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UM MAR DE ROSAS

RAQUEL RODRIGUES

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“Qualquer semelhança entre factos e personagens* não é uma mera

coincidência. Este romance é um retrato fiel de um dos acontecimentos mais infelizes que se passaram na minha família em princípios de 2000 e do qual todos os intervenientes saíram profundamente afectados. Mas tal como em qualquer outra família, os laços que unem uma mãe a uma filha dificilmente são destruídos. São antes eternos e capazes de ultrapassar os maiores obstáculos. Por isso, um conselho que ofereço a todos os que lerem este romance é que aproveitem cada página porque todas elas me trouxeram risos, lágrimas e um prazer inenarrável de escrita…”

* Apenas os nomes das personagens são fictícios.

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Será que tinha jogado todas as cartas que possuía na manga? Será que não deveria ter engolido o pouco do orgulho que lhe restava e tentar salvar as cinzas de um amor que parecia adormecido aos seus olhos e aos olhos do ex. Bem. também ele tinha um carácter duvidoso. e para o cúmulo dos cúmulos. Infelizmente terminou e não deixou nada de bom a não ser os dois filhos do casal. era no entanto estável e confortável. olhos escuros bem delineados. uma excelente forma física tamanho trinta e oito e que já havia superado um divórcio e todas as frustrações que rodearam a sua vida durante os anos em que esteve casada com Jorge Albuquerque. com o trabalho e com as amantes que arranjava aqui e ali? Diante de tudo isto. Traições. Sara. de quinze anos e Daniel de dez. o despertador tocou ruidosamente. ela passou anos e anos a pensar nos efeitos que a sua separação teria em Sara e Daniel. quando estava prestes a adormecer. em frente ao espelho da casa de banho enquanto analisava os primeiros fios de cabelo branco. faltas de respeito e negócios esquivos envolvendo uma assinatura sua. uma mulher de quarenta anos.CAPÍTULO I As chuvas torrenciais e as fortes trovoadas não a deixaram dormir durante a noite. e Madalena descobriu esse carácter ao fim dos dezasseis anos em que esteve casada com ele. Essa era a rotina de Madalena Soares. 4 . o que não deixava de ser um dos requisitos fundamentais para ser o melhor na sua profissão. Seis horas e quarenta e cinco minutos. tomar um banho e acordar os filhos para a escola. até porque o seu único objectivo era oferecer-lhes uma família “normal”. ditaram o fim de um casamento que tinha tudo para dar certo. realmente não restou outra alternativa a Madalena a não ser pedir os papéis e tentar encontrar alguma paz de espírito. marido? E os filhos? Também não deveria ter pensado neles? Na verdade. que apesar de há muito não ser feliz. Jorge era um advogado de quarenta e dois anos que ganhava a vida a defender empresários corruptos e outras pessoas de carácter no mínimo duvidoso. na verdade. marido se mostrava muito mais preocupado com o próprio umbigo. Mas infelizmente não deu. cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros. Muitas vezes. Infelizmente tinha chegado a hora de levantar. Mas como poderia oferecer essa família se o ex. Madalena dava-se consigo a pensar se realmente tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para manter um casamento.

. . . Portas abertas. Com quinze anos tudo o que fazia de mais escabroso era faltar às aulas de vez em quando para passear pelas lojas da cidade com as suas amigas. ela percebeu que havia pelo menos seis meses que a filha fazia questão de a contrariar em tudo. nunca ousou levantar a voz aos pais e muito menos desrespeitá-los diante de quem quer que fosse. . De resto. 5 . A pergunta não obteve qualquer resposta. o elemento mais novo da família. – Queres cereais ou uma tosta mista? – perguntou Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou. Sara viu-se obrigada a acatar as ordens da mãe.Estudaste?! .O quê?! . – É mais rápido. – Não era hoje que ias ter um teste? – perguntou Madalena parando o carro diante de um sinal vermelho.Mas eu já ia … . .Não sei.Sim – respondeu Sara baixando o volume do mp3.Já estás a comer os cereais por isso não tens espaço para a tosta – respondeu Madalena alcançando a embalagem do pão de forma.Cereais. . pensando melhor. já que mais uma vez Sara se encontrava com os malditos auscultadores nos ouvidos. – Sara. E enquanto ignorava o barulho ensurdecedor dos desenhos animados que passavam na televisão e do mp3 que Sara fez questão de ouvir aos altos berros.Nem penses que vais sair de casa sem comer – respondeu Madalena poisando o fervedor de leite sobre a mesa. Mas a verdade é que Madalena não se lembrava de ter sido uma adolescente tão problemática e muito menos de ter dado tanto trabalho aos seus pais. Seria pedir muito que a sua filha também fizesse o mesmo consigo? O pequeno-almoço da família foi degustado em meia hora e depois disso seguiu-se a correria em direcção ao carro debaixo de um frio de cortar à faca.Perguntei se não era hoje que ias ter um teste. Madalena deu-se por vencida e voltou a guardar a embalagem do pão de forma num dos muitos armários da cozinha. Acho que sim. .Eu como lá na escola. cintos de segurança colocados e o trânsito infernal na segunda circular.Não tenho fome – foram as primeiras palavras de Sara quando entrou na cozinha e encontrou a mãe a preparar o pequeno-almoço. Ao ouvir a resposta da filha. mãe! Já disse que vou comer cereais. – Ouviste-me – insistiu a mãe sacudindo-lhe o braço.. acho que prefiro os cereais – respondeu a jovem alcançando os Kellogs sobre a mesa. queres a tosta com duas fatias de fiambre ou só uma… .Tosta mista. É da adolescência. contou até dez e continuou a preparar o pequeno-almoço a toda a velocidade.Eu também quero – interferiu Daniel.Já disse que não! Senta-te e come como deve ser! Após um longo suspiro. tentava convencer-se disso. . tal como já vinha acontecendo há meses. Depois disso. . foram os ingredientes para começar bem o dia enquanto o rádio divulgava as primeiras notícias da manhã e os ponteiros indicavam que havia pelo menos vinte minutos que estavam presos numa fila de quase dez quilómetros.Sabes. .

para quê?! Para o teste… . .Estás sim! Já viste a maneira como tens andado a falar comigo ultimamente? Quase com quatro pedras na mão. foi o colégio de Sara. Realmente nada a que já não estivesse habituada durante os seis anos em que dirigia aquele negócio. – Assim pelo menos passaste menos tempo em frente à televisão e estudaste mais.Eu deixei a minha Playstation lá – interferiu Daniel esgueirando o pescoço em direcção aos bancos da frente. . e a primeira paragem. As notícias no rádio transformaram-se na banda sonora perfeita para que Madalena levasse os filhos à escola.Vou torcer por ti! . e ao abrir a porta. . Devias esquecê-la mais vezes para ver se me consegues levantar as notas a Português e a Matemática. Sem outro remédio.. Água. senão fujo de casa… .Não sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos quando percebeu a vontade de Sara em mudar de assunto.Posso te fazer uma pergunta? O silêncio da filha fê-la avançar nos seus propósitos.Porque não me apetece – respondeu Sara fulminando-a com os olhos. 6 .Eu não estou irritadiça. eu peço-lhe para me trazer a Playstation! Não passo mais uma semana sem ela. Ninguém acha que estudou. – Preciso ir buscá-la.Vamos passar o fim-de-semana em casa do pai? . . . . .Achas?! Ou se estuda ou não se estuda.declarou Daniel sob as risadas da mãe. – Ele ainda não ligou a avisar se vos vem buscar ou não. . .Para quê? . não me apetece falar. – Boa sorte – exclamou ela quando a filha abandonou o carro levando a mochila às costas.Não precisas desejar-me sorte.Sabes que eu até acho que foi muito bom teres esquecido aquela maldita Playstation na casa do teu pai!? – respondeu Madalena. podes dizer-me e nós podemos conversar sobre isso para tentar… . ela abaixou-se e alinhou as cartas e jornais com um suspiro de cansaço por uma semana que só na altura tinha começado. Um acidente numa das pequenas ruelas da cidade obrigaram Madalena a optar por um outro caminho infinitamente mais longo em direcção à floricultura que dirigia ao lado da melhor amiga e que outrora havia pertencido à sua mãe.Se o pai não nos vier buscar este fim-de-semana. Seguro.Já disse que não é preciso – respondeu Sara atravessando a rua sem sequer olhar para trás. por ser a mais próxima. Passava já das nove quando ela conseguiu chegar ao local pretendido. .Não. Publicidade. . surgiu-lhe à frente a visão sempre assustadora da correspondência acumulada durante o fim-de-semana. – Porque é que estás tão irritadiça nestes dias? . Diz! Fiz-te alguma coisa? .Mãe.És mesmo parvo – adiantou-se Sara empurrando-o contra os bancos de trás.Oras.Porque se fiz.Porque não?! .

aniversários. veio um certo sentimento de alívio e uma necessidade de auto afirmação que nunca pensou existir dentro de si. Temos já que começar a contactar com os fornecedores para termos tudo pronto a horas. Mas um súbito ataque cardíaco e posteriormente a sua morte trouxeram à filha um dilema que poucos apostaram que ela fosse conseguir resolver. era o que muitas vezes dizia à melhor amiga. . casamentos ou outras datas especiais que as pessoas faziam questão de celebrar com flores. . A floricultura de Madalena era também uma das mais visitadas da avenida. . que na altura também se encontrava desempregada e à espera de dias melhores. Mas por mais irónico que parecesse. Impressionante como um casamento nos pode fazer perder a nossa própria identidade.É daqui a quatro meses se não estou em erro. havia pelo menos dois anos que Madalena não recebia flores de ninguém. da movimentação frenética das pessoas e dos prédios. Anos depois. Obviamente que os apoios não foram muitos. Todos os dias surgiam encomendas. de resto.Porque ela ficou de cá vir para escolher uns arranjos para o casamento da filha.Hoje mesmo vou ligar ao fornecedor. Alice Santos. marido de Madalena pois ele desejava ardentemente que a mulher continuasse a ser a perfeita dona de casa sempre atenta às suas necessidades e às dos filhos. 7 . . ainda é capaz de nos furar os tímpanos se não tivermos todos os arranjos feitos dentro do prazo. iluminado e ficava situado em plena Avenida de Roma. mas a floricultura deixada pela mãe. Não seria esse facto demasiado deprimente para a dona de uma floricultura? Ela achava que sim. mas o que poderia fazer se até à data não havia encontrado nenhum homem minimamente interessante para lhe oferecer flores? – Até que enfim chegaste – disse uma voz jovial entrando pela loja adentro. o casamento terminou. Cortadas essas amarras.Por favor.Ainda bem que não tenho filhos – exclamou Alice pendurando o casaco no bengaleiro. Mas a verdade é que Madalena não foi na conversa e conseguiu levar a sua adiante livrando-se das amarras que a mantinham presa a uma casa quase sempre vazia. primavam pelo bom gosto e pelo requinte de quem não se importava de pagar muito para viver bem. Manter ou não manter o negócio da família? Mediante o aconselhamento do pai. . faz isso! Temos uma reputação a manter… – riram-se as duas amigas.Tinha-me esquecido completamente desse casamento.Nem sabes como te invejo – riram-se as duas. uma das poucas pessoas que sempre acreditou nas suas capacidades.O espaço era amplo. Só estava ali no café a tomar o pequeno-almoço.A D. uma das avenidas mais nobres da cidade lisboeta repleta de buzinas dos carros em hora de ponta.Pois eu atrasei-me a levar os miúdos à escola. Beatriz já telefonou? . Louca do jeito como a D. . eu já tinha chegado há muito tempo. Beatriz é.Para a tua informação. até pela excelente relação que a sua mãe mantinha com as clientes mais antigas e que fez questão de cultivar ao longo dos quarenta e cinco anos de existência da loja.Não! Porquê?! – perguntou Madalena largando as cartas sobre a secretária. esta ainda continuava a gerar lucros atrás de lucros. que apesar de serem antigos. . especialmente os vindos do ex. . . . .O mesmo digo eu de ti – respondeu Madalena terminando de analisar a correspondência sobre a secretária. Madalena decidiu aceitar o desafio e para isso contou com a preciosa ajuda da sua melhor amiga.

D. De facto. a entrada de um outro cliente na loja apressou a saída de Beatriz e Joana e trouxe de volta a paz de espírito que Alice e Madalena perderam durante aquela interminável conversa. argumentos e alguns comentários mais ou menos hilariantes. …claro – respondeu a última apertando a caneta que tinha nas mãos. foram dissecados até à exaustão e fizeram as duas funcionárias da floricultura revirarem os olhos vezes sem conta. – Todas as mulheres da nossa família sempre escolheram arranjos de trigo porque simbolizam sorte e prosperidade. muitas vezes Madalena e Alice foram obrigadas a concordar com tudo o que ela dizia: E sim. – Tudo vai ser feito como o combinado. Outra coisa. O vestido foi adquirido numa viagem que fizeram a Paris. A boda. claros e suaves – informou a noiva.É uma superstição – respondeu Beatriz à pergunta de Alice.Pois ficam a saber! E ficam também a saber que vão ter que arranjar algumas espigas para colocar nos arranjos da igreja e também no local onde se vai realizar a boda. não foi o que disseram?! . e pelo amor de Deus. estávamos também a pensar em utilizar arruda ou trigo no meio dos arranjos. Ao ouvirem as suas ideias. Quero que saibam que só aceitei trabalhar com esta floricultura porque conhecia a mãe da Madalena há muitos anos e foi ela quem me arranjou as flores para o meu terceiro casamento. Mas por sorte.Hã. quanto a isso não se precisam preocupar – respondeu Madalena apontando todos os pedidos num pequeno bloco de notas. espero não me vir a decepcionar… .Por acaso não. . – O vestido. – Voltamos a falar daqui a duas semanas para saber como é que está a correr a história das flores – disse Beatriz levantando-se de uma cadeira onde esteve sentada durante três horas. algo que Beatriz fez questão de discutir com a floricultura contratada para o efeito. a boda e também as flores que vamos utilizar na decoração da igreja.É claro que não se vai decepcionar. Mas agora que ela já não está aqui entre nós. a luade-mel e outros assuntos tão interessantes como o modelo da lingerie que a noiva estava disposta a vestir na sua noite de núpcias. Beatriz – adiantou-se Alice beliscando o braço de Madalena a fim de tentar trazê-la de volta à realidade. não se esqueçam de nos arranjar suportes para os arranjos… . Beatriz Dias. 8 . sendo que naquela segunda-feira não foi excepção. a responsável pela organização de todo o evento.Sim! A cerimónia vai ser de manhã. – Não é. e a igreja escolhida para que os cerca de duzentos e cinquenta convidados por Beatriz. Tudo iria ser feito para a agradar. por isso é bom que sejam flores do campo em tons neutros. uma legítima tia falida do jet-set. Sim. foi a mãe. que Deus a tenha. o único detalhe a acertar era o arranjo das flores e a decoração da igreja.Trigo?! Porquê? . A conversa prolongou-se por mais algumas horas. – Além disso.Não. ou pelo menos as suficientes até que Madalena e Alice deixassem as divagações das duas clientes falar mais alto. Flores do campo.O casamento de Joana Dias estava marcado para dali a quatro meses. . e tal como se era de esperar. – Os nossos fornecedores fabricam esses suportes sem custos adicionais. Lena? . Sim. o local da boda reservado numa Quinta em plena vila de Sintra. – Tudo tem que estar perfeito… – dizia Beatriz. Não sabiam? .

Ainda agora vamos falar com a empresa que está a organizar a decoração da igreja e depois vamos também tratar da impressão dos convites. assim como o desejo de lhe ouvir a voz ou até mesmo o barulho das chaves que ele fazia questão de manter nas mãos enquanto ordenava a Sara e ao Daniel para que se despachassem e não o fizessem esperar em demasia numa sala que durante quinze anos também foi sua. Por sorte.Alguém!? . . e depois disso seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à porta. façam os trabalhos de casa e comam todas as refeições. – Então!? Já estão prontos? . obriguem o vosso pai a fazervos todas as refeições.Uma amiga. . encabulado. .Bem. São mais de duzentos e com certeza vai sair um balúrdio. – Que tipo de amiga? . Madalena observou o carro do ex. marido. .Os nossos filhos queres tu dizer.Claro. Apesar da chuva miudinha foi visível que o motor ainda estava trabalhar.Portem-se bem – adiantou-se Madalena sugando as bochechas de Daniel enquanto ele vestia o casaco a uma velocidade fantasmagórica.De qualquer maneira.. – Podemos ir? .Já – respondeu Sara levando a mochila às costas. – Meninos! O pai já chegou.Escuta Jorge! Eu não quero que ponhas os meus filhos a conviver com as tuas amigas.Que seja! Simplesmente não quero. – Tenho alguém lá dentro. até porque a vontade de estar com Jorge era nula. .Não é assim tanto tempo – exclamou Joana retirando os óculos escuros da mala. ainda temos muito tempo até ao dia do casamento – respondeu Madalena levando mãe e filha em direcção à porta. 9 . ou melhor. – Deixaste as luzes acesas? – perguntou ela.Sim – respondeu Jorge. – Chegaste cedo – abriu ela a porta.Não me irrites – resmungou Madalena lançando os olhos ao carro do ex. Não se demorem – gritou Madalena aos filhos quando ouviu a campainha tocar. foi a resposta ouvida. .Oito e um quarto – respondeu Jorge lançando os olhos ao seu relógio de pulso.Claro – murmurou Madalena não querendo relembrar à sua cliente que ela já estava na falência há muitos anos e que o único motivo para aquele casamento tão apressado era o facto de não se querer afundar ainda mais. – Ainda temos muitos outros detalhes a acertar. os pais do meu genro é que estão a pagar todas as despesas. Deveria ficar contente por vê-lo? Obviamente que não.…uma amiga. . . – Já estava a ver que nunca mais – disse ele recebendo um beijo de cada um. . marido a estacionar em frente ao jardim. O olhar da ex. – Nem um minuto a mais. senão imagina o que era?! Íamos logo à falência. . que educação… . mulher foi peremptório e não deixou outra escolha a Jorge a não ser baixar os braços e aguardar a chegada dos filhos à sala. nem um minuto a menos.Entra lá! . . não é mãe? . Na sexta-feira seguinte. ao fechar uma das janelas da sala.Uma amiga!? – indagou Madalena levando a mão ao peito. Já vai.Claro. – Não fiquem acordados até tarde.

e foi também o tempo necessário para que o calor regressasse em força em todos os pontos do país. Sim. não é?! . Maio e Junho foram os meses que passaram a passo de caracol. amor! Estás sempre a falar dela… – adiantou-se Vanessa voltandose novamente para a Madalena. mas infelizmente os seus intentos não surtiram qualquer efeito no momento em que o carro arrancou e a rua tornou a ficar deserta. – Tchau. 10 . – Porque o Jorge está sempre a falar de si e dos vossos filhos. duas lágrimas caíram-lhe dos olhos e ela não teve outro remédio a não ser detê-las com as mãos. marido e dos filhos em direcção ao carro. meninos – exclamou Jorge lançando um último olhar à ex. pois acabaria sozinha e sentada naquele sofá até ficar velha e caquéctica. – O pai traz-nos no domingo à noite. . mulheres. – Madalena o seu nome. . .Nem tanto assim – defendeu-se o advogado tentando esquivar-se aos olhares aterradores que a ex. mulher lhe lançou. mãe. de facto.Ligo amanhã para falar com vocês. cada semana ou cada mês. e era também um sinal de que não valia a pena lutar contra o inevitável.Não precisas ligar – disse Sara abrindo a porta. .Muito prazer – respondeu Madalena aceitando o cumprimento de uma forma muito menos efusiva. – Olá.Tchau. Diante daquela possibilidade no mínimo assustadora. loira e com as curvas perfeitas de uma top model. Quando a porta da rua se fechou com um pequeno ruído.Porquê?! . era um tempo que não voltaria a recuperar ainda que quisesse.Não sejas mentiroso. Jorge. Lena! .Está bem. Madalena aproximou-se da janela e observou a caminhada do ex.. Madalena viu-se obrigada a baixar as guardas e a concordar que Sara e Daniel seguissem viagem com o pai e também com a nova namorada que ele lhe fez questão de esfregar à cara quando foi buscar os filhos. Quem seria ela? Uma namorada? Um caso de uma noite? Ou simplesmente uma amiga como ele fez questão de lhe frisar? Ao sentar-se no grandioso sofá com uma almofada sobre o colo. muito prazer – sorriu ela estendendo a mão a Madalena. Madalena lançou os olhos as paredes e sentiu-se pela milésima vez sozinha. . Vanessa Figueiredo era o apogeu que todos os homens acima dos quarenta sonhavam apresentar às ex. . . São só dois dias. Cada dia que passava. – Só falo de vez em quando. Abril. Jorge resolveu levar os filhos para duas semanas de férias ao Algarve. Ainda tentou forçar um pouco mais a vista e tentar vislumbrar os traços físicos da mulher que estava sentada no banco da frente.Vamos. A sua melhor amiga tinha razão quando lhe disse que era mil vezes mais fácil para os homens refazerem a sua vida após um divórcio do que para uma mulher depois dos quarenta.Sim! Madalena.Mesmo assim! Amanhã eu ligo. Nessa altura.Confesso que estava curiosa para a conhecer. Março. .riu-se Vanessa.Oras… . mulher. Alta como uma torre. . Cansada era como Madalena se sentia cada vez que olhava para si e para o que a sua vida se tinha transformado desde que assinou os papéis do divórcio. e apesar da relutância.

. – Mas lá diz o ditado que cada um tem aquilo que merece.A sério. Vanessa – adiantou-se Jorge temendo que a namorada pronunciasse mais alguma loucura.Hã… não me parece – respondeu Madalena tentando desenvencilhar-se daquele convite no mínimo inoportuno.Porquê?! . – Eu disse-te que ela era dona de uma floricultura.. mas era sem sombra de dúvida a primeira vez que não se sentia minimamente enciumada com a cena. Está perfeita…! .Acredito que sim – murmurou Madalena levando a mão ao peito. Crianças!? Enfim. . Rapazes de preferência! .Levar para onde? . quando ambas jantaram juntas naquela noite. não é!? Pois então! Ele só está a ter aquilo que merece. .Sabe que eu até estive a dizer ao Jorge para a levar connosco. .Não acredito! Bem. marido no carro. .Provavelmente – respondeu Madalena bebendo um gole de vinho.Para o Algarve. . a melhor amiga de Madalena. Sinceramente não sei como é que consegue manter essa forma depois de ter dado à luz dois filhos.Porque ela tem um negócio para gerir. Vanessa.Obrigada. bem… transformaram-se em autênticos monstros de tão gordas e flácidas que ficaram… – riu-se Vanessa sob o olhar incrédulo de Jorge. da namorada e do ex. lembraste!? . mulher lhe lançou.Infelizmente este ano não vou poder ter férias – concluiu Madalena cruzando os braços. claro! Esqueci-me.Coitado do Jorge! Será que ele está assim tão desesperado? . – Estás a gozar?! Ela é assim tão burra? – perguntou Alice. .Porque… .Conheço várias mulheres que depois que tiveram filhos. realmente não são o meu forte! Dou-me bem melhor com adolescentes. .Define-me burra – riram-se as duas. não?! Amor.Acho que não! Eu vou lá acima despachá-los.Faz isso porque não quero chegar muito tarde ao Algarve. a tal loira mais alta que uma torre e com as medidas perfeitas de uma top model não passava de um corpo desprovido de cérebro ou qualquer outro sinónimo que pudesse fazer jus à sua beleza física.Hã.Os miúdos ainda vão demorar muito? – perguntou Jorge ignorando o sorriso irónico que a ex.A sério?! . 11 . . . já viste o que era passarmos um ano inteirinho sem férias?! Acho que morria… .!Iria ser divertido passarmos as férias todos juntos. – Por isso é que eu nunca quis ter filhos e nem estou a pensar em ter.Madalena quero que saiba que a admiro imenso! Sou a sua fã número um… . deve estar arrasada. Deus! Como se rebaixou por tão pouco? Como é que sequer desejou um corpo igual àquele quando Deus a havia favorecido com algo que Vanessa nunca iria ter por mais cirurgias plásticas que fizesse: Inteligência e bom senso. Era a quinta vez que Madalena observava a entrada dos filhos. .Pois eu acho que vou conseguir sobreviver. .

Sabes bem o que eu quis dizer. tens toda a razão em ficar tão contente com a desgraça do teu ex. Infelizmente Madalena foi obrigada a concordar com as palavras da sua amiga e também com a certeza de que tudo continuava exactamente igual naquela cozinha. . abraçar-me e fazer-me sentir segura. Alguém! Um homem de preferência. – Estou sozinha – disse ela por fim. – Mas o que é que havemos de fazer.Voltar a fazer sexo outra vez – concluiu Alice bebendo um gole de vinho. marido! Especialmente depois de tudo o que ele te fez… . claro! Era dinheiro sujo dos negócios que ele fazia com os clientes dele.Tens razão – concordou Madalena limpando as lágrimas quando percebeu que também ela fazia parte daquele vastíssimo leque. .O que é que aconteceu ao dinheiro? .Eu bem te avisei. Alice também foi obrigada a concordar com um silêncio. . 12 . . eu é que sou burra! Burra por ter aguentado tanta nojeira e ainda acabar com uma mão à frente e outra atrás. até fico toda arrepiada. eu acho que não. .E a lata dele em forjar a minha assinatura no banco e ainda fazer uma carinha de inocente à frente dos polícias como se não fizesse a mínima ideia de onde aquele dinheiro tinha saído. nada tinha mudado. mas pelo menos está lá a divertir-se e a viver uma vida que eu também queria viver – discursou Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. – E eu estou aqui jogada às traças para mais de dois anos e sem a mínima hipótese ou a mais remota possibilidade de… . – Ele está lá no Algarve.Olha.Não é só sexo. . se queres realmente que te diga.. .O quê?! Ter depositado aquele dinheiro na tua conta só para ires presa? Não. . isso foi o cúmulo dos cúmulos… .Então é o quê!? . . Aliás.É assim tão evidente – respondeu Madalena arrancando uma leve gargalhada à melhor amiga. Não.Mas tens razão.Às vezes fico a pensar se ele não fez de propósito. .E eu?! Sou um fantasma? .E tu estás a adorar.Foi confiscado.Podias pelo menos ter ficado com algum – riu-se Alice. Eu acho que ele só fez aquilo para se conseguir safar e também porque é um otário de primeira. nem com isso fiquei! Só fiquei com os cornos. com os filhos e com esta casa a cair aos bocados enquanto ele se pavoneia no Algarve com a Vanessa loira burra. Alguém que me possa ouvir. até pode estar com a mulher mais burra do mundo. aliás.Sei lá! Sinto falta de… ter alguém com quem conversar.Eu também e olha que nem foi comigo – disse Alice devorando o soufflé de camarão cozinhado por Madalena. não é?! Nem todas as mulheres nasceram para ter um homem que as possa ouvir. .Nem me digas nada! Só de me lembrar do dia em que a polícia me bateu aqui à porta. . . abraçá-las e fazê-las sentirem-se seguras. De facto. animada. .Eu também sinto falta – respondeu Alice deixando escapar os seus pensamentos mais secretos.

13 . se estivesse era óptimo. para aquela tia do jet-set nada poderia dar errado pois não era somente o nome da sua filha que estava em jogo. . . confesso que até tive algumas esperanças! À primeira vista o gajo parecia ser simpático.Que horror – riram-se as duas.Obrigadinha pela parte que me toca! .Meu Deus! Ainda existem gajos desses no planeta terra? .E deu certo algum desses encontros? – perguntou Madalena não escondendo a sua curiosidade.Agora imagina-me ouvir frases dessas durante todo o jantar numa sexta-feira treze? Saí do restaurante mortinha de medo e nunca mais lhe atendi a nenhuma chamada. . mas acho que prefiro continuar solteira a andar com um sábio africano – riram-se as duas amigas completamente indiferentes ao adiantado das horas. Por isso é que desisti desses encontros virtuais. . – No primeiro o gajo era um idiota de todo o tamanho e até chegou a fingir que tinha esquecido a carteira em casa apenas para não pagar o jantar.riu-se Alice enquanto se tentava recordar de alguma. . . Os arranjos florais para o casamento de Joana Dias e Rafael Saraiva primaram pelo requinte e tudo graças ao bom gosto de Beatriz. .Porque é que nunca me contaste? . encantar as pessoas com os meus dons e encontrar uma fórmula secreta para ser imortal… . . Estaria o amor intimamente ligado ao casamento? Bem. desilusão é a palavra de ordem. .Que tipo de frases? .Assim tipo… . mas o problema é que era demasiado filosófico e atirava cada frase que eu até ficava com os cabelos em pé.Não me leves a mal..Só espero nunca chegar a esse ponto. mas depois quando conhecemos as pessoas.Sabes. A única coisa que fazem é levantar as nossas expectativas. – Gostaria de ser um sábio africano apenas para desvendar os segredos mais misteriosos da humanidade.O quê?! – indagou Madalena soltando uma ruidosa gargalhada. não fazia qualquer diferença.No segundo. houve uns tempos em que eu estava tão desesperada que até cheguei a arranjar encontros na Internet. Com certeza irias pensar que eu era uma pobre coitada… . que fez questão de escolher pessoalmente as flores e os suportes de decoração que iriam estar presentes na igreja e também no local da boda.A sério?! .Naquela altura ainda estavas casada com o Jorge e eu senti-me ridícula só de pensar na ideia de tocar nesse assunto contigo. mas caso contrário. inteligente e até era bonito.Podes crer que existem e eu já saí com muitos.Tive dois – confessou Alice bebendo um gole de vinho. Na verdade. . a mãe da noiva.Sim – respondeu Alice forçando uma gargalhada que não foi de todo correspondida pela melhor amiga. mas sim o de toda a sua família que via nos laços do matrimónio a oportunidade ideal para se livrar das privações monetárias e outros apertos resultantes da sua falência desde há gerações.

embalada pelos jardins de Belém e pela torre imponente. visto o Mosteiro considerado como um dos edifícios mais emblemáticos da cidade lisboeta. Pensou nos filhos. eu vou lá dentro ver se encontro alguém para nos ajudar a tirar essas flores cá para fora. Madalena cruzou os braços e encostou-se à carrinha pensando em tudo menos nas flores que deveria retirar do porta-bagagem. elegância e uma masculinidade difícil de explicar. a vinte e quatro horas do tão aguardado casamento.Um pouco difícil. isto para não falar da facilidade quase sobre humana que tinha em incluir os seus nomes em todas as conversas. Madalena não conseguiu acreditar que ele era real. um imponente monumento que impunha admiração até aos olhos dos mais leigos. os noivos souberam escolher o local perfeito para uma ocasião também ela perfeita.Estás a gozar? . meu Deus! E de onde tinha saído aquela perfeição? – Encontrei este senhor simpático lá dentro e ele foi o primeiro a oferecer-se para nos ajudar – informou Alice trazendo a sua amiga de volta à realidade. .Sim! É óptimo.No dia seguinte. um nariz esculpido à lupa e dois lábios bem delineados. até mesmo para ela. . Características físicas? Altíssimo. sorriu. – Trouxe ajuda – ouviu-se finalmente a voz de Alice. Os olhos de Madalena não conseguiram esconder o fascínio quando viram à frente um dos seres mais belos do planeta terra. . . – Era aqui onde eu gostaria de me ter casado – disse Alice abrindo as portas da carrinha. foram as palavras que Madalena utilizou para caracterizar a excessiva demora de Alice quando ao olhar para o relógio de pulso viu que nele estavam assinaladas dezoito horas e trinta e dois minutos. traços faciais definidos. . cabelos escuros perfeitamente aparados. – Bem.Já não é mau. . 14 . em como eles se deveriam estar a divertir no Algarve e nas saudades que sentia deles apesar de apenas se terem passado vinte e quatro horas desde a última vez que os vira. não achas?! Provavelmente deve ter morrido lá dentro. Como era belo.Sabes que este mosteiro nunca me disse nada?! . Diante daquela paisagem tão interessante. Nessa altura.A sério – respondeu Madalena poisando no chão o primeiro arranjo floral que retirou do interior do veículo.E eu que me tive que contentar com uma capelinha em Alvalade… . que lhes vasculhava todas as gavetas numa tentativa desesperada de encontrar algo escabroso e que passava praticamente todas as horas do dia a pensar neles. Era uma mãe galinha.k! . Todo ele exalava beleza.O. olhos tão verdes como duas esmeraldas.Olá – disse o desconhecido forçando um sorriso a Madalena. De facto. Por isso é que o meu casamento não demorou muito – respondeu Alice levando as mãos à testa encharcada de suor. Madalena e Alice abandonaram o veículo da floricultura e regalaram-se com a magnífica vista do Mosteiro dos Jerónimos. os últimos raios de sol começaram a desaparecer no horizonte e a brisa trazida pelo rio retirou as réstias do calor sentido durante o dia. – Sempre o achei um pouco sombrio e cinzento.Não saias daí. Uma mãe que não sabia quando dar espaço e privacidade aos filhos. Mas ao vê-lo diante de si.

nos seus ombros largos e nas pernas ligeiramente arqueadas que lhe conferiam um ar demasiado sexy para ser apenas um simples mortal.Podem colocá-las junto ao altar que depois os responsáveis da decoração tratam do resto.Não se preocupe porque nós também não percebemos nada de decoração – interferiu Alice.Claro que sim. encontrava-se um homem que não aparentava ter mais do 15 . . . enquanto na sacristia.Já vi que precisam mesmo de ajuda. completamente descontrolado. . Ou seja. . um pouco mais atrás. um sorriso irrompia-lhe o rosto pronto a fazê-la corar de vergonha. – Acha que nos pode ajudar a levar tudo isto à capela? . a noiva e a mãe do noivo trocavam as últimas palavras com o padre que iria presidir à cerimónia.São bonitas. mas também pelo fotógrafo que teve a amabilidade de as ajudar a tirar da carrinha todos os arranjos florais sem sequer pestanejar ou oferecer algum comentário menos agradável. As ordens de Beatriz foram imediatamente obedecidas não só por Madalena. Raios. uma voz imperiosa invadiu a igreja deixando todos os presentes estupefactos com a irritação que ela trazia. foi impossível para Madalena não reparar nas suas costas bem formadas. Até parecia que o estava a fazer por prazer. Realmente não deveria estar a observá-lo com tanta atenção porque a qualquer momento ele poderia voltar-se para trás e surpreendê-la com os olhos postos em si. Mas não me peçam para ajudar na decoração porque não percebo nada disso – respondeu ele arrancando um sorriso tímido a Madalena. .Aonde é que podemos colocar as flores? – perguntou Madalena sustendo um enorme suporte nas mãos. e a cada esbarro com Madalena perto do altar. – Trouxemos os arranjos tal como o combinado – respondeu Alice forçando um sorriso a Beatriz. Muito pelo contrário. .Só viemos trazer as flores – concluiu Madalena recuando dois passos quando ele se agachou e levantou do chão o primeiro arranjo. por Alice. – Só sou um dos fotógrafos contratado para a cerimónia. .. Contudo. Enquanto ele caminhava em direcção à capela com dois grandes arranjos florais nas mãos. – Que bom que chegaram… – disse Beatriz caminhando em direcção a Madalena e Alice assim que as duas entraram na capela.Nem sabe o quanto – respondeu Alice mostrando-lhe os inúmeros arranjos florais no interior da carrinha. À sua volta encontravam-se cerca de duas dezenas de pessoas em movimentos frenéticos tentando desesperadamente terminar os últimos detalhes da decoração da igreja. .Obrigada! Mais um olhar e mais uma vontade descomunal de Madalena em atirar-se para os braços daquele desconhecido que em poucos segundos conseguiu algo que nenhum outro homem havia conseguido em dois anos. prender a sua atenção e deixar-lhe as pernas completamente bambas.…olá.Ainda bem! Já estávamos todos impacientes à espera deles. Não parecia ter mais do que trinta e cinco anos e muitas experiências para contar visto o seu olhar transparecer uma inocência digna de um adolescente de dezasseis. . na última vez que Madalena sorriu. No fundo do corredor.

Com o primeiro otário que lhe aparecesse à frente e que tivesse uma conta bancária choruda. cabelos loiros e uns olhos azuís inchados de tanto chorar. equilibrado e totalmente imune à palavra escândalo. Sempre com as mãos nos bolsos. com um olhar perdido e uma das pernas a tremer.Rafael!? – indagou Beatriz tentando acalmar o ímpeto do seu futuro genro. . Nunca a vou perdoar.Aonde é que está a sua filha. pois que o seu único objectivo era casar a Joana com um homem rico. Beatriz!? Eu quero falar com ela agora – gritou ele assustando todos os presentes.Chame a sua filha agora – interrompeu o noivo não se deixando levar pelos argumentos da futura sogra. – Houve algum problema lá na empresa? E o teu pai? Não falaste com ele antes de saíres do… . – O que é que aconteceu contigo. foi o que todos se perguntaram quando o viram a caminhar em direcção ao altar com uma expressão verdadeiramente aterradora.Tudo. Silêncio foi a palavra de ordem. As duas estão a falar com o padre. Claro que tinha. Com certeza devia saber. enquanto Joana tentava ignorar os olhares curiosos de todas as pessoas presentes na capela. todo transpirado… .Para quê?! .Eu já descobri tudo.Então vá chamá-la! . filho? – perguntou a mãe de Rafael pressentindo-lhe a cólera no olhar. Aqui não é o lugar ideal e tu estás muito nervoso… . eu não vim aqui para falar do pai! Eu vim falar com a Joana. meu filho? Estás todo desgrenhado.Rafael!? . E na verdade.Precisamos falar. já que durante cinco anos de relacionamento. o quê? – indagou Beatriz esbugalhando os olhos. bem tinha todas as razões do mundo para não o fazer. Quem era. – Pensei que tinhas dito que ias ficar preso numa reunião. . amor!? .que vinte e oito anos. . . – Mas talvez seja melhor conversarem na sacristia ou noutro local.Mãe. D. Os momentos que se seguiram foram tensos e tudo porque Rafael não arredou pé do local onde estava.Não sabia. tudo o que Joana lhe ofereceu foram mentiras e traições. – Amor! Tu por aqui – exclamou ela chegando ao altar acompanhada pela sogra e pela mãe. ele aguardou a saída da sua noiva da sacristia repetindo para si mesmo: Nem por decreto de lei a vou perdoar. Teria acontecido alguma coisa? Sim. .Chame a sua filha agora antes que eu perca a paciência… Beatriz nunca vira aquela expressão nos olhos do genro e muito menos pensou que em algum dia ele iria ousar levantar a voz contra si. Beatriz?! Não sabia que a sua filha andava a ter um caso com o melhor amigo? Ou será que sabia? Claro. – Aonde é que ela está? – perguntou ele fora de si. . – Está bem! Eu vou chamá-la – concordou Beatriz ignorando os olhares de todos os funcionários presentes na capela. – O que é que se passa. – Nunca mais te atrevas a chamar-me de amor.O que é que aconteceu. .Não me chames de amor – gritou ele assustando-a com a sua voz imperiosa. Não era esse o vosso plano? 16 . até mesmo porque Rafael sempre fora um rapaz sensato. sua ordinária…! .Tem calma! A Joana está na sacristia com a tua mãe.

Enquanto ouviam o discurso confuso daquele pobre rapaz. – Não podes estar a falar a sério! Não podes estar-me a fazer isso a vinte e quatro horas do nosso casamento… . Joana abaixou-se a tempo e livrou-se de um dos maiores azares da sua vida. Joana!? Será que ainda não percebeste que a tua máscara caiu diante desta gente toda? Eu já descobri a verdade. – A culpa foi toda tua! Foste tu que estragaste tudo e agora não adianta fazeres esse ar de arrependida porque eu já não acredito em mais nenhuma palavra que venha de ti. – Só que o otário aqui abriu os olhos a tempo – concluiu Rafael não se deixando amolecer pelos olhos chorosos da sua noiva. Como não o conseguiu da primeira vez. a vítima foi imediatamente socorrida. tentou uma segunda.A culpa foi tua – gritou Rafael calando-lhe os argumentos.Rafael.Pára – exclamou Joana tentando controlar-lhe os braços furiosos.Rafael… . – Pára com isso! .Não me toques! .A culpa foi dele. por favor… . Depois disso. . – Pára com isso! . – Rafael. Um azar que consequentemente acertou em cheio na testa de Alice e a fez cair junto ao altar ainda sem saber o que realmente tinha acontecido. mas por sorte.Estás a ver tudo isto – vociferou ele arrancando as fitas decorativas presas nos bancos da capela.dizia ela. . . Madalena e Alice não deixaram de trocar um olhar constrangedor. Perplexidade foi o sentimento geral. . – E podem crer que não me vão arrancar nem mais um tostão. . para a tornar na mulher mais feliz do mundo e aquela era a paga que recebia depois de lhe ter entregado o seu coração e a sua conta bancária de mão beijada.Rafael… . .Sinto nojo de ti – gritou ele com os olhos marejados de lágrimas. tu só podes estar a brincar – respondeu Joana limpando as lágrimas e tentando retirar sobre si a vergonha de estar a ser publicamente humilhada pelo noivo. . desesperada. ele só estava a fazer todo aquele escândalo para tentar extravasar a vergonha sentida quando descobriu que durante cinco anos havia sido traído pela noiva e pelo melhor amigo. – É lixo! Tudo isto é lixo e não vai servir para mais nada. tudo foi totalmente destruído por Rafael e pela fúria que se apossou de si no interior daquela igreja. Mas na verdade. – Estás bem? – perguntou Madalena observando o ferimento na testa da melhor amiga.Não me toques – vociferou ele atirando-lhe o suporte de uma vela com o único intuito de a matar. assim como os primeiros murmurinhos e a voz imperiosa do padre que comandou imediatamente a retirada de Rafael de um recinto que para ele ainda continuava a ser sagrado.Acabou! Acabou tudo! Já não vai haver porcaria de casamento nenhum… Fitas. .Estás nervoso! Não sabes o que dizes. – Porra – exclamou.…acho que sim – respondeu Alice passando as mãos pela testa e deparando-se com uma mancha de sangue nos dedos. Como se enganou com Joana? Como se arrependia do dia em que a tinha conhecido e como queria nunca a ter pedido em casamento. velas e flores. já sei de tudo e nem adianta sequer inventares mais uma das tuas milagrosas desculpas porque o Eduardo confessou tudo quando eu o encostei à parede hoje à tarde.Será que ainda não percebeste. – O gajo partiu-me a cabeça toda! 17 . Ele que sempre fez tudo para a fazer sorrir.

acho que estão demasiado nervosas para conduzir. – Ela já foi atendida? – perguntou Sérgio aproximando-se de Madalena quando finalmente conseguiu estacionar a carrinha no parque de estacionamento do hospital.Peço desculpas – disse Rafael mostrando-se envergonhado pelo seu acto. .riu-se ele timidamente. A vela acertou mesmo em cheio. .Alice. mas é que… . . aceitar impávida e serena ao pedido de desculpas de duas crianças infantis e imaturas que não sabiam resolver os seus próprios problemas sem envolver pessoas estranhas e alheias ao caso. Vamos ao hospital tratar desse corte antes que se torne nalgo mais grave.. O pior era a dor descomunal que estava a sentir na sua testa quando passou as mãos por ela e recebeu um lenço de Madalena para estancar o sangue que ainda lhe continuava a jorrar da cabeça e que se tornava cada vez mais intenso à medida que Sérgio conduzia a carrinha da floricultura em direcção ao hospital mais próximo. encontrou uma enfermeira.Tudo bem – concordou Madalena levando a melhor amiga nos braços. – Quer dizer.Muito menos a sua amiga que acabou por ficar com um galo na testa. Madalena tentou encontrar alguém que a pudesse ajudar a socorrer a melhor amiga. Foram precisos cerca de vinte minutos para que as portas automáticas das urgências se abrissem.Sérgio – adiantou-se o fotógrafo lançando-lhe um olhar intenso. Apesar dos vários pedidos de desculpa que recebeu dos noivos enquanto caminhava pelo corredor da igreja. peço desculpas… . – Confesso que nunca me tinha visto numa cena daquelas. . mas ainda assim foi impossível para ela conter um riso abafado. . Alice manteve-se resoluta em não aceitar nenhum.Disse alguma piada? 18 . – Acho que foi levar pontos. – Vamos embora! Vamos fazer o que… . e quando isso aconteceu. .Sim! Vamos fazer o que o Sérgio disse. por isso… . mas também lhe foi informado que teria que preencher uma ficha de entrada antes que se pudesse efectuar qualquer tipo de tratamento a Alice. – Não a queria magoar. – O que foi? – perguntou ele. tem calma – pediu Madalena tentando acalmar-lhe a cólera. mas acho que vai precisar de alguns pontos.Levaram-na agora lá para dentro – respondeu ela esgueirando o pescoço em direcção à enfermaria. humilhada e metida numa confusão que nem era sua. – E acho que tão cedo não a vou esquecer.Nem eu – respondeu Madalena lançando os olhos às paredes da sala de espera. Madalena percebeu. é o que é – respondeu Alice levantando-se do altar com a ajuda da melhor amiga.Desculpe! Desculpe.Bem… .É melhor irmos para o hospital – interferiu o fotógrafo analisando-lhe o corte profundo na testa. Por sorte. Era só o que faltava depois de ter sido agredida. A resposta de Sérgio não pretendia ser irónica.Você é louco. . . isso não significa que também eu tenha que ficar com um alto na testa. – Lá porque levou cornos da sua noiva. – Não sou um especialista. Mas o pior nem era isso. .Eu posso ir com vocês – disse ele.

– É igual às outras.Eu trabalho por conta própria..Não sei.Sim. por favor. . . especialmente porque se trata da minha melhor amiga.Tenho um estúdio de fotografia – respondeu Sérgio colocando o casaco sobre o colo.Concordo. mas o que você disse teve piada.Eu acho que é… – respondeu ele arrancando-lhe um sorriso.Não. . . esses foram alguns dos estratagemas utilizados por ela para se conseguir controlar. encabulada.Sou dona de uma floricultura – respondeu Madalena sentindo-se completamente perdida quando ele sorriu novamente para si. . E a cena também! Ao olhá-la mais uma vez. – Quer dizer. Mas a verdade é que nada surtiu efeito. eu sei que não deveria estar a rir da desgraça alheia.Ai é?! . .Como assim?! . .Tem a certeza? – perguntou Sérgio fulminando-a com aqueles malditos olhos verdes. eu e a minha amiga somos sócias.E você? Para além de aparecer em casamentos recheada de flores. Não tem nada de interessante. embora a loja tivesse pertencido à minha mãe antes de ela morrer. afinal de contas. baixar o rosto e até virá-lo.É fotógrafo profissional!? .A sua profissão é que deve ser interessante. – Eu sei que eu e a minha amiga já tomámos muito do seu tempo e que com certeza você deve ter alguma coisa para fazer. – Ainda não sei o seu nome – disse ele. estava a trabalhar quando… .Mas se precisar ir embora.Deve ser uma profissão interessante – murmurou Madalena tentando fugir àqueles olhos verdes tão lancinantes. Levar a mão à boca. . E sim. . sabia?! .Digamos que a minha vida é recheada de flores. .O. 19 .Eu sei! Peço desculpas.Vender flores. . claro que não – respondeu Madalena tentando controlar os risos cada vez mais intensos. o que é que faz? . Sérgio sorriu e abanou a cabeça. .Madalena Soares – respondeu ela compondo os cabelos quando o seu olhar se cruzou novamente com o dele no meio daquela sala tão grandiosa. A única coisa que fez foi aumentar ainda mais o fascínio que Sérgio sentiu por ela logo no primeiro minuto em que a viu. – Mas é que….Acha que a sua amiga ainda se vai demorar muito? . Um novo silêncio irrompeu a sala. mas desta vez foi completamente impossível para Sérgio resistir aos risos abafados de Madalena.k…! . Ela entrou há pouco. – Está a ser má para a sua amiga. sinta-se à vontade… – concluiu Madalena ao perceber que muito provavelmente já havia abusado da boa vontade daquele fotógrafo desconhecido. aliás. .Hã… nem tanto – riu-se Madalena.O quê? . – Ou pelo menos hoje tornou-se. .

– Bem.Que é isso. Alice desejou encontrar a sua cama quando regressasse a casa e desejou também esquecer todos os azares que lhe haviam acontecido durante o dia. – Já está tudo? .Confesso que estava a fazer de tudo para não cometer nenhuma. mas realmente havia qualquer coisa que não a fazia tirar os olhos dele. . Nessa altura. e por ela. . mas também possuía qualquer coisa que a intrigava a deixava quase sem fôlego. . tal como a sua. o médico de serviço receitou-lhe alguns antibióticos para que as dores e o inchaço diminuíssem em poucas horas. Meia hora foi o tempo que as enfermeiras precisaram para suturar os ferimentos na testa de Alice. e quando ela finalmente se viu livre daquela tarefa tão desagradável. Sérgio era realmente divertido e sedutor.Não precisam de mais nada? – perguntou Sérgio quando chegaram à carrinha. . Sim.Dói-me tudo até o último fio de cabelo! Só quero ir para casa antes que pense em cometer suicídio… As portas automáticas das urgências abriram-se novamente. Madalena não precisou de muito tempo e nem de muito esforço. não acha!? – concluiu ele.Hã… peço desculpas! Eu não quis … . saíram Alice. – Se fosse assim tão desinteressante não estaríamos aqui neste hospital.Quem sabe um dia não venha a cobrar esse favor. o verde-esmeralda deu lugar a um verde acinzentado e isso só deixou os olhos dele mais lindos do que naturalmente eram. – Acredite que já fez muito por nós. – Foi um verdadeiro cavalheiro ao contrário do estupor que me atirou a vela.Obrigada por tudo – interferiu Alice mal conseguindo manter os olhos abertos. Porque de todas as pessoas presentes naquela maldita igreja. . talvez por o sol já se ter posto. obrigada mais uma vez! Ficamos-lhe a dever uma… . e para encontrar todas essas características. porque é que foi ela a única escolhida para receber aquela valente pancada? .Ninguém é perfeito.Silêncio foi a resposta dela. Ele era tudo isso e muito mais. Talvez fossem os olhos verdes. . . 20 . . a barba aparada. Com a cabeça encostada ao ombro da melhor amiga. ou talvez fossem as três coisas misturadas numa só. – Então?! – perguntou Madalena saltando da cadeira quando Alice surgiu na sala de espera com a cabeça totalmente enfaixada.Não – respondeu Madalena ajudando Alice a entrar no carro. Raios. . não é?! – respondeu Madalena deixando-se mergulhar pelo olhar que Sérgio lhe lançou.Eu também acho – respondeu Sérgio arrancando-lhe um outro sorriso tão ou mais encantador que o primeiro. o nariz esculpido. A resposta do fotógrafo não poderia ter sido mais insultuosa e isso ficou provado pelo olhar fulminante que Alice lhe lançou do interior do carro.Sim.Como é que te sentes? . – Digamos que essa foi a sua única gafe para connosco. – A minha profissão é realmente muito interessante.Não faz mal – riram-se baixinho. – Ela não tem filhos e muito menos netos – afirmou Madalena voltando-se para Sérgio ainda com o casaco nas mãos. – Tem razão – concordou ela após um longo minuto de silêncio.Digamos que fica com uma história para contar aos seus netos. Madalena e Sérgio no mais absoluto silêncio.

loja 132 F. Avenida de Roma.. Mar de Rosas. foi o que o fotógrafo leu quando o veículo desapareceu do parque de estacionamento levando consigo uma das mulheres mais bonitas e interessantes que lhe haviam atravessado caminho até à data. 21 .Sinta-se à vontade para fazê-lo – respondeu Madalena não tardando muito a enfiar-se no interior da carrinha sob o olhar atento de Sérgio.

muitas foram as vezes que Madalena tentou controlar a voz embargada e as lágrimas de desespero por se ver tantos dias longe dos filhos. – Sim – respondeu voz de Jorge com um longo suspiro.Lena.CAPÍTULO II O telefone tocou ao fim de quarenta e oito horas de um silêncio ensurdecedor. lembraste?! . – Daniel! Passa-me o telefone ao teu pai. Madalena largou a chávena de chá sobre a bancada da cozinha desejando ouvir as vozes das duas pessoas mais importantes da sua vida.Tens tanta lata. mas ainda assim.Será que eu ouvi bem aquilo que o Daniel disse ou provavelmente devo ter batido a cabeça nalgum móvel aqui na cozinha?! . – A Sara e o Daniel também são os meus filhos.Vocês só podem estar a gozar comigo.Sim! Deixas-nos ir? .Então passa-lhe o telefone agora! Aqueles foram os cinco segundos mais longos de toda a sua vida.Mas não tinha ficado combinado que as férias iriam ser até ao Algarve? . os passeios pela vila e os presentes que a cada duas horas recebia do pai e de Vanessa loira burra.A Marrocos?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. enquanto esperava por eles. .Por que raios queres levar os meus filhos para Marrocos? . Eram eles. não queiras ser irónica porque isso não faz minimamente o teu estilo. . marido. 22 . marido e tentar trazer-lhe à realidade. e ao saber bem quem era. sinceramente não percebo qual é o problema de irmos todos a Marrocos. . mulher. Ele está aí ao pé? . . um apelido carinhoso que Madalena encontrou para caracterizar a nova namorada do ex. E essa realidade era a de que ela não queria passar mais nenhum dia estritamente necessário para voltar a estar com os filhos. É mesmo aqui ao pé e vamos de barco. . Sara e Daniel. .Lena. não?! – afirmou Madalena passeando pela cozinha completamente esbaforida.Nossos filhos – corrigiu Jorge refugiando-se na varanda do hotel para que ninguém ouvisse mais uma discussão com a ex.Está. Enquanto lhes ouvia as peripécias dos primeiros dias de férias no Algarve. Daniel era o mais animado de todos e foi também aquele que mais falou sobre os banhos de piscina. – O pai quer levar-nos a Marrocos… – saltou essa frase no meio de uma conversa amena que Daniel estava a ter com a mãe. Madalena não desistiu dos intentos em falar com o ex. .O pai disse que havia uma promoção bué fixe na agência de viagens e que podíamos prolongar as férias por mais alguns dias.

Hei! Olha que assim me assustas – disse-lhe uma voz suave no outro lado da linha. – Lena.E se fosses à merda. embora o telefone tivesse interrompido os seus pensamentos a tempo. Conhecer Marrocos é uma oportunidade única que nem todas as crianças conseguem ter.Estás a morrer de ciúmes. o que é que iriam fazer para além de ficarem sentados em frente à televisão enquanto tu vais cuidar das tuas flores!? .Antes do final do mês. .Sim! Tu. pai! Desculpa. devias aproveitar essas férias para incrementar a tua vida social e esquecer um pouco o papel de mãe galinha. – Ainda há pouco estava a falar com ele e nem vais acreditar… . Vá lá! Tu sabes que a Sara e o Daniel iriam adorar… Silêncio foi a resposta de Madalena enquanto ela meditava acerca de proposta do ex. . . . . Só pode ser ele outra vez. eu pensei que fosse o… . conhecer novas pessoas. Além disso.Desculpa – riu-se Jorge. . – Tu nem penses que eu… .. Que mal é que tem? São só mais duas semanas. Aproveita para sair.Pois eu falei com os nossos filhos e eles mostraram-se muito contentes com a ideia de conhecer Marrocos. foi o primeiro nome que lhe apeteceu chamar.Hã.Impressionante como não perdes uma oportunidade para menosprezar o meu trabalho. eu só estou a pedir para que sejas razoável. Jorge.Exactamente – respondeu Madalena levando a mão à cintura.Percebeste o quê? . já percebi – riu-se Jorge secamente. marido. a minha opinião não importa para nada. Aposto que te ia fazer muito bem.Só por cima do meu cadáver. . – Mas pensa bem no que te estou a dizer. – Então!? O coronel dá-nos licença para abandonarmos o país sem sermos perseguidos na fronteira? . Ninguém vai morrer por causa disso. não é? Já é um assunto tão resolvido com a tua querida namorada mais inteligente que uma porta que nem sequer te interessa a minha permissão… . Além disso.O que foi!? Não me digas que discutiram outra vez? 23 .…e quando é que voltavam de Marrocos? .Hã… és tu. mulher. É como te disse! São só mais duas semanas. se as crianças voltassem a Lisboa. Não suportas a ideia de estarmos todos a divertir-nos enquanto estás aí a secar em Lisboa. . Jorge!? .Eu?! – indagou Madalena levando a mão ao peito. . .Não sejas ridículo. Idiota. .O Jorge.Estás a ver?! Estás a ver como é que falas comigo quando eu… O discurso de Jorge até poderia ter continuado não fosse o ímpeto de Madalena em desligar o telefone e atirá-lo contra o lava-loiça enquanto o seu queixo tremia de raiva e os seus braços se cruzavam numa tentativa desesperada de não partirem qualquer objecto no interior daquela cozinha.Cuidado! Olha que milagres acontecem – respondeu Jorge tentando espicaçar a ex.Vamos?! Quer dizer. nem mesmo tu.

Será que não há maneira de vocês se entenderem? Pelo menos pelo bem dos vossos filhos. . . Ainda continuo rijo como um pêro! A voz do pai trouxe algum conforto a Madalena e isso ficou provado pelas inúmeras risadas que ela soltou enquanto falava com ele pelo telefone. especialmente de mim. – De mais pessoas como tu é que o mundo precisava. terias que ser inventada.Eu até acho que os teus filhos reagiram bem à tua separação com o Jorge. .E achas que só te telefono quando preciso de alguma coisa? . Leonor Soares era sem sombra de dúvidas o pilar que sempre sustentou a família. o divórcio e a sensação de que me tinha que focar nos meus filhos para não os traumatizar. . – Apenas perguntei porque me preocupo contigo. talvez… – respondeu Madalena deixando a caneta cair-lhe das mãos. se mais exemplares seus apenas estragariam um 24 . . . O único abalo sofrido na relação de ambos aconteceu aquando da morte da sua mãe e do tremendo sofrimento pelo qual o pai foi obrigado a vivenciar durante meses a fio.. a única pessoa com quem podia contar incondicionalmente e também o único homem que nunca teve coragem de a decepcionar em toda a sua vida.Um clone meu era tudo o que o planeta terra não precisava! . Afonso era o seu porto seguro.Não posso fazer uma coisa dessas.Quem sabe um dia quando os ponteiros do relógio começarem a girar ao contrário. e sem ela.Eu sei.Isso é porque ela não sabe o verdadeiro sacana que o pai dela é! Devias contar a verdade. ou se pelo contrário. – Mas eu sinto que a Sara guarda rancores. – Já vi que são iguaizinhas.Quando ela morreu eu pensei seriamente em levar o meu pai lá para casa – confessou Madalena.Claro que não – respondeu Madalena encostando-se à bancada.Quase! Descobri que ele quer levar os meus filhos a Marrocos. o meu casamento estava insuportável! Depois veio a separação.A mesma frase da tua mãe – riu-se Afonso Soares quando se recordou de uma das muitas citações da sua falecida esposa.Bem! Infelizmente não me aconteceu nada de emocionante nas últimas duas semanas. sem restrições e também a infância que todas as crianças desejavam ter. tudo o que ele lhe ofereceu foi amor sem cobranças. . Desde que nasceu. mas cá me vou aguentando.Aí é que te enganas. Enquanto a melhor amiga atendia um dos inúmeros clientes que habitualmente passavam pela loja.Sabes.É. Madalena não deixou de se perguntar se o mundo de facto necessitava de outras pessoas iguais a si. . Achas isto normal? . .Precisas de alguma coisa? . De facto. .E porque é que não levaste? – perguntou Alice evidenciando fisicamente que ainda não se havia recuperado da pancada que sofrera na cabeça quatro dias antes. as bases estremeceram. . mas já te disse que não precisas preocupar-te. .Na altura. . às vezes acho que se tu não existisses. . .E tu? Como é que tens andado? .Porque não tenho o direito de destruir a imagem que ela tem do pai.Porque não?! . minha cara – respondeu Alice levantando-se da secretária quando pressentiu a entrada de mais um cliente na loja.

.Claro – respondeu Madalena levando-o em direcção à bancada onde estavam depositados os melhores arranjos da loja. – Mas que coincidência vê-lo por aqui! Eu… . . .Claro que não – respondeu Madalena desfazendo-se dos óculos de leitura. – Quando voltares eu como qualquer coisa ali no café da esquina. mas nem isso retirou a concentração de Madalena em frente ao computador pois era urgente terminar a tabela dos fornecedores e também os preços dos novos produtos da floricultura. – Queria comprar flores para uma pessoa especial. – Bem.Não. . seria muita presunção sua pensar que fazia falta a quem quer que fosse. Teria o ex. Era ele. . não percebo muito desse assunto. Na verdade. ela muniu-se de uma calculadora. 25 . luz e um encanto fora do normal. Raios. eu não sou casado – riu-se Sérgio.planeta já por si mesmo estragado.Espero não ter vindo numa má hora. não precisas preocupar-te – respondeu Madalena analisando a tabela dos fornecedores no seu computador. Para isso.Não sei bem! Na verdade. .Até já. ela ainda não é bem uma amiga. . mas acho que você me pode ajudar. O fotógrafo. . Quer dizer. . Meu Deus. Alice interrompeu-lhe os pensamentos e informou que iria aproveitar a hora de almoço para passar pela farmácia. Como é que a descobriu ali? .Não.Hã… sim – respondeu ele aproximando-se lentamente dela. dos seus óculos de leitura e também do silêncio que se apoderou da loja enquanto a pouco e pouco as unhas roídas evidenciavam que a hora de almoço estava a passar sem qualquer acontecimento importante. – Queres que te traga alguma coisa da rua? – perguntou ela alcançando o casaco no bengaleiro junto à porta. A porta voltou a fechar-se com algum estrondo. já que os seus antibióticos contra as dores tinham terminado sem qualquer aviso prévio. gostaria de saber se pretende oferecer flores a algum familiar. mas eu gostaria que fosse.Então este é que é o “ Mar de Rosas” – murmurou Sérgio lançando os olhos àquele espaço repleto de flores.Veio comprar alguma coisa? – saltou essa pergunta estúpida dos lábios de Madalena. à sua namorada ou até mesmo à sua esposa… . – E as flores são para uma amiga.…olá. marido razão? Será que ela estava realmente a morrer de inveja da felicidade alheia? Ao tentar responder essa pergunta pela vigésima vez. Talvez nem fizesse aos filhos já que eles preferiam uma estúpida viagem a Marrocos do que estar consigo. Mas quando o relógio marcou treze horas e vinte e cinco minutos.Olá – disse Sérgio Almeida retirando as mãos dos bolsos assim que ela se levantou da secretária surpresa por o ver ali. . se não for muita indiscrição minha perguntar.Que tipo de flores? .Está bem então! Vemo-nos daqui a uma hora. – Confesso que é exactamente como eu imaginei que era. esse acontecimento entrou pela floricultura adentro trazendo consigo um perfume que rapidamente se entranhou em todos os cantos da loja.

e enquanto elas trabalhavam à velocidade da luz. . Porque não!? .Bem… na verdade não a conheço muito bem. ele atreveu-se a perguntar: . mas tanto. e tem um sorriso absolutamente esmagador… .Sim! Quando ela sorri.Sim. parece-me que você quer que ela seja muito mais do que uma amiga. mas acho que ela é uma mulher forte. .Claro! Então diga-me quais são as características dessa sua amiga. mas Madalena sabia que se aceitasse aquela proposta irrecusável nada mais seria como antes.O galo desceu – riram-se os dois. embora tente não demonstrar essa qualidade logo à primeira. assim como o sorriso que ele lhe ofereceu em seguida. . As mãos experientes de Madalena conseguiram fazer um embrulho perfeito para o vaso de orquídeas que Sérgio escolheu sob sua orientação.Eu ainda tenho que fazer umas compras de um material fotográfico aqui por perto.Já almoçou? . excitação e novidade. Tudo nele gritava perigo. da pessoa que você quer que se torne sua amiga… . Mas será que valia a pena 26 . – Ela está bem agora. . – Estou à espera que a minha amiga chegue da hora de almoço dela. .Bem.A sério?! . São perfeitas para demonstrar respeito e afectividade a quem quer que seja. .. especialmente com pessoas que não conhece.Ou se não gostar de tulipas. Como não estou com muita fome apenas vou comer uma sandes ou algo assim. – Tome! Estas são as flores ideais para essa mulher. .Então eu convido-a para almoçar comigo – respondeu Sérgio parando-lhe o movimento das mãos com aquele convite tão inesperado. é que… . sou obrigado a concordar. O que é que me diz? Um almoço e escolhe você o restaurante. . claro. os olhos dela brilham tanto. .Almoçar consigo? . que é quase impossível resisti-los.Tem um café ali na esquina. A proposta não poderia ser mais tentadora. posso também mostrar-lhe estas orquídeas. . Não quero errar na escolha. percebe?! . fascinante e com uma personalidade vincada. Hum! Vejamos o que mais!? É simpática. Quer dizer. mas devo estar despachado em menos de uma hora. Parece ser doce também.Então nesse caso sugiro estas tulipas brancas.Um sorriso esmagador – murmurou Madalena sabendo perfeitamente que esse sorriso era o seu.Bem.Por falar nisso. como é que ela está depois da pancada que levou na cabeça? . você vai almoçar nalgum restaurante aqui perto? .Não – respondeu Madalena rasgando-lhe um sorriso.Se o diz.E… quando ela vier. pois cada minuto que passava ao lado de Sérgio era uma eternidade difícil de aguentar.Fui assim tão indiscreto? .Hum! Acho que ainda continuo um pouco indeciso.Um pouco – respondeu Madalena mostrando-lhe um vaso de orquídeas. pela discrição que me ofereceu.

O olhar perdido enquanto falava ao telemóvel ainda a fizeram hesitar em aproximar-se.É bom saber isso. e ela pôde ter essa certeza quando o viu instalado numa mesa próxima à janela. Será que Sérgio já se encontrava no interior do restaurante? Será que ele tinha sido pontual e cavalheiro o suficiente para não a deixar à espera? Claro que sim. . Depois disso.O único problema é que não me posso demorar muito. .E continua? . Tal como o esperado. claro que não! Coisas relacionadas com o trabalho. . . . seguiu-se uma caminhada interminável pela avenida e a certeza que a sua pressa para almoçar prendia-se com tudo menos com a fome que disse estar a sentir à melhor amiga.Acho que já sei qual é. mas quando os seus olhares se cruzaram.Depois destas flores. e para ajudar à festa. .Obrigado pela ajuda! Sem si não saberia como escolher as flores.Daqui a uma hora – respondeu ela mantendo a porta entreaberta. lembra-se?! . . Chama-se “Luminosa” e as portas são de madeira. ela teve a certeza que sim.enfrentar todos esses perigos? Diante de mais um sorriso que ele lhe ofereceu.Claro! Normalmente não costumo voltar atrás quando dou a minha palavra.Ainda bem. – Até logo – foram as últimas palavras de Madalena antes de abandonar a floricultura a uma velocidade fantasmagórica e atravessar a rua sem sequer olhar para trás. .Não faz mal! Eu também não. tenho a certeza que irá querer ser.Não tem de quê! Bem… quer beber alguma coisa? 27 . – Espero não ter interrompido nenhuma conversa importante – disse ela quando Sérgio desligou a chamada e poisou o telemóvel sobre a mesa. os sessenta minutos seguintes passaram lentamente. .Estava a combinar fazer uma sessão fotográfica com uma modelo e ela telefonou-me para saber se a sessão ainda continuava de pé. .Ela ainda não é minha amiga. .É claro que ela não se enganou – respondeu Madalena recebendo o arranjo com um doce sorriso. . – Posso escolher o restaurante? .Então está bem! Encontramo-nos daqui a uma hora no restaurante no final desta avenida. Sem mais palavras para lhe dizer e depois de ter aceitado o pagamento das flores. algo que foi imediatamente correspondido. – Encontramo-nos daqui a uma hora então – ele disse.Tome! São para si – disse Sérgio entregando-lhe o ramo de orquídeas assim que ela se sentou à mesa.Claro que sim – respondeu Sérgio recebendo-lhe o embrulho de orquídeas das mãos. . Madalena acompanhou o seu único cliente em direcção à porta desejando que os próximos sessenta minutos passassem o mais depressa possível. .Tenho a certeza que a sua amiga irá gostar muitíssimo delas. . – A dona da floricultura disse-me que essas eram as flores ideais para oferecer a uma amiga especial e eu confiei nela! Espero que não se tenha enganado. Madalena sentiu que não havia outra escapatória a não ser caminhar em direcção à mesa e forçar-lhe um pequeno sorriso. . – Obrigada. mais uma vez Alice atrasou-me.Não.

