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UM MAR DE ROSAS

RAQUEL RODRIGUES

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“Qualquer semelhança entre factos e personagens* não é uma mera

coincidência. Este romance é um retrato fiel de um dos acontecimentos mais infelizes que se passaram na minha família em princípios de 2000 e do qual todos os intervenientes saíram profundamente afectados. Mas tal como em qualquer outra família, os laços que unem uma mãe a uma filha dificilmente são destruídos. São antes eternos e capazes de ultrapassar os maiores obstáculos. Por isso, um conselho que ofereço a todos os que lerem este romance é que aproveitem cada página porque todas elas me trouxeram risos, lágrimas e um prazer inenarrável de escrita…”

* Apenas os nomes das personagens são fictícios.

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4 . Infelizmente terminou e não deixou nada de bom a não ser os dois filhos do casal. tomar um banho e acordar os filhos para a escola. em frente ao espelho da casa de banho enquanto analisava os primeiros fios de cabelo branco. Muitas vezes. Jorge era um advogado de quarenta e dois anos que ganhava a vida a defender empresários corruptos e outras pessoas de carácter no mínimo duvidoso. Madalena dava-se consigo a pensar se realmente tinha feito tudo o que estava ao seu alcance para manter um casamento. o que não deixava de ser um dos requisitos fundamentais para ser o melhor na sua profissão.CAPÍTULO I As chuvas torrenciais e as fortes trovoadas não a deixaram dormir durante a noite. realmente não restou outra alternativa a Madalena a não ser pedir os papéis e tentar encontrar alguma paz de espírito. marido? E os filhos? Também não deveria ter pensado neles? Na verdade. era no entanto estável e confortável. com o trabalho e com as amantes que arranjava aqui e ali? Diante de tudo isto. Mas infelizmente não deu. cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros. na verdade. até porque o seu único objectivo era oferecer-lhes uma família “normal”. olhos escuros bem delineados. também ele tinha um carácter duvidoso. Infelizmente tinha chegado a hora de levantar. uma mulher de quarenta anos. Traições. marido se mostrava muito mais preocupado com o próprio umbigo. Bem. e para o cúmulo dos cúmulos. Essa era a rotina de Madalena Soares. quando estava prestes a adormecer. e Madalena descobriu esse carácter ao fim dos dezasseis anos em que esteve casada com ele. Mas como poderia oferecer essa família se o ex. faltas de respeito e negócios esquivos envolvendo uma assinatura sua. Seis horas e quarenta e cinco minutos. de quinze anos e Daniel de dez. ditaram o fim de um casamento que tinha tudo para dar certo. Sara. ela passou anos e anos a pensar nos efeitos que a sua separação teria em Sara e Daniel. que apesar de há muito não ser feliz. o despertador tocou ruidosamente. uma excelente forma física tamanho trinta e oito e que já havia superado um divórcio e todas as frustrações que rodearam a sua vida durante os anos em que esteve casada com Jorge Albuquerque. Será que tinha jogado todas as cartas que possuía na manga? Será que não deveria ter engolido o pouco do orgulho que lhe restava e tentar salvar as cinzas de um amor que parecia adormecido aos seus olhos e aos olhos do ex.

E enquanto ignorava o barulho ensurdecedor dos desenhos animados que passavam na televisão e do mp3 que Sara fez questão de ouvir aos altos berros. o elemento mais novo da família.Eu também quero – interferiu Daniel. cintos de segurança colocados e o trânsito infernal na segunda circular. contou até dez e continuou a preparar o pequeno-almoço a toda a velocidade.Perguntei se não era hoje que ias ter um teste.Mas eu já ia … . Seria pedir muito que a sua filha também fizesse o mesmo consigo? O pequeno-almoço da família foi degustado em meia hora e depois disso seguiu-se a correria em direcção ao carro debaixo de um frio de cortar à faca.O quê?! . nunca ousou levantar a voz aos pais e muito menos desrespeitá-los diante de quem quer que fosse. – Não era hoje que ias ter um teste? – perguntou Madalena parando o carro diante de um sinal vermelho. . .Tosta mista.Não sei. De resto. ela percebeu que havia pelo menos seis meses que a filha fazia questão de a contrariar em tudo. – Ouviste-me – insistiu a mãe sacudindo-lhe o braço.Eu como lá na escola. 5 . já que mais uma vez Sara se encontrava com os malditos auscultadores nos ouvidos. tentava convencer-se disso. . Com quinze anos tudo o que fazia de mais escabroso era faltar às aulas de vez em quando para passear pelas lojas da cidade com as suas amigas. .Já estás a comer os cereais por isso não tens espaço para a tosta – respondeu Madalena alcançando a embalagem do pão de forma. queres a tosta com duas fatias de fiambre ou só uma… ..Cereais. . – Sara. Portas abertas. acho que prefiro os cereais – respondeu a jovem alcançando os Kellogs sobre a mesa.Sim – respondeu Sara baixando o volume do mp3. A pergunta não obteve qualquer resposta. tal como já vinha acontecendo há meses. . Ao ouvir a resposta da filha. Sara viu-se obrigada a acatar as ordens da mãe. Acho que sim.Nem penses que vais sair de casa sem comer – respondeu Madalena poisando o fervedor de leite sobre a mesa.Já disse que não! Senta-te e come como deve ser! Após um longo suspiro. Madalena deu-se por vencida e voltou a guardar a embalagem do pão de forma num dos muitos armários da cozinha. .Sabes. – Queres cereais ou uma tosta mista? – perguntou Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou. Mas a verdade é que Madalena não se lembrava de ter sido uma adolescente tão problemática e muito menos de ter dado tanto trabalho aos seus pais. foram os ingredientes para começar bem o dia enquanto o rádio divulgava as primeiras notícias da manhã e os ponteiros indicavam que havia pelo menos vinte minutos que estavam presos numa fila de quase dez quilómetros. . Depois disso.Não tenho fome – foram as primeiras palavras de Sara quando entrou na cozinha e encontrou a mãe a preparar o pequeno-almoço. . pensando melhor. É da adolescência. mãe! Já disse que vou comer cereais. – É mais rápido. .Estudaste?! .

. para quê?! Para o teste… .Vamos passar o fim-de-semana em casa do pai? . . Realmente nada a que já não estivesse habituada durante os seis anos em que dirigia aquele negócio. As notícias no rádio transformaram-se na banda sonora perfeita para que Madalena levasse os filhos à escola. Diz! Fiz-te alguma coisa? . eu peço-lhe para me trazer a Playstation! Não passo mais uma semana sem ela. Passava já das nove quando ela conseguiu chegar ao local pretendido..Estás sim! Já viste a maneira como tens andado a falar comigo ultimamente? Quase com quatro pedras na mão. – Assim pelo menos passaste menos tempo em frente à televisão e estudaste mais.Já disse que não é preciso – respondeu Sara atravessando a rua sem sequer olhar para trás. – Ele ainda não ligou a avisar se vos vem buscar ou não. – Preciso ir buscá-la.Mãe. .Para quê? . . e a primeira paragem.És mesmo parvo – adiantou-se Sara empurrando-o contra os bancos de trás. Ninguém acha que estudou. senão fujo de casa… . . Publicidade. podes dizer-me e nós podemos conversar sobre isso para tentar… . . Água. .Eu não estou irritadiça.Se o pai não nos vier buscar este fim-de-semana. .Vou torcer por ti! . . Devias esquecê-la mais vezes para ver se me consegues levantar as notas a Português e a Matemática. e ao abrir a porta.Porque não me apetece – respondeu Sara fulminando-a com os olhos.Achas?! Ou se estuda ou não se estuda.Porque se fiz. Seguro. – Porque é que estás tão irritadiça nestes dias? .Não sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos quando percebeu a vontade de Sara em mudar de assunto. Sem outro remédio. foi o colégio de Sara. por ser a mais próxima. surgiu-lhe à frente a visão sempre assustadora da correspondência acumulada durante o fim-de-semana.Eu deixei a minha Playstation lá – interferiu Daniel esgueirando o pescoço em direcção aos bancos da frente. ela abaixou-se e alinhou as cartas e jornais com um suspiro de cansaço por uma semana que só na altura tinha começado. Um acidente numa das pequenas ruelas da cidade obrigaram Madalena a optar por um outro caminho infinitamente mais longo em direcção à floricultura que dirigia ao lado da melhor amiga e que outrora havia pertencido à sua mãe. – Boa sorte – exclamou ela quando a filha abandonou o carro levando a mochila às costas.declarou Daniel sob as risadas da mãe.Não. não me apetece falar. .Não precisas desejar-me sorte.Oras.Posso te fazer uma pergunta? O silêncio da filha fê-la avançar nos seus propósitos. 6 .Sabes que eu até acho que foi muito bom teres esquecido aquela maldita Playstation na casa do teu pai!? – respondeu Madalena.Porque não?! . .

especialmente os vindos do ex. uma das avenidas mais nobres da cidade lisboeta repleta de buzinas dos carros em hora de ponta.Nem sabes como te invejo – riram-se as duas. casamentos ou outras datas especiais que as pessoas faziam questão de celebrar com flores.É daqui a quatro meses se não estou em erro. .Para a tua informação. Louca do jeito como a D. Não seria esse facto demasiado deprimente para a dona de uma floricultura? Ela achava que sim. eu já tinha chegado há muito tempo.Por favor. Mas um súbito ataque cardíaco e posteriormente a sua morte trouxeram à filha um dilema que poucos apostaram que ela fosse conseguir resolver.Tinha-me esquecido completamente desse casamento. iluminado e ficava situado em plena Avenida de Roma. Temos já que começar a contactar com os fornecedores para termos tudo pronto a horas. marido de Madalena pois ele desejava ardentemente que a mulher continuasse a ser a perfeita dona de casa sempre atenta às suas necessidades e às dos filhos. faz isso! Temos uma reputação a manter… – riram-se as duas amigas. Só estava ali no café a tomar o pequeno-almoço.Porque ela ficou de cá vir para escolher uns arranjos para o casamento da filha. Madalena decidiu aceitar o desafio e para isso contou com a preciosa ajuda da sua melhor amiga. . veio um certo sentimento de alívio e uma necessidade de auto afirmação que nunca pensou existir dentro de si. Obviamente que os apoios não foram muitos. era o que muitas vezes dizia à melhor amiga.O espaço era amplo. Manter ou não manter o negócio da família? Mediante o aconselhamento do pai. Beatriz é. Beatriz já telefonou? . Impressionante como um casamento nos pode fazer perder a nossa própria identidade. Todos os dias surgiam encomendas. Cortadas essas amarras. mas o que poderia fazer se até à data não havia encontrado nenhum homem minimamente interessante para lhe oferecer flores? – Até que enfim chegaste – disse uma voz jovial entrando pela loja adentro. esta ainda continuava a gerar lucros atrás de lucros. . Anos depois. . aniversários. de resto.Não! Porquê?! – perguntou Madalena largando as cartas sobre a secretária. ainda é capaz de nos furar os tímpanos se não tivermos todos os arranjos feitos dentro do prazo. .Pois eu atrasei-me a levar os miúdos à escola. da movimentação frenética das pessoas e dos prédios. Mas a verdade é que Madalena não foi na conversa e conseguiu levar a sua adiante livrando-se das amarras que a mantinham presa a uma casa quase sempre vazia. . havia pelo menos dois anos que Madalena não recebia flores de ninguém. . . o casamento terminou.A D. 7 . . que na altura também se encontrava desempregada e à espera de dias melhores. que apesar de serem antigos. . primavam pelo bom gosto e pelo requinte de quem não se importava de pagar muito para viver bem. .O mesmo digo eu de ti – respondeu Madalena terminando de analisar a correspondência sobre a secretária. Alice Santos. mas a floricultura deixada pela mãe. Mas por mais irónico que parecesse. uma das poucas pessoas que sempre acreditou nas suas capacidades.Ainda bem que não tenho filhos – exclamou Alice pendurando o casaco no bengaleiro. A floricultura de Madalena era também uma das mais visitadas da avenida. até pela excelente relação que a sua mãe mantinha com as clientes mais antigas e que fez questão de cultivar ao longo dos quarenta e cinco anos de existência da loja.Hoje mesmo vou ligar ao fornecedor.

muitas vezes Madalena e Alice foram obrigadas a concordar com tudo o que ela dizia: E sim. – Tudo vai ser feito como o combinado. Mas por sorte. – Voltamos a falar daqui a duas semanas para saber como é que está a correr a história das flores – disse Beatriz levantando-se de uma cadeira onde esteve sentada durante três horas. sendo que naquela segunda-feira não foi excepção. Mas agora que ela já não está aqui entre nós. …claro – respondeu a última apertando a caneta que tinha nas mãos. algo que Beatriz fez questão de discutir com a floricultura contratada para o efeito. – O vestido.Trigo?! Porquê? . Flores do campo. não se esqueçam de nos arranjar suportes para os arranjos… . – Todas as mulheres da nossa família sempre escolheram arranjos de trigo porque simbolizam sorte e prosperidade. argumentos e alguns comentários mais ou menos hilariantes. . D. – Não é. – Tudo tem que estar perfeito… – dizia Beatriz. e a igreja escolhida para que os cerca de duzentos e cinquenta convidados por Beatriz.O casamento de Joana Dias estava marcado para dali a quatro meses. não foi o que disseram?! . Outra coisa. a entrada de um outro cliente na loja apressou a saída de Beatriz e Joana e trouxe de volta a paz de espírito que Alice e Madalena perderam durante aquela interminável conversa. que Deus a tenha. uma legítima tia falida do jet-set. Beatriz Dias. ou pelo menos as suficientes até que Madalena e Alice deixassem as divagações das duas clientes falar mais alto.Não.Hã. o único detalhe a acertar era o arranjo das flores e a decoração da igreja. – Além disso. – Os nossos fornecedores fabricam esses suportes sem custos adicionais. e pelo amor de Deus. Quero que saibam que só aceitei trabalhar com esta floricultura porque conhecia a mãe da Madalena há muitos anos e foi ela quem me arranjou as flores para o meu terceiro casamento. A conversa prolongou-se por mais algumas horas. quanto a isso não se precisam preocupar – respondeu Madalena apontando todos os pedidos num pequeno bloco de notas.Sim! A cerimónia vai ser de manhã. e tal como se era de esperar. Beatriz – adiantou-se Alice beliscando o braço de Madalena a fim de tentar trazê-la de volta à realidade. . a responsável pela organização de todo o evento.É claro que não se vai decepcionar. espero não me vir a decepcionar… . De facto. 8 . a luade-mel e outros assuntos tão interessantes como o modelo da lingerie que a noiva estava disposta a vestir na sua noite de núpcias. A boda. Ao ouvirem as suas ideias. Sim. O vestido foi adquirido numa viagem que fizeram a Paris. Tudo iria ser feito para a agradar.Pois ficam a saber! E ficam também a saber que vão ter que arranjar algumas espigas para colocar nos arranjos da igreja e também no local onde se vai realizar a boda.É uma superstição – respondeu Beatriz à pergunta de Alice. Não sabiam? . foram dissecados até à exaustão e fizeram as duas funcionárias da floricultura revirarem os olhos vezes sem conta.Por acaso não. estávamos também a pensar em utilizar arruda ou trigo no meio dos arranjos. por isso é bom que sejam flores do campo em tons neutros. Lena? . Sim. foi a mãe. a boda e também as flores que vamos utilizar na decoração da igreja. o local da boda reservado numa Quinta em plena vila de Sintra. claros e suaves – informou a noiva.

. Não se demorem – gritou Madalena aos filhos quando ouviu a campainha tocar. . .Não me irrites – resmungou Madalena lançando os olhos ao carro do ex. obriguem o vosso pai a fazervos todas as refeições. e depois disso seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à porta.De qualquer maneira.Bem. – Ainda temos muitos outros detalhes a acertar.Uma amiga!? – indagou Madalena levando a mão ao peito. não é mãe? . até porque a vontade de estar com Jorge era nula.Não é assim tanto tempo – exclamou Joana retirando os óculos escuros da mala. – Nem um minuto a mais. . marido a estacionar em frente ao jardim. . que educação… . . Apesar da chuva miudinha foi visível que o motor ainda estava trabalhar..Sim – respondeu Jorge. – Podemos ir? . – Chegaste cedo – abriu ela a porta.Que seja! Simplesmente não quero. ao fechar uma das janelas da sala. mulher foi peremptório e não deixou outra escolha a Jorge a não ser baixar os braços e aguardar a chegada dos filhos à sala. – Deixaste as luzes acesas? – perguntou ela.Uma amiga. – Não fiquem acordados até tarde.Oito e um quarto – respondeu Jorge lançando os olhos ao seu relógio de pulso. Madalena observou o carro do ex. senão imagina o que era?! Íamos logo à falência. – Então!? Já estão prontos? . . – Meninos! O pai já chegou. – Que tipo de amiga? .Escuta Jorge! Eu não quero que ponhas os meus filhos a conviver com as tuas amigas.Claro. Deveria ficar contente por vê-lo? Obviamente que não. ainda temos muito tempo até ao dia do casamento – respondeu Madalena levando mãe e filha em direcção à porta. – Tenho alguém lá dentro. nem um minuto a menos.Claro – murmurou Madalena não querendo relembrar à sua cliente que ela já estava na falência há muitos anos e que o único motivo para aquele casamento tão apressado era o facto de não se querer afundar ainda mais. Ainda agora vamos falar com a empresa que está a organizar a decoração da igreja e depois vamos também tratar da impressão dos convites.Claro.Entra lá! .…uma amiga. – Já estava a ver que nunca mais – disse ele recebendo um beijo de cada um. assim como o desejo de lhe ouvir a voz ou até mesmo o barulho das chaves que ele fazia questão de manter nas mãos enquanto ordenava a Sara e ao Daniel para que se despachassem e não o fizessem esperar em demasia numa sala que durante quinze anos também foi sua. 9 . Por sorte.Portem-se bem – adiantou-se Madalena sugando as bochechas de Daniel enquanto ele vestia o casaco a uma velocidade fantasmagórica. encabulado. . ou melhor. Já vai. . os pais do meu genro é que estão a pagar todas as despesas. São mais de duzentos e com certeza vai sair um balúrdio. . O olhar da ex. Na sexta-feira seguinte. façam os trabalhos de casa e comam todas as refeições. foi a resposta ouvida.Os nossos filhos queres tu dizer. marido. .Já – respondeu Sara levando a mochila às costas.Alguém!? .

Diante daquela possibilidade no mínimo assustadora. . . Jorge. mulheres. .Está bem.Confesso que estava curiosa para a conhecer. .. – O pai traz-nos no domingo à noite. duas lágrimas caíram-lhe dos olhos e ela não teve outro remédio a não ser detê-las com as mãos. mas infelizmente os seus intentos não surtiram qualquer efeito no momento em que o carro arrancou e a rua tornou a ficar deserta. e foi também o tempo necessário para que o calor regressasse em força em todos os pontos do país. Quando a porta da rua se fechou com um pequeno ruído.Nem tanto assim – defendeu-se o advogado tentando esquivar-se aos olhares aterradores que a ex. meninos – exclamou Jorge lançando um último olhar à ex. A sua melhor amiga tinha razão quando lhe disse que era mil vezes mais fácil para os homens refazerem a sua vida após um divórcio do que para uma mulher depois dos quarenta. – Só falo de vez em quando.Tchau. pois acabaria sozinha e sentada naquele sofá até ficar velha e caquéctica. 10 . Madalena aproximou-se da janela e observou a caminhada do ex. cada semana ou cada mês. Sim. – Tchau. muito prazer – sorriu ela estendendo a mão a Madalena. não é?! . Abril. Madalena lançou os olhos as paredes e sentiu-se pela milésima vez sozinha. – Porque o Jorge está sempre a falar de si e dos vossos filhos.Não sejas mentiroso.Porquê?! . Cada dia que passava. São só dois dias. Lena! . – Madalena o seu nome. Alta como uma torre. e apesar da relutância.Oras… .Sim! Madalena. .Muito prazer – respondeu Madalena aceitando o cumprimento de uma forma muito menos efusiva. mulher lhe lançou. Quem seria ela? Uma namorada? Um caso de uma noite? Ou simplesmente uma amiga como ele fez questão de lhe frisar? Ao sentar-se no grandioso sofá com uma almofada sobre o colo. Março. . . Jorge resolveu levar os filhos para duas semanas de férias ao Algarve.Não precisas ligar – disse Sara abrindo a porta. Ainda tentou forçar um pouco mais a vista e tentar vislumbrar os traços físicos da mulher que estava sentada no banco da frente. .Ligo amanhã para falar com vocês. era um tempo que não voltaria a recuperar ainda que quisesse. marido e dos filhos em direcção ao carro.Vamos. e era também um sinal de que não valia a pena lutar contra o inevitável. Vanessa Figueiredo era o apogeu que todos os homens acima dos quarenta sonhavam apresentar às ex. Maio e Junho foram os meses que passaram a passo de caracol. Madalena viu-se obrigada a baixar as guardas e a concordar que Sara e Daniel seguissem viagem com o pai e também com a nova namorada que ele lhe fez questão de esfregar à cara quando foi buscar os filhos. mãe.Mesmo assim! Amanhã eu ligo. loira e com as curvas perfeitas de uma top model. de facto.riu-se Vanessa. – Olá. Nessa altura. mulher. amor! Estás sempre a falar dela… – adiantou-se Vanessa voltandose novamente para a Madalena. . Cansada era como Madalena se sentia cada vez que olhava para si e para o que a sua vida se tinha transformado desde que assinou os papéis do divórcio.

mas era sem sombra de dúvida a primeira vez que não se sentia minimamente enciumada com a cena.Os miúdos ainda vão demorar muito? – perguntou Jorge ignorando o sorriso irónico que a ex. . mulher lhe lançou. Vanessa. quando ambas jantaram juntas naquela noite. claro! Esqueci-me. Rapazes de preferência! .Sabe que eu até estive a dizer ao Jorge para a levar connosco.A sério?! . .Hã… não me parece – respondeu Madalena tentando desenvencilhar-se daquele convite no mínimo inoportuno. Deus! Como se rebaixou por tão pouco? Como é que sequer desejou um corpo igual àquele quando Deus a havia favorecido com algo que Vanessa nunca iria ter por mais cirurgias plásticas que fizesse: Inteligência e bom senso.Acho que não! Eu vou lá acima despachá-los. 11 . – Eu disse-te que ela era dona de uma floricultura.Faz isso porque não quero chegar muito tarde ao Algarve. . .Pois eu acho que vou conseguir sobreviver.Porque… . a melhor amiga de Madalena.Coitado do Jorge! Será que ele está assim tão desesperado? . bem… transformaram-se em autênticos monstros de tão gordas e flácidas que ficaram… – riu-se Vanessa sob o olhar incrédulo de Jorge. Sinceramente não sei como é que consegue manter essa forma depois de ter dado à luz dois filhos.Infelizmente este ano não vou poder ter férias – concluiu Madalena cruzando os braços. .Porquê?! .Levar para onde? . Era a quinta vez que Madalena observava a entrada dos filhos.A sério.. marido no carro.Acredito que sim – murmurou Madalena levando a mão ao peito.Porque ela tem um negócio para gerir. .Provavelmente – respondeu Madalena bebendo um gole de vinho.Madalena quero que saiba que a admiro imenso! Sou a sua fã número um… . .Para o Algarve. Vanessa – adiantou-se Jorge temendo que a namorada pronunciasse mais alguma loucura. da namorada e do ex. . não é!? Pois então! Ele só está a ter aquilo que merece. Está perfeita…! . deve estar arrasada. . – Por isso é que eu nunca quis ter filhos e nem estou a pensar em ter. . . . realmente não são o meu forte! Dou-me bem melhor com adolescentes.!Iria ser divertido passarmos as férias todos juntos.Não acredito! Bem. já viste o que era passarmos um ano inteirinho sem férias?! Acho que morria… . – Mas lá diz o ditado que cada um tem aquilo que merece.Hã. – Estás a gozar?! Ela é assim tão burra? – perguntou Alice.Obrigada. Crianças!? Enfim. não?! Amor. a tal loira mais alta que uma torre e com as medidas perfeitas de uma top model não passava de um corpo desprovido de cérebro ou qualquer outro sinónimo que pudesse fazer jus à sua beleza física. lembraste!? .Conheço várias mulheres que depois que tiveram filhos.Define-me burra – riram-se as duas.

animada.Voltar a fazer sexo outra vez – concluiu Alice bebendo um gole de vinho.E eu?! Sou um fantasma? . . eu é que sou burra! Burra por ter aguentado tanta nojeira e ainda acabar com uma mão à frente e outra atrás. 12 . Infelizmente Madalena foi obrigada a concordar com as palavras da sua amiga e também com a certeza de que tudo continuava exactamente igual naquela cozinha. nem com isso fiquei! Só fiquei com os cornos.E a lata dele em forjar a minha assinatura no banco e ainda fazer uma carinha de inocente à frente dos polícias como se não fizesse a mínima ideia de onde aquele dinheiro tinha saído.Eu bem te avisei. mas pelo menos está lá a divertir-se e a viver uma vida que eu também queria viver – discursou Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. . Eu acho que ele só fez aquilo para se conseguir safar e também porque é um otário de primeira.. se queres realmente que te diga. eu acho que não. até pode estar com a mulher mais burra do mundo. . – Estou sozinha – disse ela por fim. .O quê?! Ter depositado aquele dinheiro na tua conta só para ires presa? Não. Alice também foi obrigada a concordar com um silêncio.Eu também e olha que nem foi comigo – disse Alice devorando o soufflé de camarão cozinhado por Madalena. .Tens razão – concordou Madalena limpando as lágrimas quando percebeu que também ela fazia parte daquele vastíssimo leque. De facto. – E eu estou aqui jogada às traças para mais de dois anos e sem a mínima hipótese ou a mais remota possibilidade de… . – Ele está lá no Algarve. claro! Era dinheiro sujo dos negócios que ele fazia com os clientes dele.Podias pelo menos ter ficado com algum – riu-se Alice.Sei lá! Sinto falta de… ter alguém com quem conversar. isso foi o cúmulo dos cúmulos… . nada tinha mudado.Eu também sinto falta – respondeu Alice deixando escapar os seus pensamentos mais secretos. . Alguém! Um homem de preferência.Não é só sexo.O que é que aconteceu ao dinheiro? . Alguém que me possa ouvir.E tu estás a adorar. com os filhos e com esta casa a cair aos bocados enquanto ele se pavoneia no Algarve com a Vanessa loira burra. . .Às vezes fico a pensar se ele não fez de propósito.É assim tão evidente – respondeu Madalena arrancando uma leve gargalhada à melhor amiga. até fico toda arrepiada. . . tens toda a razão em ficar tão contente com a desgraça do teu ex. . – Mas o que é que havemos de fazer.Olha. .Sabes bem o que eu quis dizer. abraçar-me e fazer-me sentir segura. aliás. não é?! Nem todas as mulheres nasceram para ter um homem que as possa ouvir. abraçá-las e fazê-las sentirem-se seguras.Mas tens razão.Nem me digas nada! Só de me lembrar do dia em que a polícia me bateu aqui à porta. . marido! Especialmente depois de tudo o que ele te fez… . Aliás.Então é o quê!? . Não.Foi confiscado. .

O quê?! – indagou Madalena soltando uma ruidosa gargalhada. . – No primeiro o gajo era um idiota de todo o tamanho e até chegou a fingir que tinha esquecido a carteira em casa apenas para não pagar o jantar.Tive dois – confessou Alice bebendo um gole de vinho.Que tipo de frases? .Não me leves a mal. . mas depois quando conhecemos as pessoas. Estaria o amor intimamente ligado ao casamento? Bem. que fez questão de escolher pessoalmente as flores e os suportes de decoração que iriam estar presentes na igreja e também no local da boda.No segundo. . Por isso é que desisti desses encontros virtuais. a mãe da noiva. A única coisa que fazem é levantar as nossas expectativas. desilusão é a palavra de ordem. mas acho que prefiro continuar solteira a andar com um sábio africano – riram-se as duas amigas completamente indiferentes ao adiantado das horas. não fazia qualquer diferença.Só espero nunca chegar a esse ponto. houve uns tempos em que eu estava tão desesperada que até cheguei a arranjar encontros na Internet.Porque é que nunca me contaste? . encantar as pessoas com os meus dons e encontrar uma fórmula secreta para ser imortal… .riu-se Alice enquanto se tentava recordar de alguma. .Naquela altura ainda estavas casada com o Jorge e eu senti-me ridícula só de pensar na ideia de tocar nesse assunto contigo.A sério?! . 13 . . Com certeza irias pensar que eu era uma pobre coitada… .Assim tipo… . . mas o problema é que era demasiado filosófico e atirava cada frase que eu até ficava com os cabelos em pé. .E deu certo algum desses encontros? – perguntou Madalena não escondendo a sua curiosidade. Os arranjos florais para o casamento de Joana Dias e Rafael Saraiva primaram pelo requinte e tudo graças ao bom gosto de Beatriz. para aquela tia do jet-set nada poderia dar errado pois não era somente o nome da sua filha que estava em jogo.Agora imagina-me ouvir frases dessas durante todo o jantar numa sexta-feira treze? Saí do restaurante mortinha de medo e nunca mais lhe atendi a nenhuma chamada. Na verdade. – Gostaria de ser um sábio africano apenas para desvendar os segredos mais misteriosos da humanidade.Sabes. . mas sim o de toda a sua família que via nos laços do matrimónio a oportunidade ideal para se livrar das privações monetárias e outros apertos resultantes da sua falência desde há gerações.Sim – respondeu Alice forçando uma gargalhada que não foi de todo correspondida pela melhor amiga.Obrigadinha pela parte que me toca! .. . mas caso contrário. .Podes crer que existem e eu já saí com muitos.Meu Deus! Ainda existem gajos desses no planeta terra? . confesso que até tive algumas esperanças! À primeira vista o gajo parecia ser simpático. inteligente e até era bonito.Que horror – riram-se as duas. se estivesse era óptimo.

. eu vou lá dentro ver se encontro alguém para nos ajudar a tirar essas flores cá para fora. Características físicas? Altíssimo. a vinte e quatro horas do tão aguardado casamento. .Sim! É óptimo. olhos tão verdes como duas esmeraldas. Madalena e Alice abandonaram o veículo da floricultura e regalaram-se com a magnífica vista do Mosteiro dos Jerónimos. cabelos escuros perfeitamente aparados.O. Era uma mãe galinha. De facto. os últimos raios de sol começaram a desaparecer no horizonte e a brisa trazida pelo rio retirou as réstias do calor sentido durante o dia.Sabes que este mosteiro nunca me disse nada?! . Nessa altura. em como eles se deveriam estar a divertir no Algarve e nas saudades que sentia deles apesar de apenas se terem passado vinte e quatro horas desde a última vez que os vira. traços faciais definidos. não achas?! Provavelmente deve ter morrido lá dentro.Já não é mau. .k! . – Era aqui onde eu gostaria de me ter casado – disse Alice abrindo as portas da carrinha. – Sempre o achei um pouco sombrio e cinzento. Todo ele exalava beleza. Madalena cruzou os braços e encostou-se à carrinha pensando em tudo menos nas flores que deveria retirar do porta-bagagem. sorriu.A sério – respondeu Madalena poisando no chão o primeiro arranjo floral que retirou do interior do veículo. um nariz esculpido à lupa e dois lábios bem delineados. que lhes vasculhava todas as gavetas numa tentativa desesperada de encontrar algo escabroso e que passava praticamente todas as horas do dia a pensar neles. um imponente monumento que impunha admiração até aos olhos dos mais leigos. Os olhos de Madalena não conseguiram esconder o fascínio quando viram à frente um dos seres mais belos do planeta terra. elegância e uma masculinidade difícil de explicar. . – Trouxe ajuda – ouviu-se finalmente a voz de Alice.Um pouco difícil.Olá – disse o desconhecido forçando um sorriso a Madalena. até mesmo para ela. os noivos souberam escolher o local perfeito para uma ocasião também ela perfeita. – Bem. Pensou nos filhos. . Por isso é que o meu casamento não demorou muito – respondeu Alice levando as mãos à testa encharcada de suor. foram as palavras que Madalena utilizou para caracterizar a excessiva demora de Alice quando ao olhar para o relógio de pulso viu que nele estavam assinaladas dezoito horas e trinta e dois minutos. Mas ao vê-lo diante de si. Uma mãe que não sabia quando dar espaço e privacidade aos filhos. visto o Mosteiro considerado como um dos edifícios mais emblemáticos da cidade lisboeta. . Como era belo. 14 . Diante daquela paisagem tão interessante.Não saias daí.E eu que me tive que contentar com uma capelinha em Alvalade… . Madalena não conseguiu acreditar que ele era real. isto para não falar da facilidade quase sobre humana que tinha em incluir os seus nomes em todas as conversas. meu Deus! E de onde tinha saído aquela perfeição? – Encontrei este senhor simpático lá dentro e ele foi o primeiro a oferecer-se para nos ajudar – informou Alice trazendo a sua amiga de volta à realidade. embalada pelos jardins de Belém e pela torre imponente.No dia seguinte.Estás a gozar? .

À sua volta encontravam-se cerca de duas dezenas de pessoas em movimentos frenéticos tentando desesperadamente terminar os últimos detalhes da decoração da igreja. . No fundo do corredor. – Acha que nos pode ajudar a levar tudo isto à capela? . . Realmente não deveria estar a observá-lo com tanta atenção porque a qualquer momento ele poderia voltar-se para trás e surpreendê-la com os olhos postos em si. . Até parecia que o estava a fazer por prazer. nos seus ombros largos e nas pernas ligeiramente arqueadas que lhe conferiam um ar demasiado sexy para ser apenas um simples mortal.…olá.Claro que sim.Aonde é que podemos colocar as flores? – perguntou Madalena sustendo um enorme suporte nas mãos. Não parecia ter mais do que trinta e cinco anos e muitas experiências para contar visto o seu olhar transparecer uma inocência digna de um adolescente de dezasseis. enquanto na sacristia.Nem sabe o quanto – respondeu Alice mostrando-lhe os inúmeros arranjos florais no interior da carrinha.Não se preocupe porque nós também não percebemos nada de decoração – interferiu Alice. foi impossível para Madalena não reparar nas suas costas bem formadas. Enquanto ele caminhava em direcção à capela com dois grandes arranjos florais nas mãos. – Trouxemos os arranjos tal como o combinado – respondeu Alice forçando um sorriso a Beatriz. um sorriso irrompia-lhe o rosto pronto a fazê-la corar de vergonha. Raios. encontrava-se um homem que não aparentava ter mais do 15 .Já vi que precisam mesmo de ajuda. . . – Só sou um dos fotógrafos contratado para a cerimónia. . mas também pelo fotógrafo que teve a amabilidade de as ajudar a tirar da carrinha todos os arranjos florais sem sequer pestanejar ou oferecer algum comentário menos agradável. . Mas não me peçam para ajudar na decoração porque não percebo nada disso – respondeu ele arrancando um sorriso tímido a Madalena. na última vez que Madalena sorriu. Ou seja.. Contudo.Obrigada! Mais um olhar e mais uma vontade descomunal de Madalena em atirar-se para os braços daquele desconhecido que em poucos segundos conseguiu algo que nenhum outro homem havia conseguido em dois anos.São bonitas. . e a cada esbarro com Madalena perto do altar. uma voz imperiosa invadiu a igreja deixando todos os presentes estupefactos com a irritação que ela trazia. a noiva e a mãe do noivo trocavam as últimas palavras com o padre que iria presidir à cerimónia.Podem colocá-las junto ao altar que depois os responsáveis da decoração tratam do resto. – Que bom que chegaram… – disse Beatriz caminhando em direcção a Madalena e Alice assim que as duas entraram na capela.Ainda bem! Já estávamos todos impacientes à espera deles. As ordens de Beatriz foram imediatamente obedecidas não só por Madalena. prender a sua atenção e deixar-lhe as pernas completamente bambas. por Alice. . completamente descontrolado. Muito pelo contrário. um pouco mais atrás.Só viemos trazer as flores – concluiu Madalena recuando dois passos quando ele se agachou e levantou do chão o primeiro arranjo.

Não sabia. pois que o seu único objectivo era casar a Joana com um homem rico. D. – Nunca mais te atrevas a chamar-me de amor. filho? – perguntou a mãe de Rafael pressentindo-lhe a cólera no olhar. ele aguardou a saída da sua noiva da sacristia repetindo para si mesmo: Nem por decreto de lei a vou perdoar. todo transpirado… . Quem era.Eu já descobri tudo. Claro que tinha. .Então vá chamá-la! . cabelos loiros e uns olhos azuís inchados de tanto chorar. foi o que todos se perguntaram quando o viram a caminhar em direcção ao altar com uma expressão verdadeiramente aterradora. Teria acontecido alguma coisa? Sim.Tudo. sua ordinária…! . Beatriz?! Não sabia que a sua filha andava a ter um caso com o melhor amigo? Ou será que sabia? Claro. meu filho? Estás todo desgrenhado. bem tinha todas as razões do mundo para não o fazer. As duas estão a falar com o padre. .Mãe. Com o primeiro otário que lhe aparecesse à frente e que tivesse uma conta bancária choruda.Precisamos falar. Sempre com as mãos nos bolsos. Com certeza devia saber. tudo o que Joana lhe ofereceu foram mentiras e traições. – Amor! Tu por aqui – exclamou ela chegando ao altar acompanhada pela sogra e pela mãe.Chame a sua filha agora antes que eu perca a paciência… Beatriz nunca vira aquela expressão nos olhos do genro e muito menos pensou que em algum dia ele iria ousar levantar a voz contra si. – O que é que se passa. o quê? – indagou Beatriz esbugalhando os olhos. Não era esse o vosso plano? 16 .Rafael!? . Silêncio foi a palavra de ordem. Aqui não é o lugar ideal e tu estás muito nervoso… . – Mas talvez seja melhor conversarem na sacristia ou noutro local.Aonde é que está a sua filha. . Os momentos que se seguiram foram tensos e tudo porque Rafael não arredou pé do local onde estava. Nunca a vou perdoar. já que durante cinco anos de relacionamento. . . – Houve algum problema lá na empresa? E o teu pai? Não falaste com ele antes de saíres do… . . – Aonde é que ela está? – perguntou ele fora de si. Beatriz!? Eu quero falar com ela agora – gritou ele assustando todos os presentes. E na verdade.Rafael!? – indagou Beatriz tentando acalmar o ímpeto do seu futuro genro. – Pensei que tinhas dito que ias ficar preso numa reunião.O que é que aconteceu. .Não me chames de amor – gritou ele assustando-a com a sua voz imperiosa. – O que é que aconteceu contigo.Para quê?! . com um olhar perdido e uma das pernas a tremer. enquanto Joana tentava ignorar os olhares curiosos de todas as pessoas presentes na capela. eu não vim aqui para falar do pai! Eu vim falar com a Joana. até mesmo porque Rafael sempre fora um rapaz sensato. – Está bem! Eu vou chamá-la – concordou Beatriz ignorando os olhares de todos os funcionários presentes na capela.Chame a sua filha agora – interrompeu o noivo não se deixando levar pelos argumentos da futura sogra. amor!? . equilibrado e totalmente imune à palavra escândalo.que vinte e oito anos.Tem calma! A Joana está na sacristia com a tua mãe.

Rafael. tudo foi totalmente destruído por Rafael e pela fúria que se apossou de si no interior daquela igreja. Mas na verdade. Como se enganou com Joana? Como se arrependia do dia em que a tinha conhecido e como queria nunca a ter pedido em casamento. . tentou uma segunda. a vítima foi imediatamente socorrida. Depois disso. – Não podes estar a falar a sério! Não podes estar-me a fazer isso a vinte e quatro horas do nosso casamento… . – Pára com isso! . por favor… . – Pára com isso! .A culpa foi dele.Não me toques – vociferou ele atirando-lhe o suporte de uma vela com o único intuito de a matar.Estás a ver tudo isto – vociferou ele arrancando as fitas decorativas presas nos bancos da capela. Ele que sempre fez tudo para a fazer sorrir. assim como os primeiros murmurinhos e a voz imperiosa do padre que comandou imediatamente a retirada de Rafael de um recinto que para ele ainda continuava a ser sagrado. – Estás bem? – perguntou Madalena observando o ferimento na testa da melhor amiga. Um azar que consequentemente acertou em cheio na testa de Alice e a fez cair junto ao altar ainda sem saber o que realmente tinha acontecido. Madalena e Alice não deixaram de trocar um olhar constrangedor. – É lixo! Tudo isto é lixo e não vai servir para mais nada. ele só estava a fazer todo aquele escândalo para tentar extravasar a vergonha sentida quando descobriu que durante cinco anos havia sido traído pela noiva e pelo melhor amigo.A culpa foi tua – gritou Rafael calando-lhe os argumentos. já sei de tudo e nem adianta sequer inventares mais uma das tuas milagrosas desculpas porque o Eduardo confessou tudo quando eu o encostei à parede hoje à tarde. tu só podes estar a brincar – respondeu Joana limpando as lágrimas e tentando retirar sobre si a vergonha de estar a ser publicamente humilhada pelo noivo.Pára – exclamou Joana tentando controlar-lhe os braços furiosos. . .Rafael… .Sinto nojo de ti – gritou ele com os olhos marejados de lágrimas. – Rafael. – Porra – exclamou. para a tornar na mulher mais feliz do mundo e aquela era a paga que recebia depois de lhe ter entregado o seu coração e a sua conta bancária de mão beijada.…acho que sim – respondeu Alice passando as mãos pela testa e deparando-se com uma mancha de sangue nos dedos. .Estás nervoso! Não sabes o que dizes. desesperada. . – E podem crer que não me vão arrancar nem mais um tostão. – Só que o otário aqui abriu os olhos a tempo – concluiu Rafael não se deixando amolecer pelos olhos chorosos da sua noiva. . .Rafael… . – O gajo partiu-me a cabeça toda! 17 . velas e flores.Acabou! Acabou tudo! Já não vai haver porcaria de casamento nenhum… Fitas.Enquanto ouviam o discurso confuso daquele pobre rapaz. Joana abaixou-se a tempo e livrou-se de um dos maiores azares da sua vida.Será que ainda não percebeste. – A culpa foi toda tua! Foste tu que estragaste tudo e agora não adianta fazeres esse ar de arrependida porque eu já não acredito em mais nenhuma palavra que venha de ti. Perplexidade foi o sentimento geral. mas por sorte. . Joana!? Será que ainda não percebeste que a tua máscara caiu diante desta gente toda? Eu já descobri a verdade.Não me toques! .dizia ela. Como não o conseguiu da primeira vez.

Foram precisos cerca de vinte minutos para que as portas automáticas das urgências se abrissem. – Ela já foi atendida? – perguntou Sérgio aproximando-se de Madalena quando finalmente conseguiu estacionar a carrinha no parque de estacionamento do hospital. é o que é – respondeu Alice levantando-se do altar com a ajuda da melhor amiga.Tudo bem – concordou Madalena levando a melhor amiga nos braços. A vela acertou mesmo em cheio. mas acho que vai precisar de alguns pontos.Levaram-na agora lá para dentro – respondeu ela esgueirando o pescoço em direcção à enfermaria. . Apesar dos vários pedidos de desculpa que recebeu dos noivos enquanto caminhava pelo corredor da igreja. – Não sou um especialista.É melhor irmos para o hospital – interferiu o fotógrafo analisando-lhe o corte profundo na testa.Alice. – Não a queria magoar.riu-se ele timidamente. O pior era a dor descomunal que estava a sentir na sua testa quando passou as mãos por ela e recebeu um lenço de Madalena para estancar o sangue que ainda lhe continuava a jorrar da cabeça e que se tornava cada vez mais intenso à medida que Sérgio conduzia a carrinha da floricultura em direcção ao hospital mais próximo. . – O que foi? – perguntou ele. acho que estão demasiado nervosas para conduzir.Muito menos a sua amiga que acabou por ficar com um galo na testa.Desculpe! Desculpe. peço desculpas… . tem calma – pediu Madalena tentando acalmar-lhe a cólera. mas ainda assim foi impossível para ela conter um riso abafado.Sim! Vamos fazer o que o Sérgio disse. . Mas o pior nem era isso. . aceitar impávida e serena ao pedido de desculpas de duas crianças infantis e imaturas que não sabiam resolver os seus próprios problemas sem envolver pessoas estranhas e alheias ao caso. mas é que… .Nem eu – respondeu Madalena lançando os olhos às paredes da sala de espera. . . por isso… . Alice manteve-se resoluta em não aceitar nenhum.Disse alguma piada? 18 .Bem… . e quando isso aconteceu. isso não significa que também eu tenha que ficar com um alto na testa.Você é louco. humilhada e metida numa confusão que nem era sua.Sérgio – adiantou-se o fotógrafo lançando-lhe um olhar intenso. mas também lhe foi informado que teria que preencher uma ficha de entrada antes que se pudesse efectuar qualquer tipo de tratamento a Alice. – Confesso que nunca me tinha visto numa cena daquelas. Madalena percebeu. Era só o que faltava depois de ter sido agredida. – Quer dizer. . A resposta de Sérgio não pretendia ser irónica.Peço desculpas – disse Rafael mostrando-se envergonhado pelo seu acto. – Lá porque levou cornos da sua noiva. Vamos ao hospital tratar desse corte antes que se torne nalgo mais grave. – Vamos embora! Vamos fazer o que… . – E acho que tão cedo não a vou esquecer. Madalena tentou encontrar alguém que a pudesse ajudar a socorrer a melhor amiga. encontrou uma enfermeira.Eu posso ir com vocês – disse ele. Por sorte. .. . – Acho que foi levar pontos.

Ai é?! .Eu trabalho por conta própria.Eu acho que é… – respondeu ele arrancando-lhe um sorriso. especialmente porque se trata da minha melhor amiga.É fotógrafo profissional!? .Concordo. . aliás. E a cena também! Ao olhá-la mais uma vez.Hã… nem tanto – riu-se Madalena. Levar a mão à boca. – Ainda não sei o seu nome – disse ele.Como assim?! . . – Está a ser má para a sua amiga. A única coisa que fez foi aumentar ainda mais o fascínio que Sérgio sentiu por ela logo no primeiro minuto em que a viu. encabulada.Eu sei! Peço desculpas. mas o que você disse teve piada. mas desta vez foi completamente impossível para Sérgio resistir aos risos abafados de Madalena. esses foram alguns dos estratagemas utilizados por ela para se conseguir controlar.Sou dona de uma floricultura – respondeu Madalena sentindo-se completamente perdida quando ele sorriu novamente para si. – Eu sei que eu e a minha amiga já tomámos muito do seu tempo e que com certeza você deve ter alguma coisa para fazer. Um novo silêncio irrompeu a sala. . . . . por favor.A sua profissão é que deve ser interessante.Digamos que a minha vida é recheada de flores. sabia?! .Madalena Soares – respondeu ela compondo os cabelos quando o seu olhar se cruzou novamente com o dele no meio daquela sala tão grandiosa. – Quer dizer. Ela entrou há pouco. baixar o rosto e até virá-lo. . claro que não – respondeu Madalena tentando controlar os risos cada vez mais intensos.Não.Sim. eu sei que não deveria estar a rir da desgraça alheia. – Mas é que…. .Vender flores. eu e a minha amiga somos sócias. – Ou pelo menos hoje tornou-se. Mas a verdade é que nada surtiu efeito. E sim. o que é que faz? .Acha que a sua amiga ainda se vai demorar muito? . ..Deve ser uma profissão interessante – murmurou Madalena tentando fugir àqueles olhos verdes tão lancinantes. estava a trabalhar quando… .Tenho um estúdio de fotografia – respondeu Sérgio colocando o casaco sobre o colo. Sérgio sorriu e abanou a cabeça. afinal de contas. Não tem nada de interessante. . embora a loja tivesse pertencido à minha mãe antes de ela morrer. sinta-se à vontade… – concluiu Madalena ao perceber que muito provavelmente já havia abusado da boa vontade daquele fotógrafo desconhecido.E você? Para além de aparecer em casamentos recheada de flores.Mas se precisar ir embora. – É igual às outras. .Tem a certeza? – perguntou Sérgio fulminando-a com aqueles malditos olhos verdes.O.O quê? .Não sei. . . 19 . .k…! .

talvez por o sol já se ter posto. e para encontrar todas essas características. o verde-esmeralda deu lugar a um verde acinzentado e isso só deixou os olhos dele mais lindos do que naturalmente eram.Digamos que fica com uma história para contar aos seus netos. Alice desejou encontrar a sua cama quando regressasse a casa e desejou também esquecer todos os azares que lhe haviam acontecido durante o dia. – Acredite que já fez muito por nós. Ele era tudo isso e muito mais. . e quando ela finalmente se viu livre daquela tarefa tão desagradável. Talvez fossem os olhos verdes.Silêncio foi a resposta dela. Com a cabeça encostada ao ombro da melhor amiga. – Bem. obrigada mais uma vez! Ficamos-lhe a dever uma… .Não – respondeu Madalena ajudando Alice a entrar no carro. . .Ninguém é perfeito. o médico de serviço receitou-lhe alguns antibióticos para que as dores e o inchaço diminuíssem em poucas horas.Quem sabe um dia não venha a cobrar esse favor. Madalena não precisou de muito tempo e nem de muito esforço. . – Tem razão – concordou ela após um longo minuto de silêncio.Sim. Nessa altura. A resposta do fotógrafo não poderia ter sido mais insultuosa e isso ficou provado pelo olhar fulminante que Alice lhe lançou do interior do carro. . – Se fosse assim tão desinteressante não estaríamos aqui neste hospital. .Dói-me tudo até o último fio de cabelo! Só quero ir para casa antes que pense em cometer suicídio… As portas automáticas das urgências abriram-se novamente. não é?! – respondeu Madalena deixando-se mergulhar pelo olhar que Sérgio lhe lançou.Não faz mal – riram-se baixinho.Hã… peço desculpas! Eu não quis … . Madalena e Sérgio no mais absoluto silêncio. saíram Alice. ou talvez fossem as três coisas misturadas numa só.Eu também acho – respondeu Sérgio arrancando-lhe um outro sorriso tão ou mais encantador que o primeiro.Confesso que estava a fazer de tudo para não cometer nenhuma. – Já está tudo? . .Não precisam de mais nada? – perguntou Sérgio quando chegaram à carrinha. Meia hora foi o tempo que as enfermeiras precisaram para suturar os ferimentos na testa de Alice. Sérgio era realmente divertido e sedutor. – Ela não tem filhos e muito menos netos – afirmou Madalena voltando-se para Sérgio ainda com o casaco nas mãos. . mas realmente havia qualquer coisa que não a fazia tirar os olhos dele. – Foi um verdadeiro cavalheiro ao contrário do estupor que me atirou a vela. não acha!? – concluiu ele. e por ela. 20 . – Digamos que essa foi a sua única gafe para connosco. . – A minha profissão é realmente muito interessante. a barba aparada.Que é isso. porque é que foi ela a única escolhida para receber aquela valente pancada? . Porque de todas as pessoas presentes naquela maldita igreja. o nariz esculpido. mas também possuía qualquer coisa que a intrigava a deixava quase sem fôlego. – Então?! – perguntou Madalena saltando da cadeira quando Alice surgiu na sala de espera com a cabeça totalmente enfaixada. Raios.Como é que te sentes? . tal como a sua.Obrigada por tudo – interferiu Alice mal conseguindo manter os olhos abertos. Sim.

Sinta-se à vontade para fazê-lo – respondeu Madalena não tardando muito a enfiar-se no interior da carrinha sob o olhar atento de Sérgio. Avenida de Roma.. loja 132 F. 21 . Mar de Rosas. foi o que o fotógrafo leu quando o veículo desapareceu do parque de estacionamento levando consigo uma das mulheres mais bonitas e interessantes que lhe haviam atravessado caminho até à data.

E essa realidade era a de que ela não queria passar mais nenhum dia estritamente necessário para voltar a estar com os filhos.Por que raios queres levar os meus filhos para Marrocos? .Lena. e ao saber bem quem era.Está. enquanto esperava por eles. . – Daniel! Passa-me o telefone ao teu pai.O pai disse que havia uma promoção bué fixe na agência de viagens e que podíamos prolongar as férias por mais alguns dias.Nossos filhos – corrigiu Jorge refugiando-se na varanda do hotel para que ninguém ouvisse mais uma discussão com a ex. – A Sara e o Daniel também são os meus filhos. lembraste?! . Madalena largou a chávena de chá sobre a bancada da cozinha desejando ouvir as vozes das duas pessoas mais importantes da sua vida. sinceramente não percebo qual é o problema de irmos todos a Marrocos. muitas foram as vezes que Madalena tentou controlar a voz embargada e as lágrimas de desespero por se ver tantos dias longe dos filhos.Então passa-lhe o telefone agora! Aqueles foram os cinco segundos mais longos de toda a sua vida.Tens tanta lata. Daniel era o mais animado de todos e foi também aquele que mais falou sobre os banhos de piscina. – Sim – respondeu voz de Jorge com um longo suspiro. .Será que eu ouvi bem aquilo que o Daniel disse ou provavelmente devo ter batido a cabeça nalgum móvel aqui na cozinha?! .CAPÍTULO II O telefone tocou ao fim de quarenta e oito horas de um silêncio ensurdecedor. 22 . mas ainda assim. mulher. marido. não?! – afirmou Madalena passeando pela cozinha completamente esbaforida.A Marrocos?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos. . um apelido carinhoso que Madalena encontrou para caracterizar a nova namorada do ex. Ele está aí ao pé? .Mas não tinha ficado combinado que as férias iriam ser até ao Algarve? . – O pai quer levar-nos a Marrocos… – saltou essa frase no meio de uma conversa amena que Daniel estava a ter com a mãe. . Sara e Daniel. . não queiras ser irónica porque isso não faz minimamente o teu estilo. marido e tentar trazer-lhe à realidade.Vocês só podem estar a gozar comigo. Eram eles. Enquanto lhes ouvia as peripécias dos primeiros dias de férias no Algarve. É mesmo aqui ao pé e vamos de barco. . Madalena não desistiu dos intentos em falar com o ex. os passeios pela vila e os presentes que a cada duas horas recebia do pai e de Vanessa loira burra.Sim! Deixas-nos ir? .Lena. .

Jorge. Ninguém vai morrer por causa disso. eu pensei que fosse o… . já percebi – riu-se Jorge secamente. pai! Desculpa. Que mal é que tem? São só mais duas semanas. Idiota.…e quando é que voltavam de Marrocos? . foi o primeiro nome que lhe apeteceu chamar.. . .Estás a ver?! Estás a ver como é que falas comigo quando eu… O discurso de Jorge até poderia ter continuado não fosse o ímpeto de Madalena em desligar o telefone e atirá-lo contra o lava-loiça enquanto o seu queixo tremia de raiva e os seus braços se cruzavam numa tentativa desesperada de não partirem qualquer objecto no interior daquela cozinha.Desculpa – riu-se Jorge. marido. Não suportas a ideia de estarmos todos a divertir-nos enquanto estás aí a secar em Lisboa.Não sejas ridículo. Além disso. Só pode ser ele outra vez. a minha opinião não importa para nada. mulher.Só por cima do meu cadáver.O Jorge. Aposto que te ia fazer muito bem. conhecer novas pessoas. – Então!? O coronel dá-nos licença para abandonarmos o país sem sermos perseguidos na fronteira? . Além disso. . nem mesmo tu. – Lena. É como te disse! São só mais duas semanas. . . devias aproveitar essas férias para incrementar a tua vida social e esquecer um pouco o papel de mãe galinha. não é? Já é um assunto tão resolvido com a tua querida namorada mais inteligente que uma porta que nem sequer te interessa a minha permissão… . o que é que iriam fazer para além de ficarem sentados em frente à televisão enquanto tu vais cuidar das tuas flores!? . . . Aproveita para sair. embora o telefone tivesse interrompido os seus pensamentos a tempo.Hã… és tu.O que foi!? Não me digas que discutiram outra vez? 23 . .Eu?! – indagou Madalena levando a mão ao peito.Vamos?! Quer dizer. Conhecer Marrocos é uma oportunidade única que nem todas as crianças conseguem ter. – Tu nem penses que eu… . . . – Mas pensa bem no que te estou a dizer.Exactamente – respondeu Madalena levando a mão à cintura. – Ainda há pouco estava a falar com ele e nem vais acreditar… .Pois eu falei com os nossos filhos e eles mostraram-se muito contentes com a ideia de conhecer Marrocos. Jorge!? .Antes do final do mês.Percebeste o quê? . se as crianças voltassem a Lisboa. . eu só estou a pedir para que sejas razoável.E se fosses à merda.Impressionante como não perdes uma oportunidade para menosprezar o meu trabalho.Sim! Tu.Estás a morrer de ciúmes.Hã.Hei! Olha que assim me assustas – disse-lhe uma voz suave no outro lado da linha.Cuidado! Olha que milagres acontecem – respondeu Jorge tentando espicaçar a ex. Vá lá! Tu sabes que a Sara e o Daniel iriam adorar… Silêncio foi a resposta de Madalena enquanto ela meditava acerca de proposta do ex.

Bem! Infelizmente não me aconteceu nada de emocionante nas últimas duas semanas. . Ainda continuo rijo como um pêro! A voz do pai trouxe algum conforto a Madalena e isso ficou provado pelas inúmeras risadas que ela soltou enquanto falava com ele pelo telefone. – Apenas perguntei porque me preocupo contigo. e sem ela.Quem sabe um dia quando os ponteiros do relógio começarem a girar ao contrário. .A mesma frase da tua mãe – riu-se Afonso Soares quando se recordou de uma das muitas citações da sua falecida esposa.Sabes.Precisas de alguma coisa? .E achas que só te telefono quando preciso de alguma coisa? .Será que não há maneira de vocês se entenderem? Pelo menos pelo bem dos vossos filhos. . minha cara – respondeu Alice levantando-se da secretária quando pressentiu a entrada de mais um cliente na loja. ou se pelo contrário.Na altura. terias que ser inventada. às vezes acho que se tu não existisses. . Madalena não deixou de se perguntar se o mundo de facto necessitava de outras pessoas iguais a si. o meu casamento estava insuportável! Depois veio a separação.É.Isso é porque ela não sabe o verdadeiro sacana que o pai dela é! Devias contar a verdade. . o divórcio e a sensação de que me tinha que focar nos meus filhos para não os traumatizar. . Leonor Soares era sem sombra de dúvidas o pilar que sempre sustentou a família. sem restrições e também a infância que todas as crianças desejavam ter. se mais exemplares seus apenas estragariam um 24 .Porque não tenho o direito de destruir a imagem que ela tem do pai. Afonso era o seu porto seguro. O único abalo sofrido na relação de ambos aconteceu aquando da morte da sua mãe e do tremendo sofrimento pelo qual o pai foi obrigado a vivenciar durante meses a fio.. as bases estremeceram. . – Já vi que são iguaizinhas.Não posso fazer uma coisa dessas. tudo o que ele lhe ofereceu foi amor sem cobranças.Eu sei.Porque não?! . mas já te disse que não precisas preocupar-te. . – Mas eu sinto que a Sara guarda rancores. .E tu? Como é que tens andado? . – De mais pessoas como tu é que o mundo precisava.Eu até acho que os teus filhos reagiram bem à tua separação com o Jorge.Claro que não – respondeu Madalena encostando-se à bancada. . especialmente de mim. . . mas cá me vou aguentando. Desde que nasceu.Quando ela morreu eu pensei seriamente em levar o meu pai lá para casa – confessou Madalena.Quase! Descobri que ele quer levar os meus filhos a Marrocos. . talvez… – respondeu Madalena deixando a caneta cair-lhe das mãos. Enquanto a melhor amiga atendia um dos inúmeros clientes que habitualmente passavam pela loja.Aí é que te enganas. . De facto. . Achas isto normal? .E porque é que não levaste? – perguntou Alice evidenciando fisicamente que ainda não se havia recuperado da pancada que sofrera na cabeça quatro dias antes. a única pessoa com quem podia contar incondicionalmente e também o único homem que nunca teve coragem de a decepcionar em toda a sua vida.Um clone meu era tudo o que o planeta terra não precisava! .

ela muniu-se de uma calculadora.Que tipo de flores? .Não sei bem! Na verdade.Olá – disse Sérgio Almeida retirando as mãos dos bolsos assim que ela se levantou da secretária surpresa por o ver ali.Hã… sim – respondeu ele aproximando-se lentamente dela. . Na verdade. marido razão? Será que ela estava realmente a morrer de inveja da felicidade alheia? Ao tentar responder essa pergunta pela vigésima vez.Não.Não. Talvez nem fizesse aos filhos já que eles preferiam uma estúpida viagem a Marrocos do que estar consigo. – E as flores são para uma amiga. 25 . A porta voltou a fechar-se com algum estrondo. . ela ainda não é bem uma amiga. à sua namorada ou até mesmo à sua esposa… . não percebo muito desse assunto.Veio comprar alguma coisa? – saltou essa pergunta estúpida dos lábios de Madalena. – Queria comprar flores para uma pessoa especial. . . mas acho que você me pode ajudar. Alice interrompeu-lhe os pensamentos e informou que iria aproveitar a hora de almoço para passar pela farmácia. . . Mas quando o relógio marcou treze horas e vinte e cinco minutos. – Confesso que é exactamente como eu imaginei que era. Para isso. . Raios. mas nem isso retirou a concentração de Madalena em frente ao computador pois era urgente terminar a tabela dos fornecedores e também os preços dos novos produtos da floricultura.Até já.Claro que não – respondeu Madalena desfazendo-se dos óculos de leitura. esse acontecimento entrou pela floricultura adentro trazendo consigo um perfume que rapidamente se entranhou em todos os cantos da loja. dos seus óculos de leitura e também do silêncio que se apoderou da loja enquanto a pouco e pouco as unhas roídas evidenciavam que a hora de almoço estava a passar sem qualquer acontecimento importante. Quer dizer. . O fotógrafo. Meu Deus.Então este é que é o “ Mar de Rosas” – murmurou Sérgio lançando os olhos àquele espaço repleto de flores. . eu não sou casado – riu-se Sérgio. já que os seus antibióticos contra as dores tinham terminado sem qualquer aviso prévio. .Espero não ter vindo numa má hora. – Mas que coincidência vê-lo por aqui! Eu… . – Bem. se não for muita indiscrição minha perguntar. seria muita presunção sua pensar que fazia falta a quem quer que fosse.…olá. luz e um encanto fora do normal.planeta já por si mesmo estragado. Teria o ex. gostaria de saber se pretende oferecer flores a algum familiar. Como é que a descobriu ali? .Está bem então! Vemo-nos daqui a uma hora. não precisas preocupar-te – respondeu Madalena analisando a tabela dos fornecedores no seu computador. mas eu gostaria que fosse. Era ele. – Queres que te traga alguma coisa da rua? – perguntou ela alcançando o casaco no bengaleiro junto à porta. – Quando voltares eu como qualquer coisa ali no café da esquina.Claro – respondeu Madalena levando-o em direcção à bancada onde estavam depositados os melhores arranjos da loja.

sou obrigado a concordar. Hum! Vejamos o que mais!? É simpática. Parece ser doce também. .Já almoçou? . – Tome! Estas são as flores ideais para essa mulher. mas tanto. da pessoa que você quer que se torne sua amiga… . A proposta não poderia ser mais tentadora. os olhos dela brilham tanto. . – Ela está bem agora.Fui assim tão indiscreto? . é que… .Bem… na verdade não a conheço muito bem.Então nesse caso sugiro estas tulipas brancas. – Estou à espera que a minha amiga chegue da hora de almoço dela.Não – respondeu Madalena rasgando-lhe um sorriso. Tudo nele gritava perigo. posso também mostrar-lhe estas orquídeas.Um pouco – respondeu Madalena mostrando-lhe um vaso de orquídeas. você vai almoçar nalgum restaurante aqui perto? . Mas será que valia a pena 26 .Por falar nisso. .Bem. claro. como é que ela está depois da pancada que levou na cabeça? . ele atreveu-se a perguntar: . As mãos experientes de Madalena conseguiram fazer um embrulho perfeito para o vaso de orquídeas que Sérgio escolheu sob sua orientação. . percebe?! . mas Madalena sabia que se aceitasse aquela proposta irrecusável nada mais seria como antes. mas devo estar despachado em menos de uma hora.Ou se não gostar de tulipas. O que é que me diz? Um almoço e escolhe você o restaurante. especialmente com pessoas que não conhece. fascinante e com uma personalidade vincada. parece-me que você quer que ela seja muito mais do que uma amiga. .. assim como o sorriso que ele lhe ofereceu em seguida. excitação e novidade. e enquanto elas trabalhavam à velocidade da luz. Não quero errar na escolha. São perfeitas para demonstrar respeito e afectividade a quem quer que seja.E… quando ela vier.Almoçar consigo? .Bem. .Hum! Acho que ainda continuo um pouco indeciso. Porque não!? .O galo desceu – riram-se os dois.Tem um café ali na esquina. . que é quase impossível resisti-los.Claro! Então diga-me quais são as características dessa sua amiga. . pois cada minuto que passava ao lado de Sérgio era uma eternidade difícil de aguentar. e tem um sorriso absolutamente esmagador… . .A sério?! . mas acho que ela é uma mulher forte.Sim.Um sorriso esmagador – murmurou Madalena sabendo perfeitamente que esse sorriso era o seu. pela discrição que me ofereceu.Sim! Quando ela sorri. Como não estou com muita fome apenas vou comer uma sandes ou algo assim.Eu ainda tenho que fazer umas compras de um material fotográfico aqui por perto. .Se o diz. Quer dizer. embora tente não demonstrar essa qualidade logo à primeira.Então eu convido-a para almoçar comigo – respondeu Sérgio parando-lhe o movimento das mãos com aquele convite tão inesperado.

. Madalena acompanhou o seu único cliente em direcção à porta desejando que os próximos sessenta minutos passassem o mais depressa possível. – Espero não ter interrompido nenhuma conversa importante – disse ela quando Sérgio desligou a chamada e poisou o telemóvel sobre a mesa. – Até logo – foram as últimas palavras de Madalena antes de abandonar a floricultura a uma velocidade fantasmagórica e atravessar a rua sem sequer olhar para trás. os sessenta minutos seguintes passaram lentamente. .enfrentar todos esses perigos? Diante de mais um sorriso que ele lhe ofereceu. . . Depois disso. . .Não tem de quê! Bem… quer beber alguma coisa? 27 . mais uma vez Alice atrasou-me.Daqui a uma hora – respondeu ela mantendo a porta entreaberta. seguiu-se uma caminhada interminável pela avenida e a certeza que a sua pressa para almoçar prendia-se com tudo menos com a fome que disse estar a sentir à melhor amiga. mas quando os seus olhares se cruzaram. . – A dona da floricultura disse-me que essas eram as flores ideais para oferecer a uma amiga especial e eu confiei nela! Espero que não se tenha enganado. O olhar perdido enquanto falava ao telemóvel ainda a fizeram hesitar em aproximar-se. claro que não! Coisas relacionadas com o trabalho.É claro que ela não se enganou – respondeu Madalena recebendo o arranjo com um doce sorriso. – Encontramo-nos daqui a uma hora então – ele disse. Será que Sérgio já se encontrava no interior do restaurante? Será que ele tinha sido pontual e cavalheiro o suficiente para não a deixar à espera? Claro que sim. . lembra-se?! . .Estava a combinar fazer uma sessão fotográfica com uma modelo e ela telefonou-me para saber se a sessão ainda continuava de pé. Chama-se “Luminosa” e as portas são de madeira. . – Posso escolher o restaurante? . .E continua? . ela teve a certeza que sim.Claro! Normalmente não costumo voltar atrás quando dou a minha palavra. tenho a certeza que irá querer ser.Acho que já sei qual é.Não faz mal! Eu também não. .Claro que sim – respondeu Sérgio recebendo-lhe o embrulho de orquídeas das mãos.Não.Obrigado pela ajuda! Sem si não saberia como escolher as flores.Ainda bem. .É bom saber isso. – Obrigada.Tome! São para si – disse Sérgio entregando-lhe o ramo de orquídeas assim que ela se sentou à mesa.O único problema é que não me posso demorar muito.Depois destas flores. .Tenho a certeza que a sua amiga irá gostar muitíssimo delas.Ela ainda não é minha amiga. Madalena sentiu que não havia outra escapatória a não ser caminhar em direcção à mesa e forçar-lhe um pequeno sorriso. algo que foi imediatamente correspondido. Sem mais palavras para lhe dizer e depois de ter aceitado o pagamento das flores. Tal como o esperado. e ela pôde ter essa certeza quando o viu instalado numa mesa próxima à janela. e para ajudar à festa. . .Então está bem! Encontramo-nos daqui a uma hora no restaurante no final desta avenida.

