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UM MAR DE ROSAS

RAQUEL RODRIGUES

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“Qualquer semelhança entre factos e personagens* não é uma mera

coincidência. Este romance é um retrato fiel de um dos acontecimentos mais infelizes que se passaram na minha família em princípios de 2000 e do qual todos os intervenientes saíram profundamente afectados. Mas tal como em qualquer outra família, os laços que unem uma mãe a uma filha dificilmente são destruídos. São antes eternos e capazes de ultrapassar os maiores obstáculos. Por isso, um conselho que ofereço a todos os que lerem este romance é que aproveitem cada página porque todas elas me trouxeram risos, lágrimas e um prazer inenarrável de escrita…”

* Apenas os nomes das personagens são fictícios.

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com o trabalho e com as amantes que arranjava aqui e ali? Diante de tudo isto. Seis horas e quarenta e cinco minutos. Traições. Infelizmente tinha chegado a hora de levantar. Sara. que apesar de há muito não ser feliz. de quinze anos e Daniel de dez. o que não deixava de ser um dos requisitos fundamentais para ser o melhor na sua profissão. e Madalena descobriu esse carácter ao fim dos dezasseis anos em que esteve casada com ele. Muitas vezes. marido se mostrava muito mais preocupado com o próprio umbigo. marido? E os filhos? Também não deveria ter pensado neles? Na verdade. Mas como poderia oferecer essa família se o ex. quando estava prestes a adormecer. olhos escuros bem delineados. Mas infelizmente não deu. tomar um banho e acordar os filhos para a escola. e para o cúmulo dos cúmulos. Infelizmente terminou e não deixou nada de bom a não ser os dois filhos do casal. até porque o seu único objectivo era oferecer-lhes uma família “normal”. 4 . uma excelente forma física tamanho trinta e oito e que já havia superado um divórcio e todas as frustrações que rodearam a sua vida durante os anos em que esteve casada com Jorge Albuquerque. na verdade. Essa era a rotina de Madalena Soares. também ele tinha um carácter duvidoso. cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros.CAPÍTULO I As chuvas torrenciais e as fortes trovoadas não a deixaram dormir durante a noite. faltas de respeito e negócios esquivos envolvendo uma assinatura sua. Madalena dava-se consigo a pensar se realmente tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para manter um casamento. ditaram o fim de um casamento que tinha tudo para dar certo. era no entanto estável e confortável. o despertador tocou ruidosamente. Bem. Será que tinha jogado todas as cartas que possuía na manga? Será que não deveria ter engolido o pouco do orgulho que lhe restava e tentar salvar as cinzas de um amor que parecia adormecido aos seus olhos e aos olhos do ex. ela passou anos e anos a pensar nos efeitos que a sua separação teria em Sara e Daniel. uma mulher de quarenta anos. em frente ao espelho da casa de banho enquanto analisava os primeiros fios de cabelo branco. realmente não restou outra alternativa a Madalena a não ser pedir os papéis e tentar encontrar alguma paz de espírito. Jorge era um advogado de quarenta e dois anos que ganhava a vida a defender empresários corruptos e outras pessoas de carácter no mínimo duvidoso.

. o elemento mais novo da família. – Ouviste-me – insistiu a mãe sacudindo-lhe o braço. – Não era hoje que ias ter um teste? – perguntou Madalena parando o carro diante de um sinal vermelho.O quê?! .Sabes. Depois disso. A pergunta não obteve qualquer resposta.Perguntei se não era hoje que ias ter um teste. tentava convencer-se disso. queres a tosta com duas fatias de fiambre ou só uma… .Nem penses que vais sair de casa sem comer – respondeu Madalena poisando o fervedor de leite sobre a mesa.Cereais.Eu como lá na escola. Acho que sim. nunca ousou levantar a voz aos pais e muito menos desrespeitá-los diante de quem quer que fosse. Seria pedir muito que a sua filha também fizesse o mesmo consigo? O pequeno-almoço da família foi degustado em meia hora e depois disso seguiu-se a correria em direcção ao carro debaixo de um frio de cortar à faca. . Mas a verdade é que Madalena não se lembrava de ter sido uma adolescente tão problemática e muito menos de ter dado tanto trabalho aos seus pais. Sara viu-se obrigada a acatar as ordens da mãe. tal como já vinha acontecendo há meses. .Estudaste?! . .Já estás a comer os cereais por isso não tens espaço para a tosta – respondeu Madalena alcançando a embalagem do pão de forma. Portas abertas. . Madalena deu-se por vencida e voltou a guardar a embalagem do pão de forma num dos muitos armários da cozinha. pensando melhor. acho que prefiro os cereais – respondeu a jovem alcançando os Kellogs sobre a mesa.Mas eu já ia … .Sim – respondeu Sara baixando o volume do mp3. – Sara. mãe! Já disse que vou comer cereais. Ao ouvir a resposta da filha.Não sei. . já que mais uma vez Sara se encontrava com os malditos auscultadores nos ouvidos. E enquanto ignorava o barulho ensurdecedor dos desenhos animados que passavam na televisão e do mp3 que Sara fez questão de ouvir aos altos berros. contou até dez e continuou a preparar o pequeno-almoço a toda a velocidade. Com quinze anos tudo o que fazia de mais escabroso era faltar às aulas de vez em quando para passear pelas lojas da cidade com as suas amigas. ela percebeu que havia pelo menos seis meses que a filha fazia questão de a contrariar em tudo. . foram os ingredientes para começar bem o dia enquanto o rádio divulgava as primeiras notícias da manhã e os ponteiros indicavam que havia pelo menos vinte minutos que estavam presos numa fila de quase dez quilómetros. – Queres cereais ou uma tosta mista? – perguntou Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou. . – É mais rápido. . . 5 . É da adolescência.Não tenho fome – foram as primeiras palavras de Sara quando entrou na cozinha e encontrou a mãe a preparar o pequeno-almoço.Eu também quero – interferiu Daniel. cintos de segurança colocados e o trânsito infernal na segunda circular. . De resto.Já disse que não! Senta-te e come como deve ser! Após um longo suspiro.Tosta mista.

Um acidente numa das pequenas ruelas da cidade obrigaram Madalena a optar por um outro caminho infinitamente mais longo em direcção à floricultura que dirigia ao lado da melhor amiga e que outrora havia pertencido à sua mãe. ela abaixou-se e alinhou as cartas e jornais com um suspiro de cansaço por uma semana que só na altura tinha começado. surgiu-lhe à frente a visão sempre assustadora da correspondência acumulada durante o fim-de-semana.Achas?! Ou se estuda ou não se estuda. – Porque é que estás tão irritadiça nestes dias? .Porque não?! .Sabes que eu até acho que foi muito bom teres esquecido aquela maldita Playstation na casa do teu pai!? – respondeu Madalena. – Preciso ir buscá-la.Não precisas desejar-me sorte. Realmente nada a que já não estivesse habituada durante os seis anos em que dirigia aquele negócio. .Não.Já disse que não é preciso – respondeu Sara atravessando a rua sem sequer olhar para trás.Vou torcer por ti! .declarou Daniel sob as risadas da mãe. . . . .Posso te fazer uma pergunta? O silêncio da filha fê-la avançar nos seus propósitos. senão fujo de casa… .Vamos passar o fim-de-semana em casa do pai? . e ao abrir a porta. .Porque se fiz. .Mãe.Estás sim! Já viste a maneira como tens andado a falar comigo ultimamente? Quase com quatro pedras na mão. eu peço-lhe para me trazer a Playstation! Não passo mais uma semana sem ela. Ninguém acha que estudou. Água. podes dizer-me e nós podemos conversar sobre isso para tentar… . Devias esquecê-la mais vezes para ver se me consegues levantar as notas a Português e a Matemática. .Oras. foi o colégio de Sara. Passava já das nove quando ela conseguiu chegar ao local pretendido.Eu deixei a minha Playstation lá – interferiu Daniel esgueirando o pescoço em direcção aos bancos da frente. . As notícias no rádio transformaram-se na banda sonora perfeita para que Madalena levasse os filhos à escola.. Seguro. – Ele ainda não ligou a avisar se vos vem buscar ou não. Publicidade.Não sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos quando percebeu a vontade de Sara em mudar de assunto. por ser a mais próxima. . 6 . não me apetece falar. .Para quê? .Se o pai não nos vier buscar este fim-de-semana.Eu não estou irritadiça. – Boa sorte – exclamou ela quando a filha abandonou o carro levando a mochila às costas. – Assim pelo menos passaste menos tempo em frente à televisão e estudaste mais. Sem outro remédio. Diz! Fiz-te alguma coisa? . e a primeira paragem.Porque não me apetece – respondeu Sara fulminando-a com os olhos. para quê?! Para o teste… .És mesmo parvo – adiantou-se Sara empurrando-o contra os bancos de trás.

da movimentação frenética das pessoas e dos prédios. Mas a verdade é que Madalena não foi na conversa e conseguiu levar a sua adiante livrando-se das amarras que a mantinham presa a uma casa quase sempre vazia. havia pelo menos dois anos que Madalena não recebia flores de ninguém. 7 . especialmente os vindos do ex. Beatriz é. . ainda é capaz de nos furar os tímpanos se não tivermos todos os arranjos feitos dentro do prazo. Beatriz já telefonou? . . Não seria esse facto demasiado deprimente para a dona de uma floricultura? Ela achava que sim. Temos já que começar a contactar com os fornecedores para termos tudo pronto a horas. A floricultura de Madalena era também uma das mais visitadas da avenida. iluminado e ficava situado em plena Avenida de Roma.Ainda bem que não tenho filhos – exclamou Alice pendurando o casaco no bengaleiro. Todos os dias surgiam encomendas. . . Alice Santos.Porque ela ficou de cá vir para escolher uns arranjos para o casamento da filha.O mesmo digo eu de ti – respondeu Madalena terminando de analisar a correspondência sobre a secretária. . Mas por mais irónico que parecesse. Mas um súbito ataque cardíaco e posteriormente a sua morte trouxeram à filha um dilema que poucos apostaram que ela fosse conseguir resolver. uma das avenidas mais nobres da cidade lisboeta repleta de buzinas dos carros em hora de ponta. que apesar de serem antigos.Não! Porquê?! – perguntou Madalena largando as cartas sobre a secretária.Por favor. mas o que poderia fazer se até à data não havia encontrado nenhum homem minimamente interessante para lhe oferecer flores? – Até que enfim chegaste – disse uma voz jovial entrando pela loja adentro. eu já tinha chegado há muito tempo. o casamento terminou. veio um certo sentimento de alívio e uma necessidade de auto afirmação que nunca pensou existir dentro de si. Obviamente que os apoios não foram muitos. que na altura também se encontrava desempregada e à espera de dias melhores. casamentos ou outras datas especiais que as pessoas faziam questão de celebrar com flores. Cortadas essas amarras. até pela excelente relação que a sua mãe mantinha com as clientes mais antigas e que fez questão de cultivar ao longo dos quarenta e cinco anos de existência da loja. Manter ou não manter o negócio da família? Mediante o aconselhamento do pai. era o que muitas vezes dizia à melhor amiga. aniversários. mas a floricultura deixada pela mãe.Nem sabes como te invejo – riram-se as duas. Anos depois.Para a tua informação. .É daqui a quatro meses se não estou em erro. Impressionante como um casamento nos pode fazer perder a nossa própria identidade. faz isso! Temos uma reputação a manter… – riram-se as duas amigas.O espaço era amplo. primavam pelo bom gosto e pelo requinte de quem não se importava de pagar muito para viver bem. . uma das poucas pessoas que sempre acreditou nas suas capacidades. de resto. Só estava ali no café a tomar o pequeno-almoço. .Tinha-me esquecido completamente desse casamento. Louca do jeito como a D. .Pois eu atrasei-me a levar os miúdos à escola. .Hoje mesmo vou ligar ao fornecedor. esta ainda continuava a gerar lucros atrás de lucros.A D. . marido de Madalena pois ele desejava ardentemente que a mulher continuasse a ser a perfeita dona de casa sempre atenta às suas necessidades e às dos filhos. Madalena decidiu aceitar o desafio e para isso contou com a preciosa ajuda da sua melhor amiga.

espero não me vir a decepcionar… . não foi o que disseram?! . a responsável pela organização de todo o evento.O casamento de Joana Dias estava marcado para dali a quatro meses. por isso é bom que sejam flores do campo em tons neutros. – O vestido. quanto a isso não se precisam preocupar – respondeu Madalena apontando todos os pedidos num pequeno bloco de notas.É uma superstição – respondeu Beatriz à pergunta de Alice. Flores do campo. que Deus a tenha. claros e suaves – informou a noiva. Sim. – Os nossos fornecedores fabricam esses suportes sem custos adicionais.Hã. – Além disso. Beatriz – adiantou-se Alice beliscando o braço de Madalena a fim de tentar trazê-la de volta à realidade. – Tudo vai ser feito como o combinado. ou pelo menos as suficientes até que Madalena e Alice deixassem as divagações das duas clientes falar mais alto. o único detalhe a acertar era o arranjo das flores e a decoração da igreja.Por acaso não. argumentos e alguns comentários mais ou menos hilariantes.Não. D. Mas agora que ela já não está aqui entre nós. algo que Beatriz fez questão de discutir com a floricultura contratada para o efeito. Sim. não se esqueçam de nos arranjar suportes para os arranjos… . Outra coisa. foram dissecados até à exaustão e fizeram as duas funcionárias da floricultura revirarem os olhos vezes sem conta. foi a mãe. Quero que saibam que só aceitei trabalhar com esta floricultura porque conhecia a mãe da Madalena há muitos anos e foi ela quem me arranjou as flores para o meu terceiro casamento. e tal como se era de esperar. A conversa prolongou-se por mais algumas horas. – Todas as mulheres da nossa família sempre escolheram arranjos de trigo porque simbolizam sorte e prosperidade. a entrada de um outro cliente na loja apressou a saída de Beatriz e Joana e trouxe de volta a paz de espírito que Alice e Madalena perderam durante aquela interminável conversa. Lena? .É claro que não se vai decepcionar. . – Tudo tem que estar perfeito… – dizia Beatriz. Mas por sorte. – Não é. . Beatriz Dias. Ao ouvirem as suas ideias. muitas vezes Madalena e Alice foram obrigadas a concordar com tudo o que ela dizia: E sim. De facto. uma legítima tia falida do jet-set.Sim! A cerimónia vai ser de manhã. estávamos também a pensar em utilizar arruda ou trigo no meio dos arranjos. …claro – respondeu a última apertando a caneta que tinha nas mãos.Trigo?! Porquê? . e pelo amor de Deus. O vestido foi adquirido numa viagem que fizeram a Paris. e a igreja escolhida para que os cerca de duzentos e cinquenta convidados por Beatriz. – Voltamos a falar daqui a duas semanas para saber como é que está a correr a história das flores – disse Beatriz levantando-se de uma cadeira onde esteve sentada durante três horas. a boda e também as flores que vamos utilizar na decoração da igreja.Pois ficam a saber! E ficam também a saber que vão ter que arranjar algumas espigas para colocar nos arranjos da igreja e também no local onde se vai realizar a boda. o local da boda reservado numa Quinta em plena vila de Sintra. 8 . a luade-mel e outros assuntos tão interessantes como o modelo da lingerie que a noiva estava disposta a vestir na sua noite de núpcias. sendo que naquela segunda-feira não foi excepção. Tudo iria ser feito para a agradar. Não sabiam? . A boda.

Bem.Sim – respondeu Jorge.Já – respondeu Sara levando a mochila às costas. mulher foi peremptório e não deixou outra escolha a Jorge a não ser baixar os braços e aguardar a chegada dos filhos à sala. – Já estava a ver que nunca mais – disse ele recebendo um beijo de cada um. – Ainda temos muitos outros detalhes a acertar. Deveria ficar contente por vê-lo? Obviamente que não. . não é mãe? . ..Oito e um quarto – respondeu Jorge lançando os olhos ao seu relógio de pulso. senão imagina o que era?! Íamos logo à falência. Madalena observou o carro do ex. – Meninos! O pai já chegou. façam os trabalhos de casa e comam todas as refeições.Claro.Claro. . os pais do meu genro é que estão a pagar todas as despesas. – Então!? Já estão prontos? . O olhar da ex. .Os nossos filhos queres tu dizer.Uma amiga. nem um minuto a menos. 9 . assim como o desejo de lhe ouvir a voz ou até mesmo o barulho das chaves que ele fazia questão de manter nas mãos enquanto ordenava a Sara e ao Daniel para que se despachassem e não o fizessem esperar em demasia numa sala que durante quinze anos também foi sua. – Chegaste cedo – abriu ela a porta. ainda temos muito tempo até ao dia do casamento – respondeu Madalena levando mãe e filha em direcção à porta. – Podemos ir? . . Por sorte.Que seja! Simplesmente não quero. Apesar da chuva miudinha foi visível que o motor ainda estava trabalhar. Ainda agora vamos falar com a empresa que está a organizar a decoração da igreja e depois vamos também tratar da impressão dos convites. – Deixaste as luzes acesas? – perguntou ela.Não é assim tanto tempo – exclamou Joana retirando os óculos escuros da mala. até porque a vontade de estar com Jorge era nula. – Tenho alguém lá dentro. ao fechar uma das janelas da sala. . . . – Não fiquem acordados até tarde. que educação… . obriguem o vosso pai a fazervos todas as refeições.Não me irrites – resmungou Madalena lançando os olhos ao carro do ex. .Escuta Jorge! Eu não quero que ponhas os meus filhos a conviver com as tuas amigas.Claro – murmurou Madalena não querendo relembrar à sua cliente que ela já estava na falência há muitos anos e que o único motivo para aquele casamento tão apressado era o facto de não se querer afundar ainda mais.Alguém!? . Já vai. encabulado.Uma amiga!? – indagou Madalena levando a mão ao peito. Na sexta-feira seguinte. São mais de duzentos e com certeza vai sair um balúrdio. foi a resposta ouvida. .Portem-se bem – adiantou-se Madalena sugando as bochechas de Daniel enquanto ele vestia o casaco a uma velocidade fantasmagórica. Não se demorem – gritou Madalena aos filhos quando ouviu a campainha tocar. marido. – Nem um minuto a mais. ou melhor. – Que tipo de amiga? . .De qualquer maneira. e depois disso seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à porta. marido a estacionar em frente ao jardim.…uma amiga.Entra lá! .

loira e com as curvas perfeitas de uma top model. Quando a porta da rua se fechou com um pequeno ruído.Confesso que estava curiosa para a conhecer. Sim. mulher lhe lançou. mãe.Oras… . A sua melhor amiga tinha razão quando lhe disse que era mil vezes mais fácil para os homens refazerem a sua vida após um divórcio do que para uma mulher depois dos quarenta.riu-se Vanessa. Alta como uma torre. marido e dos filhos em direcção ao carro.Não sejas mentiroso. Vanessa Figueiredo era o apogeu que todos os homens acima dos quarenta sonhavam apresentar às ex. . Madalena aproximou-se da janela e observou a caminhada do ex. . muito prazer – sorriu ela estendendo a mão a Madalena. – Olá. Jorge resolveu levar os filhos para duas semanas de férias ao Algarve.Está bem. Maio e Junho foram os meses que passaram a passo de caracol.Sim! Madalena. Madalena lançou os olhos as paredes e sentiu-se pela milésima vez sozinha. . Março. Lena! . Abril. cada semana ou cada mês.Nem tanto assim – defendeu-se o advogado tentando esquivar-se aos olhares aterradores que a ex. 10 . . . Cansada era como Madalena se sentia cada vez que olhava para si e para o que a sua vida se tinha transformado desde que assinou os papéis do divórcio. amor! Estás sempre a falar dela… – adiantou-se Vanessa voltandose novamente para a Madalena.Ligo amanhã para falar com vocês. Madalena viu-se obrigada a baixar as guardas e a concordar que Sara e Daniel seguissem viagem com o pai e também com a nova namorada que ele lhe fez questão de esfregar à cara quando foi buscar os filhos. Ainda tentou forçar um pouco mais a vista e tentar vislumbrar os traços físicos da mulher que estava sentada no banco da frente. pois acabaria sozinha e sentada naquele sofá até ficar velha e caquéctica.Mesmo assim! Amanhã eu ligo. – Porque o Jorge está sempre a falar de si e dos vossos filhos. duas lágrimas caíram-lhe dos olhos e ela não teve outro remédio a não ser detê-las com as mãos.Porquê?! . era um tempo que não voltaria a recuperar ainda que quisesse. – O pai traz-nos no domingo à noite. . .Não precisas ligar – disse Sara abrindo a porta. São só dois dias. não é?! . – Madalena o seu nome. e era também um sinal de que não valia a pena lutar contra o inevitável. Cada dia que passava.Muito prazer – respondeu Madalena aceitando o cumprimento de uma forma muito menos efusiva. meninos – exclamou Jorge lançando um último olhar à ex. mulheres. e foi também o tempo necessário para que o calor regressasse em força em todos os pontos do país. – Só falo de vez em quando. Jorge. mulher. – Tchau. e apesar da relutância. de facto. mas infelizmente os seus intentos não surtiram qualquer efeito no momento em que o carro arrancou e a rua tornou a ficar deserta.Vamos.. . Diante daquela possibilidade no mínimo assustadora. Nessa altura. Quem seria ela? Uma namorada? Um caso de uma noite? Ou simplesmente uma amiga como ele fez questão de lhe frisar? Ao sentar-se no grandioso sofá com uma almofada sobre o colo. .Tchau.

Pois eu acho que vou conseguir sobreviver.Hã.Faz isso porque não quero chegar muito tarde ao Algarve.Não acredito! Bem. Vanessa – adiantou-se Jorge temendo que a namorada pronunciasse mais alguma loucura. mas era sem sombra de dúvida a primeira vez que não se sentia minimamente enciumada com a cena. . não?! Amor.. mulher lhe lançou. não é!? Pois então! Ele só está a ter aquilo que merece.A sério.Levar para onde? . – Eu disse-te que ela era dona de uma floricultura. Crianças!? Enfim. Era a quinta vez que Madalena observava a entrada dos filhos. Rapazes de preferência! . quando ambas jantaram juntas naquela noite. 11 .Conheço várias mulheres que depois que tiveram filhos.Madalena quero que saiba que a admiro imenso! Sou a sua fã número um… .Hã… não me parece – respondeu Madalena tentando desenvencilhar-se daquele convite no mínimo inoportuno. .Infelizmente este ano não vou poder ter férias – concluiu Madalena cruzando os braços.A sério?! . realmente não são o meu forte! Dou-me bem melhor com adolescentes. . bem… transformaram-se em autênticos monstros de tão gordas e flácidas que ficaram… – riu-se Vanessa sob o olhar incrédulo de Jorge. já viste o que era passarmos um ano inteirinho sem férias?! Acho que morria… .Para o Algarve. – Por isso é que eu nunca quis ter filhos e nem estou a pensar em ter.Define-me burra – riram-se as duas. . a tal loira mais alta que uma torre e com as medidas perfeitas de uma top model não passava de um corpo desprovido de cérebro ou qualquer outro sinónimo que pudesse fazer jus à sua beleza física. da namorada e do ex.Acredito que sim – murmurou Madalena levando a mão ao peito. – Estás a gozar?! Ela é assim tão burra? – perguntou Alice. a melhor amiga de Madalena. .Obrigada.Porque… . lembraste!? . Está perfeita…! . claro! Esqueci-me.Porquê?! .Acho que não! Eu vou lá acima despachá-los. deve estar arrasada.Os miúdos ainda vão demorar muito? – perguntou Jorge ignorando o sorriso irónico que a ex.!Iria ser divertido passarmos as férias todos juntos.Provavelmente – respondeu Madalena bebendo um gole de vinho. – Mas lá diz o ditado que cada um tem aquilo que merece.Porque ela tem um negócio para gerir.Coitado do Jorge! Será que ele está assim tão desesperado? . . Deus! Como se rebaixou por tão pouco? Como é que sequer desejou um corpo igual àquele quando Deus a havia favorecido com algo que Vanessa nunca iria ter por mais cirurgias plásticas que fizesse: Inteligência e bom senso. .Sabe que eu até estive a dizer ao Jorge para a levar connosco. marido no carro. . . Vanessa. . Sinceramente não sei como é que consegue manter essa forma depois de ter dado à luz dois filhos. . .

Infelizmente Madalena foi obrigada a concordar com as palavras da sua amiga e também com a certeza de que tudo continuava exactamente igual naquela cozinha.Não é só sexo.Sabes bem o que eu quis dizer. – Estou sozinha – disse ela por fim. . claro! Era dinheiro sujo dos negócios que ele fazia com os clientes dele. eu é que sou burra! Burra por ter aguentado tanta nojeira e ainda acabar com uma mão à frente e outra atrás. . até fico toda arrepiada.Mas tens razão. isso foi o cúmulo dos cúmulos… . Alguém! Um homem de preferência. De facto. – Ele está lá no Algarve. tens toda a razão em ficar tão contente com a desgraça do teu ex. animada. eu acho que não.Tens razão – concordou Madalena limpando as lágrimas quando percebeu que também ela fazia parte daquele vastíssimo leque. mas pelo menos está lá a divertir-se e a viver uma vida que eu também queria viver – discursou Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. Não.Foi confiscado.Podias pelo menos ter ficado com algum – riu-se Alice.Voltar a fazer sexo outra vez – concluiu Alice bebendo um gole de vinho. nada tinha mudado. – Mas o que é que havemos de fazer.Nem me digas nada! Só de me lembrar do dia em que a polícia me bateu aqui à porta. nem com isso fiquei! Só fiquei com os cornos. .E tu estás a adorar. Eu acho que ele só fez aquilo para se conseguir safar e também porque é um otário de primeira.Sei lá! Sinto falta de… ter alguém com quem conversar. abraçá-las e fazê-las sentirem-se seguras. Aliás. Alguém que me possa ouvir. . . .E a lata dele em forjar a minha assinatura no banco e ainda fazer uma carinha de inocente à frente dos polícias como se não fizesse a mínima ideia de onde aquele dinheiro tinha saído.E eu?! Sou um fantasma? . 12 . até pode estar com a mulher mais burra do mundo. . . .Olha. não é?! Nem todas as mulheres nasceram para ter um homem que as possa ouvir. aliás. . Alice também foi obrigada a concordar com um silêncio. – E eu estou aqui jogada às traças para mais de dois anos e sem a mínima hipótese ou a mais remota possibilidade de… . ..O quê?! Ter depositado aquele dinheiro na tua conta só para ires presa? Não.Eu também e olha que nem foi comigo – disse Alice devorando o soufflé de camarão cozinhado por Madalena.Então é o quê!? . marido! Especialmente depois de tudo o que ele te fez… .É assim tão evidente – respondeu Madalena arrancando uma leve gargalhada à melhor amiga.Às vezes fico a pensar se ele não fez de propósito. abraçar-me e fazer-me sentir segura. se queres realmente que te diga. .Eu também sinto falta – respondeu Alice deixando escapar os seus pensamentos mais secretos. .Eu bem te avisei.O que é que aconteceu ao dinheiro? . . com os filhos e com esta casa a cair aos bocados enquanto ele se pavoneia no Algarve com a Vanessa loira burra.

mas caso contrário. inteligente e até era bonito. mas o problema é que era demasiado filosófico e atirava cada frase que eu até ficava com os cabelos em pé.riu-se Alice enquanto se tentava recordar de alguma. que fez questão de escolher pessoalmente as flores e os suportes de decoração que iriam estar presentes na igreja e também no local da boda. Na verdade.Assim tipo… . . se estivesse era óptimo.Obrigadinha pela parte que me toca! . confesso que até tive algumas esperanças! À primeira vista o gajo parecia ser simpático.Sabes.Agora imagina-me ouvir frases dessas durante todo o jantar numa sexta-feira treze? Saí do restaurante mortinha de medo e nunca mais lhe atendi a nenhuma chamada. desilusão é a palavra de ordem. A única coisa que fazem é levantar as nossas expectativas. . Por isso é que desisti desses encontros virtuais. Estaria o amor intimamente ligado ao casamento? Bem. – No primeiro o gajo era um idiota de todo o tamanho e até chegou a fingir que tinha esquecido a carteira em casa apenas para não pagar o jantar.Naquela altura ainda estavas casada com o Jorge e eu senti-me ridícula só de pensar na ideia de tocar nesse assunto contigo. mas acho que prefiro continuar solteira a andar com um sábio africano – riram-se as duas amigas completamente indiferentes ao adiantado das horas.Só espero nunca chegar a esse ponto. .Porque é que nunca me contaste? . a mãe da noiva. encantar as pessoas com os meus dons e encontrar uma fórmula secreta para ser imortal… . .A sério?! . . não fazia qualquer diferença. mas sim o de toda a sua família que via nos laços do matrimónio a oportunidade ideal para se livrar das privações monetárias e outros apertos resultantes da sua falência desde há gerações.Que tipo de frases? .O quê?! – indagou Madalena soltando uma ruidosa gargalhada.No segundo.Tive dois – confessou Alice bebendo um gole de vinho.E deu certo algum desses encontros? – perguntou Madalena não escondendo a sua curiosidade.Que horror – riram-se as duas. . – Gostaria de ser um sábio africano apenas para desvendar os segredos mais misteriosos da humanidade. 13 .Não me leves a mal. houve uns tempos em que eu estava tão desesperada que até cheguei a arranjar encontros na Internet.. . para aquela tia do jet-set nada poderia dar errado pois não era somente o nome da sua filha que estava em jogo. Os arranjos florais para o casamento de Joana Dias e Rafael Saraiva primaram pelo requinte e tudo graças ao bom gosto de Beatriz. Com certeza irias pensar que eu era uma pobre coitada… .Sim – respondeu Alice forçando uma gargalhada que não foi de todo correspondida pela melhor amiga. . . mas depois quando conhecemos as pessoas. .Podes crer que existem e eu já saí com muitos.Meu Deus! Ainda existem gajos desses no planeta terra? .

14 .k! . Nessa altura. sorriu. elegância e uma masculinidade difícil de explicar. Pensou nos filhos. meu Deus! E de onde tinha saído aquela perfeição? – Encontrei este senhor simpático lá dentro e ele foi o primeiro a oferecer-se para nos ajudar – informou Alice trazendo a sua amiga de volta à realidade. . Madalena cruzou os braços e encostou-se à carrinha pensando em tudo menos nas flores que deveria retirar do porta-bagagem. em como eles se deveriam estar a divertir no Algarve e nas saudades que sentia deles apesar de apenas se terem passado vinte e quatro horas desde a última vez que os vira. Madalena não conseguiu acreditar que ele era real. não achas?! Provavelmente deve ter morrido lá dentro. até mesmo para ela. que lhes vasculhava todas as gavetas numa tentativa desesperada de encontrar algo escabroso e que passava praticamente todas as horas do dia a pensar neles. . – Trouxe ajuda – ouviu-se finalmente a voz de Alice. . Os olhos de Madalena não conseguiram esconder o fascínio quando viram à frente um dos seres mais belos do planeta terra.A sério – respondeu Madalena poisando no chão o primeiro arranjo floral que retirou do interior do veículo.Um pouco difícil. Todo ele exalava beleza. Uma mãe que não sabia quando dar espaço e privacidade aos filhos. os noivos souberam escolher o local perfeito para uma ocasião também ela perfeita. um nariz esculpido à lupa e dois lábios bem delineados. – Era aqui onde eu gostaria de me ter casado – disse Alice abrindo as portas da carrinha. os últimos raios de sol começaram a desaparecer no horizonte e a brisa trazida pelo rio retirou as réstias do calor sentido durante o dia. foram as palavras que Madalena utilizou para caracterizar a excessiva demora de Alice quando ao olhar para o relógio de pulso viu que nele estavam assinaladas dezoito horas e trinta e dois minutos. a vinte e quatro horas do tão aguardado casamento. cabelos escuros perfeitamente aparados. embalada pelos jardins de Belém e pela torre imponente. .Já não é mau. olhos tão verdes como duas esmeraldas.Estás a gozar? . . Era uma mãe galinha. Madalena e Alice abandonaram o veículo da floricultura e regalaram-se com a magnífica vista do Mosteiro dos Jerónimos. Mas ao vê-lo diante de si. – Sempre o achei um pouco sombrio e cinzento. visto o Mosteiro considerado como um dos edifícios mais emblemáticos da cidade lisboeta.No dia seguinte.Sabes que este mosteiro nunca me disse nada?! .Olá – disse o desconhecido forçando um sorriso a Madalena.Sim! É óptimo. De facto. Características físicas? Altíssimo.Não saias daí. isto para não falar da facilidade quase sobre humana que tinha em incluir os seus nomes em todas as conversas. eu vou lá dentro ver se encontro alguém para nos ajudar a tirar essas flores cá para fora.O. Por isso é que o meu casamento não demorou muito – respondeu Alice levando as mãos à testa encharcada de suor. traços faciais definidos.E eu que me tive que contentar com uma capelinha em Alvalade… . – Bem. Como era belo. um imponente monumento que impunha admiração até aos olhos dos mais leigos. . Diante daquela paisagem tão interessante.

a noiva e a mãe do noivo trocavam as últimas palavras com o padre que iria presidir à cerimónia. . um sorriso irrompia-lhe o rosto pronto a fazê-la corar de vergonha. Raios. na última vez que Madalena sorriu.Obrigada! Mais um olhar e mais uma vontade descomunal de Madalena em atirar-se para os braços daquele desconhecido que em poucos segundos conseguiu algo que nenhum outro homem havia conseguido em dois anos. . – Acha que nos pode ajudar a levar tudo isto à capela? . . . – Trouxemos os arranjos tal como o combinado – respondeu Alice forçando um sorriso a Beatriz. nos seus ombros largos e nas pernas ligeiramente arqueadas que lhe conferiam um ar demasiado sexy para ser apenas um simples mortal.. Até parecia que o estava a fazer por prazer. Ou seja. . . prender a sua atenção e deixar-lhe as pernas completamente bambas.Já vi que precisam mesmo de ajuda.Podem colocá-las junto ao altar que depois os responsáveis da decoração tratam do resto. por Alice. mas também pelo fotógrafo que teve a amabilidade de as ajudar a tirar da carrinha todos os arranjos florais sem sequer pestanejar ou oferecer algum comentário menos agradável. um pouco mais atrás. Muito pelo contrário. e a cada esbarro com Madalena perto do altar. – Só sou um dos fotógrafos contratado para a cerimónia. enquanto na sacristia. encontrava-se um homem que não aparentava ter mais do 15 . completamente descontrolado. Não parecia ter mais do que trinta e cinco anos e muitas experiências para contar visto o seu olhar transparecer uma inocência digna de um adolescente de dezasseis.Claro que sim. Enquanto ele caminhava em direcção à capela com dois grandes arranjos florais nas mãos.Aonde é que podemos colocar as flores? – perguntou Madalena sustendo um enorme suporte nas mãos. foi impossível para Madalena não reparar nas suas costas bem formadas. As ordens de Beatriz foram imediatamente obedecidas não só por Madalena. – Que bom que chegaram… – disse Beatriz caminhando em direcção a Madalena e Alice assim que as duas entraram na capela. . No fundo do corredor.Só viemos trazer as flores – concluiu Madalena recuando dois passos quando ele se agachou e levantou do chão o primeiro arranjo.Nem sabe o quanto – respondeu Alice mostrando-lhe os inúmeros arranjos florais no interior da carrinha.Ainda bem! Já estávamos todos impacientes à espera deles. Realmente não deveria estar a observá-lo com tanta atenção porque a qualquer momento ele poderia voltar-se para trás e surpreendê-la com os olhos postos em si. Contudo.São bonitas. .…olá.Não se preocupe porque nós também não percebemos nada de decoração – interferiu Alice. . Mas não me peçam para ajudar na decoração porque não percebo nada disso – respondeu ele arrancando um sorriso tímido a Madalena. À sua volta encontravam-se cerca de duas dezenas de pessoas em movimentos frenéticos tentando desesperadamente terminar os últimos detalhes da decoração da igreja. uma voz imperiosa invadiu a igreja deixando todos os presentes estupefactos com a irritação que ela trazia.

que vinte e oito anos.Tem calma! A Joana está na sacristia com a tua mãe. . foi o que todos se perguntaram quando o viram a caminhar em direcção ao altar com uma expressão verdadeiramente aterradora.Não me chames de amor – gritou ele assustando-a com a sua voz imperiosa. Claro que tinha.Rafael!? – indagou Beatriz tentando acalmar o ímpeto do seu futuro genro. o quê? – indagou Beatriz esbugalhando os olhos.Não sabia. – O que é que aconteceu contigo. . Aqui não é o lugar ideal e tu estás muito nervoso… . amor!? . ele aguardou a saída da sua noiva da sacristia repetindo para si mesmo: Nem por decreto de lei a vou perdoar. . enquanto Joana tentava ignorar os olhares curiosos de todas as pessoas presentes na capela. . Nunca a vou perdoar.Eu já descobri tudo. já que durante cinco anos de relacionamento. eu não vim aqui para falar do pai! Eu vim falar com a Joana. – Mas talvez seja melhor conversarem na sacristia ou noutro local. Beatriz!? Eu quero falar com ela agora – gritou ele assustando todos os presentes. Beatriz?! Não sabia que a sua filha andava a ter um caso com o melhor amigo? Ou será que sabia? Claro.Chame a sua filha agora antes que eu perca a paciência… Beatriz nunca vira aquela expressão nos olhos do genro e muito menos pensou que em algum dia ele iria ousar levantar a voz contra si. E na verdade. – O que é que se passa. As duas estão a falar com o padre.Então vá chamá-la! .Precisamos falar. até mesmo porque Rafael sempre fora um rapaz sensato. Os momentos que se seguiram foram tensos e tudo porque Rafael não arredou pé do local onde estava. Silêncio foi a palavra de ordem. .O que é que aconteceu. equilibrado e totalmente imune à palavra escândalo.Tudo. D. meu filho? Estás todo desgrenhado.Aonde é que está a sua filha. tudo o que Joana lhe ofereceu foram mentiras e traições.Chame a sua filha agora – interrompeu o noivo não se deixando levar pelos argumentos da futura sogra.Mãe. . – Nunca mais te atrevas a chamar-me de amor. . com um olhar perdido e uma das pernas a tremer.Para quê?! . Sempre com as mãos nos bolsos. pois que o seu único objectivo era casar a Joana com um homem rico. todo transpirado… .Rafael!? . – Houve algum problema lá na empresa? E o teu pai? Não falaste com ele antes de saíres do… . cabelos loiros e uns olhos azuís inchados de tanto chorar. – Amor! Tu por aqui – exclamou ela chegando ao altar acompanhada pela sogra e pela mãe. Com certeza devia saber. Teria acontecido alguma coisa? Sim. Não era esse o vosso plano? 16 . sua ordinária…! . bem tinha todas as razões do mundo para não o fazer. filho? – perguntou a mãe de Rafael pressentindo-lhe a cólera no olhar. Com o primeiro otário que lhe aparecesse à frente e que tivesse uma conta bancária choruda. – Aonde é que ela está? – perguntou ele fora de si. – Está bem! Eu vou chamá-la – concordou Beatriz ignorando os olhares de todos os funcionários presentes na capela. Quem era. – Pensei que tinhas dito que ias ficar preso numa reunião.

Pára – exclamou Joana tentando controlar-lhe os braços furiosos.Enquanto ouviam o discurso confuso daquele pobre rapaz.…acho que sim – respondeu Alice passando as mãos pela testa e deparando-se com uma mancha de sangue nos dedos. ele só estava a fazer todo aquele escândalo para tentar extravasar a vergonha sentida quando descobriu que durante cinco anos havia sido traído pela noiva e pelo melhor amigo.A culpa foi tua – gritou Rafael calando-lhe os argumentos. – Pára com isso! . já sei de tudo e nem adianta sequer inventares mais uma das tuas milagrosas desculpas porque o Eduardo confessou tudo quando eu o encostei à parede hoje à tarde. – Só que o otário aqui abriu os olhos a tempo – concluiu Rafael não se deixando amolecer pelos olhos chorosos da sua noiva. – É lixo! Tudo isto é lixo e não vai servir para mais nada.Não me toques! . Ele que sempre fez tudo para a fazer sorrir. – Estás bem? – perguntou Madalena observando o ferimento na testa da melhor amiga. – E podem crer que não me vão arrancar nem mais um tostão. tu só podes estar a brincar – respondeu Joana limpando as lágrimas e tentando retirar sobre si a vergonha de estar a ser publicamente humilhada pelo noivo. Joana abaixou-se a tempo e livrou-se de um dos maiores azares da sua vida.Acabou! Acabou tudo! Já não vai haver porcaria de casamento nenhum… Fitas. – Porra – exclamou. mas por sorte.Não me toques – vociferou ele atirando-lhe o suporte de uma vela com o único intuito de a matar. tudo foi totalmente destruído por Rafael e pela fúria que se apossou de si no interior daquela igreja.dizia ela. Joana!? Será que ainda não percebeste que a tua máscara caiu diante desta gente toda? Eu já descobri a verdade. .Rafael… . velas e flores.Rafael. – Pára com isso! . . a vítima foi imediatamente socorrida. Como não o conseguiu da primeira vez. Como se enganou com Joana? Como se arrependia do dia em que a tinha conhecido e como queria nunca a ter pedido em casamento. – Rafael. por favor… . Um azar que consequentemente acertou em cheio na testa de Alice e a fez cair junto ao altar ainda sem saber o que realmente tinha acontecido. Mas na verdade.A culpa foi dele. . – A culpa foi toda tua! Foste tu que estragaste tudo e agora não adianta fazeres esse ar de arrependida porque eu já não acredito em mais nenhuma palavra que venha de ti.Sinto nojo de ti – gritou ele com os olhos marejados de lágrimas. . tentou uma segunda. para a tornar na mulher mais feliz do mundo e aquela era a paga que recebia depois de lhe ter entregado o seu coração e a sua conta bancária de mão beijada. assim como os primeiros murmurinhos e a voz imperiosa do padre que comandou imediatamente a retirada de Rafael de um recinto que para ele ainda continuava a ser sagrado.Rafael… .Estás a ver tudo isto – vociferou ele arrancando as fitas decorativas presas nos bancos da capela. desesperada. . .Será que ainda não percebeste. .Estás nervoso! Não sabes o que dizes. – O gajo partiu-me a cabeça toda! 17 . – Não podes estar a falar a sério! Não podes estar-me a fazer isso a vinte e quatro horas do nosso casamento… . . Madalena e Alice não deixaram de trocar um olhar constrangedor. Depois disso. Perplexidade foi o sentimento geral.

. – E acho que tão cedo não a vou esquecer.Sim! Vamos fazer o que o Sérgio disse.Bem… . mas ainda assim foi impossível para ela conter um riso abafado. encontrou uma enfermeira. acho que estão demasiado nervosas para conduzir. . Mas o pior nem era isso. Madalena percebeu. por isso… . . .Peço desculpas – disse Rafael mostrando-se envergonhado pelo seu acto. é o que é – respondeu Alice levantando-se do altar com a ajuda da melhor amiga.riu-se ele timidamente. Madalena tentou encontrar alguém que a pudesse ajudar a socorrer a melhor amiga. – Quer dizer. . isso não significa que também eu tenha que ficar com um alto na testa. – Não sou um especialista. tem calma – pediu Madalena tentando acalmar-lhe a cólera. A resposta de Sérgio não pretendia ser irónica. Apesar dos vários pedidos de desculpa que recebeu dos noivos enquanto caminhava pelo corredor da igreja.Você é louco. – Ela já foi atendida? – perguntou Sérgio aproximando-se de Madalena quando finalmente conseguiu estacionar a carrinha no parque de estacionamento do hospital. – Lá porque levou cornos da sua noiva.Sérgio – adiantou-se o fotógrafo lançando-lhe um olhar intenso. Alice manteve-se resoluta em não aceitar nenhum. A vela acertou mesmo em cheio. aceitar impávida e serena ao pedido de desculpas de duas crianças infantis e imaturas que não sabiam resolver os seus próprios problemas sem envolver pessoas estranhas e alheias ao caso.Desculpe! Desculpe. – O que foi? – perguntou ele.Tudo bem – concordou Madalena levando a melhor amiga nos braços. – Não a queria magoar. . – Confesso que nunca me tinha visto numa cena daquelas. peço desculpas… .Muito menos a sua amiga que acabou por ficar com um galo na testa. humilhada e metida numa confusão que nem era sua. – Acho que foi levar pontos. .Nem eu – respondeu Madalena lançando os olhos às paredes da sala de espera. Era só o que faltava depois de ter sido agredida. mas é que… . .Levaram-na agora lá para dentro – respondeu ela esgueirando o pescoço em direcção à enfermaria. Vamos ao hospital tratar desse corte antes que se torne nalgo mais grave. e quando isso aconteceu. mas também lhe foi informado que teria que preencher uma ficha de entrada antes que se pudesse efectuar qualquer tipo de tratamento a Alice.Disse alguma piada? 18 . Por sorte.. O pior era a dor descomunal que estava a sentir na sua testa quando passou as mãos por ela e recebeu um lenço de Madalena para estancar o sangue que ainda lhe continuava a jorrar da cabeça e que se tornava cada vez mais intenso à medida que Sérgio conduzia a carrinha da floricultura em direcção ao hospital mais próximo. – Vamos embora! Vamos fazer o que… . Foram precisos cerca de vinte minutos para que as portas automáticas das urgências se abrissem.Alice. . mas acho que vai precisar de alguns pontos.Eu posso ir com vocês – disse ele.É melhor irmos para o hospital – interferiu o fotógrafo analisando-lhe o corte profundo na testa.

Madalena Soares – respondeu ela compondo os cabelos quando o seu olhar se cruzou novamente com o dele no meio daquela sala tão grandiosa.Acha que a sua amiga ainda se vai demorar muito? . .Hã… nem tanto – riu-se Madalena. Ela entrou há pouco. – Ainda não sei o seu nome – disse ele. A única coisa que fez foi aumentar ainda mais o fascínio que Sérgio sentiu por ela logo no primeiro minuto em que a viu.Eu sei! Peço desculpas. .Não.Digamos que a minha vida é recheada de flores. – Está a ser má para a sua amiga. . . – É igual às outras. E sim. – Eu sei que eu e a minha amiga já tomámos muito do seu tempo e que com certeza você deve ter alguma coisa para fazer. encabulada. embora a loja tivesse pertencido à minha mãe antes de ela morrer. .. .E você? Para além de aparecer em casamentos recheada de flores. .Deve ser uma profissão interessante – murmurou Madalena tentando fugir àqueles olhos verdes tão lancinantes.É fotógrafo profissional!? .Como assim?! . – Quer dizer. – Ou pelo menos hoje tornou-se. . .k…! . afinal de contas. . Mas a verdade é que nada surtiu efeito. especialmente porque se trata da minha melhor amiga. mas o que você disse teve piada. . – Mas é que…. eu sei que não deveria estar a rir da desgraça alheia. o que é que faz? .A sua profissão é que deve ser interessante. sinta-se à vontade… – concluiu Madalena ao perceber que muito provavelmente já havia abusado da boa vontade daquele fotógrafo desconhecido. E a cena também! Ao olhá-la mais uma vez.Vender flores. mas desta vez foi completamente impossível para Sérgio resistir aos risos abafados de Madalena. Um novo silêncio irrompeu a sala.Mas se precisar ir embora.O. esses foram alguns dos estratagemas utilizados por ela para se conseguir controlar. Não tem nada de interessante. claro que não – respondeu Madalena tentando controlar os risos cada vez mais intensos. estava a trabalhar quando… . eu e a minha amiga somos sócias. aliás.Tenho um estúdio de fotografia – respondeu Sérgio colocando o casaco sobre o colo. . baixar o rosto e até virá-lo. Sérgio sorriu e abanou a cabeça.Eu trabalho por conta própria.Ai é?! . .Eu acho que é… – respondeu ele arrancando-lhe um sorriso.Sim. por favor.Não sei.Sou dona de uma floricultura – respondeu Madalena sentindo-se completamente perdida quando ele sorriu novamente para si. . sabia?! . Levar a mão à boca. 19 .Tem a certeza? – perguntou Sérgio fulminando-a com aqueles malditos olhos verdes.O quê? .Concordo.

Não faz mal – riram-se baixinho. Madalena e Sérgio no mais absoluto silêncio.Silêncio foi a resposta dela.Confesso que estava a fazer de tudo para não cometer nenhuma.Ninguém é perfeito. mas realmente havia qualquer coisa que não a fazia tirar os olhos dele. obrigada mais uma vez! Ficamos-lhe a dever uma… .Dói-me tudo até o último fio de cabelo! Só quero ir para casa antes que pense em cometer suicídio… As portas automáticas das urgências abriram-se novamente. não acha!? – concluiu ele. Nessa altura. saíram Alice. A resposta do fotógrafo não poderia ter sido mais insultuosa e isso ficou provado pelo olhar fulminante que Alice lhe lançou do interior do carro. e quando ela finalmente se viu livre daquela tarefa tão desagradável. .Hã… peço desculpas! Eu não quis … . Ele era tudo isso e muito mais. a barba aparada. – A minha profissão é realmente muito interessante. Com a cabeça encostada ao ombro da melhor amiga.Como é que te sentes? . e para encontrar todas essas características. o nariz esculpido. o verde-esmeralda deu lugar a um verde acinzentado e isso só deixou os olhos dele mais lindos do que naturalmente eram. . Sim.Que é isso. – Ela não tem filhos e muito menos netos – afirmou Madalena voltando-se para Sérgio ainda com o casaco nas mãos. – Se fosse assim tão desinteressante não estaríamos aqui neste hospital.Não precisam de mais nada? – perguntou Sérgio quando chegaram à carrinha. – Digamos que essa foi a sua única gafe para connosco. Madalena não precisou de muito tempo e nem de muito esforço. – Já está tudo? .Digamos que fica com uma história para contar aos seus netos. Meia hora foi o tempo que as enfermeiras precisaram para suturar os ferimentos na testa de Alice. Talvez fossem os olhos verdes. tal como a sua. . . – Foi um verdadeiro cavalheiro ao contrário do estupor que me atirou a vela. – Bem. .Obrigada por tudo – interferiu Alice mal conseguindo manter os olhos abertos.Eu também acho – respondeu Sérgio arrancando-lhe um outro sorriso tão ou mais encantador que o primeiro. Sérgio era realmente divertido e sedutor. Porque de todas as pessoas presentes naquela maldita igreja. – Então?! – perguntou Madalena saltando da cadeira quando Alice surgiu na sala de espera com a cabeça totalmente enfaixada. – Tem razão – concordou ela após um longo minuto de silêncio. Raios. 20 .Não – respondeu Madalena ajudando Alice a entrar no carro. . o médico de serviço receitou-lhe alguns antibióticos para que as dores e o inchaço diminuíssem em poucas horas.Quem sabe um dia não venha a cobrar esse favor. talvez por o sol já se ter posto. ou talvez fossem as três coisas misturadas numa só. . Alice desejou encontrar a sua cama quando regressasse a casa e desejou também esquecer todos os azares que lhe haviam acontecido durante o dia. mas também possuía qualquer coisa que a intrigava a deixava quase sem fôlego. porque é que foi ela a única escolhida para receber aquela valente pancada? . . . e por ela. não é?! – respondeu Madalena deixando-se mergulhar pelo olhar que Sérgio lhe lançou. – Acredite que já fez muito por nós.Sim.

Sinta-se à vontade para fazê-lo – respondeu Madalena não tardando muito a enfiar-se no interior da carrinha sob o olhar atento de Sérgio. loja 132 F.. foi o que o fotógrafo leu quando o veículo desapareceu do parque de estacionamento levando consigo uma das mulheres mais bonitas e interessantes que lhe haviam atravessado caminho até à data. Avenida de Roma. Mar de Rosas. 21 .

Está. Eram eles.Então passa-lhe o telefone agora! Aqueles foram os cinco segundos mais longos de toda a sua vida.O pai disse que havia uma promoção bué fixe na agência de viagens e que podíamos prolongar as férias por mais alguns dias.Lena. muitas foram as vezes que Madalena tentou controlar a voz embargada e as lágrimas de desespero por se ver tantos dias longe dos filhos. E essa realidade era a de que ela não queria passar mais nenhum dia estritamente necessário para voltar a estar com os filhos. – Daniel! Passa-me o telefone ao teu pai. Daniel era o mais animado de todos e foi também aquele que mais falou sobre os banhos de piscina. . os passeios pela vila e os presentes que a cada duas horas recebia do pai e de Vanessa loira burra. – Sim – respondeu voz de Jorge com um longo suspiro. marido.CAPÍTULO II O telefone tocou ao fim de quarenta e oito horas de um silêncio ensurdecedor. .Mas não tinha ficado combinado que as férias iriam ser até ao Algarve? .A Marrocos?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. enquanto esperava por eles. não?! – afirmou Madalena passeando pela cozinha completamente esbaforida.Por que raios queres levar os meus filhos para Marrocos? .Nossos filhos – corrigiu Jorge refugiando-se na varanda do hotel para que ninguém ouvisse mais uma discussão com a ex. . e ao saber bem quem era. sinceramente não percebo qual é o problema de irmos todos a Marrocos. não queiras ser irónica porque isso não faz minimamente o teu estilo. – A Sara e o Daniel também são os meus filhos. 22 . mas ainda assim. mulher. Madalena largou a chávena de chá sobre a bancada da cozinha desejando ouvir as vozes das duas pessoas mais importantes da sua vida. marido e tentar trazer-lhe à realidade. um apelido carinhoso que Madalena encontrou para caracterizar a nova namorada do ex. lembraste?! .Vocês só podem estar a gozar comigo. Enquanto lhes ouvia as peripécias dos primeiros dias de férias no Algarve. . . – O pai quer levar-nos a Marrocos… – saltou essa frase no meio de uma conversa amena que Daniel estava a ter com a mãe.Lena. . É mesmo aqui ao pé e vamos de barco. . Ele está aí ao pé? .Tens tanta lata. Sara e Daniel. Madalena não desistiu dos intentos em falar com o ex.Será que eu ouvi bem aquilo que o Daniel disse ou provavelmente devo ter batido a cabeça nalgum móvel aqui na cozinha?! .Sim! Deixas-nos ir? .

. – Lena. .Hã… és tu. Jorge. . a minha opinião não importa para nada. marido. mulher.Estás a morrer de ciúmes. nem mesmo tu.O Jorge.Não sejas ridículo. Vá lá! Tu sabes que a Sara e o Daniel iriam adorar… Silêncio foi a resposta de Madalena enquanto ela meditava acerca de proposta do ex. É como te disse! São só mais duas semanas. Aposto que te ia fazer muito bem.Hã.O que foi!? Não me digas que discutiram outra vez? 23 . Ninguém vai morrer por causa disso. Além disso. – Então!? O coronel dá-nos licença para abandonarmos o país sem sermos perseguidos na fronteira? .…e quando é que voltavam de Marrocos? . Conhecer Marrocos é uma oportunidade única que nem todas as crianças conseguem ter.Sim! Tu.Impressionante como não perdes uma oportunidade para menosprezar o meu trabalho.Percebeste o quê? . foi o primeiro nome que lhe apeteceu chamar. Que mal é que tem? São só mais duas semanas.Só por cima do meu cadáver.Exactamente – respondeu Madalena levando a mão à cintura.Vamos?! Quer dizer. .Estás a ver?! Estás a ver como é que falas comigo quando eu… O discurso de Jorge até poderia ter continuado não fosse o ímpeto de Madalena em desligar o telefone e atirá-lo contra o lava-loiça enquanto o seu queixo tremia de raiva e os seus braços se cruzavam numa tentativa desesperada de não partirem qualquer objecto no interior daquela cozinha.Pois eu falei com os nossos filhos e eles mostraram-se muito contentes com a ideia de conhecer Marrocos. Só pode ser ele outra vez. já percebi – riu-se Jorge secamente. . . eu pensei que fosse o… . não é? Já é um assunto tão resolvido com a tua querida namorada mais inteligente que uma porta que nem sequer te interessa a minha permissão… . Aproveita para sair. pai! Desculpa.Cuidado! Olha que milagres acontecem – respondeu Jorge tentando espicaçar a ex.E se fosses à merda.Antes do final do mês. . conhecer novas pessoas. Não suportas a ideia de estarmos todos a divertir-nos enquanto estás aí a secar em Lisboa. . – Ainda há pouco estava a falar com ele e nem vais acreditar… . embora o telefone tivesse interrompido os seus pensamentos a tempo. Além disso. . Idiota.Hei! Olha que assim me assustas – disse-lhe uma voz suave no outro lado da linha. . – Tu nem penses que eu… . Jorge!? . eu só estou a pedir para que sejas razoável.Eu?! – indagou Madalena levando a mão ao peito. se as crianças voltassem a Lisboa.Desculpa – riu-se Jorge. . – Mas pensa bem no que te estou a dizer. . devias aproveitar essas férias para incrementar a tua vida social e esquecer um pouco o papel de mãe galinha. o que é que iriam fazer para além de ficarem sentados em frente à televisão enquanto tu vais cuidar das tuas flores!? .

É.Um clone meu era tudo o que o planeta terra não precisava! .A mesma frase da tua mãe – riu-se Afonso Soares quando se recordou de uma das muitas citações da sua falecida esposa. tudo o que ele lhe ofereceu foi amor sem cobranças. .Quando ela morreu eu pensei seriamente em levar o meu pai lá para casa – confessou Madalena. as bases estremeceram. . Ainda continuo rijo como um pêro! A voz do pai trouxe algum conforto a Madalena e isso ficou provado pelas inúmeras risadas que ela soltou enquanto falava com ele pelo telefone.Aí é que te enganas. a única pessoa com quem podia contar incondicionalmente e também o único homem que nunca teve coragem de a decepcionar em toda a sua vida. – De mais pessoas como tu é que o mundo precisava.Será que não há maneira de vocês se entenderem? Pelo menos pelo bem dos vossos filhos. . De facto.Bem! Infelizmente não me aconteceu nada de emocionante nas últimas duas semanas. o divórcio e a sensação de que me tinha que focar nos meus filhos para não os traumatizar. . .Porque não tenho o direito de destruir a imagem que ela tem do pai. . . Achas isto normal? . . sem restrições e também a infância que todas as crianças desejavam ter. Leonor Soares era sem sombra de dúvidas o pilar que sempre sustentou a família. . talvez… – respondeu Madalena deixando a caneta cair-lhe das mãos. Afonso era o seu porto seguro. e sem ela. especialmente de mim. o meu casamento estava insuportável! Depois veio a separação. às vezes acho que se tu não existisses. – Mas eu sinto que a Sara guarda rancores. .Sabes.Na altura. Madalena não deixou de se perguntar se o mundo de facto necessitava de outras pessoas iguais a si. . .E porque é que não levaste? – perguntou Alice evidenciando fisicamente que ainda não se havia recuperado da pancada que sofrera na cabeça quatro dias antes. .Quase! Descobri que ele quer levar os meus filhos a Marrocos.Eu até acho que os teus filhos reagiram bem à tua separação com o Jorge. mas já te disse que não precisas preocupar-te. mas cá me vou aguentando.E tu? Como é que tens andado? .Precisas de alguma coisa? .Isso é porque ela não sabe o verdadeiro sacana que o pai dela é! Devias contar a verdade. Enquanto a melhor amiga atendia um dos inúmeros clientes que habitualmente passavam pela loja. Desde que nasceu.Porque não?! . O único abalo sofrido na relação de ambos aconteceu aquando da morte da sua mãe e do tremendo sofrimento pelo qual o pai foi obrigado a vivenciar durante meses a fio. – Já vi que são iguaizinhas. terias que ser inventada. .Eu sei. ou se pelo contrário.Quem sabe um dia quando os ponteiros do relógio começarem a girar ao contrário..Não posso fazer uma coisa dessas. – Apenas perguntei porque me preocupo contigo. .E achas que só te telefono quando preciso de alguma coisa? .Claro que não – respondeu Madalena encostando-se à bancada. minha cara – respondeu Alice levantando-se da secretária quando pressentiu a entrada de mais um cliente na loja. se mais exemplares seus apenas estragariam um 24 .

Veio comprar alguma coisa? – saltou essa pergunta estúpida dos lábios de Madalena. – Bem. – Confesso que é exactamente como eu imaginei que era. – Quando voltares eu como qualquer coisa ali no café da esquina. já que os seus antibióticos contra as dores tinham terminado sem qualquer aviso prévio. esse acontecimento entrou pela floricultura adentro trazendo consigo um perfume que rapidamente se entranhou em todos os cantos da loja. não percebo muito desse assunto. não precisas preocupar-te – respondeu Madalena analisando a tabela dos fornecedores no seu computador. Alice interrompeu-lhe os pensamentos e informou que iria aproveitar a hora de almoço para passar pela farmácia. – E as flores são para uma amiga. O fotógrafo.Olá – disse Sérgio Almeida retirando as mãos dos bolsos assim que ela se levantou da secretária surpresa por o ver ali. Como é que a descobriu ali? . . . . luz e um encanto fora do normal.Claro que não – respondeu Madalena desfazendo-se dos óculos de leitura.Não sei bem! Na verdade. Raios. 25 .Não.Espero não ter vindo numa má hora. – Queres que te traga alguma coisa da rua? – perguntou ela alcançando o casaco no bengaleiro junto à porta. – Mas que coincidência vê-lo por aqui! Eu… . .Não. à sua namorada ou até mesmo à sua esposa… . ela ainda não é bem uma amiga. .Que tipo de flores? . . Quer dizer. dos seus óculos de leitura e também do silêncio que se apoderou da loja enquanto a pouco e pouco as unhas roídas evidenciavam que a hora de almoço estava a passar sem qualquer acontecimento importante. mas nem isso retirou a concentração de Madalena em frente ao computador pois era urgente terminar a tabela dos fornecedores e também os preços dos novos produtos da floricultura. se não for muita indiscrição minha perguntar. .planeta já por si mesmo estragado.Claro – respondeu Madalena levando-o em direcção à bancada onde estavam depositados os melhores arranjos da loja. .Então este é que é o “ Mar de Rosas” – murmurou Sérgio lançando os olhos àquele espaço repleto de flores. A porta voltou a fechar-se com algum estrondo. seria muita presunção sua pensar que fazia falta a quem quer que fosse. marido razão? Será que ela estava realmente a morrer de inveja da felicidade alheia? Ao tentar responder essa pergunta pela vigésima vez. mas acho que você me pode ajudar. – Queria comprar flores para uma pessoa especial. gostaria de saber se pretende oferecer flores a algum familiar. . Talvez nem fizesse aos filhos já que eles preferiam uma estúpida viagem a Marrocos do que estar consigo. Na verdade. ela muniu-se de uma calculadora.Está bem então! Vemo-nos daqui a uma hora. Era ele.Até já. Teria o ex. . Para isso.…olá. eu não sou casado – riu-se Sérgio.Hã… sim – respondeu ele aproximando-se lentamente dela. Meu Deus. Mas quando o relógio marcou treze horas e vinte e cinco minutos. mas eu gostaria que fosse.

especialmente com pessoas que não conhece. mas devo estar despachado em menos de uma hora. é que… . A proposta não poderia ser mais tentadora.Sim. parece-me que você quer que ela seja muito mais do que uma amiga. Como não estou com muita fome apenas vou comer uma sandes ou algo assim. Não quero errar na escolha. Hum! Vejamos o que mais!? É simpática. fascinante e com uma personalidade vincada.Bem.A sério?! .Almoçar consigo? . como é que ela está depois da pancada que levou na cabeça? . pois cada minuto que passava ao lado de Sérgio era uma eternidade difícil de aguentar.Bem. sou obrigado a concordar.Já almoçou? . .Fui assim tão indiscreto? . . . que é quase impossível resisti-los. O que é que me diz? Um almoço e escolhe você o restaurante. .E… quando ela vier. Parece ser doce também.Por falar nisso. posso também mostrar-lhe estas orquídeas.Então eu convido-a para almoçar comigo – respondeu Sérgio parando-lhe o movimento das mãos com aquele convite tão inesperado. ele atreveu-se a perguntar: .Hum! Acho que ainda continuo um pouco indeciso. As mãos experientes de Madalena conseguiram fazer um embrulho perfeito para o vaso de orquídeas que Sérgio escolheu sob sua orientação. . Quer dizer.Se o diz.Um pouco – respondeu Madalena mostrando-lhe um vaso de orquídeas. – Estou à espera que a minha amiga chegue da hora de almoço dela. – Ela está bem agora. – Tome! Estas são as flores ideais para essa mulher. Porque não!? .Bem… na verdade não a conheço muito bem.O galo desceu – riram-se os dois.Um sorriso esmagador – murmurou Madalena sabendo perfeitamente que esse sorriso era o seu. . os olhos dela brilham tanto.Então nesse caso sugiro estas tulipas brancas. da pessoa que você quer que se torne sua amiga… .Ou se não gostar de tulipas. mas tanto. . . excitação e novidade.Sim! Quando ela sorri. . assim como o sorriso que ele lhe ofereceu em seguida. pela discrição que me ofereceu. e tem um sorriso absolutamente esmagador… .Não – respondeu Madalena rasgando-lhe um sorriso.. percebe?! . São perfeitas para demonstrar respeito e afectividade a quem quer que seja. Tudo nele gritava perigo. mas acho que ela é uma mulher forte. .Claro! Então diga-me quais são as características dessa sua amiga. você vai almoçar nalgum restaurante aqui perto? . Mas será que valia a pena 26 . embora tente não demonstrar essa qualidade logo à primeira. mas Madalena sabia que se aceitasse aquela proposta irrecusável nada mais seria como antes.Tem um café ali na esquina.Eu ainda tenho que fazer umas compras de um material fotográfico aqui por perto. claro. e enquanto elas trabalhavam à velocidade da luz.

. . . – Espero não ter interrompido nenhuma conversa importante – disse ela quando Sérgio desligou a chamada e poisou o telemóvel sobre a mesa. ela teve a certeza que sim. e ela pôde ter essa certeza quando o viu instalado numa mesa próxima à janela.Daqui a uma hora – respondeu ela mantendo a porta entreaberta.Tenho a certeza que a sua amiga irá gostar muitíssimo delas. O olhar perdido enquanto falava ao telemóvel ainda a fizeram hesitar em aproximar-se.E continua? . Chama-se “Luminosa” e as portas são de madeira. claro que não! Coisas relacionadas com o trabalho. seguiu-se uma caminhada interminável pela avenida e a certeza que a sua pressa para almoçar prendia-se com tudo menos com a fome que disse estar a sentir à melhor amiga. Tal como o esperado. Será que Sérgio já se encontrava no interior do restaurante? Será que ele tinha sido pontual e cavalheiro o suficiente para não a deixar à espera? Claro que sim.Depois destas flores. tenho a certeza que irá querer ser. Madalena acompanhou o seu único cliente em direcção à porta desejando que os próximos sessenta minutos passassem o mais depressa possível. Sem mais palavras para lhe dizer e depois de ter aceitado o pagamento das flores. mas quando os seus olhares se cruzaram.Não tem de quê! Bem… quer beber alguma coisa? 27 . – Encontramo-nos daqui a uma hora então – ele disse.Estava a combinar fazer uma sessão fotográfica com uma modelo e ela telefonou-me para saber se a sessão ainda continuava de pé.Não faz mal! Eu também não.Ainda bem. – A dona da floricultura disse-me que essas eram as flores ideais para oferecer a uma amiga especial e eu confiei nela! Espero que não se tenha enganado. . . Madalena sentiu que não havia outra escapatória a não ser caminhar em direcção à mesa e forçar-lhe um pequeno sorriso. . . Depois disso. mais uma vez Alice atrasou-me.Obrigado pela ajuda! Sem si não saberia como escolher as flores. . algo que foi imediatamente correspondido. e para ajudar à festa. . lembra-se?! .Claro! Normalmente não costumo voltar atrás quando dou a minha palavra.Tome! São para si – disse Sérgio entregando-lhe o ramo de orquídeas assim que ela se sentou à mesa. – Posso escolher o restaurante? .Acho que já sei qual é.Então está bem! Encontramo-nos daqui a uma hora no restaurante no final desta avenida. . . . os sessenta minutos seguintes passaram lentamente.Claro que sim – respondeu Sérgio recebendo-lhe o embrulho de orquídeas das mãos.É claro que ela não se enganou – respondeu Madalena recebendo o arranjo com um doce sorriso.Não. . . – Obrigada.Ela ainda não é minha amiga. .O único problema é que não me posso demorar muito. – Até logo – foram as últimas palavras de Madalena antes de abandonar a floricultura a uma velocidade fantasmagórica e atravessar a rua sem sequer olhar para trás. .É bom saber isso.enfrentar todos esses perigos? Diante de mais um sorriso que ele lhe ofereceu.

