à noite e de a ver chegar bêbada às tantas da madrugada – afirmou Madalena gesticulando furiosamente os braços. não é?! Só tenho que me habituar a ela.Eu não acho. mas a verdade é que quando fui atrás delas as três desapareceram sem deixar rastro.Talvez assim tenha sido melhor. Afonso saltou do sofá e alcançou o corrimão das escadas pronto a descobrir que raios se tinha passado com ela. .Vi a Sara.Podes – respondeu ela apressando-se a limpar as lágrimas junto à janela. .O que é que aconteceu? Algum problema? . eu realmente não quero saber da Sara! Sei que é horrível uma mãe dizer uma coisa dessas.Preciso contar-te uma coisa que vi hoje. – Hoje não! . – Estava com duas amigas muito mais velhas e parecia que iam a entrar no metro! Bem. . pai! Não há problema nenhum! O único problema é a minha vida em si. .convencer-se de que a sua história com Sérgio tinha terminado e de que não lhe restava mais nada a não ser lamentar-se da sua triste sorte.Ela está grávida – interrompeu Afonso parando-lhe todos os movimentos. Depois dessa certeza.Encontrei-a na zona do Areeiro – continuou Afonso enquanto Madalena passeava atordoada pelo quarto.Pai. .Que seja. não foi muito difícil chegar ao quarto de Madalena e tocar-lhe à porta.Não sei – respondeu Daniel enfiando o rosto no livro que estava a ler.O quê?! . – O que foi? . Mas acho que para isso não existe solução. mas o que é que querias que eu fizesse mais?! Eu estava cansada de a tentar chamar à razão. A expressão séria de Afonso fê-la hesitar.Já chegaste!? – perguntou Afonso vendo a filha passar pelo corredor como um foguete sem sequer responder à pergunta. ela abriu a porta de casa completamente encharcada e largou as chaves sobre a mesinha. .A Sara está grávida.Pai. . – Posso?! .Mas ela é tua filha. .Não. – Eu tenho a certeza que nenhuma mãe teria aguentado a metade do que eu aguentei. tu tens a certeza do que me estás a dizer? 177 . – Será que aconteceu alguma coisa com a tua mãe? .

eu sei que só tenho sessenta e nove anos. interceptaram todas as pessoas que iam a passar debaixo dos seus chapéus-de-chuva. – A Sara está grávida sim. Lena! É o teu neto.Sigam-me – exclamou o toxicodependente fazendo um gesto engraçado e permitindo que Madalena e Afonso se colocassem à sua frente. claro – respondeu Afonso de imediato. . Era quarta-feira. 178 .Sei. Afonso aproximou-se dele e em seguida mostrou-lhe uma fotografia que continha a imagem de Sara: .Tome – respondeu Afonso entregando-lhe uma nota de dez euros. já deve ir nos seis ou sete meses.E sabe aonde é que ela está? – perguntou Madalena não escondendo a sua ansiedade. Mas para com o teu neto!? Ele não tem culpa de nada.Por acaso – disse o indivíduo mostrando-se bastante satisfeito com a recompensa.Claro que não – respondeu Afonso perante o desconforto patente nos olhos e nos movimentos de Madalena. o que é que vocês querem com a Sarita?! Olhem que é uma gaja fixe! Não lhe vão fazer mal. de cabelos compridos..Bem. Só as amigas dela. Mais lágrimas foi o que Madalena sentiu a brotarem dos seus olhos. – Acho que isto deve chegar para o jantar à maneira. continuaram a descer a avenida e continuaram também a perguntar se ninguém havia visto uma jovem de dezassete anos. – Leve-nos até lá.Ia precisar de um agrado. pois não?! . Gentilmente. – Este é o pior dia da minha vida – gritou ela atirando o candeeiro da mesinha contra a parede. o indivíduo não teve dúvidas: . e esta senhora aqui é a minha filha. a mãe da Sara! Viemos conversar com ela. o trânsito mais uma vez estava caótico e as esperanças de encontrar quem tanto procuravam tornou-se remota com o passar das horas. Em duas ruas paralelas. mas ao chegarem ao final da avenida Almirante Reis. – Bem. e pela barriga.Eu não acredito nisto. – Eu pensei que ela não tivesse família. não?! . E apesar de a foto estar molhada.Conhece esta menina? – foi a pergunta. mas acho que consigo perceber quando uma mulher está grávida ou não – respondeu ele encarando a expressão surpresa de Madalena. eu até entendo. tudo bem.Mas?! .Ai é?! – respondeu o indivíduo coçando levemente os cabelos.Claro. . Madalena e o seu pai. . há muito tempo que não vejo a Sara.Claro que conheço. nem mesmo o desespero patente nos rostos de Madalena e Afonso conseguiram demover-lhes da vontade incomensurável de seguirem em frente. . Infelizmente a maioria das respostas foi negativa. . por favor! . chovia torrencialmente. – Eu sou o avô dela.Se achas que não tens qualquer responsabilidade para com a Sara. Parecia ser toxicodependente. Se quiserem posso mostrar-vos! É mesmo aqui ao pé… . até pelas vestes que trazia consigo e pela barba há muito não aparada. Com uma fotografia na mão. grávida. mas… . e aparentava também ainda não ter passado dos trinta. Afonso. olhos escuros e pele clara. madame! Sabe como é que é! Já são sete horas e um gajo ainda não conseguiu juntar dinheiro suficiente para jantar. – Mas que mal vos pergunte. É a Sarita! O pessoal lá do bairro chama-a assim. Afonso interceptou um indivíduo de aspecto algo duvidoso. Contudo. Mas acho que ainda deve estar a morar com a Milene na pensão. .

