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UM MAR DE ROSAS

RAQUEL RODRIGUES

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“Qualquer semelhança entre factos e personagens* não é uma mera

coincidência. Este romance é um retrato fiel de um dos acontecimentos mais infelizes que se passaram na minha família em princípios de 2000 e do qual todos os intervenientes saíram profundamente afectados. Mas tal como em qualquer outra família, os laços que unem uma mãe a uma filha dificilmente são destruídos. São antes eternos e capazes de ultrapassar os maiores obstáculos. Por isso, um conselho que ofereço a todos os que lerem este romance é que aproveitem cada página porque todas elas me trouxeram risos, lágrimas e um prazer inenarrável de escrita…”

* Apenas os nomes das personagens são fictícios.

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que apesar de há muito não ser feliz. marido? E os filhos? Também não deveria ter pensado neles? Na verdade. o despertador tocou ruidosamente. Seis horas e quarenta e cinco minutos. tomar um banho e acordar os filhos para a escola. era no entanto estável e confortável. Infelizmente tinha chegado a hora de levantar. e Madalena descobriu esse carácter ao fim dos dezasseis anos em que esteve casada com ele. uma excelente forma física tamanho trinta e oito e que já havia superado um divórcio e todas as frustrações que rodearam a sua vida durante os anos em que esteve casada com Jorge Albuquerque. e para o cúmulo dos cúmulos. Infelizmente terminou e não deixou nada de bom a não ser os dois filhos do casal. Mas infelizmente não deu. Sara. realmente não restou outra alternativa a Madalena a não ser pedir os papéis e tentar encontrar alguma paz de espírito. quando estava prestes a adormecer. Mas como poderia oferecer essa família se o ex. em frente ao espelho da casa de banho enquanto analisava os primeiros fios de cabelo branco. com o trabalho e com as amantes que arranjava aqui e ali? Diante de tudo isto. de quinze anos e Daniel de dez. na verdade. faltas de respeito e negócios esquivos envolvendo uma assinatura sua. até porque o seu único objectivo era oferecer-lhes uma família “normal”. Jorge era um advogado de quarenta e dois anos que ganhava a vida a defender empresários corruptos e outras pessoas de carácter no mínimo duvidoso.CAPÍTULO I As chuvas torrenciais e as fortes trovoadas não a deixaram dormir durante a noite. 4 . Madalena dava-se consigo a pensar se realmente tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para manter um casamento. olhos escuros bem delineados. ela passou anos e anos a pensar nos efeitos que a sua separação teria em Sara e Daniel. ditaram o fim de um casamento que tinha tudo para dar certo. o que não deixava de ser um dos requisitos fundamentais para ser o melhor na sua profissão. Será que tinha jogado todas as cartas que possuía na manga? Será que não deveria ter engolido o pouco do orgulho que lhe restava e tentar salvar as cinzas de um amor que parecia adormecido aos seus olhos e aos olhos do ex. uma mulher de quarenta anos. Traições. Bem. marido se mostrava muito mais preocupado com o próprio umbigo. também ele tinha um carácter duvidoso. Essa era a rotina de Madalena Soares. cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros. Muitas vezes.

Estudaste?! . ela percebeu que havia pelo menos seis meses que a filha fazia questão de a contrariar em tudo. . contou até dez e continuou a preparar o pequeno-almoço a toda a velocidade. tal como já vinha acontecendo há meses..Não sei. . A pergunta não obteve qualquer resposta. Madalena deu-se por vencida e voltou a guardar a embalagem do pão de forma num dos muitos armários da cozinha. o elemento mais novo da família. . acho que prefiro os cereais – respondeu a jovem alcançando os Kellogs sobre a mesa. . pensando melhor.Cereais. Portas abertas.Já estás a comer os cereais por isso não tens espaço para a tosta – respondeu Madalena alcançando a embalagem do pão de forma.Perguntei se não era hoje que ias ter um teste. já que mais uma vez Sara se encontrava com os malditos auscultadores nos ouvidos. Sara viu-se obrigada a acatar as ordens da mãe. É da adolescência. foram os ingredientes para começar bem o dia enquanto o rádio divulgava as primeiras notícias da manhã e os ponteiros indicavam que havia pelo menos vinte minutos que estavam presos numa fila de quase dez quilómetros. De resto.Sim – respondeu Sara baixando o volume do mp3. . nunca ousou levantar a voz aos pais e muito menos desrespeitá-los diante de quem quer que fosse. 5 . – Sara.Tosta mista. – Queres cereais ou uma tosta mista? – perguntou Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou.Nem penses que vais sair de casa sem comer – respondeu Madalena poisando o fervedor de leite sobre a mesa. . – Ouviste-me – insistiu a mãe sacudindo-lhe o braço. Mas a verdade é que Madalena não se lembrava de ter sido uma adolescente tão problemática e muito menos de ter dado tanto trabalho aos seus pais. .Já disse que não! Senta-te e come como deve ser! Após um longo suspiro. cintos de segurança colocados e o trânsito infernal na segunda circular. Seria pedir muito que a sua filha também fizesse o mesmo consigo? O pequeno-almoço da família foi degustado em meia hora e depois disso seguiu-se a correria em direcção ao carro debaixo de um frio de cortar à faca. . mãe! Já disse que vou comer cereais. Acho que sim.Eu como lá na escola.Eu também quero – interferiu Daniel. E enquanto ignorava o barulho ensurdecedor dos desenhos animados que passavam na televisão e do mp3 que Sara fez questão de ouvir aos altos berros.Sabes. tentava convencer-se disso. Depois disso.Mas eu já ia … . – É mais rápido. – Não era hoje que ias ter um teste? – perguntou Madalena parando o carro diante de um sinal vermelho. queres a tosta com duas fatias de fiambre ou só uma… . Ao ouvir a resposta da filha. .O quê?! . . Com quinze anos tudo o que fazia de mais escabroso era faltar às aulas de vez em quando para passear pelas lojas da cidade com as suas amigas.Não tenho fome – foram as primeiras palavras de Sara quando entrou na cozinha e encontrou a mãe a preparar o pequeno-almoço.

Não precisas desejar-me sorte. Diz! Fiz-te alguma coisa? . Ninguém acha que estudou.declarou Daniel sob as risadas da mãe. .És mesmo parvo – adiantou-se Sara empurrando-o contra os bancos de trás. .Sabes que eu até acho que foi muito bom teres esquecido aquela maldita Playstation na casa do teu pai!? – respondeu Madalena. .Não sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos quando percebeu a vontade de Sara em mudar de assunto.Mãe.Não. Água.Eu deixei a minha Playstation lá – interferiu Daniel esgueirando o pescoço em direcção aos bancos da frente. Devias esquecê-la mais vezes para ver se me consegues levantar as notas a Português e a Matemática.Posso te fazer uma pergunta? O silêncio da filha fê-la avançar nos seus propósitos. surgiu-lhe à frente a visão sempre assustadora da correspondência acumulada durante o fim-de-semana. . 6 . – Boa sorte – exclamou ela quando a filha abandonou o carro levando a mochila às costas.Porque se fiz. – Ele ainda não ligou a avisar se vos vem buscar ou não.Já disse que não é preciso – respondeu Sara atravessando a rua sem sequer olhar para trás.Estás sim! Já viste a maneira como tens andado a falar comigo ultimamente? Quase com quatro pedras na mão. por ser a mais próxima. não me apetece falar. .Para quê? .Porque não me apetece – respondeu Sara fulminando-a com os olhos. – Assim pelo menos passaste menos tempo em frente à televisão e estudaste mais. Publicidade. eu peço-lhe para me trazer a Playstation! Não passo mais uma semana sem ela. e a primeira paragem. para quê?! Para o teste… . .Porque não?! . senão fujo de casa… .Vamos passar o fim-de-semana em casa do pai? .Eu não estou irritadiça..Se o pai não nos vier buscar este fim-de-semana. Seguro. Realmente nada a que já não estivesse habituada durante os seis anos em que dirigia aquele negócio.Vou torcer por ti! . podes dizer-me e nós podemos conversar sobre isso para tentar… . Um acidente numa das pequenas ruelas da cidade obrigaram Madalena a optar por um outro caminho infinitamente mais longo em direcção à floricultura que dirigia ao lado da melhor amiga e que outrora havia pertencido à sua mãe. Sem outro remédio. foi o colégio de Sara. As notícias no rádio transformaram-se na banda sonora perfeita para que Madalena levasse os filhos à escola. – Preciso ir buscá-la. . . .Oras. ela abaixou-se e alinhou as cartas e jornais com um suspiro de cansaço por uma semana que só na altura tinha começado. – Porque é que estás tão irritadiça nestes dias? . Passava já das nove quando ela conseguiu chegar ao local pretendido. . e ao abrir a porta. .Achas?! Ou se estuda ou não se estuda.

. primavam pelo bom gosto e pelo requinte de quem não se importava de pagar muito para viver bem.Tinha-me esquecido completamente desse casamento. até pela excelente relação que a sua mãe mantinha com as clientes mais antigas e que fez questão de cultivar ao longo dos quarenta e cinco anos de existência da loja. uma das avenidas mais nobres da cidade lisboeta repleta de buzinas dos carros em hora de ponta. Impressionante como um casamento nos pode fazer perder a nossa própria identidade. . que na altura também se encontrava desempregada e à espera de dias melhores.Ainda bem que não tenho filhos – exclamou Alice pendurando o casaco no bengaleiro.Hoje mesmo vou ligar ao fornecedor. havia pelo menos dois anos que Madalena não recebia flores de ninguém. Anos depois. mas a floricultura deixada pela mãe. Cortadas essas amarras. .O mesmo digo eu de ti – respondeu Madalena terminando de analisar a correspondência sobre a secretária. . uma das poucas pessoas que sempre acreditou nas suas capacidades. Só estava ali no café a tomar o pequeno-almoço. mas o que poderia fazer se até à data não havia encontrado nenhum homem minimamente interessante para lhe oferecer flores? – Até que enfim chegaste – disse uma voz jovial entrando pela loja adentro. Todos os dias surgiam encomendas. marido de Madalena pois ele desejava ardentemente que a mulher continuasse a ser a perfeita dona de casa sempre atenta às suas necessidades e às dos filhos.Para a tua informação. .A D. ainda é capaz de nos furar os tímpanos se não tivermos todos os arranjos feitos dentro do prazo. casamentos ou outras datas especiais que as pessoas faziam questão de celebrar com flores. Beatriz já telefonou? . Alice Santos. de resto. esta ainda continuava a gerar lucros atrás de lucros. Obviamente que os apoios não foram muitos. Mas por mais irónico que parecesse. Mas a verdade é que Madalena não foi na conversa e conseguiu levar a sua adiante livrando-se das amarras que a mantinham presa a uma casa quase sempre vazia. Manter ou não manter o negócio da família? Mediante o aconselhamento do pai. . Mas um súbito ataque cardíaco e posteriormente a sua morte trouxeram à filha um dilema que poucos apostaram que ela fosse conseguir resolver. iluminado e ficava situado em plena Avenida de Roma. Louca do jeito como a D. eu já tinha chegado há muito tempo. aniversários. veio um certo sentimento de alívio e uma necessidade de auto afirmação que nunca pensou existir dentro de si. Temos já que começar a contactar com os fornecedores para termos tudo pronto a horas. especialmente os vindos do ex. . . 7 . faz isso! Temos uma reputação a manter… – riram-se as duas amigas.O espaço era amplo.Nem sabes como te invejo – riram-se as duas. Não seria esse facto demasiado deprimente para a dona de uma floricultura? Ela achava que sim.Porque ela ficou de cá vir para escolher uns arranjos para o casamento da filha. . era o que muitas vezes dizia à melhor amiga.É daqui a quatro meses se não estou em erro. o casamento terminou.Pois eu atrasei-me a levar os miúdos à escola. Madalena decidiu aceitar o desafio e para isso contou com a preciosa ajuda da sua melhor amiga. da movimentação frenética das pessoas e dos prédios. que apesar de serem antigos. Beatriz é. A floricultura de Madalena era também uma das mais visitadas da avenida.Por favor. .Não! Porquê?! – perguntou Madalena largando as cartas sobre a secretária. .

Ao ouvirem as suas ideias. e a igreja escolhida para que os cerca de duzentos e cinquenta convidados por Beatriz. algo que Beatriz fez questão de discutir com a floricultura contratada para o efeito. a responsável pela organização de todo o evento.Por acaso não. Mas agora que ela já não está aqui entre nós. …claro – respondeu a última apertando a caneta que tinha nas mãos.É claro que não se vai decepcionar.Sim! A cerimónia vai ser de manhã. ou pelo menos as suficientes até que Madalena e Alice deixassem as divagações das duas clientes falar mais alto. – Tudo vai ser feito como o combinado. Flores do campo. – Tudo tem que estar perfeito… – dizia Beatriz. A boda. a luade-mel e outros assuntos tão interessantes como o modelo da lingerie que a noiva estava disposta a vestir na sua noite de núpcias. uma legítima tia falida do jet-set.Hã. De facto. – O vestido. não se esqueçam de nos arranjar suportes para os arranjos… . Sim. D. Sim. – Não é. Lena? . o único detalhe a acertar era o arranjo das flores e a decoração da igreja. Quero que saibam que só aceitei trabalhar com esta floricultura porque conhecia a mãe da Madalena há muitos anos e foi ela quem me arranjou as flores para o meu terceiro casamento. estávamos também a pensar em utilizar arruda ou trigo no meio dos arranjos. Tudo iria ser feito para a agradar. A conversa prolongou-se por mais algumas horas.É uma superstição – respondeu Beatriz à pergunta de Alice. Beatriz – adiantou-se Alice beliscando o braço de Madalena a fim de tentar trazê-la de volta à realidade. o local da boda reservado numa Quinta em plena vila de Sintra. – Além disso. claros e suaves – informou a noiva. – Os nossos fornecedores fabricam esses suportes sem custos adicionais. Outra coisa. . argumentos e alguns comentários mais ou menos hilariantes. e tal como se era de esperar. espero não me vir a decepcionar… . e pelo amor de Deus.Não. não foi o que disseram?! . a boda e também as flores que vamos utilizar na decoração da igreja. por isso é bom que sejam flores do campo em tons neutros. Beatriz Dias. – Voltamos a falar daqui a duas semanas para saber como é que está a correr a história das flores – disse Beatriz levantando-se de uma cadeira onde esteve sentada durante três horas. que Deus a tenha.Pois ficam a saber! E ficam também a saber que vão ter que arranjar algumas espigas para colocar nos arranjos da igreja e também no local onde se vai realizar a boda. 8 . foi a mãe. . sendo que naquela segunda-feira não foi excepção. muitas vezes Madalena e Alice foram obrigadas a concordar com tudo o que ela dizia: E sim. Não sabiam? .O casamento de Joana Dias estava marcado para dali a quatro meses. a entrada de um outro cliente na loja apressou a saída de Beatriz e Joana e trouxe de volta a paz de espírito que Alice e Madalena perderam durante aquela interminável conversa. foram dissecados até à exaustão e fizeram as duas funcionárias da floricultura revirarem os olhos vezes sem conta.Trigo?! Porquê? . quanto a isso não se precisam preocupar – respondeu Madalena apontando todos os pedidos num pequeno bloco de notas. – Todas as mulheres da nossa família sempre escolheram arranjos de trigo porque simbolizam sorte e prosperidade. Mas por sorte. O vestido foi adquirido numa viagem que fizeram a Paris.

Claro – murmurou Madalena não querendo relembrar à sua cliente que ela já estava na falência há muitos anos e que o único motivo para aquele casamento tão apressado era o facto de não se querer afundar ainda mais. . .Uma amiga!? – indagou Madalena levando a mão ao peito.De qualquer maneira. obriguem o vosso pai a fazervos todas as refeições.Bem. – Não fiquem acordados até tarde. .Entra lá! . marido. – Tenho alguém lá dentro. – Então!? Já estão prontos? . Madalena observou o carro do ex. Não se demorem – gritou Madalena aos filhos quando ouviu a campainha tocar. São mais de duzentos e com certeza vai sair um balúrdio.Não me irrites – resmungou Madalena lançando os olhos ao carro do ex. os pais do meu genro é que estão a pagar todas as despesas. . Na sexta-feira seguinte. – Nem um minuto a mais. assim como o desejo de lhe ouvir a voz ou até mesmo o barulho das chaves que ele fazia questão de manter nas mãos enquanto ordenava a Sara e ao Daniel para que se despachassem e não o fizessem esperar em demasia numa sala que durante quinze anos também foi sua. . que educação… .Claro. encabulado. nem um minuto a menos. ainda temos muito tempo até ao dia do casamento – respondeu Madalena levando mãe e filha em direcção à porta.Os nossos filhos queres tu dizer. Apesar da chuva miudinha foi visível que o motor ainda estava trabalhar. marido a estacionar em frente ao jardim. . – Deixaste as luzes acesas? – perguntou ela.…uma amiga.Oito e um quarto – respondeu Jorge lançando os olhos ao seu relógio de pulso.Alguém!? . – Chegaste cedo – abriu ela a porta.. . Já vai. – Que tipo de amiga? .Não é assim tanto tempo – exclamou Joana retirando os óculos escuros da mala. não é mãe? . . . . – Meninos! O pai já chegou.Escuta Jorge! Eu não quero que ponhas os meus filhos a conviver com as tuas amigas.Que seja! Simplesmente não quero. – Podemos ir? . ou melhor.Claro.Portem-se bem – adiantou-se Madalena sugando as bochechas de Daniel enquanto ele vestia o casaco a uma velocidade fantasmagórica. . – Ainda temos muitos outros detalhes a acertar. foi a resposta ouvida. 9 . – Já estava a ver que nunca mais – disse ele recebendo um beijo de cada um. Deveria ficar contente por vê-lo? Obviamente que não. mulher foi peremptório e não deixou outra escolha a Jorge a não ser baixar os braços e aguardar a chegada dos filhos à sala. façam os trabalhos de casa e comam todas as refeições. até porque a vontade de estar com Jorge era nula.Uma amiga.Já – respondeu Sara levando a mochila às costas. O olhar da ex. Por sorte. senão imagina o que era?! Íamos logo à falência. ao fechar uma das janelas da sala. Ainda agora vamos falar com a empresa que está a organizar a decoração da igreja e depois vamos também tratar da impressão dos convites.Sim – respondeu Jorge. e depois disso seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à porta.

– Olá.Tchau. . . – Só falo de vez em quando. Cansada era como Madalena se sentia cada vez que olhava para si e para o que a sua vida se tinha transformado desde que assinou os papéis do divórcio. – O pai traz-nos no domingo à noite. Março. não é?! . Sim. Diante daquela possibilidade no mínimo assustadora. Madalena lançou os olhos as paredes e sentiu-se pela milésima vez sozinha.Sim! Madalena. de facto.Mesmo assim! Amanhã eu ligo. Alta como uma torre.. . mulheres. e foi também o tempo necessário para que o calor regressasse em força em todos os pontos do país. duas lágrimas caíram-lhe dos olhos e ela não teve outro remédio a não ser detê-las com as mãos. Quando a porta da rua se fechou com um pequeno ruído. amor! Estás sempre a falar dela… – adiantou-se Vanessa voltandose novamente para a Madalena. – Madalena o seu nome.Não precisas ligar – disse Sara abrindo a porta. Vanessa Figueiredo era o apogeu que todos os homens acima dos quarenta sonhavam apresentar às ex.Muito prazer – respondeu Madalena aceitando o cumprimento de uma forma muito menos efusiva. pois acabaria sozinha e sentada naquele sofá até ficar velha e caquéctica. mulher lhe lançou. mas infelizmente os seus intentos não surtiram qualquer efeito no momento em que o carro arrancou e a rua tornou a ficar deserta.Porquê?! .Está bem. mãe.Ligo amanhã para falar com vocês. – Porque o Jorge está sempre a falar de si e dos vossos filhos. e era também um sinal de que não valia a pena lutar contra o inevitável.Nem tanto assim – defendeu-se o advogado tentando esquivar-se aos olhares aterradores que a ex.Não sejas mentiroso. Quem seria ela? Uma namorada? Um caso de uma noite? Ou simplesmente uma amiga como ele fez questão de lhe frisar? Ao sentar-se no grandioso sofá com uma almofada sobre o colo. 10 . Abril. . era um tempo que não voltaria a recuperar ainda que quisesse. muito prazer – sorriu ela estendendo a mão a Madalena. Cada dia que passava.riu-se Vanessa. marido e dos filhos em direcção ao carro. Lena! .Vamos. .Confesso que estava curiosa para a conhecer. loira e com as curvas perfeitas de uma top model. . São só dois dias. Jorge. . – Tchau. cada semana ou cada mês. mulher. Madalena aproximou-se da janela e observou a caminhada do ex. meninos – exclamou Jorge lançando um último olhar à ex. Jorge resolveu levar os filhos para duas semanas de férias ao Algarve. A sua melhor amiga tinha razão quando lhe disse que era mil vezes mais fácil para os homens refazerem a sua vida após um divórcio do que para uma mulher depois dos quarenta. Maio e Junho foram os meses que passaram a passo de caracol. Ainda tentou forçar um pouco mais a vista e tentar vislumbrar os traços físicos da mulher que estava sentada no banco da frente.Oras… . . . Nessa altura. Madalena viu-se obrigada a baixar as guardas e a concordar que Sara e Daniel seguissem viagem com o pai e também com a nova namorada que ele lhe fez questão de esfregar à cara quando foi buscar os filhos. e apesar da relutância.

Era a quinta vez que Madalena observava a entrada dos filhos. mulher lhe lançou. Deus! Como se rebaixou por tão pouco? Como é que sequer desejou um corpo igual àquele quando Deus a havia favorecido com algo que Vanessa nunca iria ter por mais cirurgias plásticas que fizesse: Inteligência e bom senso. .Porquê?! . . 11 . não é!? Pois então! Ele só está a ter aquilo que merece.. .Acredito que sim – murmurou Madalena levando a mão ao peito.Porque… . – Mas lá diz o ditado que cada um tem aquilo que merece. . quando ambas jantaram juntas naquela noite. marido no carro. deve estar arrasada. . . Vanessa – adiantou-se Jorge temendo que a namorada pronunciasse mais alguma loucura.Sabe que eu até estive a dizer ao Jorge para a levar connosco.A sério?! . . – Eu disse-te que ela era dona de uma floricultura.Hã.Coitado do Jorge! Será que ele está assim tão desesperado? . não?! Amor.Pois eu acho que vou conseguir sobreviver. lembraste!? .Madalena quero que saiba que a admiro imenso! Sou a sua fã número um… .Obrigada. .Conheço várias mulheres que depois que tiveram filhos. claro! Esqueci-me.Levar para onde? . já viste o que era passarmos um ano inteirinho sem férias?! Acho que morria… . mas era sem sombra de dúvida a primeira vez que não se sentia minimamente enciumada com a cena. Crianças!? Enfim.Os miúdos ainda vão demorar muito? – perguntou Jorge ignorando o sorriso irónico que a ex. – Por isso é que eu nunca quis ter filhos e nem estou a pensar em ter. Rapazes de preferência! . bem… transformaram-se em autênticos monstros de tão gordas e flácidas que ficaram… – riu-se Vanessa sob o olhar incrédulo de Jorge. . a tal loira mais alta que uma torre e com as medidas perfeitas de uma top model não passava de um corpo desprovido de cérebro ou qualquer outro sinónimo que pudesse fazer jus à sua beleza física.Faz isso porque não quero chegar muito tarde ao Algarve.Não acredito! Bem. da namorada e do ex. Sinceramente não sei como é que consegue manter essa forma depois de ter dado à luz dois filhos.Define-me burra – riram-se as duas. .Provavelmente – respondeu Madalena bebendo um gole de vinho. .Para o Algarve.Infelizmente este ano não vou poder ter férias – concluiu Madalena cruzando os braços. a melhor amiga de Madalena. realmente não são o meu forte! Dou-me bem melhor com adolescentes. . Está perfeita…! .Porque ela tem um negócio para gerir. – Estás a gozar?! Ela é assim tão burra? – perguntou Alice.Hã… não me parece – respondeu Madalena tentando desenvencilhar-se daquele convite no mínimo inoportuno.A sério. Vanessa.Acho que não! Eu vou lá acima despachá-los.!Iria ser divertido passarmos as férias todos juntos.

Tens razão – concordou Madalena limpando as lágrimas quando percebeu que também ela fazia parte daquele vastíssimo leque.O que é que aconteceu ao dinheiro? . até pode estar com a mulher mais burra do mundo.Podias pelo menos ter ficado com algum – riu-se Alice. Não. animada. eu é que sou burra! Burra por ter aguentado tanta nojeira e ainda acabar com uma mão à frente e outra atrás..Nem me digas nada! Só de me lembrar do dia em que a polícia me bateu aqui à porta. eu acho que não. até fico toda arrepiada. . nem com isso fiquei! Só fiquei com os cornos. isso foi o cúmulo dos cúmulos… . . – Mas o que é que havemos de fazer. .Eu bem te avisei. tens toda a razão em ficar tão contente com a desgraça do teu ex. . .E tu estás a adorar. aliás. .Não é só sexo. . 12 .Sabes bem o que eu quis dizer.Eu também sinto falta – respondeu Alice deixando escapar os seus pensamentos mais secretos. – Ele está lá no Algarve. Infelizmente Madalena foi obrigada a concordar com as palavras da sua amiga e também com a certeza de que tudo continuava exactamente igual naquela cozinha. com os filhos e com esta casa a cair aos bocados enquanto ele se pavoneia no Algarve com a Vanessa loira burra.Sei lá! Sinto falta de… ter alguém com quem conversar. De facto. Alguém! Um homem de preferência.Eu também e olha que nem foi comigo – disse Alice devorando o soufflé de camarão cozinhado por Madalena.Às vezes fico a pensar se ele não fez de propósito. marido! Especialmente depois de tudo o que ele te fez… . . . – Estou sozinha – disse ela por fim. claro! Era dinheiro sujo dos negócios que ele fazia com os clientes dele.Voltar a fazer sexo outra vez – concluiu Alice bebendo um gole de vinho. não é?! Nem todas as mulheres nasceram para ter um homem que as possa ouvir.Foi confiscado.Mas tens razão.Olha. se queres realmente que te diga. Aliás. mas pelo menos está lá a divertir-se e a viver uma vida que eu também queria viver – discursou Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos.E eu?! Sou um fantasma? .E a lata dele em forjar a minha assinatura no banco e ainda fazer uma carinha de inocente à frente dos polícias como se não fizesse a mínima ideia de onde aquele dinheiro tinha saído. nada tinha mudado. . . Eu acho que ele só fez aquilo para se conseguir safar e também porque é um otário de primeira.É assim tão evidente – respondeu Madalena arrancando uma leve gargalhada à melhor amiga. . . – E eu estou aqui jogada às traças para mais de dois anos e sem a mínima hipótese ou a mais remota possibilidade de… . Alice também foi obrigada a concordar com um silêncio. . abraçar-me e fazer-me sentir segura.Então é o quê!? . Alguém que me possa ouvir. abraçá-las e fazê-las sentirem-se seguras.O quê?! Ter depositado aquele dinheiro na tua conta só para ires presa? Não.

Assim tipo… . mas o problema é que era demasiado filosófico e atirava cada frase que eu até ficava com os cabelos em pé.Porque é que nunca me contaste? .No segundo. .Obrigadinha pela parte que me toca! .Podes crer que existem e eu já saí com muitos. para aquela tia do jet-set nada poderia dar errado pois não era somente o nome da sua filha que estava em jogo. .Que horror – riram-se as duas. 13 .O quê?! – indagou Madalena soltando uma ruidosa gargalhada.E deu certo algum desses encontros? – perguntou Madalena não escondendo a sua curiosidade.Sim – respondeu Alice forçando uma gargalhada que não foi de todo correspondida pela melhor amiga.Meu Deus! Ainda existem gajos desses no planeta terra? . não fazia qualquer diferença. . . mas acho que prefiro continuar solteira a andar com um sábio africano – riram-se as duas amigas completamente indiferentes ao adiantado das horas. . Na verdade. . houve uns tempos em que eu estava tão desesperada que até cheguei a arranjar encontros na Internet.Não me leves a mal.Naquela altura ainda estavas casada com o Jorge e eu senti-me ridícula só de pensar na ideia de tocar nesse assunto contigo. desilusão é a palavra de ordem. inteligente e até era bonito. se estivesse era óptimo.Tive dois – confessou Alice bebendo um gole de vinho.Que tipo de frases? . confesso que até tive algumas esperanças! À primeira vista o gajo parecia ser simpático.. Com certeza irias pensar que eu era uma pobre coitada… . . Estaria o amor intimamente ligado ao casamento? Bem. mas sim o de toda a sua família que via nos laços do matrimónio a oportunidade ideal para se livrar das privações monetárias e outros apertos resultantes da sua falência desde há gerações. mas caso contrário. que fez questão de escolher pessoalmente as flores e os suportes de decoração que iriam estar presentes na igreja e também no local da boda. A única coisa que fazem é levantar as nossas expectativas. Os arranjos florais para o casamento de Joana Dias e Rafael Saraiva primaram pelo requinte e tudo graças ao bom gosto de Beatriz.A sério?! . .riu-se Alice enquanto se tentava recordar de alguma. encantar as pessoas com os meus dons e encontrar uma fórmula secreta para ser imortal… . a mãe da noiva. Por isso é que desisti desses encontros virtuais. .Agora imagina-me ouvir frases dessas durante todo o jantar numa sexta-feira treze? Saí do restaurante mortinha de medo e nunca mais lhe atendi a nenhuma chamada. – Gostaria de ser um sábio africano apenas para desvendar os segredos mais misteriosos da humanidade.Sabes. – No primeiro o gajo era um idiota de todo o tamanho e até chegou a fingir que tinha esquecido a carteira em casa apenas para não pagar o jantar.Só espero nunca chegar a esse ponto. . mas depois quando conhecemos as pessoas.

traços faciais definidos. os noivos souberam escolher o local perfeito para uma ocasião também ela perfeita. Pensou nos filhos.Já não é mau. elegância e uma masculinidade difícil de explicar. Como era belo. que lhes vasculhava todas as gavetas numa tentativa desesperada de encontrar algo escabroso e que passava praticamente todas as horas do dia a pensar neles. Madalena e Alice abandonaram o veículo da floricultura e regalaram-se com a magnífica vista do Mosteiro dos Jerónimos. até mesmo para ela. isto para não falar da facilidade quase sobre humana que tinha em incluir os seus nomes em todas as conversas. Os olhos de Madalena não conseguiram esconder o fascínio quando viram à frente um dos seres mais belos do planeta terra. Uma mãe que não sabia quando dar espaço e privacidade aos filhos. . meu Deus! E de onde tinha saído aquela perfeição? – Encontrei este senhor simpático lá dentro e ele foi o primeiro a oferecer-se para nos ajudar – informou Alice trazendo a sua amiga de volta à realidade. Madalena cruzou os braços e encostou-se à carrinha pensando em tudo menos nas flores que deveria retirar do porta-bagagem. os últimos raios de sol começaram a desaparecer no horizonte e a brisa trazida pelo rio retirou as réstias do calor sentido durante o dia.A sério – respondeu Madalena poisando no chão o primeiro arranjo floral que retirou do interior do veículo.Sabes que este mosteiro nunca me disse nada?! . Por isso é que o meu casamento não demorou muito – respondeu Alice levando as mãos à testa encharcada de suor.Estás a gozar? . Diante daquela paisagem tão interessante.k! . em como eles se deveriam estar a divertir no Algarve e nas saudades que sentia deles apesar de apenas se terem passado vinte e quatro horas desde a última vez que os vira. Madalena não conseguiu acreditar que ele era real.E eu que me tive que contentar com uma capelinha em Alvalade… .Sim! É óptimo. eu vou lá dentro ver se encontro alguém para nos ajudar a tirar essas flores cá para fora. cabelos escuros perfeitamente aparados. . Todo ele exalava beleza.No dia seguinte. – Bem. 14 . – Trouxe ajuda – ouviu-se finalmente a voz de Alice. embalada pelos jardins de Belém e pela torre imponente. . Era uma mãe galinha. foram as palavras que Madalena utilizou para caracterizar a excessiva demora de Alice quando ao olhar para o relógio de pulso viu que nele estavam assinaladas dezoito horas e trinta e dois minutos. a vinte e quatro horas do tão aguardado casamento. . um imponente monumento que impunha admiração até aos olhos dos mais leigos.Olá – disse o desconhecido forçando um sorriso a Madalena. um nariz esculpido à lupa e dois lábios bem delineados. – Sempre o achei um pouco sombrio e cinzento. Características físicas? Altíssimo. olhos tão verdes como duas esmeraldas. sorriu. – Era aqui onde eu gostaria de me ter casado – disse Alice abrindo as portas da carrinha. Mas ao vê-lo diante de si. Nessa altura.Não saias daí. visto o Mosteiro considerado como um dos edifícios mais emblemáticos da cidade lisboeta. não achas?! Provavelmente deve ter morrido lá dentro. De facto.Um pouco difícil. .O. .

encontrava-se um homem que não aparentava ter mais do 15 .Nem sabe o quanto – respondeu Alice mostrando-lhe os inúmeros arranjos florais no interior da carrinha. Raios. Enquanto ele caminhava em direcção à capela com dois grandes arranjos florais nas mãos. completamente descontrolado.Não se preocupe porque nós também não percebemos nada de decoração – interferiu Alice. .. nos seus ombros largos e nas pernas ligeiramente arqueadas que lhe conferiam um ar demasiado sexy para ser apenas um simples mortal.São bonitas. um pouco mais atrás. enquanto na sacristia. . . Realmente não deveria estar a observá-lo com tanta atenção porque a qualquer momento ele poderia voltar-se para trás e surpreendê-la com os olhos postos em si. a noiva e a mãe do noivo trocavam as últimas palavras com o padre que iria presidir à cerimónia.Ainda bem! Já estávamos todos impacientes à espera deles. um sorriso irrompia-lhe o rosto pronto a fazê-la corar de vergonha. .…olá. – Só sou um dos fotógrafos contratado para a cerimónia. No fundo do corredor.Aonde é que podemos colocar as flores? – perguntou Madalena sustendo um enorme suporte nas mãos. – Trouxemos os arranjos tal como o combinado – respondeu Alice forçando um sorriso a Beatriz. Ou seja. . Não parecia ter mais do que trinta e cinco anos e muitas experiências para contar visto o seu olhar transparecer uma inocência digna de um adolescente de dezasseis. mas também pelo fotógrafo que teve a amabilidade de as ajudar a tirar da carrinha todos os arranjos florais sem sequer pestanejar ou oferecer algum comentário menos agradável.Já vi que precisam mesmo de ajuda. – Acha que nos pode ajudar a levar tudo isto à capela? . À sua volta encontravam-se cerca de duas dezenas de pessoas em movimentos frenéticos tentando desesperadamente terminar os últimos detalhes da decoração da igreja. Muito pelo contrário. Até parecia que o estava a fazer por prazer. uma voz imperiosa invadiu a igreja deixando todos os presentes estupefactos com a irritação que ela trazia. por Alice. e a cada esbarro com Madalena perto do altar. Contudo. prender a sua atenção e deixar-lhe as pernas completamente bambas.Podem colocá-las junto ao altar que depois os responsáveis da decoração tratam do resto. .Obrigada! Mais um olhar e mais uma vontade descomunal de Madalena em atirar-se para os braços daquele desconhecido que em poucos segundos conseguiu algo que nenhum outro homem havia conseguido em dois anos. As ordens de Beatriz foram imediatamente obedecidas não só por Madalena. foi impossível para Madalena não reparar nas suas costas bem formadas. na última vez que Madalena sorriu. .Claro que sim. . – Que bom que chegaram… – disse Beatriz caminhando em direcção a Madalena e Alice assim que as duas entraram na capela. .Só viemos trazer as flores – concluiu Madalena recuando dois passos quando ele se agachou e levantou do chão o primeiro arranjo. Mas não me peçam para ajudar na decoração porque não percebo nada disso – respondeu ele arrancando um sorriso tímido a Madalena.

– Houve algum problema lá na empresa? E o teu pai? Não falaste com ele antes de saíres do… . com um olhar perdido e uma das pernas a tremer.Aonde é que está a sua filha. tudo o que Joana lhe ofereceu foram mentiras e traições. ele aguardou a saída da sua noiva da sacristia repetindo para si mesmo: Nem por decreto de lei a vou perdoar. Quem era. meu filho? Estás todo desgrenhado. o quê? – indagou Beatriz esbugalhando os olhos. Não era esse o vosso plano? 16 .Eu já descobri tudo. amor!? .Não me chames de amor – gritou ele assustando-a com a sua voz imperiosa. E na verdade. Claro que tinha. As duas estão a falar com o padre. Os momentos que se seguiram foram tensos e tudo porque Rafael não arredou pé do local onde estava.Não sabia. Com o primeiro otário que lhe aparecesse à frente e que tivesse uma conta bancária choruda. Sempre com as mãos nos bolsos.Rafael!? . .Chame a sua filha agora antes que eu perca a paciência… Beatriz nunca vira aquela expressão nos olhos do genro e muito menos pensou que em algum dia ele iria ousar levantar a voz contra si. Aqui não é o lugar ideal e tu estás muito nervoso… . . cabelos loiros e uns olhos azuís inchados de tanto chorar. sua ordinária…! . Beatriz?! Não sabia que a sua filha andava a ter um caso com o melhor amigo? Ou será que sabia? Claro. – Nunca mais te atrevas a chamar-me de amor.Chame a sua filha agora – interrompeu o noivo não se deixando levar pelos argumentos da futura sogra.Mãe. . D. bem tinha todas as razões do mundo para não o fazer. todo transpirado… . – Está bem! Eu vou chamá-la – concordou Beatriz ignorando os olhares de todos os funcionários presentes na capela. Nunca a vou perdoar. – O que é que aconteceu contigo. equilibrado e totalmente imune à palavra escândalo. . Teria acontecido alguma coisa? Sim.que vinte e oito anos. já que durante cinco anos de relacionamento. enquanto Joana tentava ignorar os olhares curiosos de todas as pessoas presentes na capela.O que é que aconteceu. – O que é que se passa. . Com certeza devia saber. filho? – perguntou a mãe de Rafael pressentindo-lhe a cólera no olhar. . – Aonde é que ela está? – perguntou ele fora de si. eu não vim aqui para falar do pai! Eu vim falar com a Joana. – Pensei que tinhas dito que ias ficar preso numa reunião.Precisamos falar. . foi o que todos se perguntaram quando o viram a caminhar em direcção ao altar com uma expressão verdadeiramente aterradora. Beatriz!? Eu quero falar com ela agora – gritou ele assustando todos os presentes. – Amor! Tu por aqui – exclamou ela chegando ao altar acompanhada pela sogra e pela mãe. – Mas talvez seja melhor conversarem na sacristia ou noutro local.Tudo.Rafael!? – indagou Beatriz tentando acalmar o ímpeto do seu futuro genro. Silêncio foi a palavra de ordem.Tem calma! A Joana está na sacristia com a tua mãe. pois que o seu único objectivo era casar a Joana com um homem rico. até mesmo porque Rafael sempre fora um rapaz sensato.Então vá chamá-la! .Para quê?! .

– O gajo partiu-me a cabeça toda! 17 . . Perplexidade foi o sentimento geral.Não me toques – vociferou ele atirando-lhe o suporte de uma vela com o único intuito de a matar. Madalena e Alice não deixaram de trocar um olhar constrangedor. Joana abaixou-se a tempo e livrou-se de um dos maiores azares da sua vida. assim como os primeiros murmurinhos e a voz imperiosa do padre que comandou imediatamente a retirada de Rafael de um recinto que para ele ainda continuava a ser sagrado.Sinto nojo de ti – gritou ele com os olhos marejados de lágrimas.…acho que sim – respondeu Alice passando as mãos pela testa e deparando-se com uma mancha de sangue nos dedos. .Acabou! Acabou tudo! Já não vai haver porcaria de casamento nenhum… Fitas. já sei de tudo e nem adianta sequer inventares mais uma das tuas milagrosas desculpas porque o Eduardo confessou tudo quando eu o encostei à parede hoje à tarde.Rafael… . a vítima foi imediatamente socorrida. . tu só podes estar a brincar – respondeu Joana limpando as lágrimas e tentando retirar sobre si a vergonha de estar a ser publicamente humilhada pelo noivo. – Não podes estar a falar a sério! Não podes estar-me a fazer isso a vinte e quatro horas do nosso casamento… . . – Estás bem? – perguntou Madalena observando o ferimento na testa da melhor amiga.Estás nervoso! Não sabes o que dizes. mas por sorte. ele só estava a fazer todo aquele escândalo para tentar extravasar a vergonha sentida quando descobriu que durante cinco anos havia sido traído pela noiva e pelo melhor amigo. por favor… . Como não o conseguiu da primeira vez.A culpa foi tua – gritou Rafael calando-lhe os argumentos. – Só que o otário aqui abriu os olhos a tempo – concluiu Rafael não se deixando amolecer pelos olhos chorosos da sua noiva. – Porra – exclamou. – A culpa foi toda tua! Foste tu que estragaste tudo e agora não adianta fazeres esse ar de arrependida porque eu já não acredito em mais nenhuma palavra que venha de ti.Será que ainda não percebeste.Enquanto ouviam o discurso confuso daquele pobre rapaz. tudo foi totalmente destruído por Rafael e pela fúria que se apossou de si no interior daquela igreja.Rafael. . Depois disso. . Ele que sempre fez tudo para a fazer sorrir. – Pára com isso! . – É lixo! Tudo isto é lixo e não vai servir para mais nada.Estás a ver tudo isto – vociferou ele arrancando as fitas decorativas presas nos bancos da capela. Mas na verdade.Não me toques! . .dizia ela. Joana!? Será que ainda não percebeste que a tua máscara caiu diante desta gente toda? Eu já descobri a verdade. – Rafael.Rafael… . – E podem crer que não me vão arrancar nem mais um tostão.Pára – exclamou Joana tentando controlar-lhe os braços furiosos. – Pára com isso! . para a tornar na mulher mais feliz do mundo e aquela era a paga que recebia depois de lhe ter entregado o seu coração e a sua conta bancária de mão beijada. Um azar que consequentemente acertou em cheio na testa de Alice e a fez cair junto ao altar ainda sem saber o que realmente tinha acontecido. . desesperada.A culpa foi dele. velas e flores. tentou uma segunda. Como se enganou com Joana? Como se arrependia do dia em que a tinha conhecido e como queria nunca a ter pedido em casamento.

Foram precisos cerca de vinte minutos para que as portas automáticas das urgências se abrissem. – O que foi? – perguntou ele.Levaram-na agora lá para dentro – respondeu ela esgueirando o pescoço em direcção à enfermaria. – Ela já foi atendida? – perguntou Sérgio aproximando-se de Madalena quando finalmente conseguiu estacionar a carrinha no parque de estacionamento do hospital. mas ainda assim foi impossível para ela conter um riso abafado. Por sorte. – Não a queria magoar. – Quer dizer. e quando isso aconteceu. mas é que… . .Desculpe! Desculpe. Era só o que faltava depois de ter sido agredida.Sérgio – adiantou-se o fotógrafo lançando-lhe um olhar intenso. aceitar impávida e serena ao pedido de desculpas de duas crianças infantis e imaturas que não sabiam resolver os seus próprios problemas sem envolver pessoas estranhas e alheias ao caso.Eu posso ir com vocês – disse ele.Você é louco. Apesar dos vários pedidos de desculpa que recebeu dos noivos enquanto caminhava pelo corredor da igreja. – Confesso que nunca me tinha visto numa cena daquelas. A resposta de Sérgio não pretendia ser irónica. – E acho que tão cedo não a vou esquecer. – Não sou um especialista. mas também lhe foi informado que teria que preencher uma ficha de entrada antes que se pudesse efectuar qualquer tipo de tratamento a Alice.É melhor irmos para o hospital – interferiu o fotógrafo analisando-lhe o corte profundo na testa. Madalena tentou encontrar alguém que a pudesse ajudar a socorrer a melhor amiga. encontrou uma enfermeira. peço desculpas… . Vamos ao hospital tratar desse corte antes que se torne nalgo mais grave. humilhada e metida numa confusão que nem era sua. – Lá porque levou cornos da sua noiva. . O pior era a dor descomunal que estava a sentir na sua testa quando passou as mãos por ela e recebeu um lenço de Madalena para estancar o sangue que ainda lhe continuava a jorrar da cabeça e que se tornava cada vez mais intenso à medida que Sérgio conduzia a carrinha da floricultura em direcção ao hospital mais próximo.Bem… . . Alice manteve-se resoluta em não aceitar nenhum.riu-se ele timidamente. tem calma – pediu Madalena tentando acalmar-lhe a cólera. .Peço desculpas – disse Rafael mostrando-se envergonhado pelo seu acto. . A vela acertou mesmo em cheio.Muito menos a sua amiga que acabou por ficar com um galo na testa. isso não significa que também eu tenha que ficar com um alto na testa.Alice.. . mas acho que vai precisar de alguns pontos. . acho que estão demasiado nervosas para conduzir.Disse alguma piada? 18 . – Vamos embora! Vamos fazer o que… . é o que é – respondeu Alice levantando-se do altar com a ajuda da melhor amiga. .Tudo bem – concordou Madalena levando a melhor amiga nos braços. – Acho que foi levar pontos.Nem eu – respondeu Madalena lançando os olhos às paredes da sala de espera. por isso… . Madalena percebeu. . Mas o pior nem era isso.Sim! Vamos fazer o que o Sérgio disse.

aliás. . por favor. Ela entrou há pouco. . – Ou pelo menos hoje tornou-se. – Mas é que….O quê? .Tenho um estúdio de fotografia – respondeu Sérgio colocando o casaco sobre o colo. . . baixar o rosto e até virá-lo.Eu acho que é… – respondeu ele arrancando-lhe um sorriso. eu sei que não deveria estar a rir da desgraça alheia. .Acha que a sua amiga ainda se vai demorar muito? . Mas a verdade é que nada surtiu efeito. embora a loja tivesse pertencido à minha mãe antes de ela morrer. Sérgio sorriu e abanou a cabeça. E sim.k…! .Sim.Eu sei! Peço desculpas.O.Como assim?! . afinal de contas. – Ainda não sei o seu nome – disse ele. especialmente porque se trata da minha melhor amiga. claro que não – respondeu Madalena tentando controlar os risos cada vez mais intensos. mas o que você disse teve piada. o que é que faz? .Sou dona de uma floricultura – respondeu Madalena sentindo-se completamente perdida quando ele sorriu novamente para si.Madalena Soares – respondeu ela compondo os cabelos quando o seu olhar se cruzou novamente com o dele no meio daquela sala tão grandiosa.Mas se precisar ir embora.Não sei. encabulada. .Deve ser uma profissão interessante – murmurou Madalena tentando fugir àqueles olhos verdes tão lancinantes.Ai é?! . sinta-se à vontade… – concluiu Madalena ao perceber que muito provavelmente já havia abusado da boa vontade daquele fotógrafo desconhecido. – Está a ser má para a sua amiga.Não. .E você? Para além de aparecer em casamentos recheada de flores. . . eu e a minha amiga somos sócias. . Levar a mão à boca.Digamos que a minha vida é recheada de flores. esses foram alguns dos estratagemas utilizados por ela para se conseguir controlar.A sua profissão é que deve ser interessante. . estava a trabalhar quando… .Vender flores.Concordo. sabia?! .Eu trabalho por conta própria. Um novo silêncio irrompeu a sala. – Quer dizer.É fotógrafo profissional!? .Hã… nem tanto – riu-se Madalena. 19 . . Não tem nada de interessante. – Eu sei que eu e a minha amiga já tomámos muito do seu tempo e que com certeza você deve ter alguma coisa para fazer. mas desta vez foi completamente impossível para Sérgio resistir aos risos abafados de Madalena. – É igual às outras. . ..Tem a certeza? – perguntou Sérgio fulminando-a com aqueles malditos olhos verdes. A única coisa que fez foi aumentar ainda mais o fascínio que Sérgio sentiu por ela logo no primeiro minuto em que a viu. E a cena também! Ao olhá-la mais uma vez.

. Sérgio era realmente divertido e sedutor.Como é que te sentes? .Que é isso. – Ela não tem filhos e muito menos netos – afirmou Madalena voltando-se para Sérgio ainda com o casaco nas mãos. e para encontrar todas essas características. não acha!? – concluiu ele. e por ela. – Se fosse assim tão desinteressante não estaríamos aqui neste hospital.Quem sabe um dia não venha a cobrar esse favor.Sim. talvez por o sol já se ter posto. não é?! – respondeu Madalena deixando-se mergulhar pelo olhar que Sérgio lhe lançou. Talvez fossem os olhos verdes.Confesso que estava a fazer de tudo para não cometer nenhuma. A resposta do fotógrafo não poderia ter sido mais insultuosa e isso ficou provado pelo olhar fulminante que Alice lhe lançou do interior do carro. – Então?! – perguntou Madalena saltando da cadeira quando Alice surgiu na sala de espera com a cabeça totalmente enfaixada. Com a cabeça encostada ao ombro da melhor amiga. Madalena não precisou de muito tempo e nem de muito esforço. Raios. tal como a sua. porque é que foi ela a única escolhida para receber aquela valente pancada? . Nessa altura. . o nariz esculpido. Meia hora foi o tempo que as enfermeiras precisaram para suturar os ferimentos na testa de Alice. .Dói-me tudo até o último fio de cabelo! Só quero ir para casa antes que pense em cometer suicídio… As portas automáticas das urgências abriram-se novamente. . Sim. mas também possuía qualquer coisa que a intrigava a deixava quase sem fôlego. Porque de todas as pessoas presentes naquela maldita igreja. . – Digamos que essa foi a sua única gafe para connosco. – Foi um verdadeiro cavalheiro ao contrário do estupor que me atirou a vela. – Bem.Não precisam de mais nada? – perguntou Sérgio quando chegaram à carrinha. Madalena e Sérgio no mais absoluto silêncio.Eu também acho – respondeu Sérgio arrancando-lhe um outro sorriso tão ou mais encantador que o primeiro. 20 . – Já está tudo? . obrigada mais uma vez! Ficamos-lhe a dever uma… . . ou talvez fossem as três coisas misturadas numa só. e quando ela finalmente se viu livre daquela tarefa tão desagradável. a barba aparada. o verde-esmeralda deu lugar a um verde acinzentado e isso só deixou os olhos dele mais lindos do que naturalmente eram. mas realmente havia qualquer coisa que não a fazia tirar os olhos dele. – Tem razão – concordou ela após um longo minuto de silêncio. – A minha profissão é realmente muito interessante.Silêncio foi a resposta dela. . saíram Alice.Não faz mal – riram-se baixinho. – Acredite que já fez muito por nós.Obrigada por tudo – interferiu Alice mal conseguindo manter os olhos abertos.Ninguém é perfeito.Hã… peço desculpas! Eu não quis … . o médico de serviço receitou-lhe alguns antibióticos para que as dores e o inchaço diminuíssem em poucas horas. . Ele era tudo isso e muito mais.Digamos que fica com uma história para contar aos seus netos. .Não – respondeu Madalena ajudando Alice a entrar no carro. Alice desejou encontrar a sua cama quando regressasse a casa e desejou também esquecer todos os azares que lhe haviam acontecido durante o dia.

Mar de Rosas. loja 132 F. Avenida de Roma. 21 .Sinta-se à vontade para fazê-lo – respondeu Madalena não tardando muito a enfiar-se no interior da carrinha sob o olhar atento de Sérgio.. foi o que o fotógrafo leu quando o veículo desapareceu do parque de estacionamento levando consigo uma das mulheres mais bonitas e interessantes que lhe haviam atravessado caminho até à data.

Tens tanta lata.Sim! Deixas-nos ir? . – A Sara e o Daniel também são os meus filhos. um apelido carinhoso que Madalena encontrou para caracterizar a nova namorada do ex. enquanto esperava por eles.A Marrocos?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. não queiras ser irónica porque isso não faz minimamente o teu estilo. – O pai quer levar-nos a Marrocos… – saltou essa frase no meio de uma conversa amena que Daniel estava a ter com a mãe. marido.Será que eu ouvi bem aquilo que o Daniel disse ou provavelmente devo ter batido a cabeça nalgum móvel aqui na cozinha?! .Vocês só podem estar a gozar comigo.CAPÍTULO II O telefone tocou ao fim de quarenta e oito horas de um silêncio ensurdecedor. Daniel era o mais animado de todos e foi também aquele que mais falou sobre os banhos de piscina. É mesmo aqui ao pé e vamos de barco. . .Por que raios queres levar os meus filhos para Marrocos? .Mas não tinha ficado combinado que as férias iriam ser até ao Algarve? . .Lena. Ele está aí ao pé? . os passeios pela vila e os presentes que a cada duas horas recebia do pai e de Vanessa loira burra. não?! – afirmou Madalena passeando pela cozinha completamente esbaforida. . . . sinceramente não percebo qual é o problema de irmos todos a Marrocos. mulher. Eram eles. E essa realidade era a de que ela não queria passar mais nenhum dia estritamente necessário para voltar a estar com os filhos.Está. 22 . muitas foram as vezes que Madalena tentou controlar a voz embargada e as lágrimas de desespero por se ver tantos dias longe dos filhos. mas ainda assim. – Daniel! Passa-me o telefone ao teu pai.O pai disse que havia uma promoção bué fixe na agência de viagens e que podíamos prolongar as férias por mais alguns dias. Sara e Daniel. e ao saber bem quem era.Nossos filhos – corrigiu Jorge refugiando-se na varanda do hotel para que ninguém ouvisse mais uma discussão com a ex. – Sim – respondeu voz de Jorge com um longo suspiro. Enquanto lhes ouvia as peripécias dos primeiros dias de férias no Algarve.Então passa-lhe o telefone agora! Aqueles foram os cinco segundos mais longos de toda a sua vida. lembraste?! . marido e tentar trazer-lhe à realidade.Lena. Madalena largou a chávena de chá sobre a bancada da cozinha desejando ouvir as vozes das duas pessoas mais importantes da sua vida. Madalena não desistiu dos intentos em falar com o ex. .

Antes do final do mês.. Jorge. Que mal é que tem? São só mais duas semanas. .Pois eu falei com os nossos filhos e eles mostraram-se muito contentes com a ideia de conhecer Marrocos.O que foi!? Não me digas que discutiram outra vez? 23 .…e quando é que voltavam de Marrocos? . . não é? Já é um assunto tão resolvido com a tua querida namorada mais inteligente que uma porta que nem sequer te interessa a minha permissão… . Vá lá! Tu sabes que a Sara e o Daniel iriam adorar… Silêncio foi a resposta de Madalena enquanto ela meditava acerca de proposta do ex. Ninguém vai morrer por causa disso. mulher. já percebi – riu-se Jorge secamente.Hã. se as crianças voltassem a Lisboa.Exactamente – respondeu Madalena levando a mão à cintura. . – Tu nem penses que eu… . . .Só por cima do meu cadáver. Idiota. – Então!? O coronel dá-nos licença para abandonarmos o país sem sermos perseguidos na fronteira? .Estás a ver?! Estás a ver como é que falas comigo quando eu… O discurso de Jorge até poderia ter continuado não fosse o ímpeto de Madalena em desligar o telefone e atirá-lo contra o lava-loiça enquanto o seu queixo tremia de raiva e os seus braços se cruzavam numa tentativa desesperada de não partirem qualquer objecto no interior daquela cozinha. eu só estou a pedir para que sejas razoável.Vamos?! Quer dizer. . Aposto que te ia fazer muito bem. o que é que iriam fazer para além de ficarem sentados em frente à televisão enquanto tu vais cuidar das tuas flores!? . – Lena. Além disso.Eu?! – indagou Madalena levando a mão ao peito. conhecer novas pessoas. Aproveita para sair. – Mas pensa bem no que te estou a dizer. Conhecer Marrocos é uma oportunidade única que nem todas as crianças conseguem ter. devias aproveitar essas férias para incrementar a tua vida social e esquecer um pouco o papel de mãe galinha. .Sim! Tu. Jorge!? . É como te disse! São só mais duas semanas.O Jorge.Não sejas ridículo.Hã… és tu. a minha opinião não importa para nada.Hei! Olha que assim me assustas – disse-lhe uma voz suave no outro lado da linha.Cuidado! Olha que milagres acontecem – respondeu Jorge tentando espicaçar a ex. Além disso.Desculpa – riu-se Jorge. .Impressionante como não perdes uma oportunidade para menosprezar o meu trabalho. Não suportas a ideia de estarmos todos a divertir-nos enquanto estás aí a secar em Lisboa.E se fosses à merda. marido. . . pai! Desculpa. – Ainda há pouco estava a falar com ele e nem vais acreditar… . Só pode ser ele outra vez. foi o primeiro nome que lhe apeteceu chamar. eu pensei que fosse o… .Estás a morrer de ciúmes. nem mesmo tu. embora o telefone tivesse interrompido os seus pensamentos a tempo. .Percebeste o quê? .

Afonso era o seu porto seguro. . . . – Mas eu sinto que a Sara guarda rancores.Na altura. o divórcio e a sensação de que me tinha que focar nos meus filhos para não os traumatizar. – Apenas perguntei porque me preocupo contigo.E achas que só te telefono quando preciso de alguma coisa? . .Quando ela morreu eu pensei seriamente em levar o meu pai lá para casa – confessou Madalena. .Quem sabe um dia quando os ponteiros do relógio começarem a girar ao contrário. Desde que nasceu.. O único abalo sofrido na relação de ambos aconteceu aquando da morte da sua mãe e do tremendo sofrimento pelo qual o pai foi obrigado a vivenciar durante meses a fio.Porque não?! . Leonor Soares era sem sombra de dúvidas o pilar que sempre sustentou a família. . talvez… – respondeu Madalena deixando a caneta cair-lhe das mãos.Isso é porque ela não sabe o verdadeiro sacana que o pai dela é! Devias contar a verdade. .Eu sei.Bem! Infelizmente não me aconteceu nada de emocionante nas últimas duas semanas. terias que ser inventada. De facto.Eu até acho que os teus filhos reagiram bem à tua separação com o Jorge. minha cara – respondeu Alice levantando-se da secretária quando pressentiu a entrada de mais um cliente na loja.Aí é que te enganas. ou se pelo contrário. especialmente de mim. Madalena não deixou de se perguntar se o mundo de facto necessitava de outras pessoas iguais a si. . tudo o que ele lhe ofereceu foi amor sem cobranças. . a única pessoa com quem podia contar incondicionalmente e também o único homem que nunca teve coragem de a decepcionar em toda a sua vida. Achas isto normal? . às vezes acho que se tu não existisses. .E porque é que não levaste? – perguntou Alice evidenciando fisicamente que ainda não se havia recuperado da pancada que sofrera na cabeça quatro dias antes. as bases estremeceram.É. – Já vi que são iguaizinhas. . mas já te disse que não precisas preocupar-te. o meu casamento estava insuportável! Depois veio a separação.Sabes.A mesma frase da tua mãe – riu-se Afonso Soares quando se recordou de uma das muitas citações da sua falecida esposa.Um clone meu era tudo o que o planeta terra não precisava! .Porque não tenho o direito de destruir a imagem que ela tem do pai.Não posso fazer uma coisa dessas.Claro que não – respondeu Madalena encostando-se à bancada.Quase! Descobri que ele quer levar os meus filhos a Marrocos.E tu? Como é que tens andado? . mas cá me vou aguentando. e sem ela. Enquanto a melhor amiga atendia um dos inúmeros clientes que habitualmente passavam pela loja. . Ainda continuo rijo como um pêro! A voz do pai trouxe algum conforto a Madalena e isso ficou provado pelas inúmeras risadas que ela soltou enquanto falava com ele pelo telefone.Precisas de alguma coisa? . se mais exemplares seus apenas estragariam um 24 . sem restrições e também a infância que todas as crianças desejavam ter. . .Será que não há maneira de vocês se entenderem? Pelo menos pelo bem dos vossos filhos. – De mais pessoas como tu é que o mundo precisava. .

Quer dizer. já que os seus antibióticos contra as dores tinham terminado sem qualquer aviso prévio.Claro – respondeu Madalena levando-o em direcção à bancada onde estavam depositados os melhores arranjos da loja. . luz e um encanto fora do normal. marido razão? Será que ela estava realmente a morrer de inveja da felicidade alheia? Ao tentar responder essa pergunta pela vigésima vez. . O fotógrafo. . . – Queria comprar flores para uma pessoa especial.Não. – Queres que te traga alguma coisa da rua? – perguntou ela alcançando o casaco no bengaleiro junto à porta. eu não sou casado – riu-se Sérgio. 25 . Meu Deus. Alice interrompeu-lhe os pensamentos e informou que iria aproveitar a hora de almoço para passar pela farmácia. mas acho que você me pode ajudar. Talvez nem fizesse aos filhos já que eles preferiam uma estúpida viagem a Marrocos do que estar consigo. .Não sei bem! Na verdade. . Para isso. Raios. A porta voltou a fechar-se com algum estrondo. esse acontecimento entrou pela floricultura adentro trazendo consigo um perfume que rapidamente se entranhou em todos os cantos da loja. não percebo muito desse assunto. – E as flores são para uma amiga. .Espero não ter vindo numa má hora.Até já. mas eu gostaria que fosse.Claro que não – respondeu Madalena desfazendo-se dos óculos de leitura.Que tipo de flores? . ela muniu-se de uma calculadora. dos seus óculos de leitura e também do silêncio que se apoderou da loja enquanto a pouco e pouco as unhas roídas evidenciavam que a hora de almoço estava a passar sem qualquer acontecimento importante. não precisas preocupar-te – respondeu Madalena analisando a tabela dos fornecedores no seu computador.…olá.Então este é que é o “ Mar de Rosas” – murmurou Sérgio lançando os olhos àquele espaço repleto de flores. – Bem. – Quando voltares eu como qualquer coisa ali no café da esquina.planeta já por si mesmo estragado.Não. Na verdade. – Mas que coincidência vê-lo por aqui! Eu… . Era ele. – Confesso que é exactamente como eu imaginei que era.Hã… sim – respondeu ele aproximando-se lentamente dela. mas nem isso retirou a concentração de Madalena em frente ao computador pois era urgente terminar a tabela dos fornecedores e também os preços dos novos produtos da floricultura. . . à sua namorada ou até mesmo à sua esposa… . Teria o ex. seria muita presunção sua pensar que fazia falta a quem quer que fosse.Veio comprar alguma coisa? – saltou essa pergunta estúpida dos lábios de Madalena. gostaria de saber se pretende oferecer flores a algum familiar.Está bem então! Vemo-nos daqui a uma hora. Como é que a descobriu ali? .Olá – disse Sérgio Almeida retirando as mãos dos bolsos assim que ela se levantou da secretária surpresa por o ver ali. ela ainda não é bem uma amiga. Mas quando o relógio marcou treze horas e vinte e cinco minutos. . se não for muita indiscrição minha perguntar.

Já almoçou? . Porque não!? . excitação e novidade. . embora tente não demonstrar essa qualidade logo à primeira. pela discrição que me ofereceu. Quer dizer.Então eu convido-a para almoçar comigo – respondeu Sérgio parando-lhe o movimento das mãos com aquele convite tão inesperado.Hum! Acho que ainda continuo um pouco indeciso.Bem… na verdade não a conheço muito bem. Tudo nele gritava perigo. pois cada minuto que passava ao lado de Sérgio era uma eternidade difícil de aguentar. Parece ser doce também. que é quase impossível resisti-los. ele atreveu-se a perguntar: . e tem um sorriso absolutamente esmagador… . parece-me que você quer que ela seja muito mais do que uma amiga. Hum! Vejamos o que mais!? É simpática. especialmente com pessoas que não conhece. Mas será que valia a pena 26 .Fui assim tão indiscreto? . . você vai almoçar nalgum restaurante aqui perto? . . é que… . mas tanto.Um pouco – respondeu Madalena mostrando-lhe um vaso de orquídeas. .Claro! Então diga-me quais são as características dessa sua amiga.E… quando ela vier.Por falar nisso. – Tome! Estas são as flores ideais para essa mulher. Não quero errar na escolha. A proposta não poderia ser mais tentadora. e enquanto elas trabalhavam à velocidade da luz. . – Ela está bem agora.Então nesse caso sugiro estas tulipas brancas.A sério?! . claro. os olhos dela brilham tanto.Ou se não gostar de tulipas.Almoçar consigo? .Tem um café ali na esquina. fascinante e com uma personalidade vincada. – Estou à espera que a minha amiga chegue da hora de almoço dela. mas acho que ela é uma mulher forte. mas devo estar despachado em menos de uma hora. São perfeitas para demonstrar respeito e afectividade a quem quer que seja. percebe?! . . da pessoa que você quer que se torne sua amiga… . como é que ela está depois da pancada que levou na cabeça? .Bem. As mãos experientes de Madalena conseguiram fazer um embrulho perfeito para o vaso de orquídeas que Sérgio escolheu sob sua orientação.Eu ainda tenho que fazer umas compras de um material fotográfico aqui por perto. O que é que me diz? Um almoço e escolhe você o restaurante. . mas Madalena sabia que se aceitasse aquela proposta irrecusável nada mais seria como antes. .Um sorriso esmagador – murmurou Madalena sabendo perfeitamente que esse sorriso era o seu.Não – respondeu Madalena rasgando-lhe um sorriso. assim como o sorriso que ele lhe ofereceu em seguida..Sim! Quando ela sorri.O galo desceu – riram-se os dois.Bem. posso também mostrar-lhe estas orquídeas. .Se o diz. sou obrigado a concordar. Como não estou com muita fome apenas vou comer uma sandes ou algo assim.Sim. .

