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Revista de Filosofia

A

Revista de Filosofia A João Capistrano Filho * A sociedade e o poder segundo Adorno Resumo

João Capistrano Filho *

A sociedade e o poder segundo Adorno

Resumo

O presente trabalho tem como objetivo mostrar o quanto é necessário o sujeito reflexionar

a realidade para combater a identidade do poder que domina a sociedade. Outro enfoque

se relaciona a necessidade de se fazer um mergulho, no plano dialético, para desconstruir a

linguagem fabricada pela indústria cultural. É abordada a importância da autonomia como instrumento de reflexão para negar os conceitos tidos como verdade absoluta pelo princípio da dominação para jogar o poder da sociedade contra a natureza e o próprio homem.

Palavras-chave: Autonomia; Identidade; Poder; Sociedade.

AbstRAct

This present work aims to show how the subject is necessary to reflect reality to combat identity of power which dominates society. Another approach relates to the need to take a dip in the dialectical plan to deconstruct the language produced by the culture industry. It addressed the importance of autonomy as a tool of reflection to deny the concepts taken as absolute truth by the principle of the power play for domination of society against nature and humanity.

Key words: Autonomy; Identity; Power; Society.

Mestre em Filosofia e doutorando em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará. Professor de Filosofia da Rede Esta- dual de Ensino do Estado Ceará.

Argumentos, Ano 3, N°. 5 - 2011

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Introdução

A identidade do sujeito é constituída

pela cultura configurada na multiplicidade de conceitos presente na diversidade de grupos que compõem a sociedade. Sob esse aspecto somos uma unidade, como espécie, consti- tuída por profundas diferenças entre nós. As diferenças produzem as riquezas culturais, materiais e a intolerância, entre os grupos, que pode desaguar na barbárie. A conste- lação de conceitos forma a realidade como objeto histórico. Segundo Adorno, o objeto é maior do que o sujeito porque é por ele que

o sujeito existe como ser social. O objeto é

a realidade social com todo o seu poder, por

isso, o objeto é o principal instrumento de reflexão do sujeito para que a humanidade não sucumba à catástrofe. Adorno (2009, p.44) diz que: “entregar- se ao objeto equivale a fazer justiça a seus

momentos qualitativos”, isto é, reflexionando

a realidade o sujeito cria a possibilidade de negar dialeticamente a identidade imposta

pela linguagem produzida pela indústria cul- tural e, consequentemente, libertar a conste- lação de conceitos que faz da sociedade um mundo plural. A indústria cultural está fragmentando os valores sociais dos indivíduos porque, segundo Bauman (2008, p.153): “em função de coisas de que crêem precisar para serem felizes, homens e mulheres têm menos tem- po para a empatia mútua e para negociações intensas, por vezes tortuosas e dolorosas, mas sempre longas e desgastantes.” Os valores históricos ligados à formação do su- jeito estão perdendo espaço para os valores fabricados e anunciados pela propaganda que promete a felicidade para quem consome

a última novidade. No presente trabalho tratamos, no pri- meiro momento, da concepção de sistema de Theodor Adorno. Para Adorno, o sistema que funciona como modelo de administração do mundo social é o que impera na natureza

só, que, racionalmente projetado. Por isso, no início do nosso assunto usamos a imagem do astucioso jaguar – sem pretender cometer nenhuma injustiça contra o majestoso animal

– para representar o poder do sistema que

impulsiona a sociedade para pressionar e

controlar o sujeito em sua particularidade. No segundo momento tratamos do poder de manipulação dos valores culturais por parte da indústria cultural. Por últimos tratamos da questão da autonomia fazendo um breve confronto entre Kant e Adorno.