– Ela tem cinco por cento. Impressionante como se estava a sentir tão bem. os ponteiros do relógio pararam no tempo.Um sumo de manga. – Mas talvez orquídeas. por favor. Tão livre e ciente de que a vida lhe tinha voltado a sorrir após tantas tristezas. mas sou eu quem dirige aquilo tudo. – Há quanto tempo tem a sua floricultura? . .E você ficou à frente do negócio? .pediu Sérgio. Eu tenho quarenta e cinco por cento.Confesso que fiquei encantado com o local e também com o nome. ela caiu no sofá como uma pluma deixando para trás a mala. – Digame… . ele tem cinquenta e a minha amiga.Obrigada pelo elogio – riram-se os dois. . eu acho que é! Pelo menos para mim – respondeu Madalena compondo os cabelos soltos. – Tem um significado especial porque pertenceu à minha mãe e é uma das poucas lembranças que ainda tenho dela. . . – Mas a loja tem realmente muitos anos. até mesmo antes de eu nascer … .Exactamente – riram-se novamente. É quase como se fosse uma sociedade.Pouco original da minha parte. Madalena regressou a casa com um sorriso nos lábios e nem sequer se importou com o facto de não ter os filhos consigo.…muitas – respondeu Madalena deixando-se encantar por aquela conversa tão amena e agradável.Sim. .Então eu também vou tomar o mesmo. a loja está no nome do meu pai. Há seis anos atrás. . não?! .. os sapatos e o casaco de malha.Digamos que sim. pensou.Já estava à espera dessa resposta – disse Sérgio forçando um sorriso. .Morreu?! . eu sei. Pela primeira vez desde há anos. a floricultura era da minha mãe e já existia há muitos anos. Foi também a primeira vez que Madalena se sentiu absolutamente à vontade na companhia de um homem do qual não sabia muito mais que o nome ou a profissão.A que ficou com um galo na testa. Quer dizer. Seria normal sentir-se assim só por causa de um almoço informal com um fotógrafo do qual não conhecia muito mais que o nome? 28 . “ Um mar de Rosas”. . O almoço entre os dois desconhecidos revelou-se mais agradável do que se poderia esperar quando a refeição foi trazida à mesa por um dos empregados do restaurante e a conversa amena os embalou durante vários minutos. . e pela primeira vez também desde há anos. Quase quarenta e cinco.Deve ser uma autêntica mina de ouro.E você?! Quais são as flores que mais gosta? .Na verdade. a Alice… .Então com certeza não existia há tantos anos assim. Eram as flores que ela mais gostava.Sim. e enquanto conversava com ele e se deixava perder pela sua sensualidade casual. . Impressionante também era o facto de saber que em menos de vinte e quatro horas todo o peso que sentia sobre os ombros desapareceu sem deixar rastro deixando apenas uma estranha sensação de doçura nos lábios.Sim. Foi a sua mãe que escolheu? .

e depois disso ela sentiu-se tentada a revelar algo muito importante ao pai.Não precisavas preocupar-te com isso! Já te disse que me arranjo. – Comprei-te algumas coisas – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico quando o pai a visitou a poucas horas do seu encontro com Sérgio Almeida. mas quem não tem. – Já te disse várias vezes que devias deixar de fumar. Uma risada foi a resposta de Madalena. como é que eles estão lá de férias com o pai? . . por mim vocês ainda continuavam casados. está bem – riu-se Afonso enquanto levava o cigarro à boca. . eu acho! Falei com eles ontem à noite e ainda estavam no Algarve. .Também não foi assim. – Por falar nos miúdos. realmente a minha estadia na esquadra foi apenas uma imaginação da minha cabeça. . – Claro que tem defeitos. tu só podes ter bebido antes de cá vir – afirmou Madalena fechando as alças dos sacos de compras. mas talvez o jantar que tinha combinado com Sérgio no Sábado seguinte fosse a razão primordial para aquela alegria tão espontânea. . .Impressão minha ou tu ainda continuas a adorar o Jorge apesar de saberes que ele é um idiota de todo o tamanho?! . .É! Quem não tem – disse Madalena num tom debochado.Fizeste bem em deixá-los ir com o Jorge.Afinal de contas eles também precisam do pai.Não.Não brinques com coisas sérias – afirmou Madalena colocando as compras do supermercado em dois grandes sacos. genro.Sim. .Ele não é um idiota! . .Sinceramente não sei – respondeu Madalena fechando a porta do frigorífico com força.De cigarros já estou a ver. .O Jorge é uma boa pessoa – afirmou Afonso cerrando os olhos quando o fumo do tabaco lhe atravessou os olhos. . . a uma altura dessas a tua filha ainda estaria presa por um crime cometido por ele. – Ponho-te tudo num saco para levares. Na verdade. e se queres que te diga.Não. .Tu sabes que eu não bebo a não ser em ocasiões especiais.Está bem. .Só tenho sessenta e oito e tratas-me como se já tivesse passado dos oitenta.Estou-te a achar muito magro! Tens a certeza que te estás a alimentar como deve ser? . . muito pelo contrário! Eu trato-te como trato o Daniel porque psicologicamente ainda nem chegaste aos dez. É por isso que não tenho queixas dele.Estão bem. .Acho que foste demasiado precipitada em pedir o divórcio.Só que ele sempre foi prestativo para mim e para a tua mãe e também sempre foi um bom genro.Ai não?! Pois deixa-me que te diga que se fosse só por causa do teu querido ex. não é?! .Não. não precisou de muitos rodeios até porque Afonso era o seu grande conselheiro e também uma das poucas pessoas a quem se sentia 29 . . Só na segunda-feira é que vão para Marrocos. . de facto não era.O quê?! .E existe algum alimento melhor? . especialmente por causa da tua idade.Estou-me a alimentar muito bem se queres que te diga – respondeu Afonso acendendo um cigarro junto à janela.

30 . .Com a Alice? . os cabelos e a maquilhagem primaram pela simplicidade.totalmente segura para contar todos os segredos que rodeavam a sua vida. Dos antigos móveis comprados pelo ex. Ele chegou e já não havia mais nada a fazer a não ser abrir a porta e permitir-lhe a entrada. .É uma história comprida que talvez um dia te venha a contar. – Com um homem. – Juízo! . E sim. Nele encontrava-se uma fotografia de Sara e Daniel.Vou tentar.Entra – disse ela.O quê? .Hoje tenho um jantar.Vê lá o que é que fazes. uma simplicidade bastante apreciada por Madalena. os tapetes e cortinados claros eram a palavra de ordem na nova decoração que Madalena fez questão de produzir após o seu divórcio. – Sabes de uma coisa?! . De resto. . De resto. sem hesitações. minha menina – afirmou Afonso puxando-lhe o nariz tal como fazia quando ela era pequena.Dás-me licença? .Obrigada. Um novo retoque nos cabelos. Foi nessa altura que a campainha tocou e lhe provocou um pequeno sobressalto. Por isso.Estes são os teus filhos? – perguntou ele alcançando um porta-retratos sobre a mesinha. . . – Tens aqui um belo património – confessou Sérgio enterrando as mãos nos bolsos das calças. Trajado com umas simples calças de ganga e uma camisola preta. Madalena chegou à conclusão que aquela realmente não era a melhor opção para si e nem para a noite que prometia ser bastante especial tendo em conta a sua companhia.Olá – respondeu ele desarmando-a com o seu sorriso. . . tudo o que o Jorge não é e nem nunca foi. Chegou. cintado e perfeito para uma mulher que não saía para jantar fora há pelo menos seis meses. – Olá! . Ao olhar-se no espelho da casa de banho depois de escolhido um dos primeiros vestidos que lhe passou pelas mãos. Sérgio aceitou o convite com um sorriso e não tardou a chegar à sala onde a arrumação. branco.Por isso.E aonde é que vai ser esse tal grande jantar? . os móveis sofisticados. Mas por agora a única coisa que precisas saber é que vou jantar fora com uma pessoa muito simpática e interessante. no decote do vestido e ela sentiu-se pronta a encarar o rosto de Sérgio Almeida.Ainda não sei! Ele ficou de escolher o restaurante.Homem!? Que homem? . ela voltou a abrir as portas do roupeiro e encontrou um novo vestido.Claro. Sérgio exalava uma simplicidade fora do normal.Hum! Não estou a gostar nem um pouco dessa história. aqui tens a tuas compras da semana! Leva-as e deixa-me preparar para o meu grande jantar. . .Claro que não – respondeu Madalena fulminando o pai com os olhos. marido não restou absolutamente nada ou qualquer réstia da sua presença. assim como os brincos que fez questão de colocar à frente do espelho do corredor. .

.Só fomos obrigados a separarmo-nos quando eu vim para Lisboa fazer o curso de fotografia. mas sempre que tenho algum tempo faço questão de aparecer por lá – respondeu Sérgio poisando os braços sobre a mesa após o término do jantar.Parece ser um programa interessante.E vocês vêem-se com muita frequência? . que submersos numa conversa amena. ou pelo menos nenhum que soubesse.É claro que é um elogio – riram-se os dois. ela fez questão de dissecar todos os detalhes. 31 . . .Tenho a certeza que irias gostar da vila – afirmou Sérgio não se deixando distrair por mais nada naquele restaurante a não ser pelo sorriso dela. e passava a maior parte dos dias enfiado no estúdio de fotografia que abrira com a ajuda de um amigo muito especial. O restaurante escolhido por Sérgio era simples. casual e encontrava-se situado numa das ruas mais movimentadas da cidade.Uau – exclamou Madalena compondo os cabelos no meio de um sorriso. – Fico feliz por saber que o teu avô cuidou de ti durante esse tempo todo – confessou Madalena poisando o guardanapo sobre o colo. – Talvez seja melhor irmos andando antes que se faça mais tarde – disse ela tentando esconder o nervosismo. muito simples.Não tanto quanto gostaria. partindo do pressuposto que seja um elogio… . Dela. e ele até tem dinheiro para comprar uma melhor. aliás. havia uma quantidade exorbitante de clientes. e dele.Eu?! .São bastante parecidos contigo.Obrigada! Quer dizer. É uma casa simples. . – Ele mora numa pequena casinha toda pintada de azul e branco. era órfão desde os dois anos e o único familiar vivo que lhe restava era um avô que morava no Alentejo e que ele fazia questão de visitar sempre que podia. – É realmente muito querido da parte dele. mas o problema é ser demasiado apegado às lembranças do passado. filhos não teve.. – Sempre que me sinto cansado do trabalho e quero descansar um pouco. Soube que ele morava num pequeno apartamento nos arredores de Lisboa. . . fujo para lá e passo os dias a pescar com o meu avô. mas a verdade é que nem o barulho das pessoas. .Bem.Quem sabe um dia não te levo lá. Diz que jamais seria capaz de sair de uma casa onde a mulher deu à luz a filha. No seu interior. Para além disso. confesso que me apanhaste de surpresa. . da televisão ou das cadeiras a arrastar conseguiram desviar a atenção de Madalena e Sérgio. . .Claro! Vamos.Sim. especialmente às lembranças da minha avó e da minha mãe. ele tudo queria saber. A resposta de Sérgio trouxe um novo olhar e também um sorriso que Madalena fez questão de lhe oferecer enquanto se perdia na magnitude daquele momento.Sim! Porque não? . nunca fora casado. continuaram a degustar a refeição escolhida e o vinho especialmente indicado por um dos empregados do restaurante.

. foi repentino. De facto. cheia de energia. o tempo propício para que a noite pudesse ser encerrada e para que ela absorvesse as luzes da cidade que teimavam em invadir-lhes o carro.Espero que tenhas gostado do jantar.Podes acreditar que é! E quando voltamos da pescaria com… um peixe e meio nos baldes… – Madalena não resistiu a soltar uma ruidosa gargalhada. mas… tal como te disse.Teve um ataque cardíaco repentino. – Mas pelo menos ainda me resta o meu pai.Ela morreu do quê?! – perguntou Sérgio com alguma cautela. e pela primeira vez desde há muito.Sinto muito. De facto. . até por ser filha única e essas coisas todas. o relógio assinalou vinte e três horas e quarenta e cinco minutos. Deu tempo para que se conhecessem.A sério?! .Uff – suspirou Madalena largando os ombros. Nesse aspecto tive muita sorte. – Sou mesmo! Confesso que sempre fui muito mimada pelos meus pais.A mais velha chama-se Sara e tem quinze anos e o rapaz chama-se Daniel e tem dez. Sim.O meu pai também é o meu melhor amigo. Ele parece ser igual ao meu pai.Eu também acho. mas ele sempre me deu todo o carinho do mundo.E os teus filhos. . . .Eu gostaria muito de conhecer o teu avô.Óptimo! A seguir ao golo que o Benfica marcou há bocado. . .E… se não for muita indiscrição minha perguntar… és casada? A pergunta de Sérgio não a tomou de assalto e tudo porque Madalena já esperava que mais cedo ou mais tarde ele a fosse fazer.E sou – riu-se ela alegremente.Obrigada! Aliás.Sim. o seu único desejo era que ela se prolongasse por mais algumas horas. 32 . a noite tinha sido maravilhosa em todos os aspectos. Na verdade. .Como é que se chamam? . – Foi a pior fase da minha vida.Deve ter sido muito difícil quando a tua mãe morreu. .. especialmente pelo meu pai. . até porque ela sempre foi uma mulher saudável. para que conversassem sobre assuntos triviais e também para que ela se sentisse suficientemente confortável para tocar naquele assunto tão delicado e pessoal.Tens ar de menina do papá. era só uma questão de tempo e sentido de oportunidade e ele soube aproveitar essa oportunidade na perfeição. Acho que não conseguiria imaginar a minha vida sem ele. . . não?! . essa foi a melhor notícia da noite – disse ele arrancando-lhe uma gargalhada ruidosa.Um casal! Perfeito – sorriu Sérgio levando a mão ao queixo. os meus filhos também. …não! Sou divorciada. – Entregue – disse Sérgio quando Madalena abriu o portão de casa. . . Foi com uma música bem conhecida a tocar no rádio que Sérgio levou Madalena a casa. . Nessa altura. . obrigada por tudo.…vamos para o quintal e assamos o nosso jantar.Eu também – respondeu Madalena tentando esconder a tristeza que lhe assombrou o rosto. . . ninguém estava à espera que aquilo acontecesse. não é?! .

.Será que… . Nenhuma chamada importante a não ser a dos filhos para contar as maravilhas que estavam a viver em Marrocos.Semanas? Meses? Anos? 33 . E em casa. uma refeição em casa e uma cama vazia. um almoço ou até mesmo um café. Cinco dias foi o tempo que Madalena teve que esperar para voltar a ter notícias de Sérgio.Um jantar. tomar um banho.Sei que é meio em cima da hora. Ao vê-lo a desaparecer pelos portões e a enfiar-se no carro estacionado a poucos metros da sua casa.Para dançar – respondeu ele. Madalena sorriu e levou a mão ao peito numa tentativa desesperada de manter o coração ali dentro. despediu-se da melhor amiga e caminhou apressada em direcção ao carro ansiando chegar a casa.Tu sabes há quanto tempo eu não vou ao Bairro Alto!? .Sim! Bairro Alto.. .Pode – respondeu Madalena sentindo-se como uma verdadeira adolescente quando ele se debruçou e a beijou na face. O que é que te parece? . Após mais um dia exaustivo de trabalho onde foi obrigada a levar vários caixotes pesados ao armazém ao lado de Alice e do motorista que trouxera as encomendas dos fornecedores.Não! Claro que não – respondeu Madalena moderando os passos ao longo da avenida.Ligo-te ainda esta semana.Por mim tudo bem. deixava o aparelho sobre a caixa de velocidades e quase tinha acidentes quando os seus olhos saíam da estrada. mas estava a pensar em convidar-te para sair hoje à noite.Sair para onde? .O quê!? O jantar? . . Ele que estava a bater acelerado.Tu também. enquanto atendia algum cliente. descompassado e tudo por causa de Sérgio que sem querer acabou por o trazer de volta à vida. um sorriso atravessou-lhe os lábios e fê-la recuar nos seus intentos de um banho. . Durante a condução para casa.Gostei imenso.Boa noite! Dorme bem. – Será que liguei numa má hora? – perguntou Sérgio com uma voz absolutamente irresistível. Qualquer coisa! . Na floricultura. . muitas eram as vezes em que se dava consigo a olhar para o visor.…podemos repetir um dia destes? . Madalena deu-se por vencida e fechou a loja mais cedo do que o habitual. isto para não falar das inúmeras vezes que lançou os olhos ao telemóvel ansiando uma mensagem de texto ou até mesmo um toque que lhe trouxesse um sinal da existência do fotógrafo.Dançar?! . qualquer ruído era suficiente para que pensasse que era o telefone a tocar.ele hesitou. Depois disso. . . . Pode ser?! . Mas nada. comer alguma refeição ligeira e cair na cama sem pensar em mais nada a não ser no dia seguinte. . Mas teriam os seus planos algum tipo de fundamento? Ao ouvir o telemóvel tocar no bolso do casaco e mais tarde o nome da pessoa que a estava a telefonar.

– Mas só espero não dormir antes de chegares. pelas mesas e cadeiras sofisticadas e por um ambiente muito menos explosivo. Madalena sentiu-se no seu verdadeiro habitat quando Sérgio a ajudou a sentar-se numa das poucas mesas vazias e caminhou em direcção ao balcão pronto a pedir as primeiras bebidas da noite. . .Pode – respondeu ela abrindo as portas do carro. Uma Cosmopolitan para ela e um whisky para si. .Disseste-me que os teus filhos estavam a passar férias com o teu ex. o facto de se ter esbarrado com uma dessas mulheres à saída apenas veio a cimentar as suas convicções. Aquele realmente não era o local ideal para si. De facto.. A perfeição do recinto ficou marcada pela sua decoração tipicamente tradicional.Está bem – respondeu Madalena sentindo-se aliviada quando abandonou aquele bar propício para mulheres que ainda não haviam passado dos vinte e que desejavam urgentemente engatar o primeiro homem que lhes aparecesse pela frente. outras drogas ilegais. – Antes de a minha filha ter nascido. Sim. Madalena foi obrigada a respirar fundo e a assimilar tudo aquilo que lhe estava a acontecer.Pois hoje vamos dançar e eu não aceito um não como resposta. Madalena sabia-o. Por volta das dez e meia! Pode ser? . um local repleto de gente jovem.Eu não queria que… . – A que horas? . Vamos para um outro bar aqui ao pé.Não te preocupes porque eu vou estar mais do que preparada. por isso não tens desculpas.Este é perfeito – respondeu Madalena voltando-se para ele com um sorriso radiante.Então está bem! Fico à espera.Até acho que isto está cheio demais! Nem sequer têm mesas vazias e iríamos acabar por ter que ficar no balcão. – E este? – perguntou Sérgio quando entraram num bar completamente diferente do anterior. Apesar de ser frequentado por pessoas mais velhas. . mas… .Prometo que não me vou demorar muito. eu não sei … . De resto.Podemos procurar um outro bar menos movimentado! Existem muitos por aqui. mas ainda assim houve algo na voz de Sérgio que a fez hesitar e querer seguir em frente com aquela loucura tão deliciosa.Não – adiantou-se ela tocando-lhe no peito sem querer.Prepara-te! . havia décadas que não pisava um local daqueles.Mas o quê?! . . Quando se viu no interior de um dos bares mais requisitados do Bairro Alto. 34 . . . mesas e cadeiras degradadas e a música rock a ecoar-lhe nos ouvidos como se fossem verdadeiras bombas atiradas lá para os lados do Iraque. marido. – Toma – disse ele voltando à mesa alguns minutos mais tarde. – Não é nada disso.Décadas – respondeu ela arrancando-lhe uma leve gargalhada.Sérgio.Tal como te disse. Não.Vou-te buscar assim que sair do estúdio. Havemos de encontrar algum que seja mais interessante. . fumo de cigarros. . – Estás bem? – perguntou Sérgio percebendo-lhe o desconforto patente nos olhos. Eu quero dançar e quero dançar contigo! Não aceito outra companhia… Era uma loucura. .Podemos ir embora se quiseres. .Estou. . não estou muito habituada a este tipo de ambientes.

Uma música absolutamente irresistível. Sérgio encostou Madalena contra si e permitiu que ela fechasse os olhos sem se importar com as pessoas à sua volta ou com o adiantado das horas. . sabias!? – disse Madalena quando se viu envolvida numa balada verdadeiramente romântica.Tu também não ficas atrás. Ali. – Para mim danças perfeitamente. encerrar o expediente com a nítida certeza que faria exactamente a mesma coisa no dia seguinte. Pelo menos dá para conversar sem termos que berrar aos ouvidos um do outro.És um cavalheiro e é por isso que não dizes a verdade. .Lá isso é verdade – riu-se Madalena enquanto bebia o primeiro gole da sua Cosmopolitan.É um pouco escondido.Obrigado pelo elogio.Claro que não! Adorei saber tudo o que fazes. encostou a cabeça nos ombros de Sérgio deixando-se levar pelo momento mais especial da noite. .Mas mesmo assim eu quero saber. Um arrepio na espinha foi o que Madalena sentiu. Literalmente nua. onde por sorte ou não. receber as encomendas da carrinha que dia sim. e por fim. atender novos clientes. .Aonde é que aprendeste? 35 .Então conta-me lá como é que foi o teu dia. não danço? – perguntou ela voltando a encarar-lhe o rosto. atender clientes. – A minha vida é uma seca. . tudo deixou de ter importância quando as mãos dele percorreram-lhe as costas e se enterraram nos seus cabelos soltos. . .Tens razão. . segundo as palavras do fotógrafo – Esta música é do meu tempo. e depois disso. dia não lhe surgia à frente da porta da loja. . – Danço muito mal. Quero saber tudo o que te aconteceu desde que saíste da cama até à hora que te telefonei a marcar este encontro – respondeu Sérgio não tirando os olhos dela um só segundo.Sim! Está a passar uma música que eu gosto muito e que não quero desperdiçá-la de maneira nenhuma.Foi normal! Absolutamente normal. . Sem mais palavras para lhe dizer. já se encontravam outras pessoas a dançar “At Last” da cantora norte-americana Etta James. telefonar a fornecedores. E quando o fez. – Queres dançar? . . . O sorriso de Sérgio convenceu Madalena a oferecer-lhe a mão e a seguir com ele em direcção à pista de dança.Não existem músicas do nosso tempo! Existem músicas intemporais e esta é uma delas.Agora?! . naquele bar tão acolhedor e destinado a seres humanos acima dos trinta. não tendo outro remédio a não ser contar as pequenas tarefas que realizou durante o dia.Confesso que nunca tinha entrado neste bar e olha que já frequento o Bairro Alto há anos.Sim! Mas eu gostei imenso.Obrigada. . .Para mim só o facto de saber que respiras já é o suficiente para achar a tua vida fascinante… . não é?! . almoçar. Abrir a sua floricultura.. Madalena sentiu-se nua. pagar algumas contas. . podes dizer – concluiu ela entre risos.Nem por isso – respondeu ele fazendo-a girar sobre os pés.respondeu ele encontrando-lhe o pulso sobre a mesa.

Posso beijar-te?! – interrompeu ele. acho que nem sequer me vou deitar porque… . . . . mas sim inúmeras vezes até conseguir saciar o desejo e a vontade de tê-la só para si. Por isso. quanto a isso não havia dúvidas.Então quer dizer que tenho aqui nas minhas mãos uma verdadeira bailarina!? Madalena sorriu. Ambos.Só acredito se me disseres isso ao ouvido. Não tinha e nem queria sair daquele jardim sem fazer algo pelo qual havia ansiado desde o início da noite. ainda surpresa pela audácia dele. . .O quê?! . . ..Uau! Não és nem um pouco convencido.Não acreditas nas minhas palavras? . É a letra de uma música. e mesmo ela tendo tentado desviar-se dos braços dele à volta da sua cintura. Beijá-la.Estou-te a perguntar se te posso beijar. ao seu estado civil e também ao seu desejo de aventurar-se nos ouvidos de um homem que mal conhecia. Quer dizer. . Sérgio não tinha todo o tempo do mundo para esperar por ela.Já disse que danças muito bem. Madalena não pensou duas vezes em acatar-lhe o pedido. Três horas e vinte e cinco minutos foi a hora que Madalena abriu os portões da sua casa após uma noite maravilhosa passada ao lado de Sérgio. – És louco – riu-se ela quando Sérgio lhe caiu sobre os ombros.Confesso que não aprendi em lado nenhum – respondeu ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. . – E querias-me convencer que não sabias dançar? Aposto que só estás a dizer isso para não me fazer sentir mal.E tu? Aonde é que aprendeste a dançar assim? . Naquele momento. ainda continuavam a cantar um dos temas mais marcantes do serão. .Diz! Podes confessar. O feito de livrá-la de todas e quaisquer inibições relativamente à sua idade. um pouco embriagados. a verdade é que foi completamente impossível resistir-lhe à voz rouca e desafinada nos ouvidos.É melhor ires – respondeu ela tentando resistir àqueles olhos verdes.Claro que não – respondeu ela não contendo os risos. ele aproximou-se dela e tomou-a nos braços com um beijo absolutamente esmagador.Que pena – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso. A mão levada ao peito e o virar do rosto em direcção ao quintal do vizinho foram alguns dos indícios que fizeram antever a resposta de Madalena.Já é quase de manhã e eu acordo cedo. – Danças muito bem – sussurrou ela. enquanto Madalena. não sou?! . Beijá-la não uma.Não! São as minhas palavras e eu estou a cantá-las para ti… . não sei… . manteve-se de olhos abertos numa tentativa desesperada de convencer-se que nada daquilo 36 . – Por mim continuava a dançar contigo até de manhã. – Digamos que é um talento natural. não duas. – Talvez tenha aprendido aí.Eu costumava praticar ballet quando era mais nova – respondeu ela envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. mas ainda assim.Eu acho que sim.Isso quer dizer que a nossa noite terminou? . .Não são as tuas palavras. Perto de ti sou um verdadeiro aprendiz. pé ante pé. até porque a dança tinha conseguido um feito inédito.

E não é que foi isso que fez? Sem pensar nas consequências.Já reparaste que passas a vida a falar da tua idade? . .Pois bem! Então deixa-me que te diga que não é esse facto que me vai fazer afastar de ti. mãe de dois filhos adolescentes… . É um sonho. Sérgio sorriu. claro que não.Que se calhar com a minha idade eu não deveria reagir tão mal por causa de um beijo. 37 . Voltou a beijá-lo e pela primeira em toda a sua vida tomou a iniciativa de se atirar para os braços de um homem que não o seu marido. – Isto é de doidos… . – A sério! Pára…! .A pergunta é: o que é que tu queres que eu queira de ti? Ao ver-se metida num verdadeiro dilema.estava a acontecer.Sim – respondeu ele desarmando-a novamente com o seu olhar.Eu?! . Deveria estar na cama há horas.Desculpa – disse ele.Só estou a constatar um facto.Talvez – riram-se os dois. Como sonhou descobrir o que estava por debaixo dele. que Madalena se deixou encostar à parede permitindo que Sérgio a livrasse do vestido que ela utilizou para o fascinar durante toda a noite. Madalena e Sérgio entraram pela casa adentro sem se importarem com mais nada. Nem sequer com o tapete do corredor que quase os fez escorregar junto ao bengaleiro. . Submersos em beijos. deveria estar a pensar nos filhos e também na floricultura que teria que reabrir de manhã….suspirou Madalena sentindo-se prestes a cair num abismo.Sim ou não?! . que és divorciada e que tens dois filhos adolescentes… . . . mas a verdade é que não estava. pensou. . foram os pensamentos do fotógrafo quando o tecido caiu ao chão.Também. Estava antes diante de um dos homens mais fascinantes que lhe haviam atravessado o caminho e a sua única vontade era voltar a enterrar-se na boca dele e sugar-lhe todo o sabor que ele a fizera provar momentos antes.Na tua casa? . Um sonho do qual vou acordar daqui a cinco segundos e não me vou lembrar de absolutamente nada.Uma mulher divorciada. – Eu sei que devo parecer ridícula… . Madalena sorriu e não evitou pensar que deveria estar em todos os lugares menos ali.Um pouco. – Pára – pediu ela desesperadamente. E foi ali.Sérgio… – murmurou ela.Fiz mal?! .O que é que queres dizer com isso? – perguntou Sérgio. mas não só… – respondeu ela arrancando-lhe uma ruidosa gargalhada. – Quer dizer… sim! . . ela puxou Sérgio contra si e realizou todos os desejos que manteve escondidos durante a noite.Queres entrar? . abraços e tropeções.Não – adiantou-se ela. enfim! Deveria estar a pensar em tudo aquilo.Diz! .Não. intrigado. – Estás sempre a insinuar que és muito mais velha que eu. baixinho.O que é que tu queres de mim? . . – O que foi? . no meio de uma escuridão avassaladora. – Exagerei?! .

passámos uma noite fantástica e … eu fiz sexo – exclamou Madalena arrancando 38 .confessou Sérgio. – Ai. cada segundo… .Então se for assim eu deixo-te ir. não sabia.Ligas hoje? . Precisavam ver-se. como poderia sequer pensar em trabalhar quando a sua única vontade era continuar ali deitada para sempre de olhos postos no tecto? Ou estariam antes postos no céu? De facto. os braços musculados que ele tinha e a forma como se deixou entregar a ele durante horas a fio. Contudo. – Adorei … .Disse que tinha tido muito trabalho durante a semana e que por isso não teve tempo para me ligar antes – respondeu Madalena levando a mão ao queixo. . .O quê?! – perguntou Sérgio devorando-lhe o pescoço. . as horas de prazer que passaram juntos não deixaram outra alternativa. .Nunca pensei que pudesse acontecer tão rápido.Cada milésimo de segundo – riu-se Madalena ainda colada aos lábios dele.Tchau… . . . . . – E assim que puder eu ligo-te.Então eu vou – disse ele beijando-a novamente. na altura. precisavam sentir-se e precisavam urgentemente ter-se um ao outro sem pensar nas consequências que aquele caso poderia trazer às suas vidas.Isto. . – Achas que deva acreditar? .Ir para a cama com um homem que mal conheço – respondeu Madalena soltando um outro suspiro quando ele mordiscou a sua orelha direita. .Prometes?! .Tchau! . Sérgio e Madalena despediram-se à porta de casa com um longo beijo e com a promessa de tornarem a reencontrar-se assim que possível. Não lhe importou a sua triste figura enquanto subia as escadas pois tudo o que ela queria era continuar a sentir os lábios de Sérgio. nada disso importou. meu Deus! Não faças isso… Quando os primeiros raios de sol se impuseram nas janelas e demonstraram que era altura de voltar à realidade. ela voltou a fechar a porta e deixou que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo em forma de gritos.Eu também.Ligo.Nós vamos repetir tudo outra vez. . Como é que poderia dormir se nada daquilo lhe saía da cabeça? Aliás.Prometo.Aleluia – foi a reacção de Alice na manhã seguinte quando Madalena lhe contou todos os detalhes que rodearam a sua noite com o Sérgio. .Nem eu! Confesso que até já tinha perdido esperanças que ele te voltasse a ligar.Bem. De resto. mas realmente não é isso que importa! O que importa é que ontem saímos para dançar.Claro que sim.Adorei cada minuto. .Quero repetir tudo outra vez! .respondeu Madalena permitindo que Sérgio se afastasse com um largo sorriso e encontrasse o carro estacionado a poucos metros da sua casa. Ele não tinha razões para te mentir. .Eu nunca fiz isto. . esperneios e uma dança absolutamente ridícula ao longo do corredor. o quê? .. Depois disso.

Mais tarde. E que homem. no sofá e no quarto. ou pelo menos escondido até que tivesse coragem de lhes contar que a mãe finalmente havia encontrado alguém para lhe aquecer os pés nas noites frias de Inverno e para lhe destapar os lençóis nas noites quentes de Verão. E assim. acho que me enganei. não foi muito difícil para Madalena encontrar o estúdio de Sérgio que ficava exactamente situado num dos pontos mais movimentados da cidade.Está à procura de…?! – perguntou a jovem passando as mãos pelos cabelos com uma descontracção fora do normal. a pouco e pouco. abrir a floricultura. mas tal como disse. a simples ideia de que as coisas voltassem a ser o que eram antes. Contudo. Diante da chegada dos filhos. . Sexo… . de cabelos loiros. E foi exactamente à procura de uma história que ela subiu as escadas do edifício onde se encontrava instalado o estúdio de Sérgio. – Acreditas nisto?! Eu fiz sexo! Fiz sexo.Estou tão contente como se tivesse acontecido comigo. Ele deu-me o endereço.Não – afirmou Alice sentando-se à frente dela. Na verdade. . após um dia cansativo na floricultura. . tudo isso faria parte do passado. dois toques e a porta foi aberta por uma jovem altíssima. Um toque. Lingerie e Madalena pôde ter essa certeza quando a observou dos pés à cabeça. um pouco degradados. Não. – Tu não podes morrer nunca. não se enganou! É aqui mesmo.Acho que se morresse hoje. Madalena aceitou o convite de Sérgio para conhecer pela primeira vez o estúdio fotográfico que ele dirigia. mas com imensas histórias para contar. A Rua do Carmo. era uma proposta irrecusável e ela aceitou-a sem pestanejar já que os filhos só chegariam a Lisboa no Sábado de manhã repletos de histórias para contar e presentes que juraram ter adquirido para si.Não.…eu acho que me enganei. olhando novamente para o papel que tinha nas mãos. provocava-lhe um verdadeiro ataque de histeria.Hã! Do estúdio de um fotógrafo chamado Sérgio Almeida. a carta de alforria que ela havia conseguido quando os filhos partiram de viagem foi-se esgotando no prazo de validade. .vários pulos de alegria por parte da sua melhor amiga. saltos altos e uma lingerie que tapava apenas o essencial. minha amiga! Que homem! . sair a tempo de buscar o filho mais novo ao colégio e voltar para casa onde a preparação do jantar era a palavra de ordem. .Eu sei – riram-se alegremente. . preparar os filhos para a escola. Naquela sexta-feira. Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser os encontros fortuitos de Madalena e Sérgio ao final da tarde que muitas vezes culminavam com um jantar e uma noite de prazer na casa dela. . percebeu que tinha chegado ao destino. morria feliz. principalmente por saber que não teria tanto tempo para estar com Sérgio e muito menos a possibilidade de o levar para a sua casa e fazer amor com ele no corredor. Faltavam apenas vinte e quatro horas para que Sara e Daniel regressassem de Marrocos e para que a vida de Madalena retomasse o curso habitual. Uma rua famosa pelos seus prédios antigos. Acordar cedo. divorciada e com filhos consegue arranjar um homem que se interesse por ela. 39 . Sim. será que não percebes?! Tu és a prova viva que uma mulher acima dos quarenta. Com o endereço nas mãos.É?! – indagou Madalena esbugalhando os olhos.

Ainda tentou beijá-la. um famoso anúncio televisivo dos anos noventa.Está tudo óptimo. mas eu não costumo usar fios dentais. por favor… . . Era como se algo lhe gritasse aos ouvidos para desaparecer. nada poderia ser mais provocante e explícito.Sim.Uau! . . até mesmo porque essa seria a atitude mais sensata a tomar tendo em conta as pernas bem definidas e o busto daquela modelo que não aparentava ter mais do que vinte e cinco anos. assim como as poses sensuais que a modelo fotografada fazia questão de oferecer às lentes de Sérgio. Entre! Na verdade. ela também já tinha tido vinte e cinco anos.Obrigada. Na aparelhagem soava igualmente uma música bastante insinuante que muito lembrou a hora Coca light.Olá! . Muito bom! Estás óptima. .Assim!? – perguntava a modelo sem sequer se aperceber dos olhares aterradores que Madalena lhe fez questão de lançar de longe. De facto. Eu é que acho que vim numa má hora. . tudo o que ela não imaginava era encontrar duas mulheres seminuas que em muito lhe faziam lembrar os seus vinte e cinco anos. Sim. pois quando Sérgio a convidou para conhecer o seu estúdio fotográfico. . mas por sorte ela desviou-se a tempo para que as duas modelos não descobrissem a sua verdadeira identidade. . a única vontade de Madalena era fugir e fingir que nunca estivera ali. Tem que comprar. – Quer dizer.Gosta? – questionou ela mostrando o fio dental sobre uma das mesas do estúdio. mas é giro.Desculpa! Já chegaste?! Não te vi entrar – disse Sérgio quando finalmente se apercebeu da presença de Madalena no estúdio.Eu?! Não! Definitivamente não.Uma campanha de lingerie.Chegámos – exclamou a modelo parecendo ignorar a última frase de Madalena quando abriu a porta e a encandeou com as luzes vindas do estúdio. – Esses são muito bons para nos levantar o rabo..É giro – respondeu Madalena segurando nas mãos um pequeno pedaço de tecido.Isto é para quê? – perguntou Madalena aos ouvidos da modelo que lhe havia aberto a porta minutos antes. . – Ele está a fotografar uma outra rapariga… .informou a jovem caminhando com Madalena pelo pequeno corredor quase às escuras. .Pois devia – respondeu a modelo bebendo um gole de água com a ajuda de uma palhinha fluorescente. . é minúsculo. – Você também veio fotografar? . – Isso! Isso mesmo! Agora reflecte a perna e olha para mim… .Sim. I just wanna make love to you. para criar alguma vergonha na cara e para não se iludir com um homem que parecia viver rodeado de modelos belas e esculturais.São os novos fios dentais da Vitoria Secret. Porque apesar de tudo.Está tudo bem? . . .Vou pensar no caso – murmurou Madalena desejando desaparecer o mais rapidamente possível. . 40 . – Inclina um pouco mais a cabeça.dizia ele totalmente concentrado no que estava a fazer.

Para além disso. Era uma jovem bonita. Madalena não resistiu a observar a forma como Vera bebia a água pela garrafa. computadores e outros aparelhos electrónicos que utilizava para trabalhar. .As tuas modelos. mas ainda assim. imponente e profissional o quanto bastante para nem sequer lhe dirigir a palavra ou esboçar qualquer expressão facial quando os seus olhares se cruzaram pela vigésima vez. É a primeira vez que trabalhas com elas? . 41 . Importaste de ficar à espera só mais uma hora?! É que nos atrasámos por causa das luzes e também porque a equipa da maquilhagem e dos cabelos só nos apareceu por aqui depois das quatro. ao olhá-la com um pouco mais de atenção. especialmente quando a viu tão perto de Sérgio e percebeu que algo os unia. Vera parecia muito mais segura de si.Quem?! . Ao lançar os olhos para o cenário improvisado. era também perceptível que a presença de Madalena a incomodava mais do que qualquer outra coisa. Eu espero – respondeu Madalena lançando os olhos àquela sala desarrumada. – Já tínhamos combinado. lembraste?! .Só falta fotografar a Natália e depois fico despachado por hoje.Claro que não – respondeu ele poisando a máquina fotográfica sobre uma mesa repleta de cabos. Madalena percebeu que não era apenas a beleza a única característica que a diferenciava de Natália..Não. mas com a Vera sim. quanto a isso não havia dúvidas. – São simpáticas.Ainda vai demorar muito a sessão? . Seriam namorados? Amigos? Ou qualquer outra coisa pelo meio? De qualquer maneira não devia ser nada sério visto ela aparentar ser mais velha que ele.Com a Natália não. tudo bem. .

. Daniel e Sara.Ainda bem – respondeu Madalena compondo-se na sua camisola de malha. . .Olá! .Obrigada.Eu também tive saudades tuas.CAPÍTULO III O aspirador foi desligado na sala quando faltavam poucos minutos para as onze da manhã e tudo porque a porta da rua se abriu sem qualquer aviso prévio trazendo consigo as duas pessoas que Madalena mais desejava ver na altura.Tivemos que parar duas vezes no caminho para ela vomitar – disse Daniel recebendo alguns afagos na cabeça por parte da mãe.Mesmo assim. . .Que bom que se divertiram – disse Madalena rasgando alguns olhares à sua filha que ao contrário do irmão nem sequer se dignou a cumprimentá-la com um abraço.Como vês. . Sara?! Não me vais dar um beijo? . vocês deviam ter… .Deve ser coisas de mulheres – respondeu Jorge não querendo adiantar muitos detalhes acerca do assunto.Olá. . – Então.Estás todo bronzeado. .Fomos à praia todos os dias – respondeu ele.Claro – respondeu ela obedecendo ao pedido sem muito entusiasmo enquanto o pai arrastava as malas para o interior da moradia.Porque ela veio um pouco mal disposta da viagem. . .A sério? Porque é que não passaram por um hospital? . – Mãe – exclamou Daniel correndo em direcção à sua progenitora e aninhando-se nos braços dela. . Os seus filhos que após um mês de férias resolveram regressar a casa e brindá-la com as suas risadas e brincadeiras. o pai já disse que não foi nada importante – resmungou Sara sob o olhar incrédulo de Madalena. – Porque é que tens sempre que te meter aonde não és chamada? 42 .Porque é que não a convidaste para entrar? .Ai que saudades! .Mãe. – E a… Vanessa? Não veio com vocês? .Estás bonita.A Vanessa está no carro. animado. – E vimos golfinhos. mãe! Foi bué fixe! . voltámos todos são e salvos. Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso. .

– Que raios! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? . Estas foram as últimas palavras de Sara antes de agarrar nas suas malas e subir as escadas em direcção ao quarto. eu não tenho a culpa que tu e a Sara nunca se tenham dado lá muito bem.Tens a certeza!? . aliás. Será que não percebes que é essa tua mania de a quereres proteger de tudo e de todos. .E?! Ainda perguntas… e…?! Ela nunca me enfrentou dessa maneira. Ela realmente não tinha paciência nenhuma para as responder. – Foi contigo que ela esteve nestas últimas quatro semanas e olha só como é que ela voltou?! . mas com a Sara já não resulta e tu tens que meter isso na cabeça. Aonde é que foram? O que é que fizeram? Como é que o pai se portou? Comeram todas as refeições? Não. . .Claro – riu-se Jorge secamente. . .E o que é que vais dizer? Que a culpa é minha? . .Que raiva! Se soubesse tínhamos ficado mais uns dias no Algarve. afinal de contas ele ainda é uma criança.Nós sempre nos demos bem. reages sempre assim… . mas ela já não é uma criança.Eu nunca coloquei os nossos filhos contra ti – respondeu ele largando os braços.Sai – exclamou Madalena abrindo a porta de rompante. . – Daniel! Sobe e vê se tomas um banho antes do almoço – pediu Madalena trocando um olhar cúmplice com o ex. mulher à razão. – O problema é que tu a tratas como se ela fosse uma criança.Sabes qual é o problema da Sara contigo? Madalena calou-se. Não. – Preciso falar com o pai. marido. de a encheres de mimos e de a sufocares com regras que a está a fazer afastar-se de ti? – discursou Jorge tentando trazer a ex. não era?! 43 . .O que foi? – perguntou Jorge sabendo à partida que iria ser criticado por algo que ainda nem sabia o que era. Um local onde pretendia trancar-se durante vinte e quatro horas e não sair de lá nem por decreto de lei. .Boa! Quando sentes que perdes a razão.Jorge. . Não iria almoçar.Por isso mesmo! É uma adolescente e não uma criança. . eu sempre joguei! Mas não queiras colocar os nossos filhos contra mim porque eu não vou admitir uma coisa dessas.E… .Tu viste como é que a Sara falou comigo? .É claro que é tua – respondeu Madalena tentando manter a voz baixa.Lena.Está bem – respondeu o último subindo as escadas a correr. – Então continua assim para ver se a Sara não se afasta de ti de vez.Sara?! . Agora sai! .Só te estou a avisar.E tu irias adorar se isso acontecesse. . . não iria jantar e nem queria sequer responder às perguntas da mãe que com certeza seriam as mesmas.Ela só tem quinze anos. – Com o Daniel até pode resultar..Eu não perdi a razão! Eu tenho razão. eu estou a jogar limpo contigo.

.…claro – disse Madalena tentando esquivar-se aos olhares lancinantes que a filha lhe lançou enquanto abria a porta do frigorífico. .Não.Acho que correu bem.Aquela campanha de ontem? . 44 .Advinha lá!? O sentimento é recíproco… – respondeu Jorge saindo porta fora. . pois a discussão com o ex. Pelo menos eles vieram animados. Apesar de ter tentado controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos.Estive a trabalhar – respondeu Sérgio analisando algumas das fotografias que tirou durante a tarde.É. nenhum.Está bem – respondeu Sérgio desligando a chamada quando se deu por vencido. – Escuta. . marido continuou a ecoar-lhe nos ouvidos durante a tarde toda. – Desculpa – pediu ela retornando a ligação assim que terminou de arrumar a loiça do jantar. Mas para que tenhas um rasgo de clarividência.Não faz mal – respondeu ele. um número perdido e a raiva que sentiu ao final da noite quando descobriu que a pessoa que lhe tinha tentado ligar era Sérgio.Jorge. . A revelação de Jorge não podia ser mais bombástica e prova disso foi o recuo de dois passos por parte de Madalena. – Imaginei que estivesses com os teus filhos.Apesar de não acreditares.E eu odeio-te! . infelizmente vou ter que desligar. . Sara entrou na cozinha e surpreendeu a mãe encostada ao lava-loiça completamente submersa numa conversa telefónica. E a verdade é que estava tão submersa nos seus pensamentos que nem sequer se apercebeu do telemóvel a vibrar sobre a bancada da cozinha.Isso é o que importa. eu mato-te! .. . eu não iria adorar.Obrigado pelo elogio – riram-se os dois. . .E tu? Como é que te correu o dia? . não. Podemos falar mais tarde? . Eu ligo-te depois.Algum problema?! . – Nada de especial! Agora estou para aqui a ver se consigo melhorar as fotos para a campanha da Vitória Secret. Com quem estaria a conversar. se tu me levares a Sara daqui. perguntou-se.Tenho a certeza que te vais sair muito bem! És um excelente fotógrafo. . Sabes porquê!? Porque tu és insuportável. para Madalena foi completamente impossível realizar tal tarefa. . . Uma chamada não atendida. deixa-me dizer-te que durante estas férias a nossa filha pediu para morar comigo. já disse! Mas eu entendo o porquê de ela se quer ir embora cá de casa.Isso mesmo que ouviste! Ela quer morar comigo. .Sim! Tenho que entregar tudo pronto na semana que vem.Eu não quero tirar a Sara de ninguém. eu estava – murmurou Madalena tentando esconder o facto de não ter visto a filha mais velha desde a hora do almoço quando ela resolveu trancar-se no quarto com uma música rock aos altos berros. – Só vi a tua chamada agora. – O quê?! .Como é que foi a viagem? . Nessa altura.Não precisavas ter despachado a pessoa com quem estavas a falar só por minha causa… – afirmou Sara servindo-se de um copo de sumo sobre a mesa da cozinha.

– Se estás à espera de um pedido de desculpas. – Nunca mais na tua vida te atrevas a levantar-me a voz.Tu não vais a lado nenhum! . . é melhor esperares sentada… – afirmou Madalena tentando manter a expressão aterradora que tinha no rosto.Eu quero que morras… A resposta efusiva de Sara tomou Madalena de assalto. – Diz lá! Não tens tudo aquilo que precisas? Não tens um tecto. . sapatos e computadores!? O que é que queres mais? . . a verdade é que eu adoro e tu vais ter que te habituar a essa ideia. . um quarto só para ti.Achas bem aquilo que fizeste?! .Que opinião?! . Sara! Ele contou-me que tu pediste para ir morar com ele.Eu tenho todo o direito de querer escolher com quem quero ou não morar – respondeu Sara poisando o copo de sumo sobre a mesa. Sara – imperou Madalena calando-lhe os argumentos. hã – vociferou Madalena aproximando-se bruscamente dela. nunca te passou isso pela cabeça? .Sei?! . É verdade? . . . – Lá porque tu decidiste que eu e o Daniel tínhamos que ficar contigo..Apesar de odiares a ideia de que eu adore o meu pai. .Qual é o teu problema. porque eu ainda continuo a querer que morras – respondeu Sara abandonando a cozinha sem sequer terminar o sumo que deixou sobre a mesa e deixando Madalena a sentir-se o pior ser humano à face da terra.O quê?! . – Mas ainda bem que te ponho os olhos em cima porque precisava esclarecer uma coisa contigo. Podemos ter uma opinião diferente. Porque é que se estava a sentir assim. comida. foi a pergunta que imperou no ar enquanto os seus olhos mais uma vez lutavam contra as lágrimas.Não te faças de desentendida. . Silêncio foi a resposta de Sara embora os seus olhos estivessem a vermelhar de raiva. 45 .Foste tu que o escolheste para ser o nosso pai. O olhar de ódio disse tudo. . lembraste?! Não fomos nós.Não me podes impedir de morar com ele! Ele é o meu pai.Não! Se tu estás à espera de um pedido desculpas. .Nem sequer falaste comigo sobre os teus planos quando sabes muito bem que sou eu quem tem a tua guarda e a guarda do Daniel.Sim – respondeu a jovem com toda a calma do mundo.Não foi por tua causa – disse Madalena largando o seu telemóvel sobre a mesa. .Não me levantes a voz.Eu quero passar uns tempos em casa do pai. tu é que vais ter que esperar sentada. mas nem por isso a inibiu de oferecer à filha uma valente bofetada no rosto que a fez recuar dois passos e suster a face com a mão.Eu não acredito que me estejas a dizer uma coisa dessas.O que é que foi que eu fiz? .Ai é?! . . roupas.Sara… .Estive a conversar hoje com o teu pai. isso não significa que nós queiramos realmente ficar contigo.E tu sabes bem qual foi o assunto.

Porque os tempos eram outros! No nosso tempo. tratar da roupa e das compras do supermercado. .Sinceramente não sei o que fazer… .Estás a gozar!? – riu-se Alice enquanto terminava o arranjo de margaridas. Mas se tivesse uma filha como a Sara.foi o desabafo de Madalena à melhor amiga várias semanas mais tarde. ela que vá! Apesar de nunca ter tido filhos. Achas que eu sou uma má mãe? . não sei. – Devias ter tido filhos. lá isso é verdade. 46 . nem mesmo a brincar. . .O quê?! .Pois eu acho que devias. ai de nós se levantássemos a voz aos nossos pais! Era logo um par de estalos e assunto encerrado.A minha adolescência não foi assim e a tua também não.Claro que estou. .Culpa do quê? .O Jorge disse-me que a culpa era minha porque eu ainda não me tinha dado conta que a Sara já não era uma criança e que não adiantava nada enchê-la de mimos e regras porque isso só faria com que ela se afastasse ainda mais de mim… – discursou Madalena cruzando os braços. . ou esse azar.Achas que a culpa é minha? – perguntou Madalena encostando-se ao expositor da loja. – Onde já se viu?! Ninguém deve desejar a morte da própria mãe. mas eles a querem fazer. acredita que de adolescentes eu percebo bem e sei que quanto mais nos mostrarmos contra alguma coisa.É claro que devias – ripostou Alice ajeitando um ramo de margaridas encomendadas pela manhã.A adolescência é assim. .Claro que não. em menos de duas semanas estava de volta. . Lena! De onde é que foste tirar uma ideia dessas? . . era exactamente assim que iria reagir.Faz uma experiência! Diz que aceitas que ela vá morar com o pai e que não te opões em nada.Bem.Tu és uma caixinha de surpresas – afirmou Madalena sugando-lhe a face. Mas diz lá qual é o problema concreto desta vez! . .O Jorge é um idiota.Deixá-la ir morar com o pai. – E tu estás preocupada com isso? . sabias!? . – Achas que ele tem razão? .Achas?! – perguntou Madalena não muito segura das palavras da melhor amiga. Se ela quiser ir.…volta a correr para a maravilhosa mãe que anda a desperdiçar. .Culpa do comportamento da Sara.A Sara quer morar com o pai. .Alice!? Estás louca?! . .. Desde há uns meses para cá tem andado estranha e fala com as pessoas como se as quisesse bater. Lena! . Quando ela tiver que cozinhar. – Não lhe devia ter dado aquele estalo. volta para casa com o rabinho entre as pernas e ainda te trata a pão-de-ló. . . Eu não quero que ela vá morar com o Jorge sabendo bem que ele é um irresponsável de todo o tamanho. .Garanto-te que se a Sara fosse morar com o pai.Infelizmente nunca tive essa sorte. .Quando ela perceber o traste do pai que tem – riu-se Alice.Eu só queria saber o que é que se passa com ela.

. Mas e se a filha não voltasse? E se ela continuasse a morar com o pai para sempre? Não. para umas visitas turísticas ao seu quarto e também onde passava as poucas horas livres que o trabalho lhe deixava durante o dia sem sequer se preocupar em lavar a loiça. ele lançou os olhos a um quadro pendurado na parede e por momentos tentou encontrar uma maneira de se livrar daquele problema. assim que chegasse a casa naquela noite. a única coisa que lhe restava era tentar convencer a ex. . Não valia a pena opor-se à ideia de Sara em morar com o pai pois ela continuaria a fazer-lhe a vida negra caso se mostrasse contra aquela resolução estapafúrdia. . E logo ele que sempre pensou que a ex. O que devia fazer para descalçar aquela bota? Ao desligar o telefone do escritório. decidiu Jorge enquanto digitava o número da loja de Madalena. . limpar o pó ou fazer a própria cama? Diante daquela catástrofe apenas comparada à Segunda Guerra Mundial. Por isso. . diria que tinha pensado melhor e que era totalmente a favor da sua partida. Raios. Ponto final. A Sara lá em casa? Uma adolescente de quinze anos em sua casa? Uma casa que normalmente costumava levar as suas amigas para umas noitadas de copos.Diz Jorge – exclamou Madalena recebendo o auscultador das mãos da melhor amiga. mas eu fiquei sem entender uma coisa… .Sim! Podes.A conversa foi interrompida com a chegada de um cliente à loja. . Sim. Claro que não. Jorge mal conseguiu acreditar que o seu pior pesadelo se tinha concretizado sem qualquer aviso prévio. e logo ela que sempre foi preguiçosa até para fazer a própria cama. mulher a convencer a filha de que a sua saída lá de casa realmente não era a melhor ideia. É isso mesmo que vou fazer.O. Duas semanas era o prazo que Madalena tinha estipulado para aguentar aquela prova de fogo.foi a surpresa de Sara quando a mãe lhe informou sobre a sua decisão após o jantar. com certeza não aguentaria mais do que duas semanas. Quando recebeu o telefonema da filha no dia seguinte.E posso saber porque é que mudaste de ideias? . mas se mesmo assim os seus planos saíssem furados. – Ou não me digas que já não queres ir? .Pensei melhor – mentiu Madalena. Ela tinha razão.Pois então! Fala com o teu pai e combinem um dia para ele te vir buscar. mulher nunca iria ceder às chantagens de Sara ou sequer permitir que ela saísse de uma casa onde tinha nascido e crescido. Já te tinha dito isso há quase dois meses. ela não hesitaria um segundo em arrancar a filha da casa do pai com as próprias mãos.É claro que quero. Alice estava certa quando disse que todas as tarefas domésticas recairiam sobre os ombros de Sara enquanto ela estivesse em casa de Jorge. Sim.k! Então amanhã vou ligar ao pai – afirmou Sara não cabendo em si de contente por finalmente se ver os seus desejos concretizados. – E quem sabe me vá embora já esta semana. – Estás-me a dizer que eu posso ir morar com o pai… .Olá.O quê!? 47 . mas nem por isso Madalena se esqueceu das palavras de Alice enquanto o atendia. – É o teu falecido – sussurrou Alice passando a chamada. tudo bem?! Escuta! A Sara ligou-me há pouco.

primeiro disseste que me matavas caso eu me atrevesse a tirar a Sara lá de casa e agora ela liga-me toda contente a pedir para que eu a vá buscar nesta sexta-feira.Estás a gozar.É. – Apanhei um trânsito infernal no caminho. não?! . – Demoraste. Por azar. pai – disse ela. Quero ver-te com a Sara vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. e enquanto abria os portões da moradia.Fogo! Eu também queria ir.Eu?! . os seus planos e desculpas saíram furadas levando-o àquela verdadeira situação de desespero.Por enquanto vai só a Sara.Está lá cima a terminar de fazer as malas – respondeu Madalena permitindo-lhe a entrada. . Apesar de tudo.Jorge.Quer dizer.Então vamos.Fizeste de propósito. Sabes como é que são os jovens quando querem realmente uma coisa.A gozar porquê? . . . Quem sabe tu me podes ajudar a fazer isso? O que é que achas?! – discursou Madalena sob uma ruidosa gargalhada que Alice não conseguiu evitar. – Estás aí? .Sim e não faças essa cara de sonsa – exclamou Jorge caminhando apressado em direcção à sala onde encontrou o filho mais novo a jogar Playstation. Afinal de contas já o conhecia há tantos anos que não foi muito difícil para si descobrir o verdadeiro motivo daquela chamada telefónica tão inapropriada. além de que estavas certo quando disseste que eu tenho que parar de a tratar como se fosse uma criança. a única coisa que eu posso fazer é apoiá-la. mulher. Mas já estás pronta? . não foi!? . . O que é que se passa? Qual é o teu esquema? . Jorge! Tenho a certeza que vais adorar. abrevia por favor – interrompeu Madalena percebendo bem qual era o estratagema do ex. Inventam mentiras. 48 . – Ela já está pronta? . . eu sei – respondeu Jorge passado as mãos pelos cabelos aparados. – Sim! É verdade.Então queres convencer-me que queres realmente que a Sara venha morar comigo? É isso?! . filho. provavelmente devo ter percebido mal. Sexta-feira foi o dia em que Jorge percebeu que já não lhe restava nenhuma outra alternativa a não ser buscar a filha à casa da ex. . a única coisa que quis foi que a relva do jardim o engolisse. . .Bem. desculpas… . isso não aconteceu.A Sara disse-me que tinhas concordado com a ideia de ela vir morar comigo.. – Tenho a certeza absoluta que uns dias na tua casa apenas lhe iriam fazer bem. marido. .O meu esquema?! Eu não tenho esquema nenhum – respondeu Madalena tentando ignorar as risadas de Alice quando colocou a chamada em conversação alta.Estou – respondeu ela passando as mãos pelos cabelos soltos. É verdade? Silêncio foi a resposta de Madalena.Porque não!? Ela não te adora tanto? Se a Sara quer morar contigo.Porque é que eu também não posso ir? – perguntou Daniel para grande desespero do pai. Um olhar aterrador foi o que Jorge voltou a lançar a Madalena enquanto Sara descia ao primeiro piso sala carregada com duas enormes malas e uma mochila preta que a acompanhava todos os dias à escola.Sim.

Depois disso.Tchau – disse Sara despedindo-se da mãe com um beijo na face e do irmão com um pequeno empurrão nos ombros. foram algumas das cenas que Madalena observou de longe enquanto o seu coração se apertava e a companhia de Daniel era a única coisa que não a deixava desmoronar.Outra mala?! – indagou Jorge esbugalhando os olhos.Eu ligo daqui a dois. tomou um banho e vestiu uma camisola confortável com o intuito de dormir como uma pedra e esquecer-se do dia em que viu a filha escapar-se-lhe por entre os dedos sem nada poder fazer. . Foram precisos apenas cinco minutos para que Jorge regressasse novamente ao primeiro piso e tivesse a seu cargo cerca de três malas para arrastar em direcção ao carro. mulher. .Diz-me – interrompeu Sérgio caminhando calmamente pela rua.pediu Madalena tentando controlar as lágrimas quando percebeu que a partida da filha era inevitável. . está bem! Eu vou lá acima buscá-la.A sério?! . cintos de segurança colocados e a partida. Pela primeira vez desde sempre o lugar de Sara não foi ocupado durante o jantar. Depois disso.Foi-se embora hoje e eu tenho medo que nunca mais volte.Quem me dera poder acreditar nisso. Portas fechadas. afastou-se sem sequer olhar para trás e enfiou-se no carro do pai enquanto ele terminava de ajeitar as malas. três dias. . .Infelizmente não. Ela vai voltar. – Vê lá se ligas… . Sabes o que isso é? .Sim! Filhos. saiu e nem sequer se dignou a despedir da ex. não achas?! . sendo que essa tarefa enfadonha recaiu inteiramente sobre os ombros de Sara. – O que é que eu posso fazer para animar essa voz? . – Já que Maomé não vai à montanha… – afirmou Sérgio com a mesma voz jovial de sempre. 49 . enquanto estava completamente submersa nos seus pensamentos. . . Nessa altura. tentou enfiar essas palavras na sua cabeça e acreditar no que Alice lhe dissera dias antes quando a aconselhou a baixar as guardas e permitir a saída de Sara lá de casa.Podias fazer tantas coisas – riram-se os dois.A minha filha foi morar com o pai. Depois disso. o telemóvel vibrou sobre a mesinha de cabeceira e fê-la estender o braço em direcção a ele.Está bem. . – Mas infelizmente estás longe. Quem sabe não seria Sara para lhe dizer que queria voltar? De qualquer maneira não custava nada sonhar.Não! Tenho mais uma outra mala lá em cima que não consegui trazer junto com estas.O que é que queres?! Tenho que levar as minhas coisas nalgum lado. Madalena assustou-se com a terrível ideia de que a sua filha havia partido para sempre quando fechou a porta do quarto e deu por terminada a noite.. .Está bem.Problemas?! . .Desculpa – sorriu Madalena percebendo imediatamente a sua gafe. e pela primeira vez. .É claro que ela vai voltar. . – Desculpa por não ter ligado nesses dias. – Mas já estás com duas na mão.

– Então fica assim combinado? No domingo depois do almoço? .O meu pai vem almoçar no domingo e eu estava a pensar em deixá-lo a tomar conta do meu filho por algumas horas. Ainda não foste lá.Eu também morri de saudades tuas. . – Pai! Tu não tens nada que se coma aqui dentro.. E mais palavras não foram precisas para que ela subisse os estores e se deliciasse com a figura de Sérgio sob o portão. O que é que eu vou comer? Realmente nada tendo em conta o que viu nos armários e nas gavetas vazias. a visão de Sérgio foi a primeira coisa que a fez sorrir naquela sexta-feira particularmente triste e sombria. anos… .Eu sei. – Que bom que estás aqui – disse ela enterrando-se nos braços dele e tentando absorver-lhe todo o calor do corpo. . talvez por preguiça. mas Madalena recusou-se a acender as luzes.Desce! Estou à tua espera. mas a verdade é que ela resolveu utilizar as mãos para saber onde estava.E o que é que eu vou comer para o pequeno-almoço? 50 . – Foi por isso que vim. – És louco – disse Madalena ouvindo-lhe as risadas através do telefone.Pois eu iria precisar de semanas.O. Uma das mãos nos bolsos das calças. Pura ilusão? Talvez.Não consegui aguentar de saudades. – Sai à janela – pediu ele. não é!? . – Mas estou ansiosa para ir.Temos que combinar alguma coisa.Algumas horas?! Hum! Parece-me interessante. .riu-se Madalena. meses. – Mas não posso.Algumas horas é tudo o que eu preciso para matar as saudades que sinto de ti. e quando abriu a porta de saída. .Mas foi bom teres vindo! Nem sabes como estava a precisar de um beijo teu. . Por sorte. . . o telemóvel nos ouvidos e o sorriso estampado no rosto. O dia amanheceu ensolarado e foi com algum custo que Sara se dirigiu à cozinha crente de que iria encontrar um belíssimo pequeno-almoço à sua espera. não lhe importou absolutamente nada a não ser tê-la nos braços e matar todas as saudades que sentira desde a última vez que estiveram juntos.k .Claro! Assim conheces a minha casa.Não – respondeu ela com um sorriso malicioso. – Eu juro que te convidava a entrar – disse ela segurando-lhe a face com firmeza.O quê?! . Tal como sempre as escadas que ligavam os dois pisos encontravam-se às escuras. conseguiu alcançar o corredor sem se esbarrar em nenhum móvel. – Esquecime de passar pelo supermercado esta semana.Quem disse!? Silêncio e surpresa foram as reacções de Madalena.Raios – exclamou Jorge levando as mãos à cabeça quando entrou na cozinha. . . Tinha sido apenas há uma semana. talvez para não acordar o filho. pois as únicas coisas o que viu à sua frente foram loiças sujas do jantar. Na verdade. baixinho. . . Quando voltou a encarar-lhe o rosto iluminado pelas luzes das escadas. .Li os teus pensamentos – riram-se os dois. Sérgio afundou-se nos lábios de Madalena e beijou-a com toda a paixão que possuía dentro de si. . mas no entanto parecia uma eternidade. algumas migalhas de pão sobre a bancada e o frigorífico às moscas. eram essas as características que melhor o definiam.

Não acredito que a tua mãe nunca te tenha levado ao supermercado – respondeu Jorge alcançando o pote de açúcar sobre a bancada. .Então bebe sumo! Acho que ainda tem o resto do frango do jantar.Compra carne. Cheirou-o. .Oras. ela viu-se pela primeira vez a tocar num preservativo. – Tens que ir ao supermercado. a sua única vontade foi de experimentá-lo. Essas coisas! . Podes aquecê-lo no microondas se quiseres. .Eu nunca lá fui sozinha. . ir ao supermercado é a coisa mais fácil do mundo e tens um aqui mesmo ao pé. dançar sobre o sofá como uma louca e vasculhar todas as gavetas lá de casa sem medo de ser apanhada por alguém.Hoje não posso – respondeu Jorge retirando uma chávena de café dos armários.. . . o que é que se compra num supermercado? Comida.Vou comer frango ao pequeno-almoço?! Só podes estar a gozar – resmungou Sara não vendo outro remédio a não ser obedecer às ordens do pai.Mas pai… . . Sim. Eu deixo-te dinheiro. . desenrolou-o numa tentativa desesperada de perceber como aquele objecto funcionava. e antes que desse por si.E o que é que eu faço para passar o tempo? – perguntou Sara acompanhando-o à porta. estás livre para fazer aquilo que quiseres. Podia fazer tudo aquilo que quisesse. – Vou passar o dia todo no escritório às voltas com uns arquivos que tenho que rever. massas. – Não acredito! Que pervertido… . – Além disso. bolachas. – Depois do supermercado. fruta. – Gostas dele forte ou com leite? .Até logo – respondeu Sara fechando a porta com um largo sorriso e com a certeza que a sua estadia em casa do pai iria ser no mínimo maravilhosa. enjoou-se com o cheiro.Café – respondeu ele aproximando-se da máquina sobre a bancada.O. 51 .Posso?! . . Em cinco minutos estás lá. Podia ouvir música aos altos berros.Aproveita que hoje não tens aulas e vai! Jorge demorou apenas cinco minutos para engolir o café que fizera. .Podes fazer o quiseres.Até logo. e depois de vestir o casaco às pressas. . arroz. . E quando finalmente percebeu. e por fim.Eu não bebo café.E o que é que eu vou comprar lá? .Claro – respondeu Jorge beijando-lhe a face.Posso sair? Combinar alguma coisa com as minhas amigas? .riu-se ela às gargalhadas quando descobriu quantidade exorbitante de filmes pornográficos e oito caixas de preservativos na mesinha de cabeceira do pai. intrigou-se com a oleosidade. despediu-se da filha deixando-lhe o cartão de multibanco e a certeza de que não voltaria a casa antes de o anoitecer.k! . Mas podes ir tu ao supermercado se quiseres. .Mas pai… .Sim. A curiosidade foi aguçada ao abrir uma das embalagens.

