BUROCRACIA E POLÍTICA NO BRASIL: DESAFIOS PARA O ESTADO DEMOCRÁTICO NO SÉCULO XXI Fernando Luiz Abrucio Maria Rita Loureiro

Regina Silvia Pacheco

Introdução Os textos reunidos neste volume tratam da temática da burocracia sob dois ângulos. De um lado, analisam os seus vínculos com o sistema político e suas conseqüências para a democracia. De outro, lançam luz sobre o próprio aparato burocrático, seja do ponto vista teórico seja da sua organização efetiva. Em ambas as perspectivas, ênfase especial é dada à experiência brasileira, reconstruindo a trajetória histórica e as questões contemporâneas. Um dos objetivos enfrentados coletivamente pelos autores é desmontar o mito da separação estanque entre política e burocracia, ou seja, a idéia de que os políticos tomam todas as decisões e os burocratas apenas executam ou administram tais decisões. Assim, a orientação geral aqui adotada questiona a visão que se origina em Woodrow Wilson, no final do século XIX nos Estados Unidos, de que “a administração está fora da esfera política e as questões administrativas não são questões políticas”. Esta mesma perspectiva reducionista da relação entre políticos e burocratas também aparece em certas interpretações mais apressadas da obra de Max Weber, as quais transformam a distinção feita por ele acerca dos papéis desses atores em uma separação absoluta. Wilson foi o primeiro autor a refletir sobre a relação entre políticos e burocratas, no texto seminal intitulado The Study of Administration (1887). Sua visão seria a de que a política e a administração deveriam ser claramente separadas 1. Esta separação baseia-se na idéia de que ao mundo político caberia a definição das prioridades da ação governamental, ao passo que a esfera administrativa ficaria com a implementação das políticas, a partir da transformação das diretrizes gerais em atos burocráticos. Conforme aponta Behn (1998:9), esta concepção perpassa várias passagens da obra de Wilson, entre as quais pode se destacar a seguinte: “os planos da ação governamental não são
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O argumento a seguir baseia-se não só do trabalho de Wilson (1887), como nas análises de Robert Behn (1988) e Rafael Oliva (2006).

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o que lhes conferiria um status de neutralidade frente aos objetivos de política propostos. caberia aos burocratas a racionalização da administração pública. como Michel Crouzier. processo que seria substituído pela seleção pública e universal de um corpo profissional. A principal delas está no campo do controle das decisões burocráticas. Wilson é enfático ao afirmar que qualquer objetivo de política poderia ser reduzido a uma dimensão “técnica”. De fato. Neste sentido. sem que necessariamente os políticos – e. Além disso. entre outros. que o núcleo da atividade administrativa corresponderia a identificar a resposta “correta” para os problemas ou desafios definidos no nível da política” (OLIVA. Mas enquanto Wilson propunha uma complementaridade harmoniosa entre política e burocracia. os cidadãos – conseguissem controlar tais ações. 2 . É o tema do controle o principal divisor de águas da obra dos dois autores. os autores do Public Choice. assim. Ela teria o papel. 1887:18-9). A primeira seria 2 A vertente weberiana mais voltada ao estudo da burocracia como ator político foi desenvolvida por vários autores e escolas de diferentes matizes na segunda metade do século XX. Weber definia esta relação como um convívio necessário. nas quais Weber já percebera um espaço de grande autonomia para os funcionários públicos. hegemônica no século XX –. Weber identificou na burocracia um ator importante para o Estado moderno. a visão do neo-institucionalismo histórico. Robert Dahl. por meio de procedimentos padronizados. porém. Um trabalho recente sobre o tema resume bem a concepção wilsoniana: “É importante notar que a separação proposta por Wilson não se reduz a uma mera diferenciação entre etapas do processo de produção de políticas. substituindo o diletantismo por ações orientadas por especialistas. primeiramente. o modelo weberiano analisa a burocracia não só como um fenômeno funcional ao desenvolvimento do Estado moderno e do capitalismo – como fez crer a leitura parsoniana de Weber. meritocrático e impessoal. Nesse aspecto. Tal como Wilson. em última instância.administrativos. marcado por tensões. [ao passo que] que a execução de tais planos é que é administrativa” (WILSON. Anthony Downs. 2006: 31). de evitar que o governo fosse tomado pela ocupação patrimonial dos cargos públicos. O modelo wilsoniano resolvia o dilema do controle de duas formas. mas também como um dos grupos de poder mais estratégicos do mundo contemporâneo2. indicando. o ponto central do raciocínio wilsoniano reside na compreensão de que decisões políticas e administrativas possuem natureza distinta – sendo que a especificidade das últimas estaria na possibilidade de que fossem submetidas a tratamento “científico”.

