O PROBLEMA SOCIAL

MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS

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COLEÇÃO DOS GRANDES TEMAS SOCIAIS Fazem parte desta coleçáo as seguintes obras de Mário Ferreira dos Santos: 1) 2) 3) 4) 5) 6) 7) 8) ») Tratado de Economia I vol. Tratado de Economia n vol. Filosofia e História da Cultura I vol. Filosofia e História da Cultura II vol. Filosofia e História da Cultura IH voL Análise de Temas Sociais I vai. Análise de Temas Sociais II vol. Análise de Temas Sociais III vol. O Problema Social

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PROBLEMA SOCIAL
IX VOLUME da Coleção Problemas Sociais
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Rua 15 de Novembro, 137 — 8.° andar — Tel.: 35-6080 SAO P A U L O

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l. a edição, junho de 1962"

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O Socialismo e Política ADVERTÊNCIA AO LEITOR Sem dúvida, para a Filosofia, o vocabulário é d e máxima importância e, sobretudo, o elemento etimoló­ gico da composição dos termos. Como, na ortografia atual, são dispensadas certas consoantes (mudas, en­ tretanto, na linguagem de hoje), nós as conservamos' apenas quando contribuem para apontar étimos que facilitem a melhor compreensão da formação histó­ rica do termo empregado, e apenas quando julgamos conveniente chamar a atenção do leitor para eles. Fazemos esta observação somente para evitar a es­ tranheza que possa causar a conservação de tal grafia. MÁRIO FERREIRA DOS SANTO» Análise Decadialéctica do Marxismo Os Factores Emergentes e Predisponentes Análise Decadialéctica Postulados Concretos sobre o Desenvolvimento na História O Acto Humano O Campo Social O Campo Psicológico No Campo Caracterológico A Tensão Cultural Lições da História Das Utopias . . _ Das Ideias Liberais O Marxismo O Laborismo Da Propriedade Do Princípio de Nacionalidade O Factor írnico Fundamentos Éticos da Concepção Concreta Análise Filosófica do Capitalismo Oferta e Procura Accionarato Obreiro Colonialismo Da Previsão Económica O Dirigismo do Homem 79 82 83 84 86 88 90 95 96 100 103 104 105 107 111 119 127 129 130 134 135 II. 31 6L 67

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS Este livro foi composto e impresso para a Livraria e Editora LOGOS Ltda., na Gráfica e Editora MINOX Ltda., à av. Conceição, 645 — SAO PAULO

pois tende a substituí-lo. Nunca. iniciada no III vol. em se preocuparem mais com os meios do que com os fins. o qual exige a acção de intermediários. tendente para um ideal final. infâmias. mas (1) Continuação da crítica libertária ao socialismo. de «Análise de Temas Sociais». Como sempre sucede. Todos os partidos políticos terminam fatalmente. etc). que combater a política é fazer obra fascista. como méto­ do de acção dos socialistas. com todo o seu cor­ tejo de oportunismo. e a luta emancipadora. pro­ cessos escusos. quando se consegue alguma coisa. misérias. tem sido um dos maiores males na luta pela emancipação humana. se consegue atingir os fins desejados e. e julgam-na o processo mais falso de luta pela emancipação social. Esta a razão por que os libertários combatem a po­ lítica. o meio acaba tornando-se mais importan­ te que o fim. Trabalho e Natureza A Cooperação dos Factores O Papel da Técnica Nossa Situação A Humanização do Trabalho O Homem é Um Fim e Não Um Meio O Que se Deve Entender Por Democracia Administração Neotécnica Espírito Paleotécnico O Medo ao Grandioso Aos Homens de Responsabilidade do Brasil Análise Geral de Nossa Economia O Momento que Passa Formas Cooperacionais P a r a Finalizar As Positividades dos Ciclos Culturais As Quatro Verdades A Sublimação das Polaridades Inevitáveis A Grande Decisão SOCIALISMO E POLÍTICA (1) Não é de hoje que a má política (isto é. onde se diviniza o Estado Soviético.10 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS 143 145 147 148 154 156 157 158 159 161 164 166 169 178 198 201 203 209 215 225 A Cooperação Capital. Dizem. é sempre apesar da política. é um método indirecto. mais dia menos dia. Mas esquecem que quem desmora­ liza a acção política não é a campanha anti-política. . pela política. hoje. acaba por endeusar os meios. indecências. os políticos. A política. me­ diato. a arte de conquistar o poder e de conservá-lo. como acontece na Rússia.

começar a fazê-lo. No terreno político. mas. com a possibilidade que há de se congre­ gar numa sociedade humana as forças de producção e de consumo para uma obra homogénea (queremos referir-nos. onde está? Há o poder do Estado hipertrofiado. Há socialis­ tas em todo o mundo. por livre iniciativa. há sacrifícios sem conta. da praxis. porque a política só serve para des­ moralizar a si mesma. Se os socialistas querem so­ cialismo. desde já. é que desmoraliza a política. com a finalidade de obter o poder e de conservá-lo. Querer dar-Ihe um conceito puro e científico. socialismo político é política sem socialis­ mo. Em suma. que é sempre o de um número reduzido. e de alheados da producção. em suma. é lógico. Faz-se apenas obra política. não se faz obra socialista. para um grupo de privilegiados. de emperrante. Muitas são as razões que oferecem os partidários dos meios eleitoralistas na luta emancipadora dos oprimidos. Com o desenvolvimento da técnica. a política é algo de anacrónico. da mentira. estaria bem num museu de curiosidades. é falsear o seu sentido verdadeiro e prático. seu prometer desme­ dido. pela simples razão que leva den­ tro de si o próprio veneno que a mata. sua acção mentirosa. a comissariocracia. de impróprio. porque encerra em sua essência o vírus do domínio. Enquanto o socialismo usar a arma da política estará fazendo o papel das classes dominantes. há a nacionali­ zação das empresas. a tecnocracia. o dirigismo. da ciência da administração. é necessário. da vitória fácil. socialismo onde está? Em suma.""■s« 12 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 13 sim a acção dos políticos! O espetáculo dos parlamen­ tos. socialismo. ao cesarismo. socialis­ mo onde está? Há operários assalariados. há productores oprimidos. porque não é o meio apropriado para as transformações de índole social. . Política é uma arte inter­ mediária. proclamam os anarquistas. é o aproveitamento dos meios eleitorais e políticos em sua acção. Podemos sintetizá-los aqui: a) oferece uma tribuna de propaganda para os ideais socialistas. A crise do socialismo moderno é producto da sua acção política. Por isso os libertários consideram que um dos erros mais desastrosos. E o mesmo fe­ nómeno que se dá com a organização burocrática. Querer chamar de política essa acção. Numa sociedade capitalista. de métodos intermediários e indirectos. A transformação social é obra de todos. é apenas separá-la da realidade prática. há a centralização burocrática. socia­ lizando seus actos e sua acção. da intriga. de obstaculizador. o político cada vez mais se politiquiza. dizem os libertários. aos milhões. estará servindo-as. a uma sociedade cooperacional). A luta contra a política é uma luta de moralização social. em que o burocrata cada vez mais se burocratiza. e todos precisam empregar os maiores esforços para conseguir realizá-la. a falta de dignidade dos chamados indevidamente "representantes do povo". mas. tudo isso. a todos compete. sua traição constante aos princípios. as quais devem ser feitas pela acção congregada das pró­ prias organizações populares. que têm perturbado a acção dos socia­ listas do mundo inteiro. sua subserviência a interesses inconfessáveis. mas. A política tende para o menor número. a política só pode favo­ recer ao fascismo. São os políticos que fazem obra fascista. e nada mais.

e de seus progressos ou regressos na con­ fiança e no prestígio popular. pois é na prática que vamos encontrar o melhor fundamento das teorias. São esses os três argumentos principais dos eleitora­ listas. quando ela é aplicável. e vemos nela. Parecem poderosos e eficientes. de se terem desviado de seus ver­ dadeiros princípios. Não são apenas os "representantes do povo" os acusados de desvio. continuamente. de incluírem "traidores" em suas fileiras. por esses meios. tal explicação não deve estar nos lábios de um verdadeiro socialista. são as seguintes: Quem estudar detidamente a história dos partidos socialistas. aos antigos "traidores". é que a cegueira partidária es­ conde a realidade da vida e a verdadeira significação de­ generativa que existe na luta eleitoral e política. que foram tão terrivelmente acusados. E quando sobem "esses puros" ao poder. que têm servido apenas para des­ virtuar a verdadeira luta dos trabalhadores. a tornar-se exigente. e criar abismos no movimento das classes oprimidas. e adia. que sempre se inicia vacilante. mas nós seremos diferentes". de cola­ borarem vergonhosamente. c) permite conhecer o apoio popular de um partido pela votação. por estas ou aquelas razões. em tudo e por tudo. tornam-se iguais. este facto inegável: todo partido socia­ lista que. mistificar a massa sob a ingénua afirmação de "que eles erraram porque eram eles. E quando os marxistas se aproveitam desses mesmos cargos eleitorais. mas como os li­ bertários se negam a separar a teoria da prática. para empreenderem acordos. por exemplo. Por princípio são eles anti-partidários. Se tais factos. Ora. de se terem tornado colaboracionis­ tas. mas apenas querer iludir a própria verdade. tender. de se terem ve­ rificado em número ascendente o dos que se afastam dos princípios ideológicos. não participa da luta eleitoral. frequente­ mente. por uma incompreensão categórica da realidade. mas as próprias bases populares dos partidos eleitoralistas. de . pelos que não participam do poder. repetição teimosa e constante. dizem os anarquistas. critica continuamente os partidos. e erraram por factores de ordem "puramente subjectiva". serem continuamente acusados. porque consi­ deram o partidarismo. Não podemos compreender que a repetição desse fac­ to. criticarem sempre os outros partidos políticos do proletariado de servirem de apoio à burguesia. de se terem perdido nos meios e esquecido os fins. que se repetem constantemente. verificará. e a força da teoria. finalmente. que des­ sa luta se aproveitam. As razões. quando os marxistas não ocupam postos de eleição. opressivo. na prática. não abrem os olhos de muitos. isto é. o dia da renovação social. de se afastarem. não sirva para abrir os olhos de muita gente. Ela sabe perfeita­ mente que. que apontam os libertários em defesa de sua atitude. que são acusadas de inércia. Para a burguesia. Leia-se. com eficiência. julgam muitos que tais factos sucedem "ape­ nas porque os representantes do povo não eram bastante puros". Por um empirismo simplista. que há séculos vem sendo dese­ jada. con­ chavos e combinações. o proletariado se afasta cada vez mais de sua verdadeira luta. que se verificam tão tragicamente na história dos partidos populares. Isto não é explicar. dos seus princípios ideológicos. nada melhor que a luta partidária e eleitoralista dos partidos operários. E não é só. como uma constante em todo o seu desenvolvimento.14 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 15 b) as imunidades parlamentares garantem uma pro­ paganda mais firme dentro da ordem burguesa. toda a literatura de polémica do marxismo. dos mesmos erros e desvios.

cria impecilhos a toda incitação à actividade. de inércia pelo retardamento. sem deixar de lado as razões de carác­ ter subjectivo. por desenvolver um profundo desejo de passividade. nestas. que tem profundas influências psicológicas. esse desejo de pas­ sividade. que se amortece e. que há em potência em todos os homens e do qual não estão alheias as próprias massas.1G MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 17 •desvios graves e perigosos. a demora das informações oficiais. é pouco justa. Sabe a burguesia que as reformas têm de se proces­ sar na sociedade. O carácter de contemporização. de exaltarem indevidamente a figura de "chefes salvadores". devem-se procurar as verdadeiras causas objectivas que le­ vam a tais desvios. E ao explicá-la ante as massas. a lentidão de suas resolu­ ções. de permitirem que os "traidores se instalem no meio da massa". convence da impossibilidade de vencer o emanharado das leis bur­ guesas. que se verifica teimosamente nos par­ tidos populares que usam da luta partidária e eleitoralis­ ta. que é inerente ao movimento político. para afastá-la do seu verdadeiro ca­ minho de renovação e de transformação social.. e por seus testas de ferro. caem os mais puros e ingénuos lutadores das grandes reivindicações proletárias. e por instinto. a acção dos repre­ sentantes operários cinge-se às cadeias férreas das leis burguesas. A luta política é uma luta burguesa e não proletária. Não é possível romper essa barreira e. cheia de angús­ tias e de acusações violentas. como também a própria base. dentro dos quadros legais do capita­ lismo. despertam a própria inércia. o afastamento dos representantes do povo da producção e do contacto com os companheiros. provoca a inércia. é essa explicação. e a pouco e pouco. Enquanto estas lhes pedem acção. dominada pela burguesia. pois a burguesia sabe conscientemen­ te. e que não corresponde . é uma luta essencialmente burguesa e não proletá­ ria. a burguesia sabe que o ambiente parlamentar. feitas inteligentemente para criar obstáculos à acção mais rápida. em pouco tempo. Portanto. É isto o que le­ mos constantemente na literatura de polémica dos socia­ listas. Os adiamentos das resoluções. por ela instituída. é essa queixa secular que paira nas páginas dos autores sinceros e leais. criam uma degenerescência na acção que se desgasta. força o aprazamento. que sempre fazem os que ainda não usam o sistema eleitoral contra os que o usam e dele abusam. nada explicam. não só contamina a cúpula dos partidos eleitoralistas do prole­ tariado. isoladas. tem causas mais reais e mais objectivas do que julgam muitos. de se impressionarem pelo liderismo. E é natural. eles respondem que não podem ir tão depressa como elas desejam. tudo isso é "ducha de água fria" na incitação e no calor que vibra e aquece os elementos lutadores. na ar­ madilha dos parlamentos. e é fácil explicá-las. a degenerescência que se observa. E assim a explicam os liber­ tários: A luta política. que toda acção lenta lhe é sempre mais eficaz que a acção rápida. e servem apenas para lançar uma nuvem de fumaça aos olhos do proletariado. ante a repetição sociológica dos factos. Ela sabe perfeitamente que a ordem. Com a base económica e financeira. transmitem a essas o espírito de inércia e. o clima parasitário que se forma. posteriormente. Portanto. A corrupção. que. o adiamento contínuo. essa marcha e impulso para o nada. que busquem justificar a inércia que aos poucos deles se vai apossando. se vê o espectáculo constante do movimento socialista: os re­ presentantes socialistas acham-se num choque crescente com as massas.

desanimado com a acção dos "representantes". o intermediário. suas realizações são apenas miga­ lhas do que cai da mesa de banquete da burguesia. ante a realidade dos fac- tos. ou pior. Por mais que seus doutrinadores. e isso o confessa intimamente. das conversas fúteis dos cafés dos parlamentos. Para obterem maior número de votos. « > tudo fica como estava. mui­ tas das quais sabem perfeitamente que não podem cum­ prir. e que se embrutecem na vida parlamentar. sem políticos. que tudo é passagei­ ro. que são empolgados pelos prazeres fáceis das grandes capi­ tais e da vida parasitária dos mandatários do povo. ficam aguardando nas eleições seguintes uma vitória mais completa. que dominaram e cede­ ram o lugar a formas mais evoluídas. a eleição de outras "esperanças". Ela sabe que não poderá deter a marcha dos acon­ tecimentos. que traem. media­ ta. E prosseguem os libertários em seus argumentos: Se as reformas sociais se processassem facilmente. acção imediata. acredita em novas "esperanças". E. a acção indirecta. Guindados ao poder. Sabe também a burguesia que a melhor forma de desmoralizar um partido é elevá-lo a uma posição de mando. mas é possível re­ tardá-las. vota nou­ tros partidos.18 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 19 aos desejos dos oprimidos. são obrigados a fazer promessas. os La­ vai. dos operários. As reformas e as transformações da socieda­ de serão inevitáveis. a superioridade de uma concepção idealista e espiritualista do mundo. umas após outras. para que t>las realizem os seus desejos. a burguesia sabe. dos jantares opíparos e do exemplo pernicioso de todos os salafrários que os cercam. também. E a grande ingenuida- . e a transformação completa da sociedade se processaria num lapso de tempo muito menor. mas sabe. que entram a fazer parte dos conchavos políticos. Desta forma. empolgados pelas esperanças de se libertarem das cadeias. São obrigados a oferecer às massas um futuro que não lhes está nas mãos. se a acção directa das massas. de tal for­ ma. a burguesia usa do meio mais hábil e mais sagaz criado pelo espírito humano: a política. todos os entu­ siasmos se esfriam e as massas. e que o regime capitalista mercantil. a afirmação de que a História é apenas um suceder de factos. é o que melhor corres­ ponde aos desejos e aos estímulos humanos. o eleitorado simpatizante. sobem os conservadores. que a sequência dos acontecimentos teria um ritmo mais veloz. que poderá. Elas sobrevirão. assim o tempo passa. que a sua situação como classe dominante é a repeti­ ção sociológica de outras classes. E esses "traidores" são os que desmoralizam depois os partidos! E nas eleições seguintes. nem uma parcela mínima do que prometem. Sobem partidos socialistas. e que lhes oferecem as possibilidades de ganhos desonestos. Os mandatários nunca podem realizar. se processasse a fazer reformas. Ante essa imprescriptibilidade dos acontecimentos. e nada de so­ cialismo. sob entu­ siasmo e esperanças. essas sobreviriam rápidas. E a política é a grande arma burguesa de re­ tardamento. filósofos e cientis­ tas procurem por todos os meios criar filosofias e dou­ trinas. preso no emaranhado das leis. os Millerand. no ritmo lento dos parlamentos. Veja-se o exemplo de toda a história do socialismo eleitoralista. Na eleição seguinte. sobrevem a desmoralização do partido! São também os representantes do povo. que contribuem para os reflexos do movimento socialista. pelo menos. que assegurem a irrealidade da vida objectiva. sem interme­ diários. retardá-la. fundado no lucro a todo o custo.

A acção directa deixa que o impulso activo do ho­ mem se manifeste com toda a sua pureza. para fazer a essas acre­ ditarem que realmente eles são revolucionários. E pros­ seguem: Essa a grande habilidade e sagacidade dos burgueses para iludirem as massas. Grande é a colheita que os burgueses têm feito nos partidos políticos dos trabalha­ dores. é explorada. A política serve para isso: os ambiciosos de mando. usam também fra­ ses e palavras de ordem revolucionárias. como algo de eterno. ao lado dos partidos de esquerda. acusando-os de revolucionários e exi­ gentes. Ela é criadora. porque. todo homem. para iludirem as massas. pregando ideias rubras. Ora. pregam "a luta pacífica das urnas". vão procurar os meios operários e os partidos políticos dos trabalhadores. Ataca-os. a "grande arma do cidadão". no mundo. de cambulhada com os partidos operários. da inércia para a rebeldia. se na política encon­ trar seu campo de acção e de desenvolvimento. que . sem desvios que o viciam. gera a forma viciosa do impulso de acção: o mandonismo. em sua juventude. para. quando é conveniente. a "ala­ vanca da História". depois de guindados ao poder. políticos socialistas! E prosseguem os liber­ tários: Atentem para esses factos os trabalhadores e os opri­ midos do mundo. os que desejam fazer carreira política. mistificadas por seus falsos defensores. esse ópio das multidões. logo se viciará na forma de mandonismo. e de degrau em degrau. se levada para o terreno da política. no darem às massas uma ilusão de conquistas. aos partidos conservadores. A maioria dos políticos conservadores foram. chegar até a adesão. magnificamente. vestem-se das cores vermelhas. É preciso conhecer o passado e procurar no passado os reaccionários do presente. É necessário de uma vez por todas ter memória. Quantos políticos reaccionários de hoje começaram a criar nome nos comícios operários. e leva-o à acção verdadeiramente socialis­ ta. Essa parte activa do homem. mandam seus represen­ tantes para os partidos de esquerda. os que querem sobressair-se pela posição social. passando até pelas delegacias de polícia. o liderismo.20 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 21 de das massas. Mas a burguesia inteligente sabe perfeitamente que esses parti­ dos são os melhores guardiães de seus tesouros. fazerem cisões dentro dos partidos ou aderirem a outros. essas "adoráveis dormideiras". a política é a arma mais amada pela bur­ guesia. alegam os libertários. Por isso. e vão contribuir para. A burguesia inteligente do mundo inteiro não combate os partidos políticos operários senão aparente­ mente. para que tudo corra em pro­ veito dos dominadores. onde se debatem todas as ideias e se aumenta a confusão do povo? Que melhor que as campanhas políticas. E que melhor para tal que os "parlamentos". criar a maior confusão no meio dos trabalhadores. tem um desejo de mandar. ajudam lambem a desmoralizar o socialismo e a apresentar aos olhos do povo o regime capitalista como algo de impres(•riptível e sólido. o autoritarismo. um impulso de domínio e um impulso de obe­ diência e de passividade. ao desejo de erguer os irmãos da passividade para a acção. A luta indirecta. por­ que transforma cada um num ser responsável de acção socialista. o politiquismo. a acção indirecta. Eles. na meia idade.

O homem prefere acreditar que a luta eleitoral é mais eficiente. que se dispam de suas couraças ideológicas e da ganga bruta de suas mistificações doutrinárias. É uma forma de desviar esses impulsos. se manifesta num impulso de rebeldia. que estão dentro do homem. pessoas. Hoje o clero é posto um pouco de lado. porque é uma arma mais segura. e que. Os socialistas libertários preferem esta última. esforços inauditos per­ didos. porque o dispensa de uma acção mais tra­ balhosa. Toda a inércia. eles dão vazão às forças do proletariado. realizando-se plenamente. desviado pelos políticos. A campanha política tem essa miraculosa eficácia. aos desejos de rebeldia do proletariado. pregação de cartazes. trabalho. de dores. mas indirecto. A segunda desenvolve no homem u capacidade criadora. O primeiro cria massas e conser­ va as como tal. não deve ser aproveitada. é canalizada habilmente para a campanha elei­ toral. prestes a explodir. o caminho das urnas é mais fácil. como ar­ ma. Assim. que. exclamam os liber­ tários. para os poderosos. ve­ rão sempre. Toda a carga activa das massas. isto é. com todo o seu ca­ rácter de iniciativa. Distribuição de manifestos. a política servir de arma para os dominadores. que se concentra nas multi­ dões exploradas. mas um caminho de lutas. que se gasta. para não desaparecer. Depois. Com suas agitações eleitorais. E o clero tanto compreendeu isso. é secundária. tão perigosos. Não deve ter seu curso natural. para uma vida socialista. trabalho. A segunda são os impulsos. postos religiosamente nas urnas silen­ ciosas? A burguesia sabe que os partidos operários são o seu melhor aliado. plenamente conscientes e criadores. e a política é melhor usada. e os argumentos poderiam encher volumes e volumes. a luta pelos fins é a acção directa. porque não tira das massas o es­ pírito de iniciativa. de grandes sacrifí­ cios. como massas de manobras. trabalho. e de organização económica e. e modela indivíduos. de lágrimas. Mas. predispõem a receber de boa vontade tudo quanto signifique o menor esforço. menos tra­ balhoso. os libertários chamam a atenção para os so­ cialistas que ainda se iludem com as lutas políticas. se­ riam mais úteis. o aliado indirecto. Des­ perta a passividade. sintetizando: A luta pelos meios é a acção indirecta. . para ensinar-lhes os meios práticos de luta. para a educação socialista dos oprimidos. chefes. dizem os li­ bertários.22 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 23 lhes dão a suave e doce ilusão de que estão realizando socialismo e construindo o seu amanhã. Mas se esse esforço fosse empregado para uma acção directa das massas. comícios eleitorais. provou uma eficiência muito superior à das religiões. que o caminho do socialismo não é um caminho de rosas. no oprimido. É preciso mostrar. e a justificam. ao desviar os impulsos de acção para os meios. pela luta política. etc. em toda a parte. fêz-se também po­ lítico. de ingentes esforços. todos os impulsos de passivi­ dade. e olhem os factos que se desenrolam. porque a sua efi­ ciência na conservação da ordem existente. em síntese. A primeira é um desvio do verdadeiro im­ pulso humano de acção que. para fins muito mais interessantes aos senhores do mun­ do. em vez dos fins. como multidões obedientes aos gestos e às palavras de ordem dos líderes. e até socialista. Uma campanha política custa muito dinheiro e mui­ to trabalho. o aliado silencioso. aliciamento de eleitores. mas desviada. directo. que esqueçam um pouco a teoria. Toda essa carga activa. A crítica libertária vai ainda mais longe. através de peda­ cinhos de papéis..

a mesma força que ela tem. em sua interpretação. que eles colocam também um valor ético e fundamentam a ética. Mas Kropotkine ainda não havia visto tudo. cujas reacções não são apenas as físicas. porque podem congre­ gar forças latentes e despertar outras. quan­ do explorado nos cavalos de corrida. e pode actualizar-se em actos que superam as causas. impulsionada contra outra. Não é o homem um ser autómato. aquilo para o qual tem ten­ dências naturais. é o que se ve­ rifica sobremaneira nos cães e animais de corrida. na guerra? Quem desco­ nhece. Todo o ser vivo. etc? É nessa potencialidade do homem. Tais factos são tão comezinhos na vida quotidiana. O homem é um animal ético e. que é um reflexo das situações de ordem material. animais de carga. Além da for­ mação dessa consciência. Nesse fenómeno biológico da incitação. cavalos. por ser ético. pela incitação. por exemplo. Há. e mais intensamente. O ho­ mem pode ser incitado ao bem como ao mal. pode reali­ zar além de seus impulsos naturais. O brio. que não necessitam provas. é que é homem. nos combates. após um esforço inau­ dito. na explica­ ção dessas duas formas de tática. como biológico. Todo ser vivo é incitável. funda­ mentou êle a ética num facto de economia animal e até biológico. aos jovens. é por isso incitável. e pode realizar muito mais. é um aproveitamento de energias guardadas. um fenómeno que não se observa na Mecânica. É o da "incitação". A incita­ ção pode levá-los a ir além de si mesmo.24 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 25 Analisemos mais este ponto tão importante para a compreensão dos porquês das táticas dos socialistas li­ bertários. que o mundo animal nos mostra. e esta. verificável até nos animais de rapina. Afirmam que muitas vezes são obrigados a penetrar no terreno da Filosofia e da Ciência. sujeito à incitação. É que. verifica-se facilmente que os momentos de indignação moral levam os oprimi­ dos a gestos mais decisivos que as simples razões de or­ dem puramente material. chegando até à morte violenta. porque a Ciência e a Filosofia vêm em seu abono e justificam poderosamente o acerto de suas opiniões. O marxismo. na verdade. mas não contém toda a verdade. é mais evidente entre os homens. realiza verdadeiros milagres e não poucas vezes se tem visto esses animais realizarem muitíssimo além de suas próprias possibilida­ des. no início. como. Quando Kropotkine fundamentou o apoio-mútuo co­ mo base de sociabilidade dos seres vivos. colocam os libertários uma das bases da ética. Se bem estudada a História. Tais factos. < M . Quem não fêz ainda dessas experiências junto às crianças. a incitação pode produzir efeitos maiores. mas um ser biológico. o poder de incitação das palavras nos comícios. em certas circunstâncias. uma bola de bilhar. isto é. a incitação pode levar a formar uma consciência potencialmente maior. É uma comprovação do valor. aos homens em suas lutas. na Biologia. As condições materiais podem gerar determinada consciência. sendo suscetível de um aumento de suas reacções. pode o homem ser levado a mais do que normalmente pode realizar. Nos próprios animais se verifica o poder da incita­ ção. porque cada um as encontra facilmente. No ser vivo. da eficiência dos impulsos éticos. em seus combates. O impulsiona­ do pode realizar mais do que a força que o impulsiona. que podem brotar a um impulso e superar esse impulso. não está errado. É o homem um ser. transmite à segunda. uma força exterior não produz uma acção à acção impulsionadora. por exemplo. como nos cães. por exemplo.

Ora. aqueles que julgam que o socialismo só será reali­ zado através de uma organização autoritária. não nasceu em gabinetes. teve suas manifestações mais diversas. nenhum povo é arrastado a gestos decisivos. não as vivem. reunidos segundo suas afinida­ des e federados numa organização que será a própria sociedade humana. pelos escândalos que corriam. Não é outra coisa o que vemos nas obras de Engels. dos chefes militares. consoante as condições técnicas e históricas da vida hu­ mana. quiseram destruí-la. nem tampouco que o caminho da liberdade fosse o mesmo ca­ minho da ditadura. no povo parisiense. São excessivamente joco­ sas para eles. proclamam a inanidade das doutrinas libertárias. Naturalmente. em todas as épocas. Não que se negue a influência dos facto res materiais. não crêem nelas. Convém dizer de antemão que o socialismo libertá­ rio. um dia. em sentido puramente libertá­ rio). de um desejo de justiça. (Usamos a expres­ são causa como práxica. Eles predispõem as condições para a in dignação ética e para a incitação à luta. A ameaça de Paris ser inva­ dida pelas tropas de Bismarck indignaram o povo da ca­ pital francesa. Absolutamente não. de um anseio de liberdade e de digni­ dade humana. houve alguém que contra ela se rebelou. do alto de sua auto-suficiência. a traição e a covardia dos políticos. em seus aspectos mais gerais. sem a menor apreciação dos factos e da História. devemos frisar um facto perfeitamente observável por qualquer um. nem todos os escravos se rebelam contra a es­ cravidão. de Plekanov. a traição das forças gover­ namentais da França. e muitos outros autores autoritários. não é o producto de locubrações de filósofos. de Lenine." Mas os libertários prosseguem: "o so­ cialismo libertário é velho como o homem. As condições morais. através desses sonhos e sô- bre esses sonhos. dizerem que o socialismo que acredita na realização de uma sociedade melhor pela iniciativa das próprias organizações adminis­ trativas de homens livres. Nasce de uma indignação moral. no sentido que os socialistas libertários a concebem. Também há escravos que querem apenas mu­ dar de senhor. É este: enquanto os socialistas libertários estudam e conhe­ cem a obra dos autoritários. estes. são as causas emergen­ tes.26 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 27 Não se explica a revolução francesa apenas pelas con­ dições materiais da época. de uma revolta à opressão. mas pela indignação ética pro­ vocada pela vida dissoluta da corte de Luís XVI. a ideologia que tem a mesma firmeza que os castelos construídos no ar. ("colar da rainha" e outros). e não « . etc. da indignação ética que provocou. Sempre que houve opressão. É muito comum ouvir-se entre os socialistas autori­ tários. não tem êle o menor fundamento cien­ tífico nem filosófico em suas afirmações. éticas. Não foram esses os que construíram a opinião libertária. e o construíram. e sempre. de Marx. nada conhecem do pensamento libertário e. As condições materiais são causas predisponentes. nem em longas e profundas análises de factos sociológicos ou históricos ou filosóficos. puseram-se a sonhar com um mun­ do melhor. A comuna de Paris nasceu. houve quem não achou justificável a opressão e que não devia ser substituída por outra. porque as não entendem. também. num alarde de igno­ rância palmar. respondem os libertários. Esta é uma das bases biológicas da ética. E dizem mais: dizem que o socialismo libertário é apenas criação de alguns filósofos ou sentimentalistas em disponibilidade que." Contudo. Libertária foi a opinião dos que. re­ voltados contra a opressão. que tais expressões cau­ sam sorrisos aos autoritários. Sem uma indignação e uma incitação consequente.

Como nasceria a opressão? Só poderia nascer se alguém resolvesse não manter a li­ berdade e. liberdade. à teoria. impregnado de sua indigna­ ção moral. agora. a auto­ ridade investida pela força. e que desejam destruí-la e não substituí-la. Estamos aqui. Para eles. Imaginemos uma sociedade humana. onde não se instituiu a autoridade política. Mas. e por nacionalizações e encampações estatais (a multiplicação de autarquias). permitiu que a contribui­ ção de todas as ciências viesse corroborar aquilo que foi producto de um desejo de liberdade. quiseram marchar pelo caminho da liberda­ de. livre. Não procurando buscar o verdadeiro conteúdo de suas ideias." Examinemos este ponto: pode a liberdade gerar a opressão? Não!. Por quê? Por uma razão muito simples: a liberda­ de é liberdade. é preciso reconhecer que o aspecto utópico. ain­ da apenas estamos na paleotécnica. respondem os libertários. isto é. Por isso. cada uma das novas conquistas do conhecimento só tem servido para corroborar as suas teses. é porque ela sobrevêm de forças. Mas. em tudo. mas o desen­ volvimento da cultura humana. e vêem a actua­ lidade com os esquemas daquele século. nasceu como movimento espontâneo de anseio de justiça. e não crêem seja a opressão a mãe da liberdade. de sua revolta contra a opressão. mas só esta pode gerar o seu semelhante. — que por sua vez desejam alcançar ao Capita­ lista único. onde há liberdade. o Estado. segundo as condições históri­ cas. E como. E como argumento final. libertária. Por si. num terreno apenas de conceitos. muitas das suas pala­ vras soam ocas aos ouvidos dos homens de hoje.O PROBLEMA SOCIAL 29 28 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS substituí-la. conceber-se que ela gere a liberdade? Só esta pode gerar a si mesma. voltando ao tema do início: o socialismo liber­ tário nasceu nas lutas dos escravos. * * * Sem nos colocarmos na posição dos socialistas demo­ cráticos. mas a análise da História nos provará que a opressão só gera opressão. No decorrer do tempo. concluir daí que o libertarismo não tenha quais­ quer fundamentos na Filosofia e na Ciência. Ade­ mais. por meios eleitoralistas. tivesse força para atentar contra ela. que se . cada dia que pas sa. não pode haver opressão. no campo económico. que não quiseram ser. mas opressivas. libertarismo é uma opinião universal. os libertários acrescentam: O socialismo libertário. por enquanto. é uma pal­ mar ignorância dos factos. para tanto. no campo político. escravos. — te­ mos que dizer que o anarquismo merece a sua crítica. Se a opressão se instala. e a liberdade. e onde há liberdade. os raros e dispersos grupos anarquistas têm os olhos voltados para o século XIX. tomou os diversos aspectos que conhecemos. Essa só posteriormente podia ser construída e. Na época actual. a liberdade não é geradora da opressão. acreditando só poder tornar prática a liberdade pela prática da própria liberdade. e que não acreditam gere a liberdade outra coisa senão liberdade. permanecem no conteúdo histó­ rico do século dezenove. Com o socialismo libertário a prática precedeu. que anelavam ser homens livres e não preten­ diam escravizar outros. através das doutrinas libertárias e anárquicas. que não são libertárias. e dela não saímos nem sairemos. Dessa forma. de todos os oprimidos ou revoltados contra a opressão.

desde seu surgimento até os dias de hoje. é mais uma excrescência do movimento. os factos. prescindiremos do estudo da dialéctica marxista. a Fabbri. uma anotação. a Proudhon. são um manancial de proveitosas lições. é preciso reconhecer que os anarquis­ tas são. mas como teoria e prática. o socialismo está em crise. imerso na crise do mundo moderno. Na verdade. que o tornam permanente e perdurável. que é mais uma atitude revolucionária que uma filosofia ou uma doutrina. como muitos pensam. que procede­ remos a seguir. e a exposição sucinta que dele temos feito é suficiente para se conhecer suas bases. não conseguem seus partidários dissipar a realidade que atesta decisivamente contra ela. no entanto. como esta dou­ trina vincula-se à acção. é claro que não deve ser es­ tudado apenas teoricamente.30 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS revela no anarquismo. . E ainda acrescentaremos que o terrorismo empregado em algu­ mas ocasiões. no movimento socialista. pois abominam todo e qualquer oportunismo e. cujas normas tivemos ocasião de estudar em nosso trabalho acima citado. um invariante na História. que já realizamos em nosso livro "Lógica e Dialéctica". trata-se agora de analisar esta doutrina decadialècticamente. enquanto a realidade actualizada deve ser vista co­ mo tal. Em suma. são de uma rara nobreza e dignidade que os toma admirá­ veis. Desta maneira. O utópico é o que lhe dá um calor e uma vida. o que não resistiria a uma rigorosa análise filosófica. não é um defeito dessa posição. que seria para muitos dispensáveis: não se deve julgar o anarquismo pela caricatura. que se desenrolam no mundo. em certos momentos. em seu conteúdo. Os factos são eloquen­ tes e. Por outro lado. sob todos os aspectos. por maiores malabarismos teóricos. como doutrina. deve-se mais ao desespero que propriamente a uma decorrência lógica dos postula­ dos fundamentais. já publicado. pois em suas linhas e atitudes. Se alguns de seus seguidores a usaram. in­ dissoluvelmente unidas. Mas. e não um mero accidente histórico. com maior ou menor proficiência. exposto em mi­ lhares de livros. é um categórico desmentido à teoria. O não compreender que o utópico é um ideal. Tem sido o marxismo. ANALISE DECADIALÉCTICA DO MARXISMO Na análise decadialéctica do marxismo. pelo menos) a jul­ garem que a utopia possa deixar de ser o que é — um ideal inalcançável a desafiar o homem eternamente para que conheça superações — e possa tornar-se numa ime­ diata realidade. o anarquismo é contra o emprego da violência. os socialistas de outras es­ colas pouco ou nada sabem de anarquismo. e o faremos seguindo as seis providên­ cias. pelo carácter acentuadamente ético de sua doutrina. e sob esse aspecto. os mais seguros e coe­ rentes. leva a muitos anarquistas (façamos uma excep­ ção a Malatesta. deve esta justificá-la ou refutá-la. Como o marxismo se considera uma doutrina de acção e não a separa de sua parte teórica. Como prática. Faremos. A acção do marxismo. pode dizer-se que o anarquismo é. uma meta de perfeição a guiar e a exigir sempre mais dos ho­ mens. e por todo o bizantinismo de suas justificativas.

que se con­ juga ao sistema do pensamento ético-social do ocidente. pragmáticas. como prática e facto social. constitui um facto social de determinado período histórico. no entanto.32 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 33 Pentadialècticamente. inclui-se no pensamento ético-filosófico ocidental. em suas linhas gerais. a análise corres­ pondente se impõe. o legítimo mehrwollen do fáustico. o qual nos revela a sua acção. formas e relações de producçao têm uma grande influência não só na gestação dessa doutrina. Mas não podemos deixar de conside­ rar ainda fresca a memória do leitor sobre o que trata­ mos nos capítulos anteriores. influiu decisivamente no papel messiânico emprestado ao proletariado. e como acção e prática está imerso em nossa cultura. Como série. cuja actividade se manifesta por uma marcha continuada e estrénua pelos caminhos interiores. profundamente afectivo e irracional. . Feita esta colocação pentadialéctica. motiva­ ram. deste modo. e exteriorizante. desvendar através do domínio das coisas. sobretudo no referente à Técnica. cujos exageros. todos. Como totalidade. cujo estudo analítico não faremos neste livro. enquanto a hindu é uma actividade que se introverte. e como facto actual pertence à totalidade do período romântico. co­ mo na sua cosmovisão histórica. entre socialismo romântico. en­ tre as quais encontramos o marxismo. está incluída no pen­ samento socialista do século XIX. racionalistas-empiristas. pois a vontade de potência. o marxismo pertence. positivistas. filiando-se. extrovertidamente do fáus­ tico. que se manifesta por uma forma específica da vontade de dominar introvertida. e como prática à nossa ora. como os da escola anarquista. que por suas estreitas relações com os movimentos de reivindica­ ção popular. o marxismo pode ser colocado sob os seguintes planos: Como unidade. no socialismo. está imerso na chamada "era industrial". a sua prática. foram poderosamente influídos pelo arracionalismo e pelo patetismo romântico. que muito nos auxiliam a compreender â gestação da unidade doutrinária do marxismo. e são encontrados no movimento social cristão. teoricamente. como veremos. ante o qual o marxismo se opõe. teoricamente considerado. Como sistema. comunistas. A vonta­ de de dominar exteriormente. sem que tal apreciação deixe de reconhecer o lado positivo e racional que há nessas doutrinas. uma dicotomização bem nítida. etc. (o querer-mais "nietzscheano"). a sua praxis. anarquistas. mas com analogias e correspon­ dências noutras culturas e eras. teoricamente. . Os movimentos li­ bertários. É uma actividade que se extraverte. cujos esquemas são importantes para compreendê-lo e senti-lo. pois muitos dos seus postulados ultrapassam o cam­ po dos esquemas da nossa cultura. que foi farto de acon­ tecimentos. sem negar suas origens mais remotas. que. etc. se distingue das outras por peculiaridades que já tivemos oportunidade de estudar e analisar. cuja técnica. à História e à Economia. quer individua­ listas. em busca dos mesmos princípios que o homem fáustico quer descobrir. temos a doutrina marxista. à reacção anti-romântica. conforme vimos.i nossa cultura. Como universo. teoricamente. ao inverso da vontade de potência hindu. naquele período. pois a simples e pri­ mária apreciação de que o hindu é meramente um nihilista passivo é uma das muitas maneiras caricaturais de (intender o "homo religiosus" hindu. é de vector extensivo. condoreiro. o marxismo se inclui no pensamento social desse período. e as correntes socialistas intelectualistas. de vector intensista e interiorizante.

como foi a destruição dos albigenses pelas tropas de Simon de Monfort e a bulgomovitzo pelas tropas tur­ cas vitoriosas. destruídas. predispuseram condições que facilitariam novas investigações e novos estudos. no campo social. através do Cardeal Nicolau de Cusa. factos de magna impor­ tância. na Bulgária. e do escolasticismo. a influência da descoberta das Américas. São Tomás. como a "Utopia" de Morus. ante muitas consciências. A história dessas experiências sociais é importantíssi­ ma. nos revelam a criação de muitas sociedades sob base realmente socia­ lista. que não esta­ vam à altura desses mestres da escolástica. Os anos. que antecedem ao século XVII e XIX. na história do ocidente. As convulsões que trouxe a Reforma. A reacção aos excessos do filosofismo racionalista e idealista. aos quais lhes faltava a disciplina suficiente e sobretudo a suspicácia necessária para que buscassem os textos e não se ativessem às especiosas subtilezas de uma dialéctica até certo ponto duvidosa. Esse período de refluxo. com excepção apenas de alguns estudiosos. sobretudo no campo aberto aos estudos científicos. mas pode perfei­ tamente ser empreendida através da reciprocidade desses planos. como vimos. que perduraram por muito tempo.34 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 35 Desta forma. que autores desse período preconizavam como as melhores para o homem. puseram em descré­ dito. pois esses movimentos. mas por acção de factores extrín­ secos. Fonseca. que a esco­ lástica era aquilo. Há. sabemos todos. O movimento dos cátharos. de comentadores e epígonos menores. e bem raros. de plano para plano. São Boaventura e Duns Scot. Pereira. a análise pentadialéctica não precisa mais processar-se. como Cayetano e João de São Tomás). e fêz assento na biblioteca de muitos autodidatas. a não ser por alguns interessados. deixa- . que nos oferecem inúmeras sugestões e aspectos que merecem especial destaque. a obra monumental reali­ zada por aqueles gigantes da filosofia. após as grandes figuras desses momentos de flu­ xo escolástico. cujos métodos vamos encontrá-los implícitos na obra de grandes autores cristãos. foram anos decisivos na História do mun- do. que precederam e se seguiram à reforma. que me­ recem ser salientados aqui. mas que tiveram um relevante papel no decurso desses séculos. Os grandes autores deixaram de ser lidos. sequência. a "Cidade do Sol" de Campanella. não por corrupção interna. na Provence. e os grandes comentadores de Tomás de Aquino. que são estudados com menos extensidade e in­ tensidade. Santo Alberto Magno. e a chusma de obras menores dos epígonos inundou o mercado. e o conhecimento de inúmeras formas sociais mais livres e mais harmoniosas. e tantos outros. que caíram num bizantinismo de subtilezas dialécticas. a bulgomovitzo. favore­ ceram o surto das utopias do renascimento. apesar de destruídos. até den­ tro da Igreja. conheci­ das no novo continente. e a cooperação dos factores emer­ gentes e predisponentes desse período histórico. da construcção ficcional de muitos modos de vida e de organização de povos. deu a im­ pressão aos filósofos seculares dessa época. e em Ga­ lileu. que inclui vivamente sobre Ockam. como Duns Scot. O desenvolvimento. gerou a chamada filosofia moderna (e empregamos escolasticismo para nos referir­ mos à forma viciosa que a escolástica tomou depois da reforma. Uma sequência de filósofos menores. etc. repetimos. do capitalismo. as tendências individualistas. que procuravam romper as formas fechadas da economia predominante na Idade Média. Banez. como foram Santo Anselmo. salvo algumas honrosas excepções. em que surgiram Suarez. que surge em dias do Re­ nascimento.

as confusões que faz quan­ to ao pensamento de Suarez. E o . Mas. e tenta. que preferimos chamar de real-idealismo. construiu o racionalismo moderno abstracto. a invasão árabe no Egito. e estructurou as bases para a formação mais sólida do socia­ lismo. teve grande influência sobre Leibnitz e o idealismo ale­ mão. Os excessos do idealismo.36 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 37 ram raízes em certas sociedades secretas que se espalha­ ram pelo ocidente. em grande parte. mas que tiveram um papel preponderante na forma­ ção dos principais esquemas teóricos do socialismo. como surgindo de Descartes. cujos máximos representantes são Leib­ nitz. que se­ gue a linha aristotélica. pelo menos nos termos como se apresentou. através do hegelianismo. cujos estragos foram grandes para a Filosofia. que se pode chamar a essa época. e fazendo uma síntese que em grande parte falsifica a obra desses r. esse fluxo da escolástica teve um sucedâneo no refluxo escolasticista. e sua influência nas socie­ dades secretas desse período. um idealismo concreto. nas corporações da Idade Média. em fins do século XVIII. e o próprio século XVII são de tal forma influídos por eles. e até na acção da Reforma. que se pode considerar. são de uma importância tal. como ainda surgem em nossos dias. sobreveio o de fluxo. que é in­ versão do racionalismo-empirista de São Tomás. como o foi. e provo­ cou. e em princípios e no decorrer do século XIX até os nossos dias. de genuinamente espa­ nhola. São Tomás e Duns Scot. e que confundira lamentavelmente até. Schelling e Fichte. apesar das más interpretações que sofreu. graças a acção dos portugue­ ses e espanhóis. como consequência de suas análises. decorriam do afastamento da genuína escolástica. Este último. que provocou a reacção da filosofia moderna. cuja análise fizemos em "Lógica e Dia­ léctica". com o seu método e também com as suas apre­ ciações filosóficas. Este. E dessa maneira. ante as afirmativas que faz em suas obras. Ao período de refluxo da escolástica. próprias dessa disciplina.cnuínos representantes do pensamento escolástico. influiu na formação da maçonaria. que sentimos não nos ser possível analisar neste li­ vro. sobretudo. de maneira evidente. auxiliou o movimento da reforma. que foram duas maneiras abstractas de desdobrar o seu pensamento concreto. Wolff. em movimentos esparsos. tanto de direita co­ mo de esquerda. os "colombos retardados" da filo­ sofia surgiram. para o qual tanto contri­ buiu Descartes. pelo seu valor e papel na história da filosofia. um racionalismo abstracto. durante a Reforma. vivendo com inten­ sidade as abstracções de segundo grau. na obra de Wolff. que pretendia fazer uma síntese da escolástica. e a penetração de elementos pitagóricos no sul da Europa. podendo dizer-se que o século XVI. como o de Gandes e outros. Fichte e Hegel. que Wolff não conhecera em sua pureza. que surgiu. para dela partir para novas investigações. de um lado o abstraccionismo materialista e de outro o abstraccionismo idealista. e realiza. o que não é de duvidar. Basta que se veja. Descartes precipita. apesar de discípulo dos jesuítas de la Flèxe. na Europa. balbuciante a princípio. em certos movimentos religiosos. Por outro lado. ntribuindo-lhes o que é peculiar a um ou outro. o que só poderia ser possível. e foram influir. afasta-se do pensamento idealista abstracto. cooperou na formação de muitas sociedades secretas. cujo papel. foi extraordinário. Matemático. e actuou sobre as utopias do Renascimento. A obra de Wolff. representado por Schelling. sob seus aspectos ocidentais. certamente não conhecera o texto dos escolásticos e talvez conheces­ se São Tomás de segunda mão.