repleto de lixo espalhado pelo chão. oh – exclamou Vítor alcançando a porta da pensão que tanto tinham procurado. um misto de sensações e sentimentos atravessaram o coração de Madalena. despediu-se dele com um novo aperto de mão e acompanhou a sua filha em direcção às escadas sujas e escuras que ligavam os quatro pisos daquela pensão.Obrigado pela ajuda. – Nem sabemos como lhe agradecer… .Sei! Uma surpresa? 179 . madame! .Como é que é o seu nome. Nessa altura. e por fim. .Hã. – Não sabíamos que estava aqui alguém. A caminhada em direcção ao bairro do Intendente demorou alguns minutos. – Hei – ouviram uma voz grossa a sair da recepção. vô! Afonso não viu outro remédio a não ser oferecer uma outra nota de dez euros àquele pobre rapaz que apesar de tudo nem parecia ser má pessoa.. meu Deus. .Porquê!? . demorou algum tempo a apertar-lhe a mão. – É aqui. – Mas não garanto que a Sara e a Milene estejam aí! Podem ter saído! . elas estão lá em cima… – respondeu o dono da pensão mostrando-se um pouco mais calmo por perceber Afonso e Madalena não eram pessoas ameaçadoras ao seu negócio. Surpreendentemente ou não.Sim! Somos amigos. essas duas! Conhecem-nas.Desculpe.Vítor – respondeu ele abrindo um sorriso enquanto estendia a mão a Afonso. é?! . mas estava! Eu sou o dono desta pensão e aqui ninguém entra sem passar primeiro por mim. militar. Depois disso. – Eu não mordo. que ao contrário do pai.Nós viemos procurar uma rapariga chamada Sara e uma outra chamada… .Sempre a vi sozinha lá no bairro e ela também nunca falou nada. E ao voltarem-se para trás. o seu cumprimento foi imediatamente correspondido pelo ex. entende?! – interferiu Afonso. vestido com um fato de treino azul e uma expressão facial nada amigável assombrou-lhes a visão. – Aonde pensam que vão? . . vou ter que avisá-las primeiro.Eu sei – afirmou Vítor estendendo novamente a mão. – Mas para vos deixar subir. um homem de estatura média. . . seguiu-se a vez de Madalena. vários toxicodependentes a cambalear pelas ruas. . Era a primeira vez que estava ali. todos eles compunham o cenário no mínimo degradante onde Sara tinha escolhido ser a protagonista.Não! Nós gostaríamos que fosse uma surpresa.Milene – concluiu Madalena quase gelando dos pés à cabeça quando os seus olhos se cruzaram com os do proprietário da pensão. prostitutas encostadas às portas das pensões enquanto seguravam os respectivos chapéus-de-chuva e compunham a pequenez das mini saias. a visão de imigrantes dos mais variados países. e quando finalmente avistaram a entrada.Bem. Infelizmente.Eu sei – respondeu ela encarando-lhe a expressão irónica. – Agora é para a sobremesa. amigo – respondeu Afonso mantendo Madalena um pouco mais atrás de si a fim de preservar a sua identidade. Agora digam lá! Quem são vocês? . Era a primeira vez em quarenta e dois anos que se atrevia a pisar um local como aquele.Pois. rapaz – respondeu Afonso permitindo que Madalena entrasse primeiro. rapaz? .

Deixa-me… . Afonso e Madalena contaram os degraus até o terceiro piso e muitas vezes se viram submersos numa escuridão aterradora. A visão que lhe surgiu à frente foi realmente surpreendente. Depois disso. . .Sim. assim como o encontro com a filha após seis meses em que estiveram afastadas e não mantiveram qualquer tipo de contacto. – Podemos entrar? 180 . Uma mulher de cabelos castanhos pelos ombros vestindo uma gabardina preta e um lenço cor de laranja ao pescoço. e Madalena pode ter essa certeza quando se viu pela primeira vez à frente do quarto apontado pelo dono da pensão. mas para ser surpresa.Sim. o cheiro a humidade emanado pelas paredes. Depois disso. Esta. é mais caro.Eu sou a mãe da Sara – interrompeu Madalena para grande surpresa de Milene. . os inúmeros remédios que foi obrigada a adquirir na farmácia de serviço ou os panos húmidos para acalmar as febres altas conseguiram melhorar o estado de saúde de Sara.Se me derem vinte euros. O número dois. ainda atordoada perante tal revelação. um senhor de meia-idade trajado com um casaco verde-escuro e calças de ganga aprumadas. . – Não vais bater à porta? – perguntou Afonso percebendo a hesitação de Madalena. até porque desta vez. era ela quem fazia questão de pagar.suspirou ela. Enquanto pensava em todas estas tragédias. Raios.…deixa-me ganhar alguma coragem. – Pois não?! .Você é que é a Milene? – perguntou o senhor.. Há muito tempo que não nos vemos e eu tenho a certeza que elas iriam ficar muito mais contentes se nos vissem lá em cima… de surpresa.Como assim?! . O que mais poderia fazer para que a amiga se recuperasse da pneumonia contraída cinco dias antes? Nem mesmo as emergências do hospital. Milene ouviu um terceiro toque na porta e finalmente deu-se por vencida. Quem quer que fosse não a iria deixar em paz. O número que para sempre iria ficar gravado na sua memória. ela estava grávida. Para além disso.O quarto fica no terceiro andar e é o número dois. o que também poderia prejudicial para o bebé. pai! Deixa – exclamou Madalena impedindo que Afonso retirasse mais uma nota da carteira. A porta sofreu dois toques quase seguidos. . e logo atrás dela. – Aqui tem os vinte euros. algo que prendeu de imediato a atenção de Milene e que a fez largar a revista que tinha nas mãos. . sou eu – respondeu a prostituta cautelosamente.Pois. E foi por isso que sem muitas cerimónias ela saltou do divã encontrando no espelho o único local para compor os cabelos e o decote da sua camisola preta. tornou a afastar-se da cómoda e alcançou a maçaneta da porta girando-a de uma só vez. – Porquê? Algum problema? .Não. pensou. eu deixo que façam a tal surpresa e até finjo que não estava cá quando subiram! Mas se não derem… . não conseguiu produzir qualquer movimento corporal a não ser manter a mão sobre a porta. . lançou um olhar à cama onde Sara estava deitada e percebeu que a febre e os tremores da jovem ainda não haviam cessado apesar dos antibióticos. E para piorar o cenário.Obrigada! Sob o barulho ensurdecedor das escadas. a sujidade entranhada em todos os cantos não lhes deixaram quaisquer dúvidas de que Sara tinha escolhido um dos piores lugares do mundo para viver.

