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UM MAR DE ROSAS

RAQUEL RODRIGUES

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“Qualquer semelhança entre factos e personagens* não é uma mera

coincidência. Este romance é um retrato fiel de um dos acontecimentos mais infelizes que se passaram na minha família em princípios de 2000 e do qual todos os intervenientes saíram profundamente afectados. Mas tal como em qualquer outra família, os laços que unem uma mãe a uma filha dificilmente são destruídos. São antes eternos e capazes de ultrapassar os maiores obstáculos. Por isso, um conselho que ofereço a todos os que lerem este romance é que aproveitem cada página porque todas elas me trouxeram risos, lágrimas e um prazer inenarrável de escrita…”

* Apenas os nomes das personagens são fictícios.

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Seis horas e quarenta e cinco minutos. e Madalena descobriu esse carácter ao fim dos dezasseis anos em que esteve casada com ele. Infelizmente terminou e não deixou nada de bom a não ser os dois filhos do casal. marido? E os filhos? Também não deveria ter pensado neles? Na verdade. Será que tinha jogado todas as cartas que possuía na manga? Será que não deveria ter engolido o pouco do orgulho que lhe restava e tentar salvar as cinzas de um amor que parecia adormecido aos seus olhos e aos olhos do ex. também ele tinha um carácter duvidoso. na verdade. em frente ao espelho da casa de banho enquanto analisava os primeiros fios de cabelo branco. Traições. Mas infelizmente não deu. o despertador tocou ruidosamente. era no entanto estável e confortável. e para o cúmulo dos cúmulos. Mas como poderia oferecer essa família se o ex. cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros. faltas de respeito e negócios esquivos envolvendo uma assinatura sua. com o trabalho e com as amantes que arranjava aqui e ali? Diante de tudo isto. marido se mostrava muito mais preocupado com o próprio umbigo. 4 . uma mulher de quarenta anos. Jorge era um advogado de quarenta e dois anos que ganhava a vida a defender empresários corruptos e outras pessoas de carácter no mínimo duvidoso. até porque o seu único objectivo era oferecer-lhes uma família “normal”. ela passou anos e anos a pensar nos efeitos que a sua separação teria em Sara e Daniel. tomar um banho e acordar os filhos para a escola. Essa era a rotina de Madalena Soares. olhos escuros bem delineados. realmente não restou outra alternativa a Madalena a não ser pedir os papéis e tentar encontrar alguma paz de espírito. que apesar de há muito não ser feliz. Muitas vezes. Madalena dava-se consigo a pensar se realmente tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para manter um casamento. de quinze anos e Daniel de dez. quando estava prestes a adormecer. o que não deixava de ser um dos requisitos fundamentais para ser o melhor na sua profissão. ditaram o fim de um casamento que tinha tudo para dar certo. uma excelente forma física tamanho trinta e oito e que já havia superado um divórcio e todas as frustrações que rodearam a sua vida durante os anos em que esteve casada com Jorge Albuquerque. Bem. Sara. Infelizmente tinha chegado a hora de levantar.CAPÍTULO I As chuvas torrenciais e as fortes trovoadas não a deixaram dormir durante a noite.

Depois disso. Acho que sim.Eu como lá na escola. . 5 . .Estudaste?! . . tal como já vinha acontecendo há meses. mãe! Já disse que vou comer cereais. .Sabes. já que mais uma vez Sara se encontrava com os malditos auscultadores nos ouvidos. A pergunta não obteve qualquer resposta. . contou até dez e continuou a preparar o pequeno-almoço a toda a velocidade. nunca ousou levantar a voz aos pais e muito menos desrespeitá-los diante de quem quer que fosse. – Ouviste-me – insistiu a mãe sacudindo-lhe o braço. E enquanto ignorava o barulho ensurdecedor dos desenhos animados que passavam na televisão e do mp3 que Sara fez questão de ouvir aos altos berros.Eu também quero – interferiu Daniel. Sara viu-se obrigada a acatar as ordens da mãe.Perguntei se não era hoje que ias ter um teste. É da adolescência. . o elemento mais novo da família. – Não era hoje que ias ter um teste? – perguntou Madalena parando o carro diante de um sinal vermelho. – É mais rápido.Tosta mista. De resto. – Queres cereais ou uma tosta mista? – perguntou Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou. Mas a verdade é que Madalena não se lembrava de ter sido uma adolescente tão problemática e muito menos de ter dado tanto trabalho aos seus pais. Seria pedir muito que a sua filha também fizesse o mesmo consigo? O pequeno-almoço da família foi degustado em meia hora e depois disso seguiu-se a correria em direcção ao carro debaixo de um frio de cortar à faca. pensando melhor. ela percebeu que havia pelo menos seis meses que a filha fazia questão de a contrariar em tudo.Já disse que não! Senta-te e come como deve ser! Após um longo suspiro. cintos de segurança colocados e o trânsito infernal na segunda circular. Portas abertas.Sim – respondeu Sara baixando o volume do mp3. queres a tosta com duas fatias de fiambre ou só uma… . . tentava convencer-se disso..O quê?! . . .Nem penses que vais sair de casa sem comer – respondeu Madalena poisando o fervedor de leite sobre a mesa. acho que prefiro os cereais – respondeu a jovem alcançando os Kellogs sobre a mesa.Não sei.Mas eu já ia … . foram os ingredientes para começar bem o dia enquanto o rádio divulgava as primeiras notícias da manhã e os ponteiros indicavam que havia pelo menos vinte minutos que estavam presos numa fila de quase dez quilómetros.Já estás a comer os cereais por isso não tens espaço para a tosta – respondeu Madalena alcançando a embalagem do pão de forma. Com quinze anos tudo o que fazia de mais escabroso era faltar às aulas de vez em quando para passear pelas lojas da cidade com as suas amigas. – Sara. Ao ouvir a resposta da filha.Cereais. .Não tenho fome – foram as primeiras palavras de Sara quando entrou na cozinha e encontrou a mãe a preparar o pequeno-almoço. Madalena deu-se por vencida e voltou a guardar a embalagem do pão de forma num dos muitos armários da cozinha.

. . e a primeira paragem.Não sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos quando percebeu a vontade de Sara em mudar de assunto.Posso te fazer uma pergunta? O silêncio da filha fê-la avançar nos seus propósitos.Vou torcer por ti! .Eu deixei a minha Playstation lá – interferiu Daniel esgueirando o pescoço em direcção aos bancos da frente. – Ele ainda não ligou a avisar se vos vem buscar ou não. Diz! Fiz-te alguma coisa? . Devias esquecê-la mais vezes para ver se me consegues levantar as notas a Português e a Matemática.Oras. Realmente nada a que já não estivesse habituada durante os seis anos em que dirigia aquele negócio. . – Boa sorte – exclamou ela quando a filha abandonou o carro levando a mochila às costas.Não. foi o colégio de Sara. 6 . Água. – Preciso ir buscá-la. podes dizer-me e nós podemos conversar sobre isso para tentar… . As notícias no rádio transformaram-se na banda sonora perfeita para que Madalena levasse os filhos à escola.. Publicidade. . por ser a mais próxima. não me apetece falar. para quê?! Para o teste… .Estás sim! Já viste a maneira como tens andado a falar comigo ultimamente? Quase com quatro pedras na mão. Ninguém acha que estudou. Passava já das nove quando ela conseguiu chegar ao local pretendido. e ao abrir a porta. Sem outro remédio. Um acidente numa das pequenas ruelas da cidade obrigaram Madalena a optar por um outro caminho infinitamente mais longo em direcção à floricultura que dirigia ao lado da melhor amiga e que outrora havia pertencido à sua mãe. .Porque não me apetece – respondeu Sara fulminando-a com os olhos.És mesmo parvo – adiantou-se Sara empurrando-o contra os bancos de trás.Achas?! Ou se estuda ou não se estuda.declarou Daniel sob as risadas da mãe.Mãe. surgiu-lhe à frente a visão sempre assustadora da correspondência acumulada durante o fim-de-semana. .Para quê? .Já disse que não é preciso – respondeu Sara atravessando a rua sem sequer olhar para trás. ela abaixou-se e alinhou as cartas e jornais com um suspiro de cansaço por uma semana que só na altura tinha começado. . .Sabes que eu até acho que foi muito bom teres esquecido aquela maldita Playstation na casa do teu pai!? – respondeu Madalena. Seguro. senão fujo de casa… .Eu não estou irritadiça.Não precisas desejar-me sorte. .Porque não?! .Porque se fiz. . – Assim pelo menos passaste menos tempo em frente à televisão e estudaste mais.Vamos passar o fim-de-semana em casa do pai? . eu peço-lhe para me trazer a Playstation! Não passo mais uma semana sem ela. – Porque é que estás tão irritadiça nestes dias? .Se o pai não nos vier buscar este fim-de-semana. .

.O mesmo digo eu de ti – respondeu Madalena terminando de analisar a correspondência sobre a secretária. . aniversários.É daqui a quatro meses se não estou em erro. A floricultura de Madalena era também uma das mais visitadas da avenida. ainda é capaz de nos furar os tímpanos se não tivermos todos os arranjos feitos dentro do prazo. que na altura também se encontrava desempregada e à espera de dias melhores. o casamento terminou. . . especialmente os vindos do ex. mas o que poderia fazer se até à data não havia encontrado nenhum homem minimamente interessante para lhe oferecer flores? – Até que enfim chegaste – disse uma voz jovial entrando pela loja adentro.Hoje mesmo vou ligar ao fornecedor. Só estava ali no café a tomar o pequeno-almoço. Louca do jeito como a D.Pois eu atrasei-me a levar os miúdos à escola.Não! Porquê?! – perguntou Madalena largando as cartas sobre a secretária. marido de Madalena pois ele desejava ardentemente que a mulher continuasse a ser a perfeita dona de casa sempre atenta às suas necessidades e às dos filhos. até pela excelente relação que a sua mãe mantinha com as clientes mais antigas e que fez questão de cultivar ao longo dos quarenta e cinco anos de existência da loja. Temos já que começar a contactar com os fornecedores para termos tudo pronto a horas. .Porque ela ficou de cá vir para escolher uns arranjos para o casamento da filha. .A D.O espaço era amplo.Nem sabes como te invejo – riram-se as duas. faz isso! Temos uma reputação a manter… – riram-se as duas amigas. Alice Santos.Tinha-me esquecido completamente desse casamento. veio um certo sentimento de alívio e uma necessidade de auto afirmação que nunca pensou existir dentro de si. iluminado e ficava situado em plena Avenida de Roma.Ainda bem que não tenho filhos – exclamou Alice pendurando o casaco no bengaleiro. primavam pelo bom gosto e pelo requinte de quem não se importava de pagar muito para viver bem. Cortadas essas amarras. Beatriz já telefonou? . casamentos ou outras datas especiais que as pessoas faziam questão de celebrar com flores. da movimentação frenética das pessoas e dos prédios. . . de resto. era o que muitas vezes dizia à melhor amiga. eu já tinha chegado há muito tempo. Todos os dias surgiam encomendas. Mas por mais irónico que parecesse. uma das avenidas mais nobres da cidade lisboeta repleta de buzinas dos carros em hora de ponta. Obviamente que os apoios não foram muitos. . mas a floricultura deixada pela mãe. que apesar de serem antigos. esta ainda continuava a gerar lucros atrás de lucros. havia pelo menos dois anos que Madalena não recebia flores de ninguém. Manter ou não manter o negócio da família? Mediante o aconselhamento do pai.Para a tua informação. . Anos depois.Por favor. . Mas a verdade é que Madalena não foi na conversa e conseguiu levar a sua adiante livrando-se das amarras que a mantinham presa a uma casa quase sempre vazia. Mas um súbito ataque cardíaco e posteriormente a sua morte trouxeram à filha um dilema que poucos apostaram que ela fosse conseguir resolver. Beatriz é. Impressionante como um casamento nos pode fazer perder a nossa própria identidade. Não seria esse facto demasiado deprimente para a dona de uma floricultura? Ela achava que sim. 7 . Madalena decidiu aceitar o desafio e para isso contou com a preciosa ajuda da sua melhor amiga. uma das poucas pessoas que sempre acreditou nas suas capacidades.

A conversa prolongou-se por mais algumas horas. e tal como se era de esperar. – O vestido. a responsável pela organização de todo o evento.Hã. foram dissecados até à exaustão e fizeram as duas funcionárias da floricultura revirarem os olhos vezes sem conta. argumentos e alguns comentários mais ou menos hilariantes. quanto a isso não se precisam preocupar – respondeu Madalena apontando todos os pedidos num pequeno bloco de notas.O casamento de Joana Dias estava marcado para dali a quatro meses. Ao ouvirem as suas ideias. A boda.Trigo?! Porquê? . Não sabiam? .Sim! A cerimónia vai ser de manhã. . o único detalhe a acertar era o arranjo das flores e a decoração da igreja. – Além disso. sendo que naquela segunda-feira não foi excepção. não se esqueçam de nos arranjar suportes para os arranjos… . – Tudo vai ser feito como o combinado. por isso é bom que sejam flores do campo em tons neutros. a entrada de um outro cliente na loja apressou a saída de Beatriz e Joana e trouxe de volta a paz de espírito que Alice e Madalena perderam durante aquela interminável conversa.É claro que não se vai decepcionar. D. – Tudo tem que estar perfeito… – dizia Beatriz. não foi o que disseram?! . estávamos também a pensar em utilizar arruda ou trigo no meio dos arranjos. Sim. …claro – respondeu a última apertando a caneta que tinha nas mãos.Pois ficam a saber! E ficam também a saber que vão ter que arranjar algumas espigas para colocar nos arranjos da igreja e também no local onde se vai realizar a boda. Outra coisa. Mas agora que ela já não está aqui entre nós. o local da boda reservado numa Quinta em plena vila de Sintra. – Voltamos a falar daqui a duas semanas para saber como é que está a correr a história das flores – disse Beatriz levantando-se de uma cadeira onde esteve sentada durante três horas. – Os nossos fornecedores fabricam esses suportes sem custos adicionais. espero não me vir a decepcionar… . Flores do campo. Lena? .Não. Tudo iria ser feito para a agradar. algo que Beatriz fez questão de discutir com a floricultura contratada para o efeito. claros e suaves – informou a noiva. a luade-mel e outros assuntos tão interessantes como o modelo da lingerie que a noiva estava disposta a vestir na sua noite de núpcias. Mas por sorte. O vestido foi adquirido numa viagem que fizeram a Paris. muitas vezes Madalena e Alice foram obrigadas a concordar com tudo o que ela dizia: E sim. 8 . – Todas as mulheres da nossa família sempre escolheram arranjos de trigo porque simbolizam sorte e prosperidade. e a igreja escolhida para que os cerca de duzentos e cinquenta convidados por Beatriz. Beatriz – adiantou-se Alice beliscando o braço de Madalena a fim de tentar trazê-la de volta à realidade. Quero que saibam que só aceitei trabalhar com esta floricultura porque conhecia a mãe da Madalena há muitos anos e foi ela quem me arranjou as flores para o meu terceiro casamento. .Por acaso não.É uma superstição – respondeu Beatriz à pergunta de Alice. a boda e também as flores que vamos utilizar na decoração da igreja. uma legítima tia falida do jet-set. e pelo amor de Deus. Sim. foi a mãe. que Deus a tenha. – Não é. Beatriz Dias. De facto. ou pelo menos as suficientes até que Madalena e Alice deixassem as divagações das duas clientes falar mais alto.

– Tenho alguém lá dentro. . mulher foi peremptório e não deixou outra escolha a Jorge a não ser baixar os braços e aguardar a chegada dos filhos à sala. . até porque a vontade de estar com Jorge era nula. – Não fiquem acordados até tarde. . façam os trabalhos de casa e comam todas as refeições. Já vai. – Meninos! O pai já chegou.Sim – respondeu Jorge. . ou melhor.Claro – murmurou Madalena não querendo relembrar à sua cliente que ela já estava na falência há muitos anos e que o único motivo para aquele casamento tão apressado era o facto de não se querer afundar ainda mais. São mais de duzentos e com certeza vai sair um balúrdio. Por sorte. . – Então!? Já estão prontos? . O olhar da ex. . marido a estacionar em frente ao jardim. – Deixaste as luzes acesas? – perguntou ela. – Chegaste cedo – abriu ela a porta.Claro.. marido. encabulado.Já – respondeu Sara levando a mochila às costas. . – Podemos ir? . não é mãe? . ao fechar uma das janelas da sala. Deveria ficar contente por vê-lo? Obviamente que não. Ainda agora vamos falar com a empresa que está a organizar a decoração da igreja e depois vamos também tratar da impressão dos convites. e depois disso seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à porta. nem um minuto a menos. – Já estava a ver que nunca mais – disse ele recebendo um beijo de cada um. .Claro.Bem. – Nem um minuto a mais. os pais do meu genro é que estão a pagar todas as despesas. Na sexta-feira seguinte. 9 .Que seja! Simplesmente não quero.Não me irrites – resmungou Madalena lançando os olhos ao carro do ex. – Que tipo de amiga? .Uma amiga. ainda temos muito tempo até ao dia do casamento – respondeu Madalena levando mãe e filha em direcção à porta.…uma amiga. Não se demorem – gritou Madalena aos filhos quando ouviu a campainha tocar. Apesar da chuva miudinha foi visível que o motor ainda estava trabalhar.Escuta Jorge! Eu não quero que ponhas os meus filhos a conviver com as tuas amigas.De qualquer maneira. .Entra lá! .Alguém!? .Os nossos filhos queres tu dizer. que educação… . Madalena observou o carro do ex. assim como o desejo de lhe ouvir a voz ou até mesmo o barulho das chaves que ele fazia questão de manter nas mãos enquanto ordenava a Sara e ao Daniel para que se despachassem e não o fizessem esperar em demasia numa sala que durante quinze anos também foi sua. obriguem o vosso pai a fazervos todas as refeições.Não é assim tanto tempo – exclamou Joana retirando os óculos escuros da mala.Oito e um quarto – respondeu Jorge lançando os olhos ao seu relógio de pulso.Portem-se bem – adiantou-se Madalena sugando as bochechas de Daniel enquanto ele vestia o casaco a uma velocidade fantasmagórica. – Ainda temos muitos outros detalhes a acertar. foi a resposta ouvida.Uma amiga!? – indagou Madalena levando a mão ao peito. . senão imagina o que era?! Íamos logo à falência. .

era um tempo que não voltaria a recuperar ainda que quisesse. Maio e Junho foram os meses que passaram a passo de caracol. mulheres. mas infelizmente os seus intentos não surtiram qualquer efeito no momento em que o carro arrancou e a rua tornou a ficar deserta. . Sim.Confesso que estava curiosa para a conhecer. Março. Madalena lançou os olhos as paredes e sentiu-se pela milésima vez sozinha.Vamos. Diante daquela possibilidade no mínimo assustadora.Oras… . Vanessa Figueiredo era o apogeu que todos os homens acima dos quarenta sonhavam apresentar às ex. Madalena aproximou-se da janela e observou a caminhada do ex.Porquê?! . Lena! . Nessa altura. . Quem seria ela? Uma namorada? Um caso de uma noite? Ou simplesmente uma amiga como ele fez questão de lhe frisar? Ao sentar-se no grandioso sofá com uma almofada sobre o colo. – O pai traz-nos no domingo à noite. Quando a porta da rua se fechou com um pequeno ruído. pois acabaria sozinha e sentada naquele sofá até ficar velha e caquéctica. . – Só falo de vez em quando. e foi também o tempo necessário para que o calor regressasse em força em todos os pontos do país. amor! Estás sempre a falar dela… – adiantou-se Vanessa voltandose novamente para a Madalena. A sua melhor amiga tinha razão quando lhe disse que era mil vezes mais fácil para os homens refazerem a sua vida após um divórcio do que para uma mulher depois dos quarenta. Abril. muito prazer – sorriu ela estendendo a mão a Madalena. não é?! . de facto. – Tchau. Jorge resolveu levar os filhos para duas semanas de férias ao Algarve. .Mesmo assim! Amanhã eu ligo. mãe. . – Olá. Madalena viu-se obrigada a baixar as guardas e a concordar que Sara e Daniel seguissem viagem com o pai e também com a nova namorada que ele lhe fez questão de esfregar à cara quando foi buscar os filhos. . marido e dos filhos em direcção ao carro. – Madalena o seu nome.riu-se Vanessa.Muito prazer – respondeu Madalena aceitando o cumprimento de uma forma muito menos efusiva.Não sejas mentiroso. Jorge. Cada dia que passava.Nem tanto assim – defendeu-se o advogado tentando esquivar-se aos olhares aterradores que a ex. meninos – exclamou Jorge lançando um último olhar à ex.. loira e com as curvas perfeitas de uma top model. cada semana ou cada mês. Alta como uma torre. duas lágrimas caíram-lhe dos olhos e ela não teve outro remédio a não ser detê-las com as mãos. mulher lhe lançou. .Não precisas ligar – disse Sara abrindo a porta. – Porque o Jorge está sempre a falar de si e dos vossos filhos. São só dois dias. 10 . Cansada era como Madalena se sentia cada vez que olhava para si e para o que a sua vida se tinha transformado desde que assinou os papéis do divórcio.Está bem.Sim! Madalena. e apesar da relutância. .Ligo amanhã para falar com vocês. Ainda tentou forçar um pouco mais a vista e tentar vislumbrar os traços físicos da mulher que estava sentada no banco da frente. . mulher.Tchau. e era também um sinal de que não valia a pena lutar contra o inevitável.

.Acho que não! Eu vou lá acima despachá-los.Obrigada. mas era sem sombra de dúvida a primeira vez que não se sentia minimamente enciumada com a cena. quando ambas jantaram juntas naquela noite. . claro! Esqueci-me.Hã… não me parece – respondeu Madalena tentando desenvencilhar-se daquele convite no mínimo inoportuno. marido no carro.Coitado do Jorge! Será que ele está assim tão desesperado? .Para o Algarve. Deus! Como se rebaixou por tão pouco? Como é que sequer desejou um corpo igual àquele quando Deus a havia favorecido com algo que Vanessa nunca iria ter por mais cirurgias plásticas que fizesse: Inteligência e bom senso.Conheço várias mulheres que depois que tiveram filhos. . . a melhor amiga de Madalena. . Crianças!? Enfim. .Provavelmente – respondeu Madalena bebendo um gole de vinho. – Por isso é que eu nunca quis ter filhos e nem estou a pensar em ter. deve estar arrasada. .Porque ela tem um negócio para gerir. – Eu disse-te que ela era dona de uma floricultura.Levar para onde? . .. já viste o que era passarmos um ano inteirinho sem férias?! Acho que morria… .A sério?! . bem… transformaram-se em autênticos monstros de tão gordas e flácidas que ficaram… – riu-se Vanessa sob o olhar incrédulo de Jorge.Porquê?! .A sério. lembraste!? .Faz isso porque não quero chegar muito tarde ao Algarve. a tal loira mais alta que uma torre e com as medidas perfeitas de uma top model não passava de um corpo desprovido de cérebro ou qualquer outro sinónimo que pudesse fazer jus à sua beleza física. 11 . Vanessa – adiantou-se Jorge temendo que a namorada pronunciasse mais alguma loucura. mulher lhe lançou.Sabe que eu até estive a dizer ao Jorge para a levar connosco.Hã.!Iria ser divertido passarmos as férias todos juntos.Define-me burra – riram-se as duas. não?! Amor. realmente não são o meu forte! Dou-me bem melhor com adolescentes. da namorada e do ex. – Estás a gozar?! Ela é assim tão burra? – perguntou Alice. Vanessa.Pois eu acho que vou conseguir sobreviver. não é!? Pois então! Ele só está a ter aquilo que merece. . Está perfeita…! . . Sinceramente não sei como é que consegue manter essa forma depois de ter dado à luz dois filhos.Porque… . Era a quinta vez que Madalena observava a entrada dos filhos.Madalena quero que saiba que a admiro imenso! Sou a sua fã número um… . . .Os miúdos ainda vão demorar muito? – perguntou Jorge ignorando o sorriso irónico que a ex. Rapazes de preferência! .Não acredito! Bem.Acredito que sim – murmurou Madalena levando a mão ao peito.Infelizmente este ano não vou poder ter férias – concluiu Madalena cruzando os braços. – Mas lá diz o ditado que cada um tem aquilo que merece.

Sabes bem o que eu quis dizer. – Estou sozinha – disse ela por fim. De facto. animada. – Ele está lá no Algarve. . .Foi confiscado.É assim tão evidente – respondeu Madalena arrancando uma leve gargalhada à melhor amiga.Podias pelo menos ter ficado com algum – riu-se Alice. se queres realmente que te diga. .Nem me digas nada! Só de me lembrar do dia em que a polícia me bateu aqui à porta. tens toda a razão em ficar tão contente com a desgraça do teu ex. marido! Especialmente depois de tudo o que ele te fez… . . nada tinha mudado.Eu bem te avisei.Tens razão – concordou Madalena limpando as lágrimas quando percebeu que também ela fazia parte daquele vastíssimo leque.Voltar a fazer sexo outra vez – concluiu Alice bebendo um gole de vinho.E tu estás a adorar.E a lata dele em forjar a minha assinatura no banco e ainda fazer uma carinha de inocente à frente dos polícias como se não fizesse a mínima ideia de onde aquele dinheiro tinha saído. . eu acho que não.Olha. abraçar-me e fazer-me sentir segura. . Não. aliás.Eu também e olha que nem foi comigo – disse Alice devorando o soufflé de camarão cozinhado por Madalena.E eu?! Sou um fantasma? .Às vezes fico a pensar se ele não fez de propósito. com os filhos e com esta casa a cair aos bocados enquanto ele se pavoneia no Algarve com a Vanessa loira burra. Alguém! Um homem de preferência. . – E eu estou aqui jogada às traças para mais de dois anos e sem a mínima hipótese ou a mais remota possibilidade de… . . até pode estar com a mulher mais burra do mundo. . Aliás. abraçá-las e fazê-las sentirem-se seguras.O que é que aconteceu ao dinheiro? . nem com isso fiquei! Só fiquei com os cornos. isso foi o cúmulo dos cúmulos… . Alguém que me possa ouvir. Eu acho que ele só fez aquilo para se conseguir safar e também porque é um otário de primeira. . mas pelo menos está lá a divertir-se e a viver uma vida que eu também queria viver – discursou Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. Alice também foi obrigada a concordar com um silêncio. Infelizmente Madalena foi obrigada a concordar com as palavras da sua amiga e também com a certeza de que tudo continuava exactamente igual naquela cozinha. não é?! Nem todas as mulheres nasceram para ter um homem que as possa ouvir.. eu é que sou burra! Burra por ter aguentado tanta nojeira e ainda acabar com uma mão à frente e outra atrás. 12 . claro! Era dinheiro sujo dos negócios que ele fazia com os clientes dele.Não é só sexo. . . até fico toda arrepiada.Mas tens razão. .Sei lá! Sinto falta de… ter alguém com quem conversar.Eu também sinto falta – respondeu Alice deixando escapar os seus pensamentos mais secretos. – Mas o que é que havemos de fazer. .Então é o quê!? .O quê?! Ter depositado aquele dinheiro na tua conta só para ires presa? Não.

mas o problema é que era demasiado filosófico e atirava cada frase que eu até ficava com os cabelos em pé. Por isso é que desisti desses encontros virtuais.Que tipo de frases? .Porque é que nunca me contaste? . Estaria o amor intimamente ligado ao casamento? Bem. mas depois quando conhecemos as pessoas. encantar as pessoas com os meus dons e encontrar uma fórmula secreta para ser imortal… . – No primeiro o gajo era um idiota de todo o tamanho e até chegou a fingir que tinha esquecido a carteira em casa apenas para não pagar o jantar. . Com certeza irias pensar que eu era uma pobre coitada… . A única coisa que fazem é levantar as nossas expectativas.No segundo. mas acho que prefiro continuar solteira a andar com um sábio africano – riram-se as duas amigas completamente indiferentes ao adiantado das horas. . – Gostaria de ser um sábio africano apenas para desvendar os segredos mais misteriosos da humanidade.Que horror – riram-se as duas. para aquela tia do jet-set nada poderia dar errado pois não era somente o nome da sua filha que estava em jogo.Sabes.Meu Deus! Ainda existem gajos desses no planeta terra? .Agora imagina-me ouvir frases dessas durante todo o jantar numa sexta-feira treze? Saí do restaurante mortinha de medo e nunca mais lhe atendi a nenhuma chamada.Naquela altura ainda estavas casada com o Jorge e eu senti-me ridícula só de pensar na ideia de tocar nesse assunto contigo.Tive dois – confessou Alice bebendo um gole de vinho. Na verdade.Assim tipo… .Sim – respondeu Alice forçando uma gargalhada que não foi de todo correspondida pela melhor amiga. mas caso contrário. se estivesse era óptimo. desilusão é a palavra de ordem. . confesso que até tive algumas esperanças! À primeira vista o gajo parecia ser simpático. .riu-se Alice enquanto se tentava recordar de alguma. . .Podes crer que existem e eu já saí com muitos. que fez questão de escolher pessoalmente as flores e os suportes de decoração que iriam estar presentes na igreja e também no local da boda. inteligente e até era bonito. não fazia qualquer diferença.O quê?! – indagou Madalena soltando uma ruidosa gargalhada. . houve uns tempos em que eu estava tão desesperada que até cheguei a arranjar encontros na Internet.Não me leves a mal. mas sim o de toda a sua família que via nos laços do matrimónio a oportunidade ideal para se livrar das privações monetárias e outros apertos resultantes da sua falência desde há gerações. .Obrigadinha pela parte que me toca! .. . Os arranjos florais para o casamento de Joana Dias e Rafael Saraiva primaram pelo requinte e tudo graças ao bom gosto de Beatriz.Só espero nunca chegar a esse ponto. 13 . a mãe da noiva.E deu certo algum desses encontros? – perguntou Madalena não escondendo a sua curiosidade.A sério?! . .

Todo ele exalava beleza. eu vou lá dentro ver se encontro alguém para nos ajudar a tirar essas flores cá para fora. olhos tão verdes como duas esmeraldas. Uma mãe que não sabia quando dar espaço e privacidade aos filhos. Diante daquela paisagem tão interessante. Madalena cruzou os braços e encostou-se à carrinha pensando em tudo menos nas flores que deveria retirar do porta-bagagem. – Sempre o achei um pouco sombrio e cinzento. embalada pelos jardins de Belém e pela torre imponente.Sim! É óptimo.k! . Nessa altura. . cabelos escuros perfeitamente aparados. foram as palavras que Madalena utilizou para caracterizar a excessiva demora de Alice quando ao olhar para o relógio de pulso viu que nele estavam assinaladas dezoito horas e trinta e dois minutos. Pensou nos filhos. Mas ao vê-lo diante de si. não achas?! Provavelmente deve ter morrido lá dentro. até mesmo para ela. . – Era aqui onde eu gostaria de me ter casado – disse Alice abrindo as portas da carrinha. Madalena não conseguiu acreditar que ele era real.Estás a gozar? . elegância e uma masculinidade difícil de explicar. .Já não é mau. 14 .Sabes que este mosteiro nunca me disse nada?! . .Olá – disse o desconhecido forçando um sorriso a Madalena. os noivos souberam escolher o local perfeito para uma ocasião também ela perfeita. a vinte e quatro horas do tão aguardado casamento.Um pouco difícil. visto o Mosteiro considerado como um dos edifícios mais emblemáticos da cidade lisboeta.O. Por isso é que o meu casamento não demorou muito – respondeu Alice levando as mãos à testa encharcada de suor. De facto. Características físicas? Altíssimo.E eu que me tive que contentar com uma capelinha em Alvalade… . isto para não falar da facilidade quase sobre humana que tinha em incluir os seus nomes em todas as conversas. Os olhos de Madalena não conseguiram esconder o fascínio quando viram à frente um dos seres mais belos do planeta terra. Como era belo. Era uma mãe galinha. os últimos raios de sol começaram a desaparecer no horizonte e a brisa trazida pelo rio retirou as réstias do calor sentido durante o dia. – Bem. Madalena e Alice abandonaram o veículo da floricultura e regalaram-se com a magnífica vista do Mosteiro dos Jerónimos. .A sério – respondeu Madalena poisando no chão o primeiro arranjo floral que retirou do interior do veículo. meu Deus! E de onde tinha saído aquela perfeição? – Encontrei este senhor simpático lá dentro e ele foi o primeiro a oferecer-se para nos ajudar – informou Alice trazendo a sua amiga de volta à realidade. um nariz esculpido à lupa e dois lábios bem delineados. que lhes vasculhava todas as gavetas numa tentativa desesperada de encontrar algo escabroso e que passava praticamente todas as horas do dia a pensar neles. sorriu. traços faciais definidos.No dia seguinte. – Trouxe ajuda – ouviu-se finalmente a voz de Alice. . em como eles se deveriam estar a divertir no Algarve e nas saudades que sentia deles apesar de apenas se terem passado vinte e quatro horas desde a última vez que os vira.Não saias daí. um imponente monumento que impunha admiração até aos olhos dos mais leigos.

. encontrava-se um homem que não aparentava ter mais do 15 . .Nem sabe o quanto – respondeu Alice mostrando-lhe os inúmeros arranjos florais no interior da carrinha. Muito pelo contrário.Obrigada! Mais um olhar e mais uma vontade descomunal de Madalena em atirar-se para os braços daquele desconhecido que em poucos segundos conseguiu algo que nenhum outro homem havia conseguido em dois anos. Até parecia que o estava a fazer por prazer.São bonitas. um sorriso irrompia-lhe o rosto pronto a fazê-la corar de vergonha. . Mas não me peçam para ajudar na decoração porque não percebo nada disso – respondeu ele arrancando um sorriso tímido a Madalena.Já vi que precisam mesmo de ajuda. . – Acha que nos pode ajudar a levar tudo isto à capela? . a noiva e a mãe do noivo trocavam as últimas palavras com o padre que iria presidir à cerimónia. . Contudo. Não parecia ter mais do que trinta e cinco anos e muitas experiências para contar visto o seu olhar transparecer uma inocência digna de um adolescente de dezasseis.Aonde é que podemos colocar as flores? – perguntou Madalena sustendo um enorme suporte nas mãos. e a cada esbarro com Madalena perto do altar. – Que bom que chegaram… – disse Beatriz caminhando em direcção a Madalena e Alice assim que as duas entraram na capela.…olá. nos seus ombros largos e nas pernas ligeiramente arqueadas que lhe conferiam um ar demasiado sexy para ser apenas um simples mortal. .Só viemos trazer as flores – concluiu Madalena recuando dois passos quando ele se agachou e levantou do chão o primeiro arranjo. prender a sua atenção e deixar-lhe as pernas completamente bambas. . completamente descontrolado. No fundo do corredor.Não se preocupe porque nós também não percebemos nada de decoração – interferiu Alice. enquanto na sacristia. – Só sou um dos fotógrafos contratado para a cerimónia. – Trouxemos os arranjos tal como o combinado – respondeu Alice forçando um sorriso a Beatriz. As ordens de Beatriz foram imediatamente obedecidas não só por Madalena. . uma voz imperiosa invadiu a igreja deixando todos os presentes estupefactos com a irritação que ela trazia. .Claro que sim. por Alice. Realmente não deveria estar a observá-lo com tanta atenção porque a qualquer momento ele poderia voltar-se para trás e surpreendê-la com os olhos postos em si. Raios.. mas também pelo fotógrafo que teve a amabilidade de as ajudar a tirar da carrinha todos os arranjos florais sem sequer pestanejar ou oferecer algum comentário menos agradável. Ou seja. na última vez que Madalena sorriu.Ainda bem! Já estávamos todos impacientes à espera deles. Enquanto ele caminhava em direcção à capela com dois grandes arranjos florais nas mãos. um pouco mais atrás. foi impossível para Madalena não reparar nas suas costas bem formadas.Podem colocá-las junto ao altar que depois os responsáveis da decoração tratam do resto. À sua volta encontravam-se cerca de duas dezenas de pessoas em movimentos frenéticos tentando desesperadamente terminar os últimos detalhes da decoração da igreja.

– O que é que se passa. ele aguardou a saída da sua noiva da sacristia repetindo para si mesmo: Nem por decreto de lei a vou perdoar. – Pensei que tinhas dito que ias ficar preso numa reunião. – Está bem! Eu vou chamá-la – concordou Beatriz ignorando os olhares de todos os funcionários presentes na capela. meu filho? Estás todo desgrenhado.Chame a sua filha agora antes que eu perca a paciência… Beatriz nunca vira aquela expressão nos olhos do genro e muito menos pensou que em algum dia ele iria ousar levantar a voz contra si. pois que o seu único objectivo era casar a Joana com um homem rico. equilibrado e totalmente imune à palavra escândalo.Mãe. filho? – perguntou a mãe de Rafael pressentindo-lhe a cólera no olhar. sua ordinária…! .Chame a sua filha agora – interrompeu o noivo não se deixando levar pelos argumentos da futura sogra. – Nunca mais te atrevas a chamar-me de amor. tudo o que Joana lhe ofereceu foram mentiras e traições. – Houve algum problema lá na empresa? E o teu pai? Não falaste com ele antes de saíres do… . Aqui não é o lugar ideal e tu estás muito nervoso… . com um olhar perdido e uma das pernas a tremer. foi o que todos se perguntaram quando o viram a caminhar em direcção ao altar com uma expressão verdadeiramente aterradora.Não sabia. . Sempre com as mãos nos bolsos. As duas estão a falar com o padre. . Beatriz!? Eu quero falar com ela agora – gritou ele assustando todos os presentes. – O que é que aconteceu contigo. cabelos loiros e uns olhos azuís inchados de tanto chorar. . Silêncio foi a palavra de ordem.Para quê?! .Tem calma! A Joana está na sacristia com a tua mãe. D. E na verdade. o quê? – indagou Beatriz esbugalhando os olhos. até mesmo porque Rafael sempre fora um rapaz sensato.Eu já descobri tudo.O que é que aconteceu. Beatriz?! Não sabia que a sua filha andava a ter um caso com o melhor amigo? Ou será que sabia? Claro.que vinte e oito anos. – Mas talvez seja melhor conversarem na sacristia ou noutro local. Os momentos que se seguiram foram tensos e tudo porque Rafael não arredou pé do local onde estava. .Aonde é que está a sua filha.Precisamos falar.Não me chames de amor – gritou ele assustando-a com a sua voz imperiosa.Então vá chamá-la! . Teria acontecido alguma coisa? Sim. já que durante cinco anos de relacionamento.Rafael!? – indagou Beatriz tentando acalmar o ímpeto do seu futuro genro. bem tinha todas as razões do mundo para não o fazer. . enquanto Joana tentava ignorar os olhares curiosos de todas as pessoas presentes na capela. Quem era. Claro que tinha. Com certeza devia saber. amor!? .Rafael!? . – Aonde é que ela está? – perguntou ele fora de si. Com o primeiro otário que lhe aparecesse à frente e que tivesse uma conta bancária choruda. – Amor! Tu por aqui – exclamou ela chegando ao altar acompanhada pela sogra e pela mãe. todo transpirado… .Tudo. . Nunca a vou perdoar. eu não vim aqui para falar do pai! Eu vim falar com a Joana. Não era esse o vosso plano? 16 . .

Rafael. – Rafael. já sei de tudo e nem adianta sequer inventares mais uma das tuas milagrosas desculpas porque o Eduardo confessou tudo quando eu o encostei à parede hoje à tarde. . .…acho que sim – respondeu Alice passando as mãos pela testa e deparando-se com uma mancha de sangue nos dedos.Não me toques! . Joana abaixou-se a tempo e livrou-se de um dos maiores azares da sua vida. . – Estás bem? – perguntou Madalena observando o ferimento na testa da melhor amiga. – Porra – exclamou.A culpa foi dele.A culpa foi tua – gritou Rafael calando-lhe os argumentos.Rafael… .dizia ela. . assim como os primeiros murmurinhos e a voz imperiosa do padre que comandou imediatamente a retirada de Rafael de um recinto que para ele ainda continuava a ser sagrado. . mas por sorte. – Só que o otário aqui abriu os olhos a tempo – concluiu Rafael não se deixando amolecer pelos olhos chorosos da sua noiva. Joana!? Será que ainda não percebeste que a tua máscara caiu diante desta gente toda? Eu já descobri a verdade. Perplexidade foi o sentimento geral.Será que ainda não percebeste. – Pára com isso! . – E podem crer que não me vão arrancar nem mais um tostão. a vítima foi imediatamente socorrida. – É lixo! Tudo isto é lixo e não vai servir para mais nada.Rafael… . tu só podes estar a brincar – respondeu Joana limpando as lágrimas e tentando retirar sobre si a vergonha de estar a ser publicamente humilhada pelo noivo.Acabou! Acabou tudo! Já não vai haver porcaria de casamento nenhum… Fitas. Um azar que consequentemente acertou em cheio na testa de Alice e a fez cair junto ao altar ainda sem saber o que realmente tinha acontecido. Ele que sempre fez tudo para a fazer sorrir. . Como não o conseguiu da primeira vez.Estás a ver tudo isto – vociferou ele arrancando as fitas decorativas presas nos bancos da capela.Sinto nojo de ti – gritou ele com os olhos marejados de lágrimas. tentou uma segunda. – Não podes estar a falar a sério! Não podes estar-me a fazer isso a vinte e quatro horas do nosso casamento… . Como se enganou com Joana? Como se arrependia do dia em que a tinha conhecido e como queria nunca a ter pedido em casamento.Não me toques – vociferou ele atirando-lhe o suporte de uma vela com o único intuito de a matar. ele só estava a fazer todo aquele escândalo para tentar extravasar a vergonha sentida quando descobriu que durante cinco anos havia sido traído pela noiva e pelo melhor amigo. velas e flores. – O gajo partiu-me a cabeça toda! 17 .Pára – exclamou Joana tentando controlar-lhe os braços furiosos. Mas na verdade. para a tornar na mulher mais feliz do mundo e aquela era a paga que recebia depois de lhe ter entregado o seu coração e a sua conta bancária de mão beijada. desesperada. – Pára com isso! . por favor… . tudo foi totalmente destruído por Rafael e pela fúria que se apossou de si no interior daquela igreja.Enquanto ouviam o discurso confuso daquele pobre rapaz. Depois disso. .Estás nervoso! Não sabes o que dizes. – A culpa foi toda tua! Foste tu que estragaste tudo e agora não adianta fazeres esse ar de arrependida porque eu já não acredito em mais nenhuma palavra que venha de ti. . Madalena e Alice não deixaram de trocar um olhar constrangedor.

Era só o que faltava depois de ter sido agredida. . – Quer dizer.Desculpe! Desculpe. mas é que… . mas acho que vai precisar de alguns pontos.Bem… .Eu posso ir com vocês – disse ele. Madalena percebeu. .Alice. Madalena tentou encontrar alguém que a pudesse ajudar a socorrer a melhor amiga.Sérgio – adiantou-se o fotógrafo lançando-lhe um olhar intenso.Disse alguma piada? 18 . – E acho que tão cedo não a vou esquecer. A vela acertou mesmo em cheio. – O que foi? – perguntou ele. O pior era a dor descomunal que estava a sentir na sua testa quando passou as mãos por ela e recebeu um lenço de Madalena para estancar o sangue que ainda lhe continuava a jorrar da cabeça e que se tornava cada vez mais intenso à medida que Sérgio conduzia a carrinha da floricultura em direcção ao hospital mais próximo. . por isso… . – Não sou um especialista. – Não a queria magoar.Sim! Vamos fazer o que o Sérgio disse. . acho que estão demasiado nervosas para conduzir.Levaram-na agora lá para dentro – respondeu ela esgueirando o pescoço em direcção à enfermaria. Apesar dos vários pedidos de desculpa que recebeu dos noivos enquanto caminhava pelo corredor da igreja. Foram precisos cerca de vinte minutos para que as portas automáticas das urgências se abrissem. Por sorte. – Lá porque levou cornos da sua noiva.Muito menos a sua amiga que acabou por ficar com um galo na testa. Mas o pior nem era isso. Alice manteve-se resoluta em não aceitar nenhum. humilhada e metida numa confusão que nem era sua. mas ainda assim foi impossível para ela conter um riso abafado.Você é louco.Tudo bem – concordou Madalena levando a melhor amiga nos braços. – Acho que foi levar pontos. aceitar impávida e serena ao pedido de desculpas de duas crianças infantis e imaturas que não sabiam resolver os seus próprios problemas sem envolver pessoas estranhas e alheias ao caso.É melhor irmos para o hospital – interferiu o fotógrafo analisando-lhe o corte profundo na testa. – Vamos embora! Vamos fazer o que… . é o que é – respondeu Alice levantando-se do altar com a ajuda da melhor amiga. peço desculpas… . .. Vamos ao hospital tratar desse corte antes que se torne nalgo mais grave. e quando isso aconteceu. isso não significa que também eu tenha que ficar com um alto na testa. A resposta de Sérgio não pretendia ser irónica.Peço desculpas – disse Rafael mostrando-se envergonhado pelo seu acto. . . . encontrou uma enfermeira. mas também lhe foi informado que teria que preencher uma ficha de entrada antes que se pudesse efectuar qualquer tipo de tratamento a Alice. . – Confesso que nunca me tinha visto numa cena daquelas.Nem eu – respondeu Madalena lançando os olhos às paredes da sala de espera. tem calma – pediu Madalena tentando acalmar-lhe a cólera. – Ela já foi atendida? – perguntou Sérgio aproximando-se de Madalena quando finalmente conseguiu estacionar a carrinha no parque de estacionamento do hospital.riu-se ele timidamente.

Deve ser uma profissão interessante – murmurou Madalena tentando fugir àqueles olhos verdes tão lancinantes.Eu trabalho por conta própria. E sim. Um novo silêncio irrompeu a sala.O.Eu acho que é… – respondeu ele arrancando-lhe um sorriso. afinal de contas.Ai é?! . mas desta vez foi completamente impossível para Sérgio resistir aos risos abafados de Madalena. – Quer dizer. .Como assim?! . Sérgio sorriu e abanou a cabeça. .A sua profissão é que deve ser interessante.Não sei. .Não. aliás.Sou dona de uma floricultura – respondeu Madalena sentindo-se completamente perdida quando ele sorriu novamente para si.Sim.k…! . A única coisa que fez foi aumentar ainda mais o fascínio que Sérgio sentiu por ela logo no primeiro minuto em que a viu. sinta-se à vontade… – concluiu Madalena ao perceber que muito provavelmente já havia abusado da boa vontade daquele fotógrafo desconhecido. . Mas a verdade é que nada surtiu efeito. baixar o rosto e até virá-lo. por favor. embora a loja tivesse pertencido à minha mãe antes de ela morrer. Ela entrou há pouco.Concordo. o que é que faz? . estava a trabalhar quando… . . eu e a minha amiga somos sócias. . Não tem nada de interessante.E você? Para além de aparecer em casamentos recheada de flores. – Está a ser má para a sua amiga. . – Eu sei que eu e a minha amiga já tomámos muito do seu tempo e que com certeza você deve ter alguma coisa para fazer. Levar a mão à boca. . claro que não – respondeu Madalena tentando controlar os risos cada vez mais intensos.É fotógrafo profissional!? . – Ainda não sei o seu nome – disse ele. . esses foram alguns dos estratagemas utilizados por ela para se conseguir controlar.Acha que a sua amiga ainda se vai demorar muito? . sabia?! .Tenho um estúdio de fotografia – respondeu Sérgio colocando o casaco sobre o colo.Tem a certeza? – perguntou Sérgio fulminando-a com aqueles malditos olhos verdes.Vender flores.Eu sei! Peço desculpas. 19 .Mas se precisar ir embora. . E a cena também! Ao olhá-la mais uma vez. – Ou pelo menos hoje tornou-se. especialmente porque se trata da minha melhor amiga. . . – Mas é que…. .Digamos que a minha vida é recheada de flores.O quê? . – É igual às outras. mas o que você disse teve piada.Hã… nem tanto – riu-se Madalena. . eu sei que não deveria estar a rir da desgraça alheia..Madalena Soares – respondeu ela compondo os cabelos quando o seu olhar se cruzou novamente com o dele no meio daquela sala tão grandiosa. encabulada.

saíram Alice. Alice desejou encontrar a sua cama quando regressasse a casa e desejou também esquecer todos os azares que lhe haviam acontecido durante o dia.Não – respondeu Madalena ajudando Alice a entrar no carro. . e quando ela finalmente se viu livre daquela tarefa tão desagradável. Nessa altura.Sim. Meia hora foi o tempo que as enfermeiras precisaram para suturar os ferimentos na testa de Alice. . . . . – Digamos que essa foi a sua única gafe para connosco. 20 .Não faz mal – riram-se baixinho. obrigada mais uma vez! Ficamos-lhe a dever uma… . – Já está tudo? . o verde-esmeralda deu lugar a um verde acinzentado e isso só deixou os olhos dele mais lindos do que naturalmente eram.Obrigada por tudo – interferiu Alice mal conseguindo manter os olhos abertos.Hã… peço desculpas! Eu não quis … . – Então?! – perguntou Madalena saltando da cadeira quando Alice surgiu na sala de espera com a cabeça totalmente enfaixada. – Tem razão – concordou ela após um longo minuto de silêncio. Madalena e Sérgio no mais absoluto silêncio.Quem sabe um dia não venha a cobrar esse favor. a barba aparada.Confesso que estava a fazer de tudo para não cometer nenhuma. Porque de todas as pessoas presentes naquela maldita igreja.Silêncio foi a resposta dela.Não precisam de mais nada? – perguntou Sérgio quando chegaram à carrinha.Dói-me tudo até o último fio de cabelo! Só quero ir para casa antes que pense em cometer suicídio… As portas automáticas das urgências abriram-se novamente. . – Foi um verdadeiro cavalheiro ao contrário do estupor que me atirou a vela. Sérgio era realmente divertido e sedutor. mas realmente havia qualquer coisa que não a fazia tirar os olhos dele. Com a cabeça encostada ao ombro da melhor amiga. – A minha profissão é realmente muito interessante. – Bem.Digamos que fica com uma história para contar aos seus netos. Ele era tudo isso e muito mais. ou talvez fossem as três coisas misturadas numa só. – Se fosse assim tão desinteressante não estaríamos aqui neste hospital. porque é que foi ela a única escolhida para receber aquela valente pancada? . . Sim. o médico de serviço receitou-lhe alguns antibióticos para que as dores e o inchaço diminuíssem em poucas horas. não é?! – respondeu Madalena deixando-se mergulhar pelo olhar que Sérgio lhe lançou. A resposta do fotógrafo não poderia ter sido mais insultuosa e isso ficou provado pelo olhar fulminante que Alice lhe lançou do interior do carro. e por ela. e para encontrar todas essas características. . talvez por o sol já se ter posto. o nariz esculpido.Como é que te sentes? .Ninguém é perfeito. – Ela não tem filhos e muito menos netos – afirmou Madalena voltando-se para Sérgio ainda com o casaco nas mãos. Talvez fossem os olhos verdes.Eu também acho – respondeu Sérgio arrancando-lhe um outro sorriso tão ou mais encantador que o primeiro. mas também possuía qualquer coisa que a intrigava a deixava quase sem fôlego. – Acredite que já fez muito por nós.Que é isso. tal como a sua. Raios. . Madalena não precisou de muito tempo e nem de muito esforço. não acha!? – concluiu ele.

loja 132 F.. foi o que o fotógrafo leu quando o veículo desapareceu do parque de estacionamento levando consigo uma das mulheres mais bonitas e interessantes que lhe haviam atravessado caminho até à data.Sinta-se à vontade para fazê-lo – respondeu Madalena não tardando muito a enfiar-se no interior da carrinha sob o olhar atento de Sérgio. 21 . Avenida de Roma. Mar de Rosas.

Mas não tinha ficado combinado que as férias iriam ser até ao Algarve? . e ao saber bem quem era.Tens tanta lata. .O pai disse que havia uma promoção bué fixe na agência de viagens e que podíamos prolongar as férias por mais alguns dias. Daniel era o mais animado de todos e foi também aquele que mais falou sobre os banhos de piscina. . marido e tentar trazer-lhe à realidade. mulher. um apelido carinhoso que Madalena encontrou para caracterizar a nova namorada do ex. muitas foram as vezes que Madalena tentou controlar a voz embargada e as lágrimas de desespero por se ver tantos dias longe dos filhos. É mesmo aqui ao pé e vamos de barco.Então passa-lhe o telefone agora! Aqueles foram os cinco segundos mais longos de toda a sua vida. – Sim – respondeu voz de Jorge com um longo suspiro. . E essa realidade era a de que ela não queria passar mais nenhum dia estritamente necessário para voltar a estar com os filhos.Está.Sim! Deixas-nos ir? .Por que raios queres levar os meus filhos para Marrocos? .CAPÍTULO II O telefone tocou ao fim de quarenta e oito horas de um silêncio ensurdecedor. . .Lena. Ele está aí ao pé? . – A Sara e o Daniel também são os meus filhos. não?! – afirmou Madalena passeando pela cozinha completamente esbaforida. Madalena largou a chávena de chá sobre a bancada da cozinha desejando ouvir as vozes das duas pessoas mais importantes da sua vida. . lembraste?! .Nossos filhos – corrigiu Jorge refugiando-se na varanda do hotel para que ninguém ouvisse mais uma discussão com a ex.Vocês só podem estar a gozar comigo. – O pai quer levar-nos a Marrocos… – saltou essa frase no meio de uma conversa amena que Daniel estava a ter com a mãe. Eram eles. Madalena não desistiu dos intentos em falar com o ex. marido. enquanto esperava por eles. não queiras ser irónica porque isso não faz minimamente o teu estilo. . mas ainda assim. os passeios pela vila e os presentes que a cada duas horas recebia do pai e de Vanessa loira burra. 22 . Sara e Daniel. Enquanto lhes ouvia as peripécias dos primeiros dias de férias no Algarve. sinceramente não percebo qual é o problema de irmos todos a Marrocos.Será que eu ouvi bem aquilo que o Daniel disse ou provavelmente devo ter batido a cabeça nalgum móvel aqui na cozinha?! . – Daniel! Passa-me o telefone ao teu pai.A Marrocos?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos.Lena.

Vá lá! Tu sabes que a Sara e o Daniel iriam adorar… Silêncio foi a resposta de Madalena enquanto ela meditava acerca de proposta do ex.Eu?! – indagou Madalena levando a mão ao peito.Estás a morrer de ciúmes. . É como te disse! São só mais duas semanas. conhecer novas pessoas.Sim! Tu. . Jorge!? .Impressionante como não perdes uma oportunidade para menosprezar o meu trabalho.Pois eu falei com os nossos filhos e eles mostraram-se muito contentes com a ideia de conhecer Marrocos. . embora o telefone tivesse interrompido os seus pensamentos a tempo. foi o primeiro nome que lhe apeteceu chamar. – Então!? O coronel dá-nos licença para abandonarmos o país sem sermos perseguidos na fronteira? . Não suportas a ideia de estarmos todos a divertir-nos enquanto estás aí a secar em Lisboa. – Mas pensa bem no que te estou a dizer.Só por cima do meu cadáver.Cuidado! Olha que milagres acontecem – respondeu Jorge tentando espicaçar a ex.Antes do final do mês. Só pode ser ele outra vez. a minha opinião não importa para nada. se as crianças voltassem a Lisboa. mulher. Além disso. . Aposto que te ia fazer muito bem. pai! Desculpa.Hã.Desculpa – riu-se Jorge.Percebeste o quê? . Além disso. não é? Já é um assunto tão resolvido com a tua querida namorada mais inteligente que uma porta que nem sequer te interessa a minha permissão… .Hei! Olha que assim me assustas – disse-lhe uma voz suave no outro lado da linha. eu só estou a pedir para que sejas razoável. Que mal é que tem? São só mais duas semanas. Idiota. eu pensei que fosse o… . . devias aproveitar essas férias para incrementar a tua vida social e esquecer um pouco o papel de mãe galinha. – Tu nem penses que eu… . o que é que iriam fazer para além de ficarem sentados em frente à televisão enquanto tu vais cuidar das tuas flores!? .…e quando é que voltavam de Marrocos? .Exactamente – respondeu Madalena levando a mão à cintura. – Ainda há pouco estava a falar com ele e nem vais acreditar… .O Jorge. .Hã… és tu.Estás a ver?! Estás a ver como é que falas comigo quando eu… O discurso de Jorge até poderia ter continuado não fosse o ímpeto de Madalena em desligar o telefone e atirá-lo contra o lava-loiça enquanto o seu queixo tremia de raiva e os seus braços se cruzavam numa tentativa desesperada de não partirem qualquer objecto no interior daquela cozinha. marido. Jorge. ..Não sejas ridículo.E se fosses à merda. – Lena. já percebi – riu-se Jorge secamente.O que foi!? Não me digas que discutiram outra vez? 23 . Conhecer Marrocos é uma oportunidade única que nem todas as crianças conseguem ter. . Aproveita para sair. . . . Ninguém vai morrer por causa disso.Vamos?! Quer dizer. nem mesmo tu.

.Um clone meu era tudo o que o planeta terra não precisava! . minha cara – respondeu Alice levantando-se da secretária quando pressentiu a entrada de mais um cliente na loja.Porque não?! . e sem ela. .Sabes.E tu? Como é que tens andado? .Precisas de alguma coisa? . Madalena não deixou de se perguntar se o mundo de facto necessitava de outras pessoas iguais a si. a única pessoa com quem podia contar incondicionalmente e também o único homem que nunca teve coragem de a decepcionar em toda a sua vida. . às vezes acho que se tu não existisses.E achas que só te telefono quando preciso de alguma coisa? . Achas isto normal? .Bem! Infelizmente não me aconteceu nada de emocionante nas últimas duas semanas.Quando ela morreu eu pensei seriamente em levar o meu pai lá para casa – confessou Madalena. . .Quase! Descobri que ele quer levar os meus filhos a Marrocos.Porque não tenho o direito de destruir a imagem que ela tem do pai.Aí é que te enganas. o meu casamento estava insuportável! Depois veio a separação. . De facto. . Ainda continuo rijo como um pêro! A voz do pai trouxe algum conforto a Madalena e isso ficou provado pelas inúmeras risadas que ela soltou enquanto falava com ele pelo telefone. – De mais pessoas como tu é que o mundo precisava. .Quem sabe um dia quando os ponteiros do relógio começarem a girar ao contrário.É. mas cá me vou aguentando. – Mas eu sinto que a Sara guarda rancores. . especialmente de mim.A mesma frase da tua mãe – riu-se Afonso Soares quando se recordou de uma das muitas citações da sua falecida esposa. mas já te disse que não precisas preocupar-te.Claro que não – respondeu Madalena encostando-se à bancada. Desde que nasceu.Na altura. – Apenas perguntei porque me preocupo contigo. . O único abalo sofrido na relação de ambos aconteceu aquando da morte da sua mãe e do tremendo sofrimento pelo qual o pai foi obrigado a vivenciar durante meses a fio. Leonor Soares era sem sombra de dúvidas o pilar que sempre sustentou a família. ou se pelo contrário. o divórcio e a sensação de que me tinha que focar nos meus filhos para não os traumatizar. .Eu até acho que os teus filhos reagiram bem à tua separação com o Jorge. se mais exemplares seus apenas estragariam um 24 . terias que ser inventada. . . Afonso era o seu porto seguro. talvez… – respondeu Madalena deixando a caneta cair-lhe das mãos.. tudo o que ele lhe ofereceu foi amor sem cobranças.Não posso fazer uma coisa dessas. as bases estremeceram. – Já vi que são iguaizinhas. .Será que não há maneira de vocês se entenderem? Pelo menos pelo bem dos vossos filhos. sem restrições e também a infância que todas as crianças desejavam ter.E porque é que não levaste? – perguntou Alice evidenciando fisicamente que ainda não se havia recuperado da pancada que sofrera na cabeça quatro dias antes.Eu sei.Isso é porque ela não sabe o verdadeiro sacana que o pai dela é! Devias contar a verdade. Enquanto a melhor amiga atendia um dos inúmeros clientes que habitualmente passavam pela loja. .

…olá.Não.Olá – disse Sérgio Almeida retirando as mãos dos bolsos assim que ela se levantou da secretária surpresa por o ver ali.Está bem então! Vemo-nos daqui a uma hora.Não sei bem! Na verdade. . Raios. ela ainda não é bem uma amiga. Talvez nem fizesse aos filhos já que eles preferiam uma estúpida viagem a Marrocos do que estar consigo. já que os seus antibióticos contra as dores tinham terminado sem qualquer aviso prévio. esse acontecimento entrou pela floricultura adentro trazendo consigo um perfume que rapidamente se entranhou em todos os cantos da loja. . mas nem isso retirou a concentração de Madalena em frente ao computador pois era urgente terminar a tabela dos fornecedores e também os preços dos novos produtos da floricultura. . . Teria o ex. Mas quando o relógio marcou treze horas e vinte e cinco minutos. Como é que a descobriu ali? . . Alice interrompeu-lhe os pensamentos e informou que iria aproveitar a hora de almoço para passar pela farmácia. se não for muita indiscrição minha perguntar. eu não sou casado – riu-se Sérgio.Até já. .Que tipo de flores? . à sua namorada ou até mesmo à sua esposa… .Claro – respondeu Madalena levando-o em direcção à bancada onde estavam depositados os melhores arranjos da loja. 25 .planeta já por si mesmo estragado. marido razão? Será que ela estava realmente a morrer de inveja da felicidade alheia? Ao tentar responder essa pergunta pela vigésima vez. Quer dizer. dos seus óculos de leitura e também do silêncio que se apoderou da loja enquanto a pouco e pouco as unhas roídas evidenciavam que a hora de almoço estava a passar sem qualquer acontecimento importante.Não. luz e um encanto fora do normal. . não percebo muito desse assunto. mas eu gostaria que fosse.Claro que não – respondeu Madalena desfazendo-se dos óculos de leitura. Na verdade. .Hã… sim – respondeu ele aproximando-se lentamente dela. Para isso. . – Quando voltares eu como qualquer coisa ali no café da esquina. O fotógrafo.Veio comprar alguma coisa? – saltou essa pergunta estúpida dos lábios de Madalena. – Queria comprar flores para uma pessoa especial. – E as flores são para uma amiga. – Queres que te traga alguma coisa da rua? – perguntou ela alcançando o casaco no bengaleiro junto à porta. A porta voltou a fechar-se com algum estrondo. – Confesso que é exactamente como eu imaginei que era. Era ele.Então este é que é o “ Mar de Rosas” – murmurou Sérgio lançando os olhos àquele espaço repleto de flores. ela muniu-se de uma calculadora. .Espero não ter vindo numa má hora. mas acho que você me pode ajudar. – Bem. seria muita presunção sua pensar que fazia falta a quem quer que fosse. Meu Deus. – Mas que coincidência vê-lo por aqui! Eu… . não precisas preocupar-te – respondeu Madalena analisando a tabela dos fornecedores no seu computador. gostaria de saber se pretende oferecer flores a algum familiar.

Por falar nisso. e enquanto elas trabalhavam à velocidade da luz. As mãos experientes de Madalena conseguiram fazer um embrulho perfeito para o vaso de orquídeas que Sérgio escolheu sob sua orientação. e tem um sorriso absolutamente esmagador… . você vai almoçar nalgum restaurante aqui perto? . A proposta não poderia ser mais tentadora. é que… . Como não estou com muita fome apenas vou comer uma sandes ou algo assim. como é que ela está depois da pancada que levou na cabeça? . mas Madalena sabia que se aceitasse aquela proposta irrecusável nada mais seria como antes.Eu ainda tenho que fazer umas compras de um material fotográfico aqui por perto..O galo desceu – riram-se os dois. . mas acho que ela é uma mulher forte. – Tome! Estas são as flores ideais para essa mulher.A sério?! . pela discrição que me ofereceu.Não – respondeu Madalena rasgando-lhe um sorriso. Hum! Vejamos o que mais!? É simpática.Bem. Quer dizer. Parece ser doce também. . . .Sim.Almoçar consigo? . assim como o sorriso que ele lhe ofereceu em seguida. que é quase impossível resisti-los.Um pouco – respondeu Madalena mostrando-lhe um vaso de orquídeas. claro.Então nesse caso sugiro estas tulipas brancas.Ou se não gostar de tulipas. mas tanto. O que é que me diz? Um almoço e escolhe você o restaurante. os olhos dela brilham tanto.Sim! Quando ela sorri. . Não quero errar na escolha.Já almoçou? . – Ela está bem agora.Tem um café ali na esquina. Tudo nele gritava perigo. . – Estou à espera que a minha amiga chegue da hora de almoço dela. ele atreveu-se a perguntar: . pois cada minuto que passava ao lado de Sérgio era uma eternidade difícil de aguentar.Bem… na verdade não a conheço muito bem. posso também mostrar-lhe estas orquídeas. São perfeitas para demonstrar respeito e afectividade a quem quer que seja. fascinante e com uma personalidade vincada.E… quando ela vier.Claro! Então diga-me quais são as características dessa sua amiga. . Porque não!? . . .Hum! Acho que ainda continuo um pouco indeciso.Então eu convido-a para almoçar comigo – respondeu Sérgio parando-lhe o movimento das mãos com aquele convite tão inesperado.Fui assim tão indiscreto? . . embora tente não demonstrar essa qualidade logo à primeira. mas devo estar despachado em menos de uma hora. da pessoa que você quer que se torne sua amiga… .Se o diz. especialmente com pessoas que não conhece. sou obrigado a concordar. Mas será que valia a pena 26 . percebe?! . excitação e novidade. parece-me que você quer que ela seja muito mais do que uma amiga.Bem.Um sorriso esmagador – murmurou Madalena sabendo perfeitamente que esse sorriso era o seu.

Estava a combinar fazer uma sessão fotográfica com uma modelo e ela telefonou-me para saber se a sessão ainda continuava de pé. mas quando os seus olhares se cruzaram.Tome! São para si – disse Sérgio entregando-lhe o ramo de orquídeas assim que ela se sentou à mesa. e para ajudar à festa. – Obrigada. – Espero não ter interrompido nenhuma conversa importante – disse ela quando Sérgio desligou a chamada e poisou o telemóvel sobre a mesa. Madalena sentiu que não havia outra escapatória a não ser caminhar em direcção à mesa e forçar-lhe um pequeno sorriso.Não tem de quê! Bem… quer beber alguma coisa? 27 . – Posso escolher o restaurante? . .Não faz mal! Eu também não. .Depois destas flores. . mais uma vez Alice atrasou-me. .Tenho a certeza que a sua amiga irá gostar muitíssimo delas.enfrentar todos esses perigos? Diante de mais um sorriso que ele lhe ofereceu.Não. – Encontramo-nos daqui a uma hora então – ele disse. .Ela ainda não é minha amiga. Sem mais palavras para lhe dizer e depois de ter aceitado o pagamento das flores. Chama-se “Luminosa” e as portas são de madeira. . algo que foi imediatamente correspondido. . tenho a certeza que irá querer ser. claro que não! Coisas relacionadas com o trabalho. os sessenta minutos seguintes passaram lentamente. e ela pôde ter essa certeza quando o viu instalado numa mesa próxima à janela.Claro! Normalmente não costumo voltar atrás quando dou a minha palavra. . . . ela teve a certeza que sim.Então está bem! Encontramo-nos daqui a uma hora no restaurante no final desta avenida. . .Ainda bem. . Madalena acompanhou o seu único cliente em direcção à porta desejando que os próximos sessenta minutos passassem o mais depressa possível. O olhar perdido enquanto falava ao telemóvel ainda a fizeram hesitar em aproximar-se.Acho que já sei qual é. .É bom saber isso. Depois disso. seguiu-se uma caminhada interminável pela avenida e a certeza que a sua pressa para almoçar prendia-se com tudo menos com a fome que disse estar a sentir à melhor amiga. – Até logo – foram as últimas palavras de Madalena antes de abandonar a floricultura a uma velocidade fantasmagórica e atravessar a rua sem sequer olhar para trás.Obrigado pela ajuda! Sem si não saberia como escolher as flores. – A dona da floricultura disse-me que essas eram as flores ideais para oferecer a uma amiga especial e eu confiei nela! Espero que não se tenha enganado. .É claro que ela não se enganou – respondeu Madalena recebendo o arranjo com um doce sorriso. .Daqui a uma hora – respondeu ela mantendo a porta entreaberta.E continua? . Tal como o esperado. lembra-se?! .Claro que sim – respondeu Sérgio recebendo-lhe o embrulho de orquídeas das mãos.O único problema é que não me posso demorar muito. Será que Sérgio já se encontrava no interior do restaurante? Será que ele tinha sido pontual e cavalheiro o suficiente para não a deixar à espera? Claro que sim.