Assim sendo.Consegui despachar-me mais cedo do que estava à espera. – Cheguei – gritou Jorge da porta sem sequer imaginar que a poucos metros a filha se encontrava na sala a esconder os filmes que lhe havia retirado do quarto. Por sorte. Sara voltou a sair do quarto e encostou a porta com um longo suspiro. Jorge não desconfiou de nada e nem sequer teve a brilhante ideia de abrir as gavetas para se certificar que o seu pequeno tesouro que demorou dois anos a ser construído não tinha sido drasticamente usurpado pela própria filha. quando entrou à socapa no quarto do pai e ouviu o barulho do chuveiro a trabalhar. . . – Bem. – Andas-te a portar bem? .A Sara já não mora mais connosco – respondeu Daniel para grande surpresa do avô. Afonso Soares foi pontual para o almoço em casa da filha. . Alguns minutos mais tarde. a única alternativa que restou a Sara foi devorar todos os filmes pornográficos do pai enquanto devorava também as pipocas que havia comprado no supermercado da esquina. . uma boa notícia – exclamou Jorge espreguiçando-se com vontade. .Hã… já vieste pai?! . Aliviada foi o que se sentiu. – Mas volta! . . Sara não teve dúvidas de que aquela era a altura ideal para repor os filmes que lhe havia retirado da mesinha de cabeceira. agarrou no seu velho Opel Corsa e estacionou-o a poucos metros da vivenda onde a filha e o neto moravam. Aquele era um ritual que fazia praticamente todos os domingos e daí a pouca surpresa de pequeno Daniel quando abriu a porta e se deparou com a figura do avô. acho que vou tomar um banho porque estou a estoirar de dores de cabeça. A primeira tinha ido passar o fim-de-semana ao Douro.Cheguei cedo? – perguntou ele recebendo um beijo da filha. Vestiu uma das suas melhores indumentárias. . não tinha a permissão dos pais para sair de casa sem a presença de alguém mais velho.Fui ao supermercado – disse ela assim que ele entrou na sala. . Só me falta fazer a salada. .Mais ou menos – respondeu Daniel seguindo-o em direcção à cozinha onde Madalena se encontrava a ultimar os preparativos do almoço.A Sara?! .Pensei que fosses demorar mais – respondeu Sara escondendo as caixas de DVD por detrás das almofadas do sofá. e a terceira. a verdade é que Sara não conseguiu a companhia de nenhuma das suas amigas da escola.Olha.Ela foi passar uns dias com o pai – informou Madalena provando o molho da carne assada junto ao fogão. Tal como sempre. – Então rapaz… .Infelizmente naquele Sábado as horas demoraram a passar. A segunda estava nos treinos de judo e não se iria despachar antes das sete tarde. após ter a certeza que se tinha livrado de boa.Não! Chegaste na hora.Posso pôr a lasanha no forno se quiseres.Isso era óptimo! Assim quando saísse do banho já tinha alguma coisa para comer.Volta mesmo?! 52 . E assim.exclamou Afonso afagando os cabelos do neto e entrando pelo corredor adentro sem quaisquer cerimónias. .Como assim? Para onde é que ela foi? . e mesmo tendo a tarde livre para fazer o que quisesse.

Não precisam de ajuda.Ainda bem – respondeu ela ajudando-o a desfazer-se da camisa.Até já… .Tu já me tens só para ti. tinha-se transformado no seu amante. Depois do almoço. – O. mais te tenho só para mim… . Depois disso.Então já estás mesmo aqui ao pé – respondeu Sérgio saindo à varanda. . Na verdade. – Consegues ver uns prédios verdes? . . Era ali que ela se sentia segura.Aonde é que estás? . a tarefa não foi tão difícil quanto isso. terceiro esquerdo. acho que sim.k! Até já.Hã… numa rua chamada Alecrim. e depois disso. Não. – Aliás. . aliás. respondeu ela esboçando-lhe um sorriso malicioso que disse tudo. Conheces?! . . – Porque quanto mais escondido estiveres.O meu fica atrás. – Não podias ter escolhido uma rua mais escondida para morar? .Pois podes acreditar – respondeu ele sugando-lhe o pescoço..respondeu ele desligando a chamada com um largo sorriso. deves acreditar! Um sorriso radiante foi o que Madalena ofereceu a Sérgio. protegida e ciente de que nada e nem ninguém a poderia separar de Sérgio. . . Três andares depois e a porta abriu-se. .Claro que volta. . os dois amantes tiveram-se um ao outro e deixaram os seus sentidos perderem-se naquela habitação minúscula dotada de poucos móveis e com uma simplicidade que conferia a Madalena toda a paz e conforto pelo qual havia ansiado durante semanas. 53 . Sérgio tinha-se transformado em algo mais. foi impossível não acenar de longe e receber um outro aceno de volta. no seu melhor amigo e também no seu grande confidente.Número cento e cinquenta e dois.Está bem! Já agora diz-me outra vez o número do prédio e o andar. E sim. . pois o fotógrafo permaneceu na varanda apenas para ter a certeza que a sua visita não se iria perder pela segunda vez. foi a pergunta do pai. Por sorte. Em apenas dois meses. correu apressada em direcção à rua de Sérgio pronta a descobrir o número cento e cinquenta e dois e também o andar que ele lhe indicara momentos antes. em muito mais. – Meu Deus – exclamou Madalena às gargalhadas quando ele a arrastou directamente para o quarto. Madalena precisou de quinze minutos para conseguir estacionar o carro. Madalena despediu-se de Afonso e Daniel dizendo que demoraria apenas algumas horas para ajudar a sua amiga Alice a mudar alguns móveis lá de casa.Olha que eu acredito. um beijo tão ou mais apaixonado que o primeiro enquanto se deixava levar em direcção à cama sem se importar com o barulho das obras do vizinho do segundo andar. Madalena desapareceu do quarteirão e rumou ao centro da cidade com o único intuito de cair nos braços de um fotógrafo que já não lhe era tão desconhecido quanto isso. Era uma mentira pegada.Tu sabes que eu gosto de me esconder. Tens que dar a volta. – Acho que estou perdida. Sempre em movimentos contínuos e frenéticos.O.Sim. E ao vê-la.k – riu-se ela quando ele atendeu o telemóvel. Afonso percebeu no minuto em que a filha saiu à rua e se enfiou no carro estacionado na garagem. Mas quando conseguiu esse milagre lisboeta em pleno fim-de-semana.

Era ela.Obrigada – riram-se os dois.Estas cerejas estão maravilhosas – confessou ela devorando um dos que ele lhe colocou na boca.Não. embora seja óbvio que ela não sente. . – Acreditas que desde que ela foi morar com o pai nem sequer me ligou? .. . Era ela outra vez. – Vera! .Seja quem for. . 54 . eu resolvi aparecer hoje outra vez. Fiz mal? . – Queres todas as fotos? .Porque eu não quero que me apanhem assim toda descascada – respondeu Madalena arrancando-lhe uma leve gargalhada. não deixes entrar no quarto. – Vai lá! Pela pressa parece ser importante. – Deve ser algum vizinho ou assim.Queria escolher algumas. mas é que tínhamos combinado ver aquelas fotos da sessão.Porque é que não ligas tu? . .É rápido! Só queria umas cópias para colocar no meu book. – Obrigada também por me tirares da cabeça todos os meus problemas.Sim – respondeu Madalena deitando a cabeça sobre a almofada.Eu também – disse Madalena aconchegando-se no peito dele e fechando os olhos sem se importar com o irritante toque da campainha.respondeu Sérgio. – Desculpa vir sem avisar. . . Os cabelos também se encontravam desalinhados e as costas vermelhas pareciam ter sido marcadas por unhas de uma mulher.Impossível não sentir saudades tuas – respondeu Sérgio arrancando-lhe um sorriso – Eu por exemplo passo a minha vida a sentir saudades tuas. .São muitas.Não – respondeu Sérgio apressando-se a encontrar as calças de ganga no meio das inúmeras roupas espalhadas pelo chão. Vai demorar – disse Sérgio sentando-se à secretária e ligando o computador com uma expressão no mínimo entediada. .Não.Olá – respondeu a modelo esboçando um doce sorriso assim que a porta lhe foi aberta pelo fotógrafo. Teria interrompido alguma coisa? – Espero não ter vindo numa má hora… . Está suado.Tudo bem – respondeu ele abrindo-lhe passagem em direcção à sala onde se encontrava o seu computador portátil e também a Pen drive repleta de fotografias que havia tirado a Vera semanas antes. mas é que… . lembraste?! Como nunca mais disseste mais nada.Não tenho pressa – respondeu Vera debruçando-se sobre ele enquanto prendia os seus longos cabelos com a mão e se deixava deliciar pela maravilha que era vê-lo em tronco nu. – Estás à espera de alguém? . foi a primeira coisa que reparou. encabulado. ele reconheceu imediatamente a sua visita. Dois minutos foi o tempo que Sérgio precisou para sair do quarto e caminhar em direcção à porta com uma enorme vontade de esganar o vizinho inoportuno que teve a desfaçatez de interromper o seu descanso ao lado de Madalena. Mas ao olhar através do espelho da porta. . .Comprei especialmente para ti. .Ainda a história da tua filha? . .disse ela recorrendo ao seu sexto sentido quase sempre infalível.Porquê?! .Porque prometi que não faria isso! Quero que ela sinta saudades minhas. já disse que não.

Devias ter-me dito que estavas ocupado.Sim – respondeu Sérgio com toda a calma do mundo. – Não! Eu é que peço desculpas. 55 . . . – Podes ficar à vontade. Vera.O barulho ensurdecedor no quarto deixou Madalena impaciente e fê-la caminhar pé ante pé em direcção à sala onde lhe pareceu ter ouvido algumas vozes.Mas eu não te estou a enganar. como é que ela sabia onde moravas? Já aqui esteve alguma vez? . – O que foi? O que é que estás para aí a pensar? . recebeu-as num CD despedindo-se com um sorriso e com a certeza de que nunca mais voltaria a uma casa sem ser convidada. As revelações de Sérgio realmente não caíram nada bem a Madalena e prova disso foi o longo suspiro que ela lançou a fim de acalmar os estúpidos ciúmes que estava a sentir. A primeira reconheceu-a de imediato porque era a de Sérgio. Fomos tomar um café e como lhes disse que as fotografias tinham ficado muito boas. Vera! Não vieste buscar as tuas fotos? . – Desculpa – pediu Sérgio regressando à sala depois de a ter acompanhado à porta.Por essa visita inesperada.As duas estiveram cá?! . – O que foi? . – Veio com a Natália.Sim. mas a segunda só o conseguiu fazer quando entrou na sala e se deparou com a figura da modelo a quem havia encontrado semanas antes no estúdio dele. mas… .Só achei estranho… .Que é isso – afirmou Madalena percebendo o embaraço da modelo. E assim.Desculpa porquê?! – perguntou Madalena. vinte minutos mais tarde.Só não quero que me enganes – respondeu ela voltando-se para ele.Claro – respondeu a jovem voltando-se novamente para o ecrã do computador quando pressentiu que Madalena havia descoberto o seu disfarce em pouco menos de cinco segundos. depois de ter escolhido as fotografias tiradas por Sérgio. .Costumas receber as tuas clientes cá em casa? . Senão era um desperdício de tempo. não achas!? .Claro que não – respondeu ele forçando um sorriso que não foi de todo correspondido por Madalena.Como nada? E essa cara? . Infelizmente também se lembrava do nome dela e também de todos os seus atributos físicos.Há algumas semanas atrás.Quando? .Nada – respondeu ela desviando-se dele. Estiveram! .Vim. elas pediram para vê-las. Eu voltava numa outra hora ou então procurava-te no estúdio. pelo menos devias levá-las. Aliás. .Estranho o facto de essa rapariga ter aparecido do nada.Estranho o quê?! . – Hã… desculpem! Não sabia que estavam aí … A expressão facial de Vera pareceu mudar radicalmente quando ao voltar-se para trás a figura de Madalena encandeou-lhe a visão. . . . Sérgio.Então?! Se te vieste até aqui.

. .respondeu Madalena não escondendo a sua surpresa perante uma palavra que já não ouvia há muitos anos.Hã… esqueci-me! Mulheres acima dos quarenta também não podem namorar. Sim.Desculpa – pediu ela mantendo-se de costas para ele. marido conseguiu convencer-te disso durante os anos em que vocês estiveram casados e é uma pena que ainda continues a pensar assim mesmo depois de te teres separado dele. – Talvez já devêssemos ter tido esta conversa há mais tempo. Enquanto passeava por aquela sala minúscula e se dava conta da triste figura que fizera momentos antes.Lena. nem as tuas amigas e muito menos essa… Vera… . – A tua insegurança – respondeu Sérgio à sua própria pergunta. . As palavras que Sérgio lhe dissera tinham sido cruéis. eu prefiro que me digas. nem precisas sair de casa porque elas batem-te à porta e cercam-te como se fosses… .Namorada?! .Sabes qual é o teu problema? Madalena manteve-se em silêncio. . – Fui uma idiota! Não devia ter dito aquilo que disse.Não é nada disso.Uma conversa que se calhar já deveríamos ter tido há mais tempo – respondeu ela cruzando os braços.Porque se isto for um caso sem importância.Então o que é que um homem como tu quer de uma mulher como eu?! Porque é óbvio que tu podes ter qualquer uma que te passe pela frente. . Não quero que gozem comigo! Nem tu. com quem quero fazer amor e a quem quero apresentar a todos os meus amigos como sendo a minha namorada… . na tua inteligência e de julgares que todas as mulheres são melhores que tu! Infelizmente já percebi que o teu ex. . . – O facto de não acreditares nas tuas qualidades. – Mas eu também não quero passar a vida toda a tentar enfiar-te isso na cabeça e nem quero ver as tuas desconfianças sempre que me aparecer uma mulher de vinte anos à frente. das rugas que te aparecem no canto dos olhos quando sorris ou da celulite que tens nas pernas.Eu não acredito que estejas a pensar que estou a gozar contigo. mas infelizmente também tinham sido verdadeiras e foi isso que a levou ao mais profundo desespero. 56 . ela pensou. que conversa é essa? . não tenho mais idade para criar expectativas e nem quero fazer papel de idiota.Eu sei. mas é que… . . aliás.…eu não sabia que estávamos a namorar. Madalena tapou o rosto com as mãos e desejou que um buraco se abrisse por debaixo dos seus pés. . E daí? Será que a idade importa assim tanto? Será que não consegues ver mais nada em mim para além do meu bilhete de identidade? Porque eu consigo ver muitas coisas em ti para além disso. – Eu não quero criar expectativas. – Talvez tenhas razão – interrompeu ele. para além dos dois fios de cabelo branco que tens aí à frente.Será que não percebes que estou contigo porque gosto de ti? Porque gosto realmente de ti e não quero estar com mais nenhuma outra mulher? A surpresa fez com que Madalena se voltasse novamente para ele. Pelo menos assim vou saber no que é que me estou a meter.Tu tens quarenta e eu tenho trinta e dois. aliás. Eu consigo ver a mulher com quem quero estar.

tudo pareciam apenas detalhes sem qualquer importância. – Eu também te amo muito. . – Leva-me para o quarto – pediu ela ansiando que o seu pedido fosse realizado o mais rapidamente possível. 57 .Acreditas agora em mim? . Todas elas foram transpostas sob o olhar incrédulo de Madalena enquanto os ouvidos dela tentavam assimilar aquela declaração no mínimo surpreendente. a verdade é que Sérgio não pensou duas vezes em proferir aquelas palavras que manteve guardadas a sete chaves no seu coração. Estava dito. baixinho. até porque diante da imensidão daquele momento.Por acaso não – riu-se Madalena. Eu quero tudo isso porque … .… porque eu te amo. . o teu pai e até o idiota do teu ex. e apesar de se ter odiado por ter sido o primeiro a dizêlo.Eu não quero ser o tal com quem só estás uma vez por semana quando arranjas algum tempo na tua agenda. – Eu também te amo – confessou ela por fim.ele pareceu hesitar. conhecer os teus filhos. .Pois nós estamos a namorar – informou Sérgio trazendo-a contra si.. marido se for preciso. Pronto. ouvir os teus problemas. Estava feito. – Ou ainda não tinhas reparado nisso? . Quero ser muito mais do que isso.Acredito – respondeu Madalena atirando-se para o colo de Sérgio sem se importar com mais nada à sua volta e nem com as palavras duras que trocaram minutos antes. Quero participar na tua vida.

CAPÍTULO IV
Era a primeira vez que iria chegar atrasada à escola e tudo porque ninguém a acordou e o despertador recusou-se a tocar. Mas ainda assim, Sara saltou da cama, vestiu-se às pressas e arrumou a mochila enquanto o relógio da mesinha de cabeceira assinalava dez para as oito. Depois disso, seguiu-se uma rápida caminhada em direcção à cozinha e o desespero de encontrar o pai para que ele a levasse à escola. – Quem és tu? – perguntou Sara surpreendendo-se com a figura de uma mulher perto do fogão. - Hã… deves ser a filha do Jorge, não?! - O meu pai? - Ele está a tomar banho – respondeu a mulher bebendo um gole de sumo. – Olá! Eu sou a Carla. - Ele vai demorar muito? – perguntou Sara ignorando-lhe o cumprimento. - Não sei! Acho que não. - Eu preciso que ele me leve à escola senão chego atrasada. - Já estou pronto, Carlinha… – interrompeu Jorge entrando pela cozinha longe de sequer imaginar que a sua filha também ali estava. – Filha?! Ainda por aqui? Pensei que já tivesses saído. - Como é que eu podia sair?! Preciso de alguém que me leve à escola e precisava também de alguém que me acordasse – respondeu Sara lançando um olhar aterrador à nova amante do pai. – Vou chegar atrasada por tua causa. - Esqueci-me. - Então?! Levas-me ou não? - Escuta querida… - pediu Jorge aproximando-se de Sara com alguma cautela. – E se o pai te pagasse um táxi para ires à escola, hã? - Um táxi!? - Sim! É que eu já tinha prometido levar a Carla a casa e olha que ela mora no outro lado do rio. Se fosses de táxi irias despachar-te muito mais depressa, garanto-te! - Tu preferes levar a… Carla a casa do que levar-me à escola? – perguntou Sara, incrédula. - Não é nada disso, querida. Não estás a compreender o que o pai está a tentar… - Deixa lá! Eu vou de autocarro. Apesar dos inúmeros chamamentos de Jorge, Sara abandonou a cozinha como a mochila às costas e com a certeza de que todas as coisas para o pai eram mais importantes do que ela. Saiu sem sequer olhar para trás e atreveu-se também a bater com a porta quando o fez. Depois disso, alcançou o elevador e desceu à rua pronta a encontrar o primeiro autocarro
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que a pudesse levar ao destino pretendido: Escola. Era lá onde deveria permanecer as oito horas seguintes e aprender Inglês, Geometria e Física, conversar com as suas amigas nos intervalos e comportar-se como uma jovem de quinze anos cujo maior erro foi ter pedido à mãe para morar com o pai. Mas será que era mesmo isso que queria fazer? Ao passar de autocarro por uma Sex Shop, Sara teve dúvidas e por isso desceu na paragem seguinte. Mais tarde, caminhou dez metros em sentido contrário e viu-se com os olhos postos na montra da loja enquanto tentava decifrar o que eram todos aqueles objectos e também para que serviam. Ali, completamente alheia ao movimento das pessoas, ela deixou-se ficar e só se afastou quando um dos funcionários da loja saiu à rua para fumar um cigarro. – Isto não é para a tua idade, menina – disse-lhe ele. – Não devias estar na escola? Sara assustou-se quando ouviu a pergunta e tentou igualmente passar despercebida no meio da multidão enquanto os olhos do funcionário continuaram a segui-la pela avenida a fora. Adolescentes, murmurou ele abanando a cabeça. Faltavam apenas alguns minutos para as onze quando Madalena atendeu o seu terceiro cliente do dia. Este, que tal como todos os homens à face da terra, não percebia nada de flores, ficou-lhe extremamente grato pela indicação de um ramo de camélias japonesas acabadinhas de chegar. Só então ele ficou a saber que essas eram as flores ideais para pedir perdão à esposa. – Ele traiu-a e ela descobriu – disse Alice assim que o cliente abandonou a loja. - Não faças juízos sem saberes a verdade – respondeu Madalena. - Lena, um homem que chega aqui a dizer que precisa de umas flores para a mulher que simbolizem arrependimento, isso só significa uma coisa. Traição! E traição da grossa. - De qualquer maneira, não nos compete a nós julgar! Cada um sabe de si. - Dizes isso porque agora és só sorrisinhos, paz e amor – riu-se Alice, animada. - Como assim?! - Desde que começaste a andar com o tal fotógrafo que já não falas mal dos homens, tratas todos os clientes a pão-de-ló e passas a vida a suspirar pelos cantos, isto para não falar das vezes que olhas para o telemóvel à espera que ele toque. - É assim tão evidente? - Define-me evidente – riram-se as duas amigas. - Tu nem acreditas, Alice… - Só acredito se me contares. - Ontem estive com ele – discursou Madalena deitando no caixote de lixo as fitas que utilizara para fazer o embrulho das camélias japonesas. – Fui conhecer-lhe a casa. - Uau! Mas isto já vai assim? - E tu nem sabes o que ele me disse. - O quê? - Que me amava – revelou Madalena deixando-se contagiar pelas gargalhadas da melhor amiga. – O que foi? Não acreditas? - Acredito. Claro que acredito – respondeu Alice levando a mão ao queixo. – E tu? O que é que lhe disseste? - Oras! Disse que também o amava. - Gostava de ser uma mosquinha para ter visto a cena.
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- Achas que fiz bem!? Quer dizer, eu gosto dele e pelos vistos ele também gosta de mim, mas será que não foi demasiado rápido? - Não foi ele o primeiro a dizer que te amava? - Foi. - Então?! Não tens responsabilidade nenhuma. Se acontecer alguma coisa, ele disse primeiro e tu só respondeste por educação – respondeu Alice arrancando uma ruidosa gargalhada a Madalena. Naquela tarde, Sara faltou a todas as aulas sem qualquer justificação, e depois de ter passado o dia inteiro a passear pelas ruas da cidade, regressou a casa, trancou-se no quarto e visionou os restantes filmes pornográficos que o pai fazia sempre questão de esconder na sua mesinha de cabeceira. Foi também a primeira vez, enquanto os via, que ela atreveu a acariciar-se por debaixo das cuecas e a experimentar um prazer que nunca pensou sentir nos seus tenros quinze anos. E se experimentasse ter relações sexuais a sério, passou-lhe essa pergunta pela cabeça. Com um rapaz da sua escola? Ou até mesmo com qualquer um que estivesse disposto a ajudá-la a superar a curiosidade que se havia apossado de si desde que descobriu a pornografia e os prazeres que ela trazia consigo? Subitamente, algo que deveria ser apenas um divertimento para passar a tarde, transformou-se num vício demasiado perigoso que a perseguia para onde quer que fosse. Na casa de banho, na cama e até nas escadas de serviço do prédio do pai, todos esses lugares serviram para que Sara se masturbasse e tentasse remover todo o stress de cima dos seus ombros. Não estaria ela a levar aquilo demasiado a sério? Não estaria a ficar viciada em sexo e pornografia? - Ficas bem cá em casa? – perguntou Jorge chegando à sala após duas horas a tentar escolher a roupa perfeita, o penteado perfeito e o perfume perfeito para a uma noite que prometia também ser perfeita. - Fico – respondeu Sara fingindo estar mais interessada a ler a revista que tinha nas mãos. - Prometo que não me vou demorar muito. - Com quem é que vais jantar desta vez? Com a Vanessa? A Carla ou a Antónia? - Vou fingir é que não ouvi o que acabaste de dizer – respondeu Jorge vestindo o casaco às pressas. – Então? Como é que estou? - Bem. - Qualquer coisa e liga-me para o telemóvel! Vou mantê-lo sempre ligado pela via das dúvidas. Mas não te esqueças também de telefonar à tua mãe – discursou Jorge alcançando as chaves do carro sobre a mesinha. – Não quero que ela pense que sou eu quem te está a impedir de lhe ligar. - Se me lembrar, eu ligo. - Vai! Porta-te bem. - Tu também. - O pai porta-se sempre bem – respondeu ele piscando o olho e deixando a filha completamente sozinha em casa. A vontade de Sara de sair foi imperiosa, assim como a de conhecer um lugar onde já havia passado várias vezes durante o dia. O Intendente. Uma pequena localidade no centro de Lisboa conhecida pela sua antiguidade, mas também pela sua má fama, pois era ali onde se reuniam a maioria das prostitutas, drogados e imigrantes ilegais numa estreita colaboração com o crime e a má vida. E sim. Ao ver-se à saída do metro, Sara sentiu que tinha cometido
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. e ao voltar-se para trás.Estava a ir para casa. Depois disso.Putas?! – indagou com uma gargalhada a que parecia ser mais nova. . sujas e com intenso cheiro a urina e outros dejectos humanos.Pastilhas também servem – afirmou a mais velha permitindo que Sara se aproximasse lentamente da porta onde estavam encostadas. – O que é que queres saber. . Isto não é lugar para miúdas como tu.Por acaso estás a insinuar que temos mau hálito? – interferiu uma das prostitutas lançando-lhe um olhar desafiador.Eu não me assustei. não assustes a coitada da miúda. Querem? . Depende dos excelentíssimos clientes que apanhamos.Só estava a passar – respondeu Sara à cautela. Sara pôde ter essa certeza.É bom que ela se assuste mesmo – respondeu a última sem desviar os olhos de Sara. diz lá! . Mas como podia ela ter se não deveria ter mais do que dezasseis anos e também muita lata para meter conversa com três prostitutas em pleno horário de serviço. . . Contudo.Depende – respondeu Milene levantando o braço para cumprimentar um velho conhecido da zona.Não! Só ofereci porque não tenho cigarros. aparecem muitos homens a querer ter sexo com vocês? . mas desaparece daqui enquanto é tempo. há dias que rende menos.Além de corajosa é curiosa também… – riram elas sob o olhar atento daquela jovem que aparentava ter toda a segurança e experiência do mundo. . . querida? Achas que só estamos aqui encostadas por desporto?! É claro que somos putas. permaneciam duas mulheres um pouco mais novas intoxicadas de perfumes e outras roupas provocantes.Não – respondeu Sara hesitando alguns segundos a responder. Até porque este é um lugar para putas ou ainda não tinhas percebido isso? . . – Há dias que rende mais. enquanto lutava contra a sua indecisão. Era mais um dos inúmeros drogados a passar no outro lado da rua. . – Escuta! O que é que andas a fazer por estas bandas? Não és daqui! .uma loucura quando resolveu lá colocar os pés.Vocês costumam ter muitos clientes por aqui? Quer dizer.Eu não devia estar-te a dizer isto. uma mulher de meia-idade atreveu-se a chamá-la. meias de renda pretas e um top decotado que deixava transparecer o soutien em tons de cor de rosa choque.Porquê?! . as mãos foram estendidas e as pastilhas entregues àquela que parecia ser a líder do grupo. .Se têm muitos clientes ou não. As ruas algo desertas. 61 . .Corajosa! .…mas tenho pastilhas de menta.Vocês são … . – Tens cigarros? – perguntou ela encostando-se a uma porta de madeira degradada. Trazia consigo uma mini-saia vermelha. apenas conseguiram embrulhar-lhe o estômago e fazê-la perguntar-se que raios estava a fazer quando a sua única vontade era fugir e fingir que nunca ali estivera. – O que é que achas.Milene. enquanto ao seu lado.

Excelentíssimos… – riu-se a prostituta mais velha. sempre tinha algum conforto e segurança. Era um lugar sujo.Não me digas que estás a pensar em juntar-te aqui ao clube VIP!? . não a Madre Teresa de Calcutá. – Só estava curiosa. . as luzes da avenida ofuscaram-lhe os olhos e trouxeram igualmente o ar que há muito ela havia deixado de respirar enquanto esteve metida naquele bairro tão degradado. Quem quiser tem que pagar e tem que pagar bem porque não ando aí a fazer favores a ninguém. rapariga! Vai para casa porque este não é o lugar mais indicado para ti. .Eu tenho que ir – interferiu Sara ao perceber que já estava ali a mais. Aproveita a tua juventude.Nem tudo o que reluz é ouro – concluiu Milene evidenciando no rosto os anos de uma das profissões mais ingratas do mundo. .E não é verdade?! Olhem bem para mim – disse Milene girando sobre os pés e mostrando todos os atributos que Deus lhe ofereceu ao longo dos seus vinte e seis anos de vida. pensou. .E vocês cobram para irem para a cama com eles? – perguntou Sara tentando ignorar as risadas que ecoaram por toda a rua. a escola e esquece isto! Esquece isto porque isto é uma merda… As palavras de Milene permaneceram-lhe nos ouvidos durante largos minutos. Elas estavam certas ao dizer que aquele não era lugar para si e nem para ninguém. . Minutos depois. apesar de não se sentir muito bem-vinda. . – Lá porque estamos para aqui a rir e a contar piadas. triste e guardava na fachada dos prédios toda a decadência humana de pessoas que tinham perdido totalmente a vontade de viver. .Espera – chamou Arlete. .Queres boleia? A voz grossa vinda do interior de um carro parado a poucos metros do passeio foi o impulso que Sara precisou para se voltar para trás e encarar o rosto daquele homem de 62 . e enquanto se afastava dela e lhe observava os últimos traços físicos.Já se está a gabar só porque é a que cobra mais caro – resmungou Arlete enfiando uma pastilha elástica na boca. Sim. .Por nada – respondeu a jovem compondo os cabelos. mas excelentíssimos!? Essa é nova cá no bairro..Queres trabalhar para mim? . – Eu sou a estrela do bairro. . – Achas que vou abrir as pernas de graça para qualquer um que me apareça à frente? Eu sou puta. não penses que somos felizes por termos cinco homens por noite e pouco mais de quinhentos euros de manhã. onde. Salva e pronta a regressar para uma casa.Não – ela voltou a responder.Não – respondeu ela desviando-se de um dos inúmeros traficantes. Sara deu-se por vencida e abandonou aquela rua semi-deserta completamente coberta pelo casaco que fez questão de levar consigo. – Queres coca? .Então não tens pedalada para isto! Vai lá.Estás a gozar não!? – respondeu Milene levando a mão à cintura. Estava salva.Não! Eu não seria capaz de cobrar para ir para a cama com alguém. minhas amigas… . – Para quê que querias saber quantos clientes tínhamos por dia e quanto lhes cobrávamos? . Chamava-se Arlete. nome inscrito no colar que trazia no pescoço. – Já ouvi chamarem-lhes muitas coisas.

– Meu nome é Paulo – ele disse. Nessa altura. Sara. – Não. o virar do rosto e a sensação de que não estaria a fazer nada de mal se aceitasse uma boleia de um perfeito desconhecido.Claro – respondeu ele apressando-se a encontrar um cartão no porta-luvas.Estás com frio. No fundo. Sim.Parque das Nações. cordial e seguro do que dizia. . Mas os olhares esguios. divorciado e pai de duas filhas com a mesma idade de Sara. rasgou-lhe um olhar assustado e correspondeu-lhe ao sorriso. era professor universitário. De facto. já deu para reparar. . ela voltou-se para trás e correspondeu ao aceno do professor com a clara certeza que estaria para muito breve um novo encontro dos dois. bastante educado. . . – Toma! Tens aqui o meu número de telefone e também da universidade onde dou aulas. Sara sentiu um calor percorrer-lhe as pernas. Paulo Figueira tinha quarenta e cinco anos.Nada – respondeu Paulo enfiando a chave na ignição do carro.Podes ligar quando quiseres. mas talvez tenha sido esse facto que mais a fascinou naquele senhor de meia-idade que em muito lhe fazia lembrar o seu professor de Química. essa foi a questão que durante vários minutos rondou a cabeça de Sara enquanto ela se tentava decidir e tentava igualmente fugir à forte ventania produzida pela noite.Está bem. fizeram com que ela retirasse uma das mãos do bolso e alcançasse a porta do carro sem pensar nas consequências daquele acto no mínimo irreflectido. .meia-idade.Nesta zona?! . Mais tarde. começaram a suar desalmadamente. a portaria abriu-se ruidosamente. obrigada – respondeu ela. . – Diz-me! Para onde queres que te leve? .Posso saber o que fazes sozinha a essas horas da noite? .Assim que puder eu ligo – respondeu Sara encontrando no cartão a deixa perfeita para abandonar o carro de Paulo e atravessar a rua em direcção ao prédio onde morava. facto que fez questão de salientar durante a condução pelas ruas da cidade. até parecia ser boa pessoa. barba aparada e um sorriso desenhado nos lábios.Posso voltar a vê-lo – saltou essa pergunta dos lábios de Sara enquanto se desfazia do cinto de segurança. . . . ele era velho demais para si. Mas enquanto o ouvia falar sobre assuntos perfeitamente triviais para duas pessoas que mal se conheciam e que tinham uma diferença abismal de idades. Porque é que não entras? Entrar ou não entrar.E onde é que moras? .Olá! Sara. devidamente instalada no banco da frente.Obrigada. 63 . e as mãos que fez questão de manter sempre apoiadas sobre o colo. . .Porquê?! O que é que tem? . – Estás entregue.Vim visitar uma amiga – mentiu ela.Para casa. .Muito prazer.

deitou nele um saco minúsculo e correu em direcção ao carro da única pessoa que a poderia levar à rua àquela hora.Tu nunca me deixas triste.Então?! O que é que te está a impedir de me deixares entrar na tua vida? Madalena optou pelo silêncio como forma de resposta.Nós não nos estamos a encontrar às escondidas. Mais tarde. – Ouviste? .Vou pôr o lixo lá fora.É – respondeu Madalena não muito convicta disso. tu tinhasme deixado entrar para conhecer o teu filho e estaríamos agora os três sentados no sofá a ver televisão ou a jogar Playstation. . .Tens a certeza?! Se não tivéssemos nada a esconder. muito pelo contrário. . – Não vim aqui para te deixar triste. .Está bem – respondeu ele mostrando-se muito pouco interessado naquela tarefa tão rotineira. – Mas a Sara não sei.Deve estar bem com o pai. .Sérgio… . – A surpresa é claro. .Eu também morri de saudades tuas – respondeu Sérgio beijando-a no interior do carro. Mas nem o frio arrepiante que se fazia sentir lá fora conseguiu demovê-la da ideia de aceitar o convite do fotógrafo quando soube que ele se encontrava a poucos metros da sua casa. eu teria tocado à tua porta. e como ele morava aqui ao pé. – Mas eu queria que ela estivesse aqui comigo. – Dá-me só mais algum tempo … – pediu ela. vou pôr o lixo lá fora – exclamou ela passando pelo corredor como um foguete. .Eu não quero me esconder.É que eu tive que deixar uns rolos na casa de um amigo. – Que saudades – confessou ela conseguindo finalmente enterrar-se nos braços dele. . . – Lembras-te daquilo que te disse no outro dia? Que não quero ser o tal que só vês quando tens algum tempo na tua agenda? . não sei. . – Daniel. o que foi óptimo porque assim não tive que dar muitas desculpas para sair de casa – riram-se.E quando é que vamos deixar de nos encontrar às escondidas dentro do meu carro? .O telefonema de Sérgio tomou Madalena de assalto enquanto ela terminava de arrumar a cozinha e retirava do congelador a carne que iria assar no dia seguinte.O Daniel está bem! Estava agarrado à Playstation dele.Adorei – respondeu ela voltando a sugar-lhe os lábios.Pensei que não nos fossemos ver hoje. Há pelo menos quatro dias que não sei nada dela. . Lena – afirmou ele acariciando-lhe a face enquanto os seus olhos mergulhavam nos dela.Eu sei! Mas bem. mas esquece esse assunto – pediu Sérgio voltando a encontrar-lhe os lábios. mas depois voltou a reerguer o rosto em direcção a Sérgio. 64 .E nem eu quero que sejas esse tal. juro que te apresento aos meus filhos e vamos ficar os quatro sentados no sofá a ver televisão. . resolvi fazer-te uma surpresa. Liberdade foi o que Madalena sentiu quando alcançou os portões do jardim e caminhou apressada em direcção ao contentor de lixo mais próximo. . – Pelo menos até a minha filha voltar para casa e as coisas regressarem à normalidade. .Os teus filhos? Como é que estão? . enfiado no carro e à sua espera. Depois disso.Hã…!? .

Mas a verdade é que o verdadeiro motivo da sua recusa prendia-se única e exclusivamente com Paulo Figueira. conciso e bastante sedutor.Não. . De facto.Não – respondeu Sara esboçando um sorriso quando Paulo se sentou à sua frente. – Podemos combinar um café para amanhã ao final da tarde – foi a resposta que obteve no outro lado da linha. imediatamente após se ter masturbado pela terceira vez consecutiva naquela tarde. e tudo porque encontrava sempre coisas mais interessantes para fazer. aquele era o seu pequeno vício.Iria adorar. .Marcamos um outro encontro e eu trago-tos! . Dez minutos mais tarde essa companhia chegou trajada com um elegante fato. – Olá! Espero não me ter demorado muito – disse ele. . . uma coisa que adorava fazer quase todas as horas do dia e do qual não parava de pensar especialmente quando se lembrava de Paulo Figueira. resolveu fazer algo há que muito se tinha predisposto.Havia pelo menos uma semana que Sara não colocava os pés na escola. . que nada tinham em comum para além de serem dois seres humanos. . Sara recusou-se terminantemente a voltar dizendo que se encontrava bastante feliz a viver com o pai. .Então vou pedir dois cafés para nós. os dois personagens. Paulo era um excelente conversador e demonstrava toda a sua inteligência através de um discurso claro. os mesmos cabelos grisalhos e a barba aparada.Então se quiseres posso emprestar-te alguns livros que tenho lá em casa. Telefonar.Já pediste alguma coisa? . apesar das inúmeras tentativas que Madalena efectuou para trazer a filha de volta a casa. como passear pelas ruas da cidade sem se importar com as choras de chegar a casa. Numa dessas vezes em que pensou nele. . comer ou não as refeições e continuar a assistir a filmes pornográficos quase todos tirados da Internet.Está bem – concordou Sara deixando-se encantar pelo sorriso que Paulo lhe lançou.Pode. Trazia também um à vontade e um carisma difícil de explicar aos olhos de uma adolescente de quinze anos cujo maior desejo era continuar a ouvi-lo e perceber o que é que ele tinha de tão especial para a fascinar. Na semana seguinte.…eu não bebo café – confessou ela tentando acalmar as mãos nervosas ao colocá-las por debaixo da mesa. .Gosto – respondeu ela. . onde reinava a boa disposição dos clientes. Ao sabor de um delicioso sumo de pêra. na sua maioria turistas. o professor universitário que lhe ofereceu um boleia dois dias antes. conversaram durante largas horas e esqueceram-se de tudo o resto que os rodeava.Por mim tudo bem – disse ela tentando acalmar a voz trémula. Pode ser? . Telefonar a um homem que tinha idade para ser seu pai e tentar marcar um encontro com ele. – Eu também cheguei quase agora. o professor universitário que 65 . dormir até quando quisesse.Então peço um sumo. – Gostas de ler? – perguntou Paulo no meio da conversa. – Aonde?! A faculdade de Paulo ficava no Alto da Ajuda e foi por isso que Sara concordou encontrarse com ele numa pequena esplanada perto de Algés. e uma brisa de final de Verão que em tudo embalou os pensamentos dela enquanto esperava impacientemente pela sua companhia.

seguiu-se um olhar absolutamente esmagador que só culminou com um novo beijo e a loucura de Sara em permitir que um homem de quarenta e cinco anos a tocasse como nenhum outro homem a havia tocado até então. Na verdade ninguém diria que àquela tinha sido a primeira vez que se atrevera a fazer um chá. .Eu não me interesso por rapazes da minha idade. seguiu-se uma conversa interessante sobre novos escritores contemporâneos. os telefonemas quase diários e troca de algumas confidências apenas fizeram Sara sonhar com um possível relacionamento entre os dois.Tenho sumo. – Bem.Não – respondeu ela arrepiando-se quando ele lhe tocou suavemente na mão.Pois devias! És uma rapariga muito bonita. mas que agora não se imaginava a viver sem ele. Não te esqueças que também moro sozinho. O chá foi servido em poucos minutos num pequeno tabuleiro e em duas chávenas de porcelana que Sara fez questão de escolher nos armários da cozinha. O hálito de Paulo sabia a menta e as mãos não tardaram a percorrer as costas de Sara num movimento lento e contínuo em direcção às pernas. . queres beber alguma coisa? . Ela tremia. . café ou chá. .Não – respondeu Sara voltando a sentir o mesmo arrepio quando Paulo lhe encontrou os dedos e entrelaçou a mão neles.Então eu vou fazer – respondeu Sara abandonando a sala sob o olhar atento de Paulo. ele pôde perceber isso quando a deitou sobre o sofá e lhe afagou os cabelos lisos.Não sei.Aceitava um chá. Seria apenas uma fixação? Uma cisma? Um desejo? Talvez.Gostas de homens mais velhos? . E não. Mas a verdade é que o fez. e a outra verdade é que os seus intuitos saíram na perfeição quando Paulo elogiou o sabor e a temperatura.Não te preocupes! Já vi coisas piores. .O que tiveres para me oferecer.Quão mais velhos!? . ela entregou-lhe a única coisa 66 . – Fico contente por saber isso – disse ele.conheceu por um mero acaso. .Mais ou menos. Depois disso. Sonhou também fazer amor com ele embora tivesse a plena consciência que a diferença de idades que os separavam iam muito além de uma mera faixa etária. Completamente despida.Não?! .…não te achas bonita? – foi a surpresa de Paulo quando Sara lhe falou sobre as suas inseguranças relativamente à sua aparência física.Da minha idade? A resposta foi dada com um aceno positivo. Talvez fossem todas essas coisas. – Entra – disse ela deixando que ele invadisse o corredor. mas a verdade é que se voltasse para a casa da mãe jamais teria a chance de voltar a encontrar-se com Paulo e muito menos de levá-lo ao apartamento vazio do pai. . . . . Depois disso. De resto.Claro – riram-se os dois enquanto chegavam à sala. Aposto que todos os rapazes lá da tua escola devem correr atrás de ti. o prazer da leitura e a certeza de que as horas tinham deixado de passar para os dois. – Não repares na desarrumação! O meu pai é mesmo assim. . . . Provavelmente ninguém compreenderia as razões que a faziam suspirar por um homem de quarenta e cinco anos quando deveria interessar-se somente por rapazes da sua idade.

Madalena percebeu que já não lhe restava outra alternativa a não ser arrancar a filha das garras do pai. . . Após a leitura de uma carta escolar que dava conta das sucessivas faltas de Sara às aulas. – Ou devo dizer antes. – De quem é este livro? – perguntou-lhe o pai quando descobriu um exemplar do escritor Paulo Coelho sobre a mesa da sala.Ainda não o li. Mas vendo bem. sabias!? . O que é que aconteceu contigo quando nasceste. Jorge sempre fora um pai irresponsável.Vieste cedo – disse Jorge deparando-se com a figura de Madalena especada sobre o patamar de entrada.E nem devias! Olha. mais mentecapto e mais irresponsável do que eu pensava. A sua virgindade.O que eu estou a dizer Jorge. eu… . a culpa não era só dele.Uma carta da escola da tua filha… – respondeu Madalena atirando-lhe o envelope ao peito. . especialmente de Sara.Porquê? Não a tens levado à escola? . foi o que Madalena decidiu durante a sua condução pelas ruas da cidade. .Sabes o que é isto!? . ausente e sem as mínimas condições morais para tomar conta dos filhos. – Tu és ainda mais demente.Meu Deus – exclamou Madalena soltando uma gargalhada seca a fim de acalmar os nervos que se apossaram de si.Hã… foi uma amiga que mo emprestou – respondeu Sara apressando-se a arrancar o livro das mãos do pai. Era também sua por permitir a loucura da filha em ir morar com o pai. hã? Será que a tua mãe te atirou contra a parede? .Não são histerias. . a tua mãe ligou-me hoje lá para o escritório. . eu não quero voltar para casa! Eu quero ficar aqui. marido. . . .Hei – imperou Jorge não gostando nem um pouco da ironia. – Queres o quê? Que toda a gente oiça as tuas histerias? . inteiramente tua – vociferou Madalena apontando-lhe o dedo. mas não custa nada ouvir o que a tua mãe tem para dizer.Este livro não é para a vossa idade. – Tem calma! Não venhas ofender-me aqui dentro da minha própria casa. Aquela seria a última vez que iria pisar a casa do ex.Tem calma! Olha os vizinhos aí do lado – disse ele puxando-a para o interior do seu apartamento. é que a Sara está prestes a ultrapassar o limite de faltas injustificadas do primeiro período e a culpa é tua.Aonde é que está a Sara? 67 .Pai. É um facto! Uma realidade! A Sara está quase a chumbar por faltas e tu estás pouco te importando com isso. da tua companheira de quarto? . e de uma conversa com directora de turma. não é?! Além de que parecia irritada.Eu sei. Onze Minutos era o nome da obra. .Eu nem sequer sabia que ela andava a faltar às aulas.O quê? .O que é que estás para aí a dizer? .Não. Diz que precisa falar connosco.preciosa que há muito sonhava entregar a alguém. .

o mínimo que deves fazer é ir à escola e tirar boas notas. Se te damos tudo. oito a Química e cinco a Geometria que ela conseguiu arrecadar em apenas dois meses. .Vamos esperar ela voltar da rua! Quando ela vier. – A Sara vai voltar comigo e ponto final! Aqui ela não fica nem mais um dia.. tu não brinques comigo! .Eu só quero que me apoies uma vez na vida e não fujas com o rabo à seringa apenas para não ser o mau da fita. . . um olhar e desejando apenas que a chegada da filha lhes trouxesse respostas paras as dezoito faltas a Português. nós falamos com ela. ela saiu. A expressão de Sara não se alterou nem um pouco quando leu as informações expostas naquela carta e talvez tenha sido esse facto que mais tenha irritado Madalena. – Não vais dizer nada em tua defesa? . ou não?! Para te dar a ti e ao Daniel um futuro melhor e tu estás a desperdiçar tudo isso. – Lê! Lê e vê qual foi o resultado das tuas brincadeiras. mas já nessa altura. . – Olá… .E tu acreditaste?! Ou melhor.Começa já explicar – exclamou Madalena levantando-se do sofá. . doze a Matemática. – Já tinha dito ao pai! Lembraste pai?! .Sara – interrompeu Jorge.À Baixa – mentiu Sara despindo o seu casaco de ganga. A fechadura sofreu uma ligeira pressão quando faltavam poucos minutos para as dezoito horas.Não existe nada para falar – imperou Madalena gesticulando furiosamente os braços.Aonde? . marido. 68 . nem Madalena e nem Jorge tiveram forças para esboçar qualquer movimento corporal.Sara. a tua mãe está chateada contigo e tem boas razões para isso. – Nós estamos chateados com ela. . É para isso que eu e a tua mãe andamos a trabalhar. ou pelo menos também tu devias estar se te preocupasses minimamente com a tua filha.Não sei. Durante horas permaneceram sentados em diferentes sofás sem trocar uma palavra. – Saiu de manhã para fazer umas compras. . . – A tua mãe tem razão! Não é certo andares a faltar às aulas porque essa é a tua única obrigação para connosco.O que se passa é que a tua directora de turma me ligou lá para casa a dizer que estás em perigo de chumbar o ano – respondeu a mãe atirando-lhe a carta para as mãos.O que é que se passa? – perguntou Sara interrompendo a discussão dos pais.Querias o quê? Que lhe prendesse o pé à mesa da sala? .Fui passear.Pronto! Vai começar… .disse Sara surpreendendo-se com a presença da mãe ali. deixaste ela sair de casa sozinha? .O meu maior erro foi ter deixado a Sara vir morar contigo e está-me a cheirar que ainda me vou arrepender muito mais desse erro daqui para a frente. já disse – respondeu ele abrindo os braços. . – Aonde é que te meteste? . .Sara.Eu não tenho nada para dizer.Saiu para onde? .Não digas que eu estou chateada com ela – interrompeu Madalena voltando-se para o ex.Não sei. .

. . – Tu vais voltar lá para casa e ponto final.Pai… . .Queres sim – gritou Sara. Eu adoro ter-te cá em casa.O.…é melhor ires com a tua mãe. Sara! Com ela vais ficar melhor.Pai – suplicou Sara alcançando os braços do progenitor a fim de encontrar um aliado contra a mãe. . não é! Tinhas que aparecer para dar o teu show de mãe dedicada e extremosa.Sara.k – respondeu ela largando os braços. Silêncio foi a resposta de Jorge.Sara… . tenho sempre encontros com clientes de última hora e até já cheguei a desmarcar várias viagens de trabalho apenas para não te deixar sozinha. – Tu achas que é só pedires desculpas e está tudo resolvido? . 69 . . – Desculpem lá! .Nunca mais voltes a dizer uma barbaridade dessas. não é?! Só queres trazer as tuas namoradas cá para casa e não ter ninguém que te atrapalhe… . – Não deixes que ela me leve daqui! Não deixes! Será que não vês que ela está a fazer isso de propósito para nos separar? Ela não gosta de ti e também não quer que eu goste de ti..Tu queres que eu me vá embora.Eu não vou.Vai arrumar as tuas coisas ao quarto! Voltas hoje comigo para casa. . – Tu não gostas de mim.E o que é que queres que eu faça?! Que me ajoelhe aos teus pés e te peça perdão? . pai?! Nunca mais falo contigo! . filha. . eu nunca mais falo contigo. já disse para não brincares comigo! . . Mas tu só queres saber de ti.Se gostasses não me deixavas ir com a mãe quando sabes muito bem que nós nunca nos demos bem e que eu a odeio de morte. .Eu acho que a tua mãe tem razão – afirmou Jorge para grande desespero da filha que sem outro remédio viu-se obrigada a afastar-se dele e a deixar duas enormes lágrimas caíremlhe dos olhos. – Eu não tenho … como é que hei-de dizer…! Eu não tenho condições para te ter cá em casa. É tudo um plano. se tu me deixares ir com a mãe. mulher. . .Sara.Queres que me vá embora. esbaforida. mas o problema é que não tenho tempo para cuidar de ti como a tua mãe tem.É claro que não. – Ouviste.Sara… .Sinceramente não sei o que é que vieste cá fazer – disse a jovem desviando-se bruscamente de Madalena.Desculpem lá – repetiu Madalena num tom sarcástico.Já disse que… .Eu só vim chamar-te à razão! Dizer que está errado aquilo que fizeste e que não estás autorizada a repeti-lo! Foi para isso que eu vim. .O quê – foi a reacção intempestiva de Sara. Trabalho até tarde. – Não bastava teres ligado? Mas não. é isso?! .Pai. .Isso mesmo que ouviste e nem adianta espernear porque eu já conversei com o teu pai e juntos chegámos a um acordo – respondeu Madalena não se deixando intimidar pelo olhar de ódio que a filha lhe lançou. não fales assim com a tua mãe – interferiu Jorge saindo em defesa da ex. não vês?! .Já pedi desculpas.

Mas a verdade é que nada disso pareceu ter qualquer fundamento quando Sara se atreveu a digitar-lhe o número de telemóvel. mas que a tinha traído no momento em que mais precisava dela. Depois disso. – Não querem que vos leve? – perguntou ele. O número já não existe. – Vai arrumar as tuas coisas ao quarto – disse Madalena interrompendo os olhares de ódio que a filha lançou ao pai e deixando-a sair da sala completamente esbaforida. O número que marcou não está atribuído. foi o próprio que se encarregou de tal tarefa. .Sinceramente não sei o que fazer com ela – suspirou Madalena levando as mãos à cabeça.Ela odeia-me – murmurou Jorge. . Meia hora mais tarde. não é!? 70 . era tudo o que pensava enquanto roía as unhas e tentava encontrar uma maneira miraculosa de se livrar das garras da mãe.Achas que sou uma péssima mãe. Sara tentou encontrar várias soluções para o grande sarilho em que estava metida.Claro! E tu? – perguntou Afonso voltando-se para a neta. – Pai! Ajudas-me a trazer as malas que estão no carro? – pediu Madalena. Sara aproximou-se do carro da mãe. Não. Não posso voltar para a casa. e por ela entraram a sua filha.As palavras do pai soaram-lhe como uma bomba aos ouvidos e por vários segundos foi inevitável para Sara não derramar as últimas lágrimas que lhe restavam de uma relação que pensava ser perfeita.A miúda está louca. . Enquanto passeava pelo quarto. Talvez fosse ele a ajuda que tanto necessitava e o anjo da guarda que desde o primeiro momento pareceu ser na sua vida. veio um sabor amargo a derrota e a engano que a levou às lágrimas. Jorge traiu-a.Não – respondeu Madalena. Não. Mais tarde. alcançou o corrimão das escadas e subiu em direcção ao quarto onde foi audível o estrondo violento de uma porta a fechar. . Até que enfim chegaram. – Nós vamos bem sozinhas. no mais profundo silêncio. – Achas bem aquilo que fizeste? Achas bem andar a faltar às aulas? . e a sua neta. foram as palavras de Afonso Soares quando a porta se abriu. não após de tantas juras amor que lhe segredou aos ouvidos ou depois de lhe ter entregado a sua virgindade. Madalena. . Paulo não podia ter desaparecido sem deixar rastro. O número já não existe. Ele vai-me ajudar. no meu tempo era assim que se educavam as crianças.Bem-vindo ao clube – respondeu Madalena largando os braços. Não depois de ter prometido que a levaria a morar consigo caso a relação dos dois resultasse ou de ter jurado enfrentar os seus pais apenas para ficar com ela. Traiu-a diante da sua mãe e por isso ela nunca mais o iria perdoar. por ter conseguido encontrar outra solução. Claro. . foi a resposta que obteve após oito tentativas consecutivas. enquanto no porta-bagagem foram-lhe colocadas as três malas que tinha levado para morar com pai. mulher livre para enfiar a mochila da filha no banco de trás.Precisas impor-lhe disciplina! Pelo menos. De resto. resoluta. . fez-se luz. Sim. – Está cada vez pior e estes dias na casa do pai só a pioraram ainda mais. .Não me chateies – respondeu Sara para grande surpresa do avô. deixando a ex. Não depois de tudo aquilo. Sara. repetiu várias vezes a si própria enquanto tentava convencer-se que tudo aquilo não passava de um pesadelo. Vou ligar ao Paulo.

não é isso que está em causa. não sabia. Mas a Sara precisa de limites. odiava-se e repetia a si própria que nunca mais voltaria a confiar em quem quer que fosse.Se ao menos aquele imprestável do Jorge servisse para alguma coisa – disse Madalena limpando as tímidas lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. de facto sobrava pouco tempo para se dedicar a ele. Por sorte e após muito esforço. vamos lá buscar as malas ao carro! As semanas foram passando. e tudo para que ela pudesse passar um maravilhoso serão ao lado de Sérgio. O dia do seu aniversário era a ocasião ideal. a rolha saltou para o tecto e Madalena bateu palmas maravilhada. embora Sérgio muitas vezes pedisse para que se vissem todos os dias. . assim como a sua vontade em devorar toda a espécie de pornografia que encontrava na Internet. os dias tornando-se mais curtos e tristonhos e Sara percebendo que nunca mais voltaria a ter notícias de Paulo Figueira. o desejo sexual experimentado com Paulo continuava a dominar-lhe a mente.. ela adorava-o e não havia nada melhor do que terem-se um ao outro para se confortarem com palavras carinhosas repletas de amor. enquanto se encontrava sentada sobre o alpendre da janela do quarto. prolongar-se durante anos e anos. Depois disso. Chorava.Bem! Que recepção… .É claro que não – respondeu Afonso segurando os ombros da filha.E tu ainda nem viste nada – respondeu Sérgio entregando-lhe a taça de champanhe após um longo beijo. boa comida e outras coisas que ela corou só de o ouvir falar ao telefone. ou se pelo contrário. especialmente num homem. Mas de uma coisa tinha certeza. Impossível. pelo companheirismo e pela paixão que a cada semana crescia ainda mais nos seus corações. Por vezes.Bem. mas ainda assim não custava nada tentar ter um pouco mais de espaço na vida de Madalena quando a sua única vontade era tê-la só para si. – Entra! 71 . o falso professor universitário que a única coisa que quis foi retirar-lhe a virgindade como se de um prémio se tratasse. . Madalena conseguiu convencer o seu pai a buscar os netos à escola e ficar com eles durante a noite. Não sabia também se essa vontade descontrolada de se tocar iria passar com o tempo. a temperatura arrefecendo. Por sorte. E sim. provavelmente repleto de champanhe. Sérgio era um homem compreensivo. Na verdade. . Mas por outro lado. Com os problemas de Sara a atormentarem-lhe os pensamentos. de ter medo de alguém e há muito tempo que ela já não tem medo de ti. Precisava fazer sexo. a relação de ambos. – Pontual como sempre – disse ele abrindo a porta com um largo sorriso e com uma garrafa de champanhe nas mãos. primava pelo amor. Seria um jantar romântico no apartamento dele. Nunca forçou a sua entrada na vida de Madalena e era por isso que ela lhe era tão grata. Estaria ela doente por passar a vida a pensar em sexo ainda que fosse na escola. Ele adorava-a. enquanto voltava para casa no carro da mãe e especialmente à noite quando se trancava no quarto e utilizava o computador para satisfazer a sua curiosidade? De facto. ele sabia. mesmo tendo sido mantida em segredo. ela perdia-se em justificações sem fundamento para não se sentir tão ingénua e usada. Fosse com quem fosse. – Tu és uma boa mãe. Sexta-feira foi o dia do aniversário do Sérgio e por isso Madalena estava excitadíssima. – …garanto-te a minha tarefa era bem menos complicada.

sentir a humidade da sua boca. . combinamos um jantar ou um almoço em minha casa.Claro ou o que é que pensas?! Nunca te falei sobre os meus dotes culinários? . o mundo parou e não foram precisas mais palavras para que ela entendesse tudo o que ele queria fazer naquele momento. Degustou não só a refeição.Aleluia – riram-se os dois. eu acho que posso começar a pensar um pouco mais em mim. e depois. os dois amantes deitaram-se no sofá e retiraram as respectivas roupas enquanto a música que os embalou na dança continuou a tocar durante minutos a fio. Submersos. . . . mas que se prolongou até o Outono e tinha esperanças de ultrapassar o Inverno.Achas que vais conseguir? .Foste tu que cozinhaste? – perguntou Madalena. Aliás.Por ti sou capaz de ultrapassar tudo.Está óptimo.Agora que as coisas estão um pouco mais calmas lá em casa. Tê-lo perto. um pouco mais em nós. .Claro que não. mas também os lábios de Sérgio quando dançou com ele a mesma música que ambos tinham dançado no início da sua relação.…em levar-te a conhecer o meu pai e os meus filhos – respondeu ela após um pequeno suspense. pela conversa amena e também pelas velas que Sérgio fez questão de acender sobre a mesa enquanto Madalena se ria às gargalhadas e lhe confessava não se lembrar da última vez que degustara uma refeição às escuras. . os braços fortes à volta da sua cintura e o corpo completamente colado ao seu.Obrigada – disse ela saboreando o primeiro gole da bebida. .O nosso jantar já está pronto! Só falta tirar do forno. Depois disso. Mas a verdade é que naquela chuvosa noite de sexta-feira.Está bom? .Primeiro vou falar com eles. .. Uma relação que tinha todos os ingredientes para ser apenas um amor de Verão. O jantar primou pela simplicidade.O quê? – perguntou Sérgio enterrando-se no pescoço dela. – Estive a pensar… .Não demores a conseguir esse sinal verde.E tu queres que eu fuja? . – Veremos se não vais fugir a sete pés quando os vires enfileirados à frente do sofá.Os dotes que eu conheço são outros – respondeu ela enterrando-se nos lábios dele enquanto se deixava levar em direcção à sala. . que a minha filha já não anda a faltar às aulas. .O quê? .Veremos – respondeu Madalena não resistindo a desabotoar-lhe os primeiros botões da camisa. Quero que fiques e me ajudes a enfrentá-los também. . 72 . . ela degustou. .Podes deixar – respondeu ela mergulhando-lhe nos lábios e também naquela sensação tão fantástica que era tê-lo só para si.Fico muito contente por ouvir isso – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos soltos. . divertida.E quando é que vou ter a honra de conhecer as tuas três pestinhas? – perguntou Sérgio colocando-lhe os cabelos atrás dos ombros.Ultrapassar a prova de fogo que vai ser conhecer as minhas três pestinhas!? . ouviste?! . quando conseguir um sinal verde.

foram as palavras de encorajamento que ditou a Madalena e que a deixaram muito mais aliviada.Ainda falta o meu – riram-se baixinho. as compras foram feitas no supermercado mais próximo e a mesa da cozinha decorada com algumas flores que Madalena trouxera da sua floricultura.Prometo que vou fazer tudo para ir. Apareceu como um anjo caído do céu e era ele a única razão para que Madalena estivesse enfiada naquela cozinha a ultimar os preparativos do jantar. O jantar foi marcado para quarta-feira.Este foi sem dúvida o melhor aniversário que já tive – confessou ele encarando-lhe o rosto após a ter possuído sem quaisquer restrições. . nem sabes o peso que me tiraste dos ombros. pregava inúmeras partidas e reservava as maiores surpresas para uma mulher que havia perdido totalmente a esperança de amar e ser amada em proporções iguais.Contei! . . . Acho que se atrasou a sair do estúdio e apanhou algum trânsito pelo caminho. . explicando-lhe primeiro como se conheceram. já é um bom caminho para nos mantermos optimistas. . . ao contrário do que esperava. – Mas pelo menos não se negaram a conhecer-te. 73 . E Afonso. o que vendo bem. força. ficar contra nós ou assim… . Uma semana foi o tempo que Madalena precisou para conversar com o pai a respeito de Sérgio. especialmente por causa da Sara.Que bom! .Também não estão a favor – confessou ela. Achas que vais poder vir na próxima quartafeira? . . Hoje não consegui parar de pensar noutra coisa a não ser na conversa com os teus filhos.Fizeram uma cara como se tivessem acabado de ser atropelados por um camião. mas o meu pai ajudou-me a controlar os danos – respondeu Madalena ouvindo uma leve risada no outro lado da linha. .Óptimo – murmurou Madalena com um sorriso radiante. o que ele tinha para a fazer tão feliz e os motivos que a faziam querer apostar numa relação mais séria e duradoira com o fotógrafo. Contudo. E não. – O moçoilo nunca mais chega – resmungou Afonso lançando os olhos ao seu relógio de pulso enquanto a filha terminava de temperar a salada a uma velocidade fantasmagórica. a reacção de Sara não foi nem um pouco agradável e a de Daniel primou pelo embaraço de não saber se aquela era uma boa notícia ou não.E eles? – perguntou Sérgio sem conseguir esconder o nervosismo. não viu outro remédio a não ser apoiá-la. apesar de ter ficado um pouco surpreso com todas aquelas revelações.Optimismo é o que não me falta – respondeu Sérgio arrancando-lhe uma leve gargalhada.Bem. Se ele te faz feliz.Contaste-lhes sobre nós? .. Nada poderia dar errado para aquele que prometia ser o jantar mais importante da sua vida e também a única e derradeira oportunidade para que os filhos e o seu pai caíssem de amores por Sérgio e se deixassem encantar por ele. Mas Sérgio apareceu. .Ele ligou-me há pouco.Está tudo certo – disse Madalena quando falou com Sérgio ao telefone no final da noite. O mundo dava muitas voltas. Pensei que eles se fossem opor.Para a semana já podemos marcar o jantar.

De facto. Mais tarde. .Bem… acho que não me esqueci de nada! Pratos.Por pouco e não comprava o supermercado todo. não quero que fales. . Sara encontrava-se de olhos postos na televisão. – Comporta-te. duas caixas de chocolate e uma garrafa de vinho comprada pelo caminho. . A cozinha cheirava bem.Porque é o teu ex. As suas mãos estavam trémulas. guardanapos… . copos. digo perfeito em todos os sentidos. segundo as palavras de Madalena enquanto o empurrava pela costas e o fazia ganhar forças para enfrentar a maior prova de fogo que alguma vez havia enfrentado em toda a sua vida. . o Jorge por acaso sabe que estás a namorar com outro homem? . aquilo nunca lhe tinha acontecido até porque todas as namoradas que teve durante os seus trinta e poucos anos de vida sempre foram solteiras. que penses ou sequer que te lembres dele! Este jantar tem que ser perfeito. e quando digo perfeito. O que será que eles iriam pensar de si? Iriam adorá-lo? Detestá-lo? Isso era uma incógnita até para os deuses lá de cima. depois de um longo suspiro e de ter composto os cabelos soltos. a arroz e batatas fritas. Sérgio pôde senti-las quando abriu o portão da casa de Madalena e se preparou para lhe conhecer o pai e os filhos.Está bem. – Estás todo carregado – riu-se Madalena enquanto repartia com Sérgio o peso dos presentes. seguiu-se a caminhada em direcção à cozinha onde se encontravam os três pestinhas da família.Olha lá. aliás.O Jorge não tem mais nada a ver com a minha vida e nem tu devias estar a falar dele já que daqui a poucos minutos vais conhecer o meu novo namorado – afirmou Madalena guardando o azeite num dos armários da cozinha. emocionalmente inexperientes e sem qualquer bagagem familiar. – Eu atendo – gritou ela apressando-se pelo corredor quando a campainha tocou. Cheirava a pato assado. Conhecer os filhos e o pai de uma namorada? Não. o coração bateu mais forte e as pernas permaneceram paralisadas sobre o alpendre da porta pedindo 74 . por favor! . girou a maçaneta e encontrou o seu convidado especial carregado com um sorriso. marido e pai dos teus filhos.. tal como já disse. comportate! Não quero que fales do Jorge.Já não começa bem. . talheres. mas a verdade é que ele estava disposto a fazer de tudo para que as pessoas mais importantes da vida de Madalena também gostassem de sim.Obrigado – respondeu ele acedendo-lhe o pedido com alguma cautela e também com um aperto discreto na mão esquerda. . – Por isso. um ramo de rosas.Não te estás a esquecer do vinho? – interferiu Afonso encontrando um maço de cigarros no bolso das calças. Sérgio pensou seriamente em fugir.Porque é que ele haveria de saber?! . está bem.Entra! . Ao vê-los. Daniel a jogar na sua playstation portátil e Afonso a espreitar o pato trinchado sobre a bancada. . para além do calor que o forno fazia questão de lançar naquela grandiosa habitação composta por inúmeras mobílias sofisticadas. pois as mãos começaram a suar.Pai – exclamou Madalena fulminando-o com os olhos. Mais tarde. duas janelas amplas e também por três pessoas que nem sequer se aperceberam da chegada de Sérgio e Madalena.Claro! O vinho – lembrou-se Madalena correndo em direcção ao frigorífico.

– Os meus filhos! Daniel e Sara… .Eu é que agradeço o convite. .O prazer é todo meu. senhor Afonso! . diga-se de passagem.É.E este é o meu pai… – afirmou Madalena alheia aos pensamentos da filha. .Eu é que gostaria de ter um espírito jovem igual ao seu. .qualquer tipo de socorro diante daquela situação tão constrangedora.Olá Daniel – exclamou o fotógrafo estendendo-lhe a mão quando se aproximou da mesa. A conversa entre os três adultos prolongou-se por vários minutos deixando Daniel e Sara de fora. não ligues! Tal como já te tinha dito. .Bem que eu gostaria de ter tido um trabalho igual ao teu quando tinha a tua idade. e foi por isso que o ex. mas Afonso também.Lá isso é verdade – respondeu Afonso aceitando o aperto de mão por parte de Sérgio. – O senhor Afonso Soares que já há muito te queria conhecer. encabulado. A idade.Obrigado! Bem. militar tentou acalmar o namorado da filha com perguntas leves e humoradas.O que foi? Só estava a elogiar-lhe o trabalho. . – Pessoal – exclamou Madalena. Analisaram-nos dos pés à cabeça e por momentos fizeram-no sentir como um verdadeiro extraterrestre vindo de um planeta distante. . – Este é o Sérgio! As cabeças de Afonso. Um sonho de qualquer homem. são! Confesso que queria trazer orquídeas.Os chocolates são para a Sara e para o Daniel – adiantou-se Sérgio tentando esconder o nervosismo que ainda estava a sentir.Por acaso não – riu-se Sérgio. Sérgio estava nervoso. acredite! Fico contente que tenha aceitado jantar connosco. Sérgio. – O vinho é para o senhor Afonso.Olá Sara.Não te cansas de fotografar mulheres bonitas? . militar levando uma taça de vinho aos lábios. . sempre que podia.Não faz mal! Também adoro rosas.Muito prazer. detalhes sobre a família e pequenas curiosidades como o facto de estar sempre rodeado de modelos profissionais. o meu pai é um rapazinho de dezoito anos preso num corpo de sessenta e oito. . mas como não consegui encontrar e depois também já estava a ficar um pouco tarde.São para mim – interrompeu Madalena não escondendo o seu sorriso de orelha a orelha.Pai – exclamou Madalena fulminando Afonso com os olhos. . e na mesa sentaram-se cinco pessoas no mais completo silêncio prontas a partilhar uma refeição cozinhada por Madalena. eu sei bem o que estavas a fazer.É. – É o meu trabalho. – Sérgio – disse Madalena apressando-se a fazer as apresentações e a terminar-lhe com aquele calvário.Olá – respondeu o jovem aceitando o cumprimento com alguma cautela. . senhor Afonso – afirmou Sérgio largando os talheres sobre o prato. ela reparou. . . Sérgio volta-se para eles e sorria-lhes como se 75 . Sara e Daniel viraram-se imediatamente em direcção àquele desconhecido que agora também iria fazer parte das suas vidas. . . . Queria saber tudo. profissão. mas ainda assim.E ele trouxe presentes – interferiu Madalena empenhando duas caixas de chocolate e as flores trazidas pelo namorado.Olá – respondeu ela pensando que pelo menos a sua mãe tinha bom gosto. por isso… . . não quis chegar mais atrasado do que cheguei. pelo menos alguém que sabe avaliar as minhas qualidades – riu-se o ex. . O jantar foi servido às nove horas em ponto. e as flores… .