Eram as flores que ela mais gostava. e enquanto conversava com ele e se deixava perder pela sua sensualidade casual. os ponteiros do relógio pararam no tempo. – Mas a loja tem realmente muitos anos. . . .A que ficou com um galo na testa. . .Sim. pensou. ele tem cinquenta e a minha amiga.Pouco original da minha parte.Na verdade. ..Obrigada pelo elogio – riram-se os dois. até mesmo antes de eu nascer … . Quase quarenta e cinco.Sim.Já estava à espera dessa resposta – disse Sérgio forçando um sorriso. – Tem um significado especial porque pertenceu à minha mãe e é uma das poucas lembranças que ainda tenho dela.Exactamente – riram-se novamente.…muitas – respondeu Madalena deixando-se encantar por aquela conversa tão amena e agradável.pediu Sérgio. a floricultura era da minha mãe e já existia há muitos anos. não?! . Madalena regressou a casa com um sorriso nos lábios e nem sequer se importou com o facto de não ter os filhos consigo. Quer dizer. a Alice… . Impressionante também era o facto de saber que em menos de vinte e quatro horas todo o peso que sentia sobre os ombros desapareceu sem deixar rastro deixando apenas uma estranha sensação de doçura nos lábios. É quase como se fosse uma sociedade. Foi também a primeira vez que Madalena se sentiu absolutamente à vontade na companhia de um homem do qual não sabia muito mais que o nome ou a profissão. eu acho que é! Pelo menos para mim – respondeu Madalena compondo os cabelos soltos.E você ficou à frente do negócio? . . Tão livre e ciente de que a vida lhe tinha voltado a sorrir após tantas tristezas. e pela primeira vez também desde há anos.Então eu também vou tomar o mesmo. mas sou eu quem dirige aquilo tudo. – Digame… . – Ela tem cinco por cento. .E você?! Quais são as flores que mais gosta? .Sim.Digamos que sim. por favor. “ Um mar de Rosas”. Seria normal sentir-se assim só por causa de um almoço informal com um fotógrafo do qual não conhecia muito mais que o nome? 28 . – Mas talvez orquídeas. os sapatos e o casaco de malha. Eu tenho quarenta e cinco por cento. Pela primeira vez desde há anos. – Há quanto tempo tem a sua floricultura? . .Confesso que fiquei encantado com o local e também com o nome. ela caiu no sofá como uma pluma deixando para trás a mala. a loja está no nome do meu pai. Foi a sua mãe que escolheu? . Há seis anos atrás.Então com certeza não existia há tantos anos assim. .Deve ser uma autêntica mina de ouro. O almoço entre os dois desconhecidos revelou-se mais agradável do que se poderia esperar quando a refeição foi trazida à mesa por um dos empregados do restaurante e a conversa amena os embalou durante vários minutos. eu sei.Morreu?! . Impressionante como se estava a sentir tão bem.Um sumo de manga.

. de facto não era.Sinceramente não sei – respondeu Madalena fechando a porta do frigorífico com força. Na verdade. .Estão bem. não é?! . .Também não foi assim.Só tenho sessenta e oito e tratas-me como se já tivesse passado dos oitenta.Fizeste bem em deixá-los ir com o Jorge.Ai não?! Pois deixa-me que te diga que se fosse só por causa do teu querido ex. mas talvez o jantar que tinha combinado com Sérgio no Sábado seguinte fosse a razão primordial para aquela alegria tão espontânea. realmente a minha estadia na esquadra foi apenas uma imaginação da minha cabeça.Impressão minha ou tu ainda continuas a adorar o Jorge apesar de saberes que ele é um idiota de todo o tamanho?! .Estou-me a alimentar muito bem se queres que te diga – respondeu Afonso acendendo um cigarro junto à janela. . e depois disso ela sentiu-se tentada a revelar algo muito importante ao pai. – Claro que tem defeitos. . e se queres que te diga. Só na segunda-feira é que vão para Marrocos. .É! Quem não tem – disse Madalena num tom debochado. . a uma altura dessas a tua filha ainda estaria presa por um crime cometido por ele.Só que ele sempre foi prestativo para mim e para a tua mãe e também sempre foi um bom genro. eu acho! Falei com eles ontem à noite e ainda estavam no Algarve. não precisou de muitos rodeios até porque Afonso era o seu grande conselheiro e também uma das poucas pessoas a quem se sentia 29 .O Jorge é uma boa pessoa – afirmou Afonso cerrando os olhos quando o fumo do tabaco lhe atravessou os olhos. – Comprei-te algumas coisas – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico quando o pai a visitou a poucas horas do seu encontro com Sérgio Almeida. genro. . Uma risada foi a resposta de Madalena. como é que eles estão lá de férias com o pai? . . .Não precisavas preocupar-te com isso! Já te disse que me arranjo. – Ponho-te tudo num saco para levares.Tu sabes que eu não bebo a não ser em ocasiões especiais. muito pelo contrário! Eu trato-te como trato o Daniel porque psicologicamente ainda nem chegaste aos dez. .Sim.Acho que foste demasiado precipitada em pedir o divórcio.De cigarros já estou a ver. mas quem não tem. É por isso que não tenho queixas dele.O quê?! .Não.Ele não é um idiota! . . por mim vocês ainda continuavam casados.Não. está bem – riu-se Afonso enquanto levava o cigarro à boca. – Por falar nos miúdos. – Já te disse várias vezes que devias deixar de fumar. especialmente por causa da tua idade.Está bem. . . .E existe algum alimento melhor? .Afinal de contas eles também precisam do pai.Não brinques com coisas sérias – afirmou Madalena colocando as compras do supermercado em dois grandes sacos. . . tu só podes ter bebido antes de cá vir – afirmou Madalena fechando as alças dos sacos de compras.Estou-te a achar muito magro! Tens a certeza que te estás a alimentar como deve ser? . .Não.

. Por isso.Vou tentar. os móveis sofisticados. . Chegou. .Ainda não sei! Ele ficou de escolher o restaurante. – Sabes de uma coisa?! . . no decote do vestido e ela sentiu-se pronta a encarar o rosto de Sérgio Almeida. – Com um homem. Mas por agora a única coisa que precisas saber é que vou jantar fora com uma pessoa muito simpática e interessante. – Juízo! . tudo o que o Jorge não é e nem nunca foi. – Tens aqui um belo património – confessou Sérgio enterrando as mãos nos bolsos das calças. . ela voltou a abrir as portas do roupeiro e encontrou um novo vestido. marido não restou absolutamente nada ou qualquer réstia da sua presença. Sérgio exalava uma simplicidade fora do normal. .Hum! Não estou a gostar nem um pouco dessa história. Ao olhar-se no espelho da casa de banho depois de escolhido um dos primeiros vestidos que lhe passou pelas mãos.Com a Alice? .Por isso.totalmente segura para contar todos os segredos que rodeavam a sua vida. Um novo retoque nos cabelos. – Olá! .E aonde é que vai ser esse tal grande jantar? . uma simplicidade bastante apreciada por Madalena.Estes são os teus filhos? – perguntou ele alcançando um porta-retratos sobre a mesinha.Hoje tenho um jantar. . cintado e perfeito para uma mulher que não saía para jantar fora há pelo menos seis meses. sem hesitações.Claro. .Entra – disse ela. branco. De resto. Foi nessa altura que a campainha tocou e lhe provocou um pequeno sobressalto. E sim. De resto.É uma história comprida que talvez um dia te venha a contar.O quê? .Olá – respondeu ele desarmando-a com o seu sorriso.Obrigada. aqui tens a tuas compras da semana! Leva-as e deixa-me preparar para o meu grande jantar. Trajado com umas simples calças de ganga e uma camisola preta. Madalena chegou à conclusão que aquela realmente não era a melhor opção para si e nem para a noite que prometia ser bastante especial tendo em conta a sua companhia. .Claro que não – respondeu Madalena fulminando o pai com os olhos.Homem!? Que homem? .Dás-me licença? .Vê lá o que é que fazes. minha menina – afirmou Afonso puxando-lhe o nariz tal como fazia quando ela era pequena. assim como os brincos que fez questão de colocar à frente do espelho do corredor. . os tapetes e cortinados claros eram a palavra de ordem na nova decoração que Madalena fez questão de produzir após o seu divórcio. os cabelos e a maquilhagem primaram pela simplicidade. Dos antigos móveis comprados pelo ex. Sérgio aceitou o convite com um sorriso e não tardou a chegar à sala onde a arrumação. Ele chegou e já não havia mais nada a fazer a não ser abrir a porta e permitir-lhe a entrada. Nele encontrava-se uma fotografia de Sara e Daniel. 30 .

. A resposta de Sérgio trouxe um novo olhar e também um sorriso que Madalena fez questão de lhe oferecer enquanto se perdia na magnitude daquele momento.. . – Sempre que me sinto cansado do trabalho e quero descansar um pouco. ou pelo menos nenhum que soubesse. aliás. .São bastante parecidos contigo. ele tudo queria saber. e ele até tem dinheiro para comprar uma melhor.Sim! Porque não? . . especialmente às lembranças da minha avó e da minha mãe. . fujo para lá e passo os dias a pescar com o meu avô. Para além disso.Obrigada! Quer dizer. ela fez questão de dissecar todos os detalhes. havia uma quantidade exorbitante de clientes. Soube que ele morava num pequeno apartamento nos arredores de Lisboa. É uma casa simples. muito simples. 31 . da televisão ou das cadeiras a arrastar conseguiram desviar a atenção de Madalena e Sérgio. – Ele mora numa pequena casinha toda pintada de azul e branco. continuaram a degustar a refeição escolhida e o vinho especialmente indicado por um dos empregados do restaurante. filhos não teve. O restaurante escolhido por Sérgio era simples.Claro! Vamos. que submersos numa conversa amena. e dele.Não tanto quanto gostaria.Sim.Uau – exclamou Madalena compondo os cabelos no meio de um sorriso. confesso que me apanhaste de surpresa. mas o problema é ser demasiado apegado às lembranças do passado.E vocês vêem-se com muita frequência? . nunca fora casado.Bem. casual e encontrava-se situado numa das ruas mais movimentadas da cidade.Quem sabe um dia não te levo lá. – É realmente muito querido da parte dele.Eu?! . .Parece ser um programa interessante. . era órfão desde os dois anos e o único familiar vivo que lhe restava era um avô que morava no Alentejo e que ele fazia questão de visitar sempre que podia. mas sempre que tenho algum tempo faço questão de aparecer por lá – respondeu Sérgio poisando os braços sobre a mesa após o término do jantar. . . – Talvez seja melhor irmos andando antes que se faça mais tarde – disse ela tentando esconder o nervosismo. partindo do pressuposto que seja um elogio… . . No seu interior. – Fico feliz por saber que o teu avô cuidou de ti durante esse tempo todo – confessou Madalena poisando o guardanapo sobre o colo. mas a verdade é que nem o barulho das pessoas. Diz que jamais seria capaz de sair de uma casa onde a mulher deu à luz a filha.É claro que é um elogio – riram-se os dois. Dela.Tenho a certeza que irias gostar da vila – afirmou Sérgio não se deixando distrair por mais nada naquele restaurante a não ser pelo sorriso dela. e passava a maior parte dos dias enfiado no estúdio de fotografia que abrira com a ajuda de um amigo muito especial.Só fomos obrigados a separarmo-nos quando eu vim para Lisboa fazer o curso de fotografia.

não?! . .Sinto muito. . essa foi a melhor notícia da noite – disse ele arrancando-lhe uma gargalhada ruidosa. . . os meus filhos também. …não! Sou divorciada. mas ele sempre me deu todo o carinho do mundo. cheia de energia. a noite tinha sido maravilhosa em todos os aspectos. o seu único desejo era que ela se prolongasse por mais algumas horas. até porque ela sempre foi uma mulher saudável. o relógio assinalou vinte e três horas e quarenta e cinco minutos. . mas… tal como te disse. – Sou mesmo! Confesso que sempre fui muito mimada pelos meus pais.Ela morreu do quê?! – perguntou Sérgio com alguma cautela. . até por ser filha única e essas coisas todas. Nessa altura. era só uma questão de tempo e sentido de oportunidade e ele soube aproveitar essa oportunidade na perfeição.. De facto.A sério?! .Eu também – respondeu Madalena tentando esconder a tristeza que lhe assombrou o rosto. . Acho que não conseguiria imaginar a minha vida sem ele. . . para que conversassem sobre assuntos triviais e também para que ela se sentisse suficientemente confortável para tocar naquele assunto tão delicado e pessoal. . Sim.E os teus filhos. .…vamos para o quintal e assamos o nosso jantar.Teve um ataque cardíaco repentino. . 32 .A mais velha chama-se Sara e tem quinze anos e o rapaz chama-se Daniel e tem dez. e pela primeira vez desde há muito. Ele parece ser igual ao meu pai. obrigada por tudo.E… se não for muita indiscrição minha perguntar… és casada? A pergunta de Sérgio não a tomou de assalto e tudo porque Madalena já esperava que mais cedo ou mais tarde ele a fosse fazer. .Tens ar de menina do papá. Nesse aspecto tive muita sorte. De facto. – Entregue – disse Sérgio quando Madalena abriu o portão de casa. Deu tempo para que se conhecessem. . Foi com uma música bem conhecida a tocar no rádio que Sérgio levou Madalena a casa.Podes acreditar que é! E quando voltamos da pescaria com… um peixe e meio nos baldes… – Madalena não resistiu a soltar uma ruidosa gargalhada.Eu gostaria muito de conhecer o teu avô.Espero que tenhas gostado do jantar.Sim.Uff – suspirou Madalena largando os ombros.O meu pai também é o meu melhor amigo. o tempo propício para que a noite pudesse ser encerrada e para que ela absorvesse as luzes da cidade que teimavam em invadir-lhes o carro.Obrigada! Aliás. ninguém estava à espera que aquilo acontecesse. foi repentino.Deve ter sido muito difícil quando a tua mãe morreu.E sou – riu-se ela alegremente. especialmente pelo meu pai. .Um casal! Perfeito – sorriu Sérgio levando a mão ao queixo. . Na verdade. não é?! .Como é que se chamam? . . – Foi a pior fase da minha vida.Óptimo! A seguir ao golo que o Benfica marcou há bocado. .Eu também acho. – Mas pelo menos ainda me resta o meu pai.

Na floricultura.Pode – respondeu Madalena sentindo-se como uma verdadeira adolescente quando ele se debruçou e a beijou na face.Dançar?! . . uma refeição em casa e uma cama vazia.. isto para não falar das inúmeras vezes que lançou os olhos ao telemóvel ansiando uma mensagem de texto ou até mesmo um toque que lhe trouxesse um sinal da existência do fotógrafo. .Semanas? Meses? Anos? 33 . deixava o aparelho sobre a caixa de velocidades e quase tinha acidentes quando os seus olhos saíam da estrada. . E em casa.Boa noite! Dorme bem. descompassado e tudo por causa de Sérgio que sem querer acabou por o trazer de volta à vida.ele hesitou. comer alguma refeição ligeira e cair na cama sem pensar em mais nada a não ser no dia seguinte.Por mim tudo bem. mas estava a pensar em convidar-te para sair hoje à noite. Após mais um dia exaustivo de trabalho onde foi obrigada a levar vários caixotes pesados ao armazém ao lado de Alice e do motorista que trouxera as encomendas dos fornecedores.Será que… .O quê!? O jantar? . Ele que estava a bater acelerado.Sair para onde? . Pode ser?! . qualquer ruído era suficiente para que pensasse que era o telefone a tocar. . .Um jantar.Tu também.Sei que é meio em cima da hora. Mas teriam os seus planos algum tipo de fundamento? Ao ouvir o telemóvel tocar no bolso do casaco e mais tarde o nome da pessoa que a estava a telefonar. – Será que liguei numa má hora? – perguntou Sérgio com uma voz absolutamente irresistível. enquanto atendia algum cliente. muitas eram as vezes em que se dava consigo a olhar para o visor. . despediu-se da melhor amiga e caminhou apressada em direcção ao carro ansiando chegar a casa. .Ligo-te ainda esta semana.…podemos repetir um dia destes? . um almoço ou até mesmo um café. . Cinco dias foi o tempo que Madalena teve que esperar para voltar a ter notícias de Sérgio. Qualquer coisa! .Não! Claro que não – respondeu Madalena moderando os passos ao longo da avenida. um sorriso atravessou-lhe os lábios e fê-la recuar nos seus intentos de um banho. Mas nada. O que é que te parece? .Tu sabes há quanto tempo eu não vou ao Bairro Alto!? . Nenhuma chamada importante a não ser a dos filhos para contar as maravilhas que estavam a viver em Marrocos.Gostei imenso. Ao vê-lo a desaparecer pelos portões e a enfiar-se no carro estacionado a poucos metros da sua casa. . Depois disso. Madalena sorriu e levou a mão ao peito numa tentativa desesperada de manter o coração ali dentro.Para dançar – respondeu ele.Sim! Bairro Alto. Durante a condução para casa. Madalena deu-se por vencida e fechou a loja mais cedo do que o habitual. tomar um banho.

. . Não. fumo de cigarros. . . – Estás bem? – perguntou Sérgio percebendo-lhe o desconforto patente nos olhos.Sérgio. Vamos para um outro bar aqui ao pé. Uma Cosmopolitan para ela e um whisky para si. mesas e cadeiras degradadas e a música rock a ecoar-lhe nos ouvidos como se fossem verdadeiras bombas atiradas lá para os lados do Iraque. não estou muito habituada a este tipo de ambientes.Pode – respondeu ela abrindo as portas do carro. outras drogas ilegais. . Aquele realmente não era o local ideal para si. havia décadas que não pisava um local daqueles.. Havemos de encontrar algum que seja mais interessante. marido.Mas o quê?! . – Toma – disse ele voltando à mesa alguns minutos mais tarde. Apesar de ser frequentado por pessoas mais velhas.Tal como te disse. um local repleto de gente jovem.Até acho que isto está cheio demais! Nem sequer têm mesas vazias e iríamos acabar por ter que ficar no balcão. – Não é nada disso. Quando se viu no interior de um dos bares mais requisitados do Bairro Alto.Podemos ir embora se quiseres. mas ainda assim houve algo na voz de Sérgio que a fez hesitar e querer seguir em frente com aquela loucura tão deliciosa. o facto de se ter esbarrado com uma dessas mulheres à saída apenas veio a cimentar as suas convicções.Eu não queria que… . . – Mas só espero não dormir antes de chegares. 34 . De resto.Podemos procurar um outro bar menos movimentado! Existem muitos por aqui. . por isso não tens desculpas. Madalena sentiu-se no seu verdadeiro habitat quando Sérgio a ajudou a sentar-se numa das poucas mesas vazias e caminhou em direcção ao balcão pronto a pedir as primeiras bebidas da noite. Madalena sabia-o.Disseste-me que os teus filhos estavam a passar férias com o teu ex.Prometo que não me vou demorar muito. .Então está bem! Fico à espera.Prepara-te! . mas… . A perfeição do recinto ficou marcada pela sua decoração tipicamente tradicional. . pelas mesas e cadeiras sofisticadas e por um ambiente muito menos explosivo.Não te preocupes porque eu vou estar mais do que preparada. Sim.Não – adiantou-se ela tocando-lhe no peito sem querer. – E este? – perguntou Sérgio quando entraram num bar completamente diferente do anterior. – Antes de a minha filha ter nascido. . – A que horas? . eu não sei … . De facto.Este é perfeito – respondeu Madalena voltando-se para ele com um sorriso radiante. . Eu quero dançar e quero dançar contigo! Não aceito outra companhia… Era uma loucura.Está bem – respondeu Madalena sentindo-se aliviada quando abandonou aquele bar propício para mulheres que ainda não haviam passado dos vinte e que desejavam urgentemente engatar o primeiro homem que lhes aparecesse pela frente.Vou-te buscar assim que sair do estúdio.Estou.Pois hoje vamos dançar e eu não aceito um não como resposta. Madalena foi obrigada a respirar fundo e a assimilar tudo aquilo que lhe estava a acontecer. . Por volta das dez e meia! Pode ser? .Décadas – respondeu ela arrancando-lhe uma leve gargalhada.

Ali. encerrar o expediente com a nítida certeza que faria exactamente a mesma coisa no dia seguinte.Para mim só o facto de saber que respiras já é o suficiente para achar a tua vida fascinante… . não é?! . . almoçar.Tu também não ficas atrás. . Sem mais palavras para lhe dizer. podes dizer – concluiu ela entre risos. naquele bar tão acolhedor e destinado a seres humanos acima dos trinta. e por fim. .. receber as encomendas da carrinha que dia sim. . tudo deixou de ter importância quando as mãos dele percorreram-lhe as costas e se enterraram nos seus cabelos soltos. .Confesso que nunca tinha entrado neste bar e olha que já frequento o Bairro Alto há anos. encostou a cabeça nos ombros de Sérgio deixando-se levar pelo momento mais especial da noite. Literalmente nua. – A minha vida é uma seca.Lá isso é verdade – riu-se Madalena enquanto bebia o primeiro gole da sua Cosmopolitan. Quero saber tudo o que te aconteceu desde que saíste da cama até à hora que te telefonei a marcar este encontro – respondeu Sérgio não tirando os olhos dela um só segundo. . .Mas mesmo assim eu quero saber. onde por sorte ou não.Obrigado pelo elogio. . . O sorriso de Sérgio convenceu Madalena a oferecer-lhe a mão e a seguir com ele em direcção à pista de dança. Madalena sentiu-se nua. – Queres dançar? .Não existem músicas do nosso tempo! Existem músicas intemporais e esta é uma delas. Uma música absolutamente irresistível. Pelo menos dá para conversar sem termos que berrar aos ouvidos um do outro. .Então conta-me lá como é que foi o teu dia.Agora?! .Sim! Mas eu gostei imenso. Abrir a sua floricultura. . e depois disso.Nem por isso – respondeu ele fazendo-a girar sobre os pés. Sérgio encostou Madalena contra si e permitiu que ela fechasse os olhos sem se importar com as pessoas à sua volta ou com o adiantado das horas.És um cavalheiro e é por isso que não dizes a verdade. .Aonde é que aprendeste? 35 . pagar algumas contas. segundo as palavras do fotógrafo – Esta música é do meu tempo. sabias!? – disse Madalena quando se viu envolvida numa balada verdadeiramente romântica.Tens razão. não danço? – perguntou ela voltando a encarar-lhe o rosto. telefonar a fornecedores. atender novos clientes. .Claro que não! Adorei saber tudo o que fazes.Foi normal! Absolutamente normal. .respondeu ele encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. E quando o fez. – Para mim danças perfeitamente. não tendo outro remédio a não ser contar as pequenas tarefas que realizou durante o dia. . já se encontravam outras pessoas a dançar “At Last” da cantora norte-americana Etta James.É um pouco escondido.Sim! Está a passar uma música que eu gosto muito e que não quero desperdiçá-la de maneira nenhuma. dia não lhe surgia à frente da porta da loja. – Danço muito mal. atender clientes.Obrigada. Um arrepio na espinha foi o que Madalena sentiu.

não sou?! .Eu acho que sim. .Não acreditas nas minhas palavras? . pé ante pé.Já disse que danças muito bem. – E querias-me convencer que não sabias dançar? Aposto que só estás a dizer isso para não me fazer sentir mal. O feito de livrá-la de todas e quaisquer inibições relativamente à sua idade.Diz! Podes confessar.E tu? Aonde é que aprendeste a dançar assim? .É melhor ires – respondeu ela tentando resistir àqueles olhos verdes.Isso quer dizer que a nossa noite terminou? . não sei… . Por isso.Não! São as minhas palavras e eu estou a cantá-las para ti… . – És louco – riu-se ela quando Sérgio lhe caiu sobre os ombros. ele aproximou-se dela e tomou-a nos braços com um beijo absolutamente esmagador. quanto a isso não havia dúvidas.Claro que não – respondeu ela não contendo os risos.Já é quase de manhã e eu acordo cedo. Ambos.Posso beijar-te?! – interrompeu ele. Três horas e vinte e cinco minutos foi a hora que Madalena abriu os portões da sua casa após uma noite maravilhosa passada ao lado de Sérgio. e mesmo ela tendo tentado desviar-se dos braços dele à volta da sua cintura. . não duas. mas ainda assim.O quê?! . ainda continuavam a cantar um dos temas mais marcantes do serão. mas sim inúmeras vezes até conseguir saciar o desejo e a vontade de tê-la só para si. . – Talvez tenha aprendido aí.Uau! Não és nem um pouco convencido.Eu costumava praticar ballet quando era mais nova – respondeu ela envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. Não tinha e nem queria sair daquele jardim sem fazer algo pelo qual havia ansiado desde o início da noite. . É a letra de uma música. Sérgio não tinha todo o tempo do mundo para esperar por ela. . ainda surpresa pela audácia dele.. Naquele momento.Estou-te a perguntar se te posso beijar. acho que nem sequer me vou deitar porque… . . enquanto Madalena. Madalena não pensou duas vezes em acatar-lhe o pedido. Beijá-la. até porque a dança tinha conseguido um feito inédito.Confesso que não aprendi em lado nenhum – respondeu ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. – Digamos que é um talento natural.Não são as tuas palavras. . Perto de ti sou um verdadeiro aprendiz. . . a verdade é que foi completamente impossível resistir-lhe à voz rouca e desafinada nos ouvidos.Só acredito se me disseres isso ao ouvido. – Danças muito bem – sussurrou ela. . Beijá-la não uma. . ao seu estado civil e também ao seu desejo de aventurar-se nos ouvidos de um homem que mal conhecia. manteve-se de olhos abertos numa tentativa desesperada de convencer-se que nada daquilo 36 . um pouco embriagados. – Por mim continuava a dançar contigo até de manhã.Que pena – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso.Então quer dizer que tenho aqui nas minhas mãos uma verdadeira bailarina!? Madalena sorriu. Quer dizer. A mão levada ao peito e o virar do rosto em direcção ao quintal do vizinho foram alguns dos indícios que fizeram antever a resposta de Madalena.

Que se calhar com a minha idade eu não deveria reagir tão mal por causa de um beijo. foram os pensamentos do fotógrafo quando o tecido caiu ao chão.A pergunta é: o que é que tu queres que eu queira de ti? Ao ver-se metida num verdadeiro dilema. intrigado.Desculpa – disse ele.estava a acontecer. pensou. – Exagerei?! . – Isto é de doidos… . – A sério! Pára…! . baixinho. . abraços e tropeções. que Madalena se deixou encostar à parede permitindo que Sérgio a livrasse do vestido que ela utilizou para o fascinar durante toda a noite.Sim – respondeu ele desarmando-a novamente com o seu olhar. . E não é que foi isso que fez? Sem pensar nas consequências. no meio de uma escuridão avassaladora.Na tua casa? . . que és divorciada e que tens dois filhos adolescentes… . Deveria estar na cama há horas.O que é que queres dizer com isso? – perguntou Sérgio. ela puxou Sérgio contra si e realizou todos os desejos que manteve escondidos durante a noite. mãe de dois filhos adolescentes… . claro que não.Pois bem! Então deixa-me que te diga que não é esse facto que me vai fazer afastar de ti. – Eu sei que devo parecer ridícula… . Como sonhou descobrir o que estava por debaixo dele.Também. – Quer dizer… sim! . .Queres entrar? . .Já reparaste que passas a vida a falar da tua idade? . Submersos em beijos. Estava antes diante de um dos homens mais fascinantes que lhe haviam atravessado o caminho e a sua única vontade era voltar a enterrar-se na boca dele e sugar-lhe todo o sabor que ele a fizera provar momentos antes.Talvez – riram-se os dois.O que é que tu queres de mim? . deveria estar a pensar nos filhos e também na floricultura que teria que reabrir de manhã…. Madalena e Sérgio entraram pela casa adentro sem se importarem com mais nada. Sérgio sorriu.Eu?! .Só estou a constatar um facto.Um pouco. mas a verdade é que não estava. enfim! Deveria estar a pensar em tudo aquilo. Um sonho do qual vou acordar daqui a cinco segundos e não me vou lembrar de absolutamente nada. É um sonho. .suspirou Madalena sentindo-se prestes a cair num abismo. – O que foi? .Diz! .Fiz mal?! . Voltou a beijá-lo e pela primeira em toda a sua vida tomou a iniciativa de se atirar para os braços de um homem que não o seu marido.Não.Sim ou não?! . – Estás sempre a insinuar que és muito mais velha que eu. mas não só… – respondeu ela arrancando-lhe uma ruidosa gargalhada. E foi ali. Madalena sorriu e não evitou pensar que deveria estar em todos os lugares menos ali. – Pára – pediu ela desesperadamente.Não – adiantou-se ela. Nem sequer com o tapete do corredor que quase os fez escorregar junto ao bengaleiro.Uma mulher divorciada. .Sérgio… – murmurou ela. 37 .

Não lhe importou a sua triste figura enquanto subia as escadas pois tudo o que ela queria era continuar a sentir os lábios de Sérgio. . ela voltou a fechar a porta e deixou que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo em forma de gritos. .Nem eu! Confesso que até já tinha perdido esperanças que ele te voltasse a ligar. – Adorei … . De resto. meu Deus! Não faças isso… Quando os primeiros raios de sol se impuseram nas janelas e demonstraram que era altura de voltar à realidade.Eu também.Então se for assim eu deixo-te ir.Cada milésimo de segundo – riu-se Madalena ainda colada aos lábios dele. Contudo.Ligas hoje? .Isto. cada segundo… . Como é que poderia dormir se nada daquilo lhe saía da cabeça? Aliás. . – Ai. Sérgio e Madalena despediram-se à porta de casa com um longo beijo e com a promessa de tornarem a reencontrar-se assim que possível. nada disso importou. na altura. . . .Claro que sim. . . mas realmente não é isso que importa! O que importa é que ontem saímos para dançar.Ir para a cama com um homem que mal conheço – respondeu Madalena soltando um outro suspiro quando ele mordiscou a sua orelha direita.Prometo..respondeu Madalena permitindo que Sérgio se afastasse com um largo sorriso e encontrasse o carro estacionado a poucos metros da sua casa. – E assim que puder eu ligo-te.Prometes?! . Ele não tinha razões para te mentir. como poderia sequer pensar em trabalhar quando a sua única vontade era continuar ali deitada para sempre de olhos postos no tecto? Ou estariam antes postos no céu? De facto.Então eu vou – disse ele beijando-a novamente.Tchau! .Quero repetir tudo outra vez! .Aleluia – foi a reacção de Alice na manhã seguinte quando Madalena lhe contou todos os detalhes que rodearam a sua noite com o Sérgio. .Nunca pensei que pudesse acontecer tão rápido. . as horas de prazer que passaram juntos não deixaram outra alternativa. o quê? . .Eu nunca fiz isto.Adorei cada minuto.Bem.Disse que tinha tido muito trabalho durante a semana e que por isso não teve tempo para me ligar antes – respondeu Madalena levando a mão ao queixo. Precisavam ver-se. .Nós vamos repetir tudo outra vez.O quê?! – perguntou Sérgio devorando-lhe o pescoço. precisavam sentir-se e precisavam urgentemente ter-se um ao outro sem pensar nas consequências que aquele caso poderia trazer às suas vidas. – Achas que deva acreditar? . .Tchau… . passámos uma noite fantástica e … eu fiz sexo – exclamou Madalena arrancando 38 . os braços musculados que ele tinha e a forma como se deixou entregar a ele durante horas a fio.confessou Sérgio. Depois disso. esperneios e uma dança absolutamente ridícula ao longo do corredor. . .Ligo. não sabia.

A Rua do Carmo. após um dia cansativo na floricultura.Está à procura de…?! – perguntou a jovem passando as mãos pelos cabelos com uma descontracção fora do normal. . Sexo… .É?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. . Na verdade. acho que me enganei. Acordar cedo. – Acreditas nisto?! Eu fiz sexo! Fiz sexo. preparar os filhos para a escola.Eu sei – riram-se alegremente. minha amiga! Que homem! . Diante da chegada dos filhos. 39 . . a carta de alforria que ela havia conseguido quando os filhos partiram de viagem foi-se esgotando no prazo de validade. a simples ideia de que as coisas voltassem a ser o que eram antes. sair a tempo de buscar o filho mais novo ao colégio e voltar para casa onde a preparação do jantar era a palavra de ordem.Não – afirmou Alice sentando-se à frente dela. Uma rua famosa pelos seus prédios antigos.…eu acho que me enganei.Acho que se morresse hoje. .vários pulos de alegria por parte da sua melhor amiga. E foi exactamente à procura de uma história que ela subiu as escadas do edifício onde se encontrava instalado o estúdio de Sérgio.Não. ou pelo menos escondido até que tivesse coragem de lhes contar que a mãe finalmente havia encontrado alguém para lhe aquecer os pés nas noites frias de Inverno e para lhe destapar os lençóis nas noites quentes de Verão. saltos altos e uma lingerie que tapava apenas o essencial. . Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser os encontros fortuitos de Madalena e Sérgio ao final da tarde que muitas vezes culminavam com um jantar e uma noite de prazer na casa dela. dois toques e a porta foi aberta por uma jovem altíssima. . não se enganou! É aqui mesmo. a pouco e pouco. mas com imensas histórias para contar. mas tal como disse. Lingerie e Madalena pôde ter essa certeza quando a observou dos pés à cabeça. um pouco degradados.Estou tão contente como se tivesse acontecido comigo.Hã! Do estúdio de um fotógrafo chamado Sérgio Almeida. E assim. E que homem. tudo isso faria parte do passado. de cabelos loiros. – Tu não podes morrer nunca. Madalena aceitou o convite de Sérgio para conhecer pela primeira vez o estúdio fotográfico que ele dirigia. não foi muito difícil para Madalena encontrar o estúdio de Sérgio que ficava exactamente situado num dos pontos mais movimentados da cidade. olhando novamente para o papel que tinha nas mãos. percebeu que tinha chegado ao destino. Naquela sexta-feira. Ele deu-me o endereço. principalmente por saber que não teria tanto tempo para estar com Sérgio e muito menos a possibilidade de o levar para a sua casa e fazer amor com ele no corredor. será que não percebes?! Tu és a prova viva que uma mulher acima dos quarenta. Com o endereço nas mãos. provocava-lhe um verdadeiro ataque de histeria. Um toque. Sim. Mais tarde. Faltavam apenas vinte e quatro horas para que Sara e Daniel regressassem de Marrocos e para que a vida de Madalena retomasse o curso habitual. era uma proposta irrecusável e ela aceitou-a sem pestanejar já que os filhos só chegariam a Lisboa no Sábado de manhã repletos de histórias para contar e presentes que juraram ter adquirido para si. Contudo. . abrir a floricultura. Não. divorciada e com filhos consegue arranjar um homem que se interesse por ela. no sofá e no quarto. morria feliz.

.Desculpa! Já chegaste?! Não te vi entrar – disse Sérgio quando finalmente se apercebeu da presença de Madalena no estúdio.informou a jovem caminhando com Madalena pelo pequeno corredor quase às escuras. Tem que comprar. mas por sorte ela desviou-se a tempo para que as duas modelos não descobrissem a sua verdadeira identidade.Isto é para quê? – perguntou Madalena aos ouvidos da modelo que lhe havia aberto a porta minutos antes. Sim..Chegámos – exclamou a modelo parecendo ignorar a última frase de Madalena quando abriu a porta e a encandeou com as luzes vindas do estúdio. ela também já tinha tido vinte e cinco anos. nada poderia ser mais provocante e explícito. – Ele está a fotografar uma outra rapariga… . Ainda tentou beijá-la.Está tudo óptimo.Assim!? – perguntava a modelo sem sequer se aperceber dos olhares aterradores que Madalena lhe fez questão de lançar de longe.Vou pensar no caso – murmurou Madalena desejando desaparecer o mais rapidamente possível. .Está tudo bem? .Sim.Pois devia – respondeu a modelo bebendo um gole de água com a ajuda de uma palhinha fluorescente. . I just wanna make love to you. um famoso anúncio televisivo dos anos noventa. – Quer dizer. é minúsculo. . – Esses são muito bons para nos levantar o rabo. tudo o que ela não imaginava era encontrar duas mulheres seminuas que em muito lhe faziam lembrar os seus vinte e cinco anos.Sim. Entre! Na verdade. . De facto. .Eu?! Não! Definitivamente não. Era como se algo lhe gritasse aos ouvidos para desaparecer. assim como as poses sensuais que a modelo fotografada fazia questão de oferecer às lentes de Sérgio. para criar alguma vergonha na cara e para não se iludir com um homem que parecia viver rodeado de modelos belas e esculturais. pois quando Sérgio a convidou para conhecer o seu estúdio fotográfico.Olá! .Uau! .dizia ele totalmente concentrado no que estava a fazer. . a única vontade de Madalena era fugir e fingir que nunca estivera ali. Muito bom! Estás óptima. – Isso! Isso mesmo! Agora reflecte a perna e olha para mim… .São os novos fios dentais da Vitoria Secret. 40 .Gosta? – questionou ela mostrando o fio dental sobre uma das mesas do estúdio.É giro – respondeu Madalena segurando nas mãos um pequeno pedaço de tecido. . . Eu é que acho que vim numa má hora. Porque apesar de tudo. mas eu não costumo usar fios dentais. até mesmo porque essa seria a atitude mais sensata a tomar tendo em conta as pernas bem definidas e o busto daquela modelo que não aparentava ter mais do que vinte e cinco anos. por favor… . .Obrigada.Uma campanha de lingerie. . – Inclina um pouco mais a cabeça. – Você também veio fotografar? . . mas é giro. Na aparelhagem soava igualmente uma música bastante insinuante que muito lembrou a hora Coca light.

Seriam namorados? Amigos? Ou qualquer outra coisa pelo meio? De qualquer maneira não devia ser nada sério visto ela aparentar ser mais velha que ele. mas com a Vera sim. . . Vera parecia muito mais segura de si. – Já tínhamos combinado. Ao lançar os olhos para o cenário improvisado. especialmente quando a viu tão perto de Sérgio e percebeu que algo os unia.. Para além disso.Ainda vai demorar muito a sessão? .Só falta fotografar a Natália e depois fico despachado por hoje. Madalena não resistiu a observar a forma como Vera bebia a água pela garrafa. ao olhá-la com um pouco mais de atenção. Importaste de ficar à espera só mais uma hora?! É que nos atrasámos por causa das luzes e também porque a equipa da maquilhagem e dos cabelos só nos apareceu por aqui depois das quatro. – São simpáticas.As tuas modelos. lembraste?! . 41 . Era uma jovem bonita.Com a Natália não.Claro que não – respondeu ele poisando a máquina fotográfica sobre uma mesa repleta de cabos. imponente e profissional o quanto bastante para nem sequer lhe dirigir a palavra ou esboçar qualquer expressão facial quando os seus olhares se cruzaram pela vigésima vez. computadores e outros aparelhos electrónicos que utilizava para trabalhar.Não. quanto a isso não havia dúvidas.Quem?! . era também perceptível que a presença de Madalena a incomodava mais do que qualquer outra coisa. Madalena percebeu que não era apenas a beleza a única característica que a diferenciava de Natália. tudo bem. Eu espero – respondeu Madalena lançando os olhos àquela sala desarrumada. É a primeira vez que trabalhas com elas? . mas ainda assim.

.CAPÍTULO III O aspirador foi desligado na sala quando faltavam poucos minutos para as onze da manhã e tudo porque a porta da rua se abriu sem qualquer aviso prévio trazendo consigo as duas pessoas que Madalena mais desejava ver na altura.Como vês. – E vimos golfinhos. .Estás todo bronzeado.Ainda bem – respondeu Madalena compondo-se na sua camisola de malha. – E a… Vanessa? Não veio com vocês? .Eu também tive saudades tuas.Olá. Sara?! Não me vais dar um beijo? . o pai já disse que não foi nada importante – resmungou Sara sob o olhar incrédulo de Madalena. . . – Então.Ai que saudades! .Deve ser coisas de mulheres – respondeu Jorge não querendo adiantar muitos detalhes acerca do assunto. . Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso.Fomos à praia todos os dias – respondeu ele. . .A Vanessa está no carro. Os seus filhos que após um mês de férias resolveram regressar a casa e brindá-la com as suas risadas e brincadeiras.Porque ela veio um pouco mal disposta da viagem. .Que bom que se divertiram – disse Madalena rasgando alguns olhares à sua filha que ao contrário do irmão nem sequer se dignou a cumprimentá-la com um abraço.Mãe. voltámos todos são e salvos. mãe! Foi bué fixe! . .Obrigada.A sério? Porque é que não passaram por um hospital? . . Daniel e Sara.Estás bonita. – Mãe – exclamou Daniel correndo em direcção à sua progenitora e aninhando-se nos braços dela.Porque é que não a convidaste para entrar? . – Porque é que tens sempre que te meter aonde não és chamada? 42 . animado.Claro – respondeu ela obedecendo ao pedido sem muito entusiasmo enquanto o pai arrastava as malas para o interior da moradia. vocês deviam ter… . . .Olá! .Mesmo assim.Tivemos que parar duas vezes no caminho para ela vomitar – disse Daniel recebendo alguns afagos na cabeça por parte da mãe.

.. .Está bem – respondeu o último subindo as escadas a correr. . .Nós sempre nos demos bem. mas com a Sara já não resulta e tu tens que meter isso na cabeça.Boa! Quando sentes que perdes a razão. de a encheres de mimos e de a sufocares com regras que a está a fazer afastar-se de ti? – discursou Jorge tentando trazer a ex.Ela só tem quinze anos. .Só te estou a avisar. – Então continua assim para ver se a Sara não se afasta de ti de vez. Aonde é que foram? O que é que fizeram? Como é que o pai se portou? Comeram todas as refeições? Não.Sara?! . eu sempre joguei! Mas não queiras colocar os nossos filhos contra mim porque eu não vou admitir uma coisa dessas.É claro que é tua – respondeu Madalena tentando manter a voz baixa. . – Daniel! Sobe e vê se tomas um banho antes do almoço – pediu Madalena trocando um olhar cúmplice com o ex.Sabes qual é o problema da Sara contigo? Madalena calou-se. reages sempre assim… . . – Que raios! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? . – Com o Daniel até pode resultar. – Foi contigo que ela esteve nestas últimas quatro semanas e olha só como é que ela voltou?! . . eu não tenho a culpa que tu e a Sara nunca se tenham dado lá muito bem.Por isso mesmo! É uma adolescente e não uma criança.Lena.Eu nunca coloquei os nossos filhos contra ti – respondeu ele largando os braços. – Preciso falar com o pai. .Jorge. . Ela realmente não tinha paciência nenhuma para as responder. não era?! 43 .E tu irias adorar se isso acontecesse.E?! Ainda perguntas… e…?! Ela nunca me enfrentou dessa maneira.Que raiva! Se soubesse tínhamos ficado mais uns dias no Algarve. mulher à razão. .E… . marido. afinal de contas ele ainda é uma criança. .Sai – exclamou Madalena abrindo a porta de rompante. Agora sai! .Claro – riu-se Jorge secamente. . aliás. mas ela já não é uma criança.Tens a certeza!? . Não. – O problema é que tu a tratas como se ela fosse uma criança.E o que é que vais dizer? Que a culpa é minha? . Estas foram as últimas palavras de Sara antes de agarrar nas suas malas e subir as escadas em direcção ao quarto.O que foi? – perguntou Jorge sabendo à partida que iria ser criticado por algo que ainda nem sabia o que era.Tu viste como é que a Sara falou comigo? . Um local onde pretendia trancar-se durante vinte e quatro horas e não sair de lá nem por decreto de lei. não iria jantar e nem queria sequer responder às perguntas da mãe que com certeza seriam as mesmas. eu estou a jogar limpo contigo.Eu não perdi a razão! Eu tenho razão. Não iria almoçar. Será que não percebes que é essa tua mania de a quereres proteger de tudo e de todos.

para Madalena foi completamente impossível realizar tal tarefa. . não.É. Uma chamada não atendida. – Nada de especial! Agora estou para aqui a ver se consigo melhorar as fotos para a campanha da Vitória Secret.Apesar de não acreditares.Isso é o que importa. Eu ligo-te depois.Está bem – respondeu Sérgio desligando a chamada quando se deu por vencido.Não faz mal – respondeu ele. . marido continuou a ecoar-lhe nos ouvidos durante a tarde toda.Jorge. . já disse! Mas eu entendo o porquê de ela se quer ir embora cá de casa.Obrigado pelo elogio – riram-se os dois.Isso mesmo que ouviste! Ela quer morar comigo. . – O quê?! .Estive a trabalhar – respondeu Sérgio analisando algumas das fotografias que tirou durante a tarde. – Só vi a tua chamada agora. – Desculpa – pediu ela retornando a ligação assim que terminou de arrumar a loiça do jantar. Sara entrou na cozinha e surpreendeu a mãe encostada ao lava-loiça completamente submersa numa conversa telefónica.Tenho a certeza que te vais sair muito bem! És um excelente fotógrafo.Como é que foi a viagem? . .Sim! Tenho que entregar tudo pronto na semana que vem. nenhum. Mas para que tenhas um rasgo de clarividência. . .…claro – disse Madalena tentando esquivar-se aos olhares lancinantes que a filha lhe lançou enquanto abria a porta do frigorífico. deixa-me dizer-te que durante estas férias a nossa filha pediu para morar comigo.Algum problema?! .E eu odeio-te! . – Escuta. se tu me levares a Sara daqui. 44 . . – Imaginei que estivesses com os teus filhos.Não. . um número perdido e a raiva que sentiu ao final da noite quando descobriu que a pessoa que lhe tinha tentado ligar era Sérgio.. pois a discussão com o ex. . Podemos falar mais tarde? . Nessa altura. infelizmente vou ter que desligar.Advinha lá!? O sentimento é recíproco… – respondeu Jorge saindo porta fora.Não precisavas ter despachado a pessoa com quem estavas a falar só por minha causa… – afirmou Sara servindo-se de um copo de sumo sobre a mesa da cozinha.Aquela campanha de ontem? .Acho que correu bem. Com quem estaria a conversar. eu não iria adorar.E tu? Como é que te correu o dia? . Sabes porquê!? Porque tu és insuportável. eu mato-te! . E a verdade é que estava tão submersa nos seus pensamentos que nem sequer se apercebeu do telemóvel a vibrar sobre a bancada da cozinha. A revelação de Jorge não podia ser mais bombástica e prova disso foi o recuo de dois passos por parte de Madalena. . eu estava – murmurou Madalena tentando esconder o facto de não ter visto a filha mais velha desde a hora do almoço quando ela resolveu trancar-se no quarto com uma música rock aos altos berros. perguntou-se. . Pelo menos eles vieram animados. Apesar de ter tentado controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos.Eu não quero tirar a Sara de ninguém. .

Não me podes impedir de morar com ele! Ele é o meu pai.Não foi por tua causa – disse Madalena largando o seu telemóvel sobre a mesa. Sara! Ele contou-me que tu pediste para ir morar com ele. a verdade é que eu adoro e tu vais ter que te habituar a essa ideia. .Tu não vais a lado nenhum! . mas nem por isso a inibiu de oferecer à filha uma valente bofetada no rosto que a fez recuar dois passos e suster a face com a mão. roupas. – Se estás à espera de um pedido de desculpas. . .Não! Se tu estás à espera de um pedido desculpas. Podemos ter uma opinião diferente.Eu não acredito que me estejas a dizer uma coisa dessas. É verdade? .Eu tenho todo o direito de querer escolher com quem quero ou não morar – respondeu Sara poisando o copo de sumo sobre a mesa. hã – vociferou Madalena aproximando-se bruscamente dela. .Qual é o teu problema. 45 . O olhar de ódio disse tudo.Sei?! .Eu quero passar uns tempos em casa do pai. tu é que vais ter que esperar sentada. lembraste?! Não fomos nós. . – Diz lá! Não tens tudo aquilo que precisas? Não tens um tecto.Não me levantes a voz.Achas bem aquilo que fizeste?! .Eu quero que morras… A resposta efusiva de Sara tomou Madalena de assalto. comida. . nunca te passou isso pela cabeça? . Silêncio foi a resposta de Sara embora os seus olhos estivessem a vermelhar de raiva. – Lá porque tu decidiste que eu e o Daniel tínhamos que ficar contigo.Nem sequer falaste comigo sobre os teus planos quando sabes muito bem que sou eu quem tem a tua guarda e a guarda do Daniel.Ai é?! .. é melhor esperares sentada… – afirmou Madalena tentando manter a expressão aterradora que tinha no rosto.O quê?! . um quarto só para ti.Sim – respondeu a jovem com toda a calma do mundo. – Mas ainda bem que te ponho os olhos em cima porque precisava esclarecer uma coisa contigo.O que é que foi que eu fiz? . . . isso não significa que nós queiramos realmente ficar contigo.Apesar de odiares a ideia de que eu adore o meu pai. . .Que opinião?! . porque eu ainda continuo a querer que morras – respondeu Sara abandonando a cozinha sem sequer terminar o sumo que deixou sobre a mesa e deixando Madalena a sentir-se o pior ser humano à face da terra.Sara… . foi a pergunta que imperou no ar enquanto os seus olhos mais uma vez lutavam contra as lágrimas. .Não te faças de desentendida. Porque é que se estava a sentir assim. – Nunca mais na tua vida te atrevas a levantar-me a voz.Foste tu que o escolheste para ser o nosso pai. Sara – imperou Madalena calando-lhe os argumentos.E tu sabes bem qual foi o assunto. sapatos e computadores!? O que é que queres mais? .Estive a conversar hoje com o teu pai. .

Culpa do comportamento da Sara.Porque os tempos eram outros! No nosso tempo. Lena! .Claro que estou.. sabias!? .…volta a correr para a maravilhosa mãe que anda a desperdiçar.Faz uma experiência! Diz que aceitas que ela vá morar com o pai e que não te opões em nada. – E tu estás preocupada com isso? .Alice!? Estás louca?! .Deixá-la ir morar com o pai. . – Devias ter tido filhos. . Eu não quero que ela vá morar com o Jorge sabendo bem que ele é um irresponsável de todo o tamanho. . – Achas que ele tem razão? . – Não lhe devia ter dado aquele estalo. acredita que de adolescentes eu percebo bem e sei que quanto mais nos mostrarmos contra alguma coisa.Bem. .Quando ela perceber o traste do pai que tem – riu-se Alice. .O Jorge disse-me que a culpa era minha porque eu ainda não me tinha dado conta que a Sara já não era uma criança e que não adiantava nada enchê-la de mimos e regras porque isso só faria com que ela se afastasse ainda mais de mim… – discursou Madalena cruzando os braços. . nem mesmo a brincar. .O Jorge é um idiota. Mas se tivesse uma filha como a Sara. .Tu és uma caixinha de surpresas – afirmou Madalena sugando-lhe a face. Achas que eu sou uma má mãe? .Eu só queria saber o que é que se passa com ela.Infelizmente nunca tive essa sorte.Sinceramente não sei o que fazer… . ou esse azar. Se ela quiser ir.Achas?! – perguntou Madalena não muito segura das palavras da melhor amiga. Desde há uns meses para cá tem andado estranha e fala com as pessoas como se as quisesse bater. . era exactamente assim que iria reagir. ela que vá! Apesar de nunca ter tido filhos. . . . Lena! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? . em menos de duas semanas estava de volta.Estás a gozar!? – riu-se Alice enquanto terminava o arranjo de margaridas. lá isso é verdade. mas eles a querem fazer. .Claro que não. – Onde já se viu?! Ninguém deve desejar a morte da própria mãe.A Sara quer morar com o pai. Quando ela tiver que cozinhar.Pois eu acho que devias. não sei. .A minha adolescência não foi assim e a tua também não.A adolescência é assim.Culpa do quê? . ai de nós se levantássemos a voz aos nossos pais! Era logo um par de estalos e assunto encerrado.Achas que a culpa é minha? – perguntou Madalena encostando-se ao expositor da loja. .foi o desabafo de Madalena à melhor amiga várias semanas mais tarde. 46 .É claro que devias – ripostou Alice ajeitando um ramo de margaridas encomendadas pela manhã. tratar da roupa e das compras do supermercado. volta para casa com o rabinho entre as pernas e ainda te trata a pão-de-ló.O quê?! . . Mas diz lá qual é o problema concreto desta vez! .Garanto-te que se a Sara fosse morar com o pai.

– E quem sabe me vá embora já esta semana. Jorge mal conseguiu acreditar que o seu pior pesadelo se tinha concretizado sem qualquer aviso prévio. ela não hesitaria um segundo em arrancar a filha da casa do pai com as próprias mãos. . . .O. É isso mesmo que vou fazer. mulher a convencer a filha de que a sua saída lá de casa realmente não era a melhor ideia.Pensei melhor – mentiu Madalena. assim que chegasse a casa naquela noite.A conversa foi interrompida com a chegada de um cliente à loja. Alice estava certa quando disse que todas as tarefas domésticas recairiam sobre os ombros de Sara enquanto ela estivesse em casa de Jorge. Mas e se a filha não voltasse? E se ela continuasse a morar com o pai para sempre? Não.O quê!? 47 . . mulher nunca iria ceder às chantagens de Sara ou sequer permitir que ela saísse de uma casa onde tinha nascido e crescido.Olá.k! Então amanhã vou ligar ao pai – afirmou Sara não cabendo em si de contente por finalmente se ver os seus desejos concretizados. . para umas visitas turísticas ao seu quarto e também onde passava as poucas horas livres que o trabalho lhe deixava durante o dia sem sequer se preocupar em lavar a loiça. com certeza não aguentaria mais do que duas semanas. decidiu Jorge enquanto digitava o número da loja de Madalena. A Sara lá em casa? Uma adolescente de quinze anos em sua casa? Uma casa que normalmente costumava levar as suas amigas para umas noitadas de copos.foi a surpresa de Sara quando a mãe lhe informou sobre a sua decisão após o jantar.Pois então! Fala com o teu pai e combinem um dia para ele te vir buscar. e logo ela que sempre foi preguiçosa até para fazer a própria cama. mas se mesmo assim os seus planos saíssem furados.E posso saber porque é que mudaste de ideias? . Quando recebeu o telefonema da filha no dia seguinte. limpar o pó ou fazer a própria cama? Diante daquela catástrofe apenas comparada à Segunda Guerra Mundial. – Ou não me digas que já não queres ir? . Sim. mas eu fiquei sem entender uma coisa… . Por isso. a única coisa que lhe restava era tentar convencer a ex. mas nem por isso Madalena se esqueceu das palavras de Alice enquanto o atendia. Claro que não.É claro que quero.Sim! Podes. O que devia fazer para descalçar aquela bota? Ao desligar o telefone do escritório. Sim. diria que tinha pensado melhor e que era totalmente a favor da sua partida. . Ponto final. ele lançou os olhos a um quadro pendurado na parede e por momentos tentou encontrar uma maneira de se livrar daquele problema. – Estás-me a dizer que eu posso ir morar com o pai… . Não valia a pena opor-se à ideia de Sara em morar com o pai pois ela continuaria a fazer-lhe a vida negra caso se mostrasse contra aquela resolução estapafúrdia. Raios. – É o teu falecido – sussurrou Alice passando a chamada. Já te tinha dito isso há quase dois meses. Ela tinha razão. E logo ele que sempre pensou que a ex.Diz Jorge – exclamou Madalena recebendo o auscultador das mãos da melhor amiga. Duas semanas era o prazo que Madalena tinha estipulado para aguentar aquela prova de fogo. tudo bem?! Escuta! A Sara ligou-me há pouco.

Um olhar aterrador foi o que Jorge voltou a lançar a Madalena enquanto Sara descia ao primeiro piso sala carregada com duas enormes malas e uma mochila preta que a acompanhava todos os dias à escola. Apesar de tudo. Inventam mentiras. não foi!? . Mas já estás pronta? . Sexta-feira foi o dia em que Jorge percebeu que já não lhe restava nenhuma outra alternativa a não ser buscar a filha à casa da ex. Quem sabe tu me podes ajudar a fazer isso? O que é que achas?! – discursou Madalena sob uma ruidosa gargalhada que Alice não conseguiu evitar. . É verdade? Silêncio foi a resposta de Madalena. e enquanto abria os portões da moradia. – Tenho a certeza absoluta que uns dias na tua casa apenas lhe iriam fazer bem. . marido.Está lá cima a terminar de fazer as malas – respondeu Madalena permitindo-lhe a entrada.Por enquanto vai só a Sara..Estou – respondeu ela passando as mãos pelos cabelos soltos. .Sim e não faças essa cara de sonsa – exclamou Jorge caminhando apressado em direcção à sala onde encontrou o filho mais novo a jogar Playstation. Quero ver-te com a Sara vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. .Porque é que eu também não posso ir? – perguntou Daniel para grande desespero do pai.Fizeste de propósito. – Demoraste.Quer dizer. . . . – Estás aí? .Fogo! Eu também queria ir.Sim. primeiro disseste que me matavas caso eu me atrevesse a tirar a Sara lá de casa e agora ela liga-me toda contente a pedir para que eu a vá buscar nesta sexta-feira. abrevia por favor – interrompeu Madalena percebendo bem qual era o estratagema do ex.Jorge.Bem. Por azar. Afinal de contas já o conhecia há tantos anos que não foi muito difícil para si descobrir o verdadeiro motivo daquela chamada telefónica tão inapropriada. – Sim! É verdade.A Sara disse-me que tinhas concordado com a ideia de ela vir morar comigo. a única coisa que quis foi que a relva do jardim o engolisse. . desculpas… . pai – disse ela. isso não aconteceu.Estás a gozar. não?! . mulher. O que é que se passa? Qual é o teu esquema? . Jorge! Tenho a certeza que vais adorar.Eu?! . – Ela já está pronta? .Então vamos.A gozar porquê? . filho.Então queres convencer-me que queres realmente que a Sara venha morar comigo? É isso?! . – Apanhei um trânsito infernal no caminho.Porque não!? Ela não te adora tanto? Se a Sara quer morar contigo.O meu esquema?! Eu não tenho esquema nenhum – respondeu Madalena tentando ignorar as risadas de Alice quando colocou a chamada em conversação alta. Sabes como é que são os jovens quando querem realmente uma coisa. 48 . os seus planos e desculpas saíram furadas levando-o àquela verdadeira situação de desespero.É. eu sei – respondeu Jorge passado as mãos pelos cabelos aparados. . além de que estavas certo quando disseste que eu tenho que parar de a tratar como se fosse uma criança. provavelmente devo ter percebido mal. a única coisa que eu posso fazer é apoiá-la.

.Não! Tenho mais uma outra mala lá em cima que não consegui trazer junto com estas.Podias fazer tantas coisas – riram-se os dois. .A sério?! . . sendo que essa tarefa enfadonha recaiu inteiramente sobre os ombros de Sara. . saiu e nem sequer se dignou a despedir da ex. – Já que Maomé não vai à montanha… – afirmou Sérgio com a mesma voz jovial de sempre. foram algumas das cenas que Madalena observou de longe enquanto o seu coração se apertava e a companhia de Daniel era a única coisa que não a deixava desmoronar. . . 49 . Depois disso.pediu Madalena tentando controlar as lágrimas quando percebeu que a partida da filha era inevitável. está bem! Eu vou lá acima buscá-la. .Está bem.Desculpa – sorriu Madalena percebendo imediatamente a sua gafe.Tchau – disse Sara despedindo-se da mãe com um beijo na face e do irmão com um pequeno empurrão nos ombros. – Mas infelizmente estás longe. – O que é que eu posso fazer para animar essa voz? .Eu ligo daqui a dois. cintos de segurança colocados e a partida. não achas?! . enquanto estava completamente submersa nos seus pensamentos.. Ela vai voltar.Infelizmente não.Foi-se embora hoje e eu tenho medo que nunca mais volte.Diz-me – interrompeu Sérgio caminhando calmamente pela rua. .Problemas?! . Depois disso. . o telemóvel vibrou sobre a mesinha de cabeceira e fê-la estender o braço em direcção a ele. Depois disso. . Sabes o que isso é? . Foram precisos apenas cinco minutos para que Jorge regressasse novamente ao primeiro piso e tivesse a seu cargo cerca de três malas para arrastar em direcção ao carro. – Vê lá se ligas… . Madalena assustou-se com a terrível ideia de que a sua filha havia partido para sempre quando fechou a porta do quarto e deu por terminada a noite. afastou-se sem sequer olhar para trás e enfiou-se no carro do pai enquanto ele terminava de ajeitar as malas.É claro que ela vai voltar.Quem me dera poder acreditar nisso. . tentou enfiar essas palavras na sua cabeça e acreditar no que Alice lhe dissera dias antes quando a aconselhou a baixar as guardas e permitir a saída de Sara lá de casa. – Desculpa por não ter ligado nesses dias. tomou um banho e vestiu uma camisola confortável com o intuito de dormir como uma pedra e esquecer-se do dia em que viu a filha escapar-se-lhe por entre os dedos sem nada poder fazer.Sim! Filhos. – Mas já estás com duas na mão. e pela primeira vez.A minha filha foi morar com o pai.O que é que queres?! Tenho que levar as minhas coisas nalgum lado. Quem sabe não seria Sara para lhe dizer que queria voltar? De qualquer maneira não custava nada sonhar.Outra mala?! – indagou Jorge esbugalhando os olhos. Portas fechadas. três dias. Pela primeira vez desde sempre o lugar de Sara não foi ocupado durante o jantar.Está bem. Nessa altura. . mulher.

mas no entanto parecia uma eternidade. . e quando abriu a porta de saída. E mais palavras não foram precisas para que ela subisse os estores e se deliciasse com a figura de Sérgio sob o portão. talvez por preguiça. – Eu juro que te convidava a entrar – disse ela segurando-lhe a face com firmeza. – Pai! Tu não tens nada que se coma aqui dentro..Li os teus pensamentos – riram-se os dois.k . anos… .Eu também morri de saudades tuas. . . Na verdade. talvez para não acordar o filho. Por sorte.Desce! Estou à tua espera.Mas foi bom teres vindo! Nem sabes como estava a precisar de um beijo teu. – Foi por isso que vim. baixinho. eram essas as características que melhor o definiam.Temos que combinar alguma coisa. . O dia amanheceu ensolarado e foi com algum custo que Sara se dirigiu à cozinha crente de que iria encontrar um belíssimo pequeno-almoço à sua espera. Ainda não foste lá. . mas a verdade é que ela resolveu utilizar as mãos para saber onde estava.Eu sei.Pois eu iria precisar de semanas. .Não – respondeu ela com um sorriso malicioso. . a visão de Sérgio foi a primeira coisa que a fez sorrir naquela sexta-feira particularmente triste e sombria. . Pura ilusão? Talvez. não lhe importou absolutamente nada a não ser tê-la nos braços e matar todas as saudades que sentira desde a última vez que estiveram juntos. – És louco – disse Madalena ouvindo-lhe as risadas através do telefone. .E o que é que eu vou comer para o pequeno-almoço? 50 .Algumas horas é tudo o que eu preciso para matar as saudades que sinto de ti.O quê?! . – Mas estou ansiosa para ir. Tinha sido apenas há uma semana. – Mas não posso. não é!? . .Não consegui aguentar de saudades. O que é que eu vou comer? Realmente nada tendo em conta o que viu nos armários e nas gavetas vazias. conseguiu alcançar o corredor sem se esbarrar em nenhum móvel. o telemóvel nos ouvidos e o sorriso estampado no rosto.Algumas horas?! Hum! Parece-me interessante.O.Claro! Assim conheces a minha casa. . – Então fica assim combinado? No domingo depois do almoço? . – Sai à janela – pediu ele. Tal como sempre as escadas que ligavam os dois pisos encontravam-se às escuras. Uma das mãos nos bolsos das calças. Quando voltou a encarar-lhe o rosto iluminado pelas luzes das escadas. Sérgio afundou-se nos lábios de Madalena e beijou-a com toda a paixão que possuía dentro de si. . algumas migalhas de pão sobre a bancada e o frigorífico às moscas.Quem disse!? Silêncio e surpresa foram as reacções de Madalena. meses.O meu pai vem almoçar no domingo e eu estava a pensar em deixá-lo a tomar conta do meu filho por algumas horas. mas Madalena recusou-se a acender as luzes. – Que bom que estás aqui – disse ela enterrando-se nos braços dele e tentando absorver-lhe todo o calor do corpo. – Esquecime de passar pelo supermercado esta semana.riu-se Madalena. .Raios – exclamou Jorge levando as mãos à cabeça quando entrou na cozinha. pois as únicas coisas o que viu à sua frente foram loiças sujas do jantar.

Podia ouvir música aos altos berros.riu-se ela às gargalhadas quando descobriu quantidade exorbitante de filmes pornográficos e oito caixas de preservativos na mesinha de cabeceira do pai. Essas coisas! . ir ao supermercado é a coisa mais fácil do mundo e tens um aqui mesmo ao pé. bolachas. 51 . . – Não acredito! Que pervertido… . – Vou passar o dia todo no escritório às voltas com uns arquivos que tenho que rever. . enjoou-se com o cheiro. . .Até logo. Podia fazer tudo aquilo que quisesse. Mas podes ir tu ao supermercado se quiseres. . desenrolou-o numa tentativa desesperada de perceber como aquele objecto funcionava. .Compra carne.Sim. Podes aquecê-lo no microondas se quiseres. e antes que desse por si. o que é que se compra num supermercado? Comida.O.Eu nunca lá fui sozinha.Posso sair? Combinar alguma coisa com as minhas amigas? .E o que é que eu vou comprar lá? . .k! .Claro – respondeu Jorge beijando-lhe a face.Vou comer frango ao pequeno-almoço?! Só podes estar a gozar – resmungou Sara não vendo outro remédio a não ser obedecer às ordens do pai. dançar sobre o sofá como uma louca e vasculhar todas as gavetas lá de casa sem medo de ser apanhada por alguém.Aproveita que hoje não tens aulas e vai! Jorge demorou apenas cinco minutos para engolir o café que fizera. A curiosidade foi aguçada ao abrir uma das embalagens. estás livre para fazer aquilo que quiseres.Mas pai… . . . intrigou-se com a oleosidade. . . – Além disso.Eu não bebo café.Posso?! .Então bebe sumo! Acho que ainda tem o resto do frango do jantar.Podes fazer o quiseres.Até logo – respondeu Sara fechando a porta com um largo sorriso e com a certeza que a sua estadia em casa do pai iria ser no mínimo maravilhosa. Eu deixo-te dinheiro. despediu-se da filha deixando-lhe o cartão de multibanco e a certeza de que não voltaria a casa antes de o anoitecer. ela viu-se pela primeira vez a tocar num preservativo. . .Não acredito que a tua mãe nunca te tenha levado ao supermercado – respondeu Jorge alcançando o pote de açúcar sobre a bancada. – Tens que ir ao supermercado.Oras.. – Gostas dele forte ou com leite? . Em cinco minutos estás lá.Mas pai… . fruta. a sua única vontade foi de experimentá-lo. arroz. Cheirou-o.Café – respondeu ele aproximando-se da máquina sobre a bancada.E o que é que eu faço para passar o tempo? – perguntou Sara acompanhando-o à porta. e depois de vestir o casaco às pressas. Sim.Hoje não posso – respondeu Jorge retirando uma chávena de café dos armários. E quando finalmente percebeu. massas. e por fim. – Depois do supermercado.