Tudo bem! Eu entendo. Foram precisos poucos minutos para que Afonso abandonasse o quarto e deixasse Madalena e Milene de olhos postos em Sara. Milene sentiu-se mais nervosa do que nunca. e Madalena não resistiu a lançar um novo olhar àquelas paredes vazias. claro – respondeu Afonso. Apesar da gravidez. . Milene percebeu isso quando baixou o rosto e perguntou: – Para onde é que vocês a querem levar? .Eu não estou a pensar nada – respondeu Madalena observando os gestos de Milene a retirar as roupas de Sara dos armários. os cabelos estavam mais compridos e o rosto de menina inocente transformou-se no de uma mulher obrigada a crescer à força. . quando na verdade.Eu não sei se ela vai querer ir – respondeu a prostituta cruzando os braços. pai! Vai lá! . aliás. Obrigada! . – Nós viemos buscá-la – exclamou ela voltando-se para Milene. Enquanto ouvia o discurso de Milene. O facto de a sua filha já não existir. mas a febre continua alta! Já não sei o que fazer para a baixar. e em seguida. já não restava mais nada e foi isso que assustou Madalena.Claro que não.. da Sara que todos conheciam. Madalena lançou os olhos a Sara e por momentos quase não a reconheceu. . aquela era a primeira vez que se sentia tão nervosa perante a presença de pessoas desconhecidas.Então já vou indo para não perdermos mais tempo. Depois disso. desprovidas de qualquer luxo ou outros elementos decorativos. mandou-a para casa e receitou uns medicamentos que tive que comprar ali na farmácia.O lugar dela não é aqui e você sabe disso! A afirmação de Madalena não poderia ter sido mais acertada. Infelizmente. – Quer tomar alguma coisa? – perguntou Milene prendendo-lhe a atenção.Para casa. – Lá é que é o lugar dela! . independente e imune à opinião dos outros que era estranho ver-se metida numa situação daquelas. .Claro – respondeu ela após alguns segundos em suspenso. a porta do quarto fechou-se com algum cuidado. – O médico que a assistiu disse que provavelmente era pneumonia.Hã… não. . . não tinha quaisquer razões para se sentir assim. Era estranho imaginar-se tão pequena. não é?! . E só de pensar que tinha sido ali que a sua filha tinha passado os últimos seis meses de vida. ela tinha emagrecido bastante. – Entrem! O convite foi imediatamente aceite por Afonso e Madalena. vulnerável e insegura na presença de Madalena. . Ao vê-los ali diante de si. fez-se um silêncio perturbador.Sei que deve estar a pensar horrores deste lugar.Espero bem que não.É grave? – perguntou Afonso debruçando-se sobre a neta enquanto lhe mexia nos cabelos soltos.Eu vou buscar o carro lá acima – disse Afonso voltando-se para a filha.Ela está assim desde sexta-feira… – disse Milene quando Madalena e Afonso avistaram o corpo de Sara deitado sobre a cama. Nem mesmo os antibióticos estão a fazer efeito. – Lena! Importaste de ficar aqui a preparar a Sara enquanto trago o carro para a levarmos? . Sempre fora tão segura. Mas como não havia camas vagas no hospital. 181 .