Impressionante também era o facto de saber que em menos de vinte e quatro horas todo o peso que sentia sobre os ombros desapareceu sem deixar rastro deixando apenas uma estranha sensação de doçura nos lábios.Um sumo de manga.Então com certeza não existia há tantos anos assim. Tão livre e ciente de que a vida lhe tinha voltado a sorrir após tantas tristezas. por favor. Foi também a primeira vez que Madalena se sentiu absolutamente à vontade na companhia de um homem do qual não sabia muito mais que o nome ou a profissão. os sapatos e o casaco de malha.Sim. Pela primeira vez desde há anos.E você ficou à frente do negócio? . – Tem um significado especial porque pertenceu à minha mãe e é uma das poucas lembranças que ainda tenho dela. e pela primeira vez também desde há anos. não?! . .Deve ser uma autêntica mina de ouro. .Digamos que sim. eu acho que é! Pelo menos para mim – respondeu Madalena compondo os cabelos soltos.Exactamente – riram-se novamente. . os ponteiros do relógio pararam no tempo. mas sou eu quem dirige aquilo tudo.…muitas – respondeu Madalena deixando-se encantar por aquela conversa tão amena e agradável.Sim.Então eu também vou tomar o mesmo. “ Um mar de Rosas”. É quase como se fosse uma sociedade. Seria normal sentir-se assim só por causa de um almoço informal com um fotógrafo do qual não conhecia muito mais que o nome? 28 . até mesmo antes de eu nascer … . . pensou. . Foi a sua mãe que escolheu? . – Há quanto tempo tem a sua floricultura? .E você?! Quais são as flores que mais gosta? .Já estava à espera dessa resposta – disse Sérgio forçando um sorriso.Obrigada pelo elogio – riram-se os dois.pediu Sérgio.Pouco original da minha parte.Confesso que fiquei encantado com o local e também com o nome. a loja está no nome do meu pai.Sim. eu sei. Eu tenho quarenta e cinco por cento. Quer dizer. Madalena regressou a casa com um sorriso nos lábios e nem sequer se importou com o facto de não ter os filhos consigo. . – Mas a loja tem realmente muitos anos. e enquanto conversava com ele e se deixava perder pela sua sensualidade casual. Há seis anos atrás. Impressionante como se estava a sentir tão bem. . . Eram as flores que ela mais gostava. – Mas talvez orquídeas. ele tem cinquenta e a minha amiga. ela caiu no sofá como uma pluma deixando para trás a mala.A que ficou com um galo na testa. . .. – Ela tem cinco por cento. O almoço entre os dois desconhecidos revelou-se mais agradável do que se poderia esperar quando a refeição foi trazida à mesa por um dos empregados do restaurante e a conversa amena os embalou durante vários minutos. a Alice… .Morreu?! . a floricultura era da minha mãe e já existia há muitos anos. – Digame… .Na verdade. Quase quarenta e cinco.

. .Não brinques com coisas sérias – afirmou Madalena colocando as compras do supermercado em dois grandes sacos. .Ele não é um idiota! . não precisou de muitos rodeios até porque Afonso era o seu grande conselheiro e também uma das poucas pessoas a quem se sentia 29 . muito pelo contrário! Eu trato-te como trato o Daniel porque psicologicamente ainda nem chegaste aos dez.E existe algum alimento melhor? . Só na segunda-feira é que vão para Marrocos. .Sinceramente não sei – respondeu Madalena fechando a porta do frigorífico com força.Também não foi assim.O quê?! . – Comprei-te algumas coisas – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico quando o pai a visitou a poucas horas do seu encontro com Sérgio Almeida. . especialmente por causa da tua idade. por mim vocês ainda continuavam casados. – Já te disse várias vezes que devias deixar de fumar. – Por falar nos miúdos. . – Claro que tem defeitos. .De cigarros já estou a ver.O Jorge é uma boa pessoa – afirmou Afonso cerrando os olhos quando o fumo do tabaco lhe atravessou os olhos.Sim.Não. tu só podes ter bebido antes de cá vir – afirmou Madalena fechando as alças dos sacos de compras.Não. .Estão bem. . .Acho que foste demasiado precipitada em pedir o divórcio. É por isso que não tenho queixas dele. . mas quem não tem.Está bem.Não precisavas preocupar-te com isso! Já te disse que me arranjo. Uma risada foi a resposta de Madalena.Fizeste bem em deixá-los ir com o Jorge. . .Ai não?! Pois deixa-me que te diga que se fosse só por causa do teu querido ex. .Estou-te a achar muito magro! Tens a certeza que te estás a alimentar como deve ser? . de facto não era.Só que ele sempre foi prestativo para mim e para a tua mãe e também sempre foi um bom genro.Impressão minha ou tu ainda continuas a adorar o Jorge apesar de saberes que ele é um idiota de todo o tamanho?! . realmente a minha estadia na esquadra foi apenas uma imaginação da minha cabeça. – Ponho-te tudo num saco para levares.Estou-me a alimentar muito bem se queres que te diga – respondeu Afonso acendendo um cigarro junto à janela.É! Quem não tem – disse Madalena num tom debochado.Não. . . a uma altura dessas a tua filha ainda estaria presa por um crime cometido por ele. como é que eles estão lá de férias com o pai? . está bem – riu-se Afonso enquanto levava o cigarro à boca. não é?! . . e se queres que te diga. Na verdade. .Afinal de contas eles também precisam do pai. genro. mas talvez o jantar que tinha combinado com Sérgio no Sábado seguinte fosse a razão primordial para aquela alegria tão espontânea.Tu sabes que eu não bebo a não ser em ocasiões especiais. eu acho! Falei com eles ontem à noite e ainda estavam no Algarve.Só tenho sessenta e oito e tratas-me como se já tivesse passado dos oitenta. e depois disso ela sentiu-se tentada a revelar algo muito importante ao pai.

Trajado com umas simples calças de ganga e uma camisola preta. Nele encontrava-se uma fotografia de Sara e Daniel.Olá – respondeu ele desarmando-a com o seu sorriso.totalmente segura para contar todos os segredos que rodeavam a sua vida.É uma história comprida que talvez um dia te venha a contar. .Homem!? Que homem? . De resto. . .Vou tentar. . Ao olhar-se no espelho da casa de banho depois de escolhido um dos primeiros vestidos que lhe passou pelas mãos. De resto. ela voltou a abrir as portas do roupeiro e encontrou um novo vestido. uma simplicidade bastante apreciada por Madalena. Ele chegou e já não havia mais nada a fazer a não ser abrir a porta e permitir-lhe a entrada. . aqui tens a tuas compras da semana! Leva-as e deixa-me preparar para o meu grande jantar. Dos antigos móveis comprados pelo ex. – Sabes de uma coisa?! . cintado e perfeito para uma mulher que não saía para jantar fora há pelo menos seis meses. – Olá! . .Hoje tenho um jantar.Claro que não – respondeu Madalena fulminando o pai com os olhos. branco. – Tens aqui um belo património – confessou Sérgio enterrando as mãos nos bolsos das calças. no decote do vestido e ela sentiu-se pronta a encarar o rosto de Sérgio Almeida.Claro. E sim. os cabelos e a maquilhagem primaram pela simplicidade.Estes são os teus filhos? – perguntou ele alcançando um porta-retratos sobre a mesinha. os móveis sofisticados.Por isso. 30 .O quê? .Com a Alice? . Sérgio aceitou o convite com um sorriso e não tardou a chegar à sala onde a arrumação.Ainda não sei! Ele ficou de escolher o restaurante. marido não restou absolutamente nada ou qualquer réstia da sua presença. Madalena chegou à conclusão que aquela realmente não era a melhor opção para si e nem para a noite que prometia ser bastante especial tendo em conta a sua companhia. – Juízo! . tudo o que o Jorge não é e nem nunca foi. Um novo retoque nos cabelos. .Entra – disse ela.Vê lá o que é que fazes. sem hesitações.Dás-me licença? . Chegou. . Foi nessa altura que a campainha tocou e lhe provocou um pequeno sobressalto. Por isso. Mas por agora a única coisa que precisas saber é que vou jantar fora com uma pessoa muito simpática e interessante. . os tapetes e cortinados claros eram a palavra de ordem na nova decoração que Madalena fez questão de produzir após o seu divórcio. minha menina – afirmou Afonso puxando-lhe o nariz tal como fazia quando ela era pequena.Obrigada.E aonde é que vai ser esse tal grande jantar? . – Com um homem.Hum! Não estou a gostar nem um pouco dessa história. Sérgio exalava uma simplicidade fora do normal. assim como os brincos que fez questão de colocar à frente do espelho do corredor. .

. ou pelo menos nenhum que soubesse.Obrigada! Quer dizer. da televisão ou das cadeiras a arrastar conseguiram desviar a atenção de Madalena e Sérgio. . – Ele mora numa pequena casinha toda pintada de azul e branco. e dele. Diz que jamais seria capaz de sair de uma casa onde a mulher deu à luz a filha.São bastante parecidos contigo. mas sempre que tenho algum tempo faço questão de aparecer por lá – respondeu Sérgio poisando os braços sobre a mesa após o término do jantar. confesso que me apanhaste de surpresa.Eu?! . e passava a maior parte dos dias enfiado no estúdio de fotografia que abrira com a ajuda de um amigo muito especial. .Tenho a certeza que irias gostar da vila – afirmou Sérgio não se deixando distrair por mais nada naquele restaurante a não ser pelo sorriso dela.. continuaram a degustar a refeição escolhida e o vinho especialmente indicado por um dos empregados do restaurante. especialmente às lembranças da minha avó e da minha mãe. que submersos numa conversa amena.Claro! Vamos. O restaurante escolhido por Sérgio era simples. fujo para lá e passo os dias a pescar com o meu avô. ele tudo queria saber. ela fez questão de dissecar todos os detalhes.Bem. . era órfão desde os dois anos e o único familiar vivo que lhe restava era um avô que morava no Alentejo e que ele fazia questão de visitar sempre que podia. . . É uma casa simples.Sim! Porque não? .É claro que é um elogio – riram-se os dois.Quem sabe um dia não te levo lá.Não tanto quanto gostaria. muito simples. filhos não teve. . Soube que ele morava num pequeno apartamento nos arredores de Lisboa. aliás. 31 . partindo do pressuposto que seja um elogio… . No seu interior. nunca fora casado. havia uma quantidade exorbitante de clientes. casual e encontrava-se situado numa das ruas mais movimentadas da cidade. Dela. – Sempre que me sinto cansado do trabalho e quero descansar um pouco.Parece ser um programa interessante. e ele até tem dinheiro para comprar uma melhor. mas a verdade é que nem o barulho das pessoas.E vocês vêem-se com muita frequência? . . . A resposta de Sérgio trouxe um novo olhar e também um sorriso que Madalena fez questão de lhe oferecer enquanto se perdia na magnitude daquele momento. – Fico feliz por saber que o teu avô cuidou de ti durante esse tempo todo – confessou Madalena poisando o guardanapo sobre o colo.Uau – exclamou Madalena compondo os cabelos no meio de um sorriso. mas o problema é ser demasiado apegado às lembranças do passado. . – É realmente muito querido da parte dele. – Talvez seja melhor irmos andando antes que se faça mais tarde – disse ela tentando esconder o nervosismo. Para além disso.Só fomos obrigados a separarmo-nos quando eu vim para Lisboa fazer o curso de fotografia.Sim.

Eu também acho. – Sou mesmo! Confesso que sempre fui muito mimada pelos meus pais. . essa foi a melhor notícia da noite – disse ele arrancando-lhe uma gargalhada ruidosa.Sinto muito.Óptimo! A seguir ao golo que o Benfica marcou há bocado. . . o relógio assinalou vinte e três horas e quarenta e cinco minutos. De facto. ninguém estava à espera que aquilo acontecesse.Ela morreu do quê?! – perguntou Sérgio com alguma cautela.Obrigada! Aliás. . . e pela primeira vez desde há muito. até por ser filha única e essas coisas todas. . Nessa altura.Eu gostaria muito de conhecer o teu avô. .E os teus filhos. . Na verdade.O meu pai também é o meu melhor amigo. foi repentino. até porque ela sempre foi uma mulher saudável. a noite tinha sido maravilhosa em todos os aspectos.E sou – riu-se ela alegremente.E… se não for muita indiscrição minha perguntar… és casada? A pergunta de Sérgio não a tomou de assalto e tudo porque Madalena já esperava que mais cedo ou mais tarde ele a fosse fazer. Acho que não conseguiria imaginar a minha vida sem ele.Espero que tenhas gostado do jantar. os meus filhos também. o seu único desejo era que ela se prolongasse por mais algumas horas. cheia de energia. obrigada por tudo. . . . era só uma questão de tempo e sentido de oportunidade e ele soube aproveitar essa oportunidade na perfeição.A mais velha chama-se Sara e tem quinze anos e o rapaz chama-se Daniel e tem dez. Ele parece ser igual ao meu pai. . . …não! Sou divorciada.Tens ar de menina do papá.Como é que se chamam? . o tempo propício para que a noite pudesse ser encerrada e para que ela absorvesse as luzes da cidade que teimavam em invadir-lhes o carro. Nesse aspecto tive muita sorte.Eu também – respondeu Madalena tentando esconder a tristeza que lhe assombrou o rosto. . mas ele sempre me deu todo o carinho do mundo. mas… tal como te disse. não é?! . Sim.Teve um ataque cardíaco repentino. . De facto. .Sim.Um casal! Perfeito – sorriu Sérgio levando a mão ao queixo. .. não?! . Deu tempo para que se conhecessem. Foi com uma música bem conhecida a tocar no rádio que Sérgio levou Madalena a casa. especialmente pelo meu pai.Deve ter sido muito difícil quando a tua mãe morreu. 32 . para que conversassem sobre assuntos triviais e também para que ela se sentisse suficientemente confortável para tocar naquele assunto tão delicado e pessoal.Podes acreditar que é! E quando voltamos da pescaria com… um peixe e meio nos baldes… – Madalena não resistiu a soltar uma ruidosa gargalhada. .Uff – suspirou Madalena largando os ombros.A sério?! .…vamos para o quintal e assamos o nosso jantar. – Foi a pior fase da minha vida. – Entregue – disse Sérgio quando Madalena abriu o portão de casa. – Mas pelo menos ainda me resta o meu pai.

Não! Claro que não – respondeu Madalena moderando os passos ao longo da avenida. . O que é que te parece? . . E em casa. Mas teriam os seus planos algum tipo de fundamento? Ao ouvir o telemóvel tocar no bolso do casaco e mais tarde o nome da pessoa que a estava a telefonar. .Um jantar.Gostei imenso. Pode ser?! . .Tu sabes há quanto tempo eu não vou ao Bairro Alto!? .Ligo-te ainda esta semana.O quê!? O jantar? . mas estava a pensar em convidar-te para sair hoje à noite. uma refeição em casa e uma cama vazia. qualquer ruído era suficiente para que pensasse que era o telefone a tocar.Será que… . . comer alguma refeição ligeira e cair na cama sem pensar em mais nada a não ser no dia seguinte. muitas eram as vezes em que se dava consigo a olhar para o visor.Para dançar – respondeu ele.Sair para onde? . Depois disso. . Madalena sorriu e levou a mão ao peito numa tentativa desesperada de manter o coração ali dentro. Ele que estava a bater acelerado.Sim! Bairro Alto..Por mim tudo bem. despediu-se da melhor amiga e caminhou apressada em direcção ao carro ansiando chegar a casa. Ao vê-lo a desaparecer pelos portões e a enfiar-se no carro estacionado a poucos metros da sua casa. um almoço ou até mesmo um café. Qualquer coisa! .Dançar?! .Tu também. isto para não falar das inúmeras vezes que lançou os olhos ao telemóvel ansiando uma mensagem de texto ou até mesmo um toque que lhe trouxesse um sinal da existência do fotógrafo. tomar um banho.ele hesitou. Mas nada. Durante a condução para casa. descompassado e tudo por causa de Sérgio que sem querer acabou por o trazer de volta à vida. deixava o aparelho sobre a caixa de velocidades e quase tinha acidentes quando os seus olhos saíam da estrada. – Será que liguei numa má hora? – perguntou Sérgio com uma voz absolutamente irresistível. . enquanto atendia algum cliente. Madalena deu-se por vencida e fechou a loja mais cedo do que o habitual. um sorriso atravessou-lhe os lábios e fê-la recuar nos seus intentos de um banho. Nenhuma chamada importante a não ser a dos filhos para contar as maravilhas que estavam a viver em Marrocos.Boa noite! Dorme bem. Na floricultura.Pode – respondeu Madalena sentindo-se como uma verdadeira adolescente quando ele se debruçou e a beijou na face. . Cinco dias foi o tempo que Madalena teve que esperar para voltar a ter notícias de Sérgio.…podemos repetir um dia destes? . Após mais um dia exaustivo de trabalho onde foi obrigada a levar vários caixotes pesados ao armazém ao lado de Alice e do motorista que trouxera as encomendas dos fornecedores.Sei que é meio em cima da hora. .Semanas? Meses? Anos? 33 .

Podemos procurar um outro bar menos movimentado! Existem muitos por aqui. Havemos de encontrar algum que seja mais interessante. A perfeição do recinto ficou marcada pela sua decoração tipicamente tradicional. Eu quero dançar e quero dançar contigo! Não aceito outra companhia… Era uma loucura. – Estás bem? – perguntou Sérgio percebendo-lhe o desconforto patente nos olhos. Sim. Apesar de ser frequentado por pessoas mais velhas. .Mas o quê?! . De resto. Quando se viu no interior de um dos bares mais requisitados do Bairro Alto. Madalena sentiu-se no seu verdadeiro habitat quando Sérgio a ajudou a sentar-se numa das poucas mesas vazias e caminhou em direcção ao balcão pronto a pedir as primeiras bebidas da noite. havia décadas que não pisava um local daqueles.Disseste-me que os teus filhos estavam a passar férias com o teu ex.Está bem – respondeu Madalena sentindo-se aliviada quando abandonou aquele bar propício para mulheres que ainda não haviam passado dos vinte e que desejavam urgentemente engatar o primeiro homem que lhes aparecesse pela frente.Estou.Então está bem! Fico à espera. Madalena foi obrigada a respirar fundo e a assimilar tudo aquilo que lhe estava a acontecer. – E este? – perguntou Sérgio quando entraram num bar completamente diferente do anterior. Uma Cosmopolitan para ela e um whisky para si. – Não é nada disso. De facto.. .Podemos ir embora se quiseres.Tal como te disse. – Mas só espero não dormir antes de chegares. marido. .Pois hoje vamos dançar e eu não aceito um não como resposta. . fumo de cigarros. 34 . – Antes de a minha filha ter nascido. Aquele realmente não era o local ideal para si. não estou muito habituada a este tipo de ambientes. mas ainda assim houve algo na voz de Sérgio que a fez hesitar e querer seguir em frente com aquela loucura tão deliciosa.Sérgio.Prometo que não me vou demorar muito. Vamos para um outro bar aqui ao pé.Décadas – respondeu ela arrancando-lhe uma leve gargalhada. – A que horas? . Não. – Toma – disse ele voltando à mesa alguns minutos mais tarde. mas… . Madalena sabia-o. .Não – adiantou-se ela tocando-lhe no peito sem querer. .Eu não queria que… .Este é perfeito – respondeu Madalena voltando-se para ele com um sorriso radiante. . . o facto de se ter esbarrado com uma dessas mulheres à saída apenas veio a cimentar as suas convicções. . por isso não tens desculpas.Pode – respondeu ela abrindo as portas do carro. Por volta das dez e meia! Pode ser? .Até acho que isto está cheio demais! Nem sequer têm mesas vazias e iríamos acabar por ter que ficar no balcão. .Não te preocupes porque eu vou estar mais do que preparada.Prepara-te! . um local repleto de gente jovem. pelas mesas e cadeiras sofisticadas e por um ambiente muito menos explosivo. . mesas e cadeiras degradadas e a música rock a ecoar-lhe nos ouvidos como se fossem verdadeiras bombas atiradas lá para os lados do Iraque. outras drogas ilegais. eu não sei … . .Vou-te buscar assim que sair do estúdio.

Um arrepio na espinha foi o que Madalena sentiu.Confesso que nunca tinha entrado neste bar e olha que já frequento o Bairro Alto há anos. O sorriso de Sérgio convenceu Madalena a oferecer-lhe a mão e a seguir com ele em direcção à pista de dança.Obrigada.Tens razão. almoçar. – Para mim danças perfeitamente. . sabias!? – disse Madalena quando se viu envolvida numa balada verdadeiramente romântica.Não existem músicas do nosso tempo! Existem músicas intemporais e esta é uma delas.Foi normal! Absolutamente normal. Sem mais palavras para lhe dizer.Então conta-me lá como é que foi o teu dia. onde por sorte ou não. . e por fim. . dia não lhe surgia à frente da porta da loja. . não danço? – perguntou ela voltando a encarar-lhe o rosto. . – Danço muito mal. pagar algumas contas. encostou a cabeça nos ombros de Sérgio deixando-se levar pelo momento mais especial da noite. . Ali.Claro que não! Adorei saber tudo o que fazes. . já se encontravam outras pessoas a dançar “At Last” da cantora norte-americana Etta James. não é?! . . segundo as palavras do fotógrafo – Esta música é do meu tempo.Para mim só o facto de saber que respiras já é o suficiente para achar a tua vida fascinante… . . e depois disso.Sim! Está a passar uma música que eu gosto muito e que não quero desperdiçá-la de maneira nenhuma.É um pouco escondido.Obrigado pelo elogio. Quero saber tudo o que te aconteceu desde que saíste da cama até à hora que te telefonei a marcar este encontro – respondeu Sérgio não tirando os olhos dela um só segundo. Sérgio encostou Madalena contra si e permitiu que ela fechasse os olhos sem se importar com as pessoas à sua volta ou com o adiantado das horas. telefonar a fornecedores. Pelo menos dá para conversar sem termos que berrar aos ouvidos um do outro. atender novos clientes. tudo deixou de ter importância quando as mãos dele percorreram-lhe as costas e se enterraram nos seus cabelos soltos.Mas mesmo assim eu quero saber. – A minha vida é uma seca. Abrir a sua floricultura.És um cavalheiro e é por isso que não dizes a verdade. . . podes dizer – concluiu ela entre risos.Aonde é que aprendeste? 35 . E quando o fez. receber as encomendas da carrinha que dia sim.. naquele bar tão acolhedor e destinado a seres humanos acima dos trinta. .Lá isso é verdade – riu-se Madalena enquanto bebia o primeiro gole da sua Cosmopolitan. .respondeu ele encontrando-lhe o pulso sobre a mesa.Tu também não ficas atrás. – Queres dançar? . Literalmente nua. Uma música absolutamente irresistível. encerrar o expediente com a nítida certeza que faria exactamente a mesma coisa no dia seguinte.Nem por isso – respondeu ele fazendo-a girar sobre os pés. Madalena sentiu-se nua.Agora?! . . atender clientes. não tendo outro remédio a não ser contar as pequenas tarefas que realizou durante o dia.Sim! Mas eu gostei imenso. .

Então quer dizer que tenho aqui nas minhas mãos uma verdadeira bailarina!? Madalena sorriu. manteve-se de olhos abertos numa tentativa desesperada de convencer-se que nada daquilo 36 .E tu? Aonde é que aprendeste a dançar assim? . . – E querias-me convencer que não sabias dançar? Aposto que só estás a dizer isso para não me fazer sentir mal.Não acreditas nas minhas palavras? . um pouco embriagados. .Não são as tuas palavras..Uau! Não és nem um pouco convencido. ele aproximou-se dela e tomou-a nos braços com um beijo absolutamente esmagador. acho que nem sequer me vou deitar porque… . Madalena não pensou duas vezes em acatar-lhe o pedido. – Danças muito bem – sussurrou ela. . . .Só acredito se me disseres isso ao ouvido. Por isso.Eu acho que sim. O feito de livrá-la de todas e quaisquer inibições relativamente à sua idade.Confesso que não aprendi em lado nenhum – respondeu ele arrancando-lhe uma leve gargalhada.Claro que não – respondeu ela não contendo os risos. . É a letra de uma música.Eu costumava praticar ballet quando era mais nova – respondeu ela envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. Ambos. Não tinha e nem queria sair daquele jardim sem fazer algo pelo qual havia ansiado desde o início da noite. Três horas e vinte e cinco minutos foi a hora que Madalena abriu os portões da sua casa após uma noite maravilhosa passada ao lado de Sérgio. ao seu estado civil e também ao seu desejo de aventurar-se nos ouvidos de um homem que mal conhecia. Beijá-la.Diz! Podes confessar. pé ante pé.Estou-te a perguntar se te posso beijar. – Digamos que é um talento natural. – Por mim continuava a dançar contigo até de manhã. . .Que pena – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. enquanto Madalena. mas sim inúmeras vezes até conseguir saciar o desejo e a vontade de tê-la só para si. Sérgio não tinha todo o tempo do mundo para esperar por ela. . Beijá-la não uma. ainda continuavam a cantar um dos temas mais marcantes do serão.O quê?! .É melhor ires – respondeu ela tentando resistir àqueles olhos verdes.Já disse que danças muito bem. ainda surpresa pela audácia dele.Posso beijar-te?! – interrompeu ele. – És louco – riu-se ela quando Sérgio lhe caiu sobre os ombros.Já é quase de manhã e eu acordo cedo. mas ainda assim. e mesmo ela tendo tentado desviar-se dos braços dele à volta da sua cintura. Naquele momento. Quer dizer. . até porque a dança tinha conseguido um feito inédito. A mão levada ao peito e o virar do rosto em direcção ao quintal do vizinho foram alguns dos indícios que fizeram antever a resposta de Madalena. – Talvez tenha aprendido aí. a verdade é que foi completamente impossível resistir-lhe à voz rouca e desafinada nos ouvidos. não duas. quanto a isso não havia dúvidas.Não! São as minhas palavras e eu estou a cantá-las para ti… . não sou?! .Isso quer dizer que a nossa noite terminou? . Perto de ti sou um verdadeiro aprendiz. . não sei… .

baixinho. . foram os pensamentos do fotógrafo quando o tecido caiu ao chão. abraços e tropeções. – Isto é de doidos… . Como sonhou descobrir o que estava por debaixo dele. mas não só… – respondeu ela arrancando-lhe uma ruidosa gargalhada. Nem sequer com o tapete do corredor que quase os fez escorregar junto ao bengaleiro.Queres entrar? . que és divorciada e que tens dois filhos adolescentes… . .Não. E não é que foi isso que fez? Sem pensar nas consequências.Só estou a constatar um facto.Talvez – riram-se os dois. – Quer dizer… sim! . E foi ali.A pergunta é: o que é que tu queres que eu queira de ti? Ao ver-se metida num verdadeiro dilema. Deveria estar na cama há horas.Uma mulher divorciada.O que é que tu queres de mim? . Estava antes diante de um dos homens mais fascinantes que lhe haviam atravessado o caminho e a sua única vontade era voltar a enterrar-se na boca dele e sugar-lhe todo o sabor que ele a fizera provar momentos antes.suspirou Madalena sentindo-se prestes a cair num abismo. É um sonho. deveria estar a pensar nos filhos e também na floricultura que teria que reabrir de manhã…. .Sim – respondeu ele desarmando-a novamente com o seu olhar.Pois bem! Então deixa-me que te diga que não é esse facto que me vai fazer afastar de ti. pensou. .Já reparaste que passas a vida a falar da tua idade? .Na tua casa? . ela puxou Sérgio contra si e realizou todos os desejos que manteve escondidos durante a noite. – O que foi? .Desculpa – disse ele.Diz! .Não – adiantou-se ela. 37 . claro que não. – Estás sempre a insinuar que és muito mais velha que eu. no meio de uma escuridão avassaladora.Fiz mal?! . . mas a verdade é que não estava.estava a acontecer. que Madalena se deixou encostar à parede permitindo que Sérgio a livrasse do vestido que ela utilizou para o fascinar durante toda a noite. Madalena e Sérgio entraram pela casa adentro sem se importarem com mais nada. – Eu sei que devo parecer ridícula… . Voltou a beijá-lo e pela primeira em toda a sua vida tomou a iniciativa de se atirar para os braços de um homem que não o seu marido.Um pouco. – Pára – pediu ela desesperadamente. intrigado. .Sérgio… – murmurou ela. Madalena sorriu e não evitou pensar que deveria estar em todos os lugares menos ali. . mãe de dois filhos adolescentes… .Sim ou não?! .Eu?! .Que se calhar com a minha idade eu não deveria reagir tão mal por causa de um beijo. Um sonho do qual vou acordar daqui a cinco segundos e não me vou lembrar de absolutamente nada. – A sério! Pára…! . Sérgio sorriu. Submersos em beijos. – Exagerei?! .O que é que queres dizer com isso? – perguntou Sérgio. enfim! Deveria estar a pensar em tudo aquilo.Também.

. Precisavam ver-se. como poderia sequer pensar em trabalhar quando a sua única vontade era continuar ali deitada para sempre de olhos postos no tecto? Ou estariam antes postos no céu? De facto.Então se for assim eu deixo-te ir. o quê? . Contudo. . na altura. meu Deus! Não faças isso… Quando os primeiros raios de sol se impuseram nas janelas e demonstraram que era altura de voltar à realidade. não sabia. Sérgio e Madalena despediram-se à porta de casa com um longo beijo e com a promessa de tornarem a reencontrar-se assim que possível.Isto. . as horas de prazer que passaram juntos não deixaram outra alternativa.Nem eu! Confesso que até já tinha perdido esperanças que ele te voltasse a ligar.Eu também. – Achas que deva acreditar? .confessou Sérgio. . . – Ai. . precisavam sentir-se e precisavam urgentemente ter-se um ao outro sem pensar nas consequências que aquele caso poderia trazer às suas vidas. Ele não tinha razões para te mentir. .Nunca pensei que pudesse acontecer tão rápido. Não lhe importou a sua triste figura enquanto subia as escadas pois tudo o que ela queria era continuar a sentir os lábios de Sérgio. .Tchau! . – E assim que puder eu ligo-te.. nada disso importou.Prometo.Disse que tinha tido muito trabalho durante a semana e que por isso não teve tempo para me ligar antes – respondeu Madalena levando a mão ao queixo.Eu nunca fiz isto. . esperneios e uma dança absolutamente ridícula ao longo do corredor.Cada milésimo de segundo – riu-se Madalena ainda colada aos lábios dele. ela voltou a fechar a porta e deixou que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo em forma de gritos.Bem. Depois disso. De resto.Prometes?! .Adorei cada minuto.Ligo. . passámos uma noite fantástica e … eu fiz sexo – exclamou Madalena arrancando 38 . . Como é que poderia dormir se nada daquilo lhe saía da cabeça? Aliás. . – Adorei … . . cada segundo… .Quero repetir tudo outra vez! .respondeu Madalena permitindo que Sérgio se afastasse com um largo sorriso e encontrasse o carro estacionado a poucos metros da sua casa.O quê?! – perguntou Sérgio devorando-lhe o pescoço.Claro que sim.Ligas hoje? .Ir para a cama com um homem que mal conheço – respondeu Madalena soltando um outro suspiro quando ele mordiscou a sua orelha direita.Tchau… . . os braços musculados que ele tinha e a forma como se deixou entregar a ele durante horas a fio.Nós vamos repetir tudo outra vez.Aleluia – foi a reacção de Alice na manhã seguinte quando Madalena lhe contou todos os detalhes que rodearam a sua noite com o Sérgio.Então eu vou – disse ele beijando-a novamente. . mas realmente não é isso que importa! O que importa é que ontem saímos para dançar.

divorciada e com filhos consegue arranjar um homem que se interesse por ela.…eu acho que me enganei. tudo isso faria parte do passado. E assim.Não. no sofá e no quarto. Sim.Estou tão contente como se tivesse acontecido comigo. mas tal como disse. não se enganou! É aqui mesmo. morria feliz. Ele deu-me o endereço. Um toque. Com o endereço nas mãos.Acho que se morresse hoje. dois toques e a porta foi aberta por uma jovem altíssima. Na verdade. a pouco e pouco. . mas com imensas histórias para contar. 39 .Não – afirmou Alice sentando-se à frente dela. Lingerie e Madalena pôde ter essa certeza quando a observou dos pés à cabeça.Hã! Do estúdio de um fotógrafo chamado Sérgio Almeida. . – Acreditas nisto?! Eu fiz sexo! Fiz sexo. Não. . abrir a floricultura. E foi exactamente à procura de uma história que ela subiu as escadas do edifício onde se encontrava instalado o estúdio de Sérgio. acho que me enganei. Diante da chegada dos filhos. . saltos altos e uma lingerie que tapava apenas o essencial. Faltavam apenas vinte e quatro horas para que Sara e Daniel regressassem de Marrocos e para que a vida de Madalena retomasse o curso habitual.vários pulos de alegria por parte da sua melhor amiga. a simples ideia de que as coisas voltassem a ser o que eram antes. Madalena aceitou o convite de Sérgio para conhecer pela primeira vez o estúdio fotográfico que ele dirigia. preparar os filhos para a escola.É?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. de cabelos loiros. ou pelo menos escondido até que tivesse coragem de lhes contar que a mãe finalmente havia encontrado alguém para lhe aquecer os pés nas noites frias de Inverno e para lhe destapar os lençóis nas noites quentes de Verão. Contudo. era uma proposta irrecusável e ela aceitou-a sem pestanejar já que os filhos só chegariam a Lisboa no Sábado de manhã repletos de histórias para contar e presentes que juraram ter adquirido para si. um pouco degradados. não foi muito difícil para Madalena encontrar o estúdio de Sérgio que ficava exactamente situado num dos pontos mais movimentados da cidade.Eu sei – riram-se alegremente. – Tu não podes morrer nunca. E que homem. minha amiga! Que homem! . olhando novamente para o papel que tinha nas mãos. Sexo… . . . sair a tempo de buscar o filho mais novo ao colégio e voltar para casa onde a preparação do jantar era a palavra de ordem. Acordar cedo. . Naquela sexta-feira. provocava-lhe um verdadeiro ataque de histeria. A Rua do Carmo. Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser os encontros fortuitos de Madalena e Sérgio ao final da tarde que muitas vezes culminavam com um jantar e uma noite de prazer na casa dela. percebeu que tinha chegado ao destino. Uma rua famosa pelos seus prédios antigos. a carta de alforria que ela havia conseguido quando os filhos partiram de viagem foi-se esgotando no prazo de validade. principalmente por saber que não teria tanto tempo para estar com Sérgio e muito menos a possibilidade de o levar para a sua casa e fazer amor com ele no corredor. será que não percebes?! Tu és a prova viva que uma mulher acima dos quarenta.Está à procura de…?! – perguntou a jovem passando as mãos pelos cabelos com uma descontracção fora do normal. Mais tarde. após um dia cansativo na floricultura.

Olá! . . . 40 . – Isso! Isso mesmo! Agora reflecte a perna e olha para mim… .Está tudo bem? .Está tudo óptimo.Sim.Uma campanha de lingerie. para criar alguma vergonha na cara e para não se iludir com um homem que parecia viver rodeado de modelos belas e esculturais.Vou pensar no caso – murmurou Madalena desejando desaparecer o mais rapidamente possível. . mas é giro.Obrigada. Tem que comprar. . até mesmo porque essa seria a atitude mais sensata a tomar tendo em conta as pernas bem definidas e o busto daquela modelo que não aparentava ter mais do que vinte e cinco anos. . . por favor… . assim como as poses sensuais que a modelo fotografada fazia questão de oferecer às lentes de Sérgio.Uau! . – Quer dizer. a única vontade de Madalena era fugir e fingir que nunca estivera ali. Era como se algo lhe gritasse aos ouvidos para desaparecer. Entre! Na verdade. Na aparelhagem soava igualmente uma música bastante insinuante que muito lembrou a hora Coca light. .Desculpa! Já chegaste?! Não te vi entrar – disse Sérgio quando finalmente se apercebeu da presença de Madalena no estúdio. – Ele está a fotografar uma outra rapariga… .dizia ele totalmente concentrado no que estava a fazer. – Inclina um pouco mais a cabeça. mas por sorte ela desviou-se a tempo para que as duas modelos não descobrissem a sua verdadeira identidade.. De facto. – Esses são muito bons para nos levantar o rabo. – Você também veio fotografar? . tudo o que ela não imaginava era encontrar duas mulheres seminuas que em muito lhe faziam lembrar os seus vinte e cinco anos. .informou a jovem caminhando com Madalena pelo pequeno corredor quase às escuras.É giro – respondeu Madalena segurando nas mãos um pequeno pedaço de tecido. Porque apesar de tudo. . . .Isto é para quê? – perguntou Madalena aos ouvidos da modelo que lhe havia aberto a porta minutos antes. Sim. um famoso anúncio televisivo dos anos noventa. mas eu não costumo usar fios dentais. .Pois devia – respondeu a modelo bebendo um gole de água com a ajuda de uma palhinha fluorescente. ela também já tinha tido vinte e cinco anos. Eu é que acho que vim numa má hora.Gosta? – questionou ela mostrando o fio dental sobre uma das mesas do estúdio. Ainda tentou beijá-la. pois quando Sérgio a convidou para conhecer o seu estúdio fotográfico.Assim!? – perguntava a modelo sem sequer se aperceber dos olhares aterradores que Madalena lhe fez questão de lançar de longe. nada poderia ser mais provocante e explícito. é minúsculo.Sim.São os novos fios dentais da Vitoria Secret. I just wanna make love to you. Muito bom! Estás óptima.Eu?! Não! Definitivamente não.Chegámos – exclamou a modelo parecendo ignorar a última frase de Madalena quando abriu a porta e a encandeou com as luzes vindas do estúdio.

Para além disso.Claro que não – respondeu ele poisando a máquina fotográfica sobre uma mesa repleta de cabos.Ainda vai demorar muito a sessão? . É a primeira vez que trabalhas com elas? . Madalena não resistiu a observar a forma como Vera bebia a água pela garrafa. – Já tínhamos combinado. 41 . Seriam namorados? Amigos? Ou qualquer outra coisa pelo meio? De qualquer maneira não devia ser nada sério visto ela aparentar ser mais velha que ele.Com a Natália não.Não. imponente e profissional o quanto bastante para nem sequer lhe dirigir a palavra ou esboçar qualquer expressão facial quando os seus olhares se cruzaram pela vigésima vez. – São simpáticas. ao olhá-la com um pouco mais de atenção. computadores e outros aparelhos electrónicos que utilizava para trabalhar. quanto a isso não havia dúvidas. Importaste de ficar à espera só mais uma hora?! É que nos atrasámos por causa das luzes e também porque a equipa da maquilhagem e dos cabelos só nos apareceu por aqui depois das quatro. Ao lançar os olhos para o cenário improvisado. tudo bem. era também perceptível que a presença de Madalena a incomodava mais do que qualquer outra coisa. especialmente quando a viu tão perto de Sérgio e percebeu que algo os unia. . mas com a Vera sim. Era uma jovem bonita.Só falta fotografar a Natália e depois fico despachado por hoje. Eu espero – respondeu Madalena lançando os olhos àquela sala desarrumada. .Quem?! .. mas ainda assim. Vera parecia muito mais segura de si. Madalena percebeu que não era apenas a beleza a única característica que a diferenciava de Natália.As tuas modelos. lembraste?! .

Ainda bem – respondeu Madalena compondo-se na sua camisola de malha. voltámos todos são e salvos. Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso. vocês deviam ter… .Mesmo assim. .A Vanessa está no carro. Os seus filhos que após um mês de férias resolveram regressar a casa e brindá-la com as suas risadas e brincadeiras.Tivemos que parar duas vezes no caminho para ela vomitar – disse Daniel recebendo alguns afagos na cabeça por parte da mãe.Obrigada. – Porque é que tens sempre que te meter aonde não és chamada? 42 . . – Mãe – exclamou Daniel correndo em direcção à sua progenitora e aninhando-se nos braços dela. Daniel e Sara.Eu também tive saudades tuas.Estás bonita. Sara?! Não me vais dar um beijo? .Ai que saudades! . .Fomos à praia todos os dias – respondeu ele. .Deve ser coisas de mulheres – respondeu Jorge não querendo adiantar muitos detalhes acerca do assunto.CAPÍTULO III O aspirador foi desligado na sala quando faltavam poucos minutos para as onze da manhã e tudo porque a porta da rua se abriu sem qualquer aviso prévio trazendo consigo as duas pessoas que Madalena mais desejava ver na altura.Claro – respondeu ela obedecendo ao pedido sem muito entusiasmo enquanto o pai arrastava as malas para o interior da moradia. mãe! Foi bué fixe! . .A sério? Porque é que não passaram por um hospital? . . .Como vês. .Olá. o pai já disse que não foi nada importante – resmungou Sara sob o olhar incrédulo de Madalena. – E vimos golfinhos.Porque é que não a convidaste para entrar? .Estás todo bronzeado. .Mãe. .Olá! . . animado. – Então. .Porque ela veio um pouco mal disposta da viagem. – E a… Vanessa? Não veio com vocês? .Que bom que se divertiram – disse Madalena rasgando alguns olhares à sua filha que ao contrário do irmão nem sequer se dignou a cumprimentá-la com um abraço.

. Agora sai! . marido. . – Daniel! Sobe e vê se tomas um banho antes do almoço – pediu Madalena trocando um olhar cúmplice com o ex. – Preciso falar com o pai.Tu viste como é que a Sara falou comigo? .Só te estou a avisar.E tu irias adorar se isso acontecesse.Eu não perdi a razão! Eu tenho razão.. Aonde é que foram? O que é que fizeram? Como é que o pai se portou? Comeram todas as refeições? Não. – Com o Daniel até pode resultar. não iria jantar e nem queria sequer responder às perguntas da mãe que com certeza seriam as mesmas.Boa! Quando sentes que perdes a razão. eu não tenho a culpa que tu e a Sara nunca se tenham dado lá muito bem. . afinal de contas ele ainda é uma criança. .Jorge. aliás. mulher à razão.E?! Ainda perguntas… e…?! Ela nunca me enfrentou dessa maneira. – Foi contigo que ela esteve nestas últimas quatro semanas e olha só como é que ela voltou?! .Sara?! . reages sempre assim… . . eu estou a jogar limpo contigo.Que raiva! Se soubesse tínhamos ficado mais uns dias no Algarve. Ela realmente não tinha paciência nenhuma para as responder. Um local onde pretendia trancar-se durante vinte e quatro horas e não sair de lá nem por decreto de lei.Nós sempre nos demos bem.Sai – exclamou Madalena abrindo a porta de rompante. mas com a Sara já não resulta e tu tens que meter isso na cabeça.Ela só tem quinze anos.E… . Não iria almoçar. – O problema é que tu a tratas como se ela fosse uma criança.É claro que é tua – respondeu Madalena tentando manter a voz baixa.Eu nunca coloquei os nossos filhos contra ti – respondeu ele largando os braços.Claro – riu-se Jorge secamente.Por isso mesmo! É uma adolescente e não uma criança.Tens a certeza!? . Será que não percebes que é essa tua mania de a quereres proteger de tudo e de todos. .O que foi? – perguntou Jorge sabendo à partida que iria ser criticado por algo que ainda nem sabia o que era. Não. Estas foram as últimas palavras de Sara antes de agarrar nas suas malas e subir as escadas em direcção ao quarto. . .Sabes qual é o problema da Sara contigo? Madalena calou-se. . mas ela já não é uma criança. – Então continua assim para ver se a Sara não se afasta de ti de vez.E o que é que vais dizer? Que a culpa é minha? . . eu sempre joguei! Mas não queiras colocar os nossos filhos contra mim porque eu não vou admitir uma coisa dessas. . .Lena. não era?! 43 . – Que raios! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? . de a encheres de mimos e de a sufocares com regras que a está a fazer afastar-se de ti? – discursou Jorge tentando trazer a ex. .Está bem – respondeu o último subindo as escadas a correr.

marido continuou a ecoar-lhe nos ouvidos durante a tarde toda.Estive a trabalhar – respondeu Sérgio analisando algumas das fotografias que tirou durante a tarde. – Escuta. .É.Acho que correu bem. . 44 . Uma chamada não atendida. – O quê?! .Obrigado pelo elogio – riram-se os dois. . A revelação de Jorge não podia ser mais bombástica e prova disso foi o recuo de dois passos por parte de Madalena. Podemos falar mais tarde? .Aquela campanha de ontem? .Como é que foi a viagem? .Isso mesmo que ouviste! Ela quer morar comigo. pois a discussão com o ex. . Sara entrou na cozinha e surpreendeu a mãe encostada ao lava-loiça completamente submersa numa conversa telefónica. . nenhum.Isso é o que importa.…claro – disse Madalena tentando esquivar-se aos olhares lancinantes que a filha lhe lançou enquanto abria a porta do frigorífico.Eu não quero tirar a Sara de ninguém. – Desculpa – pediu ela retornando a ligação assim que terminou de arrumar a loiça do jantar. .Não faz mal – respondeu ele.Não precisavas ter despachado a pessoa com quem estavas a falar só por minha causa… – afirmou Sara servindo-se de um copo de sumo sobre a mesa da cozinha. não. deixa-me dizer-te que durante estas férias a nossa filha pediu para morar comigo.E tu? Como é que te correu o dia? . – Só vi a tua chamada agora. E a verdade é que estava tão submersa nos seus pensamentos que nem sequer se apercebeu do telemóvel a vibrar sobre a bancada da cozinha. Nessa altura. para Madalena foi completamente impossível realizar tal tarefa. eu estava – murmurou Madalena tentando esconder o facto de não ter visto a filha mais velha desde a hora do almoço quando ela resolveu trancar-se no quarto com uma música rock aos altos berros. . . já disse! Mas eu entendo o porquê de ela se quer ir embora cá de casa. infelizmente vou ter que desligar. um número perdido e a raiva que sentiu ao final da noite quando descobriu que a pessoa que lhe tinha tentado ligar era Sérgio.Está bem – respondeu Sérgio desligando a chamada quando se deu por vencido. Pelo menos eles vieram animados. – Imaginei que estivesses com os teus filhos.Sim! Tenho que entregar tudo pronto na semana que vem.Jorge. – Nada de especial! Agora estou para aqui a ver se consigo melhorar as fotos para a campanha da Vitória Secret. Apesar de ter tentado controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. perguntou-se.Advinha lá!? O sentimento é recíproco… – respondeu Jorge saindo porta fora. . eu mato-te! . . . . eu não iria adorar. se tu me levares a Sara daqui. Com quem estaria a conversar.Algum problema?! . Eu ligo-te depois..E eu odeio-te! . .Apesar de não acreditares. Mas para que tenhas um rasgo de clarividência.Não.Tenho a certeza que te vais sair muito bem! És um excelente fotógrafo. Sabes porquê!? Porque tu és insuportável.

Silêncio foi a resposta de Sara embora os seus olhos estivessem a vermelhar de raiva. a verdade é que eu adoro e tu vais ter que te habituar a essa ideia.Sei?! . foi a pergunta que imperou no ar enquanto os seus olhos mais uma vez lutavam contra as lágrimas. – Nunca mais na tua vida te atrevas a levantar-me a voz.Ai é?! .Sim – respondeu a jovem com toda a calma do mundo.Estive a conversar hoje com o teu pai. . É verdade? .Eu quero passar uns tempos em casa do pai. . – Se estás à espera de um pedido de desculpas. sapatos e computadores!? O que é que queres mais? . .O que é que foi que eu fiz? . um quarto só para ti. . . porque eu ainda continuo a querer que morras – respondeu Sara abandonando a cozinha sem sequer terminar o sumo que deixou sobre a mesa e deixando Madalena a sentir-se o pior ser humano à face da terra. – Diz lá! Não tens tudo aquilo que precisas? Não tens um tecto. é melhor esperares sentada… – afirmou Madalena tentando manter a expressão aterradora que tinha no rosto. roupas. . hã – vociferou Madalena aproximando-se bruscamente dela.Apesar de odiares a ideia de que eu adore o meu pai. O olhar de ódio disse tudo.O quê?! . . mas nem por isso a inibiu de oferecer à filha uma valente bofetada no rosto que a fez recuar dois passos e suster a face com a mão.Nem sequer falaste comigo sobre os teus planos quando sabes muito bem que sou eu quem tem a tua guarda e a guarda do Daniel.Não! Se tu estás à espera de um pedido desculpas.Eu quero que morras… A resposta efusiva de Sara tomou Madalena de assalto. Podemos ter uma opinião diferente. 45 . .Não me levantes a voz. lembraste?! Não fomos nós.Não foi por tua causa – disse Madalena largando o seu telemóvel sobre a mesa. – Mas ainda bem que te ponho os olhos em cima porque precisava esclarecer uma coisa contigo.Foste tu que o escolheste para ser o nosso pai.Tu não vais a lado nenhum! .Eu não acredito que me estejas a dizer uma coisa dessas. comida..Qual é o teu problema.E tu sabes bem qual foi o assunto. .Não me podes impedir de morar com ele! Ele é o meu pai. . . . tu é que vais ter que esperar sentada.Não te faças de desentendida.Eu tenho todo o direito de querer escolher com quem quero ou não morar – respondeu Sara poisando o copo de sumo sobre a mesa. Sara – imperou Madalena calando-lhe os argumentos.Sara… . isso não significa que nós queiramos realmente ficar contigo. nunca te passou isso pela cabeça? .Achas bem aquilo que fizeste?! .Que opinião?! . Porque é que se estava a sentir assim. – Lá porque tu decidiste que eu e o Daniel tínhamos que ficar contigo. Sara! Ele contou-me que tu pediste para ir morar com ele.

Lena! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? .Culpa do comportamento da Sara. acredita que de adolescentes eu percebo bem e sei que quanto mais nos mostrarmos contra alguma coisa.. 46 . .A minha adolescência não foi assim e a tua também não.A adolescência é assim. – Onde já se viu?! Ninguém deve desejar a morte da própria mãe. Se ela quiser ir.foi o desabafo de Madalena à melhor amiga várias semanas mais tarde.Pois eu acho que devias.Claro que estou. mas eles a querem fazer. – Não lhe devia ter dado aquele estalo.Faz uma experiência! Diz que aceitas que ela vá morar com o pai e que não te opões em nada. lá isso é verdade. .O quê?! .Garanto-te que se a Sara fosse morar com o pai. era exactamente assim que iria reagir. . . Eu não quero que ela vá morar com o Jorge sabendo bem que ele é um irresponsável de todo o tamanho. – Achas que ele tem razão? . . Desde há uns meses para cá tem andado estranha e fala com as pessoas como se as quisesse bater. .Deixá-la ir morar com o pai. . . ou esse azar. .Sinceramente não sei o que fazer… .O Jorge é um idiota.É claro que devias – ripostou Alice ajeitando um ramo de margaridas encomendadas pela manhã.Tu és uma caixinha de surpresas – afirmou Madalena sugando-lhe a face. – E tu estás preocupada com isso? . em menos de duas semanas estava de volta.Claro que não. não sei. . . . . Mas diz lá qual é o problema concreto desta vez! . nem mesmo a brincar. Lena! .A Sara quer morar com o pai.Eu só queria saber o que é que se passa com ela.Quando ela perceber o traste do pai que tem – riu-se Alice. Quando ela tiver que cozinhar.Achas que a culpa é minha? – perguntou Madalena encostando-se ao expositor da loja.O Jorge disse-me que a culpa era minha porque eu ainda não me tinha dado conta que a Sara já não era uma criança e que não adiantava nada enchê-la de mimos e regras porque isso só faria com que ela se afastasse ainda mais de mim… – discursou Madalena cruzando os braços.Estás a gozar!? – riu-se Alice enquanto terminava o arranjo de margaridas. – Devias ter tido filhos.…volta a correr para a maravilhosa mãe que anda a desperdiçar.Alice!? Estás louca?! .Porque os tempos eram outros! No nosso tempo. .Culpa do quê? . volta para casa com o rabinho entre as pernas e ainda te trata a pão-de-ló. tratar da roupa e das compras do supermercado.Infelizmente nunca tive essa sorte.Bem. . sabias!? . . Mas se tivesse uma filha como a Sara. ela que vá! Apesar de nunca ter tido filhos. Achas que eu sou uma má mãe? . ai de nós se levantássemos a voz aos nossos pais! Era logo um par de estalos e assunto encerrado.Achas?! – perguntou Madalena não muito segura das palavras da melhor amiga.

E logo ele que sempre pensou que a ex. . O que devia fazer para descalçar aquela bota? Ao desligar o telefone do escritório. com certeza não aguentaria mais do que duas semanas. mulher a convencer a filha de que a sua saída lá de casa realmente não era a melhor ideia.A conversa foi interrompida com a chegada de um cliente à loja. mas eu fiquei sem entender uma coisa… . mas nem por isso Madalena se esqueceu das palavras de Alice enquanto o atendia. limpar o pó ou fazer a própria cama? Diante daquela catástrofe apenas comparada à Segunda Guerra Mundial.E posso saber porque é que mudaste de ideias? . . A Sara lá em casa? Uma adolescente de quinze anos em sua casa? Uma casa que normalmente costumava levar as suas amigas para umas noitadas de copos. Sim. . Ela tinha razão. diria que tinha pensado melhor e que era totalmente a favor da sua partida. – É o teu falecido – sussurrou Alice passando a chamada.O.Pensei melhor – mentiu Madalena. Quando recebeu o telefonema da filha no dia seguinte.É claro que quero. mas se mesmo assim os seus planos saíssem furados.O quê!? 47 . Já te tinha dito isso há quase dois meses. . Não valia a pena opor-se à ideia de Sara em morar com o pai pois ela continuaria a fazer-lhe a vida negra caso se mostrasse contra aquela resolução estapafúrdia.Olá. tudo bem?! Escuta! A Sara ligou-me há pouco. mulher nunca iria ceder às chantagens de Sara ou sequer permitir que ela saísse de uma casa onde tinha nascido e crescido. Raios. para umas visitas turísticas ao seu quarto e também onde passava as poucas horas livres que o trabalho lhe deixava durante o dia sem sequer se preocupar em lavar a loiça. ela não hesitaria um segundo em arrancar a filha da casa do pai com as próprias mãos.foi a surpresa de Sara quando a mãe lhe informou sobre a sua decisão após o jantar. .Pois então! Fala com o teu pai e combinem um dia para ele te vir buscar. – Estás-me a dizer que eu posso ir morar com o pai… . a única coisa que lhe restava era tentar convencer a ex. Duas semanas era o prazo que Madalena tinha estipulado para aguentar aquela prova de fogo. ele lançou os olhos a um quadro pendurado na parede e por momentos tentou encontrar uma maneira de se livrar daquele problema. – E quem sabe me vá embora já esta semana. Alice estava certa quando disse que todas as tarefas domésticas recairiam sobre os ombros de Sara enquanto ela estivesse em casa de Jorge. Jorge mal conseguiu acreditar que o seu pior pesadelo se tinha concretizado sem qualquer aviso prévio.k! Então amanhã vou ligar ao pai – afirmou Sara não cabendo em si de contente por finalmente se ver os seus desejos concretizados. Ponto final.Sim! Podes. Mas e se a filha não voltasse? E se ela continuasse a morar com o pai para sempre? Não.Diz Jorge – exclamou Madalena recebendo o auscultador das mãos da melhor amiga. Por isso. e logo ela que sempre foi preguiçosa até para fazer a própria cama. É isso mesmo que vou fazer. decidiu Jorge enquanto digitava o número da loja de Madalena. Claro que não. – Ou não me digas que já não queres ir? . assim que chegasse a casa naquela noite. Sim. .

primeiro disseste que me matavas caso eu me atrevesse a tirar a Sara lá de casa e agora ela liga-me toda contente a pedir para que eu a vá buscar nesta sexta-feira. Mas já estás pronta? . .O meu esquema?! Eu não tenho esquema nenhum – respondeu Madalena tentando ignorar as risadas de Alice quando colocou a chamada em conversação alta. .Estou – respondeu ela passando as mãos pelos cabelos soltos. Afinal de contas já o conhecia há tantos anos que não foi muito difícil para si descobrir o verdadeiro motivo daquela chamada telefónica tão inapropriada.Então queres convencer-me que queres realmente que a Sara venha morar comigo? É isso?! .Sim. O que é que se passa? Qual é o teu esquema? . não?! . mulher. É verdade? Silêncio foi a resposta de Madalena. além de que estavas certo quando disseste que eu tenho que parar de a tratar como se fosse uma criança. .Porque é que eu também não posso ir? – perguntou Daniel para grande desespero do pai.Fogo! Eu também queria ir. – Sim! É verdade. – Estás aí? . os seus planos e desculpas saíram furadas levando-o àquela verdadeira situação de desespero.Está lá cima a terminar de fazer as malas – respondeu Madalena permitindo-lhe a entrada.Jorge. . .Sim e não faças essa cara de sonsa – exclamou Jorge caminhando apressado em direcção à sala onde encontrou o filho mais novo a jogar Playstation.Bem. Sabes como é que são os jovens quando querem realmente uma coisa. 48 .Quer dizer. – Demoraste. – Tenho a certeza absoluta que uns dias na tua casa apenas lhe iriam fazer bem. não foi!? . Quero ver-te com a Sara vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas.É. provavelmente devo ter percebido mal.Então vamos. Um olhar aterrador foi o que Jorge voltou a lançar a Madalena enquanto Sara descia ao primeiro piso sala carregada com duas enormes malas e uma mochila preta que a acompanhava todos os dias à escola. isso não aconteceu. Apesar de tudo. pai – disse ela..Por enquanto vai só a Sara.Eu?! . .Porque não!? Ela não te adora tanto? Se a Sara quer morar contigo. . Inventam mentiras.Fizeste de propósito. abrevia por favor – interrompeu Madalena percebendo bem qual era o estratagema do ex. Quem sabe tu me podes ajudar a fazer isso? O que é que achas?! – discursou Madalena sob uma ruidosa gargalhada que Alice não conseguiu evitar. marido.A gozar porquê? . desculpas… . Sexta-feira foi o dia em que Jorge percebeu que já não lhe restava nenhuma outra alternativa a não ser buscar a filha à casa da ex. . – Ela já está pronta? . eu sei – respondeu Jorge passado as mãos pelos cabelos aparados. Por azar.Estás a gozar. . filho.A Sara disse-me que tinhas concordado com a ideia de ela vir morar comigo. – Apanhei um trânsito infernal no caminho. e enquanto abria os portões da moradia. a única coisa que quis foi que a relva do jardim o engolisse. Jorge! Tenho a certeza que vais adorar. a única coisa que eu posso fazer é apoiá-la.

Depois disso. – Já que Maomé não vai à montanha… – afirmou Sérgio com a mesma voz jovial de sempre. . . Quem sabe não seria Sara para lhe dizer que queria voltar? De qualquer maneira não custava nada sonhar. Sabes o que isso é? .É claro que ela vai voltar. . .A sério?! . 49 .Diz-me – interrompeu Sérgio caminhando calmamente pela rua. – Mas já estás com duas na mão. Foram precisos apenas cinco minutos para que Jorge regressasse novamente ao primeiro piso e tivesse a seu cargo cerca de três malas para arrastar em direcção ao carro. Portas fechadas. sendo que essa tarefa enfadonha recaiu inteiramente sobre os ombros de Sara. . – Mas infelizmente estás longe.Desculpa – sorriu Madalena percebendo imediatamente a sua gafe. Ela vai voltar. tomou um banho e vestiu uma camisola confortável com o intuito de dormir como uma pedra e esquecer-se do dia em que viu a filha escapar-se-lhe por entre os dedos sem nada poder fazer.Está bem. mulher.. Madalena assustou-se com a terrível ideia de que a sua filha havia partido para sempre quando fechou a porta do quarto e deu por terminada a noite. enquanto estava completamente submersa nos seus pensamentos. saiu e nem sequer se dignou a despedir da ex. . . .pediu Madalena tentando controlar as lágrimas quando percebeu que a partida da filha era inevitável.Sim! Filhos. foram algumas das cenas que Madalena observou de longe enquanto o seu coração se apertava e a companhia de Daniel era a única coisa que não a deixava desmoronar.O que é que queres?! Tenho que levar as minhas coisas nalgum lado. . três dias. Nessa altura.Podias fazer tantas coisas – riram-se os dois. – Desculpa por não ter ligado nesses dias. . – O que é que eu posso fazer para animar essa voz? . – Vê lá se ligas… . e pela primeira vez. cintos de segurança colocados e a partida. . Depois disso. tentou enfiar essas palavras na sua cabeça e acreditar no que Alice lhe dissera dias antes quando a aconselhou a baixar as guardas e permitir a saída de Sara lá de casa. afastou-se sem sequer olhar para trás e enfiou-se no carro do pai enquanto ele terminava de ajeitar as malas. Pela primeira vez desde sempre o lugar de Sara não foi ocupado durante o jantar. .Não! Tenho mais uma outra mala lá em cima que não consegui trazer junto com estas.Problemas?! .Tchau – disse Sara despedindo-se da mãe com um beijo na face e do irmão com um pequeno empurrão nos ombros. Depois disso. não achas?! .Infelizmente não. está bem! Eu vou lá acima buscá-la.Está bem. o telemóvel vibrou sobre a mesinha de cabeceira e fê-la estender o braço em direcção a ele.A minha filha foi morar com o pai.Foi-se embora hoje e eu tenho medo que nunca mais volte.Outra mala?! – indagou Jorge esbugalhando os olhos.Eu ligo daqui a dois.Quem me dera poder acreditar nisso.

mas a verdade é que ela resolveu utilizar as mãos para saber onde estava. – Foi por isso que vim. e quando abriu a porta de saída. . – És louco – disse Madalena ouvindo-lhe as risadas através do telefone.Algumas horas é tudo o que eu preciso para matar as saudades que sinto de ti. . – Esquecime de passar pelo supermercado esta semana. .Não – respondeu ela com um sorriso malicioso. – Pai! Tu não tens nada que se coma aqui dentro.O meu pai vem almoçar no domingo e eu estava a pensar em deixá-lo a tomar conta do meu filho por algumas horas. .Não consegui aguentar de saudades.Raios – exclamou Jorge levando as mãos à cabeça quando entrou na cozinha. . Uma das mãos nos bolsos das calças. . pois as únicas coisas o que viu à sua frente foram loiças sujas do jantar.Eu também morri de saudades tuas. Quando voltou a encarar-lhe o rosto iluminado pelas luzes das escadas. Ainda não foste lá.riu-se Madalena. Tinha sido apenas há uma semana. talvez para não acordar o filho. mas Madalena recusou-se a acender as luzes. Na verdade. baixinho.Pois eu iria precisar de semanas. conseguiu alcançar o corredor sem se esbarrar em nenhum móvel. O dia amanheceu ensolarado e foi com algum custo que Sara se dirigiu à cozinha crente de que iria encontrar um belíssimo pequeno-almoço à sua espera. .Quem disse!? Silêncio e surpresa foram as reacções de Madalena. não é!? . – Então fica assim combinado? No domingo depois do almoço? .O. . Pura ilusão? Talvez. talvez por preguiça. meses. . – Sai à janela – pediu ele. – Mas estou ansiosa para ir. o telemóvel nos ouvidos e o sorriso estampado no rosto.O quê?! . E mais palavras não foram precisas para que ela subisse os estores e se deliciasse com a figura de Sérgio sob o portão. Por sorte.. .Mas foi bom teres vindo! Nem sabes como estava a precisar de um beijo teu.Eu sei. Tal como sempre as escadas que ligavam os dois pisos encontravam-se às escuras. não lhe importou absolutamente nada a não ser tê-la nos braços e matar todas as saudades que sentira desde a última vez que estiveram juntos. . .Temos que combinar alguma coisa. anos… . – Mas não posso. – Que bom que estás aqui – disse ela enterrando-se nos braços dele e tentando absorver-lhe todo o calor do corpo. algumas migalhas de pão sobre a bancada e o frigorífico às moscas.Algumas horas?! Hum! Parece-me interessante.E o que é que eu vou comer para o pequeno-almoço? 50 . mas no entanto parecia uma eternidade. a visão de Sérgio foi a primeira coisa que a fez sorrir naquela sexta-feira particularmente triste e sombria. – Eu juro que te convidava a entrar – disse ela segurando-lhe a face com firmeza.Claro! Assim conheces a minha casa.Desce! Estou à tua espera.k . eram essas as características que melhor o definiam. Sérgio afundou-se nos lábios de Madalena e beijou-a com toda a paixão que possuía dentro de si. . O que é que eu vou comer? Realmente nada tendo em conta o que viu nos armários e nas gavetas vazias.Li os teus pensamentos – riram-se os dois.

Sim.Posso?! . – Depois do supermercado. – Não acredito! Que pervertido… .Claro – respondeu Jorge beijando-lhe a face.O.Mas pai… . .Aproveita que hoje não tens aulas e vai! Jorge demorou apenas cinco minutos para engolir o café que fizera. . . . – Gostas dele forte ou com leite? . Essas coisas! . a sua única vontade foi de experimentá-lo.Vou comer frango ao pequeno-almoço?! Só podes estar a gozar – resmungou Sara não vendo outro remédio a não ser obedecer às ordens do pai.Oras. .Até logo – respondeu Sara fechando a porta com um largo sorriso e com a certeza que a sua estadia em casa do pai iria ser no mínimo maravilhosa.Não acredito que a tua mãe nunca te tenha levado ao supermercado – respondeu Jorge alcançando o pote de açúcar sobre a bancada.Compra carne.Café – respondeu ele aproximando-se da máquina sobre a bancada. Cheirou-o.Até logo.Então bebe sumo! Acho que ainda tem o resto do frango do jantar.Mas pai… . estás livre para fazer aquilo que quiseres.E o que é que eu faço para passar o tempo? – perguntou Sara acompanhando-o à porta. Em cinco minutos estás lá. . 51 . E quando finalmente percebeu. o que é que se compra num supermercado? Comida.Eu não bebo café. – Vou passar o dia todo no escritório às voltas com uns arquivos que tenho que rever. – Tens que ir ao supermercado. fruta. .Hoje não posso – respondeu Jorge retirando uma chávena de café dos armários. intrigou-se com a oleosidade. . dançar sobre o sofá como uma louca e vasculhar todas as gavetas lá de casa sem medo de ser apanhada por alguém.Sim.E o que é que eu vou comprar lá? . Eu deixo-te dinheiro. arroz. . ir ao supermercado é a coisa mais fácil do mundo e tens um aqui mesmo ao pé.k! . . .riu-se ela às gargalhadas quando descobriu quantidade exorbitante de filmes pornográficos e oito caixas de preservativos na mesinha de cabeceira do pai. massas. bolachas. despediu-se da filha deixando-lhe o cartão de multibanco e a certeza de que não voltaria a casa antes de o anoitecer.Eu nunca lá fui sozinha. Podia fazer tudo aquilo que quisesse. . A curiosidade foi aguçada ao abrir uma das embalagens.. – Além disso.Posso sair? Combinar alguma coisa com as minhas amigas? . desenrolou-o numa tentativa desesperada de perceber como aquele objecto funcionava. ela viu-se pela primeira vez a tocar num preservativo. Mas podes ir tu ao supermercado se quiseres. Podes aquecê-lo no microondas se quiseres. e antes que desse por si. Podia ouvir música aos altos berros. . e por fim. enjoou-se com o cheiro.Podes fazer o quiseres. e depois de vestir o casaco às pressas.