. e mesmo tendo a tarde livre para fazer o que quisesse.Posso pôr a lasanha no forno se quiseres. Tal como sempre. .Volta mesmo?! 52 . E assim. . Jorge não desconfiou de nada e nem sequer teve a brilhante ideia de abrir as gavetas para se certificar que o seu pequeno tesouro que demorou dois anos a ser construído não tinha sido drasticamente usurpado pela própria filha. A primeira tinha ido passar o fim-de-semana ao Douro. – Bem. Sara voltou a sair do quarto e encostou a porta com um longo suspiro.Não! Chegaste na hora. a verdade é que Sara não conseguiu a companhia de nenhuma das suas amigas da escola. a única alternativa que restou a Sara foi devorar todos os filmes pornográficos do pai enquanto devorava também as pipocas que havia comprado no supermercado da esquina.A Sara já não mora mais connosco – respondeu Daniel para grande surpresa do avô. quando entrou à socapa no quarto do pai e ouviu o barulho do chuveiro a trabalhar. Afonso Soares foi pontual para o almoço em casa da filha. Sara não teve dúvidas de que aquela era a altura ideal para repor os filmes que lhe havia retirado da mesinha de cabeceira. . e a terceira.Cheguei cedo? – perguntou ele recebendo um beijo da filha. – Então rapaz… .Pensei que fosses demorar mais – respondeu Sara escondendo as caixas de DVD por detrás das almofadas do sofá. .Infelizmente naquele Sábado as horas demoraram a passar. .Fui ao supermercado – disse ela assim que ele entrou na sala. após ter a certeza que se tinha livrado de boa.Mais ou menos – respondeu Daniel seguindo-o em direcção à cozinha onde Madalena se encontrava a ultimar os preparativos do almoço. acho que vou tomar um banho porque estou a estoirar de dores de cabeça. . uma boa notícia – exclamou Jorge espreguiçando-se com vontade.exclamou Afonso afagando os cabelos do neto e entrando pelo corredor adentro sem quaisquer cerimónias. não tinha a permissão dos pais para sair de casa sem a presença de alguém mais velho.Olha. Alguns minutos mais tarde. Só me falta fazer a salada. Aliviada foi o que se sentiu. A segunda estava nos treinos de judo e não se iria despachar antes das sete tarde. Aquele era um ritual que fazia praticamente todos os domingos e daí a pouca surpresa de pequeno Daniel quando abriu a porta e se deparou com a figura do avô. .Isso era óptimo! Assim quando saísse do banho já tinha alguma coisa para comer.Como assim? Para onde é que ela foi? . agarrou no seu velho Opel Corsa e estacionou-o a poucos metros da vivenda onde a filha e o neto moravam. . Vestiu uma das suas melhores indumentárias.A Sara?! . – Mas volta! . Assim sendo.Ela foi passar uns dias com o pai – informou Madalena provando o molho da carne assada junto ao fogão. – Cheguei – gritou Jorge da porta sem sequer imaginar que a poucos metros a filha se encontrava na sala a esconder os filmes que lhe havia retirado do quarto.Hã… já vieste pai?! .Consegui despachar-me mais cedo do que estava à espera. Por sorte. . – Andas-te a portar bem? .

Até já… . terceiro esquerdo. Depois disso. Era ali que ela se sentia segura. mais te tenho só para mim… .Ainda bem – respondeu ela ajudando-o a desfazer-se da camisa. . Sérgio tinha-se transformado em algo mais. em muito mais. 53 . tinha-se transformado no seu amante.Pois podes acreditar – respondeu ele sugando-lhe o pescoço. foi impossível não acenar de longe e receber um outro aceno de volta. respondeu ela esboçando-lhe um sorriso malicioso que disse tudo. . Mas quando conseguiu esse milagre lisboeta em pleno fim-de-semana.O. e depois disso. um beijo tão ou mais apaixonado que o primeiro enquanto se deixava levar em direcção à cama sem se importar com o barulho das obras do vizinho do segundo andar.Número cento e cinquenta e dois. Afonso percebeu no minuto em que a filha saiu à rua e se enfiou no carro estacionado na garagem. correu apressada em direcção à rua de Sérgio pronta a descobrir o número cento e cinquenta e dois e também o andar que ele lhe indicara momentos antes. acho que sim. – Aliás. Três andares depois e a porta abriu-se. E sim.Claro que volta. Madalena despediu-se de Afonso e Daniel dizendo que demoraria apenas algumas horas para ajudar a sua amiga Alice a mudar alguns móveis lá de casa.Tu já me tens só para ti. – Meu Deus – exclamou Madalena às gargalhadas quando ele a arrastou directamente para o quarto. foi a pergunta do pai. aliás. Não. – Consegues ver uns prédios verdes? .Hã… numa rua chamada Alecrim.Tu sabes que eu gosto de me esconder. . protegida e ciente de que nada e nem ninguém a poderia separar de Sérgio. Era uma mentira pegada. – O. . a tarefa não foi tão difícil quanto isso. .Sim.k – riu-se ela quando ele atendeu o telemóvel. Conheces?! . .k! Até já. . – Acho que estou perdida. os dois amantes tiveram-se um ao outro e deixaram os seus sentidos perderem-se naquela habitação minúscula dotada de poucos móveis e com uma simplicidade que conferia a Madalena toda a paz e conforto pelo qual havia ansiado durante semanas. Não precisam de ajuda. Sempre em movimentos contínuos e frenéticos. Tens que dar a volta. Madalena precisou de quinze minutos para conseguir estacionar o carro. Na verdade.Está bem! Já agora diz-me outra vez o número do prédio e o andar. Depois do almoço. Por sorte. – Não podias ter escolhido uma rua mais escondida para morar? .Aonde é que estás? . – Porque quanto mais escondido estiveres.Então já estás mesmo aqui ao pé – respondeu Sérgio saindo à varanda. Madalena desapareceu do quarteirão e rumou ao centro da cidade com o único intuito de cair nos braços de um fotógrafo que já não lhe era tão desconhecido quanto isso. deves acreditar! Um sorriso radiante foi o que Madalena ofereceu a Sérgio. .O meu fica atrás.respondeu ele desligando a chamada com um largo sorriso. pois o fotógrafo permaneceu na varanda apenas para ter a certeza que a sua visita não se iria perder pela segunda vez. E ao vê-la. Em apenas dois meses. .Olha que eu acredito.. no seu melhor amigo e também no seu grande confidente.

embora seja óbvio que ela não sente. – Acreditas que desde que ela foi morar com o pai nem sequer me ligou? .Não – respondeu Sérgio apressando-se a encontrar as calças de ganga no meio das inúmeras roupas espalhadas pelo chão. mas é que… . – Obrigada também por me tirares da cabeça todos os meus problemas. . já disse que não.Estas cerejas estão maravilhosas – confessou ela devorando um dos que ele lhe colocou na boca. Teria interrompido alguma coisa? – Espero não ter vindo numa má hora… . eu resolvi aparecer hoje outra vez. Dois minutos foi o tempo que Sérgio precisou para sair do quarto e caminhar em direcção à porta com uma enorme vontade de esganar o vizinho inoportuno que teve a desfaçatez de interromper o seu descanso ao lado de Madalena. Era ela.Sim – respondeu Madalena deitando a cabeça sobre a almofada. – Vera! . . – Estás à espera de alguém? .Porque prometi que não faria isso! Quero que ela sinta saudades minhas. Os cabelos também se encontravam desalinhados e as costas vermelhas pareciam ter sido marcadas por unhas de uma mulher.Não tenho pressa – respondeu Vera debruçando-se sobre ele enquanto prendia os seus longos cabelos com a mão e se deixava deliciar pela maravilha que era vê-lo em tronco nu.Seja quem for.Porquê?! . .Eu também – disse Madalena aconchegando-se no peito dele e fechando os olhos sem se importar com o irritante toque da campainha. Era ela outra vez.Comprei especialmente para ti.Não. .Tudo bem – respondeu ele abrindo-lhe passagem em direcção à sala onde se encontrava o seu computador portátil e também a Pen drive repleta de fotografias que havia tirado a Vera semanas antes. não deixes entrar no quarto..Queria escolher algumas.São muitas. lembraste?! Como nunca mais disseste mais nada.Olá – respondeu a modelo esboçando um doce sorriso assim que a porta lhe foi aberta pelo fotógrafo. . – Deve ser algum vizinho ou assim.disse ela recorrendo ao seu sexto sentido quase sempre infalível. .Porque eu não quero que me apanhem assim toda descascada – respondeu Madalena arrancando-lhe uma leve gargalhada. .respondeu Sérgio.Ainda a história da tua filha? . encabulado. Está suado.É rápido! Só queria umas cópias para colocar no meu book. – Queres todas as fotos? . – Vai lá! Pela pressa parece ser importante.Porque é que não ligas tu? . .Impossível não sentir saudades tuas – respondeu Sérgio arrancando-lhe um sorriso – Eu por exemplo passo a minha vida a sentir saudades tuas. . . – Desculpa vir sem avisar. Fiz mal? . Vai demorar – disse Sérgio sentando-se à secretária e ligando o computador com uma expressão no mínimo entediada.Obrigada – riram-se os dois.Não. ele reconheceu imediatamente a sua visita. . mas é que tínhamos combinado ver aquelas fotos da sessão. foi a primeira coisa que reparou. 54 . Mas ao olhar através do espelho da porta. .

depois de ter escolhido as fotografias tiradas por Sérgio.Estranho o facto de essa rapariga ter aparecido do nada.Costumas receber as tuas clientes cá em casa? . . mas a segunda só o conseguiu fazer quando entrou na sala e se deparou com a figura da modelo a quem havia encontrado semanas antes no estúdio dele.Estranho o quê?! . 55 .Só não quero que me enganes – respondeu ela voltando-se para ele. não achas!? . pelo menos devias levá-las.Como nada? E essa cara? . vinte minutos mais tarde. Eu voltava numa outra hora ou então procurava-te no estúdio.Nada – respondeu ela desviando-se dele.Então?! Se te vieste até aqui. Sérgio. As revelações de Sérgio realmente não caíram nada bem a Madalena e prova disso foi o longo suspiro que ela lançou a fim de acalmar os estúpidos ciúmes que estava a sentir.Claro – respondeu a jovem voltando-se novamente para o ecrã do computador quando pressentiu que Madalena havia descoberto o seu disfarce em pouco menos de cinco segundos.Vim. – Não! Eu é que peço desculpas. A primeira reconheceu-a de imediato porque era a de Sérgio. . E assim. Vera! Não vieste buscar as tuas fotos? .As duas estiveram cá?! . .Por essa visita inesperada. Infelizmente também se lembrava do nome dela e também de todos os seus atributos físicos.Sim. .Que é isso – afirmou Madalena percebendo o embaraço da modelo. Estiveram! . – Podes ficar à vontade. . – Desculpa – pediu Sérgio regressando à sala depois de a ter acompanhado à porta. Aliás. – O que foi? . . Vera.Desculpa porquê?! – perguntou Madalena.Quando? .Só achei estranho… . mas… .Sim – respondeu Sérgio com toda a calma do mundo. Senão era um desperdício de tempo. – O que foi? O que é que estás para aí a pensar? . como é que ela sabia onde moravas? Já aqui esteve alguma vez? . Devias ter-me dito que estavas ocupado. .Claro que não – respondeu ele forçando um sorriso que não foi de todo correspondido por Madalena.O barulho ensurdecedor no quarto deixou Madalena impaciente e fê-la caminhar pé ante pé em direcção à sala onde lhe pareceu ter ouvido algumas vozes.Mas eu não te estou a enganar. elas pediram para vê-las. recebeu-as num CD despedindo-se com um sorriso e com a certeza de que nunca mais voltaria a uma casa sem ser convidada.Há algumas semanas atrás. – Veio com a Natália. Fomos tomar um café e como lhes disse que as fotografias tinham ficado muito boas. – Hã… desculpem! Não sabia que estavam aí … A expressão facial de Vera pareceu mudar radicalmente quando ao voltar-se para trás a figura de Madalena encandeou-lhe a visão.

Não é nada disso. aliás. Sim. – Talvez tenhas razão – interrompeu ele. nem precisas sair de casa porque elas batem-te à porta e cercam-te como se fosses… . .Porque se isto for um caso sem importância. das rugas que te aparecem no canto dos olhos quando sorris ou da celulite que tens nas pernas. para além dos dois fios de cabelo branco que tens aí à frente. – Eu não quero criar expectativas. nem as tuas amigas e muito menos essa… Vera… . – O facto de não acreditares nas tuas qualidades. Pelo menos assim vou saber no que é que me estou a meter.. eu prefiro que me digas.Uma conversa que se calhar já deveríamos ter tido há mais tempo – respondeu ela cruzando os braços.Desculpa – pediu ela mantendo-se de costas para ele.Eu não acredito que estejas a pensar que estou a gozar contigo. . . mas é que… .Lena. . Enquanto passeava por aquela sala minúscula e se dava conta da triste figura que fizera momentos antes.Hã… esqueci-me! Mulheres acima dos quarenta também não podem namorar.respondeu Madalena não escondendo a sua surpresa perante uma palavra que já não ouvia há muitos anos. – Talvez já devêssemos ter tido esta conversa há mais tempo. que conversa é essa? . .Namorada?! .…eu não sabia que estávamos a namorar.Então o que é que um homem como tu quer de uma mulher como eu?! Porque é óbvio que tu podes ter qualquer uma que te passe pela frente. .Eu sei. na tua inteligência e de julgares que todas as mulheres são melhores que tu! Infelizmente já percebi que o teu ex. 56 . não tenho mais idade para criar expectativas e nem quero fazer papel de idiota. – Fui uma idiota! Não devia ter dito aquilo que disse. Eu consigo ver a mulher com quem quero estar. ela pensou. – A tua insegurança – respondeu Sérgio à sua própria pergunta. . . marido conseguiu convencer-te disso durante os anos em que vocês estiveram casados e é uma pena que ainda continues a pensar assim mesmo depois de te teres separado dele.Sabes qual é o teu problema? Madalena manteve-se em silêncio. mas infelizmente também tinham sido verdadeiras e foi isso que a levou ao mais profundo desespero.Tu tens quarenta e eu tenho trinta e dois. E daí? Será que a idade importa assim tanto? Será que não consegues ver mais nada em mim para além do meu bilhete de identidade? Porque eu consigo ver muitas coisas em ti para além disso.Será que não percebes que estou contigo porque gosto de ti? Porque gosto realmente de ti e não quero estar com mais nenhuma outra mulher? A surpresa fez com que Madalena se voltasse novamente para ele. com quem quero fazer amor e a quem quero apresentar a todos os meus amigos como sendo a minha namorada… . Madalena tapou o rosto com as mãos e desejou que um buraco se abrisse por debaixo dos seus pés. As palavras que Sérgio lhe dissera tinham sido cruéis. Não quero que gozem comigo! Nem tu. aliás. – Mas eu também não quero passar a vida toda a tentar enfiar-te isso na cabeça e nem quero ver as tuas desconfianças sempre que me aparecer uma mulher de vinte anos à frente.

Por acaso não – riu-se Madalena. Quero participar na tua vida. marido se for preciso. – Eu também te amo – confessou ela por fim. Eu quero tudo isso porque … . e apesar de se ter odiado por ter sido o primeiro a dizêlo. – Leva-me para o quarto – pediu ela ansiando que o seu pedido fosse realizado o mais rapidamente possível. – Eu também te amo muito.Pois nós estamos a namorar – informou Sérgio trazendo-a contra si. Estava feito.Acredito – respondeu Madalena atirando-se para o colo de Sérgio sem se importar com mais nada à sua volta e nem com as palavras duras que trocaram minutos antes. – Ou ainda não tinhas reparado nisso? .ele pareceu hesitar. .. até porque diante da imensidão daquele momento. Quero ser muito mais do que isso. ouvir os teus problemas. 57 . Todas elas foram transpostas sob o olhar incrédulo de Madalena enquanto os ouvidos dela tentavam assimilar aquela declaração no mínimo surpreendente. . Pronto. Estava dito.Acreditas agora em mim? . o teu pai e até o idiota do teu ex. . baixinho.… porque eu te amo. conhecer os teus filhos. a verdade é que Sérgio não pensou duas vezes em proferir aquelas palavras que manteve guardadas a sete chaves no seu coração. tudo pareciam apenas detalhes sem qualquer importância.Eu não quero ser o tal com quem só estás uma vez por semana quando arranjas algum tempo na tua agenda.

CAPÍTULO IV
Era a primeira vez que iria chegar atrasada à escola e tudo porque ninguém a acordou e o despertador recusou-se a tocar. Mas ainda assim, Sara saltou da cama, vestiu-se às pressas e arrumou a mochila enquanto o relógio da mesinha de cabeceira assinalava dez para as oito. Depois disso, seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à cozinha e o desespero de encontrar o pai para que ele a levasse à escola. – Quem és tu? – perguntou Sara surpreendendo-se com a figura de uma mulher perto do fogão. - Hã… deves ser a filha do Jorge, não?! - O meu pai? - Ele está a tomar banho – respondeu a mulher bebendo um gole de sumo. – Olá! Eu sou a Carla. - Ele vai demorar muito? – perguntou Sara ignorando-lhe o cumprimento. - Não sei! Acho que não. - Eu preciso que ele me leve à escola senão chego atrasada. - Já estou pronto, Carlinha… – interrompeu Jorge entrando pela cozinha longe de sequer imaginar que a sua filha também ali estava. – Filha?! Ainda por aqui? Pensei que já tivesses saído. - Como é que eu podia sair?! Preciso de alguém que me leve à escola e precisava também de alguém que me acordasse – respondeu Sara lançando um olhar aterrador à nova amante do pai. – Vou chegar atrasada por tua causa. - Esqueci-me. - Então?! Levas-me ou não? - Escuta querida… - pediu Jorge aproximando-se de Sara com alguma cautela. – E se o pai te pagasse um táxi para ires à escola, hã? - Um táxi!? - Sim! É que eu já tinha prometido levar a Carla a casa e olha que ela mora no outro lado do rio. Se fosses de táxi irias despachar-te muito mais depressa, garanto-te! - Tu preferes levar a… Carla a casa do que levar-me à escola? – perguntou Sara, incrédula. - Não é nada disso, querida. Não estás a compreender o que o pai está a tentar… - Deixa lá! Eu vou de autocarro. Apesar dos inúmeros chamamentos de Jorge, Sara abandonou a cozinha como a mochila às costas e com a certeza de que todas as coisas para o pai eram mais importantes do que ela. Saiu sem sequer olhar para trás e atreveu-se também a bater com a porta quando o fez. Depois disso, alcançou o elevador e desceu à rua pronta a encontrar o primeiro autocarro
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que a pudesse levar ao destino pretendido: Escola. Era lá onde deveria permanecer as oito horas seguintes e aprender Inglês, Geometria e Física, conversar com as suas amigas nos intervalos e comportar-se como uma jovem de quinze anos cujo maior erro foi ter pedido à mãe para morar com o pai. Mas será que era mesmo isso que queria fazer? Ao passar de autocarro por uma Sex Shop, Sara teve dúvidas e por isso desceu na paragem seguinte. Mais tarde, caminhou dez metros em sentido contrário e viu-se com os olhos postos na montra da loja enquanto tentava decifrar o que eram todos aqueles objectos e também para que serviam. Ali, completamente alheia ao movimento das pessoas, ela deixou-se ficar e só se afastou quando um dos funcionários da loja saiu à rua para fumar um cigarro. – Isto não é para a tua idade, menina – disse-lhe ele. – Não devias estar na escola? Sara assustou-se quando ouviu a pergunta e tentou igualmente passar despercebida no meio da multidão enquanto os olhos do funcionário continuaram a segui-la pela avenida a fora. Adolescentes, murmurou ele abanando a cabeça. Faltavam apenas alguns minutos para as onze quando Madalena atendeu o seu terceiro cliente do dia. Este, que tal como todos os homens à face da terra, não percebia nada de flores, ficou-lhe extremamente grato pela indicação de um ramo de camélias japonesas acabadinhas de chegar. Só então ele ficou a saber que essas eram as flores ideais para pedir perdão à esposa. – Ele traiu-a e ela descobriu – disse Alice assim que o cliente abandonou a loja. - Não faças juízos sem saberes a verdade – respondeu Madalena. - Lena, um homem que chega aqui a dizer que precisa de umas flores para a mulher que simbolizem arrependimento, isso só significa uma coisa. Traição! E traição da grossa. - De qualquer maneira, não nos compete a nós julgar! Cada um sabe de si. - Dizes isso porque agora és só sorrisinhos, paz e amor – riu-se Alice, animada. - Como assim?! - Desde que começaste a andar com o tal fotógrafo que já não falas mal dos homens, tratas todos os clientes a pão-de-ló e passas a vida a suspirar pelos cantos, isto para não falar das vezes que olhas para o telemóvel à espera que ele toque. - É assim tão evidente? - Define-me evidente – riram-se as duas amigas. - Tu nem acreditas, Alice… - Só acredito se me contares. - Ontem estive com ele – discursou Madalena deitando no caixote de lixo as fitas que utilizara para fazer o embrulho das camélias japonesas. – Fui conhecer-lhe a casa. - Uau! Mas isto já vai assim? - E tu nem sabes o que ele me disse. - O quê? - Que me amava – revelou Madalena deixando-se contagiar pelas gargalhadas da melhor amiga. – O que foi? Não acreditas? - Acredito. Claro que acredito – respondeu Alice levando a mão ao queixo. – E tu? O que é que lhe disseste? - Oras! Disse que também o amava. - Gostava de ser uma mosquinha para ter visto a cena.
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- Achas que fiz bem!? Quer dizer, eu gosto dele e pelos vistos ele também gosta de mim, mas será que não foi demasiado rápido? - Não foi ele o primeiro a dizer que te amava? - Foi. - Então?! Não tens responsabilidade nenhuma. Se acontecer alguma coisa, ele disse primeiro e tu só respondeste por educação – respondeu Alice arrancando uma ruidosa gargalhada a Madalena. Naquela tarde, Sara faltou a todas as aulas sem qualquer justificação, e depois de ter passado o dia inteiro a passear pelas ruas da cidade, regressou a casa, trancou-se no quarto e visionou os restantes filmes pornográficos que o pai fazia sempre questão de esconder na sua mesinha de cabeceira. Foi também a primeira vez, enquanto os via, que ela atreveu a acariciar-se por debaixo das cuecas e a experimentar um prazer que nunca pensou sentir nos seus tenros quinze anos. E se experimentasse ter relações sexuais a sério, passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Com um rapaz da sua escola? Ou até mesmo com qualquer um que estivesse disposto a ajudá-la a superar a curiosidade que se havia apossado de si desde que descobriu a pornografia e os prazeres que ela trazia consigo? Subitamente, algo que deveria ser apenas um divertimento para passar a tarde, transformou-se num vício demasiado perigoso que a perseguia para onde quer que fosse. Na casa de banho, na cama e até nas escadas de serviço do prédio do pai, todos esses lugares serviram para que Sara se masturbasse e tentasse remover todo o stress de cima dos seus ombros. Não estaria ela a levar aquilo demasiado a sério? Não estaria a ficar viciada em sexo e pornografia? - Ficas bem cá em casa? – perguntou Jorge chegando à sala após duas horas a tentar escolher a roupa perfeita, o penteado perfeito e o perfume perfeito para a uma noite que prometia também ser perfeita. - Fico – respondeu Sara fingindo estar mais interessada a ler a revista que tinha nas mãos. - Prometo que não me vou demorar muito. - Com quem é que vais jantar desta vez? Com a Vanessa? A Carla ou a Antónia? - Vou fingir é que não ouvi o que acabaste de dizer – respondeu Jorge vestindo o casaco às pressas. – Então? Como é que estou? - Bem. - Qualquer coisa e liga-me para o telemóvel! Vou mantê-lo sempre ligado pela via das dúvidas. Mas não te esqueças também de telefonar à tua mãe – discursou Jorge alcançando as chaves do carro sobre a mesinha. – Não quero que ela pense que sou eu quem te está a impedir de lhe ligar. - Se me lembrar, eu ligo. - Vai! Porta-te bem. - Tu também. - O pai porta-se sempre bem – respondeu ele piscando o olho e deixando a filha completamente sozinha em casa. A vontade de Sara de sair foi imperiosa, assim como a de conhecer um lugar onde já havia passado várias vezes durante o dia. O Intendente. Uma pequena localidade no centro de Lisboa conhecida pela sua antiguidade, mas também pela sua má fama, pois era ali onde se reuniam a maioria das prostitutas, drogados e imigrantes ilegais numa estreita colaboração com o crime e a má vida. E sim. Ao ver-se à saída do metro, Sara sentiu que tinha cometido
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Porquê?! .uma loucura quando resolveu lá colocar os pés. Depois disso. . as mãos foram estendidas e as pastilhas entregues àquela que parecia ser a líder do grupo.Só estava a passar – respondeu Sara à cautela.Eu não devia estar-te a dizer isto. – Há dias que rende mais.Estava a ir para casa. Era mais um dos inúmeros drogados a passar no outro lado da rua.Não – respondeu Sara hesitando alguns segundos a responder.Além de corajosa é curiosa também… – riram elas sob o olhar atento daquela jovem que aparentava ter toda a segurança e experiência do mundo. meias de renda pretas e um top decotado que deixava transparecer o soutien em tons de cor de rosa choque. – O que é que queres saber. apenas conseguiram embrulhar-lhe o estômago e fazê-la perguntar-se que raios estava a fazer quando a sua única vontade era fugir e fingir que nunca ali estivera. diz lá! . Isto não é lugar para miúdas como tu. Mas como podia ela ter se não deveria ter mais do que dezasseis anos e também muita lata para meter conversa com três prostitutas em pleno horário de serviço.Não! Só ofereci porque não tenho cigarros.Se têm muitos clientes ou não.Pastilhas também servem – afirmou a mais velha permitindo que Sara se aproximasse lentamente da porta onde estavam encostadas. Sara pôde ter essa certeza. Contudo. há dias que rende menos. aparecem muitos homens a querer ter sexo com vocês? . .Eu não me assustei. 61 . – O que é que achas. As ruas algo desertas.Putas?! – indagou com uma gargalhada a que parecia ser mais nova. – Escuta! O que é que andas a fazer por estas bandas? Não és daqui! . . uma mulher de meia-idade atreveu-se a chamá-la.Vocês costumam ter muitos clientes por aqui? Quer dizer. enquanto lutava contra a sua indecisão. permaneciam duas mulheres um pouco mais novas intoxicadas de perfumes e outras roupas provocantes. mas desaparece daqui enquanto é tempo. .…mas tenho pastilhas de menta. e ao voltar-se para trás. Querem? . . . – Tens cigarros? – perguntou ela encostando-se a uma porta de madeira degradada.É bom que ela se assuste mesmo – respondeu a última sem desviar os olhos de Sara. . Trazia consigo uma mini-saia vermelha.Milene.Vocês são … . sujas e com intenso cheiro a urina e outros dejectos humanos. . . . Até porque este é um lugar para putas ou ainda não tinhas percebido isso? . enquanto ao seu lado.Corajosa! .Por acaso estás a insinuar que temos mau hálito? – interferiu uma das prostitutas lançando-lhe um olhar desafiador. . não assustes a coitada da miúda. Depende dos excelentíssimos clientes que apanhamos.Depende – respondeu Milene levantando o braço para cumprimentar um velho conhecido da zona. querida? Achas que só estamos aqui encostadas por desporto?! É claro que somos putas.

e enquanto se afastava dela e lhe observava os últimos traços físicos. a escola e esquece isto! Esquece isto porque isto é uma merda… As palavras de Milene permaneceram-lhe nos ouvidos durante largos minutos. as luzes da avenida ofuscaram-lhe os olhos e trouxeram igualmente o ar que há muito ela havia deixado de respirar enquanto esteve metida naquele bairro tão degradado.Espera – chamou Arlete. mas excelentíssimos!? Essa é nova cá no bairro.Estás a gozar não!? – respondeu Milene levando a mão à cintura.Queres boleia? A voz grossa vinda do interior de um carro parado a poucos metros do passeio foi o impulso que Sara precisou para se voltar para trás e encarar o rosto daquele homem de 62 . . . nome inscrito no colar que trazia no pescoço. – Já ouvi chamarem-lhes muitas coisas. – Eu sou a estrela do bairro.Queres trabalhar para mim? . Sim.Nem tudo o que reluz é ouro – concluiu Milene evidenciando no rosto os anos de uma das profissões mais ingratas do mundo.Já se está a gabar só porque é a que cobra mais caro – resmungou Arlete enfiando uma pastilha elástica na boca. Chamava-se Arlete.E vocês cobram para irem para a cama com eles? – perguntou Sara tentando ignorar as risadas que ecoaram por toda a rua.E não é verdade?! Olhem bem para mim – disse Milene girando sobre os pés e mostrando todos os atributos que Deus lhe ofereceu ao longo dos seus vinte e seis anos de vida. .Não – ela voltou a responder. – Para quê que querias saber quantos clientes tínhamos por dia e quanto lhes cobrávamos? . . Sara deu-se por vencida e abandonou aquela rua semi-deserta completamente coberta pelo casaco que fez questão de levar consigo. Elas estavam certas ao dizer que aquele não era lugar para si e nem para ninguém. . pensou.Excelentíssimos… – riu-se a prostituta mais velha. Minutos depois. minhas amigas… .Então não tens pedalada para isto! Vai lá. – Lá porque estamos para aqui a rir e a contar piadas.Por nada – respondeu a jovem compondo os cabelos. – Queres coca? . apesar de não se sentir muito bem-vinda. . Estava salva. Salva e pronta a regressar para uma casa. . sempre tinha algum conforto e segurança. triste e guardava na fachada dos prédios toda a decadência humana de pessoas que tinham perdido totalmente a vontade de viver. . . Era um lugar sujo. rapariga! Vai para casa porque este não é o lugar mais indicado para ti. onde..Não! Eu não seria capaz de cobrar para ir para a cama com alguém. não a Madre Teresa de Calcutá.Não – respondeu ela desviando-se de um dos inúmeros traficantes. Quem quiser tem que pagar e tem que pagar bem porque não ando aí a fazer favores a ninguém. – Achas que vou abrir as pernas de graça para qualquer um que me apareça à frente? Eu sou puta. não penses que somos felizes por termos cinco homens por noite e pouco mais de quinhentos euros de manhã. – Só estava curiosa.Não me digas que estás a pensar em juntar-te aqui ao clube VIP!? . Aproveita a tua juventude. .Eu tenho que ir – interferiu Sara ao perceber que já estava ali a mais.

começaram a suar desalmadamente. Mais tarde.Nada – respondeu Paulo enfiando a chave na ignição do carro. De facto.Vim visitar uma amiga – mentiu ela.Porquê?! O que é que tem? .Obrigada. barba aparada e um sorriso desenhado nos lábios. mas talvez tenha sido esse facto que mais a fascinou naquele senhor de meia-idade que em muito lhe fazia lembrar o seu professor de Química. – Estás entregue. .Assim que puder eu ligo – respondeu Sara encontrando no cartão a deixa perfeita para abandonar o carro de Paulo e atravessar a rua em direcção ao prédio onde morava. e as mãos que fez questão de manter sempre apoiadas sobre o colo. – Diz-me! Para onde queres que te leve? . . – Toma! Tens aqui o meu número de telefone e também da universidade onde dou aulas. Sara.Para casa. . . No fundo. .Claro – respondeu ele apressando-se a encontrar um cartão no porta-luvas.meia-idade. . . até parecia ser boa pessoa. o virar do rosto e a sensação de que não estaria a fazer nada de mal se aceitasse uma boleia de um perfeito desconhecido. .Podes ligar quando quiseres.Estás com frio. ela voltou-se para trás e correspondeu ao aceno do professor com a clara certeza que estaria para muito breve um novo encontro dos dois. a portaria abriu-se ruidosamente. Sim. bastante educado. era professor universitário.Nesta zona?! .Muito prazer.E onde é que moras? . cordial e seguro do que dizia. fizeram com que ela retirasse uma das mãos do bolso e alcançasse a porta do carro sem pensar nas consequências daquele acto no mínimo irreflectido. Porque é que não entras? Entrar ou não entrar. facto que fez questão de salientar durante a condução pelas ruas da cidade. – Meu nome é Paulo – ele disse. obrigada – respondeu ela. Mas enquanto o ouvia falar sobre assuntos perfeitamente triviais para duas pessoas que mal se conheciam e que tinham uma diferença abismal de idades. rasgou-lhe um olhar assustado e correspondeu-lhe ao sorriso. Paulo Figueira tinha quarenta e cinco anos. ele era velho demais para si. já deu para reparar. essa foi a questão que durante vários minutos rondou a cabeça de Sara enquanto ela se tentava decidir e tentava igualmente fugir à forte ventania produzida pela noite.Parque das Nações. . Sara sentiu um calor percorrer-lhe as pernas.Posso voltar a vê-lo – saltou essa pergunta dos lábios de Sara enquanto se desfazia do cinto de segurança. divorciado e pai de duas filhas com a mesma idade de Sara. Nessa altura. .Posso saber o que fazes sozinha a essas horas da noite? .Olá! Sara. Mas os olhares esguios. – Não. .Está bem. . 63 . devidamente instalada no banco da frente.

Liberdade foi o que Madalena sentiu quando alcançou os portões do jardim e caminhou apressada em direcção ao contentor de lixo mais próximo.Pensei que não nos fossemos ver hoje.Deve estar bem com o pai. . Lena – afirmou ele acariciando-lhe a face enquanto os seus olhos mergulhavam nos dela. . .Está bem – respondeu ele mostrando-se muito pouco interessado naquela tarefa tão rotineira. . . – A surpresa é claro.Vou pôr o lixo lá fora.E quando é que vamos deixar de nos encontrar às escondidas dentro do meu carro? .Então?! O que é que te está a impedir de me deixares entrar na tua vida? Madalena optou pelo silêncio como forma de resposta.Adorei – respondeu ela voltando a sugar-lhe os lábios. vou pôr o lixo lá fora – exclamou ela passando pelo corredor como um foguete. muito pelo contrário. resolvi fazer-te uma surpresa. e como ele morava aqui ao pé. mas depois voltou a reerguer o rosto em direcção a Sérgio. tu tinhasme deixado entrar para conhecer o teu filho e estaríamos agora os três sentados no sofá a ver televisão ou a jogar Playstation. – Daniel. .Os teus filhos? Como é que estão? . . Mas nem o frio arrepiante que se fazia sentir lá fora conseguiu demovê-la da ideia de aceitar o convite do fotógrafo quando soube que ele se encontrava a poucos metros da sua casa. – Mas eu queria que ela estivesse aqui comigo. . enfiado no carro e à sua espera. – Mas a Sara não sei.Hã…!? . eu teria tocado à tua porta. – Dá-me só mais algum tempo … – pediu ela.Eu sei! Mas bem.Eu também morri de saudades tuas – respondeu Sérgio beijando-a no interior do carro. – Ouviste? .O telefonema de Sérgio tomou Madalena de assalto enquanto ela terminava de arrumar a cozinha e retirava do congelador a carne que iria assar no dia seguinte. Depois disso. .Nós não nos estamos a encontrar às escondidas. – Lembras-te daquilo que te disse no outro dia? Que não quero ser o tal que só vês quando tens algum tempo na tua agenda? .Tens a certeza?! Se não tivéssemos nada a esconder. – Pelo menos até a minha filha voltar para casa e as coisas regressarem à normalidade.É que eu tive que deixar uns rolos na casa de um amigo. . deitou nele um saco minúsculo e correu em direcção ao carro da única pessoa que a poderia levar à rua àquela hora. não sei.Sérgio… . . .Eu não quero me esconder.O Daniel está bem! Estava agarrado à Playstation dele. . Mais tarde.Tu nunca me deixas triste. 64 .É – respondeu Madalena não muito convicta disso. . juro que te apresento aos meus filhos e vamos ficar os quatro sentados no sofá a ver televisão. o que foi óptimo porque assim não tive que dar muitas desculpas para sair de casa – riram-se. Há pelo menos quatro dias que não sei nada dela. mas esquece esse assunto – pediu Sérgio voltando a encontrar-lhe os lábios. – Não vim aqui para te deixar triste.E nem eu quero que sejas esse tal. – Que saudades – confessou ela conseguindo finalmente enterrar-se nos braços dele.

Pode ser? . o professor universitário que lhe ofereceu um boleia dois dias antes. Na semana seguinte. . comer ou não as refeições e continuar a assistir a filmes pornográficos quase todos tirados da Internet. Mas a verdade é que o verdadeiro motivo da sua recusa prendia-se única e exclusivamente com Paulo Figueira. Telefonar.Não. conversaram durante largas horas e esqueceram-se de tudo o resto que os rodeava. – Eu também cheguei quase agora. como passear pelas ruas da cidade sem se importar com as choras de chegar a casa. – Olá! Espero não me ter demorado muito – disse ele. onde reinava a boa disposição dos clientes.Gosto – respondeu ela.Pode. Dez minutos mais tarde essa companhia chegou trajada com um elegante fato. .Iria adorar. conciso e bastante sedutor. .Por mim tudo bem – disse ela tentando acalmar a voz trémula. na sua maioria turistas.Então peço um sumo. os mesmos cabelos grisalhos e a barba aparada. o professor universitário que 65 .Está bem – concordou Sara deixando-se encantar pelo sorriso que Paulo lhe lançou. .Já pediste alguma coisa? . Ao sabor de um delicioso sumo de pêra. – Podemos combinar um café para amanhã ao final da tarde – foi a resposta que obteve no outro lado da linha. . Telefonar a um homem que tinha idade para ser seu pai e tentar marcar um encontro com ele.Marcamos um outro encontro e eu trago-tos! . Sara recusou-se terminantemente a voltar dizendo que se encontrava bastante feliz a viver com o pai. . . que nada tinham em comum para além de serem dois seres humanos. resolveu fazer algo há que muito se tinha predisposto. Numa dessas vezes em que pensou nele. apesar das inúmeras tentativas que Madalena efectuou para trazer a filha de volta a casa. .Havia pelo menos uma semana que Sara não colocava os pés na escola. aquele era o seu pequeno vício. e uma brisa de final de Verão que em tudo embalou os pensamentos dela enquanto esperava impacientemente pela sua companhia. Paulo era um excelente conversador e demonstrava toda a sua inteligência através de um discurso claro. os dois personagens. Trazia também um à vontade e um carisma difícil de explicar aos olhos de uma adolescente de quinze anos cujo maior desejo era continuar a ouvi-lo e perceber o que é que ele tinha de tão especial para a fascinar.…eu não bebo café – confessou ela tentando acalmar as mãos nervosas ao colocá-las por debaixo da mesa. . – Gostas de ler? – perguntou Paulo no meio da conversa. e tudo porque encontrava sempre coisas mais interessantes para fazer. – Aonde?! A faculdade de Paulo ficava no Alto da Ajuda e foi por isso que Sara concordou encontrarse com ele numa pequena esplanada perto de Algés. imediatamente após se ter masturbado pela terceira vez consecutiva naquela tarde. dormir até quando quisesse.Então se quiseres posso emprestar-te alguns livros que tenho lá em casa. . uma coisa que adorava fazer quase todas as horas do dia e do qual não parava de pensar especialmente quando se lembrava de Paulo Figueira.Então vou pedir dois cafés para nós.Não – respondeu Sara esboçando um sorriso quando Paulo se sentou à sua frente. De facto.

Gostas de homens mais velhos? . Talvez fossem todas essas coisas. – Fico contente por saber isso – disse ele. .Quão mais velhos!? . café ou chá. Aposto que todos os rapazes lá da tua escola devem correr atrás de ti. . . Sonhou também fazer amor com ele embora tivesse a plena consciência que a diferença de idades que os separavam iam muito além de uma mera faixa etária.Mais ou menos. Ela tremia. seguiu-se uma conversa interessante sobre novos escritores contemporâneos. . O chá foi servido em poucos minutos num pequeno tabuleiro e em duas chávenas de porcelana que Sara fez questão de escolher nos armários da cozinha. . O hálito de Paulo sabia a menta e as mãos não tardaram a percorrer as costas de Sara num movimento lento e contínuo em direcção às pernas. ele pôde perceber isso quando a deitou sobre o sofá e lhe afagou os cabelos lisos.Não?! . Na verdade ninguém diria que àquela tinha sido a primeira vez que se atrevera a fazer um chá.Claro – riram-se os dois enquanto chegavam à sala. ela entregou-lhe a única coisa 66 .Então eu vou fazer – respondeu Sara abandonando a sala sob o olhar atento de Paulo. . . – Bem. . o prazer da leitura e a certeza de que as horas tinham deixado de passar para os dois.Pois devias! És uma rapariga muito bonita. . seguiu-se um olhar absolutamente esmagador que só culminou com um novo beijo e a loucura de Sara em permitir que um homem de quarenta e cinco anos a tocasse como nenhum outro homem a havia tocado até então. .…não te achas bonita? – foi a surpresa de Paulo quando Sara lhe falou sobre as suas inseguranças relativamente à sua aparência física.O que tiveres para me oferecer. – Não repares na desarrumação! O meu pai é mesmo assim.Tenho sumo.conheceu por um mero acaso.Aceitava um chá. .Eu não me interesso por rapazes da minha idade. os telefonemas quase diários e troca de algumas confidências apenas fizeram Sara sonhar com um possível relacionamento entre os dois.Não – respondeu ela arrepiando-se quando ele lhe tocou suavemente na mão. . Seria apenas uma fixação? Uma cisma? Um desejo? Talvez. Completamente despida.Não – respondeu Sara voltando a sentir o mesmo arrepio quando Paulo lhe encontrou os dedos e entrelaçou a mão neles. mas que agora não se imaginava a viver sem ele. Provavelmente ninguém compreenderia as razões que a faziam suspirar por um homem de quarenta e cinco anos quando deveria interessar-se somente por rapazes da sua idade. mas a verdade é que se voltasse para a casa da mãe jamais teria a chance de voltar a encontrar-se com Paulo e muito menos de levá-lo ao apartamento vazio do pai. Mas a verdade é que o fez. queres beber alguma coisa? .Não te preocupes! Já vi coisas piores. Depois disso. Depois disso. Não te esqueças que também moro sozinho. De resto.Da minha idade? A resposta foi dada com um aceno positivo. – Entra – disse ela deixando que ele invadisse o corredor.Não sei. e a outra verdade é que os seus intuitos saíram na perfeição quando Paulo elogiou o sabor e a temperatura. E não. .

– Tu és ainda mais demente. marido.Meu Deus – exclamou Madalena soltando uma gargalhada seca a fim de acalmar os nervos que se apossaram de si. – Ou devo dizer antes. É um facto! Uma realidade! A Sara está quase a chumbar por faltas e tu estás pouco te importando com isso.Porquê? Não a tens levado à escola? .Uma carta da escola da tua filha… – respondeu Madalena atirando-lhe o envelope ao peito. inteiramente tua – vociferou Madalena apontando-lhe o dedo. Mas vendo bem.Eu sei.Tem calma! Olha os vizinhos aí do lado – disse ele puxando-a para o interior do seu apartamento.Hã… foi uma amiga que mo emprestou – respondeu Sara apressando-se a arrancar o livro das mãos do pai.O quê? .O que é que estás para aí a dizer? . Jorge sempre fora um pai irresponsável. eu… . . da tua companheira de quarto? . . e de uma conversa com directora de turma.Eu nem sequer sabia que ela andava a faltar às aulas. hã? Será que a tua mãe te atirou contra a parede? . Madalena percebeu que já não lhe restava outra alternativa a não ser arrancar a filha das garras do pai. mas não custa nada ouvir o que a tua mãe tem para dizer. . Diz que precisa falar connosco. Era também sua por permitir a loucura da filha em ir morar com o pai. Após a leitura de uma carta escolar que dava conta das sucessivas faltas de Sara às aulas.Vieste cedo – disse Jorge deparando-se com a figura de Madalena especada sobre o patamar de entrada. – Tem calma! Não venhas ofender-me aqui dentro da minha própria casa. – De quem é este livro? – perguntou-lhe o pai quando descobriu um exemplar do escritor Paulo Coelho sobre a mesa da sala. eu não quero voltar para casa! Eu quero ficar aqui. – Queres o quê? Que toda a gente oiça as tuas histerias? .Não são histerias. .Este livro não é para a vossa idade. Onze Minutos era o nome da obra. .E nem devias! Olha. a tua mãe ligou-me hoje lá para o escritório. sabias!? .Não.Aonde é que está a Sara? 67 . .Hei – imperou Jorge não gostando nem um pouco da ironia.preciosa que há muito sonhava entregar a alguém. é que a Sara está prestes a ultrapassar o limite de faltas injustificadas do primeiro período e a culpa é tua. foi o que Madalena decidiu durante a sua condução pelas ruas da cidade. ausente e sem as mínimas condições morais para tomar conta dos filhos. .Ainda não o li. . especialmente de Sara.Pai. . O que é que aconteceu contigo quando nasceste. não é?! Além de que parecia irritada. . Aquela seria a última vez que iria pisar a casa do ex. A sua virgindade. a culpa não era só dele. .O que eu estou a dizer Jorge. mais mentecapto e mais irresponsável do que eu pensava.Sabes o que é isto!? .

. .Não sei. – Nós estamos chateados com ela. .Aonde? .Sara.O que é que se passa? – perguntou Sara interrompendo a discussão dos pais.Sara – interrompeu Jorge. A expressão de Sara não se alterou nem um pouco quando leu as informações expostas naquela carta e talvez tenha sido esse facto que mais tenha irritado Madalena.Não existe nada para falar – imperou Madalena gesticulando furiosamente os braços. a tua mãe está chateada contigo e tem boas razões para isso. mas já nessa altura.À Baixa – mentiu Sara despindo o seu casaco de ganga.Querias o quê? Que lhe prendesse o pé à mesa da sala? . .Pronto! Vai começar… . nem Madalena e nem Jorge tiveram forças para esboçar qualquer movimento corporal. É para isso que eu e a tua mãe andamos a trabalhar. – Olá… . ou pelo menos também tu devias estar se te preocupasses minimamente com a tua filha. nós falamos com ela.disse Sara surpreendendo-se com a presença da mãe ali. – Não vais dizer nada em tua defesa? .Sara.Fui passear.Saiu para onde? . . Se te damos tudo. – Lê! Lê e vê qual foi o resultado das tuas brincadeiras.O que se passa é que a tua directora de turma me ligou lá para casa a dizer que estás em perigo de chumbar o ano – respondeu a mãe atirando-lhe a carta para as mãos.Começa já explicar – exclamou Madalena levantando-se do sofá. – A tua mãe tem razão! Não é certo andares a faltar às aulas porque essa é a tua única obrigação para connosco. marido.E tu acreditaste?! Ou melhor. doze a Matemática.Vamos esperar ela voltar da rua! Quando ela vier. . deixaste ela sair de casa sozinha? .O meu maior erro foi ter deixado a Sara vir morar contigo e está-me a cheirar que ainda me vou arrepender muito mais desse erro daqui para a frente. ou não?! Para te dar a ti e ao Daniel um futuro melhor e tu estás a desperdiçar tudo isso. – Já tinha dito ao pai! Lembraste pai?! .Não digas que eu estou chateada com ela – interrompeu Madalena voltando-se para o ex. Durante horas permaneceram sentados em diferentes sofás sem trocar uma palavra. A fechadura sofreu uma ligeira pressão quando faltavam poucos minutos para as dezoito horas. oito a Química e cinco a Geometria que ela conseguiu arrecadar em apenas dois meses. . . ela saiu.Não sei. o mínimo que deves fazer é ir à escola e tirar boas notas. . . 68 . tu não brinques comigo! . – A Sara vai voltar comigo e ponto final! Aqui ela não fica nem mais um dia. – Saiu de manhã para fazer umas compras. . um olhar e desejando apenas que a chegada da filha lhes trouxesse respostas paras as dezoito faltas a Português.Eu não tenho nada para dizer. já disse – respondeu ele abrindo os braços.Eu só quero que me apoies uma vez na vida e não fujas com o rabo à seringa apenas para não ser o mau da fita. . – Aonde é que te meteste? .

. pai?! Nunca mais falo contigo! . – Não bastava teres ligado? Mas não.Sara… . – Eu não tenho … como é que hei-de dizer…! Eu não tenho condições para te ter cá em casa. . . .Vai arrumar as tuas coisas ao quarto! Voltas hoje comigo para casa.Tu queres que eu me vá embora.Eu não vou. .E o que é que queres que eu faça?! Que me ajoelhe aos teus pés e te peça perdão? .Queres sim – gritou Sara.Sinceramente não sei o que é que vieste cá fazer – disse a jovem desviando-se bruscamente de Madalena.Pai… . – Tu achas que é só pedires desculpas e está tudo resolvido? .É claro que não. não vês?! . eu nunca mais falo contigo. – Tu vais voltar lá para casa e ponto final.. Silêncio foi a resposta de Jorge.Já disse que… .Isso mesmo que ouviste e nem adianta espernear porque eu já conversei com o teu pai e juntos chegámos a um acordo – respondeu Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou. 69 . . Mas tu só queres saber de ti.Eu só vim chamar-te à razão! Dizer que está errado aquilo que fizeste e que não estás autorizada a repeti-lo! Foi para isso que eu vim. . Eu adoro ter-te cá em casa. esbaforida. não fales assim com a tua mãe – interferiu Jorge saindo em defesa da ex. mulher. .Desculpem lá – repetiu Madalena num tom sarcástico.Se gostasses não me deixavas ir com a mãe quando sabes muito bem que nós nunca nos demos bem e que eu a odeio de morte. .Sara.Sara… . não é! Tinhas que aparecer para dar o teu show de mãe dedicada e extremosa. Sara! Com ela vais ficar melhor. É tudo um plano.…é melhor ires com a tua mãe.Sara. tenho sempre encontros com clientes de última hora e até já cheguei a desmarcar várias viagens de trabalho apenas para não te deixar sozinha. – Não deixes que ela me leve daqui! Não deixes! Será que não vês que ela está a fazer isso de propósito para nos separar? Ela não gosta de ti e também não quer que eu goste de ti. . já disse para não brincares comigo! .k – respondeu ela largando os braços. se tu me deixares ir com a mãe. – Tu não gostas de mim.O.O quê – foi a reacção intempestiva de Sara. Trabalho até tarde.Pai.Queres que me vá embora. mas o problema é que não tenho tempo para cuidar de ti como a tua mãe tem. . é isso?! .Eu acho que a tua mãe tem razão – afirmou Jorge para grande desespero da filha que sem outro remédio viu-se obrigada a afastar-se dele e a deixar duas enormes lágrimas caíremlhe dos olhos.Já pedi desculpas. . . não é?! Só queres trazer as tuas namoradas cá para casa e não ter ninguém que te atrapalhe… . – Ouviste. – Desculpem lá! .Pai – suplicou Sara alcançando os braços do progenitor a fim de encontrar um aliado contra a mãe. filha.Nunca mais voltes a dizer uma barbaridade dessas.

. – Pai! Ajudas-me a trazer as malas que estão no carro? – pediu Madalena. .Claro! E tu? – perguntou Afonso voltando-se para a neta.Sinceramente não sei o que fazer com ela – suspirou Madalena levando as mãos à cabeça. – Está cada vez pior e estes dias na casa do pai só a pioraram ainda mais. alcançou o corrimão das escadas e subiu em direcção ao quarto onde foi audível o estrondo violento de uma porta a fechar. Não depois de ter prometido que a levaria a morar consigo caso a relação dos dois resultasse ou de ter jurado enfrentar os seus pais apenas para ficar com ela. Mais tarde. Paulo não podia ter desaparecido sem deixar rastro. – Não querem que vos leve? – perguntou ele. veio um sabor amargo a derrota e a engano que a levou às lágrimas. Claro. resoluta. – Vai arrumar as tuas coisas ao quarto – disse Madalena interrompendo os olhares de ódio que a filha lançou ao pai e deixando-a sair da sala completamente esbaforida. Meia hora mais tarde. Enquanto passeava pelo quarto. Traiu-a diante da sua mãe e por isso ela nunca mais o iria perdoar. Não. . Jorge traiu-a.Ela odeia-me – murmurou Jorge. . .Bem-vindo ao clube – respondeu Madalena largando os braços. Não.Não – respondeu Madalena. mulher livre para enfiar a mochila da filha no banco de trás.Precisas impor-lhe disciplina! Pelo menos. não após de tantas juras amor que lhe segredou aos ouvidos ou depois de lhe ter entregado a sua virgindade. Sara tentou encontrar várias soluções para o grande sarilho em que estava metida. deixando a ex. Madalena. no meu tempo era assim que se educavam as crianças. no mais profundo silêncio. não é!? 70 . Sara. enquanto no porta-bagagem foram-lhe colocadas as três malas que tinha levado para morar com pai. De resto. Sara aproximou-se do carro da mãe. mas que a tinha traído no momento em que mais precisava dela. Não depois de tudo aquilo. foi o próprio que se encarregou de tal tarefa.A miúda está louca. Vou ligar ao Paulo. Talvez fosse ele a ajuda que tanto necessitava e o anjo da guarda que desde o primeiro momento pareceu ser na sua vida. O número que marcou não está atribuído. Até que enfim chegaram. . fez-se luz. era tudo o que pensava enquanto roía as unhas e tentava encontrar uma maneira miraculosa de se livrar das garras da mãe. Depois disso. e por ela entraram a sua filha.Não me chateies – respondeu Sara para grande surpresa do avô. Não posso voltar para a casa. por ter conseguido encontrar outra solução. . . O número já não existe. e a sua neta. – Nós vamos bem sozinhas. repetiu várias vezes a si própria enquanto tentava convencer-se que tudo aquilo não passava de um pesadelo. Mas a verdade é que nada disso pareceu ter qualquer fundamento quando Sara se atreveu a digitar-lhe o número de telemóvel. Ele vai-me ajudar. foi a resposta que obteve após oito tentativas consecutivas.As palavras do pai soaram-lhe como uma bomba aos ouvidos e por vários segundos foi inevitável para Sara não derramar as últimas lágrimas que lhe restavam de uma relação que pensava ser perfeita. foram as palavras de Afonso Soares quando a porta se abriu. – Achas bem aquilo que fizeste? Achas bem andar a faltar às aulas? . O número já não existe.Achas que sou uma péssima mãe. Sim.

Mas de uma coisa tinha certeza. ela perdia-se em justificações sem fundamento para não se sentir tão ingénua e usada. pelo companheirismo e pela paixão que a cada semana crescia ainda mais nos seus corações. . enquanto se encontrava sentada sobre o alpendre da janela do quarto. de ter medo de alguém e há muito tempo que ela já não tem medo de ti. Depois disso. Sérgio era um homem compreensivo. Ele adorava-a.Bem. Impossível. enquanto voltava para casa no carro da mãe e especialmente à noite quando se trancava no quarto e utilizava o computador para satisfazer a sua curiosidade? De facto. Não sabia também se essa vontade descontrolada de se tocar iria passar com o tempo. Por sorte e após muito esforço. a rolha saltou para o tecto e Madalena bateu palmas maravilhada. O dia do seu aniversário era a ocasião ideal. – Tu és uma boa mãe. Estaria ela doente por passar a vida a pensar em sexo ainda que fosse na escola. odiava-se e repetia a si própria que nunca mais voltaria a confiar em quem quer que fosse. Por vezes. vamos lá buscar as malas ao carro! As semanas foram passando. boa comida e outras coisas que ela corou só de o ouvir falar ao telefone. ela adorava-o e não havia nada melhor do que terem-se um ao outro para se confortarem com palavras carinhosas repletas de amor. Mas por outro lado. a relação de ambos. prolongar-se durante anos e anos. Mas a Sara precisa de limites. embora Sérgio muitas vezes pedisse para que se vissem todos os dias. Nunca forçou a sua entrada na vida de Madalena e era por isso que ela lhe era tão grata. Seria um jantar romântico no apartamento dele. especialmente num homem. não é isso que está em causa. Com os problemas de Sara a atormentarem-lhe os pensamentos. ele sabia. . primava pelo amor. Fosse com quem fosse. os dias tornando-se mais curtos e tristonhos e Sara percebendo que nunca mais voltaria a ter notícias de Paulo Figueira.Se ao menos aquele imprestável do Jorge servisse para alguma coisa – disse Madalena limpando as tímidas lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. Chorava. – Pontual como sempre – disse ele abrindo a porta com um largo sorriso e com uma garrafa de champanhe nas mãos. o falso professor universitário que a única coisa que quis foi retirar-lhe a virgindade como se de um prémio se tratasse. Precisava fazer sexo. . não sabia. Madalena conseguiu convencer o seu pai a buscar os netos à escola e ficar com eles durante a noite. provavelmente repleto de champanhe. Por sorte. assim como a sua vontade em devorar toda a espécie de pornografia que encontrava na Internet. e tudo para que ela pudesse passar um maravilhoso serão ao lado de Sérgio. mas ainda assim não custava nada tentar ter um pouco mais de espaço na vida de Madalena quando a sua única vontade era tê-la só para si. o desejo sexual experimentado com Paulo continuava a dominar-lhe a mente. Na verdade.E tu ainda nem viste nada – respondeu Sérgio entregando-lhe a taça de champanhe após um longo beijo. Sexta-feira foi o dia do aniversário do Sérgio e por isso Madalena estava excitadíssima. mesmo tendo sido mantida em segredo.Bem! Que recepção… . ou se pelo contrário. a temperatura arrefecendo. – …garanto-te a minha tarefa era bem menos complicada. – Entra! 71 . E sim..É claro que não – respondeu Afonso segurando os ombros da filha. de facto sobrava pouco tempo para se dedicar a ele.

. Depois disso. . ouviste?! . Degustou não só a refeição. . .Os dotes que eu conheço são outros – respondeu ela enterrando-se nos lábios dele enquanto se deixava levar em direcção à sala. e depois. Uma relação que tinha todos os ingredientes para ser apenas um amor de Verão. combinamos um jantar ou um almoço em minha casa. os braços fortes à volta da sua cintura e o corpo completamente colado ao seu. que a minha filha já não anda a faltar às aulas. – Veremos se não vais fugir a sete pés quando os vires enfileirados à frente do sofá.Está óptimo. o mundo parou e não foram precisas mais palavras para que ela entendesse tudo o que ele queria fazer naquele momento.O quê? – perguntou Sérgio enterrando-se no pescoço dela. Quero que fiques e me ajudes a enfrentá-los também.Podes deixar – respondeu ela mergulhando-lhe nos lábios e também naquela sensação tão fantástica que era tê-lo só para si. Mas a verdade é que naquela chuvosa noite de sexta-feira. os dois amantes deitaram-se no sofá e retiraram as respectivas roupas enquanto a música que os embalou na dança continuou a tocar durante minutos a fio. divertida.E quando é que vou ter a honra de conhecer as tuas três pestinhas? – perguntou Sérgio colocando-lhe os cabelos atrás dos ombros.O nosso jantar já está pronto! Só falta tirar do forno. Aliás. . – Estive a pensar… . Tê-lo perto.Foste tu que cozinhaste? – perguntou Madalena.Está bom? .Claro que não. Submersos.Não demores a conseguir esse sinal verde. quando conseguir um sinal verde. .Veremos – respondeu Madalena não resistindo a desabotoar-lhe os primeiros botões da camisa. .Ultrapassar a prova de fogo que vai ser conhecer as minhas três pestinhas!? . . ela degustou.Aleluia – riram-se os dois. . sentir a humidade da sua boca.…em levar-te a conhecer o meu pai e os meus filhos – respondeu ela após um pequeno suspense. mas que se prolongou até o Outono e tinha esperanças de ultrapassar o Inverno. pela conversa amena e também pelas velas que Sérgio fez questão de acender sobre a mesa enquanto Madalena se ria às gargalhadas e lhe confessava não se lembrar da última vez que degustara uma refeição às escuras.O quê? .Claro ou o que é que pensas?! Nunca te falei sobre os meus dotes culinários? .Agora que as coisas estão um pouco mais calmas lá em casa.Obrigada – disse ela saboreando o primeiro gole da bebida. .Por ti sou capaz de ultrapassar tudo.Fico muito contente por ouvir isso – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos soltos. um pouco mais em nós. O jantar primou pela simplicidade. .Primeiro vou falar com eles. eu acho que posso começar a pensar um pouco mais em mim. mas também os lábios de Sérgio quando dançou com ele a mesma música que ambos tinham dançado no início da sua relação..E tu queres que eu fuja? . . .Achas que vais conseguir? . 72 . .

Mas Sérgio apareceu. E Afonso. .Ele ligou-me há pouco. Achas que vais poder vir na próxima quartafeira? . . Nada poderia dar errado para aquele que prometia ser o jantar mais importante da sua vida e também a única e derradeira oportunidade para que os filhos e o seu pai caíssem de amores por Sérgio e se deixassem encantar por ele. pregava inúmeras partidas e reservava as maiores surpresas para uma mulher que havia perdido totalmente a esperança de amar e ser amada em proporções iguais. a reacção de Sara não foi nem um pouco agradável e a de Daniel primou pelo embaraço de não saber se aquela era uma boa notícia ou não. apesar de ter ficado um pouco surpreso com todas aquelas revelações. as compras foram feitas no supermercado mais próximo e a mesa da cozinha decorada com algumas flores que Madalena trouxera da sua floricultura.Óptimo – murmurou Madalena com um sorriso radiante. não viu outro remédio a não ser apoiá-la. já é um bom caminho para nos mantermos optimistas. Apareceu como um anjo caído do céu e era ele a única razão para que Madalena estivesse enfiada naquela cozinha a ultimar os preparativos do jantar. mas o meu pai ajudou-me a controlar os danos – respondeu Madalena ouvindo uma leve risada no outro lado da linha. . ficar contra nós ou assim… .Prometo que vou fazer tudo para ir. o que vendo bem. .Que bom! . Se ele te faz feliz. . Uma semana foi o tempo que Madalena precisou para conversar com o pai a respeito de Sérgio.Ainda falta o meu – riram-se baixinho. Contudo. . .Bem. . Acho que se atrasou a sair do estúdio e apanhou algum trânsito pelo caminho.Optimismo é o que não me falta – respondeu Sérgio arrancando-lhe uma leve gargalhada.Está tudo certo – disse Madalena quando falou com Sérgio ao telefone no final da noite. Pensei que eles se fossem opor. – O moçoilo nunca mais chega – resmungou Afonso lançando os olhos ao seu relógio de pulso enquanto a filha terminava de temperar a salada a uma velocidade fantasmagórica. E não.Para a semana já podemos marcar o jantar. O mundo dava muitas voltas. – Mas pelo menos não se negaram a conhecer-te.E eles? – perguntou Sérgio sem conseguir esconder o nervosismo. Hoje não consegui parar de pensar noutra coisa a não ser na conversa com os teus filhos. 73 .Contei! .Contaste-lhes sobre nós? . o que ele tinha para a fazer tão feliz e os motivos que a faziam querer apostar numa relação mais séria e duradoira com o fotógrafo..Este foi sem dúvida o melhor aniversário que já tive – confessou ele encarando-lhe o rosto após a ter possuído sem quaisquer restrições. . ao contrário do que esperava. nem sabes o peso que me tiraste dos ombros. O jantar foi marcado para quarta-feira. especialmente por causa da Sara. foram as palavras de encorajamento que ditou a Madalena e que a deixaram muito mais aliviada. força.Também não estão a favor – confessou ela. explicando-lhe primeiro como se conheceram.Fizeram uma cara como se tivessem acabado de ser atropelados por um camião.

comportate! Não quero que fales do Jorge. Mais tarde. . não quero que fales. .Por pouco e não comprava o supermercado todo. seguiu-se a caminhada em direcção à cozinha onde se encontravam os três pestinhas da família. está bem.Olha lá.Bem… acho que não me esqueci de nada! Pratos.Não te estás a esquecer do vinho? – interferiu Afonso encontrando um maço de cigarros no bolso das calças. Sérgio pensou seriamente em fugir. – Eu atendo – gritou ela apressando-se pelo corredor quando a campainha tocou. De facto. o Jorge por acaso sabe que estás a namorar com outro homem? . . a arroz e batatas fritas. aquilo nunca lhe tinha acontecido até porque todas as namoradas que teve durante os seus trinta e poucos anos de vida sempre foram solteiras. digo perfeito em todos os sentidos. Sara encontrava-se de olhos postos na televisão.Entra! . . Mais tarde. talheres. . tal como já disse.Já não começa bem. e quando digo perfeito. – Estás todo carregado – riu-se Madalena enquanto repartia com Sérgio o peso dos presentes.Obrigado – respondeu ele acedendo-lhe o pedido com alguma cautela e também com um aperto discreto na mão esquerda. o coração bateu mais forte e as pernas permaneceram paralisadas sobre o alpendre da porta pedindo 74 . por favor! . copos.Claro! O vinho – lembrou-se Madalena correndo em direcção ao frigorífico. Ao vê-los.Porque é que ele haveria de saber?! . . aliás. pois as mãos começaram a suar. A cozinha cheirava bem. – Comporta-te. mas a verdade é que ele estava disposto a fazer de tudo para que as pessoas mais importantes da vida de Madalena também gostassem de sim. As suas mãos estavam trémulas. Sérgio pôde senti-las quando abriu o portão da casa de Madalena e se preparou para lhe conhecer o pai e os filhos.O Jorge não tem mais nada a ver com a minha vida e nem tu devias estar a falar dele já que daqui a poucos minutos vais conhecer o meu novo namorado – afirmou Madalena guardando o azeite num dos armários da cozinha. Daniel a jogar na sua playstation portátil e Afonso a espreitar o pato trinchado sobre a bancada. Cheirava a pato assado. . O que será que eles iriam pensar de si? Iriam adorá-lo? Detestá-lo? Isso era uma incógnita até para os deuses lá de cima. que penses ou sequer que te lembres dele! Este jantar tem que ser perfeito. Conhecer os filhos e o pai de uma namorada? Não. – Por isso.Está bem. segundo as palavras de Madalena enquanto o empurrava pela costas e o fazia ganhar forças para enfrentar a maior prova de fogo que alguma vez havia enfrentado em toda a sua vida. duas janelas amplas e também por três pessoas que nem sequer se aperceberam da chegada de Sérgio e Madalena. girou a maçaneta e encontrou o seu convidado especial carregado com um sorriso. duas caixas de chocolate e uma garrafa de vinho comprada pelo caminho. emocionalmente inexperientes e sem qualquer bagagem familiar. depois de um longo suspiro e de ter composto os cabelos soltos. um ramo de rosas. guardanapos… .. marido e pai dos teus filhos. para além do calor que o forno fazia questão de lançar naquela grandiosa habitação composta por inúmeras mobílias sofisticadas.Porque é o teu ex.Pai – exclamou Madalena fulminando-o com os olhos.

Obrigado! Bem. profissão.Olá Daniel – exclamou o fotógrafo estendendo-lhe a mão quando se aproximou da mesa. . não ligues! Tal como já te tinha dito. detalhes sobre a família e pequenas curiosidades como o facto de estar sempre rodeado de modelos profissionais. mas como não consegui encontrar e depois também já estava a ficar um pouco tarde. Sara e Daniel viraram-se imediatamente em direcção àquele desconhecido que agora também iria fazer parte das suas vidas. Analisaram-nos dos pés à cabeça e por momentos fizeram-no sentir como um verdadeiro extraterrestre vindo de um planeta distante. . Sérgio volta-se para eles e sorria-lhes como se 75 . .Olá – respondeu o jovem aceitando o cumprimento com alguma cautela. .Bem que eu gostaria de ter tido um trabalho igual ao teu quando tinha a tua idade. . encabulado. mas Afonso também. . – É o meu trabalho. mas ainda assim. . são! Confesso que queria trazer orquídeas. e as flores… .E este é o meu pai… – afirmou Madalena alheia aos pensamentos da filha. .qualquer tipo de socorro diante daquela situação tão constrangedora. . O jantar foi servido às nove horas em ponto. . .Eu é que agradeço o convite. Queria saber tudo. o meu pai é um rapazinho de dezoito anos preso num corpo de sessenta e oito.O prazer é todo meu. militar tentou acalmar o namorado da filha com perguntas leves e humoradas. senhor Afonso – afirmou Sérgio largando os talheres sobre o prato. .Eu é que gostaria de ter um espírito jovem igual ao seu. .Olá Sara. – Este é o Sérgio! As cabeças de Afonso.É. acredite! Fico contente que tenha aceitado jantar connosco. A conversa entre os três adultos prolongou-se por vários minutos deixando Daniel e Sara de fora. diga-se de passagem.São para mim – interrompeu Madalena não escondendo o seu sorriso de orelha a orelha.Pai – exclamou Madalena fulminando Afonso com os olhos. e foi por isso que o ex. . Sérgio estava nervoso. .Não faz mal! Também adoro rosas. eu sei bem o que estavas a fazer. senhor Afonso! . – Os meus filhos! Daniel e Sara… . e na mesa sentaram-se cinco pessoas no mais completo silêncio prontas a partilhar uma refeição cozinhada por Madalena.E ele trouxe presentes – interferiu Madalena empenhando duas caixas de chocolate e as flores trazidas pelo namorado. – Pessoal – exclamou Madalena.Não te cansas de fotografar mulheres bonitas? .Por acaso não – riu-se Sérgio. Sérgio. . não quis chegar mais atrasado do que cheguei.O que foi? Só estava a elogiar-lhe o trabalho. – O vinho é para o senhor Afonso. – O senhor Afonso Soares que já há muito te queria conhecer. militar levando uma taça de vinho aos lábios.Lá isso é verdade – respondeu Afonso aceitando o aperto de mão por parte de Sérgio. . Um sonho de qualquer homem. por isso… .É. ela reparou.Olá – respondeu ela pensando que pelo menos a sua mãe tinha bom gosto. – Sérgio – disse Madalena apressando-se a fazer as apresentações e a terminar-lhe com aquele calvário.Muito prazer. sempre que podia. A idade. pelo menos alguém que sabe avaliar as minhas qualidades – riu-se o ex.Os chocolates são para a Sara e para o Daniel – adiantou-se Sérgio tentando esconder o nervosismo que ainda estava a sentir.