A Razão e o sistema Violento

O jaguar espreita a sua presa no am-

biente escuro sob a copa das árvores de uma selva intacta. Ali impera a dinâmica da natureza. O sistema de vigilância é um elemento vital para o predador e a presa. O medo e a astúcia ditam as regras do mun- do natural. Nesse ambiente de seres bem equipados para matar, fugir e se esconder; a simples sobrevivência é o que importa. Não há lugar para os frágeis tampouco para os incautos. Há muitos dias que são impossíveis de serem contados, nós, ainda na aurora de nossa história, vivenciamos a angústia de sermos reféns de um sistema poderoso cuja condição de presa sem a velocidade para fugir e se esconder nos colocava em grande desvantagem. Na Dialética Negativa, Adorno (2009, p. 27) observa:

O sistema no qual o espírito soberano se

imaginava transfigurado tem sua história

primordial no elemento pré-espiritual, na vida animal da espécie. Predadores são famintos; o salto sobre a presa é difícil

e com freqüência perigoso. Para que o

animal se arrisque a dá-lo, ele necessita certamente de impulsos adicionais. Esses impulsos fundem-se com o desprazer da fome na fúria contra vítima, fúria essa cuja expressão a aterroriza e paralisa conve- nientemente. No progresso que leva até a humanidade, isso é racionalizado por meio de projeção.

O sistema violento vigente no mundo

natural já existia antes do espírito, ou seja, do esclarecimento. Por meio do esclareci- mento a humanidade cria as condições para superar a sua fragilidade. O esclarecimento

é a aplicação do pensamento racional na

transformação da natureza e na organização social. A natureza é transformada em instru- mentos técnicos enquanto o sistema natural

é racionalizado e usado como modelo de

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organização social para dominar a natureza

e o próprio homem. A razão humana é a sin-

gularidade que nos fez diferentes entre todos os outros animais. Por sermos fortes pela singularidade de nossa inteligência é que precisamos do saber para continuarmos existindo. Do dia em que descemos das árvores e aprendemos a cami- nhar e a pensar trilhamos um longo percurso até a moderna sociedade industrial totalmente dependente do saber em sua organização ad-

ministrativa e produtiva. O saber que prima pela reflexão, na sociedade industrial, é uma necessidade universal por conta do “uso de- gradado da razão” (MORIN. 2007 p.9).

O poder de transformar a natureza para

melhorar e organizar o nosso modo de vida

criou a sociedade complexa pela divisão de trabalho. Mas nada disso seria possível se não houvesse um processo educativo primordial chamado educação social que se define como a linguagem que dá impulsão

à vivência de cada um de nós por estar en-

trelaçada às múltiplas experiências dos que estiveram aqui antes de nós.

O progresso social impulsionado pelo

desenvolvimento da técnica revolucionou to- dos os aspectos da vida, mas como questiona Adorno (1996, p.42):

O processo técnico, no qual o sujeito se

reificou após eliminação da consciência, está livre da plurivocidade do pensamen-

to mítico bem como de toda significação

em geral, porque a própria razão se tor- nou um mero adminículo da aparelhagem econômica que tudo engloba.

A eliminação da consciência repre-

senta o estado do sujeito no mundo social, ou seja, representa o controle da subjeti- vidade do sujeito pelo esquema de poder engendrado pelo sistema capitalista. A razão instrumentalizada pelo capital se apropriou convenientemente, como entende Adorno, do indivíduo através da superestrutura ao mantê-lo vinculado burocraticamente aos interesses estruturais da classe dominante. Nesse sentido, o sujeito na sociedade indus- trial se distancia da sua própria realidade a partir do momento em que “se relaciona ao produto do seu trabalho como a um objeto estranho.” (MARX, s.d, p.159).