mas. Mas foi aqui que a Sara escolheu ficar. . parecia que a sua história tinha tido finalmente um final feliz. . para os seus familiares mais próximos e recuperar-se-ia de todos os fantasmas que durante meses a atormentaram. Sara nem sequer se apercebeu quando foi carregada ao colo por um dos habitantes do bairro e as suas malas foram levadas pelo avô em direcção ao primeiro piso da pensão. Confesso que até hoje eu nunca entendi. A resposta de Milene trouxe um novo silêncio e também um novo olhar de Madalena aos cantos daquele quarto. Faltavam poucos minutos para o anoitecer quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta se abriu ruidosamente. – A sua filha é quase como uma filha para mim embora a nossa diferença de idades não seja assim tão grande. lá isso é verdade. Nessa altura. fui eu que tomei conta dela durante estes meses todos. não é?! – retorquiu Milene percorrendo a sua lista de contactos através do telemóvel.E só para terminar… queria também que soubesse que a admiro imenso! Nem sabe o que eu daria para que a minha mãe também me tivesse vindo buscar ao Intendente. não foi?! Vá-se lá perceber porquê! Com uma casa de sonho. Diante daquele facto irrefutável.. Por estar quase inconsciente devido às fortes febres. tristezas e discussões. – Espere – exclamou Milene interceptando a saída de Madalena do quarto. Voltaria para casa. confidente e também a única pessoa a quem ousava contar alguns dos seus maiores segredos.Não é preciso – respondeu Madalena de imediato. Nessa altura. mas mais do que isso. ficaram-lhe gravadas na memória. nunca foi espancada por nenhum chulo. Sim. Não fiz um grande trabalho. ninguém em sã consciência iria perceber os motivos que a fizeram largar tudo aquilo para vir morar no Intendente.Eu sei – respondeu Madalena encarando-lhe a expressão mortificada.Vocês são amigas? . sabendo bem quem eram as pessoas que 182 . mas ele não vai conseguir aguentar sozinho com o peso da neta e muito menos com as malas dela... poucas dúvidas restaram quanto ao seu destino. . – Esse meu amigo vem cá num instante! Ele vive aqui ao pé. sendo que dali para a frente iria ser praticamente impossível voltar a ver o bairro com os mesmos olhos pois Sara tinha retirado dele todo o encanto.Somos – respondeu Milene lançando um olhar a Madalena enquanto dobrava algumas peças de roupas e as colocava na mala de Sara. Mas de qualquer maneira. As últimas palavras de Milene coincidiram com a saída de Madalena e com as lágrimas que não conseguiu suportar perante a partida da sua melhor amiga. Todas as alegrias que passaram juntas. . . . durante os meses que passaram juntas. mas pelo menos fiz o melhor que sabia. eu gosto muito da Sara e nunca quis que nada de mal lhe acontecesse. – Eu vou chamar um amigo para vos ajudar a levar a Sara e as coisas dela até ao carro. no seu coração. De facto. uma família que a tratava bem.…eu sei que provavelmente deve achar que eu sou a culpada de tudo o que aconteceu à sua filha. na sua companheira. Sara transformou-se na única amiga que um dia teve. o que vestir e foi obrigada a ir a todas as consultas pré-natais mesmo quando não queria.Está a pensar sim. Pelo menos ela nunca foi apanhada por nenhum drogado. mas eu não a recrimino! Eu também sei que este lugar não é nada especial. teve sempre o que comer.O seu pai até pode ser forte.

ver os seus filhos casar. formar uma família e serem felizes tal como ela um dia também foi. penteou os longos cabelos da filha e passou o chuveiro por eles para que a água retirasse toda a sujidade acumulada durante semanas. a cama encontrava-se pronta para a receber. Madalena resolveu enfiá-la numa banheira de água morna e lavar-lhe o corpo com ervas medicinais que a sua mãe costumava guardar na floricultura.O que foi? – perguntou Madalena correndo ao encontro de Sara com o coração aos pulos. o primeiro neto de Madalena. das pessoas que mais a amavam e que nutriam por ela um amor incondicional. Estava limpa. Madalena achou por bem utilizá-las em Sara. mas também as pernas. seguiram-se as roupas e a certeza de que Sara estava realmente grávida. perto dos seus familiares. grávida e ainda tinha muito para viver dali para a frente.Só mais um pouco! Até ter a certeza que a Sara dormiu – respondeu Madalena. Até porque se pudesse faria tudo de novo. . Aliás. e por ter experimentado essas ervas várias vezes durante a sua infância. esfregando-lhe não só as costas. . Era a única palavra que ecoava nos ouvidos de Madalena e que por momentos a deixou à beira do desespero por não saber como lidar com aquela nova etapa da sua vida. Neto. mas o que ela não contava era que as coisas fossem acontecer daquela forma tão rápida. não era muito difícil imaginar que lhe faltariam poucas semanas para dar à luz o seu primeiro filho. passaria as mesmas tristezas e ouviria todas as coisas que nenhuma mãe desejava ouvir nem no pior dos seus pesadelos. Madalena retirou-lhe os ténis e as meias brancas. os braços. . Afonso levou a neta até ao quarto e colocou-a na cama. enquanto a poucos centímetros. Daniel saltou do sofá e encontrou a visão do avô.Vais ficar aí? – perguntou Afonso quando se aproximou do alpendre da porta. dizia Leonor quando ainda era viva. Parecia um sonho. 183 .Então vemo-nos na sala.ouviu-se um murmuro. Era só com isso que não contava. Não foi preciso dizer nada.tinham chegado a casa.Mãe…. . Até já! . Nessa altura. da mãe e da sua irmã ao fundo do corredor. ninguém disse absolutamente nada pois o regresso de Sara era algo já há muito esperado. Obviamente que sempre lhe passou pela cabeça ter netos. ela pensou. Para acalmar a febre e os delírios de Sara. foi o último pensamento de Madalena quando por fim a conseguiu enrolar numa toalha branca e levá-la novamente ao quarto. . Depois disso. Neto. Madalena não precisou de mais nada para se sentir a mulher mais feliz do mundo e para ter a certeza que todos os seus esforços não foram em vão quando resolveu procurar a filha e trazê-la de volta a casa. Um sonho ter a filha de volta e saber que apesar de tudo não lhe aconteceu nada de mal.Mãe… Apesar de só ter conseguido ouvir aquela palavra. embora essa fosse a realidade nua e crua. . Ela estava viva. Sofreria as mesmas angústias. e o pijama vestido provou que era altura de Sara se sentir finalmente em casa. Com as poucas forças que lhe restavam. A contar pela sua enorme barriga.Até já – disse Afonso encostando a porta com cuidado e deixando Madalena sozinha naquele grandioso quarto com os pensamentos a mil à hora. Era remédio santo. e consequentemente. desastrosa e pouco corrente.Está bem. . Mais tarde. O que não contava era ser obrigada a buscar a sua filha a um bairro como o Intendente e não fazer a mínima ideia de quem era o pai do seu neto.

