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O Dia do Senhor e os Filhos da Luz Estudo Exegético no texto de 1

O Dia do Senhor e os Filhos da Luz

Estudo Exegético no texto de 1 Tessalonicenses 5:1-11

Dario C. Machado - SETECEB 2005

Sumário

Lista de Ilustrações

 

Pg. 2

1. Introdução

Pg. 3

2. Apresentação do Texto

 

Pg. 5

3. Pano de Fundo Histórico

Pg. 6

4. Tradução

Pg. 9

5. Comentário dos Versos

 

Pgs.10-44

5.1.

Versículo 1

Pg. 10

5.2.

Versículos 2 e 3

Pg. 15

 

5.3.

Excurso 1 – “O Dia do Senhor”

Pg. 17

5.4.

Versículos 4 e 5 !

Pg. 28

 

5.5.

Excurso 2 – “Filhos da Luz e Filhos das Trevas”

Pg. 30

5.6.

Versículos 6 à 8

Pg. 35

5.7.

Versículos 9 e 10

Pg. 40

5.8.

Versículo 11

Pg. 43

6. Reflexões Teológicas

 

Pg. 45

7. Conclusão

Pg. 47

8. Referências Bibliográficas

Pg. 48

9. Anexo 1

Pg. 52

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Lista de Ilustrações

Figura 1 – Visão Espacial da Turquia e Região ……………………………pg. 50. Figura 2 – Roteiro da Segunda Viagem Missionária do Apóstolo Paulo …. pg. 50.

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1. Introdução

Dos escritores do Novo Testamento, Paulo é um dos que teve uma produção maior, chegando a pelo menos 21 % do texto neo-testamentário 1 , ficando atrás apenas de Lucas. É especialmente por esta razão que ele tem assegurado um lugar entre os grandes escritores de cartas da literatura mundial” 2 . A sua primeira carta aos tessalonicenses 3 não foge à regra e nos traz um conteúdo riquíssimo, não só para os destinatários originais como para a Igreja cristã atual.

Paulo escreve esta epístola após se encontrar com Timóteo em Corinto 4 em algum momento entre a primavera de 49 ao outono de 51 d.C (ou da primavera de 50 ao outono de 52 d.C.), durante sua 2ª viagem missionária 5 . Tal datação, faz de 1Tessalonicenses uma das mais antigas epístolas paulinas do NT 6 . Basicamente, essa é uma epístola amorosa, onde Paulo demonstra sua alegria e preocupação com a vida espiritual dos tessalonicenses. O tempo que passou lá foi curto o bastante para os irmãos necessitarem de novas exortações. Além disso, Paulo queria voltar, porém foi impedido (cf. 2.18). A carta é dividida em cinco capítulos curtos, cada um terminando com uma referência à volta do Senhor. Isto nos revela imediatamente que tudo aqui é visto à luz desse clímax vindouro 7 . Contudo, os três primeiros capítulos vão se preocupar mais com o aspecto reminiscente, havendo depois uma mudança de narrativa para exortação. O centro de tudo é o Dia do Senhor, ou seja, a volta de Cristo.

1 Tomando por base o pensamento de Carson, que declara que 35% do texto neo-testamentário são de epístolas (CARSON, D.A; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. Tradução Márcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 2001, pg. 261).

2 BRUCE, F.F. Paulo o apóstolo da graça. São Paulo: Shedd Publicações, 2003, pg. 11.

3 Tomamos por certo a autoria de Paulo; cf. Vemos no cap. 1 a carta foi escrita por Paulo, silvano e Timóteo. 4 MARSHALL, Howard I. I e II Tessalonicenses introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1993, pg. 39.

