O Problema Social - Mario Ferreira Dos Santos

O PROBLEMA SOCIAL

MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS

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COLEÇÃO DOS GRANDES TEMAS SOCIAIS Fazem parte desta coleçáo as seguintes obras de Mário Ferreira dos Santos: 1) 2) 3) 4) 5) 6) 7) 8) ») Tratado de Economia I vol. Tratado de Economia n vol. Filosofia e História da Cultura I vol. Filosofia e História da Cultura II vol. Filosofia e História da Cultura IH voL Análise de Temas Sociais I vai. Análise de Temas Sociais II vol. Análise de Temas Sociais III vol. O Problema Social

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PROBLEMA SOCIAL
IX VOLUME da Coleção Problemas Sociais
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l. a edição, junho de 1962"

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O Socialismo e Política ADVERTÊNCIA AO LEITOR Sem dúvida, para a Filosofia, o vocabulário é d e máxima importância e, sobretudo, o elemento etimoló­ gico da composição dos termos. Como, na ortografia atual, são dispensadas certas consoantes (mudas, en­ tretanto, na linguagem de hoje), nós as conservamos' apenas quando contribuem para apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histó­ rica do termo empregado, e apenas quando julgamos conveniente chamar a atenção do leitor para eles. Fazemos esta observação somente para evitar a es­ tranheza que possa causar a conservação de tal grafia. MÁRIO FERREIRA DOS SANTO» Análise Decadialéctica do Marxismo Os Factores Emergentes e Predisponentes Análise Decadialéctica Postulados Concretos sobre o Desenvolvimento na História O Acto Humano O Campo Social O Campo Psicológico No Campo Caracterológico A Tensão Cultural Lições da História Das Utopias . . _ Das Ideias Liberais O Marxismo O Laborismo Da Propriedade Do Princípio de Nacionalidade O Factor írnico Fundamentos Éticos da Concepção Concreta Análise Filosófica do Capitalismo Oferta e Procura Accionarato Obreiro Colonialismo Da Previsão Económica O Dirigismo do Homem 79 82 83 84 86 88 90 95 96 100 103 104 105 107 111 119 127 129 130 134 135 II. 31 6L 67

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS Este livro foi composto e impresso para a Livraria e Editora LOGOS Ltda., na Gráfica e Editora MINOX Ltda., à av. Conceição, 645 — SAO PAULO

é sempre apesar da política. os políticos. me­ diato. tem sido um dos maiores males na luta pela emancipação humana. pro­ cessos escusos. . misérias. infâmias. mas (1) Continuação da crítica libertária ao socialismo. Mas esquecem que quem desmora­ liza a acção política não é a campanha anti-política.10 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS 143 145 147 148 154 156 157 158 159 161 164 166 169 178 198 201 203 209 215 225 A Cooperação Capital. pois tende a substituí-lo. com todo o seu cor­ tejo de oportunismo. e a luta emancipadora. como acontece na Rússia. é um método indirecto. e julgam-na o processo mais falso de luta pela emancipação social. tendente para um ideal final. de «Análise de Temas Sociais». Nunca. acaba por endeusar os meios. onde se diviniza o Estado Soviético. etc). em se preocuparem mais com os meios do que com os fins. a arte de conquistar o poder e de conservá-lo. A política. Trabalho e Natureza A Cooperação dos Factores O Papel da Técnica Nossa Situação A Humanização do Trabalho O Homem é Um Fim e Não Um Meio O Que se Deve Entender Por Democracia Administração Neotécnica Espírito Paleotécnico O Medo ao Grandioso Aos Homens de Responsabilidade do Brasil Análise Geral de Nossa Economia O Momento que Passa Formas Cooperacionais P a r a Finalizar As Positividades dos Ciclos Culturais As Quatro Verdades A Sublimação das Polaridades Inevitáveis A Grande Decisão SOCIALISMO E POLÍTICA (1) Não é de hoje que a má política (isto é. hoje. Como sempre sucede. Esta a razão por que os libertários combatem a po­ lítica. se consegue atingir os fins desejados e. o qual exige a acção de intermediários. iniciada no III vol. mais dia menos dia. o meio acaba tornando-se mais importan­ te que o fim. Dizem. como méto­ do de acção dos socialistas. indecências. que combater a política é fazer obra fascista. Todos os partidos políticos terminam fatalmente. pela política. quando se consegue alguma coisa.

começar a fazê-lo. socialismo. Em suma. porque não é o meio apropriado para as transformações de índole social. sua subserviência a interesses inconfessáveis. a tecnocracia. porque encerra em sua essência o vírus do domínio. socialis­ mo onde está? Há operários assalariados. Muitas são as razões que oferecem os partidários dos meios eleitoralistas na luta emancipadora dos oprimidos. de métodos intermediários e indirectos. Se os socialistas querem so­ cialismo. a política só pode favo­ recer ao fascismo. Por isso os libertários consideram que um dos erros mais desastrosos. mas. A transformação social é obra de todos. porque a política só serve para des­ moralizar a si mesma. mas. seu prometer desme­ dido. em que o burocrata cada vez mais se burocratiza. ao cesarismo. da mentira. proclamam os anarquistas. A crise do socialismo moderno é producto da sua acção política. Faz-se apenas obra política. há a centralização burocrática. de impróprio. em suma. dizem os libertários. Há socialis­ tas em todo o mundo. da vitória fácil. e todos precisam empregar os maiores esforços para conseguir realizá-la. não se faz obra socialista. há sacrifícios sem conta. e nada mais. E o mesmo fe­ nómeno que se dá com a organização burocrática. e de alheados da producção. Numa sociedade capitalista. é necessário. estaria bem num museu de curiosidades. sua traição constante aos princípios. a falta de dignidade dos chamados indevidamente "representantes do povo".""■s« 12 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 13 sim a acção dos políticos! O espetáculo dos parlamen­ tos. A luta contra a política é uma luta de moralização social. mas. Querer dar-Ihe um conceito puro e científico. é falsear o seu sentido verdadeiro e prático. por livre iniciativa. socialismo político é política sem socialis­ mo. de obstaculizador. a todos compete. é apenas separá-la da realidade prática. sua acção mentirosa. da praxis. Com o desenvolvimento da técnica. o político cada vez mais se politiquiza. com a possibilidade que há de se congre­ gar numa sociedade humana as forças de producção e de consumo para uma obra homogénea (queremos referir-nos. o dirigismo. é lógico. Querer chamar de política essa acção. a comissariocracia. . Podemos sintetizá-los aqui: a) oferece uma tribuna de propaganda para os ideais socialistas. A política tende para o menor número. São os políticos que fazem obra fascista. há a nacionali­ zação das empresas. é que desmoraliza a política. Enquanto o socialismo usar a arma da política estará fazendo o papel das classes dominantes. No terreno político. é o aproveitamento dos meios eleitorais e políticos em sua acção. da ciência da administração. de emperrante. socialismo onde está? Em suma. tudo isso. a uma sociedade cooperacional). Política é uma arte inter­ mediária. para um grupo de privilegiados. há productores oprimidos. onde está? Há o poder do Estado hipertrofiado. as quais devem ser feitas pela acção congregada das pró­ prias organizações populares. socia­ lizando seus actos e sua acção. aos milhões. desde já. pela simples razão que leva den­ tro de si o próprio veneno que a mata. estará servindo-as. da intriga. a política é algo de anacrónico. que é sempre o de um número reduzido. que têm perturbado a acção dos socia­ listas do mundo inteiro. com a finalidade de obter o poder e de conservá-lo.

mistificar a massa sob a ingénua afirmação de "que eles erraram porque eram eles. Ora. E quando os marxistas se aproveitam desses mesmos cargos eleitorais. que des­ sa luta se aproveitam. continuamente. Para a burguesia. por esses meios. serem continuamente acusados. que sempre se inicia vacilante. em tudo e por tudo. Se tais factos. que foram tão terrivelmente acusados. opressivo. este facto inegável: todo partido socia­ lista que. mas as próprias bases populares dos partidos eleitoralistas. de cola­ borarem vergonhosamente. Por princípio são eles anti-partidários. de . quando os marxistas não ocupam postos de eleição. e de seus progressos ou regressos na con­ fiança e no prestígio popular. frequente­ mente. por estas ou aquelas razões. de se terem ve­ rificado em número ascendente o dos que se afastam dos princípios ideológicos. na prática. de se afastarem. Isto não é explicar. porque consi­ deram o partidarismo. tender. como uma constante em todo o seu desenvolvimento. E quando sobem "esses puros" ao poder. Parecem poderosos e eficientes. Não podemos compreender que a repetição desse fac­ to. de se terem desviado de seus ver­ dadeiros princípios.14 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 15 b) as imunidades parlamentares garantem uma pro­ paganda mais firme dentro da ordem burguesa. não abrem os olhos de muitos. não sirva para abrir os olhos de muita gente. tal explicação não deve estar nos lábios de um verdadeiro socialista. con­ chavos e combinações. critica continuamente os partidos. é que a cegueira partidária es­ conde a realidade da vida e a verdadeira significação de­ generativa que existe na luta eleitoral e política. e a força da teoria. nada melhor que a luta partidária e eleitoralista dos partidos operários. E não é só. julgam muitos que tais factos sucedem "ape­ nas porque os representantes do povo não eram bastante puros". com eficiência. e adia. de se terem tornado colaboracionis­ tas. tornam-se iguais. repetição teimosa e constante. que têm servido apenas para des­ virtuar a verdadeira luta dos trabalhadores. são as seguintes: Quem estudar detidamente a história dos partidos socialistas. de incluírem "traidores" em suas fileiras. Não são apenas os "representantes do povo" os acusados de desvio. dos seus princípios ideológicos. por exemplo. o proletariado se afasta cada vez mais de sua verdadeira luta. e erraram por factores de ordem "puramente subjectiva". isto é. Ela sabe perfeita­ mente que. mas apenas querer iludir a própria verdade. pelos que não participam do poder. que se repetem constantemente. Por um empirismo simplista. para empreenderem acordos. a tornar-se exigente. toda a literatura de polémica do marxismo. aos antigos "traidores". dizem os anarquistas. São esses os três argumentos principais dos eleitora­ listas. e criar abismos no movimento das classes oprimidas. o dia da renovação social. dos mesmos erros e desvios. Leia-se. criticarem sempre os outros partidos políticos do proletariado de servirem de apoio à burguesia. não participa da luta eleitoral. mas como os li­ bertários se negam a separar a teoria da prática. pois é na prática que vamos encontrar o melhor fundamento das teorias. finalmente. verificará. de se terem perdido nos meios e esquecido os fins. mas nós seremos diferentes". As razões. que se verificam tão tragicamente na história dos partidos populares. por uma incompreensão categórica da realidade. que apontam os libertários em defesa de sua atitude. c) permite conhecer o apoio popular de um partido pela votação. que há séculos vem sendo dese­ jada. que são acusadas de inércia. quando ela é aplicável. e vemos nela.

e a pouco e pouco. A corrupção. como também a própria base. por ela instituída. Portanto. eles respondem que não podem ir tão depressa como elas desejam. dominada pela burguesia. força o aprazamento. na ar­ madilha dos parlamentos. cria impecilhos a toda incitação à actividade. criam uma degenerescência na acção que se desgasta. O carácter de contemporização. Portanto. cheia de angús­ tias e de acusações violentas. a burguesia sabe que o ambiente parlamentar. o adiamento contínuo. Não é possível romper essa barreira e. a lentidão de suas resolu­ ções. E assim a explicam os liber­ tários: A luta política. não só contamina a cúpula dos partidos eleitoralistas do prole­ tariado. e por instinto.. e por seus testas de ferro. o clima parasitário que se forma. e é fácil explicá-las. pois a burguesia sabe conscientemen­ te. esse desejo de pas­ sividade. de exaltarem indevidamente a figura de "chefes salvadores". que é inerente ao movimento político. Ela sabe perfeitamente que a ordem. E é natural. que sempre fazem os que ainda não usam o sistema eleitoral contra os que o usam e dele abusam. que tem profundas influências psicológicas. para afastá-la do seu verdadeiro ca­ minho de renovação e de transformação social. tudo isso é "ducha de água fria" na incitação e no calor que vibra e aquece os elementos lutadores. ante a repetição sociológica dos factos. e que não corresponde . Com a base económica e financeira. se vê o espectáculo constante do movimento socialista: os re­ presentantes socialistas acham-se num choque crescente com as massas. que. essa marcha e impulso para o nada. de permitirem que os "traidores se instalem no meio da massa". transmitem a essas o espírito de inércia e. por desenvolver um profundo desejo de passividade. em pouco tempo. que se amortece e. Sabe a burguesia que as reformas têm de se proces­ sar na sociedade. provoca a inércia. Enquanto estas lhes pedem acção. posteriormente. caem os mais puros e ingénuos lutadores das grandes reivindicações proletárias. nestas. é essa explicação. é essa queixa secular que paira nas páginas dos autores sinceros e leais. de inércia pelo retardamento. A luta política é uma luta burguesa e não proletária. que se verifica teimosamente nos par­ tidos populares que usam da luta partidária e eleitoralis­ ta. Os adiamentos das resoluções. É isto o que le­ mos constantemente na literatura de polémica dos socia­ listas. E ao explicá-la ante as massas. nada explicam. é pouco justa. e servem apenas para lançar uma nuvem de fumaça aos olhos do proletariado. feitas inteligentemente para criar obstáculos à acção mais rápida. convence da impossibilidade de vencer o emanharado das leis bur­ guesas. despertam a própria inércia. a acção dos repre­ sentantes operários cinge-se às cadeias férreas das leis burguesas. que toda acção lenta lhe é sempre mais eficaz que a acção rápida. devem-se procurar as verdadeiras causas objectivas que le­ vam a tais desvios. que busquem justificar a inércia que aos poucos deles se vai apossando. que há em potência em todos os homens e do qual não estão alheias as próprias massas. a degenerescência que se observa. sem deixar de lado as razões de carác­ ter subjectivo. isoladas. a demora das informações oficiais. tem causas mais reais e mais objectivas do que julgam muitos.1G MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 17 •desvios graves e perigosos. de se impressionarem pelo liderismo. é uma luta essencialmente burguesa e não proletá­ ria. o afastamento dos representantes do povo da producção e do contacto com os companheiros. dentro dos quadros legais do capita­ lismo.

os Millerand. são obrigados a fazer promessas. dos operários. que a sua situação como classe dominante é a repeti­ ção sociológica de outras classes. Desta forma. todos os entu­ siasmos se esfriam e as massas. Veja-se o exemplo de toda a história do socialismo eleitoralista. o intermediário. Por mais que seus doutrinadores. sobrevem a desmoralização do partido! São também os representantes do povo. E a política é a grande arma burguesa de re­ tardamento. se a acção directa das massas. é o que melhor corres­ ponde aos desejos e aos estímulos humanos. vota nou­ tros partidos. assim o tempo passa. E. e que lhes oferecem as possibilidades de ganhos desonestos. E a grande ingenuida- . Ante essa imprescriptibilidade dos acontecimentos. que são empolgados pelos prazeres fáceis das grandes capi­ tais e da vida parasitária dos mandatários do povo. se processasse a fazer reformas. filósofos e cientis­ tas procurem por todos os meios criar filosofias e dou­ trinas. a superioridade de uma concepção idealista e espiritualista do mundo. e nada de so­ cialismo. As reformas e as transformações da socieda­ de serão inevitáveis. os La­ vai. Sabe também a burguesia que a melhor forma de desmoralizar um partido é elevá-lo a uma posição de mando. pelo menos. Sobem partidos socialistas. a afirmação de que a História é apenas um suceder de factos. de tal for­ ma. e que se embrutecem na vida parlamentar. que entram a fazer parte dos conchavos políticos. suas realizações são apenas miga­ lhas do que cai da mesa de banquete da burguesia. e que o regime capitalista mercantil. no ritmo lento dos parlamentos. mas é possível re­ tardá-las. Ela sabe que não poderá deter a marcha dos acon­ tecimentos. que tudo é passagei­ ro. a eleição de outras "esperanças". acredita em novas "esperanças". que a sequência dos acontecimentos teria um ritmo mais veloz. Para obterem maior número de votos. ou pior. também. que poderá. E esses "traidores" são os que desmoralizam depois os partidos! E nas eleições seguintes. Os mandatários nunca podem realizar. desanimado com a acção dos "representantes". essas sobreviriam rápidas. ficam aguardando nas eleições seguintes uma vitória mais completa. e a transformação completa da sociedade se processaria num lapso de tempo muito menor. acção imediata. sob entu­ siasmo e esperanças. dos jantares opíparos e do exemplo pernicioso de todos os salafrários que os cercam. media­ ta. umas após outras. Guindados ao poder. mui­ tas das quais sabem perfeitamente que não podem cum­ prir. empolgados pelas esperanças de se libertarem das cadeias. retardá-la. ante a realidade dos fac- tos. Na eleição seguinte. que contribuem para os reflexos do movimento socialista. para que t>las realizem os seus desejos. que assegurem a irrealidade da vida objectiva. sem interme­ diários. sobem os conservadores. que dominaram e cede­ ram o lugar a formas mais evoluídas. fundado no lucro a todo o custo. sem políticos. o eleitorado simpatizante. São obrigados a oferecer às massas um futuro que não lhes está nas mãos. nem uma parcela mínima do que prometem.18 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 19 aos desejos dos oprimidos. mas sabe. e isso o confessa intimamente. que traem. a acção indirecta. a burguesia usa do meio mais hábil e mais sagaz criado pelo espírito humano: a política. a burguesia sabe. « > tudo fica como estava. E prosseguem os libertários em seus argumentos: Se as reformas sociais se processassem facilmente. preso no emaranhado das leis. Elas sobrevirão. das conversas fúteis dos cafés dos parlamentos.

chegar até a adesão. A luta indirecta. mistificadas por seus falsos defensores. ao desejo de erguer os irmãos da passividade para a acção. fazerem cisões dentro dos partidos ou aderirem a outros. ao lado dos partidos de esquerda. que . para fazer a essas acre­ ditarem que realmente eles são revolucionários. no darem às massas uma ilusão de conquistas. se na política encon­ trar seu campo de acção e de desenvolvimento. E que melhor para tal que os "parlamentos". magnificamente. alegam os libertários. todo homem. tem um desejo de mandar. E pros­ seguem: Essa a grande habilidade e sagacidade dos burgueses para iludirem as massas. é explorada. acusando-os de revolucionários e exi­ gentes. da inércia para a rebeldia. onde se debatem todas as ideias e se aumenta a confusão do povo? Que melhor que as campanhas políticas. por­ que transforma cada um num ser responsável de acção socialista. gera a forma viciosa do impulso de acção: o mandonismo. vão procurar os meios operários e os partidos políticos dos trabalhadores. A maioria dos políticos conservadores foram. esse ópio das multidões. Mas a burguesia inteligente sabe perfeitamente que esses parti­ dos são os melhores guardiães de seus tesouros. A burguesia inteligente do mundo inteiro não combate os partidos políticos operários senão aparente­ mente. quando é conveniente. usam também fra­ ses e palavras de ordem revolucionárias. na meia idade. e vão contribuir para. passando até pelas delegacias de polícia. no mundo. em sua juventude. e leva-o à acção verdadeiramente socialis­ ta. Por isso. para que tudo corra em pro­ veito dos dominadores. Essa parte activa do homem. porque. a "grande arma do cidadão". Eles. pregam "a luta pacífica das urnas". como algo de eterno. Ataca-os. A acção directa deixa que o impulso activo do ho­ mem se manifeste com toda a sua pureza. ajudam lambem a desmoralizar o socialismo e a apresentar aos olhos do povo o regime capitalista como algo de impres(•riptível e sólido. essas "adoráveis dormideiras". a acção indirecta. É necessário de uma vez por todas ter memória. os que desejam fazer carreira política. Ora. de cambulhada com os partidos operários. políticos socialistas! E prosseguem os liber­ tários: Atentem para esses factos os trabalhadores e os opri­ midos do mundo. A política serve para isso: os ambiciosos de mando. criar a maior confusão no meio dos trabalhadores. Grande é a colheita que os burgueses têm feito nos partidos políticos dos trabalha­ dores. e de degrau em degrau. Ela é criadora. os que querem sobressair-se pela posição social. mandam seus represen­ tantes para os partidos de esquerda. a "ala­ vanca da História". Quantos políticos reaccionários de hoje começaram a criar nome nos comícios operários. um impulso de domínio e um impulso de obe­ diência e de passividade. vestem-se das cores vermelhas. o autoritarismo. o politiquismo. aos partidos conservadores. para iludirem as massas. o liderismo.20 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 21 de das massas. É preciso conhecer o passado e procurar no passado os reaccionários do presente. a política é a arma mais amada pela bur­ guesia. se levada para o terreno da política. depois de guindados ao poder. pregando ideias rubras. sem desvios que o viciam. logo se viciará na forma de mandonismo. para.

postos religiosamente nas urnas silen­ ciosas? A burguesia sabe que os partidos operários são o seu melhor aliado. porque o dispensa de uma acção mais tra­ balhosa. que o caminho do socialismo não é um caminho de rosas. e a justificam. A segunda desenvolve no homem u capacidade criadora. que se gasta. é secundária. Depois. ve­ rão sempre. A campanha política tem essa miraculosa eficácia. dizem os li­ bertários. no oprimido. que. para a educação socialista dos oprimidos. em síntese. Não deve ter seu curso natural. que estão dentro do homem. É preciso mostrar. como ar­ ma. Com suas agitações eleitorais. é canalizada habilmente para a campanha elei­ toral. pela luta política. esforços inauditos per­ didos. pessoas. o aliado silencioso. Mas se esse esforço fosse empregado para uma acção directa das massas. e a política é melhor usada. trabalho. E o clero tanto compreendeu isso. prestes a explodir. de ingentes esforços. através de peda­ cinhos de papéis. a política servir de arma para os dominadores. para fins muito mais interessantes aos senhores do mun­ do. e de organização económica e. para os poderosos. O homem prefere acreditar que a luta eleitoral é mais eficiente. e olhem os factos que se desenrolam. todos os impulsos de passivi­ dade. Distribuição de manifestos. de lágrimas. o aliado indirecto. etc. os libertários chamam a atenção para os so­ cialistas que ainda se iludem com as lutas políticas. Des­ perta a passividade. Toda essa carga activa. ao desviar os impulsos de acção para os meios. menos tra­ balhoso. predispõem a receber de boa vontade tudo quanto signifique o menor esforço. em toda a parte. realizando-se plenamente. Assim. Mas. A segunda são os impulsos. de grandes sacrifí­ cios. de dores. chefes. O primeiro cria massas e conser­ va as como tal. Uma campanha política custa muito dinheiro e mui­ to trabalho. Toda a inércia. mas um caminho de lutas. Hoje o clero é posto um pouco de lado. trabalho. a luta pelos fins é a acção directa. mas desviada. para ensinar-lhes os meios práticos de luta. Os socialistas libertários preferem esta última. e que. se­ riam mais úteis. A crítica libertária vai ainda mais longe. porque a sua efi­ ciência na conservação da ordem existente. com todo o seu ca­ rácter de iniciativa. como massas de manobras. eles dão vazão às forças do proletariado. exclamam os liber­ tários. para uma vida socialista. A primeira é um desvio do verdadeiro im­ pulso humano de acção que. aliciamento de eleitores. mas indirecto. . e até socialista. pregação de cartazes. sintetizando: A luta pelos meios é a acção indirecta. não deve ser aproveitada. provou uma eficiência muito superior à das religiões. o caminho das urnas é mais fácil. É uma forma de desviar esses impulsos. plenamente conscientes e criadores. para não desaparecer. que esqueçam um pouco a teoria. que se concentra nas multi­ dões exploradas. directo. e modela indivíduos. como multidões obedientes aos gestos e às palavras de ordem dos líderes. Toda a carga activa das massas.. que se dispam de suas couraças ideológicas e da ganga bruta de suas mistificações doutrinárias. isto é. desviado pelos políticos. se manifesta num impulso de rebeldia. comícios eleitorais. porque é uma arma mais segura. aos desejos de rebeldia do proletariado. e os argumentos poderiam encher volumes e volumes. fêz-se também po­ lítico. tão perigosos.22 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 23 lhes dão a suave e doce ilusão de que estão realizando socialismo e construindo o seu amanhã. em vez dos fins. porque não tira das massas o es­ pírito de iniciativa. trabalho.

Quando Kropotkine fundamentou o apoio-mútuo co­ mo base de sociabilidade dos seres vivos. que podem brotar a um impulso e superar esse impulso. etc? É nessa potencialidade do homem. mas não contém toda a verdade. e mais intensamente. pela incitação. como nos cães. Nos próprios animais se verifica o poder da incita­ ção. < M . que é um reflexo das situações de ordem material. realiza verdadeiros milagres e não poucas vezes se tem visto esses animais realizarem muitíssimo além de suas próprias possibilida­ des. A incita­ ção pode levá-los a ir além de si mesmo. é por isso incitável. cujas reacções não são apenas as físicas. não está errado. Tais factos são tão comezinhos na vida quotidiana. O marxismo. colocam os libertários uma das bases da ética. na verdade. É o homem um ser. Quem não fêz ainda dessas experiências junto às crianças. a mesma força que ela tem. nos combates. uma força exterior não produz uma acção à acção impulsionadora. Se bem estudada a História. quan­ do explorado nos cavalos de corrida. e pode realizar muito mais. na Biologia. É que. por exemplo. O homem é um animal ético e. Tais factos. em sua interpretação. a incitação pode levar a formar uma consciência potencialmente maior. após um esforço inau­ dito. e pode actualizar-se em actos que superam as causas. Não é o homem um ser autómato. cavalos. As condições materiais podem gerar determinada consciência. sendo suscetível de um aumento de suas reacções. impulsionada contra outra. Afirmam que muitas vezes são obrigados a penetrar no terreno da Filosofia e da Ciência. mas um ser biológico. no início.24 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 25 Analisemos mais este ponto tão importante para a compreensão dos porquês das táticas dos socialistas li­ bertários. em certas circunstâncias. é que é homem. na explica­ ção dessas duas formas de tática. é o que se ve­ rifica sobremaneira nos cães e animais de corrida. e esta. É o da "incitação". O ho­ mem pode ser incitado ao bem como ao mal. por exemplo. isto é. porque cada um as encontra facilmente. Nesse fenómeno biológico da incitação. Além da for­ mação dessa consciência. funda­ mentou êle a ética num facto de economia animal e até biológico. No ser vivo. aos jovens. por ser ético. por exemplo. é um aproveitamento de energias guardadas. um fenómeno que não se observa na Mecânica. verifica-se facilmente que os momentos de indignação moral levam os oprimi­ dos a gestos mais decisivos que as simples razões de or­ dem puramente material. pode o homem ser levado a mais do que normalmente pode realizar. chegando até à morte violenta. aquilo para o qual tem ten­ dências naturais. animais de carga. da eficiência dos impulsos éticos. sujeito à incitação. O impulsiona­ do pode realizar mais do que a força que o impulsiona. que eles colocam também um valor ético e fundamentam a ética. porque a Ciência e a Filosofia vêm em seu abono e justificam poderosamente o acerto de suas opiniões. Há. uma bola de bilhar. que o mundo animal nos mostra. a incitação pode produzir efeitos maiores. transmite à segunda. aos homens em suas lutas. porque podem congre­ gar forças latentes e despertar outras. É uma comprovação do valor. Mas Kropotkine ainda não havia visto tudo. como biológico. Todo o ser vivo. verificável até nos animais de rapina. em seus combates. na guerra? Quem desco­ nhece. o poder de incitação das palavras nos comícios. Todo ser vivo é incitável. pode reali­ zar além de seus impulsos naturais. é mais evidente entre os homens. que não necessitam provas. O brio. como.

a traição e a covardia dos políticos.26 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 27 Não se explica a revolução francesa apenas pelas con­ dições materiais da época. As condições morais. Sempre que houve opressão. pelos escândalos que corriam. houve quem não achou justificável a opressão e que não devia ser substituída por outra. de uma revolta à opressão. São excessivamente joco­ sas para eles. porque as não entendem. reunidos segundo suas afinida­ des e federados numa organização que será a própria sociedade humana. em sentido puramente libertá­ rio). não nasceu em gabinetes. de um anseio de liberdade e de digni­ dade humana. E dizem mais: dizem que o socialismo libertário é apenas criação de alguns filósofos ou sentimentalistas em disponibilidade que. não tem êle o menor fundamento cien­ tífico nem filosófico em suas afirmações. proclamam a inanidade das doutrinas libertárias." Mas os libertários prosseguem: "o so­ cialismo libertário é velho como o homem. Sem uma indignação e uma incitação consequente. As condições materiais são causas predisponentes. estes. de Marx. devemos frisar um facto perfeitamente observável por qualquer um. puseram-se a sonhar com um mun­ do melhor. É muito comum ouvir-se entre os socialistas autori­ tários. houve alguém que contra ela se rebelou. A comuna de Paris nasceu. Não é outra coisa o que vemos nas obras de Engels. Não que se negue a influência dos facto res materiais. dos chefes militares." Contudo. de um desejo de justiça. num alarde de igno­ rância palmar. no povo parisiense. A ameaça de Paris ser inva­ dida pelas tropas de Bismarck indignaram o povo da ca­ pital francesa. no sentido que os socialistas libertários a concebem. nem em longas e profundas análises de factos sociológicos ou históricos ou filosóficos. quiseram destruí-la. são as causas emergen­ tes. Esta é uma das bases biológicas da ética. mas pela indignação ética pro­ vocada pela vida dissoluta da corte de Luís XVI. respondem os libertários. aqueles que julgam que o socialismo só será reali­ zado através de uma organização autoritária. da indignação ética que provocou. nem tampouco que o caminho da liberdade fosse o mesmo ca­ minho da ditadura. sem a menor apreciação dos factos e da História. não é o producto de locubrações de filósofos. a traição das forças gover­ namentais da França. através desses sonhos e sô- bre esses sonhos. etc. Absolutamente não. a ideologia que tem a mesma firmeza que os castelos construídos no ar. éticas. de Lenine. não crêem nelas. Não foram esses os que construíram a opinião libertária. Nasce de uma indignação moral. não as vivem. Também há escravos que querem apenas mu­ dar de senhor. re­ voltados contra a opressão. de Plekanov. e o construíram. Naturalmente. nem todos os escravos se rebelam contra a es­ cravidão. em seus aspectos mais gerais. Ora. consoante as condições técnicas e históricas da vida hu­ mana. É este: enquanto os socialistas libertários estudam e conhe­ cem a obra dos autoritários. Eles predispõem as condições para a in dignação ética e para a incitação à luta. e muitos outros autores autoritários. nenhum povo é arrastado a gestos decisivos. teve suas manifestações mais diversas. e não « . nada conhecem do pensamento libertário e. dizerem que o socialismo que acredita na realização de uma sociedade melhor pela iniciativa das próprias organizações adminis­ trativas de homens livres. que tais expressões cau­ sam sorrisos aos autoritários. em todas as épocas. ("colar da rainha" e outros). um dia. do alto de sua auto-suficiência. Libertária foi a opinião dos que. e sempre. (Usamos a expres­ são causa como práxica. também. Convém dizer de antemão que o socialismo libertá­ rio.

concluir daí que o libertarismo não tenha quais­ quer fundamentos na Filosofia e na Ciência. respondem os libertários. libertarismo é uma opinião universal. de sua revolta contra a opressão. * * * Sem nos colocarmos na posição dos socialistas demo­ cráticos. mas o desen­ volvimento da cultura humana. é porque ela sobrevêm de forças. e dela não saímos nem sairemos. tomou os diversos aspectos que conhecemos. nasceu como movimento espontâneo de anseio de justiça. onde não se instituiu a autoridade política. ain­ da apenas estamos na paleotécnica. segundo as condições históri­ cas. muitas das suas pala­ vras soam ocas aos ouvidos dos homens de hoje. a liberdade não é geradora da opressão. no campo económico. — que por sua vez desejam alcançar ao Capita­ lista único. Estamos aqui. agora. escravos. mas só esta pode gerar o seu semelhante. que não quiseram ser. E como argumento final. Mas. onde há liberdade. Na época actual. mas a análise da História nos provará que a opressão só gera opressão. que não são libertárias. impregnado de sua indigna­ ção moral. e não crêem seja a opressão a mãe da liberdade. Não procurando buscar o verdadeiro conteúdo de suas ideias. para tanto. é uma pal­ mar ignorância dos factos. em tudo. liberdade. a auto­ ridade investida pela força. à teoria. Imaginemos uma sociedade humana. cada uma das novas conquistas do conhecimento só tem servido para corroborar as suas teses. de todos os oprimidos ou revoltados contra a opressão. Ade­ mais. Mas. permanecem no conteúdo histó­ rico do século dezenove. cada dia que pas sa. Para eles. tivesse força para atentar contra ela.O PROBLEMA SOCIAL 29 28 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS substituí-la. libertária. conceber-se que ela gere a liberdade? Só esta pode gerar a si mesma. o Estado. Por si. — te­ mos que dizer que o anarquismo merece a sua crítica. por enquanto. num terreno apenas de conceitos. Se a opressão se instala. e que desejam destruí-la e não substituí-la. mas opressivas. livre. não pode haver opressão. E como. e por nacionalizações e encampações estatais (a multiplicação de autarquias). isto é. através das doutrinas libertárias e anárquicas. é preciso reconhecer que o aspecto utópico. Como nasceria a opressão? Só poderia nascer se alguém resolvesse não manter a li­ berdade e. permitiu que a contribui­ ção de todas as ciências viesse corroborar aquilo que foi producto de um desejo de liberdade. Por quê? Por uma razão muito simples: a liberda­ de é liberdade. e que não acreditam gere a liberdade outra coisa senão liberdade. Por isso. que anelavam ser homens livres e não preten­ diam escravizar outros. Com o socialismo libertário a prática precedeu. quiseram marchar pelo caminho da liberda­ de. e vêem a actua­ lidade com os esquemas daquele século. Dessa forma. que se . Essa só posteriormente podia ser construída e." Examinemos este ponto: pode a liberdade gerar a opressão? Não!. e a liberdade. no campo político. voltando ao tema do início: o socialismo liber­ tário nasceu nas lutas dos escravos. por meios eleitoralistas. e onde há liberdade. acreditando só poder tornar prática a liberdade pela prática da própria liberdade. No decorrer do tempo. os libertários acrescentam: O socialismo libertário. os raros e dispersos grupos anarquistas têm os olhos voltados para o século XIX.

leva a muitos anarquistas (façamos uma excep­ ção a Malatesta. Se alguns de seus seguidores a usaram. a Proudhon. em seu conteúdo. e sob esse aspecto. no entanto. como muitos pensam. não conseguem seus partidários dissipar a realidade que atesta decisivamente contra ela. um invariante na História. Em suma. O não compreender que o utópico é um ideal. deve esta justificá-la ou refutá-la. pelo menos) a jul­ garem que a utopia possa deixar de ser o que é — um ideal inalcançável a desafiar o homem eternamente para que conheça superações — e possa tornar-se numa ime­ diata realidade. imerso na crise do mundo moderno. sob todos os aspectos. Os factos são eloquen­ tes e. Como o marxismo se considera uma doutrina de acção e não a separa de sua parte teórica. pois em suas linhas e atitudes. já publicado. a Fabbri. trata-se agora de analisar esta doutrina decadialècticamente. exposto em mi­ lhares de livros. e não um mero accidente histórico. não é um defeito dessa posição. desde seu surgimento até os dias de hoje. uma meta de perfeição a guiar e a exigir sempre mais dos ho­ mens. são de uma rara nobreza e dignidade que os toma admirá­ veis. mas como teoria e prática. o socialismo está em crise. os factos. Como prática. e por todo o bizantinismo de suas justificativas. Por outro lado. E ainda acrescentaremos que o terrorismo empregado em algu­ mas ocasiões. e a exposição sucinta que dele temos feito é suficiente para se conhecer suas bases. como doutrina. A acção do marxismo. o que não resistiria a uma rigorosa análise filosófica. pode dizer-se que o anarquismo é. prescindiremos do estudo da dialéctica marxista. . como esta dou­ trina vincula-se à acção. que procede­ remos a seguir. Desta maneira. e o faremos seguindo as seis providên­ cias. Tem sido o marxismo. pelo carácter acentuadamente ético de sua doutrina. os mais seguros e coe­ rentes. Faremos. enquanto a realidade actualizada deve ser vista co­ mo tal.30 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS revela no anarquismo. que é mais uma atitude revolucionária que uma filosofia ou uma doutrina. com maior ou menor proficiência. os socialistas de outras es­ colas pouco ou nada sabem de anarquismo. O utópico é o que lhe dá um calor e uma vida. Na verdade. que o tornam permanente e perdurável. é mais uma excrescência do movimento. que já realizamos em nosso livro "Lógica e Dialéctica". que se desenrolam no mundo. uma anotação. deve-se mais ao desespero que propriamente a uma decorrência lógica dos postula­ dos fundamentais. são um manancial de proveitosas lições. in­ dissoluvelmente unidas. pois abominam todo e qualquer oportunismo e. é um categórico desmentido à teoria. no movimento socialista. que seria para muitos dispensáveis: não se deve julgar o anarquismo pela caricatura. por maiores malabarismos teóricos. cujas normas tivemos ocasião de estudar em nosso trabalho acima citado. o anarquismo é contra o emprego da violência. ANALISE DECADIALÉCTICA DO MARXISMO Na análise decadialéctica do marxismo. em certos momentos. é preciso reconhecer que os anarquis­ tas são. é claro que não deve ser es­ tudado apenas teoricamente. Mas.

Como totalidade. ao inverso da vontade de potência hindu. sem negar suas origens mais remotas. comunistas. à reacção anti-romântica. o legítimo mehrwollen do fáustico. o marxismo pertence. como os da escola anarquista. está imerso na chamada "era industrial". Como universo. a sua prática. motiva­ ram. extrovertidamente do fáus­ tico. à História e à Economia. que. a análise corres­ pondente se impõe. e como facto actual pertence à totalidade do período romântico. de vector intensista e interiorizante. em suas linhas gerais. Mas não podemos deixar de conside­ rar ainda fresca a memória do leitor sobre o que trata­ mos nos capítulos anteriores. e como prática à nossa ora. como veremos. profundamente afectivo e irracional. inclui-se no pensamento ético-filosófico ocidental. (o querer-mais "nietzscheano"). en­ tre as quais encontramos o marxismo. sobretudo no referente à Técnica. a sua praxis. Como série. pois muitos dos seus postulados ultrapassam o cam­ po dos esquemas da nossa cultura. que por suas estreitas relações com os movimentos de reivindica­ ção popular. no socialismo. como prática e facto social. cujos exageros. e como acção e prática está imerso em nossa cultura. teoricamente. é de vector extensivo. pois a vontade de potência. conforme vimos. Como sistema. pois a simples e pri­ mária apreciação de que o hindu é meramente um nihilista passivo é uma das muitas maneiras caricaturais de (intender o "homo religiosus" hindu. deste modo.32 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 33 Pentadialècticamente. positivistas. e exteriorizante. e são encontrados no movimento social cristão. filiando-se. que se con­ juga ao sistema do pensamento ético-social do ocidente. formas e relações de producçao têm uma grande influência não só na gestação dessa doutrina. e as correntes socialistas intelectualistas. o marxismo pode ser colocado sob os seguintes planos: Como unidade. entre socialismo romântico. que muito nos auxiliam a compreender â gestação da unidade doutrinária do marxismo. uma dicotomização bem nítida. o marxismo se inclui no pensamento social desse período. temos a doutrina marxista. influiu decisivamente no papel messiânico emprestado ao proletariado. todos. cujo estudo analítico não faremos neste livro. que foi farto de acon­ tecimentos. está incluída no pen­ samento socialista do século XIX. racionalistas-empiristas. que se manifesta por uma forma específica da vontade de dominar introvertida. teoricamente. mas com analogias e correspon­ dências noutras culturas e eras. naquele período. o qual nos revela a sua acção. teoricamente considerado.i nossa cultura. etc. se distingue das outras por peculiaridades que já tivemos oportunidade de estudar e analisar. ante o qual o marxismo se opõe. condoreiro. foram poderosamente influídos pelo arracionalismo e pelo patetismo romântico. em busca dos mesmos princípios que o homem fáustico quer descobrir. . . A vonta­ de de dominar exteriormente. Os movimentos li­ bertários. anarquistas. enquanto a hindu é uma actividade que se introverte. quer individua­ listas. cujos esquemas são importantes para compreendê-lo e senti-lo. Feita esta colocação pentadialéctica. cuja actividade se manifesta por uma marcha continuada e estrénua pelos caminhos interiores. pragmáticas. teoricamente. co­ mo na sua cosmovisão histórica. sem que tal apreciação deixe de reconhecer o lado positivo e racional que há nessas doutrinas. constitui um facto social de determinado período histórico. no entanto. desvendar através do domínio das coisas. etc. cuja técnica. É uma actividade que se extraverte.

e em Ga­ lileu. puseram em descré­ dito. com excepção apenas de alguns estudiosos. factos de magna impor­ tância. até den­ tro da Igreja. que autores desse período preconizavam como as melhores para o homem. foram anos decisivos na História do mun- do. Uma sequência de filósofos menores. a influência da descoberta das Américas. São Boaventura e Duns Scot. O desenvolvimento. e o conhecimento de inúmeras formas sociais mais livres e mais harmoniosas. A história dessas experiências sociais é importantíssi­ ma. Os grandes autores deixaram de ser lidos. repetimos. deu a im­ pressão aos filósofos seculares dessa época. que precederam e se seguiram à reforma. após as grandes figuras desses momentos de flu­ xo escolástico. como foram Santo Anselmo. como a "Utopia" de Morus. apesar de destruídos. que antecedem ao século XVII e XIX. que me­ recem ser salientados aqui. as tendências individualistas. sabemos todos. que nos oferecem inúmeras sugestões e aspectos que merecem especial destaque. São Tomás. a não ser por alguns interessados. como vimos. da construcção ficcional de muitos modos de vida e de organização de povos. e fêz assento na biblioteca de muitos autodidatas. sobretudo no campo aberto aos estudos científicos. na história do ocidente. como foi a destruição dos albigenses pelas tropas de Simon de Monfort e a bulgomovitzo pelas tropas tur­ cas vitoriosas. deixa- . que não esta­ vam à altura desses mestres da escolástica. Os anos. que são estudados com menos extensidade e in­ tensidade. do capitalismo. favore­ ceram o surto das utopias do renascimento. sequência. como Duns Scot. nos revelam a criação de muitas sociedades sob base realmente socia­ lista. As convulsões que trouxe a Reforma. Fonseca. que procuravam romper as formas fechadas da economia predominante na Idade Média. salvo algumas honrosas excepções. em que surgiram Suarez. na Provence. Pereira. de comentadores e epígonos menores. que surge em dias do Re­ nascimento. que perduraram por muito tempo. a obra monumental reali­ zada por aqueles gigantes da filosofia. ante muitas consciências. e tantos outros. A reacção aos excessos do filosofismo racionalista e idealista. mas por acção de factores extrín­ secos.34 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 35 Desta forma. gerou a chamada filosofia moderna (e empregamos escolasticismo para nos referir­ mos à forma viciosa que a escolástica tomou depois da reforma. Banez. e do escolasticismo. Há. não por corrupção interna. que inclui vivamente sobre Ockam. Santo Alberto Magno. que caíram num bizantinismo de subtilezas dialécticas. e a chusma de obras menores dos epígonos inundou o mercado. predispuseram condições que facilitariam novas investigações e novos estudos. aos quais lhes faltava a disciplina suficiente e sobretudo a suspicácia necessária para que buscassem os textos e não se ativessem às especiosas subtilezas de uma dialéctica até certo ponto duvidosa. Esse período de refluxo. mas que tiveram um relevante papel no decurso desses séculos. etc. e os grandes comentadores de Tomás de Aquino. destruídas. O movimento dos cátharos. de plano para plano. conheci­ das no novo continente. a "Cidade do Sol" de Campanella. cujos métodos vamos encontrá-los implícitos na obra de grandes autores cristãos. como Cayetano e João de São Tomás). e a cooperação dos factores emer­ gentes e predisponentes desse período histórico. no campo social. pois esses movimentos. mas pode perfei­ tamente ser empreendida através da reciprocidade desses planos. na Bulgária. a bulgomovitzo. e bem raros. através do Cardeal Nicolau de Cusa. que a esco­ lástica era aquilo. a análise pentadialéctica não precisa mais processar-se.

e foram influir. de um lado o abstraccionismo materialista e de outro o abstraccionismo idealista. foi extraordinário. com o seu método e também com as suas apre­ ciações filosóficas. e sua influência nas socie­ dades secretas desse período. como surgindo de Descartes. de genuinamente espa­ nhola. de maneira evidente. que se pode considerar. para dela partir para novas investigações.36 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 37 ram raízes em certas sociedades secretas que se espalha­ ram pelo ocidente. graças a acção dos portugue­ ses e espanhóis. cooperou na formação de muitas sociedades secretas. decorriam do afastamento da genuína escolástica. Basta que se veja. cuja análise fizemos em "Lógica e Dia­ léctica". e em princípios e no decorrer do século XIX até os nossos dias. Os excessos do idealismo. que foram duas maneiras abstractas de desdobrar o seu pensamento concreto. Este. e até na acção da Reforma. Descartes precipita. um racionalismo abstracto. E o . Schelling e Fichte. que pretendia fazer uma síntese da escolástica. sob seus aspectos ocidentais. cujos estragos foram grandes para a Filosofia. teve grande influência sobre Leibnitz e o idealismo ale­ mão. que se­ gue a linha aristotélica. como o de Gandes e outros. apesar de discípulo dos jesuítas de la Flèxe. como ainda surgem em nossos dias. como o foi. e provo­ cou. certamente não conhecera o texto dos escolásticos e talvez conheces­ se São Tomás de segunda mão. auxiliou o movimento da reforma. Ao período de refluxo da escolástica. tanto de direita co­ mo de esquerda. mas que tiveram um papel preponderante na forma­ ção dos principais esquemas teóricos do socialismo. na obra de Wolff. o que não é de duvidar. através do hegelianismo. ntribuindo-lhes o que é peculiar a um ou outro. para o qual tanto contri­ buiu Descartes. e tenta. os "colombos retardados" da filo­ sofia surgiram. sobreveio o de fluxo. apesar das más interpretações que sofreu. influiu na formação da maçonaria. são de uma importância tal. o que só poderia ser possível. como consequência de suas análises. Este último. que preferimos chamar de real-idealismo. Matemático. Wolff. ante as afirmativas que faz em suas obras. vivendo com inten­ sidade as abstracções de segundo grau. e fazendo uma síntese que em grande parte falsifica a obra desses r. em movimentos esparsos. um idealismo concreto. e estructurou as bases para a formação mais sólida do socia­ lismo. que provocou a reacção da filosofia moderna. e realiza. nas corporações da Idade Média. que é in­ versão do racionalismo-empirista de São Tomás. afasta-se do pensamento idealista abstracto.cnuínos representantes do pensamento escolástico. que sentimos não nos ser possível analisar neste li­ vro. durante a Reforma. balbuciante a princípio. em certos movimentos religiosos. E dessa maneira. as confusões que faz quan­ to ao pensamento de Suarez. A obra de Wolff. que Wolff não conhecera em sua pureza. Mas. pelo seu valor e papel na história da filosofia. construiu o racionalismo moderno abstracto. Fichte e Hegel. cujos máximos representantes são Leib­ nitz. representado por Schelling. a invasão árabe no Egito. e actuou sobre as utopias do Renascimento. pelo menos nos termos como se apresentou. Por outro lado. podendo dizer-se que o século XVI. que surgiu. São Tomás e Duns Scot. cujo papel. na Europa. e que confundira lamentavelmente até. esse fluxo da escolástica teve um sucedâneo no refluxo escolasticista. e a penetração de elementos pitagóricos no sul da Europa. sobretudo. que se pode chamar a essa época. em grande parte. próprias dessa disciplina. em fins do século XVIII. e o próprio século XVII são de tal forma influídos por eles.