é imprescindível que se observem os factores predisponentes histórico-so- . a análise filosó­ fica que ora fazemos. entre tomistas (epígonos de São To­ más) e escotistas (epígonos de Duns Scot). como Marx. criaram ante os olhos dos estudiosos uma extrema valorização da Ciência. por exemplo). tinha seus fundamentos numa visão idea­ lista demasiadamente estreita. nos temas sociais. E ademais. ao gerar o abstraccionismo idealista. nos mostram os factores emergentes. etc. ou de alguns manuais de segunda categoria. Mas Kant. cujo conheci- MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS mento se funda. o que se pode verificar pelos textos que usava cm suas aulas (o de Meiern. dos quais não pôde evitar a si mesmo de neles cair. o que. com todo o primarismo. Como consequência da desordem no pensamento que sobreveio então. estudado com carinho. que há uma perfeita identidade dialéctica de vistas entre es­ sas posições doutrinárias. segu­ rança e proficiência. como são os facto­ res económicos. técnicos e os históricos-sociais em suma. e o abstraccionismo-idealista a disputarem en­ tre si as partes de uma Filosofia que já conhecera uma integração. essas di­ vergências em nada afectam o edifício da escolástica. também. em páginas anteriores. seria insuficiente se não se considerassem os outros fac­ tores. nos dá amplo elemento para compreender que o romantismo. pois permitiria a realização hegeliana. nos é impossível fazer. tem um papel de inegável valor. e em futuros trabalhos nossos o provaremos. somos de opinião. Toda filosofia medieval e a escolástica me­ recem um sorriso de superioridade (o que não deixa de ser ridiculamente trágico. desde então. Se os anseios de liberda­ de. na obra de Wolff. com grave prejuízo das grandes conquistas do pensamento humano. O que já estudamos. no último. Por mais importantes que sejam as lutas travadas na filosofia escolástica. com toda a deficiência típica que iria caracterizar. ti­ vemos o abstraccionismo-racionalista. sob certos ângulos. quando se estuda a Filosofia como se deve estudá-la) pelos modernos. o abstraccionismo-empirista. O excesso do racionalismo cartesiano. no entanto.O PROBLEMA SOCIAL 39 38 que já havia sido analisado. o pensamento ocidental. cujo valor é inegável. A filosofia moderna revela um conhecimento que pára em Aristóteles. que perduraram em fins do século XVIII e princípios do século XIX. mas que são decor­ rentes de um desconhecimento dos estudos anteriores. na mor parte das vezes. salvo raras excepções. sem desmerecer-lhe o vulto. que influíram na sua gestação. Mas o idealismo abstraccionista prosseguiu através dos hegelianos de direita. passou a apresentar-se como "novi­ dades" no pensamento filosófico. gerou a crítica de Hume e a crítica de Kant. provocaram a reacção positivista e a materialista que. que tanto vulto tiveram no decorrer do Renascimento. para. que nestes se fundou. como se fun­ dava Kant. que é de uma solidez extraordinária. Os excessos idealistas. embora sirva de meio para uma melhor compreensão do marxismo. apesar de certas fraquezas que se encontram nesses autores e. após a grande síntese de São Tomás e as monumentais contribuições de Duns Scot e Suarez. neste momento. digna de melhor estudo e genuinamente dia­ léctica. depois. já que se considerava como filosofia apenas aquelas formas exces­ sivamente abstraccionistas que se conheciam então. deles se diferenciar. Como não se pode separar da realidade social todas as coordenadas históricas que a formam. ao criticar os excessos do idea­ lismo. digna de melhores estudos e análi­ ses. enquanto os de esquerda segui­ ram o rumo do empirológico. fundadas nas grandes conquistas da Ciência.

que enchem de decepções e de amargura as páginas da Histó ria. E o messianismo judaico de Marx. encontradiços na obra dos primeiros padres da Igreja. encontrava. a dos servidores. Poder-se-ia fazer um apanhado de frases genuina­ mente revolucionárias. que tiveram. e num conjunto de coordenadas. O socialismo não podia ser um movimento em torno de frases. com a amplificação da indústria. le­ vados para o campo social. a esforços inúteis das massas revoltas. indus­ triais. a ascensão das chamadas classes burguesas. como possibilidade e realização. portanto. numa sucessão que vinha das classes sacerdotais. corroída pelo luxo. a formação dos Estados nacionais. como teoria e prática. assim. uma criação apenas do espírito de Marx. do comércio e das finanças. O malogro. os males que conhece. ao dinheiro. que. exemplos de realizações sociais. que se verificava em suas tentativas de resolver o problema humano e o sacrifício da última e quarta classe. davam agora o pa­ pel salvador ao proletariado. tinha fatalmente que incorporar as conquistas do conhecimento humano. o romanticismo. já sepa­ rado de suas corporações. levava a tomadas de posição românticas. advém não de sua necessidade e ine­ vitabilidade históricas. deveria tomar um matiz consentâneo e congruente com a sua época. dando-se numa época como a nossa. finalmente. em que os mestres se haviam tornado capitalistas. a História contava que as classes se suce­ diam. a formação dos sindicatos operários. que não eram desconhecidas dos povos ocidentais. um matiz romântico. realmente. heréticas ou não. e oferecia tan tos frutos que a tornavam poderosa. assim. o papel de precipitarem o romântico e sua forma viciosa. sob base comunitária. e até antes dela. Estructurar a luta pela emancipação do trabalhador. Se comete erros de base. e foi de uma importância capital para o destino do socialismo. se correspondiam a conteúdos psicológicos reais. e que os levaram a malogros. No entanto. O movimento socialista. que. ao Estado. que oferecia uma côr irreal ante o espírito positivista da ciên­ cia. como doutrina e como movimento. O socialismo. no entanto. funda-se.40 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 41 ciais. ataques enérgicos ao capital. que facilitaram a formação da sua reali­ dade. mas da junção de certos postula­ dos que o tornaram frágil. fornecedores ou genericamente burguesas. à propriedade. de uma aná­ lise fria. mas. em que a Ciência ditava suas normas de acção. Ademais. das mesmas formas viciosas que outros movimentos. sob vários aspectos. uma estructuração que este fêz. na lin­ guagem ocidental. O so­ cialismo apresentava. a formação do proletariado. a derrotas facilmente evitáveis. A fase civilizada de nossa cultura ocidental. é um precipitado inevitável de nossa época. às aristocráticas e. que surgiram como resposta aos sin- . fundado em factos. em certos alicerces sólidos. a "última esperança" de uma salvação terrena. nos exemplos do cris­ tianismo primitivo e em muitas comunidades religiosas ortodoxas ou heterodoxas. a dos traba­ lhadores (os sudras da cultura hindu). no proletariado. favorecendo. e os estudos de hoje nos podem mostrar melhor ainda. fora da realidade. o que Marx compreendeu. o deperecimento moral da nobreza. messianismo que impregna por sua vez toda a nossa era. O marxismo não é. pois está corroído dos mesmos males. geraram aqueles ímpetos ru­ bros de que a barricada é um verdadeiro símbolo. por sua vez. Os ideais socialistas encontram. etc. às dos mercadores. que se julgava com di : reito de estructurar uma nova sociedade. pela falta de um método mais sólido.

que ela actua na prática. Permanecendo no campo da alteridade. sobrevêm outro de um vector contrário. Mas. por mais que os seus partidários. precisa da cooperação dos factores predisponen­ tes. por sua vez geradoras de excessos. para gestar-se em arbusto. Estamos. Essa dialéctica. e quase só. que o nega. e sua acção corrosi­ va. pouco usada pelos próprios mar­ xistas. Mas essa acção seria inócua. até cair. pelo simples facto de nele terem origem ou impulso inicial. cujos frutos estão aí. Está o marxismo minado por contradições internas. opondo-se àquela. A macieira não é apenas o desenvolvimento da se­ mente de maçã. a um excesso racionalista sobrevêm um outro empirista. e reacções que corres­ pondem a excessos.42 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 43 dicatos patronais. de degrau em degrau. imprescriptivelmente. suficiente para estabelecer in­ terpretações viciosas. Senão vejamos: 1) o marxismo aceitou e construiu uma dialéctica. embora constituídas com velhos materiais. São novas posições que surgem. o foi. que têm uma forma com aspecto qualitativo diferente dos das partes constitutivas. o que não o fazem devidamente os marxistas. etc. a uma valorização do Múltiplo. decompositora e corruptora. Se passarmos os olhos pela história da filosofia. ou do racionalismo cartesiano o abstraccionismo materialista. tal generatio mereceria um estudo todo especial. Tal aceitação leva os marxistas a admitirem que a gestação do contrário se dá inevitavelmente. A macieira não é uma forma actual. contém o mo- . a par de muitos outros factores. O modo de ser actual da semente tem a possibilidade de se tornar uma macieira. ve­ mos que a lei da alternância nela subsiste. que se observa na História. segundo outros as­ pectos? A um movimento de vector excessivamente exa­ gerado. agora. e que contribuem para alcançá-la. são adaptações às condições adversas. que sobrevêm de uma forma virtual. por fana­ tismo. nem o abstraccionismo materialista ou o abstraccionismo idea­ lista podem chamar-se de cartesianos. já em dias de Marx. desejando estructurar-se como uma doutrina científica do operariado. numa derrota final que não poderá de modo al­ gum evitar. como se a semente de maçã contivesse latentemente a macieira. de um movimento. excessi­ vamente exagerado. se permanecesse apenas no terreno doutrinário. e de toda a ordem cósmica. A primeira e fundamental contradição opositiva do marxismo está na sua própria dialéctica. as formas vicio­ sas das quais não se livra mais. Ora. como o afirmaram Marx e Engels. o marxismo afirma que a antítese sobrevêm à tese. A um excesso idealista sobrevêm um outro objectivista. não queiram reconhecer. surgir seu contrário. a estructuração dialéctica do pró­ prio marxismo. Mas nem o ockamismo é escotismo. das quais não pode mais separar-se. sobretudo na filosofia moderna. em face da segunda providência da análise decadialéctica. Pode. a co­ nhecer. o que é de magna importância. no entanto. que o levou. como surgiu da filosofia de Duns Scot o ockamismo. como a muitas outras doutrinas. tudo isso contribuiu à formação do so­ cialismo. mas pecava de origem por uma contradição inter­ na. que julgou ser hegeliana. desde cedo. a um Heraclito sobrevêm um Parmênides. porém. só tende a crescer. uma valorização extrema­ da do Um. O marxismo. para ser tal. Sucede. tinha uma alta finali­ dade. e que as di­ versas doutrinas. A semente de maçã.

cuja coordenação permitirá a formação da macieira. mas exige a incorporação de inúmeros elementos do mundo exterior. da ditadura do proletariado (outra ficção e utopia. sem considerar (por abstrair. mas como um movimento de oposição. que não é possível dar a menor liberdade aos povos submetidos à ditadura vermelha. vitorio­ sos. como vimos nos mo­ vimentos ocorridos na Alemanha Oriental. com a espada de Dámocles a ameaçar-lhes a cabeça. Só um pensamento abstracto. mas exige. à semelhança dos que acima estudamos. para usar uma velha e batidíssima fi­ gura de retórica. em absoluto. como pensaria o marxista ao admitir que. e. o que permitirá a incorporação de outros elementos do mundo exterior. por exemplo). à formação da polícia mais brutal da História. No entanto. se dá dialècticamente. se não houvesse factores emergen- . contribuiu. desmentiu categoricamente tudo quanto numa construcção abstraccionista e utópica havia construído. como forma. ao permitir a actualiza­ ção de uma fornia corporis (o arbusto. e não apenas num só. para que surja a emergência "macieira". pois o que vimos foi a ditadura de um grupo. que. que não po­ dem. levando-os aos excessos das depurações. Consequentemente. o anti-marxismo. como não o pode deixar de reconhecer. É na prática o inverso do que foi na teoria. E a razão é simples. de uma forma. a passagem da potência para o acto. e que seria dialéctico apenas no nome. mas da recíproca actividade dos factores predisponentes que. que se actualizará. que a realidade desmentiu. com a sua visão parcial da alteridade (o devir). Consequentemente. se desdobra o seu contrário. etc. sobre um partido. quem realmente se considere socialista. que é fundamen­ tal da filosofia aristotélica e da escolástica. a um total esmagamen­ to de todas as liberdades.O PROBLEMA SOCIAL 44 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS 45 do de ser virtual da macieira. assim. ser atribuídos à acção de estrangeiros. A dialéctica marxista. pois nem o papagaio a aprende. Não poderiam os trabalhadores alemães e soviéticos aceitar uma provocação. que é imprescindível para que surja socialismo. e assim sucessivamente. e êle não a aprenderá. Não é pos­ sível que os factores predisponentes gestem por si mes­ mos algo. nem o menor resquício de liberdade. não só da semente ou do que con­ tinha a semente de maçã. que vivem. é preciso que a emergência corresponda à pos­ sível reciprocidade dos factores. que o perdeu totalmente. embora repita palavras e frases humanas. a sua dialéctica revelou que o marxismo geraria o seu contrário. como imprescin­ dível. é um composto. e em campos muito amplos. pois proces­ sou o inverso numa acentuação monopolizadora totalitá­ ria de poder. a um homem é isso possível. já facilita a penetração de radículas. o marxismo. que a exerceu sobre o Es­ tado e sobre a população) seria capaz de gestar a liber­ dade. portanto) a cooperação de outros factores. a qual nem os próprios dirigentes so- viéticos. e os próprios marxistas intimamente concordam. enfim. para que. Dessa for­ ma. o excesso de ditadura marxista não gestou nem o deperecimento do Estado. em sua aplicação prática. Nin­ guém pode negar. poderia levar o marxista a pensar que. mas esta não é apenas um desdobramento daquela. a semente de maçã contém em si os factores emergentes. sem que se dê a cooperação dos factores emer­ gentes. que com ela cooperam. não como um desenvolvi­ mento da própria doutrina. necessita e pre­ cisa da cooperação dos factores predisponentes. como se quis fazer. Não basta predispor. pois estes logo manifestariam o seu anti-marxismo. Deste modo. Pode-se ensinar uma língua a um animal. Portan­ to. até formar a macieira. realizassem eles uma brutalidade crescente.

al­ guns literatos pedantes. ambiciosos de mando. que fa­ voreçam tal ressonância. embora se possa admitir. cada dia que passa. Uma ou outra os levará à derrota final. Podemos admitir que elas se tenham dado. O idealismo alemão cooperou muito para essa visão. e o que pensavam ser escolástica. defendendo ideias melhor expostas há muitos séculos. soam como utopias ou meras palavras que provocam apenas riso e não explosões. que exigiram tan­ ques do "exército do povo" para sufocar. A sua dialéctica. levou a um erro de consequên­ cias terríveis. Mas. a des­ crença aumenta aos olhos dos mais cultos e conhecedores dos factos que lá se desenrolam. e não como uma explosão das próprias massas. Engels. tanto Marx. pois eles não podem continuar aplicando a brutalidade organizada opressiva. ou da construcção de ficções. como os outros marxistas. por abstraccionista e. que perfeitamente o ampara. e outras já refutadas com an­ tecedência de séculos. que mereceriam estar em outro lugar. têm uma visão deformada e primária da Filosofia. Os factores ideais. que Kant combateu. 2) O segundo aspecto contraditório do marxismo está em sua posição filosófica.46 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 47 tes. se deve tal facto mais ao ressentimento e à sofisticação do que à sinceridade. influiu fortemente em todo o movimen­ to socialista. desejando explicar as "desordens" dos tra­ balhadores revoltados. É admirável que. . que adotam tal doutrina. e a Metafísica é apenas aquela de que Wolff falava. que são marxistas. uma realização do povo trabalhador. na Rússia. nem podem afrouxá-la. etc. quando não encontram fundamen­ to nos reais. Desta forma. era apenas escolasticismo. queiram ocultar esta verdade. como poderia aceitar tais provocações? Sabe ou deveria saber o marxista que os factores ideais não res­ soam sem que lhes correspondam factores reais. com prejuízos imensamente grandes para a filosofia moderna e contemporânea. de jogo de palavras. como meros productos de provo­ cações estranhas. sendo os marxistas tão realistas. Se há. pouco dialéctica. tanto de uma côr como de outra. julgando que a Metafísica fosse apenas um cam­ po de meras distinções conceptuais. o século XIX. que há entre eles muitos elemen­ tos sinceros e puros. Lenine e Stálin. imprescriptivelmente. A ignorância palmar que predominou quanto à obra metafísica de um São Tomás ou de um Duns Scot. que predispõem a muitos trabalhadores a verem. Me­ tafísica é sinónimo de idealismo. e nós o fazemos. Dessa maneira. É fácil ver-se assim que a dialéctica marxista os leva a erros palmares como sempre os levou. O que o marxismo gesta é o que já estava implícito no marxismo. portanto. Como vimos em nosso livro citado. O que os man­ tém ainda. que foi eminentemen­ te anti-metafísico. e não será por muito tempo. inevitavelmente. Colocam-se na mesma posição frágil dos positivistas e de toda a reacção anti-metafísica de século XIX. no entanto. onde os "colombos retardados" proliferam. ou alguns egressos da burguesia. senão quando há motivos reais suficientes. a dialéctica marxista actua para corrom­ per a própria doutrina. que é predominante e quase totalmente ma­ terialista. levou-os a um abandono total das obras do período medieval e de Renascimento. são as reminis­ cências da velha prédica socialista. Mas se o trabalhador está num regime. sem qualquer fundamento na realidade. Para todos eles. porque provocações de toda espécie fazem-nas os marxistas nos países capitalistas e não encontram eco.

Se aceita a primeira posição. e não evitará. com o perigo de tornar-se panteísta. Têm de tal termo uma visão caricatural. isto é. foi uma possibilidade dessa ordem. pois se êle surgiu. a não ser que aceite um outro ser mais poderoso e abandone o seu monismo materialista. De qualquer forma. na polémica que se trava entre os marxistas dissiden­ tes. pelo menos. e não se salvará do mesmo modo. mas estava em potência. com algumas tinturas hegelianas. Responderia.. Como sabe o marxista que é assim? Por lhe ser evi­ dente? Mas basta a subjectividade da evidência para afir­ mar uma verdade? Não será apenas uma convicção? . lidas apressada e descuidadamente (vejam-se os ca­ dernos de dialéctica de Lenine. essa ordem é intrínseca ao cosmos. Dessa maneira. ou idêntica ao pró­ prio cosmos. o marxista que essa ordem cós­ mica é mera realização de per-si. no cosmos. a espécie (a rationalistas dos escolásticos) fica reduzida à animalidade. Ora. que se dá no cosmos. in- dica uma providência que actua na ordem cósmica. Dessa for­ ma. exis­ tiram ou existirão. uma vidência pro. pois. houve um momento em que o ho­ mem não era ainda actual. a tese fundamental do materialismo mar­ xista é a prioridade do objecto sobre o sujeito. essa possibilidade. o que o marxismo quereria dizer é que há a ante­ rioridade do mundo exterior ao homem. não pôde evitar entregar-se a todas as aporias que daí resultam. por exemplo. tal não poderia ser apenas uma obra do acaso. Neste caso. cai em todas as aporias intrínsecas à concepção do acaso.. que se po­ de combinar com a segunda. Combatem-na pelo modelo que dela fazem. surgiu também do nada. O homem é um animal. ou admitirá que é idêntica. pois se vê obrigado a dar à matéria um poder infinito de criar todas as coisas que existem. Os marxistas desconhecem o que seja providêncoa divina. dirá. e não compre­ endem que. uma ordem criadora de todas as coisas. embora não no teísmo cristão. De uma forma ou outra. um dar-se do ho­ mem dentro da ordem cósmica. teria surgido do nada. afirma-a como mera consequência da evolução animal. o materialismo marxista é deísta de qualquer modo. filosoficamente. reconhece que há. sem qualquer intervenção de qualquer providência extra-terrena. Na ver­ dade. pois faz uma afirmação categórica do que não tem experiência suficiente. Portanto. tal potência indica uma possibilidade. adveio depois. já suficien­ temente refutada. e o seu "Materia­ lismo e empiriocriticismo"). que é uma cria­ ção posterior àquele. em suas análises primá­ rias sobre a "Grande Lógica" de Hegel. como um ser que se diferenciou. se acaso veio da animali­ dade. a queda no deísmo. seguindo as linhas do cientificismo do século XIX. que apesar dos esforços para não se confundir com o materialismo vulgar de um Moleschott ou de um Vogt. que mutuamente se acusam de falsificadores da dou­ trina. Mas. acaso. mas um animal que se dife­ renciou. palmarmente. mas do desenvolvimento da própria ordem cósmica. Se aceita a eviternidade e a subsistên­ cia. a ordem cósmica providenciou que sur­ gisse o homem. se o homem surgiu. há de convir que essa ordem. Não. ou seja. o que o marxismo não irá de forma alguma admitir.48 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 49 O marxismo. sendo o homem producto de uma longa evolução da animalidade. os efeitos dessa heran­ ça. que já é acusa­ do de ingenuidade. Aquele ver para diante (pro e videre). ou surgiu do acaso ou é eternamente pre­ existente e eternamente subsistente. é uma doutrina mate­ rialista. construiu uma visão materia­ lista. E essa diferença não a nega o marxismo. Ora. o marxismo é supinamente metafí­ sico. que já continha portanto. não poupando até o próprio Engels. do contrário. O marxismo. E vemos.

para ser socialista. que. o marxismo jun­ tou o seu destino ao destino do materialismo. Daí o desrespeito total à pessoa humana. é posterior ao que o cria. aos doentes. Ademais. Em vez da força dada pela coerência. e os bolchevistas mataram mais companheiros do que inimigos ideológicos. "nada há no intelecto que primeiramente não tenha estado nos sentidos". e esta. afirma a an­ terioridade do ser sobre o conhecer. é o movimento que apresentou maior número de traidores que qualquer outro na His­ tória. o que é uma afirmação empirista. O marxismo termina por negar valor a tudo quanto o homem elevou até então. fundado nas afirma­ ções de seus sequazes. e o queremos fazer com justiça. a mais fra­ ca posição que se conhece na Filosofia. e. na Rússia. Por escolher uma visão materialista. combateu a Filosofia e. precisa destruir até as mais caras conquistas da racionalidade e da afectividade humanas sobre a animlidade. (a racionalida­ de ã animalidade. que não o sabe. que a própria filosofia marxista contribui para levá-lo à corrupção mais extrema. nada mais afirma que um dos pontos que é património de toda a escolástica. Na verdade. E no seu afã destructivo. fora da Rússia. Nós o fazemos em outros trabalhos. acabou por obter uma coerência conquistada pela força. assim. E como todo ser criado. são ainda os ideais socialistas (no fundo genuinamente cris­ tãos). e nisto o marxismo. termina por construir uma tríada pa­ ra o povo. como é a actual "Pátria. embora em linhas gerais. e propor uma camarada­ gem entre os sexos. Submetendo-se ao destino do materialismo. pelo mesmo reductivismo ao físico-químico). uma ferocidade inau­ dita. Es­ ta é um producto do mundo exterior. fatalmente. se pode vivamente interessar aos egressos. combateu a família. Para a escolástica. es­ sa coesão é obtida pela força policial. nem conhecer certas victórias por si. As restrições contra o divórcio e a defesa dos bons costumes atingem hoje. ao Ser que o antecede. E a fal­ ta de um princípio ético mais profundo ao marxismo. na verdade. o que dá força ao marxismo. o marxis­ mo condenou o seu futuro. deveriam os marxistas saber que Aristóteles e São Tomás aceitavam que "nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu" ou seja. julga que. que depois de combater a família. enquanto nos países dominados pelo seu poder. quanto ao conhe cimento. o homem é criatura. Família e Estado". E as constantes mudanças de posição.50 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 51 Não podemos discutir as bases do materialismo aqui. isto é. não encontrou em que dar coerência ao seu mo­ vimento. Vê-se. este último substituindo Deus. portanto. combateu a Religião. como os factos o comprovam cabalmente. combateu a Moral. como nos mos­ tra a história do movimento bolchevista na Rússia. não lhe deu a força que julga ter. em face da própria história do partido bolchevista. Mas. a qual não pode ser negada. repetindo ridiculamente o "Deus. por reduzir a espécie ao género. por desvalorizar totalmente o homem. mas apenas uma posição empirista no referente ao conhecimento e na gestação da inteligência humana. e não a uma pessoa. reduz o homem a uma coisa. foi criado. O marxismo. aos ressentidos. provocaram os risos dos adver­ sários. é que Marx não tomou propriamente uma posição genuinamente materia­ lista. Mas o que se pode dizer. a todos os que não podem submeter-se a uma auto-disciplina. aos mórbidos. As contravenções ao código de moral soviética che- . Pátria e Família". o mais importante é o que gesta aqui um ponto ético capital. que o leva a outros desrespeitos. Dessa forma.

com as fronteiras fechadas. tende ao vicioso e à destruição final. Holanda. é maior que a dos trabalhadores russos. que ora fa­ zemos. O autoritarismo marxista é uma contradição interna do marxismo. como sucede com todo país indus­ trialmente mal desenvolvido. vedada à Rússia paleotecnizada. segundo a norma marxista. São eles mesmos. pode­ riam negociar com os outros povos. nenhuma organização. Nenhuma ideia. afinal. e de o país precisar manter-se afastado dos outros. como o são os Estados Uni­ dos. pois o marxismo é intrin­ secamente autoritário. Os abusos. Mas como vender o que produzem. Uma moral. da qual a pouco e pouco se assenhoreiam. levou-o ao excesso de poder que não pode afrouxar nem manter. vivem milhões de seres humanos sujeitos a todas as lutas internas. em linhas gerais. É o absolutismo autoritário um dos factores mais importantes para levar todas as formas humanas às for­ mas viciosas. e os últimos de Malenkov. 4) Outra contradição destructiva encontramos no decurso da história. Dinamarca. per capita. por seu carácter absolutista. como as de Hitler o aproximavam cada vez mais da derrota. Os progressos obtidos pela técnica permitiram que os países neotecnizados pudessem conhecer uma melho­ ria de vida do trabalhador. negar estas ob­ servações: a) que o proletariado desses países vive num pa­ drão de vida muitas vezes superior ao dos russos. Noruega. mas como factor de decomposição. porque não po­ dia competir. As victórias obtidas são uma marcha apressada para a derrota fi­ nal. Kruchev. destroem.52 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 53 gam aos extremos de dar penas pesadíssimas aos namora­ dos que se beijam em plena rua. nesses países. que dela decorrem. que geram naturalmente o autoritarismo. Suécia. do que não se livra mais e que o destruirá. depois de ter sido ridicularizada por tanto tempo. não como teoria. que nos contam. fazem estes os maiores malabarismos intelectuais para explicar os factos. O marxismo não pode evitar de ser histórico e passar com a História. O princípio autoritário. E as formas viciosas decorrem desse espírito autori­ tário. e penetrar na producção. Os factos sucedem-se dentro de uma sequência que não o fortalece. por formas cooperacionais. porém. etc. E. nessa sequên­ cia. sobreviveu ao próprio autoritarismo. levada aos extremos. porque o autoritarismo. qualquer construcção. Stálin queixava-se de ser a producção russa a mais cara do mundo. não co­ nhecem movimentos marxistas ponderáveis. com a producção dos países ca­ pitalistas. Leiam-se os relatórios de Stálin. Uma brutalidade leva a outra brutalidade e. Toda doutrina absolutamente autoritária está fadada ao malogro final. Se os marxistas realmente desejassem a paz. inerente ao marxismo. Não são os adversários que os relatam. o que ali se passava e passa. 3) A contradição funcional é importantíssima. b) que nesses países a capacidade de producção. . Neste ponto. mais dia menos dia. O autoritarismo fundamental da concepção marxista faz crescer os abusos de poder. que se tornou autoritária. Os países neotecnizados. Toda a história prova essa afirmativa. c) que o proletariado desses países encontra meios fáceis de resolver os problemas económicos. se é tão caro? Têm de viver de restri­ ções de toda espécie. em preços. deveriam ter eclodido movimentos mais ferozes. no en­ tanto. Não podem.

porque o próprio trabalhador tinha um papel cada vez inferior. 6) A organização paleotécnica da Rússia. Desta forma os marxistas. a fazer a revolução. além do poder político. A mentalidade sovié­ tica é paleotécnica. etc. fazia êle uma afirmação que não se enquadrava no verdadeiro espírito da doutrina marxista. sem o poder económico. semearam ven­ tos. b) o proletariado. le­ vará o povo russo. Só pela revolução se liber­ tará da opressão em que vive. não foram capazes de aproveitar as lições que a neotécnica e a biotécnica oferecem. e colheram tempestades. Quando Lenine pedia ao proletariado que ad­ ministrasse. o económico. d) ademais. passando as leis. O marxismo encontra. Poucos dias após a revolução. o aniquilamento dos socialistas revolucionários. com o aproveitamento do desinteresse dos anarquistas pela política. o que lhe diminuía o estí­ mulo. a plus-valia paga ao capitalista passou a ser paga. para sair da situação em que se en­ contra. ordens e regras a serem estatuídas de cima para baixo. pois a direcção devia caber ao partido. como o foram. o processo histórico e a técnica mos­ tram o marxismo como uma filosofia para o proletariado da paleotécnica. que foi burocratizada nas mãos do Estado. dar-lhe-ia o direito de greve. te­ riam. Vitoriosos. e o poder absoluto dos bolchevistas instalou-se na Rússia. e) caiu o proletariado perdido às mãos dos podero­ sos. tudo quanto estudamos acima. Sabia muito bem Lenine e seus sequazes que. na Rússia. de que tanto Stálin e Kruchev têm se queixado.. brutalizou-se nas garras do estado policíaco. em suma. o direito de greve foi imedia­ tamente liquidado. apesar dos ímpetos estacanovistas.54 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 55 Ora. paleotecnizaram a producção. O poder económico nas mãos do Esta­ do. que errasse. Em troca da admi­ nistração das fábricas. 5) Outra contradição é a de ordem político-administrativa. mas administrasse (e isso antes da revolução de Outubro). na história. sem ter possibilidade de organizar-se em defesa. pois só o pri­ meiro seria precário. assim. Apesar de Lenine ter lutado pela elec­ trificação do país. o autori­ tarismo. uma consequência: a) a burocratização levaria ao encarecimento da producção.. como trouxe. Desta maneira. ao Estado. em dobro ou em triplo. como de­ pois se verificou. tais factos são evidentes. Ludibriaram as massas eom o prato de lentilhas do direito de greve em troca da ad­ ministração. E sucedeu o que era inevitável den­ tro da concepção marxista. que sofre a pesada carga de uma super-burocratização. propuseram Le­ nine e Trotsky o prato de lentilhas. e os bolchevistas terem feito muito neste sector. sem a administração. . como Marx semeou dragões e eolheu pulgas. a sua própria contradição. Mas tudo isso traria. e a liquidação posterior dos remanescentes socialis­ tas adversos. e as utopias do Renascimento o foram para a eotécnica. através de seus relatórios. e dominando a máquina do Estado. não baixou de custo. c) a producção. pois os sindicatos e os sovietes perderam o poder. os bolchevistas não guiariam o movi­ mento socialista. como o socialismo chamado utópico tam­ bém o foi. quando o proletariado se apoderou das fábricas. Ao contrário. e o marxismo passará para a história como mais um exemplo do malogro das dou­ trinas autoritárias.

mais cedo do que se pensa ou se espera. Nem Stálin sentiu-se seguro. ameaçados sempre de denúncias. Esse desejo já exis­ te. para alcançar um mundo on­ de possam respirar livremente. os milhares que morrem nas frontei­ ras. desejaria que tudo fosse diferente. ao visitar a Rússia. mostrarão aos mestres quanto aprenderam. Sua dialéctica levou-o. ins­ talando um regime de césares. Dizia Nietzsche que é do destino dos alemães salvar o que está perdido. e se viu forçado a guinadas de todo modo. em breve. A morte de Stálin era necessária. etc. brutalizar. poderia afirmar qual­ quer dos seus adversários. único campo onde trabalha a dialéctica marxista. Sucede. pode não perceber tal coisa ao primeiro relan- O marxismo gera internamente uma luta sem quar­ tel pelo poder. também não trouxe grandes benefícios. cai fragorosamente. Kruchev continua. pois graças a sua acção. sem faro psi­ cológico. a Rússia poderia dar um outro passo. a burguesia para libertar-se da nobreza. Se a Rússia abrisse as fronteiras. quan­ do concede certas liberdades. pelo facto de o Esta­ do soviético dispor de tanta força. que deveria canonizá-lo. mesmo havendo muitos outros que ela esquece ou desco­ nhece. e bem fundadas. sem tal perigo. nem Kruchev. Esse espírito exi­ ge a desconfiança constante e a constante instabilidade dos dirigentes. se não tivesse surgido entre os socialistas a acção dissol­ vente e divisionista dos marxistas. fortalece-o. internamente.. com depurações cons­ tantes e sangrentas. nem podem empregar a liberdade. Os bolchevistas não podem permanecer na brutali­ dade desenfreada. Marx. que parece ter obedecido mais a um plano preme­ ditado que a uma simples doença. As forças contrárias crescem constantemen­ te e. Dizia que Lutero salvara a Igreja. Os discípulos. um tanto prematuro. e por sua vez dos próprios membros menores. como a policial. que a táctica de Malenkov. enfrentando os guardas. ainda põe dúvi­ das. nem seus subs­ titutos. Perdoem-nos a profecia. sobre a verdadeira causa de sua morte. Um estrangeiro. sempre ameaçados. são um atestado insofis­ mável. Mor­ to. salvou a burguesia. Êle era su­ ficientemente inteligente para saber que um ditador. ela re­ nasceu. . cuja situa­ ção ter-se-ia tornado inevitável em dias da paleotécnica. Não se pense que tal seja impossível. Stálin não podia modificar a orientação soviética.. Tudo isso ruirá fragorosamente. também. em qualquer país. e assim até ao fim. É o que se verifica nos quadros do mais rudimentar partido comunista. * * * Aqui há lugar para uma pausa e comentário. talvez ficassem apenas os senhores do Kremlin. até Kruchev. e nesse "talvez" há muito ainda de dúvida. As fugas constantes. fundado em parcos factos da História. e será continua­ do por outro. O autoritarismo bolchevista provoca o anti-marxismo. e deixasse sair do país quem o quisesse. e compa­ nheiros. porém. as forças de desagregação são estimu­ ladas. terá de fazer a revolução para libertar-se dos seus "libertadores". No fundo de si mesmo. todo russo. Os russos aprendem há séculos a matar. mas assistirá a humanidade a mais feroz carnificina que conheceu a História. E seu fim. o proletariado para libertar-se da burguesia.56 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 57 Assim como a nobreza fêz a revolução para libertar-se do domínio do clero. a mili­ tar. a construir uma visão falsa da própria alteridade.

como verificamos em países como Suécia. Síntese: será um socialismo democrático cooperacipnal. naturalmente. Islândia. sem a intervenção do Estado. que quiser. cheio de brio. por exemplo. nem marcha para mo só seria implantado à custa meio de uma grande revolução país os dirigentes. a exploração do petróleo. que se jul­ gam senhores do conhecimento e falam em tom dogmá­ tico. e a liberdade é uma perfeição que só se torna praticamente real com a própria prática. * * * O marxismo não é uma doutrina socialista conse­ quente. Inglaterra. dos grandes iluminados da auto-suficiência. Estes constroem o que até cr f ão era considerado im­ possível. sincero. em face do que o marxismo inevitavelmente é ab ovo: autoritarismo. por popular. desejariam demonstrar que tal é impos­ sível. São os marxistas os maiores inimigos do cooperacionismo. Suíça. e já genuinamente solidificado por ideais e práticas mais seguras. Antítese: o socialismo autoritário. E nessa época os cooperacionistas eram apenas uns 50 mi­ lhões. Pode. marxisticamente. Teoricamente erraram e a prática os desmentiu. O socialismo implica liberdade. a considerar: Tese: o socialismo romântico. O turista não vai às favelas. navegação. como se conhecessem todos os mistérios da nature­ za e da vida humana. Elas precisam confiar na omnisciência dos líderes. os 800 milhões de cooperacionistas do mundo. sermos justos com os marxistas. e pela exclusiva Impõe-se. não realizem obras que melhorem suas condições económicas. Pode ter a Rússia tudo o socialismo. Mas todos esses argumentos seriam fracos e desin­ teressantes. com espírito de turista. Estados Unidos. cuja prática está atestando o que é. e de propriedade de trabalhado­ res. etc. as condições históricas não permitiam nem . não confiem em sua força de organização. contudo. esta só pode surgir por oposição àquela. etc. à miséria dos bairros. como já o fazem. dos ideólogos sistemáticos de ciência infusa. é preciso que as massas popula­ res não creiam em si mesmas. prussiano. grandes indústrias. Dina­ marca. as grandes companhias de navegação sue­ ca e islandesas. embora em parte. O socialis­ do regime bolchevista. demonstram à saciedade que os mar­ xistas são teimosamente maus profetas. E muito menos na Rússia. As duas dezenas de companhias de petróleo. Noruega. Tais afirmativas. absolutismo. O ciclo dialéctico da alteridade leva-nos. não aprendam a administrar por si a si mesmas. embriagar-se até com belezas que o novo regime tenha realizado. Mas. onde há lugares proibidos em to­ dos os cantos. que extirpasse do acção dos próprios trabalhadores. de Marx. etc. formadas so­ bre bases cooperativas. Canadá e até entre nós. levam desde logo a muitas objecções por parte dos marxistas. Mas trinta anos atrás também era impossível. com sua frota de pe­ troleiros.58 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 59 ce. A opressão não é escola de liberdade. Afirmavam os marxistas que a cooperação orga­ nizada pelos trabalhadores e pelas classes populares não poderia construir. mas não tem o socialismo. Para os líderes. na verdade. as estradas de ferro construídas na Bélgi­ ca e na Suécia. Com seu tec­ nicismo verbal. que realiza. existentes nos Estados Unidos. Seria ingé­ nuo acreditar que em quarenta e tantos anos nada se ti­ vesse feito na Rússia. Holanda. estradas de ferro.