5 CARSON, op.cit., pg. 258. 6 Carson não deixa claro se de fato ela foi a primeira epístola a ser escrita por Paulo (podendo ter sido antecedida por Gálatas – op.cit., pg. 383) e Gundry (pg. 430) afirma ser a segunda, sendo a primeira Gálatas (que teria sido escrita logo depois da 1ª viagem missionária do apóstolo). De qualquer forma, as datações desses peritos colocam-na entre as duas primeiras epístolas paulinas do NT. 7 BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras : Atos a Apocalipse. São Paulo: Vida Nova, 1995, pg. 231.

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Talvez, a verdadeira razão para explicar a necessidade da carta era a urgência de uma

resposta a alguns dos problemas práticos da Igreja, que pediam um ensino mais completo 8 . Principalmente com relação a conduta dos irmãos enquanto aguardavam a parousia. A preguiça e

a rejeição do trabalho manual são criticados em 4.9-12, o que provavelmente sugiu de uma

compreensão errônea sobre a volta de Cristo. Como foi impedido de estar presente fisicamente, por meio dos esforços de Satanás (2.18), Paulo vê solução na elaboração de uma carta, na qual além de tratar os problemas doutrinários dos irmãos, ainda pode descrever esta Igreja como sendo sua “esperança”, sua “alegria” e coroa de exultação “na presença de nosso Senhor Jesus Cristo em Sua vinda” (1Ts 2.18,19). Assim, graças às notícias de Timóteo (3.2), o teor da carta é uma

combinação de ações de graças e encorajamento. Portanto, uma epístola escrita amorosamente para esclarecer assuntos pertinentes também

à Igreja atual. Dessa forma, um estudo detalhado sobre as instruções paulinas se faz necessário

para que seja extraído do texto a mensagem original e completa para uma posterior aplicação aos nossos dias. Essa exegese proposta deverá ser sobre o tema central da epístola, o Dia do Senhor, contido sobretudo no texto do capítulo 5.1-11. Qual o pensamento do apóstolo por trás daquelas palavras? E quais as implicações disso para os irmãos da Igreja primitiva e a de hoje? Talvez muito mais deva ser escrito sobre o assunto, e maiores reflexões doutros textos correlatos, do que esse trabalho se propõe, a fim de que se tenha uma teologia mais concisa e completa. Contudo, como já expressado, a nossa intenção é nos prendermos nesse texto em questão com alguns breves excursos, e extrair sua mensagem. Logo, buscar a “riqueza” por trás de algo que é muito mais do que uma excelente literatura, mas acreditamos na própria Palavra de Deus, expressa pelo escritor inspirado Paulo de Társis.

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2. Apresentação do Texto

Paulo informa aos irmãos tessalonicenses de que o Dia do Senhor virá de forma inesperada e inevitável (mesmo que aparentemente demorado). Por isso não há motivos para marcar um data específica para esse advento, que terá um caráter de destruição para os desprevinidos. Os “filhos da luz”, que são os crentes, não serão pegos de surpresa, como acontecerá com os “filhos das trevas”. Assim, já que são filhos da luz, devem agir como tais, vigiando em sobriedade e esperando com fé e amor a salvação. Pois, a vontade de Deus e o sacrifício de Jesus é para que tenham a comunhão Divina no presente e a salvação futura. Logo, com essas palavras, eles devem se consolar mutuamente e edificar uns aos outros.