. e pela primeira vez também desde há anos.Exactamente – riram-se novamente. pensou. a loja está no nome do meu pai. – Digame… . . – Tem um significado especial porque pertenceu à minha mãe e é uma das poucas lembranças que ainda tenho dela.Na verdade. – Ela tem cinco por cento. ela caiu no sofá como uma pluma deixando para trás a mala.E você ficou à frente do negócio? . Impressionante também era o facto de saber que em menos de vinte e quatro horas todo o peso que sentia sobre os ombros desapareceu sem deixar rastro deixando apenas uma estranha sensação de doçura nos lábios. . Impressionante como se estava a sentir tão bem.…muitas – respondeu Madalena deixando-se encantar por aquela conversa tão amena e agradável. eu sei.pediu Sérgio. . Pela primeira vez desde há anos.Sim. até mesmo antes de eu nascer … . Foi também a primeira vez que Madalena se sentiu absolutamente à vontade na companhia de um homem do qual não sabia muito mais que o nome ou a profissão. Quer dizer. .Deve ser uma autêntica mina de ouro.A que ficou com um galo na testa. ele tem cinquenta e a minha amiga. Madalena regressou a casa com um sorriso nos lábios e nem sequer se importou com o facto de não ter os filhos consigo.Confesso que fiquei encantado com o local e também com o nome. por favor. “ Um mar de Rosas”.Então com certeza não existia há tantos anos assim. não?! . a Alice… .E você?! Quais são as flores que mais gosta? . Seria normal sentir-se assim só por causa de um almoço informal com um fotógrafo do qual não conhecia muito mais que o nome? 28 .Então eu também vou tomar o mesmo.Digamos que sim.Um sumo de manga. e enquanto conversava com ele e se deixava perder pela sua sensualidade casual.Morreu?! .Obrigada pelo elogio – riram-se os dois. mas sou eu quem dirige aquilo tudo. . eu acho que é! Pelo menos para mim – respondeu Madalena compondo os cabelos soltos. – Mas talvez orquídeas. Há seis anos atrás. Quase quarenta e cinco. . . – Há quanto tempo tem a sua floricultura? . É quase como se fosse uma sociedade. os ponteiros do relógio pararam no tempo. os sapatos e o casaco de malha. Eu tenho quarenta e cinco por cento.Sim.Sim.Já estava à espera dessa resposta – disse Sérgio forçando um sorriso. Eram as flores que ela mais gostava.Pouco original da minha parte. Tão livre e ciente de que a vida lhe tinha voltado a sorrir após tantas tristezas. Foi a sua mãe que escolheu? . – Mas a loja tem realmente muitos anos.. O almoço entre os dois desconhecidos revelou-se mais agradável do que se poderia esperar quando a refeição foi trazida à mesa por um dos empregados do restaurante e a conversa amena os embalou durante vários minutos. . . a floricultura era da minha mãe e já existia há muitos anos.

Ai não?! Pois deixa-me que te diga que se fosse só por causa do teu querido ex.É! Quem não tem – disse Madalena num tom debochado. . Só na segunda-feira é que vão para Marrocos.Afinal de contas eles também precisam do pai. . .Tu sabes que eu não bebo a não ser em ocasiões especiais. .Sim.Está bem. – Claro que tem defeitos.Sinceramente não sei – respondeu Madalena fechando a porta do frigorífico com força. não é?! .De cigarros já estou a ver.Também não foi assim. .Só tenho sessenta e oito e tratas-me como se já tivesse passado dos oitenta. É por isso que não tenho queixas dele.Impressão minha ou tu ainda continuas a adorar o Jorge apesar de saberes que ele é um idiota de todo o tamanho?! . . não precisou de muitos rodeios até porque Afonso era o seu grande conselheiro e também uma das poucas pessoas a quem se sentia 29 .Não brinques com coisas sérias – afirmou Madalena colocando as compras do supermercado em dois grandes sacos. . tu só podes ter bebido antes de cá vir – afirmou Madalena fechando as alças dos sacos de compras. de facto não era.Não.Não precisavas preocupar-te com isso! Já te disse que me arranjo. . mas quem não tem. – Já te disse várias vezes que devias deixar de fumar.Estou-te a achar muito magro! Tens a certeza que te estás a alimentar como deve ser? . . realmente a minha estadia na esquadra foi apenas uma imaginação da minha cabeça. .Acho que foste demasiado precipitada em pedir o divórcio. está bem – riu-se Afonso enquanto levava o cigarro à boca. muito pelo contrário! Eu trato-te como trato o Daniel porque psicologicamente ainda nem chegaste aos dez. a uma altura dessas a tua filha ainda estaria presa por um crime cometido por ele.O Jorge é uma boa pessoa – afirmou Afonso cerrando os olhos quando o fumo do tabaco lhe atravessou os olhos. . especialmente por causa da tua idade. eu acho! Falei com eles ontem à noite e ainda estavam no Algarve. . – Ponho-te tudo num saco para levares.Estou-me a alimentar muito bem se queres que te diga – respondeu Afonso acendendo um cigarro junto à janela. por mim vocês ainda continuavam casados. . – Por falar nos miúdos.Não.O quê?! .Não.Fizeste bem em deixá-los ir com o Jorge. . . . – Comprei-te algumas coisas – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico quando o pai a visitou a poucas horas do seu encontro com Sérgio Almeida. e depois disso ela sentiu-se tentada a revelar algo muito importante ao pai. mas talvez o jantar que tinha combinado com Sérgio no Sábado seguinte fosse a razão primordial para aquela alegria tão espontânea. Na verdade. . como é que eles estão lá de férias com o pai? .Estão bem.Ele não é um idiota! .Só que ele sempre foi prestativo para mim e para a tua mãe e também sempre foi um bom genro. genro.E existe algum alimento melhor? . e se queres que te diga. Uma risada foi a resposta de Madalena. .

– Juízo! . – Olá! . os móveis sofisticados. Ele chegou e já não havia mais nada a fazer a não ser abrir a porta e permitir-lhe a entrada. Chegou. .Por isso.Vê lá o que é que fazes. no decote do vestido e ela sentiu-se pronta a encarar o rosto de Sérgio Almeida. 30 . . – Tens aqui um belo património – confessou Sérgio enterrando as mãos nos bolsos das calças. – Com um homem. Ao olhar-se no espelho da casa de banho depois de escolhido um dos primeiros vestidos que lhe passou pelas mãos. .Obrigada. uma simplicidade bastante apreciada por Madalena. . marido não restou absolutamente nada ou qualquer réstia da sua presença. Por isso. Nele encontrava-se uma fotografia de Sara e Daniel.Homem!? Que homem? . branco. Madalena chegou à conclusão que aquela realmente não era a melhor opção para si e nem para a noite que prometia ser bastante especial tendo em conta a sua companhia. . Foi nessa altura que a campainha tocou e lhe provocou um pequeno sobressalto. Mas por agora a única coisa que precisas saber é que vou jantar fora com uma pessoa muito simpática e interessante. De resto. – Sabes de uma coisa?! .Estes são os teus filhos? – perguntou ele alcançando um porta-retratos sobre a mesinha.Vou tentar. Trajado com umas simples calças de ganga e uma camisola preta.Dás-me licença? .Claro.Hoje tenho um jantar.É uma história comprida que talvez um dia te venha a contar. . sem hesitações. minha menina – afirmou Afonso puxando-lhe o nariz tal como fazia quando ela era pequena.E aonde é que vai ser esse tal grande jantar? . os cabelos e a maquilhagem primaram pela simplicidade. Dos antigos móveis comprados pelo ex. E sim. . tudo o que o Jorge não é e nem nunca foi.Olá – respondeu ele desarmando-a com o seu sorriso.Hum! Não estou a gostar nem um pouco dessa história.Com a Alice? .Ainda não sei! Ele ficou de escolher o restaurante.totalmente segura para contar todos os segredos que rodeavam a sua vida. os tapetes e cortinados claros eram a palavra de ordem na nova decoração que Madalena fez questão de produzir após o seu divórcio. De resto. ela voltou a abrir as portas do roupeiro e encontrou um novo vestido.Claro que não – respondeu Madalena fulminando o pai com os olhos.O quê? . aqui tens a tuas compras da semana! Leva-as e deixa-me preparar para o meu grande jantar. . Um novo retoque nos cabelos. Sérgio exalava uma simplicidade fora do normal. . assim como os brincos que fez questão de colocar à frente do espelho do corredor. cintado e perfeito para uma mulher que não saía para jantar fora há pelo menos seis meses. Sérgio aceitou o convite com um sorriso e não tardou a chegar à sala onde a arrumação. .Entra – disse ela.

Não tanto quanto gostaria. e passava a maior parte dos dias enfiado no estúdio de fotografia que abrira com a ajuda de um amigo muito especial.Quem sabe um dia não te levo lá. .Sim. . A resposta de Sérgio trouxe um novo olhar e também um sorriso que Madalena fez questão de lhe oferecer enquanto se perdia na magnitude daquele momento. . muito simples.Parece ser um programa interessante.Tenho a certeza que irias gostar da vila – afirmou Sérgio não se deixando distrair por mais nada naquele restaurante a não ser pelo sorriso dela..Claro! Vamos. Diz que jamais seria capaz de sair de uma casa onde a mulher deu à luz a filha. . havia uma quantidade exorbitante de clientes. 31 . . que submersos numa conversa amena. É uma casa simples. – Sempre que me sinto cansado do trabalho e quero descansar um pouco.É claro que é um elogio – riram-se os dois. casual e encontrava-se situado numa das ruas mais movimentadas da cidade. especialmente às lembranças da minha avó e da minha mãe. e ele até tem dinheiro para comprar uma melhor. . partindo do pressuposto que seja um elogio… . continuaram a degustar a refeição escolhida e o vinho especialmente indicado por um dos empregados do restaurante.Eu?! . – Fico feliz por saber que o teu avô cuidou de ti durante esse tempo todo – confessou Madalena poisando o guardanapo sobre o colo. . era órfão desde os dois anos e o único familiar vivo que lhe restava era um avô que morava no Alentejo e que ele fazia questão de visitar sempre que podia.Bem. ou pelo menos nenhum que soubesse.Sim! Porque não? . – É realmente muito querido da parte dele. aliás. mas o problema é ser demasiado apegado às lembranças do passado. Para além disso. .E vocês vêem-se com muita frequência? . e dele. Dela. . mas a verdade é que nem o barulho das pessoas. ela fez questão de dissecar todos os detalhes.Só fomos obrigados a separarmo-nos quando eu vim para Lisboa fazer o curso de fotografia. O restaurante escolhido por Sérgio era simples. nunca fora casado.Obrigada! Quer dizer. – Ele mora numa pequena casinha toda pintada de azul e branco.São bastante parecidos contigo. filhos não teve. ele tudo queria saber. da televisão ou das cadeiras a arrastar conseguiram desviar a atenção de Madalena e Sérgio. .Uau – exclamou Madalena compondo os cabelos no meio de um sorriso. Soube que ele morava num pequeno apartamento nos arredores de Lisboa. confesso que me apanhaste de surpresa. mas sempre que tenho algum tempo faço questão de aparecer por lá – respondeu Sérgio poisando os braços sobre a mesa após o término do jantar. No seu interior. – Talvez seja melhor irmos andando antes que se faça mais tarde – disse ela tentando esconder o nervosismo. fujo para lá e passo os dias a pescar com o meu avô.

O meu pai também é o meu melhor amigo. o relógio assinalou vinte e três horas e quarenta e cinco minutos. .Eu gostaria muito de conhecer o teu avô. até por ser filha única e essas coisas todas. o tempo propício para que a noite pudesse ser encerrada e para que ela absorvesse as luzes da cidade que teimavam em invadir-lhes o carro. cheia de energia. – Entregue – disse Sérgio quando Madalena abriu o portão de casa.Deve ter sido muito difícil quando a tua mãe morreu. . . . a noite tinha sido maravilhosa em todos os aspectos. Deu tempo para que se conhecessem. obrigada por tudo.E os teus filhos. Nessa altura. . – Sou mesmo! Confesso que sempre fui muito mimada pelos meus pais. não?! .Um casal! Perfeito – sorriu Sérgio levando a mão ao queixo. .E… se não for muita indiscrição minha perguntar… és casada? A pergunta de Sérgio não a tomou de assalto e tudo porque Madalena já esperava que mais cedo ou mais tarde ele a fosse fazer. Ele parece ser igual ao meu pai. – Mas pelo menos ainda me resta o meu pai. era só uma questão de tempo e sentido de oportunidade e ele soube aproveitar essa oportunidade na perfeição. . De facto. mas… tal como te disse.E sou – riu-se ela alegremente. . e pela primeira vez desde há muito. 32 . os meus filhos também. até porque ela sempre foi uma mulher saudável. essa foi a melhor notícia da noite – disse ele arrancando-lhe uma gargalhada ruidosa.Sim.Óptimo! A seguir ao golo que o Benfica marcou há bocado. não é?! .Tens ar de menina do papá. Na verdade.Como é que se chamam? . . foi repentino. Nesse aspecto tive muita sorte.Sinto muito.A sério?! . . .Obrigada! Aliás.Espero que tenhas gostado do jantar.…vamos para o quintal e assamos o nosso jantar.Ela morreu do quê?! – perguntou Sérgio com alguma cautela. …não! Sou divorciada.Uff – suspirou Madalena largando os ombros. Acho que não conseguiria imaginar a minha vida sem ele. . . . – Foi a pior fase da minha vida. ninguém estava à espera que aquilo acontecesse. .. De facto. Sim.Eu também acho. Foi com uma música bem conhecida a tocar no rádio que Sérgio levou Madalena a casa. para que conversassem sobre assuntos triviais e também para que ela se sentisse suficientemente confortável para tocar naquele assunto tão delicado e pessoal.Eu também – respondeu Madalena tentando esconder a tristeza que lhe assombrou o rosto.Podes acreditar que é! E quando voltamos da pescaria com… um peixe e meio nos baldes… – Madalena não resistiu a soltar uma ruidosa gargalhada.Teve um ataque cardíaco repentino. mas ele sempre me deu todo o carinho do mundo. . . especialmente pelo meu pai. . o seu único desejo era que ela se prolongasse por mais algumas horas.A mais velha chama-se Sara e tem quinze anos e o rapaz chama-se Daniel e tem dez.

Sei que é meio em cima da hora. . um almoço ou até mesmo um café.Boa noite! Dorme bem. mas estava a pensar em convidar-te para sair hoje à noite.Um jantar. comer alguma refeição ligeira e cair na cama sem pensar em mais nada a não ser no dia seguinte. E em casa. muitas eram as vezes em que se dava consigo a olhar para o visor.Tu sabes há quanto tempo eu não vou ao Bairro Alto!? . deixava o aparelho sobre a caixa de velocidades e quase tinha acidentes quando os seus olhos saíam da estrada. Cinco dias foi o tempo que Madalena teve que esperar para voltar a ter notícias de Sérgio. Madalena deu-se por vencida e fechou a loja mais cedo do que o habitual. . – Será que liguei numa má hora? – perguntou Sérgio com uma voz absolutamente irresistível.Por mim tudo bem. Durante a condução para casa. Mas teriam os seus planos algum tipo de fundamento? Ao ouvir o telemóvel tocar no bolso do casaco e mais tarde o nome da pessoa que a estava a telefonar. isto para não falar das inúmeras vezes que lançou os olhos ao telemóvel ansiando uma mensagem de texto ou até mesmo um toque que lhe trouxesse um sinal da existência do fotógrafo.ele hesitou.Não! Claro que não – respondeu Madalena moderando os passos ao longo da avenida. Qualquer coisa! .Ligo-te ainda esta semana. uma refeição em casa e uma cama vazia. O que é que te parece? . tomar um banho. . Depois disso. .Pode – respondeu Madalena sentindo-se como uma verdadeira adolescente quando ele se debruçou e a beijou na face. um sorriso atravessou-lhe os lábios e fê-la recuar nos seus intentos de um banho.Para dançar – respondeu ele. descompassado e tudo por causa de Sérgio que sem querer acabou por o trazer de volta à vida.Sim! Bairro Alto.O quê!? O jantar? . .Dançar?! . Após mais um dia exaustivo de trabalho onde foi obrigada a levar vários caixotes pesados ao armazém ao lado de Alice e do motorista que trouxera as encomendas dos fornecedores. .Gostei imenso. Ele que estava a bater acelerado. despediu-se da melhor amiga e caminhou apressada em direcção ao carro ansiando chegar a casa..…podemos repetir um dia destes? .Será que… . Madalena sorriu e levou a mão ao peito numa tentativa desesperada de manter o coração ali dentro. Ao vê-lo a desaparecer pelos portões e a enfiar-se no carro estacionado a poucos metros da sua casa.Tu também. .Sair para onde? . enquanto atendia algum cliente. Mas nada. qualquer ruído era suficiente para que pensasse que era o telefone a tocar. Na floricultura. Pode ser?! . Nenhuma chamada importante a não ser a dos filhos para contar as maravilhas que estavam a viver em Marrocos. . .Semanas? Meses? Anos? 33 .

– Mas só espero não dormir antes de chegares. . Sim. . . Madalena sabia-o. Não. De resto. um local repleto de gente jovem. pelas mesas e cadeiras sofisticadas e por um ambiente muito menos explosivo. . .Podemos procurar um outro bar menos movimentado! Existem muitos por aqui.Pode – respondeu ela abrindo as portas do carro. fumo de cigarros. Uma Cosmopolitan para ela e um whisky para si. Madalena sentiu-se no seu verdadeiro habitat quando Sérgio a ajudou a sentar-se numa das poucas mesas vazias e caminhou em direcção ao balcão pronto a pedir as primeiras bebidas da noite.Sérgio. . eu não sei … . Por volta das dez e meia! Pode ser? . – Não é nada disso. mesas e cadeiras degradadas e a música rock a ecoar-lhe nos ouvidos como se fossem verdadeiras bombas atiradas lá para os lados do Iraque.Estou. marido. – A que horas? . 34 . Quando se viu no interior de um dos bares mais requisitados do Bairro Alto.Está bem – respondeu Madalena sentindo-se aliviada quando abandonou aquele bar propício para mulheres que ainda não haviam passado dos vinte e que desejavam urgentemente engatar o primeiro homem que lhes aparecesse pela frente. .Podemos ir embora se quiseres. por isso não tens desculpas. Havemos de encontrar algum que seja mais interessante. havia décadas que não pisava um local daqueles.Pois hoje vamos dançar e eu não aceito um não como resposta.Não te preocupes porque eu vou estar mais do que preparada.Mas o quê?! .Não – adiantou-se ela tocando-lhe no peito sem querer.Disseste-me que os teus filhos estavam a passar férias com o teu ex.Prometo que não me vou demorar muito.Eu não queria que… . – E este? – perguntou Sérgio quando entraram num bar completamente diferente do anterior. – Antes de a minha filha ter nascido.Então está bem! Fico à espera.Vou-te buscar assim que sair do estúdio. Aquele realmente não era o local ideal para si.Décadas – respondeu ela arrancando-lhe uma leve gargalhada. De facto. o facto de se ter esbarrado com uma dessas mulheres à saída apenas veio a cimentar as suas convicções. mas ainda assim houve algo na voz de Sérgio que a fez hesitar e querer seguir em frente com aquela loucura tão deliciosa. . não estou muito habituada a este tipo de ambientes. – Toma – disse ele voltando à mesa alguns minutos mais tarde.. . . Madalena foi obrigada a respirar fundo e a assimilar tudo aquilo que lhe estava a acontecer. . Apesar de ser frequentado por pessoas mais velhas.Tal como te disse.Prepara-te! . Eu quero dançar e quero dançar contigo! Não aceito outra companhia… Era uma loucura. mas… . Vamos para um outro bar aqui ao pé. outras drogas ilegais.Até acho que isto está cheio demais! Nem sequer têm mesas vazias e iríamos acabar por ter que ficar no balcão. – Estás bem? – perguntou Sérgio percebendo-lhe o desconforto patente nos olhos.Este é perfeito – respondeu Madalena voltando-se para ele com um sorriso radiante. . A perfeição do recinto ficou marcada pela sua decoração tipicamente tradicional.

tudo deixou de ter importância quando as mãos dele percorreram-lhe as costas e se enterraram nos seus cabelos soltos. .Nem por isso – respondeu ele fazendo-a girar sobre os pés.Então conta-me lá como é que foi o teu dia. – A minha vida é uma seca. naquele bar tão acolhedor e destinado a seres humanos acima dos trinta. segundo as palavras do fotógrafo – Esta música é do meu tempo. não é?! .Sim! Está a passar uma música que eu gosto muito e que não quero desperdiçá-la de maneira nenhuma.És um cavalheiro e é por isso que não dizes a verdade. . . Literalmente nua. – Queres dançar? . Sérgio encostou Madalena contra si e permitiu que ela fechasse os olhos sem se importar com as pessoas à sua volta ou com o adiantado das horas.É um pouco escondido. e por fim.Para mim só o facto de saber que respiras já é o suficiente para achar a tua vida fascinante… . . Sem mais palavras para lhe dizer. e depois disso. . atender clientes. atender novos clientes. . já se encontravam outras pessoas a dançar “At Last” da cantora norte-americana Etta James. Ali.Confesso que nunca tinha entrado neste bar e olha que já frequento o Bairro Alto há anos.Tens razão.Não existem músicas do nosso tempo! Existem músicas intemporais e esta é uma delas. . podes dizer – concluiu ela entre risos.Claro que não! Adorei saber tudo o que fazes. E quando o fez. O sorriso de Sérgio convenceu Madalena a oferecer-lhe a mão e a seguir com ele em direcção à pista de dança. .Lá isso é verdade – riu-se Madalena enquanto bebia o primeiro gole da sua Cosmopolitan. dia não lhe surgia à frente da porta da loja. não danço? – perguntou ela voltando a encarar-lhe o rosto. encostou a cabeça nos ombros de Sérgio deixando-se levar pelo momento mais especial da noite. . Quero saber tudo o que te aconteceu desde que saíste da cama até à hora que te telefonei a marcar este encontro – respondeu Sérgio não tirando os olhos dela um só segundo. . – Para mim danças perfeitamente. receber as encomendas da carrinha que dia sim. – Danço muito mal.respondeu ele encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. Pelo menos dá para conversar sem termos que berrar aos ouvidos um do outro. Madalena sentiu-se nua.Foi normal! Absolutamente normal.Agora?! .Obrigado pelo elogio. encerrar o expediente com a nítida certeza que faria exactamente a mesma coisa no dia seguinte. .Tu também não ficas atrás. pagar algumas contas.. Um arrepio na espinha foi o que Madalena sentiu. sabias!? – disse Madalena quando se viu envolvida numa balada verdadeiramente romântica. não tendo outro remédio a não ser contar as pequenas tarefas que realizou durante o dia. onde por sorte ou não. .Mas mesmo assim eu quero saber. telefonar a fornecedores. Abrir a sua floricultura. .Obrigada.Aonde é que aprendeste? 35 .Sim! Mas eu gostei imenso. almoçar. Uma música absolutamente irresistível. . .

O feito de livrá-la de todas e quaisquer inibições relativamente à sua idade.É melhor ires – respondeu ela tentando resistir àqueles olhos verdes. e mesmo ela tendo tentado desviar-se dos braços dele à volta da sua cintura. . .Não são as tuas palavras. quanto a isso não havia dúvidas.Não! São as minhas palavras e eu estou a cantá-las para ti… . Beijá-la não uma. a verdade é que foi completamente impossível resistir-lhe à voz rouca e desafinada nos ouvidos. . Sérgio não tinha todo o tempo do mundo para esperar por ela.Então quer dizer que tenho aqui nas minhas mãos uma verdadeira bailarina!? Madalena sorriu.E tu? Aonde é que aprendeste a dançar assim? . . Naquele momento. – Digamos que é um talento natural. – E querias-me convencer que não sabias dançar? Aposto que só estás a dizer isso para não me fazer sentir mal. Por isso. acho que nem sequer me vou deitar porque… .. A mão levada ao peito e o virar do rosto em direcção ao quintal do vizinho foram alguns dos indícios que fizeram antever a resposta de Madalena. Perto de ti sou um verdadeiro aprendiz. .Estou-te a perguntar se te posso beijar. até porque a dança tinha conseguido um feito inédito. mas sim inúmeras vezes até conseguir saciar o desejo e a vontade de tê-la só para si. .Diz! Podes confessar. ao seu estado civil e também ao seu desejo de aventurar-se nos ouvidos de um homem que mal conhecia. – És louco – riu-se ela quando Sérgio lhe caiu sobre os ombros.Claro que não – respondeu ela não contendo os risos. . não duas.Não acreditas nas minhas palavras? .Eu costumava praticar ballet quando era mais nova – respondeu ela envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. pé ante pé. não sou?! . Beijá-la.Que pena – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. não sei… .Isso quer dizer que a nossa noite terminou? . . um pouco embriagados. .Já disse que danças muito bem. – Danças muito bem – sussurrou ela. ele aproximou-se dela e tomou-a nos braços com um beijo absolutamente esmagador.Eu acho que sim. Ambos. ainda surpresa pela audácia dele. .Já é quase de manhã e eu acordo cedo. – Talvez tenha aprendido aí.Confesso que não aprendi em lado nenhum – respondeu ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. manteve-se de olhos abertos numa tentativa desesperada de convencer-se que nada daquilo 36 . mas ainda assim. É a letra de uma música.Só acredito se me disseres isso ao ouvido. enquanto Madalena. Madalena não pensou duas vezes em acatar-lhe o pedido. ainda continuavam a cantar um dos temas mais marcantes do serão.Posso beijar-te?! – interrompeu ele. Três horas e vinte e cinco minutos foi a hora que Madalena abriu os portões da sua casa após uma noite maravilhosa passada ao lado de Sérgio.Uau! Não és nem um pouco convencido.O quê?! . – Por mim continuava a dançar contigo até de manhã. . Não tinha e nem queria sair daquele jardim sem fazer algo pelo qual havia ansiado desde o início da noite. Quer dizer.

O que é que tu queres de mim? . . Madalena sorriu e não evitou pensar que deveria estar em todos os lugares menos ali. enfim! Deveria estar a pensar em tudo aquilo.A pergunta é: o que é que tu queres que eu queira de ti? Ao ver-se metida num verdadeiro dilema. – Exagerei?! . . Nem sequer com o tapete do corredor que quase os fez escorregar junto ao bengaleiro. Deveria estar na cama há horas. Voltou a beijá-lo e pela primeira em toda a sua vida tomou a iniciativa de se atirar para os braços de um homem que não o seu marido. É um sonho. – Quer dizer… sim! . Como sonhou descobrir o que estava por debaixo dele.Eu?! .Que se calhar com a minha idade eu não deveria reagir tão mal por causa de um beijo. . deveria estar a pensar nos filhos e também na floricultura que teria que reabrir de manhã…. – O que foi? . – Estás sempre a insinuar que és muito mais velha que eu. E não é que foi isso que fez? Sem pensar nas consequências. mas a verdade é que não estava.Queres entrar? . abraços e tropeções. Sérgio sorriu.Sim ou não?! . Um sonho do qual vou acordar daqui a cinco segundos e não me vou lembrar de absolutamente nada.Sérgio… – murmurou ela.suspirou Madalena sentindo-se prestes a cair num abismo. Madalena e Sérgio entraram pela casa adentro sem se importarem com mais nada.Não – adiantou-se ela.estava a acontecer.Na tua casa? .Sim – respondeu ele desarmando-a novamente com o seu olhar.Não.Um pouco.Talvez – riram-se os dois. no meio de uma escuridão avassaladora.Também. foram os pensamentos do fotógrafo quando o tecido caiu ao chão.Já reparaste que passas a vida a falar da tua idade? . E foi ali. .Só estou a constatar um facto.O que é que queres dizer com isso? – perguntou Sérgio.Pois bem! Então deixa-me que te diga que não é esse facto que me vai fazer afastar de ti. – Isto é de doidos… .Uma mulher divorciada. baixinho. 37 . Submersos em beijos. . . mas não só… – respondeu ela arrancando-lhe uma ruidosa gargalhada. claro que não. – Pára – pediu ela desesperadamente. . Estava antes diante de um dos homens mais fascinantes que lhe haviam atravessado o caminho e a sua única vontade era voltar a enterrar-se na boca dele e sugar-lhe todo o sabor que ele a fizera provar momentos antes. – Eu sei que devo parecer ridícula… .Fiz mal?! . mãe de dois filhos adolescentes… . que és divorciada e que tens dois filhos adolescentes… .Desculpa – disse ele. pensou. que Madalena se deixou encostar à parede permitindo que Sérgio a livrasse do vestido que ela utilizou para o fascinar durante toda a noite.Diz! . intrigado. ela puxou Sérgio contra si e realizou todos os desejos que manteve escondidos durante a noite. – A sério! Pára…! .

.Tchau… . – E assim que puder eu ligo-te. . os braços musculados que ele tinha e a forma como se deixou entregar a ele durante horas a fio.Eu nunca fiz isto.Nem eu! Confesso que até já tinha perdido esperanças que ele te voltasse a ligar. – Adorei … .Disse que tinha tido muito trabalho durante a semana e que por isso não teve tempo para me ligar antes – respondeu Madalena levando a mão ao queixo.respondeu Madalena permitindo que Sérgio se afastasse com um largo sorriso e encontrasse o carro estacionado a poucos metros da sua casa. . – Ai. na altura.Aleluia – foi a reacção de Alice na manhã seguinte quando Madalena lhe contou todos os detalhes que rodearam a sua noite com o Sérgio. não sabia. passámos uma noite fantástica e … eu fiz sexo – exclamou Madalena arrancando 38 .Eu também. . . .Ir para a cama com um homem que mal conheço – respondeu Madalena soltando um outro suspiro quando ele mordiscou a sua orelha direita. . . . cada segundo… . ela voltou a fechar a porta e deixou que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo em forma de gritos.Prometes?! .Ligas hoje? . .confessou Sérgio. meu Deus! Não faças isso… Quando os primeiros raios de sol se impuseram nas janelas e demonstraram que era altura de voltar à realidade.O quê?! – perguntou Sérgio devorando-lhe o pescoço.Adorei cada minuto. Não lhe importou a sua triste figura enquanto subia as escadas pois tudo o que ela queria era continuar a sentir os lábios de Sérgio. – Achas que deva acreditar? . o quê? . nada disso importou. Como é que poderia dormir se nada daquilo lhe saía da cabeça? Aliás.Nós vamos repetir tudo outra vez.Claro que sim. como poderia sequer pensar em trabalhar quando a sua única vontade era continuar ali deitada para sempre de olhos postos no tecto? Ou estariam antes postos no céu? De facto. . . as horas de prazer que passaram juntos não deixaram outra alternativa.Prometo. De resto. mas realmente não é isso que importa! O que importa é que ontem saímos para dançar. .Então eu vou – disse ele beijando-a novamente. Depois disso.Cada milésimo de segundo – riu-se Madalena ainda colada aos lábios dele..Bem.Quero repetir tudo outra vez! . Precisavam ver-se.Isto. Contudo. Sérgio e Madalena despediram-se à porta de casa com um longo beijo e com a promessa de tornarem a reencontrar-se assim que possível. . esperneios e uma dança absolutamente ridícula ao longo do corredor. Ele não tinha razões para te mentir.Ligo.Tchau! . precisavam sentir-se e precisavam urgentemente ter-se um ao outro sem pensar nas consequências que aquele caso poderia trazer às suas vidas. .Nunca pensei que pudesse acontecer tão rápido.Então se for assim eu deixo-te ir.

Lingerie e Madalena pôde ter essa certeza quando a observou dos pés à cabeça. Faltavam apenas vinte e quatro horas para que Sara e Daniel regressassem de Marrocos e para que a vida de Madalena retomasse o curso habitual.É?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. Sim. 39 . E que homem. – Acreditas nisto?! Eu fiz sexo! Fiz sexo. um pouco degradados. mas tal como disse. Uma rua famosa pelos seus prédios antigos. Diante da chegada dos filhos.Hã! Do estúdio de um fotógrafo chamado Sérgio Almeida. preparar os filhos para a escola.Está à procura de…?! – perguntou a jovem passando as mãos pelos cabelos com uma descontracção fora do normal. após um dia cansativo na floricultura. não foi muito difícil para Madalena encontrar o estúdio de Sérgio que ficava exactamente situado num dos pontos mais movimentados da cidade. ou pelo menos escondido até que tivesse coragem de lhes contar que a mãe finalmente havia encontrado alguém para lhe aquecer os pés nas noites frias de Inverno e para lhe destapar os lençóis nas noites quentes de Verão.…eu acho que me enganei. .Não – afirmou Alice sentando-se à frente dela. Acordar cedo. Sexo… . era uma proposta irrecusável e ela aceitou-a sem pestanejar já que os filhos só chegariam a Lisboa no Sábado de manhã repletos de histórias para contar e presentes que juraram ter adquirido para si. será que não percebes?! Tu és a prova viva que uma mulher acima dos quarenta. principalmente por saber que não teria tanto tempo para estar com Sérgio e muito menos a possibilidade de o levar para a sua casa e fazer amor com ele no corredor. Mais tarde. acho que me enganei. . no sofá e no quarto. . E assim. percebeu que tinha chegado ao destino. sair a tempo de buscar o filho mais novo ao colégio e voltar para casa onde a preparação do jantar era a palavra de ordem. Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser os encontros fortuitos de Madalena e Sérgio ao final da tarde que muitas vezes culminavam com um jantar e uma noite de prazer na casa dela. Com o endereço nas mãos. a simples ideia de que as coisas voltassem a ser o que eram antes. Contudo. de cabelos loiros. Madalena aceitou o convite de Sérgio para conhecer pela primeira vez o estúdio fotográfico que ele dirigia. A Rua do Carmo.Não. . Ele deu-me o endereço. a carta de alforria que ela havia conseguido quando os filhos partiram de viagem foi-se esgotando no prazo de validade. provocava-lhe um verdadeiro ataque de histeria. minha amiga! Que homem! . E foi exactamente à procura de uma história que ela subiu as escadas do edifício onde se encontrava instalado o estúdio de Sérgio. tudo isso faria parte do passado. morria feliz. .vários pulos de alegria por parte da sua melhor amiga. a pouco e pouco. Naquela sexta-feira. olhando novamente para o papel que tinha nas mãos. Não. Um toque. – Tu não podes morrer nunca. divorciada e com filhos consegue arranjar um homem que se interesse por ela.Estou tão contente como se tivesse acontecido comigo.Acho que se morresse hoje. saltos altos e uma lingerie que tapava apenas o essencial. Na verdade. . dois toques e a porta foi aberta por uma jovem altíssima.Eu sei – riram-se alegremente. abrir a floricultura. . mas com imensas histórias para contar. não se enganou! É aqui mesmo.

. .Gosta? – questionou ela mostrando o fio dental sobre uma das mesas do estúdio. – Isso! Isso mesmo! Agora reflecte a perna e olha para mim… . – Você também veio fotografar? .Desculpa! Já chegaste?! Não te vi entrar – disse Sérgio quando finalmente se apercebeu da presença de Madalena no estúdio. um famoso anúncio televisivo dos anos noventa. . – Inclina um pouco mais a cabeça. mas eu não costumo usar fios dentais. . – Quer dizer. 40 .Eu?! Não! Definitivamente não. nada poderia ser mais provocante e explícito. Eu é que acho que vim numa má hora. até mesmo porque essa seria a atitude mais sensata a tomar tendo em conta as pernas bem definidas e o busto daquela modelo que não aparentava ter mais do que vinte e cinco anos. .Chegámos – exclamou a modelo parecendo ignorar a última frase de Madalena quando abriu a porta e a encandeou com as luzes vindas do estúdio.É giro – respondeu Madalena segurando nas mãos um pequeno pedaço de tecido.informou a jovem caminhando com Madalena pelo pequeno corredor quase às escuras. assim como as poses sensuais que a modelo fotografada fazia questão de oferecer às lentes de Sérgio. tudo o que ela não imaginava era encontrar duas mulheres seminuas que em muito lhe faziam lembrar os seus vinte e cinco anos. – Esses são muito bons para nos levantar o rabo.Uma campanha de lingerie.Vou pensar no caso – murmurou Madalena desejando desaparecer o mais rapidamente possível. Na aparelhagem soava igualmente uma música bastante insinuante que muito lembrou a hora Coca light.Sim. mas é giro. por favor… . . .São os novos fios dentais da Vitoria Secret.Está tudo bem? . – Ele está a fotografar uma outra rapariga… .dizia ele totalmente concentrado no que estava a fazer. . Tem que comprar. Ainda tentou beijá-la. Entre! Na verdade. para criar alguma vergonha na cara e para não se iludir com um homem que parecia viver rodeado de modelos belas e esculturais. I just wanna make love to you. Muito bom! Estás óptima. é minúsculo. a única vontade de Madalena era fugir e fingir que nunca estivera ali. . .Olá! . Era como se algo lhe gritasse aos ouvidos para desaparecer. Porque apesar de tudo. mas por sorte ela desviou-se a tempo para que as duas modelos não descobrissem a sua verdadeira identidade. De facto.Pois devia – respondeu a modelo bebendo um gole de água com a ajuda de uma palhinha fluorescente. pois quando Sérgio a convidou para conhecer o seu estúdio fotográfico..Isto é para quê? – perguntou Madalena aos ouvidos da modelo que lhe havia aberto a porta minutos antes.Assim!? – perguntava a modelo sem sequer se aperceber dos olhares aterradores que Madalena lhe fez questão de lançar de longe. Sim. .Uau! .Obrigada.Está tudo óptimo. ela também já tinha tido vinte e cinco anos. .Sim.

lembraste?! .Ainda vai demorar muito a sessão? . Para além disso. Vera parecia muito mais segura de si. . Seriam namorados? Amigos? Ou qualquer outra coisa pelo meio? De qualquer maneira não devia ser nada sério visto ela aparentar ser mais velha que ele.Só falta fotografar a Natália e depois fico despachado por hoje. mas com a Vera sim. Madalena não resistiu a observar a forma como Vera bebia a água pela garrafa. tudo bem. – São simpáticas.Não.Claro que não – respondeu ele poisando a máquina fotográfica sobre uma mesa repleta de cabos. Madalena percebeu que não era apenas a beleza a única característica que a diferenciava de Natália. 41 .Quem?! . . era também perceptível que a presença de Madalena a incomodava mais do que qualquer outra coisa.As tuas modelos. mas ainda assim. ao olhá-la com um pouco mais de atenção. computadores e outros aparelhos electrónicos que utilizava para trabalhar. quanto a isso não havia dúvidas. Importaste de ficar à espera só mais uma hora?! É que nos atrasámos por causa das luzes e também porque a equipa da maquilhagem e dos cabelos só nos apareceu por aqui depois das quatro.. especialmente quando a viu tão perto de Sérgio e percebeu que algo os unia. Ao lançar os olhos para o cenário improvisado. – Já tínhamos combinado. imponente e profissional o quanto bastante para nem sequer lhe dirigir a palavra ou esboçar qualquer expressão facial quando os seus olhares se cruzaram pela vigésima vez. Era uma jovem bonita.Com a Natália não. É a primeira vez que trabalhas com elas? . Eu espero – respondeu Madalena lançando os olhos àquela sala desarrumada.

voltámos todos são e salvos.Mãe. Os seus filhos que após um mês de férias resolveram regressar a casa e brindá-la com as suas risadas e brincadeiras. – Porque é que tens sempre que te meter aonde não és chamada? 42 . Sara?! Não me vais dar um beijo? . – E vimos golfinhos. animado.A Vanessa está no carro. .Que bom que se divertiram – disse Madalena rasgando alguns olhares à sua filha que ao contrário do irmão nem sequer se dignou a cumprimentá-la com um abraço.CAPÍTULO III O aspirador foi desligado na sala quando faltavam poucos minutos para as onze da manhã e tudo porque a porta da rua se abriu sem qualquer aviso prévio trazendo consigo as duas pessoas que Madalena mais desejava ver na altura. . vocês deviam ter… . .Olá! . . .Tivemos que parar duas vezes no caminho para ela vomitar – disse Daniel recebendo alguns afagos na cabeça por parte da mãe.Porque ela veio um pouco mal disposta da viagem.Fomos à praia todos os dias – respondeu ele.Olá. .Estás todo bronzeado.Deve ser coisas de mulheres – respondeu Jorge não querendo adiantar muitos detalhes acerca do assunto. . .Como vês. .A sério? Porque é que não passaram por um hospital? .Porque é que não a convidaste para entrar? . o pai já disse que não foi nada importante – resmungou Sara sob o olhar incrédulo de Madalena.Ainda bem – respondeu Madalena compondo-se na sua camisola de malha.Estás bonita. – E a… Vanessa? Não veio com vocês? . – Então. mãe! Foi bué fixe! .Obrigada. .Mesmo assim.Ai que saudades! .Eu também tive saudades tuas. – Mãe – exclamou Daniel correndo em direcção à sua progenitora e aninhando-se nos braços dela. .Claro – respondeu ela obedecendo ao pedido sem muito entusiasmo enquanto o pai arrastava as malas para o interior da moradia. Daniel e Sara. . Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso.

. aliás.Ela só tem quinze anos.Só te estou a avisar.Eu nunca coloquei os nossos filhos contra ti – respondeu ele largando os braços. mulher à razão. .Claro – riu-se Jorge secamente. . ..Jorge. marido. de a encheres de mimos e de a sufocares com regras que a está a fazer afastar-se de ti? – discursou Jorge tentando trazer a ex.Lena. Agora sai! . . mas com a Sara já não resulta e tu tens que meter isso na cabeça. . Um local onde pretendia trancar-se durante vinte e quatro horas e não sair de lá nem por decreto de lei.Sabes qual é o problema da Sara contigo? Madalena calou-se.E… . . não era?! 43 .E o que é que vais dizer? Que a culpa é minha? . Será que não percebes que é essa tua mania de a quereres proteger de tudo e de todos. Não iria almoçar. .E tu irias adorar se isso acontecesse.Eu não perdi a razão! Eu tenho razão. .O que foi? – perguntou Jorge sabendo à partida que iria ser criticado por algo que ainda nem sabia o que era.Tu viste como é que a Sara falou comigo? .Sara?! . . – Com o Daniel até pode resultar. . eu estou a jogar limpo contigo.Está bem – respondeu o último subindo as escadas a correr.Que raiva! Se soubesse tínhamos ficado mais uns dias no Algarve.É claro que é tua – respondeu Madalena tentando manter a voz baixa. – Que raios! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? . – Foi contigo que ela esteve nestas últimas quatro semanas e olha só como é que ela voltou?! .Boa! Quando sentes que perdes a razão. – O problema é que tu a tratas como se ela fosse uma criança.Por isso mesmo! É uma adolescente e não uma criança. não iria jantar e nem queria sequer responder às perguntas da mãe que com certeza seriam as mesmas. mas ela já não é uma criança. – Preciso falar com o pai. – Daniel! Sobe e vê se tomas um banho antes do almoço – pediu Madalena trocando um olhar cúmplice com o ex. .Sai – exclamou Madalena abrindo a porta de rompante. eu não tenho a culpa que tu e a Sara nunca se tenham dado lá muito bem. – Então continua assim para ver se a Sara não se afasta de ti de vez. . afinal de contas ele ainda é uma criança. eu sempre joguei! Mas não queiras colocar os nossos filhos contra mim porque eu não vou admitir uma coisa dessas.E?! Ainda perguntas… e…?! Ela nunca me enfrentou dessa maneira.Tens a certeza!? . Não. Ela realmente não tinha paciência nenhuma para as responder.Nós sempre nos demos bem. Aonde é que foram? O que é que fizeram? Como é que o pai se portou? Comeram todas as refeições? Não. reages sempre assim… . Estas foram as últimas palavras de Sara antes de agarrar nas suas malas e subir as escadas em direcção ao quarto.

eu não iria adorar. . não.Sim! Tenho que entregar tudo pronto na semana que vem. – O quê?! . Sabes porquê!? Porque tu és insuportável. Sara entrou na cozinha e surpreendeu a mãe encostada ao lava-loiça completamente submersa numa conversa telefónica. eu estava – murmurou Madalena tentando esconder o facto de não ter visto a filha mais velha desde a hora do almoço quando ela resolveu trancar-se no quarto com uma música rock aos altos berros. 44 . .E tu? Como é que te correu o dia? . E a verdade é que estava tão submersa nos seus pensamentos que nem sequer se apercebeu do telemóvel a vibrar sobre a bancada da cozinha.Jorge. . eu mato-te! .…claro – disse Madalena tentando esquivar-se aos olhares lancinantes que a filha lhe lançou enquanto abria a porta do frigorífico. Com quem estaria a conversar.Aquela campanha de ontem? . um número perdido e a raiva que sentiu ao final da noite quando descobriu que a pessoa que lhe tinha tentado ligar era Sérgio. Mas para que tenhas um rasgo de clarividência.Eu não quero tirar a Sara de ninguém. se tu me levares a Sara daqui. – Imaginei que estivesses com os teus filhos. .Algum problema?! . . . – Nada de especial! Agora estou para aqui a ver se consigo melhorar as fotos para a campanha da Vitória Secret. A revelação de Jorge não podia ser mais bombástica e prova disso foi o recuo de dois passos por parte de Madalena. marido continuou a ecoar-lhe nos ouvidos durante a tarde toda.Tenho a certeza que te vais sair muito bem! És um excelente fotógrafo. para Madalena foi completamente impossível realizar tal tarefa.Está bem – respondeu Sérgio desligando a chamada quando se deu por vencido.Isso é o que importa.Isso mesmo que ouviste! Ela quer morar comigo.É. Apesar de ter tentado controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. . perguntou-se. Uma chamada não atendida.Não faz mal – respondeu ele. infelizmente vou ter que desligar. . – Escuta.Advinha lá!? O sentimento é recíproco… – respondeu Jorge saindo porta fora. . pois a discussão com o ex. . nenhum..Como é que foi a viagem? .Não. – Desculpa – pediu ela retornando a ligação assim que terminou de arrumar a loiça do jantar.Acho que correu bem. .Obrigado pelo elogio – riram-se os dois. Eu ligo-te depois. Podemos falar mais tarde? . Nessa altura. – Só vi a tua chamada agora. .Estive a trabalhar – respondeu Sérgio analisando algumas das fotografias que tirou durante a tarde. deixa-me dizer-te que durante estas férias a nossa filha pediu para morar comigo. já disse! Mas eu entendo o porquê de ela se quer ir embora cá de casa.E eu odeio-te! .Não precisavas ter despachado a pessoa com quem estavas a falar só por minha causa… – afirmou Sara servindo-se de um copo de sumo sobre a mesa da cozinha. .Apesar de não acreditares. Pelo menos eles vieram animados.

– Se estás à espera de um pedido de desculpas. .Não te faças de desentendida. Sara! Ele contou-me que tu pediste para ir morar com ele.Eu tenho todo o direito de querer escolher com quem quero ou não morar – respondeu Sara poisando o copo de sumo sobre a mesa. . é melhor esperares sentada… – afirmou Madalena tentando manter a expressão aterradora que tinha no rosto.O que é que foi que eu fiz? . Silêncio foi a resposta de Sara embora os seus olhos estivessem a vermelhar de raiva. – Lá porque tu decidiste que eu e o Daniel tínhamos que ficar contigo. sapatos e computadores!? O que é que queres mais? . .Sara… . isso não significa que nós queiramos realmente ficar contigo. . hã – vociferou Madalena aproximando-se bruscamente dela.O quê?! . .Eu quero que morras… A resposta efusiva de Sara tomou Madalena de assalto. Porque é que se estava a sentir assim. . foi a pergunta que imperou no ar enquanto os seus olhos mais uma vez lutavam contra as lágrimas.Qual é o teu problema. Sara – imperou Madalena calando-lhe os argumentos. nunca te passou isso pela cabeça? . .Apesar de odiares a ideia de que eu adore o meu pai. lembraste?! Não fomos nós. 45 .Não me levantes a voz. um quarto só para ti.E tu sabes bem qual foi o assunto. tu é que vais ter que esperar sentada.Tu não vais a lado nenhum! . – Nunca mais na tua vida te atrevas a levantar-me a voz. . .Nem sequer falaste comigo sobre os teus planos quando sabes muito bem que sou eu quem tem a tua guarda e a guarda do Daniel. É verdade? .Eu quero passar uns tempos em casa do pai.Sei?! .Foste tu que o escolheste para ser o nosso pai. .Ai é?! . a verdade é que eu adoro e tu vais ter que te habituar a essa ideia. – Diz lá! Não tens tudo aquilo que precisas? Não tens um tecto.Estive a conversar hoje com o teu pai. porque eu ainda continuo a querer que morras – respondeu Sara abandonando a cozinha sem sequer terminar o sumo que deixou sobre a mesa e deixando Madalena a sentir-se o pior ser humano à face da terra. .Achas bem aquilo que fizeste?! . O olhar de ódio disse tudo. Podemos ter uma opinião diferente.Sim – respondeu a jovem com toda a calma do mundo. comida. mas nem por isso a inibiu de oferecer à filha uma valente bofetada no rosto que a fez recuar dois passos e suster a face com a mão.Que opinião?! . .Não! Se tu estás à espera de um pedido desculpas.Não foi por tua causa – disse Madalena largando o seu telemóvel sobre a mesa. – Mas ainda bem que te ponho os olhos em cima porque precisava esclarecer uma coisa contigo.Não me podes impedir de morar com ele! Ele é o meu pai. roupas.Eu não acredito que me estejas a dizer uma coisa dessas..

nem mesmo a brincar.Bem. ..Achas?! – perguntou Madalena não muito segura das palavras da melhor amiga.Deixá-la ir morar com o pai.Culpa do comportamento da Sara. lá isso é verdade. .Garanto-te que se a Sara fosse morar com o pai.Tu és uma caixinha de surpresas – afirmou Madalena sugando-lhe a face.O Jorge disse-me que a culpa era minha porque eu ainda não me tinha dado conta que a Sara já não era uma criança e que não adiantava nada enchê-la de mimos e regras porque isso só faria com que ela se afastasse ainda mais de mim… – discursou Madalena cruzando os braços. ai de nós se levantássemos a voz aos nossos pais! Era logo um par de estalos e assunto encerrado. – Achas que ele tem razão? . . não sei. tratar da roupa e das compras do supermercado. . .Infelizmente nunca tive essa sorte. Quando ela tiver que cozinhar.Claro que não. – E tu estás preocupada com isso? .Faz uma experiência! Diz que aceitas que ela vá morar com o pai e que não te opões em nada.A adolescência é assim. . . .O Jorge é um idiota. sabias!? . ou esse azar. ela que vá! Apesar de nunca ter tido filhos. em menos de duas semanas estava de volta. – Não lhe devia ter dado aquele estalo. Lena! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? .Eu só queria saber o que é que se passa com ela. acredita que de adolescentes eu percebo bem e sei que quanto mais nos mostrarmos contra alguma coisa.Porque os tempos eram outros! No nosso tempo. Mas diz lá qual é o problema concreto desta vez! .Alice!? Estás louca?! .foi o desabafo de Madalena à melhor amiga várias semanas mais tarde.Claro que estou.…volta a correr para a maravilhosa mãe que anda a desperdiçar. .Achas que a culpa é minha? – perguntou Madalena encostando-se ao expositor da loja.Quando ela perceber o traste do pai que tem – riu-se Alice.Culpa do quê? .A Sara quer morar com o pai. . .O quê?! .Pois eu acho que devias. . Mas se tivesse uma filha como a Sara. Achas que eu sou uma má mãe? . . volta para casa com o rabinho entre as pernas e ainda te trata a pão-de-ló. . Lena! . Se ela quiser ir.Estás a gozar!? – riu-se Alice enquanto terminava o arranjo de margaridas. 46 . . – Devias ter tido filhos. era exactamente assim que iria reagir. Eu não quero que ela vá morar com o Jorge sabendo bem que ele é um irresponsável de todo o tamanho. – Onde já se viu?! Ninguém deve desejar a morte da própria mãe.A minha adolescência não foi assim e a tua também não.Sinceramente não sei o que fazer… . Desde há uns meses para cá tem andado estranha e fala com as pessoas como se as quisesse bater. mas eles a querem fazer. .É claro que devias – ripostou Alice ajeitando um ramo de margaridas encomendadas pela manhã.

É isso mesmo que vou fazer.k! Então amanhã vou ligar ao pai – afirmou Sara não cabendo em si de contente por finalmente se ver os seus desejos concretizados.Pois então! Fala com o teu pai e combinem um dia para ele te vir buscar. a única coisa que lhe restava era tentar convencer a ex. Quando recebeu o telefonema da filha no dia seguinte. ela não hesitaria um segundo em arrancar a filha da casa do pai com as próprias mãos. E logo ele que sempre pensou que a ex. . Claro que não. . Jorge mal conseguiu acreditar que o seu pior pesadelo se tinha concretizado sem qualquer aviso prévio. Alice estava certa quando disse que todas as tarefas domésticas recairiam sobre os ombros de Sara enquanto ela estivesse em casa de Jorge. Não valia a pena opor-se à ideia de Sara em morar com o pai pois ela continuaria a fazer-lhe a vida negra caso se mostrasse contra aquela resolução estapafúrdia. mulher nunca iria ceder às chantagens de Sara ou sequer permitir que ela saísse de uma casa onde tinha nascido e crescido. – É o teu falecido – sussurrou Alice passando a chamada. O que devia fazer para descalçar aquela bota? Ao desligar o telefone do escritório. – Estás-me a dizer que eu posso ir morar com o pai… . tudo bem?! Escuta! A Sara ligou-me há pouco.Diz Jorge – exclamou Madalena recebendo o auscultador das mãos da melhor amiga. Mas e se a filha não voltasse? E se ela continuasse a morar com o pai para sempre? Não. . ele lançou os olhos a um quadro pendurado na parede e por momentos tentou encontrar uma maneira de se livrar daquele problema. assim que chegasse a casa naquela noite. mas eu fiquei sem entender uma coisa… . . mulher a convencer a filha de que a sua saída lá de casa realmente não era a melhor ideia. Duas semanas era o prazo que Madalena tinha estipulado para aguentar aquela prova de fogo. limpar o pó ou fazer a própria cama? Diante daquela catástrofe apenas comparada à Segunda Guerra Mundial. – Ou não me digas que já não queres ir? .É claro que quero.O. para umas visitas turísticas ao seu quarto e também onde passava as poucas horas livres que o trabalho lhe deixava durante o dia sem sequer se preocupar em lavar a loiça. e logo ela que sempre foi preguiçosa até para fazer a própria cama. com certeza não aguentaria mais do que duas semanas.foi a surpresa de Sara quando a mãe lhe informou sobre a sua decisão após o jantar. Já te tinha dito isso há quase dois meses. . Ela tinha razão.Pensei melhor – mentiu Madalena. – E quem sabe me vá embora já esta semana. diria que tinha pensado melhor e que era totalmente a favor da sua partida.A conversa foi interrompida com a chegada de um cliente à loja.O quê!? 47 . Sim. mas se mesmo assim os seus planos saíssem furados. Por isso. mas nem por isso Madalena se esqueceu das palavras de Alice enquanto o atendia. A Sara lá em casa? Uma adolescente de quinze anos em sua casa? Uma casa que normalmente costumava levar as suas amigas para umas noitadas de copos. decidiu Jorge enquanto digitava o número da loja de Madalena.E posso saber porque é que mudaste de ideias? . Raios. Sim.Olá. Ponto final. .Sim! Podes.

.Porque não!? Ela não te adora tanto? Se a Sara quer morar contigo.Bem. Sexta-feira foi o dia em que Jorge percebeu que já não lhe restava nenhuma outra alternativa a não ser buscar a filha à casa da ex.Quer dizer. a única coisa que eu posso fazer é apoiá-la.O meu esquema?! Eu não tenho esquema nenhum – respondeu Madalena tentando ignorar as risadas de Alice quando colocou a chamada em conversação alta. 48 . Mas já estás pronta? .Está lá cima a terminar de fazer as malas – respondeu Madalena permitindo-lhe a entrada.Por enquanto vai só a Sara. . isso não aconteceu. Quem sabe tu me podes ajudar a fazer isso? O que é que achas?! – discursou Madalena sob uma ruidosa gargalhada que Alice não conseguiu evitar. provavelmente devo ter percebido mal.A Sara disse-me que tinhas concordado com a ideia de ela vir morar comigo.Fogo! Eu também queria ir.Estás a gozar. Por azar.Porque é que eu também não posso ir? – perguntou Daniel para grande desespero do pai. marido. eu sei – respondeu Jorge passado as mãos pelos cabelos aparados.Sim. .Então queres convencer-me que queres realmente que a Sara venha morar comigo? É isso?! . primeiro disseste que me matavas caso eu me atrevesse a tirar a Sara lá de casa e agora ela liga-me toda contente a pedir para que eu a vá buscar nesta sexta-feira. Inventam mentiras. . Jorge! Tenho a certeza que vais adorar. pai – disse ela. desculpas… .Então vamos. É verdade? Silêncio foi a resposta de Madalena. . – Tenho a certeza absoluta que uns dias na tua casa apenas lhe iriam fazer bem.É. filho. mulher. não?! . Afinal de contas já o conhecia há tantos anos que não foi muito difícil para si descobrir o verdadeiro motivo daquela chamada telefónica tão inapropriada.Estou – respondeu ela passando as mãos pelos cabelos soltos. – Apanhei um trânsito infernal no caminho. . – Estás aí? . Um olhar aterrador foi o que Jorge voltou a lançar a Madalena enquanto Sara descia ao primeiro piso sala carregada com duas enormes malas e uma mochila preta que a acompanhava todos os dias à escola.A gozar porquê? .Sim e não faças essa cara de sonsa – exclamou Jorge caminhando apressado em direcção à sala onde encontrou o filho mais novo a jogar Playstation. . Quero ver-te com a Sara vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. – Sim! É verdade.Eu?! . – Ela já está pronta? .. abrevia por favor – interrompeu Madalena percebendo bem qual era o estratagema do ex. além de que estavas certo quando disseste que eu tenho que parar de a tratar como se fosse uma criança. O que é que se passa? Qual é o teu esquema? . os seus planos e desculpas saíram furadas levando-o àquela verdadeira situação de desespero. a única coisa que quis foi que a relva do jardim o engolisse. não foi!? . e enquanto abria os portões da moradia. . .Jorge. Apesar de tudo. – Demoraste. Sabes como é que são os jovens quando querem realmente uma coisa.Fizeste de propósito.

Pela primeira vez desde sempre o lugar de Sara não foi ocupado durante o jantar.Está bem. e pela primeira vez.Tchau – disse Sara despedindo-se da mãe com um beijo na face e do irmão com um pequeno empurrão nos ombros. – Vê lá se ligas… . – Mas já estás com duas na mão. Foram precisos apenas cinco minutos para que Jorge regressasse novamente ao primeiro piso e tivesse a seu cargo cerca de três malas para arrastar em direcção ao carro. afastou-se sem sequer olhar para trás e enfiou-se no carro do pai enquanto ele terminava de ajeitar as malas. .Outra mala?! – indagou Jorge esbugalhando os olhos. mulher. cintos de segurança colocados e a partida. Sabes o que isso é? .Não! Tenho mais uma outra mala lá em cima que não consegui trazer junto com estas. foram algumas das cenas que Madalena observou de longe enquanto o seu coração se apertava e a companhia de Daniel era a única coisa que não a deixava desmoronar. saiu e nem sequer se dignou a despedir da ex. não achas?! . Nessa altura.Está bem. 49 . tomou um banho e vestiu uma camisola confortável com o intuito de dormir como uma pedra e esquecer-se do dia em que viu a filha escapar-se-lhe por entre os dedos sem nada poder fazer. – Mas infelizmente estás longe. tentou enfiar essas palavras na sua cabeça e acreditar no que Alice lhe dissera dias antes quando a aconselhou a baixar as guardas e permitir a saída de Sara lá de casa. .Desculpa – sorriu Madalena percebendo imediatamente a sua gafe.É claro que ela vai voltar.Foi-se embora hoje e eu tenho medo que nunca mais volte. o telemóvel vibrou sobre a mesinha de cabeceira e fê-la estender o braço em direcção a ele. Ela vai voltar.Diz-me – interrompeu Sérgio caminhando calmamente pela rua. Depois disso.pediu Madalena tentando controlar as lágrimas quando percebeu que a partida da filha era inevitável. . .Podias fazer tantas coisas – riram-se os dois. Quem sabe não seria Sara para lhe dizer que queria voltar? De qualquer maneira não custava nada sonhar. .O que é que queres?! Tenho que levar as minhas coisas nalgum lado. – Desculpa por não ter ligado nesses dias. Depois disso. . sendo que essa tarefa enfadonha recaiu inteiramente sobre os ombros de Sara. Portas fechadas. . – Já que Maomé não vai à montanha… – afirmou Sérgio com a mesma voz jovial de sempre. . – O que é que eu posso fazer para animar essa voz? .Quem me dera poder acreditar nisso. está bem! Eu vou lá acima buscá-la.Sim! Filhos.Infelizmente não.A minha filha foi morar com o pai. .Problemas?! . . Depois disso. enquanto estava completamente submersa nos seus pensamentos. .A sério?! . .. três dias. Madalena assustou-se com a terrível ideia de que a sua filha havia partido para sempre quando fechou a porta do quarto e deu por terminada a noite.Eu ligo daqui a dois.

. . – Então fica assim combinado? No domingo depois do almoço? .riu-se Madalena. – És louco – disse Madalena ouvindo-lhe as risadas através do telefone.Temos que combinar alguma coisa. . algumas migalhas de pão sobre a bancada e o frigorífico às moscas. . . . – Pai! Tu não tens nada que se coma aqui dentro. . – Que bom que estás aqui – disse ela enterrando-se nos braços dele e tentando absorver-lhe todo o calor do corpo. o telemóvel nos ouvidos e o sorriso estampado no rosto. mas Madalena recusou-se a acender as luzes.Algumas horas?! Hum! Parece-me interessante. . E mais palavras não foram precisas para que ela subisse os estores e se deliciasse com a figura de Sérgio sob o portão.k .Eu sei. não lhe importou absolutamente nada a não ser tê-la nos braços e matar todas as saudades que sentira desde a última vez que estiveram juntos. – Foi por isso que vim. a visão de Sérgio foi a primeira coisa que a fez sorrir naquela sexta-feira particularmente triste e sombria. – Mas estou ansiosa para ir. Tal como sempre as escadas que ligavam os dois pisos encontravam-se às escuras.Não – respondeu ela com um sorriso malicioso. – Mas não posso. anos… . – Sai à janela – pediu ele. pois as únicas coisas o que viu à sua frente foram loiças sujas do jantar. Uma das mãos nos bolsos das calças. .Li os teus pensamentos – riram-se os dois.Quem disse!? Silêncio e surpresa foram as reacções de Madalena.O meu pai vem almoçar no domingo e eu estava a pensar em deixá-lo a tomar conta do meu filho por algumas horas.E o que é que eu vou comer para o pequeno-almoço? 50 . – Eu juro que te convidava a entrar – disse ela segurando-lhe a face com firmeza.Pois eu iria precisar de semanas. mas no entanto parecia uma eternidade. . Tinha sido apenas há uma semana. não é!? .Mas foi bom teres vindo! Nem sabes como estava a precisar de um beijo teu.Claro! Assim conheces a minha casa. . – Esquecime de passar pelo supermercado esta semana. meses.. talvez para não acordar o filho. O dia amanheceu ensolarado e foi com algum custo que Sara se dirigiu à cozinha crente de que iria encontrar um belíssimo pequeno-almoço à sua espera. Por sorte. e quando abriu a porta de saída.O quê?! .Algumas horas é tudo o que eu preciso para matar as saudades que sinto de ti. Quando voltou a encarar-lhe o rosto iluminado pelas luzes das escadas. Na verdade. eram essas as características que melhor o definiam.Raios – exclamou Jorge levando as mãos à cabeça quando entrou na cozinha. . mas a verdade é que ela resolveu utilizar as mãos para saber onde estava. Pura ilusão? Talvez.Eu também morri de saudades tuas.Não consegui aguentar de saudades. baixinho.Desce! Estou à tua espera. talvez por preguiça. O que é que eu vou comer? Realmente nada tendo em conta o que viu nos armários e nas gavetas vazias. Sérgio afundou-se nos lábios de Madalena e beijou-a com toda a paixão que possuía dentro de si. Ainda não foste lá. .O. conseguiu alcançar o corredor sem se esbarrar em nenhum móvel.

– Vou passar o dia todo no escritório às voltas com uns arquivos que tenho que rever.Posso sair? Combinar alguma coisa com as minhas amigas? . a sua única vontade foi de experimentá-lo. Eu deixo-te dinheiro. Cheirou-o. . Em cinco minutos estás lá. . ir ao supermercado é a coisa mais fácil do mundo e tens um aqui mesmo ao pé. – Depois do supermercado. – Não acredito! Que pervertido… .Eu nunca lá fui sozinha.Até logo.Mas pai… . . .Café – respondeu ele aproximando-se da máquina sobre a bancada. despediu-se da filha deixando-lhe o cartão de multibanco e a certeza de que não voltaria a casa antes de o anoitecer. Podia fazer tudo aquilo que quisesse.E o que é que eu faço para passar o tempo? – perguntou Sara acompanhando-o à porta. .Até logo – respondeu Sara fechando a porta com um largo sorriso e com a certeza que a sua estadia em casa do pai iria ser no mínimo maravilhosa.O. massas. . – Tens que ir ao supermercado.Claro – respondeu Jorge beijando-lhe a face. dançar sobre o sofá como uma louca e vasculhar todas as gavetas lá de casa sem medo de ser apanhada por alguém. 51 .Aproveita que hoje não tens aulas e vai! Jorge demorou apenas cinco minutos para engolir o café que fizera. bolachas. . . . – Gostas dele forte ou com leite? . Sim. .E o que é que eu vou comprar lá? . Podes aquecê-lo no microondas se quiseres. . enjoou-se com o cheiro. ela viu-se pela primeira vez a tocar num preservativo.Eu não bebo café. intrigou-se com a oleosidade. estás livre para fazer aquilo que quiseres.Posso?! . . fruta. E quando finalmente percebeu. desenrolou-o numa tentativa desesperada de perceber como aquele objecto funcionava.Mas pai… . arroz.Sim.Compra carne..Hoje não posso – respondeu Jorge retirando uma chávena de café dos armários. Essas coisas! . e por fim.riu-se ela às gargalhadas quando descobriu quantidade exorbitante de filmes pornográficos e oito caixas de preservativos na mesinha de cabeceira do pai.Não acredito que a tua mãe nunca te tenha levado ao supermercado – respondeu Jorge alcançando o pote de açúcar sobre a bancada.Vou comer frango ao pequeno-almoço?! Só podes estar a gozar – resmungou Sara não vendo outro remédio a não ser obedecer às ordens do pai. Podia ouvir música aos altos berros. o que é que se compra num supermercado? Comida. .Podes fazer o quiseres. e depois de vestir o casaco às pressas.k! . A curiosidade foi aguçada ao abrir uma das embalagens. – Além disso.Então bebe sumo! Acho que ainda tem o resto do frango do jantar. Mas podes ir tu ao supermercado se quiseres. e antes que desse por si.Oras.