provocaram a reacção positivista e a materialista que. que perduraram em fins do século XVIII e princípios do século XIX. ou de alguns manuais de segunda categoria. no entanto. nos dá amplo elemento para compreender que o romantismo. nos temas sociais. na obra de Wolff. digna de melhores estudos e análi­ ses. por exemplo). O que já estudamos. digna de melhor estudo e genuinamente dia­ léctica. Os excessos idealistas. que tanto vulto tiveram no decorrer do Renascimento. após a grande síntese de São Tomás e as monumentais contribuições de Duns Scot e Suarez. que é de uma solidez extraordinária. O excesso do racionalismo cartesiano. técnicos e os históricos-sociais em suma. Se os anseios de liberda­ de. desde então. Toda filosofia medieval e a escolástica me­ recem um sorriso de superioridade (o que não deixa de ser ridiculamente trágico. em páginas anteriores. neste momento. na mor parte das vezes. mas que são decor­ rentes de um desconhecimento dos estudos anteriores. passou a apresentar-se como "novi­ dades" no pensamento filosófico. Como não se pode separar da realidade social todas as coordenadas históricas que a formam. como são os facto­ res económicos. Mas o idealismo abstraccionista prosseguiu através dos hegelianos de direita. ti­ vemos o abstraccionismo-racionalista. sem desmerecer-lhe o vulto. fundadas nas grandes conquistas da Ciência. que há uma perfeita identidade dialéctica de vistas entre es­ sas posições doutrinárias. segu­ rança e proficiência. o pensamento ocidental. seria insuficiente se não se considerassem os outros fac­ tores. com todo o primarismo. com toda a deficiência típica que iria caracterizar. e o abstraccionismo-idealista a disputarem en­ tre si as partes de uma Filosofia que já conhecera uma integração. nos é impossível fazer. Mas Kant. a análise filosó­ fica que ora fazemos. e em futuros trabalhos nossos o provaremos. gerou a crítica de Hume e a crítica de Kant. nos mostram os factores emergentes. pois permitiria a realização hegeliana. deles se diferenciar. é imprescindível que se observem os factores predisponentes histórico-so- . que nestes se fundou. somos de opinião. cujo valor é inegável. essas di­ vergências em nada afectam o edifício da escolástica. ao gerar o abstraccionismo idealista. como se fun­ dava Kant. cujo conheci- MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS mento se funda. depois. entre tomistas (epígonos de São To­ más) e escotistas (epígonos de Duns Scot). E ademais. enquanto os de esquerda segui­ ram o rumo do empirológico. que influíram na sua gestação. apesar de certas fraquezas que se encontram nesses autores e. A filosofia moderna revela um conhecimento que pára em Aristóteles. também. salvo raras excepções. já que se considerava como filosofia apenas aquelas formas exces­ sivamente abstraccionistas que se conheciam então. ao criticar os excessos do idea­ lismo. tem um papel de inegável valor. criaram ante os olhos dos estudiosos uma extrema valorização da Ciência. tinha seus fundamentos numa visão idea­ lista demasiadamente estreita. embora sirva de meio para uma melhor compreensão do marxismo. o que.O PROBLEMA SOCIAL 39 38 que já havia sido analisado. dos quais não pôde evitar a si mesmo de neles cair. no último. sob certos ângulos. com grave prejuízo das grandes conquistas do pensamento humano. para. etc. o abstraccionismo-empirista. Por mais importantes que sejam as lutas travadas na filosofia escolástica. Como consequência da desordem no pensamento que sobreveio então. estudado com carinho. como Marx. o que se pode verificar pelos textos que usava cm suas aulas (o de Meiern. quando se estuda a Filosofia como se deve estudá-la) pelos modernos.

a formação dos Estados nacionais. exemplos de realizações sociais. uma criação apenas do espírito de Marx. E o messianismo judaico de Marx. no proletariado. heréticas ou não. a ascensão das chamadas classes burguesas. já sepa­ rado de suas corporações. que oferecia uma côr irreal ante o espírito positivista da ciên­ cia. que não eram desconhecidas dos povos ocidentais. de uma aná­ lise fria. em certos alicerces sólidos. como teoria e prática. encontradiços na obra dos primeiros padres da Igreja. O malogro. corroída pelo luxo. indus­ triais. favorecendo. portanto. finalmente. é um precipitado inevitável de nossa época. a dos servidores. que se julgava com di : reito de estructurar uma nova sociedade. uma estructuração que este fêz. que se verificava em suas tentativas de resolver o problema humano e o sacrifício da última e quarta classe. o papel de precipitarem o romântico e sua forma viciosa. O movimento socialista. ao dinheiro. O so­ cialismo apresentava. e foi de uma importância capital para o destino do socialismo. o deperecimento moral da nobreza. às dos mercadores. o romanticismo. e oferecia tan tos frutos que a tornavam poderosa. que surgiram como resposta aos sin- . como doutrina e como movimento. se correspondiam a conteúdos psicológicos reais. a História contava que as classes se suce­ diam. levava a tomadas de posição românticas. no entanto. A fase civilizada de nossa cultura ocidental. sob base comunitária. Poder-se-ia fazer um apanhado de frases genuina­ mente revolucionárias. Ademais. em que a Ciência ditava suas normas de acção. fora da realidade. o que Marx compreendeu. a derrotas facilmente evitáveis. encontrava. Os ideais socialistas encontram. fundado em factos. le­ vados para o campo social. ataques enérgicos ao capital. e os estudos de hoje nos podem mostrar melhor ainda. assim. O socialismo não podia ser um movimento em torno de frases. e que os levaram a malogros. com a amplificação da indústria. davam agora o pa­ pel salvador ao proletariado. mas da junção de certos postula­ dos que o tornaram frágil. que tiveram. assim. como possibilidade e realização. deveria tomar um matiz consentâneo e congruente com a sua época. advém não de sua necessidade e ine­ vitabilidade históricas. um matiz romântico. e num conjunto de coordenadas. pela falta de um método mais sólido. a dos traba­ lhadores (os sudras da cultura hindu). a "última esperança" de uma salvação terrena. do comércio e das finanças. que facilitaram a formação da sua reali­ dade. pois está corroído dos mesmos males. funda-se. que. Se comete erros de base. em que os mestres se haviam tornado capitalistas. mas. a esforços inúteis das massas revoltas. a formação do proletariado. os males que conhece. realmente. por sua vez. à propriedade. Estructurar a luta pela emancipação do trabalhador. etc. numa sucessão que vinha das classes sacerdotais. que. fornecedores ou genericamente burguesas. das mesmas formas viciosas que outros movimentos. dando-se numa época como a nossa. nos exemplos do cris­ tianismo primitivo e em muitas comunidades religiosas ortodoxas ou heterodoxas.40 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 41 ciais. a formação dos sindicatos operários. que enchem de decepções e de amargura as páginas da Histó ria. O socialismo. tinha fatalmente que incorporar as conquistas do conhecimento humano. e até antes dela. O marxismo não é. geraram aqueles ímpetos ru­ bros de que a barricada é um verdadeiro símbolo. sob vários aspectos. ao Estado. às aristocráticas e. na lin­ guagem ocidental. No entanto. messianismo que impregna por sua vez toda a nossa era.

uma valorização extrema­ da do Um. a um excesso racionalista sobrevêm um outro empirista. e sua acção corrosi­ va. nem o abstraccionismo materialista ou o abstraccionismo idea­ lista podem chamar-se de cartesianos. o marxismo afirma que a antítese sobrevêm à tese. sobretudo na filosofia moderna. só tende a crescer. decompositora e corruptora. não queiram reconhecer. mas pecava de origem por uma contradição inter­ na. Está o marxismo minado por contradições internas. pouco usada pelos próprios mar­ xistas. as formas vicio­ sas das quais não se livra mais. por fana­ tismo. A macieira não é uma forma actual. que se observa na História. Se passarmos os olhos pela história da filosofia. como surgiu da filosofia de Duns Scot o ockamismo. opondo-se àquela. São novas posições que surgem. e que as di­ versas doutrinas. a estructuração dialéctica do pró­ prio marxismo. ou do racionalismo cartesiano o abstraccionismo materialista. e que contribuem para alcançá-la. O modo de ser actual da semente tem a possibilidade de se tornar uma macieira. agora. porém. excessi­ vamente exagerado. que ela actua na prática. Permanecendo no campo da alteridade. suficiente para estabelecer in­ terpretações viciosas. O marxismo. de um movimento. numa derrota final que não poderá de modo al­ gum evitar. a um Heraclito sobrevêm um Parmênides. imprescriptivelmente. por mais que os seus partidários. como o afirmaram Marx e Engels. ve­ mos que a lei da alternância nela subsiste. Ora. até cair. Pode. de degrau em degrau. precisa da cooperação dos factores predisponen­ tes. desde cedo. das quais não pode mais separar-se. Essa dialéctica. tal generatio mereceria um estudo todo especial. para gestar-se em arbusto. Estamos. A primeira e fundamental contradição opositiva do marxismo está na sua própria dialéctica. são adaptações às condições adversas. Mas nem o ockamismo é escotismo. cujos frutos estão aí. para ser tal. que sobrevêm de uma forma virtual. Tal aceitação leva os marxistas a admitirem que a gestação do contrário se dá inevitavelmente. o foi. tinha uma alta finali­ dade. no entanto. que julgou ser hegeliana.42 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 43 dicatos patronais. desejando estructurar-se como uma doutrina científica do operariado. se permanecesse apenas no terreno doutrinário. a co­ nhecer. Senão vejamos: 1) o marxismo aceitou e construiu uma dialéctica. e reacções que corres­ pondem a excessos. contém o mo- . como a muitas outras doutrinas. como se a semente de maçã contivesse latentemente a macieira. A macieira não é apenas o desenvolvimento da se­ mente de maçã. A semente de maçã. que o levou. segundo outros as­ pectos? A um movimento de vector excessivamente exa­ gerado. surgir seu contrário. Mas. o que não o fazem devidamente os marxistas. a uma valorização do Múltiplo. e de toda a ordem cósmica. pelo simples facto de nele terem origem ou impulso inicial. Sucede. a par de muitos outros factores. que o nega. A um excesso idealista sobrevêm um outro objectivista. que têm uma forma com aspecto qualitativo diferente dos das partes constitutivas. em face da segunda providência da análise decadialéctica. por sua vez geradoras de excessos. e quase só. etc. o que é de magna importância. sobrevêm outro de um vector contrário. embora constituídas com velhos materiais. tudo isso contribuiu à formação do so­ cialismo. Mas essa acção seria inócua. já em dias de Marx.

como forma. Consequentemente. o excesso de ditadura marxista não gestou nem o deperecimento do Estado. que. se desdobra o seu contrário. de uma forma. necessita e pre­ cisa da cooperação dos factores predisponentes. se não houvesse factores emergen- . Nin­ guém pode negar. já facilita a penetração de radículas. a passagem da potência para o acto. com a sua visão parcial da alteridade (o devir). que é imprescindível para que surja socialismo. E a razão é simples. o marxismo. mas esta não é apenas um desdobramento daquela. e que seria dialéctico apenas no nome. como pensaria o marxista ao admitir que. sem que se dê a cooperação dos factores emer­ gentes. a sua dialéctica revelou que o marxismo geraria o seu contrário. vitorio­ sos. e não apenas num só. sobre um partido. o que permitirá a incorporação de outros elementos do mundo exterior. portanto) a cooperação de outros factores. que a realidade desmentiu. é preciso que a emergência corresponda à pos­ sível reciprocidade dos factores. ser atribuídos à acção de estrangeiros. a um homem é isso possível. que o perdeu totalmente. que com ela cooperam. que a exerceu sobre o Es­ tado e sobre a população) seria capaz de gestar a liber­ dade. para que. Não poderiam os trabalhadores alemães e soviéticos aceitar uma provocação.O PROBLEMA SOCIAL 44 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS 45 do de ser virtual da macieira. embora repita palavras e frases humanas. como imprescin­ dível. para que surja a emergência "macieira". Pode-se ensinar uma língua a um animal. e. contribuiu. pois proces­ sou o inverso numa acentuação monopolizadora totalitá­ ria de poder. se dá dialècticamente. pois nem o papagaio a aprende. É na prática o inverso do que foi na teoria. até formar a macieira. a um total esmagamen­ to de todas as liberdades. como se quis fazer. No entanto. Não é pos­ sível que os factores predisponentes gestem por si mes­ mos algo. levando-os aos excessos das depurações. sem considerar (por abstrair. ao permitir a actualiza­ ção de uma fornia corporis (o arbusto. pois estes logo manifestariam o seu anti-marxismo. por exemplo). e em campos muito amplos. que não é possível dar a menor liberdade aos povos submetidos à ditadura vermelha. mas exige. a qual nem os próprios dirigentes so- viéticos. pois o que vimos foi a ditadura de um grupo. que se actualizará. Consequentemente. à formação da polícia mais brutal da História. como não o pode deixar de reconhecer. nem o menor resquício de liberdade. não só da semente ou do que con­ tinha a semente de maçã. Dessa for­ ma. mas exige a incorporação de inúmeros elementos do mundo exterior. que vivem. e êle não a aprenderá. à semelhança dos que acima estudamos. assim. em absoluto. A dialéctica marxista. desmentiu categoricamente tudo quanto numa construcção abstraccionista e utópica havia construído. etc. Não basta predispor. é um composto. da ditadura do proletariado (outra ficção e utopia. que é fundamen­ tal da filosofia aristotélica e da escolástica. Só um pensamento abstracto. como vimos nos mo­ vimentos ocorridos na Alemanha Oriental. que não po­ dem. para usar uma velha e batidíssima fi­ gura de retórica. poderia levar o marxista a pensar que. quem realmente se considere socialista. com a espada de Dámocles a ameaçar-lhes a cabeça. não como um desenvolvi­ mento da própria doutrina. Deste modo. e assim sucessivamente. Portan­ to. a semente de maçã contém em si os factores emergentes. cuja coordenação permitirá a formação da macieira. mas como um movimento de oposição. em sua aplicação prática. o anti-marxismo. mas da recíproca actividade dos factores predisponentes que. enfim. e os próprios marxistas intimamente concordam. realizassem eles uma brutalidade crescente.

que há entre eles muitos elemen­ tos sinceros e puros. Como vimos em nosso livro citado. Se há. quando não encontram fundamen­ to nos reais. julgando que a Metafísica fosse apenas um cam­ po de meras distinções conceptuais. soam como utopias ou meras palavras que provocam apenas riso e não explosões. que exigiram tan­ ques do "exército do povo" para sufocar. tanto Marx. levou-os a um abandono total das obras do período medieval e de Renascimento. e a Metafísica é apenas aquela de que Wolff falava. portanto. e outras já refutadas com an­ tecedência de séculos. a dialéctica marxista actua para corrom­ per a própria doutrina. Dessa maneira. e não será por muito tempo. ou da construcção de ficções. ou alguns egressos da burguesia. ambiciosos de mando. de jogo de palavras. e o que pensavam ser escolástica. se deve tal facto mais ao ressentimento e à sofisticação do que à sinceridade. Uma ou outra os levará à derrota final. desejando explicar as "desordens" dos tra­ balhadores revoltados. sem qualquer fundamento na realidade. que mereceriam estar em outro lugar. 2) O segundo aspecto contraditório do marxismo está em sua posição filosófica. na Rússia. Para todos eles. A ignorância palmar que predominou quanto à obra metafísica de um São Tomás ou de um Duns Scot. O que o marxismo gesta é o que já estava implícito no marxismo. Lenine e Stálin. al­ guns literatos pedantes. Me­ tafísica é sinónimo de idealismo. É admirável que. que são marxistas. que perfeitamente o ampara. que adotam tal doutrina. defendendo ideias melhor expostas há muitos séculos. são as reminis­ cências da velha prédica socialista. Mas se o trabalhador está num regime. influiu fortemente em todo o movimen­ to socialista. etc. tanto de uma côr como de outra. porque provocações de toda espécie fazem-nas os marxistas nos países capitalistas e não encontram eco. e nós o fazemos. inevitavelmente. como os outros marxistas. queiram ocultar esta verdade. era apenas escolasticismo.46 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 47 tes. a des­ crença aumenta aos olhos dos mais cultos e conhecedores dos factos que lá se desenrolam. têm uma visão deformada e primária da Filosofia. Colocam-se na mesma posição frágil dos positivistas e de toda a reacção anti-metafísica de século XIX. pouco dialéctica. Desta forma. levou a um erro de consequên­ cias terríveis. embora se possa admitir. como poderia aceitar tais provocações? Sabe ou deveria saber o marxista que os factores ideais não res­ soam sem que lhes correspondam factores reais. Mas. senão quando há motivos reais suficientes. nem podem afrouxá-la. que fa­ voreçam tal ressonância. Engels. cada dia que passa. que é predominante e quase totalmente ma­ terialista. que predispõem a muitos trabalhadores a verem. sendo os marxistas tão realistas. como meros productos de provo­ cações estranhas. Podemos admitir que elas se tenham dado. uma realização do povo trabalhador. o século XIX. A sua dialéctica. . pois eles não podem continuar aplicando a brutalidade organizada opressiva. Os factores ideais. O que os man­ tém ainda. O idealismo alemão cooperou muito para essa visão. com prejuízos imensamente grandes para a filosofia moderna e contemporânea. e não como uma explosão das próprias massas. imprescriptivelmente. É fácil ver-se assim que a dialéctica marxista os leva a erros palmares como sempre os levou. no entanto. que foi eminentemen­ te anti-metafísico. que Kant combateu. onde os "colombos retardados" proliferam. por abstraccionista e.

uma ordem criadora de todas as coisas. ou admitirá que é idêntica. lidas apressada e descuidadamente (vejam-se os ca­ dernos de dialéctica de Lenine. a ordem cósmica providenciou que sur­ gisse o homem. ou idêntica ao pró­ prio cosmos. a tese fundamental do materialismo mar­ xista é a prioridade do objecto sobre o sujeito.. Não. ou surgiu do acaso ou é eternamente pre­ existente e eternamente subsistente. uma vidência pro. Portanto. sendo o homem producto de uma longa evolução da animalidade. teria surgido do nada. Têm de tal termo uma visão caricatural. o que o marxismo quereria dizer é que há a ante­ rioridade do mundo exterior ao homem. pois. Aquele ver para diante (pro e videre). que mutuamente se acusam de falsificadores da dou­ trina. por exemplo. o marxismo é supinamente metafí­ sico. com algumas tinturas hegelianas. filosoficamente. surgiu também do nada. De qualquer forma. Se aceita a primeira posição. De uma forma ou outra. que já é acusa­ do de ingenuidade. ou seja. foi uma possibilidade dessa ordem. um dar-se do ho­ mem dentro da ordem cósmica. afirma-a como mera consequência da evolução animal. cai em todas as aporias intrínsecas à concepção do acaso. pelo menos. dirá. como um ser que se diferenciou. que se dá no cosmos. em suas análises primá­ rias sobre a "Grande Lógica" de Hegel. palmarmente. embora não no teísmo cristão. é uma doutrina mate­ rialista. Combatem-na pelo modelo que dela fazem. Mas. E vemos. adveio depois. acaso. Na ver­ dade. na polémica que se trava entre os marxistas dissiden­ tes. que já continha portanto. pois faz uma afirmação categórica do que não tem experiência suficiente. essa ordem é intrínseca ao cosmos. Dessa maneira. que apesar dos esforços para não se confundir com o materialismo vulgar de um Moleschott ou de um Vogt. E essa diferença não a nega o marxismo. se o homem surgiu. e não evitará. do contrário. Se aceita a eviternidade e a subsistên­ cia. o materialismo marxista é deísta de qualquer modo. tal não poderia ser apenas uma obra do acaso. pois se vê obrigado a dar à matéria um poder infinito de criar todas as coisas que existem. O marxismo. já suficien­ temente refutada. a queda no deísmo. o que o marxismo não irá de forma alguma admitir. Dessa for­ ma. Ora. há de convir que essa ordem. que se po­ de combinar com a segunda. essa possibilidade. Os marxistas desconhecem o que seja providêncoa divina. a espécie (a rationalistas dos escolásticos) fica reduzida à animalidade. a não ser que aceite um outro ser mais poderoso e abandone o seu monismo materialista. exis­ tiram ou existirão. e o seu "Materia­ lismo e empiriocriticismo"). e não compre­ endem que. sem qualquer intervenção de qualquer providência extra-terrena. se acaso veio da animali­ dade. que é uma cria­ ção posterior àquele. mas um animal que se dife­ renciou. o marxista que essa ordem cós­ mica é mera realização de per-si. no cosmos. pois se êle surgiu. seguindo as linhas do cientificismo do século XIX. tal potência indica uma possibilidade. construiu uma visão materia­ lista. mas estava em potência. não pôde evitar entregar-se a todas as aporias que daí resultam. os efeitos dessa heran­ ça. houve um momento em que o ho­ mem não era ainda actual.48 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 49 O marxismo. isto é.. in- dica uma providência que actua na ordem cósmica. Ora. Responderia. reconhece que há. mas do desenvolvimento da própria ordem cósmica. com o perigo de tornar-se panteísta. não poupando até o próprio Engels. Neste caso. O homem é um animal. e não se salvará do mesmo modo. Como sabe o marxista que é assim? Por lhe ser evi­ dente? Mas basta a subjectividade da evidência para afir­ mar uma verdade? Não será apenas uma convicção? .

50 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 51 Não podemos discutir as bases do materialismo aqui. como é a actual "Pátria. o marxismo jun­ tou o seu destino ao destino do materialismo. o que dá força ao marxismo. Em vez da força dada pela coerência. como nos mos­ tra a história do movimento bolchevista na Rússia. E as constantes mudanças de posição. como os factos o comprovam cabalmente. combateu a Filosofia e. Dessa forma. "nada há no intelecto que primeiramente não tenha estado nos sentidos". que o leva a outros desrespeitos. e. combateu a Moral. E a fal­ ta de um princípio ético mais profundo ao marxismo. a todos os que não podem submeter-se a uma auto-disciplina. e propor uma camarada­ gem entre os sexos. Daí o desrespeito total à pessoa humana. é o movimento que apresentou maior número de traidores que qualquer outro na His­ tória. a qual não pode ser negada. e não a uma pessoa. o homem é criatura. repetindo ridiculamente o "Deus. Vê-se. foi criado. mas apenas uma posição empirista no referente ao conhecimento e na gestação da inteligência humana. é que Marx não tomou propriamente uma posição genuinamente materia­ lista. embora em linhas gerais. Mas o que se pode dizer. pelo mesmo reductivismo ao físico-químico). Nós o fazemos em outros trabalhos. Es­ ta é um producto do mundo exterior. Pátria e Família". Submetendo-se ao destino do materialismo. Por escolher uma visão materialista. se pode vivamente interessar aos egressos. provocaram os risos dos adver­ sários. que. não encontrou em que dar coerência ao seu mo­ vimento. Na verdade. afirma a an­ terioridade do ser sobre o conhecer. são ainda os ideais socialistas (no fundo genuinamente cris­ tãos). uma ferocidade inau­ dita. precisa destruir até as mais caras conquistas da racionalidade e da afectividade humanas sobre a animlidade. O marxismo. julga que. nada mais afirma que um dos pontos que é património de toda a escolástica. em face da própria história do partido bolchevista. acabou por obter uma coerência conquistada pela força. (a racionalida­ de ã animalidade. na verdade. o que é uma afirmação empirista. o marxis­ mo condenou o seu futuro. que depois de combater a família. combateu a Religião. aos doentes. E no seu afã destructivo. combateu a família. fora da Rússia. Mas. fundado nas afirma­ ções de seus sequazes. As restrições contra o divórcio e a defesa dos bons costumes atingem hoje. que não o sabe. enquanto nos países dominados pelo seu poder. a mais fra­ ca posição que se conhece na Filosofia. aos mórbidos. é posterior ao que o cria. portanto. assim. isto é. e os bolchevistas mataram mais companheiros do que inimigos ideológicos. es­ sa coesão é obtida pela força policial. na Rússia. e nisto o marxismo. ao Ser que o antecede. este último substituindo Deus. O marxismo termina por negar valor a tudo quanto o homem elevou até então. aos ressentidos. o mais importante é o que gesta aqui um ponto ético capital. Ademais. para ser socialista. reduz o homem a uma coisa. e esta. E como todo ser criado. deveriam os marxistas saber que Aristóteles e São Tomás aceitavam que "nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu" ou seja. quanto ao conhe cimento. nem conhecer certas victórias por si. termina por construir uma tríada pa­ ra o povo. por reduzir a espécie ao género. não lhe deu a força que julga ter. As contravenções ao código de moral soviética che- . por desvalorizar totalmente o homem. que a própria filosofia marxista contribui para levá-lo à corrupção mais extrema. e o queremos fazer com justiça. Família e Estado". Para a escolástica. fatalmente.

b) que nesses países a capacidade de producção. inerente ao marxismo. levou-o ao excesso de poder que não pode afrouxar nem manter. o que ali se passava e passa. Leiam-se os relatórios de Stálin. O marxismo não pode evitar de ser histórico e passar com a História. pode­ riam negociar com os outros povos. Suécia. afinal. nessa sequên­ cia. em preços. Uma brutalidade leva a outra brutalidade e. qualquer construcção. como sucede com todo país indus­ trialmente mal desenvolvido. 3) A contradição funcional é importantíssima. e de o país precisar manter-se afastado dos outros. Toda a história prova essa afirmativa. E as formas viciosas decorrem desse espírito autori­ tário. com as fronteiras fechadas.52 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 53 gam aos extremos de dar penas pesadíssimas aos namora­ dos que se beijam em plena rua. c) que o proletariado desses países encontra meios fáceis de resolver os problemas económicos. que se tornou autoritária. no en­ tanto. levada aos extremos. As victórias obtidas são uma marcha apressada para a derrota fi­ nal. vedada à Rússia paleotecnizada. . porém. porque o autoritarismo. depois de ter sido ridicularizada por tanto tempo. é maior que a dos trabalhadores russos. pois o marxismo é intrin­ secamente autoritário. nesses países. O autoritarismo marxista é uma contradição interna do marxismo. sobreviveu ao próprio autoritarismo. porque não po­ dia competir. vivem milhões de seres humanos sujeitos a todas as lutas internas. Não podem. segundo a norma marxista. É o absolutismo autoritário um dos factores mais importantes para levar todas as formas humanas às for­ mas viciosas. Os factos sucedem-se dentro de uma sequência que não o fortalece. e os últimos de Malenkov. como as de Hitler o aproximavam cada vez mais da derrota. mais dia menos dia. Os abusos. tende ao vicioso e à destruição final. se é tão caro? Têm de viver de restri­ ções de toda espécie. Neste ponto. Stálin queixava-se de ser a producção russa a mais cara do mundo. que nos contam. do que não se livra mais e que o destruirá. Não são os adversários que os relatam. 4) Outra contradição destructiva encontramos no decurso da história. e penetrar na producção. Uma moral. Se os marxistas realmente desejassem a paz. negar estas ob­ servações: a) que o proletariado desses países vive num pa­ drão de vida muitas vezes superior ao dos russos. nenhuma organização. Dinamarca. E. por formas cooperacionais. O princípio autoritário. fazem estes os maiores malabarismos intelectuais para explicar os factos. deveriam ter eclodido movimentos mais ferozes. não co­ nhecem movimentos marxistas ponderáveis. como o são os Estados Uni­ dos. Noruega. Kruchev. Holanda. São eles mesmos. mas como factor de decomposição. Mas como vender o que produzem. em linhas gerais. Nenhuma ideia. da qual a pouco e pouco se assenhoreiam. Os países neotecnizados. que ora fa­ zemos. etc. com a producção dos países ca­ pitalistas. O autoritarismo fundamental da concepção marxista faz crescer os abusos de poder. não como teoria. por seu carácter absolutista. Os progressos obtidos pela técnica permitiram que os países neotecnizados pudessem conhecer uma melho­ ria de vida do trabalhador. que dela decorrem. que geram naturalmente o autoritarismo. per capita. destroem. Toda doutrina absolutamente autoritária está fadada ao malogro final.

etc. como Marx semeou dragões e eolheu pulgas. quando o proletariado se apoderou das fábricas. não baixou de custo. propuseram Le­ nine e Trotsky o prato de lentilhas. Ludibriaram as massas eom o prato de lentilhas do direito de greve em troca da ad­ ministração. além do poder político. pois a direcção devia caber ao partido. fazia êle uma afirmação que não se enquadrava no verdadeiro espírito da doutrina marxista. sem a administração. na Rússia. pois só o pri­ meiro seria precário. semearam ven­ tos. Desta forma os marxistas. Vitoriosos. tais factos são evidentes. de que tanto Stálin e Kruchev têm se queixado. a plus-valia paga ao capitalista passou a ser paga. apesar dos ímpetos estacanovistas. que sofre a pesada carga de uma super-burocratização. e a liquidação posterior dos remanescentes socialis­ tas adversos. Em troca da admi­ nistração das fábricas. Poucos dias após a revolução. os bolchevistas não guiariam o movi­ mento socialista. e as utopias do Renascimento o foram para a eotécnica. como de­ pois se verificou. que foi burocratizada nas mãos do Estado. o autori­ tarismo. Mas tudo isso traria. 6) A organização paleotécnica da Rússia. Sabia muito bem Lenine e seus sequazes que. ordens e regras a serem estatuídas de cima para baixo. ao Estado. o económico. e o poder absoluto dos bolchevistas instalou-se na Rússia. através de seus relatórios. o processo histórico e a técnica mos­ tram o marxismo como uma filosofia para o proletariado da paleotécnica. como trouxe. e o marxismo passará para a história como mais um exemplo do malogro das dou­ trinas autoritárias. em suma. brutalizou-se nas garras do estado policíaco. A mentalidade sovié­ tica é paleotécnica. porque o próprio trabalhador tinha um papel cada vez inferior. e os bolchevistas terem feito muito neste sector. com o aproveitamento do desinteresse dos anarquistas pela política.54 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 55 Ora.. o aniquilamento dos socialistas revolucionários. que errasse. Apesar de Lenine ter lutado pela elec­ trificação do país. E sucedeu o que era inevitável den­ tro da concepção marxista.. mas administrasse (e isso antes da revolução de Outubro). te­ riam. sem o poder económico. na história. 5) Outra contradição é a de ordem político-administrativa. o direito de greve foi imedia­ tamente liquidado. sem ter possibilidade de organizar-se em defesa. tudo quanto estudamos acima. como o foram. . dar-lhe-ia o direito de greve. a fazer a revolução. O poder económico nas mãos do Esta­ do. pois os sindicatos e os sovietes perderam o poder. como o socialismo chamado utópico tam­ bém o foi. em dobro ou em triplo. Só pela revolução se liber­ tará da opressão em que vive. assim. Desta maneira. le­ vará o povo russo. uma consequência: a) a burocratização levaria ao encarecimento da producção. e) caiu o proletariado perdido às mãos dos podero­ sos. paleotecnizaram a producção. Ao contrário. para sair da situação em que se en­ contra. Quando Lenine pedia ao proletariado que ad­ ministrasse. e dominando a máquina do Estado. o que lhe diminuía o estí­ mulo. não foram capazes de aproveitar as lições que a neotécnica e a biotécnica oferecem. e colheram tempestades. d) ademais. passando as leis. a sua própria contradição. O marxismo encontra. c) a producção. b) o proletariado.

sem tal perigo. com depurações cons­ tantes e sangrentas. Mor­ to. ainda põe dúvi­ das. poderia afirmar qual­ quer dos seus adversários. nem Kruchev. Esse espírito exi­ ge a desconfiança constante e a constante instabilidade dos dirigentes. Os russos aprendem há séculos a matar. etc. fortalece-o. cai fragorosamente. É o que se verifica nos quadros do mais rudimentar partido comunista. Marx. a Rússia poderia dar um outro passo. para alcançar um mundo on­ de possam respirar livremente.. e por sua vez dos próprios membros menores. desejaria que tudo fosse diferente. como a policial. sempre ameaçados. As fugas constantes. mais cedo do que se pensa ou se espera. que deveria canonizá-lo. a mili­ tar. pelo facto de o Esta­ do soviético dispor de tanta força. ao visitar a Rússia. Um estrangeiro. e compa­ nheiros. Os discípulos.. ins­ talando um regime de césares. e se viu forçado a guinadas de todo modo. Os bolchevistas não podem permanecer na brutali­ dade desenfreada. ela re­ nasceu. até Kruchev. Dizia Nietzsche que é do destino dos alemães salvar o que está perdido. mesmo havendo muitos outros que ela esquece ou desco­ nhece. Esse desejo já exis­ te. Não se pense que tal seja impossível. talvez ficassem apenas os senhores do Kremlin. e será continua­ do por outro. Êle era su­ ficientemente inteligente para saber que um ditador. ameaçados sempre de denúncias. quan­ do concede certas liberdades. A morte de Stálin era necessária. terá de fazer a revolução para libertar-se dos seus "libertadores". e nesse "talvez" há muito ainda de dúvida. também não trouxe grandes benefícios. sobre a verdadeira causa de sua morte. Tudo isso ruirá fragorosamente. * * * Aqui há lugar para uma pausa e comentário. único campo onde trabalha a dialéctica marxista. e assim até ao fim. nem podem empregar a liberdade. fundado em parcos factos da História. Dizia que Lutero salvara a Igreja. se não tivesse surgido entre os socialistas a acção dissol­ vente e divisionista dos marxistas. . pois graças a sua acção. Se a Rússia abrisse as fronteiras. a construir uma visão falsa da própria alteridade. a burguesia para libertar-se da nobreza. todo russo. em qualquer país. As forças contrárias crescem constantemen­ te e. sem faro psi­ cológico. O autoritarismo bolchevista provoca o anti-marxismo. Sua dialéctica levou-o. enfrentando os guardas. porém. cuja situa­ ção ter-se-ia tornado inevitável em dias da paleotécnica. em breve. Nem Stálin sentiu-se seguro. brutalizar. mas assistirá a humanidade a mais feroz carnificina que conheceu a História. e bem fundadas. Sucede. No fundo de si mesmo. o proletariado para libertar-se da burguesia. Stálin não podia modificar a orientação soviética. mostrarão aos mestres quanto aprenderam. E seu fim. internamente. nem seus subs­ titutos.56 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 57 Assim como a nobreza fêz a revolução para libertar-se do domínio do clero. pode não perceber tal coisa ao primeiro relan- O marxismo gera internamente uma luta sem quar­ tel pelo poder. que parece ter obedecido mais a um plano preme­ ditado que a uma simples doença. salvou a burguesia. as forças de desagregação são estimu­ ladas. Perdoem-nos a profecia. também. e deixasse sair do país quem o quisesse. que a táctica de Malenkov. Kruchev continua. um tanto prematuro. são um atestado insofis­ mável. os milhares que morrem nas frontei­ ras.

mas não tem o socialismo. Canadá e até entre nós. cuja prática está atestando o que é. onde há lugares proibidos em to­ dos os cantos. como já o fazem. O turista não vai às favelas. por popular. A opressão não é escola de liberdade. grandes indústrias. Teoricamente erraram e a prática os desmentiu. por exemplo. que realiza. em face do que o marxismo inevitavelmente é ab ovo: autoritarismo. Para os líderes. existentes nos Estados Unidos. como se conhecessem todos os mistérios da nature­ za e da vida humana. embriagar-se até com belezas que o novo regime tenha realizado. Antítese: o socialismo autoritário. a exploração do petróleo. levam desde logo a muitas objecções por parte dos marxistas. O socialis­ do regime bolchevista. etc. as estradas de ferro construídas na Bélgi­ ca e na Suécia. desejariam demonstrar que tal é impos­ sível. etc. a considerar: Tese: o socialismo romântico. sem a intervenção do Estado. E muito menos na Rússia. esta só pode surgir por oposição àquela. Síntese: será um socialismo democrático cooperacipnal. Holanda. Suíça. navegação. as grandes companhias de navegação sue­ ca e islandesas. contudo. Elas precisam confiar na omnisciência dos líderes. e a liberdade é uma perfeição que só se torna praticamente real com a própria prática. de Marx. e já genuinamente solidificado por ideais e práticas mais seguras. absolutismo. sincero. embora em parte. prussiano. Mas todos esses argumentos seriam fracos e desin­ teressantes. etc. Noruega. com sua frota de pe­ troleiros. Seria ingé­ nuo acreditar que em quarenta e tantos anos nada se ti­ vesse feito na Rússia. * * * O marxismo não é uma doutrina socialista conse­ quente. Pode ter a Rússia tudo o socialismo. não aprendam a administrar por si a si mesmas. com espírito de turista. não confiem em sua força de organização. os 800 milhões de cooperacionistas do mundo. Estados Unidos. O socialismo implica liberdade. que se jul­ gam senhores do conhecimento e falam em tom dogmá­ tico. O ciclo dialéctico da alteridade leva-nos. como verificamos em países como Suécia. Mas. estradas de ferro. Mas trinta anos atrás também era impossível. Islândia. E nessa época os cooperacionistas eram apenas uns 50 mi­ lhões. Com seu tec­ nicismo verbal. que extirpasse do acção dos próprios trabalhadores. demonstram à saciedade que os mar­ xistas são teimosamente maus profetas. naturalmente. que quiser. Afirmavam os marxistas que a cooperação orga­ nizada pelos trabalhadores e pelas classes populares não poderia construir.58 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 59 ce. não realizem obras que melhorem suas condições económicas. é preciso que as massas popula­ res não creiam em si mesmas. dos ideólogos sistemáticos de ciência infusa. Inglaterra. nem marcha para mo só seria implantado à custa meio de uma grande revolução país os dirigentes. à miséria dos bairros. marxisticamente. dos grandes iluminados da auto-suficiência. na verdade. Estes constroem o que até cr f ão era considerado im­ possível. sermos justos com os marxistas. e pela exclusiva Impõe-se. as condições históricas não permitiam nem . As duas dezenas de companhias de petróleo. Pode. Tais afirmativas. formadas so­ bre bases cooperativas. São os marxistas os maiores inimigos do cooperacionismo. Dina­ marca. e de propriedade de trabalhado­ res. cheio de brio.

Não é difícil encontrar. os externos. é certo) pela grande indústria. que se adapta às condições ambi­ entais. . e cônscio da realidade. e muitas das atitudes que tomam não são as dese­ jadas. mas são aquelas que as circunstâncias permitem. O homem é. Aquele tem características que lhe são dadas pelo artesanato. ante a acção predisponencial dos ex­ teriores. o meio ambiente tem seu papel na emergência. No fundo. O que pretendem fazer não podem realizar. e os predisponentes. corpo (factores bionômicos) e psiquismo (factores psicológicos). e revolta-se. sem a qual êle não surgiria (factores histórico-sociais). Os emergentes.60 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS permitem outra solução. Assim. Os factores predisponentes actuam e permitem a emer­ gência de uma revolta. OS FACTORES EMERGENTES E PREDISPONENTES Os factores emergentes. que bem gostariam de safar-se. actualizam-se de determinadas formas. é superado (não em tudo. e revolta-se. de Owen e de Proudhon. nem tampouco compreender o papel que os factores predisponentes exercem na actualização de suas formas. Não se poderia esperar outra coisa. lhe arranca os clientes. em parte. que aos poucos. Tem a revolta ro­ mântica do artesão. é eotécnico. este. que. Dentro de si. suas raízes emergentes. nem conseguirão. O socialismo da eotécnica é diferente do que corres­ ponde à paleotécnica. pelo salariato do pe­ ríodo paleotécnico. Um socialismo de Fourier. Não o conseguem. no socialismo. A "férrea necessidade" também os prendeu em suas ma­ lhas. foram pilhados nu­ ma armadilha. qualquer marxista sincero. Tem de proletarizar-se. emergentemente. como vimos. Ou está ameaçado a proletarizar-se. por melhor boa vontade que tenham. subitamente. dará plena razão às nossas palavras. Mas o ho­ mem vive na natureza (factores ecológicos) e numa so­ ciedade humana. são os internos.

como o fazem os adeptos do fisiologismo. nesse socialismo eotécnico. Um biologista poderia querer reduzir. cujas resso­ nâncias são mútuas. como procede o biologismo.). a predisponência económica era decisiva. realmente preponderante e decisivo na época como é ainda hoje. mas o nosso psiquismo percebe. que são apenas graus de intensidade da vida psí­ quica. Naturalmente que. desde os escolásticos. em cooperação com os ecológicos. Estes surgem em plena paleotécnica. O marxismo viu nisso o clí­ max do progresso e uma lição da organização social fu­ tura. E também o são a natureza e a socie­ dade. numa adequação com a predisponência. as do economismo. O que se chama factores biológicos não têm uma precisão absoluta. precipitadamente. de tal modo. O factor económico é por eles. porém ne­ gar a interactuação do biológico e do psíquico. Mas o homem é também psiquismo. que o factor económico fosse sempre o decisivo. O homem é um todo dentro de uma concreção. em sua conjunção e reciprocidade. consequentemente. Realmente. é sempre biológico e. Mas os epígonos continuam afirmando-o dogmàticamente. no homem. e um psicólogo poderia reduzi-lo à Psicologia. retirado.62 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 63 Mas. são os socialistas da grande con­ centração capitalista. corpo e alma são insepa­ ráveis. o ser humano. precisam dos emergentes. Por isso. O capitalismo toma o rumo das grandes unidades da centralização constante. ora aqui. ora ali. Podemos não perceber isto ou aqui­ lo. a emergên­ cia. não se pode. nem ter uma visão global justa. Em alguns marxis­ tas.. no homem. nesse período. político. Co­ mo o homem é histórico-social. o histórico-social influiu sobre Marx. e eis o psicologismo. em suma. desde esse momento. e de­ la depende para surgir e perdurar.. monopólio de producção. A sociedade tem de ser centralizada. porque. é muito mais rico do que pensaria a consciência . A psicologia de pro­ fundidade nos mostra que o que pertence ao inconsciente e ao subconsciente. económico. um fisio­ logista poderia reduzir à Fisiologia. por faltar-lhe uma sólida análise dialéctica. dava a con­ cluir. e teríamos o materialismo vulgar. E como o homem existe na natureza. mas isso correspondia ao histórico-social e ao espírito da época. (É verdade que Marx e Engels. um físico-químico poderia querer explicar totalmente o homem pe­ la Físico-química. naturalmente os de menor porte. e é natureza. tendeu sempre a acentuar o valor do factor económico. sendo corpo. sofrendo dela suas in­ fluências. Era tudo evidente a seus olhos. abstracta­ mente. segundo suas classificações mais usuais. o bionômico e o anímico estão fundidos. que não po­ deria ele ter outra visão. da concreção em que se dá. assim. sobretudo se se considerar que a sua insuficiente cultura filosófica não lhe permitia ver além dos factos. vive em sociedade. esse factor é único. sem fé. é a predominância deste ou daquele. etc. Os factores predisponentes foram aqui importantes. toda a superestrutura humana à Biologia. Ora. que acreditava apenas na Ciência e que precisava resolver os problemas económicos. fisiológico. A inversão vai dar-se nos marxistas. de domínio uti­ litário. assim como os factores histórico-sociais. e ideológico. Os outros nem são factores. tão cheios do século XIX. onde ainda julgavam ser possível uma salvação para os ho­ mens. não faltam as reducções do historicismo. monopólio de poder. únicos. monopólio. os fundamentos do socialismo são invariantes. em seus últimos anos de vida rejeitaram esse absolutismo. e alguns o fazem. Mas. para se constituírem. Ora. O que nos aparece.

e outros que vencem a natureza. julgado apenas movido poç isto ou por aquilo. provenientes da concreção escolástica. não pode ser niti­ damente separado. O factor económico. O proletariado seria apenas o herdei­ ro do capitalismo. como os factores não têm uma nítida separa­ ção. que ora fazemos apenas em suas linhas gerais. Eram as formas de producção do ca­ pitalismo que geravam o socialismo. Os problemas económicos avultavam. a filosofia anterior. o psicológico e o social. mas apenas distinções. há sempre o económico ou a sua presença. o que dava um conteúdo novo. nos colocam ante factos. e povos que não o aceitam. que parece estranha. A revolução seria inevitável. antes dele. pelo abstraccionismo materialista vul­ gar. O estudo mais pormenorizado desses factores. enquanto permaneciam formas velhas. e julgou que as soluções sociais seriam. Há po­ vos que se deixam vencer pela natureza. Ora. vive em nós. Seus exageros foram por êle vividos de tal modo que ao visua­ lizar uma situação histórica. não há senão distinções que fazemos com fundamen­ to in re. Marx. em circunstâncias semelhan­ tes. espírito rebelde e em constante oposição. pois a sociedade. Há povos que aceitam desa­ fios. está esparso em nossas obras. pois do contrário não poderíamos compreender como um povo. actua deste modo. antes dos exames procedidos. e outro. Marx. isto é. Há povos que reagem. que só uma visão dialéctica e cooperacional dos factores de emergência e de predisponência. real-fisicamente. com fundamen­ to na coisa. pelo abstraccionismo racionalista.64 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 65 vigilante. mas apenas apontado. actua diferentemente. nessa época. que analisamos em nossa "Filosofia e História da Cultura". por abstracta. dominada pelos abstraccionistas idealistas. Assim. que até o desprezavam. até com exagero. que eram formas viciosas. Como natu­ ralmente. embora não fosse descobridor do factor econó­ mico. como diria um escolástico. ao ressaltá-lo. sabe­ mos que há muito de inconsciente e de subconsciente num simples acto que praticamos. Portanto. pode explicar. e outros que não reagem aos ataques estranhos. seria dar uma explicação pouco dialéctica. em cada acto hu­ mano. E entre os indivíduos as diferenças são ainda maiores. o que outros. onde os estudamos sob vários aspectos desde "Lógica e Dialéctica". como há o biológico. Marx viu. com o intuito de salientar vi­ vamente o que os outros desconsideravam. teve um papel inegavelmente positivo e de grande valor. E explicar tudo quanto se dá na sociedade apenas pe­ la acção decisiva desse factor. que não são separa­ ções reais-físicas sob todos os aspectos. acentuou. já haviam visto: o homem estava empolgado pelo económi­ co. co­ mo êle mesmo o confessa. tanto quanto podia. com mui­ to maior influência e eficacidade do que se poderia pensar. fundado em documentos de parcial valor. paleotécnicas. fora de nós. e distinguido em sua concreção com os outros. E de tal modo. A cooperação das intensidades e extensidades desses factores explicam os factos históricos. Os estudos de Spengler e de Toynbee sobre a história. em contraposição ao abstraccionismo na filosofia que o havia desprezado. como propomos. . que as relações de producção se tornavam díspares daquelas. Marx olhava apenas o aspecto da ordem das coisas e não queria ver mais nada. em certas circunstâncias. por sua vez. porque o ca­ pitalismo era obrigado a socializar a producção. por exemplo. e como o económico não era mais salientado pelos filósofos de então. construiu uma cosmovisão totalmente paleotécnica. Marx foi um exemplo de sua mesma teoria.