Mas a verdade é que…: O que não a matou tornou-a mais forte. isso nem chegava aos pés do que ganhou quando passou as mãos pela barriga da filha. veio um enorme sentimento de paz manifestado por Sara. o que não a destruiu ajudou-a a reconstruir-se. Depois disso. que muito atabalhoadamente. E o que perdeu?! Bem. 184 . se aconchegou nos braços da mãe e se deixou adormecer pela primeira vez sem pensar em mais nada.

Fica aqui! . que muito pacientemente explicaram a Sara todos os procedimentos tidos em conta numa ocasião tão especial como àquela.Não! Não me deixes aqui sozinha. imprimiam-se novas orações e olhava-se para o relógio pendurado na parede.Posso assistir ao parto? . mãe – gritou ela estendendo a mão a Madalena a fim de a impedir de sair do quarto.Claro – respondeu uma delas recebendo um sinal através do BIP. . ainda emocionado. talvez pela sua inexperiência ou pelo pânico das dores.CAPÍTULO X Os dois meses que se seguiram foram atribulados. Alice e o pequeno Daniel desesperaram-se com a falta de notícias. – Bem.Eu vou estar lá fora. . – Graças a Deus – exclamou Afonso levantando as mãos ao alto. mas principalmente com os gritos que de vez em quando irrompiam a sala sem qualquer aviso prévio. e acima de tudo. A respiração. Vamos. cheios de surpresas. um acontecimento devidamente presenciado por todos os membros da família Soares. fizeram com que Madalena ficasse alerta. encontrou nos braços do 185 . mãe! Fica aqui. muita força para conseguir expulsar o bebé para fora. alegrias e culminaram com o dia do parto de Sara. pedia ajuda a quem quer que se aproximasse de si e desejava que aquele pesadelo terminasse o mais depressa possível. a calma. Em seguida. a melhor amiga de Madalena. Mas Sara.Nasceu – disse Jorge não cabendo em si de contente quando abraçou Daniel com força e se atirou para os braços de Alice. A preparação do parto foi efectuada por algumas das enfermeiras de serviço. Sempre que isso acontecia. Sara?! Chegou a hora! As cinco horas que se seguiram foram de grande angústia para todos os que estavam presentes na sala de espera. As últimas palavras de Sara.Eu tenho medo de morrer. Madalena desejou que sim e foi por isso que se voltou para as enfermeiras de serviço perguntando-lhes: .Sara… . – Não. O que será que a filha quis dizer com aquilo? Não seria apenas um medo normal de uma adolescente prestes a dar à luz? No fundo do seu coração. – Vai correr tudo bem. Tanto Jorge. fazia-se silêncio. filha – respondeu segurando-lhe as mãos com força. – Não te vás embora! Não vás… . E foi precisamente às dezanove horas e trinta e quatro minutos que se ouviu o primeiro berro do mais novo elemento da família. e também por Alice. Apenas gritava. Tenho medo de morrer. sendo intencionais ou não. a sala já está pronta. como Afonso. não conseguiu assimilar nenhuma dessas explicações.

– Tu vais ser um bisavô fantástico assim como o Daniel também vai ser um tio excelente. as duas estão bem… . – É linda! . e mais tarde. – É uma menina – disse Madalena passada a confusão. sogro o apoio necessário para extravasar toda a adrenalina que estava a sentir pelo nascimento do seu primeiro neto. mas vocês sabem que ela sempre foi um pouco preguiçosa… – riram-se todos. Nervoso. avó! . a uma sensação de que faltavam notícias para confirmar que tudo tinha corrido bem. marido e do gesto engraçado que fez ao levar uma das mãos ao peito. mas como o parto foi natural e não houve quaisquer complicações. avô – disse Alice oferecendo-lhe um novo abraço. Quer dizer.Podes crer – riu-se Madalena. o médico também e por sorte correu tudo bem! Aliás. não é?! .Tem calma – riu-se Madalena alegremente. . – Afinal de contas eu também fui avô antes dos quarenta e cinco. Ainda não sabemos muito bem quando é que vai ser.Agora estão a limpar a bebé! Depois a Sara vai ser colocada num quarto normal e as duas vão ficar lá até lhes ser dada alta. ela estava muito nervosa. o que é que conta ser-se bisavô nessa família. – Nasceu! Os momentos de euforia inicial deram lugar a uma relativa calma. Madalena atirou-se-lhe para os braços e permitiu que ele a levantasse do chão. – Aqui tens o teu conforto! . . Jorge olhou mais uma vez para o relógio e retirou as mãos dos bolsos das calças. eu nem me pronuncio – interferiu Afonso levantando os braços.E não vai aqui uma palavra de conforto ao avô?! – perguntou Jorge interrompendo a animação das duas amigas. .E ainda nem chegaste aos quarenta e cinco! Isso é bom. . seguiram-se outros cumprimentos igualmente efusivos ao pai. .Bem. à melhor amiga e ao filho.O.Oh pai – exclamou Madalena sugando-lhe a face enrugada. Assim quando a tua neta crescer.Não! Chega de homens neste mundo – disse Alice.k. . – Mas as enfermeiras ajudaram-na imenso.Cansada. – Como é que foi? Como é que está a Sara? O bebé? Nasceu? Está bem? . – Parabéns. Perante a revelação do ex.Quando é que as vamos poder ver? – perguntou Jorge. – Estamos a precisar é de mulheres! 186 . . até o final da semana espero já estarmos todos em casa. forças até tinha. Mais tarde. impaciente. .Meu Deus! Pensei que o meu coração não fosse aguentar.ex. – E então?! – perguntou Jorge assim que ela se abriu e a figura de Madalena lhe surgiu diante dos olhos. – Está tudo bem. . vocês vão poder passear pela rua sem ninguém perceber essa tragédia.A Sara?! Como é que ela está? – perguntou Alice não escondendo a felicidade estampada no rosto. .Que bom – exclamou Alice correndo a abraçar a melhor amiga. foi a pergunta de Afonso enquanto Alice esfregava as mãos de ansiedade e rasgava alguns olhares para uma porta fechada há mais de cinco horas.Acreditas nisto?! Já sou avó. para além da certeza de que aquele tinha sido o dia mais feliz das suas vidas. Porque é que ninguém saía daquele quarto para lhes trazer notícias. cheia de medo e não tinha forças para puxar o bebé.Era mais fixe se tivesse nascido rapaz – resmungou Daniel não vendo na sobrinha uma boa companhia para jogar à bola. claro! O parto foi longo. – Afinal de contas.