Ela foi passar uns dias com o pai – informou Madalena provando o molho da carne assada junto ao fogão. e a terceira.Infelizmente naquele Sábado as horas demoraram a passar.Isso era óptimo! Assim quando saísse do banho já tinha alguma coisa para comer. quando entrou à socapa no quarto do pai e ouviu o barulho do chuveiro a trabalhar. a verdade é que Sara não conseguiu a companhia de nenhuma das suas amigas da escola.Hã… já vieste pai?! . Só me falta fazer a salada. e mesmo tendo a tarde livre para fazer o que quisesse. . . Vestiu uma das suas melhores indumentárias. – Mas volta! . .Pensei que fosses demorar mais – respondeu Sara escondendo as caixas de DVD por detrás das almofadas do sofá.Olha. E assim.Volta mesmo?! 52 . não tinha a permissão dos pais para sair de casa sem a presença de alguém mais velho.Fui ao supermercado – disse ela assim que ele entrou na sala.Mais ou menos – respondeu Daniel seguindo-o em direcção à cozinha onde Madalena se encontrava a ultimar os preparativos do almoço. acho que vou tomar um banho porque estou a estoirar de dores de cabeça.Posso pôr a lasanha no forno se quiseres. – Bem. . uma boa notícia – exclamou Jorge espreguiçando-se com vontade. Sara não teve dúvidas de que aquela era a altura ideal para repor os filmes que lhe havia retirado da mesinha de cabeceira. após ter a certeza que se tinha livrado de boa. A primeira tinha ido passar o fim-de-semana ao Douro. Tal como sempre. . . a única alternativa que restou a Sara foi devorar todos os filmes pornográficos do pai enquanto devorava também as pipocas que havia comprado no supermercado da esquina. Jorge não desconfiou de nada e nem sequer teve a brilhante ideia de abrir as gavetas para se certificar que o seu pequeno tesouro que demorou dois anos a ser construído não tinha sido drasticamente usurpado pela própria filha.A Sara já não mora mais connosco – respondeu Daniel para grande surpresa do avô. Assim sendo. – Cheguei – gritou Jorge da porta sem sequer imaginar que a poucos metros a filha se encontrava na sala a esconder os filmes que lhe havia retirado do quarto. Aquele era um ritual que fazia praticamente todos os domingos e daí a pouca surpresa de pequeno Daniel quando abriu a porta e se deparou com a figura do avô. – Andas-te a portar bem? .A Sara?! . Aliviada foi o que se sentiu. – Então rapaz… .exclamou Afonso afagando os cabelos do neto e entrando pelo corredor adentro sem quaisquer cerimónias. Afonso Soares foi pontual para o almoço em casa da filha. .Cheguei cedo? – perguntou ele recebendo um beijo da filha.Consegui despachar-me mais cedo do que estava à espera. Sara voltou a sair do quarto e encostou a porta com um longo suspiro. Por sorte. . Alguns minutos mais tarde.Não! Chegaste na hora.Como assim? Para onde é que ela foi? . A segunda estava nos treinos de judo e não se iria despachar antes das sete tarde. . . agarrou no seu velho Opel Corsa e estacionou-o a poucos metros da vivenda onde a filha e o neto moravam.

Madalena desapareceu do quarteirão e rumou ao centro da cidade com o único intuito de cair nos braços de um fotógrafo que já não lhe era tão desconhecido quanto isso. . . E ao vê-la. 53 . Tens que dar a volta. um beijo tão ou mais apaixonado que o primeiro enquanto se deixava levar em direcção à cama sem se importar com o barulho das obras do vizinho do segundo andar.Claro que volta. Sempre em movimentos contínuos e frenéticos. . aliás. Era ali que ela se sentia segura. – Porque quanto mais escondido estiveres. Madalena precisou de quinze minutos para conseguir estacionar o carro. .Pois podes acreditar – respondeu ele sugando-lhe o pescoço. e depois disso. Conheces?! ..respondeu ele desligando a chamada com um largo sorriso. E sim.O.Olha que eu acredito. terceiro esquerdo. Não.Ainda bem – respondeu ela ajudando-o a desfazer-se da camisa. . – O. Três andares depois e a porta abriu-se. mais te tenho só para mim… .Tu já me tens só para ti. foi impossível não acenar de longe e receber um outro aceno de volta. Na verdade. a tarefa não foi tão difícil quanto isso. pois o fotógrafo permaneceu na varanda apenas para ter a certeza que a sua visita não se iria perder pela segunda vez.Número cento e cinquenta e dois.Aonde é que estás? . em muito mais. correu apressada em direcção à rua de Sérgio pronta a descobrir o número cento e cinquenta e dois e também o andar que ele lhe indicara momentos antes. deves acreditar! Um sorriso radiante foi o que Madalena ofereceu a Sérgio. .k – riu-se ela quando ele atendeu o telemóvel. protegida e ciente de que nada e nem ninguém a poderia separar de Sérgio. respondeu ela esboçando-lhe um sorriso malicioso que disse tudo. Não precisam de ajuda. .Então já estás mesmo aqui ao pé – respondeu Sérgio saindo à varanda.Tu sabes que eu gosto de me esconder. os dois amantes tiveram-se um ao outro e deixaram os seus sentidos perderem-se naquela habitação minúscula dotada de poucos móveis e com uma simplicidade que conferia a Madalena toda a paz e conforto pelo qual havia ansiado durante semanas. Sérgio tinha-se transformado em algo mais. Por sorte. tinha-se transformado no seu amante. acho que sim. . Mas quando conseguiu esse milagre lisboeta em pleno fim-de-semana. . Madalena despediu-se de Afonso e Daniel dizendo que demoraria apenas algumas horas para ajudar a sua amiga Alice a mudar alguns móveis lá de casa. – Acho que estou perdida. foi a pergunta do pai.Está bem! Já agora diz-me outra vez o número do prédio e o andar. Era uma mentira pegada.k! Até já.Hã… numa rua chamada Alecrim. – Não podias ter escolhido uma rua mais escondida para morar? . – Meu Deus – exclamou Madalena às gargalhadas quando ele a arrastou directamente para o quarto. no seu melhor amigo e também no seu grande confidente.Sim. Afonso percebeu no minuto em que a filha saiu à rua e se enfiou no carro estacionado na garagem. – Aliás. – Consegues ver uns prédios verdes? .Até já… . Depois do almoço. Depois disso.O meu fica atrás. Em apenas dois meses.

. – Vera! . Mas ao olhar através do espelho da porta. foi a primeira coisa que reparou.Sim – respondeu Madalena deitando a cabeça sobre a almofada.Estas cerejas estão maravilhosas – confessou ela devorando um dos que ele lhe colocou na boca. Era ela outra vez. . . Os cabelos também se encontravam desalinhados e as costas vermelhas pareciam ter sido marcadas por unhas de uma mulher. – Estás à espera de alguém? . Está suado. ele reconheceu imediatamente a sua visita.Não tenho pressa – respondeu Vera debruçando-se sobre ele enquanto prendia os seus longos cabelos com a mão e se deixava deliciar pela maravilha que era vê-lo em tronco nu..Seja quem for.Não.Impossível não sentir saudades tuas – respondeu Sérgio arrancando-lhe um sorriso – Eu por exemplo passo a minha vida a sentir saudades tuas.É rápido! Só queria umas cópias para colocar no meu book. . – Desculpa vir sem avisar.Queria escolher algumas.Porque prometi que não faria isso! Quero que ela sinta saudades minhas. eu resolvi aparecer hoje outra vez.Porquê?! . . .disse ela recorrendo ao seu sexto sentido quase sempre infalível. Era ela. Dois minutos foi o tempo que Sérgio precisou para sair do quarto e caminhar em direcção à porta com uma enorme vontade de esganar o vizinho inoportuno que teve a desfaçatez de interromper o seu descanso ao lado de Madalena. – Queres todas as fotos? .Porque é que não ligas tu? . 54 .Olá – respondeu a modelo esboçando um doce sorriso assim que a porta lhe foi aberta pelo fotógrafo. . mas é que… . – Acreditas que desde que ela foi morar com o pai nem sequer me ligou? . . . . Fiz mal? . – Vai lá! Pela pressa parece ser importante.Obrigada – riram-se os dois. não deixes entrar no quarto.Eu também – disse Madalena aconchegando-se no peito dele e fechando os olhos sem se importar com o irritante toque da campainha.Não. encabulado. .Porque eu não quero que me apanhem assim toda descascada – respondeu Madalena arrancando-lhe uma leve gargalhada.Tudo bem – respondeu ele abrindo-lhe passagem em direcção à sala onde se encontrava o seu computador portátil e também a Pen drive repleta de fotografias que havia tirado a Vera semanas antes. . – Deve ser algum vizinho ou assim.Comprei especialmente para ti. lembraste?! Como nunca mais disseste mais nada. Vai demorar – disse Sérgio sentando-se à secretária e ligando o computador com uma expressão no mínimo entediada. já disse que não.Não – respondeu Sérgio apressando-se a encontrar as calças de ganga no meio das inúmeras roupas espalhadas pelo chão.respondeu Sérgio.São muitas. embora seja óbvio que ela não sente. Teria interrompido alguma coisa? – Espero não ter vindo numa má hora… .Ainda a história da tua filha? . – Obrigada também por me tirares da cabeça todos os meus problemas. mas é que tínhamos combinado ver aquelas fotos da sessão.

pelo menos devias levá-las. . .Nada – respondeu ela desviando-se dele. depois de ter escolhido as fotografias tiradas por Sérgio. . E assim.Por essa visita inesperada.Sim. – Veio com a Natália.Só não quero que me enganes – respondeu ela voltando-se para ele. mas a segunda só o conseguiu fazer quando entrou na sala e se deparou com a figura da modelo a quem havia encontrado semanas antes no estúdio dele. Eu voltava numa outra hora ou então procurava-te no estúdio. Vera! Não vieste buscar as tuas fotos? . .Sim – respondeu Sérgio com toda a calma do mundo.Vim. – Desculpa – pediu Sérgio regressando à sala depois de a ter acompanhado à porta. As revelações de Sérgio realmente não caíram nada bem a Madalena e prova disso foi o longo suspiro que ela lançou a fim de acalmar os estúpidos ciúmes que estava a sentir.Como nada? E essa cara? .Há algumas semanas atrás.Então?! Se te vieste até aqui.Só achei estranho… . recebeu-as num CD despedindo-se com um sorriso e com a certeza de que nunca mais voltaria a uma casa sem ser convidada. vinte minutos mais tarde. – O que foi? O que é que estás para aí a pensar? .Estranho o facto de essa rapariga ter aparecido do nada. não achas!? .O barulho ensurdecedor no quarto deixou Madalena impaciente e fê-la caminhar pé ante pé em direcção à sala onde lhe pareceu ter ouvido algumas vozes. . mas… . 55 .Claro – respondeu a jovem voltando-se novamente para o ecrã do computador quando pressentiu que Madalena havia descoberto o seu disfarce em pouco menos de cinco segundos.Desculpa porquê?! – perguntou Madalena. Devias ter-me dito que estavas ocupado.Quando? . elas pediram para vê-las. Aliás.Mas eu não te estou a enganar.Que é isso – afirmou Madalena percebendo o embaraço da modelo. como é que ela sabia onde moravas? Já aqui esteve alguma vez? . . – Não! Eu é que peço desculpas. A primeira reconheceu-a de imediato porque era a de Sérgio. – O que foi? . Sérgio. Senão era um desperdício de tempo.Costumas receber as tuas clientes cá em casa? .Estranho o quê?! . Infelizmente também se lembrava do nome dela e também de todos os seus atributos físicos. – Podes ficar à vontade. Fomos tomar um café e como lhes disse que as fotografias tinham ficado muito boas. Vera. . Estiveram! .Claro que não – respondeu ele forçando um sorriso que não foi de todo correspondido por Madalena. – Hã… desculpem! Não sabia que estavam aí … A expressão facial de Vera pareceu mudar radicalmente quando ao voltar-se para trás a figura de Madalena encandeou-lhe a visão.As duas estiveram cá?! .

Eu consigo ver a mulher com quem quero estar.Tu tens quarenta e eu tenho trinta e dois.Não é nada disso. eu prefiro que me digas. na tua inteligência e de julgares que todas as mulheres são melhores que tu! Infelizmente já percebi que o teu ex. . Pelo menos assim vou saber no que é que me estou a meter.Hã… esqueci-me! Mulheres acima dos quarenta também não podem namorar. . – O facto de não acreditares nas tuas qualidades. . . – Eu não quero criar expectativas. E daí? Será que a idade importa assim tanto? Será que não consegues ver mais nada em mim para além do meu bilhete de identidade? Porque eu consigo ver muitas coisas em ti para além disso. mas é que… .. 56 .Desculpa – pediu ela mantendo-se de costas para ele. nem as tuas amigas e muito menos essa… Vera… . aliás. .Namorada?! . com quem quero fazer amor e a quem quero apresentar a todos os meus amigos como sendo a minha namorada… .Eu sei. . Sim. que conversa é essa? .Será que não percebes que estou contigo porque gosto de ti? Porque gosto realmente de ti e não quero estar com mais nenhuma outra mulher? A surpresa fez com que Madalena se voltasse novamente para ele. aliás.Porque se isto for um caso sem importância. para além dos dois fios de cabelo branco que tens aí à frente.Então o que é que um homem como tu quer de uma mulher como eu?! Porque é óbvio que tu podes ter qualquer uma que te passe pela frente. das rugas que te aparecem no canto dos olhos quando sorris ou da celulite que tens nas pernas. – Talvez tenhas razão – interrompeu ele.respondeu Madalena não escondendo a sua surpresa perante uma palavra que já não ouvia há muitos anos. – Talvez já devêssemos ter tido esta conversa há mais tempo. nem precisas sair de casa porque elas batem-te à porta e cercam-te como se fosses… .Uma conversa que se calhar já deveríamos ter tido há mais tempo – respondeu ela cruzando os braços. .Eu não acredito que estejas a pensar que estou a gozar contigo. As palavras que Sérgio lhe dissera tinham sido cruéis. – Mas eu também não quero passar a vida toda a tentar enfiar-te isso na cabeça e nem quero ver as tuas desconfianças sempre que me aparecer uma mulher de vinte anos à frente. marido conseguiu convencer-te disso durante os anos em que vocês estiveram casados e é uma pena que ainda continues a pensar assim mesmo depois de te teres separado dele. Madalena tapou o rosto com as mãos e desejou que um buraco se abrisse por debaixo dos seus pés.…eu não sabia que estávamos a namorar. – Fui uma idiota! Não devia ter dito aquilo que disse. não tenho mais idade para criar expectativas e nem quero fazer papel de idiota. – A tua insegurança – respondeu Sérgio à sua própria pergunta.Sabes qual é o teu problema? Madalena manteve-se em silêncio. mas infelizmente também tinham sido verdadeiras e foi isso que a levou ao mais profundo desespero. Não quero que gozem comigo! Nem tu. ela pensou. Enquanto passeava por aquela sala minúscula e se dava conta da triste figura que fizera momentos antes.Lena. .

tudo pareciam apenas detalhes sem qualquer importância. – Leva-me para o quarto – pediu ela ansiando que o seu pedido fosse realizado o mais rapidamente possível.Acreditas agora em mim? . e apesar de se ter odiado por ter sido o primeiro a dizêlo.Por acaso não – riu-se Madalena. Estava feito.Eu não quero ser o tal com quem só estás uma vez por semana quando arranjas algum tempo na tua agenda. . a verdade é que Sérgio não pensou duas vezes em proferir aquelas palavras que manteve guardadas a sete chaves no seu coração. ouvir os teus problemas. Pronto..… porque eu te amo. Eu quero tudo isso porque … .Acredito – respondeu Madalena atirando-se para o colo de Sérgio sem se importar com mais nada à sua volta e nem com as palavras duras que trocaram minutos antes. 57 . Quero participar na tua vida. – Eu também te amo muito. .Pois nós estamos a namorar – informou Sérgio trazendo-a contra si. – Eu também te amo – confessou ela por fim. Estava dito. Quero ser muito mais do que isso.ele pareceu hesitar. o teu pai e até o idiota do teu ex. conhecer os teus filhos. baixinho. marido se for preciso. – Ou ainda não tinhas reparado nisso? . Todas elas foram transpostas sob o olhar incrédulo de Madalena enquanto os ouvidos dela tentavam assimilar aquela declaração no mínimo surpreendente. até porque diante da imensidão daquele momento. .

CAPÍTULO IV
Era a primeira vez que iria chegar atrasada à escola e tudo porque ninguém a acordou e o despertador recusou-se a tocar. Mas ainda assim, Sara saltou da cama, vestiu-se às pressas e arrumou a mochila enquanto o relógio da mesinha de cabeceira assinalava dez para as oito. Depois disso, seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à cozinha e o desespero de encontrar o pai para que ele a levasse à escola. – Quem és tu? – perguntou Sara surpreendendo-se com a figura de uma mulher perto do fogão. - Hã… deves ser a filha do Jorge, não?! - O meu pai? - Ele está a tomar banho – respondeu a mulher bebendo um gole de sumo. – Olá! Eu sou a Carla. - Ele vai demorar muito? – perguntou Sara ignorando-lhe o cumprimento. - Não sei! Acho que não. - Eu preciso que ele me leve à escola senão chego atrasada. - Já estou pronto, Carlinha… – interrompeu Jorge entrando pela cozinha longe de sequer imaginar que a sua filha também ali estava. – Filha?! Ainda por aqui? Pensei que já tivesses saído. - Como é que eu podia sair?! Preciso de alguém que me leve à escola e precisava também de alguém que me acordasse – respondeu Sara lançando um olhar aterrador à nova amante do pai. – Vou chegar atrasada por tua causa. - Esqueci-me. - Então?! Levas-me ou não? - Escuta querida… - pediu Jorge aproximando-se de Sara com alguma cautela. – E se o pai te pagasse um táxi para ires à escola, hã? - Um táxi!? - Sim! É que eu já tinha prometido levar a Carla a casa e olha que ela mora no outro lado do rio. Se fosses de táxi irias despachar-te muito mais depressa, garanto-te! - Tu preferes levar a… Carla a casa do que levar-me à escola? – perguntou Sara, incrédula. - Não é nada disso, querida. Não estás a compreender o que o pai está a tentar… - Deixa lá! Eu vou de autocarro. Apesar dos inúmeros chamamentos de Jorge, Sara abandonou a cozinha como a mochila às costas e com a certeza de que todas as coisas para o pai eram mais importantes do que ela. Saiu sem sequer olhar para trás e atreveu-se também a bater com a porta quando o fez. Depois disso, alcançou o elevador e desceu à rua pronta a encontrar o primeiro autocarro
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que a pudesse levar ao destino pretendido: Escola. Era lá onde deveria permanecer as oito horas seguintes e aprender Inglês, Geometria e Física, conversar com as suas amigas nos intervalos e comportar-se como uma jovem de quinze anos cujo maior erro foi ter pedido à mãe para morar com o pai. Mas será que era mesmo isso que queria fazer? Ao passar de autocarro por uma Sex Shop, Sara teve dúvidas e por isso desceu na paragem seguinte. Mais tarde, caminhou dez metros em sentido contrário e viu-se com os olhos postos na montra da loja enquanto tentava decifrar o que eram todos aqueles objectos e também para que serviam. Ali, completamente alheia ao movimento das pessoas, ela deixou-se ficar e só se afastou quando um dos funcionários da loja saiu à rua para fumar um cigarro. – Isto não é para a tua idade, menina – disse-lhe ele. – Não devias estar na escola? Sara assustou-se quando ouviu a pergunta e tentou igualmente passar despercebida no meio da multidão enquanto os olhos do funcionário continuaram a segui-la pela avenida a fora. Adolescentes, murmurou ele abanando a cabeça. Faltavam apenas alguns minutos para as onze quando Madalena atendeu o seu terceiro cliente do dia. Este, que tal como todos os homens à face da terra, não percebia nada de flores, ficou-lhe extremamente grato pela indicação de um ramo de camélias japonesas acabadinhas de chegar. Só então ele ficou a saber que essas eram as flores ideais para pedir perdão à esposa. – Ele traiu-a e ela descobriu – disse Alice assim que o cliente abandonou a loja. - Não faças juízos sem saberes a verdade – respondeu Madalena. - Lena, um homem que chega aqui a dizer que precisa de umas flores para a mulher que simbolizem arrependimento, isso só significa uma coisa. Traição! E traição da grossa. - De qualquer maneira, não nos compete a nós julgar! Cada um sabe de si. - Dizes isso porque agora és só sorrisinhos, paz e amor – riu-se Alice, animada. - Como assim?! - Desde que começaste a andar com o tal fotógrafo que já não falas mal dos homens, tratas todos os clientes a pão-de-ló e passas a vida a suspirar pelos cantos, isto para não falar das vezes que olhas para o telemóvel à espera que ele toque. - É assim tão evidente? - Define-me evidente – riram-se as duas amigas. - Tu nem acreditas, Alice… - Só acredito se me contares. - Ontem estive com ele – discursou Madalena deitando no caixote de lixo as fitas que utilizara para fazer o embrulho das camélias japonesas. – Fui conhecer-lhe a casa. - Uau! Mas isto já vai assim? - E tu nem sabes o que ele me disse. - O quê? - Que me amava – revelou Madalena deixando-se contagiar pelas gargalhadas da melhor amiga. – O que foi? Não acreditas? - Acredito. Claro que acredito – respondeu Alice levando a mão ao queixo. – E tu? O que é que lhe disseste? - Oras! Disse que também o amava. - Gostava de ser uma mosquinha para ter visto a cena.
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- Achas que fiz bem!? Quer dizer, eu gosto dele e pelos vistos ele também gosta de mim, mas será que não foi demasiado rápido? - Não foi ele o primeiro a dizer que te amava? - Foi. - Então?! Não tens responsabilidade nenhuma. Se acontecer alguma coisa, ele disse primeiro e tu só respondeste por educação – respondeu Alice arrancando uma ruidosa gargalhada a Madalena. Naquela tarde, Sara faltou a todas as aulas sem qualquer justificação, e depois de ter passado o dia inteiro a passear pelas ruas da cidade, regressou a casa, trancou-se no quarto e visionou os restantes filmes pornográficos que o pai fazia sempre questão de esconder na sua mesinha de cabeceira. Foi também a primeira vez, enquanto os via, que ela atreveu a acariciar-se por debaixo das cuecas e a experimentar um prazer que nunca pensou sentir nos seus tenros quinze anos. E se experimentasse ter relações sexuais a sério, passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Com um rapaz da sua escola? Ou até mesmo com qualquer um que estivesse disposto a ajudá-la a superar a curiosidade que se havia apossado de si desde que descobriu a pornografia e os prazeres que ela trazia consigo? Subitamente, algo que deveria ser apenas um divertimento para passar a tarde, transformou-se num vício demasiado perigoso que a perseguia para onde quer que fosse. Na casa de banho, na cama e até nas escadas de serviço do prédio do pai, todos esses lugares serviram para que Sara se masturbasse e tentasse remover todo o stress de cima dos seus ombros. Não estaria ela a levar aquilo demasiado a sério? Não estaria a ficar viciada em sexo e pornografia? - Ficas bem cá em casa? – perguntou Jorge chegando à sala após duas horas a tentar escolher a roupa perfeita, o penteado perfeito e o perfume perfeito para a uma noite que prometia também ser perfeita. - Fico – respondeu Sara fingindo estar mais interessada a ler a revista que tinha nas mãos. - Prometo que não me vou demorar muito. - Com quem é que vais jantar desta vez? Com a Vanessa? A Carla ou a Antónia? - Vou fingir é que não ouvi o que acabaste de dizer – respondeu Jorge vestindo o casaco às pressas. – Então? Como é que estou? - Bem. - Qualquer coisa e liga-me para o telemóvel! Vou mantê-lo sempre ligado pela via das dúvidas. Mas não te esqueças também de telefonar à tua mãe – discursou Jorge alcançando as chaves do carro sobre a mesinha. – Não quero que ela pense que sou eu quem te está a impedir de lhe ligar. - Se me lembrar, eu ligo. - Vai! Porta-te bem. - Tu também. - O pai porta-se sempre bem – respondeu ele piscando o olho e deixando a filha completamente sozinha em casa. A vontade de Sara de sair foi imperiosa, assim como a de conhecer um lugar onde já havia passado várias vezes durante o dia. O Intendente. Uma pequena localidade no centro de Lisboa conhecida pela sua antiguidade, mas também pela sua má fama, pois era ali onde se reuniam a maioria das prostitutas, drogados e imigrantes ilegais numa estreita colaboração com o crime e a má vida. E sim. Ao ver-se à saída do metro, Sara sentiu que tinha cometido
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– Escuta! O que é que andas a fazer por estas bandas? Não és daqui! . sujas e com intenso cheiro a urina e outros dejectos humanos.Eu não me assustei.Não – respondeu Sara hesitando alguns segundos a responder. . Depois disso. – O que é que queres saber. as mãos foram estendidas e as pastilhas entregues àquela que parecia ser a líder do grupo. Trazia consigo uma mini-saia vermelha. . .Milene. diz lá! .Putas?! – indagou com uma gargalhada a que parecia ser mais nova. 61 .uma loucura quando resolveu lá colocar os pés. mas desaparece daqui enquanto é tempo. há dias que rende menos. Até porque este é um lugar para putas ou ainda não tinhas percebido isso? . Isto não é lugar para miúdas como tu. Mas como podia ela ter se não deveria ter mais do que dezasseis anos e também muita lata para meter conversa com três prostitutas em pleno horário de serviço.Vocês são … . não assustes a coitada da miúda. enquanto ao seu lado.Depende – respondeu Milene levantando o braço para cumprimentar um velho conhecido da zona.Só estava a passar – respondeu Sara à cautela.Por acaso estás a insinuar que temos mau hálito? – interferiu uma das prostitutas lançando-lhe um olhar desafiador.Vocês costumam ter muitos clientes por aqui? Quer dizer. .Estava a ir para casa. . . Era mais um dos inúmeros drogados a passar no outro lado da rua. meias de renda pretas e um top decotado que deixava transparecer o soutien em tons de cor de rosa choque. Depende dos excelentíssimos clientes que apanhamos. apenas conseguiram embrulhar-lhe o estômago e fazê-la perguntar-se que raios estava a fazer quando a sua única vontade era fugir e fingir que nunca ali estivera.…mas tenho pastilhas de menta.Além de corajosa é curiosa também… – riram elas sob o olhar atento daquela jovem que aparentava ter toda a segurança e experiência do mundo. As ruas algo desertas.Se têm muitos clientes ou não. – Tens cigarros? – perguntou ela encostando-se a uma porta de madeira degradada.É bom que ela se assuste mesmo – respondeu a última sem desviar os olhos de Sara. enquanto lutava contra a sua indecisão. . Sara pôde ter essa certeza. e ao voltar-se para trás.Eu não devia estar-te a dizer isto. uma mulher de meia-idade atreveu-se a chamá-la. . .Não! Só ofereci porque não tenho cigarros. Querem? .Porquê?! . . Contudo.Pastilhas também servem – afirmou a mais velha permitindo que Sara se aproximasse lentamente da porta onde estavam encostadas. permaneciam duas mulheres um pouco mais novas intoxicadas de perfumes e outras roupas provocantes. – O que é que achas. querida? Achas que só estamos aqui encostadas por desporto?! É claro que somos putas. aparecem muitos homens a querer ter sexo com vocês? .Corajosa! . – Há dias que rende mais. .

– Lá porque estamos para aqui a rir e a contar piadas. Aproveita a tua juventude. Sara deu-se por vencida e abandonou aquela rua semi-deserta completamente coberta pelo casaco que fez questão de levar consigo.. a escola e esquece isto! Esquece isto porque isto é uma merda… As palavras de Milene permaneceram-lhe nos ouvidos durante largos minutos. Minutos depois.Estás a gozar não!? – respondeu Milene levando a mão à cintura. .E não é verdade?! Olhem bem para mim – disse Milene girando sobre os pés e mostrando todos os atributos que Deus lhe ofereceu ao longo dos seus vinte e seis anos de vida. .Não – respondeu ela desviando-se de um dos inúmeros traficantes. Era um lugar sujo. . Estava salva. . as luzes da avenida ofuscaram-lhe os olhos e trouxeram igualmente o ar que há muito ela havia deixado de respirar enquanto esteve metida naquele bairro tão degradado. Chamava-se Arlete. . sempre tinha algum conforto e segurança.Então não tens pedalada para isto! Vai lá. nome inscrito no colar que trazia no pescoço. rapariga! Vai para casa porque este não é o lugar mais indicado para ti.Não – ela voltou a responder. . – Eu sou a estrela do bairro. não penses que somos felizes por termos cinco homens por noite e pouco mais de quinhentos euros de manhã. Salva e pronta a regressar para uma casa. .E vocês cobram para irem para a cama com eles? – perguntou Sara tentando ignorar as risadas que ecoaram por toda a rua. – Só estava curiosa. apesar de não se sentir muito bem-vinda.Queres boleia? A voz grossa vinda do interior de um carro parado a poucos metros do passeio foi o impulso que Sara precisou para se voltar para trás e encarar o rosto daquele homem de 62 .Excelentíssimos… – riu-se a prostituta mais velha. . pensou. – Já ouvi chamarem-lhes muitas coisas. Quem quiser tem que pagar e tem que pagar bem porque não ando aí a fazer favores a ninguém. . mas excelentíssimos!? Essa é nova cá no bairro. não a Madre Teresa de Calcutá. – Achas que vou abrir as pernas de graça para qualquer um que me apareça à frente? Eu sou puta.Queres trabalhar para mim? .Já se está a gabar só porque é a que cobra mais caro – resmungou Arlete enfiando uma pastilha elástica na boca. e enquanto se afastava dela e lhe observava os últimos traços físicos. Sim. – Para quê que querias saber quantos clientes tínhamos por dia e quanto lhes cobrávamos? .Não me digas que estás a pensar em juntar-te aqui ao clube VIP!? .Espera – chamou Arlete. .Nem tudo o que reluz é ouro – concluiu Milene evidenciando no rosto os anos de uma das profissões mais ingratas do mundo. Elas estavam certas ao dizer que aquele não era lugar para si e nem para ninguém.Não! Eu não seria capaz de cobrar para ir para a cama com alguém. triste e guardava na fachada dos prédios toda a decadência humana de pessoas que tinham perdido totalmente a vontade de viver. onde.Eu tenho que ir – interferiu Sara ao perceber que já estava ali a mais. minhas amigas… .Por nada – respondeu a jovem compondo os cabelos. – Queres coca? .

barba aparada e um sorriso desenhado nos lábios. . . . facto que fez questão de salientar durante a condução pelas ruas da cidade. 63 .Nada – respondeu Paulo enfiando a chave na ignição do carro.Podes ligar quando quiseres.Claro – respondeu ele apressando-se a encontrar um cartão no porta-luvas. . ela voltou-se para trás e correspondeu ao aceno do professor com a clara certeza que estaria para muito breve um novo encontro dos dois. a portaria abriu-se ruidosamente. Mas enquanto o ouvia falar sobre assuntos perfeitamente triviais para duas pessoas que mal se conheciam e que tinham uma diferença abismal de idades. era professor universitário.Para casa.Vim visitar uma amiga – mentiu ela. .Posso saber o que fazes sozinha a essas horas da noite? .Parque das Nações. Sara sentiu um calor percorrer-lhe as pernas. .Nesta zona?! .Posso voltar a vê-lo – saltou essa pergunta dos lábios de Sara enquanto se desfazia do cinto de segurança. – Estás entregue. . . mas talvez tenha sido esse facto que mais a fascinou naquele senhor de meia-idade que em muito lhe fazia lembrar o seu professor de Química. Mas os olhares esguios. Nessa altura. essa foi a questão que durante vários minutos rondou a cabeça de Sara enquanto ela se tentava decidir e tentava igualmente fugir à forte ventania produzida pela noite.Obrigada. – Não.meia-idade.Está bem. – Meu nome é Paulo – ele disse. .E onde é que moras? . devidamente instalada no banco da frente. . divorciado e pai de duas filhas com a mesma idade de Sara. Mais tarde. bastante educado. . começaram a suar desalmadamente.Assim que puder eu ligo – respondeu Sara encontrando no cartão a deixa perfeita para abandonar o carro de Paulo e atravessar a rua em direcção ao prédio onde morava. Sim. No fundo. obrigada – respondeu ela. rasgou-lhe um olhar assustado e correspondeu-lhe ao sorriso. e as mãos que fez questão de manter sempre apoiadas sobre o colo. Paulo Figueira tinha quarenta e cinco anos. – Toma! Tens aqui o meu número de telefone e também da universidade onde dou aulas. até parecia ser boa pessoa. Sara.Estás com frio. o virar do rosto e a sensação de que não estaria a fazer nada de mal se aceitasse uma boleia de um perfeito desconhecido.Muito prazer. cordial e seguro do que dizia. . De facto. fizeram com que ela retirasse uma das mãos do bolso e alcançasse a porta do carro sem pensar nas consequências daquele acto no mínimo irreflectido. já deu para reparar. ele era velho demais para si. Porque é que não entras? Entrar ou não entrar.Olá! Sara. – Diz-me! Para onde queres que te leve? .Porquê?! O que é que tem? .

– Mas eu queria que ela estivesse aqui comigo. o que foi óptimo porque assim não tive que dar muitas desculpas para sair de casa – riram-se. Mais tarde. mas depois voltou a reerguer o rosto em direcção a Sérgio. .Vou pôr o lixo lá fora.E nem eu quero que sejas esse tal. eu teria tocado à tua porta.Eu também morri de saudades tuas – respondeu Sérgio beijando-a no interior do carro. Há pelo menos quatro dias que não sei nada dela.Adorei – respondeu ela voltando a sugar-lhe os lábios.Hã…!? .É – respondeu Madalena não muito convicta disso. Lena – afirmou ele acariciando-lhe a face enquanto os seus olhos mergulhavam nos dela. . mas esquece esse assunto – pediu Sérgio voltando a encontrar-lhe os lábios. Liberdade foi o que Madalena sentiu quando alcançou os portões do jardim e caminhou apressada em direcção ao contentor de lixo mais próximo. resolvi fazer-te uma surpresa.Os teus filhos? Como é que estão? .E quando é que vamos deixar de nos encontrar às escondidas dentro do meu carro? .Deve estar bem com o pai. – Ouviste? . – Mas a Sara não sei. tu tinhasme deixado entrar para conhecer o teu filho e estaríamos agora os três sentados no sofá a ver televisão ou a jogar Playstation. – Que saudades – confessou ela conseguindo finalmente enterrar-se nos braços dele. . – Daniel. Depois disso. vou pôr o lixo lá fora – exclamou ela passando pelo corredor como um foguete. e como ele morava aqui ao pé. .Eu sei! Mas bem.É que eu tive que deixar uns rolos na casa de um amigo. .O Daniel está bem! Estava agarrado à Playstation dele.Tens a certeza?! Se não tivéssemos nada a esconder. – Dá-me só mais algum tempo … – pediu ela. muito pelo contrário. . . deitou nele um saco minúsculo e correu em direcção ao carro da única pessoa que a poderia levar à rua àquela hora. . .Nós não nos estamos a encontrar às escondidas.Eu não quero me esconder.Tu nunca me deixas triste. Mas nem o frio arrepiante que se fazia sentir lá fora conseguiu demovê-la da ideia de aceitar o convite do fotógrafo quando soube que ele se encontrava a poucos metros da sua casa.Então?! O que é que te está a impedir de me deixares entrar na tua vida? Madalena optou pelo silêncio como forma de resposta. – Pelo menos até a minha filha voltar para casa e as coisas regressarem à normalidade. .Pensei que não nos fossemos ver hoje.Está bem – respondeu ele mostrando-se muito pouco interessado naquela tarefa tão rotineira. .O telefonema de Sérgio tomou Madalena de assalto enquanto ela terminava de arrumar a cozinha e retirava do congelador a carne que iria assar no dia seguinte. não sei. enfiado no carro e à sua espera. – Lembras-te daquilo que te disse no outro dia? Que não quero ser o tal que só vês quando tens algum tempo na tua agenda? . . juro que te apresento aos meus filhos e vamos ficar os quatro sentados no sofá a ver televisão. . . 64 .Sérgio… . – Não vim aqui para te deixar triste. – A surpresa é claro.

Mas a verdade é que o verdadeiro motivo da sua recusa prendia-se única e exclusivamente com Paulo Figueira. apesar das inúmeras tentativas que Madalena efectuou para trazer a filha de volta a casa. Na semana seguinte. resolveu fazer algo há que muito se tinha predisposto.Então peço um sumo. . como passear pelas ruas da cidade sem se importar com as choras de chegar a casa.Está bem – concordou Sara deixando-se encantar pelo sorriso que Paulo lhe lançou.Marcamos um outro encontro e eu trago-tos! . Sara recusou-se terminantemente a voltar dizendo que se encontrava bastante feliz a viver com o pai. .Não. onde reinava a boa disposição dos clientes.Então se quiseres posso emprestar-te alguns livros que tenho lá em casa. – Olá! Espero não me ter demorado muito – disse ele. dormir até quando quisesse. . e tudo porque encontrava sempre coisas mais interessantes para fazer. Telefonar.Iria adorar.Então vou pedir dois cafés para nós. conciso e bastante sedutor. – Eu também cheguei quase agora. que nada tinham em comum para além de serem dois seres humanos. – Gostas de ler? – perguntou Paulo no meio da conversa. os mesmos cabelos grisalhos e a barba aparada.Havia pelo menos uma semana que Sara não colocava os pés na escola.Já pediste alguma coisa? . comer ou não as refeições e continuar a assistir a filmes pornográficos quase todos tirados da Internet. imediatamente após se ter masturbado pela terceira vez consecutiva naquela tarde. . . os dois personagens. De facto. conversaram durante largas horas e esqueceram-se de tudo o resto que os rodeava.Pode. e uma brisa de final de Verão que em tudo embalou os pensamentos dela enquanto esperava impacientemente pela sua companhia. Telefonar a um homem que tinha idade para ser seu pai e tentar marcar um encontro com ele.Por mim tudo bem – disse ela tentando acalmar a voz trémula. . .…eu não bebo café – confessou ela tentando acalmar as mãos nervosas ao colocá-las por debaixo da mesa. Pode ser? . na sua maioria turistas. aquele era o seu pequeno vício.Não – respondeu Sara esboçando um sorriso quando Paulo se sentou à sua frente. Dez minutos mais tarde essa companhia chegou trajada com um elegante fato. o professor universitário que 65 . o professor universitário que lhe ofereceu um boleia dois dias antes. – Podemos combinar um café para amanhã ao final da tarde – foi a resposta que obteve no outro lado da linha. – Aonde?! A faculdade de Paulo ficava no Alto da Ajuda e foi por isso que Sara concordou encontrarse com ele numa pequena esplanada perto de Algés.Gosto – respondeu ela. Numa dessas vezes em que pensou nele. uma coisa que adorava fazer quase todas as horas do dia e do qual não parava de pensar especialmente quando se lembrava de Paulo Figueira. . . Ao sabor de um delicioso sumo de pêra. . Trazia também um à vontade e um carisma difícil de explicar aos olhos de uma adolescente de quinze anos cujo maior desejo era continuar a ouvi-lo e perceber o que é que ele tinha de tão especial para a fascinar. Paulo era um excelente conversador e demonstrava toda a sua inteligência através de um discurso claro.

O hálito de Paulo sabia a menta e as mãos não tardaram a percorrer as costas de Sara num movimento lento e contínuo em direcção às pernas. Sonhou também fazer amor com ele embora tivesse a plena consciência que a diferença de idades que os separavam iam muito além de uma mera faixa etária.Aceitava um chá. E não. mas a verdade é que se voltasse para a casa da mãe jamais teria a chance de voltar a encontrar-se com Paulo e muito menos de levá-lo ao apartamento vazio do pai.Quão mais velhos!? .Não te preocupes! Já vi coisas piores. . Seria apenas uma fixação? Uma cisma? Um desejo? Talvez. . – Bem. café ou chá. queres beber alguma coisa? . .conheceu por um mero acaso. e a outra verdade é que os seus intuitos saíram na perfeição quando Paulo elogiou o sabor e a temperatura. Depois disso.Claro – riram-se os dois enquanto chegavam à sala. . ela entregou-lhe a única coisa 66 .Mais ou menos. Não te esqueças que também moro sozinho. . . os telefonemas quase diários e troca de algumas confidências apenas fizeram Sara sonhar com um possível relacionamento entre os dois. . . Depois disso. .Da minha idade? A resposta foi dada com um aceno positivo.Não – respondeu ela arrepiando-se quando ele lhe tocou suavemente na mão. – Não repares na desarrumação! O meu pai é mesmo assim. mas que agora não se imaginava a viver sem ele.Então eu vou fazer – respondeu Sara abandonando a sala sob o olhar atento de Paulo.Não sei.Não?! . De resto.Não – respondeu Sara voltando a sentir o mesmo arrepio quando Paulo lhe encontrou os dedos e entrelaçou a mão neles.Eu não me interesso por rapazes da minha idade.Gostas de homens mais velhos? . Mas a verdade é que o fez. ele pôde perceber isso quando a deitou sobre o sofá e lhe afagou os cabelos lisos. seguiu-se uma conversa interessante sobre novos escritores contemporâneos. – Fico contente por saber isso – disse ele. Completamente despida. . Aposto que todos os rapazes lá da tua escola devem correr atrás de ti.…não te achas bonita? – foi a surpresa de Paulo quando Sara lhe falou sobre as suas inseguranças relativamente à sua aparência física. . – Entra – disse ela deixando que ele invadisse o corredor. Provavelmente ninguém compreenderia as razões que a faziam suspirar por um homem de quarenta e cinco anos quando deveria interessar-se somente por rapazes da sua idade. Na verdade ninguém diria que àquela tinha sido a primeira vez que se atrevera a fazer um chá. . O chá foi servido em poucos minutos num pequeno tabuleiro e em duas chávenas de porcelana que Sara fez questão de escolher nos armários da cozinha. o prazer da leitura e a certeza de que as horas tinham deixado de passar para os dois.Tenho sumo. seguiu-se um olhar absolutamente esmagador que só culminou com um novo beijo e a loucura de Sara em permitir que um homem de quarenta e cinco anos a tocasse como nenhum outro homem a havia tocado até então. Talvez fossem todas essas coisas. .Pois devias! És uma rapariga muito bonita.O que tiveres para me oferecer. Ela tremia.

. Era também sua por permitir a loucura da filha em ir morar com o pai.Este livro não é para a vossa idade. . . Jorge sempre fora um pai irresponsável.Uma carta da escola da tua filha… – respondeu Madalena atirando-lhe o envelope ao peito.O que eu estou a dizer Jorge.Aonde é que está a Sara? 67 . eu não quero voltar para casa! Eu quero ficar aqui. A sua virgindade.Hei – imperou Jorge não gostando nem um pouco da ironia. inteiramente tua – vociferou Madalena apontando-lhe o dedo. Após a leitura de uma carta escolar que dava conta das sucessivas faltas de Sara às aulas. eu… .Sabes o que é isto!? . .E nem devias! Olha. – Tem calma! Não venhas ofender-me aqui dentro da minha própria casa. foi o que Madalena decidiu durante a sua condução pelas ruas da cidade. a culpa não era só dele. não é?! Além de que parecia irritada. Aquela seria a última vez que iria pisar a casa do ex.preciosa que há muito sonhava entregar a alguém. marido. . Madalena percebeu que já não lhe restava outra alternativa a não ser arrancar a filha das garras do pai. sabias!? . Mas vendo bem. É um facto! Uma realidade! A Sara está quase a chumbar por faltas e tu estás pouco te importando com isso.Eu sei. ausente e sem as mínimas condições morais para tomar conta dos filhos.Tem calma! Olha os vizinhos aí do lado – disse ele puxando-a para o interior do seu apartamento. a tua mãe ligou-me hoje lá para o escritório. – Ou devo dizer antes. . hã? Será que a tua mãe te atirou contra a parede? . da tua companheira de quarto? . mais mentecapto e mais irresponsável do que eu pensava. – Tu és ainda mais demente. . . . Onze Minutos era o nome da obra. O que é que aconteceu contigo quando nasceste. Diz que precisa falar connosco.Ainda não o li. é que a Sara está prestes a ultrapassar o limite de faltas injustificadas do primeiro período e a culpa é tua. – De quem é este livro? – perguntou-lhe o pai quando descobriu um exemplar do escritor Paulo Coelho sobre a mesa da sala.Porquê? Não a tens levado à escola? .Não são histerias. – Queres o quê? Que toda a gente oiça as tuas histerias? . . especialmente de Sara.Eu nem sequer sabia que ela andava a faltar às aulas.Vieste cedo – disse Jorge deparando-se com a figura de Madalena especada sobre o patamar de entrada.Não.Hã… foi uma amiga que mo emprestou – respondeu Sara apressando-se a arrancar o livro das mãos do pai.O quê? .O que é que estás para aí a dizer? . mas não custa nada ouvir o que a tua mãe tem para dizer.Pai. e de uma conversa com directora de turma. .Meu Deus – exclamou Madalena soltando uma gargalhada seca a fim de acalmar os nervos que se apossaram de si.

Não sei. . – A Sara vai voltar comigo e ponto final! Aqui ela não fica nem mais um dia. É para isso que eu e a tua mãe andamos a trabalhar.Não digas que eu estou chateada com ela – interrompeu Madalena voltando-se para o ex.Não sei. – Não vais dizer nada em tua defesa? ..Querias o quê? Que lhe prendesse o pé à mesa da sala? . nós falamos com ela.Eu só quero que me apoies uma vez na vida e não fujas com o rabo à seringa apenas para não ser o mau da fita. ou não?! Para te dar a ti e ao Daniel um futuro melhor e tu estás a desperdiçar tudo isso. um olhar e desejando apenas que a chegada da filha lhes trouxesse respostas paras as dezoito faltas a Português.À Baixa – mentiu Sara despindo o seu casaco de ganga.Começa já explicar – exclamou Madalena levantando-se do sofá. 68 . tu não brinques comigo! . Durante horas permaneceram sentados em diferentes sofás sem trocar uma palavra.O que é que se passa? – perguntou Sara interrompendo a discussão dos pais. .O que se passa é que a tua directora de turma me ligou lá para casa a dizer que estás em perigo de chumbar o ano – respondeu a mãe atirando-lhe a carta para as mãos. a tua mãe está chateada contigo e tem boas razões para isso. A expressão de Sara não se alterou nem um pouco quando leu as informações expostas naquela carta e talvez tenha sido esse facto que mais tenha irritado Madalena. o mínimo que deves fazer é ir à escola e tirar boas notas. doze a Matemática. .Sara. – Olá… . nem Madalena e nem Jorge tiveram forças para esboçar qualquer movimento corporal.Vamos esperar ela voltar da rua! Quando ela vier. .Não existe nada para falar – imperou Madalena gesticulando furiosamente os braços.Saiu para onde? .Pronto! Vai começar… .E tu acreditaste?! Ou melhor.disse Sara surpreendendo-se com a presença da mãe ali. – Já tinha dito ao pai! Lembraste pai?! . .O meu maior erro foi ter deixado a Sara vir morar contigo e está-me a cheirar que ainda me vou arrepender muito mais desse erro daqui para a frente. ou pelo menos também tu devias estar se te preocupasses minimamente com a tua filha.Eu não tenho nada para dizer.Sara – interrompeu Jorge. . – Aonde é que te meteste? . já disse – respondeu ele abrindo os braços. – Lê! Lê e vê qual foi o resultado das tuas brincadeiras. – Saiu de manhã para fazer umas compras. oito a Química e cinco a Geometria que ela conseguiu arrecadar em apenas dois meses. . – Nós estamos chateados com ela. A fechadura sofreu uma ligeira pressão quando faltavam poucos minutos para as dezoito horas. mas já nessa altura. .Sara. . – A tua mãe tem razão! Não é certo andares a faltar às aulas porque essa é a tua única obrigação para connosco. . ela saiu. marido.Fui passear. .Aonde? . Se te damos tudo. deixaste ela sair de casa sozinha? .

Mas tu só queres saber de ti. Sara! Com ela vais ficar melhor. Trabalho até tarde. Silêncio foi a resposta de Jorge. mulher. Eu adoro ter-te cá em casa.Sara. 69 . se tu me deixares ir com a mãe.O quê – foi a reacção intempestiva de Sara. – Tu achas que é só pedires desculpas e está tudo resolvido? . – Desculpem lá! .Nunca mais voltes a dizer uma barbaridade dessas.Eu não vou. filha. .Queres que me vá embora. – Ouviste. não é?! Só queres trazer as tuas namoradas cá para casa e não ter ninguém que te atrapalhe… . É tudo um plano. – Não deixes que ela me leve daqui! Não deixes! Será que não vês que ela está a fazer isso de propósito para nos separar? Ela não gosta de ti e também não quer que eu goste de ti.Já pedi desculpas.Isso mesmo que ouviste e nem adianta espernear porque eu já conversei com o teu pai e juntos chegámos a um acordo – respondeu Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou.O. .Vai arrumar as tuas coisas ao quarto! Voltas hoje comigo para casa. . – Tu vais voltar lá para casa e ponto final. esbaforida. .Desculpem lá – repetiu Madalena num tom sarcástico. .k – respondeu ela largando os braços.…é melhor ires com a tua mãe.Pai. já disse para não brincares comigo! .Pai… . .Sara.E o que é que queres que eu faça?! Que me ajoelhe aos teus pés e te peça perdão? .Tu queres que eu me vá embora. mas o problema é que não tenho tempo para cuidar de ti como a tua mãe tem. – Tu não gostas de mim.Queres sim – gritou Sara. eu nunca mais falo contigo.Eu só vim chamar-te à razão! Dizer que está errado aquilo que fizeste e que não estás autorizada a repeti-lo! Foi para isso que eu vim. não fales assim com a tua mãe – interferiu Jorge saindo em defesa da ex. .. é isso?! . – Não bastava teres ligado? Mas não. . pai?! Nunca mais falo contigo! .Pai – suplicou Sara alcançando os braços do progenitor a fim de encontrar um aliado contra a mãe. não é! Tinhas que aparecer para dar o teu show de mãe dedicada e extremosa. – Eu não tenho … como é que hei-de dizer…! Eu não tenho condições para te ter cá em casa. . .Já disse que… .Sara… . não vês?! .Sinceramente não sei o que é que vieste cá fazer – disse a jovem desviando-se bruscamente de Madalena.Se gostasses não me deixavas ir com a mãe quando sabes muito bem que nós nunca nos demos bem e que eu a odeio de morte. . tenho sempre encontros com clientes de última hora e até já cheguei a desmarcar várias viagens de trabalho apenas para não te deixar sozinha.Sara… .Eu acho que a tua mãe tem razão – afirmou Jorge para grande desespero da filha que sem outro remédio viu-se obrigada a afastar-se dele e a deixar duas enormes lágrimas caíremlhe dos olhos. .É claro que não. .

Traiu-a diante da sua mãe e por isso ela nunca mais o iria perdoar. – Achas bem aquilo que fizeste? Achas bem andar a faltar às aulas? . foi o próprio que se encarregou de tal tarefa. Não depois de tudo aquilo. enquanto no porta-bagagem foram-lhe colocadas as três malas que tinha levado para morar com pai.As palavras do pai soaram-lhe como uma bomba aos ouvidos e por vários segundos foi inevitável para Sara não derramar as últimas lágrimas que lhe restavam de uma relação que pensava ser perfeita. O número que marcou não está atribuído. Não posso voltar para a casa. Sara. – Pai! Ajudas-me a trazer as malas que estão no carro? – pediu Madalena. O número já não existe. alcançou o corrimão das escadas e subiu em direcção ao quarto onde foi audível o estrondo violento de uma porta a fechar. Jorge traiu-a. Não depois de ter prometido que a levaria a morar consigo caso a relação dos dois resultasse ou de ter jurado enfrentar os seus pais apenas para ficar com ela. . Vou ligar ao Paulo. Claro. – Vai arrumar as tuas coisas ao quarto – disse Madalena interrompendo os olhares de ódio que a filha lançou ao pai e deixando-a sair da sala completamente esbaforida. era tudo o que pensava enquanto roía as unhas e tentava encontrar uma maneira miraculosa de se livrar das garras da mãe. . Não. Paulo não podia ter desaparecido sem deixar rastro. Talvez fosse ele a ajuda que tanto necessitava e o anjo da guarda que desde o primeiro momento pareceu ser na sua vida.Ela odeia-me – murmurou Jorge. por ter conseguido encontrar outra solução. veio um sabor amargo a derrota e a engano que a levou às lágrimas. Sara tentou encontrar várias soluções para o grande sarilho em que estava metida. Sim. repetiu várias vezes a si própria enquanto tentava convencer-se que tudo aquilo não passava de um pesadelo. – Está cada vez pior e estes dias na casa do pai só a pioraram ainda mais. foi a resposta que obteve após oito tentativas consecutivas. . – Nós vamos bem sozinhas. mas que a tinha traído no momento em que mais precisava dela. deixando a ex. Depois disso. . . O número já não existe. no meu tempo era assim que se educavam as crianças. e a sua neta. Madalena. De resto. .Claro! E tu? – perguntou Afonso voltando-se para a neta. resoluta.Precisas impor-lhe disciplina! Pelo menos. não é!? 70 . Enquanto passeava pelo quarto. Mais tarde. Mas a verdade é que nada disso pareceu ter qualquer fundamento quando Sara se atreveu a digitar-lhe o número de telemóvel. Meia hora mais tarde.A miúda está louca. . fez-se luz.Bem-vindo ao clube – respondeu Madalena largando os braços. Até que enfim chegaram. Ele vai-me ajudar.Não me chateies – respondeu Sara para grande surpresa do avô. e por ela entraram a sua filha. . foram as palavras de Afonso Soares quando a porta se abriu. Não. não após de tantas juras amor que lhe segredou aos ouvidos ou depois de lhe ter entregado a sua virgindade.Sinceramente não sei o que fazer com ela – suspirou Madalena levando as mãos à cabeça. – Não querem que vos leve? – perguntou ele. no mais profundo silêncio.Não – respondeu Madalena. Sara aproximou-se do carro da mãe.Achas que sou uma péssima mãe. mulher livre para enfiar a mochila da filha no banco de trás.

. Não sabia também se essa vontade descontrolada de se tocar iria passar com o tempo. Precisava fazer sexo. . Na verdade. a relação de ambos. o desejo sexual experimentado com Paulo continuava a dominar-lhe a mente. vamos lá buscar as malas ao carro! As semanas foram passando. Seria um jantar romântico no apartamento dele.E tu ainda nem viste nada – respondeu Sérgio entregando-lhe a taça de champanhe após um longo beijo. – Tu és uma boa mãe. Impossível. ele sabia. provavelmente repleto de champanhe. Mas a Sara precisa de limites. e tudo para que ela pudesse passar um maravilhoso serão ao lado de Sérgio. Madalena conseguiu convencer o seu pai a buscar os netos à escola e ficar com eles durante a noite.Bem. primava pelo amor. Chorava. pelo companheirismo e pela paixão que a cada semana crescia ainda mais nos seus corações. não sabia. Por sorte e após muito esforço. os dias tornando-se mais curtos e tristonhos e Sara percebendo que nunca mais voltaria a ter notícias de Paulo Figueira. Sexta-feira foi o dia do aniversário do Sérgio e por isso Madalena estava excitadíssima. assim como a sua vontade em devorar toda a espécie de pornografia que encontrava na Internet. prolongar-se durante anos e anos. Nunca forçou a sua entrada na vida de Madalena e era por isso que ela lhe era tão grata.Se ao menos aquele imprestável do Jorge servisse para alguma coisa – disse Madalena limpando as tímidas lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. de ter medo de alguém e há muito tempo que ela já não tem medo de ti. – Entra! 71 . Sérgio era um homem compreensivo. embora Sérgio muitas vezes pedisse para que se vissem todos os dias. Depois disso. enquanto voltava para casa no carro da mãe e especialmente à noite quando se trancava no quarto e utilizava o computador para satisfazer a sua curiosidade? De facto. Com os problemas de Sara a atormentarem-lhe os pensamentos. boa comida e outras coisas que ela corou só de o ouvir falar ao telefone. ou se pelo contrário. Estaria ela doente por passar a vida a pensar em sexo ainda que fosse na escola.É claro que não – respondeu Afonso segurando os ombros da filha. especialmente num homem. a temperatura arrefecendo. ela adorava-o e não havia nada melhor do que terem-se um ao outro para se confortarem com palavras carinhosas repletas de amor. – …garanto-te a minha tarefa era bem menos complicada.Bem! Que recepção… . a rolha saltou para o tecto e Madalena bateu palmas maravilhada. Fosse com quem fosse. odiava-se e repetia a si própria que nunca mais voltaria a confiar em quem quer que fosse. Por sorte. Mas de uma coisa tinha certeza. mesmo tendo sido mantida em segredo. não é isso que está em causa. E sim. O dia do seu aniversário era a ocasião ideal. Ele adorava-a. – Pontual como sempre – disse ele abrindo a porta com um largo sorriso e com uma garrafa de champanhe nas mãos. Por vezes. de facto sobrava pouco tempo para se dedicar a ele. o falso professor universitário que a única coisa que quis foi retirar-lhe a virgindade como se de um prémio se tratasse. . enquanto se encontrava sentada sobre o alpendre da janela do quarto. ela perdia-se em justificações sem fundamento para não se sentir tão ingénua e usada. mas ainda assim não custava nada tentar ter um pouco mais de espaço na vida de Madalena quando a sua única vontade era tê-la só para si.. Mas por outro lado.

Uma relação que tinha todos os ingredientes para ser apenas um amor de Verão.Ultrapassar a prova de fogo que vai ser conhecer as minhas três pestinhas!? .Aleluia – riram-se os dois. Tê-lo perto. . .Foste tu que cozinhaste? – perguntou Madalena. . quando conseguir um sinal verde. o mundo parou e não foram precisas mais palavras para que ela entendesse tudo o que ele queria fazer naquele momento.Por ti sou capaz de ultrapassar tudo. Degustou não só a refeição.E tu queres que eu fuja? . e depois. mas que se prolongou até o Outono e tinha esperanças de ultrapassar o Inverno. divertida.Agora que as coisas estão um pouco mais calmas lá em casa. ouviste?! .O quê? . Aliás. ela degustou. . .Primeiro vou falar com eles.Claro que não. – Veremos se não vais fugir a sete pés quando os vires enfileirados à frente do sofá. pela conversa amena e também pelas velas que Sérgio fez questão de acender sobre a mesa enquanto Madalena se ria às gargalhadas e lhe confessava não se lembrar da última vez que degustara uma refeição às escuras.Podes deixar – respondeu ela mergulhando-lhe nos lábios e também naquela sensação tão fantástica que era tê-lo só para si. .Fico muito contente por ouvir isso – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos soltos. – Estive a pensar… .. .Obrigada – disse ela saboreando o primeiro gole da bebida. . Mas a verdade é que naquela chuvosa noite de sexta-feira.O nosso jantar já está pronto! Só falta tirar do forno.Está bom? . os dois amantes deitaram-se no sofá e retiraram as respectivas roupas enquanto a música que os embalou na dança continuou a tocar durante minutos a fio. que a minha filha já não anda a faltar às aulas. .Não demores a conseguir esse sinal verde. sentir a humidade da sua boca. combinamos um jantar ou um almoço em minha casa. . 72 .Claro ou o que é que pensas?! Nunca te falei sobre os meus dotes culinários? . . Depois disso. .O quê? – perguntou Sérgio enterrando-se no pescoço dela. um pouco mais em nós. . Quero que fiques e me ajudes a enfrentá-los também.Achas que vais conseguir? .E quando é que vou ter a honra de conhecer as tuas três pestinhas? – perguntou Sérgio colocando-lhe os cabelos atrás dos ombros. . os braços fortes à volta da sua cintura e o corpo completamente colado ao seu. Submersos. mas também os lábios de Sérgio quando dançou com ele a mesma música que ambos tinham dançado no início da sua relação.Os dotes que eu conheço são outros – respondeu ela enterrando-se nos lábios dele enquanto se deixava levar em direcção à sala.…em levar-te a conhecer o meu pai e os meus filhos – respondeu ela após um pequeno suspense. O jantar primou pela simplicidade.Está óptimo.Veremos – respondeu Madalena não resistindo a desabotoar-lhe os primeiros botões da camisa. eu acho que posso começar a pensar um pouco mais em mim.

Mas Sérgio apareceu. . Apareceu como um anjo caído do céu e era ele a única razão para que Madalena estivesse enfiada naquela cozinha a ultimar os preparativos do jantar. apesar de ter ficado um pouco surpreso com todas aquelas revelações.Contei! . . O mundo dava muitas voltas.Prometo que vou fazer tudo para ir.Óptimo – murmurou Madalena com um sorriso radiante. E Afonso. já é um bom caminho para nos mantermos optimistas. as compras foram feitas no supermercado mais próximo e a mesa da cozinha decorada com algumas flores que Madalena trouxera da sua floricultura. pregava inúmeras partidas e reservava as maiores surpresas para uma mulher que havia perdido totalmente a esperança de amar e ser amada em proporções iguais. explicando-lhe primeiro como se conheceram.Ainda falta o meu – riram-se baixinho. Pensei que eles se fossem opor. . 73 . . .Para a semana já podemos marcar o jantar.Contaste-lhes sobre nós? . ficar contra nós ou assim… . especialmente por causa da Sara. o que ele tinha para a fazer tão feliz e os motivos que a faziam querer apostar numa relação mais séria e duradoira com o fotógrafo. – Mas pelo menos não se negaram a conhecer-te.Que bom! .Bem. não viu outro remédio a não ser apoiá-la. . Se ele te faz feliz.Está tudo certo – disse Madalena quando falou com Sérgio ao telefone no final da noite. nem sabes o peso que me tiraste dos ombros. . foram as palavras de encorajamento que ditou a Madalena e que a deixaram muito mais aliviada. E não. Acho que se atrasou a sair do estúdio e apanhou algum trânsito pelo caminho. Achas que vais poder vir na próxima quartafeira? . força. mas o meu pai ajudou-me a controlar os danos – respondeu Madalena ouvindo uma leve risada no outro lado da linha. – O moçoilo nunca mais chega – resmungou Afonso lançando os olhos ao seu relógio de pulso enquanto a filha terminava de temperar a salada a uma velocidade fantasmagórica.Fizeram uma cara como se tivessem acabado de ser atropelados por um camião. ao contrário do que esperava. o que vendo bem. Contudo. Uma semana foi o tempo que Madalena precisou para conversar com o pai a respeito de Sérgio.Este foi sem dúvida o melhor aniversário que já tive – confessou ele encarando-lhe o rosto após a ter possuído sem quaisquer restrições. Hoje não consegui parar de pensar noutra coisa a não ser na conversa com os teus filhos. .E eles? – perguntou Sérgio sem conseguir esconder o nervosismo. Nada poderia dar errado para aquele que prometia ser o jantar mais importante da sua vida e também a única e derradeira oportunidade para que os filhos e o seu pai caíssem de amores por Sérgio e se deixassem encantar por ele.. . O jantar foi marcado para quarta-feira.Também não estão a favor – confessou ela.Optimismo é o que não me falta – respondeu Sérgio arrancando-lhe uma leve gargalhada.Ele ligou-me há pouco. a reacção de Sara não foi nem um pouco agradável e a de Daniel primou pelo embaraço de não saber se aquela era uma boa notícia ou não.

Ao vê-los. talheres. .Por pouco e não comprava o supermercado todo. e quando digo perfeito.. Cheirava a pato assado. pois as mãos começaram a suar. . aliás. girou a maçaneta e encontrou o seu convidado especial carregado com um sorriso.Está bem. o Jorge por acaso sabe que estás a namorar com outro homem? .Não te estás a esquecer do vinho? – interferiu Afonso encontrando um maço de cigarros no bolso das calças. Conhecer os filhos e o pai de uma namorada? Não. – Comporta-te.Claro! O vinho – lembrou-se Madalena correndo em direcção ao frigorífico. O que será que eles iriam pensar de si? Iriam adorá-lo? Detestá-lo? Isso era uma incógnita até para os deuses lá de cima.Olha lá. – Estás todo carregado – riu-se Madalena enquanto repartia com Sérgio o peso dos presentes. Mais tarde. Sérgio pôde senti-las quando abriu o portão da casa de Madalena e se preparou para lhe conhecer o pai e os filhos. a arroz e batatas fritas.Pai – exclamou Madalena fulminando-o com os olhos. As suas mãos estavam trémulas. segundo as palavras de Madalena enquanto o empurrava pela costas e o fazia ganhar forças para enfrentar a maior prova de fogo que alguma vez havia enfrentado em toda a sua vida. – Por isso. aquilo nunca lhe tinha acontecido até porque todas as namoradas que teve durante os seus trinta e poucos anos de vida sempre foram solteiras. um ramo de rosas. Mais tarde. Sérgio pensou seriamente em fugir. . seguiu-se a caminhada em direcção à cozinha onde se encontravam os três pestinhas da família. emocionalmente inexperientes e sem qualquer bagagem familiar.Bem… acho que não me esqueci de nada! Pratos. guardanapos… .Obrigado – respondeu ele acedendo-lhe o pedido com alguma cautela e também com um aperto discreto na mão esquerda.Entra! . que penses ou sequer que te lembres dele! Este jantar tem que ser perfeito. para além do calor que o forno fazia questão de lançar naquela grandiosa habitação composta por inúmeras mobílias sofisticadas. comportate! Não quero que fales do Jorge.O Jorge não tem mais nada a ver com a minha vida e nem tu devias estar a falar dele já que daqui a poucos minutos vais conhecer o meu novo namorado – afirmou Madalena guardando o azeite num dos armários da cozinha. . De facto. mas a verdade é que ele estava disposto a fazer de tudo para que as pessoas mais importantes da vida de Madalena também gostassem de sim. . Daniel a jogar na sua playstation portátil e Afonso a espreitar o pato trinchado sobre a bancada. digo perfeito em todos os sentidos. o coração bateu mais forte e as pernas permaneceram paralisadas sobre o alpendre da porta pedindo 74 . – Eu atendo – gritou ela apressando-se pelo corredor quando a campainha tocou. .Já não começa bem. está bem. não quero que fales. duas janelas amplas e também por três pessoas que nem sequer se aperceberam da chegada de Sérgio e Madalena. copos.Porque é o teu ex. A cozinha cheirava bem. tal como já disse. depois de um longo suspiro e de ter composto os cabelos soltos. duas caixas de chocolate e uma garrafa de vinho comprada pelo caminho. por favor! . marido e pai dos teus filhos. . Sara encontrava-se de olhos postos na televisão.Porque é que ele haveria de saber?! .

. .São para mim – interrompeu Madalena não escondendo o seu sorriso de orelha a orelha.Olá Daniel – exclamou o fotógrafo estendendo-lhe a mão quando se aproximou da mesa. mas ainda assim. não ligues! Tal como já te tinha dito. Um sonho de qualquer homem. senhor Afonso! . . Sérgio.Eu é que gostaria de ter um espírito jovem igual ao seu. mas Afonso também. . . . por isso… . . diga-se de passagem.Por acaso não – riu-se Sérgio.O prazer é todo meu. e as flores… . . – É o meu trabalho. profissão. . e foi por isso que o ex. detalhes sobre a família e pequenas curiosidades como o facto de estar sempre rodeado de modelos profissionais. pelo menos alguém que sabe avaliar as minhas qualidades – riu-se o ex. .Pai – exclamou Madalena fulminando Afonso com os olhos. ela reparou.Lá isso é verdade – respondeu Afonso aceitando o aperto de mão por parte de Sérgio. são! Confesso que queria trazer orquídeas. . . – Este é o Sérgio! As cabeças de Afonso.qualquer tipo de socorro diante daquela situação tão constrangedora.Não te cansas de fotografar mulheres bonitas? .O que foi? Só estava a elogiar-lhe o trabalho. senhor Afonso – afirmou Sérgio largando os talheres sobre o prato.É.Bem que eu gostaria de ter tido um trabalho igual ao teu quando tinha a tua idade.E este é o meu pai… – afirmou Madalena alheia aos pensamentos da filha. sempre que podia. – Os meus filhos! Daniel e Sara… . . – Pessoal – exclamou Madalena. A idade.Eu é que agradeço o convite.Muito prazer.Não faz mal! Também adoro rosas. O jantar foi servido às nove horas em ponto. o meu pai é um rapazinho de dezoito anos preso num corpo de sessenta e oito. . militar tentou acalmar o namorado da filha com perguntas leves e humoradas.Olá – respondeu ela pensando que pelo menos a sua mãe tinha bom gosto.Os chocolates são para a Sara e para o Daniel – adiantou-se Sérgio tentando esconder o nervosismo que ainda estava a sentir. militar levando uma taça de vinho aos lábios.Olá Sara.Obrigado! Bem. Sara e Daniel viraram-se imediatamente em direcção àquele desconhecido que agora também iria fazer parte das suas vidas. e na mesa sentaram-se cinco pessoas no mais completo silêncio prontas a partilhar uma refeição cozinhada por Madalena. . Sérgio volta-se para eles e sorria-lhes como se 75 . . Queria saber tudo. eu sei bem o que estavas a fazer.E ele trouxe presentes – interferiu Madalena empenhando duas caixas de chocolate e as flores trazidas pelo namorado. não quis chegar mais atrasado do que cheguei. – O vinho é para o senhor Afonso. acredite! Fico contente que tenha aceitado jantar connosco. mas como não consegui encontrar e depois também já estava a ficar um pouco tarde. Sérgio estava nervoso. – O senhor Afonso Soares que já há muito te queria conhecer. encabulado.Olá – respondeu o jovem aceitando o cumprimento com alguma cautela.É. – Sérgio – disse Madalena apressando-se a fazer as apresentações e a terminar-lhe com aquele calvário. A conversa entre os três adultos prolongou-se por vários minutos deixando Daniel e Sara de fora. Analisaram-nos dos pés à cabeça e por momentos fizeram-no sentir como um verdadeiro extraterrestre vindo de um planeta distante. .