Não é difícil encontrar. Os factores predisponentes actuam e permitem a emer­ gência de uma revolta. Ou está ameaçado a proletarizar-se.60 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS permitem outra solução. Tem de proletarizar-se. são os internos. no socialismo. qualquer marxista sincero. é superado (não em tudo. foram pilhados nu­ ma armadilha. como vimos. e cônscio da realidade. Mas o ho­ mem vive na natureza (factores ecológicos) e numa so­ ciedade humana. de Owen e de Proudhon. este. e os predisponentes. actualizam-se de determinadas formas. sem a qual êle não surgiria (factores histórico-sociais). OS FACTORES EMERGENTES E PREDISPONENTES Os factores emergentes. é eotécnico. e revolta-se. corpo (factores bionômicos) e psiquismo (factores psicológicos). A "férrea necessidade" também os prendeu em suas ma­ lhas. Um socialismo de Fourier. e revolta-se. por melhor boa vontade que tenham. Tem a revolta ro­ mântica do artesão. que. . Assim. em parte. O socialismo da eotécnica é diferente do que corres­ ponde à paleotécnica. emergentemente. suas raízes emergentes. subitamente. e muitas das atitudes que tomam não são as dese­ jadas. nem conseguirão. Não o conseguem. ante a acção predisponencial dos ex­ teriores. Não se poderia esperar outra coisa. mas são aquelas que as circunstâncias permitem. pelo salariato do pe­ ríodo paleotécnico. Os emergentes. que se adapta às condições ambi­ entais. O homem é. o meio ambiente tem seu papel na emergência. os externos. nem tampouco compreender o papel que os factores predisponentes exercem na actualização de suas formas. Dentro de si. que aos poucos. Aquele tem características que lhe são dadas pelo artesanato. dará plena razão às nossas palavras. lhe arranca os clientes. O que pretendem fazer não podem realizar. é certo) pela grande indústria. No fundo. que bem gostariam de safar-se.

vive em sociedade. é muito mais rico do que pensaria a consciência . sobretudo se se considerar que a sua insuficiente cultura filosófica não lhe permitia ver além dos factos. em seus últimos anos de vida rejeitaram esse absolutismo. e alguns o fazem. Em alguns marxis­ tas. no homem. mas isso correspondia ao histórico-social e ao espírito da época. Os factores predisponentes foram aqui importantes.. Realmente. os fundamentos do socialismo são invariantes. tendeu sempre a acentuar o valor do factor económico. monopólio de producção. sofrendo dela suas in­ fluências. Um biologista poderia querer reduzir. em sua conjunção e reciprocidade. por faltar-lhe uma sólida análise dialéctica. Os outros nem são factores. que o factor económico fosse sempre o decisivo. Podemos não perceber isto ou aqui­ lo. porém ne­ gar a interactuação do biológico e do psíquico. ora aqui. Ora. fisiológico. e de­ la depende para surgir e perdurar. da concreção em que se dá. Por isso. monopólio. as do economismo. E também o são a natureza e a socie­ dade. porque. O factor económico é por eles. económico. Mas o homem é também psiquismo. e é natureza. A inversão vai dar-se nos marxistas. toda a superestrutura humana à Biologia. nem ter uma visão global justa. e eis o psicologismo. E como o homem existe na natureza. consequentemente. que não po­ deria ele ter outra visão. Mas os epígonos continuam afirmando-o dogmàticamente. ora ali. segundo suas classificações mais usuais.). sendo corpo. Era tudo evidente a seus olhos. e ideológico. um físico-químico poderia querer explicar totalmente o homem pe­ la Físico-química. corpo e alma são insepa­ ráveis. O que se chama factores biológicos não têm uma precisão absoluta. e teríamos o materialismo vulgar.62 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 63 Mas. Estes surgem em plena paleotécnica. é a predominância deste ou daquele. e um psicólogo poderia reduzi-lo à Psicologia.. um fisio­ logista poderia reduzir à Fisiologia. nesse período. tão cheios do século XIX. O que nos aparece. como procede o biologismo. onde ainda julgavam ser possível uma salvação para os ho­ mens. A sociedade tem de ser centralizada. político. (É verdade que Marx e Engels. não se pode. a emergên­ cia. como o fazem os adeptos do fisiologismo. assim como os factores histórico-sociais. abstracta­ mente. de tal modo. esse factor é único. Mas. nesse socialismo eotécnico. dava a con­ cluir. etc. Co­ mo o homem é histórico-social. o ser humano. no homem. não faltam as reducções do historicismo. A psicologia de pro­ fundidade nos mostra que o que pertence ao inconsciente e ao subconsciente. Naturalmente que. é sempre biológico e. numa adequação com a predisponência. precipitadamente. o histórico-social influiu sobre Marx. monopólio de poder. o bionômico e o anímico estão fundidos. a predisponência económica era decisiva. para se constituírem. desde os escolásticos. Ora. naturalmente os de menor porte. de domínio uti­ litário. O capitalismo toma o rumo das grandes unidades da centralização constante. que acreditava apenas na Ciência e que precisava resolver os problemas económicos. precisam dos emergentes. retirado. sem fé. assim. O homem é um todo dentro de uma concreção. cujas resso­ nâncias são mútuas. em suma. que são apenas graus de intensidade da vida psí­ quica. em cooperação com os ecológicos. são os socialistas da grande con­ centração capitalista. únicos. desde esse momento. realmente preponderante e decisivo na época como é ainda hoje. mas o nosso psiquismo percebe. O marxismo viu nisso o clí­ max do progresso e uma lição da organização social fu­ tura.

como diria um escolástico. O estudo mais pormenorizado desses factores. E explicar tudo quanto se dá na sociedade apenas pe­ la acção decisiva desse factor. co­ mo êle mesmo o confessa. o psicológico e o social. pode explicar. pois a sociedade. Há po­ vos que se deixam vencer pela natureza. com fundamen­ to na coisa. tanto quanto podia. pelo abstraccionismo racionalista. seria dar uma explicação pouco dialéctica. por exemplo. teve um papel inegavelmente positivo e de grande valor. e povos que não o aceitam. e como o económico não era mais salientado pelos filósofos de então. Eram as formas de producção do ca­ pitalismo que geravam o socialismo. onde os estudamos sob vários aspectos desde "Lógica e Dialéctica". dominada pelos abstraccionistas idealistas. o que outros. construiu uma cosmovisão totalmente paleotécnica. . que as relações de producção se tornavam díspares daquelas. que só uma visão dialéctica e cooperacional dos factores de emergência e de predisponência. paleotécnicas. ao ressaltá-lo. como propomos.64 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 65 vigilante. e julgou que as soluções sociais seriam. porque o ca­ pitalismo era obrigado a socializar a producção. acentuou. Os problemas económicos avultavam. em cada acto hu­ mano. que analisamos em nossa "Filosofia e História da Cultura". nos colocam ante factos. Assim. por abstracta. que não são separa­ ções reais-físicas sob todos os aspectos. Há povos que reagem. O proletariado seria apenas o herdei­ ro do capitalismo. em circunstâncias semelhan­ tes. A cooperação das intensidades e extensidades desses factores explicam os factos históricos. por sua vez. não pode ser niti­ damente separado. já haviam visto: o homem estava empolgado pelo económi­ co. Portanto. vive em nós. E entre os indivíduos as diferenças são ainda maiores. há sempre o económico ou a sua presença. provenientes da concreção escolástica. Marx. e outros que não reagem aos ataques estranhos. até com exagero. está esparso em nossas obras. como há o biológico. antes dos exames procedidos. o que dava um conteúdo novo. fundado em documentos de parcial valor. Marx olhava apenas o aspecto da ordem das coisas e não queria ver mais nada. mas apenas distinções. não há senão distinções que fazemos com fundamen­ to in re. pois do contrário não poderíamos compreender como um povo. que parece estranha. Marx viu. embora não fosse descobridor do factor econó­ mico. E de tal modo. antes dele. sabe­ mos que há muito de inconsciente e de subconsciente num simples acto que praticamos. espírito rebelde e em constante oposição. enquanto permaneciam formas velhas. pelo abstraccionismo materialista vul­ gar. Marx. que até o desprezavam. Seus exageros foram por êle vividos de tal modo que ao visua­ lizar uma situação histórica. com o intuito de salientar vi­ vamente o que os outros desconsideravam. e outros que vencem a natureza. e outro. que eram formas viciosas. nessa época. a filosofia anterior. actua diferentemente. em contraposição ao abstraccionismo na filosofia que o havia desprezado. com mui­ to maior influência e eficacidade do que se poderia pensar. em certas circunstâncias. Os estudos de Spengler e de Toynbee sobre a história. e distinguido em sua concreção com os outros. isto é. como os factores não têm uma nítida separa­ ção. real-fisicamente. Ora. Como natu­ ralmente. fora de nós. O factor económico. actua deste modo. A revolução seria inevitável. julgado apenas movido poç isto ou por aquilo. mas apenas apontado. Há povos que aceitam desa­ fios. que ora fazemos apenas em suas linhas gerais. Marx foi um exemplo de sua mesma teoria.

actualmente. na formação de novos ângu­ los e perspectivas. Analisado o marxismo no campo do sujeito e do ob­ jecto. Os estudos filosóficos de Marx. bem como da maneira abstracta de visualizar os temas. ANÁLISE DECADIALÉCTICA Com a colocação dos diversos aspectos mais impor­ tantes do marxismo. o socialismo eotécnico. antes de ser mar­ xista. Marx era paleotécnica apenas. que era um industrial e economista. Enquanto o "utopista" Proudhon pre­ via o fascismo. ressentimento individual. e.66 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS Ora. Nem uma visão clara das possibilidades revolucioná­ rias da Técnica. em cuja obra "Campos. Marx não. o marxismo estructura-se co­ mo uma filosofia do proletariado da paleotécnica. ape­ sar de casado com uma mulher da pequena nobreza ale­ mã.. enquanto Kroptkine. Para êle o capitalismo era o gestor do socialismo. àqueles a quem houvera solicitado um cargo. Opunha-se ao capitalismo. importantíssimo. Filosoficamente. etc. a pessoa de Marx se torna importante para a explicação da sua doutrina. um progresso. deve ser examinado como doutrina e como práti­ ca. e Marx mais Economia que Filosofia. O próprio Marx intitula o seu livro máximo de "Ca­ pital". e só. por nós já salientados nas páginas que antecedem. é fácil agora fazer uma análise decadialéctica. que êle quer falar. não só sociais como fi­ losóficos. naquelas florestas de canos espetando o céu. e a influência que sobre êle teve Engels. ao movimento de humanização do trabalho. forma viciosa do domínio do capital. fábricas e oficinas" colocava os aspectos da Técnica. conhe­ cidas nos países nórdicos.. que actualizara da obra de Hegel o aspecto objectivo. não pensou que elas poderiam ter um ou­ tro papel. A marca pessoal é demasiadamente evidente: messianismo judaico. que não obtivera por ser judeu. que terminou por Engels fazer mais Filosofia que Economia. Marx nunca pensou devidamente nas grandes revolu­ ções técnicas. que serviriam de base a Patrick Geddes e a Mumford posteriormente. perseguições e despre­ zo dos dominadores de então. explicam-nos muito dessa notável simbiose. nem admitiria que a forma de producção bur­ guesa fosse socialista. Viu nas grandes chaminés. Marx não. Ainda o diferente gestava o dife­ rente. O capitalismo criava maravilhas. Marx. como obra de Marx. Marx não previa essa trans­ formação. opunha-se. e de seus seguidores. que empestavam as ci­ dades. segundo os dez planos. económicos. Es­ ta está marcada pelas peculiaridades do seu espírito. de forma alguma consi­ deraria a oficina burguesa como exemplo de uma oficina socialista. Se actualizamos o subjectivo. Colocado nesse ângulo. politicamente. pois a técnica levava o trabalhador a uma brutalização tal que seria hediondo aceitá-la. assistindo à luta que era travada entre os dois . As imundas cidades de carvão e fuligem eram um progresso ante as limpas cidades da eotécnica. porque é sobre o capitalismo. um progresso. o tigre gestava pombas. considerava-o um passo à frente. nem sequer do papel que ela exercera na transformação das sociedades do passado. influenciado pelo hegelianismo de esquerda.

competir com eles. era estimulada por seus homens públicos (a era bismarckiana se construía) a industrializar-se. A princípio. o que se deve à sua ignorância sobre eles. mas que por estas é modelado. a teoria do conhecimento marxista não poderia deixar de cair num empirismo abstraccionista. prático. consequentemente. genuinamente afectivo. dos valores que o homem empresta à filosofia prática. E es­ tes Marx não os realizou por tê-los desprezado. porque não se libertou da influência axioantropológica. sentiu que havia muita exteriorização de paixão por parte destes. Seu rompimento com Proudhon. A influ­ ência positivista. neófito no socialismo. ao qual virtualizou. levou-o. colocado do lado dos esquerdistas. a fim de competir com as grandes regiões industrializadas da Inglaterra e da França. Mas trazia sua alma hegeliana de esquerda já estructurada. de antecedência. que passa a ser apenas uma coisa que organiza coisas. Era preciso ser objectivo. por isso. que só nos estudos altamente especulativos é possível evitar. A Alemanha. embora fundando-se nas mesmas teses aristotélico-tomistas da raiz empírica do conhecimento. por exemplo. Marx. o so­ cialismo. tinha um cunho altamente subjectivo e. Marx sentiu a luta e. virtualizando tanto quanto possível a subjectividade. o aspec­ to materialista teria que ser finalmente acentuado. os aspectos do objecto. como todo materialismo. era supinamente romântico. e o marxismo caracteriza-se por essa frieza ao tratar do ser humano. obra pouco lida e conhecida dos marxistas. que fazia parte da concreção hegeliana. consequentemente. tem sempre uma raiz num interesse páthico. ou seja. tinha os olhos voltados para o além-Reno. Por outro lado. caindo. O exagero era inevitável. no in­ tuito de alcançar aquela precisão que a Ciência buscava e adquiria ao afastar-se do subjectivo. engajou-se do lado objectivo. a cair numa visão objectiva do socialismo e a actualizar. pois virtualizaria. Todo o subjectivismo alemão (e que se revela tão simbolicamente no expressionismo em sua arte) tinha que ser posto em quarentena. já refutado com séculos. e vencê-los. e que terminaria por tornar-se o ponto fraco do marxismo. esquecendo a importância do subjec­ tivo. uma cópia. em todos os defeitos do nomi­ nalismo. como já vimos na "Psicologia" e "Lógica e Dialéctica". por paixão. eficiente. e que o desprezara. Mas todo tender objectivo. tinha uma . que é um asíntese de objectividade e subjectividade. dos tomistas) levou-o a transformar o subjectivo num mero epifenômeno. que tanto admirara. de vez. levava Marx a tender para a ob­ jectividade. acompanhar o progresso económico dos outros povos. que se processava nos países latinos. no tempo da "Ideologia alemã". Esta acentuação levá-lo-ia a desprezar o homem. Ao manter con­ tacto com os revolucionários latinos. ho­ mem de luta.gg MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 69 grupos que disputavam entre si a verdadeira exegese do hegelianismo. que sempre chega tarde na História. tudo quanto fosse de subjecti­ vo em Hegel. nem os fundamentos seguros que o sustentam. avançar. Naturalmente que a luta entre as tendências objecti­ vas e subjectivas na Alemanha tinham dê ser mais agudas que em qualquer outra parte. e Marx o era. naturalmente. Marx era afectivamente objectivo e exagerava esse aspecto. que se manifestava vivamente na Ciên­ cia (o que não deve ser simplesmente confundido com o positivismo de Comte). sem que desprezemos o invariante que o es* tructura. com toda a paixão. É verdade que Marx. Mas a não aceitação de um papel activo (o intellectus agens. preciso. Somos objectivos também por paixão. Daí a concluir que a objectividade gesta a subjectivi­ dade era apenas um passo. enquanto pessoa. Era preciso superar estágios.

como já vimos. que o torna apto a conhecer mais. compreendeu e tangeu em parte. conclui que a utilidade já está contida no valor de troca. no receio de cair nas teses idealistas. seu conhecimento está ne­ cessariamente acima da natureza de tal cognoscente" (Summa Theologica I. o que o leva a construir uma teoria abstracta do valor. dialècticamente. Só se produz o que é útil. O su­ jeito conhece segundo pode conhecer. assim. Esta é a tese empirista. E prossegue: O conhecido está no que o conhece. é reduzido ao valor de troca. (Cognitío enim secundum quod cognitum est in cognoscente). o valor de uso. O sujeito é constituído de modo a conhecer. assim como a trepidação de um motor é apenas um epifenômeno do seu funcionamento. o factor emer­ gente do conhecimento ao lado do predisponente. Mas o cognoscente adquire esque­ mas pela experiência. acentuando o aspecto objectivo. Mas o co­ nhecimento. "Portanto. diziam os escolásticos). Marx só vê a acção da experiência. Por isso. Esta passou a ser apenas um epifenômeno da­ quela. segundo seja seu modo natural de ser (o cão conhece caninamente. quanto ao conheci­ mento. e esquece que sem a emergência não haveria conhecimento. isto é. levou-o a esquecer estas teses e até o quadro da estructura (da infraestructura e da superestructura) foi finalmente modificado. e aceitava a interactuação do objec­ tivo e do subjectivo na formação do conhecimento. O conhecimento se verifica do modo como o conhecido está no que o conhece. virtualiza a acção subjectiva. Vemos aqui colocado.70 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 71 visão proudhoniana. é positiva. depende do sujeito. etc. Dessa maneira. existe independentemente de nós. afirma São Tomás. expli- . o papel que a subjectividade posteriormente impõe. aqui.. sem o que é capaz de conhecer. e consequentemente. o idealismo tinha sua positividade. con­ sequentemente. como vimos na aná­ lise da teoria do valor. tamtoém. É verdade que êle termina por aceitar uma positividade também idealista. o ho­ mem humanamente. Nossos esquemas permitem conheçamos segundo nossa assimilatio (assi­ milação) a eles. 12 a 4). teria que gestar todos os erros que posteriormente vieram adicionar-se a este. per­ manecendo a infraestructura como meramente objectiva. ao reconhecer o pa­ pel que a ideologia exerce no conhecimento. E conhece. como na cosmovisão das classes. O excesso do objectivismo marxista impele a falsifi­ car o próprio conhecimento. e a subjectividade colocada exclusivamente na superes­ tructura. São Tomás é dialéctico. que êle. em nossos traba­ lhos anteriores. que não deve ser confundido com o objectivo. no início. mais conhecimento. e que realiza o acto de conhecer. (Um pe­ queno erro. No entanto. O conhecimento está condicio­ nado ao cognoscente. A criança conhece na proporção de seus esquemas. O mundo exterior. ao afirmar que o mundo objectivo é modelado pelo sujeito. na Economia. o que já estava bem delineado. que é subjec­ tivo. Mas o calor da sua paixão objectivadora. que é o de São Tomás. Marx. segundo o seu modo natural de ser. Marx não vê mais o antinômico que se dá entre ambos. se o modo de ser de um objecto de conhecimento é de ordem superior ao modo natural de ser do que conhece. gesta grandes erros posteriores. Mais esquemas. que dele temos. a po­ sição empirista e a racionalista apriorista são sintetiza­ das num empirismo racionalista. A tese idealista. Dessa forma. racionalmente também). o marxismo caiu no abismo nomina­ lista. pelo qual o conhecimento se adapta ao modo natural de ser do cognoscente. na verdade.

nos estudos sobre o conhecimento. e só nas maçãs. podemos conhecer as coisas em seu ser universal. o natural para nosso entendimento é conhecer as coisas que não têm ser senão na matéria. crescer com. Mas esse relacionamento é um relacionamento que não é qualquer outro. mas sabe que êle é. pois uma maçã não surgiria na Lua. pois. mas que está in re. um eidos. pela qual conhecemos. é uma fórmula que não é apenas uma abstracção do homem (excesso da tese subjectivista. o número pitagórico no bom sentido. pode a ciência ainda não saber como êle é. mas abstraídas dela pela acção do entendimento. É uma universalidade para nós. com o entendimento.' que não é matéria. não com as características da ma­ téria. não poderia estar simultaneamente em tantos lugares. É este. Podemos não saber qual é o esquema concreto da maçã. ao qual não podem alcançar os nossos sentidos. Por essa acção. pelo que sua acti­ vidade natural é conhecer as coisas segundo o modo de ser que têm na matéria individual. um arithmos. o arithmos plethos de que falava Pitágoras. seria outra coisa. como a Lua é hoje. real. já que a nossa alma. segundo a possibili­ dade do cognoscénte./ 72 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL. E não sendo este. a matéria que compõe esta ou aque­ la maçã. (como o afirmam . 73 citamente. Mas essa forma não se actualiza nesta e na­ quela maçã. depois da experiência (como o querem os nominalistas). Mas esquecem-se que os esquemas concretos estão também nas coisas. na coisa. que cresce com (concretum vem de concrecior. e em certas condições. Duns Scot e Suarez haviam feito. apenas uma palavra. o marxista a considera como os nominalistas a consideravam. Logo." Esta segunda acção do conhecimento. mas um esquema concreto. simultaneamente. sem a presença dos factores predisponentes. e por isso o conatural (natural com) do entendimento é conhe­ cer as naturezas que têm ser em uma matéria individual. algo que se repele. também em sentido aumentativo). O uni­ versal é apenas o que têm de comum os entes. Uma. o seu o que. uma quidditas. que não pôde evitar Marx). adquirida post rem. a maçã não é maçã. Mas a alma tem duas faculdades cognoscitivas. Não é o mero flatus voeis dos nominalistas. o que êle é. que não é acto de nenhum órgão corpóreo. com sua forma maçã. Esta maçã é maçã e não outra coisa. na maçã. ali e acolá. mas ubíqua. algo que não é matéria. e por isto os sentidos unicamente conhecem o singular. o seu quid. que dá a forma maçã. do contrário não teria ubiquidade. é forma de uma matéria. Portanto. se actualiza em maçã. que êle se dá aqui. mas é algo que se dá aqui. é o esquema concre­ to que dá a tensão maçã. essa forma. como teria ubiqíiidade para estar naquela? Logo o arithmos. que é acto de algum órgão corpóreo. que São Tomás. E por quê? Porque nela há um relacionamento físico-químico-biológico que a torna maçã e não outra coisa. sem uma presença material. nesta e naquela e naquel'outra maçã. Citamos ainda São Tomás no mesmo tópico: "Por­ tanto. É uma forma. que é uma possibilidade dentro do ser (um possibilium da escolástica. Mas não está nesta maçã materialmente. no sentido platónico. que as coisas na sua intrinsecidade re­ petem (imitam). segundo nossas possibilidades. do contrário. portanto. ali. que a facilitam. no pitagórico. essa forma maçã (esse eidos. Captamos dele. A outra é o entendi­ mento. como o mostra­ mos em nosso "Teoria do Conhecimento"." que se torna um effectibilium neste planeta). o nome pouco importa) é um esquema con­ creto. acolá. esse arithmos.

Analisemos dialècticamente em outros campos. o que aliás é bem verdade. porque estes nunca erram. e que tinha um modo de ser ante rem. uma visão meramente objectiva do conhe­ cimento é uma visão abstracta. caem na mesma posição nominalista ou na maneira bru­ tal de ver dos materialistas vulgares. um desmentido constante. com excepção dos actuais dominadores. As formas estão antes da coisa no Ser. Basta que se observem as obras dos autores marxis­ tas que estão sempre apontando os erros cometidos. pois descobriram uma solução ideal para as ati­ tudes: "as condições históricas exigiam tal atitude. quando transformam o aparelho cognoscitivo do homem numa mera máquina fotográfica. e ao semear dragões co­ lheu pulgas. etc. que é abstracto. As actualizações e virtualizações que o marxismo procedeu permitiram as modalidades abstraccionistas de que está cheia essa doutrina. leva os marxistas a verem só . pois do contrário viriam do nada (tese realista). na prática. leva-o a actualizar apenas os aspectos extensistas e a virtualizar o intensista. e a precipitar no exagero os seus epígonos mais "marxistas" que êle. mostrar que havia alguma coisa que não estava perfeitamente entrosada. o sangue do nominalismo até inflar ao extremo. co­ mo monotonamente o fazem Engels. procurando. e são conhecidas. que se coadunam com a sua maneira de ver os factos. da sua paixão (subjecti- va) ao objectivo. que eram apenas erros porque partiam de posições previamente falsas. o pensamen­ to tomista é dialéctico. que se escarrapacharam. depois da experiência (tese dos nominalistas). são condicionadas pelo cognoscente. Lenine e outros. razão por que os acontecimentos. a actualizar as possibili­ dades reais ou não.. que o levou a não poder conter os exa­ geros. com quem Marx se preocupava tanto em não ser confundido. A redução do mundo a uma cosmovisão simplista. querendo combater o idealismo. sua maneira de ver a História. E assim como Kant. perfeitamente ade­ quada. Dessa forma. pois era uma possibilidade que se efectuou. Marx não pôde impedir de cair no materialismo vulgar. Em vez de procurar o ponto frágil. em esquemas concretos (tese dos con­ ceptualistas). desde logo. Por que os marxistas. o realismo de São Tomás é mais dialéctico que o nomina­ lismo marxista. que não seguem a regra marxista. ou que reduzem aos nossos esquemas o que se dá além da capacidade cognos­ citiva do cognoscente? Portanto. post rem. e ampliamos o conhecimento à proporção que am­ pliamos os nossos esquemas de conhecimento. tanto quanto possível. por nós. desmentem-no constantemente. no Ser (como o afirmariam os realistas). sempre. as quidditates. dão-se nas coisas. A posição filosófica do marxismo. na prática. Conhecemos o cognoscível.74 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 75 os conceptualistas). Que são os aparelhos da ciência. O que conhecemos das coisas. não pôde impedir de nele cair. microscópios. Os marxistas. E tudo isso era uma decorrência natural da sua po­ sição subjectivamente objectiva. e a virtualizar tudo o mais.. Dessa forma. sugando. os marxistas preferiram cair num bizantinismo de interpretações sub­ tis das frases de Marx. senão uma ampliação dos nossos esquemas. tiveram de ser di­ ferentes do que foram na teoria? A simples evidenciação dessa diferença é suficiente para. e que encontra.". justificar os erros.

que é defendida por seus sequazes. mas insub­ sistente e superada para a neotécnica. e ainda mais para a biotécnica. a fim de justificar as afirmativas que teríamos de fazer. a mais realista. que acabamos de realizar. Uma análise da filosofia e da economia marxistas. apenas a repetir o que Marx disse. hão de bem compreendê-las. e não quanto aqueles que honestamente aceitam a sua doutrina. Bem. dessa forma. onde pretendemos. com cândida con­ vicção. E aqui. nega a sua própria dialéctica. isto já é outra coisa. que se reduz. O marxismo. como a mais objectiva. A análise dialéctica da dialéctica marxista já a fize­ mos em nossos livros anteriores e cremos. E se a aceitar. deverá reconhecer que foi uma filoso­ fia aplicável ao proletariado da paleotécnica. Como fecho final. os não-kruchevistas. não é de admirar que os marxistas afirmem. perene. nos mostra à saciedade quanto os outros campos da análise decadialéctica oferecem exemplos de má apreciação. a mais perfeita que o cérebro humano já foi capaz de cons­ truir e até insuperável. nega-se a si mesmo. como seja o campo das oposições da razão. que não poderíamos examinar aqui. O desaforo substitui a análi­ se serena. os não-estalinistas. levan­ tar a voz.76 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 77 os aspectos que estão de acordo com a teoria. Por isso. quando certos marxis­ tas fanatizados leiam este livro. a própria posição marxista é o des­ mentido mais cabal a si mesma. Podem os marxistas fazer os maiores esgares. Podem afirmar que Stálin ou Kruchev su­ peraram Marx. que os marxistas não captam. não admi­ tindo sua superação. que implicam citações de passagens. segura e filosoficamente bem fundada. sem considerar o que coopera na formação do mesmo. cujo intuito não é ata­ car. . passam a vociferar uns contra os outros. quanto a nós. arguir os mais subtis e bizantinos argumentos. que o estudo dos aspectos. que depois deles não há mais caminho para a Fi­ losofia. portanto. dentro do socialismo em geral. eterna. e a acabar com a sua própria dialéctica. apenas. é sufi­ ciente para justificar nossa crítica. É o que poderemos esperar. eis que os dissidentes. pois não admite nenhuma contradição em si mesmo. o das oposições da intuição. a par do que há de abstracto em uma doutrina. e se forem socialistas sinceros e equilibrados. o que há de desconhe­ cimento. ante tal afirmação. E quando marxistas vociferam é melhor fechar os ouvidos. Estes meditarão sobre as nossas palavras. e que actua con­ juntamente com êle. etc. co­ mo fizemos. sem entrar em por­ menores. O marxismo assim tende a parar o pen­ samento. daí actua­ lizarem supinamente o factor económico. mas o marxismo. mas apenas mostrar o que há de positivo. Não se alterará. não será substituído. negando a sua superação. blasfemos e revoltados. das suas antinomias. dar uma visão ampla dessa dou­ trina.

aquelas tomadas em in divisibili. mas uma solução fundada na realida­ de concreta. podemos. ver o homem apenas como o resultado de factores: a) biológicos ou . que não podem ser virtualizadas. fazer a colheita do que foi realizado. É mister. como vimos. que poderão ser úteis aos que desejam contri­ buir com seu esforço por uma solução mais humana dos problemas sociais.POSTULADOS CONCRETOS SOBRE O DESENVOL­ VIMENTO DO HOMEM NA HISTÓRIA Depois do que escrevemos nos volumes que antece­ deram a este. assim. sobre tema tão importante como o da His­ tória e dos problemas sociais que agitam a época em que vivemos. estabelecer algumas premissas. 1) É abstractismo vicioso. e que servirão de ponto de partida para que delas possamos ti­ rar as conclusões justas. que foram demonstradas com a apoditicidade desejada. do que foi examinado. Ficou devidamente demonstrado que o ser humano participa de um conjunto de perfeições que são gradati­ vas. e estabelecer algumas sugestões. que correspon­ da melhor ao que de mais justo há no ser humano. sob pena de nos afastarmos da concreção que deve estar patente ante os olhos daqueles que pre­ tendem estudar com fundamentos e seriedade os proble­ mas sociais. agora. que permita traçar um rumo.

Desse modo. o vector. providenciar projectivamente o seu futuro.80 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 81 b) fisiológicos ou c) psicológicos ou d) ecológicos. Essa recusa é. distinguindo-se os diversos indivíduos por pos­ suírem. mobilizando-as pa­ ra dar rumos distintos aos acontecimentos. e o que hoje predomina e marca a direcção da actividade de uns pode não predominar amanhã e. da intencionalidade. segundo as semelhanças e a par­ ticipação de determinadas perfeições. pois. é possível a classificação em tipos. pode empreender actos que frustrem a contingente imprescriptibilidade de certos factos naturais. a possibilidade de realizar tudo quanto humanamente é possível. preferindo estes e preterindo aqueles. submeter as coisas à sua vontade. inclusive o histórico. as coisas. É um ser capaz de criação cultural. de modo a que estes possam servir aos seus desejos e corresponder . assim. conseguindo. com as varia­ ções correspondentes aos covariantes. 10) É êle capaz de dominar. maior poder que outros. sendo contingentes e ademais accidentais. que actuam para modificar a direcção. que nos explicam a origem próxima da diversidade humana e. que constituem o objecto de estudo de tantas disciplinas. sendo essa ca­ pacidade de actuação variante. 6) O ser humano caracteriza-se ainda por sua capa­ cidade de recusa (de dizer não). por sua capacida­ de estimativa. incluindo-se. 5) O ser humano distingue-se especificamente dos animais. 7) É o ser humano capaz não só de estabelecer hie­ rarquias de valores. como também de escolher entre valo­ res. e consiste em negar determinada atribuição a um sujeito. consequentemente. consequente­ mente. 3) O ser humano é heterogéneo e revela tipológica e caracterològicamente. portanto de estabelecer novos modos de vida e de adaptação ao am­ biente circunscriptivo. incluindo-se tudo o que constitui o circunscriptivo de sua existência. para tais actualizações. contínua e progressiva­ mente. um factor. 8) Contém em si o ser humano. pode não ser em outros. dispor cada vez mais do meio circunscriptivo. uma variedade imensa de tipos e sub-tipos. recusar uma determinada atribuição. mas al­ gumas vezes (non semper sed aliquando). por cuja combinação é capaz de exercer o domínio sobre o meio ambiente e adaptá-lo aos seus interesses. 9) Transformando a si mesmo em objecto de espe­ culação. não mar­ car a direcção dos actos humanos. 2) Não há factores predominantes sempre. mas o resul­ tado da cooperação gradativa e da harmonia de todos esses factores. sua actuação é corres­ pondentemente relativa. todos tomados dinamicamente. em graus potenciais. aqui. e de intensidade variada. po­ sitiva. em que vive. pondo as leis cósmicas a seu serviço. O homem não é apenas isso ou aquilo. no ambiente em que vive ou e) histórico-sociais. A sua realidade concreta funda as raízes em todas as esferas e campos de cada um desses ramos. ou seja. construindo a Técnica e a Ciência. 4) Dentro da heterogeneidade humana. E tal é verda­ de porque tais factores. virtualmente. apenas os fac­ tores culturológicos. 11) Por sua capacidade selectiva. de construir instrumentos para exercer esse domínio pela ampliação de suas forças e de sua ca­ pacidade. ou seja. que é predominante nuns. pode o ser humano interrogar sobre o seu des­ tino e estabelecer planos de actividade futura.

18) O exame do acto humano revelou ademais que é um crime contra a humanidade todo viciamento intencio­ nal do acto humano. ou não. e realizar estimações. também. e não é o homem prisioneiro da férrea necessidade. por óbices vencíveis. tornando cada vez mais ro­ busto o acto humano e desobrigando-o das peias que o viciam. O ACTO HUMANO 16) O exame do acto humano nos demonstrou apoditicamente de que o homem é capaz de advertir um pro­ blema. de livremente escolher. Que a primeira e a segunda são eticamente justas. neste planeta. que podem ser obstaculizados. ampliando seu conheci­ mento seguro. que a verdadeira pedagogia e a educação justa têm de se guiar por esse caminho. revelando. construir juízos sobre eles. de um progressivo desenvolvimento. foi capaz de realizar. que decor­ re da natureza das suas funções intelectuais e da sua vontade. e opositivas (nega­ tivas) aquelas em que um dos termos é prejudicado em sua conveniência. pela troca de vantagens e pelo constrangimento. O CAMPO SOCIAL 19) Demonstrou-se que as relações humanas podem ser de dois tipos genéricos: positivas ou opositivas (nega­ tivas). de realizar o livre arbítrio. de modo insofismá­ vel. ampliar seus conhecimentos. São positivas aquelas em que os termos da rela­ ção têm nesta as mesmas condições. capaz de julgar livremente. 14) É por isso o ser humano capaz de uma perfectibilização constante. que a sua autenticidade só pode ser alcançada seguindo o caminho da liberdade e não o da submissão cega. o que revela. estabelecer conse­ quências. estabelecer novos estágios de conhe­ cimento mais elevados. e dando rumos também mais seguros ao seu querer. É êle. A frustrabilidade humana é uma realidade insofismável. Demonstrou-se ainda. e que as últimas são eticamente vituperáveis. possuindo meios para dela libertar-se. que ne­ nhum outro ser. que é capaz de pôr em acção sua vontade tendendo para fi­ nalidades previamente estabelecidas. robusteci­ mento e amplitude abrem caminho a novas possibilida­ des e a novas conquistas. 22) Comprovou-se no campo social que é válida. e que impedem a sua plena realização. que são testemunhadas pelas obras que realiza. 20) Demonstrou-se mais que as relações sociais po­ dem ser construídas sob a base da persuasão. pois. que a afirmação do homem. toda obstaculização intencional ao seu pleno desenvolvimento. planificar e executar. a lei pitagórica da harmonia. pela vontade. que são aquelas em que há um termo comum. analogados por um termo comum. 12) Além da capacidade de exercício livre de sua ac­ tividade. vencer constante­ mente a ignorância. 21) Verificou-se que há relações sociais complemen­ tares. nos demonstrou cabal­ mente que o progresso humano é proporcionado à per- fectibilização desse acto. meditar sobre tais juí­ zos. ou não. cujo desenvolvimento. 15) Normalmente. nesse sector. tirar ilações. 17) O exame do acto humano. Os opostos. é ainda capaz de escolher entre valores e. mais. 13) É o homem capaz de alcançar uma perfectibilização constante do acto humano. é do património intelectual e mental de cada indivíduo humano a capacidade de alcan­ çar níveis mais elevados de actuação.82 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 83 aos seus interesses. estabelecer rumos novos. e que este é que dá a normal da actuação. actuam obe- . de modo insofismá­ vel.

é pos­ sível. que estabelece a sincronia da actuação da mesma. pois há caminhos e soluções capazes de resolver essa oposição. Por outro lado. com o desejo de homogenei­ zar violentamente o ser humano. um indivíduo. tornando cooperan­ tes para um fim comum e benéfico os ímpetos que pare­ cem inconciliáveis. como objecto de estudo para si mesmo. ecológica e histórico-social. permitindo uma harmonização de interesses. que entram muitas vezes em choque com os interesses colectivos. Contudo. 25) O indivíduo tende normalmente a afirmar-se. es­ quecendo o social. de modo real e evidente. como o será o inverso. de modo algum. graças ao estudo. um poder de actuação em opo­ sição ao interesse do todo. sem necessida­ de de ocultarmos a realidade. e sua afirmação pode não convir ao interesse colectivo e contra este pugnar. comprovou-se ainda que os termos da relação. e que esta virtualidade constitui o conjunto das dis­ posições prévias corruptivas de uma totalidade. no qual actuam com intensidade factores de ori­ gem bionômica. e que há neste ím­ petos individuais. que é o resultado do compositum entre o que nele é animal e do que nele é genuinamente humano. em benefício de um interesse que não corresponde senão parcialmente à realidade humana. e até pô-lo em risco. Até agora. impedir que as disposições pré­ vias corruptivas actuem de modo maléfico à conveniên­ cia da totalidade. virtualizam o ímpeto de sua actuação particularizante. e que a Pedagogia tem de conhecer e estimular para o bem social. que actuam sob o império da normal estabelecida pela actua­ lidade. Ademais. Contudo. o que não justifica. não é justo considerar que tal risco é suficiente para justifi­ car a negação pura e simples da individualidade. pois sempre se reser­ va. as soluções com vitórias sem derrotas do próprio homem. o que seria violentar a sua natureza. ou seja. é abstractismo da pior espécie. quando a verdadeira conquista humana será a rea­ lização plena da vitória do homem. 23) Tais aspectos demonstram que a submissão dos termos à totalidade não é absoluta. que nos pode explicar a heterogeneidade humana. companheiros. registra a História. psíquica. o prestígio social. Visualizar o homem apenas como indivíduo. desviando-a para a actuação de outras. 28) A nítida compreensão dessa realidade heterogé­ nea é um desafio constante à inteligência humana. que é real e inegável. compatíveis com os interesses da totalidade (sublima­ ções). o "conhece-te a ti mesmo" é o imperativo mais justo que se pode estabe­ lecer. e que o resultado é uma estructuração histórica. e dar o valor superior a este aspecto. O homem. como nos mostra a Psicologia. além de compo­ nente de uma sociedade. O CAMPO PSICOLÓGICO 24) É inegável que o ser humano é. como hoje. para que encontre uma solução vitoriosa e não a derrota do que há no homem. 26) O anseio de prestígio social tem sua raiz na afir­ mação individual e seu ímpeto revela uma força elemen­ tar. o homem nada mais fêz que derrotar uma parte de si mesmo em troca de uma mentirosa vitória de outra . que jamais deve ser virtualizada sob pena de falsearmos a realidade humana.84 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 85 dientes a uma normal estabelecida pela totalidade. vitoriando uma à custa da derrota da ou­ tra. 27) Deve o homem ser considerado como um compositum. é uma realidade primária. passa a ser a matéria mais importante da vida social e ética. o reconhecimento de uma superioridade por parte de seus sócios. É mister que o homem estude a si mesmo e bus­ que as soluções que solucionem. A solução mais primária é a submissão de parte do homem a outra parte. uma submissão total e absoluta. que seria con­ trária à realidade da condição humana. e nunca.

volveu a ser em­ pregada e usada na Caracterologia moderna. há apolíneos. O ideal novo de superação humana só pode ser aque­ le que afirme o homem em sua plenitude. Tais consequências nos explicam mui­ tos retornos bárbaros que nos agitam e nos impelem a actos anti-sociais e anti-éticos. em suma. o tipo empresarial e o tipo do servidor. e que constituem uma heterogé­ nea combinação de diversos outros. e examinamos sob diversos aspectos as intercorrelações que se formam entre esses quatro estamentos caracterológicos em cada indivíduo. que os leva a actua­ lizar certos valores possíveis e a virtualizar outros. uma tendência marcante. a heterogeneidade das atitudes muitas vezes aparente­ mente contraditórias. de algo que é ainda vivo e que anseia reviver. realmente. também. etc. há lunares. que distinguimos. tendo-a nós aproveitado apenas neste sentido. Dentro dessa emer­ gência. segundo a emergência que revelam. noutras inverossímeis. dentro da heterogeneidade huma­ na. ao abrirem-se as comportas. em face do que sabemos. fundada nos chamados tipos astrológicos. e esse é o nosso dever. tendência e inclinação pa­ ra determinada apreciação valorativa. NO CAMPO CARACTEROLÓGICO 30) As conquistas da moderna Caracterologia nos permitem classificar com segurança bastante notável os tipos humanos. e na falta de outra melhor. reve­ lam os homens uma propensão. uma inclinação indiscutível. é a que melhor corresponde à realidade. em sua máscara. 31) Segundo a estratificação caracterológica. o laivo de amargura que há dentro de nós. há saturnianos. e menor a ou­ tros. bem como dos tipos já formados entre si. A redenção humana deverá ser feita pelo ressurgimento do que é em nós a força. sem que afirmemos qual­ quer influência astral. cujas combinações tivemos ocasião de estudar nos livros que antecederam a este. A vitória sobre nós mesmos só será verdadeira quando não assassinarmos em nós o que é também a nossa realidade. que há homens que revelam a predominância dos caracteres atribuídos a esses tipos. ou melhor. e que construa a sua realidade práxica com o que nele é real e verdadeiro. segundo seu temperamento. revelam possuir uma propen são acentuada. 29) É psicologicamente verdadeiro que cada vez que derrotamos dentro de nós um ímpeto natural nos angus­ tiamos. se queremos afirmar-nos como seres inteligentes e capazes e não apenas como seres caducos e claudicantes. Nossa pseudo-vitória traz o gosto amargo de uma melancolia e o sorriso vitorioso não consegue escon­ der. para os quatro tipos histórico-caracterológicos. sem querermos emprestar-lhe o significado ou as razões que lhes dão os astrólogos. ressurge com mais intensidade. cujo fundamento está em todos os ciclos culturais. dando maior importância a determinados factos. a estes ou àqueles. preferentemente. há venusinos. ou seja. Essa amargura é apenas o símbolo de uma sub­ missão provisória. em elevar o ho­ mem através de vitórias e não através de derrotas. verificou-se. Já é tempo. mas apenas que. há jupiterianos. o tipo aristo­ crático. Não vemos mais necessidade de reproduzir o que foi suficientemente exposto e demonstrado. não saímos da brutali­ dade. há terrestres. Por ou­ tro lado. mas tendendo para uma finali­ dade que não ofenda a conveniência individual e colecti­ va. de procurar outros roteiros. Juntamos ali suficientes provas. Enquanto não realizarmos isso. há marcianos. como a que me­ lhor traduz a tipologia humana. o que nos explica. que a velha classificação caracterológica. pela acentuação de aspectos que pertencem. e que. no tocante ao social.86 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 87 parte. ou seja: o tipo hierático. que podem ser evitados se pensarmos apenas. simplesmen- .

que empreendemos em nossa obra. as planifi­ cações sobre o seu futuro podem ter fundamento. 36) Verificamos que o desenvolvimento do cie10 cu*" tural obedece a determinadas constantes. pretendemos ainda de­ senvolver tais estudos. que complementa um po­ vo. em torno de uma cosmovisão. até o momento de seu desfalecimento. e indicando novos roteiros ao proceder histórico. perduração. libertar-se da necessidade. Permitem-nos. já que. económicos. o que foi sobejamente examinado. o que é uma possibilidade bem funda­ da. económicos. Consequentemente. assim. e mesmo nós. não só ecológicos co­ mo histórico-sociais. o que já estudamos ex9usti. mas apenas hipotético. com tal ou qual intensidade. que nos tev^sxn as fases por que passa. as­ sim. ou seja. decadência. também aí. a influência que êle exerce em sua estratifica­ ção quanto às tendências humanas. o cami­ nho que poderá seguir. e Q&rfod&xX novos caminhos para si. não só em seus fundamentos socioló­ gicos. que são suficientes para nos explicar o porquê das mesmas. desde que o ho­ mem tenha o saber e o poder suficientes para dií^ 1 " o s próprios destinos. A TENSÃO CULTURAL 34) Demonstramos que a formação de uma tensão cultural dá-se quando surge uma vis regitiva communis. apesar da maneira oposta de considerá-la. éticos. desde seu surgimento. etc. mas também caracterológicos.88 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 89 te por não ter havido uma justa avaliação dos aspectos caracterológicos. compre­ ender as razões que levam a determinadas respostas. 37) Demonstramos de modo suficiente que oS perío­ dos e fases dos ciclos culturais revelam a predomí nância dos estamentos caracterológicos. e mo rte &• nal. quando surge um termo médio complementar. finalmente. o que é hoje matéria já indiscutível nos estudos históxicos. 35) A tensão cultural revela em sua existência um verdadeiro ciclo. a predominância de certas tendên­ cias que levam alguns povos a seguirem determinado ru­ mo e não outro. 40) Tais demonstrações são suficientes para d a r a o homem a sua consciência histórica e a certeza de Que P°" dera. sociais. 38) Os estudos históricos nos apontam indef60*1^1" mente que as causas de ascensão e de declínio c^s ten­ sões culturais são as mesmas. e que a sua imprescriPtÍDÍ" lidade é apenas aparente. 39) Foi suficientemente demonstrado que o fatalis­ mo histórico não tem um fundamento necessário d& niodo absoluto. éti­ cos e jurídicos. que se dediquem mais a fundo ao que iniciamos. e ° n Q l mem é capaz de tornar-se senhor da História. sendo factos coUtmSen" tes podem perfeitamente ser frustráveis. e que sempre é possí­ vel ao ser humano vencer o próprio destino. m0rcan<*o novas direcções à sua vida. Os trabalhos caracterológicos apli­ cados à História. dar o elemento concrecionai que faltava ao exame dos estamentos sociais e económicos. e dos compromissos que formam e&Te si. . e também muito do porquê das suas atitudes. pois encontramos./a" mente. se nos sobrarem forças e tempo. também. e marca. aos desafios. jurídicos e históricos. uma força que rege a comunidade. são ainda um bosquejo do que poderá ser feito por outros. 32) Esses estudos caracterológicos permitem-nos. que apenas esboçamos em linhas gerais. 33) A visão mais concreta da sociedade nos obriga a ver o estamento.

o que é hoje matéria já indiscutível nos estudos his­ tóricos. marcando novas direcções à sua vida. o cami­ nho que poderá seguir. que se dediquem mais a fundo ao que iniciamos. apesar da maneira oposta de considerá-la. etc. não só ecológicos co­ mo histórico-sociais. e estabelecer novos caminhos para si. que empreendemos em nossa obra. já que. sociais. são ainda um bosquejo do que poderá ser feito por outros. e que a sua imprescriptibilidade é apenas aparente. 39) Foi suficientemente demonstrado que o fatalis­ mo histórico não tem um fundamento necessário de modo absoluto. perduração. que nos revelam as fases por que passa. e morte fi­ nal. que complementa um po­ vo. a influência que êle exerce em sua estratifica­ ção quanto às tendências humanas. e que sempre é possí­ vel ao ser humano vencer o próprio destino. e indicando novos roteiros ao proceder histórico. as­ sim. desde que o ho­ mem tenha o saber e o poder suficientes para dirigir os próprios destinos. desde seu surgimento. mas apenas hipotético. 32) Esses estudos caracterológicos permitem-nos. não só em seus fundamentos socioló­ gicos. económicos. sendo factos contingen­ tes podem perfeitamente ser frustráveis. as planifi­ cações sobre o seu futuro podem ter fundamento. económicos. pois encontramos.88 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 89 te por não ter havido uma justa avaliação dos aspectos caracterológicos. que são suficientes para nos explicar o porquê das mesmas. Os trabalhos caracterológicos apli­ cados à História. decadência. e marca. também aí. 37) Demonstramos de modo suficiente que os perío­ dos e fases dos ciclos culturais revelam a predominância dos estamentos caracterológicos. libertar-se da necessidade. éticos. aos desafios. mas também caracterológicos. 40) Tais demonstrações são suficientes para dar ao homem a sua consciência histórica e a certeza de que po­ derá. . pretendemos ainda de­ senvolver tais estudos. até o momento de seu desfalecimento. éti­ cos e jurídicos. e o ho-> mem é capaz de tornar-se senhor da História. e mesmo nós. 38) Os estudos históricos nos apontam indefectivel­ mente que as causas de ascensão e de declínio das ten­ sões culturais são as mesmas. dar o elemento concrecionai que faltava ao exame dos estamentos sociais e económicos. finalmente. compre­ ender as razões que levam a determinadas respostas. assim. 33) A visão mais concreta da sociedade nos obriga a ver o estamento. jurídicos e históricos. uma força que rege a comunidade. 36) Verificamos que o desenvolvimento do ciclo cul­ tural obedece a determinadas constantes. o que é uma possibilidade bem funda­ da. também. a predominância de certas tendên­ cias que levam alguns povos a seguirem determinado ru­ mo e não outro. com tal ou qual intensidade. ou seja. e dos compromissos que formam entre si. que apenas esboçamos em linhas gerais. o que foi sobejamente examinado. se nos sobrarem forças e tempo. em torno de uma cosmovisão. Consequentemente. A TENSÃO CULTURAL 34) Demonstramos que a formação de uma tensão cultural dá-se quando surge uma vis regitiva communis. o que já estudamos exaustiva­ mente. quando surge um termo médio complementar. Permitem-nos. 35) A tensão cultural revela em sua existência um verdadeiro ciclo. e também muito do porquê das suas atitudes.

contu­ do é mais plausível admitir que houve também compro­ missos com elementos de outros estamentos. que é constituída pelos elementos ca­ racterológicos. necessidade de distinguir a estructuração horizontal de a estructuração vertical. sem dúvida houve. em­ bora permaneça. ao lado deste. o que exige uma revisão da utopia.90 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 91 41) Como decorrência dessas premissas. verticalmente. ora do económico. do processo corruptivo recente. 45) Há. embora este possa ser. que nem sempre estão jurídica e politica­ mente integrados no estamento social. Só posteriormente. Sob o pon­ to de vista caracterológico. verifica-se que os esta­ mentos sociais dependem ora do caracterológico. pertence-lhe caracterològicamente. Deste modo. pois cada tipo humano busca integrar-se na função que melhor corresponde às suas tendências. compromissos entre os estamentos que participam do mesmo. que se manifesta naquele. e o seu domínio crescente de­ pende indirectamente da corruptibilidade progressiva. 46) Deste modo. que facilita a ascençao do estamento que lhe se- . co­ mo é. há sempre os qua­ tro estamentos com a sua heterogeneidade respectiva. quando o estamento já está de certo modo estratificado. LIÇÕES DA HISTÓRIA 43) Na estratificação social. quando há o estatuto jurídico e político para estabelecê-lo. o estamento tem uma estructura vertical. estimulado pelas condições oferecidas pela conjun­ tura histórica. e a sua quase total aniquilação no sentido social. revela que as disposições prévias corruptivas já haviam iniciado a sua marcha corruptiva. horizontalmente. os elementos políticos. mas. e não verticalmente. distinguível em utopia infundada e utopias fun­ dadas. 47) O anelo pelo kratos político tem a sua principal raiz nos ímpetos psicológicos. em proporções variadas e varian­ tes. como vimos. nota-se a predominância dos factores caracterológicos. e acelera-se de tal modo até provocar a decadência do estamen­ to. é possível planejar o amanhã. assim. haven­ do. propensões e inclinações. pelo menos durante certo período. no início da formação de cada estamento social. de gradatividade vária. mas de origem jurídi­ ca ou política. há uma estruc­ turação horizontal. incluindo a económica. 49) O aumento de prestígio social de um estamento se processa à custa do que lhe antecede na participação maior do kratos político. pois nem todo aquele que pertence jurídica. 42) Fundados nessas possibilidades reais. económica e politica­ mente a um estamento. não de tendência ou propensão ou inclina­ ção caracterológica correspondente. horizontalmente. Quando o fundamento caracterológico combina-se com o político e o social. Contudo. cuja ascençao é obtida por meios le­ gais e não mais pela ética e perduração de actos corres­ pondentes à moral do estamento. muito do que se tem considerado pejorativamente como utópico é uma possibilidade actualizável. É verdade que no antigo império egípcio a primeira impressão é de que a casta sacerdotal teve todo o poder em suas mãos. os estamentos só se estabelecem so­ lidamente. 48) A posse do kratos político deficilmente se apre­ senta na História como exclusivo de um estamento. é que se dá a penetração de elementos juridicamente ligados a êle. disperso na população. quase sempre. Esse processo corruptivo tem o papel de condição predis­ ponente. 44) À proporção que os estamentos são invadidos por elementos.