Jorge não desconfiou de nada e nem sequer teve a brilhante ideia de abrir as gavetas para se certificar que o seu pequeno tesouro que demorou dois anos a ser construído não tinha sido drasticamente usurpado pela própria filha. . Sara não teve dúvidas de que aquela era a altura ideal para repor os filmes que lhe havia retirado da mesinha de cabeceira.Ela foi passar uns dias com o pai – informou Madalena provando o molho da carne assada junto ao fogão. .Cheguei cedo? – perguntou ele recebendo um beijo da filha. A segunda estava nos treinos de judo e não se iria despachar antes das sete tarde.Olha.exclamou Afonso afagando os cabelos do neto e entrando pelo corredor adentro sem quaisquer cerimónias. . acho que vou tomar um banho porque estou a estoirar de dores de cabeça. quando entrou à socapa no quarto do pai e ouviu o barulho do chuveiro a trabalhar. após ter a certeza que se tinha livrado de boa. e a terceira. – Cheguei – gritou Jorge da porta sem sequer imaginar que a poucos metros a filha se encontrava na sala a esconder os filmes que lhe havia retirado do quarto. Sara voltou a sair do quarto e encostou a porta com um longo suspiro. agarrou no seu velho Opel Corsa e estacionou-o a poucos metros da vivenda onde a filha e o neto moravam. Afonso Soares foi pontual para o almoço em casa da filha.Não! Chegaste na hora. . Aliviada foi o que se sentiu. Vestiu uma das suas melhores indumentárias. a verdade é que Sara não conseguiu a companhia de nenhuma das suas amigas da escola.Pensei que fosses demorar mais – respondeu Sara escondendo as caixas de DVD por detrás das almofadas do sofá.Volta mesmo?! 52 .Posso pôr a lasanha no forno se quiseres. Tal como sempre. Por sorte. .Mais ou menos – respondeu Daniel seguindo-o em direcção à cozinha onde Madalena se encontrava a ultimar os preparativos do almoço.Hã… já vieste pai?! . Assim sendo. – Mas volta! .Isso era óptimo! Assim quando saísse do banho já tinha alguma coisa para comer. .Consegui despachar-me mais cedo do que estava à espera.Infelizmente naquele Sábado as horas demoraram a passar. E assim. .Fui ao supermercado – disse ela assim que ele entrou na sala. a única alternativa que restou a Sara foi devorar todos os filmes pornográficos do pai enquanto devorava também as pipocas que havia comprado no supermercado da esquina. não tinha a permissão dos pais para sair de casa sem a presença de alguém mais velho. – Andas-te a portar bem? . e mesmo tendo a tarde livre para fazer o que quisesse. . . Alguns minutos mais tarde. – Então rapaz… .A Sara já não mora mais connosco – respondeu Daniel para grande surpresa do avô. Aquele era um ritual que fazia praticamente todos os domingos e daí a pouca surpresa de pequeno Daniel quando abriu a porta e se deparou com a figura do avô. uma boa notícia – exclamou Jorge espreguiçando-se com vontade. – Bem.Como assim? Para onde é que ela foi? . .A Sara?! . A primeira tinha ido passar o fim-de-semana ao Douro. Só me falta fazer a salada.

k – riu-se ela quando ele atendeu o telemóvel. Sérgio tinha-se transformado em algo mais.Até já… . os dois amantes tiveram-se um ao outro e deixaram os seus sentidos perderem-se naquela habitação minúscula dotada de poucos móveis e com uma simplicidade que conferia a Madalena toda a paz e conforto pelo qual havia ansiado durante semanas. . a tarefa não foi tão difícil quanto isso. deves acreditar! Um sorriso radiante foi o que Madalena ofereceu a Sérgio. mais te tenho só para mim… . 53 . foi a pergunta do pai. Por sorte. foi impossível não acenar de longe e receber um outro aceno de volta.Claro que volta. tinha-se transformado no seu amante. – Não podias ter escolhido uma rua mais escondida para morar? . E sim. Depois do almoço. Três andares depois e a porta abriu-se. – O. no seu melhor amigo e também no seu grande confidente.Então já estás mesmo aqui ao pé – respondeu Sérgio saindo à varanda.Hã… numa rua chamada Alecrim. – Aliás. .O. . . Madalena despediu-se de Afonso e Daniel dizendo que demoraria apenas algumas horas para ajudar a sua amiga Alice a mudar alguns móveis lá de casa. aliás. Era uma mentira pegada. Madalena precisou de quinze minutos para conseguir estacionar o carro. Tens que dar a volta.Tu sabes que eu gosto de me esconder.Tu já me tens só para ti. – Acho que estou perdida. Na verdade.Olha que eu acredito. respondeu ela esboçando-lhe um sorriso malicioso que disse tudo. .Está bem! Já agora diz-me outra vez o número do prédio e o andar. – Consegues ver uns prédios verdes? . e depois disso. Era ali que ela se sentia segura. Madalena desapareceu do quarteirão e rumou ao centro da cidade com o único intuito de cair nos braços de um fotógrafo que já não lhe era tão desconhecido quanto isso. terceiro esquerdo. .. .Pois podes acreditar – respondeu ele sugando-lhe o pescoço. Em apenas dois meses.O meu fica atrás. Afonso percebeu no minuto em que a filha saiu à rua e se enfiou no carro estacionado na garagem.k! Até já.Aonde é que estás? . . protegida e ciente de que nada e nem ninguém a poderia separar de Sérgio. Mas quando conseguiu esse milagre lisboeta em pleno fim-de-semana. Não. E ao vê-la. Depois disso.respondeu ele desligando a chamada com um largo sorriso. correu apressada em direcção à rua de Sérgio pronta a descobrir o número cento e cinquenta e dois e também o andar que ele lhe indicara momentos antes.Número cento e cinquenta e dois. em muito mais. – Meu Deus – exclamou Madalena às gargalhadas quando ele a arrastou directamente para o quarto. Conheces?! . Sempre em movimentos contínuos e frenéticos. acho que sim. Não precisam de ajuda. um beijo tão ou mais apaixonado que o primeiro enquanto se deixava levar em direcção à cama sem se importar com o barulho das obras do vizinho do segundo andar. pois o fotógrafo permaneceu na varanda apenas para ter a certeza que a sua visita não se iria perder pela segunda vez.Sim. .Ainda bem – respondeu ela ajudando-o a desfazer-se da camisa. – Porque quanto mais escondido estiveres.

.Comprei especialmente para ti. Está suado. – Vera! . Era ela. encabulado. .Queria escolher algumas. foi a primeira coisa que reparou. .Não tenho pressa – respondeu Vera debruçando-se sobre ele enquanto prendia os seus longos cabelos com a mão e se deixava deliciar pela maravilha que era vê-lo em tronco nu. .Estas cerejas estão maravilhosas – confessou ela devorando um dos que ele lhe colocou na boca. Fiz mal? .Olá – respondeu a modelo esboçando um doce sorriso assim que a porta lhe foi aberta pelo fotógrafo. lembraste?! Como nunca mais disseste mais nada. ele reconheceu imediatamente a sua visita.Porquê?! .Porque prometi que não faria isso! Quero que ela sinta saudades minhas. – Queres todas as fotos? . mas é que… .Impossível não sentir saudades tuas – respondeu Sérgio arrancando-lhe um sorriso – Eu por exemplo passo a minha vida a sentir saudades tuas. . .Seja quem for.Porque eu não quero que me apanhem assim toda descascada – respondeu Madalena arrancando-lhe uma leve gargalhada.Não. – Estás à espera de alguém? . Mas ao olhar através do espelho da porta. .Não. .É rápido! Só queria umas cópias para colocar no meu book.Ainda a história da tua filha? . .Tudo bem – respondeu ele abrindo-lhe passagem em direcção à sala onde se encontrava o seu computador portátil e também a Pen drive repleta de fotografias que havia tirado a Vera semanas antes. Dois minutos foi o tempo que Sérgio precisou para sair do quarto e caminhar em direcção à porta com uma enorme vontade de esganar o vizinho inoportuno que teve a desfaçatez de interromper o seu descanso ao lado de Madalena. – Desculpa vir sem avisar. .Sim – respondeu Madalena deitando a cabeça sobre a almofada.disse ela recorrendo ao seu sexto sentido quase sempre infalível. . 54 . mas é que tínhamos combinado ver aquelas fotos da sessão. – Deve ser algum vizinho ou assim. Vai demorar – disse Sérgio sentando-se à secretária e ligando o computador com uma expressão no mínimo entediada.São muitas. eu resolvi aparecer hoje outra vez. Era ela outra vez. não deixes entrar no quarto.Obrigada – riram-se os dois.. – Obrigada também por me tirares da cabeça todos os meus problemas. .respondeu Sérgio. já disse que não. Os cabelos também se encontravam desalinhados e as costas vermelhas pareciam ter sido marcadas por unhas de uma mulher. – Acreditas que desde que ela foi morar com o pai nem sequer me ligou? .Porque é que não ligas tu? . embora seja óbvio que ela não sente.Não – respondeu Sérgio apressando-se a encontrar as calças de ganga no meio das inúmeras roupas espalhadas pelo chão. – Vai lá! Pela pressa parece ser importante.Eu também – disse Madalena aconchegando-se no peito dele e fechando os olhos sem se importar com o irritante toque da campainha. Teria interrompido alguma coisa? – Espero não ter vindo numa má hora… .

As revelações de Sérgio realmente não caíram nada bem a Madalena e prova disso foi o longo suspiro que ela lançou a fim de acalmar os estúpidos ciúmes que estava a sentir. não achas!? . – Podes ficar à vontade. – Hã… desculpem! Não sabia que estavam aí … A expressão facial de Vera pareceu mudar radicalmente quando ao voltar-se para trás a figura de Madalena encandeou-lhe a visão. Devias ter-me dito que estavas ocupado.Mas eu não te estou a enganar. mas a segunda só o conseguiu fazer quando entrou na sala e se deparou com a figura da modelo a quem havia encontrado semanas antes no estúdio dele.Estranho o quê?! . pelo menos devias levá-las. – Não! Eu é que peço desculpas. .Como nada? E essa cara? .Estranho o facto de essa rapariga ter aparecido do nada.Claro que não – respondeu ele forçando um sorriso que não foi de todo correspondido por Madalena. A primeira reconheceu-a de imediato porque era a de Sérgio. 55 . como é que ela sabia onde moravas? Já aqui esteve alguma vez? .Desculpa porquê?! – perguntou Madalena.Nada – respondeu ela desviando-se dele. . . Fomos tomar um café e como lhes disse que as fotografias tinham ficado muito boas.Que é isso – afirmou Madalena percebendo o embaraço da modelo.Por essa visita inesperada. – O que foi? . . Infelizmente também se lembrava do nome dela e também de todos os seus atributos físicos. – Desculpa – pediu Sérgio regressando à sala depois de a ter acompanhado à porta. – O que foi? O que é que estás para aí a pensar? .Há algumas semanas atrás. recebeu-as num CD despedindo-se com um sorriso e com a certeza de que nunca mais voltaria a uma casa sem ser convidada.Sim. – Veio com a Natália. . Senão era um desperdício de tempo. Estiveram! .Claro – respondeu a jovem voltando-se novamente para o ecrã do computador quando pressentiu que Madalena havia descoberto o seu disfarce em pouco menos de cinco segundos. elas pediram para vê-las.Só achei estranho… . Sérgio. vinte minutos mais tarde. . E assim.O barulho ensurdecedor no quarto deixou Madalena impaciente e fê-la caminhar pé ante pé em direcção à sala onde lhe pareceu ter ouvido algumas vozes. Eu voltava numa outra hora ou então procurava-te no estúdio.Costumas receber as tuas clientes cá em casa? .Sim – respondeu Sérgio com toda a calma do mundo. depois de ter escolhido as fotografias tiradas por Sérgio.Quando? . mas… . Vera! Não vieste buscar as tuas fotos? .As duas estiveram cá?! . Vera.Então?! Se te vieste até aqui. Aliás.Vim.Só não quero que me enganes – respondeu ela voltando-se para ele. .

.Tu tens quarenta e eu tenho trinta e dois.Sabes qual é o teu problema? Madalena manteve-se em silêncio. não tenho mais idade para criar expectativas e nem quero fazer papel de idiota. ela pensou. Madalena tapou o rosto com as mãos e desejou que um buraco se abrisse por debaixo dos seus pés. . das rugas que te aparecem no canto dos olhos quando sorris ou da celulite que tens nas pernas. – Talvez tenhas razão – interrompeu ele. – Mas eu também não quero passar a vida toda a tentar enfiar-te isso na cabeça e nem quero ver as tuas desconfianças sempre que me aparecer uma mulher de vinte anos à frente. As palavras que Sérgio lhe dissera tinham sido cruéis. Enquanto passeava por aquela sala minúscula e se dava conta da triste figura que fizera momentos antes. Eu consigo ver a mulher com quem quero estar.Lena. para além dos dois fios de cabelo branco que tens aí à frente. – A tua insegurança – respondeu Sérgio à sua própria pergunta. que conversa é essa? . Não quero que gozem comigo! Nem tu.Namorada?! .Será que não percebes que estou contigo porque gosto de ti? Porque gosto realmente de ti e não quero estar com mais nenhuma outra mulher? A surpresa fez com que Madalena se voltasse novamente para ele. Pelo menos assim vou saber no que é que me estou a meter. – Fui uma idiota! Não devia ter dito aquilo que disse.Uma conversa que se calhar já deveríamos ter tido há mais tempo – respondeu ela cruzando os braços.Desculpa – pediu ela mantendo-se de costas para ele. nem precisas sair de casa porque elas batem-te à porta e cercam-te como se fosses… . mas infelizmente também tinham sido verdadeiras e foi isso que a levou ao mais profundo desespero.Porque se isto for um caso sem importância.…eu não sabia que estávamos a namorar.Eu sei. Sim. nem as tuas amigas e muito menos essa… Vera… . . . aliás. marido conseguiu convencer-te disso durante os anos em que vocês estiveram casados e é uma pena que ainda continues a pensar assim mesmo depois de te teres separado dele. com quem quero fazer amor e a quem quero apresentar a todos os meus amigos como sendo a minha namorada… .respondeu Madalena não escondendo a sua surpresa perante uma palavra que já não ouvia há muitos anos.Não é nada disso. – O facto de não acreditares nas tuas qualidades. mas é que… .Hã… esqueci-me! Mulheres acima dos quarenta também não podem namorar. . . aliás. . na tua inteligência e de julgares que todas as mulheres são melhores que tu! Infelizmente já percebi que o teu ex.. E daí? Será que a idade importa assim tanto? Será que não consegues ver mais nada em mim para além do meu bilhete de identidade? Porque eu consigo ver muitas coisas em ti para além disso. 56 .Então o que é que um homem como tu quer de uma mulher como eu?! Porque é óbvio que tu podes ter qualquer uma que te passe pela frente.Eu não acredito que estejas a pensar que estou a gozar contigo. eu prefiro que me digas. – Talvez já devêssemos ter tido esta conversa há mais tempo. – Eu não quero criar expectativas. .

57 .Acreditas agora em mim? . Eu quero tudo isso porque … . até porque diante da imensidão daquele momento.ele pareceu hesitar.Eu não quero ser o tal com quem só estás uma vez por semana quando arranjas algum tempo na tua agenda. Quero participar na tua vida. marido se for preciso. – Eu também te amo muito.Acredito – respondeu Madalena atirando-se para o colo de Sérgio sem se importar com mais nada à sua volta e nem com as palavras duras que trocaram minutos antes. – Ou ainda não tinhas reparado nisso? . baixinho. – Leva-me para o quarto – pediu ela ansiando que o seu pedido fosse realizado o mais rapidamente possível.Pois nós estamos a namorar – informou Sérgio trazendo-a contra si. . ..… porque eu te amo. Todas elas foram transpostas sob o olhar incrédulo de Madalena enquanto os ouvidos dela tentavam assimilar aquela declaração no mínimo surpreendente.Por acaso não – riu-se Madalena. – Eu também te amo – confessou ela por fim. Estava feito. ouvir os teus problemas. a verdade é que Sérgio não pensou duas vezes em proferir aquelas palavras que manteve guardadas a sete chaves no seu coração. . o teu pai e até o idiota do teu ex. tudo pareciam apenas detalhes sem qualquer importância. Pronto. conhecer os teus filhos. Quero ser muito mais do que isso. e apesar de se ter odiado por ter sido o primeiro a dizêlo. Estava dito.

CAPÍTULO IV
Era a primeira vez que iria chegar atrasada à escola e tudo porque ninguém a acordou e o despertador recusou-se a tocar. Mas ainda assim, Sara saltou da cama, vestiu-se às pressas e arrumou a mochila enquanto o relógio da mesinha de cabeceira assinalava dez para as oito. Depois disso, seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à cozinha e o desespero de encontrar o pai para que ele a levasse à escola. – Quem és tu? – perguntou Sara surpreendendo-se com a figura de uma mulher perto do fogão. - Hã… deves ser a filha do Jorge, não?! - O meu pai? - Ele está a tomar banho – respondeu a mulher bebendo um gole de sumo. – Olá! Eu sou a Carla. - Ele vai demorar muito? – perguntou Sara ignorando-lhe o cumprimento. - Não sei! Acho que não. - Eu preciso que ele me leve à escola senão chego atrasada. - Já estou pronto, Carlinha… – interrompeu Jorge entrando pela cozinha longe de sequer imaginar que a sua filha também ali estava. – Filha?! Ainda por aqui? Pensei que já tivesses saído. - Como é que eu podia sair?! Preciso de alguém que me leve à escola e precisava também de alguém que me acordasse – respondeu Sara lançando um olhar aterrador à nova amante do pai. – Vou chegar atrasada por tua causa. - Esqueci-me. - Então?! Levas-me ou não? - Escuta querida… - pediu Jorge aproximando-se de Sara com alguma cautela. – E se o pai te pagasse um táxi para ires à escola, hã? - Um táxi!? - Sim! É que eu já tinha prometido levar a Carla a casa e olha que ela mora no outro lado do rio. Se fosses de táxi irias despachar-te muito mais depressa, garanto-te! - Tu preferes levar a… Carla a casa do que levar-me à escola? – perguntou Sara, incrédula. - Não é nada disso, querida. Não estás a compreender o que o pai está a tentar… - Deixa lá! Eu vou de autocarro. Apesar dos inúmeros chamamentos de Jorge, Sara abandonou a cozinha como a mochila às costas e com a certeza de que todas as coisas para o pai eram mais importantes do que ela. Saiu sem sequer olhar para trás e atreveu-se também a bater com a porta quando o fez. Depois disso, alcançou o elevador e desceu à rua pronta a encontrar o primeiro autocarro
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que a pudesse levar ao destino pretendido: Escola. Era lá onde deveria permanecer as oito horas seguintes e aprender Inglês, Geometria e Física, conversar com as suas amigas nos intervalos e comportar-se como uma jovem de quinze anos cujo maior erro foi ter pedido à mãe para morar com o pai. Mas será que era mesmo isso que queria fazer? Ao passar de autocarro por uma Sex Shop, Sara teve dúvidas e por isso desceu na paragem seguinte. Mais tarde, caminhou dez metros em sentido contrário e viu-se com os olhos postos na montra da loja enquanto tentava decifrar o que eram todos aqueles objectos e também para que serviam. Ali, completamente alheia ao movimento das pessoas, ela deixou-se ficar e só se afastou quando um dos funcionários da loja saiu à rua para fumar um cigarro. – Isto não é para a tua idade, menina – disse-lhe ele. – Não devias estar na escola? Sara assustou-se quando ouviu a pergunta e tentou igualmente passar despercebida no meio da multidão enquanto os olhos do funcionário continuaram a segui-la pela avenida a fora. Adolescentes, murmurou ele abanando a cabeça. Faltavam apenas alguns minutos para as onze quando Madalena atendeu o seu terceiro cliente do dia. Este, que tal como todos os homens à face da terra, não percebia nada de flores, ficou-lhe extremamente grato pela indicação de um ramo de camélias japonesas acabadinhas de chegar. Só então ele ficou a saber que essas eram as flores ideais para pedir perdão à esposa. – Ele traiu-a e ela descobriu – disse Alice assim que o cliente abandonou a loja. - Não faças juízos sem saberes a verdade – respondeu Madalena. - Lena, um homem que chega aqui a dizer que precisa de umas flores para a mulher que simbolizem arrependimento, isso só significa uma coisa. Traição! E traição da grossa. - De qualquer maneira, não nos compete a nós julgar! Cada um sabe de si. - Dizes isso porque agora és só sorrisinhos, paz e amor – riu-se Alice, animada. - Como assim?! - Desde que começaste a andar com o tal fotógrafo que já não falas mal dos homens, tratas todos os clientes a pão-de-ló e passas a vida a suspirar pelos cantos, isto para não falar das vezes que olhas para o telemóvel à espera que ele toque. - É assim tão evidente? - Define-me evidente – riram-se as duas amigas. - Tu nem acreditas, Alice… - Só acredito se me contares. - Ontem estive com ele – discursou Madalena deitando no caixote de lixo as fitas que utilizara para fazer o embrulho das camélias japonesas. – Fui conhecer-lhe a casa. - Uau! Mas isto já vai assim? - E tu nem sabes o que ele me disse. - O quê? - Que me amava – revelou Madalena deixando-se contagiar pelas gargalhadas da melhor amiga. – O que foi? Não acreditas? - Acredito. Claro que acredito – respondeu Alice levando a mão ao queixo. – E tu? O que é que lhe disseste? - Oras! Disse que também o amava. - Gostava de ser uma mosquinha para ter visto a cena.
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- Achas que fiz bem!? Quer dizer, eu gosto dele e pelos vistos ele também gosta de mim, mas será que não foi demasiado rápido? - Não foi ele o primeiro a dizer que te amava? - Foi. - Então?! Não tens responsabilidade nenhuma. Se acontecer alguma coisa, ele disse primeiro e tu só respondeste por educação – respondeu Alice arrancando uma ruidosa gargalhada a Madalena. Naquela tarde, Sara faltou a todas as aulas sem qualquer justificação, e depois de ter passado o dia inteiro a passear pelas ruas da cidade, regressou a casa, trancou-se no quarto e visionou os restantes filmes pornográficos que o pai fazia sempre questão de esconder na sua mesinha de cabeceira. Foi também a primeira vez, enquanto os via, que ela atreveu a acariciar-se por debaixo das cuecas e a experimentar um prazer que nunca pensou sentir nos seus tenros quinze anos. E se experimentasse ter relações sexuais a sério, passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Com um rapaz da sua escola? Ou até mesmo com qualquer um que estivesse disposto a ajudá-la a superar a curiosidade que se havia apossado de si desde que descobriu a pornografia e os prazeres que ela trazia consigo? Subitamente, algo que deveria ser apenas um divertimento para passar a tarde, transformou-se num vício demasiado perigoso que a perseguia para onde quer que fosse. Na casa de banho, na cama e até nas escadas de serviço do prédio do pai, todos esses lugares serviram para que Sara se masturbasse e tentasse remover todo o stress de cima dos seus ombros. Não estaria ela a levar aquilo demasiado a sério? Não estaria a ficar viciada em sexo e pornografia? - Ficas bem cá em casa? – perguntou Jorge chegando à sala após duas horas a tentar escolher a roupa perfeita, o penteado perfeito e o perfume perfeito para a uma noite que prometia também ser perfeita. - Fico – respondeu Sara fingindo estar mais interessada a ler a revista que tinha nas mãos. - Prometo que não me vou demorar muito. - Com quem é que vais jantar desta vez? Com a Vanessa? A Carla ou a Antónia? - Vou fingir é que não ouvi o que acabaste de dizer – respondeu Jorge vestindo o casaco às pressas. – Então? Como é que estou? - Bem. - Qualquer coisa e liga-me para o telemóvel! Vou mantê-lo sempre ligado pela via das dúvidas. Mas não te esqueças também de telefonar à tua mãe – discursou Jorge alcançando as chaves do carro sobre a mesinha. – Não quero que ela pense que sou eu quem te está a impedir de lhe ligar. - Se me lembrar, eu ligo. - Vai! Porta-te bem. - Tu também. - O pai porta-se sempre bem – respondeu ele piscando o olho e deixando a filha completamente sozinha em casa. A vontade de Sara de sair foi imperiosa, assim como a de conhecer um lugar onde já havia passado várias vezes durante o dia. O Intendente. Uma pequena localidade no centro de Lisboa conhecida pela sua antiguidade, mas também pela sua má fama, pois era ali onde se reuniam a maioria das prostitutas, drogados e imigrantes ilegais numa estreita colaboração com o crime e a má vida. E sim. Ao ver-se à saída do metro, Sara sentiu que tinha cometido
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. .Não – respondeu Sara hesitando alguns segundos a responder.É bom que ela se assuste mesmo – respondeu a última sem desviar os olhos de Sara. – Tens cigarros? – perguntou ela encostando-se a uma porta de madeira degradada. Era mais um dos inúmeros drogados a passar no outro lado da rua. permaneciam duas mulheres um pouco mais novas intoxicadas de perfumes e outras roupas provocantes.Porquê?! . – O que é que achas. . Mas como podia ela ter se não deveria ter mais do que dezasseis anos e também muita lata para meter conversa com três prostitutas em pleno horário de serviço. aparecem muitos homens a querer ter sexo com vocês? . enquanto ao seu lado.Além de corajosa é curiosa também… – riram elas sob o olhar atento daquela jovem que aparentava ter toda a segurança e experiência do mundo.Só estava a passar – respondeu Sara à cautela.Milene. .Por acaso estás a insinuar que temos mau hálito? – interferiu uma das prostitutas lançando-lhe um olhar desafiador.Eu não me assustei. mas desaparece daqui enquanto é tempo. . – Escuta! O que é que andas a fazer por estas bandas? Não és daqui! .Putas?! – indagou com uma gargalhada a que parecia ser mais nova.uma loucura quando resolveu lá colocar os pés. querida? Achas que só estamos aqui encostadas por desporto?! É claro que somos putas. – O que é que queres saber. uma mulher de meia-idade atreveu-se a chamá-la. sujas e com intenso cheiro a urina e outros dejectos humanos. . . Contudo. Depois disso. As ruas algo desertas. Sara pôde ter essa certeza. enquanto lutava contra a sua indecisão. . meias de renda pretas e um top decotado que deixava transparecer o soutien em tons de cor de rosa choque.Estava a ir para casa. Isto não é lugar para miúdas como tu. e ao voltar-se para trás.Corajosa! .Se têm muitos clientes ou não. Querem? . 61 . apenas conseguiram embrulhar-lhe o estômago e fazê-la perguntar-se que raios estava a fazer quando a sua única vontade era fugir e fingir que nunca ali estivera.Eu não devia estar-te a dizer isto. .Vocês são … .Não! Só ofereci porque não tenho cigarros.Vocês costumam ter muitos clientes por aqui? Quer dizer. – Há dias que rende mais. Até porque este é um lugar para putas ou ainda não tinhas percebido isso? . há dias que rende menos. Depende dos excelentíssimos clientes que apanhamos.Depende – respondeu Milene levantando o braço para cumprimentar um velho conhecido da zona. . as mãos foram estendidas e as pastilhas entregues àquela que parecia ser a líder do grupo.…mas tenho pastilhas de menta. não assustes a coitada da miúda. Trazia consigo uma mini-saia vermelha. diz lá! . .Pastilhas também servem – afirmou a mais velha permitindo que Sara se aproximasse lentamente da porta onde estavam encostadas.

– Só estava curiosa. . Elas estavam certas ao dizer que aquele não era lugar para si e nem para ninguém. Estava salva.Não! Eu não seria capaz de cobrar para ir para a cama com alguém. . Sim. . .Estás a gozar não!? – respondeu Milene levando a mão à cintura. as luzes da avenida ofuscaram-lhe os olhos e trouxeram igualmente o ar que há muito ela havia deixado de respirar enquanto esteve metida naquele bairro tão degradado. não penses que somos felizes por termos cinco homens por noite e pouco mais de quinhentos euros de manhã. Salva e pronta a regressar para uma casa. e enquanto se afastava dela e lhe observava os últimos traços físicos. a escola e esquece isto! Esquece isto porque isto é uma merda… As palavras de Milene permaneceram-lhe nos ouvidos durante largos minutos.Não – ela voltou a responder.Eu tenho que ir – interferiu Sara ao perceber que já estava ali a mais. onde. não a Madre Teresa de Calcutá. Sara deu-se por vencida e abandonou aquela rua semi-deserta completamente coberta pelo casaco que fez questão de levar consigo. – Achas que vou abrir as pernas de graça para qualquer um que me apareça à frente? Eu sou puta. – Já ouvi chamarem-lhes muitas coisas.Já se está a gabar só porque é a que cobra mais caro – resmungou Arlete enfiando uma pastilha elástica na boca. – Para quê que querias saber quantos clientes tínhamos por dia e quanto lhes cobrávamos? . nome inscrito no colar que trazia no pescoço. – Eu sou a estrela do bairro.Queres boleia? A voz grossa vinda do interior de um carro parado a poucos metros do passeio foi o impulso que Sara precisou para se voltar para trás e encarar o rosto daquele homem de 62 . . . .Excelentíssimos… – riu-se a prostituta mais velha. .Por nada – respondeu a jovem compondo os cabelos.Não – respondeu ela desviando-se de um dos inúmeros traficantes. . Aproveita a tua juventude.E não é verdade?! Olhem bem para mim – disse Milene girando sobre os pés e mostrando todos os atributos que Deus lhe ofereceu ao longo dos seus vinte e seis anos de vida. apesar de não se sentir muito bem-vinda. Minutos depois. rapariga! Vai para casa porque este não é o lugar mais indicado para ti. . – Lá porque estamos para aqui a rir e a contar piadas. minhas amigas… . triste e guardava na fachada dos prédios toda a decadência humana de pessoas que tinham perdido totalmente a vontade de viver.Então não tens pedalada para isto! Vai lá. Quem quiser tem que pagar e tem que pagar bem porque não ando aí a fazer favores a ninguém. mas excelentíssimos!? Essa é nova cá no bairro.Nem tudo o que reluz é ouro – concluiu Milene evidenciando no rosto os anos de uma das profissões mais ingratas do mundo. Chamava-se Arlete.E vocês cobram para irem para a cama com eles? – perguntou Sara tentando ignorar as risadas que ecoaram por toda a rua..Não me digas que estás a pensar em juntar-te aqui ao clube VIP!? . pensou.Queres trabalhar para mim? . Era um lugar sujo. – Queres coca? . sempre tinha algum conforto e segurança.Espera – chamou Arlete.

. a portaria abriu-se ruidosamente. . No fundo. . essa foi a questão que durante vários minutos rondou a cabeça de Sara enquanto ela se tentava decidir e tentava igualmente fugir à forte ventania produzida pela noite. ela voltou-se para trás e correspondeu ao aceno do professor com a clara certeza que estaria para muito breve um novo encontro dos dois. o virar do rosto e a sensação de que não estaria a fazer nada de mal se aceitasse uma boleia de um perfeito desconhecido. . .Assim que puder eu ligo – respondeu Sara encontrando no cartão a deixa perfeita para abandonar o carro de Paulo e atravessar a rua em direcção ao prédio onde morava.Para casa.Vim visitar uma amiga – mentiu ela. 63 . . Nessa altura.Porquê?! O que é que tem? . rasgou-lhe um olhar assustado e correspondeu-lhe ao sorriso.Claro – respondeu ele apressando-se a encontrar um cartão no porta-luvas.Está bem. – Estás entregue. mas talvez tenha sido esse facto que mais a fascinou naquele senhor de meia-idade que em muito lhe fazia lembrar o seu professor de Química. Sara sentiu um calor percorrer-lhe as pernas.Obrigada. cordial e seguro do que dizia. .Posso saber o que fazes sozinha a essas horas da noite? .meia-idade.E onde é que moras? . obrigada – respondeu ela. – Diz-me! Para onde queres que te leve? .Parque das Nações. . e as mãos que fez questão de manter sempre apoiadas sobre o colo. .Nesta zona?! . já deu para reparar.Estás com frio. – Toma! Tens aqui o meu número de telefone e também da universidade onde dou aulas. . – Meu nome é Paulo – ele disse.Nada – respondeu Paulo enfiando a chave na ignição do carro.Posso voltar a vê-lo – saltou essa pergunta dos lábios de Sara enquanto se desfazia do cinto de segurança. . Porque é que não entras? Entrar ou não entrar. fizeram com que ela retirasse uma das mãos do bolso e alcançasse a porta do carro sem pensar nas consequências daquele acto no mínimo irreflectido. Mais tarde. barba aparada e um sorriso desenhado nos lábios. Sara. . Sim.Olá! Sara. Mas enquanto o ouvia falar sobre assuntos perfeitamente triviais para duas pessoas que mal se conheciam e que tinham uma diferença abismal de idades. – Não. divorciado e pai de duas filhas com a mesma idade de Sara. facto que fez questão de salientar durante a condução pelas ruas da cidade. devidamente instalada no banco da frente. Paulo Figueira tinha quarenta e cinco anos. ele era velho demais para si. De facto. bastante educado. era professor universitário. Mas os olhares esguios.Podes ligar quando quiseres. começaram a suar desalmadamente. até parecia ser boa pessoa.Muito prazer.

E nem eu quero que sejas esse tal. . – Dá-me só mais algum tempo … – pediu ela. – Daniel. . . o que foi óptimo porque assim não tive que dar muitas desculpas para sair de casa – riram-se. muito pelo contrário. . . Liberdade foi o que Madalena sentiu quando alcançou os portões do jardim e caminhou apressada em direcção ao contentor de lixo mais próximo.O telefonema de Sérgio tomou Madalena de assalto enquanto ela terminava de arrumar a cozinha e retirava do congelador a carne que iria assar no dia seguinte.E quando é que vamos deixar de nos encontrar às escondidas dentro do meu carro? .Sérgio… .Hã…!? . – A surpresa é claro. deitou nele um saco minúsculo e correu em direcção ao carro da única pessoa que a poderia levar à rua àquela hora.Então?! O que é que te está a impedir de me deixares entrar na tua vida? Madalena optou pelo silêncio como forma de resposta.Pensei que não nos fossemos ver hoje. mas depois voltou a reerguer o rosto em direcção a Sérgio. .Eu também morri de saudades tuas – respondeu Sérgio beijando-a no interior do carro. .Tu nunca me deixas triste. 64 . – Mas a Sara não sei. enfiado no carro e à sua espera. – Ouviste? .Adorei – respondeu ela voltando a sugar-lhe os lábios. – Pelo menos até a minha filha voltar para casa e as coisas regressarem à normalidade. Lena – afirmou ele acariciando-lhe a face enquanto os seus olhos mergulhavam nos dela. Mais tarde. tu tinhasme deixado entrar para conhecer o teu filho e estaríamos agora os três sentados no sofá a ver televisão ou a jogar Playstation.Está bem – respondeu ele mostrando-se muito pouco interessado naquela tarefa tão rotineira. .Nós não nos estamos a encontrar às escondidas.Eu não quero me esconder. juro que te apresento aos meus filhos e vamos ficar os quatro sentados no sofá a ver televisão.Vou pôr o lixo lá fora.Tens a certeza?! Se não tivéssemos nada a esconder. vou pôr o lixo lá fora – exclamou ela passando pelo corredor como um foguete. .O Daniel está bem! Estava agarrado à Playstation dele. não sei. mas esquece esse assunto – pediu Sérgio voltando a encontrar-lhe os lábios.Deve estar bem com o pai. . eu teria tocado à tua porta. – Não vim aqui para te deixar triste.É – respondeu Madalena não muito convicta disso. Depois disso. e como ele morava aqui ao pé. . .Eu sei! Mas bem. . Mas nem o frio arrepiante que se fazia sentir lá fora conseguiu demovê-la da ideia de aceitar o convite do fotógrafo quando soube que ele se encontrava a poucos metros da sua casa. . – Mas eu queria que ela estivesse aqui comigo. – Que saudades – confessou ela conseguindo finalmente enterrar-se nos braços dele.Os teus filhos? Como é que estão? .É que eu tive que deixar uns rolos na casa de um amigo. – Lembras-te daquilo que te disse no outro dia? Que não quero ser o tal que só vês quando tens algum tempo na tua agenda? . resolvi fazer-te uma surpresa. Há pelo menos quatro dias que não sei nada dela.

o professor universitário que 65 . De facto. Trazia também um à vontade e um carisma difícil de explicar aos olhos de uma adolescente de quinze anos cujo maior desejo era continuar a ouvi-lo e perceber o que é que ele tinha de tão especial para a fascinar. conciso e bastante sedutor. Telefonar a um homem que tinha idade para ser seu pai e tentar marcar um encontro com ele. . na sua maioria turistas. Ao sabor de um delicioso sumo de pêra. onde reinava a boa disposição dos clientes.Então se quiseres posso emprestar-te alguns livros que tenho lá em casa.Então vou pedir dois cafés para nós.Por mim tudo bem – disse ela tentando acalmar a voz trémula. Numa dessas vezes em que pensou nele. os dois personagens. . – Olá! Espero não me ter demorado muito – disse ele.Então peço um sumo. .Pode. uma coisa que adorava fazer quase todas as horas do dia e do qual não parava de pensar especialmente quando se lembrava de Paulo Figueira.Já pediste alguma coisa? . Sara recusou-se terminantemente a voltar dizendo que se encontrava bastante feliz a viver com o pai. e uma brisa de final de Verão que em tudo embalou os pensamentos dela enquanto esperava impacientemente pela sua companhia. . . aquele era o seu pequeno vício. e tudo porque encontrava sempre coisas mais interessantes para fazer. que nada tinham em comum para além de serem dois seres humanos.Havia pelo menos uma semana que Sara não colocava os pés na escola.Marcamos um outro encontro e eu trago-tos! . – Podemos combinar um café para amanhã ao final da tarde – foi a resposta que obteve no outro lado da linha.Iria adorar. Paulo era um excelente conversador e demonstrava toda a sua inteligência através de um discurso claro.…eu não bebo café – confessou ela tentando acalmar as mãos nervosas ao colocá-las por debaixo da mesa. imediatamente após se ter masturbado pela terceira vez consecutiva naquela tarde. . apesar das inúmeras tentativas que Madalena efectuou para trazer a filha de volta a casa. Dez minutos mais tarde essa companhia chegou trajada com um elegante fato. Na semana seguinte. .Gosto – respondeu ela.Não – respondeu Sara esboçando um sorriso quando Paulo se sentou à sua frente. . dormir até quando quisesse. Mas a verdade é que o verdadeiro motivo da sua recusa prendia-se única e exclusivamente com Paulo Figueira. – Eu também cheguei quase agora. conversaram durante largas horas e esqueceram-se de tudo o resto que os rodeava. Telefonar. . como passear pelas ruas da cidade sem se importar com as choras de chegar a casa. . resolveu fazer algo há que muito se tinha predisposto. comer ou não as refeições e continuar a assistir a filmes pornográficos quase todos tirados da Internet.Está bem – concordou Sara deixando-se encantar pelo sorriso que Paulo lhe lançou. – Aonde?! A faculdade de Paulo ficava no Alto da Ajuda e foi por isso que Sara concordou encontrarse com ele numa pequena esplanada perto de Algés. Pode ser? . – Gostas de ler? – perguntou Paulo no meio da conversa. os mesmos cabelos grisalhos e a barba aparada.Não. o professor universitário que lhe ofereceu um boleia dois dias antes.

Talvez fossem todas essas coisas. Provavelmente ninguém compreenderia as razões que a faziam suspirar por um homem de quarenta e cinco anos quando deveria interessar-se somente por rapazes da sua idade. O hálito de Paulo sabia a menta e as mãos não tardaram a percorrer as costas de Sara num movimento lento e contínuo em direcção às pernas. . . . café ou chá. Depois disso. Ela tremia. . Seria apenas uma fixação? Uma cisma? Um desejo? Talvez. De resto.O que tiveres para me oferecer.Tenho sumo. seguiu-se uma conversa interessante sobre novos escritores contemporâneos.Eu não me interesso por rapazes da minha idade. e a outra verdade é que os seus intuitos saíram na perfeição quando Paulo elogiou o sabor e a temperatura.Não te preocupes! Já vi coisas piores.Então eu vou fazer – respondeu Sara abandonando a sala sob o olhar atento de Paulo.Não – respondeu Sara voltando a sentir o mesmo arrepio quando Paulo lhe encontrou os dedos e entrelaçou a mão neles.conheceu por um mero acaso. mas que agora não se imaginava a viver sem ele. . Completamente despida. Na verdade ninguém diria que àquela tinha sido a primeira vez que se atrevera a fazer um chá.Pois devias! És uma rapariga muito bonita. . . . seguiu-se um olhar absolutamente esmagador que só culminou com um novo beijo e a loucura de Sara em permitir que um homem de quarenta e cinco anos a tocasse como nenhum outro homem a havia tocado até então. – Não repares na desarrumação! O meu pai é mesmo assim.Gostas de homens mais velhos? . E não. . – Entra – disse ela deixando que ele invadisse o corredor.Quão mais velhos!? . .Não?! . .Claro – riram-se os dois enquanto chegavam à sala.Não sei. .…não te achas bonita? – foi a surpresa de Paulo quando Sara lhe falou sobre as suas inseguranças relativamente à sua aparência física. os telefonemas quase diários e troca de algumas confidências apenas fizeram Sara sonhar com um possível relacionamento entre os dois.Aceitava um chá. o prazer da leitura e a certeza de que as horas tinham deixado de passar para os dois. Mas a verdade é que o fez.Não – respondeu ela arrepiando-se quando ele lhe tocou suavemente na mão. ela entregou-lhe a única coisa 66 . O chá foi servido em poucos minutos num pequeno tabuleiro e em duas chávenas de porcelana que Sara fez questão de escolher nos armários da cozinha. Sonhou também fazer amor com ele embora tivesse a plena consciência que a diferença de idades que os separavam iam muito além de uma mera faixa etária.Mais ou menos. mas a verdade é que se voltasse para a casa da mãe jamais teria a chance de voltar a encontrar-se com Paulo e muito menos de levá-lo ao apartamento vazio do pai. – Fico contente por saber isso – disse ele.Da minha idade? A resposta foi dada com um aceno positivo. queres beber alguma coisa? . Não te esqueças que também moro sozinho. . – Bem. Depois disso. Aposto que todos os rapazes lá da tua escola devem correr atrás de ti. ele pôde perceber isso quando a deitou sobre o sofá e lhe afagou os cabelos lisos.

É um facto! Uma realidade! A Sara está quase a chumbar por faltas e tu estás pouco te importando com isso. mas não custa nada ouvir o que a tua mãe tem para dizer. . ausente e sem as mínimas condições morais para tomar conta dos filhos. Mas vendo bem. Aquela seria a última vez que iria pisar a casa do ex.Eu sei. é que a Sara está prestes a ultrapassar o limite de faltas injustificadas do primeiro período e a culpa é tua.Não.O que eu estou a dizer Jorge. Diz que precisa falar connosco.Sabes o que é isto!? . Madalena percebeu que já não lhe restava outra alternativa a não ser arrancar a filha das garras do pai. . . e de uma conversa com directora de turma.Hei – imperou Jorge não gostando nem um pouco da ironia. inteiramente tua – vociferou Madalena apontando-lhe o dedo. – Ou devo dizer antes. A sua virgindade. . sabias!? .Tem calma! Olha os vizinhos aí do lado – disse ele puxando-a para o interior do seu apartamento. . marido. Era também sua por permitir a loucura da filha em ir morar com o pai. . especialmente de Sara. Jorge sempre fora um pai irresponsável. da tua companheira de quarto? .Aonde é que está a Sara? 67 . Após a leitura de uma carta escolar que dava conta das sucessivas faltas de Sara às aulas.preciosa que há muito sonhava entregar a alguém. .Vieste cedo – disse Jorge deparando-se com a figura de Madalena especada sobre o patamar de entrada. a tua mãe ligou-me hoje lá para o escritório. a culpa não era só dele. – Queres o quê? Que toda a gente oiça as tuas histerias? .Não são histerias. . eu… . eu não quero voltar para casa! Eu quero ficar aqui.Este livro não é para a vossa idade.O que é que estás para aí a dizer? .O quê? . foi o que Madalena decidiu durante a sua condução pelas ruas da cidade.Pai. O que é que aconteceu contigo quando nasceste.E nem devias! Olha. .Hã… foi uma amiga que mo emprestou – respondeu Sara apressando-se a arrancar o livro das mãos do pai.Uma carta da escola da tua filha… – respondeu Madalena atirando-lhe o envelope ao peito.Eu nem sequer sabia que ela andava a faltar às aulas. hã? Será que a tua mãe te atirou contra a parede? . – Tem calma! Não venhas ofender-me aqui dentro da minha própria casa. . – Tu és ainda mais demente. Onze Minutos era o nome da obra. não é?! Além de que parecia irritada.Porquê? Não a tens levado à escola? .Ainda não o li. – De quem é este livro? – perguntou-lhe o pai quando descobriu um exemplar do escritor Paulo Coelho sobre a mesa da sala.Meu Deus – exclamou Madalena soltando uma gargalhada seca a fim de acalmar os nervos que se apossaram de si. . mais mentecapto e mais irresponsável do que eu pensava.

– Olá… .Sara. doze a Matemática. – Não vais dizer nada em tua defesa? .O que se passa é que a tua directora de turma me ligou lá para casa a dizer que estás em perigo de chumbar o ano – respondeu a mãe atirando-lhe a carta para as mãos.À Baixa – mentiu Sara despindo o seu casaco de ganga. .Sara. . – Aonde é que te meteste? . oito a Química e cinco a Geometria que ela conseguiu arrecadar em apenas dois meses.Pronto! Vai começar… . – Lê! Lê e vê qual foi o resultado das tuas brincadeiras. deixaste ela sair de casa sozinha? .Começa já explicar – exclamou Madalena levantando-se do sofá.Não sei.disse Sara surpreendendo-se com a presença da mãe ali. 68 . tu não brinques comigo! .Saiu para onde? .O meu maior erro foi ter deixado a Sara vir morar contigo e está-me a cheirar que ainda me vou arrepender muito mais desse erro daqui para a frente. – A tua mãe tem razão! Não é certo andares a faltar às aulas porque essa é a tua única obrigação para connosco. – Saiu de manhã para fazer umas compras. nós falamos com ela.Fui passear.Não digas que eu estou chateada com ela – interrompeu Madalena voltando-se para o ex. .Eu só quero que me apoies uma vez na vida e não fujas com o rabo à seringa apenas para não ser o mau da fita. já disse – respondeu ele abrindo os braços. – Nós estamos chateados com ela. .E tu acreditaste?! Ou melhor.Querias o quê? Que lhe prendesse o pé à mesa da sala? .Sara – interrompeu Jorge. marido. . – Já tinha dito ao pai! Lembraste pai?! . . Durante horas permaneceram sentados em diferentes sofás sem trocar uma palavra. ela saiu. nem Madalena e nem Jorge tiveram forças para esboçar qualquer movimento corporal. – A Sara vai voltar comigo e ponto final! Aqui ela não fica nem mais um dia. É para isso que eu e a tua mãe andamos a trabalhar. .Eu não tenho nada para dizer. o mínimo que deves fazer é ir à escola e tirar boas notas. ou pelo menos também tu devias estar se te preocupasses minimamente com a tua filha. A expressão de Sara não se alterou nem um pouco quando leu as informações expostas naquela carta e talvez tenha sido esse facto que mais tenha irritado Madalena.Não sei.Não existe nada para falar – imperou Madalena gesticulando furiosamente os braços. .. um olhar e desejando apenas que a chegada da filha lhes trouxesse respostas paras as dezoito faltas a Português. . .Vamos esperar ela voltar da rua! Quando ela vier. . Se te damos tudo. ou não?! Para te dar a ti e ao Daniel um futuro melhor e tu estás a desperdiçar tudo isso. mas já nessa altura. A fechadura sofreu uma ligeira pressão quando faltavam poucos minutos para as dezoito horas.O que é que se passa? – perguntou Sara interrompendo a discussão dos pais. a tua mãe está chateada contigo e tem boas razões para isso.Aonde? .

– Tu achas que é só pedires desculpas e está tudo resolvido? . filha.Pai. .Vai arrumar as tuas coisas ao quarto! Voltas hoje comigo para casa.Desculpem lá – repetiu Madalena num tom sarcástico. – Não deixes que ela me leve daqui! Não deixes! Será que não vês que ela está a fazer isso de propósito para nos separar? Ela não gosta de ti e também não quer que eu goste de ti. Trabalho até tarde.Sinceramente não sei o que é que vieste cá fazer – disse a jovem desviando-se bruscamente de Madalena.Já pedi desculpas.Pai – suplicou Sara alcançando os braços do progenitor a fim de encontrar um aliado contra a mãe. mulher.Se gostasses não me deixavas ir com a mãe quando sabes muito bem que nós nunca nos demos bem e que eu a odeio de morte.Sara… . esbaforida.Eu acho que a tua mãe tem razão – afirmou Jorge para grande desespero da filha que sem outro remédio viu-se obrigada a afastar-se dele e a deixar duas enormes lágrimas caíremlhe dos olhos. . Mas tu só queres saber de ti. Eu adoro ter-te cá em casa. . Sara! Com ela vais ficar melhor. . é isso?! . – Ouviste. – Tu vais voltar lá para casa e ponto final. 69 . não é?! Só queres trazer as tuas namoradas cá para casa e não ter ninguém que te atrapalhe… . não vês?! .E o que é que queres que eu faça?! Que me ajoelhe aos teus pés e te peça perdão? .Sara.Pai… . não é! Tinhas que aparecer para dar o teu show de mãe dedicada e extremosa. . pai?! Nunca mais falo contigo! . ..k – respondeu ela largando os braços.O quê – foi a reacção intempestiva de Sara.Eu só vim chamar-te à razão! Dizer que está errado aquilo que fizeste e que não estás autorizada a repeti-lo! Foi para isso que eu vim. – Desculpem lá! .Tu queres que eu me vá embora.Eu não vou.Isso mesmo que ouviste e nem adianta espernear porque eu já conversei com o teu pai e juntos chegámos a um acordo – respondeu Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou.É claro que não. – Eu não tenho … como é que hei-de dizer…! Eu não tenho condições para te ter cá em casa. .Sara… . . eu nunca mais falo contigo.Queres que me vá embora. .O. não fales assim com a tua mãe – interferiu Jorge saindo em defesa da ex. .…é melhor ires com a tua mãe. já disse para não brincares comigo! . . .Nunca mais voltes a dizer uma barbaridade dessas. . se tu me deixares ir com a mãe.Queres sim – gritou Sara.Sara. É tudo um plano. mas o problema é que não tenho tempo para cuidar de ti como a tua mãe tem. tenho sempre encontros com clientes de última hora e até já cheguei a desmarcar várias viagens de trabalho apenas para não te deixar sozinha. – Não bastava teres ligado? Mas não. – Tu não gostas de mim.Já disse que… . Silêncio foi a resposta de Jorge.

e a sua neta. Não depois de ter prometido que a levaria a morar consigo caso a relação dos dois resultasse ou de ter jurado enfrentar os seus pais apenas para ficar com ela.Bem-vindo ao clube – respondeu Madalena largando os braços. – Pai! Ajudas-me a trazer as malas que estão no carro? – pediu Madalena. Sara aproximou-se do carro da mãe. . mulher livre para enfiar a mochila da filha no banco de trás. Jorge traiu-a. Depois disso. – Não querem que vos leve? – perguntou ele. Mas a verdade é que nada disso pareceu ter qualquer fundamento quando Sara se atreveu a digitar-lhe o número de telemóvel. foi o próprio que se encarregou de tal tarefa. Traiu-a diante da sua mãe e por isso ela nunca mais o iria perdoar. Até que enfim chegaram.Precisas impor-lhe disciplina! Pelo menos. O número que marcou não está atribuído. De resto. Não posso voltar para a casa. veio um sabor amargo a derrota e a engano que a levou às lágrimas. no meu tempo era assim que se educavam as crianças. – Está cada vez pior e estes dias na casa do pai só a pioraram ainda mais. Não. Claro. e por ela entraram a sua filha. Sara tentou encontrar várias soluções para o grande sarilho em que estava metida. Meia hora mais tarde. . foi a resposta que obteve após oito tentativas consecutivas. deixando a ex. Não depois de tudo aquilo. .Ela odeia-me – murmurou Jorge. Sara. Madalena. Ele vai-me ajudar. Vou ligar ao Paulo. . por ter conseguido encontrar outra solução.Claro! E tu? – perguntou Afonso voltando-se para a neta. resoluta. Sim. repetiu várias vezes a si própria enquanto tentava convencer-se que tudo aquilo não passava de um pesadelo. foram as palavras de Afonso Soares quando a porta se abriu. Talvez fosse ele a ajuda que tanto necessitava e o anjo da guarda que desde o primeiro momento pareceu ser na sua vida. não após de tantas juras amor que lhe segredou aos ouvidos ou depois de lhe ter entregado a sua virgindade. – Vai arrumar as tuas coisas ao quarto – disse Madalena interrompendo os olhares de ódio que a filha lançou ao pai e deixando-a sair da sala completamente esbaforida. – Achas bem aquilo que fizeste? Achas bem andar a faltar às aulas? .Não me chateies – respondeu Sara para grande surpresa do avô. era tudo o que pensava enquanto roía as unhas e tentava encontrar uma maneira miraculosa de se livrar das garras da mãe. alcançou o corrimão das escadas e subiu em direcção ao quarto onde foi audível o estrondo violento de uma porta a fechar. . mas que a tinha traído no momento em que mais precisava dela. fez-se luz.Achas que sou uma péssima mãe. não é!? 70 . . O número já não existe.A miúda está louca. .As palavras do pai soaram-lhe como uma bomba aos ouvidos e por vários segundos foi inevitável para Sara não derramar as últimas lágrimas que lhe restavam de uma relação que pensava ser perfeita. Mais tarde. – Nós vamos bem sozinhas. Não. no mais profundo silêncio. .Não – respondeu Madalena.Sinceramente não sei o que fazer com ela – suspirou Madalena levando as mãos à cabeça. Paulo não podia ter desaparecido sem deixar rastro. Enquanto passeava pelo quarto. O número já não existe. enquanto no porta-bagagem foram-lhe colocadas as três malas que tinha levado para morar com pai.

E tu ainda nem viste nada – respondeu Sérgio entregando-lhe a taça de champanhe após um longo beijo. Não sabia também se essa vontade descontrolada de se tocar iria passar com o tempo. mas ainda assim não custava nada tentar ter um pouco mais de espaço na vida de Madalena quando a sua única vontade era tê-la só para si. Na verdade. e tudo para que ela pudesse passar um maravilhoso serão ao lado de Sérgio. Mas por outro lado. embora Sérgio muitas vezes pedisse para que se vissem todos os dias. boa comida e outras coisas que ela corou só de o ouvir falar ao telefone. enquanto se encontrava sentada sobre o alpendre da janela do quarto. primava pelo amor. Mas a Sara precisa de limites. Com os problemas de Sara a atormentarem-lhe os pensamentos. prolongar-se durante anos e anos.. enquanto voltava para casa no carro da mãe e especialmente à noite quando se trancava no quarto e utilizava o computador para satisfazer a sua curiosidade? De facto. Madalena conseguiu convencer o seu pai a buscar os netos à escola e ficar com eles durante a noite. – Pontual como sempre – disse ele abrindo a porta com um largo sorriso e com uma garrafa de champanhe nas mãos. odiava-se e repetia a si própria que nunca mais voltaria a confiar em quem quer que fosse. Estaria ela doente por passar a vida a pensar em sexo ainda que fosse na escola. provavelmente repleto de champanhe. Sérgio era um homem compreensivo. Depois disso. – …garanto-te a minha tarefa era bem menos complicada.Bem. – Entra! 71 . especialmente num homem. o falso professor universitário que a única coisa que quis foi retirar-lhe a virgindade como se de um prémio se tratasse.Se ao menos aquele imprestável do Jorge servisse para alguma coisa – disse Madalena limpando as tímidas lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. vamos lá buscar as malas ao carro! As semanas foram passando. Chorava. Precisava fazer sexo. . não é isso que está em causa. o desejo sexual experimentado com Paulo continuava a dominar-lhe a mente. Nunca forçou a sua entrada na vida de Madalena e era por isso que ela lhe era tão grata. assim como a sua vontade em devorar toda a espécie de pornografia que encontrava na Internet. Fosse com quem fosse. . Impossível. de ter medo de alguém e há muito tempo que ela já não tem medo de ti. . a temperatura arrefecendo.É claro que não – respondeu Afonso segurando os ombros da filha. ele sabia. Por sorte. pelo companheirismo e pela paixão que a cada semana crescia ainda mais nos seus corações.Bem! Que recepção… . os dias tornando-se mais curtos e tristonhos e Sara percebendo que nunca mais voltaria a ter notícias de Paulo Figueira. – Tu és uma boa mãe. Seria um jantar romântico no apartamento dele. Mas de uma coisa tinha certeza. Ele adorava-a. mesmo tendo sido mantida em segredo. a relação de ambos. ou se pelo contrário. não sabia. ela perdia-se em justificações sem fundamento para não se sentir tão ingénua e usada. E sim. O dia do seu aniversário era a ocasião ideal. Por vezes. Sexta-feira foi o dia do aniversário do Sérgio e por isso Madalena estava excitadíssima. a rolha saltou para o tecto e Madalena bateu palmas maravilhada. de facto sobrava pouco tempo para se dedicar a ele. Por sorte e após muito esforço. ela adorava-o e não havia nada melhor do que terem-se um ao outro para se confortarem com palavras carinhosas repletas de amor.

sentir a humidade da sua boca. mas também os lábios de Sérgio quando dançou com ele a mesma música que ambos tinham dançado no início da sua relação. Degustou não só a refeição. .Podes deixar – respondeu ela mergulhando-lhe nos lábios e também naquela sensação tão fantástica que era tê-lo só para si. e depois.Fico muito contente por ouvir isso – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos soltos. Mas a verdade é que naquela chuvosa noite de sexta-feira. combinamos um jantar ou um almoço em minha casa. Uma relação que tinha todos os ingredientes para ser apenas um amor de Verão. . os dois amantes deitaram-se no sofá e retiraram as respectivas roupas enquanto a música que os embalou na dança continuou a tocar durante minutos a fio. .O nosso jantar já está pronto! Só falta tirar do forno. mas que se prolongou até o Outono e tinha esperanças de ultrapassar o Inverno. os braços fortes à volta da sua cintura e o corpo completamente colado ao seu. pela conversa amena e também pelas velas que Sérgio fez questão de acender sobre a mesa enquanto Madalena se ria às gargalhadas e lhe confessava não se lembrar da última vez que degustara uma refeição às escuras.Achas que vais conseguir? . .Os dotes que eu conheço são outros – respondeu ela enterrando-se nos lábios dele enquanto se deixava levar em direcção à sala. . Depois disso. Aliás. .Por ti sou capaz de ultrapassar tudo.Está bom? . Tê-lo perto.Foste tu que cozinhaste? – perguntou Madalena. . .E tu queres que eu fuja? . – Estive a pensar… . . ela degustou.Não demores a conseguir esse sinal verde.Ultrapassar a prova de fogo que vai ser conhecer as minhas três pestinhas!? . .Claro ou o que é que pensas?! Nunca te falei sobre os meus dotes culinários? . .Está óptimo. .Aleluia – riram-se os dois.Primeiro vou falar com eles. 72 .Agora que as coisas estão um pouco mais calmas lá em casa.…em levar-te a conhecer o meu pai e os meus filhos – respondeu ela após um pequeno suspense.E quando é que vou ter a honra de conhecer as tuas três pestinhas? – perguntou Sérgio colocando-lhe os cabelos atrás dos ombros. que a minha filha já não anda a faltar às aulas. ..Claro que não. um pouco mais em nós. quando conseguir um sinal verde.Veremos – respondeu Madalena não resistindo a desabotoar-lhe os primeiros botões da camisa. .Obrigada – disse ela saboreando o primeiro gole da bebida. Quero que fiques e me ajudes a enfrentá-los também.O quê? – perguntou Sérgio enterrando-se no pescoço dela. ouviste?! . eu acho que posso começar a pensar um pouco mais em mim. divertida. O jantar primou pela simplicidade. Submersos.O quê? . o mundo parou e não foram precisas mais palavras para que ela entendesse tudo o que ele queria fazer naquele momento. – Veremos se não vais fugir a sete pés quando os vires enfileirados à frente do sofá.

Acho que se atrasou a sair do estúdio e apanhou algum trânsito pelo caminho. . já é um bom caminho para nos mantermos optimistas. explicando-lhe primeiro como se conheceram. 73 . – O moçoilo nunca mais chega – resmungou Afonso lançando os olhos ao seu relógio de pulso enquanto a filha terminava de temperar a salada a uma velocidade fantasmagórica. Apareceu como um anjo caído do céu e era ele a única razão para que Madalena estivesse enfiada naquela cozinha a ultimar os preparativos do jantar. Hoje não consegui parar de pensar noutra coisa a não ser na conversa com os teus filhos. Contudo. .Contei! . nem sabes o peso que me tiraste dos ombros.Optimismo é o que não me falta – respondeu Sérgio arrancando-lhe uma leve gargalhada. Uma semana foi o tempo que Madalena precisou para conversar com o pai a respeito de Sérgio. especialmente por causa da Sara. .Contaste-lhes sobre nós? . força. foram as palavras de encorajamento que ditou a Madalena e que a deixaram muito mais aliviada.Ainda falta o meu – riram-se baixinho. o que ele tinha para a fazer tão feliz e os motivos que a faziam querer apostar numa relação mais séria e duradoira com o fotógrafo. .E eles? – perguntou Sérgio sem conseguir esconder o nervosismo. Se ele te faz feliz. . . apesar de ter ficado um pouco surpreso com todas aquelas revelações..Bem. Pensei que eles se fossem opor. Nada poderia dar errado para aquele que prometia ser o jantar mais importante da sua vida e também a única e derradeira oportunidade para que os filhos e o seu pai caíssem de amores por Sérgio e se deixassem encantar por ele.Ele ligou-me há pouco.Que bom! . O jantar foi marcado para quarta-feira. o que vendo bem. as compras foram feitas no supermercado mais próximo e a mesa da cozinha decorada com algumas flores que Madalena trouxera da sua floricultura. .Prometo que vou fazer tudo para ir.Óptimo – murmurou Madalena com um sorriso radiante. mas o meu pai ajudou-me a controlar os danos – respondeu Madalena ouvindo uma leve risada no outro lado da linha.Para a semana já podemos marcar o jantar. a reacção de Sara não foi nem um pouco agradável e a de Daniel primou pelo embaraço de não saber se aquela era uma boa notícia ou não.Está tudo certo – disse Madalena quando falou com Sérgio ao telefone no final da noite. . Achas que vais poder vir na próxima quartafeira? . . Mas Sérgio apareceu. E não.Este foi sem dúvida o melhor aniversário que já tive – confessou ele encarando-lhe o rosto após a ter possuído sem quaisquer restrições.Fizeram uma cara como se tivessem acabado de ser atropelados por um camião.Também não estão a favor – confessou ela. E Afonso. – Mas pelo menos não se negaram a conhecer-te. O mundo dava muitas voltas. ficar contra nós ou assim… . pregava inúmeras partidas e reservava as maiores surpresas para uma mulher que havia perdido totalmente a esperança de amar e ser amada em proporções iguais. não viu outro remédio a não ser apoiá-la. ao contrário do que esperava.

marido e pai dos teus filhos.Bem… acho que não me esqueci de nada! Pratos. segundo as palavras de Madalena enquanto o empurrava pela costas e o fazia ganhar forças para enfrentar a maior prova de fogo que alguma vez havia enfrentado em toda a sua vida. seguiu-se a caminhada em direcção à cozinha onde se encontravam os três pestinhas da família. – Eu atendo – gritou ela apressando-se pelo corredor quando a campainha tocou. . . o Jorge por acaso sabe que estás a namorar com outro homem? .Porque é que ele haveria de saber?! . aliás. – Estás todo carregado – riu-se Madalena enquanto repartia com Sérgio o peso dos presentes. Mais tarde. Ao vê-los. As suas mãos estavam trémulas. comportate! Não quero que fales do Jorge. Sérgio pensou seriamente em fugir. duas caixas de chocolate e uma garrafa de vinho comprada pelo caminho.Claro! O vinho – lembrou-se Madalena correndo em direcção ao frigorífico. . duas janelas amplas e também por três pessoas que nem sequer se aperceberam da chegada de Sérgio e Madalena. talheres. digo perfeito em todos os sentidos.Por pouco e não comprava o supermercado todo. . girou a maçaneta e encontrou o seu convidado especial carregado com um sorriso. a arroz e batatas fritas. para além do calor que o forno fazia questão de lançar naquela grandiosa habitação composta por inúmeras mobílias sofisticadas. mas a verdade é que ele estava disposto a fazer de tudo para que as pessoas mais importantes da vida de Madalena também gostassem de sim. tal como já disse. por favor! .Está bem. um ramo de rosas. . A cozinha cheirava bem. o coração bateu mais forte e as pernas permaneceram paralisadas sobre o alpendre da porta pedindo 74 . depois de um longo suspiro e de ter composto os cabelos soltos. Sara encontrava-se de olhos postos na televisão. – Comporta-te. copos.Olha lá. Cheirava a pato assado. O que será que eles iriam pensar de si? Iriam adorá-lo? Detestá-lo? Isso era uma incógnita até para os deuses lá de cima. Conhecer os filhos e o pai de uma namorada? Não. Mais tarde. – Por isso.. e quando digo perfeito.Obrigado – respondeu ele acedendo-lhe o pedido com alguma cautela e também com um aperto discreto na mão esquerda.O Jorge não tem mais nada a ver com a minha vida e nem tu devias estar a falar dele já que daqui a poucos minutos vais conhecer o meu novo namorado – afirmou Madalena guardando o azeite num dos armários da cozinha. está bem. emocionalmente inexperientes e sem qualquer bagagem familiar. aquilo nunca lhe tinha acontecido até porque todas as namoradas que teve durante os seus trinta e poucos anos de vida sempre foram solteiras. não quero que fales.Já não começa bem. que penses ou sequer que te lembres dele! Este jantar tem que ser perfeito. Daniel a jogar na sua playstation portátil e Afonso a espreitar o pato trinchado sobre a bancada. Sérgio pôde senti-las quando abriu o portão da casa de Madalena e se preparou para lhe conhecer o pai e os filhos. . pois as mãos começaram a suar.Pai – exclamou Madalena fulminando-o com os olhos.Entra! .Porque é o teu ex. guardanapos… . De facto. .Não te estás a esquecer do vinho? – interferiu Afonso encontrando um maço de cigarros no bolso das calças.

É. Queria saber tudo.É. sempre que podia.Pai – exclamou Madalena fulminando Afonso com os olhos. Um sonho de qualquer homem. . . e foi por isso que o ex. encabulado. . . o meu pai é um rapazinho de dezoito anos preso num corpo de sessenta e oito. Sérgio estava nervoso. . senhor Afonso – afirmou Sérgio largando os talheres sobre o prato. O jantar foi servido às nove horas em ponto.E ele trouxe presentes – interferiu Madalena empenhando duas caixas de chocolate e as flores trazidas pelo namorado. e as flores… . detalhes sobre a família e pequenas curiosidades como o facto de estar sempre rodeado de modelos profissionais.Eu é que gostaria de ter um espírito jovem igual ao seu. acredite! Fico contente que tenha aceitado jantar connosco.Não faz mal! Também adoro rosas.Olá Daniel – exclamou o fotógrafo estendendo-lhe a mão quando se aproximou da mesa. – O senhor Afonso Soares que já há muito te queria conhecer. Sérgio. .Olá – respondeu ela pensando que pelo menos a sua mãe tinha bom gosto.Não te cansas de fotografar mulheres bonitas? .Bem que eu gostaria de ter tido um trabalho igual ao teu quando tinha a tua idade. profissão. . .Eu é que agradeço o convite. por isso… .Obrigado! Bem. A conversa entre os três adultos prolongou-se por vários minutos deixando Daniel e Sara de fora. são! Confesso que queria trazer orquídeas. . . pelo menos alguém que sabe avaliar as minhas qualidades – riu-se o ex. – Pessoal – exclamou Madalena. .Os chocolates são para a Sara e para o Daniel – adiantou-se Sérgio tentando esconder o nervosismo que ainda estava a sentir. Analisaram-nos dos pés à cabeça e por momentos fizeram-no sentir como um verdadeiro extraterrestre vindo de um planeta distante.Olá – respondeu o jovem aceitando o cumprimento com alguma cautela. diga-se de passagem. mas ainda assim. – Sérgio – disse Madalena apressando-se a fazer as apresentações e a terminar-lhe com aquele calvário. – Os meus filhos! Daniel e Sara… . não ligues! Tal como já te tinha dito. e na mesa sentaram-se cinco pessoas no mais completo silêncio prontas a partilhar uma refeição cozinhada por Madalena. .E este é o meu pai… – afirmou Madalena alheia aos pensamentos da filha.qualquer tipo de socorro diante daquela situação tão constrangedora. . eu sei bem o que estavas a fazer. – O vinho é para o senhor Afonso. militar levando uma taça de vinho aos lábios. mas como não consegui encontrar e depois também já estava a ficar um pouco tarde. militar tentou acalmar o namorado da filha com perguntas leves e humoradas.São para mim – interrompeu Madalena não escondendo o seu sorriso de orelha a orelha. . senhor Afonso! .O prazer é todo meu. Sérgio volta-se para eles e sorria-lhes como se 75 . – É o meu trabalho. ela reparou.Por acaso não – riu-se Sérgio. .Muito prazer. . – Este é o Sérgio! As cabeças de Afonso.Lá isso é verdade – respondeu Afonso aceitando o aperto de mão por parte de Sérgio. não quis chegar mais atrasado do que cheguei.O que foi? Só estava a elogiar-lhe o trabalho. mas Afonso também. A idade. . Sara e Daniel viraram-se imediatamente em direcção àquele desconhecido que agora também iria fazer parte das suas vidas.Olá Sara.