por meio de conceitos como o pluralismo institucional na provisão de serviços públicos e formas de competição administrada (cf. cresceu muito. que é central em sua concepção. com impactos sobre a forma como a burocracia implementa as políticas. pela seleção dos melhores e o desenvolvimento da ciência da administração. dos Tribunais de Contas e do Judiciário. Esta idéia foi recuperada recentemente pela Nova Gestão Pública. Weber deixou uma pergunta sem resposta: como controlar os aspectos técnicos utilizados pela burocracia para os quais os políticos não têm informação ou formação para melhor orientar a fiscalização?3 A esta pergunta foram dadas três respostas nas últimas décadas. com a instauração de controles sociais e de resultados sobre as políticas púbicas. aumentar a transparência governamental e incrementar a possibilidade de a sociedade fiscalizar a administração pública. Esta proposta continha uma perspectiva segundo a qual a burocracia nunca será completamente neutra e que seus objetivos podem ganhar autonomia perante as decisões políticas. o argumento weberiano aventou a possibilidade de que o controle da técnica burocrática poderia sair de uma competição interburocrática. Por esta linha foram feitas propostas para controlar os resultados das ações burocráticas. 1993). mas não ao longo do mandato. instituindo aí formas de fiscalização ao longo do mandato. a fim de evitar que a burocracia torne-se ensimesmada. Daí que esta corrente preconiza a instauração de uma administração pública voltada aos cidadãos e não aos desígnios internos da estrutura burocrática. Abrucio. A chamada accountability horizontal. só exposto em sua última obra (Parlamento e Governo numa Alemanha reordenada – Weber. particularmente no momento do mandato. 3 . 2004). Mesmo assim. A segunda seria por meio das eleições. Tratava-se da criação de mecanismos de controles parlamentares da burocracia.meramente técnica. Nesta concepção. 3 Como uma forma de resolver esta questão. A primeira foi a multiplicação dos mecanismos de controle democrático. É neste ponto que podemos diferenciar mais precisamente os argumentos weberianos da visão wilsoniana. nas quais os cidadãos referendariam ou não as ações governamentais. Uma segunda resposta veio de idéias oriundas de autores da Nova Gestão Pública. exercidos de forma ininterrupta (ABRUCIO & LOUREIRO. Embora Weber concordasse com estes instrumentos propostos por Wilson. particularmente entre organizações públicas e privadas. entre instâncias de poder. Weber não desenvolveu muito este ponto. O controle vertical do poder político também foi alterado. além do próprio parlamento. o que no caso brasileiro pode ser notado nas ações do Ministério Público. a eles acrescentava mais um. haveria controles ex-ante (qualidade do recrutamento) e ex-post (processo eleitoral). 2006).

da perspectiva democrática. Do ponto vista mais geral. na medida em que a melhoria da gestão das políticas públicas e o aperfeiçoamento dos mecanismos de controle sobre os governantes são dimensões cruciais do aprofundamento da democracia representativa. Para assegurar que os representantes. profissionalização e carreiras públicas. O segundo eixo refere-se às reformas recentes da gestão pública. A organização da obra procurou apresentar textos que articulam a discussão da relação entre política e burocracia com dois eixos. mas também. os políticos estão cada vez mais fundamentando tecnicamente suas decisões e os burocratas reforçando seu papel nas decisões políticas. pautem sua conduta pelo “melhor 4 . do desempenho e dos resultados das ações governamentais constitui um momento político central de um ciclo mais amplo da representação democrática. E essa nova realidade obriga os estudiosos a analisar criticamente os efeitos dessa intersecção dos papéis dos políticos e dos burocratas para o funcionamento do governo e para a manutenção da ordem democrática. a democracia representativa supõe que o controle da probidade. O primeiro diz respeito à análise do sistema políticoadministrativo brasileiro. cujo foco empírico é o Brasil. Ou seja. responsabilização e controle dos governantes.Como último remédio ao dilema do controle proposto por Weber. eficiência da ação estatal. Entendida em termos mais amplos do que a dimensão exclusivamente eleitoral. Na verdade. enfatizando questões como transparência. É importante frisar que a temática da gestão pública é estudada aqui não só do ponto de vista administrativo. Essa noção significa que não se deve perder de vista que o momento eleitoral é apenas o começo de um processo que continua durante o mandato. sendo dois artigos com ênfase na dimensão histórica e outros dois mais voltados para o período da redemocratização. uma vez à frente dos seus cargos. estes autores mostraram que prevalecem hoje nas democracias ocidentais formas híbridas de relacionamento entre política e administração. orientando-se pelos sinais emitidos pelos políticos ou mesmo intermediando interesses de clientelas específicas. Nelas. Rockman e Putnam (1981) denominaram de “burocratização da política e politização da burocracia”. e com grande ênfase. os políticos cada vez mais procuram obter conhecimento e assessoria técnica para controlar os burocratas. a concepção weberiana da relação entre política e burocracia e as três respostas ao dilema do controle proposto por Weber constituem o fio condutor teórico deste livro. constata-se no mundo contemporâneo aquilo que Aberbach.