Um sinal que Sara estava mais do que disposta a oferecer quando os seus olhos se cruzaram com os dele pela última vez naquela mesa repleta de alimentos. mas também de luxúria e pecado. – Gostei muito deles – voltou ele a mentir.E os meus filhos!? O que é que achaste deles? O Daniel parece ser um bom rapaz. após um pequeno período de reflexão achou melhor manter a sua opinião guardada a sete chaves não fosse ela estragar uma noite que apesar de tudo até foi especial. – Agora já sei a quem puxaste. Desculpas atrás de desculpas foi o que Sérgio inventou para se livrar daquele malfadado jantar. derrubou o resto do vinho sobre a mesa e lançou um olhar esmagador à filha da sua namorada numa tentativa desesperada de encontrar justificações para aquele acto no mínimo leviano. Ao encontrar-lhe o sexo. E enquanto bebia um gole de sumo. até porque a única coisa que ele não queria era continuar a olhar para a cara de Sara e lembrar-se da loucura que ela cometera à mesa quando o apanhou completamente desprevenido.Claro! Claro que entendo. . não entendes!? . ela sorriu e o fotógrafo quase que desmaiou de susto. – Queria tanto que pudesses ficar mais tempo – disse ela encontrando-lhe a mão.…estou – respondeu ele tentando ignorar os risinhos de Sara. sendo que quase todas elas se encontravam relacionadas com o trabalho. por coincidência ou não.Mas obrigado pelo jantar. . . desculpem. . Depois disso. foi essa a resposta que Sérgio se sentiu tentado a oferecer à namorada.O que é que achaste do meu pai? .Eu também – mentiu Sérgio. Está tudo bem – disse Madalena levantando-se da cadeira onde estava sentada. . nomeadamente quando descobriu o sexo e a pornografia na casa do pai. . bebidas. – São duas crianças maravilhosas.Estás bem? – perguntou Madalena poisando-lhe a mão sobre o ombro. . e calores que a fizeram cometer uma das maiores loucuras da sua vida quando se atreveu a tirar o pé do sapato esquerdo e levá-lo em direcção as pernas de Sérgio que. O que lhe teria passado pela cabeça para fazer uma coisa daquelas? O quê? A pergunta parecia não ter qualquer resposta e nem mesmo depois de ter sido levado à rua por Madalena. . calores que a acompanhavam desde há muito. ele arrastou a cadeira.ainda estivesse à procura de algum sinal de aprovação.Porque é que não haveria de dar? 76 . Mas seria mesmo aquele o motivo para que se quisesse ir embora? Obviamente que não. . Gostei muito. – Mas amanhã tenho uma sessão bem cedo e queria dormir pelo menos oito horas para… enfim… ter mais disposição para fotografar. vários calores começaram a subir-lhe pelas pernas e encontraramse nos seios e nas pontas dos dedos das mãos. . Contudo. Entendes. – Desculpa! Aliás. encontrava-se exactamente à sua frente. – Vou buscar um pano para não manchar a mesa.Nem acredito que deu tudo certo – disse Madalena enterrando-se nos braços de Sérgio.Acidentes acontecem – interferiu Afonso sob o olhar assustado fotógrafo. Eu não sei o que é que me aconteceu. Sujei a toalha toda. Eram calores estranhos.Não faz mal. mas a tua filha Sara é uma maluca de todo o tamanho. ela lhe desapareceu do pensamento.Um senhor fantástico – respondeu Sérgio arrancando-lhe um novo sorriso.

mas nem por isso retirou o sorriso que ela fez questão de estampar no rosto. . . Por isso. Algo que realmente não deveria ter feito. . . Sara adiantou-se: .Se não fizeres sexo comigo eu digo à minha mãe que tentaste estuprar-me – disse Sara.Então?! Não me vão contar? – riu-se Madalena.. era o que ela mais queria.Eu também acho que sim. – Tu és uma criança. podes deixar.Sara… . chegou a essa conclusão quando no final do almoço. – Não queres fazer sexo comigo? . a prosperidade nos negócios da floricultura e o namorado mais lindo do mundo. . Não devias estar a pensar nessas coisas. .E o que é que vocês me queriam contar? 77 . Ele amava-a. Mas por sorte não aconteceu e eu até acho que eles gostaram de ti. .suspirou ele largando as travessas sujas no lava-loiça. De qualquer forma. Sara aproximou-se de si na cozinha e perguntou-lhe aos ouvidos.Mesmo assim! Para mim ainda és uma criança. enquanto Madalena atendia uma chamada telefónica da melhor amiga no corredor da casa. Se tinha dado tudo certo. Os seus filhos.Não sei – respondeu Sérgio forçando um sorriso. . – Eu ligo.Ligas-me quando chegares a casa? . ou melhor.O que é que deu nela? . quanto a isso não havia a menor dúvida. . o amor que sentia por Madalena era forte demais para que se deixasse levar por todas aquelas desconfianças sem sentido. a melhor amiga. Os três dias que se seguiram foram vitais para que Sérgio se conseguisse convencer que o que acontecera à mesa com Sara não tinha sido mais do que um mal entendido e que não valia a pena levar em consideração as brincadeiras de uma menina de quinze anos. No seu rosto era visível uma felicidade extrema por ter tudo aquilo que sempre quis ter na sua vida.Temos que começar a pensar num novo jantar. – Na verdade estávamos à tua espera para te dizer uma coisa… Ao perceber que o namorado da mãe estava realmente disposto a contar a verdade dos factos.Não há nada para contar – foram as palavras da sua filha antes de desaparecer da cozinha. se os seus filhos e o seu pai adoraram Sérgio.Eu não sou uma criança! Já tenho quinze anos e em Janeiro faço dezasseis.Vou para o quarto. – Já estão a arrumar a loiça? – perguntou ela não imaginando sequer que tudo aquilo que tinha não passava de uma mera ilusão.Claro – respondeu Sérgio deixando-se beijar por ela.Sei lá! Fiquei com medo que acontecesse alguma coisa.Mais ou menos – respondeu Sérgio lançando um olhar lancinante a Sara. – Depois combinamos melhor – foi a resposta do fotógrafo. num almoço para o próximo fim-de-semana. E na verdade foram precisos apenas poucos minutos para que Madalena se conseguisse livrar da conversa ditada por Alice e entrar na habitação com um largo sorriso nos lábios. O que é que achas? A expressão embaraçada do namorado deixou Madalena apreensiva. . mas para tê-la por inteiro teria que amar os seus filhos e fazer de tudo para se dar bem com eles. aceitar um convite para almoçar no domingo foi irrecusável. . .Não te preocupes! Eu próprio vou contar-lhe assim que ela chegar à cozinha. então porque não promover uma maior aproximação entre eles? Na altura.

Hã… era uma coisa engraçada que tinha passado ali na televisão.É – respondeu Sérgio. E já que Sérgio não queria ser a vítima então ela teria que arranjar outra. . Mas ainda assim a palavra sexo não lhe saiu da cabeça até o Natal. – Mas acredito que a partir de hoje nos vamos dar ainda melhor. Passou a respeitá-lo como futuro padrasto.Fico contente que tu e a Sara se estejam a dar tão bem. De facto. a frase do fotógrafo não poderia ter sido mais acertada e tudo porque depois daquele malfadado domingo Sara nunca mais se atreveu a colocar-lhe propostas ordinárias aos ouvidos. mal o conseguia encarar de frente quando se cruzavam no corredor e esqueceu completamente as loucuras de ir para a cama com o namorado da mãe. 78 . Nada de especial! ..

era ali que ela queria estar. calmamente e sem quaisquer pressas.…falar sobre trabalho.Que tipo de trabalho? 79 . só precisava satisfazê-la e nada mais. esse cenário repetia-se todos os dias e não trazia nada de novo para as centenas de pessoas que habitavam o bairro do Intendente. rico ou proveniente de uma raça previamente estipulada. o Intendente era o local propício para encontrar alguém assim. Tinham-se passado várias semanas. Na verdade.É só um minuto. tinha faltado às aulas e estava no centro de um bairro degradado quando de longe uma mulher a avistou e percebeu que aquela não era realmente a primeira vez que tinha visto Sara ali. a mulher levou o cigarro à boca e enfiou o isqueiro na mala a tiracolo. mas ela continuava a lembrar-se perfeitamente do rosto da jovem por não ser muito comum adolescentes como ela pisarem aquele local.Eu não tenho nada para conversar contigo. e era também a segunda vez que dava consigo a desviar-se de três toxicodependentes. Aquele realmente não era o lugar indicado para raparigas como Sara. apesar de todos os riscos. atravessou a rua e encontrou a sua presa. – Tu por aqui outra vez!? . O que estaria à procura? O que fora fazer quando a avisou que tudo era melhor do que estar ali? Sem conseguir encontrar resposta às suas perguntas. .Olá! . não precisando ele de ser bonito.Hã …olá – respondeu Sara abrindo um sorriso quando reconheceu a pessoa que a levara ali.CAPÍTULO V Era a segunda vez que colocava os pés naquele local. um traficante à porta de um café e duas prostitutas de serviço completamente alheias ao tempo e ao espaço. E sim.Claro que me lembro – respondeu a prostituta levando mais uma vez o cigarro à boca. Na verdade.O que é que queres? – questionou Milene rispidamente. uma jovem de dezasseis anos acabados de fazer que ainda continuava a ter sonhos eróticos todas as noites e que desejava experimentar a sensação de ter sexo com todo e qualquer homem que mostrasse minimamente interessado em nela. A expressão séria que Milene fez questão de colocar no rosto não deixou sombra para dúvidas. . inteligente. . – Será que podíamos conversar num outro sítio? – perguntou Sara após um longo período de meditação.O quê? . – E tu? Lembraste daquilo que te disse? . Talvez trouxesse para Sara. De facto. mas ainda assim.Que isto não era lugar para miúdas como tu.Lembra-se de mim?! . Era meio-dia. . Depois disso. Estou a trabalhar! . .

80 .Não faz mal. que aparentemente tinha todas as regalias e todos os mimos dos pais. .Disseste que querias falar comigo sobre o meu trabalho. Quero que me ajudes a… a trabalhar aqui! . se quisesse realmente submeter a uma profissão tão humilhante como a prostituição. e foi isso que Milene tentou fazer durante vários minutos.Como prostituta!? .Eu quero que me ajudes – respondeu Sara cortando-lhe as palavras.Como… prostituta. Trabalhar como prostituta? Ela repetiu a pergunta enquanto se ria a bom rir e levava uma das mãos ao peito.Entra – disse Milene largando a porta assim que chegaram ao quarto. . Um cliente. não quis acreditar nela e recusou-se a aceitar o facto de que uma jovem de dezasseis anos. Eu quero trabalhar aqui. Mas por fim. quando os seus olhos se cruzaram com os dela naquele quarto e percebeu que a expressão de Sara permaneceu impávida e serena. – O que é que queres saber? .Estou..disse Milene quando observou os olhos curiosos de Sara a olhar para os cantos do quarto. de cortinados e a cama desfeita demonstrava que ainda não havia passado muito tempo desde a última vez que Milene se deitara ali com outro homem. as paredes encontravam-se sujas.Sim – respondeu Sara voltando-se para ela. tal como o tapete junto à cama. Não a levou em consideração. .Como prostituta.Sim. Sara reparou. . gastas. Para além disso. e ao subir as barulhentas escadas daquele edifício a cair aos bocados. .Tu estás mesmo a falar a sério? . – Fala – imperou ela terminando o quinto cigarro do dia. – Desculpa a desarrumação… . A pensão onde costumava alugar um quarto para se encontrar com os seus clientes foi o local escolhido por Milene para aquela conversa que prometia ser no mínimo interessante. . a surpresa deu lugar à estupefacção. – Deixa-me ver se estou a perceber. – Não tive muito tempo para ajeitar as coisas.O mesmo trabalho que você faz – respondeu Sara surpreendendo-a com a sua resposta. . Finalmente tinha arranjado coragem para estar ali e no fundo não se sentia nem um pouco arrependida da escolha que tinha feito pois havia pensado nela durante semanas a fio e só não a havia concretizado por receio de perder o que na verdade já não tinha. A resposta de Sara conseguiu arrancar uma ruidosa gargalhada por parte de Milene. Era também desprovido de móveis luxuosos.Espera aí… . Era pequeno.Sim – respondeu a jovem largando a mochila no chão. a oferta de Sara era de tal maneira descabida que nem sequer deveria ser levada em consideração. . Estava ali.riu-se Milene nervosamente enquanto passeava pelo quarto. . pois claro.Ajudar-te?! . – Podemos fazer um acordo.E o que é que queres saber sobre o meu trabalho para além do que já sabes? Sara pareceu hesitar por alguns instantes e Milene percebeu essa hesitação quando lhe encarou o rosto sério e os olhos assustados. queres ser prostituta e queres também que eu te ajude a arranjar clientes! É isso? . Sara sentiu-se prestes a cair num abismo. Na verdade. Pudor e vergonha de admitir que era viciada em sexo.Trabalhar no quê? – questionou Milene franzindo o sobre olho. que nem sequer tens dezoito anos. . Tu.

Hã… outra coisa importante que já me ia esquecendo. . .Mesmo assim eu quero experimentar – afirmou Sara. mas quando descobrires e viveres essa realidade.Sim! Se eu gostar. podes ficar com todo o dinheiro que eu conseguir. resoluta.. Não seria muita pretensão dela achar que iria gostar de ser prostituta? Será que ainda não se havia dado conta dos perigos que estava a correr ao entrar numa vida completamente desregrada. Preservativos. mas que tu nunca te podes esquecer. Usa sempre preservativo e não te deixes ir naquela conversa de que sem ele é melhor. Elas que se casaram.Aconteça o quê? – perguntou Sara.Eu não quero o dinheiro para nada. vou-me embora… Quando o cigarro terminou.Só queria experimentar. Este bairro é a nossa salvação e vais encontrar sempre alguém para te ajudar caso aconteça alguma coisa… . mas não penses que essa profissão é pêra doce. também já fui curiosa. elas que apanhem! E… o que mais? Hã. Trás também alguns produtos de higiene para te lavares.Se queres experimentar porque é que não arranjas um namorado? Garanto-te que ele te iria tratar muito melhor do que certos clientes costumam tratar as prostitutas que vão para a cama com eles – Sara calou-se. Não penses que é divertido abrir as pernas para o primeiro que aparece ou então para aquele pagar mais. Mesmo que te convidem para ir a hotéis luxuosos. continuo. os encontros são sempre feitos em locais escolhidos por ti. eu não preciso dele. ela tinha algumas dúvidas. mas ainda assim quis desafiar Sara com uma pergunta: . Estás iludida! Andaste a enfiar coisas na tua cabeça que não correspondem à realidade. . que vá para casa foder com a mulher porque nós não estamos aqui para apanhar as doenças deles. nada de sexo oral se não os conheceres ou então ires para a cama com eles pelo menos umas três vezes. sombria e desleal? Na verdade.Sem receber um tostão por isso!? .O. É preciso ter-se muito estômago para aguentar certos homens.k! Amanhã – respondeu Milene aproximando-se lentamente dela.Que acordo!? . . assustada. certas coisas que eles nos pedem para fazer e para não vomitares com o cheiro de alguns. Escusado será dizer que o mesmo se aplica ao sexo anal. Se não gostar. . Quem não consegue manter uma erecção com preservativo. . não aceites. Uma ruidosa gargalhada foi a resposta de Milene: . aliás. – Escuta! Eu também já tive a tua idade.Se me ajudares a arranjar clientes. Milene apagou-o num dos cinzeiros sobre a cómoda e lançou um olhar desafiador àquela jovem que parecia ter toda a experiência do mundo. e pede para que ele se lave antes de sequer se atrever a colocar-te as patas em cima – Sara acenou com a cabeça embora os seus olhos ainda demonstrassem algum medo – Outra coisa! Nada de beijos na boca mesmo que te peçam.Claro. – Arranja-te bem! Depila-te em todas as partes do corpo porque quanto menos pêlos tiveres menos contacto físico tens com o cliente. 81 .Pode ser amanhã?! .Estás-me a propor que eu me torne na tua chula? .Então o que é que queres? .E quando é que queres começar? . garanto-te que vais ficar desapontada! Muito desapontada.

Sara resolveu trancar-se na casa de banho com o intuito de fazer aquilo que Milene lhe pedira durante a tarde. e enquanto a ouvia com a máxima atenção.disse-lhe Milene à saída da pensão. Para isso. Depilar-se dos pés à cabeça e preparar-se psicologicamente para o que a esperava no dia seguinte. Não desconfia de nada. Faltavam poucos minutos para as duas da tarde quando Sara se despediu de Milene com a promessa de voltar no dia seguinte e iniciar a profissão que tinha escolhido para si. Mas surpreendentemente. .Deixa-me entrar – disse Daniel batendo à porta da casa de banho. Não o estava a fazer por carências financeiras. .Caso alguém tente espancar-te.A polícia não me vai apanhar. feito tantos planos. a única coisa que lhe interessava era ter alguém que a quisesse e a desejasse nem que fosse apenas por alguns minutos. – Estou aflito e preciso ir à casa de banho.Agora não dá – gritou Sara passando o chuveiro pelas pernas depiladas. basta ofereceres uns troquinhos antes de subires e tens a vida salva. que a achasse bonita e que não tivesse olhos para nenhuma outra mulher a não ser para ela. As explicações de Milene continuaram durante largos minutos. mas no entanto havia algo que a fazia hesitar e Milene foi a primeira pessoa a reparar nessa hesitação perfeitamente normal para uma iniciante.Eu venho – respondeu Sara desaparecendo do bairro com a sua mochila às costas.. – Ainda estás a tempo de desistir. Tinha pensado tanto tempo sobre o assunto. De 82 .Sabes que se a bófia te apanhar por estas bandas. Sara deu-se consigo a perguntar se não estaria realmente a cometer uma loucura ao enfiar-se na toca do lobo. ela conseguisse encontrar alguém assim. ali. – Se não vieres amanhã. em pleno Intendente.…não. – Nesta pensão eles não se vão atrever porque temos alguns amigos especiais que tomam conta de nós na recepção. Não. só de pensar na ideia. porque se fizeres isso. Eu não vou desistir! . não queria saber do dinheiro para nada até porque tinha ficado acordado com Milene que seria ela a receber todos os lucros. . mesmo não tendo a mínima ideia de como seria o seu primeiro cliente. a excitação apoderou-se do seu corpo.Eu sei! Podes ficar descansada. Na verdade. . Depilar-se. o jantar foi silencioso apenas interrompido pelo bater dos talheres nos pratos. . E talvez. a corda vai arrebentar para o meu lado. tal como já vinha acontecendo há várias outras. . eu vou compreender… . não sabes!? . pensou a jovem. violar-te ou obrigar-te a consumir drogas – respondeu Milene afastando-se calmamente. Não desconfia de nada e nem nunca iria desconfiar. e nem esperava sequer encontrar ali o seu príncipe encantado. – Vai à outra lá em baixo! Naquela noite.Nunca te atrevas a atender um cliente na rua e também nunca te atrevas a denunciar-me à polícia. Algumas horas depois e enquanto a mãe preparava o jantar na cozinha. Alguém que lhe retirasse do peito aquele sentimento horrível de vazio e carência afectiva. A televisão teimou em não calar-se e os olhos de Sara muitas vezes se cruzaram no rosto despreocupado de Madalena. eu vou dizer que não te conheço de lado nenhum e que tu simplesmente enlouqueceste. de como reagiria quando ele a tocasse e como ficaria o seu estado de espírito depois de se entregar a um perfeito desconhecido em troca de dinheiro.

magro. – Ela é parva e o Sérgio é fixe. – O que é que queres dizer com isso? .Eu disse-te que vinha.Pois… . . Seria demasiado sórdido sequer pensar numa coisa dessas. .Não ligues – disse Daniel tentando animar a mãe. apesar de fingir que adora o teu namorado e que acha super normal a filha andar com homens mais novos. Minutos depois. também deixou escapar no outro dia que não acredita lá muito que o vosso namoro vá dar certo. era completamente impossível para uma mãe imaginar que a sua filha estava a vinte e quatro horas de se prostituir pela primeira vez.resmungou Sara terminando a tangerina que tinha nas mãos.Eu não me ando a prestar a papel nenhum. . . – O que é que queres? . .O que é que andam a tramar? .Sara. a porta do quarto de Milene surgiu-lhe diante dos olhos e tocar nela foi inevitável. A resposta da filha deixou Madalena surpresa. . .Só te quis avisar – respondeu a jovem abandonando a cozinha sob o olhar magoado da mãe. – Hoje o teu pai ligou para falar contigo – disse Madalena.Sara. . Sara foi interceptada por um homem mal-encarado.Vim ter com a Milene – respondeu Sara recuando dois passos. . eu acho melhor ires-te deitar! Amanhã ainda é dia de aulas e não convém chegares atrasada – afirmou Madalena fitando-a furiosamente. até quando vais continuar com essa ideia absurda de não querer falar com o teu pai? Já se passou tanto tempo desde que saíste da casa dele e tens que convir que foi melhor assim.Quem é que te disse isso? . O pai também acha ridícula a tua relação com esse Sérgio. 83 . No dia seguinte. trazia um palito e no corpo um fato de treino verde que em tudo lhe acentuava os ossos das pernas. ao entrar na pensão onde tinha combinado encontrar-se com Milene. de olhos e cabelos escuros.Entra lá! Sem hesitações.Não vou trazer ninguém – foi a resposta de Sara enquanto subia as escadas a correr e se preparava para aquela que seria a sua primeira experiência no mundo da prostituição.Nada! Só acho ridículo que uma mulher da tua idade se ande a prestar a um papel destes. – Vieste – exclamou a prostituta ao abrir a porta. – O único problema é ser quase dez anos mais novo que tu. .Podes. . Mas é bom que não me tragas nenhuma confusão e muito menos a bófia.Eu – respondeu Madalena levando as loiças sujas em direcção ao lava-loiça.facto. Na boca.Nada! Então?! Posso subir ou não? . – O teu lugar é cá em casa comigo e com o teu irmão. . .O Sérgio é muito simpático para ti e para o Daniel! Ele trata-vos muito bem. .Eu não quero falar com ele. – Fiz aquilo que me mandaste – disse Sara largando a sua mochila sobre a cama. com o meu irmão e também com o teu querido namorado que agora não sai cá de casa. porque não sou só eu quem pensa assim.Contigo. Sara acedeu ao pedido e aproximou-se da cama onde estava estendido apenas um lençol branco e duas almofadas cansadas pelo uso. e o avô. .Tens a certeza?! Sim.

gel de banho. .O quê? . ele diz-te o nome! Se ele não disser. Queria ter aquele corpo absolutamente escultural. mas eu. também não perguntes – afirmou Milene calçando os seus saltos em frente ao espelho do quarto. – Mas eu também fiz aquilo que me pediste. e tudo porque Sara não conseguiu controlar as mãos trémulas.O quê!? .Acho que sim – respondeu a jovem demonstrando alguma ansiedade na voz.Uns gatos-pingados … – respondeu Milene ajeitando os cabelos compridos em frente ao espelho.Aquela tua amiga… . – Mas uma coisa que tens que saber é que uma prostituta depois dos trinta e cinco já não tem muitas opções de escolha.E ainda continua a ser prostituta? .Quem!? . . . a profissão ou sequer o estado civil. . Assim era Milene e era assim que Sara também gostaria de ser. quando chegar aos trinta. . Está no segundo piso e é um dos meus melhores clientes também.Depilei-me e trouxe sabonete.Arranjei o teu primeiro cliente.. toalhas e tudo o resto.Está bem. nunca perdia a pose e a dignidade.Por acaso não és virgem. – Eu já falei com ele. . especialmente se não tem família.Sim. vem-se depressa e não pede para que lhe façam muitas coisas esquisitas. Quantos anos é que ela tem? . É por isso que ainda anda na vida.Se ele quiser. – Cinquenta e dois. Enquanto observava Milene arranjar-se ao espelho e a compor a maquilhagem. Paga bem.O que é que queres?! Quem entra nesta vida já não sai.adiantou-se Sara curiosamente. É só um cliente. essa – riu-se Milene. .Ela tem muitos clientes também? . Disse que só tinhas dezasseis anos e o gajo excitou-se todo. aquela sensualidade que parecia transpirar-lhe de todos os poros e a confiança de uma mulher que apesar de saber que era prostituta.És boa ouvinte – respondeu Milene acendendo um cigarro. – Bem. Quem já passou dos trinta que se lixe.A sério?! .Como é que ele se chama? – perguntou Sara à cautela. fecho a loja e desapareço sem deixar rastro. Essa Arlete armou-se em parva e acabou sem nada. Depravados esses homens pá! Só querem saber de carne fresca.…não. filhos ou qualquer outra coisa interessante.Hã. .Para quê que isso te interessa? Não precisas saber o nome. a que estava contigo na primeira vez que cá vim. . . Nunca mais ninguém aqui neste bairro vai ouvir falar de mim. pois não?! . querendo um dia ser como ela. vou buscar o gajo! Estás pronta? . . mas subitamente passou a admirá-la. as pernas bambas e o coração que mais parecia que 84 . . Sara não soube como. Por isso é que quando somos novas temos que abrir os olhos e fazer um pé-de-meia para nos sustentarmos.Menos-mal – respondeu Milene alcançando a porta do quarto.A Arlete. – Até já! Os minutos que se seguiram foram de algum nervosismo. .

– Bem… . duzentos e cinquenta – respondeu Milene batendo o pé no soalho. o cliente. Milene adiantou-se dizendo: .Hã pensei.k – interrompeu o cliente alcançando a carteira no bolso das calças.…é claro que quero – respondeu ele observando Sara dos pés à cabeça. pelo corpo. – Quanto é? . Por fim.Só queria confirmar. o preço duplicava ou triplicava – discursou Milene demonstrando bem todos os anos de experiência que conseguira adquirir para si. apoderou-se mais do que poderia imaginar e qualquer ruído ou movimento da porta era um sobressalto seu. porque noutro lado. Não era muito bonito. se te portares mal. é?! . . mas também pelo rosto inocente que ela aparentava ter.Então?! Queres ou não? .Duzentos e cinquenta!? Estás a gozar com a minha cara? . Realmente não era todos os dias que uma rapariga daquelas lhe passava pelas mãos e desperdiçá-la seria burrice. . assustada.Agora viraste chula. Quando a porta do quarto se fechou com um pequeno estrondo e Sara se viu completamente sozinha naquele quarto ao lado de um desconhecido que tinha praticamente 85 . – Mas tu é que sabes! Se não quiseres ou não tiveres dinheiro para pagar.Queres o BI? – perguntou Milene voltando-se rispidamente para o cliente. .Parece ser interessante – respondeu ele lançando um olhar intenso a Sara que a gelou dos pés à cabeça. – Tudo bem eu pago. Pensava em oferecê-las a Sara.Tem calma. sendo que a primeira pessoa a entrar foi Milene e logo a seguir. não parecia ser muito simpático. . . . O pânico apoderou-se de si. O Nuno está lá em baixo. Ele queria-a.…era desta rapariga que te estava a falar. Luísa? .O.Duzentos euros! Ou melhor. quando finalmente se conseguiu sentar na cama. eu arranjo outro cliente num piscar de olhos. – Ou vais-me dizer que não acreditaste quando te disse que a gaja ainda era menor? . ouviste?! É uma gaja fixe! Por isso.Qual é?! Vais reclamar do preço? Estou-te a fazer uma oferta dessas e tu ainda reclamas? Já olhaste bem para a cara da miúda? O corpo? Tens sorte é de estar-te só a pedir duzentos e cinquenta. Sim. princesa. É só descer lá em baixo e… .adiantou-se Milene.Dezasseis – respondeu Sara.Obrigada! . afinal de contas era ela quem lhe iria prestar o serviço. – Como é que te chamas? Silêncio foi a resposta que obteve. A miúda parece ter mais idade do que aquela que me disseste. foi a primeira coisa que Sara reparou. já sabes o que te acontece.Quantos anos tens.Não te metas aonde não és chamado – respondeu ela enfiando as notas no decote da camisola.iria saltar pela boca. – Chama-se Luísa – mentiu Milene. Queria-a não só pela idade. mas pelo menos estava bem vestido e aparentava não ter passado dos trinta e cinco. a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta abriu-se. A carteira abriu-se e do seu interior saíram duas notas de cem e uma de cinquenta. . mas assim que ele estendeu o braço.Tens a certeza? . Não estou a desconfiar de ti! . Era alto. Seria ele o seu primeiro cliente. – E vê lá se tratas bem a minha colega.

– Toma! Guarda para ti.Foi normal – respondeu Sara encontrando a suas calças de ganga sobre o cadeirão. Os chinelos foram calçados para que não tivesse que pisar o chão imundo da casa de banho e a roupa interior vestida em silêncio enquanto regressava ao quarto.Não. Lavou os cabelos com o Shampoo que trouxe de casa. – Não deves deixar que a Milene te explore – disse ele a Sara enquanto vestia as suas roupas. foi doloroso. . uma onde de nervosismo voltou a atravessar-lhe o corpo e os pensamentos. Seria tarde demais para fugir? Tarde demais para se arrepender de um pecado que nem sequer havia cometido? Sim. as pernas.Mais ou menos.Não! Hoje estou de folga. Era tarde e isso ficou provado pela ordem do cliente: . esfregou os braços. . Sara viu-se metida num verdadeiro inferno sem tempo e sem hora para acabar. – Não queres falar sobre o assunto não fales. O cliente não foi nem um pouco cuidadoso com ela.Não sejas parva – respondeu ele enfiando-lhe a nota nas mãos.Como é que foi o quê!? .Não sabia que vocês tiravam folgas durante a semana. e durante largos minutos.Estás a gozar comigo. veio uma sensação de alívio. – Ai! Que susto… .Despe-te! Foi horrível do princípio ao fim. obrigada. . veio a sensação de alívio e a vontade de desaparecer daquele quarto para voltar ao trabalho.Não sabia que era assim tão feia – respondeu a última levando dois pauzinhos à boca. 86 . – Guarda! A primeira coisa que Sara fez quando o cliente desapareceu foi enfiar-se por debaixo do chuveiro e retirar do corpo todas as marcas e vestígios que ele lhe deixara no corpo durante os quarenta minutos em que a possuiu como se ela fosse apenas um mero pedaço de carne.Não é nada disso! Só não estava à espera de te encontrar aqui. A intenção era a de se aliviar e de retirar dos ombros todo o stress a que foi submetido durante a semana.Ela não me está a explorar – respondeu ela enrolando-se no lençol da cama.exclamou ela quando se deparou com a figura de Milene a devorar a comida chinesa comprada num dos muitos restaurantes asiáticos do bairro.Não é preciso. Depois disso.És servida!? . . .k – conformou-se Milene com a falta de pormenores fornecidos pela jovem.Ele foi muito bruto contigo? . Já pagaste. – Essas putas são muito espertas e aproveitam-se de novatas como tu. pois na verdade. .Como é que foi? . . de calmaria e o enxugar do corpo com uma toalha. . . .O.Em todo o caso é um aviso que te dou! Se quiseres continuar nesta vida tens que abrir os olhos – entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. não era essa a sua intenção. Mais tarde.idade para ser seu pai. o pescoço e atirou-se novamente para o chuveiro para se consciencializar de que se tinha realmente prostituído pela primeira vez. não?! O que é que acabaste de fazer? .Hoje não vais trabalhar? . . .

.…já – respondeu ela após um longo silêncio. até porque ela também trabalhava no restaurante.Que pergunta?! . .ela pareceu hesitar. Não pago rendimentos mínimos a ninguém… . – Queres um emprego mais cansativo do que estar deitada numa cama de pernas abertas à espera que o teu cliente se venha? Isto quando não é de pé num beco qualquer! A sorte é que a maioria não se aguenta mais do que vinte minutos.Pelo menos essa é uma das vantagens de se ser puta – respondeu Milene bebendo um gole de cerveja pelo gargalo da garrafa.Na hora H não tive coragem.Fui despedida porque fiquei grávida.E tu? . .Ele queria que eu fizesse um aborto – respondeu Milene continuando a devorar o almoço improvisado.És curiosa. Percebeu também que por mais magistral que tivesse sido a sua desculpa para fugir à questão Sara não se deu por vencida. até estava disposta a fazer a porcaria do aborto só para me livrar da criança. . acobardei-me! Tive medo de morrer.O filho da mãe do meu patrão despediu-me quando descobriu que a miúda era dele. e deu-me um pontapé no rabo. .Uma filha – emendou Milene largando a sua cerveja sobre a mesinha. . .Se nunca tiveste um emprego a sério? A miúda é esperta. hã?! . Não quis que a mulher soubesse.Não respondeste à minha pergunta.E porque é que saíste de lá? Uma outra hesitação foi a resposta oferecida por Milene. o quê? .Se não quiseres não contes – respondeu Sara sentando-se numa das pontas da cama quando terminou de se vestir.E achas que esse não é um emprego a sério – riram-se as duas enquanto Sara terminava de se vestir em frente à cama. Sei lá. . . Eu aceitei o cheque claro. – Tu é que fazes os teus próprios horários! Não tens nenhum patrão chato para te dar ordens e também não tens que descontar para a segurança social. de ficar doente sem ter ninguém que cuidasse de mim e tive medo de perder a minha filha. – Foste despedida? .Aonde é que ela está? 87 .Tiveste um filho? . Milene percebeu isso em poucos minutos. .Porquê?! .Mas o quê?! . .…sim. Mas… .Eu.. – Até me deu dinheiro para isso desde que desaparecesse e nunca mais me pusesse a vista em cima.O que é que fizeste? .Nunca tiveste um emprego a sério? .Num restaurante lá para os lados de Odivelas.Trabalhaste no quê? . e se queres que te diga.Foste despedida só por causa disso? . .

Aonde é que te meteste? – interrogou Madalena assim que ela entrou na sala e se deparou com a figura sempre exasperante do namorado da mãe. .Não demores muito a descer. 88 . – A sério! É toda espevitada. . a estúpida sensação de querer repetir aquela experiência assim que possível. sabias?! . . . – Tudo bem? .Tudo! Bem.Fora de Lisboa!? .Como é que ela se está a portar nesses dias? – perguntou Sérgio após o longo suspiro lançado pela namorada.Estive com umas amigas – mentiu a jovem. Sara lançou um suspiro e quase que desejou cair no corredor de tão cansada que estava. .Sabe – interrompeu Milene não escondendo a voz amarga. . . . ser espancada ou parar à prisão. eu acho! Mas com a Sara tudo é imprevisível.Falaste-lhe sobre mim? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa..Ai é!? Muito bom ouvir isso. por fim.A adolescência passa. . Quando regressou a casa após uma tarde inteira passada no Intendente. – Então?! Ficas para jantar? .Se for convidado. Lembraste quando te disse que um dia te iria apresentar a ele? Pois então! O senhor Luís quer conhecer-te. . . Nunca sei o que ela está a pensar. estive a pensar numa coisa… . mas o que importa é o dinheirinho sempre conta no primeiro dia do mês. o que vai fazer…! Enfim! É uma autêntica caixinha de surpresas.Em passarmos um fim-de-semana fora de Lisboa. – Sabes.Mal posso esperar por isso – respondeu Sérgio beijando-lhe os lábios.Bem. . Era também a sensação de que o cheiro dele estava entranhado na sua pele. vou subir para o meu quarto.Que coisa? .Eu não tenho fome. – Mas para ela desde que mande dinheiro todos meses para me tomar conta da miúda. mas ainda assim parecia que um batalhão lhe tinha caído em cima. E não era só isso.Sim! Queria levar-te a conhecer o meu avô ao Alentejo.Sim! No meu quarto.Tu não precisas ser convidado – afirmou Madalena mostrando-lhe um doce sorriso. mas não de uma boa forma.Mas também não vais dormir sem comer – respondeu Madalena vendo a filha a desaparecer da sala sem sequer olhar para trás ou responder à sua ordem. tem mania que sabe tudo e anda sempre a ver se me consegue sacar as roupas e os sapatos. a sensação de que tinha feito algo de mal embora não soubesse bem o quê e. . Só tinha atendido um cliente. . . quer lá saber! Posso morrer com Sida.Ainda bem – riram-se baixinho. A miúda é a minha cara… – riram-se.No teu quarto? . – Já és cá de casa.…e em breve também vais poder dormir cá.No Porto com a minha mãe! Chama-se Daniela e tem seis anos. . O jantar já está pronto. .A tua mãe sabe que tu és… .Olá Sara – disse Sérgio lançando-lhe um breve aceno.

pois apesar de já ter chegado aos quarenta. E vai ser divertido! Vou-te ensinar a pescar. Foi um milagre de facto.Porque é que não deixas a Sara e o Daniel com o teu ex.Não – riu-se ela. Na verdade. Jorge aceitou tomar conta dos filhos durante o fim-de-semana. marido ou até mesmo com o teu pai!? . 89 .Então podes vir buscar os miúdos este fim-de-semana? . – No domingo à noite já estamos de volta. E enquanto falava com ela ao telefone. Ouviu as explicações de Madalena. tinha sido a humilhação máxima ser presa por um crime cometido pelo marido e por ele nem sequer se ter dignado a comparecer à polícia enviando apenas um outro advogado com as instruções exactas para que não o comprometesse. Madalena livrou-se das acusações e pediu igualmente o divórcio ao marido com a clara certeza que nunca mais o voltaria ver com os mesmos olhos. Tinha sido a gota de água. aliás. muito pelo contrário.Durante o fim-de-semana todo? .Na sexta-feira à noite e voltávamos no Domingo. o dinheiro extraviado de uma empresa de telecomunicações foi devolvido ao Estado. continuava a radiar uma beleza igual ou superior à de muitas mulheres de vinte. – E quando é que íriamos? . tu sabes disso! Mas o problema são os meus filhos. mordeu o lábio inferior quando ela confessou que iria passar dois dias no Alentejo na companhia do namorado e tentou igualmente esconder os ciúmes que sentiu quando percebeu que a ex. Depois disso. . – No Alentejo… .Eu adoraria conhecer o teu avô. . Mas a verdade é que Madalena não perdoou.Eu também acho – concordou Madalena deixando-se levar pelos braços dele em direcção à cozinha. Então?! O que é que me dizes? . . ajudar o meu avô no pomar que ele tem.Exactamente! Queres coisa melhor? . foi um choque o pedido de divórcio que Madalena fez questão de lançar em tribunal e um choque também encontrar as suas malas à porta de casa quando estava certo que ela o perdoaria por ter passado uma noite inteirinha na prisão.. . vamos fazer grandes passeios. apanhar ar puro. . Apesar da relutância inicial. não porque Madalena não fosse uma mulher bonita e interessante.São só dois dias – respondeu Sérgio mexendo-lhe nos cabelos lisos.É claro que ele fica – respondeu Sérgio oferecendo-lhe um outro beijo.Hã… estou – respondeu Jorge voltando ao planeta terra quando ouviu a voz no outro lado da linha. desde que te conheci que não lhe tenho falado sobre outra coisa. Vamos ver se ele me consegue ficar com os miúdos. Jorge lembrou-se de todas estas características que durante anos lhe passaram despercebidas.Um fim-de-semana – suspirou Madalena sentindo-se bastante tentada a aceitar aquele convite tão aliciante. .Na sexta-feira só se for depois das seis e meia. – Estás aí?! . Não posso ausentar-me durante um fim-de-semana inteiro.Várias vezes. – Vais ver! O nosso fim-de-semana vai ser inesquecível.Então eu vou falar com o Jorge amanhã. mulher havia encontrado alguém que se interessasse por ela.

Madalena e Sérgio iriam passar dois dias na pequena vivenda do avô dele e aproveitar toda a paz. A mochila estava pronta e o casaco sobre a cama.Nada de especial. alguns objectos pessoais e uma máquina fotográfica com a qual pretendia fotografar todas os momentos especiais da viagem..Se for contigo tenho a certeza que ninguém vai desconfiar que eu ainda não tenho dezoito anos. – Fico à tua espera então.Não me podes levar a essa festa? .E daí? . – Está trancada no quarto. .Festa?! Que festa? . Ou será que não seria demasiado precipitado chamá-la de amiga? Na verdade.Estás louca – riu-se Milene com uma gargalhada seca. calmaria e tranquilidade que a região do Alentejo oferecia aos seus visitantes. mas com uma enorme vontade de voltar. mas ele é muito mais liberal que ela. Ouve-se boa música. o que as unia era uma relação estritamente profissional. ela arrumou uma pequena mala assim que chegou a casa e enfiou no seu interior apenas roupas práticas. o pai não vem? – foi a pergunta de Daniel quando entrou na sala com cara de poucos amigos . onde é que a tua irmã se meteu? Ela já arrumou as coisas dela? . Para isso.Se calhar era melhor – respondeu Madalena descendo os estores da janela.Ele chega sempre atrasado.Deve estar quase a chegar.Tudo bem. – Não tens idade para lá entrar. .Tu já me atrapalhas. Tudo estava combinado. entregava o dinheiro ganho e abandonava o quarto da pensão sentindo-se imunda. . – A minha mãe vai viajar este fim-desemana… .Vá lá – pediu Sara encarecidamente. Todas as semanas vamos lá à cata de algum ricalhaço que esteja disposto a pagar bem. . mas ainda assim Sara encontrou tempo para telefonar à sua nova amiga Milene. – Queres que comece já a levar as coisas para o carro? – perguntou Sérgio arrastando as malas em direcção ao corredor.começou ela por dizer a Milene. Achas que me consegues arranjar algum cliente? . decidido e tratado. ela tinha certeza. A prostituta arranjava-lhe clientes e ela satisfazia as suas vontades sexuais quase diárias. .Hoje não vai dar – respondeu Milene observando com atenção o movimento dos carros não fosse um deles parar com um cliente lá dentro. querido! Tem só mais um pouco de paciência. Então?! Leva-me contigo! Prometo que não te vou atrapalhar. temos bebidas de graça e os clientes são um pouco mais civilizados que os de cá.Escuta. . Ouviste o que o gajo disse no outro dia? Que eu pareço muito mais velha do que sou. – Leva-me a essa festa! 90 . esses momentos iriam ser muitos.Não sei – respondeu Daniel sentando-se no sofá de braços cruzados. . É só uma festa que costumam organizar num clube de streap lá para os lados do Bairro Alto. Depois disso.Daí que estava a pensar em passar hoje à noite pelo bairro. . – Tenho uma festa para ir. – Vou ficar com o meu pai. .Mãe. E de facto. Não há problema – disse Madalena observando os movimentos dos seus clientes na floricultura. .

mas ainda assim. .Sei que estás louca para o teu fim-de-semana. – Vamos entrar? – perguntou Sérgio levantando do chão as malas que trouxeram de Lisboa.Meu Deus – riu-se Madalena. Porque é que não haveria de gostar? . Não parecia muito simpático. a porta abriu-se sem muito esforço. – Boa tarde – respondeu Sérgio observando-lhe a entrada pelos portões da casa. especialmente quando sabia bem que aquela seria uma das oportunidades raríssimas para ter Madalena só para si durante dois dias. pois apesar de nunca se terem cruzado antes. Sérgio sorriu. mas eu também tenho compromissos e também trabalho tanto quanto tu – respondeu Madalena fechando a porta enquanto os dois homens se fitavam vorazmente. mas também tens que compreender que eu tenho compromissos e que trabalho… – respondeu Jorge não conseguindo esconder os seus ciúmes quando Sérgio também entrou pelo corredor adentro.Já estão prontos à tua espera.Não! Ele está à nossa espera. as árvores não evidenciavam qualquer sinal de que estavam a ser levadas pelo vento e as estrelas no céu fizeram os seus olhos brilhar de alegria e emoção. Não foi preciso muito esforço para perceber quem ele era. na sala. Por sorte. . Madalena não conseguiu evitar o sorriso que lhe atravessou o rosto e a sensação de que tinha acabado de chegar ao paraíso. isso era um facto. marido de Madalena.Eu sei que tens compromissos e que trabalhas. marido. O tempo estava ameno. Não viste que a luz da sala continua acesa? . olhos claros e cabelos castanhos.As malas da viagem foram colocadas no porta-bagagem do carro e para isso Sérgio precisou apenas de dois braços e alguma força de vontade. e depois disso. enquanto a poucos metros. – Até que enfim chegaste – disse Madalena abrindo a porta ao ex. mas também era compreensível que não fosse tendo em conta aquele encontro no mínimo constrangedor em frente a uma casa que um dia também foi sua. na altura. ao ver-se diante dela. – Boa tarde – disse Jorge com uma cara de poucos amigos.Será que o teu avô já não dormiu? . . Aliás.É claro que vai. O fim-de-semana iria ser especial e ele pôde ter essa certeza quando tornou a fechar o porta-bagagem sob o olhar atento de um homem de estatura elevada. Porque é que não haveria de gostar – respondeu ela seguindo-lhe os passos em direcção à porta principal enquanto o seu coração voltava a bater mais forte e Sérgio se esfalfava para encontrar as chaves que guardara no bolso do casaco. A viagem ao Alentejo correu sem quaisquer sobressaltos e só terminou perto da meia-noite quando Sérgio estacionou o carro em frente a uma pequena moradia pintada de azul e branco. força de vontade era tudo o que não lhe faltava. as parecenças com Daniel e Sara fizeram-no antever que era o pai deles e consequentemente o ex. Não era uma casa muito grande ou luxuosa. . as malas foram colocadas a um canto do corredor.Então eu vou chamá-los porque não me quero demorar muito por estas bandas. sem o stress de uma cidade tão agitada e barulhenta como Lisboa e também sem olhar para o relógio. ouviu-se o barulho de uma 91 .Tens razão. encontrou o casaco de Madalena e pendurou-o no bengaleiro atrás da porta. – Será que ele vai gostar de mim? .Os miúdos!? . . sem filhos.

E prova disso era os dois porta-retratos que ele fazia questão de manter sobre a mesinha junto à janela. Sérgio abriu um largo sorriso e rapidamente se apressou a cumprimentar o avô oferecendo-lhe um longo abraço e também um beijo na face. – Não precisavas ter medo de nada.pequena cadeira de descanso guinchar ruidosamente. – Madalena.Também era o que mais faltava depois de te ter trocado as fraldas desde que nasceste. este é o meu avô! O grande senhor Luís Restelo.Claro! Claro que falou bem. algo que a deixou deveras surpresa.Quero – respondeu ela à pergunta de Sérgio e Luís com um largo sorriso. mas vocês devem estar cansados da viagem.Queres um chá. . Eram muito unidos. Adorou. . agradecia. o cumprimento de Luís não veio com um aperto de mão. ao contrário do que ela estava à espera. . . .Estou muito contente que estejas aqui comigo. a mãe de Sérgio.Então vou pôr a chaleira no lume! Já venho – disse o dono da casa desaparecendo da sala. esta é a Madalena! A pessoa de quem tanto te falei – fez Sérgio as apresentações. . .Falou bem. foi a primeira impressão de Madalena quando lhes ouviu as risadas e se sentiu um verdadeiro peixe fora de água à espera de ser salvo da morte certa. Se ele não tivesse gostado de ti.Nem tanto – respondeu Sérgio largando o casaco de cabedal sobre o sofá enquanto Madalena tentava dissecar discretamente toda a decoração existente naquelas quatro paredes. Ao ouvi-la. . . 92 . espero?! .Já estava a ver que nunca mais a conhecia – exclamou ele. – Vô.Bem.Vai-me jogar esse facto à cara para o resto da minha vida – respondeu Sérgio voltando-se para Madalena com uma felicidade que não passava despercebida a ninguém. . .Bem …eu também estava muito ansiosa para o conhecer! O Sérgio falou-me imenso a seu respeito – respondeu Madalena retirando a expressão esbugalhada dos olhos. mas sim com um inesperado abraço. os pequenos barquinhos de madeira sobre as estantes. .O que é que eu te disse? – indagou Sérgio envolvendo os braços à volta da cintura de Madalena. . um quadro pintado a óleo e as centenas de livros amontoados a um canto da sala.Ainda bem que não jogou – riram-se baixinho. Era como se ela estivesse à espera do momento exacto para o fazer e como se encontrasse a paciência necessária para não o ter feito antes. homem – exclamou uma voz grossa irrompendo o corredor. senhor Luís – disse ela estendendo-lhe a mão com um largo sorriso enquanto desejava que ele não a deixasse ali especada. não?! – adiantou-se Luís levando os seus convidados em direcção à sala. amor?! .O teu avô é muito simpático. – Até que enfim. . Adorou os móveis velhos clássicos. vô? – interferiu Sérgio poisando-lhe a mão sobre o ombro. Não havia dúvida de que aquela casa era habitada por um homem ligado ao passado e às recordações de uma vida que nem sempre teve momentos felizes. – Aliás. Contudo. Uma da sua falecida mulher e outra da sua falecida filha. . com certeza já te teria jogado esse facto à cara. – Não querem beber um chá? – perguntou ele interceptando os olhares perdidos de Madalena.Muito prazer.Achas que ia falar mal de ti.

Eu também – confessou Madalena encontrando-lhe os lábios no meio daquela sala desprovida de quaisquer luxos desnecessários. Se a bófia faz uma rusga por lá estás lixada e eu também. . ela encontrou as chaves e saiu com o único intuito de passar uma noite completamente diferente a todas que havia passado até então. longe de tudo.Dezasseis – respondeu Sara. – Meninas. .Longe dos problemas. Será que ela vem. passou-lhe essa pergunta pela cabeça enquanto lançava os olhos ao relógio de pulso via que nele estavam marcadas doze horas e cinquenta e nove minutos. meias de renda pretas e um casaco que lhe cobria o corpo todo. . – Se te pedirem o BI. naquela noite. querida.. Trajada com uma mini-saia. O clube situava-se numa das ruas mais recônditas do Bairro Alto. esta aqui é a Sara – fez ela as apresentações. Mas nem a promessa de uma possível tempestade impediu Sara de sair do quarto e fechar a porta com cuidado para que o pai e o irmão mais novo não se apercebessem dos seus planos mais secretos. – Quantos anos é que ela tem? . – Mais uma para a concorrência. Ao contrário das estrelas no céu que o Alentejo apresentou. A fila de espera para entrar estendia-se para lá dos dez metros e quase todos os clientes aguardavam a sua vez. – Eu também estou muito contente de estar aqui contigo. nunca imaginou que aquele estabelecimento sempre fechado durante o dia tratava-se de um clube de streap frequentado à noite por pessoas das mais variadas raças e estratos sociais. animados pela noite e também pela música barulhenta que se fazia ouvir no interior do edifício.Só?! E já tens esse corpo? . . o céu tornou-se carregado e cheio de nuvens. e mesmo Sara tendo passado por aquela zona umas milhares de vezes.Para quê? – perguntou Sara compondo os cabelos soltos. – Olha quem é ele – exclamou Milene abrindo um sorriso radiante quando um homem se aproximou de si a surpreendeu um longo abraço.Mesmo assim – disse Milene que de todas era a que mais jogava pelo seguro. mostras sempre com um dos dedos sobre a fotografia e passas rápido para que eles não fiquem a olhar muito tempo para o cartão.Boa – riu-se uma das prostitutas. Apanhou o último metro da noite e em pouco tempo viu-se no local onde havia combinado encontrar-se com Milene. muitas vezes acompanhada pelo pai ou pela mãe. em Lisboa. vindo acompanhada por mais duas colegas de profissão visivelmente embriagadas. – Desaparecido! 93 .k – respondeu Sara aceitando a identificação com alguma cautela.Também – riram-se eles ainda com os lábios colados no outro.O.Isto se lhe pedirem – interferiu uma das prostitutas. Milene não a deixou esperar em demasia naquela rua deserta e ventosa.Trouxe-te um BI falso – disse Milene retirando da mala um cartão com a fotografia e o nome de uma mulher de vinte e um anos. de todos… . Quanto aos porteiros tens que ter cuidado quando eles te pedirem o BI… . .Ainda perguntas!? Com a tua idade não estás autorizada a entrar em clubes de streap. – Ela também vai connosco. . . Mas por sorte.

Se quiseres posso ser o teu cliente. .Tenho um sítio perfeito para nós.Avisaram-me para nunca aceitar encontros em locais que não conheço. por isso era natural que quisesse saber quem era.Então venham comigo. seguiram-se vários beijos. – Não confias?! . – Estão na fila para entrar? – perguntou ele. . . o cheiro a mofo das almofadas e a presença de uma arma de fogo sobre a mesinha de cabeceira. Ponho-vos lá dentro num instante! Em pouco mais de uma hora. Depois disso. E ela respondeu dizendo. 94 . Pago bem! Vamos?! . nada menos. – És nova por aqui? . pastilhas ecstasy e haxixe. musculado e que trazia consigo uma confiança que poucos homens brancos possuíam. – És muito bonita – segredou-lhe Marco aos ouvidos. para além de fisicamente também o ter agradado bastante.Há quanto tempo andas nisto? – foi pergunta de Marco quando acendeu o terceiro cigarro da noite.Não confias em mim? A pergunta de Marco tomou Sara de assalto. tudo o resto deixou de importar.Olá – disse ele cumprimentando-a na face.Mais ou menos – respondeu Sara tentando esconder a timidez que sentia cada vez que um homem se aproximava de si. . .Uma… amiga – respondeu Milene hesitante.. naquele quarto minúsculo. Foi ali. este é o Marco. – Agora ando mais lá para os lados do Algarve a tratar dos meus negócios. Marco era um jovem mulato.Para onde? – perguntou ela apreensivamente. que Sara se entregou a ele pela primeira vez não sentindo de maneira nenhuma que o estava a fazer como prostituta. Nunca a tinha visto. Sara deixou-se levar pelos braços de Marco quando ele a levou para um canto recôndito. .Não sei – respondeu ela com um longo suspiro. A pista encheu-se de pessoas. .A bófia é uma seca. . inclusive a chuva a cair no tejadilho da janela. Demonstrava também não ter medo de nada. . especialmente se fosse bonito. algo perfeitamente compreensível para um homem de vinte e sete anos que passara a maior parte da adolescência em bairros degradados e em esquemas criminosos longe do conhecimento da polícia. – É a Sara! Sara. . – Obrigada. . e pela primeira vez. não é – riu-se Milene enquanto levava uma garrafa de whisky à boca.E esta rapariga quem é? – perguntou o desconhecido não escondendo a sua curiosidade por Sara. mercadorias essas que eram nada mais. .Sabes como é que é – respondeu ele rasgando alguns olhares curiosos a Sara. alguns apalpões habituais em cada esquina do clube e a sensação de que a pouco e pouco ambos se estavam a envolver. a música tornou-se cada vez mais barulhenta. Só vim buscar as minhas mercadorias e vou-me embora no domingo que é quando as estradas estão mais vazias. Mas quando ele as atirou ao chão e deitou Sara sobre a cama. mas sim como uma mulher que encontrara o verdadeiro prazer nos braços de um traficante de droga. todos os clientes conseguiram entrar no clube e o divertimento tornou-se ainda maior. que pequenas doses de cocaína.Estamos – respondeu uma das prostitutas que acompanhava Milene.Vem comigo! Foram precisos apenas trinta minutos para que Marco retirasse as roupas de Sara num dos muitos quartos em que guardava as suas mercadorias para serem levadas ao Algarve. como caso de Marco.

A cozinha cheirava a café quando Sérgio e Madalena entraram nela de mãos dadas e com um sorriso rasgado no rosto.Porque quero.Mas não me ligues a toda a hora. mas que na verdade não se arrependeu nem um pouco. várias amigas suas já fumavam.Queres uma passa? – perguntou Marco mostrando-lhe o cigarro que tinha em punho.Eu não moro cá em Lisboa.Eu não vejo isto como uma profissão. senão troco logo a porcaria do número. Só venho de vez em quando. .Podes deixar.Toma – afirmou Marco oferecendo-lhe um papel rasgado e também um beijo na boca. Havia algo nela e naqueles olhos inocentes. ou talvez até mesmo por culpa sua. Quando vieres.Então não estou a perceber porque é que… .Vou voltar a ver-te? – perguntou ela desfazendo-se do cinto de segurança. – Gosto de fazer sexo.Não – respondeu Sara. Talvez por culpa da mãe. .Então?! Para saber. qual era o mal de fumar uma passa? Quando os primeiros vestígios do dia começaram a surgir. .E eu dou-te o meu… – adiantou-se Sara. . Na escola.. mas eu moro com a minha mãe. mas ela nunca se atreveu a cometer tal acto. .Vais gostar. algo que o fez hesitar e cometer uma das maiores loucuras da sua vida – Vou-te dar o meu número. Gosto de estar com homens e só penso nisso a toda a hora.Bem – riram-se os dois.Porquê!? . Marco levou Sara a casa. – Eles são separados. . Mas sim. . .E porque é que entraste na vida? Os teus pais expulsaram-te de casa? .Para quê!? . procura-me… O sorriso de Sara trouxe algumas hesitações a Marco. Tinha um ar mil vezes mais angelical. bonita e trazia nos olhos a inocência de uma menina que infelizmente se tinha perdido na vida. . – A isso é que se chama ter amor à profissão.Só entrei para experimentar. . É isso? . até porque ele não sabia até que ponto ela tinha levado aquela noite em consideração. Sara aceitou o cigarro das mãos de Marco e levou-o à boca ansiando experimentar pela primeira vez qual era a sensação de fumar.Então quer dizer que és prostituta porque gostas. De facto. Sexo entre um cliente e uma profissional e nada mais. Apesar de alguma hesitação.Não sei! Nunca fumei. .Mesmo assim. do pai. – Pronto! Já estás entregue – exclamou ele desligando o motor do carro assim que o estacionou em frente ao prédio que Sara lhe indicara. era doce.Mais ou menos – respondeu ela observando-lhe a expressão surpresa. Se já tinha experimentado coisas tão bizarras como fazer sexo com desconhecidos em troca de dinheiro. Por sorte. É bom para relaxar. . . Mas raios. Sara era diferente de todas as outras. . Queria saber como é que era! . tinham dormido maravilhosamente bem no quarto de hóspedes preparado por Luís e mal esperavam para começar o dia com um longo 95 . . Um favor que pela primeira vez fez a uma prostituta. Tinha sido só sexo. .Só comecei na semana passada! A Milene arranjou-me os primeiros clientes.

sem se importarem com o trabalho e muito menos com o facto de serem obrigados a voltar a Lisboa no dia seguinte. . .Estavas certo quando disseste que os dois se pareciam imenso – respondeu ela. Faltava cheirar a terra molhada.Um pouco tarde.Vais gostar.Não se matem hoje – respondeu Luís servindo-se do chá de ervas que costumava beber todas as manhãs. . Esta. – Apesar de tudo ainda têm o dia de amanhã. – …espero que voltes comigo aqui outra vez – disse Sérgio quando as suas taças se tocaram sobre a mesa à hora do almoço. eu não quero desapontá-lo senhor Luís. . e enquanto visitavam os locais onde Sérgio havia passado grande parte da sua infância. . – E dizes tu que o teu pai parece uma criança de oito anos. com um sorriso.passeio pela vila.Vou tentar levar isso como um elogio – disse Luís levando o pão fresco à mesa. . e faltava-lhe também sonhar em um dia terminar os seus dias num lugar assim. Leva-nos os pensamentos para longe e faz-nos pensar nas coisas com mais clareza… O passeio pela vila tomou-lhes toda a manhã. – Hoje temos um longo passeio pela frente.Eu?! – indagou ela voltando-se para Sérgio – Pescar? .Aposto que não vou ter mais trabalho do que tive aqui com o meu neto. nem pensar – respondeu ele.Sim. absorver a beleza das casas caiadas. . Faltava aventurar-se pelas ruelas estreitas. .Não muita! Confesso que de manhã não costumo comer muito.Eu também quero cá vir muitas vezes. o mercado repleto de feirantes que vendiam de tudo um pouco. mas amanhã queria que ensinasses a Lena a pescar. mas acordámos – respondeu Sérgio arrastando uma cadeira a Madalena. Faltava conhecer a igreja da região trabalhada em arte barroca.Vamos visitar o centro da vila. . muitas delas pintadas com cores alegres e suaves. 96 . Ansiavam também conhecer todos os cantos turísticos e passar um dia no mínimo agradável sem olhar para os ponteiros do relógio. desde frutas a produtos artesanais. . Além de que a pesca é uma boa forma de relaxamento. – E o meu avô é um grande professor. garanto-te – respondeu ele. – Não.Aonde é que vão? . admirar as pessoas à sua volta que ao contrário das que moravam em Lisboa caminhavam sem pressa de chegar a algum lugar e com a certeza que o mundo não acabaria no dia seguinte. . especialmente uma hóspede tão bonita como você. agradeceu a gentileza e sentou-se à mesa perguntando em seguida ao dono da casa se este precisava de ajuda. – Muita fome. . Madalena não se escusou a tirar inúmeras fotografias para registar uma das viagens mais interessantes que fizera pelo país. – Para mim um hóspede é sagrado. mas acho que vai ter um grande trabalhão comigo – disse Madalena arrancando uma risada geral.Acordaram? – foi a primeira pergunta de Luís assim que entraram na cozinha.Bem. Madalena? .Pois vais ter que comer – interrompeu Sérgio entregando-lhe o café em mãos. rapidamente percebeu que lhe faltava conhecer tanta coisa em apenas um fim-de-semana relâmpago. Ela que se considerava uma portuguesa de gema e conhecedora de quase todas as cidades de Portugal. Já viste bem o meu avô? – interferiu Sérgio servindo dois cafés em frente à bancada. Madalena riu-se alegremente. depois passear pelo parque e quem sabe se o tempo ajudar terminamos o passeio no lago.

. não é?! – indagou Sérgio largando-lhe a mão. – Mais uma vez estás a falar da nossa diferença de idades.Porquê!? Não gostavas de morar num local onde não existe hora de ponta. eu tenho a minha vida toda em Lisboa.E será que até lá ainda vamos estar juntos? .Mas o quê? .Filhos – respondeu ela sem desviar os olhos dele.Queria muito acreditar nisso.Mas nós já somos uma família – interrompeu Sérgio encontrando-lhe o pulso sobre a mesa. por exemplo? .Quero que venhas morar comigo aqui nesta vila.O meu avô também te considera uma neta.Sérgio. a minha floricultura… enfim! Tenho tudo. eu sei que me amas. . .. eu sei que a Sara não vai lá muito com a minha cara. casados e não nos restar absolutamente mais nada para fazer em Lisboa. eu também te amo muito.Sérgio. . Durante vários minutos.O quê. eles já gostam de mim tal como eu também gosto deles. .Eu sei. mas… . Madalena riu-se. Ela olhou-o.Não é nada disso. .Tu sabes que eu nunca faria isso.Não estás a perceber. ele desviou o olhar e assim a refeição terminou com um sabor amargo de derrota. . Tenho os meus filhos. Para mim. . e durante vários minutos apenas se ouviram o barulho das conversas dos clientes que se encontravam igualmente a almoçar duas mesas atrás. não?! . – Nós vamos ficar juntos para sempre. vocês já são todos da minha família. stress.Mas eu não estou a dizer para nos mudarmos agora – adiantou-se ele.Como assim?! . . Por mais que eu queira. .Mas pensarias e só isso já me faria sentir mal. – Quer dizer.É claro que vamos – respondeu Sérgio com uma expressão séria. o silêncio apoderou-se da mesa onde Madalena e Sérgio estavam sentados. quando os teus filhos estiverem crescidos.Então é isso. E quanto ao Daniel e ao teu pai. por mais que eu tente.No máximo teria idade para ser a filha dele.Mas também quero manter os pés no chão – respondeu Madalena poisando a sua taça de vinho sobre a mesa. poluição. – Estás a gozar. – Daqui a alguns anos. não tos vou poder dar e tu vais acabar por me jogar esse facto à cara. mas isso é uma questão de tempo até eu conseguir conquistar a confiança dela. – Não vamos estragar 97 . . . mas… existem coisas que um dia vais querer e eu não te vou poder dar. E esse facto é de que daqui a uns anos tu vais querer ter os teus próprios filhos e eu não tos vou poder dar. – Uma família… . mas… .O quê?! . Sérgio! Eu só estou a constatar um facto. problemas… .

Depois disso. . Aposto que histórias em comum não vos iriam faltar. . quando ao retirar as roupas atirou-se para a água e sentiu-se a mergulhar até a um metro e meio de profundidade. o sol voltou a brilhar quando as nuvens desapareceram do horizonte e os corpos dos dois amantes conjugaram-se na perfeição.Quem sabe um dia não nos vai visitar a Lisboa – disse ela. radiante.Isto é um sonho – respondeu ele sugando-lhe os lábios no interior de um lago onde havia passado a maior parte da sua adolescência. passou essa certeza pela cabeça de Sérgio quando a viu sorrir para si. . . Madalena se encarregou de fazer a salada e de retirar as loiças dos armários.Quero mostrar-te o lago onde costumava brincar quando era criança.Quando lá chegarmos vais perceber.Tu é que estragaste. Ele era belo. ele montou uma mesa improvisada no jardim das traseiras. voltou novamente à superfície e encontrou nos braços de Sérgio o conforto perfeito para se apoiar. lembraste? . enquanto mais tarde. Nasci aqui. Sérgio e Madalena regressaram a casa e encontraram à sua espera o cherne grelhado na brasa preparado por Luís Restelo. E de facto.O que é que vamos fazer agora? . – Nem por isso! Está óptima – respondeu Sérgio. Sim. na cozinha.Não te queria chatear. . – Acredite que teria muito gosto em recebê-lo na minha casa e assim você até poderia conhecer o meu pai. cresci também e não iria saber mexer-me noutro sítio.Não! Nunca tal ideia me passou pela cabeça. a sua beleza e a candura que o seu sorriso transparecia a quilómetros de distância. – Estava a ser tão bom. – Isto parece um sonho – confessou ela. . Fica a poucos minutos se formos de carro. O mundo parou. ela pôde ter essa certeza quando lhe encarou o rosto depois de o ter pertencido sem quaisquer restrições. Por sorte. 98 . – Está bem. Madalena percebeu todas as razões que fizeram Sérgio levá-la àquele lago. O barulho dos pássaros deixou de ser ouvido. Luís adorou a simplicidade de Madalena. mas também era a primeira vez que tinha a oportunidade de se atirar de cabeça ao desconhecido sem pensar nas consequências que esse acto poderia acarretar. Em poucos minutos.o nosso dia – pediu Madalena voltando a encontrar-lhe a mão sobre a mesa. foi o elogio que Luís ouviu de Madalena quando ela degustou a primeira garfada do cherne acompanhada de um gole de vinho. – A água está a ficar fria – riu-se Madalena. Além disso. – Nunca pensou em morar noutro local que não aqui? – perguntou Madalena voltando-se para o dono da casa.Quem sabe um dia não faço isso. Era a primeira vez que cometia uma loucura na sua vida. E nem mesmo o facto de saber que ela era mais velha que Sérgio conseguiu diminuir a admiração que sentiu ao conhecê-la pessoalmente. Desculpa! Infelizmente Sérgio foi obrigado a fazê-lo. Está uma delícia. Algumas horas mais tarde.E porque é que me queres levar a esse lago? . o tempo ameno permitiu que a refeição fosse servida sem quaisquer atrasos. E ela era a mulher da sua vida. o avô de Sérgio não poderia ter ficado mais contente com o elogio da namorada do seu neto. .