Um sinal que Sara estava mais do que disposta a oferecer quando os seus olhos se cruzaram com os dele pela última vez naquela mesa repleta de alimentos. ela sorriu e o fotógrafo quase que desmaiou de susto. bebidas.Acidentes acontecem – interferiu Afonso sob o olhar assustado fotógrafo. – Mas amanhã tenho uma sessão bem cedo e queria dormir pelo menos oito horas para… enfim… ter mais disposição para fotografar.…estou – respondeu ele tentando ignorar os risinhos de Sara. foi essa a resposta que Sérgio se sentiu tentado a oferecer à namorada.Mas obrigado pelo jantar. e calores que a fizeram cometer uma das maiores loucuras da sua vida quando se atreveu a tirar o pé do sapato esquerdo e levá-lo em direcção as pernas de Sérgio que. . – Gostei muito deles – voltou ele a mentir. O que lhe teria passado pela cabeça para fazer uma coisa daquelas? O quê? A pergunta parecia não ter qualquer resposta e nem mesmo depois de ter sido levado à rua por Madalena.Nem acredito que deu tudo certo – disse Madalena enterrando-se nos braços de Sérgio. desculpem. calores que a acompanhavam desde há muito. – São duas crianças maravilhosas. Entendes. encontrava-se exactamente à sua frente. – Queria tanto que pudesses ficar mais tempo – disse ela encontrando-lhe a mão. não entendes!? .ainda estivesse à procura de algum sinal de aprovação.Porque é que não haveria de dar? 76 . .Eu também – mentiu Sérgio. Está tudo bem – disse Madalena levantando-se da cadeira onde estava sentada. mas também de luxúria e pecado. . Mas seria mesmo aquele o motivo para que se quisesse ir embora? Obviamente que não. Ao encontrar-lhe o sexo.E os meus filhos!? O que é que achaste deles? O Daniel parece ser um bom rapaz. derrubou o resto do vinho sobre a mesa e lançou um olhar esmagador à filha da sua namorada numa tentativa desesperada de encontrar justificações para aquele acto no mínimo leviano. Depois disso. . ela lhe desapareceu do pensamento. . vários calores começaram a subir-lhe pelas pernas e encontraramse nos seios e nas pontas dos dedos das mãos. Sujei a toalha toda. .Estás bem? – perguntou Madalena poisando-lhe a mão sobre o ombro. . sendo que quase todas elas se encontravam relacionadas com o trabalho.Claro! Claro que entendo. – Vou buscar um pano para não manchar a mesa. . Gostei muito. . nomeadamente quando descobriu o sexo e a pornografia na casa do pai.Não faz mal. – Agora já sei a quem puxaste. . Eu não sei o que é que me aconteceu. Eram calores estranhos.O que é que achaste do meu pai? . Contudo. Desculpas atrás de desculpas foi o que Sérgio inventou para se livrar daquele malfadado jantar. mas a tua filha Sara é uma maluca de todo o tamanho. por coincidência ou não. até porque a única coisa que ele não queria era continuar a olhar para a cara de Sara e lembrar-se da loucura que ela cometera à mesa quando o apanhou completamente desprevenido. ele arrastou a cadeira.Um senhor fantástico – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. – Desculpa! Aliás. E enquanto bebia um gole de sumo. após um pequeno período de reflexão achou melhor manter a sua opinião guardada a sete chaves não fosse ela estragar uma noite que apesar de tudo até foi especial.

quanto a isso não havia a menor dúvida.suspirou ele largando as travessas sujas no lava-loiça.Claro – respondeu Sérgio deixando-se beijar por ela. . aceitar um convite para almoçar no domingo foi irrecusável. Não devias estar a pensar nessas coisas. . . . . a prosperidade nos negócios da floricultura e o namorado mais lindo do mundo.E o que é que vocês me queriam contar? 77 . O que é que achas? A expressão embaraçada do namorado deixou Madalena apreensiva. Mas por sorte não aconteceu e eu até acho que eles gostaram de ti.Sara… . Os três dias que se seguiram foram vitais para que Sérgio se conseguisse convencer que o que acontecera à mesa com Sara não tinha sido mais do que um mal entendido e que não valia a pena levar em consideração as brincadeiras de uma menina de quinze anos.Não sei – respondeu Sérgio forçando um sorriso.Não te preocupes! Eu próprio vou contar-lhe assim que ela chegar à cozinha.Eu também acho que sim. enquanto Madalena atendia uma chamada telefónica da melhor amiga no corredor da casa.Então?! Não me vão contar? – riu-se Madalena. . . se os seus filhos e o seu pai adoraram Sérgio. ou melhor.Vou para o quarto. Ele amava-a. Sara aproximou-se de si na cozinha e perguntou-lhe aos ouvidos.Sei lá! Fiquei com medo que acontecesse alguma coisa. Se tinha dado tudo certo. – Não queres fazer sexo comigo? . mas para tê-la por inteiro teria que amar os seus filhos e fazer de tudo para se dar bem com eles. – Depois combinamos melhor – foi a resposta do fotógrafo. – Eu ligo. . a melhor amiga. o amor que sentia por Madalena era forte demais para que se deixasse levar por todas aquelas desconfianças sem sentido.Temos que começar a pensar num novo jantar. – Tu és uma criança. era o que ela mais queria. . mas nem por isso retirou o sorriso que ela fez questão de estampar no rosto. Os seus filhos. . chegou a essa conclusão quando no final do almoço. – Já estão a arrumar a loiça? – perguntou ela não imaginando sequer que tudo aquilo que tinha não passava de uma mera ilusão. Algo que realmente não deveria ter feito. .Ligas-me quando chegares a casa? . No seu rosto era visível uma felicidade extrema por ter tudo aquilo que sempre quis ter na sua vida.Eu não sou uma criança! Já tenho quinze anos e em Janeiro faço dezasseis.Não há nada para contar – foram as palavras da sua filha antes de desaparecer da cozinha.. E na verdade foram precisos apenas poucos minutos para que Madalena se conseguisse livrar da conversa ditada por Alice e entrar na habitação com um largo sorriso nos lábios. – Na verdade estávamos à tua espera para te dizer uma coisa… Ao perceber que o namorado da mãe estava realmente disposto a contar a verdade dos factos. num almoço para o próximo fim-de-semana.Mais ou menos – respondeu Sérgio lançando um olhar lancinante a Sara. .Mesmo assim! Para mim ainda és uma criança. De qualquer forma. então porque não promover uma maior aproximação entre eles? Na altura.O que é que deu nela? . Sara adiantou-se: . podes deixar. Por isso.Se não fizeres sexo comigo eu digo à minha mãe que tentaste estuprar-me – disse Sara.

Fico contente que tu e a Sara se estejam a dar tão bem.. Mas ainda assim a palavra sexo não lhe saiu da cabeça até o Natal. – Mas acredito que a partir de hoje nos vamos dar ainda melhor. Nada de especial! . a frase do fotógrafo não poderia ter sido mais acertada e tudo porque depois daquele malfadado domingo Sara nunca mais se atreveu a colocar-lhe propostas ordinárias aos ouvidos. 78 . De facto. .É – respondeu Sérgio. E já que Sérgio não queria ser a vítima então ela teria que arranjar outra.Hã… era uma coisa engraçada que tinha passado ali na televisão. mal o conseguia encarar de frente quando se cruzavam no corredor e esqueceu completamente as loucuras de ir para a cama com o namorado da mãe. Passou a respeitá-lo como futuro padrasto.

– Tu por aqui outra vez!? . esse cenário repetia-se todos os dias e não trazia nada de novo para as centenas de pessoas que habitavam o bairro do Intendente.Claro que me lembro – respondeu a prostituta levando mais uma vez o cigarro à boca.CAPÍTULO V Era a segunda vez que colocava os pés naquele local. – Será que podíamos conversar num outro sítio? – perguntou Sara após um longo período de meditação. Na verdade. Aquele realmente não era o lugar indicado para raparigas como Sara. mas ela continuava a lembrar-se perfeitamente do rosto da jovem por não ser muito comum adolescentes como ela pisarem aquele local. atravessou a rua e encontrou a sua presa. a mulher levou o cigarro à boca e enfiou o isqueiro na mala a tiracolo.Que tipo de trabalho? 79 . mas ainda assim. .O que é que queres? – questionou Milene rispidamente. só precisava satisfazê-la e nada mais.Eu não tenho nada para conversar contigo.Que isto não era lugar para miúdas como tu. Estou a trabalhar! . O que estaria à procura? O que fora fazer quando a avisou que tudo era melhor do que estar ali? Sem conseguir encontrar resposta às suas perguntas. A expressão séria que Milene fez questão de colocar no rosto não deixou sombra para dúvidas. . e era também a segunda vez que dava consigo a desviar-se de três toxicodependentes. – E tu? Lembraste daquilo que te disse? .Lembra-se de mim?! .O quê? . era ali que ela queria estar. um traficante à porta de um café e duas prostitutas de serviço completamente alheias ao tempo e ao espaço. inteligente. Talvez trouxesse para Sara. Era meio-dia.…falar sobre trabalho. rico ou proveniente de uma raça previamente estipulada. .Hã …olá – respondeu Sara abrindo um sorriso quando reconheceu a pessoa que a levara ali. E sim. uma jovem de dezasseis anos acabados de fazer que ainda continuava a ter sonhos eróticos todas as noites e que desejava experimentar a sensação de ter sexo com todo e qualquer homem que mostrasse minimamente interessado em nela. calmamente e sem quaisquer pressas. Na verdade. Tinham-se passado várias semanas. tinha faltado às aulas e estava no centro de um bairro degradado quando de longe uma mulher a avistou e percebeu que aquela não era realmente a primeira vez que tinha visto Sara ali. o Intendente era o local propício para encontrar alguém assim. Depois disso. . apesar de todos os riscos. . De facto.É só um minuto.Olá! . não precisando ele de ser bonito.

riu-se Milene nervosamente enquanto passeava pelo quarto. . tal como o tapete junto à cama.Sim – respondeu Sara voltando-se para ela.Estou. A pensão onde costumava alugar um quarto para se encontrar com os seus clientes foi o local escolhido por Milene para aquela conversa que prometia ser no mínimo interessante. Trabalhar como prostituta? Ela repetiu a pergunta enquanto se ria a bom rir e levava uma das mãos ao peito. Quero que me ajudes a… a trabalhar aqui! .Sim – respondeu a jovem largando a mochila no chão. Sara reparou.Eu quero que me ajudes – respondeu Sara cortando-lhe as palavras.Ajudar-te?! .Disseste que querias falar comigo sobre o meu trabalho. 80 . pois claro. Sara sentiu-se prestes a cair num abismo.. a surpresa deu lugar à estupefacção. Na verdade.disse Milene quando observou os olhos curiosos de Sara a olhar para os cantos do quarto. – Não tive muito tempo para ajeitar as coisas. as paredes encontravam-se sujas. que nem sequer tens dezoito anos.Tu estás mesmo a falar a sério? . .Como prostituta!? .Espera aí… . e ao subir as barulhentas escadas daquele edifício a cair aos bocados. gastas. .Trabalhar no quê? – questionou Milene franzindo o sobre olho.Como… prostituta. quando os seus olhos se cruzaram com os dela naquele quarto e percebeu que a expressão de Sara permaneceu impávida e serena. Estava ali. – Podemos fazer um acordo. a oferta de Sara era de tal maneira descabida que nem sequer deveria ser levada em consideração.Sim. queres ser prostituta e queres também que eu te ajude a arranjar clientes! É isso? .E o que é que queres saber sobre o meu trabalho para além do que já sabes? Sara pareceu hesitar por alguns instantes e Milene percebeu essa hesitação quando lhe encarou o rosto sério e os olhos assustados. Era pequeno. Finalmente tinha arranjado coragem para estar ali e no fundo não se sentia nem um pouco arrependida da escolha que tinha feito pois havia pensado nela durante semanas a fio e só não a havia concretizado por receio de perder o que na verdade já não tinha. . Mas por fim. . Tu. não quis acreditar nela e recusou-se a aceitar o facto de que uma jovem de dezasseis anos. . . – Fala – imperou ela terminando o quinto cigarro do dia. Para além disso. Pudor e vergonha de admitir que era viciada em sexo.O mesmo trabalho que você faz – respondeu Sara surpreendendo-a com a sua resposta.Entra – disse Milene largando a porta assim que chegaram ao quarto. Eu quero trabalhar aqui. de cortinados e a cama desfeita demonstrava que ainda não havia passado muito tempo desde a última vez que Milene se deitara ali com outro homem. se quisesse realmente submeter a uma profissão tão humilhante como a prostituição. que aparentemente tinha todas as regalias e todos os mimos dos pais. Um cliente. – Desculpa a desarrumação… . Não a levou em consideração.Como prostituta. A resposta de Sara conseguiu arrancar uma ruidosa gargalhada por parte de Milene. – O que é que queres saber? .Não faz mal. . e foi isso que Milene tentou fazer durante vários minutos. . – Deixa-me ver se estou a perceber. . Era também desprovido de móveis luxuosos.

elas que apanhem! E… o que mais? Hã. os encontros são sempre feitos em locais escolhidos por ti. .k! Amanhã – respondeu Milene aproximando-se lentamente dela.Se me ajudares a arranjar clientes. – Escuta! Eu também já tive a tua idade. sombria e desleal? Na verdade. nada de sexo oral se não os conheceres ou então ires para a cama com eles pelo menos umas três vezes. mas que tu nunca te podes esquecer. Este bairro é a nossa salvação e vais encontrar sempre alguém para te ajudar caso aconteça alguma coisa… .Só queria experimentar. É preciso ter-se muito estômago para aguentar certos homens.Mesmo assim eu quero experimentar – afirmou Sara. . continuo. não aceites.Então o que é que queres? . resoluta. e pede para que ele se lave antes de sequer se atrever a colocar-te as patas em cima – Sara acenou com a cabeça embora os seus olhos ainda demonstrassem algum medo – Outra coisa! Nada de beijos na boca mesmo que te peçam. que vá para casa foder com a mulher porque nós não estamos aqui para apanhar as doenças deles.Pode ser amanhã?! . mas ainda assim quis desafiar Sara com uma pergunta: . . mas não penses que essa profissão é pêra doce. Mesmo que te convidem para ir a hotéis luxuosos. Se não gostar.O. 81 . Elas que se casaram. .Sem receber um tostão por isso!? . também já fui curiosa. assustada.E quando é que queres começar? . – Arranja-te bem! Depila-te em todas as partes do corpo porque quanto menos pêlos tiveres menos contacto físico tens com o cliente.Sim! Se eu gostar.Se queres experimentar porque é que não arranjas um namorado? Garanto-te que ele te iria tratar muito melhor do que certos clientes costumam tratar as prostitutas que vão para a cama com eles – Sara calou-se. vou-me embora… Quando o cigarro terminou.Aconteça o quê? – perguntou Sara. Milene apagou-o num dos cinzeiros sobre a cómoda e lançou um olhar desafiador àquela jovem que parecia ter toda a experiência do mundo. mas quando descobrires e viveres essa realidade. Quem não consegue manter uma erecção com preservativo. Usa sempre preservativo e não te deixes ir naquela conversa de que sem ele é melhor. Trás também alguns produtos de higiene para te lavares.Claro. Preservativos. certas coisas que eles nos pedem para fazer e para não vomitares com o cheiro de alguns.Estás-me a propor que eu me torne na tua chula? . Escusado será dizer que o mesmo se aplica ao sexo anal. Uma ruidosa gargalhada foi a resposta de Milene: .Eu não quero o dinheiro para nada. Estás iludida! Andaste a enfiar coisas na tua cabeça que não correspondem à realidade. garanto-te que vais ficar desapontada! Muito desapontada. . Não seria muita pretensão dela achar que iria gostar de ser prostituta? Será que ainda não se havia dado conta dos perigos que estava a correr ao entrar numa vida completamente desregrada.Que acordo!? .. podes ficar com todo o dinheiro que eu conseguir. Não penses que é divertido abrir as pernas para o primeiro que aparece ou então para aquele pagar mais. ela tinha algumas dúvidas. aliás. . eu não preciso dele.Hã… outra coisa importante que já me ia esquecendo.

Não o estava a fazer por carências financeiras. Tinha pensado tanto tempo sobre o assunto. basta ofereceres uns troquinhos antes de subires e tens a vida salva. Alguém que lhe retirasse do peito aquele sentimento horrível de vazio e carência afectiva. e enquanto a ouvia com a máxima atenção. pensou a jovem. . – Vai à outra lá em baixo! Naquela noite. a excitação apoderou-se do seu corpo. tal como já vinha acontecendo há várias outras. a única coisa que lhe interessava era ter alguém que a quisesse e a desejasse nem que fosse apenas por alguns minutos. As explicações de Milene continuaram durante largos minutos.Sabes que se a bófia te apanhar por estas bandas. Não desconfia de nada. Depilar-se dos pés à cabeça e preparar-se psicologicamente para o que a esperava no dia seguinte. – Se não vieres amanhã.Caso alguém tente espancar-te.disse-lhe Milene à saída da pensão. ela conseguisse encontrar alguém assim..…não.Eu sei! Podes ficar descansada. Não desconfia de nada e nem nunca iria desconfiar.Eu venho – respondeu Sara desaparecendo do bairro com a sua mochila às costas. .A polícia não me vai apanhar. A televisão teimou em não calar-se e os olhos de Sara muitas vezes se cruzaram no rosto despreocupado de Madalena. . e nem esperava sequer encontrar ali o seu príncipe encantado. ali. mesmo não tendo a mínima ideia de como seria o seu primeiro cliente. eu vou compreender… . não queria saber do dinheiro para nada até porque tinha ficado acordado com Milene que seria ela a receber todos os lucros. – Estou aflito e preciso ir à casa de banho. não sabes!? . eu vou dizer que não te conheço de lado nenhum e que tu simplesmente enlouqueceste.Nunca te atrevas a atender um cliente na rua e também nunca te atrevas a denunciar-me à polícia. violar-te ou obrigar-te a consumir drogas – respondeu Milene afastando-se calmamente. Não. Sara resolveu trancar-se na casa de banho com o intuito de fazer aquilo que Milene lhe pedira durante a tarde. . Na verdade. de como reagiria quando ele a tocasse e como ficaria o seu estado de espírito depois de se entregar a um perfeito desconhecido em troca de dinheiro. porque se fizeres isso. Para isso. Mas surpreendentemente. Depilar-se. – Nesta pensão eles não se vão atrever porque temos alguns amigos especiais que tomam conta de nós na recepção. a corda vai arrebentar para o meu lado. . Algumas horas depois e enquanto a mãe preparava o jantar na cozinha. mas no entanto havia algo que a fazia hesitar e Milene foi a primeira pessoa a reparar nessa hesitação perfeitamente normal para uma iniciante. que a achasse bonita e que não tivesse olhos para nenhuma outra mulher a não ser para ela.Agora não dá – gritou Sara passando o chuveiro pelas pernas depiladas. Faltavam poucos minutos para as duas da tarde quando Sara se despediu de Milene com a promessa de voltar no dia seguinte e iniciar a profissão que tinha escolhido para si. o jantar foi silencioso apenas interrompido pelo bater dos talheres nos pratos. feito tantos planos.Deixa-me entrar – disse Daniel batendo à porta da casa de banho. só de pensar na ideia. E talvez. Eu não vou desistir! . Sara deu-se consigo a perguntar se não estaria realmente a cometer uma loucura ao enfiar-se na toca do lobo. De 82 . – Ainda estás a tempo de desistir. . em pleno Intendente.

Contigo. . – O único problema é ser quase dez anos mais novo que tu.Vim ter com a Milene – respondeu Sara recuando dois passos. de olhos e cabelos escuros.facto. .Eu – respondeu Madalena levando as loiças sujas em direcção ao lava-loiça.Sara. porque não sou só eu quem pensa assim. Minutos depois. 83 . No dia seguinte. trazia um palito e no corpo um fato de treino verde que em tudo lhe acentuava os ossos das pernas. . Sara acedeu ao pedido e aproximou-se da cama onde estava estendido apenas um lençol branco e duas almofadas cansadas pelo uso.Só te quis avisar – respondeu a jovem abandonando a cozinha sob o olhar magoado da mãe. – O que é que queres? . .Eu não me ando a prestar a papel nenhum. eu acho melhor ires-te deitar! Amanhã ainda é dia de aulas e não convém chegares atrasada – afirmou Madalena fitando-a furiosamente. era completamente impossível para uma mãe imaginar que a sua filha estava a vinte e quatro horas de se prostituir pela primeira vez. O pai também acha ridícula a tua relação com esse Sérgio. – O que é que queres dizer com isso? . . – Hoje o teu pai ligou para falar contigo – disse Madalena.Sara.Pois… . . A resposta da filha deixou Madalena surpresa.Tens a certeza?! Sim. . .Entra lá! Sem hesitações. a porta do quarto de Milene surgiu-lhe diante dos olhos e tocar nela foi inevitável. com o meu irmão e também com o teu querido namorado que agora não sai cá de casa.O que é que andam a tramar? .Eu disse-te que vinha.Podes. . até quando vais continuar com essa ideia absurda de não querer falar com o teu pai? Já se passou tanto tempo desde que saíste da casa dele e tens que convir que foi melhor assim.O Sérgio é muito simpático para ti e para o Daniel! Ele trata-vos muito bem. – Vieste – exclamou a prostituta ao abrir a porta. – O teu lugar é cá em casa comigo e com o teu irmão. .Quem é que te disse isso? .Não vou trazer ninguém – foi a resposta de Sara enquanto subia as escadas a correr e se preparava para aquela que seria a sua primeira experiência no mundo da prostituição.Não ligues – disse Daniel tentando animar a mãe. . magro.Nada! Só acho ridículo que uma mulher da tua idade se ande a prestar a um papel destes. . – Fiz aquilo que me mandaste – disse Sara largando a sua mochila sobre a cama. apesar de fingir que adora o teu namorado e que acha super normal a filha andar com homens mais novos. Sara foi interceptada por um homem mal-encarado. – Ela é parva e o Sérgio é fixe. e o avô. Mas é bom que não me tragas nenhuma confusão e muito menos a bófia.resmungou Sara terminando a tangerina que tinha nas mãos. também deixou escapar no outro dia que não acredita lá muito que o vosso namoro vá dar certo. Na boca. . Seria demasiado sórdido sequer pensar numa coisa dessas. ao entrar na pensão onde tinha combinado encontrar-se com Milene.Nada! Então?! Posso subir ou não? .Eu não quero falar com ele. . .

também não perguntes – afirmou Milene calçando os seus saltos em frente ao espelho do quarto. Quantos anos é que ela tem? . . toalhas e tudo o resto. pois não?! .adiantou-se Sara curiosamente.Acho que sim – respondeu a jovem demonstrando alguma ansiedade na voz.Por acaso não és virgem. . fecho a loja e desapareço sem deixar rastro.Sim.…não. – Bem. . vem-se depressa e não pede para que lhe façam muitas coisas esquisitas. Nunca mais ninguém aqui neste bairro vai ouvir falar de mim. – Até já! Os minutos que se seguiram foram de algum nervosismo. essa – riu-se Milene.A sério?! . Disse que só tinhas dezasseis anos e o gajo excitou-se todo. . gel de banho. .Se ele quiser.A Arlete. É só um cliente. Paga bem.Uns gatos-pingados … – respondeu Milene ajeitando os cabelos compridos em frente ao espelho. Depravados esses homens pá! Só querem saber de carne fresca.Hã. . filhos ou qualquer outra coisa interessante. Por isso é que quando somos novas temos que abrir os olhos e fazer um pé-de-meia para nos sustentarmos. Sara não soube como. . nunca perdia a pose e a dignidade. as pernas bambas e o coração que mais parecia que 84 . Quem já passou dos trinta que se lixe. . É por isso que ainda anda na vida. mas eu. a que estava contigo na primeira vez que cá vim. – Mas eu também fiz aquilo que me pediste.O que é que queres?! Quem entra nesta vida já não sai. a profissão ou sequer o estado civil.Ela tem muitos clientes também? . – Mas uma coisa que tens que saber é que uma prostituta depois dos trinta e cinco já não tem muitas opções de escolha.Arranjei o teu primeiro cliente. aquela sensualidade que parecia transpirar-lhe de todos os poros e a confiança de uma mulher que apesar de saber que era prostituta.Depilei-me e trouxe sabonete. – Eu já falei com ele.. . . vou buscar o gajo! Estás pronta? . querendo um dia ser como ela.O quê? .Está bem. Enquanto observava Milene arranjar-se ao espelho e a compor a maquilhagem. mas subitamente passou a admirá-la. ele diz-te o nome! Se ele não disser. – Cinquenta e dois. . .Aquela tua amiga… . Essa Arlete armou-se em parva e acabou sem nada. Assim era Milene e era assim que Sara também gostaria de ser. .És boa ouvinte – respondeu Milene acendendo um cigarro.O quê!? .Como é que ele se chama? – perguntou Sara à cautela. Queria ter aquele corpo absolutamente escultural.E ainda continua a ser prostituta? . Está no segundo piso e é um dos meus melhores clientes também. e tudo porque Sara não conseguiu controlar as mãos trémulas. especialmente se não tem família.Para quê que isso te interessa? Não precisas saber o nome.Menos-mal – respondeu Milene alcançando a porta do quarto.Quem!? . quando chegar aos trinta.

duzentos e cinquenta – respondeu Milene batendo o pé no soalho. mas assim que ele estendeu o braço. Queria-a não só pela idade. Ele queria-a. – Ou vais-me dizer que não acreditaste quando te disse que a gaja ainda era menor? . Não era muito bonito. ouviste?! É uma gaja fixe! Por isso. Não estou a desconfiar de ti! .Parece ser interessante – respondeu ele lançando um olhar intenso a Sara que a gelou dos pés à cabeça. Milene adiantou-se dizendo: . assustada. princesa. A carteira abriu-se e do seu interior saíram duas notas de cem e uma de cinquenta. Seria ele o seu primeiro cliente.Hã pensei. – Chama-se Luísa – mentiu Milene. quando finalmente se conseguiu sentar na cama.Dezasseis – respondeu Sara.…era desta rapariga que te estava a falar.k – interrompeu o cliente alcançando a carteira no bolso das calças. mas também pelo rosto inocente que ela aparentava ter. pelo corpo.O.Duzentos euros! Ou melhor. .Queres o BI? – perguntou Milene voltando-se rispidamente para o cliente. – Tudo bem eu pago. A miúda parece ter mais idade do que aquela que me disseste. já sabes o que te acontece.Qual é?! Vais reclamar do preço? Estou-te a fazer uma oferta dessas e tu ainda reclamas? Já olhaste bem para a cara da miúda? O corpo? Tens sorte é de estar-te só a pedir duzentos e cinquenta. . Realmente não era todos os dias que uma rapariga daquelas lhe passava pelas mãos e desperdiçá-la seria burrice. Luísa? . – Bem… . a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta abriu-se.…é claro que quero – respondeu ele observando Sara dos pés à cabeça.Duzentos e cinquenta!? Estás a gozar com a minha cara? . . o preço duplicava ou triplicava – discursou Milene demonstrando bem todos os anos de experiência que conseguira adquirir para si. Era alto. .Quantos anos tens. porque noutro lado. . afinal de contas era ela quem lhe iria prestar o serviço. o cliente. – Como é que te chamas? Silêncio foi a resposta que obteve. não parecia ser muito simpático.adiantou-se Milene. .Tens a certeza? .Só queria confirmar. Quando a porta do quarto se fechou com um pequeno estrondo e Sara se viu completamente sozinha naquele quarto ao lado de um desconhecido que tinha praticamente 85 . foi a primeira coisa que Sara reparou. O Nuno está lá em baixo. Pensava em oferecê-las a Sara. Sim. eu arranjo outro cliente num piscar de olhos. apoderou-se mais do que poderia imaginar e qualquer ruído ou movimento da porta era um sobressalto seu. .Obrigada! . é?! .Então?! Queres ou não? .Agora viraste chula. – E vê lá se tratas bem a minha colega. – Mas tu é que sabes! Se não quiseres ou não tiveres dinheiro para pagar. É só descer lá em baixo e… . – Quanto é? .iria saltar pela boca. mas pelo menos estava bem vestido e aparentava não ter passado dos trinta e cinco.Tem calma. Por fim. se te portares mal. O pânico apoderou-se de si. sendo que a primeira pessoa a entrar foi Milene e logo a seguir.Não te metas aonde não és chamado – respondeu ela enfiando as notas no decote da camisola.

pois na verdade. o pescoço e atirou-se novamente para o chuveiro para se consciencializar de que se tinha realmente prostituído pela primeira vez. . .Estás a gozar comigo.Como é que foi? . Era tarde e isso ficou provado pela ordem do cliente: .Não é nada disso! Só não estava à espera de te encontrar aqui.Em todo o caso é um aviso que te dou! Se quiseres continuar nesta vida tens que abrir os olhos – entregou-lhe uma nota de cinquenta euros.Foi normal – respondeu Sara encontrando a suas calças de ganga sobre o cadeirão. .És servida!? . Os chinelos foram calçados para que não tivesse que pisar o chão imundo da casa de banho e a roupa interior vestida em silêncio enquanto regressava ao quarto. O cliente não foi nem um pouco cuidadoso com ela. . – Guarda! A primeira coisa que Sara fez quando o cliente desapareceu foi enfiar-se por debaixo do chuveiro e retirar do corpo todas as marcas e vestígios que ele lhe deixara no corpo durante os quarenta minutos em que a possuiu como se ela fosse apenas um mero pedaço de carne.Não! Hoje estou de folga. Mais tarde. A intenção era a de se aliviar e de retirar dos ombros todo o stress a que foi submetido durante a semana. Depois disso. Já pagaste.Despe-te! Foi horrível do princípio ao fim. uma onde de nervosismo voltou a atravessar-lhe o corpo e os pensamentos. .Não sabia que vocês tiravam folgas durante a semana. .Não sabia que era assim tão feia – respondeu a última levando dois pauzinhos à boca.Não. – Não queres falar sobre o assunto não fales. as pernas. .O. Sara viu-se metida num verdadeiro inferno sem tempo e sem hora para acabar. foi doloroso.Ele foi muito bruto contigo? . – Ai! Que susto… .idade para ser seu pai.Ela não me está a explorar – respondeu ela enrolando-se no lençol da cama. – Essas putas são muito espertas e aproveitam-se de novatas como tu. Seria tarde demais para fugir? Tarde demais para se arrepender de um pecado que nem sequer havia cometido? Sim.Não sejas parva – respondeu ele enfiando-lhe a nota nas mãos. – Toma! Guarda para ti.exclamou ela quando se deparou com a figura de Milene a devorar a comida chinesa comprada num dos muitos restaurantes asiáticos do bairro. . e durante largos minutos. de calmaria e o enxugar do corpo com uma toalha.Não é preciso. .Mais ou menos. . veio uma sensação de alívio.Hoje não vais trabalhar? . 86 . não era essa a sua intenção. não?! O que é que acabaste de fazer? .Como é que foi o quê!? . Lavou os cabelos com o Shampoo que trouxe de casa. veio a sensação de alívio e a vontade de desaparecer daquele quarto para voltar ao trabalho. . – Não deves deixar que a Milene te explore – disse ele a Sara enquanto vestia as suas roupas. esfregou os braços. obrigada.k – conformou-se Milene com a falta de pormenores fornecidos pela jovem. .

Que pergunta?! . .Ele queria que eu fizesse um aborto – respondeu Milene continuando a devorar o almoço improvisado. . Mas… . .Na hora H não tive coragem. e se queres que te diga.Uma filha – emendou Milene largando a sua cerveja sobre a mesinha. Percebeu também que por mais magistral que tivesse sido a sua desculpa para fugir à questão Sara não se deu por vencida.ela pareceu hesitar.…já – respondeu ela após um longo silêncio.Eu. . até porque ela também trabalhava no restaurante.Num restaurante lá para os lados de Odivelas. . Eu aceitei o cheque claro.Se não quiseres não contes – respondeu Sara sentando-se numa das pontas da cama quando terminou de se vestir.. Sei lá.Trabalhaste no quê? . . o quê? .E achas que esse não é um emprego a sério – riram-se as duas enquanto Sara terminava de se vestir em frente à cama.És curiosa. .O filho da mãe do meu patrão despediu-me quando descobriu que a miúda era dele. até estava disposta a fazer a porcaria do aborto só para me livrar da criança.Tiveste um filho? . – Queres um emprego mais cansativo do que estar deitada numa cama de pernas abertas à espera que o teu cliente se venha? Isto quando não é de pé num beco qualquer! A sorte é que a maioria não se aguenta mais do que vinte minutos.Pelo menos essa é uma das vantagens de se ser puta – respondeu Milene bebendo um gole de cerveja pelo gargalo da garrafa. acobardei-me! Tive medo de morrer.Fui despedida porque fiquei grávida.Aonde é que ela está? 87 .Porquê?! . .…sim. Não quis que a mulher soubesse.Foste despedida só por causa disso? . . Milene percebeu isso em poucos minutos. e deu-me um pontapé no rabo. .E porque é que saíste de lá? Uma outra hesitação foi a resposta oferecida por Milene.E tu? . . .Nunca tiveste um emprego a sério? . Não pago rendimentos mínimos a ninguém… . – Tu é que fazes os teus próprios horários! Não tens nenhum patrão chato para te dar ordens e também não tens que descontar para a segurança social. – Até me deu dinheiro para isso desde que desaparecesse e nunca mais me pusesse a vista em cima.Não respondeste à minha pergunta. – Foste despedida? .Mas o quê?! .O que é que fizeste? .Se nunca tiveste um emprego a sério? A miúda é esperta. hã?! . de ficar doente sem ter ninguém que cuidasse de mim e tive medo de perder a minha filha.

Bem.Se for convidado.No teu quarto? . vou subir para o meu quarto.Ai é!? Muito bom ouvir isso. – Mas para ela desde que mande dinheiro todos meses para me tomar conta da miúda. – Já és cá de casa. tem mania que sabe tudo e anda sempre a ver se me consegue sacar as roupas e os sapatos. Só tinha atendido um cliente. Sara lançou um suspiro e quase que desejou cair no corredor de tão cansada que estava.Mas também não vais dormir sem comer – respondeu Madalena vendo a filha a desaparecer da sala sem sequer olhar para trás ou responder à sua ordem. . O jantar já está pronto.Olá Sara – disse Sérgio lançando-lhe um breve aceno.Tu não precisas ser convidado – afirmou Madalena mostrando-lhe um doce sorriso.Em passarmos um fim-de-semana fora de Lisboa. . a sensação de que tinha feito algo de mal embora não soubesse bem o quê e.Mal posso esperar por isso – respondeu Sérgio beijando-lhe os lábios. . . sabias?! . . E não era só isso. Nunca sei o que ela está a pensar.Sabe – interrompeu Milene não escondendo a voz amarga. eu acho! Mas com a Sara tudo é imprevisível. Quando regressou a casa após uma tarde inteira passada no Intendente. ser espancada ou parar à prisão. .A tua mãe sabe que tu és… . Lembraste quando te disse que um dia te iria apresentar a ele? Pois então! O senhor Luís quer conhecer-te. . estive a pensar numa coisa… .…e em breve também vais poder dormir cá. quer lá saber! Posso morrer com Sida. – A sério! É toda espevitada.Que coisa? . . 88 . . Era também a sensação de que o cheiro dele estava entranhado na sua pele.No Porto com a minha mãe! Chama-se Daniela e tem seis anos.Estive com umas amigas – mentiu a jovem. mas não de uma boa forma.A adolescência passa. . a estúpida sensação de querer repetir aquela experiência assim que possível. mas o que importa é o dinheirinho sempre conta no primeiro dia do mês..Ainda bem – riram-se baixinho.Fora de Lisboa!? . .Não demores muito a descer.Falaste-lhe sobre mim? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. mas ainda assim parecia que um batalhão lhe tinha caído em cima.Tudo! Bem. . – Então?! Ficas para jantar? . .Sim! Queria levar-te a conhecer o meu avô ao Alentejo.Eu não tenho fome.Aonde é que te meteste? – interrogou Madalena assim que ela entrou na sala e se deparou com a figura sempre exasperante do namorado da mãe.Sim! No meu quarto. por fim. A miúda é a minha cara… – riram-se. . . – Sabes. o que vai fazer…! Enfim! É uma autêntica caixinha de surpresas. .Como é que ela se está a portar nesses dias? – perguntou Sérgio após o longo suspiro lançado pela namorada. . – Tudo bem? .

– Estás aí?! .Hã… estou – respondeu Jorge voltando ao planeta terra quando ouviu a voz no outro lado da linha. tu sabes disso! Mas o problema são os meus filhos. Depois disso. .Eu também acho – concordou Madalena deixando-se levar pelos braços dele em direcção à cozinha. Não posso ausentar-me durante um fim-de-semana inteiro. tinha sido a humilhação máxima ser presa por um crime cometido pelo marido e por ele nem sequer se ter dignado a comparecer à polícia enviando apenas um outro advogado com as instruções exactas para que não o comprometesse.Na sexta-feira só se for depois das seis e meia.Então eu vou falar com o Jorge amanhã. ajudar o meu avô no pomar que ele tem.Um fim-de-semana – suspirou Madalena sentindo-se bastante tentada a aceitar aquele convite tão aliciante. – No domingo à noite já estamos de volta.São só dois dias – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos lisos.Durante o fim-de-semana todo? . – No Alentejo… . Então?! O que é que me dizes? . Mas a verdade é que Madalena não perdoou. Ouviu as explicações de Madalena. – Vais ver! O nosso fim-de-semana vai ser inesquecível. foi um choque o pedido de divórcio que Madalena fez questão de lançar em tribunal e um choque também encontrar as suas malas à porta de casa quando estava certo que ela o perdoaria por ter passado uma noite inteirinha na prisão. .É claro que ele fica – respondeu Sérgio oferecendo-lhe um outro beijo. . 89 . .Na sexta-feira à noite e voltávamos no Domingo. Jorge aceitou tomar conta dos filhos durante o fim-de-semana. aliás. E vai ser divertido! Vou-te ensinar a pescar. Jorge lembrou-se de todas estas características que durante anos lhe passaram despercebidas. não porque Madalena não fosse uma mulher bonita e interessante. .Então podes vir buscar os miúdos este fim-de-semana? . Madalena livrou-se das acusações e pediu igualmente o divórcio ao marido com a clara certeza que nunca mais o voltaria ver com os mesmos olhos. Foi um milagre de facto. vamos fazer grandes passeios.Porque é que não deixas a Sara e o Daniel com o teu ex.Eu adoraria conhecer o teu avô. continuava a radiar uma beleza igual ou superior à de muitas mulheres de vinte. – E quando é que íriamos? . pois apesar de já ter chegado aos quarenta..Não – riu-se ela. Vamos ver se ele me consegue ficar com os miúdos. Na verdade.Exactamente! Queres coisa melhor? . Apesar da relutância inicial. o dinheiro extraviado de uma empresa de telecomunicações foi devolvido ao Estado. E enquanto falava com ela ao telefone. marido ou até mesmo com o teu pai!? . mulher havia encontrado alguém que se interessasse por ela. apanhar ar puro. Tinha sido a gota de água. muito pelo contrário. . mordeu o lábio inferior quando ela confessou que iria passar dois dias no Alentejo na companhia do namorado e tentou igualmente esconder os ciúmes que sentiu quando percebeu que a ex. desde que te conheci que não lhe tenho falado sobre outra coisa.Várias vezes.

Estás louca – riu-se Milene com uma gargalhada seca.Tu já me atrapalhas. o que as unia era uma relação estritamente profissional. .começou ela por dizer a Milene. – Vou ficar com o meu pai. Madalena e Sérgio iriam passar dois dias na pequena vivenda do avô dele e aproveitar toda a paz.Festa?! Que festa? . . . Todas as semanas vamos lá à cata de algum ricalhaço que esteja disposto a pagar bem. Ou será que não seria demasiado precipitado chamá-la de amiga? Na verdade. . querido! Tem só mais um pouco de paciência. ela tinha certeza. Ouviste o que o gajo disse no outro dia? Que eu pareço muito mais velha do que sou.E daí? . Para isso. . .Ele chega sempre atrasado. – Fico à tua espera então. esses momentos iriam ser muitos.Mãe. mas com uma enorme vontade de voltar. A prostituta arranjava-lhe clientes e ela satisfazia as suas vontades sexuais quase diárias. . entregava o dinheiro ganho e abandonava o quarto da pensão sentindo-se imunda. mas ele é muito mais liberal que ela. – Queres que comece já a levar as coisas para o carro? – perguntou Sérgio arrastando as malas em direcção ao corredor.Tudo bem. – Está trancada no quarto. Depois disso. Tudo estava combinado. – Tenho uma festa para ir. Não há problema – disse Madalena observando os movimentos dos seus clientes na floricultura.Hoje não vai dar – respondeu Milene observando com atenção o movimento dos carros não fosse um deles parar com um cliente lá dentro.Daí que estava a pensar em passar hoje à noite pelo bairro.Se for contigo tenho a certeza que ninguém vai desconfiar que eu ainda não tenho dezoito anos. mas ainda assim Sara encontrou tempo para telefonar à sua nova amiga Milene.Se calhar era melhor – respondeu Madalena descendo os estores da janela.Nada de especial. calmaria e tranquilidade que a região do Alentejo oferecia aos seus visitantes.Vá lá – pediu Sara encarecidamente. É só uma festa que costumam organizar num clube de streap lá para os lados do Bairro Alto. . – Leva-me a essa festa! 90 .Não me podes levar a essa festa? . Achas que me consegues arranjar algum cliente? . .Deve estar quase a chegar. – Não tens idade para lá entrar.Escuta. E de facto. onde é que a tua irmã se meteu? Ela já arrumou as coisas dela? . Então?! Leva-me contigo! Prometo que não te vou atrapalhar. – A minha mãe vai viajar este fim-desemana… .Não sei – respondeu Daniel sentando-se no sofá de braços cruzados.. Ouve-se boa música. A mochila estava pronta e o casaco sobre a cama. . alguns objectos pessoais e uma máquina fotográfica com a qual pretendia fotografar todas os momentos especiais da viagem. o pai não vem? – foi a pergunta de Daniel quando entrou na sala com cara de poucos amigos . decidido e tratado. ela arrumou uma pequena mala assim que chegou a casa e enfiou no seu interior apenas roupas práticas. temos bebidas de graça e os clientes são um pouco mais civilizados que os de cá.

encontrou o casaco de Madalena e pendurou-o no bengaleiro atrás da porta. ao ver-se diante dela. – Boa tarde – disse Jorge com uma cara de poucos amigos. – Boa tarde – respondeu Sérgio observando-lhe a entrada pelos portões da casa.Sei que estás louca para o teu fim-de-semana.Os miúdos!? .Meu Deus – riu-se Madalena. mas também tens que compreender que eu tenho compromissos e que trabalho… – respondeu Jorge não conseguindo esconder os seus ciúmes quando Sérgio também entrou pelo corredor adentro. mas ainda assim.Então eu vou chamá-los porque não me quero demorar muito por estas bandas. . pois apesar de nunca se terem cruzado antes. ouviu-se o barulho de uma 91 . . Madalena não conseguiu evitar o sorriso que lhe atravessou o rosto e a sensação de que tinha acabado de chegar ao paraíso. olhos claros e cabelos castanhos. e depois disso. mas também era compreensível que não fosse tendo em conta aquele encontro no mínimo constrangedor em frente a uma casa que um dia também foi sua. – Vamos entrar? – perguntou Sérgio levantando do chão as malas que trouxeram de Lisboa. sem filhos. . na sala. enquanto a poucos metros. Não viste que a luz da sala continua acesa? . Não era uma casa muito grande ou luxuosa. especialmente quando sabia bem que aquela seria uma das oportunidades raríssimas para ter Madalena só para si durante dois dias.Tens razão. . as parecenças com Daniel e Sara fizeram-no antever que era o pai deles e consequentemente o ex. isso era um facto. a porta abriu-se sem muito esforço.Será que o teu avô já não dormiu? .Não! Ele está à nossa espera.Eu sei que tens compromissos e que trabalhas. Porque é que não haveria de gostar – respondeu ela seguindo-lhe os passos em direcção à porta principal enquanto o seu coração voltava a bater mais forte e Sérgio se esfalfava para encontrar as chaves que guardara no bolso do casaco. . Por sorte. Aliás. Não parecia muito simpático. Não foi preciso muito esforço para perceber quem ele era. A viagem ao Alentejo correu sem quaisquer sobressaltos e só terminou perto da meia-noite quando Sérgio estacionou o carro em frente a uma pequena moradia pintada de azul e branco. as árvores não evidenciavam qualquer sinal de que estavam a ser levadas pelo vento e as estrelas no céu fizeram os seus olhos brilhar de alegria e emoção. O fim-de-semana iria ser especial e ele pôde ter essa certeza quando tornou a fechar o porta-bagagem sob o olhar atento de um homem de estatura elevada.Já estão prontos à tua espera. as malas foram colocadas a um canto do corredor. O tempo estava ameno. – Até que enfim chegaste – disse Madalena abrindo a porta ao ex. – Será que ele vai gostar de mim? . na altura. marido de Madalena. Sérgio sorriu.É claro que vai.As malas da viagem foram colocadas no porta-bagagem do carro e para isso Sérgio precisou apenas de dois braços e alguma força de vontade. força de vontade era tudo o que não lhe faltava. Porque é que não haveria de gostar? . mas eu também tenho compromissos e também trabalho tanto quanto tu – respondeu Madalena fechando a porta enquanto os dois homens se fitavam vorazmente. marido. sem o stress de uma cidade tão agitada e barulhenta como Lisboa e também sem olhar para o relógio.

. esta é a Madalena! A pessoa de quem tanto te falei – fez Sérgio as apresentações. – Até que enfim. . mas vocês devem estar cansados da viagem.pequena cadeira de descanso guinchar ruidosamente. foi a primeira impressão de Madalena quando lhes ouviu as risadas e se sentiu um verdadeiro peixe fora de água à espera de ser salvo da morte certa.Então vou pôr a chaleira no lume! Já venho – disse o dono da casa desaparecendo da sala. .Queres um chá. . Contudo. Não havia dúvida de que aquela casa era habitada por um homem ligado ao passado e às recordações de uma vida que nem sempre teve momentos felizes. . Se ele não tivesse gostado de ti. Eram muito unidos.Falou bem. a mãe de Sérgio.Estou muito contente que estejas aqui comigo. Adorou. . Adorou os móveis velhos clássicos. algo que a deixou deveras surpresa. E prova disso era os dois porta-retratos que ele fazia questão de manter sobre a mesinha junto à janela. este é o meu avô! O grande senhor Luís Restelo. Uma da sua falecida mulher e outra da sua falecida filha. ao contrário do que ela estava à espera.Bem. vô? – interferiu Sérgio poisando-lhe a mão sobre o ombro.O teu avô é muito simpático. amor?! .Nem tanto – respondeu Sérgio largando o casaco de cabedal sobre o sofá enquanto Madalena tentava dissecar discretamente toda a decoração existente naquelas quatro paredes. os pequenos barquinhos de madeira sobre as estantes.O que é que eu te disse? – indagou Sérgio envolvendo os braços à volta da cintura de Madalena.Já estava a ver que nunca mais a conhecia – exclamou ele. . o cumprimento de Luís não veio com um aperto de mão.Vai-me jogar esse facto à cara para o resto da minha vida – respondeu Sérgio voltando-se para Madalena com uma felicidade que não passava despercebida a ninguém. .Ainda bem que não jogou – riram-se baixinho. Ao ouvi-la. agradecia. – Não querem beber um chá? – perguntou ele interceptando os olhares perdidos de Madalena.Achas que ia falar mal de ti. Era como se ela estivesse à espera do momento exacto para o fazer e como se encontrasse a paciência necessária para não o ter feito antes. – Não precisavas ter medo de nada. com certeza já te teria jogado esse facto à cara. – Vô. Sérgio abriu um largo sorriso e rapidamente se apressou a cumprimentar o avô oferecendo-lhe um longo abraço e também um beijo na face. não?! – adiantou-se Luís levando os seus convidados em direcção à sala. homem – exclamou uma voz grossa irrompendo o corredor. . . espero?! . – Madalena.Quero – respondeu ela à pergunta de Sérgio e Luís com um largo sorriso. 92 . – Aliás. .Muito prazer. . senhor Luís – disse ela estendendo-lhe a mão com um largo sorriso enquanto desejava que ele não a deixasse ali especada. .Claro! Claro que falou bem. . um quadro pintado a óleo e as centenas de livros amontoados a um canto da sala. mas sim com um inesperado abraço.Também era o que mais faltava depois de te ter trocado as fraldas desde que nasceste.Bem …eu também estava muito ansiosa para o conhecer! O Sérgio falou-me imenso a seu respeito – respondeu Madalena retirando a expressão esbugalhada dos olhos. .

– Eu também estou muito contente de estar aqui contigo. Ao contrário das estrelas no céu que o Alentejo apresentou.k – respondeu Sara aceitando a identificação com alguma cautela. A fila de espera para entrar estendia-se para lá dos dez metros e quase todos os clientes aguardavam a sua vez. – Desaparecido! 93 . de todos… . querida.Eu também – confessou Madalena encontrando-lhe os lábios no meio daquela sala desprovida de quaisquer luxos desnecessários. em Lisboa.Isto se lhe pedirem – interferiu uma das prostitutas.Boa – riu-se uma das prostitutas.Ainda perguntas!? Com a tua idade não estás autorizada a entrar em clubes de streap.Dezasseis – respondeu Sara. naquela noite. meias de renda pretas e um casaco que lhe cobria o corpo todo. e mesmo Sara tendo passado por aquela zona umas milhares de vezes. . – Quantos anos é que ela tem? . – Olha quem é ele – exclamou Milene abrindo um sorriso radiante quando um homem se aproximou de si a surpreendeu um longo abraço. . . mostras sempre com um dos dedos sobre a fotografia e passas rápido para que eles não fiquem a olhar muito tempo para o cartão.O. ela encontrou as chaves e saiu com o único intuito de passar uma noite completamente diferente a todas que havia passado até então. – Mais uma para a concorrência. – Ela também vai connosco. Mas nem a promessa de uma possível tempestade impediu Sara de sair do quarto e fechar a porta com cuidado para que o pai e o irmão mais novo não se apercebessem dos seus planos mais secretos. .Longe dos problemas. passou-lhe essa pergunta pela cabeça enquanto lançava os olhos ao relógio de pulso via que nele estavam marcadas doze horas e cinquenta e nove minutos.Só?! E já tens esse corpo? . – Meninas. esta aqui é a Sara – fez ela as apresentações. Será que ela vem. O clube situava-se numa das ruas mais recônditas do Bairro Alto. o céu tornou-se carregado e cheio de nuvens. Apanhou o último metro da noite e em pouco tempo viu-se no local onde havia combinado encontrar-se com Milene. Milene não a deixou esperar em demasia naquela rua deserta e ventosa. . nunca imaginou que aquele estabelecimento sempre fechado durante o dia tratava-se de um clube de streap frequentado à noite por pessoas das mais variadas raças e estratos sociais. muitas vezes acompanhada pelo pai ou pela mãe. longe de tudo. . Quanto aos porteiros tens que ter cuidado quando eles te pedirem o BI… . animados pela noite e também pela música barulhenta que se fazia ouvir no interior do edifício. – Se te pedirem o BI. Mas por sorte. .Também – riram-se eles ainda com os lábios colados no outro. vindo acompanhada por mais duas colegas de profissão visivelmente embriagadas.Mesmo assim – disse Milene que de todas era a que mais jogava pelo seguro. Se a bófia faz uma rusga por lá estás lixada e eu também.Trouxe-te um BI falso – disse Milene retirando da mala um cartão com a fotografia e o nome de uma mulher de vinte e um anos. Trajada com uma mini-saia.Para quê? – perguntou Sara compondo os cabelos soltos..

como caso de Marco. . – É a Sara! Sara. .Mais ou menos – respondeu Sara tentando esconder a timidez que sentia cada vez que um homem se aproximava de si. Sara deixou-se levar pelos braços de Marco quando ele a levou para um canto recôndito. .Há quanto tempo andas nisto? – foi pergunta de Marco quando acendeu o terceiro cigarro da noite. . – És nova por aqui? . 94 . naquele quarto minúsculo. . Marco era um jovem mulato. tudo o resto deixou de importar. especialmente se fosse bonito. e pela primeira vez. musculado e que trazia consigo uma confiança que poucos homens brancos possuíam. que pequenas doses de cocaína. E ela respondeu dizendo. que Sara se entregou a ele pela primeira vez não sentindo de maneira nenhuma que o estava a fazer como prostituta.Então venham comigo. .Uma… amiga – respondeu Milene hesitante. não é – riu-se Milene enquanto levava uma garrafa de whisky à boca.Vem comigo! Foram precisos apenas trinta minutos para que Marco retirasse as roupas de Sara num dos muitos quartos em que guardava as suas mercadorias para serem levadas ao Algarve. a música tornou-se cada vez mais barulhenta. Pago bem! Vamos?! .Não sei – respondeu ela com um longo suspiro. mercadorias essas que eram nada mais. – És muito bonita – segredou-lhe Marco aos ouvidos. . . – Estão na fila para entrar? – perguntou ele.Se quiseres posso ser o teu cliente. por isso era natural que quisesse saber quem era. todos os clientes conseguiram entrar no clube e o divertimento tornou-se ainda maior.A bófia é uma seca. mas sim como uma mulher que encontrara o verdadeiro prazer nos braços de um traficante de droga. pastilhas ecstasy e haxixe. . . . A pista encheu-se de pessoas.E esta rapariga quem é? – perguntou o desconhecido não escondendo a sua curiosidade por Sara. Demonstrava também não ter medo de nada. algo perfeitamente compreensível para um homem de vinte e sete anos que passara a maior parte da adolescência em bairros degradados e em esquemas criminosos longe do conhecimento da polícia. . alguns apalpões habituais em cada esquina do clube e a sensação de que a pouco e pouco ambos se estavam a envolver. Depois disso.. Só vim buscar as minhas mercadorias e vou-me embora no domingo que é quando as estradas estão mais vazias.Para onde? – perguntou ela apreensivamente. Mas quando ele as atirou ao chão e deitou Sara sobre a cama.Olá – disse ele cumprimentando-a na face.Tenho um sítio perfeito para nós. Ponho-vos lá dentro num instante! Em pouco mais de uma hora.Estamos – respondeu uma das prostitutas que acompanhava Milene.Não confias em mim? A pergunta de Marco tomou Sara de assalto. seguiram-se vários beijos. este é o Marco. Foi ali. o cheiro a mofo das almofadas e a presença de uma arma de fogo sobre a mesinha de cabeceira. – Obrigada. Nunca a tinha visto.Sabes como é que é – respondeu ele rasgando alguns olhares curiosos a Sara. para além de fisicamente também o ter agradado bastante. nada menos. inclusive a chuva a cair no tejadilho da janela.Avisaram-me para nunca aceitar encontros em locais que não conheço. – Não confias?! . – Agora ando mais lá para os lados do Algarve a tratar dos meus negócios.

Não sei! Nunca fumei.Então?! Para saber.. Mas sim.Queres uma passa? – perguntou Marco mostrando-lhe o cigarro que tinha em punho.Só comecei na semana passada! A Milene arranjou-me os primeiros clientes. Sara era diferente de todas as outras. do pai. . É bom para relaxar. .Então quer dizer que és prostituta porque gostas. . .Mas não me ligues a toda a hora. . Gosto de estar com homens e só penso nisso a toda a hora. era doce. – A isso é que se chama ter amor à profissão. Apesar de alguma hesitação. Se já tinha experimentado coisas tão bizarras como fazer sexo com desconhecidos em troca de dinheiro. Mas raios. bonita e trazia nos olhos a inocência de uma menina que infelizmente se tinha perdido na vida. tinham dormido maravilhosamente bem no quarto de hóspedes preparado por Luís e mal esperavam para começar o dia com um longo 95 . Só venho de vez em quando. até porque ele não sabia até que ponto ela tinha levado aquela noite em consideração. Marco levou Sara a casa. Havia algo nela e naqueles olhos inocentes. Talvez por culpa da mãe.Vais gostar. senão troco logo a porcaria do número. .Bem – riram-se os dois.Eu não moro cá em Lisboa. – Pronto! Já estás entregue – exclamou ele desligando o motor do carro assim que o estacionou em frente ao prédio que Sara lhe indicara.Eu não vejo isto como uma profissão. Um favor que pela primeira vez fez a uma prostituta.Para quê!? . procura-me… O sorriso de Sara trouxe algumas hesitações a Marco. Sara aceitou o cigarro das mãos de Marco e levou-o à boca ansiando experimentar pela primeira vez qual era a sensação de fumar. mas ela nunca se atreveu a cometer tal acto. ou talvez até mesmo por culpa sua. .Só entrei para experimentar. – Gosto de fazer sexo. mas eu moro com a minha mãe.Vou voltar a ver-te? – perguntou ela desfazendo-se do cinto de segurança.E porque é que entraste na vida? Os teus pais expulsaram-te de casa? . – Eles são separados. Por sorte. Sexo entre um cliente e uma profissional e nada mais.E eu dou-te o meu… – adiantou-se Sara. . qual era o mal de fumar uma passa? Quando os primeiros vestígios do dia começaram a surgir. mas que na verdade não se arrependeu nem um pouco. A cozinha cheirava a café quando Sérgio e Madalena entraram nela de mãos dadas e com um sorriso rasgado no rosto. É isso? . . Queria saber como é que era! .Então não estou a perceber porque é que… .Mesmo assim. algo que o fez hesitar e cometer uma das maiores loucuras da sua vida – Vou-te dar o meu número. Tinha sido só sexo.Mais ou menos – respondeu ela observando-lhe a expressão surpresa. Quando vieres. Tinha um ar mil vezes mais angelical.Toma – afirmou Marco oferecendo-lhe um papel rasgado e também um beijo na boca. . .Porquê!? . . . . De facto. . .Podes deixar.Porque quero. várias amigas suas já fumavam. Na escola.Não – respondeu Sara.

com um sorriso. 96 . agradeceu a gentileza e sentou-se à mesa perguntando em seguida ao dono da casa se este precisava de ajuda.Não muita! Confesso que de manhã não costumo comer muito. . mas amanhã queria que ensinasses a Lena a pescar. Ela que se considerava uma portuguesa de gema e conhecedora de quase todas as cidades de Portugal. . depois passear pelo parque e quem sabe se o tempo ajudar terminamos o passeio no lago.Acordaram? – foi a primeira pergunta de Luís assim que entraram na cozinha. – Para mim um hóspede é sagrado. – Não. – Muita fome. Madalena não se escusou a tirar inúmeras fotografias para registar uma das viagens mais interessantes que fizera pelo país. Faltava cheirar a terra molhada. garanto-te – respondeu ele. nem pensar – respondeu ele.Sim. Madalena riu-se alegremente.Um pouco tarde.Eu também quero cá vir muitas vezes.Vamos visitar o centro da vila. muitas delas pintadas com cores alegres e suaves. . . . e faltava-lhe também sonhar em um dia terminar os seus dias num lugar assim. eu não quero desapontá-lo senhor Luís. . mas acordámos – respondeu Sérgio arrastando uma cadeira a Madalena.Aposto que não vou ter mais trabalho do que tive aqui com o meu neto. . . .Não se matem hoje – respondeu Luís servindo-se do chá de ervas que costumava beber todas as manhãs. .Estavas certo quando disseste que os dois se pareciam imenso – respondeu ela. Já viste bem o meu avô? – interferiu Sérgio servindo dois cafés em frente à bancada. Faltava conhecer a igreja da região trabalhada em arte barroca. Madalena? . desde frutas a produtos artesanais. e enquanto visitavam os locais onde Sérgio havia passado grande parte da sua infância.passeio pela vila.Vou tentar levar isso como um elogio – disse Luís levando o pão fresco à mesa. – Hoje temos um longo passeio pela frente. – E dizes tu que o teu pai parece uma criança de oito anos. sem se importarem com o trabalho e muito menos com o facto de serem obrigados a voltar a Lisboa no dia seguinte.Pois vais ter que comer – interrompeu Sérgio entregando-lhe o café em mãos. .Aonde é que vão? .Vais gostar. rapidamente percebeu que lhe faltava conhecer tanta coisa em apenas um fim-de-semana relâmpago. Ansiavam também conhecer todos os cantos turísticos e passar um dia no mínimo agradável sem olhar para os ponteiros do relógio.Eu?! – indagou ela voltando-se para Sérgio – Pescar? . absorver a beleza das casas caiadas. admirar as pessoas à sua volta que ao contrário das que moravam em Lisboa caminhavam sem pressa de chegar a algum lugar e com a certeza que o mundo não acabaria no dia seguinte. especialmente uma hóspede tão bonita como você. Além de que a pesca é uma boa forma de relaxamento. o mercado repleto de feirantes que vendiam de tudo um pouco. – Apesar de tudo ainda têm o dia de amanhã.Bem. Faltava aventurar-se pelas ruelas estreitas. – …espero que voltes comigo aqui outra vez – disse Sérgio quando as suas taças se tocaram sobre a mesa à hora do almoço. . Leva-nos os pensamentos para longe e faz-nos pensar nas coisas com mais clareza… O passeio pela vila tomou-lhes toda a manhã. Esta. – E o meu avô é um grande professor. mas acho que vai ter um grande trabalhão comigo – disse Madalena arrancando uma risada geral.

E esse facto é de que daqui a uns anos tu vais querer ter os teus próprios filhos e eu não tos vou poder dar. eu sei que a Sara não vai lá muito com a minha cara. eu sei que me amas. não tos vou poder dar e tu vais acabar por me jogar esse facto à cara.É claro que vamos – respondeu Sérgio com uma expressão séria.Não é nada disso..Sérgio. . casados e não nos restar absolutamente mais nada para fazer em Lisboa. eles já gostam de mim tal como eu também gosto deles. – Daqui a alguns anos.Não estás a perceber. . mas… . mas isso é uma questão de tempo até eu conseguir conquistar a confiança dela.O meu avô também te considera uma neta.O quê?! . por exemplo? . – Quer dizer. por mais que eu tente.Eu sei. . . – Estás a gozar. mas… existem coisas que um dia vais querer e eu não te vou poder dar.Mas eu não estou a dizer para nos mudarmos agora – adiantou-se ele.Mas também quero manter os pés no chão – respondeu Madalena poisando a sua taça de vinho sobre a mesa. Durante vários minutos.Sérgio. .Mas pensarias e só isso já me faria sentir mal. Ela olhou-o.Tu sabes que eu nunca faria isso. Sérgio! Eu só estou a constatar um facto. . . não é?! – indagou Sérgio largando-lhe a mão. vocês já são todos da minha família. Para mim.Queria muito acreditar nisso. poluição. stress.No máximo teria idade para ser a filha dele.Mas nós já somos uma família – interrompeu Sérgio encontrando-lhe o pulso sobre a mesa.Porquê!? Não gostavas de morar num local onde não existe hora de ponta. .Quero que venhas morar comigo aqui nesta vila. – Uma família… . . – Não vamos estragar 97 .Então é isso. problemas… . não?! . . . – Nós vamos ficar juntos para sempre.Como assim?! . Por mais que eu queira. a minha floricultura… enfim! Tenho tudo. mas… . quando os teus filhos estiverem crescidos. o silêncio apoderou-se da mesa onde Madalena e Sérgio estavam sentados.E será que até lá ainda vamos estar juntos? . Tenho os meus filhos. e durante vários minutos apenas se ouviram o barulho das conversas dos clientes que se encontravam igualmente a almoçar duas mesas atrás. E quanto ao Daniel e ao teu pai. eu tenho a minha vida toda em Lisboa. Madalena riu-se.Mas o quê? . ele desviou o olhar e assim a refeição terminou com um sabor amargo de derrota. .O quê. – Mais uma vez estás a falar da nossa diferença de idades.Filhos – respondeu ela sem desviar os olhos dele. eu também te amo muito.

Algumas horas mais tarde. Sim. Além disso. .Quem sabe um dia não faço isso.Quero mostrar-te o lago onde costumava brincar quando era criança. – Nem por isso! Está óptima – respondeu Sérgio. 98 . – Acredite que teria muito gosto em recebê-lo na minha casa e assim você até poderia conhecer o meu pai. passou essa certeza pela cabeça de Sérgio quando a viu sorrir para si. .O que é que vamos fazer agora? . enquanto mais tarde. Depois disso.Quando lá chegarmos vais perceber. Sérgio e Madalena regressaram a casa e encontraram à sua espera o cherne grelhado na brasa preparado por Luís Restelo.Não te queria chatear. – Isto parece um sonho – confessou ela. Aposto que histórias em comum não vos iriam faltar. Era a primeira vez que cometia uma loucura na sua vida. O mundo parou. . O barulho dos pássaros deixou de ser ouvido.Não! Nunca tal ideia me passou pela cabeça. – Está bem. voltou novamente à superfície e encontrou nos braços de Sérgio o conforto perfeito para se apoiar.Quem sabe um dia não nos vai visitar a Lisboa – disse ela.Tu é que estragaste. Ele era belo. na cozinha.o nosso dia – pediu Madalena voltando a encontrar-lhe a mão sobre a mesa. a sua beleza e a candura que o seu sorriso transparecia a quilómetros de distância. E ela era a mulher da sua vida. mas também era a primeira vez que tinha a oportunidade de se atirar de cabeça ao desconhecido sem pensar nas consequências que esse acto poderia acarretar. Desculpa! Infelizmente Sérgio foi obrigado a fazê-lo. – Nunca pensou em morar noutro local que não aqui? – perguntou Madalena voltando-se para o dono da casa. Nasci aqui. E nem mesmo o facto de saber que ela era mais velha que Sérgio conseguiu diminuir a admiração que sentiu ao conhecê-la pessoalmente. – Estava a ser tão bom. – A água está a ficar fria – riu-se Madalena. Luís adorou a simplicidade de Madalena. foi o elogio que Luís ouviu de Madalena quando ela degustou a primeira garfada do cherne acompanhada de um gole de vinho. E de facto.Isto é um sonho – respondeu ele sugando-lhe os lábios no interior de um lago onde havia passado a maior parte da sua adolescência. . . Madalena se encarregou de fazer a salada e de retirar as loiças dos armários. ela pôde ter essa certeza quando lhe encarou o rosto depois de o ter pertencido sem quaisquer restrições. ele montou uma mesa improvisada no jardim das traseiras. Madalena percebeu todas as razões que fizeram Sérgio levá-la àquele lago. . Em poucos minutos. . Fica a poucos minutos se formos de carro. cresci também e não iria saber mexer-me noutro sítio. lembraste? . Por sorte. o tempo ameno permitiu que a refeição fosse servida sem quaisquer atrasos. radiante. o avô de Sérgio não poderia ter ficado mais contente com o elogio da namorada do seu neto. quando ao retirar as roupas atirou-se para a água e sentiu-se a mergulhar até a um metro e meio de profundidade. o sol voltou a brilhar quando as nuvens desapareceram do horizonte e os corpos dos dois amantes conjugaram-se na perfeição. Está uma delícia.E porque é que me queres levar a esse lago? .

amor… – exclamou Sérgio voltando-se para Madalena com um largo sorriso nos lábios. dias. . enquanto olhava para Sérgio e o via completamente embevecido por Madalena. tais como a morte da sua mulher e da sua única filha. Mas apesar de tudo ele sabia ainda lhe restava o neto. aí sim já poderíamos morrer felizes. era sem dúvida a leitura e a escrita de vários sentimentos que guardava dentro de si.Bem! Já conseguiste um milagre. A noite terminou em beleza com um poema lido por Luís.Conseguiste que o meu avô prometesse uma ida a Lisboa. . cujo principal divertimento para ocupar as longas horas. Depois de a ver. 99 . Foi para ver a felicidade estampada no rosto do neto. Depois disso. E naquela noite em especial. Aquela felicidade que parece colar-se à nossa pele e não nos deixar um só segundo. ainda lhe restava a única razão que o havia impedido de cometer suicídio quando à sua volta tudo pareceu ruir. ele sentia-se muito mais leve e apto a aguentar uma vida repleta de percas e desgostos.Que milagre?! .Não sejas exagerado – defendeu-se Luís encabulado com os risos dos seus convidados. pela primeira vez Luís percebeu o porquê de ter conseguido arranjar forças para se manter vivo. meses e anos de solidão..