Gostei muito. até porque a única coisa que ele não queria era continuar a olhar para a cara de Sara e lembrar-se da loucura que ela cometera à mesa quando o apanhou completamente desprevenido. Mas seria mesmo aquele o motivo para que se quisesse ir embora? Obviamente que não. Ao encontrar-lhe o sexo.Estás bem? – perguntou Madalena poisando-lhe a mão sobre o ombro.Acidentes acontecem – interferiu Afonso sob o olhar assustado fotógrafo. Desculpas atrás de desculpas foi o que Sérgio inventou para se livrar daquele malfadado jantar. desculpem. . – Queria tanto que pudesses ficar mais tempo – disse ela encontrando-lhe a mão. Está tudo bem – disse Madalena levantando-se da cadeira onde estava sentada. E enquanto bebia um gole de sumo. derrubou o resto do vinho sobre a mesa e lançou um olhar esmagador à filha da sua namorada numa tentativa desesperada de encontrar justificações para aquele acto no mínimo leviano. Contudo. – Gostei muito deles – voltou ele a mentir.O que é que achaste do meu pai? . – Vou buscar um pano para não manchar a mesa. . após um pequeno período de reflexão achou melhor manter a sua opinião guardada a sete chaves não fosse ela estragar uma noite que apesar de tudo até foi especial.Claro! Claro que entendo.Não faz mal. ela sorriu e o fotógrafo quase que desmaiou de susto. ela lhe desapareceu do pensamento.Nem acredito que deu tudo certo – disse Madalena enterrando-se nos braços de Sérgio. . Entendes. – São duas crianças maravilhosas.Mas obrigado pelo jantar. Um sinal que Sara estava mais do que disposta a oferecer quando os seus olhos se cruzaram com os dele pela última vez naquela mesa repleta de alimentos. mas a tua filha Sara é uma maluca de todo o tamanho. nomeadamente quando descobriu o sexo e a pornografia na casa do pai. Depois disso. Eu não sei o que é que me aconteceu. mas também de luxúria e pecado.Eu também – mentiu Sérgio. ele arrastou a cadeira. por coincidência ou não.Um senhor fantástico – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. . . Sujei a toalha toda. foi essa a resposta que Sérgio se sentiu tentado a oferecer à namorada. . – Mas amanhã tenho uma sessão bem cedo e queria dormir pelo menos oito horas para… enfim… ter mais disposição para fotografar. – Agora já sei a quem puxaste.Porque é que não haveria de dar? 76 . calores que a acompanhavam desde há muito.…estou – respondeu ele tentando ignorar os risinhos de Sara. . e calores que a fizeram cometer uma das maiores loucuras da sua vida quando se atreveu a tirar o pé do sapato esquerdo e levá-lo em direcção as pernas de Sérgio que. . . – Desculpa! Aliás. não entendes!? . . encontrava-se exactamente à sua frente. Eram calores estranhos.ainda estivesse à procura de algum sinal de aprovação. O que lhe teria passado pela cabeça para fazer uma coisa daquelas? O quê? A pergunta parecia não ter qualquer resposta e nem mesmo depois de ter sido levado à rua por Madalena. bebidas. sendo que quase todas elas se encontravam relacionadas com o trabalho. vários calores começaram a subir-lhe pelas pernas e encontraramse nos seios e nas pontas dos dedos das mãos.E os meus filhos!? O que é que achaste deles? O Daniel parece ser um bom rapaz.

o amor que sentia por Madalena era forte demais para que se deixasse levar por todas aquelas desconfianças sem sentido. Sara adiantou-se: . – Tu és uma criança. . – Na verdade estávamos à tua espera para te dizer uma coisa… Ao perceber que o namorado da mãe estava realmente disposto a contar a verdade dos factos.Não te preocupes! Eu próprio vou contar-lhe assim que ela chegar à cozinha.Se não fizeres sexo comigo eu digo à minha mãe que tentaste estuprar-me – disse Sara. num almoço para o próximo fim-de-semana. Por isso.Então?! Não me vão contar? – riu-se Madalena. Sara aproximou-se de si na cozinha e perguntou-lhe aos ouvidos. . O que é que achas? A expressão embaraçada do namorado deixou Madalena apreensiva. De qualquer forma. chegou a essa conclusão quando no final do almoço. a melhor amiga. Não devias estar a pensar nessas coisas.Não sei – respondeu Sérgio forçando um sorriso.Temos que começar a pensar num novo jantar. . se os seus filhos e o seu pai adoraram Sérgio.Eu não sou uma criança! Já tenho quinze anos e em Janeiro faço dezasseis. . ou melhor. . Mas por sorte não aconteceu e eu até acho que eles gostaram de ti. . . – Já estão a arrumar a loiça? – perguntou ela não imaginando sequer que tudo aquilo que tinha não passava de uma mera ilusão.Claro – respondeu Sérgio deixando-se beijar por ela. – Não queres fazer sexo comigo? . Se tinha dado tudo certo.Não há nada para contar – foram as palavras da sua filha antes de desaparecer da cozinha. mas nem por isso retirou o sorriso que ela fez questão de estampar no rosto.suspirou ele largando as travessas sujas no lava-loiça. então porque não promover uma maior aproximação entre eles? Na altura. . .Vou para o quarto. Algo que realmente não deveria ter feito. .Sei lá! Fiquei com medo que acontecesse alguma coisa. . mas para tê-la por inteiro teria que amar os seus filhos e fazer de tudo para se dar bem com eles.E o que é que vocês me queriam contar? 77 . Os três dias que se seguiram foram vitais para que Sérgio se conseguisse convencer que o que acontecera à mesa com Sara não tinha sido mais do que um mal entendido e que não valia a pena levar em consideração as brincadeiras de uma menina de quinze anos.. quanto a isso não havia a menor dúvida. podes deixar. – Depois combinamos melhor – foi a resposta do fotógrafo. Ele amava-a. No seu rosto era visível uma felicidade extrema por ter tudo aquilo que sempre quis ter na sua vida. a prosperidade nos negócios da floricultura e o namorado mais lindo do mundo. Os seus filhos.Mesmo assim! Para mim ainda és uma criança. E na verdade foram precisos apenas poucos minutos para que Madalena se conseguisse livrar da conversa ditada por Alice e entrar na habitação com um largo sorriso nos lábios. .O que é que deu nela? .Mais ou menos – respondeu Sérgio lançando um olhar lancinante a Sara. aceitar um convite para almoçar no domingo foi irrecusável. era o que ela mais queria. – Eu ligo.Sara… .Ligas-me quando chegares a casa? .Eu também acho que sim. enquanto Madalena atendia uma chamada telefónica da melhor amiga no corredor da casa.

Mas ainda assim a palavra sexo não lhe saiu da cabeça até o Natal. 78 . . mal o conseguia encarar de frente quando se cruzavam no corredor e esqueceu completamente as loucuras de ir para a cama com o namorado da mãe. Passou a respeitá-lo como futuro padrasto.. De facto.Hã… era uma coisa engraçada que tinha passado ali na televisão. Nada de especial! . a frase do fotógrafo não poderia ter sido mais acertada e tudo porque depois daquele malfadado domingo Sara nunca mais se atreveu a colocar-lhe propostas ordinárias aos ouvidos.É – respondeu Sérgio. E já que Sérgio não queria ser a vítima então ela teria que arranjar outra.Fico contente que tu e a Sara se estejam a dar tão bem. – Mas acredito que a partir de hoje nos vamos dar ainda melhor.

mas ainda assim. só precisava satisfazê-la e nada mais.Hã …olá – respondeu Sara abrindo um sorriso quando reconheceu a pessoa que a levara ali.Que isto não era lugar para miúdas como tu. e era também a segunda vez que dava consigo a desviar-se de três toxicodependentes.Claro que me lembro – respondeu a prostituta levando mais uma vez o cigarro à boca.O que é que queres? – questionou Milene rispidamente. um traficante à porta de um café e duas prostitutas de serviço completamente alheias ao tempo e ao espaço. atravessou a rua e encontrou a sua presa.CAPÍTULO V Era a segunda vez que colocava os pés naquele local. Aquele realmente não era o lugar indicado para raparigas como Sara. E sim. . Na verdade. uma jovem de dezasseis anos acabados de fazer que ainda continuava a ter sonhos eróticos todas as noites e que desejava experimentar a sensação de ter sexo com todo e qualquer homem que mostrasse minimamente interessado em nela. Tinham-se passado várias semanas. O que estaria à procura? O que fora fazer quando a avisou que tudo era melhor do que estar ali? Sem conseguir encontrar resposta às suas perguntas. – Será que podíamos conversar num outro sítio? – perguntou Sara após um longo período de meditação.Eu não tenho nada para conversar contigo. inteligente. rico ou proveniente de uma raça previamente estipulada.É só um minuto. não precisando ele de ser bonito. – Tu por aqui outra vez!? .…falar sobre trabalho.Que tipo de trabalho? 79 . . . tinha faltado às aulas e estava no centro de um bairro degradado quando de longe uma mulher a avistou e percebeu que aquela não era realmente a primeira vez que tinha visto Sara ali. era ali que ela queria estar. esse cenário repetia-se todos os dias e não trazia nada de novo para as centenas de pessoas que habitavam o bairro do Intendente.Olá! . o Intendente era o local propício para encontrar alguém assim. De facto. apesar de todos os riscos. – E tu? Lembraste daquilo que te disse? . Na verdade. a mulher levou o cigarro à boca e enfiou o isqueiro na mala a tiracolo. . Depois disso.Lembra-se de mim?! . . A expressão séria que Milene fez questão de colocar no rosto não deixou sombra para dúvidas.O quê? . Era meio-dia. calmamente e sem quaisquer pressas. mas ela continuava a lembrar-se perfeitamente do rosto da jovem por não ser muito comum adolescentes como ela pisarem aquele local. Estou a trabalhar! . Talvez trouxesse para Sara.

– Deixa-me ver se estou a perceber. Sara sentiu-se prestes a cair num abismo.Espera aí… . Finalmente tinha arranjado coragem para estar ali e no fundo não se sentia nem um pouco arrependida da escolha que tinha feito pois havia pensado nela durante semanas a fio e só não a havia concretizado por receio de perder o que na verdade já não tinha.Como prostituta. e ao subir as barulhentas escadas daquele edifício a cair aos bocados.Não faz mal. Era também desprovido de móveis luxuosos. de cortinados e a cama desfeita demonstrava que ainda não havia passado muito tempo desde a última vez que Milene se deitara ali com outro homem.Como… prostituta. a surpresa deu lugar à estupefacção.Tu estás mesmo a falar a sério? . Quero que me ajudes a… a trabalhar aqui! . 80 . e foi isso que Milene tentou fazer durante vários minutos. Trabalhar como prostituta? Ela repetiu a pergunta enquanto se ria a bom rir e levava uma das mãos ao peito.E o que é que queres saber sobre o meu trabalho para além do que já sabes? Sara pareceu hesitar por alguns instantes e Milene percebeu essa hesitação quando lhe encarou o rosto sério e os olhos assustados.O mesmo trabalho que você faz – respondeu Sara surpreendendo-a com a sua resposta. – Desculpa a desarrumação… . . não quis acreditar nela e recusou-se a aceitar o facto de que uma jovem de dezasseis anos. Tu. se quisesse realmente submeter a uma profissão tão humilhante como a prostituição. . Não a levou em consideração. quando os seus olhos se cruzaram com os dela naquele quarto e percebeu que a expressão de Sara permaneceu impávida e serena. – Fala – imperou ela terminando o quinto cigarro do dia. . . . Era pequeno.Como prostituta!? . . pois claro. que aparentemente tinha todas as regalias e todos os mimos dos pais. Eu quero trabalhar aqui. – Não tive muito tempo para ajeitar as coisas. A resposta de Sara conseguiu arrancar uma ruidosa gargalhada por parte de Milene.Disseste que querias falar comigo sobre o meu trabalho.Sim – respondeu a jovem largando a mochila no chão.Estou.disse Milene quando observou os olhos curiosos de Sara a olhar para os cantos do quarto. – Podemos fazer um acordo. tal como o tapete junto à cama. . Sara reparou.. Na verdade. Um cliente. Para além disso.Trabalhar no quê? – questionou Milene franzindo o sobre olho. queres ser prostituta e queres também que eu te ajude a arranjar clientes! É isso? .Sim – respondeu Sara voltando-se para ela. a oferta de Sara era de tal maneira descabida que nem sequer deveria ser levada em consideração. as paredes encontravam-se sujas.Sim. .Entra – disse Milene largando a porta assim que chegaram ao quarto. gastas.Ajudar-te?! . Mas por fim. Estava ali.riu-se Milene nervosamente enquanto passeava pelo quarto. – O que é que queres saber? . A pensão onde costumava alugar um quarto para se encontrar com os seus clientes foi o local escolhido por Milene para aquela conversa que prometia ser no mínimo interessante. que nem sequer tens dezoito anos.Eu quero que me ajudes – respondeu Sara cortando-lhe as palavras. Pudor e vergonha de admitir que era viciada em sexo. . .

Hã… outra coisa importante que já me ia esquecendo. 81 .Eu não quero o dinheiro para nada.Sim! Se eu gostar. . podes ficar com todo o dinheiro que eu conseguir. os encontros são sempre feitos em locais escolhidos por ti. assustada. sombria e desleal? Na verdade. Uma ruidosa gargalhada foi a resposta de Milene: .Mesmo assim eu quero experimentar – afirmou Sara. Este bairro é a nossa salvação e vais encontrar sempre alguém para te ajudar caso aconteça alguma coisa… .. aliás. É preciso ter-se muito estômago para aguentar certos homens.E quando é que queres começar? . . mas não penses que essa profissão é pêra doce.Se me ajudares a arranjar clientes. .Então o que é que queres? . vou-me embora… Quando o cigarro terminou. Escusado será dizer que o mesmo se aplica ao sexo anal.Pode ser amanhã?! . Preservativos. eu não preciso dele. Quem não consegue manter uma erecção com preservativo.k! Amanhã – respondeu Milene aproximando-se lentamente dela.O. elas que apanhem! E… o que mais? Hã. Mesmo que te convidem para ir a hotéis luxuosos. . nada de sexo oral se não os conheceres ou então ires para a cama com eles pelo menos umas três vezes.Só queria experimentar.Sem receber um tostão por isso!? . continuo. ela tinha algumas dúvidas.Se queres experimentar porque é que não arranjas um namorado? Garanto-te que ele te iria tratar muito melhor do que certos clientes costumam tratar as prostitutas que vão para a cama com eles – Sara calou-se.Claro.Estás-me a propor que eu me torne na tua chula? . resoluta. Não penses que é divertido abrir as pernas para o primeiro que aparece ou então para aquele pagar mais. mas quando descobrires e viveres essa realidade. garanto-te que vais ficar desapontada! Muito desapontada. certas coisas que eles nos pedem para fazer e para não vomitares com o cheiro de alguns.Que acordo!? . Elas que se casaram. Se não gostar. Usa sempre preservativo e não te deixes ir naquela conversa de que sem ele é melhor. – Arranja-te bem! Depila-te em todas as partes do corpo porque quanto menos pêlos tiveres menos contacto físico tens com o cliente. Não seria muita pretensão dela achar que iria gostar de ser prostituta? Será que ainda não se havia dado conta dos perigos que estava a correr ao entrar numa vida completamente desregrada.Aconteça o quê? – perguntou Sara. mas ainda assim quis desafiar Sara com uma pergunta: . . não aceites. também já fui curiosa. Trás também alguns produtos de higiene para te lavares. que vá para casa foder com a mulher porque nós não estamos aqui para apanhar as doenças deles. Milene apagou-o num dos cinzeiros sobre a cómoda e lançou um olhar desafiador àquela jovem que parecia ter toda a experiência do mundo. Estás iludida! Andaste a enfiar coisas na tua cabeça que não correspondem à realidade. – Escuta! Eu também já tive a tua idade. . e pede para que ele se lave antes de sequer se atrever a colocar-te as patas em cima – Sara acenou com a cabeça embora os seus olhos ainda demonstrassem algum medo – Outra coisa! Nada de beijos na boca mesmo que te peçam. mas que tu nunca te podes esquecer.

. mas no entanto havia algo que a fazia hesitar e Milene foi a primeira pessoa a reparar nessa hesitação perfeitamente normal para uma iniciante.Caso alguém tente espancar-te. Faltavam poucos minutos para as duas da tarde quando Sara se despediu de Milene com a promessa de voltar no dia seguinte e iniciar a profissão que tinha escolhido para si. eu vou dizer que não te conheço de lado nenhum e que tu simplesmente enlouqueceste. . feito tantos planos.…não. de como reagiria quando ele a tocasse e como ficaria o seu estado de espírito depois de se entregar a um perfeito desconhecido em troca de dinheiro. ali. a excitação apoderou-se do seu corpo. basta ofereceres uns troquinhos antes de subires e tens a vida salva. . e nem esperava sequer encontrar ali o seu príncipe encantado. Depilar-se.Deixa-me entrar – disse Daniel batendo à porta da casa de banho. Sara deu-se consigo a perguntar se não estaria realmente a cometer uma loucura ao enfiar-se na toca do lobo. – Ainda estás a tempo de desistir.Agora não dá – gritou Sara passando o chuveiro pelas pernas depiladas. . Não. Não desconfia de nada.. Não desconfia de nada e nem nunca iria desconfiar. a corda vai arrebentar para o meu lado. o jantar foi silencioso apenas interrompido pelo bater dos talheres nos pratos. Sara resolveu trancar-se na casa de banho com o intuito de fazer aquilo que Milene lhe pedira durante a tarde. mesmo não tendo a mínima ideia de como seria o seu primeiro cliente. Mas surpreendentemente. As explicações de Milene continuaram durante largos minutos. que a achasse bonita e que não tivesse olhos para nenhuma outra mulher a não ser para ela. Na verdade. – Estou aflito e preciso ir à casa de banho. porque se fizeres isso.Eu sei! Podes ficar descansada. ela conseguisse encontrar alguém assim. em pleno Intendente. só de pensar na ideia.Sabes que se a bófia te apanhar por estas bandas. eu vou compreender… . A televisão teimou em não calar-se e os olhos de Sara muitas vezes se cruzaram no rosto despreocupado de Madalena. – Vai à outra lá em baixo! Naquela noite. Depilar-se dos pés à cabeça e preparar-se psicologicamente para o que a esperava no dia seguinte. Para isso. a única coisa que lhe interessava era ter alguém que a quisesse e a desejasse nem que fosse apenas por alguns minutos. pensou a jovem.disse-lhe Milene à saída da pensão. Algumas horas depois e enquanto a mãe preparava o jantar na cozinha. Não o estava a fazer por carências financeiras. Eu não vou desistir! . – Se não vieres amanhã.A polícia não me vai apanhar. não sabes!? . tal como já vinha acontecendo há várias outras. De 82 . violar-te ou obrigar-te a consumir drogas – respondeu Milene afastando-se calmamente. – Nesta pensão eles não se vão atrever porque temos alguns amigos especiais que tomam conta de nós na recepção. não queria saber do dinheiro para nada até porque tinha ficado acordado com Milene que seria ela a receber todos os lucros. E talvez. e enquanto a ouvia com a máxima atenção. .Eu venho – respondeu Sara desaparecendo do bairro com a sua mochila às costas.Nunca te atrevas a atender um cliente na rua e também nunca te atrevas a denunciar-me à polícia. Tinha pensado tanto tempo sobre o assunto. Alguém que lhe retirasse do peito aquele sentimento horrível de vazio e carência afectiva. .

. Mas é bom que não me tragas nenhuma confusão e muito menos a bófia. . ao entrar na pensão onde tinha combinado encontrar-se com Milene. . . com o meu irmão e também com o teu querido namorado que agora não sai cá de casa. porque não sou só eu quem pensa assim.Sara. de olhos e cabelos escuros.Eu disse-te que vinha. magro. O pai também acha ridícula a tua relação com esse Sérgio.resmungou Sara terminando a tangerina que tinha nas mãos. 83 . No dia seguinte.Sara.Quem é que te disse isso? . apesar de fingir que adora o teu namorado e que acha super normal a filha andar com homens mais novos. – O que é que queres? . a porta do quarto de Milene surgiu-lhe diante dos olhos e tocar nela foi inevitável. .Contigo. .Vim ter com a Milene – respondeu Sara recuando dois passos. era completamente impossível para uma mãe imaginar que a sua filha estava a vinte e quatro horas de se prostituir pela primeira vez. – Vieste – exclamou a prostituta ao abrir a porta.Pois… . Seria demasiado sórdido sequer pensar numa coisa dessas.Eu não me ando a prestar a papel nenhum. . . Na boca. A resposta da filha deixou Madalena surpresa. . Sara foi interceptada por um homem mal-encarado. Sara acedeu ao pedido e aproximou-se da cama onde estava estendido apenas um lençol branco e duas almofadas cansadas pelo uso. até quando vais continuar com essa ideia absurda de não querer falar com o teu pai? Já se passou tanto tempo desde que saíste da casa dele e tens que convir que foi melhor assim. . trazia um palito e no corpo um fato de treino verde que em tudo lhe acentuava os ossos das pernas. – Hoje o teu pai ligou para falar contigo – disse Madalena.Entra lá! Sem hesitações.Eu não quero falar com ele.facto. . eu acho melhor ires-te deitar! Amanhã ainda é dia de aulas e não convém chegares atrasada – afirmou Madalena fitando-a furiosamente.Tens a certeza?! Sim. – O que é que queres dizer com isso? . – O teu lugar é cá em casa comigo e com o teu irmão. e o avô.O que é que andam a tramar? . . – Ela é parva e o Sérgio é fixe. também deixou escapar no outro dia que não acredita lá muito que o vosso namoro vá dar certo.Não ligues – disse Daniel tentando animar a mãe. Minutos depois.Não vou trazer ninguém – foi a resposta de Sara enquanto subia as escadas a correr e se preparava para aquela que seria a sua primeira experiência no mundo da prostituição.Só te quis avisar – respondeu a jovem abandonando a cozinha sob o olhar magoado da mãe. . – Fiz aquilo que me mandaste – disse Sara largando a sua mochila sobre a cama.Nada! Só acho ridículo que uma mulher da tua idade se ande a prestar a um papel destes. .Eu – respondeu Madalena levando as loiças sujas em direcção ao lava-loiça. – O único problema é ser quase dez anos mais novo que tu. .Podes.O Sérgio é muito simpático para ti e para o Daniel! Ele trata-vos muito bem.Nada! Então?! Posso subir ou não? .

Menos-mal – respondeu Milene alcançando a porta do quarto.Por acaso não és virgem. – Mas uma coisa que tens que saber é que uma prostituta depois dos trinta e cinco já não tem muitas opções de escolha. É por isso que ainda anda na vida. fecho a loja e desapareço sem deixar rastro. . Quem já passou dos trinta que se lixe.A sério?! .Se ele quiser. . toalhas e tudo o resto. Depravados esses homens pá! Só querem saber de carne fresca. – Cinquenta e dois.Ela tem muitos clientes também? . Essa Arlete armou-se em parva e acabou sem nada. .E ainda continua a ser prostituta? . Quantos anos é que ela tem? .Depilei-me e trouxe sabonete. Nunca mais ninguém aqui neste bairro vai ouvir falar de mim.Arranjei o teu primeiro cliente. – Mas eu também fiz aquilo que me pediste.O quê!? . . filhos ou qualquer outra coisa interessante. É só um cliente. a profissão ou sequer o estado civil. – Eu já falei com ele.Como é que ele se chama? – perguntou Sara à cautela. .Quem!? . especialmente se não tem família. .O quê? . pois não?! . essa – riu-se Milene. Queria ter aquele corpo absolutamente escultural. Está no segundo piso e é um dos meus melhores clientes também. Sara não soube como. aquela sensualidade que parecia transpirar-lhe de todos os poros e a confiança de uma mulher que apesar de saber que era prostituta. . . Por isso é que quando somos novas temos que abrir os olhos e fazer um pé-de-meia para nos sustentarmos. – Até já! Os minutos que se seguiram foram de algum nervosismo.Acho que sim – respondeu a jovem demonstrando alguma ansiedade na voz.Está bem. . mas eu. também não perguntes – afirmou Milene calçando os seus saltos em frente ao espelho do quarto..Uns gatos-pingados … – respondeu Milene ajeitando os cabelos compridos em frente ao espelho. vou buscar o gajo! Estás pronta? . ele diz-te o nome! Se ele não disser. e tudo porque Sara não conseguiu controlar as mãos trémulas. nunca perdia a pose e a dignidade.adiantou-se Sara curiosamente. mas subitamente passou a admirá-la.Aquela tua amiga… . vem-se depressa e não pede para que lhe façam muitas coisas esquisitas. – Bem.Para quê que isso te interessa? Não precisas saber o nome.A Arlete. .Hã.O que é que queres?! Quem entra nesta vida já não sai. Assim era Milene e era assim que Sara também gostaria de ser.És boa ouvinte – respondeu Milene acendendo um cigarro. quando chegar aos trinta. querendo um dia ser como ela. .…não. . a que estava contigo na primeira vez que cá vim. Disse que só tinhas dezasseis anos e o gajo excitou-se todo. as pernas bambas e o coração que mais parecia que 84 . . Enquanto observava Milene arranjar-se ao espelho e a compor a maquilhagem.Sim. gel de banho. Paga bem.

Queria-a não só pela idade. pelo corpo. o preço duplicava ou triplicava – discursou Milene demonstrando bem todos os anos de experiência que conseguira adquirir para si. – Quanto é? . – Como é que te chamas? Silêncio foi a resposta que obteve. – Mas tu é que sabes! Se não quiseres ou não tiveres dinheiro para pagar.Duzentos e cinquenta!? Estás a gozar com a minha cara? .Queres o BI? – perguntou Milene voltando-se rispidamente para o cliente. já sabes o que te acontece. a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta abriu-se. É só descer lá em baixo e… . Seria ele o seu primeiro cliente.Não te metas aonde não és chamado – respondeu ela enfiando as notas no decote da camisola. Realmente não era todos os dias que uma rapariga daquelas lhe passava pelas mãos e desperdiçá-la seria burrice. Luísa? .adiantou-se Milene. sendo que a primeira pessoa a entrar foi Milene e logo a seguir. .iria saltar pela boca. – Tudo bem eu pago. quando finalmente se conseguiu sentar na cama. .Duzentos euros! Ou melhor.Obrigada! .…é claro que quero – respondeu ele observando Sara dos pés à cabeça. – Chama-se Luísa – mentiu Milene. Por fim. O pânico apoderou-se de si. mas assim que ele estendeu o braço.Tens a certeza? .O. Não estou a desconfiar de ti! .…era desta rapariga que te estava a falar. é?! . princesa. Pensava em oferecê-las a Sara. . Era alto. eu arranjo outro cliente num piscar de olhos. .Agora viraste chula. Quando a porta do quarto se fechou com um pequeno estrondo e Sara se viu completamente sozinha naquele quarto ao lado de um desconhecido que tinha praticamente 85 .Só queria confirmar. mas pelo menos estava bem vestido e aparentava não ter passado dos trinta e cinco.Então?! Queres ou não? . o cliente. não parecia ser muito simpático. Sim. O Nuno está lá em baixo. mas também pelo rosto inocente que ela aparentava ter. se te portares mal. assustada. Ele queria-a. – E vê lá se tratas bem a minha colega.Qual é?! Vais reclamar do preço? Estou-te a fazer uma oferta dessas e tu ainda reclamas? Já olhaste bem para a cara da miúda? O corpo? Tens sorte é de estar-te só a pedir duzentos e cinquenta. . apoderou-se mais do que poderia imaginar e qualquer ruído ou movimento da porta era um sobressalto seu.Hã pensei. Não era muito bonito.Dezasseis – respondeu Sara. afinal de contas era ela quem lhe iria prestar o serviço. Milene adiantou-se dizendo: .Quantos anos tens. – Ou vais-me dizer que não acreditaste quando te disse que a gaja ainda era menor? . foi a primeira coisa que Sara reparou.k – interrompeu o cliente alcançando a carteira no bolso das calças. A carteira abriu-se e do seu interior saíram duas notas de cem e uma de cinquenta.Tem calma. . A miúda parece ter mais idade do que aquela que me disseste. duzentos e cinquenta – respondeu Milene batendo o pé no soalho. porque noutro lado. .Parece ser interessante – respondeu ele lançando um olhar intenso a Sara que a gelou dos pés à cabeça. – Bem… . ouviste?! É uma gaja fixe! Por isso.

.Não! Hoje estou de folga.Ele foi muito bruto contigo? . Sara viu-se metida num verdadeiro inferno sem tempo e sem hora para acabar.k – conformou-se Milene com a falta de pormenores fornecidos pela jovem.Não sabia que vocês tiravam folgas durante a semana.Não sejas parva – respondeu ele enfiando-lhe a nota nas mãos. . e durante largos minutos.Não sabia que era assim tão feia – respondeu a última levando dois pauzinhos à boca.Como é que foi? . – Não queres falar sobre o assunto não fales. o pescoço e atirou-se novamente para o chuveiro para se consciencializar de que se tinha realmente prostituído pela primeira vez. Seria tarde demais para fugir? Tarde demais para se arrepender de um pecado que nem sequer havia cometido? Sim. – Ai! Que susto… . . .Estás a gozar comigo. obrigada.idade para ser seu pai.És servida!? . – Não deves deixar que a Milene te explore – disse ele a Sara enquanto vestia as suas roupas.O.Em todo o caso é um aviso que te dou! Se quiseres continuar nesta vida tens que abrir os olhos – entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. . A intenção era a de se aliviar e de retirar dos ombros todo o stress a que foi submetido durante a semana. Já pagaste.Como é que foi o quê!? . Depois disso. .Ela não me está a explorar – respondeu ela enrolando-se no lençol da cama. 86 .Não. Lavou os cabelos com o Shampoo que trouxe de casa. Os chinelos foram calçados para que não tivesse que pisar o chão imundo da casa de banho e a roupa interior vestida em silêncio enquanto regressava ao quarto. . não era essa a sua intenção. Era tarde e isso ficou provado pela ordem do cliente: . Mais tarde.Não é preciso. pois na verdade. .Despe-te! Foi horrível do princípio ao fim.Hoje não vais trabalhar? . . veio uma sensação de alívio. . – Essas putas são muito espertas e aproveitam-se de novatas como tu. veio a sensação de alívio e a vontade de desaparecer daquele quarto para voltar ao trabalho. foi doloroso. não?! O que é que acabaste de fazer? . as pernas. – Toma! Guarda para ti.exclamou ela quando se deparou com a figura de Milene a devorar a comida chinesa comprada num dos muitos restaurantes asiáticos do bairro. – Guarda! A primeira coisa que Sara fez quando o cliente desapareceu foi enfiar-se por debaixo do chuveiro e retirar do corpo todas as marcas e vestígios que ele lhe deixara no corpo durante os quarenta minutos em que a possuiu como se ela fosse apenas um mero pedaço de carne. O cliente não foi nem um pouco cuidadoso com ela.Não é nada disso! Só não estava à espera de te encontrar aqui. esfregou os braços. de calmaria e o enxugar do corpo com uma toalha.Mais ou menos. uma onde de nervosismo voltou a atravessar-lhe o corpo e os pensamentos. . .Foi normal – respondeu Sara encontrando a suas calças de ganga sobre o cadeirão.

Uma filha – emendou Milene largando a sua cerveja sobre a mesinha.Ele queria que eu fizesse um aborto – respondeu Milene continuando a devorar o almoço improvisado.…já – respondeu ela após um longo silêncio.És curiosa.Fui despedida porque fiquei grávida. .Mas o quê?! . . Milene percebeu isso em poucos minutos. hã?! . . .Que pergunta?! .Na hora H não tive coragem. . até estava disposta a fazer a porcaria do aborto só para me livrar da criança.Não respondeste à minha pergunta.Eu.Nunca tiveste um emprego a sério? .Porquê?! . Não quis que a mulher soubesse..Se não quiseres não contes – respondeu Sara sentando-se numa das pontas da cama quando terminou de se vestir. e se queres que te diga.E porque é que saíste de lá? Uma outra hesitação foi a resposta oferecida por Milene. – Foste despedida? . .Se nunca tiveste um emprego a sério? A miúda é esperta. acobardei-me! Tive medo de morrer.Trabalhaste no quê? . de ficar doente sem ter ninguém que cuidasse de mim e tive medo de perder a minha filha. e deu-me um pontapé no rabo. Não pago rendimentos mínimos a ninguém… . Eu aceitei o cheque claro. – Tu é que fazes os teus próprios horários! Não tens nenhum patrão chato para te dar ordens e também não tens que descontar para a segurança social.Foste despedida só por causa disso? .ela pareceu hesitar. . Percebeu também que por mais magistral que tivesse sido a sua desculpa para fugir à questão Sara não se deu por vencida.Num restaurante lá para os lados de Odivelas.O que é que fizeste? . .Aonde é que ela está? 87 . .Tiveste um filho? . Mas… . . – Até me deu dinheiro para isso desde que desaparecesse e nunca mais me pusesse a vista em cima. .Pelo menos essa é uma das vantagens de se ser puta – respondeu Milene bebendo um gole de cerveja pelo gargalo da garrafa. – Queres um emprego mais cansativo do que estar deitada numa cama de pernas abertas à espera que o teu cliente se venha? Isto quando não é de pé num beco qualquer! A sorte é que a maioria não se aguenta mais do que vinte minutos. até porque ela também trabalhava no restaurante.…sim.O filho da mãe do meu patrão despediu-me quando descobriu que a miúda era dele. o quê? . Sei lá.E tu? .E achas que esse não é um emprego a sério – riram-se as duas enquanto Sara terminava de se vestir em frente à cama. .

Mal posso esperar por isso – respondeu Sérgio beijando-lhe os lábios.Em passarmos um fim-de-semana fora de Lisboa. Quando regressou a casa após uma tarde inteira passada no Intendente. – Então?! Ficas para jantar? .Eu não tenho fome. mas ainda assim parecia que um batalhão lhe tinha caído em cima. .Falaste-lhe sobre mim? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. por fim.Se for convidado. Só tinha atendido um cliente.Bem.Que coisa? . – A sério! É toda espevitada.…e em breve também vais poder dormir cá. mas o que importa é o dinheirinho sempre conta no primeiro dia do mês. . . . estive a pensar numa coisa… .Tu não precisas ser convidado – afirmou Madalena mostrando-lhe um doce sorriso. Nunca sei o que ela está a pensar.Ai é!? Muito bom ouvir isso.Mas também não vais dormir sem comer – respondeu Madalena vendo a filha a desaparecer da sala sem sequer olhar para trás ou responder à sua ordem.Olá Sara – disse Sérgio lançando-lhe um breve aceno. .Sim! No meu quarto. .Sim! Queria levar-te a conhecer o meu avô ao Alentejo. o que vai fazer…! Enfim! É uma autêntica caixinha de surpresas. . . – Tudo bem? . a sensação de que tinha feito algo de mal embora não soubesse bem o quê e. vou subir para o meu quarto. Sara lançou um suspiro e quase que desejou cair no corredor de tão cansada que estava.Sabe – interrompeu Milene não escondendo a voz amarga.A adolescência passa. E não era só isso.Fora de Lisboa!? .A tua mãe sabe que tu és… . – Já és cá de casa. . mas não de uma boa forma. a estúpida sensação de querer repetir aquela experiência assim que possível. – Sabes. Lembraste quando te disse que um dia te iria apresentar a ele? Pois então! O senhor Luís quer conhecer-te.Não demores muito a descer. . 88 .Aonde é que te meteste? – interrogou Madalena assim que ela entrou na sala e se deparou com a figura sempre exasperante do namorado da mãe. . .Ainda bem – riram-se baixinho.Estive com umas amigas – mentiu a jovem.No Porto com a minha mãe! Chama-se Daniela e tem seis anos.Como é que ela se está a portar nesses dias? – perguntou Sérgio após o longo suspiro lançado pela namorada. eu acho! Mas com a Sara tudo é imprevisível. ser espancada ou parar à prisão. quer lá saber! Posso morrer com Sida. tem mania que sabe tudo e anda sempre a ver se me consegue sacar as roupas e os sapatos.Tudo! Bem. A miúda é a minha cara… – riram-se. . Era também a sensação de que o cheiro dele estava entranhado na sua pele.. .No teu quarto? . . . sabias?! . – Mas para ela desde que mande dinheiro todos meses para me tomar conta da miúda. . O jantar já está pronto.

Depois disso. pois apesar de já ter chegado aos quarenta. ajudar o meu avô no pomar que ele tem. .Exactamente! Queres coisa melhor? . – No Alentejo… . . 89 . E enquanto falava com ela ao telefone. Não posso ausentar-me durante um fim-de-semana inteiro. Madalena livrou-se das acusações e pediu igualmente o divórcio ao marido com a clara certeza que nunca mais o voltaria ver com os mesmos olhos. Apesar da relutância inicial. Na verdade. vamos fazer grandes passeios.É claro que ele fica – respondeu Sérgio oferecendo-lhe um outro beijo. – E quando é que íriamos? . mordeu o lábio inferior quando ela confessou que iria passar dois dias no Alentejo na companhia do namorado e tentou igualmente esconder os ciúmes que sentiu quando percebeu que a ex. foi um choque o pedido de divórcio que Madalena fez questão de lançar em tribunal e um choque também encontrar as suas malas à porta de casa quando estava certo que ela o perdoaria por ter passado uma noite inteirinha na prisão.. aliás.Na sexta-feira à noite e voltávamos no Domingo.Então eu vou falar com o Jorge amanhã. apanhar ar puro.São só dois dias – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos lisos. .Não – riu-se ela. Jorge aceitou tomar conta dos filhos durante o fim-de-semana. tu sabes disso! Mas o problema são os meus filhos. . marido ou até mesmo com o teu pai!? .Durante o fim-de-semana todo? . muito pelo contrário.Hã… estou – respondeu Jorge voltando ao planeta terra quando ouviu a voz no outro lado da linha. Vamos ver se ele me consegue ficar com os miúdos.Um fim-de-semana – suspirou Madalena sentindo-se bastante tentada a aceitar aquele convite tão aliciante. Jorge lembrou-se de todas estas características que durante anos lhe passaram despercebidas. Ouviu as explicações de Madalena.Eu também acho – concordou Madalena deixando-se levar pelos braços dele em direcção à cozinha. – Vais ver! O nosso fim-de-semana vai ser inesquecível. Então?! O que é que me dizes? . Mas a verdade é que Madalena não perdoou.Na sexta-feira só se for depois das seis e meia.Porque é que não deixas a Sara e o Daniel com o teu ex. – Estás aí?! . tinha sido a humilhação máxima ser presa por um crime cometido pelo marido e por ele nem sequer se ter dignado a comparecer à polícia enviando apenas um outro advogado com as instruções exactas para que não o comprometesse. não porque Madalena não fosse uma mulher bonita e interessante. o dinheiro extraviado de uma empresa de telecomunicações foi devolvido ao Estado. mulher havia encontrado alguém que se interessasse por ela.Várias vezes. Foi um milagre de facto. desde que te conheci que não lhe tenho falado sobre outra coisa.Eu adoraria conhecer o teu avô. E vai ser divertido! Vou-te ensinar a pescar.Então podes vir buscar os miúdos este fim-de-semana? . Tinha sido a gota de água. . continuava a radiar uma beleza igual ou superior à de muitas mulheres de vinte. . – No domingo à noite já estamos de volta.

Ou será que não seria demasiado precipitado chamá-la de amiga? Na verdade. Depois disso. ela arrumou uma pequena mala assim que chegou a casa e enfiou no seu interior apenas roupas práticas.Nada de especial. mas com uma enorme vontade de voltar. A mochila estava pronta e o casaco sobre a cama. – Queres que comece já a levar as coisas para o carro? – perguntou Sérgio arrastando as malas em direcção ao corredor. Não há problema – disse Madalena observando os movimentos dos seus clientes na floricultura. entregava o dinheiro ganho e abandonava o quarto da pensão sentindo-se imunda.Não sei – respondeu Daniel sentando-se no sofá de braços cruzados. . Madalena e Sérgio iriam passar dois dias na pequena vivenda do avô dele e aproveitar toda a paz.Tudo bem.Deve estar quase a chegar.Se for contigo tenho a certeza que ninguém vai desconfiar que eu ainda não tenho dezoito anos. esses momentos iriam ser muitos. E de facto.Estás louca – riu-se Milene com uma gargalhada seca. . mas ele é muito mais liberal que ela. Para isso. . Todas as semanas vamos lá à cata de algum ricalhaço que esteja disposto a pagar bem. – A minha mãe vai viajar este fim-desemana… . – Não tens idade para lá entrar.Se calhar era melhor – respondeu Madalena descendo os estores da janela. Tudo estava combinado. . temos bebidas de graça e os clientes são um pouco mais civilizados que os de cá. .Tu já me atrapalhas.Ele chega sempre atrasado. – Fico à tua espera então. . Achas que me consegues arranjar algum cliente? . . – Leva-me a essa festa! 90 . alguns objectos pessoais e uma máquina fotográfica com a qual pretendia fotografar todas os momentos especiais da viagem.. querido! Tem só mais um pouco de paciência. Então?! Leva-me contigo! Prometo que não te vou atrapalhar. o pai não vem? – foi a pergunta de Daniel quando entrou na sala com cara de poucos amigos . – Vou ficar com o meu pai.Festa?! Que festa? .Hoje não vai dar – respondeu Milene observando com atenção o movimento dos carros não fosse um deles parar com um cliente lá dentro. É só uma festa que costumam organizar num clube de streap lá para os lados do Bairro Alto. decidido e tratado. ela tinha certeza. mas ainda assim Sara encontrou tempo para telefonar à sua nova amiga Milene.Não me podes levar a essa festa? . onde é que a tua irmã se meteu? Ela já arrumou as coisas dela? .começou ela por dizer a Milene.Escuta. Ouve-se boa música. o que as unia era uma relação estritamente profissional.Daí que estava a pensar em passar hoje à noite pelo bairro. Ouviste o que o gajo disse no outro dia? Que eu pareço muito mais velha do que sou.E daí? . . calmaria e tranquilidade que a região do Alentejo oferecia aos seus visitantes. – Está trancada no quarto. .Mãe. . A prostituta arranjava-lhe clientes e ela satisfazia as suas vontades sexuais quase diárias. – Tenho uma festa para ir.Vá lá – pediu Sara encarecidamente.

isso era um facto.Será que o teu avô já não dormiu? . as malas foram colocadas a um canto do corredor. e depois disso. as parecenças com Daniel e Sara fizeram-no antever que era o pai deles e consequentemente o ex. sem o stress de uma cidade tão agitada e barulhenta como Lisboa e também sem olhar para o relógio.Tens razão. sem filhos. Não viste que a luz da sala continua acesa? . na altura.É claro que vai. mas ainda assim. Porque é que não haveria de gostar – respondeu ela seguindo-lhe os passos em direcção à porta principal enquanto o seu coração voltava a bater mais forte e Sérgio se esfalfava para encontrar as chaves que guardara no bolso do casaco. Aliás. Madalena não conseguiu evitar o sorriso que lhe atravessou o rosto e a sensação de que tinha acabado de chegar ao paraíso. a porta abriu-se sem muito esforço. O tempo estava ameno. as árvores não evidenciavam qualquer sinal de que estavam a ser levadas pelo vento e as estrelas no céu fizeram os seus olhos brilhar de alegria e emoção. ouviu-se o barulho de uma 91 . Sérgio sorriu. pois apesar de nunca se terem cruzado antes. A viagem ao Alentejo correu sem quaisquer sobressaltos e só terminou perto da meia-noite quando Sérgio estacionou o carro em frente a uma pequena moradia pintada de azul e branco. Não parecia muito simpático. Não era uma casa muito grande ou luxuosa. marido de Madalena. ao ver-se diante dela. .Os miúdos!? . – Até que enfim chegaste – disse Madalena abrindo a porta ao ex. mas também era compreensível que não fosse tendo em conta aquele encontro no mínimo constrangedor em frente a uma casa que um dia também foi sua. O fim-de-semana iria ser especial e ele pôde ter essa certeza quando tornou a fechar o porta-bagagem sob o olhar atento de um homem de estatura elevada. enquanto a poucos metros. . Porque é que não haveria de gostar? .Não! Ele está à nossa espera.Meu Deus – riu-se Madalena.Sei que estás louca para o teu fim-de-semana. – Boa tarde – respondeu Sérgio observando-lhe a entrada pelos portões da casa. .As malas da viagem foram colocadas no porta-bagagem do carro e para isso Sérgio precisou apenas de dois braços e alguma força de vontade. olhos claros e cabelos castanhos. – Vamos entrar? – perguntou Sérgio levantando do chão as malas que trouxeram de Lisboa. força de vontade era tudo o que não lhe faltava. – Será que ele vai gostar de mim? .Já estão prontos à tua espera.Eu sei que tens compromissos e que trabalhas. na sala. Por sorte. . . especialmente quando sabia bem que aquela seria uma das oportunidades raríssimas para ter Madalena só para si durante dois dias. encontrou o casaco de Madalena e pendurou-o no bengaleiro atrás da porta. mas eu também tenho compromissos e também trabalho tanto quanto tu – respondeu Madalena fechando a porta enquanto os dois homens se fitavam vorazmente. – Boa tarde – disse Jorge com uma cara de poucos amigos. mas também tens que compreender que eu tenho compromissos e que trabalho… – respondeu Jorge não conseguindo esconder os seus ciúmes quando Sérgio também entrou pelo corredor adentro. marido. Não foi preciso muito esforço para perceber quem ele era.Então eu vou chamá-los porque não me quero demorar muito por estas bandas.

Sérgio abriu um largo sorriso e rapidamente se apressou a cumprimentar o avô oferecendo-lhe um longo abraço e também um beijo na face.Muito prazer.O teu avô é muito simpático.Ainda bem que não jogou – riram-se baixinho. senhor Luís – disse ela estendendo-lhe a mão com um largo sorriso enquanto desejava que ele não a deixasse ali especada. Não havia dúvida de que aquela casa era habitada por um homem ligado ao passado e às recordações de uma vida que nem sempre teve momentos felizes.Vai-me jogar esse facto à cara para o resto da minha vida – respondeu Sérgio voltando-se para Madalena com uma felicidade que não passava despercebida a ninguém. – Não querem beber um chá? – perguntou ele interceptando os olhares perdidos de Madalena. este é o meu avô! O grande senhor Luís Restelo. . algo que a deixou deveras surpresa. a mãe de Sérgio. – Não precisavas ter medo de nada. .Falou bem.Estou muito contente que estejas aqui comigo. . . com certeza já te teria jogado esse facto à cara. mas sim com um inesperado abraço.O que é que eu te disse? – indagou Sérgio envolvendo os braços à volta da cintura de Madalena. amor?! . E prova disso era os dois porta-retratos que ele fazia questão de manter sobre a mesinha junto à janela. Eram muito unidos. . não?! – adiantou-se Luís levando os seus convidados em direcção à sala. um quadro pintado a óleo e as centenas de livros amontoados a um canto da sala.Então vou pôr a chaleira no lume! Já venho – disse o dono da casa desaparecendo da sala. . – Madalena. 92 . . agradecia. Se ele não tivesse gostado de ti. – Até que enfim. esta é a Madalena! A pessoa de quem tanto te falei – fez Sérgio as apresentações. .Também era o que mais faltava depois de te ter trocado as fraldas desde que nasceste.Bem. – Aliás.Achas que ia falar mal de ti. . vô? – interferiu Sérgio poisando-lhe a mão sobre o ombro. – Vô.Já estava a ver que nunca mais a conhecia – exclamou ele. mas vocês devem estar cansados da viagem. espero?! . Ao ouvi-la.Nem tanto – respondeu Sérgio largando o casaco de cabedal sobre o sofá enquanto Madalena tentava dissecar discretamente toda a decoração existente naquelas quatro paredes.Bem …eu também estava muito ansiosa para o conhecer! O Sérgio falou-me imenso a seu respeito – respondeu Madalena retirando a expressão esbugalhada dos olhos. Uma da sua falecida mulher e outra da sua falecida filha. Era como se ela estivesse à espera do momento exacto para o fazer e como se encontrasse a paciência necessária para não o ter feito antes. ao contrário do que ela estava à espera. Contudo. . homem – exclamou uma voz grossa irrompendo o corredor. os pequenos barquinhos de madeira sobre as estantes. . .Queres um chá. o cumprimento de Luís não veio com um aperto de mão. Adorou.Claro! Claro que falou bem. . .Quero – respondeu ela à pergunta de Sérgio e Luís com um largo sorriso. . foi a primeira impressão de Madalena quando lhes ouviu as risadas e se sentiu um verdadeiro peixe fora de água à espera de ser salvo da morte certa. Adorou os móveis velhos clássicos.pequena cadeira de descanso guinchar ruidosamente.

– Olha quem é ele – exclamou Milene abrindo um sorriso radiante quando um homem se aproximou de si a surpreendeu um longo abraço.Boa – riu-se uma das prostitutas. animados pela noite e também pela música barulhenta que se fazia ouvir no interior do edifício.k – respondeu Sara aceitando a identificação com alguma cautela. muitas vezes acompanhada pelo pai ou pela mãe. vindo acompanhada por mais duas colegas de profissão visivelmente embriagadas.. Será que ela vem. Mas por sorte. O clube situava-se numa das ruas mais recônditas do Bairro Alto. A fila de espera para entrar estendia-se para lá dos dez metros e quase todos os clientes aguardavam a sua vez. . – Meninas. – Se te pedirem o BI. naquela noite.Ainda perguntas!? Com a tua idade não estás autorizada a entrar em clubes de streap.Também – riram-se eles ainda com os lábios colados no outro. – Mais uma para a concorrência. Quanto aos porteiros tens que ter cuidado quando eles te pedirem o BI… .O. mostras sempre com um dos dedos sobre a fotografia e passas rápido para que eles não fiquem a olhar muito tempo para o cartão. Mas nem a promessa de uma possível tempestade impediu Sara de sair do quarto e fechar a porta com cuidado para que o pai e o irmão mais novo não se apercebessem dos seus planos mais secretos. . . nunca imaginou que aquele estabelecimento sempre fechado durante o dia tratava-se de um clube de streap frequentado à noite por pessoas das mais variadas raças e estratos sociais.Para quê? – perguntou Sara compondo os cabelos soltos. em Lisboa. longe de tudo. Apanhou o último metro da noite e em pouco tempo viu-se no local onde havia combinado encontrar-se com Milene. Ao contrário das estrelas no céu que o Alentejo apresentou. Trajada com uma mini-saia. passou-lhe essa pergunta pela cabeça enquanto lançava os olhos ao relógio de pulso via que nele estavam marcadas doze horas e cinquenta e nove minutos.Dezasseis – respondeu Sara. ela encontrou as chaves e saiu com o único intuito de passar uma noite completamente diferente a todas que havia passado até então. – Desaparecido! 93 . e mesmo Sara tendo passado por aquela zona umas milhares de vezes. de todos… .Longe dos problemas. . esta aqui é a Sara – fez ela as apresentações. – Ela também vai connosco. meias de renda pretas e um casaco que lhe cobria o corpo todo. Milene não a deixou esperar em demasia naquela rua deserta e ventosa. Se a bófia faz uma rusga por lá estás lixada e eu também. . .Só?! E já tens esse corpo? . – Eu também estou muito contente de estar aqui contigo.Isto se lhe pedirem – interferiu uma das prostitutas.Eu também – confessou Madalena encontrando-lhe os lábios no meio daquela sala desprovida de quaisquer luxos desnecessários.Mesmo assim – disse Milene que de todas era a que mais jogava pelo seguro. – Quantos anos é que ela tem? . querida. o céu tornou-se carregado e cheio de nuvens.Trouxe-te um BI falso – disse Milene retirando da mala um cartão com a fotografia e o nome de uma mulher de vinte e um anos. .

94 . algo perfeitamente compreensível para um homem de vinte e sete anos que passara a maior parte da adolescência em bairros degradados e em esquemas criminosos longe do conhecimento da polícia. – És muito bonita – segredou-lhe Marco aos ouvidos. Marco era um jovem mulato. Sara deixou-se levar pelos braços de Marco quando ele a levou para um canto recôndito. como caso de Marco. seguiram-se vários beijos. Depois disso. não é – riu-se Milene enquanto levava uma garrafa de whisky à boca. mercadorias essas que eram nada mais. tudo o resto deixou de importar. Mas quando ele as atirou ao chão e deitou Sara sobre a cama. Pago bem! Vamos?! . que pequenas doses de cocaína. nada menos. o cheiro a mofo das almofadas e a presença de uma arma de fogo sobre a mesinha de cabeceira. este é o Marco. Foi ali.. – Agora ando mais lá para os lados do Algarve a tratar dos meus negócios. e pela primeira vez. a música tornou-se cada vez mais barulhenta.E esta rapariga quem é? – perguntou o desconhecido não escondendo a sua curiosidade por Sara.Vem comigo! Foram precisos apenas trinta minutos para que Marco retirasse as roupas de Sara num dos muitos quartos em que guardava as suas mercadorias para serem levadas ao Algarve.Mais ou menos – respondeu Sara tentando esconder a timidez que sentia cada vez que um homem se aproximava de si. .Olá – disse ele cumprimentando-a na face. mas sim como uma mulher que encontrara o verdadeiro prazer nos braços de um traficante de droga. . por isso era natural que quisesse saber quem era.Sabes como é que é – respondeu ele rasgando alguns olhares curiosos a Sara. musculado e que trazia consigo uma confiança que poucos homens brancos possuíam. todos os clientes conseguiram entrar no clube e o divertimento tornou-se ainda maior.Não sei – respondeu ela com um longo suspiro. Demonstrava também não ter medo de nada. Ponho-vos lá dentro num instante! Em pouco mais de uma hora. Só vim buscar as minhas mercadorias e vou-me embora no domingo que é quando as estradas estão mais vazias. . . . – Estão na fila para entrar? – perguntou ele. para além de fisicamente também o ter agradado bastante. alguns apalpões habituais em cada esquina do clube e a sensação de que a pouco e pouco ambos se estavam a envolver. . Nunca a tinha visto.Não confias em mim? A pergunta de Marco tomou Sara de assalto. . – És nova por aqui? . . – Não confias?! . pastilhas ecstasy e haxixe.Tenho um sítio perfeito para nós. A pista encheu-se de pessoas.Avisaram-me para nunca aceitar encontros em locais que não conheço. inclusive a chuva a cair no tejadilho da janela. .Se quiseres posso ser o teu cliente. . E ela respondeu dizendo.Uma… amiga – respondeu Milene hesitante. que Sara se entregou a ele pela primeira vez não sentindo de maneira nenhuma que o estava a fazer como prostituta. – É a Sara! Sara. naquele quarto minúsculo. – Obrigada.A bófia é uma seca.Estamos – respondeu uma das prostitutas que acompanhava Milene.Para onde? – perguntou ela apreensivamente. especialmente se fosse bonito.Então venham comigo.Há quanto tempo andas nisto? – foi pergunta de Marco quando acendeu o terceiro cigarro da noite. . .

Na escola. tinham dormido maravilhosamente bem no quarto de hóspedes preparado por Luís e mal esperavam para começar o dia com um longo 95 .Porquê!? .Não sei! Nunca fumei. . – Pronto! Já estás entregue – exclamou ele desligando o motor do carro assim que o estacionou em frente ao prédio que Sara lhe indicara. bonita e trazia nos olhos a inocência de uma menina que infelizmente se tinha perdido na vida.Bem – riram-se os dois. senão troco logo a porcaria do número. era doce.Só comecei na semana passada! A Milene arranjou-me os primeiros clientes. – Gosto de fazer sexo. Só venho de vez em quando.Vais gostar. Queria saber como é que era! .Então não estou a perceber porque é que… . Mas raios. Por sorte.. . – A isso é que se chama ter amor à profissão. Sexo entre um cliente e uma profissional e nada mais. Apesar de alguma hesitação. . do pai. .Podes deixar. A cozinha cheirava a café quando Sérgio e Madalena entraram nela de mãos dadas e com um sorriso rasgado no rosto. . É bom para relaxar. mas eu moro com a minha mãe.Queres uma passa? – perguntou Marco mostrando-lhe o cigarro que tinha em punho. procura-me… O sorriso de Sara trouxe algumas hesitações a Marco. Tinha sido só sexo. Mas sim. mas ela nunca se atreveu a cometer tal acto.E porque é que entraste na vida? Os teus pais expulsaram-te de casa? . Havia algo nela e naqueles olhos inocentes.Para quê!? . . . Gosto de estar com homens e só penso nisso a toda a hora. É isso? .Porque quero. . . .Vou voltar a ver-te? – perguntou ela desfazendo-se do cinto de segurança. . . Um favor que pela primeira vez fez a uma prostituta. Tinha um ar mil vezes mais angelical. .Mas não me ligues a toda a hora. qual era o mal de fumar uma passa? Quando os primeiros vestígios do dia começaram a surgir. até porque ele não sabia até que ponto ela tinha levado aquela noite em consideração. Marco levou Sara a casa.Então quer dizer que és prostituta porque gostas. várias amigas suas já fumavam.Toma – afirmou Marco oferecendo-lhe um papel rasgado e também um beijo na boca. ou talvez até mesmo por culpa sua. Se já tinha experimentado coisas tão bizarras como fazer sexo com desconhecidos em troca de dinheiro. . Sara aceitou o cigarro das mãos de Marco e levou-o à boca ansiando experimentar pela primeira vez qual era a sensação de fumar.Não – respondeu Sara. algo que o fez hesitar e cometer uma das maiores loucuras da sua vida – Vou-te dar o meu número. .Só entrei para experimentar. De facto. – Eles são separados. .Mesmo assim. Talvez por culpa da mãe.Então?! Para saber.Eu não vejo isto como uma profissão.Mais ou menos – respondeu ela observando-lhe a expressão surpresa. Quando vieres.Eu não moro cá em Lisboa. Sara era diferente de todas as outras.E eu dou-te o meu… – adiantou-se Sara. mas que na verdade não se arrependeu nem um pouco.

Madalena riu-se alegremente. – Apesar de tudo ainda têm o dia de amanhã. com um sorriso. . . Madalena não se escusou a tirar inúmeras fotografias para registar uma das viagens mais interessantes que fizera pelo país. eu não quero desapontá-lo senhor Luís.Acordaram? – foi a primeira pergunta de Luís assim que entraram na cozinha. nem pensar – respondeu ele.Estavas certo quando disseste que os dois se pareciam imenso – respondeu ela. 96 . Faltava cheirar a terra molhada. .Vamos visitar o centro da vila. – E o meu avô é um grande professor. especialmente uma hóspede tão bonita como você. . muitas delas pintadas com cores alegres e suaves.Não muita! Confesso que de manhã não costumo comer muito.Um pouco tarde. garanto-te – respondeu ele.Não se matem hoje – respondeu Luís servindo-se do chá de ervas que costumava beber todas as manhãs. mas amanhã queria que ensinasses a Lena a pescar. – Não. . . Madalena? .Vou tentar levar isso como um elogio – disse Luís levando o pão fresco à mesa. – …espero que voltes comigo aqui outra vez – disse Sérgio quando as suas taças se tocaram sobre a mesa à hora do almoço. – Muita fome. Leva-nos os pensamentos para longe e faz-nos pensar nas coisas com mais clareza… O passeio pela vila tomou-lhes toda a manhã. depois passear pelo parque e quem sabe se o tempo ajudar terminamos o passeio no lago. – Para mim um hóspede é sagrado. o mercado repleto de feirantes que vendiam de tudo um pouco. Ansiavam também conhecer todos os cantos turísticos e passar um dia no mínimo agradável sem olhar para os ponteiros do relógio.Eu também quero cá vir muitas vezes. mas acho que vai ter um grande trabalhão comigo – disse Madalena arrancando uma risada geral. rapidamente percebeu que lhe faltava conhecer tanta coisa em apenas um fim-de-semana relâmpago.Pois vais ter que comer – interrompeu Sérgio entregando-lhe o café em mãos. sem se importarem com o trabalho e muito menos com o facto de serem obrigados a voltar a Lisboa no dia seguinte. Ela que se considerava uma portuguesa de gema e conhecedora de quase todas as cidades de Portugal.passeio pela vila. – Hoje temos um longo passeio pela frente. . agradeceu a gentileza e sentou-se à mesa perguntando em seguida ao dono da casa se este precisava de ajuda.Vais gostar. Esta.Aonde é que vão? . Já viste bem o meu avô? – interferiu Sérgio servindo dois cafés em frente à bancada.Sim. . . – E dizes tu que o teu pai parece uma criança de oito anos. Além de que a pesca é uma boa forma de relaxamento. .Bem. e faltava-lhe também sonhar em um dia terminar os seus dias num lugar assim. mas acordámos – respondeu Sérgio arrastando uma cadeira a Madalena.Eu?! – indagou ela voltando-se para Sérgio – Pescar? . desde frutas a produtos artesanais. absorver a beleza das casas caiadas. Faltava aventurar-se pelas ruelas estreitas. e enquanto visitavam os locais onde Sérgio havia passado grande parte da sua infância. Faltava conhecer a igreja da região trabalhada em arte barroca.Aposto que não vou ter mais trabalho do que tive aqui com o meu neto. . admirar as pessoas à sua volta que ao contrário das que moravam em Lisboa caminhavam sem pressa de chegar a algum lugar e com a certeza que o mundo não acabaria no dia seguinte. .

– Daqui a alguns anos.Mas eu não estou a dizer para nos mudarmos agora – adiantou-se ele. o silêncio apoderou-se da mesa onde Madalena e Sérgio estavam sentados.Tu sabes que eu nunca faria isso. por mais que eu tente.Quero que venhas morar comigo aqui nesta vila. . não é?! – indagou Sérgio largando-lhe a mão. eu sei que a Sara não vai lá muito com a minha cara. Para mim. não tos vou poder dar e tu vais acabar por me jogar esse facto à cara. Ela olhou-o. mas… existem coisas que um dia vais querer e eu não te vou poder dar. – Uma família… .Mas nós já somos uma família – interrompeu Sérgio encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. . .E será que até lá ainda vamos estar juntos? . .Eu sei.Porquê!? Não gostavas de morar num local onde não existe hora de ponta. eu sei que me amas. por exemplo? . vocês já são todos da minha família.No máximo teria idade para ser a filha dele.Não estás a perceber. . .Não é nada disso. ele desviou o olhar e assim a refeição terminou com um sabor amargo de derrota. . . Madalena riu-se.O quê?! . – Estás a gozar.Sérgio. .Mas o quê? . mas isso é uma questão de tempo até eu conseguir conquistar a confiança dela. mas… . Durante vários minutos. eu também te amo muito.Filhos – respondeu ela sem desviar os olhos dele.Sérgio. Sérgio! Eu só estou a constatar um facto. Por mais que eu queira.O quê. Tenho os meus filhos.Mas também quero manter os pés no chão – respondeu Madalena poisando a sua taça de vinho sobre a mesa. . E esse facto é de que daqui a uns anos tu vais querer ter os teus próprios filhos e eu não tos vou poder dar.. problemas… . – Nós vamos ficar juntos para sempre.O meu avô também te considera uma neta.Queria muito acreditar nisso.Mas pensarias e só isso já me faria sentir mal. stress. e durante vários minutos apenas se ouviram o barulho das conversas dos clientes que se encontravam igualmente a almoçar duas mesas atrás. a minha floricultura… enfim! Tenho tudo. mas… . eles já gostam de mim tal como eu também gosto deles. eu tenho a minha vida toda em Lisboa. quando os teus filhos estiverem crescidos. .Como assim?! .Então é isso. . – Não vamos estragar 97 . casados e não nos restar absolutamente mais nada para fazer em Lisboa. E quanto ao Daniel e ao teu pai. – Mais uma vez estás a falar da nossa diferença de idades. poluição. – Quer dizer.É claro que vamos – respondeu Sérgio com uma expressão séria. não?! .

Era a primeira vez que cometia uma loucura na sua vida. – Isto parece um sonho – confessou ela. Nasci aqui. . Madalena percebeu todas as razões que fizeram Sérgio levá-la àquele lago. Depois disso. lembraste? . passou essa certeza pela cabeça de Sérgio quando a viu sorrir para si. E de facto.Quando lá chegarmos vais perceber. Em poucos minutos. .Quero mostrar-te o lago onde costumava brincar quando era criança. O mundo parou. Além disso. ele montou uma mesa improvisada no jardim das traseiras. – Estava a ser tão bom. .o nosso dia – pediu Madalena voltando a encontrar-lhe a mão sobre a mesa. mas também era a primeira vez que tinha a oportunidade de se atirar de cabeça ao desconhecido sem pensar nas consequências que esse acto poderia acarretar. Está uma delícia. . a sua beleza e a candura que o seu sorriso transparecia a quilómetros de distância. o avô de Sérgio não poderia ter ficado mais contente com o elogio da namorada do seu neto.Não! Nunca tal ideia me passou pela cabeça. o sol voltou a brilhar quando as nuvens desapareceram do horizonte e os corpos dos dois amantes conjugaram-se na perfeição. Fica a poucos minutos se formos de carro. . – Nunca pensou em morar noutro local que não aqui? – perguntou Madalena voltando-se para o dono da casa.Quem sabe um dia não faço isso. E ela era a mulher da sua vida. quando ao retirar as roupas atirou-se para a água e sentiu-se a mergulhar até a um metro e meio de profundidade. enquanto mais tarde.O que é que vamos fazer agora? . Ele era belo. Luís adorou a simplicidade de Madalena. o tempo ameno permitiu que a refeição fosse servida sem quaisquer atrasos. Desculpa! Infelizmente Sérgio foi obrigado a fazê-lo. Sérgio e Madalena regressaram a casa e encontraram à sua espera o cherne grelhado na brasa preparado por Luís Restelo. Madalena se encarregou de fazer a salada e de retirar as loiças dos armários. 98 . radiante. – Nem por isso! Está óptima – respondeu Sérgio. voltou novamente à superfície e encontrou nos braços de Sérgio o conforto perfeito para se apoiar. . foi o elogio que Luís ouviu de Madalena quando ela degustou a primeira garfada do cherne acompanhada de um gole de vinho. ela pôde ter essa certeza quando lhe encarou o rosto depois de o ter pertencido sem quaisquer restrições. .Não te queria chatear.E porque é que me queres levar a esse lago? . E nem mesmo o facto de saber que ela era mais velha que Sérgio conseguiu diminuir a admiração que sentiu ao conhecê-la pessoalmente. – Está bem. Por sorte. Algumas horas mais tarde. – A água está a ficar fria – riu-se Madalena. na cozinha.Quem sabe um dia não nos vai visitar a Lisboa – disse ela. – Acredite que teria muito gosto em recebê-lo na minha casa e assim você até poderia conhecer o meu pai. cresci também e não iria saber mexer-me noutro sítio. Sim. Aposto que histórias em comum não vos iriam faltar.Tu é que estragaste.Isto é um sonho – respondeu ele sugando-lhe os lábios no interior de um lago onde havia passado a maior parte da sua adolescência. O barulho dos pássaros deixou de ser ouvido.

cujo principal divertimento para ocupar as longas horas.Não sejas exagerado – defendeu-se Luís encabulado com os risos dos seus convidados. dias. . era sem dúvida a leitura e a escrita de vários sentimentos que guardava dentro de si.Bem! Já conseguiste um milagre. A noite terminou em beleza com um poema lido por Luís. ainda lhe restava a única razão que o havia impedido de cometer suicídio quando à sua volta tudo pareceu ruir. tais como a morte da sua mulher e da sua única filha.Que milagre?! . Aquela felicidade que parece colar-se à nossa pele e não nos deixar um só segundo. meses e anos de solidão. Depois disso. amor… – exclamou Sérgio voltando-se para Madalena com um largo sorriso nos lábios.Conseguiste que o meu avô prometesse uma ida a Lisboa. Foi para ver a felicidade estampada no rosto do neto. E naquela noite em especial. . ele sentia-se muito mais leve e apto a aguentar uma vida repleta de percas e desgostos.. enquanto olhava para Sérgio e o via completamente embevecido por Madalena. pela primeira vez Luís percebeu o porquê de ter conseguido arranjar forças para se manter vivo. 99 . Mas apesar de tudo ele sabia ainda lhe restava o neto. aí sim já poderíamos morrer felizes. Depois de a ver.