de forma isolada. ao mesmo tempo. como corpo permanente do Estado (de carreira ou não). Quando o foco é a organização do Estado. a burocracia tem um sentido. Portanto. federalismo e relação entre os Poderes – a aspectos mais específicos da organização e funcionamento do Estado. critérios de nomeação de dirigentes. O livro procura. que geralmente são feitas. 2006). Por outro lado. Esse esforço visa articular temas eminentemente político-institucionais – como democracia. O segundo aspecto é decorrente daí: há possíveis complementaridades. Para os autores deste livro. na literatura. muitas vezes de forma normativa ou apenas descritiva e. o ciclo da representação se completa apenas quando o povo. O primeiro refere-se ao ineditismo da empreitada. é capaz de avaliar se os governantes agiram ou não como seus representantes de fato. novos formatos organizacionais e técnicas gerenciais inovadoras. que se expressam em termos de linguagem. representação. Um exemplo desta tentativa de articulação e de suas tensões é a diversidade do uso do(s) conceito(s) de burocracia que aparece(m) neste volume. quando o foco é o sistema representativo. Essa pluralidade conceitual pode instigar o leitor a entender a diversidade de 5 . Aqui é necessário realçar dois aspectos. decidindo-se por sua recondução ou destituição do cargo (PRZEWORSKI. o conceito de burocracia varia conforme o ponto de vista a partir do qual é construído. abordagem e recorte temático.interesse de seus representados” é necessário haver instrumentos efetivos e continuados de controle (URBINATI. tais como perfil da força de trabalho. portanto. conectar análises da ciência política com questões da gestão pública. muitos cientistas sociais ignoram aspectos fundamentais do funcionamento do Estado e do governo. gestão pública não é um ramo da administração de empresas (apesar de assim ser tratada institucionalmente no Brasil). ao buscar articular analiticamente essas duas perspectivas científicas. Nos diferentes capítulos do livro. atrair a atenção dos analistas políticos para tópicos importantes da transformação do Estado contemporâneo. mas antes dialoga prioritariamente com a ciência política. particularmente aqueles abordados pela chamada “Nova Gestão Pública”. mas há também tensões nesta junção. Procura-se aqui submeter tais objetos empíricos ao diálogo com os conceitos e preocupações da ciência política e. Estes últimos têm sido tratados pelos pesquisadores da área de administração pública. STOKES E MANIN. assim. 2004). a burocracia pode ser compreendida como os atores não-eleitos do Estado. como se os arranjos administrativos fossem meras questões instrumentais. empobrecedora. organização das carreiras públicas. a partir dos atos de controle.