Porque o melhor fim-de-semana que tiveste até hoje foi comigo.Daniel! Sara! Vão já lavar as mãos – gritou Madalena enquanto eles subiam as escadas a correr.Nós é que pensámos que viesses mais tarde – respondeu Jorge observando a entrada dos filhos pelo corredor adentro. Percebeu também que tinha cometido um grande erro ao destruir casamento de dezasseis anos.Em primeiro lugar o Sérgio não é um rapaz. fez-se um silêncio ensurdecedor no corredor. . acompanhou os filhos em direcção ao portão principal e viu-se metido num enorme dilema interno. – O que foi? – perguntou ela ao vê-lo a olhar fixamente para si. .Está bem – responderam os dois quase em uníssono. .Até que enfim – foram as palavras de Madalena quando abriu a porta e se deparou com a figura dos filhos e do ex. Jorge! O meu fim-de-semana foi realmente muito bom.Não. . tu sabes bem a fazer o quê! . Depois disso. essa percepção estava a matá-lo por dentro. mulher. – Pensei que viessem mais cedo.CAPÍTULO VI O fim-de-semana tinha chegado ao fim. Depois disso. Entrar ou não entrar? Enfrentar ou não Madalena e o novo namorado que ela tinha feito questão de lhe esfregar na cara semanas antes? Com certeza ambos já haviam regressado do maldito fimde-semana no Alentejo e com certeza que a felicidade estampada no rosto da ex. 100 .Desculpa. . – Mas não se demorem porque senão o jantar arrefece. . – Então?! Como é que foi o tal fim-de-semana romântico no Alentejo? . mulher iria ser algo difícil de suportar.Duvido – respondeu ele surpreendendo-a com tal afirmação.Há quanto tempo tu e esse rapaz estão a namorar? . Após o divórcio. Jorge começava a chegar à conclusão que as suas certezas foram infundadas e precipitadas. marido sobre o alpendre. mas eu realmente já não me consigo lembrar desse fim-de-semana – respondeu Madalena poisando as mãos na cintura. . foi o que Jorge pensou quando estacionou o seu carro a poucos metros da casa da ex. foi o melhor fim-desemana que já tive até hoje.Nada – respondeu ele enfiando as mãos nos bolsos das calças.Foi bom. aliás.Duvidas porquê?! . . . lembraste!? O primeiro que passámos juntos quando começámos a namorar. . Levei-te à casa de férias de um amigo meu e passámos quarenta e oito horas no quarto a … bem. e que aos poucos e poucos.Foi bom!? Pela tua cara deve ter sido horrível. onde ele adquiriu a certeza absoluta que Madalena nunca se iria conseguir refazer da separação e muito menos encontrar outro homem que se mostrasse interessado por ela. as portas dos quartos fecharam-se com estrondo e Madalena encontrou forças para voltar a encarar o rosto de Jorge.

A resposta de Madalena não poderia ter sido mais cruel. – Gripe! Mas sabes como é que a minha mãe é! Faz um bicho-de-sete-cabeças só para que eu vá ver a miúda.É muito mais novo que tu.Vou ver a minha filha! A minha mãe ligou-me a dizer que a miúda estava doente. talvez pela sua idade ou aparência física. Nas semanas seguintes. E mesmo ele tendo pensado várias vezes em voltar-se para trás e encarar-lhe o rosto pela última vez. não? Desse gajo quero mais é distância. O Intendente. os seus novos amigos e vícios.Porquê?! . Era lá onde ela passava várias horas do dia e deambulava pelas ruas ao lado de Milene. . – Já percebi que esse assunto te incomoda.. . – Só nos falámos duas vezes por telefone e foi assim meio rápido. pois a sua vida.O. as roupas extravagantes e também a procura de clientes. o tempo e o espaço pareciam completamente alheios à decadência que ali se vivia. enquanto do lado de fora do bairro. – Bem … eu já vou indo.O que esteve connosco naquela festa no Bairro Alto. . Era habitual para quem passava por lá observar-lhes as gargalhadas.Quando é que achas que vamos voltar a ver o Marco? .k – riu-se Jorge num tom sarcástico. por acaso não me incomoda nem um pouco.k! Boa noite. despertando a inveja de algumas das prostitutas mais experientes da zona.Não. passou a angariar cada vez mais clientes. . severo e sem a mínima margem de manobra para que ele continuasse a fazer-lhe mais perguntas. Muito pelo contrário. a única que parecia nutrir um especial apreço por aquela jovem perdida na vida. marido. . uma força oculta conseguiu levá-lo ao carro de costas voltadas. . Frio.O. mas mais do que a resposta. .Que Marco?! . O que me incomoda é o facto de estar a falar sobre esse assunto contigo. Era ali que ela não se sentia julgada.Não – respondeu Sara apreensivamente.Esse Marco?! Só podes estar a gozar.Claro – disse Madalena sustendo a porta com as mãos. cruel foi o olhar que ela lançou ao ex. mulher. .Telefono depois para saber dos miúdos. excepto de Milene. . De certeza que deve estar a precisar de dinheiro. Em pouco tempo. senão nem sequer tinha ligado. – Amanhã vou ao Porto – disse ela saindo da casa de banho enrolada numa toalha. não recebia ordens e conselhos de ninguém e vivia conforme as suas vontades e desejos. . era ali que Sara se sentia bem.Acho que não – respondeu Milene apressando-se a vestir as cuecas.Porquê?! . . 101 .É alguma coisa séria? . por isso é um rapaz.Porque é algo que não te diz respeito. Arlete e outras prostitutas do bairro. encontravam-se todos numa das zonas mais degradadas de Lisboa.Ele não é assim tão mais novo que eu.Ele não te contou qual é a cena dele no Algarve? .Fazer o quê? – perguntou Sara curiosamente. .Boa noite também para ti – respondeu Jorge afastando-se da porta sob o olhar atento da ex. Mas por mais estranho que parecesse. Ele disse que morava no Algarve. raras foram as vezes que Sara colocou os pés no interior de uma sala de aulas. . .

- Ele é traficante de droga, querida! E não é um traficante qualquer. É um da pesada. Coisa para gente adulta, não sei se me entendes. - Como é que sabes?! - Toda a gente conhece a fama dele – respondeu Milene vestindo uma camisola de malha em frente ao espelho. – O gajo nunca foi flor que se cheire, mas meteu-se com gente errada e acabou por fugir para o Algarve quando lhe mataram o irmão no bairro onde ele morava. Acho que a bala era para ele, mas como era de noite, confundiram os dois irmãos e o mais novo é que acabou por morrer no lugar dele. - Que horror. - Por isso é que ele só vem a Lisboa de vez em quando, mas não pára muito tempo para não ser apanhado… Sara sentiu-se atordoada ao ouvir o discurso de Milene, mas pior ainda ficou quando percebeu que Marco não era o homem ideal para qualquer mulher. A sua vida, cheia de actos criminosos e outras histórias escabrosas por contar, não parecia de maneira nenhuma conjugar-se com a dela. Mas ainda assim, havia qualquer coisa que não a deixava esquecelo. O que seria? Ou melhor, seria normal? No fundo, Sara sabia que não, até porque há muito que a palavra normalidade tinha deixado de fazer parte do seu vocabulário. – Bem, deixa-me ir andando – interrompeu-lhe Milene os pensamentos. - Aonde é que vais? - Vou-me encontrar com um cliente no hotel Ritz. - Uau! Que chique – riram-se as duas. - O gajo é podre de rico, tens que ver! Conheci-o há dois anos numa festa e desde então nunca mais me largou. - É giro?! - Não muito – respondeu Milene escovando os cabelos molhados. – Tem quase idade para ser o meu pai, mas pelo menos é simpático, paga bem e trata-me como uma verdadeira rainha. Depois do serviço gosta de conversar sobre política. - Estás a gozar, não?! – riu-se Sara animadamente. - Que me dera, mas não! E logo eu que não percebo nada disso. Mas o gajo sabe tudo. Também é presidente de uma empresa multinacional e tem uma data de conhecimentos. Quando começa a divagar, eu só aceno com a cabeça que sim e finjo que o estou a ouvir. Acho que o gajo nem percebe que a minha única vontade é desaparecer de lá com o dinheiro na mão. Tal como todas as noites, o jantar foi servido às oito horas por Madalena, e o convidado especial encarregou-se de colocar a mesa sob o barulho ensurdecedor da televisão da cozinha. Era a terceira vez naquela semana que Sérgio privava da companhia da namorada e dos filhos dela, restando poucas dúvidas de que também ele já fazia parte da família. Aos poucos e poucos, a sua amizade com o pequeno Daniel e o pai de Madalena foi-se consolidando, mas o mesmo não se podia dizer de Sara, que ainda continuava a ver no namorado da mãe um verdadeiro alvo a abater. Na verdade, o desejo da jovem em vê-lo pelas costas era imperioso desde o terrível incidente em que ela lhe colocou os pés por debaixo da mesa. Foi um acto irreflectido, os dois sabiam-no bem, mas o clima continuava tenso sempre que se viam nos corredores da casa ou eram obrigados a privar de uma refeição familiar. Depois do jantar, normalmente
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quando todos se refugiavam na sala a ver televisão, os olhares que Sara lançava aos constantes carinhos trocados pelo futuro padrasto e pela sua mãe eram esmagadores e ditavam uma verdade irrefutável: Ela odiava ver-lhes a felicidade estampada no rosto. - O Sérgio vai dormir cá em casa hoje – avisou Madalena já perto do final da noite. - Vou-me deitar – disse Sara desaparecendo da sala com uma expressão aterradora. Desde essa noite, várias foram as vezes que o fotógrafo pernoitou em casa de Madalena. Normalmente aparecia à hora do jantar, após um dia cansativo a fotografar nos estúdios e trazia consigo pequenas guloseimas para os filhos da namorada. Além das guloseimas, foram também trazidas as primeiras mudas de roupa, a escova de dentes e outros objectos pessoais que faziam claramente antever a sua mudança. Não achas que é demasiado cedo, foi a pergunta de Alice à melhor amiga, e Madalena, sempre com um sorriso, respondia que não e que se encontrava totalmente segura na sua relação com Sérgio. Mas a verdade é que essa relação não era bem vista por todos, especialmente por Sara, que só encontrava um aspecto positivo para o facto de o fotógrafo passar as noites em sua casa, e esse aspecto era o de ela conseguir escapulir-se a meio da madrugada para se encontrar com os seus novos amigos sem medo de ser apanhada pela mãe. Muitas vezes, encontrava-se com esses eles em bares nocturnos pouco apropriados para a sua idade, nos arredores do bairro e em cafés da zona onde clientes e prostitutas misturavam-se com o cheiro dos cigarros e da luxúria. Sexta-feira era o dia da semana mais movimentado no bairro do Intendente. Era usual os cafés e os bares encontrarem-se abarrotados de gente, e também era usual a polícia fazer algumas rondas pela zona apenas para se certificar que tudo estava a decorrer dentro da normalidade. Sempre que apareciam, Sara conseguia a ajuda necessária para se esconder e só voltava a surgir aquando do desaparecimento dos agentes de autoridade. Sim. Eram momentos de algum aperto, mas por sorte ela conseguia sempre fugir com a ajuda de Milene. Aquela noite não foi excepção. Os polícias fizeram as rondas habituais, pediram a identificação de várias pessoas estranhas ao local e logo desapareceram pelas ruas do bairro trazendo de volta o alívio a quem não tinha sido apanhado. – Anda – disse Milene fazendo um sinal a Sara para que ela pudesse sair da pensão onde permaneceram escondidas durante trinta e cinco minutos. – Os gajos já se foram embora. - Tens a certeza? – perguntou Sara olhando para todos os lados. - Claro. Anda lá! Foram precisos apenas alguns minutos para que Milene e Sara atravessassem a rua em direcção a um dos bares mais movimentados da zona. Mais uma vez, o estabelecimento encontrava-se apinhado de gente. Na aparelhagem soava uma música rock infernal e na única televisão do bar colocada na parede, passava um filme não muito conhecido. Aliás, o filme era tão pouco conhecido, que quase ninguém presente no local se dignou a levantar o rosto em direcção ao ecrã. Estavam todos entretidos em conversas informais, a beber e a confraternizarem entre si. Outros dançavam, riam-se às gargalhadas e tentavam esquecer-se de todos os problemas que rodeavam as suas vidas. Milene e Sara foram algumas dessas pessoas. – Ainda te lembras de mim?

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A voz não lhe era estranha, e ao voltar-se para trás com uma garrafa de cerveja nas mãos, Sara abriu um sorriso radiante. Era ele. Era Marco. Após dois meses de ausência onde apenas se comunicaram através do telefone, parecia quase um sonho tornar a vê-lo novamente. – Nem acredito! És mesmo tu? - Carne e osso – respondeu Marco levantando os braços. - Pensei que não viesses a Lisboa tão cedo. - Vim tratar de uns negócios, mas no domingo já estou de volta ao Algarve. E tu? O que é que andas a fazer por estas bandas? - Eu sou destas bandas, lembraste?! - Ainda na vida?! - E tem algum mal nisso? - Por mim não – respondeu ele pedindo uma imperial ao empregado do bar. – Só tenho pena que uma miúda como tu ande para aí a deitar-se com qualquer um. Especialmente com os gajos que passam por este bairro. Mereces melhor. O discurso de Marco mereceu um sorriso por parte de Sara. – Queres que te pague uma outra cerveja? - Claro. Pode ser – respondeu ela terminando a sua num só gole. Completamente alheios ao tempo e ao espaço, foi assim que Sara e Marco se sentiram enquanto conversavam perto do balcão acompanhados pelas suas respectivas cervejas, pelo barulho infernal da música e a movimentação das pessoas à volta. Obviamente que nenhum deles falou sobre assuntos importantes, não conversaram sobre a família, os amigos e muitos menos projectos futuros, mas ainda assim sempre que os seus olhares se cruzavam era como se o mundo parasse e tudo deixasse de ter significado. – Queres ir para outro lado? Isto aqui está barulhento – disse ele ignorando um telefonema inoportuno. - Tudo bem. Podemos ir. Pagas as bebidas, Marco e Sara saíram de mãos dadas e só voltaram a largá-las quando interceptados por Milene à saída. – Aonde é que vão? – perguntou ela, curiosa. - Vamos dar uma volta – respondeu Marco levando o cigarro à boca. – Porquê?! - Vão dar uma volta aonde? - Qual é a tua, Milene?! Viraste puritana agora, é? Ou vais-me dizer que resolveste adoptar a Sara como filha? - Eu só não quero que ela se meta em confusões. - Eu não me vou meter em confusões – interrompeu Sara sob o olhar aterrador de Milene. - Acho melhor ires para casa, Sara! Eu peço a um amigo meu para te levar. - Ela não vai com nenhum amigo teu – interferiu Marco puxando Sara contra si. – Vai comigo. - Sara… - Eu vou com ele – respondeu a jovem, resoluta. – Tchau, Milene! Depois falamos. O cheiro a tabaco tinha-se entranhado nos estofos do carro de Marco, mas nem o odor intenso ou o espaço reduzido dos bancos de trás, acalmaram o desejo e a excitação de Sara por ele. Submersa naquela pele achocolatada e naqueles braços musculados marcados por duas tatuagens, ela entregou-se e permitiu-se ser possuída sem quaisquer restrições. Com Marco era diferente, ambos sabiam-no bem. Com ele não o fazia por dinheiro, por luxúria,
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Sara.Podemos ver-nos amanhã. a verdade é que não conseguiu tal feito quando chegou ao quarto e caiu na cama como um verdadeiro peso morto. não é?! .Queres mais. Madalena ultimou os preparativos do almoço que contaria não só com a presença do namorado. Seria amor? Não. mas havia realmente algo que a prendia a Marco e a deixava completamente rendida a ele. esquece! Não queres os cinquenta euros azar o teu. – Já separaste as tuas roupas sujas para pôr na máquina? – perguntou ela à filha quando a viu a entrar na cozinha. e ao vê-la a caminhar apressada em direcção aos portões de casa. . .Quero aquilo que mereço.Mas talvez eu seja mesmo! Talvez eu seja só mais uma prostituta a quem todos os homens pagam para irem para a cama.Não é nada disso… – defendeu-se ele. mas também com a do pai. . Porque é que irias pensar que eu era diferente? Já me conheceste nesta vida.Eu não quero ser tratada de maneira… .O.Tudo bem – respondeu ela estendendo a mão com um olhar aterrador. . . não és?! Não estás sempre a encher a boca para dizer que vais para a cama com homens porque gostas? Porque é que queres ser tratada de maneira diferente? . Entretanto. . Marco acatou a ordem e entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. mas ainda assim Sara arranjou forças para abrir os portões e correr em direcção a casa sem sequer olhar para trás ou observar a expressão mortificada de Marco. .mas sim por um sentimento estranho que ela nunca pensou sentir por alguém.k – respondeu ele oferecendo-lhe uma outra nota de cinquenta.Vou no domingo. . 105 .Já – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. Só não quero que te falte nada.Tu estás-me a pagar – foram as últimas palavras dela antes de abandonar o carro e fechar a porta com força.Eu não quero que me pagues – respondeu Sara indignada por tal gesto.Quem está na chuva é para se molhar. . uma presença habitual lá em casa. . é?! . – Tu achas que eu sou igual a todas as outras. . Afonso Soares. – Paga-me! Apesar de se ter sentido surpreso com a reacção de Sara. .Não é um pagamento.Posso voltar a ver-te antes de ires para o Algarve? – perguntou ela quando ele a levou a casa. Marco seguiu-a e alcançou-lhe os braços pedindo desculpa. Depois disso. Ainda era demasiado cedo para sentir uma coisa dessas. na cozinha. – Já te chega? A humilhação tinha sido imensa. E mesmo tendo tentado controlar as lágrimas. O domingo amanheceu ensolarado e foi por essa razão que Sérgio resolveu regar o jardim com a ajuda de Daniel. – Toma! Para ti. Mas também não penses que te vou passar a mão pela cabecinha ou sentir-me mal por te ter oferecido dinheiro. O que é que achas? . – É pouco – afirmou ela não desviando os olhos dele. És puta mesmo. agarrou-se à almofada e fechou os olhos inchados numa tentativa desesperada de adormecer.Eu ligo-te depois – disse Marco apressando-se a retirar uma nota de cinquenta euros da carteira.

Porque é que não aproveitas para a fazer antes do almoço? Já que não estás a fazer nada. Seria algum cliente. . . Assim sendo.Não. Não poderia ser. .O.Não te esqueças também de fazer a tua cama de lavado. – Não posso sair agora. . mas deixou Sara especada sobre os portões com os olhos postos em Marco.…podes. nem um pouco. . .Para saber de ti – respondeu ele encolhendo os ombros. – Tens uma visita lá fora.Então… o que é que queres? . . E o homem que viste aqui no jardim não é o meu pai. a única alternativa que lhe restava era sair ao jardim e ver com os seus próprios olhos quem tinha tido a audácia de a procurar. – Eu sei que fui um bocado parvo contigo na sexta-feira passada. – Então?! Posso ligar ou não? . . Enquanto ele caminhava calmamente em direcção ao carro. atirou-o contra o lava-loiça e por fim preparou-se para sair da cozinha não fosse a figura de Sérgio ter-se atravessado no seu caminho. mas ainda assim a jovem achou por bem acatar as ordens da mãe.Pensei que já tivesses voltado para o Algarve – afirmou Sara tentando manter uma expressão fria e altiva. A resposta trouxe um pesado suspiro por parte de Sara. ao contrário de todas as suas expectativas.Não queres dar uma saída? Levava-te a almoçar num sítio qualquer.Eu também acho..Faço mais tarde. . – Então nesse caso acho melhor ir andando. era Marco. . muito menos a desconhecidos.Quem!? .Não é por causa deles.Vim te ver – respondeu ele apoiando-se sobre os portões. não foi? .Porque estás aqui à minha frente – respondeu Madalena cortando os legumes sobre a bancada. – Apenas disse que era um amigo e que precisava falar contigo. e essa pessoa. – Porquê? Fiz mal? . ela poisou as 106 . Ficaste chateada.Posso ligar-te um dia destes? .k – disse Marco tentando ignorar os olhares de Madalena e Sérgio atrás das cortinas da janela.Não – respondeu Sara com poucas palavras. .Pedir-te desculpas – respondeu Marco.Não?! Pensei que era.Não me disse o nome – respondeu Sérgio sob o olhar atento de Madalena. . já que ela nunca se atreveu a fornecer a sua verdadeira morada a ninguém.Estão aceites. Sara – afirmou ele desfazendo-se das luvas de borracha que utilizou para regar as plantas e a relva do jardim.Como é que sabes que eu não estou a fazer nada? .Por causa dos teus pais?! .Ele é só o namorado da minha mãe. . passou essa pergunta pela cabeça de Sara.Só vou hoje à noite. . Não. A despedida foi rápida e fria.Para quê?! . .Mesmo assim! Não queria sair de Lisboa sem te pedir desculpas primeiro. . Bebeu um copo de água. – O que é que estás aqui a fazer? .

Faltavam poucos dias para a Páscoa quando um verdadeiro milagre aconteceu. Achei estranho. o avô de Sérgio a passar a comemoração festiva em sua casa.A conversa dos dois. E a verdade é que essa semana passou a uma velocidade fantasmagórica.Não foram tantos assim. Mas a verdade é que não o fez. .Estranho o quê?! . – Ele parece ser muito mais velho! E também duvido que com aquela pinta ainda ande na escola. Mas não sei! É o jeito dele. – Quem era aquele rapaz? – foi a primeira pergunta que Sara ouviu da mãe assim que entrou em casa. talvez devesse ter-se atirado para os braços de Marco e dito que o adorava acima de tudo. .Lena esquece esse assunto! Estás a fazer um bicho-de-sete-cabeças de uma coisa absolutamente natural. . – Ela disse que era só um amigo – afirmou Madalena entrando novamente na cozinha. . Quantos e quantos rapazes não foram à tua procura quando tinhas a idade da Sara? .Eu não sei.mãos sobre a cerca e permitiu que os seus pensamentos voassem dali para fora. claro que não – defendeu-se Madalena de imediato. Eu era uma menina muito bem-comportada se queres que te diga.Era só um amigo – respondeu ela subindo as escadas a correr.Se calhar da escola. . As amêndoas foram compradas.Por ser preto?! . – É melhor ires andando. . Após inúmeros telefonemas e convites. . . – Eu não sou nada preconceituosa em relação a esse assunto.Não. Reprimiu esse desejo e no fim odiou-se por isso. E também não gostei nada do ar dele.São só coisas da tua cabeça – respondeu Sérgio beijando-lhe os cabelos. 107 .Bem-comportada. Madalena conseguiu convencer Luís Restelo. . não teve outro remédio a não ser aceitar o convite e a prometer uma visita sua para dali a uma semana.Tens a certeza que era só um amigo? A pergunta não obteve qualquer resposta quando Sara voltou a trancar-se no quarto fechando a porta com força. o cabrito adquirido e os vinhos guardados no frigorífico para a ocasião especial.Não – afirmou Madalena instintivamente.E de onde é que a Sara o conhece? . .Pois não devias – respondeu Madalena envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. e o último. Deveria sentir-se feliz com aquela visita? Talvez sim. entendes?! Bati os olhos e não gostei. amor! Não deixes o teu avô à espera na estação – afirmou Madalena enquanto ultimava os preparativos para o grande almoço de família. é?! Duvido… . – Eu fui a adolescente mais bem-comportada do mundo.Meu Deus! Que mentirosa – riram-se os dois às gargalhadas. Nunca dei trabalho aos meus pais e também nunca fiz nada de errado… .Se ela disse isso é porque era mesmo só um amigo – respondeu Sérgio começando a colocar a mesa do almoço. sentindo-se honrado. .

. – Queres que te traga alguma coisa da rua? . . lembraste? O pior é que a Sara também ainda não chegou.Hã… esqueci-me – berrou Madalena levando as mãos à cabeça. 108 . nada menos. – Eu vou buscá-lo. – Estás aí? – perguntou Madalena após um longo silêncio que ele fez questão de lhe oferecer ao telefone. . . Tenho o cabrito no forno. . então nesse caso vou indo. Alheio a tudo o que se estava a passar à sua volta. . o relógio assinalou onze horas e quarenta e cinco minutos e o trânsito pura e simplesmente parou. Nessa altura. que Sara. dois. ele encontrou o telemóvel sobre a caixa de velocidades e digitou o número de Madalena.Podes deixar – respondeu Sérgio beijando-a nos cabelos. – O meu pai. .O que é que tem o teu pai? .A Sara ainda não chegou? . – Estou?! ..É só para te avisar que estou muito. Ainda tentou forçar a vista. . Escuta! Eu já te ligo. mas já nessa altura.O que é que aconteceu? . era nada mais. foram as palavras que o fotógrafo repetiu vezes sem conta enquanto as buzinas dos carros começavam a ecoar naquela rua verdadeiramente estreita. O pior é que não valeu de nada! Estou preso numa outra rua por causa de umas obras que estão a fazer. mas mesmo muito atrasado – disse Sérgio largando as mãos sobre o volante. a filha da sua namorada. Eu não queria que ele apanhasse transportes públicos para vir almoçar connosco. Um. . Não sei se me vou conseguir despachar a tempo de ir buscar o meu avô e o teu pai. está bem – respondeu Sérgio observando a figura de Sara a desaparecer pela rua acima. três toques e ela atendeu a chamada.Obrigada! És um anjo.Não.Não! Disse que ia entregar um presente a uma amiga que fazia anos mas que não se ia atrasar para o almoço. Sérgio concentrou todas as suas atenções para uma cena chocante que se estava a passar diante dos seus olhos. mas a verdade é que lhe restaram poucas dúvidas de que aquela jovem que tinha acabado de sair de uma pensão nos braços de um outro homem mais velho.Apanhei um acidente no caminho e resolvi mudar o percurso. Já tentei ligar-lhe para o telemóvel uma data de vezes e dá sempre no serviço voice mail… As lamúrias de Madalena continuaram a ecoar-lhe nos ouvidos.Já vou andando – respondeu Sérgio vestindo o casaco às pressas.Hã… estou.Bem.Não consegues ir buscar o teu pai? . convencer-se a si próprio que o que estava a ver era fruto da sua imaginação ou então uma terrível coincidência.Eu não sei.Não acredito – resmungou Madalena. . não é preciso. O meu avô vai-me matar. O percurso em direcção à estação de camionetas poderia ter sido mais fácil se não fosse um aparatoso acidente ao qual Sérgio tentou contornar por um outro caminho mais demorado.Será que eras capaz de o apanhar? Ele telefonou-me ontem à noite para me dizer que o carro dele deu o berro e que está a arranjar na oficina.

. . marido. .Jorge. . Mas o pior é que já devia ter voltado. Ao ouvir a ordem da mãe. Alice.Olá Lena… . eu preciso de uma panela… .O telemóvel foi desligado e atirado novamente contra a caixa de velocidades.Aonde é que ela foi? .Se quiseres posso ir buscar o teu pai – afirmou Jorge para grande surpresa de Madalena. Era Jorge. .Mas eu faço questão! Já passa da uma e tu sabes que o teu pai gosta de almoçar cedo. O que é que ele tinha lá ido fazer? . Sabes lá a que horas é que a Sara pode aparecer por aqui… A proposta do ex. . que também foi convidada para o almoço. marido era deveras tentadora.Cheira bem – disse Jorge apontando para o forno.Já vi que toda a gente foi convidada para este almoço. . . O que é que vieste cá fazer? . e depois disso.Disse que ia entregar um presente de aniversário a uma amiga da escola.disse ele entrando na cozinha alguns minutos mais tarde. mulher à volta do lava-loiça.Oras! Vim ver os meus filhos. lembraste?! .Já vi que não perdeste o jeito. marido. .Olha.Pensei que também fizesse parte da família.Já lhe ligaste para o telemóvel? – perguntou Jorge apoderando-se de uma maçã sobre a fruteira da cozinha.Olá – respondeu ela largando uma toalha sobre a bancada. . .Cabrito. – O que foi?! Trago o teu pai num instante. O seu ex. Pai foi a palavra que Madalena ouviu enquanto fechava a porta do forno. Só estou à espera dela para ir buscar o meu pai a casa – respondeu Madalena escorrendo a água da massa. 109 . .Não da minha família.Não é preciso. – Que surpresa ver-te por aqui. Sara e o senhor desconhecido que a acompanhava desapareceram sem deixar rastro. ou teria Sérgio conseguido o milagre de trazer o avô e o pai dela em tempo recorde? – Daniel. Por isso. Raios. . .Claro! O problema é que está desligado. . Raios. vai atender – pediu ela ao filho enquanto levava o cabrito novamente ao forno.Eu sei. Daniel saltou da cadeira da cozinha e correu a abrir a porta. Aonde é que se tinham metido? Faltavam poucos minutos para a uma da tarde quando Madalena sentiu a campainha tocar. quando Sérgio lançou a cabeça para fora da janela. Seria Sara? Seria a sua melhor amiga. mas ainda assim. alguns passos vindos do corredor.E porque é que haverias de ser convidado?! . É Pascoa.A sério?! Pensei que a Sara e o Daniel fossem os nossos filhos. eu não quero e nem vou discutir contigo agora! Tenho uma quantidade enorme de coisas para fazer. a Sara não está – afirmou Madalena não se deixando afectar pelos elogios baratos do ex. se não te importares de sair da frente do armário. mas ainda assim Madalena hesitou em aceitá-la. menos eu – resmungou Jorge trincando a maçã enquanto observava os gestos da ex.

– Mas vê se tomas banho antes de desceres para o almoço. mas ainda assim não lhe trouxeram qualquer saudade. Ele tratou-me tão bem quando fui passar aquele fim-de-semana à casa dele que eu queria retribuir-lhe a gentileza. marido deixou antes de sair. coitada da rapariga – interferiu Alice continuando a colocar a mesa. . . Com certeza deve ter ficado à conversa com a amiga e as duas perderam a noção das horas. a melhor amiga de Madalena.Nota-se assim tanto? . . Para além disso. – Mas não se atrasem. Foram muitos.Eu não sei. Saíste daqui às dez. – Então?! Posso ir buscar o Sr. mas também de não dar mostras de querer desaparecer tão cedo.Está bem! Vais no banco da frente então.Já te tinha dito – respondeu Sara rasgando alguns olhares a Alice. De um passado repleto de discussões. . oh pestinha!? Não queres vir com o pai?! . .disse ela ajudando a colocar a mesa da sala. Continua o mesmo.Claro que não – riram-se as duas. pelo amor de Deus! .Pois! Mas disseste também que não te irias demorar. . . Lena! Até parece que nunca fiz isso antes. A resposta de Alice culminou com a entrada de Sara na sala e também com o olhar aterrador que Madalena fez questão de lançar à filha quando se deu conta do seu atraso imperdoável.Nunca te vi tão animada.Águas passadas – riu-se Jorge enquanto terminava de comer a sua maçã. murmurou ela levando o caroço ao caixote de lixo.Nem tanto assim – respondeu Madalena distribuindo os talheres pelos pratos.. Afonso? . traições e faltas de respeito. A primeira pessoa a chegar para o almoço foi Alice. .Vá lá. levou igualmente a boa-disposição que lhe era característica em momentos festivos. . – Fui ter com uma amiga. – Bem.Podes deixar – respondeu ele voltando-se para Daniel. – Quer dizer. quase dezasseis. Quando éramos casados cansava-me de ir buscar o teu pai e a tua mãe a casa.E eu lembro-me que não gostavas nem um pouco de fazer isso.Tudo só porque o avô do Sérgio vem cá almoçar? .…está bem – concordou Madalena. Já viste que horas são? Quase duas da tarde. .Podes – respondeu Madalena percebendo-lhe o sarcasmo na voz.Só se for no banco da frente. esmeraste-te… . – E tu. Anda lá! A visão através da janela da cozinha dos dois homens da família a entrarem no carro fez com que Madalena voltasse a recordar os anos em que esteve casada com Jorge. – Até que enfim! Aonde é que estiveste? . E Madalena pôde ter essa certeza quando ao lançar os olhos à bancada da cozinha foi obrigada a deparar-se com os restos da maçã que o ex. …um pouco. e consigo trouxe duas sobremesas especialmente adquiridas numa pastelaria perto da sua casa.Posso subir? – perguntou Sara num tom debochado. Jorge fazia parte do passado. .Lena. – Também não se atrasou tanto assim. 110 . .A quilómetros de distância! Não há dúvidas de que o Sérgio te está a fazer muito bem.

Foram precisos vários minutos até que a porta se voltasse a abrir com as chaves levadas por Daniel, e atrás de si, vieram o avô e o pai envolvidos numa conversa divertida, algo não muito incomum entre dois homens que sempre se deram muito bem e que nunca esconderam a admiração mútua que sentiam um pelo outro. – Olá, pai – disse Madalena correndo a cumprimentar Afonso quando todos entraram na sala. – Como é que estás? - Estou óptimo – respondeu ele despindo o casaco. – E tu? - Cansada, mas bem! O almoço já está pronto. Vieste na hora certa. - Então vamos almoçar. Estou a morrer de fome. - Não, ainda não. Ainda vamos ter que esperar mais alguns minutinhos – respondeu Madalena rasgando alguns olhares ao ex. marido. – Falta ainda o Sérgio e o avô dele. Os dois apanharam algum trânsito pelo caminho, mas o Sérgio ligou-me há pouco para me dizer que já estão quase a chegar. - Hã… claro. - Bem, nesse caso, eu já vou andando – disse Jorge quando se deu conta que a sua presença não era muito bem-vinda. - Porquê?! – interrompeu Afonso. – Fica para almoçar connosco. - Eu?! - Claro! Foste tão gentil em ter-me trazido até cá. O mínimo que podias fazer era dar-nos o prazer da tua companhia, não achas? Por momentos, Madalena pensou estar a sonhar quando ouviu o discurso do pai e o convite estapafúrdio que este fez a Jorge sem sequer a consultar. Será que Afonso tinha perdido totalmente a noção da realidade? Será que ele não a ouvira a dizer que o seu novo namorado e o avô dele estavam a poucos minutos de chegar à sua casa? - Bem… - disse Jorge, encabulado. - …eu não sei se a sua filha concorda com o seu convite, Sr. Afonso! - É claro que ela concorda. Não concordas, Lena?! O silêncio mantido por Madalena foi deveras constrangedor. – Não concordas? – insistiu Afonso fulminando-a com os olhos. – As crianças iriam gostar de passar a Páscoa com o pai. Não foi preciso esperar muito tempo para que Sérgio Almeida e Luís Restelo tocassem à campainha e para que Madalena lhes abrisse a porta com um largo sorriso imediatamente correspondido pelos dois. Depois disso, seguiram-se os cumprimentos habituais perto do corredor e a tentativa de fazer Luís sentir-se em casa. – Atrasados, nós sabemos – disse Sérgio. – Mas a culpa não foi minha. - Eu sei! A culpa foi do trânsito – respondeu Madalena forçando um sorriso ao avô do fotógrafo. – Espero que tenha feito uma boa viagem, Sr. Luís. - Não foi tão má como pensei que seria. Apenas alguns solavancos no caminho, mas por sorte não cheguei partido. - Que bom! Mas entre, por favor. Fique à vontade. - Obrigado – respondeu Luís aceitando o convite com alguma cautela. Nessa altura, Sérgio encarregou-se imediatamente de lhe guardar o casaco e o chapéu no bengaleiro. – Será que era possível ir à casa de banho? - Claro, vô – respondeu Sérgio apontando-lhe uma porta ao fundo do corredor. – É ali. - Obrigado – agradeceu Luís seguindo a direcção apontada.
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- Desculpa ter-te deixado sobrecarregada com os preparativos do almoço, mas é que nem fazes a mínima ideia de como é que estava o trânsito lá para os lados das Amoreiras. - Não, tudo bem – respondeu Madalena impedindo Sérgio de sair do corredor quando lhe alcançou os braços. - O que foi? - É que… eu precisava contar-te uma coisa antes de irmos para a sala. - O quê?! A expressão doce e sorridente de Sérgio fê-la sentir-se pior do que mal, mas a verdade é que Madalena não tinha outra opção a não ser contar que a lista de convidados se havia estendido para além do previamente estipulado. – Estás-me a dizer que o teu ex. marido também veio almoçar? - Eu sei que parece uma loucura, uma coisa ridícula. Aliás, não parece, é – interrompeu Madalena segurando-lhe o pulso com força. – Mas tens que acreditar que a culpa não foi minha! Foi o meu pai que o convidou. - E porque é que o teu pai o convidou? - …o Jorge veio ver o Daniel e a Sara, e eu sem querer acabei por lhe dizer que precisava de alguém para ir buscar o meu pai porque tu me tinhas ligado a avisar que estavas atrasado. Então ele ofereceu-se para ir buscar o meu pai e… - E tu aceitaste? – perguntou Sérgio tentando controlar os ciúmes que se apossaram de si. - Só porque não tive outra opção. A Sara ainda não tinha chegado da rua, eu tinha o almoço no lume e também não podia deixar o Daniel sozinho em casa. - O.k! - Então quando eles chegaram, eis que o meu pai teve a brilhante ideia de convidar o Jorge para almoçar connosco. Eu não queria, mas… - Tudo bem, Lena! Esquece. - Desculpa – disse ela observando-lhe a expressão desagradada. – Eu sei que é uma situação horrível, principalmente por causa do teu avô, mas eu não tive culpa. Foi algo que fugiu ao meu controle. Acredita em mim…! - Eu vou lavar as mãos à cozinha – afirmou Sérgio deixando-a especada no corredor a remoer todas as culpas por aquela situação no mínimo caricata. Tal como se era de esperar, o almoço tornou-se sombrio para Sérgio e Madalena, já que a visão de Jorge sentado à mesa retirou-lhes todo o apetite e trouxe um certo desconforto a Luís Restelo por perceber o desconforto do neto diante daquela verdadeira afronta a que ele tinha submetido. Talvez Afonso e as crianças não tivessem percebido o pouco à vontade dos restantes convidados, talvez estivessem demasiado entretidos com as piadas contadas por Jorge, mas a verdade é que nenhuma dessas piadas surtiu efeito para Madalena, Sérgio, Luís ou Alice. – Ainda não perdeste o jeito para a cozinha, Lena… – foi a gota de água dita pelo advogado no final do almoço. - Bem, eu vou buscar as sobremesas – respondeu ela recolhendo as loiças sujas. - E eu ajudo-te – interferiu Alice desejando sair daquela mesa tanto quanto a sua melhor amiga. Quando chegaram à cozinha, o estrondo das loiças a caírem no lava-loiça fizeram antever todo o ódio que Madalena estava a sentir, não só pelo seu ex. marido, mas também pelo seu

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pai, o responsável por toda aquela situação no mínimo caricata. – Eu devia suicidar-me… – disse ela. - Toma – respondeu Alice entregando-lhe um facalhão. - Obrigada pelo apoio moral. - Eu até acho que o almoço não está a correr assim tão mal. - Só podes estar a gozar – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico a fim de retirar as sobremesas que havia prometido aos seus convidados. - Achas que o teu pai fez de propósito? - O que eu acho é que ele está a ficar velho e senil. - Para mim a culpa é do Jorge. - A sério?! Não me digas. Nem tinha percebido uma coisa dessas. - Aposto que foi ele que manipulou o teu pai durante o caminho para que ele o convidasse para o almoço. É a cara do Jorge fazer uma coisa dessas! O gajo nem sequer consegue disfarçar que está a morrer de dores de cotovelo. - Dores de cotovelo porquê?! - Lena, não me digas que ainda não percebeste? Ele está louco para atrapalhar o teu namoro com o Sérgio – respondeu Alice colocando as taças das sobremesas no interior do tabuleiro. – Aposto também que ele quer voltar para ti. - Shiuuuu! Fala baixo! - Que mal é que tem? Está na cara de todos. Só um cego é que não consegue ver que o Jorge ficou cheio de dores de cotovelo quando soube que havia um outro homem interessado em ti. Isso é perfeitamente natural nos ex. maridos! Pensam sempre que nós nunca nos iremos conseguir recuperar do divórcio, que vamos acabar secas, sozinhas e a fazer tricô no sofá da sala, enquanto eles ficam livres e soltos para aproveitar a vida com rapariguinhas de vinte anos. Diz lá qual é a novidade nisso? Já era assim no tempo da minha avó. - Só me sinto mal por causa do Sérgio e do avô dele – disse Madalena levando as sobremesas à mesa da cozinha. – Imagino a impressão que Sr. Luís teve ter tido de mim. Ele deve pensar que eu sou uma descarada. Que ando com dois homens ao mesmo tempo. - Claro que não – riu-se Alice alegremente. – Acredita que deixaste bem claro à mesa que odeias o teu ex. marido de morte. - Deus queira que sim! Era a segunda vez que a observava a sair da sala e era também a segunda vez que lhe passava pela cabeça confrontá-la com o que vira horas antes. Foi por isso que Sérgio interceptou Sara à frente das escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e parou-lhe todos os movimentos com uma frase rápida e seca. – Vi-te hoje. Surpresa com a interpelação, a jovem voltou-se para trás e encarou-lhe a expressão séria. - Desculpa?! - Vi-te hoje numa rua perto de Campolide! Estavas a sair de uma pensão com um homem que tinha quase idade para ser o teu pai. - E o que é tu tens a ver com isso? - O que é que estavas a fazer com ele? - Não é da tua conta – respondeu Sara apoiando-se sobre o corrimão das escadas.

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Eu pensei que … o Sr. O ex. E obrigado também pelo almoço. oh! Apesar do mal-estar inicial que a presença de Jorge provocou. faltavam poucos minutos para as sete da tarde. militar. Luís fosse voltar de camioneta.Pensei que tinhas dito à tua mãe que ias entregar um presente a uma amiga. não hesitou em contar a todos os presentes algumas das peripécias passadas durante a guerra colonial. as horas pareceram voar. o almoço decorreu sem quaisquer outros incidentes. e quando deu por si.Desculpar o quê?! O sorriso confiante e paternal de Luís permitiu que Madalena se sentisse menos culpada pela presença do ex. Nessa altura. Era bom poder conversar com outras pessoas. é isso?! .Ao Alentejo? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. . mas obrigado pelo convite. os convidados deliciaram-se com as sobremesas confeccionadas por Madalena e divertiram-se com as conversas animadas de Afonso Soares. – Tem a certeza que não quer passar a noite connosco? – perguntou Madalena observando os gestos de Luís a vestir o casaco junto ao bengaleiro do corredor. . .Sara.Sim! E provavelmente vou lá dormir para não vir a conduzir tão tarde. . . 114 . conhecimentos e deixar de olhar os ponteiros do relógio à espera que por milagre eles andassem mais depressa. cuja idade era praticamente idêntica à de Luís Restelo.E se estiver? O que é que tu tens a ver com isso? Também não te andas a relacionar com mulheres mais velhas? .Eu vou levar o meu avô a casa – interferiu Sérgio abrindo a porta da rua. Infelizmente tinha chegado a hora de voltar ao Alentejo e à sua vida reclusa. . . o de avô Sérgio.Obrigada eu por ter vindo – respondeu ela apertando-lhe as mãos com força. Luís sentiu-se entre amigos e afastou dos ombros a sombra da solidão. Sentados nos sofás e em algumas cadeiras espalhadas pela sala. – Tem razão! Espero que faça uma boa viagem então. – E desculpe qualquer coisa.Já disse que não é da tua conta. poucas dúvidas restaram relativamente à afinidade dos dois senhores e à excelente ideia de Madalena em juntá-los no mesmo espaço. E para a surpresa das surpresas. Luís também contou histórias iguais. naquele domingo particularmente ventoso. De facto. marido e também para que percebesse que nem mesmo esse acontecimento menos feliz destruiu a boa imagem que o avô de Sérgio tinha de si. projectar as suas experiências. Passei uma tarde bastante agradável. Por acaso essa amiga morava naquela pensão? .Não. Pela primeira vez desde a morte da mulher e da sua única filha. Ou será que ainda não percebeste que durante o almoço tu e o teu avô estavam ali a mais!? Silêncio foi a resposta de Sérgio enquanto Sara continuava o seu discurso venenoso. – A minha única alegria é saber que falta bem pouco para a minha mãe te dar um pontapé no rabo e voltar para o meu pai! Falta um pouquinho assim. não queiras distorcer as coisas… . a mãe de Sérgio.Eu se fosse a ti preocupava-me mais com a tua vida e menos com a vida dos outros.. .Tu andas a relacionar-te com homens mais velhos.

Sr. três vezes. Luís! À noite as estradas são um pouco perigosas. a verdade é que nem todas conseguiram tal feito. uma. Amava-a.Falamos amanhã – foram as últimas palavras de Sérgio a Madalena antes de se afastar dela com uma expressão fria e carregada.Então qual é o problema não estou a perceber.Eu também – respondeu Luís enfiando o chapéu na cabeça. duas.Não! Perdi o sono. e embora as estrelas no céu levassem para longe alguns dos seus pensamentos mais sombrios. talvez. – Magoado. e o pai. . . Mas será que não fazia? Será que Sara tinha razão quando disse que faltava muito pouco para que Madalena e Jorge voltassem ao casamento de ambos? Foram essas algumas das perguntas que também retiraram o sono de Sérgio em casa do avô. eu sei que no fundo ele torce para que a filha volte para o ex.Fugiste de Lisboa porquê? .. Mas era óbvio que os acontecimentos daquele horrível almoço de Páscoa ditaram o afastamento do fotógrafo da sua cama. mas será que só isso bastava? Será que só isso chegava para que continuasse a lutar por ela? Diante de tudo o que tinha acontecido naquela tarde. mas… .É a Madalena. genro.Não. marido dela no almoço.Não sabia que estavas a namorar com essas pessoas todas – respondeu Luís. – Eu também acho melhor que vá com o seu neto.O que é que se passa. ele começou a ter algumas dúvidas. Só precisava de… algum tempo para recompor as minhas ideias e pensar no que devo fazer. Sérgio baixou o rosto. – Pensei que estivesses a namorar só com a Madalena.Chateado não é bem o termo – respondeu Sérgio permitindo que o seu avô se sentasse ao seu lado nas escadas. Virou-se na cama.De onde é que foste buscar uma ideia dessas? Por acaso a Madalena tratou-te como se fosses um intruso? . não é?! Ficaste chateado por ver o ex.Por me ter sentido a mais! Por ter sentido que era eu o intruso e não ele.Nada – mentiu Sérgio interiorizando a serenidade que aquele quintal lhe trazia. . mas ainda assim o sono teimou em não aparecer. – Pensei que já te tinhas ido deitar – disse-lhe o avô. Madalena não pregou olho. ela não. . . . marido de Madalena ainda fazia parte daquela família.Claro – disse Madalena forçando um sorriso quando percebeu os verdadeiros motivos para que o fotógrafo quisesse levar o avô a casa. – Até já tinha comprado bilhete ida e volta.Eu não fugi de Lisboa. . rapaz? . Já vi que não há santo que lhe consiga mudar de ideias.Magoado porquê? . Sentado sobre o alpendre da porta com um chocolate quente nas mãos. quanto a isso não dúvidas. Naquela noite. Era óbvio também que ele se havia magoado com a presença de Jorge e com a certeza que o ex. 115 . marido também. . Foi só nessa altura que ela chegou à conclusão que o que lhe estava a faltar eram os braços de Sérgio e o peito dele para que pudesse encostar a cabeça. o ex. . o fotógrafo lançou os olhos ao céu e tentou encontrar motivos para continuar a lutar por Madalena. mas o Sérgio quer levar-me a casa. embora seja simpático comigo. – A filha dela odeia-me. .

disse ela quando os seus olhos se cruzaram com os de Sérgio. . O maldito almoço de Páscoa.As coisas não são assim tão fáceis. .Pode até ter sido o teu pai. mas a verdade é que não fizeste nada para o impedir. Desculpa! . Por sorte. 116 . Após quarenta e oito horas sem qualquer notícia ou telefonema de Sérgio. – Que tal ter dito ao teu ex. ela conseguiu arranjar forças para subir e para também tocar à campainha.E porque é que querias pensar e ficar sozinho? . vô… .Desculpa! Eu devia ter ligado. Era só isso que eu queria.Não.Não. Tempo para pensar. Que ele não tem acesso directo à tua casa e que não aparece lá sempre que lhe apetece. para ficar sozinho… ..E qual será a opinião dela? – perguntou Sérgio voltando-se para o avô. .Não sei. Ao subir os degraus das escadas. mas ainda assim.Então pergunta-lhe – respondeu Luís abandonando o quintal e também todas as dúvidas que o neto carregava dentro do peito. marido que era ridículo sequer imaginar a ideia de o sentar à mesma mesa comigo e com o meu avô!? Quer dizer. Tudo o resto são detalhes.Desculpa – pediu Madalena correndo ao encontro dele. põe-te no meu lugar! Tu humilhaste-me … . eu não … .Não. entra – pediu ele abrindo-lhe passagem em direcção ao estúdio.Já te disse que a culpa não foi minha – afirmou Madalena largando os braços.Porque eu pensei que também precisavas pensar e ficar sozinha. .Tempo?! Tempo para quê? . mas parece que tu não estás disposta a fazer isso por mim. A única coisa que eu queria era ter a certeza que o teu ex. o seu coração disparou.Estás muito ocupado? .O que é que eu podia fazer? .São sim! É só com a opinião de Madalena que te deves preocupar e nada mais. . . . . marido já não faz parte da tua vida.Não sei – respondeu Sérgio não escondendo a sua fúria.Eu não queria ter que te desculpar.Tu humilhaste-me e tens consciência disso porque senão não tinhas cá vindo – afirmou Sérgio calando-lhe todos os argumentos.Não sabes?! . – Desculpa! Eu não queria ter feito o que fiz. por sorte naquela tarde o trânsito ajudou e por sorte ela conseguiu chegar ao estúdio do fotógrafo em apenas vinte e cinco minutos. as mãos começaram a suar e os nervos a apoderaram-se de si. Madalena resolveu engolir o seu orgulho e procurá-lo à hora de almoço. – Não fui eu que convidei o Jorge para almoçar. Alice disponibilizou-se a tomar conta da floricultura. . Foram precisos apenas dois toques. pensou Madalena enquanto se livrava da mala e do casaco que tinha nas mãos. – …olá… .Precisava de tempo – respondeu Sérgio. – Porque é que não me ligaste? . Foi o meu pai… . Os momentos que se seguiram foram preenchidos com um silêncio ensurdecedor e com a certeza de que havia muita coisa a ser esclarecida desde o último almoço de domingo.

Mas o Jorge já não faz parte da minha vida – respondeu Madalena num tom desesperado. Estava esgotado. ela deixou-se envolver e os dois acabaram caídos no divã à espera que os beijos e as carícias pudessem apagar todas as palavras amargas que disseram momentos antes. receios e inseguranças.Então vamos esquecer tudo o que aconteceu neste domingo. Sérgio encostou-se à secretária e levou as mãos à cabeça. por uma relação que lhe estava a consumir todas as forças. mas… . Lena! Mas eu não sei se vou conseguir lidar com isto tudo.Se tu soubesses como me tenho esforçado para que isto dê certo. ela teve dúvidas. Não sei se vou conseguir lidar com o facto de ser obrigado a olhar para a cara do teu ex. pelos seus medos. – Tu nem sabes… . . 117 .Eu também não. – Não termines comigo – disse Madalena levantando-lhe o rosto com as mãos. .Nós já estamos a discutir! Ao ver-se pela primeira vez sem argumentos. esbaforida. Ele envolveu-a nos braços. Esgotado por aquela discussão. nada mais importou. quanto a isso não havia dúvidas. as coisas eu que tenho aguentado… .Eu também. eu não quero discutir.Eu não sei – respondeu Sérgio aos gritos dela.E o que é que queres que eu faça? – gritou Madalena.Tens a certeza? Diante da pergunta de Sérgio. – Eu não quero ficar sem ti – repetiu. . Foi por isso que eu me resolvi afastar. mas principalmente. marido sempre que ele resolve aparecer ou então com a vontade do teu pai em querer que voltes para ele. . – Eu não sei. – Eu amo-te. Isto para não falar da Sara! Todos eles estão a torcer para que a nossa relação não dê certo e o pior é que tu estás a deixar que isso aconteça… . – Eu amo-te. .Boa! E depois a culpa é minha?! E depois eu é que estou a fazer de tudo para que a nossa relação não resulte? . Prometo! A promessa da Madalena pareceu ter surtido efeito quando Sérgio lhe encontrou os lábios e os beijou com toda a paixão que possuía dentro de si.murmurou ele com os olhos rasos de lágrimas. Vamos colocar uma pedra sobre o assunto.. Eu prometo que vou fazer de tudo para afastar o Jorge de nós.A única coisa que eu sei é que eu te amo e que não quero ficar sem ti – respondeu ela amparando-lhe uma lágrima com os lábios.Lena. . Depois disso. – Não quero. .

k – riram-se os dois.Viver contigo?! .Acho bem – respondeu Sérgio beijando-lhe a mão direita. .Não vou tirá-lo do dedo nunca. mas lindíssimo anel no dedo.Achei que fosses gostar. . é claro. marido dela. Com um jantar romântico à luz de velas num restaurante italiano chamado Cipriani. . .CAPÍTULO VII Os dias seguintes trouxeram alguma calmaria perdida após aquele fatídico domingo de Páscoa. Madalena seguiu à risca as promessas que fez. – Eu quero muito.Tenho – respondeu Madalena sem quaisquer hesitações. 118 .Não tens que agradecer.Nem mesmo a Sara? .Ainda não – respondeu ele esboçando um sorriso carinhoso. .Nunca me lembro de levantar a tampa da sanita. – Estás-me a pedir em casamento? . Madalena não conseguiu esconder a emoção. – É lindo! . .Adorei – riram-se os dois apertando as mãos sobre a mesa. o aniversário de Madalena provou isso mesmo. – Talvez ela se vá opor um pouco. . . Ao ver-se com aquele discreto.Que condição? . Mas eu tenho a certeza que nenhum deles se vai opor.Eu vou falar com eles. . – Mas é um passo importante para isso.Olha que eu sou muito desarrumado. Quero dormir ao teu lado todas as noites e acordar contigo todas as manhãs. De resto.A sério? Nem tinha percebido uma coisa dessas.Mas só com uma condição.Sim! Eu quero que te mudes para a minha casa definitivamente. baixinho.O. .Que venhas viver comigo – respondeu Madalena tomando-o de assalto com aquele convite inesperado. . . Sérgio conseguiu definitivamente conquistar o coração dela ao oferecer-lhe um maravilhoso anel de compromisso.O. – Obrigada.E os teus filhos? .Tens mesmo a certeza que é isso que queres? . . tenho o péssimo hábito de deixar a toalha molhada sobre a cama e quase nunca dobro as minhas camisas… . Sérgio tentou dissipar a suas dúvidas relativamente ao ex. Só o tens que usar. mas eu sei como lhe dar a volta.k! Pensando melhor… . e assim o casal continuou a projectar planos para um futuro que apesar de tudo parecia promissor.riram-se os dois.

Devo aparecer aí por Lisboa na próxima sexta-feira e volto no mesmo dia.É claro que eu sou de confiança.Sim – respondeu ela sorrindo ao telefone. Como é que ela se atrevia a colocar um perfeito desconhecido lá em casa.E quando é que voltávamos? . Sei lá! Combinávamos num sítio qualquer e eu levava-te comigo. – Não queres vir comigo ao Algarve? – perguntou ele já perto do final da conversa. Um facto que passou completamente despercebido o Sara enquanto o ouvia com atenção e se deliciava com a sua voz grave e grossa ao telefone.Não te precisas preocupar com isso – afirmou Sérgio envolvendo-lhe os braços à volta da cintura. – Eu também quero morar contigo. . . Eu quero que te sintas em casa. não penses – disse ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. eu quero que sintas que esta é a tua casa. Alguma vez te deixei ficar mal? 119 . . A semana não poderia ter começado melhor para Sara quando recebeu um telefonema de Marco a meio da madrugada. ela iria tentar ser feliz. o facto é que aconteceu e pouco ou quase nada houve a fazer por Sara que mais uma vez viu na presença do fotógrafo uma afronta especial oferecida pela sua mãe.Não. disse-lhe. claro que não! Por tua causa. Mas a verdade é que nem os gritos histéricos da filha impediram Madalena de levar os seus planos adiante. . . encontrava-se ao lado daquele perfeito desconhecido.Nem pensar. – Já te disse que me arranjo. a pensar no bem-estar dos filhos e a viver em função deles. Chega. – Achas que este espaço te chega? – perguntou Madalena abrindo as portas do seu roupeiro a Sérgio. . .Ainda bem – respondeu Madalena sugando-lhe os lábios no meio de um sorriso radiante.No domingo. feliz ou infelizmente. . . . .Deixei-te também duas gavetas livres e uma outra na casa de banho. A mudança de Sérgio aconteceu duas semanas mais tarde. e a sua felicidade. e embora não tivesse sido aprovada pela maioria.Não.Vamos. aliás.Então vamos morar juntos – respondeu Madalena entrelaçando os dedos nos dele. Depois disso..…eu não sei se vou poder ir – disse Sara sentindo-se mais do que tentada a aceitar aquele convite no mínimo inesperado. foi a pergunta que a jovem gritou aos ouvidos de Madalena vinte e quatro horas antes de Sérgio se mudar de armas e bagagens. Tal como sempre. Dali para frente. . – Porque não sei se és de confiança. .Está óptimo. a porta do quarto de Sara fechou-se com um enorme estrondo e não se ouviu mais nenhum barulho durante a noite. ele estava no Algarve metido nos seus inúmeros negócios esquivos e pretendia regressar a Lisboa no final da semana para entregar algumas mercadorias ilícitas.Eu sei! E eu já sinto isso.Ir ao Algarve? Quando? . Chega de passar a vida a pensar nos outros.Por causa da mamã?! . .Por minha causa? .

Mas a paixão que sentia por ele valia a pena? De certo que sim. mas também arriscado. .…está bem – respondeu Sara dando-se por vencida.Normal.Ouve lá – disse Milene voltando-se para Sara. o que é que isso importa? Já estou chumbada mesmo – riu-se a jovem. – Atrasei-me. . desiludo-me. e para ajudar à festa. .. – Se queres que te diga.Maluca – exclamou Milene empurrando-lhe as costas. o trânsito infernal que apanhou durante o caminho apenas lhe trouxe uma enorme dor de cabeça. Vou-me encontrar com ele no Campo Grande. . . A chegada a casa aconteceu quando faltavam poucos minutos para às oito. as compras do supermercado prenderam Madalena mais tempo do que estava à espera. .Esparguete à bolonhesa. . .Vou trabalhar. mas nessa altura. – Desculpem! Desculpem – pediu Madalena entrando pela cozinha adentro carregada de sacos de compras. por isso não me deves satisfações e nem eu te devo conselhos.Não faz mal – respondeu Sérgio entregando-lhe uma colher à boca. – Os teus pais por acaso não desconfiam que andas a faltar às aulas para vir para cá? .Não. Infelizmente. ao contrário dos outros.Aonde é que vais? . .O problema é que quando fizeres isso já vai ser tarde demais – afirmou Milene vestindo o seu casaco às pressas. eu não sou a tua mãe.Eu também tenho um cliente marcado para as três e meia. – Anda lá! Não me posso atrasar.Estou chateado – respondeu Daniel afastando-se bruscamente da mãe.Já vi que sim – respondeu Madalena apressando-se a beijar a face do filho.Não! Eu consigo sempre apanhar as cartas da escola no correio. O plano parecia ser perfeito. . mas isso não significa que ele seja má pessoa – respondeu Sara saltando da cama.Escuta! Eu sei que o Marco anda metido em negócios estranhos. Sérgio já havia iniciado os preparativos de um jantar no mínimo improvisado enquanto Daniel se entretinha a jogar na sua playstation portátil em frente à televisão da cozinha. Sara sabia-o melhor do que ninguém e sabia também que quando voltasse do seu fim-de-semana com Marco. naquela sexta-feira. amor? Como é que foi a escola? . – Eu vou fazer tudo para ir contigo. De qualquer maneira.Então?! Vem comigo e eu prometo-te que vais passar um fim-de-semana inesquecível. . . – Tu não sabes com quem te estás a meter – avisou-lhe Milene a dois dias da fuga. – Prova o molho! Vê se está bom? . Queres pagar para ver? Paga! Tal como já me disseram.Estás com uma cara! O que é que aconteceu? .Chateado porquê? 120 .Hum! Está óptimo. ele trata-me muito bem! Não me trata como uma prostituta. . A minha especialidade.O.k! Se eu estiver iludida. . tudo iria desmoronar à sua volta tendo em conta a histeria da mãe.Ele não presta! Estás iludida. . – E tu. – Mas tudo bem.

Porque é que o pai não me levou também? – interrogou Daniel não escondendo a sua irritação. .O Jorge veio buscá-la? – perguntou Madalena depois de ter lido o bilhete vezes sem conta.Estou-te a perguntar se a Sara está aí contigo – repetiu Madalena.Não sei! Quando chegámos ela já não estava cá em casa – respondeu Sérgio.Não sabes de alguma amiga com quem ela possa estar? Encontra um número – afirmou Jorge começando a ficar preocupado com o súbito desaparecimento da filha. – Porque é que a Sara haveria de estar comigo? . Tens a certeza que não sabes nada da Sara? . E a última.Um problema?! .Claro que sim. . Não sei aonde é que aquela maluca se meteu.. Está tudo bem. .Está bem – respondeu Madalena desligando o telefone sem muitas delongas. .Então aonde é que ela se meteu. . não está – disse ele tentando desenvencilhar-se dos braços de uma mulher. mentiu.Não. encostou-se à mesa para melhor o ler: -“ Mãe! Fui passar o fim-de-semana com o pai e volto no Domingo. mas vou ter que ir à casa da minha ex. impaciente. Mas se a filha não estava com o pai. se ela estiver aí contigo e tu a estiveres a encobrir… .Jorge! Responde à minha pergunta.Porque ela deixou um bilhete escrito a dizer que ia passar o fim-de-semana contigo e que eu não precisava preocupar-me em ligar! Jorge. mas está desligado.Aonde é que vais? – perguntou a mulher que estava na cama de Jorge. eu estou a ir para aí! Qualquer coisa entretanto e não hesites em ligar-me.” .Não. . Não precisas ligar. – Disse à mãe que estava comigo. foi a conclusão a que Madalena chegou após ter reflectido pela primeira vez.Desculpa Catarina. mulher. seguiu-se número do ex.Qual encobrir qual quê – exclamou ele levantando-se da cama. então com quem ela estava? – Já lhe tentaste ligar para o telemóvel? – perguntou Jorge.E tu vais-me deixar aqui sozinha? 121 . – A Sara está aí contigo? . . .Acho que é por isso – interferiu Sérgio entregando a Madalena um bilhete escrito por Sara horas antes. já disse que não! Não falo com ela desde quarta-feira. O número de Sara foi imediatamente digitado. Aconteceu um problema. encontrava-se fora de área. por favor… . mas tal como sempre. mas tal como deves calcular. .Ela não está aí contigo? . meu Deus?! .A minha filha desapareceu – disse Jorge enfiando-se nas suas calças. . ao reconhecer a letra. .Desculpa?! . – Olha. Depois disso.Isto está-me a cheirar muito mal – murmurou Madalena correndo a alcançar o telefone sobre a bancada. marido e a sorte que foi em ele ter ouvido a chamada. – Alguma vez fui buscar a Sara e o Daniel sem te avisar primeiro? Na verdade não.

– Não vens? . O que estaria Sara a fazer para ganhar tanto dinheiro? .Que tal porque me estás a tratar como uma? . lingerie provocante e outros artigos escabrosos que nenhuma rapariga de dezasseis anos deveria ter em sua posse.Bem que me tinham dito que tu não eras de confiança – resmungou Catarina apressandose a encontrar a suas roupas espalhadas pelo chão. princesa?! É claro que eu sei que não és uma prostituta.Estou – foram as primeiras palavras de Madalena quando a sua chamada foi atendida por uma das melhores amigas da sua filha. – Graças a Deus encontrei! .Então liga-lhe. coisas que até ele não queria imaginar quando se lembrou que dias antes a havia visto a abandonar uma pensão ao lado de um homem muito mais velho. ele deixou de ter dúvidas.Que é isso. Sérgio foi o único a encontrá-la. . Mas a verdade é que Sara tinha. o facto de ter encontrado quinhentos euros em notas de vinte. Sim. e quando a abriu com alguma discrição para que a namorada não se apercebesse do que estava a fazer.Tens a certeza que é isso? . eu não sou uma prostituta – afirmou Catarina levantando-se da cama. – Encontrei – exclamou Madalena erguendo uma pequena agenda cor-derosa. Escuta! Se quiseres dou-te boleia até a uma praça de táxis mais próxima. Ao segurá-los nas mãos.. os seus olhos esbugalharam-se de surpresa e consternação. já te disse. . É da turma da Sara. Eu conheço-a. mas tenho mesmo que ir! A minha filha desapareceu. – Mariana?! Sou eu. a tua fama já corre pela cidade inteira ou ainda não sabias?! Seguindo os conselhos do ex. . marido. Amigas da escola.Não tenho outra escolha. esbaforida.Tudo bem. . que nem sequer se apercebeu ou se deu conta de uma grandiosa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro.Sim. Sérgio voltou a abrir as portas do roupeiro a fim de encontrar a caixa de cartão que continha alguns dos objectos mais íntimos de Sara. Além disso. é! Olha. Quando a porta do quarto se encostou com cuidado e os passos de Madalena se perderam pelo corredor. Como é que podes pensar uma coisa dessas? . Mas a verdade é que estava tão cega e obcecada em encontrar o que procurava. Não posso ficar aqui contigo sem saber o que realmente aconteceu com ela.Não! Eu vou ficar para ver se consigo encontrar outros números… . . Madalena subiu ao quarto de Sara e apressou-se a encontrar qualquer objecto que contivesse números de telefone de pessoas próximas à filha. preservativos. foram as palavras que repetiu vezes sem conta enquanto revistava gavetas e armários com a ajuda de Sérgio. tem aqui o número da Mariana. Eram dezenas de filmes pornográficos.Jorge.Quem é que te disse isso?! .Eu sinto muito. e a outra verdade é que Sérgio começava a chegar à conclusão que existiam muitas mais coisas para além do comportamento rebelde da jovem. apenas veio a cimentar a suas desconfianças. cinquenta e cem. . mas é que eu precisava saber se a Sara por acaso não está aí contigo… 122 . a mãe da Sara! Desculpa estarte a ligar a estas horas. Coisas que ninguém sabia e que ninguém tinha coragem de imaginar. amigas da escola.Vou ligar da sala – respondeu Madalena correndo em direcção à porta.Jorge.