. Percebeu também que tinha cometido um grande erro ao destruir casamento de dezasseis anos. lembraste!? O primeiro que passámos juntos quando começámos a namorar. – Então?! Como é que foi o tal fim-de-semana romântico no Alentejo? .Em primeiro lugar o Sérgio não é um rapaz. . Após o divórcio.Duvidas porquê?! . Levei-te à casa de férias de um amigo meu e passámos quarenta e oito horas no quarto a … bem. Depois disso. mas eu realmente já não me consigo lembrar desse fim-de-semana – respondeu Madalena poisando as mãos na cintura.Até que enfim – foram as palavras de Madalena quando abriu a porta e se deparou com a figura dos filhos e do ex. fez-se um silêncio ensurdecedor no corredor. mulher. marido sobre o alpendre.Daniel! Sara! Vão já lavar as mãos – gritou Madalena enquanto eles subiam as escadas a correr. tu sabes bem a fazer o quê! . mulher iria ser algo difícil de suportar. .Foi bom!? Pela tua cara deve ter sido horrível.Duvido – respondeu ele surpreendendo-a com tal afirmação. Jorge! O meu fim-de-semana foi realmente muito bom. 100 . – Mas não se demorem porque senão o jantar arrefece. foi o melhor fim-desemana que já tive até hoje. Depois disso. aliás. . Entrar ou não entrar? Enfrentar ou não Madalena e o novo namorado que ela tinha feito questão de lhe esfregar na cara semanas antes? Com certeza ambos já haviam regressado do maldito fimde-semana no Alentejo e com certeza que a felicidade estampada no rosto da ex. as portas dos quartos fecharam-se com estrondo e Madalena encontrou forças para voltar a encarar o rosto de Jorge. . e que aos poucos e poucos.Nada – respondeu ele enfiando as mãos nos bolsos das calças. Jorge começava a chegar à conclusão que as suas certezas foram infundadas e precipitadas. . .Há quanto tempo tu e esse rapaz estão a namorar? .Desculpa. essa percepção estava a matá-lo por dentro.Foi bom. . foi o que Jorge pensou quando estacionou o seu carro a poucos metros da casa da ex. – O que foi? – perguntou ela ao vê-lo a olhar fixamente para si. . onde ele adquiriu a certeza absoluta que Madalena nunca se iria conseguir refazer da separação e muito menos encontrar outro homem que se mostrasse interessado por ela. – Pensei que viessem mais cedo. . acompanhou os filhos em direcção ao portão principal e viu-se metido num enorme dilema interno.CAPÍTULO VI O fim-de-semana tinha chegado ao fim.Porque o melhor fim-de-semana que tiveste até hoje foi comigo.Nós é que pensámos que viesses mais tarde – respondeu Jorge observando a entrada dos filhos pelo corredor adentro.Não.Está bem – responderam os dois quase em uníssono.

raras foram as vezes que Sara colocou os pés no interior de uma sala de aulas.Porquê?! .Não – respondeu Sara apreensivamente.Porquê?! .É alguma coisa séria? . .O. mulher. 101 . por acaso não me incomoda nem um pouco. . uma força oculta conseguiu levá-lo ao carro de costas voltadas. era ali que Sara se sentia bem.É muito mais novo que tu. Era ali que ela não se sentia julgada. – Só nos falámos duas vezes por telefone e foi assim meio rápido. senão nem sequer tinha ligado.O que esteve connosco naquela festa no Bairro Alto. enquanto do lado de fora do bairro.Telefono depois para saber dos miúdos. Era lá onde ela passava várias horas do dia e deambulava pelas ruas ao lado de Milene. não recebia ordens e conselhos de ninguém e vivia conforme as suas vontades e desejos. severo e sem a mínima margem de manobra para que ele continuasse a fazer-lhe mais perguntas. Era habitual para quem passava por lá observar-lhes as gargalhadas. despertando a inveja de algumas das prostitutas mais experientes da zona. . Arlete e outras prostitutas do bairro. De certeza que deve estar a precisar de dinheiro. A resposta de Madalena não poderia ter sido mais cruel. as roupas extravagantes e também a procura de clientes. . . marido. .Fazer o quê? – perguntou Sara curiosamente.k! Boa noite. mas mais do que a resposta. os seus novos amigos e vícios. excepto de Milene.Não. .Esse Marco?! Só podes estar a gozar. Nas semanas seguintes. cruel foi o olhar que ela lançou ao ex. – Gripe! Mas sabes como é que a minha mãe é! Faz um bicho-de-sete-cabeças só para que eu vá ver a miúda. E mesmo ele tendo pensado várias vezes em voltar-se para trás e encarar-lhe o rosto pela última vez. o tempo e o espaço pareciam completamente alheios à decadência que ali se vivia. Mas por mais estranho que parecesse.O. . O Intendente. – Já percebi que esse assunto te incomoda.Acho que não – respondeu Milene apressando-se a vestir as cuecas.Boa noite também para ti – respondeu Jorge afastando-se da porta sob o olhar atento da ex. . . passou a angariar cada vez mais clientes. – Amanhã vou ao Porto – disse ela saindo da casa de banho enrolada numa toalha.Vou ver a minha filha! A minha mãe ligou-me a dizer que a miúda estava doente..Ele não é assim tão mais novo que eu.Ele não te contou qual é a cena dele no Algarve? . .Claro – disse Madalena sustendo a porta com as mãos. Frio. . . por isso é um rapaz.Quando é que achas que vamos voltar a ver o Marco? . não? Desse gajo quero mais é distância.k – riu-se Jorge num tom sarcástico. Em pouco tempo. a única que parecia nutrir um especial apreço por aquela jovem perdida na vida. Muito pelo contrário. .Porque é algo que não te diz respeito. – Bem … eu já vou indo. O que me incomoda é o facto de estar a falar sobre esse assunto contigo. talvez pela sua idade ou aparência física. Ele disse que morava no Algarve. encontravam-se todos numa das zonas mais degradadas de Lisboa.Que Marco?! . pois a sua vida.

- Ele é traficante de droga, querida! E não é um traficante qualquer. É um da pesada. Coisa para gente adulta, não sei se me entendes. - Como é que sabes?! - Toda a gente conhece a fama dele – respondeu Milene vestindo uma camisola de malha em frente ao espelho. – O gajo nunca foi flor que se cheire, mas meteu-se com gente errada e acabou por fugir para o Algarve quando lhe mataram o irmão no bairro onde ele morava. Acho que a bala era para ele, mas como era de noite, confundiram os dois irmãos e o mais novo é que acabou por morrer no lugar dele. - Que horror. - Por isso é que ele só vem a Lisboa de vez em quando, mas não pára muito tempo para não ser apanhado… Sara sentiu-se atordoada ao ouvir o discurso de Milene, mas pior ainda ficou quando percebeu que Marco não era o homem ideal para qualquer mulher. A sua vida, cheia de actos criminosos e outras histórias escabrosas por contar, não parecia de maneira nenhuma conjugar-se com a dela. Mas ainda assim, havia qualquer coisa que não a deixava esquecelo. O que seria? Ou melhor, seria normal? No fundo, Sara sabia que não, até porque há muito que a palavra normalidade tinha deixado de fazer parte do seu vocabulário. – Bem, deixa-me ir andando – interrompeu-lhe Milene os pensamentos. - Aonde é que vais? - Vou-me encontrar com um cliente no hotel Ritz. - Uau! Que chique – riram-se as duas. - O gajo é podre de rico, tens que ver! Conheci-o há dois anos numa festa e desde então nunca mais me largou. - É giro?! - Não muito – respondeu Milene escovando os cabelos molhados. – Tem quase idade para ser o meu pai, mas pelo menos é simpático, paga bem e trata-me como uma verdadeira rainha. Depois do serviço gosta de conversar sobre política. - Estás a gozar, não?! – riu-se Sara animadamente. - Que me dera, mas não! E logo eu que não percebo nada disso. Mas o gajo sabe tudo. Também é presidente de uma empresa multinacional e tem uma data de conhecimentos. Quando começa a divagar, eu só aceno com a cabeça que sim e finjo que o estou a ouvir. Acho que o gajo nem percebe que a minha única vontade é desaparecer de lá com o dinheiro na mão. Tal como todas as noites, o jantar foi servido às oito horas por Madalena, e o convidado especial encarregou-se de colocar a mesa sob o barulho ensurdecedor da televisão da cozinha. Era a terceira vez naquela semana que Sérgio privava da companhia da namorada e dos filhos dela, restando poucas dúvidas de que também ele já fazia parte da família. Aos poucos e poucos, a sua amizade com o pequeno Daniel e o pai de Madalena foi-se consolidando, mas o mesmo não se podia dizer de Sara, que ainda continuava a ver no namorado da mãe um verdadeiro alvo a abater. Na verdade, o desejo da jovem em vê-lo pelas costas era imperioso desde o terrível incidente em que ela lhe colocou os pés por debaixo da mesa. Foi um acto irreflectido, os dois sabiam-no bem, mas o clima continuava tenso sempre que se viam nos corredores da casa ou eram obrigados a privar de uma refeição familiar. Depois do jantar, normalmente
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quando todos se refugiavam na sala a ver televisão, os olhares que Sara lançava aos constantes carinhos trocados pelo futuro padrasto e pela sua mãe eram esmagadores e ditavam uma verdade irrefutável: Ela odiava ver-lhes a felicidade estampada no rosto. - O Sérgio vai dormir cá em casa hoje – avisou Madalena já perto do final da noite. - Vou-me deitar – disse Sara desaparecendo da sala com uma expressão aterradora. Desde essa noite, várias foram as vezes que o fotógrafo pernoitou em casa de Madalena. Normalmente aparecia à hora do jantar, após um dia cansativo a fotografar nos estúdios e trazia consigo pequenas guloseimas para os filhos da namorada. Além das guloseimas, foram também trazidas as primeiras mudas de roupa, a escova de dentes e outros objectos pessoais que faziam claramente antever a sua mudança. Não achas que é demasiado cedo, foi a pergunta de Alice à melhor amiga, e Madalena, sempre com um sorriso, respondia que não e que se encontrava totalmente segura na sua relação com Sérgio. Mas a verdade é que essa relação não era bem vista por todos, especialmente por Sara, que só encontrava um aspecto positivo para o facto de o fotógrafo passar as noites em sua casa, e esse aspecto era o de ela conseguir escapulir-se a meio da madrugada para se encontrar com os seus novos amigos sem medo de ser apanhada pela mãe. Muitas vezes, encontrava-se com esses eles em bares nocturnos pouco apropriados para a sua idade, nos arredores do bairro e em cafés da zona onde clientes e prostitutas misturavam-se com o cheiro dos cigarros e da luxúria. Sexta-feira era o dia da semana mais movimentado no bairro do Intendente. Era usual os cafés e os bares encontrarem-se abarrotados de gente, e também era usual a polícia fazer algumas rondas pela zona apenas para se certificar que tudo estava a decorrer dentro da normalidade. Sempre que apareciam, Sara conseguia a ajuda necessária para se esconder e só voltava a surgir aquando do desaparecimento dos agentes de autoridade. Sim. Eram momentos de algum aperto, mas por sorte ela conseguia sempre fugir com a ajuda de Milene. Aquela noite não foi excepção. Os polícias fizeram as rondas habituais, pediram a identificação de várias pessoas estranhas ao local e logo desapareceram pelas ruas do bairro trazendo de volta o alívio a quem não tinha sido apanhado. – Anda – disse Milene fazendo um sinal a Sara para que ela pudesse sair da pensão onde permaneceram escondidas durante trinta e cinco minutos. – Os gajos já se foram embora. - Tens a certeza? – perguntou Sara olhando para todos os lados. - Claro. Anda lá! Foram precisos apenas alguns minutos para que Milene e Sara atravessassem a rua em direcção a um dos bares mais movimentados da zona. Mais uma vez, o estabelecimento encontrava-se apinhado de gente. Na aparelhagem soava uma música rock infernal e na única televisão do bar colocada na parede, passava um filme não muito conhecido. Aliás, o filme era tão pouco conhecido, que quase ninguém presente no local se dignou a levantar o rosto em direcção ao ecrã. Estavam todos entretidos em conversas informais, a beber e a confraternizarem entre si. Outros dançavam, riam-se às gargalhadas e tentavam esquecer-se de todos os problemas que rodeavam as suas vidas. Milene e Sara foram algumas dessas pessoas. – Ainda te lembras de mim?

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A voz não lhe era estranha, e ao voltar-se para trás com uma garrafa de cerveja nas mãos, Sara abriu um sorriso radiante. Era ele. Era Marco. Após dois meses de ausência onde apenas se comunicaram através do telefone, parecia quase um sonho tornar a vê-lo novamente. – Nem acredito! És mesmo tu? - Carne e osso – respondeu Marco levantando os braços. - Pensei que não viesses a Lisboa tão cedo. - Vim tratar de uns negócios, mas no domingo já estou de volta ao Algarve. E tu? O que é que andas a fazer por estas bandas? - Eu sou destas bandas, lembraste?! - Ainda na vida?! - E tem algum mal nisso? - Por mim não – respondeu ele pedindo uma imperial ao empregado do bar. – Só tenho pena que uma miúda como tu ande para aí a deitar-se com qualquer um. Especialmente com os gajos que passam por este bairro. Mereces melhor. O discurso de Marco mereceu um sorriso por parte de Sara. – Queres que te pague uma outra cerveja? - Claro. Pode ser – respondeu ela terminando a sua num só gole. Completamente alheios ao tempo e ao espaço, foi assim que Sara e Marco se sentiram enquanto conversavam perto do balcão acompanhados pelas suas respectivas cervejas, pelo barulho infernal da música e a movimentação das pessoas à volta. Obviamente que nenhum deles falou sobre assuntos importantes, não conversaram sobre a família, os amigos e muitos menos projectos futuros, mas ainda assim sempre que os seus olhares se cruzavam era como se o mundo parasse e tudo deixasse de ter significado. – Queres ir para outro lado? Isto aqui está barulhento – disse ele ignorando um telefonema inoportuno. - Tudo bem. Podemos ir. Pagas as bebidas, Marco e Sara saíram de mãos dadas e só voltaram a largá-las quando interceptados por Milene à saída. – Aonde é que vão? – perguntou ela, curiosa. - Vamos dar uma volta – respondeu Marco levando o cigarro à boca. – Porquê?! - Vão dar uma volta aonde? - Qual é a tua, Milene?! Viraste puritana agora, é? Ou vais-me dizer que resolveste adoptar a Sara como filha? - Eu só não quero que ela se meta em confusões. - Eu não me vou meter em confusões – interrompeu Sara sob o olhar aterrador de Milene. - Acho melhor ires para casa, Sara! Eu peço a um amigo meu para te levar. - Ela não vai com nenhum amigo teu – interferiu Marco puxando Sara contra si. – Vai comigo. - Sara… - Eu vou com ele – respondeu a jovem, resoluta. – Tchau, Milene! Depois falamos. O cheiro a tabaco tinha-se entranhado nos estofos do carro de Marco, mas nem o odor intenso ou o espaço reduzido dos bancos de trás, acalmaram o desejo e a excitação de Sara por ele. Submersa naquela pele achocolatada e naqueles braços musculados marcados por duas tatuagens, ela entregou-se e permitiu-se ser possuída sem quaisquer restrições. Com Marco era diferente, ambos sabiam-no bem. Com ele não o fazia por dinheiro, por luxúria,
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. a verdade é que não conseguiu tal feito quando chegou ao quarto e caiu na cama como um verdadeiro peso morto. – Já te chega? A humilhação tinha sido imensa. . mas também com a do pai. O que é que achas? . . é?! . não é?! . . . agarrou-se à almofada e fechou os olhos inchados numa tentativa desesperada de adormecer. . mas havia realmente algo que a prendia a Marco e a deixava completamente rendida a ele.Eu não quero que me pagues – respondeu Sara indignada por tal gesto. 105 . Marco acatou a ordem e entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. .Quem está na chuva é para se molhar. E mesmo tendo tentado controlar as lágrimas.O. Só não quero que te falte nada.Queres mais. mas ainda assim Sara arranjou forças para abrir os portões e correr em direcção a casa sem sequer olhar para trás ou observar a expressão mortificada de Marco. .Posso voltar a ver-te antes de ires para o Algarve? – perguntou ela quando ele a levou a casa. uma presença habitual lá em casa. . – É pouco – afirmou ela não desviando os olhos dele. És puta mesmo. – Toma! Para ti. Madalena ultimou os preparativos do almoço que contaria não só com a presença do namorado.Podemos ver-nos amanhã.Tu estás-me a pagar – foram as últimas palavras dela antes de abandonar o carro e fechar a porta com força. na cozinha. – Tu achas que eu sou igual a todas as outras. e ao vê-la a caminhar apressada em direcção aos portões de casa.Tudo bem – respondeu ela estendendo a mão com um olhar aterrador.Já – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. Porque é que irias pensar que eu era diferente? Já me conheceste nesta vida.Sara. O domingo amanheceu ensolarado e foi por essa razão que Sérgio resolveu regar o jardim com a ajuda de Daniel. Mas também não penses que te vou passar a mão pela cabecinha ou sentir-me mal por te ter oferecido dinheiro. Seria amor? Não. . – Paga-me! Apesar de se ter sentido surpreso com a reacção de Sara.mas sim por um sentimento estranho que ela nunca pensou sentir por alguém. Marco seguiu-a e alcançou-lhe os braços pedindo desculpa. não és?! Não estás sempre a encher a boca para dizer que vais para a cama com homens porque gostas? Porque é que queres ser tratada de maneira diferente? .Não é nada disso… – defendeu-se ele. Entretanto.Quero aquilo que mereço. Depois disso. Ainda era demasiado cedo para sentir uma coisa dessas.Não é um pagamento. – Já separaste as tuas roupas sujas para pôr na máquina? – perguntou ela à filha quando a viu a entrar na cozinha. .k – respondeu ele oferecendo-lhe uma outra nota de cinquenta.Vou no domingo.Eu ligo-te depois – disse Marco apressando-se a retirar uma nota de cinquenta euros da carteira.Eu não quero ser tratada de maneira… . esquece! Não queres os cinquenta euros azar o teu.Mas talvez eu seja mesmo! Talvez eu seja só mais uma prostituta a quem todos os homens pagam para irem para a cama. Afonso Soares. .

A despedida foi rápida e fria. E o homem que viste aqui no jardim não é o meu pai. .Posso ligar-te um dia destes? . atirou-o contra o lava-loiça e por fim preparou-se para sair da cozinha não fosse a figura de Sérgio ter-se atravessado no seu caminho. – Tens uma visita lá fora. Bebeu um copo de água.. – Porquê? Fiz mal? .Então… o que é que queres? .Faço mais tarde.Para quê?! .Eu também acho. muito menos a desconhecidos.Não – respondeu Sara com poucas palavras. .Como é que sabes que eu não estou a fazer nada? .Porque é que não aproveitas para a fazer antes do almoço? Já que não estás a fazer nada. .Não te esqueças também de fazer a tua cama de lavado. Enquanto ele caminhava calmamente em direcção ao carro. ao contrário de todas as suas expectativas. . Não poderia ser.…podes.Só vou hoje à noite. Ficaste chateada. – Eu sei que fui um bocado parvo contigo na sexta-feira passada. . já que ela nunca se atreveu a fornecer a sua verdadeira morada a ninguém. – Não posso sair agora. passou essa pergunta pela cabeça de Sara. Seria algum cliente. .Pensei que já tivesses voltado para o Algarve – afirmou Sara tentando manter uma expressão fria e altiva.Quem!? . . . . A resposta trouxe um pesado suspiro por parte de Sara.Não é por causa deles. – Então?! Posso ligar ou não? . era Marco.Não queres dar uma saída? Levava-te a almoçar num sítio qualquer. – Então nesse caso acho melhor ir andando. e essa pessoa. . a única alternativa que lhe restava era sair ao jardim e ver com os seus próprios olhos quem tinha tido a audácia de a procurar.Porque estás aqui à minha frente – respondeu Madalena cortando os legumes sobre a bancada.O. . nem um pouco. Sara – afirmou ele desfazendo-se das luvas de borracha que utilizou para regar as plantas e a relva do jardim.Por causa dos teus pais?! .Não me disse o nome – respondeu Sérgio sob o olhar atento de Madalena. .Não.k – disse Marco tentando ignorar os olhares de Madalena e Sérgio atrás das cortinas da janela. . ela poisou as 106 . mas ainda assim a jovem achou por bem acatar as ordens da mãe. – Apenas disse que era um amigo e que precisava falar contigo.Ele é só o namorado da minha mãe. mas deixou Sara especada sobre os portões com os olhos postos em Marco. .Estão aceites.Pedir-te desculpas – respondeu Marco.Não?! Pensei que era. – O que é que estás aqui a fazer? .Mesmo assim! Não queria sair de Lisboa sem te pedir desculpas primeiro. não foi? .Vim te ver – respondeu ele apoiando-se sobre os portões. Não. . . Assim sendo.Para saber de ti – respondeu ele encolhendo os ombros.

Estranho o quê?! . – Quem era aquele rapaz? – foi a primeira pergunta que Sara ouviu da mãe assim que entrou em casa. claro que não – defendeu-se Madalena de imediato. . Mas a verdade é que não o fez. amor! Não deixes o teu avô à espera na estação – afirmou Madalena enquanto ultimava os preparativos para o grande almoço de família.Se ela disse isso é porque era mesmo só um amigo – respondeu Sérgio começando a colocar a mesa do almoço. Madalena conseguiu convencer Luís Restelo. . . Nunca dei trabalho aos meus pais e também nunca fiz nada de errado… . Quantos e quantos rapazes não foram à tua procura quando tinhas a idade da Sara? . – Ele parece ser muito mais velho! E também duvido que com aquela pinta ainda ande na escola.Meu Deus! Que mentirosa – riram-se os dois às gargalhadas.Não.São só coisas da tua cabeça – respondeu Sérgio beijando-lhe os cabelos. . – Eu fui a adolescente mais bem-comportada do mundo.mãos sobre a cerca e permitiu que os seus pensamentos voassem dali para fora. Eu era uma menina muito bem-comportada se queres que te diga. . .Tens a certeza que era só um amigo? A pergunta não obteve qualquer resposta quando Sara voltou a trancar-se no quarto fechando a porta com força.A conversa dos dois. . Mas não sei! É o jeito dele.Lena esquece esse assunto! Estás a fazer um bicho-de-sete-cabeças de uma coisa absolutamente natural. E a verdade é que essa semana passou a uma velocidade fantasmagórica. Achei estranho. talvez devesse ter-se atirado para os braços de Marco e dito que o adorava acima de tudo.Eu não sei. o avô de Sérgio a passar a comemoração festiva em sua casa. .E de onde é que a Sara o conhece? . As amêndoas foram compradas.Não foram tantos assim. entendes?! Bati os olhos e não gostei. – É melhor ires andando. e o último. .Não – afirmou Madalena instintivamente. – Ela disse que era só um amigo – afirmou Madalena entrando novamente na cozinha. é?! Duvido… . . . – Eu não sou nada preconceituosa em relação a esse assunto.Bem-comportada. Reprimiu esse desejo e no fim odiou-se por isso. sentindo-se honrado. o cabrito adquirido e os vinhos guardados no frigorífico para a ocasião especial. Após inúmeros telefonemas e convites.Era só um amigo – respondeu ela subindo as escadas a correr. Faltavam poucos dias para a Páscoa quando um verdadeiro milagre aconteceu.Se calhar da escola. 107 .Por ser preto?! .Pois não devias – respondeu Madalena envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. E também não gostei nada do ar dele. não teve outro remédio a não ser aceitar o convite e a prometer uma visita sua para dali a uma semana. Deveria sentir-se feliz com aquela visita? Talvez sim.

. convencer-se a si próprio que o que estava a ver era fruto da sua imaginação ou então uma terrível coincidência.O que é que tem o teu pai? . 108 . . Ainda tentou forçar a vista. Não sei se me vou conseguir despachar a tempo de ir buscar o meu avô e o teu pai. – Queres que te traga alguma coisa da rua? . Escuta! Eu já te ligo. O meu avô vai-me matar.Hã… esqueci-me – berrou Madalena levando as mãos à cabeça. .Não! Disse que ia entregar um presente a uma amiga que fazia anos mas que não se ia atrasar para o almoço. – Estou?! . Já tentei ligar-lhe para o telemóvel uma data de vezes e dá sempre no serviço voice mail… As lamúrias de Madalena continuaram a ecoar-lhe nos ouvidos.Não consegues ir buscar o teu pai? .O que é que aconteceu? . então nesse caso vou indo. O percurso em direcção à estação de camionetas poderia ter sido mais fácil se não fosse um aparatoso acidente ao qual Sérgio tentou contornar por um outro caminho mais demorado.É só para te avisar que estou muito. . . Sérgio concentrou todas as suas atenções para uma cena chocante que se estava a passar diante dos seus olhos.Eu não sei. O pior é que não valeu de nada! Estou preso numa outra rua por causa de umas obras que estão a fazer. mas mesmo muito atrasado – disse Sérgio largando as mãos sobre o volante.Podes deixar – respondeu Sérgio beijando-a nos cabelos. dois. três toques e ela atendeu a chamada. Nessa altura. .. – O meu pai.Não. – Estás aí? – perguntou Madalena após um longo silêncio que ele fez questão de lhe oferecer ao telefone. não é preciso. Tenho o cabrito no forno.Bem. .Apanhei um acidente no caminho e resolvi mudar o percurso. foram as palavras que o fotógrafo repetiu vezes sem conta enquanto as buzinas dos carros começavam a ecoar naquela rua verdadeiramente estreita. lembraste? O pior é que a Sara também ainda não chegou. o relógio assinalou onze horas e quarenta e cinco minutos e o trânsito pura e simplesmente parou. .Já vou andando – respondeu Sérgio vestindo o casaco às pressas. ele encontrou o telemóvel sobre a caixa de velocidades e digitou o número de Madalena. mas já nessa altura. Um. a filha da sua namorada. Alheio a tudo o que se estava a passar à sua volta.Hã… estou.Obrigada! És um anjo.A Sara ainda não chegou? . mas a verdade é que lhe restaram poucas dúvidas de que aquela jovem que tinha acabado de sair de uma pensão nos braços de um outro homem mais velho. está bem – respondeu Sérgio observando a figura de Sara a desaparecer pela rua acima. que Sara. nada menos.Não acredito – resmungou Madalena. . . Eu não queria que ele apanhasse transportes públicos para vir almoçar connosco. – Eu vou buscá-lo.Será que eras capaz de o apanhar? Ele telefonou-me ontem à noite para me dizer que o carro dele deu o berro e que está a arranjar na oficina. era nada mais.

lembraste?! .Cheira bem – disse Jorge apontando para o forno. se não te importares de sair da frente do armário. . Seria Sara? Seria a sua melhor amiga. Pai foi a palavra que Madalena ouviu enquanto fechava a porta do forno.Oras! Vim ver os meus filhos.E porque é que haverias de ser convidado?! . É Pascoa. mulher à volta do lava-loiça. 109 .Olá – respondeu ela largando uma toalha sobre a bancada. . marido. marido. mas ainda assim. . eu preciso de uma panela… . a Sara não está – afirmou Madalena não se deixando afectar pelos elogios baratos do ex. Era Jorge. . eu não quero e nem vou discutir contigo agora! Tenho uma quantidade enorme de coisas para fazer. Sabes lá a que horas é que a Sara pode aparecer por aqui… A proposta do ex. e depois disso. – O que foi?! Trago o teu pai num instante. menos eu – resmungou Jorge trincando a maçã enquanto observava os gestos da ex.Não da minha família. . Por isso.Claro! O problema é que está desligado. Aonde é que se tinham metido? Faltavam poucos minutos para a uma da tarde quando Madalena sentiu a campainha tocar. . mas ainda assim Madalena hesitou em aceitá-la.Eu sei.disse ele entrando na cozinha alguns minutos mais tarde. O que é que ele tinha lá ido fazer? .Aonde é que ela foi? . alguns passos vindos do corredor. .Pensei que também fizesse parte da família. . O que é que vieste cá fazer? . O seu ex. Sara e o senhor desconhecido que a acompanhava desapareceram sem deixar rastro. . . .Se quiseres posso ir buscar o teu pai – afirmou Jorge para grande surpresa de Madalena.Não é preciso. Alice. Ao ouvir a ordem da mãe.O telemóvel foi desligado e atirado novamente contra a caixa de velocidades.Já lhe ligaste para o telemóvel? – perguntou Jorge apoderando-se de uma maçã sobre a fruteira da cozinha. vai atender – pediu ela ao filho enquanto levava o cabrito novamente ao forno. Mas o pior é que já devia ter voltado. . marido era deveras tentadora. ou teria Sérgio conseguido o milagre de trazer o avô e o pai dela em tempo recorde? – Daniel. .A sério?! Pensei que a Sara e o Daniel fossem os nossos filhos. quando Sérgio lançou a cabeça para fora da janela.Jorge. que também foi convidada para o almoço.Cabrito. Raios.Mas eu faço questão! Já passa da uma e tu sabes que o teu pai gosta de almoçar cedo. Raios.Já vi que toda a gente foi convidada para este almoço. Só estou à espera dela para ir buscar o meu pai a casa – respondeu Madalena escorrendo a água da massa.Disse que ia entregar um presente de aniversário a uma amiga da escola.Olá Lena… . Daniel saltou da cadeira da cozinha e correu a abrir a porta.Já vi que não perdeste o jeito. . .Olha. – Que surpresa ver-te por aqui.

. De um passado repleto de discussões. Para além disso.Podes deixar – respondeu ele voltando-se para Daniel.Posso subir? – perguntou Sara num tom debochado. E Madalena pôde ter essa certeza quando ao lançar os olhos à bancada da cozinha foi obrigada a deparar-se com os restos da maçã que o ex. . murmurou ela levando o caroço ao caixote de lixo. marido deixou antes de sair.Nota-se assim tanto? . mas ainda assim não lhe trouxeram qualquer saudade. …um pouco. .Nunca te vi tão animada. Lena! Até parece que nunca fiz isso antes. quase dezasseis. Jorge fazia parte do passado.Pois! Mas disseste também que não te irias demorar.disse ela ajudando a colocar a mesa da sala.Nem tanto assim – respondeu Madalena distribuindo os talheres pelos pratos.Águas passadas – riu-se Jorge enquanto terminava de comer a sua maçã. Foram muitos. – Quer dizer. Afonso? . – Também não se atrasou tanto assim. – Mas vê se tomas banho antes de desceres para o almoço. – Então?! Posso ir buscar o Sr. A primeira pessoa a chegar para o almoço foi Alice. e consigo trouxe duas sobremesas especialmente adquiridas numa pastelaria perto da sua casa.Claro que não – riram-se as duas. Ele tratou-me tão bem quando fui passar aquele fim-de-semana à casa dele que eu queria retribuir-lhe a gentileza. Com certeza deve ter ficado à conversa com a amiga e as duas perderam a noção das horas.Está bem! Vais no banco da frente então. .Tudo só porque o avô do Sérgio vem cá almoçar? . . .Só se for no banco da frente.Vá lá.E eu lembro-me que não gostavas nem um pouco de fazer isso. oh pestinha!? Não queres vir com o pai?! . 110 . esmeraste-te… . Quando éramos casados cansava-me de ir buscar o teu pai e a tua mãe a casa. . . mas também de não dar mostras de querer desaparecer tão cedo. coitada da rapariga – interferiu Alice continuando a colocar a mesa. pelo amor de Deus! . . Saíste daqui às dez. Continua o mesmo. – Mas não se atrasem. . Anda lá! A visão através da janela da cozinha dos dois homens da família a entrarem no carro fez com que Madalena voltasse a recordar os anos em que esteve casada com Jorge.Eu não sei. A resposta de Alice culminou com a entrada de Sara na sala e também com o olhar aterrador que Madalena fez questão de lançar à filha quando se deu conta do seu atraso imperdoável. levou igualmente a boa-disposição que lhe era característica em momentos festivos. .Já te tinha dito – respondeu Sara rasgando alguns olhares a Alice. a melhor amiga de Madalena. traições e faltas de respeito. Já viste que horas são? Quase duas da tarde. – Fui ter com uma amiga.A quilómetros de distância! Não há dúvidas de que o Sérgio te está a fazer muito bem.…está bem – concordou Madalena. .Podes – respondeu Madalena percebendo-lhe o sarcasmo na voz. – E tu. .Lena. – Até que enfim! Aonde é que estiveste? . – Bem.

Foram precisos vários minutos até que a porta se voltasse a abrir com as chaves levadas por Daniel, e atrás de si, vieram o avô e o pai envolvidos numa conversa divertida, algo não muito incomum entre dois homens que sempre se deram muito bem e que nunca esconderam a admiração mútua que sentiam um pelo outro. – Olá, pai – disse Madalena correndo a cumprimentar Afonso quando todos entraram na sala. – Como é que estás? - Estou óptimo – respondeu ele despindo o casaco. – E tu? - Cansada, mas bem! O almoço já está pronto. Vieste na hora certa. - Então vamos almoçar. Estou a morrer de fome. - Não, ainda não. Ainda vamos ter que esperar mais alguns minutinhos – respondeu Madalena rasgando alguns olhares ao ex. marido. – Falta ainda o Sérgio e o avô dele. Os dois apanharam algum trânsito pelo caminho, mas o Sérgio ligou-me há pouco para me dizer que já estão quase a chegar. - Hã… claro. - Bem, nesse caso, eu já vou andando – disse Jorge quando se deu conta que a sua presença não era muito bem-vinda. - Porquê?! – interrompeu Afonso. – Fica para almoçar connosco. - Eu?! - Claro! Foste tão gentil em ter-me trazido até cá. O mínimo que podias fazer era dar-nos o prazer da tua companhia, não achas? Por momentos, Madalena pensou estar a sonhar quando ouviu o discurso do pai e o convite estapafúrdio que este fez a Jorge sem sequer a consultar. Será que Afonso tinha perdido totalmente a noção da realidade? Será que ele não a ouvira a dizer que o seu novo namorado e o avô dele estavam a poucos minutos de chegar à sua casa? - Bem… - disse Jorge, encabulado. - …eu não sei se a sua filha concorda com o seu convite, Sr. Afonso! - É claro que ela concorda. Não concordas, Lena?! O silêncio mantido por Madalena foi deveras constrangedor. – Não concordas? – insistiu Afonso fulminando-a com os olhos. – As crianças iriam gostar de passar a Páscoa com o pai. Não foi preciso esperar muito tempo para que Sérgio Almeida e Luís Restelo tocassem à campainha e para que Madalena lhes abrisse a porta com um largo sorriso imediatamente correspondido pelos dois. Depois disso, seguiram-se os cumprimentos habituais perto do corredor e a tentativa de fazer Luís sentir-se em casa. – Atrasados, nós sabemos – disse Sérgio. – Mas a culpa não foi minha. - Eu sei! A culpa foi do trânsito – respondeu Madalena forçando um sorriso ao avô do fotógrafo. – Espero que tenha feito uma boa viagem, Sr. Luís. - Não foi tão má como pensei que seria. Apenas alguns solavancos no caminho, mas por sorte não cheguei partido. - Que bom! Mas entre, por favor. Fique à vontade. - Obrigado – respondeu Luís aceitando o convite com alguma cautela. Nessa altura, Sérgio encarregou-se imediatamente de lhe guardar o casaco e o chapéu no bengaleiro. – Será que era possível ir à casa de banho? - Claro, vô – respondeu Sérgio apontando-lhe uma porta ao fundo do corredor. – É ali. - Obrigado – agradeceu Luís seguindo a direcção apontada.
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- Desculpa ter-te deixado sobrecarregada com os preparativos do almoço, mas é que nem fazes a mínima ideia de como é que estava o trânsito lá para os lados das Amoreiras. - Não, tudo bem – respondeu Madalena impedindo Sérgio de sair do corredor quando lhe alcançou os braços. - O que foi? - É que… eu precisava contar-te uma coisa antes de irmos para a sala. - O quê?! A expressão doce e sorridente de Sérgio fê-la sentir-se pior do que mal, mas a verdade é que Madalena não tinha outra opção a não ser contar que a lista de convidados se havia estendido para além do previamente estipulado. – Estás-me a dizer que o teu ex. marido também veio almoçar? - Eu sei que parece uma loucura, uma coisa ridícula. Aliás, não parece, é – interrompeu Madalena segurando-lhe o pulso com força. – Mas tens que acreditar que a culpa não foi minha! Foi o meu pai que o convidou. - E porque é que o teu pai o convidou? - …o Jorge veio ver o Daniel e a Sara, e eu sem querer acabei por lhe dizer que precisava de alguém para ir buscar o meu pai porque tu me tinhas ligado a avisar que estavas atrasado. Então ele ofereceu-se para ir buscar o meu pai e… - E tu aceitaste? – perguntou Sérgio tentando controlar os ciúmes que se apossaram de si. - Só porque não tive outra opção. A Sara ainda não tinha chegado da rua, eu tinha o almoço no lume e também não podia deixar o Daniel sozinho em casa. - O.k! - Então quando eles chegaram, eis que o meu pai teve a brilhante ideia de convidar o Jorge para almoçar connosco. Eu não queria, mas… - Tudo bem, Lena! Esquece. - Desculpa – disse ela observando-lhe a expressão desagradada. – Eu sei que é uma situação horrível, principalmente por causa do teu avô, mas eu não tive culpa. Foi algo que fugiu ao meu controle. Acredita em mim…! - Eu vou lavar as mãos à cozinha – afirmou Sérgio deixando-a especada no corredor a remoer todas as culpas por aquela situação no mínimo caricata. Tal como se era de esperar, o almoço tornou-se sombrio para Sérgio e Madalena, já que a visão de Jorge sentado à mesa retirou-lhes todo o apetite e trouxe um certo desconforto a Luís Restelo por perceber o desconforto do neto diante daquela verdadeira afronta a que ele tinha submetido. Talvez Afonso e as crianças não tivessem percebido o pouco à vontade dos restantes convidados, talvez estivessem demasiado entretidos com as piadas contadas por Jorge, mas a verdade é que nenhuma dessas piadas surtiu efeito para Madalena, Sérgio, Luís ou Alice. – Ainda não perdeste o jeito para a cozinha, Lena… – foi a gota de água dita pelo advogado no final do almoço. - Bem, eu vou buscar as sobremesas – respondeu ela recolhendo as loiças sujas. - E eu ajudo-te – interferiu Alice desejando sair daquela mesa tanto quanto a sua melhor amiga. Quando chegaram à cozinha, o estrondo das loiças a caírem no lava-loiça fizeram antever todo o ódio que Madalena estava a sentir, não só pelo seu ex. marido, mas também pelo seu

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pai, o responsável por toda aquela situação no mínimo caricata. – Eu devia suicidar-me… – disse ela. - Toma – respondeu Alice entregando-lhe um facalhão. - Obrigada pelo apoio moral. - Eu até acho que o almoço não está a correr assim tão mal. - Só podes estar a gozar – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico a fim de retirar as sobremesas que havia prometido aos seus convidados. - Achas que o teu pai fez de propósito? - O que eu acho é que ele está a ficar velho e senil. - Para mim a culpa é do Jorge. - A sério?! Não me digas. Nem tinha percebido uma coisa dessas. - Aposto que foi ele que manipulou o teu pai durante o caminho para que ele o convidasse para o almoço. É a cara do Jorge fazer uma coisa dessas! O gajo nem sequer consegue disfarçar que está a morrer de dores de cotovelo. - Dores de cotovelo porquê?! - Lena, não me digas que ainda não percebeste? Ele está louco para atrapalhar o teu namoro com o Sérgio – respondeu Alice colocando as taças das sobremesas no interior do tabuleiro. – Aposto também que ele quer voltar para ti. - Shiuuuu! Fala baixo! - Que mal é que tem? Está na cara de todos. Só um cego é que não consegue ver que o Jorge ficou cheio de dores de cotovelo quando soube que havia um outro homem interessado em ti. Isso é perfeitamente natural nos ex. maridos! Pensam sempre que nós nunca nos iremos conseguir recuperar do divórcio, que vamos acabar secas, sozinhas e a fazer tricô no sofá da sala, enquanto eles ficam livres e soltos para aproveitar a vida com rapariguinhas de vinte anos. Diz lá qual é a novidade nisso? Já era assim no tempo da minha avó. - Só me sinto mal por causa do Sérgio e do avô dele – disse Madalena levando as sobremesas à mesa da cozinha. – Imagino a impressão que Sr. Luís teve ter tido de mim. Ele deve pensar que eu sou uma descarada. Que ando com dois homens ao mesmo tempo. - Claro que não – riu-se Alice alegremente. – Acredita que deixaste bem claro à mesa que odeias o teu ex. marido de morte. - Deus queira que sim! Era a segunda vez que a observava a sair da sala e era também a segunda vez que lhe passava pela cabeça confrontá-la com o que vira horas antes. Foi por isso que Sérgio interceptou Sara à frente das escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e parou-lhe todos os movimentos com uma frase rápida e seca. – Vi-te hoje. Surpresa com a interpelação, a jovem voltou-se para trás e encarou-lhe a expressão séria. - Desculpa?! - Vi-te hoje numa rua perto de Campolide! Estavas a sair de uma pensão com um homem que tinha quase idade para ser o teu pai. - E o que é tu tens a ver com isso? - O que é que estavas a fazer com ele? - Não é da tua conta – respondeu Sara apoiando-se sobre o corrimão das escadas.

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cuja idade era praticamente idêntica à de Luís Restelo. o almoço decorreu sem quaisquer outros incidentes.Desculpar o quê?! O sorriso confiante e paternal de Luís permitiu que Madalena se sentisse menos culpada pela presença do ex. e quando deu por si. De facto. . E obrigado também pelo almoço.Pensei que tinhas dito à tua mãe que ias entregar um presente a uma amiga. O ex.Sara. marido e também para que percebesse que nem mesmo esse acontecimento menos feliz destruiu a boa imagem que o avô de Sérgio tinha de si. . – A minha única alegria é saber que falta bem pouco para a minha mãe te dar um pontapé no rabo e voltar para o meu pai! Falta um pouquinho assim. Passei uma tarde bastante agradável. as horas pareceram voar. . não hesitou em contar a todos os presentes algumas das peripécias passadas durante a guerra colonial. Por acaso essa amiga morava naquela pensão? . Infelizmente tinha chegado a hora de voltar ao Alentejo e à sua vida reclusa. Ou será que ainda não percebeste que durante o almoço tu e o teu avô estavam ali a mais!? Silêncio foi a resposta de Sérgio enquanto Sara continuava o seu discurso venenoso. é isso?! . oh! Apesar do mal-estar inicial que a presença de Jorge provocou. projectar as suas experiências.Eu vou levar o meu avô a casa – interferiu Sérgio abrindo a porta da rua. mas obrigado pelo convite. . não queiras distorcer as coisas… . Pela primeira vez desde a morte da mulher e da sua única filha. – Tem razão! Espero que faça uma boa viagem então.Eu pensei que … o Sr. o de avô Sérgio. 114 . . Sentados nos sofás e em algumas cadeiras espalhadas pela sala. .Já disse que não é da tua conta. conhecimentos e deixar de olhar os ponteiros do relógio à espera que por milagre eles andassem mais depressa. E para a surpresa das surpresas. militar.Eu se fosse a ti preocupava-me mais com a tua vida e menos com a vida dos outros. naquele domingo particularmente ventoso. Era bom poder conversar com outras pessoas. . os convidados deliciaram-se com as sobremesas confeccionadas por Madalena e divertiram-se com as conversas animadas de Afonso Soares.Não. – E desculpe qualquer coisa. Luís fosse voltar de camioneta.Tu andas a relacionar-te com homens mais velhos. Luís também contou histórias iguais. Nessa altura.. – Tem a certeza que não quer passar a noite connosco? – perguntou Madalena observando os gestos de Luís a vestir o casaco junto ao bengaleiro do corredor.E se estiver? O que é que tu tens a ver com isso? Também não te andas a relacionar com mulheres mais velhas? . poucas dúvidas restaram relativamente à afinidade dos dois senhores e à excelente ideia de Madalena em juntá-los no mesmo espaço.Ao Alentejo? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. faltavam poucos minutos para as sete da tarde.Obrigada eu por ter vindo – respondeu ela apertando-lhe as mãos com força. .Sim! E provavelmente vou lá dormir para não vir a conduzir tão tarde. Luís sentiu-se entre amigos e afastou dos ombros a sombra da solidão. a mãe de Sérgio.

o fotógrafo lançou os olhos ao céu e tentou encontrar motivos para continuar a lutar por Madalena. – Magoado.. Sérgio baixou o rosto. genro. – Até já tinha comprado bilhete ida e volta.Chateado não é bem o termo – respondeu Sérgio permitindo que o seu avô se sentasse ao seu lado nas escadas. rapaz? . Já vi que não há santo que lhe consiga mudar de ideias. Foi só nessa altura que ela chegou à conclusão que o que lhe estava a faltar eram os braços de Sérgio e o peito dele para que pudesse encostar a cabeça. – Pensei que já te tinhas ido deitar – disse-lhe o avô. marido também. ela não.Falamos amanhã – foram as últimas palavras de Sérgio a Madalena antes de se afastar dela com uma expressão fria e carregada.De onde é que foste buscar uma ideia dessas? Por acaso a Madalena tratou-te como se fosses um intruso? . ele começou a ter algumas dúvidas. .O que é que se passa.Não sabia que estavas a namorar com essas pessoas todas – respondeu Luís.Magoado porquê? . . – A filha dela odeia-me. . mas… .Por me ter sentido a mais! Por ter sentido que era eu o intruso e não ele. Naquela noite. Virou-se na cama. embora seja simpático comigo. e o pai. Só precisava de… algum tempo para recompor as minhas ideias e pensar no que devo fazer. mas o Sérgio quer levar-me a casa. Luís! À noite as estradas são um pouco perigosas. a verdade é que nem todas conseguiram tal feito. eu sei que no fundo ele torce para que a filha volte para o ex.Fugiste de Lisboa porquê? . Sentado sobre o alpendre da porta com um chocolate quente nas mãos.Eu não fugi de Lisboa. Mas será que não fazia? Será que Sara tinha razão quando disse que faltava muito pouco para que Madalena e Jorge voltassem ao casamento de ambos? Foram essas algumas das perguntas que também retiraram o sono de Sérgio em casa do avô. Sr. o ex. Amava-a.Então qual é o problema não estou a perceber. Madalena não pregou olho.Não. – Pensei que estivesses a namorar só com a Madalena. mas ainda assim o sono teimou em não aparecer. 115 .Não! Perdi o sono. talvez. não é?! Ficaste chateado por ver o ex. .Claro – disse Madalena forçando um sorriso quando percebeu os verdadeiros motivos para que o fotógrafo quisesse levar o avô a casa. mas será que só isso bastava? Será que só isso chegava para que continuasse a lutar por ela? Diante de tudo o que tinha acontecido naquela tarde.É a Madalena. . e embora as estrelas no céu levassem para longe alguns dos seus pensamentos mais sombrios. Era óbvio também que ele se havia magoado com a presença de Jorge e com a certeza que o ex. . Mas era óbvio que os acontecimentos daquele horrível almoço de Páscoa ditaram o afastamento do fotógrafo da sua cama. quanto a isso não dúvidas. . marido dela no almoço. duas. marido de Madalena ainda fazia parte daquela família. – Eu também acho melhor que vá com o seu neto.Nada – mentiu Sérgio interiorizando a serenidade que aquele quintal lhe trazia. . três vezes. uma.Eu também – respondeu Luís enfiando o chapéu na cabeça. . .

As coisas não são assim tão fáceis. para ficar sozinho… . marido já não faz parte da tua vida. – …olá… .E porque é que querias pensar e ficar sozinho? .Desculpa – pediu Madalena correndo ao encontro dele. vô… .Não sei – respondeu Sérgio não escondendo a sua fúria. entra – pediu ele abrindo-lhe passagem em direcção ao estúdio.Já te disse que a culpa não foi minha – afirmou Madalena largando os braços.Pode até ter sido o teu pai.Tempo?! Tempo para quê? .. Madalena resolveu engolir o seu orgulho e procurá-lo à hora de almoço.disse ela quando os seus olhos se cruzaram com os de Sérgio.Porque eu pensei que também precisavas pensar e ficar sozinha.Não. Foram precisos apenas dois toques. . por sorte naquela tarde o trânsito ajudou e por sorte ela conseguiu chegar ao estúdio do fotógrafo em apenas vinte e cinco minutos. – Não fui eu que convidei o Jorge para almoçar.Tu humilhaste-me e tens consciência disso porque senão não tinhas cá vindo – afirmou Sérgio calando-lhe todos os argumentos. Ao subir os degraus das escadas. põe-te no meu lugar! Tu humilhaste-me … . – Desculpa! Eu não queria ter feito o que fiz. . Alice disponibilizou-se a tomar conta da floricultura. Tudo o resto são detalhes.Estás muito ocupado? . 116 . . ela conseguiu arranjar forças para subir e para também tocar à campainha. .Não.Eu não queria ter que te desculpar. Que ele não tem acesso directo à tua casa e que não aparece lá sempre que lhe apetece. . Os momentos que se seguiram foram preenchidos com um silêncio ensurdecedor e com a certeza de que havia muita coisa a ser esclarecida desde o último almoço de domingo.Precisava de tempo – respondeu Sérgio. O maldito almoço de Páscoa. A única coisa que eu queria era ter a certeza que o teu ex. mas a verdade é que não fizeste nada para o impedir. pensou Madalena enquanto se livrava da mala e do casaco que tinha nas mãos. as mãos começaram a suar e os nervos a apoderaram-se de si. o seu coração disparou.Não. Após quarenta e oito horas sem qualquer notícia ou telefonema de Sérgio.Não sabes?! . . Foi o meu pai… . .Então pergunta-lhe – respondeu Luís abandonando o quintal e também todas as dúvidas que o neto carregava dentro do peito. Desculpa! . Era só isso que eu queria. mas parece que tu não estás disposta a fazer isso por mim. mas ainda assim.Não sei.São sim! É só com a opinião de Madalena que te deves preocupar e nada mais. Por sorte. .O que é que eu podia fazer? . marido que era ridículo sequer imaginar a ideia de o sentar à mesma mesa comigo e com o meu avô!? Quer dizer. – Que tal ter dito ao teu ex. eu não … .Desculpa! Eu devia ter ligado. . – Porque é que não me ligaste? .E qual será a opinião dela? – perguntou Sérgio voltando-se para o avô. Tempo para pensar.

Vamos colocar uma pedra sobre o assunto. . – Não quero. marido sempre que ele resolve aparecer ou então com a vontade do teu pai em querer que voltes para ele. . mas… . por uma relação que lhe estava a consumir todas as forças.Nós já estamos a discutir! Ao ver-se pela primeira vez sem argumentos. . – Eu amo-te. ela deixou-se envolver e os dois acabaram caídos no divã à espera que os beijos e as carícias pudessem apagar todas as palavras amargas que disseram momentos antes. – Eu não sei. – Não termines comigo – disse Madalena levantando-lhe o rosto com as mãos. . Lena! Mas eu não sei se vou conseguir lidar com isto tudo. – Tu nem sabes… .Eu também. nada mais importou. . Esgotado por aquela discussão. .A única coisa que eu sei é que eu te amo e que não quero ficar sem ti – respondeu ela amparando-lhe uma lágrima com os lábios.Eu também não. – Eu amo-te. Foi por isso que eu me resolvi afastar. ela teve dúvidas.Boa! E depois a culpa é minha?! E depois eu é que estou a fazer de tudo para que a nossa relação não resulte? . as coisas eu que tenho aguentado… . 117 .Eu não sei – respondeu Sérgio aos gritos dela. Depois disso.murmurou ele com os olhos rasos de lágrimas.Mas o Jorge já não faz parte da minha vida – respondeu Madalena num tom desesperado. Sérgio encostou-se à secretária e levou as mãos à cabeça. receios e inseguranças. Estava esgotado. – Eu não quero ficar sem ti – repetiu.Tens a certeza? Diante da pergunta de Sérgio. Não sei se vou conseguir lidar com o facto de ser obrigado a olhar para a cara do teu ex. esbaforida. Isto para não falar da Sara! Todos eles estão a torcer para que a nossa relação não dê certo e o pior é que tu estás a deixar que isso aconteça… . Prometo! A promessa da Madalena pareceu ter surtido efeito quando Sérgio lhe encontrou os lábios e os beijou com toda a paixão que possuía dentro de si. pelos seus medos. mas principalmente.. Ele envolveu-a nos braços.Lena.Então vamos esquecer tudo o que aconteceu neste domingo. Eu prometo que vou fazer de tudo para afastar o Jorge de nós. quanto a isso não havia dúvidas.Se tu soubesses como me tenho esforçado para que isto dê certo. .E o que é que queres que eu faça? – gritou Madalena. eu não quero discutir.

Que venhas viver comigo – respondeu Madalena tomando-o de assalto com aquele convite inesperado. Com um jantar romântico à luz de velas num restaurante italiano chamado Cipriani.riram-se os dois.Acho bem – respondeu Sérgio beijando-lhe a mão direita. Mas eu tenho a certeza que nenhum deles se vai opor. .Mas só com uma condição.E os teus filhos? .CAPÍTULO VII Os dias seguintes trouxeram alguma calmaria perdida após aquele fatídico domingo de Páscoa.k! Pensando melhor… .Nunca me lembro de levantar a tampa da sanita. baixinho. – Estás-me a pedir em casamento? . – Mas é um passo importante para isso.Ainda não – respondeu ele esboçando um sorriso carinhoso.O. – Eu quero muito.k – riram-se os dois. Só o tens que usar.Não tens que agradecer.Tenho – respondeu Madalena sem quaisquer hesitações. Madalena não conseguiu esconder a emoção. Sérgio tentou dissipar a suas dúvidas relativamente ao ex. tenho o péssimo hábito de deixar a toalha molhada sobre a cama e quase nunca dobro as minhas camisas… . . – Talvez ela se vá opor um pouco. . Sérgio conseguiu definitivamente conquistar o coração dela ao oferecer-lhe um maravilhoso anel de compromisso. . mas eu sei como lhe dar a volta. 118 . – É lindo! . marido dela. é claro. Madalena seguiu à risca as promessas que fez.Adorei – riram-se os dois apertando as mãos sobre a mesa. .Viver contigo?! . e assim o casal continuou a projectar planos para um futuro que apesar de tudo parecia promissor.Tens mesmo a certeza que é isso que queres? . .Que condição? .Achei que fosses gostar.Olha que eu sou muito desarrumado. .A sério? Nem tinha percebido uma coisa dessas.Nem mesmo a Sara? .Eu vou falar com eles. De resto. – Obrigada. . . o aniversário de Madalena provou isso mesmo. . . Ao ver-se com aquele discreto.Sim! Eu quero que te mudes para a minha casa definitivamente. .O.Não vou tirá-lo do dedo nunca. Quero dormir ao teu lado todas as noites e acordar contigo todas as manhãs. mas lindíssimo anel no dedo. .

a porta do quarto de Sara fechou-se com um enorme estrondo e não se ouviu mais nenhum barulho durante a noite. disse-lhe. encontrava-se ao lado daquele perfeito desconhecido.Então vamos morar juntos – respondeu Madalena entrelaçando os dedos nos dele.Não. Como é que ela se atrevia a colocar um perfeito desconhecido lá em casa. o facto é que aconteceu e pouco ou quase nada houve a fazer por Sara que mais uma vez viu na presença do fotógrafo uma afronta especial oferecida pela sua mãe. – Eu também quero morar contigo. Depois disso.Nem pensar.Ainda bem – respondeu Madalena sugando-lhe os lábios no meio de um sorriso radiante. ela iria tentar ser feliz. Mas a verdade é que nem os gritos histéricos da filha impediram Madalena de levar os seus planos adiante. . – Não queres vir comigo ao Algarve? – perguntou ele já perto do final da conversa. . . – Porque não sei se és de confiança. .…eu não sei se vou poder ir – disse Sara sentindo-se mais do que tentada a aceitar aquele convite no mínimo inesperado. Um facto que passou completamente despercebido o Sara enquanto o ouvia com atenção e se deliciava com a sua voz grave e grossa ao telefone. aliás. Eu quero que te sintas em casa. e a sua felicidade.Por causa da mamã?! .No domingo.Ir ao Algarve? Quando? . .Por minha causa? . claro que não! Por tua causa.É claro que eu sou de confiança. foi a pergunta que a jovem gritou aos ouvidos de Madalena vinte e quatro horas antes de Sérgio se mudar de armas e bagagens. .Vamos. .Eu sei! E eu já sinto isso. ele estava no Algarve metido nos seus inúmeros negócios esquivos e pretendia regressar a Lisboa no final da semana para entregar algumas mercadorias ilícitas. A semana não poderia ter começado melhor para Sara quando recebeu um telefonema de Marco a meio da madrugada.Devo aparecer aí por Lisboa na próxima sexta-feira e volto no mesmo dia. Chega de passar a vida a pensar nos outros.Deixei-te também duas gavetas livres e uma outra na casa de banho. Tal como sempre. .Sim – respondeu ela sorrindo ao telefone. Sei lá! Combinávamos num sítio qualquer e eu levava-te comigo. Chega. . – Achas que este espaço te chega? – perguntou Madalena abrindo as portas do seu roupeiro a Sérgio. – Já te disse que me arranjo.Não. . feliz ou infelizmente.Não te precisas preocupar com isso – afirmou Sérgio envolvendo-lhe os braços à volta da cintura. não penses – disse ele arrancando-lhe uma leve gargalhada..Está óptimo. e embora não tivesse sido aprovada pela maioria. a pensar no bem-estar dos filhos e a viver em função deles. . .E quando é que voltávamos? . eu quero que sintas que esta é a tua casa. Dali para frente. . A mudança de Sérgio aconteceu duas semanas mais tarde. . Alguma vez te deixei ficar mal? 119 .

. – Se queres que te diga. De qualquer maneira. e para ajudar à festa. . – Prova o molho! Vê se está bom? .Não.Hum! Está óptimo. . amor? Como é que foi a escola? . .Não faz mal – respondeu Sérgio entregando-lhe uma colher à boca. por isso não me deves satisfações e nem eu te devo conselhos.k! Se eu estiver iludida. . – Eu vou fazer tudo para ir contigo. – Tu não sabes com quem te estás a meter – avisou-lhe Milene a dois dias da fuga. Sérgio já havia iniciado os preparativos de um jantar no mínimo improvisado enquanto Daniel se entretinha a jogar na sua playstation portátil em frente à televisão da cozinha. .Então?! Vem comigo e eu prometo-te que vais passar um fim-de-semana inesquecível.. Mas a paixão que sentia por ele valia a pena? De certo que sim. . Vou-me encontrar com ele no Campo Grande. as compras do supermercado prenderam Madalena mais tempo do que estava à espera.Vou trabalhar. .Não! Eu consigo sempre apanhar as cartas da escola no correio. o trânsito infernal que apanhou durante o caminho apenas lhe trouxe uma enorme dor de cabeça. A chegada a casa aconteceu quando faltavam poucos minutos para às oito. . – Os teus pais por acaso não desconfiam que andas a faltar às aulas para vir para cá? .Escuta! Eu sei que o Marco anda metido em negócios estranhos. mas isso não significa que ele seja má pessoa – respondeu Sara saltando da cama. O plano parecia ser perfeito.Esparguete à bolonhesa. – Atrasei-me.Aonde é que vais? . .Chateado porquê? 120 . . ele trata-me muito bem! Não me trata como uma prostituta. – Anda lá! Não me posso atrasar. Infelizmente. A minha especialidade.…está bem – respondeu Sara dando-se por vencida. . Queres pagar para ver? Paga! Tal como já me disseram. – Mas tudo bem.Já vi que sim – respondeu Madalena apressando-se a beijar a face do filho. tudo iria desmoronar à sua volta tendo em conta a histeria da mãe. .Estás com uma cara! O que é que aconteceu? . mas também arriscado.Normal.Eu também tenho um cliente marcado para as três e meia.Estou chateado – respondeu Daniel afastando-se bruscamente da mãe.O. .Maluca – exclamou Milene empurrando-lhe as costas. o que é que isso importa? Já estou chumbada mesmo – riu-se a jovem. Sara sabia-o melhor do que ninguém e sabia também que quando voltasse do seu fim-de-semana com Marco. – Desculpem! Desculpem – pediu Madalena entrando pela cozinha adentro carregada de sacos de compras.Ouve lá – disse Milene voltando-se para Sara.Ele não presta! Estás iludida. – E tu. desiludo-me. mas nessa altura.O problema é que quando fizeres isso já vai ser tarde demais – afirmou Milene vestindo o seu casaco às pressas. ao contrário dos outros. naquela sexta-feira. . eu não sou a tua mãe.

meu Deus?! .Um problema?! . Depois disso. marido e a sorte que foi em ele ter ouvido a chamada. mas está desligado. impaciente. mas tal como deves calcular.Acho que é por isso – interferiu Sérgio entregando a Madalena um bilhete escrito por Sara horas antes.E tu vais-me deixar aqui sozinha? 121 . por favor… .Isto está-me a cheirar muito mal – murmurou Madalena correndo a alcançar o telefone sobre a bancada. mas vou ter que ir à casa da minha ex.Porque ela deixou um bilhete escrito a dizer que ia passar o fim-de-semana contigo e que eu não precisava preocupar-me em ligar! Jorge.Desculpa Catarina. . foi a conclusão a que Madalena chegou após ter reflectido pela primeira vez. já disse que não! Não falo com ela desde quarta-feira. se ela estiver aí contigo e tu a estiveres a encobrir… . encostou-se à mesa para melhor o ler: -“ Mãe! Fui passar o fim-de-semana com o pai e volto no Domingo. .Aonde é que vais? – perguntou a mulher que estava na cama de Jorge. – Disse à mãe que estava comigo. – Olha.Estou-te a perguntar se a Sara está aí contigo – repetiu Madalena. . . então com quem ela estava? – Já lhe tentaste ligar para o telemóvel? – perguntou Jorge.. ao reconhecer a letra. Não precisas ligar.A minha filha desapareceu – disse Jorge enfiando-se nas suas calças.Não sabes de alguma amiga com quem ela possa estar? Encontra um número – afirmou Jorge começando a ficar preocupado com o súbito desaparecimento da filha. eu estou a ir para aí! Qualquer coisa entretanto e não hesites em ligar-me. mas tal como sempre. não está – disse ele tentando desenvencilhar-se dos braços de uma mulher. – A Sara está aí contigo? . . O número de Sara foi imediatamente digitado.Está bem – respondeu Madalena desligando o telefone sem muitas delongas.Claro que sim. . mulher.Então aonde é que ela se meteu.Qual encobrir qual quê – exclamou ele levantando-se da cama.” . . .O Jorge veio buscá-la? – perguntou Madalena depois de ter lido o bilhete vezes sem conta. Aconteceu um problema.Desculpa?! . – Alguma vez fui buscar a Sara e o Daniel sem te avisar primeiro? Na verdade não.Não. E a última. Está tudo bem. – Porque é que a Sara haveria de estar comigo? . . Tens a certeza que não sabes nada da Sara? . seguiu-se número do ex. encontrava-se fora de área.Não.Porque é que o pai não me levou também? – interrogou Daniel não escondendo a sua irritação. . Mas se a filha não estava com o pai.Jorge! Responde à minha pergunta. Não sei aonde é que aquela maluca se meteu.Ela não está aí contigo? . . mentiu.Não sei! Quando chegámos ela já não estava cá em casa – respondeu Sérgio.

Eu sinto muito. a tua fama já corre pela cidade inteira ou ainda não sabias?! Seguindo os conselhos do ex.Que tal porque me estás a tratar como uma? . Eram dezenas de filmes pornográficos. Não posso ficar aqui contigo sem saber o que realmente aconteceu com ela. Mas a verdade é que Sara tinha. .Vou ligar da sala – respondeu Madalena correndo em direcção à porta.Então liga-lhe. . preservativos. já te disse.Que é isso. Além disso.Jorge.Sim.Quem é que te disse isso?! . marido. Amigas da escola.Não tenho outra escolha. amigas da escola. e a outra verdade é que Sérgio começava a chegar à conclusão que existiam muitas mais coisas para além do comportamento rebelde da jovem. que nem sequer se apercebeu ou se deu conta de uma grandiosa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro. mas tenho mesmo que ir! A minha filha desapareceu.Jorge. esbaforida. Ao segurá-los nas mãos. o facto de ter encontrado quinhentos euros em notas de vinte. Como é que podes pensar uma coisa dessas? . – Não vens? . mas é que eu precisava saber se a Sara por acaso não está aí contigo… 122 . Sérgio voltou a abrir as portas do roupeiro a fim de encontrar a caixa de cartão que continha alguns dos objectos mais íntimos de Sara. Escuta! Se quiseres dou-te boleia até a uma praça de táxis mais próxima. os seus olhos esbugalharam-se de surpresa e consternação. Madalena subiu ao quarto de Sara e apressou-se a encontrar qualquer objecto que contivesse números de telefone de pessoas próximas à filha. e quando a abriu com alguma discrição para que a namorada não se apercebesse do que estava a fazer. princesa?! É claro que eu sei que não és uma prostituta.. apenas veio a cimentar a suas desconfianças. foram as palavras que repetiu vezes sem conta enquanto revistava gavetas e armários com a ajuda de Sérgio. . lingerie provocante e outros artigos escabrosos que nenhuma rapariga de dezasseis anos deveria ter em sua posse. – Encontrei – exclamou Madalena erguendo uma pequena agenda cor-derosa. cinquenta e cem. Eu conheço-a. . Coisas que ninguém sabia e que ninguém tinha coragem de imaginar. .Bem que me tinham dito que tu não eras de confiança – resmungou Catarina apressandose a encontrar a suas roupas espalhadas pelo chão. – Graças a Deus encontrei! . Quando a porta do quarto se encostou com cuidado e os passos de Madalena se perderam pelo corredor. tem aqui o número da Mariana. ele deixou de ter dúvidas. . coisas que até ele não queria imaginar quando se lembrou que dias antes a havia visto a abandonar uma pensão ao lado de um homem muito mais velho. Sim. a mãe da Sara! Desculpa estarte a ligar a estas horas.Tudo bem. eu não sou uma prostituta – afirmou Catarina levantando-se da cama.Não! Eu vou ficar para ver se consigo encontrar outros números… . É da turma da Sara.Estou – foram as primeiras palavras de Madalena quando a sua chamada foi atendida por uma das melhores amigas da sua filha. é! Olha. Mas a verdade é que estava tão cega e obcecada em encontrar o que procurava. O que estaria Sara a fazer para ganhar tanto dinheiro? . Sérgio foi o único a encontrá-la. – Mariana?! Sou eu.Tens a certeza que é isso? .