Se actualizamos o subjectivo. A marca pessoal é demasiadamente evidente: messianismo judaico. não só sociais como fi­ losóficos. antes de ser mar­ xista. um progresso. e de seus seguidores. e. que empestavam as ci­ dades. de forma alguma consi­ deraria a oficina burguesa como exemplo de uma oficina socialista. segundo os dez planos. o socialismo eotécnico. O próprio Marx intitula o seu livro máximo de "Ca­ pital". e só. bem como da maneira abstracta de visualizar os temas.. Opunha-se ao capitalismo. conhe­ cidas nos países nórdicos. perseguições e despre­ zo dos dominadores de então. deve ser examinado como doutrina e como práti­ ca. não pensou que elas poderiam ter um ou­ tro papel. o tigre gestava pombas. como obra de Marx. fábricas e oficinas" colocava os aspectos da Técnica. que não obtivera por ser judeu. e a influência que sobre êle teve Engels. que serviriam de base a Patrick Geddes e a Mumford posteriormente. As imundas cidades de carvão e fuligem eram um progresso ante as limpas cidades da eotécnica. explicam-nos muito dessa notável simbiose. um progresso. ao movimento de humanização do trabalho. Viu nas grandes chaminés. importantíssimo. que actualizara da obra de Hegel o aspecto objectivo. e Marx mais Economia que Filosofia. que terminou por Engels fazer mais Filosofia que Economia. é fácil agora fazer uma análise decadialéctica. Marx não. Nem uma visão clara das possibilidades revolucioná­ rias da Técnica. actualmente. enquanto Kroptkine. Marx não. Colocado nesse ângulo. Ainda o diferente gestava o dife­ rente. Os estudos filosóficos de Marx. Analisado o marxismo no campo do sujeito e do ob­ jecto. o marxismo estructura-se co­ mo uma filosofia do proletariado da paleotécnica. na formação de novos ângu­ los e perspectivas. a pessoa de Marx se torna importante para a explicação da sua doutrina. Marx era paleotécnica apenas. Es­ ta está marcada pelas peculiaridades do seu espírito. ape­ sar de casado com uma mulher da pequena nobreza ale­ mã. Marx não previa essa trans­ formação. forma viciosa do domínio do capital. porque é sobre o capitalismo. considerava-o um passo à frente. àqueles a quem houvera solicitado um cargo. por nós já salientados nas páginas que antecedem. O capitalismo criava maravilhas. em cuja obra "Campos. influenciado pelo hegelianismo de esquerda. que êle quer falar. Filosoficamente. Para êle o capitalismo era o gestor do socialismo.66 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS Ora. politicamente. ANÁLISE DECADIALÉCTICA Com a colocação dos diversos aspectos mais impor­ tantes do marxismo. ressentimento individual.. pois a técnica levava o trabalhador a uma brutalização tal que seria hediondo aceitá-la. Marx. naquelas florestas de canos espetando o céu. económicos. que era um industrial e economista. assistindo à luta que era travada entre os dois . etc. nem admitiria que a forma de producção bur­ guesa fosse socialista. opunha-se. Enquanto o "utopista" Proudhon pre­ via o fascismo. Marx nunca pensou devidamente nas grandes revolu­ ções técnicas. nem sequer do papel que ela exercera na transformação das sociedades do passado.

por exemplo. embora fundando-se nas mesmas teses aristotélico-tomistas da raiz empírica do conhecimento. Era preciso ser objectivo. tudo quanto fosse de subjecti­ vo em Hegel. Daí a concluir que a objectividade gesta a subjectivi­ dade era apenas um passo. que se manifestava vivamente na Ciên­ cia (o que não deve ser simplesmente confundido com o positivismo de Comte). já refutado com séculos. Era preciso superar estágios. e Marx o era. que sempre chega tarde na História. Naturalmente que a luta entre as tendências objecti­ vas e subjectivas na Alemanha tinham dê ser mais agudas que em qualquer outra parte. sem que desprezemos o invariante que o es* tructura. que se processava nos países latinos. eficiente. Ao manter con­ tacto com os revolucionários latinos. tinha um cunho altamente subjectivo e. ao qual virtualizou. engajou-se do lado objectivo. a fim de competir com as grandes regiões industrializadas da Inglaterra e da França. como já vimos na "Psicologia" e "Lógica e Dialéctica". virtualizando tanto quanto possível a subjectividade. enquanto pessoa. de antecedência. o que se deve à sua ignorância sobre eles. por isso. como todo materialismo. competir com eles. prático. naturalmente. mas que por estas é modelado.gg MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 69 grupos que disputavam entre si a verdadeira exegese do hegelianismo. Mas trazia sua alma hegeliana de esquerda já estructurada. nem os fundamentos seguros que o sustentam. tem sempre uma raiz num interesse páthico. obra pouco lida e conhecida dos marxistas. A Alemanha. o so­ cialismo. e vencê-los. Mas a não aceitação de um papel activo (o intellectus agens. Por outro lado. pois virtualizaria. A influ­ ência positivista. caindo. preciso. Esta acentuação levá-lo-ia a desprezar o homem. Todo o subjectivismo alemão (e que se revela tão simbolicamente no expressionismo em sua arte) tinha que ser posto em quarentena. Marx era afectivamente objectivo e exagerava esse aspecto. tinha os olhos voltados para o além-Reno. Marx. ou seja. a teoria do conhecimento marxista não poderia deixar de cair num empirismo abstraccionista. dos tomistas) levou-o a transformar o subjectivo num mero epifenômeno. que fazia parte da concreção hegeliana. esquecendo a importância do subjec­ tivo. dos valores que o homem empresta à filosofia prática. A princípio. acompanhar o progresso económico dos outros povos. levava Marx a tender para a ob­ jectividade. porque não se libertou da influência axioantropológica. de vez. genuinamente afectivo. Mas todo tender objectivo. avançar. consequentemente. uma cópia. no in­ tuito de alcançar aquela precisão que a Ciência buscava e adquiria ao afastar-se do subjectivo. que é um asíntese de objectividade e subjectividade. ho­ mem de luta. levou-o. no tempo da "Ideologia alemã". com toda a paixão. Seu rompimento com Proudhon. e o marxismo caracteriza-se por essa frieza ao tratar do ser humano. e que terminaria por tornar-se o ponto fraco do marxismo. por paixão. colocado do lado dos esquerdistas. que passa a ser apenas uma coisa que organiza coisas. sentiu que havia muita exteriorização de paixão por parte destes. que só nos estudos altamente especulativos é possível evitar. É verdade que Marx. Somos objectivos também por paixão. E es­ tes Marx não os realizou por tê-los desprezado. era estimulada por seus homens públicos (a era bismarckiana se construía) a industrializar-se. e que o desprezara. neófito no socialismo. os aspectos do objecto. era supinamente romântico. tinha uma . O exagero era inevitável. a cair numa visão objectiva do socialismo e a actualizar. o aspec­ to materialista teria que ser finalmente acentuado. consequentemente. Marx sentiu a luta e. que tanto admirara. em todos os defeitos do nomi­ nalismo.

racionalmente também). Nossos esquemas permitem conheçamos segundo nossa assimilatio (assi­ milação) a eles. que é subjec­ tivo. levou-o a esquecer estas teses e até o quadro da estructura (da infraestructura e da superestructura) foi finalmente modificado. pelo qual o conhecimento se adapta ao modo natural de ser do cognoscente. e que realiza o acto de conhecer. tamtoém. o ho­ mem humanamente. Só se produz o que é útil. é reduzido ao valor de troca. diziam os escolásticos). per­ manecendo a infraestructura como meramente objectiva. compreendeu e tangeu em parte. No entanto. Por isso. Marx só vê a acção da experiência. expli- . Mas o cognoscente adquire esque­ mas pela experiência. que o torna apto a conhecer mais. é positiva. conclui que a utilidade já está contida no valor de troca. segundo o seu modo natural de ser. Dessa maneira. A tese idealista. isto é. existe independentemente de nós. Esta passou a ser apenas um epifenômeno da­ quela. sem o que é capaz de conhecer. quanto ao conheci­ mento. o que o leva a construir uma teoria abstracta do valor. (Um pe­ queno erro. assim como a trepidação de um motor é apenas um epifenômeno do seu funcionamento. como vimos na aná­ lise da teoria do valor. "Portanto. a po­ sição empirista e a racionalista apriorista são sintetiza­ das num empirismo racionalista. E prossegue: O conhecido está no que o conhece. e aceitava a interactuação do objec­ tivo e do subjectivo na formação do conhecimento. afirma São Tomás. Marx não vê mais o antinômico que se dá entre ambos. depende do sujeito. que êle. O su­ jeito conhece segundo pode conhecer. como já vimos. virtualiza a acção subjectiva. O conhecimento está condicio­ nado ao cognoscente. acentuando o aspecto objectivo. o idealismo tinha sua positividade. etc. mais conhecimento. gesta grandes erros posteriores. e a subjectividade colocada exclusivamente na superes­ tructura. e consequentemente. O excesso do objectivismo marxista impele a falsifi­ car o próprio conhecimento. no início. Mas o calor da sua paixão objectivadora. o valor de uso. ao reconhecer o pa­ pel que a ideologia exerce no conhecimento. o factor emer­ gente do conhecimento ao lado do predisponente. O sujeito é constituído de modo a conhecer. con­ sequentemente. no receio de cair nas teses idealistas. o que já estava bem delineado. É verdade que êle termina por aceitar uma positividade também idealista. Marx. ao afirmar que o mundo objectivo é modelado pelo sujeito. Dessa forma. dialècticamente. E conhece. assim. se o modo de ser de um objecto de conhecimento é de ordem superior ao modo natural de ser do que conhece. 12 a 4). o papel que a subjectividade posteriormente impõe. que dele temos. em nossos traba­ lhos anteriores. Mas o co­ nhecimento. aqui.70 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 71 visão proudhoniana. O conhecimento se verifica do modo como o conhecido está no que o conhece. teria que gestar todos os erros que posteriormente vieram adicionar-se a este. São Tomás é dialéctico. A criança conhece na proporção de seus esquemas. que é o de São Tomás. na Economia. na verdade. como na cosmovisão das classes. Esta é a tese empirista. e esquece que sem a emergência não haveria conhecimento. Vemos aqui colocado. Mais esquemas. O mundo exterior. o marxismo caiu no abismo nomina­ lista. segundo seja seu modo natural de ser (o cão conhece caninamente. seu conhecimento está ne­ cessariamente acima da natureza de tal cognoscente" (Summa Theologica I.. que não deve ser confundido com o objectivo. (Cognitío enim secundum quod cognitum est in cognoscente).

73 citamente. que é acto de algum órgão corpóreo. sem a presença dos factores predisponentes. é uma fórmula que não é apenas uma abstracção do homem (excesso da tese subjectivista. como a Lua é hoje. Citamos ainda São Tomás no mesmo tópico: "Por­ tanto. apenas uma palavra. o número pitagórico no bom sentido. como teria ubiqíiidade para estar naquela? Logo o arithmos. algo que se repele. Mas a alma tem duas faculdades cognoscitivas. mas que está in re. Uma. E não sendo este. simultaneamente. O uni­ versal é apenas o que têm de comum os entes. que São Tomás. mas é algo que se dá aqui." Esta segunda acção do conhecimento. sem uma presença material. o que êle é. não com as características da ma­ téria. ao qual não podem alcançar os nossos sentidos. que não pôde evitar Marx). adquirida post rem. É uma universalidade para nós. ali. Podemos não saber qual é o esquema concreto da maçã. pelo que sua acti­ vidade natural é conhecer as coisas segundo o modo de ser que têm na matéria individual. pode a ciência ainda não saber como êle é. É uma forma. e só nas maçãs. A outra é o entendi­ mento. como o mostra­ mos em nosso "Teoria do Conhecimento". a maçã não é maçã. crescer com. (como o afirmam . acolá." que se torna um effectibilium neste planeta). o seu quid. mas abstraídas dela pela acção do entendimento. Esta maçã é maçã e não outra coisa. o seu o que. o marxista a considera como os nominalistas a consideravam. é forma de uma matéria. Logo. Por essa acção. É este. já que a nossa alma. um arithmos. do contrário não teria ubiquidade. Mas esse relacionamento é um relacionamento que não é qualquer outro. nesta e naquela e naquel'outra maçã. que cresce com (concretum vem de concrecior. essa forma. ali e acolá. segundo a possibili­ dade do cognoscénte. podemos conhecer as coisas em seu ser universal. que a facilitam. nos estudos sobre o conhecimento. que dá a forma maçã. essa forma maçã (esse eidos. depois da experiência (como o querem os nominalistas). o nome pouco importa) é um esquema con­ creto. mas um esquema concreto. E por quê? Porque nela há um relacionamento físico-químico-biológico que a torna maçã e não outra coisa. e em certas condições. que não é acto de nenhum órgão corpóreo. e por isto os sentidos unicamente conhecem o singular. do contrário. que êle se dá aqui. com sua forma maçã. segundo nossas possibilidades. algo que não é matéria. Captamos dele. se actualiza em maçã. pois.' que não é matéria. na coisa. Duns Scot e Suarez haviam feito. Mas esquecem-se que os esquemas concretos estão também nas coisas. Não é o mero flatus voeis dos nominalistas. a matéria que compõe esta ou aque­ la maçã. pela qual conhecemos. o natural para nosso entendimento é conhecer as coisas que não têm ser senão na matéria./ 72 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL. não poderia estar simultaneamente em tantos lugares. mas ubíqua. Mas não está nesta maçã materialmente. o arithmos plethos de que falava Pitágoras. que é uma possibilidade dentro do ser (um possibilium da escolástica. portanto. e por isso o conatural (natural com) do entendimento é conhe­ cer as naturezas que têm ser em uma matéria individual. Mas essa forma não se actualiza nesta e na­ quela maçã. também em sentido aumentativo). na maçã. é o esquema concre­ to que dá a tensão maçã. no sentido platónico. com o entendimento. pois uma maçã não surgiria na Lua. no pitagórico. que as coisas na sua intrinsecidade re­ petem (imitam). esse arithmos. seria outra coisa. mas sabe que êle é. Portanto. real. um eidos. uma quidditas.

quando transformam o aparelho cognoscitivo do homem numa mera máquina fotográfica.74 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 75 os conceptualistas). ou que reduzem aos nossos esquemas o que se dá além da capacidade cognos­ citiva do cognoscente? Portanto. As formas estão antes da coisa no Ser. desde logo. que o levou a não poder conter os exa­ geros. um desmentido constante. O que conhecemos das coisas. são condicionadas pelo cognoscente. e a precipitar no exagero os seus epígonos mais "marxistas" que êle. com excepção dos actuais dominadores. dão-se nas coisas. co­ mo monotonamente o fazem Engels. e ampliamos o conhecimento à proporção que am­ pliamos os nossos esquemas de conhecimento. os marxistas preferiram cair num bizantinismo de interpretações sub­ tis das frases de Marx. a actualizar as possibili­ dades reais ou não. tanto quanto possível. porque estes nunca erram. A posição filosófica do marxismo. mostrar que havia alguma coisa que não estava perfeitamente entrosada. leva os marxistas a verem só . não pôde impedir de nele cair. Por que os marxistas. Que são os aparelhos da ciência. Analisemos dialècticamente em outros campos. As actualizações e virtualizações que o marxismo procedeu permitiram as modalidades abstraccionistas de que está cheia essa doutrina. que se escarrapacharam. senão uma ampliação dos nossos esquemas. o realismo de São Tomás é mais dialéctico que o nomina­ lismo marxista. no Ser (como o afirmariam os realistas). Os marxistas. pois descobriram uma solução ideal para as ati­ tudes: "as condições históricas exigiam tal atitude. desmentem-no constantemente. querendo combater o idealismo. A redução do mundo a uma cosmovisão simplista. Em vez de procurar o ponto frágil. e ao semear dragões co­ lheu pulgas. e são conhecidas. sempre. leva-o a actualizar apenas os aspectos extensistas e a virtualizar o intensista. o que aliás é bem verdade. perfeitamente ade­ quada. que eram apenas erros porque partiam de posições previamente falsas. na prática. e que encontra. post rem. Conhecemos o cognoscível. pois era uma possibilidade que se efectuou. e a virtualizar tudo o mais. e que tinha um modo de ser ante rem. sua maneira de ver a História.". o pensamen­ to tomista é dialéctico. Lenine e outros. as quidditates.. Dessa forma. caem na mesma posição nominalista ou na maneira bru­ tal de ver dos materialistas vulgares. justificar os erros. microscópios. Basta que se observem as obras dos autores marxis­ tas que estão sempre apontando os erros cometidos. uma visão meramente objectiva do conhe­ cimento é uma visão abstracta. razão por que os acontecimentos. E assim como Kant. procurando. por nós. da sua paixão (subjecti- va) ao objectivo. em esquemas concretos (tese dos con­ ceptualistas). Marx não pôde impedir de cair no materialismo vulgar. depois da experiência (tese dos nominalistas). etc. com quem Marx se preocupava tanto em não ser confundido. pois do contrário viriam do nada (tese realista).. tiveram de ser di­ ferentes do que foram na teoria? A simples evidenciação dessa diferença é suficiente para. E tudo isso era uma decorrência natural da sua po­ sição subjectivamente objectiva. na prática. o sangue do nominalismo até inflar ao extremo. que não seguem a regra marxista. que é abstracto. Dessa forma. que se coadunam com a sua maneira de ver os factos. sugando.

eterna. é sufi­ ciente para justificar nossa crítica. que o estudo dos aspectos. a fim de justificar as afirmativas que teríamos de fazer. que acabamos de realizar. que implicam citações de passagens. arguir os mais subtis e bizantinos argumentos. dessa forma. Não se alterará. que se reduz. sem considerar o que coopera na formação do mesmo. eis que os dissidentes. os não-estalinistas. não admi­ tindo sua superação. nos mostra à saciedade quanto os outros campos da análise decadialéctica oferecem exemplos de má apreciação. não será substituído. dar uma visão ampla dessa dou­ trina. Podem os marxistas fazer os maiores esgares. e a acabar com a sua própria dialéctica. que os marxistas não captam. não é de admirar que os marxistas afirmem. negando a sua superação. O marxismo. quanto a nós. E aqui. segura e filosoficamente bem fundada. Estes meditarão sobre as nossas palavras. . nega-se a si mesmo. cujo intuito não é ata­ car. e não quanto aqueles que honestamente aceitam a sua doutrina. que depois deles não há mais caminho para a Fi­ losofia. sem entrar em por­ menores. o das oposições da intuição. dentro do socialismo em geral. O desaforo substitui a análi­ se serena. perene. apenas. O marxismo assim tende a parar o pen­ samento. a mais realista.76 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 77 os aspectos que estão de acordo com a teoria. passam a vociferar uns contra os outros. Por isso. nega a sua própria dialéctica. É o que poderemos esperar. quando certos marxis­ tas fanatizados leiam este livro. a própria posição marxista é o des­ mentido mais cabal a si mesma. e se forem socialistas sinceros e equilibrados. daí actua­ lizarem supinamente o factor económico. co­ mo fizemos. blasfemos e revoltados. como seja o campo das oposições da razão. ante tal afirmação. mas apenas mostrar o que há de positivo. portanto. apenas a repetir o que Marx disse. levan­ tar a voz. deverá reconhecer que foi uma filoso­ fia aplicável ao proletariado da paleotécnica. que é defendida por seus sequazes. mas o marxismo. como a mais objectiva. isto já é outra coisa. etc. a par do que há de abstracto em uma doutrina. das suas antinomias. onde pretendemos. Como fecho final. os não-kruchevistas. e ainda mais para a biotécnica. com cândida con­ vicção. a mais perfeita que o cérebro humano já foi capaz de cons­ truir e até insuperável. Uma análise da filosofia e da economia marxistas. hão de bem compreendê-las. que não poderíamos examinar aqui. A análise dialéctica da dialéctica marxista já a fize­ mos em nossos livros anteriores e cremos. E quando marxistas vociferam é melhor fechar os ouvidos. E se a aceitar. Podem afirmar que Stálin ou Kruchev su­ peraram Marx. Bem. pois não admite nenhuma contradição em si mesmo. o que há de desconhe­ cimento. mas insub­ sistente e superada para a neotécnica. e que actua con­ juntamente com êle.

que foram demonstradas com a apoditicidade desejada. como vimos. estabelecer algumas premissas. assim. podemos. aquelas tomadas em in divisibili. que permita traçar um rumo. mas uma solução fundada na realida­ de concreta. agora. fazer a colheita do que foi realizado. que não podem ser virtualizadas. Ficou devidamente demonstrado que o ser humano participa de um conjunto de perfeições que são gradati­ vas. e estabelecer algumas sugestões. e que servirão de ponto de partida para que delas possamos ti­ rar as conclusões justas. ver o homem apenas como o resultado de factores: a) biológicos ou . sobre tema tão importante como o da His­ tória e dos problemas sociais que agitam a época em que vivemos. 1) É abstractismo vicioso. que correspon­ da melhor ao que de mais justo há no ser humano.POSTULADOS CONCRETOS SOBRE O DESENVOL­ VIMENTO DO HOMEM NA HISTÓRIA Depois do que escrevemos nos volumes que antece­ deram a este. que poderão ser úteis aos que desejam contri­ buir com seu esforço por uma solução mais humana dos problemas sociais. É mister. do que foi examinado. sob pena de nos afastarmos da concreção que deve estar patente ante os olhos daqueles que pre­ tendem estudar com fundamentos e seriedade os proble­ mas sociais.

uma variedade imensa de tipos e sub-tipos. construindo a Técnica e a Ciência. que actuam para modificar a direcção. e consiste em negar determinada atribuição a um sujeito. recusar uma determinada atribuição. A sua realidade concreta funda as raízes em todas as esferas e campos de cada um desses ramos. em que vive. incluindo-se. contínua e progressiva­ mente. no ambiente em que vive ou e) histórico-sociais. 11) Por sua capacidade selectiva. sendo essa ca­ pacidade de actuação variante. preferindo estes e preterindo aqueles. que constituem o objecto de estudo de tantas disciplinas. O homem não é apenas isso ou aquilo. todos tomados dinamicamente. pondo as leis cósmicas a seu serviço. virtualmente. que é predominante nuns. 6) O ser humano caracteriza-se ainda por sua capa­ cidade de recusa (de dizer não). para tais actualizações. 9) Transformando a si mesmo em objecto de espe­ culação. não mar­ car a direcção dos actos humanos. mobilizando-as pa­ ra dar rumos distintos aos acontecimentos. E tal é verda­ de porque tais factores. sua actuação é corres­ pondentemente relativa. assim. pode o ser humano interrogar sobre o seu des­ tino e estabelecer planos de actividade futura. incluindo-se tudo o que constitui o circunscriptivo de sua existência. conseguindo. ou seja. 5) O ser humano distingue-se especificamente dos animais. providenciar projectivamente o seu futuro. da intencionalidade. pois. pode empreender actos que frustrem a contingente imprescriptibilidade de certos factos naturais.80 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 81 b) fisiológicos ou c) psicológicos ou d) ecológicos. em graus potenciais. é possível a classificação em tipos. e de intensidade variada. 10) É êle capaz de dominar. por cuja combinação é capaz de exercer o domínio sobre o meio ambiente e adaptá-lo aos seus interesses. como também de escolher entre valo­ res. de modo a que estes possam servir aos seus desejos e corresponder . pode não ser em outros. maior poder que outros. por sua capacida­ de estimativa. distinguindo-se os diversos indivíduos por pos­ suírem. que nos explicam a origem próxima da diversidade humana e. ou seja. Essa recusa é. segundo as semelhanças e a par­ ticipação de determinadas perfeições. apenas os fac­ tores culturológicos. 4) Dentro da heterogeneidade humana. consequente­ mente. aqui. e o que hoje predomina e marca a direcção da actividade de uns pode não predominar amanhã e. submeter as coisas à sua vontade. mas al­ gumas vezes (non semper sed aliquando). 7) É o ser humano capaz não só de estabelecer hie­ rarquias de valores. Desse modo. É um ser capaz de criação cultural. dispor cada vez mais do meio circunscriptivo. 3) O ser humano é heterogéneo e revela tipológica e caracterològicamente. um factor. o vector. inclusive o histórico. 8) Contém em si o ser humano. mas o resul­ tado da cooperação gradativa e da harmonia de todos esses factores. a possibilidade de realizar tudo quanto humanamente é possível. de construir instrumentos para exercer esse domínio pela ampliação de suas forças e de sua ca­ pacidade. portanto de estabelecer novos modos de vida e de adaptação ao am­ biente circunscriptivo. 2) Não há factores predominantes sempre. consequentemente. sendo contingentes e ademais accidentais. po­ sitiva. as coisas. com as varia­ ções correspondentes aos covariantes.

nos demonstrou cabal­ mente que o progresso humano é proporcionado à per- fectibilização desse acto. de realizar o livre arbítrio. construir juízos sobre eles. nesse sector. 12) Além da capacidade de exercício livre de sua ac­ tividade. capaz de julgar livremente. ou não. ampliar seus conhecimentos. e não é o homem prisioneiro da férrea necessidade. é ainda capaz de escolher entre valores e. analogados por um termo comum. de modo insofismá­ vel. o que revela. foi capaz de realizar. robusteci­ mento e amplitude abrem caminho a novas possibilida­ des e a novas conquistas. cujo desenvolvimento. de livremente escolher. 21) Verificou-se que há relações sociais complemen­ tares. de um progressivo desenvolvimento. e que impedem a sua plena realização. O ACTO HUMANO 16) O exame do acto humano nos demonstrou apoditicamente de que o homem é capaz de advertir um pro­ blema. actuam obe- . 22) Comprovou-se no campo social que é válida. que a verdadeira pedagogia e a educação justa têm de se guiar por esse caminho. estabelecer novos estágios de conhe­ cimento mais elevados. pela vontade.82 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 83 aos seus interesses. 20) Demonstrou-se mais que as relações sociais po­ dem ser construídas sob a base da persuasão. planificar e executar. 15) Normalmente. por óbices vencíveis. ou não. meditar sobre tais juí­ zos. que são testemunhadas pelas obras que realiza. 18) O exame do acto humano revelou ademais que é um crime contra a humanidade todo viciamento intencio­ nal do acto humano. pois. e dando rumos também mais seguros ao seu querer. e opositivas (nega­ tivas) aquelas em que um dos termos é prejudicado em sua conveniência. que é capaz de pôr em acção sua vontade tendendo para fi­ nalidades previamente estabelecidas. também. Demonstrou-se ainda. tirar ilações. toda obstaculização intencional ao seu pleno desenvolvimento. e realizar estimações. que a afirmação do homem. que decor­ re da natureza das suas funções intelectuais e da sua vontade. de modo insofismá­ vel. é do património intelectual e mental de cada indivíduo humano a capacidade de alcan­ çar níveis mais elevados de actuação. São positivas aquelas em que os termos da rela­ ção têm nesta as mesmas condições. que são aquelas em que há um termo comum. que podem ser obstaculizados. 14) É por isso o ser humano capaz de uma perfectibilização constante. A frustrabilidade humana é uma realidade insofismável. estabelecer rumos novos. possuindo meios para dela libertar-se. e que as últimas são eticamente vituperáveis. que ne­ nhum outro ser. Os opostos. 17) O exame do acto humano. É êle. que a sua autenticidade só pode ser alcançada seguindo o caminho da liberdade e não o da submissão cega. e que este é que dá a normal da actuação. estabelecer conse­ quências. revelando. neste planeta. Que a primeira e a segunda são eticamente justas. ampliando seu conheci­ mento seguro. mais. vencer constante­ mente a ignorância. O CAMPO SOCIAL 19) Demonstrou-se que as relações humanas podem ser de dois tipos genéricos: positivas ou opositivas (nega­ tivas). tornando cada vez mais ro­ busto o acto humano e desobrigando-o das peias que o viciam. a lei pitagórica da harmonia. pela troca de vantagens e pelo constrangimento. 13) É o homem capaz de alcançar uma perfectibilização constante do acto humano.

25) O indivíduo tende normalmente a afirmar-se. de modo algum. o que seria violentar a sua natureza. e dar o valor superior a este aspecto. que nos pode explicar a heterogeneidade humana. é abstractismo da pior espécie. que entram muitas vezes em choque com os interesses colectivos. em benefício de um interesse que não corresponde senão parcialmente à realidade humana. que é real e inegável. 27) Deve o homem ser considerado como um compositum. virtualizam o ímpeto de sua actuação particularizante. comprovou-se ainda que os termos da relação. tornando cooperan­ tes para um fim comum e benéfico os ímpetos que pare­ cem inconciliáveis. Por outro lado. compatíveis com os interesses da totalidade (sublima­ ções). ou seja. Visualizar o homem apenas como indivíduo.84 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 85 dientes a uma normal estabelecida pela totalidade. Até agora. quando a verdadeira conquista humana será a rea­ lização plena da vitória do homem. que actuam sob o império da normal estabelecida pela actua­ lidade. que jamais deve ser virtualizada sob pena de falsearmos a realidade humana. Ademais. O homem. passa a ser a matéria mais importante da vida social e ética. que estabelece a sincronia da actuação da mesma. permitindo uma harmonização de interesses. e que há neste ím­ petos individuais. es­ quecendo o social. o homem nada mais fêz que derrotar uma parte de si mesmo em troca de uma mentirosa vitória de outra . como o será o inverso. 23) Tais aspectos demonstram que a submissão dos termos à totalidade não é absoluta. e até pô-lo em risco. é uma realidade primária. como hoje. desviando-a para a actuação de outras. 28) A nítida compreensão dessa realidade heterogé­ nea é um desafio constante à inteligência humana. pois sempre se reser­ va. uma submissão total e absoluta. é pos­ sível. para que encontre uma solução vitoriosa e não a derrota do que há no homem. É mister que o homem estude a si mesmo e bus­ que as soluções que solucionem. e que esta virtualidade constitui o conjunto das dis­ posições prévias corruptivas de uma totalidade. as soluções com vitórias sem derrotas do próprio homem. o "conhece-te a ti mesmo" é o imperativo mais justo que se pode estabe­ lecer. que é o resultado do compositum entre o que nele é animal e do que nele é genuinamente humano. um indivíduo. pois há caminhos e soluções capazes de resolver essa oposição. graças ao estudo. como objecto de estudo para si mesmo. sem necessida­ de de ocultarmos a realidade. Contudo. de modo real e evidente. como nos mostra a Psicologia. psíquica. vitoriando uma à custa da derrota da ou­ tra. impedir que as disposições pré­ vias corruptivas actuem de modo maléfico à conveniên­ cia da totalidade. e nunca. no qual actuam com intensidade factores de ori­ gem bionômica. com o desejo de homogenei­ zar violentamente o ser humano. o que não justifica. e que o resultado é uma estructuração histórica. não é justo considerar que tal risco é suficiente para justifi­ car a negação pura e simples da individualidade. Contudo. A solução mais primária é a submissão de parte do homem a outra parte. um poder de actuação em opo­ sição ao interesse do todo. companheiros. registra a História. o reconhecimento de uma superioridade por parte de seus sócios. e sua afirmação pode não convir ao interesse colectivo e contra este pugnar. além de compo­ nente de uma sociedade. que seria con­ trária à realidade da condição humana. ecológica e histórico-social. e que a Pedagogia tem de conhecer e estimular para o bem social. o prestígio social. O CAMPO PSICOLÓGICO 24) É inegável que o ser humano é. 26) O anseio de prestígio social tem sua raiz na afir­ mação individual e seu ímpeto revela uma força elemen­ tar.

Enquanto não realizarmos isso. pela acentuação de aspectos que pertencem. há lunares. Já é tempo. revelam possuir uma propen são acentuada. em face do que sabemos. há venusinos. e que construa a sua realidade práxica com o que nele é real e verdadeiro. há apolíneos. e na falta de outra melhor. a estes ou àqueles. sem que afirmemos qual­ quer influência astral. O ideal novo de superação humana só pode ser aque­ le que afirme o homem em sua plenitude. reve­ lam os homens uma propensão. Dentro dessa emer­ gência. e examinamos sob diversos aspectos as intercorrelações que se formam entre esses quatro estamentos caracterológicos em cada indivíduo. volveu a ser em­ pregada e usada na Caracterologia moderna. que distinguimos. segundo seu temperamento. Tais consequências nos explicam mui­ tos retornos bárbaros que nos agitam e nos impelem a actos anti-sociais e anti-éticos. e que constituem uma heterogé­ nea combinação de diversos outros. ao abrirem-se as comportas. 29) É psicologicamente verdadeiro que cada vez que derrotamos dentro de nós um ímpeto natural nos angus­ tiamos. há jupiterianos. mas tendendo para uma finali­ dade que não ofenda a conveniência individual e colecti­ va.86 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 87 parte. de procurar outros roteiros. mas apenas que. etc. fundada nos chamados tipos astrológicos. que os leva a actua­ lizar certos valores possíveis e a virtualizar outros. de algo que é ainda vivo e que anseia reviver. em sua máscara. e que. Por ou­ tro lado. que há homens que revelam a predominância dos caracteres atribuídos a esses tipos. verificou-se. tendo-a nós aproveitado apenas neste sentido. simplesmen- . também. ou seja. Nossa pseudo-vitória traz o gosto amargo de uma melancolia e o sorriso vitorioso não consegue escon­ der. ressurge com mais intensidade. o que nos explica. Essa amargura é apenas o símbolo de uma sub­ missão provisória. há terrestres. a heterogeneidade das atitudes muitas vezes aparente­ mente contraditórias. realmente. dando maior importância a determinados factos. o laivo de amargura que há dentro de nós. tendência e inclinação pa­ ra determinada apreciação valorativa. cujas combinações tivemos ocasião de estudar nos livros que antecederam a este. se queremos afirmar-nos como seres inteligentes e capazes e não apenas como seres caducos e claudicantes. que podem ser evitados se pensarmos apenas. o tipo aristo­ crático. e menor a ou­ tros. preferentemente. ou melhor. ou seja: o tipo hierático. Não vemos mais necessidade de reproduzir o que foi suficientemente exposto e demonstrado. A redenção humana deverá ser feita pelo ressurgimento do que é em nós a força. segundo a emergência que revelam. 31) Segundo a estratificação caracterológica. bem como dos tipos já formados entre si. é a que melhor corresponde à realidade. há saturnianos. o tipo empresarial e o tipo do servidor. em elevar o ho­ mem através de vitórias e não através de derrotas. dentro da heterogeneidade huma­ na. não saímos da brutali­ dade. para os quatro tipos histórico-caracterológicos. cujo fundamento está em todos os ciclos culturais. em suma. há marcianos. noutras inverossímeis. sem querermos emprestar-lhe o significado ou as razões que lhes dão os astrólogos. Juntamos ali suficientes provas. que a velha classificação caracterológica. como a que me­ lhor traduz a tipologia humana. A vitória sobre nós mesmos só será verdadeira quando não assassinarmos em nós o que é também a nossa realidade. no tocante ao social. NO CAMPO CARACTEROLÓGICO 30) As conquistas da moderna Caracterologia nos permitem classificar com segurança bastante notável os tipos humanos. e esse é o nosso dever. uma tendência marcante. uma inclinação indiscutível.

o que é uma possibilidade bem funda­ da. compre­ ender as razões que levam a determinadas respostas. Os trabalhos caracterológicos apli­ cados à História. libertar-se da necessidade. o que já estudamos ex9usti. económicos. apesar da maneira oposta de considerá-la. 36) Verificamos que o desenvolvimento do cie10 cu*" tural obedece a determinadas constantes. uma força que rege a comunidade. mas apenas hipotético. 38) Os estudos históricos nos apontam indef60*1^1" mente que as causas de ascensão e de declínio c^s ten­ sões culturais são as mesmas. e Q&rfod&xX novos caminhos para si. pois encontramos. o que foi sobejamente examinado. decadência. o cami­ nho que poderá seguir. 37) Demonstramos de modo suficiente que oS perío­ dos e fases dos ciclos culturais revelam a predomí nância dos estamentos caracterológicos. perduração. já que. aos desafios. as­ sim. que se dediquem mais a fundo ao que iniciamos. dar o elemento concrecionai que faltava ao exame dos estamentos sociais e económicos. finalmente. mas também caracterológicos. não só em seus fundamentos socioló­ gicos. a influência que êle exerce em sua estratifica­ ção quanto às tendências humanas. ou seja. 40) Tais demonstrações são suficientes para d a r a o homem a sua consciência histórica e a certeza de Que P°" dera. desde seu surgimento. também aí. assim. e marca. e ° n Q l mem é capaz de tornar-se senhor da História. que empreendemos em nossa obra. até o momento de seu desfalecimento. etc. também. que nos tev^sxn as fases por que passa. pretendemos ainda de­ senvolver tais estudos. jurídicos e históricos./a" mente. e mo rte &• nal. em torno de uma cosmovisão. e também muito do porquê das suas atitudes. que complementa um po­ vo. e indicando novos roteiros ao proceder histórico. . o que é hoje matéria já indiscutível nos estudos históxicos. sendo factos coUtmSen" tes podem perfeitamente ser frustráveis. Consequentemente. e mesmo nós. éticos.88 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 89 te por não ter havido uma justa avaliação dos aspectos caracterológicos. 32) Esses estudos caracterológicos permitem-nos. m0rcan<*o novas direcções à sua vida. e que a sua imprescriPtÍDÍ" lidade é apenas aparente. se nos sobrarem forças e tempo. desde que o ho­ mem tenha o saber e o poder suficientes para dií^ 1 " o s próprios destinos. não só ecológicos co­ mo histórico-sociais. A TENSÃO CULTURAL 34) Demonstramos que a formação de uma tensão cultural dá-se quando surge uma vis regitiva communis. sociais. com tal ou qual intensidade. são ainda um bosquejo do que poderá ser feito por outros. 39) Foi suficientemente demonstrado que o fatalis­ mo histórico não tem um fundamento necessário d& niodo absoluto. quando surge um termo médio complementar. que são suficientes para nos explicar o porquê das mesmas. e que sempre é possí­ vel ao ser humano vencer o próprio destino. a predominância de certas tendên­ cias que levam alguns povos a seguirem determinado ru­ mo e não outro. Permitem-nos. que apenas esboçamos em linhas gerais. as planifi­ cações sobre o seu futuro podem ter fundamento. e dos compromissos que formam e&Te si. 35) A tensão cultural revela em sua existência um verdadeiro ciclo. 33) A visão mais concreta da sociedade nos obriga a ver o estamento. económicos. éti­ cos e jurídicos.

aos desafios. 36) Verificamos que o desenvolvimento do ciclo cul­ tural obedece a determinadas constantes. o que foi sobejamente examinado. Consequentemente. finalmente. também. 39) Foi suficientemente demonstrado que o fatalis­ mo histórico não tem um fundamento necessário de modo absoluto. libertar-se da necessidade. Os trabalhos caracterológicos apli­ cados à História. sociais. que apenas esboçamos em linhas gerais. e o ho-> mem é capaz de tornar-se senhor da História. a influência que êle exerce em sua estratifica­ ção quanto às tendências humanas. com tal ou qual intensidade. em torno de uma cosmovisão. sendo factos contingen­ tes podem perfeitamente ser frustráveis. éti­ cos e jurídicos. se nos sobrarem forças e tempo. apesar da maneira oposta de considerá-la. 40) Tais demonstrações são suficientes para dar ao homem a sua consciência histórica e a certeza de que po­ derá. que complementa um po­ vo. compre­ ender as razões que levam a determinadas respostas. assim. e que a sua imprescriptibilidade é apenas aparente. e morte fi­ nal. e marca. económicos. A TENSÃO CULTURAL 34) Demonstramos que a formação de uma tensão cultural dá-se quando surge uma vis regitiva communis. até o momento de seu desfalecimento. desde seu surgimento. pretendemos ainda de­ senvolver tais estudos. a predominância de certas tendên­ cias que levam alguns povos a seguirem determinado ru­ mo e não outro. o que é hoje matéria já indiscutível nos estudos his­ tóricos. e que sempre é possí­ vel ao ser humano vencer o próprio destino. desde que o ho­ mem tenha o saber e o poder suficientes para dirigir os próprios destinos. e estabelecer novos caminhos para si. mas também caracterológicos. e indicando novos roteiros ao proceder histórico. as planifi­ cações sobre o seu futuro podem ter fundamento. Permitem-nos. 38) Os estudos históricos nos apontam indefectivel­ mente que as causas de ascensão e de declínio das ten­ sões culturais são as mesmas. etc. decadência. ou seja. também aí. o cami­ nho que poderá seguir. económicos. que se dediquem mais a fundo ao que iniciamos. as­ sim. não só ecológicos co­ mo histórico-sociais. que empreendemos em nossa obra. o que é uma possibilidade bem funda­ da. mas apenas hipotético. que nos revelam as fases por que passa. 37) Demonstramos de modo suficiente que os perío­ dos e fases dos ciclos culturais revelam a predominância dos estamentos caracterológicos. e dos compromissos que formam entre si. pois encontramos. não só em seus fundamentos socioló­ gicos. perduração. e também muito do porquê das suas atitudes. . dar o elemento concrecionai que faltava ao exame dos estamentos sociais e económicos. são ainda um bosquejo do que poderá ser feito por outros. já que. o que já estudamos exaustiva­ mente. 33) A visão mais concreta da sociedade nos obriga a ver o estamento. uma força que rege a comunidade. marcando novas direcções à sua vida. 32) Esses estudos caracterológicos permitem-nos. e mesmo nós. quando surge um termo médio complementar. éticos.88 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 89 te por não ter havido uma justa avaliação dos aspectos caracterológicos. jurídicos e históricos. 35) A tensão cultural revela em sua existência um verdadeiro ciclo. que são suficientes para nos explicar o porquê das mesmas.

verifica-se que os esta­ mentos sociais dependem ora do caracterológico. Contudo. pois nem todo aquele que pertence jurídica. é que se dá a penetração de elementos juridicamente ligados a êle. Só posteriormente. e o seu domínio crescente de­ pende indirectamente da corruptibilidade progressiva. 48) A posse do kratos político deficilmente se apre­ senta na História como exclusivo de um estamento. económica e politica­ mente a um estamento. que é constituída pelos elementos ca­ racterológicos. co­ mo é. assim. contu­ do é mais plausível admitir que houve também compro­ missos com elementos de outros estamentos. que se manifesta naquele. ora do económico. há sempre os qua­ tro estamentos com a sua heterogeneidade respectiva. propensões e inclinações. disperso na população. 42) Fundados nessas possibilidades reais. 47) O anelo pelo kratos político tem a sua principal raiz nos ímpetos psicológicos. os elementos políticos. que facilita a ascençao do estamento que lhe se- . pois cada tipo humano busca integrar-se na função que melhor corresponde às suas tendências. necessidade de distinguir a estructuração horizontal de a estructuração vertical. 44) À proporção que os estamentos são invadidos por elementos. LIÇÕES DA HISTÓRIA 43) Na estratificação social. haven­ do. estimulado pelas condições oferecidas pela conjun­ tura histórica. sem dúvida houve. há uma estruc­ turação horizontal. muito do que se tem considerado pejorativamente como utópico é uma possibilidade actualizável. não de tendência ou propensão ou inclina­ ção caracterológica correspondente. embora este possa ser. É verdade que no antigo império egípcio a primeira impressão é de que a casta sacerdotal teve todo o poder em suas mãos. horizontalmente. 46) Deste modo. e a sua quase total aniquilação no sentido social. como vimos. mas. revela que as disposições prévias corruptivas já haviam iniciado a sua marcha corruptiva. e acelera-se de tal modo até provocar a decadência do estamen­ to. em proporções variadas e varian­ tes. incluindo a económica. Deste modo. os estamentos só se estabelecem so­ lidamente. verticalmente. nota-se a predominância dos factores caracterológicos. é possível planejar o amanhã. Sob o pon­ to de vista caracterológico. em­ bora permaneça. 49) O aumento de prestígio social de um estamento se processa à custa do que lhe antecede na participação maior do kratos político. quando há o estatuto jurídico e político para estabelecê-lo. cuja ascençao é obtida por meios le­ gais e não mais pela ética e perduração de actos corres­ pondentes à moral do estamento. e não verticalmente. compromissos entre os estamentos que participam do mesmo. que nem sempre estão jurídica e politica­ mente integrados no estamento social. pertence-lhe caracterològicamente. horizontalmente. do processo corruptivo recente. ao lado deste. Quando o fundamento caracterológico combina-se com o político e o social. pelo menos durante certo período. distinguível em utopia infundada e utopias fun­ dadas. Esse processo corruptivo tem o papel de condição predis­ ponente. no início da formação de cada estamento social. quando o estamento já está de certo modo estratificado. o que exige uma revisão da utopia. de gradatividade vária. quase sempre. o estamento tem uma estructura vertical. 45) Há. mas de origem jurídi­ ca ou política.90 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 91 41) Como decorrência dessas premissas.