Chama-se “Luminosa” e as portas são de madeira. . . . – Obrigada. tenho a certeza que irá querer ser. . seguiu-se uma caminhada interminável pela avenida e a certeza que a sua pressa para almoçar prendia-se com tudo menos com a fome que disse estar a sentir à melhor amiga.É claro que ela não se enganou – respondeu Madalena recebendo o arranjo com um doce sorriso.Então está bem! Encontramo-nos daqui a uma hora no restaurante no final desta avenida.Não faz mal! Eu também não. e para ajudar à festa. . e ela pôde ter essa certeza quando o viu instalado numa mesa próxima à janela.Acho que já sei qual é. – Até logo – foram as últimas palavras de Madalena antes de abandonar a floricultura a uma velocidade fantasmagórica e atravessar a rua sem sequer olhar para trás.O único problema é que não me posso demorar muito.Ela ainda não é minha amiga. – Posso escolher o restaurante? . .Tome! São para si – disse Sérgio entregando-lhe o ramo de orquídeas assim que ela se sentou à mesa. . Tal como o esperado. os sessenta minutos seguintes passaram lentamente.Não. Será que Sérgio já se encontrava no interior do restaurante? Será que ele tinha sido pontual e cavalheiro o suficiente para não a deixar à espera? Claro que sim. .Ainda bem.É bom saber isso.Claro! Normalmente não costumo voltar atrás quando dou a minha palavra. claro que não! Coisas relacionadas com o trabalho. – A dona da floricultura disse-me que essas eram as flores ideais para oferecer a uma amiga especial e eu confiei nela! Espero que não se tenha enganado. Madalena acompanhou o seu único cliente em direcção à porta desejando que os próximos sessenta minutos passassem o mais depressa possível.Não tem de quê! Bem… quer beber alguma coisa? 27 . .Depois destas flores.Estava a combinar fazer uma sessão fotográfica com uma modelo e ela telefonou-me para saber se a sessão ainda continuava de pé. . .enfrentar todos esses perigos? Diante de mais um sorriso que ele lhe ofereceu.Daqui a uma hora – respondeu ela mantendo a porta entreaberta.Obrigado pela ajuda! Sem si não saberia como escolher as flores. ela teve a certeza que sim. . – Espero não ter interrompido nenhuma conversa importante – disse ela quando Sérgio desligou a chamada e poisou o telemóvel sobre a mesa. algo que foi imediatamente correspondido. O olhar perdido enquanto falava ao telemóvel ainda a fizeram hesitar em aproximar-se. . .E continua? . lembra-se?! . Sem mais palavras para lhe dizer e depois de ter aceitado o pagamento das flores.Tenho a certeza que a sua amiga irá gostar muitíssimo delas. Depois disso. . .Claro que sim – respondeu Sérgio recebendo-lhe o embrulho de orquídeas das mãos. mas quando os seus olhares se cruzaram. mais uma vez Alice atrasou-me. Madalena sentiu que não havia outra escapatória a não ser caminhar em direcção à mesa e forçar-lhe um pequeno sorriso. – Encontramo-nos daqui a uma hora então – ele disse.

não?! . Eram as flores que ela mais gostava. ela caiu no sofá como uma pluma deixando para trás a mala. ele tem cinquenta e a minha amiga. Foi também a primeira vez que Madalena se sentiu absolutamente à vontade na companhia de um homem do qual não sabia muito mais que o nome ou a profissão.Obrigada pelo elogio – riram-se os dois.Pouco original da minha parte. Madalena regressou a casa com um sorriso nos lábios e nem sequer se importou com o facto de não ter os filhos consigo. . a Alice… . e enquanto conversava com ele e se deixava perder pela sua sensualidade casual. – Tem um significado especial porque pertenceu à minha mãe e é uma das poucas lembranças que ainda tenho dela. É quase como se fosse uma sociedade. Impressionante também era o facto de saber que em menos de vinte e quatro horas todo o peso que sentia sobre os ombros desapareceu sem deixar rastro deixando apenas uma estranha sensação de doçura nos lábios. .Um sumo de manga. . O almoço entre os dois desconhecidos revelou-se mais agradável do que se poderia esperar quando a refeição foi trazida à mesa por um dos empregados do restaurante e a conversa amena os embalou durante vários minutos.Então com certeza não existia há tantos anos assim. Quase quarenta e cinco.E você ficou à frente do negócio? . a floricultura era da minha mãe e já existia há muitos anos. .Então eu também vou tomar o mesmo. . mas sou eu quem dirige aquilo tudo. . – Mas a loja tem realmente muitos anos. . – Digame… .Sim. e pela primeira vez também desde há anos. Foi a sua mãe que escolheu? . por favor. – Ela tem cinco por cento. . a loja está no nome do meu pai.Exactamente – riram-se novamente.Sim. Impressionante como se estava a sentir tão bem.Digamos que sim.Na verdade. “ Um mar de Rosas”.Morreu?! .pediu Sérgio. .…muitas – respondeu Madalena deixando-se encantar por aquela conversa tão amena e agradável. eu acho que é! Pelo menos para mim – respondeu Madalena compondo os cabelos soltos. – Mas talvez orquídeas. até mesmo antes de eu nascer … . os ponteiros do relógio pararam no tempo.. pensou. Pela primeira vez desde há anos. Tão livre e ciente de que a vida lhe tinha voltado a sorrir após tantas tristezas.A que ficou com um galo na testa. Seria normal sentir-se assim só por causa de um almoço informal com um fotógrafo do qual não conhecia muito mais que o nome? 28 . Há seis anos atrás.Confesso que fiquei encantado com o local e também com o nome.Já estava à espera dessa resposta – disse Sérgio forçando um sorriso.Sim. Eu tenho quarenta e cinco por cento. os sapatos e o casaco de malha. eu sei.E você?! Quais são as flores que mais gosta? . – Há quanto tempo tem a sua floricultura? .Deve ser uma autêntica mina de ouro. Quer dizer. .

E existe algum alimento melhor? .Não brinques com coisas sérias – afirmou Madalena colocando as compras do supermercado em dois grandes sacos.Não precisavas preocupar-te com isso! Já te disse que me arranjo. .Só tenho sessenta e oito e tratas-me como se já tivesse passado dos oitenta.Estou-me a alimentar muito bem se queres que te diga – respondeu Afonso acendendo um cigarro junto à janela.Ai não?! Pois deixa-me que te diga que se fosse só por causa do teu querido ex. – Por falar nos miúdos. – Já te disse várias vezes que devias deixar de fumar. . realmente a minha estadia na esquadra foi apenas uma imaginação da minha cabeça.Também não foi assim. . – Comprei-te algumas coisas – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico quando o pai a visitou a poucas horas do seu encontro com Sérgio Almeida. – Claro que tem defeitos.Não. mas talvez o jantar que tinha combinado com Sérgio no Sábado seguinte fosse a razão primordial para aquela alegria tão espontânea. Na verdade. está bem – riu-se Afonso enquanto levava o cigarro à boca.Estou-te a achar muito magro! Tens a certeza que te estás a alimentar como deve ser? . . e se queres que te diga. . .Estão bem.Fizeste bem em deixá-los ir com o Jorge. .Impressão minha ou tu ainda continuas a adorar o Jorge apesar de saberes que ele é um idiota de todo o tamanho?! . tu só podes ter bebido antes de cá vir – afirmou Madalena fechando as alças dos sacos de compras. genro.De cigarros já estou a ver.O quê?! .Sim. mas quem não tem. não é?! . . eu acho! Falei com eles ontem à noite e ainda estavam no Algarve.Tu sabes que eu não bebo a não ser em ocasiões especiais. . .Está bem. não precisou de muitos rodeios até porque Afonso era o seu grande conselheiro e também uma das poucas pessoas a quem se sentia 29 . É por isso que não tenho queixas dele. muito pelo contrário! Eu trato-te como trato o Daniel porque psicologicamente ainda nem chegaste aos dez. Uma risada foi a resposta de Madalena.É! Quem não tem – disse Madalena num tom debochado. de facto não era.Só que ele sempre foi prestativo para mim e para a tua mãe e também sempre foi um bom genro. como é que eles estão lá de férias com o pai? . . .Não. .Sinceramente não sei – respondeu Madalena fechando a porta do frigorífico com força. . por mim vocês ainda continuavam casados.O Jorge é uma boa pessoa – afirmou Afonso cerrando os olhos quando o fumo do tabaco lhe atravessou os olhos. Só na segunda-feira é que vão para Marrocos. .Não. . especialmente por causa da tua idade.Acho que foste demasiado precipitada em pedir o divórcio.Afinal de contas eles também precisam do pai. e depois disso ela sentiu-se tentada a revelar algo muito importante ao pai. . – Ponho-te tudo num saco para levares. a uma altura dessas a tua filha ainda estaria presa por um crime cometido por ele. .Ele não é um idiota! .

Homem!? Que homem? .Claro.Por isso. Dos antigos móveis comprados pelo ex. . – Tens aqui um belo património – confessou Sérgio enterrando as mãos nos bolsos das calças. – Olá! . . Nele encontrava-se uma fotografia de Sara e Daniel.totalmente segura para contar todos os segredos que rodeavam a sua vida. Sérgio aceitou o convite com um sorriso e não tardou a chegar à sala onde a arrumação.Ainda não sei! Ele ficou de escolher o restaurante. Ao olhar-se no espelho da casa de banho depois de escolhido um dos primeiros vestidos que lhe passou pelas mãos. cintado e perfeito para uma mulher que não saía para jantar fora há pelo menos seis meses.Com a Alice? . branco. Trajado com umas simples calças de ganga e uma camisola preta. Foi nessa altura que a campainha tocou e lhe provocou um pequeno sobressalto. . Ele chegou e já não havia mais nada a fazer a não ser abrir a porta e permitir-lhe a entrada. os tapetes e cortinados claros eram a palavra de ordem na nova decoração que Madalena fez questão de produzir após o seu divórcio.É uma história comprida que talvez um dia te venha a contar. uma simplicidade bastante apreciada por Madalena.Olá – respondeu ele desarmando-a com o seu sorriso. . E sim. – Sabes de uma coisa?! . . 30 . – Com um homem. os cabelos e a maquilhagem primaram pela simplicidade.Vou tentar.Claro que não – respondeu Madalena fulminando o pai com os olhos.E aonde é que vai ser esse tal grande jantar? . tudo o que o Jorge não é e nem nunca foi. os móveis sofisticados. . marido não restou absolutamente nada ou qualquer réstia da sua presença. Mas por agora a única coisa que precisas saber é que vou jantar fora com uma pessoa muito simpática e interessante.Hum! Não estou a gostar nem um pouco dessa história.Dás-me licença? . De resto. Chegou.Estes são os teus filhos? – perguntou ele alcançando um porta-retratos sobre a mesinha.Entra – disse ela. no decote do vestido e ela sentiu-se pronta a encarar o rosto de Sérgio Almeida. Um novo retoque nos cabelos. assim como os brincos que fez questão de colocar à frente do espelho do corredor. Sérgio exalava uma simplicidade fora do normal. . Por isso. Madalena chegou à conclusão que aquela realmente não era a melhor opção para si e nem para a noite que prometia ser bastante especial tendo em conta a sua companhia. . minha menina – afirmou Afonso puxando-lhe o nariz tal como fazia quando ela era pequena. sem hesitações.O quê? . aqui tens a tuas compras da semana! Leva-as e deixa-me preparar para o meu grande jantar.Vê lá o que é que fazes. ela voltou a abrir as portas do roupeiro e encontrou um novo vestido. . – Juízo! .Obrigada. De resto. .Hoje tenho um jantar.

Não tanto quanto gostaria.E vocês vêem-se com muita frequência? . ele tudo queria saber. aliás. . O restaurante escolhido por Sérgio era simples. filhos não teve. nunca fora casado. . e dele. mas o problema é ser demasiado apegado às lembranças do passado.É claro que é um elogio – riram-se os dois. mas a verdade é que nem o barulho das pessoas.Só fomos obrigados a separarmo-nos quando eu vim para Lisboa fazer o curso de fotografia. casual e encontrava-se situado numa das ruas mais movimentadas da cidade. muito simples.Claro! Vamos.Eu?! . fujo para lá e passo os dias a pescar com o meu avô. e ele até tem dinheiro para comprar uma melhor. e passava a maior parte dos dias enfiado no estúdio de fotografia que abrira com a ajuda de um amigo muito especial. que submersos numa conversa amena. – Talvez seja melhor irmos andando antes que se faça mais tarde – disse ela tentando esconder o nervosismo. 31 . No seu interior.São bastante parecidos contigo. . A resposta de Sérgio trouxe um novo olhar e também um sorriso que Madalena fez questão de lhe oferecer enquanto se perdia na magnitude daquele momento.Sim.Obrigada! Quer dizer. – Sempre que me sinto cansado do trabalho e quero descansar um pouco. mas sempre que tenho algum tempo faço questão de aparecer por lá – respondeu Sérgio poisando os braços sobre a mesa após o término do jantar. . especialmente às lembranças da minha avó e da minha mãe.Bem. continuaram a degustar a refeição escolhida e o vinho especialmente indicado por um dos empregados do restaurante. .Sim! Porque não? . .Tenho a certeza que irias gostar da vila – afirmou Sérgio não se deixando distrair por mais nada naquele restaurante a não ser pelo sorriso dela.. Para além disso. era órfão desde os dois anos e o único familiar vivo que lhe restava era um avô que morava no Alentejo e que ele fazia questão de visitar sempre que podia. Diz que jamais seria capaz de sair de uma casa onde a mulher deu à luz a filha. havia uma quantidade exorbitante de clientes.Parece ser um programa interessante. – Fico feliz por saber que o teu avô cuidou de ti durante esse tempo todo – confessou Madalena poisando o guardanapo sobre o colo. . partindo do pressuposto que seja um elogio… . – É realmente muito querido da parte dele. . ela fez questão de dissecar todos os detalhes.Quem sabe um dia não te levo lá. da televisão ou das cadeiras a arrastar conseguiram desviar a atenção de Madalena e Sérgio. Dela. Soube que ele morava num pequeno apartamento nos arredores de Lisboa. ou pelo menos nenhum que soubesse.Uau – exclamou Madalena compondo os cabelos no meio de um sorriso. . confesso que me apanhaste de surpresa. – Ele mora numa pequena casinha toda pintada de azul e branco. É uma casa simples. .

. o relógio assinalou vinte e três horas e quarenta e cinco minutos. essa foi a melhor notícia da noite – disse ele arrancando-lhe uma gargalhada ruidosa.E… se não for muita indiscrição minha perguntar… és casada? A pergunta de Sérgio não a tomou de assalto e tudo porque Madalena já esperava que mais cedo ou mais tarde ele a fosse fazer.Um casal! Perfeito – sorriu Sérgio levando a mão ao queixo. o seu único desejo era que ela se prolongasse por mais algumas horas. . – Entregue – disse Sérgio quando Madalena abriu o portão de casa.Ela morreu do quê?! – perguntou Sérgio com alguma cautela. Acho que não conseguiria imaginar a minha vida sem ele. era só uma questão de tempo e sentido de oportunidade e ele soube aproveitar essa oportunidade na perfeição. Nessa altura.Como é que se chamam? . – Foi a pior fase da minha vida. a noite tinha sido maravilhosa em todos os aspectos.. Deu tempo para que se conhecessem. – Mas pelo menos ainda me resta o meu pai. Na verdade.Eu gostaria muito de conhecer o teu avô.A mais velha chama-se Sara e tem quinze anos e o rapaz chama-se Daniel e tem dez. .Eu também – respondeu Madalena tentando esconder a tristeza que lhe assombrou o rosto.Uff – suspirou Madalena largando os ombros. e pela primeira vez desde há muito. obrigada por tudo. até por ser filha única e essas coisas todas. o tempo propício para que a noite pudesse ser encerrada e para que ela absorvesse as luzes da cidade que teimavam em invadir-lhes o carro. . – Sou mesmo! Confesso que sempre fui muito mimada pelos meus pais.…vamos para o quintal e assamos o nosso jantar. . Nesse aspecto tive muita sorte.Óptimo! A seguir ao golo que o Benfica marcou há bocado. não?! . . Sim. cheia de energia.Tens ar de menina do papá.Eu também acho. mas ele sempre me deu todo o carinho do mundo. .Sinto muito. Ele parece ser igual ao meu pai.E os teus filhos.O meu pai também é o meu melhor amigo. especialmente pelo meu pai. ninguém estava à espera que aquilo acontecesse. . .Espero que tenhas gostado do jantar. 32 . foi repentino.Sim. Foi com uma música bem conhecida a tocar no rádio que Sérgio levou Madalena a casa. para que conversassem sobre assuntos triviais e também para que ela se sentisse suficientemente confortável para tocar naquele assunto tão delicado e pessoal. De facto. . . mas… tal como te disse.A sério?! .Deve ter sido muito difícil quando a tua mãe morreu. . até porque ela sempre foi uma mulher saudável.Teve um ataque cardíaco repentino.E sou – riu-se ela alegremente. . . …não! Sou divorciada. . De facto.Obrigada! Aliás.Podes acreditar que é! E quando voltamos da pescaria com… um peixe e meio nos baldes… – Madalena não resistiu a soltar uma ruidosa gargalhada. . os meus filhos também. . não é?! . .

Um jantar. . descompassado e tudo por causa de Sérgio que sem querer acabou por o trazer de volta à vida. Ele que estava a bater acelerado.Sair para onde? .Pode – respondeu Madalena sentindo-se como uma verdadeira adolescente quando ele se debruçou e a beijou na face.Dançar?! . Ao vê-lo a desaparecer pelos portões e a enfiar-se no carro estacionado a poucos metros da sua casa. isto para não falar das inúmeras vezes que lançou os olhos ao telemóvel ansiando uma mensagem de texto ou até mesmo um toque que lhe trouxesse um sinal da existência do fotógrafo. . Pode ser?! . deixava o aparelho sobre a caixa de velocidades e quase tinha acidentes quando os seus olhos saíam da estrada. . .…podemos repetir um dia destes? .Para dançar – respondeu ele. . Na floricultura. Mas teriam os seus planos algum tipo de fundamento? Ao ouvir o telemóvel tocar no bolso do casaco e mais tarde o nome da pessoa que a estava a telefonar. um almoço ou até mesmo um café. Mas nada. Durante a condução para casa.Boa noite! Dorme bem. .Ligo-te ainda esta semana. tomar um banho.Por mim tudo bem. E em casa. Cinco dias foi o tempo que Madalena teve que esperar para voltar a ter notícias de Sérgio. Madalena deu-se por vencida e fechou a loja mais cedo do que o habitual. . um sorriso atravessou-lhe os lábios e fê-la recuar nos seus intentos de um banho. . O que é que te parece? .Sei que é meio em cima da hora. qualquer ruído era suficiente para que pensasse que era o telefone a tocar.Semanas? Meses? Anos? 33 . comer alguma refeição ligeira e cair na cama sem pensar em mais nada a não ser no dia seguinte.O quê!? O jantar? . .. Qualquer coisa! . despediu-se da melhor amiga e caminhou apressada em direcção ao carro ansiando chegar a casa.Gostei imenso.Tu também. muitas eram as vezes em que se dava consigo a olhar para o visor. Depois disso.Tu sabes há quanto tempo eu não vou ao Bairro Alto!? .Sim! Bairro Alto. Madalena sorriu e levou a mão ao peito numa tentativa desesperada de manter o coração ali dentro.ele hesitou. mas estava a pensar em convidar-te para sair hoje à noite. uma refeição em casa e uma cama vazia.Será que… .Não! Claro que não – respondeu Madalena moderando os passos ao longo da avenida. Nenhuma chamada importante a não ser a dos filhos para contar as maravilhas que estavam a viver em Marrocos. – Será que liguei numa má hora? – perguntou Sérgio com uma voz absolutamente irresistível. enquanto atendia algum cliente. Após mais um dia exaustivo de trabalho onde foi obrigada a levar vários caixotes pesados ao armazém ao lado de Alice e do motorista que trouxera as encomendas dos fornecedores.

Até acho que isto está cheio demais! Nem sequer têm mesas vazias e iríamos acabar por ter que ficar no balcão. mesas e cadeiras degradadas e a música rock a ecoar-lhe nos ouvidos como se fossem verdadeiras bombas atiradas lá para os lados do Iraque. . pelas mesas e cadeiras sofisticadas e por um ambiente muito menos explosivo.Mas o quê?! . Quando se viu no interior de um dos bares mais requisitados do Bairro Alto.Décadas – respondeu ela arrancando-lhe uma leve gargalhada. Por volta das dez e meia! Pode ser? .Este é perfeito – respondeu Madalena voltando-se para ele com um sorriso radiante. – Estás bem? – perguntou Sérgio percebendo-lhe o desconforto patente nos olhos. marido. mas… . Uma Cosmopolitan para ela e um whisky para si. . . fumo de cigarros. . Havemos de encontrar algum que seja mais interessante.Estou. – Antes de a minha filha ter nascido.Vou-te buscar assim que sair do estúdio.Está bem – respondeu Madalena sentindo-se aliviada quando abandonou aquele bar propício para mulheres que ainda não haviam passado dos vinte e que desejavam urgentemente engatar o primeiro homem que lhes aparecesse pela frente.Pode – respondeu ela abrindo as portas do carro.Pois hoje vamos dançar e eu não aceito um não como resposta. outras drogas ilegais. – Toma – disse ele voltando à mesa alguns minutos mais tarde. .. um local repleto de gente jovem. Não.Então está bem! Fico à espera. mas ainda assim houve algo na voz de Sérgio que a fez hesitar e querer seguir em frente com aquela loucura tão deliciosa. . De facto. – A que horas? . Apesar de ser frequentado por pessoas mais velhas. . Madalena sentiu-se no seu verdadeiro habitat quando Sérgio a ajudou a sentar-se numa das poucas mesas vazias e caminhou em direcção ao balcão pronto a pedir as primeiras bebidas da noite.Eu não queria que… .Sérgio. Eu quero dançar e quero dançar contigo! Não aceito outra companhia… Era uma loucura. . 34 .Prepara-te! . De resto. Vamos para um outro bar aqui ao pé. Madalena sabia-o.Podemos procurar um outro bar menos movimentado! Existem muitos por aqui. . Sim. havia décadas que não pisava um local daqueles. . – E este? – perguntou Sérgio quando entraram num bar completamente diferente do anterior.Tal como te disse.Não te preocupes porque eu vou estar mais do que preparada. Madalena foi obrigada a respirar fundo e a assimilar tudo aquilo que lhe estava a acontecer. o facto de se ter esbarrado com uma dessas mulheres à saída apenas veio a cimentar as suas convicções. – Não é nada disso.Podemos ir embora se quiseres. Aquele realmente não era o local ideal para si. não estou muito habituada a este tipo de ambientes. .Prometo que não me vou demorar muito. . eu não sei … .Disseste-me que os teus filhos estavam a passar férias com o teu ex.Não – adiantou-se ela tocando-lhe no peito sem querer. A perfeição do recinto ficou marcada pela sua decoração tipicamente tradicional. por isso não tens desculpas. – Mas só espero não dormir antes de chegares.

almoçar. segundo as palavras do fotógrafo – Esta música é do meu tempo. naquele bar tão acolhedor e destinado a seres humanos acima dos trinta. . E quando o fez. podes dizer – concluiu ela entre risos. sabias!? – disse Madalena quando se viu envolvida numa balada verdadeiramente romântica.Nem por isso – respondeu ele fazendo-a girar sobre os pés. encerrar o expediente com a nítida certeza que faria exactamente a mesma coisa no dia seguinte. . encostou a cabeça nos ombros de Sérgio deixando-se levar pelo momento mais especial da noite.Então conta-me lá como é que foi o teu dia.Confesso que nunca tinha entrado neste bar e olha que já frequento o Bairro Alto há anos.Sim! Mas eu gostei imenso.Não existem músicas do nosso tempo! Existem músicas intemporais e esta é uma delas. .respondeu ele encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. O sorriso de Sérgio convenceu Madalena a oferecer-lhe a mão e a seguir com ele em direcção à pista de dança. tudo deixou de ter importância quando as mãos dele percorreram-lhe as costas e se enterraram nos seus cabelos soltos.És um cavalheiro e é por isso que não dizes a verdade.Aonde é que aprendeste? 35 .Tens razão.Lá isso é verdade – riu-se Madalena enquanto bebia o primeiro gole da sua Cosmopolitan. . não danço? – perguntou ela voltando a encarar-lhe o rosto. já se encontravam outras pessoas a dançar “At Last” da cantora norte-americana Etta James. atender novos clientes. Ali.É um pouco escondido. Quero saber tudo o que te aconteceu desde que saíste da cama até à hora que te telefonei a marcar este encontro – respondeu Sérgio não tirando os olhos dela um só segundo. Literalmente nua.Obrigado pelo elogio. Abrir a sua floricultura. e depois disso.Claro que não! Adorei saber tudo o que fazes. .Tu também não ficas atrás.Obrigada. . – A minha vida é uma seca. . atender clientes. Madalena sentiu-se nua. .Foi normal! Absolutamente normal. pagar algumas contas. Sérgio encostou Madalena contra si e permitiu que ela fechasse os olhos sem se importar com as pessoas à sua volta ou com o adiantado das horas. telefonar a fornecedores. – Queres dançar? . – Danço muito mal. – Para mim danças perfeitamente. .Para mim só o facto de saber que respiras já é o suficiente para achar a tua vida fascinante… . . Sem mais palavras para lhe dizer. . não é?! .Agora?! .Mas mesmo assim eu quero saber. dia não lhe surgia à frente da porta da loja.Sim! Está a passar uma música que eu gosto muito e que não quero desperdiçá-la de maneira nenhuma. onde por sorte ou não. Um arrepio na espinha foi o que Madalena sentiu. receber as encomendas da carrinha que dia sim. Uma música absolutamente irresistível. e por fim. . não tendo outro remédio a não ser contar as pequenas tarefas que realizou durante o dia. . .. Pelo menos dá para conversar sem termos que berrar aos ouvidos um do outro. .

Já disse que danças muito bem. . – És louco – riu-se ela quando Sérgio lhe caiu sobre os ombros. enquanto Madalena. – Danças muito bem – sussurrou ela.Estou-te a perguntar se te posso beijar. . Beijá-la.Posso beijar-te?! – interrompeu ele. e mesmo ela tendo tentado desviar-se dos braços dele à volta da sua cintura.Claro que não – respondeu ela não contendo os risos. É a letra de uma música.O quê?! .Já é quase de manhã e eu acordo cedo.Eu acho que sim.É melhor ires – respondeu ela tentando resistir àqueles olhos verdes. Perto de ti sou um verdadeiro aprendiz.E tu? Aonde é que aprendeste a dançar assim? . ainda surpresa pela audácia dele. . . Quer dizer.Não são as tuas palavras. Três horas e vinte e cinco minutos foi a hora que Madalena abriu os portões da sua casa após uma noite maravilhosa passada ao lado de Sérgio.Só acredito se me disseres isso ao ouvido. Naquele momento. Ambos. não sei… . Beijá-la não uma. . – Digamos que é um talento natural. até porque a dança tinha conseguido um feito inédito. não duas. manteve-se de olhos abertos numa tentativa desesperada de convencer-se que nada daquilo 36 . Não tinha e nem queria sair daquele jardim sem fazer algo pelo qual havia ansiado desde o início da noite. . a verdade é que foi completamente impossível resistir-lhe à voz rouca e desafinada nos ouvidos. – E querias-me convencer que não sabias dançar? Aposto que só estás a dizer isso para não me fazer sentir mal. O feito de livrá-la de todas e quaisquer inibições relativamente à sua idade.Não! São as minhas palavras e eu estou a cantá-las para ti… . acho que nem sequer me vou deitar porque… .. Sérgio não tinha todo o tempo do mundo para esperar por ela.Confesso que não aprendi em lado nenhum – respondeu ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. mas ainda assim. Por isso.Diz! Podes confessar. pé ante pé. . ao seu estado civil e também ao seu desejo de aventurar-se nos ouvidos de um homem que mal conhecia.Uau! Não és nem um pouco convencido. ainda continuavam a cantar um dos temas mais marcantes do serão.Que pena – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso.Então quer dizer que tenho aqui nas minhas mãos uma verdadeira bailarina!? Madalena sorriu. quanto a isso não havia dúvidas. não sou?! . . . – Por mim continuava a dançar contigo até de manhã.Não acreditas nas minhas palavras? . A mão levada ao peito e o virar do rosto em direcção ao quintal do vizinho foram alguns dos indícios que fizeram antever a resposta de Madalena. – Talvez tenha aprendido aí.Isso quer dizer que a nossa noite terminou? .Eu costumava praticar ballet quando era mais nova – respondeu ela envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. Madalena não pensou duas vezes em acatar-lhe o pedido. ele aproximou-se dela e tomou-a nos braços com um beijo absolutamente esmagador. . . um pouco embriagados. mas sim inúmeras vezes até conseguir saciar o desejo e a vontade de tê-la só para si.

É um sonho. .Um pouco. pensou. Deveria estar na cama há horas.Só estou a constatar um facto. 37 .O que é que tu queres de mim? . que és divorciada e que tens dois filhos adolescentes… . . Nem sequer com o tapete do corredor que quase os fez escorregar junto ao bengaleiro.Já reparaste que passas a vida a falar da tua idade? .Uma mulher divorciada. E foi ali. Submersos em beijos. . abraços e tropeções. Como sonhou descobrir o que estava por debaixo dele. .estava a acontecer. – O que foi? . – A sério! Pára…! . mas não só… – respondeu ela arrancando-lhe uma ruidosa gargalhada.Sim ou não?! . mãe de dois filhos adolescentes… .Sim – respondeu ele desarmando-a novamente com o seu olhar. – Isto é de doidos… .suspirou Madalena sentindo-se prestes a cair num abismo. E não é que foi isso que fez? Sem pensar nas consequências. mas a verdade é que não estava. foram os pensamentos do fotógrafo quando o tecido caiu ao chão.Queres entrar? . Sérgio sorriu.Não – adiantou-se ela. .A pergunta é: o que é que tu queres que eu queira de ti? Ao ver-se metida num verdadeiro dilema. ela puxou Sérgio contra si e realizou todos os desejos que manteve escondidos durante a noite. Um sonho do qual vou acordar daqui a cinco segundos e não me vou lembrar de absolutamente nada. intrigado.Diz! . – Quer dizer… sim! . .Também. claro que não.O que é que queres dizer com isso? – perguntou Sérgio. deveria estar a pensar nos filhos e também na floricultura que teria que reabrir de manhã…. .Que se calhar com a minha idade eu não deveria reagir tão mal por causa de um beijo.Na tua casa? . – Estás sempre a insinuar que és muito mais velha que eu.Fiz mal?! .Pois bem! Então deixa-me que te diga que não é esse facto que me vai fazer afastar de ti. enfim! Deveria estar a pensar em tudo aquilo. baixinho. Madalena e Sérgio entraram pela casa adentro sem se importarem com mais nada. Voltou a beijá-lo e pela primeira em toda a sua vida tomou a iniciativa de se atirar para os braços de um homem que não o seu marido.Não. – Exagerei?! .Talvez – riram-se os dois.Sérgio… – murmurou ela. Madalena sorriu e não evitou pensar que deveria estar em todos os lugares menos ali.Desculpa – disse ele. no meio de uma escuridão avassaladora.Eu?! . Estava antes diante de um dos homens mais fascinantes que lhe haviam atravessado o caminho e a sua única vontade era voltar a enterrar-se na boca dele e sugar-lhe todo o sabor que ele a fizera provar momentos antes. que Madalena se deixou encostar à parede permitindo que Sérgio a livrasse do vestido que ela utilizou para o fascinar durante toda a noite. – Pára – pediu ela desesperadamente. – Eu sei que devo parecer ridícula… .

precisavam sentir-se e precisavam urgentemente ter-se um ao outro sem pensar nas consequências que aquele caso poderia trazer às suas vidas. como poderia sequer pensar em trabalhar quando a sua única vontade era continuar ali deitada para sempre de olhos postos no tecto? Ou estariam antes postos no céu? De facto. De resto.Ligo. Não lhe importou a sua triste figura enquanto subia as escadas pois tudo o que ela queria era continuar a sentir os lábios de Sérgio. Contudo.Nem eu! Confesso que até já tinha perdido esperanças que ele te voltasse a ligar.Disse que tinha tido muito trabalho durante a semana e que por isso não teve tempo para me ligar antes – respondeu Madalena levando a mão ao queixo.Tchau! . cada segundo… . .. as horas de prazer que passaram juntos não deixaram outra alternativa. . na altura. Precisavam ver-se.confessou Sérgio.Adorei cada minuto. esperneios e uma dança absolutamente ridícula ao longo do corredor. o quê? . – E assim que puder eu ligo-te.Tchau… . . mas realmente não é isso que importa! O que importa é que ontem saímos para dançar. meu Deus! Não faças isso… Quando os primeiros raios de sol se impuseram nas janelas e demonstraram que era altura de voltar à realidade.Isto. não sabia.Cada milésimo de segundo – riu-se Madalena ainda colada aos lábios dele. nada disso importou.Nós vamos repetir tudo outra vez. .Eu também. . . os braços musculados que ele tinha e a forma como se deixou entregar a ele durante horas a fio. – Achas que deva acreditar? . ela voltou a fechar a porta e deixou que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo em forma de gritos. Como é que poderia dormir se nada daquilo lhe saía da cabeça? Aliás.Quero repetir tudo outra vez! .Ir para a cama com um homem que mal conheço – respondeu Madalena soltando um outro suspiro quando ele mordiscou a sua orelha direita. .Então eu vou – disse ele beijando-a novamente. . – Adorei … . . .Prometes?! .Bem.Ligas hoje? . .Eu nunca fiz isto.Aleluia – foi a reacção de Alice na manhã seguinte quando Madalena lhe contou todos os detalhes que rodearam a sua noite com o Sérgio.respondeu Madalena permitindo que Sérgio se afastasse com um largo sorriso e encontrasse o carro estacionado a poucos metros da sua casa.Então se for assim eu deixo-te ir. passámos uma noite fantástica e … eu fiz sexo – exclamou Madalena arrancando 38 . Sérgio e Madalena despediram-se à porta de casa com um longo beijo e com a promessa de tornarem a reencontrar-se assim que possível. . Depois disso.O quê?! – perguntou Sérgio devorando-lhe o pescoço. . .Claro que sim. Ele não tinha razões para te mentir.Prometo. .Nunca pensei que pudesse acontecer tão rápido. – Ai.

E assim. sair a tempo de buscar o filho mais novo ao colégio e voltar para casa onde a preparação do jantar era a palavra de ordem. no sofá e no quarto. E que homem.Eu sei – riram-se alegremente. a pouco e pouco.vários pulos de alegria por parte da sua melhor amiga. minha amiga! Que homem! .Não. . .Acho que se morresse hoje. percebeu que tinha chegado ao destino. Diante da chegada dos filhos.Está à procura de…?! – perguntou a jovem passando as mãos pelos cabelos com uma descontracção fora do normal. Na verdade. – Tu não podes morrer nunca. será que não percebes?! Tu és a prova viva que uma mulher acima dos quarenta. Mais tarde. um pouco degradados. Naquela sexta-feira. Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser os encontros fortuitos de Madalena e Sérgio ao final da tarde que muitas vezes culminavam com um jantar e uma noite de prazer na casa dela. Lingerie e Madalena pôde ter essa certeza quando a observou dos pés à cabeça. Um toque. A Rua do Carmo. tudo isso faria parte do passado. de cabelos loiros. mas tal como disse. provocava-lhe um verdadeiro ataque de histeria. . Sexo… . Ele deu-me o endereço. mas com imensas histórias para contar. saltos altos e uma lingerie que tapava apenas o essencial. 39 .…eu acho que me enganei. a simples ideia de que as coisas voltassem a ser o que eram antes. não se enganou! É aqui mesmo. . acho que me enganei. . Faltavam apenas vinte e quatro horas para que Sara e Daniel regressassem de Marrocos e para que a vida de Madalena retomasse o curso habitual.Não – afirmou Alice sentando-se à frente dela.Estou tão contente como se tivesse acontecido comigo. após um dia cansativo na floricultura.Hã! Do estúdio de um fotógrafo chamado Sérgio Almeida. olhando novamente para o papel que tinha nas mãos. não foi muito difícil para Madalena encontrar o estúdio de Sérgio que ficava exactamente situado num dos pontos mais movimentados da cidade. a carta de alforria que ela havia conseguido quando os filhos partiram de viagem foi-se esgotando no prazo de validade. Uma rua famosa pelos seus prédios antigos. Madalena aceitou o convite de Sérgio para conhecer pela primeira vez o estúdio fotográfico que ele dirigia. ou pelo menos escondido até que tivesse coragem de lhes contar que a mãe finalmente havia encontrado alguém para lhe aquecer os pés nas noites frias de Inverno e para lhe destapar os lençóis nas noites quentes de Verão. preparar os filhos para a escola. E foi exactamente à procura de uma história que ela subiu as escadas do edifício onde se encontrava instalado o estúdio de Sérgio. . divorciada e com filhos consegue arranjar um homem que se interesse por ela. Com o endereço nas mãos. dois toques e a porta foi aberta por uma jovem altíssima. era uma proposta irrecusável e ela aceitou-a sem pestanejar já que os filhos só chegariam a Lisboa no Sábado de manhã repletos de histórias para contar e presentes que juraram ter adquirido para si. abrir a floricultura. Contudo. Não. morria feliz. principalmente por saber que não teria tanto tempo para estar com Sérgio e muito menos a possibilidade de o levar para a sua casa e fazer amor com ele no corredor. Sim. Acordar cedo.É?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. . – Acreditas nisto?! Eu fiz sexo! Fiz sexo.

. tudo o que ela não imaginava era encontrar duas mulheres seminuas que em muito lhe faziam lembrar os seus vinte e cinco anos.Gosta? – questionou ela mostrando o fio dental sobre uma das mesas do estúdio.Está tudo óptimo. Sim.Pois devia – respondeu a modelo bebendo um gole de água com a ajuda de uma palhinha fluorescente. ..Sim. ela também já tinha tido vinte e cinco anos. Porque apesar de tudo. – Ele está a fotografar uma outra rapariga… . . Era como se algo lhe gritasse aos ouvidos para desaparecer.informou a jovem caminhando com Madalena pelo pequeno corredor quase às escuras. é minúsculo. – Isso! Isso mesmo! Agora reflecte a perna e olha para mim… . mas é giro. . I just wanna make love to you. Ainda tentou beijá-la.Sim. – Você também veio fotografar? . Tem que comprar.Uau! .Uma campanha de lingerie.Assim!? – perguntava a modelo sem sequer se aperceber dos olhares aterradores que Madalena lhe fez questão de lançar de longe.Está tudo bem? . – Inclina um pouco mais a cabeça.São os novos fios dentais da Vitoria Secret. nada poderia ser mais provocante e explícito. De facto. pois quando Sérgio a convidou para conhecer o seu estúdio fotográfico. .dizia ele totalmente concentrado no que estava a fazer. a única vontade de Madalena era fugir e fingir que nunca estivera ali. . 40 . assim como as poses sensuais que a modelo fotografada fazia questão de oferecer às lentes de Sérgio.É giro – respondeu Madalena segurando nas mãos um pequeno pedaço de tecido.Chegámos – exclamou a modelo parecendo ignorar a última frase de Madalena quando abriu a porta e a encandeou com as luzes vindas do estúdio.Olá! .Eu?! Não! Definitivamente não. para criar alguma vergonha na cara e para não se iludir com um homem que parecia viver rodeado de modelos belas e esculturais. por favor… . Entre! Na verdade. Muito bom! Estás óptima. Na aparelhagem soava igualmente uma música bastante insinuante que muito lembrou a hora Coca light. mas eu não costumo usar fios dentais. . até mesmo porque essa seria a atitude mais sensata a tomar tendo em conta as pernas bem definidas e o busto daquela modelo que não aparentava ter mais do que vinte e cinco anos. mas por sorte ela desviou-se a tempo para que as duas modelos não descobrissem a sua verdadeira identidade.Vou pensar no caso – murmurou Madalena desejando desaparecer o mais rapidamente possível.Isto é para quê? – perguntou Madalena aos ouvidos da modelo que lhe havia aberto a porta minutos antes. . . Eu é que acho que vim numa má hora. .Obrigada. – Esses são muito bons para nos levantar o rabo.Desculpa! Já chegaste?! Não te vi entrar – disse Sérgio quando finalmente se apercebeu da presença de Madalena no estúdio. – Quer dizer. um famoso anúncio televisivo dos anos noventa. . .

. Vera parecia muito mais segura de si.Claro que não – respondeu ele poisando a máquina fotográfica sobre uma mesa repleta de cabos. – São simpáticas. mas ainda assim. Para além disso.Ainda vai demorar muito a sessão? . tudo bem. Ao lançar os olhos para o cenário improvisado.As tuas modelos. Madalena não resistiu a observar a forma como Vera bebia a água pela garrafa.Com a Natália não. computadores e outros aparelhos electrónicos que utilizava para trabalhar.Só falta fotografar a Natália e depois fico despachado por hoje. imponente e profissional o quanto bastante para nem sequer lhe dirigir a palavra ou esboçar qualquer expressão facial quando os seus olhares se cruzaram pela vigésima vez. Importaste de ficar à espera só mais uma hora?! É que nos atrasámos por causa das luzes e também porque a equipa da maquilhagem e dos cabelos só nos apareceu por aqui depois das quatro. Seriam namorados? Amigos? Ou qualquer outra coisa pelo meio? De qualquer maneira não devia ser nada sério visto ela aparentar ser mais velha que ele. especialmente quando a viu tão perto de Sérgio e percebeu que algo os unia. lembraste?! . ao olhá-la com um pouco mais de atenção.Quem?! . – Já tínhamos combinado. 41 . quanto a isso não havia dúvidas. . Madalena percebeu que não era apenas a beleza a única característica que a diferenciava de Natália. Era uma jovem bonita. mas com a Vera sim. era também perceptível que a presença de Madalena a incomodava mais do que qualquer outra coisa.Não. É a primeira vez que trabalhas com elas? . . Eu espero – respondeu Madalena lançando os olhos àquela sala desarrumada.

Ai que saudades! .Que bom que se divertiram – disse Madalena rasgando alguns olhares à sua filha que ao contrário do irmão nem sequer se dignou a cumprimentá-la com um abraço.Olá. . Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso. . Os seus filhos que após um mês de férias resolveram regressar a casa e brindá-la com as suas risadas e brincadeiras. mãe! Foi bué fixe! . .Estás bonita. . voltámos todos são e salvos. – Mãe – exclamou Daniel correndo em direcção à sua progenitora e aninhando-se nos braços dela.Mesmo assim. .Porque é que não a convidaste para entrar? . Daniel e Sara. vocês deviam ter… .Olá! .Eu também tive saudades tuas.Deve ser coisas de mulheres – respondeu Jorge não querendo adiantar muitos detalhes acerca do assunto.CAPÍTULO III O aspirador foi desligado na sala quando faltavam poucos minutos para as onze da manhã e tudo porque a porta da rua se abriu sem qualquer aviso prévio trazendo consigo as duas pessoas que Madalena mais desejava ver na altura.Claro – respondeu ela obedecendo ao pedido sem muito entusiasmo enquanto o pai arrastava as malas para o interior da moradia.Porque ela veio um pouco mal disposta da viagem.A Vanessa está no carro.Obrigada. .A sério? Porque é que não passaram por um hospital? . – E vimos golfinhos.Tivemos que parar duas vezes no caminho para ela vomitar – disse Daniel recebendo alguns afagos na cabeça por parte da mãe. . – Porque é que tens sempre que te meter aonde não és chamada? 42 . .Estás todo bronzeado.Mãe. .Fomos à praia todos os dias – respondeu ele.Ainda bem – respondeu Madalena compondo-se na sua camisola de malha. o pai já disse que não foi nada importante – resmungou Sara sob o olhar incrédulo de Madalena. – E a… Vanessa? Não veio com vocês? . Sara?! Não me vais dar um beijo? .Como vês. . . . animado. – Então.

. mas com a Sara já não resulta e tu tens que meter isso na cabeça. . – Daniel! Sobe e vê se tomas um banho antes do almoço – pediu Madalena trocando um olhar cúmplice com o ex. Um local onde pretendia trancar-se durante vinte e quatro horas e não sair de lá nem por decreto de lei. . reages sempre assim… .Nós sempre nos demos bem. não iria jantar e nem queria sequer responder às perguntas da mãe que com certeza seriam as mesmas.E… . – Então continua assim para ver se a Sara não se afasta de ti de vez. . . Ela realmente não tinha paciência nenhuma para as responder. – Preciso falar com o pai.Está bem – respondeu o último subindo as escadas a correr. . de a encheres de mimos e de a sufocares com regras que a está a fazer afastar-se de ti? – discursou Jorge tentando trazer a ex.Eu não perdi a razão! Eu tenho razão.Só te estou a avisar. – Foi contigo que ela esteve nestas últimas quatro semanas e olha só como é que ela voltou?! . .Tens a certeza!? . marido.Eu nunca coloquei os nossos filhos contra ti – respondeu ele largando os braços. .Sai – exclamou Madalena abrindo a porta de rompante. .Tu viste como é que a Sara falou comigo? . Estas foram as últimas palavras de Sara antes de agarrar nas suas malas e subir as escadas em direcção ao quarto. afinal de contas ele ainda é uma criança. – Que raios! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? .E tu irias adorar se isso acontecesse. – Com o Daniel até pode resultar.Que raiva! Se soubesse tínhamos ficado mais uns dias no Algarve.Por isso mesmo! É uma adolescente e não uma criança.Boa! Quando sentes que perdes a razão. mas ela já não é uma criança.. – O problema é que tu a tratas como se ela fosse uma criança. não era?! 43 .É claro que é tua – respondeu Madalena tentando manter a voz baixa.Sabes qual é o problema da Sara contigo? Madalena calou-se. Não iria almoçar. .E o que é que vais dizer? Que a culpa é minha? . Aonde é que foram? O que é que fizeram? Como é que o pai se portou? Comeram todas as refeições? Não.O que foi? – perguntou Jorge sabendo à partida que iria ser criticado por algo que ainda nem sabia o que era. eu não tenho a culpa que tu e a Sara nunca se tenham dado lá muito bem. eu estou a jogar limpo contigo.Claro – riu-se Jorge secamente.E?! Ainda perguntas… e…?! Ela nunca me enfrentou dessa maneira. mulher à razão. Não. .Lena. Agora sai! . eu sempre joguei! Mas não queiras colocar os nossos filhos contra mim porque eu não vou admitir uma coisa dessas. . Será que não percebes que é essa tua mania de a quereres proteger de tudo e de todos. aliás.Jorge.Sara?! . .Ela só tem quinze anos.

marido continuou a ecoar-lhe nos ouvidos durante a tarde toda.Não. perguntou-se. eu mato-te! . E a verdade é que estava tão submersa nos seus pensamentos que nem sequer se apercebeu do telemóvel a vibrar sobre a bancada da cozinha. . .Apesar de não acreditares.É. .Estive a trabalhar – respondeu Sérgio analisando algumas das fotografias que tirou durante a tarde.Aquela campanha de ontem? . . . para Madalena foi completamente impossível realizar tal tarefa. – Nada de especial! Agora estou para aqui a ver se consigo melhorar as fotos para a campanha da Vitória Secret.Isso mesmo que ouviste! Ela quer morar comigo. – O quê?! .Isso é o que importa. pois a discussão com o ex. Mas para que tenhas um rasgo de clarividência. eu estava – murmurou Madalena tentando esconder o facto de não ter visto a filha mais velha desde a hora do almoço quando ela resolveu trancar-se no quarto com uma música rock aos altos berros.Não precisavas ter despachado a pessoa com quem estavas a falar só por minha causa… – afirmou Sara servindo-se de um copo de sumo sobre a mesa da cozinha.…claro – disse Madalena tentando esquivar-se aos olhares lancinantes que a filha lhe lançou enquanto abria a porta do frigorífico. . . Podemos falar mais tarde? . Nessa altura. eu não iria adorar.Como é que foi a viagem? .Sim! Tenho que entregar tudo pronto na semana que vem. .Não faz mal – respondeu ele. Pelo menos eles vieram animados.Algum problema?! . se tu me levares a Sara daqui. – Só vi a tua chamada agora. . nenhum.Eu não quero tirar a Sara de ninguém. já disse! Mas eu entendo o porquê de ela se quer ir embora cá de casa. .Tenho a certeza que te vais sair muito bem! És um excelente fotógrafo. Apesar de ter tentado controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. A revelação de Jorge não podia ser mais bombástica e prova disso foi o recuo de dois passos por parte de Madalena. . .E eu odeio-te! . Com quem estaria a conversar.. Sabes porquê!? Porque tu és insuportável. – Desculpa – pediu ela retornando a ligação assim que terminou de arrumar a loiça do jantar. 44 .E tu? Como é que te correu o dia? . deixa-me dizer-te que durante estas férias a nossa filha pediu para morar comigo. – Escuta.Jorge. – Imaginei que estivesses com os teus filhos.Advinha lá!? O sentimento é recíproco… – respondeu Jorge saindo porta fora. Uma chamada não atendida. um número perdido e a raiva que sentiu ao final da noite quando descobriu que a pessoa que lhe tinha tentado ligar era Sérgio. Eu ligo-te depois. . Sara entrou na cozinha e surpreendeu a mãe encostada ao lava-loiça completamente submersa numa conversa telefónica.Acho que correu bem. não.Obrigado pelo elogio – riram-se os dois.Está bem – respondeu Sérgio desligando a chamada quando se deu por vencido. infelizmente vou ter que desligar.

Não foi por tua causa – disse Madalena largando o seu telemóvel sobre a mesa.. porque eu ainda continuo a querer que morras – respondeu Sara abandonando a cozinha sem sequer terminar o sumo que deixou sobre a mesa e deixando Madalena a sentir-se o pior ser humano à face da terra.Foste tu que o escolheste para ser o nosso pai.O quê?! . – Nunca mais na tua vida te atrevas a levantar-me a voz. . . . É verdade? . 45 . a verdade é que eu adoro e tu vais ter que te habituar a essa ideia.Não me podes impedir de morar com ele! Ele é o meu pai.Estive a conversar hoje com o teu pai. é melhor esperares sentada… – afirmou Madalena tentando manter a expressão aterradora que tinha no rosto.Tu não vais a lado nenhum! . . – Lá porque tu decidiste que eu e o Daniel tínhamos que ficar contigo.Sara… . O olhar de ódio disse tudo. tu é que vais ter que esperar sentada. Sara! Ele contou-me que tu pediste para ir morar com ele. . nunca te passou isso pela cabeça? .Sei?! . .Nem sequer falaste comigo sobre os teus planos quando sabes muito bem que sou eu quem tem a tua guarda e a guarda do Daniel. roupas. .Eu não acredito que me estejas a dizer uma coisa dessas. Silêncio foi a resposta de Sara embora os seus olhos estivessem a vermelhar de raiva.Que opinião?! . – Se estás à espera de um pedido de desculpas.Não me levantes a voz. Porque é que se estava a sentir assim. hã – vociferou Madalena aproximando-se bruscamente dela. um quarto só para ti. foi a pergunta que imperou no ar enquanto os seus olhos mais uma vez lutavam contra as lágrimas.Não! Se tu estás à espera de um pedido desculpas.Eu quero que morras… A resposta efusiva de Sara tomou Madalena de assalto.Achas bem aquilo que fizeste?! .Eu quero passar uns tempos em casa do pai. .Sim – respondeu a jovem com toda a calma do mundo. comida. . . mas nem por isso a inibiu de oferecer à filha uma valente bofetada no rosto que a fez recuar dois passos e suster a face com a mão. .Eu tenho todo o direito de querer escolher com quem quero ou não morar – respondeu Sara poisando o copo de sumo sobre a mesa. isso não significa que nós queiramos realmente ficar contigo. Podemos ter uma opinião diferente.Apesar de odiares a ideia de que eu adore o meu pai. lembraste?! Não fomos nós.Qual é o teu problema. – Mas ainda bem que te ponho os olhos em cima porque precisava esclarecer uma coisa contigo.Ai é?! .Não te faças de desentendida.O que é que foi que eu fiz? . sapatos e computadores!? O que é que queres mais? . Sara – imperou Madalena calando-lhe os argumentos. .E tu sabes bem qual foi o assunto. – Diz lá! Não tens tudo aquilo que precisas? Não tens um tecto.

Infelizmente nunca tive essa sorte. .foi o desabafo de Madalena à melhor amiga várias semanas mais tarde. – Onde já se viu?! Ninguém deve desejar a morte da própria mãe.A minha adolescência não foi assim e a tua também não.A Sara quer morar com o pai. não sei. – Devias ter tido filhos.Estás a gozar!? – riu-se Alice enquanto terminava o arranjo de margaridas.Achas que a culpa é minha? – perguntou Madalena encostando-se ao expositor da loja.É claro que devias – ripostou Alice ajeitando um ramo de margaridas encomendadas pela manhã.Deixá-la ir morar com o pai.Claro que não.. Lena! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? . acredita que de adolescentes eu percebo bem e sei que quanto mais nos mostrarmos contra alguma coisa. . Mas se tivesse uma filha como a Sara. nem mesmo a brincar.Alice!? Estás louca?! .Eu só queria saber o que é que se passa com ela. . ai de nós se levantássemos a voz aos nossos pais! Era logo um par de estalos e assunto encerrado.Garanto-te que se a Sara fosse morar com o pai.Culpa do comportamento da Sara. .Faz uma experiência! Diz que aceitas que ela vá morar com o pai e que não te opões em nada.Quando ela perceber o traste do pai que tem – riu-se Alice. – E tu estás preocupada com isso? . Lena! . Desde há uns meses para cá tem andado estranha e fala com as pessoas como se as quisesse bater. volta para casa com o rabinho entre as pernas e ainda te trata a pão-de-ló. mas eles a querem fazer.Culpa do quê? .Achas?! – perguntou Madalena não muito segura das palavras da melhor amiga. .Sinceramente não sei o que fazer… . tratar da roupa e das compras do supermercado.Claro que estou. .Bem. sabias!? . .Pois eu acho que devias. 46 .Tu és uma caixinha de surpresas – afirmou Madalena sugando-lhe a face. . Eu não quero que ela vá morar com o Jorge sabendo bem que ele é um irresponsável de todo o tamanho.A adolescência é assim. – Achas que ele tem razão? .…volta a correr para a maravilhosa mãe que anda a desperdiçar. .Porque os tempos eram outros! No nosso tempo. Mas diz lá qual é o problema concreto desta vez! . . era exactamente assim que iria reagir. em menos de duas semanas estava de volta.O Jorge disse-me que a culpa era minha porque eu ainda não me tinha dado conta que a Sara já não era uma criança e que não adiantava nada enchê-la de mimos e regras porque isso só faria com que ela se afastasse ainda mais de mim… – discursou Madalena cruzando os braços. . . .O Jorge é um idiota. Achas que eu sou uma má mãe? . – Não lhe devia ter dado aquele estalo. Se ela quiser ir. ela que vá! Apesar de nunca ter tido filhos. .O quê?! . . Quando ela tiver que cozinhar. . ou esse azar. lá isso é verdade.

Duas semanas era o prazo que Madalena tinha estipulado para aguentar aquela prova de fogo.Pois então! Fala com o teu pai e combinem um dia para ele te vir buscar. Sim. . . e logo ela que sempre foi preguiçosa até para fazer a própria cama. ele lançou os olhos a um quadro pendurado na parede e por momentos tentou encontrar uma maneira de se livrar daquele problema. mas se mesmo assim os seus planos saíssem furados. com certeza não aguentaria mais do que duas semanas. mas eu fiquei sem entender uma coisa… . Raios.É claro que quero.Sim! Podes. Mas e se a filha não voltasse? E se ela continuasse a morar com o pai para sempre? Não. mulher a convencer a filha de que a sua saída lá de casa realmente não era a melhor ideia. decidiu Jorge enquanto digitava o número da loja de Madalena.Pensei melhor – mentiu Madalena.foi a surpresa de Sara quando a mãe lhe informou sobre a sua decisão após o jantar. Ponto final. para umas visitas turísticas ao seu quarto e também onde passava as poucas horas livres que o trabalho lhe deixava durante o dia sem sequer se preocupar em lavar a loiça. Não valia a pena opor-se à ideia de Sara em morar com o pai pois ela continuaria a fazer-lhe a vida negra caso se mostrasse contra aquela resolução estapafúrdia. – E quem sabe me vá embora já esta semana. limpar o pó ou fazer a própria cama? Diante daquela catástrofe apenas comparada à Segunda Guerra Mundial. Por isso.A conversa foi interrompida com a chegada de um cliente à loja. E logo ele que sempre pensou que a ex. mas nem por isso Madalena se esqueceu das palavras de Alice enquanto o atendia.Olá.k! Então amanhã vou ligar ao pai – afirmou Sara não cabendo em si de contente por finalmente se ver os seus desejos concretizados. a única coisa que lhe restava era tentar convencer a ex.E posso saber porque é que mudaste de ideias? . Já te tinha dito isso há quase dois meses. Quando recebeu o telefonema da filha no dia seguinte. Jorge mal conseguiu acreditar que o seu pior pesadelo se tinha concretizado sem qualquer aviso prévio. – Estás-me a dizer que eu posso ir morar com o pai… . O que devia fazer para descalçar aquela bota? Ao desligar o telefone do escritório. Ela tinha razão. tudo bem?! Escuta! A Sara ligou-me há pouco. ela não hesitaria um segundo em arrancar a filha da casa do pai com as próprias mãos. Alice estava certa quando disse que todas as tarefas domésticas recairiam sobre os ombros de Sara enquanto ela estivesse em casa de Jorge. . mulher nunca iria ceder às chantagens de Sara ou sequer permitir que ela saísse de uma casa onde tinha nascido e crescido. assim que chegasse a casa naquela noite. É isso mesmo que vou fazer. A Sara lá em casa? Uma adolescente de quinze anos em sua casa? Uma casa que normalmente costumava levar as suas amigas para umas noitadas de copos. . . – Ou não me digas que já não queres ir? .Diz Jorge – exclamou Madalena recebendo o auscultador das mãos da melhor amiga.O.O quê!? 47 . . Claro que não. Sim. – É o teu falecido – sussurrou Alice passando a chamada. diria que tinha pensado melhor e que era totalmente a favor da sua partida.

marido. . .Bem.É. desculpas… . . primeiro disseste que me matavas caso eu me atrevesse a tirar a Sara lá de casa e agora ela liga-me toda contente a pedir para que eu a vá buscar nesta sexta-feira. Quero ver-te com a Sara vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas.A gozar porquê? . Afinal de contas já o conhecia há tantos anos que não foi muito difícil para si descobrir o verdadeiro motivo daquela chamada telefónica tão inapropriada.Jorge. Sexta-feira foi o dia em que Jorge percebeu que já não lhe restava nenhuma outra alternativa a não ser buscar a filha à casa da ex. além de que estavas certo quando disseste que eu tenho que parar de a tratar como se fosse uma criança. 48 .Então vamos. . – Ela já está pronta? .Sim.Fizeste de propósito.Estou – respondeu ela passando as mãos pelos cabelos soltos. os seus planos e desculpas saíram furadas levando-o àquela verdadeira situação de desespero.A Sara disse-me que tinhas concordado com a ideia de ela vir morar comigo.Porque é que eu também não posso ir? – perguntou Daniel para grande desespero do pai..Eu?! .Sim e não faças essa cara de sonsa – exclamou Jorge caminhando apressado em direcção à sala onde encontrou o filho mais novo a jogar Playstation.O meu esquema?! Eu não tenho esquema nenhum – respondeu Madalena tentando ignorar as risadas de Alice quando colocou a chamada em conversação alta.Então queres convencer-me que queres realmente que a Sara venha morar comigo? É isso?! . isso não aconteceu. – Demoraste. O que é que se passa? Qual é o teu esquema? . . filho. . pai – disse ela. É verdade? Silêncio foi a resposta de Madalena. não?! . Apesar de tudo. Sabes como é que são os jovens quando querem realmente uma coisa. Mas já estás pronta? .Porque não!? Ela não te adora tanto? Se a Sara quer morar contigo. Inventam mentiras. provavelmente devo ter percebido mal. Um olhar aterrador foi o que Jorge voltou a lançar a Madalena enquanto Sara descia ao primeiro piso sala carregada com duas enormes malas e uma mochila preta que a acompanhava todos os dias à escola.Fogo! Eu também queria ir.Estás a gozar. mulher. e enquanto abria os portões da moradia.Quer dizer.Está lá cima a terminar de fazer as malas – respondeu Madalena permitindo-lhe a entrada. – Sim! É verdade. Quem sabe tu me podes ajudar a fazer isso? O que é que achas?! – discursou Madalena sob uma ruidosa gargalhada que Alice não conseguiu evitar.Por enquanto vai só a Sara. abrevia por favor – interrompeu Madalena percebendo bem qual era o estratagema do ex. eu sei – respondeu Jorge passado as mãos pelos cabelos aparados. a única coisa que eu posso fazer é apoiá-la. – Apanhei um trânsito infernal no caminho. – Tenho a certeza absoluta que uns dias na tua casa apenas lhe iriam fazer bem. não foi!? . a única coisa que quis foi que a relva do jardim o engolisse. – Estás aí? . . . Por azar. . Jorge! Tenho a certeza que vais adorar.

Foram precisos apenas cinco minutos para que Jorge regressasse novamente ao primeiro piso e tivesse a seu cargo cerca de três malas para arrastar em direcção ao carro. Ela vai voltar. . Depois disso. e pela primeira vez. – O que é que eu posso fazer para animar essa voz? . Portas fechadas. . . enquanto estava completamente submersa nos seus pensamentos.pediu Madalena tentando controlar as lágrimas quando percebeu que a partida da filha era inevitável.É claro que ela vai voltar. mulher.Quem me dera poder acreditar nisso. afastou-se sem sequer olhar para trás e enfiou-se no carro do pai enquanto ele terminava de ajeitar as malas. Quem sabe não seria Sara para lhe dizer que queria voltar? De qualquer maneira não custava nada sonhar.Desculpa – sorriu Madalena percebendo imediatamente a sua gafe. está bem! Eu vou lá acima buscá-la. foram algumas das cenas que Madalena observou de longe enquanto o seu coração se apertava e a companhia de Daniel era a única coisa que não a deixava desmoronar. o telemóvel vibrou sobre a mesinha de cabeceira e fê-la estender o braço em direcção a ele. 49 .Infelizmente não.Podias fazer tantas coisas – riram-se os dois. saiu e nem sequer se dignou a despedir da ex.Diz-me – interrompeu Sérgio caminhando calmamente pela rua. Pela primeira vez desde sempre o lugar de Sara não foi ocupado durante o jantar. tentou enfiar essas palavras na sua cabeça e acreditar no que Alice lhe dissera dias antes quando a aconselhou a baixar as guardas e permitir a saída de Sara lá de casa. . – Mas já estás com duas na mão.Sim! Filhos. . Nessa altura. Sabes o que isso é? . – Desculpa por não ter ligado nesses dias.Foi-se embora hoje e eu tenho medo que nunca mais volte. . tomou um banho e vestiu uma camisola confortável com o intuito de dormir como uma pedra e esquecer-se do dia em que viu a filha escapar-se-lhe por entre os dedos sem nada poder fazer. .A sério?! . . – Mas infelizmente estás longe. . – Vê lá se ligas… . três dias.Está bem. Depois disso. sendo que essa tarefa enfadonha recaiu inteiramente sobre os ombros de Sara.Outra mala?! – indagou Jorge esbugalhando os olhos.Eu ligo daqui a dois. não achas?! . . Madalena assustou-se com a terrível ideia de que a sua filha havia partido para sempre quando fechou a porta do quarto e deu por terminada a noite. cintos de segurança colocados e a partida. .Problemas?! . – Já que Maomé não vai à montanha… – afirmou Sérgio com a mesma voz jovial de sempre.O que é que queres?! Tenho que levar as minhas coisas nalgum lado.A minha filha foi morar com o pai.. .Não! Tenho mais uma outra mala lá em cima que não consegui trazer junto com estas.Tchau – disse Sara despedindo-se da mãe com um beijo na face e do irmão com um pequeno empurrão nos ombros.Está bem. Depois disso.

Quem disse!? Silêncio e surpresa foram as reacções de Madalena. – Então fica assim combinado? No domingo depois do almoço? . . . . . baixinho. . Uma das mãos nos bolsos das calças. – Que bom que estás aqui – disse ela enterrando-se nos braços dele e tentando absorver-lhe todo o calor do corpo. a visão de Sérgio foi a primeira coisa que a fez sorrir naquela sexta-feira particularmente triste e sombria.O meu pai vem almoçar no domingo e eu estava a pensar em deixá-lo a tomar conta do meu filho por algumas horas. O dia amanheceu ensolarado e foi com algum custo que Sara se dirigiu à cozinha crente de que iria encontrar um belíssimo pequeno-almoço à sua espera. eram essas as características que melhor o definiam. Quando voltou a encarar-lhe o rosto iluminado pelas luzes das escadas.O quê?! .Eu também morri de saudades tuas. – Mas não posso.O.Não consegui aguentar de saudades.Desce! Estou à tua espera. Tinha sido apenas há uma semana.Pois eu iria precisar de semanas. .Raios – exclamou Jorge levando as mãos à cabeça quando entrou na cozinha. não é!? . mas Madalena recusou-se a acender as luzes. . . .Eu sei. algumas migalhas de pão sobre a bancada e o frigorífico às moscas. anos… . – Mas estou ansiosa para ir.E o que é que eu vou comer para o pequeno-almoço? 50 . mas a verdade é que ela resolveu utilizar as mãos para saber onde estava.k . mas no entanto parecia uma eternidade.. – És louco – disse Madalena ouvindo-lhe as risadas através do telefone. pois as únicas coisas o que viu à sua frente foram loiças sujas do jantar. conseguiu alcançar o corredor sem se esbarrar em nenhum móvel. O que é que eu vou comer? Realmente nada tendo em conta o que viu nos armários e nas gavetas vazias. Tal como sempre as escadas que ligavam os dois pisos encontravam-se às escuras. – Eu juro que te convidava a entrar – disse ela segurando-lhe a face com firmeza. talvez por preguiça. Na verdade.Li os teus pensamentos – riram-se os dois. Pura ilusão? Talvez. . – Foi por isso que vim. meses. E mais palavras não foram precisas para que ela subisse os estores e se deliciasse com a figura de Sérgio sob o portão.Algumas horas é tudo o que eu preciso para matar as saudades que sinto de ti. talvez para não acordar o filho.Não – respondeu ela com um sorriso malicioso. Ainda não foste lá.Claro! Assim conheces a minha casa.Algumas horas?! Hum! Parece-me interessante. e quando abriu a porta de saída. Por sorte. .riu-se Madalena. o telemóvel nos ouvidos e o sorriso estampado no rosto.Mas foi bom teres vindo! Nem sabes como estava a precisar de um beijo teu. – Pai! Tu não tens nada que se coma aqui dentro. – Esquecime de passar pelo supermercado esta semana. . Sérgio afundou-se nos lábios de Madalena e beijou-a com toda a paixão que possuía dentro de si.Temos que combinar alguma coisa. . – Sai à janela – pediu ele. não lhe importou absolutamente nada a não ser tê-la nos braços e matar todas as saudades que sentira desde a última vez que estiveram juntos.

despediu-se da filha deixando-lhe o cartão de multibanco e a certeza de que não voltaria a casa antes de o anoitecer. – Além disso. a sua única vontade foi de experimentá-lo. . dançar sobre o sofá como uma louca e vasculhar todas as gavetas lá de casa sem medo de ser apanhada por alguém. massas. – Gostas dele forte ou com leite? .O.Mas pai… . . e depois de vestir o casaco às pressas. .Até logo – respondeu Sara fechando a porta com um largo sorriso e com a certeza que a sua estadia em casa do pai iria ser no mínimo maravilhosa. arroz.E o que é que eu faço para passar o tempo? – perguntou Sara acompanhando-o à porta. Eu deixo-te dinheiro. bolachas. e por fim.Posso sair? Combinar alguma coisa com as minhas amigas? .Eu nunca lá fui sozinha.Sim.Até logo. .E o que é que eu vou comprar lá? .Não acredito que a tua mãe nunca te tenha levado ao supermercado – respondeu Jorge alcançando o pote de açúcar sobre a bancada. enjoou-se com o cheiro. – Depois do supermercado.Aproveita que hoje não tens aulas e vai! Jorge demorou apenas cinco minutos para engolir o café que fizera. o que é que se compra num supermercado? Comida.riu-se ela às gargalhadas quando descobriu quantidade exorbitante de filmes pornográficos e oito caixas de preservativos na mesinha de cabeceira do pai. .Oras. e antes que desse por si. Em cinco minutos estás lá.Eu não bebo café.Hoje não posso – respondeu Jorge retirando uma chávena de café dos armários.Podes fazer o quiseres. ir ao supermercado é a coisa mais fácil do mundo e tens um aqui mesmo ao pé. fruta. .Mas pai… . 51 . – Não acredito! Que pervertido… .Café – respondeu ele aproximando-se da máquina sobre a bancada.Vou comer frango ao pequeno-almoço?! Só podes estar a gozar – resmungou Sara não vendo outro remédio a não ser obedecer às ordens do pai. .Posso?! . – Tens que ir ao supermercado. ela viu-se pela primeira vez a tocar num preservativo.. Mas podes ir tu ao supermercado se quiseres. Cheirou-o. . estás livre para fazer aquilo que quiseres. A curiosidade foi aguçada ao abrir uma das embalagens.Compra carne. intrigou-se com a oleosidade. Podia ouvir música aos altos berros. .Claro – respondeu Jorge beijando-lhe a face. Podes aquecê-lo no microondas se quiseres. Sim. . – Vou passar o dia todo no escritório às voltas com uns arquivos que tenho que rever. Podia fazer tudo aquilo que quisesse. desenrolou-o numa tentativa desesperada de perceber como aquele objecto funcionava. .Então bebe sumo! Acho que ainda tem o resto do frango do jantar. .k! . E quando finalmente percebeu. . Essas coisas! .