. Lena – disse Sérgio pressentindo o seu desfalecimento. Madalena.Isso não quer dizer nada. pensou. entendes?! Eu via-a a entrar nos portões.Tem calma – disse Sérgio tentando alcançar-lhe os ombros embora Madalena se tivesse desviado a tempo. – A Sara chumbou de ano.Não é melhor ligar primeiro para os hospitais? – interferiu Sérgio. .Não. Meu Deus! Será que eu estava cega? . boquiaberta. . a Sara não tem ido às aulas? Enquanto ouvia a resposta de Mariana através do telefone.Posso entrar?! . Nessa altura. pois o desejo de encontrar Sara era mais forte do que tudo.Tens a certeza que ela não tem ido às aulas? . . Aquilo era mais do que podia suportar.Eu vou lá atender – disse Sérgio correndo em direcção à porta enquanto na sala Madalena tentava convencer-se a si própria que tudo aquilo não passava de um horrível pesadelo.Tem calma.Será que é ela? .Como não?! Vocês não são da mesma turma? Ocorreu um silêncio ensurdecedor no outro lado da linha. – Chumbou por faltas a meio do segundo período. os olhos marejados de lágrimas e um desespero patente por não ter a mínima ideia de onde a sua filha se tinha metido. . . Ainda não. Mais do que conseguiu imaginar nos seus piores sonhos e uma realidade que apesar de cruel.Não – respondeu o pequeno assustando-se quando ouviu a campainha tocar. Nenhum telefonema da directora de turma… . tu sabias disso? A tua irmã disse-te alguma coisa? . . parecia também ser a mais provável.Porque eu ia levá-la todas as manhãs à escola. . Chumbou por faltas! E o pior é que eu não me posso dizer surpresa porque no primeiro período recebi uma carta da escola a avisar-me que ela estava em perigo de chumbar. Mas … eu pensei que tinha conseguido resolver esse problema quando a tirei da casa do pai. também o desespero tomou conta do advogado quando terminados todos os números da lista de contactos de Sara. 123 . Madalena apenas teve forças para se encostar ao sofá e levar uma das mãos à cabeça.A Mariana acabou de me confirmar isso – respondeu Madalena ignorando o olhar curioso de Daniel sobre si. Contudo.Como é que… como é que eu não percebi isso antes?! Eu não recebi nenhuma carta. . Os passos nervosos e descontrolados de Madalena deixaram Jorge alerta no minuto em que ele pisou a sala. não! Eu há muito tempo que não a vejo.A minha filha já apareceu? – foi a pergunta ríspida de Jorge quando Sérgio lhe abriu a porta. ninguém sabia do seu paradeiro. Encontrou-a com as mãos sobre a cabeça. o relógio assinalou vinte e duas horas e o esparguete à bolonhesa cozinhado por Sérgio esfriou sobre o fogão..Claro – respondeu Sérgio percebendo-lhe um certo tom de sarcasmo na pergunta. – Mariana. . .Daniel. D. Ninguém tocou ou se lembrou dele.Hã. – Vou ligar para a polícia – disse Jorge encontrando o telemóvel no bolso das calças. – Há dois meses que a Sara não põe os pés na escola – afirmou ela voltando-se para Sérgio.

o que de todo não deixou Madalena menos preocupada. e embora ninguém quisesse transparecer qualquer tipo de desespero.Esperamos até quando?! .Eu já estou desesperada. – Somos amigos.O que é que nós somos? . . .Sim – respondeu Sara passando-lhe as mãos pelo peito musculado. Cada um tentava se lembrar de um local onde ela poderia estar. – O que é que fazemos agora? – perguntou Madalena quando os policiais se foram embora.Até recebermos alguma informação da polícia. deixou-se cair nos braços de Marco numa das praias mais movimentadas do Algarve. Depois destes procedimentos legais.E como é que vais fazer isso? .. . namorados ou… .Um pouco – respondeu Sara envolvendo as pernas à volta da cintura de Marco enquanto as ondas do mar teimavam em levar-lhes para longe.Esperamos – respondeu Jorge passeando pela sala.O que é que nós somos?! .Lena. – Tens frio? . . mas não vale a pena entrarmos em desespero antes da hora. que alheia a tudo o que se estava a passar em Lisboa. – Ela não está com ele. . Ali. não compliques pelo amor de Deus! Estamos todos nervosos. . Alguém que pudesse ter alguma ideia do seu paradeiro ou até mesmo um mínimo sinal de vida oferecido pela jovem.Adivinha – respondeu Marco encontrando-lhe os lábios.Posso te fazer uma pergunta? . O silêncio apoderou-se da sala por largos minutos. mulher pelas costas. . ele até queria vir.O quê?! .Já liguei – respondeu Madalena voltando-se para o fotógrafo com os olhos inchados de tanto chorar. Aonde é que ela está. .Tornaste a ligar ao teu pai? Às vezes ela pode estar com ele. ela mergulhou no mar e encontrou nele o amparo necessário para se esquecer da loucura que tinha cometido ao fugir de casa sem qualquer aviso prévio aos pais.E se não recebermos nenhuma informação da polícia?! . a poucos minutos das duas horas da madrugada. A única boa notícia era o facto de saber que a filha não havia sido registada em nenhum hospital público da cidade. .A polícia encarrega-se de fazer isso por nós – respondeu Jorge tentando controlar a imensa vontade de ver o namorado da ex. 124 . mas eu disse-lhe que não era preciso. foi a pergunta que os pais. o irmão e Sérgio se fizeram entre si. a verdade é que as horas passadas deixavam poucas dúvidas de que Sara tinha desaparecido sem deixar rastro.Não faz mal! Eu aqueço-te. Foram precisos poucos minutos para que a polícia tomasse conhecimento do desaparecimento de Sara e também para que se deslocassem à moradia de Madalena para recolher algumas informações adicionais e fotografias recentes da jovem desaparecida. – interferiu Sérgio. Aliás.Eu nunca namorei com ninguém. despediram-se dos donos da casa e prometeram empenhar-se na procura de Sara.

- Não queres namorar comigo? - Eu não iria conseguir namorar com uma gaja que vai para a cama com qualquer um. Se fosses a minha namorada, irias ter sair da vida! Não gosto nada de dividir aquilo que é meu. - E se eu saísse da vida?! Namoravas comigo? Marco sorriu. – Ouve! Eu não sou o tipo de gajo ideal para ti. - Eu sei. Eu sei dos teus esquemas! Sei que andas metido na droga e que o teu irmão mais novo foi assassinado porque o confundiram contigo. Eu sei de tudo isso. - Quem é que te contou? Aposto que foi a otária da Milene… - Foi ela sim, mas ela não fez por mal, eu é que perguntei. - Então se já sabes de tudo isso, o que é que estás aqui a fazer comigo? - Será que ainda não percebeste que eu não me importo?! Eu gosto de ti – respondeu Sara sem desviar os olhos dele. – Eu quero ser a tua namorada. Apesar de Marco não ter feito o pedido oficial, de resto, algo absolutamente impossível para um homem como ele fazer a qualquer mulher, Sara sentiu-se como a sua legítima namorada quando foi apresentada no dia seguinte a alguns dos seus amigos mais próximos. Quase todos pareceram gostar dela, e ela também gostou de todos, embora tivesse percebido alguns olhares menos simpáticos por parte de duas raparigas presentes no bar onde Marco a levou. Mas nem mesmo esse facto fez com que Sara esmorecesse ou sequer largasse a mão do seu novo namorado pois era com ele que ela queria estar. Era ele quem a mantinha naquele perfeito estado de euforia e era também o único que a fazia sentir-se feliz, bonita e desejada. – Toma – disse-lhe ele entregando-lhe um majestoso fio de ouro e uma pulseira de diamantes. – É teu. - É um presente? – perguntou Sara colocando o fio em frente ao espelho do quarto. - Sim. Gostaste? - Adorei! Mas isto deve custar uma fortuna. - A mim não me custou nada – respondeu Marco sugando-lhe o pescoço perfumado. - É roubado?! - Digamos que foi adquirido sem muito esforço. - E tu costumas oferecer presentes destes a todas as raparigas com quem andas? - Não. Só às mais especiais! - Então quer dizer que eu sou especial? - O que é que achas? - Que sou especial – riu-se Sara quando ele a beijou nos lábios. Vinte e quatro horas sem pregar olho fizeram de Madalena um verdadeiro zombie andante. Cada minuto parecia uma eternidade, qualquer barulho na porta a certeza de que Sara tinha regressado a casa e o toque do telefone uma réstia de esperança de a filha tinha sido encontrada por vivalma. Mas a verdade é tudo isso não passavam de fantasias quando confrontada com a dura realidade, e essa realidade era a de que Sara tinha desaparecido. - Devíamos ligar à polícia – dizia Afonso a cada dez minutos. – Pode ser que já tenham notícias. - Não vale a pena – respondeu Jorge levantando-se do sofá. – Eu vou dar mais uma volta de carro pelas redondezas. - Eu vou contigo – disse Afonso seguindo o ex. genro em direcção à porta.
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- Queres que faça alguma coisa para comer? – perguntou Sérgio a Madalena assim que a porta da rua se fechou com algum estrondo. - Eu não consigo comer nada – respondeu ela continuando a passear pelos quatro cantos da sala. – Enquanto não encontrar a Sara nada me vai descer pela garganta. - Tens que descansar! Não podes ficar nesse stress senão não aguentas. - Aonde é que ela se meteu, meu Deus?! Aonde? Já ligámos para toda a gente, já falámos com a polícia, contactamos hospitais, esquadras…! Ninguém sabe de nada. Parece que ela evaporou no ar. - Eu tenho a certeza que ela vai voltar – disse Sérgio para grande surpresa de Madalena. - Como é que podes ter certeza disso? - Se ela tivesse fugido para não voltar, teria levado todas as roupas dela e outros objectos pessoais, não achas? Mas ela não levou quase nada. Só uma mochila. Ninguém iria fugir só com uma mochila às costas. - E se alguém a levou? E se ela foi raptada? - Lena, pensa bem! Ela deixou-te um bilhete. Ninguém a obrigou a escrever aquilo. - Eu não sei. - Com certeza a Sara deve ter ido passar o fim-de-semana com uma amiga… ou com… um amigo… - Claro – exclamou Madalena voltando-se bruscamente para trás. – Aquele rapaz… - Que rapaz?! - Aquele rapaz que apareceu aqui uma vez à procura dela. Lembraste?! Eu disse-te que não tinha gostado nem um pouco dele e tu disseste que eram só coisas da minha cabeça. Mas quem sabe a Sara não está com ele? - Pode ser. É uma ideia. - Ele não te disse como é que se chamava? - …não sei – respondeu Sérgio tentando recorrer à sua memória. – Mas também não falámos muito! Ele só me perguntou se a Sara estava em casa e se ele podia falar com ela. Eu respondi que sim, mas depois entrei em casa para a avisar. Não! Lembrando agora, ele não me disse o nome. - O meu coração está-me a dizer que ela está com esse rapaz. Ela fugiu com ele. - Tem calma! Não nos vamos entrar em julgamentos precipitados. - Merda – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando Sérgio a abraçou com força. - Vamos esperar mais algumas horas. Se a Sara continuar sem dar notícias, contamos à polícia sobre esse rapaz. - Ainda te lembras da cara dele? - Lembro, claro – respondeu Sérgio tentando acalmá-la com um outro abraço. - Vamos esperar só até à meia-noite então! Só até lá. - O.k! Tal como o combinado, à meia-noite em ponto, Sérgio e Madalena forneceram outra pista à polícia relativamente ao desaparecimento de Sara. A cada hora que passava, a probabilidade da jovem se encontrar na companhia daquele rapaz desconhecido era quase certeira, e se assim fosse, não havia tempo a perder. Era preciso fazer um retrato robot e tentar encontrar-lhe o paradeiro, algo que Sérgio fez exemplarmente quando tentou recorrer
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à sua memória fotográfica. O rapaz tinha 1,80 m, a cabeça praticamente rapada, era mestiço, trazia dois brincos nas orelhas, calças de ganga um pouco largas, uma t-shirt azul escura e vinha a conduzir um BMW conversível. Os olhos também eram escuros, os lábios não muito grossos e o nariz comprido. - Tem a certeza que não se esqueceu de mais nada? – perguntou um dos policiais destacados para o caso. – Acho que não – respondeu Sérgio seguro de tudo o que havia dito. - Vão à procura desse rapaz, não vão?! – interferiu Jorge impacientemente. - Claro que sim – respondeu o agente. – Se ele tiver cadastro, vai ser muito fácil conseguirmos localizá-lo. Por sorte, naquele domingo, as estradas que ligavam o Algarve a Lisboa encontravam-se praticamente vazias, e enquanto seguiam por elas, Marco e Sara não resistiram a trocar várias gargalhadas, beijos e brincadeiras dignas de dois adolescentes completamente alheios aos problemas e responsabilidades. E na verdade, era assim que Sara se sentia cada vez que estava com Marco. Perdia a noção do tempo, do espaço e do perigo que um homem como ele poderia trazer à sua vida. – Pára – dizia ele cada vez que ela tentava lhe desviar o volante das mãos. - Tens que me ensinar a conduzir. - Ainda és muito nova para andar com uma máquina dessas. - Posso aprender… As últimas palavras de Sara coincidiram com uma brusca inversão de marcha que Marco fez em plena auto-estrada. Razão para ele ter cometido tal loucura? A presença da polícia numa das portagens à entrada de Lisboa. – O que foi? – perguntou Sara, assustada. - Cala-te e mete-me a merda do cinto de segurança – gritou Marco deixando-a completamente petrificada quando ao voltar-se para trás a visão de dois carros de polícia e as suas sirenes ruidosas tomaram conta da auto-estrada. Foi a primeira vez que ela se viu metida num verdadeiro filme de terror. Foi também a primeira vez que chorou de medo por se ver diante da morte iminente e por perceber que mostrador de velocidade do carro de Marco havia atingido os duzentos quilómetros por hora enquanto ele se desviava de alguns dos automóveis que circulavam em sentido contrário. O último culminou com um aparatoso capotamento no meio da auto-estrada e com o alívio que Marco sentiu ao ver que os carros da polícia haviam permanecido presos no acidente. Pronto. Estava feito. Ele tinha-se conseguido safar mais uma vez e a saída em direcção a Santarém trouxe-lhe de volta a calma perdida. - Sai – ordenou ele abandonando o carro num descampado. - Aonde é que estamos? - perguntou Sara completamente desnorteada. - Anda! Vou-te meter no primeiro táxi e vais para casa. Hoje ninguém me vê em Lisboa! - E tu? Como é que vais voltar? Vais deixar o teu carro aí? - Esse carro já não existe mais – respondeu Marco arrancando a matrícula e furando os quatro pneus, algo que já estava habituado a fazer em vários outros automóveis. Depois disso, abriu o porta-bagagem e retirou do seu interior a mochila que Sara tinha levado para aquele malfadado fim-de-semana. – Toma as tuas tralhas! Vamos… Apesar de ter jurado não derramar uma lágrima sequer após o maior susto que apanhou na sua vida, a verdade é que durante a viagem em direcção a Lisboa, várias foram as vezes que Sara se viu obrigada a limpar as lágrimas e a engolir o choro para que o taxista não se
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Ainda bem! . a única coisa que lhe restava era pagar pelos seus erros. – He lá! Ainda não o tiraram dali – disse ele quando passou pelo local do acidente provocado por Marco. Jorge. Entrar ou não entrar?! Essa foi a questão que Sara se colocou durante vários minutos. a jovem não podia desejar um outro lugar para se esquecer dos verdadeiros momentos de horror a quem tinha sido submetida. . apesar de ter plena consciência do que a esperava.São vinte euros. e por fim. Por fim. Uma longa fila de carros.Pode ficar com ele. Daniel e até Alice que lá tinha aparecido para oferecer algum apoio moral à sua melhor amiga.Com ninguém – respondeu ela desviando-se dos braços do pai. Depois disso. . Estava assustada e não tinha a mínima noção de qual iria ser a reacção dos seus pais.Não era preciso. – Meu Deus! Faltavam poucos minutos para as sete da tarde quando Sara finalmente se viu diante da sua casa. – Shiiiii! Morreu – exclamou o taxista levando uma das mãos à cabeça. Pela primeira vez desde que chegou à sala. – Fui sozinha. . e quando todos 128 . inúmeros polícias à volta do local. – Estávamos aqui todos a morrer de preocupação. e esse momento foi absolutamente arrepiante para as duas.apercebesse de nada.Espere. Nessa altura. . . Madalena. gélido e que se mostrava cada vez mais aterrador à medida que ela se aproximava da filha.Aonde é que te meteste? – interferiu Afonso fazendo os possíveis para se conseguir aproximar da neta. Algo maléfico. e deitado no chão. Mas ainda assim. os olhos inchados de tanto chorar e a mesma roupa que trouxe vestida desde sexta-feira. pareceu-lhe sentir o peso do mundo sobre os ombros e uma enorme vontade de desaparecer. Sara apercebeu-se da dimensão da tragédia que ela e Marco haviam causado. Pareceu-lhe também ouvir uma voz interior a confirmar toda a sua irresponsabilidade e falta de bom senso. havia qualquer coisa no olhar dela que obrigou Sara a recuar dois passos. O carro que havia capotado duas horas antes encontrava-se completamente destruído. os olhos de Sara cruzaram-se com os da mãe. Quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e mais tarde se ouviu o guincho da porta. Ela tinha errado. ouviram-se passos lentos vindos do corredor. com quem é que foste? . quando na verdade já era tarde demais para sentir qualquer coisa parecida. . . e agora. – Meu Deus! Ainda bem que não te aconteceu nada. . Os seus olhos amedrontados não deixaram sombra para dúvidas. menina! Falta o troco. duas ambulâncias.Já disse que pode ficar com ele – respondeu Sara fechando a porta e voltando-se para os portões da sua casa. e ao forçar um pouco mais a vista através da janela do táxi. coberto com um manto branco. No rosto. Afonso. a visão de Sara com uma mochila nas mãos.Ao Algarve? O que é que foste fazer ao Algarve? Aliás. Sérgio.Aonde é que estavas? – perguntou Jorge sacudindo-lhe os ombros. – Tome – disse ela entregando o pagamento ao taxista.Fui passar o fim-de-semana ao Algarve – respondeu Sara para surpresa de todos. Madalena envergava as quarenta e horas que passou sem dormir. o corpo do condutor que havia tido a infelicidade de lhes atravessar caminho momentos antes. Naquela altura. – Filha – exclamou Jorge correndo a tomá-la nos braços. saltaram dos seus respectivos lugares e puseram-se alerta.

. .É mesmo hoje que te mato – gritou Madalena lançando-se contra a filha com todas as forças que possuía dentro de si. .Porque eu já sabia que vocês não iriam deixar. ou pelo menos. 129 .Porque é que não avisaste então? – perguntou-lhe o pai. morta?! . mas tal como se era de esperar. não levantes a voz – disse-lhe o pai veemente. ouviu-se o valente estrondo de Sara a cair sobre uma das mesinhas da sala. Ao ver-se diante da porta do quarto da filha.Com quem!? – perguntou Madalena perdendo as estribeiras. – Quer dizer. Tinha levado um estalo. mulher. Os momentos que se seguiram foram tensos. . a jovem deparou-se com a visão assustadora dos seus progenitores sobre o alpendre da porta e com a certeza de que apenas agora os seus problemas estavam a realmente começar. .Sara.Já disse que não é da tua conta. mas a verdade é que as mãos de Sara atreveram-se a destrancar a fechadura.estavam menos à espera. desapareces sem qualquer explicação.Eu já disse! Só queria passar um fim-de-semana fora. mulher no meio do corredor.Eu já disse que fui passar um fim-de-semana ao Algarve. – Porque da próxima vez. eu mato-te de pancada! . eu arrombo-a! Não se soube se foi a voz do pai ou a sua ameaça. – Nunca mais voltes a fazer o que fizeste… – imperou Madalena. – Começa já a explicar qual foi a loucura que te passou pela cabeça para sair de Lisboa sem a nossa autorização – imperou Madalena entrando pelo quarto adentro na companhia de Jorge. que a mãe não iria deixar. abre a porta – imperou o advogado. Sara teve a brilhante ideia de se trancar no interior do quarto.Podes bater-me à vontade! Eu não vou dizer nada. a jovem subiu as escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e trancou-se no quarto numa tentativa desesperada de manter o fio de lucidez que lhe restava.Sim e não quer abrir. . não foi? . . . O maior estalo de toda a sua vida que a fez inclusive sangrar da boca.Sara. deixas-nos à beira de um ataque de nervos e ainda achas que tens razão?! Tens a noção da gravidade do que acabaste de fazer? E se te tivesse acontecido alguma coisa? E se tivesses sido raptada. – Se não a abrires. – Sara! Abre a porta! Abre-a agora imediatamente! Silêncio foi a resposta. Madalena não hesitou um segundo em soquear-lhe vezes sem conta.Eu não vou pedir desculpas se é isso que estás à espera – gritou Sara com os olhos vermelhos de raiva. Mais tarde. . – Isto não vai ficar assim – disse Madalena libertando-se dos braços de Sérgio e seguindo a filha a toda a velocidade. Tentou também girar a maçaneta.Lena! . .Eu vou lá – exclamou Jorge adiantando-se ao namorado da ex. . Depois disso. . – Trancou-se aí dentro? – perguntou Jorge encontrando a ex.Foi com aquele rapaz que apareceu cá em casa no outro dia.Não é da tua conta. mas ainda assim Sérgio conseguiu impedir que Madalena levasse os seus intentos adiante quando a segurou pelos braços e permitiu que Sara fugisse da sala.

.Não – respondeu Madalena cruzando os braços num gesto de deboche.Isso não é verdade. O problema é que o tal negócio não deu certo e… a polícia judiciária 130 ..Eu fui porque precisava ficar dois dias sem olhar para a tua cara e sem olhar para a cara daquele homenzinho que resolveste colocar cá em casa.Sara! Cala-me essa boca imediatamente – imperou Jorge para grande surpresa da filha.O.Não te atrevas a falar assim do Sérgio! . ainda enfiá-lo cá em casa. A juntar a isso.Não. já disse. e pior. não é?! Fazes o que te apetece.Ou pensas que já não sabemos que chumbaste o ano por faltas? A pergunta da mãe tomou Sara de assalto. . viajas sem dar satisfação a ninguém…! É uma alegria! . não terias sequer como sustentá-la… .É sim! E tu sabes que é. – Tu não tens idade para andar sozinha por aí. porque senão. e que se não fosse por ele. .os olhos de Sara cerraram-se.Sabes porque é que eu fui passar o fim-de-semana ao Algarve? . . – E ela sempre me perdoou porque queria que tu e o Daniel crescessem numa família minimamente estável. já nos tínhamos separado muito antes.Não fui com ninguém – respondeu Sara largando os braços. . . utilizei a assinatura dela para um negócio que estava a fazer com alguns sócios meus na altura. Não tens idade para passar fins-de-semana sem a supervisão de um adulto e muito menos para sair da cidade sei lá com quem! Porque é óbvio que tu não foste sozinha ao Algarve. filha? . não é – interrompeu Jorge calando os gritos da filha. mas mesmo muito. – Aliás. Porque tu não pensaste nem um segundo nós quando te resolveste separar do pai. – Fui sozinha. . Foste com alguém. – Não fales de coisas que não sabes. Só pensaste no teu bem-estar e na vontade que tinhas em voltar a ser solteira outra vez … . Porque é que não acreditam em mim? . Foi por vossa causa que estivemos casados durante tanto tempo. Sara! A tua mãe e eu pensámos muito.Porque tu não nos dás motivos para acreditar em ti – interrompeu Madalena. será que não entendes?! É por tua causa que eu e o Daniel deixámos de ter uma família – respondeu Sara não se deixando amolecer pelas lágrimas da mãe. Uma casa que é do meu pai.Eu falo como eu quiser! Não sou obrigada a gostar dele e muito menos a fingir que acho normal uma mulher da tua idade andar com um homem muito mais novo. Eu traí a tua mãe. e tal como se não bastasse.Sinceramente eu não sei o que fiz para me odiares tanto – disse Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. raivosa.k! . mandas e desmandas cá em casa.Com que é que tu foste.Tu destruíste a minha vida. – Mas iria adorar saber. . – O que foi? Ficaste surpreendida? Ou será que pensavas que nós nunca iríamos descobrir que andavas a faltar às aulas para fazer sabe-se lá o quê?! Julgaste muito esperta.É claro que eu não iria deixar – interferiu Madalena. antes de nos decidirmos a assinar os papéis do divórcio. tu só nos dás motivos para desconfiar do teu carácter e da tua falta de responsabilidade. – É por tua causa que todos os fins-de-semana temos de andar de um lado para o outro sem saber aonde e a quem pertencemos. Só pensaste em ti. Várias vezes… . esbaforida.

Apesar das discussões. Na verdade. por mais que tentemos.Bom dia. – Bom dia – disse Sérgio beijando-lhe os cabelos quando se deparou com a mesa do pequeno-almoço totalmente composta. e ela acabou por… ser presa no meu lugar! Foi só uma noite. . . Foi fraco ao não fazê-lo. mas acho que foi a suficiente para que ela se fartasse de mim e pedisse a separação – discursou Jorge rasgando alguns olhares a Madalena. foram as últimas palavras de Afonso Soares no final daquela tarde particularmente cinzenta e tumultuosa. talvez por medo que ela deixasse de o ver como um herói. essa fase vai passar. A casa amanheceu silenciosa. . Ela ama-te muito e é por isso que faz estas coisas só para chamar a tua atenção. . não está?! . militar não poderia estar mais certo.A Sara já está cá em casa. . um claro contraste tendo em conta a noite anterior. quando ela perceber a mãe maravilhosa que tem.Pelo menos acabou tudo bem. Entre mortos e feridos salvaram-se todos. fui eu o único culpado pela nossa família ter terminado. a calmaria voltou a rondar a casa quando Sara regressou sã e salva.Melhoraste da dor de cabeça? 131 . coisa que ela não sabia porque eu não lhe contei.O que é que isso importa?! – perguntou Sara largando os braços.descobriu algumas irregularidades numa conta offshore que eu tinha. sim. Vai passar! Quando ela crescer.Será que acabou mesmo!? . as forças para fazer tal tarefa eram praticamente nulas.Ela odeia-me – exclamou Madalena voltando-se para Sérgio com os olhos inchados de tanto chorar.Ela não te odeia. . A tua mãe não teve culpa de nada! . desesperada. E a verdade é que o ex. Madalena conseguiu pela primeira vez engolir algo comestível e Jorge desapareceu com a clara certeza de que já deveria ter contado a verdade à filha há muito tempo. . o relógio marcou meia-noite e quarenta e cinco minutos. E não. Nessa altura. Acabou tudo bem. e Madalena foi a primeira pessoa a levantar-se para preparar o pequeno-almoço na cozinha. mulher. e nem sempre.Estás bem? – perguntou Sérgio encontrando Madalena sentada sobre as escadas que ligavam os dois pisos da casa.Não – respondeu ela permitindo que ele se sentasse ao seu lado. mas sim.Ela odeia-me sim! E eu não posso fazer nada para que ela deixe de me odiar.Com a tua ajuda está – respondeu Madalena abandonando o quarto debaixo das lágrimas que a filha não conseguiu conter. Seria demasiado egoísta da sua parte se todas as culpas acerca do término do seu casamento recaíssem sobre os ombros da ex. – Portanto. Só que essa conta estava no nome da tua mãe. somos capazes de superar as nossas fraquezas interiores. como vês. . Quem sabe com o tempo Sara não entendesse? Quem sabe ela não percebesse que nem sempre as relações entre adultos eram fáceis. Ela não te odeia. transparentes e vitoriosas? Nem sempre elas são como queremos que sejam. . mas ainda assim ela conseguiu aguentar as fortes dores de cabeça e a vontade quase incontrolável de passar o dia inteiro na cama sem olhar ou falar com vivalma. Por isso. dos estalos e dos gritos. – Está tudo destruído. . não lhe aconteceu nada.É só uma fase.

– Eu levo-te. que foi completamente impossível para elas trocarem qualquer palavra mais amarga àquela hora da manhã.Não acredito nisto… – foram as palavras que ela murmurou enquanto os olhos e as mãos reviravam todo o roupeiro. 132 . . . numa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro. Sara começou a perder as esperanças de encontrar a sua preciosa caixa. . era meu e tu não tens o direito de mexer em nada do que é meu! . . Eram passados a meditar em todas as coisas de errado que fez e também em Marco. uma caixa a qual só ela tinha acesso e que muitas vezes lhe trazia o prazer que não conseguia alcançar com indivíduos do sexo oposto.Mãe! Vais-me levar à escola? – perguntou Daniel. – Eu quero a minha caixa – foram as primeiras palavras de Sara assim que o fotógrafo chegou da rua e a encontrou sozinha em casa. E assim.Um dia vais-me agradecer. ao contrário de todas as suas expectativas. Sara começou a sentir-se confusa e ansiosa. As últimas palavras do fotógrafo coincidiram com a chegada de Sara à cozinha e também com o constrangimento de Madalena ao vê-la diante de si. . tanto a mãe como a filha encontravam-se tão cansadas de lutar. Dani – respondeu Sérgio servindo-se de uma chávena de café. e o pior é que ela nada podia para contrariar a decisão da mãe devido ao apoio incondicional que o seu pai lhe ofereceu aquando do castigo. os seus olhares se desviaram. Prisioneira talvez fosse a palavra que melhor a definiria durante três semanas.Nojento ou não. Para além disso. O Sérgio.Cereais – respondeu Sara baixando o rosto. Como será que ele estava depois dos dois quase terem sido apanhados pela polícia? Será que ele chegou a saber que o condutor do carro que capotou morreu por culpa da irresponsabilidade dos dois? Diante de tantas dúvidas. Passou-se uma semana e Sara percebeu que estava de castigo quando lhe foram retirados do quarto. pois as horas custavam a passar e o seu vício aflorava-se a cada minuto. Madalena teria dito alguma coisa ou feito um escândalo. os dias eram passados no interior de um quarto completamente desprovido de tecnologia. Impaciente também. – Aquilo era nojento. . Sara escolheu uma cadeira à mesa para se sentar e Madalena voltou-se de frente para o lava-loiça. Contudo. ela percebeu. Contudo. Mas quem?! Quem? Desesperou-se. principalmente para uma rapariga da tua idade. Com certeza. Alguém a havia tirado dali. Sexo. Mas tal como qualquer outro dependente. – Não acredito! As minhas coisas…! Não acredito… A procura desesperada continuou por todo o quarto. Só podia ser outra pessoa. Claro. Desta forma. . naquela tarde. mas a pouco e pouco.. Será que tinha sido a mãe? Não. envergonhada.Eu só deitei fora aquela porcaria – respondeu Sérgio largando o seu equipamento fotográfico no chão. a caixa não se encontrava mais lá.Eu não sei do que é que estás a falar. também não estava autorizada a sair de casa e muito menos a comunicar-se com qualquer pessoa através do telefone.Mais ou menos. o leitor de CD e a televisão. Sara mantinha as suas reservas escondidas a sete chaves.Hoje a mãe está um pouco mal disposta. . – O que é que queres comer? – saiu-lhe essa pergunta a muito custo.Sabes sim! Foste tu que andaste a mexer nas minhas coisas! Roubaste-me a caixa. Começou a pensar em sexo e na falta que aquele acto que costumava praticar todos os dias lhe fazia. o computador.

Por isso. Ali estava. . Sara – disse Sérgio incendiando-lhe o olhar. A príncipio tentou levá-la como uma simples brincadeira. . Nunca iria contar. estás a começar a entrar em ressaca. tal como um toxicodependente é dependente de droga.Cala-te – gritou ela completamente descontrolada. 133 . Só que ao contrário dos teus pais. essa brincadeira e essa curiosidade apossaram-se não só da sua mente como também do seu corpo.Tu és ninfomaníaca.Eu nunca te vou agradecer por nada – gritou Sara. o sentimento de repulsa que todos iriam sentir de si quando soubessem a verdade. Podes muito bem viver sem isso ou não?! . – Tu estás doente. Passaram-se cinco dias e o círculo estava pouco e pouco a fechar-se. – Precisas tratar-te e eu estou a falar a sério. mas porque quer?! . Sabia também que esses sintomas começaram meses antes quando descobriu a pornografia em casa do pai.Cala-te! Tu não sabes o que dizes… . mas por um prazer que queria ver saciado. e ela. Apesar de nunca ter encontrado a verdadeira definição para o seu desejo sexual compulsivo. Nem a mãe e muito menos o pai. uma curiosidade. não porque precisa.Eu odeio-te! . Sara sabia que ele existia e que a pouco e pouco já havia controlado toda a sua vida. – E tu também sabes. que se deitasse com inúmeros homens e que vendesse o seu corpo.Cala-te – afirmou Sara recuando dois passos. já não tens a tua caixa. raivosa.Escuta! Porque é que estás tão irritada? Eram só alguns filmes pornográficos. Mas sim. vibradores e outras coisas. Tu és dependente de sexo. Aliás.Já pensaste no desgosto da tua mãe quando ela descobrir a verdade? Quando ela descobrir que a filha dela se anda a prostituir. A verdade nua e crua da qual Sara não podia escapar e que infelizmente lhe foi jogada à cara pela pessoa que mais odiava no mundo.Isso não é da tua conta. mas em muito pouco tempo. . desesperou-se. Sara decidiu que não iria contar. – Vais contar à minha mãe? – perguntou ela. . Nunca ninguém iria saber da sua doença e ela passaria despercebida aos olhos de todos até o final dos seus dias. daí a vergonha.E como não já não consegues sair de casa. A mãe nunca iria compreender as razões que a levavam a querer sexo tanto quanto um ser humano desejava ar para respirar. o sexo é a tua droga. . Pensando melhor.Então não me deixas outra escolha – disse Sérgio alcançando o corrimão das escadas. não é?! .Ou será que estás tão obcecada por sexo que a simples ideia de te veres sem a tua caixa te deixa assim?! Sara calou-se. . Fizeram com que cometesse loucuras atrás de loucuras. . .Não! Eu queria que fosses tu contar.. eu consigo ver as coisas do lado de fora e podes crer que não precisei de muito esforço para juntar todas as peças deste puzzle. E precisas também deixar de te prostituir… . não por dinheiro. O prazo que Sérgio dera a Sara para contar a verdade a Madalena esgotou-se. talvez Sérgio tivesse razão. que já não sabia o que fazer.Eu sei muito bem o que estou a dizer – respondeu Sérgio enfrentando-lhe os olhos raivosos.Eu nunca vou fazer isso.

Não te demores. completamente desnuda. era como se o fotógrafo lhe lançasse olhares fulminantes com mensagens claras e peremptórias: Conta.Dá-ma! Vou pô-la na máquina. . . Madalena voou em direcção ao 134 .Podes deixar. . .Veste-te – ordenou ele entregando-lhe o robe caído sobre o tapete. Nada pôde exemplificar o terror sentido por Sérgio quando ele percebeu que a pessoa que tinha acabado de entrar na cabina não era Madalena. Ali estava a filha da sua namorada. os passos lentos e quase silenciosos de um corpo esbelto e a abertura da cabina pelas suas mãos delicadas. .Mas seriam as coisas assim tão simples? No fundo. O desejo parecia ser recíproco quando Sérgio abriu o chuveiro da cabina e se enfiou lá para dentro sentindo os primeiros pingos de água quente caírem-lhe sobre o rosto e o corpo desnudo. – Estás louca? . Mas ela não contou e essa ideia nem sequer lhe passou pela cabeça. ela tinha consciência que não.Tens alguma roupa branca para lavar? – perguntou Madalena enquanto Sérgio se preparava para tomar um duche na casa de banho.Eu?! Louca? Claro que não! Só te queria fazer uma surpresa.Já disse que não. E sim. Estas foram as últimas palavras de Madalena antes de sair da casa de banho levando consigo várias roupas nas mãos e também a certeza de que assim que se despachasse da tarefa enfadonha de as colocar na máquina. nas escadas. Com a pressão da água a cair sobre o polibã.É só me despachar da máquina que venho a correr – respondeu ela cedendo-lhe um longo beijo nos lábios. . Conta.Não – respondeu ela com um sorriso maléfico que o irritou de imediato. iria correr para os braços de Sérgio e presenteálo com um final de tarde no mínimo inesquecível. Nessa altura. cozinha ou até mesmo na sala. A única coisa que sabia era que teria que afastar Sérgio da sua vida de uma vez por todas e consequentemente todas as ameaças que ele fazia questão de lhe incutir.Pois fui – respondeu uma voz angelical que o fez gelar dos pés à cabeça. veste-me esse roupão agora! . Cada vez que se encontravam nos corredores. Conta. com olhos de quem o queria comer e sem qualquer pingo de remorso por ter cometido um acto no mínimo insano.Só esta camisola – respondeu ele tirando-a do corpo. a porta da casa de banho sofreu uma ligeira pressão e abriu-se sem que ele se apercebesse disso. foi impossível ouvir o barulho do robe a cair sobre o tapete. . . foram as palavras de Sérgio enquanto enfiava a filha da sua namorada no robe que ela havia retirado minutos antes de o surpreender no banho. sendo que quando isso aconteceu.exclamou Sérgio abrindo um sorriso de orelha e orelha quando sentiu dois braços à volta da sua cintura. . mas sim Sara. – Foste rápida… . . Mas os gritos de Sara para se tentar livrar dos braços do fotógrafo não tardaram a ecoar por toda a casa. – O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Sérgio abandonando a cabina e encontrando uma toalha com a qual se pudesse tapar.Vê lá se não te demoras muito! Prometeste que me irias fazer companhia no banho. . pois a presença de Sérgio em sua casa lembrava-lhe que estava entre a espada e parede. Aquilo já tinha passado todas as marcas.Sara.

mas tu disseste que isso não te importava. que ali. incrédula. no interior daquela casa de banho. . . ela chamava com todas as forças.Lena.Eu nunca te assediei – vociferou Sérgio sentindo-se prestes a perder a sua sanidade mental. . . . o que é que eu posso fazer? 135 . mas tu não me quiseste ouvir. minha louca? – disse Sérgio agarrando o braço de Sara com força.Eu posso explicar. – Eu nunca tive nada contigo.Então explica! Explica porque eu não estou a perceber. mas …eu estava a tomar banho e de repente a Sara entrou na cabina. – O que foi. Foi por isso que resolveste morar cá em casa. não é nada disso que estás a pensar… . – O que vem a ser isto? – murmurou Madalena sentindo-se quase sem ar para respirar quando encontrou o namorado e a filha completamente atracados na casa de banho. Ela é louca. No fundo querias ficar com as duas. . . . mãe? – perguntou Daniel surpreendendo a sua progenitora no corredor.segundo piso pronta a inteirar-se do que se estava a passar. Daniel tornou a encostar a porta e ignorou os gritos de Sara que a cada minuto tornavam-se mais agudos e intensos.Essa é a verdade.Isso não é verdade. tu achas que a minha mãe vai acreditar numa coisa dessas? – interrompeu Sara para grande espanto e surpresa do fotógrafo.Eu não tenho estômago para continuar a ouvir isto… – murmurou Madalena abandonando a casa de banho com os olhos rasos de lágrimas.Sérgio. – A verdade é que tu me chamaste para vir ter contigo. – Lena! Tu tens que acreditar em mim. E a verdade é que o mesmo se estava a passar com Madalena. Acho que deve ter sido por engano. – Mas fica aí no teu quarto.Eu disse-te para não te meteres no meu caminho. disse que não podia ter nada contigo porque era o namorado da minha mãe. ela também e eu estava a tentar a… .Não. . – Tu é que me obrigaste! Eu bem tentei fugir. lembraste?! . – Porque é que não lhe contas a verdade? . Eu assustei-me.O que é isto?! – repetiu Madalena.Eu é que não queria ter nada a ver contigo – interrompeu Sara compondo-se no seu roupão. Mãe.respondeu Sérgio largando os braços de Sara e deixando-a quase semi-nua sobre a sanita. Eu era só uma criança e tu sabias muito bem disso quando me obrigaste a ir várias vezes para a cama contigo… . . . sentiu como se o mundo tivesse acabado de desabar sobre os seus ombros. .Eu era uma criança até tu teres feito o que fizeste. Não saias! Ao ouvir as ordens da mãe.Não sei – respondeu ela. tal como se estivesse a ser espancada ou violentada por alguém.Porque é que não contas à minha mãe? Porque é que não lhe contas que me andas a assediar desde que nos conhecemos?! . não é – respondeu Sara enfrentando o olhar confuso de Sérgio.Isso não é verdade – vociferou Sérgio voltando-se para ela. Eu nunca tive nada com a tua filha.Eu não sei como é que aconteceu. Tu não passas de uma criança… .Viste o que acabaste de fazer.

mas… um dia vais perceber que cometeste um grande erro. que a deixava quase sem ar para respirar e que a matava por dentro a cada minuto que se lembrava das palavras de amor que Sérgio tantas vezes lhe sussurrou aos ouvidos. . Sara observou os movimentos de Sérgio a enfiar as suas malas no carro. Era uma dor que parecia ter-selhe entranhado por todo o corpo. . encontrou-a em frente à janela. dez meses… Sérgio manteve-se calado. sem tempo a perder.Tu não acreditas em mim. Por isso. Acho que estava tão cega. Uma dimensão a qual só ela tinha acesso e que Sérgio não sabia se poderia entrar. de costas voltadas e completamente imóvel.Porque vendo bem.Não adiantava nada continuar a trocar palavras vãs e dementes com uma rapariga também ela vã e demente.murmurou ele tentando alcançar-lhe os ombros com as mãos. – Tu conheces-me! . Dois minutos depois.Como assim? O que é que estás para aí a dizer? . a conviver com os meus filhos e nem foi preciso muito tempo para perceber que cometi um grande erro – discursou Madalena com os olhos rasos de lágrimas. o que é que eu sei sobre ti!? .Vai-te embora. – Lena… . . tão… apaixonada que não ouvi o que as outras pessoas me disseram. Parecia ter sido atingida por um raio.Põe-te no meu lugar! Em quem acreditarias? No teu namorado que só conheces há poucos meses ou na tua filha que já conheces há dezasseis anos? .Há quanto tempo? Nove. . . acho que já vai ser tarde demais… Da janela do quarto. e parecia também ter entrado numa dimensão só dela. . Tu sabes disso. Viu as suas mãos fecharem o porta-bagagem com força e mais tarde a sua entrada no banco da frente. . incrédulo.Lena…. ela agarrou-se ao edredão numa tentativa desesperada de acalmar a dor que estava a sentir. . por favor – disse Madalena sentindo-se completamente morta por dentro. Pus um perfeito desconhecido dentro da minha casa.Lena.murmurou Sérgio. Tal como esperava. – Eu não mereço que acredites em mim. Não por não teres acreditado em mim. ou algo semelhante. o veículo arrancou e a rua tornou a ficar deserta.Será que eu sei? – perguntou Madalena voltando-se para ele com uma expressão mortificada. ele abandonou a casa de banho ainda enrolado numa toalha e correu ao encontro de Madalena no quarto divido pelos dois. A almofada sobre a cama não precisou de muito tempo para ficar totalmente encharcada com as lágrimas de Madalena.…tens razão – concordou Sérgio baixando o rosto. tu não podes acreditar naquilo que a Sara disse! Eu nunca tive nada com ela e nem nunca seria capaz de a tocar.Eu não te queria dizer isto.Não me toques – foi a resposta que o fez recuar dois passos. mas sim por não veres algo que está mesmo à frente do teu nariz! Mas quando perceberes esse erro. e quando isso aconteceu. foi a conclusão a qual Sérgio chegou quando a olhou pela última vez e se deu conta que Sara realmente não conhecia a palavra limite. – Eu não sei nada sobre ti e hoje cheguei a essa conclusão. Como se pôde enganar tanto com elas? Como é que pôde acreditar nelas e entregar a Sérgio tudo o que de melhor possuía dentro de si? 136 .

o seu corpo e a sua alma a um perfeito desconhecido. – Foi melhor ter-se ido embora! Agora vamos voltar a ser uma família outra vez. – E ele também não gostava de ti – continuou a jovem ansiando qualquer reacção por parte da mãe.Já. pois o céu e as estrelas pareceram desabar sobre a sua cabeça quando ela o encontrou nos braços da filha naquela maldita casa de banho. .Talvez devesse ter sido mais cuidadosa em não oferecer o seu coração. Há quanto tempo aquilo estava a acontecer. 137 . Mas por outro lado. . Sem forças para sequer erguer a cabeça. Ele que lhe devolveu novamente a alegria de viver. Sara afastou-se da porta e fechou-a com algum cuidado. O meu castigo já acabou? .Deixa-me sozinha – respondeu Madalena com uma voz rouca. Depois disso. – Era por causa disso que eu não gostava dele – ouviuse a voz de Sara sob o alpendre da porta. foi a pergunta que Madalena se fez ao limpar as novas lágrimas que teimavam em cair-lhe no rosto.Já se passaram três semanas. que a fez voltar a acreditar no amor e que lhe prometeu o céu e as estrelas apenas em troca de um beijo? Mas não. fez-se um silêncio ensurdecedor e Madalena desligou a luz da mesinha de cabeceira ansiando que o comprimido que havia tomado surtisse efeito e a fizesse dormir. como é que se podia recriminar se tudo o que Sérgio lhe havia dito parecia tão real? Se tudo o que ele fazia parecia tão real. Nada disso realmente aconteceu. Madalena continuou deitada e fechou os olhos inchados de tanto chorar. Podes fazer o quiseres… Ao ouvir as palavras da mãe.

CAPÍTULO VIII Era a primeira vez desde há semanas que Sara podia sair de casa sem a supervisão da mãe ou os constantes telefonemas do pai. a forma magistral como se livrou da presença do futuro padrasto lá em casa. Contou a Milene todos os detalhes do louco fimde-semana que passou ao lado de Marco no Algarve. . Mas o mais intrigante de tudo era perceber que ela não se tinha arrependido nem um pouco do que fizera.Estive de castigo – afirmou Sara entrando com um largo sorriso.Posso entrar? .E tu vais deixar a vida por causa dele? 138 . os seus passos rápidos em direcção a uma pensão que habitualmente frequentava não deixaram dúvidas de que o seu maior desejo era reencontrar uma pessoa que lhe era muito especial. . o local escolhido para comemorar a sua liberdade foi o bairro do Intendente. – Desaparecida – disse Milene abrindo-lhe a porta do quarto. O que é que querias que eu fizesse? Ele não me deu outra escolha.Porquê!? . a reacção dos pais quando regressou a Lisboa. e tal como se era de esperar. . .Pena porquê?! Eu até lhe fiz um favor. isso podia notar-se a quilómetros de distância cada vez que acenava a velhos amigos e retomava um quotidiano que já conhecia tão bem. – Diz que não admite dividir a mulher dele com ninguém.Tu nem sabes o que é que me aconteceu nestas três semanas. Estava animada. . e por fim.Não me queres contar? E foi o que Sara fez minutos mais tarde. não?! . Para além disso. . . .Tu és louca – foram as palavras que Milene murmurou vezes sem conta. – Tu e o Marco andam mesmo a namorar ou é só uma brincadeira? . O namorado dela era um otário e estava a um passo de lhe contar que me ando a prostituir. o castigo deve ter sido óptimo.Bem. onde logo à entrada encontrou alguns amigos de longa data.A minha mãe é forte! Ela vai saber esquecer esse Sérgio num estalar de dedos.Mas diz-me uma coisa – interrompeu Milene acendendo um cigarro e atirando o isqueiro contra a cama.Às vezes eu acho que tu não és deste planeta. do acidente que provocaram em plena auto-estrada.Coitada da tua mãe! Não tens pena dela? . .Claro.Ele disse que queria que eu largasse a vida – respondeu Sara com um largo sorriso. .

não é?! .A sério! A bófia veio. – Eu gosto dele – continuou Sara. .Não passas de uma criança! Ainda tens muito que aprender. .Não sei. .Então acho que se calhar também preciso de um psicólogo.Porque não!? Se ele quiser. . o marido seguiu-a e apanhou-a numa pensão aqui perto. mas eu sei que ela não iria mentir sobre uma coisa tão séria. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar. Atendida que estava a segunda cliente da tarde. – Conheci uma gaja que também era assim. – Mas também gosto de sexo e ele está sempre longe. Não sei se vou conseguir ficar um mês sem ir para a cama com ninguém.Tu só pensas nisso. levou o pessoal para a esquadra e a gaja nunca mais apareceu por estas bandas.A Sara não iria inventar uma coisa dessas – respondeu Madalena limpando as últimas lágrimas da tarde. mas não sei se vou conseguir manter a minha promessa.O que mais pode ter acontecido? .O ex. largo mesmo. mas ele vai continuar com a dele.Tu não acreditas mesmo que ele gosta de mim.Mas só tem um problema… . Então um dia. Cada lembrança dele era um suplício.Qual? . Não sejas parva. cada minuto era difícil de suportar e a certeza de que nunca mais o voltaria a ver destroçava-lhe o coração. Que tal a Sara ter mentido!? . Pelas minhas qualidades – respondeu Sara arrancando uma ruidosa gargalhada de Milene. 139 . Milene sorriu.Eu acho que é possível um homem gostar de mim pelo que eu sou. Mas há uns meses atrás a Arlete encontrou-a na rua e ela disse-lhe que se tinha curado.Tu acreditas!? ..Já ouvi falar – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. nenhuma delas lhe trazia de volta a paz de espírito.Tens mesmo a certeza que foi isso que aconteceu? – perguntou Alice quando ela lhe contou a cena grotesca que vira na sua casa de banho. . . . – Ela pode ter muitos defeitos. já reparaste?! . Madalena despediu-se dela com um sorriso forçado e voltou a encostar a porta da sua floricultura.Eu prometi ao Marco que iria deixar de me prostituir. Tinham-se passado três dias desde o término do seu namoro com Sérgio.A sério? – riram-se as duas. . Foi o maior escândalo.Não vês que o gajo só te anda a fazer de otária? Ele anda com todas as gajas que lhe aparecem pela frente ou pensas que um idiota como ele só se contenta com uma miúda de dezasseis anos?! Tu vais largar a vida. – O que foi? Achas piada? .disse Sara atirando-se contra a cama. – Precisas é de um colete-de-forças. Houve tiros e tudo… . Vinha muitas vezes ao bairro porque dizia que o marido não a conseguia satisfazer na cama.Não – riu-se Milene. namorado da minha mãe disse que eu era ninfomaníaca! Sabes o que isso é? . . Porque é que tudo terminou daquela forma tão abrupta? Porque é que uma história de amor que tinha todos os ingredientes para dar certo evaporou-se no ar sem qualquer razão aparente? Por mais justificações que Madalena tentasse encontrar. . Procurou um psicólogo e descobriu que era ninfomaníaca.

Ela sabia muito bem o que estava a fazer. . E também tem a Sara… . Apenas Daniel foi convidado a acompanhar o pai numas pequenas férias a Madrid. será que não entendes?! . – Façam uma boa viagem – disse Madalena observando a animação do filho quando Jorge o foi buscar. . uma.Não digas nada – respondeu Madalena assoando-se com um lenço de papel. 140 .Bem! Vamos pestinha?! Senão perdemos o voo. – O Sérgio está fora da tua vida. Ela é a minha filha – respondeu Madalena. a verdade é que Jorge não podia ter ficado mais contente pela notícia. É só isso que eu quero. não custava nada sonhar com essa possibilidade. mas ao contrário dos anos anteriores. algo que ele aceitou de bom grado.Lena.Não podes deixar que ela continue assim. não foi um boato.E até quando vais continuar a viver nesse inferno? . – Era bom se pudesses vir connosco. privaram-na de qualquer tipo de divertimento que não se cingisse a Lisboa. mas e a Sara? O que é que vais fazer com ela? . eu não posso abandoná-la. apesar de não quereres aceitar a realidade.Como assim?! . cientes de que a filha precisava de um castigo. – De qualquer maneira foi só um convite. ela não te contou nada. deixa-me que te diga que ela também foi. .Ele estava a obrigá-la. mas principalmente o familiar. foi a verdade… .Sinceramente não sei o que te dizer. Se o Sérgio foi culpado por tudo aquilo que aconteceu. os seus olhos e a sua expressão facial não mentiam.Lena. Quem sabe ela não voltaria a vê-lo com outros olhos? Quem sabe ela não perceberia que durante meses o seu maior desejo era voltar para casa e para o casamento de ambos? De qualquer maneira. . mulher.Eu vi. desesperada.Obrigado – respondeu o advogado rasgando alguns olhares à ex. . . Ainda estava triste.Tudo bem – disse Alice segurando-lhe as mãos frias.Não sei! Até quando conseguir… – respondeu Madalena encolhendo os ombros. . Não foi imaginação.Eu não sei! Eu não sei se com a Sara não será pior. a Sara já não é nenhuma criança de colo. e embora nunca tivesse sabido o verdadeiro motivo para que Madalena e Sérgio se tivessem separado.Mas eu tenho a certeza que tu e o Dani se vão divertir imenso sem mim – afirmou Madalena afagando os cabelos do filho. – Por mais que ela me odeie. . eu não sei! O Sérgio não parece ser desse tipo… . Sara não teve direito a férias.E o que é que queres que eu faça!? Eu não posso pô-la para fora de casa tal como fiz com o Sérgio. e os pais. O seu comportamento escolar. . deixaram muito a desejar. duas ou três vezes. Agiu nas tuas costas e traiu-te também. – Acabou! Agora só quero esquecer essa história e seguir em frente. .Eu sei – disse Jorge segurando malas do filho. Ele não agiu sozinho. por mais que me faça a vida negra. e mesmo se a tivesse obrigado a ir para a cama com ele.. O Verão trouxe novamente consigo os dias de sol e de calor. .Às vezes os pais têm que abandonar os filhos para que eles aprendam a dar-lhes valor. Lena! Não podes deixar que ela assuma o controlo da situação e te faça a vida num inferno. Alice! Eu vi com os meus próprios olhos ele a agarrá-la.Sabes bem que não posso deixar a Alice a tomar conta da floricultura sozinha.

Olha quem é ele – exclamou Arlete.Sai-me da frente. – Ela está lá dentro com a Milene.k – respondeu Daniel despedindo-se da mãe com um longo abraço seguido de um beijo na face. mas com o passar do tempo e com a perca de forças. . Nessa altura. marido partira sem deixar rastro. . fugia para o quarto sem dar quaisquer explicações acerca do seu desaparecimento. Depois de um breve aceno e de se ter assegurado que o carro do ex. quase sempre ao príncipio da noite. Não valia a pena pois Sara chegava a casa cada vez mais tarde e também recusava-se a passar os fins-de-semana com o pai desde que soube que fora ele o responsável pelo término da família. minha puta?! . – Não estavas no Algarve? A resposta do jovem foi dada com um valente soco no estômago que a fez cair e derrubar uma cadeira das inúmeras cadeiras colocadas em frente ao balcão. Assim sendo. puto! Tenho quase idade para ser a tua mãe. – Ai estás aqui. queres tu dizer! Diz lá! Aonde é que a Sara se meteu? .Tens quase idade para ser minha avó. raras eram as vezes que Sara parava em casa.Está bem. .Marco – exclamou Sara surpresa por o ver ali. Sabes bem que as duas não se largam. – Até que enfim apareces por estes lados… .Porta-te bem! Não faças asneiras e obedece ao teu pai. Milene apressou-se a socorrer a sua amiga temendo que Sara tivesse desmaiado com o impacto do golpe. Madalena tentou impor horários rígidos e perguntou sempre para onde ela tinha ido.O. Sozinha. Depois disso.Tem calma – respondeu Arlete assustando-se com a agressividade do jovem. A resposta da prostituta trouxe a Marco o ímpeto que ele precisava para entrar no bar sem quaisquer cerimónias. uma das prostitutas mais antigas do bairro. Madalena fechou a porta e lançou um longo suspiro.Tchau. assim como a cólera que se apossou dos seus olhos. – Animal – gritou ela voltando-se para Marco.O. e quando voltava. Sem ninguém para a amparar e sem certezas do comportamento da filha que a cada semana piorava gradualmente. Arlete – respondeu ele empurrando-o contra a porta do bar.A tua namoradinha é?! . De férias. . Iria passar duas semanas com Sara na mesma casa. . vários homens que se encontravam no bar insurgiram-se a Marco por aquele acto de violência no mínimo gratuito. mãe! .Hei! Vê lá. Nas primeiras vezes. Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. ela desistiu de tal coisa. – Ligamos assim que chegarmos ao hotel. Duas semanas. e essa certeza tornou-se incontornável quando pela primeira vez a filha passou a noite fora de casa. . encontrar a visão de Sara sentada na mesma mesa que Milene e outros dois homens desconhecidos foi inevitável.. enquanto no chão.k! Boa viagem. ao ver à sua frente a figura de Marco. 141 . depois de se ter desviado de várias pessoas e retirado algumas cadeiras da sua frente. um dos delinquentes mais temidos do bairro.Diz antes que eu perca a minha paciência… . – Tchau. não havia absolutamente nada que Madalena pudesse fazer para voltar a controlá-la.

– Ainda temos muito que conversar. eu chamo a polícia! .Queres uma aposta como vou? . Ou ainda achas que isso não é chular? Fica quietinha mais é que é para não sobrar para ti. Sara enganou-o.Eu?! . – Agora ela vai apanhar e bem que é para aprender a não meter cornos num traficante de droga. a primeira a ir em cana és tu… . minha cabra! Ou achas que ninguém vai contar que andas a chular uma miúda de dezasseis anos? . Se chamares.Andas a chular sim que eu sei! A miúda trabalha. . ele regressou propositadamente a Lisboa para tirar a história a limpo. nada lhe pareceu importar. Na verdade.Não a vais levar daqui – adiantou-se Milene puxando a amiga contra si. pois os seus cinquenta e dois anos de vida deram-lhe a sabedoria necessária para saber que com homens como Marco não era permitido brincar.Ai chamas a polícia?! Então chama que eu quero ver – respondeu Marco enfrentando a fúria da prostituta.Sim. E ao saber dessa verdade irrefutável.Ai eu é que digo merda!? Tu melhor do que ninguém sabe do que esse Marco é capaz..Eu não ando a chular ninguém – afirmou Milene não se deixando intimidar pelas palavras de Marco. Ele não conhecia limites. Marco levou Sara pelo braço e deixou todos os presentes estupefactos com a cena que tinham acabado de assistir. logo ele que constantemente lhe enviava jóias e dinheiro através do correio.Cala-te! Só dizes merda tu… – respondeu Milene encontrando a sua mala sobre a mesa. perdão e humanidade. Mas não te esqueças de uma coisa. Sei tudo o que se passa… 142 . . abre as pernas e tu ficas com metade dos lucros dela. A única coisa que merecia era o seu desprezo e também a sua ira. Num beco escuro do bairro. tudo o que ele queria era extravasar o ódio que sentiu quando lhe foi informado que Sara continuava a prostituir-se com qualquer homem que lhe aparecesse à frente. traiu-o e fê-lo sentir-se a chacota do bairro. Milene mordeu os lábios e sentiu o sangue fervilhar-lhe nas veias por não ter tido a coragem de livrar a melhor amiga das garras daquele homem tão perigoso. a culpa é tua! Arlete não podia estar mais segura das suas palavras. – Pensavas o quê?! Que eu não ia descobrir nada? Que não ia saber que me andavas a meter os cornos com outros? Pois fica sabendo que aqui dentro deste bairro eu tenho informações diárias. – Eu avisei-te para afastares a Sara daqui – afirmou Arlete compondo o decote do seu vestido. Nessa altura. Mesmo tendo prometido que iria ser só sua. . . nem sequer a remota possibilidade de ser apanhado por alguns dos seus inimigos ou então pela polícia. Sem que ninguém o impedisse. – Vaca – exclamou ele encostando-lhe o rosto à parede. Se ela morrer. lembraste?! Partiu-te toda há uns tempos atrás e vai acabar por fazer o mesmo com essa pobre coitada. não tinha nada a perder e há muito que deixara de conhecer palavras como: compaixão. – Chama a bófia que eu tenho a certeza que todo o pessoal que está aqui vai adorar. .Se levares.Levanta-te daí. Sara – exclamou ele alcançando-lhe os braços e fazendo-a levantar-se do chão quase à força. enquanto pontapeava e soqueava Sara. Mas ela não merecia nenhuma dessas jóias e muito menos esse dinheiro. Tu.

. .Ouvi – respondeu Sara entregando-se de corpo e alma a um homem que minutos antes a havia espancado brutalmente. . No corpo ainda trazia as marcas deixadas por Marco. era com ele que ela desejava passar os dias. Mas nem isso pareceu importar quando ele a tomou nos braços e fê-la sentir-se nas nuvens. . pois na altura a única coisa que queria era cair na cama e esquecer-se de todos os acontecimentos menos felizes que rodearam a sua noite. Marco podia não ser o homem mais romântico do mundo.k. foi a pergunta que Marco se fez quando ouviu um ligeiro risinho proveniente da boca de Sara. Era com ele que ela sonhava todas as horas. Foram esses os motivos que a fizeram caminhar pé ante pé pelo corredor e fazer todos os possíveis para não acordar a mãe que. Os beijos. 143 .Então fica assim combinado – respondeu Marco segurando-lhe o queixo com força.Não sei como é que consegues aguentar uma situação dessas – foram as palavras de Alice quando Madalena lhe contou que mais uma vez a filha não tinha dormido em casa. mas nem isso a demoveu do intuito de chegar ao quarto e trancar-se a sete chaves. Ele podia espancá-la à vontade pois nem mesmo isso iria mudar aquilo que ela sentia por ele. Não. a certeza que tinha passado a noite inteira em bebedeiras e outros actos menos lícitos.O problema é mesmo esse! Ela sente que tu estás a perder as forças e vai ficando cada vez pior. Assim sendo. Ela estava realmente a rir-se e aquilo não era uma alucinação sua. . com quem e muito menos a fazer o quê. Sara percebeu. surpreendentemente ou não. Ainda pensou estar enganado.Ouviste?! . Não queria explicar a Madalena onde tinha passado as últimas dezasseis horas. .Já vi que és daquelas que gosta de apanhar. – A partir de hoje só apanhas de mim. que se lixasse tudo o resto. mas no entanto era o único que a fazia sentir-se genuinamente desejada e especial. Ouviste!? . ela sabia-o.O. pois tinha nódoas no corpo que podiam comprovar essa teoria. mas não.Sei lá! Enfia-a num colégio interno – respondeu Alice terminando os arranjos de margaridas sobre a bancada da floricultura. sua cabra?! . a jovem adormeceu e só acordou às duas da tarde com a agradável surpresa de que a sua mãe tinha saído para trabalhar apenas deixando um bilhete sobre a mesa da cozinha: “ Tens o almoço no forno”. . – Só gostei de saber que tens ciúmes de mim.Já estou a perder as forças.E gosto mesmo! Mas só gosto de apanhar de ti. Tinha adormecido cansada de tanto esperar. as noites e a quem dedicava todos os seus sentimentos mais profundos. – Andas a gozar com a minha cara. encontrava-se deitada no sofá da sala tapada com um pequeno cobertor.Impressão sua ou ela estava a rir-se.Não – respondeu ela voltando-se para ele completamente marcada nos braços e nas pernas. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara abriu a porta de casa. Conseguido esse milagre. – Faz qualquer coisa. .O que é que queres que eu faça? . os abraços e o toque das suas mãos foram muito mais marcantes do que os murros e os pontapés que ele lhe ofereceu. mas nos olhos.

Acho que já nem ao pai ela respeita! Desde que ele lhe contou a razão do nosso divórcio ela nunca mais quis passar o fim-de-semana com ele.Mais cedo ou mais tarde ela iria ter que saber a verdade. sempre fiz de tudo para que ela não descobrisse o sacana que o pai dela era. já proibi. Sara desviou-se a tempo dizendo: – Caí. . o quê?! . o coração de Madalena disparou de medo. . – Mas se me der só metade do trabalho que a Sara me está a dar. E não. desesperada. não é? Pelo menos a ele a Sara deve ter algum respeito. O que teria mudado tanto? Meses antes. Simples bons dias e boas noites não contavam para aquilo a que se poderia chamar de uma conversa interessante. – Já briguei.Então o que é que eu faço? Diz-me porque eu já não sei – discursou Madalena largando os braços.Essa nódoa – respondeu Madalena tentando alcançar-lhe o pulso. . 144 .Filho criado trabalho redobrado. Madalena achou por bem não levantar mais questões. .Eu sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos. O jantar foi silencioso e não constituiu qualquer surpresa para Madalena e Sara.Ainda – respondeu Madalena caminhando em direcção à sua secretária. as duas afastaram-se. embora a camisola de Sara estivesse estrategicamente colocada para os tapar.O Jorge!? Achas mesmo que eu posso contar com ele? . – Ele é o pai. – E talvez a culpa tenha sido minha.Tu é que fizeste bem em não ter filhos – disse Madalena arrancando-lhe uma leve risada. . Sempre a quis proteger. mas não estaria também ela a destruir a vida da mãe e a impedir-lhe de ter uma família normal? Enquanto pensava no assunto.Caíste aonde!? . .A quem o dizes.No braço. . Embora não tivesse ficado minimamente convencida com aquela desculpa esfarrapada. Madalena tornou a levar uma colher de sopa à boca e sem querer lançou os olhos ao braço da filha. Sara disse a Madalena que havia sido ela a destruir a sua vida e a possibilidade de ter uma família normal. . fiz tudo o que estava ao meu alcance. As marcas no corpo de Sara não pareciam ser fruto de uma simples queda nas escadas rolantes. e agora olha só no que é que deu?! .Eu tenho pena de ti.Depende! Olha que o Daniel não te dá trabalho nenhum. eu juro que já vou ficar satisfeita. . – O que é que tens aí no braço? . mas ela simplesmente não me houve. bati.Ontem quando estava a correr para apanhar o metro.. Pareciam antes ter sido feitas por alguém e propositadamente. castiguei. já que havia pelo menos cinco dias que mãe e filha não trocavam qualquer palavra no interior daquela casa.Devias – respondeu Alice furiosamente. . Caí nas escadas rolantes. minha amiga! Realmente não gostava de estar na tua pele. Mas a verdade é que pela primeira vez os seus sentidos gritaram-lhe para estar alerta e para não ignorar as evidências. Por sorte. Aos poucos e poucos. deixaram de ter interesses comuns e viam na outra a encarnação do pior pesadelo. E só de imaginar essa ideia.O Jorge? O que é que ele tem a dizer sobre isto tudo? . Subitamente pareceu-lhe ver uma nódoa negra e um pequeno arranhão.