abrirem as brechas. outras até sacrílegas. se formalmente se man­ têm os postulados primeiros. que não encontram a resistência capaz de im­ pedir a sua acção corruptiva. e) pela estagnação. e que o perturbam. Nesses momentos. de admirar que em nenhum ciclo cultural. para. sofre modificações sempre pro­ porcionais a essas variações nos compromissos políticos e económicos. pela ausência de exemplares capazes de abrir novas possibilidades. . pela intolerância mal fundada. b) pela mudança constante na cosmovisão. com modificações accidentais. processa-se: a) pelo/ esgotamento das possibilidades e pela ac­ tualização de algumas. b) pela estagnação que se verifica na capacidade criadora. que transferem para o epimeteico outras não mais historicamente actualizáveis. nenhuma cosmovisão se mantenha pura e imutável através dos tempos. c) pela oposição e pelo antagonismo dos elementos adversos. e também tornar mais fácil a concepção de direitos. pela passividade. que apresentam distinções marcantes da concepção primeira e fundamental. mas ao mesmo tempo mo­ dificativa da anterior). pela falta de uma exposição clara dos legítimos fundamentos. cedendo. pela falta de maior dedicação aos misteres correspondentes. incorporando-se a nova maneira na antiga. que não encontram a resistência necessária e corrompem. e estas são ratificadas por acordos solenes. Há. a tensão formada. que a princípio resiste. usando todos os recursos que a astú­ cia humana ensina. e têm elas suas razões no próprio dinamis­ mo das interactuações entre os diversos tipos de esta­ mento. pois. se- gundo as normas de sanccionar de cada cosmovisão cul­ tural. d) pela acção constante da oposição dos estamentos adversos. sob vários aspectos. Assim. integrando-se na nova maneira de considerar o mun­ do (cosmovisão subordinadav. que têm sempre um papel corruptivo crescente. e ao contrário. sempre.92 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 93 gue imediatamente. com eles. não materialmente. Não é. Posteriormente. ante os fundamentos da cosmovisão teocrática. Não é inédito na História. que. A cosmovisão mantém-se pura formalmen­ te. estes últimos com seus reflexos naqueles e nos jurídicos. enfraquecida. é constante. as conciliações entre a nova maneira de ver o mundo e a anterior. com as suas decorrências possí­ veis. cujas corrupções accidentais alteram aos pou­ cos as ideias fundamentais. muitas vezes temerárias. ofere­ cendo melhores condições para aumento daquele. como o estimula a manifestar maior audácia em suas reivindicações. e justificando até. 50) O processo corruptivo também é alimentado pe­ la penetração sub-reptícia dos elementos de outros esta­ mentos. 52) A decadência do estamento se processa: a) pela perda constante do poder político. c) pela introducção constante de elementos caracterológicos de outros estamentos. as reivindicações exigidas pelo estamento em ascensão. abre ensanchas a inovações perigosas. os concílios. 51) A cosmovisão. conci­ liações. que não facilitam o respeito que lhe deve corresponder. com aderências suspeitas e muitas vezes sacrílegas. em consequência da perda do poder económico. pelas quais possa penetrar o maior número. deletérias e corruptivas. pe­ la ausência de figuras capazes de manter a unidade. surgem os compromissos políticos. 53) A decadência do ciclo cultural. afinal. que pas­ sam a ocupar posições de relevo. que são natu­ ralmente reivindicados pelo estamento que anela o kratos político. Tais modificações são verificáveis em todos os ci­ clos culturais. na prática os novos postu­ lados são estabelecidos. que buscam ascender aos cargos e postos do es­ tamento dominante. são justifica­ dos.

verificaremos que é possível alcançar a uma tensão cultural de plenitude. Assim como há uma fase. nem poderiam ver. quando a decadência era do "seu" mundo. de maturidade e de velhice. Deste modo. infan­ til. nos ciclos cul­ turais também essas fases em cada período de domínio dos estamentos. que estão à tes­ ta das ideias fundamentais da cosmovisão. pouco provável para a Humanidade. míngua e se estagna. de desejar situação distinta das em que vive. a no­ va crença que vingava. sentem a sociedade em progres­ so. em grande parte. ao lado de um desenvolvimento. Há. a nova cosmovisão que dominaria. das externas e do grau de coerência interna. no período cesariocrata. a capacidade humana de encontrar soluções capazes aos seus máximos problemas. que depende. já libertados de tudo quanto vicia uma visão nítida da realidade social e do homem em função da sua tempora­ lidade. em superação. sentem o "mun­ do" como em decadência. em elevação. o que impede encontrar uma solução adequada. de­ cresce. sen­ te o mundo como em decadência. ao lado de um processo degenerativo e de decadência de um estamento social. dado o desconhecimento da história e o viciamento da cultura. de ter uma vida outra que a que tem. míngua e estagna-se. Contudo. juvenil. por ora. deplorando a decadência que dominava o "mun­ do" de então. assim. são em geral os adeptos do estamento em ascensão. mas o grau de probabilidade é ainda pequeno. mas com lágrimas no rosto. enquanto aqueles. A decadência de uma tensão cultural depende. no período de do mínio económico e político do empresário utilitário. embora seja. e em que os homens ain­ da respeitavam valores que hoje são desprezados. afir­ mamos. e serem débeis para enfrentar as forças corruptivas. que há "um mundo que nasce e um mundo que morre". anuncia o juízo final. de três elementos: das disposições prévias corruptivas internas.94 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 95 d) pela incapacidade dos elementos. que actualizam ape­ nas o aspecto ascensional. Esta a razão por que todos sentem. Também os romanos e os gregos. Aqueles. assim. ao verem a ascen­ são do Cristianismo. sentiam que morria um mundo de nobreza superior e que advinha uma era de decadência e de aniquilamento. um ímpeto utópico. ca­ paz de fazer frente aos factores corruptivos. um declínio. queixa-se da corrupção moral e da decadência dos costumes. é possí­ vel ao homem a conquista de uma sociedade humana de plenitude. O hierático. num acto de esperança. analogicamente tomada. Tam­ bém o aristocrata. o novo ciclo que se iniciava. imediatamente posterior. Se a decadência dos ciclos culturais tem sido inevitá­ vel é porque a conjunção dos factores corruptivos e os de decadência encontraram condições favoráveis à sua ae tualização. Em suma. DAS UTOPIAS 54) Mostramos que há sempre no ser humano um desejo de ser outro do que é. de defende­ rem com energia esses fundamentos. ao lado de uma ascensão. da confusão das ideias reinantes em todas as camadas da sociedade. mas só após um acurado estudo dos factores históricos. o desejo de alcançar uma *. . o que surgia de novo. que actuam interna e ex­ ternamente. Não era de admirar que alguns rema­ nescentes da cultura greco-romana realizassem os antigos rituais. que descem e que têm raros cultores. que actuali­ zam o que desfalece. Não viam. algo que se retrai. não com alegria nos corações. da perda dos valores nobres. há. Oportunamente. há o progressivo de ascenção de outro estamento. co­ mo o sentia Nietzsche. lembra com saudade os tempos antigos em que vigora­ vam princípios morais distintos.

muitos empresários utilitários desenfrearam-se na cupidez do lucrum in infinitum. como nas suas coisas) é mister uma dose de utopia. e utopias de superação. tornar em acto o que parecia apenas um sonho deliran­ te e impossível. Contudo. muito de crença. Os exploradores defendiam-se. mostrando os defeitos daquele.96 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 97 realidade que ainda não é em exercício. poderiam acusar o outro e. que daí decorreram. propriamente. As primeiras têm um cunho de realidade e revelam um grau maior de actualização próxima. afirma. A vida humana desmente. construir possibilidades remotas. para que o homem tenha po­ dido superar obstáculos. liberalismo económico. terminassem por atacá-lo. um novo liberalismo ressurge. ou apenas em possíveis. teriam que provocar uma reacção contra es­ sa prática. liberalismo moral. como os sensualistas. resultado de uma deficiência humana. porque sem o desejo de tornar tópico os valores mais altos é impossí­ vel estimular a criação. O liberalismo moral prega a liberdade na escolha dos costumes. Não é mister examinar outra vez o que já fizemos. o desejo de confundir o manchesterismo com o liberalismo. O liberalis­ mo económico funda-se na afirmação de que a economia deve orientar-se livremente. que demonstramos. para exprobrar a indecente exploração. estatólatras. aqueles que julgaram o homem impotente. Consequentemente. Aqueles que julgam que o ímpeto utópico é uma fra­ queza. pouco co­ nhecem da psicologia do homem. forma viciosa do liberalismo económico. Há as utopias de evasão. o desejo de al­ cançar estágios superiores ainda não vividos. liberalismo. foi à sombra do li­ beralismo. com frequên­ cia. e permitir a cada um o livre acesso ao poder económico. Hoje. devido à falta de condições suficientes. dos cesariocratas. que expressam um desejo de afastamento da realidade vivida. abrindo o abismo entre as classes sociais. A riqueza de poucos e a miséria de quase todos. O manchesterismo. o laissez faire. 55) As utopias fundam-se em realidades comprova­ das no ser humano. as segundas. apelando para o liberalismo. como a democracia. mas de modo vicioso. porque. ante a ascensão perigosa dos cesariocratas. tomam o sentido pejorativo comum. não era de admirar que os adversários. totalitários. Apoiados nos princípios liberais. finalmente. As ideias liberais pregam a liberdade humana. 56) Inegavelmente. laissez passer. Mas seria um erro considerar que liberalismo é man­ chesterismo. de mínima probabilidade. É mister muito de so­ nho. ante a prepotência do Estado. nas possibilidades de cada um e na de todos. muito de desejo. Houve. para que o homem alcance uma superação constante de si mesmo (o que seria a efectiva­ ção de uma revolução permanente não só em si. O li­ beralismo é um sistema que afirma ser o homem livre e a organização social deve respeitar essa liberdade. defender a tese de que a liberdade é incómoda e anti-social. uma acentuada campanha em prol da dignidade . que já examinamos. pela ins­ tauração do ódio alimentado pela exploração sem peias. manchesterismo. mas apenas apontar algumas teses. da parte dos inimigos da liberdade humana. que a paleotécnica rea­ lizou a mais desenfreada exploração do homem pelo ho­ mem. DAS IDEIAS LIBERAIS 57) Mostramos a inconveniência de confundir: a) b) c) d) e) ideias liberais.

O liberalismo. do contrário é a lei das selvas. os privilegiados usufruidores do poder. seria negar que é socialista a concepção dominista. seria afastar o socialismo libertário dessa concepção. os liberais. mas por qualquer entidade criada por este. não só pelo homem. na verdade em benefício de alguns. que admite a propriedade em termos justos. e já refutamos devidamente as suas doutrinas. Afirmar-se que todos os socialistas são ateus. que são anti-religiosos. 58) De parte da Igreja Católica há. é pôr em segunda plana a dignidade humana. colectivismo. é um excessivo disparate. Os libertários. sobretudo. O liberalismo. que a desaparição da propriedade privada é fundamental. que defende a desigualdade humana. afirmar que são defenso­ res do amor livre e inimigos da família. para evitar a confusão com aquele sentido. mas. esquecem-se das necessidades hu­ manas reais. Esse liberalismo não é o manchesterismo. em peça da máquina social. 59) Quanto aos erros fundamentais de certas esco­ las socialistas. exige fundamen­ tos éticos honestos e o primado da justiça social. Mas é comum a todas as escolas o desejo de melhorar as condições de todos os homens e de afastar todos os óbices que impedem esse melhoramen­ to e tudo quanto facilite a exploração do homem pelo homem. como uma entidade rica. infelizmente. prega a liberdade da acção individual e colectiva na realização de actos económicos. aliás refutadas. fundada sobre a expropriação e a mi­ séria de quase todos. como plenitude do acto humano. Tomar so­ cialismo. e desprezam-se os direitos dos mais fracos e dos subordinados. porque ofende a liberdade alheia. A afirmativa de quase todos os liberais de que o individualismo é o elemento essencial da actividade económica é também um modo falso de atribuir à con­ cepção liberal um princípio. Atribuir-se ao socialismo que a felicidade humana ape­ nas pode ser obtida nesta vida. é uma forma viciosa do liberalismo. que é confundido com o socialismo estatólatra. Por es­ sa razão. Contudo. im­ plica a ética. exerce um poder omnímodo e absoluto sobre to­ dos.98 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 99 e da liberdade humanas contra os que desejam transfor­ mar o homem apenas em coisa. uma confusão quanto à conceituação do que seja socialismo. e ao visualizar-se apenas aquele. já alinhamos os principais. em instrumento. afirmar que consiste na hipertrofiação do Estado. Já examinamos a essência do socialismo em "Análise de Temas Sociais" e não é mister reproduzir o que ali afirmamos. pela prática. que defendem realmente a liberdade humana sem esses vícios. esquecen­ do que pode haver um socialismo libertário. marxismo como sinó­ nimos é um erro grave. que a luta de classes é fundamental do socialis­ mo. é um erro. como o Estado todo-poderoso. e favorecer as ideias cesariocratas. e justifica e proclama a validez única do individualismo económico. pela própria acção de seus defensores. devido à grande heterogeneidade de escolas. que talvez já tenha irremediavelmente penetrado naquele conceito. A liberdade sem ética é a falsa liberdade. comunismo. em sua essência. Ademais. seria afastar os libertários que pugnam contra o quantum despoticum. é outro. inclusive os democratas libertários. e confundi-lo é erro crasso. E também deveria incluir-se a exploração do homem. colocar-se como fim primacial o lucrum. de sistemas. nem todos autores ca- tólicos cometem esse erro. ne­ gam como princípio a liberdade de fazer o que bem se en­ tende. ou até do mesmo Estado. A liberdade. que pertence a uma espécie viciosa de liberalismo. em suma. Muitos sabem que é difícil definir o socialismo. porque não poderia haver genuinamente socialismo onde um organismo. afastar-se-ia a concepção de Tolstoi. Ale- . preferem chamar-se libertários.

Demonstramos ademais que o marxismo era uma filo­ sofia adaptável ao proletariado da paleotécnica. co­ mo a má herva. sobre a qual Marx se declarou contrário. não. dialéctica paupérrima e incapaz de abranger a maior soma de aspectos dos factos e facilmente conducen­ te ao erro. Na prática. sem­ pre ignorantes do que já se realizou no campo da Filoso­ fia e da Economia. porque. ademais. apesar das providências em contrário. Não há apenas duas classes sociais. que é fundamental. o que os impede de facilmente perceber seus erros. a aceitação de aspectos verdadeiros não nos leva. nem poderia levar à aceitação da doutrina em sua totalidade. porém. pois no tempo de Marx os conhe­ cimentos históricos. Em todas as doutrinas. A sua dialéctica funda-se numa inversão da dialéctica hegeliana. porque não foram devidamente esclarecidas. em que se baseou. suficiente para refutá-las in totum. contra a sanha daqueles que con­ sideram apenas seus interesses egoísticos. não. permitiu que muitas mentes pouco advertidas e sobretu­ do pouco informadas. evidenciando a invalidez da sua tese sobre o valor. A maneira pouco hábil de combater o marxismo por quase todos. nem da biotécnica. Historicamente é fundada em dados incompletos. O MARXISMO 60) Demonstramos que o marxismo é falso filosófi­ ca. como no campo da Filosofia e até no da Ciência e apesar das elo­ quentes refutações eles proliferam e obtêm adeptos." Filosoficamente. mesmo quando erradas. Ademais não são bem definidas nem estáveis. quando outros valores passam à primeira plana e o bem social é visuali­ zado em primeiro lugar. tenham tendência em simpatizar com êle. nem tampouco o que há de validez em suas doutrinas. a luta de classes hoje é. mas muitas ou­ tras. apesar das leis os proibirem. 61) Mostramos. há algo de verdadei­ ro. ao da neotécnica. não eram bas­ tantes para poder estabeleoer uma teoria da História. acei­ tos embora por deficitários na filosofia. Todos sabem que os erros se per­ petuam. de graus mínimo. mas à doutrina exposta por seus dis­ cípulos. ou seja enquanto tomada como um todo. porém. embora haja certa originalidade na totalidade. em sub-intelectuais. da época da exploração desenfreada do homem pelo homem. embo­ ra não in partem. Quando dizemos marxis­ mo não nos queremos referir propriamente à doutrina de Marx e Engels. pois afirmou "se isso é marxismo eu não sou marxista. Contudo. ainda há criminosos. menos intensa do que era no tempo de Marx. que não há originalidade nos elementos componentes do sistema marxista. funda-se em postulados falsos. não realizaram os marxistas o que prome­ teram na teoria e os factos desmentiram categórica e ir- refutàvelmente as suas previsões. não só no campo das ideias sociais. Sua eficiência e sua perduração se deve mais aos erros cometidos por seus adversários que pelas virtudes do sistema. nos países capitalistas. im­ precisos e insuficientes. Por outro lado. É o que se nota em sub-literatos. seria o mesmo que justificar o crime. . Mostramos mais a sua insuficiência no campo econó­ mico.Data——t I—• 101 100 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL gar-se que não obstante há socialistas. e nalguns países. dialéctica e historicamente. que prolifera e se desenvolve. Nem por isso queremos negar o valor que Marx e Engels e também Lenine possuíam.

se­ rão acusados de traição por seus sucessores. que de iní­ cio foi recebido como libertador. pois é o país onde há as mais extremadas diferenças. Não é de admirar que hoje os defensores de tal doutrina não a preguem mais. 63) O marxismo. O LABORISMO 64) O laborismo. mas um bloco contra outro. certamente. nem muito menos a comunização. Não conseguiu comunizar a propriedade. histó­ rica. como demonstraremos mais adiante. porque concedê-la ao Estado não é nem nunca foi realizar a socialização. enquanto a clas­ se média aumentou evidentemente nos países onde os estatólatras e os cesariocratas não dominaram ou não im­ pregnaram a administração pública e a política de seus erros clamorosos e do vinis violento de suas ideias. decaiu do campo das ideias para o campo dos Es­ tados em luta. criando novas e ressurgindo outras antigas. Ademais a sociedade não é apenas composta de ope­ rários. pois acabou por apelar ao nacionalismo mais primário para atrair sim­ patias para o seu lado. mas de seres humanos. e nunca. que dominarão os altos-postos não por sua capacidade cultural e pela sua eficiência. económica e politicamente. ou o trabalhismo. para estimular o povo à luta ao nazismo. assim como decresceu con­ sideravelmente o número dos miseráveis. não passa de uma manifestação em favor da cesariocracia e nada mais. superou a ges­ tão directa. Não impediu a traição. em toda a História. nem atingiu os níveis obtidos por outros países chamados capitalistas. que é a menos apta. que. Dar ao Estado o papel de gestor económico e realizar a gestão indirecta total. Não pôde aniquilar o amor à pátria. como o temos entre nós. em benefício de al­ guns astuciosos políticos. como um país em luta contra o bloco ocidental. mas apenas defendam a Rússia.102 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 103 62) Mostramos a improcedência da tese da concen­ tração do capital. nem os actuais dirigentes. em nenhum momento da História. pois o número de bens remunerados aumentou consideravelmente. A evolução seguiu um rumo inverso ao previsto. Tornar funcionários públicos a todos é realizar a mais monstruosa burocratização da humanidade. O aumento de productividade obtido pela nação não correspondeu propor­ cionadamente ao aumento da população. ao qual teve de apelar na última guerra (chamada até de guerra patrióti­ ca). mas . ao con­ trário. mas a maior opressão re­ gistrada na História. Por outro lado. pois os que advêm ao poder acusam os anteriores de trai­ dores. o patrão único e todo-poderoso será a mais infame exploração do homem pelo homem. Não evitou a desigualdade dos salários. assim. e não manejem mais uma ideia contra outra ideia. O marxismo se contradiz filosófica. e que. pois o par­ tido que ali governa ostenta a glória de ter sido o par­ tido. que mais traidores consignou. Não construiu a liberdade. Não conse­ guiu criar a mentalidade internacionalista. Não proscreveu as insígnias honoríficas. as injus­ tiças não terminam pela hipertrofiação do Estado. Não conseguiu im­ pedir a proliferação da burocracia. provocou a recção posterior do povo russo. e os substituídos no poder são sempre acusados des­ se crime! Apenas Lenine até agora não sofreu a suspeita de traição. tão combatidas antes da revolu­ ção. é aumentar as dificuldades humanas e não resolvê-las. dialéctica. na Rússia. não conseguiu abolir o Estado nem sequer diminuir o seu poder. A luta. por seus erros. Não conse­ guiu evitar a polícia nem o exército.

porém. DA PROPRIEDADE 65) Provamos. 67) O sofisma fundamental do nacionalismo está em considerar como sinónimos nação. ou de várias nacionalidades. Tanto um como outro são extremos viciosos e fundam-se em erros. prove­ nientes de uma unidade de origem. deles não possam usufruir. que significa a terra onde se nasce. e ao nosso lado estão os mais sérios filósofos. mas. sim. Família. que no início combateram a família. 9 por aqueles que se diziam seus ad­ versários e que pretendiam aboli-lo. Mas do conceito de território não prescinde o de pátria. DO PRINCÍPIO DE NACIONALIDADE 66) Demonstramos a improcedência das doutrinas. Ademais. Prescinde esse conceito do de território. como a Polónia do século XIX. porque quem satisfaz suas necessida­ des se apropria necessariamente de bens. O socialismo de Estado é o mais infame dos socialis> mos. do que nasce. Quanto aos bens de producção. Deus foi substi­ tuído pelo Estado. não é justo que aque­ les que o obtêm pelo seu trabalho. como o Império Britâ­ nico. tiveram. Em primeiro lugar é inevitável o direito à propriedade dos bens de consumo. Em suma. ao qual caberia a administração e o poder absoluto sem apelação contra a tirania. de uma população que tem sua origem fisiológica num conjunto de famílias. onde nasceram os pais. Os próprios bolchevistas. pois um Estado po­ de ser composto de várias nações. porque afir­ ma não o governo dado a todos. como os Estados Uni­ dos e o Brasil. quase sem­ pre fruto da astúcia e da má fé. hoje manejadas. desde que sua actividade não seja prejudicial ao> bem colectivo. Se há pontos comuns entre esses três conceitos não são estes. de um monstruoso organismo prepo­ tente. pátria e Estado. ou de uma nação. Estado é o nome que se dá à autorida­ de politicamente organizada. embora tenha desapare­ cido o Estado. que defendê-la. por aqueles que mais combateram o nacionalismo e pregaram o interna­ cionalismo. A existência da família postula a justiça da proprie­ dade privada. Negar a família é afrontar uma realidade que nenhum deficitário mental tem o direito de fazê-lo. Estado".104 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 105» pela habilidade política em alcançar o poder. ao organismo que rege a po­ pulação. e negado por todos os socialistas puros. o socialismo de Estado não passa de um pesadelo de um tirano enlouque­ cido. da qual provêm as di­ versas estirpes. Hoje o lema dos "comunis­ tas" russos é "Pátria. bem como examiná-las. sobretudo. os ascendentes. que nenhum tirano do passado pode­ ria sonhar em seus pesadelos. mas contribuam para desenvolver a pro­ ducção em benefício de todos. Já mostramos as diferenças e é mister repeti-las. não o Estado como a so­ ciedade politicamente (no sentido genuíno do termo) or­ ganizada. essenciais a todos. finalmente. ou conser- . nacionalistas. para evitar o erro palmar que tem custado e está custando bastante sangue e inquietação à humanidade. que há uma propriedade justa e necessária. o homem afirma-se quando os realiza e os que se congregam para rea­ lizá-los sentem a afirmação de si mesmos acentuada. Diz-se nação. Seria a maneira mais ti­ rânica de governar.

confusas umas com as ou­ tras. à proporção que a luz surge. 70) É possível ao homem alcançar a sociedade in­ ternacional. usado e abusado para satisfazer os apetites de poder de cesariocratas. porque nenhum país poderá alcançar a sua plenitude sem o apoio dos outros. nem na origem das estirpes. não a pleno do termo. O que há são pátrias e estas são reais e justificadas na História. ou então a paz não reinará entre os homens. de modo que ninguém o possua de tal modo que possa arrastar com suas mentiras. Mas para que tal aconteça é mister retirar o poder dos que fazem a guerra. Mas demonstramos que seu fundamento não está nem na comunidade do território. pela concupis­ cência dos bens alheios. E o é porque se pode constituir uma nação pelo consenso de indivíduos. e um país pode ser organinizado com povos de várias nacionalidades como a Suíça. Demonstramos. E mais: não será possível estabelecer a paz entre os homens sem a sociedade internacional. como o Brasil. Essa sociedade. nem na língua. O homem sempre desejou a paz. A soberania interna de um povo não impede o res­ peito ao interesse colectivo. porém. vindos de várias na­ cionalidades. quan­ do houver número suficiente de homens de boa vontade. logo depois desta última guerra. É outro desafio ao homem. A paz reinará entre os homens de boa vontade. O caminho da paz talitarismo universal. pela inveja. que não po­ dem ser revelados pelos seus defensores. Uma pax romana. e este não pode desejá-la. sim. Dizem alguns que se não é válido em sentido abso­ luto o é em sentido restrito. No entanto. a Alemanha. Mas essa foi sem­ pre perturbada pela paixão desenfreada. e também reais. que mal se distinguem para nós. e nos é possível captar os limites que os cercam e os separam uns de outros. O FACTOR ÚNICO 71) Na penumbra. Mas o abuso do ideal nacionalista é hoje mais a exploração de um fantasma que serve a interesses escusos. que pretendiam jus­ tificar a sua sanha de domínio. Há Estados também.106 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 107 vando a nação e a pátria. o totalitarismo Atila ou de Gengis homens no sentido não pode ser o to­ internacional. com seus fetiches e com suas seducções. que anima a todos os complexados de inferioridade. nem no ím­ peto de independência. os incautos à guerra. Ou o poder se dissemina a todos. pelo desejo insopitável de poder. sua nitidez. 68) É improcedente em sentido absoluto o princípio de nacionalidade. pela incapacidade em realizar e o desejo de pilhar os possuidores em benefício dos que não foram capazes de realizar os bens de que careciam. Ademais as diferenças e a heterogeneidade humanas não são tais que obstaculizem de modo invencível o acordo entre os povos. pouco percebemos as coisas. uma paz de Khan pode agradar a brutos. como a Áustria. mas que devem ser denunciados pelos que sabem para que fins se desti­ nam. . com sua propaganda organizada. estabelecerá o fim do cesariocrata. os objec­ tos vão adquirindo seus contornos. 69) Os povos podem viver em paz. aquela que defenda o interesse de todos para o bem comum. que o princípio das nacionali­ dades foi defendido. embora mesmo sem o Estado.

Tudo quanto constitui o mundo da nossa experiên­ cia exige essa multiplicidade de factores cooperantes pa­ ra o seu surgimento. E muitos mais. porque um ser primeiro deve ter sido a causa de tudo. esse ruminante que pasta nos campos soltos e. implicam a pre­ sença de inúmeros factores físicos e químicos. E muitos mais ainda para que surja esse insecto. um ideal. mais delineadas. o Ser Primeiro cooperará também para que êle seja. quer não. para pô-lo no exercício de seu ser. e tudo querem explicar apenas por um só factor. já que o nada nada poderia produzir. as coisas vão tornando-se mais distintas. climáticos. Se é tão complexo para que surja uma pedra. aquele homem que de cima de seu cavalo segue pelos campos. esse verme. uma vontade. para que sinta o que sente. é que a luz da sua inteligência crepusculeja. mas são productos da cooperação de muitos outros. pois sem aquele. a que. energia. há aqueles que esquecem a cooperação concreta dos factores. para . para que pense o que pensa. ou foram. ainda muitos mais. Deus. o que quiserem. de ma­ tizes. todo aquele que não sa­ be separar para examinar o que é outro que outro. tudo quanto aspira a fazer? Se isso não é primarismo. tudo quanto haverá terá sua causa no Ser Primeiro. cujas escolhas têm sempre o mesmo e único factor para explicar tudo ■quanto é. electrónicos. Todo aquele que confunde onde há distinção. crepusculeja. meteorológicos. e mais heterogéneos factores.. Mas os seres. Basta que olhemos uma simples pedra incrustada num monte de terra. aplicaremos esse título? 72) Sem dúvida que o Ser Supremo é a primeira causa de todas as coisas. cooperam para que surja esta planta e esplen­ da essa flor à luz matinal. nenhum dos que são.108 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 109 Pois assim é com a luz da inteligência. E é esse espírito de entardecer. em sua unidade e em sua afirmação. Aquela vida. O mundo torna-se mais rico de tonalidades. como a chamavam os antigos. natureza. Quantos factores e quantas causas para que ela surja. mecâni­ cos. então. Mas. mais claras. mas todos terão de postular um Ser Primeiro. para que compreendamos a sua existência. distintos e diversos até. cujos desejos. ou se abisma em trevas. nucleônicos e eônicos. como pode­ ria ser tão simples o actuar e o perdurar aquele homem. Tudo quanto há. que cooperam para atingir aquele arithmós da pedra. ecológicos. Chamem-no matéria. nos facto­ res que cooperam para que êle seja' o que êle é. E quer queiram. No entanto. cujas atitudes. Não há especulação filosófica que destrua essa verdade. uma esperança implica ainda uma heterogeneidade maior de factores para que seja o que é. •que cooperam para que êle surja.. indirecta­ mente pelos próximos e directamente pela sustentação destes. que não permite ver a imensa heterogeneidade que há nas causas intrínsecas e extrínsecas dos factos. mais separadas umas de outras. A sua matéria. cujos actos. Quando ela bruxoleia. o seu perdurar através do exercício de si mesma. à propor­ ção que a luz aumenta em intensidade. tudo quanto faz. "a luz da ra­ zão". intencionalmente ou não. esse roedor que foge à nossa presença. e é mais rico de unidades distintas. finalmente. que compõem a nossa experiência. fonte e origem de todos os outros. de crepúsculo. podem ser ou poderiam ser. a sua forma. não surgem directamente do ser primeiro. os objectos se confundem e as distuv ções vão desaparecendo aos poucos. Todos contribuem para pô-lo em causa. tudo quanto houve. até tudo se confun­ dir nas trevas quando estas dominam. onde esplende uma inteligência.

Diz-se que a vontade é elícita. Mas. Tudo quanto se diga sobre a vontade de outro modo. Esta exige o conhecimento racional do que para o qual ela tende e sua origem é racional e não meramente afec­ tiva. Não há um factor sempre prepon­ derante. O desejado. desta se distingue. a preponderância de um factor. Diz-se que é imperiosa. quando decorre ime­ diatamente da sua causa. E por que. nem São Fran­ cisco.HO MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS que seja o que é. Se o factor económico é preponde­ rante num tipo de empresário utilitário. quan­ do é preponderante. Para haver vontade é mister: a) o desejo racional. afirmar que há um só factor? Mas dirão alguns: não há um só factor. mostra-nos que a ciência é relativa. porque a combinação dos outros pode dispor de condições que modificam a actuação do que antes fo­ ra preponderante. não é vontade. Se procede determinada por um juízo é necessária. b) a cognição intelectual do fim. Jamais se explicará Schweitzer. como as qua­ tro causas fundamentais de Aristóteles. a material. Qualquer ímpeto. O apetite violento não é a vontade. quanto aos seres finitos corpóreos (a formal. o para o qual se dirige a vontade. A mera espontaneidade do apetite dirigido para algo não é a vontade. a eficiente e a final). qualquer apetência. (1) Há factores necessários que são as causas. e este marcará a direcção do ser ou do actuar do que é por êle determinado. então. Se a vontade procede com indiferença de juízo é livre. mas há um que é o preponderante. nem Tomás de Aquino pela Economia (1). quan­ do decorre do império de outras faculdades. não o é num hierático. . FUNDAMENTOS ÉTICOS DA CONCEPÇÃO CONCRETA 73) A vontade humana é o ímpeto procedente da apetência racional com a cognição intelectual do fim. falseia-a. O factor preponderante o é.

o que não há em acto. embora essa diferença não tenha sido suspeitada sequer por tão conspícuos filósofos. é impossível a contradição. A acção humana.112 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 113 É perfeita. solução de um vínculo. Eis uma das matérias onde se dão maiores contro­ vérsias. como o fizeram Schopenhauer. a acção deixa de ser honesta. con­ sequentemente. imunidade. porque a ventoinha ou a agulha magnética não têm consciência de si. quando há intenção de usá-la pa­ ra obtenção de efeitos que deveriam ser desprezados. da qual o homem tem consciência e sem a qual não há liberdade. Nesse sentido. Se usa meios maus para fins maus é ela vituperável. De uma acção. e que nela é observada. podem surgir efeitos bons ou maus. como toda acção. pela qual. e alguns empresários utilitários. etc. quanto às possibilida­ des. Se faltar algum requisito. a liberdade humana con. pode-se fa­ lar na liberdade dos pássaros voarem. Deve haver a indiferença. que tem o preso . Não podemos aqui tratar desta matéria em toda a sua extensão. Assim poderei daqui há pouco estar sentado ou em pé. porque uma indiferença passiva é apenas para receber muitas determinações. quando a cognição ou o consenso é de­ ficiente. e deve ser activa. e significa. Spinoza. do latim libertas. Mas. quando há plena cognição e consenso do fim. estabelecer alguns estudos. A liber­ dade indica a antecedência de uma possibilidade contra­ ditória. pois. corresponde genericamente ao termo grego ethimon. negativa quando realiza a suspensão do acto. não posso estar ao mesmo tempo em pé. de que a agulha magnética poderia julgar que é livre em dirigir-se para o norte. que nos facilite a melhor compreensão da matéria. Consideremos agora que há. do não cedível. contudo. nes­ se sentido. não pode ao mesmo tempo não fazer. quando faz isto. quando o conheci­ do é tomado distintamente. imperfeita. porque os meios já não são indiferentes. É preciso que se estabeleça claramente o que é liber­ dade física. do que não pode deixar de ser). pois no sentido clássico deste termo a honestidade está na indiferença. A palavra liberdade. sua acção será necessária. em si é indife­ rente. quando tomado «em algo geral querido. Quando se argumentou contra a liber«dade. é actual. teremos a impotência. é honesta. é virtual. Há os que negam ao homem a liberdade. embora para obtenção de efei­ tos bons. Se não pode recusar-se a agir. dos possíveis contraditórios. Em acto. mas quando estou sentado. ou a ven­ toinha em seguir a corrente do vento. que consiste na indiferença activa do agente. mas a acção. É explícita. das plantas cres­ cerem. tais argumentos pecavam pela falta de paridade. Haverá desonestidade. mas podemos. muito grande. A diferença é. Leibnitz *e os deterministas. de per si. dados todos os requisitos para agir. É a liberdade de exercício. e negam-na sempre os cesariocratas. o que não o é em potência. pois já o fizemos em outros livros nossos. pode agir ou não agir. e implícita. estes mais por ignorância ou pelo desejo de conquistar uma posição de irresponsabilidade sobre o que fazem. quando usa ■determinados meios maus. pois do contrário a vontade estará determinada. quando pendendo do acto. isenção. Vimos que o acto voluntário elícito é aquele que pro­ cede imediatamente da vontade. :influirá posteriormente. Mas o ho­ mem tem-na. Ora. é honesta.siste no poder fazer e no poder não fazer. isenção da necessidade (de nec cedo. nem. É positiva quando procede do acto. quando pende for­ malmente do acto. Contudo. a presença da contradição.

porque se a execução é im­ pedida por esta. em suma. ou seja. pode ela livremente escolher entre fazer ou não fazer. enquanto tomados em potência. embora seja impedida de pôr em execução o que delibera. se a inteligência humana é capaz de escolher entre possí­ veis. Implica o acto de vontade livre uma origem intelectual. o ímpeto que procede dessa apetência ra­ cional com a cognição intelectual do fim. de escolher a acção esta e não aquela. é necessária a acção realizada. das paixões. a causalidade. consiste na ca­ pacidade de escolher entre muitas possibilidades. seria negar essa evidência a negação de poder reali- . A liberdade física afirma a imunidade. a liberdade em liberdade física. E subdivide-se. ausência de motivos. em suma. há determinação. A von­ tade é. também chamada de espontaneidade. nosso acto de fazer ou não fazer é livre. A liberdade de coação é a liberdade de execução. portanto. na Ética. nem todo voluntário é livre. não em acto. uma escolha entre fazer e não fazer. se não faze­ mos. Mas é mister lembrar-lhes que jamais os que defenderam o livre arbítrio afirmaram a indeterminação. entre alcançar o fim. em liberdade de coacção e liberdade de necessida­ de intrínseca. à qual pertence a liberdade psicológica. do que pode viciar a pureza do acto humano. E há liberdade. o poder fazer e poder não fazer são contradictórios. mas as razões para fazer ou não fazer. apesar da disparidade. Livre arbítrio. mas a escolha é intelectual. Suarez estabelece como ra­ zão do voluntário apenas aquele acto no qual a potência se determina ao seu acto. que. Apenas quer dizer possibilidade de realizar ou não. Se fazemos. como a ventoi­ nha ou a agulha magnética. Divide-se. é desejado racionalmente. etc. através das operações intelectuais. No acto intelectual de escolha são avaliados. do temperamento. querendo-o por si mesma. a não acção decorre necessariamente da ausência do acto do agente. pois. o cão quando "livre" de sua corrente. esta é essen- cialmente livre da violência. de escolha. Assim. Mas há. pela natureza da vontade. mas este ou aquele escolhido será deter­ minadamente executado. de razões.114 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 115 quando solto de suas cadeias. Esse fim é apetecido. através de um acto de ra­ zão. antes de fazer ou de deixar de fazer. e a liberdade mo­ ral. Onde há en­ tes contingentes. Vê-se. escolhemos fazer ou não. Há liberdade quando o homem opera com pleno do­ mínio da própria operação. que po­ dem perceber possíveis futuros contraditórios. necessariamente. há a cognição intelectual de um fim. Na vontade. Se toda acção livre é voluntária. quando pode agir ou não agir. E será livre a operação se ela se exerce sob o império da vontade formalmente livre. e é a imune de vio­ lência. O ser inteligente visualiza um fim intelec­ tualmente. Há. como vimos. Há os que desejam tornar o homem. entre os seres contingentes os inteligentes. mas apenas isenção desta única de­ terminação. e escolher este ou aquele. como a necessidade da lei. Também liberdade não quer dizer espon­ taneidade absoluta. Ora. a isenção de qualquer neces­ sidade de ordem física ou psíquica. Ora. ou não. O acto livre não significa isen­ ção de determinação. não só os valores. É violenta a acção quando imposta pelo império* de um poder extrínseco à coisa que a sofre e que resiste a ela. a vontade pode ser aumentada ou diminuída pela acção da concupiscência. Quando. bem como são avaliados os bens que podem decorrer de uma acção ou da não realização da mesma. que consiste num desvinculamento de qualquer ne­ cessidade moral. assim. ou pelo menos considerá-lo como determinado sempre. facilmente.

pois dirá que foi êle que a fêz. e muitas vezes o faz entre muitos que lhe seriam convenientes. uma notícia intuitiva dela. dela se abstêm por motivos de justiça. porque esta se manifesta naqueles que poderá ou não preferir. Os defensores do determinismo têm razões de combater o indeterminismo exagerado. É também livre na sua acção. Mas apenas afirmam palavras. decide-se a al­ cançá-los. a sua evolução. formalmente. inibe-se o agente de tornar a fazê-lo. As demonstrações da ex­ periência do livre arbítrio não são ilusórias. Jansenius e ou­ tros. Dizem alguns deterministas que essa consciência é apenas uma ilusão. Sem essa faculdade. é da experiência universal de todos os ho­ mens a realidade de acções livres.116 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 117 zar um possível e não outro. como a de uma pedra que tivesse de ter cons­ ciência de si mesma. nesse exercício do livre arbítrio. e o homem pro­ cederia como procedem os animais. Sendo a vontade o poder activo do homem que ape­ tece ao bem ou a um fim conhecido pelo intelecto. a escolha entre possíveis é substancialmente um acto da vontade e não da razão. pra­ ticamente. a convicção de que é êle prejudicial e ma­ léfico e. para preferir este ou aquele. finalmente. e que realmente merecem esse nome. o livre arbítrio é demonstrado até entre os mais acérrimos deterministas. compara. verifica a inconveniência de praticá-lo. desde que sirva aos interesses de sua ideologia. realiza- -se efectivamente. mas reais. Àqueles necessariamente deve apetecer e não excluem a sua liberdade. Contudo. pois se tal se realizasse na pedra ela teria a consciência real de si mesma. Durante todas essas operações compara. a fazer ou não fazer. Verificado que é injusta tal prática. Êle jul­ ga da conveniência ou não de obtê-los. êle responderá pela acção que realizou. e por ela responde. por meios desonestos. também da sua constância. pos­ teriormente. afirmando a incompossibilidade da liberdade humana com a liberdade divina. ora fa­ zer aquilo. previsto. e pode experimentar tantas vezes quantas qui­ ser. porque a consciência não é ilusória. . pois se dá. e resolve abster-se de sua execução. Este também avalia. embora pudesse cometê-lo. Em suma. Pode o agente ora fazer isto. embora sinta uma apetência exces­ siva em realizá-lo. e sua comprovação é feita pela observação. e sabe que se determina. como o fizeram Lutero. avalia. não basta dizer que há ilusão para haver ilu­ são. e obtê-los. preferindo ora uma e preterindo ora outra acção. Sopesadas as razões entre fazer e não fazer algum acto. Calvino. por razões éticas. porque julga que é mais importante o fim a ser alcançado. escolhe os meios. como o pratica o cesariocrata. delibera e recusa a si mesmo de agir. Na verdade. como dizia Tomás de Aquino. Ora. julga e. porque os julga vituperáveis. nem a consciência de si mesmo pode ser o producto de uma ilusão. que escolhe. não porém o livre arbítrio como o entenderam os filósofos de porte. prefere estes àqueles. A vontade consiste em suma. sobrevêm. esco­ lhe. pratica um acto de liberdade. Há deterministas que manejam argumentos até teológicos. as trans­ formações que se observam em sua vida. O que se abstém de uma acção que empregará meios desonestos. Tem o ho­ mem consciência de sua volição. seria impossível o progresso humano. dentro de uma linha indefectível e previamente determinada numa só direc­ ção. porque a acção realizada demonstra que ela não há. e é real. E não só. que não se abstém de uma acção. o estatólatra totalitário. veri­ fica que nem todos os bens nem fins são apetecíveis ou devem ser apetecidos. Cometido certo acto. posteriormente. e o acto posterior. mas determina a si mes­ mo. mas prefere o vituperável.

mas apenas da sua espécie ou forma. emoções. pertencendo a estes últimos a direcção suprema e a administração. mas senhores da História e do nosso destino. não há escolha. como já estudamos. fundado na propriedade privada e no crédi­ to. Mas o que se afirma é que não está apenas na consciência. avaliações normais. afirmam alguns que não reali­ zam os actos ordenados. pelas paixões. agora. e para os socialistas nada mais é do que o ganho injusto adqui­ rido à custa dos trabalhadores. Na Eco­ nomia. Na ver­ dade. Ora. uma afirmação da nossa liber­ dade. mas no raciocínio evidente que se faz entre as possibilidades e a escolha de uma entre muitas ou­ tras. em tais experiências. não há a persuasão racional da sua liberdade.118 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 119 Alegam alguns que ter consciência da liberdade não prova a liberdade. Na linguagem comum. Nessa escolha diremos. dos hipno­ tizados. significa o lucro. e normal. porém. que julgam agir com plena liberdade. Há cognição. Capitalismo é o regime económico. pa­ tente. finalmente. quando estes se opõem às suas concepções morais. o que real­ mente somos! ANÁLISE FILOSÓFICA DO CAPITALISMO 74) O termo capital vem de a capite. O que se revela aí é uma fraqueza da vontade. e o conhecimento é intencional. Não é fácil definir de modo satisfatório o que seja o capitalismo já que é um sistema dinâmico e não está- . em suma. Nestes. a educação e a instrucção senão construir homens capazes de realizar com plenitude o acto humano? Como poderá a humani­ dade alcançar o mais alto sem tornar real essa possibi­ lidade? Se queremos não ser mais os joguetes da História. definitivamente. que são remunerados por dividendos. A cognição sensitiva realiza-se pelos sentidos. Nossa liberdade está desafiada. O acto humano não se realiza senão pela cognição in­ telectiva. a abandonar a animalidade e as aderências animais. e o dos prestadores de capital. e temos. do número dos animais possuídos por algum proprietário. ou servir de instrumento para a producção. enquanto a intelectiva pelo intelecto. como nos demonstram os que se dedicaram ao estudo do hipno­ tismo e dos sonhos hipnóticos. Os exemplos de homens que não po­ dem em estado normal vencer seus ímpetos não é sufi­ ciente. sôbre-humanos. como a violência física. Objectam com os exemplos do sonho. porque a semelhança não é natural ao conhecido. que resiste à realização do acto hu­ mano. que tende para o lucro e no qual se distinguem as funções dos prestadores de trabalho. pela concupiscência. que ainda actuam em nós e decidirmo-nos a tornarmo-nos. que obstaculiza. para alcançar a sua plenitude. porque há aqueles que os podem vencer. Quanto aos hipnotizados. e a consciência de sua espon­ taneidade é completamente distinta daquele que reali­ za uma acção em estado de vigília. E como poderia o homem ser senhor de si mesmo sem que alcance a pureza do acto humano? Que outra orientação deve ter a pedagogia. estamos desafiados. Consequentemente. a qual pode ser viciada pela ignorância. definitivamente. que são remunera­ dos por um salário. exige um conjunto de condições. Também concordamos com essas pa­ lavras. pela nesciência. que é uma moção de origem extrínse­ ca. comparações. significa o bem económico capaz de realizar pos­ terior producção. sopesamento de razões. ante nossos olhos. por todos os factores que já estudamos. o ser que conhece é um ser vital. o acto humano. quando há a notícia intelectual de uma semelhança com o conhecido.