Hã… já vieste pai?! . Aquele era um ritual que fazia praticamente todos os domingos e daí a pouca surpresa de pequeno Daniel quando abriu a porta e se deparou com a figura do avô. quando entrou à socapa no quarto do pai e ouviu o barulho do chuveiro a trabalhar.Mais ou menos – respondeu Daniel seguindo-o em direcção à cozinha onde Madalena se encontrava a ultimar os preparativos do almoço. . .Cheguei cedo? – perguntou ele recebendo um beijo da filha. – Então rapaz… .Consegui despachar-me mais cedo do que estava à espera. . Sara não teve dúvidas de que aquela era a altura ideal para repor os filmes que lhe havia retirado da mesinha de cabeceira. . e a terceira. Alguns minutos mais tarde. – Bem. A segunda estava nos treinos de judo e não se iria despachar antes das sete tarde.Como assim? Para onde é que ela foi? .Volta mesmo?! 52 .exclamou Afonso afagando os cabelos do neto e entrando pelo corredor adentro sem quaisquer cerimónias. e mesmo tendo a tarde livre para fazer o que quisesse.Posso pôr a lasanha no forno se quiseres. . agarrou no seu velho Opel Corsa e estacionou-o a poucos metros da vivenda onde a filha e o neto moravam.Fui ao supermercado – disse ela assim que ele entrou na sala. Vestiu uma das suas melhores indumentárias.A Sara já não mora mais connosco – respondeu Daniel para grande surpresa do avô. A primeira tinha ido passar o fim-de-semana ao Douro. . Sara voltou a sair do quarto e encostou a porta com um longo suspiro. E assim.Infelizmente naquele Sábado as horas demoraram a passar. Só me falta fazer a salada. não tinha a permissão dos pais para sair de casa sem a presença de alguém mais velho. . – Cheguei – gritou Jorge da porta sem sequer imaginar que a poucos metros a filha se encontrava na sala a esconder os filmes que lhe havia retirado do quarto. acho que vou tomar um banho porque estou a estoirar de dores de cabeça. Aliviada foi o que se sentiu. Por sorte. – Andas-te a portar bem? . uma boa notícia – exclamou Jorge espreguiçando-se com vontade. – Mas volta! . a única alternativa que restou a Sara foi devorar todos os filmes pornográficos do pai enquanto devorava também as pipocas que havia comprado no supermercado da esquina. .Não! Chegaste na hora.Isso era óptimo! Assim quando saísse do banho já tinha alguma coisa para comer. Jorge não desconfiou de nada e nem sequer teve a brilhante ideia de abrir as gavetas para se certificar que o seu pequeno tesouro que demorou dois anos a ser construído não tinha sido drasticamente usurpado pela própria filha. Assim sendo.A Sara?! . Tal como sempre. a verdade é que Sara não conseguiu a companhia de nenhuma das suas amigas da escola.Pensei que fosses demorar mais – respondeu Sara escondendo as caixas de DVD por detrás das almofadas do sofá. . após ter a certeza que se tinha livrado de boa.Ela foi passar uns dias com o pai – informou Madalena provando o molho da carne assada junto ao fogão. . Afonso Soares foi pontual para o almoço em casa da filha.Olha.

Sim. em muito mais. foi a pergunta do pai.Até já… .Claro que volta. E sim. E ao vê-la. aliás. acho que sim. . .Hã… numa rua chamada Alecrim. 53 . e depois disso. – Meu Deus – exclamou Madalena às gargalhadas quando ele a arrastou directamente para o quarto. correu apressada em direcção à rua de Sérgio pronta a descobrir o número cento e cinquenta e dois e também o andar que ele lhe indicara momentos antes. Era ali que ela se sentia segura.Aonde é que estás? . Tens que dar a volta. Conheces?! .Pois podes acreditar – respondeu ele sugando-lhe o pescoço. Madalena despediu-se de Afonso e Daniel dizendo que demoraria apenas algumas horas para ajudar a sua amiga Alice a mudar alguns móveis lá de casa.. protegida e ciente de que nada e nem ninguém a poderia separar de Sérgio.Então já estás mesmo aqui ao pé – respondeu Sérgio saindo à varanda. . respondeu ela esboçando-lhe um sorriso malicioso que disse tudo. deves acreditar! Um sorriso radiante foi o que Madalena ofereceu a Sérgio. foi impossível não acenar de longe e receber um outro aceno de volta. Não precisam de ajuda.Número cento e cinquenta e dois.respondeu ele desligando a chamada com um largo sorriso. . Por sorte. Três andares depois e a porta abriu-se. – Não podias ter escolhido uma rua mais escondida para morar? . Não.Está bem! Já agora diz-me outra vez o número do prédio e o andar.Tu sabes que eu gosto de me esconder. Mas quando conseguiu esse milagre lisboeta em pleno fim-de-semana. . Era uma mentira pegada. – Porque quanto mais escondido estiveres. . os dois amantes tiveram-se um ao outro e deixaram os seus sentidos perderem-se naquela habitação minúscula dotada de poucos móveis e com uma simplicidade que conferia a Madalena toda a paz e conforto pelo qual havia ansiado durante semanas. . Em apenas dois meses. – Aliás. – Acho que estou perdida.Olha que eu acredito. .Tu já me tens só para ti. Madalena desapareceu do quarteirão e rumou ao centro da cidade com o único intuito de cair nos braços de um fotógrafo que já não lhe era tão desconhecido quanto isso.O meu fica atrás. Depois disso. Afonso percebeu no minuto em que a filha saiu à rua e se enfiou no carro estacionado na garagem. um beijo tão ou mais apaixonado que o primeiro enquanto se deixava levar em direcção à cama sem se importar com o barulho das obras do vizinho do segundo andar.k! Até já. mais te tenho só para mim… . Na verdade. – O.Ainda bem – respondeu ela ajudando-o a desfazer-se da camisa.O.k – riu-se ela quando ele atendeu o telemóvel. tinha-se transformado no seu amante. terceiro esquerdo. pois o fotógrafo permaneceu na varanda apenas para ter a certeza que a sua visita não se iria perder pela segunda vez. no seu melhor amigo e também no seu grande confidente. Sérgio tinha-se transformado em algo mais. a tarefa não foi tão difícil quanto isso. – Consegues ver uns prédios verdes? . Madalena precisou de quinze minutos para conseguir estacionar o carro. . Sempre em movimentos contínuos e frenéticos. Depois do almoço.

Impossível não sentir saudades tuas – respondeu Sérgio arrancando-lhe um sorriso – Eu por exemplo passo a minha vida a sentir saudades tuas. ele reconheceu imediatamente a sua visita. Fiz mal? .Sim – respondeu Madalena deitando a cabeça sobre a almofada.Estas cerejas estão maravilhosas – confessou ela devorando um dos que ele lhe colocou na boca.Olá – respondeu a modelo esboçando um doce sorriso assim que a porta lhe foi aberta pelo fotógrafo. – Acreditas que desde que ela foi morar com o pai nem sequer me ligou? .respondeu Sérgio. . . . Está suado. mas é que… . – Vai lá! Pela pressa parece ser importante. – Obrigada também por me tirares da cabeça todos os meus problemas..Queria escolher algumas.Não – respondeu Sérgio apressando-se a encontrar as calças de ganga no meio das inúmeras roupas espalhadas pelo chão. mas é que tínhamos combinado ver aquelas fotos da sessão.Seja quem for. – Estás à espera de alguém? . .Porque é que não ligas tu? . foi a primeira coisa que reparou. – Deve ser algum vizinho ou assim. eu resolvi aparecer hoje outra vez. . Vai demorar – disse Sérgio sentando-se à secretária e ligando o computador com uma expressão no mínimo entediada.Não. Dois minutos foi o tempo que Sérgio precisou para sair do quarto e caminhar em direcção à porta com uma enorme vontade de esganar o vizinho inoportuno que teve a desfaçatez de interromper o seu descanso ao lado de Madalena.Porque prometi que não faria isso! Quero que ela sinta saudades minhas. . . embora seja óbvio que ela não sente.Comprei especialmente para ti. – Queres todas as fotos? . Mas ao olhar através do espelho da porta. Era ela outra vez.Não tenho pressa – respondeu Vera debruçando-se sobre ele enquanto prendia os seus longos cabelos com a mão e se deixava deliciar pela maravilha que era vê-lo em tronco nu. . Era ela.São muitas. Os cabelos também se encontravam desalinhados e as costas vermelhas pareciam ter sido marcadas por unhas de uma mulher. não deixes entrar no quarto. já disse que não.Tudo bem – respondeu ele abrindo-lhe passagem em direcção à sala onde se encontrava o seu computador portátil e também a Pen drive repleta de fotografias que havia tirado a Vera semanas antes. . – Desculpa vir sem avisar.Obrigada – riram-se os dois.Eu também – disse Madalena aconchegando-se no peito dele e fechando os olhos sem se importar com o irritante toque da campainha.Não. encabulado.Porquê?! . – Vera! .Porque eu não quero que me apanhem assim toda descascada – respondeu Madalena arrancando-lhe uma leve gargalhada. .É rápido! Só queria umas cópias para colocar no meu book. 54 .Ainda a história da tua filha? . lembraste?! Como nunca mais disseste mais nada.disse ela recorrendo ao seu sexto sentido quase sempre infalível. Teria interrompido alguma coisa? – Espero não ter vindo numa má hora… . . .

Estiveram! . 55 .Sim – respondeu Sérgio com toda a calma do mundo. – Não! Eu é que peço desculpas. – O que foi? .As duas estiveram cá?! .Só achei estranho… . elas pediram para vê-las. pelo menos devias levá-las. – Podes ficar à vontade. – O que foi? O que é que estás para aí a pensar? .Só não quero que me enganes – respondeu ela voltando-se para ele.Que é isso – afirmou Madalena percebendo o embaraço da modelo. Eu voltava numa outra hora ou então procurava-te no estúdio. E assim. Fomos tomar um café e como lhes disse que as fotografias tinham ficado muito boas. A primeira reconheceu-a de imediato porque era a de Sérgio. como é que ela sabia onde moravas? Já aqui esteve alguma vez? .Quando? . – Hã… desculpem! Não sabia que estavam aí … A expressão facial de Vera pareceu mudar radicalmente quando ao voltar-se para trás a figura de Madalena encandeou-lhe a visão. Vera. As revelações de Sérgio realmente não caíram nada bem a Madalena e prova disso foi o longo suspiro que ela lançou a fim de acalmar os estúpidos ciúmes que estava a sentir. Devias ter-me dito que estavas ocupado.Claro que não – respondeu ele forçando um sorriso que não foi de todo correspondido por Madalena.Claro – respondeu a jovem voltando-se novamente para o ecrã do computador quando pressentiu que Madalena havia descoberto o seu disfarce em pouco menos de cinco segundos. depois de ter escolhido as fotografias tiradas por Sérgio. . .Há algumas semanas atrás. Aliás. . – Veio com a Natália.Por essa visita inesperada. – Desculpa – pediu Sérgio regressando à sala depois de a ter acompanhado à porta. Sérgio. .Como nada? E essa cara? . não achas!? . mas… . .Desculpa porquê?! – perguntou Madalena.Mas eu não te estou a enganar. .Sim. vinte minutos mais tarde.Estranho o facto de essa rapariga ter aparecido do nada. recebeu-as num CD despedindo-se com um sorriso e com a certeza de que nunca mais voltaria a uma casa sem ser convidada. Senão era um desperdício de tempo.Vim. mas a segunda só o conseguiu fazer quando entrou na sala e se deparou com a figura da modelo a quem havia encontrado semanas antes no estúdio dele.Costumas receber as tuas clientes cá em casa? .Nada – respondeu ela desviando-se dele.Estranho o quê?! . Infelizmente também se lembrava do nome dela e também de todos os seus atributos físicos. . Vera! Não vieste buscar as tuas fotos? .O barulho ensurdecedor no quarto deixou Madalena impaciente e fê-la caminhar pé ante pé em direcção à sala onde lhe pareceu ter ouvido algumas vozes.Então?! Se te vieste até aqui.

respondeu Madalena não escondendo a sua surpresa perante uma palavra que já não ouvia há muitos anos. na tua inteligência e de julgares que todas as mulheres são melhores que tu! Infelizmente já percebi que o teu ex. . – O facto de não acreditares nas tuas qualidades. As palavras que Sérgio lhe dissera tinham sido cruéis. – Talvez tenhas razão – interrompeu ele. com quem quero fazer amor e a quem quero apresentar a todos os meus amigos como sendo a minha namorada… ..Eu não acredito que estejas a pensar que estou a gozar contigo.Então o que é que um homem como tu quer de uma mulher como eu?! Porque é óbvio que tu podes ter qualquer uma que te passe pela frente. . das rugas que te aparecem no canto dos olhos quando sorris ou da celulite que tens nas pernas. nem precisas sair de casa porque elas batem-te à porta e cercam-te como se fosses… . mas é que… . aliás.Não é nada disso. Eu consigo ver a mulher com quem quero estar. Enquanto passeava por aquela sala minúscula e se dava conta da triste figura que fizera momentos antes. ela pensou. . marido conseguiu convencer-te disso durante os anos em que vocês estiveram casados e é uma pena que ainda continues a pensar assim mesmo depois de te teres separado dele. Pelo menos assim vou saber no que é que me estou a meter.Uma conversa que se calhar já deveríamos ter tido há mais tempo – respondeu ela cruzando os braços. aliás. para além dos dois fios de cabelo branco que tens aí à frente. – Eu não quero criar expectativas. Não quero que gozem comigo! Nem tu.Hã… esqueci-me! Mulheres acima dos quarenta também não podem namorar. 56 . Madalena tapou o rosto com as mãos e desejou que um buraco se abrisse por debaixo dos seus pés. .Eu sei. . – Fui uma idiota! Não devia ter dito aquilo que disse.Tu tens quarenta e eu tenho trinta e dois.Sabes qual é o teu problema? Madalena manteve-se em silêncio. – Mas eu também não quero passar a vida toda a tentar enfiar-te isso na cabeça e nem quero ver as tuas desconfianças sempre que me aparecer uma mulher de vinte anos à frente. nem as tuas amigas e muito menos essa… Vera… . E daí? Será que a idade importa assim tanto? Será que não consegues ver mais nada em mim para além do meu bilhete de identidade? Porque eu consigo ver muitas coisas em ti para além disso. mas infelizmente também tinham sido verdadeiras e foi isso que a levou ao mais profundo desespero. que conversa é essa? . – A tua insegurança – respondeu Sérgio à sua própria pergunta.…eu não sabia que estávamos a namorar.Desculpa – pediu ela mantendo-se de costas para ele. . não tenho mais idade para criar expectativas e nem quero fazer papel de idiota.Será que não percebes que estou contigo porque gosto de ti? Porque gosto realmente de ti e não quero estar com mais nenhuma outra mulher? A surpresa fez com que Madalena se voltasse novamente para ele.Namorada?! . – Talvez já devêssemos ter tido esta conversa há mais tempo.Lena. . eu prefiro que me digas. Sim.Porque se isto for um caso sem importância. .

. 57 ..Pois nós estamos a namorar – informou Sérgio trazendo-a contra si. – Ou ainda não tinhas reparado nisso? . Quero participar na tua vida. Quero ser muito mais do que isso. e apesar de se ter odiado por ter sido o primeiro a dizêlo.Acreditas agora em mim? . marido se for preciso. Estava feito. tudo pareciam apenas detalhes sem qualquer importância. até porque diante da imensidão daquele momento. Estava dito. Todas elas foram transpostas sob o olhar incrédulo de Madalena enquanto os ouvidos dela tentavam assimilar aquela declaração no mínimo surpreendente. .ele pareceu hesitar. o teu pai e até o idiota do teu ex. conhecer os teus filhos. Pronto.… porque eu te amo. a verdade é que Sérgio não pensou duas vezes em proferir aquelas palavras que manteve guardadas a sete chaves no seu coração. baixinho. – Eu também te amo muito.Acredito – respondeu Madalena atirando-se para o colo de Sérgio sem se importar com mais nada à sua volta e nem com as palavras duras que trocaram minutos antes.Eu não quero ser o tal com quem só estás uma vez por semana quando arranjas algum tempo na tua agenda. – Leva-me para o quarto – pediu ela ansiando que o seu pedido fosse realizado o mais rapidamente possível. . Eu quero tudo isso porque … .Por acaso não – riu-se Madalena. – Eu também te amo – confessou ela por fim. ouvir os teus problemas.

CAPÍTULO IV
Era a primeira vez que iria chegar atrasada à escola e tudo porque ninguém a acordou e o despertador recusou-se a tocar. Mas ainda assim, Sara saltou da cama, vestiu-se às pressas e arrumou a mochila enquanto o relógio da mesinha de cabeceira assinalava dez para as oito. Depois disso, seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à cozinha e o desespero de encontrar o pai para que ele a levasse à escola. – Quem és tu? – perguntou Sara surpreendendo-se com a figura de uma mulher perto do fogão. - Hã… deves ser a filha do Jorge, não?! - O meu pai? - Ele está a tomar banho – respondeu a mulher bebendo um gole de sumo. – Olá! Eu sou a Carla. - Ele vai demorar muito? – perguntou Sara ignorando-lhe o cumprimento. - Não sei! Acho que não. - Eu preciso que ele me leve à escola senão chego atrasada. - Já estou pronto, Carlinha… – interrompeu Jorge entrando pela cozinha longe de sequer imaginar que a sua filha também ali estava. – Filha?! Ainda por aqui? Pensei que já tivesses saído. - Como é que eu podia sair?! Preciso de alguém que me leve à escola e precisava também de alguém que me acordasse – respondeu Sara lançando um olhar aterrador à nova amante do pai. – Vou chegar atrasada por tua causa. - Esqueci-me. - Então?! Levas-me ou não? - Escuta querida… - pediu Jorge aproximando-se de Sara com alguma cautela. – E se o pai te pagasse um táxi para ires à escola, hã? - Um táxi!? - Sim! É que eu já tinha prometido levar a Carla a casa e olha que ela mora no outro lado do rio. Se fosses de táxi irias despachar-te muito mais depressa, garanto-te! - Tu preferes levar a… Carla a casa do que levar-me à escola? – perguntou Sara, incrédula. - Não é nada disso, querida. Não estás a compreender o que o pai está a tentar… - Deixa lá! Eu vou de autocarro. Apesar dos inúmeros chamamentos de Jorge, Sara abandonou a cozinha como a mochila às costas e com a certeza de que todas as coisas para o pai eram mais importantes do que ela. Saiu sem sequer olhar para trás e atreveu-se também a bater com a porta quando o fez. Depois disso, alcançou o elevador e desceu à rua pronta a encontrar o primeiro autocarro
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que a pudesse levar ao destino pretendido: Escola. Era lá onde deveria permanecer as oito horas seguintes e aprender Inglês, Geometria e Física, conversar com as suas amigas nos intervalos e comportar-se como uma jovem de quinze anos cujo maior erro foi ter pedido à mãe para morar com o pai. Mas será que era mesmo isso que queria fazer? Ao passar de autocarro por uma Sex Shop, Sara teve dúvidas e por isso desceu na paragem seguinte. Mais tarde, caminhou dez metros em sentido contrário e viu-se com os olhos postos na montra da loja enquanto tentava decifrar o que eram todos aqueles objectos e também para que serviam. Ali, completamente alheia ao movimento das pessoas, ela deixou-se ficar e só se afastou quando um dos funcionários da loja saiu à rua para fumar um cigarro. – Isto não é para a tua idade, menina – disse-lhe ele. – Não devias estar na escola? Sara assustou-se quando ouviu a pergunta e tentou igualmente passar despercebida no meio da multidão enquanto os olhos do funcionário continuaram a segui-la pela avenida a fora. Adolescentes, murmurou ele abanando a cabeça. Faltavam apenas alguns minutos para as onze quando Madalena atendeu o seu terceiro cliente do dia. Este, que tal como todos os homens à face da terra, não percebia nada de flores, ficou-lhe extremamente grato pela indicação de um ramo de camélias japonesas acabadinhas de chegar. Só então ele ficou a saber que essas eram as flores ideais para pedir perdão à esposa. – Ele traiu-a e ela descobriu – disse Alice assim que o cliente abandonou a loja. - Não faças juízos sem saberes a verdade – respondeu Madalena. - Lena, um homem que chega aqui a dizer que precisa de umas flores para a mulher que simbolizem arrependimento, isso só significa uma coisa. Traição! E traição da grossa. - De qualquer maneira, não nos compete a nós julgar! Cada um sabe de si. - Dizes isso porque agora és só sorrisinhos, paz e amor – riu-se Alice, animada. - Como assim?! - Desde que começaste a andar com o tal fotógrafo que já não falas mal dos homens, tratas todos os clientes a pão-de-ló e passas a vida a suspirar pelos cantos, isto para não falar das vezes que olhas para o telemóvel à espera que ele toque. - É assim tão evidente? - Define-me evidente – riram-se as duas amigas. - Tu nem acreditas, Alice… - Só acredito se me contares. - Ontem estive com ele – discursou Madalena deitando no caixote de lixo as fitas que utilizara para fazer o embrulho das camélias japonesas. – Fui conhecer-lhe a casa. - Uau! Mas isto já vai assim? - E tu nem sabes o que ele me disse. - O quê? - Que me amava – revelou Madalena deixando-se contagiar pelas gargalhadas da melhor amiga. – O que foi? Não acreditas? - Acredito. Claro que acredito – respondeu Alice levando a mão ao queixo. – E tu? O que é que lhe disseste? - Oras! Disse que também o amava. - Gostava de ser uma mosquinha para ter visto a cena.
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- Achas que fiz bem!? Quer dizer, eu gosto dele e pelos vistos ele também gosta de mim, mas será que não foi demasiado rápido? - Não foi ele o primeiro a dizer que te amava? - Foi. - Então?! Não tens responsabilidade nenhuma. Se acontecer alguma coisa, ele disse primeiro e tu só respondeste por educação – respondeu Alice arrancando uma ruidosa gargalhada a Madalena. Naquela tarde, Sara faltou a todas as aulas sem qualquer justificação, e depois de ter passado o dia inteiro a passear pelas ruas da cidade, regressou a casa, trancou-se no quarto e visionou os restantes filmes pornográficos que o pai fazia sempre questão de esconder na sua mesinha de cabeceira. Foi também a primeira vez, enquanto os via, que ela atreveu a acariciar-se por debaixo das cuecas e a experimentar um prazer que nunca pensou sentir nos seus tenros quinze anos. E se experimentasse ter relações sexuais a sério, passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Com um rapaz da sua escola? Ou até mesmo com qualquer um que estivesse disposto a ajudá-la a superar a curiosidade que se havia apossado de si desde que descobriu a pornografia e os prazeres que ela trazia consigo? Subitamente, algo que deveria ser apenas um divertimento para passar a tarde, transformou-se num vício demasiado perigoso que a perseguia para onde quer que fosse. Na casa de banho, na cama e até nas escadas de serviço do prédio do pai, todos esses lugares serviram para que Sara se masturbasse e tentasse remover todo o stress de cima dos seus ombros. Não estaria ela a levar aquilo demasiado a sério? Não estaria a ficar viciada em sexo e pornografia? - Ficas bem cá em casa? – perguntou Jorge chegando à sala após duas horas a tentar escolher a roupa perfeita, o penteado perfeito e o perfume perfeito para a uma noite que prometia também ser perfeita. - Fico – respondeu Sara fingindo estar mais interessada a ler a revista que tinha nas mãos. - Prometo que não me vou demorar muito. - Com quem é que vais jantar desta vez? Com a Vanessa? A Carla ou a Antónia? - Vou fingir é que não ouvi o que acabaste de dizer – respondeu Jorge vestindo o casaco às pressas. – Então? Como é que estou? - Bem. - Qualquer coisa e liga-me para o telemóvel! Vou mantê-lo sempre ligado pela via das dúvidas. Mas não te esqueças também de telefonar à tua mãe – discursou Jorge alcançando as chaves do carro sobre a mesinha. – Não quero que ela pense que sou eu quem te está a impedir de lhe ligar. - Se me lembrar, eu ligo. - Vai! Porta-te bem. - Tu também. - O pai porta-se sempre bem – respondeu ele piscando o olho e deixando a filha completamente sozinha em casa. A vontade de Sara de sair foi imperiosa, assim como a de conhecer um lugar onde já havia passado várias vezes durante o dia. O Intendente. Uma pequena localidade no centro de Lisboa conhecida pela sua antiguidade, mas também pela sua má fama, pois era ali onde se reuniam a maioria das prostitutas, drogados e imigrantes ilegais numa estreita colaboração com o crime e a má vida. E sim. Ao ver-se à saída do metro, Sara sentiu que tinha cometido
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Pastilhas também servem – afirmou a mais velha permitindo que Sara se aproximasse lentamente da porta onde estavam encostadas. Isto não é lugar para miúdas como tu. permaneciam duas mulheres um pouco mais novas intoxicadas de perfumes e outras roupas provocantes. – Escuta! O que é que andas a fazer por estas bandas? Não és daqui! .Estava a ir para casa. . meias de renda pretas e um top decotado que deixava transparecer o soutien em tons de cor de rosa choque. . – O que é que achas. . aparecem muitos homens a querer ter sexo com vocês? . – Tens cigarros? – perguntou ela encostando-se a uma porta de madeira degradada. há dias que rende menos. as mãos foram estendidas e as pastilhas entregues àquela que parecia ser a líder do grupo. Trazia consigo uma mini-saia vermelha. . Depois disso. . Contudo. .…mas tenho pastilhas de menta.Se têm muitos clientes ou não. Querem? .Corajosa! .Não! Só ofereci porque não tenho cigarros.Não – respondeu Sara hesitando alguns segundos a responder. enquanto ao seu lado.Milene.uma loucura quando resolveu lá colocar os pés. Depende dos excelentíssimos clientes que apanhamos. apenas conseguiram embrulhar-lhe o estômago e fazê-la perguntar-se que raios estava a fazer quando a sua única vontade era fugir e fingir que nunca ali estivera. Até porque este é um lugar para putas ou ainda não tinhas percebido isso? .Putas?! – indagou com uma gargalhada a que parecia ser mais nova. . Era mais um dos inúmeros drogados a passar no outro lado da rua. . não assustes a coitada da miúda.Vocês são … . diz lá! . – Há dias que rende mais.Vocês costumam ter muitos clientes por aqui? Quer dizer.Eu não me assustei. – O que é que queres saber. uma mulher de meia-idade atreveu-se a chamá-la. .Além de corajosa é curiosa também… – riram elas sob o olhar atento daquela jovem que aparentava ter toda a segurança e experiência do mundo. 61 . .Por acaso estás a insinuar que temos mau hálito? – interferiu uma das prostitutas lançando-lhe um olhar desafiador. enquanto lutava contra a sua indecisão. Sara pôde ter essa certeza.Porquê?! . sujas e com intenso cheiro a urina e outros dejectos humanos.Só estava a passar – respondeu Sara à cautela.Eu não devia estar-te a dizer isto. Mas como podia ela ter se não deveria ter mais do que dezasseis anos e também muita lata para meter conversa com três prostitutas em pleno horário de serviço. As ruas algo desertas. querida? Achas que só estamos aqui encostadas por desporto?! É claro que somos putas. .Depende – respondeu Milene levantando o braço para cumprimentar um velho conhecido da zona. mas desaparece daqui enquanto é tempo. e ao voltar-se para trás.É bom que ela se assuste mesmo – respondeu a última sem desviar os olhos de Sara.

sempre tinha algum conforto e segurança. Salva e pronta a regressar para uma casa. – Para quê que querias saber quantos clientes tínhamos por dia e quanto lhes cobrávamos? . – Já ouvi chamarem-lhes muitas coisas. . Sara deu-se por vencida e abandonou aquela rua semi-deserta completamente coberta pelo casaco que fez questão de levar consigo. a escola e esquece isto! Esquece isto porque isto é uma merda… As palavras de Milene permaneceram-lhe nos ouvidos durante largos minutos. . rapariga! Vai para casa porque este não é o lugar mais indicado para ti.Espera – chamou Arlete. Chamava-se Arlete.Não – respondeu ela desviando-se de um dos inúmeros traficantes. – Eu sou a estrela do bairro.E não é verdade?! Olhem bem para mim – disse Milene girando sobre os pés e mostrando todos os atributos que Deus lhe ofereceu ao longo dos seus vinte e seis anos de vida. Quem quiser tem que pagar e tem que pagar bem porque não ando aí a fazer favores a ninguém. Minutos depois. – Queres coca? . Estava salva..Não me digas que estás a pensar em juntar-te aqui ao clube VIP!? .Excelentíssimos… – riu-se a prostituta mais velha. . – Achas que vou abrir as pernas de graça para qualquer um que me apareça à frente? Eu sou puta. .Então não tens pedalada para isto! Vai lá.Por nada – respondeu a jovem compondo os cabelos. nome inscrito no colar que trazia no pescoço. triste e guardava na fachada dos prédios toda a decadência humana de pessoas que tinham perdido totalmente a vontade de viver. – Lá porque estamos para aqui a rir e a contar piadas. . não a Madre Teresa de Calcutá. .Já se está a gabar só porque é a que cobra mais caro – resmungou Arlete enfiando uma pastilha elástica na boca. . . Elas estavam certas ao dizer que aquele não era lugar para si e nem para ninguém. e enquanto se afastava dela e lhe observava os últimos traços físicos. Era um lugar sujo.Nem tudo o que reluz é ouro – concluiu Milene evidenciando no rosto os anos de uma das profissões mais ingratas do mundo.Não – ela voltou a responder.E vocês cobram para irem para a cama com eles? – perguntou Sara tentando ignorar as risadas que ecoaram por toda a rua. onde. as luzes da avenida ofuscaram-lhe os olhos e trouxeram igualmente o ar que há muito ela havia deixado de respirar enquanto esteve metida naquele bairro tão degradado. – Só estava curiosa. mas excelentíssimos!? Essa é nova cá no bairro. apesar de não se sentir muito bem-vinda.Não! Eu não seria capaz de cobrar para ir para a cama com alguém.Queres boleia? A voz grossa vinda do interior de um carro parado a poucos metros do passeio foi o impulso que Sara precisou para se voltar para trás e encarar o rosto daquele homem de 62 . Sim.Queres trabalhar para mim? . .Estás a gozar não!? – respondeu Milene levando a mão à cintura.Eu tenho que ir – interferiu Sara ao perceber que já estava ali a mais. . não penses que somos felizes por termos cinco homens por noite e pouco mais de quinhentos euros de manhã. pensou. minhas amigas… . Aproveita a tua juventude.

Mas enquanto o ouvia falar sobre assuntos perfeitamente triviais para duas pessoas que mal se conheciam e que tinham uma diferença abismal de idades.Podes ligar quando quiseres. . .Obrigada. rasgou-lhe um olhar assustado e correspondeu-lhe ao sorriso. e as mãos que fez questão de manter sempre apoiadas sobre o colo. . .Parque das Nações. De facto. ele era velho demais para si. – Meu nome é Paulo – ele disse. – Toma! Tens aqui o meu número de telefone e também da universidade onde dou aulas.Olá! Sara. . bastante educado. a portaria abriu-se ruidosamente.Claro – respondeu ele apressando-se a encontrar um cartão no porta-luvas. até parecia ser boa pessoa. começaram a suar desalmadamente. . . Porque é que não entras? Entrar ou não entrar. No fundo. o virar do rosto e a sensação de que não estaria a fazer nada de mal se aceitasse uma boleia de um perfeito desconhecido. . Nessa altura. obrigada – respondeu ela. . – Não.E onde é que moras? . devidamente instalada no banco da frente. era professor universitário.Posso voltar a vê-lo – saltou essa pergunta dos lábios de Sara enquanto se desfazia do cinto de segurança. . já deu para reparar.Assim que puder eu ligo – respondeu Sara encontrando no cartão a deixa perfeita para abandonar o carro de Paulo e atravessar a rua em direcção ao prédio onde morava.Para casa. cordial e seguro do que dizia. Sara sentiu um calor percorrer-lhe as pernas. . mas talvez tenha sido esse facto que mais a fascinou naquele senhor de meia-idade que em muito lhe fazia lembrar o seu professor de Química. ela voltou-se para trás e correspondeu ao aceno do professor com a clara certeza que estaria para muito breve um novo encontro dos dois. 63 . Mais tarde.Estás com frio.Nesta zona?! . facto que fez questão de salientar durante a condução pelas ruas da cidade. Sim.Nada – respondeu Paulo enfiando a chave na ignição do carro. Paulo Figueira tinha quarenta e cinco anos.Vim visitar uma amiga – mentiu ela. Sara. . fizeram com que ela retirasse uma das mãos do bolso e alcançasse a porta do carro sem pensar nas consequências daquele acto no mínimo irreflectido.Posso saber o que fazes sozinha a essas horas da noite? . – Estás entregue.Está bem. barba aparada e um sorriso desenhado nos lábios. Mas os olhares esguios.Muito prazer. essa foi a questão que durante vários minutos rondou a cabeça de Sara enquanto ela se tentava decidir e tentava igualmente fugir à forte ventania produzida pela noite.meia-idade.Porquê?! O que é que tem? . – Diz-me! Para onde queres que te leve? . divorciado e pai de duas filhas com a mesma idade de Sara.

– Mas eu queria que ela estivesse aqui comigo. . – Ouviste? . . .Sérgio… . Há pelo menos quatro dias que não sei nada dela. – Não vim aqui para te deixar triste.É – respondeu Madalena não muito convicta disso. . – Dá-me só mais algum tempo … – pediu ela. – Pelo menos até a minha filha voltar para casa e as coisas regressarem à normalidade.E quando é que vamos deixar de nos encontrar às escondidas dentro do meu carro? .Pensei que não nos fossemos ver hoje. 64 .Adorei – respondeu ela voltando a sugar-lhe os lábios.Nós não nos estamos a encontrar às escondidas.Tens a certeza?! Se não tivéssemos nada a esconder. vou pôr o lixo lá fora – exclamou ela passando pelo corredor como um foguete.E nem eu quero que sejas esse tal. . . – Daniel.Eu não quero me esconder. juro que te apresento aos meus filhos e vamos ficar os quatro sentados no sofá a ver televisão. enfiado no carro e à sua espera.O Daniel está bem! Estava agarrado à Playstation dele. eu teria tocado à tua porta. – Que saudades – confessou ela conseguindo finalmente enterrar-se nos braços dele. .Está bem – respondeu ele mostrando-se muito pouco interessado naquela tarefa tão rotineira.Hã…!? . mas depois voltou a reerguer o rosto em direcção a Sérgio.Eu também morri de saudades tuas – respondeu Sérgio beijando-a no interior do carro. mas esquece esse assunto – pediu Sérgio voltando a encontrar-lhe os lábios. .Tu nunca me deixas triste. deitou nele um saco minúsculo e correu em direcção ao carro da única pessoa que a poderia levar à rua àquela hora. . Mas nem o frio arrepiante que se fazia sentir lá fora conseguiu demovê-la da ideia de aceitar o convite do fotógrafo quando soube que ele se encontrava a poucos metros da sua casa.Eu sei! Mas bem. o que foi óptimo porque assim não tive que dar muitas desculpas para sair de casa – riram-se. e como ele morava aqui ao pé. . tu tinhasme deixado entrar para conhecer o teu filho e estaríamos agora os três sentados no sofá a ver televisão ou a jogar Playstation. Lena – afirmou ele acariciando-lhe a face enquanto os seus olhos mergulhavam nos dela. – Lembras-te daquilo que te disse no outro dia? Que não quero ser o tal que só vês quando tens algum tempo na tua agenda? . . muito pelo contrário.Então?! O que é que te está a impedir de me deixares entrar na tua vida? Madalena optou pelo silêncio como forma de resposta.O telefonema de Sérgio tomou Madalena de assalto enquanto ela terminava de arrumar a cozinha e retirava do congelador a carne que iria assar no dia seguinte. . não sei.Os teus filhos? Como é que estão? . . Mais tarde. – A surpresa é claro.Deve estar bem com o pai. Depois disso. Liberdade foi o que Madalena sentiu quando alcançou os portões do jardim e caminhou apressada em direcção ao contentor de lixo mais próximo. – Mas a Sara não sei.É que eu tive que deixar uns rolos na casa de um amigo. resolvi fazer-te uma surpresa.Vou pôr o lixo lá fora. .

Numa dessas vezes em que pensou nele.Gosto – respondeu ela.Pode. Mas a verdade é que o verdadeiro motivo da sua recusa prendia-se única e exclusivamente com Paulo Figueira. os dois personagens. comer ou não as refeições e continuar a assistir a filmes pornográficos quase todos tirados da Internet. Sara recusou-se terminantemente a voltar dizendo que se encontrava bastante feliz a viver com o pai.Marcamos um outro encontro e eu trago-tos! . uma coisa que adorava fazer quase todas as horas do dia e do qual não parava de pensar especialmente quando se lembrava de Paulo Figueira. resolveu fazer algo há que muito se tinha predisposto. apesar das inúmeras tentativas que Madalena efectuou para trazer a filha de volta a casa. Trazia também um à vontade e um carisma difícil de explicar aos olhos de uma adolescente de quinze anos cujo maior desejo era continuar a ouvi-lo e perceber o que é que ele tinha de tão especial para a fascinar. . – Podemos combinar um café para amanhã ao final da tarde – foi a resposta que obteve no outro lado da linha. aquele era o seu pequeno vício. imediatamente após se ter masturbado pela terceira vez consecutiva naquela tarde. Telefonar. Pode ser? .…eu não bebo café – confessou ela tentando acalmar as mãos nervosas ao colocá-las por debaixo da mesa. conciso e bastante sedutor. que nada tinham em comum para além de serem dois seres humanos. Telefonar a um homem que tinha idade para ser seu pai e tentar marcar um encontro com ele. Dez minutos mais tarde essa companhia chegou trajada com um elegante fato.Então se quiseres posso emprestar-te alguns livros que tenho lá em casa.Por mim tudo bem – disse ela tentando acalmar a voz trémula. – Eu também cheguei quase agora. . na sua maioria turistas. – Gostas de ler? – perguntou Paulo no meio da conversa. os mesmos cabelos grisalhos e a barba aparada. como passear pelas ruas da cidade sem se importar com as choras de chegar a casa. De facto. . dormir até quando quisesse. .Iria adorar. . e tudo porque encontrava sempre coisas mais interessantes para fazer.Não – respondeu Sara esboçando um sorriso quando Paulo se sentou à sua frente.Então peço um sumo.Então vou pedir dois cafés para nós. e uma brisa de final de Verão que em tudo embalou os pensamentos dela enquanto esperava impacientemente pela sua companhia. . Na semana seguinte. . Paulo era um excelente conversador e demonstrava toda a sua inteligência através de um discurso claro.Havia pelo menos uma semana que Sara não colocava os pés na escola. . – Aonde?! A faculdade de Paulo ficava no Alto da Ajuda e foi por isso que Sara concordou encontrarse com ele numa pequena esplanada perto de Algés. Ao sabor de um delicioso sumo de pêra. o professor universitário que lhe ofereceu um boleia dois dias antes. . – Olá! Espero não me ter demorado muito – disse ele. o professor universitário que 65 .Já pediste alguma coisa? .Não. .Está bem – concordou Sara deixando-se encantar pelo sorriso que Paulo lhe lançou. conversaram durante largas horas e esqueceram-se de tudo o resto que os rodeava. onde reinava a boa disposição dos clientes.

De resto.…não te achas bonita? – foi a surpresa de Paulo quando Sara lhe falou sobre as suas inseguranças relativamente à sua aparência física.Da minha idade? A resposta foi dada com um aceno positivo.Não sei. mas a verdade é que se voltasse para a casa da mãe jamais teria a chance de voltar a encontrar-se com Paulo e muito menos de levá-lo ao apartamento vazio do pai. seguiu-se uma conversa interessante sobre novos escritores contemporâneos. . . . – Entra – disse ela deixando que ele invadisse o corredor. Depois disso. . o prazer da leitura e a certeza de que as horas tinham deixado de passar para os dois.Eu não me interesso por rapazes da minha idade. Seria apenas uma fixação? Uma cisma? Um desejo? Talvez.O que tiveres para me oferecer. . . E não.Tenho sumo. Provavelmente ninguém compreenderia as razões que a faziam suspirar por um homem de quarenta e cinco anos quando deveria interessar-se somente por rapazes da sua idade. Aposto que todos os rapazes lá da tua escola devem correr atrás de ti.conheceu por um mero acaso. – Fico contente por saber isso – disse ele. Depois disso. O hálito de Paulo sabia a menta e as mãos não tardaram a percorrer as costas de Sara num movimento lento e contínuo em direcção às pernas. Na verdade ninguém diria que àquela tinha sido a primeira vez que se atrevera a fazer um chá.Quão mais velhos!? .Não – respondeu ela arrepiando-se quando ele lhe tocou suavemente na mão. Ela tremia.Não?! . queres beber alguma coisa? . Completamente despida. seguiu-se um olhar absolutamente esmagador que só culminou com um novo beijo e a loucura de Sara em permitir que um homem de quarenta e cinco anos a tocasse como nenhum outro homem a havia tocado até então. . . ela entregou-lhe a única coisa 66 .Pois devias! És uma rapariga muito bonita. Sonhou também fazer amor com ele embora tivesse a plena consciência que a diferença de idades que os separavam iam muito além de uma mera faixa etária. café ou chá.Não – respondeu Sara voltando a sentir o mesmo arrepio quando Paulo lhe encontrou os dedos e entrelaçou a mão neles. . – Não repares na desarrumação! O meu pai é mesmo assim. – Bem. e a outra verdade é que os seus intuitos saíram na perfeição quando Paulo elogiou o sabor e a temperatura.Gostas de homens mais velhos? . Mas a verdade é que o fez. ele pôde perceber isso quando a deitou sobre o sofá e lhe afagou os cabelos lisos. mas que agora não se imaginava a viver sem ele.Claro – riram-se os dois enquanto chegavam à sala. O chá foi servido em poucos minutos num pequeno tabuleiro e em duas chávenas de porcelana que Sara fez questão de escolher nos armários da cozinha. . .Então eu vou fazer – respondeu Sara abandonando a sala sob o olhar atento de Paulo. Não te esqueças que também moro sozinho.Não te preocupes! Já vi coisas piores.Mais ou menos. Talvez fossem todas essas coisas.Aceitava um chá. os telefonemas quase diários e troca de algumas confidências apenas fizeram Sara sonhar com um possível relacionamento entre os dois. . .

Era também sua por permitir a loucura da filha em ir morar com o pai. é que a Sara está prestes a ultrapassar o limite de faltas injustificadas do primeiro período e a culpa é tua. . . Mas vendo bem.Não.Eu sei. especialmente de Sara. sabias!? .Hã… foi uma amiga que mo emprestou – respondeu Sara apressando-se a arrancar o livro das mãos do pai. eu… . .preciosa que há muito sonhava entregar a alguém. inteiramente tua – vociferou Madalena apontando-lhe o dedo. . e de uma conversa com directora de turma.Eu nem sequer sabia que ela andava a faltar às aulas. – Tu és ainda mais demente.Não são histerias. não é?! Além de que parecia irritada.Aonde é que está a Sara? 67 . mais mentecapto e mais irresponsável do que eu pensava.Hei – imperou Jorge não gostando nem um pouco da ironia.Este livro não é para a vossa idade.Vieste cedo – disse Jorge deparando-se com a figura de Madalena especada sobre o patamar de entrada. eu não quero voltar para casa! Eu quero ficar aqui. ausente e sem as mínimas condições morais para tomar conta dos filhos. Diz que precisa falar connosco. – Ou devo dizer antes.Uma carta da escola da tua filha… – respondeu Madalena atirando-lhe o envelope ao peito. foi o que Madalena decidiu durante a sua condução pelas ruas da cidade. Madalena percebeu que já não lhe restava outra alternativa a não ser arrancar a filha das garras do pai. Jorge sempre fora um pai irresponsável.Ainda não o li.O quê? .Meu Deus – exclamou Madalena soltando uma gargalhada seca a fim de acalmar os nervos que se apossaram de si.Porquê? Não a tens levado à escola? . – Queres o quê? Que toda a gente oiça as tuas histerias? . A sua virgindade. .Tem calma! Olha os vizinhos aí do lado – disse ele puxando-a para o interior do seu apartamento. – De quem é este livro? – perguntou-lhe o pai quando descobriu um exemplar do escritor Paulo Coelho sobre a mesa da sala. . . hã? Será que a tua mãe te atirou contra a parede? . – Tem calma! Não venhas ofender-me aqui dentro da minha própria casa. . da tua companheira de quarto? . É um facto! Uma realidade! A Sara está quase a chumbar por faltas e tu estás pouco te importando com isso. Após a leitura de uma carta escolar que dava conta das sucessivas faltas de Sara às aulas.O que é que estás para aí a dizer? .E nem devias! Olha. Aquela seria a última vez que iria pisar a casa do ex.Pai. mas não custa nada ouvir o que a tua mãe tem para dizer. .O que eu estou a dizer Jorge. marido. a culpa não era só dele. O que é que aconteceu contigo quando nasceste.Sabes o que é isto!? . a tua mãe ligou-me hoje lá para o escritório. Onze Minutos era o nome da obra. . .

– Não vais dizer nada em tua defesa? . . – Saiu de manhã para fazer umas compras.Eu não tenho nada para dizer.E tu acreditaste?! Ou melhor.Querias o quê? Que lhe prendesse o pé à mesa da sala? . – Aonde é que te meteste? . . . A fechadura sofreu uma ligeira pressão quando faltavam poucos minutos para as dezoito horas. – A Sara vai voltar comigo e ponto final! Aqui ela não fica nem mais um dia.Não existe nada para falar – imperou Madalena gesticulando furiosamente os braços. já disse – respondeu ele abrindo os braços. . A expressão de Sara não se alterou nem um pouco quando leu as informações expostas naquela carta e talvez tenha sido esse facto que mais tenha irritado Madalena.O que é que se passa? – perguntou Sara interrompendo a discussão dos pais. doze a Matemática. .Não sei. . deixaste ela sair de casa sozinha? . nem Madalena e nem Jorge tiveram forças para esboçar qualquer movimento corporal. a tua mãe está chateada contigo e tem boas razões para isso. – Olá… . Se te damos tudo. ela saiu. nós falamos com ela.O que se passa é que a tua directora de turma me ligou lá para casa a dizer que estás em perigo de chumbar o ano – respondeu a mãe atirando-lhe a carta para as mãos.disse Sara surpreendendo-se com a presença da mãe ali.Eu só quero que me apoies uma vez na vida e não fujas com o rabo à seringa apenas para não ser o mau da fita. – Nós estamos chateados com ela. ou não?! Para te dar a ti e ao Daniel um futuro melhor e tu estás a desperdiçar tudo isso. mas já nessa altura.Vamos esperar ela voltar da rua! Quando ela vier. tu não brinques comigo! .Não digas que eu estou chateada com ela – interrompeu Madalena voltando-se para o ex. ou pelo menos também tu devias estar se te preocupasses minimamente com a tua filha. – A tua mãe tem razão! Não é certo andares a faltar às aulas porque essa é a tua única obrigação para connosco. . .Não sei.Pronto! Vai começar… .Fui passear.Sara – interrompeu Jorge. . – Lê! Lê e vê qual foi o resultado das tuas brincadeiras. – Já tinha dito ao pai! Lembraste pai?! . oito a Química e cinco a Geometria que ela conseguiu arrecadar em apenas dois meses.Sara. . marido.À Baixa – mentiu Sara despindo o seu casaco de ganga. o mínimo que deves fazer é ir à escola e tirar boas notas.Aonde? . um olhar e desejando apenas que a chegada da filha lhes trouxesse respostas paras as dezoito faltas a Português.Começa já explicar – exclamou Madalena levantando-se do sofá. 68 .Saiu para onde? . Durante horas permaneceram sentados em diferentes sofás sem trocar uma palavra.Sara.O meu maior erro foi ter deixado a Sara vir morar contigo e está-me a cheirar que ainda me vou arrepender muito mais desse erro daqui para a frente. .. É para isso que eu e a tua mãe andamos a trabalhar.

Nunca mais voltes a dizer uma barbaridade dessas. – Não bastava teres ligado? Mas não.Pai – suplicou Sara alcançando os braços do progenitor a fim de encontrar um aliado contra a mãe. – Tu vais voltar lá para casa e ponto final.Queres sim – gritou Sara. Sara! Com ela vais ficar melhor.Já pedi desculpas. .O. . .Se gostasses não me deixavas ir com a mãe quando sabes muito bem que nós nunca nos demos bem e que eu a odeio de morte.Queres que me vá embora. É tudo um plano. .Eu não vou.Tu queres que eu me vá embora. Eu adoro ter-te cá em casa. – Ouviste.Sinceramente não sei o que é que vieste cá fazer – disse a jovem desviando-se bruscamente de Madalena.Eu só vim chamar-te à razão! Dizer que está errado aquilo que fizeste e que não estás autorizada a repeti-lo! Foi para isso que eu vim. filha. .. . . Silêncio foi a resposta de Jorge. não vês?! . esbaforida. Mas tu só queres saber de ti.E o que é que queres que eu faça?! Que me ajoelhe aos teus pés e te peça perdão? . – Eu não tenho … como é que hei-de dizer…! Eu não tenho condições para te ter cá em casa. – Desculpem lá! .Sara. pai?! Nunca mais falo contigo! . – Não deixes que ela me leve daqui! Não deixes! Será que não vês que ela está a fazer isso de propósito para nos separar? Ela não gosta de ti e também não quer que eu goste de ti.Desculpem lá – repetiu Madalena num tom sarcástico.O quê – foi a reacção intempestiva de Sara.É claro que não. já disse para não brincares comigo! . – Tu não gostas de mim. não fales assim com a tua mãe – interferiu Jorge saindo em defesa da ex.Vai arrumar as tuas coisas ao quarto! Voltas hoje comigo para casa. . não é?! Só queres trazer as tuas namoradas cá para casa e não ter ninguém que te atrapalhe… .Pai. – Tu achas que é só pedires desculpas e está tudo resolvido? . Trabalho até tarde.Eu acho que a tua mãe tem razão – afirmou Jorge para grande desespero da filha que sem outro remédio viu-se obrigada a afastar-se dele e a deixar duas enormes lágrimas caíremlhe dos olhos.Pai… . .Sara. .k – respondeu ela largando os braços. . se tu me deixares ir com a mãe. não é! Tinhas que aparecer para dar o teu show de mãe dedicada e extremosa.Sara… .Já disse que… . .Sara… . . eu nunca mais falo contigo. 69 . mulher. é isso?! . mas o problema é que não tenho tempo para cuidar de ti como a tua mãe tem. tenho sempre encontros com clientes de última hora e até já cheguei a desmarcar várias viagens de trabalho apenas para não te deixar sozinha.…é melhor ires com a tua mãe.Isso mesmo que ouviste e nem adianta espernear porque eu já conversei com o teu pai e juntos chegámos a um acordo – respondeu Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou.

. fez-se luz. . não é!? 70 . veio um sabor amargo a derrota e a engano que a levou às lágrimas. – Está cada vez pior e estes dias na casa do pai só a pioraram ainda mais. deixando a ex. no meu tempo era assim que se educavam as crianças. foram as palavras de Afonso Soares quando a porta se abriu. Claro. – Vai arrumar as tuas coisas ao quarto – disse Madalena interrompendo os olhares de ódio que a filha lançou ao pai e deixando-a sair da sala completamente esbaforida. Não posso voltar para a casa. resoluta. Ele vai-me ajudar. De resto. . Não.Não – respondeu Madalena. – Pai! Ajudas-me a trazer as malas que estão no carro? – pediu Madalena. alcançou o corrimão das escadas e subiu em direcção ao quarto onde foi audível o estrondo violento de uma porta a fechar. foi o próprio que se encarregou de tal tarefa. Mas a verdade é que nada disso pareceu ter qualquer fundamento quando Sara se atreveu a digitar-lhe o número de telemóvel. Sara tentou encontrar várias soluções para o grande sarilho em que estava metida. Madalena. Depois disso. mulher livre para enfiar a mochila da filha no banco de trás.Bem-vindo ao clube – respondeu Madalena largando os braços. e a sua neta. enquanto no porta-bagagem foram-lhe colocadas as três malas que tinha levado para morar com pai.As palavras do pai soaram-lhe como uma bomba aos ouvidos e por vários segundos foi inevitável para Sara não derramar as últimas lágrimas que lhe restavam de uma relação que pensava ser perfeita. Não. Sara aproximou-se do carro da mãe. Sara. Traiu-a diante da sua mãe e por isso ela nunca mais o iria perdoar.A miúda está louca. Jorge traiu-a. . Vou ligar ao Paulo.Não me chateies – respondeu Sara para grande surpresa do avô. mas que a tinha traído no momento em que mais precisava dela.Achas que sou uma péssima mãe. O número já não existe.Ela odeia-me – murmurou Jorge. não após de tantas juras amor que lhe segredou aos ouvidos ou depois de lhe ter entregado a sua virgindade. por ter conseguido encontrar outra solução. O número que marcou não está atribuído. Até que enfim chegaram. . foi a resposta que obteve após oito tentativas consecutivas. Não depois de ter prometido que a levaria a morar consigo caso a relação dos dois resultasse ou de ter jurado enfrentar os seus pais apenas para ficar com ela. repetiu várias vezes a si própria enquanto tentava convencer-se que tudo aquilo não passava de um pesadelo.Precisas impor-lhe disciplina! Pelo menos.Sinceramente não sei o que fazer com ela – suspirou Madalena levando as mãos à cabeça. Paulo não podia ter desaparecido sem deixar rastro. .Claro! E tu? – perguntou Afonso voltando-se para a neta. . Não depois de tudo aquilo. no mais profundo silêncio. – Achas bem aquilo que fizeste? Achas bem andar a faltar às aulas? . era tudo o que pensava enquanto roía as unhas e tentava encontrar uma maneira miraculosa de se livrar das garras da mãe. . Sim. e por ela entraram a sua filha. – Não querem que vos leve? – perguntou ele. O número já não existe. – Nós vamos bem sozinhas. Meia hora mais tarde. Talvez fosse ele a ajuda que tanto necessitava e o anjo da guarda que desde o primeiro momento pareceu ser na sua vida. Enquanto passeava pelo quarto. Mais tarde.

Chorava. enquanto se encontrava sentada sobre o alpendre da janela do quarto. E sim. Impossível. pelo companheirismo e pela paixão que a cada semana crescia ainda mais nos seus corações. . – Tu és uma boa mãe. odiava-se e repetia a si própria que nunca mais voltaria a confiar em quem quer que fosse. Fosse com quem fosse. não sabia.Bem! Que recepção… .Bem.Se ao menos aquele imprestável do Jorge servisse para alguma coisa – disse Madalena limpando as tímidas lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. assim como a sua vontade em devorar toda a espécie de pornografia que encontrava na Internet.. Seria um jantar romântico no apartamento dele. Ele adorava-a. – Entra! 71 . a rolha saltou para o tecto e Madalena bateu palmas maravilhada. mesmo tendo sido mantida em segredo. não é isso que está em causa. Mas a Sara precisa de limites. Na verdade. Depois disso.É claro que não – respondeu Afonso segurando os ombros da filha. Por sorte. . primava pelo amor. de facto sobrava pouco tempo para se dedicar a ele. Sérgio era um homem compreensivo. mas ainda assim não custava nada tentar ter um pouco mais de espaço na vida de Madalena quando a sua única vontade era tê-la só para si. ou se pelo contrário. O dia do seu aniversário era a ocasião ideal. de ter medo de alguém e há muito tempo que ela já não tem medo de ti. embora Sérgio muitas vezes pedisse para que se vissem todos os dias. prolongar-se durante anos e anos. Nunca forçou a sua entrada na vida de Madalena e era por isso que ela lhe era tão grata. a temperatura arrefecendo. Madalena conseguiu convencer o seu pai a buscar os netos à escola e ficar com eles durante a noite. ele sabia. Mas de uma coisa tinha certeza. boa comida e outras coisas que ela corou só de o ouvir falar ao telefone. Não sabia também se essa vontade descontrolada de se tocar iria passar com o tempo. Mas por outro lado. vamos lá buscar as malas ao carro! As semanas foram passando. Por vezes. e tudo para que ela pudesse passar um maravilhoso serão ao lado de Sérgio. o falso professor universitário que a única coisa que quis foi retirar-lhe a virgindade como se de um prémio se tratasse. Por sorte e após muito esforço. a relação de ambos. o desejo sexual experimentado com Paulo continuava a dominar-lhe a mente. . – Pontual como sempre – disse ele abrindo a porta com um largo sorriso e com uma garrafa de champanhe nas mãos. Com os problemas de Sara a atormentarem-lhe os pensamentos. Sexta-feira foi o dia do aniversário do Sérgio e por isso Madalena estava excitadíssima. enquanto voltava para casa no carro da mãe e especialmente à noite quando se trancava no quarto e utilizava o computador para satisfazer a sua curiosidade? De facto. – …garanto-te a minha tarefa era bem menos complicada. Precisava fazer sexo. provavelmente repleto de champanhe. Estaria ela doente por passar a vida a pensar em sexo ainda que fosse na escola. especialmente num homem.E tu ainda nem viste nada – respondeu Sérgio entregando-lhe a taça de champanhe após um longo beijo. ela adorava-o e não havia nada melhor do que terem-se um ao outro para se confortarem com palavras carinhosas repletas de amor. os dias tornando-se mais curtos e tristonhos e Sara percebendo que nunca mais voltaria a ter notícias de Paulo Figueira. ela perdia-se em justificações sem fundamento para não se sentir tão ingénua e usada.

combinamos um jantar ou um almoço em minha casa. que a minha filha já não anda a faltar às aulas. e depois. . . – Estive a pensar… . ela degustou. . O jantar primou pela simplicidade. pela conversa amena e também pelas velas que Sérgio fez questão de acender sobre a mesa enquanto Madalena se ria às gargalhadas e lhe confessava não se lembrar da última vez que degustara uma refeição às escuras.Achas que vais conseguir? .Está bom? .Aleluia – riram-se os dois. ouviste?! .Por ti sou capaz de ultrapassar tudo. Aliás. o mundo parou e não foram precisas mais palavras para que ela entendesse tudo o que ele queria fazer naquele momento.…em levar-te a conhecer o meu pai e os meus filhos – respondeu ela após um pequeno suspense.Veremos – respondeu Madalena não resistindo a desabotoar-lhe os primeiros botões da camisa.Fico muito contente por ouvir isso – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos soltos.Está óptimo. 72 .O quê? – perguntou Sérgio enterrando-se no pescoço dela.Não demores a conseguir esse sinal verde.O nosso jantar já está pronto! Só falta tirar do forno. . Tê-lo perto. . . . – Veremos se não vais fugir a sete pés quando os vires enfileirados à frente do sofá. mas também os lábios de Sérgio quando dançou com ele a mesma música que ambos tinham dançado no início da sua relação. . os braços fortes à volta da sua cintura e o corpo completamente colado ao seu. . . um pouco mais em nós. os dois amantes deitaram-se no sofá e retiraram as respectivas roupas enquanto a música que os embalou na dança continuou a tocar durante minutos a fio. Degustou não só a refeição.Claro que não.Agora que as coisas estão um pouco mais calmas lá em casa.Ultrapassar a prova de fogo que vai ser conhecer as minhas três pestinhas!? . Mas a verdade é que naquela chuvosa noite de sexta-feira.Foste tu que cozinhaste? – perguntou Madalena. . . Quero que fiques e me ajudes a enfrentá-los também. . sentir a humidade da sua boca. Submersos. .O quê? .Os dotes que eu conheço são outros – respondeu ela enterrando-se nos lábios dele enquanto se deixava levar em direcção à sala.Primeiro vou falar com eles. Depois disso.Claro ou o que é que pensas?! Nunca te falei sobre os meus dotes culinários? . divertida.Obrigada – disse ela saboreando o primeiro gole da bebida. Uma relação que tinha todos os ingredientes para ser apenas um amor de Verão.E tu queres que eu fuja? ..Podes deixar – respondeu ela mergulhando-lhe nos lábios e também naquela sensação tão fantástica que era tê-lo só para si. mas que se prolongou até o Outono e tinha esperanças de ultrapassar o Inverno.E quando é que vou ter a honra de conhecer as tuas três pestinhas? – perguntou Sérgio colocando-lhe os cabelos atrás dos ombros. quando conseguir um sinal verde. eu acho que posso começar a pensar um pouco mais em mim.

Contudo. mas o meu pai ajudou-me a controlar os danos – respondeu Madalena ouvindo uma leve risada no outro lado da linha. ao contrário do que esperava. Nada poderia dar errado para aquele que prometia ser o jantar mais importante da sua vida e também a única e derradeira oportunidade para que os filhos e o seu pai caíssem de amores por Sérgio e se deixassem encantar por ele. . E não. pregava inúmeras partidas e reservava as maiores surpresas para uma mulher que havia perdido totalmente a esperança de amar e ser amada em proporções iguais. não viu outro remédio a não ser apoiá-la. Achas que vais poder vir na próxima quartafeira? . O jantar foi marcado para quarta-feira.Este foi sem dúvida o melhor aniversário que já tive – confessou ele encarando-lhe o rosto após a ter possuído sem quaisquer restrições. .Contaste-lhes sobre nós? . foram as palavras de encorajamento que ditou a Madalena e que a deixaram muito mais aliviada. Apareceu como um anjo caído do céu e era ele a única razão para que Madalena estivesse enfiada naquela cozinha a ultimar os preparativos do jantar. nem sabes o peso que me tiraste dos ombros.. a reacção de Sara não foi nem um pouco agradável e a de Daniel primou pelo embaraço de não saber se aquela era uma boa notícia ou não. O mundo dava muitas voltas. o que vendo bem.Também não estão a favor – confessou ela. Pensei que eles se fossem opor.Prometo que vou fazer tudo para ir.Está tudo certo – disse Madalena quando falou com Sérgio ao telefone no final da noite. .Que bom! . Mas Sérgio apareceu.E eles? – perguntou Sérgio sem conseguir esconder o nervosismo. Uma semana foi o tempo que Madalena precisou para conversar com o pai a respeito de Sérgio. Hoje não consegui parar de pensar noutra coisa a não ser na conversa com os teus filhos. força. já é um bom caminho para nos mantermos optimistas.Para a semana já podemos marcar o jantar. . . .Contei! . 73 .Bem. explicando-lhe primeiro como se conheceram. – O moçoilo nunca mais chega – resmungou Afonso lançando os olhos ao seu relógio de pulso enquanto a filha terminava de temperar a salada a uma velocidade fantasmagórica. Se ele te faz feliz. . E Afonso. apesar de ter ficado um pouco surpreso com todas aquelas revelações.Ainda falta o meu – riram-se baixinho. – Mas pelo menos não se negaram a conhecer-te.Optimismo é o que não me falta – respondeu Sérgio arrancando-lhe uma leve gargalhada. ficar contra nós ou assim… .Fizeram uma cara como se tivessem acabado de ser atropelados por um camião. o que ele tinha para a fazer tão feliz e os motivos que a faziam querer apostar numa relação mais séria e duradoira com o fotógrafo.Óptimo – murmurou Madalena com um sorriso radiante. as compras foram feitas no supermercado mais próximo e a mesa da cozinha decorada com algumas flores que Madalena trouxera da sua floricultura. . Acho que se atrasou a sair do estúdio e apanhou algum trânsito pelo caminho. especialmente por causa da Sara.Ele ligou-me há pouco. .

depois de um longo suspiro e de ter composto os cabelos soltos. que penses ou sequer que te lembres dele! Este jantar tem que ser perfeito. comportate! Não quero que fales do Jorge. marido e pai dos teus filhos. De facto. girou a maçaneta e encontrou o seu convidado especial carregado com um sorriso. o Jorge por acaso sabe que estás a namorar com outro homem? . – Eu atendo – gritou ela apressando-se pelo corredor quando a campainha tocou. por favor! .Pai – exclamou Madalena fulminando-o com os olhos. mas a verdade é que ele estava disposto a fazer de tudo para que as pessoas mais importantes da vida de Madalena também gostassem de sim. Mais tarde.Entra! .Olha lá. A cozinha cheirava bem. a arroz e batatas fritas.. duas caixas de chocolate e uma garrafa de vinho comprada pelo caminho. seguiu-se a caminhada em direcção à cozinha onde se encontravam os três pestinhas da família. duas janelas amplas e também por três pessoas que nem sequer se aperceberam da chegada de Sérgio e Madalena. .Já não começa bem.Não te estás a esquecer do vinho? – interferiu Afonso encontrando um maço de cigarros no bolso das calças. . guardanapos… . Conhecer os filhos e o pai de uma namorada? Não.Porque é o teu ex. – Estás todo carregado – riu-se Madalena enquanto repartia com Sérgio o peso dos presentes. está bem. Sérgio pensou seriamente em fugir. digo perfeito em todos os sentidos.O Jorge não tem mais nada a ver com a minha vida e nem tu devias estar a falar dele já que daqui a poucos minutos vais conhecer o meu novo namorado – afirmou Madalena guardando o azeite num dos armários da cozinha. – Comporta-te. um ramo de rosas.Obrigado – respondeu ele acedendo-lhe o pedido com alguma cautela e também com um aperto discreto na mão esquerda. Ao vê-los. talheres. . aliás. Mais tarde. – Por isso. emocionalmente inexperientes e sem qualquer bagagem familiar. segundo as palavras de Madalena enquanto o empurrava pela costas e o fazia ganhar forças para enfrentar a maior prova de fogo que alguma vez havia enfrentado em toda a sua vida. Daniel a jogar na sua playstation portátil e Afonso a espreitar o pato trinchado sobre a bancada. tal como já disse. para além do calor que o forno fazia questão de lançar naquela grandiosa habitação composta por inúmeras mobílias sofisticadas. Cheirava a pato assado. e quando digo perfeito. .Por pouco e não comprava o supermercado todo. O que será que eles iriam pensar de si? Iriam adorá-lo? Detestá-lo? Isso era uma incógnita até para os deuses lá de cima. Sara encontrava-se de olhos postos na televisão.Está bem. o coração bateu mais forte e as pernas permaneceram paralisadas sobre o alpendre da porta pedindo 74 . As suas mãos estavam trémulas.Porque é que ele haveria de saber?! . aquilo nunca lhe tinha acontecido até porque todas as namoradas que teve durante os seus trinta e poucos anos de vida sempre foram solteiras.Claro! O vinho – lembrou-se Madalena correndo em direcção ao frigorífico. . . . copos. não quero que fales. pois as mãos começaram a suar.Bem… acho que não me esqueci de nada! Pratos. Sérgio pôde senti-las quando abriu o portão da casa de Madalena e se preparou para lhe conhecer o pai e os filhos.

. mas como não consegui encontrar e depois também já estava a ficar um pouco tarde. .Eu é que gostaria de ter um espírito jovem igual ao seu.É. – Os meus filhos! Daniel e Sara… .qualquer tipo de socorro diante daquela situação tão constrangedora. . senhor Afonso – afirmou Sérgio largando os talheres sobre o prato. A conversa entre os três adultos prolongou-se por vários minutos deixando Daniel e Sara de fora. não quis chegar mais atrasado do que cheguei. – É o meu trabalho. – Sérgio – disse Madalena apressando-se a fazer as apresentações e a terminar-lhe com aquele calvário. Sara e Daniel viraram-se imediatamente em direcção àquele desconhecido que agora também iria fazer parte das suas vidas. são! Confesso que queria trazer orquídeas. . . pelo menos alguém que sabe avaliar as minhas qualidades – riu-se o ex. – Pessoal – exclamou Madalena. . Sérgio volta-se para eles e sorria-lhes como se 75 . O jantar foi servido às nove horas em ponto. . Queria saber tudo. acredite! Fico contente que tenha aceitado jantar connosco. mas ainda assim. militar levando uma taça de vinho aos lábios. . – O vinho é para o senhor Afonso.E ele trouxe presentes – interferiu Madalena empenhando duas caixas de chocolate e as flores trazidas pelo namorado. . ela reparou. e na mesa sentaram-se cinco pessoas no mais completo silêncio prontas a partilhar uma refeição cozinhada por Madalena.Bem que eu gostaria de ter tido um trabalho igual ao teu quando tinha a tua idade.Lá isso é verdade – respondeu Afonso aceitando o aperto de mão por parte de Sérgio. e as flores… . não ligues! Tal como já te tinha dito.E este é o meu pai… – afirmou Madalena alheia aos pensamentos da filha. encabulado. . militar tentou acalmar o namorado da filha com perguntas leves e humoradas.São para mim – interrompeu Madalena não escondendo o seu sorriso de orelha a orelha.Por acaso não – riu-se Sérgio. o meu pai é um rapazinho de dezoito anos preso num corpo de sessenta e oito.Obrigado! Bem.O prazer é todo meu. .Os chocolates são para a Sara e para o Daniel – adiantou-se Sérgio tentando esconder o nervosismo que ainda estava a sentir. – O senhor Afonso Soares que já há muito te queria conhecer. Analisaram-nos dos pés à cabeça e por momentos fizeram-no sentir como um verdadeiro extraterrestre vindo de um planeta distante.Olá Sara.É. detalhes sobre a família e pequenas curiosidades como o facto de estar sempre rodeado de modelos profissionais.Olá – respondeu o jovem aceitando o cumprimento com alguma cautela.Pai – exclamou Madalena fulminando Afonso com os olhos. A idade. Sérgio estava nervoso. Sérgio. . . Um sonho de qualquer homem. mas Afonso também. profissão.Não te cansas de fotografar mulheres bonitas? . .Eu é que agradeço o convite.Olá Daniel – exclamou o fotógrafo estendendo-lhe a mão quando se aproximou da mesa. por isso… . – Este é o Sérgio! As cabeças de Afonso. senhor Afonso! . .Não faz mal! Também adoro rosas. e foi por isso que o ex. . sempre que podia. .Muito prazer. diga-se de passagem. eu sei bem o que estavas a fazer.Olá – respondeu ela pensando que pelo menos a sua mãe tinha bom gosto.O que foi? Só estava a elogiar-lhe o trabalho.