Mas a verdade é que ela não ignorou e a outra verdade é que Sara começava a perceber o porquê.Não – riram-se todos. Levava-te para todo o 187 . Como todas as coisas que anteriormente não faziam sentido passaram a fazer e como desejava entregar à sua filha tudo o que tinha de melhor.Que chorão que você me saiu. Porque nenhuma mãe consegue ignorar a existência de um filho faça o que ele fizer. Madalena decidiu passar a noite na clínica para ajudar a filha em tudo o que ela precisasse. . – Ela acordou? – foi a primeira pergunta que a jovem mãe fez ao ver Madalena a passear a bebé pelo quarto.Não. o ex. – Qualquer coisa e chora logo! . Impressionante como em tão pouco tempo a sua vida mudou apenas com a existência de um novo ser. .Dá-ma! . Sara esgueirou o pescoço através da cortina e aguardou ansiosamente a entrada dos seus familiares no quarto. . . Já se acalmou. Ao contrário de todos os outros.Já escolheste o nome? – perguntou Jorge completamente embevecido pela neta. não sabes! Mas vais saber. militar tirou um lenço do bolso das calças e tentou esconder as lágrimas para que ninguém o visse a chorar. – Eu queria que se chamasse Leonor! O nome da avó. . . Impressionante.Havias de me ver contigo quando nasceste – respondeu Madalena correspondendo ao sorriso da filha.Agora mesmo! Mas não acho que seja fome. Emocionado. todas as dores sofridas durante o parto tinham desaparecido. hã Sr. Durante muito tempo ela esteve cega ao não dar valor à sua mãe e só agora começava a perceber o quanto errou ao não fazer isso.Eu sei. .Não. à primeira mamada e observou Sara dormir como uma pedra durante horas sem sequer acordar quando a pequena Leonor abriu o berreiro um pouco antes das quatro da manhã. deixa estar! Eu fico com ela.Não a largas para nada! Parece que ficaste viciada nela. .Ele ficou contente. pois Madalena foi a primeira pessoa a estenderlhe a mão nos momentos em que mais precisou. Afonso – exclamou Jorge tentando desanuviar o ambiente do quarto. – Era para teres ficado contente.Impressionante – riu-se Sara. a sua filha já se encontrava deitada num pequeno berço ao lado da sua cama e as primeiras horas da maternidade começavam lentamente a infiltrar-se na sua mente. A homenagem não poderia ter sido mais nobre e foi por isso que Afonso não se conseguiu conter. – Oh avô! Não fiques assim – disse Sara correndo a abraçá-lo sobre uma das pontas da cama. Nessa altura. – Não te largava nem sequer para ir à casa de banho. Assistiu também ao primeiro banho. – Agora é que vais ver o quanto custa ser mãe – disse-lhe Alice enquanto todos paparicavam os gestos e as mãozinhas delicadas da bebé.Estive a pensar – respondeu Sara ajeitando os lençóis sobre o colo.Já não tenho idade para estas coisas – respondeu ele arrancando uma risada geral. – E também já tinha falado com a mãe mais ou menos sobre o assunto… . .O quê!? . . . Descansa. filha – afirmou Madalena mantendo a neta no colo.Quando a porta se mexeu com um pequeno guincho. foi a primeira a salvá-la dos perigos e também a primeira a perdoá-la quando tudo o que deveria ter feito era ignorar a sua existência.Só espero que não seja Gertrudes – brincou Alice. .