pela passividade. outras até sacrílegas. Não é. com aderências suspeitas e muitas vezes sacrílegas. mas ao mesmo tempo mo­ dificativa da anterior). pela falta de maior dedicação aos misteres correspondentes. c) pela introducção constante de elementos caracterológicos de outros estamentos. deletérias e corruptivas. que não encontram a resistência capaz de im­ pedir a sua acção corruptiva. e ao contrário. sob vários aspectos. abrirem as brechas. 53) A decadência do ciclo cultural. d) pela acção constante da oposição dos estamentos adversos. pe­ la ausência de figuras capazes de manter a unidade. e justificando até. Há. que não facilitam o respeito que lhe deve corresponder. cujas corrupções accidentais alteram aos pou­ cos as ideias fundamentais. processa-se: a) pelo/ esgotamento das possibilidades e pela ac­ tualização de algumas. é constante. com eles. são justifica­ dos. e que o perturbam. muitas vezes temerárias. a tensão formada. cedendo. Não é inédito na História. afinal. ante os fundamentos da cosmovisão teocrática. Assim. que. abre ensanchas a inovações perigosas. pela falta de uma exposição clara dos legítimos fundamentos. se formalmente se man­ têm os postulados primeiros. e também tornar mais fácil a concepção de direitos. c) pela oposição e pelo antagonismo dos elementos adversos. que transferem para o epimeteico outras não mais historicamente actualizáveis. pelas quais possa penetrar o maior número. ofere­ cendo melhores condições para aumento daquele. em consequência da perda do poder económico.92 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 93 gue imediatamente. com as suas decorrências possí­ veis. pela intolerância mal fundada. que não encontram a resistência necessária e corrompem. se- gundo as normas de sanccionar de cada cosmovisão cul­ tural. nenhuma cosmovisão se mantenha pura e imutável através dos tempos. que têm sempre um papel corruptivo crescente. Tais modificações são verificáveis em todos os ci­ clos culturais. que buscam ascender aos cargos e postos do es­ tamento dominante. as reivindicações exigidas pelo estamento em ascensão. as conciliações entre a nova maneira de ver o mundo e a anterior. que são natu­ ralmente reivindicados pelo estamento que anela o kratos político. na prática os novos postu­ lados são estabelecidos. com modificações accidentais. pela ausência de exemplares capazes de abrir novas possibilidades. surgem os compromissos políticos. que apresentam distinções marcantes da concepção primeira e fundamental. sofre modificações sempre pro­ porcionais a essas variações nos compromissos políticos e económicos. e têm elas suas razões no próprio dinamis­ mo das interactuações entre os diversos tipos de esta­ mento. de admirar que em nenhum ciclo cultural. e estas são ratificadas por acordos solenes. incorporando-se a nova maneira na antiga. os concílios. A cosmovisão mantém-se pura formalmen­ te. sempre. 50) O processo corruptivo também é alimentado pe­ la penetração sub-reptícia dos elementos de outros esta­ mentos. b) pela estagnação que se verifica na capacidade criadora. conci­ liações. que pas­ sam a ocupar posições de relevo. 52) A decadência do estamento se processa: a) pela perda constante do poder político. usando todos os recursos que a astú­ cia humana ensina. integrando-se na nova maneira de considerar o mun­ do (cosmovisão subordinadav. enfraquecida. estes últimos com seus reflexos naqueles e nos jurídicos. para. e) pela estagnação. Nesses momentos. não materialmente. pois. . que a princípio resiste. Posteriormente. como o estimula a manifestar maior audácia em suas reivindicações. b) pela mudança constante na cosmovisão. 51) A cosmovisão.

que há "um mundo que nasce e um mundo que morre". queixa-se da corrupção moral e da decadência dos costumes. imediatamente posterior. Assim como há uma fase. algo que se retrai. de maturidade e de velhice. Em suma. e serem débeis para enfrentar as forças corruptivas. há o progressivo de ascenção de outro estamento. já libertados de tudo quanto vicia uma visão nítida da realidade social e do homem em função da sua tempora­ lidade. A decadência de uma tensão cultural depende. infan­ til. Também os romanos e os gregos. que actualizam ape­ nas o aspecto ascensional. que estão à tes­ ta das ideias fundamentais da cosmovisão. no período cesariocrata. mas com lágrimas no rosto. . de desejar situação distinta das em que vive. da confusão das ideias reinantes em todas as camadas da sociedade. o desejo de alcançar uma *. de defende­ rem com energia esses fundamentos. Deste modo. em superação. de três elementos: das disposições prévias corruptivas internas. pouco provável para a Humanidade. que actuam interna e ex­ ternamente. Tam­ bém o aristocrata. a capacidade humana de encontrar soluções capazes aos seus máximos problemas. o que impede encontrar uma solução adequada. no período de do mínio económico e político do empresário utilitário. co­ mo o sentia Nietzsche. a nova cosmovisão que dominaria. Esta a razão por que todos sentem. mas só após um acurado estudo dos factores históricos. ao lado de um desenvolvimento. verificaremos que é possível alcançar a uma tensão cultural de plenitude. a no­ va crença que vingava. em grande parte. o que surgia de novo. nos ciclos cul­ turais também essas fases em cada período de domínio dos estamentos. anuncia o juízo final. que descem e que têm raros cultores. Aqueles. afir­ mamos. ao verem a ascen­ são do Cristianismo. assim. enquanto aqueles. e em que os homens ain­ da respeitavam valores que hoje são desprezados. mas o grau de probabilidade é ainda pequeno. é possí­ vel ao homem a conquista de uma sociedade humana de plenitude. há. de­ cresce. um ímpeto utópico. por ora. que depende. juvenil. de ter uma vida outra que a que tem. ao lado de uma ascensão. sentiam que morria um mundo de nobreza superior e que advinha uma era de decadência e de aniquilamento. Contudo. DAS UTOPIAS 54) Mostramos que há sempre no ser humano um desejo de ser outro do que é. dado o desconhecimento da história e o viciamento da cultura. o novo ciclo que se iniciava. das externas e do grau de coerência interna. em elevação. Há. Se a decadência dos ciclos culturais tem sido inevitá­ vel é porque a conjunção dos factores corruptivos e os de decadência encontraram condições favoráveis à sua ae tualização. sentem o "mun­ do" como em decadência. Oportunamente. nem poderiam ver. um declínio. da perda dos valores nobres. que actuali­ zam o que desfalece. deplorando a decadência que dominava o "mun­ do" de então. analogicamente tomada. míngua e se estagna. num acto de esperança. ca­ paz de fazer frente aos factores corruptivos. quando a decadência era do "seu" mundo. sen­ te o mundo como em decadência. não com alegria nos corações. míngua e estagna-se. Não viam. assim. embora seja. Não era de admirar que alguns rema­ nescentes da cultura greco-romana realizassem os antigos rituais. O hierático. lembra com saudade os tempos antigos em que vigora­ vam princípios morais distintos. são em geral os adeptos do estamento em ascensão.94 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 95 d) pela incapacidade dos elementos. sentem a sociedade em progres­ so. ao lado de um processo degenerativo e de decadência de um estamento social.

Consequentemente. O manchesterismo. É mister muito de so­ nho. Houve. Os exploradores defendiam-se. como a democracia. que a paleotécnica rea­ lizou a mais desenfreada exploração do homem pelo ho­ mem. Há as utopias de evasão. liberalismo económico. propriamente. o desejo de al­ cançar estágios superiores ainda não vividos. ante a ascensão perigosa dos cesariocratas. estatólatras. Mas seria um erro considerar que liberalismo é man­ chesterismo. um novo liberalismo ressurge. para que o homem alcance uma superação constante de si mesmo (o que seria a efectiva­ ção de uma revolução permanente não só em si. 55) As utopias fundam-se em realidades comprova­ das no ser humano. O liberalismo moral prega a liberdade na escolha dos costumes. A vida humana desmente. para que o homem tenha po­ dido superar obstáculos. que já examinamos. e permitir a cada um o livre acesso ao poder económico. 56) Inegavelmente. Apoiados nos princípios liberais. manchesterismo. mas apenas apontar algumas teses.96 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 97 realidade que ainda não é em exercício. como nas suas coisas) é mister uma dose de utopia. que expressam um desejo de afastamento da realidade vivida. afirma. O li­ beralismo é um sistema que afirma ser o homem livre e a organização social deve respeitar essa liberdade. teriam que provocar uma reacção contra es­ sa prática. pela ins­ tauração do ódio alimentado pela exploração sem peias. dos cesariocratas. forma viciosa do liberalismo económico. As ideias liberais pregam a liberdade humana. poderiam acusar o outro e. Aqueles que julgam que o ímpeto utópico é uma fra­ queza. nas possibilidades de cada um e na de todos. DAS IDEIAS LIBERAIS 57) Mostramos a inconveniência de confundir: a) b) c) d) e) ideias liberais. da parte dos inimigos da liberdade humana. devido à falta de condições suficientes. terminassem por atacá-lo. A riqueza de poucos e a miséria de quase todos. liberalismo moral. pouco co­ nhecem da psicologia do homem. finalmente. uma acentuada campanha em prol da dignidade . construir possibilidades remotas. resultado de uma deficiência humana. para exprobrar a indecente exploração. totalitários. mas de modo vicioso. porque. muitos empresários utilitários desenfrearam-se na cupidez do lucrum in infinitum. tomam o sentido pejorativo comum. abrindo o abismo entre as classes sociais. e utopias de superação. ante a prepotência do Estado. que daí decorreram. tornar em acto o que parecia apenas um sonho deliran­ te e impossível. foi à sombra do li­ beralismo. de mínima probabilidade. Contudo. ou apenas em possíveis. o desejo de confundir o manchesterismo com o liberalismo. apelando para o liberalismo. As primeiras têm um cunho de realidade e revelam um grau maior de actualização próxima. Não é mister examinar outra vez o que já fizemos. como os sensualistas. aqueles que julgaram o homem impotente. com frequên­ cia. O liberalis­ mo económico funda-se na afirmação de que a economia deve orientar-se livremente. não era de admirar que os adversários. muito de desejo. defender a tese de que a liberdade é incómoda e anti-social. liberalismo. o laissez faire. laissez passer. porque sem o desejo de tornar tópico os valores mais altos é impossí­ vel estimular a criação. Hoje. mostrando os defeitos daquele. as segundas. muito de crença. que demonstramos.

que são anti-religiosos. em sua essência. não só pelo homem. Tomar so­ cialismo. comunismo. como uma entidade rica. E também deveria incluir-se a exploração do homem. seria negar que é socialista a concepção dominista. A liberdade.98 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 99 e da liberdade humanas contra os que desejam transfor­ mar o homem apenas em coisa. porque não poderia haver genuinamente socialismo onde um organismo. já alinhamos os principais. na verdade em benefício de alguns. que talvez já tenha irremediavelmente penetrado naquele conceito. esquecem-se das necessidades hu­ manas reais. Mas é comum a todas as escolas o desejo de melhorar as condições de todos os homens e de afastar todos os óbices que impedem esse melhoramen­ to e tudo quanto facilite a exploração do homem pelo homem. infelizmente. preferem chamar-se libertários. porque ofende a liberdade alheia. os liberais. seria afastar o socialismo libertário dessa concepção. Atribuir-se ao socialismo que a felicidade humana ape­ nas pode ser obtida nesta vida. e já refutamos devidamente as suas doutrinas. devido à grande heterogeneidade de escolas. é uma forma viciosa do liberalismo. como o Estado todo-poderoso. mas. sobretudo. exige fundamen­ tos éticos honestos e o primado da justiça social. em peça da máquina social. colectivismo. e justifica e proclama a validez única do individualismo económico. Ale- . como plenitude do acto humano. mas por qualquer entidade criada por este. que defende a desigualdade humana. é outro. im­ plica a ética. Ademais. A afirmativa de quase todos os liberais de que o individualismo é o elemento essencial da actividade económica é também um modo falso de atribuir à con­ cepção liberal um princípio. Esse liberalismo não é o manchesterismo. O liberalismo. aliás refutadas. pela prática. 59) Quanto aos erros fundamentais de certas esco­ las socialistas. que defendem realmente a liberdade humana sem esses vícios. Muitos sabem que é difícil definir o socialismo. que a desaparição da propriedade privada é fundamental. que a luta de classes é fundamental do socialis­ mo. prega a liberdade da acção individual e colectiva na realização de actos económicos. que admite a propriedade em termos justos. O liberalismo. 58) De parte da Igreja Católica há. e favorecer as ideias cesariocratas. pela própria acção de seus defensores. A liberdade sem ética é a falsa liberdade. Afirmar-se que todos os socialistas são ateus. é pôr em segunda plana a dignidade humana. ou até do mesmo Estado. uma confusão quanto à conceituação do que seja socialismo. seria afastar os libertários que pugnam contra o quantum despoticum. em instrumento. os privilegiados usufruidores do poder. ne­ gam como princípio a liberdade de fazer o que bem se en­ tende. Já examinamos a essência do socialismo em "Análise de Temas Sociais" e não é mister reproduzir o que ali afirmamos. afastar-se-ia a concepção de Tolstoi. de sistemas. é um erro. e desprezam-se os direitos dos mais fracos e dos subordinados. Contudo. nem todos autores ca- tólicos cometem esse erro. afirmar que são defenso­ res do amor livre e inimigos da família. inclusive os democratas libertários. exerce um poder omnímodo e absoluto sobre to­ dos. colocar-se como fim primacial o lucrum. em suma. que pertence a uma espécie viciosa de liberalismo. que é confundido com o socialismo estatólatra. esquecen­ do que pode haver um socialismo libertário. Os libertários. Por es­ sa razão. e confundi-lo é erro crasso. marxismo como sinó­ nimos é um erro grave. afirmar que consiste na hipertrofiação do Estado. e ao visualizar-se apenas aquele. para evitar a confusão com aquele sentido. é um excessivo disparate. do contrário é a lei das selvas. fundada sobre a expropriação e a mi­ séria de quase todos.

im­ precisos e insuficientes. apesar das leis os proibirem. porém. tenham tendência em simpatizar com êle. Contudo. Nem por isso queremos negar o valor que Marx e Engels e também Lenine possuíam. ainda há criminosos. apesar das providências em contrário. permitiu que muitas mentes pouco advertidas e sobretu­ do pouco informadas. suficiente para refutá-las in totum. pois afirmou "se isso é marxismo eu não sou marxista. Ademais não são bem definidas nem estáveis. 61) Mostramos. O MARXISMO 60) Demonstramos que o marxismo é falso filosófi­ ca. embo­ ra não in partem. Mostramos mais a sua insuficiência no campo econó­ mico. de graus mínimo. não realizaram os marxistas o que prome­ teram na teoria e os factos desmentiram categórica e ir- refutàvelmente as suas previsões. porque. nem da biotécnica. Historicamente é fundada em dados incompletos." Filosoficamente. que é fundamental. não. em que se baseou. sem­ pre ignorantes do que já se realizou no campo da Filoso­ fia e da Economia. não só no campo das ideias sociais. contra a sanha daqueles que con­ sideram apenas seus interesses egoísticos. Demonstramos ademais que o marxismo era uma filo­ sofia adaptável ao proletariado da paleotécnica. quando outros valores passam à primeira plana e o bem social é visuali­ zado em primeiro lugar. como no campo da Filosofia e até no da Ciência e apesar das elo­ quentes refutações eles proliferam e obtêm adeptos. mesmo quando erradas. . da época da exploração desenfreada do homem pelo homem. Na prática. A sua dialéctica funda-se numa inversão da dialéctica hegeliana. há algo de verdadei­ ro. funda-se em postulados falsos. Em todas as doutrinas. e nalguns países. Quando dizemos marxis­ mo não nos queremos referir propriamente à doutrina de Marx e Engels. que não há originalidade nos elementos componentes do sistema marxista. Por outro lado.Data——t I—• 101 100 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL gar-se que não obstante há socialistas. em sub-intelectuais. a aceitação de aspectos verdadeiros não nos leva. É o que se nota em sub-literatos. porém. pois no tempo de Marx os conhe­ cimentos históricos. a luta de classes hoje é. Não há apenas duas classes sociais. Sua eficiência e sua perduração se deve mais aos erros cometidos por seus adversários que pelas virtudes do sistema. A maneira pouco hábil de combater o marxismo por quase todos. menos intensa do que era no tempo de Marx. dialéctica paupérrima e incapaz de abranger a maior soma de aspectos dos factos e facilmente conducen­ te ao erro. sobre a qual Marx se declarou contrário. que prolifera e se desenvolve. embora haja certa originalidade na totalidade. porque não foram devidamente esclarecidas. seria o mesmo que justificar o crime. nos países capitalistas. evidenciando a invalidez da sua tese sobre o valor. co­ mo a má herva. nem poderia levar à aceitação da doutrina em sua totalidade. não eram bas­ tantes para poder estabeleoer uma teoria da História. ou seja enquanto tomada como um todo. ademais. nem tampouco o que há de validez em suas doutrinas. mas muitas ou­ tras. o que os impede de facilmente perceber seus erros. mas à doutrina exposta por seus dis­ cípulos. não. Todos sabem que os erros se per­ petuam. ao da neotécnica. acei­ tos embora por deficitários na filosofia. dialéctica e historicamente.

como um país em luta contra o bloco ocidental. Não conseguiu im­ pedir a proliferação da burocracia. em nenhum momento da História.102 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 103 62) Mostramos a improcedência da tese da concen­ tração do capital. e nunca. decaiu do campo das ideias para o campo dos Es­ tados em luta. histó­ rica. Ademais a sociedade não é apenas composta de ope­ rários. se­ rão acusados de traição por seus sucessores. que mais traidores consignou. mas a maior opressão re­ gistrada na História. nem atingiu os níveis obtidos por outros países chamados capitalistas. porque concedê-la ao Estado não é nem nunca foi realizar a socialização. económica e politicamente. O LABORISMO 64) O laborismo. tão combatidas antes da revolu­ ção. ao con­ trário. Não evitou a desigualdade dos salários. O aumento de productividade obtido pela nação não correspondeu propor­ cionadamente ao aumento da população. o patrão único e todo-poderoso será a mais infame exploração do homem pelo homem. A luta. dialéctica. superou a ges­ tão directa. é aumentar as dificuldades humanas e não resolvê-las. em toda a História. como demonstraremos mais adiante. que é a menos apta. mas de seres humanos. ou o trabalhismo. O marxismo se contradiz filosófica. Por outro lado. em benefício de al­ guns astuciosos políticos. Não conseguiu comunizar a propriedade. pois o número de bens remunerados aumentou consideravelmente. que dominarão os altos-postos não por sua capacidade cultural e pela sua eficiência. e não manejem mais uma ideia contra outra ideia. Não proscreveu as insígnias honoríficas. Não impediu a traição. que de iní­ cio foi recebido como libertador. 63) O marxismo. que. Tornar funcionários públicos a todos é realizar a mais monstruosa burocratização da humanidade. Não construiu a liberdade. Não conse­ guiu criar a mentalidade internacionalista. para estimular o povo à luta ao nazismo. não passa de uma manifestação em favor da cesariocracia e nada mais. enquanto a clas­ se média aumentou evidentemente nos países onde os estatólatras e os cesariocratas não dominaram ou não im­ pregnaram a administração pública e a política de seus erros clamorosos e do vinis violento de suas ideias. assim. pois é o país onde há as mais extremadas diferenças. Dar ao Estado o papel de gestor económico e realizar a gestão indirecta total. por seus erros. pois os que advêm ao poder acusam os anteriores de trai­ dores. nem muito menos a comunização. ao qual teve de apelar na última guerra (chamada até de guerra patrióti­ ca). e os substituídos no poder são sempre acusados des­ se crime! Apenas Lenine até agora não sofreu a suspeita de traição. na Rússia. assim como decresceu con­ sideravelmente o número dos miseráveis. criando novas e ressurgindo outras antigas. Não é de admirar que hoje os defensores de tal doutrina não a preguem mais. nem os actuais dirigentes. Não pôde aniquilar o amor à pátria. mas apenas defendam a Rússia. certamente. A evolução seguiu um rumo inverso ao previsto. Não conse­ guiu evitar a polícia nem o exército. as injus­ tiças não terminam pela hipertrofiação do Estado. provocou a recção posterior do povo russo. como o temos entre nós. pois acabou por apelar ao nacionalismo mais primário para atrair sim­ patias para o seu lado. mas um bloco contra outro. e que. mas . pois o par­ tido que ali governa ostenta a glória de ter sido o par­ tido. não conseguiu abolir o Estado nem sequer diminuir o seu poder.

Mas do conceito de território não prescinde o de pátria. da qual provêm as di­ versas estirpes. que no início combateram a família. porque afir­ ma não o governo dado a todos. ou conser- . não o Estado como a so­ ciedade politicamente (no sentido genuíno do termo) or­ ganizada. por aqueles que mais combateram o nacionalismo e pregaram o interna­ cionalismo. ao organismo que rege a po­ pulação. embora tenha desapare­ cido o Estado. Hoje o lema dos "comunis­ tas" russos é "Pátria. DA PROPRIEDADE 65) Provamos. Negar a família é afrontar uma realidade que nenhum deficitário mental tem o direito de fazê-lo. desde que sua actividade não seja prejudicial ao> bem colectivo. que significa a terra onde se nasce. Já mostramos as diferenças e é mister repeti-las. hoje manejadas.104 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 105» pela habilidade política em alcançar o poder. como a Polónia do século XIX. Ademais. essenciais a todos. deles não possam usufruir. Quanto aos bens de producção. e negado por todos os socialistas puros. tiveram. Em primeiro lugar é inevitável o direito à propriedade dos bens de consumo. Diz-se nação. ao qual caberia a administração e o poder absoluto sem apelação contra a tirania. mas contribuam para desenvolver a pro­ ducção em benefício de todos. os ascendentes. para evitar o erro palmar que tem custado e está custando bastante sangue e inquietação à humanidade. ou de uma nação. bem como examiná-las. o homem afirma-se quando os realiza e os que se congregam para rea­ lizá-los sentem a afirmação de si mesmos acentuada. o socialismo de Estado não passa de um pesadelo de um tirano enlouque­ cido. porém. pátria e Estado. que nenhum tirano do passado pode­ ria sonhar em seus pesadelos. de um monstruoso organismo prepo­ tente. prove­ nientes de uma unidade de origem. 67) O sofisma fundamental do nacionalismo está em considerar como sinónimos nação. Prescinde esse conceito do de território. Os próprios bolchevistas. como os Estados Uni­ dos e o Brasil. que defendê-la. onde nasceram os pais. Em suma. Se há pontos comuns entre esses três conceitos não são estes. Deus foi substi­ tuído pelo Estado. Estado". Estado é o nome que se dá à autorida­ de politicamente organizada. pois um Estado po­ de ser composto de várias nações. 9 por aqueles que se diziam seus ad­ versários e que pretendiam aboli-lo. Tanto um como outro são extremos viciosos e fundam-se em erros. como o Império Britâ­ nico. finalmente. porque quem satisfaz suas necessida­ des se apropria necessariamente de bens. Família. quase sem­ pre fruto da astúcia e da má fé. sobretudo. sim. O socialismo de Estado é o mais infame dos socialis> mos. mas. e ao nosso lado estão os mais sérios filósofos. nacionalistas. A existência da família postula a justiça da proprie­ dade privada. DO PRINCÍPIO DE NACIONALIDADE 66) Demonstramos a improcedência das doutrinas. ou de várias nacionalidades. Seria a maneira mais ti­ rânica de governar. do que nasce. de uma população que tem sua origem fisiológica num conjunto de famílias. não é justo que aque­ les que o obtêm pelo seu trabalho. que há uma propriedade justa e necessária.

com sua propaganda organizada. como o Brasil. embora mesmo sem o Estado. O que há são pátrias e estas são reais e justificadas na História. uma paz de Khan pode agradar a brutos. Essa sociedade. A soberania interna de um povo não impede o res­ peito ao interesse colectivo. usado e abusado para satisfazer os apetites de poder de cesariocratas. 68) É improcedente em sentido absoluto o princípio de nacionalidade. porém. que não po­ dem ser revelados pelos seus defensores. Dizem alguns que se não é válido em sentido abso­ luto o é em sentido restrito. mas que devem ser denunciados pelos que sabem para que fins se desti­ nam. de modo que ninguém o possua de tal modo que possa arrastar com suas mentiras. Mas essa foi sem­ pre perturbada pela paixão desenfreada. ou então a paz não reinará entre os homens. sua nitidez. que mal se distinguem para nós. o totalitarismo Atila ou de Gengis homens no sentido não pode ser o to­ internacional. e um país pode ser organinizado com povos de várias nacionalidades como a Suíça. pela concupis­ cência dos bens alheios. Há Estados também. E o é porque se pode constituir uma nação pelo consenso de indivíduos. Mas o abuso do ideal nacionalista é hoje mais a exploração de um fantasma que serve a interesses escusos. como a Áustria. Ademais as diferenças e a heterogeneidade humanas não são tais que obstaculizem de modo invencível o acordo entre os povos. sim. os incautos à guerra. O caminho da paz talitarismo universal. nem no ím­ peto de independência. Ou o poder se dissemina a todos. O homem sempre desejou a paz. E mais: não será possível estabelecer a paz entre os homens sem a sociedade internacional. a Alemanha. à proporção que a luz surge. e este não pode desejá-la. pela inveja. os objec­ tos vão adquirindo seus contornos. nem na língua. com seus fetiches e com suas seducções. A paz reinará entre os homens de boa vontade. 70) É possível ao homem alcançar a sociedade in­ ternacional. que o princípio das nacionali­ dades foi defendido. Demonstramos. que anima a todos os complexados de inferioridade. não a pleno do termo. pela incapacidade em realizar e o desejo de pilhar os possuidores em benefício dos que não foram capazes de realizar os bens de que careciam. porque nenhum país poderá alcançar a sua plenitude sem o apoio dos outros. .106 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 107 vando a nação e a pátria. nem na origem das estirpes. 69) Os povos podem viver em paz. pouco percebemos as coisas. que pretendiam jus­ tificar a sua sanha de domínio. e também reais. confusas umas com as ou­ tras. Mas para que tal aconteça é mister retirar o poder dos que fazem a guerra. Mas demonstramos que seu fundamento não está nem na comunidade do território. estabelecerá o fim do cesariocrata. logo depois desta última guerra. O FACTOR ÚNICO 71) Na penumbra. Uma pax romana. No entanto. pelo desejo insopitável de poder. É outro desafio ao homem. aquela que defenda o interesse de todos para o bem comum. quan­ do houver número suficiente de homens de boa vontade. e nos é possível captar os limites que os cercam e os separam uns de outros. vindos de várias na­ cionalidades.

E muitos mais ainda para que surja esse insecto. Não há especulação filosófica que destrua essa verdade. A sua matéria. para pô-lo no exercício de seu ser. as coisas vão tornando-se mais distintas. esse verme. uma vontade. o seu perdurar através do exercício de si mesma. que cooperam para atingir aquele arithmós da pedra. nucleônicos e eônicos. Aquela vida.. esse ruminante que pasta nos campos soltos e. distintos e diversos até. até tudo se confun­ dir nas trevas quando estas dominam. mais delineadas. nos facto­ res que cooperam para que êle seja' o que êle é. crepusculeja. ainda muitos mais. implicam a pre­ sença de inúmeros factores físicos e químicos. tudo quanto aspira a fazer? Se isso não é primarismo. e é mais rico de unidades distintas. para que pense o que pensa. finalmente. aplicaremos esse título? 72) Sem dúvida que o Ser Supremo é a primeira causa de todas as coisas. de crepúsculo. Se é tão complexo para que surja uma pedra. electrónicos. para que compreendamos a sua existência. para que sinta o que sente. que compõem a nossa experiência. E quer queiram. energia. Quando ela bruxoleia. tudo quanto haverá terá sua causa no Ser Primeiro. já que o nada nada poderia produzir. onde esplende uma inteligência. à propor­ ção que a luz aumenta em intensidade. ecológicos. e tudo querem explicar apenas por um só factor. um ideal. meteorológicos. Mas. como pode­ ria ser tão simples o actuar e o perdurar aquele homem. ou se abisma em trevas. há aqueles que esquecem a cooperação concreta dos factores. esse roedor que foge à nossa presença.108 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 109 Pois assim é com a luz da inteligência. cujos actos. climáticos. Basta que olhemos uma simples pedra incrustada num monte de terra. mas todos terão de postular um Ser Primeiro. Mas os seres. No entanto. aquele homem que de cima de seu cavalo segue pelos campos. Todos contribuem para pô-lo em causa. E muitos mais.. porque um ser primeiro deve ter sido a causa de tudo. quer não. mais claras. cujas escolhas têm sempre o mesmo e único factor para explicar tudo ■quanto é. tudo quanto houve. cooperam para que surja esta planta e esplen­ da essa flor à luz matinal. não surgem directamente do ser primeiro. os objectos se confundem e as distuv ções vão desaparecendo aos poucos. o que quiserem. cujos desejos. indirecta­ mente pelos próximos e directamente pela sustentação destes. de ma­ tizes. a que. e mais heterogéneos factores. Todo aquele que confunde onde há distinção. uma esperança implica ainda uma heterogeneidade maior de factores para que seja o que é. então. pois sem aquele. Quantos factores e quantas causas para que ela surja. para . Chamem-no matéria. que não permite ver a imensa heterogeneidade que há nas causas intrínsecas e extrínsecas dos factos. Tudo quanto constitui o mundo da nossa experiên­ cia exige essa multiplicidade de factores cooperantes pa­ ra o seu surgimento. todo aquele que não sa­ be separar para examinar o que é outro que outro. cujas atitudes. natureza. "a luz da ra­ zão". Deus. Tudo quanto há. como a chamavam os antigos. mas são productos da cooperação de muitos outros. é que a luz da sua inteligência crepusculeja. a sua forma. •que cooperam para que êle surja. o Ser Primeiro cooperará também para que êle seja. E é esse espírito de entardecer. ou foram. fonte e origem de todos os outros. em sua unidade e em sua afirmação. intencionalmente ou não. mais separadas umas de outras. O mundo torna-se mais rico de tonalidades. tudo quanto faz. nenhum dos que são. podem ser ou poderiam ser. mecâni­ cos.

e este marcará a direcção do ser ou do actuar do que é por êle determinado.HO MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS que seja o que é. Não há um factor sempre prepon­ derante. Qualquer ímpeto. Mas. não o é num hierático. quan­ do é preponderante. qualquer apetência. afirmar que há um só factor? Mas dirão alguns: não há um só factor. mostra-nos que a ciência é relativa. Tudo quanto se diga sobre a vontade de outro modo. E por que. A mera espontaneidade do apetite dirigido para algo não é a vontade. Diz-se que a vontade é elícita. O desejado. O factor preponderante o é. Esta exige o conhecimento racional do que para o qual ela tende e sua origem é racional e não meramente afec­ tiva. Se procede determinada por um juízo é necessária. a material. . O apetite violento não é a vontade. quando decorre ime­ diatamente da sua causa. Jamais se explicará Schweitzer. o para o qual se dirige a vontade. Para haver vontade é mister: a) o desejo racional. (1) Há factores necessários que são as causas. quan­ do decorre do império de outras faculdades. a preponderância de um factor. Se o factor económico é preponde­ rante num tipo de empresário utilitário. nem São Fran­ cisco. Diz-se que é imperiosa. nem Tomás de Aquino pela Economia (1). quanto aos seres finitos corpóreos (a formal. Se a vontade procede com indiferença de juízo é livre. então. a eficiente e a final). falseia-a. porque a combinação dos outros pode dispor de condições que modificam a actuação do que antes fo­ ra preponderante. mas há um que é o preponderante. desta se distingue. FUNDAMENTOS ÉTICOS DA CONCEPÇÃO CONCRETA 73) A vontade humana é o ímpeto procedente da apetência racional com a cognição intelectual do fim. como as qua­ tro causas fundamentais de Aristóteles. b) a cognição intelectual do fim. não é vontade.

o que não o é em potência. porque a ventoinha ou a agulha magnética não têm consciência de si. dados todos os requisitos para agir. e significa. pois do contrário a vontade estará determinada. do não cedível. Se não pode recusar-se a agir. quando usa ■determinados meios maus. de per si. imperfeita. a acção deixa de ser honesta. quando pende for­ malmente do acto. que consiste na indiferença activa do agente. não posso estar ao mesmo tempo em pé. do que não pode deixar de ser). embora essa diferença não tenha sido suspeitada sequer por tão conspícuos filósofos. A diferença é. Mas o ho­ mem tem-na. Se usa meios maus para fins maus é ela vituperável. em si é indife­ rente. contudo. Contudo. Mas. a liberdade humana con.112 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 113 É perfeita. con­ sequentemente. estabelecer alguns estudos. quando há plena cognição e consenso do fim. e alguns empresários utilitários. não pode ao mesmo tempo não fazer. pois. sua acção será necessária. pode-se fa­ lar na liberdade dos pássaros voarem. mas quando estou sentado. É preciso que se estabeleça claramente o que é liber­ dade física. de que a agulha magnética poderia julgar que é livre em dirigir-se para o norte. da qual o homem tem consciência e sem a qual não há liberdade. A acção humana. é honesta. etc. A liber­ dade indica a antecedência de uma possibilidade contra­ ditória. É explícita. quando a cognição ou o consenso é de­ ficiente. pode agir ou não agir. porque uma indiferença passiva é apenas para receber muitas determinações. Se faltar algum requisito. Deve haver a indiferença. pois já o fizemos em outros livros nossos. como toda acção. isenção. é honesta. e implícita. Há os que negam ao homem a liberdade. é impossível a contradição. Quando se argumentou contra a liber«dade. o que não há em acto. Ora. como o fizeram Schopenhauer. e negam-na sempre os cesariocratas. nem. imunidade. é virtual. De uma acção. quanto às possibilida­ des. mas a acção.siste no poder fazer e no poder não fazer. Consideremos agora que há. nes­ se sentido. embora para obtenção de efei­ tos bons. que tem o preso . Spinoza. que nos facilite a melhor compreensão da matéria. Assim poderei daqui há pouco estar sentado ou em pé. solução de um vínculo. a presença da contradição. pela qual. do latim libertas. é actual. teremos a impotência. e que nela é observada. ou a ven­ toinha em seguir a corrente do vento. Leibnitz *e os deterministas. muito grande. podem surgir efeitos bons ou maus. Vimos que o acto voluntário elícito é aquele que pro­ cede imediatamente da vontade. das plantas cres­ cerem. Eis uma das matérias onde se dão maiores contro­ vérsias. e deve ser activa. quando faz isto. pois no sentido clássico deste termo a honestidade está na indiferença. É a liberdade de exercício. tais argumentos pecavam pela falta de paridade. quando tomado «em algo geral querido. quando há intenção de usá-la pa­ ra obtenção de efeitos que deveriam ser desprezados. Haverá desonestidade. Nesse sentido. negativa quando realiza a suspensão do acto. mas podemos. A palavra liberdade. isenção da necessidade (de nec cedo. É positiva quando procede do acto. dos possíveis contraditórios. Não podemos aqui tratar desta matéria em toda a sua extensão. corresponde genericamente ao termo grego ethimon. quando o conheci­ do é tomado distintamente. :influirá posteriormente. estes mais por ignorância ou pelo desejo de conquistar uma posição de irresponsabilidade sobre o que fazem. quando pendendo do acto. porque os meios já não são indiferentes. Em acto.

há determinação. ou pelo menos considerá-lo como determinado sempre. ou não. A liberdade física afirma a imunidade. seria negar essa evidência a negação de poder reali- . o poder fazer e poder não fazer são contradictórios. do que pode viciar a pureza do acto humano. Se toda acção livre é voluntária. No acto intelectual de escolha são avaliados. escolhemos fazer ou não. nem todo voluntário é livre. Livre arbítrio. Também liberdade não quer dizer espon­ taneidade absoluta. que po­ dem perceber possíveis futuros contraditórios. em suma. há a cognição intelectual de um fim. através das operações intelectuais. na Ética. de escolha. não em acto. através de um acto de ra­ zão. A von­ tade é. A liberdade de coação é a liberdade de execução. necessariamente. de razões. Ora. em liberdade de coacção e liberdade de necessida­ de intrínseca. embora seja impedida de pôr em execução o que delibera. querendo-o por si mesma. Implica o acto de vontade livre uma origem intelectual. E subdivide-se. como a ventoi­ nha ou a agulha magnética. que consiste num desvinculamento de qualquer ne­ cessidade moral. Quando. não só os valores. também chamada de espontaneidade. mas as razões para fazer ou não fazer. bem como são avaliados os bens que podem decorrer de uma acção ou da não realização da mesma. o ímpeto que procede dessa apetência ra­ cional com a cognição intelectual do fim. e escolher este ou aquele. Há liberdade quando o homem opera com pleno do­ mínio da própria operação. assim. à qual pertence a liberdade psicológica. Na vontade. enquanto tomados em potência. que. mas este ou aquele escolhido será deter­ minadamente executado. É violenta a acção quando imposta pelo império* de um poder extrínseco à coisa que a sofre e que resiste a ela. das paixões. entre os seres contingentes os inteligentes. mas a escolha é intelectual. consiste na ca­ pacidade de escolher entre muitas possibilidades. antes de fazer ou de deixar de fazer. Mas é mister lembrar-lhes que jamais os que defenderam o livre arbítrio afirmaram a indeterminação. de escolher a acção esta e não aquela. mas apenas isenção desta única de­ terminação. etc. Suarez estabelece como ra­ zão do voluntário apenas aquele acto no qual a potência se determina ao seu acto. Se fazemos. Onde há en­ tes contingentes. ausência de motivos. quando pode agir ou não agir. nosso acto de fazer ou não fazer é livre. apesar da disparidade. e é a imune de vio­ lência. ou seja. é necessária a acção realizada. entre alcançar o fim. Há os que desejam tornar o homem. Esse fim é apetecido. porque se a execução é im­ pedida por esta. em suma. se não faze­ mos.114 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 115 quando solto de suas cadeias. Mas há. se a inteligência humana é capaz de escolher entre possí­ veis. Ora. facilmente. E será livre a operação se ela se exerce sob o império da vontade formalmente livre. como vimos. E há liberdade. O ser inteligente visualiza um fim intelec­ tualmente. o cão quando "livre" de sua corrente. Há. pela natureza da vontade. do temperamento. a vontade pode ser aumentada ou diminuída pela acção da concupiscência. O acto livre não significa isen­ ção de determinação. a liberdade em liberdade física. pois. a causalidade. portanto. a não acção decorre necessariamente da ausência do acto do agente. a isenção de qualquer neces­ sidade de ordem física ou psíquica. pode ela livremente escolher entre fazer ou não fazer. Apenas quer dizer possibilidade de realizar ou não. Assim. Vê-se. é desejado racionalmente. como a necessidade da lei. Divide-se. e a liberdade mo­ ral. uma escolha entre fazer e não fazer. esta é essen- cialmente livre da violência.

pos­ teriormente. é da experiência universal de todos os ho­ mens a realidade de acções livres. e que realmente merecem esse nome. Cometido certo acto. E não só. Durante todas essas operações compara. É também livre na sua acção. embora pudesse cometê-lo. decide-se a al­ cançá-los. As demonstrações da ex­ periência do livre arbítrio não são ilusórias. e resolve abster-se de sua execução. Há deterministas que manejam argumentos até teológicos. a convicção de que é êle prejudicial e ma­ léfico e. a escolha entre possíveis é substancialmente um acto da vontade e não da razão.116 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 117 zar um possível e não outro. porque a consciência não é ilusória. compara. como dizia Tomás de Aquino. prefere estes àqueles. para preferir este ou aquele. não basta dizer que há ilusão para haver ilu­ são. dentro de uma linha indefectível e previamente determinada numa só direc­ ção. por razões éticas. Os defensores do determinismo têm razões de combater o indeterminismo exagerado. também da sua constância. Êle jul­ ga da conveniência ou não de obtê-los. como o fizeram Lutero. pois dirá que foi êle que a fêz. porque os julga vituperáveis. a fazer ou não fazer. e por ela responde. Dizem alguns deterministas que essa consciência é apenas uma ilusão. . e o acto posterior. delibera e recusa a si mesmo de agir. Àqueles necessariamente deve apetecer e não excluem a sua liberdade. e o homem pro­ cederia como procedem os animais. pois se tal se realizasse na pedra ela teria a consciência real de si mesma. pratica um acto de liberdade. mas determina a si mes­ mo. e pode experimentar tantas vezes quantas qui­ ser. formalmente. Pode o agente ora fazer isto. por meios desonestos. inibe-se o agente de tornar a fazê-lo. afirmando a incompossibilidade da liberdade humana com a liberdade divina. pois se dá. não porém o livre arbítrio como o entenderam os filósofos de porte. ora fa­ zer aquilo. Sem essa faculdade. a sua evolução. dela se abstêm por motivos de justiça. e sua comprovação é feita pela observação. Calvino. Na verdade. sobrevêm. o livre arbítrio é demonstrado até entre os mais acérrimos deterministas. verifica a inconveniência de praticá-lo. porque julga que é mais importante o fim a ser alcançado. e é real. uma notícia intuitiva dela. Jansenius e ou­ tros. nesse exercício do livre arbítrio. mas prefere o vituperável. as trans­ formações que se observam em sua vida. porque esta se manifesta naqueles que poderá ou não preferir. Verificado que é injusta tal prática. avalia. e obtê-los. Tem o ho­ mem consciência de sua volição. julga e. preferindo ora uma e preterindo ora outra acção. Este também avalia. Sendo a vontade o poder activo do homem que ape­ tece ao bem ou a um fim conhecido pelo intelecto. êle responderá pela acção que realizou. porque a acção realizada demonstra que ela não há. como o pratica o cesariocrata. Mas apenas afirmam palavras. nem a consciência de si mesmo pode ser o producto de uma ilusão. realiza- -se efectivamente. e sabe que se determina. Em suma. que escolhe. previsto. Sopesadas as razões entre fazer e não fazer algum acto. que não se abstém de uma acção. o estatólatra totalitário. escolhe os meios. Contudo. A vontade consiste em suma. veri­ fica que nem todos os bens nem fins são apetecíveis ou devem ser apetecidos. Ora. e muitas vezes o faz entre muitos que lhe seriam convenientes. esco­ lhe. pra­ ticamente. posteriormente. seria impossível o progresso humano. mas reais. finalmente. embora sinta uma apetência exces­ siva em realizá-lo. desde que sirva aos interesses de sua ideologia. O que se abstém de uma acção que empregará meios desonestos. como a de uma pedra que tivesse de ter cons­ ciência de si mesma.

do número dos animais possuídos por algum proprietário. não há a persuasão racional da sua liberdade. que são remunera­ dos por um salário. Os exemplos de homens que não po­ dem em estado normal vencer seus ímpetos não é sufi­ ciente. quando há a notícia intelectual de uma semelhança com o conhecido. agora. definitivamente. que obstaculiza. que resiste à realização do acto hu­ mano. pela concupiscência. Nestes. Capitalismo é o regime económico. Na Eco­ nomia. quando estes se opõem às suas concepções morais. mas no raciocínio evidente que se faz entre as possibilidades e a escolha de uma entre muitas ou­ tras. o ser que conhece é um ser vital. porém. enquanto a intelectiva pelo intelecto. A cognição sensitiva realiza-se pelos sentidos. sopesamento de razões. O que se revela aí é uma fraqueza da vontade. a abandonar a animalidade e as aderências animais. Na linguagem comum. e temos. e a consciência de sua espon­ taneidade é completamente distinta daquele que reali­ za uma acção em estado de vigília. que é uma moção de origem extrínse­ ca. pelas paixões. não há escolha. significa o lucro. significa o bem económico capaz de realizar pos­ terior producção. e o conhecimento é intencional. Não é fácil definir de modo satisfatório o que seja o capitalismo já que é um sistema dinâmico e não está- . que tende para o lucro e no qual se distinguem as funções dos prestadores de trabalho. a qual pode ser viciada pela ignorância. pa­ tente. Há cognição. Quanto aos hipnotizados. porque a semelhança não é natural ao conhecido. para alcançar a sua plenitude. em tais experiências. mas apenas da sua espécie ou forma. a educação e a instrucção senão construir homens capazes de realizar com plenitude o acto humano? Como poderá a humani­ dade alcançar o mais alto sem tornar real essa possibi­ lidade? Se queremos não ser mais os joguetes da História. dos hipno­ tizados. mas senhores da História e do nosso destino. e o dos prestadores de capital. ante nossos olhos. definitivamente. Nessa escolha diremos. como a violência física. que julgam agir com plena liberdade. sôbre-humanos. uma afirmação da nossa liber­ dade. emoções. como já estudamos. estamos desafiados. afirmam alguns que não reali­ zam os actos ordenados. ou servir de instrumento para a producção. e normal. que ainda actuam em nós e decidirmo-nos a tornarmo-nos. fundado na propriedade privada e no crédi­ to. pela nesciência.118 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 119 Alegam alguns que ter consciência da liberdade não prova a liberdade. por todos os factores que já estudamos. Também concordamos com essas pa­ lavras. exige um conjunto de condições. Na ver­ dade. que são remunerados por dividendos. Mas o que se afirma é que não está apenas na consciência. Objectam com os exemplos do sonho. em suma. como nos demonstram os que se dedicaram ao estudo do hipno­ tismo e dos sonhos hipnóticos. E como poderia o homem ser senhor de si mesmo sem que alcance a pureza do acto humano? Que outra orientação deve ter a pedagogia. Nossa liberdade está desafiada. Ora. avaliações normais. finalmente. o acto humano. o que real­ mente somos! ANÁLISE FILOSÓFICA DO CAPITALISMO 74) O termo capital vem de a capite. porque há aqueles que os podem vencer. pertencendo a estes últimos a direcção suprema e a administração. O acto humano não se realiza senão pela cognição in­ telectiva. comparações. Consequentemente. e para os socialistas nada mais é do que o ganho injusto adqui­ rido à custa dos trabalhadores.