por um lado. a literatura brasileira se constitui majoritariamente de estudos de casos de agências governamentais. por outro. Os estudos no Brasil sobre a burocracia. Ao contrário destas formas de abordagem do tema. neste volume a burocracia é o objeto central de análise. referem-se. ou seja. sobretudo. Assim procedendo. pela ausência de estudos da burocracia nos períodos democráticos e. pretendendo ser bibliografia de referência básica. marcada. A referência à literatura internacional nos permite.abordagens e refletir sobre as especificidades e a importância destas duas visões. redireciona a atividade política para dentro do aparato estatal. diferentemente dos estudos produzidos mais recentemente na Europa. prioritariamente centrados nos problemas de desempenho dos burocratas. desdobrando-se em dimensões que se conectam com a questão democrática e a efetividade das ações do Estado. privilegiando a análise da relação entre Estado e a sociedade. Cabe mencionar ainda que este livro tem também objetivo didático. aos períodos autoritários. mas explorar as diferentes possibilidades de análise que o tema suscita. quando o fechamento das vias democráticas de participação. portanto. em partidos ou no legislativo. este livro preenche uma lacuna da literatura brasileira. no Brasil. perceber a prevalência. cujo foco principal está na eficácia ou não dos controles democráticos sobre a burocracia. pela centralidade do ponto de vista organizacional em detrimento de análises mais “politizadas”. Por outro lado. obrigando o analista a buscar a compreensão das decisões políticas dentro da burocracia do Poder Executivo. uma vez que praticamente não há publicações no Brasil que reúnam em um mesmo volume textos que articulem análises da formação histórica e do funcionamento da burocracia brasileira com as características do sistema político e seus impactos para a ordem democrática. O volume está organizado da seguinte forma. além de serem relativamente escassos se comparados a outros países – como os Estados Unidos –. preocupadas com o papel da burocracia no jogo democrático. o objetivo não é criar um referencial único para entender a burocracia. Neste sentido. A Parte I trata da relação da burocracia com o sistema político. e nos EUA. Seu primeiro capítulo tem como objetivo reconstituir a formação e a trajetória da burocracia brasileira por meio da análise dos momentos 6 . de uma reflexão sobre a burocracia marcada muito mais pela preocupação com o papel central do Estado na sociedade do que propriamente em entender suas “entranhas” ou sua relação com o sistema político.

há consenso sobre o papel crucial desempenhado pela burocracia nos processos decisórios de políticas públicas. com maior equilíbrio do ponto de vista intergovernamental e que evitou criar apenas uma elite burocrática protegida dos políticos. o paradigma reformista foi mudado. Somente com a redemocratização do país. O tema do capítulo 3 refere-se ao controle sobre a administração pública. assim.mais importantes de reforma da administração pública e da compreensão de suas principais efeitos para a modernização do aparelho de Estado. Porém. Privilegia-se o estudo das principais mudanças institucionais – principalmente o DASP e o Decreto Lei-200 –. de um lado. ora deriva da decisão estratégica dos chefes do Poder Executivo de tentar garantir. os partidos políticos e os grupos de interesse. corporativismo e meritocracia e os desafios que impõem para a ordem democrática. São. pois se espera que nos regimes 7 . assim. não só nos momentos autoritários. A partir dos estudos sobre a emergência e consolidação do Estado e de suas relações com a sociedade. Dessa nova visão resultaram conquistas que. incluindo um modelo mais democrático. o capítulo enfatiza que o importante é compreender a natureza e o alcance do poder dos burocratas na estrutura geral do Estado e na forma em que funciona o sistema político Em outras palavras. problematizar esta proposta de “modernização conservadora” que foi hegemônica no século XX. insulamento burocrático. Busca-se. O final do capítulo lista quais seriam as principais prioridades no campo da reforma administrativa no país. particularmente o paradigma comum do modelo reformista brasileiro: centralizador. há divergência com relação à fonte de seu poder: ora o poder da burocracia advém dos interesses socioeconômicos que ela própria representa dentro do aparelho de Estado. Todavia. O capítulo 2 analisa os vínculos estabelecidos historicamente entre a burocracia governamental. autoritário e insulado em relação ao sistema político. entender a burocracia no Brasil como policymaker é indissociável dos debates acerca da hipertrofia do Executivo em relação ao Legislativo e da fraqueza da função governativa dos partidos políticos. melhoraram a gestão pública brasileira. mas igualmente na democracia. de outro lado. que sua direção e controle sobre a máquina estejam assegurados. mas também seus problemas. tanto em termos de conteúdo como no que tange às estratégias reformistas. misturam-se hoje antigos e novos desafios. por meio dos "burocratas de confiança". de fato. dimensão crucial de uma ordem democrática. o texto indica que se. retomados temas como clientelismo. ressaltando seus aspectos positivos.