99 . aí sim já poderíamos morrer felizes. E naquela noite em especial. Foi para ver a felicidade estampada no rosto do neto. cujo principal divertimento para ocupar as longas horas. dias. Aquela felicidade que parece colar-se à nossa pele e não nos deixar um só segundo. Depois disso. tais como a morte da sua mulher e da sua única filha. meses e anos de solidão. ainda lhe restava a única razão que o havia impedido de cometer suicídio quando à sua volta tudo pareceu ruir.Conseguiste que o meu avô prometesse uma ida a Lisboa. enquanto olhava para Sérgio e o via completamente embevecido por Madalena.Não sejas exagerado – defendeu-se Luís encabulado com os risos dos seus convidados.. . amor… – exclamou Sérgio voltando-se para Madalena com um largo sorriso nos lábios. Depois de a ver. Mas apesar de tudo ele sabia ainda lhe restava o neto. A noite terminou em beleza com um poema lido por Luís. ele sentia-se muito mais leve e apto a aguentar uma vida repleta de percas e desgostos. pela primeira vez Luís percebeu o porquê de ter conseguido arranjar forças para se manter vivo.Bem! Já conseguiste um milagre. era sem dúvida a leitura e a escrita de vários sentimentos que guardava dentro de si.Que milagre?! . .

Foi bom. . lembraste!? O primeiro que passámos juntos quando começámos a namorar.Nada – respondeu ele enfiando as mãos nos bolsos das calças.Até que enfim – foram as palavras de Madalena quando abriu a porta e se deparou com a figura dos filhos e do ex. Entrar ou não entrar? Enfrentar ou não Madalena e o novo namorado que ela tinha feito questão de lhe esfregar na cara semanas antes? Com certeza ambos já haviam regressado do maldito fimde-semana no Alentejo e com certeza que a felicidade estampada no rosto da ex. acompanhou os filhos em direcção ao portão principal e viu-se metido num enorme dilema interno. mulher.Duvido – respondeu ele surpreendendo-a com tal afirmação. . Após o divórcio.Porque o melhor fim-de-semana que tiveste até hoje foi comigo. e que aos poucos e poucos. foi o que Jorge pensou quando estacionou o seu carro a poucos metros da casa da ex. 100 . .Nós é que pensámos que viesses mais tarde – respondeu Jorge observando a entrada dos filhos pelo corredor adentro. . Depois disso.Duvidas porquê?! . – Então?! Como é que foi o tal fim-de-semana romântico no Alentejo? . essa percepção estava a matá-lo por dentro.Há quanto tempo tu e esse rapaz estão a namorar? . aliás. .Está bem – responderam os dois quase em uníssono.Não. Percebeu também que tinha cometido um grande erro ao destruir casamento de dezasseis anos. . . – Mas não se demorem porque senão o jantar arrefece. mulher iria ser algo difícil de suportar. onde ele adquiriu a certeza absoluta que Madalena nunca se iria conseguir refazer da separação e muito menos encontrar outro homem que se mostrasse interessado por ela. tu sabes bem a fazer o quê! . mas eu realmente já não me consigo lembrar desse fim-de-semana – respondeu Madalena poisando as mãos na cintura. . . marido sobre o alpendre. Depois disso. – Pensei que viessem mais cedo.Desculpa.Foi bom!? Pela tua cara deve ter sido horrível. fez-se um silêncio ensurdecedor no corredor. . Jorge! O meu fim-de-semana foi realmente muito bom.Em primeiro lugar o Sérgio não é um rapaz.CAPÍTULO VI O fim-de-semana tinha chegado ao fim. as portas dos quartos fecharam-se com estrondo e Madalena encontrou forças para voltar a encarar o rosto de Jorge.Daniel! Sara! Vão já lavar as mãos – gritou Madalena enquanto eles subiam as escadas a correr. Jorge começava a chegar à conclusão que as suas certezas foram infundadas e precipitadas. Levei-te à casa de férias de um amigo meu e passámos quarenta e oito horas no quarto a … bem. foi o melhor fim-desemana que já tive até hoje. – O que foi? – perguntou ela ao vê-lo a olhar fixamente para si.

. Ele disse que morava no Algarve.. . Era ali que ela não se sentia julgada.Que Marco?! . enquanto do lado de fora do bairro.Boa noite também para ti – respondeu Jorge afastando-se da porta sob o olhar atento da ex. .O. talvez pela sua idade ou aparência física.Claro – disse Madalena sustendo a porta com as mãos. pois a sua vida.Não – respondeu Sara apreensivamente. Era lá onde ela passava várias horas do dia e deambulava pelas ruas ao lado de Milene. o tempo e o espaço pareciam completamente alheios à decadência que ali se vivia. severo e sem a mínima margem de manobra para que ele continuasse a fazer-lhe mais perguntas.Porque é algo que não te diz respeito. Mas por mais estranho que parecesse. – Amanhã vou ao Porto – disse ela saindo da casa de banho enrolada numa toalha. – Gripe! Mas sabes como é que a minha mãe é! Faz um bicho-de-sete-cabeças só para que eu vá ver a miúda.Ele não te contou qual é a cena dele no Algarve? .Fazer o quê? – perguntou Sara curiosamente.O.Porquê?! .Ele não é assim tão mais novo que eu. marido.É alguma coisa séria? .Telefono depois para saber dos miúdos. – Só nos falámos duas vezes por telefone e foi assim meio rápido. era ali que Sara se sentia bem. por isso é um rapaz. . excepto de Milene. . Nas semanas seguintes. .Acho que não – respondeu Milene apressando-se a vestir as cuecas. a única que parecia nutrir um especial apreço por aquela jovem perdida na vida. . . De certeza que deve estar a precisar de dinheiro. mulher. . . mas mais do que a resposta.Esse Marco?! Só podes estar a gozar. por acaso não me incomoda nem um pouco. não? Desse gajo quero mais é distância. Frio. . passou a angariar cada vez mais clientes. – Bem … eu já vou indo.k – riu-se Jorge num tom sarcástico. encontravam-se todos numa das zonas mais degradadas de Lisboa. 101 .k! Boa noite. Muito pelo contrário. os seus novos amigos e vícios. uma força oculta conseguiu levá-lo ao carro de costas voltadas. O que me incomoda é o facto de estar a falar sobre esse assunto contigo. E mesmo ele tendo pensado várias vezes em voltar-se para trás e encarar-lhe o rosto pela última vez. .Quando é que achas que vamos voltar a ver o Marco? . cruel foi o olhar que ela lançou ao ex. Arlete e outras prostitutas do bairro.Vou ver a minha filha! A minha mãe ligou-me a dizer que a miúda estava doente. . A resposta de Madalena não poderia ter sido mais cruel.É muito mais novo que tu. raras foram as vezes que Sara colocou os pés no interior de uma sala de aulas. as roupas extravagantes e também a procura de clientes. não recebia ordens e conselhos de ninguém e vivia conforme as suas vontades e desejos.O que esteve connosco naquela festa no Bairro Alto. Era habitual para quem passava por lá observar-lhes as gargalhadas. despertando a inveja de algumas das prostitutas mais experientes da zona.Porquê?! . Em pouco tempo. – Já percebi que esse assunto te incomoda. . O Intendente.Não. senão nem sequer tinha ligado.

- Ele é traficante de droga, querida! E não é um traficante qualquer. É um da pesada. Coisa para gente adulta, não sei se me entendes. - Como é que sabes?! - Toda a gente conhece a fama dele – respondeu Milene vestindo uma camisola de malha em frente ao espelho. – O gajo nunca foi flor que se cheire, mas meteu-se com gente errada e acabou por fugir para o Algarve quando lhe mataram o irmão no bairro onde ele morava. Acho que a bala era para ele, mas como era de noite, confundiram os dois irmãos e o mais novo é que acabou por morrer no lugar dele. - Que horror. - Por isso é que ele só vem a Lisboa de vez em quando, mas não pára muito tempo para não ser apanhado… Sara sentiu-se atordoada ao ouvir o discurso de Milene, mas pior ainda ficou quando percebeu que Marco não era o homem ideal para qualquer mulher. A sua vida, cheia de actos criminosos e outras histórias escabrosas por contar, não parecia de maneira nenhuma conjugar-se com a dela. Mas ainda assim, havia qualquer coisa que não a deixava esquecelo. O que seria? Ou melhor, seria normal? No fundo, Sara sabia que não, até porque há muito que a palavra normalidade tinha deixado de fazer parte do seu vocabulário. – Bem, deixa-me ir andando – interrompeu-lhe Milene os pensamentos. - Aonde é que vais? - Vou-me encontrar com um cliente no hotel Ritz. - Uau! Que chique – riram-se as duas. - O gajo é podre de rico, tens que ver! Conheci-o há dois anos numa festa e desde então nunca mais me largou. - É giro?! - Não muito – respondeu Milene escovando os cabelos molhados. – Tem quase idade para ser o meu pai, mas pelo menos é simpático, paga bem e trata-me como uma verdadeira rainha. Depois do serviço gosta de conversar sobre política. - Estás a gozar, não?! – riu-se Sara animadamente. - Que me dera, mas não! E logo eu que não percebo nada disso. Mas o gajo sabe tudo. Também é presidente de uma empresa multinacional e tem uma data de conhecimentos. Quando começa a divagar, eu só aceno com a cabeça que sim e finjo que o estou a ouvir. Acho que o gajo nem percebe que a minha única vontade é desaparecer de lá com o dinheiro na mão. Tal como todas as noites, o jantar foi servido às oito horas por Madalena, e o convidado especial encarregou-se de colocar a mesa sob o barulho ensurdecedor da televisão da cozinha. Era a terceira vez naquela semana que Sérgio privava da companhia da namorada e dos filhos dela, restando poucas dúvidas de que também ele já fazia parte da família. Aos poucos e poucos, a sua amizade com o pequeno Daniel e o pai de Madalena foi-se consolidando, mas o mesmo não se podia dizer de Sara, que ainda continuava a ver no namorado da mãe um verdadeiro alvo a abater. Na verdade, o desejo da jovem em vê-lo pelas costas era imperioso desde o terrível incidente em que ela lhe colocou os pés por debaixo da mesa. Foi um acto irreflectido, os dois sabiam-no bem, mas o clima continuava tenso sempre que se viam nos corredores da casa ou eram obrigados a privar de uma refeição familiar. Depois do jantar, normalmente
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quando todos se refugiavam na sala a ver televisão, os olhares que Sara lançava aos constantes carinhos trocados pelo futuro padrasto e pela sua mãe eram esmagadores e ditavam uma verdade irrefutável: Ela odiava ver-lhes a felicidade estampada no rosto. - O Sérgio vai dormir cá em casa hoje – avisou Madalena já perto do final da noite. - Vou-me deitar – disse Sara desaparecendo da sala com uma expressão aterradora. Desde essa noite, várias foram as vezes que o fotógrafo pernoitou em casa de Madalena. Normalmente aparecia à hora do jantar, após um dia cansativo a fotografar nos estúdios e trazia consigo pequenas guloseimas para os filhos da namorada. Além das guloseimas, foram também trazidas as primeiras mudas de roupa, a escova de dentes e outros objectos pessoais que faziam claramente antever a sua mudança. Não achas que é demasiado cedo, foi a pergunta de Alice à melhor amiga, e Madalena, sempre com um sorriso, respondia que não e que se encontrava totalmente segura na sua relação com Sérgio. Mas a verdade é que essa relação não era bem vista por todos, especialmente por Sara, que só encontrava um aspecto positivo para o facto de o fotógrafo passar as noites em sua casa, e esse aspecto era o de ela conseguir escapulir-se a meio da madrugada para se encontrar com os seus novos amigos sem medo de ser apanhada pela mãe. Muitas vezes, encontrava-se com esses eles em bares nocturnos pouco apropriados para a sua idade, nos arredores do bairro e em cafés da zona onde clientes e prostitutas misturavam-se com o cheiro dos cigarros e da luxúria. Sexta-feira era o dia da semana mais movimentado no bairro do Intendente. Era usual os cafés e os bares encontrarem-se abarrotados de gente, e também era usual a polícia fazer algumas rondas pela zona apenas para se certificar que tudo estava a decorrer dentro da normalidade. Sempre que apareciam, Sara conseguia a ajuda necessária para se esconder e só voltava a surgir aquando do desaparecimento dos agentes de autoridade. Sim. Eram momentos de algum aperto, mas por sorte ela conseguia sempre fugir com a ajuda de Milene. Aquela noite não foi excepção. Os polícias fizeram as rondas habituais, pediram a identificação de várias pessoas estranhas ao local e logo desapareceram pelas ruas do bairro trazendo de volta o alívio a quem não tinha sido apanhado. – Anda – disse Milene fazendo um sinal a Sara para que ela pudesse sair da pensão onde permaneceram escondidas durante trinta e cinco minutos. – Os gajos já se foram embora. - Tens a certeza? – perguntou Sara olhando para todos os lados. - Claro. Anda lá! Foram precisos apenas alguns minutos para que Milene e Sara atravessassem a rua em direcção a um dos bares mais movimentados da zona. Mais uma vez, o estabelecimento encontrava-se apinhado de gente. Na aparelhagem soava uma música rock infernal e na única televisão do bar colocada na parede, passava um filme não muito conhecido. Aliás, o filme era tão pouco conhecido, que quase ninguém presente no local se dignou a levantar o rosto em direcção ao ecrã. Estavam todos entretidos em conversas informais, a beber e a confraternizarem entre si. Outros dançavam, riam-se às gargalhadas e tentavam esquecer-se de todos os problemas que rodeavam as suas vidas. Milene e Sara foram algumas dessas pessoas. – Ainda te lembras de mim?

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A voz não lhe era estranha, e ao voltar-se para trás com uma garrafa de cerveja nas mãos, Sara abriu um sorriso radiante. Era ele. Era Marco. Após dois meses de ausência onde apenas se comunicaram através do telefone, parecia quase um sonho tornar a vê-lo novamente. – Nem acredito! És mesmo tu? - Carne e osso – respondeu Marco levantando os braços. - Pensei que não viesses a Lisboa tão cedo. - Vim tratar de uns negócios, mas no domingo já estou de volta ao Algarve. E tu? O que é que andas a fazer por estas bandas? - Eu sou destas bandas, lembraste?! - Ainda na vida?! - E tem algum mal nisso? - Por mim não – respondeu ele pedindo uma imperial ao empregado do bar. – Só tenho pena que uma miúda como tu ande para aí a deitar-se com qualquer um. Especialmente com os gajos que passam por este bairro. Mereces melhor. O discurso de Marco mereceu um sorriso por parte de Sara. – Queres que te pague uma outra cerveja? - Claro. Pode ser – respondeu ela terminando a sua num só gole. Completamente alheios ao tempo e ao espaço, foi assim que Sara e Marco se sentiram enquanto conversavam perto do balcão acompanhados pelas suas respectivas cervejas, pelo barulho infernal da música e a movimentação das pessoas à volta. Obviamente que nenhum deles falou sobre assuntos importantes, não conversaram sobre a família, os amigos e muitos menos projectos futuros, mas ainda assim sempre que os seus olhares se cruzavam era como se o mundo parasse e tudo deixasse de ter significado. – Queres ir para outro lado? Isto aqui está barulhento – disse ele ignorando um telefonema inoportuno. - Tudo bem. Podemos ir. Pagas as bebidas, Marco e Sara saíram de mãos dadas e só voltaram a largá-las quando interceptados por Milene à saída. – Aonde é que vão? – perguntou ela, curiosa. - Vamos dar uma volta – respondeu Marco levando o cigarro à boca. – Porquê?! - Vão dar uma volta aonde? - Qual é a tua, Milene?! Viraste puritana agora, é? Ou vais-me dizer que resolveste adoptar a Sara como filha? - Eu só não quero que ela se meta em confusões. - Eu não me vou meter em confusões – interrompeu Sara sob o olhar aterrador de Milene. - Acho melhor ires para casa, Sara! Eu peço a um amigo meu para te levar. - Ela não vai com nenhum amigo teu – interferiu Marco puxando Sara contra si. – Vai comigo. - Sara… - Eu vou com ele – respondeu a jovem, resoluta. – Tchau, Milene! Depois falamos. O cheiro a tabaco tinha-se entranhado nos estofos do carro de Marco, mas nem o odor intenso ou o espaço reduzido dos bancos de trás, acalmaram o desejo e a excitação de Sara por ele. Submersa naquela pele achocolatada e naqueles braços musculados marcados por duas tatuagens, ela entregou-se e permitiu-se ser possuída sem quaisquer restrições. Com Marco era diferente, ambos sabiam-no bem. Com ele não o fazia por dinheiro, por luxúria,
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esquece! Não queres os cinquenta euros azar o teu. – Tu achas que eu sou igual a todas as outras.Podemos ver-nos amanhã. – Já separaste as tuas roupas sujas para pôr na máquina? – perguntou ela à filha quando a viu a entrar na cozinha. .Tudo bem – respondeu ela estendendo a mão com um olhar aterrador.O. – É pouco – afirmou ela não desviando os olhos dele. Mas também não penses que te vou passar a mão pela cabecinha ou sentir-me mal por te ter oferecido dinheiro. Depois disso. . mas havia realmente algo que a prendia a Marco e a deixava completamente rendida a ele.k – respondeu ele oferecendo-lhe uma outra nota de cinquenta.Não é nada disso… – defendeu-se ele. é?! . E mesmo tendo tentado controlar as lágrimas.Eu não quero ser tratada de maneira… . Só não quero que te falte nada. a verdade é que não conseguiu tal feito quando chegou ao quarto e caiu na cama como um verdadeiro peso morto. O que é que achas? . – Já te chega? A humilhação tinha sido imensa. Marco acatou a ordem e entregou-lhe uma nota de cinquenta euros. Seria amor? Não.Já – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico. não és?! Não estás sempre a encher a boca para dizer que vais para a cama com homens porque gostas? Porque é que queres ser tratada de maneira diferente? . mas ainda assim Sara arranjou forças para abrir os portões e correr em direcção a casa sem sequer olhar para trás ou observar a expressão mortificada de Marco.mas sim por um sentimento estranho que ela nunca pensou sentir por alguém. És puta mesmo. Marco seguiu-a e alcançou-lhe os braços pedindo desculpa. Porque é que irias pensar que eu era diferente? Já me conheceste nesta vida. 105 .Quero aquilo que mereço.Posso voltar a ver-te antes de ires para o Algarve? – perguntou ela quando ele a levou a casa. . . mas também com a do pai. uma presença habitual lá em casa.Eu não quero que me pagues – respondeu Sara indignada por tal gesto.Mas talvez eu seja mesmo! Talvez eu seja só mais uma prostituta a quem todos os homens pagam para irem para a cama. .Eu ligo-te depois – disse Marco apressando-se a retirar uma nota de cinquenta euros da carteira. .Tu estás-me a pagar – foram as últimas palavras dela antes de abandonar o carro e fechar a porta com força. – Toma! Para ti. na cozinha. . Afonso Soares. O domingo amanheceu ensolarado e foi por essa razão que Sérgio resolveu regar o jardim com a ajuda de Daniel.Queres mais. Madalena ultimou os preparativos do almoço que contaria não só com a presença do namorado. . agarrou-se à almofada e fechou os olhos inchados numa tentativa desesperada de adormecer. Ainda era demasiado cedo para sentir uma coisa dessas. .Sara. – Paga-me! Apesar de se ter sentido surpreso com a reacção de Sara. e ao vê-la a caminhar apressada em direcção aos portões de casa. .Quem está na chuva é para se molhar. . não é?! . .Não é um pagamento.Vou no domingo. Entretanto.

Para quê?! . – Apenas disse que era um amigo e que precisava falar contigo. Assim sendo. – Tens uma visita lá fora.…podes.Pedir-te desculpas – respondeu Marco. A resposta trouxe um pesado suspiro por parte de Sara.Não me disse o nome – respondeu Sérgio sob o olhar atento de Madalena. ela poisou as 106 . Sara – afirmou ele desfazendo-se das luvas de borracha que utilizou para regar as plantas e a relva do jardim. Não.Mesmo assim! Não queria sair de Lisboa sem te pedir desculpas primeiro.Para saber de ti – respondeu ele encolhendo os ombros. . ao contrário de todas as suas expectativas. .Só vou hoje à noite. – Não posso sair agora.Eu também acho.. – Eu sei que fui um bocado parvo contigo na sexta-feira passada. – O que é que estás aqui a fazer? .k – disse Marco tentando ignorar os olhares de Madalena e Sérgio atrás das cortinas da janela. . Enquanto ele caminhava calmamente em direcção ao carro. mas ainda assim a jovem achou por bem acatar as ordens da mãe.Porque estás aqui à minha frente – respondeu Madalena cortando os legumes sobre a bancada. . – Porquê? Fiz mal? . . . passou essa pergunta pela cabeça de Sara.Faço mais tarde. Seria algum cliente. – Então nesse caso acho melhor ir andando. . .Não queres dar uma saída? Levava-te a almoçar num sítio qualquer. . . já que ela nunca se atreveu a fornecer a sua verdadeira morada a ninguém. . .Porque é que não aproveitas para a fazer antes do almoço? Já que não estás a fazer nada.Pensei que já tivesses voltado para o Algarve – afirmou Sara tentando manter uma expressão fria e altiva.O. Bebeu um copo de água. .Não?! Pensei que era. Ficaste chateada. .Não – respondeu Sara com poucas palavras. E o homem que viste aqui no jardim não é o meu pai. Não poderia ser. a única alternativa que lhe restava era sair ao jardim e ver com os seus próprios olhos quem tinha tido a audácia de a procurar.Posso ligar-te um dia destes? . nem um pouco.Como é que sabes que eu não estou a fazer nada? .Não é por causa deles. . A despedida foi rápida e fria. era Marco.Então… o que é que queres? .Estão aceites.Por causa dos teus pais?! . . muito menos a desconhecidos.Não. e essa pessoa. não foi? . mas deixou Sara especada sobre os portões com os olhos postos em Marco. atirou-o contra o lava-loiça e por fim preparou-se para sair da cozinha não fosse a figura de Sérgio ter-se atravessado no seu caminho. – Então?! Posso ligar ou não? .Ele é só o namorado da minha mãe.Quem!? .Vim te ver – respondeu ele apoiando-se sobre os portões.Não te esqueças também de fazer a tua cama de lavado.

Após inúmeros telefonemas e convites.Por ser preto?! .Lena esquece esse assunto! Estás a fazer um bicho-de-sete-cabeças de uma coisa absolutamente natural. o cabrito adquirido e os vinhos guardados no frigorífico para a ocasião especial. amor! Não deixes o teu avô à espera na estação – afirmou Madalena enquanto ultimava os preparativos para o grande almoço de família. é?! Duvido… . Quantos e quantos rapazes não foram à tua procura quando tinhas a idade da Sara? . 107 .Bem-comportada. – Ela disse que era só um amigo – afirmou Madalena entrando novamente na cozinha.mãos sobre a cerca e permitiu que os seus pensamentos voassem dali para fora. Eu era uma menina muito bem-comportada se queres que te diga. entendes?! Bati os olhos e não gostei. – Quem era aquele rapaz? – foi a primeira pergunta que Sara ouviu da mãe assim que entrou em casa. – Eu fui a adolescente mais bem-comportada do mundo. .Tens a certeza que era só um amigo? A pergunta não obteve qualquer resposta quando Sara voltou a trancar-se no quarto fechando a porta com força. claro que não – defendeu-se Madalena de imediato. . e o último. o avô de Sérgio a passar a comemoração festiva em sua casa.São só coisas da tua cabeça – respondeu Sérgio beijando-lhe os cabelos. Achei estranho.A conversa dos dois. – É melhor ires andando.Meu Deus! Que mentirosa – riram-se os dois às gargalhadas.Eu não sei. Faltavam poucos dias para a Páscoa quando um verdadeiro milagre aconteceu. talvez devesse ter-se atirado para os braços de Marco e dito que o adorava acima de tudo. – Eu não sou nada preconceituosa em relação a esse assunto. Reprimiu esse desejo e no fim odiou-se por isso. E também não gostei nada do ar dele. – Ele parece ser muito mais velho! E também duvido que com aquela pinta ainda ande na escola. . Deveria sentir-se feliz com aquela visita? Talvez sim.Não.Se calhar da escola. Nunca dei trabalho aos meus pais e também nunca fiz nada de errado… . Mas não sei! É o jeito dele. As amêndoas foram compradas. .E de onde é que a Sara o conhece? . . . Madalena conseguiu convencer Luís Restelo. .Não – afirmou Madalena instintivamente. .Estranho o quê?! . .Se ela disse isso é porque era mesmo só um amigo – respondeu Sérgio começando a colocar a mesa do almoço. . E a verdade é que essa semana passou a uma velocidade fantasmagórica.Pois não devias – respondeu Madalena envolvendo-lhe os braços à volta do pescoço. não teve outro remédio a não ser aceitar o convite e a prometer uma visita sua para dali a uma semana. sentindo-se honrado.Não foram tantos assim.Era só um amigo – respondeu ela subindo as escadas a correr. . Mas a verdade é que não o fez.

convencer-se a si próprio que o que estava a ver era fruto da sua imaginação ou então uma terrível coincidência.Não acredito – resmungou Madalena.Será que eras capaz de o apanhar? Ele telefonou-me ontem à noite para me dizer que o carro dele deu o berro e que está a arranjar na oficina. O meu avô vai-me matar. ..Não! Disse que ia entregar um presente a uma amiga que fazia anos mas que não se ia atrasar para o almoço. mas a verdade é que lhe restaram poucas dúvidas de que aquela jovem que tinha acabado de sair de uma pensão nos braços de um outro homem mais velho. então nesse caso vou indo. O pior é que não valeu de nada! Estou preso numa outra rua por causa de umas obras que estão a fazer.Não consegues ir buscar o teu pai? . O percurso em direcção à estação de camionetas poderia ter sido mais fácil se não fosse um aparatoso acidente ao qual Sérgio tentou contornar por um outro caminho mais demorado. .O que é que aconteceu? . lembraste? O pior é que a Sara também ainda não chegou. Já tentei ligar-lhe para o telemóvel uma data de vezes e dá sempre no serviço voice mail… As lamúrias de Madalena continuaram a ecoar-lhe nos ouvidos. – O meu pai.Podes deixar – respondeu Sérgio beijando-a nos cabelos. . Eu não queria que ele apanhasse transportes públicos para vir almoçar connosco. três toques e ela atendeu a chamada. – Eu vou buscá-lo.A Sara ainda não chegou? .Eu não sei. mas já nessa altura. mas mesmo muito atrasado – disse Sérgio largando as mãos sobre o volante. está bem – respondeu Sérgio observando a figura de Sara a desaparecer pela rua acima. o relógio assinalou onze horas e quarenta e cinco minutos e o trânsito pura e simplesmente parou.Hã… estou.É só para te avisar que estou muito. 108 . Não sei se me vou conseguir despachar a tempo de ir buscar o meu avô e o teu pai. Um. foram as palavras que o fotógrafo repetiu vezes sem conta enquanto as buzinas dos carros começavam a ecoar naquela rua verdadeiramente estreita. . . . – Estou?! .Bem. . ele encontrou o telemóvel sobre a caixa de velocidades e digitou o número de Madalena. a filha da sua namorada. – Estás aí? – perguntou Madalena após um longo silêncio que ele fez questão de lhe oferecer ao telefone.Obrigada! És um anjo. . Tenho o cabrito no forno.Não. . Escuta! Eu já te ligo. não é preciso. .O que é que tem o teu pai? . que Sara. nada menos. Nessa altura. era nada mais. Alheio a tudo o que se estava a passar à sua volta. Ainda tentou forçar a vista. – Queres que te traga alguma coisa da rua? . Sérgio concentrou todas as suas atenções para uma cena chocante que se estava a passar diante dos seus olhos.Hã… esqueci-me – berrou Madalena levando as mãos à cabeça. dois.Apanhei um acidente no caminho e resolvi mudar o percurso.Já vou andando – respondeu Sérgio vestindo o casaco às pressas.

Era Jorge.Cabrito. Só estou à espera dela para ir buscar o meu pai a casa – respondeu Madalena escorrendo a água da massa. alguns passos vindos do corredor.Olha. Seria Sara? Seria a sua melhor amiga.Olá Lena… . Raios. . .Pensei que também fizesse parte da família. Ao ouvir a ordem da mãe. – Que surpresa ver-te por aqui. O que é que ele tinha lá ido fazer? . quando Sérgio lançou a cabeça para fora da janela. . a Sara não está – afirmou Madalena não se deixando afectar pelos elogios baratos do ex. mas ainda assim Madalena hesitou em aceitá-la. . . se não te importares de sair da frente do armário. Por isso.Cheira bem – disse Jorge apontando para o forno.Claro! O problema é que está desligado. .Disse que ia entregar um presente de aniversário a uma amiga da escola. . Pai foi a palavra que Madalena ouviu enquanto fechava a porta do forno. . .Já vi que não perdeste o jeito.O telemóvel foi desligado e atirado novamente contra a caixa de velocidades. que também foi convidada para o almoço. marido. ou teria Sérgio conseguido o milagre de trazer o avô e o pai dela em tempo recorde? – Daniel.Já lhe ligaste para o telemóvel? – perguntou Jorge apoderando-se de uma maçã sobre a fruteira da cozinha. Aonde é que se tinham metido? Faltavam poucos minutos para a uma da tarde quando Madalena sentiu a campainha tocar. e depois disso.Não da minha família. Daniel saltou da cadeira da cozinha e correu a abrir a porta. eu preciso de uma panela… . . Alice.Mas eu faço questão! Já passa da uma e tu sabes que o teu pai gosta de almoçar cedo. mulher à volta do lava-loiça. Sabes lá a que horas é que a Sara pode aparecer por aqui… A proposta do ex.disse ele entrando na cozinha alguns minutos mais tarde. O que é que vieste cá fazer? . Raios. vai atender – pediu ela ao filho enquanto levava o cabrito novamente ao forno. menos eu – resmungou Jorge trincando a maçã enquanto observava os gestos da ex. .Se quiseres posso ir buscar o teu pai – afirmou Jorge para grande surpresa de Madalena. Mas o pior é que já devia ter voltado. O seu ex.Eu sei.Jorge. – O que foi?! Trago o teu pai num instante. .Aonde é que ela foi? .Oras! Vim ver os meus filhos. mas ainda assim.A sério?! Pensei que a Sara e o Daniel fossem os nossos filhos.Olá – respondeu ela largando uma toalha sobre a bancada. 109 . marido. .Já vi que toda a gente foi convidada para este almoço. . Sara e o senhor desconhecido que a acompanhava desapareceram sem deixar rastro. . É Pascoa.Não é preciso. eu não quero e nem vou discutir contigo agora! Tenho uma quantidade enorme de coisas para fazer.E porque é que haverias de ser convidado?! . marido era deveras tentadora. lembraste?! .

Com certeza deve ter ficado à conversa com a amiga e as duas perderam a noção das horas. De um passado repleto de discussões. a melhor amiga de Madalena. Saíste daqui às dez. . .Pois! Mas disseste também que não te irias demorar. levou igualmente a boa-disposição que lhe era característica em momentos festivos. – Então?! Posso ir buscar o Sr. pelo amor de Deus! . 110 . quase dezasseis. …um pouco. coitada da rapariga – interferiu Alice continuando a colocar a mesa. traições e faltas de respeito. Para além disso.Tudo só porque o avô do Sérgio vem cá almoçar? . E Madalena pôde ter essa certeza quando ao lançar os olhos à bancada da cozinha foi obrigada a deparar-se com os restos da maçã que o ex. – Também não se atrasou tanto assim. .Lena. .Nota-se assim tanto? .Claro que não – riram-se as duas. Já viste que horas são? Quase duas da tarde.Eu não sei. – Mas não se atrasem. Lena! Até parece que nunca fiz isso antes.Nem tanto assim – respondeu Madalena distribuindo os talheres pelos pratos. – E tu. Foram muitos.. – Bem. . e consigo trouxe duas sobremesas especialmente adquiridas numa pastelaria perto da sua casa.Nunca te vi tão animada. – Até que enfim! Aonde é que estiveste? . – Mas vê se tomas banho antes de desceres para o almoço. – Quer dizer.Águas passadas – riu-se Jorge enquanto terminava de comer a sua maçã. Continua o mesmo. Jorge fazia parte do passado.A quilómetros de distância! Não há dúvidas de que o Sérgio te está a fazer muito bem.disse ela ajudando a colocar a mesa da sala. . – Fui ter com uma amiga.…está bem – concordou Madalena. .Podes deixar – respondeu ele voltando-se para Daniel.Vá lá.Só se for no banco da frente. Afonso? . Ele tratou-me tão bem quando fui passar aquele fim-de-semana à casa dele que eu queria retribuir-lhe a gentileza. murmurou ela levando o caroço ao caixote de lixo.E eu lembro-me que não gostavas nem um pouco de fazer isso. esmeraste-te… . . .Posso subir? – perguntou Sara num tom debochado. .Já te tinha dito – respondeu Sara rasgando alguns olhares a Alice. . oh pestinha!? Não queres vir com o pai?! .Podes – respondeu Madalena percebendo-lhe o sarcasmo na voz. A resposta de Alice culminou com a entrada de Sara na sala e também com o olhar aterrador que Madalena fez questão de lançar à filha quando se deu conta do seu atraso imperdoável. Quando éramos casados cansava-me de ir buscar o teu pai e a tua mãe a casa. A primeira pessoa a chegar para o almoço foi Alice. mas ainda assim não lhe trouxeram qualquer saudade. marido deixou antes de sair. . mas também de não dar mostras de querer desaparecer tão cedo.Está bem! Vais no banco da frente então. Anda lá! A visão através da janela da cozinha dos dois homens da família a entrarem no carro fez com que Madalena voltasse a recordar os anos em que esteve casada com Jorge.

Foram precisos vários minutos até que a porta se voltasse a abrir com as chaves levadas por Daniel, e atrás de si, vieram o avô e o pai envolvidos numa conversa divertida, algo não muito incomum entre dois homens que sempre se deram muito bem e que nunca esconderam a admiração mútua que sentiam um pelo outro. – Olá, pai – disse Madalena correndo a cumprimentar Afonso quando todos entraram na sala. – Como é que estás? - Estou óptimo – respondeu ele despindo o casaco. – E tu? - Cansada, mas bem! O almoço já está pronto. Vieste na hora certa. - Então vamos almoçar. Estou a morrer de fome. - Não, ainda não. Ainda vamos ter que esperar mais alguns minutinhos – respondeu Madalena rasgando alguns olhares ao ex. marido. – Falta ainda o Sérgio e o avô dele. Os dois apanharam algum trânsito pelo caminho, mas o Sérgio ligou-me há pouco para me dizer que já estão quase a chegar. - Hã… claro. - Bem, nesse caso, eu já vou andando – disse Jorge quando se deu conta que a sua presença não era muito bem-vinda. - Porquê?! – interrompeu Afonso. – Fica para almoçar connosco. - Eu?! - Claro! Foste tão gentil em ter-me trazido até cá. O mínimo que podias fazer era dar-nos o prazer da tua companhia, não achas? Por momentos, Madalena pensou estar a sonhar quando ouviu o discurso do pai e o convite estapafúrdio que este fez a Jorge sem sequer a consultar. Será que Afonso tinha perdido totalmente a noção da realidade? Será que ele não a ouvira a dizer que o seu novo namorado e o avô dele estavam a poucos minutos de chegar à sua casa? - Bem… - disse Jorge, encabulado. - …eu não sei se a sua filha concorda com o seu convite, Sr. Afonso! - É claro que ela concorda. Não concordas, Lena?! O silêncio mantido por Madalena foi deveras constrangedor. – Não concordas? – insistiu Afonso fulminando-a com os olhos. – As crianças iriam gostar de passar a Páscoa com o pai. Não foi preciso esperar muito tempo para que Sérgio Almeida e Luís Restelo tocassem à campainha e para que Madalena lhes abrisse a porta com um largo sorriso imediatamente correspondido pelos dois. Depois disso, seguiram-se os cumprimentos habituais perto do corredor e a tentativa de fazer Luís sentir-se em casa. – Atrasados, nós sabemos – disse Sérgio. – Mas a culpa não foi minha. - Eu sei! A culpa foi do trânsito – respondeu Madalena forçando um sorriso ao avô do fotógrafo. – Espero que tenha feito uma boa viagem, Sr. Luís. - Não foi tão má como pensei que seria. Apenas alguns solavancos no caminho, mas por sorte não cheguei partido. - Que bom! Mas entre, por favor. Fique à vontade. - Obrigado – respondeu Luís aceitando o convite com alguma cautela. Nessa altura, Sérgio encarregou-se imediatamente de lhe guardar o casaco e o chapéu no bengaleiro. – Será que era possível ir à casa de banho? - Claro, vô – respondeu Sérgio apontando-lhe uma porta ao fundo do corredor. – É ali. - Obrigado – agradeceu Luís seguindo a direcção apontada.
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- Desculpa ter-te deixado sobrecarregada com os preparativos do almoço, mas é que nem fazes a mínima ideia de como é que estava o trânsito lá para os lados das Amoreiras. - Não, tudo bem – respondeu Madalena impedindo Sérgio de sair do corredor quando lhe alcançou os braços. - O que foi? - É que… eu precisava contar-te uma coisa antes de irmos para a sala. - O quê?! A expressão doce e sorridente de Sérgio fê-la sentir-se pior do que mal, mas a verdade é que Madalena não tinha outra opção a não ser contar que a lista de convidados se havia estendido para além do previamente estipulado. – Estás-me a dizer que o teu ex. marido também veio almoçar? - Eu sei que parece uma loucura, uma coisa ridícula. Aliás, não parece, é – interrompeu Madalena segurando-lhe o pulso com força. – Mas tens que acreditar que a culpa não foi minha! Foi o meu pai que o convidou. - E porque é que o teu pai o convidou? - …o Jorge veio ver o Daniel e a Sara, e eu sem querer acabei por lhe dizer que precisava de alguém para ir buscar o meu pai porque tu me tinhas ligado a avisar que estavas atrasado. Então ele ofereceu-se para ir buscar o meu pai e… - E tu aceitaste? – perguntou Sérgio tentando controlar os ciúmes que se apossaram de si. - Só porque não tive outra opção. A Sara ainda não tinha chegado da rua, eu tinha o almoço no lume e também não podia deixar o Daniel sozinho em casa. - O.k! - Então quando eles chegaram, eis que o meu pai teve a brilhante ideia de convidar o Jorge para almoçar connosco. Eu não queria, mas… - Tudo bem, Lena! Esquece. - Desculpa – disse ela observando-lhe a expressão desagradada. – Eu sei que é uma situação horrível, principalmente por causa do teu avô, mas eu não tive culpa. Foi algo que fugiu ao meu controle. Acredita em mim…! - Eu vou lavar as mãos à cozinha – afirmou Sérgio deixando-a especada no corredor a remoer todas as culpas por aquela situação no mínimo caricata. Tal como se era de esperar, o almoço tornou-se sombrio para Sérgio e Madalena, já que a visão de Jorge sentado à mesa retirou-lhes todo o apetite e trouxe um certo desconforto a Luís Restelo por perceber o desconforto do neto diante daquela verdadeira afronta a que ele tinha submetido. Talvez Afonso e as crianças não tivessem percebido o pouco à vontade dos restantes convidados, talvez estivessem demasiado entretidos com as piadas contadas por Jorge, mas a verdade é que nenhuma dessas piadas surtiu efeito para Madalena, Sérgio, Luís ou Alice. – Ainda não perdeste o jeito para a cozinha, Lena… – foi a gota de água dita pelo advogado no final do almoço. - Bem, eu vou buscar as sobremesas – respondeu ela recolhendo as loiças sujas. - E eu ajudo-te – interferiu Alice desejando sair daquela mesa tanto quanto a sua melhor amiga. Quando chegaram à cozinha, o estrondo das loiças a caírem no lava-loiça fizeram antever todo o ódio que Madalena estava a sentir, não só pelo seu ex. marido, mas também pelo seu

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pai, o responsável por toda aquela situação no mínimo caricata. – Eu devia suicidar-me… – disse ela. - Toma – respondeu Alice entregando-lhe um facalhão. - Obrigada pelo apoio moral. - Eu até acho que o almoço não está a correr assim tão mal. - Só podes estar a gozar – disse Madalena abrindo a porta do frigorífico a fim de retirar as sobremesas que havia prometido aos seus convidados. - Achas que o teu pai fez de propósito? - O que eu acho é que ele está a ficar velho e senil. - Para mim a culpa é do Jorge. - A sério?! Não me digas. Nem tinha percebido uma coisa dessas. - Aposto que foi ele que manipulou o teu pai durante o caminho para que ele o convidasse para o almoço. É a cara do Jorge fazer uma coisa dessas! O gajo nem sequer consegue disfarçar que está a morrer de dores de cotovelo. - Dores de cotovelo porquê?! - Lena, não me digas que ainda não percebeste? Ele está louco para atrapalhar o teu namoro com o Sérgio – respondeu Alice colocando as taças das sobremesas no interior do tabuleiro. – Aposto também que ele quer voltar para ti. - Shiuuuu! Fala baixo! - Que mal é que tem? Está na cara de todos. Só um cego é que não consegue ver que o Jorge ficou cheio de dores de cotovelo quando soube que havia um outro homem interessado em ti. Isso é perfeitamente natural nos ex. maridos! Pensam sempre que nós nunca nos iremos conseguir recuperar do divórcio, que vamos acabar secas, sozinhas e a fazer tricô no sofá da sala, enquanto eles ficam livres e soltos para aproveitar a vida com rapariguinhas de vinte anos. Diz lá qual é a novidade nisso? Já era assim no tempo da minha avó. - Só me sinto mal por causa do Sérgio e do avô dele – disse Madalena levando as sobremesas à mesa da cozinha. – Imagino a impressão que Sr. Luís teve ter tido de mim. Ele deve pensar que eu sou uma descarada. Que ando com dois homens ao mesmo tempo. - Claro que não – riu-se Alice alegremente. – Acredita que deixaste bem claro à mesa que odeias o teu ex. marido de morte. - Deus queira que sim! Era a segunda vez que a observava a sair da sala e era também a segunda vez que lhe passava pela cabeça confrontá-la com o que vira horas antes. Foi por isso que Sérgio interceptou Sara à frente das escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e parou-lhe todos os movimentos com uma frase rápida e seca. – Vi-te hoje. Surpresa com a interpelação, a jovem voltou-se para trás e encarou-lhe a expressão séria. - Desculpa?! - Vi-te hoje numa rua perto de Campolide! Estavas a sair de uma pensão com um homem que tinha quase idade para ser o teu pai. - E o que é tu tens a ver com isso? - O que é que estavas a fazer com ele? - Não é da tua conta – respondeu Sara apoiando-se sobre o corrimão das escadas.

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Luís fosse voltar de camioneta.Obrigada eu por ter vindo – respondeu ela apertando-lhe as mãos com força.Eu pensei que … o Sr.Desculpar o quê?! O sorriso confiante e paternal de Luís permitiu que Madalena se sentisse menos culpada pela presença do ex. – Tem razão! Espero que faça uma boa viagem então. poucas dúvidas restaram relativamente à afinidade dos dois senhores e à excelente ideia de Madalena em juntá-los no mesmo espaço. – E desculpe qualquer coisa. marido e também para que percebesse que nem mesmo esse acontecimento menos feliz destruiu a boa imagem que o avô de Sérgio tinha de si. Sentados nos sofás e em algumas cadeiras espalhadas pela sala. militar. Ou será que ainda não percebeste que durante o almoço tu e o teu avô estavam ali a mais!? Silêncio foi a resposta de Sérgio enquanto Sara continuava o seu discurso venenoso.Eu se fosse a ti preocupava-me mais com a tua vida e menos com a vida dos outros.Sim! E provavelmente vou lá dormir para não vir a conduzir tão tarde.Não. Infelizmente tinha chegado a hora de voltar ao Alentejo e à sua vida reclusa. é isso?! . . – Tem a certeza que não quer passar a noite connosco? – perguntou Madalena observando os gestos de Luís a vestir o casaco junto ao bengaleiro do corredor. O ex. mas obrigado pelo convite. cuja idade era praticamente idêntica à de Luís Restelo. Passei uma tarde bastante agradável. não hesitou em contar a todos os presentes algumas das peripécias passadas durante a guerra colonial.Tu andas a relacionar-te com homens mais velhos. Nessa altura. e quando deu por si. o de avô Sérgio. .. conhecimentos e deixar de olhar os ponteiros do relógio à espera que por milagre eles andassem mais depressa. Era bom poder conversar com outras pessoas. os convidados deliciaram-se com as sobremesas confeccionadas por Madalena e divertiram-se com as conversas animadas de Afonso Soares. não queiras distorcer as coisas… . Por acaso essa amiga morava naquela pensão? . . – A minha única alegria é saber que falta bem pouco para a minha mãe te dar um pontapé no rabo e voltar para o meu pai! Falta um pouquinho assim.E se estiver? O que é que tu tens a ver com isso? Também não te andas a relacionar com mulheres mais velhas? . projectar as suas experiências. 114 . faltavam poucos minutos para as sete da tarde. Luís também contou histórias iguais.Ao Alentejo? – perguntou Madalena não escondendo a sua surpresa. De facto. . Luís sentiu-se entre amigos e afastou dos ombros a sombra da solidão. Pela primeira vez desde a morte da mulher e da sua única filha. oh! Apesar do mal-estar inicial que a presença de Jorge provocou. naquele domingo particularmente ventoso. . .Sara.Já disse que não é da tua conta. as horas pareceram voar. E obrigado também pelo almoço. o almoço decorreu sem quaisquer outros incidentes. a mãe de Sérgio. . E para a surpresa das surpresas. .Eu vou levar o meu avô a casa – interferiu Sérgio abrindo a porta da rua.Pensei que tinhas dito à tua mãe que ias entregar um presente a uma amiga.

. . marido dela no almoço. mas ainda assim o sono teimou em não aparecer. Foi só nessa altura que ela chegou à conclusão que o que lhe estava a faltar eram os braços de Sérgio e o peito dele para que pudesse encostar a cabeça.Fugiste de Lisboa porquê? .Não sabia que estavas a namorar com essas pessoas todas – respondeu Luís. não é?! Ficaste chateado por ver o ex. Sérgio baixou o rosto.De onde é que foste buscar uma ideia dessas? Por acaso a Madalena tratou-te como se fosses um intruso? . . Luís! À noite as estradas são um pouco perigosas. . Já vi que não há santo que lhe consiga mudar de ideias. ele começou a ter algumas dúvidas.Eu não fugi de Lisboa. três vezes. – Pensei que estivesses a namorar só com a Madalena.Eu também – respondeu Luís enfiando o chapéu na cabeça. Virou-se na cama. – A filha dela odeia-me.Por me ter sentido a mais! Por ter sentido que era eu o intruso e não ele. uma. Madalena não pregou olho. Naquela noite.Então qual é o problema não estou a perceber. . Sentado sobre o alpendre da porta com um chocolate quente nas mãos. Mas será que não fazia? Será que Sara tinha razão quando disse que faltava muito pouco para que Madalena e Jorge voltassem ao casamento de ambos? Foram essas algumas das perguntas que também retiraram o sono de Sérgio em casa do avô. Sr. Só precisava de… algum tempo para recompor as minhas ideias e pensar no que devo fazer. mas será que só isso bastava? Será que só isso chegava para que continuasse a lutar por ela? Diante de tudo o que tinha acontecido naquela tarde. quanto a isso não dúvidas. ela não. . o ex. .É a Madalena. – Magoado.Não! Perdi o sono. duas. Mas era óbvio que os acontecimentos daquele horrível almoço de Páscoa ditaram o afastamento do fotógrafo da sua cama.O que é que se passa. o fotógrafo lançou os olhos ao céu e tentou encontrar motivos para continuar a lutar por Madalena. – Eu também acho melhor que vá com o seu neto.Falamos amanhã – foram as últimas palavras de Sérgio a Madalena antes de se afastar dela com uma expressão fria e carregada. marido também.Não. . a verdade é que nem todas conseguiram tal feito. mas… . talvez. embora seja simpático comigo. Amava-a. e embora as estrelas no céu levassem para longe alguns dos seus pensamentos mais sombrios. 115 . eu sei que no fundo ele torce para que a filha volte para o ex. e o pai.Chateado não é bem o termo – respondeu Sérgio permitindo que o seu avô se sentasse ao seu lado nas escadas. – Pensei que já te tinhas ido deitar – disse-lhe o avô. Era óbvio também que ele se havia magoado com a presença de Jorge e com a certeza que o ex. rapaz? . .Claro – disse Madalena forçando um sorriso quando percebeu os verdadeiros motivos para que o fotógrafo quisesse levar o avô a casa.Magoado porquê? . . genro. – Até já tinha comprado bilhete ida e volta.Nada – mentiu Sérgio interiorizando a serenidade que aquele quintal lhe trazia. mas o Sérgio quer levar-me a casa. . marido de Madalena ainda fazia parte daquela família.

as mãos começaram a suar e os nervos a apoderaram-se de si. Madalena resolveu engolir o seu orgulho e procurá-lo à hora de almoço. A única coisa que eu queria era ter a certeza que o teu ex. Após quarenta e oito horas sem qualquer notícia ou telefonema de Sérgio. mas parece que tu não estás disposta a fazer isso por mim. por sorte naquela tarde o trânsito ajudou e por sorte ela conseguiu chegar ao estúdio do fotógrafo em apenas vinte e cinco minutos. o seu coração disparou. marido que era ridículo sequer imaginar a ideia de o sentar à mesma mesa comigo e com o meu avô!? Quer dizer.Então pergunta-lhe – respondeu Luís abandonando o quintal e também todas as dúvidas que o neto carregava dentro do peito.Não sei. – Desculpa! Eu não queria ter feito o que fiz. vô… .. . – Não fui eu que convidei o Jorge para almoçar. – Porque é que não me ligaste? . mas a verdade é que não fizeste nada para o impedir.Não. ela conseguiu arranjar forças para subir e para também tocar à campainha. Os momentos que se seguiram foram preenchidos com um silêncio ensurdecedor e com a certeza de que havia muita coisa a ser esclarecida desde o último almoço de domingo. põe-te no meu lugar! Tu humilhaste-me … .Não.Eu não queria ter que te desculpar.Porque eu pensei que também precisavas pensar e ficar sozinha.Tempo?! Tempo para quê? . O maldito almoço de Páscoa. mas ainda assim. Tudo o resto são detalhes.E qual será a opinião dela? – perguntou Sérgio voltando-se para o avô.Precisava de tempo – respondeu Sérgio. .Desculpa – pediu Madalena correndo ao encontro dele. 116 . Desculpa! . entra – pediu ele abrindo-lhe passagem em direcção ao estúdio. pensou Madalena enquanto se livrava da mala e do casaco que tinha nas mãos.Não sei – respondeu Sérgio não escondendo a sua fúria.disse ela quando os seus olhos se cruzaram com os de Sérgio. Tempo para pensar. .Não.Estás muito ocupado? . .Não sabes?! .O que é que eu podia fazer? .Pode até ter sido o teu pai. marido já não faz parte da tua vida. . Por sorte. Que ele não tem acesso directo à tua casa e que não aparece lá sempre que lhe apetece.As coisas não são assim tão fáceis. – Que tal ter dito ao teu ex. para ficar sozinho… . . .São sim! É só com a opinião de Madalena que te deves preocupar e nada mais. eu não … . . – …olá… .E porque é que querias pensar e ficar sozinho? . Foram precisos apenas dois toques. Ao subir os degraus das escadas.Desculpa! Eu devia ter ligado.Já te disse que a culpa não foi minha – afirmou Madalena largando os braços. Alice disponibilizou-se a tomar conta da floricultura. Foi o meu pai… . Era só isso que eu queria.Tu humilhaste-me e tens consciência disso porque senão não tinhas cá vindo – afirmou Sérgio calando-lhe todos os argumentos. .

. por uma relação que lhe estava a consumir todas as forças. esbaforida.Então vamos esquecer tudo o que aconteceu neste domingo. – Tu nem sabes… . mas principalmente. mas… . .E o que é que queres que eu faça? – gritou Madalena. quanto a isso não havia dúvidas. marido sempre que ele resolve aparecer ou então com a vontade do teu pai em querer que voltes para ele. Vamos colocar uma pedra sobre o assunto. Ele envolveu-a nos braços. Sérgio encostou-se à secretária e levou as mãos à cabeça. Depois disso. 117 . receios e inseguranças. Eu prometo que vou fazer de tudo para afastar o Jorge de nós. . ela teve dúvidas. Prometo! A promessa da Madalena pareceu ter surtido efeito quando Sérgio lhe encontrou os lábios e os beijou com toda a paixão que possuía dentro de si.Eu não sei – respondeu Sérgio aos gritos dela.Eu também não.Eu também.Mas o Jorge já não faz parte da minha vida – respondeu Madalena num tom desesperado. Lena! Mas eu não sei se vou conseguir lidar com isto tudo. – Não termines comigo – disse Madalena levantando-lhe o rosto com as mãos. – Eu amo-te. .Se tu soubesses como me tenho esforçado para que isto dê certo.A única coisa que eu sei é que eu te amo e que não quero ficar sem ti – respondeu ela amparando-lhe uma lágrima com os lábios. – Eu amo-te. as coisas eu que tenho aguentado… .Nós já estamos a discutir! Ao ver-se pela primeira vez sem argumentos. ela deixou-se envolver e os dois acabaram caídos no divã à espera que os beijos e as carícias pudessem apagar todas as palavras amargas que disseram momentos antes. Isto para não falar da Sara! Todos eles estão a torcer para que a nossa relação não dê certo e o pior é que tu estás a deixar que isso aconteça… .. Esgotado por aquela discussão. Não sei se vou conseguir lidar com o facto de ser obrigado a olhar para a cara do teu ex.Lena. nada mais importou. – Eu não sei. pelos seus medos. . .Boa! E depois a culpa é minha?! E depois eu é que estou a fazer de tudo para que a nossa relação não resulte? . – Eu não quero ficar sem ti – repetiu. . Estava esgotado. eu não quero discutir.murmurou ele com os olhos rasos de lágrimas.Tens a certeza? Diante da pergunta de Sérgio. Foi por isso que eu me resolvi afastar. – Não quero.

Nunca me lembro de levantar a tampa da sanita.E os teus filhos? . . – É lindo! . . – Talvez ela se vá opor um pouco. – Mas é um passo importante para isso.CAPÍTULO VII Os dias seguintes trouxeram alguma calmaria perdida após aquele fatídico domingo de Páscoa.Tenho – respondeu Madalena sem quaisquer hesitações. baixinho. Sérgio tentou dissipar a suas dúvidas relativamente ao ex. – Estás-me a pedir em casamento? . e assim o casal continuou a projectar planos para um futuro que apesar de tudo parecia promissor. .Olha que eu sou muito desarrumado. . . De resto. . . .A sério? Nem tinha percebido uma coisa dessas. mas eu sei como lhe dar a volta. Madalena seguiu à risca as promessas que fez. . Quero dormir ao teu lado todas as noites e acordar contigo todas as manhãs. mas lindíssimo anel no dedo. .Acho bem – respondeu Sérgio beijando-lhe a mão direita. Ao ver-se com aquele discreto. é claro.riram-se os dois. – Eu quero muito.Adorei – riram-se os dois apertando as mãos sobre a mesa. .k! Pensando melhor… .Nem mesmo a Sara? . 118 . o aniversário de Madalena provou isso mesmo.Eu vou falar com eles.Achei que fosses gostar.Sim! Eu quero que te mudes para a minha casa definitivamente.Tens mesmo a certeza que é isso que queres? .Ainda não – respondeu ele esboçando um sorriso carinhoso. Sérgio conseguiu definitivamente conquistar o coração dela ao oferecer-lhe um maravilhoso anel de compromisso.Viver contigo?! .Mas só com uma condição.k – riram-se os dois. Madalena não conseguiu esconder a emoção. .O.Não vou tirá-lo do dedo nunca.Que condição? .Que venhas viver comigo – respondeu Madalena tomando-o de assalto com aquele convite inesperado. .Não tens que agradecer. Só o tens que usar. tenho o péssimo hábito de deixar a toalha molhada sobre a cama e quase nunca dobro as minhas camisas… . – Obrigada. marido dela.O. Mas eu tenho a certeza que nenhum deles se vai opor. Com um jantar romântico à luz de velas num restaurante italiano chamado Cipriani.

aliás. . . e a sua felicidade.Ir ao Algarve? Quando? . claro que não! Por tua causa. encontrava-se ao lado daquele perfeito desconhecido.Por minha causa? .Não. Chega. . – Já te disse que me arranjo. eu quero que sintas que esta é a tua casa.Eu sei! E eu já sinto isso. não penses – disse ele arrancando-lhe uma leve gargalhada. . A mudança de Sérgio aconteceu duas semanas mais tarde. – Não queres vir comigo ao Algarve? – perguntou ele já perto do final da conversa. . Como é que ela se atrevia a colocar um perfeito desconhecido lá em casa.Por causa da mamã?! .E quando é que voltávamos? . – Porque não sei se és de confiança.Então vamos morar juntos – respondeu Madalena entrelaçando os dedos nos dele.Não.Nem pensar. . Dali para frente. Mas a verdade é que nem os gritos histéricos da filha impediram Madalena de levar os seus planos adiante. A semana não poderia ter começado melhor para Sara quando recebeu um telefonema de Marco a meio da madrugada.Ainda bem – respondeu Madalena sugando-lhe os lábios no meio de um sorriso radiante. Tal como sempre.Não te precisas preocupar com isso – afirmou Sérgio envolvendo-lhe os braços à volta da cintura. disse-lhe. . Um facto que passou completamente despercebido o Sara enquanto o ouvia com atenção e se deliciava com a sua voz grave e grossa ao telefone. Depois disso. a porta do quarto de Sara fechou-se com um enorme estrondo e não se ouviu mais nenhum barulho durante a noite. Sei lá! Combinávamos num sítio qualquer e eu levava-te comigo. .Vamos. . Eu quero que te sintas em casa. . . . Alguma vez te deixei ficar mal? 119 . . feliz ou infelizmente. e embora não tivesse sido aprovada pela maioria. a pensar no bem-estar dos filhos e a viver em função deles. o facto é que aconteceu e pouco ou quase nada houve a fazer por Sara que mais uma vez viu na presença do fotógrafo uma afronta especial oferecida pela sua mãe.Sim – respondeu ela sorrindo ao telefone.No domingo.Está óptimo. Chega de passar a vida a pensar nos outros. foi a pergunta que a jovem gritou aos ouvidos de Madalena vinte e quatro horas antes de Sérgio se mudar de armas e bagagens.. ele estava no Algarve metido nos seus inúmeros negócios esquivos e pretendia regressar a Lisboa no final da semana para entregar algumas mercadorias ilícitas. . ela iria tentar ser feliz.…eu não sei se vou poder ir – disse Sara sentindo-se mais do que tentada a aceitar aquele convite no mínimo inesperado.Devo aparecer aí por Lisboa na próxima sexta-feira e volto no mesmo dia.É claro que eu sou de confiança. – Achas que este espaço te chega? – perguntou Madalena abrindo as portas do seu roupeiro a Sérgio.Deixei-te também duas gavetas livres e uma outra na casa de banho. – Eu também quero morar contigo.

– Os teus pais por acaso não desconfiam que andas a faltar às aulas para vir para cá? .Então?! Vem comigo e eu prometo-te que vais passar um fim-de-semana inesquecível. tudo iria desmoronar à sua volta tendo em conta a histeria da mãe. ao contrário dos outros.Ouve lá – disse Milene voltando-se para Sara. ele trata-me muito bem! Não me trata como uma prostituta. . eu não sou a tua mãe.Hum! Está óptimo. mas também arriscado. . Vou-me encontrar com ele no Campo Grande. . Queres pagar para ver? Paga! Tal como já me disseram. naquela sexta-feira.Chateado porquê? 120 .O.k! Se eu estiver iludida. A chegada a casa aconteceu quando faltavam poucos minutos para às oito. Sara sabia-o melhor do que ninguém e sabia também que quando voltasse do seu fim-de-semana com Marco.Ele não presta! Estás iludida. – Desculpem! Desculpem – pediu Madalena entrando pela cozinha adentro carregada de sacos de compras. .Estás com uma cara! O que é que aconteceu? .Já vi que sim – respondeu Madalena apressando-se a beijar a face do filho. por isso não me deves satisfações e nem eu te devo conselhos. . mas nessa altura.Normal. .Aonde é que vais? .Estou chateado – respondeu Daniel afastando-se bruscamente da mãe.Não faz mal – respondeu Sérgio entregando-lhe uma colher à boca. .Não! Eu consigo sempre apanhar as cartas da escola no correio. – Se queres que te diga. – Eu vou fazer tudo para ir contigo. mas isso não significa que ele seja má pessoa – respondeu Sara saltando da cama.Não. as compras do supermercado prenderam Madalena mais tempo do que estava à espera. Infelizmente. – Mas tudo bem. .Eu também tenho um cliente marcado para as três e meia. – Prova o molho! Vê se está bom? . . . – Tu não sabes com quem te estás a meter – avisou-lhe Milene a dois dias da fuga. A minha especialidade.. e para ajudar à festa. amor? Como é que foi a escola? . . .Maluca – exclamou Milene empurrando-lhe as costas. – Anda lá! Não me posso atrasar. – Atrasei-me. .O problema é que quando fizeres isso já vai ser tarde demais – afirmou Milene vestindo o seu casaco às pressas. – E tu. Sérgio já havia iniciado os preparativos de um jantar no mínimo improvisado enquanto Daniel se entretinha a jogar na sua playstation portátil em frente à televisão da cozinha. . o trânsito infernal que apanhou durante o caminho apenas lhe trouxe uma enorme dor de cabeça. O plano parecia ser perfeito.Escuta! Eu sei que o Marco anda metido em negócios estranhos.Esparguete à bolonhesa.…está bem – respondeu Sara dando-se por vencida. . desiludo-me.Vou trabalhar. Mas a paixão que sentia por ele valia a pena? De certo que sim. De qualquer maneira. o que é que isso importa? Já estou chumbada mesmo – riu-se a jovem.

foi a conclusão a que Madalena chegou após ter reflectido pela primeira vez..Não.Então aonde é que ela se meteu. Depois disso. mulher. .E tu vais-me deixar aqui sozinha? 121 .” . mas tal como deves calcular.Claro que sim. Não precisas ligar.Aonde é que vais? – perguntou a mulher que estava na cama de Jorge. . ao reconhecer a letra. impaciente. Mas se a filha não estava com o pai. . . .Não. encostou-se à mesa para melhor o ler: -“ Mãe! Fui passar o fim-de-semana com o pai e volto no Domingo. mentiu. mas vou ter que ir à casa da minha ex.Ela não está aí contigo? .Estou-te a perguntar se a Sara está aí contigo – repetiu Madalena. – Porque é que a Sara haveria de estar comigo? .Um problema?! . meu Deus?! . já disse que não! Não falo com ela desde quarta-feira. por favor… . mas tal como sempre. .Desculpa Catarina. se ela estiver aí contigo e tu a estiveres a encobrir… . Tens a certeza que não sabes nada da Sara? . não está – disse ele tentando desenvencilhar-se dos braços de uma mulher. Aconteceu um problema. Está tudo bem. O número de Sara foi imediatamente digitado. – A Sara está aí contigo? . . mas está desligado.Não sei! Quando chegámos ela já não estava cá em casa – respondeu Sérgio. .Acho que é por isso – interferiu Sérgio entregando a Madalena um bilhete escrito por Sara horas antes. seguiu-se número do ex.Jorge! Responde à minha pergunta.O Jorge veio buscá-la? – perguntou Madalena depois de ter lido o bilhete vezes sem conta.Porque é que o pai não me levou também? – interrogou Daniel não escondendo a sua irritação. Não sei aonde é que aquela maluca se meteu.Não sabes de alguma amiga com quem ela possa estar? Encontra um número – afirmou Jorge começando a ficar preocupado com o súbito desaparecimento da filha. encontrava-se fora de área.A minha filha desapareceu – disse Jorge enfiando-se nas suas calças. – Olha.Desculpa?! .Porque ela deixou um bilhete escrito a dizer que ia passar o fim-de-semana contigo e que eu não precisava preocupar-me em ligar! Jorge.Qual encobrir qual quê – exclamou ele levantando-se da cama. . então com quem ela estava? – Já lhe tentaste ligar para o telemóvel? – perguntou Jorge. E a última. marido e a sorte que foi em ele ter ouvido a chamada.Está bem – respondeu Madalena desligando o telefone sem muitas delongas. – Alguma vez fui buscar a Sara e o Daniel sem te avisar primeiro? Na verdade não.Isto está-me a cheirar muito mal – murmurou Madalena correndo a alcançar o telefone sobre a bancada. . eu estou a ir para aí! Qualquer coisa entretanto e não hesites em ligar-me. . – Disse à mãe que estava comigo.

Não posso ficar aqui contigo sem saber o que realmente aconteceu com ela. Mas a verdade é que Sara tinha. preservativos. Madalena subiu ao quarto de Sara e apressou-se a encontrar qualquer objecto que contivesse números de telefone de pessoas próximas à filha. foram as palavras que repetiu vezes sem conta enquanto revistava gavetas e armários com a ajuda de Sérgio. É da turma da Sara. e a outra verdade é que Sérgio começava a chegar à conclusão que existiam muitas mais coisas para além do comportamento rebelde da jovem.Que é isso. mas tenho mesmo que ir! A minha filha desapareceu. .Estou – foram as primeiras palavras de Madalena quando a sua chamada foi atendida por uma das melhores amigas da sua filha. Escuta! Se quiseres dou-te boleia até a uma praça de táxis mais próxima.Que tal porque me estás a tratar como uma? .. coisas que até ele não queria imaginar quando se lembrou que dias antes a havia visto a abandonar uma pensão ao lado de um homem muito mais velho. que nem sequer se apercebeu ou se deu conta de uma grandiosa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro. é! Olha.Sim.Jorge. . lingerie provocante e outros artigos escabrosos que nenhuma rapariga de dezasseis anos deveria ter em sua posse.Quem é que te disse isso?! . Como é que podes pensar uma coisa dessas? .Então liga-lhe. e quando a abriu com alguma discrição para que a namorada não se apercebesse do que estava a fazer. esbaforida. a mãe da Sara! Desculpa estarte a ligar a estas horas.Eu sinto muito. Além disso. . os seus olhos esbugalharam-se de surpresa e consternação. já te disse. amigas da escola. . marido. Amigas da escola. ele deixou de ter dúvidas. – Encontrei – exclamou Madalena erguendo uma pequena agenda cor-derosa. – Graças a Deus encontrei! . o facto de ter encontrado quinhentos euros em notas de vinte. – Mariana?! Sou eu. princesa?! É claro que eu sei que não és uma prostituta. tem aqui o número da Mariana. a tua fama já corre pela cidade inteira ou ainda não sabias?! Seguindo os conselhos do ex. Ao segurá-los nas mãos.Jorge. O que estaria Sara a fazer para ganhar tanto dinheiro? . Coisas que ninguém sabia e que ninguém tinha coragem de imaginar. Eu conheço-a.Bem que me tinham dito que tu não eras de confiança – resmungou Catarina apressandose a encontrar a suas roupas espalhadas pelo chão. Sérgio foi o único a encontrá-la. mas é que eu precisava saber se a Sara por acaso não está aí contigo… 122 . Quando a porta do quarto se encostou com cuidado e os passos de Madalena se perderam pelo corredor. . Mas a verdade é que estava tão cega e obcecada em encontrar o que procurava.Não! Eu vou ficar para ver se consigo encontrar outros números… .Tens a certeza que é isso? . Sérgio voltou a abrir as portas do roupeiro a fim de encontrar a caixa de cartão que continha alguns dos objectos mais íntimos de Sara. cinquenta e cem. – Não vens? . apenas veio a cimentar a suas desconfianças.Não tenho outra escolha. . Eram dezenas de filmes pornográficos. Sim.Vou ligar da sala – respondeu Madalena correndo em direcção à porta.Tudo bem. eu não sou uma prostituta – afirmou Catarina levantando-se da cama.