e aqui o tomamos no sentido de sis­ tema económico. No exame da História. que é um estímulo. sempre houve ca­ pitalistas. primacial­ mente. que acusavam o capitalismo em geral dos vícios inerentes àqueles que usavam. como tem feito. mas apenas como uma estratificação subestamental do em­ presário utilitário. ao lucro. virtualizando os aspectos louváveis que também oferece. tendo os olhos postados exclusivamente no lucro. viciar a actuação do capitalismo. fazendo erguerem-se vozes. permitiu o domínio quase to­ tal dos empresários utilitários. Actualizando apenas os aspectos vituperáveis que êle apresenta. que de­ ve ser estirpado totalmente do mundo. como pretendem fazê-lo os socialistas. sem os quais qualquer análise padecerá de defeitos. que é re­ munerado apenas por um salário. jurídico e político. que corresponde a este es­ tamento como dominador do kratos económico e do po­ lítico. Ora. psicologicamente considerando-se. Para que se faça um exame justo do capitalismo. Em princípio. é fácil apresentá-lo como um sistema monstruoso. que o re­ gime lhes permitia. Não é. A perda do kratos. vemos que êle se funda na proprie­ dade privada. como se observa entre os agrários no período aristocrático. Se o empresário utilitário é um tipo indefectível na sociedade. Mas esta necessidade não im­ plica a do sistema económico. sobretudo de ordem psicológica. verifica­ mos que o regime capitalista. Bastaria analisar-se a diferença entre o ca­ pitalismo da fase paleotécnica com o da neotécnica e o da biotécnica. um fim principal: o lucro. que deve reinar entre os homens. que é remunerado por um dividendo. porque todo aquele que trabalha deve receber o seu salário. não tomado como sistemas político e económico. que impregnaram o mun­ do moderno da sua esquemática. pois. Outro elemento importante do capitalismo é a dis­ tinção funcional entre o prestador de serviço. ofendendo a justiça. nós vimos que muitos empresários utilitários. favorecendo a eclosão de muitas condições desagradáveis e incongruentes para as populações menos protegidas economicamente. que sofreram profunda di­ minuição na sua influência. na sua acti­ vidade. perceberem-se as diferenças nítidas que apresentam entre si. B) Examinando os fundamentos do capitalismo. um salário é justo. que visualiza. leve a excessos vituperáveis. de espantar que muitos espo­ reados pela cupidez do lucro esquecessem os direitos alheios e sem trepidação tomassem o rumo de obtê-lo em proporções ilimitadas. esquecerem as suas obrigações sociais e o respeito aos princípios éticos. da cupidez. realmente. para. corresponde ao domínio económico e político do estamento dos em­ presários utilitários. em geral mal advertidos. Este postulado nos revela desde logo que é o capitalismo algo que acon­ tece na sociedade. O lucro. provocou uma série de ressenti­ mentos e de descrença nas possibilidades deste sistema. também a sua presença é necessária. que ora se inaugura. Vejamos o seguinte: A) Não é o capitalismo essencialmente necessário para a existência da sociedade humana. desde logo. a ponto de muitos. que empreendemos. das possibilidades de ganho. mas à producção de bens necessários para satisfação das necessidades económicas da socieda­ de. e que a sua actividade é ordenada ao lucro. no ocidente. Os socialistas vêem o capitalismo de modo pejorativo.120 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 121 tico. o que é uma má- . Este é um ponto de máxima importância. Estes factos. e so­ bretudo abusavam. por parte dos teocratas e dos aristocratas. pela sua ocorrência continuada e numerosa. Em todo ciclo cultural elevado. mas nem sempre houve capitalismo. é mister estabelecer alguns dados. pode. É normal. e o prestador do capi­ tal. e consideram-no fundamentalmente injusto. que a exa­ cerbação da concupiscência. não visam. porque o capi­ talista é o empresário utilitário.

permanecendo a sua situação a mesma ou pior do que antes. nesses países. que surgem. económicas. os frutos mais benéficos. Se observarmos as providências modernas. Já demonstramos que não há nenhum fundamento na doutrina marxista de que o capital seja sempre producto de uma espoliação do trabalhador. da participação no património das empresas. de uma cooperação justa entre o capital e o trabalho. verifica­ das nos países do alto capitalismo. não há movimentos comunistas cora alguma expressão. C) Em face do exame que acima fizemos. . técnicas e adminis­ trativas de uma empresa. que teria. Estas rendas. primeiramente por parte de espíritos hieráticos e aristocráticos. que se opõem ao capitalismo. Contudo. que terminaram por estabele­ cer os fundamentos das chamadas ideologias revolucio­ nárias destes dois últimos séculos. b) A propriedade familiar é disseminada. por falta de experiência. Esta é a razão fundamental por que. o que provocou. tanto quanto lhes era pos­ sível a reduzi-lo ou a não aumentá-lo na proporção dos benefícios que obtinham. A desproletarização só pode processar-se desde o momento que o trabalhador possui rendas outras pon­ deráveis. nos países de alto capitalismo. posteriormente.sivo o lucro. levando trabalhadores a uma situação de miséria tal.122 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 123 3dma de Cristo. Outro elemento fundamental do capitalismo é perten­ cer a direcção suprema aos que representam o capital. consequentemente nos dividendos. favorece a disseminação da pro­ priedade empresarial.modificações: a) proletário é aquele cuja única renda é o seu sa­ lário. os quais. surgem pela participação na propriedade. c) O salário deixa de ser um salário de fome. mas tendiam. por sua vez. d) A constante penetração dos trabalhadores na gestão da empresa aumenta-lhes o sentido da responsa­ bilidade colectiva e permite que as questões. as acusa­ ções de injustiça. pe­ los próprios trabalhadores. os seguintes males: a) desconhecimento por parte do trabalhador das dificuldades financeiras. que apenas o seu salário. por meio de acções. não sendo capazes de gerir a empresa económica. não se preocuparam os capitalistas com um salário justo. naturalmente. por meio de acções. notamos as seguintes . visualizando de modo inten. Demonstra- . de pro­ vocar uma reacção. b) afastamento da prática da gestão dos trabalha­ dores. Por outro lado. provocadas pela oposição de interesses entre a empresa « o trabalhador. posteriormente. merecem reparo. c) impediram. ape­ nas suficiente para obtenção dos bens de primeira ne­ cessidade. e de modo mais justo. de modo a que todos possam tê-la. e. Há possibilidades. nos lucros das empresas. os capitalistas uma maior cooperação entre o trabalho e o capital. terão de ceder os postos de direcção àqueles. senão menos amargos dos que actualmen­ te são colhidos. com essa prática. sejam mais facilmente solucionáveis. e suficientes exemplos de máxima eloquência.sem a participação dos trabalhadores na gestão. quando exacerbados pe­ los cesariocratas. a participa­ ção. para ser apto a fornecer bens agradáveis e até suntuários.

e que elevaram os preços desenfrea­ damente. sobretudo no que se trata da sua segurança e da sua higiene. não é justificável que sejam os be­ neficiários da maior parte ou. reformas institucionais e políticas. não é ela da es­ sência do capitalismo. da ex­ ploração exagerada do nacionalismo. E estas injustiças surgiram da desenfreada cupidez do lucro. quando proporcionadas ao papel que ambos tenham na producção. não é êle um salário de fome. mas é accidentalmente injusto. de uma parte considerável dos proventos. muito além do que seria pro­ porcionado à sua função. é preciso notar-se que um salário só pode real­ mente elevar-se na proporção da productividade que ofe­ rece o trabalhador. da concentração de ca­ pitais que. Considerando-se. da desme­ dida especulação. todos enfim. Inevitavelmente. profundas reformas. que permitam que os elementos hieráticos e aristocráticos como os ser­ vidores. assim. que seja capaz de construí-lo. esta pode e deve ser dividida com os trabalhadores. nesse período. que tentavam opor-se. Contudo. o que contraria. quando lhes são exigidas condições especiais e superiores às comuns. por mais genial. em que se estabeleçam outra vez o respeito aos prin­ cípios de justiça e de caridade. consequentemente. não só para atender as necessidades primárias. ou seja de amor ao bem do próximo: reformas económicas na distribuição dos bens. e seu salário será sem­ pre proporcionado ao seu grau de productividade. Os estudos modernos de Economia demonstram que o índice de lucro do capitalismo é constantemente menor do que já foi anteriormente. Contudo. mas apenas accidental. o capitalismo ofereceu inúmeros defeitos. a tese marxista.. por ex. frontalmen­ te. dos poderes ocultos dominadores dos meios administrativos. Nem é pos­ sível pensar que sejam eles baixamente remunerados. que permita que o trabalhador ganhe mais do que o que produz. Não é o capitalismo essencialmente justo. mas também as de agradabilidade. praticou gravíssimos abusos. sobretudo nas bolsas. elevados são os sa­ lários. da ilimitada exploração do trabalhador na fase paleotécnica. A supremacia do capital na direcção é justificada em parte pelo volume de responsabilidade. da criação de mo­ nopólios injustos. pelo menos. ao mesmo tempo que aniquilaram inúmeras unidades económicas. Contudo. Desde o momento que o salário seja suficiente. porque são eles im­ prescindíveis para a boa ordem económica. economicamente. nem qualquer cesariocrata. dos abusos praticados contra os traba­ lhadores. que permitiram justificar uma série de atitudes e de doutrinas contra êle. Contudo. não atinge a 10% ao ano. o capital nem sempre é in­ justo. É impossível querer evitar a existência de empresá­ rios utilitários na sociedade humana. que esta tese é improcedente. Nos países de alto capitalismo. pelo menos. a productividade é de índice elevado. possam participar do governo e também da responsabilidade social. como reforma de ordem mo­ ral. terá o capitalismo de sofrer. da ditadura eco­ nómica que exerceu o poder financeiro. Não há nenhum regime económico. A distin­ ção de remuneração entre os trabalhadores e os presta­ dores de capital não é injusta. .124 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 125 mos filosoficamente. se processou. de espécie alguma. da prática de fraudes sem fim. Se a injustiça não se dá sempre. A remuneração do capital nos Es­ tados Unidos.

nem sempre o elei­ tor tem liberdade de escolher. mesmo provi­ sório. responsáveis de tudo quanto acontece. a alta dos preços. e os italianos de accaparare. claramen­ te.126 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 127 Se se considerar que é injusta a maneira de consi­ derar todos os capitalistas pelo mito do capitalista explo­ rador. não deve implicar. pois muitas vezes apare­ cem candidatos dos quais nenhum é digno de atenção. cuja única grandeza é a sombra imensa. Contudo. em sua estructura jurídica e política. era muito usado o açambarcamento. a gestão política de alguns. de­ pois. por todos nós. que actuam em nome de todos. ou quase sempre. que a sociedade deva ser. Todos têm e devem ter responsabilidade nos negó­ cios públicos. os falsos guias. que os defeitos que o capitalismo apresenta são de decorrência accidental e não essencial. forçado pelas exigências populares. nesse sentido justo. o qual as escondia em lugar seguro. os falsos líderes. a preço mais elevado. realizando o que os antigos economistas chamavam de dardanismo. Ademais. que nem sempre está à altura do cargo que vai ocupar. o único ca­ minho para a solução dos problemas sociais. porque o preço é dependente também da raridade de um bem. mas o eleitor se vê forçado a escolher o menos ruim. posteriormente. mas um mundo construído por nossas mãos e pela nossa inteligência. No século XIX. forçando. é o primeiro a trair em acto as suas palavras. e impedir que o pior assuma o posto que não merece ocupar. a presença do capitalista. É hora. e delegar os seus poderes a um indivíduo qualquer. e esta pouco realizou em relação àquela. neces­ sariamente. e é mister acabar com essa mentira que a única acção política do cidadão é pôr o seu voto na urna. dentro da ordem social. Nessas ocasiões. mas a sua luta . como o fazem os socialistas em seus excessos de crítica e de análise. A Humanidade deve quase tudo à gestão directa. e quase nada à gestão indirecta. o qual consiste no acto especulativo de assegurar um monopólio. sabe-se que os preços bai­ xam. OFERTA E PROCURA 75) Quando a oferta começa a superar a procura. apenas capitalista. super-homens que nada mais são que super-pigmeus. de uma determinada mercadoria. dese­ josos de manterem os preços. que é vendida. os falsos salvadores. O Estado não pode ser apenas alguns de nós. Modernamente. verdadeiro terror das populações pobres de então. de dizer basta a esses erros.. A sua ati­ tude é clara contra os falsos messias. que se julgam os portavozes da divindade. de uma vez por todas. O pantarquismo é a única solução social. é possível compreender-se. o açambarcamento realiza-se por meio de uma pessoa ou um grupo. que em nosso idioma tomou o nome de açambarcamento. e que muitas vezes. Manifestava-se pela acquisição por parte de um comerciante de todas as mercadorias disponíveis numa determinada região. pro­ cura lutar contra tais açambarcamentos. mas todos nós. por ter de escolher alguém. alguns comerciantes. tratam de adquirir os bens sobrantes. O Estado. Ademais. quando há bens em demasia. a gestão directa tem sido mais útil e benéfica à sociedade que a gestão indirecta. e não apenas por alguns iluminados. que projectam nos entardeceres humanos. e lutar por um mundo melhor. e evitar prejuízos que pos­ sam advir da baixa precipitada.

Na verdade. que essa conquista terá que exi­ gir uma grande luta. aos quais servem na realidade. Consistia essa forma. Mas o que é de se notar é o dardanismo. no impedimento da maior producção. estão ligados a tais interesses. E se este se tem dado é apesar do governo. e até na destruição dos bens já produzidos. tais como: dominar os meios de transporte. em que os trabalhadores são titulares de um determinado número de acções. mas através das cooperativas de consumo. Buchez. Muitas experiências mutualistas foram feitas no sé­ culo passado. como tam­ bém dos riscos. Mas. sobretudo. O "associacionismo" era uma experiência nova de cooperação obreira. A luta contra o dardanismo e contra o açambarcamento no Brasil não poderá ser feito através do Estado. que chamamos de cooperacionais. e rece­ bem toda cumplicidade do Estado. que con­ siste. de consumo. Thompson. que é o símbolo do socialismo prático. o accionarato dos trabalhadores. onde possui êle todo o poder. evitando que pequenos productores ou pequenos comer­ ciantes possam adquirir tais bens e oferecê-los no mer­ cado. apesar da tremenda dificuldade que este oferece sob a falsa decla­ ração de que assim procede para "protegê-las e evitar que se tornem antros de exploração" (!!!). de modo a impedir que a producção de de­ terminada zona possa alcançar o mercado. participando. no início. grupos de producção. quando não são criadas outras soluções. foi impossível evitar o câmbio negro. na associa­ ção dos trabalhadores para a realização de uma empresa comum. que surge em determinadas condições. todos os mais famosos "ami­ gos do povo" foram. participando. não só dos benefícios. os meios de crédito. e entre elas. quem as pôs em prática foi Owen. Louis Blanc. Sabemos. Cabet. como na Rússia. ACCIONARATO OBREIRO 76) Uma das maiores preocupações dos economis­ tas. para isso. e outras que constituem as formas. como as cooperativas. Modernamente. contudo. observam-se tais asso­ ciações na formação do capital das empresas. desejosos de examinar os meios de melhoria para as classes trabalhadoras. na maio­ ria. que foi preconizado por este grande libertário Robert Owen.128 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 129 tem sido sempre inútil e nem em países. embora os ataquem em palavras. etc. também. Tais fórmulas foram estudadas por outros so­ cialistas. como Fourier. Tais processos são muito comuns entre nós. adquirir dos productores apenas aquelas quantidades que permitem a manutenção dos preços altos. Leroux. e estiveram sempre ligados aos gran­ des exploradores. apesar da negativa formal e demagógica de muitos políticos e que. manejando. chegam até à destruição de certa quantidade para garantir a raridade e os preços. porque o Estado brasileiro tudo fará para impedir o maior desenvolvimento das cooperativas. Algumas organizações desse tipo tiveram participa­ ção na gestão de muitas empresas. e manifestava-se através de grupos de compra. Consideram muitos que tais práticas têm a finalidade de inocular nos trabalhadores uma men- . dos benefícios. poderão entregar no mercado e financiar a producção e regular os preços sob bases jus­ tas. que filiadas em federações poderosas. organização de socie­ dades beneficentes. e forçar uma baixa inconveniente. consistiu no estado de diversas formas de cooperação. na história da humanidade. que Gide e Rist consideram como o verdadeiro pai do socialismo. que tiveram grande ressonância.

o ter­ mo tem certa equivocidade. Com esse enunciado.130 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 131 talidade capitalista. que passa a subordinar-se económica e até juridi­ camente ao colonizador. como também as formas menos violentas e até as astuciosas de exercer um povo o seu domínio sobre outro. toda espécie que possa manifestar. como sejam: o económico. faculta-lhes a presença na gestão da empresa. que se realiza através da invasão de um país por forças de ou­ tro. Essa subor­ dinação apresenta uma escalaridade." Essa definição. sobre outros nacionais. a imposição do regime colonial. como vemos entre nós. onde muitos intelectuais. reunimos. contudo. e refere-se mais à maneira de realizá-lo as grandes potências. que deverão reger. ou pela submissão de um povo ou raça. que mantém uma relação de acto e potência. COLONIALISMO 77) Expressa esse termo a acção colonial sistemá­ tica. embas- . expressa um sentido específico do colonialismo. fundando-se numa inferioridade do subordinado ao subordinante. Entretanto. Contudo. Usado por muitos autores. que aquele salien­ tava como um estado de facto. inclusive no plano cultural. o re­ ligioso. pois prepara desse modo os trabalhadores aos trabalhos administrativos fu­ turos. Segundo Balandier. ademais. o administrativo. alcançando até a su­ jeição. Como há típicas modalidades de colonização. aceita ou imposta. que sobreviverem à experiência. Nesse enunciado. as dificuldades em estabelecer a participa­ ção justa entre os trabalhadores e os capitalistas têm criado situações que geram desentendimentos e até malo­ gros. Contudo. e certamente foi êle cunhado pelos adversários de tal acção. da autoridade do subordinante ao subordinado. no futuro. Podemos. Pode ela dar-se pela migração de homens para deter­ minada zona a ser explorada. o que se pode preconizar aqui é que as diversas práticas devem ser tentadas. encontramo-lo muitas ve­ zes no Capital de Marx. é "o domínio imposto por uma minoria estrangeira. a ideia de colonialismo expressa uma su­ bordinação do colonizado pelo colonizador. mas. o que não é de desprezar. é precedente essa crítica. inclui-se a forma violenta. pois delas sairão as regras. De certo modo. e o passivo do subordinado. diremos que colonialismo é a subordi­ nação sistemática. distinguir o papel activo do subordinador. cujo domínio põe em contacto civilizações radicalmente heterogéneas. materialmente inferior. domi­ nados pelo espirite de colonialismo passivo. negando nossas possibilidades culturais e desvalorizando tudo quanto façamos. que gera certo domínio de determina­ dos agentes estrangeiros. as melhores for­ mas. que se tem prestado a ex­ plorações sofismáticas de toda espécie. o cultural. a uma maioria autóctone. enquanto. admiram apenas o que tem origem nos países mais desenvolvidos da Europa. em nome de uma superioridade ra­ cial (étnica) e cultural dogmàticamente afirmada. racialmente (ou etnicamente) e cul­ turalmente diferente. o político. referindo-se à actividade econó­ mica própria da fase pré-capitalista. Para um conteúdo mais claro e filosoficamente mais seguro do termo. como vemos no colonialis­ mo do sul do Brasil. no conceito de colo­ nialismo. etc. por outro. funcionando segundo as leis ontológicas desse antagonismo.

também. Há. a imi­ tação desenfreada dos modos alienígenas. estiveram sob o jugo colonial. mas há. pois. toda e qualquer tentativa de criação própria. etc. como a Iugoslávia e a Albânia. preconceitualmente. os ideais de subordina­ ção e domínio. pois permitiu que muitos países atra­ sados obtivessem a técnica dominante em países mais de­ senvolvidos. onde as rebeliões contra o poder co­ lonizador indica os sinais do desespero. O mimetismo. como vimos. ademais. Ora. pactos de assistência mútua. também não é uma façanha da Economia. com igualdade de direitos e obrigações. deve­ mos dizer que se dá. que se revestem hoje com novas másca­ ras. que é uma subordinação inequívoca de carácter colonia­ lista económico. Tal se deu apenas e se dá no referente a certa espécie. esse que exerceu uma desenfreada exploração dos povos mais atrasados. como as ideológicas. quando muitos afirmam que estamos vi­ vendo uma era que indica o fim do colonialismo. Assim como o açambarcamento não é um acto económico. admiram qualquer pechibesque estrangeiro. mas um acto não-ético. contudo. não se submete­ ram piamente aos desejos de Moscou. também o colonialismo odio­ so. apesar dos resultados económicos que traz. afinal. como aconteceu com os Es­ tados Unidos. trouxe. encon­ trando naqueles países ótimo campo para a aplicação de capitais. sim. o colonialismo apresen­ ta uma gama heterogénea extraordinária. apesar dos grandes males que dela decorreram. que. É inegável que a prática colonialista. que traz proveitos económicos. acordos comerciais. o imperialismo colonial. mas é mister que haja contra toda espécie de co­ lonialismo. como também de subordinação política e até militar. que su­ bordinam a um lado e outro. e alcançassem. durante muito tempo. muito embora seus partidários queiram afirmar o contrário. um papel pelo menos igual e livre ao dos outros po­ vos superiores. que se valoriza apenas pela sua origem. no cenário da Histó­ ria. Foi também em "nome dessa cultura" e no intuito de "levar o progresso aos países atrasados". tal não se dá frequentemente. que se manifestam sobre supostos pactos. inegavelmente. nos quais as tropas russas não realizaram ocupação.132 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 133 bacados. posições superiores aos dos seus subordinantes. que estão dominados pelas tropas do exército vermelho. que os em­ presários utilitários europeus exerceram um domínio inescrupuloso sobre diversos povos do mundo. não de todo. uma luta no mundo contra certa espécie. Os países socialistas. A cooperação só é genuinamente verdadeira quan­ do as partes cooperantes são livres e a realizam livre­ mente. Nessa definição. negando. que é uma das manifestações do imperialismo económico. quando alcançasse o capi­ talismo seu apogeu. inclui-se. Ali também se verificam todas as condições do colonialismo. como sucedeu com aqueles povos. mas raramente. iniciar-se-ia o fim do colonialismo. Também naquele enunciado inclui-se o satelitismo. Os povos desejam ter. . é também uma maneira de manifestar-se o colonialismo passivo. Segundo Marx. Por isso. e não a todos. mas sua motivação foi mais de ordem ética e psicológica do que propriamente económica. para a obtenção de matérias primas e para obtenção de lucros fabulosos. que tende a pôr a dúvida sobre toda e qualquer tentativa de autonomização intelectual. o fim de certo colonialismo. em graus maiores ou menores. alguns benefícios. É uma operação extraeconômica. tratados de comércio. como a que assistimos nos chamados países socialistas subordinados à URSS. mas com influências no campo económico indubitáveis. dada a mão de obra mais barata e a subordinação fácil que puderam exercer so­ bre tais povos indefesos.

Não é suficiente uma vitória a meias contra o colo­ nialismo. sobretudo. Sempre houve o desejo do homem de prever os acon­ tecimentos e essas tentativas de previsão são um teste­ munho da própria humanidade. Mas. em relação à Inglaterra. o futuro está pre­ nhe de presente. e esta só se actualiza quando realizamos a nossa autonomia não só no campo político e económico. o cultural. para indicar a específica conjunção dos astros. é mister uma vitória completa. demográfica. química.134 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 135 A paz do mundo exige a descolonização sem dúvida. a pouco e pouco foi sendo exigido pelos opri­ midos um poder capaz de fazer frente à sanha voraz de exploradores sem escrúpulos. DA PREVISÃO ECONÓMICA 78) O termo conjuntura. No caso brasileiro. etc. política. Embora tenha o termo sido empregado de outras maneiras. como ainda o é. e não apenas de algumas espécies. que dão uma nova fisionomia aos acontecimentos. e também nas ciências da natureza é empregado. concluiu-se que o Estado era o único organismo capaz de realizar justiça e defender os consu- . já que juridicamente não estávamos em condições de subordinações outras à me­ trópole. nem um sistema. mas tal não impede que novos estudos sejam feitos e que esperemos. Como não se procuraram melhores caminhos. mas. e t c . em situação colonial. Como. no campo cultural. era usado pelos astrólogos. que jamais foi o Brasil colónia de Portugal. pode-se discutir o nosso colonia­ lismo em relação a Portugal. económica. que devia ser regulada pelas suas próprias leis. Há hoje até uma função especialíssima. de passado e também de um futuro mais remoto. e não só a Portugal. É sobre o conhecimento da conjuntura económica que se podem estabelecer os métodos de previsão. o político. no campo da ciência da cultura. histórica. Daí foi êle levado para Filosofia. no sentido da conjunção de diversos factores. a conjunturo­ logia ainda não alcançou o estágio desejado. cuja origem é latina. fundando-se nos dados que lhe oferecem o presente e o passado. aos Estados Unidos. porém. e muitos o fazem. por ser um animal racional. os resultados obti­ dos não são suficientemente animadores. que preconizava a não ingerência do Estado na economia. a conjunturologia. que já disponhamos de melhores meios de diagnosticar e prognosticar os eventos futuros. como se verá no estudo da História. para um futuro não muito remoto. mas. Não é propriamente uma doutrina. após a Independência. estivemos. perscruta o futuro. Como essas leis não impediam as clamorosas in­ justiças sociais e o abuso económico. e até a formação de uma nova disciplina económi­ ca. mas uma prática que surgiu em oposição ao pensamento li­ beral. que exerceram acções colo­ niais de várias espécies sobre nós. sob outros ângulos. Poder-se-ia dizer. Assim se pode falar em conjuntura social. mas de toda espécie de colonização. como conjuntura meteorológica. co­ mo o económico. inegavelmente. e que permite prever acontecimentos futuros. a do conjuntorologista. pois o homem. à França. toma esse sentido amplo. O DIRIGISMO 79) Considera-se dirigismo a prática de intervenção e de ingerência do Estado na vida económica de um país. porque. a exploração de­ senfreada. que não fossem as mesmas das regiões europeias.

impe­ dindo a multiplicação de erros. muito mais dispendiosas do que as de origem privada. em todo o mundo. A gestão pública é a realizada pelo Estado. as obras estatais são. lento e dispendiosíssimo. como o bolchevismo. punindo os que inflingiam os direitos sociais. e delas não se ocupa a imprensa. b) a oposição normalmente oferecida pelos adversários receosos do prestígio que possam obter os primeiros nes­ sas promoções. com in­ tuito de prestar serviços aos seus semelhantes. obstaculizando práticas abusivas. Podemos considerar o nosso século como o em que o dirigismo tem realizado suas maiores proezas e também preparado o terreno pa­ ra as mais sangrentas guerras que a história registra. além de totalmente irresponsá­ vel. à comu­ nidade. determinando-lhe tarefas e direcções. em face dos malefícios decor­ rentes de tal prática. poderíamos verificar entre nós e no mundo inteiro que o saldo de benefícios realizados pelo segundo é muito maior do que o oferecido pelo Estado. da gestão realizada pela própria população através de seus organismos de criação popu­ lar. por intermédio de grupos de pessoas dedicadas ao bem comum. Muito maior propaganda obtêm as ingerências do Estado na vida económica do que as obras de gestão li­ vre. ou seja. directa e privada. o nazismo e o fascismo. como: a) o interesse político e eleitoral daqueles que promovem tais ingerências. burocratizado. e também de si mesmos. Contudo. A primeira é assim empregada para apontar todas as iniciativas extra-estatais. ressurge um movimento de grandes proporções em favor da gestão directa. mas substancialmente viciada por diversos efei­ tos que lhe são inerentes. Quantas coisas grandiosas permanecem em si­ lêncio. trazendo em alguns aspectos grandes benefícios. Muito mais fêz pela humanida- . à mesma fi­ nalidade. que também visa. Hoje. Dirigismo é a gestão indirecta permanente e constante. directa ou indirecta­ mente. o Estado absorve todo poder social. temos a privada e a pública. regulando-a. como organismo político e admi nistrativo. A intervenção do Estado na economia foi sempre praticada em todos os tempos numa gradação ilimitada. nos quais. apesar de muitos julgarem o inverso. Entre o que o Estado procura fazer em benefício da colectividade e o que a própria colectivida­ de faz. de certo modo. como é natural. verificamos que a maior soma de acções em todos os sectores tem a sua origem na gestão livre. Diz-se intervencionismo da prática accidental e descontmua do Estado em matérias em que se exige um poder maior capaz de enfrentar obstáculos que pa­ recem insuperáveis para a gestão directa. e orienta e comanda a vida económica. Se observarmos a vida económica. realizadas por homens bem intencionados. mas também foi a porta aberta a muitas brutalidades e abusos ainda mais clamorosos. co­ mo se verifica nos regimes chamados socialistas. para penetrarem na vida económica. absorvendo até em suas mãos toda a propriedade social. nem os meios de divulgação. de modo a tornar-se capaz de realizar. c) devido à complexidade do aparelha­ mento burocrático e da falta de um mais cuidadoso exa­ me e controle dos gastos.186 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 137 midores e os servidores contra a exploração tão típica da época do capitalismo paleotécnico. tendente a abranger todos os sectores possíveis de seu domínio. justificada por muitos teoricamen­ te. de espontânea promoção de homens decididos a realizarem alguma coisa em benefício dos outros. em graus maiores ou menores. que é um órgão emperrador. e o faz e fará muito melhor. Na gestão. que o Estado. ética e his­ tórica de um povo. social. é mister distinguir bem dirigismo e inter­ vencionismo.

uma infinidade de instituições livremente organizadas. a ges­ tão indirecta. mais espantados fi­ caríamos se meditássemos melhor sobre esses factos. para que todos compre­ endessem que. foram precisamente aquelas realizadas pela ges­ tão directa. mutilados. pela gestão di­ recta. hospitais sociedades científicas. que hoje é sem dúvida a arte de alcançar o poder e dele dispor. so­ ciedades de difusão de ideias constructivas. que são productos da gestão directa. o que é realmente evidente é que a gestão directa. que melhor papel desempenharam para atingir as suas finalidades benefi­ centes. tudo que o homem realiza pela gestão directa. escolas. que se vin­ culam em organização em todo mundo. do Estado. sociedades de proteção à infân­ cia. anciãos. ou ainda mais: que é êle o melhor agente para tais realizações. aos necessitados. sociedades be­ neficentes de toda espécie. poderíamos apenas citar as obras de carácter social e benéfica à colectividade. em que o exército é o próprio povo organizado mili- . reali­ zadas pela gestão directa. fá­ bricas. academias de ensino gratuito. No entanto. através de todos os tempos da vida humana. Estas organizações são muito mais numerosas e mui­ to mais eficientes que as estatais. Poucos terão presente aos olhos e ao espírito a grandiosidade em intensidade e extensidade das obras. compreende-se. Bastaria fomentar e promover uma tomada de consciência destas realizações.138 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 13» de essa gestão directa. Além das realizações de exploração económica sobre todos os aspectos de origem privada. sociedades internacionais. agrupamentos de ajuda mútua. desde logo notaremos que elas apre­ sentam uma gradatividade heterogénea. organizações de auxílio aos doentes. centros e socie­ dades esportivas. a Suécia e a Finlân­ dia. artísticos. obras realmente be­ néficas à colectividade. demonstra-nos a História que as obras mais salutares. Se nos dedicarmos a uma apreciação justa dos dois tipos de gestão. organizações de viagens e excursões. numa proporção imensa. do que a indirecta realizada pelo Estado. com excesso de epítetos. ora esta última au­ menta em percentagem. os centros culturais. asilos. porque os que desejam manter a posse e o usufruto do poder político têm naturalmente que infun­ dir nas multidões a convicção que só o Estado é o orga­ nismo habilitado a realizar. centros recreati­ vos. cooperativas de carác­ ter social e cultural. suplantou. as dispendiosíssimas e pouco productivas realizações estatais. Não vamos considerar as construções de casas. enfim. como as sociedades para o pro- gresso ou o fomento de algum bem de carácter superior. de atender a tudo quanto se refere às necessidades colectivas. grupos de aper­ feiçoamento das mais variadas disciplinas. sociais. o que revela de maneira insofismável que o ser humano é capaz. e inclusive a defesa da população contra possíveis ataques de potências estra­ nhas seria factível por meios de gestão directa. as organizações de proteção aos in­ teresses colectivos de toda espécie. Contudo. de ges­ tão directa com o precípuo fim de beneficiar a colectivi­ dade. o intuito de cobrir com o silêncio as gran­ des realizações de gestões directa. ora é quase total a gestão directa e mínima a estatal. com um pequeno esforço de cada um. filosóficos. Até a manutenção da or­ dem. em suma. bibliotecas. com isenção dos interesses que viciam as verdadeiras intenções. Há. Que nos regimes totalitários essa propaganda dirigida em favor da gestão indirecta domine. ór­ fãos. etc. como já verificamos em países como a Suíça. a prevenção da delinquência. da parte de muitos interessados na po­ lítica. através apenas das organizações de gestão directa. centros de amparo à mulher. se­ ríamos capazes de promover e realizar tudo sem excep­ ção que é mister para o bem colectivo. seja dominante. institutos para estudos económicos. concepção que domina muitos sectores é de que o Es­ tado o maior contribuinte em benefícios sociais. e exaltar. Mas.

como é o Estado que. de visão unilateral e egoística. podendo ainda. e como tal não ser um factor de encarecimento da vida. apossa-se de uma parte imensamente grande da producção total para cobertura de suas despesas. como: Correios e Telégrafos. que avassala as consciências humanas. consolidar. se quiséssemos citar os exemplos da Finlândia. que não se tome cons­ ciência de uma verdade palpável: a gestão indirecta é a fonte dos maiores males sociais e a grande promotora dos conflitos internacionais e das guerras destructivas. onde as Estradas de Perro são de gestão directa. na Suécia. 2 — por ser a menos dispendiosa. 4 — por ser ela uma escola de administração e estimular a preocupação pelos proble­ mas sociais e.140 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 141 tarmente. Energia Eléctrica. como para sustentar o grande exército parasitário dos beneficiados pelo poder e pela adminis­ tração pública. pelas seguintes razões: 1 — por ser mais eficiente e mais rápida. após esta tomada de consciência. e ampliar. da acção maléfica do Estado todo-poderoso. Islândia. mas que se lembre que faz parte duma comunidade. além de. familiares ou de grupo. É. permitir maior desenvolvi­ mento da cultura e a consciência de que é um ser útil à sociedade e não apenas um aproveitador da mesma. . Aqueles que afirmam que as grandes organizações de serviços pú­ blicos. Suíça. estimuladora do desespero moral e ético. etc. mister que o homem de hoje. E então. Estados Unidos. são rotunda­ mente desmentidos pelos exemplos que se verificam na Bélgica. de modo eloquente e decisivo de que a gestão directa é a mais hábil para promover o bem colectivo. dos estragos e da corrupção promovidas intensa e extensivamente pe­ la política. onde os outros setores também são de gestão directa. ar­ rebanha. que produz. oferecendo aos que acaso pensem em atacá-los. portanto. companhias de navegação. pois dá a cada um a consciência do seu de­ ver e da sua responsabilidade social. a incompetência proverbial dos homens pú­ blicos e a sua rara honestidade. da ofensa à sua dignidade. a certeza de que lhes custaria imen­ samente caro qualquer tentativa neste respeito. seguros so­ ciais que só o Estado é capaz de mantê-los. não só para atender os ganhos dos facto­ res de producção. com seu imenso exército de fun­ cionários. 3 — porque é a gestão directa eticamente a mais digna. Estradas de Ferro. na maior parte inúteis e improductivos. Todo aquele que trabalha. depois de ter assistido ao ignominioso espetáculo do totalitarismo. para que cada um não tenha os olhos voltados apenas para os seus interesses pessoais. como tem enfrentado. vem a certeza. potências maiores. ao la­ do da degradação do homem. dessa maneira. Nova Ze­ lândia. não deve esquecer que tem de produzir. cujos direitos deve respei­ tar. gozando de privilégios quase divinos.bem pagos. tão poderoso que poderá enfrentar.

e mostram o que concretamente podemos fazer fundados na nossa realidade. naturalmente uma influindo. escrevemos este trabalho. Impõe-se que estabeleçamos previamente certos princípios fundamentais para uma visão precisa da História. Dessa forma. superado a de mísero animal. Dessa forma. ac­ tuando sobre a outra. e dos acontecimentos dela decorrentes. há contemporaneidade entre a inteli­ gência e a actividade. quando esta não se caracteriza como huma­ na. cujos ter­ mos principais têm uma grande actualidade. de uma vez para sempre. "A gravidade do momento que atravessamos exige atitudes claras e um exame cuidadoso da realidade. se desejamos realmente contribuir com algu­ ma coisa em benefício do nosso país. as ideias po­ dem actuar sobre as relações de producção no convívio .A COOPERAÇÃO 80) Em 1951. porque lhe falta a organização inteli­ gente. Nunca teria o homem atingido a situação em que se encontra. se não fosse as­ sistido previamente pela inteligência. é preciso libertar o pensamento humano das falsas teorias que afirmam que a inteligência é um producto apenas da ac­ tividade. se não tivesse o homem a capacidade de criá-la. por sua vez. Por isso. A inteligência se manifesta na actividade e esta. Um símio não é capaz de progresso. desenvolve a inteligência.

Os homens podem e devem derivar. todas as ideias encarnadas em um homem. o que foi o epílogo sangrento e catastrófico do nazismo e do fascismo. que lhe é exibida deformada. Vimos. em que os sócios. O mesmo sucede com a direita. na esquerda. os partidários da mesma. Essa a razão por que a história é também a história das derrotas das grandes ideias. o qual. E qual o fim de todas essas formas viciosas? A ca­ tástrofe final à custa da vida e do sofrimento de milhões. ao reunirem-se. surgem logo os cen­ tristas. com a excomunhão. que polariza uma extrema direita e uma direita centrista. a fim de salvar a coerência que. em nossos dias (e ainda em nossos dias veremos outros). é falso e mal co­ locado: "ou capitalismo ou comunismo". e passa a tira­ nizar as consciências até dos elementos hierarquicamente mais elevados. Surge. mas até nas organizações comerciais e industriais. assim. Consegue. logo se polarizam em duas tendências: a da direita e a da esquer­ da. Quando uma ideia (partido político. inclusive inocentes. para equilibrá-las. que geram as formas vi­ ciosas de todas as ideias partidárias. tendente para o centro. por sua vez. a hipocrisia total ao lado do terror total. depois como a mais certa e a mais eficaz e. negociando sua influên­ cia ou. Só os ideais devem dirigir. muitas vezes. sempre composta dos ele­ mentos que procuram ter ligações ou servir de ligação en­ tre os pólos. forma-se. segun­ do as conveniências. Esse facto não é observável apenas no terreno das ideias. e até o sacrifício de seus membros. CAPITAL. desde logo. dirigir é pôr à frente dos ho­ mens um ideal. com um centro novo. Derivar é pôr ou tirar obstáculos a tudo quanto impede ou facilita a obten­ ção do ideal. Quando o homem pro­ põe ideias sem base real está sujeito a criar o que geral­ mente chamamos de utopia. divinizando-o até. imposta. Fatalmente. final­ mente. como os outros apresentados na história. e aproveitadores das situações. se vê obrigada às grandes depurações. Na verdade. um cen­ tro para equilibrá-la. em que é essa apresentada como certa e eficaz. E utopias têm sido todas as doutrinas pregadas. Dois aspectos são ainda importantes: o da direção e o da derivação. O mundo actual parece dividido ante um dilema. Corroída pelas lutas internas. que. realista. como a única certa e a única eficaz. TRABALHO E NATUREZA A observação dos factos que se desenrolam exige uma visão objectiva.144 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 145 social. normalmente. isto é. então. em colaboração com os outros. como estas sobre aquelas. porque os que não sáo dirigidos por ideais perdem-se nos meios e neles perecem por ausência de um fim. são os pon­ tos de convergência dessas polarizações. é comum estructurar em torno de um homem uma auréola de infalibilidade. Como. Estabelece uma disciplina rígida. e persegue todas as ou­ tras como hereges. São tais factos importantes. quer ser absoluta. . não fundadas na realidade. impedindo que co­ nheça a realidade. Sobrevêm a fase da doutrina. Quando surge uma ideia. a esquerda se polariza numa extrema esquerda e numa esquerda centrista. os quais são sempre usufrutuários do pres­ tígio que gozam junto ao chefe. o chefe. quase sempre fiéis da balança. não possui. em geral) che­ ga a este ponto. E para co­ roar a marcha. e ter um final trágico e espetacular. mas quando actuam como dirigentes. levam os povos fatal­ mente às grandes derrocadas. é cercado por uma camarilha que o envolve. tendem a cumprir seu ciclo vicioso. Desde tal momento.

dizem. os homens praticam relações so­ ciais positivas e outras opositivas. Assim o feudalismo é a forma viciosa do predomínio dos detentores da Natureza. Em todas as eras. A COOPERAÇÃO DOS FACTORES Nas suas relações. ou também chamadas negativas. como o faz a Economia. também se verifica a luta em nome da terceira posição. aproveitando a melhor parte do producto em seu benefício. como realmente acontece. inversas. Considerar. O capitalismo. parecem conter toda a verdade. e uma parte se beneficia com o prejuízo da outra. não. que leva­ da ao terreno económico. é reduzir a Economia a uma ciência abstracta. e o são por terem necessidades que pre­ cisam ser aplacadas sob pena de perecimento. As relações so­ ciais opositivas manifestam-se pela competição. porém. na realidade. o Trabalho e a Natureza são factores imprescindíveis da producção. Assim como tivemos o predomínio dos detentores da Natureza sobre os outros. O socia­ lismo seria a forma viciosa do predomínio dos detentores do Trabalho. que os detentores do Capital. e a terceira pelo socialismo autori­ tário. pode acontecer que. Se os detentores desses factores são representados por indivíduos diferentes. muitas vezes antagónicos. po­ demo-lo fazer através do espírito. no apoio mutuo. Não esqueçamos que todos os detentores desses três factores da producção igualizam-se num ponto: são to­ dos consumidores. A primeira fase seria representada pelo feudalismo. e como hoje assistimos à subordinação do Trabalho e da Natu­ reza ao Capitai. Observadas superficialmente essas afirmativas. que lhe ficaram subordinados. enge­ nhosamente expostas. Conside­ rar qualquer desses factores isoladamente dos outros. o que aliás nos mostra a Histó­ ria. que transparece em grau técnico inferior na forma de pro­ ducção artesanal. se trouxe benefícios em certas . uma por exercer o domínio completo sobre as outras. Não há producção sem Capital. disponham eles de poder suficiente para exercer sobre os outros um papel dominante. sua colocação é absolutamente falsa e deformante da realidade. do Trabalho e da Natureza. os homens sempre desejaram man­ ter relações sociais positivas. e opositivas aquelas em que tomam posições antagónicas. veremos a predominân­ cia do Trabalho sobre o Capital e sobre a Natureza. porém. No entanto. São positivas aquelas em que ambas as par­ tes têm vantagens iguais. Se as duas primeiras formas já se deram na Histó­ ria e às vezes coexistem numa luta desesperada. se todos os indivíduos são consumidores. alimentado pela própria divisão do trabalho. como o mostram os ideais religiosos. assistimos à realiza­ ção de uma forma viciosa. a segun­ da pelo capitalismo. condi­ cionada pelas contingências existenciais. As relações sociais positivas fundam-se na coopera­ ção. em breve. a forma vi­ ciosa do predomínio dos detentores do Capital. nem to­ dos são productores. Esses ismos são revelações de formas viciosas. por não se ter consti­ tuído. na sociedade. qualquer dos três factores como autónomo. Mostra-nos a história económica. como se dá. Nesse caso. No en­ tanto. no en­ tanto. aquela harmonia perfeita desejada. como as relações de cooperação. Trabalho e Natureza.146 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 147 É uma banalidade económica afirmar que o Capital. que tem fundamento biológico e so­ cial. E já vamos mostrar por quê. uma espécie de domínio sobre os outros. condicionados co­ mo estavam por factores que geraram interesses diversos. mas nem sempre o fizeram. exercem.