.Tem calma. Nessa altura.. Aquilo era mais do que podia suportar. . Os passos nervosos e descontrolados de Madalena deixaram Jorge alerta no minuto em que ele pisou a sala. D. pensou. o relógio assinalou vinte e duas horas e o esparguete à bolonhesa cozinhado por Sérgio esfriou sobre o fogão. Ninguém tocou ou se lembrou dele. . os olhos marejados de lágrimas e um desespero patente por não ter a mínima ideia de onde a sua filha se tinha metido. Mas … eu pensei que tinha conseguido resolver esse problema quando a tirei da casa do pai. não! Eu há muito tempo que não a vejo. Nenhum telefonema da directora de turma… . Ainda não. 123 .Tem calma – disse Sérgio tentando alcançar-lhe os ombros embora Madalena se tivesse desviado a tempo. Madalena. pois o desejo de encontrar Sara era mais forte do que tudo. tu sabias disso? A tua irmã disse-te alguma coisa? . .A minha filha já apareceu? – foi a pergunta ríspida de Jorge quando Sérgio lhe abriu a porta.A Mariana acabou de me confirmar isso – respondeu Madalena ignorando o olhar curioso de Daniel sobre si. parecia também ser a mais provável.Isso não quer dizer nada. Encontrou-a com as mãos sobre a cabeça. Chumbou por faltas! E o pior é que eu não me posso dizer surpresa porque no primeiro período recebi uma carta da escola a avisar-me que ela estava em perigo de chumbar. Lena – disse Sérgio pressentindo o seu desfalecimento. – A Sara chumbou de ano. .Não.Eu vou lá atender – disse Sérgio correndo em direcção à porta enquanto na sala Madalena tentava convencer-se a si própria que tudo aquilo não passava de um horrível pesadelo.Daniel.Tens a certeza que ela não tem ido às aulas? .Como é que… como é que eu não percebi isso antes?! Eu não recebi nenhuma carta.Claro – respondeu Sérgio percebendo-lhe um certo tom de sarcasmo na pergunta. boquiaberta.Não é melhor ligar primeiro para os hospitais? – interferiu Sérgio. – Mariana.Posso entrar?! . .Hã. Madalena apenas teve forças para se encostar ao sofá e levar uma das mãos à cabeça. . . . a Sara não tem ido às aulas? Enquanto ouvia a resposta de Mariana através do telefone. – Vou ligar para a polícia – disse Jorge encontrando o telemóvel no bolso das calças.Porque eu ia levá-la todas as manhãs à escola. também o desespero tomou conta do advogado quando terminados todos os números da lista de contactos de Sara. – Chumbou por faltas a meio do segundo período. .Como não?! Vocês não são da mesma turma? Ocorreu um silêncio ensurdecedor no outro lado da linha. – Há dois meses que a Sara não põe os pés na escola – afirmou ela voltando-se para Sérgio.Não – respondeu o pequeno assustando-se quando ouviu a campainha tocar. entendes?! Eu via-a a entrar nos portões.Será que é ela? . . Mais do que conseguiu imaginar nos seus piores sonhos e uma realidade que apesar de cruel. ninguém sabia do seu paradeiro. Meu Deus! Será que eu estava cega? . Contudo.

Eu nunca namorei com ninguém.O que é que nós somos?! . despediram-se dos donos da casa e prometeram empenhar-se na procura de Sara.A polícia encarrega-se de fazer isso por nós – respondeu Jorge tentando controlar a imensa vontade de ver o namorado da ex. – Tens frio? . que alheia a tudo o que se estava a passar em Lisboa. Foram precisos poucos minutos para que a polícia tomasse conhecimento do desaparecimento de Sara e também para que se deslocassem à moradia de Madalena para recolher algumas informações adicionais e fotografias recentes da jovem desaparecida. foi a pergunta que os pais. – O que é que fazemos agora? – perguntou Madalena quando os policiais se foram embora.Eu já estou desesperada.. Aonde é que ela está. Ali.O que é que nós somos? .Um pouco – respondeu Sara envolvendo as pernas à volta da cintura de Marco enquanto as ondas do mar teimavam em levar-lhes para longe. Alguém que pudesse ter alguma ideia do seu paradeiro ou até mesmo um mínimo sinal de vida oferecido pela jovem.E se não recebermos nenhuma informação da polícia?! . Aliás. . A única boa notícia era o facto de saber que a filha não havia sido registada em nenhum hospital público da cidade. . – Somos amigos. mulher pelas costas.Posso te fazer uma pergunta? .Não faz mal! Eu aqueço-te. Depois destes procedimentos legais. ela mergulhou no mar e encontrou nele o amparo necessário para se esquecer da loucura que tinha cometido ao fugir de casa sem qualquer aviso prévio aos pais. .Esperamos – respondeu Jorge passeando pela sala.Sim – respondeu Sara passando-lhe as mãos pelo peito musculado. a poucos minutos das duas horas da madrugada.Esperamos até quando?! . . ele até queria vir. deixou-se cair nos braços de Marco numa das praias mais movimentadas do Algarve. . .Tornaste a ligar ao teu pai? Às vezes ela pode estar com ele. mas não vale a pena entrarmos em desespero antes da hora. .Lena. e embora ninguém quisesse transparecer qualquer tipo de desespero. mas eu disse-lhe que não era preciso.Adivinha – respondeu Marco encontrando-lhe os lábios.E como é que vais fazer isso? . . o irmão e Sérgio se fizeram entre si.Já liguei – respondeu Madalena voltando-se para o fotógrafo com os olhos inchados de tanto chorar. não compliques pelo amor de Deus! Estamos todos nervosos.O quê?! . – Ela não está com ele. 124 . o que de todo não deixou Madalena menos preocupada. O silêncio apoderou-se da sala por largos minutos. – interferiu Sérgio. Cada um tentava se lembrar de um local onde ela poderia estar. a verdade é que as horas passadas deixavam poucas dúvidas de que Sara tinha desaparecido sem deixar rastro. . namorados ou… .Até recebermos alguma informação da polícia.

- Não queres namorar comigo? - Eu não iria conseguir namorar com uma gaja que vai para a cama com qualquer um. Se fosses a minha namorada, irias ter sair da vida! Não gosto nada de dividir aquilo que é meu. - E se eu saísse da vida?! Namoravas comigo? Marco sorriu. – Ouve! Eu não sou o tipo de gajo ideal para ti. - Eu sei. Eu sei dos teus esquemas! Sei que andas metido na droga e que o teu irmão mais novo foi assassinado porque o confundiram contigo. Eu sei de tudo isso. - Quem é que te contou? Aposto que foi a otária da Milene… - Foi ela sim, mas ela não fez por mal, eu é que perguntei. - Então se já sabes de tudo isso, o que é que estás aqui a fazer comigo? - Será que ainda não percebeste que eu não me importo?! Eu gosto de ti – respondeu Sara sem desviar os olhos dele. – Eu quero ser a tua namorada. Apesar de Marco não ter feito o pedido oficial, de resto, algo absolutamente impossível para um homem como ele fazer a qualquer mulher, Sara sentiu-se como a sua legítima namorada quando foi apresentada no dia seguinte a alguns dos seus amigos mais próximos. Quase todos pareceram gostar dela, e ela também gostou de todos, embora tivesse percebido alguns olhares menos simpáticos por parte de duas raparigas presentes no bar onde Marco a levou. Mas nem mesmo esse facto fez com que Sara esmorecesse ou sequer largasse a mão do seu novo namorado pois era com ele que ela queria estar. Era ele quem a mantinha naquele perfeito estado de euforia e era também o único que a fazia sentir-se feliz, bonita e desejada. – Toma – disse-lhe ele entregando-lhe um majestoso fio de ouro e uma pulseira de diamantes. – É teu. - É um presente? – perguntou Sara colocando o fio em frente ao espelho do quarto. - Sim. Gostaste? - Adorei! Mas isto deve custar uma fortuna. - A mim não me custou nada – respondeu Marco sugando-lhe o pescoço perfumado. - É roubado?! - Digamos que foi adquirido sem muito esforço. - E tu costumas oferecer presentes destes a todas as raparigas com quem andas? - Não. Só às mais especiais! - Então quer dizer que eu sou especial? - O que é que achas? - Que sou especial – riu-se Sara quando ele a beijou nos lábios. Vinte e quatro horas sem pregar olho fizeram de Madalena um verdadeiro zombie andante. Cada minuto parecia uma eternidade, qualquer barulho na porta a certeza de que Sara tinha regressado a casa e o toque do telefone uma réstia de esperança de a filha tinha sido encontrada por vivalma. Mas a verdade é tudo isso não passavam de fantasias quando confrontada com a dura realidade, e essa realidade era a de que Sara tinha desaparecido. - Devíamos ligar à polícia – dizia Afonso a cada dez minutos. – Pode ser que já tenham notícias. - Não vale a pena – respondeu Jorge levantando-se do sofá. – Eu vou dar mais uma volta de carro pelas redondezas. - Eu vou contigo – disse Afonso seguindo o ex. genro em direcção à porta.
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- Queres que faça alguma coisa para comer? – perguntou Sérgio a Madalena assim que a porta da rua se fechou com algum estrondo. - Eu não consigo comer nada – respondeu ela continuando a passear pelos quatro cantos da sala. – Enquanto não encontrar a Sara nada me vai descer pela garganta. - Tens que descansar! Não podes ficar nesse stress senão não aguentas. - Aonde é que ela se meteu, meu Deus?! Aonde? Já ligámos para toda a gente, já falámos com a polícia, contactamos hospitais, esquadras…! Ninguém sabe de nada. Parece que ela evaporou no ar. - Eu tenho a certeza que ela vai voltar – disse Sérgio para grande surpresa de Madalena. - Como é que podes ter certeza disso? - Se ela tivesse fugido para não voltar, teria levado todas as roupas dela e outros objectos pessoais, não achas? Mas ela não levou quase nada. Só uma mochila. Ninguém iria fugir só com uma mochila às costas. - E se alguém a levou? E se ela foi raptada? - Lena, pensa bem! Ela deixou-te um bilhete. Ninguém a obrigou a escrever aquilo. - Eu não sei. - Com certeza a Sara deve ter ido passar o fim-de-semana com uma amiga… ou com… um amigo… - Claro – exclamou Madalena voltando-se bruscamente para trás. – Aquele rapaz… - Que rapaz?! - Aquele rapaz que apareceu aqui uma vez à procura dela. Lembraste?! Eu disse-te que não tinha gostado nem um pouco dele e tu disseste que eram só coisas da minha cabeça. Mas quem sabe a Sara não está com ele? - Pode ser. É uma ideia. - Ele não te disse como é que se chamava? - …não sei – respondeu Sérgio tentando recorrer à sua memória. – Mas também não falámos muito! Ele só me perguntou se a Sara estava em casa e se ele podia falar com ela. Eu respondi que sim, mas depois entrei em casa para a avisar. Não! Lembrando agora, ele não me disse o nome. - O meu coração está-me a dizer que ela está com esse rapaz. Ela fugiu com ele. - Tem calma! Não nos vamos entrar em julgamentos precipitados. - Merda – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando Sérgio a abraçou com força. - Vamos esperar mais algumas horas. Se a Sara continuar sem dar notícias, contamos à polícia sobre esse rapaz. - Ainda te lembras da cara dele? - Lembro, claro – respondeu Sérgio tentando acalmá-la com um outro abraço. - Vamos esperar só até à meia-noite então! Só até lá. - O.k! Tal como o combinado, à meia-noite em ponto, Sérgio e Madalena forneceram outra pista à polícia relativamente ao desaparecimento de Sara. A cada hora que passava, a probabilidade da jovem se encontrar na companhia daquele rapaz desconhecido era quase certeira, e se assim fosse, não havia tempo a perder. Era preciso fazer um retrato robot e tentar encontrar-lhe o paradeiro, algo que Sérgio fez exemplarmente quando tentou recorrer
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à sua memória fotográfica. O rapaz tinha 1,80 m, a cabeça praticamente rapada, era mestiço, trazia dois brincos nas orelhas, calças de ganga um pouco largas, uma t-shirt azul escura e vinha a conduzir um BMW conversível. Os olhos também eram escuros, os lábios não muito grossos e o nariz comprido. - Tem a certeza que não se esqueceu de mais nada? – perguntou um dos policiais destacados para o caso. – Acho que não – respondeu Sérgio seguro de tudo o que havia dito. - Vão à procura desse rapaz, não vão?! – interferiu Jorge impacientemente. - Claro que sim – respondeu o agente. – Se ele tiver cadastro, vai ser muito fácil conseguirmos localizá-lo. Por sorte, naquele domingo, as estradas que ligavam o Algarve a Lisboa encontravam-se praticamente vazias, e enquanto seguiam por elas, Marco e Sara não resistiram a trocar várias gargalhadas, beijos e brincadeiras dignas de dois adolescentes completamente alheios aos problemas e responsabilidades. E na verdade, era assim que Sara se sentia cada vez que estava com Marco. Perdia a noção do tempo, do espaço e do perigo que um homem como ele poderia trazer à sua vida. – Pára – dizia ele cada vez que ela tentava lhe desviar o volante das mãos. - Tens que me ensinar a conduzir. - Ainda és muito nova para andar com uma máquina dessas. - Posso aprender… As últimas palavras de Sara coincidiram com uma brusca inversão de marcha que Marco fez em plena auto-estrada. Razão para ele ter cometido tal loucura? A presença da polícia numa das portagens à entrada de Lisboa. – O que foi? – perguntou Sara, assustada. - Cala-te e mete-me a merda do cinto de segurança – gritou Marco deixando-a completamente petrificada quando ao voltar-se para trás a visão de dois carros de polícia e as suas sirenes ruidosas tomaram conta da auto-estrada. Foi a primeira vez que ela se viu metida num verdadeiro filme de terror. Foi também a primeira vez que chorou de medo por se ver diante da morte iminente e por perceber que mostrador de velocidade do carro de Marco havia atingido os duzentos quilómetros por hora enquanto ele se desviava de alguns dos automóveis que circulavam em sentido contrário. O último culminou com um aparatoso capotamento no meio da auto-estrada e com o alívio que Marco sentiu ao ver que os carros da polícia haviam permanecido presos no acidente. Pronto. Estava feito. Ele tinha-se conseguido safar mais uma vez e a saída em direcção a Santarém trouxe-lhe de volta a calma perdida. - Sai – ordenou ele abandonando o carro num descampado. - Aonde é que estamos? - perguntou Sara completamente desnorteada. - Anda! Vou-te meter no primeiro táxi e vais para casa. Hoje ninguém me vê em Lisboa! - E tu? Como é que vais voltar? Vais deixar o teu carro aí? - Esse carro já não existe mais – respondeu Marco arrancando a matrícula e furando os quatro pneus, algo que já estava habituado a fazer em vários outros automóveis. Depois disso, abriu o porta-bagagem e retirou do seu interior a mochila que Sara tinha levado para aquele malfadado fim-de-semana. – Toma as tuas tralhas! Vamos… Apesar de ter jurado não derramar uma lágrima sequer após o maior susto que apanhou na sua vida, a verdade é que durante a viagem em direcção a Lisboa, várias foram as vezes que Sara se viu obrigada a limpar as lágrimas e a engolir o choro para que o taxista não se
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O carro que havia capotado duas horas antes encontrava-se completamente destruído. Jorge. Entrar ou não entrar?! Essa foi a questão que Sara se colocou durante vários minutos. e deitado no chão. apesar de ter plena consciência do que a esperava. – Meu Deus! Faltavam poucos minutos para as sete da tarde quando Sara finalmente se viu diante da sua casa.Aonde é que te meteste? – interferiu Afonso fazendo os possíveis para se conseguir aproximar da neta. Algo maléfico. inúmeros polícias à volta do local. e por fim. menina! Falta o troco.Aonde é que estavas? – perguntou Jorge sacudindo-lhe os ombros. – Meu Deus! Ainda bem que não te aconteceu nada. duas ambulâncias.Não era preciso. a visão de Sara com uma mochila nas mãos. – Tome – disse ela entregando o pagamento ao taxista. Mas ainda assim. Uma longa fila de carros.Espere. e ao forçar um pouco mais a vista através da janela do táxi. coberto com um manto branco.Já disse que pode ficar com ele – respondeu Sara fechando a porta e voltando-se para os portões da sua casa. Daniel e até Alice que lá tinha aparecido para oferecer algum apoio moral à sua melhor amiga. . – Estávamos aqui todos a morrer de preocupação. Pareceu-lhe também ouvir uma voz interior a confirmar toda a sua irresponsabilidade e falta de bom senso. . – He lá! Ainda não o tiraram dali – disse ele quando passou pelo local do acidente provocado por Marco. Ela tinha errado. – Shiiiii! Morreu – exclamou o taxista levando uma das mãos à cabeça. Ainda bem! . .Pode ficar com ele. o corpo do condutor que havia tido a infelicidade de lhes atravessar caminho momentos antes. Afonso. gélido e que se mostrava cada vez mais aterrador à medida que ela se aproximava da filha. . Naquela altura. pareceu-lhe sentir o peso do mundo sobre os ombros e uma enorme vontade de desaparecer. Madalena envergava as quarenta e horas que passou sem dormir. e esse momento foi absolutamente arrepiante para as duas. Quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e mais tarde se ouviu o guincho da porta. quando na verdade já era tarde demais para sentir qualquer coisa parecida. os olhos de Sara cruzaram-se com os da mãe.Com ninguém – respondeu ela desviando-se dos braços do pai. Sérgio. Nessa altura. Depois disso. e agora. saltaram dos seus respectivos lugares e puseram-se alerta.Fui passar o fim-de-semana ao Algarve – respondeu Sara para surpresa de todos. Madalena. . e quando todos 128 . . os olhos inchados de tanto chorar e a mesma roupa que trouxe vestida desde sexta-feira. com quem é que foste? . Por fim.Ao Algarve? O que é que foste fazer ao Algarve? Aliás. No rosto. ouviram-se passos lentos vindos do corredor. . – Filha – exclamou Jorge correndo a tomá-la nos braços. . Os seus olhos amedrontados não deixaram sombra para dúvidas.São vinte euros. Pela primeira vez desde que chegou à sala.apercebesse de nada. – Fui sozinha. Estava assustada e não tinha a mínima noção de qual iria ser a reacção dos seus pais. a jovem não podia desejar um outro lugar para se esquecer dos verdadeiros momentos de horror a quem tinha sido submetida. havia qualquer coisa no olhar dela que obrigou Sara a recuar dois passos. a única coisa que lhe restava era pagar pelos seus erros. Sara apercebeu-se da dimensão da tragédia que ela e Marco haviam causado.

eu arrombo-a! Não se soube se foi a voz do pai ou a sua ameaça. – Trancou-se aí dentro? – perguntou Jorge encontrando a ex. . não foi? . – Começa já a explicar qual foi a loucura que te passou pela cabeça para sair de Lisboa sem a nossa autorização – imperou Madalena entrando pelo quarto adentro na companhia de Jorge. que a mãe não iria deixar.estavam menos à espera. . a jovem subiu as escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e trancou-se no quarto numa tentativa desesperada de manter o fio de lucidez que lhe restava. .Porque eu já sabia que vocês não iriam deixar.Eu já disse! Só queria passar um fim-de-semana fora.Podes bater-me à vontade! Eu não vou dizer nada.Eu não vou pedir desculpas se é isso que estás à espera – gritou Sara com os olhos vermelhos de raiva. Depois disso. – Nunca mais voltes a fazer o que fizeste… – imperou Madalena. deixas-nos à beira de um ataque de nervos e ainda achas que tens razão?! Tens a noção da gravidade do que acabaste de fazer? E se te tivesse acontecido alguma coisa? E se tivesses sido raptada. ouviu-se o valente estrondo de Sara a cair sobre uma das mesinhas da sala. .Com quem!? – perguntou Madalena perdendo as estribeiras.Eu já disse que fui passar um fim-de-semana ao Algarve. a jovem deparou-se com a visão assustadora dos seus progenitores sobre o alpendre da porta e com a certeza de que apenas agora os seus problemas estavam a realmente começar. mas tal como se era de esperar. mas ainda assim Sérgio conseguiu impedir que Madalena levasse os seus intentos adiante quando a segurou pelos braços e permitiu que Sara fugisse da sala.Sara. Sara teve a brilhante ideia de se trancar no interior do quarto. – Quer dizer.Não é da tua conta. . morta?! . . não levantes a voz – disse-lhe o pai veemente. mulher no meio do corredor. . mas a verdade é que as mãos de Sara atreveram-se a destrancar a fechadura. eu mato-te de pancada! . Mais tarde. .É mesmo hoje que te mato – gritou Madalena lançando-se contra a filha com todas as forças que possuía dentro de si.Porque é que não avisaste então? – perguntou-lhe o pai. . Tentou também girar a maçaneta. ou pelo menos. – Porque da próxima vez. mulher.Foi com aquele rapaz que apareceu cá em casa no outro dia.Sara. . Os momentos que se seguiram foram tensos. . abre a porta – imperou o advogado. Madalena não hesitou um segundo em soquear-lhe vezes sem conta. . – Se não a abrires. – Isto não vai ficar assim – disse Madalena libertando-se dos braços de Sérgio e seguindo a filha a toda a velocidade. – Sara! Abre a porta! Abre-a agora imediatamente! Silêncio foi a resposta. Ao ver-se diante da porta do quarto da filha. 129 . O maior estalo de toda a sua vida que a fez inclusive sangrar da boca.Sim e não quer abrir.Eu vou lá – exclamou Jorge adiantando-se ao namorado da ex. Tinha levado um estalo.Lena! . desapareces sem qualquer explicação.Já disse que não é da tua conta.

viajas sem dar satisfação a ninguém…! É uma alegria! .Porque tu não nos dás motivos para acreditar em ti – interrompeu Madalena. – É por tua causa que todos os fins-de-semana temos de andar de um lado para o outro sem saber aonde e a quem pertencemos.Não. . esbaforida. . já disse. porque senão.É claro que eu não iria deixar – interferiu Madalena.k! . Foste com alguém. – Aliás. será que não entendes?! É por tua causa que eu e o Daniel deixámos de ter uma família – respondeu Sara não se deixando amolecer pelas lágrimas da mãe.Não fui com ninguém – respondeu Sara largando os braços. – Não fales de coisas que não sabes. . – Tu não tens idade para andar sozinha por aí. – Fui sozinha. mas mesmo muito.Eu fui porque precisava ficar dois dias sem olhar para a tua cara e sem olhar para a cara daquele homenzinho que resolveste colocar cá em casa.Isso não é verdade.Eu falo como eu quiser! Não sou obrigada a gostar dele e muito menos a fingir que acho normal uma mulher da tua idade andar com um homem muito mais novo. Porque tu não pensaste nem um segundo nós quando te resolveste separar do pai.Ou pensas que já não sabemos que chumbaste o ano por faltas? A pergunta da mãe tomou Sara de assalto.Sabes porque é que eu fui passar o fim-de-semana ao Algarve? .Sara! Cala-me essa boca imediatamente – imperou Jorge para grande surpresa da filha. – O que foi? Ficaste surpreendida? Ou será que pensavas que nós nunca iríamos descobrir que andavas a faltar às aulas para fazer sabe-se lá o quê?! Julgaste muito esperta. Eu traí a tua mãe.É sim! E tu sabes que é. . antes de nos decidirmos a assinar os papéis do divórcio.os olhos de Sara cerraram-se. não é?! Fazes o que te apetece. . Foi por vossa causa que estivemos casados durante tanto tempo. e que se não fosse por ele.O.Não te atrevas a falar assim do Sérgio! . A juntar a isso. ainda enfiá-lo cá em casa. – E ela sempre me perdoou porque queria que tu e o Daniel crescessem numa família minimamente estável.Com que é que tu foste. utilizei a assinatura dela para um negócio que estava a fazer com alguns sócios meus na altura. Não tens idade para passar fins-de-semana sem a supervisão de um adulto e muito menos para sair da cidade sei lá com quem! Porque é óbvio que tu não foste sozinha ao Algarve. filha? . Só pensaste no teu bem-estar e na vontade que tinhas em voltar a ser solteira outra vez … . Uma casa que é do meu pai. . raivosa. e pior. mandas e desmandas cá em casa. tu só nos dás motivos para desconfiar do teu carácter e da tua falta de responsabilidade.Sinceramente eu não sei o que fiz para me odiares tanto – disse Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. . O problema é que o tal negócio não deu certo e… a polícia judiciária 130 . e tal como se não bastasse. já nos tínhamos separado muito antes. Só pensaste em ti.Tu destruíste a minha vida. não terias sequer como sustentá-la… . Sara! A tua mãe e eu pensámos muito. Várias vezes… .Não – respondeu Madalena cruzando os braços num gesto de deboche. não é – interrompeu Jorge calando os gritos da filha. . Porque é que não acreditam em mim? .. – Mas iria adorar saber.

desesperada.Ela odeia-me sim! E eu não posso fazer nada para que ela deixe de me odiar. foram as últimas palavras de Afonso Soares no final daquela tarde particularmente cinzenta e tumultuosa. Nessa altura. não está?! . Apesar das discussões. por mais que tentemos.Será que acabou mesmo!? . Ela ama-te muito e é por isso que faz estas coisas só para chamar a tua atenção. e ela acabou por… ser presa no meu lugar! Foi só uma noite. .Não – respondeu ela permitindo que ele se sentasse ao seu lado. Seria demasiado egoísta da sua parte se todas as culpas acerca do término do seu casamento recaíssem sobre os ombros da ex. Só que essa conta estava no nome da tua mãe. o relógio marcou meia-noite e quarenta e cinco minutos. e nem sempre. Na verdade. . transparentes e vitoriosas? Nem sempre elas são como queremos que sejam. – Bom dia – disse Sérgio beijando-lhe os cabelos quando se deparou com a mesa do pequeno-almoço totalmente composta. Vai passar! Quando ela crescer. e Madalena foi a primeira pessoa a levantar-se para preparar o pequeno-almoço na cozinha. . mas ainda assim ela conseguiu aguentar as fortes dores de cabeça e a vontade quase incontrolável de passar o dia inteiro na cama sem olhar ou falar com vivalma. sim.descobriu algumas irregularidades numa conta offshore que eu tinha. como vês. não lhe aconteceu nada.É só uma fase. dos estalos e dos gritos. fui eu o único culpado pela nossa família ter terminado.Bom dia. A tua mãe não teve culpa de nada! . somos capazes de superar as nossas fraquezas interiores. essa fase vai passar. . Entre mortos e feridos salvaram-se todos. . – Portanto.A Sara já está cá em casa. . Foi fraco ao não fazê-lo. E a verdade é que o ex.Melhoraste da dor de cabeça? 131 . Madalena conseguiu pela primeira vez engolir algo comestível e Jorge desapareceu com a clara certeza de que já deveria ter contado a verdade à filha há muito tempo. mas sim.Com a tua ajuda está – respondeu Madalena abandonando o quarto debaixo das lágrimas que a filha não conseguiu conter. Acabou tudo bem. Quem sabe com o tempo Sara não entendesse? Quem sabe ela não percebesse que nem sempre as relações entre adultos eram fáceis. . a calmaria voltou a rondar a casa quando Sara regressou sã e salva. quando ela perceber a mãe maravilhosa que tem. coisa que ela não sabia porque eu não lhe contei. Por isso. A casa amanheceu silenciosa. mulher. um claro contraste tendo em conta a noite anterior. militar não poderia estar mais certo. talvez por medo que ela deixasse de o ver como um herói. . – Está tudo destruído. mas acho que foi a suficiente para que ela se fartasse de mim e pedisse a separação – discursou Jorge rasgando alguns olhares a Madalena.Ela odeia-me – exclamou Madalena voltando-se para Sérgio com os olhos inchados de tanto chorar.O que é que isso importa?! – perguntou Sara largando os braços.Ela não te odeia. as forças para fazer tal tarefa eram praticamente nulas.Estás bem? – perguntou Sérgio encontrando Madalena sentada sobre as escadas que ligavam os dois pisos da casa.Pelo menos acabou tudo bem. . . Ela não te odeia. E não.

Sara escolheu uma cadeira à mesa para se sentar e Madalena voltou-se de frente para o lava-loiça. uma caixa a qual só ela tinha acesso e que muitas vezes lhe trazia o prazer que não conseguia alcançar com indivíduos do sexo oposto. o computador. os dias eram passados no interior de um quarto completamente desprovido de tecnologia.Hoje a mãe está um pouco mal disposta. Prisioneira talvez fosse a palavra que melhor a definiria durante três semanas. Impaciente também. – Não acredito! As minhas coisas…! Não acredito… A procura desesperada continuou por todo o quarto. Mas quem?! Quem? Desesperou-se. O Sérgio. Madalena teria dito alguma coisa ou feito um escândalo. 132 . mas a pouco e pouco.Mãe! Vais-me levar à escola? – perguntou Daniel.Eu só deitei fora aquela porcaria – respondeu Sérgio largando o seu equipamento fotográfico no chão. Alguém a havia tirado dali. numa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro. envergonhada. .Sabes sim! Foste tu que andaste a mexer nas minhas coisas! Roubaste-me a caixa.Nojento ou não. Sara começou a sentir-se confusa e ansiosa. Sara mantinha as suas reservas escondidas a sete chaves. a caixa não se encontrava mais lá.Não acredito nisto… – foram as palavras que ela murmurou enquanto os olhos e as mãos reviravam todo o roupeiro. Desta forma. Começou a pensar em sexo e na falta que aquele acto que costumava praticar todos os dias lhe fazia.Cereais – respondeu Sara baixando o rosto. Só podia ser outra pessoa. Dani – respondeu Sérgio servindo-se de uma chávena de café.Mais ou menos. . – Eu levo-te.Um dia vais-me agradecer. Para além disso. e o pior é que ela nada podia para contrariar a decisão da mãe devido ao apoio incondicional que o seu pai lhe ofereceu aquando do castigo. Contudo. naquela tarde. que foi completamente impossível para elas trocarem qualquer palavra mais amarga àquela hora da manhã. E assim. era meu e tu não tens o direito de mexer em nada do que é meu! . . Mas tal como qualquer outro dependente. . o leitor de CD e a televisão. principalmente para uma rapariga da tua idade. . – Eu quero a minha caixa – foram as primeiras palavras de Sara assim que o fotógrafo chegou da rua e a encontrou sozinha em casa. tanto a mãe como a filha encontravam-se tão cansadas de lutar. – O que é que queres comer? – saiu-lhe essa pergunta a muito custo.. . . As últimas palavras do fotógrafo coincidiram com a chegada de Sara à cozinha e também com o constrangimento de Madalena ao vê-la diante de si. Como será que ele estava depois dos dois quase terem sido apanhados pela polícia? Será que ele chegou a saber que o condutor do carro que capotou morreu por culpa da irresponsabilidade dos dois? Diante de tantas dúvidas. Passou-se uma semana e Sara percebeu que estava de castigo quando lhe foram retirados do quarto. também não estava autorizada a sair de casa e muito menos a comunicar-se com qualquer pessoa através do telefone. Claro. Eram passados a meditar em todas as coisas de errado que fez e também em Marco. – Aquilo era nojento. Com certeza. ao contrário de todas as suas expectativas. pois as horas custavam a passar e o seu vício aflorava-se a cada minuto. os seus olhares se desviaram. ela percebeu. .Eu não sei do que é que estás a falar. Contudo. Sara começou a perder as esperanças de encontrar a sua preciosa caixa. Sexo. Será que tinha sido a mãe? Não.

Eu nunca vou fazer isso. Tu és dependente de sexo. Por isso. o sexo é a tua droga. O prazo que Sérgio dera a Sara para contar a verdade a Madalena esgotou-se.Cala-te! Tu não sabes o que dizes… . uma curiosidade. Nunca iria contar. o sentimento de repulsa que todos iriam sentir de si quando soubessem a verdade.Ou será que estás tão obcecada por sexo que a simples ideia de te veres sem a tua caixa te deixa assim?! Sara calou-se. mas por um prazer que queria ver saciado.Escuta! Porque é que estás tão irritada? Eram só alguns filmes pornográficos. tal como um toxicodependente é dependente de droga. Fizeram com que cometesse loucuras atrás de loucuras. . . raivosa. mas em muito pouco tempo. . eu consigo ver as coisas do lado de fora e podes crer que não precisei de muito esforço para juntar todas as peças deste puzzle.Então não me deixas outra escolha – disse Sérgio alcançando o corrimão das escadas. – Vais contar à minha mãe? – perguntou ela. talvez Sérgio tivesse razão. Apesar de nunca ter encontrado a verdadeira definição para o seu desejo sexual compulsivo. Só que ao contrário dos teus pais. não por dinheiro. . .Já pensaste no desgosto da tua mãe quando ela descobrir a verdade? Quando ela descobrir que a filha dela se anda a prostituir. mas porque quer?! .Cala-te – gritou ela completamente descontrolada.Eu sei muito bem o que estou a dizer – respondeu Sérgio enfrentando-lhe os olhos raivosos..Cala-te – afirmou Sara recuando dois passos. Sara sabia que ele existia e que a pouco e pouco já havia controlado toda a sua vida. – Tu estás doente. já não tens a tua caixa. que já não sabia o que fazer. essa brincadeira e essa curiosidade apossaram-se não só da sua mente como também do seu corpo. A verdade nua e crua da qual Sara não podia escapar e que infelizmente lhe foi jogada à cara pela pessoa que mais odiava no mundo. . que se deitasse com inúmeros homens e que vendesse o seu corpo. A príncipio tentou levá-la como uma simples brincadeira.Isso não é da tua conta.Eu nunca te vou agradecer por nada – gritou Sara.Tu és ninfomaníaca. Sabia também que esses sintomas começaram meses antes quando descobriu a pornografia em casa do pai.E como não já não consegues sair de casa. desesperou-se. Sara decidiu que não iria contar. Mas sim.Eu odeio-te! .Não! Eu queria que fosses tu contar. Nunca ninguém iria saber da sua doença e ela passaria despercebida aos olhos de todos até o final dos seus dias. não é?! . Sara – disse Sérgio incendiando-lhe o olhar. Pensando melhor. estás a começar a entrar em ressaca. . Nem a mãe e muito menos o pai. – E tu também sabes. 133 . Aliás. E precisas também deixar de te prostituir… . não porque precisa. Podes muito bem viver sem isso ou não?! . . A mãe nunca iria compreender as razões que a levavam a querer sexo tanto quanto um ser humano desejava ar para respirar. Ali estava. daí a vergonha. vibradores e outras coisas. Passaram-se cinco dias e o círculo estava pouco e pouco a fechar-se. e ela. – Precisas tratar-te e eu estou a falar a sério.

Tens alguma roupa branca para lavar? – perguntou Madalena enquanto Sérgio se preparava para tomar um duche na casa de banho. Madalena voou em direcção ao 134 . completamente desnuda. Com a pressão da água a cair sobre o polibã. A única coisa que sabia era que teria que afastar Sérgio da sua vida de uma vez por todas e consequentemente todas as ameaças que ele fazia questão de lhe incutir. . Conta.Não – respondeu ela com um sorriso maléfico que o irritou de imediato. . . Aquilo já tinha passado todas as marcas. iria correr para os braços de Sérgio e presenteálo com um final de tarde no mínimo inesquecível. O desejo parecia ser recíproco quando Sérgio abriu o chuveiro da cabina e se enfiou lá para dentro sentindo os primeiros pingos de água quente caírem-lhe sobre o rosto e o corpo desnudo.Sara. os passos lentos e quase silenciosos de um corpo esbelto e a abertura da cabina pelas suas mãos delicadas. Nada pôde exemplificar o terror sentido por Sérgio quando ele percebeu que a pessoa que tinha acabado de entrar na cabina não era Madalena. com olhos de quem o queria comer e sem qualquer pingo de remorso por ter cometido um acto no mínimo insano. Nessa altura. . Estas foram as últimas palavras de Madalena antes de sair da casa de banho levando consigo várias roupas nas mãos e também a certeza de que assim que se despachasse da tarefa enfadonha de as colocar na máquina.Não te demores. . – O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Sérgio abandonando a cabina e encontrando uma toalha com a qual se pudesse tapar. – Estás louca? .exclamou Sérgio abrindo um sorriso de orelha e orelha quando sentiu dois braços à volta da sua cintura. . E sim. . Ali estava a filha da sua namorada. veste-me esse roupão agora! .Dá-ma! Vou pô-la na máquina.Pois fui – respondeu uma voz angelical que o fez gelar dos pés à cabeça. sendo que quando isso aconteceu. . foi impossível ouvir o barulho do robe a cair sobre o tapete.Já disse que não. Cada vez que se encontravam nos corredores.Mas seriam as coisas assim tão simples? No fundo. pois a presença de Sérgio em sua casa lembrava-lhe que estava entre a espada e parede. era como se o fotógrafo lhe lançasse olhares fulminantes com mensagens claras e peremptórias: Conta. .Só esta camisola – respondeu ele tirando-a do corpo. Mas ela não contou e essa ideia nem sequer lhe passou pela cabeça. Mas os gritos de Sara para se tentar livrar dos braços do fotógrafo não tardaram a ecoar por toda a casa.Podes deixar.Eu?! Louca? Claro que não! Só te queria fazer uma surpresa. ela tinha consciência que não. cozinha ou até mesmo na sala. Conta. mas sim Sara. . .Vê lá se não te demoras muito! Prometeste que me irias fazer companhia no banho.Veste-te – ordenou ele entregando-lhe o robe caído sobre o tapete. foram as palavras de Sérgio enquanto enfiava a filha da sua namorada no robe que ela havia retirado minutos antes de o surpreender no banho. nas escadas. a porta da casa de banho sofreu uma ligeira pressão e abriu-se sem que ele se apercebesse disso. – Foste rápida… .É só me despachar da máquina que venho a correr – respondeu ela cedendo-lhe um longo beijo nos lábios.

Eu não sei como é que aconteceu. . não é nada disso que estás a pensar… . no interior daquela casa de banho. disse que não podia ter nada contigo porque era o namorado da minha mãe. ela também e eu estava a tentar a… .Sérgio. Eu nunca tive nada com a tua filha. mãe? – perguntou Daniel surpreendendo a sua progenitora no corredor. mas …eu estava a tomar banho e de repente a Sara entrou na cabina. – Tu é que me obrigaste! Eu bem tentei fugir. tu achas que a minha mãe vai acreditar numa coisa dessas? – interrompeu Sara para grande espanto e surpresa do fotógrafo. o que é que eu posso fazer? 135 .respondeu Sérgio largando os braços de Sara e deixando-a quase semi-nua sobre a sanita. Mãe.Lena. sentiu como se o mundo tivesse acabado de desabar sobre os seus ombros. – Eu nunca tive nada contigo. Eu assustei-me. . mas tu disseste que isso não te importava. Não saias! Ao ouvir as ordens da mãe. . minha louca? – disse Sérgio agarrando o braço de Sara com força. .segundo piso pronta a inteirar-se do que se estava a passar. – Porque é que não lhe contas a verdade? . não é – respondeu Sara enfrentando o olhar confuso de Sérgio. mas tu não me quiseste ouvir.Isso não é verdade. Foi por isso que resolveste morar cá em casa. Ela é louca.Eu é que não queria ter nada a ver contigo – interrompeu Sara compondo-se no seu roupão. E a verdade é que o mesmo se estava a passar com Madalena.Eu posso explicar. Eu era só uma criança e tu sabias muito bem disso quando me obrigaste a ir várias vezes para a cama contigo… .Viste o que acabaste de fazer. – A verdade é que tu me chamaste para vir ter contigo. Acho que deve ter sido por engano.Eu nunca te assediei – vociferou Sérgio sentindo-se prestes a perder a sua sanidade mental. – O que foi.Essa é a verdade. .Eu disse-te para não te meteres no meu caminho. . . – O que vem a ser isto? – murmurou Madalena sentindo-se quase sem ar para respirar quando encontrou o namorado e a filha completamente atracados na casa de banho. . – Lena! Tu tens que acreditar em mim. lembraste?! . . No fundo querias ficar com as duas.Não. ela chamava com todas as forças.Não sei – respondeu ela. incrédula.Eu era uma criança até tu teres feito o que fizeste. Tu não passas de uma criança… . tal como se estivesse a ser espancada ou violentada por alguém. .Eu não tenho estômago para continuar a ouvir isto… – murmurou Madalena abandonando a casa de banho com os olhos rasos de lágrimas. .Porque é que não contas à minha mãe? Porque é que não lhe contas que me andas a assediar desde que nos conhecemos?! . Daniel tornou a encostar a porta e ignorou os gritos de Sara que a cada minuto tornavam-se mais agudos e intensos.Isso não é verdade – vociferou Sérgio voltando-se para ela. que ali.O que é isto?! – repetiu Madalena. .Então explica! Explica porque eu não estou a perceber. – Mas fica aí no teu quarto.

– Tu conheces-me! .Eu não te queria dizer isto. de costas voltadas e completamente imóvel. Uma dimensão a qual só ela tinha acesso e que Sérgio não sabia se poderia entrar. encontrou-a em frente à janela. – Eu não sei nada sobre ti e hoje cheguei a essa conclusão.Lena…. tão… apaixonada que não ouvi o que as outras pessoas me disseram. Não por não teres acreditado em mim. – Lena… . tu não podes acreditar naquilo que a Sara disse! Eu nunca tive nada com ela e nem nunca seria capaz de a tocar. . incrédulo.murmurou ele tentando alcançar-lhe os ombros com as mãos. . . que a deixava quase sem ar para respirar e que a matava por dentro a cada minuto que se lembrava das palavras de amor que Sérgio tantas vezes lhe sussurrou aos ouvidos. Viu as suas mãos fecharem o porta-bagagem com força e mais tarde a sua entrada no banco da frente. por favor – disse Madalena sentindo-se completamente morta por dentro.Porque vendo bem.Lena. . Parecia ter sido atingida por um raio.Não me toques – foi a resposta que o fez recuar dois passos. foi a conclusão a qual Sérgio chegou quando a olhou pela última vez e se deu conta que Sara realmente não conhecia a palavra limite.Será que eu sei? – perguntou Madalena voltando-se para ele com uma expressão mortificada. a conviver com os meus filhos e nem foi preciso muito tempo para perceber que cometi um grande erro – discursou Madalena com os olhos rasos de lágrimas.Há quanto tempo? Nove. . – Eu não mereço que acredites em mim. A almofada sobre a cama não precisou de muito tempo para ficar totalmente encharcada com as lágrimas de Madalena. acho que já vai ser tarde demais… Da janela do quarto. ou algo semelhante. Pus um perfeito desconhecido dentro da minha casa. e parecia também ter entrado numa dimensão só dela. sem tempo a perder. mas… um dia vais perceber que cometeste um grande erro. Tal como esperava. . ela agarrou-se ao edredão numa tentativa desesperada de acalmar a dor que estava a sentir.murmurou Sérgio. mas sim por não veres algo que está mesmo à frente do teu nariz! Mas quando perceberes esse erro. o que é que eu sei sobre ti!? .Põe-te no meu lugar! Em quem acreditarias? No teu namorado que só conheces há poucos meses ou na tua filha que já conheces há dezasseis anos? .…tens razão – concordou Sérgio baixando o rosto.Não adiantava nada continuar a trocar palavras vãs e dementes com uma rapariga também ela vã e demente. Acho que estava tão cega. Sara observou os movimentos de Sérgio a enfiar as suas malas no carro. dez meses… Sérgio manteve-se calado. Era uma dor que parecia ter-selhe entranhado por todo o corpo. Como se pôde enganar tanto com elas? Como é que pôde acreditar nelas e entregar a Sérgio tudo o que de melhor possuía dentro de si? 136 . . Por isso. o veículo arrancou e a rua tornou a ficar deserta.Tu não acreditas em mim. Tu sabes disso. Dois minutos depois. ele abandonou a casa de banho ainda enrolado numa toalha e correu ao encontro de Madalena no quarto divido pelos dois.Vai-te embora. .Como assim? O que é que estás para aí a dizer? . e quando isso aconteceu.

Nada disso realmente aconteceu. Sara afastou-se da porta e fechou-a com algum cuidado. Depois disso. Mas por outro lado. o seu corpo e a sua alma a um perfeito desconhecido. pois o céu e as estrelas pareceram desabar sobre a sua cabeça quando ela o encontrou nos braços da filha naquela maldita casa de banho. .Já. O meu castigo já acabou? . Podes fazer o quiseres… Ao ouvir as palavras da mãe. fez-se um silêncio ensurdecedor e Madalena desligou a luz da mesinha de cabeceira ansiando que o comprimido que havia tomado surtisse efeito e a fizesse dormir. Sem forças para sequer erguer a cabeça. 137 .Já se passaram três semanas. . – Era por causa disso que eu não gostava dele – ouviuse a voz de Sara sob o alpendre da porta. que a fez voltar a acreditar no amor e que lhe prometeu o céu e as estrelas apenas em troca de um beijo? Mas não. – E ele também não gostava de ti – continuou a jovem ansiando qualquer reacção por parte da mãe.Deixa-me sozinha – respondeu Madalena com uma voz rouca. Há quanto tempo aquilo estava a acontecer. – Foi melhor ter-se ido embora! Agora vamos voltar a ser uma família outra vez. foi a pergunta que Madalena se fez ao limpar as novas lágrimas que teimavam em cair-lhe no rosto. Madalena continuou deitada e fechou os olhos inchados de tanto chorar. como é que se podia recriminar se tudo o que Sérgio lhe havia dito parecia tão real? Se tudo o que ele fazia parecia tão real.Talvez devesse ter sido mais cuidadosa em não oferecer o seu coração. Ele que lhe devolveu novamente a alegria de viver.

do acidente que provocaram em plena auto-estrada. Mas o mais intrigante de tudo era perceber que ela não se tinha arrependido nem um pouco do que fizera. Para além disso. . o local escolhido para comemorar a sua liberdade foi o bairro do Intendente.Não me queres contar? E foi o que Sara fez minutos mais tarde.Tu nem sabes o que é que me aconteceu nestas três semanas. . O que é que querias que eu fizesse? Ele não me deu outra escolha.Porquê!? . .Tu és louca – foram as palavras que Milene murmurou vezes sem conta.CAPÍTULO VIII Era a primeira vez desde há semanas que Sara podia sair de casa sem a supervisão da mãe ou os constantes telefonemas do pai. . a forma magistral como se livrou da presença do futuro padrasto lá em casa. – Desaparecida – disse Milene abrindo-lhe a porta do quarto.Bem.E tu vais deixar a vida por causa dele? 138 . onde logo à entrada encontrou alguns amigos de longa data. . . e por fim. a reacção dos pais quando regressou a Lisboa. O namorado dela era um otário e estava a um passo de lhe contar que me ando a prostituir.Estive de castigo – afirmou Sara entrando com um largo sorriso. – Tu e o Marco andam mesmo a namorar ou é só uma brincadeira? .Pena porquê?! Eu até lhe fiz um favor.Às vezes eu acho que tu não és deste planeta. isso podia notar-se a quilómetros de distância cada vez que acenava a velhos amigos e retomava um quotidiano que já conhecia tão bem.Posso entrar? . os seus passos rápidos em direcção a uma pensão que habitualmente frequentava não deixaram dúvidas de que o seu maior desejo era reencontrar uma pessoa que lhe era muito especial. .Mas diz-me uma coisa – interrompeu Milene acendendo um cigarro e atirando o isqueiro contra a cama. não?! .Coitada da tua mãe! Não tens pena dela? . Contou a Milene todos os detalhes do louco fimde-semana que passou ao lado de Marco no Algarve. Estava animada.Claro.Ele disse que queria que eu largasse a vida – respondeu Sara com um largo sorriso. . – Diz que não admite dividir a mulher dele com ninguém. .A minha mãe é forte! Ela vai saber esquecer esse Sérgio num estalar de dedos. . e tal como se era de esperar. o castigo deve ter sido óptimo.

– Ela pode ter muitos defeitos.Tens mesmo a certeza que foi isso que aconteceu? – perguntou Alice quando ela lhe contou a cena grotesca que vira na sua casa de banho.Tu não acreditas mesmo que ele gosta de mim. Tinham-se passado três dias desde o término do seu namoro com Sérgio. Madalena despediu-se dela com um sorriso forçado e voltou a encostar a porta da sua floricultura. Não sejas parva. já reparaste?! . – O que foi? Achas piada? . nenhuma delas lhe trazia de volta a paz de espírito.Não sei. largo mesmo.disse Sara atirando-se contra a cama. Mas há uns meses atrás a Arlete encontrou-a na rua e ela disse-lhe que se tinha curado. . não é?! .Porque não!? Se ele quiser. – Mas também gosto de sexo e ele está sempre longe. – Conheci uma gaja que também era assim. .Já ouvi falar – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro.Não passas de uma criança! Ainda tens muito que aprender. Atendida que estava a segunda cliente da tarde. Houve tiros e tudo… . – Precisas é de um colete-de-forças.. . Pelas minhas qualidades – respondeu Sara arrancando uma ruidosa gargalhada de Milene. mas eu sei que ela não iria mentir sobre uma coisa tão séria. . Vinha muitas vezes ao bairro porque dizia que o marido não a conseguia satisfazer na cama.O que mais pode ter acontecido? .O ex. Que tal a Sara ter mentido!? . levou o pessoal para a esquadra e a gaja nunca mais apareceu por estas bandas.Mas só tem um problema… .A sério! A bófia veio. . .Eu acho que é possível um homem gostar de mim pelo que eu sou. . .Tu só pensas nisso. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar.A sério? – riram-se as duas. cada minuto era difícil de suportar e a certeza de que nunca mais o voltaria a ver destroçava-lhe o coração. namorado da minha mãe disse que eu era ninfomaníaca! Sabes o que isso é? . Milene sorriu.Então acho que se calhar também preciso de um psicólogo.Qual? . o marido seguiu-a e apanhou-a numa pensão aqui perto. Porque é que tudo terminou daquela forma tão abrupta? Porque é que uma história de amor que tinha todos os ingredientes para dar certo evaporou-se no ar sem qualquer razão aparente? Por mais justificações que Madalena tentasse encontrar.Tu acreditas!? .Não – riu-se Milene. Foi o maior escândalo.Eu prometi ao Marco que iria deixar de me prostituir. 139 . Então um dia. .Não vês que o gajo só te anda a fazer de otária? Ele anda com todas as gajas que lhe aparecem pela frente ou pensas que um idiota como ele só se contenta com uma miúda de dezasseis anos?! Tu vais largar a vida. Não sei se vou conseguir ficar um mês sem ir para a cama com ninguém. Cada lembrança dele era um suplício. Procurou um psicólogo e descobriu que era ninfomaníaca. mas não sei se vou conseguir manter a minha promessa. mas ele vai continuar com a dele. . – Eu gosto dele – continuou Sara.A Sara não iria inventar uma coisa dessas – respondeu Madalena limpando as últimas lágrimas da tarde.

apesar de não quereres aceitar a realidade. algo que ele aceitou de bom grado.E o que é que queres que eu faça!? Eu não posso pô-la para fora de casa tal como fiz com o Sérgio. os seus olhos e a sua expressão facial não mentiam. . Ainda estava triste.Tudo bem – disse Alice segurando-lhe as mãos frias. mas ao contrário dos anos anteriores. . Lena! Não podes deixar que ela assuma o controlo da situação e te faça a vida num inferno. É só isso que eu quero. . eu não sei! O Sérgio não parece ser desse tipo… . – De qualquer maneira foi só um convite. será que não entendes?! .. O seu comportamento escolar. desesperada. por mais que me faça a vida negra.E até quando vais continuar a viver nesse inferno? . mas e a Sara? O que é que vais fazer com ela? .Às vezes os pais têm que abandonar os filhos para que eles aprendam a dar-lhes valor. ela não te contou nada. não foi um boato. . Ela é a minha filha – respondeu Madalena. Não foi imaginação. E também tem a Sara… .Mas eu tenho a certeza que tu e o Dani se vão divertir imenso sem mim – afirmou Madalena afagando os cabelos do filho. . 140 . deixaram muito a desejar. – Acabou! Agora só quero esquecer essa história e seguir em frente. privaram-na de qualquer tipo de divertimento que não se cingisse a Lisboa. a verdade é que Jorge não podia ter ficado mais contente pela notícia. cientes de que a filha precisava de um castigo. . e embora nunca tivesse sabido o verdadeiro motivo para que Madalena e Sérgio se tivessem separado.Eu vi. deixa-me que te diga que ela também foi.Como assim?! .Ele estava a obrigá-la. O Verão trouxe novamente consigo os dias de sol e de calor.Não podes deixar que ela continue assim. Ele não agiu sozinho. eu não posso abandoná-la. mas principalmente o familiar. e mesmo se a tivesse obrigado a ir para a cama com ele. . e os pais.Bem! Vamos pestinha?! Senão perdemos o voo. a Sara já não é nenhuma criança de colo. .Lena.Sinceramente não sei o que te dizer. Sara não teve direito a férias. Se o Sérgio foi culpado por tudo aquilo que aconteceu. – Façam uma boa viagem – disse Madalena observando a animação do filho quando Jorge o foi buscar.Não sei! Até quando conseguir… – respondeu Madalena encolhendo os ombros. . . Agiu nas tuas costas e traiu-te também. foi a verdade… . duas ou três vezes. . – Por mais que ela me odeie.Sabes bem que não posso deixar a Alice a tomar conta da floricultura sozinha. mulher. uma. Alice! Eu vi com os meus próprios olhos ele a agarrá-la. Quem sabe ela não voltaria a vê-lo com outros olhos? Quem sabe ela não perceberia que durante meses o seu maior desejo era voltar para casa e para o casamento de ambos? De qualquer maneira. não custava nada sonhar com essa possibilidade. Ela sabia muito bem o que estava a fazer.Obrigado – respondeu o advogado rasgando alguns olhares à ex.Eu sei – disse Jorge segurando malas do filho.Eu não sei! Eu não sei se com a Sara não será pior.Lena.Não digas nada – respondeu Madalena assoando-se com um lenço de papel. Apenas Daniel foi convidado a acompanhar o pai numas pequenas férias a Madrid. – Era bom se pudesses vir connosco. – O Sérgio está fora da tua vida.

Tens quase idade para ser minha avó. marido partira sem deixar rastro.Porta-te bem! Não faças asneiras e obedece ao teu pai. Não valia a pena pois Sara chegava a casa cada vez mais tarde e também recusava-se a passar os fins-de-semana com o pai desde que soube que fora ele o responsável pelo término da família. 141 . . uma das prostitutas mais antigas do bairro.A tua namoradinha é?! . A resposta da prostituta trouxe a Marco o ímpeto que ele precisava para entrar no bar sem quaisquer cerimónias.O. Iria passar duas semanas com Sara na mesma casa. Madalena tentou impor horários rígidos e perguntou sempre para onde ela tinha ido. De férias. – Animal – gritou ela voltando-se para Marco. minha puta?! . Arlete – respondeu ele empurrando-o contra a porta do bar. – Tchau.k! Boa viagem. raras eram as vezes que Sara parava em casa. – Ligamos assim que chegarmos ao hotel. enquanto no chão. Sozinha. ela desistiu de tal coisa. . depois de se ter desviado de várias pessoas e retirado algumas cadeiras da sua frente. fugia para o quarto sem dar quaisquer explicações acerca do seu desaparecimento. – Não estavas no Algarve? A resposta do jovem foi dada com um valente soco no estômago que a fez cair e derrubar uma cadeira das inúmeras cadeiras colocadas em frente ao balcão. Milene apressou-se a socorrer a sua amiga temendo que Sara tivesse desmaiado com o impacto do golpe.Está bem. – Ai estás aqui.Hei! Vê lá. Duas semanas. Sem ninguém para a amparar e sem certezas do comportamento da filha que a cada semana piorava gradualmente. Sabes bem que as duas não se largam. Depois de um breve aceno e de se ter assegurado que o carro do ex. ao ver à sua frente a figura de Marco. encontrar a visão de Sara sentada na mesma mesa que Milene e outros dois homens desconhecidos foi inevitável. Nessa altura. não havia absolutamente nada que Madalena pudesse fazer para voltar a controlá-la. vários homens que se encontravam no bar insurgiram-se a Marco por aquele acto de violência no mínimo gratuito. – Ela está lá dentro com a Milene. quase sempre ao príncipio da noite. . Assim sendo.Marco – exclamou Sara surpresa por o ver ali. um dos delinquentes mais temidos do bairro. mas com o passar do tempo e com a perca de forças. Madalena fechou a porta e lançou um longo suspiro.Diz antes que eu perca a minha paciência… . Depois disso. – Até que enfim apareces por estes lados… . puto! Tenho quase idade para ser a tua mãe. . Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso.. e quando voltava. assim como a cólera que se apossou dos seus olhos.Tem calma – respondeu Arlete assustando-se com a agressividade do jovem.k – respondeu Daniel despedindo-se da mãe com um longo abraço seguido de um beijo na face. mãe! .Olha quem é ele – exclamou Arlete. Nas primeiras vezes. .Tchau.Sai-me da frente. . queres tu dizer! Diz lá! Aonde é que a Sara se meteu? . e essa certeza tornou-se incontornável quando pela primeira vez a filha passou a noite fora de casa.O.

Mas não te esqueças de uma coisa. Mesmo tendo prometido que iria ser só sua. . traiu-o e fê-lo sentir-se a chacota do bairro. Sei tudo o que se passa… 142 . . Sem que ninguém o impedisse. Num beco escuro do bairro. – Eu avisei-te para afastares a Sara daqui – afirmou Arlete compondo o decote do seu vestido. – Agora ela vai apanhar e bem que é para aprender a não meter cornos num traficante de droga. – Chama a bófia que eu tenho a certeza que todo o pessoal que está aqui vai adorar. logo ele que constantemente lhe enviava jóias e dinheiro através do correio. a culpa é tua! Arlete não podia estar mais segura das suas palavras. Tu..Levanta-te daí. A única coisa que merecia era o seu desprezo e também a sua ira.Ai eu é que digo merda!? Tu melhor do que ninguém sabe do que esse Marco é capaz. – Vaca – exclamou ele encostando-lhe o rosto à parede. lembraste?! Partiu-te toda há uns tempos atrás e vai acabar por fazer o mesmo com essa pobre coitada. não tinha nada a perder e há muito que deixara de conhecer palavras como: compaixão. pois os seus cinquenta e dois anos de vida deram-lhe a sabedoria necessária para saber que com homens como Marco não era permitido brincar. perdão e humanidade.Eu?! . Ele não conhecia limites. enquanto pontapeava e soqueava Sara.Ai chamas a polícia?! Então chama que eu quero ver – respondeu Marco enfrentando a fúria da prostituta. abre as pernas e tu ficas com metade dos lucros dela.Se levares.Andas a chular sim que eu sei! A miúda trabalha. Sara enganou-o. Mas ela não merecia nenhuma dessas jóias e muito menos esse dinheiro. . . – Ainda temos muito que conversar. tudo o que ele queria era extravasar o ódio que sentiu quando lhe foi informado que Sara continuava a prostituir-se com qualquer homem que lhe aparecesse à frente. minha cabra! Ou achas que ninguém vai contar que andas a chular uma miúda de dezasseis anos? .Queres uma aposta como vou? .Não a vais levar daqui – adiantou-se Milene puxando a amiga contra si. Se chamares. nada lhe pareceu importar.Sim. Nessa altura.Eu não ando a chular ninguém – afirmou Milene não se deixando intimidar pelas palavras de Marco. . ele regressou propositadamente a Lisboa para tirar a história a limpo. Na verdade. Milene mordeu os lábios e sentiu o sangue fervilhar-lhe nas veias por não ter tido a coragem de livrar a melhor amiga das garras daquele homem tão perigoso. eu chamo a polícia! . a primeira a ir em cana és tu… .Cala-te! Só dizes merda tu… – respondeu Milene encontrando a sua mala sobre a mesa. nem sequer a remota possibilidade de ser apanhado por alguns dos seus inimigos ou então pela polícia. Marco levou Sara pelo braço e deixou todos os presentes estupefactos com a cena que tinham acabado de assistir. Se ela morrer. E ao saber dessa verdade irrefutável. Ou ainda achas que isso não é chular? Fica quietinha mais é que é para não sobrar para ti. Sara – exclamou ele alcançando-lhe os braços e fazendo-a levantar-se do chão quase à força. – Pensavas o quê?! Que eu não ia descobrir nada? Que não ia saber que me andavas a meter os cornos com outros? Pois fica sabendo que aqui dentro deste bairro eu tenho informações diárias.

. pois na altura a única coisa que queria era cair na cama e esquecer-se de todos os acontecimentos menos felizes que rodearam a sua noite. ela sabia-o. mas no entanto era o único que a fazia sentir-se genuinamente desejada e especial.Já estou a perder as forças. Tinha adormecido cansada de tanto esperar. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara abriu a porta de casa. . sua cabra?! . surpreendentemente ou não. as noites e a quem dedicava todos os seus sentimentos mais profundos.E gosto mesmo! Mas só gosto de apanhar de ti. a certeza que tinha passado a noite inteira em bebedeiras e outros actos menos lícitos. No corpo ainda trazia as marcas deixadas por Marco. 143 .Ouvi – respondeu Sara entregando-se de corpo e alma a um homem que minutos antes a havia espancado brutalmente. . Ouviste!? . Foram esses os motivos que a fizeram caminhar pé ante pé pelo corredor e fazer todos os possíveis para não acordar a mãe que.Sei lá! Enfia-a num colégio interno – respondeu Alice terminando os arranjos de margaridas sobre a bancada da floricultura.Então fica assim combinado – respondeu Marco segurando-lhe o queixo com força. .k. Os beijos. Mas nem isso pareceu importar quando ele a tomou nos braços e fê-la sentir-se nas nuvens. – Só gostei de saber que tens ciúmes de mim. Assim sendo. mas nem isso a demoveu do intuito de chegar ao quarto e trancar-se a sete chaves. Não. Era com ele que ela sonhava todas as horas. Conseguido esse milagre. Ele podia espancá-la à vontade pois nem mesmo isso iria mudar aquilo que ela sentia por ele.O problema é mesmo esse! Ela sente que tu estás a perder as forças e vai ficando cada vez pior. a jovem adormeceu e só acordou às duas da tarde com a agradável surpresa de que a sua mãe tinha saído para trabalhar apenas deixando um bilhete sobre a mesa da cozinha: “ Tens o almoço no forno”. . encontrava-se deitada no sofá da sala tapada com um pequeno cobertor.O que é que queres que eu faça? . mas nos olhos. . era com ele que ela desejava passar os dias. . com quem e muito menos a fazer o quê. Não queria explicar a Madalena onde tinha passado as últimas dezasseis horas. que se lixasse tudo o resto. – A partir de hoje só apanhas de mim. – Faz qualquer coisa. Ainda pensou estar enganado.Ouviste?! . Ela estava realmente a rir-se e aquilo não era uma alucinação sua.Não sei como é que consegues aguentar uma situação dessas – foram as palavras de Alice quando Madalena lhe contou que mais uma vez a filha não tinha dormido em casa. os abraços e o toque das suas mãos foram muito mais marcantes do que os murros e os pontapés que ele lhe ofereceu. – Andas a gozar com a minha cara.Já vi que és daquelas que gosta de apanhar. .Não – respondeu ela voltando-se para ele completamente marcada nos braços e nas pernas. mas não.Impressão sua ou ela estava a rir-se. Marco podia não ser o homem mais romântico do mundo.O. foi a pergunta que Marco se fez quando ouviu um ligeiro risinho proveniente da boca de Sara. Sara percebeu. pois tinha nódoas no corpo que podiam comprovar essa teoria.

Depende! Olha que o Daniel não te dá trabalho nenhum.Eu tenho pena de ti.O Jorge!? Achas mesmo que eu posso contar com ele? . . Sara desviou-se a tempo dizendo: – Caí. bati. . minha amiga! Realmente não gostava de estar na tua pele. Simples bons dias e boas noites não contavam para aquilo a que se poderia chamar de uma conversa interessante. o quê?! .Caíste aonde!? . E não.No braço. – Ele é o pai. Embora não tivesse ficado minimamente convencida com aquela desculpa esfarrapada.Essa nódoa – respondeu Madalena tentando alcançar-lhe o pulso. Madalena tornou a levar uma colher de sopa à boca e sem querer lançou os olhos ao braço da filha. desesperada. E só de imaginar essa ideia. . – Já briguei. . O jantar foi silencioso e não constituiu qualquer surpresa para Madalena e Sara. – O que é que tens aí no braço? . Sara disse a Madalena que havia sido ela a destruir a sua vida e a possibilidade de ter uma família normal. fiz tudo o que estava ao meu alcance. – Mas se me der só metade do trabalho que a Sara me está a dar.A quem o dizes. não é? Pelo menos a ele a Sara deve ter algum respeito.O Jorge? O que é que ele tem a dizer sobre isto tudo? . Caí nas escadas rolantes.Acho que já nem ao pai ela respeita! Desde que ele lhe contou a razão do nosso divórcio ela nunca mais quis passar o fim-de-semana com ele. O que teria mudado tanto? Meses antes. Subitamente pareceu-lhe ver uma nódoa negra e um pequeno arranhão. . as duas afastaram-se. já que havia pelo menos cinco dias que mãe e filha não trocavam qualquer palavra no interior daquela casa. Pareciam antes ter sido feitas por alguém e propositadamente. castiguei.Então o que é que eu faço? Diz-me porque eu já não sei – discursou Madalena largando os braços. já proibi. 144 . Aos poucos e poucos.. . Mas a verdade é que pela primeira vez os seus sentidos gritaram-lhe para estar alerta e para não ignorar as evidências.Ontem quando estava a correr para apanhar o metro. e agora olha só no que é que deu?! .Tu é que fizeste bem em não ter filhos – disse Madalena arrancando-lhe uma leve risada. mas ela simplesmente não me houve. o coração de Madalena disparou de medo. As marcas no corpo de Sara não pareciam ser fruto de uma simples queda nas escadas rolantes. Sempre a quis proteger. Madalena achou por bem não levantar mais questões.Eu sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos. – E talvez a culpa tenha sido minha. .Devias – respondeu Alice furiosamente.Ainda – respondeu Madalena caminhando em direcção à sua secretária. deixaram de ter interesses comuns e viam na outra a encarnação do pior pesadelo. .Mais cedo ou mais tarde ela iria ter que saber a verdade. embora a camisola de Sara estivesse estrategicamente colocada para os tapar. mas não estaria também ela a destruir a vida da mãe e a impedir-lhe de ter uma família normal? Enquanto pensava no assunto. eu juro que já vou ficar satisfeita.Filho criado trabalho redobrado. Por sorte. sempre fiz de tudo para que ela não descobrisse o sacana que o pai dela era. . .

E tu? Como é que estás? .Tenho. agradeceu-lhe com um sorriso e permitiu que ele a acompanhasse em direcção à sala.Hã… claro – respondeu Madalena forçando um sorriso. 145 . Assistimos a um treino e no final até conseguimos autógrafos de alguns jogadores. E a última.Muita praia! Visitámos monumentos. . .E esse estádio é…?! .Mas o Daniel estava ansioso para conhecer.O.Lá isso é verdade.Ai é?! Fizeram o quê? . Foi uma pena tu e a Sara não nos terem acompanhado.Está bem. quase todos oferecidos a Madalena.É um estádio de futebol. Jorge reparou enquanto a seguia pelo corredor. .Dois dias mais tarde. Claro que tenho. .Deve ter saído com amigas. . animado. marido o principal impulsionador de todas aquelas compras. não sei – respondeu Madalena cruzando os braços. .Esperemos bem que sim. museus.Tens a certeza? – perguntou Jorge encontrando na voz da ex.Impressão tua – respondeu ela compondo-se na sua camisola azul. Tenho uma audiência que adiei e que agora não posso faltar. – Estou na mesma.…portou-se bem. Do Real Madrid. . .k! Então eu deixo os presentes e depois entregas.Está bem. .Estou óptima.discursou Jorge.A Sara não está em casa. .Eu sei que o futebol nunca foi o teu forte. Quer dizer. . .Bem – mentiu Madalena depositando os presentes sobre o sofá.Ainda bem então.Estás mais magra – ele não resistiu a fazer essa observação. não é que ela mereça. . Estava mais magra. Jorge e Daniel regressaram de férias trazendo consigo caras felizes e também vários presentes.Claro. . .A Sara? Como é que ela se portou nestas semanas? . . .Eu e o Daniel divertimo-nos imenso. mas ainda assim ele manteve essa impressão guardada a sete chaves para não ser inconveniente. mulher uma certa hesitação. E hã. conhecemos o estádio Santiago Bernabéu… . – Como é que estão as coisas por aqui? . O Dani depois mostra-te. . . . . .Ela não está em casa? Gostava de falar com ela e entregar-lhe os presentes. sabendo bem que havia sido o ex. Pode ser que aos poucos e poucos ela comece a entrar nos eixos. .Acompanhas-me à porta?! Madalena acenou que sim e em seguida conduziu-o em direcção à saída.Bem. mas mesmo assim não consegui resistir.Não?! Aonde é que ela foi? . demos uma escapadela a Barcelona. eu já vou indo! Ainda tenho que organizar algumas papeladas para amanhã. .