Isso não quer dizer nada. . Aquilo era mais do que podia suportar. também o desespero tomou conta do advogado quando terminados todos os números da lista de contactos de Sara. . .Como é que… como é que eu não percebi isso antes?! Eu não recebi nenhuma carta. . o relógio assinalou vinte e duas horas e o esparguete à bolonhesa cozinhado por Sérgio esfriou sobre o fogão. pensou. Os passos nervosos e descontrolados de Madalena deixaram Jorge alerta no minuto em que ele pisou a sala. ninguém sabia do seu paradeiro. . Contudo. .Não – respondeu o pequeno assustando-se quando ouviu a campainha tocar. boquiaberta. parecia também ser a mais provável. Nenhum telefonema da directora de turma… . Meu Deus! Será que eu estava cega? .Será que é ela? .A minha filha já apareceu? – foi a pergunta ríspida de Jorge quando Sérgio lhe abriu a porta. não! Eu há muito tempo que não a vejo. .Não é melhor ligar primeiro para os hospitais? – interferiu Sérgio.Hã. Nessa altura.Posso entrar?! .Como não?! Vocês não são da mesma turma? Ocorreu um silêncio ensurdecedor no outro lado da linha. Ainda não. D. – Chumbou por faltas a meio do segundo período. pois o desejo de encontrar Sara era mais forte do que tudo.Tem calma. Ninguém tocou ou se lembrou dele.Tens a certeza que ela não tem ido às aulas? . – Há dois meses que a Sara não põe os pés na escola – afirmou ela voltando-se para Sérgio. Madalena apenas teve forças para se encostar ao sofá e levar uma das mãos à cabeça.Eu vou lá atender – disse Sérgio correndo em direcção à porta enquanto na sala Madalena tentava convencer-se a si própria que tudo aquilo não passava de um horrível pesadelo.Não. .Claro – respondeu Sérgio percebendo-lhe um certo tom de sarcasmo na pergunta. . os olhos marejados de lágrimas e um desespero patente por não ter a mínima ideia de onde a sua filha se tinha metido. Encontrou-a com as mãos sobre a cabeça. – Vou ligar para a polícia – disse Jorge encontrando o telemóvel no bolso das calças. entendes?! Eu via-a a entrar nos portões. Mais do que conseguiu imaginar nos seus piores sonhos e uma realidade que apesar de cruel.Tem calma – disse Sérgio tentando alcançar-lhe os ombros embora Madalena se tivesse desviado a tempo. a Sara não tem ido às aulas? Enquanto ouvia a resposta de Mariana através do telefone. – A Sara chumbou de ano. . 123 .A Mariana acabou de me confirmar isso – respondeu Madalena ignorando o olhar curioso de Daniel sobre si. Lena – disse Sérgio pressentindo o seu desfalecimento.Porque eu ia levá-la todas as manhãs à escola.Daniel. Chumbou por faltas! E o pior é que eu não me posso dizer surpresa porque no primeiro período recebi uma carta da escola a avisar-me que ela estava em perigo de chumbar. . Madalena.. Mas … eu pensei que tinha conseguido resolver esse problema quando a tirei da casa do pai. tu sabias disso? A tua irmã disse-te alguma coisa? . – Mariana.

mas eu disse-lhe que não era preciso.Não faz mal! Eu aqueço-te. O silêncio apoderou-se da sala por largos minutos. namorados ou… . e embora ninguém quisesse transparecer qualquer tipo de desespero.Posso te fazer uma pergunta? . – Tens frio? . a verdade é que as horas passadas deixavam poucas dúvidas de que Sara tinha desaparecido sem deixar rastro.. – O que é que fazemos agora? – perguntou Madalena quando os policiais se foram embora. . – interferiu Sérgio. Aliás. não compliques pelo amor de Deus! Estamos todos nervosos. foi a pergunta que os pais. despediram-se dos donos da casa e prometeram empenhar-se na procura de Sara. . a poucos minutos das duas horas da madrugada. Foram precisos poucos minutos para que a polícia tomasse conhecimento do desaparecimento de Sara e também para que se deslocassem à moradia de Madalena para recolher algumas informações adicionais e fotografias recentes da jovem desaparecida. Cada um tentava se lembrar de um local onde ela poderia estar.Eu já estou desesperada.Esperamos até quando?! . . . Alguém que pudesse ter alguma ideia do seu paradeiro ou até mesmo um mínimo sinal de vida oferecido pela jovem. – Ela não está com ele. Ali. A única boa notícia era o facto de saber que a filha não havia sido registada em nenhum hospital público da cidade.O que é que nós somos?! . o que de todo não deixou Madalena menos preocupada. Depois destes procedimentos legais. que alheia a tudo o que se estava a passar em Lisboa. . – Somos amigos. . mas não vale a pena entrarmos em desespero antes da hora. . .E se não recebermos nenhuma informação da polícia?! .Até recebermos alguma informação da polícia. .Já liguei – respondeu Madalena voltando-se para o fotógrafo com os olhos inchados de tanto chorar. o irmão e Sérgio se fizeram entre si.Lena.Sim – respondeu Sara passando-lhe as mãos pelo peito musculado. Aonde é que ela está. ele até queria vir. mulher pelas costas.O quê?! . 124 .A polícia encarrega-se de fazer isso por nós – respondeu Jorge tentando controlar a imensa vontade de ver o namorado da ex.O que é que nós somos? .Esperamos – respondeu Jorge passeando pela sala.Tornaste a ligar ao teu pai? Às vezes ela pode estar com ele. deixou-se cair nos braços de Marco numa das praias mais movimentadas do Algarve.Um pouco – respondeu Sara envolvendo as pernas à volta da cintura de Marco enquanto as ondas do mar teimavam em levar-lhes para longe. ela mergulhou no mar e encontrou nele o amparo necessário para se esquecer da loucura que tinha cometido ao fugir de casa sem qualquer aviso prévio aos pais.E como é que vais fazer isso? .Eu nunca namorei com ninguém.Adivinha – respondeu Marco encontrando-lhe os lábios.

- Não queres namorar comigo? - Eu não iria conseguir namorar com uma gaja que vai para a cama com qualquer um. Se fosses a minha namorada, irias ter sair da vida! Não gosto nada de dividir aquilo que é meu. - E se eu saísse da vida?! Namoravas comigo? Marco sorriu. – Ouve! Eu não sou o tipo de gajo ideal para ti. - Eu sei. Eu sei dos teus esquemas! Sei que andas metido na droga e que o teu irmão mais novo foi assassinado porque o confundiram contigo. Eu sei de tudo isso. - Quem é que te contou? Aposto que foi a otária da Milene… - Foi ela sim, mas ela não fez por mal, eu é que perguntei. - Então se já sabes de tudo isso, o que é que estás aqui a fazer comigo? - Será que ainda não percebeste que eu não me importo?! Eu gosto de ti – respondeu Sara sem desviar os olhos dele. – Eu quero ser a tua namorada. Apesar de Marco não ter feito o pedido oficial, de resto, algo absolutamente impossível para um homem como ele fazer a qualquer mulher, Sara sentiu-se como a sua legítima namorada quando foi apresentada no dia seguinte a alguns dos seus amigos mais próximos. Quase todos pareceram gostar dela, e ela também gostou de todos, embora tivesse percebido alguns olhares menos simpáticos por parte de duas raparigas presentes no bar onde Marco a levou. Mas nem mesmo esse facto fez com que Sara esmorecesse ou sequer largasse a mão do seu novo namorado pois era com ele que ela queria estar. Era ele quem a mantinha naquele perfeito estado de euforia e era também o único que a fazia sentir-se feliz, bonita e desejada. – Toma – disse-lhe ele entregando-lhe um majestoso fio de ouro e uma pulseira de diamantes. – É teu. - É um presente? – perguntou Sara colocando o fio em frente ao espelho do quarto. - Sim. Gostaste? - Adorei! Mas isto deve custar uma fortuna. - A mim não me custou nada – respondeu Marco sugando-lhe o pescoço perfumado. - É roubado?! - Digamos que foi adquirido sem muito esforço. - E tu costumas oferecer presentes destes a todas as raparigas com quem andas? - Não. Só às mais especiais! - Então quer dizer que eu sou especial? - O que é que achas? - Que sou especial – riu-se Sara quando ele a beijou nos lábios. Vinte e quatro horas sem pregar olho fizeram de Madalena um verdadeiro zombie andante. Cada minuto parecia uma eternidade, qualquer barulho na porta a certeza de que Sara tinha regressado a casa e o toque do telefone uma réstia de esperança de a filha tinha sido encontrada por vivalma. Mas a verdade é tudo isso não passavam de fantasias quando confrontada com a dura realidade, e essa realidade era a de que Sara tinha desaparecido. - Devíamos ligar à polícia – dizia Afonso a cada dez minutos. – Pode ser que já tenham notícias. - Não vale a pena – respondeu Jorge levantando-se do sofá. – Eu vou dar mais uma volta de carro pelas redondezas. - Eu vou contigo – disse Afonso seguindo o ex. genro em direcção à porta.
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- Queres que faça alguma coisa para comer? – perguntou Sérgio a Madalena assim que a porta da rua se fechou com algum estrondo. - Eu não consigo comer nada – respondeu ela continuando a passear pelos quatro cantos da sala. – Enquanto não encontrar a Sara nada me vai descer pela garganta. - Tens que descansar! Não podes ficar nesse stress senão não aguentas. - Aonde é que ela se meteu, meu Deus?! Aonde? Já ligámos para toda a gente, já falámos com a polícia, contactamos hospitais, esquadras…! Ninguém sabe de nada. Parece que ela evaporou no ar. - Eu tenho a certeza que ela vai voltar – disse Sérgio para grande surpresa de Madalena. - Como é que podes ter certeza disso? - Se ela tivesse fugido para não voltar, teria levado todas as roupas dela e outros objectos pessoais, não achas? Mas ela não levou quase nada. Só uma mochila. Ninguém iria fugir só com uma mochila às costas. - E se alguém a levou? E se ela foi raptada? - Lena, pensa bem! Ela deixou-te um bilhete. Ninguém a obrigou a escrever aquilo. - Eu não sei. - Com certeza a Sara deve ter ido passar o fim-de-semana com uma amiga… ou com… um amigo… - Claro – exclamou Madalena voltando-se bruscamente para trás. – Aquele rapaz… - Que rapaz?! - Aquele rapaz que apareceu aqui uma vez à procura dela. Lembraste?! Eu disse-te que não tinha gostado nem um pouco dele e tu disseste que eram só coisas da minha cabeça. Mas quem sabe a Sara não está com ele? - Pode ser. É uma ideia. - Ele não te disse como é que se chamava? - …não sei – respondeu Sérgio tentando recorrer à sua memória. – Mas também não falámos muito! Ele só me perguntou se a Sara estava em casa e se ele podia falar com ela. Eu respondi que sim, mas depois entrei em casa para a avisar. Não! Lembrando agora, ele não me disse o nome. - O meu coração está-me a dizer que ela está com esse rapaz. Ela fugiu com ele. - Tem calma! Não nos vamos entrar em julgamentos precipitados. - Merda – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando Sérgio a abraçou com força. - Vamos esperar mais algumas horas. Se a Sara continuar sem dar notícias, contamos à polícia sobre esse rapaz. - Ainda te lembras da cara dele? - Lembro, claro – respondeu Sérgio tentando acalmá-la com um outro abraço. - Vamos esperar só até à meia-noite então! Só até lá. - O.k! Tal como o combinado, à meia-noite em ponto, Sérgio e Madalena forneceram outra pista à polícia relativamente ao desaparecimento de Sara. A cada hora que passava, a probabilidade da jovem se encontrar na companhia daquele rapaz desconhecido era quase certeira, e se assim fosse, não havia tempo a perder. Era preciso fazer um retrato robot e tentar encontrar-lhe o paradeiro, algo que Sérgio fez exemplarmente quando tentou recorrer
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à sua memória fotográfica. O rapaz tinha 1,80 m, a cabeça praticamente rapada, era mestiço, trazia dois brincos nas orelhas, calças de ganga um pouco largas, uma t-shirt azul escura e vinha a conduzir um BMW conversível. Os olhos também eram escuros, os lábios não muito grossos e o nariz comprido. - Tem a certeza que não se esqueceu de mais nada? – perguntou um dos policiais destacados para o caso. – Acho que não – respondeu Sérgio seguro de tudo o que havia dito. - Vão à procura desse rapaz, não vão?! – interferiu Jorge impacientemente. - Claro que sim – respondeu o agente. – Se ele tiver cadastro, vai ser muito fácil conseguirmos localizá-lo. Por sorte, naquele domingo, as estradas que ligavam o Algarve a Lisboa encontravam-se praticamente vazias, e enquanto seguiam por elas, Marco e Sara não resistiram a trocar várias gargalhadas, beijos e brincadeiras dignas de dois adolescentes completamente alheios aos problemas e responsabilidades. E na verdade, era assim que Sara se sentia cada vez que estava com Marco. Perdia a noção do tempo, do espaço e do perigo que um homem como ele poderia trazer à sua vida. – Pára – dizia ele cada vez que ela tentava lhe desviar o volante das mãos. - Tens que me ensinar a conduzir. - Ainda és muito nova para andar com uma máquina dessas. - Posso aprender… As últimas palavras de Sara coincidiram com uma brusca inversão de marcha que Marco fez em plena auto-estrada. Razão para ele ter cometido tal loucura? A presença da polícia numa das portagens à entrada de Lisboa. – O que foi? – perguntou Sara, assustada. - Cala-te e mete-me a merda do cinto de segurança – gritou Marco deixando-a completamente petrificada quando ao voltar-se para trás a visão de dois carros de polícia e as suas sirenes ruidosas tomaram conta da auto-estrada. Foi a primeira vez que ela se viu metida num verdadeiro filme de terror. Foi também a primeira vez que chorou de medo por se ver diante da morte iminente e por perceber que mostrador de velocidade do carro de Marco havia atingido os duzentos quilómetros por hora enquanto ele se desviava de alguns dos automóveis que circulavam em sentido contrário. O último culminou com um aparatoso capotamento no meio da auto-estrada e com o alívio que Marco sentiu ao ver que os carros da polícia haviam permanecido presos no acidente. Pronto. Estava feito. Ele tinha-se conseguido safar mais uma vez e a saída em direcção a Santarém trouxe-lhe de volta a calma perdida. - Sai – ordenou ele abandonando o carro num descampado. - Aonde é que estamos? - perguntou Sara completamente desnorteada. - Anda! Vou-te meter no primeiro táxi e vais para casa. Hoje ninguém me vê em Lisboa! - E tu? Como é que vais voltar? Vais deixar o teu carro aí? - Esse carro já não existe mais – respondeu Marco arrancando a matrícula e furando os quatro pneus, algo que já estava habituado a fazer em vários outros automóveis. Depois disso, abriu o porta-bagagem e retirou do seu interior a mochila que Sara tinha levado para aquele malfadado fim-de-semana. – Toma as tuas tralhas! Vamos… Apesar de ter jurado não derramar uma lágrima sequer após o maior susto que apanhou na sua vida, a verdade é que durante a viagem em direcção a Lisboa, várias foram as vezes que Sara se viu obrigada a limpar as lágrimas e a engolir o choro para que o taxista não se
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– Meu Deus! Faltavam poucos minutos para as sete da tarde quando Sara finalmente se viu diante da sua casa. . e deitado no chão. Pareceu-lhe também ouvir uma voz interior a confirmar toda a sua irresponsabilidade e falta de bom senso. O carro que havia capotado duas horas antes encontrava-se completamente destruído.Já disse que pode ficar com ele – respondeu Sara fechando a porta e voltando-se para os portões da sua casa. saltaram dos seus respectivos lugares e puseram-se alerta. – Filha – exclamou Jorge correndo a tomá-la nos braços. havia qualquer coisa no olhar dela que obrigou Sara a recuar dois passos. Algo maléfico. Mas ainda assim. Madalena envergava as quarenta e horas que passou sem dormir. quando na verdade já era tarde demais para sentir qualquer coisa parecida. inúmeros polícias à volta do local. pareceu-lhe sentir o peso do mundo sobre os ombros e uma enorme vontade de desaparecer. a única coisa que lhe restava era pagar pelos seus erros. os olhos de Sara cruzaram-se com os da mãe.Fui passar o fim-de-semana ao Algarve – respondeu Sara para surpresa de todos. . Naquela altura. .São vinte euros.Não era preciso. Sara apercebeu-se da dimensão da tragédia que ela e Marco haviam causado. Os seus olhos amedrontados não deixaram sombra para dúvidas.Aonde é que estavas? – perguntou Jorge sacudindo-lhe os ombros.apercebesse de nada. Afonso. Por fim.Aonde é que te meteste? – interferiu Afonso fazendo os possíveis para se conseguir aproximar da neta.Espere. coberto com um manto branco. . e agora. Jorge. e por fim. gélido e que se mostrava cada vez mais aterrador à medida que ela se aproximava da filha. Ela tinha errado. e quando todos 128 . com quem é que foste? .Pode ficar com ele. ouviram-se passos lentos vindos do corredor. . Estava assustada e não tinha a mínima noção de qual iria ser a reacção dos seus pais. . Entrar ou não entrar?! Essa foi a questão que Sara se colocou durante vários minutos. os olhos inchados de tanto chorar e a mesma roupa que trouxe vestida desde sexta-feira. Sérgio. menina! Falta o troco. . – Meu Deus! Ainda bem que não te aconteceu nada.Ao Algarve? O que é que foste fazer ao Algarve? Aliás. duas ambulâncias. e ao forçar um pouco mais a vista através da janela do táxi. – Fui sozinha. e esse momento foi absolutamente arrepiante para as duas. No rosto.Com ninguém – respondeu ela desviando-se dos braços do pai. o corpo do condutor que havia tido a infelicidade de lhes atravessar caminho momentos antes. – Shiiiii! Morreu – exclamou o taxista levando uma das mãos à cabeça. – Estávamos aqui todos a morrer de preocupação. – Tome – disse ela entregando o pagamento ao taxista. . Depois disso. Madalena. a jovem não podia desejar um outro lugar para se esquecer dos verdadeiros momentos de horror a quem tinha sido submetida. a visão de Sara com uma mochila nas mãos. Ainda bem! . Nessa altura. – He lá! Ainda não o tiraram dali – disse ele quando passou pelo local do acidente provocado por Marco. Uma longa fila de carros. Pela primeira vez desde que chegou à sala. Daniel e até Alice que lá tinha aparecido para oferecer algum apoio moral à sua melhor amiga. apesar de ter plena consciência do que a esperava. Quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e mais tarde se ouviu o guincho da porta.

– Porque da próxima vez. eu arrombo-a! Não se soube se foi a voz do pai ou a sua ameaça. Depois disso.Com quem!? – perguntou Madalena perdendo as estribeiras. Mais tarde. O maior estalo de toda a sua vida que a fez inclusive sangrar da boca. .Eu vou lá – exclamou Jorge adiantando-se ao namorado da ex. mas a verdade é que as mãos de Sara atreveram-se a destrancar a fechadura. a jovem subiu as escadas que ligavam o primeiro piso ao segundo e trancou-se no quarto numa tentativa desesperada de manter o fio de lucidez que lhe restava. . .Podes bater-me à vontade! Eu não vou dizer nada. a jovem deparou-se com a visão assustadora dos seus progenitores sobre o alpendre da porta e com a certeza de que apenas agora os seus problemas estavam a realmente começar. . abre a porta – imperou o advogado. – Começa já a explicar qual foi a loucura que te passou pela cabeça para sair de Lisboa sem a nossa autorização – imperou Madalena entrando pelo quarto adentro na companhia de Jorge. ouviu-se o valente estrondo de Sara a cair sobre uma das mesinhas da sala. – Trancou-se aí dentro? – perguntou Jorge encontrando a ex. que a mãe não iria deixar. não levantes a voz – disse-lhe o pai veemente. . . Tinha levado um estalo. . . – Nunca mais voltes a fazer o que fizeste… – imperou Madalena. .Sim e não quer abrir. – Quer dizer.É mesmo hoje que te mato – gritou Madalena lançando-se contra a filha com todas as forças que possuía dentro de si. Madalena não hesitou um segundo em soquear-lhe vezes sem conta. Os momentos que se seguiram foram tensos.Eu já disse! Só queria passar um fim-de-semana fora. 129 .Sara. eu mato-te de pancada! . mas ainda assim Sérgio conseguiu impedir que Madalena levasse os seus intentos adiante quando a segurou pelos braços e permitiu que Sara fugisse da sala. – Sara! Abre a porta! Abre-a agora imediatamente! Silêncio foi a resposta. mas tal como se era de esperar.Não é da tua conta.Foi com aquele rapaz que apareceu cá em casa no outro dia. mulher. morta?! . desapareces sem qualquer explicação. – Se não a abrires.Lena! . .Eu já disse que fui passar um fim-de-semana ao Algarve. deixas-nos à beira de um ataque de nervos e ainda achas que tens razão?! Tens a noção da gravidade do que acabaste de fazer? E se te tivesse acontecido alguma coisa? E se tivesses sido raptada. . Ao ver-se diante da porta do quarto da filha. Tentou também girar a maçaneta.estavam menos à espera. . Sara teve a brilhante ideia de se trancar no interior do quarto. não foi? .Porque é que não avisaste então? – perguntou-lhe o pai. – Isto não vai ficar assim – disse Madalena libertando-se dos braços de Sérgio e seguindo a filha a toda a velocidade.Eu não vou pedir desculpas se é isso que estás à espera – gritou Sara com os olhos vermelhos de raiva. mulher no meio do corredor.Sara. ou pelo menos.Porque eu já sabia que vocês não iriam deixar.Já disse que não é da tua conta.

Não te atrevas a falar assim do Sérgio! .. – Não fales de coisas que não sabes. – Fui sozinha. . . Não tens idade para passar fins-de-semana sem a supervisão de um adulto e muito menos para sair da cidade sei lá com quem! Porque é óbvio que tu não foste sozinha ao Algarve. não é?! Fazes o que te apetece.É sim! E tu sabes que é. ainda enfiá-lo cá em casa.Com que é que tu foste. viajas sem dar satisfação a ninguém…! É uma alegria! . Porque tu não pensaste nem um segundo nós quando te resolveste separar do pai. e tal como se não bastasse. utilizei a assinatura dela para um negócio que estava a fazer com alguns sócios meus na altura. Uma casa que é do meu pai. .Porque tu não nos dás motivos para acreditar em ti – interrompeu Madalena. não é – interrompeu Jorge calando os gritos da filha. mas mesmo muito.Tu destruíste a minha vida. .Isso não é verdade. porque senão. – Aliás. será que não entendes?! É por tua causa que eu e o Daniel deixámos de ter uma família – respondeu Sara não se deixando amolecer pelas lágrimas da mãe. e pior. – E ela sempre me perdoou porque queria que tu e o Daniel crescessem numa família minimamente estável.É claro que eu não iria deixar – interferiu Madalena.Eu fui porque precisava ficar dois dias sem olhar para a tua cara e sem olhar para a cara daquele homenzinho que resolveste colocar cá em casa. .Não – respondeu Madalena cruzando os braços num gesto de deboche. já nos tínhamos separado muito antes.Eu falo como eu quiser! Não sou obrigada a gostar dele e muito menos a fingir que acho normal uma mulher da tua idade andar com um homem muito mais novo. . – É por tua causa que todos os fins-de-semana temos de andar de um lado para o outro sem saber aonde e a quem pertencemos.k! . Várias vezes… . – O que foi? Ficaste surpreendida? Ou será que pensavas que nós nunca iríamos descobrir que andavas a faltar às aulas para fazer sabe-se lá o quê?! Julgaste muito esperta.O. já disse.os olhos de Sara cerraram-se. Só pensaste no teu bem-estar e na vontade que tinhas em voltar a ser solteira outra vez … . . Só pensaste em ti.Não. Eu traí a tua mãe. Porque é que não acreditam em mim? . raivosa.Ou pensas que já não sabemos que chumbaste o ano por faltas? A pergunta da mãe tomou Sara de assalto. Sara! A tua mãe e eu pensámos muito.Sabes porque é que eu fui passar o fim-de-semana ao Algarve? . – Mas iria adorar saber. – Tu não tens idade para andar sozinha por aí. filha? . .Sinceramente eu não sei o que fiz para me odiares tanto – disse Madalena tentando controlar as lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. Foi por vossa causa que estivemos casados durante tanto tempo. mandas e desmandas cá em casa.Não fui com ninguém – respondeu Sara largando os braços. tu só nos dás motivos para desconfiar do teu carácter e da tua falta de responsabilidade. esbaforida. A juntar a isso. antes de nos decidirmos a assinar os papéis do divórcio.Sara! Cala-me essa boca imediatamente – imperou Jorge para grande surpresa da filha. Foste com alguém. O problema é que o tal negócio não deu certo e… a polícia judiciária 130 . não terias sequer como sustentá-la… . e que se não fosse por ele.

. .descobriu algumas irregularidades numa conta offshore que eu tinha. mas acho que foi a suficiente para que ela se fartasse de mim e pedisse a separação – discursou Jorge rasgando alguns olhares a Madalena. mas sim.Com a tua ajuda está – respondeu Madalena abandonando o quarto debaixo das lágrimas que a filha não conseguiu conter. Na verdade. não lhe aconteceu nada. . mulher. não está?! . .Ela odeia-me sim! E eu não posso fazer nada para que ela deixe de me odiar. fui eu o único culpado pela nossa família ter terminado. Madalena conseguiu pela primeira vez engolir algo comestível e Jorge desapareceu com a clara certeza de que já deveria ter contado a verdade à filha há muito tempo. como vês. transparentes e vitoriosas? Nem sempre elas são como queremos que sejam. somos capazes de superar as nossas fraquezas interiores.Melhoraste da dor de cabeça? 131 . Entre mortos e feridos salvaram-se todos. E a verdade é que o ex.Pelo menos acabou tudo bem. essa fase vai passar.Ela não te odeia.Bom dia. coisa que ela não sabia porque eu não lhe contei. as forças para fazer tal tarefa eram praticamente nulas. . e ela acabou por… ser presa no meu lugar! Foi só uma noite. .A Sara já está cá em casa. E não. . Vai passar! Quando ela crescer. desesperada. Foi fraco ao não fazê-lo. . Apesar das discussões.Estás bem? – perguntou Sérgio encontrando Madalena sentada sobre as escadas que ligavam os dois pisos da casa. foram as últimas palavras de Afonso Soares no final daquela tarde particularmente cinzenta e tumultuosa. um claro contraste tendo em conta a noite anterior. quando ela perceber a mãe maravilhosa que tem. – Portanto. militar não poderia estar mais certo. por mais que tentemos. Nessa altura.O que é que isso importa?! – perguntou Sara largando os braços. . Acabou tudo bem. sim. A casa amanheceu silenciosa. mas ainda assim ela conseguiu aguentar as fortes dores de cabeça e a vontade quase incontrolável de passar o dia inteiro na cama sem olhar ou falar com vivalma.É só uma fase. . Ela não te odeia. e nem sempre. – Bom dia – disse Sérgio beijando-lhe os cabelos quando se deparou com a mesa do pequeno-almoço totalmente composta. Por isso.Ela odeia-me – exclamou Madalena voltando-se para Sérgio com os olhos inchados de tanto chorar. dos estalos e dos gritos. Seria demasiado egoísta da sua parte se todas as culpas acerca do término do seu casamento recaíssem sobre os ombros da ex. o relógio marcou meia-noite e quarenta e cinco minutos. talvez por medo que ela deixasse de o ver como um herói.Será que acabou mesmo!? . a calmaria voltou a rondar a casa quando Sara regressou sã e salva. Quem sabe com o tempo Sara não entendesse? Quem sabe ela não percebesse que nem sempre as relações entre adultos eram fáceis.Não – respondeu ela permitindo que ele se sentasse ao seu lado. A tua mãe não teve culpa de nada! . Só que essa conta estava no nome da tua mãe. – Está tudo destruído. e Madalena foi a primeira pessoa a levantar-se para preparar o pequeno-almoço na cozinha. Ela ama-te muito e é por isso que faz estas coisas só para chamar a tua atenção.

Hoje a mãe está um pouco mal disposta. mas a pouco e pouco. Sara começou a perder as esperanças de encontrar a sua preciosa caixa. e o pior é que ela nada podia para contrariar a decisão da mãe devido ao apoio incondicional que o seu pai lhe ofereceu aquando do castigo. Madalena teria dito alguma coisa ou feito um escândalo. . numa caixa de cartão escondida no fundo do roupeiro. tanto a mãe como a filha encontravam-se tão cansadas de lutar. Sara começou a sentir-se confusa e ansiosa. naquela tarde. Será que tinha sido a mãe? Não. ao contrário de todas as suas expectativas. . Mas quem?! Quem? Desesperou-se. Impaciente também. Desta forma. Como será que ele estava depois dos dois quase terem sido apanhados pela polícia? Será que ele chegou a saber que o condutor do carro que capotou morreu por culpa da irresponsabilidade dos dois? Diante de tantas dúvidas.Nojento ou não. Sara mantinha as suas reservas escondidas a sete chaves.Eu só deitei fora aquela porcaria – respondeu Sérgio largando o seu equipamento fotográfico no chão. o computador. Passou-se uma semana e Sara percebeu que estava de castigo quando lhe foram retirados do quarto.Mãe! Vais-me levar à escola? – perguntou Daniel. que foi completamente impossível para elas trocarem qualquer palavra mais amarga àquela hora da manhã. – Não acredito! As minhas coisas…! Não acredito… A procura desesperada continuou por todo o quarto. . Sara escolheu uma cadeira à mesa para se sentar e Madalena voltou-se de frente para o lava-loiça.. Alguém a havia tirado dali. também não estava autorizada a sair de casa e muito menos a comunicar-se com qualquer pessoa através do telefone. pois as horas custavam a passar e o seu vício aflorava-se a cada minuto.Cereais – respondeu Sara baixando o rosto. . Mas tal como qualquer outro dependente. E assim. Contudo. Contudo. . principalmente para uma rapariga da tua idade. – Eu quero a minha caixa – foram as primeiras palavras de Sara assim que o fotógrafo chegou da rua e a encontrou sozinha em casa. Prisioneira talvez fosse a palavra que melhor a definiria durante três semanas.Sabes sim! Foste tu que andaste a mexer nas minhas coisas! Roubaste-me a caixa. Eram passados a meditar em todas as coisas de errado que fez e também em Marco. Só podia ser outra pessoa. Claro. uma caixa a qual só ela tinha acesso e que muitas vezes lhe trazia o prazer que não conseguia alcançar com indivíduos do sexo oposto. era meu e tu não tens o direito de mexer em nada do que é meu! . 132 .Mais ou menos. – Eu levo-te. Começou a pensar em sexo e na falta que aquele acto que costumava praticar todos os dias lhe fazia. .Eu não sei do que é que estás a falar. Sexo. os seus olhares se desviaram. a caixa não se encontrava mais lá. . . As últimas palavras do fotógrafo coincidiram com a chegada de Sara à cozinha e também com o constrangimento de Madalena ao vê-la diante de si. Com certeza.Não acredito nisto… – foram as palavras que ela murmurou enquanto os olhos e as mãos reviravam todo o roupeiro. o leitor de CD e a televisão. ela percebeu. os dias eram passados no interior de um quarto completamente desprovido de tecnologia. – Aquilo era nojento. O Sérgio. Para além disso. Dani – respondeu Sérgio servindo-se de uma chávena de café.Um dia vais-me agradecer. – O que é que queres comer? – saiu-lhe essa pergunta a muito custo. envergonhada.

não é?! . Nem a mãe e muito menos o pai.Então não me deixas outra escolha – disse Sérgio alcançando o corrimão das escadas.Eu nunca vou fazer isso.Ou será que estás tão obcecada por sexo que a simples ideia de te veres sem a tua caixa te deixa assim?! Sara calou-se. mas porque quer?! .Eu odeio-te! . e ela. Fizeram com que cometesse loucuras atrás de loucuras. 133 .Cala-te – afirmou Sara recuando dois passos. – Precisas tratar-te e eu estou a falar a sério. . Podes muito bem viver sem isso ou não?! . uma curiosidade. A mãe nunca iria compreender as razões que a levavam a querer sexo tanto quanto um ser humano desejava ar para respirar.Já pensaste no desgosto da tua mãe quando ela descobrir a verdade? Quando ela descobrir que a filha dela se anda a prostituir. O prazo que Sérgio dera a Sara para contar a verdade a Madalena esgotou-se. Nunca iria contar.E como não já não consegues sair de casa. Aliás. Sara sabia que ele existia e que a pouco e pouco já havia controlado toda a sua vida. Pensando melhor. não porque precisa. A verdade nua e crua da qual Sara não podia escapar e que infelizmente lhe foi jogada à cara pela pessoa que mais odiava no mundo. – E tu também sabes. eu consigo ver as coisas do lado de fora e podes crer que não precisei de muito esforço para juntar todas as peças deste puzzle. Sabia também que esses sintomas começaram meses antes quando descobriu a pornografia em casa do pai.Não! Eu queria que fosses tu contar. . . não por dinheiro.Eu nunca te vou agradecer por nada – gritou Sara. desesperou-se. o sexo é a tua droga. Sara decidiu que não iria contar. – Vais contar à minha mãe? – perguntou ela. Só que ao contrário dos teus pais. talvez Sérgio tivesse razão. essa brincadeira e essa curiosidade apossaram-se não só da sua mente como também do seu corpo. .Isso não é da tua conta. .Escuta! Porque é que estás tão irritada? Eram só alguns filmes pornográficos. A príncipio tentou levá-la como uma simples brincadeira. tal como um toxicodependente é dependente de droga. Passaram-se cinco dias e o círculo estava pouco e pouco a fechar-se.. estás a começar a entrar em ressaca. vibradores e outras coisas. . raivosa. – Tu estás doente. E precisas também deixar de te prostituir… . Nunca ninguém iria saber da sua doença e ela passaria despercebida aos olhos de todos até o final dos seus dias. que se deitasse com inúmeros homens e que vendesse o seu corpo. . Tu és dependente de sexo. Mas sim. o sentimento de repulsa que todos iriam sentir de si quando soubessem a verdade.Cala-te! Tu não sabes o que dizes… .Eu sei muito bem o que estou a dizer – respondeu Sérgio enfrentando-lhe os olhos raivosos. . mas em muito pouco tempo. que já não sabia o que fazer.Cala-te – gritou ela completamente descontrolada. já não tens a tua caixa. Sara – disse Sérgio incendiando-lhe o olhar.Tu és ninfomaníaca. mas por um prazer que queria ver saciado. Apesar de nunca ter encontrado a verdadeira definição para o seu desejo sexual compulsivo. Ali estava. daí a vergonha. Por isso.

Estas foram as últimas palavras de Madalena antes de sair da casa de banho levando consigo várias roupas nas mãos e também a certeza de que assim que se despachasse da tarefa enfadonha de as colocar na máquina.Podes deixar. . . Nada pôde exemplificar o terror sentido por Sérgio quando ele percebeu que a pessoa que tinha acabado de entrar na cabina não era Madalena.Tens alguma roupa branca para lavar? – perguntou Madalena enquanto Sérgio se preparava para tomar um duche na casa de banho.Eu?! Louca? Claro que não! Só te queria fazer uma surpresa. completamente desnuda. Mas os gritos de Sara para se tentar livrar dos braços do fotógrafo não tardaram a ecoar por toda a casa. – Foste rápida… . . E sim. veste-me esse roupão agora! . foram as palavras de Sérgio enquanto enfiava a filha da sua namorada no robe que ela havia retirado minutos antes de o surpreender no banho. Cada vez que se encontravam nos corredores. Conta.Sara. .Não – respondeu ela com um sorriso maléfico que o irritou de imediato. iria correr para os braços de Sérgio e presenteálo com um final de tarde no mínimo inesquecível. Ali estava a filha da sua namorada. com olhos de quem o queria comer e sem qualquer pingo de remorso por ter cometido um acto no mínimo insano. pois a presença de Sérgio em sua casa lembrava-lhe que estava entre a espada e parede. . Mas ela não contou e essa ideia nem sequer lhe passou pela cabeça. Conta. . sendo que quando isso aconteceu.exclamou Sérgio abrindo um sorriso de orelha e orelha quando sentiu dois braços à volta da sua cintura. cozinha ou até mesmo na sala. mas sim Sara. – Estás louca? .Mas seriam as coisas assim tão simples? No fundo. Com a pressão da água a cair sobre o polibã.Não te demores.Vê lá se não te demoras muito! Prometeste que me irias fazer companhia no banho.Só esta camisola – respondeu ele tirando-a do corpo. A única coisa que sabia era que teria que afastar Sérgio da sua vida de uma vez por todas e consequentemente todas as ameaças que ele fazia questão de lhe incutir. .Já disse que não.Veste-te – ordenou ele entregando-lhe o robe caído sobre o tapete. nas escadas. foi impossível ouvir o barulho do robe a cair sobre o tapete. os passos lentos e quase silenciosos de um corpo esbelto e a abertura da cabina pelas suas mãos delicadas. Madalena voou em direcção ao 134 . .Pois fui – respondeu uma voz angelical que o fez gelar dos pés à cabeça. O desejo parecia ser recíproco quando Sérgio abriu o chuveiro da cabina e se enfiou lá para dentro sentindo os primeiros pingos de água quente caírem-lhe sobre o rosto e o corpo desnudo. – O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Sérgio abandonando a cabina e encontrando uma toalha com a qual se pudesse tapar. a porta da casa de banho sofreu uma ligeira pressão e abriu-se sem que ele se apercebesse disso.É só me despachar da máquina que venho a correr – respondeu ela cedendo-lhe um longo beijo nos lábios. era como se o fotógrafo lhe lançasse olhares fulminantes com mensagens claras e peremptórias: Conta. Aquilo já tinha passado todas as marcas. . . Nessa altura. ela tinha consciência que não.Dá-ma! Vou pô-la na máquina. .

Eu nunca tive nada com a tua filha. mas tu disseste que isso não te importava. ela também e eu estava a tentar a… . Eu era só uma criança e tu sabias muito bem disso quando me obrigaste a ir várias vezes para a cama contigo… .Então explica! Explica porque eu não estou a perceber. mas tu não me quiseste ouvir. disse que não podia ter nada contigo porque era o namorado da minha mãe. .Eu é que não queria ter nada a ver contigo – interrompeu Sara compondo-se no seu roupão.O que é isto?! – repetiu Madalena.Isso não é verdade.Porque é que não contas à minha mãe? Porque é que não lhe contas que me andas a assediar desde que nos conhecemos?! . incrédula. . Acho que deve ter sido por engano. No fundo querias ficar com as duas. .Eu disse-te para não te meteres no meu caminho. Mãe. tu achas que a minha mãe vai acreditar numa coisa dessas? – interrompeu Sara para grande espanto e surpresa do fotógrafo. Ela é louca.Eu não sei como é que aconteceu. – O que foi. lembraste?! .Eu posso explicar. o que é que eu posso fazer? 135 . .Eu não tenho estômago para continuar a ouvir isto… – murmurou Madalena abandonando a casa de banho com os olhos rasos de lágrimas.Viste o que acabaste de fazer. Não saias! Ao ouvir as ordens da mãe. – Lena! Tu tens que acreditar em mim. não é nada disso que estás a pensar… . . . . no interior daquela casa de banho. – O que vem a ser isto? – murmurou Madalena sentindo-se quase sem ar para respirar quando encontrou o namorado e a filha completamente atracados na casa de banho. mas …eu estava a tomar banho e de repente a Sara entrou na cabina. .Lena. – Porque é que não lhe contas a verdade? . E a verdade é que o mesmo se estava a passar com Madalena. que ali. ela chamava com todas as forças. não é – respondeu Sara enfrentando o olhar confuso de Sérgio. Eu assustei-me.segundo piso pronta a inteirar-se do que se estava a passar. – Eu nunca tive nada contigo.Essa é a verdade. – A verdade é que tu me chamaste para vir ter contigo. Foi por isso que resolveste morar cá em casa. . minha louca? – disse Sérgio agarrando o braço de Sara com força.Isso não é verdade – vociferou Sérgio voltando-se para ela. – Tu é que me obrigaste! Eu bem tentei fugir. . tal como se estivesse a ser espancada ou violentada por alguém. sentiu como se o mundo tivesse acabado de desabar sobre os seus ombros. – Mas fica aí no teu quarto.Não. .Eu era uma criança até tu teres feito o que fizeste. Daniel tornou a encostar a porta e ignorou os gritos de Sara que a cada minuto tornavam-se mais agudos e intensos.Sérgio. mãe? – perguntou Daniel surpreendendo a sua progenitora no corredor. .respondeu Sérgio largando os braços de Sara e deixando-a quase semi-nua sobre a sanita.Eu nunca te assediei – vociferou Sérgio sentindo-se prestes a perder a sua sanidade mental.Não sei – respondeu ela. Tu não passas de uma criança… .

tu não podes acreditar naquilo que a Sara disse! Eu nunca tive nada com ela e nem nunca seria capaz de a tocar. Dois minutos depois. .Lena. – Eu não sei nada sobre ti e hoje cheguei a essa conclusão.murmurou ele tentando alcançar-lhe os ombros com as mãos. acho que já vai ser tarde demais… Da janela do quarto.…tens razão – concordou Sérgio baixando o rosto. .Há quanto tempo? Nove. ou algo semelhante. – Tu conheces-me! .Não adiantava nada continuar a trocar palavras vãs e dementes com uma rapariga também ela vã e demente. . . de costas voltadas e completamente imóvel. . por favor – disse Madalena sentindo-se completamente morta por dentro. tão… apaixonada que não ouvi o que as outras pessoas me disseram. Acho que estava tão cega. Viu as suas mãos fecharem o porta-bagagem com força e mais tarde a sua entrada no banco da frente. Era uma dor que parecia ter-selhe entranhado por todo o corpo. e quando isso aconteceu.murmurou Sérgio. o que é que eu sei sobre ti!? . ela agarrou-se ao edredão numa tentativa desesperada de acalmar a dor que estava a sentir. A almofada sobre a cama não precisou de muito tempo para ficar totalmente encharcada com as lágrimas de Madalena. dez meses… Sérgio manteve-se calado.Põe-te no meu lugar! Em quem acreditarias? No teu namorado que só conheces há poucos meses ou na tua filha que já conheces há dezasseis anos? . Por isso.Não me toques – foi a resposta que o fez recuar dois passos. Não por não teres acreditado em mim. Tu sabes disso. mas sim por não veres algo que está mesmo à frente do teu nariz! Mas quando perceberes esse erro. Como se pôde enganar tanto com elas? Como é que pôde acreditar nelas e entregar a Sérgio tudo o que de melhor possuía dentro de si? 136 . Uma dimensão a qual só ela tinha acesso e que Sérgio não sabia se poderia entrar.Porque vendo bem.Tu não acreditas em mim. Parecia ter sido atingida por um raio. Tal como esperava.Como assim? O que é que estás para aí a dizer? . encontrou-a em frente à janela. incrédulo.Vai-te embora. mas… um dia vais perceber que cometeste um grande erro. . sem tempo a perder. .Será que eu sei? – perguntou Madalena voltando-se para ele com uma expressão mortificada. – Lena… . Pus um perfeito desconhecido dentro da minha casa. e parecia também ter entrado numa dimensão só dela. – Eu não mereço que acredites em mim. o veículo arrancou e a rua tornou a ficar deserta. que a deixava quase sem ar para respirar e que a matava por dentro a cada minuto que se lembrava das palavras de amor que Sérgio tantas vezes lhe sussurrou aos ouvidos. Sara observou os movimentos de Sérgio a enfiar as suas malas no carro. a conviver com os meus filhos e nem foi preciso muito tempo para perceber que cometi um grande erro – discursou Madalena com os olhos rasos de lágrimas. ele abandonou a casa de banho ainda enrolado numa toalha e correu ao encontro de Madalena no quarto divido pelos dois. .Eu não te queria dizer isto.Lena…. foi a conclusão a qual Sérgio chegou quando a olhou pela última vez e se deu conta que Sara realmente não conhecia a palavra limite.

Já se passaram três semanas.Deixa-me sozinha – respondeu Madalena com uma voz rouca. O meu castigo já acabou? . o seu corpo e a sua alma a um perfeito desconhecido. Depois disso. – Foi melhor ter-se ido embora! Agora vamos voltar a ser uma família outra vez. Mas por outro lado. Podes fazer o quiseres… Ao ouvir as palavras da mãe. pois o céu e as estrelas pareceram desabar sobre a sua cabeça quando ela o encontrou nos braços da filha naquela maldita casa de banho. – Era por causa disso que eu não gostava dele – ouviuse a voz de Sara sob o alpendre da porta. . que a fez voltar a acreditar no amor e que lhe prometeu o céu e as estrelas apenas em troca de um beijo? Mas não.Talvez devesse ter sido mais cuidadosa em não oferecer o seu coração. Ele que lhe devolveu novamente a alegria de viver. foi a pergunta que Madalena se fez ao limpar as novas lágrimas que teimavam em cair-lhe no rosto. como é que se podia recriminar se tudo o que Sérgio lhe havia dito parecia tão real? Se tudo o que ele fazia parecia tão real. Sem forças para sequer erguer a cabeça. fez-se um silêncio ensurdecedor e Madalena desligou a luz da mesinha de cabeceira ansiando que o comprimido que havia tomado surtisse efeito e a fizesse dormir. . Há quanto tempo aquilo estava a acontecer. 137 . Madalena continuou deitada e fechou os olhos inchados de tanto chorar.Já. Nada disso realmente aconteceu. – E ele também não gostava de ti – continuou a jovem ansiando qualquer reacção por parte da mãe. Sara afastou-se da porta e fechou-a com algum cuidado.

CAPÍTULO VIII Era a primeira vez desde há semanas que Sara podia sair de casa sem a supervisão da mãe ou os constantes telefonemas do pai. . – Diz que não admite dividir a mulher dele com ninguém. Estava animada.Claro.A minha mãe é forte! Ela vai saber esquecer esse Sérgio num estalar de dedos.Pena porquê?! Eu até lhe fiz um favor. .Tu nem sabes o que é que me aconteceu nestas três semanas.Mas diz-me uma coisa – interrompeu Milene acendendo um cigarro e atirando o isqueiro contra a cama. . do acidente que provocaram em plena auto-estrada. não?! . O namorado dela era um otário e estava a um passo de lhe contar que me ando a prostituir. . Para além disso. onde logo à entrada encontrou alguns amigos de longa data. e tal como se era de esperar. O que é que querias que eu fizesse? Ele não me deu outra escolha.Estive de castigo – afirmou Sara entrando com um largo sorriso.E tu vais deixar a vida por causa dele? 138 . o castigo deve ter sido óptimo.Bem. o local escolhido para comemorar a sua liberdade foi o bairro do Intendente.Porquê!? . . e por fim.Coitada da tua mãe! Não tens pena dela? .Às vezes eu acho que tu não és deste planeta. . – Tu e o Marco andam mesmo a namorar ou é só uma brincadeira? . . a reacção dos pais quando regressou a Lisboa. Contou a Milene todos os detalhes do louco fimde-semana que passou ao lado de Marco no Algarve. isso podia notar-se a quilómetros de distância cada vez que acenava a velhos amigos e retomava um quotidiano que já conhecia tão bem.Não me queres contar? E foi o que Sara fez minutos mais tarde. Mas o mais intrigante de tudo era perceber que ela não se tinha arrependido nem um pouco do que fizera. . os seus passos rápidos em direcção a uma pensão que habitualmente frequentava não deixaram dúvidas de que o seu maior desejo era reencontrar uma pessoa que lhe era muito especial. .Tu és louca – foram as palavras que Milene murmurou vezes sem conta. .Ele disse que queria que eu largasse a vida – respondeu Sara com um largo sorriso. – Desaparecida – disse Milene abrindo-lhe a porta do quarto.Posso entrar? . a forma magistral como se livrou da presença do futuro padrasto lá em casa.

levou o pessoal para a esquadra e a gaja nunca mais apareceu por estas bandas. Milene sorriu.Tu só pensas nisso. Pelas minhas qualidades – respondeu Sara arrancando uma ruidosa gargalhada de Milene.Não – riu-se Milene.Porque não!? Se ele quiser. Então um dia. não é?! . 139 . . – Eu gosto dele – continuou Sara.disse Sara atirando-se contra a cama. Foi o maior escândalo. namorado da minha mãe disse que eu era ninfomaníaca! Sabes o que isso é? . – O que foi? Achas piada? . . Procurou um psicólogo e descobriu que era ninfomaníaca.A sério? – riram-se as duas. – Ela pode ter muitos defeitos. . Vinha muitas vezes ao bairro porque dizia que o marido não a conseguia satisfazer na cama.O ex. o marido seguiu-a e apanhou-a numa pensão aqui perto. Cada lembrança dele era um suplício.Tens mesmo a certeza que foi isso que aconteceu? – perguntou Alice quando ela lhe contou a cena grotesca que vira na sua casa de banho. – Mas também gosto de sexo e ele está sempre longe. . Mas há uns meses atrás a Arlete encontrou-a na rua e ela disse-lhe que se tinha curado. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar. . largo mesmo.O que mais pode ter acontecido? .Não passas de uma criança! Ainda tens muito que aprender..Não vês que o gajo só te anda a fazer de otária? Ele anda com todas as gajas que lhe aparecem pela frente ou pensas que um idiota como ele só se contenta com uma miúda de dezasseis anos?! Tu vais largar a vida.A sério! A bófia veio. .Tu acreditas!? . Tinham-se passado três dias desde o término do seu namoro com Sérgio.Tu não acreditas mesmo que ele gosta de mim. Não sejas parva.Não sei. mas não sei se vou conseguir manter a minha promessa.Eu prometi ao Marco que iria deixar de me prostituir. já reparaste?! .Mas só tem um problema… . .Qual? . Porque é que tudo terminou daquela forma tão abrupta? Porque é que uma história de amor que tinha todos os ingredientes para dar certo evaporou-se no ar sem qualquer razão aparente? Por mais justificações que Madalena tentasse encontrar. – Conheci uma gaja que também era assim. . Não sei se vou conseguir ficar um mês sem ir para a cama com ninguém.A Sara não iria inventar uma coisa dessas – respondeu Madalena limpando as últimas lágrimas da tarde.Então acho que se calhar também preciso de um psicólogo. – Precisas é de um colete-de-forças. Que tal a Sara ter mentido!? . Madalena despediu-se dela com um sorriso forçado e voltou a encostar a porta da sua floricultura. . Houve tiros e tudo… . cada minuto era difícil de suportar e a certeza de que nunca mais o voltaria a ver destroçava-lhe o coração.Já ouvi falar – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. nenhuma delas lhe trazia de volta a paz de espírito. mas eu sei que ela não iria mentir sobre uma coisa tão séria.Eu acho que é possível um homem gostar de mim pelo que eu sou. . Atendida que estava a segunda cliente da tarde. mas ele vai continuar com a dele.

E até quando vais continuar a viver nesse inferno? . . .Não sei! Até quando conseguir… – respondeu Madalena encolhendo os ombros. uma.Sabes bem que não posso deixar a Alice a tomar conta da floricultura sozinha. Lena! Não podes deixar que ela assuma o controlo da situação e te faça a vida num inferno. mas principalmente o familiar.Às vezes os pais têm que abandonar os filhos para que eles aprendam a dar-lhes valor.Lena. mulher. Ele não agiu sozinho. cientes de que a filha precisava de um castigo. E também tem a Sara… . . 140 . – Acabou! Agora só quero esquecer essa história e seguir em frente. a verdade é que Jorge não podia ter ficado mais contente pela notícia. eu não posso abandoná-la. . foi a verdade… . e mesmo se a tivesse obrigado a ir para a cama com ele. não custava nada sonhar com essa possibilidade. . mas e a Sara? O que é que vais fazer com ela? . a Sara já não é nenhuma criança de colo. Ela sabia muito bem o que estava a fazer. . – Façam uma boa viagem – disse Madalena observando a animação do filho quando Jorge o foi buscar. privaram-na de qualquer tipo de divertimento que não se cingisse a Lisboa.Bem! Vamos pestinha?! Senão perdemos o voo. .. – Por mais que ela me odeie. É só isso que eu quero.Ele estava a obrigá-la. – Era bom se pudesses vir connosco.Eu vi. não foi um boato. duas ou três vezes. O Verão trouxe novamente consigo os dias de sol e de calor.Mas eu tenho a certeza que tu e o Dani se vão divertir imenso sem mim – afirmou Madalena afagando os cabelos do filho.Eu não sei! Eu não sei se com a Sara não será pior.Sinceramente não sei o que te dizer. . Ela é a minha filha – respondeu Madalena. os seus olhos e a sua expressão facial não mentiam. Agiu nas tuas costas e traiu-te também. Não foi imaginação. e os pais.Como assim?! . por mais que me faça a vida negra. – De qualquer maneira foi só um convite. . ela não te contou nada. Quem sabe ela não voltaria a vê-lo com outros olhos? Quem sabe ela não perceberia que durante meses o seu maior desejo era voltar para casa e para o casamento de ambos? De qualquer maneira.Tudo bem – disse Alice segurando-lhe as mãos frias. deixaram muito a desejar.Não podes deixar que ela continue assim. Sara não teve direito a férias. e embora nunca tivesse sabido o verdadeiro motivo para que Madalena e Sérgio se tivessem separado. mas ao contrário dos anos anteriores. – O Sérgio está fora da tua vida. eu não sei! O Sérgio não parece ser desse tipo… . O seu comportamento escolar. .Lena. Alice! Eu vi com os meus próprios olhos ele a agarrá-la.Obrigado – respondeu o advogado rasgando alguns olhares à ex.Eu sei – disse Jorge segurando malas do filho. Apenas Daniel foi convidado a acompanhar o pai numas pequenas férias a Madrid.E o que é que queres que eu faça!? Eu não posso pô-la para fora de casa tal como fiz com o Sérgio. deixa-me que te diga que ela também foi. desesperada. apesar de não quereres aceitar a realidade. será que não entendes?! . algo que ele aceitou de bom grado.Não digas nada – respondeu Madalena assoando-se com um lenço de papel. Se o Sérgio foi culpado por tudo aquilo que aconteceu. . Ainda estava triste.

Sozinha. Assim sendo. – Ai estás aqui. . . – Ela está lá dentro com a Milene. e essa certeza tornou-se incontornável quando pela primeira vez a filha passou a noite fora de casa. – Animal – gritou ela voltando-se para Marco. uma das prostitutas mais antigas do bairro. ela desistiu de tal coisa. assim como a cólera que se apossou dos seus olhos. Iria passar duas semanas com Sara na mesma casa. Sem ninguém para a amparar e sem certezas do comportamento da filha que a cada semana piorava gradualmente. um dos delinquentes mais temidos do bairro. quase sempre ao príncipio da noite. enquanto no chão. Arlete – respondeu ele empurrando-o contra a porta do bar. Nas primeiras vezes. Não valia a pena pois Sara chegava a casa cada vez mais tarde e também recusava-se a passar os fins-de-semana com o pai desde que soube que fora ele o responsável pelo término da família. Madalena tentou impor horários rígidos e perguntou sempre para onde ela tinha ido.O.Tens quase idade para ser minha avó.k! Boa viagem. encontrar a visão de Sara sentada na mesma mesa que Milene e outros dois homens desconhecidos foi inevitável. .O. mas com o passar do tempo e com a perca de forças. raras eram as vezes que Sara parava em casa. Sabes bem que as duas não se largam. puto! Tenho quase idade para ser a tua mãe. depois de se ter desviado de várias pessoas e retirado algumas cadeiras da sua frente. e quando voltava. Madalena fechou a porta e lançou um longo suspiro. Depois de um breve aceno e de se ter assegurado que o carro do ex. queres tu dizer! Diz lá! Aonde é que a Sara se meteu? . fugia para o quarto sem dar quaisquer explicações acerca do seu desaparecimento. – Até que enfim apareces por estes lados… .Tem calma – respondeu Arlete assustando-se com a agressividade do jovem.Tchau. 141 .Marco – exclamou Sara surpresa por o ver ali. – Tchau.Está bem. ao ver à sua frente a figura de Marco. mãe! . Duas semanas. Milene apressou-se a socorrer a sua amiga temendo que Sara tivesse desmaiado com o impacto do golpe. vários homens que se encontravam no bar insurgiram-se a Marco por aquele acto de violência no mínimo gratuito.k – respondeu Daniel despedindo-se da mãe com um longo abraço seguido de um beijo na face. Nessa altura. A resposta da prostituta trouxe a Marco o ímpeto que ele precisava para entrar no bar sem quaisquer cerimónias.Olha quem é ele – exclamou Arlete. . – Ligamos assim que chegarmos ao hotel. minha puta?! . não havia absolutamente nada que Madalena pudesse fazer para voltar a controlá-la. marido partira sem deixar rastro.A tua namoradinha é?! .Hei! Vê lá.Porta-te bem! Não faças asneiras e obedece ao teu pai. De férias.Diz antes que eu perca a minha paciência… . Lena – disse Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. – Não estavas no Algarve? A resposta do jovem foi dada com um valente soco no estômago que a fez cair e derrubar uma cadeira das inúmeras cadeiras colocadas em frente ao balcão.Sai-me da frente. . Depois disso. ..

– Ainda temos muito que conversar. Mesmo tendo prometido que iria ser só sua. . minha cabra! Ou achas que ninguém vai contar que andas a chular uma miúda de dezasseis anos? . pois os seus cinquenta e dois anos de vida deram-lhe a sabedoria necessária para saber que com homens como Marco não era permitido brincar. – Agora ela vai apanhar e bem que é para aprender a não meter cornos num traficante de droga. Sem que ninguém o impedisse. Se ela morrer. . abre as pernas e tu ficas com metade dos lucros dela. A única coisa que merecia era o seu desprezo e também a sua ira. Ou ainda achas que isso não é chular? Fica quietinha mais é que é para não sobrar para ti.Cala-te! Só dizes merda tu… – respondeu Milene encontrando a sua mala sobre a mesa. nem sequer a remota possibilidade de ser apanhado por alguns dos seus inimigos ou então pela polícia.Eu não ando a chular ninguém – afirmou Milene não se deixando intimidar pelas palavras de Marco. logo ele que constantemente lhe enviava jóias e dinheiro através do correio. Marco levou Sara pelo braço e deixou todos os presentes estupefactos com a cena que tinham acabado de assistir. Mas não te esqueças de uma coisa. eu chamo a polícia! . ele regressou propositadamente a Lisboa para tirar a história a limpo. Num beco escuro do bairro. lembraste?! Partiu-te toda há uns tempos atrás e vai acabar por fazer o mesmo com essa pobre coitada.Não a vais levar daqui – adiantou-se Milene puxando a amiga contra si. – Vaca – exclamou ele encostando-lhe o rosto à parede. Nessa altura. a culpa é tua! Arlete não podia estar mais segura das suas palavras. Na verdade.. Tu. – Pensavas o quê?! Que eu não ia descobrir nada? Que não ia saber que me andavas a meter os cornos com outros? Pois fica sabendo que aqui dentro deste bairro eu tenho informações diárias. Se chamares.Sim. Sei tudo o que se passa… 142 . .Queres uma aposta como vou? . traiu-o e fê-lo sentir-se a chacota do bairro.Eu?! . não tinha nada a perder e há muito que deixara de conhecer palavras como: compaixão. tudo o que ele queria era extravasar o ódio que sentiu quando lhe foi informado que Sara continuava a prostituir-se com qualquer homem que lhe aparecesse à frente. E ao saber dessa verdade irrefutável. a primeira a ir em cana és tu… . Ele não conhecia limites.Levanta-te daí. – Chama a bófia que eu tenho a certeza que todo o pessoal que está aqui vai adorar. enquanto pontapeava e soqueava Sara. . perdão e humanidade.Ai chamas a polícia?! Então chama que eu quero ver – respondeu Marco enfrentando a fúria da prostituta. Milene mordeu os lábios e sentiu o sangue fervilhar-lhe nas veias por não ter tido a coragem de livrar a melhor amiga das garras daquele homem tão perigoso.Andas a chular sim que eu sei! A miúda trabalha. – Eu avisei-te para afastares a Sara daqui – afirmou Arlete compondo o decote do seu vestido. Sara enganou-o. nada lhe pareceu importar. Sara – exclamou ele alcançando-lhe os braços e fazendo-a levantar-se do chão quase à força.Se levares.Ai eu é que digo merda!? Tu melhor do que ninguém sabe do que esse Marco é capaz. . Mas ela não merecia nenhuma dessas jóias e muito menos esse dinheiro.

– Andas a gozar com a minha cara. Ela estava realmente a rir-se e aquilo não era uma alucinação sua.O que é que queres que eu faça? . Ouviste!? . mas no entanto era o único que a fazia sentir-se genuinamente desejada e especial. mas nos olhos. Conseguido esse milagre. 143 . as noites e a quem dedicava todos os seus sentimentos mais profundos.Não – respondeu ela voltando-se para ele completamente marcada nos braços e nas pernas.E gosto mesmo! Mas só gosto de apanhar de ti. .Não sei como é que consegues aguentar uma situação dessas – foram as palavras de Alice quando Madalena lhe contou que mais uma vez a filha não tinha dormido em casa. os abraços e o toque das suas mãos foram muito mais marcantes do que os murros e os pontapés que ele lhe ofereceu. . Não. Não queria explicar a Madalena onde tinha passado as últimas dezasseis horas. – Só gostei de saber que tens ciúmes de mim. Tinha adormecido cansada de tanto esperar. – A partir de hoje só apanhas de mim. Ele podia espancá-la à vontade pois nem mesmo isso iria mudar aquilo que ela sentia por ele. – Faz qualquer coisa.Então fica assim combinado – respondeu Marco segurando-lhe o queixo com força. com quem e muito menos a fazer o quê.Ouvi – respondeu Sara entregando-se de corpo e alma a um homem que minutos antes a havia espancado brutalmente.Já vi que és daquelas que gosta de apanhar.Ouviste?! . . que se lixasse tudo o resto. ela sabia-o. Era com ele que ela sonhava todas as horas. . surpreendentemente ou não. encontrava-se deitada no sofá da sala tapada com um pequeno cobertor. No corpo ainda trazia as marcas deixadas por Marco. era com ele que ela desejava passar os dias. foi a pergunta que Marco se fez quando ouviu um ligeiro risinho proveniente da boca de Sara. mas nem isso a demoveu do intuito de chegar ao quarto e trancar-se a sete chaves. a jovem adormeceu e só acordou às duas da tarde com a agradável surpresa de que a sua mãe tinha saído para trabalhar apenas deixando um bilhete sobre a mesa da cozinha: “ Tens o almoço no forno”. pois tinha nódoas no corpo que podiam comprovar essa teoria. Sara percebeu.O. Ainda pensou estar enganado. pois na altura a única coisa que queria era cair na cama e esquecer-se de todos os acontecimentos menos felizes que rodearam a sua noite. . . Mas nem isso pareceu importar quando ele a tomou nos braços e fê-la sentir-se nas nuvens.O problema é mesmo esse! Ela sente que tu estás a perder as forças e vai ficando cada vez pior. .Sei lá! Enfia-a num colégio interno – respondeu Alice terminando os arranjos de margaridas sobre a bancada da floricultura.k. mas não. sua cabra?! . a certeza que tinha passado a noite inteira em bebedeiras e outros actos menos lícitos. Marco podia não ser o homem mais romântico do mundo. Assim sendo.Impressão sua ou ela estava a rir-se. . Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara abriu a porta de casa. Os beijos. Foram esses os motivos que a fizeram caminhar pé ante pé pelo corredor e fazer todos os possíveis para não acordar a mãe que.Já estou a perder as forças.

Pareciam antes ter sido feitas por alguém e propositadamente.Eu sei – respondeu Madalena passando as mãos pelos cabelos. eu juro que já vou ficar satisfeita. Sara disse a Madalena que havia sido ela a destruir a sua vida e a possibilidade de ter uma família normal. Embora não tivesse ficado minimamente convencida com aquela desculpa esfarrapada. Caí nas escadas rolantes. Aos poucos e poucos. – Já briguei. Madalena tornou a levar uma colher de sopa à boca e sem querer lançou os olhos ao braço da filha. as duas afastaram-se.Ainda – respondeu Madalena caminhando em direcção à sua secretária. Por sorte.O Jorge!? Achas mesmo que eu posso contar com ele? . 144 . – Ele é o pai.Eu tenho pena de ti. .Essa nódoa – respondeu Madalena tentando alcançar-lhe o pulso. Sempre a quis proteger.Acho que já nem ao pai ela respeita! Desde que ele lhe contou a razão do nosso divórcio ela nunca mais quis passar o fim-de-semana com ele.Mais cedo ou mais tarde ela iria ter que saber a verdade. sempre fiz de tudo para que ela não descobrisse o sacana que o pai dela era. . – Mas se me der só metade do trabalho que a Sara me está a dar. embora a camisola de Sara estivesse estrategicamente colocada para os tapar. . castiguei. não é? Pelo menos a ele a Sara deve ter algum respeito. O que teria mudado tanto? Meses antes.O Jorge? O que é que ele tem a dizer sobre isto tudo? . já que havia pelo menos cinco dias que mãe e filha não trocavam qualquer palavra no interior daquela casa. . e agora olha só no que é que deu?! . – O que é que tens aí no braço? .. deixaram de ter interesses comuns e viam na outra a encarnação do pior pesadelo.Ontem quando estava a correr para apanhar o metro. mas não estaria também ela a destruir a vida da mãe e a impedir-lhe de ter uma família normal? Enquanto pensava no assunto.No braço. . o coração de Madalena disparou de medo. mas ela simplesmente não me houve.Caíste aonde!? . . E só de imaginar essa ideia. bati. Simples bons dias e boas noites não contavam para aquilo a que se poderia chamar de uma conversa interessante. . . O jantar foi silencioso e não constituiu qualquer surpresa para Madalena e Sara.Depende! Olha que o Daniel não te dá trabalho nenhum.Tu é que fizeste bem em não ter filhos – disse Madalena arrancando-lhe uma leve risada. desesperada. fiz tudo o que estava ao meu alcance. E não. o quê?! .A quem o dizes.Filho criado trabalho redobrado. minha amiga! Realmente não gostava de estar na tua pele. Madalena achou por bem não levantar mais questões. . As marcas no corpo de Sara não pareciam ser fruto de uma simples queda nas escadas rolantes.Devias – respondeu Alice furiosamente. já proibi. Mas a verdade é que pela primeira vez os seus sentidos gritaram-lhe para estar alerta e para não ignorar as evidências. Subitamente pareceu-lhe ver uma nódoa negra e um pequeno arranhão. Sara desviou-se a tempo dizendo: – Caí. – E talvez a culpa tenha sido minha. .Então o que é que eu faço? Diz-me porque eu já não sei – discursou Madalena largando os braços.

. Estava mais magra. Foi uma pena tu e a Sara não nos terem acompanhado.Eu e o Daniel divertimo-nos imenso.Está bem. conhecemos o estádio Santiago Bernabéu… . Jorge e Daniel regressaram de férias trazendo consigo caras felizes e também vários presentes. . .k! Então eu deixo os presentes e depois entregas. . mulher uma certa hesitação. . . . demos uma escapadela a Barcelona. Do Real Madrid.Hã… claro – respondeu Madalena forçando um sorriso. . .Estás mais magra – ele não resistiu a fazer essa observação.Ela não está em casa? Gostava de falar com ela e entregar-lhe os presentes. . mas ainda assim ele manteve essa impressão guardada a sete chaves para não ser inconveniente. Claro que tenho. .Ainda bem então.E tu? Como é que estás? . .Lá isso é verdade. não sei – respondeu Madalena cruzando os braços. .Dois dias mais tarde. . – Como é que estão as coisas por aqui? . .Acompanhas-me à porta?! Madalena acenou que sim e em seguida conduziu-o em direcção à saída. . animado. E a última.Tenho. 145 . . mas mesmo assim não consegui resistir.discursou Jorge.Muita praia! Visitámos monumentos.Tens a certeza? – perguntou Jorge encontrando na voz da ex.Eu sei que o futebol nunca foi o teu forte. sabendo bem que havia sido o ex. – Estou na mesma.…portou-se bem. . não é que ela mereça.É um estádio de futebol.Claro.Ai é?! Fizeram o quê? . .A Sara? Como é que ela se portou nestas semanas? . O Dani depois mostra-te.Deve ter saído com amigas.Estou óptima. marido o principal impulsionador de todas aquelas compras.Bem – mentiu Madalena depositando os presentes sobre o sofá. Pode ser que aos poucos e poucos ela comece a entrar nos eixos. .Está bem. museus.O. . .A Sara não está em casa.E esse estádio é…?! . . Assistimos a um treino e no final até conseguimos autógrafos de alguns jogadores. Tenho uma audiência que adiei e que agora não posso faltar.Impressão tua – respondeu ela compondo-se na sua camisola azul.Não?! Aonde é que ela foi? .Esperemos bem que sim. .Bem. agradeceu-lhe com um sorriso e permitiu que ele a acompanhasse em direcção à sala. Jorge reparou enquanto a seguia pelo corredor.Mas o Daniel estava ansioso para conhecer. quase todos oferecidos a Madalena. Quer dizer. eu já vou indo! Ainda tenho que organizar algumas papeladas para amanhã. E hã.