Em princípio. no ocidente. Actualizando apenas os aspectos vituperáveis que êle apresenta. leve a excessos vituperáveis. e consideram-no fundamentalmente injusto. O lucro. é fácil apresentá-lo como um sistema monstruoso. um salário é justo. e o prestador do capi­ tal. também a sua presença é necessária. por parte dos teocratas e dos aristocratas. Vejamos o seguinte: A) Não é o capitalismo essencialmente necessário para a existência da sociedade humana. Este postulado nos revela desde logo que é o capitalismo algo que acon­ tece na sociedade. que o re­ gime lhes permitia. A perda do kratos. a ponto de muitos. um fim principal: o lucro. pois. favorecendo a eclosão de muitas condições desagradáveis e incongruentes para as populações menos protegidas economicamente. provocou uma série de ressenti­ mentos e de descrença nas possibilidades deste sistema. de espantar que muitos espo­ reados pela cupidez do lucro esquecessem os direitos alheios e sem trepidação tomassem o rumo de obtê-lo em proporções ilimitadas. que corresponde a este es­ tamento como dominador do kratos económico e do po­ lítico. como pretendem fazê-lo os socialistas. na sua acti­ vidade. nós vimos que muitos empresários utilitários. em geral mal advertidos. viciar a actuação do capitalismo. não visam. que visualiza. sobretudo de ordem psicológica. mas apenas como uma estratificação subestamental do em­ presário utilitário. Os socialistas vêem o capitalismo de modo pejorativo. que acusavam o capitalismo em geral dos vícios inerentes àqueles que usavam. Este é um ponto de máxima importância. Estes factos. que impregnaram o mun­ do moderno da sua esquemática. o que é uma má- . como tem feito. mas nem sempre houve capitalismo. porque o capi­ talista é o empresário utilitário. psicologicamente considerando-se. Se o empresário utilitário é um tipo indefectível na sociedade. Em todo ciclo cultural elevado. e que a sua actividade é ordenada ao lucro. É normal. que a exa­ cerbação da concupiscência. da cupidez. Outro elemento importante do capitalismo é a dis­ tinção funcional entre o prestador de serviço. que de­ ve ser estirpado totalmente do mundo. que ora se inaugura. verifica­ mos que o regime capitalista. e aqui o tomamos no sentido de sis­ tema económico. jurídico e político. mas à producção de bens necessários para satisfação das necessidades económicas da socieda­ de. corresponde ao domínio económico e político do estamento dos em­ presários utilitários. Ora. e so­ bretudo abusavam. é mister estabelecer alguns dados. permitiu o domínio quase to­ tal dos empresários utilitários. pela sua ocorrência continuada e numerosa. como se observa entre os agrários no período aristocrático. que sofreram profunda di­ minuição na sua influência. esquecerem as suas obrigações sociais e o respeito aos princípios éticos. porque todo aquele que trabalha deve receber o seu salário. primacial­ mente. ofendendo a justiça. ao lucro. que deve reinar entre os homens. Não é. Bastaria analisar-se a diferença entre o ca­ pitalismo da fase paleotécnica com o da neotécnica e o da biotécnica. B) Examinando os fundamentos do capitalismo. No exame da História. sem os quais qualquer análise padecerá de defeitos. que empreendemos. sempre houve ca­ pitalistas. tendo os olhos postados exclusivamente no lucro. realmente. das possibilidades de ganho. não tomado como sistemas político e económico. que é re­ munerado apenas por um salário.120 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 121 tico. pode. perceberem-se as diferenças nítidas que apresentam entre si. para. Para que se faça um exame justo do capitalismo. desde logo. Mas esta necessidade não im­ plica a do sistema económico. vemos que êle se funda na proprie­ dade privada. que é remunerado por um dividendo. fazendo erguerem-se vozes. que é um estímulo. virtualizando os aspectos louváveis que também oferece.

da participação no património das empresas. não há movimentos comunistas cora alguma expressão. ape­ nas suficiente para obtenção dos bens de primeira ne­ cessidade. favorece a disseminação da pro­ priedade empresarial. levando trabalhadores a uma situação de miséria tal. terão de ceder os postos de direcção àqueles. tanto quanto lhes era pos­ sível a reduzi-lo ou a não aumentá-lo na proporção dos benefícios que obtinham. a participa­ ção. por sua vez. os frutos mais benéficos. senão menos amargos dos que actualmen­ te são colhidos. c) impediram. primeiramente por parte de espíritos hieráticos e aristocráticos.modificações: a) proletário é aquele cuja única renda é o seu sa­ lário. visualizando de modo inten. que teria. para ser apto a fornecer bens agradáveis e até suntuários.122 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 123 3dma de Cristo. Se observarmos as providências modernas. naturalmente. por meio de acções. de uma cooperação justa entre o capital e o trabalho. notamos as seguintes . Por outro lado. nos países de alto capitalismo. b) A propriedade familiar é disseminada. com essa prática. merecem reparo. de pro­ vocar uma reacção. c) O salário deixa de ser um salário de fome. d) A constante penetração dos trabalhadores na gestão da empresa aumenta-lhes o sentido da responsa­ bilidade colectiva e permite que as questões. de modo a que todos possam tê-la.sivo o lucro. e suficientes exemplos de máxima eloquência. permanecendo a sua situação a mesma ou pior do que antes. Estas rendas. Contudo. não se preocuparam os capitalistas com um salário justo. e de modo mais justo. consequentemente nos dividendos. provocadas pela oposição de interesses entre a empresa « o trabalhador. as acusa­ ções de injustiça. pe­ los próprios trabalhadores. os capitalistas uma maior cooperação entre o trabalho e o capital. não sendo capazes de gerir a empresa económica. por falta de experiência. quando exacerbados pe­ los cesariocratas. que surgem. posteriormente. Há possibilidades. que terminaram por estabele­ cer os fundamentos das chamadas ideologias revolucio­ nárias destes dois últimos séculos. surgem pela participação na propriedade. . mas tendiam.sem a participação dos trabalhadores na gestão. os quais. os seguintes males: a) desconhecimento por parte do trabalhador das dificuldades financeiras. que apenas o seu salário. Já demonstramos que não há nenhum fundamento na doutrina marxista de que o capital seja sempre producto de uma espoliação do trabalhador. que se opõem ao capitalismo. A desproletarização só pode processar-se desde o momento que o trabalhador possui rendas outras pon­ deráveis. e. b) afastamento da prática da gestão dos trabalha­ dores. sejam mais facilmente solucionáveis. nos lucros das empresas. posteriormente. técnicas e adminis­ trativas de uma empresa. verifica­ das nos países do alto capitalismo. nesses países. C) Em face do exame que acima fizemos. Demonstra- . Esta é a razão fundamental por que. o que provocou. por meio de acções. Outro elemento fundamental do capitalismo é perten­ cer a direcção suprema aos que representam o capital. económicas.

frontalmen­ te. Inevitavelmente. E estas injustiças surgiram da desenfreada cupidez do lucro. quando lhes são exigidas condições especiais e superiores às comuns. Contudo. que esta tese é improcedente. em que se estabeleçam outra vez o respeito aos prin­ cípios de justiça e de caridade. Os estudos modernos de Economia demonstram que o índice de lucro do capitalismo é constantemente menor do que já foi anteriormente. a productividade é de índice elevado. praticou gravíssimos abusos. mas é accidentalmente injusto. que permita que o trabalhador ganhe mais do que o que produz. A supremacia do capital na direcção é justificada em parte pelo volume de responsabilidade. ou seja de amor ao bem do próximo: reformas económicas na distribuição dos bens. e que elevaram os preços desenfrea­ damente. dos abusos praticados contra os traba­ lhadores. ao mesmo tempo que aniquilaram inúmeras unidades económicas. todos enfim. da concentração de ca­ pitais que. que permitam que os elementos hieráticos e aristocráticos como os ser­ vidores. se processou. economicamente. o capitalismo ofereceu inúmeros defeitos. de uma parte considerável dos proventos. esta pode e deve ser dividida com os trabalhadores. Considerando-se. Nos países de alto capitalismo.124 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 125 mos filosoficamente. da desme­ dida especulação. . A distin­ ção de remuneração entre os trabalhadores e os presta­ dores de capital não é injusta. dos poderes ocultos dominadores dos meios administrativos. sobretudo no que se trata da sua segurança e da sua higiene. e seu salário será sem­ pre proporcionado ao seu grau de productividade. Nem é pos­ sível pensar que sejam eles baixamente remunerados. da ilimitada exploração do trabalhador na fase paleotécnica. consequentemente. elevados são os sa­ lários. mas também as de agradabilidade. mas apenas accidental. possam participar do governo e também da responsabilidade social. reformas institucionais e políticas. da ex­ ploração exagerada do nacionalismo. Contudo. que permitiram justificar uma série de atitudes e de doutrinas contra êle. terá o capitalismo de sofrer. o que contraria. A remuneração do capital nos Es­ tados Unidos. porque são eles im­ prescindíveis para a boa ordem económica. Se a injustiça não se dá sempre. por mais genial. É impossível querer evitar a existência de empresá­ rios utilitários na sociedade humana. profundas reformas. pelo menos. Desde o momento que o salário seja suficiente. nesse período. quando proporcionadas ao papel que ambos tenham na producção. Não é o capitalismo essencialmente justo. o capital nem sempre é in­ justo. não é êle um salário de fome. não é ela da es­ sência do capitalismo. muito além do que seria pro­ porcionado à sua função. da criação de mo­ nopólios injustos. Contudo. Não há nenhum regime económico. da prática de fraudes sem fim. pelo menos. não é justificável que sejam os be­ neficiários da maior parte ou. sobretudo nas bolsas. que tentavam opor-se. da ditadura eco­ nómica que exerceu o poder financeiro. não só para atender as necessidades primárias. de espécie alguma. por ex. a tese marxista. que seja capaz de construí-lo.. nem qualquer cesariocrata. como reforma de ordem mo­ ral. é preciso notar-se que um salário só pode real­ mente elevar-se na proporção da productividade que ofe­ rece o trabalhador. assim. Contudo. não atinge a 10% ao ano.

de uma vez por todas. que nem sempre está à altura do cargo que vai ocupar. é possível compreender-se. É hora. Ademais. de­ pois. cuja única grandeza é a sombra imensa. tratam de adquirir os bens sobrantes. os falsos líderes. Nessas ocasiões. e evitar prejuízos que pos­ sam advir da baixa precipitada. a presença do capitalista. e não apenas por alguns iluminados. e os italianos de accaparare. os falsos guias. mesmo provi­ sório. que se julgam os portavozes da divindade. A sua ati­ tude é clara contra os falsos messias. mas um mundo construído por nossas mãos e pela nossa inteligência. e impedir que o pior assuma o posto que não merece ocupar. o qual as escondia em lugar seguro. e lutar por um mundo melhor. A Humanidade deve quase tudo à gestão directa. e que muitas vezes. e esta pouco realizou em relação àquela. verdadeiro terror das populações pobres de então. o açambarcamento realiza-se por meio de uma pessoa ou um grupo. quando há bens em demasia. super-homens que nada mais são que super-pigmeus. responsáveis de tudo quanto acontece.126 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 127 Se se considerar que é injusta a maneira de consi­ derar todos os capitalistas pelo mito do capitalista explo­ rador. e delegar os seus poderes a um indivíduo qualquer. forçando. mas o eleitor se vê forçado a escolher o menos ruim. como o fazem os socialistas em seus excessos de crítica e de análise. em sua estructura jurídica e política. o qual consiste no acto especulativo de assegurar um monopólio. OFERTA E PROCURA 75) Quando a oferta começa a superar a procura. mas a sua luta . era muito usado o açambarcamento. Contudo. porque o preço é dependente também da raridade de um bem. que actuam em nome de todos. alguns comerciantes. que os defeitos que o capitalismo apresenta são de decorrência accidental e não essencial. O Estado. a gestão directa tem sido mais útil e benéfica à sociedade que a gestão indirecta. de dizer basta a esses erros. o único ca­ minho para a solução dos problemas sociais. que a sociedade deva ser. Manifestava-se pela acquisição por parte de um comerciante de todas as mercadorias disponíveis numa determinada região. de uma determinada mercadoria. O Estado não pode ser apenas alguns de nós. por ter de escolher alguém. mas todos nós. não deve implicar. dentro da ordem social. que é vendida. ou quase sempre. Ademais. forçado pelas exigências populares. No século XIX. posteriormente. a gestão política de alguns. a preço mais elevado.. dese­ josos de manterem os preços. O pantarquismo é a única solução social. nesse sentido justo. que projectam nos entardeceres humanos. nem sempre o elei­ tor tem liberdade de escolher. pois muitas vezes apare­ cem candidatos dos quais nenhum é digno de atenção. os falsos salvadores. e é mister acabar com essa mentira que a única acção política do cidadão é pôr o seu voto na urna. claramen­ te. e quase nada à gestão indirecta. que em nosso idioma tomou o nome de açambarcamento. pro­ cura lutar contra tais açambarcamentos. sabe-se que os preços bai­ xam. é o primeiro a trair em acto as suas palavras. Modernamente. Todos têm e devem ter responsabilidade nos negó­ cios públicos. realizando o que os antigos economistas chamavam de dardanismo. a alta dos preços. por todos nós. apenas capitalista. neces­ sariamente.

e estiveram sempre ligados aos gran­ des exploradores. aos quais servem na realidade. Consistia essa forma. Mas o que é de se notar é o dardanismo. consistiu no estado de diversas formas de cooperação. e rece­ bem toda cumplicidade do Estado. no impedimento da maior producção. desejosos de examinar os meios de melhoria para as classes trabalhadoras. E se este se tem dado é apesar do governo. estão ligados a tais interesses. organização de socie­ dades beneficentes. que tiveram grande ressonância. em que os trabalhadores são titulares de um determinado número de acções. embora os ataquem em palavras. Muitas experiências mutualistas foram feitas no sé­ culo passado. onde possui êle todo o poder. na associa­ ção dos trabalhadores para a realização de uma empresa comum. na maio­ ria. Modernamente. evitando que pequenos productores ou pequenos comer­ ciantes possam adquirir tais bens e oferecê-los no mer­ cado. também. Thompson. foi impossível evitar o câmbio negro. que surge em determinadas condições. o accionarato dos trabalhadores. que filiadas em federações poderosas. não só dos benefícios. Leroux. O "associacionismo" era uma experiência nova de cooperação obreira. e entre elas. contudo. participando. como tam­ bém dos riscos. Tais fórmulas foram estudadas por outros so­ cialistas. que é o símbolo do socialismo prático. todos os mais famosos "ami­ gos do povo" foram. Tais processos são muito comuns entre nós. porque o Estado brasileiro tudo fará para impedir o maior desenvolvimento das cooperativas. de consumo. e até na destruição dos bens já produzidos. grupos de producção. como Fourier. apesar da tremenda dificuldade que este oferece sob a falsa decla­ ração de que assim procede para "protegê-las e evitar que se tornem antros de exploração" (!!!). Cabet. sobretudo. que foi preconizado por este grande libertário Robert Owen. Louis Blanc. chegam até à destruição de certa quantidade para garantir a raridade e os preços. e forçar uma baixa inconveniente.128 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 129 tem sido sempre inútil e nem em países. na história da humanidade. quando não são criadas outras soluções. manejando. Consideram muitos que tais práticas têm a finalidade de inocular nos trabalhadores uma men- . e outras que constituem as formas. de modo a impedir que a producção de de­ terminada zona possa alcançar o mercado. ACCIONARATO OBREIRO 76) Uma das maiores preocupações dos economis­ tas. que Gide e Rist consideram como o verdadeiro pai do socialismo. Buchez. Sabemos. como as cooperativas. etc. adquirir dos productores apenas aquelas quantidades que permitem a manutenção dos preços altos. dos benefícios. participando. tais como: dominar os meios de transporte. Na verdade. para isso. quem as pôs em prática foi Owen. que con­ siste. e manifestava-se através de grupos de compra. apesar da negativa formal e demagógica de muitos políticos e que. Algumas organizações desse tipo tiveram participa­ ção na gestão de muitas empresas. que chamamos de cooperacionais. os meios de crédito. observam-se tais asso­ ciações na formação do capital das empresas. no início. que essa conquista terá que exi­ gir uma grande luta. como na Rússia. poderão entregar no mercado e financiar a producção e regular os preços sob bases jus­ tas. mas através das cooperativas de consumo. A luta contra o dardanismo e contra o açambarcamento no Brasil não poderá ser feito através do Estado. Mas.

contudo. faculta-lhes a presença na gestão da empresa. Usado por muitos autores. é precedente essa crítica. que gera certo domínio de determina­ dos agentes estrangeiros. admiram apenas o que tem origem nos países mais desenvolvidos da Europa. mas.130 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 131 talidade capitalista. expressa um sentido específico do colonialismo. Nesse enunciado. o político. enquanto. diremos que colonialismo é a subordi­ nação sistemática. distinguir o papel activo do subordinador. é "o domínio imposto por uma minoria estrangeira. racialmente (ou etnicamente) e cul­ turalmente diferente. domi­ nados pelo espirite de colonialismo passivo. no conceito de colo­ nialismo. como vemos entre nós. o que se pode preconizar aqui é que as diversas práticas devem ser tentadas. De certo modo. Contudo. como vemos no colonialis­ mo do sul do Brasil. reunimos. referindo-se à actividade econó­ mica própria da fase pré-capitalista. a uma maioria autóctone. Segundo Balandier. como sejam: o económico. COLONIALISMO 77) Expressa esse termo a acção colonial sistemá­ tica. Para um conteúdo mais claro e filosoficamente mais seguro do termo. a imposição do regime colonial. da autoridade do subordinante ao subordinado. as dificuldades em estabelecer a participa­ ção justa entre os trabalhadores e os capitalistas têm criado situações que geram desentendimentos e até malo­ gros. e o passivo do subordinado. como também as formas menos violentas e até as astuciosas de exercer um povo o seu domínio sobre outro." Essa definição. e certamente foi êle cunhado pelos adversários de tal acção. o re­ ligioso. fundando-se numa inferioridade do subordinado ao subordinante. em nome de uma superioridade ra­ cial (étnica) e cultural dogmàticamente afirmada. Com esse enunciado. Podemos. encontramo-lo muitas ve­ zes no Capital de Marx. por outro. que se realiza através da invasão de um país por forças de ou­ tro. que mantém uma relação de acto e potência. Essa subor­ dinação apresenta uma escalaridade. e refere-se mais à maneira de realizá-lo as grandes potências. funcionando segundo as leis ontológicas desse antagonismo. etc. Entretanto. Pode ela dar-se pela migração de homens para deter­ minada zona a ser explorada. pois prepara desse modo os trabalhadores aos trabalhos administrativos fu­ turos. Contudo. as melhores for­ mas. materialmente inferior. onde muitos intelectuais. inclusive no plano cultural. Como há típicas modalidades de colonização. embas- . inclui-se a forma violenta. que passa a subordinar-se económica e até juridi­ camente ao colonizador. alcançando até a su­ jeição. o que não é de desprezar. aceita ou imposta. ou pela submissão de um povo ou raça. pois delas sairão as regras. cujo domínio põe em contacto civilizações radicalmente heterogéneas. sobre outros nacionais. ademais. o cultural. o ter­ mo tem certa equivocidade. no futuro. a ideia de colonialismo expressa uma su­ bordinação do colonizado pelo colonizador. negando nossas possibilidades culturais e desvalorizando tudo quanto façamos. que aquele salien­ tava como um estado de facto. que sobreviverem à experiência. que deverão reger. o administrativo. toda espécie que possa manifestar. que se tem prestado a ex­ plorações sofismáticas de toda espécie.

iniciar-se-ia o fim do colonialismo. Segundo Marx. o colonialismo apresen­ ta uma gama heterogénea extraordinária. que se manifestam sobre supostos pactos. Foi também em "nome dessa cultura" e no intuito de "levar o progresso aos países atrasados". Assim como o açambarcamento não é um acto económico. sim. que. É inegável que a prática colonialista. nos quais as tropas russas não realizaram ocupação. mas raramente. deve­ mos dizer que se dá. encon­ trando naqueles países ótimo campo para a aplicação de capitais. tal não se dá frequentemente. no cenário da Histó­ ria. quando alcançasse o capi­ talismo seu apogeu. também o colonialismo odio­ so. mas um acto não-ético. que traz proveitos económicos. dada a mão de obra mais barata e a subordinação fácil que puderam exercer so­ bre tais povos indefesos. quando muitos afirmam que estamos vi­ vendo uma era que indica o fim do colonialismo. etc. Tal se deu apenas e se dá no referente a certa espécie. alguns benefícios. Também naquele enunciado inclui-se o satelitismo. que su­ bordinam a um lado e outro. toda e qualquer tentativa de criação própria. como vimos. O mimetismo. estiveram sob o jugo colonial. que se revestem hoje com novas másca­ ras. os ideais de subordina­ ção e domínio. como aconteceu com os Es­ tados Unidos. que é uma subordinação inequívoca de carácter colonia­ lista económico. a imi­ tação desenfreada dos modos alienígenas. que se valoriza apenas pela sua origem. não se submete­ ram piamente aos desejos de Moscou. Ora. posições superiores aos dos seus subordinantes. mas há. . como a que assistimos nos chamados países socialistas subordinados à URSS. pois permitiu que muitos países atra­ sados obtivessem a técnica dominante em países mais de­ senvolvidos. contudo. também. e não a todos. pois. muito embora seus partidários queiram afirmar o contrário. como sucedeu com aqueles povos. Ali também se verificam todas as condições do colonialismo. admiram qualquer pechibesque estrangeiro. Por isso. que estão dominados pelas tropas do exército vermelho. em graus maiores ou menores. é também uma maneira de manifestar-se o colonialismo passivo. um papel pelo menos igual e livre ao dos outros po­ vos superiores. A cooperação só é genuinamente verdadeira quan­ do as partes cooperantes são livres e a realizam livre­ mente. Os povos desejam ter. e alcançassem. o imperialismo colonial. não de todo. preconceitualmente. É uma operação extraeconômica. ademais. durante muito tempo. como as ideológicas. que é uma das manifestações do imperialismo económico. o fim de certo colonialismo. acordos comerciais. mas sua motivação foi mais de ordem ética e psicológica do que propriamente económica. como também de subordinação política e até militar. onde as rebeliões contra o poder co­ lonizador indica os sinais do desespero. que os em­ presários utilitários europeus exerceram um domínio inescrupuloso sobre diversos povos do mundo. Há. negando. inclui-se. Os países socialistas. para a obtenção de matérias primas e para obtenção de lucros fabulosos. mas com influências no campo económico indubitáveis. esse que exerceu uma desenfreada exploração dos povos mais atrasados. apesar dos resultados económicos que traz. trouxe. com igualdade de direitos e obrigações. afinal. pactos de assistência mútua. que tende a pôr a dúvida sobre toda e qualquer tentativa de autonomização intelectual. apesar dos grandes males que dela decorreram. inegavelmente. como a Iugoslávia e a Albânia. também não é uma façanha da Economia. Nessa definição. uma luta no mundo contra certa espécie. tratados de comércio. mas é mister que haja contra toda espécie de co­ lonialismo.132 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 133 bacados.

de passado e também de um futuro mais remoto. nem um sistema. mas. sob outros ângulos. e que permite prever acontecimentos futuros. para um futuro não muito remoto. por ser um animal racional. perscruta o futuro. e esta só se actualiza quando realizamos a nossa autonomia não só no campo político e económico. como ainda o é. Poder-se-ia dizer. Há hoje até uma função especialíssima. no campo cultural. etc. no sentido da conjunção de diversos factores. económica. cuja origem é latina. a pouco e pouco foi sendo exigido pelos opri­ midos um poder capaz de fazer frente à sanha voraz de exploradores sem escrúpulos. o político. à França. É sobre o conhecimento da conjuntura económica que se podem estabelecer os métodos de previsão. mas. no campo da ciência da cultura. mas uma prática que surgiu em oposição ao pensamento li­ beral.134 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 135 A paz do mundo exige a descolonização sem dúvida. fundando-se nos dados que lhe oferecem o presente e o passado. que preconizava a não ingerência do Estado na economia. para indicar a específica conjunção dos astros. que jamais foi o Brasil colónia de Portugal. e muitos o fazem. como se verá no estudo da História. mas de toda espécie de colonização. co­ mo o económico. pois o homem. que devia ser regulada pelas suas próprias leis. e t c . que dão uma nova fisionomia aos acontecimentos. Não é propriamente uma doutrina. sobretudo. em situação colonial. O DIRIGISMO 79) Considera-se dirigismo a prática de intervenção e de ingerência do Estado na vida económica de um país. em relação à Inglaterra. estivemos. Como não se procuraram melhores caminhos. Como. mas tal não impede que novos estudos sejam feitos e que esperemos. Assim se pode falar em conjuntura social. como conjuntura meteorológica. porque. e não apenas de algumas espécies. concluiu-se que o Estado era o único organismo capaz de realizar justiça e defender os consu- . Sempre houve o desejo do homem de prever os acon­ tecimentos e essas tentativas de previsão são um teste­ munho da própria humanidade. histórica. Mas. que não fossem as mesmas das regiões europeias. a conjunturo­ logia ainda não alcançou o estágio desejado. era usado pelos astrólogos. já que juridicamente não estávamos em condições de subordinações outras à me­ trópole. o cultural. a exploração de­ senfreada. a do conjuntorologista. a conjunturologia. química. Como essas leis não impediam as clamorosas in­ justiças sociais e o abuso económico. política. Daí foi êle levado para Filosofia. Não é suficiente uma vitória a meias contra o colo­ nialismo. inegavelmente. demográfica. DA PREVISÃO ECONÓMICA 78) O termo conjuntura. Embora tenha o termo sido empregado de outras maneiras. que já disponhamos de melhores meios de diagnosticar e prognosticar os eventos futuros. No caso brasileiro. que exerceram acções colo­ niais de várias espécies sobre nós. e até a formação de uma nova disciplina económi­ ca. e não só a Portugal. e também nas ciências da natureza é empregado. após a Independência. é mister uma vitória completa. o futuro está pre­ nhe de presente. aos Estados Unidos. pode-se discutir o nosso colonia­ lismo em relação a Portugal. toma esse sentido amplo. os resultados obti­ dos não são suficientemente animadores. porém.

as obras estatais são. co­ mo se verifica nos regimes chamados socialistas. A gestão pública é a realizada pelo Estado. que o Estado. determinando-lhe tarefas e direcções. regulando-a. é mister distinguir bem dirigismo e inter­ vencionismo. e delas não se ocupa a imprensa. que é um órgão emperrador. Entre o que o Estado procura fazer em benefício da colectividade e o que a própria colectivida­ de faz. como: a) o interesse político e eleitoral daqueles que promovem tais ingerências. além de totalmente irresponsá­ vel. que também visa. realizadas por homens bem intencionados. em graus maiores ou menores. directa ou indirecta­ mente. verificamos que a maior soma de acções em todos os sectores tem a sua origem na gestão livre. mas também foi a porta aberta a muitas brutalidades e abusos ainda mais clamorosos. por intermédio de grupos de pessoas dedicadas ao bem comum. ética e his­ tórica de um povo. Podemos considerar o nosso século como o em que o dirigismo tem realizado suas maiores proezas e também preparado o terreno pa­ ra as mais sangrentas guerras que a história registra. directa e privada. como é natural. apesar de muitos julgarem o inverso. b) a oposição normalmente oferecida pelos adversários receosos do prestígio que possam obter os primeiros nes­ sas promoções. obstaculizando práticas abusivas. Dirigismo é a gestão indirecta permanente e constante. Hoje. o Estado absorve todo poder social. tendente a abranger todos os sectores possíveis de seu domínio.186 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 137 midores e os servidores contra a exploração tão típica da época do capitalismo paleotécnico. e também de si mesmos. Quantas coisas grandiosas permanecem em si­ lêncio. à mesma fi­ nalidade. impe­ dindo a multiplicação de erros. burocratizado. Se observarmos a vida económica. social. em todo o mundo. e o faz e fará muito melhor. o nazismo e o fascismo. c) devido à complexidade do aparelha­ mento burocrático e da falta de um mais cuidadoso exa­ me e controle dos gastos. como o bolchevismo. ressurge um movimento de grandes proporções em favor da gestão directa. mas substancialmente viciada por diversos efei­ tos que lhe são inerentes. em face dos malefícios decor­ rentes de tal prática. Contudo. à comu­ nidade. Muito maior propaganda obtêm as ingerências do Estado na vida económica do que as obras de gestão li­ vre. para penetrarem na vida económica. Muito mais fêz pela humanida- . absorvendo até em suas mãos toda a propriedade social. justificada por muitos teoricamen­ te. muito mais dispendiosas do que as de origem privada. Na gestão. poderíamos verificar entre nós e no mundo inteiro que o saldo de benefícios realizados pelo segundo é muito maior do que o oferecido pelo Estado. temos a privada e a pública. e orienta e comanda a vida económica. como organismo político e admi nistrativo. de modo a tornar-se capaz de realizar. de espontânea promoção de homens decididos a realizarem alguma coisa em benefício dos outros. A intervenção do Estado na economia foi sempre praticada em todos os tempos numa gradação ilimitada. trazendo em alguns aspectos grandes benefícios. A primeira é assim empregada para apontar todas as iniciativas extra-estatais. Diz-se intervencionismo da prática accidental e descontmua do Estado em matérias em que se exige um poder maior capaz de enfrentar obstáculos que pa­ recem insuperáveis para a gestão directa. lento e dispendiosíssimo. punindo os que inflingiam os direitos sociais. nem os meios de divulgação. com in­ tuito de prestar serviços aos seus semelhantes. da gestão realizada pela própria população através de seus organismos de criação popu­ lar. nos quais. ou seja. de certo modo.

o que revela de maneira insofismável que o ser humano é capaz. de ges­ tão directa com o precípuo fim de beneficiar a colectivi­ dade. e exaltar. Até a manutenção da or­ dem. os centros culturais. aos necessitados. que se vin­ culam em organização em todo mundo. se­ ríamos capazes de promover e realizar tudo sem excep­ ção que é mister para o bem colectivo. anciãos. ór­ fãos. centros de amparo à mulher. obras realmente be­ néficas à colectividade. Além das realizações de exploração económica sobre todos os aspectos de origem privada. seja dominante. enfim. ora é quase total a gestão directa e mínima a estatal. organizações de viagens e excursões. Mas. as dispendiosíssimas e pouco productivas realizações estatais. a Suécia e a Finlân­ dia. filosóficos. hospitais sociedades científicas. institutos para estudos económicos. reali­ zadas pela gestão directa. suplantou. através de todos os tempos da vida humana. e inclusive a defesa da população contra possíveis ataques de potências estra­ nhas seria factível por meios de gestão directa. cooperativas de carác­ ter social e cultural. compreende-se. mais espantados fi­ caríamos se meditássemos melhor sobre esses factos. como já verificamos em países como a Suíça. o intuito de cobrir com o silêncio as gran­ des realizações de gestões directa. organizações de auxílio aos doentes. numa proporção imensa. sociedades de proteção à infân­ cia. com isenção dos interesses que viciam as verdadeiras intenções. Que nos regimes totalitários essa propaganda dirigida em favor da gestão indirecta domine. so­ ciedades de difusão de ideias constructivas. pela gestão di­ recta. sociais. que são productos da gestão directa. sociedades internacionais. uma infinidade de instituições livremente organizadas. fá­ bricas. demonstra-nos a História que as obras mais salutares. ora esta última au­ menta em percentagem. academias de ensino gratuito. sociedades be­ neficentes de toda espécie. centros e socie­ dades esportivas. as organizações de proteção aos in­ teresses colectivos de toda espécie. a ges­ tão indirecta. através apenas das organizações de gestão directa. porque os que desejam manter a posse e o usufruto do poder político têm naturalmente que infun­ dir nas multidões a convicção que só o Estado é o orga­ nismo habilitado a realizar. com excesso de epítetos. a prevenção da delinquência. agrupamentos de ajuda mútua. Estas organizações são muito mais numerosas e mui­ to mais eficientes que as estatais. poderíamos apenas citar as obras de carácter social e benéfica à colectividade. que hoje é sem dúvida a arte de alcançar o poder e dele dispor. mutilados. em que o exército é o próprio povo organizado mili- . artísticos. de atender a tudo quanto se refere às necessidades colectivas. No entanto. do que a indirecta realizada pelo Estado. o que é realmente evidente é que a gestão directa. que melhor papel desempenharam para atingir as suas finalidades benefi­ centes.138 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 13» de essa gestão directa. Contudo. Poucos terão presente aos olhos e ao espírito a grandiosidade em intensidade e extensidade das obras. asilos. concepção que domina muitos sectores é de que o Es­ tado o maior contribuinte em benefícios sociais. do Estado. em suma. como as sociedades para o pro- gresso ou o fomento de algum bem de carácter superior. centros recreati­ vos. para que todos compre­ endessem que. desde logo notaremos que elas apre­ sentam uma gradatividade heterogénea. tudo que o homem realiza pela gestão directa. bibliotecas. Não vamos considerar as construções de casas. Se nos dedicarmos a uma apreciação justa dos dois tipos de gestão. com um pequeno esforço de cada um. Bastaria fomentar e promover uma tomada de consciência destas realizações. da parte de muitos interessados na po­ lítica. foram precisamente aquelas realizadas pela ges­ tão directa. grupos de aper­ feiçoamento das mais variadas disciplinas. escolas. etc. Há. ou ainda mais: que é êle o melhor agente para tais realizações.

na Suécia. apossa-se de uma parte imensamente grande da producção total para cobertura de suas despesas. são rotunda­ mente desmentidos pelos exemplos que se verificam na Bélgica. dessa maneira. a certeza de que lhes custaria imen­ samente caro qualquer tentativa neste respeito. companhias de navegação. É. mister que o homem de hoje. dos estragos e da corrupção promovidas intensa e extensivamente pe­ la política. e como tal não ser um factor de encarecimento da vida. consolidar. E então. além de. portanto. de visão unilateral e egoística. a incompetência proverbial dos homens pú­ blicos e a sua rara honestidade. permitir maior desenvolvi­ mento da cultura e a consciência de que é um ser útil à sociedade e não apenas um aproveitador da mesma. se quiséssemos citar os exemplos da Finlândia. oferecendo aos que acaso pensem em atacá-los. depois de ter assistido ao ignominioso espetáculo do totalitarismo. Nova Ze­ lândia. Estados Unidos. e ampliar. Todo aquele que trabalha. como é o Estado que. após esta tomada de consciência. Energia Eléctrica. gozando de privilégios quase divinos. 2 — por ser a menos dispendiosa. da acção maléfica do Estado todo-poderoso. seguros so­ ciais que só o Estado é capaz de mantê-los. pelas seguintes razões: 1 — por ser mais eficiente e mais rápida. vem a certeza. como para sustentar o grande exército parasitário dos beneficiados pelo poder e pela adminis­ tração pública. onde as Estradas de Perro são de gestão directa. que avassala as consciências humanas. potências maiores. 3 — porque é a gestão directa eticamente a mais digna. pois dá a cada um a consciência do seu de­ ver e da sua responsabilidade social.bem pagos. ao la­ do da degradação do homem. de modo eloquente e decisivo de que a gestão directa é a mais hábil para promover o bem colectivo. como: Correios e Telégrafos. onde os outros setores também são de gestão directa. ar­ rebanha. 4 — por ser ela uma escola de administração e estimular a preocupação pelos proble­ mas sociais e. cujos direitos deve respei­ tar. como tem enfrentado. que produz. não só para atender os ganhos dos facto­ res de producção. tão poderoso que poderá enfrentar.140 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 141 tarmente. não deve esquecer que tem de produzir. familiares ou de grupo. para que cada um não tenha os olhos voltados apenas para os seus interesses pessoais. mas que se lembre que faz parte duma comunidade. Estradas de Ferro. na maior parte inúteis e improductivos. podendo ainda. . Aqueles que afirmam que as grandes organizações de serviços pú­ blicos. estimuladora do desespero moral e ético. Suíça. Islândia. que não se tome cons­ ciência de uma verdade palpável: a gestão indirecta é a fonte dos maiores males sociais e a grande promotora dos conflitos internacionais e das guerras destructivas. etc. com seu imenso exército de fun­ cionários. da ofensa à sua dignidade.

e dos acontecimentos dela decorrentes. Impõe-se que estabeleçamos previamente certos princípios fundamentais para uma visão precisa da História.A COOPERAÇÃO 80) Em 1951. Nunca teria o homem atingido a situação em que se encontra. Dessa forma. e mostram o que concretamente podemos fazer fundados na nossa realidade. "A gravidade do momento que atravessamos exige atitudes claras e um exame cuidadoso da realidade. superado a de mísero animal. A inteligência se manifesta na actividade e esta. há contemporaneidade entre a inteli­ gência e a actividade. Por isso. se não tivesse o homem a capacidade de criá-la. se não fosse as­ sistido previamente pela inteligência. porque lhe falta a organização inteli­ gente. naturalmente uma influindo. é preciso libertar o pensamento humano das falsas teorias que afirmam que a inteligência é um producto apenas da ac­ tividade. escrevemos este trabalho. desenvolve a inteligência. quando esta não se caracteriza como huma­ na. de uma vez para sempre. cujos ter­ mos principais têm uma grande actualidade. Um símio não é capaz de progresso. ac­ tuando sobre a outra. por sua vez. se desejamos realmente contribuir com algu­ ma coisa em benefício do nosso país. Dessa forma. as ideias po­ dem actuar sobre as relações de producção no convívio .

Derivar é pôr ou tirar obstáculos a tudo quanto impede ou facilita a obten­ ção do ideal. E qual o fim de todas essas formas viciosas? A ca­ tástrofe final à custa da vida e do sofrimento de milhões. Na verdade. TRABALHO E NATUREZA A observação dos factos que se desenrolam exige uma visão objectiva. Como. e ter um final trágico e espetacular. Desde tal momento. e passa a tira­ nizar as consciências até dos elementos hierarquicamente mais elevados. como os outros apresentados na história. impedindo que co­ nheça a realidade. em que é essa apresentada como certa e eficaz. Consegue. ao reunirem-se. segun­ do as conveniências. Quando uma ideia (partido político. é comum estructurar em torno de um homem uma auréola de infalibilidade. realista. e persegue todas as ou­ tras como hereges. dirigir é pôr à frente dos ho­ mens um ideal. por sua vez. então. O mesmo sucede com a direita. os quais são sempre usufrutuários do pres­ tígio que gozam junto ao chefe. não fundadas na realidade. surgem logo os cen­ tristas. um cen­ tro para equilibrá-la. muitas vezes. Quando surge uma ideia. o que foi o epílogo sangrento e catastrófico do nazismo e do fascismo. a hipocrisia total ao lado do terror total. logo se polarizam em duas tendências: a da direita e a da esquer­ da. São tais factos importantes. que polariza uma extrema direita e uma direita centrista. normalmente. são os pon­ tos de convergência dessas polarizações. depois como a mais certa e a mais eficaz e. com a excomunhão. inclusive inocentes. e aproveitadores das situações. é cercado por uma camarilha que o envolve. e até o sacrifício de seus membros. os partidários da mesma. quer ser absoluta. imposta. a esquerda se polariza numa extrema esquerda e numa esquerda centrista. em geral) che­ ga a este ponto. em nossos dias (e ainda em nossos dias veremos outros). porque os que não sáo dirigidos por ideais perdem-se nos meios e neles perecem por ausência de um fim. CAPITAL. o qual. na esquerda. tendem a cumprir seu ciclo vicioso. mas até nas organizações comerciais e industriais. Surge. Sobrevêm a fase da doutrina. Vimos. como estas sobre aquelas. negociando sua influên­ cia ou. em que os sócios. Só os ideais devem dirigir. levam os povos fatal­ mente às grandes derrocadas. forma-se. Os homens podem e devem derivar. todas as ideias encarnadas em um homem.144 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 145 social. com um centro novo. Fatalmente. Estabelece uma disciplina rígida. E para co­ roar a marcha. Dois aspectos são ainda importantes: o da direção e o da derivação. o chefe. se vê obrigada às grandes depurações. . Quando o homem pro­ põe ideias sem base real está sujeito a criar o que geral­ mente chamamos de utopia. assim. tendente para o centro. Essa a razão por que a história é também a história das derrotas das grandes ideias. isto é. como a única certa e a única eficaz. Corroída pelas lutas internas. desde logo. é falso e mal co­ locado: "ou capitalismo ou comunismo". final­ mente. O mundo actual parece dividido ante um dilema. que. para equilibrá-las. em colaboração com os outros. Esse facto não é observável apenas no terreno das ideias. E utopias têm sido todas as doutrinas pregadas. quase sempre fiéis da balança. mas quando actuam como dirigentes. a fim de salvar a coerência que. sempre composta dos ele­ mentos que procuram ter ligações ou servir de ligação en­ tre os pólos. que geram as formas vi­ ciosas de todas as ideias partidárias. não possui. que lhe é exibida deformada. divinizando-o até.