Agora todos tinham atingido um patamar completamente diferente. Sara sorriu e deixou-se contagiar por algumas lágrimas teimosas. foi a conclusão tirada por ela quando Leonor se enterrou nos seus ombros e a figura de duas pessoas muito especiais atravessaram os portões da casa. tinham crescido enquanto pessoas. prestes a completar dezoito. A primeira tentativa era a única e dali para a frente iria ser sempre assim. por todas as coisas que te disse! Eu não sei o que é que me passou pela cabeça.E depois quero voltar à escola. as festas de aniversários. – Não faças tantos planos de uma só vez.disse ela num tom de voz quase sumido. Eu sei que foi horrível. natais.Por todas as coisas que te fiz. Eram elas. já não havia mais espaço ou tempo para errar. foi realizada no grandioso jardim da casa. Perante a resposta de Madalena. os churrascos domingueiros. onde já haviam sido vivido alguns dos momentos mais felizes das suas vidas. amigos.lado e as pessoas até chegavam a perguntar-me: Não te cansas de a ter sempre no colo? Não queres ter uma vida própria? . adquirido novas experiências e utilizado essas mesmas experiências para seguirem em frente e reparar os erros do passado. ir para a faculdade. – Eu quero tratarme – ela continuou com os olhos rasos de lágrimas. mas foi assim que me senti – Madalena manteve-se calada. mas mesmo muito dinheiro… . . não vais?! . .É claro que vou! Vou-te ajudar em tudo o que precisares… – respondeu Madalena oferecendo-lhe a mão e sentindo nela um calor especial de um beijo. colegas de trabalho e um número quase incalculável de animadores infantis contratados para a ocasião. Jorge e Madalena esmeraram-se na preparação da festa.Vais-me ajudar a fazer tudo isso. A destacar: os baptizados de Sara e Daniel. repleta de cabelos cacheados. De facto. e contou com a participação de inúmeros convidados. 188 . O baptizado da pequena Leonor foi comemorado seis meses mais tarde com toda a pompa e circunstância.E tu?! O que é que respondias? . entre os quais.Ela vai ter – respondeu Madalena forçando-lhe um sorriso. estúpido e egoísta da minha parte. familiares próximos. Mas agora os tempos eram outros. – Quero curar-me e ser uma boa mãe para a minha filha tal como tu também sempre foste uma boa mãe para mim. Quero que a Leonor tenha orgulho de mim… . Sara principalmente. . terminar o décimo segundo. Aos dezassete anos. e com uma filha nos braços. – Queria pedir-te desculpas… . que tal como se era de esperar. pele morena e um vestido azul clarinho que em muito acentuavam a sua beleza e inocência. Acho que… só queria provar a mim mesma que não precisava de ti e que podia muito bem viver sem a tua ajuda. passagens de ano e vários outros acontecimentos sempre relembrados em álbuns de família e afins. Contudo. não foi o vestido que mais chamou a atenção de Sara.Meu Deus – riram-se as duas.Porquê?! . mas sim a semelhança que aquela menina parecia ter com a sua filha. arranjar um emprego que dê muito.Que a minha vida eras tu. Tinham aceitado o seu convite apesar das relutâncias e trouxeram consigo não só vários presentes como também uma bela menina de sete anos.

– Na altura estavas apaixonada por ele e irias acabar por contar. . – Milene! Arlete! Que bom que vieram… . .Sim.Daniela e Leonor! Ai. não ia… .Ias sim – interrompeu Milene encarando-lhe o rosto. aquela mesa de doces está-me a chamar – interrompeu Arlete compondo os seus cabelos volumosos. até tentei contar-lhe.Obrigada.Tínhamos que vir! Afinal de contas não é todos os dias que… senhoras como nós são convidadas para baptizados. Bateu-me! Bateu-me mesmo muito! Quase morri e quase que perdi o bebé também – discursou Milene com um longo suspiro. . E eu não queria que o Marco soubesse que eu tinha tido uma filha dele. . Milene?! – indagou Sara voltando-se para trás. Envergonhadamente. – Foi então que eu 189 . .Porque eu não queria que ele soubesse e também… não queria que tu soubesses.É – respondeu Milene baixando os olhos. a mesma pele mulata e o mesmo sorriso. – Esta é que é a tua filha? .Era tudo mentira! Foi uma mentira que eu inventei lá no bairro para que ninguém soubesse a verdade. – Serve-te à vontade.Há tanto tempo que não agarrava numa bebé.E tu.Era como se estivesse a ver Leonor dali a sete anos. . não é?! . .Sabia – respondeu a criança arrancando uma risada geral.A Daniela é a filha do Marco. – Quando eu descobri que estava grávida. não é?! – respondeu Arlete mostrando um pequeno embrulho a Sara. Daniela.Vai lá – disse Sara.Claro – respondeu Sara entregando a sua filha nos braços de Arlete. enquanto a última. mesmo se essa não fosse a tua intenção. – Toma! Para a bebé. . Daniela dá lá um beijinho à amiga da mãe.Se eu te contasse tu irias contar ao Marco.Pois é. . com um sorriso carinhoso.Porque é que nunca me contaste? . . mas naquela noite ele tinha bebido demais por causa da morte do irmão e… acabou por descarregar as frustrações em cima de mim. . .Não. pá! Até acho que já perdi o jeito. o meu destino – riu-se Arlete enquanto se afastava em direcção a uma das inúmeras mesas de doces espalhadas pelo jardim e deixava Sara e Milene de olhos postos na outra à espera de forças para terem uma conversa que há muito já deveriam ter tido.Então aquela história de teres engravidado do teu patrão no restaurante onde trabalhavas… . . A Daniela! Uma outra famosa.Então esta é que é a famosa Leonor!? . .foi o cumprimento de Sara às suas amigas.Podias ter-me contado. Sabias?! .Bem. . Daniela obedeceu ao pedido da mãe e beijou a face de Sara. afagou-lhe os cabelos compridos dizendo: .Posso segurá-la ao colo? . principalmente o Marco – respondeu Milene compondo os longos cabelos.Leva a Daniela também – pediu Milene. . com os mesmos cabelos cacheados.És muito bonita.