Claro! Claro que entendo.Acidentes acontecem – interferiu Afonso sob o olhar assustado fotógrafo. Depois disso. após um pequeno período de reflexão achou melhor manter a sua opinião guardada a sete chaves não fosse ela estragar uma noite que apesar de tudo até foi especial.ainda estivesse à procura de algum sinal de aprovação. Contudo. desculpem. O que lhe teria passado pela cabeça para fazer uma coisa daquelas? O quê? A pergunta parecia não ter qualquer resposta e nem mesmo depois de ter sido levado à rua por Madalena. – Desculpa! Aliás.Nem acredito que deu tudo certo – disse Madalena enterrando-se nos braços de Sérgio. E enquanto bebia um gole de sumo. foi essa a resposta que Sérgio se sentiu tentado a oferecer à namorada. por coincidência ou não. calores que a acompanhavam desde há muito. vários calores começaram a subir-lhe pelas pernas e encontraramse nos seios e nas pontas dos dedos das mãos. Ao encontrar-lhe o sexo. ela sorriu e o fotógrafo quase que desmaiou de susto. . – Agora já sei a quem puxaste. Mas seria mesmo aquele o motivo para que se quisesse ir embora? Obviamente que não. nomeadamente quando descobriu o sexo e a pornografia na casa do pai. bebidas. . . Gostei muito.O que é que achaste do meu pai? . . Sujei a toalha toda. . Desculpas atrás de desculpas foi o que Sérgio inventou para se livrar daquele malfadado jantar.…estou – respondeu ele tentando ignorar os risinhos de Sara. Está tudo bem – disse Madalena levantando-se da cadeira onde estava sentada. mas também de luxúria e pecado. mas a tua filha Sara é uma maluca de todo o tamanho. não entendes!? .Estás bem? – perguntou Madalena poisando-lhe a mão sobre o ombro. e calores que a fizeram cometer uma das maiores loucuras da sua vida quando se atreveu a tirar o pé do sapato esquerdo e levá-lo em direcção as pernas de Sérgio que.Eu também – mentiu Sérgio.Mas obrigado pelo jantar. Um sinal que Sara estava mais do que disposta a oferecer quando os seus olhos se cruzaram com os dele pela última vez naquela mesa repleta de alimentos. encontrava-se exactamente à sua frente. – Vou buscar um pano para não manchar a mesa. Eram calores estranhos. derrubou o resto do vinho sobre a mesa e lançou um olhar esmagador à filha da sua namorada numa tentativa desesperada de encontrar justificações para aquele acto no mínimo leviano.Um senhor fantástico – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. – São duas crianças maravilhosas. – Mas amanhã tenho uma sessão bem cedo e queria dormir pelo menos oito horas para… enfim… ter mais disposição para fotografar.Não faz mal. – Gostei muito deles – voltou ele a mentir. .E os meus filhos!? O que é que achaste deles? O Daniel parece ser um bom rapaz. até porque a única coisa que ele não queria era continuar a olhar para a cara de Sara e lembrar-se da loucura que ela cometera à mesa quando o apanhou completamente desprevenido. . ela lhe desapareceu do pensamento. . Entendes. Eu não sei o que é que me aconteceu. . sendo que quase todas elas se encontravam relacionadas com o trabalho.Porque é que não haveria de dar? 76 . ele arrastou a cadeira. – Queria tanto que pudesses ficar mais tempo – disse ela encontrando-lhe a mão. .

Eu não sou uma criança! Já tenho quinze anos e em Janeiro faço dezasseis. .Não há nada para contar – foram as palavras da sua filha antes de desaparecer da cozinha. Algo que realmente não deveria ter feito. mas para tê-la por inteiro teria que amar os seus filhos e fazer de tudo para se dar bem com eles. – Depois combinamos melhor – foi a resposta do fotógrafo. num almoço para o próximo fim-de-semana. Os três dias que se seguiram foram vitais para que Sérgio se conseguisse convencer que o que acontecera à mesa com Sara não tinha sido mais do que um mal entendido e que não valia a pena levar em consideração as brincadeiras de uma menina de quinze anos. E na verdade foram precisos apenas poucos minutos para que Madalena se conseguisse livrar da conversa ditada por Alice e entrar na habitação com um largo sorriso nos lábios. Se tinha dado tudo certo. – Tu és uma criança. Não devias estar a pensar nessas coisas. quanto a isso não havia a menor dúvida. No seu rosto era visível uma felicidade extrema por ter tudo aquilo que sempre quis ter na sua vida. Mas por sorte não aconteceu e eu até acho que eles gostaram de ti. a melhor amiga. .E o que é que vocês me queriam contar? 77 . . .suspirou ele largando as travessas sujas no lava-loiça. .Eu também acho que sim.Sara… . .Mesmo assim! Para mim ainda és uma criança. aceitar um convite para almoçar no domingo foi irrecusável. ou melhor. . enquanto Madalena atendia uma chamada telefónica da melhor amiga no corredor da casa.Ligas-me quando chegares a casa? . se os seus filhos e o seu pai adoraram Sérgio. . o amor que sentia por Madalena era forte demais para que se deixasse levar por todas aquelas desconfianças sem sentido. era o que ela mais queria. .Sei lá! Fiquei com medo que acontecesse alguma coisa. Os seus filhos. . Por isso. a prosperidade nos negócios da floricultura e o namorado mais lindo do mundo. – Já estão a arrumar a loiça? – perguntou ela não imaginando sequer que tudo aquilo que tinha não passava de uma mera ilusão. .Se não fizeres sexo comigo eu digo à minha mãe que tentaste estuprar-me – disse Sara.. podes deixar. mas nem por isso retirou o sorriso que ela fez questão de estampar no rosto. De qualquer forma.Vou para o quarto. Ele amava-a. Sara adiantou-se: .Claro – respondeu Sérgio deixando-se beijar por ela. Sara aproximou-se de si na cozinha e perguntou-lhe aos ouvidos. .Não te preocupes! Eu próprio vou contar-lhe assim que ela chegar à cozinha. então porque não promover uma maior aproximação entre eles? Na altura. – Não queres fazer sexo comigo? .Então?! Não me vão contar? – riu-se Madalena. – Eu ligo. – Na verdade estávamos à tua espera para te dizer uma coisa… Ao perceber que o namorado da mãe estava realmente disposto a contar a verdade dos factos. O que é que achas? A expressão embaraçada do namorado deixou Madalena apreensiva.Não sei – respondeu Sérgio forçando um sorriso. chegou a essa conclusão quando no final do almoço.O que é que deu nela? .Temos que começar a pensar num novo jantar.Mais ou menos – respondeu Sérgio lançando um olhar lancinante a Sara.

a frase do fotógrafo não poderia ter sido mais acertada e tudo porque depois daquele malfadado domingo Sara nunca mais se atreveu a colocar-lhe propostas ordinárias aos ouvidos.Fico contente que tu e a Sara se estejam a dar tão bem. Nada de especial! . Mas ainda assim a palavra sexo não lhe saiu da cabeça até o Natal. – Mas acredito que a partir de hoje nos vamos dar ainda melhor.Hã… era uma coisa engraçada que tinha passado ali na televisão. De facto. Passou a respeitá-lo como futuro padrasto. .É – respondeu Sérgio. mal o conseguia encarar de frente quando se cruzavam no corredor e esqueceu completamente as loucuras de ir para a cama com o namorado da mãe. 78 . E já que Sérgio não queria ser a vítima então ela teria que arranjar outra..

Lembra-se de mim?! .…falar sobre trabalho. rico ou proveniente de uma raça previamente estipulada. A expressão séria que Milene fez questão de colocar no rosto não deixou sombra para dúvidas. – E tu? Lembraste daquilo que te disse? . calmamente e sem quaisquer pressas.É só um minuto. Estou a trabalhar! .Claro que me lembro – respondeu a prostituta levando mais uma vez o cigarro à boca. era ali que ela queria estar. . não precisando ele de ser bonito. E sim.Olá! .CAPÍTULO V Era a segunda vez que colocava os pés naquele local. inteligente. Na verdade. Aquele realmente não era o lugar indicado para raparigas como Sara. Era meio-dia. Talvez trouxesse para Sara. . . – Será que podíamos conversar num outro sítio? – perguntou Sara após um longo período de meditação. só precisava satisfazê-la e nada mais.Hã …olá – respondeu Sara abrindo um sorriso quando reconheceu a pessoa que a levara ali.Que tipo de trabalho? 79 . – Tu por aqui outra vez!? . .O quê? . Tinham-se passado várias semanas.Que isto não era lugar para miúdas como tu. . Na verdade. uma jovem de dezasseis anos acabados de fazer que ainda continuava a ter sonhos eróticos todas as noites e que desejava experimentar a sensação de ter sexo com todo e qualquer homem que mostrasse minimamente interessado em nela. tinha faltado às aulas e estava no centro de um bairro degradado quando de longe uma mulher a avistou e percebeu que aquela não era realmente a primeira vez que tinha visto Sara ali. mas ela continuava a lembrar-se perfeitamente do rosto da jovem por não ser muito comum adolescentes como ela pisarem aquele local. a mulher levou o cigarro à boca e enfiou o isqueiro na mala a tiracolo. apesar de todos os riscos. atravessou a rua e encontrou a sua presa. mas ainda assim. De facto.O que é que queres? – questionou Milene rispidamente. Depois disso. o Intendente era o local propício para encontrar alguém assim. um traficante à porta de um café e duas prostitutas de serviço completamente alheias ao tempo e ao espaço.Eu não tenho nada para conversar contigo. e era também a segunda vez que dava consigo a desviar-se de três toxicodependentes. esse cenário repetia-se todos os dias e não trazia nada de novo para as centenas de pessoas que habitavam o bairro do Intendente. O que estaria à procura? O que fora fazer quando a avisou que tudo era melhor do que estar ali? Sem conseguir encontrar resposta às suas perguntas.

Sara reparou.Ajudar-te?! .Espera aí… . Um cliente. . – Deixa-me ver se estou a perceber. . .Trabalhar no quê? – questionou Milene franzindo o sobre olho. . Trabalhar como prostituta? Ela repetiu a pergunta enquanto se ria a bom rir e levava uma das mãos ao peito. e foi isso que Milene tentou fazer durante vários minutos. Pudor e vergonha de admitir que era viciada em sexo.Como prostituta. Era pequeno. Eu quero trabalhar aqui. . – Desculpa a desarrumação… . . Quero que me ajudes a… a trabalhar aqui! . 80 .Disseste que querias falar comigo sobre o meu trabalho.Como prostituta!? . que aparentemente tinha todas as regalias e todos os mimos dos pais. .Tu estás mesmo a falar a sério? . – Podemos fazer um acordo.Não faz mal. quando os seus olhos se cruzaram com os dela naquele quarto e percebeu que a expressão de Sara permaneceu impávida e serena. .disse Milene quando observou os olhos curiosos de Sara a olhar para os cantos do quarto.Sim – respondeu a jovem largando a mochila no chão. que nem sequer tens dezoito anos..O mesmo trabalho que você faz – respondeu Sara surpreendendo-a com a sua resposta. – O que é que queres saber? . Era também desprovido de móveis luxuosos. não quis acreditar nela e recusou-se a aceitar o facto de que uma jovem de dezasseis anos. .Sim.Entra – disse Milene largando a porta assim que chegaram ao quarto. Para além disso. Mas por fim. Não a levou em consideração. Sara sentiu-se prestes a cair num abismo. gastas. as paredes encontravam-se sujas.E o que é que queres saber sobre o meu trabalho para além do que já sabes? Sara pareceu hesitar por alguns instantes e Milene percebeu essa hesitação quando lhe encarou o rosto sério e os olhos assustados. A resposta de Sara conseguiu arrancar uma ruidosa gargalhada por parte de Milene. Na verdade.Eu quero que me ajudes – respondeu Sara cortando-lhe as palavras.riu-se Milene nervosamente enquanto passeava pelo quarto.Estou. Finalmente tinha arranjado coragem para estar ali e no fundo não se sentia nem um pouco arrependida da escolha que tinha feito pois havia pensado nela durante semanas a fio e só não a havia concretizado por receio de perder o que na verdade já não tinha. – Não tive muito tempo para ajeitar as coisas. – Fala – imperou ela terminando o quinto cigarro do dia. de cortinados e a cama desfeita demonstrava que ainda não havia passado muito tempo desde a última vez que Milene se deitara ali com outro homem. a surpresa deu lugar à estupefacção. e ao subir as barulhentas escadas daquele edifício a cair aos bocados. pois claro.Como… prostituta. tal como o tapete junto à cama. a oferta de Sara era de tal maneira descabida que nem sequer deveria ser levada em consideração. Estava ali. se quisesse realmente submeter a uma profissão tão humilhante como a prostituição. Tu.Sim – respondeu Sara voltando-se para ela. queres ser prostituta e queres também que eu te ajude a arranjar clientes! É isso? . A pensão onde costumava alugar um quarto para se encontrar com os seus clientes foi o local escolhido por Milene para aquela conversa que prometia ser no mínimo interessante. .

eu não preciso dele. os encontros são sempre feitos em locais escolhidos por ti.O. Quem não consegue manter uma erecção com preservativo.Sem receber um tostão por isso!? . Este bairro é a nossa salvação e vais encontrar sempre alguém para te ajudar caso aconteça alguma coisa… . Não penses que é divertido abrir as pernas para o primeiro que aparece ou então para aquele pagar mais. . sombria e desleal? Na verdade. – Escuta! Eu também já tive a tua idade.k! Amanhã – respondeu Milene aproximando-se lentamente dela. Escusado será dizer que o mesmo se aplica ao sexo anal.Aconteça o quê? – perguntou Sara. É preciso ter-se muito estômago para aguentar certos homens. continuo. resoluta. 81 .Se queres experimentar porque é que não arranjas um namorado? Garanto-te que ele te iria tratar muito melhor do que certos clientes costumam tratar as prostitutas que vão para a cama com eles – Sara calou-se. elas que apanhem! E… o que mais? Hã. Milene apagou-o num dos cinzeiros sobre a cómoda e lançou um olhar desafiador àquela jovem que parecia ter toda a experiência do mundo. também já fui curiosa.Eu não quero o dinheiro para nada. Usa sempre preservativo e não te deixes ir naquela conversa de que sem ele é melhor.. mas quando descobrires e viveres essa realidade. Trás também alguns produtos de higiene para te lavares. Elas que se casaram.Claro. Preservativos. Uma ruidosa gargalhada foi a resposta de Milene: . mas ainda assim quis desafiar Sara com uma pergunta: . . .Sim! Se eu gostar. Não seria muita pretensão dela achar que iria gostar de ser prostituta? Será que ainda não se havia dado conta dos perigos que estava a correr ao entrar numa vida completamente desregrada. que vá para casa foder com a mulher porque nós não estamos aqui para apanhar as doenças deles.E quando é que queres começar? .Só queria experimentar. mas não penses que essa profissão é pêra doce. nada de sexo oral se não os conheceres ou então ires para a cama com eles pelo menos umas três vezes. mas que tu nunca te podes esquecer. garanto-te que vais ficar desapontada! Muito desapontada.Pode ser amanhã?! . vou-me embora… Quando o cigarro terminou. podes ficar com todo o dinheiro que eu conseguir. e pede para que ele se lave antes de sequer se atrever a colocar-te as patas em cima – Sara acenou com a cabeça embora os seus olhos ainda demonstrassem algum medo – Outra coisa! Nada de beijos na boca mesmo que te peçam. Estás iludida! Andaste a enfiar coisas na tua cabeça que não correspondem à realidade. aliás. Se não gostar.Mesmo assim eu quero experimentar – afirmou Sara. não aceites. certas coisas que eles nos pedem para fazer e para não vomitares com o cheiro de alguns. – Arranja-te bem! Depila-te em todas as partes do corpo porque quanto menos pêlos tiveres menos contacto físico tens com o cliente.Que acordo!? . .Se me ajudares a arranjar clientes.Hã… outra coisa importante que já me ia esquecendo.Estás-me a propor que eu me torne na tua chula? . assustada. . Mesmo que te convidem para ir a hotéis luxuosos. ela tinha algumas dúvidas.Então o que é que queres? . .

Eu venho – respondeu Sara desaparecendo do bairro com a sua mochila às costas. A televisão teimou em não calar-se e os olhos de Sara muitas vezes se cruzaram no rosto despreocupado de Madalena. Não. e enquanto a ouvia com a máxima atenção. As explicações de Milene continuaram durante largos minutos. o jantar foi silencioso apenas interrompido pelo bater dos talheres nos pratos. Depilar-se. de como reagiria quando ele a tocasse e como ficaria o seu estado de espírito depois de se entregar a um perfeito desconhecido em troca de dinheiro.Agora não dá – gritou Sara passando o chuveiro pelas pernas depiladas. eu vou compreender… . – Vai à outra lá em baixo! Naquela noite. . só de pensar na ideia. a excitação apoderou-se do seu corpo. Não desconfia de nada.disse-lhe Milene à saída da pensão. De 82 . tal como já vinha acontecendo há várias outras. Sara resolveu trancar-se na casa de banho com o intuito de fazer aquilo que Milene lhe pedira durante a tarde. ela conseguisse encontrar alguém assim. porque se fizeres isso. Sara deu-se consigo a perguntar se não estaria realmente a cometer uma loucura ao enfiar-se na toca do lobo. feito tantos planos. não queria saber do dinheiro para nada até porque tinha ficado acordado com Milene que seria ela a receber todos os lucros. e nem esperava sequer encontrar ali o seu príncipe encantado. basta ofereceres uns troquinhos antes de subires e tens a vida salva. – Se não vieres amanhã. mesmo não tendo a mínima ideia de como seria o seu primeiro cliente. .Deixa-me entrar – disse Daniel batendo à porta da casa de banho. E talvez. Na verdade. a corda vai arrebentar para o meu lado. Algumas horas depois e enquanto a mãe preparava o jantar na cozinha. Depilar-se dos pés à cabeça e preparar-se psicologicamente para o que a esperava no dia seguinte. . em pleno Intendente. – Nesta pensão eles não se vão atrever porque temos alguns amigos especiais que tomam conta de nós na recepção.…não. Para isso.. a única coisa que lhe interessava era ter alguém que a quisesse e a desejasse nem que fosse apenas por alguns minutos.Eu sei! Podes ficar descansada. . – Estou aflito e preciso ir à casa de banho. – Ainda estás a tempo de desistir. violar-te ou obrigar-te a consumir drogas – respondeu Milene afastando-se calmamente. Não desconfia de nada e nem nunca iria desconfiar. que a achasse bonita e que não tivesse olhos para nenhuma outra mulher a não ser para ela. não sabes!? .Sabes que se a bófia te apanhar por estas bandas. Faltavam poucos minutos para as duas da tarde quando Sara se despediu de Milene com a promessa de voltar no dia seguinte e iniciar a profissão que tinha escolhido para si. eu vou dizer que não te conheço de lado nenhum e que tu simplesmente enlouqueceste.A polícia não me vai apanhar. . . Tinha pensado tanto tempo sobre o assunto. mas no entanto havia algo que a fazia hesitar e Milene foi a primeira pessoa a reparar nessa hesitação perfeitamente normal para uma iniciante. pensou a jovem. Não o estava a fazer por carências financeiras. ali. Alguém que lhe retirasse do peito aquele sentimento horrível de vazio e carência afectiva.Nunca te atrevas a atender um cliente na rua e também nunca te atrevas a denunciar-me à polícia.Caso alguém tente espancar-te. Eu não vou desistir! . Mas surpreendentemente.

.resmungou Sara terminando a tangerina que tinha nas mãos.Não ligues – disse Daniel tentando animar a mãe. . . – Ela é parva e o Sérgio é fixe. – O único problema é ser quase dez anos mais novo que tu. Na boca. Mas é bom que não me tragas nenhuma confusão e muito menos a bófia. Sara acedeu ao pedido e aproximou-se da cama onde estava estendido apenas um lençol branco e duas almofadas cansadas pelo uso. até quando vais continuar com essa ideia absurda de não querer falar com o teu pai? Já se passou tanto tempo desde que saíste da casa dele e tens que convir que foi melhor assim. de olhos e cabelos escuros. apesar de fingir que adora o teu namorado e que acha super normal a filha andar com homens mais novos. .Eu disse-te que vinha. e o avô.Eu não me ando a prestar a papel nenhum.Eu não quero falar com ele. Seria demasiado sórdido sequer pensar numa coisa dessas.Eu – respondeu Madalena levando as loiças sujas em direcção ao lava-loiça. ao entrar na pensão onde tinha combinado encontrar-se com Milene.facto. magro. – O que é que queres? . .Sara.Não vou trazer ninguém – foi a resposta de Sara enquanto subia as escadas a correr e se preparava para aquela que seria a sua primeira experiência no mundo da prostituição. a porta do quarto de Milene surgiu-lhe diante dos olhos e tocar nela foi inevitável. também deixou escapar no outro dia que não acredita lá muito que o vosso namoro vá dar certo. . . Sara foi interceptada por um homem mal-encarado. porque não sou só eu quem pensa assim. Minutos depois.Podes. trazia um palito e no corpo um fato de treino verde que em tudo lhe acentuava os ossos das pernas. .Vim ter com a Milene – respondeu Sara recuando dois passos.Quem é que te disse isso? . . com o meu irmão e também com o teu querido namorado que agora não sai cá de casa. O pai também acha ridícula a tua relação com esse Sérgio. – O que é que queres dizer com isso? . . era completamente impossível para uma mãe imaginar que a sua filha estava a vinte e quatro horas de se prostituir pela primeira vez. . .Sara.O Sérgio é muito simpático para ti e para o Daniel! Ele trata-vos muito bem. A resposta da filha deixou Madalena surpresa. – Hoje o teu pai ligou para falar contigo – disse Madalena.Nada! Só acho ridículo que uma mulher da tua idade se ande a prestar a um papel destes.Nada! Então?! Posso subir ou não? .Entra lá! Sem hesitações. eu acho melhor ires-te deitar! Amanhã ainda é dia de aulas e não convém chegares atrasada – afirmou Madalena fitando-a furiosamente. .Tens a certeza?! Sim.Pois… . . 83 . – O teu lugar é cá em casa comigo e com o teu irmão. .O que é que andam a tramar? .Contigo. – Vieste – exclamou a prostituta ao abrir a porta. No dia seguinte. – Fiz aquilo que me mandaste – disse Sara largando a sua mochila sobre a cama.Só te quis avisar – respondeu a jovem abandonando a cozinha sob o olhar magoado da mãe.

Hã. . filhos ou qualquer outra coisa interessante. mas subitamente passou a admirá-la.E ainda continua a ser prostituta? . mas eu.Para quê que isso te interessa? Não precisas saber o nome. . – Mas uma coisa que tens que saber é que uma prostituta depois dos trinta e cinco já não tem muitas opções de escolha.Se ele quiser.Ela tem muitos clientes também? .Acho que sim – respondeu a jovem demonstrando alguma ansiedade na voz. . Está no segundo piso e é um dos meus melhores clientes também.Quem!? . vem-se depressa e não pede para que lhe façam muitas coisas esquisitas.Depilei-me e trouxe sabonete.A sério?! . É por isso que ainda anda na vida. pois não?! . especialmente se não tem família. ele diz-te o nome! Se ele não disser. nunca perdia a pose e a dignidade. . Paga bem. . . a profissão ou sequer o estado civil. Quantos anos é que ela tem? . quando chegar aos trinta.Uns gatos-pingados … – respondeu Milene ajeitando os cabelos compridos em frente ao espelho.Menos-mal – respondeu Milene alcançando a porta do quarto.És boa ouvinte – respondeu Milene acendendo um cigarro. . É só um cliente. Assim era Milene e era assim que Sara também gostaria de ser.Como é que ele se chama? – perguntou Sara à cautela.Arranjei o teu primeiro cliente. . – Eu já falei com ele.O quê? . as pernas bambas e o coração que mais parecia que 84 . .A Arlete.Sim. gel de banho.. também não perguntes – afirmou Milene calçando os seus saltos em frente ao espelho do quarto.Está bem. – Até já! Os minutos que se seguiram foram de algum nervosismo.Por acaso não és virgem. aquela sensualidade que parecia transpirar-lhe de todos os poros e a confiança de uma mulher que apesar de saber que era prostituta.O que é que queres?! Quem entra nesta vida já não sai. Essa Arlete armou-se em parva e acabou sem nada.Aquela tua amiga… . Sara não soube como. Queria ter aquele corpo absolutamente escultural. fecho a loja e desapareço sem deixar rastro. vou buscar o gajo! Estás pronta? . – Bem. . . essa – riu-se Milene. – Cinquenta e dois. Enquanto observava Milene arranjar-se ao espelho e a compor a maquilhagem. . Disse que só tinhas dezasseis anos e o gajo excitou-se todo. Depravados esses homens pá! Só querem saber de carne fresca. toalhas e tudo o resto. – Mas eu também fiz aquilo que me pediste.adiantou-se Sara curiosamente. Por isso é que quando somos novas temos que abrir os olhos e fazer um pé-de-meia para nos sustentarmos.…não. Quem já passou dos trinta que se lixe. Nunca mais ninguém aqui neste bairro vai ouvir falar de mim. .O quê!? . e tudo porque Sara não conseguiu controlar as mãos trémulas. querendo um dia ser como ela. a que estava contigo na primeira vez que cá vim.

Duzentos euros! Ou melhor.Tens a certeza? . a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta abriu-se. Seria ele o seu primeiro cliente. é?! . o cliente. assustada. quando finalmente se conseguiu sentar na cama. . – Quanto é? . não parecia ser muito simpático. Sim. . – Como é que te chamas? Silêncio foi a resposta que obteve. Quando a porta do quarto se fechou com um pequeno estrondo e Sara se viu completamente sozinha naquele quarto ao lado de um desconhecido que tinha praticamente 85 .Tem calma.Duzentos e cinquenta!? Estás a gozar com a minha cara? . ouviste?! É uma gaja fixe! Por isso. A carteira abriu-se e do seu interior saíram duas notas de cem e uma de cinquenta. Pensava em oferecê-las a Sara. porque noutro lado.adiantou-se Milene.Dezasseis – respondeu Sara. – Bem… . eu arranjo outro cliente num piscar de olhos.O. já sabes o que te acontece. se te portares mal. Não estou a desconfiar de ti! .k – interrompeu o cliente alcançando a carteira no bolso das calças. pelo corpo. – Ou vais-me dizer que não acreditaste quando te disse que a gaja ainda era menor? . Luísa? . duzentos e cinquenta – respondeu Milene batendo o pé no soalho.Parece ser interessante – respondeu ele lançando um olhar intenso a Sara que a gelou dos pés à cabeça. princesa.Não te metas aonde não és chamado – respondeu ela enfiando as notas no decote da camisola. .Queres o BI? – perguntou Milene voltando-se rispidamente para o cliente. Era alto.Hã pensei.…é claro que quero – respondeu ele observando Sara dos pés à cabeça. A miúda parece ter mais idade do que aquela que me disseste. – Tudo bem eu pago.Então?! Queres ou não? . – E vê lá se tratas bem a minha colega. mas também pelo rosto inocente que ela aparentava ter. Realmente não era todos os dias que uma rapariga daquelas lhe passava pelas mãos e desperdiçá-la seria burrice. Por fim. sendo que a primeira pessoa a entrar foi Milene e logo a seguir.Obrigada! .…era desta rapariga que te estava a falar. . . apoderou-se mais do que poderia imaginar e qualquer ruído ou movimento da porta era um sobressalto seu.Quantos anos tens. mas assim que ele estendeu o braço. Milene adiantou-se dizendo: . Não era muito bonito.Qual é?! Vais reclamar do preço? Estou-te a fazer uma oferta dessas e tu ainda reclamas? Já olhaste bem para a cara da miúda? O corpo? Tens sorte é de estar-te só a pedir duzentos e cinquenta. . – Mas tu é que sabes! Se não quiseres ou não tiveres dinheiro para pagar.Agora viraste chula. Queria-a não só pela idade. . afinal de contas era ela quem lhe iria prestar o serviço. mas pelo menos estava bem vestido e aparentava não ter passado dos trinta e cinco.iria saltar pela boca.Só queria confirmar. foi a primeira coisa que Sara reparou. o preço duplicava ou triplicava – discursou Milene demonstrando bem todos os anos de experiência que conseguira adquirir para si. Ele queria-a. O pânico apoderou-se de si. – Chama-se Luísa – mentiu Milene. É só descer lá em baixo e… . O Nuno está lá em baixo.

uma onde de nervosismo voltou a atravessar-lhe o corpo e os pensamentos. Seria tarde demais para fugir? Tarde demais para se arrepender de um pecado que nem sequer havia cometido? Sim. – Essas putas são muito espertas e aproveitam-se de novatas como tu. – Não deves deixar que a Milene te explore – disse ele a Sara enquanto vestia as suas roupas.idade para ser seu pai.Ele foi muito bruto contigo? .Não sabia que era assim tão feia – respondeu a última levando dois pauzinhos à boca. esfregou os braços.Foi normal – respondeu Sara encontrando a suas calças de ganga sobre o cadeirão. de calmaria e o enxugar do corpo com uma toalha.Hoje não vais trabalhar? .O. Depois disso. .Não é nada disso! Só não estava à espera de te encontrar aqui. e durante largos minutos. Os chinelos foram calçados para que não tivesse que pisar o chão imundo da casa de banho e a roupa interior vestida em silêncio enquanto regressava ao quarto.k – conformou-se Milene com a falta de pormenores fornecidos pela jovem. 86 . O cliente não foi nem um pouco cuidadoso com ela. veio uma sensação de alívio. obrigada. veio a sensação de alívio e a vontade de desaparecer daquele quarto para voltar ao trabalho.Ela não me está a explorar – respondeu ela enrolando-se no lençol da cama. foi doloroso. Era tarde e isso ficou provado pela ordem do cliente: . . Lavou os cabelos com o Shampoo que trouxe de casa. não era essa a sua intenção.Não é preciso.Mais ou menos. Sara viu-se metida num verdadeiro inferno sem tempo e sem hora para acabar.Despe-te! Foi horrível do princípio ao fim. .Como é que foi o quê!? . – Não queres falar sobre o assunto não fales. . . – Guarda! A primeira coisa que Sara fez quando o cliente desapareceu foi enfiar-se por debaixo do chuveiro e retirar do corpo todas as marcas e vestígios que ele lhe deixara no corpo durante os quarenta minutos em que a possuiu como se ela fosse apenas um mero pedaço de carne.Não sabia que vocês tiravam folgas durante a semana.Não. . . . A intenção era a de se aliviar e de retirar dos ombros todo o stress a que foi submetido durante a semana. – Ai! Que susto… . .Não! Hoje estou de folga. o pescoço e atirou-se novamente para o chuveiro para se consciencializar de que se tinha realmente prostituído pela primeira vez.És servida!? . .Estás a gozar comigo.exclamou ela quando se deparou com a figura de Milene a devorar a comida chinesa comprada num dos muitos restaurantes asiáticos do bairro. não?! O que é que acabaste de fazer? .Não sejas parva – respondeu ele enfiando-lhe a nota nas mãos. Mais tarde. as pernas. .Em todo o caso é um aviso que te dou! Se quiseres continuar nesta vida tens que abrir os olhos – entregou-lhe uma nota de cinquenta euros.Como é que foi? . Já pagaste. – Toma! Guarda para ti. pois na verdade. .

. Eu aceitei o cheque claro. até porque ela também trabalhava no restaurante. – Queres um emprego mais cansativo do que estar deitada numa cama de pernas abertas à espera que o teu cliente se venha? Isto quando não é de pé num beco qualquer! A sorte é que a maioria não se aguenta mais do que vinte minutos.Pelo menos essa é uma das vantagens de se ser puta – respondeu Milene bebendo um gole de cerveja pelo gargalo da garrafa.Tiveste um filho? .És curiosa. Não quis que a mulher soubesse. – Até me deu dinheiro para isso desde que desaparecesse e nunca mais me pusesse a vista em cima.Trabalhaste no quê? .ela pareceu hesitar. . – Foste despedida? . e deu-me um pontapé no rabo.Se não quiseres não contes – respondeu Sara sentando-se numa das pontas da cama quando terminou de se vestir. o quê? .E porque é que saíste de lá? Uma outra hesitação foi a resposta oferecida por Milene. – Tu é que fazes os teus próprios horários! Não tens nenhum patrão chato para te dar ordens e também não tens que descontar para a segurança social. Percebeu também que por mais magistral que tivesse sido a sua desculpa para fugir à questão Sara não se deu por vencida. .Não respondeste à minha pergunta. . .Aonde é que ela está? 87 . . Sei lá. hã?! ..E tu? . Mas… .Se nunca tiveste um emprego a sério? A miúda é esperta. . . até estava disposta a fazer a porcaria do aborto só para me livrar da criança. acobardei-me! Tive medo de morrer.Num restaurante lá para os lados de Odivelas.Foste despedida só por causa disso? . .…já – respondeu ela após um longo silêncio.Fui despedida porque fiquei grávida. de ficar doente sem ter ninguém que cuidasse de mim e tive medo de perder a minha filha.Uma filha – emendou Milene largando a sua cerveja sobre a mesinha.O filho da mãe do meu patrão despediu-me quando descobriu que a miúda era dele. e se queres que te diga.O que é que fizeste? .Eu. . .E achas que esse não é um emprego a sério – riram-se as duas enquanto Sara terminava de se vestir em frente à cama.…sim.Que pergunta?! . .Porquê?! . Não pago rendimentos mínimos a ninguém… .Nunca tiveste um emprego a sério? .Ele queria que eu fizesse um aborto – respondeu Milene continuando a devorar o almoço improvisado. Milene percebeu isso em poucos minutos.Mas o quê?! .Na hora H não tive coragem.

Olá Sara – disse Sérgio lançando-lhe um breve aceno.…e em breve também vais poder dormir cá. eu acho! Mas com a Sara tudo é imprevisível.Se for convidado. .Como é que ela se está a portar nesses dias? – perguntou Sérgio após o longo suspiro lançado pela namorada.A adolescência passa. .Em passarmos um fim-de-semana fora de Lisboa.Sim! Queria levar-te a conhecer o meu avô ao Alentejo.Sabe – interrompeu Milene não escondendo a voz amarga.Estive com umas amigas – mentiu a jovem. E não era só isso.Falaste-lhe sobre mim? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. .Eu não tenho fome. .Não demores muito a descer. a sensação de que tinha feito algo de mal embora não soubesse bem o quê e. mas ainda assim parecia que um batalhão lhe tinha caído em cima. 88 .Mas também não vais dormir sem comer – respondeu Madalena vendo a filha a desaparecer da sala sem sequer olhar para trás ou responder à sua ordem.A tua mãe sabe que tu és… . – Então?! Ficas para jantar? . estive a pensar numa coisa… . sabias?! .Bem. . O jantar já está pronto.Mal posso esperar por isso – respondeu Sérgio beijando-lhe os lábios. A miúda é a minha cara… – riram-se. . mas o que importa é o dinheirinho sempre conta no primeiro dia do mês. mas não de uma boa forma.No Porto com a minha mãe! Chama-se Daniela e tem seis anos. por fim. – Tudo bem? .Que coisa? . . .Tu não precisas ser convidado – afirmou Madalena mostrando-lhe um doce sorriso.Aonde é que te meteste? – interrogou Madalena assim que ela entrou na sala e se deparou com a figura sempre exasperante do namorado da mãe. . . – Já és cá de casa.Fora de Lisboa!? . Quando regressou a casa após uma tarde inteira passada no Intendente.Ai é!? Muito bom ouvir isso. o que vai fazer…! Enfim! É uma autêntica caixinha de surpresas..No teu quarto? . . Sara lançou um suspiro e quase que desejou cair no corredor de tão cansada que estava. a estúpida sensação de querer repetir aquela experiência assim que possível. – A sério! É toda espevitada. – Sabes.Ainda bem – riram-se baixinho. – Mas para ela desde que mande dinheiro todos meses para me tomar conta da miúda. . Era também a sensação de que o cheiro dele estava entranhado na sua pele.Tudo! Bem. Nunca sei o que ela está a pensar. . vou subir para o meu quarto. Só tinha atendido um cliente. . ser espancada ou parar à prisão. .Sim! No meu quarto. quer lá saber! Posso morrer com Sida. Lembraste quando te disse que um dia te iria apresentar a ele? Pois então! O senhor Luís quer conhecer-te. . tem mania que sabe tudo e anda sempre a ver se me consegue sacar as roupas e os sapatos. .

Porque é que não deixas a Sara e o Daniel com o teu ex. tinha sido a humilhação máxima ser presa por um crime cometido pelo marido e por ele nem sequer se ter dignado a comparecer à polícia enviando apenas um outro advogado com as instruções exactas para que não o comprometesse.É claro que ele fica – respondeu Sérgio oferecendo-lhe um outro beijo. .Várias vezes. E vai ser divertido! Vou-te ensinar a pescar. Depois disso. foi um choque o pedido de divórcio que Madalena fez questão de lançar em tribunal e um choque também encontrar as suas malas à porta de casa quando estava certo que ela o perdoaria por ter passado uma noite inteirinha na prisão. Então?! O que é que me dizes? . tu sabes disso! Mas o problema são os meus filhos. mulher havia encontrado alguém que se interessasse por ela.Na sexta-feira só se for depois das seis e meia. .São só dois dias – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos lisos. . Jorge aceitou tomar conta dos filhos durante o fim-de-semana.Hã… estou – respondeu Jorge voltando ao planeta terra quando ouviu a voz no outro lado da linha.Exactamente! Queres coisa melhor? . Ouviu as explicações de Madalena. vamos fazer grandes passeios. Vamos ver se ele me consegue ficar com os miúdos. 89 .Eu adoraria conhecer o teu avô.Não – riu-se ela. aliás. Mas a verdade é que Madalena não perdoou. não porque Madalena não fosse uma mulher bonita e interessante. – E quando é que íriamos? . Madalena livrou-se das acusações e pediu igualmente o divórcio ao marido com a clara certeza que nunca mais o voltaria ver com os mesmos olhos.Eu também acho – concordou Madalena deixando-se levar pelos braços dele em direcção à cozinha. E enquanto falava com ela ao telefone. – Vais ver! O nosso fim-de-semana vai ser inesquecível. – Estás aí?! . mordeu o lábio inferior quando ela confessou que iria passar dois dias no Alentejo na companhia do namorado e tentou igualmente esconder os ciúmes que sentiu quando percebeu que a ex. ajudar o meu avô no pomar que ele tem. – No domingo à noite já estamos de volta.Na sexta-feira à noite e voltávamos no Domingo. – No Alentejo… . pois apesar de já ter chegado aos quarenta. continuava a radiar uma beleza igual ou superior à de muitas mulheres de vinte. . Tinha sido a gota de água. Foi um milagre de facto. muito pelo contrário.Então eu vou falar com o Jorge amanhã. . desde que te conheci que não lhe tenho falado sobre outra coisa..Então podes vir buscar os miúdos este fim-de-semana? . o dinheiro extraviado de uma empresa de telecomunicações foi devolvido ao Estado. apanhar ar puro. Apesar da relutância inicial. Não posso ausentar-me durante um fim-de-semana inteiro. marido ou até mesmo com o teu pai!? .Um fim-de-semana – suspirou Madalena sentindo-se bastante tentada a aceitar aquele convite tão aliciante. . Na verdade. Jorge lembrou-se de todas estas características que durante anos lhe passaram despercebidas.Durante o fim-de-semana todo? .

calmaria e tranquilidade que a região do Alentejo oferecia aos seus visitantes. .Vá lá – pediu Sara encarecidamente.. mas ainda assim Sara encontrou tempo para telefonar à sua nova amiga Milene. Ouviste o que o gajo disse no outro dia? Que eu pareço muito mais velha do que sou. – Leva-me a essa festa! 90 . querido! Tem só mais um pouco de paciência. A prostituta arranjava-lhe clientes e ela satisfazia as suas vontades sexuais quase diárias. temos bebidas de graça e os clientes são um pouco mais civilizados que os de cá.começou ela por dizer a Milene. . – A minha mãe vai viajar este fim-desemana… . Tudo estava combinado. Ouve-se boa música.Tu já me atrapalhas. o pai não vem? – foi a pergunta de Daniel quando entrou na sala com cara de poucos amigos . Então?! Leva-me contigo! Prometo que não te vou atrapalhar. Madalena e Sérgio iriam passar dois dias na pequena vivenda do avô dele e aproveitar toda a paz. Para isso.Hoje não vai dar – respondeu Milene observando com atenção o movimento dos carros não fosse um deles parar com um cliente lá dentro.Deve estar quase a chegar. . – Fico à tua espera então. – Tenho uma festa para ir. .Escuta.Festa?! Que festa? . Achas que me consegues arranjar algum cliente? . A mochila estava pronta e o casaco sobre a cama. decidido e tratado. Depois disso. . entregava o dinheiro ganho e abandonava o quarto da pensão sentindo-se imunda. ela tinha certeza.Daí que estava a pensar em passar hoje à noite pelo bairro. esses momentos iriam ser muitos. mas ele é muito mais liberal que ela.Nada de especial. É só uma festa que costumam organizar num clube de streap lá para os lados do Bairro Alto.Não sei – respondeu Daniel sentando-se no sofá de braços cruzados. ela arrumou uma pequena mala assim que chegou a casa e enfiou no seu interior apenas roupas práticas.Se calhar era melhor – respondeu Madalena descendo os estores da janela. o que as unia era uma relação estritamente profissional. .Se for contigo tenho a certeza que ninguém vai desconfiar que eu ainda não tenho dezoito anos. Todas as semanas vamos lá à cata de algum ricalhaço que esteja disposto a pagar bem. . E de facto.Tudo bem. onde é que a tua irmã se meteu? Ela já arrumou as coisas dela? . .Não me podes levar a essa festa? .E daí? . . – Não tens idade para lá entrar. – Está trancada no quarto.Ele chega sempre atrasado. alguns objectos pessoais e uma máquina fotográfica com a qual pretendia fotografar todas os momentos especiais da viagem. Ou será que não seria demasiado precipitado chamá-la de amiga? Na verdade. – Queres que comece já a levar as coisas para o carro? – perguntou Sérgio arrastando as malas em direcção ao corredor. – Vou ficar com o meu pai. . Não há problema – disse Madalena observando os movimentos dos seus clientes na floricultura.Estás louca – riu-se Milene com uma gargalhada seca.Mãe. mas com uma enorme vontade de voltar.

. Sérgio sorriu. mas ainda assim.Sei que estás louca para o teu fim-de-semana. Por sorte. força de vontade era tudo o que não lhe faltava. especialmente quando sabia bem que aquela seria uma das oportunidades raríssimas para ter Madalena só para si durante dois dias.Então eu vou chamá-los porque não me quero demorar muito por estas bandas. as árvores não evidenciavam qualquer sinal de que estavam a ser levadas pelo vento e as estrelas no céu fizeram os seus olhos brilhar de alegria e emoção.As malas da viagem foram colocadas no porta-bagagem do carro e para isso Sérgio precisou apenas de dois braços e alguma força de vontade.Eu sei que tens compromissos e que trabalhas. isso era um facto. marido. Aliás. – Até que enfim chegaste – disse Madalena abrindo a porta ao ex.É claro que vai. – Boa tarde – disse Jorge com uma cara de poucos amigos. na sala. Não era uma casa muito grande ou luxuosa. Porque é que não haveria de gostar – respondeu ela seguindo-lhe os passos em direcção à porta principal enquanto o seu coração voltava a bater mais forte e Sérgio se esfalfava para encontrar as chaves que guardara no bolso do casaco. Porque é que não haveria de gostar? . . encontrou o casaco de Madalena e pendurou-o no bengaleiro atrás da porta.Já estão prontos à tua espera. mas também era compreensível que não fosse tendo em conta aquele encontro no mínimo constrangedor em frente a uma casa que um dia também foi sua. enquanto a poucos metros. olhos claros e cabelos castanhos. pois apesar de nunca se terem cruzado antes. . – Será que ele vai gostar de mim? . – Boa tarde – respondeu Sérgio observando-lhe a entrada pelos portões da casa. marido de Madalena.Não! Ele está à nossa espera. O fim-de-semana iria ser especial e ele pôde ter essa certeza quando tornou a fechar o porta-bagagem sob o olhar atento de um homem de estatura elevada. mas eu também tenho compromissos e também trabalho tanto quanto tu – respondeu Madalena fechando a porta enquanto os dois homens se fitavam vorazmente. ao ver-se diante dela. . – Vamos entrar? – perguntou Sérgio levantando do chão as malas que trouxeram de Lisboa. sem filhos. ouviu-se o barulho de uma 91 .Meu Deus – riu-se Madalena. mas também tens que compreender que eu tenho compromissos e que trabalho… – respondeu Jorge não conseguindo esconder os seus ciúmes quando Sérgio também entrou pelo corredor adentro. e depois disso. . na altura.Os miúdos!? . as malas foram colocadas a um canto do corredor. Não viste que a luz da sala continua acesa? . Não foi preciso muito esforço para perceber quem ele era. Madalena não conseguiu evitar o sorriso que lhe atravessou o rosto e a sensação de que tinha acabado de chegar ao paraíso.Será que o teu avô já não dormiu? . A viagem ao Alentejo correu sem quaisquer sobressaltos e só terminou perto da meia-noite quando Sérgio estacionou o carro em frente a uma pequena moradia pintada de azul e branco. Não parecia muito simpático. a porta abriu-se sem muito esforço.Tens razão. sem o stress de uma cidade tão agitada e barulhenta como Lisboa e também sem olhar para o relógio. O tempo estava ameno. as parecenças com Daniel e Sara fizeram-no antever que era o pai deles e consequentemente o ex.

pequena cadeira de descanso guinchar ruidosamente.Então vou pôr a chaleira no lume! Já venho – disse o dono da casa desaparecendo da sala. E prova disso era os dois porta-retratos que ele fazia questão de manter sobre a mesinha junto à janela.Estou muito contente que estejas aqui comigo. espero?! . . vô? – interferiu Sérgio poisando-lhe a mão sobre o ombro. Adorou. . – Vô. um quadro pintado a óleo e as centenas de livros amontoados a um canto da sala.Nem tanto – respondeu Sérgio largando o casaco de cabedal sobre o sofá enquanto Madalena tentava dissecar discretamente toda a decoração existente naquelas quatro paredes. . o cumprimento de Luís não veio com um aperto de mão. mas sim com um inesperado abraço. Uma da sua falecida mulher e outra da sua falecida filha. ao contrário do que ela estava à espera.Ainda bem que não jogou – riram-se baixinho. 92 . . os pequenos barquinhos de madeira sobre as estantes.Quero – respondeu ela à pergunta de Sérgio e Luís com um largo sorriso. não?! – adiantou-se Luís levando os seus convidados em direcção à sala. . Contudo. – Até que enfim.Bem …eu também estava muito ansiosa para o conhecer! O Sérgio falou-me imenso a seu respeito – respondeu Madalena retirando a expressão esbugalhada dos olhos. . Não havia dúvida de que aquela casa era habitada por um homem ligado ao passado e às recordações de uma vida que nem sempre teve momentos felizes. – Não precisavas ter medo de nada.Vai-me jogar esse facto à cara para o resto da minha vida – respondeu Sérgio voltando-se para Madalena com uma felicidade que não passava despercebida a ninguém.Já estava a ver que nunca mais a conhecia – exclamou ele. Era como se ela estivesse à espera do momento exacto para o fazer e como se encontrasse a paciência necessária para não o ter feito antes. amor?! . algo que a deixou deveras surpresa.Queres um chá.Também era o que mais faltava depois de te ter trocado as fraldas desde que nasceste. homem – exclamou uma voz grossa irrompendo o corredor. . Adorou os móveis velhos clássicos. . . .Achas que ia falar mal de ti. Ao ouvi-la.Bem. – Madalena. – Aliás. com certeza já te teria jogado esse facto à cara.Claro! Claro que falou bem.O que é que eu te disse? – indagou Sérgio envolvendo os braços à volta da cintura de Madalena. esta é a Madalena! A pessoa de quem tanto te falei – fez Sérgio as apresentações.Muito prazer. a mãe de Sérgio. . . . .O teu avô é muito simpático. Eram muito unidos. mas vocês devem estar cansados da viagem. Sérgio abriu um largo sorriso e rapidamente se apressou a cumprimentar o avô oferecendo-lhe um longo abraço e também um beijo na face. agradecia. Se ele não tivesse gostado de ti. .Falou bem. foi a primeira impressão de Madalena quando lhes ouviu as risadas e se sentiu um verdadeiro peixe fora de água à espera de ser salvo da morte certa. – Não querem beber um chá? – perguntou ele interceptando os olhares perdidos de Madalena. senhor Luís – disse ela estendendo-lhe a mão com um largo sorriso enquanto desejava que ele não a deixasse ali especada. este é o meu avô! O grande senhor Luís Restelo.

Mas nem a promessa de uma possível tempestade impediu Sara de sair do quarto e fechar a porta com cuidado para que o pai e o irmão mais novo não se apercebessem dos seus planos mais secretos. longe de tudo. o céu tornou-se carregado e cheio de nuvens. meias de renda pretas e um casaco que lhe cobria o corpo todo. – Quantos anos é que ela tem? .Isto se lhe pedirem – interferiu uma das prostitutas. . Apanhou o último metro da noite e em pouco tempo viu-se no local onde havia combinado encontrar-se com Milene.Mesmo assim – disse Milene que de todas era a que mais jogava pelo seguro. – Meninas. querida. em Lisboa. . . naquela noite.. Será que ela vem. esta aqui é a Sara – fez ela as apresentações. ela encontrou as chaves e saiu com o único intuito de passar uma noite completamente diferente a todas que havia passado até então.Dezasseis – respondeu Sara. – Desaparecido! 93 . – Eu também estou muito contente de estar aqui contigo. A fila de espera para entrar estendia-se para lá dos dez metros e quase todos os clientes aguardavam a sua vez.Eu também – confessou Madalena encontrando-lhe os lábios no meio daquela sala desprovida de quaisquer luxos desnecessários.Longe dos problemas. .k – respondeu Sara aceitando a identificação com alguma cautela. O clube situava-se numa das ruas mais recônditas do Bairro Alto. animados pela noite e também pela música barulhenta que se fazia ouvir no interior do edifício. . – Olha quem é ele – exclamou Milene abrindo um sorriso radiante quando um homem se aproximou de si a surpreendeu um longo abraço.Trouxe-te um BI falso – disse Milene retirando da mala um cartão com a fotografia e o nome de uma mulher de vinte e um anos.Ainda perguntas!? Com a tua idade não estás autorizada a entrar em clubes de streap. de todos… . Se a bófia faz uma rusga por lá estás lixada e eu também. Mas por sorte.Também – riram-se eles ainda com os lábios colados no outro. Quanto aos porteiros tens que ter cuidado quando eles te pedirem o BI… . vindo acompanhada por mais duas colegas de profissão visivelmente embriagadas.Boa – riu-se uma das prostitutas.O.Só?! E já tens esse corpo? . Trajada com uma mini-saia. – Se te pedirem o BI. Milene não a deixou esperar em demasia naquela rua deserta e ventosa. – Ela também vai connosco. muitas vezes acompanhada pelo pai ou pela mãe. .Para quê? – perguntou Sara compondo os cabelos soltos. . mostras sempre com um dos dedos sobre a fotografia e passas rápido para que eles não fiquem a olhar muito tempo para o cartão. nunca imaginou que aquele estabelecimento sempre fechado durante o dia tratava-se de um clube de streap frequentado à noite por pessoas das mais variadas raças e estratos sociais. – Mais uma para a concorrência. e mesmo Sara tendo passado por aquela zona umas milhares de vezes. Ao contrário das estrelas no céu que o Alentejo apresentou. passou-lhe essa pergunta pela cabeça enquanto lançava os olhos ao relógio de pulso via que nele estavam marcadas doze horas e cinquenta e nove minutos.

como caso de Marco. musculado e que trazia consigo uma confiança que poucos homens brancos possuíam. para além de fisicamente também o ter agradado bastante. . .Vem comigo! Foram precisos apenas trinta minutos para que Marco retirasse as roupas de Sara num dos muitos quartos em que guardava as suas mercadorias para serem levadas ao Algarve. Mas quando ele as atirou ao chão e deitou Sara sobre a cama. . este é o Marco. que Sara se entregou a ele pela primeira vez não sentindo de maneira nenhuma que o estava a fazer como prostituta. . Sara deixou-se levar pelos braços de Marco quando ele a levou para um canto recôndito. Depois disso. Ponho-vos lá dentro num instante! Em pouco mais de uma hora. . .Estamos – respondeu uma das prostitutas que acompanhava Milene. – Obrigada. pastilhas ecstasy e haxixe.Mais ou menos – respondeu Sara tentando esconder a timidez que sentia cada vez que um homem se aproximava de si. Pago bem! Vamos?! . alguns apalpões habituais em cada esquina do clube e a sensação de que a pouco e pouco ambos se estavam a envolver. .Para onde? – perguntou ela apreensivamente. todos os clientes conseguiram entrar no clube e o divertimento tornou-se ainda maior.Então venham comigo. Demonstrava também não ter medo de nada.A bófia é uma seca. – É a Sara! Sara.Não confias em mim? A pergunta de Marco tomou Sara de assalto. – Estão na fila para entrar? – perguntou ele. algo perfeitamente compreensível para um homem de vinte e sete anos que passara a maior parte da adolescência em bairros degradados e em esquemas criminosos longe do conhecimento da polícia. Foi ali.E esta rapariga quem é? – perguntou o desconhecido não escondendo a sua curiosidade por Sara. Nunca a tinha visto. E ela respondeu dizendo. especialmente se fosse bonito. não é – riu-se Milene enquanto levava uma garrafa de whisky à boca. por isso era natural que quisesse saber quem era. Marco era um jovem mulato. . naquele quarto minúsculo. nada menos. .Se quiseres posso ser o teu cliente. a música tornou-se cada vez mais barulhenta. – És muito bonita – segredou-lhe Marco aos ouvidos. A pista encheu-se de pessoas.Avisaram-me para nunca aceitar encontros em locais que não conheço.Há quanto tempo andas nisto? – foi pergunta de Marco quando acendeu o terceiro cigarro da noite.Sabes como é que é – respondeu ele rasgando alguns olhares curiosos a Sara. Só vim buscar as minhas mercadorias e vou-me embora no domingo que é quando as estradas estão mais vazias.Uma… amiga – respondeu Milene hesitante. o cheiro a mofo das almofadas e a presença de uma arma de fogo sobre a mesinha de cabeceira. – Agora ando mais lá para os lados do Algarve a tratar dos meus negócios. inclusive a chuva a cair no tejadilho da janela.Não sei – respondeu ela com um longo suspiro. – És nova por aqui? . .Olá – disse ele cumprimentando-a na face. e pela primeira vez.. – Não confias?! .Tenho um sítio perfeito para nós. 94 . mercadorias essas que eram nada mais. . tudo o resto deixou de importar. . mas sim como uma mulher que encontrara o verdadeiro prazer nos braços de um traficante de droga. que pequenas doses de cocaína. seguiram-se vários beijos.

A cozinha cheirava a café quando Sérgio e Madalena entraram nela de mãos dadas e com um sorriso rasgado no rosto. Tinha um ar mil vezes mais angelical. qual era o mal de fumar uma passa? Quando os primeiros vestígios do dia começaram a surgir.Eu não vejo isto como uma profissão.Não sei! Nunca fumei. Quando vieres. senão troco logo a porcaria do número. . ou talvez até mesmo por culpa sua. Um favor que pela primeira vez fez a uma prostituta.Só comecei na semana passada! A Milene arranjou-me os primeiros clientes.Então não estou a perceber porque é que… .Toma – afirmou Marco oferecendo-lhe um papel rasgado e também um beijo na boca.. Por sorte. – A isso é que se chama ter amor à profissão. . tinham dormido maravilhosamente bem no quarto de hóspedes preparado por Luís e mal esperavam para começar o dia com um longo 95 .Porquê!? . . Sara era diferente de todas as outras. Marco levou Sara a casa.Porque quero. mas eu moro com a minha mãe. Sexo entre um cliente e uma profissional e nada mais. . Havia algo nela e naqueles olhos inocentes.E eu dou-te o meu… – adiantou-se Sara. . É bom para relaxar. Talvez por culpa da mãe. . . Apesar de alguma hesitação.Só entrei para experimentar.Vais gostar. Só venho de vez em quando. mas que na verdade não se arrependeu nem um pouco. – Pronto! Já estás entregue – exclamou ele desligando o motor do carro assim que o estacionou em frente ao prédio que Sara lhe indicara. Se já tinha experimentado coisas tão bizarras como fazer sexo com desconhecidos em troca de dinheiro. De facto.Eu não moro cá em Lisboa. Gosto de estar com homens e só penso nisso a toda a hora. – Gosto de fazer sexo.Mais ou menos – respondeu ela observando-lhe a expressão surpresa. até porque ele não sabia até que ponto ela tinha levado aquela noite em consideração. bonita e trazia nos olhos a inocência de uma menina que infelizmente se tinha perdido na vida. Sara aceitou o cigarro das mãos de Marco e levou-o à boca ansiando experimentar pela primeira vez qual era a sensação de fumar. . É isso? . Queria saber como é que era! . . . algo que o fez hesitar e cometer uma das maiores loucuras da sua vida – Vou-te dar o meu número.Queres uma passa? – perguntou Marco mostrando-lhe o cigarro que tinha em punho. . .Para quê!? . .Mesmo assim. do pai.Bem – riram-se os dois. mas ela nunca se atreveu a cometer tal acto. Tinha sido só sexo. Na escola.Então?! Para saber.E porque é que entraste na vida? Os teus pais expulsaram-te de casa? .Então quer dizer que és prostituta porque gostas. . era doce.Vou voltar a ver-te? – perguntou ela desfazendo-se do cinto de segurança. . procura-me… O sorriso de Sara trouxe algumas hesitações a Marco.Podes deixar. várias amigas suas já fumavam. Mas raios.Mas não me ligues a toda a hora.Não – respondeu Sara. . Mas sim. – Eles são separados.

Eu também quero cá vir muitas vezes.Um pouco tarde. – Para mim um hóspede é sagrado. – Hoje temos um longo passeio pela frente. Leva-nos os pensamentos para longe e faz-nos pensar nas coisas com mais clareza… O passeio pela vila tomou-lhes toda a manhã. garanto-te – respondeu ele. 96 . . mas amanhã queria que ensinasses a Lena a pescar.Eu?! – indagou ela voltando-se para Sérgio – Pescar? .Vais gostar. depois passear pelo parque e quem sabe se o tempo ajudar terminamos o passeio no lago. – …espero que voltes comigo aqui outra vez – disse Sérgio quando as suas taças se tocaram sobre a mesa à hora do almoço. – E o meu avô é um grande professor.Vou tentar levar isso como um elogio – disse Luís levando o pão fresco à mesa. .Estavas certo quando disseste que os dois se pareciam imenso – respondeu ela. Já viste bem o meu avô? – interferiu Sérgio servindo dois cafés em frente à bancada.Acordaram? – foi a primeira pergunta de Luís assim que entraram na cozinha.Aonde é que vão? . Esta.passeio pela vila. .Não se matem hoje – respondeu Luís servindo-se do chá de ervas que costumava beber todas as manhãs. . eu não quero desapontá-lo senhor Luís. especialmente uma hóspede tão bonita como você. . desde frutas a produtos artesanais. mas acordámos – respondeu Sérgio arrastando uma cadeira a Madalena. Faltava conhecer a igreja da região trabalhada em arte barroca. e enquanto visitavam os locais onde Sérgio havia passado grande parte da sua infância. com um sorriso. – Não. muitas delas pintadas com cores alegres e suaves. – E dizes tu que o teu pai parece uma criança de oito anos. Faltava aventurar-se pelas ruelas estreitas.Bem. – Muita fome.Vamos visitar o centro da vila. . . . agradeceu a gentileza e sentou-se à mesa perguntando em seguida ao dono da casa se este precisava de ajuda.Não muita! Confesso que de manhã não costumo comer muito. e faltava-lhe também sonhar em um dia terminar os seus dias num lugar assim. absorver a beleza das casas caiadas. Ela que se considerava uma portuguesa de gema e conhecedora de quase todas as cidades de Portugal. – Apesar de tudo ainda têm o dia de amanhã. mas acho que vai ter um grande trabalhão comigo – disse Madalena arrancando uma risada geral. Faltava cheirar a terra molhada.Sim. . Ansiavam também conhecer todos os cantos turísticos e passar um dia no mínimo agradável sem olhar para os ponteiros do relógio. Madalena riu-se alegremente. rapidamente percebeu que lhe faltava conhecer tanta coisa em apenas um fim-de-semana relâmpago.Aposto que não vou ter mais trabalho do que tive aqui com o meu neto. Madalena? . . sem se importarem com o trabalho e muito menos com o facto de serem obrigados a voltar a Lisboa no dia seguinte.Pois vais ter que comer – interrompeu Sérgio entregando-lhe o café em mãos. Além de que a pesca é uma boa forma de relaxamento. o mercado repleto de feirantes que vendiam de tudo um pouco. . admirar as pessoas à sua volta que ao contrário das que moravam em Lisboa caminhavam sem pressa de chegar a algum lugar e com a certeza que o mundo não acabaria no dia seguinte. nem pensar – respondeu ele. . Madalena não se escusou a tirar inúmeras fotografias para registar uma das viagens mais interessantes que fizera pelo país.

. – Mais uma vez estás a falar da nossa diferença de idades. vocês já são todos da minha família. não tos vou poder dar e tu vais acabar por me jogar esse facto à cara. não é?! – indagou Sérgio largando-lhe a mão. Sérgio! Eu só estou a constatar um facto.Porquê!? Não gostavas de morar num local onde não existe hora de ponta. .Então é isso. . o silêncio apoderou-se da mesa onde Madalena e Sérgio estavam sentados. Durante vários minutos.Não estás a perceber.Eu sei. – Estás a gozar.Quero que venhas morar comigo aqui nesta vila.O quê?! . poluição.No máximo teria idade para ser a filha dele.Mas nós já somos uma família – interrompeu Sérgio encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. .Como assim?! . . quando os teus filhos estiverem crescidos.Filhos – respondeu ela sem desviar os olhos dele.O quê. E esse facto é de que daqui a uns anos tu vais querer ter os teus próprios filhos e eu não tos vou poder dar. Ela olhou-o.Tu sabes que eu nunca faria isso.Não é nada disso. eles já gostam de mim tal como eu também gosto deles.Mas eu não estou a dizer para nos mudarmos agora – adiantou-se ele. – Nós vamos ficar juntos para sempre. – Daqui a alguns anos. .E será que até lá ainda vamos estar juntos? . mas… . . eu tenho a minha vida toda em Lisboa. Para mim. . – Não vamos estragar 97 . . por mais que eu tente. casados e não nos restar absolutamente mais nada para fazer em Lisboa. problemas… . Madalena riu-se. por exemplo? .Mas também quero manter os pés no chão – respondeu Madalena poisando a sua taça de vinho sobre a mesa. eu sei que a Sara não vai lá muito com a minha cara. .É claro que vamos – respondeu Sérgio com uma expressão séria. mas… . stress. e durante vários minutos apenas se ouviram o barulho das conversas dos clientes que se encontravam igualmente a almoçar duas mesas atrás. eu sei que me amas. a minha floricultura… enfim! Tenho tudo. mas isso é uma questão de tempo até eu conseguir conquistar a confiança dela. mas… existem coisas que um dia vais querer e eu não te vou poder dar. E quanto ao Daniel e ao teu pai. Por mais que eu queira.Mas pensarias e só isso já me faria sentir mal.Sérgio.Mas o quê? . ele desviou o olhar e assim a refeição terminou com um sabor amargo de derrota. . .Sérgio. – Quer dizer. não?! .O meu avô também te considera uma neta. eu também te amo muito.Queria muito acreditar nisso.. – Uma família… . Tenho os meus filhos.

Isto é um sonho – respondeu ele sugando-lhe os lábios no interior de um lago onde havia passado a maior parte da sua adolescência. – Isto parece um sonho – confessou ela. O barulho dos pássaros deixou de ser ouvido. . mas também era a primeira vez que tinha a oportunidade de se atirar de cabeça ao desconhecido sem pensar nas consequências que esse acto poderia acarretar. E nem mesmo o facto de saber que ela era mais velha que Sérgio conseguiu diminuir a admiração que sentiu ao conhecê-la pessoalmente. . voltou novamente à superfície e encontrou nos braços de Sérgio o conforto perfeito para se apoiar. passou essa certeza pela cabeça de Sérgio quando a viu sorrir para si. – Estava a ser tão bom. – Acredite que teria muito gosto em recebê-lo na minha casa e assim você até poderia conhecer o meu pai. na cozinha. cresci também e não iria saber mexer-me noutro sítio. Fica a poucos minutos se formos de carro. Por sorte. Desculpa! Infelizmente Sérgio foi obrigado a fazê-lo. 98 .Tu é que estragaste. .O que é que vamos fazer agora? . ela pôde ter essa certeza quando lhe encarou o rosto depois de o ter pertencido sem quaisquer restrições. Algumas horas mais tarde. o sol voltou a brilhar quando as nuvens desapareceram do horizonte e os corpos dos dois amantes conjugaram-se na perfeição. enquanto mais tarde. a sua beleza e a candura que o seu sorriso transparecia a quilómetros de distância. Madalena percebeu todas as razões que fizeram Sérgio levá-la àquele lago. Aposto que histórias em comum não vos iriam faltar. – Nem por isso! Está óptima – respondeu Sérgio. Nasci aqui. ele montou uma mesa improvisada no jardim das traseiras. Sérgio e Madalena regressaram a casa e encontraram à sua espera o cherne grelhado na brasa preparado por Luís Restelo.Não! Nunca tal ideia me passou pela cabeça. O mundo parou.Quando lá chegarmos vais perceber. . Sim. – Nunca pensou em morar noutro local que não aqui? – perguntou Madalena voltando-se para o dono da casa. Além disso. Está uma delícia. o avô de Sérgio não poderia ter ficado mais contente com o elogio da namorada do seu neto.Quero mostrar-te o lago onde costumava brincar quando era criança. . Em poucos minutos. Depois disso. – A água está a ficar fria – riu-se Madalena.E porque é que me queres levar a esse lago? . quando ao retirar as roupas atirou-se para a água e sentiu-se a mergulhar até a um metro e meio de profundidade.o nosso dia – pediu Madalena voltando a encontrar-lhe a mão sobre a mesa. Ele era belo. lembraste? . – Está bem.Quem sabe um dia não nos vai visitar a Lisboa – disse ela. Luís adorou a simplicidade de Madalena.Não te queria chatear. . Era a primeira vez que cometia uma loucura na sua vida. E ela era a mulher da sua vida. E de facto. o tempo ameno permitiu que a refeição fosse servida sem quaisquer atrasos.Quem sabe um dia não faço isso. foi o elogio que Luís ouviu de Madalena quando ela degustou a primeira garfada do cherne acompanhada de um gole de vinho. . radiante. Madalena se encarregou de fazer a salada e de retirar as loiças dos armários.