– Queria tanto que pudesses ficar mais tempo – disse ela encontrando-lhe a mão. derrubou o resto do vinho sobre a mesa e lançou um olhar esmagador à filha da sua namorada numa tentativa desesperada de encontrar justificações para aquele acto no mínimo leviano.ainda estivesse à procura de algum sinal de aprovação. – Mas amanhã tenho uma sessão bem cedo e queria dormir pelo menos oito horas para… enfim… ter mais disposição para fotografar. Sujei a toalha toda.E os meus filhos!? O que é que achaste deles? O Daniel parece ser um bom rapaz. .O que é que achaste do meu pai? .Porque é que não haveria de dar? 76 . calores que a acompanhavam desde há muito. . . O que lhe teria passado pela cabeça para fazer uma coisa daquelas? O quê? A pergunta parecia não ter qualquer resposta e nem mesmo depois de ter sido levado à rua por Madalena.Não faz mal. foi essa a resposta que Sérgio se sentiu tentado a oferecer à namorada. encontrava-se exactamente à sua frente. .Claro! Claro que entendo.Nem acredito que deu tudo certo – disse Madalena enterrando-se nos braços de Sérgio.Um senhor fantástico – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. por coincidência ou não. bebidas. Está tudo bem – disse Madalena levantando-se da cadeira onde estava sentada. Eram calores estranhos. . – Vou buscar um pano para não manchar a mesa. não entendes!? . . . . Entendes. mas a tua filha Sara é uma maluca de todo o tamanho. . Gostei muito. Ao encontrar-lhe o sexo.Acidentes acontecem – interferiu Afonso sob o olhar assustado fotógrafo. Um sinal que Sara estava mais do que disposta a oferecer quando os seus olhos se cruzaram com os dele pela última vez naquela mesa repleta de alimentos. . e calores que a fizeram cometer uma das maiores loucuras da sua vida quando se atreveu a tirar o pé do sapato esquerdo e levá-lo em direcção as pernas de Sérgio que.Mas obrigado pelo jantar. – Desculpa! Aliás. nomeadamente quando descobriu o sexo e a pornografia na casa do pai. até porque a única coisa que ele não queria era continuar a olhar para a cara de Sara e lembrar-se da loucura que ela cometera à mesa quando o apanhou completamente desprevenido.…estou – respondeu ele tentando ignorar os risinhos de Sara. Desculpas atrás de desculpas foi o que Sérgio inventou para se livrar daquele malfadado jantar. Mas seria mesmo aquele o motivo para que se quisesse ir embora? Obviamente que não. – São duas crianças maravilhosas. sendo que quase todas elas se encontravam relacionadas com o trabalho. – Gostei muito deles – voltou ele a mentir. Contudo. ele arrastou a cadeira. desculpem. Eu não sei o que é que me aconteceu.Eu também – mentiu Sérgio. ela sorriu e o fotógrafo quase que desmaiou de susto. mas também de luxúria e pecado. ela lhe desapareceu do pensamento. vários calores começaram a subir-lhe pelas pernas e encontraramse nos seios e nas pontas dos dedos das mãos.Estás bem? – perguntou Madalena poisando-lhe a mão sobre o ombro. E enquanto bebia um gole de sumo. Depois disso. – Agora já sei a quem puxaste. após um pequeno período de reflexão achou melhor manter a sua opinião guardada a sete chaves não fosse ela estragar uma noite que apesar de tudo até foi especial.

. a prosperidade nos negócios da floricultura e o namorado mais lindo do mundo. aceitar um convite para almoçar no domingo foi irrecusável. enquanto Madalena atendia uma chamada telefónica da melhor amiga no corredor da casa.suspirou ele largando as travessas sujas no lava-loiça. . – Tu és uma criança. quanto a isso não havia a menor dúvida. Não devias estar a pensar nessas coisas. Algo que realmente não deveria ter feito. Mas por sorte não aconteceu e eu até acho que eles gostaram de ti.Não há nada para contar – foram as palavras da sua filha antes de desaparecer da cozinha.O que é que deu nela? . De qualquer forma.Não te preocupes! Eu próprio vou contar-lhe assim que ela chegar à cozinha. . ou melhor. – Eu ligo. mas para tê-la por inteiro teria que amar os seus filhos e fazer de tudo para se dar bem com eles. chegou a essa conclusão quando no final do almoço. – Depois combinamos melhor – foi a resposta do fotógrafo. – Não queres fazer sexo comigo? . Ele amava-a. .Então?! Não me vão contar? – riu-se Madalena. Sara aproximou-se de si na cozinha e perguntou-lhe aos ouvidos. Por isso. No seu rosto era visível uma felicidade extrema por ter tudo aquilo que sempre quis ter na sua vida. podes deixar. . .Sara… .Ligas-me quando chegares a casa? .Se não fizeres sexo comigo eu digo à minha mãe que tentaste estuprar-me – disse Sara. . num almoço para o próximo fim-de-semana. . a melhor amiga.Sei lá! Fiquei com medo que acontecesse alguma coisa.Eu não sou uma criança! Já tenho quinze anos e em Janeiro faço dezasseis.. então porque não promover uma maior aproximação entre eles? Na altura.Claro – respondeu Sérgio deixando-se beijar por ela.E o que é que vocês me queriam contar? 77 .Vou para o quarto.Temos que começar a pensar num novo jantar. se os seus filhos e o seu pai adoraram Sérgio. Os seus filhos. – Já estão a arrumar a loiça? – perguntou ela não imaginando sequer que tudo aquilo que tinha não passava de uma mera ilusão. o amor que sentia por Madalena era forte demais para que se deixasse levar por todas aquelas desconfianças sem sentido. E na verdade foram precisos apenas poucos minutos para que Madalena se conseguisse livrar da conversa ditada por Alice e entrar na habitação com um largo sorriso nos lábios. . Os três dias que se seguiram foram vitais para que Sérgio se conseguisse convencer que o que acontecera à mesa com Sara não tinha sido mais do que um mal entendido e que não valia a pena levar em consideração as brincadeiras de uma menina de quinze anos.Não sei – respondeu Sérgio forçando um sorriso. O que é que achas? A expressão embaraçada do namorado deixou Madalena apreensiva. mas nem por isso retirou o sorriso que ela fez questão de estampar no rosto.Mais ou menos – respondeu Sérgio lançando um olhar lancinante a Sara. . .Eu também acho que sim. Sara adiantou-se: . . – Na verdade estávamos à tua espera para te dizer uma coisa… Ao perceber que o namorado da mãe estava realmente disposto a contar a verdade dos factos. era o que ela mais queria. Se tinha dado tudo certo.Mesmo assim! Para mim ainda és uma criança.

78 . Mas ainda assim a palavra sexo não lhe saiu da cabeça até o Natal. De facto. mal o conseguia encarar de frente quando se cruzavam no corredor e esqueceu completamente as loucuras de ir para a cama com o namorado da mãe. Passou a respeitá-lo como futuro padrasto. – Mas acredito que a partir de hoje nos vamos dar ainda melhor. a frase do fotógrafo não poderia ter sido mais acertada e tudo porque depois daquele malfadado domingo Sara nunca mais se atreveu a colocar-lhe propostas ordinárias aos ouvidos.É – respondeu Sérgio. Nada de especial! ..Hã… era uma coisa engraçada que tinha passado ali na televisão. .Fico contente que tu e a Sara se estejam a dar tão bem. E já que Sérgio não queria ser a vítima então ela teria que arranjar outra.

O que é que queres? – questionou Milene rispidamente. O que estaria à procura? O que fora fazer quando a avisou que tudo era melhor do que estar ali? Sem conseguir encontrar resposta às suas perguntas. – Será que podíamos conversar num outro sítio? – perguntou Sara após um longo período de meditação. E sim.Claro que me lembro – respondeu a prostituta levando mais uma vez o cigarro à boca. calmamente e sem quaisquer pressas. atravessou a rua e encontrou a sua presa.Que isto não era lugar para miúdas como tu.CAPÍTULO V Era a segunda vez que colocava os pés naquele local. Aquele realmente não era o lugar indicado para raparigas como Sara. um traficante à porta de um café e duas prostitutas de serviço completamente alheias ao tempo e ao espaço. mas ela continuava a lembrar-se perfeitamente do rosto da jovem por não ser muito comum adolescentes como ela pisarem aquele local. era ali que ela queria estar. A expressão séria que Milene fez questão de colocar no rosto não deixou sombra para dúvidas. esse cenário repetia-se todos os dias e não trazia nada de novo para as centenas de pessoas que habitavam o bairro do Intendente.Olá! . inteligente. tinha faltado às aulas e estava no centro de um bairro degradado quando de longe uma mulher a avistou e percebeu que aquela não era realmente a primeira vez que tinha visto Sara ali. não precisando ele de ser bonito. só precisava satisfazê-la e nada mais. . mas ainda assim. . Na verdade. Depois disso. Na verdade. rico ou proveniente de uma raça previamente estipulada. o Intendente era o local propício para encontrar alguém assim.Hã …olá – respondeu Sara abrindo um sorriso quando reconheceu a pessoa que a levara ali. e era também a segunda vez que dava consigo a desviar-se de três toxicodependentes. – E tu? Lembraste daquilo que te disse? . Tinham-se passado várias semanas.Eu não tenho nada para conversar contigo.Lembra-se de mim?! . – Tu por aqui outra vez!? .Que tipo de trabalho? 79 . .O quê? .É só um minuto. uma jovem de dezasseis anos acabados de fazer que ainda continuava a ter sonhos eróticos todas as noites e que desejava experimentar a sensação de ter sexo com todo e qualquer homem que mostrasse minimamente interessado em nela. Estou a trabalhar! . Era meio-dia. De facto. .…falar sobre trabalho. a mulher levou o cigarro à boca e enfiou o isqueiro na mala a tiracolo. apesar de todos os riscos. Talvez trouxesse para Sara. .

– Não tive muito tempo para ajeitar as coisas. Sara sentiu-se prestes a cair num abismo. não quis acreditar nela e recusou-se a aceitar o facto de que uma jovem de dezasseis anos. que nem sequer tens dezoito anos. . Tu. .disse Milene quando observou os olhos curiosos de Sara a olhar para os cantos do quarto. A pensão onde costumava alugar um quarto para se encontrar com os seus clientes foi o local escolhido por Milene para aquela conversa que prometia ser no mínimo interessante. Para além disso. quando os seus olhos se cruzaram com os dela naquele quarto e percebeu que a expressão de Sara permaneceu impávida e serena. Trabalhar como prostituta? Ela repetiu a pergunta enquanto se ria a bom rir e levava uma das mãos ao peito. – Deixa-me ver se estou a perceber. a oferta de Sara era de tal maneira descabida que nem sequer deveria ser levada em consideração. queres ser prostituta e queres também que eu te ajude a arranjar clientes! É isso? . se quisesse realmente submeter a uma profissão tão humilhante como a prostituição.. as paredes encontravam-se sujas.Sim – respondeu a jovem largando a mochila no chão. Pudor e vergonha de admitir que era viciada em sexo. . que aparentemente tinha todas as regalias e todos os mimos dos pais.Como prostituta!? .Não faz mal.Trabalhar no quê? – questionou Milene franzindo o sobre olho. Era pequeno. Estava ali. . Era também desprovido de móveis luxuosos. – O que é que queres saber? .Estou.Eu quero que me ajudes – respondeu Sara cortando-lhe as palavras.Como… prostituta. e ao subir as barulhentas escadas daquele edifício a cair aos bocados. . Um cliente. . de cortinados e a cama desfeita demonstrava que ainda não havia passado muito tempo desde a última vez que Milene se deitara ali com outro homem. Quero que me ajudes a… a trabalhar aqui! . Eu quero trabalhar aqui. Sara reparou. Na verdade.E o que é que queres saber sobre o meu trabalho para além do que já sabes? Sara pareceu hesitar por alguns instantes e Milene percebeu essa hesitação quando lhe encarou o rosto sério e os olhos assustados. A resposta de Sara conseguiu arrancar uma ruidosa gargalhada por parte de Milene.riu-se Milene nervosamente enquanto passeava pelo quarto. .Disseste que querias falar comigo sobre o meu trabalho. – Desculpa a desarrumação… .Como prostituta. Mas por fim. . e foi isso que Milene tentou fazer durante vários minutos.Entra – disse Milene largando a porta assim que chegaram ao quarto.Tu estás mesmo a falar a sério? .Ajudar-te?! .O mesmo trabalho que você faz – respondeu Sara surpreendendo-a com a sua resposta. gastas.Sim. tal como o tapete junto à cama. Finalmente tinha arranjado coragem para estar ali e no fundo não se sentia nem um pouco arrependida da escolha que tinha feito pois havia pensado nela durante semanas a fio e só não a havia concretizado por receio de perder o que na verdade já não tinha.Sim – respondeu Sara voltando-se para ela. – Fala – imperou ela terminando o quinto cigarro do dia.Espera aí… . . a surpresa deu lugar à estupefacção. Não a levou em consideração. . pois claro. 80 . – Podemos fazer um acordo.

. Este bairro é a nossa salvação e vais encontrar sempre alguém para te ajudar caso aconteça alguma coisa… . Trás também alguns produtos de higiene para te lavares.Aconteça o quê? – perguntou Sara. mas quando descobrires e viveres essa realidade. e pede para que ele se lave antes de sequer se atrever a colocar-te as patas em cima – Sara acenou com a cabeça embora os seus olhos ainda demonstrassem algum medo – Outra coisa! Nada de beijos na boca mesmo que te peçam..Sim! Se eu gostar. ela tinha algumas dúvidas.Só queria experimentar. .Sem receber um tostão por isso!? .Mesmo assim eu quero experimentar – afirmou Sara. – Arranja-te bem! Depila-te em todas as partes do corpo porque quanto menos pêlos tiveres menos contacto físico tens com o cliente. também já fui curiosa. Não penses que é divertido abrir as pernas para o primeiro que aparece ou então para aquele pagar mais. Estás iludida! Andaste a enfiar coisas na tua cabeça que não correspondem à realidade. Escusado será dizer que o mesmo se aplica ao sexo anal. . Mesmo que te convidem para ir a hotéis luxuosos.E quando é que queres começar? . elas que apanhem! E… o que mais? Hã. mas que tu nunca te podes esquecer. Não seria muita pretensão dela achar que iria gostar de ser prostituta? Será que ainda não se havia dado conta dos perigos que estava a correr ao entrar numa vida completamente desregrada. que vá para casa foder com a mulher porque nós não estamos aqui para apanhar as doenças deles.Que acordo!? .Se me ajudares a arranjar clientes. podes ficar com todo o dinheiro que eu conseguir. os encontros são sempre feitos em locais escolhidos por ti.O.Então o que é que queres? . eu não preciso dele. mas ainda assim quis desafiar Sara com uma pergunta: . resoluta. . vou-me embora… Quando o cigarro terminou. assustada. nada de sexo oral se não os conheceres ou então ires para a cama com eles pelo menos umas três vezes.Se queres experimentar porque é que não arranjas um namorado? Garanto-te que ele te iria tratar muito melhor do que certos clientes costumam tratar as prostitutas que vão para a cama com eles – Sara calou-se. 81 . mas não penses que essa profissão é pêra doce. certas coisas que eles nos pedem para fazer e para não vomitares com o cheiro de alguns. sombria e desleal? Na verdade. . aliás. Milene apagou-o num dos cinzeiros sobre a cómoda e lançou um olhar desafiador àquela jovem que parecia ter toda a experiência do mundo. Usa sempre preservativo e não te deixes ir naquela conversa de que sem ele é melhor. É preciso ter-se muito estômago para aguentar certos homens. garanto-te que vais ficar desapontada! Muito desapontada.Pode ser amanhã?! .Eu não quero o dinheiro para nada. continuo.Hã… outra coisa importante que já me ia esquecendo. . Quem não consegue manter uma erecção com preservativo. Elas que se casaram.Estás-me a propor que eu me torne na tua chula? . Preservativos.Claro. não aceites.k! Amanhã – respondeu Milene aproximando-se lentamente dela. – Escuta! Eu também já tive a tua idade. Se não gostar. Uma ruidosa gargalhada foi a resposta de Milene: .

ela conseguisse encontrar alguém assim. – Ainda estás a tempo de desistir.Deixa-me entrar – disse Daniel batendo à porta da casa de banho.Agora não dá – gritou Sara passando o chuveiro pelas pernas depiladas. – Estou aflito e preciso ir à casa de banho. não queria saber do dinheiro para nada até porque tinha ficado acordado com Milene que seria ela a receber todos os lucros.. eu vou compreender… .Caso alguém tente espancar-te. a excitação apoderou-se do seu corpo. Tinha pensado tanto tempo sobre o assunto. – Nesta pensão eles não se vão atrever porque temos alguns amigos especiais que tomam conta de nós na recepção. Faltavam poucos minutos para as duas da tarde quando Sara se despediu de Milene com a promessa de voltar no dia seguinte e iniciar a profissão que tinha escolhido para si.Nunca te atrevas a atender um cliente na rua e também nunca te atrevas a denunciar-me à polícia. Não o estava a fazer por carências financeiras. Não desconfia de nada e nem nunca iria desconfiar. As explicações de Milene continuaram durante largos minutos. só de pensar na ideia.A polícia não me vai apanhar. Depilar-se dos pés à cabeça e preparar-se psicologicamente para o que a esperava no dia seguinte. em pleno Intendente. Sara resolveu trancar-se na casa de banho com o intuito de fazer aquilo que Milene lhe pedira durante a tarde. tal como já vinha acontecendo há várias outras. Eu não vou desistir! . . e enquanto a ouvia com a máxima atenção.Eu sei! Podes ficar descansada. eu vou dizer que não te conheço de lado nenhum e que tu simplesmente enlouqueceste. Não desconfia de nada. mas no entanto havia algo que a fazia hesitar e Milene foi a primeira pessoa a reparar nessa hesitação perfeitamente normal para uma iniciante.Eu venho – respondeu Sara desaparecendo do bairro com a sua mochila às costas. mesmo não tendo a mínima ideia de como seria o seu primeiro cliente. ali.…não. violar-te ou obrigar-te a consumir drogas – respondeu Milene afastando-se calmamente. a única coisa que lhe interessava era ter alguém que a quisesse e a desejasse nem que fosse apenas por alguns minutos. feito tantos planos. Algumas horas depois e enquanto a mãe preparava o jantar na cozinha. Na verdade. que a achasse bonita e que não tivesse olhos para nenhuma outra mulher a não ser para ela.disse-lhe Milene à saída da pensão. . . pensou a jovem. a corda vai arrebentar para o meu lado. . o jantar foi silencioso apenas interrompido pelo bater dos talheres nos pratos. Para isso. – Se não vieres amanhã. e nem esperava sequer encontrar ali o seu príncipe encantado. Sara deu-se consigo a perguntar se não estaria realmente a cometer uma loucura ao enfiar-se na toca do lobo. Depilar-se. Mas surpreendentemente.Sabes que se a bófia te apanhar por estas bandas. Não. porque se fizeres isso. não sabes!? . Alguém que lhe retirasse do peito aquele sentimento horrível de vazio e carência afectiva. basta ofereceres uns troquinhos antes de subires e tens a vida salva. . – Vai à outra lá em baixo! Naquela noite. . De 82 . de como reagiria quando ele a tocasse e como ficaria o seu estado de espírito depois de se entregar a um perfeito desconhecido em troca de dinheiro. E talvez. A televisão teimou em não calar-se e os olhos de Sara muitas vezes se cruzaram no rosto despreocupado de Madalena.

Contigo.Pois… . Mas é bom que não me tragas nenhuma confusão e muito menos a bófia. . trazia um palito e no corpo um fato de treino verde que em tudo lhe acentuava os ossos das pernas.Eu não me ando a prestar a papel nenhum. .Podes. . de olhos e cabelos escuros. Minutos depois. apesar de fingir que adora o teu namorado e que acha super normal a filha andar com homens mais novos. 83 .Entra lá! Sem hesitações. Sara acedeu ao pedido e aproximou-se da cama onde estava estendido apenas um lençol branco e duas almofadas cansadas pelo uso. . . Na boca.Sara. A resposta da filha deixou Madalena surpresa.Tens a certeza?! Sim. – Vieste – exclamou a prostituta ao abrir a porta. com o meu irmão e também com o teu querido namorado que agora não sai cá de casa.O que é que andam a tramar? . Seria demasiado sórdido sequer pensar numa coisa dessas. porque não sou só eu quem pensa assim. – O teu lugar é cá em casa comigo e com o teu irmão.Quem é que te disse isso? .resmungou Sara terminando a tangerina que tinha nas mãos. – Fiz aquilo que me mandaste – disse Sara largando a sua mochila sobre a cama. a porta do quarto de Milene surgiu-lhe diante dos olhos e tocar nela foi inevitável. .O Sérgio é muito simpático para ti e para o Daniel! Ele trata-vos muito bem.Vim ter com a Milene – respondeu Sara recuando dois passos.Sara.Nada! Só acho ridículo que uma mulher da tua idade se ande a prestar a um papel destes. No dia seguinte.Não ligues – disse Daniel tentando animar a mãe. – Hoje o teu pai ligou para falar contigo – disse Madalena.Nada! Então?! Posso subir ou não? .Eu – respondeu Madalena levando as loiças sujas em direcção ao lava-loiça. . – O que é que queres? . . também deixou escapar no outro dia que não acredita lá muito que o vosso namoro vá dar certo. . magro. .Não vou trazer ninguém – foi a resposta de Sara enquanto subia as escadas a correr e se preparava para aquela que seria a sua primeira experiência no mundo da prostituição. – O único problema é ser quase dez anos mais novo que tu. O pai também acha ridícula a tua relação com esse Sérgio. . e o avô. – Ela é parva e o Sérgio é fixe.Eu disse-te que vinha. . eu acho melhor ires-te deitar! Amanhã ainda é dia de aulas e não convém chegares atrasada – afirmou Madalena fitando-a furiosamente. – O que é que queres dizer com isso? .Só te quis avisar – respondeu a jovem abandonando a cozinha sob o olhar magoado da mãe. até quando vais continuar com essa ideia absurda de não querer falar com o teu pai? Já se passou tanto tempo desde que saíste da casa dele e tens que convir que foi melhor assim. ao entrar na pensão onde tinha combinado encontrar-se com Milene. . .facto. era completamente impossível para uma mãe imaginar que a sua filha estava a vinte e quatro horas de se prostituir pela primeira vez. . Sara foi interceptada por um homem mal-encarado.Eu não quero falar com ele.

Queria ter aquele corpo absolutamente escultural.Por acaso não és virgem. Por isso é que quando somos novas temos que abrir os olhos e fazer um pé-de-meia para nos sustentarmos. e tudo porque Sara não conseguiu controlar as mãos trémulas.Sim.O que é que queres?! Quem entra nesta vida já não sai.Para quê que isso te interessa? Não precisas saber o nome. essa – riu-se Milene. mas eu. . Disse que só tinhas dezasseis anos e o gajo excitou-se todo.Aquela tua amiga… .A sério?! . Essa Arlete armou-se em parva e acabou sem nada. vem-se depressa e não pede para que lhe façam muitas coisas esquisitas. – Até já! Os minutos que se seguiram foram de algum nervosismo. . toalhas e tudo o resto.Se ele quiser. aquela sensualidade que parecia transpirar-lhe de todos os poros e a confiança de uma mulher que apesar de saber que era prostituta. querendo um dia ser como ela. a profissão ou sequer o estado civil. fecho a loja e desapareço sem deixar rastro. – Cinquenta e dois. gel de banho.Como é que ele se chama? – perguntou Sara à cautela. filhos ou qualquer outra coisa interessante. – Bem. a que estava contigo na primeira vez que cá vim. pois não?! . . . . quando chegar aos trinta.O quê!? .Arranjei o teu primeiro cliente. – Eu já falei com ele.E ainda continua a ser prostituta? . as pernas bambas e o coração que mais parecia que 84 . especialmente se não tem família.Depilei-me e trouxe sabonete. mas subitamente passou a admirá-la. Assim era Milene e era assim que Sara também gostaria de ser. também não perguntes – afirmou Milene calçando os seus saltos em frente ao espelho do quarto. – Mas eu também fiz aquilo que me pediste. Paga bem. Depravados esses homens pá! Só querem saber de carne fresca. vou buscar o gajo! Estás pronta? .O quê? .Ela tem muitos clientes também? . . .És boa ouvinte – respondeu Milene acendendo um cigarro.. Sara não soube como.adiantou-se Sara curiosamente. . É só um cliente. Nunca mais ninguém aqui neste bairro vai ouvir falar de mim.Hã. . Quantos anos é que ela tem? . ele diz-te o nome! Se ele não disser. Enquanto observava Milene arranjar-se ao espelho e a compor a maquilhagem. .Está bem. nunca perdia a pose e a dignidade.A Arlete. . – Mas uma coisa que tens que saber é que uma prostituta depois dos trinta e cinco já não tem muitas opções de escolha.Acho que sim – respondeu a jovem demonstrando alguma ansiedade na voz. Quem já passou dos trinta que se lixe. Está no segundo piso e é um dos meus melhores clientes também.…não. É por isso que ainda anda na vida.Uns gatos-pingados … – respondeu Milene ajeitando os cabelos compridos em frente ao espelho. . .Quem!? .Menos-mal – respondeu Milene alcançando a porta do quarto.

– Ou vais-me dizer que não acreditaste quando te disse que a gaja ainda era menor? . . A miúda parece ter mais idade do que aquela que me disseste. apoderou-se mais do que poderia imaginar e qualquer ruído ou movimento da porta era um sobressalto seu. O pânico apoderou-se de si. afinal de contas era ela quem lhe iria prestar o serviço. mas pelo menos estava bem vestido e aparentava não ter passado dos trinta e cinco. Milene adiantou-se dizendo: . quando finalmente se conseguiu sentar na cama.Duzentos euros! Ou melhor.Qual é?! Vais reclamar do preço? Estou-te a fazer uma oferta dessas e tu ainda reclamas? Já olhaste bem para a cara da miúda? O corpo? Tens sorte é de estar-te só a pedir duzentos e cinquenta. – Quanto é? .Obrigada! . se te portares mal. Não estou a desconfiar de ti! . Era alto. O Nuno está lá em baixo. – E vê lá se tratas bem a minha colega. eu arranjo outro cliente num piscar de olhos. não parecia ser muito simpático.Dezasseis – respondeu Sara.…é claro que quero – respondeu ele observando Sara dos pés à cabeça. – Tudo bem eu pago. mas também pelo rosto inocente que ela aparentava ter. Quando a porta do quarto se fechou com um pequeno estrondo e Sara se viu completamente sozinha naquele quarto ao lado de um desconhecido que tinha praticamente 85 . ouviste?! É uma gaja fixe! Por isso. Não era muito bonito. Realmente não era todos os dias que uma rapariga daquelas lhe passava pelas mãos e desperdiçá-la seria burrice.Hã pensei.k – interrompeu o cliente alcançando a carteira no bolso das calças. já sabes o que te acontece. Ele queria-a.…era desta rapariga que te estava a falar. Pensava em oferecê-las a Sara.Tens a certeza? .iria saltar pela boca. sendo que a primeira pessoa a entrar foi Milene e logo a seguir. – Como é que te chamas? Silêncio foi a resposta que obteve. . – Chama-se Luísa – mentiu Milene. pelo corpo.Queres o BI? – perguntou Milene voltando-se rispidamente para o cliente. a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta abriu-se. É só descer lá em baixo e… . princesa. A carteira abriu-se e do seu interior saíram duas notas de cem e uma de cinquenta. duzentos e cinquenta – respondeu Milene batendo o pé no soalho.adiantou-se Milene. Queria-a não só pela idade.Parece ser interessante – respondeu ele lançando um olhar intenso a Sara que a gelou dos pés à cabeça. é?! .Não te metas aonde não és chamado – respondeu ela enfiando as notas no decote da camisola.Quantos anos tens. mas assim que ele estendeu o braço.Duzentos e cinquenta!? Estás a gozar com a minha cara? . – Mas tu é que sabes! Se não quiseres ou não tiveres dinheiro para pagar.O. . o preço duplicava ou triplicava – discursou Milene demonstrando bem todos os anos de experiência que conseguira adquirir para si. .Só queria confirmar.Agora viraste chula. . . Por fim. Seria ele o seu primeiro cliente. foi a primeira coisa que Sara reparou. Sim. . – Bem… . porque noutro lado. o cliente. assustada.Tem calma. Luísa? .Então?! Queres ou não? .

. . – Essas putas são muito espertas e aproveitam-se de novatas como tu. veio uma sensação de alívio. obrigada.Não sejas parva – respondeu ele enfiando-lhe a nota nas mãos. . – Não queres falar sobre o assunto não fales.Não sabia que era assim tão feia – respondeu a última levando dois pauzinhos à boca. . .idade para ser seu pai.Ela não me está a explorar – respondeu ela enrolando-se no lençol da cama. – Ai! Que susto… . A intenção era a de se aliviar e de retirar dos ombros todo o stress a que foi submetido durante a semana. . pois na verdade.Não é preciso. Os chinelos foram calçados para que não tivesse que pisar o chão imundo da casa de banho e a roupa interior vestida em silêncio enquanto regressava ao quarto.Mais ou menos.Despe-te! Foi horrível do princípio ao fim. .Não! Hoje estou de folga. o pescoço e atirou-se novamente para o chuveiro para se consciencializar de que se tinha realmente prostituído pela primeira vez. – Não deves deixar que a Milene te explore – disse ele a Sara enquanto vestia as suas roupas. . uma onde de nervosismo voltou a atravessar-lhe o corpo e os pensamentos.Estás a gozar comigo. e durante largos minutos. . . Mais tarde. Era tarde e isso ficou provado pela ordem do cliente: . foi doloroso.k – conformou-se Milene com a falta de pormenores fornecidos pela jovem. – Toma! Guarda para ti. .Como é que foi o quê!? .Foi normal – respondeu Sara encontrando a suas calças de ganga sobre o cadeirão. Sara viu-se metida num verdadeiro inferno sem tempo e sem hora para acabar. – Guarda! A primeira coisa que Sara fez quando o cliente desapareceu foi enfiar-se por debaixo do chuveiro e retirar do corpo todas as marcas e vestígios que ele lhe deixara no corpo durante os quarenta minutos em que a possuiu como se ela fosse apenas um mero pedaço de carne.Em todo o caso é um aviso que te dou! Se quiseres continuar nesta vida tens que abrir os olhos – entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. não?! O que é que acabaste de fazer? .exclamou ela quando se deparou com a figura de Milene a devorar a comida chinesa comprada num dos muitos restaurantes asiáticos do bairro. esfregou os braços.Não. Seria tarde demais para fugir? Tarde demais para se arrepender de um pecado que nem sequer havia cometido? Sim. veio a sensação de alívio e a vontade de desaparecer daquele quarto para voltar ao trabalho. 86 . de calmaria e o enxugar do corpo com uma toalha. Já pagaste. O cliente não foi nem um pouco cuidadoso com ela.Como é que foi? .Não sabia que vocês tiravam folgas durante a semana.Ele foi muito bruto contigo? . as pernas. não era essa a sua intenção.Não é nada disso! Só não estava à espera de te encontrar aqui. Lavou os cabelos com o Shampoo que trouxe de casa. .Hoje não vais trabalhar? .És servida!? .O. Depois disso.

.E achas que esse não é um emprego a sério – riram-se as duas enquanto Sara terminava de se vestir em frente à cama.És curiosa.O que é que fizeste? . e se queres que te diga. Não pago rendimentos mínimos a ninguém… .Na hora H não tive coragem.Mas o quê?! .…sim.ela pareceu hesitar.Nunca tiveste um emprego a sério? .Que pergunta?! . Percebeu também que por mais magistral que tivesse sido a sua desculpa para fugir à questão Sara não se deu por vencida.Se nunca tiveste um emprego a sério? A miúda é esperta. . e deu-me um pontapé no rabo.Pelo menos essa é uma das vantagens de se ser puta – respondeu Milene bebendo um gole de cerveja pelo gargalo da garrafa. .Uma filha – emendou Milene largando a sua cerveja sobre a mesinha. Milene percebeu isso em poucos minutos.Se não quiseres não contes – respondeu Sara sentando-se numa das pontas da cama quando terminou de se vestir. . . – Foste despedida? .…já – respondeu ela após um longo silêncio. acobardei-me! Tive medo de morrer. até estava disposta a fazer a porcaria do aborto só para me livrar da criança.Não respondeste à minha pergunta. de ficar doente sem ter ninguém que cuidasse de mim e tive medo de perder a minha filha. . . Eu aceitei o cheque claro.Porquê?! . Sei lá.Num restaurante lá para os lados de Odivelas.Fui despedida porque fiquei grávida. . .Eu.Trabalhaste no quê? . o quê? . hã?! .Foste despedida só por causa disso? .E tu? . . Mas… . até porque ela também trabalhava no restaurante. – Queres um emprego mais cansativo do que estar deitada numa cama de pernas abertas à espera que o teu cliente se venha? Isto quando não é de pé num beco qualquer! A sorte é que a maioria não se aguenta mais do que vinte minutos.O filho da mãe do meu patrão despediu-me quando descobriu que a miúda era dele. Não quis que a mulher soubesse. – Até me deu dinheiro para isso desde que desaparecesse e nunca mais me pusesse a vista em cima. .Aonde é que ela está? 87 . – Tu é que fazes os teus próprios horários! Não tens nenhum patrão chato para te dar ordens e também não tens que descontar para a segurança social..E porque é que saíste de lá? Uma outra hesitação foi a resposta oferecida por Milene.Tiveste um filho? .Ele queria que eu fizesse um aborto – respondeu Milene continuando a devorar o almoço improvisado. .

. – A sério! É toda espevitada. – Mas para ela desde que mande dinheiro todos meses para me tomar conta da miúda.Ai é!? Muito bom ouvir isso.Fora de Lisboa!? . .Ainda bem – riram-se baixinho.Estive com umas amigas – mentiu a jovem. .Olá Sara – disse Sérgio lançando-lhe um breve aceno. .Se for convidado. mas ainda assim parecia que um batalhão lhe tinha caído em cima. tem mania que sabe tudo e anda sempre a ver se me consegue sacar as roupas e os sapatos.Tu não precisas ser convidado – afirmou Madalena mostrando-lhe um doce sorriso.A tua mãe sabe que tu és… .A adolescência passa. eu acho! Mas com a Sara tudo é imprevisível. . . Nunca sei o que ela está a pensar. . E não era só isso. – Então?! Ficas para jantar? .Não demores muito a descer. – Tudo bem? .…e em breve também vais poder dormir cá.No teu quarto? . 88 . A miúda é a minha cara… – riram-se.Que coisa? . vou subir para o meu quarto. mas não de uma boa forma.Sim! No meu quarto.Sabe – interrompeu Milene não escondendo a voz amarga. ser espancada ou parar à prisão. – Já és cá de casa. .Em passarmos um fim-de-semana fora de Lisboa. .Aonde é que te meteste? – interrogou Madalena assim que ela entrou na sala e se deparou com a figura sempre exasperante do namorado da mãe. Sara lançou um suspiro e quase que desejou cair no corredor de tão cansada que estava.No Porto com a minha mãe! Chama-se Daniela e tem seis anos. . Só tinha atendido um cliente.Eu não tenho fome. mas o que importa é o dinheirinho sempre conta no primeiro dia do mês. quer lá saber! Posso morrer com Sida. . . Quando regressou a casa após uma tarde inteira passada no Intendente. . O jantar já está pronto. estive a pensar numa coisa… . – Sabes. o que vai fazer…! Enfim! É uma autêntica caixinha de surpresas. . Era também a sensação de que o cheiro dele estava entranhado na sua pele. . sabias?! .Sim! Queria levar-te a conhecer o meu avô ao Alentejo.Falaste-lhe sobre mim? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa.Mas também não vais dormir sem comer – respondeu Madalena vendo a filha a desaparecer da sala sem sequer olhar para trás ou responder à sua ordem.Tudo! Bem. . .Bem. a sensação de que tinha feito algo de mal embora não soubesse bem o quê e.Mal posso esperar por isso – respondeu Sérgio beijando-lhe os lábios.Como é que ela se está a portar nesses dias? – perguntou Sérgio após o longo suspiro lançado pela namorada. por fim. . a estúpida sensação de querer repetir aquela experiência assim que possível. Lembraste quando te disse que um dia te iria apresentar a ele? Pois então! O senhor Luís quer conhecer-te.

– No Alentejo… . E vai ser divertido! Vou-te ensinar a pescar.Durante o fim-de-semana todo? . . não porque Madalena não fosse uma mulher bonita e interessante. vamos fazer grandes passeios. marido ou até mesmo com o teu pai!? . . – Estás aí?! .Eu adoraria conhecer o teu avô..Exactamente! Queres coisa melhor? .Não – riu-se ela. continuava a radiar uma beleza igual ou superior à de muitas mulheres de vinte.Várias vezes. Ouviu as explicações de Madalena. Apesar da relutância inicial. – E quando é que íriamos? . .São só dois dias – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos lisos.Porque é que não deixas a Sara e o Daniel com o teu ex.Um fim-de-semana – suspirou Madalena sentindo-se bastante tentada a aceitar aquele convite tão aliciante.Na sexta-feira à noite e voltávamos no Domingo. tu sabes disso! Mas o problema são os meus filhos. – No domingo à noite já estamos de volta. muito pelo contrário. ajudar o meu avô no pomar que ele tem.Na sexta-feira só se for depois das seis e meia. Jorge aceitou tomar conta dos filhos durante o fim-de-semana. tinha sido a humilhação máxima ser presa por um crime cometido pelo marido e por ele nem sequer se ter dignado a comparecer à polícia enviando apenas um outro advogado com as instruções exactas para que não o comprometesse. Foi um milagre de facto.Então podes vir buscar os miúdos este fim-de-semana? . – Vais ver! O nosso fim-de-semana vai ser inesquecível. apanhar ar puro. o dinheiro extraviado de uma empresa de telecomunicações foi devolvido ao Estado. Não posso ausentar-me durante um fim-de-semana inteiro. Tinha sido a gota de água. E enquanto falava com ela ao telefone. .Então eu vou falar com o Jorge amanhã.É claro que ele fica – respondeu Sérgio oferecendo-lhe um outro beijo.Eu também acho – concordou Madalena deixando-se levar pelos braços dele em direcção à cozinha. Vamos ver se ele me consegue ficar com os miúdos. mulher havia encontrado alguém que se interessasse por ela.Hã… estou – respondeu Jorge voltando ao planeta terra quando ouviu a voz no outro lado da linha. Jorge lembrou-se de todas estas características que durante anos lhe passaram despercebidas. desde que te conheci que não lhe tenho falado sobre outra coisa. foi um choque o pedido de divórcio que Madalena fez questão de lançar em tribunal e um choque também encontrar as suas malas à porta de casa quando estava certo que ela o perdoaria por ter passado uma noite inteirinha na prisão. . Depois disso. Na verdade. pois apesar de já ter chegado aos quarenta. mordeu o lábio inferior quando ela confessou que iria passar dois dias no Alentejo na companhia do namorado e tentou igualmente esconder os ciúmes que sentiu quando percebeu que a ex. . Então?! O que é que me dizes? . Madalena livrou-se das acusações e pediu igualmente o divórcio ao marido com a clara certeza que nunca mais o voltaria ver com os mesmos olhos. aliás. Mas a verdade é que Madalena não perdoou. 89 .

.Mãe.Se calhar era melhor – respondeu Madalena descendo os estores da janela. E de facto. . A mochila estava pronta e o casaco sobre a cama. . . Ouve-se boa música. o pai não vem? – foi a pergunta de Daniel quando entrou na sala com cara de poucos amigos .Se for contigo tenho a certeza que ninguém vai desconfiar que eu ainda não tenho dezoito anos. Tudo estava combinado. temos bebidas de graça e os clientes são um pouco mais civilizados que os de cá.Ele chega sempre atrasado. Para isso. o que as unia era uma relação estritamente profissional. querido! Tem só mais um pouco de paciência. – A minha mãe vai viajar este fim-desemana… . . esses momentos iriam ser muitos. mas com uma enorme vontade de voltar. onde é que a tua irmã se meteu? Ela já arrumou as coisas dela? . ela tinha certeza. – Queres que comece já a levar as coisas para o carro? – perguntou Sérgio arrastando as malas em direcção ao corredor.Deve estar quase a chegar.Daí que estava a pensar em passar hoje à noite pelo bairro. Não há problema – disse Madalena observando os movimentos dos seus clientes na floricultura. Depois disso. entregava o dinheiro ganho e abandonava o quarto da pensão sentindo-se imunda. – Tenho uma festa para ir. .Hoje não vai dar – respondeu Milene observando com atenção o movimento dos carros não fosse um deles parar com um cliente lá dentro. – Vou ficar com o meu pai.começou ela por dizer a Milene.E daí? .Não sei – respondeu Daniel sentando-se no sofá de braços cruzados. . mas ele é muito mais liberal que ela. Achas que me consegues arranjar algum cliente? . alguns objectos pessoais e uma máquina fotográfica com a qual pretendia fotografar todas os momentos especiais da viagem. – Leva-me a essa festa! 90 . calmaria e tranquilidade que a região do Alentejo oferecia aos seus visitantes. A prostituta arranjava-lhe clientes e ela satisfazia as suas vontades sexuais quase diárias. – Está trancada no quarto. . decidido e tratado. .Escuta.Festa?! Que festa? .Nada de especial.Tudo bem. Ou será que não seria demasiado precipitado chamá-la de amiga? Na verdade. . É só uma festa que costumam organizar num clube de streap lá para os lados do Bairro Alto. Madalena e Sérgio iriam passar dois dias na pequena vivenda do avô dele e aproveitar toda a paz. Então?! Leva-me contigo! Prometo que não te vou atrapalhar.Estás louca – riu-se Milene com uma gargalhada seca.Vá lá – pediu Sara encarecidamente. Ouviste o que o gajo disse no outro dia? Que eu pareço muito mais velha do que sou. mas ainda assim Sara encontrou tempo para telefonar à sua nova amiga Milene. – Fico à tua espera então. . ela arrumou uma pequena mala assim que chegou a casa e enfiou no seu interior apenas roupas práticas.Não me podes levar a essa festa? . – Não tens idade para lá entrar. Todas as semanas vamos lá à cata de algum ricalhaço que esteja disposto a pagar bem.Tu já me atrapalhas.

as malas foram colocadas a um canto do corredor. Porque é que não haveria de gostar – respondeu ela seguindo-lhe os passos em direcção à porta principal enquanto o seu coração voltava a bater mais forte e Sérgio se esfalfava para encontrar as chaves que guardara no bolso do casaco. A viagem ao Alentejo correu sem quaisquer sobressaltos e só terminou perto da meia-noite quando Sérgio estacionou o carro em frente a uma pequena moradia pintada de azul e branco. mas eu também tenho compromissos e também trabalho tanto quanto tu – respondeu Madalena fechando a porta enquanto os dois homens se fitavam vorazmente. Aliás. Não era uma casa muito grande ou luxuosa. na altura. e depois disso. enquanto a poucos metros.Os miúdos!? . Não foi preciso muito esforço para perceber quem ele era. O tempo estava ameno. – Será que ele vai gostar de mim? . Não parecia muito simpático. – Vamos entrar? – perguntou Sérgio levantando do chão as malas que trouxeram de Lisboa. ao ver-se diante dela. – Boa tarde – disse Jorge com uma cara de poucos amigos. O fim-de-semana iria ser especial e ele pôde ter essa certeza quando tornou a fechar o porta-bagagem sob o olhar atento de um homem de estatura elevada. Porque é que não haveria de gostar? . .Sei que estás louca para o teu fim-de-semana.Eu sei que tens compromissos e que trabalhas.Então eu vou chamá-los porque não me quero demorar muito por estas bandas. . . ouviu-se o barulho de uma 91 . a porta abriu-se sem muito esforço. marido de Madalena.Meu Deus – riu-se Madalena. .É claro que vai. Sérgio sorriu. mas ainda assim. força de vontade era tudo o que não lhe faltava. especialmente quando sabia bem que aquela seria uma das oportunidades raríssimas para ter Madalena só para si durante dois dias.As malas da viagem foram colocadas no porta-bagagem do carro e para isso Sérgio precisou apenas de dois braços e alguma força de vontade. as árvores não evidenciavam qualquer sinal de que estavam a ser levadas pelo vento e as estrelas no céu fizeram os seus olhos brilhar de alegria e emoção. . isso era um facto. as parecenças com Daniel e Sara fizeram-no antever que era o pai deles e consequentemente o ex. encontrou o casaco de Madalena e pendurou-o no bengaleiro atrás da porta. sem filhos.Não! Ele está à nossa espera.Já estão prontos à tua espera.Tens razão. – Boa tarde – respondeu Sérgio observando-lhe a entrada pelos portões da casa. na sala.Será que o teu avô já não dormiu? . mas também era compreensível que não fosse tendo em conta aquele encontro no mínimo constrangedor em frente a uma casa que um dia também foi sua. – Até que enfim chegaste – disse Madalena abrindo a porta ao ex. Madalena não conseguiu evitar o sorriso que lhe atravessou o rosto e a sensação de que tinha acabado de chegar ao paraíso. olhos claros e cabelos castanhos. mas também tens que compreender que eu tenho compromissos e que trabalho… – respondeu Jorge não conseguindo esconder os seus ciúmes quando Sérgio também entrou pelo corredor adentro. sem o stress de uma cidade tão agitada e barulhenta como Lisboa e também sem olhar para o relógio. Por sorte. marido. pois apesar de nunca se terem cruzado antes. Não viste que a luz da sala continua acesa? .

Eram muito unidos. – Não precisavas ter medo de nada. .Muito prazer.Nem tanto – respondeu Sérgio largando o casaco de cabedal sobre o sofá enquanto Madalena tentava dissecar discretamente toda a decoração existente naquelas quatro paredes. não?! – adiantou-se Luís levando os seus convidados em direcção à sala. .O teu avô é muito simpático.Vai-me jogar esse facto à cara para o resto da minha vida – respondeu Sérgio voltando-se para Madalena com uma felicidade que não passava despercebida a ninguém. algo que a deixou deveras surpresa. ao contrário do que ela estava à espera. este é o meu avô! O grande senhor Luís Restelo.O que é que eu te disse? – indagou Sérgio envolvendo os braços à volta da cintura de Madalena. os pequenos barquinhos de madeira sobre as estantes.Queres um chá. homem – exclamou uma voz grossa irrompendo o corredor.Bem. Ao ouvi-la. foi a primeira impressão de Madalena quando lhes ouviu as risadas e se sentiu um verdadeiro peixe fora de água à espera de ser salvo da morte certa. Contudo.Claro! Claro que falou bem.Também era o que mais faltava depois de te ter trocado as fraldas desde que nasceste. . . mas sim com um inesperado abraço. Adorou os móveis velhos clássicos.Bem …eu também estava muito ansiosa para o conhecer! O Sérgio falou-me imenso a seu respeito – respondeu Madalena retirando a expressão esbugalhada dos olhos.pequena cadeira de descanso guinchar ruidosamente. – Vô. mas vocês devem estar cansados da viagem. Se ele não tivesse gostado de ti. .Falou bem. . E prova disso era os dois porta-retratos que ele fazia questão de manter sobre a mesinha junto à janela.Achas que ia falar mal de ti. .Quero – respondeu ela à pergunta de Sérgio e Luís com um largo sorriso. Não havia dúvida de que aquela casa era habitada por um homem ligado ao passado e às recordações de uma vida que nem sempre teve momentos felizes. – Madalena. vô? – interferiu Sérgio poisando-lhe a mão sobre o ombro. – Não querem beber um chá? – perguntou ele interceptando os olhares perdidos de Madalena. 92 . . Adorou. . agradecia. esta é a Madalena! A pessoa de quem tanto te falei – fez Sérgio as apresentações. o cumprimento de Luís não veio com um aperto de mão. .Já estava a ver que nunca mais a conhecia – exclamou ele. Era como se ela estivesse à espera do momento exacto para o fazer e como se encontrasse a paciência necessária para não o ter feito antes. – Até que enfim. a mãe de Sérgio. espero?! . . . .Ainda bem que não jogou – riram-se baixinho. Uma da sua falecida mulher e outra da sua falecida filha. um quadro pintado a óleo e as centenas de livros amontoados a um canto da sala. Sérgio abriu um largo sorriso e rapidamente se apressou a cumprimentar o avô oferecendo-lhe um longo abraço e também um beijo na face. .Então vou pôr a chaleira no lume! Já venho – disse o dono da casa desaparecendo da sala. com certeza já te teria jogado esse facto à cara. senhor Luís – disse ela estendendo-lhe a mão com um largo sorriso enquanto desejava que ele não a deixasse ali especada. – Aliás. . amor?! .Estou muito contente que estejas aqui comigo.

Dezasseis – respondeu Sara. de todos… . . Milene não a deixou esperar em demasia naquela rua deserta e ventosa. – Ela também vai connosco. Se a bófia faz uma rusga por lá estás lixada e eu também..Boa – riu-se uma das prostitutas. nunca imaginou que aquele estabelecimento sempre fechado durante o dia tratava-se de um clube de streap frequentado à noite por pessoas das mais variadas raças e estratos sociais. – Mais uma para a concorrência. – Olha quem é ele – exclamou Milene abrindo um sorriso radiante quando um homem se aproximou de si a surpreendeu um longo abraço.Mesmo assim – disse Milene que de todas era a que mais jogava pelo seguro.Eu também – confessou Madalena encontrando-lhe os lábios no meio daquela sala desprovida de quaisquer luxos desnecessários. Mas nem a promessa de uma possível tempestade impediu Sara de sair do quarto e fechar a porta com cuidado para que o pai e o irmão mais novo não se apercebessem dos seus planos mais secretos.Isto se lhe pedirem – interferiu uma das prostitutas. passou-lhe essa pergunta pela cabeça enquanto lançava os olhos ao relógio de pulso via que nele estavam marcadas doze horas e cinquenta e nove minutos. meias de renda pretas e um casaco que lhe cobria o corpo todo. – Quantos anos é que ela tem? . o céu tornou-se carregado e cheio de nuvens. esta aqui é a Sara – fez ela as apresentações. Ao contrário das estrelas no céu que o Alentejo apresentou. O clube situava-se numa das ruas mais recônditas do Bairro Alto. – Se te pedirem o BI. vindo acompanhada por mais duas colegas de profissão visivelmente embriagadas. naquela noite. – Eu também estou muito contente de estar aqui contigo. longe de tudo.Longe dos problemas.Para quê? – perguntou Sara compondo os cabelos soltos. . Apanhou o último metro da noite e em pouco tempo viu-se no local onde havia combinado encontrar-se com Milene.Trouxe-te um BI falso – disse Milene retirando da mala um cartão com a fotografia e o nome de uma mulher de vinte e um anos. Será que ela vem. animados pela noite e também pela música barulhenta que se fazia ouvir no interior do edifício. . A fila de espera para entrar estendia-se para lá dos dez metros e quase todos os clientes aguardavam a sua vez. Trajada com uma mini-saia.Ainda perguntas!? Com a tua idade não estás autorizada a entrar em clubes de streap.k – respondeu Sara aceitando a identificação com alguma cautela. e mesmo Sara tendo passado por aquela zona umas milhares de vezes.Também – riram-se eles ainda com os lábios colados no outro.O. em Lisboa. Quanto aos porteiros tens que ter cuidado quando eles te pedirem o BI… . . – Meninas.Só?! E já tens esse corpo? . . mostras sempre com um dos dedos sobre a fotografia e passas rápido para que eles não fiquem a olhar muito tempo para o cartão. . . – Desaparecido! 93 . querida. muitas vezes acompanhada pelo pai ou pela mãe. ela encontrou as chaves e saiu com o único intuito de passar uma noite completamente diferente a todas que havia passado até então. Mas por sorte.

94 .Há quanto tempo andas nisto? – foi pergunta de Marco quando acendeu o terceiro cigarro da noite.A bófia é uma seca. . Depois disso.Então venham comigo. .Uma… amiga – respondeu Milene hesitante. o cheiro a mofo das almofadas e a presença de uma arma de fogo sobre a mesinha de cabeceira. este é o Marco. – Agora ando mais lá para os lados do Algarve a tratar dos meus negócios.Não sei – respondeu ela com um longo suspiro. Marco era um jovem mulato. como caso de Marco. Sara deixou-se levar pelos braços de Marco quando ele a levou para um canto recôndito.Tenho um sítio perfeito para nós. tudo o resto deixou de importar. – Estão na fila para entrar? – perguntou ele. . . Pago bem! Vamos?! .Avisaram-me para nunca aceitar encontros em locais que não conheço. todos os clientes conseguiram entrar no clube e o divertimento tornou-se ainda maior. algo perfeitamente compreensível para um homem de vinte e sete anos que passara a maior parte da adolescência em bairros degradados e em esquemas criminosos longe do conhecimento da polícia. nada menos. inclusive a chuva a cair no tejadilho da janela. especialmente se fosse bonito. – És muito bonita – segredou-lhe Marco aos ouvidos.. . – Obrigada. . mercadorias essas que eram nada mais. . – És nova por aqui? . Só vim buscar as minhas mercadorias e vou-me embora no domingo que é quando as estradas estão mais vazias. E ela respondeu dizendo. Nunca a tinha visto. musculado e que trazia consigo uma confiança que poucos homens brancos possuíam. para além de fisicamente também o ter agradado bastante.Mais ou menos – respondeu Sara tentando esconder a timidez que sentia cada vez que um homem se aproximava de si. mas sim como uma mulher que encontrara o verdadeiro prazer nos braços de um traficante de droga.Sabes como é que é – respondeu ele rasgando alguns olhares curiosos a Sara. por isso era natural que quisesse saber quem era. que pequenas doses de cocaína. – Não confias?! . alguns apalpões habituais em cada esquina do clube e a sensação de que a pouco e pouco ambos se estavam a envolver. seguiram-se vários beijos. que Sara se entregou a ele pela primeira vez não sentindo de maneira nenhuma que o estava a fazer como prostituta. A pista encheu-se de pessoas. . naquele quarto minúsculo. não é – riu-se Milene enquanto levava uma garrafa de whisky à boca. .Não confias em mim? A pergunta de Marco tomou Sara de assalto.E esta rapariga quem é? – perguntou o desconhecido não escondendo a sua curiosidade por Sara. a música tornou-se cada vez mais barulhenta. Foi ali. Ponho-vos lá dentro num instante! Em pouco mais de uma hora. Demonstrava também não ter medo de nada. Mas quando ele as atirou ao chão e deitou Sara sobre a cama.Para onde? – perguntou ela apreensivamente. . .Olá – disse ele cumprimentando-a na face. pastilhas ecstasy e haxixe. .Estamos – respondeu uma das prostitutas que acompanhava Milene. – É a Sara! Sara.Vem comigo! Foram precisos apenas trinta minutos para que Marco retirasse as roupas de Sara num dos muitos quartos em que guardava as suas mercadorias para serem levadas ao Algarve.Se quiseres posso ser o teu cliente. e pela primeira vez.

. mas que na verdade não se arrependeu nem um pouco. até porque ele não sabia até que ponto ela tinha levado aquela noite em consideração. .Não sei! Nunca fumei. algo que o fez hesitar e cometer uma das maiores loucuras da sua vida – Vou-te dar o meu número.Porquê!? .Para quê!? .Então?! Para saber. – Pronto! Já estás entregue – exclamou ele desligando o motor do carro assim que o estacionou em frente ao prédio que Sara lhe indicara. Sara era diferente de todas as outras. – Eles são separados. A cozinha cheirava a café quando Sérgio e Madalena entraram nela de mãos dadas e com um sorriso rasgado no rosto.Só entrei para experimentar. era doce. do pai. Só venho de vez em quando. Talvez por culpa da mãe. – A isso é que se chama ter amor à profissão.E porque é que entraste na vida? Os teus pais expulsaram-te de casa? .Só comecei na semana passada! A Milene arranjou-me os primeiros clientes.E eu dou-te o meu… – adiantou-se Sara. .Eu não vejo isto como uma profissão. senão troco logo a porcaria do número. .Mas não me ligues a toda a hora. . De facto. Sexo entre um cliente e uma profissional e nada mais. Gosto de estar com homens e só penso nisso a toda a hora.Eu não moro cá em Lisboa. . Mas raios. Na escola.Então quer dizer que és prostituta porque gostas. .. Quando vieres. Se já tinha experimentado coisas tão bizarras como fazer sexo com desconhecidos em troca de dinheiro. ou talvez até mesmo por culpa sua. Por sorte. mas ela nunca se atreveu a cometer tal acto. É bom para relaxar.Podes deixar. Havia algo nela e naqueles olhos inocentes.Vais gostar. . – Gosto de fazer sexo. mas eu moro com a minha mãe. Apesar de alguma hesitação. .Não – respondeu Sara.Então não estou a perceber porque é que… . bonita e trazia nos olhos a inocência de uma menina que infelizmente se tinha perdido na vida. tinham dormido maravilhosamente bem no quarto de hóspedes preparado por Luís e mal esperavam para começar o dia com um longo 95 .Vou voltar a ver-te? – perguntou ela desfazendo-se do cinto de segurança. . Um favor que pela primeira vez fez a uma prostituta. procura-me… O sorriso de Sara trouxe algumas hesitações a Marco. .Queres uma passa? – perguntou Marco mostrando-lhe o cigarro que tinha em punho. várias amigas suas já fumavam. Mas sim. . .Porque quero. Tinha sido só sexo.Bem – riram-se os dois. qual era o mal de fumar uma passa? Quando os primeiros vestígios do dia começaram a surgir. . . Sara aceitou o cigarro das mãos de Marco e levou-o à boca ansiando experimentar pela primeira vez qual era a sensação de fumar.Mesmo assim. Marco levou Sara a casa. Queria saber como é que era! . É isso? .Toma – afirmou Marco oferecendo-lhe um papel rasgado e também um beijo na boca. .Mais ou menos – respondeu ela observando-lhe a expressão surpresa. Tinha um ar mil vezes mais angelical.

garanto-te – respondeu ele. . . Faltava cheirar a terra molhada. desde frutas a produtos artesanais. Madalena riu-se alegremente. agradeceu a gentileza e sentou-se à mesa perguntando em seguida ao dono da casa se este precisava de ajuda. depois passear pelo parque e quem sabe se o tempo ajudar terminamos o passeio no lago. e faltava-lhe também sonhar em um dia terminar os seus dias num lugar assim. Madalena? . o mercado repleto de feirantes que vendiam de tudo um pouco. Leva-nos os pensamentos para longe e faz-nos pensar nas coisas com mais clareza… O passeio pela vila tomou-lhes toda a manhã. – Apesar de tudo ainda têm o dia de amanhã. Faltava aventurar-se pelas ruelas estreitas. – Para mim um hóspede é sagrado.Sim. Ansiavam também conhecer todos os cantos turísticos e passar um dia no mínimo agradável sem olhar para os ponteiros do relógio. e enquanto visitavam os locais onde Sérgio havia passado grande parte da sua infância. .Estavas certo quando disseste que os dois se pareciam imenso – respondeu ela. especialmente uma hóspede tão bonita como você. . . sem se importarem com o trabalho e muito menos com o facto de serem obrigados a voltar a Lisboa no dia seguinte.Aposto que não vou ter mais trabalho do que tive aqui com o meu neto. . . – E dizes tu que o teu pai parece uma criança de oito anos. com um sorriso.Um pouco tarde.Eu também quero cá vir muitas vezes. – Muita fome. mas amanhã queria que ensinasses a Lena a pescar. admirar as pessoas à sua volta que ao contrário das que moravam em Lisboa caminhavam sem pressa de chegar a algum lugar e com a certeza que o mundo não acabaria no dia seguinte.Não muita! Confesso que de manhã não costumo comer muito.Eu?! – indagou ela voltando-se para Sérgio – Pescar? . Faltava conhecer a igreja da região trabalhada em arte barroca. – …espero que voltes comigo aqui outra vez – disse Sérgio quando as suas taças se tocaram sobre a mesa à hora do almoço.Vais gostar. mas acho que vai ter um grande trabalhão comigo – disse Madalena arrancando uma risada geral. absorver a beleza das casas caiadas. .Pois vais ter que comer – interrompeu Sérgio entregando-lhe o café em mãos. nem pensar – respondeu ele.Bem. . mas acordámos – respondeu Sérgio arrastando uma cadeira a Madalena.passeio pela vila. 96 . Esta.Acordaram? – foi a primeira pergunta de Luís assim que entraram na cozinha.Aonde é que vão? .Vou tentar levar isso como um elogio – disse Luís levando o pão fresco à mesa. – E o meu avô é um grande professor. muitas delas pintadas com cores alegres e suaves. . Já viste bem o meu avô? – interferiu Sérgio servindo dois cafés em frente à bancada. Além de que a pesca é uma boa forma de relaxamento. rapidamente percebeu que lhe faltava conhecer tanta coisa em apenas um fim-de-semana relâmpago. . Ela que se considerava uma portuguesa de gema e conhecedora de quase todas as cidades de Portugal. . Madalena não se escusou a tirar inúmeras fotografias para registar uma das viagens mais interessantes que fizera pelo país.Vamos visitar o centro da vila. – Hoje temos um longo passeio pela frente.Não se matem hoje – respondeu Luís servindo-se do chá de ervas que costumava beber todas as manhãs. – Não. eu não quero desapontá-lo senhor Luís.

. .Tu sabes que eu nunca faria isso. Para mim. mas… . . eles já gostam de mim tal como eu também gosto deles. e durante vários minutos apenas se ouviram o barulho das conversas dos clientes que se encontravam igualmente a almoçar duas mesas atrás. poluição. E esse facto é de que daqui a uns anos tu vais querer ter os teus próprios filhos e eu não tos vou poder dar.No máximo teria idade para ser a filha dele.Como assim?! . – Nós vamos ficar juntos para sempre. Sérgio! Eu só estou a constatar um facto.E será que até lá ainda vamos estar juntos? . . problemas… . ele desviou o olhar e assim a refeição terminou com um sabor amargo de derrota. . E quanto ao Daniel e ao teu pai. – Estás a gozar.Não é nada disso. mas… . por exemplo? . – Daqui a alguns anos.O quê. .Sérgio. não é?! – indagou Sérgio largando-lhe a mão. a minha floricultura… enfim! Tenho tudo.Sérgio. eu tenho a minha vida toda em Lisboa. . casados e não nos restar absolutamente mais nada para fazer em Lisboa.Porquê!? Não gostavas de morar num local onde não existe hora de ponta.. eu também te amo muito.Mas eu não estou a dizer para nos mudarmos agora – adiantou-se ele. o silêncio apoderou-se da mesa onde Madalena e Sérgio estavam sentados. – Não vamos estragar 97 .O meu avô também te considera uma neta.Filhos – respondeu ela sem desviar os olhos dele. vocês já são todos da minha família. Por mais que eu queira. – Mais uma vez estás a falar da nossa diferença de idades. . mas isso é uma questão de tempo até eu conseguir conquistar a confiança dela.Mas pensarias e só isso já me faria sentir mal.Mas o quê? .Queria muito acreditar nisso.Mas nós já somos uma família – interrompeu Sérgio encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. eu sei que me amas. não?! . não tos vou poder dar e tu vais acabar por me jogar esse facto à cara.Então é isso. – Uma família… .É claro que vamos – respondeu Sérgio com uma expressão séria. mas… existem coisas que um dia vais querer e eu não te vou poder dar. Durante vários minutos. – Quer dizer. stress. Ela olhou-o.Não estás a perceber. Tenho os meus filhos. por mais que eu tente. .O quê?! . .Quero que venhas morar comigo aqui nesta vila. Madalena riu-se. quando os teus filhos estiverem crescidos.Eu sei. eu sei que a Sara não vai lá muito com a minha cara. .Mas também quero manter os pés no chão – respondeu Madalena poisando a sua taça de vinho sobre a mesa. .

na cozinha. passou essa certeza pela cabeça de Sérgio quando a viu sorrir para si. Aposto que histórias em comum não vos iriam faltar.Quero mostrar-te o lago onde costumava brincar quando era criança. . Madalena percebeu todas as razões que fizeram Sérgio levá-la àquele lago. o tempo ameno permitiu que a refeição fosse servida sem quaisquer atrasos.Não te queria chatear. quando ao retirar as roupas atirou-se para a água e sentiu-se a mergulhar até a um metro e meio de profundidade. mas também era a primeira vez que tinha a oportunidade de se atirar de cabeça ao desconhecido sem pensar nas consequências que esse acto poderia acarretar. Luís adorou a simplicidade de Madalena. Nasci aqui. Ele era belo. – Acredite que teria muito gosto em recebê-lo na minha casa e assim você até poderia conhecer o meu pai. Fica a poucos minutos se formos de carro. – Nem por isso! Está óptima – respondeu Sérgio. – A água está a ficar fria – riu-se Madalena. cresci também e não iria saber mexer-me noutro sítio. – Estava a ser tão bom. Em poucos minutos. Por sorte. Desculpa! Infelizmente Sérgio foi obrigado a fazê-lo.Não! Nunca tal ideia me passou pela cabeça. o avô de Sérgio não poderia ter ficado mais contente com o elogio da namorada do seu neto. – Está bem. lembraste? . ela pôde ter essa certeza quando lhe encarou o rosto depois de o ter pertencido sem quaisquer restrições. E nem mesmo o facto de saber que ela era mais velha que Sérgio conseguiu diminuir a admiração que sentiu ao conhecê-la pessoalmente. a sua beleza e a candura que o seu sorriso transparecia a quilómetros de distância. E ela era a mulher da sua vida.E porque é que me queres levar a esse lago? . o sol voltou a brilhar quando as nuvens desapareceram do horizonte e os corpos dos dois amantes conjugaram-se na perfeição. . radiante.Quem sabe um dia não faço isso. Sim.Quando lá chegarmos vais perceber.O que é que vamos fazer agora? . – Nunca pensou em morar noutro local que não aqui? – perguntou Madalena voltando-se para o dono da casa. O barulho dos pássaros deixou de ser ouvido. Está uma delícia. voltou novamente à superfície e encontrou nos braços de Sérgio o conforto perfeito para se apoiar. Sérgio e Madalena regressaram a casa e encontraram à sua espera o cherne grelhado na brasa preparado por Luís Restelo. O mundo parou.Isto é um sonho – respondeu ele sugando-lhe os lábios no interior de um lago onde havia passado a maior parte da sua adolescência. enquanto mais tarde. . Era a primeira vez que cometia uma loucura na sua vida. . foi o elogio que Luís ouviu de Madalena quando ela degustou a primeira garfada do cherne acompanhada de um gole de vinho. . E de facto.o nosso dia – pediu Madalena voltando a encontrar-lhe a mão sobre a mesa. . 98 . Madalena se encarregou de fazer a salada e de retirar as loiças dos armários. Depois disso. . ele montou uma mesa improvisada no jardim das traseiras.Quem sabe um dia não nos vai visitar a Lisboa – disse ela. Algumas horas mais tarde. – Isto parece um sonho – confessou ela.Tu é que estragaste. Além disso.

aí sim já poderíamos morrer felizes. amor… – exclamou Sérgio voltando-se para Madalena com um largo sorriso nos lábios.Que milagre?! . ele sentia-se muito mais leve e apto a aguentar uma vida repleta de percas e desgostos. cujo principal divertimento para ocupar as longas horas. Aquela felicidade que parece colar-se à nossa pele e não nos deixar um só segundo. A noite terminou em beleza com um poema lido por Luís. Mas apesar de tudo ele sabia ainda lhe restava o neto.Conseguiste que o meu avô prometesse uma ida a Lisboa. E naquela noite em especial. meses e anos de solidão. Depois de a ver.. Foi para ver a felicidade estampada no rosto do neto. ainda lhe restava a única razão que o havia impedido de cometer suicídio quando à sua volta tudo pareceu ruir. . tais como a morte da sua mulher e da sua única filha. pela primeira vez Luís percebeu o porquê de ter conseguido arranjar forças para se manter vivo. dias. Depois disso. enquanto olhava para Sérgio e o via completamente embevecido por Madalena. . 99 .Não sejas exagerado – defendeu-se Luís encabulado com os risos dos seus convidados. era sem dúvida a leitura e a escrita de vários sentimentos que guardava dentro de si.Bem! Já conseguiste um milagre.

marido sobre o alpendre. fez-se um silêncio ensurdecedor no corredor. Depois disso. Percebeu também que tinha cometido um grande erro ao destruir casamento de dezasseis anos. Levei-te à casa de férias de um amigo meu e passámos quarenta e oito horas no quarto a … bem.Desculpa. – Mas não se demorem porque senão o jantar arrefece. . .Há quanto tempo tu e esse rapaz estão a namorar? . lembraste!? O primeiro que passámos juntos quando começámos a namorar. foi o melhor fim-desemana que já tive até hoje. .Duvido – respondeu ele surpreendendo-a com tal afirmação. onde ele adquiriu a certeza absoluta que Madalena nunca se iria conseguir refazer da separação e muito menos encontrar outro homem que se mostrasse interessado por ela. as portas dos quartos fecharam-se com estrondo e Madalena encontrou forças para voltar a encarar o rosto de Jorge.Foi bom. Jorge! O meu fim-de-semana foi realmente muito bom. Entrar ou não entrar? Enfrentar ou não Madalena e o novo namorado que ela tinha feito questão de lhe esfregar na cara semanas antes? Com certeza ambos já haviam regressado do maldito fimde-semana no Alentejo e com certeza que a felicidade estampada no rosto da ex. foi o que Jorge pensou quando estacionou o seu carro a poucos metros da casa da ex. mas eu realmente já não me consigo lembrar desse fim-de-semana – respondeu Madalena poisando as mãos na cintura.Daniel! Sara! Vão já lavar as mãos – gritou Madalena enquanto eles subiam as escadas a correr. . 100 . .Duvidas porquê?! . Depois disso. Após o divórcio. mulher.Porque o melhor fim-de-semana que tiveste até hoje foi comigo.Nós é que pensámos que viesses mais tarde – respondeu Jorge observando a entrada dos filhos pelo corredor adentro.Está bem – responderam os dois quase em uníssono. essa percepção estava a matá-lo por dentro.Foi bom!? Pela tua cara deve ter sido horrível.Em primeiro lugar o Sérgio não é um rapaz.Nada – respondeu ele enfiando as mãos nos bolsos das calças. Jorge começava a chegar à conclusão que as suas certezas foram infundadas e precipitadas. – Então?! Como é que foi o tal fim-de-semana romântico no Alentejo? . acompanhou os filhos em direcção ao portão principal e viu-se metido num enorme dilema interno. e que aos poucos e poucos. – Pensei que viessem mais cedo. . . .Não. aliás. .Até que enfim – foram as palavras de Madalena quando abriu a porta e se deparou com a figura dos filhos e do ex. .CAPÍTULO VI O fim-de-semana tinha chegado ao fim. mulher iria ser algo difícil de suportar. – O que foi? – perguntou ela ao vê-lo a olhar fixamente para si. tu sabes bem a fazer o quê! .