caso se tenha como expectativa uma efetividade sistêmica dos diversos instrumentos de controle. É bem verdade que os exemplos mencionados demonstram que as possibilidades proporcionadas por nosso marco constitucional e legal não são poucas. predominante entre as décadas de 1960 e 1980. ela pode ser usada pelos agentes políticos (como Presidente da República. buscou criar capacidade estatal de monitorar as políticas públicas e a atuação da burocracia. eles não operam de forma coordenada ou ao menos articulada. Este capítulo analisa. por outro. discute-se aqui o que a literatura chama de accountability horizontal. a Secretaria Federal de Controle Interno (SFC). 8 . ainda.democráticos a conduta dos agentes públicos e os resultados de suas políticas sejam passíveis de verificação e sanção permanentes. ministros e demais dirigentes) como um dos instrumentos para garantir o alinhamento da burocracia às políticas e aos programas definidos politicamente. Embora a atividade de controle interno ou monitoramento não seja política. No caso do TCU e do MP. no bojo de um conjunto de reformas legais e organizacionais. O arcabouço institucional faculta ao Poder Legislativo. por meio do exame dos processos político-institucionais que deram origem ao órgão central desse sistema. analisando o surgimento de um novo modelo de sistema de controle interno no Executivo federal. Em outras palavras. o controle da probidade é mesmo uma função precípua dos órgãos. Isto ocorre porque. já no caso do Legislativo. a passividade no controle político da administração aparece como mais uma faceta do predomínio do Executivo nas relações entre os Poderes no Brasil. O capítulo 4 conclui a Parte I do livro. superar o controle interno meramente formal e legalista. embora haja um grande número de mecanismos e formas de accountability horizontal. ser efetivadas enquanto instrumentos de responsabilização e aprimoramento das políticas públicas. contudo. a SFC procurou. O balanço do exame dos controles democráticos sobre a burocracia no Brasil revela um quadro ainda bastante negativo. pois é guiada por critérios técnicos e burocráticos definidos a priori. e. precisando. o significado da SFC em termos do aperfeiçoamento das instituições de promoção da transparência e da accountability e como instrumento potencial de controle político da burocracia. por um lado. Criada em 1994. mas a atuação de todos esses órgãos se dá muito mais no combate à corrupção do que no controle da qualidade das políticas implementadas pela Administração Pública. ao Tribunal de Contas da União e ao Ministério Público agirem como instâncias de controle da administração pública.

os servidores são. O texto recomenda que a política de recursos humanos deva estar orientada para motivar os servidores a apresentar bons resultados. descentralização de atribuições. com cinco capítulos. com excesso de funcionários nas áreas de suporte administrativo e operacional. Ao analisar alguns governos estaduais brasileiros. seriam desejáveis a adoção de instrumentos orientados para a aquisição de competências e a avaliação de desempenho dos servidores e das organizações. Neste sentido. horizontalização das estruturas e ações matriciais. controle e melhoria de processos. em geral. Além dessa má distribuição. ao melhorar a qualidade da ação governamental e tornar mais efetiva a ação do Estado. se comparados ao setor privado. e que estes sejam compatíveis com as metas da organização. tais como transparência das ações governamentais. e que os funcionários públicos não podem ser eficientes porque seriam mal pagos e desqualificados. requer distintas formas de contratação que o arcabouço jurídico atual não contempla. é dedicada à discussão da temática da gestão pública no Brasil contemporâneo. aumento das competências de gestão dos funcionários e a construção de uma administração orientada por e para resultados. tanto em termos internacionais quanto entre as esferas do governo nacional e os setores da administração pública. a multiplicidade de funções que o Estado desempenha. e o texto mostra que o tema exige uma abordagem mais complexa. Essas constatações ajudam a desconstruir dois estereótipos comuns no Brasil: que o Estado seria ineficiente porque tem muitos funcionários. Tomando distância de autores que vêem nesta abordagem uma ameaça à democracia. A discussão em torno da evolução do emprego público no país tem sido bastante centrada na magnitude do contingente de servidores. O capítulo 6 apresenta uma ampla radiografia do emprego público no Brasil em perspectiva comparada. O capítulo 5 sistematiza os temas emergentes da chamada Nova Gestão Pública. especialmente no que se refere à prestação de serviços públicos. o autor 9 . levando os governos a realizarem uma parcela de suas contratações de forma bastante precária. mas uma distribuição inadequada entre os diversos setores.A parte II. e que se ampliou nas últimas décadas. melhor qualificados e bem remunerados. Apesar desses graves desequilíbrios. o capítulo desenvolve a tese de que a Nova Gestão Pública tem contribuído para o fortalecimento da ordem democrática. que envolva outros elementos. atuação voltada ao usuário. Em relação à composição da força de trabalho. demonstra-se que não há um número excessivo de servidores públicos no país.