A noite terminou em beleza com um poema lido por Luís.Que milagre?! . ele sentia-se muito mais leve e apto a aguentar uma vida repleta de percas e desgostos. amor… – exclamou Sérgio voltando-se para Madalena com um largo sorriso nos lábios. . enquanto olhava para Sérgio e o via completamente embevecido por Madalena..Conseguiste que o meu avô prometesse uma ida a Lisboa.Não sejas exagerado – defendeu-se Luís encabulado com os risos dos seus convidados. Aquela felicidade que parece colar-se à nossa pele e não nos deixar um só segundo. cujo principal divertimento para ocupar as longas horas. meses e anos de solidão. dias.Bem! Já conseguiste um milagre. Depois de a ver. ainda lhe restava a única razão que o havia impedido de cometer suicídio quando à sua volta tudo pareceu ruir. tais como a morte da sua mulher e da sua única filha. . 99 . Depois disso. Mas apesar de tudo ele sabia ainda lhe restava o neto. E naquela noite em especial. era sem dúvida a leitura e a escrita de vários sentimentos que guardava dentro de si. Foi para ver a felicidade estampada no rosto do neto. pela primeira vez Luís percebeu o porquê de ter conseguido arranjar forças para se manter vivo. aí sim já poderíamos morrer felizes.

Entrar ou não entrar? Enfrentar ou não Madalena e o novo namorado que ela tinha feito questão de lhe esfregar na cara semanas antes? Com certeza ambos já haviam regressado do maldito fimde-semana no Alentejo e com certeza que a felicidade estampada no rosto da ex. .Foi bom. . .Duvido – respondeu ele surpreendendo-a com tal afirmação.Porque o melhor fim-de-semana que tiveste até hoje foi comigo.Nós é que pensámos que viesses mais tarde – respondeu Jorge observando a entrada dos filhos pelo corredor adentro. Jorge! O meu fim-de-semana foi realmente muito bom. .Até que enfim – foram as palavras de Madalena quando abriu a porta e se deparou com a figura dos filhos e do ex. Jorge começava a chegar à conclusão que as suas certezas foram infundadas e precipitadas. – Então?! Como é que foi o tal fim-de-semana romântico no Alentejo? . Depois disso.CAPÍTULO VI O fim-de-semana tinha chegado ao fim. 100 .Em primeiro lugar o Sérgio não é um rapaz. . essa percepção estava a matá-lo por dentro. – Pensei que viessem mais cedo. Depois disso.Desculpa. . . – Mas não se demorem porque senão o jantar arrefece. .Há quanto tempo tu e esse rapaz estão a namorar? . e que aos poucos e poucos.Nada – respondeu ele enfiando as mãos nos bolsos das calças. mas eu realmente já não me consigo lembrar desse fim-de-semana – respondeu Madalena poisando as mãos na cintura. fez-se um silêncio ensurdecedor no corredor. as portas dos quartos fecharam-se com estrondo e Madalena encontrou forças para voltar a encarar o rosto de Jorge.Daniel! Sara! Vão já lavar as mãos – gritou Madalena enquanto eles subiam as escadas a correr. Levei-te à casa de férias de um amigo meu e passámos quarenta e oito horas no quarto a … bem. aliás.Duvidas porquê?! . foi o que Jorge pensou quando estacionou o seu carro a poucos metros da casa da ex.Não. . mulher. lembraste!? O primeiro que passámos juntos quando começámos a namorar. foi o melhor fim-desemana que já tive até hoje. Percebeu também que tinha cometido um grande erro ao destruir casamento de dezasseis anos. acompanhou os filhos em direcção ao portão principal e viu-se metido num enorme dilema interno. marido sobre o alpendre. . – O que foi? – perguntou ela ao vê-lo a olhar fixamente para si. onde ele adquiriu a certeza absoluta que Madalena nunca se iria conseguir refazer da separação e muito menos encontrar outro homem que se mostrasse interessado por ela. mulher iria ser algo difícil de suportar.Está bem – responderam os dois quase em uníssono. tu sabes bem a fazer o quê! .Foi bom!? Pela tua cara deve ter sido horrível. Após o divórcio.

despertando a inveja de algumas das prostitutas mais experientes da zona. O que me incomoda é o facto de estar a falar sobre esse assunto contigo. .É alguma coisa séria? . passou a angariar cada vez mais clientes.Não. – Só nos falámos duas vezes por telefone e foi assim meio rápido. Muito pelo contrário. a única que parecia nutrir um especial apreço por aquela jovem perdida na vida.k! Boa noite.Acho que não – respondeu Milene apressando-se a vestir as cuecas.Porquê?! . mulher. excepto de Milene. .Fazer o quê? – perguntou Sara curiosamente. – Amanhã vou ao Porto – disse ela saindo da casa de banho enrolada numa toalha. Em pouco tempo.Porquê?! .O. por isso é um rapaz. por acaso não me incomoda nem um pouco. De certeza que deve estar a precisar de dinheiro.Quando é que achas que vamos voltar a ver o Marco? . não? Desse gajo quero mais é distância. .Boa noite também para ti – respondeu Jorge afastando-se da porta sob o olhar atento da ex. raras foram as vezes que Sara colocou os pés no interior de uma sala de aulas. era ali que Sara se sentia bem. talvez pela sua idade ou aparência física. . Frio. – Já percebi que esse assunto te incomoda. severo e sem a mínima margem de manobra para que ele continuasse a fazer-lhe mais perguntas. . . o tempo e o espaço pareciam completamente alheios à decadência que ali se vivia. E mesmo ele tendo pensado várias vezes em voltar-se para trás e encarar-lhe o rosto pela última vez.Porque é algo que não te diz respeito. A resposta de Madalena não poderia ter sido mais cruel. . . – Bem … eu já vou indo. uma força oculta conseguiu levá-lo ao carro de costas voltadas. encontravam-se todos numa das zonas mais degradadas de Lisboa.Telefono depois para saber dos miúdos. Mas por mais estranho que parecesse.O que esteve connosco naquela festa no Bairro Alto. . . Ele disse que morava no Algarve.Ele não te contou qual é a cena dele no Algarve? . senão nem sequer tinha ligado. os seus novos amigos e vícios. não recebia ordens e conselhos de ninguém e vivia conforme as suas vontades e desejos.Ele não é assim tão mais novo que eu. 101 .É muito mais novo que tu. pois a sua vida. mas mais do que a resposta. marido. . . Nas semanas seguintes. . enquanto do lado de fora do bairro. Era lá onde ela passava várias horas do dia e deambulava pelas ruas ao lado de Milene.O.Esse Marco?! Só podes estar a gozar. Era habitual para quem passava por lá observar-lhes as gargalhadas. – Gripe! Mas sabes como é que a minha mãe é! Faz um bicho-de-sete-cabeças só para que eu vá ver a miúda.k – riu-se Jorge num tom sarcástico. O Intendente. .Não – respondeu Sara apreensivamente.Que Marco?! . Era ali que ela não se sentia julgada. Arlete e outras prostitutas do bairro.Vou ver a minha filha! A minha mãe ligou-me a dizer que a miúda estava doente.Claro – disse Madalena sustendo a porta com as mãos.. cruel foi o olhar que ela lançou ao ex. as roupas extravagantes e também a procura de clientes.

- Ele é traficante de droga, querida! E não é um traficante qualquer. É um da pesada. Coisa para gente adulta, não sei se me entendes. - Como é que sabes?! - Toda a gente conhece a fama dele – respondeu Milene vestindo uma camisola de malha em frente ao espelho. – O gajo nunca foi flor que se cheire, mas meteu-se com gente errada e acabou por fugir para o Algarve quando lhe mataram o irmão no bairro onde ele morava. Acho que a bala era para ele, mas como era de noite, confundiram os dois irmãos e o mais novo é que acabou por morrer no lugar dele. - Que horror. - Por isso é que ele só vem a Lisboa de vez em quando, mas não pára muito tempo para não ser apanhado… Sara sentiu-se atordoada ao ouvir o discurso de Milene, mas pior ainda ficou quando percebeu que Marco não era o homem ideal para qualquer mulher. A sua vida, cheia de actos criminosos e outras histórias escabrosas por contar, não parecia de maneira nenhuma conjugar-se com a dela. Mas ainda assim, havia qualquer coisa que não a deixava esquecelo. O que seria? Ou melhor, seria normal? No fundo, Sara sabia que não, até porque há muito que a palavra normalidade tinha deixado de fazer parte do seu vocabulário. – Bem, deixa-me ir andando – interrompeu-lhe Milene os pensamentos. - Aonde é que vais? - Vou-me encontrar com um cliente no hotel Ritz. - Uau! Que chique – riram-se as duas. - O gajo é podre de rico, tens que ver! Conheci-o há dois anos numa festa e desde então nunca mais me largou. - É giro?! - Não muito – respondeu Milene escovando os cabelos molhados. – Tem quase idade para ser o meu pai, mas pelo menos é simpático, paga bem e trata-me como uma verdadeira rainha. Depois do serviço gosta de conversar sobre política. - Estás a gozar, não?! – riu-se Sara animadamente. - Que me dera, mas não! E logo eu que não percebo nada disso. Mas o gajo sabe tudo. Também é presidente de uma empresa multinacional e tem uma data de conhecimentos. Quando começa a divagar, eu só aceno com a cabeça que sim e finjo que o estou a ouvir. Acho que o gajo nem percebe que a minha única vontade é desaparecer de lá com o dinheiro na mão. Tal como todas as noites, o jantar foi servido às oito horas por Madalena, e o convidado especial encarregou-se de colocar a mesa sob o barulho ensurdecedor da televisão da cozinha. Era a terceira vez naquela semana que Sérgio privava da companhia da namorada e dos filhos dela, restando poucas dúvidas de que também ele já fazia parte da família. Aos poucos e poucos, a sua amizade com o pequeno Daniel e o pai de Madalena foi-se consolidando, mas o mesmo não se podia dizer de Sara, que ainda continuava a ver no namorado da mãe um verdadeiro alvo a abater. Na verdade, o desejo da jovem em vê-lo pelas costas era imperioso desde o terrível incidente em que ela lhe colocou os pés por debaixo da mesa. Foi um acto irreflectido, os dois sabiam-no bem, mas o clima continuava tenso sempre que se viam nos corredores da casa ou eram obrigados a privar de uma refeição familiar. Depois do jantar, normalmente
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quando todos se refugiavam na sala a ver televisão, os olhares que Sara lançava aos constantes carinhos trocados pelo futuro padrasto e pela sua mãe eram esmagadores e ditavam uma verdade irrefutável: Ela odiava ver-lhes a felicidade estampada no rosto. - O Sérgio vai dormir cá em casa hoje – avisou Madalena já perto do final da noite. - Vou-me deitar – disse Sara desaparecendo da sala com uma expressão aterradora. Desde essa noite, várias foram as vezes que o fotógrafo pernoitou em casa de Madalena. Normalmente aparecia à hora do jantar, após um dia cansativo a fotografar nos estúdios e trazia consigo pequenas guloseimas para os filhos da namorada. Além das guloseimas, foram também trazidas as primeiras mudas de roupa, a escova de dentes e outros objectos pessoais que faziam claramente antever a sua mudança. Não achas que é demasiado cedo, foi a pergunta de Alice à melhor amiga, e Madalena, sempre com um sorriso, respondia que não e que se encontrava totalmente segura na sua relação com Sérgio. Mas a verdade é que essa relação não era bem vista por todos, especialmente por Sara, que só encontrava um aspecto positivo para o facto de o fotógrafo passar as noites em sua casa, e esse aspecto era o de ela conseguir escapulir-se a meio da madrugada para se encontrar com os seus novos amigos sem medo de ser apanhada pela mãe. Muitas vezes, encontrava-se com esses eles em bares nocturnos pouco apropriados para a sua idade, nos arredores do bairro e em cafés da zona onde clientes e prostitutas misturavam-se com o cheiro dos cigarros e da luxúria. Sexta-feira era o dia da semana mais movimentado no bairro do Intendente. Era usual os cafés e os bares encontrarem-se abarrotados de gente, e também era usual a polícia fazer algumas rondas pela zona apenas para se certificar que tudo estava a decorrer dentro da normalidade. Sempre que apareciam, Sara conseguia a ajuda necessária para se esconder e só voltava a surgir aquando do desaparecimento dos agentes de autoridade. Sim. Eram momentos de algum aperto, mas por sorte ela conseguia sempre fugir com a ajuda de Milene. Aquela noite não foi excepção. Os polícias fizeram as rondas habituais, pediram a identificação de várias pessoas estranhas ao local e logo desapareceram pelas ruas do bairro trazendo de volta o alívio a quem não tinha sido apanhado. – Anda – disse Milene fazendo um sinal a Sara para que ela pudesse sair da pensão onde permaneceram escondidas durante trinta e cinco minutos. – Os gajos já se foram embora. - Tens a certeza? – perguntou Sara olhando para todos os lados. - Claro. Anda lá! Foram precisos apenas alguns minutos para que Milene e Sara atravessassem a rua em direcção a um dos bares mais movimentados da zona. Mais uma vez, o estabelecimento encontrava-se apinhado de gente. Na aparelhagem soava uma música rock infernal e na única televisão do bar colocada na parede, passava um filme não muito conhecido. Aliás, o filme era tão pouco conhecido, que quase ninguém presente no local se dignou a levantar o rosto em direcção ao ecrã. Estavam todos entretidos em conversas informais, a beber e a confraternizarem entre si. Outros dançavam, riam-se às gargalhadas e tentavam esquecer-se de todos os problemas que rodeavam as suas vidas. Milene e Sara foram algumas dessas pessoas. – Ainda te lembras de mim?

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A voz não lhe era estranha, e ao voltar-se para trás com uma garrafa de cerveja nas mãos, Sara abriu um sorriso radiante. Era ele. Era Marco. Após dois meses de ausência onde apenas se comunicaram através do telefone, parecia quase um sonho tornar a vê-lo novamente. – Nem acredito! És mesmo tu? - Carne e osso – respondeu Marco levantando os braços. - Pensei que não viesses a Lisboa tão cedo. - Vim tratar de uns negócios, mas no domingo já estou de volta ao Algarve. E tu? O que é que andas a fazer por estas bandas? - Eu sou destas bandas, lembraste?! - Ainda na vida?! - E tem algum mal nisso? - Por mim não – respondeu ele pedindo uma imperial ao empregado do bar. – Só tenho pena que uma miúda como tu ande para aí a deitar-se com qualquer um. Especialmente com os gajos que passam por este bairro. Mereces melhor. O discurso de Marco mereceu um sorriso por parte de Sara. – Queres que te pague uma outra cerveja? - Claro. Pode ser – respondeu ela terminando a sua num só gole. Completamente alheios ao tempo e ao espaço, foi assim que Sara e Marco se sentiram enquanto conversavam perto do balcão acompanhados pelas suas respectivas cervejas, pelo barulho infernal da música e a movimentação das pessoas à volta. Obviamente que nenhum deles falou sobre assuntos importantes, não conversaram sobre a família, os amigos e muitos menos projectos futuros, mas ainda assim sempre que os seus olhares se cruzavam era como se o mundo parasse e tudo deixasse de ter significado. – Queres ir para outro lado? Isto aqui está barulhento – disse ele ignorando um telefonema inoportuno. - Tudo bem. Podemos ir. Pagas as bebidas, Marco e Sara saíram de mãos dadas e só voltaram a largá-las quando interceptados por Milene à saída. – Aonde é que vão? – perguntou ela, curiosa. - Vamos dar uma volta – respondeu Marco levando o cigarro à boca. – Porquê?! - Vão dar uma volta aonde? - Qual é a tua, Milene?! Viraste puritana agora, é? Ou vais-me dizer que resolveste adoptar a Sara como filha? - Eu só não quero que ela se meta em confusões. - Eu não me vou meter em confusões – interrompeu Sara sob o olhar aterrador de Milene. - Acho melhor ires para casa, Sara! Eu peço a um amigo meu para te levar. - Ela não vai com nenhum amigo teu – interferiu Marco puxando Sara contra si. – Vai comigo. - Sara… - Eu vou com ele – respondeu a jovem, resoluta. – Tchau, Milene! Depois falamos. O cheiro a tabaco tinha-se entranhado nos estofos do carro de Marco, mas nem o odor intenso ou o espaço reduzido dos bancos de trás, acalmaram o desejo e a excitação de Sara por ele. Submersa naquela pele achocolatada e naqueles braços musculados marcados por duas tatuagens, ela entregou-se e permitiu-se ser possuída sem quaisquer restrições. Com Marco era diferente, ambos sabiam-no bem. Com ele não o fazia por dinheiro, por luxúria,
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Quero aquilo que mereço. mas havia realmente algo que a prendia a Marco e a deixava completamente rendida a ele.Posso voltar a ver-te antes de ires para o Algarve? – perguntou ela quando ele a levou a casa. não és?! Não estás sempre a encher a boca para dizer que vais para a cama com homens porque gostas? Porque é que queres ser tratada de maneira diferente? .Não é um pagamento. Só não quero que te falte nada. . .Já – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico.k – respondeu ele oferecendo-lhe uma outra nota de cinquenta. – É pouco – afirmou ela não desviando os olhos dele.O.Tu estás-me a pagar – foram as últimas palavras dela antes de abandonar o carro e fechar a porta com força. Seria amor? Não. . E mesmo tendo tentado controlar as lágrimas. Afonso Soares. Marco seguiu-a e alcançou-lhe os braços pedindo desculpa.Eu não quero ser tratada de maneira… . uma presença habitual lá em casa.Quem está na chuva é para se molhar. Entretanto. . na cozinha.mas sim por um sentimento estranho que ela nunca pensou sentir por alguém.Tudo bem – respondeu ela estendendo a mão com um olhar aterrador.Sara. . Porque é que irias pensar que eu era diferente? Já me conheceste nesta vida.Eu não quero que me pagues – respondeu Sara indignada por tal gesto. . Marco acatou a ordem e entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. – Já separaste as tuas roupas sujas para pôr na máquina? – perguntou ela à filha quando a viu a entrar na cozinha.Eu ligo-te depois – disse Marco apressando-se a retirar uma nota de cinquenta euros da carteira. e ao vê-la a caminhar apressada em direcção aos portões de casa. Madalena ultimou os preparativos do almoço que contaria não só com a presença do namorado.Não é nada disso… – defendeu-se ele. 105 . Ainda era demasiado cedo para sentir uma coisa dessas. Mas também não penses que te vou passar a mão pela cabecinha ou sentir-me mal por te ter oferecido dinheiro. – Paga-me! Apesar de se ter sentido surpreso com a reacção de Sara. O que é que achas? .Podemos ver-nos amanhã.Vou no domingo. És puta mesmo. – Toma! Para ti. mas ainda assim Sara arranjou forças para abrir os portões e correr em direcção a casa sem sequer olhar para trás ou observar a expressão mortificada de Marco. Depois disso. . – Tu achas que eu sou igual a todas as outras. . . não é?! . agarrou-se à almofada e fechou os olhos inchados numa tentativa desesperada de adormecer.Mas talvez eu seja mesmo! Talvez eu seja só mais uma prostituta a quem todos os homens pagam para irem para a cama. O domingo amanheceu ensolarado e foi por essa razão que Sérgio resolveu regar o jardim com a ajuda de Daniel. esquece! Não queres os cinquenta euros azar o teu. – Já te chega? A humilhação tinha sido imensa. a verdade é que não conseguiu tal feito quando chegou ao quarto e caiu na cama como um verdadeiro peso morto.Queres mais. . é?! . mas também com a do pai. . .

Seria algum cliente.Para saber de ti – respondeu ele encolhendo os ombros. . .…podes.Não. muito menos a desconhecidos.Porque estás aqui à minha frente – respondeu Madalena cortando os legumes sobre a bancada. Bebeu um copo de água.Mesmo assim! Não queria sair de Lisboa sem te pedir desculpas primeiro. .Para quê?! . . – Tens uma visita lá fora. Sara – afirmou ele desfazendo-se das luvas de borracha que utilizou para regar as plantas e a relva do jardim. – Apenas disse que era um amigo e que precisava falar contigo. a única alternativa que lhe restava era sair ao jardim e ver com os seus próprios olhos quem tinha tido a audácia de a procurar. . A resposta trouxe um pesado suspiro por parte de Sara. . – O que é que estás aqui a fazer? . Ficaste chateada. Não.Quem!? . não foi? . Não poderia ser.Vim te ver – respondeu ele apoiando-se sobre os portões. .Não te esqueças também de fazer a tua cama de lavado.Porque é que não aproveitas para a fazer antes do almoço? Já que não estás a fazer nada.Não?! Pensei que era. já que ela nunca se atreveu a fornecer a sua verdadeira morada a ninguém. mas deixou Sara especada sobre os portões com os olhos postos em Marco.Só vou hoje à noite.Não – respondeu Sara com poucas palavras.Posso ligar-te um dia destes? . .Por causa dos teus pais?! . nem um pouco. era Marco. .Então… o que é que queres? .Não queres dar uma saída? Levava-te a almoçar num sítio qualquer. .Estão aceites. . – Eu sei que fui um bocado parvo contigo na sexta-feira passada. – Não posso sair agora.Como é que sabes que eu não estou a fazer nada? .Ele é só o namorado da minha mãe. ao contrário de todas as suas expectativas. e essa pessoa. ela poisou as 106 . atirou-o contra o lava-loiça e por fim preparou-se para sair da cozinha não fosse a figura de Sérgio ter-se atravessado no seu caminho. – Então?! Posso ligar ou não? . . mas ainda assim a jovem achou por bem acatar as ordens da mãe. – Então nesse caso acho melhor ir andando. . Assim sendo. .Faço mais tarde. . E o homem que viste aqui no jardim não é o meu pai.Eu também acho.Pensei que já tivesses voltado para o Algarve – afirmou Sara tentando manter uma expressão fria e altiva.O.Pedir-te desculpas – respondeu Marco.Não me disse o nome – respondeu Sérgio sob o olhar atento de Madalena.k – disse Marco tentando ignorar os olhares de Madalena e Sérgio atrás das cortinas da janela. .. – Porquê? Fiz mal? . passou essa pergunta pela cabeça de Sara.Não é por causa deles. A despedida foi rápida e fria. Enquanto ele caminhava calmamente em direcção ao carro.

Por ser preto?! . – Eu fui a adolescente mais bem-comportada do mundo. – Eu não sou nada preconceituosa em relação a esse assunto. . As amêndoas foram compradas.São só coisas da tua cabeça – respondeu Sérgio beijando-lhe os cabelos. claro que não – defendeu-se Madalena de imediato. . Reprimiu esse desejo e no fim odiou-se por isso. Nunca dei trabalho aos meus pais e também nunca fiz nada de errado… . . Após inúmeros telefonemas e convites. Mas não sei! É o jeito dele. . entendes?! Bati os olhos e não gostei. Madalena conseguiu convencer Luís Restelo. – É melhor ires andando. . – Ela disse que era só um amigo – afirmou Madalena entrando novamente na cozinha. amor! Não deixes o teu avô à espera na estação – afirmou Madalena enquanto ultimava os preparativos para o grande almoço de família.Não – afirmou Madalena instintivamente. sentindo-se honrado.Lena esquece esse assunto! Estás a fazer um bicho-de-sete-cabeças de uma coisa absolutamente natural.A conversa dos dois. é?! Duvido… . Mas a verdade é que não o fez. – Ele parece ser muito mais velho! E também duvido que com aquela pinta ainda ande na escola. Quantos e quantos rapazes não foram à tua procura quando tinhas a idade da Sara? .Tens a certeza que era só um amigo? A pergunta não obteve qualquer resposta quando Sara voltou a trancar-se no quarto fechando a porta com força. . o avô de Sérgio a passar a comemoração festiva em sua casa.Não. – Quem era aquele rapaz? – foi a primeira pergunta que Sara ouviu da mãe assim que entrou em casa.Eu não sei. não teve outro remédio a não ser aceitar o convite e a prometer uma visita sua para dali a uma semana.E de onde é que a Sara o conhece? .Estranho o quê?! . Achei estranho. 107 . . . e o último. .Se calhar da escola. Deveria sentir-se feliz com aquela visita? Talvez sim.Pois não devias – respondeu Madalena envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. Eu era uma menina muito bem-comportada se queres que te diga.Se ela disse isso é porque era mesmo só um amigo – respondeu Sérgio começando a colocar a mesa do almoço.mãos sobre a cerca e permitiu que os seus pensamentos voassem dali para fora.Não foram tantos assim. E a verdade é que essa semana passou a uma velocidade fantasmagórica. . .Meu Deus! Que mentirosa – riram-se os dois às gargalhadas. talvez devesse ter-se atirado para os braços de Marco e dito que o adorava acima de tudo. o cabrito adquirido e os vinhos guardados no frigorífico para a ocasião especial. E também não gostei nada do ar dele. Faltavam poucos dias para a Páscoa quando um verdadeiro milagre aconteceu.Era só um amigo – respondeu ela subindo as escadas a correr.Bem-comportada.

O meu avô vai-me matar. então nesse caso vou indo. Eu não queria que ele apanhasse transportes públicos para vir almoçar connosco. Ainda tentou forçar a vista. . . lembraste? O pior é que a Sara também ainda não chegou. 108 . Não sei se me vou conseguir despachar a tempo de ir buscar o meu avô e o teu pai.Apanhei um acidente no caminho e resolvi mudar o percurso. está bem – respondeu Sérgio observando a figura de Sara a desaparecer pela rua acima. Alheio a tudo o que se estava a passar à sua volta. .Bem.O que é que aconteceu? . nada menos. a filha da sua namorada.Não acredito – resmungou Madalena. mas mesmo muito atrasado – disse Sérgio largando as mãos sobre o volante.Podes deixar – respondeu Sérgio beijando-a nos cabelos.. mas já nessa altura. dois.Hã… esqueci-me – berrou Madalena levando as mãos à cabeça. Já tentei ligar-lhe para o telemóvel uma data de vezes e dá sempre no serviço voice mail… As lamúrias de Madalena continuaram a ecoar-lhe nos ouvidos. era nada mais. o relógio assinalou onze horas e quarenta e cinco minutos e o trânsito pura e simplesmente parou. mas a verdade é que lhe restaram poucas dúvidas de que aquela jovem que tinha acabado de sair de uma pensão nos braços de um outro homem mais velho.Obrigada! És um anjo. .O que é que tem o teu pai? .É só para te avisar que estou muito.Será que eras capaz de o apanhar? Ele telefonou-me ontem à noite para me dizer que o carro dele deu o berro e que está a arranjar na oficina. não é preciso. – O meu pai. .Já vou andando – respondeu Sérgio vestindo o casaco às pressas. O pior é que não valeu de nada! Estou preso numa outra rua por causa de umas obras que estão a fazer. . três toques e ela atendeu a chamada. – Queres que te traga alguma coisa da rua? . Nessa altura.Não. Escuta! Eu já te ligo. convencer-se a si próprio que o que estava a ver era fruto da sua imaginação ou então uma terrível coincidência. . ele encontrou o telemóvel sobre a caixa de velocidades e digitou o número de Madalena. – Eu vou buscá-lo. .Eu não sei.Não consegues ir buscar o teu pai? .A Sara ainda não chegou? . O percurso em direcção à estação de camionetas poderia ter sido mais fácil se não fosse um aparatoso acidente ao qual Sérgio tentou contornar por um outro caminho mais demorado. Sérgio concentrou todas as suas atenções para uma cena chocante que se estava a passar diante dos seus olhos.Não! Disse que ia entregar um presente a uma amiga que fazia anos mas que não se ia atrasar para o almoço. foram as palavras que o fotógrafo repetiu vezes sem conta enquanto as buzinas dos carros começavam a ecoar naquela rua verdadeiramente estreita. – Estás aí? – perguntou Madalena após um longo silêncio que ele fez questão de lhe oferecer ao telefone. Um. .Hã… estou. . – Estou?! . que Sara. Tenho o cabrito no forno.

Era Jorge. .Olá Lena… . Sabes lá a que horas é que a Sara pode aparecer por aqui… A proposta do ex. Raios. marido.Pensei que também fizesse parte da família. .E porque é que haverias de ser convidado?! .Já vi que não perdeste o jeito. e depois disso. . – Que surpresa ver-te por aqui.Já vi que toda a gente foi convidada para este almoço. Ao ouvir a ordem da mãe. Raios. É Pascoa. – O que foi?! Trago o teu pai num instante.Cheira bem – disse Jorge apontando para o forno.disse ele entrando na cozinha alguns minutos mais tarde. . .O telemóvel foi desligado e atirado novamente contra a caixa de velocidades. Seria Sara? Seria a sua melhor amiga.Olha. . O que é que ele tinha lá ido fazer? .Mas eu faço questão! Já passa da uma e tu sabes que o teu pai gosta de almoçar cedo.Jorge. . . alguns passos vindos do corredor. ou teria Sérgio conseguido o milagre de trazer o avô e o pai dela em tempo recorde? – Daniel. Mas o pior é que já devia ter voltado. Pai foi a palavra que Madalena ouviu enquanto fechava a porta do forno. Daniel saltou da cadeira da cozinha e correu a abrir a porta.A sério?! Pensei que a Sara e o Daniel fossem os nossos filhos. quando Sérgio lançou a cabeça para fora da janela. menos eu – resmungou Jorge trincando a maçã enquanto observava os gestos da ex. . Alice. O que é que vieste cá fazer? .Disse que ia entregar um presente de aniversário a uma amiga da escola.Se quiseres posso ir buscar o teu pai – afirmou Jorge para grande surpresa de Madalena. mas ainda assim.Claro! O problema é que está desligado. O seu ex. eu preciso de uma panela… . a Sara não está – afirmou Madalena não se deixando afectar pelos elogios baratos do ex. vai atender – pediu ela ao filho enquanto levava o cabrito novamente ao forno. 109 . Por isso.Eu sei.Olá – respondeu ela largando uma toalha sobre a bancada.Cabrito. . eu não quero e nem vou discutir contigo agora! Tenho uma quantidade enorme de coisas para fazer. se não te importares de sair da frente do armário. marido. . lembraste?! . Aonde é que se tinham metido? Faltavam poucos minutos para a uma da tarde quando Madalena sentiu a campainha tocar.Já lhe ligaste para o telemóvel? – perguntou Jorge apoderando-se de uma maçã sobre a fruteira da cozinha.Não é preciso. .Não da minha família.Oras! Vim ver os meus filhos. . mas ainda assim Madalena hesitou em aceitá-la.Aonde é que ela foi? . Sara e o senhor desconhecido que a acompanhava desapareceram sem deixar rastro. . Só estou à espera dela para ir buscar o meu pai a casa – respondeu Madalena escorrendo a água da massa. mulher à volta do lava-loiça. marido era deveras tentadora. que também foi convidada para o almoço. .

e consigo trouxe duas sobremesas especialmente adquiridas numa pastelaria perto da sua casa. Com certeza deve ter ficado à conversa com a amiga e as duas perderam a noção das horas. . – Bem. .Só se for no banco da frente. Continua o mesmo. coitada da rapariga – interferiu Alice continuando a colocar a mesa. – Até que enfim! Aonde é que estiveste? . E Madalena pôde ter essa certeza quando ao lançar os olhos à bancada da cozinha foi obrigada a deparar-se com os restos da maçã que o ex. Saíste daqui às dez.Águas passadas – riu-se Jorge enquanto terminava de comer a sua maçã. . 110 .Posso subir? – perguntou Sara num tom debochado. . a melhor amiga de Madalena. Ele tratou-me tão bem quando fui passar aquele fim-de-semana à casa dele que eu queria retribuir-lhe a gentileza. .A quilómetros de distância! Não há dúvidas de que o Sérgio te está a fazer muito bem. – Fui ter com uma amiga. oh pestinha!? Não queres vir com o pai?! . . Para além disso.. – Mas não se atrasem. mas também de não dar mostras de querer desaparecer tão cedo.Eu não sei. Jorge fazia parte do passado. Já viste que horas são? Quase duas da tarde. A primeira pessoa a chegar para o almoço foi Alice.Podes – respondeu Madalena percebendo-lhe o sarcasmo na voz. pelo amor de Deus! . . traições e faltas de respeito. …um pouco. De um passado repleto de discussões. – Mas vê se tomas banho antes de desceres para o almoço.…está bem – concordou Madalena. – Quer dizer.Está bem! Vais no banco da frente então.E eu lembro-me que não gostavas nem um pouco de fazer isso. . levou igualmente a boa-disposição que lhe era característica em momentos festivos.Nem tanto assim – respondeu Madalena distribuindo os talheres pelos pratos. marido deixou antes de sair. – E tu. Quando éramos casados cansava-me de ir buscar o teu pai e a tua mãe a casa. – Então?! Posso ir buscar o Sr.Podes deixar – respondeu ele voltando-se para Daniel. – Também não se atrasou tanto assim. quase dezasseis. mas ainda assim não lhe trouxeram qualquer saudade.Lena.Nunca te vi tão animada. Lena! Até parece que nunca fiz isso antes. Afonso? .Tudo só porque o avô do Sérgio vem cá almoçar? .Vá lá. murmurou ela levando o caroço ao caixote de lixo. Foram muitos.disse ela ajudando a colocar a mesa da sala.Pois! Mas disseste também que não te irias demorar. . . esmeraste-te… . . A resposta de Alice culminou com a entrada de Sara na sala e também com o olhar aterrador que Madalena fez questão de lançar à filha quando se deu conta do seu atraso imperdoável. .Claro que não – riram-se as duas. Anda lá! A visão através da janela da cozinha dos dois homens da família a entrarem no carro fez com que Madalena voltasse a recordar os anos em que esteve casada com Jorge.Já te tinha dito – respondeu Sara rasgando alguns olhares a Alice.Nota-se assim tanto? .

Foram precisos vários minutos até que a porta se voltasse a abrir com as chaves levadas por Daniel, e atrás de si, vieram o avô e o pai envolvidos numa conversa divertida, algo não muito incomum entre dois homens que sempre se deram muito bem e que nunca esconderam a admiração mútua que sentiam um pelo outro. – Olá, pai – disse Madalena correndo a cumprimentar Afonso quando todos entraram na sala. – Como é que estás? - Estou óptimo – respondeu ele despindo o casaco. – E tu? - Cansada, mas bem! O almoço já está pronto. Vieste na hora certa. - Então vamos almoçar. Estou a morrer de fome. - Não, ainda não. Ainda vamos ter que esperar mais alguns minutinhos – respondeu Madalena rasgando alguns olhares ao ex. marido. – Falta ainda o Sérgio e o avô dele. Os dois apanharam algum trânsito pelo caminho, mas o Sérgio ligou-me há pouco para me dizer que já estão quase a chegar. - Hã… claro. - Bem, nesse caso, eu já vou andando – disse Jorge quando se deu conta que a sua presença não era muito bem-vinda. - Porquê?! – interrompeu Afonso. – Fica para almoçar connosco. - Eu?! - Claro! Foste tão gentil em ter-me trazido até cá. O mínimo que podias fazer era dar-nos o prazer da tua companhia, não achas? Por momentos, Madalena pensou estar a sonhar quando ouviu o discurso do pai e o convite estapafúrdio que este fez a Jorge sem sequer a consultar. Será que Afonso tinha perdido totalmente a noção da realidade? Será que ele não a ouvira a dizer que o seu novo namorado e o avô dele estavam a poucos minutos de chegar à sua casa? - Bem… - disse Jorge, encabulado. - …eu não sei se a sua filha concorda com o seu convite, Sr. Afonso! - É claro que ela concorda. Não concordas, Lena?! O silêncio mantido por Madalena foi deveras constrangedor. – Não concordas? – insistiu Afonso fulminando-a com os olhos. – As crianças iriam gostar de passar a Páscoa com o pai. Não foi preciso esperar muito tempo para que Sérgio Almeida e Luís Restelo tocassem à campainha e para que Madalena lhes abrisse a porta com um largo sorriso imediatamente correspondido pelos dois. Depois disso, seguiram-se os cumprimentos habituais perto do corredor e a tentativa de fazer Luís sentir-se em casa. – Atrasados, nós sabemos – disse Sérgio. – Mas a culpa não foi minha. - Eu sei! A culpa foi do trânsito – respondeu Madalena forçando um sorriso ao avô do fotógrafo. – Espero que tenha feito uma boa viagem, Sr. Luís. - Não foi tão má como pensei que seria. Apenas alguns solavancos no caminho, mas por sorte não cheguei partido. - Que bom! Mas entre, por favor. Fique à vontade. - Obrigado – respondeu Luís aceitando o convite com alguma cautela. Nessa altura, Sérgio encarregou-se imediatamente de lhe guardar o casaco e o chapéu no bengaleiro. – Será que era possível ir à casa de banho? - Claro, vô – respondeu Sérgio apontando-lhe uma porta ao fundo do corredor. – É ali. - Obrigado – agradeceu Luís seguindo a direcção apontada.
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- Desculpa ter-te deixado sobrecarregada com os preparativos do almoço, mas é que nem fazes a mínima ideia de como é que estava o trânsito lá para os lados das Amoreiras. - Não, tudo bem – respondeu Madalena impedindo Sérgio de sair do corredor quando lhe alcançou os braços. - O que foi? - É que… eu precisava contar-te uma coisa antes de irmos para a sala. - O quê?! A expressão doce e sorridente de Sérgio fê-la sentir-se pior do que mal, mas a verdade é que Madalena não tinha outra opção a não ser contar que a lista de convidados se havia estendido para além do previamente estipulado. – Estás-me a dizer que o teu ex. marido também veio almoçar? - Eu sei que parece uma loucura, uma coisa ridícula. Aliás, não parece, é – interrompeu Madalena segurando-lhe o pulso com força. – Mas tens que acreditar que a culpa não foi minha! Foi o meu pai que o convidou. - E porque é que o teu pai o convidou? - …o Jorge veio ver o Daniel e a Sara, e eu sem querer acabei por lhe dizer que precisava de alguém para ir buscar o meu pai porque tu me tinhas ligado a avisar que estavas atrasado. Então ele ofereceu-se para ir buscar o meu pai e… - E tu aceitaste? – perguntou Sérgio tentando controlar os ciúmes que se apossaram de si. - Só porque não tive outra opção. A Sara ainda não tinha chegado da rua, eu tinha o almoço no lume e também não podia deixar o Daniel sozinho em casa. - O.k! - Então quando eles chegaram, eis que o meu pai teve a brilhante ideia de convidar o Jorge para almoçar connosco. Eu não queria, mas… - Tudo bem, Lena! Esquece. - Desculpa – disse ela observando-lhe a expressão desagradada. – Eu sei que é uma situação horrível, principalmente por causa do teu avô, mas eu não tive culpa. Foi algo que fugiu ao meu controle. Acredita em mim…! - Eu vou lavar as mãos à cozinha – afirmou Sérgio deixando-a especada no corredor a remoer todas as culpas por aquela situação no mínimo caricata. Tal como se era de esperar, o almoço tornou-se sombrio para Sérgio e Madalena, já que a visão de Jorge sentado à mesa retirou-lhes todo o apetite e trouxe um certo desconforto a Luís Restelo por perceber o desconforto do neto diante daquela verdadeira afronta a que ele tinha submetido. Talvez Afonso e as crianças não tivessem percebido o pouco à vontade dos restantes convidados, talvez estivessem demasiado entretidos com as piadas contadas por Jorge, mas a verdade é que nenhuma dessas piadas surtiu efeito para Madalena, Sérgio, Luís ou Alice. – Ainda não perdeste o jeito para a cozinha, Lena… – foi a gota de água dita pelo advogado no final do almoço. - Bem, eu vou buscar as sobremesas – respondeu ela recolhendo as loiças sujas. - E eu ajudo-te – interferiu Alice desejando sair daquela mesa tanto quanto a sua melhor amiga. Quando chegaram à cozinha, o estrondo das loiças a caírem no lava-loiça fizeram antever todo o ódio que Madalena estava a sentir, não só pelo seu ex. marido, mas também pelo seu

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pai, o responsável por toda aquela situação no mínimo caricata. – Eu devia suicidar-me… – disse ela. - Toma – respondeu Alice entregando-lhe um facalhão. - Obrigada pelo apoio moral. - Eu até acho que o almoço não está a correr assim tão mal. - Só podes estar a gozar – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico a fim de retirar as sobremesas que havia prometido aos seus convidados. - Achas que o teu pai fez de propósito? - O que eu acho é que ele está a ficar velho e senil. - Para mim a culpa é do Jorge. - A sério?! Não me digas. Nem tinha percebido uma coisa dessas. - Aposto que foi ele que manipulou o teu pai durante o caminho para que ele o convidasse para o almoço. É a cara do Jorge fazer uma coisa dessas! O gajo nem sequer consegue disfarçar que está a morrer de dores de cotovelo. - Dores de cotovelo porquê?! - Lena, não me digas que ainda não percebeste? Ele está louco para atrapalhar o teu namoro com o Sérgio – respondeu Alice colocando as taças das sobremesas no interior do tabuleiro. – Aposto também que ele quer voltar para ti. - Shiuuuu! Fala baixo! - Que mal é que tem? Está na cara de todos. Só um cego é que não consegue ver que o Jorge ficou cheio de dores de cotovelo quando soube que havia um outro homem interessado em ti. Isso é perfeitamente natural nos ex. maridos! Pensam sempre que nós nunca nos iremos conseguir recuperar do divórcio, que vamos acabar secas, sozinhas e a fazer tricô no sofá da sala, enquanto eles ficam livres e soltos para aproveitar a vida com rapariguinhas de vinte anos. Diz lá qual é a novidade nisso? Já era assim no tempo da minha avó. - Só me sinto mal por causa do Sérgio e do avô dele – disse Madalena levando as sobremesas à mesa da cozinha. – Imagino a impressão que Sr. Luís teve ter tido de mim. Ele deve pensar que eu sou uma descarada. Que ando com dois homens ao mesmo tempo. - Claro que não – riu-se Alice alegremente. – Acredita que deixaste bem claro à mesa que odeias o teu ex. marido de morte. - Deus queira que sim! Era a segunda vez que a observava a sair da sala e era também a segunda vez que lhe passava pela cabeça confrontá-la com o que vira horas antes. Foi por isso que Sérgio interceptou Sara à frente das escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e parou-lhe todos os movimentos com uma frase rápida e seca. – Vi-te hoje. Surpresa com a interpelação, a jovem voltou-se para trás e encarou-lhe a expressão séria. - Desculpa?! - Vi-te hoje numa rua perto de Campolide! Estavas a sair de uma pensão com um homem que tinha quase idade para ser o teu pai. - E o que é tu tens a ver com isso? - O que é que estavas a fazer com ele? - Não é da tua conta – respondeu Sara apoiando-se sobre o corrimão das escadas.

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O ex. marido e também para que percebesse que nem mesmo esse acontecimento menos feliz destruiu a boa imagem que o avô de Sérgio tinha de si. . – E desculpe qualquer coisa. cuja idade era praticamente idêntica à de Luís Restelo. . . a mãe de Sérgio.Já disse que não é da tua conta.Tu andas a relacionar-te com homens mais velhos. E obrigado também pelo almoço. De facto.Pensei que tinhas dito à tua mãe que ias entregar um presente a uma amiga. 114 . o de avô Sérgio. Ou será que ainda não percebeste que durante o almoço tu e o teu avô estavam ali a mais!? Silêncio foi a resposta de Sérgio enquanto Sara continuava o seu discurso venenoso. . Por acaso essa amiga morava naquela pensão? . Pela primeira vez desde a morte da mulher e da sua única filha.E se estiver? O que é que tu tens a ver com isso? Também não te andas a relacionar com mulheres mais velhas? . conhecimentos e deixar de olhar os ponteiros do relógio à espera que por milagre eles andassem mais depressa. – A minha única alegria é saber que falta bem pouco para a minha mãe te dar um pontapé no rabo e voltar para o meu pai! Falta um pouquinho assim. poucas dúvidas restaram relativamente à afinidade dos dois senhores e à excelente ideia de Madalena em juntá-los no mesmo espaço.Eu vou levar o meu avô a casa – interferiu Sérgio abrindo a porta da rua. as horas pareceram voar. E para a surpresa das surpresas. faltavam poucos minutos para as sete da tarde. projectar as suas experiências. Luís também contou histórias iguais.Eu se fosse a ti preocupava-me mais com a tua vida e menos com a vida dos outros.Sim! E provavelmente vou lá dormir para não vir a conduzir tão tarde. militar. mas obrigado pelo convite. Passei uma tarde bastante agradável. .Ao Alentejo? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. o almoço decorreu sem quaisquer outros incidentes. os convidados deliciaram-se com as sobremesas confeccionadas por Madalena e divertiram-se com as conversas animadas de Afonso Soares. e quando deu por si. Sentados nos sofás e em algumas cadeiras espalhadas pela sala. Nessa altura.Sara. . não hesitou em contar a todos os presentes algumas das peripécias passadas durante a guerra colonial. não queiras distorcer as coisas… .Não. é isso?! . Era bom poder conversar com outras pessoas.. Infelizmente tinha chegado a hora de voltar ao Alentejo e à sua vida reclusa.Obrigada eu por ter vindo – respondeu ela apertando-lhe as mãos com força. Luís fosse voltar de camioneta.Eu pensei que … o Sr. oh! Apesar do mal-estar inicial que a presença de Jorge provocou. . – Tem razão! Espero que faça uma boa viagem então. . Luís sentiu-se entre amigos e afastou dos ombros a sombra da solidão. – Tem a certeza que não quer passar a noite connosco? – perguntou Madalena observando os gestos de Luís a vestir o casaco junto ao bengaleiro do corredor. naquele domingo particularmente ventoso.Desculpar o quê?! O sorriso confiante e paternal de Luís permitiu que Madalena se sentisse menos culpada pela presença do ex.

marido dela no almoço. mas… . – Pensei que já te tinhas ido deitar – disse-lhe o avô. . rapaz? .Claro – disse Madalena forçando um sorriso quando percebeu os verdadeiros motivos para que o fotógrafo quisesse levar o avô a casa.Falamos amanhã – foram as últimas palavras de Sérgio a Madalena antes de se afastar dela com uma expressão fria e carregada. duas.. . uma.Chateado não é bem o termo – respondeu Sérgio permitindo que o seu avô se sentasse ao seu lado nas escadas. Era óbvio também que ele se havia magoado com a presença de Jorge e com a certeza que o ex. eu sei que no fundo ele torce para que a filha volte para o ex. – Eu também acho melhor que vá com o seu neto. Mas será que não fazia? Será que Sara tinha razão quando disse que faltava muito pouco para que Madalena e Jorge voltassem ao casamento de ambos? Foram essas algumas das perguntas que também retiraram o sono de Sérgio em casa do avô. ele começou a ter algumas dúvidas. ela não. e embora as estrelas no céu levassem para longe alguns dos seus pensamentos mais sombrios.Nada – mentiu Sérgio interiorizando a serenidade que aquele quintal lhe trazia. marido também. – A filha dela odeia-me. Mas era óbvio que os acontecimentos daquele horrível almoço de Páscoa ditaram o afastamento do fotógrafo da sua cama.Magoado porquê? . Amava-a. mas ainda assim o sono teimou em não aparecer. o fotógrafo lançou os olhos ao céu e tentou encontrar motivos para continuar a lutar por Madalena. .Por me ter sentido a mais! Por ter sentido que era eu o intruso e não ele. Madalena não pregou olho. Sérgio baixou o rosto. três vezes.É a Madalena. talvez. 115 . mas o Sérgio quer levar-me a casa. . Sr.Eu também – respondeu Luís enfiando o chapéu na cabeça. – Magoado. marido de Madalena ainda fazia parte daquela família. não é?! Ficaste chateado por ver o ex. . . . Foi só nessa altura que ela chegou à conclusão que o que lhe estava a faltar eram os braços de Sérgio e o peito dele para que pudesse encostar a cabeça.O que é que se passa. o ex. a verdade é que nem todas conseguiram tal feito. Já vi que não há santo que lhe consiga mudar de ideias. Só precisava de… algum tempo para recompor as minhas ideias e pensar no que devo fazer. – Pensei que estivesses a namorar só com a Madalena. . Virou-se na cama. . e o pai.Não. Sentado sobre o alpendre da porta com um chocolate quente nas mãos.Então qual é o problema não estou a perceber. Luís! À noite as estradas são um pouco perigosas.Não! Perdi o sono. quanto a isso não dúvidas.De onde é que foste buscar uma ideia dessas? Por acaso a Madalena tratou-te como se fosses um intruso? .Eu não fugi de Lisboa.Fugiste de Lisboa porquê? . embora seja simpático comigo. Naquela noite. genro.Não sabia que estavas a namorar com essas pessoas todas – respondeu Luís. mas será que só isso bastava? Será que só isso chegava para que continuasse a lutar por ela? Diante de tudo o que tinha acontecido naquela tarde. – Até já tinha comprado bilhete ida e volta. .

O maldito almoço de Páscoa. .Não. Desculpa! . A única coisa que eu queria era ter a certeza que o teu ex. . marido que era ridículo sequer imaginar a ideia de o sentar à mesma mesa comigo e com o meu avô!? Quer dizer. as mãos começaram a suar e os nervos a apoderaram-se de si. .Então pergunta-lhe – respondeu Luís abandonando o quintal e também todas as dúvidas que o neto carregava dentro do peito. Por sorte. . Era só isso que eu queria.E qual será a opinião dela? – perguntou Sérgio voltando-se para o avô.As coisas não são assim tão fáceis. por sorte naquela tarde o trânsito ajudou e por sorte ela conseguiu chegar ao estúdio do fotógrafo em apenas vinte e cinco minutos.Não sabes?! .. entra – pediu ele abrindo-lhe passagem em direcção ao estúdio. pensou Madalena enquanto se livrava da mala e do casaco que tinha nas mãos. Foram precisos apenas dois toques. Tempo para pensar. 116 .Tempo?! Tempo para quê? . .disse ela quando os seus olhos se cruzaram com os de Sérgio. – Não fui eu que convidei o Jorge para almoçar.Eu não queria ter que te desculpar.Não. – Que tal ter dito ao teu ex. Ao subir os degraus das escadas.Não sei – respondeu Sérgio não escondendo a sua fúria. Os momentos que se seguiram foram preenchidos com um silêncio ensurdecedor e com a certeza de que havia muita coisa a ser esclarecida desde o último almoço de domingo. . Foi o meu pai… . eu não … . marido já não faz parte da tua vida. .Precisava de tempo – respondeu Sérgio.Desculpa – pediu Madalena correndo ao encontro dele. mas a verdade é que não fizeste nada para o impedir. Tudo o resto são detalhes. Alice disponibilizou-se a tomar conta da floricultura.Desculpa! Eu devia ter ligado.Já te disse que a culpa não foi minha – afirmou Madalena largando os braços. mas parece que tu não estás disposta a fazer isso por mim.Não.São sim! É só com a opinião de Madalena que te deves preocupar e nada mais. . mas ainda assim. – …olá… . para ficar sozinho… .Não sei. vô… .Pode até ter sido o teu pai.O que é que eu podia fazer? . põe-te no meu lugar! Tu humilhaste-me … .Porque eu pensei que também precisavas pensar e ficar sozinha. Madalena resolveu engolir o seu orgulho e procurá-lo à hora de almoço. Após quarenta e oito horas sem qualquer notícia ou telefonema de Sérgio. – Desculpa! Eu não queria ter feito o que fiz.E porque é que querias pensar e ficar sozinho? . o seu coração disparou. Que ele não tem acesso directo à tua casa e que não aparece lá sempre que lhe apetece. ela conseguiu arranjar forças para subir e para também tocar à campainha.Tu humilhaste-me e tens consciência disso porque senão não tinhas cá vindo – afirmou Sérgio calando-lhe todos os argumentos.Estás muito ocupado? . . – Porque é que não me ligaste? .

Ele envolveu-a nos braços. – Tu nem sabes… . ela teve dúvidas. receios e inseguranças. Não sei se vou conseguir lidar com o facto de ser obrigado a olhar para a cara do teu ex. – Eu amo-te.E o que é que queres que eu faça? – gritou Madalena. mas principalmente.. – Eu amo-te.Mas o Jorge já não faz parte da minha vida – respondeu Madalena num tom desesperado.A única coisa que eu sei é que eu te amo e que não quero ficar sem ti – respondeu ela amparando-lhe uma lágrima com os lábios. as coisas eu que tenho aguentado… .Lena. 117 . Lena! Mas eu não sei se vou conseguir lidar com isto tudo. – Eu não quero ficar sem ti – repetiu.Tens a certeza? Diante da pergunta de Sérgio. – Não termines comigo – disse Madalena levantando-lhe o rosto com as mãos. esbaforida.Eu também não. Sérgio encostou-se à secretária e levou as mãos à cabeça. Depois disso. – Não quero. por uma relação que lhe estava a consumir todas as forças. Foi por isso que eu me resolvi afastar. Prometo! A promessa da Madalena pareceu ter surtido efeito quando Sérgio lhe encontrou os lábios e os beijou com toda a paixão que possuía dentro de si. quanto a isso não havia dúvidas. ela deixou-se envolver e os dois acabaram caídos no divã à espera que os beijos e as carícias pudessem apagar todas as palavras amargas que disseram momentos antes. Isto para não falar da Sara! Todos eles estão a torcer para que a nossa relação não dê certo e o pior é que tu estás a deixar que isso aconteça… .Então vamos esquecer tudo o que aconteceu neste domingo.Nós já estamos a discutir! Ao ver-se pela primeira vez sem argumentos. Eu prometo que vou fazer de tudo para afastar o Jorge de nós. pelos seus medos. . marido sempre que ele resolve aparecer ou então com a vontade do teu pai em querer que voltes para ele.Eu não sei – respondeu Sérgio aos gritos dela. Vamos colocar uma pedra sobre o assunto. nada mais importou. eu não quero discutir. . Esgotado por aquela discussão. . . mas… .Eu também.murmurou ele com os olhos rasos de lágrimas. . . – Eu não sei. Estava esgotado.Se tu soubesses como me tenho esforçado para que isto dê certo.Boa! E depois a culpa é minha?! E depois eu é que estou a fazer de tudo para que a nossa relação não resulte? . .

Ao ver-se com aquele discreto.Nunca me lembro de levantar a tampa da sanita. e assim o casal continuou a projectar planos para um futuro que apesar de tudo parecia promissor.Adorei – riram-se os dois apertando as mãos sobre a mesa. Madalena seguiu à risca as promessas que fez. .Tens mesmo a certeza que é isso que queres? . Com um jantar romântico à luz de velas num restaurante italiano chamado Cipriani.riram-se os dois. 118 .Achei que fosses gostar.Acho bem – respondeu Sérgio beijando-lhe a mão direita. . – Eu quero muito.Ainda não – respondeu ele esboçando um sorriso carinhoso.Eu vou falar com eles. – Estás-me a pedir em casamento? . tenho o péssimo hábito de deixar a toalha molhada sobre a cama e quase nunca dobro as minhas camisas… .Nem mesmo a Sara? . . baixinho.Que condição? .O.k – riram-se os dois. . . é claro.Mas só com uma condição.Que venhas viver comigo – respondeu Madalena tomando-o de assalto com aquele convite inesperado. – Talvez ela se vá opor um pouco.k! Pensando melhor… . Quero dormir ao teu lado todas as noites e acordar contigo todas as manhãs. . marido dela. . mas lindíssimo anel no dedo.CAPÍTULO VII Os dias seguintes trouxeram alguma calmaria perdida após aquele fatídico domingo de Páscoa.A sério? Nem tinha percebido uma coisa dessas. Só o tens que usar. Sérgio tentou dissipar a suas dúvidas relativamente ao ex.Tenho – respondeu Madalena sem quaisquer hesitações. – É lindo! . Madalena não conseguiu esconder a emoção.Sim! Eu quero que te mudes para a minha casa definitivamente. Mas eu tenho a certeza que nenhum deles se vai opor.Não vou tirá-lo do dedo nunca. o aniversário de Madalena provou isso mesmo. – Mas é um passo importante para isso. . De resto. .E os teus filhos? .Viver contigo?! . – Obrigada.O. mas eu sei como lhe dar a volta. Sérgio conseguiu definitivamente conquistar o coração dela ao oferecer-lhe um maravilhoso anel de compromisso.Não tens que agradecer. . . . .Olha que eu sou muito desarrumado.

Sei lá! Combinávamos num sítio qualquer e eu levava-te comigo. . . eu quero que sintas que esta é a tua casa. – Já te disse que me arranjo. encontrava-se ao lado daquele perfeito desconhecido.É claro que eu sou de confiança. . Um facto que passou completamente despercebido o Sara enquanto o ouvia com atenção e se deliciava com a sua voz grave e grossa ao telefone. – Não queres vir comigo ao Algarve? – perguntou ele já perto do final da conversa. claro que não! Por tua causa.E quando é que voltávamos? . Depois disso.No domingo.Ainda bem – respondeu Madalena sugando-lhe os lábios no meio de um sorriso radiante.. a porta do quarto de Sara fechou-se com um enorme estrondo e não se ouviu mais nenhum barulho durante a noite.Por causa da mamã?! .Deixei-te também duas gavetas livres e uma outra na casa de banho. – Achas que este espaço te chega? – perguntou Madalena abrindo as portas do seu roupeiro a Sérgio. – Porque não sei se és de confiança.Não. . . a pensar no bem-estar dos filhos e a viver em função deles.Devo aparecer aí por Lisboa na próxima sexta-feira e volto no mesmo dia. Mas a verdade é que nem os gritos histéricos da filha impediram Madalena de levar os seus planos adiante. A semana não poderia ter começado melhor para Sara quando recebeu um telefonema de Marco a meio da madrugada.Está óptimo. não penses – disse ele arrancando-lhe uma leve gargalhada.Sim – respondeu ela sorrindo ao telefone. aliás. Tal como sempre.Por minha causa? . o facto é que aconteceu e pouco ou quase nada houve a fazer por Sara que mais uma vez viu na presença do fotógrafo uma afronta especial oferecida pela sua mãe. Alguma vez te deixei ficar mal? 119 . ele estava no Algarve metido nos seus inúmeros negócios esquivos e pretendia regressar a Lisboa no final da semana para entregar algumas mercadorias ilícitas. Como é que ela se atrevia a colocar um perfeito desconhecido lá em casa. feliz ou infelizmente.…eu não sei se vou poder ir – disse Sara sentindo-se mais do que tentada a aceitar aquele convite no mínimo inesperado.Não te precisas preocupar com isso – afirmou Sérgio envolvendo-lhe os braços à volta da cintura. Eu quero que te sintas em casa.Eu sei! E eu já sinto isso. ela iria tentar ser feliz. . A mudança de Sérgio aconteceu duas semanas mais tarde. e embora não tivesse sido aprovada pela maioria. .Vamos. Chega. Chega de passar a vida a pensar nos outros. . .Não. Dali para frente. – Eu também quero morar contigo. .Então vamos morar juntos – respondeu Madalena entrelaçando os dedos nos dele. . e a sua felicidade. . disse-lhe.Ir ao Algarve? Quando? . foi a pergunta que a jovem gritou aos ouvidos de Madalena vinte e quatro horas antes de Sérgio se mudar de armas e bagagens.Nem pensar. . .

Eu também tenho um cliente marcado para as três e meia. Vou-me encontrar com ele no Campo Grande. A minha especialidade.Estás com uma cara! O que é que aconteceu? . .Maluca – exclamou Milene empurrando-lhe as costas. eu não sou a tua mãe. ao contrário dos outros. . tudo iria desmoronar à sua volta tendo em conta a histeria da mãe. – Eu vou fazer tudo para ir contigo. Sérgio já havia iniciado os preparativos de um jantar no mínimo improvisado enquanto Daniel se entretinha a jogar na sua playstation portátil em frente à televisão da cozinha. .Então?! Vem comigo e eu prometo-te que vais passar um fim-de-semana inesquecível. – Os teus pais por acaso não desconfiam que andas a faltar às aulas para vir para cá? .k! Se eu estiver iludida. Infelizmente. mas também arriscado. – E tu. . Queres pagar para ver? Paga! Tal como já me disseram. O plano parecia ser perfeito. mas nessa altura. Sara sabia-o melhor do que ninguém e sabia também que quando voltasse do seu fim-de-semana com Marco.Estou chateado – respondeu Daniel afastando-se bruscamente da mãe. . . mas isso não significa que ele seja má pessoa – respondeu Sara saltando da cama. . . – Desculpem! Desculpem – pediu Madalena entrando pela cozinha adentro carregada de sacos de compras.Já vi que sim – respondeu Madalena apressando-se a beijar a face do filho. por isso não me deves satisfações e nem eu te devo conselhos.Esparguete à bolonhesa. A chegada a casa aconteceu quando faltavam poucos minutos para às oito. – Atrasei-me.Não! Eu consigo sempre apanhar as cartas da escola no correio.Ele não presta! Estás iludida.Hum! Está óptimo. as compras do supermercado prenderam Madalena mais tempo do que estava à espera.. – Anda lá! Não me posso atrasar. naquela sexta-feira. o que é que isso importa? Já estou chumbada mesmo – riu-se a jovem.O problema é que quando fizeres isso já vai ser tarde demais – afirmou Milene vestindo o seu casaco às pressas. ele trata-me muito bem! Não me trata como uma prostituta. .Escuta! Eu sei que o Marco anda metido em negócios estranhos.O. .Vou trabalhar. desiludo-me. amor? Como é que foi a escola? . De qualquer maneira. . – Tu não sabes com quem te estás a meter – avisou-lhe Milene a dois dias da fuga. – Se queres que te diga. – Prova o molho! Vê se está bom? . .…está bem – respondeu Sara dando-se por vencida. e para ajudar à festa.Chateado porquê? 120 . .Normal. o trânsito infernal que apanhou durante o caminho apenas lhe trouxe uma enorme dor de cabeça.Aonde é que vais? . . Mas a paixão que sentia por ele valia a pena? De certo que sim. .Ouve lá – disse Milene voltando-se para Sara.Não faz mal – respondeu Sérgio entregando-lhe uma colher à boca. – Mas tudo bem.Não.

Porque é que o pai não me levou também? – interrogou Daniel não escondendo a sua irritação. .Não sei! Quando chegámos ela já não estava cá em casa – respondeu Sérgio.Aonde é que vais? – perguntou a mulher que estava na cama de Jorge.Não. . se ela estiver aí contigo e tu a estiveres a encobrir… .O Jorge veio buscá-la? – perguntou Madalena depois de ter lido o bilhete vezes sem conta. Mas se a filha não estava com o pai. mas tal como sempre. foi a conclusão a que Madalena chegou após ter reflectido pela primeira vez.Não sabes de alguma amiga com quem ela possa estar? Encontra um número – afirmou Jorge começando a ficar preocupado com o súbito desaparecimento da filha.A minha filha desapareceu – disse Jorge enfiando-se nas suas calças. mas vou ter que ir à casa da minha ex. – Alguma vez fui buscar a Sara e o Daniel sem te avisar primeiro? Na verdade não. . O número de Sara foi imediatamente digitado. encontrava-se fora de área. – Olha. Aconteceu um problema.Estou-te a perguntar se a Sara está aí contigo – repetiu Madalena. seguiu-se número do ex.Um problema?! . por favor… .. impaciente.Desculpa?! . mentiu. Não precisas ligar. Depois disso.Acho que é por isso – interferiu Sérgio entregando a Madalena um bilhete escrito por Sara horas antes. mas está desligado.Não. . . não está – disse ele tentando desenvencilhar-se dos braços de uma mulher. mas tal como deves calcular. já disse que não! Não falo com ela desde quarta-feira.” .Está bem – respondeu Madalena desligando o telefone sem muitas delongas. .Jorge! Responde à minha pergunta. – Porque é que a Sara haveria de estar comigo? .E tu vais-me deixar aqui sozinha? 121 . eu estou a ir para aí! Qualquer coisa entretanto e não hesites em ligar-me. . Tens a certeza que não sabes nada da Sara? .Isto está-me a cheirar muito mal – murmurou Madalena correndo a alcançar o telefone sobre a bancada. . . meu Deus?! .Desculpa Catarina.Ela não está aí contigo? . ao reconhecer a letra. Está tudo bem.Claro que sim. Não sei aonde é que aquela maluca se meteu.Qual encobrir qual quê – exclamou ele levantando-se da cama. então com quem ela estava? – Já lhe tentaste ligar para o telemóvel? – perguntou Jorge. mulher. E a última. marido e a sorte que foi em ele ter ouvido a chamada.Porque ela deixou um bilhete escrito a dizer que ia passar o fim-de-semana contigo e que eu não precisava preocupar-me em ligar! Jorge. encostou-se à mesa para melhor o ler: -“ Mãe! Fui passar o fim-de-semana com o pai e volto no Domingo. . – Disse à mãe que estava comigo. – A Sara está aí contigo? . .Então aonde é que ela se meteu.

mas tenho mesmo que ir! A minha filha desapareceu. o facto de ter encontrado quinhentos euros em notas de vinte. É da turma da Sara.Vou ligar da sala – respondeu Madalena correndo em direcção à porta. . apenas veio a cimentar a suas desconfianças. Além disso. é! Olha. . Quando a porta do quarto se encostou com cuidado e os passos de Madalena se perderam pelo corredor. – Mariana?! Sou eu.Jorge.Tudo bem. Sérgio foi o único a encontrá-la.. que nem sequer se apercebeu ou se deu conta de uma grandiosa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro.Não tenho outra escolha. O que estaria Sara a fazer para ganhar tanto dinheiro? .Estou – foram as primeiras palavras de Madalena quando a sua chamada foi atendida por uma das melhores amigas da sua filha.Que é isso. Madalena subiu ao quarto de Sara e apressou-se a encontrar qualquer objecto que contivesse números de telefone de pessoas próximas à filha.Eu sinto muito. Como é que podes pensar uma coisa dessas? .Que tal porque me estás a tratar como uma? . a mãe da Sara! Desculpa estarte a ligar a estas horas. – Não vens? . Mas a verdade é que Sara tinha. – Graças a Deus encontrei! .Jorge. . cinquenta e cem. ele deixou de ter dúvidas. Eu conheço-a. .Bem que me tinham dito que tu não eras de confiança – resmungou Catarina apressandose a encontrar a suas roupas espalhadas pelo chão. amigas da escola.Tens a certeza que é isso? . tem aqui o número da Mariana. mas é que eu precisava saber se a Sara por acaso não está aí contigo… 122 . lingerie provocante e outros artigos escabrosos que nenhuma rapariga de dezasseis anos deveria ter em sua posse. Não posso ficar aqui contigo sem saber o que realmente aconteceu com ela. Sérgio voltou a abrir as portas do roupeiro a fim de encontrar a caixa de cartão que continha alguns dos objectos mais íntimos de Sara. Escuta! Se quiseres dou-te boleia até a uma praça de táxis mais próxima.Sim.Então liga-lhe. e a outra verdade é que Sérgio começava a chegar à conclusão que existiam muitas mais coisas para além do comportamento rebelde da jovem. já te disse. princesa?! É claro que eu sei que não és uma prostituta.Não! Eu vou ficar para ver se consigo encontrar outros números… . a tua fama já corre pela cidade inteira ou ainda não sabias?! Seguindo os conselhos do ex. – Encontrei – exclamou Madalena erguendo uma pequena agenda cor-derosa. Amigas da escola. coisas que até ele não queria imaginar quando se lembrou que dias antes a havia visto a abandonar uma pensão ao lado de um homem muito mais velho. Ao segurá-los nas mãos. Eram dezenas de filmes pornográficos.Quem é que te disse isso?! . os seus olhos esbugalharam-se de surpresa e consternação. Mas a verdade é que estava tão cega e obcecada em encontrar o que procurava. . . eu não sou uma prostituta – afirmou Catarina levantando-se da cama. e quando a abriu com alguma discrição para que a namorada não se apercebesse do que estava a fazer. marido. esbaforida. preservativos. Coisas que ninguém sabia e que ninguém tinha coragem de imaginar. foram as palavras que repetiu vezes sem conta enquanto revistava gavetas e armários com a ajuda de Sérgio. Sim.