.A Sara? Como é que ela se portou nestas semanas? .E esse estádio é…?! . O Dani depois mostra-te. . . mulher uma certa hesitação.Bem. . .…portou-se bem.Ela não está em casa? Gostava de falar com ela e entregar-lhe os presentes. E a última. . . Do Real Madrid. .Esperemos bem que sim. .Está bem. . E hã.É um estádio de futebol.Bem – mentiu Madalena depositando os presentes sobre o sofá.Acompanhas-me à porta?! Madalena acenou que sim e em seguida conduziu-o em direcção à saída. – Estou na mesma. não sei – respondeu Madalena cruzando os braços.Mas o Daniel estava ansioso para conhecer. Jorge e Daniel regressaram de férias trazendo consigo caras felizes e também vários presentes.Dois dias mais tarde. . mas ainda assim ele manteve essa impressão guardada a sete chaves para não ser inconveniente. Quer dizer. 145 .Eu sei que o futebol nunca foi o teu forte. Claro que tenho. . Jorge reparou enquanto a seguia pelo corredor.k! Então eu deixo os presentes e depois entregas.A Sara não está em casa.Claro.Impressão tua – respondeu ela compondo-se na sua camisola azul. .Não?! Aonde é que ela foi? .Ai é?! Fizeram o quê? . demos uma escapadela a Barcelona. agradeceu-lhe com um sorriso e permitiu que ele a acompanhasse em direcção à sala. Pode ser que aos poucos e poucos ela comece a entrar nos eixos. marido o principal impulsionador de todas aquelas compras. . – Como é que estão as coisas por aqui? . quase todos oferecidos a Madalena.Tens a certeza? – perguntou Jorge encontrando na voz da ex.discursou Jorge. mas mesmo assim não consegui resistir.Está bem.Hã… claro – respondeu Madalena forçando um sorriso.E tu? Como é que estás? . Estava mais magra. . conhecemos o estádio Santiago Bernabéu… .Estás mais magra – ele não resistiu a fazer essa observação. não é que ela mereça. animado.Lá isso é verdade. Foi uma pena tu e a Sara não nos terem acompanhado.Estou óptima. .Eu e o Daniel divertimo-nos imenso. Tenho uma audiência que adiei e que agora não posso faltar. . eu já vou indo! Ainda tenho que organizar algumas papeladas para amanhã.Deve ter saído com amigas. .Muita praia! Visitámos monumentos. . . Assistimos a um treino e no final até conseguimos autógrafos de alguns jogadores. .Ainda bem então. .O. .Tenho. sabendo bem que havia sido o ex. . museus.

na saúde e na doença. Depois disso.foi a resposta desesperada de Madalena. – Marquei uns exames para a semana – disse-lhe Milene ainda naquela tarde. fosse na pobreza. já reparaste?! . Talvez alguma coisa que comera na noite anterior? Ou seria antes a ressaca por ter bebido duas garrafas de whisky numa festa? Sem conseguir resposta às suas perguntas. Infelizmente Jorge não conseguiu encontrar essa mulher. algo que fez assim que saltou da cama e se trancou na casa de banho.Exames ginecológicos. . Tinha a cabeça à roda. – Faço sempre esses exames de seis em seis meses para não ter nenhuma surpresa desagradável. Mas não. voltou ao quarto e respirou fundo sentindo-se grata por ter conseguido sobreviver àquela autêntica prova de fogo. Raios.Exames de quê?! . provavelmente no teu lugar também não acreditaria. naquela tarde. pois ela já não existia. Jorge! Vai! A expressão dura da ex. Milene revirou os olhos e lançou um pesado suspiro. ela despediu-se de Sara e entregou-lhe os seus pertences para que os vigiasse. foi inevitável. agradeceu a passagem cedida pela assistente 146 . Morreu ao longo dos dezasseis anos de casamento que mantiveram. mulher apenas trouxe uma certeza a Jorge. E tu também devias começar a fazer… . não havia muitas pessoas para realizar exames e Milene foi a primeira a ser chamada pela assistente de serviço. e essa certeza era de que não havia a mais remota possibilidade de ela o aceitar de volta.Nessa altura. Depois disso.Não Jorge… . . Olhou-a mais uma vez.Esta casa já não é tua – respondeu ela calando-lhe os argumentos. e tentou encontrar nela toda a doçura e inocência que ela detinha quando se casaram e prometeram diante do altar amarem-se. Jorge arranjou forças para abrir a porta e também para dizer algo que já havia ensaiado várias vezes durante as duas semanas que passou em Madrid: . . Preencheram as fichas oferecidas pela recepcionista e mais tarde escolheram duas cadeiras discretas para se sentarem. – Tenho sempre que fazer tudo por ti.Não me podes marcar os exames?! Ao ouvir o pedido de Sara. da nossa casa… .Oras! Para saber se está tudo bem – respondeu a prostituta calçando as suas sandálias sentada na cama. Eu vou contigo. Por sorte. o estômago apertado e uma vontade descomunal de vomitar. Sem cerimónias. Na primeira manhã de Agosto. Sara e Milene deram entrada na clínica onde a última costumava fazer exames periódicos.Eu sei que tens todas as razões para não acreditares no que te estou a dizer.Por favor.Para quê?! . Nunca se havia sentido tão mal em toda a sua vida e nem sabia sequer o que teria causado tamanha indisposição. Sara acordou mal disposta.Marca no mesmo dia. dos miúdos. Fazemos os exames juntas! E assim foi. mas ultimamente tenho sentido muitas saudades tuas… . mas… eu ainda acho que existe uma possibilidade de voltarmos a ser uma família outra vez. ao sangue. a jovem puxou o autoclismo e manteve-se inerte no chão durante vários minutos. à urina… ao HIV. na riqueza. Na semana seguinte. não lhe restou outra alternativa a não ser afastar-se da porta e deixá-la especada sobre o alpendre.Podes não acreditar. .Lena… . respeitarem-se e nunca se abandonarem. Assim sendo. Tenho sentido muita falta de ti.

. . e por sorte. pensou. – Se estiveres numa de estragar a tua vida. enquanto ouvia os sermões do médico de serviço acerca da sua conduta sexual não muito aconselhável e da sua tenra idade para realizar exames como àquele (HIV).Só deves ter medo se não te cuidares.Tem calma… .Vai – ordenou Milene empurrando a jovem pelas costas quando lhe pressentiu algum nervosismo.Tem calma! Eu disse que é só às vezes e é só com o Marco.Que eles até me tinham aconselhado a fazê-lo – respondeu Sara às gargalhadas. – É sempre assim.Não tens medo dos resultados? . – Então?! Como é que foi? – perguntou ela assim que Milene pisou a sala de espera. Fisicamente não custou.Coitado do velho! Deve ter ficado com os cabelos em pé quando lhe disseste isso.Mas porque é que temos que esperar oito dias até os exames ficarem prontos? .E o que é que tu respondeste? . – Olha lá – exclamou ela segurando-lhe o braço com força. .Normal! O de sempre – respondeu a prostituta vestindo o casaco às pressas. os exames não demoraram a ser feitos. Sara conseguiu desaparecer do consultório com a clara certeza que não voltaria ali a pôr os pés tão cedo. . . pensou. . . Sara sentiu-se incomodada. Quinze horas e trinta e cinco minutos. fazer coisas estúpidas só para provar que és a maior e que ninguém pode contigo. Porque é que ele não se cala.Sou eu – respondeu Sara saltando da cadeira.O que é que querias que ele te dissesse? É claro que te iria pregar um sermão.Perguntou-me se os meus pais sabiam que eu tinha vindo fazer um teste de HIV… . – Não custa nada. – Aquele médico era um otário – resmungou a jovem à saída da clínica.Venha comigo.e desapareceu com ela pelos corredores da clínica. Mas não contes comigo para te amparar em todas 147 .Sei lá – respondeu Milene acendendo um cigarro assim que viraram a esquina. . disse-lhes a recepcionista. mas psicologicamente. Só espero que isto não demore.Escuta aqui – exclamou Milene apontando-lhe o dedo ao rosto. Sem preservativo. nunca! Nem em sonhos! . Por sorte.É claro que não – respondeu Sara desviando-se bruscamente.Pois eu tenho medo.Nem que tivesse sido só uma vez e muito menos com o Marco. – Quer dizer… às vezes com o Marco esqueço-me… .Não! Ao contrário de certas malucas que andam para aí. . . deixando Sara a olhar para o relógio pendurado na parede. por mim estou-me a lixar. – És parva ou fazes-te?! .Sr. por favor! . . Podem vir buscar os exames daqui a oito dias. pá – gritou Milene chamando a atenção de algumas pessoas que iam a passar na rua.Porra. – Tu não me digas que tens andado a trabalhar sem preservativo? . eu cuido-me bem. O silêncio de Sara deixou Milene alerta. .ª Sara Albuquerque!? – chamou a assistente do corredor.

Nessa altura. Mais uma vez. . Por momentos. – Estás lixada – exclamou Milene aproximando-se dela. agora para outras… Os momentos que se seguiram foram expectantes. Os oito dias que se seguiram foram longos. não só por ter tido relações sexuais sem qualquer protecção. – Não sou a tua mãe. extenuantes e stressantes.Não tens nada? . Se não menos elas parassem um pouco só para lhe perguntar o porquê de ter tomado as decisões que tomou. encheu-se de coragem e tornou a procurar Milene combinando com ela um local onde se pudessem encontrar. as pessoas na rua pareceram-lhe desfocadas e as suas mãos suaram como se estivessem a ser encharcadas por uma torneira aberta.Pensasses nisso antes de te teres armado em parva. Se ao menos as pessoas fizessem a mínima ideia de como ela se estava a sentir miserável. Um no nome de Milene dos Santos e o outro de Sara Soares Albuquerque.O que foi?! Tenho Sida? . E se estivesse doente? E se tivesse apanhado o HIV? Eram as perguntas que lhe assombravam os pensamentos todas as horas do dia. começou a sentir a sua cabeça a andar à roda. sentou-se num pequeno pilar junto ao edifício da clínica. – Estou limpa – exclamou Milene depois de ter analisado os seus exames com a máxima atenção.Não! E tu? Não vais abrir o teu? Ao olhar para o envelope que tinha de encontro ao peito. As palavras de Milene permaneceram nos ouvidos de Sara quando ambas entraram na clínica onde estavam depositados os exames.Milene… Tarde demais foi o que Sara percebeu quando ao chamá-la pela última vez Milene pura e simplesmente desapareceu sem deixar rastro. não lhe restou outra alternativa a não ser voltar para casa e dar-se conta da grande asneira que tinha cometido. para umas coisas és corajosa.Não! Pior! Estás grávida. – Dá-me cá esta merda – disse Milene arrancando-lhe o exame das mãos. Agora já não há como voltar atrás. lembraste?! . as duas amigas dirigiram-se à recepcionista e aguardaram que ela procurasse nos arquivos dois grandes envelopes castanhos. e se queres saber.Não consegui parar de pensar no resultado dos exames! Estou a morrer de medo. quando finalmente chegou a altura de receber os exames. nem paciência também! . 148 . O que está feito está feito. as duas amigas voltaram a sair à rua no mais completo silêncio. tanto para Milene. mas principalmente para Sara.Não estou chateada – respondeu Milene apressando os passos em direcção ao metro mais próximo. – Ainda estás chateada comigo? . Sara hesitou. – Quer dizer. Mas ninguém parecia estar minimamente preocupado consigo e também já não havia como voltar atrás. Não houve uma única noite em que Sara tivesse conseguido pregar os olhos enquanto esperava pelo resultado das análises. mas também por levar uma vida desregrada cheia de más companhias e outras histórias escabrosas para contar.as tuas merdas porque eu já não tenho idade para isso. . Recebidos que estavam os exames. . que sem conseguir aguentar tanta pressão. Por fim.

O que é que eu faço? Silêncio foi a resposta de Milene.Eu sabia que esta cena dos exames iria dar merda. . Eu sabia! Tipo sexto sentido estás a ver?! . não?! .O meu maior erro foi ter-te dado ouvidos naquele dia em que me foste procurar para ser prostituta. não é?! .É natural! Já o conheço há muitos anos e ele também já foi meu cliente.Ai agora perguntas-me a mim? Eu sei lá o que é que fazes! Não tenho nada a ver com isso.Não acredito – murmurou Sara arrebatando-lhe o envelope das mãos.Só pode ser o Marco. . – A luz é que vais chegar a casa. pelo menos não tenho Sida.Só preciso de uma luz. – Não pode ser. queres ver! Porque é que achas que até hoje ele nunca foi pai? Sorte. abri as pestanas e nunca mais me armei em parva de engravidar outra vez.Bem.Então se for. não é?! . rapariga! Grávida! Vais ter um bebé.Ui. – O pior é que tu nem sabes quem é o pai. não faria.Às vezes parece que o conheces até demais – afirmou Sara interceptando-lhe os passos.Sei lá! Nunca fiz nenhum – respondeu Milene voltando a largar-lhe o rosto. Garanto-te que números não te vão faltar. é só pedires o número de uma clínica a qualquer prostituta lá do bairro. Aonde é que eu estava com a cabeça.Eu não posso fazer isso! A minha mãe iria matar-me. . . não?! – respondeu Milene apressando-se a acender um cigarro para acalmar os nervos. – A única vez que fiquei grávida tive a criança.Será que os exames não estão errados? . meu Deus? Era certo e sabido que iria acabar por sobrar para mim. .Então o que é que queres fazer? Um aborto? Se quiseres fazer isso. .Não me vais abandonar agora.Acho que vou falar com o Marco primeiro. . . . – Tu ainda não percebeste a gravidade da situação!? Estás grávida. . . . .Já foi teu cliente?! 149 .Não vai valer de nada.Bem. .É! Devem estar mesmo errados.E dói fazer um aborto?! . Vai confiando nisso que daqui a nove meses vais ver o erro – respondeu Milene levando uma das mãos à cintura. Não te fiz o filho. Depois disso.. – O que é que eu faço? – repetiu Sara. minha cara – exclamou Milene segurando-lhe a face com força. Eu conheço-o. .O que é que foi? Ainda te estou a tentar ajudar e tu vens-me com essas cenas?! . estás lixada! Ele não vai assumir a criança e ainda é capaz de te mandar fazer um aborto. entre Sida e gravidez venha o Diabo e escolha. . .Só acho que sabes mais coisas do Marco que eu não sei.E se não for? . contar à tua mãe que estás grávida e decidir se queres ou não ter o bebé.Olha aqui a luz. já te disse! Ele não te vai ajudar. .Eu tenho a certeza que é. . .Ele não faria isso – murmurou Sara não conseguindo esconder os seus olhos assustados.

quando fazer. .k. . . para se sustentar e muito menos sustentar uma criança que não foi de todo planeada ou desejada. A sua única doença era não saber o que fazer quando todos descobrissem que estava grávida. perguntou-se.Porque é que nunca me contaste isso antes? .Se não andasses na rua até tarde não apanhavas doenças.Toma – disse Madalena atirando-lhe uma caixa de compridos. ela guardou-os discretamente no bolso das calças. ou melhor. não é!? O mal já está feito.Depois vejo isso. – Que milagre! Até para estranhar. nem como namorado. e a sua vida nunca mais teria paz e sossego. O Marco nunca te vai ajudar se resolveres ter essa criança. .Eu sei – murmurou Sara limpando as tímidas lágrimas que lhe caíram dos olhos. que mais alternativas lhe restavam? Tal como Milene lhe dissera horas antes. Com certeza que nenhum deles iria compreender. . Ele não presta. sobre os ombros dos teus pais porque tu nem sequer tens idade para arranjar um emprego decente.Porque nunca veio ao caso! Tens a noção da quantidade de clientes que já tive? .Mas o Marco é diferente! Tu sabes que nós namoramos. não estava doente e nem nada que se parecesse. mas quando a mãe se voltou para o fogão.Gripe. ela não tinha ninguém a quem recorrer. como fazer. – Daqui nada entramos em Setembro… – disse-lhe Madalena enquanto provava o molho do frango na panela. principalmente a sua mãe. Sara aceitou os comprimidos com alguma cautela. mãe… – murmurou a jovem servindo-se de um copo de água.Estou doente – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. Pela primeira vez naquela semana. nem como homem e muito menos com pai. .O que é que tens? . Vou andar sempre em cima de ti para me certificar que não andas a faltar às aulas. Fariam um escândalo. podes crer que todas as responsabilidades vão cair sobre os teus ombros. . Sara chegou a casa antes de o anoitecer. Na verdade. a única opção que lhe restava era continuar a pensar.Um namoro muito torto se queres que te diga – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. não tinha idade para arranjar um emprego decente. eu só quero que abras os olhos e deixes de ser ingénua.Não é depois! Vais ter que tratar desse assunto o quanto antes para não perderes vaga. e pela expressão facial marcada não foi muito difícil perceber que tinha também passado a tarde inteira a chorar e a lamentar-se da sua triste sorte. . – E não bebas a água do frigorífico! Só te faz mal à garganta.Hã… já chegaste – disse-lhe a mãe ao vê-la a entrar na cozinha. . – Escuta Sara. e principalmente. Pensar no que fazer. Diante daquela situação no mínimo catastrófica. .Sim – respondeu Milene revirando os olhos quando percebeu que tinha falado demais. E este ano nem penses que te vou dar descanso! Muito pelo contrário.. Mas por outro lado. . Grávida aos dezasseis anos de um homem que era tudo menos de confiança e com um grande dilema nas mãos: Contar ou não a verdade aos seus pais. O que é que iria fazer dali por diante.Agora não adianta chorar. – Vais ter que meter os papéis da matrícula na escola. . muito pelo contrário. Se resolveres ter o bebé. 150 .O.

diz lá o que é que queres! . Na mesma mesa também se encontrava Arlete. . 151 . tal como se era de esperar.Acho que já me habituei à ideia – respondeu Sara observando a chegada do empregado de mesa. dizer que a amava e que juntos iriam criar o filho que fizeram. .Mas… .. .Uma imperial também! De qualquer maneira não há nada melhor nessa espelunca.Tu já andas sempre em cima de mim. – Mulher grávida não bebe. . .E tu. trouxe-lhe uma calmaria difícil de explicar. aventuraram-se na procura dos primeiros nomes. Imaginou que ele a fosse tomar nos braços.Não te tranques lá dentro! O jantar está quase pronto. não sabia até que ponto aquele filho iria mudar a sua vida. . Milene? . estão a ouvir?! – resmungou o empregado quando ouviu as gargalhadas das três prostitutas.A velha tem razão – concordou Milene.Para mim pode ser uma imperial – respondeu Arlete abanando-se com a mão. – Estás grávida. Sara caiu na cama e fechou os olhos tentando imaginar a reacção de Marco.Vou para o meu quarto. ninguém conseguiu chegar a nenhum consenso. No fundo. . Que estúpida! Ainda não dá para ver nada. . meninas?! . – Mania pá! Tomara muitas mulheres nos cinquenta estarem assim como eu. outras optaram por a parabenizar.Ui! Clientes é o que não te faltam… – riu-se Milene. Não sabia muito bem o que era. Quem sabe Marco até não fosse gostar da ideia de ser pai. A notícia da gravidez de Sara foi recebida com alguma apreensão por parte da maioria das prostitutas do Intendente. – Sara. – Estás muito contente – disse Milene a Sara quando ambas se sentaram numa das esplanadas mais frequentadas do bairro. e no fim.Por acaso! Olha que até hoje não tenho tido muitas razões de queixa. Algumas alertaram-na para o destino cruel que a esperava. Mas de facto. houve qualquer coisa em si que mudou. Se for rapariga chama-lhe isto. mas o simples facto de saber que ele existia e que estava no interior do seu ventre.Nem pensar – interferiu Arlete.O mesmo que elas.Imagina se não andasse – respondeu Madalena voltando-se para o fogão. . não seria uma loucura tão grande imaginar um desfecho risonho para aquela verdadeira história de terror. Com um misto de sensações diferentes.Velha é a tua mãe – defendeu-se Arlete ameaçando uma bofetada enquanto Milene e Sara se riam a bom rir. . passou-lhe essa ideia maluca pela cabeça enquanto enfiava uma almofada por debaixo da camisola e se imaginava com nove meses de gestação. – Está um calor de rachar. . e outras ainda. .Hei! Isto aqui é um estabelecimento de primeira. desde que soube que estava grávida. foram as palavras que Sara proferiu baixinho enquanto examinava a sua barriga à frente do espelho do quarto. se for rapaz chama-lhe aquilo.O que é que vão pedir. lembraste? Não podes beber.

não é?! – perguntou Sara franzindo o sobre olho e encarando os rostos constrangidos das duas prostitutas.Uns gajos andam atrás de mim por causa de uma mercadoria que não consegui devolver a tempo.E então.Porquê?! – perguntou Sara. . .Ficaste?! – insistiu Sara. . nem faz ideia sequer! Eu quero que seja surpresa. .Não. está bem! Já não está aqui quem falou. Depois disso.Arlete. ela voltaria a casa.E ficaste? Marco esboçou um sorriso e logo se apressou a retirar a sua arma por detrás das costas. – Sinceramente não gostava de estar na tua pele. Nessa altura. . .A animação e as risadas das três prostitutas continuaram por vários quartos de hora.Ele desconfia de alguma coisa? – perguntou Milene.Aonde é que vais? . .Ninguém sabe de nada – respondeu Milene levantando-se da mesa enquanto terminava o último gole da sua cerveja.Estou-me a preparar para a próxima semana – respondeu Sara. 152 . não havia como prever a sua reacção. Pensam que fiquei com a cena e com o dinheiro. o relógio assinalou vinte e três horas e o dono da pensão entregou-lhes a chave do quarto dezoito com um aviso claro e severo para que não fizessem muito barulho tendo em conta o adiantado das horas. – Combinámos que ele vinha ter comigo.Porquê?! . sorridente. ela esperava encontrar todas as respostas às suas perguntas. – Espera – disse ela. impaciente. contaria a verdade aos pais e quem sabe até moraria com Marco no Algarve onde embalados num clima paradisíaco os dois criariam o filho. Sarita?! Quando é que vais contar ao Marco que ele vai ser papá? . Esperava também encontrar nos braços de Marco a confirmação de que tudo iria correr bem e de que podia contar com ele para o que quer que fosse. .Já te disse que hoje não vou poder dormir em Lisboa. foram as primeiras palavras que ele disse quando viu Sara diante de si. – Bem meninas! Tenho que ir. .Boa sorte – riram-se Sara e Arlete.Vocês sabem alguma coisa do Marco que eu não sei. Física e mentalmente. Acedida à ordem. – Sabem e não me querem contar. . Arlete perguntou: . Sara e Marco subiram as escadas aos beijos e abraços e não tardaram a abrir a porta do quarto para ali dentro matarem todas as saudades que tinham sentido um do outro. e depois disso. entendes?! . fecha o bico – imperou Milene.E vai ser cá uma surpresa – exclamou Arlete terminando a sua imperial. . . . Os dias seguintes trouxeram alguma ansiedade a Sara e tudo porque ela continuava sem saber qual iria ser a reacção de Marco à sua gravidez. Milene atravessou a rua. e enquanto Sara saboreava o seu sumo de laranja natural.Tem calma! Temos a noite toda. .O que foi? – perguntou Marco. não sei se me entendem.Está bem. O dever me chama. mas naquela sexta-feira de Agosto particularmente friorenta e cinzenta. apreensiva. Morri de saudades tuas. .Tenho um cliente daqui a quinze minutos e ainda tenho que me preparar para o receber. Ficaria contente? Ficaria confuso? Irritado? Furioso? De facto.

Eu não estou à espera de nada. mas odiava ainda mais perceber que muitas vezes ele perdia a noção do perigo por ser tão ganancioso e inconsequente ao ponto de brincar com traficantes de droga. o seu coração apertou-se de tal forma que por momentos foi-lhe praticamente impossível respirar.Está bem – respondeu ela sentando-se numa das pontas da cama. Grávida! . Sara viu-se obrigada a obedecer às ordens de Marco e a brindálo com um longo beijo nos lábios. Coisa de rotina. .Então cala-te e beija-me! Sem outro remédio à vista. . Claro que ela odiava o facto de Marco andar em negócios estranhos. Pode ser qualquer um que tenha passado pelo bairro.Tu nem sabes quem é o pai dessa criança.Só conto se prometeres que não ficas chateado.k! Eu prometo – respondeu ele revirando os olhos. . . – Eu não vim aqui para falar nesses filhos da mãe! Vim para estar contigo. esse pessoal é perigoso! . O que é que foi? Andaste a fazer coisas que não devias. abrevia porque eu não tenho muito tempo.De mim? .Há dias atrás eu e a Milene fomos fazer uns exames só para saber se estava tudo bem connosco.Olha bem para mim.Grávida?! – exclamou Marco levantando-se bruscamente da cama.Marco… . . . Mas a verdade é que enquanto o fazia. .O que foi?! Bem. – Espera – exclamou ela livrando-se dos braços dele. Uma coisa que descobri há duas semanas. tu hoje estás com muitos truques.De quem?! . – Na semana passada fomos buscar os exames. . . . . sabes como é que é! A Milene está cansada de fazer esses exames e disse que eu também os devia fazer para… ..Sim! De ti! Eu tenho a certeza porque a data coincide com uma vez que estiveste cá em Lisboa.Não é nada disso! Mas é que… eu tenho uma coisa para te contar.Porquê?! Não queres estar comigo? . e… eu soube que… estava grávida… .Sim.E se esquecesses esse assunto.Prometes que não ficas chateado? . Tu tens que acreditar nisso.O que é que isso importa? . é isso? .Sara.E tu estás à espera que eu acredite nisso? .Oras. hã? – respondeu ele puxando-a contra si.O. Sara… .Marco.É claro que quero.Hiii! Já não estou a gostar nada da brincadeira.O quê? – perguntou Marco apoiando os cotovelos sobre a cama.pediu Marco colocando-se à frente dela. – Olha bem para mim e diz se eu tenho escrito na testa a palavra otário!? . 153 .Marco!? . de quem!? De ti… – respondeu Sara surpreendendo-se com tal pergunta. – Diz lá! . .

Tu fizeste-me prometer isso. – Acabou! Mete isso na tua cabeça. naquele quarto de pensão e de volta à realidade. pensou. ela deu-lhe tudo o que podia. .Tu não podes fazer isso – exclamou ela segurando-lhe o braço. Como se enganou com ele. 154 . Não és a primeira e nem vais ser a última a tentar dar-me a volta.Marco. Sentiu também como se o mundo tivesse desabado por debaixo dos seus pés e que não houvesse absolutamente nada para a amparar. .O que é que foi? Estavas à espera que eu ficasse contente? Que te fosse pedir em casamento e ainda escolher o nome do puto? Acorda. Enquanto ouvia o discurso amargo de Marco. otária! De gajas como tu.E achas mesmo que eu acredito em ti? . . chegou a essa conclusão. já ando eu farto. Quando o viu a desaparecer pela porta.Ou vais negar? – perguntou ele lançando-lhe um olhar desafiador. – Já vi que perdi o meu tempo – disse Marco. Mas ali.O filho é teu – murmurou Sara com os olhos rasos de lágrimas. – Vais negar que durante esse tempo todo não tens trabalhado como prostituta? . eu estou-te a dizer que este bebé é teu. – Aliás. – Sara! Sara – disse ele sacudindo-lhe os ombros quando ambos saíram à rua. ela percebeu que tudo não tinha passado de um sonho infantil. gostei de estar contigo. A última vez foi contigo e eu disse-te que ia largar a vida por tua causa. o que é que ela sabia da vida? Do mundo que a rodeava? Das pessoas que a rodeavam? Não sabia nada. Se engravidaste. Acabou! A sério! Foi divertido enquanto durou.Marco… . mas isto já se está a tornar demasiado sério para o meu gosto. – Eu tiro. De um sonho de uma miúda de dezasseis anos que se julgava muito esperta. Eu não fui feito para ser pai! Nem para ser pai e muito menos para me prender a uma gaja da vida – respondeu Marco terminando-lhe com todas as esperanças de um possível romance entre os dois. Eu não tenho razões para te mentir! . – Mas eu se fosse a ti tirava mesmo o bebé! Ainda és muito nova para ser mãe e irias acabar por te arrepender mais tarde.. nem sequer tinha vindo. se eu soubesse que era por causa disso. Aliás. .Mesmo se tirares.Há semanas que não tenho ido para a cama com ninguém.Sara.Eu tiro o bebé – afirmou ela segurando-lhe a manga do casaco. mas que na verdade não conhecia nada da vida. o desespero tomou conta de Sara e ela não teve outro remédio a não ser segui-lo pelas escadas da pensão completamente lavada em lágrimas e implorando-lhe para que ele não a abandonasse. Acabou! . Não sabia absolutamente nada e talvez nunca viesse a saber. por fim. problema teu! Resolve. Se não quiseres eu tiro! . colocou-o num pedestal e chegou inclusive a sonhar com um futuro promissor ao lado de um traficante de droga. Como se iludiu com um homem que não conhecia nada de si e que nem sequer estava disposto a conhecer. Sara sentiu duas enormes lágrimas rolaremlhe pela face. Durante meses. eu vou-te dar um conselho! Podes já começar à procura de outro palhaço para sustentar o teu filho porque eu estou fora… – afirmou Marco encontrando a sua arma sobre a mesinha e o seu casaco sobre a cama.

Pé ante pé. . De facto. Meus Deus. gritava e não permitia que ninguém lhe retirasse o pai do seu filho dos braços. quando os ouviu.Será que não percebeste o que é que se passou? Mataram um homem lá em baixo.Mas eu paguei. quase todos cravados no seu peito. menina – disse um dos policiais aproximando-se dela após todas as burocracias resolvidas. ela murmurou levando a mão à boca.Porque era a única pessoa presente na rua na altura do crime. Correu pelas escadas da pensão. A jovem chorava.Não – gritou ela enfrentando o rosto da amiga. – Ele não está morto! Não está…! Ele não está morto. Milene afastou-se do cliente e saltou da cama atordoada. ao vê-lo cair inanimado no chão.Vai ter que nos acompanhar. procuraram um local perfeito para se esconder. . de vinte e oito anos cujo último desejo em vida foi o de não querer ser pai. a área à volta do crime foi delimitada.Porquê?! . ela aproximou-se da janela e abriu o vidro para tentar perceber que raios se estava a passar. Foi também a primeira vez que Sara se deu conta que Marco tinha realmente morrido. quase tropeçou no tapete à entrada. Depois disso. Profundamente. a sua amiga Sara lavada em lágrimas com a cabeça de Marco sobre o colo.. Não. Por acaso os seus pais sabem que está aqui? 155 . mas por sorte conseguiu chegar à rua onde um aglomerado de pessoas já se havia juntado à volta de Sara e do corpo de Marco. sem margem para erros e que retirou a vida de Marco. ouviu-se um berro no outro lado da rua. aquela não era a primeira vez que escutava tiros no bairro. mas ainda assim. um jovem traficante de droga. Dito isto. imbecil – respondeu Milene atirando-lhe as duas notas de cem euros. – Sara. .Toma a merda do dinheiro. Estava apenas a dormir. talvez a cena mais chocante de todas. Não está morto…! As sirenes da polícia e da ambulância não tardaram a ser ouvidas no bairro. Meu Deus. Para ela. e por fim. ouviu os estores dos prédios a subirem a uma velocidade fantasmagórica. Mais tarde. mas a dormir.Pode até ser – respondeu ele encolhendo os ombros enquanto se afastava lentamente dela e a deixava sozinha no meio daquela rua deserta. e além disso. . Tinha sido um abate perfeito. E foi nessa altura que ele se voltou para trás sendo posteriormente surpreendido com cinco de tiros de caçadeira. testemunhas e recolheu-se o corpo da vítima. Viu pessoas a correrem de um lado para o outro. ela abriu a porta e saiu do quarto ainda a tentar calçar as sandálias. . – Mas eu não o quero! E tu não me podes obrigar a querê-lo… MARCO. Ao ouvir os tiros vindos da rua. o seu coração parou de bater por breves instantes. e para isso bastou apenas as portas da ambulância fecharem-se com um enorme estrondo. sangue e os gritos de Sara. larga-o! Ele está morto. Marco não tinha morrido. . enquanto algumas pessoas. não tem idade para aqui estar. – Não preciso dele para nada. – Hei! Vais-me deixar assim? – perguntou o cliente quando ela voltou ao quarto e encontrou as suas roupas espalhadas pelo chão. com um cadastro um pouco mais duvidoso. procuraram-se identificações. – Sara – chamou Milene tentando trazê-la de volta à realidade. o carro que continha os três mandatários do crime arrancou a alta velocidade deixando para trás um rastro de destruição.

. Que não desejavam encontrar um grande amor.Sr. . Enganados estavam todos aqueles que pensavam que elas gostavam do que faziam.Porquê?! . – Achas que ela vai voltar algum dia? – perguntou Arlete aos ouvidos de Milene enquanto os carros da polícia desapareciam a alta velocidade.Eu sinto muito mas as coisas vão ter que ser feitas dentro da lei! Como ela é menor. projectos e muito menos sentimentos.Não sei – respondeu Milene limpando uma tímida lágrima.Sim – respondeu Sara afastando-se de Milene com um estranho aperto no coração. À mesma normalidade que existia quando Sara ainda não frequentava o bairro.Só me pergunto até quando… . . Coincidência ou não.Queres que vá contigo? – perguntou a prostituta sob o olhar atento do polícia. Depois disso. ainda não se tinha perdido na vida e muito menos conhecido a maioria dos habitantes da zona. Sete anos de luta. – Até quando. . agente! Será que não era possível resolvermos essa situação sem meter os pais dela no meio? – perguntou Milene recebendo um abraço desesperado de Sara.Eu acho que eles não iriam entender. Nem sempre é possível ter-se tudo aquilo que se deseja ou todas as pessoas que amamos. . . Madalena acordou sobressaltada imaginando quem seria.De vista – mentiu Milene. deixaram-se de ouvir as sirenes no Intendente e tudo o resto voltou à mais completa normalidade. rapariga! . e na maioria dessas vezes. Até porque. – Eu só conhecia o namorado dela. amarguras e um rol infinito de outros acontecimentos que para sempre iriam ficar gravados nas suas memórias.Até quando o quê?! . é a nossa obrigação contactar os pais assim que chegarmos à esquadra. e por momentos. de tristezas..Não – respondeu Sara limpando o rosto marcado pelas lágrimas. Que não tinham sonhos. qual era o ser humano que não desejava uma coisa dessas? Mas a vida às vezes é demasiado cruel para certas pessoas e nem sempre a felicidade bate à porta de todas. pagamos bem caro por eles. meu Deus?! Porque eu já não sei se aguento muito mais… Era a primeira vez que se abraçavam e choravam juntas desde que se tinham conhecido. fazia precisamente sete anos.Boa sorte! Foram precisos apenas cinco minutos para que Sara fosse levada pelos policiais e o corpo de Marco transportado na ambulância para um hospital mais próximo. o que acabou por morrer.Não fiques assim. O relógio assinalava duas horas e vinte e 156 . . Então menina?! Vem connosco? .Não! Não é preciso. Por vezes somos obrigados a fazer escolhas. casar. . . a tomar caminhos errados e a aprender com os nossos próprios erros. – Anda – disse Arlete levando Milene encostada ao ombro. Que não sonhavam ter uma vida igual à de todas as outras mulheres. . naquela noite. ter filhos e viver felizes para sempre. – Vamos para casa! O telefone sobre a mesinha de cabeceira tocou ruidosamente.Até quando vamos continuar a viver nesta merda – respondeu Milene tentando engolir o nó que lhe atravessou a garganta.Já vi que vocês se conhecem muito bem. – Já não sei de mais nada.

. Depois disso. Não tinha e nem queria explicar que naquela noite perdera uma das pessoas mais importantes da sua vida e também da vida do filho que estava à espera. Já estou a ir para lá – foi a resposta de Jorge assim que ela lhe explicou todo o sucedido. precisamente essa tshirt. Aonde foi que errou.Sara. Madalena saltou da cama e tentou controlar o pavor que sentiu ao saber que Sara estava presa por ter sido a única testemunha de um homicídio. – Por favor. Assim sendo. e por isso. Sara ainda não havia regressado a casa. A pergunta não sofreu qualquer resposta quando Sara se afastou dos braços do pai e encontrou na mesa um local perfeito para se apoiar. – A minha filha. marido. ela encontrou também Sara com os olhos inchados de chorar e uma t-shirt marcada pelo sangue de Marco. conseguido esse feito. À espera de notícias. 157 . Madalena desceu à sala e aguardou que a porta da rua se abrisse a qualquer momento. – Estou – respondeu Madalena tentando encontrar forças para abrir os olhos e reconhecer a voz grossa e formal no outro lado da linha. Foram as duas horas mais longas da sua vida.No Intendente. – Não te preocupes. marido na agenda com a certeza que só ele a poderia ajudar numa emergência daquelas.Aonde? – perguntou Madalena. . o quê?! Atordoada com todas as revelações feitas pelo agente de autoridade. aflita. para além do ex.Não. – Um amiguinho dela foi morto à caçadeira e parece que ela foi a única testemunha do crime. Era a voz de Jorge. Madalena pôde ter essa certeza quando voou em direcção ao corredor.quatro minutos. Mais tarde. Na verdade. diz-nos…! . tudo apontava para que fosse ela. raios. – A Sara tem muitas coisas para nos explicar.Vens-me buscar para irmos juntos?! .Entra – disse uma voz grave após a abertura da porta. Mas os seus desejos pareciam difíceis de serem concretizados quando ao olhar para o relógio viu que nele estavam assinaladas quatro horas e vinte e oito minutos.Se ela não conta. Nunca iriam entender o que aconteceu e muito menos perceber que uma parte de si tinha também morrido naquela noite. Sara? – insistiu a mãe. para quê explicar esse facto quando era notório que os pais não a conheciam minimamente e nem sequer faziam ideia do horror a que ela tinha sido submetida quando viu o seu namorado ser brutalmente assassinado a poucos metros de si? Madalena e Jorge não iriam compreender. não lhe restou outra alternativa a não ser passear por todas as habitações da casa e desesperar-se entre lágrimas e soluços. – O que é que aconteceu? . apreensiva. O que teria acontecido para que Sara se tivesse desvirtuado daquela maneira. Como advogado saberia enfrentar aquela situação bem melhor do que ela. pensou. apressou-se a encontrar o número do ex. Era advogado. – O que é que aconteceu. é melhor não! Fica em casa! Eu resolvo isto. como errou e porque é que errou? . ela tornou a lançar um olhar vazio aos seus progenitores e manteve-se inerte. eu conto – interferiu Jorge com uma expressão nada amigável. Não tinha absolutamente nada para lhes dizer. E foi essa t-shirt. . Mais tarde. perguntou-se vezes sem conta. o que é que aconteceu? – perguntou-lhe a mãe.Acho melhor irmos para a sala – respondeu Jorge conduzindo a filha pelo braço enquanto um pouco mais atrás Madalena os seguiu cautelosamente. Mas o pior nem foi isso! Sabes aonde é que a polícia a encontrou?! . que fez o coração de Madalena gelar como nunca.

. e embora nunca lhe tivesse passado pela cabeça que Sara se estivesse a prostituir. – Enlouqueceste?! Será que não sabes que nesse lugar só há bandidos. . Mas não.Deixem-me em paz! . – Eu não andei a criar uma filha para a ver perdida no Intendente. ele ousou bater em Sara. . Durante meses. . Sara cerrou os olhos e deixou de os ouvir. a cada mês. 158 . – Tu só podes estar a gozar – murmurou Jorge também ele estupefacto com tudo o que tinha acabado de ouvir. quando regressou à realidade e a voz estridente da mãe continuou a ecoar-lhe aos ouvidos. pensando enquanto o fazia.Não. E a verdade é que pela primeira vez.O quê?! .Sara… . Satisfeitos!? A pergunta de Sara culminou com uma valente bofetada de Jorge e com o olhar aterrador que ele lhe lançou em seguida. o que é que tu estás a fazer num lugar daqueles? – perguntou Madalena voltando-se bruscamente para a filha. ela mostrava-se um ser humano odioso e repugnante.Tu sabes! Mas se quiseres eu posso dizer-te com todas as letras – respondeu Sara gesticulando furiosamente os braços. Achas isto normal? . Muito pelo contrário.Sara.Jorge. tu não te atrevas a falar connosco nesse tom – imperou o pai. – Eu sou prostituta! PROS-TI-TU-TA! Um esforço sobre-humano foi o que Madalena teve que fazer para se conseguir manter em pé após a revelação da filha.Achas mesmo. drogados e prostitutas? Enquanto ouvia o discurso moralista dos pais e todas as verdades que eles fizeram questão de lhe jogar à cara durante vários minutos.O que é que está diante do nosso nariz? – perguntou Madalena temendo ouvir a resposta. as coisas iriam melhorar. – Eu sou prostituta sim.Sara. não sei… . a verdade é que ela estava certa quando lhe disse que a realidade estava mesmo diante do seu nariz. e sou porque gosto. Nem o tempo e nem a paciência fizeram de Sara uma pessoa melhor. .Tu sabes. porque quero e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens. pai!? Achas mesmo que eu estou a gozar? – respondeu Sara mostrando-lhe um sorriso maléfico. pois a cada dia. A nossa filha estava no Intendente.. mas no entanto vão lá para procurar as filhas dos outros… . a cada semana. Pronto! Aí está a verdade que vocês tanto queriam saber. e que com o tempo. não – gritou Madalena quando o ex.Mas a única coisa que não querem é admitir a vocês próprios algo que está e sempre esteve diante do vosso nariz! . em dezasseis anos. tentou convencer-se a si própria que o comportamento da filha era perfeitamente normal para uma adolescente de dezasseis anos. não foi preciso muito tempo para que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo e a fizesse soltar um berro ameaçador: . Madalena tentou enganar-se. A príncipio foi como se tivesse entrado numa outra dimensão ou tivesse sido transportada para um lugar longínquo. Mas depois. com paciência.Vocês sabem muito bem o que é que eu estava a fazer no Intendente. – Os homens nunca criam as filhas para as ver no Intendente. .Isso mesmo que ouviste. marido se lançou contra a filha a fim de extravasar todo o ódio e toda a repulsa que a resposta dela lhe trouxe.Engraçado – respondeu Sara levantando o rosto desfigurado.

que tinha morrido há muito tempo e que ele foi o último a dar-se conta desse facto irrefutável. enfiou a cabeça por entre as pernas e tentou sufocar o choro compulsivo de uma mãe desesperada. mas também a única forma de impedir Sara de cometer mais loucuras. pelo irmão ou pelo pai que naquela noite fez questão de lhe dizer com todas as letras que já não se considerava o seu progenitor. tudo pareceu desmoronar. Contudo aquela noite veio a provar que já era tarde demais para retomar o seu papel de pai. e o que sobrara da menina doce e inocente que ele um dia carregou ao colo. nunca lhe impôs limites e sempre fechou os olhos às loucuras cometidas por ela. pensou. Sara perdera-lhe todo o respeito. chegou também a essa conclusão. De facto. tinha desaparecido sem deixar rastro. a única coisa que sabia era que precisava de ar para respirar e foi isso que tentou encontrar quando se sentou junto à porta de saída. – E também não quero que me consideres o teu pai! Sob o olhar desesperado da ex. trazia uma mala e uma mochila. Nessa altura. . Uma mãe tão desesperada que naquela madrugada não viu outra alternativa a não ser trancar todas as portas de casa para impedir que a filha voltasse a sair por elas. Não. Nessa altura.Eu sei – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando o ex. – A partir de hoje já não te considero a minha filha… . Madalena sabia. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara voltou a descer ao primeiro piso. tornou a murmurar. – Vai – gritou ela interceptando-o no corredor. Jorge alcançou o casaco sobre o sofá e saiu da sala. já não pertencia àquela família e nem sequer nutria qualquer tipo de sentimento pela mãe. que decisões tomar dali por diante e como superar aquele inferno que estava a viver. Assustada com a ideia de se ver presa naquela casa. Sara correu em direcção à cozinha a fim de encontrar uma outra escapatória. pois nunca se mostrou um pai presente. – O que é isto? – murmurou ela tentando abrir a porta com vários safanões. Era o fim.Olha só no que é que a nossa filha se transformou… . a vontade incondicional de sair daquela casa. Ditas estas palavras.disse ele deixando-a caída no tapete da sala. marido abriu a porta e atravessou o jardim em direcção ao carro.que a culpa de tudo aquilo era sua. Não sabia o que fazer. a porta fechou-se violentamente e os vidros da janela agitaram-se trazendo consigo uma dor aterradora que Jorge nunca pensou sentir em toda a sua vida. – Jorge… . assim como a que dava acesso às traseiras. Já não tinha mais nada a fazer ali. – Jorge… .disse ele fazendo um esforço sobre humano para não derramar duas lágrimas que se haviam apossado dos seus olhos. A porta também se encontrava fechada. Sara alcançou o corrimão das escadas e voou como um foguete em direcção ao quarto. admiração.chamou Madalena aproximando-se lentamente dele naquele corredor às escuras. Foi também nessa altura que ele percebeu que a sua filha já não existia. Na verdade. – Vai-te embora! Não foi sempre isso que fizeste durante toda a tua vida? Pelo menos agora já não precisas fingir que és pai. Depois disso. Era uma medida extrema. Nem as várias tentativas 159 . Não sabia o que fazer para reencontrar a filha que perdera meses antes. mulher. Nas mãos. tudo deixou de fazer sentido e uma sensação de desespero invadiu-lhe o coração já por si destroçado. e na mente. já não lhe restava mais nada a fazer naquela casa quando era certo que tinha acabado de perder tudo o que lhe era mais querido na vida.

pai! A Sara vai matar a mãe! As últimas palavras de Daniel coincidiram com um estrondo gigantesco vindo das escadas.Sara. dois. Do cimo das escadas. . A única coisa que suplantou a dor da queda foi o susto.para forçar a fechadura resultaram e esse facto apenas acrescentou ainda mais o ódio que ela estava a sentir dentro de si. ele viu os corpos da mãe e da irmã estatelados no corredor e não tardou a perceber que ambos tinham caído devido à luta. Madalena mexeu a perna. – Dá-me a chave – era o que gritava como uma louca.Tu não me podes obrigar a ficar nesta casa. já disse – gritou a jovem estendendo a mão com um olhar aterrador. Ela que não pensasse sequer numa coisa daquelas. ao ouvilo. mas isso foi algo rapidamente esquecido por Sara quando ela tentou agarrar as pernas da mãe e a impedi-la de fugir em direcção à sala. é isso?! . Tinha sido a sua mãe a trancar todas as portas só para a prender ali adentro.Eu quero a chave. e foi também nessa altura que as duas abandonaram o quarto aos empurrões. A resposta negativa de Madalena trouxe novamente a fúria de Sara e consequentemente a sua audácia em atirar-se para cima da mãe sem temer as consequências do seu acto irreflectido. Daniel correu ao telefone que se encontrava no quarto da mãe e digitou o número de Jorge. . . sem se lembrar que ainda estava ao telefone com o pai. eu posso sim obrigar-te a fazer aquilo que eu quiser e aquilo que eu achar que é melhor para ti. . – Pai! A Sara vai matar a mãe. Nenhuma das duas tinha morrido ou tão pouco sofrido lesões mais graves visto as escadas não serem inclinadas. largou o auscultador pronto a inteirar-se do que se estava a passar. – Mãe… – ele gritou. volta para o teu quarto! . estalos e gritos. enquanto se aproximava pé ante pé. E tal como um milagre. – Dá-me a chave – gritou Sara entrando pelo quarto da mãe com uma expressão aterradora. Tinha sido ela. . Aquele tinha sido o princípio do fim.Tu não vais a lado nenhum – respondeu Madalena levantando-se da cama.Dá-me a chave! . filho – gritou Madalena enquanto se tentava desenvencilhar dos braços de Sara. O fim de todo o respeito que mãe e filha ainda sentiam pela outra. .Não – respondeu Madalena recuando vários passos quando a sentiu demasiado perto de si.Dá-me a chave! . A barreira foi quebrada.Já disse que não. Gritos que fizeram acordar o pequeno Daniel. Um. três toques e o advogado finalmente atendeu para grande alívio da criança. .O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Madalena acendendo a luz da mesinha.Dá-me a chave da porta! Eu quero sair.E eu já te disse que não ta vou dar. 160 . o fim de uma relação de dezasseis anos e a certeza que dali para a frente as coisas nunca mais iriam voltar a ser as mesmas. Sim. – Chama o pai.Enquanto fores menor e estiveres sobre a minha responsabilidade. Mas ela que não pensasse que a iria prender no interior de uma casa onde não desejava estar. – Chama o pai! Sem esperar segunda ordem. e ele. Quero ir-me embora. . Não. .O que foi? Vais-me tornar na tua prisioneira.

Contudo.O Sérgio nunca tocou num fio de cabelo meu! Fui eu que apareci na casa de banho para que nos apanhasses e pensasses que ele me estava a estuprar. o que é que foi que eu te fiz?! Onde foi que eu errei para que te tivesses transformado nesta… pessoa… – discursou Madalena não conseguindo controlar as lágrimas. . Madalena manteve-se calada. Eu não me importo. . Sempre te dei tudo o que estava ao meu alcance. acreditaste. Sara! Um monstro. – Eu só queria que tu me dissesses para que eu pudesse entender. Foi só por isso que eu inventei que ele me tinha violado. 161 . . ao contrário do que o teu pai te disse.O quê!? – murmurou Madalena. – Aqui tens… – afirmou Madalena atirando-lhe as chaves contra o peito. Não restava mais nada a não ser um misto de ódio e rancor entre duas pessoas completamente distintas. Ao olharem-se pela última vez. . aliás.Tu és um monstro. Nem mesmo os laços sanguíneos que as uniam iriam conseguir reatar aquela relação doentia.Se me tivesses dado a chave. Mas no entanto parece que me odeias e que queres fazer tudo para me destruir e para destruir a minha vida. – Aonde é que ela está? – foi a primeira pergunta de Jorge quando chegou à casa da ex. nem Madalena e nem Sara conseguiram reconhecer-se no interior daquela sala. mas há muito tempo! Com as chaves nas mãos.. não é?! – interrompeu Sara surpreendendo-a com tal pergunta. E tu. – Estás livre para fazeres o que quiseres com a tua vida porque para mim morreste. não foi por querer. estava tudo destruído. . Na verdade. Mas não. se te fiz algum mal. veio um silêncio ensurdecedor e a certeza de que o inferno finalmente tinha terminado. é isso? É por causa disso? – perguntou Sara encontrando a mãe encostada à mesa ainda com a respiração ofegante. Sara abriu a porta e não resistiu a lançar um último olhar ao irmão que se encontrava sentado nas escadas assustado com tudo o que tinha assistido momentos antes. burra como sempre.Porque se quiseres podes voltar para ele! Já que me vou embora desta casa.Sara. nem quero saber sequer… Perante a resposta da filha. Não hoje. Se eu errei. Não foi de propósito. incrédula.Tu estás louca! Completamente louca. como você quer e ninguém está autorizado a contrariá-la… . ele pode muito bem voltar. Ouvido o estrondo. mulher. sempre te pus em primeiro plano e sempre abri mão de tudo em prol da tua felicidade… .Porque é que não me dás a chave. D. hã?! Tens prazer de me ver a correr atrás de ti. Eu não mereço isto! Eu sei que apesar de tudo eu não mereço o que me estás a fazer. .Estás a falar do Sérgio. não é?! Mais uma vez quiseste mostrar que és tu que mandas! É sempre assim. Preferiste acreditar em mim em vez de acreditar nele e agora olha para ti?! Estás sozinha e vais ficar assim até ao final dos teus dias porque eu também me vou embora… .O que é que…? . ao contrário do que ele estava à espera. ela esboçou-lhe um leve sorriso antes de fechar a porta e desaparecer de uma casa onde tinha vivido durante dezasseis anos.Larga-me – imperou Madalena conseguindo encontrar numa hesitação da filha a oportunidade ideal para correr em direcção à sala. Madalena! Tudo tem que ser feito quando você quer. – Tudo o que eu queria era que ele desaparecesse. E não. nada disto teria acontecido.

– Foi-se embora de vez. restaram-lhe poucas alternativas de sobrevivência e ninguém com quem pudesse contar a não ser: – Tu… – disse Milene abrindo a porta do seu quarto com olhos de quem tinha passado a noite toda em branco.. Mas a verdade é que ele nunca percebeu os intentos dela e agora ambos estavam a pagar bem caro por isso. Sem família. mas sim em todos os momentos em que ela fez questão de lhe chamar a atenção enquanto pai. não só naquela madrugada. o Intendente. De volta a um bairro que tão bem conhecia. – Deixas-me entrar? 162 .Saí de casa – respondeu Sara mostrando-lhe as malas. Os passos lentos e arrastados de Madalena fizeram Jorge entender que tinha chegado tarde. Sara percebeu que era ali que teria que recomeçar do zero. sem conforto e com um bebé na barriga.Foi-se embora – respondeu Madalena alcançando o corrimão das escadas com os olhos marcados de tanto chorar e uma voz amarga. .

Eu também não sei como é isto pôde acontecer. embora quase todos fossem unânimes em afirmar-lhe que a culpa não era sua. Nem sabemos sequer para onde é que ela foi. Sou prostituta porque quero.Eu também não sei. Mas pior do que o sentimento da derrota.Que tragédia – suspirou Afonso levando as mãos à cabeça. – Eu fico aqui com ela. 163 . mas a verdade é que aconteceu e não há nada que possamos fazer.CAPÍTULO IX Passaram-se cinco dias sem que Madalena se tivesse conseguido levantar da cama. genro.Está a ser muito difícil para todos nós – respondeu Jorge não escondendo a tristeza estampada no rosto. . – Já não sei o que é que hei-de fazer com ela – disse Afonso Soares descendo à cozinha com o ex. maior era a vontade de morrer. mas… isto?! .Eu vou levá-lo hoje! Mas também não queria deixar a Madalena sozinha. fechava os olhos numa tentativa desesperada de esquecer todas as palavras horríveis que Sara lhe dissera momentos antes de sair de casa. outras lamentava-se. sem dormir e sem mexer qualquer músculo corporal para além do estritamente necessário. foram as últimas palavras de Sara. – Como é que ela se foi perder desta forma. Jorge levou Daniel para a sua casa e deixou Afonso livre para cuidar de Madalena. sem comer. Qualquer coisa e aviso-te com antecedência. . e era exactamente isso que pretendia fazer não fosse o pedido dela para mais uma vez ficar sozinha. Por vezes.Não te preocupes – respondeu Afonso segurando-lhe o ombro esquerdo. meu Deus!? Está certo! Sempre teve um feitio difícil. duvido muito que consiga tomar conta do Daniel. porque gosto e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens .Acho melhor levares o Daniel para passar uns dias contigo.Nada.Não tiveram mais nenhuma notícia da Sara? . era talvez o desgosto de saber que a filha se prostituía sem ter qualquer razão plausível para isso. e cada vez que Madalena se lembrava delas. algo que só ele como pai o podia fazer exemplarmente. . chorava. . Cinco dias em que ela mergulhou na mais profunda depressão.Eu já tinha pensado nisso – respondeu Jorge limpando uma lágrima que teimou em cairlhe dos olhos. A Sara escolheu o caminho dela. . . Só ele poderia fornecer o carinho e o apoio que a filha necessitava na altura. . Tal como disse. . e muitas vezes. Pareciam gravadas na sua memória e traziam-lhe um sentimento angustiante de derrota.Do jeito como a minha filha está. Era como as ouvisse vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas.

Mesmo não tendo concordado com a ideia. . Aonde é que Sérgio o havia comprado? Ou teria sido oferecido por alguém especial? Talvez pelo avô quem sabe.Está bem.Descobri tudo – foram as primeiras palavras dela assim que Sérgio abriu a porta de casa e se surpreendeu com o seu rosto marcado pelas lágrimas e por tantos meses de angústia. caloroso. Parecia ter sido pintado a óleo e trazia consigo a imagem de um velho pescador sentado à beira mar.Não – respondeu Madalena mal conseguindo encontrar forças para o encarar de frente. Mas o que poderia ele fazer perguntou-se. reparou.Entra! Aberta a porta. . era o único objecto que lhe era estranho. Depois disso. Mas será que Sérgio estaria disposto a perdoála? Será que ele iria compreender os motivos que a fizeram não acreditar nele.Fica aqui. Vários foram os pensamentos que atravessaram a mente de Madalena enquanto conduzia pelas ruas da cidade e se lembrava de um dos maiores erros que tinha cometido num passado não muito longínquo. mas precisava fazê-lo. . 164 . . . tocá-lo e tentar encontrar uma única razão para se manter viva. – Levantaste-te!? .Vou ter que sair.Aonde é que vais? – perguntou Afonso poisando o livro sobre o sofá. – Estás bem? – perguntou Sérgio levando-a em direcção à sala. – Filha – disse ele surpreendendo-se com a figura de Madalena sob o alpendre da porta. Continuava pequeno. do amor que ele dizia sentir por si e de o ter expulsado da sua vida sem qualquer razão. Madalena teve algumas dúvidas. Madalena aceitou o convite e entrou no apartamento do fotógrafo. só assim conseguisse recuperar a sua sanidade mental. – Lena… . mas também o lugar mais pacífico e confortável do mundo. Madalena depositou a sua mala sobre o sofá e lançou os olhos a um quadro pendurado na parede. Afonso achou por bem não levantar mais questões e acatou o desejo de Madalena encostando a porta com cuidado. Já volto – disse Sérgio.Tens a certeza? Olha que já está tarde. quem sabe. mas sim na sua filha? Ao ver-se diante do prédio onde muitas vezes se encontraram e passaram várias tardes de amor. desceu à sala e encontrou um livro para passar o tempo. Sentiu também que não tinha qualquer direito de procurá-lo ou sequer de lhe implorar perdão. Na verdade.Procurar uma pessoa. De ter duvidado do seu carácter. Continuava o mesmo. . . . pai.Não me vou demorar muito – respondeu Madalena abandonando a sala sob o olhar atento e preocupado de Afonso.Queres um chá?! Faço num instante. Precisava olhar-lhe o rosto. . Talvez. Abriu-o na página marcada e mergulhou na leitura durante horas a fio tentando pensar em coisas abstractas. Na verdade. em passagens simbólicas que não lhe fizessem lembrar a tristeza em que a sua família estava submersa e o desejo de um dia tudo voltar à normalidade. o erro de não ter acreditado no homem que amava. Se era o desejo da filha sair. a única alternativa que lhe restava era acatar a decisão e esperar que ela não cometesse nenhuma loucura. Ao ver-se sozinha naquela sala repleta de móveis e aparelhos fotográficos.

. meses até.Vem… – exclamou Sérgio interrompendo-lhe os pensamentos.Desculpa – pediu ela tentando esconder os olhos inchados de tanto chorar. Ainda assim.Será que… és capaz de me perdoar? 165 . mas antes disso. Ela era tão linda. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar. – Devia ter feito isso. . Madalena e Sérgio serviram-se do chá e permaneceram em silêncio durante largos minutos.…devia ter acreditado em ti… .discursou Madalena não conseguindo mais uma vez controlar as lágrimas e os risos nervosos. ambos sabiam-no bem. e os olhos eram redondos.Eu sei. Era mesmo uma menina que eu queria. E não sobrou absolutamente nada dela… . Sentados nas suas respectivas cadeiras.Não quis enxergar a realidade e muito menos perceber no que é que a minha filha se tinha transformado. iguais aos meus. – Eu lembro-me bem do dia em que ela nasceu. tinha muito cabelo. semanas. Desde a última vez que se viram e trocaram as derradeiras palavras. ela precisa de ajuda. por causa da minha filha. Tanta coisa tinha mudado.Costumam dizer que os filhos são a projecção dos pais… . – A culpa não foi tua. É melhor – Madalena acedeu com um sorriso. Eu não sou essa pessoa horrível em que ela se transformou. e se queres que te diga. . Pequenina. preto.. mas… não fiz! . . Sérgio parecia ter a mesma mágoa no olhar e Madalena não sabia o que fazer para conseguir encontrá-lo naquela cozinha tão minúscula. que adorava vestir de cor-de-rosa e de fazer totós no cabelo… . . Mas… os anos foram passando e… aquela menina que todos adoravam agarrar ao colo e que se ria por tudo e por nada deixou de existir. Eu sei que não sou… . .Então porque é que me sinto uma verdadeira fracassada? .Aquela mesma menina que eu costumava levar a passear ao parque. Toda a gente dizia que éramos muito parecidas e eu lembro-me que ficava tão orgulhosa quando ouvia alguém dizer isso. Acho que… estava tão contente por saber que iria ter uma menina que nem sequer me importei com as dores do parto. ela é que tem que querer essa ajuda. e quando as enfermeiras ma deram nas mãos.Tu não és uma fracassada. Lena! A Sara está doente. Eu não tinha o direito de te ter metido nesta embrulhada. escuros. Mas …eu não quero acreditar que a Sara seja uma projecção minha. . Desapareceu. Morreu.interrompeu ela. Passaram-se dias. – Que eles são aquilo que nós fazemos deles e eu até costumava acreditar nisso. Tu já fizeste tudo o que estava ao teu alcance. eu senti como se tivesse encontrado uma razão para viver. entendes?! . pelas coisas que tiveste de aguentar por minha causa.foram as palavras que saltaram dos lábios dela. fizeste bem mais do que a maioria das mães fariam se estivessem no teu lugar. Porque para mim ela ainda continuava a ser a minha menina.E não és – interrompeu Sérgio segurando-lhe a mão sobre a mesa. o tempo foi peremptório em passar. – Desculpa por tudo o que te fiz passar. Tinha comprado todo o enxoval e levei todas as coisas para a maternidade porque não queria que lhe faltasse absolutamente nada.Lena… .Entendo – respondeu Sérgio aquecendo as mãos na sua chávena de chá. Tinha tudo preparado. Foi o mais feliz da minha vida.Não me meteste em nada! Eu faria tudo de novo se fosse preciso. – Vamos tomar o chá na cozinha.

não é?! . Beijos.Aceitas um convite para jantar?” .E desta vez vem com um bilhete. mas que dava mostras de um novo fulgor. De facto. em que pudesse aproveitar uma refeição agradável ao lado da melhor amiga e uma conversa amena com o pai ao final da noite.Não sei – respondeu Madalena depositando a caixa de chocolates e o bilhete sobre a secretária.Eu sei – concordou ela com um sorriso imensamente triste.Quem é que escreve PS num bilhete romântico!? – riram-se Alice e Madalena às gargalhadas. . Madalena ainda ansiava por dias melhores.Eu já te perdoei há muito tempo – respondeu Sérgio beijando-lhe as mãos frias. . Um cartão que cheirava a rosas e que trazia a caligrafia desajeitada do ex. . não acabou?! Sérgio pareceu hesitar quando fitou os olhos brilhantes de Madalena e viu nela a mulher a quem um dia chegou a amar mais do que a própria vida.. Apesar de todos os acontecimentos trágicos do passado. . e aos poucos e poucos. tal como o meu também ficou apenas com a lembrança de um sorriso teu. a vida começou a retomar o seu curso. A rotina do trabalho.Mas acabou.Eu amo-te.Lê! Ao ouvir o pedido da melhor amiga.E tu vais aceitar? .O Jorge. minha amiga! O Jorge. – Não precisas preocupar-te com isso. Dias em que pudesse sorrir sem pensar no dia seguinte. . . mas ainda assim conferia-lhe um certo conforto e estabilidade que há muito não encontrava. Para além disso. – Precisamos de tempo.Sinceramente não te estou a reconhecer! Logo tu que sempre detestaste o Jorge… 166 . marido e as suas várias tentativas de aproximação faziam-na sentir-se menos sozinha e a pensar se valeria ou não a pena oferecer-lhe uma segunda chance. Jorge. . Uma alegria que por momentos pareceu desaparecida aquando do desaparecimento de Sara. a presença sempre constante do ex. marido. – Neste momento não temos nada para nos dar um ao outro – respondeu ele. marido: . de espaço… . Hã… PS. . – Outra caixa de chocolates – exclamou Alice abrindo um sorriso de orelha a orelha quando Madalena regressou à loja após ter recebido a encomenda de um office boy.Mas quem sabe um dia se o destino não nos trocar as voltas.“Espero que esta caixa de chocolates seja suficiente para adoçar o teu dia.Não perdes nada se aceitares. é só um jantar.Impressão minha ou estás a torcer para que eu aceite esse convite? . foram factores importantes para que Madalena recuperasse a alegria de viver.Não é torcer! Só acho que não tem mal nenhum jantar com o teu ex. o ano mudou. Passaram-se cinco meses. . Madalena esboçou um sorriso malicioso e rapidamente se apressou a retirar o cartão do interior do envelope. Mas a verdade é que poucas dúvidas lhe restavam quanto ao desfecho daquela história de amor. do único filho que lhe restou e dos pequenos acontecimentos que preenchiam o seu dia-a-dia. nada daquilo era demasiado entusiasmante.Eu também – sorriram os dois. . Quer dizer.

Mais tarde. Estou a confundir tudo. De facto. . marido acompanhado de um sorriso e também de um lindo arranjo de orquídeas. – Mas agora vai.Não queres os meus beijos?! . Afonso! A sua filha não merece menos – respondeu o advogado arrancando algumas risadas a Daniel e Afonso. Jorge? Não quero voltar muito tarde – disse Madalena encontrando o seu casaco sobre o sofá. a campainha tocou ruidosamente e ela correu a abrir a porta deparando-se com a figura do ex. várias foram as vezes que Madalena pensou em desistir do seu jantar com Jorge.Ainda bem. – Entra! . Mas a verdade é que nenhum destes pensamentos conseguiu demovê-la da ideia de cancelar um jantar que apesar de tudo lhe preencheu o imaginário desde manhã. e se fossemos andando. Vou voltar a um passado que só me fez mal e que não me trouxe nada de bom.O. Estava perfeita. Sr.Sabe como é que é. mas… as pessoas mudam! E eu acho que o Jorge mudou.Pai! Daniel! Não durmam tarde e nem fiquem a ver televisão até às tantas. e se o tivesse que provar com beijos. . que ela terminou de se analisar ao espelho trazendo no corpo um vestido preto pelos joelhos e os cabelos soltos um pouco acima dos ombros.k – defendeu-se ela enquanto levantava os braços. Madalena não conseguiu conter-se e surpreendeu o filho com um longo e demorado beijo que fez todos os presentes rirem-se às gargalhadas. Sr.O. – Bom jantar – exclamou Afonso observando a saída de Madalena e Jorge da sala e mais tarde do interior da casa..Cheguei na hora certa? . dizia.Achas que eles vão voltar. lembraste? . . bem perto disso. . E foi assim.k. general – respondeu Afonso abrindo os braços sobre o sofá. amanhã é dia de escola. .Eu sei que fui uma grande impulsionadora na tua separação daquele imprestável. – Espero bem que sim! 167 . ou senão.Bem.Estás sempre a dar-me beijos. – Já não te vou dar mais nenhum. .Porta-te bem. . militar afagando os cabelos do neto.Espero bem que sim – respondeu o ex. inclusive Daniel. . então que assim fosse.Estás todo janota.Claro. ainda submersa num verdadeiro dilema. – Iremos cumprir as suas ordens à risca. É uma loucura.Claro! Nem um minuto a mais. vô? . nem um minuto a menos. repetia-se vezes sem conta. Apesar da promessa. Apesar de tudo. .Obrigada – respondeu Madalena recebendo o ramo com alguma cautela. genro a entrar na sala com as mãos nos bolsos. . foram os elogios que ouviu do pai e do filho quando chegou à sala. era impossível para ela passar um minuto que fosse sem demonstrar ao filho que o amava acima de tudo. . . Jorge – exclamou Afonso ao ver o ex. Não. – Ainda me lembro que são as tuas flores preferidas – disse ele. filho. Enquanto se compunha à frente do espelho.Está bem – respondeu Daniel tentando desviar-se dos beijos de Madalena.

.Será?! – perguntou Jorge alcançando-lhe a mão sobre a mesa. .É! Infelizmente não fugi. algo que há muito ele não via em qualquer outra mulher. . Impressionante como nunca se tinha dado conta de como ela era bela. sensual e inteligente.Eu daria tudo para ter ouvido isso há cinco anos atrás. a única pessoa que Jorge queria agradar era Madalena. Mas mesmo assim tu ficaste comigo e aceitaste o meu pedido de casamento com um anel de plástico da feira popular. mas eu nunca me esqueci de ti! Nunca deixei de sentir saudades tuas. não achas!? . – Só me estava aqui a lembrar da primeira vez que saímos para jantar. outras causas importantes. eu sei.Podes não acreditar. Jorge?! .Sentimentalismos baratos. mais prestígio… .Claro que não! Tu sabes que eu nunca fui sentimentalista. . por favor – pediu ela voltando a depositar a taça de vinho sobre a mesa.Já não tinha tempo para ti. mais dinheiro.Então não mudes. Não tinha dinheiro nem sequer para te levar ao cinema.Jorge… . . eu sei! Estava sempre tão obcecado com o meu sucesso profissional que me esqueci da minha família e da mulher maravilhosa que andava a desperdiçar. Mas hoje já não sei se vale a pena. . – Logo que nos casámos fui aceite numa firma de advogados e ganhei a primeira causa. da nossa casa. – Será que é assim tão tarde? . . 168 . não achas?! Madalena sorriu. – Lembro-me também que no dia seguinte contei a uma amiga e ela disse-me que o melhor que eu tinha a fazer era fugir de ti. Lena.Nada – respondeu Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso.Mas às vezes é impossível não nos lembrarmos de coisas tão boas.Percebeste isso um pouco tarde. Nenhuma chegou sequer aos teus pés… . . . Depois foram sempre voos maiores. mulher um só segundo e a sua atenção centrou-se nela durante toda a refeição. Falava tudo aquilo que lhe vinha à cabeça e movimentava-se com uma destreza e segurança fora do normal. Foi por isso que eu aceitei o teu pedido de casamento.O anel era lindo. Nenhuma delas me conseguiu dar o que me deste nestes dezassete anos.O restaurante escolhido por Jorge primava pelo requinte e pela sofisticação. – O que foi? – perguntou Madalena bebendo um gole de vinho tinto. . os seus olhos não se desviaram da ex.Naquela altura era um teso.Mas eu tive sorte – disse Jorge deixando-se iluminar pelos olhos de Madalena quando eles se cruzaram com os seus. Era simples também.Ui! Se me lembro – riu-se ela forçando uma gargalhada seca. nem mesmo quando andava com outras mulheres.E foi então que o nosso casamento começou a piorar.Mas não fugiste. Pela primeira vez. algo a que o advogado estava amplamente habituado nos seus extensos anos de profissão quando se reunia com clientes importantes. Ficava situado no Lapa Palace e era frequentado por um grupo restrito de pessoas a quem tudo era feito para agradar. Mas naquela noite particularmente especial. . dos nossos filhos. – Lembraste que tivemos que pagar a conta do jantar a meias? .