Essa fase domina até meados do Sé­ culo XVIII. posteriormente. que também têm suas reivindicações ante a nobreza. Com a Revolução Industrial. acrescentou uma quarta divisão. com o apoio mais ou menos firme dos elementos capitalistas. com a predominância dos primeiros a princípio e. Em seu estágio mais elevado. formando uma unidade mais ou menos coeren­ te. mas a co­ operação. vem aumentar a população dos grandes centros industriais. entre capitalistas (burgueses) com a grande massa para arrancar o poder aos aristocratas (Revolução Francesa). A técnica tem quatro fases princi­ pais: a eotécnica (eos em grego quer dizer aurora) ou au­ rora da técnica. que se organizam em sindicatos de classe. antigo) técnica an­ tiga. a nova técnica e. levam à perma­ nência dessa forma bárbara. para o seu equilíbrio. e eco­ nómico. sobretudo. as bases do proletariado mo­ derno. As actuais condições da técnica e da producção exi­ gem. posteriormente. que só vão con­ quistar o poder político já em fins do século XVIII. os capitalistas e os arte­ sãos. não a competição. diferenciando-se dos companheiros e aprendizes. cidades sujas. pode dar-se a união. cuja . uma série de contingências. e a presença teimosa de interesses e situações criadas. e surgem as grandes cidades. surge a paleotécnica. As lutas do interesse exacerbam-se aí e. O capital. do carvão. que se forma nessa fa­ se. quando se dá a chamada Revolução Indus­ trial. finalmente. Nunca o espírito humano poderia conceber o excesso de exploração das fábricas. No entanto. e foi modelado pela acção dessas formas da técnica. companheiros e mestres. à semelhança dos burgueses. nas mãos dos feudais. posteriormente. tendo. a biotécnica (bios. surge a possibilidade das grandes concentrações industriais. Se durante o período da eotéc­ nica há forte exploração das camadas mais pobres em benefício das mais poderosas. sobre o mercantil. O PAPEL DA TÉCNICA efectivação se dá após a Grande Revolução Francesa de 1789. nessa fase surge a maior exploração que se conhece na História. Lewis Munford. O despovoamento do solo.148 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 149 épocas históricas. de ricas lições para uma compreensão científica dos problemas sociais. Na fase da eotécnica. que vão constituir. Na eotécnica. as corporações são formadas de arte­ sãos divididos em aprendizes. o industrial. e. Estes últimos. cujo marco mais sim­ bólico é a máquina a vapor. arrastando atrás de si o cau­ dal de suas misérias. esses elementos. influído nelas também. como se deu. neotécnica. em que. graças à energia transformada da madeira. do petróleo. e das cidades-carvão. também se organi­ zam em sindicatos para a defesa de seus interesses. infectas. Na fase eotécnica. subdividido entre estes. O capitalismo industrial é ainda incipiente. passa a concentrar- É de Patrick Geddes uma divisão da técnica. O capitalismo. temos o aproveitamento da força da água ou do ar (moinhos de água e de vento). é comercial ou financeiro. natural­ mente. a pouco e pouco. Nessa luta. que preponderam. fase da humanização da técnica. com a dos capitalistas. praticamente. O trabalho é escravo ou livre artesanal. vão se tornando os ca­ pitalistas industriais. ain­ da nas mãos dos feudais. O capi­ talismo surgiu várias vezes na História. noutras produziu mais males do que bem. e unem-se aos mercantis e aos fi­ nanceiros. por sua vez. o Estado é dominado ainda pela aristo­ cracia. Nessa fase ainda se fortalece mais o capitalis­ mo financeiro. vida). a força motriz é a força humana e a dos animais. Nessa fase. o poder temporal está sub­ dividido em poder político. então. disperso na primeira fase. paleotécnica (paleos.

é olhado agora como consumidor. que. O proletariado. que só têm uma finalidade: o lucro até o infinito (lucrum in infinitum). E a razão é simples: é que a críti­ ca marxista. há ainda a pre­ sença de formas eotécnicas e paleotécnicas. as ideias revolucionárias do socialis­ mo autoritário e. como se verifi­ cou. que o centraliza. permite o desenvolvimento crescente da humanização do trabalho. para que se dê a evasão da producção. e os choques sociais atingem o seu clímax. e de tal forma. que nos países paleotécnicos encontra campo de acção. novas descobertas. mas. formando-se os grandes grupos capitalistas. o marxismo. e o desenvolvimento de uma série de no­ vas descobertas químicas. O Estado que na eotécnica. constantemente. Enquanto foi longo o período eotécnico. mas o poder político é quase totalmente assenhoreado pelo Estado. que uma visão real dos acontecimentos levasse a Marx a acreditar que os factos se processariam na ordem que surgiram. intervindo como detentor do capital. É natural. O ser humano é esquecido em sua dignidade. na paleotécnica. passa a autonomizar-se. e principal. O poder político passa para a burguesia. não para os outros. fundava-se sobre factos. o desejo de independência actualiza-se «ra lutas terríveis. e mais curto o paleotécnico. sempre crescente. mas para si. perde. o poder económico é partilhado entre o Estado. e o poder eco­ nómico é partilhado entre ela e os remanescentes feudais. a conquistar o ócio e meios mais hábeis de divertimentos e de culturalização. O poder político desloca-se. pois o prole­ tariado da neotécnica tende a desproletarizar-se. sua força nos países neotecnizados. e preparar o advento de novas formas. A tendência é sempre para a centralização. que o marxismo. que abrem um ciclo ainda não encerrado. O marxismo. e o aspecto do mundo to­ ma nova côr. A América independente penetra no caminho da própria autonomia. entre essas. e empobrecimento cres­ cente de quase todos os outros. Surge a neotécnica. da burguesia. As revoluções havidas inverteram as polarizações de poder. No entanto.150 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 151 -se também. enriquecimento crescente de uns. Na fase de predomínio neotécnico. na producção. são essas vencidas pelas da neotécnica. É preciso melhorar-lhe as condições culturais e económi­ cas. mas. Enquanto a paleotécnica é a fase do desperdício. com o domínio quase total do primeiro. Dessa forma há possibilidades de melhorias extraordinárias dos salários. a eotécnica é a do melhor aproveitamento dos bens. o capitalismo financeiro passa a predominar sobre o capitalismo industrial e mercantil. que penetra vi- . As condições sociais se modificam. Só na paleo­ técnica havia possibilidade de conservarem-se as formas de colonialismo dos povos mais atrasados. era um servidor dos interesses dos dominadores. por influência do espírito de centralização da paleotécnica. que vão alargar as possibilidades. isto é: máxima concentração do capital. graças à possibili­ dade da transmissão da força. a pessoa humana é reduzida a número. estava preso aos factos de então. nesta. e os capitalistas. Nesta fase. e torna-se um po­ der. e surgem. menor ainda é e será o neotécnico. que aplica a incorporação do inorgâ­ nico ao orgânico. que permite uma indus­ trialização maior. como producto dessa época. na neotécnica funda-se apenas sobre ideias. É que a biotécnica. a colocação de fábricas nas fontes de matéria prima. nessa época. que é uma fi­ losofia do proletariado da paleotécnica. que aos pou­ cos a êle se subordina. e o proletariado passa a ser cliente. A luta de classes agrava-se natu­ ralmente. Mas. eis que surgem novos factos. E filiando-se ao capitalismo financeiro. que na paleotécnica era apenas um instru­ mento de trabalho. é senhor da situação. a alcan­ çar a autonomia individual e a familiar. Nesta fase.

Sim.152 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 153 toriosamente. na Suécia. Assim a política é própria da paleotécnica. como a da paleotécnica. obriga os bol­ chevistas a certas modificações de propaganda. vê-se que a divergência. segue aquelas normas. Assim. nos Estados Uni­ dos. a Inglaterra. não tendo iniciado ainda nenhuma reforma na indústria a caminho da humanização do trabalho. desvian­ do para o terreno internacional a crítica sem bases só­ lidas no terreno nacional. que nesta fase é a mais desenfreada. permite a instalação mais há­ bil de formas de cooperação. A ad­ ministração. Colocado o problema económico e histórico neste pé. A política é arte. não se deve mais confundir uma com a outra. toda vez que os capitalistas de mentalidade paleotécnica exer­ cem uma exploração. de apoio-mútuo. por não poderem negar o alto padrão de vida e de liberdade do trabalhador americano. e trabalha. esqueci­ das na fase da paleotécnica. na neotécnica. desde logo. exige. E ao mesmo tempo as exigências da cooperação gestam os grandes movimen­ tos de bairro. Nos Estados Unidos. é tal o desenvolvimento hoje de formas de cooperação. Podemos considerar a Holanda até o sé­ culo XVIII como o país típico da eotécnica. realizam eles uma propaganda bolchevista maior que todos os dis­ cursos de seus sequazes. transformado em estacanovismo. já minorada pela neotécnica. etc. Tanto o Trabalho como a Natureza e o Capital podem tomar função social. com juízos de existência. a que ora assistimos. os Es­ tados Unidos. a neotécnica em sua marcha para a biotécnica. A política. que é diverso daquele. engloba o neotécnico. dadas às liga­ ções mais directas da producção. sobrevivente ainda graças à predominância da mentalidade paleotécnica. Tudo se prepara para evidenciar que o marxismo foi ape­ nas uma filosofia paleotécnica. graças à Técnica. predispõe a valori­ zação das ideias de cooperação correspondentes. aumentam o custo de vida. os in- . como a administração o é da neotécnica. que vemos ali dezenas de compa­ nhias de petróleo. Por isso a política é campo de divergências. representado pelo marxismo. A energia atómica será a energia predominante desta nova fase. que no seu afã de combatê-lo. Um país. a qual per­ mitirá uma descentralização ainda maior da indústria. por exemplo. e como arte trabalha com juízos de valor. universalmente válidos. a cooperação que. ao estabelecer-se em relações sociais positivas. actualmente. da revolução industrial. E como não podem fundamenta-se na exploração desenfreada interna. Mas o espírito de competição e de lucro desenfreado ainda predomina. já predominantemen­ te neotecnizado. por não poder formar juízos universalmente válidos. O marxismo é apenas uma reac­ ção à exploração desmedida da paleotécnica. a Suécia. e morrerá com a des­ truição desse espírito. co­ mo se processa. de mutualismo. é superada pela adminis­ tração. A supervivência do marxismo se dá graças à existên­ cia da mentalidade paleotécnica de grande parte do ca­ pitalismo e dos homens públicos. como nun­ ca conheceu em sua história. afirmam apenas o papel imperialista. sobretudo em paí­ ses como o Brasil. co­ mo o iniciador prático da biotécnica. A neotécnica. da neotécnica e. A própria Rússia ainda é um país paleotécnico e a sua indústria. torna-se ciência. embora aplicando a electricidade. empresas agrícolas. como os Estados Unidos. e harmonizarem-se com o natural desaparecimento do capita­ lismo paleotécnico explorador e de seus apêndices. genuinamente paleotécnico. aproveita as lições do taylorismo. e dos elementos que a compõem. E esse espírito fortalece o bolchevismo. grandes indústrias. bancos pertencerem a cooperativas. Des­ sa forma. predomina sobre a administração. é a de uma reacção ao capitalismo paleotécnico de um lado.

Só pelas formas de cooperação entre productôres e consumidores se pode resolver esse quisto perni­ cioso. e ambos ocuparão o seu lugar correspondente no museu. na Rússia. que passam a ser donos também do que produzem. paleotècnicamente. suga de um lado e de outro. quando. o fautor de uma situação de mal-estar social. Desaparece o espírito de competição. A cooperação surge. grupos de compra. socieda­ des de Producção e Trabalho. que entre nós são os maiores beneficiários entre a Producção e o Consumo. Uma nova moral surge então: a moral da cooperação. de outro lado o Consumo. encravado entre a producção e o . por meio dos buro- É falso. apenas dirigida pelos interesses de grupos restritos. para sobrevir uma nova ordem social que ampare os interesses de todos. muitas vezes. dentro das formas de cooperação. e que. for­ mas de exploração capitalista paleotécnica. Despovoa a terra. e o comunismo é o seu filho rebe­ lado. evitando. pois. que acoberta. há um dirigente para cada onze trabalhadores. sociedades de apoio-mútuo. humanizando o trabalho. A Rússia. NOSSA SITUAÇÃO consumo. forma­ da pelo Capital. e empobrece a cidade pelo aumento do preço. Desaparecida a exploração paleotécnica. que deverão substituir a forma unilateral da sociedade capitalista paleotécnica. por isso. que pertence a todos. que dele não precisam. ape­ nas consumidores. a formação do Estado-patrão do bolchevismo. O papel do intermediário-encarecedor. nos Estados Unidos. conjugando. e acaba por tornar-se uma forma vi­ ciosa pior do que as outras. (que concentra em suas mãos. o productor. assim. o dilema apresentado: capitalismo ou comunismo.154 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 155 termediários-encarecedores. melhorando a sua situação pela ausência de um sanguessuga. desaparece o comprador e o vendedor do trabalho humano. como uma necessidade histórica. para surgir a sociedade cooperacional. resolve imediata­ mente seus problemas. O estabelecimento de formas de cooperação permi­ te a solução de tais problemas. desaparece o bolchevismo automaticamente. Há. desde logo. a fim de assegurar seus lucros desmensurados. mas essa intervenção deu-lhe tal fortalecimento. pela exploração dos agricul­ tores. Quis o Estado intervir como elemento coordenador desses factores. em certos países. Falso. que o tornou supinamente maléfico. para benefício de todos. É que o Estado burocratiza-se monstruosamente. que destina. porque o capitalismo de que aqui se fala é o paleotécnico. país de produc­ ção mais cara do mundo. cooperativismo são e não de cooperativismo híbrido. Por outro lado. é o exemplo maior da degeneração paleotécnica. porque podem perfei­ tamente harmonizar-se entre si. etc. sem sacrifício de nin­ guém. o único comprador do trabalho humano. Assim coloquemos de um lado a Producção. que é predominan­ te na paleotécnica. pode penetrar na neotécnica e na biotécnica. como entre nós. se. A actividade dos trabalhadores. os bens pro­ duzidos. excrescência sobretudo paleotécnica. Visando apenas aos próprios lucros. melhorando sensivelmen­ te a posição dos trabalhadores. Trabalho e Natureza. a média de um dirigente pa­ ra cada três trabalhadores. Pelo cooperacionismo. que acoberta em suas oficinas milhões de burocratas. o po­ der económico e o político). co­ mo o nosso. devido à intervenção do Estado.

As formas de producção e as suas relações. é as­ segurar sua maior productividade. que acei­ taram tais ideias. Utilizá-lo. que. A HUMANIZAÇÃO DO TRABALHO A organização do trabalho foi sempre um tema que preocupou seriamente os trabalhadores inteligentes e to­ dos os que se interessaram pelo bem estar do homem.156 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 157 cratas do Estado e do Partido. que nos deu as formas super-civi- lizadas paleotécnicas do taylorismo e da racionalização. . a cooperação assegura a liberdade e a dignidade humanas. ante a realidade de sua época. O trabalho mecanizado mecaniza o homem. tornam o tra­ balhador mais activo. da vida trepidante de nossos dias. daquelas ideias que ha­ viam sido esquecidas nos turvos períodos do pleno domí­ nio paleotécnico. mais biológico portanto. assegurando nas oficinas um ritmo harmónico das máquinas e dos sons. penetramos em plena fase biotécnica. graças aos erros e defeitos das formas viciosas da paleotécnica. em que o trabalhador escolhia sua profissão. e permite a con­ creção de novas formas. não poderia ter outra visão. ricas de generosas possibilida­ des. por lhes ter faltado uma visão analíti­ ca dos factos históricos. sofrem a influência modela­ dora da Técnica. e em seu mis­ ter dava o melhor do seu esforço. Há entre os comunistas muitos homens sinceros (co­ mo os há em todas as correntes doutrinárias). à vida humana. Na verdade. a aceitação espontânea. A humanização do trabalho da biotécnica contribui para es­ sa dignificação sem prejudicar a productividade. tivemos a organização industrial do trabalho. Humanizar o trabalho é afastá-lo da rotina. Os ruídos de uma oficina. que é até aumentada. As experiências modernas da musicote­ rapia. O HOMEM É UM FIM E NÃO UM MEIO Nunca devemos esquecer essa grande verdade: o ho­ mem é um fim e não um meio. É preciso saber distinguir os fantasmas do que é pro­ priamente realidade. que só prevalece e se impõe. sua crítica ao ca­ pitai é paleotècnicamente justa. e colaborar para uma melhoria tó­ nica do homem. No en­ tanto. que lhes permitissem ver o pa­ pel extraordinariamente revolucionário da Técnica. nos mostram como a música pode curar tantos males. é torná-lo humano e agradável. por entre os benefícios de carácter social que apre­ sentaram.. nos ofereceram também uma exploração desen­ freada e estúpida do homem. no mundo actual. que produz. por exemplo. Marx. é ofender a sua dignidade. das ruas. A desarmonia do mundo paleotécnico é um verda­ deiro inferno para o homem transformado em peça de uma grande máquina. podemos e devemos dar um carácter orgânico. a qual promove verdadeiros saltos qualitativos. em todos os sentidos. Depois das formas humanas do artesanato. Com a humanização do trabalho. formam uma grande sinfonia dissonante. ameaçadas pelo totalitarismo desen­ freado. da repetição simétrica. torna-se o usufrutuário dos bens produzidos. e dos elementos científicos e históricos que dispunha. Dessa forma. transformá-lo em peça de um mecanismo. porque o ritmo é um tonificador da acção. As experiências modernas sobre o que se chama de "humanização do trabalho. cujas transformações permitem a actua­ lização.

Além disso. impediria al­ cançassem os postos de responsabilidade homens que não . da incultura e da falta de saúde. em regi­ me de caçadores de cargos electivos. e muitos ho­ mens dignos de nossa terra negam-se a ombrear com cer­ tos politiqueiros por questão de pejo. a elevação de homens dignos e competentes.158 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 159 O QUE SE DEVE ENTENDER POR DEMOCRACIA A palavra democracia terminou por ter o destino de todas as palavras: perdeu seu legítimo sentido original. o fosse para pior. nós não podemos continuar imi­ tando as práticas de outros povos. não lhe permite aspirar à responsabilidade. ADMINISTRAÇÃO NEOTÉCNICA Dadas as nossas condições de cultura. o analfabetis­ mo. Dado o número restrito de elementos de real competência intelectual. A democracia representativa é uma organização. o Brasil é um país que defronta um dos maiores problemas. mas dos representantes do povo. os políticos mal intencionados não os quereriam por serem incómodos. Ora. Dessa forma. apesar das hon­ rosas excepções de homens bem intencionados. o qual consiste na carência de homens sufi­ cientemente hábeis. com o aproveita­ mento de todos os elementos de real saber para penetrar­ mos na neotécnica e na biotécnica. Se essa política paleotécnica é prejudicial em países que já alcançaram um nível de cultura elevado. Além de aumentarem o desvalor de muitos guindados aos altos postos. Portanto. mas a inércia. entre nós traz e trará maiores males. a organização administrativa. não pac­ tuariam com certas indecências. A índole pacífica e hospitaleira do nosso povo é realmente democrática. decorrente do analfabetismo. Falar de certos homens públicos. É povo fatalista. sob base meramente quantitativa. deixar de fora dos lu­ gares correspondentes os que realmente são os indica­ dos para os mesmos. No entanto. que visam ao bem de seu povo. esses valores são desconhecidos do povo. com toda a degene­ rescência consequente dos que transformam os meios em fins. Nosso processo eleitoral. não sob bases propria­ mente políticas. seria até mau gosto. negativa até. por injunções e interesses partidários. Aceita factos consumados. escolhidos pelo sistema mais falso e mais prejudicialmente selectivo. nunca serão elevados aos altos pos­ tos. e frus­ tra a acção desinteressada e honesta daqueles homens pú­ blicos. nem se prestariam a cer­ tos manejos. A política favorece a investidura de autoridade. Tornou-se. a pouca amplitude de nossos conhecimentos mé­ dios. porque eles não buscam a no­ toriedade. porque todos sabem como essas notas são marcantes da nossa política. O Brasil tem condições ainda fracas para formar uma democracia. enquanto conti­ nuarem essas condições. Temos de organizar a nossa vida econômico-social. de sua venalidade e de sua incompetên­ cia. e permite a pessoas inábeis guindarem-se a postos de grande responsabilidade para os quais seriam exigíveis conhecimentos amplos. que se vêem coarctados pela acção dissolvente dos politiqueiros. está vedada. mas administrativas. a exiguidade quantitativa e qualitativa de nossas es­ colas. de verdadeira representação popular. sob a base eleitoral selectiva e qualitativa. o problema da autoridade no Brasil é o mais complexo. não do povo. Essa realidade triste de nossa terra é pró­ pria do espírito paleotécnico que ainda a domina. Tais condições permiti­ ram que o sistema de representação. que devera ser se­ lectivo para melhor. A selecção de valores será sempre frustrada. Por isso. permite uma selecção inversa. Não podemos. e exige uma solução que se enquadre dentro das nossas condições.

a reacção correspondente tinha de tomar a forma de uma destruição extremada do individualismo. Como o capitalismo paleotécnico é totalmente vertido para um individualismo extremado. porque também. que elege. resolveria um dos nossos maiores problemas. Há médicos. mal orientada. ESPIRITO PALEOTÉCNICO É natural que ante as injustiças do capitalismo paleotécnico e de suas formas de exploração. O poder. a autorida­ de do médico. e que não o fazem pela simples razão de serem avessos. de população reduzida e de capitais escassos. É sobre esses pila­ res que temos de construir a nossa humana visão das coi­ sas.160 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 161 estão à altura dos mesmos. técnicos. em outras partes. no bolchevismo. os represen­ tantes que lhe convêm. com . Nessas condi­ ções. por intermédio dos quais se processa a ditadura. a ser. Nós. mal feita. porque tem suas pro­ fundas raízes também na alma de nosso povo. estimulada na e pela neotécnica. fizeram-no tris­ te. é uma acção aplicável a todas as regiões do mundo. E no Brasil se impõe. tem servido para fortalecer o movimento bolche­ vista. por todos os quadrantes de nossa terra. Somos um país de grande extensão territorial. nascem e vivem numa simbiose impressionante. Por isso. refrac­ tários à política. em nome do proletaria­ do. que dirige atrás das cortinas o Estado. por exigência das realizações técnicas. que não seja uma cópia das construídas em países de características diversas. é um povo fraternal por natureza. Herdamos aquele coração dos portugueses. realmente. não mais dirigido e orientado pelos capitalistas. por seus fundamentos científicos e filosóficos. engenheiros. mas pelos elementos burocratas do partido. necessitamos da presença de todos os brasileiros cultos para essa obra grandiosa. Para construirmos um novo Brasil. a liberda­ de do índio e o estoicismo do negro. advogados. inculta. apático até. do engenheiro em seus misteres. O brasileiro é um povo amante da paz. uma boa forma de defender. A organização. graças aos seus meios de propaganda. mas conserva e permite de­ senvolver um conteúdo nacional. passa. a cooperação é uma solução bem nossa para problemas nossos. inerente. porque atacar mal é. onde julgam dar-se uma experiência socialista. Pode ter uma forma internacional. neces­ sitamos da construcção de uma visão genuinamente nos­ sa. e pode projectar-se como uma solução de confraternização dos ho­ mens em todas as partes do mundo. A cooperação. os olhos de muitos se volvam para a Rússia. que gostaria de derramar-se em manifestações afectivas mais amplas. e que expres­ sa o espírito cooperacionista do brasileiro: "dar a mão ao amigo". como por exigência económica. não só por exigência técnica. a primeira forma viciosa encontrou pela frente ou­ tra forma viciosa. como propomos. mas um colabora­ dor por natureza. A contingência de sua vida e de certas condições históricas. selectivamente organizada. que poderiam dar par­ te de sua actividade em benefício do bem comum. professores. brasileiros. por exemplo. em que um se alimenta do que outro dejecta. substituindo-a pela autoridade funcional. Capitalismo paleotécnico e bolchevis­ mo são consanguíneos. Sobretu­ do daria uma solução cabal à autoridade investida. sob base de representação das capaci­ dades reais. O brasileiro não é um competidor. Há uma frase que corre de boca em bo­ ca. Uma propaganda anti-russa. a cooperação se impõe cada vez mais. que está nas mãos do capitalista pa­ leotécnico.

que o bolchevismo é apenas a identidade inversa do capitalismo paleotécnico. é claro e patente. e alimenta com seus erros a propaganda bolchevista. que é a biotécnica. E conosco estão professores. aquela humaniza­ ção. donas de casa. e também oferecem seus esforços a esse am­ plo movimento. que é. que elas geram. avas­ salando amplos sectores. que deseja fazer o contrário do que é feito.162 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 163 a substituição dos capitalistas. no entanto. médicos. no entanto. Enquanto o capitalista tem de ser. é um ideal de reacção. nobre. unindo suas fraquezas pa­ ra torná-las força. por índole. . Todos os homens responsáveis se preocupam hoje em dar ao trabalho aquela alegria sempre reclamada. a viga mestra do que há de melhor em nossas almas. engenheiros. no intuito de adquirir uma fortuna mal fundada e inconfes­ sável. vencendo os obstáculos dos céticos e dos indiferentes. "Que importa é o dinheiro": essa frase é bem o reflexo dessa hora. Capitalistas bem inten­ cionados já compreenderam a marcha imprescriptível do progresso. sociedades de traba­ lho e capital. todas as for­ mas que a cooperação apresenta como as bases funda­ mentais da transformação da neotécnica na fase mais progressista. a livre escolha da profissão. o surgimento da biotécnica. o bolche­ vismo só pode tornar-se num regime de ascendente falta de liberdade. que são liquidados. homens e mulhe­ res de todos os matizes. que a neotécnica firma suas bases ideais ao lado das bases reais. sem. As­ sistimos à prática quotidiana de um "rush" desesperado ao dinheiro transformado em fim. que completa perfeitamente o ciclo da neotécnica. quem pode impedir o progresso do bolchevismo? Combater o espírito paleotécnico e suas bases reais é uma imprescindibilidade. cada dia que passa. sem dúvida. fundando co­ operativas. aquela harmoniza­ ção dos esforços e dos movimentos para um equilíbrio di­ nâmico criador. Hoje. eleva-se de forma empolgante. sem o menor respeito aos meios. o momento exige a libertação to­ tal dos fantasmas do dilema: capitalismo paleotécnico e bolchevismo. nos mostra paten­ temente. Em face de tais atitudes e das in­ justiças. de producção e consumo. homens se erguem nes­ sa obra imensa de cooperação. do trabalho e da vida. fustigando com energia a concupiscên­ cia do paleotécnico desenfreado. advogados. O desejo de paz que anima os homens só se pode concretizar através de uma obra social benéfica. Por outro lado. operários. pequenos comerciantes. porque do contrário não poderia estabelecer-se a complexidade da troca e das relações cor­ respondentes. perder a similaridade com o con­ trariado. sacerdotes. etc. e por um grande querer humano. Nes­ se caso. aquela humanidade pre­ gada pelo cristianismo. saudável. etc. com seu espírito eugênico. mais ou menos liberal. as famosas teses de Abril. O que ora se observa no mundo. vigora ainda. A neotécnica. apelando para o povo pa­ ra organizar-se em função administrativa. Compreendem todos que o mo­ mento exige uma acção imediata. Basta ler-se a literatura bolchevista antes da revolução de outubro (por exemplo. aquele prazer do artesão amante de seu mister. sociedades de compras. Mas é preciso mais! É preciso que o espírito biotécnico já se forme numa antevisão do que será a sociedade humaniza­ da de amanhã. em todos os sectores. aquela eugenia anelada desde os gregos. precisa ingressar vitoriosamente em todos os sectores. nas quais se condensaram as promessas total­ mente incumpridas dos bolchevistas) para ver-se clara­ mente o desmentido da prática a todas as afirmações feitas. agricultores. em suma. O espírito paleotécnico. com o espesinhamento de toda decência. Por necessidade histórica.

respeitando as nossas condições. ambos. não trabalha com relações sociais opositivas. graças aos progressos da técnica. E esse caminho tem e deve ser trilhado. com sua visão deformada pelo ódio e pela concupiscência. graças à ciên­ cia. Pois é dado o momento de aprendermos com a His­ tória. na aproximação entre os homens. oferece-se para o mundo uma solução pacífica dos grandes problemas sociais. dois anacronismos na época pre­ sente. porque aí o vencido ganha pelo menos um novo conhecimento. Que­ remos. O homem da época napoleônica. Ora. se relatado em certas épocas. só trouxeram males e ainda amea­ çam trazer maiores à humanidade. A cooperação não tira nada de ninguém. alimentos. e as soluções podem ser imediatamente aplicadas. por uma hábil aplicação dos nossos co­ nhecimentos. podemos assegurar a todos. É a exclamação que há de ecoar pelo mundo inteiro. O problema da solvabilidade popular (isto é. e hoje. sem excepção: moradia. O medo ao grandioso. fundados na sua "realidade". nas relações humanas po­ sitivas. O capitalismo paleotécnico e o bolchevismo são ver­ dadeiras excrescências. Podemos e devemos competir onde a compe­ tência não é destructiva: no mundo das ideias. * * * . sem sacri­ fício de ninguém.164 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 165 Nem um nem outro! É a exclamação de todos. educação e diverti­ mentos. Temos do nosso lado a técnica científica. o homem da guerra de 70. que é a Técnica (que é uma unidade harmónica da inteligência e do traba­ lho). Não é essa a primeira vez que o homem realiza o que seria loucura. podemos afirmar sem receio. a mais audaz ficção. da ca­ pacidade acquisitiva da população) mereceu estudos es­ peciais. devora muitas cons­ tituições mesquinhas. instrução. O medo de ultrapassar a si mes­ mo impede a muitos de empreenderem a marcha supe­ rior. roupa. nas sociedades poderosas de Producção e Consumo. sucede que a cooperação já provou através dos tempos muito das suas possibilidades. na sua experiência. sem grande esforço. que a mais escaldante imaginação do homem antigo. a cooperação natural do homem não pode ser impedida. as sociedades que virão unir os homens. E não é preciso ir muito longe. os benefícios da neotécnica já apoiada no cooperacionismo da biotécnica. se recordarmos tudo quanto o ho­ mem já sonhou. o medo ao extraordinário. Assim tais factos nos mostram como é quase sempre ingénua a atitude dos que. graças a esse imenso factor da história moderna. Não é essa a primeira vez que a realidade supera a imaginação. término do capítulo das com­ petições para abrir o da grande cooperação económica dos povos. O MEDO AO GRANDIOSO Se nos lembrarmos de como Leonardo da Vinci ima­ ginava o vôo humano. que unirão a todos. querem negar a possibilidade de no­ vas formas e de novas experiências. o sonho mais quimérico estão muito aquém do que a humanidade realizou através da aviação. No mundo da economia. entre a Alemanha e a França. sim. as quais diferem das velhas práticas que só arrastam ao aumento do custo da vida e ao consequente estagnamento da producção. nunca poderia imaginar o avião moderno super-sônico. Ante a luz poderosa das novas ideias e das novas práticas. e pode realizar muito mais do que a mais escaldante e atrevida imaginação pode criar. na ampla cola­ boração de todos os esforços. Apenas quer fundar. e não termos medo de superar-nos. e que fundarão o respeito à dignidade humana. Graças aos grandes inventos.

Deve oferecer seu apoio. A melhor propaganda é a do acto e a cooperação só pode impor-se pela prática. além de ig­ norantes. no Brasil. não de competições. passando da eotécnica para a neotécnica. Devemos procurar construir um novo Brasil. quer em qualquer obra de cons­ trução. da mentalidade capitalista paleotécnica e de certa influência alienígena. Devemos estimular a transformação de nossa producção paleotécnica em neotécnica inaugurando-a com a acção combinada de médicos. e que êle depen­ de apenas da boa vontade dos homens. e aproveitar a oportunidade para pregar imediatamente as ideias de cooperação. prática e objectivamente. de todos os quadrantes do país. a Finlândia (essa eterna resistente ao espírito paleotécnico dos bolchevis­ tas). quer unir. se unidos na obra do plantio e da colheita. não de aventurismo político e económico. mas em actos. Cada um deve reunir-se aos seus afins. e actuando livre­ mente dentro do seu âmbito. assim como a liberdade só se torna prática. Os pequenos camponeses. Não po­ demos dar um amplo apanhado das possibilidades de nos­ sa prática. e organizar gru­ pos autónomos que estabelecerão um programa de acção. e a bolchevista. Cada um já pode realizá-la em seu âmbito. Não quer separar. Há inúmeras formas práticas de cooperação que po­ dem ser executadas em qualquer lugar. que pode­ mos estabelecer. por exemplo. em face das grandes experiências já realizadas e da riqueza de nos­ sa terra. com imediatos efeitos. quer na colheita. Não esqueçamos que os aspectos negativos e dissolventes a que assistimos hoje em nossa vida são alimentados pelas duas mentalidades que devem desaparecer: a paleotécni­ ca. Assim como a Holanda pôde livrár-se da paleotécnica. que temos um futuro a realizar. dar o grande salto qualitativo que nos leve das formas eotécnicas para as neotécnicas. poderiam multiplicar suas for­ ças. filhos desta terra e dos que a escolheram como a sua nova pátria. no caso da agricultura. aos que aceitam também nossa prática. a mais ampla humanização do trabalho. por todos anelada. O cooperacionismo apresenta um campo de acção e pro­ move fórmulas que podem desde logo oferecer benefícios ao povo. O cooperacionismo não é partido político.166 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 167 A cooperação pode ser posta em prática imediata­ mente. com seu desejo de lucro insaciável. podemos nós. mas todos podem perfeitamente ver. aproveitando os exemplos das grandes obras já realizadas nos países mais avançados. e mostrar que todos unidos podem realizar muito em seu benefício. quer no plantio. Será acção combinada de homens responsáveis e bem intencionados. É prática social da cooperação. pela prática da pró­ pria liberdade. penetrar na senda de um progresso neotécnico. a Dinamarca. que impediram ao Brasil. a união não deve ser pregada em palavras. orientados pelas normas já dispostas. por um Brasil melhor. com a coadjuvação de políticos mal intencionados. com seus ódios correspondentes de reacção. psicólogos e trabalhadores. a Suíça. e destas à biotécnica. AOS HOMENS DE RESPONSABILIDADE DO BRASIL "O atraso técnico que conhecemos no Brasil decorre do espírito feudal eotécnico de certo agrarismo ainda es­ cravocrata. que custam a . e não esperar por outros para iniciar a obra de renovação so­ cial. O que mora nos campos tem muitas ocasiões de ofe­ recer seu auxílio a companheiros necessitados. a libertação económica de nosso país. como igualmen­ te o fêz a Suécia.

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carne dos pobres, mas um Brasil de cooperação, o verda­ deiro Brasil, que será um exemplo de paz para o mundo. O gigante adormecido, ridicularizado pelos explora­ dores, há de despertar. Não para forjar novas algemas, mas para libertar-se das que tem, e das que lhe querem impor. O Brasil assim colaborará com todos os países do mundo para uma nova humanidade. Não temamos criar. Não aceitemos a velha mentira de que somos incapazes de criar. Podemos construir, embora com poucos ao início, mas que serão milhões amanhã, uma pátria realmente fe­ liz, uma pátria de fartura, uma pátria de paz, a verdadei­ ra pátria do povo, que é aquela em que todos têm seus interesses ligados, cujos bens, cujos frutos são de todos os homens que trabalham para o bem de seus semelhan­ tes, e não querem transformar seus irmãos em instru­ mentos de exploração. Projetemos no Brasil, na Améri­ ca e no mundo, esse genuíno espírito de cooperação do nosso povo, (a mão estendida do brasileiro e o seu gran­ de abraço fraternal), que é a melhor de sua afectividade. E desde já, alertados e activos, pela grande luta que é a vossa, a de vossos pais, de vossos filhos, de vossos ami­ gos, de vossos irmãos! Se tendes medo de lutar por um ideal, ao menos não fortaleçais as legiões dos exploradores. Demiti-vos como homem, porém não vos inscrevais, como escravo, sob a bandeira dos feitores de homens: a bandeira do capita­ lismo paleotécnico, explorador desenfreado, e do intermediário-encarecedor, e a do outro capitalismo de homens, que os movimenta como números, o bolchevismo, o filho rebelado da paleotécnica."

ANALISE GERAL DE NOSSA ECONOMIA
81) É o brasileiro, por educação e influências alie­ nígenas, um descrente de si mesmo. Não é a nossa juvenilidade que nos impede de criar, porque, na História, povos mais novos do que nós criaram. Tememos, apenas, criar. Preferimos reproduzir o que é feito em povos avançados, e nunca temos a coragem, como pássaros tímidos, de sair da gaiola de ouro da ex­ periência alheia. Somos, por isso, um povo de mentali­ dade colonialista passiva. Essa falta de coragem é a gé­ nese, também, de um horror à responsabilidade, que nos leva a preferir o que já foi feito ao que é novo, de ori­ gem nossa. Pois, se errarmos ao realizar o que outros realizaram, temos a impressão que transferimos aos ou­ tros povos a responsabilidade do erro. No entanto, es­ quecemos que as consequências daquele recaem sobre nós. É uma banalidade reconhecer que somos diferentes dos outros povos, e o que deu resultado em um país pode não dar entre nós. Entretanto essa evidência é esqueci­ da sempre. Se observarmos bem o aspecto cooperacional das conjunturas de um povo, poderemos compreen­ der o bom êxito de uma medida, que, entre nós, malogra por não terem merecido o mesmo exame as nossas con­ junturas. Se queremos acertar, e podemo-lo, não nos será pos­ sível esquecer o que coopera com a nossa economia. E assim como há graus de cooperação, há graus de coope-

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ração das conjunturas, umas mais benéficas do que ou­ tras. Tal conhecimento já abre caminho para procurar­ mos desenvolver uma conjuntura para que ela possa ter uma influência benéfica. Não deveriam nunca esquecer os nossos economis­ tas e financistas que as "cifras" são apenas traducções, para facilidade de expressão, das facilidades económicas. O simbolizante substitui o simbolizado, por não ter este acomodação actual, mas deve sempre estar apto a ser substituído por êle, sob pena de ocultá-lo definitivamen­ te ou não, e prejudicar a boa inteligência do mesmo. O salário, em cifras, é uma traducção do "standard" de vida, como a producção em cifras é uma traducção da actividade económica nacional. Por outro lado, nunca se deve esquecer a verdadeira significação da moeda tão confundida com a do dinheiro, de lamentáveis consequências. A moeda é um significan­ te. Sinal de todas as categorias económicas, surge nas obras de economia, ora como riqueza, ora como reserva de valor; ora como medida comum de valores e serviços, ou como instrumento de pagamento, ou mercadoria, ou convenção, ou expressão de trabalho, ou capital, ou ain­ da como instrumento de conta, ou direitos, ou represen­ tante de valor ou crédito, ou instrumento de actividade económica e muitas outras modalidades que provocam inúmeras e inúteis disputas entre economistas e finan­ cistas. Como sinal (e esse é o verdadeiro carácter proteico da moeda) é sempre algo que está em lugar d e . . . E como é fácil confundir-se o significante com o significa­ do, caem os economistas nesse erro, e disputam entre si o significado, o que aponta o que é a essência em suma, da moeda. Na verdade, é ela, portanto, um significado, e como tal é um meio.

E como todo facto económico se processa num ten­ der para a troca, é ela meio de troca, e tem, como teve, e terá, o papel de facilitador da troca, e não o de emba­ raçá-la. E, por ser um meio, nunca deve ser confundida com um fim. Deve ela facilitar o desabrochamento do facto económico e não coarctá-lo. Hoje, ela antecede à troca, e nesse caso, existe antes da troca, como um acordo sobre o futuro, e sua cifra significa apenas a traducção do que ela representa em bens capazes de satisfazer necessidades. Que diríamos de um matemático que quisesse, com a Matemática, fal­ sear os factos e ocultar a verdade? Não seria falsear os fins da Matemática? O mesmo é falsear os fins da Eco­ nomia se forem trocados ou falsificados os seus verda­ deiros conceitos, que terminam por violar suas invariantes. Em toda ciência cultural, é de magna importância a presença dos variantes e dos invariantes, e nunca devem os primeiros ser desprezados em benefício dos segundos, e vice-versa. Um hábil manejo entre ambos permite me­ lhor acomodação aos factos e melhor assimilação dos mesmos. Preferimos aqui chamar de invariantes o que se costuma chamar lei, evitando o sentido restrito deste último termo. Esses invariantes nem sempre são profundamente compreendidos. Mas, na verdade, toda a vez que os afrontamos, es­ tamos às portas de um grande risco. Somos, por exemplo, um país capitalista, em que ainda predominam formas eotécnicas e paleotécnicas de producção, com um primário desenvolvimento neotécnico, e com grandes possibilidades biotécnicas. Nossa eco­ nomia é uma economia de um período terrivelmente caó­ tico, e por isso, mais que outras, exige um estudo de con-

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junto e do seu processo, bem como a maior preocupação em não ofender esses invariantes. Pois bem: o valor de uma economia não reside nas cifras, mas na própria economia. O espírito da finança, que tende a actualizar a traducção em vez do traduzido, o símbolo, em vez do simbolizado, levou o mundo capi­ talista inteiro às absurdas concretizações do padrão ou­ ro, do crédito bancário falso, da capitalização, da moeda-mercadoria, etc, para cair, finalmente, nessa longa his­ tória das especulações, que tantos males trouxeram em muitos países mais avançados, e que, hoje, entre nós, avassala muitas inteligências. Tratamos da nossa economia não com o espírito do economista, mas com o espírito do financista. Submetemos a economia à finança, porque conside­ ramos as cifras como concreção do valor real. Ganhar dinheiro com o dinheiro, sem que esse di­ nheiro seja traducção de um acto económico, é ser finan­ ceiro. Mas a indústria e o comércio vivem, se proces­ sam e se desenvolvem apenas através de trocas. É fácil compreender-se que, na troca, há apenas estes elementos: producção, com as trocas imanentes de trabalho, capital e natureza, e o Consumo, como fim teleológico e eficaz A cooperação entre producção e consumo se torna sem­ pre exigente, porque o falseamento ou actualização ape­ nas de um dos aspectos tem sido sempre de terríveis con­ sequências. Há, assim, um valor de trabalho, que está em função da producção, do produzido, e um valor de producção, que é determinado pela quantidade ou pela qualidade, ou por ambos juntos, desse trabalho utilizado pela produc­ ção. O consumidor (são todos) não pode ser desprezado nem considerado como elemento autónomo, que trata de

si, mas como meta da producção, como finalidade desta, não em sentido individual capitalista, mas em sentido so­ cial. Estimular a producção não é apenas financiá-la. E em breve veremos por que. E embora se considere o consumo como implicado naquela, esquecem-se muitos economistas que há antagonismos entre ambos, muito mais profundos do que os que nos surgem apenas atra­ vés das oscilações da lei da oferta e procura, que já des­ dobramos, para que, por sua vez, também não contribua para falsear a realidade. Costumam os economistas, quanto ao trabalho, virtualizar o aspecto qualitativo para considerar apenas o quantitativo, e facilitar sua medida através do tempo do trabalho, unidade de tempo, e as consequentes unidades de producção. Compreender-se que há uma intrínseca luta, um antagonismo entre quantidade e qualidade, im­ pediria todos os erros que são comuns nos estudos sobre o valor dos salários, que fica reduzido apenas à quanti­ dade de producção, que permite ao trabalhador consumir. Realmente, na troca, o valor do salário é mostrado pelo seu poder de consumo. O poder de consumo de um povo é igual à sua pro­ ducção total. E é essa producção, o valor do trabalho de um país. Mas, nas relações entre trabalho e capital, há uma eifra: preço. O trabalho, medido pelo tempo, realiza uma produc­ ção, recebendo um salário, que é uma cifra. E essa cifra é o que permite falsear o valor do tra­ balho. E isso porque essas cifras são puramente convencio­ nais, e não são adstritas a nenhuma invariante económica propriamente.

não podem nem devem deixar de ser considerados como são e como se actualizaram. Vejamos. mas ambos podem cooperar. que é re­ sultante do equilíbrio dos diversos valores relativos. com seu consequente erro por serem sempre posições abstrac­ tas. O erro do liberalismo económico foi precisamente não ter considerado esse aspecto cooperacional. se o liberalismo permitiu um desenvolvimento desor­ denado. nem perturbar o desenvolvimento da livre empresa. e que levam a pers­ pectivas várias quanto às categorias da Economia. assim. A luta entre o individual e o colectivo não se obser­ va apenas entre os homens. como deveremos proceder. sem prejuízo de nenhuma actividade lícita e honesta. que anda mais depressa que os economistas liberais. O trabalho. Só há prosperidade quando há melhoramento do "standard" de vida que permita aumentar o consumo. um valor cooperacional. centrífugo um e centrípeto o outro. como também ge­ rou as ideias rebeldes que vieram favorecer o clima de intranquilidade. País tropical. mas essa colisão não nos deve levar a pensar na liquidação de um dos antagonistas em bene­ fício do outro. como se observa na maioria das escolas socia­ listas. exacerbou-a através de suas experiências mal orientadas. Mas a Técnica é uma conjugação da actividade com a inteligência. Há. A compreensão nítida da cooperação dos valores re­ lativos permitiria um equilíbrio social. mais do que se pode calcular. seria um erro pensar numa liquidação do indivi­ dualismo. com grande re­ dução na producção. por isso anacrónico com a nossa época. e que não se separa na reali­ dade. pois. E para tanto. mas acompanhada por uma justa partilha dos seus resultados. As­ sim. Considere-se o decrescente de nossa agricultura. não há necessidade de violar nenhuma invariante económica. Colidem muitas vezes os interesses colectivos com os individuais. mas dentro dos próprios ho­ mens. não deve o homem ser consi­ derado fora de sua realidade histórico-social. ao lado de um aumento crescente no volume demográfico. da Técnica. o trabalho tem um valor tónico menor que em países de clima tempe­ rado. Dentro da Economia. nem individual (salvo as excep­ ções comuns). levou ao agravamento dessa luta. Pode dizer-se que o Brasil está num movimento inverso (de retrosperidade). Os erros da econo- mia paleotécnica. nem forçar a interferência do Es­ tado além dos seus limites benéficos. maior que outros povos. bastando não falsear a norma cooperacional dos valores. Não podemos falar actualmente em prosperidade no Brasil. segundo as circunstâncias.174 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 175 Para manter-se o valor do trabalho. e deu os frutos ácidos de nossa época. Mas qual técnica se impõe? . porque não há. A prosperidade só se poderia dar no aumento da producção. 82) Os factores da producção. Os factos comprovam que o brasi­ leiro tem hábil acomodação e consequente assimilação da Técnica. e a cooperação entre ambos aspectos. Nele co­ existem o colectivo e o individual. essas cifras pre­ cisam ser revisadas segundo a producção e seu valor res­ pectivos. O antagonismo entre ambos nos revela aspectos in­ teressantes que seria longo examinar. A prosperidade no Brasil depende. que não compreendeu o aspecto coope­ racional da sociedade. por tomarem separadamente pela inteligência o que é separado pela inteligência. nem social.