Tens a certeza que ela não tem ido às aulas? . Nenhum telefonema da directora de turma… . tu sabias disso? A tua irmã disse-te alguma coisa? .Será que é ela? . .Daniel.A Mariana acabou de me confirmar isso – respondeu Madalena ignorando o olhar curioso de Daniel sobre si.Eu vou lá atender – disse Sérgio correndo em direcção à porta enquanto na sala Madalena tentava convencer-se a si própria que tudo aquilo não passava de um horrível pesadelo. Madalena.Não. ninguém sabia do seu paradeiro. . Os passos nervosos e descontrolados de Madalena deixaram Jorge alerta no minuto em que ele pisou a sala. a Sara não tem ido às aulas? Enquanto ouvia a resposta de Mariana através do telefone. pois o desejo de encontrar Sara era mais forte do que tudo. . – Vou ligar para a polícia – disse Jorge encontrando o telemóvel no bolso das calças.Hã.Isso não quer dizer nada. Mais do que conseguiu imaginar nos seus piores sonhos e uma realidade que apesar de cruel. 123 . Mas … eu pensei que tinha conseguido resolver esse problema quando a tirei da casa do pai. o relógio assinalou vinte e duas horas e o esparguete à bolonhesa cozinhado por Sérgio esfriou sobre o fogão. . Lena – disse Sérgio pressentindo o seu desfalecimento. . não! Eu há muito tempo que não a vejo.Porque eu ia levá-la todas as manhãs à escola. – Há dois meses que a Sara não põe os pés na escola – afirmou ela voltando-se para Sérgio. Contudo. – A Sara chumbou de ano.Como é que… como é que eu não percebi isso antes?! Eu não recebi nenhuma carta.Posso entrar?! . . Madalena apenas teve forças para se encostar ao sofá e levar uma das mãos à cabeça. boquiaberta. Ainda não.Tem calma. pensou.Não é melhor ligar primeiro para os hospitais? – interferiu Sérgio. – Mariana.Como não?! Vocês não são da mesma turma? Ocorreu um silêncio ensurdecedor no outro lado da linha. Ninguém tocou ou se lembrou dele..Claro – respondeu Sérgio percebendo-lhe um certo tom de sarcasmo na pergunta. .Não – respondeu o pequeno assustando-se quando ouviu a campainha tocar. também o desespero tomou conta do advogado quando terminados todos os números da lista de contactos de Sara. Chumbou por faltas! E o pior é que eu não me posso dizer surpresa porque no primeiro período recebi uma carta da escola a avisar-me que ela estava em perigo de chumbar. Meu Deus! Será que eu estava cega? . .Tem calma – disse Sérgio tentando alcançar-lhe os ombros embora Madalena se tivesse desviado a tempo. Encontrou-a com as mãos sobre a cabeça. .A minha filha já apareceu? – foi a pergunta ríspida de Jorge quando Sérgio lhe abriu a porta. Aquilo era mais do que podia suportar. . entendes?! Eu via-a a entrar nos portões. Nessa altura. D. parecia também ser a mais provável. – Chumbou por faltas a meio do segundo período. os olhos marejados de lágrimas e um desespero patente por não ter a mínima ideia de onde a sua filha se tinha metido. .

. não compliques pelo amor de Deus! Estamos todos nervosos. deixou-se cair nos braços de Marco numa das praias mais movimentadas do Algarve. – Ela não está com ele.Sim – respondeu Sara passando-lhe as mãos pelo peito musculado. Aliás. – Tens frio? . foi a pergunta que os pais.Esperamos até quando?! .Até recebermos alguma informação da polícia. – O que é que fazemos agora? – perguntou Madalena quando os policiais se foram embora. . Aonde é que ela está. a verdade é que as horas passadas deixavam poucas dúvidas de que Sara tinha desaparecido sem deixar rastro. Ali. mas não vale a pena entrarmos em desespero antes da hora. mulher pelas costas. Alguém que pudesse ter alguma ideia do seu paradeiro ou até mesmo um mínimo sinal de vida oferecido pela jovem.Não faz mal! Eu aqueço-te. Depois destes procedimentos legais. – Somos amigos. o irmão e Sérgio se fizeram entre si. .Um pouco – respondeu Sara envolvendo as pernas à volta da cintura de Marco enquanto as ondas do mar teimavam em levar-lhes para longe.Posso te fazer uma pergunta? .Já liguei – respondeu Madalena voltando-se para o fotógrafo com os olhos inchados de tanto chorar.A polícia encarrega-se de fazer isso por nós – respondeu Jorge tentando controlar a imensa vontade de ver o namorado da ex. Foram precisos poucos minutos para que a polícia tomasse conhecimento do desaparecimento de Sara e também para que se deslocassem à moradia de Madalena para recolher algumas informações adicionais e fotografias recentes da jovem desaparecida.E se não recebermos nenhuma informação da polícia?! . a poucos minutos das duas horas da madrugada.Tornaste a ligar ao teu pai? Às vezes ela pode estar com ele. – interferiu Sérgio. A única boa notícia era o facto de saber que a filha não havia sido registada em nenhum hospital público da cidade. que alheia a tudo o que se estava a passar em Lisboa. ela mergulhou no mar e encontrou nele o amparo necessário para se esquecer da loucura que tinha cometido ao fugir de casa sem qualquer aviso prévio aos pais. e embora ninguém quisesse transparecer qualquer tipo de desespero. O silêncio apoderou-se da sala por largos minutos.Eu nunca namorei com ninguém.E como é que vais fazer isso? .O quê?! . Cada um tentava se lembrar de um local onde ela poderia estar.. .O que é que nós somos?! .Lena. .Eu já estou desesperada.O que é que nós somos? . . mas eu disse-lhe que não era preciso. . o que de todo não deixou Madalena menos preocupada. namorados ou… . .Esperamos – respondeu Jorge passeando pela sala. . despediram-se dos donos da casa e prometeram empenhar-se na procura de Sara. 124 . ele até queria vir.Adivinha – respondeu Marco encontrando-lhe os lábios.

- Não queres namorar comigo? - Eu não iria conseguir namorar com uma gaja que vai para a cama com qualquer um. Se fosses a minha namorada, irias ter sair da vida! Não gosto nada de dividir aquilo que é meu. - E se eu saísse da vida?! Namoravas comigo? Marco sorriu. – Ouve! Eu não sou o tipo de gajo ideal para ti. - Eu sei. Eu sei dos teus esquemas! Sei que andas metido na droga e que o teu irmão mais novo foi assassinado porque o confundiram contigo. Eu sei de tudo isso. - Quem é que te contou? Aposto que foi a otária da Milene… - Foi ela sim, mas ela não fez por mal, eu é que perguntei. - Então se já sabes de tudo isso, o que é que estás aqui a fazer comigo? - Será que ainda não percebeste que eu não me importo?! Eu gosto de ti – respondeu Sara sem desviar os olhos dele. – Eu quero ser a tua namorada. Apesar de Marco não ter feito o pedido oficial, de resto, algo absolutamente impossível para um homem como ele fazer a qualquer mulher, Sara sentiu-se como a sua legítima namorada quando foi apresentada no dia seguinte a alguns dos seus amigos mais próximos. Quase todos pareceram gostar dela, e ela também gostou de todos, embora tivesse percebido alguns olhares menos simpáticos por parte de duas raparigas presentes no bar onde Marco a levou. Mas nem mesmo esse facto fez com que Sara esmorecesse ou sequer largasse a mão do seu novo namorado pois era com ele que ela queria estar. Era ele quem a mantinha naquele perfeito estado de euforia e era também o único que a fazia sentir-se feliz, bonita e desejada. – Toma – disse-lhe ele entregando-lhe um majestoso fio de ouro e uma pulseira de diamantes. – É teu. - É um presente? – perguntou Sara colocando o fio em frente ao espelho do quarto. - Sim. Gostaste? - Adorei! Mas isto deve custar uma fortuna. - A mim não me custou nada – respondeu Marco sugando-lhe o pescoço perfumado. - É roubado?! - Digamos que foi adquirido sem muito esforço. - E tu costumas oferecer presentes destes a todas as raparigas com quem andas? - Não. Só às mais especiais! - Então quer dizer que eu sou especial? - O que é que achas? - Que sou especial – riu-se Sara quando ele a beijou nos lábios. Vinte e quatro horas sem pregar olho fizeram de Madalena um verdadeiro zombie andante. Cada minuto parecia uma eternidade, qualquer barulho na porta a certeza de que Sara tinha regressado a casa e o toque do telefone uma réstia de esperança de a filha tinha sido encontrada por vivalma. Mas a verdade é tudo isso não passavam de fantasias quando confrontada com a dura realidade, e essa realidade era a de que Sara tinha desaparecido. - Devíamos ligar à polícia – dizia Afonso a cada dez minutos. – Pode ser que já tenham notícias. - Não vale a pena – respondeu Jorge levantando-se do sofá. – Eu vou dar mais uma volta de carro pelas redondezas. - Eu vou contigo – disse Afonso seguindo o ex. genro em direcção à porta.
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- Queres que faça alguma coisa para comer? – perguntou Sérgio a Madalena assim que a porta da rua se fechou com algum estrondo. - Eu não consigo comer nada – respondeu ela continuando a passear pelos quatro cantos da sala. – Enquanto não encontrar a Sara nada me vai descer pela garganta. - Tens que descansar! Não podes ficar nesse stress senão não aguentas. - Aonde é que ela se meteu, meu Deus?! Aonde? Já ligámos para toda a gente, já falámos com a polícia, contactamos hospitais, esquadras…! Ninguém sabe de nada. Parece que ela evaporou no ar. - Eu tenho a certeza que ela vai voltar – disse Sérgio para grande surpresa de Madalena. - Como é que podes ter certeza disso? - Se ela tivesse fugido para não voltar, teria levado todas as roupas dela e outros objectos pessoais, não achas? Mas ela não levou quase nada. Só uma mochila. Ninguém iria fugir só com uma mochila às costas. - E se alguém a levou? E se ela foi raptada? - Lena, pensa bem! Ela deixou-te um bilhete. Ninguém a obrigou a escrever aquilo. - Eu não sei. - Com certeza a Sara deve ter ido passar o fim-de-semana com uma amiga… ou com… um amigo… - Claro – exclamou Madalena voltando-se bruscamente para trás. – Aquele rapaz… - Que rapaz?! - Aquele rapaz que apareceu aqui uma vez à procura dela. Lembraste?! Eu disse-te que não tinha gostado nem um pouco dele e tu disseste que eram só coisas da minha cabeça. Mas quem sabe a Sara não está com ele? - Pode ser. É uma ideia. - Ele não te disse como é que se chamava? - …não sei – respondeu Sérgio tentando recorrer à sua memória. – Mas também não falámos muito! Ele só me perguntou se a Sara estava em casa e se ele podia falar com ela. Eu respondi que sim, mas depois entrei em casa para a avisar. Não! Lembrando agora, ele não me disse o nome. - O meu coração está-me a dizer que ela está com esse rapaz. Ela fugiu com ele. - Tem calma! Não nos vamos entrar em julgamentos precipitados. - Merda – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando Sérgio a abraçou com força. - Vamos esperar mais algumas horas. Se a Sara continuar sem dar notícias, contamos à polícia sobre esse rapaz. - Ainda te lembras da cara dele? - Lembro, claro – respondeu Sérgio tentando acalmá-la com um outro abraço. - Vamos esperar só até à meia-noite então! Só até lá. - O.k! Tal como o combinado, à meia-noite em ponto, Sérgio e Madalena forneceram outra pista à polícia relativamente ao desaparecimento de Sara. A cada hora que passava, a probabilidade da jovem se encontrar na companhia daquele rapaz desconhecido era quase certeira, e se assim fosse, não havia tempo a perder. Era preciso fazer um retrato robot e tentar encontrar-lhe o paradeiro, algo que Sérgio fez exemplarmente quando tentou recorrer
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à sua memória fotográfica. O rapaz tinha 1,80 m, a cabeça praticamente rapada, era mestiço, trazia dois brincos nas orelhas, calças de ganga um pouco largas, uma t-shirt azul escura e vinha a conduzir um BMW conversível. Os olhos também eram escuros, os lábios não muito grossos e o nariz comprido. - Tem a certeza que não se esqueceu de mais nada? – perguntou um dos policiais destacados para o caso. – Acho que não – respondeu Sérgio seguro de tudo o que havia dito. - Vão à procura desse rapaz, não vão?! – interferiu Jorge impacientemente. - Claro que sim – respondeu o agente. – Se ele tiver cadastro, vai ser muito fácil conseguirmos localizá-lo. Por sorte, naquele domingo, as estradas que ligavam o Algarve a Lisboa encontravam-se praticamente vazias, e enquanto seguiam por elas, Marco e Sara não resistiram a trocar várias gargalhadas, beijos e brincadeiras dignas de dois adolescentes completamente alheios aos problemas e responsabilidades. E na verdade, era assim que Sara se sentia cada vez que estava com Marco. Perdia a noção do tempo, do espaço e do perigo que um homem como ele poderia trazer à sua vida. – Pára – dizia ele cada vez que ela tentava lhe desviar o volante das mãos. - Tens que me ensinar a conduzir. - Ainda és muito nova para andar com uma máquina dessas. - Posso aprender… As últimas palavras de Sara coincidiram com uma brusca inversão de marcha que Marco fez em plena auto-estrada. Razão para ele ter cometido tal loucura? A presença da polícia numa das portagens à entrada de Lisboa. – O que foi? – perguntou Sara, assustada. - Cala-te e mete-me a merda do cinto de segurança – gritou Marco deixando-a completamente petrificada quando ao voltar-se para trás a visão de dois carros de polícia e as suas sirenes ruidosas tomaram conta da auto-estrada. Foi a primeira vez que ela se viu metida num verdadeiro filme de terror. Foi também a primeira vez que chorou de medo por se ver diante da morte iminente e por perceber que mostrador de velocidade do carro de Marco havia atingido os duzentos quilómetros por hora enquanto ele se desviava de alguns dos automóveis que circulavam em sentido contrário. O último culminou com um aparatoso capotamento no meio da auto-estrada e com o alívio que Marco sentiu ao ver que os carros da polícia haviam permanecido presos no acidente. Pronto. Estava feito. Ele tinha-se conseguido safar mais uma vez e a saída em direcção a Santarém trouxe-lhe de volta a calma perdida. - Sai – ordenou ele abandonando o carro num descampado. - Aonde é que estamos? - perguntou Sara completamente desnorteada. - Anda! Vou-te meter no primeiro táxi e vais para casa. Hoje ninguém me vê em Lisboa! - E tu? Como é que vais voltar? Vais deixar o teu carro aí? - Esse carro já não existe mais – respondeu Marco arrancando a matrícula e furando os quatro pneus, algo que já estava habituado a fazer em vários outros automóveis. Depois disso, abriu o porta-bagagem e retirou do seu interior a mochila que Sara tinha levado para aquele malfadado fim-de-semana. – Toma as tuas tralhas! Vamos… Apesar de ter jurado não derramar uma lágrima sequer após o maior susto que apanhou na sua vida, a verdade é que durante a viagem em direcção a Lisboa, várias foram as vezes que Sara se viu obrigada a limpar as lágrimas e a engolir o choro para que o taxista não se
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e esse momento foi absolutamente arrepiante para as duas.apercebesse de nada. apesar de ter plena consciência do que a esperava.São vinte euros. Ainda bem! . Uma longa fila de carros. menina! Falta o troco. . Algo maléfico. Quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e mais tarde se ouviu o guincho da porta. – He lá! Ainda não o tiraram dali – disse ele quando passou pelo local do acidente provocado por Marco. O carro que havia capotado duas horas antes encontrava-se completamente destruído. coberto com um manto branco. . saltaram dos seus respectivos lugares e puseram-se alerta. Madalena. – Meu Deus! Faltavam poucos minutos para as sete da tarde quando Sara finalmente se viu diante da sua casa. . Pareceu-lhe também ouvir uma voz interior a confirmar toda a sua irresponsabilidade e falta de bom senso. e quando todos 128 .Espere.Aonde é que te meteste? – interferiu Afonso fazendo os possíveis para se conseguir aproximar da neta. .Ao Algarve? O que é que foste fazer ao Algarve? Aliás. gélido e que se mostrava cada vez mais aterrador à medida que ela se aproximava da filha. – Fui sozinha. . com quem é que foste? . . os olhos inchados de tanto chorar e a mesma roupa que trouxe vestida desde sexta-feira. Sérgio. Naquela altura. a única coisa que lhe restava era pagar pelos seus erros. os olhos de Sara cruzaram-se com os da mãe.Não era preciso. Nessa altura. – Estávamos aqui todos a morrer de preocupação. – Filha – exclamou Jorge correndo a tomá-la nos braços. Jorge. quando na verdade já era tarde demais para sentir qualquer coisa parecida. e ao forçar um pouco mais a vista através da janela do táxi. Afonso. .Com ninguém – respondeu ela desviando-se dos braços do pai. Daniel e até Alice que lá tinha aparecido para oferecer algum apoio moral à sua melhor amiga. Os seus olhos amedrontados não deixaram sombra para dúvidas. e por fim.Fui passar o fim-de-semana ao Algarve – respondeu Sara para surpresa de todos. Madalena envergava as quarenta e horas que passou sem dormir. – Meu Deus! Ainda bem que não te aconteceu nada. Estava assustada e não tinha a mínima noção de qual iria ser a reacção dos seus pais. – Tome – disse ela entregando o pagamento ao taxista.Já disse que pode ficar com ele – respondeu Sara fechando a porta e voltando-se para os portões da sua casa. a visão de Sara com uma mochila nas mãos. duas ambulâncias.Pode ficar com ele. a jovem não podia desejar um outro lugar para se esquecer dos verdadeiros momentos de horror a quem tinha sido submetida. havia qualquer coisa no olhar dela que obrigou Sara a recuar dois passos. e agora. pareceu-lhe sentir o peso do mundo sobre os ombros e uma enorme vontade de desaparecer. – Shiiiii! Morreu – exclamou o taxista levando uma das mãos à cabeça.Aonde é que estavas? – perguntou Jorge sacudindo-lhe os ombros. Mas ainda assim. Ela tinha errado. o corpo do condutor que havia tido a infelicidade de lhes atravessar caminho momentos antes. Entrar ou não entrar?! Essa foi a questão que Sara se colocou durante vários minutos. Pela primeira vez desde que chegou à sala. Sara apercebeu-se da dimensão da tragédia que ela e Marco haviam causado. Depois disso. . e deitado no chão. ouviram-se passos lentos vindos do corredor. inúmeros polícias à volta do local. Por fim. No rosto.

Eu vou lá – exclamou Jorge adiantando-se ao namorado da ex. ou pelo menos. não levantes a voz – disse-lhe o pai veemente. . . .Sara. – Começa já a explicar qual foi a loucura que te passou pela cabeça para sair de Lisboa sem a nossa autorização – imperou Madalena entrando pelo quarto adentro na companhia de Jorge. Tentou também girar a maçaneta. abre a porta – imperou o advogado.Eu já disse que fui passar um fim-de-semana ao Algarve.Já disse que não é da tua conta. a jovem subiu as escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e trancou-se no quarto numa tentativa desesperada de manter o fio de lucidez que lhe restava.Com quem!? – perguntou Madalena perdendo as estribeiras. eu mato-te de pancada! . Mais tarde. Sara teve a brilhante ideia de se trancar no interior do quarto. morta?! . – Porque da próxima vez. . deixas-nos à beira de um ataque de nervos e ainda achas que tens razão?! Tens a noção da gravidade do que acabaste de fazer? E se te tivesse acontecido alguma coisa? E se tivesses sido raptada. – Isto não vai ficar assim – disse Madalena libertando-se dos braços de Sérgio e seguindo a filha a toda a velocidade. Depois disso. – Se não a abrires. Tinha levado um estalo.Sara. mulher. ouviu-se o valente estrondo de Sara a cair sobre uma das mesinhas da sala. Madalena não hesitou um segundo em soquear-lhe vezes sem conta. 129 . . eu arrombo-a! Não se soube se foi a voz do pai ou a sua ameaça. não foi? . mas a verdade é que as mãos de Sara atreveram-se a destrancar a fechadura. O maior estalo de toda a sua vida que a fez inclusive sangrar da boca. – Trancou-se aí dentro? – perguntou Jorge encontrando a ex.Porque é que não avisaste então? – perguntou-lhe o pai. mas ainda assim Sérgio conseguiu impedir que Madalena levasse os seus intentos adiante quando a segurou pelos braços e permitiu que Sara fugisse da sala. – Nunca mais voltes a fazer o que fizeste… – imperou Madalena.Porque eu já sabia que vocês não iriam deixar. Os momentos que se seguiram foram tensos.estavam menos à espera. desapareces sem qualquer explicação.Eu não vou pedir desculpas se é isso que estás à espera – gritou Sara com os olhos vermelhos de raiva. a jovem deparou-se com a visão assustadora dos seus progenitores sobre o alpendre da porta e com a certeza de que apenas agora os seus problemas estavam a realmente começar. . – Quer dizer.Eu já disse! Só queria passar um fim-de-semana fora. .Foi com aquele rapaz que apareceu cá em casa no outro dia. . .É mesmo hoje que te mato – gritou Madalena lançando-se contra a filha com todas as forças que possuía dentro de si. .Sim e não quer abrir. .Não é da tua conta. mulher no meio do corredor.Lena! . mas tal como se era de esperar.Podes bater-me à vontade! Eu não vou dizer nada. Ao ver-se diante da porta do quarto da filha. – Sara! Abre a porta! Abre-a agora imediatamente! Silêncio foi a resposta. . que a mãe não iria deixar.

. Uma casa que é do meu pai.Isso não é verdade. não é?! Fazes o que te apetece. – É por tua causa que todos os fins-de-semana temos de andar de um lado para o outro sem saber aonde e a quem pertencemos. antes de nos decidirmos a assinar os papéis do divórcio. O problema é que o tal negócio não deu certo e… a polícia judiciária 130 . raivosa.Não – respondeu Madalena cruzando os braços num gesto de deboche. e pior.É sim! E tu sabes que é.Não. – Aliás. – E ela sempre me perdoou porque queria que tu e o Daniel crescessem numa família minimamente estável. mas mesmo muito.Eu fui porque precisava ficar dois dias sem olhar para a tua cara e sem olhar para a cara daquele homenzinho que resolveste colocar cá em casa. . Eu traí a tua mãe. .Com que é que tu foste.Ou pensas que já não sabemos que chumbaste o ano por faltas? A pergunta da mãe tomou Sara de assalto. Porque tu não pensaste nem um segundo nós quando te resolveste separar do pai. . não é – interrompeu Jorge calando os gritos da filha. . e tal como se não bastasse.Tu destruíste a minha vida.Porque tu não nos dás motivos para acreditar em ti – interrompeu Madalena. já disse.Eu falo como eu quiser! Não sou obrigada a gostar dele e muito menos a fingir que acho normal uma mulher da tua idade andar com um homem muito mais novo. Só pensaste no teu bem-estar e na vontade que tinhas em voltar a ser solteira outra vez … . – Fui sozinha. filha? . Não tens idade para passar fins-de-semana sem a supervisão de um adulto e muito menos para sair da cidade sei lá com quem! Porque é óbvio que tu não foste sozinha ao Algarve. viajas sem dar satisfação a ninguém…! É uma alegria! . Várias vezes… . .Não te atrevas a falar assim do Sérgio! . não terias sequer como sustentá-la… .Sinceramente eu não sei o que fiz para me odiares tanto – disse Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos.Não fui com ninguém – respondeu Sara largando os braços.Sabes porque é que eu fui passar o fim-de-semana ao Algarve? . – Mas iria adorar saber. porque senão.É claro que eu não iria deixar – interferiu Madalena. . Porque é que não acreditam em mim? .k! .O. Só pensaste em ti. – O que foi? Ficaste surpreendida? Ou será que pensavas que nós nunca iríamos descobrir que andavas a faltar às aulas para fazer sabe-se lá o quê?! Julgaste muito esperta. A juntar a isso.os olhos de Sara cerraram-se.Sara! Cala-me essa boca imediatamente – imperou Jorge para grande surpresa da filha. ainda enfiá-lo cá em casa. Foste com alguém. já nos tínhamos separado muito antes. utilizei a assinatura dela para um negócio que estava a fazer com alguns sócios meus na altura. será que não entendes?! É por tua causa que eu e o Daniel deixámos de ter uma família – respondeu Sara não se deixando amolecer pelas lágrimas da mãe. tu só nos dás motivos para desconfiar do teu carácter e da tua falta de responsabilidade. Sara! A tua mãe e eu pensámos muito. mandas e desmandas cá em casa. Foi por vossa causa que estivemos casados durante tanto tempo. . esbaforida.. e que se não fosse por ele. – Não fales de coisas que não sabes. – Tu não tens idade para andar sozinha por aí.

. não está?! . Só que essa conta estava no nome da tua mãe. essa fase vai passar. foram as últimas palavras de Afonso Soares no final daquela tarde particularmente cinzenta e tumultuosa.É só uma fase. somos capazes de superar as nossas fraquezas interiores. Acabou tudo bem. a calmaria voltou a rondar a casa quando Sara regressou sã e salva. – Portanto. fui eu o único culpado pela nossa família ter terminado. o relógio marcou meia-noite e quarenta e cinco minutos. . . Por isso. Seria demasiado egoísta da sua parte se todas as culpas acerca do término do seu casamento recaíssem sobre os ombros da ex. A tua mãe não teve culpa de nada! .Será que acabou mesmo!? .Com a tua ajuda está – respondeu Madalena abandonando o quarto debaixo das lágrimas que a filha não conseguiu conter. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. sim. Ela não te odeia. as forças para fazer tal tarefa eram praticamente nulas. Madalena conseguiu pela primeira vez engolir algo comestível e Jorge desapareceu com a clara certeza de que já deveria ter contado a verdade à filha há muito tempo. mas ainda assim ela conseguiu aguentar as fortes dores de cabeça e a vontade quase incontrolável de passar o dia inteiro na cama sem olhar ou falar com vivalma. A casa amanheceu silenciosa. não lhe aconteceu nada. .Não – respondeu ela permitindo que ele se sentasse ao seu lado.Ela odeia-me – exclamou Madalena voltando-se para Sérgio com os olhos inchados de tanto chorar. Nessa altura. desesperada.Pelo menos acabou tudo bem.Bom dia. talvez por medo que ela deixasse de o ver como um herói. .O que é que isso importa?! – perguntou Sara largando os braços. militar não poderia estar mais certo. – Bom dia – disse Sérgio beijando-lhe os cabelos quando se deparou com a mesa do pequeno-almoço totalmente composta. Foi fraco ao não fazê-lo. um claro contraste tendo em conta a noite anterior. – Está tudo destruído. dos estalos e dos gritos.Melhoraste da dor de cabeça? 131 . mulher. Na verdade. E não. quando ela perceber a mãe maravilhosa que tem. E a verdade é que o ex. Ela ama-te muito e é por isso que faz estas coisas só para chamar a tua atenção. e ela acabou por… ser presa no meu lugar! Foi só uma noite. mas sim.Ela não te odeia. . Apesar das discussões. e nem sempre. por mais que tentemos. Vai passar! Quando ela crescer.Estás bem? – perguntou Sérgio encontrando Madalena sentada sobre as escadas que ligavam os dois pisos da casa. . mas acho que foi a suficiente para que ela se fartasse de mim e pedisse a separação – discursou Jorge rasgando alguns olhares a Madalena.descobriu algumas irregularidades numa conta offshore que eu tinha. . coisa que ela não sabia porque eu não lhe contei. .A Sara já está cá em casa.Ela odeia-me sim! E eu não posso fazer nada para que ela deixe de me odiar. Quem sabe com o tempo Sara não entendesse? Quem sabe ela não percebesse que nem sempre as relações entre adultos eram fáceis. . transparentes e vitoriosas? Nem sempre elas são como queremos que sejam. e Madalena foi a primeira pessoa a levantar-se para preparar o pequeno-almoço na cozinha. como vês.

a caixa não se encontrava mais lá. Começou a pensar em sexo e na falta que aquele acto que costumava praticar todos os dias lhe fazia. . . Prisioneira talvez fosse a palavra que melhor a definiria durante três semanas. Contudo.Mais ou menos. Sexo. Será que tinha sido a mãe? Não. Sara mantinha as suas reservas escondidas a sete chaves. . e o pior é que ela nada podia para contrariar a decisão da mãe devido ao apoio incondicional que o seu pai lhe ofereceu aquando do castigo. O Sérgio. Como será que ele estava depois dos dois quase terem sido apanhados pela polícia? Será que ele chegou a saber que o condutor do carro que capotou morreu por culpa da irresponsabilidade dos dois? Diante de tantas dúvidas. Sara escolheu uma cadeira à mesa para se sentar e Madalena voltou-se de frente para o lava-loiça. principalmente para uma rapariga da tua idade. . Mas tal como qualquer outro dependente. Sara começou a perder as esperanças de encontrar a sua preciosa caixa.Cereais – respondeu Sara baixando o rosto. o leitor de CD e a televisão. . ela percebeu. . Alguém a havia tirado dali.Hoje a mãe está um pouco mal disposta. envergonhada. – Eu levo-te. era meu e tu não tens o direito de mexer em nada do que é meu! . numa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro.Nojento ou não. os seus olhares se desviaram. .Eu não sei do que é que estás a falar. Desta forma.. E assim.Um dia vais-me agradecer. Passou-se uma semana e Sara percebeu que estava de castigo quando lhe foram retirados do quarto. Com certeza. . mas a pouco e pouco. Dani – respondeu Sérgio servindo-se de uma chávena de café. pois as horas custavam a passar e o seu vício aflorava-se a cada minuto. Para além disso. tanto a mãe como a filha encontravam-se tão cansadas de lutar. 132 . Sara começou a sentir-se confusa e ansiosa. ao contrário de todas as suas expectativas. – Eu quero a minha caixa – foram as primeiras palavras de Sara assim que o fotógrafo chegou da rua e a encontrou sozinha em casa. – O que é que queres comer? – saiu-lhe essa pergunta a muito custo. naquela tarde. As últimas palavras do fotógrafo coincidiram com a chegada de Sara à cozinha e também com o constrangimento de Madalena ao vê-la diante de si. uma caixa a qual só ela tinha acesso e que muitas vezes lhe trazia o prazer que não conseguia alcançar com indivíduos do sexo oposto. – Não acredito! As minhas coisas…! Não acredito… A procura desesperada continuou por todo o quarto. os dias eram passados no interior de um quarto completamente desprovido de tecnologia.Eu só deitei fora aquela porcaria – respondeu Sérgio largando o seu equipamento fotográfico no chão. Contudo. Claro. que foi completamente impossível para elas trocarem qualquer palavra mais amarga àquela hora da manhã. o computador. – Aquilo era nojento. também não estava autorizada a sair de casa e muito menos a comunicar-se com qualquer pessoa através do telefone. Impaciente também. Madalena teria dito alguma coisa ou feito um escândalo. Mas quem?! Quem? Desesperou-se. Só podia ser outra pessoa.Sabes sim! Foste tu que andaste a mexer nas minhas coisas! Roubaste-me a caixa.Não acredito nisto… – foram as palavras que ela murmurou enquanto os olhos e as mãos reviravam todo o roupeiro. Eram passados a meditar em todas as coisas de errado que fez e também em Marco.Mãe! Vais-me levar à escola? – perguntou Daniel.

Ou será que estás tão obcecada por sexo que a simples ideia de te veres sem a tua caixa te deixa assim?! Sara calou-se. A príncipio tentou levá-la como uma simples brincadeira.Cala-te – gritou ela completamente descontrolada. . Nunca ninguém iria saber da sua doença e ela passaria despercebida aos olhos de todos até o final dos seus dias. que já não sabia o que fazer. . Sara sabia que ele existia e que a pouco e pouco já havia controlado toda a sua vida.Eu sei muito bem o que estou a dizer – respondeu Sérgio enfrentando-lhe os olhos raivosos. tal como um toxicodependente é dependente de droga. Apesar de nunca ter encontrado a verdadeira definição para o seu desejo sexual compulsivo. A mãe nunca iria compreender as razões que a levavam a querer sexo tanto quanto um ser humano desejava ar para respirar. Pensando melhor. o sentimento de repulsa que todos iriam sentir de si quando soubessem a verdade.Escuta! Porque é que estás tão irritada? Eram só alguns filmes pornográficos. Sara decidiu que não iria contar.Cala-te! Tu não sabes o que dizes… . Nem a mãe e muito menos o pai. . mas porque quer?! . não é?! . .Cala-te – afirmou Sara recuando dois passos. talvez Sérgio tivesse razão. . – Precisas tratar-te e eu estou a falar a sério. Aliás. – E tu também sabes. que se deitasse com inúmeros homens e que vendesse o seu corpo. E precisas também deixar de te prostituir… . desesperou-se. Só que ao contrário dos teus pais. – Tu estás doente. essa brincadeira e essa curiosidade apossaram-se não só da sua mente como também do seu corpo. mas em muito pouco tempo. O prazo que Sérgio dera a Sara para contar a verdade a Madalena esgotou-se. mas por um prazer que queria ver saciado. . . Por isso. Tu és dependente de sexo. estás a começar a entrar em ressaca. não porque precisa. Sara – disse Sérgio incendiando-lhe o olhar. Sabia também que esses sintomas começaram meses antes quando descobriu a pornografia em casa do pai.Já pensaste no desgosto da tua mãe quando ela descobrir a verdade? Quando ela descobrir que a filha dela se anda a prostituir.. uma curiosidade. já não tens a tua caixa. Podes muito bem viver sem isso ou não?! .Eu nunca vou fazer isso.E como não já não consegues sair de casa. eu consigo ver as coisas do lado de fora e podes crer que não precisei de muito esforço para juntar todas as peças deste puzzle. .Tu és ninfomaníaca. Passaram-se cinco dias e o círculo estava pouco e pouco a fechar-se.Então não me deixas outra escolha – disse Sérgio alcançando o corrimão das escadas. Ali estava. 133 .Não! Eu queria que fosses tu contar. o sexo é a tua droga. Fizeram com que cometesse loucuras atrás de loucuras. daí a vergonha. vibradores e outras coisas. e ela.Eu odeio-te! . não por dinheiro. – Vais contar à minha mãe? – perguntou ela. Nunca iria contar.Isso não é da tua conta. Mas sim. raivosa.Eu nunca te vou agradecer por nada – gritou Sara. A verdade nua e crua da qual Sara não podia escapar e que infelizmente lhe foi jogada à cara pela pessoa que mais odiava no mundo.

Só esta camisola – respondeu ele tirando-a do corpo.Podes deixar. Estas foram as últimas palavras de Madalena antes de sair da casa de banho levando consigo várias roupas nas mãos e também a certeza de que assim que se despachasse da tarefa enfadonha de as colocar na máquina. veste-me esse roupão agora! . . . pois a presença de Sérgio em sua casa lembrava-lhe que estava entre a espada e parede. Madalena voou em direcção ao 134 .exclamou Sérgio abrindo um sorriso de orelha e orelha quando sentiu dois braços à volta da sua cintura.Já disse que não. . cozinha ou até mesmo na sala.Vê lá se não te demoras muito! Prometeste que me irias fazer companhia no banho. ela tinha consciência que não. Aquilo já tinha passado todas as marcas. Mas os gritos de Sara para se tentar livrar dos braços do fotógrafo não tardaram a ecoar por toda a casa. Conta. Cada vez que se encontravam nos corredores. foram as palavras de Sérgio enquanto enfiava a filha da sua namorada no robe que ela havia retirado minutos antes de o surpreender no banho.Tens alguma roupa branca para lavar? – perguntou Madalena enquanto Sérgio se preparava para tomar um duche na casa de banho. . Conta.É só me despachar da máquina que venho a correr – respondeu ela cedendo-lhe um longo beijo nos lábios. . A única coisa que sabia era que teria que afastar Sérgio da sua vida de uma vez por todas e consequentemente todas as ameaças que ele fazia questão de lhe incutir.Não te demores. E sim. a porta da casa de banho sofreu uma ligeira pressão e abriu-se sem que ele se apercebesse disso. – Foste rápida… . Ali estava a filha da sua namorada. iria correr para os braços de Sérgio e presenteálo com um final de tarde no mínimo inesquecível.Mas seriam as coisas assim tão simples? No fundo. Mas ela não contou e essa ideia nem sequer lhe passou pela cabeça. era como se o fotógrafo lhe lançasse olhares fulminantes com mensagens claras e peremptórias: Conta. – O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Sérgio abandonando a cabina e encontrando uma toalha com a qual se pudesse tapar. completamente desnuda. – Estás louca? .Pois fui – respondeu uma voz angelical que o fez gelar dos pés à cabeça. nas escadas. . sendo que quando isso aconteceu.Dá-ma! Vou pô-la na máquina. . O desejo parecia ser recíproco quando Sérgio abriu o chuveiro da cabina e se enfiou lá para dentro sentindo os primeiros pingos de água quente caírem-lhe sobre o rosto e o corpo desnudo. mas sim Sara.Veste-te – ordenou ele entregando-lhe o robe caído sobre o tapete. . com olhos de quem o queria comer e sem qualquer pingo de remorso por ter cometido um acto no mínimo insano. Nada pôde exemplificar o terror sentido por Sérgio quando ele percebeu que a pessoa que tinha acabado de entrar na cabina não era Madalena. .Eu?! Louca? Claro que não! Só te queria fazer uma surpresa. os passos lentos e quase silenciosos de um corpo esbelto e a abertura da cabina pelas suas mãos delicadas. . . Com a pressão da água a cair sobre o polibã.Sara.Não – respondeu ela com um sorriso maléfico que o irritou de imediato. foi impossível ouvir o barulho do robe a cair sobre o tapete. Nessa altura.

. Eu era só uma criança e tu sabias muito bem disso quando me obrigaste a ir várias vezes para a cama contigo… . – Tu é que me obrigaste! Eu bem tentei fugir. . Tu não passas de uma criança… .Então explica! Explica porque eu não estou a perceber. Não saias! Ao ouvir as ordens da mãe.Isso não é verdade.O que é isto?! – repetiu Madalena.Isso não é verdade – vociferou Sérgio voltando-se para ela. tal como se estivesse a ser espancada ou violentada por alguém. tu achas que a minha mãe vai acreditar numa coisa dessas? – interrompeu Sara para grande espanto e surpresa do fotógrafo.Porque é que não contas à minha mãe? Porque é que não lhe contas que me andas a assediar desde que nos conhecemos?! . Eu nunca tive nada com a tua filha. E a verdade é que o mesmo se estava a passar com Madalena.Eu não sei como é que aconteceu. Foi por isso que resolveste morar cá em casa. que ali. No fundo querias ficar com as duas. . lembraste?! .Eu é que não queria ter nada a ver contigo – interrompeu Sara compondo-se no seu roupão. sentiu como se o mundo tivesse acabado de desabar sobre os seus ombros.segundo piso pronta a inteirar-se do que se estava a passar. ela chamava com todas as forças.Sérgio. disse que não podia ter nada contigo porque era o namorado da minha mãe. . . o que é que eu posso fazer? 135 . . mas …eu estava a tomar banho e de repente a Sara entrou na cabina.Eu disse-te para não te meteres no meu caminho. não é nada disso que estás a pensar… .Lena. .Eu posso explicar. incrédula. não é – respondeu Sara enfrentando o olhar confuso de Sérgio. Ela é louca.Não sei – respondeu ela.Eu nunca te assediei – vociferou Sérgio sentindo-se prestes a perder a sua sanidade mental. – O que vem a ser isto? – murmurou Madalena sentindo-se quase sem ar para respirar quando encontrou o namorado e a filha completamente atracados na casa de banho. Acho que deve ter sido por engano. minha louca? – disse Sérgio agarrando o braço de Sara com força. Daniel tornou a encostar a porta e ignorou os gritos de Sara que a cada minuto tornavam-se mais agudos e intensos. – Porque é que não lhe contas a verdade? . – Mas fica aí no teu quarto.Eu era uma criança até tu teres feito o que fizeste. . mãe? – perguntou Daniel surpreendendo a sua progenitora no corredor. .Não. . Eu assustei-me.Viste o que acabaste de fazer.Eu não tenho estômago para continuar a ouvir isto… – murmurou Madalena abandonando a casa de banho com os olhos rasos de lágrimas. – O que foi.respondeu Sérgio largando os braços de Sara e deixando-a quase semi-nua sobre a sanita. Mãe. no interior daquela casa de banho.Essa é a verdade. – Eu nunca tive nada contigo. mas tu não me quiseste ouvir. ela também e eu estava a tentar a… . – A verdade é que tu me chamaste para vir ter contigo. . mas tu disseste que isso não te importava. . – Lena! Tu tens que acreditar em mim.

Lena. Era uma dor que parecia ter-selhe entranhado por todo o corpo. Pus um perfeito desconhecido dentro da minha casa.Eu não te queria dizer isto. tão… apaixonada que não ouvi o que as outras pessoas me disseram. .Há quanto tempo? Nove. ela agarrou-se ao edredão numa tentativa desesperada de acalmar a dor que estava a sentir. o veículo arrancou e a rua tornou a ficar deserta. por favor – disse Madalena sentindo-se completamente morta por dentro.Põe-te no meu lugar! Em quem acreditarias? No teu namorado que só conheces há poucos meses ou na tua filha que já conheces há dezasseis anos? . acho que já vai ser tarde demais… Da janela do quarto. e quando isso aconteceu. sem tempo a perder. Viu as suas mãos fecharem o porta-bagagem com força e mais tarde a sua entrada no banco da frente. Tal como esperava. ele abandonou a casa de banho ainda enrolado numa toalha e correu ao encontro de Madalena no quarto divido pelos dois. a conviver com os meus filhos e nem foi preciso muito tempo para perceber que cometi um grande erro – discursou Madalena com os olhos rasos de lágrimas. dez meses… Sérgio manteve-se calado. Por isso.Porque vendo bem. Sara observou os movimentos de Sérgio a enfiar as suas malas no carro.Como assim? O que é que estás para aí a dizer? .Lena….Não adiantava nada continuar a trocar palavras vãs e dementes com uma rapariga também ela vã e demente. o que é que eu sei sobre ti!? .murmurou Sérgio.Tu não acreditas em mim. de costas voltadas e completamente imóvel. A almofada sobre a cama não precisou de muito tempo para ficar totalmente encharcada com as lágrimas de Madalena. . – Lena… . ou algo semelhante. . – Eu não sei nada sobre ti e hoje cheguei a essa conclusão.Será que eu sei? – perguntou Madalena voltando-se para ele com uma expressão mortificada. – Tu conheces-me! . Acho que estava tão cega. e parecia também ter entrado numa dimensão só dela. Uma dimensão a qual só ela tinha acesso e que Sérgio não sabia se poderia entrar. incrédulo. . . Parecia ter sido atingida por um raio. Como se pôde enganar tanto com elas? Como é que pôde acreditar nelas e entregar a Sérgio tudo o que de melhor possuía dentro de si? 136 . . mas… um dia vais perceber que cometeste um grande erro. – Eu não mereço que acredites em mim. foi a conclusão a qual Sérgio chegou quando a olhou pela última vez e se deu conta que Sara realmente não conhecia a palavra limite.Vai-te embora. tu não podes acreditar naquilo que a Sara disse! Eu nunca tive nada com ela e nem nunca seria capaz de a tocar. Dois minutos depois.…tens razão – concordou Sérgio baixando o rosto. . mas sim por não veres algo que está mesmo à frente do teu nariz! Mas quando perceberes esse erro.Não me toques – foi a resposta que o fez recuar dois passos.murmurou ele tentando alcançar-lhe os ombros com as mãos. encontrou-a em frente à janela. que a deixava quase sem ar para respirar e que a matava por dentro a cada minuto que se lembrava das palavras de amor que Sérgio tantas vezes lhe sussurrou aos ouvidos. . Tu sabes disso. Não por não teres acreditado em mim.

que a fez voltar a acreditar no amor e que lhe prometeu o céu e as estrelas apenas em troca de um beijo? Mas não. .Talvez devesse ter sido mais cuidadosa em não oferecer o seu coração. pois o céu e as estrelas pareceram desabar sobre a sua cabeça quando ela o encontrou nos braços da filha naquela maldita casa de banho.Já se passaram três semanas.Deixa-me sozinha – respondeu Madalena com uma voz rouca. Sem forças para sequer erguer a cabeça. foi a pergunta que Madalena se fez ao limpar as novas lágrimas que teimavam em cair-lhe no rosto. Nada disso realmente aconteceu. Podes fazer o quiseres… Ao ouvir as palavras da mãe. como é que se podia recriminar se tudo o que Sérgio lhe havia dito parecia tão real? Se tudo o que ele fazia parecia tão real. o seu corpo e a sua alma a um perfeito desconhecido. – Era por causa disso que eu não gostava dele – ouviuse a voz de Sara sob o alpendre da porta. Depois disso. – E ele também não gostava de ti – continuou a jovem ansiando qualquer reacção por parte da mãe. . O meu castigo já acabou? . Mas por outro lado. Ele que lhe devolveu novamente a alegria de viver. Há quanto tempo aquilo estava a acontecer. fez-se um silêncio ensurdecedor e Madalena desligou a luz da mesinha de cabeceira ansiando que o comprimido que havia tomado surtisse efeito e a fizesse dormir. – Foi melhor ter-se ido embora! Agora vamos voltar a ser uma família outra vez. Sara afastou-se da porta e fechou-a com algum cuidado.Já. 137 . Madalena continuou deitada e fechou os olhos inchados de tanto chorar.

. Mas o mais intrigante de tudo era perceber que ela não se tinha arrependido nem um pouco do que fizera. . isso podia notar-se a quilómetros de distância cada vez que acenava a velhos amigos e retomava um quotidiano que já conhecia tão bem.Mas diz-me uma coisa – interrompeu Milene acendendo um cigarro e atirando o isqueiro contra a cama. – Diz que não admite dividir a mulher dele com ninguém.Às vezes eu acho que tu não és deste planeta.Tu és louca – foram as palavras que Milene murmurou vezes sem conta. e tal como se era de esperar. .Pena porquê?! Eu até lhe fiz um favor.Estive de castigo – afirmou Sara entrando com um largo sorriso. O namorado dela era um otário e estava a um passo de lhe contar que me ando a prostituir. .Coitada da tua mãe! Não tens pena dela? . onde logo à entrada encontrou alguns amigos de longa data. O que é que querias que eu fizesse? Ele não me deu outra escolha.Tu nem sabes o que é que me aconteceu nestas três semanas.Claro. .Não me queres contar? E foi o que Sara fez minutos mais tarde.Porquê!? . o castigo deve ter sido óptimo.E tu vais deixar a vida por causa dele? 138 . . o local escolhido para comemorar a sua liberdade foi o bairro do Intendente.CAPÍTULO VIII Era a primeira vez desde há semanas que Sara podia sair de casa sem a supervisão da mãe ou os constantes telefonemas do pai. – Desaparecida – disse Milene abrindo-lhe a porta do quarto. do acidente que provocaram em plena auto-estrada. – Tu e o Marco andam mesmo a namorar ou é só uma brincadeira? . Contou a Milene todos os detalhes do louco fimde-semana que passou ao lado de Marco no Algarve.Posso entrar? .Bem. . .Ele disse que queria que eu largasse a vida – respondeu Sara com um largo sorriso. os seus passos rápidos em direcção a uma pensão que habitualmente frequentava não deixaram dúvidas de que o seu maior desejo era reencontrar uma pessoa que lhe era muito especial.A minha mãe é forte! Ela vai saber esquecer esse Sérgio num estalar de dedos. não?! . . a forma magistral como se livrou da presença do futuro padrasto lá em casa. Para além disso. Estava animada. a reacção dos pais quando regressou a Lisboa. e por fim. .

. Que tal a Sara ter mentido!? . .A sério! A bófia veio.Já ouvi falar – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. – Mas também gosto de sexo e ele está sempre longe.. . Houve tiros e tudo… . o marido seguiu-a e apanhou-a numa pensão aqui perto. Pelas minhas qualidades – respondeu Sara arrancando uma ruidosa gargalhada de Milene. Não sei se vou conseguir ficar um mês sem ir para a cama com ninguém. 139 .O ex. levou o pessoal para a esquadra e a gaja nunca mais apareceu por estas bandas.Qual? .Não passas de uma criança! Ainda tens muito que aprender. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar.Eu prometi ao Marco que iria deixar de me prostituir. . – Ela pode ter muitos defeitos. . namorado da minha mãe disse que eu era ninfomaníaca! Sabes o que isso é? . cada minuto era difícil de suportar e a certeza de que nunca mais o voltaria a ver destroçava-lhe o coração.O que mais pode ter acontecido? . – O que foi? Achas piada? . não é?! .Tu acreditas!? .Eu acho que é possível um homem gostar de mim pelo que eu sou. . Tinham-se passado três dias desde o término do seu namoro com Sérgio. .Não – riu-se Milene. Procurou um psicólogo e descobriu que era ninfomaníaca.Não vês que o gajo só te anda a fazer de otária? Ele anda com todas as gajas que lhe aparecem pela frente ou pensas que um idiota como ele só se contenta com uma miúda de dezasseis anos?! Tu vais largar a vida. Mas há uns meses atrás a Arlete encontrou-a na rua e ela disse-lhe que se tinha curado. . Atendida que estava a segunda cliente da tarde. Não sejas parva. – Eu gosto dele – continuou Sara. mas ele vai continuar com a dele.Porque não!? Se ele quiser. mas não sei se vou conseguir manter a minha promessa.Tu não acreditas mesmo que ele gosta de mim. Madalena despediu-se dela com um sorriso forçado e voltou a encostar a porta da sua floricultura.disse Sara atirando-se contra a cama.Mas só tem um problema… . Milene sorriu. Porque é que tudo terminou daquela forma tão abrupta? Porque é que uma história de amor que tinha todos os ingredientes para dar certo evaporou-se no ar sem qualquer razão aparente? Por mais justificações que Madalena tentasse encontrar. . Vinha muitas vezes ao bairro porque dizia que o marido não a conseguia satisfazer na cama.A Sara não iria inventar uma coisa dessas – respondeu Madalena limpando as últimas lágrimas da tarde. mas eu sei que ela não iria mentir sobre uma coisa tão séria.Tu só pensas nisso. já reparaste?! . Cada lembrança dele era um suplício. – Precisas é de um colete-de-forças. largo mesmo.A sério? – riram-se as duas. Foi o maior escândalo.Então acho que se calhar também preciso de um psicólogo. – Conheci uma gaja que também era assim.Tens mesmo a certeza que foi isso que aconteceu? – perguntou Alice quando ela lhe contou a cena grotesca que vira na sua casa de banho. Então um dia. . nenhuma delas lhe trazia de volta a paz de espírito.Não sei.

a verdade é que Jorge não podia ter ficado mais contente pela notícia. a Sara já não é nenhuma criança de colo. – Por mais que ela me odeie.Tudo bem – disse Alice segurando-lhe as mãos frias.Eu não sei! Eu não sei se com a Sara não será pior. eu não posso abandoná-la. não foi um boato. Lena! Não podes deixar que ela assuma o controlo da situação e te faça a vida num inferno. . apesar de não quereres aceitar a realidade. Não foi imaginação.Bem! Vamos pestinha?! Senão perdemos o voo. deixaram muito a desejar. Ele não agiu sozinho. será que não entendes?! . – Façam uma boa viagem – disse Madalena observando a animação do filho quando Jorge o foi buscar. Se o Sérgio foi culpado por tudo aquilo que aconteceu.Sabes bem que não posso deixar a Alice a tomar conta da floricultura sozinha. . O Verão trouxe novamente consigo os dias de sol e de calor.Não podes deixar que ela continue assim. Ainda estava triste. algo que ele aceitou de bom grado. uma. e os pais. .Lena. mas principalmente o familiar. eu não sei! O Sérgio não parece ser desse tipo… .Como assim?! .Não sei! Até quando conseguir… – respondeu Madalena encolhendo os ombros. – Acabou! Agora só quero esquecer essa história e seguir em frente. É só isso que eu quero.E o que é que queres que eu faça!? Eu não posso pô-la para fora de casa tal como fiz com o Sérgio. – O Sérgio está fora da tua vida. foi a verdade… . Alice! Eu vi com os meus próprios olhos ele a agarrá-la.Mas eu tenho a certeza que tu e o Dani se vão divertir imenso sem mim – afirmou Madalena afagando os cabelos do filho.Obrigado – respondeu o advogado rasgando alguns olhares à ex. . . Ela é a minha filha – respondeu Madalena. . . e embora nunca tivesse sabido o verdadeiro motivo para que Madalena e Sérgio se tivessem separado. desesperada. Ela sabia muito bem o que estava a fazer. mas e a Sara? O que é que vais fazer com ela? . por mais que me faça a vida negra. cientes de que a filha precisava de um castigo. 140 .Às vezes os pais têm que abandonar os filhos para que eles aprendam a dar-lhes valor. mulher.Não digas nada – respondeu Madalena assoando-se com um lenço de papel.Ele estava a obrigá-la.Eu vi. Apenas Daniel foi convidado a acompanhar o pai numas pequenas férias a Madrid.Lena. Agiu nas tuas costas e traiu-te também. Sara não teve direito a férias. . .. E também tem a Sara… . e mesmo se a tivesse obrigado a ir para a cama com ele. os seus olhos e a sua expressão facial não mentiam. – Era bom se pudesses vir connosco.E até quando vais continuar a viver nesse inferno? . mas ao contrário dos anos anteriores. duas ou três vezes. Quem sabe ela não voltaria a vê-lo com outros olhos? Quem sabe ela não perceberia que durante meses o seu maior desejo era voltar para casa e para o casamento de ambos? De qualquer maneira.Eu sei – disse Jorge segurando malas do filho. não custava nada sonhar com essa possibilidade.Sinceramente não sei o que te dizer. O seu comportamento escolar. – De qualquer maneira foi só um convite. ela não te contou nada. . . privaram-na de qualquer tipo de divertimento que não se cingisse a Lisboa. deixa-me que te diga que ela também foi.

Olha quem é ele – exclamou Arlete.O. ao ver à sua frente a figura de Marco. Nessa altura. Assim sendo. encontrar a visão de Sara sentada na mesma mesa que Milene e outros dois homens desconhecidos foi inevitável.Tens quase idade para ser minha avó. marido partira sem deixar rastro. De férias. Sozinha. Milene apressou-se a socorrer a sua amiga temendo que Sara tivesse desmaiado com o impacto do golpe. Madalena fechou a porta e lançou um longo suspiro.Diz antes que eu perca a minha paciência… .O.A tua namoradinha é?! .Porta-te bem! Não faças asneiras e obedece ao teu pai. queres tu dizer! Diz lá! Aonde é que a Sara se meteu? . um dos delinquentes mais temidos do bairro. 141 . quase sempre ao príncipio da noite.Tchau. fugia para o quarto sem dar quaisquer explicações acerca do seu desaparecimento. .Tem calma – respondeu Arlete assustando-se com a agressividade do jovem. vários homens que se encontravam no bar insurgiram-se a Marco por aquele acto de violência no mínimo gratuito. . Madalena tentou impor horários rígidos e perguntou sempre para onde ela tinha ido. – Não estavas no Algarve? A resposta do jovem foi dada com um valente soco no estômago que a fez cair e derrubar uma cadeira das inúmeras cadeiras colocadas em frente ao balcão. . Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. – Tchau. Sem ninguém para a amparar e sem certezas do comportamento da filha que a cada semana piorava gradualmente. .k! Boa viagem. depois de se ter desviado de várias pessoas e retirado algumas cadeiras da sua frente.. minha puta?! . . Não valia a pena pois Sara chegava a casa cada vez mais tarde e também recusava-se a passar os fins-de-semana com o pai desde que soube que fora ele o responsável pelo término da família.Hei! Vê lá. – Ela está lá dentro com a Milene. ela desistiu de tal coisa. Duas semanas. assim como a cólera que se apossou dos seus olhos. – Até que enfim apareces por estes lados… . A resposta da prostituta trouxe a Marco o ímpeto que ele precisava para entrar no bar sem quaisquer cerimónias.k – respondeu Daniel despedindo-se da mãe com um longo abraço seguido de um beijo na face. Depois de um breve aceno e de se ter assegurado que o carro do ex. – Animal – gritou ela voltando-se para Marco. e essa certeza tornou-se incontornável quando pela primeira vez a filha passou a noite fora de casa. Nas primeiras vezes.Sai-me da frente. – Ai estás aqui. Sabes bem que as duas não se largam. Arlete – respondeu ele empurrando-o contra a porta do bar. raras eram as vezes que Sara parava em casa. Depois disso. Iria passar duas semanas com Sara na mesma casa.Marco – exclamou Sara surpresa por o ver ali. não havia absolutamente nada que Madalena pudesse fazer para voltar a controlá-la.Está bem. enquanto no chão. . mas com o passar do tempo e com a perca de forças. – Ligamos assim que chegarmos ao hotel. uma das prostitutas mais antigas do bairro. mãe! . e quando voltava. puto! Tenho quase idade para ser a tua mãe.

– Chama a bófia que eu tenho a certeza que todo o pessoal que está aqui vai adorar. nada lhe pareceu importar.Não a vais levar daqui – adiantou-se Milene puxando a amiga contra si. Mas ela não merecia nenhuma dessas jóias e muito menos esse dinheiro.. Sara enganou-o. pois os seus cinquenta e dois anos de vida deram-lhe a sabedoria necessária para saber que com homens como Marco não era permitido brincar. a culpa é tua! Arlete não podia estar mais segura das suas palavras. perdão e humanidade. – Eu avisei-te para afastares a Sara daqui – afirmou Arlete compondo o decote do seu vestido. Sem que ninguém o impedisse. logo ele que constantemente lhe enviava jóias e dinheiro através do correio.Cala-te! Só dizes merda tu… – respondeu Milene encontrando a sua mala sobre a mesa. Milene mordeu os lábios e sentiu o sangue fervilhar-lhe nas veias por não ter tido a coragem de livrar a melhor amiga das garras daquele homem tão perigoso. – Pensavas o quê?! Que eu não ia descobrir nada? Que não ia saber que me andavas a meter os cornos com outros? Pois fica sabendo que aqui dentro deste bairro eu tenho informações diárias.Eu?! . . Sara – exclamou ele alcançando-lhe os braços e fazendo-a levantar-se do chão quase à força. Marco levou Sara pelo braço e deixou todos os presentes estupefactos com a cena que tinham acabado de assistir. traiu-o e fê-lo sentir-se a chacota do bairro.Ai eu é que digo merda!? Tu melhor do que ninguém sabe do que esse Marco é capaz. eu chamo a polícia! . Ele não conhecia limites. – Agora ela vai apanhar e bem que é para aprender a não meter cornos num traficante de droga.Sim. E ao saber dessa verdade irrefutável. Ou ainda achas que isso não é chular? Fica quietinha mais é que é para não sobrar para ti. Mas não te esqueças de uma coisa. Se ela morrer.Andas a chular sim que eu sei! A miúda trabalha. a primeira a ir em cana és tu… .Eu não ando a chular ninguém – afirmou Milene não se deixando intimidar pelas palavras de Marco.Levanta-te daí. Mesmo tendo prometido que iria ser só sua.Ai chamas a polícia?! Então chama que eu quero ver – respondeu Marco enfrentando a fúria da prostituta. – Vaca – exclamou ele encostando-lhe o rosto à parede. Se chamares. Na verdade.Se levares. . enquanto pontapeava e soqueava Sara. abre as pernas e tu ficas com metade dos lucros dela. . A única coisa que merecia era o seu desprezo e também a sua ira. Nessa altura. . Num beco escuro do bairro. Sei tudo o que se passa… 142 . ele regressou propositadamente a Lisboa para tirar a história a limpo. minha cabra! Ou achas que ninguém vai contar que andas a chular uma miúda de dezasseis anos? . nem sequer a remota possibilidade de ser apanhado por alguns dos seus inimigos ou então pela polícia. – Ainda temos muito que conversar. .Queres uma aposta como vou? . não tinha nada a perder e há muito que deixara de conhecer palavras como: compaixão. tudo o que ele queria era extravasar o ódio que sentiu quando lhe foi informado que Sara continuava a prostituir-se com qualquer homem que lhe aparecesse à frente. lembraste?! Partiu-te toda há uns tempos atrás e vai acabar por fazer o mesmo com essa pobre coitada. Tu.

com quem e muito menos a fazer o quê. sua cabra?! .Já vi que és daquelas que gosta de apanhar. a certeza que tinha passado a noite inteira em bebedeiras e outros actos menos lícitos. que se lixasse tudo o resto. . a jovem adormeceu e só acordou às duas da tarde com a agradável surpresa de que a sua mãe tinha saído para trabalhar apenas deixando um bilhete sobre a mesa da cozinha: “ Tens o almoço no forno”.Já estou a perder as forças. ela sabia-o. Não queria explicar a Madalena onde tinha passado as últimas dezasseis horas. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara abriu a porta de casa.Então fica assim combinado – respondeu Marco segurando-lhe o queixo com força. mas não.O problema é mesmo esse! Ela sente que tu estás a perder as forças e vai ficando cada vez pior. Era com ele que ela sonhava todas as horas. . – A partir de hoje só apanhas de mim. Tinha adormecido cansada de tanto esperar. . Mas nem isso pareceu importar quando ele a tomou nos braços e fê-la sentir-se nas nuvens. . mas no entanto era o único que a fazia sentir-se genuinamente desejada e especial. . pois tinha nódoas no corpo que podiam comprovar essa teoria. 143 . pois na altura a única coisa que queria era cair na cama e esquecer-se de todos os acontecimentos menos felizes que rodearam a sua noite. Ouviste!? . Não. Conseguido esse milagre.k. surpreendentemente ou não. Marco podia não ser o homem mais romântico do mundo. encontrava-se deitada no sofá da sala tapada com um pequeno cobertor. – Faz qualquer coisa. Ele podia espancá-la à vontade pois nem mesmo isso iria mudar aquilo que ela sentia por ele.Não – respondeu ela voltando-se para ele completamente marcada nos braços e nas pernas. – Andas a gozar com a minha cara. mas nos olhos. Ela estava realmente a rir-se e aquilo não era uma alucinação sua.Não sei como é que consegues aguentar uma situação dessas – foram as palavras de Alice quando Madalena lhe contou que mais uma vez a filha não tinha dormido em casa. – Só gostei de saber que tens ciúmes de mim. Ainda pensou estar enganado. mas nem isso a demoveu do intuito de chegar ao quarto e trancar-se a sete chaves. .O. Assim sendo. foi a pergunta que Marco se fez quando ouviu um ligeiro risinho proveniente da boca de Sara. Sara percebeu. . era com ele que ela desejava passar os dias. No corpo ainda trazia as marcas deixadas por Marco.Ouvi – respondeu Sara entregando-se de corpo e alma a um homem que minutos antes a havia espancado brutalmente. Foram esses os motivos que a fizeram caminhar pé ante pé pelo corredor e fazer todos os possíveis para não acordar a mãe que.E gosto mesmo! Mas só gosto de apanhar de ti. . Os beijos.Impressão sua ou ela estava a rir-se. as noites e a quem dedicava todos os seus sentimentos mais profundos. os abraços e o toque das suas mãos foram muito mais marcantes do que os murros e os pontapés que ele lhe ofereceu.Ouviste?! .O que é que queres que eu faça? .Sei lá! Enfia-a num colégio interno – respondeu Alice terminando os arranjos de margaridas sobre a bancada da floricultura.

.No braço. mas não estaria também ela a destruir a vida da mãe e a impedir-lhe de ter uma família normal? Enquanto pensava no assunto.Depende! Olha que o Daniel não te dá trabalho nenhum. As marcas no corpo de Sara não pareciam ser fruto de uma simples queda nas escadas rolantes. bati. . já proibi. . O jantar foi silencioso e não constituiu qualquer surpresa para Madalena e Sara.Mais cedo ou mais tarde ela iria ter que saber a verdade. – Já briguei. – Mas se me der só metade do trabalho que a Sara me está a dar. .Essa nódoa – respondeu Madalena tentando alcançar-lhe o pulso. . minha amiga! Realmente não gostava de estar na tua pele. Caí nas escadas rolantes. eu juro que já vou ficar satisfeita. Pareciam antes ter sido feitas por alguém e propositadamente. E não. E só de imaginar essa ideia. . o coração de Madalena disparou de medo.Ontem quando estava a correr para apanhar o metro.Ainda – respondeu Madalena caminhando em direcção à sua secretária. castiguei. 144 . Embora não tivesse ficado minimamente convencida com aquela desculpa esfarrapada.Eu sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos.Tu é que fizeste bem em não ter filhos – disse Madalena arrancando-lhe uma leve risada.O Jorge!? Achas mesmo que eu posso contar com ele? . . mas ela simplesmente não me houve. Por sorte. as duas afastaram-se. O que teria mudado tanto? Meses antes. Subitamente pareceu-lhe ver uma nódoa negra e um pequeno arranhão.O Jorge? O que é que ele tem a dizer sobre isto tudo? .Então o que é que eu faço? Diz-me porque eu já não sei – discursou Madalena largando os braços.Eu tenho pena de ti. Madalena achou por bem não levantar mais questões. Madalena tornou a levar uma colher de sopa à boca e sem querer lançou os olhos ao braço da filha. desesperada. Sara disse a Madalena que havia sido ela a destruir a sua vida e a possibilidade de ter uma família normal.Filho criado trabalho redobrado.. e agora olha só no que é que deu?! . Mas a verdade é que pela primeira vez os seus sentidos gritaram-lhe para estar alerta e para não ignorar as evidências. não é? Pelo menos a ele a Sara deve ter algum respeito. sempre fiz de tudo para que ela não descobrisse o sacana que o pai dela era.A quem o dizes. fiz tudo o que estava ao meu alcance. – E talvez a culpa tenha sido minha. .Acho que já nem ao pai ela respeita! Desde que ele lhe contou a razão do nosso divórcio ela nunca mais quis passar o fim-de-semana com ele.Caíste aonde!? . – O que é que tens aí no braço? . já que havia pelo menos cinco dias que mãe e filha não trocavam qualquer palavra no interior daquela casa. . o quê?! . Sara desviou-se a tempo dizendo: – Caí. . Aos poucos e poucos. – Ele é o pai.Devias – respondeu Alice furiosamente. Simples bons dias e boas noites não contavam para aquilo a que se poderia chamar de uma conversa interessante. embora a camisola de Sara estivesse estrategicamente colocada para os tapar. Sempre a quis proteger. deixaram de ter interesses comuns e viam na outra a encarnação do pior pesadelo.

Eu e o Daniel divertimo-nos imenso. Assistimos a um treino e no final até conseguimos autógrafos de alguns jogadores. .Eu sei que o futebol nunca foi o teu forte. Claro que tenho. . demos uma escapadela a Barcelona. Jorge reparou enquanto a seguia pelo corredor. – Estou na mesma. . Estava mais magra. eu já vou indo! Ainda tenho que organizar algumas papeladas para amanhã.…portou-se bem. .Não?! Aonde é que ela foi? .Estás mais magra – ele não resistiu a fazer essa observação. .discursou Jorge.Bem – mentiu Madalena depositando os presentes sobre o sofá.Tens a certeza? – perguntou Jorge encontrando na voz da ex. Jorge e Daniel regressaram de férias trazendo consigo caras felizes e também vários presentes.É um estádio de futebol. Do Real Madrid.Dois dias mais tarde. . agradeceu-lhe com um sorriso e permitiu que ele a acompanhasse em direcção à sala. . .E esse estádio é…?! . Pode ser que aos poucos e poucos ela comece a entrar nos eixos.Muita praia! Visitámos monumentos. . 145 .Lá isso é verdade.Tenho. . .k! Então eu deixo os presentes e depois entregas. O Dani depois mostra-te.Ela não está em casa? Gostava de falar com ela e entregar-lhe os presentes. .Estou óptima. . animado. . Quer dizer. não sei – respondeu Madalena cruzando os braços.Está bem. Tenho uma audiência que adiei e que agora não posso faltar. . . Foi uma pena tu e a Sara não nos terem acompanhado. .Claro.O. . quase todos oferecidos a Madalena. não é que ela mereça. mulher uma certa hesitação.Esperemos bem que sim. .Mas o Daniel estava ansioso para conhecer.A Sara não está em casa. sabendo bem que havia sido o ex.Bem.Impressão tua – respondeu ela compondo-se na sua camisola azul. mas ainda assim ele manteve essa impressão guardada a sete chaves para não ser inconveniente. . .Ainda bem então. .Hã… claro – respondeu Madalena forçando um sorriso. E a última. marido o principal impulsionador de todas aquelas compras. – Como é que estão as coisas por aqui? . E hã.E tu? Como é que estás? . .Ai é?! Fizeram o quê? .Deve ter saído com amigas. conhecemos o estádio Santiago Bernabéu… . mas mesmo assim não consegui resistir.Está bem.Acompanhas-me à porta?! Madalena acenou que sim e em seguida conduziu-o em direcção à saída. museus.A Sara? Como é que ela se portou nestas semanas? . .

