do bem

Vaidade como remédio
Programas coordenados por entidades de saúde provam que cultivar a autoestima pode ajudar no tratamento

Por Sergio Azman

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ECEBER UM DIAGNÓSTICO DE CÂNCER É SEMPRE

UMA EXPERIÊNCIA DIFÍCIL. A SITUAÇÃO REVELA A

GRAVIDADE DA DOENÇA E GERA GRANDE ANSIEdade em relação às dificuldades do tratamento e sobre as mudanças físicas que virão pela frente. É natural ficar vulnerável. Realmente, muitas vezes o caminho em direção à cura requer cirurgias mutiladoras, causa queda de cabelos e pelos do corpo (alopecia), muda a coloração da pele e provoca outras alterações físicas. É possível elevar a autoestima e conseguir forças para lutar? Sim. E essa é uma postura essencial, segundo médicos e outros profissionais da saúde. Eles são categóricos em afirmar que a vontade de se tratar, se curar e se sentir bem faz uma grande diferença. “Manter o astral da mulher para que ela se produza, mesmo perdendo os cabelos, é fundamental. Ela pode usar peruca, lenços ou nada”, explica Nelson Hamerschlak, hematologista do Hospital Israelita Albert Einstein. O médico afirma que não é só a autoestima que deve ficar em alta. “O pensamento positivo, o bom humor, tudo impacta no tratamento, não tenho a menor dúvida. Essa é a percepção que tenho no dia a dia”, finaliza. O Einstein oferece, mensalmente, uma oficina de maquiagem para as pacientes da oncologia, com o objetivo de chamar atenção para essa questão do cuidado com a aparência. Além disso, mantém um grupo de

ioga, meditação, música e diversas atividades para trabalhar a questão da autoestima do paciente. Pacientes, familiares e os próprios médicos precisam ter conhecimento da importância dos fatores emocionais no curso das doenças oncológicas. “A autoestima, o estresse, a depressão e a ansiedade têm impacto no tratamento do câncer”, afirma Armando Ribeiro das Neves, psicólogo dos hospitais Beneficência Portuguesa e São José e coordenador do Programa de Avaliação de Estresse e Atendimento Psicológico. Para ele, sensibilizar os profissionais da saúde é fundamental, pois a baixa autoestima é um forte indicador de um possível quadro de depressão. “Uma pessoa muito deprimida tem perda do apetite e queda no sistema imunológico, o que pode complicar a capacidade de regeneração do corpo. Ou seja, a depressão extrapola o emocional e vai para o físico”, alerta.

Voluntários da beleza
O Hospital Amaral Carvalho, de Jaú (SP), conta com voluntárias do “Grupo da Estética”, que semanalmente auxiliam nos cuidados com a higiene pessoal de pacientes internados, fazendo cortes de cabelo, de unha e barba, entre outros serviços. Em ocasiões comemorativas, o grupo oferece atividades de beleza e saúde a pacientes e colaboradores, que

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podem cortar e escovar os cabelos, fazer as unhas, maquiagem e assistir a palestras. “Quando o paciente assimila a realidade do adoecer e consegue enfrentá-la, melhoram suas capacidades físicas e emocionais, favorecendo o sucesso do tratamento e a recuperação”, afirma Viviane Totina, psicóloga do hospital. O Instituto do Câncer do Ceará (ICC) também conta com a ajuda de cerca de 400 voluntárias para promover o Dia da Beleza, evento que acontece a cada três meses. Diagnosticada com câncer de mama em 2011, Lucia Maria Melo, 50 anos, participou de um Dia da Beleza. Fez mastectomia, quimioterapia, radioterapia e agora vai fazer a reconstrução mamária. “Participar foi importante demais, me trouxe vontade de viver. Eu procurei fazer coisas que me fizessem feliz, levantei a cabeça e resolvi lutar pela minha vida”, diz. Ela gostou tanto que, hoje, além de paciente, é voluntária do grupo. “Levo músicas, vídeos, faço dinâmicas de grupo. Foi a forma que encontrei para ajudar. Também levei minha professora para dar aula de autoestima através da dança”, conta. A superintendente de responsabilidade social do ICC, Débora Boni, percebe uma mudança importante nas mulheres que participam. “O olhar brilha, elas ficam mais alegres, perdem aquele semblante de tristeza.”