fugi para o Porto. Só que eu e a minha mãe nunca nos demos lá bem e eu também não estava para aturar as cenas dela. . por causa do nascimento da nossa neta.Até que enfim. tanto Sara como Milene finalmente encontraram a paz e o conforto que durante meses procuraram incessantemente. mas esqueceram-se que a verdadeira paz e conforto.Tal como nós.Fazes bem. Era a primeira vez que conseguia apanhar a ex.Verdade?! . marido atrás de si. – Vou largar a vida – disse Milene após o longo abraço que recebeu de Sara. . Jorge congratulou-se. E foi assim que entrei na vida. onde tal como se era de esperar encontravam-se todas as crianças e também Arlete. e agora.São – riu-se Milene para não chorar. as nossas histórias não são assim tão diferentes… . já estou quase a chegar aos trinta.Ainda não me deste a resposta. Ela disse-me que eu podia ganhar bem mais a trabalhar como prostituta e eu aceitei porque estava desesperada e também porque a minha mãe não parava de me pedir dinheiro para continuar a tomar conta da miúda. Não te faças de desentendida! Desde a minha viagem a Bruxelas que tens andado a fugir. e tive lá a Daniela. Depois. em bebedeiras e em festas desregradas. Trabalhei numas porcarias.Tu sabes bem. .Mas não agora – respondeu ela passando-lhe as mãos pela camisa. tal como vez. baixinho.Tal como nós… Enquanto se abraçavam e se tentavam abstrair do barulho infernal inerente àquele jardim. essas só podiam ser encontradas dentro delas próprias e ao lado das pessoas que sinceramente as amavam.Tens razão – concordou Sara aceitando-lhe a mão e atravessando com Milene todo o jardim em direcção à mesa dos doces.Então quer dizer que as nossas filhas são irmãs!? .Eu acho melhor esperarmos até a Leonor ir para a faculdade. . . depois. não sejas má – riram-se os dois. Por isso.Lena. uma das únicas adultas suficientemente infantis para se maravilhar com um bolo recheado de chocolate. mulher a sós desde o início da festa. para a casa da minha mãe. Ela encontrou-me na rua e levou-me para o hospital. acho melhor irmos ter com a Arlete senão ela acaba com os doces. . não tens mais escapatória. haviam-nas procurado nos braços de vários homens.Bem. .k. . e por esse milagre. já juntei um bom dinheiro que me vai safar até encontrar um emprego decente e… quero começar a aproveitar a minha filhota. Ali estava Madalena a arrumar os pratos e os copos de plástico sujos pelos convidados quando ele se aproximou e lhe segredou aos ouvidos uma frase que tinha vindo a projectar desde há meses: . tudo bem! Eu dou-te a resposta. De qualquer maneira.Não?! 190 .conheci a Arlete. Foi a única que ficou a saber da verdade. . Antes. por isso voltei outra vez para Lisboa.Verdade! Decidi-me há coisa de um mês. . . Primeiro por causa da volta da Sara. . .Que resposta? – perguntou ela deliciando-se com a voz do ex. ganhei misérias de ordenados e já estava a ver a minha vida a andar para trás até encontrar a Arlete outra vez. .O.

Eu não ando a enrolar ninguém. Ao perceber quais eram os intentos da ex. . tenho os meus filhos… . . Anda tu também. – Anda! Vamos tirar uma foto de grupo. – Obrigada por me teres colocado em último lugar.Só precisava de tempo para me decidir! Mas esse tempo demorou mais tempo do que eu estava à espera – respondeu Madalena arrancando uma ruidosa gargalhada a Alice. mulher. Depois disso.Uau – exclamou Alice arrancando-lhe uma leve risada.exclamou Alice interrompendo os olhares do ex.Claro que não – afirmou Madalena passando um dos seus braços pelo ombro da melhor amiga.. Jorge sorriu e afastou-se dela com a máxima discrição. – Em primeiro lugar. .Sabes de uma coisa?! . Alice! Rápido! Sem cerimónias e enquanto se riam a bom rir.Não! Hoje à noite. . a verdade é que sobrou um espaço enorme nos corações de todos aqueles que ficaram eternamente registados naquela fotografia. Lá eu dou-te a resposta. . depois de todos já estarem a dormir.Também. .Sim.E se mesmo assim não me restar mais ninguém. .Não acredito que ainda andas a enrolar o gajo… .Tenho a minha neta que é a coisa mais linda do mundo. . E mesmo o jardim sendo pequeno para tantos convidados.Tenho o meu pai.Se continuares assim ainda vais acabar sozinha.Lá isso é verdade – riram-se as duas.Mas quem disse que eu estou sozinha? . aparece no meu quarto. . o que de facto não tardou a acontecer. Madalena e Alice correram ao local e não tardaram a misturar-se com as cerca de oitenta pessoas especialmente convidadas para assistir ao baptizado da pequena Leonor. casal quando se aproximou da melhor amiga e a surpreendeu com um sorriso malicioso nos lábios.O quê? .Tens a certeza? . tenho-te a ti! . Fim 191 .Não estás? . . voltou-se novamente para trás e acenou de longe ansiando que Madalena correspondesse de igual forma. depois da festa. Mãe ouviu-se a voz de Sara.

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