O controle do capital incidente sobre o sujeito recai exatamente onde ele pode de-

senvolver a capacidade de se tornar contradi- ção e combater a identidade da dominação. O controle recai sobre a linguagem, constituída no tempo histórico, presente no mundo so- cial. A linguagem que delimita o nosso modo

de ser é a realidade manifestada como com-

plexo cultural, ou seja, como multiplicidade ou plurivocidade, como entende Adorno. O controle sobre esse complexo cultural que compõe a sociedade com suas diferenças é exercido pelos poderosos instrumentos de comunicação de massa que constituem a indústria cultural.

o Poder da Indústria cultural

Os valores de ordem ética e moral das camadas sociais mais desfavorecidas sempre foram impostos, ao longo da história, pela classe dominante como objeto de controle de sua cultura por meio da religião e dos códigos de leis.

As massas desmoralizadas por uma vida submetida à coerção do sistema, e cujo único sinal de civilização são comporta- mentos inculcados à força e deixando transparecer sempre sua fúria e rebeldia latentes, devem ser compelidas à ordem pelo espetáculo de uma vida inexorável e da conduta exemplar das pessoas con- cernidas. (ADORNO, 1996, p. 143).

No capitalismo tardio, a indústria do

entretenimento se impõe como um instru- mento de educação manipulando os valores culturais que fundamentam a formação do sujeito oriunda do seu grupo de convivência.

O poder da indústria cultural, no entanto,

causa uma desfiguração dos valores culturais da massa, mas não a sua eliminação com- pleta. Os valores culturais são manipulados e transformados, seguindo os modelos de produção da grande indústria, em compor- tamentos e agregados às propagandas dos

produtos que prometem a felicidade. A intenção da indústria do entreteni- mento é a conformação do sujeito dentro de uma realidade dada composta pelo conceito de vida da classe dominante. O conceito

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de cultura como “soluções para problemas

da vida transmitidos a gerações seguintes” (DEFLEUR & BALL- ROKEACH, 1993, p. 20),

é assumido pelos agentes do capital por in-

termédio da indústria cultural. Para Adorno (1996, p. 117): “a função que o esquematismo kantiano ainda atribuía ao sujeito, a saber, referir de antemão a multiplicidade sensível aos conceitos fundamentais, é tomado ao sujeito pela indústria.” Melhor explicando a

assertiva do filósofo de Frankfurt: o capital se antecipa ao indivíduo produzindo a realidade

e oferecendo à estrutura da razão do sujeito aquilo que, segundo o modelo de Kant, só

seria possível a sua realização, pela razão, por meio da experiência. A realidade dada pelo capital faz com que o sujeito tenha um falso sentimento de autonomia, pois passa

a viver em uma totalidade ilusória incutida pela indústria cultural.

A ilusão criada pela indústria cultural

tem como finalidade a uniformização da massa pelo controle da subjetividade dos indivíduos induzindo-os a consumirem des- bragadamente coisas diferentes para que todos se sintam diferentes e incessantemente desejem a mesma: consumir. A indústria cultural se impõe como uma rede sobre toda sociedade na intenção de pressionar cada indivíduo de acordo com o seu estrato social. Para Adorno, (1995, p. 122):

A pressão do geral dominante sobre tudo que é particular, os homens individual- mente e as instituições singulares, tem uma tendência a destroçar o particular e individual juntamente com seu potencial de resistência.

A pressão que a indústria da propa-

ganda exerce sobre o indivíduo – usando

a totalidade do mundo social como instru-

mento – inibe a capacidade reflexiva do sujeito sobre as suas reais necessidades. Nesse sentido, a indústria cultural assume a

subjetividade do sujeito ao fabricar as suas necessidades. Sob esse prisma a sociedade sofre um processo de fragmentação ou um destroço, segundo Adorno, em seu modelo de formação calcado no processo histórico que

é o de repasse dos valores sociais oriundos de gerações anteriores.

O conceito de história de Lyotard (2008,

p.16), como sendo “uma acumulação de ten- tativas e erros” não deixa de ser coerente, mas não deixa de ser verdade que, na socie-

dade industrial, a construção de uma história sedimentada na tentativa e erro obedece aos interesses dos donos do poder político

e econômico. A quem interessa manipular a

consciência do sujeito para que ele forje uma história cujo conteúdo é o esquecimento de si mesmo? Interessa ao principio da domina- ção que Adorno entende como “a pressão do geral dominante”.