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3. Pano de Fundo Histórico

A cidade de Tessalônica (veja mapa no Anexo 1, fig.1), quando recebeu a visita do apóstolo Paulo, já era considerada uma importante cidade do Império Romano 9 . Caracterizada por um fundo cultural grego-romano 10 . A cidade era, por assim dizer, um “terreno” cheio de desafios e oportunidades para o missionário convertido do judaísmo (Gl 1.14,15) em sua campanha evangelística (At 17). Vemos na narrativa lucana de Atos, a partir do capítulo treze, o início dos esforços missionários do “apóstolo dos gentios”. Porém, a primeira menção à Paulo no livro, acontece no triste contexto da morte de Estevão (At 7.58) . E em seguida, no verso em que relata o início à perseguição da Igreja em Jerusalém (At 8.1) Paulo é mencionado como um dos perseguidores 11 . Assim, mediante a dispersão dos cristãos de Jerusalém, por causa da perseguição, o evangelho começou a ser pregado por toda a parte (At 8.4). O primeiro relato da pregação do cristianismo fora de Jerusalém fala do ministério de Filipe “o evangelista”. Ele atua desde Samaria (At 8.12) até Cesaréia, local onde depois o evangelista recebe a Paulo, agora convertido (At 21.8). Temos também a descrição do ministério de Pedro a Lida, Jope e Cesaréia (At 9.32) e a propagação do cristianismo até Antioquia, onde os discípulos foram chamados pela primeira vez de cristãos (At 11.26). Logo, “Lucas prepara bem os seus leitores para a descrição da propagação do evangelho e arma o “palco” para as viagens missionárias e evangelísticas de Paulo, as quais tiveram um caráter internacional” 12 . Então, após comissionado pelo Espírito Santo (At 13.2), Paulo foi enviado juntamente com Barnabé, para sua primeira campanha missionária e chegaria a fazer outras duas. De fato, Paulo estava na sua segunda viagem missionária quando chegou na cidade que tinha o nome da esposa do general Cassandro 13 . Essas viagens do apóstolo levaram o “campo de operação do

9 BRUCE, op.cit., pg. 215. 10 DANA, H.E. O Mundo do Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1977, pg. 19.

11 Antes da sua conversão Paulo (chamado Saulo) se tornara um fervoroso perseguidor do cristianismo (cf At 9.1-2 e Gl 1.13).

12 GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. Tradução, João Marques Bentes. São Paulo: Vida Nova, 1989, pg. 259. 13 “A cidade e porto de Tessalônica foi fundada por volta de 315 a.C. por Cassandro, rei da Macedônia, que lhe deu o nome de sua esposa, filha de Filipe II e meio-irmã de Alexandre, o Grande” (BRUCE, op.cit., pg. 215). Marshall acrescenta que Cassandro era general de Alexandre Magno, e discorda da data de fundação, colocando 145 a.C. (MARSHALL, op.cit., pg.19).

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cristianismo ao gigantesco mundo greco-romano”. Este mundo era, “politicamente era romano, culturalmente grego, socialmente pagão, e religiosamente greco-oriental” 14 . Assim, Paulo, por intermédio do coração religioso judaico, poderia melhor estabelecer seu contato com o mundo, porém tal contato poderia ser mais bem interpretado e expresso através da mente grega. Segundo Carson, “Talvez por isso, os estudiosos do século XIX frequentemente interpretavam Paulo tomando por contexto o considerável conhecimento que possuíam da literatura e filosofia gregas clássicas” 15 . Contudo, o próprio apóstolo declara que seu evangelho veio “mediante revelação de Jesus Cristo” (Gl 1.12). Mas, isso não quer dizer que seu ministério seria aos judeus, pois ele também enfatiza que o seu chamado foi especialmente para pregar aos gentios (1Ts 2.4). Em certo sentido poderíamos até dizer que o apóstolo não tinha muitas barreiras culturais quanto a isso, pois, “ele nasceu em Tarso da Cilícia, capital da província romana” 16 , que assim como a Tessalônica era uma cidade privilegiada e isenta da tributação romana. “Dessa forma, a segunda viagem missionária de Paulo levou-o ao sul da Galácia, a uma rápida passagem pela Ásia Menor, em seguida à Macedônia (em especial às cidades de Filipos, de Tessalônica e de Beréia)” 17 (cf. Anexo 1, fig.1). Como tinha cidadania romana, o apóstolo gozava de uma certa liberdade para entrar nas cidades em suas viagens 18 . Porém, essa cidadania não o livrou das perseguições que enfrentou em seu ministério, fato semelhante em Tessalônica (1Ts 1.6). Essa perseguição vinha principalmente por parte dos judeus (2.15). Já os romanos, por um certo tempo, toleraram bastante o cristianismo. Apesar de a religião nativa de Roma ser politeísta, o imperador vigiava atentamente as correntes evolutivas no setor da religião 19 . O cristianismo escapou a essa vigilância porque, era considerado um “inócuo rebento dentro do judaísmo, que era uma religio licita20 ; ou seja, era considerado uma seita do judaismo, o que lhe

14 DANA, op.cit., pg. 19. Também explica que, “A religião da Grécia antiga pode ser descrita como um politeísmo antropomórfico” (pg. 191).