Dia de modelo
No Hospital do Câncer de Barretos (SP), a proposta de manter o astral em dia é reforçada não apenas com pacientes, mas também com familiares e equipe médica. E não se engane! Muitos pacientes, mesmo estando em cuidados paliativos, se importam com a autoimagem. “Um dos princípios fundamentais dos cuidados paliativos é fazer o paciente viver o quão ativo ele puder até o último dia de vida. Não é acrescentar mais dias à vida, e sim acrescentar mais vida aos dias. Por isso, desenvolvemos vários eventos em parceria com empresas como O Boticário, Instituto Avon e butiques da cidade”, afirma Daniela Sorato, psicóloga da Unidade de Cuidados Paliativos/Dor do hospital.
Divulgação Hospital Albert Einstein

Um desses eventos é o desfile de moda, no qual as pacientes escolhem a roupa que gostariam de usar, fazem maquiagem e penteados com os cabeleireiros da cidade, que providenciam perucas, chapéus e lenços. Depois, elas ainda levam as roupas para casa, ganham kits de maquiagem e um ensaio fotográfico com a família. “O mais interessante é que, às vezes, pacientes com altas doses de opioides para controle de dor passam o dia sem medicação de tão envolvidas que estão emocionalmente”, diz. O Instituto Paulista de Cancerologia (IPC) é outro que se preocupa em cuidar do paciente de uma maneira integral, abordando, além do físico, os aspectos social, emocional e espiritual. “A gente busca resgatar a autoestima da paciente, mostrar que ela pode se enfeitar, colocar peruca, turbantes, se pintar, tratar da pele. Você tira o foco da doença e passa o foco para o cuidado com a beleza”, explica Vera Bifulco, psico-oncologista do Instituto. Ela afirma que um paciente deprimido, que tem postura negativa e não se envolve, acaba comprometendo a resposta ao tratamento. E para promover esse resgate da autoestima das suas pacientes, além do programa “A Beleza contra o Câncer” (veja quadro De Bem com Você), o IPC também promove o desfile Viver está na Moda. “É um evento maior, em que as pacientes são convidadas a desfilar. Elas brincam dizendo que nunca imaginaram que o câncer iria levá-las às passarelas”, diverte-se Vera.

Vida após o câncer
Margareth Basso de Oliveira, 47 anos, é uma das pacientes do Instituto que participam das ações promovidas. Ela conta que, quando recebeu o diagnóstico de câncer, não queria que ninguém soubesse. “Você fica achando que todo mundo a olha com pena. A autoestima vai lá embaixo.” Por isso, participar dos programas e desfiles foi tão importante. “O Viver está na Moda foi o evento que mais me tocou. Foi um desfile da vida, não de moda. Foi emocionante”, recorda. Filha única, Margareth sempre quis ter filhos. Mais de um, para que ele não crescesse sozinho. Ela já tinha o mais velho, com 3 anos e meio, quando descobriu o câncer, em 2001. “Perdi o controle, saí do consultório desnorteada. Apesar disso, nunca entreguei os pontos”. Fez cirurgia, esvaziamento axilar, reconstrução mamária. Tomou tamoxifeno por cinco anos. E ainda teve de interromper uma gravidez no início do tratamento, o que a deixou muito abalada. “Eu queria muito ter outro filho. Em contrapartida, tinha medo de ficar grávida e o médico dizer que eu não poderia levar a gravidez adiante”, desabafa. Para sua surpresa, ficou grávida novamente após a alta. Camila, a garotinha sapeca que vez ou outra interrompe nossa conversa, vai fazer 4 anos em julho. “É um símbolo, uma confirmação da minha cura. Uma prova de que existe vida após o câncer”, comemora. E existe mesmo. José Walter da Costa, 63 anos, também paciente
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Paciente durante oficina de maquiagem no Hospital Albert Einstein

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“Um dos princípios fundamentais dos cuidados paliativos é fazer o paciente viver o quão ativo ele puder até o último dia de vida. Não é acrescentar mais dias à vida, e sim acrescentar mais vida aos dias”

do IPC, teve câncer de cólon seis anos atrás. “Perdi o chão. Contei os dias, achei que ia morrer. Depois, comecei a ter outro pensamento, a ficar mais esperançoso.” Enquanto fazia quimioterapia, resolveu registrar suas memórias para os netos. Começou a escrever sobre seu problema, o que acabou gerando um livro, Trajetória. “Acho que foi o ponto central para eu acreditar mais na vida. Mudei completamente minha rotina, passei a curtir mais, realizar os sonhos. Eu tinha uma vida muito desregrada, maluca, e o câncer veio para colocar um fim nisso. Eu costumo falar que só estou vivo graças ao câncer. Senão, com certeza eu já tinha ido.” Hoje José Walter está curado. Faz acompanhamento a cada seis meses, deixou os filhos cuidando do escritório de contabilidade e quer ser ator. “Faço teatro, curtametragem, estou encenando Macunaíma. Vou ver se tiro o DRT”, diz.

curso de automaquiagem. Além disso, ensina a usar lenços de diversas maneiras.
Divulgação Time Comunicação

Margareth Oliveira durante oficina do projeto De bem com Você, no Instituto Paulista de Cancerologia

Cantinho da Beleza
Implantado há três anos, o Cantinho da Beleza, do Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), atende cerca de 300 pessoas por mês, oferecendo corte de cabelo, serviço de manicure, higienização de pele e

No dia da nossa visita, Filomena D´Ambrosio Giglio, 65 anos, estava fazendo a unha e higienização da pele. Ela estava no Icesp por causa de uma mancha no pulmão. “A médica disse que era melhor fazer quimioterapia logo para eliminar, eu con-