– Tenho sempre que fazer tudo por ti. Olhou-a mais uma vez.Esta casa já não é tua – respondeu ela calando-lhe os argumentos.Não Jorge… . – Faço sempre esses exames de seis em seis meses para não ter nenhuma surpresa desagradável. Depois disso.Oras! Para saber se está tudo bem – respondeu a prostituta calçando as suas sandálias sentada na cama.Exames de quê?! . ela despediu-se de Sara e entregou-lhe os seus pertences para que os vigiasse. .foi a resposta desesperada de Madalena. Morreu ao longo dos dezasseis anos de casamento que mantiveram. Preencheram as fichas oferecidas pela recepcionista e mais tarde escolheram duas cadeiras discretas para se sentarem.Exames ginecológicos. e tentou encontrar nela toda a doçura e inocência que ela detinha quando se casaram e prometeram diante do altar amarem-se. à urina… ao HIV.Nessa altura. mas ultimamente tenho sentido muitas saudades tuas… . – Marquei uns exames para a semana – disse-lhe Milene ainda naquela tarde. Mas não. dos miúdos. Depois disso. Assim sendo. Sara acordou mal disposta. Sem cerimónias. Infelizmente Jorge não conseguiu encontrar essa mulher.Marca no mesmo dia. voltou ao quarto e respirou fundo sentindo-se grata por ter conseguido sobreviver àquela autêntica prova de fogo. E tu também devias começar a fazer… . naquela tarde. Tenho sentido muita falta de ti. Milene revirou os olhos e lançou um pesado suspiro.Eu sei que tens todas as razões para não acreditares no que te estou a dizer. Na semana seguinte. Jorge! Vai! A expressão dura da ex.Lena… . da nossa casa… . . mulher apenas trouxe uma certeza a Jorge.Para quê?! . Por sorte.Não me podes marcar os exames?! Ao ouvir o pedido de Sara. Eu vou contigo. já reparaste?! . provavelmente no teu lugar também não acreditaria. Raios. Tinha a cabeça à roda. e essa certeza era de que não havia a mais remota possibilidade de ela o aceitar de volta. a jovem puxou o autoclismo e manteve-se inerte no chão durante vários minutos. Jorge arranjou forças para abrir a porta e também para dizer algo que já havia ensaiado várias vezes durante as duas semanas que passou em Madrid: . na riqueza.Podes não acreditar. foi inevitável. mas… eu ainda acho que existe uma possibilidade de voltarmos a ser uma família outra vez. agradeceu a passagem cedida pela assistente 146 . algo que fez assim que saltou da cama e se trancou na casa de banho.Por favor. . Nunca se havia sentido tão mal em toda a sua vida e nem sabia sequer o que teria causado tamanha indisposição. . Fazemos os exames juntas! E assim foi. pois ela já não existia. respeitarem-se e nunca se abandonarem. não lhe restou outra alternativa a não ser afastar-se da porta e deixá-la especada sobre o alpendre. ao sangue. na saúde e na doença. Sara e Milene deram entrada na clínica onde a última costumava fazer exames periódicos. fosse na pobreza. o estômago apertado e uma vontade descomunal de vomitar. Na primeira manhã de Agosto. Talvez alguma coisa que comera na noite anterior? Ou seria antes a ressaca por ter bebido duas garrafas de whisky numa festa? Sem conseguir resposta às suas perguntas. não havia muitas pessoas para realizar exames e Milene foi a primeira a ser chamada pela assistente de serviço.

enquanto ouvia os sermões do médico de serviço acerca da sua conduta sexual não muito aconselhável e da sua tenra idade para realizar exames como àquele (HIV). – É sempre assim. Sara sentiu-se incomodada. – És parva ou fazes-te?! . Mas não contes comigo para te amparar em todas 147 .Sou eu – respondeu Sara saltando da cadeira. por favor! .Sr. – Aquele médico era um otário – resmungou a jovem à saída da clínica.Escuta aqui – exclamou Milene apontando-lhe o dedo ao rosto. Quinze horas e trinta e cinco minutos. Podem vir buscar os exames daqui a oito dias. . pensou.Venha comigo. os exames não demoraram a ser feitos. . . mas psicologicamente. . Porque é que ele não se cala. – Quer dizer… às vezes com o Marco esqueço-me… . por mim estou-me a lixar. . Fisicamente não custou.Só deves ter medo se não te cuidares. . . – Se estiveres numa de estragar a tua vida. – Olha lá – exclamou ela segurando-lhe o braço com força. O silêncio de Sara deixou Milene alerta.O que é que querias que ele te dissesse? É claro que te iria pregar um sermão.Normal! O de sempre – respondeu a prostituta vestindo o casaco às pressas.Nem que tivesse sido só uma vez e muito menos com o Marco. . Por sorte. Sara conseguiu desaparecer do consultório com a clara certeza que não voltaria ali a pôr os pés tão cedo. – Tu não me digas que tens andado a trabalhar sem preservativo? .Tem calma… .Não tens medo dos resultados? . e por sorte. fazer coisas estúpidas só para provar que és a maior e que ninguém pode contigo.Vai – ordenou Milene empurrando a jovem pelas costas quando lhe pressentiu algum nervosismo. nunca! Nem em sonhos! .E o que é que tu respondeste? .Pois eu tenho medo. pá – gritou Milene chamando a atenção de algumas pessoas que iam a passar na rua.ª Sara Albuquerque!? – chamou a assistente do corredor.Tem calma! Eu disse que é só às vezes e é só com o Marco.Coitado do velho! Deve ter ficado com os cabelos em pé quando lhe disseste isso.Não! Ao contrário de certas malucas que andam para aí.Perguntou-me se os meus pais sabiam que eu tinha vindo fazer um teste de HIV… . deixando Sara a olhar para o relógio pendurado na parede. . pensou. – Então?! Como é que foi? – perguntou ela assim que Milene pisou a sala de espera. Só espero que isto não demore. .Porra. disse-lhes a recepcionista.Sei lá – respondeu Milene acendendo um cigarro assim que viraram a esquina.e desapareceu com ela pelos corredores da clínica. – Não custa nada.Que eles até me tinham aconselhado a fazê-lo – respondeu Sara às gargalhadas. .É claro que não – respondeu Sara desviando-se bruscamente. . eu cuido-me bem. Sem preservativo.Mas porque é que temos que esperar oito dias até os exames ficarem prontos? .

Não estou chateada – respondeu Milene apressando os passos em direcção ao metro mais próximo. e se queres saber. . Recebidos que estavam os exames. Sara hesitou. – Estás lixada – exclamou Milene aproximando-se dela. – Dá-me cá esta merda – disse Milene arrancando-lhe o exame das mãos. Por momentos. .Milene… Tarde demais foi o que Sara percebeu quando ao chamá-la pela última vez Milene pura e simplesmente desapareceu sem deixar rastro. Mais uma vez. não lhe restou outra alternativa a não ser voltar para casa e dar-se conta da grande asneira que tinha cometido.Não! Pior! Estás grávida. Mas ninguém parecia estar minimamente preocupado consigo e também já não havia como voltar atrás.Não tens nada? . que sem conseguir aguentar tanta pressão. Agora já não há como voltar atrás. Se não menos elas parassem um pouco só para lhe perguntar o porquê de ter tomado as decisões que tomou. as pessoas na rua pareceram-lhe desfocadas e as suas mãos suaram como se estivessem a ser encharcadas por uma torneira aberta. para umas coisas és corajosa.as tuas merdas porque eu já não tenho idade para isso. – Ainda estás chateada comigo? . – Não sou a tua mãe. as duas amigas dirigiram-se à recepcionista e aguardaram que ela procurasse nos arquivos dois grandes envelopes castanhos.Não! E tu? Não vais abrir o teu? Ao olhar para o envelope que tinha de encontro ao peito. mas também por levar uma vida desregrada cheia de más companhias e outras histórias escabrosas para contar. não só por ter tido relações sexuais sem qualquer protecção. nem paciência também! . agora para outras… Os momentos que se seguiram foram expectantes. Por fim. 148 . . lembraste?! .Não consegui parar de pensar no resultado dos exames! Estou a morrer de medo. sentou-se num pequeno pilar junto ao edifício da clínica. O que está feito está feito. As palavras de Milene permaneceram nos ouvidos de Sara quando ambas entraram na clínica onde estavam depositados os exames. E se estivesse doente? E se tivesse apanhado o HIV? Eram as perguntas que lhe assombravam os pensamentos todas as horas do dia. Um no nome de Milene dos Santos e o outro de Sara Soares Albuquerque. Se ao menos as pessoas fizessem a mínima ideia de como ela se estava a sentir miserável.Pensasses nisso antes de te teres armado em parva. começou a sentir a sua cabeça a andar à roda. quando finalmente chegou a altura de receber os exames. – Quer dizer.O que foi?! Tenho Sida? . tanto para Milene. encheu-se de coragem e tornou a procurar Milene combinando com ela um local onde se pudessem encontrar. extenuantes e stressantes. mas principalmente para Sara. Os oito dias que se seguiram foram longos. as duas amigas voltaram a sair à rua no mais completo silêncio. Não houve uma única noite em que Sara tivesse conseguido pregar os olhos enquanto esperava pelo resultado das análises. Nessa altura. – Estou limpa – exclamou Milene depois de ter analisado os seus exames com a máxima atenção.

meu Deus? Era certo e sabido que iria acabar por sobrar para mim.Não acredito – murmurou Sara arrebatando-lhe o envelope das mãos.Não vai valer de nada. – Não pode ser. não faria.Acho que vou falar com o Marco primeiro. . não?! . estás lixada! Ele não vai assumir a criança e ainda é capaz de te mandar fazer um aborto.Bem. não é?! .É natural! Já o conheço há muitos anos e ele também já foi meu cliente. . – A luz é que vais chegar a casa.Será que os exames não estão errados? . .Então o que é que queres fazer? Um aborto? Se quiseres fazer isso.Eu não posso fazer isso! A minha mãe iria matar-me. . não?! – respondeu Milene apressando-se a acender um cigarro para acalmar os nervos. – Tu ainda não percebeste a gravidade da situação!? Estás grávida.Não me vais abandonar agora.Ai agora perguntas-me a mim? Eu sei lá o que é que fazes! Não tenho nada a ver com isso.E dói fazer um aborto?! . – O que é que eu faço? – repetiu Sara. . Garanto-te que números não te vão faltar. Aonde é que eu estava com a cabeça. já te disse! Ele não te vai ajudar. não é?! . pelo menos não tenho Sida. . . .O que é que foi? Ainda te estou a tentar ajudar e tu vens-me com essas cenas?! .Já foi teu cliente?! 149 .Olha aqui a luz.Então se for.Às vezes parece que o conheces até demais – afirmou Sara interceptando-lhe os passos. Eu conheço-o. .Só preciso de uma luz.E se não for? . . . . abri as pestanas e nunca mais me armei em parva de engravidar outra vez.. Depois disso.Eu tenho a certeza que é. contar à tua mãe que estás grávida e decidir se queres ou não ter o bebé.Bem. .Eu sabia que esta cena dos exames iria dar merda. . – O pior é que tu nem sabes quem é o pai. – A única vez que fiquei grávida tive a criança.É! Devem estar mesmo errados. . . minha cara – exclamou Milene segurando-lhe a face com força. Não te fiz o filho.Só pode ser o Marco. .O que é que eu faço? Silêncio foi a resposta de Milene.Ele não faria isso – murmurou Sara não conseguindo esconder os seus olhos assustados.Sei lá! Nunca fiz nenhum – respondeu Milene voltando a largar-lhe o rosto. rapariga! Grávida! Vais ter um bebé. queres ver! Porque é que achas que até hoje ele nunca foi pai? Sorte. . . entre Sida e gravidez venha o Diabo e escolha. Vai confiando nisso que daqui a nove meses vais ver o erro – respondeu Milene levando uma das mãos à cintura.Só acho que sabes mais coisas do Marco que eu não sei.Ui. é só pedires o número de uma clínica a qualquer prostituta lá do bairro.O meu maior erro foi ter-te dado ouvidos naquele dia em que me foste procurar para ser prostituta. Eu sabia! Tipo sexto sentido estás a ver?! . .

Ele não presta. Se resolveres ter o bebé.Toma – disse Madalena atirando-lhe uma caixa de compridos. O Marco nunca te vai ajudar se resolveres ter essa criança. nem como homem e muito menos com pai. podes crer que todas as responsabilidades vão cair sobre os teus ombros. eu só quero que abras os olhos e deixes de ser ingénua. mas quando a mãe se voltou para o fogão. – Escuta Sara. e a sua vida nunca mais teria paz e sossego. não tinha idade para arranjar um emprego decente. . ela não tinha ninguém a quem recorrer. quando fazer. sobre os ombros dos teus pais porque tu nem sequer tens idade para arranjar um emprego decente.Depois vejo isso. Vou andar sempre em cima de ti para me certificar que não andas a faltar às aulas. Pensar no que fazer.Se não andasses na rua até tarde não apanhavas doenças. – Daqui nada entramos em Setembro… – disse-lhe Madalena enquanto provava o molho do frango na panela. A sua única doença era não saber o que fazer quando todos descobrissem que estava grávida. . principalmente a sua mãe.Agora não adianta chorar. . .Porque nunca veio ao caso! Tens a noção da quantidade de clientes que já tive? . perguntou-se. Fariam um escândalo. – E não bebas a água do frigorífico! Só te faz mal à garganta. .k. . O que é que iria fazer dali por diante. . nem como namorado.Não é depois! Vais ter que tratar desse assunto o quanto antes para não perderes vaga.Eu sei – murmurou Sara limpando as tímidas lágrimas que lhe caíram dos olhos. e principalmente. Diante daquela situação no mínimo catastrófica.Gripe. não estava doente e nem nada que se parecesse. Com certeza que nenhum deles iria compreender.Estou doente – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. . . não é!? O mal já está feito. .. ou melhor. – Vais ter que meter os papéis da matrícula na escola. Mas por outro lado. a única opção que lhe restava era continuar a pensar. como fazer. Na verdade. Sara chegou a casa antes de o anoitecer. .Um namoro muito torto se queres que te diga – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. Pela primeira vez naquela semana. Sara aceitou os comprimidos com alguma cautela.Hã… já chegaste – disse-lhe a mãe ao vê-la a entrar na cozinha. Grávida aos dezasseis anos de um homem que era tudo menos de confiança e com um grande dilema nas mãos: Contar ou não a verdade aos seus pais. 150 .Sim – respondeu Milene revirando os olhos quando percebeu que tinha falado demais. e pela expressão facial marcada não foi muito difícil perceber que tinha também passado a tarde inteira a chorar e a lamentar-se da sua triste sorte. . mãe… – murmurou a jovem servindo-se de um copo de água. E este ano nem penses que te vou dar descanso! Muito pelo contrário.Mas o Marco é diferente! Tu sabes que nós namoramos.O. muito pelo contrário.Porque é que nunca me contaste isso antes? . que mais alternativas lhe restavam? Tal como Milene lhe dissera horas antes. para se sustentar e muito menos sustentar uma criança que não foi de todo planeada ou desejada. ela guardou-os discretamente no bolso das calças. – Que milagre! Até para estranhar.O que é que tens? .

Nem pensar – interferiu Arlete. – Sara. Milene? .Ui! Clientes é o que não te faltam… – riu-se Milene. Que estúpida! Ainda não dá para ver nada. passou-lhe essa ideia maluca pela cabeça enquanto enfiava uma almofada por debaixo da camisola e se imaginava com nove meses de gestação. se for rapaz chama-lhe aquilo. . . A notícia da gravidez de Sara foi recebida com alguma apreensão por parte da maioria das prostitutas do Intendente.Não te tranques lá dentro! O jantar está quase pronto. Algumas alertaram-na para o destino cruel que a esperava.Acho que já me habituei à ideia – respondeu Sara observando a chegada do empregado de mesa. diz lá o que é que queres! . Não sabia muito bem o que era. – Está um calor de rachar. Na mesma mesa também se encontrava Arlete.O que é que vão pedir. . – Mulher grávida não bebe. .O mesmo que elas. lembraste? Não podes beber. – Estás muito contente – disse Milene a Sara quando ambas se sentaram numa das esplanadas mais frequentadas do bairro. não seria uma loucura tão grande imaginar um desfecho risonho para aquela verdadeira história de terror. . foram as palavras que Sara proferiu baixinho enquanto examinava a sua barriga à frente do espelho do quarto. dizer que a amava e que juntos iriam criar o filho que fizeram.Tu já andas sempre em cima de mim. meninas?! . Mas de facto. e no fim.A velha tem razão – concordou Milene. Sara caiu na cama e fechou os olhos tentando imaginar a reacção de Marco.Imagina se não andasse – respondeu Madalena voltando-se para o fogão. Se for rapariga chama-lhe isto.Para mim pode ser uma imperial – respondeu Arlete abanando-se com a mão. . Quem sabe Marco até não fosse gostar da ideia de ser pai. ninguém conseguiu chegar a nenhum consenso. . mas o simples facto de saber que ele existia e que estava no interior do seu ventre.Velha é a tua mãe – defendeu-se Arlete ameaçando uma bofetada enquanto Milene e Sara se riam a bom rir. tal como se era de esperar.Hei! Isto aqui é um estabelecimento de primeira.Mas… . e outras ainda. outras optaram por a parabenizar. trouxe-lhe uma calmaria difícil de explicar.E tu.Vou para o meu quarto. estão a ouvir?! – resmungou o empregado quando ouviu as gargalhadas das três prostitutas. – Mania pá! Tomara muitas mulheres nos cinquenta estarem assim como eu. 151 .Por acaso! Olha que até hoje não tenho tido muitas razões de queixa. . .Uma imperial também! De qualquer maneira não há nada melhor nessa espelunca. desde que soube que estava grávida.. Imaginou que ele a fosse tomar nos braços. houve qualquer coisa em si que mudou. . – Estás grávida. aventuraram-se na procura dos primeiros nomes. não sabia até que ponto aquele filho iria mudar a sua vida. Com um misto de sensações diferentes. No fundo. . .

Sarita?! Quando é que vais contar ao Marco que ele vai ser papá? .Aonde é que vais? .Ficaste?! – insistiu Sara. . .Porquê?! – perguntou Sara. .O que foi? – perguntou Marco.Vocês sabem alguma coisa do Marco que eu não sei.Não.Boa sorte – riram-se Sara e Arlete.Ninguém sabe de nada – respondeu Milene levantando-se da mesa enquanto terminava o último gole da sua cerveja. Esperava também encontrar nos braços de Marco a confirmação de que tudo iria correr bem e de que podia contar com ele para o que quer que fosse. Sara e Marco subiram as escadas aos beijos e abraços e não tardaram a abrir a porta do quarto para ali dentro matarem todas as saudades que tinham sentido um do outro.E então. e depois disso. Ficaria contente? Ficaria confuso? Irritado? Furioso? De facto.Estou-me a preparar para a próxima semana – respondeu Sara. – Espera – disse ela.Porquê?! . Pensam que fiquei com a cena e com o dinheiro. apreensiva. Acedida à ordem. Milene atravessou a rua. não é?! – perguntou Sara franzindo o sobre olho e encarando os rostos constrangidos das duas prostitutas. ela esperava encontrar todas as respostas às suas perguntas. – Sabem e não me querem contar.Ele desconfia de alguma coisa? – perguntou Milene. Depois disso.Tenho um cliente daqui a quinze minutos e ainda tenho que me preparar para o receber. impaciente. – Bem meninas! Tenho que ir. . – Sinceramente não gostava de estar na tua pele. ela voltaria a casa. . contaria a verdade aos pais e quem sabe até moraria com Marco no Algarve onde embalados num clima paradisíaco os dois criariam o filho. foram as primeiras palavras que ele disse quando viu Sara diante de si. . – Combinámos que ele vinha ter comigo. . O dever me chama. e enquanto Sara saboreava o seu sumo de laranja natural.E vai ser cá uma surpresa – exclamou Arlete terminando a sua imperial.E ficaste? Marco esboçou um sorriso e logo se apressou a retirar a sua arma por detrás das costas. entendes?! . . Física e mentalmente.Arlete. fecha o bico – imperou Milene.Uns gajos andam atrás de mim por causa de uma mercadoria que não consegui devolver a tempo. .Tem calma! Temos a noite toda. Morri de saudades tuas. Arlete perguntou: . . não havia como prever a sua reacção. .Já te disse que hoje não vou poder dormir em Lisboa.A animação e as risadas das três prostitutas continuaram por vários quartos de hora. . Os dias seguintes trouxeram alguma ansiedade a Sara e tudo porque ela continuava sem saber qual iria ser a reacção de Marco à sua gravidez. mas naquela sexta-feira de Agosto particularmente friorenta e cinzenta. . o relógio assinalou vinte e três horas e o dono da pensão entregou-lhes a chave do quarto dezoito com um aviso claro e severo para que não fizessem muito barulho tendo em conta o adiantado das horas. sorridente. está bem! Já não está aqui quem falou. não sei se me entendem.Está bem. Nessa altura. 152 . . nem faz ideia sequer! Eu quero que seja surpresa. .

Claro que ela odiava o facto de Marco andar em negócios estranhos.Oras.Marco.De mim? . sabes como é que é! A Milene está cansada de fazer esses exames e disse que eu também os devia fazer para… .Está bem – respondeu ela sentando-se numa das pontas da cama. .E tu estás à espera que eu acredite nisso? . . abrevia porque eu não tenho muito tempo. O que é que foi? Andaste a fazer coisas que não devias. .Grávida?! – exclamou Marco levantando-se bruscamente da cama.Marco… .Porquê?! Não queres estar comigo? .Não é nada disso! Mas é que… eu tenho uma coisa para te contar. Uma coisa que descobri há duas semanas.Hiii! Já não estou a gostar nada da brincadeira. .Sim.. .Então cala-te e beija-me! Sem outro remédio à vista. mas odiava ainda mais perceber que muitas vezes ele perdia a noção do perigo por ser tão ganancioso e inconsequente ao ponto de brincar com traficantes de droga.Prometes que não ficas chateado? .O que é que isso importa? . esse pessoal é perigoso! . Grávida! . .De quem?! . 153 .Marco!? .Há dias atrás eu e a Milene fomos fazer uns exames só para saber se estava tudo bem connosco. Mas a verdade é que enquanto o fazia. Pode ser qualquer um que tenha passado pelo bairro.Sim! De ti! Eu tenho a certeza porque a data coincide com uma vez que estiveste cá em Lisboa. – Espera – exclamou ela livrando-se dos braços dele. – Na semana passada fomos buscar os exames.k! Eu prometo – respondeu ele revirando os olhos.E se esquecesses esse assunto. e… eu soube que… estava grávida… . . o seu coração apertou-se de tal forma que por momentos foi-lhe praticamente impossível respirar. Sara viu-se obrigada a obedecer às ordens de Marco e a brindálo com um longo beijo nos lábios. Sara… .O quê? – perguntou Marco apoiando os cotovelos sobre a cama. Tu tens que acreditar nisso.É claro que quero. . de quem!? De ti… – respondeu Sara surpreendendo-se com tal pergunta.Olha bem para mim.O. .Eu não estou à espera de nada.O que foi?! Bem. hã? – respondeu ele puxando-a contra si.Sara. . tu hoje estás com muitos truques. – Diz lá! .Só conto se prometeres que não ficas chateado.Tu nem sabes quem é o pai dessa criança. . . Coisa de rotina. – Eu não vim aqui para falar nesses filhos da mãe! Vim para estar contigo.pediu Marco colocando-se à frente dela. – Olha bem para mim e diz se eu tenho escrito na testa a palavra otário!? . é isso? .

Tu fizeste-me prometer isso. .Marco… . Acabou! .O filho é teu – murmurou Sara com os olhos rasos de lágrimas. – Aliás. – Acabou! Mete isso na tua cabeça. chegou a essa conclusão.Sara. De um sonho de uma miúda de dezasseis anos que se julgava muito esperta. Como se iludiu com um homem que não conhecia nada de si e que nem sequer estava disposto a conhecer. . – Mas eu se fosse a ti tirava mesmo o bebé! Ainda és muito nova para ser mãe e irias acabar por te arrepender mais tarde. – Sara! Sara – disse ele sacudindo-lhe os ombros quando ambos saíram à rua. colocou-o num pedestal e chegou inclusive a sonhar com um futuro promissor ao lado de um traficante de droga. Se engravidaste. problema teu! Resolve. – Eu tiro.E achas mesmo que eu acredito em ti? . naquele quarto de pensão e de volta à realidade. 154 . ela deu-lhe tudo o que podia. Sentiu também como se o mundo tivesse desabado por debaixo dos seus pés e que não houvesse absolutamente nada para a amparar.Mesmo se tirares. Não sabia absolutamente nada e talvez nunca viesse a saber. Acabou! A sério! Foi divertido enquanto durou. Eu não fui feito para ser pai! Nem para ser pai e muito menos para me prender a uma gaja da vida – respondeu Marco terminando-lhe com todas as esperanças de um possível romance entre os dois. eu vou-te dar um conselho! Podes já começar à procura de outro palhaço para sustentar o teu filho porque eu estou fora… – afirmou Marco encontrando a sua arma sobre a mesinha e o seu casaco sobre a cama. – Já vi que perdi o meu tempo – disse Marco. . Durante meses.Tu não podes fazer isso – exclamou ela segurando-lhe o braço. otária! De gajas como tu. Quando o viu a desaparecer pela porta.Ou vais negar? – perguntou ele lançando-lhe um olhar desafiador.Eu tiro o bebé – afirmou ela segurando-lhe a manga do casaco. ela percebeu que tudo não tinha passado de um sonho infantil. mas isto já se está a tornar demasiado sério para o meu gosto. se eu soubesse que era por causa disso. . já ando eu farto. A última vez foi contigo e eu disse-te que ia largar a vida por tua causa. Mas ali. o desespero tomou conta de Sara e ela não teve outro remédio a não ser segui-lo pelas escadas da pensão completamente lavada em lágrimas e implorando-lhe para que ele não a abandonasse. Sara sentiu duas enormes lágrimas rolaremlhe pela face. Como se enganou com ele. Aliás. eu estou-te a dizer que este bebé é teu. Eu não tenho razões para te mentir! .. gostei de estar contigo. mas que na verdade não conhecia nada da vida. por fim. pensou.Há semanas que não tenho ido para a cama com ninguém.O que é que foi? Estavas à espera que eu ficasse contente? Que te fosse pedir em casamento e ainda escolher o nome do puto? Acorda. Não és a primeira e nem vais ser a última a tentar dar-me a volta. – Vais negar que durante esse tempo todo não tens trabalhado como prostituta? .Marco. Enquanto ouvia o discurso amargo de Marco. Se não quiseres eu tiro! . nem sequer tinha vindo. o que é que ela sabia da vida? Do mundo que a rodeava? Das pessoas que a rodeavam? Não sabia nada.

Não está morto…! As sirenes da polícia e da ambulância não tardaram a ser ouvidas no bairro.Será que não percebeste o que é que se passou? Mataram um homem lá em baixo. mas ainda assim. quase tropeçou no tapete à entrada. e para isso bastou apenas as portas da ambulância fecharem-se com um enorme estrondo. – Ele não está morto! Não está…! Ele não está morto.Pode até ser – respondeu ele encolhendo os ombros enquanto se afastava lentamente dela e a deixava sozinha no meio daquela rua deserta. o carro que continha os três mandatários do crime arrancou a alta velocidade deixando para trás um rastro de destruição. ouviu os estores dos prédios a subirem a uma velocidade fantasmagórica. o seu coração parou de bater por breves instantes. Profundamente. e além disso.Toma a merda do dinheiro. ouviu-se um berro no outro lado da rua. . Estava apenas a dormir.Vai ter que nos acompanhar. A jovem chorava. Não. – Sara – chamou Milene tentando trazê-la de volta à realidade.. Depois disso. . mas por sorte conseguiu chegar à rua onde um aglomerado de pessoas já se havia juntado à volta de Sara e do corpo de Marco. Para ela. Milene afastou-se do cliente e saltou da cama atordoada. – Mas eu não o quero! E tu não me podes obrigar a querê-lo… MARCO. Meu Deus.Não – gritou ela enfrentando o rosto da amiga. aquela não era a primeira vez que escutava tiros no bairro. talvez a cena mais chocante de todas. enquanto algumas pessoas. Meus Deus. mas a dormir.Porque era a única pessoa presente na rua na altura do crime. Pé ante pé. larga-o! Ele está morto. procuraram-se identificações. E foi nessa altura que ele se voltou para trás sendo posteriormente surpreendido com cinco de tiros de caçadeira. ela abriu a porta e saiu do quarto ainda a tentar calçar as sandálias. um jovem traficante de droga. menina – disse um dos policiais aproximando-se dela após todas as burocracias resolvidas. Viu pessoas a correrem de um lado para o outro. Ao ouvir os tiros vindos da rua. a área à volta do crime foi delimitada. – Não preciso dele para nada. – Hei! Vais-me deixar assim? – perguntou o cliente quando ela voltou ao quarto e encontrou as suas roupas espalhadas pelo chão. gritava e não permitia que ninguém lhe retirasse o pai do seu filho dos braços. Por acaso os seus pais sabem que está aqui? 155 . Tinha sido um abate perfeito. De facto. . imbecil – respondeu Milene atirando-lhe as duas notas de cem euros. Mais tarde. Marco não tinha morrido. quase todos cravados no seu peito.Porquê?! . Dito isto. de vinte e oito anos cujo último desejo em vida foi o de não querer ser pai. ela murmurou levando a mão à boca. sem margem para erros e que retirou a vida de Marco. . – Sara. . Correu pelas escadas da pensão. procuraram um local perfeito para se esconder. ela aproximou-se da janela e abriu o vidro para tentar perceber que raios se estava a passar. Foi também a primeira vez que Sara se deu conta que Marco tinha realmente morrido. . e por fim. testemunhas e recolheu-se o corpo da vítima. não tem idade para aqui estar. com um cadastro um pouco mais duvidoso. a sua amiga Sara lavada em lágrimas com a cabeça de Marco sobre o colo. ao vê-lo cair inanimado no chão. sangue e os gritos de Sara. quando os ouviu.Mas eu paguei.

. Que não desejavam encontrar um grande amor. – Eu só conhecia o namorado dela. é a nossa obrigação contactar os pais assim que chegarmos à esquadra. . O relógio assinalava duas horas e vinte e 156 . naquela noite.Até quando vamos continuar a viver nesta merda – respondeu Milene tentando engolir o nó que lhe atravessou a garganta. rapariga! . Sete anos de luta. casar. – Até quando. a tomar caminhos errados e a aprender com os nossos próprios erros. de tristezas. Madalena acordou sobressaltada imaginando quem seria. .Boa sorte! Foram precisos apenas cinco minutos para que Sara fosse levada pelos policiais e o corpo de Marco transportado na ambulância para um hospital mais próximo. . Enganados estavam todos aqueles que pensavam que elas gostavam do que faziam. Então menina?! Vem connosco? . e por momentos.Até quando o quê?! . meu Deus?! Porque eu já não sei se aguento muito mais… Era a primeira vez que se abraçavam e choravam juntas desde que se tinham conhecido.Sim – respondeu Sara afastando-se de Milene com um estranho aperto no coração. Depois disso. qual era o ser humano que não desejava uma coisa dessas? Mas a vida às vezes é demasiado cruel para certas pessoas e nem sempre a felicidade bate à porta de todas. Coincidência ou não. Que não sonhavam ter uma vida igual à de todas as outras mulheres.Não – respondeu Sara limpando o rosto marcado pelas lágrimas. . projectos e muito menos sentimentos. pagamos bem caro por eles. ter filhos e viver felizes para sempre.Sr. ainda não se tinha perdido na vida e muito menos conhecido a maioria dos habitantes da zona.Não! Não é preciso. fazia precisamente sete anos.Porquê?! . . À mesma normalidade que existia quando Sara ainda não frequentava o bairro. agente! Será que não era possível resolvermos essa situação sem meter os pais dela no meio? – perguntou Milene recebendo um abraço desesperado de Sara. – Anda – disse Arlete levando Milene encostada ao ombro.Não fiques assim.Eu sinto muito mas as coisas vão ter que ser feitas dentro da lei! Como ela é menor. .Eu acho que eles não iriam entender.Queres que vá contigo? – perguntou a prostituta sob o olhar atento do polícia. – Vamos para casa! O telefone sobre a mesinha de cabeceira tocou ruidosamente.Não sei – respondeu Milene limpando uma tímida lágrima. .Já vi que vocês se conhecem muito bem. amarguras e um rol infinito de outros acontecimentos que para sempre iriam ficar gravados nas suas memórias. Até porque. e na maioria dessas vezes.. Que não tinham sonhos. o que acabou por morrer. . . – Já não sei de mais nada.Só me pergunto até quando… . deixaram-se de ouvir as sirenes no Intendente e tudo o resto voltou à mais completa normalidade. – Achas que ela vai voltar algum dia? – perguntou Arlete aos ouvidos de Milene enquanto os carros da polícia desapareciam a alta velocidade.De vista – mentiu Milene. Nem sempre é possível ter-se tudo aquilo que se deseja ou todas as pessoas que amamos. Por vezes somos obrigados a fazer escolhas.

Nunca iriam entender o que aconteceu e muito menos perceber que uma parte de si tinha também morrido naquela noite. – Não te preocupes.quatro minutos. eu conto – interferiu Jorge com uma expressão nada amigável. . tudo apontava para que fosse ela. perguntou-se vezes sem conta. apressou-se a encontrar o número do ex. – Estou – respondeu Madalena tentando encontrar forças para abrir os olhos e reconhecer a voz grossa e formal no outro lado da linha. para além do ex. – Por favor. Madalena saltou da cama e tentou controlar o pavor que sentiu ao saber que Sara estava presa por ter sido a única testemunha de um homicídio. precisamente essa tshirt. Mas os seus desejos pareciam difíceis de serem concretizados quando ao olhar para o relógio viu que nele estavam assinaladas quatro horas e vinte e oito minutos. – A Sara tem muitas coisas para nos explicar. raios. não lhe restou outra alternativa a não ser passear por todas as habitações da casa e desesperar-se entre lágrimas e soluços. Assim sendo.Aonde? – perguntou Madalena.Entra – disse uma voz grave após a abertura da porta. Sara? – insistiu a mãe. é melhor não! Fica em casa! Eu resolvo isto. conseguido esse feito. Já estou a ir para lá – foi a resposta de Jorge assim que ela lhe explicou todo o sucedido. Mais tarde. pensou. . Era advogado. Como advogado saberia enfrentar aquela situação bem melhor do que ela. 157 . diz-nos…! . para quê explicar esse facto quando era notório que os pais não a conheciam minimamente e nem sequer faziam ideia do horror a que ela tinha sido submetida quando viu o seu namorado ser brutalmente assassinado a poucos metros de si? Madalena e Jorge não iriam compreender. – O que é que aconteceu. aflita. – A minha filha. O que teria acontecido para que Sara se tivesse desvirtuado daquela maneira. o que é que aconteceu? – perguntou-lhe a mãe. ela encontrou também Sara com os olhos inchados de chorar e uma t-shirt marcada pelo sangue de Marco. Aonde foi que errou. Mas o pior nem foi isso! Sabes aonde é que a polícia a encontrou?! . Madalena pôde ter essa certeza quando voou em direcção ao corredor.Vens-me buscar para irmos juntos?! . Madalena desceu à sala e aguardou que a porta da rua se abrisse a qualquer momento. ela tornou a lançar um olhar vazio aos seus progenitores e manteve-se inerte. marido. – Um amiguinho dela foi morto à caçadeira e parece que ela foi a única testemunha do crime. Sara ainda não havia regressado a casa.Se ela não conta. Depois disso. apreensiva. que fez o coração de Madalena gelar como nunca. como errou e porque é que errou? .No Intendente. . Na verdade. A pergunta não sofreu qualquer resposta quando Sara se afastou dos braços do pai e encontrou na mesa um local perfeito para se apoiar. marido na agenda com a certeza que só ele a poderia ajudar numa emergência daquelas. e por isso.Sara. Foram as duas horas mais longas da sua vida. E foi essa t-shirt. À espera de notícias. o quê?! Atordoada com todas as revelações feitas pelo agente de autoridade. Não tinha absolutamente nada para lhes dizer. Era a voz de Jorge. – O que é que aconteceu? . Mais tarde.Não. Não tinha e nem queria explicar que naquela noite perdera uma das pessoas mais importantes da sua vida e também da vida do filho que estava à espera.Acho melhor irmos para a sala – respondeu Jorge conduzindo a filha pelo braço enquanto um pouco mais atrás Madalena os seguiu cautelosamente.

. não sei… .Isso mesmo que ouviste.Sara. o que é que tu estás a fazer num lugar daqueles? – perguntou Madalena voltando-se bruscamente para a filha. A nossa filha estava no Intendente. drogados e prostitutas? Enquanto ouvia o discurso moralista dos pais e todas as verdades que eles fizeram questão de lhe jogar à cara durante vários minutos.Engraçado – respondeu Sara levantando o rosto desfigurado. Sara cerrou os olhos e deixou de os ouvir. tu não te atrevas a falar connosco nesse tom – imperou o pai. tentou convencer-se a si própria que o comportamento da filha era perfeitamente normal para uma adolescente de dezasseis anos. Satisfeitos!? A pergunta de Sara culminou com uma valente bofetada de Jorge e com o olhar aterrador que ele lhe lançou em seguida. mas no entanto vão lá para procurar as filhas dos outros… . – Enlouqueceste?! Será que não sabes que nesse lugar só há bandidos. não foi preciso muito tempo para que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo e a fizesse soltar um berro ameaçador: . marido se lançou contra a filha a fim de extravasar todo o ódio e toda a repulsa que a resposta dela lhe trouxe. porque quero e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens. Madalena tentou enganar-se. e que com o tempo. com paciência. ela mostrava-se um ser humano odioso e repugnante. – Eu não andei a criar uma filha para a ver perdida no Intendente.. e embora nunca lhe tivesse passado pela cabeça que Sara se estivesse a prostituir.Sara. Muito pelo contrário. a cada mês. as coisas iriam melhorar.Não. Nem o tempo e nem a paciência fizeram de Sara uma pessoa melhor. quando regressou à realidade e a voz estridente da mãe continuou a ecoar-lhe aos ouvidos. pai!? Achas mesmo que eu estou a gozar? – respondeu Sara mostrando-lhe um sorriso maléfico.Tu sabes. – Os homens nunca criam as filhas para as ver no Intendente.Jorge.Deixem-me em paz! .Mas a única coisa que não querem é admitir a vocês próprios algo que está e sempre esteve diante do vosso nariz! . . . . . 158 . e sou porque gosto.O que é que está diante do nosso nariz? – perguntou Madalena temendo ouvir a resposta. a cada semana. – Tu só podes estar a gozar – murmurou Jorge também ele estupefacto com tudo o que tinha acabado de ouvir. Achas isto normal? . em dezasseis anos. pois a cada dia.O quê?! . não – gritou Madalena quando o ex. Mas não. – Eu sou prostituta sim. Pronto! Aí está a verdade que vocês tanto queriam saber. – Eu sou prostituta! PROS-TI-TU-TA! Um esforço sobre-humano foi o que Madalena teve que fazer para se conseguir manter em pé após a revelação da filha. a verdade é que ela estava certa quando lhe disse que a realidade estava mesmo diante do seu nariz. . E a verdade é que pela primeira vez. Mas depois. pensando enquanto o fazia.Sara… .Tu sabes! Mas se quiseres eu posso dizer-te com todas as letras – respondeu Sara gesticulando furiosamente os braços.Achas mesmo. Durante meses. ele ousou bater em Sara. A príncipio foi como se tivesse entrado numa outra dimensão ou tivesse sido transportada para um lugar longínquo.Vocês sabem muito bem o que é que eu estava a fazer no Intendente.

disse ele deixando-a caída no tapete da sala. Já não tinha mais nada a fazer ali. – Vai-te embora! Não foi sempre isso que fizeste durante toda a tua vida? Pelo menos agora já não precisas fingir que és pai.Olha só no que é que a nossa filha se transformou… .chamou Madalena aproximando-se lentamente dele naquele corredor às escuras. Era o fim. Não sabia o que fazer para reencontrar a filha que perdera meses antes. – Jorge… . Na verdade. Depois disso. – E também não quero que me consideres o teu pai! Sob o olhar desesperado da ex. e o que sobrara da menina doce e inocente que ele um dia carregou ao colo. – A partir de hoje já não te considero a minha filha… . enfiou a cabeça por entre as pernas e tentou sufocar o choro compulsivo de uma mãe desesperada. a porta fechou-se violentamente e os vidros da janela agitaram-se trazendo consigo uma dor aterradora que Jorge nunca pensou sentir em toda a sua vida. que tinha morrido há muito tempo e que ele foi o último a dar-se conta desse facto irrefutável. tudo pareceu desmoronar. Nessa altura. Jorge alcançou o casaco sobre o sofá e saiu da sala. pelo irmão ou pelo pai que naquela noite fez questão de lhe dizer com todas as letras que já não se considerava o seu progenitor. e na mente. – O que é isto? – murmurou ela tentando abrir a porta com vários safanões. mas também a única forma de impedir Sara de cometer mais loucuras. – Jorge… . Nem as várias tentativas 159 . Foi também nessa altura que ele percebeu que a sua filha já não existia. trazia uma mala e uma mochila. Era uma medida extrema. Sara perdera-lhe todo o respeito. .Eu sei – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando o ex. tornou a murmurar. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara voltou a descer ao primeiro piso. mulher. tinha desaparecido sem deixar rastro. Sara correu em direcção à cozinha a fim de encontrar uma outra escapatória. nunca lhe impôs limites e sempre fechou os olhos às loucuras cometidas por ela. Sara alcançou o corrimão das escadas e voou como um foguete em direcção ao quarto.disse ele fazendo um esforço sobre humano para não derramar duas lágrimas que se haviam apossado dos seus olhos. Não. pois nunca se mostrou um pai presente. Assustada com a ideia de se ver presa naquela casa.que a culpa de tudo aquilo era sua. a única coisa que sabia era que precisava de ar para respirar e foi isso que tentou encontrar quando se sentou junto à porta de saída. A porta também se encontrava fechada. já não pertencia àquela família e nem sequer nutria qualquer tipo de sentimento pela mãe. chegou também a essa conclusão. pensou. De facto. Uma mãe tão desesperada que naquela madrugada não viu outra alternativa a não ser trancar todas as portas de casa para impedir que a filha voltasse a sair por elas. Contudo aquela noite veio a provar que já era tarde demais para retomar o seu papel de pai. assim como a que dava acesso às traseiras. que decisões tomar dali por diante e como superar aquele inferno que estava a viver. já não lhe restava mais nada a fazer naquela casa quando era certo que tinha acabado de perder tudo o que lhe era mais querido na vida. Nessa altura. – Vai – gritou ela interceptando-o no corredor. marido abriu a porta e atravessou o jardim em direcção ao carro. Nas mãos. tudo deixou de fazer sentido e uma sensação de desespero invadiu-lhe o coração já por si destroçado. Ditas estas palavras. Madalena sabia. admiração. Não sabia o que fazer. a vontade incondicional de sair daquela casa.

.Dá-me a chave! . E tal como um milagre. volta para o teu quarto! . – Chama o pai! Sem esperar segunda ordem. Madalena mexeu a perna. 160 .Já disse que não. sem se lembrar que ainda estava ao telefone com o pai. – Dá-me a chave – era o que gritava como uma louca. Mas ela que não pensasse que a iria prender no interior de uma casa onde não desejava estar. Quero ir-me embora. . A resposta negativa de Madalena trouxe novamente a fúria de Sara e consequentemente a sua audácia em atirar-se para cima da mãe sem temer as consequências do seu acto irreflectido. .Tu não vais a lado nenhum – respondeu Madalena levantando-se da cama.O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Madalena acendendo a luz da mesinha.Não – respondeu Madalena recuando vários passos quando a sentiu demasiado perto de si. Ela que não pensasse sequer numa coisa daquelas. .O que foi? Vais-me tornar na tua prisioneira. Do cimo das escadas. O fim de todo o respeito que mãe e filha ainda sentiam pela outra. . Daniel correu ao telefone que se encontrava no quarto da mãe e digitou o número de Jorge. e foi também nessa altura que as duas abandonaram o quarto aos empurrões.Tu não me podes obrigar a ficar nesta casa. mas isso foi algo rapidamente esquecido por Sara quando ela tentou agarrar as pernas da mãe e a impedi-la de fugir em direcção à sala. filho – gritou Madalena enquanto se tentava desenvencilhar dos braços de Sara.Dá-me a chave! . é isso?! .E eu já te disse que não ta vou dar. já disse – gritou a jovem estendendo a mão com um olhar aterrador. . Sim. e ele. pai! A Sara vai matar a mãe! As últimas palavras de Daniel coincidiram com um estrondo gigantesco vindo das escadas. o fim de uma relação de dezasseis anos e a certeza que dali para a frente as coisas nunca mais iriam voltar a ser as mesmas. Tinha sido ela. Um.Eu quero a chave. – Mãe… – ele gritou.Sara.Dá-me a chave da porta! Eu quero sair. Nenhuma das duas tinha morrido ou tão pouco sofrido lesões mais graves visto as escadas não serem inclinadas. enquanto se aproximava pé ante pé.Enquanto fores menor e estiveres sobre a minha responsabilidade. eu posso sim obrigar-te a fazer aquilo que eu quiser e aquilo que eu achar que é melhor para ti. . . – Dá-me a chave – gritou Sara entrando pelo quarto da mãe com uma expressão aterradora. ele viu os corpos da mãe e da irmã estatelados no corredor e não tardou a perceber que ambos tinham caído devido à luta. ao ouvilo.para forçar a fechadura resultaram e esse facto apenas acrescentou ainda mais o ódio que ela estava a sentir dentro de si. dois. Aquele tinha sido o princípio do fim. estalos e gritos. – Pai! A Sara vai matar a mãe. três toques e o advogado finalmente atendeu para grande alívio da criança. A única coisa que suplantou a dor da queda foi o susto. – Chama o pai. Gritos que fizeram acordar o pequeno Daniel. A barreira foi quebrada. largou o auscultador pronto a inteirar-se do que se estava a passar. . Não. Tinha sido a sua mãe a trancar todas as portas só para a prender ali adentro.

Mas não. – Tudo o que eu queria era que ele desaparecesse. aliás.Larga-me – imperou Madalena conseguindo encontrar numa hesitação da filha a oportunidade ideal para correr em direcção à sala. Sempre te dei tudo o que estava ao meu alcance. ao contrário do que ele estava à espera. Foi só por isso que eu inventei que ele me tinha violado. Ouvido o estrondo. não foi por querer. Não restava mais nada a não ser um misto de ódio e rancor entre duas pessoas completamente distintas. Eu não mereço isto! Eu sei que apesar de tudo eu não mereço o que me estás a fazer. incrédula. – Eu só queria que tu me dissesses para que eu pudesse entender. Eu não me importo. Preferiste acreditar em mim em vez de acreditar nele e agora olha para ti?! Estás sozinha e vais ficar assim até ao final dos teus dias porque eu também me vou embora… .Sara.O que é que…? . não é?! Mais uma vez quiseste mostrar que és tu que mandas! É sempre assim. nada disto teria acontecido. 161 . mas há muito tempo! Com as chaves nas mãos. E tu. . se te fiz algum mal. Não hoje. veio um silêncio ensurdecedor e a certeza de que o inferno finalmente tinha terminado. Na verdade. . hã?! Tens prazer de me ver a correr atrás de ti. Sara! Um monstro. como você quer e ninguém está autorizado a contrariá-la… .. .Estás a falar do Sérgio. acreditaste. mulher. Madalena manteve-se calada. Sara abriu a porta e não resistiu a lançar um último olhar ao irmão que se encontrava sentado nas escadas assustado com tudo o que tinha assistido momentos antes.Porque é que não me dás a chave. – Aqui tens… – afirmou Madalena atirando-lhe as chaves contra o peito.Tu estás louca! Completamente louca. Madalena! Tudo tem que ser feito quando você quer. Contudo. o que é que foi que eu te fiz?! Onde foi que eu errei para que te tivesses transformado nesta… pessoa… – discursou Madalena não conseguindo controlar as lágrimas. . sempre te pus em primeiro plano e sempre abri mão de tudo em prol da tua felicidade… . Não foi de propósito. .Se me tivesses dado a chave. – Estás livre para fazeres o que quiseres com a tua vida porque para mim morreste. D. burra como sempre.O quê!? – murmurou Madalena. é isso? É por causa disso? – perguntou Sara encontrando a mãe encostada à mesa ainda com a respiração ofegante. nem Madalena e nem Sara conseguiram reconhecer-se no interior daquela sala. ele pode muito bem voltar. E não. Ao olharem-se pela última vez. estava tudo destruído. Nem mesmo os laços sanguíneos que as uniam iriam conseguir reatar aquela relação doentia. nem quero saber sequer… Perante a resposta da filha. não é?! – interrompeu Sara surpreendendo-a com tal pergunta. – Aonde é que ela está? – foi a primeira pergunta de Jorge quando chegou à casa da ex.O Sérgio nunca tocou num fio de cabelo meu! Fui eu que apareci na casa de banho para que nos apanhasses e pensasses que ele me estava a estuprar. . Mas no entanto parece que me odeias e que queres fazer tudo para me destruir e para destruir a minha vida.Tu és um monstro.Porque se quiseres podes voltar para ele! Já que me vou embora desta casa. ela esboçou-lhe um leve sorriso antes de fechar a porta e desaparecer de uma casa onde tinha vivido durante dezasseis anos. Se eu errei. ao contrário do que o teu pai te disse.

sem conforto e com um bebé na barriga. mas sim em todos os momentos em que ela fez questão de lhe chamar a atenção enquanto pai. restaram-lhe poucas alternativas de sobrevivência e ninguém com quem pudesse contar a não ser: – Tu… – disse Milene abrindo a porta do seu quarto com olhos de quem tinha passado a noite toda em branco. Sara percebeu que era ali que teria que recomeçar do zero.Foi-se embora – respondeu Madalena alcançando o corrimão das escadas com os olhos marcados de tanto chorar e uma voz amarga. – Foi-se embora de vez. – Deixas-me entrar? 162 . De volta a um bairro que tão bem conhecia.. Os passos lentos e arrastados de Madalena fizeram Jorge entender que tinha chegado tarde.Saí de casa – respondeu Sara mostrando-lhe as malas. não só naquela madrugada. . Mas a verdade é que ele nunca percebeu os intentos dela e agora ambos estavam a pagar bem caro por isso. o Intendente. Sem família.

mas a verdade é que aconteceu e não há nada que possamos fazer.Eu vou levá-lo hoje! Mas também não queria deixar a Madalena sozinha. Era como as ouvisse vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. Sou prostituta porque quero. . outras lamentava-se. e era exactamente isso que pretendia fazer não fosse o pedido dela para mais uma vez ficar sozinha. Cinco dias em que ela mergulhou na mais profunda depressão. Qualquer coisa e aviso-te com antecedência.Eu também não sei. duvido muito que consiga tomar conta do Daniel. – Eu fico aqui com ela. . meu Deus!? Está certo! Sempre teve um feitio difícil. e cada vez que Madalena se lembrava delas.Eu já tinha pensado nisso – respondeu Jorge limpando uma lágrima que teimou em cairlhe dos olhos.Do jeito como a minha filha está. Eu também não sei como é isto pôde acontecer. foram as últimas palavras de Sara. embora quase todos fossem unânimes em afirmar-lhe que a culpa não era sua. chorava. 163 . Mas pior do que o sentimento da derrota. Pareciam gravadas na sua memória e traziam-lhe um sentimento angustiante de derrota. Por vezes. . . fechava os olhos numa tentativa desesperada de esquecer todas as palavras horríveis que Sara lhe dissera momentos antes de sair de casa. porque gosto e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens .Que tragédia – suspirou Afonso levando as mãos à cabeça. . mas… isto?! . algo que só ele como pai o podia fazer exemplarmente. A Sara escolheu o caminho dela. e muitas vezes. . genro. era talvez o desgosto de saber que a filha se prostituía sem ter qualquer razão plausível para isso. Só ele poderia fornecer o carinho e o apoio que a filha necessitava na altura. – Como é que ela se foi perder desta forma.CAPÍTULO IX Passaram-se cinco dias sem que Madalena se tivesse conseguido levantar da cama.Não te preocupes – respondeu Afonso segurando-lhe o ombro esquerdo. Tal como disse. Jorge levou Daniel para a sua casa e deixou Afonso livre para cuidar de Madalena. Nem sabemos sequer para onde é que ela foi.Acho melhor levares o Daniel para passar uns dias contigo. sem dormir e sem mexer qualquer músculo corporal para além do estritamente necessário.Não tiveram mais nenhuma notícia da Sara? .Está a ser muito difícil para todos nós – respondeu Jorge não escondendo a tristeza estampada no rosto. maior era a vontade de morrer. sem comer. – Já não sei o que é que hei-de fazer com ela – disse Afonso Soares descendo à cozinha com o ex. .Nada. .

Madalena aceitou o convite e entrou no apartamento do fotógrafo.Vou ter que sair. Ao ver-se sozinha naquela sala repleta de móveis e aparelhos fotográficos. – Levantaste-te!? . mas também o lugar mais pacífico e confortável do mundo. Continuava pequeno. De ter duvidado do seu carácter. mas precisava fazê-lo. desceu à sala e encontrou um livro para passar o tempo. .Fica aqui. Na verdade. do amor que ele dizia sentir por si e de o ter expulsado da sua vida sem qualquer razão. quem sabe.Não me vou demorar muito – respondeu Madalena abandonando a sala sob o olhar atento e preocupado de Afonso. em passagens simbólicas que não lhe fizessem lembrar a tristeza em que a sua família estava submersa e o desejo de um dia tudo voltar à normalidade. Na verdade. Sentiu também que não tinha qualquer direito de procurá-lo ou sequer de lhe implorar perdão. Aonde é que Sérgio o havia comprado? Ou teria sido oferecido por alguém especial? Talvez pelo avô quem sabe. reparou. o erro de não ter acreditado no homem que amava. . – Lena… . . Mas o que poderia ele fazer perguntou-se. .Mesmo não tendo concordado com a ideia. – Filha – disse ele surpreendendo-se com a figura de Madalena sob o alpendre da porta. Vários foram os pensamentos que atravessaram a mente de Madalena enquanto conduzia pelas ruas da cidade e se lembrava de um dos maiores erros que tinha cometido num passado não muito longínquo. . pai.Está bem. . Se era o desejo da filha sair. 164 . Já volto – disse Sérgio. . caloroso.Descobri tudo – foram as primeiras palavras dela assim que Sérgio abriu a porta de casa e se surpreendeu com o seu rosto marcado pelas lágrimas e por tantos meses de angústia. Continuava o mesmo. Talvez.Procurar uma pessoa.Não – respondeu Madalena mal conseguindo encontrar forças para o encarar de frente. Precisava olhar-lhe o rosto. Madalena depositou a sua mala sobre o sofá e lançou os olhos a um quadro pendurado na parede. .Queres um chá?! Faço num instante.Entra! Aberta a porta. . – Estás bem? – perguntou Sérgio levando-a em direcção à sala.Tens a certeza? Olha que já está tarde. Mas será que Sérgio estaria disposto a perdoála? Será que ele iria compreender os motivos que a fizeram não acreditar nele. Parecia ter sido pintado a óleo e trazia consigo a imagem de um velho pescador sentado à beira mar. Depois disso. mas sim na sua filha? Ao ver-se diante do prédio onde muitas vezes se encontraram e passaram várias tardes de amor. era o único objecto que lhe era estranho. Afonso achou por bem não levantar mais questões e acatou o desejo de Madalena encostando a porta com cuidado. Madalena teve algumas dúvidas. Abriu-o na página marcada e mergulhou na leitura durante horas a fio tentando pensar em coisas abstractas. tocá-lo e tentar encontrar uma única razão para se manter viva.Aonde é que vais? – perguntou Afonso poisando o livro sobre o sofá. só assim conseguisse recuperar a sua sanidade mental. a única alternativa que lhe restava era acatar a decisão e esperar que ela não cometesse nenhuma loucura.

escuros. . Era mesmo uma menina que eu queria.Tu não és uma fracassada. iguais aos meus.Lena… .…devia ter acreditado em ti… . .Costumam dizer que os filhos são a projecção dos pais… . Foi o mais feliz da minha vida.interrompeu ela. mas antes disso. por causa da minha filha. Eu não sou essa pessoa horrível em que ela se transformou. . Mas …eu não quero acreditar que a Sara seja uma projecção minha. – Eu lembro-me bem do dia em que ela nasceu. . ela precisa de ajuda. Madalena e Sérgio serviram-se do chá e permaneceram em silêncio durante largos minutos. pelas coisas que tiveste de aguentar por minha causa. e os olhos eram redondos. .Não me meteste em nada! Eu faria tudo de novo se fosse preciso. E não sobrou absolutamente nada dela… . Eu sei que não sou… . e quando as enfermeiras ma deram nas mãos. Sentados nas suas respectivas cadeiras. eu senti como se tivesse encontrado uma razão para viver.Será que… és capaz de me perdoar? 165 . tinha muito cabelo. Ainda assim. que adorava vestir de cor-de-rosa e de fazer totós no cabelo… . Lena! A Sara está doente.Aquela mesma menina que eu costumava levar a passear ao parque. É melhor – Madalena acedeu com um sorriso.Não quis enxergar a realidade e muito menos perceber no que é que a minha filha se tinha transformado. Desapareceu. – Que eles são aquilo que nós fazemos deles e eu até costumava acreditar nisso. Desde a última vez que se viram e trocaram as derradeiras palavras. Ela era tão linda. preto. Acho que… estava tão contente por saber que iria ter uma menina que nem sequer me importei com as dores do parto.Entendo – respondeu Sérgio aquecendo as mãos na sua chávena de chá. entendes?! . Pequenina.Desculpa – pediu ela tentando esconder os olhos inchados de tanto chorar. Tinha tudo preparado. Mas… os anos foram passando e… aquela menina que todos adoravam agarrar ao colo e que se ria por tudo e por nada deixou de existir. Eu não tinha o direito de te ter metido nesta embrulhada. Passaram-se dias. . o tempo foi peremptório em passar. – Desculpa por tudo o que te fiz passar.Vem… – exclamou Sérgio interrompendo-lhe os pensamentos.discursou Madalena não conseguindo mais uma vez controlar as lágrimas e os risos nervosos.Então porque é que me sinto uma verdadeira fracassada? . meses até. – Vamos tomar o chá na cozinha. . mas… não fiz! . Porque para mim ela ainda continuava a ser a minha menina.E não és – interrompeu Sérgio segurando-lhe a mão sobre a mesa. Morreu. Tu já fizeste tudo o que estava ao teu alcance. – A culpa não foi tua. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar. fizeste bem mais do que a maioria das mães fariam se estivessem no teu lugar.Eu sei. ambos sabiam-no bem. Tanta coisa tinha mudado. semanas. – Devia ter feito isso. Sérgio parecia ter a mesma mágoa no olhar e Madalena não sabia o que fazer para conseguir encontrá-lo naquela cozinha tão minúscula. e se queres que te diga. ela é que tem que querer essa ajuda. Tinha comprado todo o enxoval e levei todas as coisas para a maternidade porque não queria que lhe faltasse absolutamente nada..foram as palavras que saltaram dos lábios dela. Toda a gente dizia que éramos muito parecidas e eu lembro-me que ficava tão orgulhosa quando ouvia alguém dizer isso.

do único filho que lhe restou e dos pequenos acontecimentos que preenchiam o seu dia-a-dia.. em que pudesse aproveitar uma refeição agradável ao lado da melhor amiga e uma conversa amena com o pai ao final da noite. A rotina do trabalho. .Lê! Ao ouvir o pedido da melhor amiga. – Não precisas preocupar-te com isso. mas ainda assim conferia-lhe um certo conforto e estabilidade que há muito não encontrava. . .E tu vais aceitar? . de espaço… . – Outra caixa de chocolates – exclamou Alice abrindo um sorriso de orelha a orelha quando Madalena regressou à loja após ter recebido a encomenda de um office boy. mas que dava mostras de um novo fulgor. Hã… PS. o ano mudou. . – Precisamos de tempo. Jorge. Quer dizer. . Dias em que pudesse sorrir sem pensar no dia seguinte. . e aos poucos e poucos. Mas a verdade é que poucas dúvidas lhe restavam quanto ao desfecho daquela história de amor. – Neste momento não temos nada para nos dar um ao outro – respondeu ele.Eu sei – concordou ela com um sorriso imensamente triste. .Impressão minha ou estás a torcer para que eu aceite esse convite? .Eu amo-te. marido.Não é torcer! Só acho que não tem mal nenhum jantar com o teu ex.“Espero que esta caixa de chocolates seja suficiente para adoçar o teu dia. . De facto. Passaram-se cinco meses. foram factores importantes para que Madalena recuperasse a alegria de viver.Mas quem sabe um dia se o destino não nos trocar as voltas. . Um cartão que cheirava a rosas e que trazia a caligrafia desajeitada do ex. Apesar de todos os acontecimentos trágicos do passado. a vida começou a retomar o seu curso.Mas acabou. Para além disso.Sinceramente não te estou a reconhecer! Logo tu que sempre detestaste o Jorge… 166 . marido e as suas várias tentativas de aproximação faziam-na sentir-se menos sozinha e a pensar se valeria ou não a pena oferecer-lhe uma segunda chance. minha amiga! O Jorge. nada daquilo era demasiado entusiasmante. marido: . não acabou?! Sérgio pareceu hesitar quando fitou os olhos brilhantes de Madalena e viu nela a mulher a quem um dia chegou a amar mais do que a própria vida. tal como o meu também ficou apenas com a lembrança de um sorriso teu.Não sei – respondeu Madalena depositando a caixa de chocolates e o bilhete sobre a secretária.E desta vez vem com um bilhete.Aceitas um convite para jantar?” .Eu também – sorriram os dois. Madalena ainda ansiava por dias melhores.Não perdes nada se aceitares. não é?! . é só um jantar. Beijos. a presença sempre constante do ex.O Jorge. . Uma alegria que por momentos pareceu desaparecida aquando do desaparecimento de Sara. Madalena esboçou um sorriso malicioso e rapidamente se apressou a retirar o cartão do interior do envelope.Quem é que escreve PS num bilhete romântico!? – riram-se Alice e Madalena às gargalhadas.Eu já te perdoei há muito tempo – respondeu Sérgio beijando-lhe as mãos frias.

marido acompanhado de um sorriso e também de um lindo arranjo de orquídeas. . genro a entrar na sala com as mãos nos bolsos. . – Ainda me lembro que são as tuas flores preferidas – disse ele.O.Ainda bem. várias foram as vezes que Madalena pensou em desistir do seu jantar com Jorge. amanhã é dia de escola. . que ela terminou de se analisar ao espelho trazendo no corpo um vestido preto pelos joelhos e os cabelos soltos um pouco acima dos ombros.Sabe como é que é. – Mas agora vai.k – defendeu-se ela enquanto levantava os braços. – Espero bem que sim! 167 . Mas a verdade é que nenhum destes pensamentos conseguiu demovê-la da ideia de cancelar um jantar que apesar de tudo lhe preencheu o imaginário desde manhã. . – Iremos cumprir as suas ordens à risca. vô? . dizia. – Entra! . E foi assim. a campainha tocou ruidosamente e ela correu a abrir a porta deparando-se com a figura do ex. Sr. Estava perfeita. . É uma loucura. inclusive Daniel. e se o tivesse que provar com beijos. repetia-se vezes sem conta. filho.Pai! Daniel! Não durmam tarde e nem fiquem a ver televisão até às tantas. ou senão. militar afagando os cabelos do neto. . – Já não te vou dar mais nenhum. Não.Achas que eles vão voltar. Vou voltar a um passado que só me fez mal e que não me trouxe nada de bom.. nem um minuto a menos. Afonso! A sua filha não merece menos – respondeu o advogado arrancando algumas risadas a Daniel e Afonso. Jorge – exclamou Afonso ao ver o ex.Obrigada – respondeu Madalena recebendo o ramo com alguma cautela. general – respondeu Afonso abrindo os braços sobre o sofá. . Estou a confundir tudo.Está bem – respondeu Daniel tentando desviar-se dos beijos de Madalena.Claro.O. – Bom jantar – exclamou Afonso observando a saída de Madalena e Jorge da sala e mais tarde do interior da casa.Porta-te bem.Bem. lembraste? . .Espero bem que sim – respondeu o ex. então que assim fosse. Madalena não conseguiu conter-se e surpreendeu o filho com um longo e demorado beijo que fez todos os presentes rirem-se às gargalhadas. e se fossemos andando.Cheguei na hora certa? . Apesar da promessa.k. foram os elogios que ouviu do pai e do filho quando chegou à sala. .Estás sempre a dar-me beijos. Jorge? Não quero voltar muito tarde – disse Madalena encontrando o seu casaco sobre o sofá. ainda submersa num verdadeiro dilema. De facto.Eu sei que fui uma grande impulsionadora na tua separação daquele imprestável. mas… as pessoas mudam! E eu acho que o Jorge mudou. Sr. . . Apesar de tudo. era impossível para ela passar um minuto que fosse sem demonstrar ao filho que o amava acima de tudo.Estás todo janota.Não queres os meus beijos?! . Enquanto se compunha à frente do espelho. bem perto disso. Mais tarde.Claro! Nem um minuto a mais. .

sensual e inteligente. não achas?! Madalena sorriu.Claro que não! Tu sabes que eu nunca fui sentimentalista. mais prestígio… . algo a que o advogado estava amplamente habituado nos seus extensos anos de profissão quando se reunia com clientes importantes.Sentimentalismos baratos. . eu sei! Estava sempre tão obcecado com o meu sucesso profissional que me esqueci da minha família e da mulher maravilhosa que andava a desperdiçar. Foi por isso que eu aceitei o teu pedido de casamento.Mas não fugiste.Mas às vezes é impossível não nos lembrarmos de coisas tão boas. Não tinha dinheiro nem sequer para te levar ao cinema. algo que há muito ele não via em qualquer outra mulher. Mas naquela noite particularmente especial. Depois foram sempre voos maiores. nem mesmo quando andava com outras mulheres.Será?! – perguntou Jorge alcançando-lhe a mão sobre a mesa. da nossa casa. . os seus olhos não se desviaram da ex. Lena. dos nossos filhos. mulher um só segundo e a sua atenção centrou-se nela durante toda a refeição. . – Logo que nos casámos fui aceite numa firma de advogados e ganhei a primeira causa.Ui! Se me lembro – riu-se ela forçando uma gargalhada seca.Eu daria tudo para ter ouvido isso há cinco anos atrás. Mas mesmo assim tu ficaste comigo e aceitaste o meu pedido de casamento com um anel de plástico da feira popular. – Só me estava aqui a lembrar da primeira vez que saímos para jantar.Então não mudes. . – Lembro-me também que no dia seguinte contei a uma amiga e ela disse-me que o melhor que eu tinha a fazer era fugir de ti. Era simples também. – Lembraste que tivemos que pagar a conta do jantar a meias? . eu sei. Impressionante como nunca se tinha dado conta de como ela era bela. outras causas importantes. – Será que é assim tão tarde? . mais dinheiro.Naquela altura era um teso.É! Infelizmente não fugi. Nenhuma delas me conseguiu dar o que me deste nestes dezassete anos. .Podes não acreditar. . mas eu nunca me esqueci de ti! Nunca deixei de sentir saudades tuas. Falava tudo aquilo que lhe vinha à cabeça e movimentava-se com uma destreza e segurança fora do normal. Ficava situado no Lapa Palace e era frequentado por um grupo restrito de pessoas a quem tudo era feito para agradar. não achas!? . . .E foi então que o nosso casamento começou a piorar. 168 .Já não tinha tempo para ti. Pela primeira vez. por favor – pediu ela voltando a depositar a taça de vinho sobre a mesa. . – O que foi? – perguntou Madalena bebendo um gole de vinho tinto.Percebeste isso um pouco tarde. a única pessoa que Jorge queria agradar era Madalena. Nenhuma chegou sequer aos teus pés… .Mas eu tive sorte – disse Jorge deixando-se iluminar pelos olhos de Madalena quando eles se cruzaram com os seus.Nada – respondeu Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso.O restaurante escolhido por Jorge primava pelo requinte e pela sofisticação. .O anel era lindo. . Jorge?! . Mas hoje já não sei se vale a pena.Jorge… .