Assim sendo. já reparaste?! .Para quê?! . voltou ao quarto e respirou fundo sentindo-se grata por ter conseguido sobreviver àquela autêntica prova de fogo. Olhou-a mais uma vez. algo que fez assim que saltou da cama e se trancou na casa de banho. Mas não.Exames de quê?! . Jorge! Vai! A expressão dura da ex.Não Jorge… . o estômago apertado e uma vontade descomunal de vomitar. . . agradeceu a passagem cedida pela assistente 146 . Fazemos os exames juntas! E assim foi. mas ultimamente tenho sentido muitas saudades tuas… . – Faço sempre esses exames de seis em seis meses para não ter nenhuma surpresa desagradável. mulher apenas trouxe uma certeza a Jorge. .Exames ginecológicos.Oras! Para saber se está tudo bem – respondeu a prostituta calçando as suas sandálias sentada na cama. – Marquei uns exames para a semana – disse-lhe Milene ainda naquela tarde. Morreu ao longo dos dezasseis anos de casamento que mantiveram. naquela tarde. Sara acordou mal disposta. Talvez alguma coisa que comera na noite anterior? Ou seria antes a ressaca por ter bebido duas garrafas de whisky numa festa? Sem conseguir resposta às suas perguntas. na riqueza. e essa certeza era de que não havia a mais remota possibilidade de ela o aceitar de volta. Depois disso. Preencheram as fichas oferecidas pela recepcionista e mais tarde escolheram duas cadeiras discretas para se sentarem. respeitarem-se e nunca se abandonarem. Infelizmente Jorge não conseguiu encontrar essa mulher. mas… eu ainda acho que existe uma possibilidade de voltarmos a ser uma família outra vez. Tenho sentido muita falta de ti. Depois disso.Marca no mesmo dia. foi inevitável.Não me podes marcar os exames?! Ao ouvir o pedido de Sara. da nossa casa… . não havia muitas pessoas para realizar exames e Milene foi a primeira a ser chamada pela assistente de serviço. fosse na pobreza.Nessa altura. – Tenho sempre que fazer tudo por ti.Por favor. e tentou encontrar nela toda a doçura e inocência que ela detinha quando se casaram e prometeram diante do altar amarem-se. . Tinha a cabeça à roda. na saúde e na doença. Raios.Lena… . Sem cerimónias. provavelmente no teu lugar também não acreditaria. ela despediu-se de Sara e entregou-lhe os seus pertences para que os vigiasse. ao sangue. a jovem puxou o autoclismo e manteve-se inerte no chão durante vários minutos. Eu vou contigo.Esta casa já não é tua – respondeu ela calando-lhe os argumentos. Nunca se havia sentido tão mal em toda a sua vida e nem sabia sequer o que teria causado tamanha indisposição.Podes não acreditar.foi a resposta desesperada de Madalena. Milene revirou os olhos e lançou um pesado suspiro. E tu também devias começar a fazer… . Sara e Milene deram entrada na clínica onde a última costumava fazer exames periódicos. à urina… ao HIV. Por sorte. Na primeira manhã de Agosto. não lhe restou outra alternativa a não ser afastar-se da porta e deixá-la especada sobre o alpendre. Jorge arranjou forças para abrir a porta e também para dizer algo que já havia ensaiado várias vezes durante as duas semanas que passou em Madrid: . pois ela já não existia. Na semana seguinte. dos miúdos.Eu sei que tens todas as razões para não acreditares no que te estou a dizer.

. Por sorte. Fisicamente não custou.Vai – ordenou Milene empurrando a jovem pelas costas quando lhe pressentiu algum nervosismo.Escuta aqui – exclamou Milene apontando-lhe o dedo ao rosto. deixando Sara a olhar para o relógio pendurado na parede. Só espero que isto não demore. . Quinze horas e trinta e cinco minutos.Coitado do velho! Deve ter ficado com os cabelos em pé quando lhe disseste isso.Tem calma! Eu disse que é só às vezes e é só com o Marco. nunca! Nem em sonhos! . os exames não demoraram a ser feitos. .Sr.Normal! O de sempre – respondeu a prostituta vestindo o casaco às pressas. . Porque é que ele não se cala.ª Sara Albuquerque!? – chamou a assistente do corredor.Pois eu tenho medo. mas psicologicamente. .Mas porque é que temos que esperar oito dias até os exames ficarem prontos? . . e por sorte. por mim estou-me a lixar. eu cuido-me bem. – És parva ou fazes-te?! .Perguntou-me se os meus pais sabiam que eu tinha vindo fazer um teste de HIV… .O que é que querias que ele te dissesse? É claro que te iria pregar um sermão. por favor! . pá – gritou Milene chamando a atenção de algumas pessoas que iam a passar na rua.Venha comigo. .E o que é que tu respondeste? . pensou. .Nem que tivesse sido só uma vez e muito menos com o Marco. Mas não contes comigo para te amparar em todas 147 . Sara conseguiu desaparecer do consultório com a clara certeza que não voltaria ali a pôr os pés tão cedo. – Não custa nada. – É sempre assim. – Olha lá – exclamou ela segurando-lhe o braço com força. disse-lhes a recepcionista.Que eles até me tinham aconselhado a fazê-lo – respondeu Sara às gargalhadas.Não tens medo dos resultados? . – Tu não me digas que tens andado a trabalhar sem preservativo? . – Então?! Como é que foi? – perguntou ela assim que Milene pisou a sala de espera. . . Podem vir buscar os exames daqui a oito dias.Só deves ter medo se não te cuidares. – Se estiveres numa de estragar a tua vida.Sei lá – respondeu Milene acendendo um cigarro assim que viraram a esquina. . – Quer dizer… às vezes com o Marco esqueço-me… . O silêncio de Sara deixou Milene alerta. fazer coisas estúpidas só para provar que és a maior e que ninguém pode contigo. enquanto ouvia os sermões do médico de serviço acerca da sua conduta sexual não muito aconselhável e da sua tenra idade para realizar exames como àquele (HIV). . – Aquele médico era um otário – resmungou a jovem à saída da clínica.Não! Ao contrário de certas malucas que andam para aí.Porra.Tem calma… .É claro que não – respondeu Sara desviando-se bruscamente. Sara sentiu-se incomodada.Sou eu – respondeu Sara saltando da cadeira. pensou. Sem preservativo.e desapareceu com ela pelos corredores da clínica.

não só por ter tido relações sexuais sem qualquer protecção. Agora já não há como voltar atrás. 148 . Nessa altura. e se queres saber.Não tens nada? . E se estivesse doente? E se tivesse apanhado o HIV? Eram as perguntas que lhe assombravam os pensamentos todas as horas do dia. as duas amigas dirigiram-se à recepcionista e aguardaram que ela procurasse nos arquivos dois grandes envelopes castanhos. nem paciência também! . Os oito dias que se seguiram foram longos. Mais uma vez. lembraste?! .Pensasses nisso antes de te teres armado em parva. Mas ninguém parecia estar minimamente preocupado consigo e também já não havia como voltar atrás. – Não sou a tua mãe. Se não menos elas parassem um pouco só para lhe perguntar o porquê de ter tomado as decisões que tomou. Sara hesitou. Se ao menos as pessoas fizessem a mínima ideia de como ela se estava a sentir miserável.O que foi?! Tenho Sida? . . que sem conseguir aguentar tanta pressão. .Não estou chateada – respondeu Milene apressando os passos em direcção ao metro mais próximo. Por fim. não lhe restou outra alternativa a não ser voltar para casa e dar-se conta da grande asneira que tinha cometido. começou a sentir a sua cabeça a andar à roda. mas também por levar uma vida desregrada cheia de más companhias e outras histórias escabrosas para contar. – Dá-me cá esta merda – disse Milene arrancando-lhe o exame das mãos. para umas coisas és corajosa. As palavras de Milene permaneceram nos ouvidos de Sara quando ambas entraram na clínica onde estavam depositados os exames. – Estou limpa – exclamou Milene depois de ter analisado os seus exames com a máxima atenção. Recebidos que estavam os exames. as pessoas na rua pareceram-lhe desfocadas e as suas mãos suaram como se estivessem a ser encharcadas por uma torneira aberta. agora para outras… Os momentos que se seguiram foram expectantes. Por momentos. – Estás lixada – exclamou Milene aproximando-se dela. quando finalmente chegou a altura de receber os exames. extenuantes e stressantes. as duas amigas voltaram a sair à rua no mais completo silêncio. Um no nome de Milene dos Santos e o outro de Sara Soares Albuquerque.Não! E tu? Não vais abrir o teu? Ao olhar para o envelope que tinha de encontro ao peito. sentou-se num pequeno pilar junto ao edifício da clínica.Milene… Tarde demais foi o que Sara percebeu quando ao chamá-la pela última vez Milene pura e simplesmente desapareceu sem deixar rastro. – Ainda estás chateada comigo? . . Não houve uma única noite em que Sara tivesse conseguido pregar os olhos enquanto esperava pelo resultado das análises.Não! Pior! Estás grávida. – Quer dizer.Não consegui parar de pensar no resultado dos exames! Estou a morrer de medo. mas principalmente para Sara.as tuas merdas porque eu já não tenho idade para isso. encheu-se de coragem e tornou a procurar Milene combinando com ela um local onde se pudessem encontrar. O que está feito está feito. tanto para Milene.

. .E dói fazer um aborto?! . . – O que é que eu faço? – repetiu Sara.Acho que vou falar com o Marco primeiro.O meu maior erro foi ter-te dado ouvidos naquele dia em que me foste procurar para ser prostituta. queres ver! Porque é que achas que até hoje ele nunca foi pai? Sorte. minha cara – exclamou Milene segurando-lhe a face com força. .Então se for. Aonde é que eu estava com a cabeça. – Tu ainda não percebeste a gravidade da situação!? Estás grávida. não é?! .Não me vais abandonar agora.Eu tenho a certeza que é. – O pior é que tu nem sabes quem é o pai. é só pedires o número de uma clínica a qualquer prostituta lá do bairro.Bem. . Garanto-te que números não te vão faltar.O que é que foi? Ainda te estou a tentar ajudar e tu vens-me com essas cenas?! . pelo menos não tenho Sida. – A única vez que fiquei grávida tive a criança.Ele não faria isso – murmurou Sara não conseguindo esconder os seus olhos assustados..Não acredito – murmurou Sara arrebatando-lhe o envelope das mãos. não faria. Não te fiz o filho.Já foi teu cliente?! 149 . Depois disso. não é?! . rapariga! Grávida! Vais ter um bebé. entre Sida e gravidez venha o Diabo e escolha.E se não for? . Eu conheço-o. . Vai confiando nisso que daqui a nove meses vais ver o erro – respondeu Milene levando uma das mãos à cintura. . abri as pestanas e nunca mais me armei em parva de engravidar outra vez. . não?! . não?! – respondeu Milene apressando-se a acender um cigarro para acalmar os nervos.Não vai valer de nada. contar à tua mãe que estás grávida e decidir se queres ou não ter o bebé. . .Bem. meu Deus? Era certo e sabido que iria acabar por sobrar para mim. já te disse! Ele não te vai ajudar. . .O que é que eu faço? Silêncio foi a resposta de Milene. . – Não pode ser. .Só acho que sabes mais coisas do Marco que eu não sei. .Às vezes parece que o conheces até demais – afirmou Sara interceptando-lhe os passos. . – A luz é que vais chegar a casa.É natural! Já o conheço há muitos anos e ele também já foi meu cliente. estás lixada! Ele não vai assumir a criança e ainda é capaz de te mandar fazer um aborto. Eu sabia! Tipo sexto sentido estás a ver?! .Então o que é que queres fazer? Um aborto? Se quiseres fazer isso.Será que os exames não estão errados? .Olha aqui a luz.É! Devem estar mesmo errados. .Só pode ser o Marco.Eu não posso fazer isso! A minha mãe iria matar-me. . .Ui. .Só preciso de uma luz.Sei lá! Nunca fiz nenhum – respondeu Milene voltando a largar-lhe o rosto.Eu sabia que esta cena dos exames iria dar merda.Ai agora perguntas-me a mim? Eu sei lá o que é que fazes! Não tenho nada a ver com isso.

O que é que tens? . E este ano nem penses que te vou dar descanso! Muito pelo contrário. e a sua vida nunca mais teria paz e sossego. principalmente a sua mãe. . . que mais alternativas lhe restavam? Tal como Milene lhe dissera horas antes.Se não andasses na rua até tarde não apanhavas doenças. Vou andar sempre em cima de ti para me certificar que não andas a faltar às aulas. – E não bebas a água do frigorífico! Só te faz mal à garganta. perguntou-se. Fariam um escândalo. . e principalmente. Na verdade. Com certeza que nenhum deles iria compreender. Sara chegou a casa antes de o anoitecer. Pensar no que fazer. ou melhor. Ele não presta.Não é depois! Vais ter que tratar desse assunto o quanto antes para não perderes vaga. .Um namoro muito torto se queres que te diga – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. não é!? O mal já está feito. – Daqui nada entramos em Setembro… – disse-lhe Madalena enquanto provava o molho do frango na panela.Sim – respondeu Milene revirando os olhos quando percebeu que tinha falado demais. não estava doente e nem nada que se parecesse. .Gripe.Eu sei – murmurou Sara limpando as tímidas lágrimas que lhe caíram dos olhos. Sara aceitou os comprimidos com alguma cautela.k. como fazer.Porque é que nunca me contaste isso antes? . mas quando a mãe se voltou para o fogão. . O Marco nunca te vai ajudar se resolveres ter essa criança. muito pelo contrário. – Escuta Sara. nem como namorado. 150 . mãe… – murmurou a jovem servindo-se de um copo de água. . não tinha idade para arranjar um emprego decente.Estou doente – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. a única opção que lhe restava era continuar a pensar.O. sobre os ombros dos teus pais porque tu nem sequer tens idade para arranjar um emprego decente. Pela primeira vez naquela semana.Porque nunca veio ao caso! Tens a noção da quantidade de clientes que já tive? . Grávida aos dezasseis anos de um homem que era tudo menos de confiança e com um grande dilema nas mãos: Contar ou não a verdade aos seus pais.Mas o Marco é diferente! Tu sabes que nós namoramos. . O que é que iria fazer dali por diante. quando fazer. – Vais ter que meter os papéis da matrícula na escola. e pela expressão facial marcada não foi muito difícil perceber que tinha também passado a tarde inteira a chorar e a lamentar-se da sua triste sorte. nem como homem e muito menos com pai. Diante daquela situação no mínimo catastrófica.Hã… já chegaste – disse-lhe a mãe ao vê-la a entrar na cozinha. podes crer que todas as responsabilidades vão cair sobre os teus ombros. Se resolveres ter o bebé. . – Que milagre! Até para estranhar. para se sustentar e muito menos sustentar uma criança que não foi de todo planeada ou desejada. . Mas por outro lado.Agora não adianta chorar.Depois vejo isso.. A sua única doença era não saber o que fazer quando todos descobrissem que estava grávida. eu só quero que abras os olhos e deixes de ser ingénua. ela não tinha ninguém a quem recorrer. . . ela guardou-os discretamente no bolso das calças.Toma – disse Madalena atirando-lhe uma caixa de compridos.

Algumas alertaram-na para o destino cruel que a esperava.Por acaso! Olha que até hoje não tenho tido muitas razões de queixa. Que estúpida! Ainda não dá para ver nada.Imagina se não andasse – respondeu Madalena voltando-se para o fogão. . estão a ouvir?! – resmungou o empregado quando ouviu as gargalhadas das três prostitutas. meninas?! ..O mesmo que elas.E tu. – Sara. Quem sabe Marco até não fosse gostar da ideia de ser pai. .Uma imperial também! De qualquer maneira não há nada melhor nessa espelunca. mas o simples facto de saber que ele existia e que estava no interior do seu ventre. não seria uma loucura tão grande imaginar um desfecho risonho para aquela verdadeira história de terror. tal como se era de esperar. Não sabia muito bem o que era. e outras ainda. trouxe-lhe uma calmaria difícil de explicar. .Vou para o meu quarto. Imaginou que ele a fosse tomar nos braços.O que é que vão pedir. – Estás grávida.Nem pensar – interferiu Arlete.Tu já andas sempre em cima de mim.Não te tranques lá dentro! O jantar está quase pronto.Ui! Clientes é o que não te faltam… – riu-se Milene.Acho que já me habituei à ideia – respondeu Sara observando a chegada do empregado de mesa. foram as palavras que Sara proferiu baixinho enquanto examinava a sua barriga à frente do espelho do quarto.A velha tem razão – concordou Milene. se for rapaz chama-lhe aquilo.Velha é a tua mãe – defendeu-se Arlete ameaçando uma bofetada enquanto Milene e Sara se riam a bom rir.Hei! Isto aqui é um estabelecimento de primeira.Para mim pode ser uma imperial – respondeu Arlete abanando-se com a mão. – Está um calor de rachar. Mas de facto. Sara caiu na cama e fechou os olhos tentando imaginar a reacção de Marco. No fundo. passou-lhe essa ideia maluca pela cabeça enquanto enfiava uma almofada por debaixo da camisola e se imaginava com nove meses de gestação. e no fim. Milene? . – Mania pá! Tomara muitas mulheres nos cinquenta estarem assim como eu. . . não sabia até que ponto aquele filho iria mudar a sua vida. . A notícia da gravidez de Sara foi recebida com alguma apreensão por parte da maioria das prostitutas do Intendente. . . ninguém conseguiu chegar a nenhum consenso. diz lá o que é que queres! . . houve qualquer coisa em si que mudou. – Mulher grávida não bebe. desde que soube que estava grávida. Na mesma mesa também se encontrava Arlete.Mas… . aventuraram-se na procura dos primeiros nomes. Com um misto de sensações diferentes. Se for rapariga chama-lhe isto. dizer que a amava e que juntos iriam criar o filho que fizeram. lembraste? Não podes beber. . outras optaram por a parabenizar. 151 . – Estás muito contente – disse Milene a Sara quando ambas se sentaram numa das esplanadas mais frequentadas do bairro. . .

Não.E ficaste? Marco esboçou um sorriso e logo se apressou a retirar a sua arma por detrás das costas. Ficaria contente? Ficaria confuso? Irritado? Furioso? De facto.A animação e as risadas das três prostitutas continuaram por vários quartos de hora. – Bem meninas! Tenho que ir. – Sabem e não me querem contar. . – Combinámos que ele vinha ter comigo. Os dias seguintes trouxeram alguma ansiedade a Sara e tudo porque ela continuava sem saber qual iria ser a reacção de Marco à sua gravidez. fecha o bico – imperou Milene. entendes?! . e enquanto Sara saboreava o seu sumo de laranja natural. . Milene atravessou a rua. – Sinceramente não gostava de estar na tua pele. impaciente.Uns gajos andam atrás de mim por causa de uma mercadoria que não consegui devolver a tempo. Acedida à ordem. .Tenho um cliente daqui a quinze minutos e ainda tenho que me preparar para o receber. Física e mentalmente. . Sara e Marco subiram as escadas aos beijos e abraços e não tardaram a abrir a porta do quarto para ali dentro matarem todas as saudades que tinham sentido um do outro. .Boa sorte – riram-se Sara e Arlete. . . sorridente. . Pensam que fiquei com a cena e com o dinheiro.Está bem.Estou-me a preparar para a próxima semana – respondeu Sara.Já te disse que hoje não vou poder dormir em Lisboa. . . apreensiva. . o relógio assinalou vinte e três horas e o dono da pensão entregou-lhes a chave do quarto dezoito com um aviso claro e severo para que não fizessem muito barulho tendo em conta o adiantado das horas.E então. . ela esperava encontrar todas as respostas às suas perguntas. Morri de saudades tuas. Esperava também encontrar nos braços de Marco a confirmação de que tudo iria correr bem e de que podia contar com ele para o que quer que fosse. . Depois disso. não é?! – perguntou Sara franzindo o sobre olho e encarando os rostos constrangidos das duas prostitutas. – Espera – disse ela.Porquê?! . nem faz ideia sequer! Eu quero que seja surpresa. e depois disso. O dever me chama.Aonde é que vais? . Nessa altura.Porquê?! – perguntou Sara. foram as primeiras palavras que ele disse quando viu Sara diante de si. contaria a verdade aos pais e quem sabe até moraria com Marco no Algarve onde embalados num clima paradisíaco os dois criariam o filho. não sei se me entendem. não havia como prever a sua reacção.Ficaste?! – insistiu Sara. está bem! Já não está aqui quem falou.Ninguém sabe de nada – respondeu Milene levantando-se da mesa enquanto terminava o último gole da sua cerveja.Arlete.Ele desconfia de alguma coisa? – perguntou Milene.O que foi? – perguntou Marco. Sarita?! Quando é que vais contar ao Marco que ele vai ser papá? . 152 . . .E vai ser cá uma surpresa – exclamou Arlete terminando a sua imperial. Arlete perguntou: . ela voltaria a casa.Vocês sabem alguma coisa do Marco que eu não sei.Tem calma! Temos a noite toda. mas naquela sexta-feira de Agosto particularmente friorenta e cinzenta.

– Espera – exclamou ela livrando-se dos braços dele. Claro que ela odiava o facto de Marco andar em negócios estranhos.Olha bem para mim.Prometes que não ficas chateado? . é isso? .É claro que quero. . o seu coração apertou-se de tal forma que por momentos foi-lhe praticamente impossível respirar. Grávida! .De quem?! .O que foi?! Bem.O que é que isso importa? .Hiii! Já não estou a gostar nada da brincadeira.Grávida?! – exclamou Marco levantando-se bruscamente da cama. esse pessoal é perigoso! . abrevia porque eu não tenho muito tempo. – Olha bem para mim e diz se eu tenho escrito na testa a palavra otário!? .E se esquecesses esse assunto. . O que é que foi? Andaste a fazer coisas que não devias.E tu estás à espera que eu acredite nisso? .Oras. – Eu não vim aqui para falar nesses filhos da mãe! Vim para estar contigo.pediu Marco colocando-se à frente dela.k! Eu prometo – respondeu ele revirando os olhos. . sabes como é que é! A Milene está cansada de fazer esses exames e disse que eu também os devia fazer para… . .Sara. Pode ser qualquer um que tenha passado pelo bairro.Não é nada disso! Mas é que… eu tenho uma coisa para te contar.Porquê?! Não queres estar comigo? .Há dias atrás eu e a Milene fomos fazer uns exames só para saber se estava tudo bem connosco.Sim! De ti! Eu tenho a certeza porque a data coincide com uma vez que estiveste cá em Lisboa.Marco.Marco… . e… eu soube que… estava grávida… .Marco!? . Sara… . mas odiava ainda mais perceber que muitas vezes ele perdia a noção do perigo por ser tão ganancioso e inconsequente ao ponto de brincar com traficantes de droga. hã? – respondeu ele puxando-a contra si. Coisa de rotina.Então cala-te e beija-me! Sem outro remédio à vista. Tu tens que acreditar nisso. .Só conto se prometeres que não ficas chateado.. .O quê? – perguntou Marco apoiando os cotovelos sobre a cama. – Diz lá! .O. – Na semana passada fomos buscar os exames. .Tu nem sabes quem é o pai dessa criança. 153 . . Uma coisa que descobri há duas semanas. .Está bem – respondeu ela sentando-se numa das pontas da cama. Sara viu-se obrigada a obedecer às ordens de Marco e a brindálo com um longo beijo nos lábios. .Eu não estou à espera de nada. . de quem!? De ti… – respondeu Sara surpreendendo-se com tal pergunta. . tu hoje estás com muitos truques.De mim? . Mas a verdade é que enquanto o fazia.Sim.

. o desespero tomou conta de Sara e ela não teve outro remédio a não ser segui-lo pelas escadas da pensão completamente lavada em lágrimas e implorando-lhe para que ele não a abandonasse. Aliás. Sentiu também como se o mundo tivesse desabado por debaixo dos seus pés e que não houvesse absolutamente nada para a amparar.Mesmo se tirares. nem sequer tinha vindo. . ela percebeu que tudo não tinha passado de um sonho infantil. Sara sentiu duas enormes lágrimas rolaremlhe pela face. – Aliás. se eu soubesse que era por causa disso. naquele quarto de pensão e de volta à realidade. Acabou! . ela deu-lhe tudo o que podia. . Eu não tenho razões para te mentir! . Não és a primeira e nem vais ser a última a tentar dar-me a volta. Eu não fui feito para ser pai! Nem para ser pai e muito menos para me prender a uma gaja da vida – respondeu Marco terminando-lhe com todas as esperanças de um possível romance entre os dois. – Acabou! Mete isso na tua cabeça. Se não quiseres eu tiro! . 154 . Quando o viu a desaparecer pela porta. Enquanto ouvia o discurso amargo de Marco. Mas ali. – Sara! Sara – disse ele sacudindo-lhe os ombros quando ambos saíram à rua. A última vez foi contigo e eu disse-te que ia largar a vida por tua causa. pensou. – Mas eu se fosse a ti tirava mesmo o bebé! Ainda és muito nova para ser mãe e irias acabar por te arrepender mais tarde.Eu tiro o bebé – afirmou ela segurando-lhe a manga do casaco. Não sabia absolutamente nada e talvez nunca viesse a saber. Acabou! A sério! Foi divertido enquanto durou. otária! De gajas como tu. chegou a essa conclusão. – Vais negar que durante esse tempo todo não tens trabalhado como prostituta? . por fim. colocou-o num pedestal e chegou inclusive a sonhar com um futuro promissor ao lado de um traficante de droga.Há semanas que não tenho ido para a cama com ninguém.O filho é teu – murmurou Sara com os olhos rasos de lágrimas. mas isto já se está a tornar demasiado sério para o meu gosto. problema teu! Resolve. Se engravidaste.O que é que foi? Estavas à espera que eu ficasse contente? Que te fosse pedir em casamento e ainda escolher o nome do puto? Acorda. já ando eu farto. – Já vi que perdi o meu tempo – disse Marco. – Eu tiro.Marco… .Sara. o que é que ela sabia da vida? Do mundo que a rodeava? Das pessoas que a rodeavam? Não sabia nada. Durante meses. De um sonho de uma miúda de dezasseis anos que se julgava muito esperta. Como se iludiu com um homem que não conhecia nada de si e que nem sequer estava disposto a conhecer.Tu não podes fazer isso – exclamou ela segurando-lhe o braço. . . mas que na verdade não conhecia nada da vida. Como se enganou com ele. eu estou-te a dizer que este bebé é teu. Tu fizeste-me prometer isso.E achas mesmo que eu acredito em ti? . gostei de estar contigo. eu vou-te dar um conselho! Podes já começar à procura de outro palhaço para sustentar o teu filho porque eu estou fora… – afirmou Marco encontrando a sua arma sobre a mesinha e o seu casaco sobre a cama.Marco.Ou vais negar? – perguntou ele lançando-lhe um olhar desafiador.

imbecil – respondeu Milene atirando-lhe as duas notas de cem euros. – Mas eu não o quero! E tu não me podes obrigar a querê-lo… MARCO. de vinte e oito anos cujo último desejo em vida foi o de não querer ser pai.Porquê?! . quando os ouviu. Não está morto…! As sirenes da polícia e da ambulância não tardaram a ser ouvidas no bairro.Vai ter que nos acompanhar.Mas eu paguei. sem margem para erros e que retirou a vida de Marco. – Hei! Vais-me deixar assim? – perguntou o cliente quando ela voltou ao quarto e encontrou as suas roupas espalhadas pelo chão.Será que não percebeste o que é que se passou? Mataram um homem lá em baixo. Não. . . . Por acaso os seus pais sabem que está aqui? 155 .Toma a merda do dinheiro. mas a dormir. Viu pessoas a correrem de um lado para o outro. Mais tarde. ela abriu a porta e saiu do quarto ainda a tentar calçar as sandálias. procuraram-se identificações. sangue e os gritos de Sara. ouviu-se um berro no outro lado da rua. larga-o! Ele está morto. Meus Deus. talvez a cena mais chocante de todas. procuraram um local perfeito para se esconder. e por fim. com um cadastro um pouco mais duvidoso. quase todos cravados no seu peito. menina – disse um dos policiais aproximando-se dela após todas as burocracias resolvidas. – Não preciso dele para nada. Dito isto. – Sara – chamou Milene tentando trazê-la de volta à realidade. E foi nessa altura que ele se voltou para trás sendo posteriormente surpreendido com cinco de tiros de caçadeira. Marco não tinha morrido. – Sara. ouviu os estores dos prédios a subirem a uma velocidade fantasmagórica. e para isso bastou apenas as portas da ambulância fecharem-se com um enorme estrondo. A jovem chorava. ela aproximou-se da janela e abriu o vidro para tentar perceber que raios se estava a passar. Profundamente. não tem idade para aqui estar. De facto.Porque era a única pessoa presente na rua na altura do crime. ela murmurou levando a mão à boca. um jovem traficante de droga. Para ela. mas ainda assim.Pode até ser – respondeu ele encolhendo os ombros enquanto se afastava lentamente dela e a deixava sozinha no meio daquela rua deserta. . – Ele não está morto! Não está…! Ele não está morto. Tinha sido um abate perfeito. e além disso. Pé ante pé. . Ao ouvir os tiros vindos da rua. Correu pelas escadas da pensão. quase tropeçou no tapete à entrada.. Meu Deus. a área à volta do crime foi delimitada. aquela não era a primeira vez que escutava tiros no bairro. o carro que continha os três mandatários do crime arrancou a alta velocidade deixando para trás um rastro de destruição. testemunhas e recolheu-se o corpo da vítima. Estava apenas a dormir. Foi também a primeira vez que Sara se deu conta que Marco tinha realmente morrido. . gritava e não permitia que ninguém lhe retirasse o pai do seu filho dos braços. Milene afastou-se do cliente e saltou da cama atordoada. Depois disso. ao vê-lo cair inanimado no chão. a sua amiga Sara lavada em lágrimas com a cabeça de Marco sobre o colo. mas por sorte conseguiu chegar à rua onde um aglomerado de pessoas já se havia juntado à volta de Sara e do corpo de Marco. o seu coração parou de bater por breves instantes.Não – gritou ela enfrentando o rosto da amiga. enquanto algumas pessoas.

. Depois disso. – Anda – disse Arlete levando Milene encostada ao ombro. casar. ainda não se tinha perdido na vida e muito menos conhecido a maioria dos habitantes da zona. Então menina?! Vem connosco? . .Só me pergunto até quando… .De vista – mentiu Milene. – Até quando.Já vi que vocês se conhecem muito bem. . a tomar caminhos errados e a aprender com os nossos próprios erros. rapariga! . Madalena acordou sobressaltada imaginando quem seria.Sim – respondeu Sara afastando-se de Milene com um estranho aperto no coração. deixaram-se de ouvir as sirenes no Intendente e tudo o resto voltou à mais completa normalidade. projectos e muito menos sentimentos.Boa sorte! Foram precisos apenas cinco minutos para que Sara fosse levada pelos policiais e o corpo de Marco transportado na ambulância para um hospital mais próximo. – Achas que ela vai voltar algum dia? – perguntou Arlete aos ouvidos de Milene enquanto os carros da polícia desapareciam a alta velocidade. Sete anos de luta.Até quando vamos continuar a viver nesta merda – respondeu Milene tentando engolir o nó que lhe atravessou a garganta.Eu acho que eles não iriam entender.Até quando o quê?! . .Não fiques assim.Queres que vá contigo? – perguntou a prostituta sob o olhar atento do polícia. . fazia precisamente sete anos. qual era o ser humano que não desejava uma coisa dessas? Mas a vida às vezes é demasiado cruel para certas pessoas e nem sempre a felicidade bate à porta de todas. pagamos bem caro por eles. . Nem sempre é possível ter-se tudo aquilo que se deseja ou todas as pessoas que amamos. . Que não desejavam encontrar um grande amor. – Eu só conhecia o namorado dela. – Já não sei de mais nada. o que acabou por morrer. . e na maioria dessas vezes. Por vezes somos obrigados a fazer escolhas. meu Deus?! Porque eu já não sei se aguento muito mais… Era a primeira vez que se abraçavam e choravam juntas desde que se tinham conhecido.Não! Não é preciso. . Enganados estavam todos aqueles que pensavam que elas gostavam do que faziam. – Vamos para casa! O telefone sobre a mesinha de cabeceira tocou ruidosamente. amarguras e um rol infinito de outros acontecimentos que para sempre iriam ficar gravados nas suas memórias.Sr. agente! Será que não era possível resolvermos essa situação sem meter os pais dela no meio? – perguntou Milene recebendo um abraço desesperado de Sara. é a nossa obrigação contactar os pais assim que chegarmos à esquadra. de tristezas.Não sei – respondeu Milene limpando uma tímida lágrima. Coincidência ou não. naquela noite. Que não sonhavam ter uma vida igual à de todas as outras mulheres. Que não tinham sonhos.Eu sinto muito mas as coisas vão ter que ser feitas dentro da lei! Como ela é menor. À mesma normalidade que existia quando Sara ainda não frequentava o bairro. e por momentos.Não – respondeu Sara limpando o rosto marcado pelas lágrimas.Porquê?! . . O relógio assinalava duas horas e vinte e 156 . Até porque. ter filhos e viver felizes para sempre. .

Nunca iriam entender o que aconteceu e muito menos perceber que uma parte de si tinha também morrido naquela noite.Sara. Mais tarde. como errou e porque é que errou? . conseguido esse feito. Madalena saltou da cama e tentou controlar o pavor que sentiu ao saber que Sara estava presa por ter sido a única testemunha de um homicídio. tudo apontava para que fosse ela. Não tinha e nem queria explicar que naquela noite perdera uma das pessoas mais importantes da sua vida e também da vida do filho que estava à espera. é melhor não! Fica em casa! Eu resolvo isto. .No Intendente. raios.Acho melhor irmos para a sala – respondeu Jorge conduzindo a filha pelo braço enquanto um pouco mais atrás Madalena os seguiu cautelosamente. não lhe restou outra alternativa a não ser passear por todas as habitações da casa e desesperar-se entre lágrimas e soluços.Entra – disse uma voz grave após a abertura da porta. aflita. Na verdade. pensou. Era advogado. perguntou-se vezes sem conta. marido na agenda com a certeza que só ele a poderia ajudar numa emergência daquelas. para quê explicar esse facto quando era notório que os pais não a conheciam minimamente e nem sequer faziam ideia do horror a que ela tinha sido submetida quando viu o seu namorado ser brutalmente assassinado a poucos metros de si? Madalena e Jorge não iriam compreender. ela tornou a lançar um olhar vazio aos seus progenitores e manteve-se inerte. marido. – O que é que aconteceu? . – O que é que aconteceu. À espera de notícias. Já estou a ir para lá – foi a resposta de Jorge assim que ela lhe explicou todo o sucedido. Foram as duas horas mais longas da sua vida. ela encontrou também Sara com os olhos inchados de chorar e uma t-shirt marcada pelo sangue de Marco. Sara ainda não havia regressado a casa. Mas os seus desejos pareciam difíceis de serem concretizados quando ao olhar para o relógio viu que nele estavam assinaladas quatro horas e vinte e oito minutos. Não tinha absolutamente nada para lhes dizer. . A pergunta não sofreu qualquer resposta quando Sara se afastou dos braços do pai e encontrou na mesa um local perfeito para se apoiar. Mais tarde.Aonde? – perguntou Madalena. que fez o coração de Madalena gelar como nunca. E foi essa t-shirt.quatro minutos. Mas o pior nem foi isso! Sabes aonde é que a polícia a encontrou?! . Era a voz de Jorge. e por isso. Como advogado saberia enfrentar aquela situação bem melhor do que ela. Aonde foi que errou. – Estou – respondeu Madalena tentando encontrar forças para abrir os olhos e reconhecer a voz grossa e formal no outro lado da linha. – Por favor. – A minha filha. . 157 . – Um amiguinho dela foi morto à caçadeira e parece que ela foi a única testemunha do crime. Depois disso. o quê?! Atordoada com todas as revelações feitas pelo agente de autoridade. Madalena desceu à sala e aguardou que a porta da rua se abrisse a qualquer momento. diz-nos…! .Se ela não conta. apressou-se a encontrar o número do ex. Sara? – insistiu a mãe. precisamente essa tshirt. – A Sara tem muitas coisas para nos explicar.Não. Assim sendo. – Não te preocupes. para além do ex. eu conto – interferiu Jorge com uma expressão nada amigável. Madalena pôde ter essa certeza quando voou em direcção ao corredor. o que é que aconteceu? – perguntou-lhe a mãe.Vens-me buscar para irmos juntos?! . apreensiva. O que teria acontecido para que Sara se tivesse desvirtuado daquela maneira.

. – Eu sou prostituta sim. em dezasseis anos.Não. – Eu sou prostituta! PROS-TI-TU-TA! Um esforço sobre-humano foi o que Madalena teve que fazer para se conseguir manter em pé após a revelação da filha. drogados e prostitutas? Enquanto ouvia o discurso moralista dos pais e todas as verdades que eles fizeram questão de lhe jogar à cara durante vários minutos. Mas não. pensando enquanto o fazia. e embora nunca lhe tivesse passado pela cabeça que Sara se estivesse a prostituir. Madalena tentou enganar-se.Engraçado – respondeu Sara levantando o rosto desfigurado. não sei… .O que é que está diante do nosso nariz? – perguntou Madalena temendo ouvir a resposta. a verdade é que ela estava certa quando lhe disse que a realidade estava mesmo diante do seu nariz. . e sou porque gosto. . não foi preciso muito tempo para que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo e a fizesse soltar um berro ameaçador: . não – gritou Madalena quando o ex. ela mostrava-se um ser humano odioso e repugnante. a cada mês.Mas a única coisa que não querem é admitir a vocês próprios algo que está e sempre esteve diante do vosso nariz! . pai!? Achas mesmo que eu estou a gozar? – respondeu Sara mostrando-lhe um sorriso maléfico. Sara cerrou os olhos e deixou de os ouvir.Jorge. tentou convencer-se a si própria que o comportamento da filha era perfeitamente normal para uma adolescente de dezasseis anos. com paciência.Sara. porque quero e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens. as coisas iriam melhorar.Tu sabes. e que com o tempo. . – Eu não andei a criar uma filha para a ver perdida no Intendente.Sara. Satisfeitos!? A pergunta de Sara culminou com uma valente bofetada de Jorge e com o olhar aterrador que ele lhe lançou em seguida. A príncipio foi como se tivesse entrado numa outra dimensão ou tivesse sido transportada para um lugar longínquo.Tu sabes! Mas se quiseres eu posso dizer-te com todas as letras – respondeu Sara gesticulando furiosamente os braços.. – Tu só podes estar a gozar – murmurou Jorge também ele estupefacto com tudo o que tinha acabado de ouvir. marido se lançou contra a filha a fim de extravasar todo o ódio e toda a repulsa que a resposta dela lhe trouxe.O quê?! . Achas isto normal? .Achas mesmo.Vocês sabem muito bem o que é que eu estava a fazer no Intendente.Sara… . Pronto! Aí está a verdade que vocês tanto queriam saber. Muito pelo contrário. 158 . pois a cada dia.Deixem-me em paz! . Durante meses. . a cada semana. – Enlouqueceste?! Será que não sabes que nesse lugar só há bandidos. E a verdade é que pela primeira vez. tu não te atrevas a falar connosco nesse tom – imperou o pai. mas no entanto vão lá para procurar as filhas dos outros… . . A nossa filha estava no Intendente. – Os homens nunca criam as filhas para as ver no Intendente. Nem o tempo e nem a paciência fizeram de Sara uma pessoa melhor. o que é que tu estás a fazer num lugar daqueles? – perguntou Madalena voltando-se bruscamente para a filha.Isso mesmo que ouviste. quando regressou à realidade e a voz estridente da mãe continuou a ecoar-lhe aos ouvidos. ele ousou bater em Sara. Mas depois.

– E também não quero que me consideres o teu pai! Sob o olhar desesperado da ex. marido abriu a porta e atravessou o jardim em direcção ao carro. que tinha morrido há muito tempo e que ele foi o último a dar-se conta desse facto irrefutável. Sara correu em direcção à cozinha a fim de encontrar uma outra escapatória. Nas mãos. Era o fim. Foi também nessa altura que ele percebeu que a sua filha já não existia. De facto. admiração. enfiou a cabeça por entre as pernas e tentou sufocar o choro compulsivo de uma mãe desesperada. Ditas estas palavras. e na mente. Sara alcançou o corrimão das escadas e voou como um foguete em direcção ao quarto. Não sabia o que fazer para reencontrar a filha que perdera meses antes.disse ele fazendo um esforço sobre humano para não derramar duas lágrimas que se haviam apossado dos seus olhos. – Vai – gritou ela interceptando-o no corredor. pois nunca se mostrou um pai presente. Sara perdera-lhe todo o respeito. mulher. que decisões tomar dali por diante e como superar aquele inferno que estava a viver. Não sabia o que fazer.Olha só no que é que a nossa filha se transformou… . mas também a única forma de impedir Sara de cometer mais loucuras. Na verdade. pelo irmão ou pelo pai que naquela noite fez questão de lhe dizer com todas as letras que já não se considerava o seu progenitor. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara voltou a descer ao primeiro piso. a vontade incondicional de sair daquela casa. tornou a murmurar. tudo pareceu desmoronar. Assustada com a ideia de se ver presa naquela casa.que a culpa de tudo aquilo era sua. Já não tinha mais nada a fazer ali. Nessa altura. – Jorge… .Eu sei – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando o ex.disse ele deixando-a caída no tapete da sala. tinha desaparecido sem deixar rastro. a única coisa que sabia era que precisava de ar para respirar e foi isso que tentou encontrar quando se sentou junto à porta de saída. nunca lhe impôs limites e sempre fechou os olhos às loucuras cometidas por ela. Nem as várias tentativas 159 . – A partir de hoje já não te considero a minha filha… . chegou também a essa conclusão. Era uma medida extrema. Depois disso. já não pertencia àquela família e nem sequer nutria qualquer tipo de sentimento pela mãe. Madalena sabia. e o que sobrara da menina doce e inocente que ele um dia carregou ao colo. – O que é isto? – murmurou ela tentando abrir a porta com vários safanões. Jorge alcançou o casaco sobre o sofá e saiu da sala. Contudo aquela noite veio a provar que já era tarde demais para retomar o seu papel de pai. já não lhe restava mais nada a fazer naquela casa quando era certo que tinha acabado de perder tudo o que lhe era mais querido na vida. Nessa altura.chamou Madalena aproximando-se lentamente dele naquele corredor às escuras. tudo deixou de fazer sentido e uma sensação de desespero invadiu-lhe o coração já por si destroçado. – Vai-te embora! Não foi sempre isso que fizeste durante toda a tua vida? Pelo menos agora já não precisas fingir que és pai. Não. A porta também se encontrava fechada. . trazia uma mala e uma mochila. Uma mãe tão desesperada que naquela madrugada não viu outra alternativa a não ser trancar todas as portas de casa para impedir que a filha voltasse a sair por elas. – Jorge… . pensou. assim como a que dava acesso às traseiras. a porta fechou-se violentamente e os vidros da janela agitaram-se trazendo consigo uma dor aterradora que Jorge nunca pensou sentir em toda a sua vida.

160 . O fim de todo o respeito que mãe e filha ainda sentiam pela outra. Não.Eu quero a chave. – Mãe… – ele gritou.O que foi? Vais-me tornar na tua prisioneira. e ele. Gritos que fizeram acordar o pequeno Daniel. estalos e gritos.Dá-me a chave da porta! Eu quero sair. . – Chama o pai. – Pai! A Sara vai matar a mãe. Daniel correu ao telefone que se encontrava no quarto da mãe e digitou o número de Jorge. Do cimo das escadas. Ela que não pensasse sequer numa coisa daquelas. Tinha sido a sua mãe a trancar todas as portas só para a prender ali adentro. Tinha sido ela. eu posso sim obrigar-te a fazer aquilo que eu quiser e aquilo que eu achar que é melhor para ti. Um. e foi também nessa altura que as duas abandonaram o quarto aos empurrões. sem se lembrar que ainda estava ao telefone com o pai. A resposta negativa de Madalena trouxe novamente a fúria de Sara e consequentemente a sua audácia em atirar-se para cima da mãe sem temer as consequências do seu acto irreflectido.O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Madalena acendendo a luz da mesinha.para forçar a fechadura resultaram e esse facto apenas acrescentou ainda mais o ódio que ela estava a sentir dentro de si. .Sara. é isso?! . . . três toques e o advogado finalmente atendeu para grande alívio da criança. . . volta para o teu quarto! . Mas ela que não pensasse que a iria prender no interior de uma casa onde não desejava estar. A barreira foi quebrada. pai! A Sara vai matar a mãe! As últimas palavras de Daniel coincidiram com um estrondo gigantesco vindo das escadas. A única coisa que suplantou a dor da queda foi o susto. Aquele tinha sido o princípio do fim. – Dá-me a chave – era o que gritava como uma louca. Madalena mexeu a perna. o fim de uma relação de dezasseis anos e a certeza que dali para a frente as coisas nunca mais iriam voltar a ser as mesmas.Tu não vais a lado nenhum – respondeu Madalena levantando-se da cama. largou o auscultador pronto a inteirar-se do que se estava a passar. filho – gritou Madalena enquanto se tentava desenvencilhar dos braços de Sara. Quero ir-me embora. dois. – Chama o pai! Sem esperar segunda ordem. ele viu os corpos da mãe e da irmã estatelados no corredor e não tardou a perceber que ambos tinham caído devido à luta. já disse – gritou a jovem estendendo a mão com um olhar aterrador.Já disse que não. . – Dá-me a chave – gritou Sara entrando pelo quarto da mãe com uma expressão aterradora. Sim.Enquanto fores menor e estiveres sobre a minha responsabilidade. E tal como um milagre.E eu já te disse que não ta vou dar. mas isso foi algo rapidamente esquecido por Sara quando ela tentou agarrar as pernas da mãe e a impedi-la de fugir em direcção à sala.Dá-me a chave! . ao ouvilo. Nenhuma das duas tinha morrido ou tão pouco sofrido lesões mais graves visto as escadas não serem inclinadas. . .Dá-me a chave! .Tu não me podes obrigar a ficar nesta casa.Não – respondeu Madalena recuando vários passos quando a sentiu demasiado perto de si. enquanto se aproximava pé ante pé.

E não. Sempre te dei tudo o que estava ao meu alcance. – Aonde é que ela está? – foi a primeira pergunta de Jorge quando chegou à casa da ex. mas há muito tempo! Com as chaves nas mãos. mulher. .Porque é que não me dás a chave. ao contrário do que o teu pai te disse. Eu não mereço isto! Eu sei que apesar de tudo eu não mereço o que me estás a fazer. – Aqui tens… – afirmou Madalena atirando-lhe as chaves contra o peito.Tu estás louca! Completamente louca. é isso? É por causa disso? – perguntou Sara encontrando a mãe encostada à mesa ainda com a respiração ofegante.Estás a falar do Sérgio.O quê!? – murmurou Madalena. aliás. Não hoje. – Tudo o que eu queria era que ele desaparecesse. sempre te pus em primeiro plano e sempre abri mão de tudo em prol da tua felicidade… . Mas não. nada disto teria acontecido. não foi por querer. Se eu errei. Na verdade. Ouvido o estrondo. nem quero saber sequer… Perante a resposta da filha. veio um silêncio ensurdecedor e a certeza de que o inferno finalmente tinha terminado. se te fiz algum mal. o que é que foi que eu te fiz?! Onde foi que eu errei para que te tivesses transformado nesta… pessoa… – discursou Madalena não conseguindo controlar as lágrimas. Foi só por isso que eu inventei que ele me tinha violado. burra como sempre. Preferiste acreditar em mim em vez de acreditar nele e agora olha para ti?! Estás sozinha e vais ficar assim até ao final dos teus dias porque eu também me vou embora… .Tu és um monstro. incrédula. não é?! Mais uma vez quiseste mostrar que és tu que mandas! É sempre assim. Eu não me importo. Mas no entanto parece que me odeias e que queres fazer tudo para me destruir e para destruir a minha vida. Não restava mais nada a não ser um misto de ódio e rancor entre duas pessoas completamente distintas. Contudo. – Estás livre para fazeres o que quiseres com a tua vida porque para mim morreste. acreditaste. . Ao olharem-se pela última vez.Larga-me – imperou Madalena conseguindo encontrar numa hesitação da filha a oportunidade ideal para correr em direcção à sala. Madalena manteve-se calada. .. hã?! Tens prazer de me ver a correr atrás de ti. estava tudo destruído. Madalena! Tudo tem que ser feito quando você quer. nem Madalena e nem Sara conseguiram reconhecer-se no interior daquela sala. 161 . . D. E tu. . ao contrário do que ele estava à espera. ela esboçou-lhe um leve sorriso antes de fechar a porta e desaparecer de uma casa onde tinha vivido durante dezasseis anos. como você quer e ninguém está autorizado a contrariá-la… .O que é que…? . Sara abriu a porta e não resistiu a lançar um último olhar ao irmão que se encontrava sentado nas escadas assustado com tudo o que tinha assistido momentos antes. ele pode muito bem voltar.Porque se quiseres podes voltar para ele! Já que me vou embora desta casa.O Sérgio nunca tocou num fio de cabelo meu! Fui eu que apareci na casa de banho para que nos apanhasses e pensasses que ele me estava a estuprar. . Nem mesmo os laços sanguíneos que as uniam iriam conseguir reatar aquela relação doentia. Não foi de propósito. Sara! Um monstro.Sara.Se me tivesses dado a chave. – Eu só queria que tu me dissesses para que eu pudesse entender. não é?! – interrompeu Sara surpreendendo-a com tal pergunta.

Sara percebeu que era ali que teria que recomeçar do zero. não só naquela madrugada. Mas a verdade é que ele nunca percebeu os intentos dela e agora ambos estavam a pagar bem caro por isso. sem conforto e com um bebé na barriga. Sem família. . – Foi-se embora de vez.Saí de casa – respondeu Sara mostrando-lhe as malas. restaram-lhe poucas alternativas de sobrevivência e ninguém com quem pudesse contar a não ser: – Tu… – disse Milene abrindo a porta do seu quarto com olhos de quem tinha passado a noite toda em branco. o Intendente. mas sim em todos os momentos em que ela fez questão de lhe chamar a atenção enquanto pai. Os passos lentos e arrastados de Madalena fizeram Jorge entender que tinha chegado tarde.Foi-se embora – respondeu Madalena alcançando o corrimão das escadas com os olhos marcados de tanto chorar e uma voz amarga. – Deixas-me entrar? 162 .. De volta a um bairro que tão bem conhecia.

. outras lamentava-se. algo que só ele como pai o podia fazer exemplarmente. – Já não sei o que é que hei-de fazer com ela – disse Afonso Soares descendo à cozinha com o ex. chorava.Está a ser muito difícil para todos nós – respondeu Jorge não escondendo a tristeza estampada no rosto. . Cinco dias em que ela mergulhou na mais profunda depressão. Jorge levou Daniel para a sua casa e deixou Afonso livre para cuidar de Madalena.CAPÍTULO IX Passaram-se cinco dias sem que Madalena se tivesse conseguido levantar da cama.Não tiveram mais nenhuma notícia da Sara? . . Por vezes.Acho melhor levares o Daniel para passar uns dias contigo. e cada vez que Madalena se lembrava delas. A Sara escolheu o caminho dela. Só ele poderia fornecer o carinho e o apoio que a filha necessitava na altura. sem comer. . – Eu fico aqui com ela. era talvez o desgosto de saber que a filha se prostituía sem ter qualquer razão plausível para isso. maior era a vontade de morrer. Tal como disse. mas a verdade é que aconteceu e não há nada que possamos fazer. Qualquer coisa e aviso-te com antecedência. Mas pior do que o sentimento da derrota. Pareciam gravadas na sua memória e traziam-lhe um sentimento angustiante de derrota. – Como é que ela se foi perder desta forma. e muitas vezes. porque gosto e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens . e era exactamente isso que pretendia fazer não fosse o pedido dela para mais uma vez ficar sozinha. mas… isto?! . Sou prostituta porque quero.Nada. Era como as ouvisse vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. foram as últimas palavras de Sara.Não te preocupes – respondeu Afonso segurando-lhe o ombro esquerdo. . Nem sabemos sequer para onde é que ela foi.Do jeito como a minha filha está. Eu também não sei como é isto pôde acontecer. genro. fechava os olhos numa tentativa desesperada de esquecer todas as palavras horríveis que Sara lhe dissera momentos antes de sair de casa. 163 .Eu também não sei. .Eu já tinha pensado nisso – respondeu Jorge limpando uma lágrima que teimou em cairlhe dos olhos. meu Deus!? Está certo! Sempre teve um feitio difícil. sem dormir e sem mexer qualquer músculo corporal para além do estritamente necessário.Que tragédia – suspirou Afonso levando as mãos à cabeça. duvido muito que consiga tomar conta do Daniel. embora quase todos fossem unânimes em afirmar-lhe que a culpa não era sua. .Eu vou levá-lo hoje! Mas também não queria deixar a Madalena sozinha. .

Vou ter que sair. mas também o lugar mais pacífico e confortável do mundo. 164 . Na verdade. Continuava o mesmo. Mas o que poderia ele fazer perguntou-se.Descobri tudo – foram as primeiras palavras dela assim que Sérgio abriu a porta de casa e se surpreendeu com o seu rosto marcado pelas lágrimas e por tantos meses de angústia. pai. . Se era o desejo da filha sair. Abriu-o na página marcada e mergulhou na leitura durante horas a fio tentando pensar em coisas abstractas. Mas será que Sérgio estaria disposto a perdoála? Será que ele iria compreender os motivos que a fizeram não acreditar nele. o erro de não ter acreditado no homem que amava. Depois disso. tocá-lo e tentar encontrar uma única razão para se manter viva. Ao ver-se sozinha naquela sala repleta de móveis e aparelhos fotográficos. . . reparou. . – Lena… . Continuava pequeno.Tens a certeza? Olha que já está tarde. . desceu à sala e encontrou um livro para passar o tempo. em passagens simbólicas que não lhe fizessem lembrar a tristeza em que a sua família estava submersa e o desejo de um dia tudo voltar à normalidade.Não me vou demorar muito – respondeu Madalena abandonando a sala sob o olhar atento e preocupado de Afonso.Procurar uma pessoa.Não – respondeu Madalena mal conseguindo encontrar forças para o encarar de frente. Já volto – disse Sérgio. Talvez. . De ter duvidado do seu carácter. Precisava olhar-lhe o rosto. Madalena aceitou o convite e entrou no apartamento do fotógrafo. – Levantaste-te!? . Parecia ter sido pintado a óleo e trazia consigo a imagem de um velho pescador sentado à beira mar. só assim conseguisse recuperar a sua sanidade mental. Aonde é que Sérgio o havia comprado? Ou teria sido oferecido por alguém especial? Talvez pelo avô quem sabe. a única alternativa que lhe restava era acatar a decisão e esperar que ela não cometesse nenhuma loucura.Aonde é que vais? – perguntou Afonso poisando o livro sobre o sofá. mas sim na sua filha? Ao ver-se diante do prédio onde muitas vezes se encontraram e passaram várias tardes de amor. Madalena teve algumas dúvidas.Queres um chá?! Faço num instante. Sentiu também que não tinha qualquer direito de procurá-lo ou sequer de lhe implorar perdão. .Está bem. Madalena depositou a sua mala sobre o sofá e lançou os olhos a um quadro pendurado na parede. .Mesmo não tendo concordado com a ideia. era o único objecto que lhe era estranho.Entra! Aberta a porta. Afonso achou por bem não levantar mais questões e acatou o desejo de Madalena encostando a porta com cuidado. Na verdade. do amor que ele dizia sentir por si e de o ter expulsado da sua vida sem qualquer razão. – Estás bem? – perguntou Sérgio levando-a em direcção à sala. Vários foram os pensamentos que atravessaram a mente de Madalena enquanto conduzia pelas ruas da cidade e se lembrava de um dos maiores erros que tinha cometido num passado não muito longínquo. caloroso. . – Filha – disse ele surpreendendo-se com a figura de Madalena sob o alpendre da porta.Fica aqui. mas precisava fazê-lo. quem sabe.

Entendo – respondeu Sérgio aquecendo as mãos na sua chávena de chá. Eu não sou essa pessoa horrível em que ela se transformou. Sérgio parecia ter a mesma mágoa no olhar e Madalena não sabia o que fazer para conseguir encontrá-lo naquela cozinha tão minúscula. Tanta coisa tinha mudado. Ainda assim. pelas coisas que tiveste de aguentar por minha causa. tinha muito cabelo.Tu não és uma fracassada. Tinha tudo preparado. semanas. Foi o mais feliz da minha vida. – Que eles são aquilo que nós fazemos deles e eu até costumava acreditar nisso. Madalena e Sérgio serviram-se do chá e permaneceram em silêncio durante largos minutos. Eu não tinha o direito de te ter metido nesta embrulhada.interrompeu ela. – A culpa não foi tua.Lena… . Passaram-se dias. e os olhos eram redondos. o tempo foi peremptório em passar. Tu já fizeste tudo o que estava ao teu alcance. Mas… os anos foram passando e… aquela menina que todos adoravam agarrar ao colo e que se ria por tudo e por nada deixou de existir.Desculpa – pediu ela tentando esconder os olhos inchados de tanto chorar.Costumam dizer que os filhos são a projecção dos pais… . mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar.…devia ter acreditado em ti… . eu senti como se tivesse encontrado uma razão para viver. e quando as enfermeiras ma deram nas mãos. Lena! A Sara está doente. Toda a gente dizia que éramos muito parecidas e eu lembro-me que ficava tão orgulhosa quando ouvia alguém dizer isso. e se queres que te diga. Morreu. escuros. iguais aos meus.Vem… – exclamou Sérgio interrompendo-lhe os pensamentos. .Então porque é que me sinto uma verdadeira fracassada? . entendes?! . Tinha comprado todo o enxoval e levei todas as coisas para a maternidade porque não queria que lhe faltasse absolutamente nada. .. .foram as palavras que saltaram dos lábios dela. meses até. que adorava vestir de cor-de-rosa e de fazer totós no cabelo… . ela precisa de ajuda. Desapareceu. ambos sabiam-no bem. – Devia ter feito isso. E não sobrou absolutamente nada dela… . Mas …eu não quero acreditar que a Sara seja uma projecção minha. – Desculpa por tudo o que te fiz passar.Não me meteste em nada! Eu faria tudo de novo se fosse preciso. Sentados nas suas respectivas cadeiras. Pequenina. mas… não fiz! .Não quis enxergar a realidade e muito menos perceber no que é que a minha filha se tinha transformado. . fizeste bem mais do que a maioria das mães fariam se estivessem no teu lugar.Aquela mesma menina que eu costumava levar a passear ao parque.Será que… és capaz de me perdoar? 165 . Ela era tão linda. preto. mas antes disso. ela é que tem que querer essa ajuda. – Eu lembro-me bem do dia em que ela nasceu.Eu sei. Desde a última vez que se viram e trocaram as derradeiras palavras. Porque para mim ela ainda continuava a ser a minha menina. . Acho que… estava tão contente por saber que iria ter uma menina que nem sequer me importei com as dores do parto. por causa da minha filha. Eu sei que não sou… . Era mesmo uma menina que eu queria. É melhor – Madalena acedeu com um sorriso.E não és – interrompeu Sérgio segurando-lhe a mão sobre a mesa. . . – Vamos tomar o chá na cozinha.discursou Madalena não conseguindo mais uma vez controlar as lágrimas e os risos nervosos.

– Neste momento não temos nada para nos dar um ao outro – respondeu ele. a vida começou a retomar o seu curso. o ano mudou.Eu amo-te. em que pudesse aproveitar uma refeição agradável ao lado da melhor amiga e uma conversa amena com o pai ao final da noite. Um cartão que cheirava a rosas e que trazia a caligrafia desajeitada do ex. Para além disso.Eu sei – concordou ela com um sorriso imensamente triste.Mas acabou.Não sei – respondeu Madalena depositando a caixa de chocolates e o bilhete sobre a secretária. foram factores importantes para que Madalena recuperasse a alegria de viver.“Espero que esta caixa de chocolates seja suficiente para adoçar o teu dia. nada daquilo era demasiado entusiasmante. De facto.Eu também – sorriram os dois. Passaram-se cinco meses. Madalena ainda ansiava por dias melhores. .Mas quem sabe um dia se o destino não nos trocar as voltas. . . . marido. minha amiga! O Jorge.Não perdes nada se aceitares.Quem é que escreve PS num bilhete romântico!? – riram-se Alice e Madalena às gargalhadas. A rotina do trabalho. Quer dizer. . . Dias em que pudesse sorrir sem pensar no dia seguinte. Apesar de todos os acontecimentos trágicos do passado. não acabou?! Sérgio pareceu hesitar quando fitou os olhos brilhantes de Madalena e viu nela a mulher a quem um dia chegou a amar mais do que a própria vida. – Não precisas preocupar-te com isso. não é?! . – Precisamos de tempo. do único filho que lhe restou e dos pequenos acontecimentos que preenchiam o seu dia-a-dia.Sinceramente não te estou a reconhecer! Logo tu que sempre detestaste o Jorge… 166 .E tu vais aceitar? . .. marido: . mas que dava mostras de um novo fulgor. Jorge.O Jorge. Hã… PS. de espaço… .E desta vez vem com um bilhete. . mas ainda assim conferia-lhe um certo conforto e estabilidade que há muito não encontrava.Aceitas um convite para jantar?” . tal como o meu também ficou apenas com a lembrança de um sorriso teu. marido e as suas várias tentativas de aproximação faziam-na sentir-se menos sozinha e a pensar se valeria ou não a pena oferecer-lhe uma segunda chance. a presença sempre constante do ex.Impressão minha ou estás a torcer para que eu aceite esse convite? .Eu já te perdoei há muito tempo – respondeu Sérgio beijando-lhe as mãos frias. . Beijos. e aos poucos e poucos. – Outra caixa de chocolates – exclamou Alice abrindo um sorriso de orelha a orelha quando Madalena regressou à loja após ter recebido a encomenda de um office boy. Uma alegria que por momentos pareceu desaparecida aquando do desaparecimento de Sara.Não é torcer! Só acho que não tem mal nenhum jantar com o teu ex. . Madalena esboçou um sorriso malicioso e rapidamente se apressou a retirar o cartão do interior do envelope.Lê! Ao ouvir o pedido da melhor amiga. é só um jantar. Mas a verdade é que poucas dúvidas lhe restavam quanto ao desfecho daquela história de amor.

– Iremos cumprir as suas ordens à risca. – Já não te vou dar mais nenhum.Porta-te bem. Mais tarde..Sabe como é que é. e se fossemos andando. amanhã é dia de escola. lembraste? . Não. .Espero bem que sim – respondeu o ex. . era impossível para ela passar um minuto que fosse sem demonstrar ao filho que o amava acima de tudo. Mas a verdade é que nenhum destes pensamentos conseguiu demovê-la da ideia de cancelar um jantar que apesar de tudo lhe preencheu o imaginário desde manhã. militar afagando os cabelos do neto. genro a entrar na sala com as mãos nos bolsos. . ainda submersa num verdadeiro dilema. mas… as pessoas mudam! E eu acho que o Jorge mudou.Claro.Está bem – respondeu Daniel tentando desviar-se dos beijos de Madalena. Estava perfeita. então que assim fosse.k. E foi assim. Madalena não conseguiu conter-se e surpreendeu o filho com um longo e demorado beijo que fez todos os presentes rirem-se às gargalhadas.Claro! Nem um minuto a mais. a campainha tocou ruidosamente e ela correu a abrir a porta deparando-se com a figura do ex. repetia-se vezes sem conta. Jorge – exclamou Afonso ao ver o ex.Estás todo janota. . . marido acompanhado de um sorriso e também de um lindo arranjo de orquídeas. É uma loucura.Estás sempre a dar-me beijos. vô? . – Bom jantar – exclamou Afonso observando a saída de Madalena e Jorge da sala e mais tarde do interior da casa.Não queres os meus beijos?! .O. – Espero bem que sim! 167 . . que ela terminou de se analisar ao espelho trazendo no corpo um vestido preto pelos joelhos e os cabelos soltos um pouco acima dos ombros. Apesar de tudo. ou senão.Bem. . nem um minuto a menos. . Jorge? Não quero voltar muito tarde – disse Madalena encontrando o seu casaco sobre o sofá. Estou a confundir tudo. De facto.Pai! Daniel! Não durmam tarde e nem fiquem a ver televisão até às tantas.Cheguei na hora certa? . várias foram as vezes que Madalena pensou em desistir do seu jantar com Jorge. – Mas agora vai. Sr. .Achas que eles vão voltar.k – defendeu-se ela enquanto levantava os braços.Ainda bem. dizia. inclusive Daniel.Obrigada – respondeu Madalena recebendo o ramo com alguma cautela.Eu sei que fui uma grande impulsionadora na tua separação daquele imprestável. Apesar da promessa. . Afonso! A sua filha não merece menos – respondeu o advogado arrancando algumas risadas a Daniel e Afonso. bem perto disso. Enquanto se compunha à frente do espelho.O. general – respondeu Afonso abrindo os braços sobre o sofá. – Ainda me lembro que são as tuas flores preferidas – disse ele. Sr. foram os elogios que ouviu do pai e do filho quando chegou à sala. . . – Entra! . Vou voltar a um passado que só me fez mal e que não me trouxe nada de bom. e se o tivesse que provar com beijos. filho.

. Nenhuma delas me conseguiu dar o que me deste nestes dezassete anos.Será?! – perguntou Jorge alcançando-lhe a mão sobre a mesa. Falava tudo aquilo que lhe vinha à cabeça e movimentava-se com uma destreza e segurança fora do normal. nem mesmo quando andava com outras mulheres.Podes não acreditar. Depois foram sempre voos maiores. algo a que o advogado estava amplamente habituado nos seus extensos anos de profissão quando se reunia com clientes importantes.E foi então que o nosso casamento começou a piorar. dos nossos filhos. mais dinheiro. mais prestígio… . . . não achas!? . . – Será que é assim tão tarde? .Percebeste isso um pouco tarde. mas eu nunca me esqueci de ti! Nunca deixei de sentir saudades tuas. a única pessoa que Jorge queria agradar era Madalena.O restaurante escolhido por Jorge primava pelo requinte e pela sofisticação. eu sei.Mas às vezes é impossível não nos lembrarmos de coisas tão boas.Eu daria tudo para ter ouvido isso há cinco anos atrás. os seus olhos não se desviaram da ex. – O que foi? – perguntou Madalena bebendo um gole de vinho tinto. . Era simples também. – Lembraste que tivemos que pagar a conta do jantar a meias? .Ui! Se me lembro – riu-se ela forçando uma gargalhada seca.Nada – respondeu Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. – Logo que nos casámos fui aceite numa firma de advogados e ganhei a primeira causa.Jorge… . . outras causas importantes. – Lembro-me também que no dia seguinte contei a uma amiga e ela disse-me que o melhor que eu tinha a fazer era fugir de ti. Nenhuma chegou sequer aos teus pés… . Mas mesmo assim tu ficaste comigo e aceitaste o meu pedido de casamento com um anel de plástico da feira popular. Mas hoje já não sei se vale a pena. algo que há muito ele não via em qualquer outra mulher. não achas?! Madalena sorriu. . Foi por isso que eu aceitei o teu pedido de casamento.Claro que não! Tu sabes que eu nunca fui sentimentalista.Mas eu tive sorte – disse Jorge deixando-se iluminar pelos olhos de Madalena quando eles se cruzaram com os seus. sensual e inteligente. da nossa casa. por favor – pediu ela voltando a depositar a taça de vinho sobre a mesa.Já não tinha tempo para ti. . eu sei! Estava sempre tão obcecado com o meu sucesso profissional que me esqueci da minha família e da mulher maravilhosa que andava a desperdiçar. mulher um só segundo e a sua atenção centrou-se nela durante toda a refeição. Ficava situado no Lapa Palace e era frequentado por um grupo restrito de pessoas a quem tudo era feito para agradar. Lena.Naquela altura era um teso. Jorge?! . .Então não mudes. Pela primeira vez. Não tinha dinheiro nem sequer para te levar ao cinema. Mas naquela noite particularmente especial.É! Infelizmente não fugi.Sentimentalismos baratos.O anel era lindo. .Mas não fugiste. 168 . . – Só me estava aqui a lembrar da primeira vez que saímos para jantar. Impressionante como nunca se tinha dado conta de como ela era bela.