15 CARSON, op.cit., pg. 250.

16 Ibid., pg. 242.

17 Veja o mapa da 2ª viagem missionária de Paulo no Anexo 1, fig. 2. Segundo o relato bíblico – De Antioquia a Listra (At 15.40-16.1) … De Listra a Trôade (At 16.6-8)… De Trôade a Filipos (At 16.11-12)… De Filipos a Tessalônica (At 16.40-17.1)… De Tessalônica a Beréia (At 17.10)… De Beréia a Atenas (At 17.14-15)… De Atenas a Corinto (At18.1)… De Corinto a Éfeso (At 18.18-19)… De Éfeso a Jerusalém (At 18.21-22)… De Jerusalém a Antioquia (At 18.22).

18 É o que nos leva a inferir do pensamento de Gundry, que afirma que os “cidadãos possuíam certificados de cidadania que levavam consigo em viagens”. (GUNDRY, op.cit., pg. 276.)

19 DANA, op.cit., pg. 138.

20 Ibid., pg. 139. Dana também vai explicar que, “As religiões do Império eram reunidas em duas classes, conhecidas como religio licita (permitida) e religio ilicita (proibida)”.

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rendeu certa paz nas primeiras décadas de existência 21 . Nessa sociedade, antes do cristianismo a morte constituía uma experiência amendrontadora – “a extinção de tudo o que representava valor conhecido para o homem, a transição incerta para um território incerto além dos portais da tumba” 22 . O conforto e a esperança eram sofregamente buscados na filosofia e na religião, mas os frutos conseguidos eram escassos. Como consequência natural, a ignorância e o temor cercaram de superstição a morte e aumentarem-lhe o terror. Um contexto onde o apóstolo vem trazer a luz do evangelho, cheia de esperança e vida. Logo, essas peculiaridades do Império Greco-romano, acabaram favorecendo ao ministério missionário do apóstolo.

21 Dana também demonstra isso citando o Imperador Cláudio (41-54 d.C.): “O seu reinado foi de prosperidade e paz nos primeiros anos. Abrageu a maior parte das atividades missionárias de Paulo e manteve o mundo em ordem durante o tempo em que Paulo pregou. Isto, naturalmente, constituiu, da parte de Cláudio, sua contribuição inconsciente.” (Ibid.,pg. 142). 22 Ibid, pg. 185.

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4. Tradução de 1Ts 5.1-11

(1-3) : No que se refere aos tempos e períodos de tempo, irmãos, não há necessidade de vos escrever. Vós, pois, com precisão, sabeis que o dia do Senhor vem assim como ladrão de noite. Quando disserem: paz e segurança, então de repente a eles sobrevirá destruição como vem a dor para a que está grávida, e de modo nenhum escaparão. (4-5) : Mas vós irmãos, não estais em trevas para que O Dia vos pegue como ladrão; pois, todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; não somos filhos da noite nem das trevas. (6-10) : Assim pois, não durmamos como os demais, mas vigiemos, e sejamos sóbrios; porque os que dormem, dormem de noite, e os que se embebedam, embebedam-se de noite; mas nós, que somos do dia, sejamos sóbrios, vestindo-nos da couraça da fé e do amor, e tendo por capacete a esperança da salvação; porque Deus não nos destinou para a ira mas para obtenção da salvação mediante o nosso Senhor Jesus Cristo o que morreu por nós, para que quer vigiemos quer durmamos vivamos junto com Ele. (11) : Portanto, consolai uns aos outros e edificai um ao outro, como também o fazeis.