Infelizmente Jorge não conseguiu encontrar essa mulher. E tu também devias começar a fazer… . não havia muitas pessoas para realizar exames e Milene foi a primeira a ser chamada pela assistente de serviço. agradeceu a passagem cedida pela assistente 146 . não lhe restou outra alternativa a não ser afastar-se da porta e deixá-la especada sobre o alpendre. à urina… ao HIV. na saúde e na doença. e essa certeza era de que não havia a mais remota possibilidade de ela o aceitar de volta. mas ultimamente tenho sentido muitas saudades tuas… . Assim sendo.Exames de quê?! .Oras! Para saber se está tudo bem – respondeu a prostituta calçando as suas sandálias sentada na cama. . Preencheram as fichas oferecidas pela recepcionista e mais tarde escolheram duas cadeiras discretas para se sentarem. algo que fez assim que saltou da cama e se trancou na casa de banho. e tentou encontrar nela toda a doçura e inocência que ela detinha quando se casaram e prometeram diante do altar amarem-se.Lena… . Depois disso.Nessa altura. Milene revirou os olhos e lançou um pesado suspiro.Para quê?! . – Tenho sempre que fazer tudo por ti. Jorge arranjou forças para abrir a porta e também para dizer algo que já havia ensaiado várias vezes durante as duas semanas que passou em Madrid: . Sara e Milene deram entrada na clínica onde a última costumava fazer exames periódicos.Não Jorge… .Marca no mesmo dia. .Não me podes marcar os exames?! Ao ouvir o pedido de Sara. fosse na pobreza. Morreu ao longo dos dezasseis anos de casamento que mantiveram. Nunca se havia sentido tão mal em toda a sua vida e nem sabia sequer o que teria causado tamanha indisposição. pois ela já não existia. já reparaste?! . Mas não. mas… eu ainda acho que existe uma possibilidade de voltarmos a ser uma família outra vez. dos miúdos. na riqueza. da nossa casa… . – Marquei uns exames para a semana – disse-lhe Milene ainda naquela tarde. – Faço sempre esses exames de seis em seis meses para não ter nenhuma surpresa desagradável. Na semana seguinte. Eu vou contigo.Esta casa já não é tua – respondeu ela calando-lhe os argumentos. Por sorte. ao sangue. Tenho sentido muita falta de ti. Sara acordou mal disposta. naquela tarde. Jorge! Vai! A expressão dura da ex. Talvez alguma coisa que comera na noite anterior? Ou seria antes a ressaca por ter bebido duas garrafas de whisky numa festa? Sem conseguir resposta às suas perguntas. o estômago apertado e uma vontade descomunal de vomitar.Podes não acreditar. Sem cerimónias. voltou ao quarto e respirou fundo sentindo-se grata por ter conseguido sobreviver àquela autêntica prova de fogo. a jovem puxou o autoclismo e manteve-se inerte no chão durante vários minutos.Eu sei que tens todas as razões para não acreditares no que te estou a dizer. Fazemos os exames juntas! E assim foi.Por favor. Na primeira manhã de Agosto. respeitarem-se e nunca se abandonarem. provavelmente no teu lugar também não acreditaria. Raios.foi a resposta desesperada de Madalena. . mulher apenas trouxe uma certeza a Jorge.Exames ginecológicos. Depois disso. Olhou-a mais uma vez. ela despediu-se de Sara e entregou-lhe os seus pertences para que os vigiasse. foi inevitável. Tinha a cabeça à roda. .

Escuta aqui – exclamou Milene apontando-lhe o dedo ao rosto. Quinze horas e trinta e cinco minutos.Não! Ao contrário de certas malucas que andam para aí.Sr. .ª Sara Albuquerque!? – chamou a assistente do corredor.Nem que tivesse sido só uma vez e muito menos com o Marco. Sara conseguiu desaparecer do consultório com a clara certeza que não voltaria ali a pôr os pés tão cedo. pensou. – Aquele médico era um otário – resmungou a jovem à saída da clínica.Vai – ordenou Milene empurrando a jovem pelas costas quando lhe pressentiu algum nervosismo.E o que é que tu respondeste? . . . – Quer dizer… às vezes com o Marco esqueço-me… . – Então?! Como é que foi? – perguntou ela assim que Milene pisou a sala de espera.Só deves ter medo se não te cuidares.Pois eu tenho medo. . O silêncio de Sara deixou Milene alerta. por favor! .Venha comigo. nunca! Nem em sonhos! . eu cuido-me bem.Que eles até me tinham aconselhado a fazê-lo – respondeu Sara às gargalhadas. Sara sentiu-se incomodada.Coitado do velho! Deve ter ficado com os cabelos em pé quando lhe disseste isso. Sem preservativo. fazer coisas estúpidas só para provar que és a maior e que ninguém pode contigo. . . mas psicologicamente. enquanto ouvia os sermões do médico de serviço acerca da sua conduta sexual não muito aconselhável e da sua tenra idade para realizar exames como àquele (HIV). – Não custa nada.É claro que não – respondeu Sara desviando-se bruscamente.Mas porque é que temos que esperar oito dias até os exames ficarem prontos? . Mas não contes comigo para te amparar em todas 147 . – Olha lá – exclamou ela segurando-lhe o braço com força.Tem calma! Eu disse que é só às vezes e é só com o Marco. .Sei lá – respondeu Milene acendendo um cigarro assim que viraram a esquina. . – És parva ou fazes-te?! . e por sorte. pá – gritou Milene chamando a atenção de algumas pessoas que iam a passar na rua. pensou. – Tu não me digas que tens andado a trabalhar sem preservativo? . . disse-lhes a recepcionista.Perguntou-me se os meus pais sabiam que eu tinha vindo fazer um teste de HIV… .O que é que querias que ele te dissesse? É claro que te iria pregar um sermão.e desapareceu com ela pelos corredores da clínica. Por sorte. . .Sou eu – respondeu Sara saltando da cadeira.Tem calma… . – Se estiveres numa de estragar a tua vida. Podem vir buscar os exames daqui a oito dias. Porque é que ele não se cala.Normal! O de sempre – respondeu a prostituta vestindo o casaco às pressas.Não tens medo dos resultados? . . deixando Sara a olhar para o relógio pendurado na parede. Fisicamente não custou. Só espero que isto não demore. por mim estou-me a lixar. os exames não demoraram a ser feitos.Porra. – É sempre assim.

as tuas merdas porque eu já não tenho idade para isso. mas também por levar uma vida desregrada cheia de más companhias e outras histórias escabrosas para contar. Por fim. Sara hesitou. 148 . Recebidos que estavam os exames. .Milene… Tarde demais foi o que Sara percebeu quando ao chamá-la pela última vez Milene pura e simplesmente desapareceu sem deixar rastro. Se ao menos as pessoas fizessem a mínima ideia de como ela se estava a sentir miserável. .O que foi?! Tenho Sida? . Mais uma vez. Agora já não há como voltar atrás. – Ainda estás chateada comigo? . E se estivesse doente? E se tivesse apanhado o HIV? Eram as perguntas que lhe assombravam os pensamentos todas as horas do dia. Por momentos.Não consegui parar de pensar no resultado dos exames! Estou a morrer de medo.Pensasses nisso antes de te teres armado em parva.Não! Pior! Estás grávida. extenuantes e stressantes. Um no nome de Milene dos Santos e o outro de Sara Soares Albuquerque. nem paciência também! . começou a sentir a sua cabeça a andar à roda. – Dá-me cá esta merda – disse Milene arrancando-lhe o exame das mãos. – Quer dizer. mas principalmente para Sara. as pessoas na rua pareceram-lhe desfocadas e as suas mãos suaram como se estivessem a ser encharcadas por uma torneira aberta. e se queres saber. tanto para Milene. Mas ninguém parecia estar minimamente preocupado consigo e também já não havia como voltar atrás. agora para outras… Os momentos que se seguiram foram expectantes. – Estás lixada – exclamou Milene aproximando-se dela. Nessa altura. lembraste?! . As palavras de Milene permaneceram nos ouvidos de Sara quando ambas entraram na clínica onde estavam depositados os exames. as duas amigas dirigiram-se à recepcionista e aguardaram que ela procurasse nos arquivos dois grandes envelopes castanhos. Não houve uma única noite em que Sara tivesse conseguido pregar os olhos enquanto esperava pelo resultado das análises.Não! E tu? Não vais abrir o teu? Ao olhar para o envelope que tinha de encontro ao peito. Se não menos elas parassem um pouco só para lhe perguntar o porquê de ter tomado as decisões que tomou. encheu-se de coragem e tornou a procurar Milene combinando com ela um local onde se pudessem encontrar. quando finalmente chegou a altura de receber os exames. O que está feito está feito. sentou-se num pequeno pilar junto ao edifício da clínica. para umas coisas és corajosa. Os oito dias que se seguiram foram longos.Não tens nada? . não só por ter tido relações sexuais sem qualquer protecção. as duas amigas voltaram a sair à rua no mais completo silêncio. .Não estou chateada – respondeu Milene apressando os passos em direcção ao metro mais próximo. – Não sou a tua mãe. que sem conseguir aguentar tanta pressão. não lhe restou outra alternativa a não ser voltar para casa e dar-se conta da grande asneira que tinha cometido. – Estou limpa – exclamou Milene depois de ter analisado os seus exames com a máxima atenção.

. . .Ai agora perguntas-me a mim? Eu sei lá o que é que fazes! Não tenho nada a ver com isso. entre Sida e gravidez venha o Diabo e escolha. Eu sabia! Tipo sexto sentido estás a ver?! . abri as pestanas e nunca mais me armei em parva de engravidar outra vez. minha cara – exclamou Milene segurando-lhe a face com força. . rapariga! Grávida! Vais ter um bebé.O que é que eu faço? Silêncio foi a resposta de Milene. . . não faria. não é?! . . estás lixada! Ele não vai assumir a criança e ainda é capaz de te mandar fazer um aborto. – O que é que eu faço? – repetiu Sara. – O pior é que tu nem sabes quem é o pai. .Bem. .É natural! Já o conheço há muitos anos e ele também já foi meu cliente.Olha aqui a luz.E dói fazer um aborto?! . pelo menos não tenho Sida. Aonde é que eu estava com a cabeça.Não me vais abandonar agora. – A luz é que vais chegar a casa.Às vezes parece que o conheces até demais – afirmou Sara interceptando-lhe os passos. já te disse! Ele não te vai ajudar..Não acredito – murmurou Sara arrebatando-lhe o envelope das mãos. não é?! . .Eu não posso fazer isso! A minha mãe iria matar-me.O meu maior erro foi ter-te dado ouvidos naquele dia em que me foste procurar para ser prostituta. Depois disso. não?! . . .Sei lá! Nunca fiz nenhum – respondeu Milene voltando a largar-lhe o rosto. Não te fiz o filho. contar à tua mãe que estás grávida e decidir se queres ou não ter o bebé.Não vai valer de nada.E se não for? . .Só pode ser o Marco. .Então se for. .Será que os exames não estão errados? .Acho que vou falar com o Marco primeiro.Eu tenho a certeza que é.Só acho que sabes mais coisas do Marco que eu não sei. Eu conheço-o.Bem. Garanto-te que números não te vão faltar.Já foi teu cliente?! 149 . – Tu ainda não percebeste a gravidade da situação!? Estás grávida.Então o que é que queres fazer? Um aborto? Se quiseres fazer isso. não?! – respondeu Milene apressando-se a acender um cigarro para acalmar os nervos.É! Devem estar mesmo errados. queres ver! Porque é que achas que até hoje ele nunca foi pai? Sorte. meu Deus? Era certo e sabido que iria acabar por sobrar para mim. .Só preciso de uma luz. . é só pedires o número de uma clínica a qualquer prostituta lá do bairro. – A única vez que fiquei grávida tive a criança. . Vai confiando nisso que daqui a nove meses vais ver o erro – respondeu Milene levando uma das mãos à cintura.Ele não faria isso – murmurou Sara não conseguindo esconder os seus olhos assustados. – Não pode ser.Eu sabia que esta cena dos exames iria dar merda.Ui. .O que é que foi? Ainda te estou a tentar ajudar e tu vens-me com essas cenas?! . .

– Escuta Sara.Mas o Marco é diferente! Tu sabes que nós namoramos. .k. Vou andar sempre em cima de ti para me certificar que não andas a faltar às aulas.Gripe. ela não tinha ninguém a quem recorrer. Sara chegou a casa antes de o anoitecer. Sara aceitou os comprimidos com alguma cautela.Eu sei – murmurou Sara limpando as tímidas lágrimas que lhe caíram dos olhos. 150 . Grávida aos dezasseis anos de um homem que era tudo menos de confiança e com um grande dilema nas mãos: Contar ou não a verdade aos seus pais. . como fazer. Na verdade. não estava doente e nem nada que se parecesse. Ele não presta. sobre os ombros dos teus pais porque tu nem sequer tens idade para arranjar um emprego decente. – Que milagre! Até para estranhar. principalmente a sua mãe. não tinha idade para arranjar um emprego decente. . – Vais ter que meter os papéis da matrícula na escola. . mas quando a mãe se voltou para o fogão. . . Pela primeira vez naquela semana. – Daqui nada entramos em Setembro… – disse-lhe Madalena enquanto provava o molho do frango na panela. e principalmente.Não é depois! Vais ter que tratar desse assunto o quanto antes para não perderes vaga. . . a única opção que lhe restava era continuar a pensar.Agora não adianta chorar.O que é que tens? . perguntou-se. muito pelo contrário. E este ano nem penses que te vou dar descanso! Muito pelo contrário. . que mais alternativas lhe restavam? Tal como Milene lhe dissera horas antes.Hã… já chegaste – disse-lhe a mãe ao vê-la a entrar na cozinha. nem como namorado. Pensar no que fazer. O Marco nunca te vai ajudar se resolveres ter essa criança.Depois vejo isso. Se resolveres ter o bebé.Estou doente – respondeu Sara abrindo a porta do frigorífico.Toma – disse Madalena atirando-lhe uma caixa de compridos. ou melhor. não é!? O mal já está feito.O. Mas por outro lado.Um namoro muito torto se queres que te diga – respondeu Milene fumando mais uma passa do seu cigarro. mãe… – murmurou a jovem servindo-se de um copo de água. e pela expressão facial marcada não foi muito difícil perceber que tinha também passado a tarde inteira a chorar e a lamentar-se da sua triste sorte. para se sustentar e muito menos sustentar uma criança que não foi de todo planeada ou desejada. . . Com certeza que nenhum deles iria compreender. ela guardou-os discretamente no bolso das calças. nem como homem e muito menos com pai. – E não bebas a água do frigorífico! Só te faz mal à garganta. quando fazer. . eu só quero que abras os olhos e deixes de ser ingénua.Porque é que nunca me contaste isso antes? . A sua única doença era não saber o que fazer quando todos descobrissem que estava grávida. Fariam um escândalo.Porque nunca veio ao caso! Tens a noção da quantidade de clientes que já tive? . Diante daquela situação no mínimo catastrófica.. e a sua vida nunca mais teria paz e sossego.Sim – respondeu Milene revirando os olhos quando percebeu que tinha falado demais.Se não andasses na rua até tarde não apanhavas doenças. O que é que iria fazer dali por diante. podes crer que todas as responsabilidades vão cair sobre os teus ombros.

Para mim pode ser uma imperial – respondeu Arlete abanando-se com a mão. houve qualquer coisa em si que mudou. – Estás muito contente – disse Milene a Sara quando ambas se sentaram numa das esplanadas mais frequentadas do bairro. . .Não te tranques lá dentro! O jantar está quase pronto. . Não sabia muito bem o que era. lembraste? Não podes beber. Milene? . Sara caiu na cama e fechou os olhos tentando imaginar a reacção de Marco. – Estás grávida. não sabia até que ponto aquele filho iria mudar a sua vida. Que estúpida! Ainda não dá para ver nada. ninguém conseguiu chegar a nenhum consenso.Acho que já me habituei à ideia – respondeu Sara observando a chegada do empregado de mesa. Na mesma mesa também se encontrava Arlete. . – Mania pá! Tomara muitas mulheres nos cinquenta estarem assim como eu. e outras ainda. – Sara.Imagina se não andasse – respondeu Madalena voltando-se para o fogão. foram as palavras que Sara proferiu baixinho enquanto examinava a sua barriga à frente do espelho do quarto. aventuraram-se na procura dos primeiros nomes. desde que soube que estava grávida. – Está um calor de rachar. tal como se era de esperar. Imaginou que ele a fosse tomar nos braços.Hei! Isto aqui é um estabelecimento de primeira. passou-lhe essa ideia maluca pela cabeça enquanto enfiava uma almofada por debaixo da camisola e se imaginava com nove meses de gestação. . diz lá o que é que queres! . Com um misto de sensações diferentes.Tu já andas sempre em cima de mim.Vou para o meu quarto.O que é que vão pedir. não seria uma loucura tão grande imaginar um desfecho risonho para aquela verdadeira história de terror. . No fundo. .Mas… . Algumas alertaram-na para o destino cruel que a esperava.Por acaso! Olha que até hoje não tenho tido muitas razões de queixa.E tu. meninas?! . .. Mas de facto. 151 .A velha tem razão – concordou Milene. dizer que a amava e que juntos iriam criar o filho que fizeram.Uma imperial também! De qualquer maneira não há nada melhor nessa espelunca.Velha é a tua mãe – defendeu-se Arlete ameaçando uma bofetada enquanto Milene e Sara se riam a bom rir. estão a ouvir?! – resmungou o empregado quando ouviu as gargalhadas das três prostitutas. outras optaram por a parabenizar.O mesmo que elas. . . trouxe-lhe uma calmaria difícil de explicar. e no fim. Quem sabe Marco até não fosse gostar da ideia de ser pai. A notícia da gravidez de Sara foi recebida com alguma apreensão por parte da maioria das prostitutas do Intendente. se for rapaz chama-lhe aquilo. . . Se for rapariga chama-lhe isto.Ui! Clientes é o que não te faltam… – riu-se Milene. – Mulher grávida não bebe. mas o simples facto de saber que ele existia e que estava no interior do seu ventre.Nem pensar – interferiu Arlete.

impaciente.Está bem. Sara e Marco subiram as escadas aos beijos e abraços e não tardaram a abrir a porta do quarto para ali dentro matarem todas as saudades que tinham sentido um do outro.E ficaste? Marco esboçou um sorriso e logo se apressou a retirar a sua arma por detrás das costas.Vocês sabem alguma coisa do Marco que eu não sei.Não. .Estou-me a preparar para a próxima semana – respondeu Sara.O que foi? – perguntou Marco. Os dias seguintes trouxeram alguma ansiedade a Sara e tudo porque ela continuava sem saber qual iria ser a reacção de Marco à sua gravidez. Pensam que fiquei com a cena e com o dinheiro. . ela voltaria a casa.Arlete. . .Porquê?! . . – Bem meninas! Tenho que ir. nem faz ideia sequer! Eu quero que seja surpresa. fecha o bico – imperou Milene. – Sinceramente não gostava de estar na tua pele. . – Espera – disse ela. Milene atravessou a rua. . o relógio assinalou vinte e três horas e o dono da pensão entregou-lhes a chave do quarto dezoito com um aviso claro e severo para que não fizessem muito barulho tendo em conta o adiantado das horas. . não é?! – perguntou Sara franzindo o sobre olho e encarando os rostos constrangidos das duas prostitutas. . sorridente. Acedida à ordem. entendes?! . contaria a verdade aos pais e quem sabe até moraria com Marco no Algarve onde embalados num clima paradisíaco os dois criariam o filho. foram as primeiras palavras que ele disse quando viu Sara diante de si.A animação e as risadas das três prostitutas continuaram por vários quartos de hora. Morri de saudades tuas.E então. não sei se me entendem. Ficaria contente? Ficaria confuso? Irritado? Furioso? De facto. ela esperava encontrar todas as respostas às suas perguntas. não havia como prever a sua reacção.Ficaste?! – insistiu Sara.Ele desconfia de alguma coisa? – perguntou Milene. . 152 .Ninguém sabe de nada – respondeu Milene levantando-se da mesa enquanto terminava o último gole da sua cerveja. e enquanto Sara saboreava o seu sumo de laranja natural. Sarita?! Quando é que vais contar ao Marco que ele vai ser papá? . mas naquela sexta-feira de Agosto particularmente friorenta e cinzenta. Esperava também encontrar nos braços de Marco a confirmação de que tudo iria correr bem e de que podia contar com ele para o que quer que fosse.Já te disse que hoje não vou poder dormir em Lisboa.Uns gajos andam atrás de mim por causa de uma mercadoria que não consegui devolver a tempo.Tenho um cliente daqui a quinze minutos e ainda tenho que me preparar para o receber.E vai ser cá uma surpresa – exclamou Arlete terminando a sua imperial.Boa sorte – riram-se Sara e Arlete. e depois disso. Arlete perguntou: .Aonde é que vais? . . .Tem calma! Temos a noite toda. Depois disso. apreensiva. O dever me chama. está bem! Já não está aqui quem falou.Porquê?! – perguntou Sara. . . . – Combinámos que ele vinha ter comigo. – Sabem e não me querem contar. Nessa altura. Física e mentalmente.

– Olha bem para mim e diz se eu tenho escrito na testa a palavra otário!? .Sim.Não é nada disso! Mas é que… eu tenho uma coisa para te contar.De mim? .É claro que quero. de quem!? De ti… – respondeu Sara surpreendendo-se com tal pergunta. e… eu soube que… estava grávida… . mas odiava ainda mais perceber que muitas vezes ele perdia a noção do perigo por ser tão ganancioso e inconsequente ao ponto de brincar com traficantes de droga. . o seu coração apertou-se de tal forma que por momentos foi-lhe praticamente impossível respirar. é isso? .O quê? – perguntou Marco apoiando os cotovelos sobre a cama.E tu estás à espera que eu acredite nisso? . O que é que foi? Andaste a fazer coisas que não devias.. Sara viu-se obrigada a obedecer às ordens de Marco e a brindálo com um longo beijo nos lábios. abrevia porque eu não tenho muito tempo.k! Eu prometo – respondeu ele revirando os olhos. Pode ser qualquer um que tenha passado pelo bairro.Hiii! Já não estou a gostar nada da brincadeira.Marco. .Prometes que não ficas chateado? . Tu tens que acreditar nisso.Há dias atrás eu e a Milene fomos fazer uns exames só para saber se estava tudo bem connosco. 153 .Está bem – respondeu ela sentando-se numa das pontas da cama. – Na semana passada fomos buscar os exames. – Diz lá! . sabes como é que é! A Milene está cansada de fazer esses exames e disse que eu também os devia fazer para… .O.Olha bem para mim. hã? – respondeu ele puxando-a contra si. – Eu não vim aqui para falar nesses filhos da mãe! Vim para estar contigo. . . Mas a verdade é que enquanto o fazia.De quem?! . .Porquê?! Não queres estar comigo? .Sara.Então cala-te e beija-me! Sem outro remédio à vista. . .Marco!? . . – Espera – exclamou ela livrando-se dos braços dele.Grávida?! – exclamou Marco levantando-se bruscamente da cama. .Oras. Claro que ela odiava o facto de Marco andar em negócios estranhos. tu hoje estás com muitos truques.Eu não estou à espera de nada.E se esquecesses esse assunto. . Sara… .O que é que isso importa? .Marco… . esse pessoal é perigoso! .Sim! De ti! Eu tenho a certeza porque a data coincide com uma vez que estiveste cá em Lisboa.Só conto se prometeres que não ficas chateado.Tu nem sabes quem é o pai dessa criança.pediu Marco colocando-se à frente dela. . Grávida! . Coisa de rotina.O que foi?! Bem. Uma coisa que descobri há duas semanas. .

problema teu! Resolve. nem sequer tinha vindo. ela deu-lhe tudo o que podia. Eu não fui feito para ser pai! Nem para ser pai e muito menos para me prender a uma gaja da vida – respondeu Marco terminando-lhe com todas as esperanças de um possível romance entre os dois. já ando eu farto.Eu tiro o bebé – afirmou ela segurando-lhe a manga do casaco. chegou a essa conclusão. se eu soubesse que era por causa disso.. Como se enganou com ele. gostei de estar contigo. A última vez foi contigo e eu disse-te que ia largar a vida por tua causa. otária! De gajas como tu. Mas ali.O que é que foi? Estavas à espera que eu ficasse contente? Que te fosse pedir em casamento e ainda escolher o nome do puto? Acorda. – Sara! Sara – disse ele sacudindo-lhe os ombros quando ambos saíram à rua. Se engravidaste. Como se iludiu com um homem que não conhecia nada de si e que nem sequer estava disposto a conhecer. pensou. eu estou-te a dizer que este bebé é teu. Tu fizeste-me prometer isso. Sara sentiu duas enormes lágrimas rolaremlhe pela face.Mesmo se tirares.E achas mesmo que eu acredito em ti? . – Já vi que perdi o meu tempo – disse Marco. naquele quarto de pensão e de volta à realidade. – Mas eu se fosse a ti tirava mesmo o bebé! Ainda és muito nova para ser mãe e irias acabar por te arrepender mais tarde. Durante meses.Há semanas que não tenho ido para a cama com ninguém. De um sonho de uma miúda de dezasseis anos que se julgava muito esperta. Eu não tenho razões para te mentir! . o desespero tomou conta de Sara e ela não teve outro remédio a não ser segui-lo pelas escadas da pensão completamente lavada em lágrimas e implorando-lhe para que ele não a abandonasse. 154 .Marco… . – Eu tiro. Aliás. o que é que ela sabia da vida? Do mundo que a rodeava? Das pessoas que a rodeavam? Não sabia nada. Não sabia absolutamente nada e talvez nunca viesse a saber. eu vou-te dar um conselho! Podes já começar à procura de outro palhaço para sustentar o teu filho porque eu estou fora… – afirmou Marco encontrando a sua arma sobre a mesinha e o seu casaco sobre a cama. . mas que na verdade não conhecia nada da vida. .Sara. Não és a primeira e nem vais ser a última a tentar dar-me a volta.O filho é teu – murmurou Sara com os olhos rasos de lágrimas. – Aliás. ela percebeu que tudo não tinha passado de um sonho infantil. Acabou! A sério! Foi divertido enquanto durou.Ou vais negar? – perguntou ele lançando-lhe um olhar desafiador.Tu não podes fazer isso – exclamou ela segurando-lhe o braço. Acabou! . mas isto já se está a tornar demasiado sério para o meu gosto. Quando o viu a desaparecer pela porta. Se não quiseres eu tiro! . Sentiu também como se o mundo tivesse desabado por debaixo dos seus pés e que não houvesse absolutamente nada para a amparar. – Vais negar que durante esse tempo todo não tens trabalhado como prostituta? . – Acabou! Mete isso na tua cabeça. colocou-o num pedestal e chegou inclusive a sonhar com um futuro promissor ao lado de um traficante de droga.Marco. Enquanto ouvia o discurso amargo de Marco. por fim. . .

ela abriu a porta e saiu do quarto ainda a tentar calçar as sandálias.Porque era a única pessoa presente na rua na altura do crime. Correu pelas escadas da pensão. . quase tropeçou no tapete à entrada.Mas eu paguei. Para ela. Profundamente. testemunhas e recolheu-se o corpo da vítima.Não – gritou ela enfrentando o rosto da amiga. a área à volta do crime foi delimitada. sem margem para erros e que retirou a vida de Marco. ouviu-se um berro no outro lado da rua. mas por sorte conseguiu chegar à rua onde um aglomerado de pessoas já se havia juntado à volta de Sara e do corpo de Marco.Porquê?! . menina – disse um dos policiais aproximando-se dela após todas as burocracias resolvidas. – Sara – chamou Milene tentando trazê-la de volta à realidade. ela aproximou-se da janela e abriu o vidro para tentar perceber que raios se estava a passar. um jovem traficante de droga. Dito isto. Viu pessoas a correrem de um lado para o outro. E foi nessa altura que ele se voltou para trás sendo posteriormente surpreendido com cinco de tiros de caçadeira.Vai ter que nos acompanhar. Meu Deus. quando os ouviu. – Hei! Vais-me deixar assim? – perguntou o cliente quando ela voltou ao quarto e encontrou as suas roupas espalhadas pelo chão. quase todos cravados no seu peito. Estava apenas a dormir. o seu coração parou de bater por breves instantes. e por fim. larga-o! Ele está morto. aquela não era a primeira vez que escutava tiros no bairro. ao vê-lo cair inanimado no chão.Pode até ser – respondeu ele encolhendo os ombros enquanto se afastava lentamente dela e a deixava sozinha no meio daquela rua deserta. sangue e os gritos de Sara. procuraram-se identificações. Não está morto…! As sirenes da polícia e da ambulância não tardaram a ser ouvidas no bairro. procuraram um local perfeito para se esconder.Toma a merda do dinheiro. Marco não tinha morrido. Foi também a primeira vez que Sara se deu conta que Marco tinha realmente morrido. Por acaso os seus pais sabem que está aqui? 155 . Tinha sido um abate perfeito. – Sara. . . Pé ante pé. – Ele não está morto! Não está…! Ele não está morto.Será que não percebeste o que é que se passou? Mataram um homem lá em baixo. ela murmurou levando a mão à boca. não tem idade para aqui estar. Mais tarde. De facto. – Mas eu não o quero! E tu não me podes obrigar a querê-lo… MARCO. ouviu os estores dos prédios a subirem a uma velocidade fantasmagórica. . . mas a dormir.. com um cadastro um pouco mais duvidoso. Não. A jovem chorava. . gritava e não permitia que ninguém lhe retirasse o pai do seu filho dos braços. imbecil – respondeu Milene atirando-lhe as duas notas de cem euros. e para isso bastou apenas as portas da ambulância fecharem-se com um enorme estrondo. – Não preciso dele para nada. Milene afastou-se do cliente e saltou da cama atordoada. e além disso. de vinte e oito anos cujo último desejo em vida foi o de não querer ser pai. Meus Deus. a sua amiga Sara lavada em lágrimas com a cabeça de Marco sobre o colo. o carro que continha os três mandatários do crime arrancou a alta velocidade deixando para trás um rastro de destruição. Depois disso. talvez a cena mais chocante de todas. mas ainda assim. enquanto algumas pessoas. Ao ouvir os tiros vindos da rua.

. O relógio assinalava duas horas e vinte e 156 .De vista – mentiu Milene.Já vi que vocês se conhecem muito bem. À mesma normalidade que existia quando Sara ainda não frequentava o bairro. é a nossa obrigação contactar os pais assim que chegarmos à esquadra.Eu acho que eles não iriam entender. fazia precisamente sete anos. ..Não fiques assim. e por momentos.Não – respondeu Sara limpando o rosto marcado pelas lágrimas. . Então menina?! Vem connosco? . Por vezes somos obrigados a fazer escolhas. – Vamos para casa! O telefone sobre a mesinha de cabeceira tocou ruidosamente.Sim – respondeu Sara afastando-se de Milene com um estranho aperto no coração. . Nem sempre é possível ter-se tudo aquilo que se deseja ou todas as pessoas que amamos. .Boa sorte! Foram precisos apenas cinco minutos para que Sara fosse levada pelos policiais e o corpo de Marco transportado na ambulância para um hospital mais próximo. a tomar caminhos errados e a aprender com os nossos próprios erros.Só me pergunto até quando… . qual era o ser humano que não desejava uma coisa dessas? Mas a vida às vezes é demasiado cruel para certas pessoas e nem sempre a felicidade bate à porta de todas. . rapariga! .Até quando vamos continuar a viver nesta merda – respondeu Milene tentando engolir o nó que lhe atravessou a garganta. . pagamos bem caro por eles. projectos e muito menos sentimentos. . . o que acabou por morrer. meu Deus?! Porque eu já não sei se aguento muito mais… Era a primeira vez que se abraçavam e choravam juntas desde que se tinham conhecido.Eu sinto muito mas as coisas vão ter que ser feitas dentro da lei! Como ela é menor. amarguras e um rol infinito de outros acontecimentos que para sempre iriam ficar gravados nas suas memórias.Até quando o quê?! . – Já não sei de mais nada. Até porque. Que não sonhavam ter uma vida igual à de todas as outras mulheres.Não! Não é preciso. Que não tinham sonhos. . Depois disso. deixaram-se de ouvir as sirenes no Intendente e tudo o resto voltou à mais completa normalidade. Que não desejavam encontrar um grande amor.Sr. Enganados estavam todos aqueles que pensavam que elas gostavam do que faziam. ainda não se tinha perdido na vida e muito menos conhecido a maioria dos habitantes da zona.Queres que vá contigo? – perguntou a prostituta sob o olhar atento do polícia. agente! Será que não era possível resolvermos essa situação sem meter os pais dela no meio? – perguntou Milene recebendo um abraço desesperado de Sara. casar. – Até quando. – Achas que ela vai voltar algum dia? – perguntou Arlete aos ouvidos de Milene enquanto os carros da polícia desapareciam a alta velocidade. naquela noite.Porquê?! . Madalena acordou sobressaltada imaginando quem seria. Coincidência ou não. – Anda – disse Arlete levando Milene encostada ao ombro. e na maioria dessas vezes. Sete anos de luta.Não sei – respondeu Milene limpando uma tímida lágrima. ter filhos e viver felizes para sempre. – Eu só conhecia o namorado dela. de tristezas.

O que teria acontecido para que Sara se tivesse desvirtuado daquela maneira.Sara. que fez o coração de Madalena gelar como nunca. Não tinha absolutamente nada para lhes dizer. – Estou – respondeu Madalena tentando encontrar forças para abrir os olhos e reconhecer a voz grossa e formal no outro lado da linha.Não. perguntou-se vezes sem conta.Entra – disse uma voz grave após a abertura da porta. 157 . para além do ex. raios. . Era advogado. Mais tarde. apressou-se a encontrar o número do ex. conseguido esse feito. Aonde foi que errou. Madalena pôde ter essa certeza quando voou em direcção ao corredor. – A minha filha.Vens-me buscar para irmos juntos?! .No Intendente. apreensiva. Mas o pior nem foi isso! Sabes aonde é que a polícia a encontrou?! . Nunca iriam entender o que aconteceu e muito menos perceber que uma parte de si tinha também morrido naquela noite. Mais tarde. Mas os seus desejos pareciam difíceis de serem concretizados quando ao olhar para o relógio viu que nele estavam assinaladas quatro horas e vinte e oito minutos. precisamente essa tshirt. – O que é que aconteceu? . marido na agenda com a certeza que só ele a poderia ajudar numa emergência daquelas. não lhe restou outra alternativa a não ser passear por todas as habitações da casa e desesperar-se entre lágrimas e soluços. Madalena desceu à sala e aguardou que a porta da rua se abrisse a qualquer momento. – O que é que aconteceu. A pergunta não sofreu qualquer resposta quando Sara se afastou dos braços do pai e encontrou na mesa um local perfeito para se apoiar. tudo apontava para que fosse ela. pensou. Sara ainda não havia regressado a casa. marido. Já estou a ir para lá – foi a resposta de Jorge assim que ela lhe explicou todo o sucedido. Depois disso. Sara? – insistiu a mãe. ela tornou a lançar um olhar vazio aos seus progenitores e manteve-se inerte. – Um amiguinho dela foi morto à caçadeira e parece que ela foi a única testemunha do crime. – Por favor. Na verdade. eu conto – interferiu Jorge com uma expressão nada amigável. Foram as duas horas mais longas da sua vida. o que é que aconteceu? – perguntou-lhe a mãe. Como advogado saberia enfrentar aquela situação bem melhor do que ela. o quê?! Atordoada com todas as revelações feitas pelo agente de autoridade. À espera de notícias.quatro minutos. Não tinha e nem queria explicar que naquela noite perdera uma das pessoas mais importantes da sua vida e também da vida do filho que estava à espera. como errou e porque é que errou? . Madalena saltou da cama e tentou controlar o pavor que sentiu ao saber que Sara estava presa por ter sido a única testemunha de um homicídio. – Não te preocupes. – A Sara tem muitas coisas para nos explicar. aflita.Aonde? – perguntou Madalena.Acho melhor irmos para a sala – respondeu Jorge conduzindo a filha pelo braço enquanto um pouco mais atrás Madalena os seguiu cautelosamente. ela encontrou também Sara com os olhos inchados de chorar e uma t-shirt marcada pelo sangue de Marco. Assim sendo. é melhor não! Fica em casa! Eu resolvo isto. para quê explicar esse facto quando era notório que os pais não a conheciam minimamente e nem sequer faziam ideia do horror a que ela tinha sido submetida quando viu o seu namorado ser brutalmente assassinado a poucos metros de si? Madalena e Jorge não iriam compreender. Era a voz de Jorge.Se ela não conta. . diz-nos…! . e por isso. . E foi essa t-shirt.

. Achas isto normal? . e que com o tempo. Satisfeitos!? A pergunta de Sara culminou com uma valente bofetada de Jorge e com o olhar aterrador que ele lhe lançou em seguida. A nossa filha estava no Intendente. – Eu sou prostituta sim. – Tu só podes estar a gozar – murmurou Jorge também ele estupefacto com tudo o que tinha acabado de ouvir. A príncipio foi como se tivesse entrado numa outra dimensão ou tivesse sido transportada para um lugar longínquo.Isso mesmo que ouviste. E a verdade é que pela primeira vez.Não.Mas a única coisa que não querem é admitir a vocês próprios algo que está e sempre esteve diante do vosso nariz! .. – Eu não andei a criar uma filha para a ver perdida no Intendente. pai!? Achas mesmo que eu estou a gozar? – respondeu Sara mostrando-lhe um sorriso maléfico.Vocês sabem muito bem o que é que eu estava a fazer no Intendente. marido se lançou contra a filha a fim de extravasar todo o ódio e toda a repulsa que a resposta dela lhe trouxe. drogados e prostitutas? Enquanto ouvia o discurso moralista dos pais e todas as verdades que eles fizeram questão de lhe jogar à cara durante vários minutos. . não foi preciso muito tempo para que uma onda de histeria lhe invadisse o corpo e a fizesse soltar um berro ameaçador: . não – gritou Madalena quando o ex. Sara cerrou os olhos e deixou de os ouvir. com paciência.O quê?! . a cada mês.Achas mesmo. em dezasseis anos. Madalena tentou enganar-se. a cada semana. tentou convencer-se a si própria que o comportamento da filha era perfeitamente normal para uma adolescente de dezasseis anos. e embora nunca lhe tivesse passado pela cabeça que Sara se estivesse a prostituir. pois a cada dia.Deixem-me em paz! . Mas não. pensando enquanto o fazia. . – Enlouqueceste?! Será que não sabes que nesse lugar só há bandidos.Engraçado – respondeu Sara levantando o rosto desfigurado. Muito pelo contrário.Jorge. Durante meses. 158 . e sou porque gosto. – Eu sou prostituta! PROS-TI-TU-TA! Um esforço sobre-humano foi o que Madalena teve que fazer para se conseguir manter em pé após a revelação da filha. tu não te atrevas a falar connosco nesse tom – imperou o pai. . ela mostrava-se um ser humano odioso e repugnante. a verdade é que ela estava certa quando lhe disse que a realidade estava mesmo diante do seu nariz. quando regressou à realidade e a voz estridente da mãe continuou a ecoar-lhe aos ouvidos. – Os homens nunca criam as filhas para as ver no Intendente.O que é que está diante do nosso nariz? – perguntou Madalena temendo ouvir a resposta.Tu sabes! Mas se quiseres eu posso dizer-te com todas as letras – respondeu Sara gesticulando furiosamente os braços. ele ousou bater em Sara. Mas depois. as coisas iriam melhorar.Sara. porque quero e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens. Nem o tempo e nem a paciência fizeram de Sara uma pessoa melhor. Pronto! Aí está a verdade que vocês tanto queriam saber. . o que é que tu estás a fazer num lugar daqueles? – perguntou Madalena voltando-se bruscamente para a filha.Sara… . não sei… . . mas no entanto vão lá para procurar as filhas dos outros… .Tu sabes.Sara.

tudo deixou de fazer sentido e uma sensação de desespero invadiu-lhe o coração já por si destroçado. a única coisa que sabia era que precisava de ar para respirar e foi isso que tentou encontrar quando se sentou junto à porta de saída. Na verdade. – Jorge… . Nem as várias tentativas 159 . – A partir de hoje já não te considero a minha filha… . que decisões tomar dali por diante e como superar aquele inferno que estava a viver.Olha só no que é que a nossa filha se transformou… . Madalena sabia. que tinha morrido há muito tempo e que ele foi o último a dar-se conta desse facto irrefutável.Eu sei – murmurou Madalena não conseguindo conter as lágrimas quando o ex. Nessa altura. – Vai – gritou ela interceptando-o no corredor. Jorge alcançou o casaco sobre o sofá e saiu da sala. mas também a única forma de impedir Sara de cometer mais loucuras. Assustada com a ideia de se ver presa naquela casa. marido abriu a porta e atravessou o jardim em direcção ao carro. – Vai-te embora! Não foi sempre isso que fizeste durante toda a tua vida? Pelo menos agora já não precisas fingir que és pai. Não. admiração. Não sabia o que fazer para reencontrar a filha que perdera meses antes. – Jorge… . Uma mãe tão desesperada que naquela madrugada não viu outra alternativa a não ser trancar todas as portas de casa para impedir que a filha voltasse a sair por elas. Nas mãos. Era o fim. De facto. já não pertencia àquela família e nem sequer nutria qualquer tipo de sentimento pela mãe. Ditas estas palavras. chegou também a essa conclusão. e na mente.disse ele fazendo um esforço sobre humano para não derramar duas lágrimas que se haviam apossado dos seus olhos. trazia uma mala e uma mochila. pois nunca se mostrou um pai presente. Sara perdera-lhe todo o respeito. Depois disso.chamou Madalena aproximando-se lentamente dele naquele corredor às escuras. enfiou a cabeça por entre as pernas e tentou sufocar o choro compulsivo de uma mãe desesperada. Nessa altura. Sara alcançou o corrimão das escadas e voou como um foguete em direcção ao quarto. mulher. Já não tinha mais nada a fazer ali. tudo pareceu desmoronar. tinha desaparecido sem deixar rastro. Foi também nessa altura que ele percebeu que a sua filha já não existia. Sara correu em direcção à cozinha a fim de encontrar uma outra escapatória. já não lhe restava mais nada a fazer naquela casa quando era certo que tinha acabado de perder tudo o que lhe era mais querido na vida. Era uma medida extrema. A porta também se encontrava fechada. a porta fechou-se violentamente e os vidros da janela agitaram-se trazendo consigo uma dor aterradora que Jorge nunca pensou sentir em toda a sua vida. – E também não quero que me consideres o teu pai! Sob o olhar desesperado da ex. tornou a murmurar. . pelo irmão ou pelo pai que naquela noite fez questão de lhe dizer com todas as letras que já não se considerava o seu progenitor.disse ele deixando-a caída no tapete da sala. Contudo aquela noite veio a provar que já era tarde demais para retomar o seu papel de pai. assim como a que dava acesso às traseiras. a vontade incondicional de sair daquela casa. – O que é isto? – murmurou ela tentando abrir a porta com vários safanões. Faltavam poucos minutos para as seis da manhã quando Sara voltou a descer ao primeiro piso. pensou. nunca lhe impôs limites e sempre fechou os olhos às loucuras cometidas por ela. Não sabia o que fazer.que a culpa de tudo aquilo era sua. e o que sobrara da menina doce e inocente que ele um dia carregou ao colo.

ele viu os corpos da mãe e da irmã estatelados no corredor e não tardou a perceber que ambos tinham caído devido à luta. estalos e gritos. dois. E tal como um milagre.Dá-me a chave da porta! Eu quero sair.Não – respondeu Madalena recuando vários passos quando a sentiu demasiado perto de si.O que é que estás aqui a fazer? – perguntou Madalena acendendo a luz da mesinha. Nenhuma das duas tinha morrido ou tão pouco sofrido lesões mais graves visto as escadas não serem inclinadas. Quero ir-me embora.O que foi? Vais-me tornar na tua prisioneira. O fim de todo o respeito que mãe e filha ainda sentiam pela outra. já disse – gritou a jovem estendendo a mão com um olhar aterrador. e ele. Tinha sido a sua mãe a trancar todas as portas só para a prender ali adentro. ao ouvilo.Já disse que não. .Sara. pai! A Sara vai matar a mãe! As últimas palavras de Daniel coincidiram com um estrondo gigantesco vindo das escadas. o fim de uma relação de dezasseis anos e a certeza que dali para a frente as coisas nunca mais iriam voltar a ser as mesmas. A única coisa que suplantou a dor da queda foi o susto. Madalena mexeu a perna. Sim.Dá-me a chave! .Dá-me a chave! . – Dá-me a chave – era o que gritava como uma louca.para forçar a fechadura resultaram e esse facto apenas acrescentou ainda mais o ódio que ela estava a sentir dentro de si. Ela que não pensasse sequer numa coisa daquelas. – Chama o pai! Sem esperar segunda ordem. Tinha sido ela. filho – gritou Madalena enquanto se tentava desenvencilhar dos braços de Sara. . Gritos que fizeram acordar o pequeno Daniel. mas isso foi algo rapidamente esquecido por Sara quando ela tentou agarrar as pernas da mãe e a impedi-la de fugir em direcção à sala. largou o auscultador pronto a inteirar-se do que se estava a passar.Tu não me podes obrigar a ficar nesta casa. e foi também nessa altura que as duas abandonaram o quarto aos empurrões. . . .Enquanto fores menor e estiveres sobre a minha responsabilidade. é isso?! . enquanto se aproximava pé ante pé. A resposta negativa de Madalena trouxe novamente a fúria de Sara e consequentemente a sua audácia em atirar-se para cima da mãe sem temer as consequências do seu acto irreflectido. . volta para o teu quarto! .Tu não vais a lado nenhum – respondeu Madalena levantando-se da cama. – Pai! A Sara vai matar a mãe. 160 . .E eu já te disse que não ta vou dar.Eu quero a chave. Do cimo das escadas. Mas ela que não pensasse que a iria prender no interior de uma casa onde não desejava estar. . A barreira foi quebrada. Aquele tinha sido o princípio do fim. sem se lembrar que ainda estava ao telefone com o pai. eu posso sim obrigar-te a fazer aquilo que eu quiser e aquilo que eu achar que é melhor para ti. – Mãe… – ele gritou. Não. – Chama o pai. Um. três toques e o advogado finalmente atendeu para grande alívio da criança. – Dá-me a chave – gritou Sara entrando pelo quarto da mãe com uma expressão aterradora. . Daniel correu ao telefone que se encontrava no quarto da mãe e digitou o número de Jorge.

– Eu só queria que tu me dissesses para que eu pudesse entender. .. como você quer e ninguém está autorizado a contrariá-la… . – Tudo o que eu queria era que ele desaparecesse. – Aqui tens… – afirmou Madalena atirando-lhe as chaves contra o peito. 161 . Madalena manteve-se calada. . sempre te pus em primeiro plano e sempre abri mão de tudo em prol da tua felicidade… . o que é que foi que eu te fiz?! Onde foi que eu errei para que te tivesses transformado nesta… pessoa… – discursou Madalena não conseguindo controlar as lágrimas. é isso? É por causa disso? – perguntou Sara encontrando a mãe encostada à mesa ainda com a respiração ofegante. . burra como sempre. Mas no entanto parece que me odeias e que queres fazer tudo para me destruir e para destruir a minha vida. Ouvido o estrondo. D.Estás a falar do Sérgio. não é?! – interrompeu Sara surpreendendo-a com tal pergunta. nada disto teria acontecido. Eu não me importo. veio um silêncio ensurdecedor e a certeza de que o inferno finalmente tinha terminado. Sara! Um monstro. Ao olharem-se pela última vez.Se me tivesses dado a chave. ao contrário do que o teu pai te disse. Nem mesmo os laços sanguíneos que as uniam iriam conseguir reatar aquela relação doentia. Madalena! Tudo tem que ser feito quando você quer. Contudo.Porque é que não me dás a chave. nem Madalena e nem Sara conseguiram reconhecer-se no interior daquela sala.Tu estás louca! Completamente louca. não foi por querer. . .Larga-me – imperou Madalena conseguindo encontrar numa hesitação da filha a oportunidade ideal para correr em direcção à sala. Sempre te dei tudo o que estava ao meu alcance.O que é que…? .Sara. ao contrário do que ele estava à espera. Eu não mereço isto! Eu sei que apesar de tudo eu não mereço o que me estás a fazer. nem quero saber sequer… Perante a resposta da filha.Tu és um monstro. estava tudo destruído. – Aonde é que ela está? – foi a primeira pergunta de Jorge quando chegou à casa da ex. Não hoje. aliás. mas há muito tempo! Com as chaves nas mãos.O Sérgio nunca tocou num fio de cabelo meu! Fui eu que apareci na casa de banho para que nos apanhasses e pensasses que ele me estava a estuprar.Porque se quiseres podes voltar para ele! Já que me vou embora desta casa. Na verdade.O quê!? – murmurou Madalena. Mas não. hã?! Tens prazer de me ver a correr atrás de ti. E tu. . Se eu errei. – Estás livre para fazeres o que quiseres com a tua vida porque para mim morreste. Sara abriu a porta e não resistiu a lançar um último olhar ao irmão que se encontrava sentado nas escadas assustado com tudo o que tinha assistido momentos antes. incrédula. Não foi de propósito. Não restava mais nada a não ser um misto de ódio e rancor entre duas pessoas completamente distintas. mulher. ele pode muito bem voltar. Preferiste acreditar em mim em vez de acreditar nele e agora olha para ti?! Estás sozinha e vais ficar assim até ao final dos teus dias porque eu também me vou embora… . ela esboçou-lhe um leve sorriso antes de fechar a porta e desaparecer de uma casa onde tinha vivido durante dezasseis anos. não é?! Mais uma vez quiseste mostrar que és tu que mandas! É sempre assim. se te fiz algum mal. acreditaste. Foi só por isso que eu inventei que ele me tinha violado. E não.

Mas a verdade é que ele nunca percebeu os intentos dela e agora ambos estavam a pagar bem caro por isso. Sara percebeu que era ali que teria que recomeçar do zero. o Intendente. – Foi-se embora de vez. . Sem família. mas sim em todos os momentos em que ela fez questão de lhe chamar a atenção enquanto pai.. sem conforto e com um bebé na barriga.Saí de casa – respondeu Sara mostrando-lhe as malas. não só naquela madrugada. De volta a um bairro que tão bem conhecia. Os passos lentos e arrastados de Madalena fizeram Jorge entender que tinha chegado tarde. restaram-lhe poucas alternativas de sobrevivência e ninguém com quem pudesse contar a não ser: – Tu… – disse Milene abrindo a porta do seu quarto com olhos de quem tinha passado a noite toda em branco. – Deixas-me entrar? 162 .Foi-se embora – respondeu Madalena alcançando o corrimão das escadas com os olhos marcados de tanto chorar e uma voz amarga.

meu Deus!? Está certo! Sempre teve um feitio difícil. .Eu já tinha pensado nisso – respondeu Jorge limpando uma lágrima que teimou em cairlhe dos olhos. e cada vez que Madalena se lembrava delas. Por vezes. Sou prostituta porque quero. Eu também não sei como é isto pôde acontecer.Nada.Eu vou levá-lo hoje! Mas também não queria deixar a Madalena sozinha. Tal como disse. Nem sabemos sequer para onde é que ela foi.Não te preocupes – respondeu Afonso segurando-lhe o ombro esquerdo. . – Já não sei o que é que hei-de fazer com ela – disse Afonso Soares descendo à cozinha com o ex. Qualquer coisa e aviso-te com antecedência. Só ele poderia fornecer o carinho e o apoio que a filha necessitava na altura.Eu também não sei. . – Eu fico aqui com ela. outras lamentava-se. 163 . e muitas vezes. embora quase todos fossem unânimes em afirmar-lhe que a culpa não era sua. .Do jeito como a minha filha está. Pareciam gravadas na sua memória e traziam-lhe um sentimento angustiante de derrota. sem dormir e sem mexer qualquer músculo corporal para além do estritamente necessário. . duvido muito que consiga tomar conta do Daniel. .Está a ser muito difícil para todos nós – respondeu Jorge não escondendo a tristeza estampada no rosto. A Sara escolheu o caminho dela. Cinco dias em que ela mergulhou na mais profunda depressão. sem comer.Acho melhor levares o Daniel para passar uns dias contigo. mas a verdade é que aconteceu e não há nada que possamos fazer. era talvez o desgosto de saber que a filha se prostituía sem ter qualquer razão plausível para isso. Jorge levou Daniel para a sua casa e deixou Afonso livre para cuidar de Madalena. – Como é que ela se foi perder desta forma.Que tragédia – suspirou Afonso levando as mãos à cabeça. e era exactamente isso que pretendia fazer não fosse o pedido dela para mais uma vez ficar sozinha.Não tiveram mais nenhuma notícia da Sara? . Era como as ouvisse vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. . porque gosto e porque o que me dá mais prazer na vida é ir para a cama com homens . chorava.CAPÍTULO IX Passaram-se cinco dias sem que Madalena se tivesse conseguido levantar da cama. genro. Mas pior do que o sentimento da derrota. . fechava os olhos numa tentativa desesperada de esquecer todas as palavras horríveis que Sara lhe dissera momentos antes de sair de casa. mas… isto?! . algo que só ele como pai o podia fazer exemplarmente. foram as últimas palavras de Sara. maior era a vontade de morrer.

Ao ver-se sozinha naquela sala repleta de móveis e aparelhos fotográficos. Vários foram os pensamentos que atravessaram a mente de Madalena enquanto conduzia pelas ruas da cidade e se lembrava de um dos maiores erros que tinha cometido num passado não muito longínquo. Mas o que poderia ele fazer perguntou-se.Entra! Aberta a porta.Aonde é que vais? – perguntou Afonso poisando o livro sobre o sofá. desceu à sala e encontrou um livro para passar o tempo.Fica aqui. 164 .Descobri tudo – foram as primeiras palavras dela assim que Sérgio abriu a porta de casa e se surpreendeu com o seu rosto marcado pelas lágrimas e por tantos meses de angústia. Precisava olhar-lhe o rosto. Continuava pequeno.Está bem. mas também o lugar mais pacífico e confortável do mundo. Depois disso. Sentiu também que não tinha qualquer direito de procurá-lo ou sequer de lhe implorar perdão. . – Levantaste-te!? . era o único objecto que lhe era estranho. do amor que ele dizia sentir por si e de o ter expulsado da sua vida sem qualquer razão. . – Lena… . Aonde é que Sérgio o havia comprado? Ou teria sido oferecido por alguém especial? Talvez pelo avô quem sabe. reparou. em passagens simbólicas que não lhe fizessem lembrar a tristeza em que a sua família estava submersa e o desejo de um dia tudo voltar à normalidade. Parecia ter sido pintado a óleo e trazia consigo a imagem de um velho pescador sentado à beira mar. .Queres um chá?! Faço num instante. . Já volto – disse Sérgio. só assim conseguisse recuperar a sua sanidade mental. – Estás bem? – perguntou Sérgio levando-a em direcção à sala.Mesmo não tendo concordado com a ideia. Abriu-o na página marcada e mergulhou na leitura durante horas a fio tentando pensar em coisas abstractas. Madalena aceitou o convite e entrou no apartamento do fotógrafo. mas sim na sua filha? Ao ver-se diante do prédio onde muitas vezes se encontraram e passaram várias tardes de amor. tocá-lo e tentar encontrar uma única razão para se manter viva. mas precisava fazê-lo. – Filha – disse ele surpreendendo-se com a figura de Madalena sob o alpendre da porta. Madalena depositou a sua mala sobre o sofá e lançou os olhos a um quadro pendurado na parede. . Continuava o mesmo. o erro de não ter acreditado no homem que amava. Afonso achou por bem não levantar mais questões e acatou o desejo de Madalena encostando a porta com cuidado. Talvez. pai. .Vou ter que sair.Não me vou demorar muito – respondeu Madalena abandonando a sala sob o olhar atento e preocupado de Afonso.Tens a certeza? Olha que já está tarde. . . quem sabe. Madalena teve algumas dúvidas. Se era o desejo da filha sair. a única alternativa que lhe restava era acatar a decisão e esperar que ela não cometesse nenhuma loucura. De ter duvidado do seu carácter.Não – respondeu Madalena mal conseguindo encontrar forças para o encarar de frente. Mas será que Sérgio estaria disposto a perdoála? Será que ele iria compreender os motivos que a fizeram não acreditar nele. caloroso. Na verdade. . Na verdade.Procurar uma pessoa.

Passaram-se dias. o tempo foi peremptório em passar. entendes?! . É melhor – Madalena acedeu com um sorriso. Eu sei que não sou… .E não és – interrompeu Sérgio segurando-lhe a mão sobre a mesa. Tanta coisa tinha mudado. Mas… os anos foram passando e… aquela menina que todos adoravam agarrar ao colo e que se ria por tudo e por nada deixou de existir. Porque para mim ela ainda continuava a ser a minha menina. mas ainda assim as feridas continuavam por cicatrizar. . Tinha tudo preparado. semanas. Madalena e Sérgio serviram-se do chá e permaneceram em silêncio durante largos minutos. . Sentados nas suas respectivas cadeiras. mas antes disso. Ela era tão linda.…devia ter acreditado em ti… . por causa da minha filha.Tu não és uma fracassada.Então porque é que me sinto uma verdadeira fracassada? . – A culpa não foi tua.Não me meteste em nada! Eu faria tudo de novo se fosse preciso. Mas …eu não quero acreditar que a Sara seja uma projecção minha.Lena… . – Eu lembro-me bem do dia em que ela nasceu. E não sobrou absolutamente nada dela… . tinha muito cabelo. Pequenina. Desde a última vez que se viram e trocaram as derradeiras palavras. Tinha comprado todo o enxoval e levei todas as coisas para a maternidade porque não queria que lhe faltasse absolutamente nada. e os olhos eram redondos.Entendo – respondeu Sérgio aquecendo as mãos na sua chávena de chá. Lena! A Sara está doente.Será que… és capaz de me perdoar? 165 . ela precisa de ajuda. fizeste bem mais do que a maioria das mães fariam se estivessem no teu lugar.Eu sei. ela é que tem que querer essa ajuda. iguais aos meus.Desculpa – pediu ela tentando esconder os olhos inchados de tanto chorar. escuros.. que adorava vestir de cor-de-rosa e de fazer totós no cabelo… . . Tu já fizeste tudo o que estava ao teu alcance. Toda a gente dizia que éramos muito parecidas e eu lembro-me que ficava tão orgulhosa quando ouvia alguém dizer isso. – Desculpa por tudo o que te fiz passar. eu senti como se tivesse encontrado uma razão para viver. . pelas coisas que tiveste de aguentar por minha causa. . e quando as enfermeiras ma deram nas mãos.Costumam dizer que os filhos são a projecção dos pais… . .Não quis enxergar a realidade e muito menos perceber no que é que a minha filha se tinha transformado.interrompeu ela. Foi o mais feliz da minha vida. Sérgio parecia ter a mesma mágoa no olhar e Madalena não sabia o que fazer para conseguir encontrá-lo naquela cozinha tão minúscula. e se queres que te diga. Era mesmo uma menina que eu queria. Ainda assim. – Devia ter feito isso. ambos sabiam-no bem. Eu não sou essa pessoa horrível em que ela se transformou.Vem… – exclamou Sérgio interrompendo-lhe os pensamentos. Acho que… estava tão contente por saber que iria ter uma menina que nem sequer me importei com as dores do parto. . Desapareceu.Aquela mesma menina que eu costumava levar a passear ao parque. preto.foram as palavras que saltaram dos lábios dela. Morreu. mas… não fiz! . meses até. – Que eles são aquilo que nós fazemos deles e eu até costumava acreditar nisso.discursou Madalena não conseguindo mais uma vez controlar as lágrimas e os risos nervosos. – Vamos tomar o chá na cozinha. Eu não tinha o direito de te ter metido nesta embrulhada.

“Espero que esta caixa de chocolates seja suficiente para adoçar o teu dia. .Lê! Ao ouvir o pedido da melhor amiga. Hã… PS. a presença sempre constante do ex. nada daquilo era demasiado entusiasmante. Uma alegria que por momentos pareceu desaparecida aquando do desaparecimento de Sara. Apesar de todos os acontecimentos trágicos do passado. Mas a verdade é que poucas dúvidas lhe restavam quanto ao desfecho daquela história de amor.E desta vez vem com um bilhete. De facto. – Neste momento não temos nada para nos dar um ao outro – respondeu ele.Não é torcer! Só acho que não tem mal nenhum jantar com o teu ex. . não acabou?! Sérgio pareceu hesitar quando fitou os olhos brilhantes de Madalena e viu nela a mulher a quem um dia chegou a amar mais do que a própria vida. Um cartão que cheirava a rosas e que trazia a caligrafia desajeitada do ex. de espaço… . mas ainda assim conferia-lhe um certo conforto e estabilidade que há muito não encontrava. . Passaram-se cinco meses.Sinceramente não te estou a reconhecer! Logo tu que sempre detestaste o Jorge… 166 . Para além disso.Aceitas um convite para jantar?” . não é?! .. Dias em que pudesse sorrir sem pensar no dia seguinte.Mas quem sabe um dia se o destino não nos trocar as voltas. é só um jantar.Mas acabou. Quer dizer.O Jorge. em que pudesse aproveitar uma refeição agradável ao lado da melhor amiga e uma conversa amena com o pai ao final da noite. marido e as suas várias tentativas de aproximação faziam-na sentir-se menos sozinha e a pensar se valeria ou não a pena oferecer-lhe uma segunda chance.Quem é que escreve PS num bilhete romântico!? – riram-se Alice e Madalena às gargalhadas. foram factores importantes para que Madalena recuperasse a alegria de viver. A rotina do trabalho. e aos poucos e poucos. o ano mudou. . Madalena esboçou um sorriso malicioso e rapidamente se apressou a retirar o cartão do interior do envelope. – Precisamos de tempo. Madalena ainda ansiava por dias melhores. mas que dava mostras de um novo fulgor. do único filho que lhe restou e dos pequenos acontecimentos que preenchiam o seu dia-a-dia. . . Beijos.Eu também – sorriram os dois.E tu vais aceitar? .Não perdes nada se aceitares. .Eu sei – concordou ela com um sorriso imensamente triste. a vida começou a retomar o seu curso. marido. tal como o meu também ficou apenas com a lembrança de um sorriso teu. marido: . . minha amiga! O Jorge.Não sei – respondeu Madalena depositando a caixa de chocolates e o bilhete sobre a secretária. – Não precisas preocupar-te com isso.Eu amo-te. . – Outra caixa de chocolates – exclamou Alice abrindo um sorriso de orelha a orelha quando Madalena regressou à loja após ter recebido a encomenda de um office boy. Jorge.Eu já te perdoei há muito tempo – respondeu Sérgio beijando-lhe as mãos frias. .Impressão minha ou estás a torcer para que eu aceite esse convite? .

Está bem – respondeu Daniel tentando desviar-se dos beijos de Madalena. filho.Ainda bem.. Enquanto se compunha à frente do espelho. e se o tivesse que provar com beijos. .Espero bem que sim – respondeu o ex.O. amanhã é dia de escola. Apesar da promessa. – Mas agora vai. genro a entrar na sala com as mãos nos bolsos. mas… as pessoas mudam! E eu acho que o Jorge mudou.k – defendeu-se ela enquanto levantava os braços.Estás sempre a dar-me beijos. Estou a confundir tudo. que ela terminou de se analisar ao espelho trazendo no corpo um vestido preto pelos joelhos e os cabelos soltos um pouco acima dos ombros. militar afagando os cabelos do neto. . . – Ainda me lembro que são as tuas flores preferidas – disse ele. dizia.Não queres os meus beijos?! . – Entra! . vô? . . De facto. a campainha tocou ruidosamente e ela correu a abrir a porta deparando-se com a figura do ex. – Espero bem que sim! 167 . nem um minuto a menos.Pai! Daniel! Não durmam tarde e nem fiquem a ver televisão até às tantas.Eu sei que fui uma grande impulsionadora na tua separação daquele imprestável. e se fossemos andando. . marido acompanhado de um sorriso e também de um lindo arranjo de orquídeas. .O. Sr. foram os elogios que ouviu do pai e do filho quando chegou à sala. . – Bom jantar – exclamou Afonso observando a saída de Madalena e Jorge da sala e mais tarde do interior da casa.Claro! Nem um minuto a mais.k. ainda submersa num verdadeiro dilema. É uma loucura.Porta-te bem. . várias foram as vezes que Madalena pensou em desistir do seu jantar com Jorge. Não. era impossível para ela passar um minuto que fosse sem demonstrar ao filho que o amava acima de tudo. – Iremos cumprir as suas ordens à risca. . repetia-se vezes sem conta.Obrigada – respondeu Madalena recebendo o ramo com alguma cautela. Sr. . Madalena não conseguiu conter-se e surpreendeu o filho com um longo e demorado beijo que fez todos os presentes rirem-se às gargalhadas. general – respondeu Afonso abrindo os braços sobre o sofá. Estava perfeita. .Sabe como é que é.Claro.Bem. E foi assim. Jorge – exclamou Afonso ao ver o ex. lembraste? .Estás todo janota. . Mais tarde. ou senão.Achas que eles vão voltar. bem perto disso.Cheguei na hora certa? . Jorge? Não quero voltar muito tarde – disse Madalena encontrando o seu casaco sobre o sofá. Mas a verdade é que nenhum destes pensamentos conseguiu demovê-la da ideia de cancelar um jantar que apesar de tudo lhe preencheu o imaginário desde manhã. Apesar de tudo. Vou voltar a um passado que só me fez mal e que não me trouxe nada de bom. inclusive Daniel. – Já não te vou dar mais nenhum. então que assim fosse. Afonso! A sua filha não merece menos – respondeu o advogado arrancando algumas risadas a Daniel e Afonso.