A pressão do geral sobre o particular

se nutre pela imensa capacidade do sistema capitalista de produção de se autopreservar mantendo o sujeito numa permanente carên- cia. A indústria da propaganda como agente do grande capital faz do sujeito refém do consumo de mercadorias ao “tornar perpétua

a não-satisfação.” ((BAUMAN, 2008, p. 64). O

avanço da tecnologia na fabricação de mer- cadorias e na disseminação da informação por intermédio dos veículos de comunicação nos torna habitantes bem informados de um mundo que cada vez mais perde os seus se- gredos, mas, por outro lado, deixa o sistema de dominação cada vez mais alerta quanto ao controle e à formação dos indivíduos que pode advir de um mundo sem barreiras. Quanto a isso Adorno (1996, p. 114) nos lembra: ”O que não se diz é que o terreno no

qual a técnica conquista o seu poder sobre a sociedade é o poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade.”

O mundo sem barreiras por conta, prin-

cipalmente, do desenvolvimento da tecnolo- gia ligada aos meios de comunicação marca um processo de interatividade nas relações interpessoais, sem paralelo na história hu- mana, devido a sua velocidade. O mundo sem barreiras é o efeito do esclarecimento como essência do desenvolvimento técnico,

como entende Adorno em sua concepção a respeito do esclarecimento. As comunicações interpessoais, especialmente nas redes de relacionamento posta na internet, podem alavancar, à medida que amadureçam, um modelo de discurso espontâneo voltado para

a problemática social. Isso pode desencadear aquilo George Orwell chamou de polícia do pensamento em seu romance 1984. Um con-

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trole autoritário do poder dominante contra

a liberdade de expressão na rede mundial

de computadores pode já está acontecendo em grande parte do mundo. A resistência contra o poder autoritário do princípio da dominação só ocorrerá se houver uma ação reflexiva, segundo Adorno, contra a identi- dade do mesmo. Para Paul-Laurent Assoun (1991, p.25):

“A Teoria Crítica instalar-se-á então obsti- nadamente sobre as ruínas do templo da

identidade para enfrentar o irracional da história.” A Teoria Crítica se volta definiti- vamente contra a identidade por conta dos acontecimentos na Alemanha sob o regime nazista e da distorção, segundo Erich Fromm (1964, p.15), da aplicação do pensamento de Marx nos países que implantaram o comu- nismo. Adorno se mantém convicto quanto à necessidade de se travar um combate, dentro dos marcos da dialética negativa, contra a identidade que tudo quer envolver através do conceito. Segundo a concepção adorniana, para conseguirmos reflexionar o mundo social em sua multiplicidade devemos fazer um mergulho dialético na indústria cultural desconstruindo-a reflexivamente passa a passo e refletindo sob cada elemento de sua composição de modo imanente, até que aquilo que foi apossado e manipulado pela identidade dominadora possa emergir. A emersão da sociedade com a sua multiplicidade e diferenças ocorrerá num processo de reconstrução dialética usando os mesmos “tijolos” da indústria cultural eclodi- da pela dialética negativa no ataque contra

a sua identidade. A indústria cultural, nesse

sentido, perde a condição de identidade e passa a ser contradição e a sociedade com suas diferenças passa a ser a identidade da contradição ou do não-idêntico. Segundo

Adorno (2009, p.13): “a contradição é o não- idêntico sob o aspecto da identidade.” Isso não significa nenhuma ânsia de retorno ao status quo, ou seja, não é nenhum desejo de retorno a um modo de vida arcaico, mas

a uma conscientização dos mecanismos de

dominação que são tirados do nosso próprio modo de viver. Os conceitos se impõem como realida- de dada para regrar a educação social do su- jeito em proveito do princípio da dominação.