Lena! Acredita em mim. 169 . sonhos e desejos a serem concretizados. o destino trocou-lhes as voltas. . despiram as respectivas roupas e entregaram-se um ao outro durante horas a fio sem se importar com os carros que passavam a alta velocidade pela rua deserta. Madalena e Jorge regressaram ao ponto de partida. – Quem diria… . Um tempo onde as suas vidas se conjugavam na perfeição. não fosse esse mesmo destino tornar a juntá-los naquela noite tão especial.O quê? – perguntou Madalena esboçando um sorriso envergonhado quando Jorge lhe percorreu os braços desnudos. eu sei! . Prova disso? O arrepio que sentiu em todos os poros do corpo quando lhe desceu o fecho do vestido. e não o fizeram apenas no espaço. mas também no tempo. Após longas horas de ausência.Um brinde! As luzes apagadas fizeram antever que não havia absolutamente ninguém acordado naquela casa. Madalena era essa mulher. Mais tarde.. ouviu o tecido cair no chão e Madalena suster a respiração descompassada. .Então um brinde à tua mudança. Afastou-os de uma forma irreversível e quase que os obrigou a continuar assim. os dois deitaram-se sobre os lençóis de linho. ao que estamos a viver neste momento e… ao que iremos viver daqui para a frente.Eu mudei muito. onde havia planos. de me tentares chamar à razão e de me fazer entender que para se ser um bom pai não é preciso dizer sim a tudo. não é?! . Jorge deslumbrou-se com a grandiosidade daquele momento e experimentou uma das sensações mais avassaladoras que um homem poderia experimentar ao lado de uma mulher. . Mas infelizmente. na altura. Depois disso. Por momentos. eu não queria ser um pai chato! Queria que o Daniel e a Sara me vissem como um pai espectacular capaz de lhes concretizar todos os desejos.Fico feliz que tenhas percebido isso – respondeu Madalena tentando esquecer a sombra que atravessou o seu peito quando se lembrou da existência de Sara. . é tentar proteger os nossos filhos e… ser chato.Mudei mesmo. Parecia um sonho.Estranho mas bom. Fez-me perceber o porquê de muitas vezes brigares comigo.Estranho. foi assim que se sentiu até Madalena o levar em direcção à cama e brindá-lo com um longo beijo enquanto o fazia. É estar presente. . Ao entrar no quarto que um dia também foi seu.Esta história que aconteceu com a Sara fez-me abrir os olhos para uma serie de coisas que me eram totalmente estranhas. – E um brinde a tudo o que já vivemos. . Foi ela a responsável por tudo o que de bom lhe havia acontecido até à data e era também com ela que pretendia passar o resto dos seus dias.É muito estranho. É muito mais que isso. Algo superior às suas forças e também à sua existência. mas bom… – respondeu ela deixando-se mergulhar no beijo que Jorge lhe ofereceu nos lábios.Um brinde – afirmou Jorge tocando a sua taça na de Madalena. e… o quanto esse erro te prejudicou a ti e à nossa filha.Estarmos aqui os dois depois de tudo. Antes. . . Algo difícil de explicar.Será!? . Mas só hoje vi o quanto errei.

ele chegava ao final da tarde com a desculpa de querer estar com o filho.Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser as visitas sempre constantes de Jorge lá a casa. Páscoa e outras celebrações familiares que compunham o ano.Estás-me a dar um prazo? . . Preciso pensar! Preciso pensar muito. Durante os três anos em que estiveram legalmente separados. Normalmente. Talvez por causa dos filhos. algo que nunca fizera em anos e anos de casamento.Eu vou pensar – riram-se os dois quando ele atravessou o jardim em direcção ao carro e não tardou mais do que três minutos a arrancá-lo.Já te disse que preciso de mais tempo. .Mas quando voltar quero uma resposta – disse Jorge brincando-lhe com os dedos das mãos. . Madalena percebeu que sentia falta delas. A resposta de Madalena fez Jorge recuar dois passos e baixar a cabeça num claro sinal de desespero. Mais uma vez. mas no fundo sempre existiu uma estranha ligação entre os dois. .Está bem. ou quem sabe por nada disso. Depois disso. aquela noite não foi excepção. . . Vou para Bruxelas e devo lá ficar umas duas semanas no máximo. . .Estou a pensar – respondeu Madalena encostando a cabeça à parede.Mais ou menos! Quer dizer….E então?! Já chegaste a alguma conclusão? . Os papéis do divórcio foram assinados sem um pingo de remorso. .Vou viajar este fim-de-semana. . – Quero que me digas se posso voltar cá para casa. Jorge! Não posso decidir uma coisa dessas de ânimo leve. Quem sabe se voltasse ao ponto de partida? Quem sabe se a volta de Jorge não lhe traria de volta algum do barulho perdido? 170 . – Pensaste no que te disse? – perguntou ele quando ela o levou à porta. Ano Novo.Eu sei – respondeu ele acariciando-lhe a face rosada. das festas de aniversário.Vai – murmurou ela afastando-o da porta.Para onde? .Não prometas coisas que não podes cumprir. Percebeu também que há muito não ouvia qualquer barulho e que a possibilidade de nunca mais ouvir estava-se a tornar demasiado evidente. do Natal.Pensa! . – Mas não te esqueças que desta vez é a sério! Se me deres uma nova chance prometo que não te vou desiludir. ficava para jantar. lavar a loiça. e só se dava por vencido quando Daniel subia ao quarto e Madalena forçava enormes bocejos numa tentativa desesperada de o fazer olhar para o relógio. disponibilizava-se para colocar a mesa. deparou-se com o vazio daquela casa e soltou um pesado suspiro ao sentir-se pela primeira vez confusa quanto ao desfecho da sua história com Jorge.Uma viagem de trabalho. – Já está tarde. as suas vidas tomaram rumos diferentes. . talvez pelos dezasseis anos em que estiveram casados. – Depois falamos. muita coisa se passou e muitas vezes ela disse que o amor e a paixão que os unia tinha terminado sem deixar rastro. Porque será que ela continuava sem acreditar nas suas palavras? Porque é que ela tinha um prazer especial em criar uma verdadeira muralha entre eles? – Acho melhor ires – afirmou Madalena encontrando-lhe a mão direita. Depois. sim! Estou-te a dar um prazo. Madalena fechou a porta. Mas enquanto passeava pelas habitações de uma casa anteriormente repleta do barulho das crianças.

Saber se ele 171 .Pois eu acho que o devias procurar outra vez – afirmou Alice saltando da montra. Duas semanas. e … eu escolhi acreditar na minha filha. aliás.A sério! Acho mesmo. olhando para trás. apesar de se encontrar ainda um pouco confusa. não é!? – riu-se Alice divertida quando Madalena lhe contou a conversa que tivera com o ex.Tu surpreendes-me sempre. . . a sério… . Acredito mesmo que ele te ama e que está disposto a concertar todos os erros. no que poderíamos ter vivido e não vivemos… . – Sou uma caixinha de surpresas. .Nem precisas dizer – riram-se as duas. . a resposta lhe estaria na ponta da língua.Nunca mais tiveste notícias do Sérgio? .Por culpa da Sara – interrompeu Alice terminando a decoração da montra da loja. mas que apesar de tudo ainda têm concerto. . marido a poucas horas da sua partida. . E eu não quero passar pelo mesmo.Tal como o estipulado. não só como homem.Sabes. Disse-lhe que iria pensar cuidadosamente no assunto. não sabes?! . no fim-de-semana seguinte. . era o prazo. que não foram poucos. . eu acho que deves procurar o Sérgio e esclarecer a vossa história de uma vez por todas. não.Eu sei – riu-se Alice. Traições. entendes?! Mas uma outra parte continua a gritar-me aos ouvidos que se eu voltar para o Jorge tudo vai ser como era antes. marido. Eu realmente acredito que ele está arrependido de todas as coisas que fez no passado.Claro que não! Só preciso de tempo. . nem sei sequer se tenho forças para passar pelo mesmo.Mas as coisas não assim tão fáceis – respondeu Madalena com um longo suspiro. .Mas eu acho que ele mudou – concluiu Alice captando os olhos de Madalena.Eu não sei – respondeu Madalena não escondendo a sua indecisão.No Sérgio?! .Adoras vê-lo a sofrer. negócios atrás das minhas costas e mentiras. Às vezes esses milagres acontecem com as pessoas que menos esperamos e com o Jorge aconteceu. por muito tempo eu culpei a Sara. – Eu ainda continuo a pensar no Sérgio. mas até hoje eu continuo a pensar nele. Não posso culpar ninguém por essa escolha a não ser a mim própria. – Uma parte de mim quer.Sim! Podes não acreditar. nós sabemos. Se queres realmente saber se deves voltar para o Jorge. – Acho que ele cresceu. vejo que a culpa foi inteiramente minha. no que poderia ter sido e não foi. resolveu aceitar o desafio proposto pelo ex. Jorge partiu para Bruxelas e deixou um ultimato a Madalena para que ela se decidisse a dar-lhe uma segunda oportunidade. Foi com essa promessa que Jorge viajou prometendo telefonar assim que tivesse um minuto livre na sua agenda preenchida de reuniões e congressos. . sabias?! .Mas queres ou não voltar ao vosso casamento? .Desde a última vez que o procurei. Fui eu que não quis acreditar no Sérgio mesmo quando ele me disse que nunca tinha tocado num fio de cabelo dela.Tu sabes que eu nunca fui com a cara do Jorge. sim! Mas hoje. e que assim que ele voltasse. Eu tinha duas escolhas: Acreditar nele ou acreditar na Sara.Não! Claro que não… . e ela. mas também como ser humano.

O primeiro dia de Março amanheceu chuvoso. enquanto um pouco mais atrás. foi a pergunta que imperou no ar quando ela desligou a chamada e voltou a poisar o telefone sobre a mesinha. seis e não houve qualquer resposta. Por outras palavras.Há muito tempo – respondeu Alice apressando-se a cumprimentá-la com um beijo na face. Madalena percebeu que já não havia mais tempo a perder e digitou um número que um dia chegou tão bem a conhecer. mas por outro lado. chegou a haver casamento? 172 . friorento e começou com a chegada de uma carrinha de encomendas feitas pela floricultura. o motorista da carrinha não tardou a abrir as portas e a mostrar-lhes as flores encomendadas. Foi por isso que naquela friorenta noite de segunda-feira. mas mais do que o toque em si. Nessa altura. uma onda de pânico percorreu-lhe o corpo.Estou óptima – respondeu ela não escondendo o seu sorriso radiante. Era ele. minhas queridas! . Será que mudou de número.D. Como estás? . após se ter convencido que nunca mais o tornaria a ver e de que as suas vidas tinham tomado rumos diferentes. dois toques. voltou-se para a filha e perguntou: – Olá Joana. Mais uma vez. Beatriz!? – disseram Alice e Madalena sem esconder a surpresa por a ver ali. Nessa altura. uma gorjeta ao motorista e a partida do último com a promessa de voltar dali a três dias. Seguiu-se uma rápida conversa. três. Era realmente muito estranho. Só assim vais poder virar essa página da tua vida e seguir em frente… Os conselhos de Alice deixaram Madalena confusa. cinco. . – Estão frescas – disse ele com um sorriso que imediatamente contagiou as duas funcionárias. . Madalena seguiu-lhe os passos tentando abrigar-se da chuva. Um toque. se continua a pensar em vocês ou se já está noutra. um pouco contidamente. Depois disso. Era ele. Meu Deus. ela resolveu cometer uma das maiores loucuras da sua vida.É. alertaram-na para uma verdade incontornável. Quando o relógio sobre a mesinha de cabeceira marcou vinte e três horas e trinta minutos. – Mas antes de mais queria pedir-lhe desculpas por tudo o que aconteceu. – Olá. não é?! . Sei que foi horrível ter levado com aquela vela na cabeça quando foram levar as flores para o meu casamento. Aonde estava com a cabeça? Porque não esquecia Sérgio de uma vez por todas? Seria assim tão difícil quanto isso? O toque do telefone fê-la dar um pulo sobre a cama. Como era estranho voltar a ver o nome dele após tantos meses de ausência. a porta fechou-se e tornou a abrir-se com duas caras também elas conhecidas. quatro. os três carregaram as flores para o interior da loja e depositaram-nas perto do balcão. foi o facto de ter visto o número de Sérgio no visor. – Já veio – gritou Alice correndo a abrir a porta. Uma onda de dúvidas atravessou-lhe os pensamentos e a certeza de que tinha cometido um erro pareceu mais iminente do que nunca. Sim. telefonar a Sérgio e marcar um encontro onde ambos pudessem conversar sem a mínima possibilidade de serem interrompidos.Há quanto tempo.ainda continua a gostar de ti. e essa verdade era a de que enquanto não resolvesse a sua história com Sérgio iria ser praticamente impossível reatar a sua história com Jorge. Depois disso. realmente não foi uma experiência lá muito agradável! Mas que mal vos pergunte.

Porquê?! . Será que têm alguma coisa? . . 173 .Até porque ela agora está noiva de um empresário árabe multi-milionário – concluiu Beatriz. – Devíamos levá-las. não foi só por causa disso que viemos à loja. quando o amor é assim tão… intenso. Madalena aproximou-se da porta e virou a placa ao contrário: Fechado. Volte amanhã. o meu noivo. ele achou por bem que eu e a minha mãe ocupássemos a casa até o dia do casamento. e como aquilo está às moscas. convidou-nos para irmos morar com ele e com os pais a Dubai. que rápido – murmurou Alice recebendo um discreto beliscão por parte de Madalena. amor e amor. Uma casa de chás situada no centro de Lisboa repleta de pessoas de todos os estratos sociais. . cadeiras e azulejos pintados à mão ressaltavam a sua elegância. . Para além disso.Tiveram sorte – interferiu Madalena levando mãe e filha em direcção à bancada da floricultura.Bem. Queríamos encontrar um arranjo lindo para uma amiga que faz anos hoje. mãe! Tenho a certeza que a Carmo iria adorar. . Tal como sempre. e para prová-lo.Que bom – respondeu Madalena forçando-lhes um sorriso. a floricultura encerrou às dezanove horas. – Faz tudo para me ver feliz e também para me mimar.O Atif. não é.Uau! Não é para todos – riu-se Alice. as coisas tendem a ser rápidas. . vinha a agitação e a correria dos empregados que faziam de tudo para atender os clientes. – Acabámos de receber novas encomendas.Ele é um gentleman – afirmou Joana mostrando o seu anel de noivado cravado a ouro e diamantes.Árabe?! – indagou Alice.Isto tudo para vos dizer que esta vai ser a última vez que cá vimos – concluiu Beatriz. Sinceramente não podia ter encontrado um noivo melhor. . Finalmente chegara a altura pela qual ela havia ansiado durante meses e nada e nem ninguém a iria fazer atrasar-se àquele encontro. essa casa trazia consigo um ambiente ameno. era o local. talvez tivesse uns vinte anos de existência. Parece que eles têm lá uma propriedade gigantesca. Depois dessa elegância. tudo isso eram pequenos detalhes perto da imensidão do que iria acontecer quando chegasse ao local combinado. .Claro que não – respondeu Beatriz passando as mãos pelos cabelos da filha. – Acham mesmo que a minha querida Joaninha iria casar-se com um idiota como àquele? Ela merecia muito melhor e foi óptimo ter desmanchado o noivado antes de cometer o maior erro da vida dela. mas o aprumo das mesas.Pois não! Só para quem tem sorte e um rosto lindo como a minha Joaninha – respondeu Beatriz mostrando um sorriso radiante à filha. Os dois são completamente apaixonados um pelo outro e até já marcaram a data de casamento para o próximo Verão. radiante.Uau! Estas túlipas são lindas – exclamou Joana não resistindo a tocá-las. – Mas bem. surpresa. – Quer dizer. caloroso e bastante agradável. nem o trânsito caótico que todos os dias inundava a cidade e muito menos o temporal a cair violentamente sobre o pára-brisas do carro. . Era uma das mais antigas da cidade.. Nem os seus clientes. Na verdade. .Sim! Conhecemo-lo num cruzeiro pelo Oriente há seis meses atrás e ele encantou-se tanto pela Joana que nunca mais a quis largar. . Desde então só tem sido amor. .

Madalena sentou-se à mesa. . nada mais voltou a ser o mesmo. . Está a ocupar o antigo quarto que era da… . Faz tanto tempo que não nos vemos… . arranjou os cabelos molhados pela chuva e ainda teve tempo para sorrir. . O tempo passou.Sim! Da Sara – respondeu Madalena não escondendo o constrangimento sempre que falava da filha. . . Depois disso. mas acima de tudo sincero. ainda nem te perguntei como é que estás. Nessa altura. fugiam para o interior da cozinha e voltavam com chás fumegantes. Impressionante.disse ela encontrando a mesa escolhida por Sérgio.Mas tu estás óptima. . sendo que depois dessa separação.Não muita – respondeu Madalena tentando esconder o nervosismo de estar outra vez à frente do único homem que a conseguiu envolver após o seu divórcio.Bem. E sim.Claro.Espero que esteja tudo bem com o teu pai.Ouvi dizer que aqui servem uns maravilhosos bolinhos de coco e óptimos chás de menta. – Então?! Já pediste alguma coisa? .Sempre com um sorriso nos lábios. .Está tudo bem com eles! O meu pai está agora a morar comigo. fez os pedidos em nome dos dois e aguardou que o funcionário se retirasse da mesa com o mesmo sorriso que trouxe. anotavam os pedidos à mesa.Estava à tua espera para pedirmos juntos.Sara. bonita e apaixonante. – Só tive que correr imenso porque não consegui arranjar um sítio aqui perto para estacionar. . Impressionante como Madalena nunca havia percebido isso até conhecê-lo e entregar-se a ele.Eu pedi para que ele ficasse lá em casa. Foram esses os motivos que levaram Madalena a escolher aquela casa de chás para se encontrar com Sérgio Almeida. 174 .Então podemos pedir isso se quiseres – respondeu Sérgio chamando gentilmente um dos inúmeros empregados da casa. – Desculpa o atraso… . Foi ele quem lhe mostrou que nem tudo estava perdido. jovial.Ai é?! Que bom – sorriu Sérgio. que havia vida para além do divórcio e que nunca era tarde para se acreditar num amor tão ou mais intenso que o primeiro. Límpido. um fotógrafo que meses antes havia aparecido na sua vida como um anjo e a virado de pernas para o ar. . – Estás encharcada. . . Mas infelizmente o destino foi cruel e separou-os no momento em que ela menos estava à espera. realmente faz muito tempo – respondeu Sérgio desarmando-a com o seu sorriso e com os seus olhos verdes. – Mas eu não me esqueci de ti.Eu também não.Devo levar isso como um elogio!? . . Sérgio reparou. Apanhaste muita chuva enquanto estavas a vir para cá? .Claro que sim. – Estás mais gordo. bolos frescos e outras iguarias não muito encontradas em outros estabelecimentos da cidade. Um sorriso que continuava idêntico ao que era. .Tu também não estás nada mal – riram-se os dois. com o teu filho… . as suas vidas tomaram rumos diferentes e criou-se uma estranha percepção de que ainda havia pontos a serem esclarecidos numa relação que apesar de tudo foi intensa.É.Não faz mal! Também só cheguei há cinco minutos – respondeu ele observando-a a arrastar uma cadeira.

Porque eu preciso saber. Quem começaria primeiro? . mas ainda assim.…que provavelmente já deves ter refeito a tua vida. cada vez que se olhavam nos olhos.Primeiro porque… queria ouvir a tua voz.Não sei se te lembras da Vera… . . Não porque não quisesse. eu nunca me esqueci de ti. . e se me perguntares ou se alguém me perguntar. um certo desconforto até. Se não existe a mais remota possibilidade de me quereres de volta e de me perdoares por não ter acreditado em ti na altura que eu devia ter acreditado. Madalena e Sérgio agradeceram a gentileza do funcionário enquanto escolhiam as suas respectivas chávenas e tentavam arranjar espaço numa mesa não muito gigantesca. .Confesso que fiquei um pouco. – Que ainda não me tinhas esquecido. – Eu sei que já se passou muito tempo… . não foi? . e mais uma vez. …ver o teu rosto e ter a certeza que nada do que vivi contigo foi um sonho.Como assim?! . e segundo porque… precisava ter a certeza de uma coisa.Eu também acho que foi! Foi uma das coisas mais reais que aconteceram comigo e eu tenho medo que nunca mais volte a acontecer.Que Vera!? – perguntou Madalena tentando manter-se firme perante as revelações que se avizinhavam. E tens razão. Foi real. Mas a verdade é que passou e… .Deves ter ficado surpreso quanto te telefonei ontem à noite. 175 . . assim como eu também nunca me esqueci de ti.Claro que foi – respondeu Sérgio afastando a chávena de si. Mas a verdade é que o fotógrafo não conseguiu interrompê-la a tempo. . Foi por isso que eu resolvi procurar-te de novo… .discursou Madalena sentindo-se quase sem fôlego. . Não estava nada à espera. Era óbvio o nervosismo demonstrado pelos dois. . . não é!? – disse Madalena bebendo um gole do seu chá de menta.Que coisa?! Ela sorriu nervosamente. quem sabe… não sei! Quem sabe… . mas sim porque não teve forças para isso. Porque foi real. As palavras de Madalena contrastaram com a expressão séria de Sérgio e com o desejo que ele sentiu em contar-lhe toda a verdade antes que ela abrisse o seu coração de uma forma irreversível.E os nossos caminhos afastaram-se muito! Mais do que eu queria que se afastassem. eu preciso mesmo saber se a nossa história terminou. . parecia que tinham tantas coisas em comum e tantas palavras para se dizerem um ao outro. o que vivemos não foi um sonho. mas eu precisava ver-te mais uma vez. duvido muito que algum dia vá esquecer.E…?! .Nem eu. Sei lá! Ouvir a tua voz.Lena. foi muito real e inesquecível! Mas o tempo passou e não eu sei como conseguiu passar tão depressa. Porque se tu me disseres que… existe essa possibilidade.continuou ela.Nem tu? Então porque é que me ligaste? – riu-se Sérgio.Os chás e os bolos de coco não tardaram a ser trazidos à mesa pelo mesmo empregado que os havia atendido minutos antes.Lena… .

Não foi bem apaixonar – respondeu Sérgio observando-lhe os olhos cintilantes. . O fim dos sonhos que ela transportou durante vinte e quatro horas. – Vais ser pai… . Durante a condução para casa.Apaixonaste-te por ela?! .E tinham?! . .Mas não a amas. e enquanto a tentava assimilar. várias foram as vezes que Madalena pensou cometer suicídio ou então abrir um buraco para se esconder por debaixo da mesa. Sérgio não contava. . pensou. Madalena encolheu os ombros e lançou os olhos ao movimento frenético das pessoas à sua volta pensando como era impressionante que ainda ninguém se tivesse dado conta da maior tragédia ocorrida na sua vida. Mas infelizmente nenhum dos seus desejos se concretizou e a visão de Sérgio aos poucos e poucos tornou-se cinzenta e deturpada. Era o fim. – Descobri isso há pouco tempo.Porque ela está grávida. a revelação não poderia ser mais bombástica. o fim do que poderia ter sido e não foi. Meu Deus! Como o mundo dava voltas e como o destino era tão cruel. Aconteceu! Essas coisas acontecem a toda a gente e eu disse-te que um dia iria acontecer contigo. e tal como deves calcular.foi tudo o que ela conseguiu murmurar enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas. até hoje não sei se sou apaixonado por ela. ela desmoronaria como um baralho de cartas. .Lembro. fez-me sorrir nos momentos em que me apetecia chorar e tornou-se numa pessoa importante na minha vida.Então porque é que estás com ela? – perguntou Madalena sentindo-se confusa. onde praticamente deixou ver o asfalto da estrada devido às lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. E não. – Desculpa! Eu não te queria magoar. eu sou o pai… – respondeu Sérgio terminando com todas as dúvidas que ainda assombravam os pensamentos de Madalena. . – Aliás. até porque se ele continuasse a olhar para si ou se atrevesse a proferir qualquer outra palavra de arrependimento. eu encontrei-me com ela num desfile de moda.Na altura não! Claro que não… – respondeu Sérgio temendo ser mal interpretado. trocámos números de telefone e fomos nos conhecendo melhor. e o fim de uma história que tinha tudo para dar certo. várias foram as vezes que Madalena tentou 176 . Conversámos. – Mas depois que terminámos por causa daquela história da Sara. Não era para ser importante.. aliás. lembraste?! . Ela apareceu uma vez em minha casa enquanto lá estavas e tu ficaste desconfiada que tínhamos algum envolvimento. Foi algo muito casual. na altura eu estava tão magoado que nem sequer me passava pela cabeça ter alguma coisa séria com quem quer que fosse.Uma modelo que eu tinha fotografado no início do nosso namoro. . Quatro semanas! De facto. Ajudou-me imenso quando me senti em baixo. entendes?! Mas sei que gosto da companhia dela. Ninguém teve a brilhante ideia de olhar para si e confortá-la com alguma palavra ou até mesmo com um abraço.Vou – respondeu Sérgio encontrando-lhe a mão sobre a mesa.Não! Não a amo. Sem mais nada para lhe dizer. Mas a verdade é que foi acontecendo … . Devo-lhe muitas coisas… .Não tens que pedir desculpas.

Preocupado com o comportamento intempestivo da filha. . Nenhuma mãe teria aguentado o facto de saber que a filha se andava a prostituir em troca de nada… . . – Eu tenho a certeza que nenhuma mãe teria aguentado a metade do que eu aguentei. . – O que foi? . As coisas que ela me disse na noite em que se foi embora até hoje estão-me gravadas na memória e eu nunca vou conseguir esquece-las ou sequer perdoá-las… . não foi muito difícil chegar ao quarto de Madalena e tocar-lhe à porta. por favor … . cansada de a impedir de sair à noite e de a ver chegar bêbada às tantas da madrugada – afirmou Madalena gesticulando furiosamente os braços. pai! Tu sabes que eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para impedir que a Sara saísse de casa.Pai. – Posso?! . A expressão séria de Afonso fê-la hesitar. mas a verdade é que desde que ela saiu cá de casa a minha vida melhorou e eu não quero ter que voltar ao ponto de partida. . – Será que aconteceu alguma coisa com a tua mãe? .Podes – respondeu ela apressando-se a limpar as lágrimas junto à janela.Mas ela é tua filha. .Pai. .Não. Mas acho que para isso não existe solução. ela abriu a porta de casa completamente encharcada e largou as chaves sobre a mesinha.Eu não acho. – Estava com duas amigas muito mais velhas e parecia que iam a entrar no metro! Bem.Hoje não. tu tens a certeza do que me estás a dizer? 177 .convencer-se de que a sua história com Sérgio tinha terminado e de que não lhe restava mais nada a não ser lamentar-se da sua triste sorte. .Encontrei-a na zona do Areeiro – continuou Afonso enquanto Madalena passeava atordoada pelo quarto. . Depois dessa certeza. pai! Não há problema nenhum! O único problema é a minha vida em si. . – Hoje não! . .Não sei – respondeu Daniel enfiando o rosto no livro que estava a ler. não é?! Só tenho que me habituar a ela.Já chegaste!? – perguntou Afonso vendo a filha passar pelo corredor como um foguete sem sequer responder à pergunta.Talvez assim tenha sido melhor.O que é que aconteceu? Algum problema? .Que seja. E mesmo apesar das pernas cansadas e do esforço de um pobre velho de sessenta e nove anos.Não. Afonso saltou do sofá e alcançou o corrimão das escadas pronto a descobrir que raios se tinha passado com ela. mas a verdade é que quando fui atrás delas as três desapareceram sem deixar rastro. eu realmente não quero saber da Sara! Sei que é horrível uma mãe dizer uma coisa dessas.A Sara está grávida. mas o que é que querias que eu fizesse mais?! Eu estava cansada de a tentar chamar à razão.O quê?! . pai – suspirou Madalena voltando-se para ele. .Vi a Sara. não sei se me viram ou não.Preciso contar-te uma coisa que vi hoje.Tenho a certeza que vais querer saber.Ela está grávida – interrompeu Afonso parando-lhe todos os movimentos.

É a Sarita! O pessoal lá do bairro chama-a assim.E sabe aonde é que ela está? – perguntou Madalena não escondendo a sua ansiedade.Tome – respondeu Afonso entregando-lhe uma nota de dez euros. . nem mesmo o desespero patente nos rostos de Madalena e Afonso conseguiram demover-lhes da vontade incomensurável de seguirem em frente. e esta senhora aqui é a minha filha. pois não?! .Se achas que não tens qualquer responsabilidade para com a Sara.Eu não acredito nisto. Se quiserem posso mostrar-vos! É mesmo aqui ao pé… . Contudo. – Eu pensei que ela não tivesse família. Gentilmente. chovia torrencialmente.Conhece esta menina? – foi a pergunta. – Bem. o que é que vocês querem com a Sarita?! Olhem que é uma gaja fixe! Não lhe vão fazer mal. – Eu sou o avô dela. . 178 . há muito tempo que não vejo a Sara.Claro que conheço. tudo bem. Com uma fotografia na mão. Madalena e o seu pai. o indivíduo não teve dúvidas: . eu até entendo. mas acho que consigo perceber quando uma mulher está grávida ou não – respondeu ele encarando a expressão surpresa de Madalena. mas… . a mãe da Sara! Viemos conversar com ela.Sei. Lena! É o teu neto. e pela barriga.Ia precisar de um agrado. – A Sara está grávida sim. . madame! Sabe como é que é! Já são sete horas e um gajo ainda não conseguiu juntar dinheiro suficiente para jantar.Ai é?! – respondeu o indivíduo coçando levemente os cabelos. até pelas vestes que trazia consigo e pela barba há muito não aparada. Infelizmente a maioria das respostas foi negativa. claro – respondeu Afonso de imediato. Mas acho que ainda deve estar a morar com a Milene na pensão. Só as amigas dela. e aparentava também ainda não ter passado dos trinta. E apesar de a foto estar molhada. grávida. . não?! . continuaram a descer a avenida e continuaram também a perguntar se ninguém havia visto uma jovem de dezassete anos. Era quarta-feira. – Mas que mal vos pergunte. olhos escuros e pele clara. Afonso aproximou-se dele e em seguida mostrou-lhe uma fotografia que continha a imagem de Sara: .Claro que não – respondeu Afonso perante o desconforto patente nos olhos e nos movimentos de Madalena.Mas?! . . o trânsito mais uma vez estava caótico e as esperanças de encontrar quem tanto procuravam tornou-se remota com o passar das horas. Afonso.Por acaso – disse o indivíduo mostrando-se bastante satisfeito com a recompensa.Claro. Mais lágrimas foi o que Madalena sentiu a brotarem dos seus olhos. . mas ao chegarem ao final da avenida Almirante Reis. Em duas ruas paralelas. Mas para com o teu neto!? Ele não tem culpa de nada. – Leve-nos até lá. – Este é o pior dia da minha vida – gritou ela atirando o candeeiro da mesinha contra a parede. já deve ir nos seis ou sete meses.Bem.. eu sei que só tenho sessenta e nove anos. interceptaram todas as pessoas que iam a passar debaixo dos seus chapéus-de-chuva. – Acho que isto deve chegar para o jantar à maneira. Afonso interceptou um indivíduo de aspecto algo duvidoso. de cabelos compridos. por favor! . Parecia ser toxicodependente.Sigam-me – exclamou o toxicodependente fazendo um gesto engraçado e permitindo que Madalena e Afonso se colocassem à sua frente.

Eu sei – respondeu ela encarando-lhe a expressão irónica.Nós viemos procurar uma rapariga chamada Sara e uma outra chamada… . – Eu não mordo. vestido com um fato de treino azul e uma expressão facial nada amigável assombrou-lhes a visão. . vou ter que avisá-las primeiro. meu Deus. – É aqui. Infelizmente. essas duas! Conhecem-nas. repleto de lixo espalhado pelo chão. prostitutas encostadas às portas das pensões enquanto seguravam os respectivos chapéus-de-chuva e compunham a pequenez das mini saias. rapaz – respondeu Afonso permitindo que Madalena entrasse primeiro. Agora digam lá! Quem são vocês? .Porquê!? . – Mas para vos deixar subir. amigo – respondeu Afonso mantendo Madalena um pouco mais atrás de si a fim de preservar a sua identidade. um misto de sensações e sentimentos atravessaram o coração de Madalena. .Sempre a vi sozinha lá no bairro e ela também nunca falou nada.Hã.Bem. o seu cumprimento foi imediatamente correspondido pelo ex.Vítor – respondeu ele abrindo um sorriso enquanto estendia a mão a Afonso.Sei! Uma surpresa? 179 . Nessa altura.Como é que é o seu nome. é?! . mas estava! Eu sou o dono desta pensão e aqui ninguém entra sem passar primeiro por mim. oh – exclamou Vítor alcançando a porta da pensão que tanto tinham procurado.Pois. elas estão lá em cima… – respondeu o dono da pensão mostrando-se um pouco mais calmo por perceber Afonso e Madalena não eram pessoas ameaçadoras ao seu negócio.Desculpe. – Nem sabemos como lhe agradecer… . rapaz? . Era a primeira vez que estava ali. Era a primeira vez em quarenta e dois anos que se atrevia a pisar um local como aquele.Não! Nós gostaríamos que fosse uma surpresa. – Não sabíamos que estava aqui alguém. demorou algum tempo a apertar-lhe a mão. a visão de imigrantes dos mais variados países. vô! Afonso não viu outro remédio a não ser oferecer uma outra nota de dez euros àquele pobre rapaz que apesar de tudo nem parecia ser má pessoa.Obrigado pela ajuda. madame! . . que ao contrário do pai. . um homem de estatura média. – Hei – ouviram uma voz grossa a sair da recepção. – Agora é para a sobremesa.. – Aonde pensam que vão? . despediu-se dele com um novo aperto de mão e acompanhou a sua filha em direcção às escadas sujas e escuras que ligavam os quatro pisos daquela pensão. e por fim. e quando finalmente avistaram a entrada. entende?! – interferiu Afonso. vários toxicodependentes a cambalear pelas ruas. todos eles compunham o cenário no mínimo degradante onde Sara tinha escolhido ser a protagonista. . Depois disso. seguiu-se a vez de Madalena. – Mas não garanto que a Sara e a Milene estejam aí! Podem ter saído! . E ao voltarem-se para trás. .Milene – concluiu Madalena quase gelando dos pés à cabeça quando os seus olhos se cruzaram com os do proprietário da pensão. Surpreendentemente ou não. militar.Sim! Somos amigos.Eu sei – afirmou Vítor estendendo novamente a mão. A caminhada em direcção ao bairro do Intendente demorou alguns minutos.

– Porquê? Algum problema? . Há muito tempo que não nos vemos e eu tenho a certeza que elas iriam ficar muito mais contentes se nos vissem lá em cima… de surpresa. O número dois. e Madalena pode ter essa certeza quando se viu pela primeira vez à frente do quarto apontado pelo dono da pensão.Obrigada! Sob o barulho ensurdecedor das escadas. os inúmeros remédios que foi obrigada a adquirir na farmácia de serviço ou os panos húmidos para acalmar as febres altas conseguiram melhorar o estado de saúde de Sara. sou eu – respondeu a prostituta cautelosamente. O número que para sempre iria ficar gravado na sua memória.suspirou ela. A porta sofreu dois toques quase seguidos. a sujidade entranhada em todos os cantos não lhes deixaram quaisquer dúvidas de que Sara tinha escolhido um dos piores lugares do mundo para viver. – Não vais bater à porta? – perguntou Afonso percebendo a hesitação de Madalena. não conseguiu produzir qualquer movimento corporal a não ser manter a mão sobre a porta. Enquanto pensava em todas estas tragédias. Depois disso. ela estava grávida.Como assim?! . pai! Deixa – exclamou Madalena impedindo que Afonso retirasse mais uma nota da carteira. . A visão que lhe surgiu à frente foi realmente surpreendente. Uma mulher de cabelos castanhos pelos ombros vestindo uma gabardina preta e um lenço cor de laranja ao pescoço. . Depois disso. – Pois não?! . .Deixa-me… .O quarto fica no terceiro andar e é o número dois. . .Não.…deixa-me ganhar alguma coragem. Raios. pensou. era ela quem fazia questão de pagar. . e logo atrás dela.Eu sou a mãe da Sara – interrompeu Madalena para grande surpresa de Milene. o que também poderia prejudicial para o bebé.Sim.Você é que é a Milene? – perguntou o senhor. . Afonso e Madalena contaram os degraus até o terceiro piso e muitas vezes se viram submersos numa escuridão aterradora. Para além disso. Milene ouviu um terceiro toque na porta e finalmente deu-se por vencida. O que mais poderia fazer para que a amiga se recuperasse da pneumonia contraída cinco dias antes? Nem mesmo as emergências do hospital. – Podemos entrar? 180 . um senhor de meia-idade trajado com um casaco verde-escuro e calças de ganga aprumadas. é mais caro.Pois. Esta. ainda atordoada perante tal revelação. E foi por isso que sem muitas cerimónias ela saltou do divã encontrando no espelho o único local para compor os cabelos e o decote da sua camisola preta. algo que prendeu de imediato a atenção de Milene e que a fez largar a revista que tinha nas mãos. – Aqui tem os vinte euros.Sim. tornou a afastar-se da cómoda e alcançou a maçaneta da porta girando-a de uma só vez. eu deixo que façam a tal surpresa e até finjo que não estava cá quando subiram! Mas se não derem… .Se me derem vinte euros. E para piorar o cenário. até porque desta vez. o cheiro a humidade emanado pelas paredes.. assim como o encontro com a filha após seis meses em que estiveram afastadas e não mantiveram qualquer tipo de contacto. Quem quer que fosse não a iria deixar em paz. mas para ser surpresa. lançou um olhar à cama onde Sara estava deitada e percebeu que a febre e os tremores da jovem ainda não haviam cessado apesar dos antibióticos.

independente e imune à opinião dos outros que era estranho ver-se metida numa situação daquelas. desprovidas de qualquer luxo ou outros elementos decorativos.Eu não sei se ela vai querer ir – respondeu a prostituta cruzando os braços. Madalena lançou os olhos a Sara e por momentos quase não a reconheceu. . – Quer tomar alguma coisa? – perguntou Milene prendendo-lhe a atenção.O lugar dela não é aqui e você sabe disso! A afirmação de Madalena não poderia ter sido mais acertada. Mas como não havia camas vagas no hospital. Obrigada! . Infelizmente. da Sara que todos conheciam.Então já vou indo para não perdermos mais tempo. e em seguida.Eu vou buscar o carro lá acima – disse Afonso voltando-se para a filha.Claro – respondeu ela após alguns segundos em suspenso. aliás.Hã… não. Milene percebeu isso quando baixou o rosto e perguntou: – Para onde é que vocês a querem levar? . Nem mesmo os antibióticos estão a fazer efeito. Depois disso. O facto de a sua filha já não existir. Sempre fora tão segura. Foram precisos poucos minutos para que Afonso abandonasse o quarto e deixasse Madalena e Milene de olhos postos em Sara. . fez-se um silêncio perturbador.É grave? – perguntou Afonso debruçando-se sobre a neta enquanto lhe mexia nos cabelos soltos. E só de pensar que tinha sido ali que a sua filha tinha passado os últimos seis meses de vida. . não é?! . Ao vê-los ali diante de si. claro – respondeu Afonso. os cabelos estavam mais compridos e o rosto de menina inocente transformou-se no de uma mulher obrigada a crescer à força. .Eu não estou a pensar nada – respondeu Madalena observando os gestos de Milene a retirar as roupas de Sara dos armários. . não tinha quaisquer razões para se sentir assim.Tudo bem! Eu entendo. já não restava mais nada e foi isso que assustou Madalena. . – O médico que a assistiu disse que provavelmente era pneumonia.Para casa.Espero bem que não.Claro que não.Ela está assim desde sexta-feira… – disse Milene quando Madalena e Afonso avistaram o corpo de Sara deitado sobre a cama. Era estranho imaginar-se tão pequena. Milene sentiu-se mais nervosa do que nunca. ela tinha emagrecido bastante.. mas a febre continua alta! Já não sei o que fazer para a baixar.Sei que deve estar a pensar horrores deste lugar. aquela era a primeira vez que se sentia tão nervosa perante a presença de pessoas desconhecidas. Apesar da gravidez. e Madalena não resistiu a lançar um novo olhar àquelas paredes vazias. 181 . pai! Vai lá! . mandou-a para casa e receitou uns medicamentos que tive que comprar ali na farmácia. – Lena! Importaste de ficar aqui a preparar a Sara enquanto trago o carro para a levarmos? . – Entrem! O convite foi imediatamente aceite por Afonso e Madalena. a porta do quarto fechou-se com algum cuidado. Enquanto ouvia o discurso de Milene. vulnerável e insegura na presença de Madalena. . – Nós viemos buscá-la – exclamou ela voltando-se para Milene. – Lá é que é o lugar dela! . quando na verdade.

. teve sempre o que comer. .Somos – respondeu Milene lançando um olhar a Madalena enquanto dobrava algumas peças de roupas e as colocava na mala de Sara. Nessa altura. durante os meses que passaram juntas. mas eu não a recrimino! Eu também sei que este lugar não é nada especial. De facto. ninguém em sã consciência iria perceber os motivos que a fizeram largar tudo aquilo para vir morar no Intendente. – A sua filha é quase como uma filha para mim embora a nossa diferença de idades não seja assim tão grande.Vocês são amigas? . mas.. Por estar quase inconsciente devido às fortes febres. para os seus familiares mais próximos e recuperar-se-ia de todos os fantasmas que durante meses a atormentaram. – Esse meu amigo vem cá num instante! Ele vive aqui ao pé.E só para terminar… queria também que soubesse que a admiro imenso! Nem sabe o que eu daria para que a minha mãe também me tivesse vindo buscar ao Intendente. Confesso que até hoje eu nunca entendi. mas ele não vai conseguir aguentar sozinho com o peso da neta e muito menos com as malas dela.. o que vestir e foi obrigada a ir a todas as consultas pré-natais mesmo quando não queria. ficaram-lhe gravadas na memória.Está a pensar sim. tristezas e discussões. . Não fiz um grande trabalho. mas pelo menos fiz o melhor que sabia. . Diante daquele facto irrefutável.O seu pai até pode ser forte. . não foi?! Vá-se lá perceber porquê! Com uma casa de sonho. parecia que a sua história tinha tido finalmente um final feliz.Não é preciso – respondeu Madalena de imediato. – Eu vou chamar um amigo para vos ajudar a levar a Sara e as coisas dela até ao carro. Nessa altura. sabendo bem quem eram as pessoas que 182 . – Espere – exclamou Milene interceptando a saída de Madalena do quarto. no seu coração. poucas dúvidas restaram quanto ao seu destino. Voltaria para casa. As últimas palavras de Milene coincidiram com a saída de Madalena e com as lágrimas que não conseguiu suportar perante a partida da sua melhor amiga. A resposta de Milene trouxe um novo silêncio e também um novo olhar de Madalena aos cantos daquele quarto. sendo que dali para a frente iria ser praticamente impossível voltar a ver o bairro com os mesmos olhos pois Sara tinha retirado dele todo o encanto. Mas de qualquer maneira. Sara nem sequer se apercebeu quando foi carregada ao colo por um dos habitantes do bairro e as suas malas foram levadas pelo avô em direcção ao primeiro piso da pensão.Eu sei – respondeu Madalena encarando-lhe a expressão mortificada. eu gosto muito da Sara e nunca quis que nada de mal lhe acontecesse. Sara transformou-se na única amiga que um dia teve. uma família que a tratava bem. Todas as alegrias que passaram juntas. Mas foi aqui que a Sara escolheu ficar. mas mais do que isso. Sim. na sua companheira.…eu sei que provavelmente deve achar que eu sou a culpada de tudo o que aconteceu à sua filha. . Pelo menos ela nunca foi apanhada por nenhum drogado.. lá isso é verdade. Faltavam poucos minutos para o anoitecer quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta se abriu ruidosamente. confidente e também a única pessoa a quem ousava contar alguns dos seus maiores segredos. não é?! – retorquiu Milene percorrendo a sua lista de contactos através do telemóvel. fui eu que tomei conta dela durante estes meses todos. nunca foi espancada por nenhum chulo.

Obviamente que sempre lhe passou pela cabeça ter netos. enquanto a poucos centímetros. Parecia um sonho. Era remédio santo. das pessoas que mais a amavam e que nutriam por ela um amor incondicional. penteou os longos cabelos da filha e passou o chuveiro por eles para que a água retirasse toda a sujidade acumulada durante semanas. ninguém disse absolutamente nada pois o regresso de Sara era algo já há muito esperado. e consequentemente. Ela estava viva. formar uma família e serem felizes tal como ela um dia também foi. . Aliás. não era muito difícil imaginar que lhe faltariam poucas semanas para dar à luz o seu primeiro filho. Sofreria as mesmas angústias. ela pensou. Um sonho ter a filha de volta e saber que apesar de tudo não lhe aconteceu nada de mal. Até já! . Depois disso. Madalena resolveu enfiá-la numa banheira de água morna e lavar-lhe o corpo com ervas medicinais que a sua mãe costumava guardar na floricultura. Madalena não precisou de mais nada para se sentir a mulher mais feliz do mundo e para ter a certeza que todos os seus esforços não foram em vão quando resolveu procurar a filha e trazê-la de volta a casa.Mãe… Apesar de só ter conseguido ouvir aquela palavra. e por ter experimentado essas ervas várias vezes durante a sua infância. esfregando-lhe não só as costas. Não foi preciso dizer nada. dizia Leonor quando ainda era viva.ouviu-se um murmuro. a cama encontrava-se pronta para a receber. Até porque se pudesse faria tudo de novo. .Mãe….Só mais um pouco! Até ter a certeza que a Sara dormiu – respondeu Madalena. ver os seus filhos casar. Neto. O que não contava era ser obrigada a buscar a sua filha a um bairro como o Intendente e não fazer a mínima ideia de quem era o pai do seu neto. mas também as pernas.O que foi? – perguntou Madalena correndo ao encontro de Sara com o coração aos pulos. Mais tarde. Neto. embora essa fosse a realidade nua e crua. passaria as mesmas tristezas e ouviria todas as coisas que nenhuma mãe desejava ouvir nem no pior dos seus pesadelos. 183 . Daniel saltou do sofá e encontrou a visão do avô. os braços. A contar pela sua enorme barriga. Madalena retirou-lhe os ténis e as meias brancas. Madalena achou por bem utilizá-las em Sara.Até já – disse Afonso encostando a porta com cuidado e deixando Madalena sozinha naquele grandioso quarto com os pensamentos a mil à hora. foi o último pensamento de Madalena quando por fim a conseguiu enrolar numa toalha branca e levá-la novamente ao quarto. o primeiro neto de Madalena. grávida e ainda tinha muito para viver dali para a frente. . Era a única palavra que ecoava nos ouvidos de Madalena e que por momentos a deixou à beira do desespero por não saber como lidar com aquela nova etapa da sua vida.Vais ficar aí? – perguntou Afonso quando se aproximou do alpendre da porta. Afonso levou a neta até ao quarto e colocou-a na cama. . .Então vemo-nos na sala. Nessa altura.tinham chegado a casa. desastrosa e pouco corrente. . Era só com isso que não contava. Com as poucas forças que lhe restavam. da mãe e da sua irmã ao fundo do corredor. . mas o que ela não contava era que as coisas fossem acontecer daquela forma tão rápida. perto dos seus familiares. seguiram-se as roupas e a certeza de que Sara estava realmente grávida.Está bem. Estava limpa. Para acalmar a febre e os delírios de Sara. e o pijama vestido provou que era altura de Sara se sentir finalmente em casa.

Mas a verdade é que…: O que não a matou tornou-a mais forte. isso nem chegava aos pés do que ganhou quando passou as mãos pela barriga da filha. que muito atabalhoadamente. veio um enorme sentimento de paz manifestado por Sara. se aconchegou nos braços da mãe e se deixou adormecer pela primeira vez sem pensar em mais nada. o que não a destruiu ajudou-a a reconstruir-se. E o que perdeu?! Bem. Depois disso. 184 .

Claro – respondeu uma delas recebendo um sinal através do BIP. Fica aqui! . encontrou nos braços do 185 .Sara… . a sala já está pronta.Nasceu – disse Jorge não cabendo em si de contente quando abraçou Daniel com força e se atirou para os braços de Alice. . . Tenho medo de morrer. mas principalmente com os gritos que de vez em quando irrompiam a sala sem qualquer aviso prévio. Sara?! Chegou a hora! As cinco horas que se seguiram foram de grande angústia para todos os que estavam presentes na sala de espera. fizeram com que Madalena ficasse alerta. talvez pela sua inexperiência ou pelo pânico das dores. – Não te vás embora! Não vás… .Posso assistir ao parto? . Mas Sara.Eu tenho medo de morrer. como Afonso.CAPÍTULO X Os dois meses que se seguiram foram atribulados. pedia ajuda a quem quer que se aproximasse de si e desejava que aquele pesadelo terminasse o mais depressa possível. A preparação do parto foi efectuada por algumas das enfermeiras de serviço.Eu vou estar lá fora. – Graças a Deus – exclamou Afonso levantando as mãos ao alto. cheios de surpresas. Apenas gritava. um acontecimento devidamente presenciado por todos os membros da família Soares. E foi precisamente às dezanove horas e trinta e quatro minutos que se ouviu o primeiro berro do mais novo elemento da família. imprimiam-se novas orações e olhava-se para o relógio pendurado na parede. e também por Alice. ainda emocionado. Madalena desejou que sim e foi por isso que se voltou para as enfermeiras de serviço perguntando-lhes: . – Vai correr tudo bem. fazia-se silêncio. mãe – gritou ela estendendo a mão a Madalena a fim de a impedir de sair do quarto. A respiração. Vamos. não conseguiu assimilar nenhuma dessas explicações. – Bem. a calma.Não! Não me deixes aqui sozinha. mãe! Fica aqui. muita força para conseguir expulsar o bebé para fora. Alice e o pequeno Daniel desesperaram-se com a falta de notícias. O que será que a filha quis dizer com aquilo? Não seria apenas um medo normal de uma adolescente prestes a dar à luz? No fundo do seu coração. As últimas palavras de Sara. filha – respondeu segurando-lhe as mãos com força. sendo intencionais ou não. alegrias e culminaram com o dia do parto de Sara. – Não. que muito pacientemente explicaram a Sara todos os procedimentos tidos em conta numa ocasião tão especial como àquela. a melhor amiga de Madalena. Em seguida. Sempre que isso acontecia. Tanto Jorge. e acima de tudo.

Acreditas nisto?! Já sou avó. até o final da semana espero já estarmos todos em casa.A Sara?! Como é que ela está? – perguntou Alice não escondendo a felicidade estampada no rosto. o médico também e por sorte correu tudo bem! Aliás. . . mas como o parto foi natural e não houve quaisquer complicações. seguiram-se outros cumprimentos igualmente efusivos ao pai. Nervoso. Ainda não sabemos muito bem quando é que vai ser.Podes crer – riu-se Madalena. – Afinal de contas. . as duas estão bem… . . . sogro o apoio necessário para extravasar toda a adrenalina que estava a sentir pelo nascimento do seu primeiro neto.Quando é que as vamos poder ver? – perguntou Jorge. . – É uma menina – disse Madalena passada a confusão. – É linda! .ex. o que é que conta ser-se bisavô nessa família. para além da certeza de que aquele tinha sido o dia mais feliz das suas vidas. não é?! . – E então?! – perguntou Jorge assim que ela se abriu e a figura de Madalena lhe surgiu diante dos olhos. avô – disse Alice oferecendo-lhe um novo abraço.Meu Deus! Pensei que o meu coração não fosse aguentar.O. ela estava muito nervosa.Bem. avó! . – Tu vais ser um bisavô fantástico assim como o Daniel também vai ser um tio excelente. – Parabéns. eu nem me pronuncio – interferiu Afonso levantando os braços. à melhor amiga e ao filho. Madalena atirou-se-lhe para os braços e permitiu que ele a levantasse do chão.k.E não vai aqui uma palavra de conforto ao avô?! – perguntou Jorge interrompendo a animação das duas amigas. . a uma sensação de que faltavam notícias para confirmar que tudo tinha corrido bem. – Está tudo bem. vocês vão poder passear pela rua sem ninguém perceber essa tragédia. Porque é que ninguém saía daquele quarto para lhes trazer notícias. foi a pergunta de Afonso enquanto Alice esfregava as mãos de ansiedade e rasgava alguns olhares para uma porta fechada há mais de cinco horas.Tem calma – riu-se Madalena alegremente.Oh pai – exclamou Madalena sugando-lhe a face enrugada. mas vocês sabem que ela sempre foi um pouco preguiçosa… – riram-se todos. marido e do gesto engraçado que fez ao levar uma das mãos ao peito. claro! O parto foi longo. forças até tinha. .Não! Chega de homens neste mundo – disse Alice. Jorge olhou mais uma vez para o relógio e retirou as mãos dos bolsos das calças. – Mas as enfermeiras ajudaram-na imenso.Era mais fixe se tivesse nascido rapaz – resmungou Daniel não vendo na sobrinha uma boa companhia para jogar à bola.Cansada. e mais tarde. impaciente.E ainda nem chegaste aos quarenta e cinco! Isso é bom. Perante a revelação do ex. Assim quando a tua neta crescer. – Aqui tens o teu conforto! .Que bom – exclamou Alice correndo a abraçar a melhor amiga. Mais tarde.Agora estão a limpar a bebé! Depois a Sara vai ser colocada num quarto normal e as duas vão ficar lá até lhes ser dada alta. Quer dizer. cheia de medo e não tinha forças para puxar o bebé. – Como é que foi? Como é que está a Sara? O bebé? Nasceu? Está bem? . – Nasceu! Os momentos de euforia inicial deram lugar a uma relativa calma. – Estamos a precisar é de mulheres! 186 . . . – Afinal de contas eu também fui avô antes dos quarenta e cinco.

Levava-te para todo o 187 . – Era para teres ficado contente. . Impressionante como em tão pouco tempo a sua vida mudou apenas com a existência de um novo ser. . Já se acalmou.Só espero que não seja Gertrudes – brincou Alice. .Já escolheste o nome? – perguntou Jorge completamente embevecido pela neta.Não.Impressionante – riu-se Sara.Não – riram-se todos.Agora mesmo! Mas não acho que seja fome.Já não tenho idade para estas coisas – respondeu ele arrancando uma risada geral. – E também já tinha falado com a mãe mais ou menos sobre o assunto… . . todas as dores sofridas durante o parto tinham desaparecido. Mas a verdade é que ela não ignorou e a outra verdade é que Sara começava a perceber o porquê. . militar tirou um lenço do bolso das calças e tentou esconder as lágrimas para que ninguém o visse a chorar. – Ela acordou? – foi a primeira pergunta que a jovem mãe fez ao ver Madalena a passear a bebé pelo quarto. . . à primeira mamada e observou Sara dormir como uma pedra durante horas sem sequer acordar quando a pequena Leonor abriu o berreiro um pouco antes das quatro da manhã. pois Madalena foi a primeira pessoa a estenderlhe a mão nos momentos em que mais precisou. Afonso – exclamou Jorge tentando desanuviar o ambiente do quarto.Estive a pensar – respondeu Sara ajeitando os lençóis sobre o colo. – Eu queria que se chamasse Leonor! O nome da avó. Descansa. .Havias de me ver contigo quando nasceste – respondeu Madalena correspondendo ao sorriso da filha. o ex.Não a largas para nada! Parece que ficaste viciada nela. Durante muito tempo ela esteve cega ao não dar valor à sua mãe e só agora começava a perceber o quanto errou ao não fazer isso. foi a primeira a salvá-la dos perigos e também a primeira a perdoá-la quando tudo o que deveria ter feito era ignorar a sua existência. Como todas as coisas que anteriormente não faziam sentido passaram a fazer e como desejava entregar à sua filha tudo o que tinha de melhor.Ele ficou contente. – Qualquer coisa e chora logo! .Dá-ma! .Quando a porta se mexeu com um pequeno guincho. .Que chorão que você me saiu.Eu sei. Impressionante. – Oh avô! Não fiques assim – disse Sara correndo a abraçá-lo sobre uma das pontas da cama. Madalena decidiu passar a noite na clínica para ajudar a filha em tudo o que ela precisasse. Ao contrário de todos os outros. Sara esgueirou o pescoço através da cortina e aguardou ansiosamente a entrada dos seus familiares no quarto. deixa estar! Eu fico com ela. Porque nenhuma mãe consegue ignorar a existência de um filho faça o que ele fizer. Emocionado.Não. – Não te largava nem sequer para ir à casa de banho. hã Sr. – Agora é que vais ver o quanto custa ser mãe – disse-lhe Alice enquanto todos paparicavam os gestos e as mãozinhas delicadas da bebé. filha – afirmou Madalena mantendo a neta no colo. não sabes! Mas vais saber. Assistiu também ao primeiro banho. .O quê!? . . Nessa altura. . a sua filha já se encontrava deitada num pequeno berço ao lado da sua cama e as primeiras horas da maternidade começavam lentamente a infiltrar-se na sua mente. A homenagem não poderia ter sido mais nobre e foi por isso que Afonso não se conseguiu conter.

Ela vai ter – respondeu Madalena forçando-lhe um sorriso. as festas de aniversários. 188 . e com uma filha nos braços. . – Eu quero tratarme – ela continuou com os olhos rasos de lágrimas. e contou com a participação de inúmeros convidados. mas foi assim que me senti – Madalena manteve-se calada. mas sim a semelhança que aquela menina parecia ter com a sua filha. A primeira tentativa era a única e dali para a frente iria ser sempre assim. adquirido novas experiências e utilizado essas mesmas experiências para seguirem em frente e reparar os erros do passado. Sara sorriu e deixou-se contagiar por algumas lágrimas teimosas. ir para a faculdade. pele morena e um vestido azul clarinho que em muito acentuavam a sua beleza e inocência. De facto. estúpido e egoísta da minha parte. arranjar um emprego que dê muito.Meu Deus – riram-se as duas. entre os quais. Eu sei que foi horrível. A destacar: os baptizados de Sara e Daniel. os churrascos domingueiros. Agora todos tinham atingido um patamar completamente diferente. repleta de cabelos cacheados. Contudo. que tal como se era de esperar. já não havia mais espaço ou tempo para errar. não foi o vestido que mais chamou a atenção de Sara. Tinham aceitado o seu convite apesar das relutâncias e trouxeram consigo não só vários presentes como também uma bela menina de sete anos. foi realizada no grandioso jardim da casa. foi a conclusão tirada por ela quando Leonor se enterrou nos seus ombros e a figura de duas pessoas muito especiais atravessaram os portões da casa. Sara principalmente.lado e as pessoas até chegavam a perguntar-me: Não te cansas de a ter sempre no colo? Não queres ter uma vida própria? . mas mesmo muito dinheiro… . Acho que… só queria provar a mim mesma que não precisava de ti e que podia muito bem viver sem a tua ajuda. Aos dezassete anos. por todas as coisas que te disse! Eu não sei o que é que me passou pela cabeça. Eram elas.disse ela num tom de voz quase sumido. colegas de trabalho e um número quase incalculável de animadores infantis contratados para a ocasião. Jorge e Madalena esmeraram-se na preparação da festa.Por todas as coisas que te fiz. não vais?! . Quero que a Leonor tenha orgulho de mim… . natais.E tu?! O que é que respondias? .É claro que vou! Vou-te ajudar em tudo o que precisares… – respondeu Madalena oferecendo-lhe a mão e sentindo nela um calor especial de um beijo. amigos.E depois quero voltar à escola. . terminar o décimo segundo. tinham crescido enquanto pessoas. passagens de ano e vários outros acontecimentos sempre relembrados em álbuns de família e afins. – Queria pedir-te desculpas… . O baptizado da pequena Leonor foi comemorado seis meses mais tarde com toda a pompa e circunstância. Perante a resposta de Madalena. onde já haviam sido vivido alguns dos momentos mais felizes das suas vidas. . Mas agora os tempos eram outros.Vais-me ajudar a fazer tudo isso. familiares próximos. prestes a completar dezoito.Que a minha vida eras tu. – Não faças tantos planos de uma só vez.Porquê?! . – Quero curar-me e ser uma boa mãe para a minha filha tal como tu também sempre foste uma boa mãe para mim.

. .Sim.Ias sim – interrompeu Milene encarando-lhe o rosto. – Quando eu descobri que estava grávida.Porque eu não queria que ele soubesse e também… não queria que tu soubesses. . . não ia… .Era tudo mentira! Foi uma mentira que eu inventei lá no bairro para que ninguém soubesse a verdade. – Foi então que eu 189 . enquanto a última. a mesma pele mulata e o mesmo sorriso. .Daniela e Leonor! Ai.É – respondeu Milene baixando os olhos.Porque é que nunca me contaste? . .Vai lá – disse Sara.Há tanto tempo que não agarrava numa bebé. principalmente o Marco – respondeu Milene compondo os longos cabelos.Tínhamos que vir! Afinal de contas não é todos os dias que… senhoras como nós são convidadas para baptizados. Daniela obedeceu ao pedido da mãe e beijou a face de Sara. o meu destino – riu-se Arlete enquanto se afastava em direcção a uma das inúmeras mesas de doces espalhadas pelo jardim e deixava Sara e Milene de olhos postos na outra à espera de forças para terem uma conversa que há muito já deveriam ter tido. Envergonhadamente. – Esta é que é a tua filha? . . Daniela dá lá um beijinho à amiga da mãe. .Não. mas naquela noite ele tinha bebido demais por causa da morte do irmão e… acabou por descarregar as frustrações em cima de mim.Sabia – respondeu a criança arrancando uma risada geral. .foi o cumprimento de Sara às suas amigas. não é?! . aquela mesa de doces está-me a chamar – interrompeu Arlete compondo os seus cabelos volumosos. .Leva a Daniela também – pediu Milene.Era como se estivesse a ver Leonor dali a sete anos.Se eu te contasse tu irias contar ao Marco. mesmo se essa não fosse a tua intenção. – Toma! Para a bebé. . A Daniela! Uma outra famosa. E eu não queria que o Marco soubesse que eu tinha tido uma filha dele.Pois é. – Milene! Arlete! Que bom que vieram… .Então esta é que é a famosa Leonor!? . com um sorriso carinhoso. . .Então aquela história de teres engravidado do teu patrão no restaurante onde trabalhavas… . com os mesmos cabelos cacheados. – Na altura estavas apaixonada por ele e irias acabar por contar. . . Daniela.Claro – respondeu Sara entregando a sua filha nos braços de Arlete.És muito bonita. não é?! – respondeu Arlete mostrando um pequeno embrulho a Sara.A Daniela é a filha do Marco. .E tu.Bem. Milene?! – indagou Sara voltando-se para trás. até tentei contar-lhe. pá! Até acho que já perdi o jeito. – Serve-te à vontade.Obrigada.Posso segurá-la ao colo? . Sabias?! . afagou-lhe os cabelos compridos dizendo: .Podias ter-me contado. Bateu-me! Bateu-me mesmo muito! Quase morri e quase que perdi o bebé também – discursou Milene com um longo suspiro.

Então quer dizer que as nossas filhas são irmãs!? .Tens razão – concordou Sara aceitando-lhe a mão e atravessando com Milene todo o jardim em direcção à mesa dos doces.Tu sabes bem. ganhei misérias de ordenados e já estava a ver a minha vida a andar para trás até encontrar a Arlete outra vez.Até que enfim. . .Não?! 190 . .Bem. . .São – riu-se Milene para não chorar. e por esse milagre. .Lena. Antes. . Primeiro por causa da volta da Sara. já estou quase a chegar aos trinta. . já juntei um bom dinheiro que me vai safar até encontrar um emprego decente e… quero começar a aproveitar a minha filhota. e tive lá a Daniela. . Ela encontrou-me na rua e levou-me para o hospital. – Vou largar a vida – disse Milene após o longo abraço que recebeu de Sara. . as nossas histórias não são assim tão diferentes… .Tal como nós… Enquanto se abraçavam e se tentavam abstrair do barulho infernal inerente àquele jardim. Ali estava Madalena a arrumar os pratos e os copos de plástico sujos pelos convidados quando ele se aproximou e lhe segredou aos ouvidos uma frase que tinha vindo a projectar desde há meses: .Tal como nós.O. essas só podiam ser encontradas dentro delas próprias e ao lado das pessoas que sinceramente as amavam. haviam-nas procurado nos braços de vários homens. fugi para o Porto. Jorge congratulou-se.conheci a Arlete.Mas não agora – respondeu ela passando-lhe as mãos pela camisa. tudo bem! Eu dou-te a resposta. Foi a única que ficou a saber da verdade. .Que resposta? – perguntou ela deliciando-se com a voz do ex. Por isso. onde tal como se era de esperar encontravam-se todas as crianças e também Arlete.Verdade?! . Ela disse-me que eu podia ganhar bem mais a trabalhar como prostituta e eu aceitei porque estava desesperada e também porque a minha mãe não parava de me pedir dinheiro para continuar a tomar conta da miúda. tal como vez. E foi assim que entrei na vida. Trabalhei numas porcarias. não sejas má – riram-se os dois. mulher a sós desde o início da festa. .k. Depois. acho melhor irmos ter com a Arlete senão ela acaba com os doces. . por isso voltei outra vez para Lisboa. Era a primeira vez que conseguia apanhar a ex. depois. em bebedeiras e em festas desregradas. marido atrás de si. não tens mais escapatória. por causa do nascimento da nossa neta. De qualquer maneira. uma das únicas adultas suficientemente infantis para se maravilhar com um bolo recheado de chocolate.Ainda não me deste a resposta. para a casa da minha mãe. Não te faças de desentendida! Desde a minha viagem a Bruxelas que tens andado a fugir. tanto Sara como Milene finalmente encontraram a paz e o conforto que durante meses procuraram incessantemente. baixinho. . e agora.Eu acho melhor esperarmos até a Leonor ir para a faculdade. Só que eu e a minha mãe nunca nos demos lá bem e eu também não estava para aturar as cenas dela. mas esqueceram-se que a verdadeira paz e conforto.Verdade! Decidi-me há coisa de um mês.Fazes bem.

Alice! Rápido! Sem cerimónias e enquanto se riam a bom rir. Depois disso. tenho-te a ti! . Ao perceber quais eram os intentos da ex. aparece no meu quarto.Não acredito que ainda andas a enrolar o gajo… . .exclamou Alice interrompendo os olhares do ex.Tenho o meu pai. – Anda! Vamos tirar uma foto de grupo. depois da festa. casal quando se aproximou da melhor amiga e a surpreendeu com um sorriso malicioso nos lábios. .Sabes de uma coisa?! . tenho os meus filhos… . voltou-se novamente para trás e acenou de longe ansiando que Madalena correspondesse de igual forma. .Sim. .Só precisava de tempo para me decidir! Mas esse tempo demorou mais tempo do que eu estava à espera – respondeu Madalena arrancando uma ruidosa gargalhada a Alice.Não estás? .Tens a certeza? .Se continuares assim ainda vais acabar sozinha.Tenho a minha neta que é a coisa mais linda do mundo. Lá eu dou-te a resposta.Eu não ando a enrolar ninguém. Fim 191 . .Não! Hoje à noite.Também. . – Obrigada por me teres colocado em último lugar. depois de todos já estarem a dormir. o que de facto não tardou a acontecer. – Em primeiro lugar. a verdade é que sobrou um espaço enorme nos corações de todos aqueles que ficaram eternamente registados naquela fotografia. Mãe ouviu-se a voz de Sara.Claro que não – afirmou Madalena passando um dos seus braços pelo ombro da melhor amiga.O quê? .E se mesmo assim não me restar mais ninguém. Jorge sorriu e afastou-se dela com a máxima discrição.Lá isso é verdade – riram-se as duas. E mesmo o jardim sendo pequeno para tantos convidados.Uau – exclamou Alice arrancando-lhe uma leve risada. . Madalena e Alice correram ao local e não tardaram a misturar-se com as cerca de oitenta pessoas especialmente convidadas para assistir ao baptizado da pequena Leonor.. Anda tu também. . . mulher.Mas quem disse que eu estou sozinha? . .

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