Quando é que achas que vamos voltar a ver o Marco? .Não. as roupas extravagantes e também a procura de clientes. excepto de Milene. o tempo e o espaço pareciam completamente alheios à decadência que ali se vivia.É alguma coisa séria? . .Acho que não – respondeu Milene apressando-se a vestir as cuecas. marido. raras foram as vezes que Sara colocou os pés no interior de uma sala de aulas.Ele não te contou qual é a cena dele no Algarve? . Frio.O. os seus novos amigos e vícios.Porquê?! . De certeza que deve estar a precisar de dinheiro.Que Marco?! . Era ali que ela não se sentia julgada. – Gripe! Mas sabes como é que a minha mãe é! Faz um bicho-de-sete-cabeças só para que eu vá ver a miúda. Ele disse que morava no Algarve. .Boa noite também para ti – respondeu Jorge afastando-se da porta sob o olhar atento da ex. . não recebia ordens e conselhos de ninguém e vivia conforme as suas vontades e desejos.Não – respondeu Sara apreensivamente. pois a sua vida.Fazer o quê? – perguntou Sara curiosamente. Nas semanas seguintes. . A resposta de Madalena não poderia ter sido mais cruel. passou a angariar cada vez mais clientes. E mesmo ele tendo pensado várias vezes em voltar-se para trás e encarar-lhe o rosto pela última vez. Era lá onde ela passava várias horas do dia e deambulava pelas ruas ao lado de Milene. por isso é um rapaz.Esse Marco?! Só podes estar a gozar. O Intendente.Porquê?! . enquanto do lado de fora do bairro.Claro – disse Madalena sustendo a porta com as mãos. . por acaso não me incomoda nem um pouco. não? Desse gajo quero mais é distância. mulher. era ali que Sara se sentia bem.Porque é algo que não te diz respeito. .k! Boa noite. Arlete e outras prostitutas do bairro. Muito pelo contrário. – Amanhã vou ao Porto – disse ela saindo da casa de banho enrolada numa toalha.Ele não é assim tão mais novo que eu. Mas por mais estranho que parecesse. . despertando a inveja de algumas das prostitutas mais experientes da zona. . .Vou ver a minha filha! A minha mãe ligou-me a dizer que a miúda estava doente. severo e sem a mínima margem de manobra para que ele continuasse a fazer-lhe mais perguntas. uma força oculta conseguiu levá-lo ao carro de costas voltadas. – Já percebi que esse assunto te incomoda. encontravam-se todos numa das zonas mais degradadas de Lisboa. Em pouco tempo.O.k – riu-se Jorge num tom sarcástico. .. cruel foi o olhar que ela lançou ao ex.É muito mais novo que tu. O que me incomoda é o facto de estar a falar sobre esse assunto contigo. senão nem sequer tinha ligado. 101 . a única que parecia nutrir um especial apreço por aquela jovem perdida na vida. Era habitual para quem passava por lá observar-lhes as gargalhadas. . . – Bem … eu já vou indo.O que esteve connosco naquela festa no Bairro Alto. – Só nos falámos duas vezes por telefone e foi assim meio rápido. . mas mais do que a resposta. talvez pela sua idade ou aparência física. .Telefono depois para saber dos miúdos.

- Ele é traficante de droga, querida! E não é um traficante qualquer. É um da pesada. Coisa para gente adulta, não sei se me entendes. - Como é que sabes?! - Toda a gente conhece a fama dele – respondeu Milene vestindo uma camisola de malha em frente ao espelho. – O gajo nunca foi flor que se cheire, mas meteu-se com gente errada e acabou por fugir para o Algarve quando lhe mataram o irmão no bairro onde ele morava. Acho que a bala era para ele, mas como era de noite, confundiram os dois irmãos e o mais novo é que acabou por morrer no lugar dele. - Que horror. - Por isso é que ele só vem a Lisboa de vez em quando, mas não pára muito tempo para não ser apanhado… Sara sentiu-se atordoada ao ouvir o discurso de Milene, mas pior ainda ficou quando percebeu que Marco não era o homem ideal para qualquer mulher. A sua vida, cheia de actos criminosos e outras histórias escabrosas por contar, não parecia de maneira nenhuma conjugar-se com a dela. Mas ainda assim, havia qualquer coisa que não a deixava esquecelo. O que seria? Ou melhor, seria normal? No fundo, Sara sabia que não, até porque há muito que a palavra normalidade tinha deixado de fazer parte do seu vocabulário. – Bem, deixa-me ir andando – interrompeu-lhe Milene os pensamentos. - Aonde é que vais? - Vou-me encontrar com um cliente no hotel Ritz. - Uau! Que chique – riram-se as duas. - O gajo é podre de rico, tens que ver! Conheci-o há dois anos numa festa e desde então nunca mais me largou. - É giro?! - Não muito – respondeu Milene escovando os cabelos molhados. – Tem quase idade para ser o meu pai, mas pelo menos é simpático, paga bem e trata-me como uma verdadeira rainha. Depois do serviço gosta de conversar sobre política. - Estás a gozar, não?! – riu-se Sara animadamente. - Que me dera, mas não! E logo eu que não percebo nada disso. Mas o gajo sabe tudo. Também é presidente de uma empresa multinacional e tem uma data de conhecimentos. Quando começa a divagar, eu só aceno com a cabeça que sim e finjo que o estou a ouvir. Acho que o gajo nem percebe que a minha única vontade é desaparecer de lá com o dinheiro na mão. Tal como todas as noites, o jantar foi servido às oito horas por Madalena, e o convidado especial encarregou-se de colocar a mesa sob o barulho ensurdecedor da televisão da cozinha. Era a terceira vez naquela semana que Sérgio privava da companhia da namorada e dos filhos dela, restando poucas dúvidas de que também ele já fazia parte da família. Aos poucos e poucos, a sua amizade com o pequeno Daniel e o pai de Madalena foi-se consolidando, mas o mesmo não se podia dizer de Sara, que ainda continuava a ver no namorado da mãe um verdadeiro alvo a abater. Na verdade, o desejo da jovem em vê-lo pelas costas era imperioso desde o terrível incidente em que ela lhe colocou os pés por debaixo da mesa. Foi um acto irreflectido, os dois sabiam-no bem, mas o clima continuava tenso sempre que se viam nos corredores da casa ou eram obrigados a privar de uma refeição familiar. Depois do jantar, normalmente
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quando todos se refugiavam na sala a ver televisão, os olhares que Sara lançava aos constantes carinhos trocados pelo futuro padrasto e pela sua mãe eram esmagadores e ditavam uma verdade irrefutável: Ela odiava ver-lhes a felicidade estampada no rosto. - O Sérgio vai dormir cá em casa hoje – avisou Madalena já perto do final da noite. - Vou-me deitar – disse Sara desaparecendo da sala com uma expressão aterradora. Desde essa noite, várias foram as vezes que o fotógrafo pernoitou em casa de Madalena. Normalmente aparecia à hora do jantar, após um dia cansativo a fotografar nos estúdios e trazia consigo pequenas guloseimas para os filhos da namorada. Além das guloseimas, foram também trazidas as primeiras mudas de roupa, a escova de dentes e outros objectos pessoais que faziam claramente antever a sua mudança. Não achas que é demasiado cedo, foi a pergunta de Alice à melhor amiga, e Madalena, sempre com um sorriso, respondia que não e que se encontrava totalmente segura na sua relação com Sérgio. Mas a verdade é que essa relação não era bem vista por todos, especialmente por Sara, que só encontrava um aspecto positivo para o facto de o fotógrafo passar as noites em sua casa, e esse aspecto era o de ela conseguir escapulir-se a meio da madrugada para se encontrar com os seus novos amigos sem medo de ser apanhada pela mãe. Muitas vezes, encontrava-se com esses eles em bares nocturnos pouco apropriados para a sua idade, nos arredores do bairro e em cafés da zona onde clientes e prostitutas misturavam-se com o cheiro dos cigarros e da luxúria. Sexta-feira era o dia da semana mais movimentado no bairro do Intendente. Era usual os cafés e os bares encontrarem-se abarrotados de gente, e também era usual a polícia fazer algumas rondas pela zona apenas para se certificar que tudo estava a decorrer dentro da normalidade. Sempre que apareciam, Sara conseguia a ajuda necessária para se esconder e só voltava a surgir aquando do desaparecimento dos agentes de autoridade. Sim. Eram momentos de algum aperto, mas por sorte ela conseguia sempre fugir com a ajuda de Milene. Aquela noite não foi excepção. Os polícias fizeram as rondas habituais, pediram a identificação de várias pessoas estranhas ao local e logo desapareceram pelas ruas do bairro trazendo de volta o alívio a quem não tinha sido apanhado. – Anda – disse Milene fazendo um sinal a Sara para que ela pudesse sair da pensão onde permaneceram escondidas durante trinta e cinco minutos. – Os gajos já se foram embora. - Tens a certeza? – perguntou Sara olhando para todos os lados. - Claro. Anda lá! Foram precisos apenas alguns minutos para que Milene e Sara atravessassem a rua em direcção a um dos bares mais movimentados da zona. Mais uma vez, o estabelecimento encontrava-se apinhado de gente. Na aparelhagem soava uma música rock infernal e na única televisão do bar colocada na parede, passava um filme não muito conhecido. Aliás, o filme era tão pouco conhecido, que quase ninguém presente no local se dignou a levantar o rosto em direcção ao ecrã. Estavam todos entretidos em conversas informais, a beber e a confraternizarem entre si. Outros dançavam, riam-se às gargalhadas e tentavam esquecer-se de todos os problemas que rodeavam as suas vidas. Milene e Sara foram algumas dessas pessoas. – Ainda te lembras de mim?

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A voz não lhe era estranha, e ao voltar-se para trás com uma garrafa de cerveja nas mãos, Sara abriu um sorriso radiante. Era ele. Era Marco. Após dois meses de ausência onde apenas se comunicaram através do telefone, parecia quase um sonho tornar a vê-lo novamente. – Nem acredito! És mesmo tu? - Carne e osso – respondeu Marco levantando os braços. - Pensei que não viesses a Lisboa tão cedo. - Vim tratar de uns negócios, mas no domingo já estou de volta ao Algarve. E tu? O que é que andas a fazer por estas bandas? - Eu sou destas bandas, lembraste?! - Ainda na vida?! - E tem algum mal nisso? - Por mim não – respondeu ele pedindo uma imperial ao empregado do bar. – Só tenho pena que uma miúda como tu ande para aí a deitar-se com qualquer um. Especialmente com os gajos que passam por este bairro. Mereces melhor. O discurso de Marco mereceu um sorriso por parte de Sara. – Queres que te pague uma outra cerveja? - Claro. Pode ser – respondeu ela terminando a sua num só gole. Completamente alheios ao tempo e ao espaço, foi assim que Sara e Marco se sentiram enquanto conversavam perto do balcão acompanhados pelas suas respectivas cervejas, pelo barulho infernal da música e a movimentação das pessoas à volta. Obviamente que nenhum deles falou sobre assuntos importantes, não conversaram sobre a família, os amigos e muitos menos projectos futuros, mas ainda assim sempre que os seus olhares se cruzavam era como se o mundo parasse e tudo deixasse de ter significado. – Queres ir para outro lado? Isto aqui está barulhento – disse ele ignorando um telefonema inoportuno. - Tudo bem. Podemos ir. Pagas as bebidas, Marco e Sara saíram de mãos dadas e só voltaram a largá-las quando interceptados por Milene à saída. – Aonde é que vão? – perguntou ela, curiosa. - Vamos dar uma volta – respondeu Marco levando o cigarro à boca. – Porquê?! - Vão dar uma volta aonde? - Qual é a tua, Milene?! Viraste puritana agora, é? Ou vais-me dizer que resolveste adoptar a Sara como filha? - Eu só não quero que ela se meta em confusões. - Eu não me vou meter em confusões – interrompeu Sara sob o olhar aterrador de Milene. - Acho melhor ires para casa, Sara! Eu peço a um amigo meu para te levar. - Ela não vai com nenhum amigo teu – interferiu Marco puxando Sara contra si. – Vai comigo. - Sara… - Eu vou com ele – respondeu a jovem, resoluta. – Tchau, Milene! Depois falamos. O cheiro a tabaco tinha-se entranhado nos estofos do carro de Marco, mas nem o odor intenso ou o espaço reduzido dos bancos de trás, acalmaram o desejo e a excitação de Sara por ele. Submersa naquela pele achocolatada e naqueles braços musculados marcados por duas tatuagens, ela entregou-se e permitiu-se ser possuída sem quaisquer restrições. Com Marco era diferente, ambos sabiam-no bem. Com ele não o fazia por dinheiro, por luxúria,
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. . mas também com a do pai. . não é?! . não és?! Não estás sempre a encher a boca para dizer que vais para a cama com homens porque gostas? Porque é que queres ser tratada de maneira diferente? . Afonso Soares.Não é um pagamento.Eu ligo-te depois – disse Marco apressando-se a retirar uma nota de cinquenta euros da carteira. – Paga-me! Apesar de se ter sentido surpreso com a reacção de Sara. a verdade é que não conseguiu tal feito quando chegou ao quarto e caiu na cama como um verdadeiro peso morto.Queres mais. O domingo amanheceu ensolarado e foi por essa razão que Sérgio resolveu regar o jardim com a ajuda de Daniel. .Tu estás-me a pagar – foram as últimas palavras dela antes de abandonar o carro e fechar a porta com força. .Eu não quero ser tratada de maneira… . – Toma! Para ti.Quem está na chuva é para se molhar.Não é nada disso… – defendeu-se ele. Só não quero que te falte nada. – Já separaste as tuas roupas sujas para pôr na máquina? – perguntou ela à filha quando a viu a entrar na cozinha. . uma presença habitual lá em casa.Mas talvez eu seja mesmo! Talvez eu seja só mais uma prostituta a quem todos os homens pagam para irem para a cama.Eu não quero que me pagues – respondeu Sara indignada por tal gesto. És puta mesmo. E mesmo tendo tentado controlar as lágrimas. .Quero aquilo que mereço. e ao vê-la a caminhar apressada em direcção aos portões de casa. Mas também não penses que te vou passar a mão pela cabecinha ou sentir-me mal por te ter oferecido dinheiro. 105 . . mas ainda assim Sara arranjou forças para abrir os portões e correr em direcção a casa sem sequer olhar para trás ou observar a expressão mortificada de Marco. .O. na cozinha. agarrou-se à almofada e fechou os olhos inchados numa tentativa desesperada de adormecer. Ainda era demasiado cedo para sentir uma coisa dessas. – Tu achas que eu sou igual a todas as outras. Depois disso.Posso voltar a ver-te antes de ires para o Algarve? – perguntou ela quando ele a levou a casa. .Sara.mas sim por um sentimento estranho que ela nunca pensou sentir por alguém. . O que é que achas? .Vou no domingo. Seria amor? Não. . mas havia realmente algo que a prendia a Marco e a deixava completamente rendida a ele. Madalena ultimou os preparativos do almoço que contaria não só com a presença do namorado. – Já te chega? A humilhação tinha sido imensa.Já – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. esquece! Não queres os cinquenta euros azar o teu. – É pouco – afirmou ela não desviando os olhos dele. Marco seguiu-a e alcançou-lhe os braços pedindo desculpa. é?! .Tudo bem – respondeu ela estendendo a mão com um olhar aterrador.k – respondeu ele oferecendo-lhe uma outra nota de cinquenta. Entretanto. Porque é que irias pensar que eu era diferente? Já me conheceste nesta vida.Podemos ver-nos amanhã. Marco acatou a ordem e entregou-lhe uma nota de cinquenta euros.

…podes.Não é por causa deles. ao contrário de todas as suas expectativas.Posso ligar-te um dia destes? . Seria algum cliente. – Não posso sair agora. . . – Tens uma visita lá fora. Não. a única alternativa que lhe restava era sair ao jardim e ver com os seus próprios olhos quem tinha tido a audácia de a procurar.Pensei que já tivesses voltado para o Algarve – afirmou Sara tentando manter uma expressão fria e altiva. .Para quê?! . Assim sendo. Enquanto ele caminhava calmamente em direcção ao carro.Não – respondeu Sara com poucas palavras.Só vou hoje à noite. muito menos a desconhecidos. .Por causa dos teus pais?! . passou essa pergunta pela cabeça de Sara. Não poderia ser.Porque estás aqui à minha frente – respondeu Madalena cortando os legumes sobre a bancada.Vim te ver – respondeu ele apoiando-se sobre os portões.Ele é só o namorado da minha mãe.Estão aceites.. – Apenas disse que era um amigo e que precisava falar contigo.Não. mas deixou Sara especada sobre os portões com os olhos postos em Marco.Não me disse o nome – respondeu Sérgio sob o olhar atento de Madalena.Não te esqueças também de fazer a tua cama de lavado. .Não queres dar uma saída? Levava-te a almoçar num sítio qualquer.Quem!? . . . .O. mas ainda assim a jovem achou por bem acatar as ordens da mãe. . – Porquê? Fiz mal? . Ficaste chateada. – Então?! Posso ligar ou não? . . .Como é que sabes que eu não estou a fazer nada? . . era Marco.Não?! Pensei que era.Faço mais tarde. não foi? .Para saber de ti – respondeu ele encolhendo os ombros. atirou-o contra o lava-loiça e por fim preparou-se para sair da cozinha não fosse a figura de Sérgio ter-se atravessado no seu caminho. já que ela nunca se atreveu a fornecer a sua verdadeira morada a ninguém.Eu também acho.Mesmo assim! Não queria sair de Lisboa sem te pedir desculpas primeiro.Porque é que não aproveitas para a fazer antes do almoço? Já que não estás a fazer nada.Pedir-te desculpas – respondeu Marco. ela poisou as 106 . e essa pessoa. E o homem que viste aqui no jardim não é o meu pai. Bebeu um copo de água.k – disse Marco tentando ignorar os olhares de Madalena e Sérgio atrás das cortinas da janela. . . . A resposta trouxe um pesado suspiro por parte de Sara. Sara – afirmou ele desfazendo-se das luvas de borracha que utilizou para regar as plantas e a relva do jardim.Então… o que é que queres? . – Então nesse caso acho melhor ir andando. nem um pouco. . A despedida foi rápida e fria. – Eu sei que fui um bocado parvo contigo na sexta-feira passada. – O que é que estás aqui a fazer? .

.Pois não devias – respondeu Madalena envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. Deveria sentir-se feliz com aquela visita? Talvez sim. – Eu fui a adolescente mais bem-comportada do mundo.Se calhar da escola.São só coisas da tua cabeça – respondeu Sérgio beijando-lhe os cabelos.Estranho o quê?! .Eu não sei. .E de onde é que a Sara o conhece? . talvez devesse ter-se atirado para os braços de Marco e dito que o adorava acima de tudo. . 107 . . – É melhor ires andando. .Bem-comportada. entendes?! Bati os olhos e não gostei. Eu era uma menina muito bem-comportada se queres que te diga. Nunca dei trabalho aos meus pais e também nunca fiz nada de errado… . . Madalena conseguiu convencer Luís Restelo. – Eu não sou nada preconceituosa em relação a esse assunto.Era só um amigo – respondeu ela subindo as escadas a correr. e o último. E a verdade é que essa semana passou a uma velocidade fantasmagórica. Reprimiu esse desejo e no fim odiou-se por isso. .Se ela disse isso é porque era mesmo só um amigo – respondeu Sérgio começando a colocar a mesa do almoço.Não. – Ela disse que era só um amigo – afirmou Madalena entrando novamente na cozinha. – Ele parece ser muito mais velho! E também duvido que com aquela pinta ainda ande na escola.Por ser preto?! . As amêndoas foram compradas. E também não gostei nada do ar dele. o avô de Sérgio a passar a comemoração festiva em sua casa. Mas a verdade é que não o fez. – Quem era aquele rapaz? – foi a primeira pergunta que Sara ouviu da mãe assim que entrou em casa. Achei estranho.Não – afirmou Madalena instintivamente.Lena esquece esse assunto! Estás a fazer um bicho-de-sete-cabeças de uma coisa absolutamente natural. . Quantos e quantos rapazes não foram à tua procura quando tinhas a idade da Sara? .Tens a certeza que era só um amigo? A pergunta não obteve qualquer resposta quando Sara voltou a trancar-se no quarto fechando a porta com força. é?! Duvido… . . Faltavam poucos dias para a Páscoa quando um verdadeiro milagre aconteceu. Mas não sei! É o jeito dele. Após inúmeros telefonemas e convites. .Meu Deus! Que mentirosa – riram-se os dois às gargalhadas. sentindo-se honrado. amor! Não deixes o teu avô à espera na estação – afirmou Madalena enquanto ultimava os preparativos para o grande almoço de família. . claro que não – defendeu-se Madalena de imediato.mãos sobre a cerca e permitiu que os seus pensamentos voassem dali para fora.Não foram tantos assim. o cabrito adquirido e os vinhos guardados no frigorífico para a ocasião especial.A conversa dos dois. não teve outro remédio a não ser aceitar o convite e a prometer uma visita sua para dali a uma semana.

Obrigada! És um anjo. . foram as palavras que o fotógrafo repetiu vezes sem conta enquanto as buzinas dos carros começavam a ecoar naquela rua verdadeiramente estreita.O que é que aconteceu? . Não sei se me vou conseguir despachar a tempo de ir buscar o meu avô e o teu pai. O meu avô vai-me matar. . .Não! Disse que ia entregar um presente a uma amiga que fazia anos mas que não se ia atrasar para o almoço. 108 . . convencer-se a si próprio que o que estava a ver era fruto da sua imaginação ou então uma terrível coincidência.Hã… estou. – Queres que te traga alguma coisa da rua? . mas mesmo muito atrasado – disse Sérgio largando as mãos sobre o volante. – Eu vou buscá-lo.O que é que tem o teu pai? .É só para te avisar que estou muito. . – Estou?! . que Sara. nada menos.Não acredito – resmungou Madalena.Podes deixar – respondeu Sérgio beijando-a nos cabelos.Apanhei um acidente no caminho e resolvi mudar o percurso. mas já nessa altura. . Já tentei ligar-lhe para o telemóvel uma data de vezes e dá sempre no serviço voice mail… As lamúrias de Madalena continuaram a ecoar-lhe nos ouvidos. três toques e ela atendeu a chamada. lembraste? O pior é que a Sara também ainda não chegou. Alheio a tudo o que se estava a passar à sua volta.Hã… esqueci-me – berrou Madalena levando as mãos à cabeça. . mas a verdade é que lhe restaram poucas dúvidas de que aquela jovem que tinha acabado de sair de uma pensão nos braços de um outro homem mais velho. ele encontrou o telemóvel sobre a caixa de velocidades e digitou o número de Madalena..Eu não sei. dois. Sérgio concentrou todas as suas atenções para uma cena chocante que se estava a passar diante dos seus olhos.Bem. . .Não consegues ir buscar o teu pai? . a filha da sua namorada. Nessa altura. – O meu pai.Já vou andando – respondeu Sérgio vestindo o casaco às pressas. então nesse caso vou indo.A Sara ainda não chegou? . Ainda tentou forçar a vista. Eu não queria que ele apanhasse transportes públicos para vir almoçar connosco. Escuta! Eu já te ligo. O percurso em direcção à estação de camionetas poderia ter sido mais fácil se não fosse um aparatoso acidente ao qual Sérgio tentou contornar por um outro caminho mais demorado. não é preciso. – Estás aí? – perguntou Madalena após um longo silêncio que ele fez questão de lhe oferecer ao telefone. O pior é que não valeu de nada! Estou preso numa outra rua por causa de umas obras que estão a fazer. Tenho o cabrito no forno. . Um. o relógio assinalou onze horas e quarenta e cinco minutos e o trânsito pura e simplesmente parou.Será que eras capaz de o apanhar? Ele telefonou-me ontem à noite para me dizer que o carro dele deu o berro e que está a arranjar na oficina. está bem – respondeu Sérgio observando a figura de Sara a desaparecer pela rua acima. era nada mais.Não.

. . . O seu ex. eu não quero e nem vou discutir contigo agora! Tenho uma quantidade enorme de coisas para fazer.Mas eu faço questão! Já passa da uma e tu sabes que o teu pai gosta de almoçar cedo.Jorge. Era Jorge. É Pascoa. O que é que vieste cá fazer? . marido. lembraste?! .Oras! Vim ver os meus filhos. Ao ouvir a ordem da mãe. ou teria Sérgio conseguido o milagre de trazer o avô e o pai dela em tempo recorde? – Daniel. menos eu – resmungou Jorge trincando a maçã enquanto observava os gestos da ex. Raios. Sara e o senhor desconhecido que a acompanhava desapareceram sem deixar rastro. Seria Sara? Seria a sua melhor amiga.Pensei que também fizesse parte da família. se não te importares de sair da frente do armário. . .Disse que ia entregar um presente de aniversário a uma amiga da escola. marido era deveras tentadora. Por isso. Daniel saltou da cadeira da cozinha e correu a abrir a porta. marido. 109 .Aonde é que ela foi? .Cheira bem – disse Jorge apontando para o forno. Alice.Eu sei. a Sara não está – afirmou Madalena não se deixando afectar pelos elogios baratos do ex. e depois disso. eu preciso de uma panela… . mas ainda assim. .Já lhe ligaste para o telemóvel? – perguntou Jorge apoderando-se de uma maçã sobre a fruteira da cozinha.E porque é que haverias de ser convidado?! .Olá Lena… . – O que foi?! Trago o teu pai num instante.A sério?! Pensei que a Sara e o Daniel fossem os nossos filhos. .Claro! O problema é que está desligado.O telemóvel foi desligado e atirado novamente contra a caixa de velocidades. quando Sérgio lançou a cabeça para fora da janela. – Que surpresa ver-te por aqui.Já vi que toda a gente foi convidada para este almoço. vai atender – pediu ela ao filho enquanto levava o cabrito novamente ao forno.Se quiseres posso ir buscar o teu pai – afirmou Jorge para grande surpresa de Madalena. . mas ainda assim Madalena hesitou em aceitá-la. mulher à volta do lava-loiça.Não é preciso.Não da minha família. .Cabrito. Sabes lá a que horas é que a Sara pode aparecer por aqui… A proposta do ex.Olha. Aonde é que se tinham metido? Faltavam poucos minutos para a uma da tarde quando Madalena sentiu a campainha tocar. Só estou à espera dela para ir buscar o meu pai a casa – respondeu Madalena escorrendo a água da massa. alguns passos vindos do corredor.disse ele entrando na cozinha alguns minutos mais tarde. . O que é que ele tinha lá ido fazer? . .Olá – respondeu ela largando uma toalha sobre a bancada. que também foi convidada para o almoço. . . . . Pai foi a palavra que Madalena ouviu enquanto fechava a porta do forno. Mas o pior é que já devia ter voltado. Raios.Já vi que não perdeste o jeito.

murmurou ela levando o caroço ao caixote de lixo. traições e faltas de respeito. – Mas não se atrasem. a melhor amiga de Madalena. – Quer dizer.Eu não sei. marido deixou antes de sair. . e consigo trouxe duas sobremesas especialmente adquiridas numa pastelaria perto da sua casa.Nota-se assim tanto? .Tudo só porque o avô do Sérgio vem cá almoçar? . 110 .disse ela ajudando a colocar a mesa da sala.Vá lá. – Fui ter com uma amiga.Pois! Mas disseste também que não te irias demorar.Nunca te vi tão animada. mas também de não dar mostras de querer desaparecer tão cedo. Continua o mesmo. . – Então?! Posso ir buscar o Sr.. mas ainda assim não lhe trouxeram qualquer saudade. Quando éramos casados cansava-me de ir buscar o teu pai e a tua mãe a casa. levou igualmente a boa-disposição que lhe era característica em momentos festivos. A primeira pessoa a chegar para o almoço foi Alice. A resposta de Alice culminou com a entrada de Sara na sala e também com o olhar aterrador que Madalena fez questão de lançar à filha quando se deu conta do seu atraso imperdoável. Afonso? . Saíste daqui às dez. – Também não se atrasou tanto assim. .A quilómetros de distância! Não há dúvidas de que o Sérgio te está a fazer muito bem. De um passado repleto de discussões. – Bem.Já te tinha dito – respondeu Sara rasgando alguns olhares a Alice. Anda lá! A visão através da janela da cozinha dos dois homens da família a entrarem no carro fez com que Madalena voltasse a recordar os anos em que esteve casada com Jorge. oh pestinha!? Não queres vir com o pai?! . Já viste que horas são? Quase duas da tarde.…está bem – concordou Madalena. .Posso subir? – perguntou Sara num tom debochado. .Claro que não – riram-se as duas. Lena! Até parece que nunca fiz isso antes. quase dezasseis.Lena. – E tu. Com certeza deve ter ficado à conversa com a amiga e as duas perderam a noção das horas.Podes deixar – respondeu ele voltando-se para Daniel.Nem tanto assim – respondeu Madalena distribuindo os talheres pelos pratos. .Só se for no banco da frente. – Mas vê se tomas banho antes de desceres para o almoço. pelo amor de Deus! . – Até que enfim! Aonde é que estiveste? . Jorge fazia parte do passado. . Para além disso. .Águas passadas – riu-se Jorge enquanto terminava de comer a sua maçã. .Está bem! Vais no banco da frente então.E eu lembro-me que não gostavas nem um pouco de fazer isso. E Madalena pôde ter essa certeza quando ao lançar os olhos à bancada da cozinha foi obrigada a deparar-se com os restos da maçã que o ex. . . Ele tratou-me tão bem quando fui passar aquele fim-de-semana à casa dele que eu queria retribuir-lhe a gentileza. Foram muitos. …um pouco.Podes – respondeu Madalena percebendo-lhe o sarcasmo na voz. esmeraste-te… . . coitada da rapariga – interferiu Alice continuando a colocar a mesa.

Foram precisos vários minutos até que a porta se voltasse a abrir com as chaves levadas por Daniel, e atrás de si, vieram o avô e o pai envolvidos numa conversa divertida, algo não muito incomum entre dois homens que sempre se deram muito bem e que nunca esconderam a admiração mútua que sentiam um pelo outro. – Olá, pai – disse Madalena correndo a cumprimentar Afonso quando todos entraram na sala. – Como é que estás? - Estou óptimo – respondeu ele despindo o casaco. – E tu? - Cansada, mas bem! O almoço já está pronto. Vieste na hora certa. - Então vamos almoçar. Estou a morrer de fome. - Não, ainda não. Ainda vamos ter que esperar mais alguns minutinhos – respondeu Madalena rasgando alguns olhares ao ex. marido. – Falta ainda o Sérgio e o avô dele. Os dois apanharam algum trânsito pelo caminho, mas o Sérgio ligou-me há pouco para me dizer que já estão quase a chegar. - Hã… claro. - Bem, nesse caso, eu já vou andando – disse Jorge quando se deu conta que a sua presença não era muito bem-vinda. - Porquê?! – interrompeu Afonso. – Fica para almoçar connosco. - Eu?! - Claro! Foste tão gentil em ter-me trazido até cá. O mínimo que podias fazer era dar-nos o prazer da tua companhia, não achas? Por momentos, Madalena pensou estar a sonhar quando ouviu o discurso do pai e o convite estapafúrdio que este fez a Jorge sem sequer a consultar. Será que Afonso tinha perdido totalmente a noção da realidade? Será que ele não a ouvira a dizer que o seu novo namorado e o avô dele estavam a poucos minutos de chegar à sua casa? - Bem… - disse Jorge, encabulado. - …eu não sei se a sua filha concorda com o seu convite, Sr. Afonso! - É claro que ela concorda. Não concordas, Lena?! O silêncio mantido por Madalena foi deveras constrangedor. – Não concordas? – insistiu Afonso fulminando-a com os olhos. – As crianças iriam gostar de passar a Páscoa com o pai. Não foi preciso esperar muito tempo para que Sérgio Almeida e Luís Restelo tocassem à campainha e para que Madalena lhes abrisse a porta com um largo sorriso imediatamente correspondido pelos dois. Depois disso, seguiram-se os cumprimentos habituais perto do corredor e a tentativa de fazer Luís sentir-se em casa. – Atrasados, nós sabemos – disse Sérgio. – Mas a culpa não foi minha. - Eu sei! A culpa foi do trânsito – respondeu Madalena forçando um sorriso ao avô do fotógrafo. – Espero que tenha feito uma boa viagem, Sr. Luís. - Não foi tão má como pensei que seria. Apenas alguns solavancos no caminho, mas por sorte não cheguei partido. - Que bom! Mas entre, por favor. Fique à vontade. - Obrigado – respondeu Luís aceitando o convite com alguma cautela. Nessa altura, Sérgio encarregou-se imediatamente de lhe guardar o casaco e o chapéu no bengaleiro. – Será que era possível ir à casa de banho? - Claro, vô – respondeu Sérgio apontando-lhe uma porta ao fundo do corredor. – É ali. - Obrigado – agradeceu Luís seguindo a direcção apontada.
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- Desculpa ter-te deixado sobrecarregada com os preparativos do almoço, mas é que nem fazes a mínima ideia de como é que estava o trânsito lá para os lados das Amoreiras. - Não, tudo bem – respondeu Madalena impedindo Sérgio de sair do corredor quando lhe alcançou os braços. - O que foi? - É que… eu precisava contar-te uma coisa antes de irmos para a sala. - O quê?! A expressão doce e sorridente de Sérgio fê-la sentir-se pior do que mal, mas a verdade é que Madalena não tinha outra opção a não ser contar que a lista de convidados se havia estendido para além do previamente estipulado. – Estás-me a dizer que o teu ex. marido também veio almoçar? - Eu sei que parece uma loucura, uma coisa ridícula. Aliás, não parece, é – interrompeu Madalena segurando-lhe o pulso com força. – Mas tens que acreditar que a culpa não foi minha! Foi o meu pai que o convidou. - E porque é que o teu pai o convidou? - …o Jorge veio ver o Daniel e a Sara, e eu sem querer acabei por lhe dizer que precisava de alguém para ir buscar o meu pai porque tu me tinhas ligado a avisar que estavas atrasado. Então ele ofereceu-se para ir buscar o meu pai e… - E tu aceitaste? – perguntou Sérgio tentando controlar os ciúmes que se apossaram de si. - Só porque não tive outra opção. A Sara ainda não tinha chegado da rua, eu tinha o almoço no lume e também não podia deixar o Daniel sozinho em casa. - O.k! - Então quando eles chegaram, eis que o meu pai teve a brilhante ideia de convidar o Jorge para almoçar connosco. Eu não queria, mas… - Tudo bem, Lena! Esquece. - Desculpa – disse ela observando-lhe a expressão desagradada. – Eu sei que é uma situação horrível, principalmente por causa do teu avô, mas eu não tive culpa. Foi algo que fugiu ao meu controle. Acredita em mim…! - Eu vou lavar as mãos à cozinha – afirmou Sérgio deixando-a especada no corredor a remoer todas as culpas por aquela situação no mínimo caricata. Tal como se era de esperar, o almoço tornou-se sombrio para Sérgio e Madalena, já que a visão de Jorge sentado à mesa retirou-lhes todo o apetite e trouxe um certo desconforto a Luís Restelo por perceber o desconforto do neto diante daquela verdadeira afronta a que ele tinha submetido. Talvez Afonso e as crianças não tivessem percebido o pouco à vontade dos restantes convidados, talvez estivessem demasiado entretidos com as piadas contadas por Jorge, mas a verdade é que nenhuma dessas piadas surtiu efeito para Madalena, Sérgio, Luís ou Alice. – Ainda não perdeste o jeito para a cozinha, Lena… – foi a gota de água dita pelo advogado no final do almoço. - Bem, eu vou buscar as sobremesas – respondeu ela recolhendo as loiças sujas. - E eu ajudo-te – interferiu Alice desejando sair daquela mesa tanto quanto a sua melhor amiga. Quando chegaram à cozinha, o estrondo das loiças a caírem no lava-loiça fizeram antever todo o ódio que Madalena estava a sentir, não só pelo seu ex. marido, mas também pelo seu

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pai, o responsável por toda aquela situação no mínimo caricata. – Eu devia suicidar-me… – disse ela. - Toma – respondeu Alice entregando-lhe um facalhão. - Obrigada pelo apoio moral. - Eu até acho que o almoço não está a correr assim tão mal. - Só podes estar a gozar – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico a fim de retirar as sobremesas que havia prometido aos seus convidados. - Achas que o teu pai fez de propósito? - O que eu acho é que ele está a ficar velho e senil. - Para mim a culpa é do Jorge. - A sério?! Não me digas. Nem tinha percebido uma coisa dessas. - Aposto que foi ele que manipulou o teu pai durante o caminho para que ele o convidasse para o almoço. É a cara do Jorge fazer uma coisa dessas! O gajo nem sequer consegue disfarçar que está a morrer de dores de cotovelo. - Dores de cotovelo porquê?! - Lena, não me digas que ainda não percebeste? Ele está louco para atrapalhar o teu namoro com o Sérgio – respondeu Alice colocando as taças das sobremesas no interior do tabuleiro. – Aposto também que ele quer voltar para ti. - Shiuuuu! Fala baixo! - Que mal é que tem? Está na cara de todos. Só um cego é que não consegue ver que o Jorge ficou cheio de dores de cotovelo quando soube que havia um outro homem interessado em ti. Isso é perfeitamente natural nos ex. maridos! Pensam sempre que nós nunca nos iremos conseguir recuperar do divórcio, que vamos acabar secas, sozinhas e a fazer tricô no sofá da sala, enquanto eles ficam livres e soltos para aproveitar a vida com rapariguinhas de vinte anos. Diz lá qual é a novidade nisso? Já era assim no tempo da minha avó. - Só me sinto mal por causa do Sérgio e do avô dele – disse Madalena levando as sobremesas à mesa da cozinha. – Imagino a impressão que Sr. Luís teve ter tido de mim. Ele deve pensar que eu sou uma descarada. Que ando com dois homens ao mesmo tempo. - Claro que não – riu-se Alice alegremente. – Acredita que deixaste bem claro à mesa que odeias o teu ex. marido de morte. - Deus queira que sim! Era a segunda vez que a observava a sair da sala e era também a segunda vez que lhe passava pela cabeça confrontá-la com o que vira horas antes. Foi por isso que Sérgio interceptou Sara à frente das escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e parou-lhe todos os movimentos com uma frase rápida e seca. – Vi-te hoje. Surpresa com a interpelação, a jovem voltou-se para trás e encarou-lhe a expressão séria. - Desculpa?! - Vi-te hoje numa rua perto de Campolide! Estavas a sair de uma pensão com um homem que tinha quase idade para ser o teu pai. - E o que é tu tens a ver com isso? - O que é que estavas a fazer com ele? - Não é da tua conta – respondeu Sara apoiando-se sobre o corrimão das escadas.

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Não. Pela primeira vez desde a morte da mulher e da sua única filha. – A minha única alegria é saber que falta bem pouco para a minha mãe te dar um pontapé no rabo e voltar para o meu pai! Falta um pouquinho assim. faltavam poucos minutos para as sete da tarde. . naquele domingo particularmente ventoso.Já disse que não é da tua conta.Desculpar o quê?! O sorriso confiante e paternal de Luís permitiu que Madalena se sentisse menos culpada pela presença do ex. conhecimentos e deixar de olhar os ponteiros do relógio à espera que por milagre eles andassem mais depressa. O ex. oh! Apesar do mal-estar inicial que a presença de Jorge provocou. projectar as suas experiências. De facto. Era bom poder conversar com outras pessoas.Sara. Por acaso essa amiga morava naquela pensão? . não hesitou em contar a todos os presentes algumas das peripécias passadas durante a guerra colonial. poucas dúvidas restaram relativamente à afinidade dos dois senhores e à excelente ideia de Madalena em juntá-los no mesmo espaço. Luís também contou histórias iguais. . . . Nessa altura. .Ao Alentejo? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. a mãe de Sérgio. Sentados nos sofás e em algumas cadeiras espalhadas pela sala. Ou será que ainda não percebeste que durante o almoço tu e o teu avô estavam ali a mais!? Silêncio foi a resposta de Sérgio enquanto Sara continuava o seu discurso venenoso.Tu andas a relacionar-te com homens mais velhos. E para a surpresa das surpresas. é isso?! . E obrigado também pelo almoço. – E desculpe qualquer coisa. não queiras distorcer as coisas… . o de avô Sérgio. Luís sentiu-se entre amigos e afastou dos ombros a sombra da solidão. Luís fosse voltar de camioneta.Pensei que tinhas dito à tua mãe que ias entregar um presente a uma amiga. – Tem razão! Espero que faça uma boa viagem então. mas obrigado pelo convite. o almoço decorreu sem quaisquer outros incidentes. militar. os convidados deliciaram-se com as sobremesas confeccionadas por Madalena e divertiram-se com as conversas animadas de Afonso Soares.Obrigada eu por ter vindo – respondeu ela apertando-lhe as mãos com força. e quando deu por si.. marido e também para que percebesse que nem mesmo esse acontecimento menos feliz destruiu a boa imagem que o avô de Sérgio tinha de si. . . – Tem a certeza que não quer passar a noite connosco? – perguntou Madalena observando os gestos de Luís a vestir o casaco junto ao bengaleiro do corredor. . Passei uma tarde bastante agradável.Sim! E provavelmente vou lá dormir para não vir a conduzir tão tarde. 114 . Infelizmente tinha chegado a hora de voltar ao Alentejo e à sua vida reclusa. cuja idade era praticamente idêntica à de Luís Restelo.Eu se fosse a ti preocupava-me mais com a tua vida e menos com a vida dos outros.E se estiver? O que é que tu tens a ver com isso? Também não te andas a relacionar com mulheres mais velhas? . as horas pareceram voar.Eu pensei que … o Sr.Eu vou levar o meu avô a casa – interferiu Sérgio abrindo a porta da rua.

Sérgio baixou o rosto.. . e embora as estrelas no céu levassem para longe alguns dos seus pensamentos mais sombrios. Mas era óbvio que os acontecimentos daquele horrível almoço de Páscoa ditaram o afastamento do fotógrafo da sua cama.Então qual é o problema não estou a perceber.Fugiste de Lisboa porquê? . – Pensei que estivesses a namorar só com a Madalena. – Magoado. e o pai. mas… . talvez.Nada – mentiu Sérgio interiorizando a serenidade que aquele quintal lhe trazia.Por me ter sentido a mais! Por ter sentido que era eu o intruso e não ele. mas o Sérgio quer levar-me a casa. . . Foi só nessa altura que ela chegou à conclusão que o que lhe estava a faltar eram os braços de Sérgio e o peito dele para que pudesse encostar a cabeça. marido de Madalena ainda fazia parte daquela família. – Pensei que já te tinhas ido deitar – disse-lhe o avô. – Até já tinha comprado bilhete ida e volta. Só precisava de… algum tempo para recompor as minhas ideias e pensar no que devo fazer.Magoado porquê? . quanto a isso não dúvidas. eu sei que no fundo ele torce para que a filha volte para o ex. uma. 115 . genro.Chateado não é bem o termo – respondeu Sérgio permitindo que o seu avô se sentasse ao seu lado nas escadas. ela não. mas será que só isso bastava? Será que só isso chegava para que continuasse a lutar por ela? Diante de tudo o que tinha acontecido naquela tarde. Luís! À noite as estradas são um pouco perigosas. marido também. Mas será que não fazia? Será que Sara tinha razão quando disse que faltava muito pouco para que Madalena e Jorge voltassem ao casamento de ambos? Foram essas algumas das perguntas que também retiraram o sono de Sérgio em casa do avô. ele começou a ter algumas dúvidas. marido dela no almoço. três vezes. não é?! Ficaste chateado por ver o ex. Amava-a. Virou-se na cama. .Eu não fugi de Lisboa.Não. . . Era óbvio também que ele se havia magoado com a presença de Jorge e com a certeza que o ex.É a Madalena.Falamos amanhã – foram as últimas palavras de Sérgio a Madalena antes de se afastar dela com uma expressão fria e carregada. . o ex. – Eu também acho melhor que vá com o seu neto. . a verdade é que nem todas conseguiram tal feito. duas. Naquela noite. Já vi que não há santo que lhe consiga mudar de ideias.Não sabia que estavas a namorar com essas pessoas todas – respondeu Luís.Claro – disse Madalena forçando um sorriso quando percebeu os verdadeiros motivos para que o fotógrafo quisesse levar o avô a casa. – A filha dela odeia-me. embora seja simpático comigo. mas ainda assim o sono teimou em não aparecer. Madalena não pregou olho.O que é que se passa. . o fotógrafo lançou os olhos ao céu e tentou encontrar motivos para continuar a lutar por Madalena. Sr.Não! Perdi o sono. Sentado sobre o alpendre da porta com um chocolate quente nas mãos. rapaz? .De onde é que foste buscar uma ideia dessas? Por acaso a Madalena tratou-te como se fosses um intruso? .Eu também – respondeu Luís enfiando o chapéu na cabeça. .

Já te disse que a culpa não foi minha – afirmou Madalena largando os braços.Não sei. O maldito almoço de Páscoa. Tudo o resto são detalhes. 116 . para ficar sozinho… .E porque é que querias pensar e ficar sozinho? .Desculpa – pediu Madalena correndo ao encontro dele. – Desculpa! Eu não queria ter feito o que fiz. pensou Madalena enquanto se livrava da mala e do casaco que tinha nas mãos. mas ainda assim. – Porque é que não me ligaste? .São sim! É só com a opinião de Madalena que te deves preocupar e nada mais. – Não fui eu que convidei o Jorge para almoçar.Não sei – respondeu Sérgio não escondendo a sua fúria. Após quarenta e oito horas sem qualquer notícia ou telefonema de Sérgio.Eu não queria ter que te desculpar. Madalena resolveu engolir o seu orgulho e procurá-lo à hora de almoço.disse ela quando os seus olhos se cruzaram com os de Sérgio. . Ao subir os degraus das escadas. por sorte naquela tarde o trânsito ajudou e por sorte ela conseguiu chegar ao estúdio do fotógrafo em apenas vinte e cinco minutos. ela conseguiu arranjar forças para subir e para também tocar à campainha. Por sorte. põe-te no meu lugar! Tu humilhaste-me … .Tempo?! Tempo para quê? . Desculpa! .Não.O que é que eu podia fazer? . . marido já não faz parte da tua vida. entra – pediu ele abrindo-lhe passagem em direcção ao estúdio. o seu coração disparou.Porque eu pensei que também precisavas pensar e ficar sozinha. Que ele não tem acesso directo à tua casa e que não aparece lá sempre que lhe apetece. Os momentos que se seguiram foram preenchidos com um silêncio ensurdecedor e com a certeza de que havia muita coisa a ser esclarecida desde o último almoço de domingo. – Que tal ter dito ao teu ex. Foram precisos apenas dois toques. A única coisa que eu queria era ter a certeza que o teu ex. . . Tempo para pensar. Era só isso que eu queria. eu não … . Foi o meu pai… .Não.As coisas não são assim tão fáceis. Alice disponibilizou-se a tomar conta da floricultura.Tu humilhaste-me e tens consciência disso porque senão não tinhas cá vindo – afirmou Sérgio calando-lhe todos os argumentos. .Então pergunta-lhe – respondeu Luís abandonando o quintal e também todas as dúvidas que o neto carregava dentro do peito. as mãos começaram a suar e os nervos a apoderaram-se de si. vô… .Não sabes?! . .Estás muito ocupado? .Pode até ter sido o teu pai. mas parece que tu não estás disposta a fazer isso por mim..Não. mas a verdade é que não fizeste nada para o impedir. – …olá… .E qual será a opinião dela? – perguntou Sérgio voltando-se para o avô. .Desculpa! Eu devia ter ligado. . marido que era ridículo sequer imaginar a ideia de o sentar à mesma mesa comigo e com o meu avô!? Quer dizer.Precisava de tempo – respondeu Sérgio. .

Isto para não falar da Sara! Todos eles estão a torcer para que a nossa relação não dê certo e o pior é que tu estás a deixar que isso aconteça… .Então vamos esquecer tudo o que aconteceu neste domingo. receios e inseguranças.Nós já estamos a discutir! Ao ver-se pela primeira vez sem argumentos. – Eu amo-te. – Eu não sei. pelos seus medos. marido sempre que ele resolve aparecer ou então com a vontade do teu pai em querer que voltes para ele. – Eu amo-te.Se tu soubesses como me tenho esforçado para que isto dê certo.. Lena! Mas eu não sei se vou conseguir lidar com isto tudo. – Não quero. eu não quero discutir.Eu não sei – respondeu Sérgio aos gritos dela. Vamos colocar uma pedra sobre o assunto. mas… . Sérgio encostou-se à secretária e levou as mãos à cabeça. esbaforida.Boa! E depois a culpa é minha?! E depois eu é que estou a fazer de tudo para que a nossa relação não resulte? . Eu prometo que vou fazer de tudo para afastar o Jorge de nós. .Eu também não. Não sei se vou conseguir lidar com o facto de ser obrigado a olhar para a cara do teu ex. . . mas principalmente. Prometo! A promessa da Madalena pareceu ter surtido efeito quando Sérgio lhe encontrou os lábios e os beijou com toda a paixão que possuía dentro de si. ela teve dúvidas. . as coisas eu que tenho aguentado… .Tens a certeza? Diante da pergunta de Sérgio. 117 . – Não termines comigo – disse Madalena levantando-lhe o rosto com as mãos.murmurou ele com os olhos rasos de lágrimas. Foi por isso que eu me resolvi afastar. Depois disso.Lena.E o que é que queres que eu faça? – gritou Madalena. por uma relação que lhe estava a consumir todas as forças. ela deixou-se envolver e os dois acabaram caídos no divã à espera que os beijos e as carícias pudessem apagar todas as palavras amargas que disseram momentos antes. .Mas o Jorge já não faz parte da minha vida – respondeu Madalena num tom desesperado. quanto a isso não havia dúvidas. . nada mais importou. Esgotado por aquela discussão. . Estava esgotado. Ele envolveu-a nos braços. – Tu nem sabes… .A única coisa que eu sei é que eu te amo e que não quero ficar sem ti – respondeu ela amparando-lhe uma lágrima com os lábios.Eu também. – Eu não quero ficar sem ti – repetiu.

Viver contigo?! . .Que condição? . . baixinho. mas lindíssimo anel no dedo.k! Pensando melhor… . Ao ver-se com aquele discreto.Não tens que agradecer. mas eu sei como lhe dar a volta.O.A sério? Nem tinha percebido uma coisa dessas. Sérgio conseguiu definitivamente conquistar o coração dela ao oferecer-lhe um maravilhoso anel de compromisso. Mas eu tenho a certeza que nenhum deles se vai opor. marido dela. e assim o casal continuou a projectar planos para um futuro que apesar de tudo parecia promissor. – É lindo! .Mas só com uma condição.Eu vou falar com eles. é claro. Madalena não conseguiu esconder a emoção. . Só o tens que usar. – Obrigada. Com um jantar romântico à luz de velas num restaurante italiano chamado Cipriani.Adorei – riram-se os dois apertando as mãos sobre a mesa.CAPÍTULO VII Os dias seguintes trouxeram alguma calmaria perdida após aquele fatídico domingo de Páscoa. – Eu quero muito. .Olha que eu sou muito desarrumado. Sérgio tentou dissipar a suas dúvidas relativamente ao ex.Tens mesmo a certeza que é isso que queres? .riram-se os dois. De resto. . 118 . Madalena seguiu à risca as promessas que fez. . . o aniversário de Madalena provou isso mesmo.Achei que fosses gostar.E os teus filhos? .k – riram-se os dois. . – Mas é um passo importante para isso.Nem mesmo a Sara? . – Estás-me a pedir em casamento? .Ainda não – respondeu ele esboçando um sorriso carinhoso. .Acho bem – respondeu Sérgio beijando-lhe a mão direita.Tenho – respondeu Madalena sem quaisquer hesitações.Que venhas viver comigo – respondeu Madalena tomando-o de assalto com aquele convite inesperado.Sim! Eu quero que te mudes para a minha casa definitivamente. tenho o péssimo hábito de deixar a toalha molhada sobre a cama e quase nunca dobro as minhas camisas… . . .Nunca me lembro de levantar a tampa da sanita. .Não vou tirá-lo do dedo nunca. Quero dormir ao teu lado todas as noites e acordar contigo todas as manhãs. . – Talvez ela se vá opor um pouco.O.

e embora não tivesse sido aprovada pela maioria. feliz ou infelizmente. .É claro que eu sou de confiança.Não. . ela iria tentar ser feliz. aliás.Então vamos morar juntos – respondeu Madalena entrelaçando os dedos nos dele.Ainda bem – respondeu Madalena sugando-lhe os lábios no meio de um sorriso radiante.Está óptimo. eu quero que sintas que esta é a tua casa. Chega. disse-lhe. . Alguma vez te deixei ficar mal? 119 .No domingo. ele estava no Algarve metido nos seus inúmeros negócios esquivos e pretendia regressar a Lisboa no final da semana para entregar algumas mercadorias ilícitas. – Porque não sei se és de confiança. – Achas que este espaço te chega? – perguntou Madalena abrindo as portas do seu roupeiro a Sérgio. .Deixei-te também duas gavetas livres e uma outra na casa de banho. . claro que não! Por tua causa. a porta do quarto de Sara fechou-se com um enorme estrondo e não se ouviu mais nenhum barulho durante a noite. e a sua felicidade. não penses – disse ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. . . . Chega de passar a vida a pensar nos outros.E quando é que voltávamos? . Depois disso. – Já te disse que me arranjo.Devo aparecer aí por Lisboa na próxima sexta-feira e volto no mesmo dia. Eu quero que te sintas em casa. Um facto que passou completamente despercebido o Sara enquanto o ouvia com atenção e se deliciava com a sua voz grave e grossa ao telefone.Por causa da mamã?! . Como é que ela se atrevia a colocar um perfeito desconhecido lá em casa.…eu não sei se vou poder ir – disse Sara sentindo-se mais do que tentada a aceitar aquele convite no mínimo inesperado. .. A semana não poderia ter começado melhor para Sara quando recebeu um telefonema de Marco a meio da madrugada. foi a pergunta que a jovem gritou aos ouvidos de Madalena vinte e quatro horas antes de Sérgio se mudar de armas e bagagens.Eu sei! E eu já sinto isso. .Sim – respondeu ela sorrindo ao telefone. Mas a verdade é que nem os gritos histéricos da filha impediram Madalena de levar os seus planos adiante. . – Não queres vir comigo ao Algarve? – perguntou ele já perto do final da conversa.Vamos. A mudança de Sérgio aconteceu duas semanas mais tarde.Não.Por minha causa? . Tal como sempre. . encontrava-se ao lado daquele perfeito desconhecido.Não te precisas preocupar com isso – afirmou Sérgio envolvendo-lhe os braços à volta da cintura. a pensar no bem-estar dos filhos e a viver em função deles. . Sei lá! Combinávamos num sítio qualquer e eu levava-te comigo. Dali para frente. . – Eu também quero morar contigo. o facto é que aconteceu e pouco ou quase nada houve a fazer por Sara que mais uma vez viu na presença do fotógrafo uma afronta especial oferecida pela sua mãe.Ir ao Algarve? Quando? .Nem pensar.

. . – Mas tudo bem. . De qualquer maneira.Chateado porquê? 120 .Ouve lá – disse Milene voltando-se para Sara.Não.Esparguete à bolonhesa. . Vou-me encontrar com ele no Campo Grande. mas também arriscado. – E tu.Não faz mal – respondeu Sérgio entregando-lhe uma colher à boca. . o trânsito infernal que apanhou durante o caminho apenas lhe trouxe uma enorme dor de cabeça.O. .Hum! Está óptimo. ele trata-me muito bem! Não me trata como uma prostituta. . Infelizmente.…está bem – respondeu Sara dando-se por vencida. – Eu vou fazer tudo para ir contigo. . eu não sou a tua mãe.Já vi que sim – respondeu Madalena apressando-se a beijar a face do filho. . amor? Como é que foi a escola? . . naquela sexta-feira. mas nessa altura. – Atrasei-me.Então?! Vem comigo e eu prometo-te que vais passar um fim-de-semana inesquecível. – Tu não sabes com quem te estás a meter – avisou-lhe Milene a dois dias da fuga.Escuta! Eu sei que o Marco anda metido em negócios estranhos.Vou trabalhar.Estás com uma cara! O que é que aconteceu? . . desiludo-me. . – Os teus pais por acaso não desconfiam que andas a faltar às aulas para vir para cá? .Normal.Maluca – exclamou Milene empurrando-lhe as costas. – Desculpem! Desculpem – pediu Madalena entrando pela cozinha adentro carregada de sacos de compras. Mas a paixão que sentia por ele valia a pena? De certo que sim. Queres pagar para ver? Paga! Tal como já me disseram.O problema é que quando fizeres isso já vai ser tarde demais – afirmou Milene vestindo o seu casaco às pressas. . A minha especialidade. A chegada a casa aconteceu quando faltavam poucos minutos para às oito. tudo iria desmoronar à sua volta tendo em conta a histeria da mãe.Eu também tenho um cliente marcado para as três e meia. Sara sabia-o melhor do que ninguém e sabia também que quando voltasse do seu fim-de-semana com Marco. o que é que isso importa? Já estou chumbada mesmo – riu-se a jovem.Não! Eu consigo sempre apanhar as cartas da escola no correio. por isso não me deves satisfações e nem eu te devo conselhos.k! Se eu estiver iludida. .Aonde é que vais? .. – Anda lá! Não me posso atrasar. ao contrário dos outros.Estou chateado – respondeu Daniel afastando-se bruscamente da mãe. – Se queres que te diga. e para ajudar à festa. as compras do supermercado prenderam Madalena mais tempo do que estava à espera. – Prova o molho! Vê se está bom? . mas isso não significa que ele seja má pessoa – respondeu Sara saltando da cama. Sérgio já havia iniciado os preparativos de um jantar no mínimo improvisado enquanto Daniel se entretinha a jogar na sua playstation portátil em frente à televisão da cozinha. .Ele não presta! Estás iludida. O plano parecia ser perfeito.

Não sei aonde é que aquela maluca se meteu.Acho que é por isso – interferiu Sérgio entregando a Madalena um bilhete escrito por Sara horas antes.Claro que sim.Porque ela deixou um bilhete escrito a dizer que ia passar o fim-de-semana contigo e que eu não precisava preocupar-me em ligar! Jorge.Desculpa Catarina.” . foi a conclusão a que Madalena chegou após ter reflectido pela primeira vez.Não.Não sabes de alguma amiga com quem ela possa estar? Encontra um número – afirmou Jorge começando a ficar preocupado com o súbito desaparecimento da filha. . por favor… . mas vou ter que ir à casa da minha ex. então com quem ela estava? – Já lhe tentaste ligar para o telemóvel? – perguntou Jorge.Jorge! Responde à minha pergunta. E a última. – Alguma vez fui buscar a Sara e o Daniel sem te avisar primeiro? Na verdade não. mas tal como deves calcular. seguiu-se número do ex. Está tudo bem.Então aonde é que ela se meteu.Estou-te a perguntar se a Sara está aí contigo – repetiu Madalena. – Disse à mãe que estava comigo. Depois disso. mulher. . já disse que não! Não falo com ela desde quarta-feira. . . Mas se a filha não estava com o pai. não está – disse ele tentando desenvencilhar-se dos braços de uma mulher. encostou-se à mesa para melhor o ler: -“ Mãe! Fui passar o fim-de-semana com o pai e volto no Domingo. meu Deus?! . encontrava-se fora de área. mas tal como sempre. .Desculpa?! . . .A minha filha desapareceu – disse Jorge enfiando-se nas suas calças.Qual encobrir qual quê – exclamou ele levantando-se da cama.Um problema?! . .O Jorge veio buscá-la? – perguntou Madalena depois de ter lido o bilhete vezes sem conta. Aconteceu um problema. se ela estiver aí contigo e tu a estiveres a encobrir… . Não precisas ligar.E tu vais-me deixar aqui sozinha? 121 . marido e a sorte que foi em ele ter ouvido a chamada.Não. Tens a certeza que não sabes nada da Sara? .Aonde é que vais? – perguntou a mulher que estava na cama de Jorge.Está bem – respondeu Madalena desligando o telefone sem muitas delongas. ao reconhecer a letra. – A Sara está aí contigo? .. – Olha. mentiu. mas está desligado. . .Não sei! Quando chegámos ela já não estava cá em casa – respondeu Sérgio. O número de Sara foi imediatamente digitado.Porque é que o pai não me levou também? – interrogou Daniel não escondendo a sua irritação.Isto está-me a cheirar muito mal – murmurou Madalena correndo a alcançar o telefone sobre a bancada. impaciente. – Porque é que a Sara haveria de estar comigo? .Ela não está aí contigo? . . eu estou a ir para aí! Qualquer coisa entretanto e não hesites em ligar-me.

marido. – Mariana?! Sou eu. . . a mãe da Sara! Desculpa estarte a ligar a estas horas. – Não vens? . que nem sequer se apercebeu ou se deu conta de uma grandiosa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro. coisas que até ele não queria imaginar quando se lembrou que dias antes a havia visto a abandonar uma pensão ao lado de um homem muito mais velho. Coisas que ninguém sabia e que ninguém tinha coragem de imaginar.Tens a certeza que é isso? . O que estaria Sara a fazer para ganhar tanto dinheiro? . Eram dezenas de filmes pornográficos. foram as palavras que repetiu vezes sem conta enquanto revistava gavetas e armários com a ajuda de Sérgio. Sérgio foi o único a encontrá-la. Ao segurá-los nas mãos. e a outra verdade é que Sérgio começava a chegar à conclusão que existiam muitas mais coisas para além do comportamento rebelde da jovem. Amigas da escola.Não tenho outra escolha.Quem é que te disse isso?! . amigas da escola.Jorge.Então liga-lhe. .Que tal porque me estás a tratar como uma? . lingerie provocante e outros artigos escabrosos que nenhuma rapariga de dezasseis anos deveria ter em sua posse. Eu conheço-a.Jorge. . Escuta! Se quiseres dou-te boleia até a uma praça de táxis mais próxima. Mas a verdade é que estava tão cega e obcecada em encontrar o que procurava. Madalena subiu ao quarto de Sara e apressou-se a encontrar qualquer objecto que contivesse números de telefone de pessoas próximas à filha..Sim. – Graças a Deus encontrei! . Além disso. mas é que eu precisava saber se a Sara por acaso não está aí contigo… 122 . eu não sou uma prostituta – afirmou Catarina levantando-se da cama. Quando a porta do quarto se encostou com cuidado e os passos de Madalena se perderam pelo corredor. e quando a abriu com alguma discrição para que a namorada não se apercebesse do que estava a fazer. tem aqui o número da Mariana.Não! Eu vou ficar para ver se consigo encontrar outros números… . .Eu sinto muito. já te disse. cinquenta e cem. Sérgio voltou a abrir as portas do roupeiro a fim de encontrar a caixa de cartão que continha alguns dos objectos mais íntimos de Sara. preservativos. é! Olha. ele deixou de ter dúvidas.Tudo bem. mas tenho mesmo que ir! A minha filha desapareceu. os seus olhos esbugalharam-se de surpresa e consternação. Mas a verdade é que Sara tinha.Estou – foram as primeiras palavras de Madalena quando a sua chamada foi atendida por uma das melhores amigas da sua filha.Que é isso. esbaforida. apenas veio a cimentar a suas desconfianças. Como é que podes pensar uma coisa dessas? . – Encontrei – exclamou Madalena erguendo uma pequena agenda cor-derosa. Não posso ficar aqui contigo sem saber o que realmente aconteceu com ela. É da turma da Sara. a tua fama já corre pela cidade inteira ou ainda não sabias?! Seguindo os conselhos do ex. princesa?! É claro que eu sei que não és uma prostituta. .Bem que me tinham dito que tu não eras de confiança – resmungou Catarina apressandose a encontrar a suas roupas espalhadas pelo chão. Sim.Vou ligar da sala – respondeu Madalena correndo em direcção à porta. o facto de ter encontrado quinhentos euros em notas de vinte.