e principal. segun- . como erra o socia­ lismo ao considerar apenas o lado colectivo. é um cliente. não pode. no Brasil. Esse equilíbrio exige. portanto. não é desastroso como pode parecer. Entretanto. O trabalhador. acomodar-se a uma depreciação que sur­ ja da oferta. não pode ser feito. que não temos. o que. dada a plas­ ticidade típica de nosso povo. na neotécnica. não pode reduzir-se. sabota o assalariador. não encontram óbices culturais. Não se pode evitar a mutação da mão-de-obra. o liberalismo económico ao considerar apenas o lado individual do trabalho. infelizmente. exigem um exame sobre o mecanismo dos pre­ ços e dos salários. uma dualidade de sa­ lário (social e individual). trariam benefícios imediatos. dado o valor pouco tónico do mesmo en­ tre nós. possibilidades imensas. aqui. como infelizmente ainda perdura. por ora. que conjunturados com outras providências. que é típica de nosso povo). que cooperam ou se antagonizam. porém. Também se deve considerar que o salário vital (mínimo) não deve ser um salário de miséria. a Tecnização de nossa lavoura e a da pecuária. Não tem es­ peranças em melhorias quando produzir mais. É um sabotador in­ consciente. neste ponto. mas ainda assim se considera. uma calamidade. ao traba­ lho agradável. A aplicação de normas jus­ tas. política de defesa de preços. mas de uma neotécnica tendente à biotécnica. A remuneração pode sofrer os efeitos da procura. Tais factos exigem bases: a) inteligência. Resta ainda uma dificuldade: a financeira. em função do poder de compra. b) preparação cultural. aqui. Erra. Há outro aspecto a considerar: o ético. Julga que ao sabotar a producção. Tal concepção surge de não participar nunca nos proventos quando há aumento de producção (ex. sob pena de falsear a função neotécnica do trabalhador como clien­ te. A aplicação ao trabalho da chamada lei da oferta e da procura (que desdobrare­ mos para dar-lhe seu verdadeiro sentido) tem sido desas­ troso. quando na realidade sabota apenas a si mesmo. não compensando a falta de braços por má­ quinas. e a mutação da mão-de-obra passa a ser. em geral. É uma invarian- te de qualquer economia das fases da paleo e da neotéc­ nica. ressurgiriam. Não pode­ mos. e ainda se estabelece. individual e colectivo. e ambos por não considerarem o aspecto cooperacional entre ambos. facilmente solucionáveis. com forte recompensa ao esforço individual. separar os aspectos. que temos. Se fosse assegurada ao povo a sua participação no aumento da producção. cuja resistência ao novo é muito menor que a de outros povos. Portanto. estimu­ lante. etc). mas que pode ser compensada pelo grau de adaptação (combina­ ção equilibrada entre acomodação e assimilação. Um problema nos surge: o abandono dos campos. Portanto. salvo os históricos. Nosso trabalhador. é um revoltado às vésperas do desespero. pode dizer-se que a participação dos trabalhadores nos lucros da empresa. Tem sido um erro considerar o trabalho como uma mercadoria.176 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 177 Não poderá ser nem a eotécnica nem a paleotécnica. Esta merecerá um estudo à parte. assim. poderia ser reestudada para transformação num salário-de-rendimento. não cumpre seu papel. mas tem que sujeitar-se à producção colectiva. E é do interesse tanto dos empregados como dos empregadores. embora grave. productos deteriorarem-se nas fontes. que não sofra êle uma depreciação por efeito da oferta. o equilíbrio entre o rendimento e o preço do trabalho. A indústria. Este.: destruição do produzido.

não assegura benefícios sociais.178 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 179 do as possibilidades económicas do momento. Há em nós desequilíbrio qualitativo na importação. Aqui. O MOMENTO QUE PASSA 84) Estamos numa economia de paz entre duas guerras. enquanto a segunda poderá actuar em favor do salário de rendimento. e tal se verifica pelo não respeito às invariantes da cooperação dos valores. não se deu. por compensações atra­ vés de convénios. Para tal. portan­ to tende para a supra-producção. que passaremos a examinar. quando o liberalismo. e cria novas possibilidades de consumo. que necessitam estudos especiais. com a subordinação dos interesses particulares aos interesses colectivos do estado de guerra. teremos que estar com a nossa economia já devidamente esboçada. pelo Estado. em cooperação com os outros as­ pectos. pois pequenas são as nossas possibilidades militares. Se o fosse. Mas tal. Neste caso. Ora. Numa economia de paz. portanto já se vê que a chamada inflação no Bra­ sil tem também uma raiz no equilíbrio favorável da ba­ lança comercial. e não confundidas com as reacções colectivas. uma supressão da primeira. seria ela prejudicial. sob pena de não corresponde­ rem os esforços aos resultados. nem nos convém ser. é justificável numa autarquia. nem se dá. A super-producção se­ ria a correspondente a um crescimento desproporcional à supra-producção. não apresentaria a acção do Estado nem riscos nem inconvenientes ao productor. 85) Uma das maiores ilusões dos economistas tem sido a da super-producção. trazendo suas vantagens. temos. como para im­ pedir a alta. na realidade. quando do não cumprimento do dever so­ cial. e consequentemente inoperante. mais uma vez. pela concorrência. O que se tem dado é uma impossibilidade de consu­ mo. o homem sempre dese­ ja mais. Não somos. nem se da­ rá. Nossa economia as tornará fatalmente dirigidas. deve êle desaparecer ou subordinar-se aos interesses colectivos. em benefício de todos. bem como ao salário-família. 86) Todas as tentativas de fixação de preços. 87) Nossa balança comercial não é sempre defici­ tária. A anormalidade de uma guerra implica condições económicas anormais. Este ponto deve ser estudado em face das profissões e servir de estímulo ao acesso às mesmas (qualificação estimulada). 83) Separando a chamada "lei da oferta" da "lei da procura". porque é o Estado uma figura abstracta. Esses pontos. Mas garantido o escoamento da producção e do pre­ ço. com retenção proporcional. Regulamentar essa. representam apenas um remédio empírico e de efeito transitório. provocadas por desequilíbrio monetário ou fi­ nanceiro. Caso sobrevenha a nova guerra nosso papel táctico será dentro da linha de producção. um país autárquico. provocaria deflação monetária no in­ terior. a não compreensão da cooperação entre o individual e o colectivo leva a tais processos empíricos. quer se faça para impedir a baixa dos preços. sobretudo entre nações de balança co- . para per­ mitir a prosperidade e não a retrosperidade. As reacções individuais são provocadas pela lei da oferta e da procura. e tornaria ainda mais abstracta a figura do cliente. com o salário social. po­ dem ser atendidos dentro dos quadros da ordem vigente. A economia directamen­ te na mão do Estado é irrealizável.

são aqueles parasitários. necessidade de um exército de fis­ cais. que ainda vigora entre nós. diminuirá o preço da producção. Restaria. 88) Os teóricos do socialismo pregam a socializa­ ção da distribuição do poder de compra. Consumindo os insolváveis. o congelamento de preços. obtido um aumento do rendimento ho­ rário do trabalho. que têm outros elementos. que são interligados. e os benefí­ cios especulativos de certas funções de intermediários.180 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS 0 PROBLEMA SOCIAL 181 mercial equilibrada ou equilibrável. é irrealizável na prática. porque a producção pode criar o poder de compra. Nossa balança comercial beneficiária. os salários . aumenta o valor do trabalho e diminui o valor da producção. será necessária uma acção mais enérgica por parte do Estado. Não podemos deixar de considerar as relações entre o patronato. Esta seria efémera. câmbio negro. Todas as ten­ tativas. as tentativas feitas até agora para regularizar a importação. tudo contribui para diminuir a pro­ ducção e para aumentar a especulação sobre o produzi­ do. Até nos Estados Unidos. tudo favorece seu desenvolvimen­ to. productos para os quais não contribuíram. Dessa forma. um estudo cuidadoso da eco­ nomia nos mostraria que os interesses individuais do pa­ tronato coincidem muito mais do que se pensa com o interesse colectivo das massas. a qual é inelutável. desde que haja a aplica­ ção de certas normas convenientes a economia paleotécnica. desaparecimento do pro­ ducto. Desta forma. em breve. mas os nossos dados que nos são oferecidos nos revelam que há um aumento progressivo de salário insolvável. ela dará suas consequências. mas se o preço do trabalho au­ mentar proporcionalmente ao seu valor. O que se aplicou e deu certo resultado nos Es­ tados Unidos não nos traria benefício algum. o preço da pro­ ducção permanecerá imutável. nem por um período curtíssimo. Convém distinguir-se o salário solvável do salário insolvável. seguindo este rumo. enfrentar a alta dos preços. aumento das despesas piíblicas. e impedem. também. retrosperidade fi­ nal. e insolvável um salário que não responda às condições de solvabilidade. na mesma pro­ porção que o seu valor. mas compensável. No entanto. se este preço permane­ cer fixo. a qual deverá ser acom­ panhada pela hábil aplicação do equilíbrio cooperacional dos valores. quando orien­ tada para um respeito ao equilíbrio cooperacional dos valores. por meio de restrições. Ao contrário. Aqui neste ponto. são inoperantes. secundários e terciários no Brasil. Inútil. No caso dos assalariados. Não esqueçamos o carácter de conjuntura dos preços. sob pena de prejuízos laterais. a classe média. o que acarreta um grande "deficit" sobre o salário solvável. pois tra­ ria desinteresse na producção. foram os causadores de um aumento exagerado do sa­ lário insolvável no Brasil. foram em parte inoperantes. um congelamento. No entanto. nada se poderá fazer. por inoperante. Nada fazemos no Brasil para embaraçar o aumento dos salários insol- váveis. Enquanto o patronato admitir que a sua pros­ peridade pode fundar-se na miséria das massas. Não nos iludamos: não realizaremos a prosperidade por uma baixa de preços. Vê-se desde logo que o equilíbrio qualitativo da balança comercial brasi­ leira não pode ser descuidado. Não temos estatísticas sufi­ cientes para nos mostrar quanto é destinado aos traba­ lhos primários. Se o preço do producto estiver em função do preço do trabalho. assim. Se teoricamente esta ideia é boa. e os assalariados. Seria solvável o sa­ lário incorporado ao preço de venda de um producto destinado ao consumo individual.

Se tal fôr obedecido. O dinheiro define o valor da unidade monetária. e por esta colocada ao ápice da hierarquia dos valores. Resultado: especulação e aumento de salários insolváveis. foi ela levada a rarificar-se com um consequente prejuízo da colectivi­ dade. Esta afirmativa é teoricamente certa. no caso brasileiro. Na ver­ dade. A moeda deve per­ manecer em função do trabalho da producção e do salá­ rio. desta forma. feudalização do funcionarismo. não podia prender-se nas algemas do padrão ouro. ela não é inflacionária. Mas sempre que ela tenda . como o Brasil. agora. numa confusão de valor com preço. euforia efémera. o que exige maior burocracia e. deve automaticamente aumentar aquele. teremos realizado o primeiro equilíbrio cooperacional dos valores. é ne­ cessário o aumento do volume da moeda. inflação. Neste caso. mas pode transformar-se em tal. para não haver desequilíbrio. 89) Examinemos. que queria dar à moeda um valor fixo (como se fosse di­ nheiro). que não se funda na cooperação entre producção e consumo. A moeda. o im­ portante tema da moeda. e é expres­ so em ouro. Todo aumento da velocidade da circulação. E como este aumento de preço se verifica periodicamente. Um erro consiste em acreditar que a velocidade da circulação monetária engendrasse prosperidade. mas apenas no emprego destes. A confusão entre moeda e dinheiro é a causa de cer­ tos erros graves. a estructura do sistema eco­ nómico está perfeitamente equilibrada. A moeda é poder de compra. e decorre de um aumento do consumo. Sendo o ouro uma mercadoria. Se a moeda emitida se destinar ao aumento da producção. em última análise. Se os preços.182 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 183 devem aumentar na proporção do aumento do rendimen­ to do trabalho productivo. O progresso técnico provoca uma diminuição da velocidade da circulação da moeda. como consequência. obedecerem às invariantes do equilíbrio cooperacional dos valores. retrosperidade colectiva e. pois este pode evoluir em sentido inverso daquele. o dinheiro. em vez de querer dirigir homens e coisas. considerou-se a moeda mercadoria. Sujeita. consequentemente. entretanto não se transformou em prática. é também instrumento da troca. O equilíbrio de um país exige que o seu potencial monetário faça sempre face às necessidades do potencial de producção. Um país de balança comercial beneficiária. como símbolo. O valor real da moe­ da está no seu poder de compra. mas tal infelizmente não pode ser feito. à lei da oferta e da procura. mas res­ peitando o equilíbrio cooperacional dos valores. traz. ela é solvável e não é inflacionária. a aceleração é consequência e não causa da pros­ peridade. Aqui se ofereceria a necessidade de um estudo todo es­ pecial sobre o padrão trabalho. cifrados em moeda. como ouro. A verdadeira riqueza é o trabalho e não o dinheiro. Ainda não se libertou total­ mente a economia mundial do mito do padrão-ouro. mantendo o valor relativo desses elementos. assim. Deve o Estado estar preparado para saber dirigir essas cifras. 90) A inflação monetária não está na quantidade de bilhetes. — papel acessório — transformado em producto principal por influência da finança. ou por uma acção mais rápida ou por um aumento da sua quantidade. por isso deve ser ela dirigida para que não ofenda ao equilíbrio dos valores. Se este aumentar. transformação de um efeito em cau­ sa. não respeita o equilíbrio cooperacional dos valores. e expressa o preço.

ou de créditos insòlváveis. Diremos que essa "inflação" é uma con­ sequência e não uma causa. é importantíssimo no nosso caso. A desvalorização da moeda. numa economia como a nossa. Esta se dá quando o potencial monetário não é suficiente para a manutenção ou desenvolvimento do volume de producção. Tema importante que merece um estudo todo especial do governo. 92) Um dos grandes males em nosso país é a capi­ talização. Quando o potencial financeiro da poupança é insuficiente para financiar a producção. às producções que se destinem ao consumo individual (solváveis). como unidade. E tal se dá sempre que se deseja. por meio de deflação. influído por maus conselheiros económicos. ela é inflacionária. há inflação de preço. no Brasil. A deflação é catastrófica e traz vantagens apenas ao detentor da moeda. aqui. A poupança forma com as suas diversas figuras uma verdadeira conjuntura. não há carestia de vida. estava convencido de que a inflação era de moeda e não de preços. Ora. e tentou a desastrosa política da deflação. Freou-se a prosperidade. e deve ser controlada. como oferece. reabsorver a inflação. diminuindo a producção. 91) A desvalorização monetária decorre apenas de uma balança comercial deficitária. ar­ ruina a poupança e traz os seus prejuízos pelos excessos contrários. através da capitalização. Se a poupança era totalmente acon­ selhada numa economia paleotécnica. sobretudo. Afirma-se que há alta de preços em consequência da "infla­ ção" da moeda. na verdade confundida com insuficiência mone­ tária. uma obediência ao equilíbrio cooperacional dos valores. de transição. que pode perfeita­ mente ser equilibrada. de qualquer espé­ cie. o crédito não tende para tanto. ao Brasil. É vezo. favorecendo a prosperidade. Quan­ do os productos aumentam de preço em relação ao poder de compra dos salários. há inflação de preços e estes decorrem mais de factores psicológicos histórico-sociais. em que vivemos. mas sobretudo para satisfação de actividades in­ sòlváveis. A alta dos preços. A inflação resulta do excedente de poder de compra em relação às possibilidades de consumo. acusar-se o governo de todos os males surgidos no campo da moeda e dos preços. falseando o equilíbrio cooperacional dos va- lôres. O exagerado número de intermediários e a ganância típica do estágio paleotécnico. ela pode oferecer um perigo. no controle das importações e exportações. No Brasil. e não se manteve o volume da producção e ainda drenaram capitais para actividades insòlváveis. O papel do Estado. O governo de Dutra. estimulou as importações desnecessá­ rias. mas necessitaria de um estudo es­ pecífico. Quando a alta dos preços é provocada por uma alta dos salários solváveis. levou-nos à inflação de preços. que deve fazer o Estado senão suprir essa deficiência? E algumas regras têm de ser aproveitadas aqui: a) crédito do Estado ao que possa desenvolver a prosperidade. (A emissão para fins insòlváveis. A inflação só pode ser combatida por uma alta de salários com conseqiiente respeito ao equilíbrio cooperacional dos valores. . o que não deve dar-se no Brasil. 93) É o crédito uma emissão de moeda escriturai è necessária quando aumenta a producção. do que de factores económicos.184 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 185 para a criação de salários insòlváveis. o que na realidade se deu. e carestia consequente. para a especulação. que na verdade é uma inflação de preços.

A finalidade do Estado não é resolver suas finanças particulares como um indivíduo. evitando-se sempre sua aplicação em operações insolváveis. e. Desde que houvesse au­ mento de producção essa insolvabilidade seria perfeita­ mente superável. A inflação de preços. A guerra exi­ gia mercadorias nossas e os preços no exterior estavam em alta. O crédito deve servir à producção e ao trabalho. Grandes obras sociais. no cré­ dito.186 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 18T apenas para cobrir despezas do Estado. Buscar um equilíbrio orçamentário pelas cifras é um erro quando êle não realiza o equilíbrio da economia. 95) A conjuntura dos impostos também merece um estudo especial. é insolvável. especulação. consequente a esta. O que temos. A intervenção do Estado. que se verificou então. A insolvabilidade do Estado não é sempre um mal. em certos aspectos o seu emprego. Tendo o Estado em mãos o crédito dirigido. necessitam de um aumento do potencial mo­ netário. Em regra: toda moeda escriturai deve ser solvável. não é propriamente crédito. e não estes ao crédito. porém tão gran­ des e tão calamitosos como os que surgem da acção par­ ticular. a taxa dos salários. A defla­ ção ingénua do governo Dutra facilitou a especulação. O crédito. b) Essa moeda não pode ser retirada da circulação sem provocar deflação monetária. que aumentam o potencial económico. a agiotagem. e produz os mesmos resultados que a inflação fidu­ ciária). 94) O Estado prospera com a nação e retrospera com a nação. Seria um encorajamento à especulação e não uma solu­ ção à inflação dos preços vigorantes e fatalmente cres­ centes. Toda emissão de crédito que se destine a actividades solváveis não oferece perigo de inflação. devido à sua ne­ cessidade colectiva. no Brasil. senão agravá-lo. E por isso não se pode exigir que os bancos parti­ culares financiem a producção a longo termo. e no nosso caso não o seria. c) o crédito deve caber ao Estado. não o é ao colectivo. teve sua causa em factores outros. sim. o controle da poupança. e aumento de producção. êle assegura o valor da moeda. A inflação monetária posterior impunha-se como consequência. Aqui o que se julga causa foi efeito apenas. pode dar lugar a abusos. produz a inflação do crédito e a inflação dos preços. como o temos hoje. e a especulação aumentou o nível dos salários insolváveis. por meio de um banco de emissão. mas permitiu uma economia de guerra. que nos é impossível fazer aqui. A chamada inflação monetária do governo de Getúlio Vargas não foi boa se tomada em sentido individual. não serão. e não apenas a chamada inflação do Estado. quando esse desequilíbrio tende para aumentar a producção. do contrário será inflacionária. O aumento dos preços no interior era uma re­ sultante natural desse desequilíbrio. para facilitar a especulação. conveniente ao in­ dividual. mas ser­ vir à nação. . O equilíbrio orçamentário. Eis aqui a confusão entre o individual e o colectivo. portanto é inflacionária de cré­ dito. O financiamento ao nosso actual sistema bancário em nada resolveria o nosso problema.

Se a cooperativa é uma forma benéfica. participa da maior parte de benefícios. e para evitar tal crescimento. mas em forma de créditos sô- . seu papel é a de regulador. O Estado não pode esquecer o seu papel de servidor da colectividade. O financiamento directo da producção. consequentemente. formas mutualistas. Po contrário. nem tem esta finalidade propriamente. o verdadeiro productor. que deverão aplicar suas actividades e capitais em actividades solvãveis. 2) Os sindicatos são meios de defesa económica do productor e têm como característica uma agressividade natural. o nosso sistema sindical não ofereceria boa solução para as cooperativas. Onde há uma cooperativa. como por exem­ plo: as associações de consumo. forma semi-capitalista de associação entre distribuidores e consumidores. As formas de cooperação não prejudicariam as acti­ vidades solváveis. o comerciante usa um dos dois processos: ou baixa os preços ou aplica processos de "gangsterismo" para levar a cooperativa ao fechamento. Esta última é a sua mais importante actividade. A colectividade é composta de productores e consu­ midores. A cooperativa não liquida com o comércio. mas se nem todos são productores todos são consumidores. que malogrou em toda a parte onde foi empregada. No Brasil. para atender às imedia­ tas necessidades brasileiras. Consequentemente: unir a cooperativa ao sindica­ to é buscar uma forma híbrida. e o mais impor­ tante desempenho deste papel. as seguintes medidas: a) derivação dos actuais intermediários-encarecedores. Ao contrário. Ademais. (sociedades cooperacio­ nais distributivas). preconizamos. O apoio à cooperativa. por ex. e não organizá-las. b) Para a execução deste ponto. agrário e indus­ trial.188 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 189 Desta forma. cuja maior parte cai em mãos dos intermediários de actividades insolváveis. que não poderão cooperar no sindicato.) sem considerar a produc­ ção. não obteve bom êxito. A acção sindical colide com a defensiva da cooperativa. enquanto a cooperativa é uma penetração na neo e na biotécnica. Os sindicatos podem aconselhar o apoio às coopera­ tivas. e toda a gama de formas cooperacionais a serem estu­ dadas. outras for­ mas cooperacionais podem ser aplicadas à proporção que se desenvolve o espírito cooperacionista. o plano de unir as cooperativas aos sindicatos não é totalmente aconselhá­ vel. pelas contradições naturais en­ tre o consumo e a producção. embora seu volume de venda seja imensamente inferior ao do conjunto das firmas co­ merciais. da parte do Estado. do con­ sumidor. que é uma forma paleotécnica. tornarem-se benéficas a estas actividades. ela provoca uma baixa dos preços. a cooperativa tenderia a crescer. que tem actividades solváveis. porque estas devem estar onde estão os consumidores. Se financiarmos as cooperativas pelo Estado. é o cumpri­ mento do verdadeiro papel do Estado. A cooperativa tem uma função reguladora de preços. por uma hábil eombinação. e onde não conheceu um malogro total. podem. seria o mesmo erro que financiar o consumo (pela alta de salário. pelas seguintes razões: 1) as cooperativas são meios de defesa do consumi­ dor e reguladoras de preço. sem considerar o eonsumo. por meio de caixas de crédito.

provaria desde logo que o nosso pro­ blema é de moralização do tráfego. Teríamos assim quatro milhões de cru­ zeiros para cem mil. Se o Estado financiar a producção vinculada ao consumo. esses créditos não teriam mais efeito inflacionário. Esta fórmula de financiamento da producção corres­ ponderia a uma porcentagem mínima das necessidades. porque não se respeita o equilíbrio cooperacional dos valores. sob pena destes facilitarem o progresso daquela. as cooperativas não contribuiriam directamente para a manutenção do Estado. Outra alegação consiste na falta de transporte. ou seja um total de um para qua­ renta. o nosso problema não é de transporte. Pois bem. Essas formas de cooperação são de fácil fomento. que são capcio­ samente ocultados. por parte do Estado. com emissão de moeda. Imaginemos uma cooperativa num bairro em que haja quatro empórios. torna-se êle o mais adequado. tra­ ria uma deflação de preços. Pelo actual sistema de tributação. Um grupo de pequenas experiências. com le­ gislação criminal imediata. desde que ficasse estabelecido um preço de venda do producto ou do seu fornecimento às coopera­ tivas. no Brasil. pois o exér­ cito tem necessidade tática de conhecer perfeitamente hão só as nossas possibilidades de tráfego. na realidade. e deverá corresponder. com o consumo. cominando penas aos que em­ pregassem tais créditos em actividades outras que as es­ pecificadas em lei. No sistema tributário brasileiro é comumente julga­ do como um imposto absurdo o chamado de "consumo". A aplicação de capitais. Imaginemos que esses empórios produzam cada um um milhão de cru­ zeiros mensais enquanto a cooperativa produziria cem mil cruzeiros. como mera . nesse sector. Na verdade. As sociedades de "producção e consumo" (espécies de sociedades cooperacionais) são formas que podem en­ globar as cooperativas de consumo como também outras semi-capitalistas. que entrarem em contacto com cooperativas de consumo. teremos. não só de ordem cooperativa. Esse preço deverá ser fixado para um período de­ terminado e curto. os empórios a reduzir os preços de venda. e de resultados tam­ bém imediatos. como êle se faz no Brasil. imediatamente favore­ ceria o equilíbrio económico. os pre­ ços. não correspondem ao seu valor. nas coopera­ tivas de consumo. Realmente. à média do consumo dos elementos que a compõem. desde logo se verificaria que essa acção. essa cooperativa levaria. mas de tráfego. neste plano. em pouco tempo. fatalmente. o Estado poderia obter das cooperati­ vas uma tributação especial. Alegam muitos que o aumento da producção no Bra­ sil seria inócuo por falta de armazéns para a conservação dos géneros. teria um efeito extraordinário. E tal afirmativa se justifica. Um levantamento honesto das disponibilidades das nossas estradas de ferro em vagões. de imediata execução. e novas cooperativas de producção. que se ins­ tituírem dentro destas finalidades. somos de opinião que o pa­ pel que poderia desempenhar aqui o exército seria ex­ traordinário. Mas desde o momento que essas práticas fos­ sem empregadas. Se forem financiadas as cooperativas de producção agrícola.190 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 191 bre os productores. como também capitalista. Mas se se considerar o papel eminente que exerceriam as cooperativas no mercado. Nessa obra de in­ vestigação sobre tais pontos. embora em percentagens baixas. porque. não seria infla­ cionária. Mas havendo este respeito. Esse processo seria controlado pelos Departamentos de Assistência ao Cooperativismo. é absurdo. preparado o terreno para entrosar a producção.

a verdade do que se passa. Esquecem que o Brasil é um país complexo. êle redobra sua capacidade. entre nós. Porto Alegre. As velhas. mas soluções múltiplas. o jeca. que o Brasil é o cabo­ clo. Recife. experimentadas em diversos países. costumes diferentes. quando estimulado. e que somos um povo em formação. graças à multiplici­ dade de suas formas. porque estas poderiam coadjuvar com os esforços colectivos na construcção de armazéns. o sertanejo. o jagunço. o caiçara. porque temos empresas. mas como actualidade. Rio. o húngaro. serão as únicas. etc. o ita­ liano. mas sempre novas experiências do mutualismo. o homem redobra seus esforços. o caipira. Além disso. o japonês. que se agitam na Europa sobre a transforma­ ção da empresa capitalista. fórmulas múltiplas. Este é um dos meios de cooperação. em regiões ainda atrasadas como as que temos pelo nosso interior? No entanto. mirífica. O cooperacionismo. uma fórmula salvadora. o buriboca. Se tal fôr feito. porque a experiência humana é rica de novas sugestões. No caso nacional. Não são as cooperativas as únicas formas cooperacionais. pelo desenvolvimento da especulação. uma solução. que exigem soluções adequadas. . oferece múltiplas soluções. que permitiu a muitos e aos mais activos. capaz de dar cobro às nossas mais prementes necessidades. as mais primitivas formas de producção da eotécnica e da paleotécnica. o gaúcho. por exemplo. deve o Estado dar preferência a toda actividade que tenda à neotecnização e à biotecnização. A solução de uma para outra capital é dife­ rente. Quem conhece a complexidade de uma cooperativa. Que embora falemos uma única língua. com sua forma específica de actividade. em parte. E nem todas as formas que se possam hoje estudar. foram esquecidas. o alemão. No financiamento da producção. uma capa­ cidade criadora dobrada quando coloca nessa mesma actividade um fim e não um meio. ideais diferentes. entre as muitas já citadas. unidades económicas diversas. cosmovisões diferen­ tes. os esquemas intelectuais que exige. Esquecem de considerar con­ cretamente as nossas condições. o espanhol. de imediato. O povo trabalhador tem. Nossa eco­ nomia sofre das consequências do múltiplo das suas téc­ nicas e não pode encontrar soluções únicas. Desde o momento que o trabalhador sinta que o aumento da sua productividade lhe é directamente be­ néfico. única. Quanto à necessidade de armazéns para a guarda da producção. é um género que tem. de ponta a ponta. Esquecem que temos. milagrosa. conhe­ ceria o governo. o sírio. como pode compreendê-la. nem todas as múltiplas formas de cooperação. con­ siste em desejar apenas uma solução. e tendo um fim em si mesmo. encontram aqui eco apenas em algumas regiões. o eslavo. como também o português. e criar embaraços ao prosseguimento de obras paleotécnicas. Um dos ma­ les que podemos salientar. A não confiança na grande capacidade realizadora das massas é uma verdadeira calúnia que se lhes faz.192 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 193 potência. que surgem em todos os que procuram uma solução para os problemas nacionais. essa unidade é mais formal que de conteúdo. mas apenas o habitante do Brasil. pois ainda não há o brasileiro. etc. o problema nacional não se cinge apenas aos grandes centros de São Paulo. e os superestructurais. entre suas espécies. além de outros. como é diferente a que melhor convém ao campo. não o único. o cooperativismo. empreendessem sua actividade em sec­ tores insolváveis. afec­ tivos. heterogéneo. Os problemas. Bahia. podem eoadunar-se com as nossas circunstâncias. Sentindo-se ampara­ do. a criação de cooperativas facilitaria a solução de tal problema. o cooperacionismo. homogénea.

Sentimo-nos todos prontos e melhor afeitos. Mas. Trata-se agora de resolver a maior batalha da nossa história. o alemão com o alemão. é que se deixam arrastar pela visão das velhas fórmulas. inegavelmente. o judeu com o judeu. é o principal. São elas no entanto. o "dar a mão" do bra­ sileiro. A mobilização do povo brasileiro. Este. Mas julgam todos que o consumo aumenta seu poder. sob pena de o país tombar na situa­ ção mais caótica de sua história. 96) A preparação do ambiente para uma grande transformação das nossas condições. Urge soluções. que nos avassalará em sua voragem. mais complexas quanto à sua justificação. quando chamados a cooperar. porque em todos eles temos focos do inimigo. Façamos a inversão das implicâncias: a) Financiamento do consumidor. que se tornarão fac­ tores predisponentes de amplas reformas. Se homens responsáveis pelos destinos económicos não os percebem. exija. d) consumo. o esquema que abaixo propo­ mos. embora a da cooperativa. que já nos mos­ traram sua inocuidade. para contê-la. devido à distribuição de moeda que este acar­ reta. Se realmente a producção coopera para o desen­ volvimento do consumo. prendem-se nas vagas discussões bizantinas de quantitativistas e antiquantitativistas da inflação e da deflação. que não é captável pelos economistas. desviá-la. nem podemos fazer ex­ periências dentro dos velhos esquemas. seria um chamado empolgante. Há muitas formas possíveis e adequadas às nossas circunstâncias. For­ ças secretas e poderosas. Estamos às vésperas de uma catástrofe financeira internacional. E essa solução é mais urgente do que se pensa. numa grande obra cooperacional. mais especifi­ cidade. concomitantemente. sem per­ ceberem o que se está preparando atrás da aparência dos factos. mostrará que poderemos fazer o consumo cooperar com a producção. porque a multiplicidade dos inte­ resses criados e das necessidades conhece graus inimagi­ náveis. b) productividade técnica. o sírio com o sírio. engenhosamente ocultas. e de imediata realização é. com poder de compra. para uma auto-estimulação mais activa. tra­ balham para esse desfecho. Há uma crise internacional que se esboça. ou melhor. inverso. aqui. oferecer toda a gama de soluções preconizáveis. desde que aumente a producção. A cooperação genérica do cooperacionismo é própria para qualquer região. E essa crise provocará o con­ flito armado como solução imediata (aparente. lembremo-nos que producção implica: a) trabalho e productividade deste. etc. To­ dos os brasileiros têm de ser chamados a postos. A competição não é pro­ priamente da nossa índole. o do aumento da producção e a consequente productividade. E essa batalha está para ser travada em todos os secto­ res. finalmente. através de coope­ rativas e outras formas de cooperação. por ser mais específica. c) financiamento. O português coopera com o português.194 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 195 Não nos é possível. Não temos tempo a perder. no entan­ to). para a acquisição . nem é probabilisticamente difícil. Não esqueçamos o "mutirão". Entrosar tal capacidade cooperadora numa obra co­ lectiva de cunho nacional não é uma impossibilidade.

por ser estimulado por um salário de rendimento a ser instituído o mais au­ tonomamente possível entre empregados e empregadores. é difícil realizar cooperativas. Quando dos momentos anormais de uma guerra. com ampla liberdade de entrada de associados e de aumento de capital. a cooperativa exige capitais. em geral. que estimulará relações directas entre em­ pregador e empregado. além de uma contribuição fixa pa­ ra atender suas despezas de organização. receberiam de unidades capitalistas. que sentir-se-ia como constructor de si mesmo. sociedades cooperacionais e empresas capitalistas. para distri­ buição aos organismos públicos (federal. em segundo lugar. in­ directo. Querer que nossos operários tirem de seu necessário algo para entregar às cooperativas é querer o impossível. estadual e mu­ nicipal). Não havendo bens a fornecer por parte das cooperativas de producção. isto é. graças à acção cooperacional. III) Essas Associações resolveriam a melhor distri­ buição das producções aos postos de abastecimento orga­ nizados pelas cooperativas ou pelas sociedades coopera­ cionais distributivas. O estatuto de funcionamento dessas Associações será estructurado. há necessidade de melhorar a técnica para atender às necessidades do consumo. a ser regulado e controlado pelo DNC. Foi. e o nosso trabalhador não tem poupança. constituídas. dispostas a cooperarem para o bem comum. com a finalidade de distribuir bens de consumo ao público em geral. com aumento mínimo do custo. com o consequente estímulo para a culturalização. que vê a utilidade co­ lectiva e individual de seu esforço. pa­ ra fornecimento de mercadorias a curto prazo. estimulador e sem falsear o equilíbrio cooperacional dos valores. não tem fé nas co­ operativas. sobre o aumento de producção e participação também no movimento total da producção. este teria direito ao redesconto. Quando financiadas por organismos de crédito. d) O financiamento das cooperativas de producção também pode ser feito pelas cooperativas de consumo. Demos à . que fizessem parte das "Associações Cooperacionais de Pro­ dução e Consumo". enganado em várias experiências para acreditar em outras novas. I) Estas se fundariam com inscrição na Junta Co­ mercial e registro do Departamento Nacional de Coope­ ração (futuro Ministério da Cooperação). que seriam constituídas de coopera­ tivas. (O operário brasileiro. Daria es­ sa obra um entusiasmo ao trabalhador. a crédito vinculado. Além disso. com o em­ prego de parte dos proventos cooperacionais. o que pode permitir um financiamento específico. b) Consequentemente. Decorre daí efeitos de ordem moral. E onde esta não existe. de seu país e de seu fu­ turo. organização de obras sociais. mas com plena autonomia no restante. Mas há outras soluções). são compreensíveis e justos todos os sacrifícios. financiamento da producção. por diversas vezes. em primeiro lugar por ser consumidor e. cabendo uma parte das sobras ao fundo da Associação. obedecendo aos princípios fundamentais do cooperacionismo. portanto. de um mínimo de membros. II) Essas sociedades receberiam bens de consumo das Cooperativas de Producção.196 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 197 de productos. c) Estímulo ao trabalhador. com leve imposto sobre a venda. Há meios de o Estado cooperar no financiamento das cooperativas na proporção do capital subscrito. O financiamento directo das cooperativas de produc­ ção deve vincular-se ao fornecimento de géneros às coope­ rativas de consumo ou às "Sociedades cooperativas dis­ tributivas".

Se as cooperativas são criações de parti­ culares. são verdadeiras gran­ des e gigantescas empresas cooperacionais e penetram até na grande indústria. dada a índole do nosso povo. e famintos de paz. pu­ namos com energia os que tentem fraudar essas esperan­ ças. que a ali- . . a fim de criar cooperativas de consumo. não é verdade que só possam ser obra exclusiva desses particulares. Basta que se olhe o espetáculo da França. o mesmo esforço. um exemplo maravilhoso do que se pode fazer em bem do trabalho-redenção. à nossa "Batalha pela construcção do Brasil". sobretudo. e mais até. e as suas condições. O próprio economista Gaétan Pirou. Têm tudo e mais que as outras. poderiam.-"•s O PROBLEMA SOCIAL 199 198 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS nossa "Guerra à miséria". Ca­ nadá. É voz quase unânime entre os coopera­ tivistas que o regime cooperativo só pode fundar-se den­ tro dos quadros rochdalianos. em seu "La Marche au socialisme". é a sua auto­ nomia administrativa. essa ilha de carvão. mas lhes falta o es­ pírito fundamental: falta-lhe a paixão cooperacionista. As formas cooperacio­ nais. se guia­ das com o mesmo espírito de cooperação que tiveram em suas origens. aqui. No entanto. comercial e financeira. além de uma cooperação privada. uma harmónica combinação de interesses atra­ vés das formas cooperacionais têm evitado tais males. de todo o mundo. vivem de suas pró­ prias forças. com a producção estatal super-encarecida. E Charles Andler. dada a ri­ queza dessas experiências desconhecidas da quase totali­ dade dos economistas e. um dos adversários dessas modalidades. e o Brasil terá ingressado numa obra cooperacional. Mas sucede que em paí­ ses como a Bélgica. que leva a diminuir despesas. a maior de nossa história. constituídas sob o apoio dos poderes públicos. nos revelam que os poderes públicos podem associar-se sob forma de sociedade por acções. ape­ sar de suas posições. com toda a sua autoridade de cooperativista." Sabem todos quão deficitárias são as empresas do Estado e tal se dá em toda a parte onde elas existem. em primeiro lugar. pode haver uma cooperação pública. a ponto de desfazer as fronteiras. acabou por importar carvão para atender suas necessidades. . e Edgard Milhaud. dos próprios coope­ rativistas. Austrália e França. e a da Inglaterra. não há mais a alma que ani­ ma. com proventos para todos. com seus próprios recursos e se algumas ten­ tativas entre nós têm malogrado. um meio termo se intercalou entre o direito público e o direi­ to privado. certas empresas. que será aos olhos dos povos esgotados. com sua inspiração rochdaliana. a Inglaterra. acabaram por aceitar a conveniência e operância dessas formas de cooperação. no "Bulletin de la Societé Française de philosophie". feitas em diversos paí­ ses. aplicadas aos serviços públicos. pessoas de direito público. embora de grande benefício. Factos e não palavras. dar frutos extraordinários. quando no poder os trabalhistas. ultimamente re­ conhece sua procedência. deve-se ao facto de não ter-se obedecido aos princípios cooperacionais. Com os exemplos que se deram em tais países. também. Não há necessidade de falar so­ bre os males das nacionalizações. É esse espírito. essas experiências. Vandervelde. estimulemos a confiança das massas. pode assegurar-se que. FORMAS COOPERACIONAIS Este tema merece estudo amplo. tendo. em seu "Le Socialisme contre 1'État". Empenhemo-nos nessa grande guerra. reconhece que " . Nas sociedades estatais. são as únicas no campo das possibili­ dades cooperacionais. e não apenas no self-help rochdaliano. No caso brasileiro. como membros. exaustivo.

Oportunamente. e procuraremos ver nes­ sas diversas modalidades os aspectos invariante. Não nega. etc. Liverpool. luz. E essa classificação é obtida considerando-se apenas as invariantes. Ao contrário. acabar-se com essa aven­ tura paleotécnica. quer dos serviços que prestam. já o dissemos. Têm assim as características fundamentais das cooperativas. quando se torne necessário. directos ou indirectos. Um estudo dessas experi­ ências coroadas de êxito nos mostraria que marchamos por um caminho novo que perfeitamente evita os erros fundamentais dos liberais e dos marxistas. "L'Energie électrique de la Moyenne Dordogne" e ou­ tras. mas os factos. "La So­ cieté Nationale des Habitations et Logements à bon mar­ che". todas na Bélgica. Estado) podem atender com maior eficiência as necessidades públicas. Um estudo. de uma vez para sempre. ultimamente verificados na Europa mostram-nos que novas possibilidades surgem para a actualização da cooperação. dar um esboço. etc. É natural que tais sociedades exijam liberdade política. que se reves­ tem das formas variadas. Na França temos: "La Compagnie nationale du Rhône". aqui. e virtualizando os aspectos variantes que as tornariam ainda mais diferen­ tes. quer dos productos que fabricam. que já fizemos sobre as diversas modalidades. em face das experiências deste século até os nossos dias. trou­ xeram novas possibilidades. a fa­ mosa BBC de Londres. e que ainda perduram nos estudos de economistas. isto é. Só as formas cooperacionais evitam as constantes toma­ das de posição. na Inglaterra. que empobreceu o campo e não enriqueceu à miséria de uma das massas mais pobres do mundo. Penetramos . etc. nos leva a classificar cer­ ca de 40 tipos de sociedades cooperacionais. que custou tanta desgraça ao nosso po­ vo. as em­ presas de electricidade. as grandes companhias modernas de fornecimento de transporte. Melbourne. criadas pelo grande Frei Orban. "La societé Nationale des Chemins de fer vicinaux". que é preciso. Têm elas as suas portas abertas a novos membros e dão retornos. das cidades re­ construídas na Inglaterra e outras. cujas caracterís­ ticas. a or­ ganização dos portos de Londres. natural­ mente. com suas 190 emissoras. que não procuram ver nada além dos esquemas que traçaram. que não com­ preenderam que o mecanismo da producção não forma uma integral com o mecanismo da distribuição das rendas. faremos uma síntese das características. "La Societé Nacional des Distributions d'Eaux". não é possível. o cooperacionismo o valor das cooperativas. Novas sociedades sob direcção tripartida (consumi­ dores. a "London Passenger Transport Board". a "Metropolitan Water Board". os que se repetem. as exalta e as considera sob muitos aspec­ tos superiores. mas se distinguem dessas pelo facto de se­ rem as cooperativas sociedades de pessoas e as cooperacionais sociedades de pessoas e de capital. ministro belga. Quanto às normas de funcionamento dessas socieda­ des cooperacionais. as quais obedecem às influências locais e as coorde­ nadas de cada função que possui suas peculiaridades. PARA FINALIZAR Surge ante os olhos dos amigos desta terra. Sydney. Têm por accionistas consumidores. Os exemplos mais interessantes são os dados pela Bélgica. e que lhes dão o verdadeiro cunho cooperacional. Vejamos os grandes exemplos já conhecidos: "Le crédit communal de Belgique". como apresentam elas uma gama va­ riada de múltiplas experiências. que são frutos apenas de visões unilate­ rais dos factos económicos.200 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 201 menta de entusiasmo e de responsabilidade. productores.

nem o fortalecimento de si mesmo. uma revo­ lução que não é percebida pelos que têm anteparos ante os olhos. onde houver respeito: a) ao mais alto. c) sem que realize o domínio das coisas e as dispo­ nha em benefício de si mesmo. d) a do prestador de serviços. a verdadeira revolução social. se não tiver e não viver essas condições fundamentais: a) a crença (fé) em algo que o vincule ao superior. sem lágrimas e sem desesperos! AS POSITIVIDADES DOS CICLOS CULTURAIS 97) É mister reconhecer a positividade: a) b) hierática. Deixaremos para trás os negros e sombrios dias da paleotécnica. 98) Só haverá uma sociedade humana bem organi­ zada. encontrarão os recursos sangren­ tos do desespero! Tudo nos indica o único caminho a seguir: o da co­ operação. c) a empresarial utilitária. por fatalida­ de histórica. Todas as condições históricas e económicas ainda nos permitem tal salto. Não sairemos.202 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS em parte já na neotécnica por necessidade. Essa é a nossa grande impossibilidade e tam­ bém a nossa vergonha. à fonte primeira de todas as coisas. Se os homens responsáveis não o souberam fazer. e uma fé robusta na sua dignidade e na prática de actos que o enobreçam (valorização do acto virtuoso). b) sem que tenha esperança nos valores mais altos. que combina harmonicamente o individual com o colec­ tivo. Basta apenas afastarmos os obstáculos que ainda se nos opõem. ou pereceremos definiti­ vamente como nação. . uma revolução sem sangue. uma revolução. ao primeiro princípio de todas coisas. então as massas desesperadas. aristocrática. da situação em que estamos. Essa palavra está nos lábios de todos os ho­ mens. E as grandes realizações cooperacionais no mun­ do estão realizando uma revolução silenciosa. por nos faltar um acto de vontade. por um grande acto de querer. de modo ordenado técni­ ca e cientificamente (prudência). O homem não pode alcançar a sua tranquilidade. Somos ainda incapazes de um grande querer colectivo. d) sem que preste serviços por amor ao bem de seu semelhante (caridade).

e) impedimento total de todo carreirismo. deverá ha­ ver comissões económicas. quanto ao kratos político. 100) Uma sociedade humana.204 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL. o mesmo caminho até à função federal. b) de aristocracia. assim. perfeitamente organi­ zada. porque será inevitável a opressão sobre os outros. deve ser. pela escolha do melhor aos pos­ tos superiores. . para alcançar ao mais alto. como o é a democracia directa. c) a harmonização das funções deve ser feita segun­ do a normal estabelecida pela totalidade. i) o deliberado será apresentado por meio de dele­ gados a essas assembleias maiores. científicas. por um sistema de selecção espontaneamente po­ pular. Uma sociedade humana. grupos de estudiosos de todos os problemas que deverão apresentar as suas sugestões às assembleias de bairro. depois de devidamente esclarecidas. sob os diversos aspectos. d) ao que presta serviços a si e aos seus seme­ lhantes. c) de democracia. cuja promul­ gação deverá ser feita por assembleias. o poder deve ser atribuído a todos. d) todos devem ocupar cargos de responsabilidade variável. segundo os ramos da adminis­ tração e dos vários campos de estudo. h) as organizações de bairro deverão funcionar por comissões especializadas. Assim. cientistas. será aquela que fôr misto de a) teocracia. escolhidas desde a base. pelo respeito de todos aos valores transcendentes. organi­ zados segundo as suas aptidões. nas quais tomarão parte e as quais. deverão julgar da oportunida­ de das mesmas e aprová-las ou reprová-las. c) ao conhecimento e à técnica para domínio das coisas. não se lhes deve de modo algum atribuir o direito de legislar. como técnicos. científi­ ca e pela colocação dos capazes nos postos económicos e técnicos. d) pelo respeito ao direito do que presta serviço. seguindo-se. 205 b) à dignidade do homem como pessoa. pela organização técnica. mas apenas o de proporem normas a serem obedecidas. exclusiva ou preponderantemente. deverá ser um misto de teocracia aristocracia democracia socialismo libertário. g) a organização politica da sociedade deve abran­ ger a todos e deve partir desde a família. etc. f) aqueles aos quais são exigidas funções perma­ nentes. e não a dada por um estamento. cujos delegados deverão representá-la nas assembleias de bairro. Numa sociedade dessas: a) todos são responsáveis: b) a democracia deve ser directa. Em suma. a um estamento. e deverão ser experimentados nos mesmos. pantarquista ou seja. 99) O kratos político não pode pertencer. 101) Para que uma sociedade humana atinja o má­ ximo é mister que o kratos político se dissemine a todos (democracia directa).