– Lembro-me também que no dia seguinte contei a uma amiga e ela disse-me que o melhor que eu tinha a fazer era fugir de ti. . . – Será que é assim tão tarde? . sensual e inteligente.Percebeste isso um pouco tarde. . por favor – pediu ela voltando a depositar a taça de vinho sobre a mesa. Mas hoje já não sei se vale a pena.Será?! – perguntou Jorge alcançando-lhe a mão sobre a mesa.Mas às vezes é impossível não nos lembrarmos de coisas tão boas. da nossa casa. . . . eu sei. 168 .Claro que não! Tu sabes que eu nunca fui sentimentalista. . – Logo que nos casámos fui aceite numa firma de advogados e ganhei a primeira causa. Foi por isso que eu aceitei o teu pedido de casamento. nem mesmo quando andava com outras mulheres. não achas!? . Ficava situado no Lapa Palace e era frequentado por um grupo restrito de pessoas a quem tudo era feito para agradar.Mas não fugiste.Mas eu tive sorte – disse Jorge deixando-se iluminar pelos olhos de Madalena quando eles se cruzaram com os seus. Jorge?! . – O que foi? – perguntou Madalena bebendo um gole de vinho tinto. Impressionante como nunca se tinha dado conta de como ela era bela.Nada – respondeu Jorge forçando-lhe um sorriso carinhoso. Nenhuma delas me conseguiu dar o que me deste nestes dezassete anos. – Só me estava aqui a lembrar da primeira vez que saímos para jantar. Depois foram sempre voos maiores. Falava tudo aquilo que lhe vinha à cabeça e movimentava-se com uma destreza e segurança fora do normal.Eu daria tudo para ter ouvido isso há cinco anos atrás. Não tinha dinheiro nem sequer para te levar ao cinema. outras causas importantes.Podes não acreditar. – Lembraste que tivemos que pagar a conta do jantar a meias? .Ui! Se me lembro – riu-se ela forçando uma gargalhada seca. Pela primeira vez.É! Infelizmente não fugi.Jorge… . Mas mesmo assim tu ficaste comigo e aceitaste o meu pedido de casamento com um anel de plástico da feira popular. mulher um só segundo e a sua atenção centrou-se nela durante toda a refeição.Então não mudes. . mais prestígio… .Naquela altura era um teso. os seus olhos não se desviaram da ex. algo que há muito ele não via em qualquer outra mulher. Nenhuma chegou sequer aos teus pés… .E foi então que o nosso casamento começou a piorar. .Sentimentalismos baratos. mas eu nunca me esqueci de ti! Nunca deixei de sentir saudades tuas. a única pessoa que Jorge queria agradar era Madalena. eu sei! Estava sempre tão obcecado com o meu sucesso profissional que me esqueci da minha família e da mulher maravilhosa que andava a desperdiçar.Já não tinha tempo para ti. Mas naquela noite particularmente especial. . . dos nossos filhos. algo a que o advogado estava amplamente habituado nos seus extensos anos de profissão quando se reunia com clientes importantes. Lena.O anel era lindo. Era simples também. não achas?! Madalena sorriu.O restaurante escolhido por Jorge primava pelo requinte e pela sofisticação. mais dinheiro.

sonhos e desejos a serem concretizados. .Um brinde! As luzes apagadas fizeram antever que não havia absolutamente ninguém acordado naquela casa. os dois deitaram-se sobre os lençóis de linho. eu não queria ser um pai chato! Queria que o Daniel e a Sara me vissem como um pai espectacular capaz de lhes concretizar todos os desejos. Algo superior às suas forças e também à sua existência.Esta história que aconteceu com a Sara fez-me abrir os olhos para uma serie de coisas que me eram totalmente estranhas. Jorge deslumbrou-se com a grandiosidade daquele momento e experimentou uma das sensações mais avassaladoras que um homem poderia experimentar ao lado de uma mulher. onde havia planos. Mas só hoje vi o quanto errei. e não o fizeram apenas no espaço. . Após longas horas de ausência. Mais tarde. . Madalena era essa mulher. não fosse esse mesmo destino tornar a juntá-los naquela noite tão especial. Prova disso? O arrepio que sentiu em todos os poros do corpo quando lhe desceu o fecho do vestido. foi assim que se sentiu até Madalena o levar em direcção à cama e brindá-lo com um longo beijo enquanto o fazia. . ao que estamos a viver neste momento e… ao que iremos viver daqui para a frente. Antes. e… o quanto esse erro te prejudicou a ti e à nossa filha.Fico feliz que tenhas percebido isso – respondeu Madalena tentando esquecer a sombra que atravessou o seu peito quando se lembrou da existência de Sara. não é?! .Estranho. o destino trocou-lhes as voltas.Um brinde – afirmou Jorge tocando a sua taça na de Madalena. mas também no tempo. na altura. É estar presente. Ao entrar no quarto que um dia também foi seu. . Afastou-os de uma forma irreversível e quase que os obrigou a continuar assim. ouviu o tecido cair no chão e Madalena suster a respiração descompassada. Foi ela a responsável por tudo o que de bom lhe havia acontecido até à data e era também com ela que pretendia passar o resto dos seus dias. Madalena e Jorge regressaram ao ponto de partida. Depois disso. Mas infelizmente.Estarmos aqui os dois depois de tudo.Mudei mesmo. Fez-me perceber o porquê de muitas vezes brigares comigo. – Quem diria… . . .Eu mudei muito. É muito mais que isso.O quê? – perguntou Madalena esboçando um sorriso envergonhado quando Jorge lhe percorreu os braços desnudos.. Lena! Acredita em mim. Por momentos.Então um brinde à tua mudança.Será!? . de me tentares chamar à razão e de me fazer entender que para se ser um bom pai não é preciso dizer sim a tudo.É muito estranho. mas bom… – respondeu ela deixando-se mergulhar no beijo que Jorge lhe ofereceu nos lábios. despiram as respectivas roupas e entregaram-se um ao outro durante horas a fio sem se importar com os carros que passavam a alta velocidade pela rua deserta. eu sei! . . – E um brinde a tudo o que já vivemos. Parecia um sonho. 169 . Um tempo onde as suas vidas se conjugavam na perfeição. é tentar proteger os nossos filhos e… ser chato. Algo difícil de explicar.Estranho mas bom.

. – Mas não te esqueças que desta vez é a sério! Se me deres uma nova chance prometo que não te vou desiludir.Está bem. Mais uma vez. . A resposta de Madalena fez Jorge recuar dois passos e baixar a cabeça num claro sinal de desespero. Depois. deparou-se com o vazio daquela casa e soltou um pesado suspiro ao sentir-se pela primeira vez confusa quanto ao desfecho da sua história com Jorge.Para onde? . das festas de aniversário.Não prometas coisas que não podes cumprir. Percebeu também que há muito não ouvia qualquer barulho e que a possibilidade de nunca mais ouvir estava-se a tornar demasiado evidente. Normalmente.Vai – murmurou ela afastando-o da porta.Já te disse que preciso de mais tempo.Os dias que se seguiram não trouxeram nada de novo a não ser as visitas sempre constantes de Jorge lá a casa.Estás-me a dar um prazo? . lavar a loiça. do Natal. Depois disso. .E então?! Já chegaste a alguma conclusão? . aquela noite não foi excepção. . Ano Novo. – Já está tarde.Vou viajar este fim-de-semana. . Jorge! Não posso decidir uma coisa dessas de ânimo leve.Mas quando voltar quero uma resposta – disse Jorge brincando-lhe com os dedos das mãos. ficava para jantar.Estou a pensar – respondeu Madalena encostando a cabeça à parede. as suas vidas tomaram rumos diferentes. . Preciso pensar! Preciso pensar muito. mas no fundo sempre existiu uma estranha ligação entre os dois. ou quem sabe por nada disso. talvez pelos dezasseis anos em que estiveram casados. e só se dava por vencido quando Daniel subia ao quarto e Madalena forçava enormes bocejos numa tentativa desesperada de o fazer olhar para o relógio. sim! Estou-te a dar um prazo. . disponibilizava-se para colocar a mesa. Mas enquanto passeava pelas habitações de uma casa anteriormente repleta do barulho das crianças. – Quero que me digas se posso voltar cá para casa. Talvez por causa dos filhos.Eu vou pensar – riram-se os dois quando ele atravessou o jardim em direcção ao carro e não tardou mais do que três minutos a arrancá-lo.Pensa! . – Depois falamos. ele chegava ao final da tarde com a desculpa de querer estar com o filho. – Pensaste no que te disse? – perguntou ele quando ela o levou à porta. muita coisa se passou e muitas vezes ela disse que o amor e a paixão que os unia tinha terminado sem deixar rastro. . Vou para Bruxelas e devo lá ficar umas duas semanas no máximo. Páscoa e outras celebrações familiares que compunham o ano. Madalena fechou a porta. Madalena percebeu que sentia falta delas.Uma viagem de trabalho.Mais ou menos! Quer dizer…. . Quem sabe se voltasse ao ponto de partida? Quem sabe se a volta de Jorge não lhe traria de volta algum do barulho perdido? 170 . . Porque será que ela continuava sem acreditar nas suas palavras? Porque é que ela tinha um prazer especial em criar uma verdadeira muralha entre eles? – Acho melhor ires – afirmou Madalena encontrando-lhe a mão direita. Durante os três anos em que estiveram legalmente separados. . algo que nunca fizera em anos e anos de casamento.Eu sei – respondeu ele acariciando-lhe a face rosada. Os papéis do divórcio foram assinados sem um pingo de remorso.

Adoras vê-lo a sofrer. e … eu escolhi acreditar na minha filha. no que poderíamos ter vivido e não vivemos… . não é!? – riu-se Alice divertida quando Madalena lhe contou a conversa que tivera com o ex.Nunca mais tiveste notícias do Sérgio? . apesar de se encontrar ainda um pouco confusa. Saber se ele 171 . Foi com essa promessa que Jorge viajou prometendo telefonar assim que tivesse um minuto livre na sua agenda preenchida de reuniões e congressos. Traições.Pois eu acho que o devias procurar outra vez – afirmou Alice saltando da montra. Se queres realmente saber se deves voltar para o Jorge. . por muito tempo eu culpei a Sara. . nem sei sequer se tenho forças para passar pelo mesmo. marido a poucas horas da sua partida. no fim-de-semana seguinte. . sabias?! .Desde a última vez que o procurei. não sabes?! . aliás. Não posso culpar ninguém por essa escolha a não ser a mim própria.Tu surpreendes-me sempre.Tu sabes que eu nunca fui com a cara do Jorge. nós sabemos. – Eu ainda continuo a pensar no Sérgio. no que poderia ter sido e não foi. mas que apesar de tudo ainda têm concerto.Nem precisas dizer – riram-se as duas. e ela. mas até hoje eu continuo a pensar nele. era o prazo.Mas as coisas não assim tão fáceis – respondeu Madalena com um longo suspiro. . Fui eu que não quis acreditar no Sérgio mesmo quando ele me disse que nunca tinha tocado num fio de cabelo dela. Às vezes esses milagres acontecem com as pessoas que menos esperamos e com o Jorge aconteceu. . não só como homem. Acredito mesmo que ele te ama e que está disposto a concertar todos os erros. resolveu aceitar o desafio proposto pelo ex. Duas semanas.Sabes. marido.No Sérgio?! . Eu realmente acredito que ele está arrependido de todas as coisas que fez no passado.Eu não sei – respondeu Madalena não escondendo a sua indecisão.Mas eu acho que ele mudou – concluiu Alice captando os olhos de Madalena. e que assim que ele voltasse.Sim! Podes não acreditar. .Não! Claro que não… . a sério… . – Sou uma caixinha de surpresas. entendes?! Mas uma outra parte continua a gritar-me aos ouvidos que se eu voltar para o Jorge tudo vai ser como era antes. que não foram poucos. vejo que a culpa foi inteiramente minha.Mas queres ou não voltar ao vosso casamento? . E eu não quero passar pelo mesmo. .Tal como o estipulado.Eu sei – riu-se Alice. . eu acho que deves procurar o Sérgio e esclarecer a vossa história de uma vez por todas. Eu tinha duas escolhas: Acreditar nele ou acreditar na Sara. mas também como ser humano. a resposta lhe estaria na ponta da língua. . – Acho que ele cresceu. olhando para trás.A sério! Acho mesmo.Claro que não! Só preciso de tempo. não. Disse-lhe que iria pensar cuidadosamente no assunto. sim! Mas hoje. – Uma parte de mim quer. .Por culpa da Sara – interrompeu Alice terminando a decoração da montra da loja. Jorge partiu para Bruxelas e deixou um ultimato a Madalena para que ela se decidisse a dar-lhe uma segunda oportunidade. . negócios atrás das minhas costas e mentiras.

– Mas antes de mais queria pedir-lhe desculpas por tudo o que aconteceu. chegou a haver casamento? 172 . Por outras palavras. se continua a pensar em vocês ou se já está noutra. três. Era realmente muito estranho. Uma onda de dúvidas atravessou-lhe os pensamentos e a certeza de que tinha cometido um erro pareceu mais iminente do que nunca.ainda continua a gostar de ti.D. Meu Deus. enquanto um pouco mais atrás. . seis e não houve qualquer resposta. Mais uma vez. Sei que foi horrível ter levado com aquela vela na cabeça quando foram levar as flores para o meu casamento. um pouco contidamente. foi a pergunta que imperou no ar quando ela desligou a chamada e voltou a poisar o telefone sobre a mesinha. Depois disso. Era ele.Há quanto tempo.Há muito tempo – respondeu Alice apressando-se a cumprimentá-la com um beijo na face. minhas queridas! . Beatriz!? – disseram Alice e Madalena sem esconder a surpresa por a ver ali. – Olá. Quando o relógio sobre a mesinha de cabeceira marcou vinte e três horas e trinta minutos. Seguiu-se uma rápida conversa. Aonde estava com a cabeça? Porque não esquecia Sérgio de uma vez por todas? Seria assim tão difícil quanto isso? O toque do telefone fê-la dar um pulo sobre a cama. Será que mudou de número. O primeiro dia de Março amanheceu chuvoso. Sim. Como estás? .Estou óptima – respondeu ela não escondendo o seu sorriso radiante. foi o facto de ter visto o número de Sérgio no visor. Como era estranho voltar a ver o nome dele após tantos meses de ausência.É. Só assim vais poder virar essa página da tua vida e seguir em frente… Os conselhos de Alice deixaram Madalena confusa. Era ele. Foi por isso que naquela friorenta noite de segunda-feira. telefonar a Sérgio e marcar um encontro onde ambos pudessem conversar sem a mínima possibilidade de serem interrompidos. alertaram-na para uma verdade incontornável. ela resolveu cometer uma das maiores loucuras da sua vida. uma onda de pânico percorreu-lhe o corpo. voltou-se para a filha e perguntou: – Olá Joana. quatro. – Estão frescas – disse ele com um sorriso que imediatamente contagiou as duas funcionárias. e essa verdade era a de que enquanto não resolvesse a sua história com Sérgio iria ser praticamente impossível reatar a sua história com Jorge. realmente não foi uma experiência lá muito agradável! Mas que mal vos pergunte. não é?! . os três carregaram as flores para o interior da loja e depositaram-nas perto do balcão. a porta fechou-se e tornou a abrir-se com duas caras também elas conhecidas. Depois disso. cinco. Madalena percebeu que já não havia mais tempo a perder e digitou um número que um dia chegou tão bem a conhecer. – Já veio – gritou Alice correndo a abrir a porta. . Nessa altura. após se ter convencido que nunca mais o tornaria a ver e de que as suas vidas tinham tomado rumos diferentes. Nessa altura. mas por outro lado. o motorista da carrinha não tardou a abrir as portas e a mostrar-lhes as flores encomendadas. dois toques. Madalena seguiu-lhe os passos tentando abrigar-se da chuva. uma gorjeta ao motorista e a partida do último com a promessa de voltar dali a três dias. friorento e começou com a chegada de uma carrinha de encomendas feitas pela floricultura. mas mais do que o toque em si. Um toque.

Depois dessa elegância. – Acabámos de receber novas encomendas.Isto tudo para vos dizer que esta vai ser a última vez que cá vimos – concluiu Beatriz. – Mas bem. .Que bom – respondeu Madalena forçando-lhes um sorriso. não foi só por causa disso que viemos à loja. surpresa.Tiveram sorte – interferiu Madalena levando mãe e filha em direcção à bancada da floricultura.Ele é um gentleman – afirmou Joana mostrando o seu anel de noivado cravado a ouro e diamantes. Será que têm alguma coisa? . Parece que eles têm lá uma propriedade gigantesca. vinha a agitação e a correria dos empregados que faziam de tudo para atender os clientes.Porquê?! . . – Acham mesmo que a minha querida Joaninha iria casar-se com um idiota como àquele? Ela merecia muito melhor e foi óptimo ter desmanchado o noivado antes de cometer o maior erro da vida dela. o meu noivo. talvez tivesse uns vinte anos de existência. era o local. as coisas tendem a ser rápidas. Uma casa de chás situada no centro de Lisboa repleta de pessoas de todos os estratos sociais..Uau! Não é para todos – riu-se Alice.Sim! Conhecemo-lo num cruzeiro pelo Oriente há seis meses atrás e ele encantou-se tanto pela Joana que nunca mais a quis largar. . Finalmente chegara a altura pela qual ela havia ansiado durante meses e nada e nem ninguém a iria fazer atrasar-se àquele encontro. amor e amor. .Pois não! Só para quem tem sorte e um rosto lindo como a minha Joaninha – respondeu Beatriz mostrando um sorriso radiante à filha. não é. nem o trânsito caótico que todos os dias inundava a cidade e muito menos o temporal a cair violentamente sobre o pára-brisas do carro. Volte amanhã. . mãe! Tenho a certeza que a Carmo iria adorar. 173 . essa casa trazia consigo um ambiente ameno. Madalena aproximou-se da porta e virou a placa ao contrário: Fechado. e como aquilo está às moscas. cadeiras e azulejos pintados à mão ressaltavam a sua elegância. . Para além disso. . quando o amor é assim tão… intenso. convidou-nos para irmos morar com ele e com os pais a Dubai.Árabe?! – indagou Alice. Os dois são completamente apaixonados um pelo outro e até já marcaram a data de casamento para o próximo Verão. – Faz tudo para me ver feliz e também para me mimar.Claro que não – respondeu Beatriz passando as mãos pelos cabelos da filha. Na verdade. – Devíamos levá-las. caloroso e bastante agradável. .Bem.Até porque ela agora está noiva de um empresário árabe multi-milionário – concluiu Beatriz. Sinceramente não podia ter encontrado um noivo melhor. Tal como sempre. .O Atif. Era uma das mais antigas da cidade.Uau! Estas túlipas são lindas – exclamou Joana não resistindo a tocá-las. Desde então só tem sido amor. ele achou por bem que eu e a minha mãe ocupássemos a casa até o dia do casamento. Nem os seus clientes. Queríamos encontrar um arranjo lindo para uma amiga que faz anos hoje. e para prová-lo. tudo isso eram pequenos detalhes perto da imensidão do que iria acontecer quando chegasse ao local combinado. a floricultura encerrou às dezanove horas. radiante. . mas o aprumo das mesas. . – Quer dizer. que rápido – murmurou Alice recebendo um discreto beliscão por parte de Madalena.

O tempo passou. Um sorriso que continuava idêntico ao que era. sendo que depois dessa separação. .Eu pedi para que ele ficasse lá em casa. Límpido. bonita e apaixonante.Não muita – respondeu Madalena tentando esconder o nervosismo de estar outra vez à frente do único homem que a conseguiu envolver após o seu divórcio. . . bolos frescos e outras iguarias não muito encontradas em outros estabelecimentos da cidade. Está a ocupar o antigo quarto que era da… . . E sim. as suas vidas tomaram rumos diferentes e criou-se uma estranha percepção de que ainda havia pontos a serem esclarecidos numa relação que apesar de tudo foi intensa.Está tudo bem com eles! O meu pai está agora a morar comigo.disse ela encontrando a mesa escolhida por Sérgio.Claro que sim. com o teu filho… . Foram esses os motivos que levaram Madalena a escolher aquela casa de chás para se encontrar com Sérgio Almeida.Então podemos pedir isso se quiseres – respondeu Sérgio chamando gentilmente um dos inúmeros empregados da casa. . 174 . .Ai é?! Que bom – sorriu Sérgio. – Só tive que correr imenso porque não consegui arranjar um sítio aqui perto para estacionar. Foi ele quem lhe mostrou que nem tudo estava perdido. Depois disso.É. nada mais voltou a ser o mesmo. – Mas eu não me esqueci de ti.Sempre com um sorriso nos lábios. um fotógrafo que meses antes havia aparecido na sua vida como um anjo e a virado de pernas para o ar. Impressionante.Tu também não estás nada mal – riram-se os dois. realmente faz muito tempo – respondeu Sérgio desarmando-a com o seu sorriso e com os seus olhos verdes. Impressionante como Madalena nunca havia percebido isso até conhecê-lo e entregar-se a ele.Estava à tua espera para pedirmos juntos. . Sérgio reparou. mas acima de tudo sincero. que havia vida para além do divórcio e que nunca era tarde para se acreditar num amor tão ou mais intenso que o primeiro.Não faz mal! Também só cheguei há cinco minutos – respondeu ele observando-a a arrastar uma cadeira. anotavam os pedidos à mesa. .Claro. – Estás mais gordo. .Mas tu estás óptima.Sara. – Estás encharcada. ainda nem te perguntei como é que estás.Sim! Da Sara – respondeu Madalena não escondendo o constrangimento sempre que falava da filha. Apanhaste muita chuva enquanto estavas a vir para cá? .Ouvi dizer que aqui servem uns maravilhosos bolinhos de coco e óptimos chás de menta. .Devo levar isso como um elogio!? . Faz tanto tempo que não nos vemos… . . Mas infelizmente o destino foi cruel e separou-os no momento em que ela menos estava à espera. fez os pedidos em nome dos dois e aguardou que o funcionário se retirasse da mesa com o mesmo sorriso que trouxe. arranjou os cabelos molhados pela chuva e ainda teve tempo para sorrir. fugiam para o interior da cozinha e voltavam com chás fumegantes. – Então?! Já pediste alguma coisa? . Nessa altura.Eu também não.Bem.Espero que esteja tudo bem com o teu pai. – Desculpa o atraso… . . jovial. . Madalena sentou-se à mesa.

Deves ter ficado surpreso quanto te telefonei ontem à noite.E os nossos caminhos afastaram-se muito! Mais do que eu queria que se afastassem. E tens razão. um certo desconforto até.Lena. e segundo porque… precisava ter a certeza de uma coisa. mas sim porque não teve forças para isso. Quem começaria primeiro? . quem sabe… não sei! Quem sabe… .Porque eu preciso saber. não é!? – disse Madalena bebendo um gole do seu chá de menta. e se me perguntares ou se alguém me perguntar. Mas a verdade é que passou e… . Não estava nada à espera. não foi? . . mas eu precisava ver-te mais uma vez.…que provavelmente já deves ter refeito a tua vida.Primeiro porque… queria ouvir a tua voz. o que vivemos não foi um sonho. foi muito real e inesquecível! Mas o tempo passou e não eu sei como conseguiu passar tão depressa.E…?! . As palavras de Madalena contrastaram com a expressão séria de Sérgio e com o desejo que ele sentiu em contar-lhe toda a verdade antes que ela abrisse o seu coração de uma forma irreversível. e mais uma vez. . Era óbvio o nervosismo demonstrado pelos dois. Foi real. Não porque não quisesse. Porque foi real. cada vez que se olhavam nos olhos.continuou ela. . . .Claro que foi – respondeu Sérgio afastando a chávena de si. assim como eu também nunca me esqueci de ti.Os chás e os bolos de coco não tardaram a ser trazidos à mesa pelo mesmo empregado que os havia atendido minutos antes.Nem tu? Então porque é que me ligaste? – riu-se Sérgio. duvido muito que algum dia vá esquecer. parecia que tinham tantas coisas em comum e tantas palavras para se dizerem um ao outro. Madalena e Sérgio agradeceram a gentileza do funcionário enquanto escolhiam as suas respectivas chávenas e tentavam arranjar espaço numa mesa não muito gigantesca.Não sei se te lembras da Vera… .Eu também acho que foi! Foi uma das coisas mais reais que aconteceram comigo e eu tenho medo que nunca mais volte a acontecer. Porque se tu me disseres que… existe essa possibilidade. mas ainda assim.discursou Madalena sentindo-se quase sem fôlego.Confesso que fiquei um pouco.Como assim?! . eu nunca me esqueci de ti. eu preciso mesmo saber se a nossa história terminou. – Eu sei que já se passou muito tempo… .Lena… . 175 . Se não existe a mais remota possibilidade de me quereres de volta e de me perdoares por não ter acreditado em ti na altura que eu devia ter acreditado. . Sei lá! Ouvir a tua voz. Foi por isso que eu resolvi procurar-te de novo… . Mas a verdade é que o fotógrafo não conseguiu interrompê-la a tempo. . …ver o teu rosto e ter a certeza que nada do que vivi contigo foi um sonho.Que coisa?! Ela sorriu nervosamente.Nem eu. .Que Vera!? – perguntou Madalena tentando manter-se firme perante as revelações que se avizinhavam. . – Que ainda não me tinhas esquecido.

E não.Na altura não! Claro que não… – respondeu Sérgio temendo ser mal interpretado. Ajudou-me imenso quando me senti em baixo. . Sérgio não contava. – Vais ser pai… . Ninguém teve a brilhante ideia de olhar para si e confortá-la com alguma palavra ou até mesmo com um abraço. – Desculpa! Eu não te queria magoar. várias foram as vezes que Madalena pensou cometer suicídio ou então abrir um buraco para se esconder por debaixo da mesa. Mas a verdade é que foi acontecendo … .Não foi bem apaixonar – respondeu Sérgio observando-lhe os olhos cintilantes. Durante a condução para casa. Devo-lhe muitas coisas… . Era o fim. . lembraste?! . Meu Deus! Como o mundo dava voltas e como o destino era tão cruel. e enquanto a tentava assimilar. Quatro semanas! De facto.Apaixonaste-te por ela?! . trocámos números de telefone e fomos nos conhecendo melhor. aliás. .E tinham?! . e o fim de uma história que tinha tudo para dar certo.. Sem mais nada para lhe dizer.Vou – respondeu Sérgio encontrando-lhe a mão sobre a mesa.Não! Não a amo. entendes?! Mas sei que gosto da companhia dela. várias foram as vezes que Madalena tentou 176 .Então porque é que estás com ela? – perguntou Madalena sentindo-se confusa. ela desmoronaria como um baralho de cartas. eu encontrei-me com ela num desfile de moda. até hoje não sei se sou apaixonado por ela.Porque ela está grávida. Não era para ser importante. fez-me sorrir nos momentos em que me apetecia chorar e tornou-se numa pessoa importante na minha vida. a revelação não poderia ser mais bombástica. . – Aliás.Mas não a amas. Conversámos. Aconteceu! Essas coisas acontecem a toda a gente e eu disse-te que um dia iria acontecer contigo. Foi algo muito casual. pensou. Madalena encolheu os ombros e lançou os olhos ao movimento frenético das pessoas à sua volta pensando como era impressionante que ainda ninguém se tivesse dado conta da maior tragédia ocorrida na sua vida.Lembro. . . e tal como deves calcular. onde praticamente deixou ver o asfalto da estrada devido às lágrimas que teimaram em cair-lhe dos olhos. até porque se ele continuasse a olhar para si ou se atrevesse a proferir qualquer outra palavra de arrependimento. na altura eu estava tão magoado que nem sequer me passava pela cabeça ter alguma coisa séria com quem quer que fosse.Uma modelo que eu tinha fotografado no início do nosso namoro. – Descobri isso há pouco tempo. O fim dos sonhos que ela transportou durante vinte e quatro horas. – Mas depois que terminámos por causa daquela história da Sara. Mas infelizmente nenhum dos seus desejos se concretizou e a visão de Sérgio aos poucos e poucos tornou-se cinzenta e deturpada.Não tens que pedir desculpas.foi tudo o que ela conseguiu murmurar enquanto os seus olhos se enchiam de lágrimas. Ela apareceu uma vez em minha casa enquanto lá estavas e tu ficaste desconfiada que tínhamos algum envolvimento. o fim do que poderia ter sido e não foi. eu sou o pai… – respondeu Sérgio terminando com todas as dúvidas que ainda assombravam os pensamentos de Madalena.

eu realmente não quero saber da Sara! Sei que é horrível uma mãe dizer uma coisa dessas. . não sei se me viram ou não.Não. pai – suspirou Madalena voltando-se para ele.Não sei – respondeu Daniel enfiando o rosto no livro que estava a ler.O que é que aconteceu? Algum problema? .Pai. . – Estava com duas amigas muito mais velhas e parecia que iam a entrar no metro! Bem. . ela abriu a porta de casa completamente encharcada e largou as chaves sobre a mesinha. Depois dessa certeza.Ela está grávida – interrompeu Afonso parando-lhe todos os movimentos.Encontrei-a na zona do Areeiro – continuou Afonso enquanto Madalena passeava atordoada pelo quarto.Não. . Afonso saltou do sofá e alcançou o corrimão das escadas pronto a descobrir que raios se tinha passado com ela. por favor … .Talvez assim tenha sido melhor. . . . pai! Tu sabes que eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para impedir que a Sara saísse de casa. tu tens a certeza do que me estás a dizer? 177 . – Hoje não! . mas a verdade é que desde que ela saiu cá de casa a minha vida melhorou e eu não quero ter que voltar ao ponto de partida. Mas acho que para isso não existe solução.Vi a Sara. – O que foi? .Que seja.Eu não acho.O quê?! .Pai. mas o que é que querias que eu fizesse mais?! Eu estava cansada de a tentar chamar à razão.A Sara está grávida. pai! Não há problema nenhum! O único problema é a minha vida em si. – Será que aconteceu alguma coisa com a tua mãe? .Hoje não. . . .Já chegaste!? – perguntou Afonso vendo a filha passar pelo corredor como um foguete sem sequer responder à pergunta. Preocupado com o comportamento intempestivo da filha. não foi muito difícil chegar ao quarto de Madalena e tocar-lhe à porta. cansada de a impedir de sair à noite e de a ver chegar bêbada às tantas da madrugada – afirmou Madalena gesticulando furiosamente os braços. . A expressão séria de Afonso fê-la hesitar. não é?! Só tenho que me habituar a ela. – Posso?! .Podes – respondeu ela apressando-se a limpar as lágrimas junto à janela. Nenhuma mãe teria aguentado o facto de saber que a filha se andava a prostituir em troca de nada… . – Eu tenho a certeza que nenhuma mãe teria aguentado a metade do que eu aguentei.convencer-se de que a sua história com Sérgio tinha terminado e de que não lhe restava mais nada a não ser lamentar-se da sua triste sorte.Preciso contar-te uma coisa que vi hoje. As coisas que ela me disse na noite em que se foi embora até hoje estão-me gravadas na memória e eu nunca vou conseguir esquece-las ou sequer perdoá-las… .Mas ela é tua filha.Tenho a certeza que vais querer saber. E mesmo apesar das pernas cansadas e do esforço de um pobre velho de sessenta e nove anos. mas a verdade é que quando fui atrás delas as três desapareceram sem deixar rastro.

pois não?! .Claro que não – respondeu Afonso perante o desconforto patente nos olhos e nos movimentos de Madalena. o que é que vocês querem com a Sarita?! Olhem que é uma gaja fixe! Não lhe vão fazer mal. – Bem.Se achas que não tens qualquer responsabilidade para com a Sara. Se quiserem posso mostrar-vos! É mesmo aqui ao pé… . nem mesmo o desespero patente nos rostos de Madalena e Afonso conseguiram demover-lhes da vontade incomensurável de seguirem em frente. Afonso aproximou-se dele e em seguida mostrou-lhe uma fotografia que continha a imagem de Sara: . e pela barriga. Lena! É o teu neto.Claro. a mãe da Sara! Viemos conversar com ela. mas ao chegarem ao final da avenida Almirante Reis. Afonso. – A Sara está grávida sim. Parecia ser toxicodependente. Gentilmente. – Mas que mal vos pergunte. o indivíduo não teve dúvidas: .Eu não acredito nisto.Sigam-me – exclamou o toxicodependente fazendo um gesto engraçado e permitindo que Madalena e Afonso se colocassem à sua frente.Bem. 178 . Mais lágrimas foi o que Madalena sentiu a brotarem dos seus olhos. . . Contudo. o trânsito mais uma vez estava caótico e as esperanças de encontrar quem tanto procuravam tornou-se remota com o passar das horas. E apesar de a foto estar molhada. Infelizmente a maioria das respostas foi negativa. Mas acho que ainda deve estar a morar com a Milene na pensão. eu sei que só tenho sessenta e nove anos. não?! . . e esta senhora aqui é a minha filha. Com uma fotografia na mão.Tome – respondeu Afonso entregando-lhe uma nota de dez euros. de cabelos compridos. Madalena e o seu pai.Mas?! .Claro que conheço.Sei. até pelas vestes que trazia consigo e pela barba há muito não aparada. . mas… . – Leve-nos até lá. Em duas ruas paralelas. por favor! . chovia torrencialmente. interceptaram todas as pessoas que iam a passar debaixo dos seus chapéus-de-chuva. Era quarta-feira. madame! Sabe como é que é! Já são sete horas e um gajo ainda não conseguiu juntar dinheiro suficiente para jantar. . Só as amigas dela. continuaram a descer a avenida e continuaram também a perguntar se ninguém havia visto uma jovem de dezassete anos. há muito tempo que não vejo a Sara. olhos escuros e pele clara.Por acaso – disse o indivíduo mostrando-se bastante satisfeito com a recompensa. e aparentava também ainda não ter passado dos trinta. claro – respondeu Afonso de imediato. – Eu pensei que ela não tivesse família. já deve ir nos seis ou sete meses. tudo bem.Conhece esta menina? – foi a pergunta.. mas acho que consigo perceber quando uma mulher está grávida ou não – respondeu ele encarando a expressão surpresa de Madalena. .Ai é?! – respondeu o indivíduo coçando levemente os cabelos. – Este é o pior dia da minha vida – gritou ela atirando o candeeiro da mesinha contra a parede. Afonso interceptou um indivíduo de aspecto algo duvidoso.Ia precisar de um agrado. grávida. – Eu sou o avô dela. É a Sarita! O pessoal lá do bairro chama-a assim. eu até entendo. – Acho que isto deve chegar para o jantar à maneira.E sabe aonde é que ela está? – perguntou Madalena não escondendo a sua ansiedade. Mas para com o teu neto!? Ele não tem culpa de nada.

Eu sei – respondeu ela encarando-lhe a expressão irónica. – Nem sabemos como lhe agradecer… .Bem. . demorou algum tempo a apertar-lhe a mão. . – Eu não mordo. Nessa altura. A caminhada em direcção ao bairro do Intendente demorou alguns minutos.Sempre a vi sozinha lá no bairro e ela também nunca falou nada. Infelizmente. . militar. prostitutas encostadas às portas das pensões enquanto seguravam os respectivos chapéus-de-chuva e compunham a pequenez das mini saias.Obrigado pela ajuda. . um homem de estatura média. rapaz – respondeu Afonso permitindo que Madalena entrasse primeiro. que ao contrário do pai.Vítor – respondeu ele abrindo um sorriso enquanto estendia a mão a Afonso. vou ter que avisá-las primeiro. repleto de lixo espalhado pelo chão. todos eles compunham o cenário no mínimo degradante onde Sara tinha escolhido ser a protagonista. E ao voltarem-se para trás. oh – exclamou Vítor alcançando a porta da pensão que tanto tinham procurado. seguiu-se a vez de Madalena.Não! Nós gostaríamos que fosse uma surpresa. vô! Afonso não viu outro remédio a não ser oferecer uma outra nota de dez euros àquele pobre rapaz que apesar de tudo nem parecia ser má pessoa.Nós viemos procurar uma rapariga chamada Sara e uma outra chamada… . o seu cumprimento foi imediatamente correspondido pelo ex.Porquê!? . – É aqui. elas estão lá em cima… – respondeu o dono da pensão mostrando-se um pouco mais calmo por perceber Afonso e Madalena não eram pessoas ameaçadoras ao seu negócio. – Mas para vos deixar subir.Pois. vários toxicodependentes a cambalear pelas ruas.Eu sei – afirmou Vítor estendendo novamente a mão.Sim! Somos amigos. Surpreendentemente ou não. a visão de imigrantes dos mais variados países. despediu-se dele com um novo aperto de mão e acompanhou a sua filha em direcção às escadas sujas e escuras que ligavam os quatro pisos daquela pensão. meu Deus. Depois disso.Desculpe. e quando finalmente avistaram a entrada. – Mas não garanto que a Sara e a Milene estejam aí! Podem ter saído! .Milene – concluiu Madalena quase gelando dos pés à cabeça quando os seus olhos se cruzaram com os do proprietário da pensão..Hã. Era a primeira vez que estava ali. um misto de sensações e sentimentos atravessaram o coração de Madalena. essas duas! Conhecem-nas. rapaz? . é?! . – Não sabíamos que estava aqui alguém. . entende?! – interferiu Afonso. – Aonde pensam que vão? . Agora digam lá! Quem são vocês? . – Hei – ouviram uma voz grossa a sair da recepção. – Agora é para a sobremesa. Era a primeira vez em quarenta e dois anos que se atrevia a pisar um local como aquele. vestido com um fato de treino azul e uma expressão facial nada amigável assombrou-lhes a visão. . mas estava! Eu sou o dono desta pensão e aqui ninguém entra sem passar primeiro por mim. e por fim.Como é que é o seu nome.Sei! Uma surpresa? 179 . amigo – respondeu Afonso mantendo Madalena um pouco mais atrás de si a fim de preservar a sua identidade. madame! .

Depois disso. A porta sofreu dois toques quase seguidos. é mais caro.suspirou ela.O quarto fica no terceiro andar e é o número dois. sou eu – respondeu a prostituta cautelosamente. A visão que lhe surgiu à frente foi realmente surpreendente. pensou. Uma mulher de cabelos castanhos pelos ombros vestindo uma gabardina preta e um lenço cor de laranja ao pescoço. eu deixo que façam a tal surpresa e até finjo que não estava cá quando subiram! Mas se não derem… . O número que para sempre iria ficar gravado na sua memória. E para piorar o cenário.Se me derem vinte euros. o que também poderia prejudicial para o bebé. ela estava grávida. um senhor de meia-idade trajado com um casaco verde-escuro e calças de ganga aprumadas.Obrigada! Sob o barulho ensurdecedor das escadas. era ela quem fazia questão de pagar. – Podemos entrar? 180 .Sim. – Porquê? Algum problema? . Afonso e Madalena contaram os degraus até o terceiro piso e muitas vezes se viram submersos numa escuridão aterradora. ainda atordoada perante tal revelação. – Aqui tem os vinte euros. pai! Deixa – exclamou Madalena impedindo que Afonso retirasse mais uma nota da carteira. o cheiro a humidade emanado pelas paredes. Quem quer que fosse não a iria deixar em paz. assim como o encontro com a filha após seis meses em que estiveram afastadas e não mantiveram qualquer tipo de contacto. mas para ser surpresa. Enquanto pensava em todas estas tragédias. Depois disso. e logo atrás dela. . .Eu sou a mãe da Sara – interrompeu Madalena para grande surpresa de Milene. – Não vais bater à porta? – perguntou Afonso percebendo a hesitação de Madalena.…deixa-me ganhar alguma coragem. O que mais poderia fazer para que a amiga se recuperasse da pneumonia contraída cinco dias antes? Nem mesmo as emergências do hospital. e Madalena pode ter essa certeza quando se viu pela primeira vez à frente do quarto apontado pelo dono da pensão. Para além disso. Raios.. até porque desta vez.Não. .Você é que é a Milene? – perguntou o senhor. Milene ouviu um terceiro toque na porta e finalmente deu-se por vencida. – Pois não?! . lançou um olhar à cama onde Sara estava deitada e percebeu que a febre e os tremores da jovem ainda não haviam cessado apesar dos antibióticos. . . tornou a afastar-se da cómoda e alcançou a maçaneta da porta girando-a de uma só vez. os inúmeros remédios que foi obrigada a adquirir na farmácia de serviço ou os panos húmidos para acalmar as febres altas conseguiram melhorar o estado de saúde de Sara.Sim. Esta. a sujidade entranhada em todos os cantos não lhes deixaram quaisquer dúvidas de que Sara tinha escolhido um dos piores lugares do mundo para viver.Pois. algo que prendeu de imediato a atenção de Milene e que a fez largar a revista que tinha nas mãos.Deixa-me… . . O número dois. Há muito tempo que não nos vemos e eu tenho a certeza que elas iriam ficar muito mais contentes se nos vissem lá em cima… de surpresa. não conseguiu produzir qualquer movimento corporal a não ser manter a mão sobre a porta. E foi por isso que sem muitas cerimónias ela saltou do divã encontrando no espelho o único local para compor os cabelos e o decote da sua camisola preta. .Como assim?! .

e em seguida. vulnerável e insegura na presença de Madalena. – Lena! Importaste de ficar aqui a preparar a Sara enquanto trago o carro para a levarmos? . Madalena lançou os olhos a Sara e por momentos quase não a reconheceu. não tinha quaisquer razões para se sentir assim. – Lá é que é o lugar dela! . aliás. Enquanto ouvia o discurso de Milene. mandou-a para casa e receitou uns medicamentos que tive que comprar ali na farmácia. – Nós viemos buscá-la – exclamou ela voltando-se para Milene. não é?! . Infelizmente.Claro que não. fez-se um silêncio perturbador.Tudo bem! Eu entendo. – Entrem! O convite foi imediatamente aceite por Afonso e Madalena. O facto de a sua filha já não existir. mas a febre continua alta! Já não sei o que fazer para a baixar. Apesar da gravidez. Milene sentiu-se mais nervosa do que nunca. os cabelos estavam mais compridos e o rosto de menina inocente transformou-se no de uma mulher obrigada a crescer à força.Espero bem que não. Milene percebeu isso quando baixou o rosto e perguntou: – Para onde é que vocês a querem levar? . – Quer tomar alguma coisa? – perguntou Milene prendendo-lhe a atenção.Eu não sei se ela vai querer ir – respondeu a prostituta cruzando os braços. .Ela está assim desde sexta-feira… – disse Milene quando Madalena e Afonso avistaram o corpo de Sara deitado sobre a cama. Era estranho imaginar-se tão pequena. Nem mesmo os antibióticos estão a fazer efeito. 181 .Claro – respondeu ela após alguns segundos em suspenso. Ao vê-los ali diante de si. Sempre fora tão segura.Para casa.Eu vou buscar o carro lá acima – disse Afonso voltando-se para a filha. Obrigada! . – O médico que a assistiu disse que provavelmente era pneumonia. E só de pensar que tinha sido ali que a sua filha tinha passado os últimos seis meses de vida. . pai! Vai lá! . Mas como não havia camas vagas no hospital. .Hã… não. da Sara que todos conheciam. independente e imune à opinião dos outros que era estranho ver-se metida numa situação daquelas.Eu não estou a pensar nada – respondeu Madalena observando os gestos de Milene a retirar as roupas de Sara dos armários.É grave? – perguntou Afonso debruçando-se sobre a neta enquanto lhe mexia nos cabelos soltos.. . a porta do quarto fechou-se com algum cuidado. . .Então já vou indo para não perdermos mais tempo. quando na verdade. e Madalena não resistiu a lançar um novo olhar àquelas paredes vazias. ela tinha emagrecido bastante. desprovidas de qualquer luxo ou outros elementos decorativos.O lugar dela não é aqui e você sabe disso! A afirmação de Madalena não poderia ter sido mais acertada. claro – respondeu Afonso.Sei que deve estar a pensar horrores deste lugar. aquela era a primeira vez que se sentia tão nervosa perante a presença de pessoas desconhecidas. . já não restava mais nada e foi isso que assustou Madalena. Depois disso. Foram precisos poucos minutos para que Afonso abandonasse o quarto e deixasse Madalena e Milene de olhos postos em Sara.

teve sempre o que comer. parecia que a sua história tinha tido finalmente um final feliz. no seu coração. Confesso que até hoje eu nunca entendi. ninguém em sã consciência iria perceber os motivos que a fizeram largar tudo aquilo para vir morar no Intendente. A resposta de Milene trouxe um novo silêncio e também um novo olhar de Madalena aos cantos daquele quarto.E só para terminar… queria também que soubesse que a admiro imenso! Nem sabe o que eu daria para que a minha mãe também me tivesse vindo buscar ao Intendente. sendo que dali para a frente iria ser praticamente impossível voltar a ver o bairro com os mesmos olhos pois Sara tinha retirado dele todo o encanto..O seu pai até pode ser forte. na sua companheira. lá isso é verdade. Sara transformou-se na única amiga que um dia teve. confidente e também a única pessoa a quem ousava contar alguns dos seus maiores segredos. eu gosto muito da Sara e nunca quis que nada de mal lhe acontecesse. não é?! – retorquiu Milene percorrendo a sua lista de contactos através do telemóvel.Eu sei – respondeu Madalena encarando-lhe a expressão mortificada. – Eu vou chamar um amigo para vos ajudar a levar a Sara e as coisas dela até ao carro. sabendo bem quem eram as pessoas que 182 .Vocês são amigas? . Todas as alegrias que passaram juntas..Está a pensar sim. Nessa altura. Diante daquele facto irrefutável. ficaram-lhe gravadas na memória.…eu sei que provavelmente deve achar que eu sou a culpada de tudo o que aconteceu à sua filha. – Esse meu amigo vem cá num instante! Ele vive aqui ao pé. – Espere – exclamou Milene interceptando a saída de Madalena do quarto. poucas dúvidas restaram quanto ao seu destino. . Faltavam poucos minutos para o anoitecer quando a fechadura sofreu uma ligeira pressão e a porta se abriu ruidosamente. . mas pelo menos fiz o melhor que sabia. mas mais do que isso. . Nessa altura. Sim. Não fiz um grande trabalho. durante os meses que passaram juntas. não foi?! Vá-se lá perceber porquê! Com uma casa de sonho. para os seus familiares mais próximos e recuperar-se-ia de todos os fantasmas que durante meses a atormentaram.Não é preciso – respondeu Madalena de imediato. Mas foi aqui que a Sara escolheu ficar. .Somos – respondeu Milene lançando um olhar a Madalena enquanto dobrava algumas peças de roupas e as colocava na mala de Sara. tristezas e discussões. fui eu que tomei conta dela durante estes meses todos. Por estar quase inconsciente devido às fortes febres. . Mas de qualquer maneira. uma família que a tratava bem. Sara nem sequer se apercebeu quando foi carregada ao colo por um dos habitantes do bairro e as suas malas foram levadas pelo avô em direcção ao primeiro piso da pensão. mas. As últimas palavras de Milene coincidiram com a saída de Madalena e com as lágrimas que não conseguiu suportar perante a partida da sua melhor amiga. mas ele não vai conseguir aguentar sozinho com o peso da neta e muito menos com as malas dela. o que vestir e foi obrigada a ir a todas as consultas pré-natais mesmo quando não queria. . mas eu não a recrimino! Eu também sei que este lugar não é nada especial.. nunca foi espancada por nenhum chulo. De facto. – A sua filha é quase como uma filha para mim embora a nossa diferença de idades não seja assim tão grande. Pelo menos ela nunca foi apanhada por nenhum drogado. Voltaria para casa.

. Madalena resolveu enfiá-la numa banheira de água morna e lavar-lhe o corpo com ervas medicinais que a sua mãe costumava guardar na floricultura. Era só com isso que não contava. e consequentemente.Só mais um pouco! Até ter a certeza que a Sara dormiu – respondeu Madalena. A contar pela sua enorme barriga. . grávida e ainda tinha muito para viver dali para a frente. Não foi preciso dizer nada. ver os seus filhos casar.O que foi? – perguntou Madalena correndo ao encontro de Sara com o coração aos pulos. embora essa fosse a realidade nua e crua. Até já! . Sofreria as mesmas angústias. 183 .Está bem. ela pensou. Madalena não precisou de mais nada para se sentir a mulher mais feliz do mundo e para ter a certeza que todos os seus esforços não foram em vão quando resolveu procurar a filha e trazê-la de volta a casa. mas o que ela não contava era que as coisas fossem acontecer daquela forma tão rápida. Ela estava viva. Até porque se pudesse faria tudo de novo. Depois disso. Era remédio santo.Então vemo-nos na sala. a cama encontrava-se pronta para a receber. Neto. das pessoas que mais a amavam e que nutriam por ela um amor incondicional. Afonso levou a neta até ao quarto e colocou-a na cama. . . os braços. dizia Leonor quando ainda era viva.Vais ficar aí? – perguntou Afonso quando se aproximou do alpendre da porta. e por ter experimentado essas ervas várias vezes durante a sua infância. Parecia um sonho. esfregando-lhe não só as costas. Aliás. Mais tarde.tinham chegado a casa.ouviu-se um murmuro. Com as poucas forças que lhe restavam. e o pijama vestido provou que era altura de Sara se sentir finalmente em casa. o primeiro neto de Madalena. não era muito difícil imaginar que lhe faltariam poucas semanas para dar à luz o seu primeiro filho. . penteou os longos cabelos da filha e passou o chuveiro por eles para que a água retirasse toda a sujidade acumulada durante semanas. Para acalmar a febre e os delírios de Sara. mas também as pernas.Até já – disse Afonso encostando a porta com cuidado e deixando Madalena sozinha naquele grandioso quarto com os pensamentos a mil à hora.Mãe…. Obviamente que sempre lhe passou pela cabeça ter netos. Era a única palavra que ecoava nos ouvidos de Madalena e que por momentos a deixou à beira do desespero por não saber como lidar com aquela nova etapa da sua vida. formar uma família e serem felizes tal como ela um dia também foi. O que não contava era ser obrigada a buscar a sua filha a um bairro como o Intendente e não fazer a mínima ideia de quem era o pai do seu neto. ninguém disse absolutamente nada pois o regresso de Sara era algo já há muito esperado. Madalena achou por bem utilizá-las em Sara. desastrosa e pouco corrente. Neto. Estava limpa. Madalena retirou-lhe os ténis e as meias brancas. seguiram-se as roupas e a certeza de que Sara estava realmente grávida. da mãe e da sua irmã ao fundo do corredor.Mãe… Apesar de só ter conseguido ouvir aquela palavra. Daniel saltou do sofá e encontrou a visão do avô. perto dos seus familiares. foi o último pensamento de Madalena quando por fim a conseguiu enrolar numa toalha branca e levá-la novamente ao quarto. . . Um sonho ter a filha de volta e saber que apesar de tudo não lhe aconteceu nada de mal. Nessa altura. enquanto a poucos centímetros. passaria as mesmas tristezas e ouviria todas as coisas que nenhuma mãe desejava ouvir nem no pior dos seus pesadelos.

que muito atabalhoadamente. E o que perdeu?! Bem. se aconchegou nos braços da mãe e se deixou adormecer pela primeira vez sem pensar em mais nada.Mas a verdade é que…: O que não a matou tornou-a mais forte. Depois disso. isso nem chegava aos pés do que ganhou quando passou as mãos pela barriga da filha. veio um enorme sentimento de paz manifestado por Sara. 184 . o que não a destruiu ajudou-a a reconstruir-se.

. A preparação do parto foi efectuada por algumas das enfermeiras de serviço.Claro – respondeu uma delas recebendo um sinal através do BIP. O que será que a filha quis dizer com aquilo? Não seria apenas um medo normal de uma adolescente prestes a dar à luz? No fundo do seu coração. Madalena desejou que sim e foi por isso que se voltou para as enfermeiras de serviço perguntando-lhes: . Sempre que isso acontecia. fazia-se silêncio. pedia ajuda a quem quer que se aproximasse de si e desejava que aquele pesadelo terminasse o mais depressa possível. sendo intencionais ou não. como Afonso. mãe! Fica aqui. mãe – gritou ela estendendo a mão a Madalena a fim de a impedir de sair do quarto. cheios de surpresas. ainda emocionado. fizeram com que Madalena ficasse alerta. muita força para conseguir expulsar o bebé para fora. Apenas gritava. alegrias e culminaram com o dia do parto de Sara.Nasceu – disse Jorge não cabendo em si de contente quando abraçou Daniel com força e se atirou para os braços de Alice.CAPÍTULO X Os dois meses que se seguiram foram atribulados.Eu tenho medo de morrer. Mas Sara. As últimas palavras de Sara. um acontecimento devidamente presenciado por todos os membros da família Soares.Sara… . Sara?! Chegou a hora! As cinco horas que se seguiram foram de grande angústia para todos os que estavam presentes na sala de espera.Posso assistir ao parto? . e acima de tudo. mas principalmente com os gritos que de vez em quando irrompiam a sala sem qualquer aviso prévio. a calma. – Não te vás embora! Não vás… . filha – respondeu segurando-lhe as mãos com força. encontrou nos braços do 185 . não conseguiu assimilar nenhuma dessas explicações. e também por Alice. – Graças a Deus – exclamou Afonso levantando as mãos ao alto. Vamos. – Bem. – Não. imprimiam-se novas orações e olhava-se para o relógio pendurado na parede. a melhor amiga de Madalena. Alice e o pequeno Daniel desesperaram-se com a falta de notícias. – Vai correr tudo bem. talvez pela sua inexperiência ou pelo pânico das dores. que muito pacientemente explicaram a Sara todos os procedimentos tidos em conta numa ocasião tão especial como àquela. A respiração. a sala já está pronta. Fica aqui! . .Não! Não me deixes aqui sozinha. Tenho medo de morrer. E foi precisamente às dezanove horas e trinta e quatro minutos que se ouviu o primeiro berro do mais novo elemento da família.Eu vou estar lá fora. Em seguida. Tanto Jorge.

– E então?! – perguntou Jorge assim que ela se abriu e a figura de Madalena lhe surgiu diante dos olhos. . . – Tu vais ser um bisavô fantástico assim como o Daniel também vai ser um tio excelente. . claro! O parto foi longo. Nervoso. mas vocês sabem que ela sempre foi um pouco preguiçosa… – riram-se todos. à melhor amiga e ao filho. impaciente. não é?! .ex. Assim quando a tua neta crescer. o que é que conta ser-se bisavô nessa família.E ainda nem chegaste aos quarenta e cinco! Isso é bom.Meu Deus! Pensei que o meu coração não fosse aguentar. Jorge olhou mais uma vez para o relógio e retirou as mãos dos bolsos das calças. – Afinal de contas eu também fui avô antes dos quarenta e cinco.Tem calma – riu-se Madalena alegremente. – Estamos a precisar é de mulheres! 186 .Não! Chega de homens neste mundo – disse Alice. vocês vão poder passear pela rua sem ninguém perceber essa tragédia. ela estava muito nervosa. foi a pergunta de Afonso enquanto Alice esfregava as mãos de ansiedade e rasgava alguns olhares para uma porta fechada há mais de cinco horas.Agora estão a limpar a bebé! Depois a Sara vai ser colocada num quarto normal e as duas vão ficar lá até lhes ser dada alta. sogro o apoio necessário para extravasar toda a adrenalina que estava a sentir pelo nascimento do seu primeiro neto. . – Aqui tens o teu conforto! . Porque é que ninguém saía daquele quarto para lhes trazer notícias. Madalena atirou-se-lhe para os braços e permitiu que ele a levantasse do chão.Cansada. . – Mas as enfermeiras ajudaram-na imenso. forças até tinha.k. Perante a revelação do ex. – Afinal de contas. a uma sensação de que faltavam notícias para confirmar que tudo tinha corrido bem. seguiram-se outros cumprimentos igualmente efusivos ao pai.Era mais fixe se tivesse nascido rapaz – resmungou Daniel não vendo na sobrinha uma boa companhia para jogar à bola.Oh pai – exclamou Madalena sugando-lhe a face enrugada.Que bom – exclamou Alice correndo a abraçar a melhor amiga.Acreditas nisto?! Já sou avó. avó! . – Está tudo bem. – É linda! . eu nem me pronuncio – interferiu Afonso levantando os braços. cheia de medo e não tinha forças para puxar o bebé. – Parabéns. – Nasceu! Os momentos de euforia inicial deram lugar a uma relativa calma.O. para além da certeza de que aquele tinha sido o dia mais feliz das suas vidas. . até o final da semana espero já estarmos todos em casa.Podes crer – riu-se Madalena. – É uma menina – disse Madalena passada a confusão.A Sara?! Como é que ela está? – perguntou Alice não escondendo a felicidade estampada no rosto. o médico também e por sorte correu tudo bem! Aliás.Bem. Quer dizer. . . . – Como é que foi? Como é que está a Sara? O bebé? Nasceu? Está bem? . mas como o parto foi natural e não houve quaisquer complicações. Ainda não sabemos muito bem quando é que vai ser. avô – disse Alice oferecendo-lhe um novo abraço. as duas estão bem… . Mais tarde.Quando é que as vamos poder ver? – perguntou Jorge. . marido e do gesto engraçado que fez ao levar uma das mãos ao peito. e mais tarde.E não vai aqui uma palavra de conforto ao avô?! – perguntou Jorge interrompendo a animação das duas amigas.

todas as dores sofridas durante o parto tinham desaparecido. à primeira mamada e observou Sara dormir como uma pedra durante horas sem sequer acordar quando a pequena Leonor abriu o berreiro um pouco antes das quatro da manhã.Impressionante – riu-se Sara. – Agora é que vais ver o quanto custa ser mãe – disse-lhe Alice enquanto todos paparicavam os gestos e as mãozinhas delicadas da bebé. Assistiu também ao primeiro banho. . . . o ex. pois Madalena foi a primeira pessoa a estenderlhe a mão nos momentos em que mais precisou.Estive a pensar – respondeu Sara ajeitando os lençóis sobre o colo.Já não tenho idade para estas coisas – respondeu ele arrancando uma risada geral. Madalena decidiu passar a noite na clínica para ajudar a filha em tudo o que ela precisasse. Nessa altura. . Durante muito tempo ela esteve cega ao não dar valor à sua mãe e só agora começava a perceber o quanto errou ao não fazer isso. . Ao contrário de todos os outros. – Era para teres ficado contente. deixa estar! Eu fico com ela. A homenagem não poderia ter sido mais nobre e foi por isso que Afonso não se conseguiu conter. militar tirou um lenço do bolso das calças e tentou esconder as lágrimas para que ninguém o visse a chorar.Quando a porta se mexeu com um pequeno guincho. .Que chorão que você me saiu. – Oh avô! Não fiques assim – disse Sara correndo a abraçá-lo sobre uma das pontas da cama. Já se acalmou. Afonso – exclamou Jorge tentando desanuviar o ambiente do quarto.Eu sei. – Não te largava nem sequer para ir à casa de banho. filha – afirmou Madalena mantendo a neta no colo.Não.Dá-ma! . Como todas as coisas que anteriormente não faziam sentido passaram a fazer e como desejava entregar à sua filha tudo o que tinha de melhor.Ele ficou contente. Impressionante como em tão pouco tempo a sua vida mudou apenas com a existência de um novo ser.Já escolheste o nome? – perguntou Jorge completamente embevecido pela neta. . . – Eu queria que se chamasse Leonor! O nome da avó.Agora mesmo! Mas não acho que seja fome.Não – riram-se todos. Mas a verdade é que ela não ignorou e a outra verdade é que Sara começava a perceber o porquê. Descansa.Não. Sara esgueirou o pescoço através da cortina e aguardou ansiosamente a entrada dos seus familiares no quarto. foi a primeira a salvá-la dos perigos e também a primeira a perdoá-la quando tudo o que deveria ter feito era ignorar a sua existência. .Não a largas para nada! Parece que ficaste viciada nela.Só espero que não seja Gertrudes – brincou Alice. hã Sr. – Ela acordou? – foi a primeira pergunta que a jovem mãe fez ao ver Madalena a passear a bebé pelo quarto. não sabes! Mas vais saber. – E também já tinha falado com a mãe mais ou menos sobre o assunto… . – Qualquer coisa e chora logo! . a sua filha já se encontrava deitada num pequeno berço ao lado da sua cama e as primeiras horas da maternidade começavam lentamente a infiltrar-se na sua mente. . .Havias de me ver contigo quando nasceste – respondeu Madalena correspondendo ao sorriso da filha. Porque nenhuma mãe consegue ignorar a existência de um filho faça o que ele fizer. Emocionado. Impressionante.O quê!? . . Levava-te para todo o 187 .

foi a conclusão tirada por ela quando Leonor se enterrou nos seus ombros e a figura de duas pessoas muito especiais atravessaram os portões da casa.Porquê?! . colegas de trabalho e um número quase incalculável de animadores infantis contratados para a ocasião. Jorge e Madalena esmeraram-se na preparação da festa. foi realizada no grandioso jardim da casa. – Queria pedir-te desculpas… . as festas de aniversários.Ela vai ter – respondeu Madalena forçando-lhe um sorriso.Vais-me ajudar a fazer tudo isso. Quero que a Leonor tenha orgulho de mim… . os churrascos domingueiros.lado e as pessoas até chegavam a perguntar-me: Não te cansas de a ter sempre no colo? Não queres ter uma vida própria? . familiares próximos. adquirido novas experiências e utilizado essas mesmas experiências para seguirem em frente e reparar os erros do passado. repleta de cabelos cacheados. natais. Eu sei que foi horrível. De facto. – Eu quero tratarme – ela continuou com os olhos rasos de lágrimas. por todas as coisas que te disse! Eu não sei o que é que me passou pela cabeça. que tal como se era de esperar. Acho que… só queria provar a mim mesma que não precisava de ti e que podia muito bem viver sem a tua ajuda. O baptizado da pequena Leonor foi comemorado seis meses mais tarde com toda a pompa e circunstância. Eram elas.E depois quero voltar à escola. entre os quais. prestes a completar dezoito. mas mesmo muito dinheiro… .Que a minha vida eras tu.Meu Deus – riram-se as duas. Tinham aceitado o seu convite apesar das relutâncias e trouxeram consigo não só vários presentes como também uma bela menina de sete anos. e contou com a participação de inúmeros convidados. não foi o vestido que mais chamou a atenção de Sara. onde já haviam sido vivido alguns dos momentos mais felizes das suas vidas. passagens de ano e vários outros acontecimentos sempre relembrados em álbuns de família e afins. . Agora todos tinham atingido um patamar completamente diferente. A destacar: os baptizados de Sara e Daniel. mas sim a semelhança que aquela menina parecia ter com a sua filha.disse ela num tom de voz quase sumido. terminar o décimo segundo. Sara principalmente.E tu?! O que é que respondias? . tinham crescido enquanto pessoas. Contudo. já não havia mais espaço ou tempo para errar. Aos dezassete anos. Perante a resposta de Madalena. – Não faças tantos planos de uma só vez.É claro que vou! Vou-te ajudar em tudo o que precisares… – respondeu Madalena oferecendo-lhe a mão e sentindo nela um calor especial de um beijo. arranjar um emprego que dê muito. não vais?! .Por todas as coisas que te fiz. estúpido e egoísta da minha parte. 188 . . ir para a faculdade. . pele morena e um vestido azul clarinho que em muito acentuavam a sua beleza e inocência. A primeira tentativa era a única e dali para a frente iria ser sempre assim. – Quero curar-me e ser uma boa mãe para a minha filha tal como tu também sempre foste uma boa mãe para mim. mas foi assim que me senti – Madalena manteve-se calada. e com uma filha nos braços. Sara sorriu e deixou-se contagiar por algumas lágrimas teimosas. Mas agora os tempos eram outros. amigos.

pá! Até acho que já perdi o jeito.Se eu te contasse tu irias contar ao Marco. Sabias?! .Então esta é que é a famosa Leonor!? . – Na altura estavas apaixonada por ele e irias acabar por contar. Daniela dá lá um beijinho à amiga da mãe. . – Serve-te à vontade. até tentei contar-lhe. enquanto a última.Ias sim – interrompeu Milene encarando-lhe o rosto. . . Envergonhadamente. Daniela.Porque é que nunca me contaste? . . mesmo se essa não fosse a tua intenção.Claro – respondeu Sara entregando a sua filha nos braços de Arlete. . . . com os mesmos cabelos cacheados. mas naquela noite ele tinha bebido demais por causa da morte do irmão e… acabou por descarregar as frustrações em cima de mim. com um sorriso carinhoso. .Há tanto tempo que não agarrava numa bebé. principalmente o Marco – respondeu Milene compondo os longos cabelos. . A Daniela! Uma outra famosa.Vai lá – disse Sara.Era como se estivesse a ver Leonor dali a sete anos.Sim. . – Milene! Arlete! Que bom que vieram… .Tínhamos que vir! Afinal de contas não é todos os dias que… senhoras como nós são convidadas para baptizados.Bem. Bateu-me! Bateu-me mesmo muito! Quase morri e quase que perdi o bebé também – discursou Milene com um longo suspiro. não ia… .Obrigada. aquela mesa de doces está-me a chamar – interrompeu Arlete compondo os seus cabelos volumosos.Porque eu não queria que ele soubesse e também… não queria que tu soubesses.Sabia – respondeu a criança arrancando uma risada geral.Posso segurá-la ao colo? . – Toma! Para a bebé.És muito bonita. o meu destino – riu-se Arlete enquanto se afastava em direcção a uma das inúmeras mesas de doces espalhadas pelo jardim e deixava Sara e Milene de olhos postos na outra à espera de forças para terem uma conversa que há muito já deveriam ter tido.foi o cumprimento de Sara às suas amigas.Leva a Daniela também – pediu Milene. não é?! .Pois é. .Daniela e Leonor! Ai. afagou-lhe os cabelos compridos dizendo: .Podias ter-me contado. E eu não queria que o Marco soubesse que eu tinha tido uma filha dele. não é?! – respondeu Arlete mostrando um pequeno embrulho a Sara. . – Quando eu descobri que estava grávida. . .A Daniela é a filha do Marco. – Esta é que é a tua filha? . – Foi então que eu 189 .Não.É – respondeu Milene baixando os olhos.Então aquela história de teres engravidado do teu patrão no restaurante onde trabalhavas… . . a mesma pele mulata e o mesmo sorriso. Daniela obedeceu ao pedido da mãe e beijou a face de Sara. .Era tudo mentira! Foi uma mentira que eu inventei lá no bairro para que ninguém soubesse a verdade. Milene?! – indagou Sara voltando-se para trás.E tu.

e agora.Tal como nós… Enquanto se abraçavam e se tentavam abstrair do barulho infernal inerente àquele jardim. baixinho. por causa do nascimento da nossa neta. . Ela encontrou-me na rua e levou-me para o hospital. .Mas não agora – respondeu ela passando-lhe as mãos pela camisa. . fugi para o Porto. as nossas histórias não são assim tão diferentes… . Depois. e por esse milagre. Era a primeira vez que conseguia apanhar a ex. marido atrás de si. . Jorge congratulou-se.Tens razão – concordou Sara aceitando-lhe a mão e atravessando com Milene todo o jardim em direcção à mesa dos doces. tanto Sara como Milene finalmente encontraram a paz e o conforto que durante meses procuraram incessantemente.O. . depois.Até que enfim. em bebedeiras e em festas desregradas. ganhei misérias de ordenados e já estava a ver a minha vida a andar para trás até encontrar a Arlete outra vez.Verdade! Decidi-me há coisa de um mês. mulher a sós desde o início da festa. Por isso. Foi a única que ficou a saber da verdade. Ali estava Madalena a arrumar os pratos e os copos de plástico sujos pelos convidados quando ele se aproximou e lhe segredou aos ouvidos uma frase que tinha vindo a projectar desde há meses: .Não?! 190 . .Tal como nós. onde tal como se era de esperar encontravam-se todas as crianças e também Arlete. Antes. Não te faças de desentendida! Desde a minha viagem a Bruxelas que tens andado a fugir. – Vou largar a vida – disse Milene após o longo abraço que recebeu de Sara.Tu sabes bem. não sejas má – riram-se os dois. . Trabalhei numas porcarias. .Que resposta? – perguntou ela deliciando-se com a voz do ex. Primeiro por causa da volta da Sara. para a casa da minha mãe. . haviam-nas procurado nos braços de vários homens.Então quer dizer que as nossas filhas são irmãs!? . Só que eu e a minha mãe nunca nos demos lá bem e eu também não estava para aturar as cenas dela. por isso voltei outra vez para Lisboa.Lena. . já estou quase a chegar aos trinta. . E foi assim que entrei na vida. . mas esqueceram-se que a verdadeira paz e conforto.k.São – riu-se Milene para não chorar.Fazes bem.conheci a Arlete. tudo bem! Eu dou-te a resposta.Eu acho melhor esperarmos até a Leonor ir para a faculdade. já juntei um bom dinheiro que me vai safar até encontrar um emprego decente e… quero começar a aproveitar a minha filhota. . não tens mais escapatória.Ainda não me deste a resposta. . e tive lá a Daniela.Verdade?! . uma das únicas adultas suficientemente infantis para se maravilhar com um bolo recheado de chocolate. acho melhor irmos ter com a Arlete senão ela acaba com os doces. essas só podiam ser encontradas dentro delas próprias e ao lado das pessoas que sinceramente as amavam.Bem. Ela disse-me que eu podia ganhar bem mais a trabalhar como prostituta e eu aceitei porque estava desesperada e também porque a minha mãe não parava de me pedir dinheiro para continuar a tomar conta da miúda. De qualquer maneira. tal como vez.

– Anda! Vamos tirar uma foto de grupo. tenho os meus filhos… . voltou-se novamente para trás e acenou de longe ansiando que Madalena correspondesse de igual forma. Jorge sorriu e afastou-se dela com a máxima discrição.Tens a certeza? . Alice! Rápido! Sem cerimónias e enquanto se riam a bom rir. depois da festa. Fim 191 . . Mãe ouviu-se a voz de Sara.Tenho a minha neta que é a coisa mais linda do mundo. o que de facto não tardou a acontecer..exclamou Alice interrompendo os olhares do ex. .Uau – exclamou Alice arrancando-lhe uma leve risada. tenho-te a ti! . . .Não! Hoje à noite. .Não acredito que ainda andas a enrolar o gajo… .Sabes de uma coisa?! . .Claro que não – afirmou Madalena passando um dos seus braços pelo ombro da melhor amiga. – Obrigada por me teres colocado em último lugar. Ao perceber quais eram os intentos da ex.Eu não ando a enrolar ninguém. .Também. casal quando se aproximou da melhor amiga e a surpreendeu com um sorriso malicioso nos lábios. aparece no meu quarto.Se continuares assim ainda vais acabar sozinha. . Lá eu dou-te a resposta. a verdade é que sobrou um espaço enorme nos corações de todos aqueles que ficaram eternamente registados naquela fotografia.Tenho o meu pai. depois de todos já estarem a dormir.E se mesmo assim não me restar mais ninguém.Mas quem disse que eu estou sozinha? .Lá isso é verdade – riram-se as duas. – Em primeiro lugar.Só precisava de tempo para me decidir! Mas esse tempo demorou mais tempo do que eu estava à espera – respondeu Madalena arrancando uma ruidosa gargalhada a Alice. Depois disso. Madalena e Alice correram ao local e não tardaram a misturar-se com as cerca de oitenta pessoas especialmente convidadas para assistir ao baptizado da pequena Leonor. .Não estás? .O quê? .Sim. mulher. Anda tu também. . E mesmo o jardim sendo pequeno para tantos convidados.

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