Meu Deus! Será que eu estava cega? . – A Sara chumbou de ano. Contudo.Posso entrar?! . – Vou ligar para a polícia – disse Jorge encontrando o telemóvel no bolso das calças. Mais do que conseguiu imaginar nos seus piores sonhos e uma realidade que apesar de cruel. . – Mariana. . Os passos nervosos e descontrolados de Madalena deixaram Jorge alerta no minuto em que ele pisou a sala.Tens a certeza que ela não tem ido às aulas? .Como é que… como é que eu não percebi isso antes?! Eu não recebi nenhuma carta. . . – Chumbou por faltas a meio do segundo período. .Hã. Mas … eu pensei que tinha conseguido resolver esse problema quando a tirei da casa do pai.Claro – respondeu Sérgio percebendo-lhe um certo tom de sarcasmo na pergunta. . boquiaberta.Tem calma. Ninguém tocou ou se lembrou dele.Como não?! Vocês não são da mesma turma? Ocorreu um silêncio ensurdecedor no outro lado da linha. Encontrou-a com as mãos sobre a cabeça. 123 . Madalena. tu sabias disso? A tua irmã disse-te alguma coisa? . Nenhum telefonema da directora de turma… . .Daniel.Porque eu ia levá-la todas as manhãs à escola. os olhos marejados de lágrimas e um desespero patente por não ter a mínima ideia de onde a sua filha se tinha metido. ninguém sabia do seu paradeiro. pensou. .Eu vou lá atender – disse Sérgio correndo em direcção à porta enquanto na sala Madalena tentava convencer-se a si própria que tudo aquilo não passava de um horrível pesadelo.Isso não quer dizer nada. Ainda não. a Sara não tem ido às aulas? Enquanto ouvia a resposta de Mariana através do telefone. Madalena apenas teve forças para se encostar ao sofá e levar uma das mãos à cabeça. o relógio assinalou vinte e duas horas e o esparguete à bolonhesa cozinhado por Sérgio esfriou sobre o fogão.Não – respondeu o pequeno assustando-se quando ouviu a campainha tocar. não! Eu há muito tempo que não a vejo. . entendes?! Eu via-a a entrar nos portões.A minha filha já apareceu? – foi a pergunta ríspida de Jorge quando Sérgio lhe abriu a porta.A Mariana acabou de me confirmar isso – respondeu Madalena ignorando o olhar curioso de Daniel sobre si. Aquilo era mais do que podia suportar. parecia também ser a mais provável. . Nessa altura. D.Não é melhor ligar primeiro para os hospitais? – interferiu Sérgio. Chumbou por faltas! E o pior é que eu não me posso dizer surpresa porque no primeiro período recebi uma carta da escola a avisar-me que ela estava em perigo de chumbar.Não..Será que é ela? . também o desespero tomou conta do advogado quando terminados todos os números da lista de contactos de Sara. .Tem calma – disse Sérgio tentando alcançar-lhe os ombros embora Madalena se tivesse desviado a tempo. Lena – disse Sérgio pressentindo o seu desfalecimento. pois o desejo de encontrar Sara era mais forte do que tudo. – Há dois meses que a Sara não põe os pés na escola – afirmou ela voltando-se para Sérgio.

– Tens frio? . Alguém que pudesse ter alguma ideia do seu paradeiro ou até mesmo um mínimo sinal de vida oferecido pela jovem. – Somos amigos. que alheia a tudo o que se estava a passar em Lisboa. O silêncio apoderou-se da sala por largos minutos. – O que é que fazemos agora? – perguntou Madalena quando os policiais se foram embora. foi a pergunta que os pais. Aonde é que ela está. namorados ou… . .Eu nunca namorei com ninguém. o irmão e Sérgio se fizeram entre si. a verdade é que as horas passadas deixavam poucas dúvidas de que Sara tinha desaparecido sem deixar rastro. deixou-se cair nos braços de Marco numa das praias mais movimentadas do Algarve. a poucos minutos das duas horas da madrugada. A única boa notícia era o facto de saber que a filha não havia sido registada em nenhum hospital público da cidade. mas eu disse-lhe que não era preciso. 124 . – interferiu Sérgio. Ali.Até recebermos alguma informação da polícia. o que de todo não deixou Madalena menos preocupada. ele até queria vir. .A polícia encarrega-se de fazer isso por nós – respondeu Jorge tentando controlar a imensa vontade de ver o namorado da ex. .Esperamos até quando?! . Cada um tentava se lembrar de um local onde ela poderia estar. e embora ninguém quisesse transparecer qualquer tipo de desespero. Depois destes procedimentos legais. mas não vale a pena entrarmos em desespero antes da hora.E como é que vais fazer isso? .O que é que nós somos? . não compliques pelo amor de Deus! Estamos todos nervosos. – Ela não está com ele.Esperamos – respondeu Jorge passeando pela sala. .Adivinha – respondeu Marco encontrando-lhe os lábios. . mulher pelas costas. ela mergulhou no mar e encontrou nele o amparo necessário para se esquecer da loucura que tinha cometido ao fugir de casa sem qualquer aviso prévio aos pais.Já liguei – respondeu Madalena voltando-se para o fotógrafo com os olhos inchados de tanto chorar.Não faz mal! Eu aqueço-te.Eu já estou desesperada. despediram-se dos donos da casa e prometeram empenhar-se na procura de Sara.Um pouco – respondeu Sara envolvendo as pernas à volta da cintura de Marco enquanto as ondas do mar teimavam em levar-lhes para longe.Sim – respondeu Sara passando-lhe as mãos pelo peito musculado.. Aliás. . .Posso te fazer uma pergunta? .Tornaste a ligar ao teu pai? Às vezes ela pode estar com ele. Foram precisos poucos minutos para que a polícia tomasse conhecimento do desaparecimento de Sara e também para que se deslocassem à moradia de Madalena para recolher algumas informações adicionais e fotografias recentes da jovem desaparecida.E se não recebermos nenhuma informação da polícia?! . . .O que é que nós somos?! .Lena.O quê?! .

- Não queres namorar comigo? - Eu não iria conseguir namorar com uma gaja que vai para a cama com qualquer um. Se fosses a minha namorada, irias ter sair da vida! Não gosto nada de dividir aquilo que é meu. - E se eu saísse da vida?! Namoravas comigo? Marco sorriu. – Ouve! Eu não sou o tipo de gajo ideal para ti. - Eu sei. Eu sei dos teus esquemas! Sei que andas metido na droga e que o teu irmão mais novo foi assassinado porque o confundiram contigo. Eu sei de tudo isso. - Quem é que te contou? Aposto que foi a otária da Milene… - Foi ela sim, mas ela não fez por mal, eu é que perguntei. - Então se já sabes de tudo isso, o que é que estás aqui a fazer comigo? - Será que ainda não percebeste que eu não me importo?! Eu gosto de ti – respondeu Sara sem desviar os olhos dele. – Eu quero ser a tua namorada. Apesar de Marco não ter feito o pedido oficial, de resto, algo absolutamente impossível para um homem como ele fazer a qualquer mulher, Sara sentiu-se como a sua legítima namorada quando foi apresentada no dia seguinte a alguns dos seus amigos mais próximos. Quase todos pareceram gostar dela, e ela também gostou de todos, embora tivesse percebido alguns olhares menos simpáticos por parte de duas raparigas presentes no bar onde Marco a levou. Mas nem mesmo esse facto fez com que Sara esmorecesse ou sequer largasse a mão do seu novo namorado pois era com ele que ela queria estar. Era ele quem a mantinha naquele perfeito estado de euforia e era também o único que a fazia sentir-se feliz, bonita e desejada. – Toma – disse-lhe ele entregando-lhe um majestoso fio de ouro e uma pulseira de diamantes. – É teu. - É um presente? – perguntou Sara colocando o fio em frente ao espelho do quarto. - Sim. Gostaste? - Adorei! Mas isto deve custar uma fortuna. - A mim não me custou nada – respondeu Marco sugando-lhe o pescoço perfumado. - É roubado?! - Digamos que foi adquirido sem muito esforço. - E tu costumas oferecer presentes destes a todas as raparigas com quem andas? - Não. Só às mais especiais! - Então quer dizer que eu sou especial? - O que é que achas? - Que sou especial – riu-se Sara quando ele a beijou nos lábios. Vinte e quatro horas sem pregar olho fizeram de Madalena um verdadeiro zombie andante. Cada minuto parecia uma eternidade, qualquer barulho na porta a certeza de que Sara tinha regressado a casa e o toque do telefone uma réstia de esperança de a filha tinha sido encontrada por vivalma. Mas a verdade é tudo isso não passavam de fantasias quando confrontada com a dura realidade, e essa realidade era a de que Sara tinha desaparecido. - Devíamos ligar à polícia – dizia Afonso a cada dez minutos. – Pode ser que já tenham notícias. - Não vale a pena – respondeu Jorge levantando-se do sofá. – Eu vou dar mais uma volta de carro pelas redondezas. - Eu vou contigo – disse Afonso seguindo o ex. genro em direcção à porta.
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- Queres que faça alguma coisa para comer? – perguntou Sérgio a Madalena assim que a porta da rua se fechou com algum estrondo. - Eu não consigo comer nada – respondeu ela continuando a passear pelos quatro cantos da sala. – Enquanto não encontrar a Sara nada me vai descer pela garganta. - Tens que descansar! Não podes ficar nesse stress senão não aguentas. - Aonde é que ela se meteu, meu Deus?! Aonde? Já ligámos para toda a gente, já falámos com a polícia, contactamos hospitais, esquadras…! Ninguém sabe de nada. Parece que ela evaporou no ar. - Eu tenho a certeza que ela vai voltar – disse Sérgio para grande surpresa de Madalena. - Como é que podes ter certeza disso? - Se ela tivesse fugido para não voltar, teria levado todas as roupas dela e outros objectos pessoais, não achas? Mas ela não levou quase nada. Só uma mochila. Ninguém iria fugir só com uma mochila às costas. - E se alguém a levou? E se ela foi raptada? - Lena, pensa bem! Ela deixou-te um bilhete. Ninguém a obrigou a escrever aquilo. - Eu não sei. - Com certeza a Sara deve ter ido passar o fim-de-semana com uma amiga… ou com… um amigo… - Claro – exclamou Madalena voltando-se bruscamente para trás. – Aquele rapaz… - Que rapaz?! - Aquele rapaz que apareceu aqui uma vez à procura dela. Lembraste?! Eu disse-te que não tinha gostado nem um pouco dele e tu disseste que eram só coisas da minha cabeça. Mas quem sabe a Sara não está com ele? - Pode ser. É uma ideia. - Ele não te disse como é que se chamava? - …não sei – respondeu Sérgio tentando recorrer à sua memória. – Mas também não falámos muito! Ele só me perguntou se a Sara estava em casa e se ele podia falar com ela. Eu respondi que sim, mas depois entrei em casa para a avisar. Não! Lembrando agora, ele não me disse o nome. - O meu coração está-me a dizer que ela está com esse rapaz. Ela fugiu com ele. - Tem calma! Não nos vamos entrar em julgamentos precipitados. - Merda – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando Sérgio a abraçou com força. - Vamos esperar mais algumas horas. Se a Sara continuar sem dar notícias, contamos à polícia sobre esse rapaz. - Ainda te lembras da cara dele? - Lembro, claro – respondeu Sérgio tentando acalmá-la com um outro abraço. - Vamos esperar só até à meia-noite então! Só até lá. - O.k! Tal como o combinado, à meia-noite em ponto, Sérgio e Madalena forneceram outra pista à polícia relativamente ao desaparecimento de Sara. A cada hora que passava, a probabilidade da jovem se encontrar na companhia daquele rapaz desconhecido era quase certeira, e se assim fosse, não havia tempo a perder. Era preciso fazer um retrato robot e tentar encontrar-lhe o paradeiro, algo que Sérgio fez exemplarmente quando tentou recorrer
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à sua memória fotográfica. O rapaz tinha 1,80 m, a cabeça praticamente rapada, era mestiço, trazia dois brincos nas orelhas, calças de ganga um pouco largas, uma t-shirt azul escura e vinha a conduzir um BMW conversível. Os olhos também eram escuros, os lábios não muito grossos e o nariz comprido. - Tem a certeza que não se esqueceu de mais nada? – perguntou um dos policiais destacados para o caso. – Acho que não – respondeu Sérgio seguro de tudo o que havia dito. - Vão à procura desse rapaz, não vão?! – interferiu Jorge impacientemente. - Claro que sim – respondeu o agente. – Se ele tiver cadastro, vai ser muito fácil conseguirmos localizá-lo. Por sorte, naquele domingo, as estradas que ligavam o Algarve a Lisboa encontravam-se praticamente vazias, e enquanto seguiam por elas, Marco e Sara não resistiram a trocar várias gargalhadas, beijos e brincadeiras dignas de dois adolescentes completamente alheios aos problemas e responsabilidades. E na verdade, era assim que Sara se sentia cada vez que estava com Marco. Perdia a noção do tempo, do espaço e do perigo que um homem como ele poderia trazer à sua vida. – Pára – dizia ele cada vez que ela tentava lhe desviar o volante das mãos. - Tens que me ensinar a conduzir. - Ainda és muito nova para andar com uma máquina dessas. - Posso aprender… As últimas palavras de Sara coincidiram com uma brusca inversão de marcha que Marco fez em plena auto-estrada. Razão para ele ter cometido tal loucura? A presença da polícia numa das portagens à entrada de Lisboa. – O que foi? – perguntou Sara, assustada. - Cala-te e mete-me a merda do cinto de segurança – gritou Marco deixando-a completamente petrificada quando ao voltar-se para trás a visão de dois carros de polícia e as suas sirenes ruidosas tomaram conta da auto-estrada. Foi a primeira vez que ela se viu metida num verdadeiro filme de terror. Foi também a primeira vez que chorou de medo por se ver diante da morte iminente e por perceber que mostrador de velocidade do carro de Marco havia atingido os duzentos quilómetros por hora enquanto ele se desviava de alguns dos automóveis que circulavam em sentido contrário. O último culminou com um aparatoso capotamento no meio da auto-estrada e com o alívio que Marco sentiu ao ver que os carros da polícia haviam permanecido presos no acidente. Pronto. Estava feito. Ele tinha-se conseguido safar mais uma vez e a saída em direcção a Santarém trouxe-lhe de volta a calma perdida. - Sai – ordenou ele abandonando o carro num descampado. - Aonde é que estamos? - perguntou Sara completamente desnorteada. - Anda! Vou-te meter no primeiro táxi e vais para casa. Hoje ninguém me vê em Lisboa! - E tu? Como é que vais voltar? Vais deixar o teu carro aí? - Esse carro já não existe mais – respondeu Marco arrancando a matrícula e furando os quatro pneus, algo que já estava habituado a fazer em vários outros automóveis. Depois disso, abriu o porta-bagagem e retirou do seu interior a mochila que Sara tinha levado para aquele malfadado fim-de-semana. – Toma as tuas tralhas! Vamos… Apesar de ter jurado não derramar uma lágrima sequer após o maior susto que apanhou na sua vida, a verdade é que durante a viagem em direcção a Lisboa, várias foram as vezes que Sara se viu obrigada a limpar as lágrimas e a engolir o choro para que o taxista não se
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o corpo do condutor que havia tido a infelicidade de lhes atravessar caminho momentos antes. e deitado no chão.Ao Algarve? O que é que foste fazer ao Algarve? Aliás. duas ambulâncias. Entrar ou não entrar?! Essa foi a questão que Sara se colocou durante vários minutos. apesar de ter plena consciência do que a esperava. – Filha – exclamou Jorge correndo a tomá-la nos braços.São vinte euros. . Mas ainda assim. menina! Falta o troco. e ao forçar um pouco mais a vista através da janela do táxi.Já disse que pode ficar com ele – respondeu Sara fechando a porta e voltando-se para os portões da sua casa. pareceu-lhe sentir o peso do mundo sobre os ombros e uma enorme vontade de desaparecer. Nessa altura. os olhos de Sara cruzaram-se com os da mãe. O carro que havia capotado duas horas antes encontrava-se completamente destruído. coberto com um manto branco. Pareceu-lhe também ouvir uma voz interior a confirmar toda a sua irresponsabilidade e falta de bom senso. havia qualquer coisa no olhar dela que obrigou Sara a recuar dois passos. inúmeros polícias à volta do local. Jorge. – Fui sozinha. Sérgio. ouviram-se passos lentos vindos do corredor. Estava assustada e não tinha a mínima noção de qual iria ser a reacção dos seus pais. . Ainda bem! . os olhos inchados de tanto chorar e a mesma roupa que trouxe vestida desde sexta-feira. – Meu Deus! Ainda bem que não te aconteceu nada. . e esse momento foi absolutamente arrepiante para as duas. quando na verdade já era tarde demais para sentir qualquer coisa parecida. – Tome – disse ela entregando o pagamento ao taxista. Algo maléfico. – He lá! Ainda não o tiraram dali – disse ele quando passou pelo local do acidente provocado por Marco. e agora. a jovem não podia desejar um outro lugar para se esquecer dos verdadeiros momentos de horror a quem tinha sido submetida. .Não era preciso. Os seus olhos amedrontados não deixaram sombra para dúvidas.apercebesse de nada. Afonso. – Shiiiii! Morreu – exclamou o taxista levando uma das mãos à cabeça. . saltaram dos seus respectivos lugares e puseram-se alerta. a única coisa que lhe restava era pagar pelos seus erros.Com ninguém – respondeu ela desviando-se dos braços do pai. – Estávamos aqui todos a morrer de preocupação. . Madalena envergava as quarenta e horas que passou sem dormir. gélido e que se mostrava cada vez mais aterrador à medida que ela se aproximava da filha. Ela tinha errado. Uma longa fila de carros. Naquela altura. Daniel e até Alice que lá tinha aparecido para oferecer algum apoio moral à sua melhor amiga. Madalena. a visão de Sara com uma mochila nas mãos. e quando todos 128 . . Por fim. . – Meu Deus! Faltavam poucos minutos para as sete da tarde quando Sara finalmente se viu diante da sua casa.Pode ficar com ele. No rosto. Depois disso. Sara apercebeu-se da dimensão da tragédia que ela e Marco haviam causado. e por fim. Pela primeira vez desde que chegou à sala.Aonde é que estavas? – perguntou Jorge sacudindo-lhe os ombros. com quem é que foste? .Aonde é que te meteste? – interferiu Afonso fazendo os possíveis para se conseguir aproximar da neta.Espere.Fui passar o fim-de-semana ao Algarve – respondeu Sara para surpresa de todos. Quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e mais tarde se ouviu o guincho da porta.

– Isto não vai ficar assim – disse Madalena libertando-se dos braços de Sérgio e seguindo a filha a toda a velocidade. Tentou também girar a maçaneta. eu mato-te de pancada! . mulher no meio do corredor. Tinha levado um estalo. – Porque da próxima vez. mas a verdade é que as mãos de Sara atreveram-se a destrancar a fechadura. – Quer dizer. a jovem subiu as escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e trancou-se no quarto numa tentativa desesperada de manter o fio de lucidez que lhe restava. deixas-nos à beira de um ataque de nervos e ainda achas que tens razão?! Tens a noção da gravidade do que acabaste de fazer? E se te tivesse acontecido alguma coisa? E se tivesses sido raptada.Eu já disse! Só queria passar um fim-de-semana fora.Porque eu já sabia que vocês não iriam deixar. a jovem deparou-se com a visão assustadora dos seus progenitores sobre o alpendre da porta e com a certeza de que apenas agora os seus problemas estavam a realmente começar.Podes bater-me à vontade! Eu não vou dizer nada.Com quem!? – perguntou Madalena perdendo as estribeiras. . Depois disso. . . Os momentos que se seguiram foram tensos.Sara.Eu vou lá – exclamou Jorge adiantando-se ao namorado da ex.Eu não vou pedir desculpas se é isso que estás à espera – gritou Sara com os olhos vermelhos de raiva. não levantes a voz – disse-lhe o pai veemente. . que a mãe não iria deixar. ou pelo menos.estavam menos à espera.Foi com aquele rapaz que apareceu cá em casa no outro dia. – Se não a abrires. Madalena não hesitou um segundo em soquear-lhe vezes sem conta.Lena! . Ao ver-se diante da porta do quarto da filha.Sara. O maior estalo de toda a sua vida que a fez inclusive sangrar da boca. ouviu-se o valente estrondo de Sara a cair sobre uma das mesinhas da sala.Eu já disse que fui passar um fim-de-semana ao Algarve. mas tal como se era de esperar.Sim e não quer abrir. . Sara teve a brilhante ideia de se trancar no interior do quarto. – Sara! Abre a porta! Abre-a agora imediatamente! Silêncio foi a resposta. abre a porta – imperou o advogado.Já disse que não é da tua conta. . mulher. . morta?! .Porque é que não avisaste então? – perguntou-lhe o pai. desapareces sem qualquer explicação.É mesmo hoje que te mato – gritou Madalena lançando-se contra a filha com todas as forças que possuía dentro de si. Mais tarde. não foi? . . . – Começa já a explicar qual foi a loucura que te passou pela cabeça para sair de Lisboa sem a nossa autorização – imperou Madalena entrando pelo quarto adentro na companhia de Jorge. – Nunca mais voltes a fazer o que fizeste… – imperou Madalena. – Trancou-se aí dentro? – perguntou Jorge encontrando a ex. . . eu arrombo-a! Não se soube se foi a voz do pai ou a sua ameaça.Não é da tua conta. mas ainda assim Sérgio conseguiu impedir que Madalena levasse os seus intentos adiante quando a segurou pelos braços e permitiu que Sara fugisse da sala. . 129 .

– E ela sempre me perdoou porque queria que tu e o Daniel crescessem numa família minimamente estável.Com que é que tu foste.Não fui com ninguém – respondeu Sara largando os braços. utilizei a assinatura dela para um negócio que estava a fazer com alguns sócios meus na altura. – O que foi? Ficaste surpreendida? Ou será que pensavas que nós nunca iríamos descobrir que andavas a faltar às aulas para fazer sabe-se lá o quê?! Julgaste muito esperta.É sim! E tu sabes que é. antes de nos decidirmos a assinar os papéis do divórcio. . – Não fales de coisas que não sabes.Eu falo como eu quiser! Não sou obrigada a gostar dele e muito menos a fingir que acho normal uma mulher da tua idade andar com um homem muito mais novo. não é – interrompeu Jorge calando os gritos da filha. filha? . Várias vezes… . Uma casa que é do meu pai. ainda enfiá-lo cá em casa.Não te atrevas a falar assim do Sérgio! . já disse. – Fui sozinha. . . viajas sem dar satisfação a ninguém…! É uma alegria! .Porque tu não nos dás motivos para acreditar em ti – interrompeu Madalena. Eu traí a tua mãe. Foste com alguém.Eu fui porque precisava ficar dois dias sem olhar para a tua cara e sem olhar para a cara daquele homenzinho que resolveste colocar cá em casa. esbaforida. O problema é que o tal negócio não deu certo e… a polícia judiciária 130 . mas mesmo muito. não é?! Fazes o que te apetece. mandas e desmandas cá em casa. e pior.Sara! Cala-me essa boca imediatamente – imperou Jorge para grande surpresa da filha.os olhos de Sara cerraram-se.Não.É claro que eu não iria deixar – interferiu Madalena. . Sara! A tua mãe e eu pensámos muito. e que se não fosse por ele. será que não entendes?! É por tua causa que eu e o Daniel deixámos de ter uma família – respondeu Sara não se deixando amolecer pelas lágrimas da mãe. Só pensaste em ti.O. Foi por vossa causa que estivemos casados durante tanto tempo. Não tens idade para passar fins-de-semana sem a supervisão de um adulto e muito menos para sair da cidade sei lá com quem! Porque é óbvio que tu não foste sozinha ao Algarve.Ou pensas que já não sabemos que chumbaste o ano por faltas? A pergunta da mãe tomou Sara de assalto.. . e tal como se não bastasse.Isso não é verdade.Sabes porque é que eu fui passar o fim-de-semana ao Algarve? . .Não – respondeu Madalena cruzando os braços num gesto de deboche. A juntar a isso.Sinceramente eu não sei o que fiz para me odiares tanto – disse Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. – Tu não tens idade para andar sozinha por aí.k! . raivosa. Só pensaste no teu bem-estar e na vontade que tinhas em voltar a ser solteira outra vez … . já nos tínhamos separado muito antes. porque senão. – É por tua causa que todos os fins-de-semana temos de andar de um lado para o outro sem saber aonde e a quem pertencemos. Porque é que não acreditam em mim? . Porque tu não pensaste nem um segundo nós quando te resolveste separar do pai. – Mas iria adorar saber. não terias sequer como sustentá-la… . tu só nos dás motivos para desconfiar do teu carácter e da tua falta de responsabilidade. . .Tu destruíste a minha vida. – Aliás.

transparentes e vitoriosas? Nem sempre elas são como queremos que sejam. não está?! . . e ela acabou por… ser presa no meu lugar! Foi só uma noite. – Bom dia – disse Sérgio beijando-lhe os cabelos quando se deparou com a mesa do pequeno-almoço totalmente composta.Ela odeia-me sim! E eu não posso fazer nada para que ela deixe de me odiar.Será que acabou mesmo!? .Ela odeia-me – exclamou Madalena voltando-se para Sérgio com os olhos inchados de tanto chorar. . as forças para fazer tal tarefa eram praticamente nulas. essa fase vai passar. Vai passar! Quando ela crescer. Ela ama-te muito e é por isso que faz estas coisas só para chamar a tua atenção. por mais que tentemos. quando ela perceber a mãe maravilhosa que tem. Na verdade. somos capazes de superar as nossas fraquezas interiores.Não – respondeu ela permitindo que ele se sentasse ao seu lado. o relógio marcou meia-noite e quarenta e cinco minutos. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. não lhe aconteceu nada. Ela não te odeia. e nem sempre. Madalena conseguiu pela primeira vez engolir algo comestível e Jorge desapareceu com a clara certeza de que já deveria ter contado a verdade à filha há muito tempo. mulher. – Portanto.descobriu algumas irregularidades numa conta offshore que eu tinha. Quem sabe com o tempo Sara não entendesse? Quem sabe ela não percebesse que nem sempre as relações entre adultos eram fáceis. .O que é que isso importa?! – perguntou Sara largando os braços. . . Foi fraco ao não fazê-lo. Por isso. A tua mãe não teve culpa de nada! . mas acho que foi a suficiente para que ela se fartasse de mim e pedisse a separação – discursou Jorge rasgando alguns olhares a Madalena. E a verdade é que o ex. mas sim.Ela não te odeia.Estás bem? – perguntou Sérgio encontrando Madalena sentada sobre as escadas que ligavam os dois pisos da casa. e Madalena foi a primeira pessoa a levantar-se para preparar o pequeno-almoço na cozinha. dos estalos e dos gritos.A Sara já está cá em casa. como vês. Só que essa conta estava no nome da tua mãe.É só uma fase. . um claro contraste tendo em conta a noite anterior. sim. A casa amanheceu silenciosa. – Está tudo destruído. militar não poderia estar mais certo. mas ainda assim ela conseguiu aguentar as fortes dores de cabeça e a vontade quase incontrolável de passar o dia inteiro na cama sem olhar ou falar com vivalma. a calmaria voltou a rondar a casa quando Sara regressou sã e salva. talvez por medo que ela deixasse de o ver como um herói. . Seria demasiado egoísta da sua parte se todas as culpas acerca do término do seu casamento recaíssem sobre os ombros da ex. .Melhoraste da dor de cabeça? 131 . Acabou tudo bem. desesperada. coisa que ela não sabia porque eu não lhe contei. . Nessa altura.Com a tua ajuda está – respondeu Madalena abandonando o quarto debaixo das lágrimas que a filha não conseguiu conter. fui eu o único culpado pela nossa família ter terminado.Bom dia. . foram as últimas palavras de Afonso Soares no final daquela tarde particularmente cinzenta e tumultuosa. E não.Pelo menos acabou tudo bem. Apesar das discussões.

Eu só deitei fora aquela porcaria – respondeu Sérgio largando o seu equipamento fotográfico no chão. tanto a mãe como a filha encontravam-se tão cansadas de lutar. . – Não acredito! As minhas coisas…! Não acredito… A procura desesperada continuou por todo o quarto. naquela tarde. Claro.Nojento ou não. Para além disso. . Mas tal como qualquer outro dependente. Mas quem?! Quem? Desesperou-se. Prisioneira talvez fosse a palavra que melhor a definiria durante três semanas. Dani – respondeu Sérgio servindo-se de uma chávena de café. Contudo.Eu não sei do que é que estás a falar. uma caixa a qual só ela tinha acesso e que muitas vezes lhe trazia o prazer que não conseguia alcançar com indivíduos do sexo oposto. e o pior é que ela nada podia para contrariar a decisão da mãe devido ao apoio incondicional que o seu pai lhe ofereceu aquando do castigo. mas a pouco e pouco.Mãe! Vais-me levar à escola? – perguntou Daniel. Sara começou a sentir-se confusa e ansiosa. Sara escolheu uma cadeira à mesa para se sentar e Madalena voltou-se de frente para o lava-loiça. Com certeza. Contudo. Será que tinha sido a mãe? Não. Desta forma. pois as horas custavam a passar e o seu vício aflorava-se a cada minuto. 132 .Não acredito nisto… – foram as palavras que ela murmurou enquanto os olhos e as mãos reviravam todo o roupeiro. também não estava autorizada a sair de casa e muito menos a comunicar-se com qualquer pessoa através do telefone.Sabes sim! Foste tu que andaste a mexer nas minhas coisas! Roubaste-me a caixa. – O que é que queres comer? – saiu-lhe essa pergunta a muito custo. . Começou a pensar em sexo e na falta que aquele acto que costumava praticar todos os dias lhe fazia. E assim.Mais ou menos. principalmente para uma rapariga da tua idade. o leitor de CD e a televisão. . As últimas palavras do fotógrafo coincidiram com a chegada de Sara à cozinha e também com o constrangimento de Madalena ao vê-la diante de si. . Passou-se uma semana e Sara percebeu que estava de castigo quando lhe foram retirados do quarto. numa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro. O Sérgio.. que foi completamente impossível para elas trocarem qualquer palavra mais amarga àquela hora da manhã. Sara começou a perder as esperanças de encontrar a sua preciosa caixa. – Eu levo-te. ao contrário de todas as suas expectativas. . Madalena teria dito alguma coisa ou feito um escândalo. – Aquilo era nojento.Cereais – respondeu Sara baixando o rosto. a caixa não se encontrava mais lá. . – Eu quero a minha caixa – foram as primeiras palavras de Sara assim que o fotógrafo chegou da rua e a encontrou sozinha em casa.Um dia vais-me agradecer. Eram passados a meditar em todas as coisas de errado que fez e também em Marco. Impaciente também. o computador. envergonhada. os seus olhares se desviaram. era meu e tu não tens o direito de mexer em nada do que é meu! . Sexo. Sara mantinha as suas reservas escondidas a sete chaves. os dias eram passados no interior de um quarto completamente desprovido de tecnologia. Só podia ser outra pessoa. Alguém a havia tirado dali. . ela percebeu. Como será que ele estava depois dos dois quase terem sido apanhados pela polícia? Será que ele chegou a saber que o condutor do carro que capotou morreu por culpa da irresponsabilidade dos dois? Diante de tantas dúvidas.Hoje a mãe está um pouco mal disposta.

Mas sim. eu consigo ver as coisas do lado de fora e podes crer que não precisei de muito esforço para juntar todas as peças deste puzzle. Sabia também que esses sintomas começaram meses antes quando descobriu a pornografia em casa do pai.Eu odeio-te! .Eu nunca te vou agradecer por nada – gritou Sara. . A mãe nunca iria compreender as razões que a levavam a querer sexo tanto quanto um ser humano desejava ar para respirar. desesperou-se. . . – Vais contar à minha mãe? – perguntou ela.Ou será que estás tão obcecada por sexo que a simples ideia de te veres sem a tua caixa te deixa assim?! Sara calou-se.Cala-te – gritou ela completamente descontrolada.Escuta! Porque é que estás tão irritada? Eram só alguns filmes pornográficos. Nem a mãe e muito menos o pai. Aliás. – Precisas tratar-te e eu estou a falar a sério. A verdade nua e crua da qual Sara não podia escapar e que infelizmente lhe foi jogada à cara pela pessoa que mais odiava no mundo. Sara sabia que ele existia e que a pouco e pouco já havia controlado toda a sua vida. o sentimento de repulsa que todos iriam sentir de si quando soubessem a verdade. mas porque quer?! . . não por dinheiro.E como não já não consegues sair de casa. não é?! . vibradores e outras coisas. Fizeram com que cometesse loucuras atrás de loucuras.Isso não é da tua conta. raivosa. mas por um prazer que queria ver saciado.Já pensaste no desgosto da tua mãe quando ela descobrir a verdade? Quando ela descobrir que a filha dela se anda a prostituir. – Tu estás doente. O prazo que Sérgio dera a Sara para contar a verdade a Madalena esgotou-se. Sara – disse Sérgio incendiando-lhe o olhar. A príncipio tentou levá-la como uma simples brincadeira. Só que ao contrário dos teus pais. mas em muito pouco tempo. Ali estava. estás a começar a entrar em ressaca. não porque precisa. E precisas também deixar de te prostituir… .. Tu és dependente de sexo. daí a vergonha. que se deitasse com inúmeros homens e que vendesse o seu corpo. Pensando melhor. uma curiosidade.Tu és ninfomaníaca. Sara decidiu que não iria contar. o sexo é a tua droga. Passaram-se cinco dias e o círculo estava pouco e pouco a fechar-se. já não tens a tua caixa. Nunca iria contar. . e ela. Apesar de nunca ter encontrado a verdadeira definição para o seu desejo sexual compulsivo.Cala-te! Tu não sabes o que dizes… . Por isso. Podes muito bem viver sem isso ou não?! . 133 . . – E tu também sabes. .Eu nunca vou fazer isso. talvez Sérgio tivesse razão.Então não me deixas outra escolha – disse Sérgio alcançando o corrimão das escadas. essa brincadeira e essa curiosidade apossaram-se não só da sua mente como também do seu corpo. tal como um toxicodependente é dependente de droga. Nunca ninguém iria saber da sua doença e ela passaria despercebida aos olhos de todos até o final dos seus dias. que já não sabia o que fazer.Não! Eu queria que fosses tu contar. .Eu sei muito bem o que estou a dizer – respondeu Sérgio enfrentando-lhe os olhos raivosos.Cala-te – afirmou Sara recuando dois passos.

Cada vez que se encontravam nos corredores. Nessa altura. Conta.É só me despachar da máquina que venho a correr – respondeu ela cedendo-lhe um longo beijo nos lábios.Não – respondeu ela com um sorriso maléfico que o irritou de imediato.exclamou Sérgio abrindo um sorriso de orelha e orelha quando sentiu dois braços à volta da sua cintura. . cozinha ou até mesmo na sala. completamente desnuda.Pois fui – respondeu uma voz angelical que o fez gelar dos pés à cabeça. Madalena voou em direcção ao 134 . ela tinha consciência que não. . . – Foste rápida… . iria correr para os braços de Sérgio e presenteálo com um final de tarde no mínimo inesquecível. E sim. . Nada pôde exemplificar o terror sentido por Sérgio quando ele percebeu que a pessoa que tinha acabado de entrar na cabina não era Madalena. Com a pressão da água a cair sobre o polibã. Estas foram as últimas palavras de Madalena antes de sair da casa de banho levando consigo várias roupas nas mãos e também a certeza de que assim que se despachasse da tarefa enfadonha de as colocar na máquina.Veste-te – ordenou ele entregando-lhe o robe caído sobre o tapete. Mas ela não contou e essa ideia nem sequer lhe passou pela cabeça.Vê lá se não te demoras muito! Prometeste que me irias fazer companhia no banho. Ali estava a filha da sua namorada. .Tens alguma roupa branca para lavar? – perguntou Madalena enquanto Sérgio se preparava para tomar um duche na casa de banho.Só esta camisola – respondeu ele tirando-a do corpo. Aquilo já tinha passado todas as marcas. mas sim Sara.Mas seriam as coisas assim tão simples? No fundo.Eu?! Louca? Claro que não! Só te queria fazer uma surpresa. .Não te demores.Sara. O desejo parecia ser recíproco quando Sérgio abriu o chuveiro da cabina e se enfiou lá para dentro sentindo os primeiros pingos de água quente caírem-lhe sobre o rosto e o corpo desnudo. nas escadas. os passos lentos e quase silenciosos de um corpo esbelto e a abertura da cabina pelas suas mãos delicadas. . Conta. veste-me esse roupão agora! . a porta da casa de banho sofreu uma ligeira pressão e abriu-se sem que ele se apercebesse disso.Já disse que não. . . com olhos de quem o queria comer e sem qualquer pingo de remorso por ter cometido um acto no mínimo insano. A única coisa que sabia era que teria que afastar Sérgio da sua vida de uma vez por todas e consequentemente todas as ameaças que ele fazia questão de lhe incutir. . foi impossível ouvir o barulho do robe a cair sobre o tapete. – Estás louca? . era como se o fotógrafo lhe lançasse olhares fulminantes com mensagens claras e peremptórias: Conta. – O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Sérgio abandonando a cabina e encontrando uma toalha com a qual se pudesse tapar. Mas os gritos de Sara para se tentar livrar dos braços do fotógrafo não tardaram a ecoar por toda a casa.Podes deixar. sendo que quando isso aconteceu. . pois a presença de Sérgio em sua casa lembrava-lhe que estava entre a espada e parede.Dá-ma! Vou pô-la na máquina. foram as palavras de Sérgio enquanto enfiava a filha da sua namorada no robe que ela havia retirado minutos antes de o surpreender no banho.

– Mas fica aí no teu quarto.Não sei – respondeu ela. . incrédula. No fundo querias ficar com as duas. o que é que eu posso fazer? 135 .Eu disse-te para não te meteres no meu caminho. E a verdade é que o mesmo se estava a passar com Madalena. tal como se estivesse a ser espancada ou violentada por alguém.Eu nunca te assediei – vociferou Sérgio sentindo-se prestes a perder a sua sanidade mental. – Lena! Tu tens que acreditar em mim. .Porque é que não contas à minha mãe? Porque é que não lhe contas que me andas a assediar desde que nos conhecemos?! . mas tu não me quiseste ouvir. que ali. não é nada disso que estás a pensar… . – A verdade é que tu me chamaste para vir ter contigo. Eu nunca tive nada com a tua filha. .Essa é a verdade.Viste o que acabaste de fazer. mas tu disseste que isso não te importava. Foi por isso que resolveste morar cá em casa. no interior daquela casa de banho. mas …eu estava a tomar banho e de repente a Sara entrou na cabina. tu achas que a minha mãe vai acreditar numa coisa dessas? – interrompeu Sara para grande espanto e surpresa do fotógrafo. Eu assustei-me.Eu era uma criança até tu teres feito o que fizeste.Eu é que não queria ter nada a ver contigo – interrompeu Sara compondo-se no seu roupão. . lembraste?! .Não. minha louca? – disse Sérgio agarrando o braço de Sara com força. – O que vem a ser isto? – murmurou Madalena sentindo-se quase sem ar para respirar quando encontrou o namorado e a filha completamente atracados na casa de banho.O que é isto?! – repetiu Madalena. Mãe. Ela é louca.segundo piso pronta a inteirar-se do que se estava a passar. .Lena. disse que não podia ter nada contigo porque era o namorado da minha mãe. ela também e eu estava a tentar a… .respondeu Sérgio largando os braços de Sara e deixando-a quase semi-nua sobre a sanita. . sentiu como se o mundo tivesse acabado de desabar sobre os seus ombros.Isso não é verdade. Eu era só uma criança e tu sabias muito bem disso quando me obrigaste a ir várias vezes para a cama contigo… . . – O que foi. . Daniel tornou a encostar a porta e ignorou os gritos de Sara que a cada minuto tornavam-se mais agudos e intensos. .Eu não tenho estômago para continuar a ouvir isto… – murmurou Madalena abandonando a casa de banho com os olhos rasos de lágrimas. – Tu é que me obrigaste! Eu bem tentei fugir. Acho que deve ter sido por engano. mãe? – perguntou Daniel surpreendendo a sua progenitora no corredor. – Porque é que não lhe contas a verdade? .Eu não sei como é que aconteceu. não é – respondeu Sara enfrentando o olhar confuso de Sérgio. ela chamava com todas as forças. . .Então explica! Explica porque eu não estou a perceber. Não saias! Ao ouvir as ordens da mãe. . Tu não passas de uma criança… .Eu posso explicar.Isso não é verdade – vociferou Sérgio voltando-se para ela.Sérgio. – Eu nunca tive nada contigo.

ela agarrou-se ao edredão numa tentativa desesperada de acalmar a dor que estava a sentir.murmurou ele tentando alcançar-lhe os ombros com as mãos. Dois minutos depois. mas sim por não veres algo que está mesmo à frente do teu nariz! Mas quando perceberes esse erro. encontrou-a em frente à janela. ou algo semelhante. acho que já vai ser tarde demais… Da janela do quarto. – Lena… . – Eu não sei nada sobre ti e hoje cheguei a essa conclusão. . por favor – disse Madalena sentindo-se completamente morta por dentro. Por isso. o que é que eu sei sobre ti!? .Como assim? O que é que estás para aí a dizer? . e quando isso aconteceu.Há quanto tempo? Nove.Eu não te queria dizer isto.…tens razão – concordou Sérgio baixando o rosto.murmurou Sérgio. de costas voltadas e completamente imóvel. Sara observou os movimentos de Sérgio a enfiar as suas malas no carro. . dez meses… Sérgio manteve-se calado. Tal como esperava. Era uma dor que parecia ter-selhe entranhado por todo o corpo. ele abandonou a casa de banho ainda enrolado numa toalha e correu ao encontro de Madalena no quarto divido pelos dois. Viu as suas mãos fecharem o porta-bagagem com força e mais tarde a sua entrada no banco da frente.Vai-te embora. Tu sabes disso. . mas… um dia vais perceber que cometeste um grande erro.Lena. tu não podes acreditar naquilo que a Sara disse! Eu nunca tive nada com ela e nem nunca seria capaz de a tocar. – Eu não mereço que acredites em mim.Lena….Não adiantava nada continuar a trocar palavras vãs e dementes com uma rapariga também ela vã e demente. a conviver com os meus filhos e nem foi preciso muito tempo para perceber que cometi um grande erro – discursou Madalena com os olhos rasos de lágrimas. – Tu conheces-me! .Tu não acreditas em mim.Será que eu sei? – perguntou Madalena voltando-se para ele com uma expressão mortificada. Como se pôde enganar tanto com elas? Como é que pôde acreditar nelas e entregar a Sérgio tudo o que de melhor possuía dentro de si? 136 .Não me toques – foi a resposta que o fez recuar dois passos. . . . Uma dimensão a qual só ela tinha acesso e que Sérgio não sabia se poderia entrar. .Porque vendo bem. tão… apaixonada que não ouvi o que as outras pessoas me disseram. Não por não teres acreditado em mim. Pus um perfeito desconhecido dentro da minha casa. o veículo arrancou e a rua tornou a ficar deserta. sem tempo a perder. Parecia ter sido atingida por um raio. . incrédulo.Põe-te no meu lugar! Em quem acreditarias? No teu namorado que só conheces há poucos meses ou na tua filha que já conheces há dezasseis anos? . e parecia também ter entrado numa dimensão só dela. foi a conclusão a qual Sérgio chegou quando a olhou pela última vez e se deu conta que Sara realmente não conhecia a palavra limite. A almofada sobre a cama não precisou de muito tempo para ficar totalmente encharcada com as lágrimas de Madalena. que a deixava quase sem ar para respirar e que a matava por dentro a cada minuto que se lembrava das palavras de amor que Sérgio tantas vezes lhe sussurrou aos ouvidos. Acho que estava tão cega.

Talvez devesse ter sido mais cuidadosa em não oferecer o seu coração.Deixa-me sozinha – respondeu Madalena com uma voz rouca. Podes fazer o quiseres… Ao ouvir as palavras da mãe. Depois disso. – Foi melhor ter-se ido embora! Agora vamos voltar a ser uma família outra vez. como é que se podia recriminar se tudo o que Sérgio lhe havia dito parecia tão real? Se tudo o que ele fazia parecia tão real. – Era por causa disso que eu não gostava dele – ouviuse a voz de Sara sob o alpendre da porta. O meu castigo já acabou? . Ele que lhe devolveu novamente a alegria de viver. 137 . Há quanto tempo aquilo estava a acontecer.Já se passaram três semanas. – E ele também não gostava de ti – continuou a jovem ansiando qualquer reacção por parte da mãe. Madalena continuou deitada e fechou os olhos inchados de tanto chorar. foi a pergunta que Madalena se fez ao limpar as novas lágrimas que teimavam em cair-lhe no rosto. que a fez voltar a acreditar no amor e que lhe prometeu o céu e as estrelas apenas em troca de um beijo? Mas não. Sem forças para sequer erguer a cabeça. fez-se um silêncio ensurdecedor e Madalena desligou a luz da mesinha de cabeceira ansiando que o comprimido que havia tomado surtisse efeito e a fizesse dormir. o seu corpo e a sua alma a um perfeito desconhecido. Mas por outro lado.Já. . pois o céu e as estrelas pareceram desabar sobre a sua cabeça quando ela o encontrou nos braços da filha naquela maldita casa de banho. Nada disso realmente aconteceu. . Sara afastou-se da porta e fechou-a com algum cuidado.

. o castigo deve ter sido óptimo. Mas o mais intrigante de tudo era perceber que ela não se tinha arrependido nem um pouco do que fizera.Ele disse que queria que eu largasse a vida – respondeu Sara com um largo sorriso. Estava animada. – Tu e o Marco andam mesmo a namorar ou é só uma brincadeira? .Estive de castigo – afirmou Sara entrando com um largo sorriso.Bem.Posso entrar? . – Diz que não admite dividir a mulher dele com ninguém. . .E tu vais deixar a vida por causa dele? 138 . do acidente que provocaram em plena auto-estrada.Não me queres contar? E foi o que Sara fez minutos mais tarde. onde logo à entrada encontrou alguns amigos de longa data. a reacção dos pais quando regressou a Lisboa. . O namorado dela era um otário e estava a um passo de lhe contar que me ando a prostituir.Mas diz-me uma coisa – interrompeu Milene acendendo um cigarro e atirando o isqueiro contra a cama. – Desaparecida – disse Milene abrindo-lhe a porta do quarto. . o local escolhido para comemorar a sua liberdade foi o bairro do Intendente. . os seus passos rápidos em direcção a uma pensão que habitualmente frequentava não deixaram dúvidas de que o seu maior desejo era reencontrar uma pessoa que lhe era muito especial. . .Pena porquê?! Eu até lhe fiz um favor.Às vezes eu acho que tu não és deste planeta. e por fim. .Tu nem sabes o que é que me aconteceu nestas três semanas. O que é que querias que eu fizesse? Ele não me deu outra escolha. não?! .CAPÍTULO VIII Era a primeira vez desde há semanas que Sara podia sair de casa sem a supervisão da mãe ou os constantes telefonemas do pai. Para além disso.Porquê!? . . e tal como se era de esperar.A minha mãe é forte! Ela vai saber esquecer esse Sérgio num estalar de dedos.Tu és louca – foram as palavras que Milene murmurou vezes sem conta. a forma magistral como se livrou da presença do futuro padrasto lá em casa.Coitada da tua mãe! Não tens pena dela? . isso podia notar-se a quilómetros de distância cada vez que acenava a velhos amigos e retomava um quotidiano que já conhecia tão bem.Claro. Contou a Milene todos os detalhes do louco fimde-semana que passou ao lado de Marco no Algarve.

Não – riu-se Milene.A sério! A bófia veio.Tu não acreditas mesmo que ele gosta de mim. Madalena despediu-se dela com um sorriso forçado e voltou a encostar a porta da sua floricultura. mas ele vai continuar com a dele.Então acho que se calhar também preciso de um psicólogo. – Mas também gosto de sexo e ele está sempre longe. – O que foi? Achas piada? . .Porque não!? Se ele quiser.Eu prometi ao Marco que iria deixar de me prostituir.Eu acho que é possível um homem gostar de mim pelo que eu sou. Houve tiros e tudo… . .Não vês que o gajo só te anda a fazer de otária? Ele anda com todas as gajas que lhe aparecem pela frente ou pensas que um idiota como ele só se contenta com uma miúda de dezasseis anos?! Tu vais largar a vida.A sério? – riram-se as duas..Não sei.Tu só pensas nisso. não é?! .Não passas de uma criança! Ainda tens muito que aprender. 139 . Porque é que tudo terminou daquela forma tão abrupta? Porque é que uma história de amor que tinha todos os ingredientes para dar certo evaporou-se no ar sem qualquer razão aparente? Por mais justificações que Madalena tentasse encontrar. Milene sorriu.O ex. – Conheci uma gaja que também era assim. . nenhuma delas lhe trazia de volta a paz de espírito. – Ela pode ter muitos defeitos. Não sei se vou conseguir ficar um mês sem ir para a cama com ninguém. Foi o maior escândalo.Tu acreditas!? . cada minuto era difícil de suportar e a certeza de que nunca mais o voltaria a ver destroçava-lhe o coração. Pelas minhas qualidades – respondeu Sara arrancando uma ruidosa gargalhada de Milene. . o marido seguiu-a e apanhou-a numa pensão aqui perto. .Já ouvi falar – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. Tinham-se passado três dias desde o término do seu namoro com Sérgio.Qual? . Procurou um psicólogo e descobriu que era ninfomaníaca. . já reparaste?! . namorado da minha mãe disse que eu era ninfomaníaca! Sabes o que isso é? . Mas há uns meses atrás a Arlete encontrou-a na rua e ela disse-lhe que se tinha curado. Não sejas parva. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar. – Precisas é de um colete-de-forças.Tens mesmo a certeza que foi isso que aconteceu? – perguntou Alice quando ela lhe contou a cena grotesca que vira na sua casa de banho. .A Sara não iria inventar uma coisa dessas – respondeu Madalena limpando as últimas lágrimas da tarde.O que mais pode ter acontecido? . mas não sei se vou conseguir manter a minha promessa.disse Sara atirando-se contra a cama. largo mesmo. Então um dia. .Mas só tem um problema… . . Cada lembrança dele era um suplício. mas eu sei que ela não iria mentir sobre uma coisa tão séria. Atendida que estava a segunda cliente da tarde. . levou o pessoal para a esquadra e a gaja nunca mais apareceu por estas bandas. – Eu gosto dele – continuou Sara. Vinha muitas vezes ao bairro porque dizia que o marido não a conseguia satisfazer na cama. Que tal a Sara ter mentido!? .

Lena! Não podes deixar que ela assuma o controlo da situação e te faça a vida num inferno. .Sinceramente não sei o que te dizer. – Façam uma boa viagem – disse Madalena observando a animação do filho quando Jorge o foi buscar.Sabes bem que não posso deixar a Alice a tomar conta da floricultura sozinha. Quem sabe ela não voltaria a vê-lo com outros olhos? Quem sabe ela não perceberia que durante meses o seu maior desejo era voltar para casa e para o casamento de ambos? De qualquer maneira. a Sara já não é nenhuma criança de colo. Apenas Daniel foi convidado a acompanhar o pai numas pequenas férias a Madrid. e os pais. deixaram muito a desejar. foi a verdade… . apesar de não quereres aceitar a realidade. .Não sei! Até quando conseguir… – respondeu Madalena encolhendo os ombros. . Se o Sérgio foi culpado por tudo aquilo que aconteceu.Mas eu tenho a certeza que tu e o Dani se vão divertir imenso sem mim – afirmou Madalena afagando os cabelos do filho.Como assim?! . será que não entendes?! .Bem! Vamos pestinha?! Senão perdemos o voo. – De qualquer maneira foi só um convite. .Eu não sei! Eu não sei se com a Sara não será pior. ela não te contou nada.Tudo bem – disse Alice segurando-lhe as mãos frias. Ela é a minha filha – respondeu Madalena. . . Sara não teve direito a férias. O seu comportamento escolar. . . os seus olhos e a sua expressão facial não mentiam.. Não foi imaginação. Ele não agiu sozinho. eu não sei! O Sérgio não parece ser desse tipo… . . uma. a verdade é que Jorge não podia ter ficado mais contente pela notícia.Obrigado – respondeu o advogado rasgando alguns olhares à ex. não foi um boato.Lena. desesperada. privaram-na de qualquer tipo de divertimento que não se cingisse a Lisboa. mulher. Ainda estava triste.Ele estava a obrigá-la.Lena.Eu sei – disse Jorge segurando malas do filho. por mais que me faça a vida negra.E o que é que queres que eu faça!? Eu não posso pô-la para fora de casa tal como fiz com o Sérgio. O Verão trouxe novamente consigo os dias de sol e de calor.Eu vi. Agiu nas tuas costas e traiu-te também.Não podes deixar que ela continue assim. . e embora nunca tivesse sabido o verdadeiro motivo para que Madalena e Sérgio se tivessem separado. não custava nada sonhar com essa possibilidade. 140 . – Acabou! Agora só quero esquecer essa história e seguir em frente. . – O Sérgio está fora da tua vida. duas ou três vezes. É só isso que eu quero. Ela sabia muito bem o que estava a fazer. cientes de que a filha precisava de um castigo. – Era bom se pudesses vir connosco.Não digas nada – respondeu Madalena assoando-se com um lenço de papel. mas principalmente o familiar. mas ao contrário dos anos anteriores.E até quando vais continuar a viver nesse inferno? .Às vezes os pais têm que abandonar os filhos para que eles aprendam a dar-lhes valor. mas e a Sara? O que é que vais fazer com ela? . e mesmo se a tivesse obrigado a ir para a cama com ele. eu não posso abandoná-la. – Por mais que ela me odeie. Alice! Eu vi com os meus próprios olhos ele a agarrá-la. algo que ele aceitou de bom grado. deixa-me que te diga que ela também foi. E também tem a Sara… .

quase sempre ao príncipio da noite.O. Iria passar duas semanas com Sara na mesma casa. Sozinha. – Ela está lá dentro com a Milene. – Não estavas no Algarve? A resposta do jovem foi dada com um valente soco no estômago que a fez cair e derrubar uma cadeira das inúmeras cadeiras colocadas em frente ao balcão. Madalena fechou a porta e lançou um longo suspiro. um dos delinquentes mais temidos do bairro.Sai-me da frente. fugia para o quarto sem dar quaisquer explicações acerca do seu desaparecimento. uma das prostitutas mais antigas do bairro. raras eram as vezes que Sara parava em casa. Arlete – respondeu ele empurrando-o contra a porta do bar. . De férias.Tchau. – Até que enfim apareces por estes lados… .Diz antes que eu perca a minha paciência… . – Ligamos assim que chegarmos ao hotel. . e quando voltava. – Ai estás aqui. ela desistiu de tal coisa. Madalena tentou impor horários rígidos e perguntou sempre para onde ela tinha ido. . Depois de um breve aceno e de se ter assegurado que o carro do ex. Assim sendo. ao ver à sua frente a figura de Marco. – Tchau. mas com o passar do tempo e com a perca de forças. .Olha quem é ele – exclamou Arlete. puto! Tenho quase idade para ser a tua mãe. Depois disso. mãe! . vários homens que se encontravam no bar insurgiram-se a Marco por aquele acto de violência no mínimo gratuito.k – respondeu Daniel despedindo-se da mãe com um longo abraço seguido de um beijo na face. minha puta?! . Nessa altura. depois de se ter desviado de várias pessoas e retirado algumas cadeiras da sua frente. Milene apressou-se a socorrer a sua amiga temendo que Sara tivesse desmaiado com o impacto do golpe. Sabes bem que as duas não se largam.Está bem.Porta-te bem! Não faças asneiras e obedece ao teu pai. 141 . Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. Nas primeiras vezes. . – Animal – gritou ela voltando-se para Marco. queres tu dizer! Diz lá! Aonde é que a Sara se meteu? . enquanto no chão. A resposta da prostituta trouxe a Marco o ímpeto que ele precisava para entrar no bar sem quaisquer cerimónias. assim como a cólera que se apossou dos seus olhos. .Tens quase idade para ser minha avó. Não valia a pena pois Sara chegava a casa cada vez mais tarde e também recusava-se a passar os fins-de-semana com o pai desde que soube que fora ele o responsável pelo término da família. não havia absolutamente nada que Madalena pudesse fazer para voltar a controlá-la.k! Boa viagem. marido partira sem deixar rastro.Marco – exclamou Sara surpresa por o ver ali.O. Sem ninguém para a amparar e sem certezas do comportamento da filha que a cada semana piorava gradualmente. encontrar a visão de Sara sentada na mesma mesa que Milene e outros dois homens desconhecidos foi inevitável..Tem calma – respondeu Arlete assustando-se com a agressividade do jovem. Duas semanas. e essa certeza tornou-se incontornável quando pela primeira vez a filha passou a noite fora de casa.Hei! Vê lá.A tua namoradinha é?! .

. Sem que ninguém o impedisse. abre as pernas e tu ficas com metade dos lucros dela. Mas não te esqueças de uma coisa. Na verdade. – Agora ela vai apanhar e bem que é para aprender a não meter cornos num traficante de droga. tudo o que ele queria era extravasar o ódio que sentiu quando lhe foi informado que Sara continuava a prostituir-se com qualquer homem que lhe aparecesse à frente. perdão e humanidade. a culpa é tua! Arlete não podia estar mais segura das suas palavras. logo ele que constantemente lhe enviava jóias e dinheiro através do correio. .. Mas ela não merecia nenhuma dessas jóias e muito menos esse dinheiro.Se levares. Mesmo tendo prometido que iria ser só sua. A única coisa que merecia era o seu desprezo e também a sua ira.Não a vais levar daqui – adiantou-se Milene puxando a amiga contra si. Ou ainda achas que isso não é chular? Fica quietinha mais é que é para não sobrar para ti.Levanta-te daí. ele regressou propositadamente a Lisboa para tirar a história a limpo.Eu?! .Ai chamas a polícia?! Então chama que eu quero ver – respondeu Marco enfrentando a fúria da prostituta. – Eu avisei-te para afastares a Sara daqui – afirmou Arlete compondo o decote do seu vestido. a primeira a ir em cana és tu… . nada lhe pareceu importar. Sara enganou-o. nem sequer a remota possibilidade de ser apanhado por alguns dos seus inimigos ou então pela polícia. . . não tinha nada a perder e há muito que deixara de conhecer palavras como: compaixão. – Ainda temos muito que conversar. Milene mordeu os lábios e sentiu o sangue fervilhar-lhe nas veias por não ter tido a coragem de livrar a melhor amiga das garras daquele homem tão perigoso.Ai eu é que digo merda!? Tu melhor do que ninguém sabe do que esse Marco é capaz. traiu-o e fê-lo sentir-se a chacota do bairro. – Chama a bófia que eu tenho a certeza que todo o pessoal que está aqui vai adorar. – Pensavas o quê?! Que eu não ia descobrir nada? Que não ia saber que me andavas a meter os cornos com outros? Pois fica sabendo que aqui dentro deste bairro eu tenho informações diárias. Se ela morrer. – Vaca – exclamou ele encostando-lhe o rosto à parede. Nessa altura. Sara – exclamou ele alcançando-lhe os braços e fazendo-a levantar-se do chão quase à força. minha cabra! Ou achas que ninguém vai contar que andas a chular uma miúda de dezasseis anos? . Se chamares. Ele não conhecia limites. pois os seus cinquenta e dois anos de vida deram-lhe a sabedoria necessária para saber que com homens como Marco não era permitido brincar. Sei tudo o que se passa… 142 .Eu não ando a chular ninguém – afirmou Milene não se deixando intimidar pelas palavras de Marco.Cala-te! Só dizes merda tu… – respondeu Milene encontrando a sua mala sobre a mesa. .Sim. Marco levou Sara pelo braço e deixou todos os presentes estupefactos com a cena que tinham acabado de assistir. E ao saber dessa verdade irrefutável. Num beco escuro do bairro. Tu.Andas a chular sim que eu sei! A miúda trabalha.Queres uma aposta como vou? . lembraste?! Partiu-te toda há uns tempos atrás e vai acabar por fazer o mesmo com essa pobre coitada. eu chamo a polícia! . enquanto pontapeava e soqueava Sara.

E gosto mesmo! Mas só gosto de apanhar de ti.O que é que queres que eu faça? . mas não.Impressão sua ou ela estava a rir-se. Ainda pensou estar enganado.Sei lá! Enfia-a num colégio interno – respondeu Alice terminando os arranjos de margaridas sobre a bancada da floricultura. Não. Sara percebeu. . foi a pergunta que Marco se fez quando ouviu um ligeiro risinho proveniente da boca de Sara.Já estou a perder as forças. Conseguido esse milagre. No corpo ainda trazia as marcas deixadas por Marco. . que se lixasse tudo o resto. 143 . a certeza que tinha passado a noite inteira em bebedeiras e outros actos menos lícitos.O problema é mesmo esse! Ela sente que tu estás a perder as forças e vai ficando cada vez pior. pois na altura a única coisa que queria era cair na cama e esquecer-se de todos os acontecimentos menos felizes que rodearam a sua noite. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara abriu a porta de casa. – Andas a gozar com a minha cara. mas nem isso a demoveu do intuito de chegar ao quarto e trancar-se a sete chaves.Não – respondeu ela voltando-se para ele completamente marcada nos braços e nas pernas. mas no entanto era o único que a fazia sentir-se genuinamente desejada e especial. Mas nem isso pareceu importar quando ele a tomou nos braços e fê-la sentir-se nas nuvens. pois tinha nódoas no corpo que podiam comprovar essa teoria. Ele podia espancá-la à vontade pois nem mesmo isso iria mudar aquilo que ela sentia por ele.O. encontrava-se deitada no sofá da sala tapada com um pequeno cobertor. – A partir de hoje só apanhas de mim. – Só gostei de saber que tens ciúmes de mim. era com ele que ela desejava passar os dias. Tinha adormecido cansada de tanto esperar. Era com ele que ela sonhava todas as horas. os abraços e o toque das suas mãos foram muito mais marcantes do que os murros e os pontapés que ele lhe ofereceu. . – Faz qualquer coisa. .Não sei como é que consegues aguentar uma situação dessas – foram as palavras de Alice quando Madalena lhe contou que mais uma vez a filha não tinha dormido em casa. as noites e a quem dedicava todos os seus sentimentos mais profundos. com quem e muito menos a fazer o quê. Marco podia não ser o homem mais romântico do mundo.Ouviste?! . ela sabia-o. mas nos olhos. surpreendentemente ou não.Então fica assim combinado – respondeu Marco segurando-lhe o queixo com força. . .Ouvi – respondeu Sara entregando-se de corpo e alma a um homem que minutos antes a havia espancado brutalmente. Ela estava realmente a rir-se e aquilo não era uma alucinação sua.k. Não queria explicar a Madalena onde tinha passado as últimas dezasseis horas. a jovem adormeceu e só acordou às duas da tarde com a agradável surpresa de que a sua mãe tinha saído para trabalhar apenas deixando um bilhete sobre a mesa da cozinha: “ Tens o almoço no forno”. Assim sendo. Ouviste!? . . . Foram esses os motivos que a fizeram caminhar pé ante pé pelo corredor e fazer todos os possíveis para não acordar a mãe que.Já vi que és daquelas que gosta de apanhar. Os beijos. sua cabra?! .

eu juro que já vou ficar satisfeita. castiguei. . .O Jorge!? Achas mesmo que eu posso contar com ele? . . Caí nas escadas rolantes. As marcas no corpo de Sara não pareciam ser fruto de uma simples queda nas escadas rolantes. Sara desviou-se a tempo dizendo: – Caí. O jantar foi silencioso e não constituiu qualquer surpresa para Madalena e Sara. E não.Depende! Olha que o Daniel não te dá trabalho nenhum. E só de imaginar essa ideia. não é? Pelo menos a ele a Sara deve ter algum respeito. desesperada.Eu tenho pena de ti. . mas ela simplesmente não me houve. as duas afastaram-se. Subitamente pareceu-lhe ver uma nódoa negra e um pequeno arranhão. – Ele é o pai. Por sorte. O que teria mudado tanto? Meses antes. – E talvez a culpa tenha sido minha.Tu é que fizeste bem em não ter filhos – disse Madalena arrancando-lhe uma leve risada. deixaram de ter interesses comuns e viam na outra a encarnação do pior pesadelo. já que havia pelo menos cinco dias que mãe e filha não trocavam qualquer palavra no interior daquela casa. já proibi.A quem o dizes. – Já briguei. minha amiga! Realmente não gostava de estar na tua pele. . Madalena achou por bem não levantar mais questões.Ontem quando estava a correr para apanhar o metro.Essa nódoa – respondeu Madalena tentando alcançar-lhe o pulso.Caíste aonde!? . . sempre fiz de tudo para que ela não descobrisse o sacana que o pai dela era. fiz tudo o que estava ao meu alcance. mas não estaria também ela a destruir a vida da mãe e a impedir-lhe de ter uma família normal? Enquanto pensava no assunto.. Embora não tivesse ficado minimamente convencida com aquela desculpa esfarrapada. embora a camisola de Sara estivesse estrategicamente colocada para os tapar. Sara disse a Madalena que havia sido ela a destruir a sua vida e a possibilidade de ter uma família normal. . Aos poucos e poucos. e agora olha só no que é que deu?! . 144 .Devias – respondeu Alice furiosamente. o coração de Madalena disparou de medo. . – O que é que tens aí no braço? . Pareciam antes ter sido feitas por alguém e propositadamente. bati. Sempre a quis proteger. Madalena tornou a levar uma colher de sopa à boca e sem querer lançou os olhos ao braço da filha. . o quê?! .Acho que já nem ao pai ela respeita! Desde que ele lhe contou a razão do nosso divórcio ela nunca mais quis passar o fim-de-semana com ele.Filho criado trabalho redobrado.Mais cedo ou mais tarde ela iria ter que saber a verdade. Simples bons dias e boas noites não contavam para aquilo a que se poderia chamar de uma conversa interessante. – Mas se me der só metade do trabalho que a Sara me está a dar.No braço. Mas a verdade é que pela primeira vez os seus sentidos gritaram-lhe para estar alerta e para não ignorar as evidências.Ainda – respondeu Madalena caminhando em direcção à sua secretária.Então o que é que eu faço? Diz-me porque eu já não sei – discursou Madalena largando os braços.O Jorge? O que é que ele tem a dizer sobre isto tudo? . .Eu sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos.

…portou-se bem. . Jorge e Daniel regressaram de férias trazendo consigo caras felizes e também vários presentes. – Como é que estão as coisas por aqui? . E a última.Deve ter saído com amigas.Estás mais magra – ele não resistiu a fazer essa observação. Foi uma pena tu e a Sara não nos terem acompanhado.Ela não está em casa? Gostava de falar com ela e entregar-lhe os presentes.Bem.discursou Jorge.Bem – mentiu Madalena depositando os presentes sobre o sofá. Estava mais magra.Estou óptima.k! Então eu deixo os presentes e depois entregas. sabendo bem que havia sido o ex.Esperemos bem que sim.E esse estádio é…?! .Claro. não sei – respondeu Madalena cruzando os braços. . animado.Não?! Aonde é que ela foi? . 145 . . mas ainda assim ele manteve essa impressão guardada a sete chaves para não ser inconveniente.Está bem. museus. . Do Real Madrid.Eu sei que o futebol nunca foi o teu forte. agradeceu-lhe com um sorriso e permitiu que ele a acompanhasse em direcção à sala. . Assistimos a um treino e no final até conseguimos autógrafos de alguns jogadores. E hã.Acompanhas-me à porta?! Madalena acenou que sim e em seguida conduziu-o em direcção à saída. . Claro que tenho. quase todos oferecidos a Madalena.A Sara? Como é que ela se portou nestas semanas? . . Pode ser que aos poucos e poucos ela comece a entrar nos eixos. .Ai é?! Fizeram o quê? . .É um estádio de futebol. . . . .Ainda bem então. .Tens a certeza? – perguntou Jorge encontrando na voz da ex.Impressão tua – respondeu ela compondo-se na sua camisola azul.Hã… claro – respondeu Madalena forçando um sorriso. . .Lá isso é verdade. mulher uma certa hesitação. . mas mesmo assim não consegui resistir. . .A Sara não está em casa. Quer dizer. Jorge reparou enquanto a seguia pelo corredor.Tenho. . marido o principal impulsionador de todas aquelas compras. demos uma escapadela a Barcelona.Muita praia! Visitámos monumentos. conhecemos o estádio Santiago Bernabéu… .Mas o Daniel estava ansioso para conhecer.O.Está bem.Dois dias mais tarde. . O Dani depois mostra-te. – Estou na mesma.Eu e o Daniel divertimo-nos imenso.E tu? Como é que estás? . . . Tenho uma audiência que adiei e que agora não posso faltar. eu já vou indo! Ainda tenho que organizar algumas papeladas para amanhã. não é que ela mereça. .