Madalena era essa mulher. e não o fizeram apenas no espaço.Então um brinde à tua mudança. não fosse esse mesmo destino tornar a juntá-los naquela noite tão especial. .Estranho. Mais tarde. – E um brinde a tudo o que já vivemos. Antes. mas bom… – respondeu ela deixando-se mergulhar no beijo que Jorge lhe ofereceu nos lábios. .Estranho mas bom.O quê? – perguntou Madalena esboçando um sorriso envergonhado quando Jorge lhe percorreu os braços desnudos. Fez-me perceber o porquê de muitas vezes brigares comigo. 169 . . . ao que estamos a viver neste momento e… ao que iremos viver daqui para a frente. foi assim que se sentiu até Madalena o levar em direcção à cama e brindá-lo com um longo beijo enquanto o fazia. . despiram as respectivas roupas e entregaram-se um ao outro durante horas a fio sem se importar com os carros que passavam a alta velocidade pela rua deserta. de me tentares chamar à razão e de me fazer entender que para se ser um bom pai não é preciso dizer sim a tudo. onde havia planos. Afastou-os de uma forma irreversível e quase que os obrigou a continuar assim. – Quem diria… . . Ao entrar no quarto que um dia também foi seu. Mas só hoje vi o quanto errei. e… o quanto esse erro te prejudicou a ti e à nossa filha.. Parecia um sonho.Mudei mesmo. mas também no tempo. Algo difícil de explicar. não é?! .Fico feliz que tenhas percebido isso – respondeu Madalena tentando esquecer a sombra que atravessou o seu peito quando se lembrou da existência de Sara. Um tempo onde as suas vidas se conjugavam na perfeição. os dois deitaram-se sobre os lençóis de linho.É muito estranho. Prova disso? O arrepio que sentiu em todos os poros do corpo quando lhe desceu o fecho do vestido. . Madalena e Jorge regressaram ao ponto de partida. ouviu o tecido cair no chão e Madalena suster a respiração descompassada.Um brinde – afirmou Jorge tocando a sua taça na de Madalena. Foi ela a responsável por tudo o que de bom lhe havia acontecido até à data e era também com ela que pretendia passar o resto dos seus dias. Por momentos. Algo superior às suas forças e também à sua existência. eu sei! .Será!? . Jorge deslumbrou-se com a grandiosidade daquele momento e experimentou uma das sensações mais avassaladoras que um homem poderia experimentar ao lado de uma mulher. É muito mais que isso. .Um brinde! As luzes apagadas fizeram antever que não havia absolutamente ninguém acordado naquela casa. Lena! Acredita em mim. na altura. o destino trocou-lhes as voltas. sonhos e desejos a serem concretizados. eu não queria ser um pai chato! Queria que o Daniel e a Sara me vissem como um pai espectacular capaz de lhes concretizar todos os desejos. Depois disso.Eu mudei muito. Mas infelizmente. Após longas horas de ausência.Estarmos aqui os dois depois de tudo. é tentar proteger os nossos filhos e… ser chato. É estar presente.Esta história que aconteceu com a Sara fez-me abrir os olhos para uma serie de coisas que me eram totalmente estranhas.

Vou viajar este fim-de-semana. – Pensaste no que te disse? – perguntou ele quando ela o levou à porta. disponibilizava-se para colocar a mesa. Vou para Bruxelas e devo lá ficar umas duas semanas no máximo. . – Depois falamos. e só se dava por vencido quando Daniel subia ao quarto e Madalena forçava enormes bocejos numa tentativa desesperada de o fazer olhar para o relógio. sim! Estou-te a dar um prazo. – Quero que me digas se posso voltar cá para casa. Normalmente. . aquela noite não foi excepção. Durante os três anos em que estiveram legalmente separados.Para onde? . Jorge! Não posso decidir uma coisa dessas de ânimo leve. Depois disso. ou quem sabe por nada disso. Ano Novo.Mas quando voltar quero uma resposta – disse Jorge brincando-lhe com os dedos das mãos.Não prometas coisas que não podes cumprir.Está bem. Mais uma vez. das festas de aniversário. deparou-se com o vazio daquela casa e soltou um pesado suspiro ao sentir-se pela primeira vez confusa quanto ao desfecho da sua história com Jorge. Quem sabe se voltasse ao ponto de partida? Quem sabe se a volta de Jorge não lhe traria de volta algum do barulho perdido? 170 . algo que nunca fizera em anos e anos de casamento. mas no fundo sempre existiu uma estranha ligação entre os dois. ele chegava ao final da tarde com a desculpa de querer estar com o filho.Estou a pensar – respondeu Madalena encostando a cabeça à parede. A resposta de Madalena fez Jorge recuar dois passos e baixar a cabeça num claro sinal de desespero. . Madalena fechou a porta.Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser as visitas sempre constantes de Jorge lá a casa. lavar a loiça. talvez pelos dezasseis anos em que estiveram casados. .Já te disse que preciso de mais tempo. Madalena percebeu que sentia falta delas.E então?! Já chegaste a alguma conclusão? . . .Uma viagem de trabalho. – Já está tarde.Estás-me a dar um prazo? . . Os papéis do divórcio foram assinados sem um pingo de remorso. . Páscoa e outras celebrações familiares que compunham o ano. .Eu vou pensar – riram-se os dois quando ele atravessou o jardim em direcção ao carro e não tardou mais do que três minutos a arrancá-lo. Depois.Eu sei – respondeu ele acariciando-lhe a face rosada. Porque será que ela continuava sem acreditar nas suas palavras? Porque é que ela tinha um prazer especial em criar uma verdadeira muralha entre eles? – Acho melhor ires – afirmou Madalena encontrando-lhe a mão direita. do Natal. as suas vidas tomaram rumos diferentes. – Mas não te esqueças que desta vez é a sério! Se me deres uma nova chance prometo que não te vou desiludir. Percebeu também que há muito não ouvia qualquer barulho e que a possibilidade de nunca mais ouvir estava-se a tornar demasiado evidente.Pensa! . muita coisa se passou e muitas vezes ela disse que o amor e a paixão que os unia tinha terminado sem deixar rastro. Mas enquanto passeava pelas habitações de uma casa anteriormente repleta do barulho das crianças. ficava para jantar.Vai – murmurou ela afastando-o da porta.Mais ou menos! Quer dizer…. . . Talvez por causa dos filhos. Preciso pensar! Preciso pensar muito.

Foi com essa promessa que Jorge viajou prometendo telefonar assim que tivesse um minuto livre na sua agenda preenchida de reuniões e congressos. Traições. . sabias?! . no que poderia ter sido e não foi.Nem precisas dizer – riram-se as duas. . era o prazo. e … eu escolhi acreditar na minha filha.Tal como o estipulado.No Sérgio?! . mas até hoje eu continuo a pensar nele. – Uma parte de mim quer. aliás. mas que apesar de tudo ainda têm concerto. Duas semanas. Às vezes esses milagres acontecem com as pessoas que menos esperamos e com o Jorge aconteceu.Tu sabes que eu nunca fui com a cara do Jorge. Se queres realmente saber se deves voltar para o Jorge. a sério… . – Acho que ele cresceu. E eu não quero passar pelo mesmo. Acredito mesmo que ele te ama e que está disposto a concertar todos os erros. por muito tempo eu culpei a Sara. que não foram poucos. . – Sou uma caixinha de surpresas.Tu surpreendes-me sempre. . e que assim que ele voltasse. Eu realmente acredito que ele está arrependido de todas as coisas que fez no passado. Disse-lhe que iria pensar cuidadosamente no assunto. não é!? – riu-se Alice divertida quando Madalena lhe contou a conversa que tivera com o ex.Não! Claro que não… . resolveu aceitar o desafio proposto pelo ex. mas também como ser humano.Mas eu acho que ele mudou – concluiu Alice captando os olhos de Madalena. vejo que a culpa foi inteiramente minha.Eu não sei – respondeu Madalena não escondendo a sua indecisão.Nunca mais tiveste notícias do Sérgio? . Não posso culpar ninguém por essa escolha a não ser a mim própria. nós sabemos.A sério! Acho mesmo. e ela.Pois eu acho que o devias procurar outra vez – afirmou Alice saltando da montra. .Sim! Podes não acreditar. Fui eu que não quis acreditar no Sérgio mesmo quando ele me disse que nunca tinha tocado num fio de cabelo dela. a resposta lhe estaria na ponta da língua.Mas as coisas não assim tão fáceis – respondeu Madalena com um longo suspiro. entendes?! Mas uma outra parte continua a gritar-me aos ouvidos que se eu voltar para o Jorge tudo vai ser como era antes. sim! Mas hoje. olhando para trás. não só como homem. . Saber se ele 171 . .Sabes.Desde a última vez que o procurei. apesar de se encontrar ainda um pouco confusa. no que poderíamos ter vivido e não vivemos… . . nem sei sequer se tenho forças para passar pelo mesmo. . no fim-de-semana seguinte.Adoras vê-lo a sofrer.Mas queres ou não voltar ao vosso casamento? . não sabes?! . . . eu acho que deves procurar o Sérgio e esclarecer a vossa história de uma vez por todas. marido a poucas horas da sua partida. Eu tinha duas escolhas: Acreditar nele ou acreditar na Sara. – Eu ainda continuo a pensar no Sérgio. marido. negócios atrás das minhas costas e mentiras. não.Claro que não! Só preciso de tempo.Por culpa da Sara – interrompeu Alice terminando a decoração da montra da loja.Eu sei – riu-se Alice. Jorge partiu para Bruxelas e deixou um ultimato a Madalena para que ela se decidisse a dar-lhe uma segunda oportunidade.

friorento e começou com a chegada de uma carrinha de encomendas feitas pela floricultura. – Olá. Por outras palavras. Como era estranho voltar a ver o nome dele após tantos meses de ausência. Beatriz!? – disseram Alice e Madalena sem esconder a surpresa por a ver ali. Uma onda de dúvidas atravessou-lhe os pensamentos e a certeza de que tinha cometido um erro pareceu mais iminente do que nunca. um pouco contidamente. três.Há quanto tempo. uma onda de pânico percorreu-lhe o corpo. Seguiu-se uma rápida conversa. Sei que foi horrível ter levado com aquela vela na cabeça quando foram levar as flores para o meu casamento. Um toque. cinco. uma gorjeta ao motorista e a partida do último com a promessa de voltar dali a três dias. não é?! . a porta fechou-se e tornou a abrir-se com duas caras também elas conhecidas. Depois disso. Sim. alertaram-na para uma verdade incontornável. e essa verdade era a de que enquanto não resolvesse a sua história com Sérgio iria ser praticamente impossível reatar a sua história com Jorge. se continua a pensar em vocês ou se já está noutra. – Estão frescas – disse ele com um sorriso que imediatamente contagiou as duas funcionárias. após se ter convencido que nunca mais o tornaria a ver e de que as suas vidas tinham tomado rumos diferentes. realmente não foi uma experiência lá muito agradável! Mas que mal vos pergunte.Há muito tempo – respondeu Alice apressando-se a cumprimentá-la com um beijo na face. Era ele. foi o facto de ter visto o número de Sérgio no visor. minhas queridas! . Nessa altura. Depois disso. Era ele. ela resolveu cometer uma das maiores loucuras da sua vida. Só assim vais poder virar essa página da tua vida e seguir em frente… Os conselhos de Alice deixaram Madalena confusa. Aonde estava com a cabeça? Porque não esquecia Sérgio de uma vez por todas? Seria assim tão difícil quanto isso? O toque do telefone fê-la dar um pulo sobre a cama. chegou a haver casamento? 172 . quatro. . os três carregaram as flores para o interior da loja e depositaram-nas perto do balcão. dois toques. voltou-se para a filha e perguntou: – Olá Joana. foi a pergunta que imperou no ar quando ela desligou a chamada e voltou a poisar o telefone sobre a mesinha. enquanto um pouco mais atrás. O primeiro dia de Março amanheceu chuvoso. – Mas antes de mais queria pedir-lhe desculpas por tudo o que aconteceu. Madalena percebeu que já não havia mais tempo a perder e digitou um número que um dia chegou tão bem a conhecer. Foi por isso que naquela friorenta noite de segunda-feira. mas por outro lado. – Já veio – gritou Alice correndo a abrir a porta. telefonar a Sérgio e marcar um encontro onde ambos pudessem conversar sem a mínima possibilidade de serem interrompidos. Era realmente muito estranho.Estou óptima – respondeu ela não escondendo o seu sorriso radiante. Quando o relógio sobre a mesinha de cabeceira marcou vinte e três horas e trinta minutos. Madalena seguiu-lhe os passos tentando abrigar-se da chuva.É. Será que mudou de número.ainda continua a gostar de ti. mas mais do que o toque em si. Nessa altura. o motorista da carrinha não tardou a abrir as portas e a mostrar-lhes as flores encomendadas. seis e não houve qualquer resposta. Mais uma vez. Meu Deus. .D. Como estás? .

talvez tivesse uns vinte anos de existência. . amor e amor.. essa casa trazia consigo um ambiente ameno. tudo isso eram pequenos detalhes perto da imensidão do que iria acontecer quando chegasse ao local combinado. caloroso e bastante agradável. – Devíamos levá-las. ele achou por bem que eu e a minha mãe ocupássemos a casa até o dia do casamento. 173 . e como aquilo está às moscas. . Uma casa de chás situada no centro de Lisboa repleta de pessoas de todos os estratos sociais. – Quer dizer.Bem. .Árabe?! – indagou Alice. o meu noivo.Que bom – respondeu Madalena forçando-lhes um sorriso. e para prová-lo. Finalmente chegara a altura pela qual ela havia ansiado durante meses e nada e nem ninguém a iria fazer atrasar-se àquele encontro.Porquê?! . . . – Mas bem. radiante. Será que têm alguma coisa? .Até porque ela agora está noiva de um empresário árabe multi-milionário – concluiu Beatriz. – Faz tudo para me ver feliz e também para me mimar. mãe! Tenho a certeza que a Carmo iria adorar. Nem os seus clientes.Claro que não – respondeu Beatriz passando as mãos pelos cabelos da filha. não foi só por causa disso que viemos à loja. Desde então só tem sido amor. . surpresa.Isto tudo para vos dizer que esta vai ser a última vez que cá vimos – concluiu Beatriz. Depois dessa elegância.Sim! Conhecemo-lo num cruzeiro pelo Oriente há seis meses atrás e ele encantou-se tanto pela Joana que nunca mais a quis largar.O Atif. Tal como sempre. Parece que eles têm lá uma propriedade gigantesca. não é. Sinceramente não podia ter encontrado um noivo melhor. a floricultura encerrou às dezanove horas. cadeiras e azulejos pintados à mão ressaltavam a sua elegância. – Acabámos de receber novas encomendas.Uau! Estas túlipas são lindas – exclamou Joana não resistindo a tocá-las. – Acham mesmo que a minha querida Joaninha iria casar-se com um idiota como àquele? Ela merecia muito melhor e foi óptimo ter desmanchado o noivado antes de cometer o maior erro da vida dela.Pois não! Só para quem tem sorte e um rosto lindo como a minha Joaninha – respondeu Beatriz mostrando um sorriso radiante à filha. Volte amanhã. . convidou-nos para irmos morar com ele e com os pais a Dubai. . vinha a agitação e a correria dos empregados que faziam de tudo para atender os clientes.Ele é um gentleman – afirmou Joana mostrando o seu anel de noivado cravado a ouro e diamantes. quando o amor é assim tão… intenso.Uau! Não é para todos – riu-se Alice. Na verdade. . as coisas tendem a ser rápidas. era o local. nem o trânsito caótico que todos os dias inundava a cidade e muito menos o temporal a cair violentamente sobre o pára-brisas do carro. Para além disso.Tiveram sorte – interferiu Madalena levando mãe e filha em direcção à bancada da floricultura. que rápido – murmurou Alice recebendo um discreto beliscão por parte de Madalena. Queríamos encontrar um arranjo lindo para uma amiga que faz anos hoje. Era uma das mais antigas da cidade. . . Os dois são completamente apaixonados um pelo outro e até já marcaram a data de casamento para o próximo Verão. Madalena aproximou-se da porta e virou a placa ao contrário: Fechado. mas o aprumo das mesas.

O tempo passou. com o teu filho… .Tu também não estás nada mal – riram-se os dois. Sérgio reparou.Não faz mal! Também só cheguei há cinco minutos – respondeu ele observando-a a arrastar uma cadeira.Claro que sim. Apanhaste muita chuva enquanto estavas a vir para cá? .Então podemos pedir isso se quiseres – respondeu Sérgio chamando gentilmente um dos inúmeros empregados da casa. . Foi ele quem lhe mostrou que nem tudo estava perdido.Espero que esteja tudo bem com o teu pai. 174 . . sendo que depois dessa separação. anotavam os pedidos à mesa. arranjou os cabelos molhados pela chuva e ainda teve tempo para sorrir.É.Mas tu estás óptima. Impressionante. bolos frescos e outras iguarias não muito encontradas em outros estabelecimentos da cidade. Nessa altura.Sara. – Estás mais gordo. um fotógrafo que meses antes havia aparecido na sua vida como um anjo e a virado de pernas para o ar. fez os pedidos em nome dos dois e aguardou que o funcionário se retirasse da mesa com o mesmo sorriso que trouxe.Sempre com um sorriso nos lábios. nada mais voltou a ser o mesmo. .disse ela encontrando a mesa escolhida por Sérgio.Estava à tua espera para pedirmos juntos.Está tudo bem com eles! O meu pai está agora a morar comigo.Eu pedi para que ele ficasse lá em casa.Ouvi dizer que aqui servem uns maravilhosos bolinhos de coco e óptimos chás de menta. realmente faz muito tempo – respondeu Sérgio desarmando-a com o seu sorriso e com os seus olhos verdes. .Não muita – respondeu Madalena tentando esconder o nervosismo de estar outra vez à frente do único homem que a conseguiu envolver após o seu divórcio. bonita e apaixonante.Ai é?! Que bom – sorriu Sérgio. – Então?! Já pediste alguma coisa? . Foram esses os motivos que levaram Madalena a escolher aquela casa de chás para se encontrar com Sérgio Almeida.Bem. jovial. . Depois disso. . E sim. . Límpido. – Desculpa o atraso… . Impressionante como Madalena nunca havia percebido isso até conhecê-lo e entregar-se a ele. . Está a ocupar o antigo quarto que era da… . fugiam para o interior da cozinha e voltavam com chás fumegantes. – Mas eu não me esqueci de ti. – Estás encharcada.Devo levar isso como um elogio!? . . .Sim! Da Sara – respondeu Madalena não escondendo o constrangimento sempre que falava da filha. que havia vida para além do divórcio e que nunca era tarde para se acreditar num amor tão ou mais intenso que o primeiro. Um sorriso que continuava idêntico ao que era. .Claro. – Só tive que correr imenso porque não consegui arranjar um sítio aqui perto para estacionar. mas acima de tudo sincero. Mas infelizmente o destino foi cruel e separou-os no momento em que ela menos estava à espera. as suas vidas tomaram rumos diferentes e criou-se uma estranha percepção de que ainda havia pontos a serem esclarecidos numa relação que apesar de tudo foi intensa. .Eu também não. ainda nem te perguntei como é que estás. Faz tanto tempo que não nos vemos… . Madalena sentou-se à mesa. .

e se me perguntares ou se alguém me perguntar. . assim como eu também nunca me esqueci de ti. quem sabe… não sei! Quem sabe… . não é!? – disse Madalena bebendo um gole do seu chá de menta. duvido muito que algum dia vá esquecer.Confesso que fiquei um pouco. Não porque não quisesse. As palavras de Madalena contrastaram com a expressão séria de Sérgio e com o desejo que ele sentiu em contar-lhe toda a verdade antes que ela abrisse o seu coração de uma forma irreversível. Era óbvio o nervosismo demonstrado pelos dois. . . . e segundo porque… precisava ter a certeza de uma coisa. 175 . Madalena e Sérgio agradeceram a gentileza do funcionário enquanto escolhiam as suas respectivas chávenas e tentavam arranjar espaço numa mesa não muito gigantesca. Mas a verdade é que o fotógrafo não conseguiu interrompê-la a tempo. .Não sei se te lembras da Vera… . – Eu sei que já se passou muito tempo… . Sei lá! Ouvir a tua voz. foi muito real e inesquecível! Mas o tempo passou e não eu sei como conseguiu passar tão depressa. – Que ainda não me tinhas esquecido. e mais uma vez. .Nem tu? Então porque é que me ligaste? – riu-se Sérgio. Foi por isso que eu resolvi procurar-te de novo… .Primeiro porque… queria ouvir a tua voz. eu preciso mesmo saber se a nossa história terminou. mas eu precisava ver-te mais uma vez. E tens razão. parecia que tinham tantas coisas em comum e tantas palavras para se dizerem um ao outro.E os nossos caminhos afastaram-se muito! Mais do que eu queria que se afastassem. Mas a verdade é que passou e… . Porque se tu me disseres que… existe essa possibilidade.Como assim?! . …ver o teu rosto e ter a certeza que nada do que vivi contigo foi um sonho. . eu nunca me esqueci de ti. Não estava nada à espera.Os chás e os bolos de coco não tardaram a ser trazidos à mesa pelo mesmo empregado que os havia atendido minutos antes. o que vivemos não foi um sonho.Lena.Que Vera!? – perguntou Madalena tentando manter-se firme perante as revelações que se avizinhavam.discursou Madalena sentindo-se quase sem fôlego.Porque eu preciso saber. um certo desconforto até.…que provavelmente já deves ter refeito a tua vida. mas ainda assim. . Foi real.Deves ter ficado surpreso quanto te telefonei ontem à noite. Quem começaria primeiro? .Eu também acho que foi! Foi uma das coisas mais reais que aconteceram comigo e eu tenho medo que nunca mais volte a acontecer. Se não existe a mais remota possibilidade de me quereres de volta e de me perdoares por não ter acreditado em ti na altura que eu devia ter acreditado.continuou ela.E…?! . . não foi? . mas sim porque não teve forças para isso. Porque foi real.Nem eu. cada vez que se olhavam nos olhos.Que coisa?! Ela sorriu nervosamente.Lena… .Claro que foi – respondeu Sérgio afastando a chávena de si.

Então porque é que estás com ela? – perguntou Madalena sentindo-se confusa. . pensou. entendes?! Mas sei que gosto da companhia dela.Mas não a amas. . Sem mais nada para lhe dizer. na altura eu estava tão magoado que nem sequer me passava pela cabeça ter alguma coisa séria com quem quer que fosse. Mas a verdade é que foi acontecendo … .Na altura não! Claro que não… – respondeu Sérgio temendo ser mal interpretado. lembraste?! .foi tudo o que ela conseguiu murmurar enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas. até porque se ele continuasse a olhar para si ou se atrevesse a proferir qualquer outra palavra de arrependimento. Ajudou-me imenso quando me senti em baixo. Madalena encolheu os ombros e lançou os olhos ao movimento frenético das pessoas à sua volta pensando como era impressionante que ainda ninguém se tivesse dado conta da maior tragédia ocorrida na sua vida. Era o fim. aliás. várias foram as vezes que Madalena pensou cometer suicídio ou então abrir um buraco para se esconder por debaixo da mesa. – Aliás. Não era para ser importante. – Desculpa! Eu não te queria magoar. Meu Deus! Como o mundo dava voltas e como o destino era tão cruel. Durante a condução para casa.. o fim do que poderia ter sido e não foi. . eu sou o pai… – respondeu Sérgio terminando com todas as dúvidas que ainda assombravam os pensamentos de Madalena. Foi algo muito casual. Sérgio não contava. eu encontrei-me com ela num desfile de moda. – Mas depois que terminámos por causa daquela história da Sara. e tal como deves calcular. Devo-lhe muitas coisas… . Conversámos. Quatro semanas! De facto. – Vais ser pai… .Não! Não a amo. trocámos números de telefone e fomos nos conhecendo melhor.Vou – respondeu Sérgio encontrando-lhe a mão sobre a mesa. Ninguém teve a brilhante ideia de olhar para si e confortá-la com alguma palavra ou até mesmo com um abraço. O fim dos sonhos que ela transportou durante vinte e quatro horas.Lembro. . até hoje não sei se sou apaixonado por ela.Apaixonaste-te por ela?! . fez-me sorrir nos momentos em que me apetecia chorar e tornou-se numa pessoa importante na minha vida.Porque ela está grávida. – Descobri isso há pouco tempo. várias foram as vezes que Madalena tentou 176 . onde praticamente deixou ver o asfalto da estrada devido às lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. . .Uma modelo que eu tinha fotografado no início do nosso namoro.Não tens que pedir desculpas.E tinham?! .Não foi bem apaixonar – respondeu Sérgio observando-lhe os olhos cintilantes. Aconteceu! Essas coisas acontecem a toda a gente e eu disse-te que um dia iria acontecer contigo. e o fim de uma história que tinha tudo para dar certo. e enquanto a tentava assimilar. Ela apareceu uma vez em minha casa enquanto lá estavas e tu ficaste desconfiada que tínhamos algum envolvimento. E não. Mas infelizmente nenhum dos seus desejos se concretizou e a visão de Sérgio aos poucos e poucos tornou-se cinzenta e deturpada. ela desmoronaria como um baralho de cartas. a revelação não poderia ser mais bombástica.

Afonso saltou do sofá e alcançou o corrimão das escadas pronto a descobrir que raios se tinha passado com ela.Pai. Depois dessa certeza.Eu não acho.Podes – respondeu ela apressando-se a limpar as lágrimas junto à janela. E mesmo apesar das pernas cansadas e do esforço de um pobre velho de sessenta e nove anos. tu tens a certeza do que me estás a dizer? 177 . . . mas a verdade é que desde que ela saiu cá de casa a minha vida melhorou e eu não quero ter que voltar ao ponto de partida. – Posso?! .A Sara está grávida. não sei se me viram ou não. não é?! Só tenho que me habituar a ela. .O quê?! .Vi a Sara. Mas acho que para isso não existe solução.Não. Preocupado com o comportamento intempestivo da filha. pai! Tu sabes que eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para impedir que a Sara saísse de casa.Preciso contar-te uma coisa que vi hoje. As coisas que ela me disse na noite em que se foi embora até hoje estão-me gravadas na memória e eu nunca vou conseguir esquece-las ou sequer perdoá-las… . . cansada de a impedir de sair à noite e de a ver chegar bêbada às tantas da madrugada – afirmou Madalena gesticulando furiosamente os braços.Não. pai – suspirou Madalena voltando-se para ele.Encontrei-a na zona do Areeiro – continuou Afonso enquanto Madalena passeava atordoada pelo quarto.Já chegaste!? – perguntou Afonso vendo a filha passar pelo corredor como um foguete sem sequer responder à pergunta.O que é que aconteceu? Algum problema? . pai! Não há problema nenhum! O único problema é a minha vida em si.Pai. – O que foi? .Não sei – respondeu Daniel enfiando o rosto no livro que estava a ler. . por favor … .Que seja. mas o que é que querias que eu fizesse mais?! Eu estava cansada de a tentar chamar à razão. . mas a verdade é que quando fui atrás delas as três desapareceram sem deixar rastro. ela abriu a porta de casa completamente encharcada e largou as chaves sobre a mesinha. Nenhuma mãe teria aguentado o facto de saber que a filha se andava a prostituir em troca de nada… . – Será que aconteceu alguma coisa com a tua mãe? .convencer-se de que a sua história com Sérgio tinha terminado e de que não lhe restava mais nada a não ser lamentar-se da sua triste sorte. .Tenho a certeza que vais querer saber.Ela está grávida – interrompeu Afonso parando-lhe todos os movimentos.Talvez assim tenha sido melhor. – Estava com duas amigas muito mais velhas e parecia que iam a entrar no metro! Bem. . eu realmente não quero saber da Sara! Sei que é horrível uma mãe dizer uma coisa dessas. não foi muito difícil chegar ao quarto de Madalena e tocar-lhe à porta. . – Hoje não! . A expressão séria de Afonso fê-la hesitar. – Eu tenho a certeza que nenhuma mãe teria aguentado a metade do que eu aguentei. .Mas ela é tua filha.Hoje não. .

. – Leve-nos até lá. Infelizmente a maioria das respostas foi negativa.Sei. Com uma fotografia na mão. Parecia ser toxicodependente. mas acho que consigo perceber quando uma mulher está grávida ou não – respondeu ele encarando a expressão surpresa de Madalena. Mais lágrimas foi o que Madalena sentiu a brotarem dos seus olhos. eu até entendo. Mas para com o teu neto!? Ele não tem culpa de nada. Só as amigas dela. . – Eu sou o avô dela. continuaram a descer a avenida e continuaram também a perguntar se ninguém havia visto uma jovem de dezassete anos. não?! .Claro. já deve ir nos seis ou sete meses. Afonso aproximou-se dele e em seguida mostrou-lhe uma fotografia que continha a imagem de Sara: . 178 . o trânsito mais uma vez estava caótico e as esperanças de encontrar quem tanto procuravam tornou-se remota com o passar das horas. Madalena e o seu pai. e pela barriga. . Afonso.Ia precisar de um agrado. – Bem. – Eu pensei que ela não tivesse família. mas ao chegarem ao final da avenida Almirante Reis..Tome – respondeu Afonso entregando-lhe uma nota de dez euros. . Afonso interceptou um indivíduo de aspecto algo duvidoso. por favor! . e esta senhora aqui é a minha filha. tudo bem. a mãe da Sara! Viemos conversar com ela. madame! Sabe como é que é! Já são sete horas e um gajo ainda não conseguiu juntar dinheiro suficiente para jantar. mas… . o indivíduo não teve dúvidas: . chovia torrencialmente. nem mesmo o desespero patente nos rostos de Madalena e Afonso conseguiram demover-lhes da vontade incomensurável de seguirem em frente. Se quiserem posso mostrar-vos! É mesmo aqui ao pé… . de cabelos compridos. . interceptaram todas as pessoas que iam a passar debaixo dos seus chapéus-de-chuva. pois não?! . É a Sarita! O pessoal lá do bairro chama-a assim. claro – respondeu Afonso de imediato. – Mas que mal vos pergunte.Claro que conheço.E sabe aonde é que ela está? – perguntou Madalena não escondendo a sua ansiedade. há muito tempo que não vejo a Sara. olhos escuros e pele clara. grávida. o que é que vocês querem com a Sarita?! Olhem que é uma gaja fixe! Não lhe vão fazer mal. E apesar de a foto estar molhada. eu sei que só tenho sessenta e nove anos. – Este é o pior dia da minha vida – gritou ela atirando o candeeiro da mesinha contra a parede.Conhece esta menina? – foi a pergunta. Contudo.Se achas que não tens qualquer responsabilidade para com a Sara. – A Sara está grávida sim.Mas?! . e aparentava também ainda não ter passado dos trinta.Ai é?! – respondeu o indivíduo coçando levemente os cabelos. – Acho que isto deve chegar para o jantar à maneira. Mas acho que ainda deve estar a morar com a Milene na pensão.Claro que não – respondeu Afonso perante o desconforto patente nos olhos e nos movimentos de Madalena.Sigam-me – exclamou o toxicodependente fazendo um gesto engraçado e permitindo que Madalena e Afonso se colocassem à sua frente. .Por acaso – disse o indivíduo mostrando-se bastante satisfeito com a recompensa. Gentilmente.Eu não acredito nisto.Bem. Em duas ruas paralelas. até pelas vestes que trazia consigo e pela barba há muito não aparada. Era quarta-feira. Lena! É o teu neto.

vários toxicodependentes a cambalear pelas ruas. vou ter que avisá-las primeiro.. mas estava! Eu sou o dono desta pensão e aqui ninguém entra sem passar primeiro por mim.Porquê!? . . seguiu-se a vez de Madalena. rapaz? . meu Deus. – Aonde pensam que vão? . Era a primeira vez que estava ali. – É aqui. demorou algum tempo a apertar-lhe a mão. A caminhada em direcção ao bairro do Intendente demorou alguns minutos.Desculpe. repleto de lixo espalhado pelo chão. o seu cumprimento foi imediatamente correspondido pelo ex. – Eu não mordo. – Mas não garanto que a Sara e a Milene estejam aí! Podem ter saído! . um homem de estatura média.Vítor – respondeu ele abrindo um sorriso enquanto estendia a mão a Afonso. prostitutas encostadas às portas das pensões enquanto seguravam os respectivos chapéus-de-chuva e compunham a pequenez das mini saias. que ao contrário do pai. Infelizmente. Agora digam lá! Quem são vocês? . – Hei – ouviram uma voz grossa a sair da recepção.Não! Nós gostaríamos que fosse uma surpresa. . .Hã. – Nem sabemos como lhe agradecer… . Nessa altura. . é?! . – Mas para vos deixar subir. – Não sabíamos que estava aqui alguém. e quando finalmente avistaram a entrada. e por fim. – Agora é para a sobremesa. amigo – respondeu Afonso mantendo Madalena um pouco mais atrás de si a fim de preservar a sua identidade.Sim! Somos amigos.Eu sei – respondeu ela encarando-lhe a expressão irónica. militar.Obrigado pela ajuda. despediu-se dele com um novo aperto de mão e acompanhou a sua filha em direcção às escadas sujas e escuras que ligavam os quatro pisos daquela pensão.Nós viemos procurar uma rapariga chamada Sara e uma outra chamada… . elas estão lá em cima… – respondeu o dono da pensão mostrando-se um pouco mais calmo por perceber Afonso e Madalena não eram pessoas ameaçadoras ao seu negócio. E ao voltarem-se para trás. Depois disso. . rapaz – respondeu Afonso permitindo que Madalena entrasse primeiro. todos eles compunham o cenário no mínimo degradante onde Sara tinha escolhido ser a protagonista. a visão de imigrantes dos mais variados países.Bem. madame! . vô! Afonso não viu outro remédio a não ser oferecer uma outra nota de dez euros àquele pobre rapaz que apesar de tudo nem parecia ser má pessoa. Era a primeira vez em quarenta e dois anos que se atrevia a pisar um local como aquele. oh – exclamou Vítor alcançando a porta da pensão que tanto tinham procurado. vestido com um fato de treino azul e uma expressão facial nada amigável assombrou-lhes a visão.Milene – concluiu Madalena quase gelando dos pés à cabeça quando os seus olhos se cruzaram com os do proprietário da pensão. entende?! – interferiu Afonso.Pois.Sei! Uma surpresa? 179 .Sempre a vi sozinha lá no bairro e ela também nunca falou nada. .Como é que é o seu nome.Eu sei – afirmou Vítor estendendo novamente a mão. Surpreendentemente ou não. um misto de sensações e sentimentos atravessaram o coração de Madalena. essas duas! Conhecem-nas.

. E para piorar o cenário. Para além disso. Esta.Sim. . até porque desta vez.Obrigada! Sob o barulho ensurdecedor das escadas. Enquanto pensava em todas estas tragédias.Deixa-me… . assim como o encontro com a filha após seis meses em que estiveram afastadas e não mantiveram qualquer tipo de contacto. . e Madalena pode ter essa certeza quando se viu pela primeira vez à frente do quarto apontado pelo dono da pensão.. O que mais poderia fazer para que a amiga se recuperasse da pneumonia contraída cinco dias antes? Nem mesmo as emergências do hospital. um senhor de meia-idade trajado com um casaco verde-escuro e calças de ganga aprumadas. E foi por isso que sem muitas cerimónias ela saltou do divã encontrando no espelho o único local para compor os cabelos e o decote da sua camisola preta. tornou a afastar-se da cómoda e alcançou a maçaneta da porta girando-a de uma só vez. os inúmeros remédios que foi obrigada a adquirir na farmácia de serviço ou os panos húmidos para acalmar as febres altas conseguiram melhorar o estado de saúde de Sara. .Não. o que também poderia prejudicial para o bebé. – Pois não?! . Depois disso.suspirou ela. o cheiro a humidade emanado pelas paredes. era ela quem fazia questão de pagar. – Podemos entrar? 180 .O quarto fica no terceiro andar e é o número dois. Depois disso. Quem quer que fosse não a iria deixar em paz. . A porta sofreu dois toques quase seguidos. ela estava grávida.Se me derem vinte euros. pai! Deixa – exclamou Madalena impedindo que Afonso retirasse mais uma nota da carteira. sou eu – respondeu a prostituta cautelosamente. Uma mulher de cabelos castanhos pelos ombros vestindo uma gabardina preta e um lenço cor de laranja ao pescoço. algo que prendeu de imediato a atenção de Milene e que a fez largar a revista que tinha nas mãos. e logo atrás dela. Há muito tempo que não nos vemos e eu tenho a certeza que elas iriam ficar muito mais contentes se nos vissem lá em cima… de surpresa. – Porquê? Algum problema? . lançou um olhar à cama onde Sara estava deitada e percebeu que a febre e os tremores da jovem ainda não haviam cessado apesar dos antibióticos. eu deixo que façam a tal surpresa e até finjo que não estava cá quando subiram! Mas se não derem… . O número dois. – Não vais bater à porta? – perguntou Afonso percebendo a hesitação de Madalena.Como assim?! . Raios.Eu sou a mãe da Sara – interrompeu Madalena para grande surpresa de Milene.Sim.Você é que é a Milene? – perguntou o senhor. A visão que lhe surgiu à frente foi realmente surpreendente. não conseguiu produzir qualquer movimento corporal a não ser manter a mão sobre a porta.…deixa-me ganhar alguma coragem. . . O número que para sempre iria ficar gravado na sua memória. a sujidade entranhada em todos os cantos não lhes deixaram quaisquer dúvidas de que Sara tinha escolhido um dos piores lugares do mundo para viver. ainda atordoada perante tal revelação. pensou. mas para ser surpresa.Pois. Milene ouviu um terceiro toque na porta e finalmente deu-se por vencida. Afonso e Madalena contaram os degraus até o terceiro piso e muitas vezes se viram submersos numa escuridão aterradora. – Aqui tem os vinte euros. é mais caro.

Eu não sei se ela vai querer ir – respondeu a prostituta cruzando os braços. Era estranho imaginar-se tão pequena. Infelizmente.Claro – respondeu ela após alguns segundos em suspenso. .Sei que deve estar a pensar horrores deste lugar.Eu vou buscar o carro lá acima – disse Afonso voltando-se para a filha. Madalena lançou os olhos a Sara e por momentos quase não a reconheceu. e em seguida. – Lá é que é o lugar dela! .Então já vou indo para não perdermos mais tempo. aquela era a primeira vez que se sentia tão nervosa perante a presença de pessoas desconhecidas. Nem mesmo os antibióticos estão a fazer efeito. fez-se um silêncio perturbador.Hã… não. a porta do quarto fechou-se com algum cuidado. desprovidas de qualquer luxo ou outros elementos decorativos. não é?! . e Madalena não resistiu a lançar um novo olhar àquelas paredes vazias. mandou-a para casa e receitou uns medicamentos que tive que comprar ali na farmácia. pai! Vai lá! . independente e imune à opinião dos outros que era estranho ver-se metida numa situação daquelas. mas a febre continua alta! Já não sei o que fazer para a baixar. . 181 . – Nós viemos buscá-la – exclamou ela voltando-se para Milene. aliás. ela tinha emagrecido bastante.Ela está assim desde sexta-feira… – disse Milene quando Madalena e Afonso avistaram o corpo de Sara deitado sobre a cama. da Sara que todos conheciam. Foram precisos poucos minutos para que Afonso abandonasse o quarto e deixasse Madalena e Milene de olhos postos em Sara.Tudo bem! Eu entendo. já não restava mais nada e foi isso que assustou Madalena. os cabelos estavam mais compridos e o rosto de menina inocente transformou-se no de uma mulher obrigada a crescer à força. O facto de a sua filha já não existir. Enquanto ouvia o discurso de Milene. Apesar da gravidez.. .Para casa.Espero bem que não. – Quer tomar alguma coisa? – perguntou Milene prendendo-lhe a atenção. Milene percebeu isso quando baixou o rosto e perguntou: – Para onde é que vocês a querem levar? .É grave? – perguntou Afonso debruçando-se sobre a neta enquanto lhe mexia nos cabelos soltos. Mas como não havia camas vagas no hospital. . Sempre fora tão segura. – Entrem! O convite foi imediatamente aceite por Afonso e Madalena. . Obrigada! .Eu não estou a pensar nada – respondeu Madalena observando os gestos de Milene a retirar as roupas de Sara dos armários. Ao vê-los ali diante de si.O lugar dela não é aqui e você sabe disso! A afirmação de Madalena não poderia ter sido mais acertada. Milene sentiu-se mais nervosa do que nunca.Claro que não. – Lena! Importaste de ficar aqui a preparar a Sara enquanto trago o carro para a levarmos? . E só de pensar que tinha sido ali que a sua filha tinha passado os últimos seis meses de vida. Depois disso. quando na verdade. . claro – respondeu Afonso. . vulnerável e insegura na presença de Madalena. – O médico que a assistiu disse que provavelmente era pneumonia. não tinha quaisquer razões para se sentir assim.

– A sua filha é quase como uma filha para mim embora a nossa diferença de idades não seja assim tão grande. Sim. Faltavam poucos minutos para o anoitecer quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta se abriu ruidosamente. Não fiz um grande trabalho. Mas de qualquer maneira.Somos – respondeu Milene lançando um olhar a Madalena enquanto dobrava algumas peças de roupas e as colocava na mala de Sara. As últimas palavras de Milene coincidiram com a saída de Madalena e com as lágrimas que não conseguiu suportar perante a partida da sua melhor amiga. para os seus familiares mais próximos e recuperar-se-ia de todos os fantasmas que durante meses a atormentaram. Confesso que até hoje eu nunca entendi.O seu pai até pode ser forte. Nessa altura. parecia que a sua história tinha tido finalmente um final feliz.. . fui eu que tomei conta dela durante estes meses todos. .E só para terminar… queria também que soubesse que a admiro imenso! Nem sabe o que eu daria para que a minha mãe também me tivesse vindo buscar ao Intendente. sabendo bem quem eram as pessoas que 182 .…eu sei que provavelmente deve achar que eu sou a culpada de tudo o que aconteceu à sua filha. De facto. durante os meses que passaram juntas.Eu sei – respondeu Madalena encarando-lhe a expressão mortificada. Por estar quase inconsciente devido às fortes febres. Nessa altura. mas eu não a recrimino! Eu também sei que este lugar não é nada especial. Diante daquele facto irrefutável. não foi?! Vá-se lá perceber porquê! Com uma casa de sonho. . . – Espere – exclamou Milene interceptando a saída de Madalena do quarto. poucas dúvidas restaram quanto ao seu destino. teve sempre o que comer.Não é preciso – respondeu Madalena de imediato. Voltaria para casa. o que vestir e foi obrigada a ir a todas as consultas pré-natais mesmo quando não queria. mas pelo menos fiz o melhor que sabia. ficaram-lhe gravadas na memória. não é?! – retorquiu Milene percorrendo a sua lista de contactos através do telemóvel. ninguém em sã consciência iria perceber os motivos que a fizeram largar tudo aquilo para vir morar no Intendente. uma família que a tratava bem.. . lá isso é verdade.. Mas foi aqui que a Sara escolheu ficar. Sara nem sequer se apercebeu quando foi carregada ao colo por um dos habitantes do bairro e as suas malas foram levadas pelo avô em direcção ao primeiro piso da pensão. Todas as alegrias que passaram juntas. mas. confidente e também a única pessoa a quem ousava contar alguns dos seus maiores segredos. – Esse meu amigo vem cá num instante! Ele vive aqui ao pé.Está a pensar sim. mas mais do que isso. Pelo menos ela nunca foi apanhada por nenhum drogado. Sara transformou-se na única amiga que um dia teve. no seu coração. nunca foi espancada por nenhum chulo.Vocês são amigas? . . – Eu vou chamar um amigo para vos ajudar a levar a Sara e as coisas dela até ao carro. eu gosto muito da Sara e nunca quis que nada de mal lhe acontecesse. sendo que dali para a frente iria ser praticamente impossível voltar a ver o bairro com os mesmos olhos pois Sara tinha retirado dele todo o encanto. tristezas e discussões. mas ele não vai conseguir aguentar sozinho com o peso da neta e muito menos com as malas dela. A resposta de Milene trouxe um novo silêncio e também um novo olhar de Madalena aos cantos daquele quarto. na sua companheira.

Mais tarde.Vais ficar aí? – perguntou Afonso quando se aproximou do alpendre da porta. . Um sonho ter a filha de volta e saber que apesar de tudo não lhe aconteceu nada de mal. da mãe e da sua irmã ao fundo do corredor. Neto. esfregando-lhe não só as costas.Mãe… Apesar de só ter conseguido ouvir aquela palavra.ouviu-se um murmuro. A contar pela sua enorme barriga. perto dos seus familiares. Era só com isso que não contava. embora essa fosse a realidade nua e crua. grávida e ainda tinha muito para viver dali para a frente. 183 . Para acalmar a febre e os delírios de Sara.Até já – disse Afonso encostando a porta com cuidado e deixando Madalena sozinha naquele grandioso quarto com os pensamentos a mil à hora. os braços. desastrosa e pouco corrente. Estava limpa. . Com as poucas forças que lhe restavam. Daniel saltou do sofá e encontrou a visão do avô.Então vemo-nos na sala. . Ela estava viva.O que foi? – perguntou Madalena correndo ao encontro de Sara com o coração aos pulos. mas o que ela não contava era que as coisas fossem acontecer daquela forma tão rápida. Era remédio santo. ninguém disse absolutamente nada pois o regresso de Sara era algo já há muito esperado. Não foi preciso dizer nada. passaria as mesmas tristezas e ouviria todas as coisas que nenhuma mãe desejava ouvir nem no pior dos seus pesadelos. formar uma família e serem felizes tal como ela um dia também foi. Até porque se pudesse faria tudo de novo. Depois disso. Obviamente que sempre lhe passou pela cabeça ter netos. Afonso levou a neta até ao quarto e colocou-a na cama. Aliás. não era muito difícil imaginar que lhe faltariam poucas semanas para dar à luz o seu primeiro filho. dizia Leonor quando ainda era viva. penteou os longos cabelos da filha e passou o chuveiro por eles para que a água retirasse toda a sujidade acumulada durante semanas.Mãe…. Madalena retirou-lhe os ténis e as meias brancas. e por ter experimentado essas ervas várias vezes durante a sua infância. enquanto a poucos centímetros. Madalena achou por bem utilizá-las em Sara.tinham chegado a casa. ver os seus filhos casar. . das pessoas que mais a amavam e que nutriam por ela um amor incondicional. seguiram-se as roupas e a certeza de que Sara estava realmente grávida. Até já! . . Sofreria as mesmas angústias. O que não contava era ser obrigada a buscar a sua filha a um bairro como o Intendente e não fazer a mínima ideia de quem era o pai do seu neto. o primeiro neto de Madalena. . mas também as pernas. Era a única palavra que ecoava nos ouvidos de Madalena e que por momentos a deixou à beira do desespero por não saber como lidar com aquela nova etapa da sua vida. ela pensou. Nessa altura. . e o pijama vestido provou que era altura de Sara se sentir finalmente em casa. Neto. a cama encontrava-se pronta para a receber. Madalena não precisou de mais nada para se sentir a mulher mais feliz do mundo e para ter a certeza que todos os seus esforços não foram em vão quando resolveu procurar a filha e trazê-la de volta a casa. e consequentemente. Madalena resolveu enfiá-la numa banheira de água morna e lavar-lhe o corpo com ervas medicinais que a sua mãe costumava guardar na floricultura.Só mais um pouco! Até ter a certeza que a Sara dormiu – respondeu Madalena. foi o último pensamento de Madalena quando por fim a conseguiu enrolar numa toalha branca e levá-la novamente ao quarto.Está bem. Parecia um sonho.

E o que perdeu?! Bem. veio um enorme sentimento de paz manifestado por Sara. isso nem chegava aos pés do que ganhou quando passou as mãos pela barriga da filha. se aconchegou nos braços da mãe e se deixou adormecer pela primeira vez sem pensar em mais nada. 184 . que muito atabalhoadamente. o que não a destruiu ajudou-a a reconstruir-se. Depois disso.Mas a verdade é que…: O que não a matou tornou-a mais forte.

. encontrou nos braços do 185 . muita força para conseguir expulsar o bebé para fora. talvez pela sua inexperiência ou pelo pânico das dores. mãe! Fica aqui. E foi precisamente às dezanove horas e trinta e quatro minutos que se ouviu o primeiro berro do mais novo elemento da família. Mas Sara. A respiração. – Bem.Eu vou estar lá fora. – Graças a Deus – exclamou Afonso levantando as mãos ao alto. que muito pacientemente explicaram a Sara todos os procedimentos tidos em conta numa ocasião tão especial como àquela. cheios de surpresas. A preparação do parto foi efectuada por algumas das enfermeiras de serviço. mas principalmente com os gritos que de vez em quando irrompiam a sala sem qualquer aviso prévio.Claro – respondeu uma delas recebendo um sinal através do BIP. a sala já está pronta. Tenho medo de morrer.Sara… . fizeram com que Madalena ficasse alerta. como Afonso. não conseguiu assimilar nenhuma dessas explicações. imprimiam-se novas orações e olhava-se para o relógio pendurado na parede. um acontecimento devidamente presenciado por todos os membros da família Soares. pedia ajuda a quem quer que se aproximasse de si e desejava que aquele pesadelo terminasse o mais depressa possível. O que será que a filha quis dizer com aquilo? Não seria apenas um medo normal de uma adolescente prestes a dar à luz? No fundo do seu coração. alegrias e culminaram com o dia do parto de Sara. – Não. ainda emocionado.Nasceu – disse Jorge não cabendo em si de contente quando abraçou Daniel com força e se atirou para os braços de Alice. Tanto Jorge. Apenas gritava. Em seguida. sendo intencionais ou não. e também por Alice. As últimas palavras de Sara.CAPÍTULO X Os dois meses que se seguiram foram atribulados. a calma. Madalena desejou que sim e foi por isso que se voltou para as enfermeiras de serviço perguntando-lhes: .Eu tenho medo de morrer. mãe – gritou ela estendendo a mão a Madalena a fim de a impedir de sair do quarto. . fazia-se silêncio. – Vai correr tudo bem. Sara?! Chegou a hora! As cinco horas que se seguiram foram de grande angústia para todos os que estavam presentes na sala de espera. a melhor amiga de Madalena. filha – respondeu segurando-lhe as mãos com força. – Não te vás embora! Não vás… . e acima de tudo. Alice e o pequeno Daniel desesperaram-se com a falta de notícias.Não! Não me deixes aqui sozinha. Sempre que isso acontecia. Vamos.Posso assistir ao parto? . Fica aqui! .

Ainda não sabemos muito bem quando é que vai ser. avô – disse Alice oferecendo-lhe um novo abraço.Bem.Cansada.Podes crer – riu-se Madalena. . claro! O parto foi longo. – Como é que foi? Como é que está a Sara? O bebé? Nasceu? Está bem? .Tem calma – riu-se Madalena alegremente.Não! Chega de homens neste mundo – disse Alice. cheia de medo e não tinha forças para puxar o bebé.E não vai aqui uma palavra de conforto ao avô?! – perguntou Jorge interrompendo a animação das duas amigas. – Está tudo bem. .Meu Deus! Pensei que o meu coração não fosse aguentar. foi a pergunta de Afonso enquanto Alice esfregava as mãos de ansiedade e rasgava alguns olhares para uma porta fechada há mais de cinco horas.Oh pai – exclamou Madalena sugando-lhe a face enrugada. avó! . – Parabéns. – Afinal de contas.A Sara?! Como é que ela está? – perguntou Alice não escondendo a felicidade estampada no rosto. eu nem me pronuncio – interferiu Afonso levantando os braços. Nervoso. – É uma menina – disse Madalena passada a confusão. . Jorge olhou mais uma vez para o relógio e retirou as mãos dos bolsos das calças. as duas estão bem… .Era mais fixe se tivesse nascido rapaz – resmungou Daniel não vendo na sobrinha uma boa companhia para jogar à bola.O. seguiram-se outros cumprimentos igualmente efusivos ao pai. ela estava muito nervosa. o médico também e por sorte correu tudo bem! Aliás. – Nasceu! Os momentos de euforia inicial deram lugar a uma relativa calma. – É linda! . Madalena atirou-se-lhe para os braços e permitiu que ele a levantasse do chão. para além da certeza de que aquele tinha sido o dia mais feliz das suas vidas.ex. – E então?! – perguntou Jorge assim que ela se abriu e a figura de Madalena lhe surgiu diante dos olhos.Que bom – exclamou Alice correndo a abraçar a melhor amiga. forças até tinha. até o final da semana espero já estarmos todos em casa. a uma sensação de que faltavam notícias para confirmar que tudo tinha corrido bem. Mais tarde.Acreditas nisto?! Já sou avó. não é?! . – Tu vais ser um bisavô fantástico assim como o Daniel também vai ser um tio excelente. . . . . . . – Estamos a precisar é de mulheres! 186 . mas como o parto foi natural e não houve quaisquer complicações. Perante a revelação do ex.E ainda nem chegaste aos quarenta e cinco! Isso é bom.Agora estão a limpar a bebé! Depois a Sara vai ser colocada num quarto normal e as duas vão ficar lá até lhes ser dada alta.Quando é que as vamos poder ver? – perguntou Jorge. marido e do gesto engraçado que fez ao levar uma das mãos ao peito. vocês vão poder passear pela rua sem ninguém perceber essa tragédia. à melhor amiga e ao filho. . impaciente. e mais tarde. mas vocês sabem que ela sempre foi um pouco preguiçosa… – riram-se todos. Quer dizer. Porque é que ninguém saía daquele quarto para lhes trazer notícias. – Mas as enfermeiras ajudaram-na imenso.k. sogro o apoio necessário para extravasar toda a adrenalina que estava a sentir pelo nascimento do seu primeiro neto. o que é que conta ser-se bisavô nessa família. – Aqui tens o teu conforto! . – Afinal de contas eu também fui avô antes dos quarenta e cinco. Assim quando a tua neta crescer.

O quê!? . Nessa altura. – Qualquer coisa e chora logo! . . . o ex. – Eu queria que se chamasse Leonor! O nome da avó. – Era para teres ficado contente. . deixa estar! Eu fico com ela. Descansa. . Levava-te para todo o 187 .Impressionante – riu-se Sara.Não – riram-se todos.Não.Só espero que não seja Gertrudes – brincou Alice. não sabes! Mas vais saber. Afonso – exclamou Jorge tentando desanuviar o ambiente do quarto.Já não tenho idade para estas coisas – respondeu ele arrancando uma risada geral. Emocionado.Já escolheste o nome? – perguntou Jorge completamente embevecido pela neta. filha – afirmou Madalena mantendo a neta no colo.Ele ficou contente. Madalena decidiu passar a noite na clínica para ajudar a filha em tudo o que ela precisasse. . A homenagem não poderia ter sido mais nobre e foi por isso que Afonso não se conseguiu conter.Agora mesmo! Mas não acho que seja fome. – Ela acordou? – foi a primeira pergunta que a jovem mãe fez ao ver Madalena a passear a bebé pelo quarto. Como todas as coisas que anteriormente não faziam sentido passaram a fazer e como desejava entregar à sua filha tudo o que tinha de melhor. todas as dores sofridas durante o parto tinham desaparecido. – Oh avô! Não fiques assim – disse Sara correndo a abraçá-lo sobre uma das pontas da cama.Dá-ma! . Sara esgueirou o pescoço através da cortina e aguardou ansiosamente a entrada dos seus familiares no quarto. Já se acalmou. Impressionante como em tão pouco tempo a sua vida mudou apenas com a existência de um novo ser. – E também já tinha falado com a mãe mais ou menos sobre o assunto… . Impressionante.Não. – Agora é que vais ver o quanto custa ser mãe – disse-lhe Alice enquanto todos paparicavam os gestos e as mãozinhas delicadas da bebé. . – Não te largava nem sequer para ir à casa de banho.Que chorão que você me saiu. .Estive a pensar – respondeu Sara ajeitando os lençóis sobre o colo. Ao contrário de todos os outros. .Eu sei. Porque nenhuma mãe consegue ignorar a existência de um filho faça o que ele fizer. foi a primeira a salvá-la dos perigos e também a primeira a perdoá-la quando tudo o que deveria ter feito era ignorar a sua existência. à primeira mamada e observou Sara dormir como uma pedra durante horas sem sequer acordar quando a pequena Leonor abriu o berreiro um pouco antes das quatro da manhã. pois Madalena foi a primeira pessoa a estenderlhe a mão nos momentos em que mais precisou.Havias de me ver contigo quando nasceste – respondeu Madalena correspondendo ao sorriso da filha.Não a largas para nada! Parece que ficaste viciada nela. Assistiu também ao primeiro banho. Durante muito tempo ela esteve cega ao não dar valor à sua mãe e só agora começava a perceber o quanto errou ao não fazer isso. hã Sr. a sua filha já se encontrava deitada num pequeno berço ao lado da sua cama e as primeiras horas da maternidade começavam lentamente a infiltrar-se na sua mente. . . Mas a verdade é que ela não ignorou e a outra verdade é que Sara começava a perceber o porquê. . militar tirou um lenço do bolso das calças e tentou esconder as lágrimas para que ninguém o visse a chorar. .Quando a porta se mexeu com um pequeno guincho.

Jorge e Madalena esmeraram-se na preparação da festa. Sara principalmente. Quero que a Leonor tenha orgulho de mim… . Aos dezassete anos. mas mesmo muito dinheiro… . mas sim a semelhança que aquela menina parecia ter com a sua filha. e com uma filha nos braços. prestes a completar dezoito. os churrascos domingueiros. – Quero curar-me e ser uma boa mãe para a minha filha tal como tu também sempre foste uma boa mãe para mim. não vais?! . Eram elas. 188 . por todas as coisas que te disse! Eu não sei o que é que me passou pela cabeça. . amigos. já não havia mais espaço ou tempo para errar. passagens de ano e vários outros acontecimentos sempre relembrados em álbuns de família e afins. Agora todos tinham atingido um patamar completamente diferente. Eu sei que foi horrível. que tal como se era de esperar. foi realizada no grandioso jardim da casa.E depois quero voltar à escola.lado e as pessoas até chegavam a perguntar-me: Não te cansas de a ter sempre no colo? Não queres ter uma vida própria? . Contudo. as festas de aniversários. pele morena e um vestido azul clarinho que em muito acentuavam a sua beleza e inocência. tinham crescido enquanto pessoas. terminar o décimo segundo. foi a conclusão tirada por ela quando Leonor se enterrou nos seus ombros e a figura de duas pessoas muito especiais atravessaram os portões da casa. e contou com a participação de inúmeros convidados. familiares próximos. não foi o vestido que mais chamou a atenção de Sara. Mas agora os tempos eram outros. – Não faças tantos planos de uma só vez.Por todas as coisas que te fiz.É claro que vou! Vou-te ajudar em tudo o que precisares… – respondeu Madalena oferecendo-lhe a mão e sentindo nela um calor especial de um beijo.Vais-me ajudar a fazer tudo isso. onde já haviam sido vivido alguns dos momentos mais felizes das suas vidas. ir para a faculdade. .Ela vai ter – respondeu Madalena forçando-lhe um sorriso. repleta de cabelos cacheados. . natais. Tinham aceitado o seu convite apesar das relutâncias e trouxeram consigo não só vários presentes como também uma bela menina de sete anos. A destacar: os baptizados de Sara e Daniel. colegas de trabalho e um número quase incalculável de animadores infantis contratados para a ocasião. De facto. – Queria pedir-te desculpas… . – Eu quero tratarme – ela continuou com os olhos rasos de lágrimas.Que a minha vida eras tu. entre os quais. Acho que… só queria provar a mim mesma que não precisava de ti e que podia muito bem viver sem a tua ajuda. A primeira tentativa era a única e dali para a frente iria ser sempre assim. arranjar um emprego que dê muito.Porquê?! .E tu?! O que é que respondias? . adquirido novas experiências e utilizado essas mesmas experiências para seguirem em frente e reparar os erros do passado.Meu Deus – riram-se as duas. Perante a resposta de Madalena. estúpido e egoísta da minha parte. O baptizado da pequena Leonor foi comemorado seis meses mais tarde com toda a pompa e circunstância. Sara sorriu e deixou-se contagiar por algumas lágrimas teimosas. mas foi assim que me senti – Madalena manteve-se calada.disse ela num tom de voz quase sumido.

. Daniela obedeceu ao pedido da mãe e beijou a face de Sara. com os mesmos cabelos cacheados. mesmo se essa não fosse a tua intenção.Tínhamos que vir! Afinal de contas não é todos os dias que… senhoras como nós são convidadas para baptizados. – Milene! Arlete! Que bom que vieram… .Sim.Vai lá – disse Sara.Porque eu não queria que ele soubesse e também… não queria que tu soubesses.Era como se estivesse a ver Leonor dali a sete anos. . enquanto a última. . Sabias?! . Envergonhadamente.E tu. . mas naquela noite ele tinha bebido demais por causa da morte do irmão e… acabou por descarregar as frustrações em cima de mim.foi o cumprimento de Sara às suas amigas. não ia… .Posso segurá-la ao colo? . .És muito bonita. . . . com um sorriso carinhoso.Obrigada.Ias sim – interrompeu Milene encarando-lhe o rosto. – Serve-te à vontade. A Daniela! Uma outra famosa. não é?! – respondeu Arlete mostrando um pequeno embrulho a Sara. – Foi então que eu 189 .Então aquela história de teres engravidado do teu patrão no restaurante onde trabalhavas… .Claro – respondeu Sara entregando a sua filha nos braços de Arlete. – Na altura estavas apaixonada por ele e irias acabar por contar.Podias ter-me contado. . principalmente o Marco – respondeu Milene compondo os longos cabelos. não é?! . – Toma! Para a bebé.Se eu te contasse tu irias contar ao Marco. pá! Até acho que já perdi o jeito.Há tanto tempo que não agarrava numa bebé.Pois é.É – respondeu Milene baixando os olhos. Daniela. aquela mesa de doces está-me a chamar – interrompeu Arlete compondo os seus cabelos volumosos. o meu destino – riu-se Arlete enquanto se afastava em direcção a uma das inúmeras mesas de doces espalhadas pelo jardim e deixava Sara e Milene de olhos postos na outra à espera de forças para terem uma conversa que há muito já deveriam ter tido. . . . Milene?! – indagou Sara voltando-se para trás. – Esta é que é a tua filha? .Não. Daniela dá lá um beijinho à amiga da mãe. Bateu-me! Bateu-me mesmo muito! Quase morri e quase que perdi o bebé também – discursou Milene com um longo suspiro. . afagou-lhe os cabelos compridos dizendo: . . .Daniela e Leonor! Ai.Bem. E eu não queria que o Marco soubesse que eu tinha tido uma filha dele.Leva a Daniela também – pediu Milene.Era tudo mentira! Foi uma mentira que eu inventei lá no bairro para que ninguém soubesse a verdade.Porque é que nunca me contaste? .Sabia – respondeu a criança arrancando uma risada geral. .Então esta é que é a famosa Leonor!? . a mesma pele mulata e o mesmo sorriso. – Quando eu descobri que estava grávida.A Daniela é a filha do Marco. até tentei contar-lhe.

Verdade! Decidi-me há coisa de um mês. mulher a sós desde o início da festa. e agora.Ainda não me deste a resposta. . e por esse milagre.Tal como nós… Enquanto se abraçavam e se tentavam abstrair do barulho infernal inerente àquele jardim. Jorge congratulou-se. . essas só podiam ser encontradas dentro delas próprias e ao lado das pessoas que sinceramente as amavam. não sejas má – riram-se os dois. Ali estava Madalena a arrumar os pratos e os copos de plástico sujos pelos convidados quando ele se aproximou e lhe segredou aos ouvidos uma frase que tinha vindo a projectar desde há meses: . por isso voltei outra vez para Lisboa. Trabalhei numas porcarias.Lena. mas esqueceram-se que a verdadeira paz e conforto.Fazes bem. e tive lá a Daniela. .Então quer dizer que as nossas filhas são irmãs!? . Depois.Verdade?! . onde tal como se era de esperar encontravam-se todas as crianças e também Arlete. . tanto Sara como Milene finalmente encontraram a paz e o conforto que durante meses procuraram incessantemente. tal como vez. marido atrás de si.conheci a Arlete. fugi para o Porto.Tens razão – concordou Sara aceitando-lhe a mão e atravessando com Milene todo o jardim em direcção à mesa dos doces. por causa do nascimento da nossa neta. depois.Tal como nós. as nossas histórias não são assim tão diferentes… . . já juntei um bom dinheiro que me vai safar até encontrar um emprego decente e… quero começar a aproveitar a minha filhota. . já estou quase a chegar aos trinta.O. E foi assim que entrei na vida. Foi a única que ficou a saber da verdade. De qualquer maneira. .Que resposta? – perguntou ela deliciando-se com a voz do ex. . Antes.Mas não agora – respondeu ela passando-lhe as mãos pela camisa. Ela disse-me que eu podia ganhar bem mais a trabalhar como prostituta e eu aceitei porque estava desesperada e também porque a minha mãe não parava de me pedir dinheiro para continuar a tomar conta da miúda. Ela encontrou-me na rua e levou-me para o hospital.Até que enfim. . . baixinho. não tens mais escapatória. – Vou largar a vida – disse Milene após o longo abraço que recebeu de Sara.k. . para a casa da minha mãe. . ganhei misérias de ordenados e já estava a ver a minha vida a andar para trás até encontrar a Arlete outra vez. tudo bem! Eu dou-te a resposta.São – riu-se Milene para não chorar.Tu sabes bem. uma das únicas adultas suficientemente infantis para se maravilhar com um bolo recheado de chocolate.Eu acho melhor esperarmos até a Leonor ir para a faculdade. Só que eu e a minha mãe nunca nos demos lá bem e eu também não estava para aturar as cenas dela. em bebedeiras e em festas desregradas. acho melhor irmos ter com a Arlete senão ela acaba com os doces. haviam-nas procurado nos braços de vários homens. .Bem. Primeiro por causa da volta da Sara. Não te faças de desentendida! Desde a minha viagem a Bruxelas que tens andado a fugir. . Era a primeira vez que conseguia apanhar a ex.Não?! 190 . Por isso.

tenho os meus filhos… .Não acredito que ainda andas a enrolar o gajo… .Uau – exclamou Alice arrancando-lhe uma leve risada. . Lá eu dou-te a resposta. mulher.Não! Hoje à noite.E se mesmo assim não me restar mais ninguém. . Mãe ouviu-se a voz de Sara.Só precisava de tempo para me decidir! Mas esse tempo demorou mais tempo do que eu estava à espera – respondeu Madalena arrancando uma ruidosa gargalhada a Alice. Alice! Rápido! Sem cerimónias e enquanto se riam a bom rir. depois de todos já estarem a dormir. aparece no meu quarto.Tenho a minha neta que é a coisa mais linda do mundo.. – Em primeiro lugar. .Lá isso é verdade – riram-se as duas.Claro que não – afirmou Madalena passando um dos seus braços pelo ombro da melhor amiga.exclamou Alice interrompendo os olhares do ex. tenho-te a ti! . Fim 191 . . Madalena e Alice correram ao local e não tardaram a misturar-se com as cerca de oitenta pessoas especialmente convidadas para assistir ao baptizado da pequena Leonor. – Obrigada por me teres colocado em último lugar. .Também. .Eu não ando a enrolar ninguém. .Se continuares assim ainda vais acabar sozinha. . E mesmo o jardim sendo pequeno para tantos convidados.Mas quem disse que eu estou sozinha? . – Anda! Vamos tirar uma foto de grupo. Depois disso. voltou-se novamente para trás e acenou de longe ansiando que Madalena correspondesse de igual forma. o que de facto não tardou a acontecer. .Não estás? . Anda tu também. a verdade é que sobrou um espaço enorme nos corações de todos aqueles que ficaram eternamente registados naquela fotografia.O quê? .Sim. .Tens a certeza? . Ao perceber quais eram os intentos da ex. casal quando se aproximou da melhor amiga e a surpreendeu com um sorriso malicioso nos lábios. Jorge sorriu e afastou-se dela com a máxima discrição.Tenho o meu pai. depois da festa.Sabes de uma coisa?! .

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