O intuito da dialética negativa ao reflexionar

a realidade dada (a identidade) é libertar o

que há de plural ou, como entende Adorno,

a plurivocidade da sociedade histórica, que

é bem maior do que o sujeito em sua singu-

laridade. A dialética negativa seria, então, um caminho para uma reconciliação entre

o sujeito em sua particularidade e o objeto

como realidade engendrado pela história no tempo. Como diz Adorno (2009, p.14):

Essa reconciliação libertaria o não- idêntico, desprendendo-o por fim da compulsão intelectualizada; ela abriria pela primeira vez a pluralidade do di- verso sobre o qual a dialética não teria mais poder algum. Reconciliação seria então a meditação sobre a multiplicidade que não se mostraria mais como hostil, algo como um anátema para a razão subjetiva.

Para Adorno, o homem só estará salvo da catástrofe se um dia não precisar mais da dialética, pois para ele a dialética existe por força da miséria que há no mundo. Whitehe- ad (2006, p. 34) diz que a “fé na razão é a con- fiança de que as naturezas últimas das coisas encontram-se juntas em uma harmonia que exclui a mera arbitrariedade.” A reconciliação para Adorno passa pelo reconhecimento do sujeito como realidade histórica e natureza. Como o filósofo de Frankfurt (1995, p. 187) expressa: “o indivíduo particular deve ao universal a possibilidade de sua existência; o pensar dá testemunho disso, ele que, por sua

parte, é uma condição universal e, portanto social.” A assertiva é uma critica à filosofia de Kant que dá ao sujeito a primazia de construir

o mundo por meio da estrutura da razão. Para Adorno o objeto como realidade é maior do que o sujeito e, portanto, media a formação do indivíduo e é o que o transforma em um ser ontológico. Em contrapartida o objeto necessita da consciência do sujeito para corrigir as distorções do mundo social. Sendo assim, tanto o objeto, como realidade histórica, media o sujeito como este media

o objeto. Já em Kant, o mundo é um fenôme-

no constituído pela consciência do sujeito. Adorno tem uma séria discordância quanto ao fato de o mundo ser uma manifestação da

razão em detrimento de uma anterioridade

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histórica, mas compartilha com Kant uma forte confiança na razão.

A Questão da Autonomia em Adorno e Kant

Em um famoso texto intitulado Res­ posta à pergunta: Que é “Esclarecimento”? Kant faz uma crítica contundente contra quem se deixa dominar pelo outro por covar- dia ou preguiça de usar o entendimento para sair da menoridade. O texto de Kant apesar de estar eivado de entusiasmo iluminista é de muita validade para suscitar à auto-reflexão que, segundo Adorno, é a finalidade da edu- cação para a emancipação. Kant escreveu (2005, p.64):

A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem, no entanto, de bom grado, menores toda vida. São também as causas que explicam porque é tão fácil que os outros se cons- tituam em tutores deles. É tão cômodo ser menor. Se tenho um livro que faz às vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciên- cia, um método que por mim decide a respeito de minha dieta, etc., então não preciso de esforçar-me eu mesmo. Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros se en- carregarão em meu lugar dos negócios desagradáveis.

A análise de Kant parece a Adorno (1995, p.169) “ainda hoje extremamente atual” e é um importante ponto de partida para se fazer uma reflexão sobre o conceito de autonomia. O texto de Kant convoca as pessoas a se apossar de si mesmas, no en- tanto, o filósofo de Königsberg não observa

a dependência ou heteronomia como fonte

de poder para quem manda na sociedade.

A posição de Kant junto ao poder estabele-

cido, segundo Nietzsche (1996), nunca foi

de conflito.