Eu vou contigo. Milene revirou os olhos e lançou um pesado suspiro.Oras! Para saber se está tudo bem – respondeu a prostituta calçando as suas sandálias sentada na cama. – Faço sempre esses exames de seis em seis meses para não ter nenhuma surpresa desagradável. fosse na pobreza. ao sangue. e tentou encontrar nela toda a doçura e inocência que ela detinha quando se casaram e prometeram diante do altar amarem-se. agradeceu a passagem cedida pela assistente 146 . mulher apenas trouxe uma certeza a Jorge. dos miúdos. o estômago apertado e uma vontade descomunal de vomitar. voltou ao quarto e respirou fundo sentindo-se grata por ter conseguido sobreviver àquela autêntica prova de fogo. e essa certeza era de que não havia a mais remota possibilidade de ela o aceitar de volta.Exames de quê?! . Depois disso. Olhou-a mais uma vez. da nossa casa… . . mas… eu ainda acho que existe uma possibilidade de voltarmos a ser uma família outra vez. Tenho sentido muita falta de ti. foi inevitável. Sara acordou mal disposta. Raios. Morreu ao longo dos dezasseis anos de casamento que mantiveram. – Tenho sempre que fazer tudo por ti.Esta casa já não é tua – respondeu ela calando-lhe os argumentos.Não me podes marcar os exames?! Ao ouvir o pedido de Sara. . .Eu sei que tens todas as razões para não acreditares no que te estou a dizer. naquela tarde. provavelmente no teu lugar também não acreditaria. – Marquei uns exames para a semana – disse-lhe Milene ainda naquela tarde. à urina… ao HIV. mas ultimamente tenho sentido muitas saudades tuas… . a jovem puxou o autoclismo e manteve-se inerte no chão durante vários minutos. E tu também devias começar a fazer… . na saúde e na doença. Na semana seguinte. Talvez alguma coisa que comera na noite anterior? Ou seria antes a ressaca por ter bebido duas garrafas de whisky numa festa? Sem conseguir resposta às suas perguntas.Marca no mesmo dia.Por favor.Podes não acreditar. Sem cerimónias. Tinha a cabeça à roda. não havia muitas pessoas para realizar exames e Milene foi a primeira a ser chamada pela assistente de serviço.Não Jorge… . . pois ela já não existia. algo que fez assim que saltou da cama e se trancou na casa de banho. Preencheram as fichas oferecidas pela recepcionista e mais tarde escolheram duas cadeiras discretas para se sentarem. na riqueza. Jorge! Vai! A expressão dura da ex. Fazemos os exames juntas! E assim foi. Jorge arranjou forças para abrir a porta e também para dizer algo que já havia ensaiado várias vezes durante as duas semanas que passou em Madrid: . Por sorte. Infelizmente Jorge não conseguiu encontrar essa mulher.foi a resposta desesperada de Madalena. não lhe restou outra alternativa a não ser afastar-se da porta e deixá-la especada sobre o alpendre.Exames ginecológicos. Nunca se havia sentido tão mal em toda a sua vida e nem sabia sequer o que teria causado tamanha indisposição.Nessa altura.Lena… .Para quê?! . Mas não. Na primeira manhã de Agosto. Sara e Milene deram entrada na clínica onde a última costumava fazer exames periódicos. já reparaste?! . Depois disso. respeitarem-se e nunca se abandonarem. Assim sendo. ela despediu-se de Sara e entregou-lhe os seus pertences para que os vigiasse.

Sem preservativo.Não! Ao contrário de certas malucas que andam para aí.Tem calma! Eu disse que é só às vezes e é só com o Marco.Sr. – Se estiveres numa de estragar a tua vida.Porra. Porque é que ele não se cala. pá – gritou Milene chamando a atenção de algumas pessoas que iam a passar na rua. disse-lhes a recepcionista.Sou eu – respondeu Sara saltando da cadeira.Perguntou-me se os meus pais sabiam que eu tinha vindo fazer um teste de HIV… . enquanto ouvia os sermões do médico de serviço acerca da sua conduta sexual não muito aconselhável e da sua tenra idade para realizar exames como àquele (HIV). – Tu não me digas que tens andado a trabalhar sem preservativo? . Sara sentiu-se incomodada.Sei lá – respondeu Milene acendendo um cigarro assim que viraram a esquina. . . os exames não demoraram a ser feitos. eu cuido-me bem. deixando Sara a olhar para o relógio pendurado na parede.e desapareceu com ela pelos corredores da clínica. . – Aquele médico era um otário – resmungou a jovem à saída da clínica. fazer coisas estúpidas só para provar que és a maior e que ninguém pode contigo. – És parva ou fazes-te?! . Quinze horas e trinta e cinco minutos. O silêncio de Sara deixou Milene alerta. pensou. nunca! Nem em sonhos! .Mas porque é que temos que esperar oito dias até os exames ficarem prontos? . Sara conseguiu desaparecer do consultório com a clara certeza que não voltaria ali a pôr os pés tão cedo. por mim estou-me a lixar.Vai – ordenou Milene empurrando a jovem pelas costas quando lhe pressentiu algum nervosismo.ª Sara Albuquerque!? – chamou a assistente do corredor. .Que eles até me tinham aconselhado a fazê-lo – respondeu Sara às gargalhadas.O que é que querias que ele te dissesse? É claro que te iria pregar um sermão. – Não custa nada. . .Coitado do velho! Deve ter ficado com os cabelos em pé quando lhe disseste isso. – Então?! Como é que foi? – perguntou ela assim que Milene pisou a sala de espera.Normal! O de sempre – respondeu a prostituta vestindo o casaco às pressas.Pois eu tenho medo. . – Quer dizer… às vezes com o Marco esqueço-me… . e por sorte.Nem que tivesse sido só uma vez e muito menos com o Marco. Podem vir buscar os exames daqui a oito dias. . – É sempre assim. Fisicamente não custou. Mas não contes comigo para te amparar em todas 147 .É claro que não – respondeu Sara desviando-se bruscamente.Venha comigo.E o que é que tu respondeste? .Só deves ter medo se não te cuidares. Só espero que isto não demore. mas psicologicamente. – Olha lá – exclamou ela segurando-lhe o braço com força. . pensou.Tem calma… . Por sorte.Escuta aqui – exclamou Milene apontando-lhe o dedo ao rosto.Não tens medo dos resultados? . . por favor! . . .

As palavras de Milene permaneceram nos ouvidos de Sara quando ambas entraram na clínica onde estavam depositados os exames. Os oito dias que se seguiram foram longos. encheu-se de coragem e tornou a procurar Milene combinando com ela um local onde se pudessem encontrar. . as pessoas na rua pareceram-lhe desfocadas e as suas mãos suaram como se estivessem a ser encharcadas por uma torneira aberta.Não estou chateada – respondeu Milene apressando os passos em direcção ao metro mais próximo. quando finalmente chegou a altura de receber os exames. 148 . Por momentos. as duas amigas voltaram a sair à rua no mais completo silêncio. mas também por levar uma vida desregrada cheia de más companhias e outras histórias escabrosas para contar.Pensasses nisso antes de te teres armado em parva. Por fim. lembraste?! . Se ao menos as pessoas fizessem a mínima ideia de como ela se estava a sentir miserável. para umas coisas és corajosa. começou a sentir a sua cabeça a andar à roda. Mais uma vez.O que foi?! Tenho Sida? . e se queres saber. não lhe restou outra alternativa a não ser voltar para casa e dar-se conta da grande asneira que tinha cometido.Não! E tu? Não vais abrir o teu? Ao olhar para o envelope que tinha de encontro ao peito.as tuas merdas porque eu já não tenho idade para isso. não só por ter tido relações sexuais sem qualquer protecção. Se não menos elas parassem um pouco só para lhe perguntar o porquê de ter tomado as decisões que tomou. Não houve uma única noite em que Sara tivesse conseguido pregar os olhos enquanto esperava pelo resultado das análises. . Agora já não há como voltar atrás. mas principalmente para Sara. as duas amigas dirigiram-se à recepcionista e aguardaram que ela procurasse nos arquivos dois grandes envelopes castanhos.Não! Pior! Estás grávida. . O que está feito está feito. sentou-se num pequeno pilar junto ao edifício da clínica. – Dá-me cá esta merda – disse Milene arrancando-lhe o exame das mãos. extenuantes e stressantes. – Estou limpa – exclamou Milene depois de ter analisado os seus exames com a máxima atenção. agora para outras… Os momentos que se seguiram foram expectantes. E se estivesse doente? E se tivesse apanhado o HIV? Eram as perguntas que lhe assombravam os pensamentos todas as horas do dia. – Ainda estás chateada comigo? . Mas ninguém parecia estar minimamente preocupado consigo e também já não havia como voltar atrás. Recebidos que estavam os exames. – Não sou a tua mãe. Um no nome de Milene dos Santos e o outro de Sara Soares Albuquerque. – Estás lixada – exclamou Milene aproximando-se dela. nem paciência também! . que sem conseguir aguentar tanta pressão.Milene… Tarde demais foi o que Sara percebeu quando ao chamá-la pela última vez Milene pura e simplesmente desapareceu sem deixar rastro. Sara hesitou.Não tens nada? . – Quer dizer. tanto para Milene. Nessa altura.Não consegui parar de pensar no resultado dos exames! Estou a morrer de medo.

Não te fiz o filho.O meu maior erro foi ter-te dado ouvidos naquele dia em que me foste procurar para ser prostituta. .Ai agora perguntas-me a mim? Eu sei lá o que é que fazes! Não tenho nada a ver com isso.Bem.Acho que vou falar com o Marco primeiro. já te disse! Ele não te vai ajudar. pelo menos não tenho Sida. não é?! .Eu tenho a certeza que é. – O pior é que tu nem sabes quem é o pai. Depois disso. . queres ver! Porque é que achas que até hoje ele nunca foi pai? Sorte. meu Deus? Era certo e sabido que iria acabar por sobrar para mim.Ui. não?! .Sei lá! Nunca fiz nenhum – respondeu Milene voltando a largar-lhe o rosto. . estás lixada! Ele não vai assumir a criança e ainda é capaz de te mandar fazer um aborto.Eu não posso fazer isso! A minha mãe iria matar-me. não?! – respondeu Milene apressando-se a acender um cigarro para acalmar os nervos. . . . – Não pode ser. .É natural! Já o conheço há muitos anos e ele também já foi meu cliente.E se não for? . . não é?! . Aonde é que eu estava com a cabeça. . é só pedires o número de uma clínica a qualquer prostituta lá do bairro. .É! Devem estar mesmo errados. contar à tua mãe que estás grávida e decidir se queres ou não ter o bebé.O que é que eu faço? Silêncio foi a resposta de Milene. – A luz é que vais chegar a casa. entre Sida e gravidez venha o Diabo e escolha. .Não me vais abandonar agora.Será que os exames não estão errados? . – A única vez que fiquei grávida tive a criança. . . .Só acho que sabes mais coisas do Marco que eu não sei. . . minha cara – exclamou Milene segurando-lhe a face com força.E dói fazer um aborto?! .Eu sabia que esta cena dos exames iria dar merda. .Então o que é que queres fazer? Um aborto? Se quiseres fazer isso. Vai confiando nisso que daqui a nove meses vais ver o erro – respondeu Milene levando uma das mãos à cintura.Já foi teu cliente?! 149 . – O que é que eu faço? – repetiu Sara. – Tu ainda não percebeste a gravidade da situação!? Estás grávida.Às vezes parece que o conheces até demais – afirmou Sara interceptando-lhe os passos.Então se for. Eu sabia! Tipo sexto sentido estás a ver?! .Só preciso de uma luz.Não vai valer de nada.Não acredito – murmurou Sara arrebatando-lhe o envelope das mãos. abri as pestanas e nunca mais me armei em parva de engravidar outra vez.Ele não faria isso – murmurou Sara não conseguindo esconder os seus olhos assustados. Eu conheço-o.O que é que foi? Ainda te estou a tentar ajudar e tu vens-me com essas cenas?! . .. .Só pode ser o Marco. não faria. .Olha aqui a luz. rapariga! Grávida! Vais ter um bebé.Bem. Garanto-te que números não te vão faltar.

Depois vejo isso.O.Mas o Marco é diferente! Tu sabes que nós namoramos. sobre os ombros dos teus pais porque tu nem sequer tens idade para arranjar um emprego decente. . nem como homem e muito menos com pai.Gripe.Porque é que nunca me contaste isso antes? . eu só quero que abras os olhos e deixes de ser ingénua.Estou doente – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico.k. nem como namorado.Porque nunca veio ao caso! Tens a noção da quantidade de clientes que já tive? . O Marco nunca te vai ajudar se resolveres ter essa criança. e pela expressão facial marcada não foi muito difícil perceber que tinha também passado a tarde inteira a chorar e a lamentar-se da sua triste sorte. muito pelo contrário. não estava doente e nem nada que se parecesse. Pela primeira vez naquela semana. Sara chegou a casa antes de o anoitecer. Sara aceitou os comprimidos com alguma cautela. Com certeza que nenhum deles iria compreender.Não é depois! Vais ter que tratar desse assunto o quanto antes para não perderes vaga. podes crer que todas as responsabilidades vão cair sobre os teus ombros. Grávida aos dezasseis anos de um homem que era tudo menos de confiança e com um grande dilema nas mãos: Contar ou não a verdade aos seus pais. ela guardou-os discretamente no bolso das calças. Na verdade. perguntou-se.Se não andasses na rua até tarde não apanhavas doenças. . . Diante daquela situação no mínimo catastrófica. e a sua vida nunca mais teria paz e sossego. para se sustentar e muito menos sustentar uma criança que não foi de todo planeada ou desejada. mas quando a mãe se voltou para o fogão.O que é que tens? . quando fazer. não é!? O mal já está feito. ela não tinha ninguém a quem recorrer.Agora não adianta chorar. Pensar no que fazer. principalmente a sua mãe.Hã… já chegaste – disse-lhe a mãe ao vê-la a entrar na cozinha. . Se resolveres ter o bebé. a única opção que lhe restava era continuar a pensar. E este ano nem penses que te vou dar descanso! Muito pelo contrário. mãe… – murmurou a jovem servindo-se de um copo de água. Fariam um escândalo.Sim – respondeu Milene revirando os olhos quando percebeu que tinha falado demais. . .Toma – disse Madalena atirando-lhe uma caixa de compridos. Vou andar sempre em cima de ti para me certificar que não andas a faltar às aulas. – E não bebas a água do frigorífico! Só te faz mal à garganta. não tinha idade para arranjar um emprego decente. – Daqui nada entramos em Setembro… – disse-lhe Madalena enquanto provava o molho do frango na panela.Eu sei – murmurou Sara limpando as tímidas lágrimas que lhe caíram dos olhos. . ou melhor. – Escuta Sara. . . A sua única doença era não saber o que fazer quando todos descobrissem que estava grávida. . .Um namoro muito torto se queres que te diga – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. 150 . – Que milagre! Até para estranhar. . O que é que iria fazer dali por diante. Ele não presta.. como fazer. e principalmente. que mais alternativas lhe restavam? Tal como Milene lhe dissera horas antes. – Vais ter que meter os papéis da matrícula na escola. Mas por outro lado.

diz lá o que é que queres! . Não sabia muito bem o que era. – Mulher grávida não bebe.Hei! Isto aqui é um estabelecimento de primeira. . Na mesma mesa também se encontrava Arlete. Algumas alertaram-na para o destino cruel que a esperava. Com um misto de sensações diferentes. trouxe-lhe uma calmaria difícil de explicar. – Sara. 151 . No fundo. se for rapaz chama-lhe aquilo.E tu. Se for rapariga chama-lhe isto. e no fim.Nem pensar – interferiu Arlete. . Quem sabe Marco até não fosse gostar da ideia de ser pai. não seria uma loucura tão grande imaginar um desfecho risonho para aquela verdadeira história de terror. tal como se era de esperar. aventuraram-se na procura dos primeiros nomes. mas o simples facto de saber que ele existia e que estava no interior do seu ventre. . Milene? . . dizer que a amava e que juntos iriam criar o filho que fizeram.Acho que já me habituei à ideia – respondeu Sara observando a chegada do empregado de mesa. . Sara caiu na cama e fechou os olhos tentando imaginar a reacção de Marco.Não te tranques lá dentro! O jantar está quase pronto.. Que estúpida! Ainda não dá para ver nada. lembraste? Não podes beber. meninas?! . estão a ouvir?! – resmungou o empregado quando ouviu as gargalhadas das três prostitutas. foram as palavras que Sara proferiu baixinho enquanto examinava a sua barriga à frente do espelho do quarto. houve qualquer coisa em si que mudou. – Mania pá! Tomara muitas mulheres nos cinquenta estarem assim como eu. ninguém conseguiu chegar a nenhum consenso. Mas de facto. . A notícia da gravidez de Sara foi recebida com alguma apreensão por parte da maioria das prostitutas do Intendente. passou-lhe essa ideia maluca pela cabeça enquanto enfiava uma almofada por debaixo da camisola e se imaginava com nove meses de gestação.Imagina se não andasse – respondeu Madalena voltando-se para o fogão.A velha tem razão – concordou Milene. desde que soube que estava grávida.Mas… .Velha é a tua mãe – defendeu-se Arlete ameaçando uma bofetada enquanto Milene e Sara se riam a bom rir. .Vou para o meu quarto.Por acaso! Olha que até hoje não tenho tido muitas razões de queixa. – Estás muito contente – disse Milene a Sara quando ambas se sentaram numa das esplanadas mais frequentadas do bairro. e outras ainda. Imaginou que ele a fosse tomar nos braços. não sabia até que ponto aquele filho iria mudar a sua vida.O mesmo que elas. . – Estás grávida. . – Está um calor de rachar.Uma imperial também! De qualquer maneira não há nada melhor nessa espelunca.Tu já andas sempre em cima de mim. . . .Ui! Clientes é o que não te faltam… – riu-se Milene.O que é que vão pedir. outras optaram por a parabenizar.Para mim pode ser uma imperial – respondeu Arlete abanando-se com a mão.

fecha o bico – imperou Milene. Depois disso. impaciente.E então.A animação e as risadas das três prostitutas continuaram por vários quartos de hora. – Bem meninas! Tenho que ir. .Aonde é que vais? . . Esperava também encontrar nos braços de Marco a confirmação de que tudo iria correr bem e de que podia contar com ele para o que quer que fosse. . .Ficaste?! – insistiu Sara. não havia como prever a sua reacção.O que foi? – perguntou Marco. – Sinceramente não gostava de estar na tua pele. Arlete perguntou: . mas naquela sexta-feira de Agosto particularmente friorenta e cinzenta. Pensam que fiquei com a cena e com o dinheiro. Os dias seguintes trouxeram alguma ansiedade a Sara e tudo porque ela continuava sem saber qual iria ser a reacção de Marco à sua gravidez. .E vai ser cá uma surpresa – exclamou Arlete terminando a sua imperial. apreensiva. . . não sei se me entendem. Física e mentalmente. e enquanto Sara saboreava o seu sumo de laranja natural. – Combinámos que ele vinha ter comigo. Acedida à ordem.Já te disse que hoje não vou poder dormir em Lisboa. Nessa altura. . entendes?! . ela voltaria a casa.Ele desconfia de alguma coisa? – perguntou Milene. . Milene atravessou a rua. – Espera – disse ela.Não. .Está bem. está bem! Já não está aqui quem falou.Porquê?! – perguntou Sara. Sara e Marco subiram as escadas aos beijos e abraços e não tardaram a abrir a porta do quarto para ali dentro matarem todas as saudades que tinham sentido um do outro. o relógio assinalou vinte e três horas e o dono da pensão entregou-lhes a chave do quarto dezoito com um aviso claro e severo para que não fizessem muito barulho tendo em conta o adiantado das horas.Ninguém sabe de nada – respondeu Milene levantando-se da mesa enquanto terminava o último gole da sua cerveja.Tem calma! Temos a noite toda. . . . e depois disso. foram as primeiras palavras que ele disse quando viu Sara diante de si. 152 .Uns gajos andam atrás de mim por causa de uma mercadoria que não consegui devolver a tempo. sorridente.Tenho um cliente daqui a quinze minutos e ainda tenho que me preparar para o receber. não é?! – perguntou Sara franzindo o sobre olho e encarando os rostos constrangidos das duas prostitutas. contaria a verdade aos pais e quem sabe até moraria com Marco no Algarve onde embalados num clima paradisíaco os dois criariam o filho.E ficaste? Marco esboçou um sorriso e logo se apressou a retirar a sua arma por detrás das costas.Vocês sabem alguma coisa do Marco que eu não sei.Estou-me a preparar para a próxima semana – respondeu Sara.Arlete. O dever me chama. – Sabem e não me querem contar. Morri de saudades tuas. nem faz ideia sequer! Eu quero que seja surpresa. .Boa sorte – riram-se Sara e Arlete.Porquê?! . ela esperava encontrar todas as respostas às suas perguntas. Ficaria contente? Ficaria confuso? Irritado? Furioso? De facto. . Sarita?! Quando é que vais contar ao Marco que ele vai ser papá? .

Sim! De ti! Eu tenho a certeza porque a data coincide com uma vez que estiveste cá em Lisboa.É claro que quero. Sara… .Grávida?! – exclamou Marco levantando-se bruscamente da cama. . – Espera – exclamou ela livrando-se dos braços dele.O quê? – perguntou Marco apoiando os cotovelos sobre a cama.E se esquecesses esse assunto.Eu não estou à espera de nada.Então cala-te e beija-me! Sem outro remédio à vista. . de quem!? De ti… – respondeu Sara surpreendendo-se com tal pergunta. . Mas a verdade é que enquanto o fazia. Grávida! . tu hoje estás com muitos truques.Só conto se prometeres que não ficas chateado.Oras. Sara viu-se obrigada a obedecer às ordens de Marco e a brindálo com um longo beijo nos lábios.Tu nem sabes quem é o pai dessa criança. esse pessoal é perigoso! .Sim.Está bem – respondeu ela sentando-se numa das pontas da cama. Claro que ela odiava o facto de Marco andar em negócios estranhos. Uma coisa que descobri há duas semanas. mas odiava ainda mais perceber que muitas vezes ele perdia a noção do perigo por ser tão ganancioso e inconsequente ao ponto de brincar com traficantes de droga. .Marco. abrevia porque eu não tenho muito tempo. . o seu coração apertou-se de tal forma que por momentos foi-lhe praticamente impossível respirar. . Coisa de rotina. – Olha bem para mim e diz se eu tenho escrito na testa a palavra otário!? .Hiii! Já não estou a gostar nada da brincadeira. – Diz lá! . .Não é nada disso! Mas é que… eu tenho uma coisa para te contar.De quem?! . . .Olha bem para mim.Porquê?! Não queres estar comigo? . Pode ser qualquer um que tenha passado pelo bairro.Marco!? . – Na semana passada fomos buscar os exames.k! Eu prometo – respondeu ele revirando os olhos.pediu Marco colocando-se à frente dela. – Eu não vim aqui para falar nesses filhos da mãe! Vim para estar contigo. 153 .O que é que isso importa? .Prometes que não ficas chateado? .Há dias atrás eu e a Milene fomos fazer uns exames só para saber se estava tudo bem connosco. .Sara. é isso? . e… eu soube que… estava grávida… .Marco… .E tu estás à espera que eu acredite nisso? . sabes como é que é! A Milene está cansada de fazer esses exames e disse que eu também os devia fazer para… . Tu tens que acreditar nisso. O que é que foi? Andaste a fazer coisas que não devias.De mim? . .O. hã? – respondeu ele puxando-a contra si..O que foi?! Bem. .

ela deu-lhe tudo o que podia. já ando eu farto. colocou-o num pedestal e chegou inclusive a sonhar com um futuro promissor ao lado de um traficante de droga. Acabou! A sério! Foi divertido enquanto durou. mas isto já se está a tornar demasiado sério para o meu gosto. – Aliás. Sentiu também como se o mundo tivesse desabado por debaixo dos seus pés e que não houvesse absolutamente nada para a amparar. – Já vi que perdi o meu tempo – disse Marco. Não és a primeira e nem vais ser a última a tentar dar-me a volta. nem sequer tinha vindo.Marco. . Quando o viu a desaparecer pela porta. eu estou-te a dizer que este bebé é teu. A última vez foi contigo e eu disse-te que ia largar a vida por tua causa.Há semanas que não tenho ido para a cama com ninguém.. pensou. . Enquanto ouvia o discurso amargo de Marco.Sara. Sara sentiu duas enormes lágrimas rolaremlhe pela face. eu vou-te dar um conselho! Podes já começar à procura de outro palhaço para sustentar o teu filho porque eu estou fora… – afirmou Marco encontrando a sua arma sobre a mesinha e o seu casaco sobre a cama. se eu soubesse que era por causa disso. – Vais negar que durante esse tempo todo não tens trabalhado como prostituta? . por fim. Durante meses. problema teu! Resolve. 154 . De um sonho de uma miúda de dezasseis anos que se julgava muito esperta. – Acabou! Mete isso na tua cabeça. Como se iludiu com um homem que não conhecia nada de si e que nem sequer estava disposto a conhecer. . Eu não tenho razões para te mentir! . Tu fizeste-me prometer isso.Mesmo se tirares. mas que na verdade não conhecia nada da vida. Eu não fui feito para ser pai! Nem para ser pai e muito menos para me prender a uma gaja da vida – respondeu Marco terminando-lhe com todas as esperanças de um possível romance entre os dois. Não sabia absolutamente nada e talvez nunca viesse a saber.O que é que foi? Estavas à espera que eu ficasse contente? Que te fosse pedir em casamento e ainda escolher o nome do puto? Acorda. – Mas eu se fosse a ti tirava mesmo o bebé! Ainda és muito nova para ser mãe e irias acabar por te arrepender mais tarde. Acabou! .Tu não podes fazer isso – exclamou ela segurando-lhe o braço. Se engravidaste. Mas ali. Aliás. – Sara! Sara – disse ele sacudindo-lhe os ombros quando ambos saíram à rua. – Eu tiro. Como se enganou com ele.E achas mesmo que eu acredito em ti? .Marco… . o desespero tomou conta de Sara e ela não teve outro remédio a não ser segui-lo pelas escadas da pensão completamente lavada em lágrimas e implorando-lhe para que ele não a abandonasse. naquele quarto de pensão e de volta à realidade.O filho é teu – murmurou Sara com os olhos rasos de lágrimas. ela percebeu que tudo não tinha passado de um sonho infantil. gostei de estar contigo.Ou vais negar? – perguntou ele lançando-lhe um olhar desafiador.Eu tiro o bebé – afirmou ela segurando-lhe a manga do casaco. o que é que ela sabia da vida? Do mundo que a rodeava? Das pessoas que a rodeavam? Não sabia nada. chegou a essa conclusão. Se não quiseres eu tiro! . . otária! De gajas como tu.

testemunhas e recolheu-se o corpo da vítima. sem margem para erros e que retirou a vida de Marco. Pé ante pé.Não – gritou ela enfrentando o rosto da amiga. Profundamente. . Correu pelas escadas da pensão. enquanto algumas pessoas. Meu Deus.Porque era a única pessoa presente na rua na altura do crime. – Sara. Dito isto. um jovem traficante de droga. gritava e não permitia que ninguém lhe retirasse o pai do seu filho dos braços. Estava apenas a dormir. a sua amiga Sara lavada em lágrimas com a cabeça de Marco sobre o colo. – Mas eu não o quero! E tu não me podes obrigar a querê-lo… MARCO. quase todos cravados no seu peito. ao vê-lo cair inanimado no chão. ela aproximou-se da janela e abriu o vidro para tentar perceber que raios se estava a passar. e para isso bastou apenas as portas da ambulância fecharem-se com um enorme estrondo. Marco não tinha morrido.Mas eu paguei. Depois disso. procuraram um local perfeito para se esconder. Viu pessoas a correrem de um lado para o outro. a área à volta do crime foi delimitada. Para ela. . .Porquê?! . com um cadastro um pouco mais duvidoso. imbecil – respondeu Milene atirando-lhe as duas notas de cem euros.Pode até ser – respondeu ele encolhendo os ombros enquanto se afastava lentamente dela e a deixava sozinha no meio daquela rua deserta. Não está morto…! As sirenes da polícia e da ambulância não tardaram a ser ouvidas no bairro. aquela não era a primeira vez que escutava tiros no bairro. Milene afastou-se do cliente e saltou da cama atordoada.Vai ter que nos acompanhar. De facto.. de vinte e oito anos cujo último desejo em vida foi o de não querer ser pai. quase tropeçou no tapete à entrada. talvez a cena mais chocante de todas. Meus Deus. procuraram-se identificações. Mais tarde. Ao ouvir os tiros vindos da rua. . ela murmurou levando a mão à boca. ela abriu a porta e saiu do quarto ainda a tentar calçar as sandálias. Tinha sido um abate perfeito. o seu coração parou de bater por breves instantes. mas por sorte conseguiu chegar à rua onde um aglomerado de pessoas já se havia juntado à volta de Sara e do corpo de Marco.Toma a merda do dinheiro. não tem idade para aqui estar. – Hei! Vais-me deixar assim? – perguntou o cliente quando ela voltou ao quarto e encontrou as suas roupas espalhadas pelo chão. mas a dormir. . – Ele não está morto! Não está…! Ele não está morto. .Será que não percebeste o que é que se passou? Mataram um homem lá em baixo. – Sara – chamou Milene tentando trazê-la de volta à realidade. larga-o! Ele está morto. e além disso. mas ainda assim. ouviu-se um berro no outro lado da rua. Não. menina – disse um dos policiais aproximando-se dela após todas as burocracias resolvidas. Foi também a primeira vez que Sara se deu conta que Marco tinha realmente morrido. o carro que continha os três mandatários do crime arrancou a alta velocidade deixando para trás um rastro de destruição. E foi nessa altura que ele se voltou para trás sendo posteriormente surpreendido com cinco de tiros de caçadeira. e por fim. sangue e os gritos de Sara. ouviu os estores dos prédios a subirem a uma velocidade fantasmagórica. Por acaso os seus pais sabem que está aqui? 155 . quando os ouviu. – Não preciso dele para nada. A jovem chorava.

. é a nossa obrigação contactar os pais assim que chegarmos à esquadra. Enganados estavam todos aqueles que pensavam que elas gostavam do que faziam. – Eu só conhecia o namorado dela. fazia precisamente sete anos. qual era o ser humano que não desejava uma coisa dessas? Mas a vida às vezes é demasiado cruel para certas pessoas e nem sempre a felicidade bate à porta de todas. Madalena acordou sobressaltada imaginando quem seria. ainda não se tinha perdido na vida e muito menos conhecido a maioria dos habitantes da zona. . .Não sei – respondeu Milene limpando uma tímida lágrima. e na maioria dessas vezes. . – Achas que ela vai voltar algum dia? – perguntou Arlete aos ouvidos de Milene enquanto os carros da polícia desapareciam a alta velocidade. casar. Nem sempre é possível ter-se tudo aquilo que se deseja ou todas as pessoas que amamos.Porquê?! .Boa sorte! Foram precisos apenas cinco minutos para que Sara fosse levada pelos policiais e o corpo de Marco transportado na ambulância para um hospital mais próximo. agente! Será que não era possível resolvermos essa situação sem meter os pais dela no meio? – perguntou Milene recebendo um abraço desesperado de Sara. – Até quando. Coincidência ou não. Que não tinham sonhos. meu Deus?! Porque eu já não sei se aguento muito mais… Era a primeira vez que se abraçavam e choravam juntas desde que se tinham conhecido. . a tomar caminhos errados e a aprender com os nossos próprios erros.Até quando vamos continuar a viver nesta merda – respondeu Milene tentando engolir o nó que lhe atravessou a garganta. Até porque. Então menina?! Vem connosco? .Até quando o quê?! .Eu sinto muito mas as coisas vão ter que ser feitas dentro da lei! Como ela é menor. Sete anos de luta. de tristezas.Só me pergunto até quando… .Eu acho que eles não iriam entender. Depois disso.Queres que vá contigo? – perguntou a prostituta sob o olhar atento do polícia. O relógio assinalava duas horas e vinte e 156 . deixaram-se de ouvir as sirenes no Intendente e tudo o resto voltou à mais completa normalidade. .. Que não desejavam encontrar um grande amor. . Que não sonhavam ter uma vida igual à de todas as outras mulheres. À mesma normalidade que existia quando Sara ainda não frequentava o bairro.Não! Não é preciso. projectos e muito menos sentimentos. naquela noite. – Anda – disse Arlete levando Milene encostada ao ombro. e por momentos.Não fiques assim. amarguras e um rol infinito de outros acontecimentos que para sempre iriam ficar gravados nas suas memórias. Por vezes somos obrigados a fazer escolhas. ter filhos e viver felizes para sempre.Sim – respondeu Sara afastando-se de Milene com um estranho aperto no coração. pagamos bem caro por eles.De vista – mentiu Milene. . – Vamos para casa! O telefone sobre a mesinha de cabeceira tocou ruidosamente. o que acabou por morrer. . rapariga! . – Já não sei de mais nada.Não – respondeu Sara limpando o rosto marcado pelas lágrimas.Sr.Já vi que vocês se conhecem muito bem. .

quatro minutos. Na verdade. Sara? – insistiu a mãe. eu conto – interferiu Jorge com uma expressão nada amigável. 157 . pensou. marido na agenda com a certeza que só ele a poderia ajudar numa emergência daquelas. Madalena pôde ter essa certeza quando voou em direcção ao corredor. aflita. Aonde foi que errou. Era a voz de Jorge. Madalena desceu à sala e aguardou que a porta da rua se abrisse a qualquer momento. o quê?! Atordoada com todas as revelações feitas pelo agente de autoridade. – Estou – respondeu Madalena tentando encontrar forças para abrir os olhos e reconhecer a voz grossa e formal no outro lado da linha. Era advogado.No Intendente. ela encontrou também Sara com os olhos inchados de chorar e uma t-shirt marcada pelo sangue de Marco. é melhor não! Fica em casa! Eu resolvo isto. Sara ainda não havia regressado a casa. Já estou a ir para lá – foi a resposta de Jorge assim que ela lhe explicou todo o sucedido. não lhe restou outra alternativa a não ser passear por todas as habitações da casa e desesperar-se entre lágrimas e soluços. . À espera de notícias. raios. como errou e porque é que errou? . apreensiva.Aonde? – perguntou Madalena. – Por favor. Mais tarde. para quê explicar esse facto quando era notório que os pais não a conheciam minimamente e nem sequer faziam ideia do horror a que ela tinha sido submetida quando viu o seu namorado ser brutalmente assassinado a poucos metros de si? Madalena e Jorge não iriam compreender. Não tinha e nem queria explicar que naquela noite perdera uma das pessoas mais importantes da sua vida e também da vida do filho que estava à espera.Entra – disse uma voz grave após a abertura da porta. . tudo apontava para que fosse ela. – Não te preocupes.Sara. A pergunta não sofreu qualquer resposta quando Sara se afastou dos braços do pai e encontrou na mesa um local perfeito para se apoiar. Assim sendo. – Um amiguinho dela foi morto à caçadeira e parece que ela foi a única testemunha do crime. que fez o coração de Madalena gelar como nunca. – O que é que aconteceu? . . Foram as duas horas mais longas da sua vida. precisamente essa tshirt. Mas os seus desejos pareciam difíceis de serem concretizados quando ao olhar para o relógio viu que nele estavam assinaladas quatro horas e vinte e oito minutos. Madalena saltou da cama e tentou controlar o pavor que sentiu ao saber que Sara estava presa por ter sido a única testemunha de um homicídio.Vens-me buscar para irmos juntos?! . – A Sara tem muitas coisas para nos explicar. ela tornou a lançar um olhar vazio aos seus progenitores e manteve-se inerte. – A minha filha.Acho melhor irmos para a sala – respondeu Jorge conduzindo a filha pelo braço enquanto um pouco mais atrás Madalena os seguiu cautelosamente. Não tinha absolutamente nada para lhes dizer. apressou-se a encontrar o número do ex. Como advogado saberia enfrentar aquela situação bem melhor do que ela. diz-nos…! . o que é que aconteceu? – perguntou-lhe a mãe. perguntou-se vezes sem conta. O que teria acontecido para que Sara se tivesse desvirtuado daquela maneira.Não. e por isso. Depois disso. para além do ex. Mais tarde. E foi essa t-shirt. marido. conseguido esse feito. Mas o pior nem foi isso! Sabes aonde é que a polícia a encontrou?! . – O que é que aconteceu. Nunca iriam entender o que aconteceu e muito menos perceber que uma parte de si tinha também morrido naquela noite.Se ela não conta.

Mas depois. Madalena tentou enganar-se.Sara. pois a cada dia. . – Enlouqueceste?! Será que não sabes que nesse lugar só há bandidos. a cada semana. a cada mês. ela mostrava-se um ser humano odioso e repugnante. não sei… . – Eu não andei a criar uma filha para a ver perdida no Intendente.. . . mas no entanto vão lá para procurar as filhas dos outros… . Achas isto normal? . com paciência. .O quê?! . Pronto! Aí está a verdade que vocês tanto queriam saber. não foi preciso muito tempo para que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo e a fizesse soltar um berro ameaçador: .Tu sabes. Sara cerrou os olhos e deixou de os ouvir. ele ousou bater em Sara. pai!? Achas mesmo que eu estou a gozar? – respondeu Sara mostrando-lhe um sorriso maléfico. pensando enquanto o fazia. e sou porque gosto.Não. A nossa filha estava no Intendente.Engraçado – respondeu Sara levantando o rosto desfigurado.O que é que está diante do nosso nariz? – perguntou Madalena temendo ouvir a resposta. tu não te atrevas a falar connosco nesse tom – imperou o pai. Mas não. o que é que tu estás a fazer num lugar daqueles? – perguntou Madalena voltando-se bruscamente para a filha.Sara. .Sara… .Jorge. não – gritou Madalena quando o ex.Mas a única coisa que não querem é admitir a vocês próprios algo que está e sempre esteve diante do vosso nariz! . – Eu sou prostituta! PROS-TI-TU-TA! Um esforço sobre-humano foi o que Madalena teve que fazer para se conseguir manter em pé após a revelação da filha. Nem o tempo e nem a paciência fizeram de Sara uma pessoa melhor. tentou convencer-se a si própria que o comportamento da filha era perfeitamente normal para uma adolescente de dezasseis anos. Muito pelo contrário. a verdade é que ela estava certa quando lhe disse que a realidade estava mesmo diante do seu nariz. as coisas iriam melhorar. e que com o tempo.Isso mesmo que ouviste.Vocês sabem muito bem o que é que eu estava a fazer no Intendente.Tu sabes! Mas se quiseres eu posso dizer-te com todas as letras – respondeu Sara gesticulando furiosamente os braços. porque quero e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens. marido se lançou contra a filha a fim de extravasar todo o ódio e toda a repulsa que a resposta dela lhe trouxe. A príncipio foi como se tivesse entrado numa outra dimensão ou tivesse sido transportada para um lugar longínquo. – Tu só podes estar a gozar – murmurou Jorge também ele estupefacto com tudo o que tinha acabado de ouvir. – Os homens nunca criam as filhas para as ver no Intendente. drogados e prostitutas? Enquanto ouvia o discurso moralista dos pais e todas as verdades que eles fizeram questão de lhe jogar à cara durante vários minutos. 158 .Deixem-me em paz! . Durante meses. em dezasseis anos. quando regressou à realidade e a voz estridente da mãe continuou a ecoar-lhe aos ouvidos. Satisfeitos!? A pergunta de Sara culminou com uma valente bofetada de Jorge e com o olhar aterrador que ele lhe lançou em seguida. e embora nunca lhe tivesse passado pela cabeça que Sara se estivesse a prostituir. – Eu sou prostituta sim. . E a verdade é que pela primeira vez.Achas mesmo.

Sara perdera-lhe todo o respeito. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara voltou a descer ao primeiro piso. assim como a que dava acesso às traseiras. – A partir de hoje já não te considero a minha filha… . nunca lhe impôs limites e sempre fechou os olhos às loucuras cometidas por ela. pelo irmão ou pelo pai que naquela noite fez questão de lhe dizer com todas as letras que já não se considerava o seu progenitor. tinha desaparecido sem deixar rastro. – Jorge… . Era o fim. mulher. enfiou a cabeça por entre as pernas e tentou sufocar o choro compulsivo de uma mãe desesperada.Eu sei – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando o ex. Sara alcançou o corrimão das escadas e voou como um foguete em direcção ao quarto. Já não tinha mais nada a fazer ali.Olha só no que é que a nossa filha se transformou… . marido abriu a porta e atravessou o jardim em direcção ao carro. – Jorge… .chamou Madalena aproximando-se lentamente dele naquele corredor às escuras. Foi também nessa altura que ele percebeu que a sua filha já não existia. já não lhe restava mais nada a fazer naquela casa quando era certo que tinha acabado de perder tudo o que lhe era mais querido na vida. que tinha morrido há muito tempo e que ele foi o último a dar-se conta desse facto irrefutável. Contudo aquela noite veio a provar que já era tarde demais para retomar o seu papel de pai. – Vai-te embora! Não foi sempre isso que fizeste durante toda a tua vida? Pelo menos agora já não precisas fingir que és pai. a vontade incondicional de sair daquela casa. Nessa altura. e o que sobrara da menina doce e inocente que ele um dia carregou ao colo. – O que é isto? – murmurou ela tentando abrir a porta com vários safanões. Depois disso. – Vai – gritou ela interceptando-o no corredor. que decisões tomar dali por diante e como superar aquele inferno que estava a viver. . tornou a murmurar. Não sabia o que fazer. trazia uma mala e uma mochila. Nas mãos. pois nunca se mostrou um pai presente. Na verdade. A porta também se encontrava fechada.disse ele fazendo um esforço sobre humano para não derramar duas lágrimas que se haviam apossado dos seus olhos. mas também a única forma de impedir Sara de cometer mais loucuras. Não. a única coisa que sabia era que precisava de ar para respirar e foi isso que tentou encontrar quando se sentou junto à porta de saída. Não sabia o que fazer para reencontrar a filha que perdera meses antes. tudo pareceu desmoronar. Nessa altura. Assustada com a ideia de se ver presa naquela casa. tudo deixou de fazer sentido e uma sensação de desespero invadiu-lhe o coração já por si destroçado. a porta fechou-se violentamente e os vidros da janela agitaram-se trazendo consigo uma dor aterradora que Jorge nunca pensou sentir em toda a sua vida. Era uma medida extrema. pensou. Jorge alcançou o casaco sobre o sofá e saiu da sala. Ditas estas palavras.disse ele deixando-a caída no tapete da sala. admiração.que a culpa de tudo aquilo era sua. já não pertencia àquela família e nem sequer nutria qualquer tipo de sentimento pela mãe. e na mente. Uma mãe tão desesperada que naquela madrugada não viu outra alternativa a não ser trancar todas as portas de casa para impedir que a filha voltasse a sair por elas. Sara correu em direcção à cozinha a fim de encontrar uma outra escapatória. – E também não quero que me consideres o teu pai! Sob o olhar desesperado da ex. Madalena sabia. Nem as várias tentativas 159 . De facto. chegou também a essa conclusão.

Tu não vais a lado nenhum – respondeu Madalena levantando-se da cama. filho – gritou Madalena enquanto se tentava desenvencilhar dos braços de Sara.O que foi? Vais-me tornar na tua prisioneira. o fim de uma relação de dezasseis anos e a certeza que dali para a frente as coisas nunca mais iriam voltar a ser as mesmas. .O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Madalena acendendo a luz da mesinha. A resposta negativa de Madalena trouxe novamente a fúria de Sara e consequentemente a sua audácia em atirar-se para cima da mãe sem temer as consequências do seu acto irreflectido.para forçar a fechadura resultaram e esse facto apenas acrescentou ainda mais o ódio que ela estava a sentir dentro de si.Enquanto fores menor e estiveres sobre a minha responsabilidade. Madalena mexeu a perna.Sara. A única coisa que suplantou a dor da queda foi o susto. Nenhuma das duas tinha morrido ou tão pouco sofrido lesões mais graves visto as escadas não serem inclinadas. . pai! A Sara vai matar a mãe! As últimas palavras de Daniel coincidiram com um estrondo gigantesco vindo das escadas. eu posso sim obrigar-te a fazer aquilo que eu quiser e aquilo que eu achar que é melhor para ti.E eu já te disse que não ta vou dar. ele viu os corpos da mãe e da irmã estatelados no corredor e não tardou a perceber que ambos tinham caído devido à luta. Não. largou o auscultador pronto a inteirar-se do que se estava a passar. dois. 160 . Tinha sido ela.Dá-me a chave! . Gritos que fizeram acordar o pequeno Daniel. já disse – gritou a jovem estendendo a mão com um olhar aterrador.Eu quero a chave. enquanto se aproximava pé ante pé. mas isso foi algo rapidamente esquecido por Sara quando ela tentou agarrar as pernas da mãe e a impedi-la de fugir em direcção à sala. O fim de todo o respeito que mãe e filha ainda sentiam pela outra. . . e ele. Um. Do cimo das escadas. Sim. sem se lembrar que ainda estava ao telefone com o pai. Daniel correu ao telefone que se encontrava no quarto da mãe e digitou o número de Jorge. três toques e o advogado finalmente atendeu para grande alívio da criança. . volta para o teu quarto! . .Tu não me podes obrigar a ficar nesta casa. . . Ela que não pensasse sequer numa coisa daquelas. Tinha sido a sua mãe a trancar todas as portas só para a prender ali adentro. Quero ir-me embora. – Chama o pai! Sem esperar segunda ordem.Dá-me a chave da porta! Eu quero sair. – Mãe… – ele gritou. e foi também nessa altura que as duas abandonaram o quarto aos empurrões. .Não – respondeu Madalena recuando vários passos quando a sentiu demasiado perto de si. é isso?! . Mas ela que não pensasse que a iria prender no interior de uma casa onde não desejava estar. – Dá-me a chave – gritou Sara entrando pelo quarto da mãe com uma expressão aterradora. E tal como um milagre. – Chama o pai.Dá-me a chave! . estalos e gritos. Aquele tinha sido o princípio do fim. ao ouvilo.Já disse que não. – Pai! A Sara vai matar a mãe. A barreira foi quebrada. – Dá-me a chave – era o que gritava como uma louca.

Tu és um monstro. . o que é que foi que eu te fiz?! Onde foi que eu errei para que te tivesses transformado nesta… pessoa… – discursou Madalena não conseguindo controlar as lágrimas. veio um silêncio ensurdecedor e a certeza de que o inferno finalmente tinha terminado. incrédula. – Eu só queria que tu me dissesses para que eu pudesse entender. ela esboçou-lhe um leve sorriso antes de fechar a porta e desaparecer de uma casa onde tinha vivido durante dezasseis anos. Na verdade. burra como sempre. . – Tudo o que eu queria era que ele desaparecesse.Estás a falar do Sérgio. Ouvido o estrondo. estava tudo destruído.Larga-me – imperou Madalena conseguindo encontrar numa hesitação da filha a oportunidade ideal para correr em direcção à sala. sempre te pus em primeiro plano e sempre abri mão de tudo em prol da tua felicidade… . não é?! Mais uma vez quiseste mostrar que és tu que mandas! É sempre assim. mas há muito tempo! Com as chaves nas mãos. é isso? É por causa disso? – perguntou Sara encontrando a mãe encostada à mesa ainda com a respiração ofegante.O quê!? – murmurou Madalena. Não foi de propósito. D.. nem Madalena e nem Sara conseguiram reconhecer-se no interior daquela sala. . Sara abriu a porta e não resistiu a lançar um último olhar ao irmão que se encontrava sentado nas escadas assustado com tudo o que tinha assistido momentos antes. aliás. Contudo. acreditaste. não é?! – interrompeu Sara surpreendendo-a com tal pergunta. não foi por querer. ao contrário do que o teu pai te disse. . Não hoje. Mas no entanto parece que me odeias e que queres fazer tudo para me destruir e para destruir a minha vida. Não restava mais nada a não ser um misto de ódio e rancor entre duas pessoas completamente distintas. Ao olharem-se pela última vez. Eu não me importo. Foi só por isso que eu inventei que ele me tinha violado.Tu estás louca! Completamente louca. Mas não. – Aonde é que ela está? – foi a primeira pergunta de Jorge quando chegou à casa da ex. – Aqui tens… – afirmou Madalena atirando-lhe as chaves contra o peito. Madalena! Tudo tem que ser feito quando você quer. Eu não mereço isto! Eu sei que apesar de tudo eu não mereço o que me estás a fazer.Porque é que não me dás a chave. 161 . hã?! Tens prazer de me ver a correr atrás de ti.Porque se quiseres podes voltar para ele! Já que me vou embora desta casa.Sara. E não. nem quero saber sequer… Perante a resposta da filha.Se me tivesses dado a chave. Nem mesmo os laços sanguíneos que as uniam iriam conseguir reatar aquela relação doentia. nada disto teria acontecido. como você quer e ninguém está autorizado a contrariá-la… . ao contrário do que ele estava à espera. Preferiste acreditar em mim em vez de acreditar nele e agora olha para ti?! Estás sozinha e vais ficar assim até ao final dos teus dias porque eu também me vou embora… . Se eu errei.O Sérgio nunca tocou num fio de cabelo meu! Fui eu que apareci na casa de banho para que nos apanhasses e pensasses que ele me estava a estuprar. se te fiz algum mal. – Estás livre para fazeres o que quiseres com a tua vida porque para mim morreste. . Sempre te dei tudo o que estava ao meu alcance. E tu. ele pode muito bem voltar.O que é que…? . mulher. . Sara! Um monstro. Madalena manteve-se calada.

– Foi-se embora de vez. Mas a verdade é que ele nunca percebeu os intentos dela e agora ambos estavam a pagar bem caro por isso. – Deixas-me entrar? 162 . mas sim em todos os momentos em que ela fez questão de lhe chamar a atenção enquanto pai.Foi-se embora – respondeu Madalena alcançando o corrimão das escadas com os olhos marcados de tanto chorar e uma voz amarga.. o Intendente. sem conforto e com um bebé na barriga. restaram-lhe poucas alternativas de sobrevivência e ninguém com quem pudesse contar a não ser: – Tu… – disse Milene abrindo a porta do seu quarto com olhos de quem tinha passado a noite toda em branco. não só naquela madrugada. De volta a um bairro que tão bem conhecia. Os passos lentos e arrastados de Madalena fizeram Jorge entender que tinha chegado tarde. Sem família. . Sara percebeu que era ali que teria que recomeçar do zero.Saí de casa – respondeu Sara mostrando-lhe as malas.

Eu também não sei. duvido muito que consiga tomar conta do Daniel. era talvez o desgosto de saber que a filha se prostituía sem ter qualquer razão plausível para isso. e muitas vezes. Só ele poderia fornecer o carinho e o apoio que a filha necessitava na altura. . . maior era a vontade de morrer. Qualquer coisa e aviso-te com antecedência.Nada. . Mas pior do que o sentimento da derrota. Sou prostituta porque quero. . foram as últimas palavras de Sara. outras lamentava-se. – Já não sei o que é que hei-de fazer com ela – disse Afonso Soares descendo à cozinha com o ex. sem dormir e sem mexer qualquer músculo corporal para além do estritamente necessário. .Eu já tinha pensado nisso – respondeu Jorge limpando uma lágrima que teimou em cairlhe dos olhos. Tal como disse. – Eu fico aqui com ela.Não tiveram mais nenhuma notícia da Sara? .Do jeito como a minha filha está. genro. – Como é que ela se foi perder desta forma.Acho melhor levares o Daniel para passar uns dias contigo. e era exactamente isso que pretendia fazer não fosse o pedido dela para mais uma vez ficar sozinha. . 163 .Não te preocupes – respondeu Afonso segurando-lhe o ombro esquerdo. e cada vez que Madalena se lembrava delas. embora quase todos fossem unânimes em afirmar-lhe que a culpa não era sua. Era como as ouvisse vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. chorava.Eu vou levá-lo hoje! Mas também não queria deixar a Madalena sozinha. Por vezes.CAPÍTULO IX Passaram-se cinco dias sem que Madalena se tivesse conseguido levantar da cama. sem comer.Está a ser muito difícil para todos nós – respondeu Jorge não escondendo a tristeza estampada no rosto. A Sara escolheu o caminho dela. algo que só ele como pai o podia fazer exemplarmente. fechava os olhos numa tentativa desesperada de esquecer todas as palavras horríveis que Sara lhe dissera momentos antes de sair de casa. meu Deus!? Está certo! Sempre teve um feitio difícil. Eu também não sei como é isto pôde acontecer.Que tragédia – suspirou Afonso levando as mãos à cabeça. porque gosto e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens . . Jorge levou Daniel para a sua casa e deixou Afonso livre para cuidar de Madalena. . Nem sabemos sequer para onde é que ela foi. mas a verdade é que aconteceu e não há nada que possamos fazer. mas… isto?! . Cinco dias em que ela mergulhou na mais profunda depressão. Pareciam gravadas na sua memória e traziam-lhe um sentimento angustiante de derrota.

. Madalena depositou a sua mala sobre o sofá e lançou os olhos a um quadro pendurado na parede.Aonde é que vais? – perguntou Afonso poisando o livro sobre o sofá.Não me vou demorar muito – respondeu Madalena abandonando a sala sob o olhar atento e preocupado de Afonso. Sentiu também que não tinha qualquer direito de procurá-lo ou sequer de lhe implorar perdão. caloroso. Já volto – disse Sérgio.Não – respondeu Madalena mal conseguindo encontrar forças para o encarar de frente. era o único objecto que lhe era estranho. Depois disso. reparou. Mas o que poderia ele fazer perguntou-se. Madalena teve algumas dúvidas. 164 . Na verdade. Ao ver-se sozinha naquela sala repleta de móveis e aparelhos fotográficos. .Fica aqui. Mas será que Sérgio estaria disposto a perdoála? Será que ele iria compreender os motivos que a fizeram não acreditar nele. De ter duvidado do seu carácter. Se era o desejo da filha sair. . . . só assim conseguisse recuperar a sua sanidade mental. Abriu-o na página marcada e mergulhou na leitura durante horas a fio tentando pensar em coisas abstractas. quem sabe. Vários foram os pensamentos que atravessaram a mente de Madalena enquanto conduzia pelas ruas da cidade e se lembrava de um dos maiores erros que tinha cometido num passado não muito longínquo.Queres um chá?! Faço num instante. Afonso achou por bem não levantar mais questões e acatou o desejo de Madalena encostando a porta com cuidado.Tens a certeza? Olha que já está tarde.Entra! Aberta a porta. Precisava olhar-lhe o rosto. Aonde é que Sérgio o havia comprado? Ou teria sido oferecido por alguém especial? Talvez pelo avô quem sabe. mas também o lugar mais pacífico e confortável do mundo. Na verdade. Continuava pequeno. . . pai. mas sim na sua filha? Ao ver-se diante do prédio onde muitas vezes se encontraram e passaram várias tardes de amor. do amor que ele dizia sentir por si e de o ter expulsado da sua vida sem qualquer razão.Vou ter que sair. em passagens simbólicas que não lhe fizessem lembrar a tristeza em que a sua família estava submersa e o desejo de um dia tudo voltar à normalidade. desceu à sala e encontrou um livro para passar o tempo. o erro de não ter acreditado no homem que amava. tocá-lo e tentar encontrar uma única razão para se manter viva. Madalena aceitou o convite e entrou no apartamento do fotógrafo. .Está bem. – Levantaste-te!? . – Lena… . Continuava o mesmo. . – Filha – disse ele surpreendendo-se com a figura de Madalena sob o alpendre da porta.Procurar uma pessoa.Mesmo não tendo concordado com a ideia.Descobri tudo – foram as primeiras palavras dela assim que Sérgio abriu a porta de casa e se surpreendeu com o seu rosto marcado pelas lágrimas e por tantos meses de angústia. – Estás bem? – perguntou Sérgio levando-a em direcção à sala. Parecia ter sido pintado a óleo e trazia consigo a imagem de um velho pescador sentado à beira mar. Talvez. mas precisava fazê-lo. a única alternativa que lhe restava era acatar a decisão e esperar que ela não cometesse nenhuma loucura.

Eu não sou essa pessoa horrível em que ela se transformou. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar. . Pequenina. Desapareceu. iguais aos meus. – Vamos tomar o chá na cozinha. Porque para mim ela ainda continuava a ser a minha menina. fizeste bem mais do que a maioria das mães fariam se estivessem no teu lugar. Desde a última vez que se viram e trocaram as derradeiras palavras. pelas coisas que tiveste de aguentar por minha causa. Madalena e Sérgio serviram-se do chá e permaneceram em silêncio durante largos minutos.Entendo – respondeu Sérgio aquecendo as mãos na sua chávena de chá. entendes?! . semanas.E não és – interrompeu Sérgio segurando-lhe a mão sobre a mesa. Eu não tinha o direito de te ter metido nesta embrulhada. – Que eles são aquilo que nós fazemos deles e eu até costumava acreditar nisso. – Desculpa por tudo o que te fiz passar. Tinha tudo preparado. Acho que… estava tão contente por saber que iria ter uma menina que nem sequer me importei com as dores do parto. . Eu sei que não sou… .…devia ter acreditado em ti… . Sentados nas suas respectivas cadeiras.Tu não és uma fracassada.discursou Madalena não conseguindo mais uma vez controlar as lágrimas e os risos nervosos. .interrompeu ela. Tanta coisa tinha mudado. . . meses até. . e quando as enfermeiras ma deram nas mãos. Lena! A Sara está doente. Passaram-se dias.. e os olhos eram redondos. Mas …eu não quero acreditar que a Sara seja uma projecção minha.foram as palavras que saltaram dos lábios dela. escuros.Não quis enxergar a realidade e muito menos perceber no que é que a minha filha se tinha transformado. Toda a gente dizia que éramos muito parecidas e eu lembro-me que ficava tão orgulhosa quando ouvia alguém dizer isso. . Ainda assim.Desculpa – pediu ela tentando esconder os olhos inchados de tanto chorar.Será que… és capaz de me perdoar? 165 . por causa da minha filha. tinha muito cabelo. É melhor – Madalena acedeu com um sorriso. Ela era tão linda. Tinha comprado todo o enxoval e levei todas as coisas para a maternidade porque não queria que lhe faltasse absolutamente nada. Era mesmo uma menina que eu queria. mas… não fiz! .Costumam dizer que os filhos são a projecção dos pais… . – A culpa não foi tua.Vem… – exclamou Sérgio interrompendo-lhe os pensamentos. – Eu lembro-me bem do dia em que ela nasceu. e se queres que te diga. mas antes disso.Não me meteste em nada! Eu faria tudo de novo se fosse preciso. preto. que adorava vestir de cor-de-rosa e de fazer totós no cabelo… .Aquela mesma menina que eu costumava levar a passear ao parque. Tu já fizeste tudo o que estava ao teu alcance.Lena… .Eu sei. eu senti como se tivesse encontrado uma razão para viver. o tempo foi peremptório em passar. ela é que tem que querer essa ajuda. ela precisa de ajuda. Morreu. ambos sabiam-no bem. Foi o mais feliz da minha vida. – Devia ter feito isso.Então porque é que me sinto uma verdadeira fracassada? . Sérgio parecia ter a mesma mágoa no olhar e Madalena não sabia o que fazer para conseguir encontrá-lo naquela cozinha tão minúscula. Mas… os anos foram passando e… aquela menina que todos adoravam agarrar ao colo e que se ria por tudo e por nada deixou de existir. E não sobrou absolutamente nada dela… .

a presença sempre constante do ex. . a vida começou a retomar o seu curso. o ano mudou. e aos poucos e poucos. . Uma alegria que por momentos pareceu desaparecida aquando do desaparecimento de Sara.Eu amo-te. marido e as suas várias tentativas de aproximação faziam-na sentir-se menos sozinha e a pensar se valeria ou não a pena oferecer-lhe uma segunda chance. Madalena ainda ansiava por dias melhores. . – Não precisas preocupar-te com isso.Não sei – respondeu Madalena depositando a caixa de chocolates e o bilhete sobre a secretária.E tu vais aceitar? . Dias em que pudesse sorrir sem pensar no dia seguinte. de espaço… . – Neste momento não temos nada para nos dar um ao outro – respondeu ele. nada daquilo era demasiado entusiasmante. Beijos. . Jorge.Mas quem sabe um dia se o destino não nos trocar as voltas. Madalena esboçou um sorriso malicioso e rapidamente se apressou a retirar o cartão do interior do envelope. minha amiga! O Jorge. – Precisamos de tempo.O Jorge. Hã… PS. marido.Não é torcer! Só acho que não tem mal nenhum jantar com o teu ex. De facto. .E desta vez vem com um bilhete.Lê! Ao ouvir o pedido da melhor amiga. é só um jantar.Quem é que escreve PS num bilhete romântico!? – riram-se Alice e Madalena às gargalhadas. Mas a verdade é que poucas dúvidas lhe restavam quanto ao desfecho daquela história de amor. – Outra caixa de chocolates – exclamou Alice abrindo um sorriso de orelha a orelha quando Madalena regressou à loja após ter recebido a encomenda de um office boy.Eu já te perdoei há muito tempo – respondeu Sérgio beijando-lhe as mãos frias.Aceitas um convite para jantar?” .“Espero que esta caixa de chocolates seja suficiente para adoçar o teu dia. .Não perdes nada se aceitares. Quer dizer.Eu também – sorriram os dois. Apesar de todos os acontecimentos trágicos do passado.Mas acabou. Para além disso. do único filho que lhe restou e dos pequenos acontecimentos que preenchiam o seu dia-a-dia. Um cartão que cheirava a rosas e que trazia a caligrafia desajeitada do ex. em que pudesse aproveitar uma refeição agradável ao lado da melhor amiga e uma conversa amena com o pai ao final da noite. não é?! . foram factores importantes para que Madalena recuperasse a alegria de viver. tal como o meu também ficou apenas com a lembrança de um sorriso teu. mas que dava mostras de um novo fulgor. . A rotina do trabalho.. . Passaram-se cinco meses. . não acabou?! Sérgio pareceu hesitar quando fitou os olhos brilhantes de Madalena e viu nela a mulher a quem um dia chegou a amar mais do que a própria vida.Impressão minha ou estás a torcer para que eu aceite esse convite? . .Eu sei – concordou ela com um sorriso imensamente triste. marido: . mas ainda assim conferia-lhe um certo conforto e estabilidade que há muito não encontrava.Sinceramente não te estou a reconhecer! Logo tu que sempre detestaste o Jorge… 166 .

Apesar da promessa. – Já não te vou dar mais nenhum. filho. . a campainha tocou ruidosamente e ela correu a abrir a porta deparando-se com a figura do ex. . É uma loucura.Eu sei que fui uma grande impulsionadora na tua separação daquele imprestável. Afonso! A sua filha não merece menos – respondeu o advogado arrancando algumas risadas a Daniel e Afonso.Cheguei na hora certa? . inclusive Daniel. De facto.Pai! Daniel! Não durmam tarde e nem fiquem a ver televisão até às tantas. Jorge? Não quero voltar muito tarde – disse Madalena encontrando o seu casaco sobre o sofá.Sabe como é que é.k – defendeu-se ela enquanto levantava os braços. bem perto disso. foram os elogios que ouviu do pai e do filho quando chegou à sala. Não.O. amanhã é dia de escola. . nem um minuto a menos.. . marido acompanhado de um sorriso e também de um lindo arranjo de orquídeas.O.Achas que eles vão voltar. – Mas agora vai. Mais tarde. Jorge – exclamou Afonso ao ver o ex.Estás todo janota. que ela terminou de se analisar ao espelho trazendo no corpo um vestido preto pelos joelhos e os cabelos soltos um pouco acima dos ombros. Estou a confundir tudo.Claro! Nem um minuto a mais. . ainda submersa num verdadeiro dilema.Está bem – respondeu Daniel tentando desviar-se dos beijos de Madalena. . ou senão. então que assim fosse. genro a entrar na sala com as mãos nos bolsos. .Espero bem que sim – respondeu o ex. Enquanto se compunha à frente do espelho. . .Não queres os meus beijos?! . – Espero bem que sim! 167 . – Iremos cumprir as suas ordens à risca. militar afagando os cabelos do neto. vô? . Apesar de tudo. Estava perfeita.Porta-te bem. lembraste? . mas… as pessoas mudam! E eu acho que o Jorge mudou. Mas a verdade é que nenhum destes pensamentos conseguiu demovê-la da ideia de cancelar um jantar que apesar de tudo lhe preencheu o imaginário desde manhã. Vou voltar a um passado que só me fez mal e que não me trouxe nada de bom. dizia.Obrigada – respondeu Madalena recebendo o ramo com alguma cautela. Madalena não conseguiu conter-se e surpreendeu o filho com um longo e demorado beijo que fez todos os presentes rirem-se às gargalhadas. . .Estás sempre a dar-me beijos.Bem.Ainda bem. Sr. várias foram as vezes que Madalena pensou em desistir do seu jantar com Jorge. general – respondeu Afonso abrindo os braços sobre o sofá. e se fossemos andando. – Entra! . – Ainda me lembro que são as tuas flores preferidas – disse ele.Claro. – Bom jantar – exclamou Afonso observando a saída de Madalena e Jorge da sala e mais tarde do interior da casa. repetia-se vezes sem conta. e se o tivesse que provar com beijos.k. . E foi assim. Sr. era impossível para ela passar um minuto que fosse sem demonstrar ao filho que o amava acima de tudo.

Pela primeira vez.Claro que não! Tu sabes que eu nunca fui sentimentalista. Mas naquela noite particularmente especial.Ui! Se me lembro – riu-se ela forçando uma gargalhada seca. Lena.O restaurante escolhido por Jorge primava pelo requinte e pela sofisticação. Falava tudo aquilo que lhe vinha à cabeça e movimentava-se com uma destreza e segurança fora do normal. não achas!? .Naquela altura era um teso. por favor – pediu ela voltando a depositar a taça de vinho sobre a mesa. nem mesmo quando andava com outras mulheres. algo a que o advogado estava amplamente habituado nos seus extensos anos de profissão quando se reunia com clientes importantes.E foi então que o nosso casamento começou a piorar. Nenhuma chegou sequer aos teus pés… . Depois foram sempre voos maiores.Mas às vezes é impossível não nos lembrarmos de coisas tão boas. Mas hoje já não sei se vale a pena. . Foi por isso que eu aceitei o teu pedido de casamento.Eu daria tudo para ter ouvido isso há cinco anos atrás. . Ficava situado no Lapa Palace e era frequentado por um grupo restrito de pessoas a quem tudo era feito para agradar.Jorge… . mais prestígio… . .Percebeste isso um pouco tarde.É! Infelizmente não fugi. – O que foi? – perguntou Madalena bebendo um gole de vinho tinto.Será?! – perguntou Jorge alcançando-lhe a mão sobre a mesa. . mulher um só segundo e a sua atenção centrou-se nela durante toda a refeição. Mas mesmo assim tu ficaste comigo e aceitaste o meu pedido de casamento com um anel de plástico da feira popular.O anel era lindo. a única pessoa que Jorge queria agradar era Madalena. 168 . .Então não mudes. Não tinha dinheiro nem sequer para te levar ao cinema. . algo que há muito ele não via em qualquer outra mulher. eu sei.Sentimentalismos baratos. Nenhuma delas me conseguiu dar o que me deste nestes dezassete anos. outras causas importantes. os seus olhos não se desviaram da ex. eu sei! Estava sempre tão obcecado com o meu sucesso profissional que me esqueci da minha família e da mulher maravilhosa que andava a desperdiçar.Já não tinha tempo para ti. – Será que é assim tão tarde? . . .Podes não acreditar. sensual e inteligente.Mas não fugiste. – Só me estava aqui a lembrar da primeira vez que saímos para jantar. . .Mas eu tive sorte – disse Jorge deixando-se iluminar pelos olhos de Madalena quando eles se cruzaram com os seus. . Impressionante como nunca se tinha dado conta de como ela era bela. Era simples também. mas eu nunca me esqueci de ti! Nunca deixei de sentir saudades tuas.Nada – respondeu Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. dos nossos filhos. não achas?! Madalena sorriu. – Lembraste que tivemos que pagar a conta do jantar a meias? . Jorge?! . – Logo que nos casámos fui aceite numa firma de advogados e ganhei a primeira causa. da nossa casa. – Lembro-me também que no dia seguinte contei a uma amiga e ela disse-me que o melhor que eu tinha a fazer era fugir de ti. mais dinheiro.