Mudei mesmo. Foi ela a responsável por tudo o que de bom lhe havia acontecido até à data e era também com ela que pretendia passar o resto dos seus dias.. não é?! . Parecia um sonho.Então um brinde à tua mudança. . os dois deitaram-se sobre os lençóis de linho. É estar presente. Fez-me perceber o porquê de muitas vezes brigares comigo.Eu mudei muito. Lena! Acredita em mim. Algo superior às suas forças e também à sua existência. Um tempo onde as suas vidas se conjugavam na perfeição. sonhos e desejos a serem concretizados. Ao entrar no quarto que um dia também foi seu. é tentar proteger os nossos filhos e… ser chato.Fico feliz que tenhas percebido isso – respondeu Madalena tentando esquecer a sombra que atravessou o seu peito quando se lembrou da existência de Sara. eu sei! .Um brinde! As luzes apagadas fizeram antever que não havia absolutamente ninguém acordado naquela casa.Estarmos aqui os dois depois de tudo. . mas bom… – respondeu ela deixando-se mergulhar no beijo que Jorge lhe ofereceu nos lábios.Um brinde – afirmou Jorge tocando a sua taça na de Madalena. . foi assim que se sentiu até Madalena o levar em direcção à cama e brindá-lo com um longo beijo enquanto o fazia. . Antes. Algo difícil de explicar.Estranho.Estranho mas bom. na altura. e não o fizeram apenas no espaço. mas também no tempo. o destino trocou-lhes as voltas. Madalena era essa mulher. Madalena e Jorge regressaram ao ponto de partida. . eu não queria ser um pai chato! Queria que o Daniel e a Sara me vissem como um pai espectacular capaz de lhes concretizar todos os desejos. de me tentares chamar à razão e de me fazer entender que para se ser um bom pai não é preciso dizer sim a tudo. Mais tarde. ouviu o tecido cair no chão e Madalena suster a respiração descompassada. Após longas horas de ausência. Afastou-os de uma forma irreversível e quase que os obrigou a continuar assim. Jorge deslumbrou-se com a grandiosidade daquele momento e experimentou uma das sensações mais avassaladoras que um homem poderia experimentar ao lado de uma mulher. 169 . onde havia planos.Será!? . Depois disso. – E um brinde a tudo o que já vivemos. Prova disso? O arrepio que sentiu em todos os poros do corpo quando lhe desceu o fecho do vestido. – Quem diria… . . despiram as respectivas roupas e entregaram-se um ao outro durante horas a fio sem se importar com os carros que passavam a alta velocidade pela rua deserta. .É muito estranho. . não fosse esse mesmo destino tornar a juntá-los naquela noite tão especial. Mas só hoje vi o quanto errei. e… o quanto esse erro te prejudicou a ti e à nossa filha. É muito mais que isso. Mas infelizmente.Esta história que aconteceu com a Sara fez-me abrir os olhos para uma serie de coisas que me eram totalmente estranhas. Por momentos.O quê? – perguntou Madalena esboçando um sorriso envergonhado quando Jorge lhe percorreu os braços desnudos. ao que estamos a viver neste momento e… ao que iremos viver daqui para a frente.

Mas enquanto passeava pelas habitações de uma casa anteriormente repleta do barulho das crianças. Talvez por causa dos filhos. – Mas não te esqueças que desta vez é a sério! Se me deres uma nova chance prometo que não te vou desiludir. – Depois falamos. ficava para jantar.Uma viagem de trabalho. . Percebeu também que há muito não ouvia qualquer barulho e que a possibilidade de nunca mais ouvir estava-se a tornar demasiado evidente. . Jorge! Não posso decidir uma coisa dessas de ânimo leve.Vou viajar este fim-de-semana.Eu sei – respondeu ele acariciando-lhe a face rosada. Madalena fechou a porta. Os papéis do divórcio foram assinados sem um pingo de remorso.E então?! Já chegaste a alguma conclusão? . . ele chegava ao final da tarde com a desculpa de querer estar com o filho. algo que nunca fizera em anos e anos de casamento. . ou quem sabe por nada disso.Mas quando voltar quero uma resposta – disse Jorge brincando-lhe com os dedos das mãos.Pensa! . Quem sabe se voltasse ao ponto de partida? Quem sabe se a volta de Jorge não lhe traria de volta algum do barulho perdido? 170 . A resposta de Madalena fez Jorge recuar dois passos e baixar a cabeça num claro sinal de desespero. Vou para Bruxelas e devo lá ficar umas duas semanas no máximo. muita coisa se passou e muitas vezes ela disse que o amor e a paixão que os unia tinha terminado sem deixar rastro. as suas vidas tomaram rumos diferentes. e só se dava por vencido quando Daniel subia ao quarto e Madalena forçava enormes bocejos numa tentativa desesperada de o fazer olhar para o relógio. . . Durante os três anos em que estiveram legalmente separados.Eu vou pensar – riram-se os dois quando ele atravessou o jardim em direcção ao carro e não tardou mais do que três minutos a arrancá-lo. Depois.Já te disse que preciso de mais tempo. Porque será que ela continuava sem acreditar nas suas palavras? Porque é que ela tinha um prazer especial em criar uma verdadeira muralha entre eles? – Acho melhor ires – afirmou Madalena encontrando-lhe a mão direita. .Para onde? .Mais ou menos! Quer dizer…. – Pensaste no que te disse? – perguntou ele quando ela o levou à porta. talvez pelos dezasseis anos em que estiveram casados. Depois disso. . Ano Novo.Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser as visitas sempre constantes de Jorge lá a casa.Estás-me a dar um prazo? . mas no fundo sempre existiu uma estranha ligação entre os dois. sim! Estou-te a dar um prazo. – Quero que me digas se posso voltar cá para casa. .Vai – murmurou ela afastando-o da porta. . disponibilizava-se para colocar a mesa. Páscoa e outras celebrações familiares que compunham o ano. aquela noite não foi excepção. das festas de aniversário. deparou-se com o vazio daquela casa e soltou um pesado suspiro ao sentir-se pela primeira vez confusa quanto ao desfecho da sua história com Jorge. do Natal. – Já está tarde.Não prometas coisas que não podes cumprir. Madalena percebeu que sentia falta delas. lavar a loiça. . Preciso pensar! Preciso pensar muito. Mais uma vez.Está bem.Estou a pensar – respondeu Madalena encostando a cabeça à parede. Normalmente.

. Eu tinha duas escolhas: Acreditar nele ou acreditar na Sara. entendes?! Mas uma outra parte continua a gritar-me aos ouvidos que se eu voltar para o Jorge tudo vai ser como era antes. resolveu aceitar o desafio proposto pelo ex. .Desde a última vez que o procurei.Tu surpreendes-me sempre. não é!? – riu-se Alice divertida quando Madalena lhe contou a conversa que tivera com o ex. Duas semanas. Se queres realmente saber se deves voltar para o Jorge. . .Nunca mais tiveste notícias do Sérgio? .Mas eu acho que ele mudou – concluiu Alice captando os olhos de Madalena. a resposta lhe estaria na ponta da língua.Mas queres ou não voltar ao vosso casamento? . Disse-lhe que iria pensar cuidadosamente no assunto. marido a poucas horas da sua partida. a sério… . – Uma parte de mim quer. negócios atrás das minhas costas e mentiras. que não foram poucos. sabias?! .Sim! Podes não acreditar.Tal como o estipulado. Traições.Sabes. Acredito mesmo que ele te ama e que está disposto a concertar todos os erros.Não! Claro que não… . no que poderíamos ter vivido e não vivemos… . .Eu não sei – respondeu Madalena não escondendo a sua indecisão.A sério! Acho mesmo. não.Mas as coisas não assim tão fáceis – respondeu Madalena com um longo suspiro. E eu não quero passar pelo mesmo. não sabes?! .Tu sabes que eu nunca fui com a cara do Jorge. nem sei sequer se tenho forças para passar pelo mesmo. apesar de se encontrar ainda um pouco confusa.Pois eu acho que o devias procurar outra vez – afirmou Alice saltando da montra. mas também como ser humano. no fim-de-semana seguinte.Eu sei – riu-se Alice.Nem precisas dizer – riram-se as duas. vejo que a culpa foi inteiramente minha. olhando para trás. e que assim que ele voltasse. mas até hoje eu continuo a pensar nele. aliás. no que poderia ter sido e não foi. Saber se ele 171 . Fui eu que não quis acreditar no Sérgio mesmo quando ele me disse que nunca tinha tocado num fio de cabelo dela. e ela. Não posso culpar ninguém por essa escolha a não ser a mim própria. marido. nós sabemos. . por muito tempo eu culpei a Sara. sim! Mas hoje. . Eu realmente acredito que ele está arrependido de todas as coisas que fez no passado. – Sou uma caixinha de surpresas. mas que apesar de tudo ainda têm concerto. – Eu ainda continuo a pensar no Sérgio.Adoras vê-lo a sofrer.Por culpa da Sara – interrompeu Alice terminando a decoração da montra da loja.No Sérgio?! . não só como homem. Foi com essa promessa que Jorge viajou prometendo telefonar assim que tivesse um minuto livre na sua agenda preenchida de reuniões e congressos. eu acho que deves procurar o Sérgio e esclarecer a vossa história de uma vez por todas. era o prazo. . – Acho que ele cresceu. Às vezes esses milagres acontecem com as pessoas que menos esperamos e com o Jorge aconteceu. e … eu escolhi acreditar na minha filha. . Jorge partiu para Bruxelas e deixou um ultimato a Madalena para que ela se decidisse a dar-lhe uma segunda oportunidade. . .Claro que não! Só preciso de tempo.

após se ter convencido que nunca mais o tornaria a ver e de que as suas vidas tinham tomado rumos diferentes. friorento e começou com a chegada de uma carrinha de encomendas feitas pela floricultura.É. uma onda de pânico percorreu-lhe o corpo. e essa verdade era a de que enquanto não resolvesse a sua história com Sérgio iria ser praticamente impossível reatar a sua história com Jorge. – Já veio – gritou Alice correndo a abrir a porta. chegou a haver casamento? 172 . Como estás? . Será que mudou de número. cinco. . Nessa altura. Era realmente muito estranho. seis e não houve qualquer resposta. foi a pergunta que imperou no ar quando ela desligou a chamada e voltou a poisar o telefone sobre a mesinha. Depois disso. enquanto um pouco mais atrás. Beatriz!? – disseram Alice e Madalena sem esconder a surpresa por a ver ali. três. Uma onda de dúvidas atravessou-lhe os pensamentos e a certeza de que tinha cometido um erro pareceu mais iminente do que nunca. foi o facto de ter visto o número de Sérgio no visor. – Estão frescas – disse ele com um sorriso que imediatamente contagiou as duas funcionárias. se continua a pensar em vocês ou se já está noutra. dois toques. uma gorjeta ao motorista e a partida do último com a promessa de voltar dali a três dias. a porta fechou-se e tornou a abrir-se com duas caras também elas conhecidas. Era ele. Depois disso. Só assim vais poder virar essa página da tua vida e seguir em frente… Os conselhos de Alice deixaram Madalena confusa. mas por outro lado. mas mais do que o toque em si. Foi por isso que naquela friorenta noite de segunda-feira. alertaram-na para uma verdade incontornável. Quando o relógio sobre a mesinha de cabeceira marcou vinte e três horas e trinta minutos. Por outras palavras. Um toque. Madalena percebeu que já não havia mais tempo a perder e digitou um número que um dia chegou tão bem a conhecer. Sim.Estou óptima – respondeu ela não escondendo o seu sorriso radiante. O primeiro dia de Março amanheceu chuvoso. Aonde estava com a cabeça? Porque não esquecia Sérgio de uma vez por todas? Seria assim tão difícil quanto isso? O toque do telefone fê-la dar um pulo sobre a cama. Era ele. – Olá. Madalena seguiu-lhe os passos tentando abrigar-se da chuva.Há muito tempo – respondeu Alice apressando-se a cumprimentá-la com um beijo na face. quatro. – Mas antes de mais queria pedir-lhe desculpas por tudo o que aconteceu. um pouco contidamente. realmente não foi uma experiência lá muito agradável! Mas que mal vos pergunte. Seguiu-se uma rápida conversa. Mais uma vez. minhas queridas! . voltou-se para a filha e perguntou: – Olá Joana. Meu Deus. os três carregaram as flores para o interior da loja e depositaram-nas perto do balcão. Nessa altura.D. .ainda continua a gostar de ti. Como era estranho voltar a ver o nome dele após tantos meses de ausência.Há quanto tempo. ela resolveu cometer uma das maiores loucuras da sua vida. Sei que foi horrível ter levado com aquela vela na cabeça quando foram levar as flores para o meu casamento. não é?! . telefonar a Sérgio e marcar um encontro onde ambos pudessem conversar sem a mínima possibilidade de serem interrompidos. o motorista da carrinha não tardou a abrir as portas e a mostrar-lhes as flores encomendadas.

caloroso e bastante agradável. amor e amor.Uau! Estas túlipas são lindas – exclamou Joana não resistindo a tocá-las.Porquê?! . Parece que eles têm lá uma propriedade gigantesca.Que bom – respondeu Madalena forçando-lhes um sorriso. . surpresa.Claro que não – respondeu Beatriz passando as mãos pelos cabelos da filha.Árabe?! – indagou Alice.Bem. . mas o aprumo das mesas. 173 . vinha a agitação e a correria dos empregados que faziam de tudo para atender os clientes. . não é. . Na verdade.. Madalena aproximou-se da porta e virou a placa ao contrário: Fechado.Sim! Conhecemo-lo num cruzeiro pelo Oriente há seis meses atrás e ele encantou-se tanto pela Joana que nunca mais a quis largar. que rápido – murmurou Alice recebendo um discreto beliscão por parte de Madalena.Até porque ela agora está noiva de um empresário árabe multi-milionário – concluiu Beatriz. talvez tivesse uns vinte anos de existência. – Acabámos de receber novas encomendas. .Ele é um gentleman – afirmou Joana mostrando o seu anel de noivado cravado a ouro e diamantes. . Era uma das mais antigas da cidade. Sinceramente não podia ter encontrado um noivo melhor. . Desde então só tem sido amor. Depois dessa elegância.Uau! Não é para todos – riu-se Alice. . as coisas tendem a ser rápidas. Nem os seus clientes. a floricultura encerrou às dezanove horas. tudo isso eram pequenos detalhes perto da imensidão do que iria acontecer quando chegasse ao local combinado.O Atif.Pois não! Só para quem tem sorte e um rosto lindo como a minha Joaninha – respondeu Beatriz mostrando um sorriso radiante à filha. Finalmente chegara a altura pela qual ela havia ansiado durante meses e nada e nem ninguém a iria fazer atrasar-se àquele encontro. . o meu noivo. . era o local. Queríamos encontrar um arranjo lindo para uma amiga que faz anos hoje. quando o amor é assim tão… intenso. – Acham mesmo que a minha querida Joaninha iria casar-se com um idiota como àquele? Ela merecia muito melhor e foi óptimo ter desmanchado o noivado antes de cometer o maior erro da vida dela. radiante.Tiveram sorte – interferiu Madalena levando mãe e filha em direcção à bancada da floricultura. e como aquilo está às moscas. – Faz tudo para me ver feliz e também para me mimar. Volte amanhã. Os dois são completamente apaixonados um pelo outro e até já marcaram a data de casamento para o próximo Verão. Tal como sempre. ele achou por bem que eu e a minha mãe ocupássemos a casa até o dia do casamento. essa casa trazia consigo um ambiente ameno. Será que têm alguma coisa? . mãe! Tenho a certeza que a Carmo iria adorar. – Devíamos levá-las. convidou-nos para irmos morar com ele e com os pais a Dubai. – Quer dizer.Isto tudo para vos dizer que esta vai ser a última vez que cá vimos – concluiu Beatriz. . cadeiras e azulejos pintados à mão ressaltavam a sua elegância. Uma casa de chás situada no centro de Lisboa repleta de pessoas de todos os estratos sociais. Para além disso. e para prová-lo. nem o trânsito caótico que todos os dias inundava a cidade e muito menos o temporal a cair violentamente sobre o pára-brisas do carro. – Mas bem. não foi só por causa disso que viemos à loja.

Tu também não estás nada mal – riram-se os dois. – Estás mais gordo. anotavam os pedidos à mesa. bolos frescos e outras iguarias não muito encontradas em outros estabelecimentos da cidade. .disse ela encontrando a mesa escolhida por Sérgio. Depois disso. . Nessa altura. Está a ocupar o antigo quarto que era da… . .Claro. 174 . . Impressionante. – Então?! Já pediste alguma coisa? . Faz tanto tempo que não nos vemos… . – Mas eu não me esqueci de ti. E sim. fugiam para o interior da cozinha e voltavam com chás fumegantes.Claro que sim.Não muita – respondeu Madalena tentando esconder o nervosismo de estar outra vez à frente do único homem que a conseguiu envolver após o seu divórcio. – Só tive que correr imenso porque não consegui arranjar um sítio aqui perto para estacionar.É. .Ai é?! Que bom – sorriu Sérgio.Estava à tua espera para pedirmos juntos.Espero que esteja tudo bem com o teu pai. fez os pedidos em nome dos dois e aguardou que o funcionário se retirasse da mesa com o mesmo sorriso que trouxe.Sara.Eu também não.Eu pedi para que ele ficasse lá em casa. bonita e apaixonante. O tempo passou. .Mas tu estás óptima. jovial. – Estás encharcada.Sempre com um sorriso nos lábios.Ouvi dizer que aqui servem uns maravilhosos bolinhos de coco e óptimos chás de menta. mas acima de tudo sincero. com o teu filho… . . . . nada mais voltou a ser o mesmo. . . – Desculpa o atraso… . arranjou os cabelos molhados pela chuva e ainda teve tempo para sorrir. Impressionante como Madalena nunca havia percebido isso até conhecê-lo e entregar-se a ele. realmente faz muito tempo – respondeu Sérgio desarmando-a com o seu sorriso e com os seus olhos verdes. Madalena sentou-se à mesa.Bem. .Devo levar isso como um elogio!? . as suas vidas tomaram rumos diferentes e criou-se uma estranha percepção de que ainda havia pontos a serem esclarecidos numa relação que apesar de tudo foi intensa. Mas infelizmente o destino foi cruel e separou-os no momento em que ela menos estava à espera. que havia vida para além do divórcio e que nunca era tarde para se acreditar num amor tão ou mais intenso que o primeiro. sendo que depois dessa separação. um fotógrafo que meses antes havia aparecido na sua vida como um anjo e a virado de pernas para o ar. . Foram esses os motivos que levaram Madalena a escolher aquela casa de chás para se encontrar com Sérgio Almeida. Sérgio reparou. Um sorriso que continuava idêntico ao que era.Está tudo bem com eles! O meu pai está agora a morar comigo. Apanhaste muita chuva enquanto estavas a vir para cá? .Sim! Da Sara – respondeu Madalena não escondendo o constrangimento sempre que falava da filha. ainda nem te perguntei como é que estás. Límpido.Não faz mal! Também só cheguei há cinco minutos – respondeu ele observando-a a arrastar uma cadeira. Foi ele quem lhe mostrou que nem tudo estava perdido.Então podemos pedir isso se quiseres – respondeu Sérgio chamando gentilmente um dos inúmeros empregados da casa.

Nem eu. mas eu precisava ver-te mais uma vez.E os nossos caminhos afastaram-se muito! Mais do que eu queria que se afastassem. . . Era óbvio o nervosismo demonstrado pelos dois. – Eu sei que já se passou muito tempo… . Sei lá! Ouvir a tua voz.Que Vera!? – perguntou Madalena tentando manter-se firme perante as revelações que se avizinhavam. eu nunca me esqueci de ti.Lena.Claro que foi – respondeu Sérgio afastando a chávena de si.Que coisa?! Ela sorriu nervosamente. e mais uma vez. um certo desconforto até. . .E…?! . mas sim porque não teve forças para isso. – Que ainda não me tinhas esquecido.Lena… . duvido muito que algum dia vá esquecer. parecia que tinham tantas coisas em comum e tantas palavras para se dizerem um ao outro.Porque eu preciso saber. assim como eu também nunca me esqueci de ti.…que provavelmente já deves ter refeito a tua vida. Madalena e Sérgio agradeceram a gentileza do funcionário enquanto escolhiam as suas respectivas chávenas e tentavam arranjar espaço numa mesa não muito gigantesca. . cada vez que se olhavam nos olhos.Não sei se te lembras da Vera… . Quem começaria primeiro? .Confesso que fiquei um pouco.continuou ela.Primeiro porque… queria ouvir a tua voz. o que vivemos não foi um sonho. 175 . As palavras de Madalena contrastaram com a expressão séria de Sérgio e com o desejo que ele sentiu em contar-lhe toda a verdade antes que ela abrisse o seu coração de uma forma irreversível.discursou Madalena sentindo-se quase sem fôlego. foi muito real e inesquecível! Mas o tempo passou e não eu sei como conseguiu passar tão depressa. E tens razão. …ver o teu rosto e ter a certeza que nada do que vivi contigo foi um sonho.Nem tu? Então porque é que me ligaste? – riu-se Sérgio. Porque se tu me disseres que… existe essa possibilidade.Como assim?! .Deves ter ficado surpreso quanto te telefonei ontem à noite. Se não existe a mais remota possibilidade de me quereres de volta e de me perdoares por não ter acreditado em ti na altura que eu devia ter acreditado. Mas a verdade é que o fotógrafo não conseguiu interrompê-la a tempo. e se me perguntares ou se alguém me perguntar. e segundo porque… precisava ter a certeza de uma coisa. Porque foi real. Foi real. Não porque não quisesse. . Foi por isso que eu resolvi procurar-te de novo… . . Mas a verdade é que passou e… . não foi? . mas ainda assim. quem sabe… não sei! Quem sabe… .Eu também acho que foi! Foi uma das coisas mais reais que aconteceram comigo e eu tenho medo que nunca mais volte a acontecer. .Os chás e os bolos de coco não tardaram a ser trazidos à mesa pelo mesmo empregado que os havia atendido minutos antes. Não estava nada à espera. . não é!? – disse Madalena bebendo um gole do seu chá de menta. eu preciso mesmo saber se a nossa história terminou.

eu encontrei-me com ela num desfile de moda.Então porque é que estás com ela? – perguntou Madalena sentindo-se confusa. aliás. ela desmoronaria como um baralho de cartas. O fim dos sonhos que ela transportou durante vinte e quatro horas. Ninguém teve a brilhante ideia de olhar para si e confortá-la com alguma palavra ou até mesmo com um abraço. Ela apareceu uma vez em minha casa enquanto lá estavas e tu ficaste desconfiada que tínhamos algum envolvimento. – Aliás.Apaixonaste-te por ela?! . Madalena encolheu os ombros e lançou os olhos ao movimento frenético das pessoas à sua volta pensando como era impressionante que ainda ninguém se tivesse dado conta da maior tragédia ocorrida na sua vida. .Lembro. e tal como deves calcular.E tinham?! . e o fim de uma história que tinha tudo para dar certo. E não. Mas a verdade é que foi acontecendo … . várias foram as vezes que Madalena tentou 176 . eu sou o pai… – respondeu Sérgio terminando com todas as dúvidas que ainda assombravam os pensamentos de Madalena. Não era para ser importante. Devo-lhe muitas coisas… . Aconteceu! Essas coisas acontecem a toda a gente e eu disse-te que um dia iria acontecer contigo. Conversámos. na altura eu estava tão magoado que nem sequer me passava pela cabeça ter alguma coisa séria com quem quer que fosse. .Não! Não a amo. Sérgio não contava. Durante a condução para casa. – Descobri isso há pouco tempo. várias foram as vezes que Madalena pensou cometer suicídio ou então abrir um buraco para se esconder por debaixo da mesa.Uma modelo que eu tinha fotografado no início do nosso namoro. onde praticamente deixou ver o asfalto da estrada devido às lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos.Não foi bem apaixonar – respondeu Sérgio observando-lhe os olhos cintilantes. entendes?! Mas sei que gosto da companhia dela.. lembraste?! . pensou. Sem mais nada para lhe dizer. . fez-me sorrir nos momentos em que me apetecia chorar e tornou-se numa pessoa importante na minha vida. Foi algo muito casual. Meu Deus! Como o mundo dava voltas e como o destino era tão cruel. – Desculpa! Eu não te queria magoar. e enquanto a tentava assimilar.Não tens que pedir desculpas. Mas infelizmente nenhum dos seus desejos se concretizou e a visão de Sérgio aos poucos e poucos tornou-se cinzenta e deturpada. a revelação não poderia ser mais bombástica. – Vais ser pai… .Vou – respondeu Sérgio encontrando-lhe a mão sobre a mesa.Porque ela está grávida. Ajudou-me imenso quando me senti em baixo. até hoje não sei se sou apaixonado por ela.Na altura não! Claro que não… – respondeu Sérgio temendo ser mal interpretado. .Mas não a amas. . Quatro semanas! De facto. até porque se ele continuasse a olhar para si ou se atrevesse a proferir qualquer outra palavra de arrependimento. trocámos números de telefone e fomos nos conhecendo melhor. o fim do que poderia ter sido e não foi. Era o fim. . – Mas depois que terminámos por causa daquela história da Sara.foi tudo o que ela conseguiu murmurar enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas.

. mas a verdade é que desde que ela saiu cá de casa a minha vida melhorou e eu não quero ter que voltar ao ponto de partida. Afonso saltou do sofá e alcançou o corrimão das escadas pronto a descobrir que raios se tinha passado com ela. eu realmente não quero saber da Sara! Sei que é horrível uma mãe dizer uma coisa dessas. não foi muito difícil chegar ao quarto de Madalena e tocar-lhe à porta.Hoje não. Depois dessa certeza. Preocupado com o comportamento intempestivo da filha. . . – Estava com duas amigas muito mais velhas e parecia que iam a entrar no metro! Bem. cansada de a impedir de sair à noite e de a ver chegar bêbada às tantas da madrugada – afirmou Madalena gesticulando furiosamente os braços. Nenhuma mãe teria aguentado o facto de saber que a filha se andava a prostituir em troca de nada… . . . tu tens a certeza do que me estás a dizer? 177 . .Tenho a certeza que vais querer saber. – Eu tenho a certeza que nenhuma mãe teria aguentado a metade do que eu aguentei. pai – suspirou Madalena voltando-se para ele. não é?! Só tenho que me habituar a ela.Ela está grávida – interrompeu Afonso parando-lhe todos os movimentos. .Pai. por favor … .Talvez assim tenha sido melhor.Vi a Sara.O quê?! .Não sei – respondeu Daniel enfiando o rosto no livro que estava a ler. ela abriu a porta de casa completamente encharcada e largou as chaves sobre a mesinha. .Preciso contar-te uma coisa que vi hoje.A Sara está grávida.Que seja. mas a verdade é que quando fui atrás delas as três desapareceram sem deixar rastro. . mas o que é que querias que eu fizesse mais?! Eu estava cansada de a tentar chamar à razão.Eu não acho.Não. .Mas ela é tua filha.O que é que aconteceu? Algum problema? .convencer-se de que a sua história com Sérgio tinha terminado e de que não lhe restava mais nada a não ser lamentar-se da sua triste sorte. não sei se me viram ou não. – Hoje não! .Já chegaste!? – perguntou Afonso vendo a filha passar pelo corredor como um foguete sem sequer responder à pergunta. As coisas que ela me disse na noite em que se foi embora até hoje estão-me gravadas na memória e eu nunca vou conseguir esquece-las ou sequer perdoá-las… .Podes – respondeu ela apressando-se a limpar as lágrimas junto à janela.Não. – Posso?! . Mas acho que para isso não existe solução.Encontrei-a na zona do Areeiro – continuou Afonso enquanto Madalena passeava atordoada pelo quarto. pai! Tu sabes que eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para impedir que a Sara saísse de casa. – Será que aconteceu alguma coisa com a tua mãe? . E mesmo apesar das pernas cansadas e do esforço de um pobre velho de sessenta e nove anos. .Pai. – O que foi? . A expressão séria de Afonso fê-la hesitar. pai! Não há problema nenhum! O único problema é a minha vida em si.

Parecia ser toxicodependente. .Bem. Lena! É o teu neto.Claro que não – respondeu Afonso perante o desconforto patente nos olhos e nos movimentos de Madalena.E sabe aonde é que ela está? – perguntou Madalena não escondendo a sua ansiedade.Claro que conheço. Mas para com o teu neto!? Ele não tem culpa de nada. – Bem. – Este é o pior dia da minha vida – gritou ela atirando o candeeiro da mesinha contra a parede. e esta senhora aqui é a minha filha. – Eu sou o avô dela.Ai é?! – respondeu o indivíduo coçando levemente os cabelos. o indivíduo não teve dúvidas: . tudo bem. .Mas?! . – Eu pensei que ela não tivesse família. madame! Sabe como é que é! Já são sete horas e um gajo ainda não conseguiu juntar dinheiro suficiente para jantar. e pela barriga.Sei. Se quiserem posso mostrar-vos! É mesmo aqui ao pé… . mas acho que consigo perceber quando uma mulher está grávida ou não – respondeu ele encarando a expressão surpresa de Madalena.Ia precisar de um agrado. Contudo. nem mesmo o desespero patente nos rostos de Madalena e Afonso conseguiram demover-lhes da vontade incomensurável de seguirem em frente. por favor! . .Conhece esta menina? – foi a pergunta. interceptaram todas as pessoas que iam a passar debaixo dos seus chapéus-de-chuva. . a mãe da Sara! Viemos conversar com ela.Eu não acredito nisto. o trânsito mais uma vez estava caótico e as esperanças de encontrar quem tanto procuravam tornou-se remota com o passar das horas. olhos escuros e pele clara. não?! . eu até entendo. mas… .Se achas que não tens qualquer responsabilidade para com a Sara. mas ao chegarem ao final da avenida Almirante Reis. E apesar de a foto estar molhada. Gentilmente. . de cabelos compridos.Claro. Mas acho que ainda deve estar a morar com a Milene na pensão. Era quarta-feira. Afonso aproximou-se dele e em seguida mostrou-lhe uma fotografia que continha a imagem de Sara: . pois não?! . Infelizmente a maioria das respostas foi negativa.Tome – respondeu Afonso entregando-lhe uma nota de dez euros. continuaram a descer a avenida e continuaram também a perguntar se ninguém havia visto uma jovem de dezassete anos. – Leve-nos até lá. há muito tempo que não vejo a Sara. chovia torrencialmente.Sigam-me – exclamou o toxicodependente fazendo um gesto engraçado e permitindo que Madalena e Afonso se colocassem à sua frente. Mais lágrimas foi o que Madalena sentiu a brotarem dos seus olhos. 178 . Afonso interceptou um indivíduo de aspecto algo duvidoso. claro – respondeu Afonso de imediato.. até pelas vestes que trazia consigo e pela barba há muito não aparada.Por acaso – disse o indivíduo mostrando-se bastante satisfeito com a recompensa. já deve ir nos seis ou sete meses. – Acho que isto deve chegar para o jantar à maneira. . Só as amigas dela. Afonso. e aparentava também ainda não ter passado dos trinta. É a Sarita! O pessoal lá do bairro chama-a assim. eu sei que só tenho sessenta e nove anos. – Mas que mal vos pergunte. o que é que vocês querem com a Sarita?! Olhem que é uma gaja fixe! Não lhe vão fazer mal. Madalena e o seu pai. Com uma fotografia na mão. Em duas ruas paralelas. grávida. – A Sara está grávida sim.

demorou algum tempo a apertar-lhe a mão. – Eu não mordo. seguiu-se a vez de Madalena. rapaz – respondeu Afonso permitindo que Madalena entrasse primeiro. vou ter que avisá-las primeiro. a visão de imigrantes dos mais variados países. que ao contrário do pai.. Surpreendentemente ou não.Porquê!? . madame! . .Desculpe. – Mas para vos deixar subir. mas estava! Eu sou o dono desta pensão e aqui ninguém entra sem passar primeiro por mim. – É aqui. vô! Afonso não viu outro remédio a não ser oferecer uma outra nota de dez euros àquele pobre rapaz que apesar de tudo nem parecia ser má pessoa.Eu sei – afirmou Vítor estendendo novamente a mão. todos eles compunham o cenário no mínimo degradante onde Sara tinha escolhido ser a protagonista. um misto de sensações e sentimentos atravessaram o coração de Madalena.Eu sei – respondeu ela encarando-lhe a expressão irónica. Infelizmente. A caminhada em direcção ao bairro do Intendente demorou alguns minutos.Como é que é o seu nome. amigo – respondeu Afonso mantendo Madalena um pouco mais atrás de si a fim de preservar a sua identidade. meu Deus. – Nem sabemos como lhe agradecer… . militar.Sempre a vi sozinha lá no bairro e ela também nunca falou nada. e quando finalmente avistaram a entrada. – Agora é para a sobremesa.Sim! Somos amigos.Obrigado pela ajuda. Depois disso.Não! Nós gostaríamos que fosse uma surpresa.Bem. vestido com um fato de treino azul e uma expressão facial nada amigável assombrou-lhes a visão. . Era a primeira vez que estava ali. – Hei – ouviram uma voz grossa a sair da recepção. rapaz? . Era a primeira vez em quarenta e dois anos que se atrevia a pisar um local como aquele. é?! . elas estão lá em cima… – respondeu o dono da pensão mostrando-se um pouco mais calmo por perceber Afonso e Madalena não eram pessoas ameaçadoras ao seu negócio. e por fim. – Mas não garanto que a Sara e a Milene estejam aí! Podem ter saído! . repleto de lixo espalhado pelo chão. .Hã.Nós viemos procurar uma rapariga chamada Sara e uma outra chamada… . E ao voltarem-se para trás. o seu cumprimento foi imediatamente correspondido pelo ex.Pois. oh – exclamou Vítor alcançando a porta da pensão que tanto tinham procurado. . . um homem de estatura média.Sei! Uma surpresa? 179 . despediu-se dele com um novo aperto de mão e acompanhou a sua filha em direcção às escadas sujas e escuras que ligavam os quatro pisos daquela pensão. essas duas! Conhecem-nas. .Milene – concluiu Madalena quase gelando dos pés à cabeça quando os seus olhos se cruzaram com os do proprietário da pensão. – Não sabíamos que estava aqui alguém. – Aonde pensam que vão? . Agora digam lá! Quem são vocês? . prostitutas encostadas às portas das pensões enquanto seguravam os respectivos chapéus-de-chuva e compunham a pequenez das mini saias. vários toxicodependentes a cambalear pelas ruas. entende?! – interferiu Afonso. Nessa altura.Vítor – respondeu ele abrindo um sorriso enquanto estendia a mão a Afonso.

– Porquê? Algum problema? .suspirou ela. Afonso e Madalena contaram os degraus até o terceiro piso e muitas vezes se viram submersos numa escuridão aterradora. pai! Deixa – exclamou Madalena impedindo que Afonso retirasse mais uma nota da carteira. Para além disso. – Pois não?! . Milene ouviu um terceiro toque na porta e finalmente deu-se por vencida. O que mais poderia fazer para que a amiga se recuperasse da pneumonia contraída cinco dias antes? Nem mesmo as emergências do hospital.Se me derem vinte euros.Como assim?! .…deixa-me ganhar alguma coragem. A porta sofreu dois toques quase seguidos.Você é que é a Milene? – perguntou o senhor. um senhor de meia-idade trajado com um casaco verde-escuro e calças de ganga aprumadas.Deixa-me… . E para piorar o cenário. – Aqui tem os vinte euros. lançou um olhar à cama onde Sara estava deitada e percebeu que a febre e os tremores da jovem ainda não haviam cessado apesar dos antibióticos. .Sim. Depois disso. – Não vais bater à porta? – perguntou Afonso percebendo a hesitação de Madalena. pensou. . Depois disso. . o que também poderia prejudicial para o bebé. os inúmeros remédios que foi obrigada a adquirir na farmácia de serviço ou os panos húmidos para acalmar as febres altas conseguiram melhorar o estado de saúde de Sara. . mas para ser surpresa. não conseguiu produzir qualquer movimento corporal a não ser manter a mão sobre a porta. tornou a afastar-se da cómoda e alcançou a maçaneta da porta girando-a de uma só vez. O número dois. assim como o encontro com a filha após seis meses em que estiveram afastadas e não mantiveram qualquer tipo de contacto.Eu sou a mãe da Sara – interrompeu Madalena para grande surpresa de Milene. O número que para sempre iria ficar gravado na sua memória. ela estava grávida.Pois.Sim.O quarto fica no terceiro andar e é o número dois. até porque desta vez. o cheiro a humidade emanado pelas paredes. sou eu – respondeu a prostituta cautelosamente. A visão que lhe surgiu à frente foi realmente surpreendente. e logo atrás dela. . Esta. era ela quem fazia questão de pagar. Quem quer que fosse não a iria deixar em paz. é mais caro. Raios. . e Madalena pode ter essa certeza quando se viu pela primeira vez à frente do quarto apontado pelo dono da pensão.Obrigada! Sob o barulho ensurdecedor das escadas. algo que prendeu de imediato a atenção de Milene e que a fez largar a revista que tinha nas mãos. Uma mulher de cabelos castanhos pelos ombros vestindo uma gabardina preta e um lenço cor de laranja ao pescoço. eu deixo que façam a tal surpresa e até finjo que não estava cá quando subiram! Mas se não derem… .. ainda atordoada perante tal revelação. – Podemos entrar? 180 . .Não. E foi por isso que sem muitas cerimónias ela saltou do divã encontrando no espelho o único local para compor os cabelos e o decote da sua camisola preta. Há muito tempo que não nos vemos e eu tenho a certeza que elas iriam ficar muito mais contentes se nos vissem lá em cima… de surpresa. a sujidade entranhada em todos os cantos não lhes deixaram quaisquer dúvidas de que Sara tinha escolhido um dos piores lugares do mundo para viver. Enquanto pensava em todas estas tragédias.

.Tudo bem! Eu entendo. e Madalena não resistiu a lançar um novo olhar àquelas paredes vazias. 181 . – O médico que a assistiu disse que provavelmente era pneumonia.Sei que deve estar a pensar horrores deste lugar. .Eu não estou a pensar nada – respondeu Madalena observando os gestos de Milene a retirar as roupas de Sara dos armários. Madalena lançou os olhos a Sara e por momentos quase não a reconheceu.Espero bem que não. – Nós viemos buscá-la – exclamou ela voltando-se para Milene. – Lá é que é o lugar dela! . pai! Vai lá! . ela tinha emagrecido bastante. E só de pensar que tinha sido ali que a sua filha tinha passado os últimos seis meses de vida. aquela era a primeira vez que se sentia tão nervosa perante a presença de pessoas desconhecidas. – Quer tomar alguma coisa? – perguntou Milene prendendo-lhe a atenção.O lugar dela não é aqui e você sabe disso! A afirmação de Madalena não poderia ter sido mais acertada. . – Lena! Importaste de ficar aqui a preparar a Sara enquanto trago o carro para a levarmos? . quando na verdade. não é?! .Eu vou buscar o carro lá acima – disse Afonso voltando-se para a filha. da Sara que todos conheciam. fez-se um silêncio perturbador.Eu não sei se ela vai querer ir – respondeu a prostituta cruzando os braços. a porta do quarto fechou-se com algum cuidado.Para casa. . Infelizmente. claro – respondeu Afonso. mas a febre continua alta! Já não sei o que fazer para a baixar.Claro – respondeu ela após alguns segundos em suspenso. .É grave? – perguntou Afonso debruçando-se sobre a neta enquanto lhe mexia nos cabelos soltos. . Foram precisos poucos minutos para que Afonso abandonasse o quarto e deixasse Madalena e Milene de olhos postos em Sara. Ao vê-los ali diante de si. Enquanto ouvia o discurso de Milene. vulnerável e insegura na presença de Madalena. Milene sentiu-se mais nervosa do que nunca.. Depois disso. os cabelos estavam mais compridos e o rosto de menina inocente transformou-se no de uma mulher obrigada a crescer à força.Ela está assim desde sexta-feira… – disse Milene quando Madalena e Afonso avistaram o corpo de Sara deitado sobre a cama. e em seguida. . já não restava mais nada e foi isso que assustou Madalena. Sempre fora tão segura. não tinha quaisquer razões para se sentir assim. independente e imune à opinião dos outros que era estranho ver-se metida numa situação daquelas.Claro que não. Mas como não havia camas vagas no hospital. Milene percebeu isso quando baixou o rosto e perguntou: – Para onde é que vocês a querem levar? . O facto de a sua filha já não existir. mandou-a para casa e receitou uns medicamentos que tive que comprar ali na farmácia. Nem mesmo os antibióticos estão a fazer efeito. Obrigada! . Era estranho imaginar-se tão pequena. – Entrem! O convite foi imediatamente aceite por Afonso e Madalena. aliás. desprovidas de qualquer luxo ou outros elementos decorativos.Hã… não.Então já vou indo para não perdermos mais tempo. Apesar da gravidez.

Não fiz um grande trabalho. Todas as alegrias que passaram juntas. o que vestir e foi obrigada a ir a todas as consultas pré-natais mesmo quando não queria.Não é preciso – respondeu Madalena de imediato. . – Espere – exclamou Milene interceptando a saída de Madalena do quarto.…eu sei que provavelmente deve achar que eu sou a culpada de tudo o que aconteceu à sua filha. Nessa altura. mas pelo menos fiz o melhor que sabia. Voltaria para casa. confidente e também a única pessoa a quem ousava contar alguns dos seus maiores segredos.. parecia que a sua história tinha tido finalmente um final feliz. . sendo que dali para a frente iria ser praticamente impossível voltar a ver o bairro com os mesmos olhos pois Sara tinha retirado dele todo o encanto. no seu coração. – Eu vou chamar um amigo para vos ajudar a levar a Sara e as coisas dela até ao carro. – Esse meu amigo vem cá num instante! Ele vive aqui ao pé.Eu sei – respondeu Madalena encarando-lhe a expressão mortificada. sabendo bem quem eram as pessoas que 182 . fui eu que tomei conta dela durante estes meses todos.. não foi?! Vá-se lá perceber porquê! Com uma casa de sonho. tristezas e discussões. ficaram-lhe gravadas na memória. Sim. Confesso que até hoje eu nunca entendi. – A sua filha é quase como uma filha para mim embora a nossa diferença de idades não seja assim tão grande. lá isso é verdade. Faltavam poucos minutos para o anoitecer quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta se abriu ruidosamente. na sua companheira. Diante daquele facto irrefutável. mas eu não a recrimino! Eu também sei que este lugar não é nada especial.Vocês são amigas? . As últimas palavras de Milene coincidiram com a saída de Madalena e com as lágrimas que não conseguiu suportar perante a partida da sua melhor amiga. uma família que a tratava bem. eu gosto muito da Sara e nunca quis que nada de mal lhe acontecesse. Sara nem sequer se apercebeu quando foi carregada ao colo por um dos habitantes do bairro e as suas malas foram levadas pelo avô em direcção ao primeiro piso da pensão.Somos – respondeu Milene lançando um olhar a Madalena enquanto dobrava algumas peças de roupas e as colocava na mala de Sara. mas ele não vai conseguir aguentar sozinho com o peso da neta e muito menos com as malas dela.O seu pai até pode ser forte. durante os meses que passaram juntas.Está a pensar sim. Pelo menos ela nunca foi apanhada por nenhum drogado. não é?! – retorquiu Milene percorrendo a sua lista de contactos através do telemóvel. Mas de qualquer maneira. mas mais do que isso. para os seus familiares mais próximos e recuperar-se-ia de todos os fantasmas que durante meses a atormentaram. Nessa altura. poucas dúvidas restaram quanto ao seu destino. nunca foi espancada por nenhum chulo. . Mas foi aqui que a Sara escolheu ficar. teve sempre o que comer.E só para terminar… queria também que soubesse que a admiro imenso! Nem sabe o que eu daria para que a minha mãe também me tivesse vindo buscar ao Intendente. Por estar quase inconsciente devido às fortes febres. Sara transformou-se na única amiga que um dia teve. . mas. A resposta de Milene trouxe um novo silêncio e também um novo olhar de Madalena aos cantos daquele quarto. ninguém em sã consciência iria perceber os motivos que a fizeram largar tudo aquilo para vir morar no Intendente.. . De facto. .

Está bem. não era muito difícil imaginar que lhe faltariam poucas semanas para dar à luz o seu primeiro filho.Até já – disse Afonso encostando a porta com cuidado e deixando Madalena sozinha naquele grandioso quarto com os pensamentos a mil à hora.ouviu-se um murmuro. Era remédio santo. Até porque se pudesse faria tudo de novo. Até já! . Neto.Mãe…. grávida e ainda tinha muito para viver dali para a frente.Vais ficar aí? – perguntou Afonso quando se aproximou do alpendre da porta. esfregando-lhe não só as costas. mas o que ela não contava era que as coisas fossem acontecer daquela forma tão rápida. Obviamente que sempre lhe passou pela cabeça ter netos. mas também as pernas. embora essa fosse a realidade nua e crua. Daniel saltou do sofá e encontrou a visão do avô. . ela pensou. dizia Leonor quando ainda era viva. . seguiram-se as roupas e a certeza de que Sara estava realmente grávida. das pessoas que mais a amavam e que nutriam por ela um amor incondicional. Neto. Um sonho ter a filha de volta e saber que apesar de tudo não lhe aconteceu nada de mal. . enquanto a poucos centímetros. Era a única palavra que ecoava nos ouvidos de Madalena e que por momentos a deixou à beira do desespero por não saber como lidar com aquela nova etapa da sua vida. . Era só com isso que não contava. Afonso levou a neta até ao quarto e colocou-a na cama. Não foi preciso dizer nada. . A contar pela sua enorme barriga. penteou os longos cabelos da filha e passou o chuveiro por eles para que a água retirasse toda a sujidade acumulada durante semanas. Madalena não precisou de mais nada para se sentir a mulher mais feliz do mundo e para ter a certeza que todos os seus esforços não foram em vão quando resolveu procurar a filha e trazê-la de volta a casa. . Com as poucas forças que lhe restavam. ninguém disse absolutamente nada pois o regresso de Sara era algo já há muito esperado.tinham chegado a casa. Madalena resolveu enfiá-la numa banheira de água morna e lavar-lhe o corpo com ervas medicinais que a sua mãe costumava guardar na floricultura. Depois disso. desastrosa e pouco corrente. Mais tarde. Para acalmar a febre e os delírios de Sara. Madalena achou por bem utilizá-las em Sara. a cama encontrava-se pronta para a receber.Só mais um pouco! Até ter a certeza que a Sara dormiu – respondeu Madalena. foi o último pensamento de Madalena quando por fim a conseguiu enrolar numa toalha branca e levá-la novamente ao quarto. Ela estava viva. Parecia um sonho. O que não contava era ser obrigada a buscar a sua filha a um bairro como o Intendente e não fazer a mínima ideia de quem era o pai do seu neto. formar uma família e serem felizes tal como ela um dia também foi. perto dos seus familiares. Sofreria as mesmas angústias. e por ter experimentado essas ervas várias vezes durante a sua infância. ver os seus filhos casar. o primeiro neto de Madalena. 183 . Madalena retirou-lhe os ténis e as meias brancas. os braços. Nessa altura. .O que foi? – perguntou Madalena correndo ao encontro de Sara com o coração aos pulos. passaria as mesmas tristezas e ouviria todas as coisas que nenhuma mãe desejava ouvir nem no pior dos seus pesadelos. Aliás.Mãe… Apesar de só ter conseguido ouvir aquela palavra. e o pijama vestido provou que era altura de Sara se sentir finalmente em casa. e consequentemente. Estava limpa.Então vemo-nos na sala. da mãe e da sua irmã ao fundo do corredor.

Mas a verdade é que…: O que não a matou tornou-a mais forte. o que não a destruiu ajudou-a a reconstruir-se. isso nem chegava aos pés do que ganhou quando passou as mãos pela barriga da filha. veio um enorme sentimento de paz manifestado por Sara. E o que perdeu?! Bem. Depois disso. 184 . se aconchegou nos braços da mãe e se deixou adormecer pela primeira vez sem pensar em mais nada. que muito atabalhoadamente.

como Afonso.Nasceu – disse Jorge não cabendo em si de contente quando abraçou Daniel com força e se atirou para os braços de Alice.Claro – respondeu uma delas recebendo um sinal através do BIP. que muito pacientemente explicaram a Sara todos os procedimentos tidos em conta numa ocasião tão especial como àquela. – Vai correr tudo bem. talvez pela sua inexperiência ou pelo pânico das dores. . pedia ajuda a quem quer que se aproximasse de si e desejava que aquele pesadelo terminasse o mais depressa possível. – Graças a Deus – exclamou Afonso levantando as mãos ao alto.Sara… . E foi precisamente às dezanove horas e trinta e quatro minutos que se ouviu o primeiro berro do mais novo elemento da família.Não! Não me deixes aqui sozinha. Madalena desejou que sim e foi por isso que se voltou para as enfermeiras de serviço perguntando-lhes: . e acima de tudo. cheios de surpresas. a sala já está pronta. um acontecimento devidamente presenciado por todos os membros da família Soares. mãe – gritou ela estendendo a mão a Madalena a fim de a impedir de sair do quarto. Mas Sara. filha – respondeu segurando-lhe as mãos com força. e também por Alice. não conseguiu assimilar nenhuma dessas explicações. sendo intencionais ou não. muita força para conseguir expulsar o bebé para fora. encontrou nos braços do 185 . A preparação do parto foi efectuada por algumas das enfermeiras de serviço. a calma. Apenas gritava. O que será que a filha quis dizer com aquilo? Não seria apenas um medo normal de uma adolescente prestes a dar à luz? No fundo do seu coração. Sara?! Chegou a hora! As cinco horas que se seguiram foram de grande angústia para todos os que estavam presentes na sala de espera.Eu vou estar lá fora. – Bem. Sempre que isso acontecia. – Não te vás embora! Não vás… . .Posso assistir ao parto? . imprimiam-se novas orações e olhava-se para o relógio pendurado na parede. Vamos.Eu tenho medo de morrer. Tenho medo de morrer. a melhor amiga de Madalena. mãe! Fica aqui. Fica aqui! . Tanto Jorge. Em seguida. ainda emocionado. A respiração. alegrias e culminaram com o dia do parto de Sara.CAPÍTULO X Os dois meses que se seguiram foram atribulados. Alice e o pequeno Daniel desesperaram-se com a falta de notícias. fizeram com que Madalena ficasse alerta. mas principalmente com os gritos que de vez em quando irrompiam a sala sem qualquer aviso prévio. As últimas palavras de Sara. – Não. fazia-se silêncio.

Oh pai – exclamou Madalena sugando-lhe a face enrugada. à melhor amiga e ao filho.Podes crer – riu-se Madalena. o médico também e por sorte correu tudo bem! Aliás. Quer dizer. – Como é que foi? Como é que está a Sara? O bebé? Nasceu? Está bem? . . Madalena atirou-se-lhe para os braços e permitiu que ele a levantasse do chão. Jorge olhou mais uma vez para o relógio e retirou as mãos dos bolsos das calças. o que é que conta ser-se bisavô nessa família. avó! .Que bom – exclamou Alice correndo a abraçar a melhor amiga.Era mais fixe se tivesse nascido rapaz – resmungou Daniel não vendo na sobrinha uma boa companhia para jogar à bola. – É linda! . . – É uma menina – disse Madalena passada a confusão.A Sara?! Como é que ela está? – perguntou Alice não escondendo a felicidade estampada no rosto. – Afinal de contas.O. – Mas as enfermeiras ajudaram-na imenso. – Estamos a precisar é de mulheres! 186 . ela estava muito nervosa. não é?! . – Aqui tens o teu conforto! .Tem calma – riu-se Madalena alegremente. avô – disse Alice oferecendo-lhe um novo abraço. Porque é que ninguém saía daquele quarto para lhes trazer notícias. marido e do gesto engraçado que fez ao levar uma das mãos ao peito.ex.Acreditas nisto?! Já sou avó.Quando é que as vamos poder ver? – perguntou Jorge. vocês vão poder passear pela rua sem ninguém perceber essa tragédia. – Está tudo bem. mas como o parto foi natural e não houve quaisquer complicações.Não! Chega de homens neste mundo – disse Alice. as duas estão bem… . foi a pergunta de Afonso enquanto Alice esfregava as mãos de ansiedade e rasgava alguns olhares para uma porta fechada há mais de cinco horas. Ainda não sabemos muito bem quando é que vai ser.Agora estão a limpar a bebé! Depois a Sara vai ser colocada num quarto normal e as duas vão ficar lá até lhes ser dada alta.k. . – Tu vais ser um bisavô fantástico assim como o Daniel também vai ser um tio excelente. – Parabéns.Bem. para além da certeza de que aquele tinha sido o dia mais feliz das suas vidas. eu nem me pronuncio – interferiu Afonso levantando os braços. . – E então?! – perguntou Jorge assim que ela se abriu e a figura de Madalena lhe surgiu diante dos olhos. e mais tarde. Perante a revelação do ex. . .E não vai aqui uma palavra de conforto ao avô?! – perguntou Jorge interrompendo a animação das duas amigas. Mais tarde. . claro! O parto foi longo. – Afinal de contas eu também fui avô antes dos quarenta e cinco. impaciente. . sogro o apoio necessário para extravasar toda a adrenalina que estava a sentir pelo nascimento do seu primeiro neto. forças até tinha. mas vocês sabem que ela sempre foi um pouco preguiçosa… – riram-se todos. até o final da semana espero já estarmos todos em casa. – Nasceu! Os momentos de euforia inicial deram lugar a uma relativa calma. . a uma sensação de que faltavam notícias para confirmar que tudo tinha corrido bem.Cansada.Meu Deus! Pensei que o meu coração não fosse aguentar. Assim quando a tua neta crescer.E ainda nem chegaste aos quarenta e cinco! Isso é bom. cheia de medo e não tinha forças para puxar o bebé. Nervoso. . seguiram-se outros cumprimentos igualmente efusivos ao pai.

. Porque nenhuma mãe consegue ignorar a existência de um filho faça o que ele fizer.Eu sei. . . . Emocionado. Assistiu também ao primeiro banho. Descansa. deixa estar! Eu fico com ela. Levava-te para todo o 187 . . .Não.Que chorão que você me saiu. .Quando a porta se mexeu com um pequeno guincho. – Não te largava nem sequer para ir à casa de banho. filha – afirmou Madalena mantendo a neta no colo.Estive a pensar – respondeu Sara ajeitando os lençóis sobre o colo. Afonso – exclamou Jorge tentando desanuviar o ambiente do quarto. . Madalena decidiu passar a noite na clínica para ajudar a filha em tudo o que ela precisasse.Já escolheste o nome? – perguntou Jorge completamente embevecido pela neta. Ao contrário de todos os outros. o ex. à primeira mamada e observou Sara dormir como uma pedra durante horas sem sequer acordar quando a pequena Leonor abriu o berreiro um pouco antes das quatro da manhã. – Agora é que vais ver o quanto custa ser mãe – disse-lhe Alice enquanto todos paparicavam os gestos e as mãozinhas delicadas da bebé. – Qualquer coisa e chora logo! . – Era para teres ficado contente. Mas a verdade é que ela não ignorou e a outra verdade é que Sara começava a perceber o porquê. foi a primeira a salvá-la dos perigos e também a primeira a perdoá-la quando tudo o que deveria ter feito era ignorar a sua existência. Impressionante como em tão pouco tempo a sua vida mudou apenas com a existência de um novo ser. hã Sr. Nessa altura.Não a largas para nada! Parece que ficaste viciada nela. não sabes! Mas vais saber. – E também já tinha falado com a mãe mais ou menos sobre o assunto… . . – Ela acordou? – foi a primeira pergunta que a jovem mãe fez ao ver Madalena a passear a bebé pelo quarto.O quê!? . – Oh avô! Não fiques assim – disse Sara correndo a abraçá-lo sobre uma das pontas da cama. A homenagem não poderia ter sido mais nobre e foi por isso que Afonso não se conseguiu conter.Agora mesmo! Mas não acho que seja fome.Só espero que não seja Gertrudes – brincou Alice. . militar tirou um lenço do bolso das calças e tentou esconder as lágrimas para que ninguém o visse a chorar. Como todas as coisas que anteriormente não faziam sentido passaram a fazer e como desejava entregar à sua filha tudo o que tinha de melhor.Ele ficou contente. Sara esgueirou o pescoço através da cortina e aguardou ansiosamente a entrada dos seus familiares no quarto.Não – riram-se todos.Não.Já não tenho idade para estas coisas – respondeu ele arrancando uma risada geral. a sua filha já se encontrava deitada num pequeno berço ao lado da sua cama e as primeiras horas da maternidade começavam lentamente a infiltrar-se na sua mente. Já se acalmou. Impressionante. todas as dores sofridas durante o parto tinham desaparecido.Impressionante – riu-se Sara.Havias de me ver contigo quando nasceste – respondeu Madalena correspondendo ao sorriso da filha. . – Eu queria que se chamasse Leonor! O nome da avó. Durante muito tempo ela esteve cega ao não dar valor à sua mãe e só agora começava a perceber o quanto errou ao não fazer isso. pois Madalena foi a primeira pessoa a estenderlhe a mão nos momentos em que mais precisou.Dá-ma! . .

já não havia mais espaço ou tempo para errar.E tu?! O que é que respondias? . que tal como se era de esperar. . natais. Sara principalmente. prestes a completar dezoito. mas foi assim que me senti – Madalena manteve-se calada.Vais-me ajudar a fazer tudo isso. – Eu quero tratarme – ela continuou com os olhos rasos de lágrimas. .Por todas as coisas que te fiz. adquirido novas experiências e utilizado essas mesmas experiências para seguirem em frente e reparar os erros do passado. De facto. arranjar um emprego que dê muito. passagens de ano e vários outros acontecimentos sempre relembrados em álbuns de família e afins. Acho que… só queria provar a mim mesma que não precisava de ti e que podia muito bem viver sem a tua ajuda.É claro que vou! Vou-te ajudar em tudo o que precisares… – respondeu Madalena oferecendo-lhe a mão e sentindo nela um calor especial de um beijo. tinham crescido enquanto pessoas. Jorge e Madalena esmeraram-se na preparação da festa.lado e as pessoas até chegavam a perguntar-me: Não te cansas de a ter sempre no colo? Não queres ter uma vida própria? . O baptizado da pequena Leonor foi comemorado seis meses mais tarde com toda a pompa e circunstância.Porquê?! . não vais?! . Perante a resposta de Madalena. onde já haviam sido vivido alguns dos momentos mais felizes das suas vidas.E depois quero voltar à escola. foi a conclusão tirada por ela quando Leonor se enterrou nos seus ombros e a figura de duas pessoas muito especiais atravessaram os portões da casa. Contudo. – Não faças tantos planos de uma só vez. Quero que a Leonor tenha orgulho de mim… . – Queria pedir-te desculpas… . foi realizada no grandioso jardim da casa.Que a minha vida eras tu.Meu Deus – riram-se as duas. terminar o décimo segundo. estúpido e egoísta da minha parte. A destacar: os baptizados de Sara e Daniel. A primeira tentativa era a única e dali para a frente iria ser sempre assim. e contou com a participação de inúmeros convidados. Tinham aceitado o seu convite apesar das relutâncias e trouxeram consigo não só vários presentes como também uma bela menina de sete anos. Eu sei que foi horrível. e com uma filha nos braços. mas sim a semelhança que aquela menina parecia ter com a sua filha. 188 . colegas de trabalho e um número quase incalculável de animadores infantis contratados para a ocasião. entre os quais. . ir para a faculdade. amigos. familiares próximos. os churrascos domingueiros. as festas de aniversários.Ela vai ter – respondeu Madalena forçando-lhe um sorriso. Eram elas.disse ela num tom de voz quase sumido. Sara sorriu e deixou-se contagiar por algumas lágrimas teimosas. pele morena e um vestido azul clarinho que em muito acentuavam a sua beleza e inocência. Agora todos tinham atingido um patamar completamente diferente. não foi o vestido que mais chamou a atenção de Sara. mas mesmo muito dinheiro… . – Quero curar-me e ser uma boa mãe para a minha filha tal como tu também sempre foste uma boa mãe para mim. Aos dezassete anos. por todas as coisas que te disse! Eu não sei o que é que me passou pela cabeça. Mas agora os tempos eram outros. repleta de cabelos cacheados.

Obrigada.Daniela e Leonor! Ai. Envergonhadamente.Porque é que nunca me contaste? .Não. o meu destino – riu-se Arlete enquanto se afastava em direcção a uma das inúmeras mesas de doces espalhadas pelo jardim e deixava Sara e Milene de olhos postos na outra à espera de forças para terem uma conversa que há muito já deveriam ter tido.Claro – respondeu Sara entregando a sua filha nos braços de Arlete. Daniela obedeceu ao pedido da mãe e beijou a face de Sara. – Na altura estavas apaixonada por ele e irias acabar por contar. . – Serve-te à vontade.Podias ter-me contado.Ias sim – interrompeu Milene encarando-lhe o rosto. .Se eu te contasse tu irias contar ao Marco. .A Daniela é a filha do Marco. .É – respondeu Milene baixando os olhos.Leva a Daniela também – pediu Milene. . . principalmente o Marco – respondeu Milene compondo os longos cabelos.foi o cumprimento de Sara às suas amigas. . .Sabia – respondeu a criança arrancando uma risada geral. – Milene! Arlete! Que bom que vieram… . pá! Até acho que já perdi o jeito.Bem. – Esta é que é a tua filha? .Há tanto tempo que não agarrava numa bebé. . – Quando eu descobri que estava grávida. A Daniela! Uma outra famosa.Posso segurá-la ao colo? . .Então aquela história de teres engravidado do teu patrão no restaurante onde trabalhavas… . – Toma! Para a bebé. a mesma pele mulata e o mesmo sorriso. não ia… .Era como se estivesse a ver Leonor dali a sete anos.Era tudo mentira! Foi uma mentira que eu inventei lá no bairro para que ninguém soubesse a verdade. . com um sorriso carinhoso. mas naquela noite ele tinha bebido demais por causa da morte do irmão e… acabou por descarregar as frustrações em cima de mim.Sim. Daniela dá lá um beijinho à amiga da mãe. Sabias?! .Pois é.Então esta é que é a famosa Leonor!? . até tentei contar-lhe.E tu.Vai lá – disse Sara. Bateu-me! Bateu-me mesmo muito! Quase morri e quase que perdi o bebé também – discursou Milene com um longo suspiro. .Tínhamos que vir! Afinal de contas não é todos os dias que… senhoras como nós são convidadas para baptizados. . não é?! – respondeu Arlete mostrando um pequeno embrulho a Sara. . não é?! . Daniela. enquanto a última. – Foi então que eu 189 .Porque eu não queria que ele soubesse e também… não queria que tu soubesses. Milene?! – indagou Sara voltando-se para trás. E eu não queria que o Marco soubesse que eu tinha tido uma filha dele. . mesmo se essa não fosse a tua intenção. afagou-lhe os cabelos compridos dizendo: . aquela mesa de doces está-me a chamar – interrompeu Arlete compondo os seus cabelos volumosos.És muito bonita. com os mesmos cabelos cacheados. .

. não sejas má – riram-se os dois. uma das únicas adultas suficientemente infantis para se maravilhar com um bolo recheado de chocolate.Bem.Que resposta? – perguntou ela deliciando-se com a voz do ex. . já juntei um bom dinheiro que me vai safar até encontrar um emprego decente e… quero começar a aproveitar a minha filhota. e por esse milagre. onde tal como se era de esperar encontravam-se todas as crianças e também Arlete. . mas esqueceram-se que a verdadeira paz e conforto.conheci a Arlete. Trabalhei numas porcarias.Verdade! Decidi-me há coisa de um mês. . . tanto Sara como Milene finalmente encontraram a paz e o conforto que durante meses procuraram incessantemente. . Depois. mulher a sós desde o início da festa. em bebedeiras e em festas desregradas.Tal como nós… Enquanto se abraçavam e se tentavam abstrair do barulho infernal inerente àquele jardim. tudo bem! Eu dou-te a resposta. Só que eu e a minha mãe nunca nos demos lá bem e eu também não estava para aturar as cenas dela. Por isso. . . haviam-nas procurado nos braços de vários homens. fugi para o Porto. baixinho. marido atrás de si. essas só podiam ser encontradas dentro delas próprias e ao lado das pessoas que sinceramente as amavam.Tal como nós. Ela disse-me que eu podia ganhar bem mais a trabalhar como prostituta e eu aceitei porque estava desesperada e também porque a minha mãe não parava de me pedir dinheiro para continuar a tomar conta da miúda. . De qualquer maneira. E foi assim que entrei na vida.Verdade?! . Não te faças de desentendida! Desde a minha viagem a Bruxelas que tens andado a fugir. e agora.Lena.k. Ali estava Madalena a arrumar os pratos e os copos de plástico sujos pelos convidados quando ele se aproximou e lhe segredou aos ouvidos uma frase que tinha vindo a projectar desde há meses: .Eu acho melhor esperarmos até a Leonor ir para a faculdade. as nossas histórias não são assim tão diferentes… . Antes. Foi a única que ficou a saber da verdade. – Vou largar a vida – disse Milene após o longo abraço que recebeu de Sara. . . por isso voltei outra vez para Lisboa. depois. Era a primeira vez que conseguia apanhar a ex.Fazes bem.Mas não agora – respondeu ela passando-lhe as mãos pela camisa. e tive lá a Daniela. Jorge congratulou-se. ganhei misérias de ordenados e já estava a ver a minha vida a andar para trás até encontrar a Arlete outra vez.Tens razão – concordou Sara aceitando-lhe a mão e atravessando com Milene todo o jardim em direcção à mesa dos doces. Primeiro por causa da volta da Sara.Não?! 190 . .Então quer dizer que as nossas filhas são irmãs!? .Até que enfim. por causa do nascimento da nossa neta. tal como vez. Ela encontrou-me na rua e levou-me para o hospital. já estou quase a chegar aos trinta.Tu sabes bem.Ainda não me deste a resposta. não tens mais escapatória.São – riu-se Milene para não chorar. .O. para a casa da minha mãe. . acho melhor irmos ter com a Arlete senão ela acaba com os doces.

Não! Hoje à noite. E mesmo o jardim sendo pequeno para tantos convidados.Se continuares assim ainda vais acabar sozinha. aparece no meu quarto. tenho os meus filhos… . . .Sabes de uma coisa?! .Tenho o meu pai. tenho-te a ti! . depois da festa. Ao perceber quais eram os intentos da ex. Depois disso. Alice! Rápido! Sem cerimónias e enquanto se riam a bom rir. Fim 191 . Jorge sorriu e afastou-se dela com a máxima discrição. . . Mãe ouviu-se a voz de Sara.E se mesmo assim não me restar mais ninguém. – Em primeiro lugar. . . a verdade é que sobrou um espaço enorme nos corações de todos aqueles que ficaram eternamente registados naquela fotografia.Tens a certeza? .O quê? . Anda tu também. Lá eu dou-te a resposta. – Obrigada por me teres colocado em último lugar. casal quando se aproximou da melhor amiga e a surpreendeu com um sorriso malicioso nos lábios. .exclamou Alice interrompendo os olhares do ex.Não acredito que ainda andas a enrolar o gajo… . Madalena e Alice correram ao local e não tardaram a misturar-se com as cerca de oitenta pessoas especialmente convidadas para assistir ao baptizado da pequena Leonor.Lá isso é verdade – riram-se as duas.. .Não estás? .Mas quem disse que eu estou sozinha? .Também. o que de facto não tardou a acontecer. .Claro que não – afirmou Madalena passando um dos seus braços pelo ombro da melhor amiga.Eu não ando a enrolar ninguém.Tenho a minha neta que é a coisa mais linda do mundo. . voltou-se novamente para trás e acenou de longe ansiando que Madalena correspondesse de igual forma.Sim.Uau – exclamou Alice arrancando-lhe uma leve risada. depois de todos já estarem a dormir. mulher.Só precisava de tempo para me decidir! Mas esse tempo demorou mais tempo do que eu estava à espera – respondeu Madalena arrancando uma ruidosa gargalhada a Alice. – Anda! Vamos tirar uma foto de grupo.

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