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5. COMENTÁRIO DOS VERSOS

5.1. Versículo 1 -

Durante sua segunda viagem missionária, Paulo faz sua visita à Tessalônica e ficou tempo suficiente para ensinar os irmãos (2.1-4) e deseja visitar a Igreja de novo (2.17). Entretanto, o apóstolo foi impedido 23 por Satanás (2.18). Assim, preocupado com aquela Igreja recém-formada, ele envia Timóteo (3.2). Ele, teria a missão de encorajar a Igreja em meio às suas aflições e trazer notícias à Paulo 24 . O relatório de Timóteo, além de deixar o apóstolo muito contente (3.9) sobre a situação dos Tessalonicenses, mostrou que ainda havia algumas dúvidas naqueles irmãos (possivelmente, graças à mudança de gratidão para exortação, cf. 4.1). Questões como a parousia, dentre outros temas abordados na epístola, necessitavam de esclarecimentos. Dessa forma, os onze primeiros versículos do capítulo 5 da epístola vêm abordar justamente essa questão, enfatizando a necessidade de estar preparado para a parousia. Em seu contexto imediato anterior (4.13-18), o apóstolo ensinou sobre o que vai aocntecer com os que morreram antes da volta de Cristo. Nesse ponto cabe uma discussão sobre a subdivisão da epístola. Alguns comentadores entendem que o trecho que compreende os versos 4.13 a 5.11, trata-se de apenas um assunto num só bloco 25 (de fato, trata da expectativa cristã quanto ao futuro, de forma geral); outros, porém, conseguem ver uma mudança de assunto, ou

23 Barbaglio usa a expressão “obstáculos intransponíveis para um retorno à cidade” mostrando que talvez os obstáculos seriam algumas dificuldades como doença, política ou qualquer outra realidade do nosso mundo. Contudo, o autor entende a colocação do apóstolo e diz a incomparável frase: “A aventura humana, terrestre, se desenvolve num campo de luta, onde se confrontam com dureza as forças da morte e do mal, as quais não se pode ignorar.” (BARBAGLIO, Giuseppe. As Cartas de Paulo, I. Tradução José Maria de Almeida. São Paulo: Loyola, 1989, 1v, pgs. 69 e 89.). 24 MARSHALL, Howard I. I e II Tessalonicenses: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1993, pg. 23. 25 Como é o caso de MARSHALL, op.cit., pg. 145; já Hendriksen, vê o trecho como um só assunto subdividido em duas partes (HENDRIKSEN, Guillermo. 1Y2 Tesalonicenses Comentário del Nuevo Testamento. Michigan:

Subcomision Literatura cristiana de la Iglesia Crisitiana Reformada , 1980, pg. 127). Champlin sugere outra divisão para o mesmo assunto (4.15-5.11) num só bloco (CHAMPLIN, Russell Norman. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. São Paulo, Hagnos, 2000, 5 v., pg. 202.).

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melhor, outra faceta do tema abordado 26 . Para este trabalho, entendemos que os 11 primeiros versos do capítulo 5 tratam-se de um novo assunto, ainda que não seja completamente distinto do anterior, ou seja, outro tópico do mesmo tema. Como bem colocaram os autores da Zondervan:

“É errado dizer que os dois trechos são diferentes como um contraste… mas é igualmente errado ver esse trecho como uma simples continuação do mesmo assunto. Uma interpretação mais própria reconhece uma mudança de pensamento, mas não sem algumas conexões com a anterior” (GAEBELEIN, 1978, 280) 27 .