além do conceito restrito de profissionalização baseado no ingresso por concurso público e na promoção em carreiras estruturadas. este capítulo apresenta o corporativismo como um dos fatores responsáveis pela não consolidação de uma burocracia profissional de Estado no Brasil. as práticas de proteção ao funcionário. a estabilidade plena e desvinculada de desempenho. implementar e avaliar as políticas públicas. como o ethos próprio do dirigente público. o dirigente público. com o objetivo de formular. empreendidas pelos governos FHC e Lula. burocratas e demais atores sociais. Analisando criticamente os princípios da isonomia e do direito adquirido. criada pelo governo federal brasileiro em 1989. O capítulo 7 analisa de forma pormenorizada o tema da profissionalização da burocracia. em perspectiva comparada. é analisada a carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental (EPPGG). 10 . na esfera federal. o sistema privilegiado de pensões e aposentadorias. demonstrando que não há um único padrão de carreira burocrática. Para isso. como a rigidez nas relações de trabalho. Mas o artigo também realça as disfunções da burocracia brasileira. apesar das ações recentes. Por fim. De início. bem como para exercer atividades de direção e assessoramento em escalões superiores da administração – processo que mais recentemente foi “copiado” por alguns governos estaduais. por meio da constituição de uma burocracia permanente. de um lado. embora a maior parte das administrações ainda não adote este modelo. Uma das principais qualidades deste texto é a separação clara entre as noções de mérito e profissionalização. e de outro. são discutidas certas variáveis. seus recursos de poder. o capítulo 9 busca caracterizar a especificidade de um novo ator no aparelho de Estado. apontado como crucial para entender a administração pública. O capítulo 8 apresenta o debate sobre modelos de carreiras de Estado considerando. o texto aponta que o Brasil tem sido tomado como caso destacado de profissionalização da função pública dentre os países latino-americanos.apresenta exemplos interessantes de políticas de desenvolvimento profissional. além da politização e do uso clientelístico do emprego público. seu processo de formação no século XIX e as linhas de mudança ocorridas no final do século XX. e permite a observação de como a estrutura desta carreira mescla elementos dos diversos modelos analisados. mostrando seus dilemas e desafios na interação cotidiana com políticos. A história dos EPPGG ilustra como a constituição e fortalecimento de uma burocracia profissional relaciona-se com o sistema político e administrativo. A partir deste enfoque. processo iniciado na década de 1930.

o que se deseja é um Estado que. Há também novidades. Determinados aspectos revelam legados históricos muito fortes. o que é mais específico na configuração contemporânea das relações entre política e burocracia no Brasil. e não apenas para a parcela que historicamente recebeu mais recursos ou teve acesso privilegiado aos bens públicos. pode-se concluir que os aspectos positivos e negativos da administração pública brasileira atual só poderão ser mais bem compreendidos por uma análise que alie as perspectivas da gestão pública e da ciência política. o número exagerado dos cargos em comissão (cujo preenchimento em boa parte não é justificada nem controlada publicamente) e a diferença ainda relevante entre os níveis de governo no que tange às capacidades estatais. Cabe ressaltar.formas de acesso à posição. De todo modo. no século XXI. sempre em comparação com as funções típicas dos burocratas e políticos profissionais. responsividade e politização da função. de sistemas de informação e de novos desenhos organizacionais. como o surgimento de novos atores burocráticos para além do Poder Executivo (como membros do sistema de Justiça e do Tribunal de Contas). como o predomínio do Executivo. que o livro buscou caracterizar. entre os principais pontos – e a introdução de idéias e medidas ligadas à Nova Gestão Pública. Os autores concluem defendendo a institucionalização de sua função como condição necessária para um melhor funcionamento do Estado num regime democrático. por fim. 11 . discricionariedade. a situação atual dos dirigentes públicos na administração pública federal e algumas experiências internacionais que visam ao fortalecimento da função diretiva. por vários ângulos. As diferenças entre os dirigentes públicos oriundos das carreiras do funcionalismo e outsiders também são aprofundadas. Afinal. a realização de alguns processos de modernização e profissionalização da gestão pública – como a criação de carreiras. seja mais efetivo e mais accountable em relação à sociedade como um todo. conforme a definição weberiana. destacando-se a insuficiência do debate sobre o tema no Brasil.

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