Ou faremos a História. k) Os poderes deverão ser harmonicamente dis­ postos: a) o técnico. O seu esforço será o maior título de glória às gera­ ções futuras. porque os interes­ ses criados obstaculizam um evento dessa espécie. inevitavelmente. além de uma ajuda de custas quanto à via­ gem e estada. acovardados. a fim de evitar-se o carreirismo políti­ co. tam­ bém. formado de delegados escolhidos do mesmo modo. Cada um. . que encolham os ombros e se afastem. f) O executivo indirecto. Se­ rão substituídos por selecção realizada desde os grupos fundamentais. apesar daqueles que. Muitos desfalecerão nessa luta. cabe­ rá as mesmas funções que se observam em todo o mundo. e nenhum perceberá nada mais do que ganha em sua função social. de modo que todos passem pela mesma. e não pode­ rão ter idade inferior a 60 nem superior a 80 anos. o homem viverá sempre os mesmos ciclos. a Noruega. Cabe-nos escolher. que serão aprovadas pelo legislati­ vo e postas em vigor pelo executivo. e de certo modo já se realizou em países de maior progresso. O principal é saber-se que há homens qu a não trepidam em lutar por uma superação humana. etc. será constituído por um conselho de homens de comprovada estatura moral. Não precisamos convocar ninguém. sem dúvida.206 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 207 j) nenhum delegado deverá ser nomeado para mais de duas assembleias. com delegados apenas eleitos pelo voto popular. não desejam lutar pelo melhor. no qual se acham os delegados escolhi­ dos. Não importa. que examine e escolha o caminho que desejar seguir. pela simples razão seguinte: seguindo o rumo que ora percorremos. que não sendo assim. Sem dúvida que sabemos que é assim. a Suécia. as mesmas contin­ gências. como a Suíça. e) O legislativo. e vitalícios. Se queremos evitar essa destruição. devemos lutar por essa superação. que não desanimem e ponham-se em luta. ao qual cabe a formulação de planifi­ cações técnicas. apesar das dificuldades. Os que de­ sejam combater pelo que é possível de realizar. chegare­ mos. como muitos. prosseguirão lutando. científico e económico poderão propor normas e leis. E temos certeza disso. Os poderes técnicos. formado de delegados também do mesmo escolhido. Ao judiciário. ou seremos feitos por ela. através da selecção técnica desde os bairros ou pe­ quenas colectividades. com delegados confirmados por eleição directa por seus pares. as mesmas odisseias. den­ tro de si. e talvez ao fim da humanidade. 102) Uma organização social pantarquista será pa­ ra muitos impossível de ser alcançada. à mais destructiva das guerras. bem como pelas organizações de classes respectivas. O imprevisto também acontece na História. Mas sabemos. d) O judiciário. Os que julgam que é impossí­ vel. b) O científico. Seus membros serão vitalícios. c) O económico. cuja presidência será provisória.

quanto ao Estado. no sentido mais positi­ vo que podem ter essas palavras. e que não é mais possível iludirmo-nos com as abstracções que criam abismos. mas o caminho estará aplainado no momento que as realizemos. porque a perduraçao finita é sempre a duração sucessiva de uma simultaneidade. Então compreende­ remos que não podemos deixar que permaneça separado o que nossa mente apenas isolou para a análise. em que podemos reali­ zar uma revolução permanente. primeiramente. os aristocratas. somos o Estado. estamos iniciando os primeiros passos para uma ressurreição. Sabemos que é difícil realizar essa concreção na prá­ tica. proi lamem: nós. mas de reunir simultaneamente o que se dá sucessivamente. depois de afastarmos tudo quanto elas têm de vicioso e de falso. Não podemos mais admitir que. podemos estabelecer uma socie­ dade em permanente dinamismo.AS QUATRO VERDADES 103) Impõe-se a concreção dessas quatro verdades. e que. alcançare­ mos a concreção das positividades. uma aristocrática. e realizar a sucessão do que perdura na simultaneidade. uma empresarial e uma dos servidores. da sua concreção. Se concrecionarmos o que há de positivo. Quando te­ nhamos compreendido que há uma verdade teocrática. . corno a sociedade politicamente organizada. dentro de nós. Não se trata de realizar um retorno.

somos o Estado. porque não podemos nos furtar a conside­ rar a objectividade dos estamentos sociais. levando a oferenda de nossa vida. de conquista do me­ lhor bem-estar possível ao homem. realizando e produzindo bens que satisfaçam todas as necessidades de todos. a realização de nossas obras. sobre os estamentos inferiores. nós que de ti descendemos. e de exploração. e obstaculizam o pleno desenvolvimento da criação e da capacidade humana. do que estabelece diástemas não ultrapassáveis. Queremos. di­ vide. somos o Estado. que afasta. que cria diástemas insondáveis. Não há rupturas no ser. com a paz em nossos corações e em nossas cidades e em nossos campos. que nos cabe. não ao aristocratismo. a opressão. que erguemos nossos olhos para a fonte suprema de todas as coisas. por intermédio de nossos guias. homens respon­ sáveis. não o servilismo que humilha e deprime. o domínio das ideias superiores e transcendentais. constructores do bem económico. um amor do ho­ mem aos seus altos valores. sem cair no vício do utilitarismo. Estamos sempre mais próximos do que de nós se separa. reve­ lamos a causa desses desmandos e desses vícios: o poder. e possamos. Todos nós somos o Estado. os servidores. do domínio que separa. somos o Estado. então. venerada e cumprida. os empresários utilitários e realizadores econó­ micos. e afastar as deficiências. a maio­ ria é oprimida. E há essa colheita. servidores do bem público. do teocratismo. edificadores da dignidade e da superação hu­ manas. à sua nobre­ za. sim. dizer: "Origem das origens. Onde se instala o poder. a in­ compreensão do que é justo receber em paga e da paga justa. os teocratas. que abre separações. porém. . de modo claro e definitivo. em suma. e só participam dos benefícios os usufru­ tuários do poder. e o abismo é um equívoco. parte. Mas. todos unidos na boa vontade que cons­ trói. O Estado é a reunião de todos nós. Queremos o princípio aristocrático. não na realidade das coisas. sempre sinais de abstractismo vicioso. à sua dignidade. de contribuir ao bem social com o nosso esforço. e que ter­ mina por não realizar gestos dignos. que deve ser afastada e desprezada. nós. Mas. Queremos uma visão utilitária. Queremos o amor e a honra de bem servir aos nos­ sos semelhantes. o kratos político. que nasce apenas na mente do que seccio­ na. a ti volvemos. segundo diversos graus. Queremos fugir de tudo quanto secciona. Assim queremos o sentido da teocracia.210 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 211 nós. Devemos afastar de nós os ismos. cônscios de termos cumprido nosso dever de homens!" É mister fazer a colheita das positividades. nós. não porém o escravagismo. Há em todos os campos uma verdade. Queremos sentir a responsabilidade. que a tudo dá um preço e transforma todos os bens em bens de mercado. 104) Demonstramos. também. que deve ser exaltada. separa abissalmente. que os diversos estamentos exercem regimes de opressão. não. que possuem a sua fundamentalidade justa e segura. como uma falsi­ dade. atribuído a poucos. e muito mais do que julgamos. unir as positividades.

pela sua competência compro­ vada. afastaremos para sempre o perigo dos demagogos. sem necessidade da publicidade desenfreada. assim. e aos nossos semelhantes como a nós mesmos. Só a pantarquia. mas a todos. por estes princípios básicos. Já mostrou quantos frutos be­ néficos pode dar. que estão nos lábios e não no cérebro e muito menos nos corações. e móveis. os débeis mentais. a verdadeira revolução. 2) A moral cristã sem os excessos da virtude vicio­ sa. Quem quer admitir que um homem de dignidade vá para o meio das multidões para incensá-las. Desse modo. e os tem afastado pelo ódio. O poder é de todos nós. corruptor de consciências. para atirar-lhes epítetos cheios de adula- ção. os patifes. desde os simples nú­ cleos de bairro. que seccionam as consciências. cuja única inteligência é a as­ túcia. tem o direito a todo o poder. O poder não pode pertencer a uns. Abramos as portas ao mérito. a democracia directa. que afastam os homens uns dos outros. e revelar os melhores para as melhores fun­ ções. para todo poder a todos. É esse o único caminho que pode realizar plenamen­ te o que de mais positivo tem o homem. poderá unir as consciências. mas delegados com funções delimitadas rigidamente. que tem impedido a união dos homens pelo amor. esmagai o canalha! Ninguém. para poder assumir postos de mando? Abramos as portas aos homens dignos. . dos cesariocratas. 3) Amar o Ser Supremo acima de todas as coisas. como bem mostrava Tomás de Aquino. Marchamos e devemos marchar para a pantarquia. sem necessidade de se humilharem na adulação das massas de eleitores. por todos pelo bem de todos. A democracia directa é uma prática já comprovada em povos de alta cultura. para bafeja­ das de elogios. a da humanidade.212 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 213 Nada tem manchado a História de páginas mais ne­ gras e de momentos mais trágicos e hediondos. a omnipotência de alguns separados do conjunto da colectividade humana. O poder de todos. desses que partem a sociedade. 105) Lutemos. fundamentais de nossa cultura. contra toda habi­ tualidade do poder. os incompe­ tentes. Tudo o mais tem sido apenas brutalidade e sórdida mentira. nem nenhum partido. permitamos que os mais nobres e mais justos possam prestar servi­ ços ao bem público. a força mo­ triz. os torpes. que poderão assegurar a plenitude constante do homem. os ladrões encasacados. a revolução permanente da ascenção humana: 1) A transcendência do pensamento cristão. realizando o apoio-mútuo. e como é fácil afastar os ambiciosos. Que os verdadeiros valores possam erguer-se pela sua actuação. porque está êle acima de todas as coisas. nem do apoio dos poderosos. O Estado somos todos nós. Quando um canalha vir ao povo e lhe disser que precisa de todo o poder para rea­ lizar o bem do povo. contra todo carreirismo político. que o mo­ nopólio do poder. evitar o viciamento do poder. O monopólio de poder tem sido a causa. afastar os ambiciosos. a cooperação de todos em benefício de cada um e de todos. constantemente mó­ veis. Nada de representantes.

7) Lutar pelo bem estar em benefício de todos. b) há manifestações inequívocas de um ímpeto para ascender na escala animal. nos gestos. e o dever de todos de trabalhar pelo bem social. pela qual estructurou um pensamento culto. sobretudo. através da afectividade. Este é o bom combate. dós cesariocratas. dos estatólatras impenitentes. considerado em sua formação biológi­ ca. e que todos participem da actividade pública. pela incorporação definitiva na humanidade. Pela delineação que acima fizemos. a ciência. mas possuidor de uma intelectualidade. e ímpetos de retorno às raízes animais. e tornem-no mais pujante. no ocidente (e em todos os movimentos análogos). e luta contra tudo quanto explore a sua fraqueza moral. 10) Dar responsabilidade a todos em benefício de todos. pois não só . a ponto de dar-lhe a ciência. A SUBLIMAÇÃO DAS POLARIDADES INEVITÁVEIS À proporção que os fundamentos teocráticos sofrem as deformações que decorrem da acção corruptiva dos aristocratas. Há sempre. a confusão nas ideias cresce na sociedade em questão. como se vê precisamente no movimento romântico. dos empresários utilitários e. 5) Valorização do que dignifica o homem. a sua concupiscência. Têm sempre seus cultores. E so­ bretudo permitir que as ideias positivas possam ter as mesmas condições e facilidades de veiculação como as têm as más e destructivas. iniciando-se pela luta enérgica contra a miséria e a ignorân­ cia. a demonstração. convoquemos todos os bons guerreiros de um ideal humano superior. o saber culto. a sua morbidez. podemos estabe­ lecer uma série de comentários oportunos. 6) Nobreza nas atitudes. no modo de proceder. c) esses retornos acompanham constantemente a vida humana. 9) Dar a toda riqueza uma função social. e tomam maior vulto em certos estágios do ciclo cultural. à sensibilidade. é um animal. no homem. de origem mais ani­ mal. evitando que alguns enriqueçam à custa das carências alheias.214 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS 4) A Liberdade plena de manifestação de todas as ideias que levem o homem ao mais alto. com o respeito ao direito de todos. Para êle. São ob­ serváveis os seguintes aspectos: a) o homem. 8) Honrar a prestação de serviços e a retribuição justa. e a intelectualidade que nele se desenvolve aos pou­ cos. uma grande oposição entre a sua sensibilidade e afectividade. nas palavras.

do Pathos. das cau­ sas desconhecidas. Estimulam eles a mente na bus­ ca das razões ocultas. Surge ela da captação imediata. da catharsis estética. o simbólico.216 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA ROMANTICISMO A fidelidade a si mesmo é cor­ respondente sempre aos impul­ sos à proporção que surgem. . Valorização da doía. são ape­ nas pontos de partida para o conhecimento. Valorização da sem-razão. A felicidade humana obtém-se pela tranquilidade da mente ao alcançar a verdade. do nexo dos entes reais entre si. intuitiva. nos irracionalistas. e atingir ao belo. e o homem tem de ascender. O génio é o criador espontâneo. mas obti­ da pela adequação dos conteú­ dos noemáticos aos factos. seguindo os rumos que lhe dão a inteligência e. Apolinismo. rectamente conduzida. do ímpeto criador. etc. Valorização da episteme. atendido e estimulado pelo trabalho perse­ verante e pela paciência sem fim. EXTREMO H U M A N O A sensibilidade e a afectividade embora de valor vital. das A verdade é alcançada. . Valorização da criação estética. A fidelidade a si mesmo consis­ te no conhecer-se a si mesmo. intuitivistas. conduzida pela intelectualidade. Só a intelectualidade é capaz de apreciar justamente os valores. Valorização da criação espontâ­ nea. como vemos nos românticos. Valorização da Razão. Valorização das emoções. Valorização da coerência. Nós somos o que nós podemos fazer de nós. sen­ sível. partindo-se da experiência. o místico. Valorização dos nexos ideais. A conquista da humanidade está em alcançarmos a sua supera­ ção pelo acto genuinamente humano. o híbrido exaltam. O génio é o criador. Opina-se aqui. A verdade é alcançada apenas pela experiência. no perscrutar seus ímpetos. do Logos. Valorização dos instintos já per­ didos. a razão. sem valorização dos nexos ideais. . Demonstra-se a q u i . das reacções da sensibi­ lidade. Valorização do acto humano e sua vitória sobre as emoções que a viciam. Valorização da incoerência. mas julgados recuperá­ veis. paixões. da Von­ tade dominadora das paixões e das emoções. do ne­ xo formal que há entre os factos. estimulam a imaginação. A conquista da humanidade es­ tá em não falseá-la em suas origens. ou seja. e saber como dirigi-los para a própria elevação. e apenas isso. O oculto. valorização da idealidade da realidade. Dionisismo. em suma. . na formu­ lação dos nexos. Podemos. Os instintos são irrecuperáveis. EXTREMO ANIMAL Valorização da sensibilidade e da afectividade. . Nós somos o que somos. Não é ao belo que se procura. estabelecer algumas propriedades de cada aspecto extremo: o extremo animal e o extremo humano de sua influência na actividade e na criação hu­ mana. SOCIAL CLASSICISMO 217 nos favorecem a melhor compreensão dos factos históri­ cos como sobretudo nos auxiliam a ter uma visão mais nítida do momento que vivemos. A felicidade humana alcança-se na fusão cósmico-animal. emotiva. sobretudo. Valorização do acto animal. Valorização exclusiva da reali­ dade. A catharsis deve ser despojada dos excessos monstruosos. assim. Nossa afectividade é valorizadora ou não dos factos. mas à expressão com beleza.

Imediatismo. Fusão (yoga) ou submissão (islam). Mas. O guia popular é a expressão da vontade colectiva. no horrível. O cumprimento do dever decor­ re da consciência da obriga­ ção. quando expressam a verdade ontológica. A voca­ ção é tudo. tanto a um como a outro. O santo expressa a sua tendên­ cia. H á beleza até no repugnante. A verdade é a lógica. aflora O homem alcança o mais alto através de vivências afectivas e sensíveis. não será difícil compreender que assiste muito de verdade. no sentir distintamente a obri­ gação moral. Na sensibilidade não há beleza. Nós construímos a nós mesmos. porque a posição concreta é a que concreciona positivi- . A beatitude alcança-se na fusão no Ser. pela estética do simbolizado. A virtude é o producto de uma escolha dirigida habitualmente. A beatitude obtém-se pela liber­ tação de toda limitação. pois. O líder é o que se põe à frente da massa. que o homem supera. que cada um sinta que par­ ticipa de ambos extremos. logo se verificaria que ambos extremos têm muito de verdadeiro em suas afirmações. pela ascese místi­ ca. O amor é espontâneo e irracio­ nal. e que alguns se sintam mais simpatèticamente ligados a um que a outro. A verdade religiosa alcança-se pela fusão. novos objectivos. pela racionalidade. a ontoló­ gica. Não é difícil. Separação. a mais sábia. Devemos retornar às nossas ori­ gens genéricas. Os homens nascem uns para conquistar o domínio. O homem só se liberta pelo do­ mínio das coisas. O cumprimento do dever é um ímpeto natural. distinção. O guia (líder) popular é o que dá ao povo um ideal e uma meta. e também a mais justa e a mais verdadeira. Uma visão concreta dos extremos seria. O aristocratismo está no pathos. O santo é o vitorioso sobre si mesmo. e a orienta à con­ quista do desejado. so­ bretudo. A verdade religiosa alcança-se pela visão transcendental. A inteligência é e deve ser vigi­ lante.218 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS A beleza expressa-se em verda­ de. O cosmos é um espetáculo. A vontade é a expressão de um ímpeto do querer. mas da espécie (humanidade). O amor é também um longo tra­ balho do querer. mas apenas agradabilidade. desde logo. A capacidade inteligível é. O líder é aquele que desperta na massa um novo querer. A capacidade intelegível da emergência. tam­ bém. Os homens se fazem e podem dar a si mesmos uma direcção. SOCIAL 219 A verdade expressa-se em be­ leza. A inteligência é estimulada pe­ los seus objectos. O homem só se liberta pelo co­ nhecimento que lhe dará o do­ mínio pleno das coisas. A verdade é apenas a material. através não do género (animalidade). o producto de uma longa aprendizagem e de uma cuidadosa selecção. Mediatismo. Devemos retornar às nossas ori­ gens transcendentais. E levada avante essa apreciação. J á nascemos feitos. pela estética do símbolo. O aristocratismo está na cons­ ciência do laço livremente es­ colhido. Só há beleza no repugnante e no horrível. mas que pecam ao excluir ou ao desvalorizar as possibilidades do outro extremo. / O PROBLEMA Somos capazes de dirigir nosso destino e desviarmo-nos das contingências circunstanciais. O mais alto é alcançado através de vivências intelectuais. A virtude é emergente apenas. Somos o producto dos aconteci­ mentos e das nossas circuns­ tâncias. A vontade é a apetência ao bem. A beleza está também na sensi­ bilidade. que nele vê a ex­ pressão do seu querer.

ou seja. e a vigilância é o ponto de partida para as suas novas vitórias. do belo ao horrível. é mais impulsionado pelas suas tendências simpatéticas e antipatéticas do que pela apreciação justa de quem consegue estar acima de seus ímpetos mais profundos. Ademais essa não lhe poderia trazer nenhum benefício. o cosmos e a História. uma com a eloquência do Pathos. a outra a persuasão através do rigor dos argumentos lógicos. Há sempre. que se opõem. que se obstinam. adormecidos ou não. tem sido mais um fruto da paixão que da razão.220 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 221 dades em torno de razões. historicamente. assim. Se passarmos os olhos pelos períodos e fases de todo ciclo cultural. como já demonstramos. que é concreta. Tendo perdido os instintos principais. o homem é esses extremos. o testemunho das suas duas raízes opostas. há a expressão do apolíneo na regularidade de suas li­ nhas. mas a intelectualidade terá de despojá-las das valorizações afectivas para alcançar uma plenitude capaz de dar um nexo de idealidade à realidade. a outra nas mentes tendentemente racionais. na abadia de Cluny. o homem não poderá negar sua origem. para muitos. o ser humano. Temos que partir de algumas evidências. E em cada um há. num entrechoque criador. a alternân­ cia dessas polarizações. O homem tem . e os vive. no que o homem faz e realiza. Uma usa a força da persuasão através da seducção dos argumentos afectivos. e a predominância de uma sobre a outra é apenas passa­ geira. que há entre as razões (eide) que nos permitem com­ preender os factos. porque há sempre. Consequentemente. A primeira influi nas mentes tendentemente estéticas. mas há o pathos do hieratismo aristocrático na ex- pressão simbólica da sua agressividade e da sua comba­ tividade. Em Notre Dame de Paris. Assim. com eles convive. a outra com a eloquência do Logos. mas esquecem de ver a simbólica de uma afectividade e os ímpetos da imagina ção nas quimeras que expressam desde o temor ao terror pânico. fundando-nos na realidade huma­ na. qualquer das duas polaridades extremam-se exageradamente. 2) A Técnica e a Ciência abriram ao homem novos caminhos. porque a alternância é constante. e na raiz de todos os seus conhecimentos há sempre a afirmação da sua origem genérica. A posição humana mais con­ sentânea com essa realidade é a consciência da conserva­ ção do que é dionisíaco em nós e do que é apolíneo. toma o nexo de reali­ dade entre as experiências e as liga ao nexo de idealidade. o entrechoque entre o dionisíaco da primeira contra o apolíneo da segunda. Há sempre duas maneiras fundamen­ tais de considerar o homem. na História. ou seja: a vitória do homem só pode realizar-se pela con­ quista constante do acto humano purificado de suas peias. as conquistas que o homem já realizou impedem-lhe que retorne pelo caminho do género. 3) O acto humano é escalarmente alcançável. 4) Contudo. e que se refutam. Mas. há a expres­ são vigilante da racionalidade. e a sua superação tem de seguir o roteiro da humanidade. No entanto. com seus fluxos e refluxos. também. que não de­ vem ser esquecidas: 1) é impossível ao homem o retorno à animalidade. veremos patentemente o constante choque dessas polarizações e das estratificações que elas reali­ zam no homem. As raízes genéricas oferecem os elementos expe­ rimentais.

e permite a concreção da idealidade da realidade e a realidade da idealidade. mas também é difícil alcançarmos a plenitude do acto humano. de ontologicidade e de logicidade é mais difícil. por sua vez. e da idealidade (como nexo das coisas ideais). esta não implica a anulação da outra. visualizar. suspeito. e no nexo real das coisas ideais. A vitória humana só pode caber. E teremos. contraditório. a fuga só poderá dar-se por uma demissão da humanidade. transformando-se apenas num vicioso especular em torno dos dois pólos extremos. Sem dúvida. vi­ vemos a intranquilidade que os dois extremos actualizam dentro de nós. São inúteis e fadadas ao erro e ao malo­ gro todas as tentativas contrárias. é impossível retornarmos à animali­ dade. devido à grande sementei­ ra de ideias falsas e prejudiciais. porque permite a captação da realidade (como nexo das coisas reais). mas a cada um de nós como indivíduo. Para a primeira maneira de pensar basta apenas expres­ sar simpatèticamente o que é sentido. Não há mais recursos dentro de nós para volvermos às ca­ vernas. Contudo. às selvas. Como estamos no meio do caminho. cuidadosamente. agora. A perfectibilida­ de da intelectualidade é evidente e representa um lanço mais elevado no roteiro da evolução cósmica. nossa época. Como há em todas as épocas humanas a presença de valorizações. inconveniente. e até no poder humano de desintegrar as coisas. fundando-se no Pathos. um desejo de integração. à filosofia concreta. que manter-se num pensamento vário. pervertidoras. e só ela pode oferecer ao homem um caminho de superação. Necessitaríamos des­ truir tudo quanto a Técnica. Será impossível permanecer na indiferença. há. E esse desafio provocará uma resposta. que consistiriam. podemos desde logo notar a presença persistente de inúmeras atitudes falsas e contrárias ao interesse humano e. de nossa angústia. um ímpeto para alcançar uma nova tensão superadora. pois. . É impossível o retorno e. o que há de acentuações de um lado e outro. Vejamos. acarre­ tando graves consequências. podemos em nossa época. Talvez em muitos ímpetos de desagre­ gação que hoje se manifestam. Em suma. que transcenda aos elementos componentes. que não ape­ tece. de tomar uma posição. tanto de um pólo como de outro. Ademais. desafiado. um desejo de realizar uma unidade. sem dúvida. uma demissão da humanidade. Inegavelmente. uma unidade de simplicidade nova. a Ciência e a Filosofia posi­ tiva construíram. ao primitivismo. que perdeu o seu contacto genuinamente apolíneo. e nos é fácil compreender as razões de nossa inquietação. alguns exemplos: É muito rnais fácil pensar incoerentemente que coerentemente. no nexo ideal das coisas reais. de nosso balancear e também do desespero. Manter-se dentro de uma visão concreta de onticidade. O homem moderno está. esteja um testemunho simbólico de seu desejo de rompimento de uma unidade. para que encontremos soluções que nos sejam realmente benéficas. Mas. incongruente. enquanto aquele capta os fundamentos (conexões) ideais. mas um estágio mais elevado. A coerência é apresentada como algo duvidoso. de superação das meras agregações. porque onde entra a vontade não há indiferenças. que será a aceita­ ção do combate ou a fuga precipitada. quer queiramos ou não.222 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 223 de aíirmar-se pelo Logos. o Logos não é a exclusão do Pathos. mas a concre­ ção deste que lhe dá os fundamentos reais. seria uma capi­ tulação. Mas esse desafio não é só feito ao homem como co­ lectividade. ademais. que avassalaram a filo­ sofia moderna. primeiramente. que se apossa de mentes mais fracas e em geral deficitárias.

desJ obteve nada de melhor A GRANDE D£ n a descrença. mas trevas que tudo Ora. do qual proviemos.. Í. . . desespêA cosmovisão da époce^ f a s t a d a r m o s o espectranscendentalidade. . pc e afirmarmos outra vez o hierático em nós. aqui. ^ . a noç*>í> a l a v r a s ' * u a s ^ u e i x a s > s e u . gíiesmos. e nao pro. t e s n a r m a s e k 0 n s estômagos para podeA Religião br entre o nauseabundo vapor que se desdor. . que se afastem de nós. .maçao nos abismaremos na decadência e na ser. . vendo a miséria ou à fé. Nós queremos nos dirigir a estes. Outros. L tudo abismos. . assim aro ar puro! acima da natu . JLZ que brilhe. estamos já aptos a reali­ zar a grande e a maior façanha do homem: a conquista da sua liberdade. .224 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS f 227 Alguns não quererão tomar consciências do desafio. o que leva a absunrente já cansou de descrer. que sigam ao nosso lado. necessária. dis^j q u e a v a n c e m 0 S j n a 0 < s possível que nos respeito à nossa < e s t á g i o m a i s a l t o > s e m q u e n o s reiiguefonte primeira e P o n t e de nossa vida. erguerão o peito. o producto dos acontecimentos. o Ser Primeiro r fr e s c Q e s a d i Q d a g m o n t a n h a s m a s limitado por outro. >o productos próÁ factores.. e apenas a estes.„ . impotentes e acovardados. de muide sucedam. . e que tenham a certeza de que lutarão pelo homem. „. ou nos afogaremos no pân- . . Outros. o inferno que os envolve. Ou voltamos a crer o que ultraj e nos ultrapassa. para que. ele „. ou seja. aos que não temem os golpes do provocador. e reuni­ rão suas forças para aceitar o combate. e que desejam convencer-nos de que seremos apenas. . . . num acto plenamente humano. porém. afinal. Aro e Supremo. e e . ' . ri. Seu decultura persa deir. ante o temor do combate.dade. e passarão como exemplos da covar­ dia humana. . acovardados ante êle. „ . mas pelo homem que afirma a si mesmo naquilo que deve ser seu galardão de honra. _ . . a racionalidade concreta. . _ . aos que não se acovardam. . como o fizemos. > iremos. que passem para o outro lado. à razão primeira e cristã apenas af^s Q u e p e n e t r e m dentro de si mesmos. nomem ocidental. . a racionalidade superior. dade. . . E o pnque a naturezf:. p< ' tureza é de s outra vez desafiados. sua morbidez. aos que não desfalecem. que conosco se unam para o com­ bate. Conhecendo. p r a n t a n o S lismo de dois seres p. no momento da Grande Decisão. .udo trevas. sua angústia é lassidão. tudo trapassa a natureza daí . e sempre. . . . que será o poder capaz de forjar o seu destino com as próprias mãos num acto de vontade. . o hora. o que gera os aconteci­ mentos e sabendo que dispomos de meios para desviar os óbices e dirigir a nós mesmos. entregar-se-ão a um nihilismo passivo negativo.'. clamando: ligião é. aos que sentem crescer em si mesmos o orgulho de serem desafiados para o mais ingente dos combates. níil é simples. Os que se abismam. . Os que desejam combater pela superação humana.. sua náusea é muzd e Ahriman. Será esta que lhe permitirá no estudo da História vi­ sualizar os meios de vencer as contingências que surgem aos olhos de muitos como uma necessidade imprescriptível. possam outra existência e de em busca do ponto de partida. sua damnatural. não pode riou todo angústia. que se deixem arrastar pela corrente como folhas soltas ao sabor das forças desencadeadas.

is da energia". Não há luz que brilhe. que será o poder capaz* n a o e r e d u z i r destino com as próprias mãos num acto d^ u e c 0 ° P e r a m íac acto plenamente humano. Nada conseguiu de melhor o homem ocidental. pela descrença. É tudo miséria. „ . a cosmovisao de nossa culOs que se abismam. de mui­ tas condições. de diversos factores. .224 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 227 guns na. nostalgia. que sucedem. clamando: quero luz. que se deixema ignorância. . ela que sentem crescer em aeiro. Outi i t a d a > e n q u a n t o ê l e r e a l i z a s e g undo a rão suas forças par. que tenham fortes narinas e bons estômagos para pode­ rem respirar por entre o nauseabundo vapor que se des­ prende deles mesmos. Abismando-se na descrença. sem que nos religuemos outra vez à Fonte de nossa vida. a raci d e d e aporias que a racionalidade concreta. acovara. o temor do combate. estamos e c"' 1 u a n ° a zar a grande e a maior façanha do h o m r ° S e n e i d a d e d e da sua liberdade. que cooperam para que sucedam. são productos pró­ ximos de inúmeras causas. . do contrário. sua náusea é derrota. para que. náusea.de uma coisa. não pode nela conter-se. afinal. como die sempre. tudo mau cheiro. e que tenham a certeza de que lente. E o pri­ meiro passo é afirmarmos outra vez o hierático em nós. Estamos outra vez desafiados. a s s j m > u m a SUper-natureza. sigam ao nosso lado. Que penetrem dentro de si mesmos. mágoa. .. p o r i s g o > ^ p o d e r e & l i z a r Q q u e Nós queremos no. O homem descrente já cansou de descrer. desespe­ ro. Sem essa afirmação nos abismaremos na decadência e na derrocada final. da estructura mentos e sabendo que dispomos de me os óbices e dirigir a nós mesmos. porque. ou para o outro lado. desligando-se da Fonte da Vida. sua angústia é lassidão. tudo trevas. Ou voltamos a crer em algo que nos ultrapassa. suas queixas. tudo abismos. Conhecendo. ou nos afogaremos no pân- . vendo a miséria que os avassala. tedesafiados para o mais ingeabsurdo. Seu de­ sespero é cansaço. A dúvida os Os que desejam combater pela simorância os aniquila. como o fizemos. quero ar puro! Estamos no momento da Grande Decisão. sua damnação. mas trevas que tudo encobrem. . que se afívida. filosofar é aquela Será esta que lhe permitirá no esti n a o s e consegue sualizar os meios de vencer as contingfl ue explica tudo aos olhos de muitos como uma necessiridículo explicar vel. seu desespero. 1izar Q q u e n e n h u m s e r n a t u r a l f i n i t o é mo passivo negat c a d & u m r e a l i z a d e n t r o d o s i i m it e s dia humana. é sobrenatuOutros. „. não há o ar fresco e sadio das montanhas. . o producto dos acontecimentos da natureza". . ela cria maiomas pelo homem que afirma a si ( e m dúvida. porque se tornou todo angústia. impoue não podem alcançá-lo. ^ Peca P°r o basta dizer manifestação nada há sem a cooperação fundamental do Ser Primeiro e Supremo. . que conosco seguiu resolver qualbate. à razão primeira e última de sermos. não são como folhas soltas ao sabor dasitingi-lo. os factos heterogéneos. temem os golpes do provoca. o que . 7 . Não obteve nada de melhor com a descrença. E se nas coisas aos que não se acovardie ultrapasse a sua natureza. julgar deve ser seu galardão de honra. não é possível que nos integremos num estágio mais alto. Não é possível que avancemos.. sua intranquilidade. e que desejam convencer-nos de quês fêz". suas palavras. o inferno que os envolve. mas o fétido hálito dos pântanos. sua morbidez. possam outra vez correrem em busca do ponto de partida. Basta olharmos o espec­ táculo dos descrentes.

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tano da descrença, na náusea de nós mesmos, no suicídio das nossas melhores esperanças. Se queremos vencer a decadência, temos outra vez de volver à fé, mas a fé agora robustecida pela demons­ tração poderosa de uma filosofia concreta, de uma filo­ sofia que não cavila, que não aceita compromissos com falsos postulados, de uma filosofia que se fundamente em argumentos apodíticos e sólidos. Então, outra vez, a luz meridiana há de brilhar dentro de nós para iluminar to­ das as coisas.
* * *

estágio intelectual, que a filosofia cristã tem mais bases e é mais sólida que qualquer outra, e que apresenta ar­ gumentos irretorquíveis, e é capaz de anular, de esfarelar, de tornar em pó, todos os argumentos que manejam os apóstolos da descrença. Aceitemos o debate, desafiemos os falsos filósofos, mostremos à calva a sua ignorância, polemizemos com eles, mostremos a inanidade de suas doutrinas, a vacui­ dade de suas ideias, a inconsistência de seus argumentos. Marchemos para o bom combate, o combate em fa­ vor de nossa cultura, contra os que desejam destruí-la. Denunciemos as forças ocultas que trabalham nas som­ bras, desejosas de destruir o que de mais alto realizou o homem. Mas com coragem, com decisão, com bravura. O mo­ mento não é para tíbios, tímidos, acovardados, vencidos, mas para bravos, decididos, valentes, audaciosos no sen­ tido positivo do termo. Lancemos a luva aos nossos adversários e se não vierem para o campo de combate que lhes oferecemos, vamos às suas tocas para os arrancarmos de lá, e vencê-los no mais belo dos combates, na mais sublime de todas as guerras: a guerra dos guerreiros do conhecimento con-, tra os falsos sábios, os fariseus da nossa cultura!
* * *

Esta é a verdade que há na teocracia, na hierocracia e na aretocracia. Mas ao lado dessa verdade, há ainda o erro, há ainda as formas defeituosas, culpadas dos desregramentos. O homem de hoje já se familiarizou com o conhecimento. Desde a escola já participa de um saber culto, fundado em observações e em experiências. Sua linguagem não é mais a simbólica, e não alcança a verdade através das analogias, mas através da demonstração lógica directa. Como pretender avivar convicções com velhos símbolos, que não têm mais significação nem para quem os apre­ senta? Vamos, hieráticos, teocráticos e aretocráticos, é mis­ ter outra campanha, outras vozes, outras razões, outros símbolos, outros ritos, outras cerimónias. É preciso agora despertar a razão, e abrir-lhe as portas que levarão ao mais profundo. A religião não é apenas algo que per­ tence ao coração, mas que também pertence ao cérebro. Já falamos muito ao coração, falemos agora ao cérebro, e ao juntarmos as duas linguagens, seremos melhor com­ preendidos. Sabem muito bem os homens que seguem a religião cristã, pelo menos os que estão em mais alto

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Mas também há outra verdade, que é mister erguer bem alto. O homem nada é sem princípios éticos. Sem um valor aristocrático, sem um sentir da sua grandeza moral é apenas um fantasma de homem, um animal dis­ farçado de gente. Não é possível que qualquer energúmeno levante a voz para acusar a dignidade humana, afrontar a moral,

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manchar a ética e proclamar a grandeza de suas imun­ das atitudes. Não é possível que deixemos à solta aque­ las que mancham o nome sagrado da família, que a trans­ formam apenas na promiscuidade, animais cúpidos, aguilhoados pelas paixões mais vorazes, que afrontam os costumes com suas obscenas atitudes, que lançam sobre os que têm vergonha na cara a peçonha da sua covardia moral. O homem é um ser que se supera e deve superar-se. É um ser que deve escolher o caminho da Humanidade e vencer as suas fraquezas, realizar-se na plenitude de si mesmo. O homem tem em si um brio, e ninguém tem o direito de destruí-lo ou viciá-lo. Sermos cada vez me­ lhores tem de ser o ideal humano, porque nada melhor lhe corresponde que isso. Como admitir-se que homens de proceder imundo sujem o nome da aristocracia com os seus infames doestos? Aristocracia não é a dos alma­ naques, não é a das árvores genealógicas, mas a das ati­ tudes, de alma viril e digna. Essa aristocracia houve e sempre haverá, e não é admissível que imundos morais lancem sobre ela a ofensa infame. Cada um de nós deve fazer um exame de consciência. Buscar dentro de si o que realmente tem valor, o que realmente é digno de ostentarmos como seres humanos. É mister que outra vez valorizemos o melhor em todos os nossos actos, em todos os nossos momentos. Devemos ter o amor de sermos sempre cada vez melhores, de fazer cada vez melhor o que fazemos hoje, e superarmos ama­ nhã a nós mesmos. Devemos amar o nosso amanhã, que deve ser a superação de nosso hoje. Devemos erguer-nos acima de nós mesmos, e afirmarmos que não somos coisas, mas homens, que não somos apenas accidentes no caminho da vida, mas pessoas, cuja vida deve ser um exemplo para os outros e cujos gestos devem ser o nosso galardão.

Negar a verdade aristocrática é negar o homem, é en­ vilecê-lo, é lançá-lo no pântano fétido. Sejamos sempre superiores a nós mesmos, ou, então, melhor fora não termos nascido. Ou nos superamos ou nos demitiremos da humanidade. Basta de valorizações de patifes, de ca­ nalhas, de peculatários, de covardes morais, de crimino­ sos assanhados. Basta de baixarmos os nossos olhos para essas excrescências da nossa sub-humanidade. Erga­ mos nossos olhos para as grandes acções, imitemos aque­ les que se elevaram entre os homens, tomemos como exemplos os vitoriosos de si mesmos, os grandes, os virtuo­ sos, os fortes, os que não trepidam em combater o mal em si e nos outros, os que souberam levar bem alto o estandarte da honra (da honra, senhores, dessa palavra tão pouco ouvida, dessa palavra que já silenciou em tan­ tos lábios e em tantos corações) que os levaram ao mais alto, aos picos mais altos das montanhas, que devem ser a moradia dos homens de pensamento elevado e de querer forte!
* * *

Esta é outra verdade que não podemos esquecer: A Grande Decisão se aproxima e a renovação moral será realizada ou nos aniquilaremos na decadência imunda, na demissão de nós mesmos. Aceitemos aqui também o bom combate. Temos ra­ zões sólidas, argumentos irretorquíveis para provar a va­ lidez da ética cristã; temos argumentos capazes de reba­ ter a todas as infâmias e a denunciar todas as covardias morais. Marchemos para o combate, desafiemos nossos inimigos para o campo de batalha e se não quiserem vir, vamos às suas tocas para os arrancarmos de lá e vencê-los no mais belo dos combates, na mais sublime de todas

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as guerras: a guerra dos guerreiros do conhecimento con­ tra os falsos sábios, os fariseus da nossa cultura!
* * *

Mas há uma terceira verdade que sempre persistirá. Somos homens, e como tais temos necessidades a apli­ car, de arrancar da natureza os bens que necessitamos para erguerem nossas forças e dar-nos o conforto justo que merecemos. Temos de ser práticos e activos na realização desses bens, na producção do que carecemos. Mas é mister de­ nunciar as mentiras que perturbaram o progresso huma­ no, e ameaçam afundar-nos numa brutalidade sem prece­ dentes na História. É mister denunciar as falsas dou­ trinas sociais, o "socialismo" de mentira, o socialismo que é miséria e indignidade, que pretende transformar os homens em peças de máquinas, em números abstractos, «. em instrumentos de trabalho, que os utiliza e os desgasta e não os eleva, para servirem à satisfação do apetite de mando de cesariocratas caricatos, de falsos messias, de falsos guias, de falsos líderes, que apenas são aproveita­ dores das misérias humanas, fomentadores de ressenti­ mentos, falsos analistas das verdades económicas, deturpadores de factos e de intenções, com o intuito de alge­ mar todos os homens à mais cruel das escravidões, que até os senhores escraviza. Toda essa mentira deve ser denunciada, e com cora­ gem. Devemos ir à luta e mostrar a inanidade das afir­ mativas, a improcedência dos argumentos, a repugnância que oferecem suas teses, e demonstrar com argumentos sólidos e definitivos a falsidade de seus postulados. A Grande Decisão exige de nós essa atitude, espera de nós essa acção. Deixemos de lado os covardes, que tremem ante o terror que os adversários inculcam, e os

desafiemos para o campo de combate que lhes oferece­ mos, e se não o aceitarem, vamos às suas tocas para os arrancarmos de lá e vencê-los no mais belo dos combates, na mais sublime de todas as guerras: a guerra dos guer­ reiros do conhecimento contra os falsos sábios, contra os fariseus da nossa cultura!
* * *

Mas também há outra verdade, a verdade da cari­ dade cristã, o amor ao bem de nossos semelhantes, esse amor que eleva o homem acima da animalidade, que leva a olhar o semelhante como amigo, como do mesmo san­ gue, de uma progénie que vem do mais alto, que irmana os corações. Essa verdade é grandeza de servir, a gran­ deza de prestar auxílio ao que dele necessita, de estirar o braço ao que cai, de animar ao que desfalece, de curar as chagas do ferido, de aliviar o peso que lhe dobra as costas, de animá-lo nos momentos de desfalecimento, de ajudá-lo a erguer o edifício que constrói, de acompanhá-lo na obra que realiza, de unir esforços aos seus esfor­ ços, no apoio mútuo que tende a realizar o melhor e cons­ truir o de que todos necessitamos para anular a nossa miséria. E elevemos bem alto a sublimidade do que presta serviços, do que ajuda ao próximo, do que mutuamente se apoia para realizar a obra social. E elevemos bem alto essas virtudes, que muitos que­ rem denegrir, querem desmerecer, querem aviltar. Com coragem e decisão, lutaremos por esta quarta verdade. Possuímos meios de mostrar a validez de nos­ sas teses e a inanidade dos postulados dos que perver­ tem o esforço humano, e querem dar-lhe um sentido que falseia a sua justa intenção.

de todas as an­ gústias. dos que têm dentro de si a consciência de sua dignidade e têm vergonha à flor de sua face. Combatamo-los com coragem e decisão. aos picos das montanhas. na mais sublime de todas as guerras: a guerra dos guerreiros do conhecimento contra os falsos sábios. e se não vierem para o cam­ po de combate que lhes oferecemos. Denunciemos todos esses novos carrascos. e vencê-los no mais belo dos combates. afinal. para os arrancarmos de lá. todos es­ ses assanhados de sangue e de cupidez. dessa figura sinistra. * * :S Façamos o cantochão do cesariocrata. dos homens de boa vontade. que são a moradia das almas fortes. se queremos salvar o que de maior o homem realizou e não perecermos na mais hedionda e infame das derrocadas. e de mais ninguém. dos homens de alma forte e de coração bom. Escolhei. que desejam criar novas e poderosas algemas para destruir no homem o que de mais alto êle tem. que é a moradia dos mais dignos. todos. * * * São essenciais essas quatro verdades se queremos conter a decadência e queremos outra vez ascender. para que de lá não saiam. que espreita em todos os desvãos da História os momentos de desfalecimento e de confusão humana. garras falsas e intenções sinistras. o seu maior galardão: a liber­ dade. e se não vierem para o campo de combate que lhes oferecemos. na mais sublime de todas as guerras: a guerra dos guerreiros do conhecimento con­ tra os falsos sábios. . a falsidade de suas teses. vamos às suas imundas tocas para os arrancarmos de lá. ao pântano fétido de onde pon­ tificam. cuja vontade os aproxima de todos os seus irmãos para um abraço de amor. e vencê-los no mais belo dos combates. ex­ ploradores de todos os ressentimentos. mostremos a insanidade e a inanidade de seus postula­ dos. É inútil esperar. aproveitadores de todas as misérias. ao Estado todo-poderoso. ao Moloque de nossa época. e que trazem no rosto um sorriso lumi­ noso que desfaz para sempre todas as trevas. Estais convocados. que tem olhos fal­ sos. Mas lembrai-vos que a responsabilidade de vossa escolha é apenas vossa.234 MÁRIO FERREIRA DOS SANTOS O PROBLEMA SOCIAL 235 Lancemos a luva aos nossos adversários. a esse falso monstro que morde com dentes falsos. ou afogarmo-nos no pântano fétido. Tereis de escolher entre o bom comfcate ou a derrota ignominiosa. Elevemos ao mais alto o estandarte de nossa luta. ao monstro de todas as indignidades. os fariseus da nossa cultura! * * * Fechemos suas bocarras imundas de fétido hálito. os fariseus de nossa cultura! E os atiremos. A Grande Decisão chegou. Lancemos também a eles a nossa luva. de todas as ausências. e que pregam aos homens a submissão ao poder absoluto. vamos às suas tocas. e não tentem outra vez cuspir nas estrelas e tentar borrifar de lama o que está no pico das montanhas.