A análise de Kant não dá um mergulho na história em busca da violência que gera

a dependência, embora, o texto do filósofo

tenha um alcance gigantesco. Não lhe es- capa em primeiro plano a falta de uso do entendimento para a solução dos problemas imediatos ligados as aflições pessoais, como os relacionados às questões espirituais ou de saúde. Ele também faz um apelo ao uso da razão pública cujo sentido é o da não aceitação dos erros oriundos das instituições sociais, mas tem o cuidado de não mexer nas estruturas das mesmas quando diz que:

O cidadão não pode se recusar a efetuar

o pagamento dos impostos que sobre ele

recaem; até mesmo a desaprovação im- pertinente dessas obrigações, se devem ser pagas por ele, pode ser castigada como um escândalo (que poderia cau- sar uma desobediência geral). (KANT, 2005, p. 65).

Para Kant a saída da menoridade se re- sume ao público letrado. Este tem condições de alcançar a maioridade, bastando, para isso, fazer uso do entendimento. À questão ligada ao exercício da razão pública cabe exclusivamente à figura do homem sábio. Como ele mesmo declara: “entendo, contudo sob o nome de uso público de sua própria razão que qualquer homem, enquanto sábio, faz dela diante do grande público do mundo letrado.” (KANT, 2005, p.66). A filosofia de Kant tem o sujeito como o modelador da realidade. Destarte, para o filósofo, se o sujeito não cuida de sua capaci- dade de realizar o mundo a partir do cuidado que deve ter consigo mesmo, alguém o fará por ele, exatamente como se faz em relação às crianças. Para Kant a debilidade da socie- dade, como coletivo, reside no espírito de acomodação do indivíduo potencialmente capaz em sua singularidade. Para Adorno a sociedade não é debilitada, pelo contrário, os indivíduos é que são debilitados por uma sociedade que impõe resistência a qualquer tentativa de emancipação.

Quero atentar expressamente para este risco. E isto simplesmente não só a so- ciedade, tal como ela existe, mantém o homem não-emancipado, mas porque qualquer tentativa séria de conduzir a sociedade à emancipação – evito de pro-

pósito a palavra “educar” – é submetida

a resistências enormes, e porque tudo

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que há de ruim no mundo encontra seus advogados loquazes, que procurarão demonstrar que, justamente o que preten- demos encontra-se de há muito superado ou então está desatualizado ou é utópico. (ADORNO,1995, p. 185).

A pesar de ocorrer em alguns mo- mentos, no livro Educação e Emancipação, algumas abordagens ao texto de Kant que se reporta a questão do esclarecimento, há uma divergência significativa entre a con- cepção de Adorno e Kant quanto à função do esclarecimento para a saída do sujeito da menoridade. O que há de comum entre os dois pensadores é que ambos crêem na razão como o principal meio para se atingir a maio- ridade. A diferença entre os dois filósofos se localiza no fato de que para Kant a emanci- pação depende exclusivamente da vontade do sujeito em fazer uso do entendimento para construção de um mundo melhor. Adorno (1995, p.144) diz; “que a realidade se tornou tão poderosa que se impõe desde o início aos homens.” Para ele, o sujeito está sob o peso de uma organização social que se constituiu sob o modelo do sistema selvagem e violento vigente na natureza, embora seja histórica e esclarecida, a razão é instrumental por está sob o signo do princípio da dominação. A sociedade, para Adorno, sob o comando da razão instrumental denota o desequilíbrio entre o sujeito fragilizado pelo comporta- mento pontuado por elementos regressivos ou primitivos e o poder de uma sociedade avançada pelo progresso da tecnologia. Esse desequilíbrio mantém as condições para a repetição da barbárie.

Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, que, estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo peculiarmente disforme em relação a sua própria civilização – e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos termos correspondentes ao conceito de civilização, mas também por se encon- trarem tomados por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na termi- nologia culta, um impulso de destruição, que contribuí para aumentar ainda mais o perigo de que toda essa civilização

venha a explodir, aliás uma tendência imanente que a caracteriza. (ADORNO, 1995, p. 155).