Este fato é constatado pela primeira palavra usada por Paulo no capítulo cinco, a preposição “peri”. Essa preposição, usada como prefixo da palavra “periferia”, significa no

genitivo, “concernente a, acerca de, sobre” 28 . Já que toda preposição grega é posicionada na frente do substantivo a que se relaciona 29 , temos que ela se refere ao assunto seguinte. Ela dá a idéia de que o assunto anterior do qual Paulo falou havia sido esclarecido o suficiente e, agora falaria sobre outra coisa. Então, Paulo os orienta sobre quando se daria o “Dia do Senhor” e as implicações disso na vida diária daqueles irmãos. O apóstolo usa dois substantivos que aparentemente são sinônimos (Kairó$ e Crono$ ) para indicar o tempo da espera da volta de Cristo. Isso nos leva a um questionamento: Por que o apóstolo usaria dois substantivos, com o mesmo significado, para dizer uma mesma coisa? Uma saída seria olhar pelo prisma do contexto judaico de Paulo, então, poderíamos inferir que se trata de um estilo de linguagem pleonástico. Na verdade, vemos que o significado dessas duas palavras gregas se misturam bastante, principalmente na Bíblia (veja tabela comparativa na pg 14) 30 . Essa parece ser a alternativa mais agradável para Marshall, que diz se tratar de sinônimos e uma redundância do apóstolo sob influência vétero-testamentária 31 .

26 Como é o caso de BARBAGLIO, op.cit., pg. 99; de Moody (MOODY. Comentário Bíblico - Romanos à Apocalipse. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1983, 5 v., pg. 234.) e Gaebelein (GAEBELEIN, Frank E. (Ed.) Expositor’s Bible Commentary. Michigan: Zondervan Publishing House, 1978, 11 v., pg. 280.).

27 O texto original foi traduzido do inglês pelo autor. Originalmente: “It is wrong to say that the two are so different as to be in contrast. But it is equally worng to see this as a simple continuation of the same subject. The proper interpretation recognizes a shift in thought, but not without some connection with the foregoing.” GAEBELEIN, Frank E. (Ed.)op.cit., 1978, 11 v., pg. 280.).

28 REGA, Lourenço Stelio Rega; BERGMANN, Johannes. Noções do Grego Bíblico - Gramática Fundamental. São Paulo: Vida Nova, 2004, pg. 101. 29 Ibid., pg. 102.

30 Esse fato é verificado sobretudo na LXX, onde não fica muito claro uma diferenciação para o uso das palavras, (COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2000, pg. 2467).

31 MARSHALL, op.cit., pg. 160. Também parecem seguir essa linha Rienecker E Rogers (RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave lingüística do Novo Testamento grego. Tradução Gordon Chown e de Júlio P.T. Zabatiero. São Paulo: Vida Nova, pg. 444) e Barbaglio (BARBAGLIO, op.cit., pg. 100).

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No entanto, se o apóstolo estava levando em conta o contexto greco-romano 32 , então, poderíamos pensar que ele se referia a dois momentos distintos: um período individual, que poderia ser efetuado por decisões humanas (Kairos); e um decurso do tempo, cujo progresso independe de qualquer possível influência humana (chronos) 33 . Assim, não podemos negar que, etmologicamente, as duas palavras guardam entre si algumas diferenças (também observadas nos

léxicos – veja tabela 1), ou nuances distintas 34 . Contudo, entendemos que o objetivo do apóstolo

é apenas enfatizar uma mudança de foco na discussão, ou seja, tratando do problema do futuro

último, porém, na particularidade da data. Para fazer uma distinção, podemos entender que o kairós pode ser um “ponto específico” dentro do chronos 35 . Logo, vemos que, independente das nuances diferentes entre as duas palavras, Paulo quer apenas enfatizar a vinda do Senhor e talvez

a data específica, o que seria a dúvida dos irmãos de Tessalônica. Por último, pode ser que a dúvida dos irmãos tessalonicenses tenha sido a mesma dos discípulos na ascenção de Jesus. “Senhor, restaurarás tu neste tempo o Reino a Israel?” (At 1.6). Eles estavam ansiosos por saber se o Senhor voltaria ainda naquela geração. Uma conclusão óbvia dos crentes de tessalônica, dado a situação de perseguição (1.6; 2.14) após a saída dos missionários 36 . Frente a tal angústia daqueles irmãos, o apóstolo se utiliza da mesma expressão do Senhor Jesus (At 1.7) para confortá-los. Dessa forma, tanto aqui (no texto de Tessalonicenses) quanto em At 1.7, fica evidente a mesma resposta, ninguém além do Pai sabe o tempo certo da volta de Cristo 37 .