De Bem com Você
O projeto De Bem com Você – a Beleza contra o Câncer, versão nacional do norte-americano Look Good, Feel Beeter, existe há aproximadamente um ano e meio. Coordenado pela Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec), oferece oficinas de automaquiagem a mulheres em tratamento oncológico com o objetivo de influenciar sua autoestima. O trabalho é realizado por voluntários em entidades hospitalares que atendam prioritariamente pacientes carentes, principalmente do SUS. “É o público com mais dificuldade de acesso, tanto a esse tipo de orientação quanto aos produtos oferecidos nas oficinas”, explica Cláudio Viggiani, diretor de responsabilidade social da associação. Para ser voluntário, o maquiador deve fazer o curso do Centro do Voluntariado Paulista, onde se aprendem conceitos de voluntariado, e um curso específico sobre o projeto, realizado dentro da associação. “Procuramos mostrar o funcionamento e passar

detalhes mais específicos para o maquiador saber lidar com um paciente nessa condição.” Nos Estados Unidos, onde iniciou no fim da década de 1980, o programa atende 60 mil pacientes por ano. Além das mulheres, existem programas específicos para jovens e para homens. No Brasil, onde ainda está restrito à cidade de São Paulo e proximidades, já foram realizadas mais de 50 oficinas para cerca de 450 pacientes. “Nosso plano é continuar desenvolvendo, atingir uma repercussão nacional e então conquistar novos públicos. Estamos fazendo essa expansão gradualmente”, explica Cláudio, que se diz empenhado em desenvolver o programa por ser testemunha das transformações ocorridas nessas oficinas. “As mulheres às vezes chegam deprimidas e saem completamente transformadas, motivadas, mais seguras. Com pouca coisa você consegue tocar a vida das pessoas de maneira significativa.”

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Filomena Giglio no Cantinho da Beleza, do Icesp

cordei”, conta, enquanto é bem tratada por duas profissionais voluntárias da empresa de cosméticos Payot. “Eu adoro passar esmalte, batom, creme no corpo. A gente se sente tão bem quando pode se tratar, se cuidar. Isso contribui para eu ficar mais animada”, diz. Cristiane da Costa Glória, uma das voluntárias, está no projeto social há muitos anos. “Minha mãe foi operada aqui no Icesp, então eu conheci o outro lado, como familiar de paciente, e sei da importância.” Para ela, é um trabalho supergratificante. Sua

colega, Regiane dos Santos, concorda. “Faz um bem absurdo e acho que também é importante para eles receber esse carinho, essa atenção. É uma experiência que vou carregar para sempre.” O Icesp também oferece o Ateliê das Unhas para acompanhantes na quimioterapia, sessões de cinema, rádio, atendimento religioso, livros, revistas e contação de histórias. “Tudo para fazer com que o paciente também tenha memórias positivas do hospital”, afirma o supervisor do Setor de Hotelaria e Hospitalidade do Icesp, Marcelo Cândido. Cândido conta que eles também organizam desfiles com os pacientes. “Temos o outubro azul, dedicado aos cânceres que acometem os homens, e o novembro rosa, específico para as mulheres. Fizemos também um desfile de lenços, em que selecionamos algumas pacientes com alopecia para andar pela passarela e dar um depoimento.” Historicamente mais resistente à questão da estética, o público masculino também tem o seu espaço. E a adesão é boa, segundo ele. “Muitos pacientes fazem manicure e higienização de pele pela primeira vez no Cantinho da Beleza. E alguns dizem que vão virar adeptos”, diverte-se.

Sergio Azman

“Eu tinha uma vida muito desregrada, maluca, e o câncer veio para colocar um fim nisso. Eu costumo falar que só estou vivo graças ao câncer. Senão, com certeza eu já tinha ido”

Baseado em evidências
David Spiegel, da Universidade de Stanford (EUA), examinou a eficácia de sessões de terapia em grupo na sobrevivência de pacientes com metástase de câncer de mama. O aumento médio no tempo de sobrevida para o grupo de intervenção psicológica foi de 18 meses¹. Apesar de estudos divergentes sobre o aumento da sobrevida em pacientes oncológicos que receberam tratamento psicológico, todos os estudos mostram redução dos sintomas de dor, diminuição da depressão, aumento da qualidade de vida e bem-estar em pacientes que recebem atendimento psicológico concomitante ao tratamento médico padrão². Segundo a Associação Americana de Psicologia (APA), 20 anos de pesquisas apontam o impacto das intervenções psicossociais na qualidade de vida, incluindo capacidade de dormir, redução da fadiga, melhora do humor, aumento da vitalidade, redução da dor e capacidades funcionais gerais, como a autonomia³.

Referências bibliográficas 1 - Spiegel, D., Bloom, J., Kraemer, H., & Gottheil, E. (1989). Effect of psychosocial treatment on survival of patients with metastatic breast cancer. The Lancet, 2, 888- 91. 2 - www.sciencebasedmedicine.org/index.php/questioning-whether-psychotherapy-and-support-groups-extend-the-lives-of-cancer-patients 3 - www.apa.org/monitor/jun02/mindbody.aspx

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