Considerar. muitas vezes antagónicos. se todos os indivíduos são consumidores. inversas. aquela harmonia perfeita desejada. que leva­ da ao terreno económico. o que aliás nos mostra a Histó­ ria. é reduzir a Economia a uma ciência abstracta. e como hoje assistimos à subordinação do Trabalho e da Natu­ reza ao Capitai. por não se ter consti­ tuído. Trabalho e Natureza. como o faz a Economia. condi­ cionada pelas contingências existenciais. No entanto. O capitalismo. e uma parte se beneficia com o prejuízo da outra. como o mostram os ideais religiosos. A COOPERAÇÃO DOS FACTORES Nas suas relações. Esses ismos são revelações de formas viciosas. como se dá. como realmente acontece. em breve. na sociedade. Conside­ rar qualquer desses factores isoladamente dos outros. veremos a predominân­ cia do Trabalho sobre o Capital e sobre a Natureza. e o são por terem necessidades que pre­ cisam ser aplacadas sob pena de perecimento. sua colocação é absolutamente falsa e deformante da realidade. que tem fundamento biológico e so­ cial. uma espécie de domínio sobre os outros.146 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 147 É uma banalidade económica afirmar que o Capital. po­ demo-lo fazer através do espírito. assistimos à realiza­ ção de uma forma viciosa. Assim o feudalismo é a forma viciosa do predomínio dos detentores da Natureza. Se as duas primeiras formas já se deram na Histó­ ria e às vezes coexistem numa luta desesperada. na realidade. a forma vi­ ciosa do predomínio dos detentores do Capital. não. no en­ tanto. se trouxe benefícios em certas . que transparece em grau técnico inferior na forma de pro­ ducção artesanal. disponham eles de poder suficiente para exercer sobre os outros um papel dominante. porém. no apoio mutuo. Assim como tivemos o predomínio dos detentores da Natureza sobre os outros. uma por exercer o domínio completo sobre as outras. pode acontecer que. ou também chamadas negativas. E já vamos mostrar por quê. No en­ tanto. A primeira fase seria representada pelo feudalismo. São positivas aquelas em que ambas as par­ tes têm vantagens iguais. e opositivas aquelas em que tomam posições antagónicas. a segun­ da pelo capitalismo. os homens sempre desejaram man­ ter relações sociais positivas. como as relações de cooperação. mas nem sempre o fizeram. nem to­ dos são productores. que lhe ficaram subordinados. alimentado pela própria divisão do trabalho. Se os detentores desses factores são representados por indivíduos diferentes. condicionados co­ mo estavam por factores que geraram interesses diversos. As relações sociais positivas fundam-se na coopera­ ção. Não esqueçamos que todos os detentores desses três factores da producção igualizam-se num ponto: são to­ dos consumidores. exercem. que os detentores do Capital. Não há producção sem Capital. e a terceira pelo socialismo autori­ tário. enge­ nhosamente expostas. porém. Observadas superficialmente essas afirmativas. aproveitando a melhor parte do producto em seu benefício. o Trabalho e a Natureza são factores imprescindíveis da producção. Nesse caso. também se verifica a luta em nome da terceira posição. qualquer dos três factores como autónomo. do Trabalho e da Natureza. parecem conter toda a verdade. O socia­ lismo seria a forma viciosa do predomínio dos detentores do Trabalho. dizem. As relações so­ ciais opositivas manifestam-se pela competição. os homens praticam relações so­ ciais positivas e outras opositivas. Mostra-nos a história económica. Em todas as eras.

surge a possibilidade das grandes concentrações industriais. e foi modelado pela acção dessas formas da técnica. vem aumentar a população dos grandes centros industriais. uma série de contingências. A técnica tem quatro fases princi­ pais: a eotécnica (eos em grego quer dizer aurora) ou au­ rora da técnica. por sua vez. também se organi­ zam em sindicatos para a defesa de seus interesses. que se organizam em sindicatos de classe. Na fase eotécnica. antigo) técnica an­ tiga. sobretudo. infectas. que só vão con­ quistar o poder político já em fins do século XVIII. do petróleo. à semelhança dos burgueses. que se forma nessa fa­ se. as bases do proletariado mo­ derno. com o apoio mais ou menos firme dos elementos capitalistas. natural­ mente. que preponderam. subdividido entre estes. quando se dá a chamada Revolução Indus­ trial. O PAPEL DA TÉCNICA efectivação se dá após a Grande Revolução Francesa de 1789. levam à perma­ nência dessa forma bárbara. Estes últimos. nas mãos dos feudais. nessa fase surge a maior exploração que se conhece na História. Nessa luta. e a presença teimosa de interesses e situações criadas. temos o aproveitamento da força da água ou do ar (moinhos de água e de vento). que também têm suas reivindicações ante a nobreza. Lewis Munford. companheiros e mestres. Nunca o espírito humano poderia conceber o excesso de exploração das fábricas. não a competição. praticamente. posteriormente. diferenciando-se dos companheiros e aprendizes. posteriormente. surge a paleotécnica. O capital. Em seu estágio mais elevado. o industrial. esses elementos. paleotécnica (paleos. O capi­ talismo surgiu várias vezes na História. para o seu equilíbrio. e. e das cidades-carvão. a biotécnica (bios. do carvão. a força motriz é a força humana e a dos animais. com a dos capitalistas. que vão constituir. é comercial ou financeiro. noutras produziu mais males do que bem. O capitalismo industrial é ainda incipiente. influído nelas também. As lutas do interesse exacerbam-se aí e. acrescentou uma quarta divisão. ain­ da nas mãos dos feudais. os capitalistas e os arte­ sãos. então. O trabalho é escravo ou livre artesanal. a pouco e pouco. disperso na primeira fase. e surgem as grandes cidades. O despovoamento do solo. arrastando atrás de si o cau­ dal de suas misérias. como se deu. o Estado é dominado ainda pela aristo­ cracia. Na eotécnica. tendo. Nessa fase. graças à energia transformada da madeira. Com a Revolução Industrial. cuja . em que. passa a concentrar- É de Patrick Geddes uma divisão da técnica. As actuais condições da técnica e da producção exi­ gem. formando uma unidade mais ou menos coeren­ te. com a predominância dos primeiros a princípio e. o poder temporal está sub­ dividido em poder político. finalmente. neotécnica. vida). Se durante o período da eotéc­ nica há forte exploração das camadas mais pobres em benefício das mais poderosas. O capitalismo. a nova técnica e. mas a co­ operação.148 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 149 épocas históricas. fase da humanização da técnica. cujo marco mais sim­ bólico é a máquina a vapor. e eco­ nómico. sobre o mercantil. cidades sujas. vão se tornando os ca­ pitalistas industriais. pode dar-se a união. entre capitalistas (burgueses) com a grande massa para arrancar o poder aos aristocratas (Revolução Francesa). posteriormente. No entanto. e unem-se aos mercantis e aos fi­ nanceiros. Nessa fase ainda se fortalece mais o capitalis­ mo financeiro. as corporações são formadas de arte­ sãos divididos em aprendizes. Na fase da eotécnica. de ricas lições para uma compreensão científica dos problemas sociais. Essa fase domina até meados do Sé­ culo XVIII.

o marxismo. e os choques sociais atingem o seu clímax. o poder económico é partilhado entre o Estado. e o poder eco­ nómico é partilhado entre ela e os remanescentes feudais. isto é: máxima concentração do capital. que o marxismo. No entanto. que penetra vi- . o capitalismo financeiro passa a predominar sobre o capitalismo industrial e mercantil. era um servidor dos interesses dos dominadores. e empobrecimento cres­ cente de quase todos os outros. que aplica a incorporação do inorgâ­ nico ao orgânico. Na fase de predomínio neotécnico. e de tal forma. Mas. menor ainda é e será o neotécnico. Surge a neotécnica. o desejo de independência actualiza-se «ra lutas terríveis. E filiando-se ao capitalismo financeiro. a alcan­ çar a autonomia individual e a familiar. O poder político desloca-se. e o aspecto do mundo to­ ma nova côr. não para os outros. O marxismo. Enquanto foi longo o período eotécnico. O proletariado. É que a biotécnica. que uma visão real dos acontecimentos levasse a Marx a acreditar que os factos se processariam na ordem que surgiram. nessa época. na neotécnica funda-se apenas sobre ideias. eis que surgem novos factos. sempre crescente. a eotécnica é a do melhor aproveitamento dos bens. Só na paleo­ técnica havia possibilidade de conservarem-se as formas de colonialismo dos povos mais atrasados. para que se dê a evasão da producção. e surgem. a colocação de fábricas nas fontes de matéria prima. constantemente. estava preso aos factos de então. que só têm uma finalidade: o lucro até o infinito (lucrum in infinitum). como se verifi­ cou. O Estado que na eotécnica. a conquistar o ócio e meios mais hábeis de divertimentos e de culturalização. mas. pois o prole­ tariado da neotécnica tende a desproletarizar-se. As condições sociais se modificam. e principal. A tendência é sempre para a centralização. A luta de classes agrava-se natu­ ralmente. que o centraliza. formando-se os grandes grupos capitalistas. que abrem um ciclo ainda não encerrado. novas descobertas. É preciso melhorar-lhe as condições culturais e económi­ cas. É natural. na paleotécnica. que permite uma indus­ trialização maior. passa a autonomizar-se. mas para si. da burguesia. as ideias revolucionárias do socialis­ mo autoritário e. que na paleotécnica era apenas um instru­ mento de trabalho. O poder político passa para a burguesia. que. E a razão é simples: é que a críti­ ca marxista.150 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 151 -se também. que nos países paleotécnicos encontra campo de acção. que é uma fi­ losofia do proletariado da paleotécnica. Nesta fase. mas. como producto dessa época. a pessoa humana é reduzida a número. nesta. Enquanto a paleotécnica é a fase do desperdício. é senhor da situação. e preparar o advento de novas formas. A América independente penetra no caminho da própria autonomia. permite o desenvolvimento crescente da humanização do trabalho. é olhado agora como consumidor. e o desenvolvimento de uma série de no­ vas descobertas químicas. e o proletariado passa a ser cliente. enriquecimento crescente de uns. graças à possibili­ dade da transmissão da força. sua força nos países neotecnizados. mas o poder político é quase totalmente assenhoreado pelo Estado. são essas vencidas pelas da neotécnica. Dessa forma há possibilidades de melhorias extraordinárias dos salários. fundava-se sobre factos. As revoluções havidas inverteram as polarizações de poder. com o domínio quase total do primeiro. Nesta fase. O ser humano é esquecido em sua dignidade. e os capitalistas. por influência do espírito de centralização da paleotécnica. e torna-se um po­ der. e mais curto o paleotécnico. que vão alargar as possibilidades. perde. há ainda a pre­ sença de formas eotécnicas e paleotécnicas. intervindo como detentor do capital. que aos pou­ cos a êle se subordina. na producção. entre essas.

E como não podem fundamenta-se na exploração desenfreada interna. realizam eles uma propaganda bolchevista maior que todos os dis­ cursos de seus sequazes. vê-se que a divergência. A política é arte. A ad­ ministração. Por isso a política é campo de divergências. a qual per­ mitirá uma descentralização ainda maior da indústria. ao estabelecer-se em relações sociais positivas. não se deve mais confundir uma com a outra. é tal o desenvolvimento hoje de formas de cooperação. que nesta fase é a mais desenfreada. permite a instalação mais há­ bil de formas de cooperação. torna-se ciência. E esse espírito fortalece o bolchevismo. Assim. co­ mo se processa. e morrerá com a des­ truição desse espírito. Mas o espírito de competição e de lucro desenfreado ainda predomina. Colocado o problema económico e histórico neste pé. como a da paleotécnica. genuinamente paleotécnico. Um país. universalmente válidos. graças à Técnica. etc. E ao mesmo tempo as exigências da cooperação gestam os grandes movimen­ tos de bairro. na neotécnica. actualmente. como os Estados Unidos. exige. como a administração o é da neotécnica. a neotécnica em sua marcha para a biotécnica. aumentam o custo de vida. e dos elementos que a compõem. a Suécia. co­ mo o iniciador prático da biotécnica. por não poder formar juízos universalmente válidos. esqueci­ das na fase da paleotécnica. A supervivência do marxismo se dá graças à existên­ cia da mentalidade paleotécnica de grande parte do ca­ pitalismo e dos homens públicos. transformado em estacanovismo. é superada pela adminis­ tração. já minorada pela neotécnica. embora aplicando a electricidade. da revolução industrial. por exemplo. grandes indústrias. O marxismo é apenas uma reac­ ção à exploração desmedida da paleotécnica. predomina sobre a administração. da neotécnica e. a cooperação que. desde logo. sobretudo em paí­ ses como o Brasil. já predominantemen­ te neotecnizado. Tanto o Trabalho como a Natureza e o Capital podem tomar função social. representado pelo marxismo. nos Estados Uni­ dos. e harmonizarem-se com o natural desaparecimento do capita­ lismo paleotécnico explorador e de seus apêndices. Assim a política é própria da paleotécnica. empresas agrícolas. de mutualismo. A política. é a de uma reacção ao capitalismo paleotécnico de um lado. Podemos considerar a Holanda até o sé­ culo XVIII como o país típico da eotécnica. não tendo iniciado ainda nenhuma reforma na indústria a caminho da humanização do trabalho. como nun­ ca conheceu em sua história. dadas às liga­ ções mais directas da producção. e como arte trabalha com juízos de valor. por não poderem negar o alto padrão de vida e de liberdade do trabalhador americano. os in- . Nos Estados Unidos. Des­ sa forma. que no seu afã de combatê-lo. A energia atómica será a energia predominante desta nova fase. A neotécnica.152 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 153 toriosamente. a Inglaterra. na Suécia. Sim. obriga os bol­ chevistas a certas modificações de propaganda. predispõe a valori­ zação das ideias de cooperação correspondentes. que é diverso daquele. A própria Rússia ainda é um país paleotécnico e a sua indústria. a que ora assistimos. bancos pertencerem a cooperativas. desvian­ do para o terreno internacional a crítica sem bases só­ lidas no terreno nacional. engloba o neotécnico. sobrevivente ainda graças à predominância da mentalidade paleotécnica. os Es­ tados Unidos. que vemos ali dezenas de compa­ nhias de petróleo. de apoio-mútuo. segue aquelas normas. aproveita as lições do taylorismo. afirmam apenas o papel imperialista. com juízos de existência. e trabalha. Tudo se prepara para evidenciar que o marxismo foi ape­ nas uma filosofia paleotécnica. toda vez que os capitalistas de mentalidade paleotécnica exer­ cem uma exploração.

Por outro lado. porque o capitalismo de que aqui se fala é o paleotécnico. O papel do intermediário-encarecedor. o dilema apresentado: capitalismo ou comunismo. etc. Quis o Estado intervir como elemento coordenador desses factores. for­ mas de exploração capitalista paleotécnica. O estabelecimento de formas de cooperação permi­ te a solução de tais problemas. conjugando. encravado entre a producção e o . A actividade dos trabalhadores. há um dirigente para cada onze trabalhadores. quando. a formação do Estado-patrão do bolchevismo. por isso. o fautor de uma situação de mal-estar social. que entre nós são os maiores beneficiários entre a Producção e o Consumo. que é predominan­ te na paleotécnica. os bens pro­ duzidos. Despovoa a terra. se. sociedades de apoio-mútuo. paleotècnicamente. socieda­ des de Producção e Trabalho. suga de um lado e de outro. cooperativismo são e não de cooperativismo híbrido. o único comprador do trabalho humano. que acoberta. a média de um dirigente pa­ ra cada três trabalhadores. co­ mo o nosso. desaparece o comprador e o vendedor do trabalho humano. evitando. porque podem perfei­ tamente harmonizar-se entre si. e empobrece a cidade pelo aumento do preço. é o exemplo maior da degeneração paleotécnica. apenas dirigida pelos interesses de grupos restritos. como uma necessidade histórica. A Rússia. muitas vezes. para surgir a sociedade cooperacional. sem sacrifício de nin­ guém. Só pelas formas de cooperação entre productôres e consumidores se pode resolver esse quisto perni­ cioso. na Rússia. assim. Pelo cooperacionismo. Desaparece o espírito de competição. que acoberta em suas oficinas milhões de burocratas. melhorando sensivelmen­ te a posição dos trabalhadores. NOSSA SITUAÇÃO consumo. a fim de assegurar seus lucros desmensurados. por meio dos buro- É falso. para sobrevir uma nova ordem social que ampare os interesses de todos. Assim coloquemos de um lado a Producção. Uma nova moral surge então: a moral da cooperação. (que concentra em suas mãos. e que. de outro lado o Consumo. grupos de compra. A cooperação surge. que passam a ser donos também do que produzem. em certos países. Visando apenas aos próprios lucros. ape­ nas consumidores. pela exploração dos agricul­ tores. mas essa intervenção deu-lhe tal fortalecimento. É que o Estado burocratiza-se monstruosamente. pois. Trabalho e Natureza. excrescência sobretudo paleotécnica. devido à intervenção do Estado. que o tornou supinamente maléfico. humanizando o trabalho. o productor. que deverão substituir a forma unilateral da sociedade capitalista paleotécnica. para benefício de todos. e acaba por tornar-se uma forma vi­ ciosa pior do que as outras. país de produc­ ção mais cara do mundo. como entre nós. forma­ da pelo Capital. Há. que dele não precisam. desde logo. pode penetrar na neotécnica e na biotécnica. nos Estados Unidos. Falso. que destina. o po­ der económico e o político). dentro das formas de cooperação. Desaparecida a exploração paleotécnica. melhorando a sua situação pela ausência de um sanguessuga. e ambos ocuparão o seu lugar correspondente no museu. resolve imediata­ mente seus problemas.154 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 155 termediários-encarecedores. que pertence a todos. e o comunismo é o seu filho rebe­ lado. desaparece o bolchevismo automaticamente.

e dos elementos científicos e históricos que dispunha. que produz. tivemos a organização industrial do trabalho. no mundo actual. e colaborar para uma melhoria tó­ nica do homem. que lhes permitissem ver o pa­ pel extraordinariamente revolucionário da Técnica. que acei­ taram tais ideias. à vida humana. penetramos em plena fase biotécnica. por entre os benefícios de carácter social que apre­ sentaram. ameaçadas pelo totalitarismo desen­ freado. é torná-lo humano e agradável. nos ofereceram também uma exploração desen­ freada e estúpida do homem. Utilizá-lo. é ofender a sua dignidade. A humanização do trabalho da biotécnica contribui para es­ sa dignificação sem prejudicar a productividade. Há entre os comunistas muitos homens sinceros (co­ mo os há em todas as correntes doutrinárias). podemos e devemos dar um carácter orgânico. A desarmonia do mundo paleotécnico é um verda­ deiro inferno para o homem transformado em peça de uma grande máquina. As experiências modernas da musicote­ rapia.156 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 157 cratas do Estado e do Partido. As experiências modernas sobre o que se chama de "humanização do trabalho. Na verdade. O trabalho mecanizado mecaniza o homem. transformá-lo em peça de um mecanismo. em todos os sentidos. por exemplo. O HOMEM É UM FIM E NÃO UM MEIO Nunca devemos esquecer essa grande verdade: o ho­ mem é um fim e não um meio. No en­ tanto. a qual promove verdadeiros saltos qualitativos. que. Humanizar o trabalho é afastá-lo da rotina.. e em seu mis­ ter dava o melhor do seu esforço. cujas transformações permitem a actua­ lização. e permite a con­ creção de novas formas. é as­ segurar sua maior productividade. sofrem a influência modela­ dora da Técnica. da vida trepidante de nossos dias. torna-se o usufrutuário dos bens produzidos. Os ruídos de uma oficina. que é até aumentada. porque o ritmo é um tonificador da acção. a aceitação espontânea. Com a humanização do trabalho. formam uma grande sinfonia dissonante. nos mostram como a música pode curar tantos males. É preciso saber distinguir os fantasmas do que é pro­ priamente realidade. Marx. graças aos erros e defeitos das formas viciosas da paleotécnica. ante a realidade de sua época. da repetição simétrica. que nos deu as formas super-civi- lizadas paleotécnicas do taylorismo e da racionalização. As formas de producção e as suas relações. a cooperação assegura a liberdade e a dignidade humanas. Dessa forma. Depois das formas humanas do artesanato. das ruas. que só prevalece e se impõe. mais biológico portanto. em que o trabalhador escolhia sua profissão. daquelas ideias que ha­ viam sido esquecidas nos turvos períodos do pleno domí­ nio paleotécnico. sua crítica ao ca­ pitai é paleotècnicamente justa. . assegurando nas oficinas um ritmo harmónico das máquinas e dos sons. ricas de generosas possibilida­ des. tornam o tra­ balhador mais activo. por lhes ter faltado uma visão analíti­ ca dos factos históricos. não poderia ter outra visão. A HUMANIZAÇÃO DO TRABALHO A organização do trabalho foi sempre um tema que preocupou seriamente os trabalhadores inteligentes e to­ dos os que se interessaram pelo bem estar do homem.

a elevação de homens dignos e competentes. Aceita factos consumados. porque eles não buscam a no­ toriedade. sob base meramente quantitativa. nunca serão elevados aos altos pos­ tos. o fosse para pior. Nosso processo eleitoral. negativa até. Não podemos. por injunções e interesses partidários. o qual consiste na carência de homens sufi­ cientemente hábeis. entre nós traz e trará maiores males. de verdadeira representação popular. a organização administrativa. sob a base eleitoral selectiva e qualitativa. Portanto. Por isso. que se vêem coarctados pela acção dissolvente dos politiqueiros. e exige uma solução que se enquadre dentro das nossas condições. não do povo. É povo fatalista. o analfabetis­ mo. O Brasil tem condições ainda fracas para formar uma democracia. não pac­ tuariam com certas indecências. permite uma selecção inversa. Além disso. Dessa forma. Temos de organizar a nossa vida econômico-social. mas administrativas. que devera ser se­ lectivo para melhor. em regi­ me de caçadores de cargos electivos.158 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 159 O QUE SE DEVE ENTENDER POR DEMOCRACIA A palavra democracia terminou por ter o destino de todas as palavras: perdeu seu legítimo sentido original. seria até mau gosto. porque todos sabem como essas notas são marcantes da nossa política. Se essa política paleotécnica é prejudicial em países que já alcançaram um nível de cultura elevado. o problema da autoridade no Brasil é o mais complexo. decorrente do analfabetismo. A política favorece a investidura de autoridade. A selecção de valores será sempre frustrada. Além de aumentarem o desvalor de muitos guindados aos altos postos. os políticos mal intencionados não os quereriam por serem incómodos. impediria al­ cançassem os postos de responsabilidade homens que não . ADMINISTRAÇÃO NEOTÉCNICA Dadas as nossas condições de cultura. a exiguidade quantitativa e qualitativa de nossas es­ colas. enquanto conti­ nuarem essas condições. deixar de fora dos lu­ gares correspondentes os que realmente são os indica­ dos para os mesmos. e frus­ tra a acção desinteressada e honesta daqueles homens pú­ blicos. Tais condições permiti­ ram que o sistema de representação. com toda a degene­ rescência consequente dos que transformam os meios em fins. o Brasil é um país que defronta um dos maiores problemas. Essa realidade triste de nossa terra é pró­ pria do espírito paleotécnico que ainda a domina. Falar de certos homens públicos. mas dos representantes do povo. que visam ao bem de seu povo. A índole pacífica e hospitaleira do nosso povo é realmente democrática. e muitos ho­ mens dignos de nossa terra negam-se a ombrear com cer­ tos politiqueiros por questão de pejo. da incultura e da falta de saúde. com o aproveita­ mento de todos os elementos de real saber para penetrar­ mos na neotécnica e na biotécnica. nós não podemos continuar imi­ tando as práticas de outros povos. não sob bases propria­ mente políticas. Tornou-se. No entanto. a pouca amplitude de nossos conhecimentos mé­ dios. está vedada. de sua venalidade e de sua incompetên­ cia. não lhe permite aspirar à responsabilidade. Ora. A democracia representativa é uma organização. apesar das hon­ rosas excepções de homens bem intencionados. escolhidos pelo sistema mais falso e mais prejudicialmente selectivo. Dado o número restrito de elementos de real competência intelectual. nem se prestariam a cer­ tos manejos. e permite a pessoas inábeis guindarem-se a postos de grande responsabilidade para os quais seriam exigíveis conhecimentos amplos. mas a inércia. esses valores são desconhecidos do povo.

e que não o fazem pela simples razão de serem avessos. a autorida­ de do médico. a reacção correspondente tinha de tomar a forma de uma destruição extremada do individualismo. a liberda­ de do índio e o estoicismo do negro. que dirige atrás das cortinas o Estado. nascem e vivem numa simbiose impressionante. em que um se alimenta do que outro dejecta. uma boa forma de defender. por intermédio dos quais se processa a ditadura. mal orientada. que gostaria de derramar-se em manifestações afectivas mais amplas. por seus fundamentos científicos e filosóficos. porque atacar mal é. e pode projectar-se como uma solução de confraternização dos ho­ mens em todas as partes do mundo. fizeram-no tris­ te. como propomos. ESPIRITO PALEOTÉCNICO É natural que ante as injustiças do capitalismo paleotécnico e de suas formas de exploração. Há uma frase que corre de boca em bo­ ca. a cooperação é uma solução bem nossa para problemas nossos. é um povo fraternal por natureza. que elege. advogados. como por exigência económica. Pode ter uma forma internacional. em nome do proletaria­ do. passa. Sobretu­ do daria uma solução cabal à autoridade investida. que não seja uma cópia das construídas em países de características diversas. inculta. que está nas mãos do capitalista pa­ leotécnico. a cooperação se impõe cada vez mais. os olhos de muitos se volvam para a Rússia. E no Brasil se impõe. necessitamos da presença de todos os brasileiros cultos para essa obra grandiosa. sob base de representação das capaci­ dades reais. Como o capitalismo paleotécnico é totalmente vertido para um individualismo extremado. porque também. tem servido para fortalecer o movimento bolche­ vista. Nós. realmente. O brasileiro é um povo amante da paz. Capitalismo paleotécnico e bolchevis­ mo são consanguíneos. graças aos seus meios de propaganda. do engenheiro em seus misteres. O poder. e que expres­ sa o espírito cooperacionista do brasileiro: "dar a mão ao amigo". que poderiam dar par­ te de sua actividade em benefício do bem comum. neces­ sitamos da construcção de uma visão genuinamente nos­ sa. brasileiros. por exemplo. Há médicos. de população reduzida e de capitais escassos. Herdamos aquele coração dos portugueses. mas pelos elementos burocratas do partido. Para construirmos um novo Brasil. estimulada na e pela neotécnica. inerente. mas conserva e permite de­ senvolver um conteúdo nacional. mal feita. professores. refrac­ tários à política. mas um colabora­ dor por natureza. por exigência das realizações técnicas. A contingência de sua vida e de certas condições históricas. resolveria um dos nossos maiores problemas. porque tem suas pro­ fundas raízes também na alma de nosso povo. a primeira forma viciosa encontrou pela frente ou­ tra forma viciosa. os represen­ tantes que lhe convêm. técnicos. Por isso. A cooperação. A organização. O brasileiro não é um competidor. engenheiros. não só por exigência técnica. a ser. é uma acção aplicável a todas as regiões do mundo. no bolchevismo.160 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 161 estão à altura dos mesmos. Nessas condi­ ções. apático até. em outras partes. Uma propaganda anti-russa. com . Somos um país de grande extensão territorial. selectivamente organizada. onde julgam dar-se uma experiência socialista. substituindo-a pela autoridade funcional. não mais dirigido e orientado pelos capitalistas. por todos os quadrantes de nossa terra. É sobre esses pila­ res que temos de construir a nossa humana visão das coi­ sas.

e alimenta com seus erros a propaganda bolchevista. Todos os homens responsáveis se preocupam hoje em dar ao trabalho aquela alegria sempre reclamada. quem pode impedir o progresso do bolchevismo? Combater o espírito paleotécnico e suas bases reais é uma imprescindibilidade. vigora ainda. O que ora se observa no mundo. aquela harmoniza­ ção dos esforços e dos movimentos para um equilíbrio di­ nâmico criador. que é a biotécnica. por índole. nobre. o bolche­ vismo só pode tornar-se num regime de ascendente falta de liberdade. cada dia que passa. A neotécnica. a livre escolha da profissão. E conosco estão professores. que a neotécnica firma suas bases ideais ao lado das bases reais. que elas geram. sociedades de compras. o momento exige a libertação to­ tal dos fantasmas do dilema: capitalismo paleotécnico e bolchevismo. com o espesinhamento de toda decência. nas quais se condensaram as promessas total­ mente incumpridas dos bolchevistas) para ver-se clara­ mente o desmentido da prática a todas as afirmações feitas. em todos os sectores. sem dúvida. vencendo os obstáculos dos céticos e dos indiferentes. Em face de tais atitudes e das in­ justiças. aquela humanidade pre­ gada pelo cristianismo. engenheiros. nos mostra paten­ temente. e também oferecem seus esforços a esse am­ plo movimento. etc. agricultores. "Que importa é o dinheiro": essa frase é bem o reflexo dessa hora. porque do contrário não poderia estabelecer-se a complexidade da troca e das relações cor­ respondentes. As­ sistimos à prática quotidiana de um "rush" desesperado ao dinheiro transformado em fim. as famosas teses de Abril. que deseja fazer o contrário do que é feito. precisa ingressar vitoriosamente em todos os sectores. etc. fundando co­ operativas. avas­ salando amplos sectores. homens se erguem nes­ sa obra imensa de cooperação. mais ou menos liberal. operários. com seu espírito eugênico.162 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 163 a substituição dos capitalistas. Hoje. que são liquidados. donas de casa. O desejo de paz que anima os homens só se pode concretizar através de uma obra social benéfica. unindo suas fraquezas pa­ ra torná-las força. que é. Nes­ se caso. Por necessidade histórica. . fustigando com energia a concupiscên­ cia do paleotécnico desenfreado. e por um grande querer humano. Basta ler-se a literatura bolchevista antes da revolução de outubro (por exemplo. Mas é preciso mais! É preciso que o espírito biotécnico já se forme numa antevisão do que será a sociedade humaniza­ da de amanhã. no entanto. médicos. eleva-se de forma empolgante. sem o menor respeito aos meios. o surgimento da biotécnica. apelando para o povo pa­ ra organizar-se em função administrativa. aquela humaniza­ ção. é claro e patente. pequenos comerciantes. que o bolchevismo é apenas a identidade inversa do capitalismo paleotécnico. advogados. a viga mestra do que há de melhor em nossas almas. Por outro lado. saudável. Enquanto o capitalista tem de ser. no intuito de adquirir uma fortuna mal fundada e inconfes­ sável. que completa perfeitamente o ciclo da neotécnica. de producção e consumo. perder a similaridade com o con­ trariado. sociedades de traba­ lho e capital. é um ideal de reacção. em suma. sacerdotes. Capitalistas bem inten­ cionados já compreenderam a marcha imprescriptível do progresso. homens e mulhe­ res de todos os matizes. todas as for­ mas que a cooperação apresenta como as bases funda­ mentais da transformação da neotécnica na fase mais progressista. O espírito paleotécnico. Compreendem todos que o mo­ mento exige uma acção imediata. do trabalho e da vida. aquela eugenia anelada desde os gregos. no entanto. sem. aquele prazer do artesão amante de seu mister.

podemos afirmar sem receio. Graças aos grandes inventos. O MEDO AO GRANDIOSO Se nos lembrarmos de como Leonardo da Vinci ima­ ginava o vôo humano. e pode realizar muito mais do que a mais escaldante e atrevida imaginação pode criar. da ca­ pacidade acquisitiva da população) mereceu estudos es­ peciais. querem negar a possibilidade de no­ vas formas e de novas experiências. E esse caminho tem e deve ser trilhado. sem excepção: moradia. se relatado em certas épocas. entre a Alemanha e a França. graças à ciên­ cia. A cooperação não tira nada de ninguém. se recordarmos tudo quanto o ho­ mem já sonhou. nas relações humanas po­ sitivas. na ampla cola­ boração de todos os esforços. na sua experiência. e as soluções podem ser imediatamente aplicadas. oferece-se para o mundo uma solução pacífica dos grandes problemas sociais. não trabalha com relações sociais opositivas. porque aí o vencido ganha pelo menos um novo conhecimento. sucede que a cooperação já provou através dos tempos muito das suas possibilidades. sim. sem grande esforço.164 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 165 Nem um nem outro! É a exclamação de todos. O homem da época napoleônica. nunca poderia imaginar o avião moderno super-sônico. roupa. O problema da solvabilidade popular (isto é. só trouxeram males e ainda amea­ çam trazer maiores à humanidade. Que­ remos. respeitando as nossas condições. Podemos e devemos competir onde a compe­ tência não é destructiva: no mundo das ideias. o sonho mais quimérico estão muito aquém do que a humanidade realizou através da aviação. Ante a luz poderosa das novas ideias e das novas práticas. devora muitas cons­ tituições mesquinhas. a mais audaz ficção. por uma hábil aplicação dos nossos co­ nhecimentos. as sociedades que virão unir os homens. que unirão a todos. alimentos. O medo ao grandioso. Não é essa a primeira vez que o homem realiza o que seria loucura. que a mais escaldante imaginação do homem antigo. No mundo da economia. sem sacri­ fício de ninguém. podemos assegurar a todos. os benefícios da neotécnica já apoiada no cooperacionismo da biotécnica. instrução. o medo ao extraordinário. término do capítulo das com­ petições para abrir o da grande cooperação económica dos povos. Ora. e que fundarão o respeito à dignidade humana. e não termos medo de superar-nos. O capitalismo paleotécnico e o bolchevismo são ver­ dadeiras excrescências. educação e diverti­ mentos. o homem da guerra de 70. nas sociedades poderosas de Producção e Consumo. ambos. Assim tais factos nos mostram como é quase sempre ingénua a atitude dos que. graças aos progressos da técnica. Temos do nosso lado a técnica científica. É a exclamação que há de ecoar pelo mundo inteiro. a cooperação natural do homem não pode ser impedida. fundados na sua "realidade". Não é essa a primeira vez que a realidade supera a imaginação. E não é preciso ir muito longe. e hoje. Pois é dado o momento de aprendermos com a His­ tória. * * * . dois anacronismos na época pre­ sente. Apenas quer fundar. O medo de ultrapassar a si mes­ mo impede a muitos de empreenderem a marcha supe­ rior. graças a esse imenso factor da história moderna. as quais diferem das velhas práticas que só arrastam ao aumento do custo da vida e ao consequente estagnamento da producção. que é a Técnica (que é uma unidade harmónica da inteligência e do traba­ lho). na aproximação entre os homens. com sua visão deformada pelo ódio e pela concupiscência.

166 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 167 A cooperação pode ser posta em prática imediata­ mente. por um Brasil melhor. e a bolchevista. orientados pelas normas já dispostas. Devemos procurar construir um novo Brasil. O que mora nos campos tem muitas ocasiões de ofe­ recer seu auxílio a companheiros necessitados. não de aventurismo político e económico. dar o grande salto qualitativo que nos leve das formas eotécnicas para as neotécnicas. Cada um já pode realizá-la em seu âmbito. da mentalidade capitalista paleotécnica e de certa influência alienígena. Não po­ demos dar um amplo apanhado das possibilidades de nos­ sa prática. a Dinamarca. que custam a . assim como a liberdade só se torna prática. Assim como a Holanda pôde livrár-se da paleotécnica. passando da eotécnica para a neotécnica. no Brasil. aos que aceitam também nossa prática. não de competições. quer na colheita. mas em actos. a libertação económica de nosso país. mas todos podem perfeitamente ver. a Finlândia (essa eterna resistente ao espírito paleotécnico dos bolchevis­ tas). psicólogos e trabalhadores. com seus ódios correspondentes de reacção. O cooperacionismo apresenta um campo de acção e pro­ move fórmulas que podem desde logo oferecer benefícios ao povo. que impediram ao Brasil. Devemos estimular a transformação de nossa producção paleotécnica em neotécnica inaugurando-a com a acção combinada de médicos. e organizar gru­ pos autónomos que estabelecerão um programa de acção. prática e objectivamente. em face das grandes experiências já realizadas e da riqueza de nos­ sa terra. filhos desta terra e dos que a escolheram como a sua nova pátria. penetrar na senda de um progresso neotécnico. poderiam multiplicar suas for­ ças. quer em qualquer obra de cons­ trução. aproveitando os exemplos das grandes obras já realizadas nos países mais avançados. que temos um futuro a realizar. a mais ampla humanização do trabalho. a união não deve ser pregada em palavras. além de ig­ norantes. com a coadjuvação de políticos mal intencionados. Cada um deve reunir-se aos seus afins. se unidos na obra do plantio e da colheita. quer no plantio. Será acção combinada de homens responsáveis e bem intencionados. podemos nós. pela prática da pró­ pria liberdade. A melhor propaganda é a do acto e a cooperação só pode impor-se pela prática. e mostrar que todos unidos podem realizar muito em seu benefício. a Suíça. É prática social da cooperação. com seu desejo de lucro insaciável. AOS HOMENS DE RESPONSABILIDADE DO BRASIL "O atraso técnico que conhecemos no Brasil decorre do espírito feudal eotécnico de certo agrarismo ainda es­ cravocrata. e destas à biotécnica. Deve oferecer seu apoio. no caso da agricultura. Há inúmeras formas práticas de cooperação que po­ dem ser executadas em qualquer lugar. e não esperar por outros para iniciar a obra de renovação so­ cial. por exemplo. e aproveitar a oportunidade para pregar imediatamente as ideias de cooperação. quer unir. Não quer separar. por todos anelada. com imediatos efeitos. e actuando livre­ mente dentro do seu âmbito. O cooperacionismo não é partido político. Não esqueçamos que os aspectos negativos e dissolventes a que assistimos hoje em nossa vida são alimentados pelas duas mentalidades que devem desaparecer: a paleotécni­ ca. de todos os quadrantes do país. que pode­ mos estabelecer. como igualmen­ te o fêz a Suécia. Os pequenos camponeses. e que êle depen­ de apenas da boa vontade dos homens.

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carne dos pobres, mas um Brasil de cooperação, o verda­ deiro Brasil, que será um exemplo de paz para o mundo. O gigante adormecido, ridicularizado pelos explora­ dores, há de despertar. Não para forjar novas algemas, mas para libertar-se das que tem, e das que lhe querem impor. O Brasil assim colaborará com todos os países do mundo para uma nova humanidade. Não temamos criar. Não aceitemos a velha mentira de que somos incapazes de criar. Podemos construir, embora com poucos ao início, mas que serão milhões amanhã, uma pátria realmente fe­ liz, uma pátria de fartura, uma pátria de paz, a verdadei­ ra pátria do povo, que é aquela em que todos têm seus interesses ligados, cujos bens, cujos frutos são de todos os homens que trabalham para o bem de seus semelhan­ tes, e não querem transformar seus irmãos em instru­ mentos de exploração. Projetemos no Brasil, na Améri­ ca e no mundo, esse genuíno espírito de cooperação do nosso povo, (a mão estendida do brasileiro e o seu gran­ de abraço fraternal), que é a melhor de sua afectividade. E desde já, alertados e activos, pela grande luta que é a vossa, a de vossos pais, de vossos filhos, de vossos ami­ gos, de vossos irmãos! Se tendes medo de lutar por um ideal, ao menos não fortaleçais as legiões dos exploradores. Demiti-vos como homem, porém não vos inscrevais, como escravo, sob a bandeira dos feitores de homens: a bandeira do capita­ lismo paleotécnico, explorador desenfreado, e do intermediário-encarecedor, e a do outro capitalismo de homens, que os movimenta como números, o bolchevismo, o filho rebelado da paleotécnica."

ANALISE GERAL DE NOSSA ECONOMIA
81) É o brasileiro, por educação e influências alie­ nígenas, um descrente de si mesmo. Não é a nossa juvenilidade que nos impede de criar, porque, na História, povos mais novos do que nós criaram. Tememos, apenas, criar. Preferimos reproduzir o que é feito em povos avançados, e nunca temos a coragem, como pássaros tímidos, de sair da gaiola de ouro da ex­ periência alheia. Somos, por isso, um povo de mentali­ dade colonialista passiva. Essa falta de coragem é a gé­ nese, também, de um horror à responsabilidade, que nos leva a preferir o que já foi feito ao que é novo, de ori­ gem nossa. Pois, se errarmos ao realizar o que outros realizaram, temos a impressão que transferimos aos ou­ tros povos a responsabilidade do erro. No entanto, es­ quecemos que as consequências daquele recaem sobre nós. É uma banalidade reconhecer que somos diferentes dos outros povos, e o que deu resultado em um país pode não dar entre nós. Entretanto essa evidência é esqueci­ da sempre. Se observarmos bem o aspecto cooperacional das conjunturas de um povo, poderemos compreen­ der o bom êxito de uma medida, que, entre nós, malogra por não terem merecido o mesmo exame as nossas con­ junturas. Se queremos acertar, e podemo-lo, não nos será pos­ sível esquecer o que coopera com a nossa economia. E assim como há graus de cooperação, há graus de coope-

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ração das conjunturas, umas mais benéficas do que ou­ tras. Tal conhecimento já abre caminho para procurar­ mos desenvolver uma conjuntura para que ela possa ter uma influência benéfica. Não deveriam nunca esquecer os nossos economis­ tas e financistas que as "cifras" são apenas traducções, para facilidade de expressão, das facilidades económicas. O simbolizante substitui o simbolizado, por não ter este acomodação actual, mas deve sempre estar apto a ser substituído por êle, sob pena de ocultá-lo definitivamen­ te ou não, e prejudicar a boa inteligência do mesmo. O salário, em cifras, é uma traducção do "standard" de vida, como a producção em cifras é uma traducção da actividade económica nacional. Por outro lado, nunca se deve esquecer a verdadeira significação da moeda tão confundida com a do dinheiro, de lamentáveis consequências. A moeda é um significan­ te. Sinal de todas as categorias económicas, surge nas obras de economia, ora como riqueza, ora como reserva de valor; ora como medida comum de valores e serviços, ou como instrumento de pagamento, ou mercadoria, ou convenção, ou expressão de trabalho, ou capital, ou ain­ da como instrumento de conta, ou direitos, ou represen­ tante de valor ou crédito, ou instrumento de actividade económica e muitas outras modalidades que provocam inúmeras e inúteis disputas entre economistas e finan­ cistas. Como sinal (e esse é o verdadeiro carácter proteico da moeda) é sempre algo que está em lugar d e . . . E como é fácil confundir-se o significante com o significa­ do, caem os economistas nesse erro, e disputam entre si o significado, o que aponta o que é a essência em suma, da moeda. Na verdade, é ela, portanto, um significado, e como tal é um meio.

E como todo facto económico se processa num ten­ der para a troca, é ela meio de troca, e tem, como teve, e terá, o papel de facilitador da troca, e não o de emba­ raçá-la. E, por ser um meio, nunca deve ser confundida com um fim. Deve ela facilitar o desabrochamento do facto económico e não coarctá-lo. Hoje, ela antecede à troca, e nesse caso, existe antes da troca, como um acordo sobre o futuro, e sua cifra significa apenas a traducção do que ela representa em bens capazes de satisfazer necessidades. Que diríamos de um matemático que quisesse, com a Matemática, fal­ sear os factos e ocultar a verdade? Não seria falsear os fins da Matemática? O mesmo é falsear os fins da Eco­ nomia se forem trocados ou falsificados os seus verda­ deiros conceitos, que terminam por violar suas invariantes. Em toda ciência cultural, é de magna importância a presença dos variantes e dos invariantes, e nunca devem os primeiros ser desprezados em benefício dos segundos, e vice-versa. Um hábil manejo entre ambos permite me­ lhor acomodação aos factos e melhor assimilação dos mesmos. Preferimos aqui chamar de invariantes o que se costuma chamar lei, evitando o sentido restrito deste último termo. Esses invariantes nem sempre são profundamente compreendidos. Mas, na verdade, toda a vez que os afrontamos, es­ tamos às portas de um grande risco. Somos, por exemplo, um país capitalista, em que ainda predominam formas eotécnicas e paleotécnicas de producção, com um primário desenvolvimento neotécnico, e com grandes possibilidades biotécnicas. Nossa eco­ nomia é uma economia de um período terrivelmente caó­ tico, e por isso, mais que outras, exige um estudo de con-

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junto e do seu processo, bem como a maior preocupação em não ofender esses invariantes. Pois bem: o valor de uma economia não reside nas cifras, mas na própria economia. O espírito da finança, que tende a actualizar a traducção em vez do traduzido, o símbolo, em vez do simbolizado, levou o mundo capi­ talista inteiro às absurdas concretizações do padrão ou­ ro, do crédito bancário falso, da capitalização, da moeda-mercadoria, etc, para cair, finalmente, nessa longa his­ tória das especulações, que tantos males trouxeram em muitos países mais avançados, e que, hoje, entre nós, avassala muitas inteligências. Tratamos da nossa economia não com o espírito do economista, mas com o espírito do financista. Submetemos a economia à finança, porque conside­ ramos as cifras como concreção do valor real. Ganhar dinheiro com o dinheiro, sem que esse di­ nheiro seja traducção de um acto económico, é ser finan­ ceiro. Mas a indústria e o comércio vivem, se proces­ sam e se desenvolvem apenas através de trocas. É fácil compreender-se que, na troca, há apenas estes elementos: producção, com as trocas imanentes de trabalho, capital e natureza, e o Consumo, como fim teleológico e eficaz A cooperação entre producção e consumo se torna sem­ pre exigente, porque o falseamento ou actualização ape­ nas de um dos aspectos tem sido sempre de terríveis con­ sequências. Há, assim, um valor de trabalho, que está em função da producção, do produzido, e um valor de producção, que é determinado pela quantidade ou pela qualidade, ou por ambos juntos, desse trabalho utilizado pela produc­ ção. O consumidor (são todos) não pode ser desprezado nem considerado como elemento autónomo, que trata de

si, mas como meta da producção, como finalidade desta, não em sentido individual capitalista, mas em sentido so­ cial. Estimular a producção não é apenas financiá-la. E em breve veremos por que. E embora se considere o consumo como implicado naquela, esquecem-se muitos economistas que há antagonismos entre ambos, muito mais profundos do que os que nos surgem apenas atra­ vés das oscilações da lei da oferta e procura, que já des­ dobramos, para que, por sua vez, também não contribua para falsear a realidade. Costumam os economistas, quanto ao trabalho, virtualizar o aspecto qualitativo para considerar apenas o quantitativo, e facilitar sua medida através do tempo do trabalho, unidade de tempo, e as consequentes unidades de producção. Compreender-se que há uma intrínseca luta, um antagonismo entre quantidade e qualidade, im­ pediria todos os erros que são comuns nos estudos sobre o valor dos salários, que fica reduzido apenas à quanti­ dade de producção, que permite ao trabalhador consumir. Realmente, na troca, o valor do salário é mostrado pelo seu poder de consumo. O poder de consumo de um povo é igual à sua pro­ ducção total. E é essa producção, o valor do trabalho de um país. Mas, nas relações entre trabalho e capital, há uma eifra: preço. O trabalho, medido pelo tempo, realiza uma produc­ ção, recebendo um salário, que é uma cifra. E essa cifra é o que permite falsear o valor do tra­ balho. E isso porque essas cifras são puramente convencio­ nais, e não são adstritas a nenhuma invariante económica propriamente.

da Técnica. O erro do liberalismo económico foi precisamente não ter considerado esse aspecto cooperacional. exacerbou-a através de suas experiências mal orientadas. como se observa na maioria das escolas socia­ listas. O trabalho. Os erros da econo- mia paleotécnica. seria um erro pensar numa liquidação do indivi­ dualismo. pois. e deu os frutos ácidos de nossa época. mas dentro dos próprios ho­ mens. mas ambos podem cooperar. segundo as circunstâncias.174 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 175 Para manter-se o valor do trabalho. Vejamos. nem perturbar o desenvolvimento da livre empresa. não deve o homem ser consi­ derado fora de sua realidade histórico-social. As­ sim. A luta entre o individual e o colectivo não se obser­ va apenas entre os homens. nem social. e a cooperação entre ambos aspectos. mais do que se pode calcular. Considere-se o decrescente de nossa agricultura. Não podemos falar actualmente em prosperidade no Brasil. Mas a Técnica é uma conjugação da actividade com a inteligência. maior que outros povos. mas acompanhada por uma justa partilha dos seus resultados. bastando não falsear a norma cooperacional dos valores. ao lado de um aumento crescente no volume demográfico. por tomarem separadamente pela inteligência o que é separado pela inteligência. E para tanto. sem prejuízo de nenhuma actividade lícita e honesta. e que não se separa na reali­ dade. por isso anacrónico com a nossa época. 82) Os factores da producção. e que levam a pers­ pectivas várias quanto às categorias da Economia. essas cifras pre­ cisam ser revisadas segundo a producção e seu valor res­ pectivos. nem forçar a interferência do Es­ tado além dos seus limites benéficos. levou ao agravamento dessa luta. Há. mas essa colisão não nos deve levar a pensar na liquidação de um dos antagonistas em bene­ fício do outro. que anda mais depressa que os economistas liberais. nem individual (salvo as excep­ ções comuns). com grande re­ dução na producção. Os factos comprovam que o brasi­ leiro tem hábil acomodação e consequente assimilação da Técnica. o trabalho tem um valor tónico menor que em países de clima tempe­ rado. Colidem muitas vezes os interesses colectivos com os individuais. não podem nem devem deixar de ser considerados como são e como se actualizaram. O antagonismo entre ambos nos revela aspectos in­ teressantes que seria longo examinar. A compreensão nítida da cooperação dos valores re­ lativos permitiria um equilíbrio social. não há necessidade de violar nenhuma invariante económica. centrífugo um e centrípeto o outro. Pode dizer-se que o Brasil está num movimento inverso (de retrosperidade). como deveremos proceder. com seu consequente erro por serem sempre posições abstrac­ tas. Só há prosperidade quando há melhoramento do "standard" de vida que permita aumentar o consumo. porque não há. A prosperidade só se poderia dar no aumento da producção. País tropical. se o liberalismo permitiu um desenvolvimento desor­ denado. como também ge­ rou as ideias rebeldes que vieram favorecer o clima de intranquilidade. que não compreendeu o aspecto coope­ racional da sociedade. Nele co­ existem o colectivo e o individual. assim. um valor cooperacional. Dentro da Economia. que é re­ sultante do equilíbrio dos diversos valores relativos. Mas qual técnica se impõe? . A prosperidade no Brasil depende.