32 DANA, H.E. O Mundo do Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1977, pg. 19.

33 COENEN, op.cit., pg. 2460. 34 Moody (MOODY, op.cit., pg. 234) interpreta “chronos” como períodos cronológicos e “kairos” como os acontecimentos significativos desse tempo; Gaebelein (GAEBELEIN, op.cit., pg. 280) faz a mesma relação entre um

período específico e seus acontecimentos: “The latter word (kairon), while including some reference to extent of time, gives more attention to the character or quality of a given period, i.e., what signs will accompany the

consummating events”

se refere a estágios do desenvolvimento escatológico, ao passo que as kairos seriam as eras específicas durante as

quais Deus tem coisas particulares a fazer…”. Encontramos algumas dificuldades com essas interpretações, dado ao

conteúdo lexical encontrado; principalmente com a relação a kairós sendo colocado como “acontecimentos”. Não vemos em nenhuma outra passagem do NT ele sendo usado com esse sentido, mas sim, como em Mc 1.15, um “período de tempo” (uso mais comum). Também, se de fato o termo for traduzido assim, parece que o apóstolo entra

Algo parecido faz Champlin (CHAMPLIN, op.cit., pg. 208 e 209.), indicando que “chronos

em contradição - Paulo disse que não havia necessidade de escrever sobre o assunto (chronos e kairos), mas vemos

o apóstolo escrevendo justamente sobre os acontecimentos antecedentes à volta de Cristo (2Ts 2.1-12). Logo,

entendemos ser mais correto ver esse versículo (5.1) como apenas sendo colocada a questão de “quando” aconteceriam os fatos ocorridos no texto anterior.

35 Chronos abrange… todos os kairoi possíveis, e, sendo o termo maior e mais exclusivo, freqüentemente pode ser usado onde kairos teria sido igualmente apropriado, embora não inversamente…” COENEN, Lothar; BROWN,

Colin, op.cit., pg. 2460. 36 HENDRIKSEN, op.cit., pg.104. 37 Veja mais detalhes no excurso “o Dia do Senhor”, na subseção sobre “A Questão da Iminência”.

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Portanto, a mensagem do apóstolo presente nesse versículo é que “não há necessidade” de fazer especulações sobre o tempo certo da parousia. Entretanto, ainda precisa ser considerada a questão de como proceder enquanto se espera por ela (a parousia). O que demonstra o amor que o apóstolo nutria por aquela Igreja. Na verdade, esta é uma epístola íntima, onde sentimos o afeto e carinho do apóstolo (1.2); nesse verso, expresso pela palavra irmãos (adelfoí), expressão usada 16 vezes ao se referir a eles 38 . O princípio que rege esse relacionamento é o amor 39 , graças à obra de Jesus Cristo, o primogênito (Rm 8.29). Logo, essa nova exortação de Paulo, a respeito do Dia do Senhor, é feita em amor, para irmãos.

d

38 “irmãos” aparece em: 1.4; 2.1; 2.9; 2.14; 2.17; 3.7; 4.1; 4.10; 4.13; 5.1; 5.4; 5.12; 5.14; 5.25; 5.26; 5.27.