A sociedade moderna se torna cada

vez mais perigosa à medida que o sujeito se alheia ao poder da tecnologia posto nas mãos da classe dominante controladora de uma ciência comprometida com o capital. O usufruto das benesses da tecnologia é algo do qual não podemos escapar tampouco devemos repudiar o conceito de progresso em si, pois, como lembra Adorno (ADORNO, 1995, p.43): “o bem que impera no mundo

não é o suficiente para que, a partir dele, possa enunciar-se um juízo predicativo do progresso, mas nenhum bem, nem vestígio dele, existe sem o progresso.”

A crítica ao progresso social pautado

no desenvolvimento científico não pode cair numa condenação inconseqüente da tecno- logia. Do mesmo modo a defesa da natureza violentada pelo processo industrial cai no va- zio se a solução passar pela inócua apologia do retorno do homem a uma vida em estado de natureza.

A função da tecnologia, como algo que vai além do conforto que nos proporciona, não pode ficar à margem das preocupações do sujeito. A força da indústria cultural como instrumento de educação para um consumo compulsivo de mercadorias exige que o indivíduo se aproxime cada vez mais dos problemas sociais causados por um modelo de progresso que está afetando a vida no planeta. A crítica à função da tecnologia não pode ter como finalidade afastar as pessoas do progresso tecnológico, mas sim de apro- ximá-las de um mundo que espanta e não pode mais continuar sendo estranho.

A humanidade ao longo do processo

civilizatório desencantou o mito desvelando os seus segredos através da capacidade sin- gular do homem de transformar a natureza em instrumentos técnicos. Para Adorno a técnica é a essência do esclarecimento, por meio dela foi possível a humanidade cons- truir uma civilização capaz de sair do domí- nio da natureza e dominá-la. Mas o homem esqueceu que era natureza e projetou sobre a sua organização social o sistema selvagem representado pelo mito.

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O mito foi dissolvido pela razão, mas

não eliminado. Está presente, Segundo Adorno, no comportamento primitivo ou regressivo do sujeito ao se manifestar no

ódio contra o outro e na ânsia de destruição.

O esclarecimento que se deu no progresso

do desenvolvimento da técnica criou uma sociedade administrada racional e alta- mente desenvolvida tecnologicamente. A descorrelação entre a sociedade poderosa

e o sujeito tendente a práticas regressivas

pode transformar a sociedade, como coletivo, em um instrumento de perseguição e ataque tão perigoso quanto o predador, citado no início do presente trabalho, que vive sob os auspícios do sistema natural.

considerações Finais

A sociedade é o lastro da nossa exis-

tência como seres históricos. A sua frag- mentação representa a manutenção e o for- talecimento dos elementos regressivos que compõem o comportamento dos indivíduos

em sociedade. A função da dialética negativa

é incidir sobre o processo de fragmentação

reflexionando a linguagem manipulada pela indústria cultural.

O poder da sociedade nas mãos da

classe dominante como instrumento de con- trole social em prol dos interesses do capital

é o que deve ser combatido pela reflexão

dialética. Para enfrentar o poder dominante

o sujeito deve reflexionar a identidade dada

pelo capital através da indústria cultural.

O conceito do princípio da dominação é o

instrumento de reflexão do sujeito que deve ser negado dialeticamente até que desvele

a sua contradição.

A dialética negativa, para Adorno, é

um mergulho no conceito tido como verda- de absoluta que se manifesta na sociedade como realidade dada. A função da indústria cultural é a de forjar a realidade dada que se manifesta em comportamentos fabricados e ligados ao processo de venda de mercado- rias. Para que todos se vinculem aos propó- sitos do capital, a propaganda lança sobre o sujeito o peso da sociedade para que todos consumam – independemente de estarem

alertas ou não quanto ao logro dos agentes da propaganda – as mercadorias que prometem a felicidade.

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