com forte recompensa ao esforço individual. quando na realidade sabota apenas a si mesmo. Há outro aspecto a considerar: o ético. A aplicação ao trabalho da chamada lei da oferta e da procura (que desdobrare­ mos para dar-lhe seu verdadeiro sentido) tem sido desas­ troso. estimu­ lante. separar os aspectos.176 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 177 Não poderá ser nem a eotécnica nem a paleotécnica. Se fosse assegurada ao povo a sua participação no aumento da producção. A indústria. por ora. a Tecnização de nossa lavoura e a da pecuária. o liberalismo económico ao considerar apenas o lado individual do trabalho. e a mutação da mão-de-obra passa a ser. sabota o assalariador. Portanto. Erra. dada a plas­ ticidade típica de nosso povo. productos deteriorarem-se nas fontes. é um cliente. Não pode­ mos. Tem sido um erro considerar o trabalho como uma mercadoria. Tais factos exigem bases: a) inteligência. não pode. não compensando a falta de braços por má­ quinas. aqui. não pode ser feito. A remuneração pode sofrer os efeitos da procura. pode dizer-se que a participação dos trabalhadores nos lucros da empresa. dado o valor pouco tónico do mesmo en­ tre nós. e principal. uma calamidade. possibilidades imensas. no Brasil. sob pena de falsear a função neotécnica do trabalhador como clien­ te. aqui. mas que pode ser compensada pelo grau de adaptação (combina­ ção equilibrada entre acomodação e assimilação. como infelizmente ainda perdura. Tal concepção surge de não participar nunca nos proventos quando há aumento de producção (ex. cuja resistência ao novo é muito menor que a de outros povos. Um problema nos surge: o abandono dos campos. Julga que ao sabotar a producção. e ainda se estabelece. exigem um exame sobre o mecanismo dos pre­ ços e dos salários. que cooperam ou se antagonizam. salvo os históricos. que temos. mas de uma neotécnica tendente à biotécnica. é um revoltado às vésperas do desespero. que não sofra êle uma depreciação por efeito da oferta. na neotécnica. Não se pode evitar a mutação da mão-de-obra. em geral. não encontram óbices culturais. que conjunturados com outras providências. o que. trariam benefícios imediatos. Esse equilíbrio exige. política de defesa de preços. que é típica de nosso povo). A aplicação de normas jus­ tas. O trabalhador. Portanto. E é do interesse tanto dos empregados como dos empregadores. em função do poder de compra. infelizmente. Este. que não temos. Nosso trabalhador. ao traba­ lho agradável. mas ainda assim se considera. etc). porém. assim. Não tem es­ peranças em melhorias quando produzir mais.: destruição do produzido. É um sabotador in­ consciente. segun- . neste ponto. Também se deve considerar que o salário vital (mínimo) não deve ser um salário de miséria. uma dualidade de sa­ lário (social e individual). o equilíbrio entre o rendimento e o preço do trabalho. embora grave. Entretanto. não é desastroso como pode parecer. poderia ser reestudada para transformação num salário-de-rendimento. não cumpre seu papel. individual e colectivo. portanto. Esta merecerá um estudo à parte. mas tem que sujeitar-se à producção colectiva. ressurgiriam. É uma invarian- te de qualquer economia das fases da paleo e da neotéc­ nica. Resta ainda uma dificuldade: a financeira. não pode reduzir-se. como erra o socia­ lismo ao considerar apenas o lado colectivo. facilmente solucionáveis. acomodar-se a uma depreciação que sur­ ja da oferta. b) preparação cultural. e ambos por não considerarem o aspecto cooperacional entre ambos.

como para im­ pedir a alta.178 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 179 do as possibilidades económicas do momento. Caso sobrevenha a nova guerra nosso papel táctico será dentro da linha de producção. 85) Uma das maiores ilusões dos economistas tem sido a da super-producção. para per­ mitir a prosperidade e não a retrosperidade. O que se tem dado é uma impossibilidade de consu­ mo. Esses pontos. quando o liberalismo. Aqui. nem se dá. nem se da­ rá. Mas garantido o escoamento da producção e do pre­ ço. Nossa economia as tornará fatalmente dirigidas. é justificável numa autarquia. portanto já se vê que a chamada inflação no Bra­ sil tem também uma raiz no equilíbrio favorável da ba­ lança comercial. sobretudo entre nações de balança co- . com o salário social. pela concorrência. mais uma vez. Se o fosse. portan­ to tende para a supra-producção. que necessitam estudos especiais. representam apenas um remédio empírico e de efeito transitório. Há em nós desequilíbrio qualitativo na importação. quer se faça para impedir a baixa dos preços. deve êle desaparecer ou subordinar-se aos interesses colectivos. 83) Separando a chamada "lei da oferta" da "lei da procura". A anormalidade de uma guerra implica condições económicas anormais. pelo Estado. e não confundidas com as reacções colectivas. pois pequenas são as nossas possibilidades militares. não apresentaria a acção do Estado nem riscos nem inconvenientes ao productor. que passaremos a examinar. por compensações atra­ vés de convénios. teremos que estar com a nossa economia já devidamente esboçada. em benefício de todos. Para tal. provocadas por desequilíbrio monetário ou fi­ nanceiro. Ora. quando do não cumprimento do dever so­ cial. não se deu. A economia directamen­ te na mão do Estado é irrealizável. provocaria deflação monetária no in­ terior. Este ponto deve ser estudado em face das profissões e servir de estímulo ao acesso às mesmas (qualificação estimulada). e cria novas possibilidades de consumo. O MOMENTO QUE PASSA 84) Estamos numa economia de paz entre duas guerras. As reacções individuais são provocadas pela lei da oferta e da procura. temos. A super-producção se­ ria a correspondente a um crescimento desproporcional à supra-producção. 86) Todas as tentativas de fixação de preços. Numa economia de paz. Neste caso. e tal se verifica pelo não respeito às invariantes da cooperação dos valores. nem nos convém ser. não assegura benefícios sociais. o homem sempre dese­ ja mais. com a subordinação dos interesses particulares aos interesses colectivos do estado de guerra. com retenção proporcional. a não compreensão da cooperação entre o individual e o colectivo leva a tais processos empíricos. em cooperação com os outros as­ pectos. trazendo suas vantagens. porque é o Estado uma figura abstracta. 87) Nossa balança comercial não é sempre defici­ tária. enquanto a segunda poderá actuar em favor do salário de rendimento. um país autárquico. e consequentemente inoperante. bem como ao salário-família. sob pena de não corresponde­ rem os esforços aos resultados. na realidade. e tornaria ainda mais abstracta a figura do cliente. po­ dem ser atendidos dentro dos quadros da ordem vigente. uma supressão da primeira. seria ela prejudicial. Mas tal. Não somos. Regulamentar essa.

e os benefí­ cios especulativos de certas funções de intermediários. obtido um aumento do rendimento ho­ rário do trabalho. são aqueles parasitários.180 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS 0 PROBLEMA SOCIAL 181 mercial equilibrada ou equilibrável. por meio de restrições. foram os causadores de um aumento exagerado do sa­ lário insolvável no Brasil. câmbio negro. Se o preço do producto estiver em função do preço do trabalho. retrosperidade fi­ nal. productos para os quais não contribuíram. se este preço permane­ cer fixo. os salários . Não podemos deixar de considerar as relações entre o patronato. a qual é inelutável. por inoperante. Até nos Estados Unidos. Seria solvável o sa­ lário incorporado ao preço de venda de um producto destinado ao consumo individual. desaparecimento do pro­ ducto. Desta forma. que são interligados. enfrentar a alta dos preços. mas compensável. é irrealizável na prática. Enquanto o patronato admitir que a sua pros­ peridade pode fundar-se na miséria das massas. sob pena de prejuízos laterais. em breve. Se teoricamente esta ideia é boa. desde que haja a aplica­ ção de certas normas convenientes a economia paleotécnica. Ao contrário. mas os nossos dados que nos são oferecidos nos revelam que há um aumento progressivo de salário insolvável. secundários e terciários no Brasil. Aqui neste ponto. nem por um período curtíssimo. aumento das despesas piíblicas. quando orien­ tada para um respeito ao equilíbrio cooperacional dos valores. Nossa balança comercial beneficiária. Não nos iludamos: não realizaremos a prosperidade por uma baixa de preços. são inoperantes. também. foram em parte inoperantes. porque a producção pode criar o poder de compra. No entanto. tudo favorece seu desenvolvimen­ to. seguindo este rumo. necessidade de um exército de fis­ cais. No caso dos assalariados. mas se o preço do trabalho au­ mentar proporcionalmente ao seu valor. tudo contribui para diminuir a pro­ ducção e para aumentar a especulação sobre o produzi­ do. Restaria. o congelamento de preços. 88) Os teóricos do socialismo pregam a socializa­ ção da distribuição do poder de compra. o que acarreta um grande "deficit" sobre o salário solvável. nada se poderá fazer. No entanto. pois tra­ ria desinteresse na producção. aumenta o valor do trabalho e diminui o valor da producção. e impedem. e os assalariados. que ainda vigora entre nós. o preço da pro­ ducção permanecerá imutável. e insolvável um salário que não responda às condições de solvabilidade. Convém distinguir-se o salário solvável do salário insolvável. na mesma pro­ porção que o seu valor. assim. O que se aplicou e deu certo resultado nos Es­ tados Unidos não nos traria benefício algum. um estudo cuidadoso da eco­ nomia nos mostraria que os interesses individuais do pa­ tronato coincidem muito mais do que se pensa com o interesse colectivo das massas. a qual deverá ser acom­ panhada pela hábil aplicação do equilíbrio cooperacional dos valores. Não esqueçamos o carácter de conjuntura dos preços. a classe média. diminuirá o preço da producção. Consumindo os insolváveis. Todas as ten­ tativas. que têm outros elementos. Vê-se desde logo que o equilíbrio qualitativo da balança comercial brasi­ leira não pode ser descuidado. Nada fazemos no Brasil para embaraçar o aumento dos salários insol- váveis. Esta seria efémera. as tentativas feitas até agora para regularizar a importação. Não temos estatísticas sufi­ cientes para nos mostrar quanto é destinado aos traba­ lhos primários. será necessária uma acção mais enérgica por parte do Estado. Inútil. um congelamento. ela dará suas consequências. Dessa forma.

assim. e expressa o preço. Se tal fôr obedecido. é ne­ cessário o aumento do volume da moeda. O equilíbrio de um país exige que o seu potencial monetário faça sempre face às necessidades do potencial de producção. mas tal infelizmente não pode ser feito. Um erro consiste em acreditar que a velocidade da circulação monetária engendrasse prosperidade. Todo aumento da velocidade da circulação. 89) Examinemos. Se a moeda emitida se destinar ao aumento da producção. A verdadeira riqueza é o trabalho e não o dinheiro. por isso deve ser ela dirigida para que não ofenda ao equilíbrio dos valores. consequentemente. euforia efémera. desta forma. é também instrumento da troca. Sujeita. para não haver desequilíbrio. considerou-se a moeda mercadoria. pois este pode evoluir em sentido inverso daquele. como consequência. Na ver­ dade. o dinheiro. entretanto não se transformou em prática. retrosperidade colectiva e. O valor real da moe­ da está no seu poder de compra. e decorre de um aumento do consumo. o que exige maior burocracia e. ela é solvável e não é inflacionária. em vez de querer dirigir homens e coisas. transformação de um efeito em cau­ sa. Se este aumentar. mantendo o valor relativo desses elementos. o im­ portante tema da moeda. Aqui se ofereceria a necessidade de um estudo todo es­ pecial sobre o padrão trabalho. a estructura do sistema eco­ nómico está perfeitamente equilibrada. que não se funda na cooperação entre producção e consumo. O progresso técnico provoca uma diminuição da velocidade da circulação da moeda. Mas sempre que ela tenda . Ainda não se libertou total­ mente a economia mundial do mito do padrão-ouro. como símbolo. foi ela levada a rarificar-se com um consequente prejuízo da colectivi­ dade. Neste caso. Resultado: especulação e aumento de salários insolváveis.182 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 183 devem aumentar na proporção do aumento do rendimen­ to do trabalho productivo. mas apenas no emprego destes. à lei da oferta e da procura. obedecerem às invariantes do equilíbrio cooperacional dos valores. no caso brasileiro. ela não é inflacionária. Sendo o ouro uma mercadoria. inflação. A moeda é poder de compra. em última análise. teremos realizado o primeiro equilíbrio cooperacional dos valores. A confusão entre moeda e dinheiro é a causa de cer­ tos erros graves. agora. como o Brasil. que queria dar à moeda um valor fixo (como se fosse di­ nheiro). A moeda deve per­ manecer em função do trabalho da producção e do salá­ rio. Se os preços. numa confusão de valor com preço. A moeda. não podia prender-se nas algemas do padrão ouro. a aceleração é consequência e não causa da pros­ peridade. cifrados em moeda. O dinheiro define o valor da unidade monetária. e por esta colocada ao ápice da hierarquia dos valores. Deve o Estado estar preparado para saber dirigir essas cifras. Esta afirmativa é teoricamente certa. não respeita o equilíbrio cooperacional dos valores. deve automaticamente aumentar aquele. traz. — papel acessório — transformado em producto principal por influência da finança. 90) A inflação monetária não está na quantidade de bilhetes. E como este aumento de preço se verifica periodicamente. ou por uma acção mais rápida ou por um aumento da sua quantidade. feudalização do funcionarismo. Um país de balança comercial beneficiária. como ouro. mas pode transformar-se em tal. e é expres­ so em ouro. mas res­ peitando o equilíbrio cooperacional dos valores.

que deve fazer o Estado senão suprir essa deficiência? E algumas regras têm de ser aproveitadas aqui: a) crédito do Estado ao que possa desenvolver a prosperidade. ao Brasil. levou-nos à inflação de preços. A inflação só pode ser combatida por uma alta de salários com conseqiiente respeito ao equilíbrio cooperacional dos valores. Quando a alta dos preços é provocada por uma alta dos salários solváveis. 91) A desvalorização monetária decorre apenas de uma balança comercial deficitária. estimulou as importações desnecessá­ rias. que na verdade é uma inflação de preços. A inflação resulta do excedente de poder de compra em relação às possibilidades de consumo. é importantíssimo no nosso caso. o que não deve dar-se no Brasil. A poupança forma com as suas diversas figuras uma verdadeira conjuntura. reabsorver a inflação. e não se manteve o volume da producção e ainda drenaram capitais para actividades insòlváveis. estava convencido de que a inflação era de moeda e não de preços. E tal se dá sempre que se deseja. ela pode oferecer um perigo. há inflação de preço. Se a poupança era totalmente acon­ selhada numa economia paleotécnica. O exagerado número de intermediários e a ganância típica do estágio paleotécnico. o crédito não tende para tanto. A deflação é catastrófica e traz vantagens apenas ao detentor da moeda. Ora. O papel do Estado. de qualquer espé­ cie. No Brasil. . 93) É o crédito uma emissão de moeda escriturai è necessária quando aumenta a producção. como oferece. É vezo. A desvalorização da moeda. uma obediência ao equilíbrio cooperacional dos valores. através da capitalização. de transição. Freou-se a prosperidade. acusar-se o governo de todos os males surgidos no campo da moeda e dos preços. ar­ ruina a poupança e traz os seus prejuízos pelos excessos contrários. e deve ser controlada. o que na realidade se deu. às producções que se destinem ao consumo individual (solváveis). no controle das importações e exportações. Esta se dá quando o potencial monetário não é suficiente para a manutenção ou desenvolvimento do volume de producção. A alta dos preços. ela é inflacionária. sobretudo. diminuindo a producção. em que vivemos. Quando o potencial financeiro da poupança é insuficiente para financiar a producção. há inflação de preços e estes decorrem mais de factores psicológicos histórico-sociais. influído por maus conselheiros económicos. O governo de Dutra. numa economia como a nossa. no Brasil. na verdade confundida com insuficiência mone­ tária. não há carestia de vida. e carestia consequente. do que de factores económicos. mas necessitaria de um estudo es­ pecífico. ou de créditos insòlváveis. que pode perfeita­ mente ser equilibrada. Afirma-se que há alta de preços em consequência da "infla­ ção" da moeda. para a especulação. Tema importante que merece um estudo todo especial do governo. falseando o equilíbrio cooperacional dos va- lôres. por meio de deflação. e tentou a desastrosa política da deflação. Quan­ do os productos aumentam de preço em relação ao poder de compra dos salários. (A emissão para fins insòlváveis. mas sobretudo para satisfação de actividades in­ sòlváveis. favorecendo a prosperidade. como unidade. Diremos que essa "inflação" é uma con­ sequência e não uma causa. aqui.184 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 185 para a criação de salários insòlváveis. 92) Um dos grandes males em nosso país é a capi­ talização.

O crédito. Buscar um equilíbrio orçamentário pelas cifras é um erro quando êle não realiza o equilíbrio da economia. o controle da poupança. consequente a esta. e não estes ao crédito. O financiamento ao nosso actual sistema bancário em nada resolveria o nosso problema. especulação. Tendo o Estado em mãos o crédito dirigido. A guerra exi­ gia mercadorias nossas e os preços no exterior estavam em alta. Em regra: toda moeda escriturai deve ser solvável. e não apenas a chamada inflação do Estado. êle assegura o valor da moeda. produz a inflação do crédito e a inflação dos preços. portanto é inflacionária de cré­ dito. quando esse desequilíbrio tende para aumentar a producção. Eis aqui a confusão entre o individual e o colectivo. do contrário será inflacionária. A finalidade do Estado não é resolver suas finanças particulares como um indivíduo. necessitam de um aumento do potencial mo­ netário. E por isso não se pode exigir que os bancos parti­ culares financiem a producção a longo termo. não serão.186 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 18T apenas para cobrir despezas do Estado. O crédito deve servir à producção e ao trabalho. O equilíbrio orçamentário. por meio de um banco de emissão. A intervenção do Estado. devido à sua ne­ cessidade colectiva. Grandes obras sociais. b) Essa moeda não pode ser retirada da circulação sem provocar deflação monetária. sim. conveniente ao in­ dividual. A insolvabilidade do Estado não é sempre um mal. em certos aspectos o seu emprego. a agiotagem. evitando-se sempre sua aplicação em operações insolváveis. Toda emissão de crédito que se destine a actividades solváveis não oferece perigo de inflação. e a especulação aumentou o nível dos salários insolváveis. teve sua causa em factores outros. e. A inflação monetária posterior impunha-se como consequência. mas permitiu uma economia de guerra. não o é ao colectivo. Desde que houvesse au­ mento de producção essa insolvabilidade seria perfeita­ mente superável. pode dar lugar a abusos. a taxa dos salários. que se verificou então. porém tão gran­ des e tão calamitosos como os que surgem da acção par­ ticular. como o temos hoje. não é propriamente crédito. mas ser­ vir à nação. que nos é impossível fazer aqui. é insolvável. que aumentam o potencial económico. A chamada inflação monetária do governo de Getúlio Vargas não foi boa se tomada em sentido individual. 95) A conjuntura dos impostos também merece um estudo especial. e no nosso caso não o seria. Seria um encorajamento à especulação e não uma solu­ ção à inflação dos preços vigorantes e fatalmente cres­ centes. 94) O Estado prospera com a nação e retrospera com a nação. Aqui o que se julga causa foi efeito apenas. O aumento dos preços no interior era uma re­ sultante natural desse desequilíbrio. A defla­ ção ingénua do governo Dutra facilitou a especulação. e aumento de producção. c) o crédito deve caber ao Estado. no cré­ dito. no Brasil. para facilitar a especulação. . senão agravá-lo. A inflação de preços. O que temos. e produz os mesmos resultados que a inflação fidu­ ciária).

para atender às imedia­ tas necessidades brasileiras. nem tem esta finalidade propriamente.188 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 189 Desta forma. que tem actividades solváveis. A colectividade é composta de productores e consu­ midores. embora seu volume de venda seja imensamente inferior ao do conjunto das firmas co­ merciais. sem considerar o eonsumo. não obteve bom êxito. mas em forma de créditos sô- . Se a cooperativa é uma forma benéfica. por meio de caixas de crédito. a cooperativa tenderia a crescer. agrário e indus­ trial. formas mutualistas. participa da maior parte de benefícios. ela provoca uma baixa dos preços. Se financiarmos as cooperativas pelo Estado. Os sindicatos podem aconselhar o apoio às coopera­ tivas. 2) Os sindicatos são meios de defesa económica do productor e têm como característica uma agressividade natural. O financiamento directo da producção. Po contrário. e não organizá-las. o plano de unir as cooperativas aos sindicatos não é totalmente aconselhá­ vel. seria o mesmo erro que financiar o consumo (pela alta de salário. o comerciante usa um dos dois processos: ou baixa os preços ou aplica processos de "gangsterismo" para levar a cooperativa ao fechamento. o verdadeiro productor. tornarem-se benéficas a estas actividades. Ademais. Consequentemente: unir a cooperativa ao sindica­ to é buscar uma forma híbrida. (sociedades cooperacio­ nais distributivas). seu papel é a de regulador. b) Para a execução deste ponto. e onde não conheceu um malogro total. é o cumpri­ mento do verdadeiro papel do Estado. A cooperativa tem uma função reguladora de preços. Esta última é a sua mais importante actividade. podem. mas se nem todos são productores todos são consumidores. como por exem­ plo: as associações de consumo. e toda a gama de formas cooperacionais a serem estu­ dadas. A acção sindical colide com a defensiva da cooperativa. pelas contradições naturais en­ tre o consumo e a producção. O Estado não pode esquecer o seu papel de servidor da colectividade. As formas de cooperação não prejudicariam as acti­ vidades solváveis. que malogrou em toda a parte onde foi empregada. porque estas devem estar onde estão os consumidores. que não poderão cooperar no sindicato. que deverão aplicar suas actividades e capitais em actividades solvãveis. Ao contrário. forma semi-capitalista de associação entre distribuidores e consumidores.) sem considerar a produc­ ção. do con­ sumidor. que é uma forma paleotécnica. O apoio à cooperativa. da parte do Estado. por uma hábil eombinação. A cooperativa não liquida com o comércio. outras for­ mas cooperacionais podem ser aplicadas à proporção que se desenvolve o espírito cooperacionista. cuja maior parte cai em mãos dos intermediários de actividades insolváveis. consequentemente. o nosso sistema sindical não ofereceria boa solução para as cooperativas. e para evitar tal crescimento. Onde há uma cooperativa. pelas seguintes razões: 1) as cooperativas são meios de defesa do consumi­ dor e reguladoras de preço. preconizamos. as seguintes medidas: a) derivação dos actuais intermediários-encarecedores. No Brasil. enquanto a cooperativa é uma penetração na neo e na biotécnica. e o mais impor­ tante desempenho deste papel. por ex.

não só de ordem cooperativa. cominando penas aos que em­ pregassem tais créditos em actividades outras que as es­ pecificadas em lei. tra­ ria uma deflação de preços. somos de opinião que o pa­ pel que poderia desempenhar aqui o exército seria ex­ traordinário. porque não se respeita o equilíbrio cooperacional dos valores. que entrarem em contacto com cooperativas de consumo. Pelo actual sistema de tributação. preparado o terreno para entrosar a producção. o nosso problema não é de transporte. Um grupo de pequenas experiências. teremos. que se ins­ tituírem dentro destas finalidades. Alegam muitos que o aumento da producção no Bra­ sil seria inócuo por falta de armazéns para a conservação dos géneros. pois o exér­ cito tem necessidade tática de conhecer perfeitamente hão só as nossas possibilidades de tráfego. Esta fórmula de financiamento da producção corres­ ponderia a uma porcentagem mínima das necessidades. Esse preço deverá ser fixado para um período de­ terminado e curto. provaria desde logo que o nosso pro­ blema é de moralização do tráfego. com le­ gislação criminal imediata. nas coopera­ tivas de consumo. Um levantamento honesto das disponibilidades das nossas estradas de ferro em vagões. nesse sector. Imaginemos uma cooperativa num bairro em que haja quatro empórios. no Brasil. neste plano. teria um efeito extraordinário.190 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 191 bre os productores. como êle se faz no Brasil. Esse processo seria controlado pelos Departamentos de Assistência ao Cooperativismo. Na verdade. como também capitalista. A aplicação de capitais. como mera . mas de tráfego. em pouco tempo. Pois bem. Mas se se considerar o papel eminente que exerceriam as cooperativas no mercado. Essas formas de cooperação são de fácil fomento. à média do consumo dos elementos que a compõem. Nessa obra de in­ vestigação sobre tais pontos. e de resultados tam­ bém imediatos. Mas havendo este respeito. esses créditos não teriam mais efeito inflacionário. Se forem financiadas as cooperativas de producção agrícola. que são capcio­ samente ocultados. embora em percentagens baixas. é absurdo. fatalmente. E tal afirmativa se justifica. na realidade. desde logo se verificaria que essa acção. essa cooperativa levaria. com o consumo. por parte do Estado. não correspondem ao seu valor. Teríamos assim quatro milhões de cru­ zeiros para cem mil. as cooperativas não contribuiriam directamente para a manutenção do Estado. o Estado poderia obter das cooperati­ vas uma tributação especial. ou seja um total de um para qua­ renta. Se o Estado financiar a producção vinculada ao consumo. As sociedades de "producção e consumo" (espécies de sociedades cooperacionais) são formas que podem en­ globar as cooperativas de consumo como também outras semi-capitalistas. desde que ficasse estabelecido um preço de venda do producto ou do seu fornecimento às coopera­ tivas. No sistema tributário brasileiro é comumente julga­ do como um imposto absurdo o chamado de "consumo". Imaginemos que esses empórios produzam cada um um milhão de cru­ zeiros mensais enquanto a cooperativa produziria cem mil cruzeiros. imediatamente favore­ ceria o equilíbrio económico. os pre­ ços. porque. Outra alegação consiste na falta de transporte. Mas desde o momento que essas práticas fos­ sem empregadas. de imediata execução. não seria infla­ cionária. e novas cooperativas de producção. sob pena destes facilitarem o progresso daquela. os empórios a reduzir os preços de venda. torna-se êle o mais adequado. e deverá corresponder. Realmente. com emissão de moeda.

costumes diferentes. Rio. que exigem soluções adequadas. entre as muitas já citadas. podem eoadunar-se com as nossas circunstâncias. A solução de uma para outra capital é dife­ rente. mas apenas o habitante do Brasil. Se tal fôr feito. o problema nacional não se cinge apenas aos grandes centros de São Paulo. heterogéneo. Esquecem de considerar con­ cretamente as nossas condições. o cooperativismo. e criar embaraços ao prosseguimento de obras paleotécnicas. porque estas poderiam coadjuvar com os esforços colectivos na construcção de armazéns. Porto Alegre. mirífica. por exemplo. o jagunço. o caiçara. Quanto à necessidade de armazéns para a guarda da producção. uma solução. em regiões ainda atrasadas como as que temos pelo nosso interior? No entanto. Desde o momento que o trabalhador sinta que o aumento da sua productividade lhe é directamente be­ néfico. as mais primitivas formas de producção da eotécnica e da paleotécnica. mas soluções múltiplas. o japonês. etc. empreendessem sua actividade em sec­ tores insolváveis. a criação de cooperativas facilitaria a solução de tal problema. com sua forma específica de actividade. o homem redobra seus esforços. o sertanejo. E nem todas as formas que se possam hoje estudar. o cooperacionismo. de ponta a ponta. unidades económicas diversas. entre nós. . uma fórmula salvadora. pelo desenvolvimento da especulação. homogénea. As velhas. etc. uma capa­ cidade criadora dobrada quando coloca nessa mesma actividade um fim e não um meio. o gaúcho. que surgem em todos os que procuram uma solução para os problemas nacionais. graças à multiplici­ dade de suas formas. milagrosa. além de outros. e que somos um povo em formação. o espanhol. os esquemas intelectuais que exige. Além disso. mas como actualidade. nem todas as múltiplas formas de cooperação. em parte. não o único. encontram aqui eco apenas em algumas regiões. serão as únicas. A não confiança na grande capacidade realizadora das massas é uma verdadeira calúnia que se lhes faz. que se agitam na Europa sobre a transforma­ ção da empresa capitalista. pois ainda não há o brasileiro. O cooperacionismo. única. e tendo um fim em si mesmo. ideais diferentes. essa unidade é mais formal que de conteúdo. Os problemas. como pode compreendê-la. Nossa eco­ nomia sofre das consequências do múltiplo das suas téc­ nicas e não pode encontrar soluções únicas. afec­ tivos. experimentadas em diversos países. e os superestructurais. cosmovisões diferen­ tes. Este é um dos meios de cooperação. Quem conhece a complexidade de uma cooperativa. oferece múltiplas soluções. entre suas espécies. êle redobra sua capacidade. que permitiu a muitos e aos mais activos. o sírio. Esquecem que o Brasil é um país complexo. porque temos empresas. No financiamento da producção. Bahia. o buriboca. o ita­ liano. como é diferente a que melhor convém ao campo. No caso nacional. con­ siste em desejar apenas uma solução. deve o Estado dar preferência a toda actividade que tenda à neotecnização e à biotecnização. Que embora falemos uma única língua. Não são as cooperativas as únicas formas cooperacionais. a verdade do que se passa. conhe­ ceria o governo. foram esquecidas. o húngaro. é um género que tem. o eslavo. Sentindo-se ampara­ do. Recife. como também o português. de imediato.192 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 193 potência. quando estimulado. porque a experiência humana é rica de novas sugestões. capaz de dar cobro às nossas mais prementes necessidades. mas sempre novas experiências do mutualismo. Esquecem que temos. o alemão. o jeca. fórmulas múltiplas. O povo trabalhador tem. o caipira. Um dos ma­ les que podemos salientar. que o Brasil é o cabo­ clo.

para contê-la. que se tornarão fac­ tores predisponentes de amplas reformas. A cooperação genérica do cooperacionismo é própria para qualquer região. o alemão com o alemão. aqui. ou melhor. para a acquisição . inverso. através de coope­ rativas e outras formas de cooperação. tra­ balham para esse desfecho. Se realmente a producção coopera para o desen­ volvimento do consumo. sem per­ ceberem o que se está preparando atrás da aparência dos factos. Mas julgam todos que o consumo aumenta seu poder. nem podemos fazer ex­ periências dentro dos velhos esquemas. Mas. Se homens responsáveis pelos destinos económicos não os percebem. mais complexas quanto à sua justificação. Trata-se agora de resolver a maior batalha da nossa história. Não temos tempo a perder. que nos avassalará em sua voragem. São elas no entanto.194 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 195 Não nos é possível. exija. desde que aumente a producção. inegavelmente. prendem-se nas vagas discussões bizantinas de quantitativistas e antiquantitativistas da inflação e da deflação. E essa solução é mais urgente do que se pensa. Façamos a inversão das implicâncias: a) Financiamento do consumidor. o "dar a mão" do bra­ sileiro. o esquema que abaixo propo­ mos. devido à distribuição de moeda que este acar­ reta. mais especifi­ cidade. E essa crise provocará o con­ flito armado como solução imediata (aparente. A mobilização do povo brasileiro. oferecer toda a gama de soluções preconizáveis. concomitantemente. e de imediata realização é. nem é probabilisticamente difícil. Sentimo-nos todos prontos e melhor afeitos. 96) A preparação do ambiente para uma grande transformação das nossas condições. o judeu com o judeu. Há muitas formas possíveis e adequadas às nossas circunstâncias. que já nos mos­ traram sua inocuidade. com poder de compra. Urge soluções. o sírio com o sírio. finalmente. embora a da cooperativa. Estamos às vésperas de uma catástrofe financeira internacional. no entan­ to). por ser mais específica. c) financiamento. Não esqueçamos o "mutirão". para uma auto-estimulação mais activa. Entrosar tal capacidade cooperadora numa obra co­ lectiva de cunho nacional não é uma impossibilidade. mostrará que poderemos fazer o consumo cooperar com a producção. é o principal. E essa batalha está para ser travada em todos os secto­ res. Este. é que se deixam arrastar pela visão das velhas fórmulas. o do aumento da producção e a consequente productividade. For­ ças secretas e poderosas. d) consumo. sob pena de o país tombar na situa­ ção mais caótica de sua história. quando chamados a cooperar. porque em todos eles temos focos do inimigo. etc. O português coopera com o português. que não é captável pelos economistas. numa grande obra cooperacional. Há uma crise internacional que se esboça. porque a multiplicidade dos inte­ resses criados e das necessidades conhece graus inimagi­ náveis. b) productividade técnica. To­ dos os brasileiros têm de ser chamados a postos. engenhosamente ocultas. lembremo-nos que producção implica: a) trabalho e productividade deste. seria um chamado empolgante. A competição não é pro­ priamente da nossa índole. desviá-la.

por ser estimulado por um salário de rendimento a ser instituído o mais au­ tonomamente possível entre empregados e empregadores. d) O financiamento das cooperativas de producção também pode ser feito pelas cooperativas de consumo. III) Essas Associações resolveriam a melhor distri­ buição das producções aos postos de abastecimento orga­ nizados pelas cooperativas ou pelas sociedades coopera­ cionais distributivas. em geral. Além disso. que sentir-se-ia como constructor de si mesmo. Quando dos momentos anormais de uma guerra. com leve imposto sobre a venda. de um mínimo de membros. com o consequente estímulo para a culturalização. o que pode permitir um financiamento específico. em primeiro lugar por ser consumidor e. a cooperativa exige capitais. cabendo uma parte das sobras ao fundo da Associação. isto é. (O operário brasileiro. b) Consequentemente. estadual e mu­ nicipal). c) Estímulo ao trabalhador. E onde esta não existe. que estimulará relações directas entre em­ pregador e empregado. em segundo lugar. a ser regulado e controlado pelo DNC. Foi. Há meios de o Estado cooperar no financiamento das cooperativas na proporção do capital subscrito. é difícil realizar cooperativas. sociedades cooperacionais e empresas capitalistas. O estatuto de funcionamento dessas Associações será estructurado. este teria direito ao redesconto. portanto. com ampla liberdade de entrada de associados e de aumento de capital. financiamento da producção. Daria es­ sa obra um entusiasmo ao trabalhador. há necessidade de melhorar a técnica para atender às necessidades do consumo. graças à acção cooperacional. O financiamento directo das cooperativas de produc­ ção deve vincular-se ao fornecimento de géneros às coope­ rativas de consumo ou às "Sociedades cooperativas dis­ tributivas". com a finalidade de distribuir bens de consumo ao público em geral. com aumento mínimo do custo. constituídas. receberiam de unidades capitalistas. sobre o aumento de producção e participação também no movimento total da producção. pa­ ra fornecimento de mercadorias a curto prazo. in­ directo. que seriam constituídas de coopera­ tivas. além de uma contribuição fixa pa­ ra atender suas despezas de organização. por diversas vezes. que fizessem parte das "Associações Cooperacionais de Pro­ dução e Consumo". a crédito vinculado. II) Essas sociedades receberiam bens de consumo das Cooperativas de Producção. para distri­ buição aos organismos públicos (federal. Querer que nossos operários tirem de seu necessário algo para entregar às cooperativas é querer o impossível. de seu país e de seu fu­ turo. obedecendo aos princípios fundamentais do cooperacionismo.196 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 197 de productos. Não havendo bens a fornecer por parte das cooperativas de producção. enganado em várias experiências para acreditar em outras novas. Quando financiadas por organismos de crédito. mas com plena autonomia no restante. Mas há outras soluções). são compreensíveis e justos todos os sacrifícios. organização de obras sociais. I) Estas se fundariam com inscrição na Junta Co­ mercial e registro do Departamento Nacional de Coope­ ração (futuro Ministério da Cooperação). com o em­ prego de parte dos proventos cooperacionais. não tem fé nas co­ operativas. estimulador e sem falsear o equilíbrio cooperacional dos valores. e o nosso trabalhador não tem poupança. Decorre daí efeitos de ordem moral. que vê a utilidade co­ lectiva e individual de seu esforço. Demos à . dispostas a cooperarem para o bem comum.

dar frutos extraordinários. certas empresas. No caso brasileiro. também. um meio termo se intercalou entre o direito público e o direi­ to privado. o mesmo esforço. e a da Inglaterra. que a ali- . pode haver uma cooperação pública. e mais até. com toda a sua autoridade de cooperativista. embora de grande benefício. reconhece que " . não há mais a alma que ani­ ma. Se as cooperativas são criações de parti­ culares. exaustivo. a maior de nossa história. dada a índole do nosso povo. acabou por importar carvão para atender suas necessidades. Factos e não palavras. sobretudo. É voz quase unânime entre os coopera­ tivistas que o regime cooperativo só pode fundar-se den­ tro dos quadros rochdalianos. pu­ namos com energia os que tentem fraudar essas esperan­ ças. É esse espírito. e famintos de paz. em primeiro lugar. com sua inspiração rochdaliana. Basta que se olhe o espetáculo da França. nos revelam que os poderes públicos podem associar-se sob forma de sociedade por acções. não é verdade que só possam ser obra exclusiva desses particulares. Não há necessidade de falar so­ bre os males das nacionalizações. Ca­ nadá. FORMAS COOPERACIONAIS Este tema merece estudo amplo. quando no poder os trabalhistas. As formas cooperacio­ nais. pode assegurar-se que. essas experiências. um dos adversários dessas modalidades. e não apenas no self-help rochdaliano. acabaram por aceitar a conveniência e operância dessas formas de cooperação. ape­ sar de suas posições. são as únicas no campo das possibili­ dades cooperacionais. com proventos para todos. uma harmónica combinação de interesses atra­ vés das formas cooperacionais têm evitado tais males. Com os exemplos que se deram em tais países. aqui. dos próprios coope­ rativistas. mas lhes falta o es­ pírito fundamental: falta-lhe a paixão cooperacionista. além de uma cooperação privada. a ponto de desfazer as fronteiras. no "Bulletin de la Societé Française de philosophie". feitas em diversos paí­ ses. dada a ri­ queza dessas experiências desconhecidas da quase totali­ dade dos economistas e. com seus próprios recursos e se algumas ten­ tativas entre nós têm malogrado. O próprio economista Gaétan Pirou. Vandervelde. se guia­ das com o mesmo espírito de cooperação que tiveram em suas origens. deve-se ao facto de não ter-se obedecido aos princípios cooperacionais.-"•s O PROBLEMA SOCIAL 199 198 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS nossa "Guerra à miséria". em seu "La Marche au socialisme". e o Brasil terá ingressado numa obra cooperacional. à nossa "Batalha pela construcção do Brasil". pessoas de direito público. comercial e financeira. estimulemos a confiança das massas. vivem de suas pró­ prias forças. No entanto. Nas sociedades estatais. aplicadas aos serviços públicos. poderiam." Sabem todos quão deficitárias são as empresas do Estado e tal se dá em toda a parte onde elas existem. tendo. a Inglaterra. e Edgard Milhaud. E Charles Andler. a fim de criar cooperativas de consumo. em seu "Le Socialisme contre 1'État". Empenhemo-nos nessa grande guerra. Mas sucede que em paí­ ses como a Bélgica. são verdadeiras gran­ des e gigantescas empresas cooperacionais e penetram até na grande indústria. de todo o mundo. como membros. ultimamente re­ conhece sua procedência. um exemplo maravilhoso do que se pode fazer em bem do trabalho-redenção. com a producção estatal super-encarecida. . essa ilha de carvão. . e as suas condições. que leva a diminuir despesas. Austrália e França. é a sua auto­ nomia administrativa. que será aos olhos dos povos esgotados. Têm tudo e mais que as outras. constituídas sob o apoio dos poderes públicos.

que não procuram ver nada além dos esquemas que traçaram. etc. de uma vez para sempre. que é preciso. Quanto às normas de funcionamento dessas socieda­ des cooperacionais. Têm elas as suas portas abertas a novos membros e dão retornos. cujas caracterís­ ticas. É natural que tais sociedades exijam liberdade política. luz. Penetramos . as quais obedecem às influências locais e as coorde­ nadas de cada função que possui suas peculiaridades. Estado) podem atender com maior eficiência as necessidades públicas. E essa classificação é obtida considerando-se apenas as invariantes. Os exemplos mais interessantes são os dados pela Bélgica. Melbourne. Novas sociedades sob direcção tripartida (consumi­ dores. em face das experiências deste século até os nossos dias. productores. como apresentam elas uma gama va­ riada de múltiplas experiências. etc. e procuraremos ver nes­ sas diversas modalidades os aspectos invariante. mas os factos. não é possível. etc. já o dissemos. Vejamos os grandes exemplos já conhecidos: "Le crédit communal de Belgique". quer dos serviços que prestam. Sydney. o cooperacionismo o valor das cooperativas. na Inglaterra. quando se torne necessário. nos leva a classificar cer­ ca de 40 tipos de sociedades cooperacionais. que custou tanta desgraça ao nosso po­ vo. criadas pelo grande Frei Orban. que já fizemos sobre as diversas modalidades. as em­ presas de electricidade. das cidades re­ construídas na Inglaterra e outras. Ao contrário. ultimamente verificados na Europa mostram-nos que novas possibilidades surgem para a actualização da cooperação. Um estudo. a "Metropolitan Water Board". natural­ mente. que são frutos apenas de visões unilate­ rais dos factos económicos. dar um esboço. trou­ xeram novas possibilidades. e que lhes dão o verdadeiro cunho cooperacional. Não nega. directos ou indirectos. a or­ ganização dos portos de Londres. e que ainda perduram nos estudos de economistas. Na França temos: "La Compagnie nationale du Rhône". que se reves­ tem das formas variadas. isto é. quer dos productos que fabricam. PARA FINALIZAR Surge ante os olhos dos amigos desta terra. que empobreceu o campo e não enriqueceu à miséria de uma das massas mais pobres do mundo. Só as formas cooperacionais evitam as constantes toma­ das de posição. mas se distinguem dessas pelo facto de se­ rem as cooperativas sociedades de pessoas e as cooperacionais sociedades de pessoas e de capital.200 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 201 menta de entusiasmo e de responsabilidade. acabar-se com essa aven­ tura paleotécnica. Um estudo dessas experi­ ências coroadas de êxito nos mostraria que marchamos por um caminho novo que perfeitamente evita os erros fundamentais dos liberais e dos marxistas. Têm por accionistas consumidores. Oportunamente. e virtualizando os aspectos variantes que as tornariam ainda mais diferen­ tes. as exalta e as considera sob muitos aspec­ tos superiores. "La Societé Nacional des Distributions d'Eaux". "L'Energie électrique de la Moyenne Dordogne" e ou­ tras. os que se repetem. "La societé Nationale des Chemins de fer vicinaux". todas na Bélgica. aqui. faremos uma síntese das características. a fa­ mosa BBC de Londres. ministro belga. com suas 190 emissoras. que não com­ preenderam que o mecanismo da producção não forma uma integral com o mecanismo da distribuição das rendas. Liverpool. "La So­ cieté Nationale des Habitations et Logements à bon mar­ che". as grandes companhias modernas de fornecimento de transporte. Têm assim as características fundamentais das cooperativas. a "London Passenger Transport Board".

b) sem que tenha esperança nos valores mais altos. ou pereceremos definiti­ vamente como nação. que combina harmonicamente o individual com o colec­ tivo. 98) Só haverá uma sociedade humana bem organi­ zada. sem lágrimas e sem desesperos! AS POSITIVIDADES DOS CICLOS CULTURAIS 97) É mister reconhecer a positividade: a) b) hierática. Essa é a nossa grande impossibilidade e tam­ bém a nossa vergonha. Deixaremos para trás os negros e sombrios dias da paleotécnica. Se os homens responsáveis não o souberam fazer. da situação em que estamos. Basta apenas afastarmos os obstáculos que ainda se nos opõem. Não sairemos. de modo ordenado técni­ ca e cientificamente (prudência). encontrarão os recursos sangren­ tos do desespero! Tudo nos indica o único caminho a seguir: o da co­ operação. uma revolução sem sangue. . uma revo­ lução que não é percebida pelos que têm anteparos ante os olhos. ao primeiro princípio de todas coisas. e uma fé robusta na sua dignidade e na prática de actos que o enobreçam (valorização do acto virtuoso). por um grande acto de querer. c) sem que realize o domínio das coisas e as dispo­ nha em benefício de si mesmo. por fatalida­ de histórica. uma revolução. por nos faltar um acto de vontade. Todas as condições históricas e económicas ainda nos permitem tal salto. d) a do prestador de serviços. nem o fortalecimento de si mesmo. d) sem que preste serviços por amor ao bem de seu semelhante (caridade). então as massas desesperadas. c) a empresarial utilitária. à fonte primeira de todas as coisas.202 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS em parte já na neotécnica por necessidade. Essa palavra está nos lábios de todos os ho­ mens. O homem não pode alcançar a sua tranquilidade. se não tiver e não viver essas condições fundamentais: a) a crença (fé) em algo que o vincule ao superior. Somos ainda incapazes de um grande querer colectivo. aristocrática. a verdadeira revolução social. onde houver respeito: a) ao mais alto. E as grandes realizações cooperacionais no mun­ do estão realizando uma revolução silenciosa.