Algo difícil de explicar. ao que estamos a viver neste momento e… ao que iremos viver daqui para a frente. de me tentares chamar à razão e de me fazer entender que para se ser um bom pai não é preciso dizer sim a tudo. e não o fizeram apenas no espaço.Eu mudei muito.Estarmos aqui os dois depois de tudo. mas bom… – respondeu ela deixando-se mergulhar no beijo que Jorge lhe ofereceu nos lábios.Será!? . mas também no tempo. os dois deitaram-se sobre os lençóis de linho. . eu não queria ser um pai chato! Queria que o Daniel e a Sara me vissem como um pai espectacular capaz de lhes concretizar todos os desejos. Mas infelizmente.Esta história que aconteceu com a Sara fez-me abrir os olhos para uma serie de coisas que me eram totalmente estranhas. Antes.Estranho mas bom. . Após longas horas de ausência. não é?! .É muito estranho. não fosse esse mesmo destino tornar a juntá-los naquela noite tão especial.Estranho. Algo superior às suas forças e também à sua existência. . Parecia um sonho.Um brinde – afirmou Jorge tocando a sua taça na de Madalena. Fez-me perceber o porquê de muitas vezes brigares comigo. Depois disso. é tentar proteger os nossos filhos e… ser chato. Jorge deslumbrou-se com a grandiosidade daquele momento e experimentou uma das sensações mais avassaladoras que um homem poderia experimentar ao lado de uma mulher. Lena! Acredita em mim. na altura. Prova disso? O arrepio que sentiu em todos os poros do corpo quando lhe desceu o fecho do vestido. Madalena e Jorge regressaram ao ponto de partida. . Um tempo onde as suas vidas se conjugavam na perfeição. – E um brinde a tudo o que já vivemos. . e… o quanto esse erro te prejudicou a ti e à nossa filha. . Foi ela a responsável por tudo o que de bom lhe havia acontecido até à data e era também com ela que pretendia passar o resto dos seus dias. foi assim que se sentiu até Madalena o levar em direcção à cama e brindá-lo com um longo beijo enquanto o fazia. sonhos e desejos a serem concretizados. . – Quem diria… . 169 . Por momentos. Mais tarde. despiram as respectivas roupas e entregaram-se um ao outro durante horas a fio sem se importar com os carros que passavam a alta velocidade pela rua deserta. É muito mais que isso. . o destino trocou-lhes as voltas.Então um brinde à tua mudança..Um brinde! As luzes apagadas fizeram antever que não havia absolutamente ninguém acordado naquela casa. ouviu o tecido cair no chão e Madalena suster a respiração descompassada. Madalena era essa mulher. É estar presente. eu sei! .Fico feliz que tenhas percebido isso – respondeu Madalena tentando esquecer a sombra que atravessou o seu peito quando se lembrou da existência de Sara. Ao entrar no quarto que um dia também foi seu. Mas só hoje vi o quanto errei.Mudei mesmo. Afastou-os de uma forma irreversível e quase que os obrigou a continuar assim. onde havia planos.O quê? – perguntou Madalena esboçando um sorriso envergonhado quando Jorge lhe percorreu os braços desnudos.

disponibilizava-se para colocar a mesa. . Talvez por causa dos filhos. Vou para Bruxelas e devo lá ficar umas duas semanas no máximo. Mais uma vez. Depois disso.Vai – murmurou ela afastando-o da porta. sim! Estou-te a dar um prazo. . Ano Novo.Está bem. ficava para jantar. ele chegava ao final da tarde com a desculpa de querer estar com o filho.Já te disse que preciso de mais tempo. . as suas vidas tomaram rumos diferentes.Eu vou pensar – riram-se os dois quando ele atravessou o jardim em direcção ao carro e não tardou mais do que três minutos a arrancá-lo.Mas quando voltar quero uma resposta – disse Jorge brincando-lhe com os dedos das mãos. do Natal. Jorge! Não posso decidir uma coisa dessas de ânimo leve. Depois.Estás-me a dar um prazo? . – Quero que me digas se posso voltar cá para casa. das festas de aniversário. . Percebeu também que há muito não ouvia qualquer barulho e que a possibilidade de nunca mais ouvir estava-se a tornar demasiado evidente. . . – Pensaste no que te disse? – perguntou ele quando ela o levou à porta.Uma viagem de trabalho. Porque será que ela continuava sem acreditar nas suas palavras? Porque é que ela tinha um prazer especial em criar uma verdadeira muralha entre eles? – Acho melhor ires – afirmou Madalena encontrando-lhe a mão direita. . deparou-se com o vazio daquela casa e soltou um pesado suspiro ao sentir-se pela primeira vez confusa quanto ao desfecho da sua história com Jorge. aquela noite não foi excepção. lavar a loiça. Normalmente.Eu sei – respondeu ele acariciando-lhe a face rosada. Preciso pensar! Preciso pensar muito. Quem sabe se voltasse ao ponto de partida? Quem sabe se a volta de Jorge não lhe traria de volta algum do barulho perdido? 170 . mas no fundo sempre existiu uma estranha ligação entre os dois.Mais ou menos! Quer dizer…. e só se dava por vencido quando Daniel subia ao quarto e Madalena forçava enormes bocejos numa tentativa desesperada de o fazer olhar para o relógio.Estou a pensar – respondeu Madalena encostando a cabeça à parede. – Já está tarde. Madalena fechou a porta. talvez pelos dezasseis anos em que estiveram casados. A resposta de Madalena fez Jorge recuar dois passos e baixar a cabeça num claro sinal de desespero. algo que nunca fizera em anos e anos de casamento.E então?! Já chegaste a alguma conclusão? . Madalena percebeu que sentia falta delas. Mas enquanto passeava pelas habitações de uma casa anteriormente repleta do barulho das crianças.Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser as visitas sempre constantes de Jorge lá a casa. muita coisa se passou e muitas vezes ela disse que o amor e a paixão que os unia tinha terminado sem deixar rastro.Pensa! .Para onde? . – Depois falamos. . . ou quem sabe por nada disso. – Mas não te esqueças que desta vez é a sério! Se me deres uma nova chance prometo que não te vou desiludir. Durante os três anos em que estiveram legalmente separados.Não prometas coisas que não podes cumprir. .Vou viajar este fim-de-semana. Os papéis do divórcio foram assinados sem um pingo de remorso. . Páscoa e outras celebrações familiares que compunham o ano.

olhando para trás. marido a poucas horas da sua partida. sim! Mas hoje. resolveu aceitar o desafio proposto pelo ex.Pois eu acho que o devias procurar outra vez – afirmou Alice saltando da montra. vejo que a culpa foi inteiramente minha.Desde a última vez que o procurei. .Nem precisas dizer – riram-se as duas.Nunca mais tiveste notícias do Sérgio? . não.Sim! Podes não acreditar. não é!? – riu-se Alice divertida quando Madalena lhe contou a conversa que tivera com o ex. Duas semanas. que não foram poucos. não sabes?! . .Adoras vê-lo a sofrer.Mas as coisas não assim tão fáceis – respondeu Madalena com um longo suspiro. não só como homem.Eu sei – riu-se Alice. sabias?! . no fim-de-semana seguinte. nem sei sequer se tenho forças para passar pelo mesmo. Disse-lhe que iria pensar cuidadosamente no assunto. – Sou uma caixinha de surpresas. . Saber se ele 171 . Fui eu que não quis acreditar no Sérgio mesmo quando ele me disse que nunca tinha tocado num fio de cabelo dela. Eu tinha duas escolhas: Acreditar nele ou acreditar na Sara. Jorge partiu para Bruxelas e deixou um ultimato a Madalena para que ela se decidisse a dar-lhe uma segunda oportunidade. Às vezes esses milagres acontecem com as pessoas que menos esperamos e com o Jorge aconteceu. marido. .A sério! Acho mesmo. Não posso culpar ninguém por essa escolha a não ser a mim própria. . . – Eu ainda continuo a pensar no Sérgio.Não! Claro que não… .Mas eu acho que ele mudou – concluiu Alice captando os olhos de Madalena. . a sério… .No Sérgio?! . Foi com essa promessa que Jorge viajou prometendo telefonar assim que tivesse um minuto livre na sua agenda preenchida de reuniões e congressos. eu acho que deves procurar o Sérgio e esclarecer a vossa história de uma vez por todas. Eu realmente acredito que ele está arrependido de todas as coisas que fez no passado. E eu não quero passar pelo mesmo. mas que apesar de tudo ainda têm concerto. . . no que poderíamos ter vivido e não vivemos… . e … eu escolhi acreditar na minha filha.Por culpa da Sara – interrompeu Alice terminando a decoração da montra da loja. .Mas queres ou não voltar ao vosso casamento? . nós sabemos. apesar de se encontrar ainda um pouco confusa. Acredito mesmo que ele te ama e que está disposto a concertar todos os erros.Tal como o estipulado. negócios atrás das minhas costas e mentiras. e que assim que ele voltasse. e ela. .Tu sabes que eu nunca fui com a cara do Jorge. mas também como ser humano. era o prazo. a resposta lhe estaria na ponta da língua.Sabes. no que poderia ter sido e não foi. aliás.Claro que não! Só preciso de tempo. – Acho que ele cresceu. mas até hoje eu continuo a pensar nele.Tu surpreendes-me sempre. Traições. – Uma parte de mim quer. Se queres realmente saber se deves voltar para o Jorge.Eu não sei – respondeu Madalena não escondendo a sua indecisão. por muito tempo eu culpei a Sara. entendes?! Mas uma outra parte continua a gritar-me aos ouvidos que se eu voltar para o Jorge tudo vai ser como era antes.

. e essa verdade era a de que enquanto não resolvesse a sua história com Sérgio iria ser praticamente impossível reatar a sua história com Jorge. enquanto um pouco mais atrás. Será que mudou de número. Como estás? . uma gorjeta ao motorista e a partida do último com a promessa de voltar dali a três dias. seis e não houve qualquer resposta. Só assim vais poder virar essa página da tua vida e seguir em frente… Os conselhos de Alice deixaram Madalena confusa. dois toques. o motorista da carrinha não tardou a abrir as portas e a mostrar-lhes as flores encomendadas. após se ter convencido que nunca mais o tornaria a ver e de que as suas vidas tinham tomado rumos diferentes. minhas queridas! . telefonar a Sérgio e marcar um encontro onde ambos pudessem conversar sem a mínima possibilidade de serem interrompidos. não é?! . friorento e começou com a chegada de uma carrinha de encomendas feitas pela floricultura.Há muito tempo – respondeu Alice apressando-se a cumprimentá-la com um beijo na face. Sei que foi horrível ter levado com aquela vela na cabeça quando foram levar as flores para o meu casamento. Nessa altura. Por outras palavras.Há quanto tempo. Aonde estava com a cabeça? Porque não esquecia Sérgio de uma vez por todas? Seria assim tão difícil quanto isso? O toque do telefone fê-la dar um pulo sobre a cama. Um toque. Era ele.É. Uma onda de dúvidas atravessou-lhe os pensamentos e a certeza de que tinha cometido um erro pareceu mais iminente do que nunca. – Olá. Era ele. mas por outro lado. chegou a haver casamento? 172 . Era realmente muito estranho. – Já veio – gritou Alice correndo a abrir a porta. Seguiu-se uma rápida conversa. Como era estranho voltar a ver o nome dele após tantos meses de ausência. uma onda de pânico percorreu-lhe o corpo. cinco. Depois disso.Estou óptima – respondeu ela não escondendo o seu sorriso radiante. alertaram-na para uma verdade incontornável. Mais uma vez.D. – Mas antes de mais queria pedir-lhe desculpas por tudo o que aconteceu. Meu Deus. Sim. um pouco contidamente. – Estão frescas – disse ele com um sorriso que imediatamente contagiou as duas funcionárias. O primeiro dia de Março amanheceu chuvoso. mas mais do que o toque em si. quatro. . foi a pergunta que imperou no ar quando ela desligou a chamada e voltou a poisar o telefone sobre a mesinha. realmente não foi uma experiência lá muito agradável! Mas que mal vos pergunte. Foi por isso que naquela friorenta noite de segunda-feira. Madalena percebeu que já não havia mais tempo a perder e digitou um número que um dia chegou tão bem a conhecer.ainda continua a gostar de ti. Nessa altura. os três carregaram as flores para o interior da loja e depositaram-nas perto do balcão. se continua a pensar em vocês ou se já está noutra. foi o facto de ter visto o número de Sérgio no visor. Beatriz!? – disseram Alice e Madalena sem esconder a surpresa por a ver ali. três. Depois disso. ela resolveu cometer uma das maiores loucuras da sua vida. Quando o relógio sobre a mesinha de cabeceira marcou vinte e três horas e trinta minutos. Madalena seguiu-lhe os passos tentando abrigar-se da chuva. a porta fechou-se e tornou a abrir-se com duas caras também elas conhecidas. voltou-se para a filha e perguntou: – Olá Joana.

.Pois não! Só para quem tem sorte e um rosto lindo como a minha Joaninha – respondeu Beatriz mostrando um sorriso radiante à filha. .Até porque ela agora está noiva de um empresário árabe multi-milionário – concluiu Beatriz. Era uma das mais antigas da cidade. Queríamos encontrar um arranjo lindo para uma amiga que faz anos hoje. . essa casa trazia consigo um ambiente ameno. – Quer dizer. era o local. Será que têm alguma coisa? . 173 . Desde então só tem sido amor. Depois dessa elegância. Parece que eles têm lá uma propriedade gigantesca. Nem os seus clientes. Finalmente chegara a altura pela qual ela havia ansiado durante meses e nada e nem ninguém a iria fazer atrasar-se àquele encontro. .Ele é um gentleman – afirmou Joana mostrando o seu anel de noivado cravado a ouro e diamantes. Madalena aproximou-se da porta e virou a placa ao contrário: Fechado. o meu noivo. Para além disso. Uma casa de chás situada no centro de Lisboa repleta de pessoas de todos os estratos sociais. .Claro que não – respondeu Beatriz passando as mãos pelos cabelos da filha. as coisas tendem a ser rápidas.Uau! Não é para todos – riu-se Alice.Porquê?! . mãe! Tenho a certeza que a Carmo iria adorar. caloroso e bastante agradável. nem o trânsito caótico que todos os dias inundava a cidade e muito menos o temporal a cair violentamente sobre o pára-brisas do carro. tudo isso eram pequenos detalhes perto da imensidão do que iria acontecer quando chegasse ao local combinado. a floricultura encerrou às dezanove horas. não foi só por causa disso que viemos à loja. . Volte amanhã. . que rápido – murmurou Alice recebendo um discreto beliscão por parte de Madalena. quando o amor é assim tão… intenso. – Faz tudo para me ver feliz e também para me mimar. vinha a agitação e a correria dos empregados que faziam de tudo para atender os clientes. – Mas bem. radiante. – Acham mesmo que a minha querida Joaninha iria casar-se com um idiota como àquele? Ela merecia muito melhor e foi óptimo ter desmanchado o noivado antes de cometer o maior erro da vida dela.Sim! Conhecemo-lo num cruzeiro pelo Oriente há seis meses atrás e ele encantou-se tanto pela Joana que nunca mais a quis largar.Isto tudo para vos dizer que esta vai ser a última vez que cá vimos – concluiu Beatriz. convidou-nos para irmos morar com ele e com os pais a Dubai. surpresa. ele achou por bem que eu e a minha mãe ocupássemos a casa até o dia do casamento. e como aquilo está às moscas. Na verdade. mas o aprumo das mesas. não é.Tiveram sorte – interferiu Madalena levando mãe e filha em direcção à bancada da floricultura. talvez tivesse uns vinte anos de existência. .Que bom – respondeu Madalena forçando-lhes um sorriso..O Atif. cadeiras e azulejos pintados à mão ressaltavam a sua elegância.Bem. – Devíamos levá-las. – Acabámos de receber novas encomendas. Tal como sempre. Os dois são completamente apaixonados um pelo outro e até já marcaram a data de casamento para o próximo Verão. . . amor e amor. Sinceramente não podia ter encontrado um noivo melhor. e para prová-lo.Árabe?! – indagou Alice. .Uau! Estas túlipas são lindas – exclamou Joana não resistindo a tocá-las.

fugiam para o interior da cozinha e voltavam com chás fumegantes.Ai é?! Que bom – sorriu Sérgio.Devo levar isso como um elogio!? . . – Mas eu não me esqueci de ti. – Só tive que correr imenso porque não consegui arranjar um sítio aqui perto para estacionar. Foram esses os motivos que levaram Madalena a escolher aquela casa de chás para se encontrar com Sérgio Almeida. Impressionante. nada mais voltou a ser o mesmo. Sérgio reparou. jovial. Mas infelizmente o destino foi cruel e separou-os no momento em que ela menos estava à espera. as suas vidas tomaram rumos diferentes e criou-se uma estranha percepção de que ainda havia pontos a serem esclarecidos numa relação que apesar de tudo foi intensa. .Estava à tua espera para pedirmos juntos. . ainda nem te perguntei como é que estás. bonita e apaixonante. Está a ocupar o antigo quarto que era da… . . – Desculpa o atraso… . – Estás encharcada. – Estás mais gordo.Ouvi dizer que aqui servem uns maravilhosos bolinhos de coco e óptimos chás de menta. . Madalena sentou-se à mesa.Está tudo bem com eles! O meu pai está agora a morar comigo. com o teu filho… .Claro.Eu também não.É. . sendo que depois dessa separação. mas acima de tudo sincero. E sim. anotavam os pedidos à mesa. . . Depois disso.Eu pedi para que ele ficasse lá em casa. arranjou os cabelos molhados pela chuva e ainda teve tempo para sorrir. Apanhaste muita chuva enquanto estavas a vir para cá? .Então podemos pedir isso se quiseres – respondeu Sérgio chamando gentilmente um dos inúmeros empregados da casa.Não faz mal! Também só cheguei há cinco minutos – respondeu ele observando-a a arrastar uma cadeira.Bem. O tempo passou.Sim! Da Sara – respondeu Madalena não escondendo o constrangimento sempre que falava da filha. que havia vida para além do divórcio e que nunca era tarde para se acreditar num amor tão ou mais intenso que o primeiro. . fez os pedidos em nome dos dois e aguardou que o funcionário se retirasse da mesa com o mesmo sorriso que trouxe. . . Impressionante como Madalena nunca havia percebido isso até conhecê-lo e entregar-se a ele.Tu também não estás nada mal – riram-se os dois. Límpido.disse ela encontrando a mesa escolhida por Sérgio. . Um sorriso que continuava idêntico ao que era. realmente faz muito tempo – respondeu Sérgio desarmando-a com o seu sorriso e com os seus olhos verdes.Mas tu estás óptima. Nessa altura. Faz tanto tempo que não nos vemos… .Espero que esteja tudo bem com o teu pai.Sara. Foi ele quem lhe mostrou que nem tudo estava perdido.Não muita – respondeu Madalena tentando esconder o nervosismo de estar outra vez à frente do único homem que a conseguiu envolver após o seu divórcio. . um fotógrafo que meses antes havia aparecido na sua vida como um anjo e a virado de pernas para o ar. bolos frescos e outras iguarias não muito encontradas em outros estabelecimentos da cidade. – Então?! Já pediste alguma coisa? .Sempre com um sorriso nos lábios.Claro que sim. 174 .

Que Vera!? – perguntou Madalena tentando manter-se firme perante as revelações que se avizinhavam.Porque eu preciso saber. mas sim porque não teve forças para isso.Não sei se te lembras da Vera… .Nem tu? Então porque é que me ligaste? – riu-se Sérgio. Mas a verdade é que o fotógrafo não conseguiu interrompê-la a tempo. Não estava nada à espera. . Porque foi real. eu nunca me esqueci de ti. Não porque não quisesse. – Que ainda não me tinhas esquecido. mas eu precisava ver-te mais uma vez. E tens razão. e se me perguntares ou se alguém me perguntar.continuou ela. Se não existe a mais remota possibilidade de me quereres de volta e de me perdoares por não ter acreditado em ti na altura que eu devia ter acreditado. . . duvido muito que algum dia vá esquecer. mas ainda assim. assim como eu também nunca me esqueci de ti.Confesso que fiquei um pouco. quem sabe… não sei! Quem sabe… . Era óbvio o nervosismo demonstrado pelos dois. . Quem começaria primeiro? .Os chás e os bolos de coco não tardaram a ser trazidos à mesa pelo mesmo empregado que os havia atendido minutos antes. – Eu sei que já se passou muito tempo… .Que coisa?! Ela sorriu nervosamente. Mas a verdade é que passou e… . Porque se tu me disseres que… existe essa possibilidade. e mais uma vez.Lena.Como assim?! . . Sei lá! Ouvir a tua voz. foi muito real e inesquecível! Mas o tempo passou e não eu sei como conseguiu passar tão depressa.Lena… .E…?! .Eu também acho que foi! Foi uma das coisas mais reais que aconteceram comigo e eu tenho medo que nunca mais volte a acontecer. eu preciso mesmo saber se a nossa história terminou. …ver o teu rosto e ter a certeza que nada do que vivi contigo foi um sonho. .…que provavelmente já deves ter refeito a tua vida. 175 . .Deves ter ficado surpreso quanto te telefonei ontem à noite. um certo desconforto até. não é!? – disse Madalena bebendo um gole do seu chá de menta. .discursou Madalena sentindo-se quase sem fôlego.Nem eu. não foi? . As palavras de Madalena contrastaram com a expressão séria de Sérgio e com o desejo que ele sentiu em contar-lhe toda a verdade antes que ela abrisse o seu coração de uma forma irreversível.Primeiro porque… queria ouvir a tua voz. e segundo porque… precisava ter a certeza de uma coisa. cada vez que se olhavam nos olhos.E os nossos caminhos afastaram-se muito! Mais do que eu queria que se afastassem. o que vivemos não foi um sonho. Foi real.Claro que foi – respondeu Sérgio afastando a chávena de si. parecia que tinham tantas coisas em comum e tantas palavras para se dizerem um ao outro. . Foi por isso que eu resolvi procurar-te de novo… . Madalena e Sérgio agradeceram a gentileza do funcionário enquanto escolhiam as suas respectivas chávenas e tentavam arranjar espaço numa mesa não muito gigantesca.

Era o fim. eu sou o pai… – respondeu Sérgio terminando com todas as dúvidas que ainda assombravam os pensamentos de Madalena. várias foram as vezes que Madalena pensou cometer suicídio ou então abrir um buraco para se esconder por debaixo da mesa. na altura eu estava tão magoado que nem sequer me passava pela cabeça ter alguma coisa séria com quem quer que fosse. Durante a condução para casa. Sérgio não contava. até porque se ele continuasse a olhar para si ou se atrevesse a proferir qualquer outra palavra de arrependimento. pensou.Então porque é que estás com ela? – perguntou Madalena sentindo-se confusa. – Aliás. – Descobri isso há pouco tempo. e enquanto a tentava assimilar.Vou – respondeu Sérgio encontrando-lhe a mão sobre a mesa. aliás. . e tal como deves calcular. Não era para ser importante. . Mas infelizmente nenhum dos seus desejos se concretizou e a visão de Sérgio aos poucos e poucos tornou-se cinzenta e deturpada. E não.Porque ela está grávida. Madalena encolheu os ombros e lançou os olhos ao movimento frenético das pessoas à sua volta pensando como era impressionante que ainda ninguém se tivesse dado conta da maior tragédia ocorrida na sua vida. Devo-lhe muitas coisas… . Quatro semanas! De facto. Ninguém teve a brilhante ideia de olhar para si e confortá-la com alguma palavra ou até mesmo com um abraço.Uma modelo que eu tinha fotografado no início do nosso namoro. Conversámos. lembraste?! . ela desmoronaria como um baralho de cartas. .Não foi bem apaixonar – respondeu Sérgio observando-lhe os olhos cintilantes. Foi algo muito casual. Ajudou-me imenso quando me senti em baixo..foi tudo o que ela conseguiu murmurar enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas. até hoje não sei se sou apaixonado por ela.Apaixonaste-te por ela?! .Lembro. e o fim de uma história que tinha tudo para dar certo. O fim dos sonhos que ela transportou durante vinte e quatro horas. Meu Deus! Como o mundo dava voltas e como o destino era tão cruel. trocámos números de telefone e fomos nos conhecendo melhor. . eu encontrei-me com ela num desfile de moda.Mas não a amas. Ela apareceu uma vez em minha casa enquanto lá estavas e tu ficaste desconfiada que tínhamos algum envolvimento. . várias foram as vezes que Madalena tentou 176 . – Mas depois que terminámos por causa daquela história da Sara. – Vais ser pai… . o fim do que poderia ter sido e não foi. fez-me sorrir nos momentos em que me apetecia chorar e tornou-se numa pessoa importante na minha vida.Não! Não a amo. Sem mais nada para lhe dizer. onde praticamente deixou ver o asfalto da estrada devido às lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. Mas a verdade é que foi acontecendo … . Aconteceu! Essas coisas acontecem a toda a gente e eu disse-te que um dia iria acontecer contigo.Não tens que pedir desculpas. entendes?! Mas sei que gosto da companhia dela. .Na altura não! Claro que não… – respondeu Sérgio temendo ser mal interpretado.E tinham?! . – Desculpa! Eu não te queria magoar. a revelação não poderia ser mais bombástica.

E mesmo apesar das pernas cansadas e do esforço de um pobre velho de sessenta e nove anos. por favor … .Mas ela é tua filha.Pai. As coisas que ela me disse na noite em que se foi embora até hoje estão-me gravadas na memória e eu nunca vou conseguir esquece-las ou sequer perdoá-las… .Pai.Eu não acho. não foi muito difícil chegar ao quarto de Madalena e tocar-lhe à porta.Encontrei-a na zona do Areeiro – continuou Afonso enquanto Madalena passeava atordoada pelo quarto.Hoje não. – O que foi? .Podes – respondeu ela apressando-se a limpar as lágrimas junto à janela.A Sara está grávida.convencer-se de que a sua história com Sérgio tinha terminado e de que não lhe restava mais nada a não ser lamentar-se da sua triste sorte. ela abriu a porta de casa completamente encharcada e largou as chaves sobre a mesinha. – Eu tenho a certeza que nenhuma mãe teria aguentado a metade do que eu aguentei. – Hoje não! . . mas a verdade é que desde que ela saiu cá de casa a minha vida melhorou e eu não quero ter que voltar ao ponto de partida. . não é?! Só tenho que me habituar a ela. Mas acho que para isso não existe solução. .Ela está grávida – interrompeu Afonso parando-lhe todos os movimentos. A expressão séria de Afonso fê-la hesitar. cansada de a impedir de sair à noite e de a ver chegar bêbada às tantas da madrugada – afirmou Madalena gesticulando furiosamente os braços.Que seja.O quê?! . – Estava com duas amigas muito mais velhas e parecia que iam a entrar no metro! Bem. Nenhuma mãe teria aguentado o facto de saber que a filha se andava a prostituir em troca de nada… . Depois dessa certeza.Não.Talvez assim tenha sido melhor. Afonso saltou do sofá e alcançou o corrimão das escadas pronto a descobrir que raios se tinha passado com ela.O que é que aconteceu? Algum problema? . pai! Não há problema nenhum! O único problema é a minha vida em si. mas a verdade é que quando fui atrás delas as três desapareceram sem deixar rastro. . – Será que aconteceu alguma coisa com a tua mãe? . – Posso?! .Não. pai – suspirou Madalena voltando-se para ele. . mas o que é que querias que eu fizesse mais?! Eu estava cansada de a tentar chamar à razão.Já chegaste!? – perguntou Afonso vendo a filha passar pelo corredor como um foguete sem sequer responder à pergunta. . . .Preciso contar-te uma coisa que vi hoje.Tenho a certeza que vais querer saber. não sei se me viram ou não.Não sei – respondeu Daniel enfiando o rosto no livro que estava a ler.Vi a Sara. . . . eu realmente não quero saber da Sara! Sei que é horrível uma mãe dizer uma coisa dessas. Preocupado com o comportamento intempestivo da filha. pai! Tu sabes que eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para impedir que a Sara saísse de casa. tu tens a certeza do que me estás a dizer? 177 .

Infelizmente a maioria das respostas foi negativa. nem mesmo o desespero patente nos rostos de Madalena e Afonso conseguiram demover-lhes da vontade incomensurável de seguirem em frente. há muito tempo que não vejo a Sara.Ia precisar de um agrado. .Tome – respondeu Afonso entregando-lhe uma nota de dez euros. e pela barriga.Claro. Afonso aproximou-se dele e em seguida mostrou-lhe uma fotografia que continha a imagem de Sara: . e aparentava também ainda não ter passado dos trinta. Mas para com o teu neto!? Ele não tem culpa de nada. – Eu sou o avô dela. Com uma fotografia na mão. Mas acho que ainda deve estar a morar com a Milene na pensão.Conhece esta menina? – foi a pergunta. o indivíduo não teve dúvidas: . por favor! . tudo bem. – Mas que mal vos pergunte. Só as amigas dela. mas… . já deve ir nos seis ou sete meses.. Gentilmente. claro – respondeu Afonso de imediato. . . Era quarta-feira. continuaram a descer a avenida e continuaram também a perguntar se ninguém havia visto uma jovem de dezassete anos. chovia torrencialmente. – Eu pensei que ela não tivesse família. E apesar de a foto estar molhada. olhos escuros e pele clara. Contudo. Lena! É o teu neto. Em duas ruas paralelas. e esta senhora aqui é a minha filha.Mas?! . – Leve-nos até lá. Madalena e o seu pai. até pelas vestes que trazia consigo e pela barba há muito não aparada. mas acho que consigo perceber quando uma mulher está grávida ou não – respondeu ele encarando a expressão surpresa de Madalena.Claro que não – respondeu Afonso perante o desconforto patente nos olhos e nos movimentos de Madalena. .E sabe aonde é que ela está? – perguntou Madalena não escondendo a sua ansiedade. o que é que vocês querem com a Sarita?! Olhem que é uma gaja fixe! Não lhe vão fazer mal. grávida. eu sei que só tenho sessenta e nove anos.Sei. não?! . pois não?! .Ai é?! – respondeu o indivíduo coçando levemente os cabelos. a mãe da Sara! Viemos conversar com ela. .Eu não acredito nisto. – Este é o pior dia da minha vida – gritou ela atirando o candeeiro da mesinha contra a parede. Afonso interceptou um indivíduo de aspecto algo duvidoso. .Se achas que não tens qualquer responsabilidade para com a Sara.Sigam-me – exclamou o toxicodependente fazendo um gesto engraçado e permitindo que Madalena e Afonso se colocassem à sua frente. o trânsito mais uma vez estava caótico e as esperanças de encontrar quem tanto procuravam tornou-se remota com o passar das horas.Bem. Se quiserem posso mostrar-vos! É mesmo aqui ao pé… . 178 . de cabelos compridos.Claro que conheço. É a Sarita! O pessoal lá do bairro chama-a assim. – Acho que isto deve chegar para o jantar à maneira. – A Sara está grávida sim. mas ao chegarem ao final da avenida Almirante Reis. eu até entendo. interceptaram todas as pessoas que iam a passar debaixo dos seus chapéus-de-chuva. Parecia ser toxicodependente. Afonso. – Bem.Por acaso – disse o indivíduo mostrando-se bastante satisfeito com a recompensa. Mais lágrimas foi o que Madalena sentiu a brotarem dos seus olhos. madame! Sabe como é que é! Já são sete horas e um gajo ainda não conseguiu juntar dinheiro suficiente para jantar.

. oh – exclamou Vítor alcançando a porta da pensão que tanto tinham procurado. rapaz – respondeu Afonso permitindo que Madalena entrasse primeiro. entende?! – interferiu Afonso. seguiu-se a vez de Madalena.Eu sei – respondeu ela encarando-lhe a expressão irónica. um misto de sensações e sentimentos atravessaram o coração de Madalena.Sei! Uma surpresa? 179 . meu Deus. mas estava! Eu sou o dono desta pensão e aqui ninguém entra sem passar primeiro por mim. A caminhada em direcção ao bairro do Intendente demorou alguns minutos. – Eu não mordo. a visão de imigrantes dos mais variados países. vô! Afonso não viu outro remédio a não ser oferecer uma outra nota de dez euros àquele pobre rapaz que apesar de tudo nem parecia ser má pessoa. E ao voltarem-se para trás.Milene – concluiu Madalena quase gelando dos pés à cabeça quando os seus olhos se cruzaram com os do proprietário da pensão. rapaz? . . prostitutas encostadas às portas das pensões enquanto seguravam os respectivos chapéus-de-chuva e compunham a pequenez das mini saias.Não! Nós gostaríamos que fosse uma surpresa. .Eu sei – afirmou Vítor estendendo novamente a mão. vestido com um fato de treino azul e uma expressão facial nada amigável assombrou-lhes a visão. – Hei – ouviram uma voz grossa a sair da recepção.Nós viemos procurar uma rapariga chamada Sara e uma outra chamada… . Agora digam lá! Quem são vocês? . Infelizmente. – Mas não garanto que a Sara e a Milene estejam aí! Podem ter saído! .Sim! Somos amigos.Sempre a vi sozinha lá no bairro e ela também nunca falou nada. . todos eles compunham o cenário no mínimo degradante onde Sara tinha escolhido ser a protagonista. demorou algum tempo a apertar-lhe a mão. despediu-se dele com um novo aperto de mão e acompanhou a sua filha em direcção às escadas sujas e escuras que ligavam os quatro pisos daquela pensão.Como é que é o seu nome. . – Mas para vos deixar subir. vários toxicodependentes a cambalear pelas ruas. – Não sabíamos que estava aqui alguém.Hã.Desculpe. Nessa altura. Surpreendentemente ou não. Era a primeira vez em quarenta e dois anos que se atrevia a pisar um local como aquele. o seu cumprimento foi imediatamente correspondido pelo ex. que ao contrário do pai. repleto de lixo espalhado pelo chão. Era a primeira vez que estava ali. é?! . e quando finalmente avistaram a entrada. – Agora é para a sobremesa. e por fim.Bem. um homem de estatura média.Vítor – respondeu ele abrindo um sorriso enquanto estendia a mão a Afonso. – Nem sabemos como lhe agradecer… . – É aqui. madame! .Obrigado pela ajuda.Pois. militar. elas estão lá em cima… – respondeu o dono da pensão mostrando-se um pouco mais calmo por perceber Afonso e Madalena não eram pessoas ameaçadoras ao seu negócio. amigo – respondeu Afonso mantendo Madalena um pouco mais atrás de si a fim de preservar a sua identidade. .. essas duas! Conhecem-nas. – Aonde pensam que vão? . Depois disso.Porquê!? . vou ter que avisá-las primeiro.

O número que para sempre iria ficar gravado na sua memória. era ela quem fazia questão de pagar. ainda atordoada perante tal revelação.O quarto fica no terceiro andar e é o número dois. E foi por isso que sem muitas cerimónias ela saltou do divã encontrando no espelho o único local para compor os cabelos e o decote da sua camisola preta. o que também poderia prejudicial para o bebé.…deixa-me ganhar alguma coragem. Esta. algo que prendeu de imediato a atenção de Milene e que a fez largar a revista que tinha nas mãos. E para piorar o cenário.. O número dois. Depois disso. os inúmeros remédios que foi obrigada a adquirir na farmácia de serviço ou os panos húmidos para acalmar as febres altas conseguiram melhorar o estado de saúde de Sara.Deixa-me… . Uma mulher de cabelos castanhos pelos ombros vestindo uma gabardina preta e um lenço cor de laranja ao pescoço.suspirou ela.Sim. assim como o encontro com a filha após seis meses em que estiveram afastadas e não mantiveram qualquer tipo de contacto.Pois. e Madalena pode ter essa certeza quando se viu pela primeira vez à frente do quarto apontado pelo dono da pensão.Eu sou a mãe da Sara – interrompeu Madalena para grande surpresa de Milene. Para além disso. – Porquê? Algum problema? . ela estava grávida. pensou. é mais caro. eu deixo que façam a tal surpresa e até finjo que não estava cá quando subiram! Mas se não derem… . .Sim. – Podemos entrar? 180 . tornou a afastar-se da cómoda e alcançou a maçaneta da porta girando-a de uma só vez. Quem quer que fosse não a iria deixar em paz. .Não. .Você é que é a Milene? – perguntou o senhor. – Aqui tem os vinte euros. até porque desta vez. lançou um olhar à cama onde Sara estava deitada e percebeu que a febre e os tremores da jovem ainda não haviam cessado apesar dos antibióticos. Afonso e Madalena contaram os degraus até o terceiro piso e muitas vezes se viram submersos numa escuridão aterradora. e logo atrás dela. Raios. o cheiro a humidade emanado pelas paredes. . A porta sofreu dois toques quase seguidos. . mas para ser surpresa. um senhor de meia-idade trajado com um casaco verde-escuro e calças de ganga aprumadas. O que mais poderia fazer para que a amiga se recuperasse da pneumonia contraída cinco dias antes? Nem mesmo as emergências do hospital. Milene ouviu um terceiro toque na porta e finalmente deu-se por vencida. não conseguiu produzir qualquer movimento corporal a não ser manter a mão sobre a porta. . A visão que lhe surgiu à frente foi realmente surpreendente. Enquanto pensava em todas estas tragédias. – Pois não?! .Se me derem vinte euros. Depois disso. pai! Deixa – exclamou Madalena impedindo que Afonso retirasse mais uma nota da carteira. Há muito tempo que não nos vemos e eu tenho a certeza que elas iriam ficar muito mais contentes se nos vissem lá em cima… de surpresa. sou eu – respondeu a prostituta cautelosamente.Obrigada! Sob o barulho ensurdecedor das escadas. – Não vais bater à porta? – perguntou Afonso percebendo a hesitação de Madalena. . a sujidade entranhada em todos os cantos não lhes deixaram quaisquer dúvidas de que Sara tinha escolhido um dos piores lugares do mundo para viver.Como assim?! .

pai! Vai lá! . a porta do quarto fechou-se com algum cuidado. . O facto de a sua filha já não existir. Mas como não havia camas vagas no hospital. aquela era a primeira vez que se sentia tão nervosa perante a presença de pessoas desconhecidas. . da Sara que todos conheciam. Ao vê-los ali diante de si. fez-se um silêncio perturbador. . Nem mesmo os antibióticos estão a fazer efeito.Eu não sei se ela vai querer ir – respondeu a prostituta cruzando os braços. desprovidas de qualquer luxo ou outros elementos decorativos. Milene percebeu isso quando baixou o rosto e perguntou: – Para onde é que vocês a querem levar? .É grave? – perguntou Afonso debruçando-se sobre a neta enquanto lhe mexia nos cabelos soltos. claro – respondeu Afonso.Espero bem que não. – Lá é que é o lugar dela! . Madalena lançou os olhos a Sara e por momentos quase não a reconheceu. – O médico que a assistiu disse que provavelmente era pneumonia. Era estranho imaginar-se tão pequena. Obrigada! . ela tinha emagrecido bastante. Apesar da gravidez. vulnerável e insegura na presença de Madalena.Para casa. Infelizmente. Foram precisos poucos minutos para que Afonso abandonasse o quarto e deixasse Madalena e Milene de olhos postos em Sara.Eu não estou a pensar nada – respondeu Madalena observando os gestos de Milene a retirar as roupas de Sara dos armários.Hã… não. Depois disso. não tinha quaisquer razões para se sentir assim. quando na verdade. – Lena! Importaste de ficar aqui a preparar a Sara enquanto trago o carro para a levarmos? . mandou-a para casa e receitou uns medicamentos que tive que comprar ali na farmácia.Então já vou indo para não perdermos mais tempo.Ela está assim desde sexta-feira… – disse Milene quando Madalena e Afonso avistaram o corpo de Sara deitado sobre a cama. e Madalena não resistiu a lançar um novo olhar àquelas paredes vazias. – Entrem! O convite foi imediatamente aceite por Afonso e Madalena. Sempre fora tão segura. 181 . . mas a febre continua alta! Já não sei o que fazer para a baixar.Claro – respondeu ela após alguns segundos em suspenso. independente e imune à opinião dos outros que era estranho ver-se metida numa situação daquelas. aliás. Enquanto ouvia o discurso de Milene.Sei que deve estar a pensar horrores deste lugar. não é?! . os cabelos estavam mais compridos e o rosto de menina inocente transformou-se no de uma mulher obrigada a crescer à força.. – Nós viemos buscá-la – exclamou ela voltando-se para Milene.Tudo bem! Eu entendo.O lugar dela não é aqui e você sabe disso! A afirmação de Madalena não poderia ter sido mais acertada. e em seguida. Milene sentiu-se mais nervosa do que nunca.Eu vou buscar o carro lá acima – disse Afonso voltando-se para a filha. . . já não restava mais nada e foi isso que assustou Madalena.Claro que não. E só de pensar que tinha sido ali que a sua filha tinha passado os últimos seis meses de vida. . – Quer tomar alguma coisa? – perguntou Milene prendendo-lhe a atenção.

Por estar quase inconsciente devido às fortes febres.Eu sei – respondeu Madalena encarando-lhe a expressão mortificada. o que vestir e foi obrigada a ir a todas as consultas pré-natais mesmo quando não queria.Vocês são amigas? . eu gosto muito da Sara e nunca quis que nada de mal lhe acontecesse. mas. A resposta de Milene trouxe um novo silêncio e também um novo olhar de Madalena aos cantos daquele quarto. mas ele não vai conseguir aguentar sozinho com o peso da neta e muito menos com as malas dela.E só para terminar… queria também que soubesse que a admiro imenso! Nem sabe o que eu daria para que a minha mãe também me tivesse vindo buscar ao Intendente. não foi?! Vá-se lá perceber porquê! Com uma casa de sonho.. poucas dúvidas restaram quanto ao seu destino. Sara nem sequer se apercebeu quando foi carregada ao colo por um dos habitantes do bairro e as suas malas foram levadas pelo avô em direcção ao primeiro piso da pensão. sabendo bem quem eram as pessoas que 182 . mas mais do que isso. De facto. . Pelo menos ela nunca foi apanhada por nenhum drogado.…eu sei que provavelmente deve achar que eu sou a culpada de tudo o que aconteceu à sua filha. Não fiz um grande trabalho. mas eu não a recrimino! Eu também sei que este lugar não é nada especial. – Espere – exclamou Milene interceptando a saída de Madalena do quarto. Sim. confidente e também a única pessoa a quem ousava contar alguns dos seus maiores segredos. fui eu que tomei conta dela durante estes meses todos. Mas de qualquer maneira. Nessa altura. Mas foi aqui que a Sara escolheu ficar.Não é preciso – respondeu Madalena de imediato. – Eu vou chamar um amigo para vos ajudar a levar a Sara e as coisas dela até ao carro.Está a pensar sim. As últimas palavras de Milene coincidiram com a saída de Madalena e com as lágrimas que não conseguiu suportar perante a partida da sua melhor amiga. sendo que dali para a frente iria ser praticamente impossível voltar a ver o bairro com os mesmos olhos pois Sara tinha retirado dele todo o encanto. na sua companheira. ninguém em sã consciência iria perceber os motivos que a fizeram largar tudo aquilo para vir morar no Intendente. tristezas e discussões. Todas as alegrias que passaram juntas. Confesso que até hoje eu nunca entendi. . – A sua filha é quase como uma filha para mim embora a nossa diferença de idades não seja assim tão grande.. ficaram-lhe gravadas na memória. lá isso é verdade. parecia que a sua história tinha tido finalmente um final feliz. nunca foi espancada por nenhum chulo.. durante os meses que passaram juntas. mas pelo menos fiz o melhor que sabia. no seu coração. Nessa altura. uma família que a tratava bem. teve sempre o que comer. Diante daquele facto irrefutável.O seu pai até pode ser forte. Voltaria para casa.Somos – respondeu Milene lançando um olhar a Madalena enquanto dobrava algumas peças de roupas e as colocava na mala de Sara. . – Esse meu amigo vem cá num instante! Ele vive aqui ao pé. . . para os seus familiares mais próximos e recuperar-se-ia de todos os fantasmas que durante meses a atormentaram. . não é?! – retorquiu Milene percorrendo a sua lista de contactos através do telemóvel. Sara transformou-se na única amiga que um dia teve. Faltavam poucos minutos para o anoitecer quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta se abriu ruidosamente.

. . . Mais tarde. Estava limpa. e por ter experimentado essas ervas várias vezes durante a sua infância. penteou os longos cabelos da filha e passou o chuveiro por eles para que a água retirasse toda a sujidade acumulada durante semanas. . Era remédio santo. . grávida e ainda tinha muito para viver dali para a frente. ela pensou. foi o último pensamento de Madalena quando por fim a conseguiu enrolar numa toalha branca e levá-la novamente ao quarto. Madalena não precisou de mais nada para se sentir a mulher mais feliz do mundo e para ter a certeza que todos os seus esforços não foram em vão quando resolveu procurar a filha e trazê-la de volta a casa. formar uma família e serem felizes tal como ela um dia também foi. Depois disso.Está bem. A contar pela sua enorme barriga. ver os seus filhos casar. Obviamente que sempre lhe passou pela cabeça ter netos. Aliás. dizia Leonor quando ainda era viva.Até já – disse Afonso encostando a porta com cuidado e deixando Madalena sozinha naquele grandioso quarto com os pensamentos a mil à hora. a cama encontrava-se pronta para a receber. o primeiro neto de Madalena.tinham chegado a casa.Vais ficar aí? – perguntou Afonso quando se aproximou do alpendre da porta.Mãe…. ninguém disse absolutamente nada pois o regresso de Sara era algo já há muito esperado. os braços. seguiram-se as roupas e a certeza de que Sara estava realmente grávida. e o pijama vestido provou que era altura de Sara se sentir finalmente em casa. desastrosa e pouco corrente. Afonso levou a neta até ao quarto e colocou-a na cama. Com as poucas forças que lhe restavam. Ela estava viva. e consequentemente.Só mais um pouco! Até ter a certeza que a Sara dormiu – respondeu Madalena. Até porque se pudesse faria tudo de novo. passaria as mesmas tristezas e ouviria todas as coisas que nenhuma mãe desejava ouvir nem no pior dos seus pesadelos. Madalena retirou-lhe os ténis e as meias brancas.Então vemo-nos na sala. 183 . Madalena resolveu enfiá-la numa banheira de água morna e lavar-lhe o corpo com ervas medicinais que a sua mãe costumava guardar na floricultura. Daniel saltou do sofá e encontrou a visão do avô. . Para acalmar a febre e os delírios de Sara. Parecia um sonho.Mãe… Apesar de só ter conseguido ouvir aquela palavra. mas o que ela não contava era que as coisas fossem acontecer daquela forma tão rápida. Nessa altura. Não foi preciso dizer nada. das pessoas que mais a amavam e que nutriam por ela um amor incondicional.ouviu-se um murmuro. esfregando-lhe não só as costas. Até já! . Madalena achou por bem utilizá-las em Sara. embora essa fosse a realidade nua e crua. perto dos seus familiares. enquanto a poucos centímetros. não era muito difícil imaginar que lhe faltariam poucas semanas para dar à luz o seu primeiro filho. O que não contava era ser obrigada a buscar a sua filha a um bairro como o Intendente e não fazer a mínima ideia de quem era o pai do seu neto. Era só com isso que não contava. . Neto.O que foi? – perguntou Madalena correndo ao encontro de Sara com o coração aos pulos. mas também as pernas. da mãe e da sua irmã ao fundo do corredor. Era a única palavra que ecoava nos ouvidos de Madalena e que por momentos a deixou à beira do desespero por não saber como lidar com aquela nova etapa da sua vida. Um sonho ter a filha de volta e saber que apesar de tudo não lhe aconteceu nada de mal. Sofreria as mesmas angústias. Neto.

Mas a verdade é que…: O que não a matou tornou-a mais forte. 184 . veio um enorme sentimento de paz manifestado por Sara. se aconchegou nos braços da mãe e se deixou adormecer pela primeira vez sem pensar em mais nada. Depois disso. o que não a destruiu ajudou-a a reconstruir-se. isso nem chegava aos pés do que ganhou quando passou as mãos pela barriga da filha. que muito atabalhoadamente. E o que perdeu?! Bem.

a sala já está pronta. que muito pacientemente explicaram a Sara todos os procedimentos tidos em conta numa ocasião tão especial como àquela. não conseguiu assimilar nenhuma dessas explicações. E foi precisamente às dezanove horas e trinta e quatro minutos que se ouviu o primeiro berro do mais novo elemento da família.Eu vou estar lá fora. Tenho medo de morrer.Eu tenho medo de morrer. – Vai correr tudo bem. Alice e o pequeno Daniel desesperaram-se com a falta de notícias. fizeram com que Madalena ficasse alerta. – Não. Madalena desejou que sim e foi por isso que se voltou para as enfermeiras de serviço perguntando-lhes: . O que será que a filha quis dizer com aquilo? Não seria apenas um medo normal de uma adolescente prestes a dar à luz? No fundo do seu coração. . As últimas palavras de Sara.Não! Não me deixes aqui sozinha. a calma.Claro – respondeu uma delas recebendo um sinal através do BIP. talvez pela sua inexperiência ou pelo pânico das dores. mãe! Fica aqui. – Não te vás embora! Não vás… .CAPÍTULO X Os dois meses que se seguiram foram atribulados. um acontecimento devidamente presenciado por todos os membros da família Soares. mãe – gritou ela estendendo a mão a Madalena a fim de a impedir de sair do quarto. ainda emocionado. – Bem. Tanto Jorge. Sara?! Chegou a hora! As cinco horas que se seguiram foram de grande angústia para todos os que estavam presentes na sala de espera. Mas Sara. Apenas gritava. fazia-se silêncio. Sempre que isso acontecia. e também por Alice. alegrias e culminaram com o dia do parto de Sara. imprimiam-se novas orações e olhava-se para o relógio pendurado na parede. muita força para conseguir expulsar o bebé para fora. A respiração. – Graças a Deus – exclamou Afonso levantando as mãos ao alto.Sara… . sendo intencionais ou não. encontrou nos braços do 185 . cheios de surpresas. Vamos. a melhor amiga de Madalena. e acima de tudo. Em seguida. como Afonso. A preparação do parto foi efectuada por algumas das enfermeiras de serviço.Posso assistir ao parto? . . mas principalmente com os gritos que de vez em quando irrompiam a sala sem qualquer aviso prévio. filha – respondeu segurando-lhe as mãos com força.Nasceu – disse Jorge não cabendo em si de contente quando abraçou Daniel com força e se atirou para os braços de Alice. Fica aqui! . pedia ajuda a quem quer que se aproximasse de si e desejava que aquele pesadelo terminasse o mais depressa possível.

– Mas as enfermeiras ajudaram-na imenso. . avó! . seguiram-se outros cumprimentos igualmente efusivos ao pai.Que bom – exclamou Alice correndo a abraçar a melhor amiga. – É linda! . Mais tarde. Nervoso.Meu Deus! Pensei que o meu coração não fosse aguentar. . – E então?! – perguntou Jorge assim que ela se abriu e a figura de Madalena lhe surgiu diante dos olhos. à melhor amiga e ao filho. até o final da semana espero já estarmos todos em casa. – Parabéns. não é?! .Podes crer – riu-se Madalena.Tem calma – riu-se Madalena alegremente. . forças até tinha. Jorge olhou mais uma vez para o relógio e retirou as mãos dos bolsos das calças.k.E ainda nem chegaste aos quarenta e cinco! Isso é bom. o médico também e por sorte correu tudo bem! Aliás. – Aqui tens o teu conforto! . . Assim quando a tua neta crescer.Bem. Quer dizer. mas como o parto foi natural e não houve quaisquer complicações.Acreditas nisto?! Já sou avó. Ainda não sabemos muito bem quando é que vai ser. Madalena atirou-se-lhe para os braços e permitiu que ele a levantasse do chão. – Está tudo bem. mas vocês sabem que ela sempre foi um pouco preguiçosa… – riram-se todos. para além da certeza de que aquele tinha sido o dia mais feliz das suas vidas.Oh pai – exclamou Madalena sugando-lhe a face enrugada. . e mais tarde.Agora estão a limpar a bebé! Depois a Sara vai ser colocada num quarto normal e as duas vão ficar lá até lhes ser dada alta. vocês vão poder passear pela rua sem ninguém perceber essa tragédia.A Sara?! Como é que ela está? – perguntou Alice não escondendo a felicidade estampada no rosto. – Tu vais ser um bisavô fantástico assim como o Daniel também vai ser um tio excelente. .Quando é que as vamos poder ver? – perguntou Jorge. sogro o apoio necessário para extravasar toda a adrenalina que estava a sentir pelo nascimento do seu primeiro neto. impaciente.O. – Nasceu! Os momentos de euforia inicial deram lugar a uma relativa calma. avô – disse Alice oferecendo-lhe um novo abraço. ela estava muito nervosa. marido e do gesto engraçado que fez ao levar uma das mãos ao peito.Era mais fixe se tivesse nascido rapaz – resmungou Daniel não vendo na sobrinha uma boa companhia para jogar à bola.E não vai aqui uma palavra de conforto ao avô?! – perguntou Jorge interrompendo a animação das duas amigas. eu nem me pronuncio – interferiu Afonso levantando os braços. . – Afinal de contas eu também fui avô antes dos quarenta e cinco. . Porque é que ninguém saía daquele quarto para lhes trazer notícias. – Estamos a precisar é de mulheres! 186 . a uma sensação de que faltavam notícias para confirmar que tudo tinha corrido bem. Perante a revelação do ex.Cansada. as duas estão bem… .ex. o que é que conta ser-se bisavô nessa família. claro! O parto foi longo.Não! Chega de homens neste mundo – disse Alice. – É uma menina – disse Madalena passada a confusão. foi a pergunta de Afonso enquanto Alice esfregava as mãos de ansiedade e rasgava alguns olhares para uma porta fechada há mais de cinco horas. – Afinal de contas. cheia de medo e não tinha forças para puxar o bebé. . – Como é que foi? Como é que está a Sara? O bebé? Nasceu? Está bem? . .

Não. Durante muito tempo ela esteve cega ao não dar valor à sua mãe e só agora começava a perceber o quanto errou ao não fazer isso. Descansa. A homenagem não poderia ter sido mais nobre e foi por isso que Afonso não se conseguiu conter. à primeira mamada e observou Sara dormir como uma pedra durante horas sem sequer acordar quando a pequena Leonor abriu o berreiro um pouco antes das quatro da manhã. Levava-te para todo o 187 .Dá-ma! .Já não tenho idade para estas coisas – respondeu ele arrancando uma risada geral. .Ele ficou contente.Não a largas para nada! Parece que ficaste viciada nela. Assistiu também ao primeiro banho.Já escolheste o nome? – perguntou Jorge completamente embevecido pela neta.Impressionante – riu-se Sara. – Não te largava nem sequer para ir à casa de banho. deixa estar! Eu fico com ela.Havias de me ver contigo quando nasceste – respondeu Madalena correspondendo ao sorriso da filha.Que chorão que você me saiu. a sua filha já se encontrava deitada num pequeno berço ao lado da sua cama e as primeiras horas da maternidade começavam lentamente a infiltrar-se na sua mente.Só espero que não seja Gertrudes – brincou Alice. – Eu queria que se chamasse Leonor! O nome da avó. Afonso – exclamou Jorge tentando desanuviar o ambiente do quarto. Impressionante. Nessa altura. não sabes! Mas vais saber. . Sara esgueirou o pescoço através da cortina e aguardou ansiosamente a entrada dos seus familiares no quarto. filha – afirmou Madalena mantendo a neta no colo.Não – riram-se todos. – Qualquer coisa e chora logo! . .Agora mesmo! Mas não acho que seja fome. militar tirou um lenço do bolso das calças e tentou esconder as lágrimas para que ninguém o visse a chorar. foi a primeira a salvá-la dos perigos e também a primeira a perdoá-la quando tudo o que deveria ter feito era ignorar a sua existência. .O quê!? . – Ela acordou? – foi a primeira pergunta que a jovem mãe fez ao ver Madalena a passear a bebé pelo quarto. . hã Sr.Quando a porta se mexeu com um pequeno guincho. – Era para teres ficado contente. todas as dores sofridas durante o parto tinham desaparecido. pois Madalena foi a primeira pessoa a estenderlhe a mão nos momentos em que mais precisou. . . Madalena decidiu passar a noite na clínica para ajudar a filha em tudo o que ela precisasse.Eu sei. Já se acalmou. – E também já tinha falado com a mãe mais ou menos sobre o assunto… . Emocionado. . Mas a verdade é que ela não ignorou e a outra verdade é que Sara começava a perceber o porquê. Como todas as coisas que anteriormente não faziam sentido passaram a fazer e como desejava entregar à sua filha tudo o que tinha de melhor. Impressionante como em tão pouco tempo a sua vida mudou apenas com a existência de um novo ser. Ao contrário de todos os outros.Não. . . Porque nenhuma mãe consegue ignorar a existência de um filho faça o que ele fizer.Estive a pensar – respondeu Sara ajeitando os lençóis sobre o colo. – Oh avô! Não fiques assim – disse Sara correndo a abraçá-lo sobre uma das pontas da cama. – Agora é que vais ver o quanto custa ser mãe – disse-lhe Alice enquanto todos paparicavam os gestos e as mãozinhas delicadas da bebé. . . o ex.

Aos dezassete anos. Mas agora os tempos eram outros. Sara sorriu e deixou-se contagiar por algumas lágrimas teimosas. colegas de trabalho e um número quase incalculável de animadores infantis contratados para a ocasião. Quero que a Leonor tenha orgulho de mim… .disse ela num tom de voz quase sumido. O baptizado da pequena Leonor foi comemorado seis meses mais tarde com toda a pompa e circunstância. mas sim a semelhança que aquela menina parecia ter com a sua filha. Sara principalmente.Vais-me ajudar a fazer tudo isso. os churrascos domingueiros.Ela vai ter – respondeu Madalena forçando-lhe um sorriso. por todas as coisas que te disse! Eu não sei o que é que me passou pela cabeça.lado e as pessoas até chegavam a perguntar-me: Não te cansas de a ter sempre no colo? Não queres ter uma vida própria? .É claro que vou! Vou-te ajudar em tudo o que precisares… – respondeu Madalena oferecendo-lhe a mão e sentindo nela um calor especial de um beijo. ir para a faculdade. entre os quais. – Não faças tantos planos de uma só vez. – Queria pedir-te desculpas… .Por todas as coisas que te fiz.E tu?! O que é que respondias? . Acho que… só queria provar a mim mesma que não precisava de ti e que podia muito bem viver sem a tua ajuda. Eu sei que foi horrível. natais. as festas de aniversários. . – Eu quero tratarme – ela continuou com os olhos rasos de lágrimas. que tal como se era de esperar. mas foi assim que me senti – Madalena manteve-se calada. . já não havia mais espaço ou tempo para errar. amigos. repleta de cabelos cacheados. onde já haviam sido vivido alguns dos momentos mais felizes das suas vidas. 188 . pele morena e um vestido azul clarinho que em muito acentuavam a sua beleza e inocência. foi realizada no grandioso jardim da casa. Agora todos tinham atingido um patamar completamente diferente.Meu Deus – riram-se as duas. A destacar: os baptizados de Sara e Daniel. Perante a resposta de Madalena. prestes a completar dezoito. não vais?! . tinham crescido enquanto pessoas. e com uma filha nos braços. . A primeira tentativa era a única e dali para a frente iria ser sempre assim. estúpido e egoísta da minha parte. não foi o vestido que mais chamou a atenção de Sara. mas mesmo muito dinheiro… .Que a minha vida eras tu.E depois quero voltar à escola. terminar o décimo segundo. e contou com a participação de inúmeros convidados. passagens de ano e vários outros acontecimentos sempre relembrados em álbuns de família e afins.Porquê?! . – Quero curar-me e ser uma boa mãe para a minha filha tal como tu também sempre foste uma boa mãe para mim. De facto. familiares próximos. Jorge e Madalena esmeraram-se na preparação da festa. Tinham aceitado o seu convite apesar das relutâncias e trouxeram consigo não só vários presentes como também uma bela menina de sete anos. arranjar um emprego que dê muito. foi a conclusão tirada por ela quando Leonor se enterrou nos seus ombros e a figura de duas pessoas muito especiais atravessaram os portões da casa. adquirido novas experiências e utilizado essas mesmas experiências para seguirem em frente e reparar os erros do passado. Contudo. Eram elas.

Então esta é que é a famosa Leonor!? . .Obrigada. Envergonhadamente. não é?! – respondeu Arlete mostrando um pequeno embrulho a Sara. não é?! . Daniela obedeceu ao pedido da mãe e beijou a face de Sara.Pois é. .Tínhamos que vir! Afinal de contas não é todos os dias que… senhoras como nós são convidadas para baptizados.Podias ter-me contado.Vai lá – disse Sara. principalmente o Marco – respondeu Milene compondo os longos cabelos. – Serve-te à vontade.Há tanto tempo que não agarrava numa bebé.É – respondeu Milene baixando os olhos.És muito bonita.Ias sim – interrompeu Milene encarando-lhe o rosto. – Milene! Arlete! Que bom que vieram… . Milene?! – indagou Sara voltando-se para trás. Daniela. enquanto a última.Sim. Daniela dá lá um beijinho à amiga da mãe. pá! Até acho que já perdi o jeito.Se eu te contasse tu irias contar ao Marco. – Toma! Para a bebé. . . mas naquela noite ele tinha bebido demais por causa da morte do irmão e… acabou por descarregar as frustrações em cima de mim. .Porque é que nunca me contaste? .Claro – respondeu Sara entregando a sua filha nos braços de Arlete. . . Bateu-me! Bateu-me mesmo muito! Quase morri e quase que perdi o bebé também – discursou Milene com um longo suspiro. o meu destino – riu-se Arlete enquanto se afastava em direcção a uma das inúmeras mesas de doces espalhadas pelo jardim e deixava Sara e Milene de olhos postos na outra à espera de forças para terem uma conversa que há muito já deveriam ter tido.Posso segurá-la ao colo? . . Sabias?! .Era como se estivesse a ver Leonor dali a sete anos.Então aquela história de teres engravidado do teu patrão no restaurante onde trabalhavas… . . – Quando eu descobri que estava grávida. . mesmo se essa não fosse a tua intenção.Era tudo mentira! Foi uma mentira que eu inventei lá no bairro para que ninguém soubesse a verdade. até tentei contar-lhe. afagou-lhe os cabelos compridos dizendo: .E tu. – Na altura estavas apaixonada por ele e irias acabar por contar. .Daniela e Leonor! Ai. . A Daniela! Uma outra famosa. .Porque eu não queria que ele soubesse e também… não queria que tu soubesses. E eu não queria que o Marco soubesse que eu tinha tido uma filha dele.Bem. – Esta é que é a tua filha? .foi o cumprimento de Sara às suas amigas. . . aquela mesa de doces está-me a chamar – interrompeu Arlete compondo os seus cabelos volumosos. . com um sorriso carinhoso. a mesma pele mulata e o mesmo sorriso.Sabia – respondeu a criança arrancando uma risada geral.Não.Leva a Daniela também – pediu Milene. não ia… . com os mesmos cabelos cacheados.A Daniela é a filha do Marco. – Foi então que eu 189 .

Tal como nós.O. Primeiro por causa da volta da Sara. e tive lá a Daniela. . as nossas histórias não são assim tão diferentes… . Não te faças de desentendida! Desde a minha viagem a Bruxelas que tens andado a fugir.Lena.Eu acho melhor esperarmos até a Leonor ir para a faculdade. Jorge congratulou-se. em bebedeiras e em festas desregradas.Bem.Que resposta? – perguntou ela deliciando-se com a voz do ex. depois. . . tanto Sara como Milene finalmente encontraram a paz e o conforto que durante meses procuraram incessantemente.Ainda não me deste a resposta.Fazes bem. Era a primeira vez que conseguia apanhar a ex.Tal como nós… Enquanto se abraçavam e se tentavam abstrair do barulho infernal inerente àquele jardim. Foi a única que ficou a saber da verdade.Não?! 190 . para a casa da minha mãe. marido atrás de si. Ela disse-me que eu podia ganhar bem mais a trabalhar como prostituta e eu aceitei porque estava desesperada e também porque a minha mãe não parava de me pedir dinheiro para continuar a tomar conta da miúda. por isso voltei outra vez para Lisboa. Ela encontrou-me na rua e levou-me para o hospital. . – Vou largar a vida – disse Milene após o longo abraço que recebeu de Sara. . . e agora.Até que enfim. Antes. mulher a sós desde o início da festa. . . Por isso. acho melhor irmos ter com a Arlete senão ela acaba com os doces. . . De qualquer maneira. por causa do nascimento da nossa neta. Só que eu e a minha mãe nunca nos demos lá bem e eu também não estava para aturar as cenas dela. baixinho. Trabalhei numas porcarias. onde tal como se era de esperar encontravam-se todas as crianças e também Arlete. fugi para o Porto. ganhei misérias de ordenados e já estava a ver a minha vida a andar para trás até encontrar a Arlete outra vez. não sejas má – riram-se os dois. Ali estava Madalena a arrumar os pratos e os copos de plástico sujos pelos convidados quando ele se aproximou e lhe segredou aos ouvidos uma frase que tinha vindo a projectar desde há meses: . já estou quase a chegar aos trinta. . mas esqueceram-se que a verdadeira paz e conforto. haviam-nas procurado nos braços de vários homens. já juntei um bom dinheiro que me vai safar até encontrar um emprego decente e… quero começar a aproveitar a minha filhota. e por esse milagre. . Depois. uma das únicas adultas suficientemente infantis para se maravilhar com um bolo recheado de chocolate.Verdade! Decidi-me há coisa de um mês.Tens razão – concordou Sara aceitando-lhe a mão e atravessando com Milene todo o jardim em direcção à mesa dos doces. tal como vez.Mas não agora – respondeu ela passando-lhe as mãos pela camisa. essas só podiam ser encontradas dentro delas próprias e ao lado das pessoas que sinceramente as amavam. .São – riu-se Milene para não chorar.Verdade?! .conheci a Arlete.Tu sabes bem. E foi assim que entrei na vida.k. . tudo bem! Eu dou-te a resposta.Então quer dizer que as nossas filhas são irmãs!? . não tens mais escapatória.

casal quando se aproximou da melhor amiga e a surpreendeu com um sorriso malicioso nos lábios. . . depois de todos já estarem a dormir.Não estás? . Alice! Rápido! Sem cerimónias e enquanto se riam a bom rir. Depois disso.Lá isso é verdade – riram-se as duas. . Madalena e Alice correram ao local e não tardaram a misturar-se com as cerca de oitenta pessoas especialmente convidadas para assistir ao baptizado da pequena Leonor. tenho os meus filhos… . .Não acredito que ainda andas a enrolar o gajo… . o que de facto não tardou a acontecer.Claro que não – afirmou Madalena passando um dos seus braços pelo ombro da melhor amiga. depois da festa. aparece no meu quarto. mulher. . Lá eu dou-te a resposta. E mesmo o jardim sendo pequeno para tantos convidados.Mas quem disse que eu estou sozinha? .Se continuares assim ainda vais acabar sozinha. . Ao perceber quais eram os intentos da ex.Sabes de uma coisa?! .Uau – exclamou Alice arrancando-lhe uma leve risada. a verdade é que sobrou um espaço enorme nos corações de todos aqueles que ficaram eternamente registados naquela fotografia. – Em primeiro lugar. – Anda! Vamos tirar uma foto de grupo.Tenho a minha neta que é a coisa mais linda do mundo.exclamou Alice interrompendo os olhares do ex.Também.Não! Hoje à noite. . .Só precisava de tempo para me decidir! Mas esse tempo demorou mais tempo do que eu estava à espera – respondeu Madalena arrancando uma ruidosa gargalhada a Alice.Eu não ando a enrolar ninguém.O quê? . Mãe ouviu-se a voz de Sara. voltou-se novamente para trás e acenou de longe ansiando que Madalena correspondesse de igual forma. – Obrigada por me teres colocado em último lugar.E se mesmo assim não me restar mais ninguém. Fim 191 .Sim. . tenho-te a ti! . Anda tu também.Tenho o meu pai. Jorge sorriu e afastou-se dela com a máxima discrição.Tens a certeza? .. .

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