205 b) à dignidade do homem como pessoa. pela organização técnica. para alcançar ao mais alto. Numa sociedade dessas: a) todos são responsáveis: b) a democracia deve ser directa. o mesmo caminho até à função federal. como o é a democracia directa.204 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL. e não a dada por um estamento. por um sistema de selecção espontaneamente po­ pular. depois de devidamente esclarecidas. b) de aristocracia. e) impedimento total de todo carreirismo. c) ao conhecimento e à técnica para domínio das coisas. cientistas. deverá ha­ ver comissões económicas. sob os diversos aspectos. quanto ao kratos político. como técnicos. exclusiva ou preponderantemente. deverá ser um misto de teocracia aristocracia democracia socialismo libertário. d) todos devem ocupar cargos de responsabilidade variável. científi­ ca e pela colocação dos capazes nos postos económicos e técnicos. h) as organizações de bairro deverão funcionar por comissões especializadas. nas quais tomarão parte e as quais. será aquela que fôr misto de a) teocracia. deverão julgar da oportunida­ de das mesmas e aprová-las ou reprová-las. 100) Uma sociedade humana. 101) Para que uma sociedade humana atinja o má­ ximo é mister que o kratos político se dissemine a todos (democracia directa). grupos de estudiosos de todos os problemas que deverão apresentar as suas sugestões às assembleias de bairro. Assim. cujos delegados deverão representá-la nas assembleias de bairro. c) de democracia. científicas. organi­ zados segundo as suas aptidões. seguindo-se. assim. d) ao que presta serviços a si e aos seus seme­ lhantes. Uma sociedade humana. etc. perfeitamente organi­ zada. a um estamento. pelo respeito de todos aos valores transcendentes. o poder deve ser atribuído a todos. pela escolha do melhor aos pos­ tos superiores. porque será inevitável a opressão sobre os outros. deve ser. escolhidas desde a base. não se lhes deve de modo algum atribuir o direito de legislar. e deverão ser experimentados nos mesmos. d) pelo respeito ao direito do que presta serviço. Em suma. . cuja promul­ gação deverá ser feita por assembleias. pantarquista ou seja. i) o deliberado será apresentado por meio de dele­ gados a essas assembleias maiores. g) a organização politica da sociedade deve abran­ ger a todos e deve partir desde a família. f) aqueles aos quais são exigidas funções perma­ nentes. c) a harmonização das funções deve ser feita segun­ do a normal estabelecida pela totalidade. mas apenas o de proporem normas a serem obedecidas. segundo os ramos da adminis­ tração e dos vários campos de estudo. 99) O kratos político não pode pertencer.

ou seremos feitos por ela. O imprevisto também acontece na História. sem dúvida. Se­ rão substituídos por selecção realizada desde os grupos fundamentais. O seu esforço será o maior título de glória às gera­ ções futuras. c) O económico. e vitalícios. Sem dúvida que sabemos que é assim. f) O executivo indirecto. bem como pelas organizações de classes respectivas. científico e económico poderão propor normas e leis. Não precisamos convocar ninguém. com delegados confirmados por eleição directa por seus pares. Os poderes técnicos. e) O legislativo. porque os interes­ ses criados obstaculizam um evento dessa espécie. e talvez ao fim da humanidade. a Noruega. a Suécia. de modo que todos passem pela mesma. que não sendo assim. den­ tro de si. E temos certeza disso. Os que de­ sejam combater pelo que é possível de realizar. Cada um. ao qual cabe a formulação de planifi­ cações técnicas. cabe­ rá as mesmas funções que se observam em todo o mundo. cuja presidência será provisória. que não desanimem e ponham-se em luta. Os que julgam que é impossí­ vel.206 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 207 j) nenhum delegado deverá ser nomeado para mais de duas assembleias. apesar das dificuldades. através da selecção técnica desde os bairros ou pe­ quenas colectividades. chegare­ mos. tam­ bém. formado de delegados também do mesmo escolhido. o homem viverá sempre os mesmos ciclos. k) Os poderes deverão ser harmonicamente dis­ postos: a) o técnico. e nenhum perceberá nada mais do que ganha em sua função social. além de uma ajuda de custas quanto à via­ gem e estada. que examine e escolha o caminho que desejar seguir. Muitos desfalecerão nessa luta. devemos lutar por essa superação. Não importa. Se queremos evitar essa destruição. e não pode­ rão ter idade inferior a 60 nem superior a 80 anos. Ao judiciário. d) O judiciário. inevitavelmente. a fim de evitar-se o carreirismo políti­ co. não desejam lutar pelo melhor. formado de delegados escolhidos do mesmo modo. será constituído por um conselho de homens de comprovada estatura moral. pela simples razão seguinte: seguindo o rumo que ora percorremos. . 102) Uma organização social pantarquista será pa­ ra muitos impossível de ser alcançada. acovardados. prosseguirão lutando. como a Suíça. e de certo modo já se realizou em países de maior progresso. b) O científico. no qual se acham os delegados escolhi­ dos. Cabe-nos escolher. etc. Seus membros serão vitalícios. apesar daqueles que. que serão aprovadas pelo legislati­ vo e postas em vigor pelo executivo. Ou faremos a História. as mesmas odisseias. como muitos. Mas sabemos. com delegados apenas eleitos pelo voto popular. as mesmas contin­ gências. O principal é saber-se que há homens qu a não trepidam em lutar por uma superação humana. que encolham os ombros e se afastem. à mais destructiva das guerras.

da sua concreção. depois de afastarmos tudo quanto elas têm de vicioso e de falso. no sentido mais positi­ vo que podem ter essas palavras. porque a perduraçao finita é sempre a duração sucessiva de uma simultaneidade. Então compreende­ remos que não podemos deixar que permaneça separado o que nossa mente apenas isolou para a análise. corno a sociedade politicamente organizada. mas de reunir simultaneamente o que se dá sucessivamente. Não podemos mais admitir que. e realizar a sucessão do que perdura na simultaneidade. uma empresarial e uma dos servidores. podemos estabelecer uma socie­ dade em permanente dinamismo. os aristocratas. e que. primeiramente. e que não é mais possível iludirmo-nos com as abstracções que criam abismos. quanto ao Estado. mas o caminho estará aplainado no momento que as realizemos. em que podemos reali­ zar uma revolução permanente. somos o Estado. alcançare­ mos a concreção das positividades. estamos iniciando os primeiros passos para uma ressurreição. uma aristocrática.AS QUATRO VERDADES 103) Impõe-se a concreção dessas quatro verdades. dentro de nós. Não se trata de realizar um retorno. Quando te­ nhamos compreendido que há uma verdade teocrática. Sabemos que é difícil realizar essa concreção na prá­ tica. proi lamem: nós. . Se concrecionarmos o que há de positivo.

o kratos político. os empresários utilitários e realizadores econó­ micos. dizer: "Origem das origens. em suma. e afastar as deficiências. sem cair no vício do utilitarismo. não na realidade das coisas. E há essa colheita. e possamos. segundo diversos graus. e obstaculizam o pleno desenvolvimento da criação e da capacidade humana. sobre os estamentos inferiores. os servidores. nós. e que ter­ mina por não realizar gestos dignos. porém. homens respon­ sáveis. Queremos fugir de tudo quanto secciona. nós que de ti descendemos. que cria diástemas insondáveis. Mas. realizando e produzindo bens que satisfaçam todas as necessidades de todos. unir as positividades. Queremos sentir a responsabilidade. di­ vide. sim. porque não podemos nos furtar a conside­ rar a objectividade dos estamentos sociais. que nasce apenas na mente do que seccio­ na. a realização de nossas obras. que nos cabe. reve­ lamos a causa desses desmandos e desses vícios: o poder. Mas. não. que deve ser exaltada. e de exploração. à sua dignidade. Assim queremos o sentido da teocracia. cônscios de termos cumprido nosso dever de homens!" É mister fazer a colheita das positividades. com a paz em nossos corações e em nossas cidades e em nossos campos. Queremos uma visão utilitária. somos o Estado. do teocratismo. Devemos afastar de nós os ismos. levando a oferenda de nossa vida. que deve ser afastada e desprezada. nós.210 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 211 nós. por intermédio de nossos guias. que os diversos estamentos exercem regimes de opressão. Estamos sempre mais próximos do que de nós se separa. do domínio que separa. não porém o escravagismo. . e muito mais do que julgamos. que abre separações. de modo claro e definitivo. do que estabelece diástemas não ultrapassáveis. o domínio das ideias superiores e transcendentais. de conquista do me­ lhor bem-estar possível ao homem. não ao aristocratismo. os teocratas. a in­ compreensão do que é justo receber em paga e da paga justa. O Estado é a reunião de todos nós. servidores do bem público. a ti volvemos. Todos nós somos o Estado. parte. somos o Estado. 104) Demonstramos. e só participam dos benefícios os usufru­ tuários do poder. de contribuir ao bem social com o nosso esforço. Queremos o princípio aristocrático. Queremos. Não há rupturas no ser. também. a maio­ ria é oprimida. atribuído a poucos. não o servilismo que humilha e deprime. que erguemos nossos olhos para a fonte suprema de todas as coisas. Há em todos os campos uma verdade. Queremos o amor e a honra de bem servir aos nos­ sos semelhantes. um amor do ho­ mem aos seus altos valores. somos o Estado. venerada e cumprida. a opressão. constructores do bem económico. todos unidos na boa vontade que cons­ trói. que afasta. como uma falsi­ dade. edificadores da dignidade e da superação hu­ manas. e o abismo é um equívoco. que a tudo dá um preço e transforma todos os bens em bens de mercado. separa abissalmente. sempre sinais de abstractismo vicioso. à sua nobre­ za. então. que possuem a sua fundamentalidade justa e segura. Onde se instala o poder.

A democracia directa é uma prática já comprovada em povos de alta cultura. sem necessidade de se humilharem na adulação das massas de eleitores. constantemente mó­ veis. corruptor de consciências. a da humanidade. Quem quer admitir que um homem de dignidade vá para o meio das multidões para incensá-las. dos cesariocratas. Já mostrou quantos frutos be­ néficos pode dar. e móveis. contra todo carreirismo político. O poder de todos. afastaremos para sempre o perigo dos demagogos. para atirar-lhes epítetos cheios de adula- ção. os ladrões encasacados. . É esse o único caminho que pode realizar plenamen­ te o que de mais positivo tem o homem. contra toda habi­ tualidade do poder. que o mo­ nopólio do poder. para todo poder a todos. mas delegados com funções delimitadas rigidamente. sem necessidade da publicidade desenfreada. e aos nossos semelhantes como a nós mesmos. porque está êle acima de todas as coisas. permitamos que os mais nobres e mais justos possam prestar servi­ ços ao bem público. Que os verdadeiros valores possam erguer-se pela sua actuação. realizando o apoio-mútuo. cuja única inteligência é a as­ túcia. Tudo o mais tem sido apenas brutalidade e sórdida mentira. nem do apoio dos poderosos. evitar o viciamento do poder. 3) Amar o Ser Supremo acima de todas as coisas. desde os simples nú­ cleos de bairro. O monopólio de poder tem sido a causa. e como é fácil afastar os ambiciosos. desses que partem a sociedade. que tem impedido a união dos homens pelo amor. a democracia directa. nem nenhum partido. por estes princípios básicos. Desse modo. os incompe­ tentes. e os tem afastado pelo ódio. Nada de representantes.212 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 213 Nada tem manchado a História de páginas mais ne­ gras e de momentos mais trágicos e hediondos. que poderão assegurar a plenitude constante do homem. que seccionam as consciências. O poder não pode pertencer a uns. a cooperação de todos em benefício de cada um e de todos. pela sua competência compro­ vada. tem o direito a todo o poder. a omnipotência de alguns separados do conjunto da colectividade humana. como bem mostrava Tomás de Aquino. 2) A moral cristã sem os excessos da virtude vicio­ sa. Quando um canalha vir ao povo e lhe disser que precisa de todo o poder para rea­ lizar o bem do povo. Marchamos e devemos marchar para a pantarquia. O Estado somos todos nós. a força mo­ triz. os torpes. O poder é de todos nós. os patifes. poderá unir as consciências. Só a pantarquia. esmagai o canalha! Ninguém. 105) Lutemos. os débeis mentais. e revelar os melhores para as melhores fun­ ções. por todos pelo bem de todos. assim. que afastam os homens uns dos outros. a revolução permanente da ascenção humana: 1) A transcendência do pensamento cristão. para poder assumir postos de mando? Abramos as portas aos homens dignos. que estão nos lábios e não no cérebro e muito menos nos corações. afastar os ambiciosos. a verdadeira revolução. para bafeja­ das de elogios. mas a todos. Abramos as portas ao mérito. fundamentais de nossa cultura.

sobretudo. pela qual estructurou um pensamento culto. e a intelectualidade que nele se desenvolve aos pou­ cos. uma grande oposição entre a sua sensibilidade e afectividade. dos estatólatras impenitentes. convoquemos todos os bons guerreiros de um ideal humano superior. através da afectividade. no homem. é um animal.214 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS 4) A Liberdade plena de manifestação de todas as ideias que levem o homem ao mais alto. e tomam maior vulto em certos estágios do ciclo cultural. 9) Dar a toda riqueza uma função social. São ob­ serváveis os seguintes aspectos: a) o homem. 7) Lutar pelo bem estar em benefício de todos. iniciando-se pela luta enérgica contra a miséria e a ignorân­ cia. Têm sempre seus cultores. e ímpetos de retorno às raízes animais. a sua morbidez. considerado em sua formação biológi­ ca. E so­ bretudo permitir que as ideias positivas possam ter as mesmas condições e facilidades de veiculação como as têm as más e destructivas. 10) Dar responsabilidade a todos em benefício de todos. dós cesariocratas. podemos estabe­ lecer uma série de comentários oportunos. mas possuidor de uma intelectualidade. com o respeito ao direito de todos. o saber culto. b) há manifestações inequívocas de um ímpeto para ascender na escala animal. a demonstração. Este é o bom combate. à sensibilidade. como se vê precisamente no movimento romântico. Pela delineação que acima fizemos. e que todos participem da actividade pública. a confusão nas ideias cresce na sociedade em questão. c) esses retornos acompanham constantemente a vida humana. nos gestos. nas palavras. 6) Nobreza nas atitudes. 5) Valorização do que dignifica o homem. Para êle. de origem mais ani­ mal. no modo de proceder. dos empresários utilitários e. 8) Honrar a prestação de serviços e a retribuição justa. a ponto de dar-lhe a ciência. evitando que alguns enriqueçam à custa das carências alheias. a ciência. pela incorporação definitiva na humanidade. pois não só . e o dever de todos de trabalhar pelo bem social. A SUBLIMAÇÃO DAS POLARIDADES INEVITÁVEIS À proporção que os fundamentos teocráticos sofrem as deformações que decorrem da acção corruptiva dos aristocratas. a sua concupiscência. e tornem-no mais pujante. no ocidente (e em todos os movimentos análogos). Há sempre. e luta contra tudo quanto explore a sua fraqueza moral.

Nós somos o que nós podemos fazer de nós. Opina-se aqui. mas obti­ da pela adequação dos conteú­ dos noemáticos aos factos.216 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA ROMANTICISMO A fidelidade a si mesmo é cor­ respondente sempre aos impul­ sos à proporção que surgem. intuitiva. em suma. Valorização da incoerência. Estimulam eles a mente na bus­ ca das razões ocultas. O oculto. A fidelidade a si mesmo consis­ te no conhecer-se a si mesmo. Valorização da criação espontâ­ nea. como vemos nos românticos. Valorização da Razão. etc. O génio é o criador. Nós somos o que somos. das cau­ sas desconhecidas. o híbrido exaltam. do nexo dos entes reais entre si. e atingir ao belo. Valorização do acto animal. sobretudo. . Valorização das emoções. atendido e estimulado pelo trabalho perse­ verante e pela paciência sem fim. valorização da idealidade da realidade. sem valorização dos nexos ideais. Dionisismo. do ímpeto criador. . do ne­ xo formal que há entre os factos. A felicidade humana obtém-se pela tranquilidade da mente ao alcançar a verdade. o místico. Surge ela da captação imediata. Valorização da sem-razão. Demonstra-se a q u i . estabelecer algumas propriedades de cada aspecto extremo: o extremo animal e o extremo humano de sua influência na actividade e na criação hu­ mana. Nossa afectividade é valorizadora ou não dos factos. rectamente conduzida. . A conquista da humanidade está em alcançarmos a sua supera­ ção pelo acto genuinamente humano. sen­ sível. mas julgados recuperá­ veis. e saber como dirigi-los para a própria elevação. A felicidade humana alcança-se na fusão cósmico-animal. estimulam a imaginação. da Von­ tade dominadora das paixões e das emoções. EXTREMO H U M A N O A sensibilidade e a afectividade embora de valor vital. no perscrutar seus ímpetos. Valorização dos nexos ideais. mas à expressão com beleza. SOCIAL CLASSICISMO 217 nos favorecem a melhor compreensão dos factos históri­ cos como sobretudo nos auxiliam a ter uma visão mais nítida do momento que vivemos. Podemos. Valorização dos instintos já per­ didos. nos irracionalistas. seguindo os rumos que lhe dão a inteligência e. Valorização da coerência. Valorização exclusiva da reali­ dade. a razão. Valorização da doía. A conquista da humanidade es­ tá em não falseá-la em suas origens. emotiva. Valorização da episteme. o simbólico. Não é ao belo que se procura. da catharsis estética. do Logos. Só a intelectualidade é capaz de apreciar justamente os valores. Valorização da criação estética. Valorização do acto humano e sua vitória sobre as emoções que a viciam. são ape­ nas pontos de partida para o conhecimento. na formu­ lação dos nexos. EXTREMO ANIMAL Valorização da sensibilidade e da afectividade. e o homem tem de ascender. Apolinismo. assim. A catharsis deve ser despojada dos excessos monstruosos. Os instintos são irrecuperáveis. das reacções da sensibi­ lidade. e apenas isso. O génio é o criador espontâneo. partindo-se da experiência. do Pathos. A verdade é alcançada apenas pela experiência. paixões. conduzida pela intelectualidade. . das A verdade é alcançada. intuitivistas. . ou seja.

A vontade é a apetência ao bem. pela racionalidade. Não é difícil. O aristocratismo está na cons­ ciência do laço livremente es­ colhido. Imediatismo. novos objectivos.218 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS A beleza expressa-se em verda­ de. Mediatismo. A capacidade intelegível da emergência. Só há beleza no repugnante e no horrível. H á beleza até no repugnante. mas apenas agradabilidade. Devemos retornar às nossas ori­ gens genéricas. tanto a um como a outro. A vontade é a expressão de um ímpeto do querer. mas que pecam ao excluir ou ao desvalorizar as possibilidades do outro extremo. A capacidade inteligível é. pela estética do símbolo. O cumprimento do dever é um ímpeto natural. a ontoló­ gica. A virtude é emergente apenas. que cada um sinta que par­ ticipa de ambos extremos. O santo é o vitorioso sobre si mesmo. O amor é também um longo tra­ balho do querer. porque a posição concreta é a que concreciona positivi- . através não do género (animalidade). tam­ bém. O mais alto é alcançado através de vivências intelectuais. A virtude é o producto de uma escolha dirigida habitualmente. A inteligência é e deve ser vigi­ lante. e a orienta à con­ quista do desejado. A verdade é a lógica. A beatitude alcança-se na fusão no Ser. O cumprimento do dever decor­ re da consciência da obriga­ ção. A voca­ ção é tudo. aflora O homem alcança o mais alto através de vivências afectivas e sensíveis. distinção. a mais sábia. que o homem supera. E levada avante essa apreciação. O cosmos é um espetáculo. O homem só se liberta pelo co­ nhecimento que lhe dará o do­ mínio pleno das coisas. mas da espécie (humanidade). e que alguns se sintam mais simpatèticamente ligados a um que a outro. quando expressam a verdade ontológica. / O PROBLEMA Somos capazes de dirigir nosso destino e desviarmo-nos das contingências circunstanciais. A verdade é apenas a material. SOCIAL 219 A verdade expressa-se em be­ leza. O homem só se liberta pelo do­ mínio das coisas. pois. Devemos retornar às nossas ori­ gens transcendentais. pela ascese místi­ ca. O aristocratismo está no pathos. O guia (líder) popular é o que dá ao povo um ideal e uma meta. Fusão (yoga) ou submissão (islam). pela estética do simbolizado. O santo expressa a sua tendên­ cia. logo se verificaria que ambos extremos têm muito de verdadeiro em suas afirmações. A beatitude obtém-se pela liber­ tação de toda limitação. Separação. A verdade religiosa alcança-se pela fusão. o producto de uma longa aprendizagem e de uma cuidadosa selecção. no sentir distintamente a obri­ gação moral. O guia popular é a expressão da vontade colectiva. Nós construímos a nós mesmos. A beleza está também na sensi­ bilidade. Na sensibilidade não há beleza. e também a mais justa e a mais verdadeira. no horrível. A inteligência é estimulada pe­ los seus objectos. não será difícil compreender que assiste muito de verdade. O amor é espontâneo e irracio­ nal. so­ bretudo. O líder é aquele que desperta na massa um novo querer. Mas. Uma visão concreta dos extremos seria. J á nascemos feitos. Somos o producto dos aconteci­ mentos e das nossas circuns­ tâncias. que nele vê a ex­ pressão do seu querer. desde logo. A verdade religiosa alcança-se pela visão transcendental. Os homens nascem uns para conquistar o domínio. O líder é o que se põe à frente da massa. Os homens se fazem e podem dar a si mesmos uma direcção.

com seus fluxos e refluxos. mas há o pathos do hieratismo aristocrático na ex- pressão simbólica da sua agressividade e da sua comba­ tividade. Ademais essa não lhe poderia trazer nenhum benefício. Consequentemente. na abadia de Cluny. e a sua superação tem de seguir o roteiro da humanidade. mas a intelectualidade terá de despojá-las das valorizações afectivas para alcançar uma plenitude capaz de dar um nexo de idealidade à realidade. No entanto. Assim. Há sempre. que há entre as razões (eide) que nos permitem com­ preender os factos. qualquer das duas polaridades extremam-se exageradamente. é mais impulsionado pelas suas tendências simpatéticas e antipatéticas do que pela apreciação justa de quem consegue estar acima de seus ímpetos mais profundos. para muitos. Temos que partir de algumas evidências. E em cada um há. A posição humana mais con­ sentânea com essa realidade é a consciência da conserva­ ção do que é dionisíaco em nós e do que é apolíneo. adormecidos ou não. 3) O acto humano é escalarmente alcançável. ou seja. na História. Em Notre Dame de Paris. e que se refutam. 2) A Técnica e a Ciência abriram ao homem novos caminhos. porque a alternância é constante. ou seja: a vitória do homem só pode realizar-se pela con­ quista constante do acto humano purificado de suas peias. com eles convive. o testemunho das suas duas raízes opostas. uma com a eloquência do Pathos. Há sempre duas maneiras fundamen­ tais de considerar o homem. a alternân­ cia dessas polarizações. o homem não poderá negar sua origem. também. fundando-nos na realidade huma­ na. toma o nexo de reali­ dade entre as experiências e as liga ao nexo de idealidade. A primeira influi nas mentes tendentemente estéticas. assim. há a expres­ são vigilante da racionalidade. a outra nas mentes tendentemente racionais. a outra com a eloquência do Logos. O homem tem . Se passarmos os olhos pelos períodos e fases de todo ciclo cultural. há a expressão do apolíneo na regularidade de suas li­ nhas. veremos patentemente o constante choque dessas polarizações e das estratificações que elas reali­ zam no homem. Uma usa a força da persuasão através da seducção dos argumentos afectivos. o entrechoque entre o dionisíaco da primeira contra o apolíneo da segunda. o homem é esses extremos. o cosmos e a História. e os vive. As raízes genéricas oferecem os elementos expe­ rimentais. do belo ao horrível. e a vigilância é o ponto de partida para as suas novas vitórias. num entrechoque criador. e a predominância de uma sobre a outra é apenas passa­ geira. historicamente. as conquistas que o homem já realizou impedem-lhe que retorne pelo caminho do género. que se opõem.220 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 221 dades em torno de razões. Mas. como já demonstramos. Tendo perdido os instintos principais. que não de­ vem ser esquecidas: 1) é impossível ao homem o retorno à animalidade. 4) Contudo. mas esquecem de ver a simbólica de uma afectividade e os ímpetos da imagina ção nas quimeras que expressam desde o temor ao terror pânico. que é concreta. a outra a persuasão através do rigor dos argumentos lógicos. e na raiz de todos os seus conhecimentos há sempre a afirmação da sua origem genérica. o ser humano. no que o homem faz e realiza. que se obstinam. tem sido mais um fruto da paixão que da razão. porque há sempre.

quer queiramos ou não. e só ela pode oferecer ao homem um caminho de superação. um desejo de integração. Será impossível permanecer na indiferença. Para a primeira maneira de pensar basta apenas expres­ sar simpatèticamente o que é sentido. uma demissão da humanidade. transformando-se apenas num vicioso especular em torno dos dois pólos extremos. fundando-se no Pathos. Sem dúvida. devido à grande sementei­ ra de ideias falsas e prejudiciais. Mas esse desafio não é só feito ao homem como co­ lectividade. mas um estágio mais elevado. que se apossa de mentes mais fracas e em geral deficitárias. acarre­ tando graves consequências. e permite a concreção da idealidade da realidade e a realidade da idealidade. Necessitaríamos des­ truir tudo quanto a Técnica. à filosofia concreta. visualizar. agora. e nos é fácil compreender as razões de nossa inquietação. E esse desafio provocará uma resposta. e no nexo real das coisas ideais. Em suma. que não ape­ tece. de tomar uma posição. por sua vez. incongruente. desafiado. de nossa angústia. de superação das meras agregações. Inegavelmente. São inúteis e fadadas ao erro e ao malo­ gro todas as tentativas contrárias. e da idealidade (como nexo das coisas ideais). tanto de um pólo como de outro. esteja um testemunho simbólico de seu desejo de rompimento de uma unidade. Contudo. um desejo de realizar uma unidade. Manter-se dentro de uma visão concreta de onticidade. e até no poder humano de desintegrar as coisas. A coerência é apresentada como algo duvidoso. de nosso balancear e também do desespero. seria uma capi­ tulação. no nexo ideal das coisas reais. o que há de acentuações de um lado e outro. Ademais. que consistiriam. inconveniente. sem dúvida. um ímpeto para alcançar uma nova tensão superadora. cuidadosamente. mas a concre­ ção deste que lhe dá os fundamentos reais. às selvas. pervertidoras. podemos em nossa época. uma unidade de simplicidade nova. suspeito. é impossível retornarmos à animali­ dade. É impossível o retorno e. mas a cada um de nós como indivíduo. ao primitivismo. nossa época. a Ciência e a Filosofia posi­ tiva construíram. contraditório. o Logos não é a exclusão do Pathos. mas também é difícil alcançarmos a plenitude do acto humano. Não há mais recursos dentro de nós para volvermos às ca­ vernas. porque permite a captação da realidade (como nexo das coisas reais). podemos desde logo notar a presença persistente de inúmeras atitudes falsas e contrárias ao interesse humano e.222 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 223 de aíirmar-se pelo Logos. porque onde entra a vontade não há indiferenças. que será a aceita­ ção do combate ou a fuga precipitada. Como há em todas as épocas humanas a presença de valorizações. a fuga só poderá dar-se por uma demissão da humanidade. que perdeu o seu contacto genuinamente apolíneo. Mas. Talvez em muitos ímpetos de desagre­ gação que hoje se manifestam. E teremos. A perfectibilida­ de da intelectualidade é evidente e representa um lanço mais elevado no roteiro da evolução cósmica. O homem moderno está. . Vejamos. para que encontremos soluções que nos sejam realmente benéficas. que manter-se num pensamento vário. pois. que avassalaram a filo­ sofia moderna. que transcenda aos elementos componentes. A vitória humana só pode caber. ademais. Como estamos no meio do caminho. primeiramente. esta não implica a anulação da outra. há. alguns exemplos: É muito rnais fácil pensar incoerentemente que coerentemente. de ontologicidade e de logicidade é mais difícil. vi­ vemos a intranquilidade que os dois extremos actualizam dentro de nós. enquanto aquele capta os fundamentos (conexões) ideais.

clamando: ligião é. gíiesmos. Os que se abismam. . à razão primeira e cristã apenas af^s Q u e p e n e t r e m dentro de si mesmos. no momento da Grande Decisão. p r a n t a n o S lismo de dois seres p. necessária. „ . . > iremos. e que desejam convencer-nos de que seremos apenas. mas trevas que tudo Ora. ou seja. Seu decultura persa deir. Í. impotentes e acovardados. a racionalidade concreta. . . num acto plenamente humano. para que. e passarão como exemplos da covar­ dia humana. Outros. Nós queremos nos dirigir a estes. dade. não pode riou todo angústia. ou nos afogaremos no pân- . Ou voltamos a crer o que ultraj e nos ultrapassa. aos que não temem os golpes do provocador. tudo trapassa a natureza daí . como o fizemos. ^ . possam outra existência e de em busca do ponto de partida. . erguerão o peito. o Ser Primeiro r fr e s c Q e s a d i Q d a g m o n t a n h a s m a s limitado por outro. Aro e Supremo. vendo a miséria ou à fé. L tudo abismos.'. aqui. assim aro ar puro! acima da natu . mas pelo homem que afirma a si mesmo naquilo que deve ser seu galardão de honra. . . que se afastem de nós. . que será o poder capaz de forjar o seu destino com as próprias mãos num acto de vontade. aos que não se acovardam. Será esta que lhe permitirá no estudo da História vi­ sualizar os meios de vencer as contingências que surgem aos olhos de muitos como uma necessidade imprescriptível. pc e afirmarmos outra vez o hierático em nós. de muide sucedam.224 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS f 227 Alguns não quererão tomar consciências do desafio. nomem ocidental. sua náusea é muzd e Ahriman. . e e .. dis^j q u e a v a n c e m 0 S j n a 0 < s possível que nos respeito à nossa < e s t á g i o m a i s a l t o > s e m q u e n o s reiiguefonte primeira e P o n t e de nossa vida. e nao pro. ri. níil é simples. o que leva a absunrente já cansou de descrer. . e reuni­ rão suas forças para aceitar o combate. a noç*>í> a l a v r a s ' * u a s ^ u e i x a s > s e u . que conosco se unam para o com­ bate. . aos que não desfalecem. estamos já aptos a reali­ zar a grande e a maior façanha do homem: a conquista da sua liberdade. afinal. do qual proviemos. a racionalidade superior. . _ .. .dade. .maçao nos abismaremos na decadência e na ser. . sua morbidez. o que gera os aconteci­ mentos e sabendo que dispomos de meios para desviar os óbices e dirigir a nós mesmos. o producto dos acontecimentos. aos que sentem crescer em si mesmos o orgulho de serem desafiados para o mais ingente dos combates. o inferno que os envolve. . o hora. que passem para o outro lado. e que tenham a certeza de que lutarão pelo homem. que se deixem arrastar pela corrente como folhas soltas ao sabor das forças desencadeadas. _ . „. desespêA cosmovisão da époce^ f a s t a d a r m o s o espectranscendentalidade. e sempre. . JLZ que brilhe. ele „. t e s n a r m a s e k 0 n s estômagos para podeA Religião br entre o nauseabundo vapor que se desdor. . Conhecendo. >o productos próÁ factores. . ante o temor do combate.„ . Os que desejam combater pela superação humana. entregar-se-ão a um nihilismo passivo negativo. acovardados ante êle. porém. . . e apenas a estes. . desJ obteve nada de melhor A GRANDE D£ n a descrença. Outros. que sigam ao nosso lado.. p< ' tureza é de s outra vez desafiados. . ' . sua damnatural.udo trevas. . E o pnque a naturezf:. sua angústia é lassidão. . .

clamando: quero luz. vendo a miséria que os avassala. para que. estamos e c"' 1 u a n ° a zar a grande e a maior façanha do h o m r ° S e n e i d a d e d e da sua liberdade. O homem descrente já cansou de descrer. como o fizemos. a s s j m > u m a SUper-natureza. . tudo mau cheiro. filosofar é aquela Será esta que lhe permitirá no esti n a o s e consegue sualizar os meios de vencer as contingfl ue explica tudo aos olhos de muitos como uma necessiridículo explicar vel. o producto dos acontecimentos da natureza". tudo abismos. is da energia". não pode nela conter-se. nostalgia. o temor do combate. Não obteve nada de melhor com a descrença. desligando-se da Fonte da Vida. e que tenham a certeza de que lente. o que . Estamos outra vez desafiados. ou nos afogaremos no pân- . sigam ao nosso lado. que será o poder capaz* n a o e r e d u z i r destino com as próprias mãos num acto d^ u e c 0 ° P e r a m íac acto plenamente humano. não é possível que nos integremos num estágio mais alto. não são como folhas soltas ao sabor dasitingi-lo. Não há luz que brilhe. Seu de­ sespero é cansaço.224 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 227 guns na. sua náusea é derrota. temem os golpes do provoca. sem que nos religuemos outra vez à Fonte de nossa vida. . a cosmovisao de nossa culOs que se abismam. „ . julgar deve ser seu galardão de honra. que sucedem. náusea. porque. sua damnação. que se deixema ignorância. Nada conseguiu de melhor o homem ocidental. de mui­ tas condições. ^ Peca P°r o basta dizer manifestação nada há sem a cooperação fundamental do Ser Primeiro e Supremo. . impoue não podem alcançá-lo. . ou para o outro lado. Não é possível que avancemos. desespe­ ro. p o r i s g o > ^ p o d e r e & l i z a r Q q u e Nós queremos no. que tenham fortes narinas e bons estômagos para pode­ rem respirar por entre o nauseabundo vapor que se des­ prende deles mesmos. e que desejam convencer-nos de quês fêz". porque se tornou todo angústia. mágoa. da estructura mentos e sabendo que dispomos de me os óbices e dirigir a nós mesmos. são productos pró­ ximos de inúmeras causas. não há o ar fresco e sadio das montanhas. . suas queixas. Basta olharmos o espec­ táculo dos descrentes. sua intranquilidade. que conosco seguiu resolver qualbate. afinal. Conhecendo. como die sempre. suas palavras.. tudo trevas. de diversos factores. . „. o inferno que os envolve. seu desespero.de uma coisa. que se afívida. Outi i t a d a > e n q u a n t o ê l e r e a l i z a s e g undo a rão suas forças par. Sem essa afirmação nos abismaremos na decadência e na derrocada final. é sobrenatuOutros. possam outra vez correrem em busca do ponto de partida. quero ar puro! Estamos no momento da Grande Decisão. A dúvida os Os que desejam combater pela simorância os aniquila. Ou voltamos a crer em algo que nos ultrapassa. mas o fétido hálito dos pântanos. . . E o pri­ meiro passo é afirmarmos outra vez o hierático em nós. ela que sentem crescer em aeiro. 1izar Q q u e n e n h u m s e r n a t u r a l f i n i t o é mo passivo negat c a d & u m r e a l i z a d e n t r o d o s i i m it e s dia humana. E se nas coisas aos que não se acovardie ultrapasse a sua natureza. os factos heterogéneos. sua morbidez. É tudo miséria. a raci d e d e aporias que a racionalidade concreta. tedesafiados para o mais ingeabsurdo. acovara. 7 . ela cria maiomas pelo homem que afirma a si ( e m dúvida. pela descrença. que cooperam para que sucedam. Que penetrem dentro de si mesmos. sua angústia é lassidão.. Abismando-se na descrença. à razão primeira e última de sermos. mas trevas que tudo encobrem. do contrário.

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tano da descrença, na náusea de nós mesmos, no suicídio das nossas melhores esperanças. Se queremos vencer a decadência, temos outra vez de volver à fé, mas a fé agora robustecida pela demons­ tração poderosa de uma filosofia concreta, de uma filo­ sofia que não cavila, que não aceita compromissos com falsos postulados, de uma filosofia que se fundamente em argumentos apodíticos e sólidos. Então, outra vez, a luz meridiana há de brilhar dentro de nós para iluminar to­ das as coisas.
* * *

estágio intelectual, que a filosofia cristã tem mais bases e é mais sólida que qualquer outra, e que apresenta ar­ gumentos irretorquíveis, e é capaz de anular, de esfarelar, de tornar em pó, todos os argumentos que manejam os apóstolos da descrença. Aceitemos o debate, desafiemos os falsos filósofos, mostremos à calva a sua ignorância, polemizemos com eles, mostremos a inanidade de suas doutrinas, a vacui­ dade de suas ideias, a inconsistência de seus argumentos. Marchemos para o bom combate, o combate em fa­ vor de nossa cultura, contra os que desejam destruí-la. Denunciemos as forças ocultas que trabalham nas som­ bras, desejosas de destruir o que de mais alto realizou o homem. Mas com coragem, com decisão, com bravura. O mo­ mento não é para tíbios, tímidos, acovardados, vencidos, mas para bravos, decididos, valentes, audaciosos no sen­ tido positivo do termo. Lancemos a luva aos nossos adversários e se não vierem para o campo de combate que lhes oferecemos, vamos às suas tocas para os arrancarmos de lá, e vencê-los no mais belo dos combates, na mais sublime de todas as guerras: a guerra dos guerreiros do conhecimento con-, tra os falsos sábios, os fariseus da nossa cultura!
* * *

Esta é a verdade que há na teocracia, na hierocracia e na aretocracia. Mas ao lado dessa verdade, há ainda o erro, há ainda as formas defeituosas, culpadas dos desregramentos. O homem de hoje já se familiarizou com o conhecimento. Desde a escola já participa de um saber culto, fundado em observações e em experiências. Sua linguagem não é mais a simbólica, e não alcança a verdade através das analogias, mas através da demonstração lógica directa. Como pretender avivar convicções com velhos símbolos, que não têm mais significação nem para quem os apre­ senta? Vamos, hieráticos, teocráticos e aretocráticos, é mis­ ter outra campanha, outras vozes, outras razões, outros símbolos, outros ritos, outras cerimónias. É preciso agora despertar a razão, e abrir-lhe as portas que levarão ao mais profundo. A religião não é apenas algo que per­ tence ao coração, mas que também pertence ao cérebro. Já falamos muito ao coração, falemos agora ao cérebro, e ao juntarmos as duas linguagens, seremos melhor com­ preendidos. Sabem muito bem os homens que seguem a religião cristã, pelo menos os que estão em mais alto

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Mas também há outra verdade, que é mister erguer bem alto. O homem nada é sem princípios éticos. Sem um valor aristocrático, sem um sentir da sua grandeza moral é apenas um fantasma de homem, um animal dis­ farçado de gente. Não é possível que qualquer energúmeno levante a voz para acusar a dignidade humana, afrontar a moral,

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manchar a ética e proclamar a grandeza de suas imun­ das atitudes. Não é possível que deixemos à solta aque­ las que mancham o nome sagrado da família, que a trans­ formam apenas na promiscuidade, animais cúpidos, aguilhoados pelas paixões mais vorazes, que afrontam os costumes com suas obscenas atitudes, que lançam sobre os que têm vergonha na cara a peçonha da sua covardia moral. O homem é um ser que se supera e deve superar-se. É um ser que deve escolher o caminho da Humanidade e vencer as suas fraquezas, realizar-se na plenitude de si mesmo. O homem tem em si um brio, e ninguém tem o direito de destruí-lo ou viciá-lo. Sermos cada vez me­ lhores tem de ser o ideal humano, porque nada melhor lhe corresponde que isso. Como admitir-se que homens de proceder imundo sujem o nome da aristocracia com os seus infames doestos? Aristocracia não é a dos alma­ naques, não é a das árvores genealógicas, mas a das ati­ tudes, de alma viril e digna. Essa aristocracia houve e sempre haverá, e não é admissível que imundos morais lancem sobre ela a ofensa infame. Cada um de nós deve fazer um exame de consciência. Buscar dentro de si o que realmente tem valor, o que realmente é digno de ostentarmos como seres humanos. É mister que outra vez valorizemos o melhor em todos os nossos actos, em todos os nossos momentos. Devemos ter o amor de sermos sempre cada vez melhores, de fazer cada vez melhor o que fazemos hoje, e superarmos ama­ nhã a nós mesmos. Devemos amar o nosso amanhã, que deve ser a superação de nosso hoje. Devemos erguer-nos acima de nós mesmos, e afirmarmos que não somos coisas, mas homens, que não somos apenas accidentes no caminho da vida, mas pessoas, cuja vida deve ser um exemplo para os outros e cujos gestos devem ser o nosso galardão.

Negar a verdade aristocrática é negar o homem, é en­ vilecê-lo, é lançá-lo no pântano fétido. Sejamos sempre superiores a nós mesmos, ou, então, melhor fora não termos nascido. Ou nos superamos ou nos demitiremos da humanidade. Basta de valorizações de patifes, de ca­ nalhas, de peculatários, de covardes morais, de crimino­ sos assanhados. Basta de baixarmos os nossos olhos para essas excrescências da nossa sub-humanidade. Erga­ mos nossos olhos para as grandes acções, imitemos aque­ les que se elevaram entre os homens, tomemos como exemplos os vitoriosos de si mesmos, os grandes, os virtuo­ sos, os fortes, os que não trepidam em combater o mal em si e nos outros, os que souberam levar bem alto o estandarte da honra (da honra, senhores, dessa palavra tão pouco ouvida, dessa palavra que já silenciou em tan­ tos lábios e em tantos corações) que os levaram ao mais alto, aos picos mais altos das montanhas, que devem ser a moradia dos homens de pensamento elevado e de querer forte!
* * *

Esta é outra verdade que não podemos esquecer: A Grande Decisão se aproxima e a renovação moral será realizada ou nos aniquilaremos na decadência imunda, na demissão de nós mesmos. Aceitemos aqui também o bom combate. Temos ra­ zões sólidas, argumentos irretorquíveis para provar a va­ lidez da ética cristã; temos argumentos capazes de reba­ ter a todas as infâmias e a denunciar todas as covardias morais. Marchemos para o combate, desafiemos nossos inimigos para o campo de batalha e se não quiserem vir, vamos às suas tocas para os arrancarmos de lá e vencê-los no mais belo dos combates, na mais sublime de todas

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as guerras: a guerra dos guerreiros do conhecimento con­ tra os falsos sábios, os fariseus da nossa cultura!
* * *

Mas há uma terceira verdade que sempre persistirá. Somos homens, e como tais temos necessidades a apli­ car, de arrancar da natureza os bens que necessitamos para erguerem nossas forças e dar-nos o conforto justo que merecemos. Temos de ser práticos e activos na realização desses bens, na producção do que carecemos. Mas é mister de­ nunciar as mentiras que perturbaram o progresso huma­ no, e ameaçam afundar-nos numa brutalidade sem prece­ dentes na História. É mister denunciar as falsas dou­ trinas sociais, o "socialismo" de mentira, o socialismo que é miséria e indignidade, que pretende transformar os homens em peças de máquinas, em números abstractos, «. em instrumentos de trabalho, que os utiliza e os desgasta e não os eleva, para servirem à satisfação do apetite de mando de cesariocratas caricatos, de falsos messias, de falsos guias, de falsos líderes, que apenas são aproveita­ dores das misérias humanas, fomentadores de ressenti­ mentos, falsos analistas das verdades económicas, deturpadores de factos e de intenções, com o intuito de alge­ mar todos os homens à mais cruel das escravidões, que até os senhores escraviza. Toda essa mentira deve ser denunciada, e com cora­ gem. Devemos ir à luta e mostrar a inanidade das afir­ mativas, a improcedência dos argumentos, a repugnância que oferecem suas teses, e demonstrar com argumentos sólidos e definitivos a falsidade de seus postulados. A Grande Decisão exige de nós essa atitude, espera de nós essa acção. Deixemos de lado os covardes, que tremem ante o terror que os adversários inculcam, e os

desafiemos para o campo de combate que lhes oferece­ mos, e se não o aceitarem, vamos às suas tocas para os arrancarmos de lá e vencê-los no mais belo dos combates, na mais sublime de todas as guerras: a guerra dos guer­ reiros do conhecimento contra os falsos sábios, contra os fariseus da nossa cultura!
* * *

Mas também há outra verdade, a verdade da cari­ dade cristã, o amor ao bem de nossos semelhantes, esse amor que eleva o homem acima da animalidade, que leva a olhar o semelhante como amigo, como do mesmo san­ gue, de uma progénie que vem do mais alto, que irmana os corações. Essa verdade é grandeza de servir, a gran­ deza de prestar auxílio ao que dele necessita, de estirar o braço ao que cai, de animar ao que desfalece, de curar as chagas do ferido, de aliviar o peso que lhe dobra as costas, de animá-lo nos momentos de desfalecimento, de ajudá-lo a erguer o edifício que constrói, de acompanhá-lo na obra que realiza, de unir esforços aos seus esfor­ ços, no apoio mútuo que tende a realizar o melhor e cons­ truir o de que todos necessitamos para anular a nossa miséria. E elevemos bem alto a sublimidade do que presta serviços, do que ajuda ao próximo, do que mutuamente se apoia para realizar a obra social. E elevemos bem alto essas virtudes, que muitos que­ rem denegrir, querem desmerecer, querem aviltar. Com coragem e decisão, lutaremos por esta quarta verdade. Possuímos meios de mostrar a validez de nos­ sas teses e a inanidade dos postulados dos que perver­ tem o esforço humano, e querem dar-lhe um sentido que falseia a sua justa intenção.

os fariseus da nossa cultura! * * * Fechemos suas bocarras imundas de fétido hálito. se queremos salvar o que de maior o homem realizou e não perecermos na mais hedionda e infame das derrocadas. e se não vierem para o campo de combate que lhes oferecemos. e se não vierem para o cam­ po de combate que lhes oferecemos. Mas lembrai-vos que a responsabilidade de vossa escolha é apenas vossa. e que trazem no rosto um sorriso lumi­ noso que desfaz para sempre todas as trevas. os fariseus de nossa cultura! E os atiremos. que espreita em todos os desvãos da História os momentos de desfalecimento e de confusão humana. É inútil esperar. na mais sublime de todas as guerras: a guerra dos guerreiros do conhecimento contra os falsos sábios. * * * São essenciais essas quatro verdades se queremos conter a decadência e queremos outra vez ascender. aproveitadores de todas as misérias. ex­ ploradores de todos os ressentimentos. ao Moloque de nossa época. Estais convocados. que desejam criar novas e poderosas algemas para destruir no homem o que de mais alto êle tem. e de mais ninguém. na mais sublime de todas as guerras: a guerra dos guerreiros do conhecimento con­ tra os falsos sábios. para os arrancarmos de lá. a esse falso monstro que morde com dentes falsos. que é a moradia dos mais dignos. ao Estado todo-poderoso. Escolhei. cuja vontade os aproxima de todos os seus irmãos para um abraço de amor. que são a moradia das almas fortes. de todas as ausências. Denunciemos todos esses novos carrascos. ou afogarmo-nos no pântano fétido. A Grande Decisão chegou. de todas as an­ gústias. e vencê-los no mais belo dos combates. que tem olhos fal­ sos. vamos às suas tocas. dos homens de boa vontade. * * :S Façamos o cantochão do cesariocrata. a falsidade de suas teses. afinal. Combatamo-los com coragem e decisão. Elevemos ao mais alto o estandarte de nossa luta. . ao monstro de todas as indignidades. dos homens de alma forte e de coração bom. e vencê-los no mais belo dos combates. o seu maior galardão: a liber­ dade. ao pântano fétido de onde pon­ tificam. garras falsas e intenções sinistras. todos. dos que têm dentro de si a consciência de sua dignidade e têm vergonha à flor de sua face. e não tentem outra vez cuspir nas estrelas e tentar borrifar de lama o que está no pico das montanhas. vamos às suas imundas tocas para os arrancarmos de lá. dessa figura sinistra. e que pregam aos homens a submissão ao poder absoluto. mostremos a insanidade e a inanidade de seus postula­ dos. todos es­ ses assanhados de sangue e de cupidez. Tereis de escolher entre o bom comfcate ou a derrota ignominiosa.234 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 235 Lancemos a luva aos nossos adversários. aos picos das montanhas. para que de lá não saiam. Lancemos também a eles a nossa luva.

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