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Tabela 1 - Comparação Entre Kairó$ e Crono$ -

 

Kairó$

Crono$

   

Pode ser usado como sinônimo de hora

O criador, Yahweh, criou a totalidade do tempo e o preenche de acordo com a Sua vontade, e também fixa os Kairoi individuais (cf. Gn 1.14);

Duração de vida (Sir 17.2; Mq 5.3);

e

kairos, porém, significa uma expansão

maior de tempo;

Antigo

Testamento

40

Se era o costume no Israel antigo olhar mais para as ocasiões salvíficas do passado, os profetas fixavam seus olhos nos tempos futuros.

Referindo-se ao futuro: “naquele tempo” (Is 18:1; Jr 3:17).

O israelita preparava-se para um fim próximo do tempo presente, e esperava por uma nova era, concebida.

Nos livros sapienciais, chronos, diz respeito aos tempos e oportunidades para o arrependimento, que devem ser aproveitados para evitar que o “dia do Senhor” leve a ruína.

 

Com a vinda de Jesus raiou um novo kairos sem igual, mediante o qual é qualificado o restante do tempo (Mc

Designação formal de um espaço de tempo ou ponto de tempo.

1.15);

A plenitude da glória divina raiará somente com o Kairós eschatos, o “último tempo” (1Pe 1:5), cuja data exata é desconhecida (1Ts 5.1);

Também pode denotar a “duração da

vida de um homem” (At 1.21);

Deus é o senhor do tempo; é Seu privilégio decidir sobre a hora final para

Novo

Por contraste com as expectativas apocalípticas do judaísmo, o kairos

a

consumação do Seu Reino (At 1.6-7);

Testamento

O dia escatológico do Senhor, virá de repente, como um ladrão de noite (1Ts 5.1). Muitos cristãos primitivos inicialmente tinham a opinião que provavelmente só faltaria pouco tempo antes da parusia; paulatinamente, porém, ajustaram-se a uma extensão maior de tempo (chronos);

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escatológico agora é entendido cristologicamente como o tempo da volta de Cristo em glória (1Tm 6.14);

O tempo entre o aparecimento do Jesus terrestre e a parusia, portanto, permanece sendo um tempo carregado com tensões, que requer concentração vigilante da parte dos cristãos para seus deveres apostólicos e diaconais.

Dicionário

42

Tempo; instante; momento; o tempo atual (Hb 9.9); o tempo presente (Rm 3.26);

Tempo (Mc 9.21); num instante (Lc 4.5); demorar, transcorrer o tempo (At 18.23); transcorrer o tempo da vida (1Pd 4.2); dar tempo (Ap 2.21); um certo tempo (At 8.11).

tempo, momento oportuno (Mt 24.45); tempo fixado, época estabelecida (Mc

11.13).

 

Léxico 43

Um ponto no tempo; um período de tempo; os últimos tempos (Mt 8.29; Ap

Tempo (Mt 25.19; At 1.7.

1.3).

Chave L. 44

Refere-se ao momento certo, apropriado.

A palavra denota simplesmente duração.

40 COENEN, Lothar; BROWN, Colin. Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. Tradução Gordon Chown. São Paulo: Vida Nova, 2000, pgs. 2458 a 2470.

41 Ibid., pgs. 2458 a 2470.

42 RUSCONI, Carlo. Dicionário do grego do Novo Testamento. Sãõ Paulo: Paulus, 2003, pgs. 245 e 497.

43 GINGRICH, F.Wilbur. Léxico do Novo Testamento grego / português. Tradução de Júlio P.T. Zabatiero. São Paulo: Vida Nova, 1984, pgs. 106 e 224.

44 RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave lingüística do Novo Testamento grego. Tradução Gordon Chown e de Júlio P.T. Zabatiero. São Paulo: Vida Nova, pg. 444.

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5.2. Versículos 2 e 3 -

Nessa carta aos Tessalonicenses, Paulo quer mostrar aos irmãos a importância em manter o “foco” naquilo que é essencial (manter-se firme até a volta do Senhor). Entretanto, o apóstolo não se contém frente aos fatos e expressa toda a sua alegria pelo evangelho estar frutificando entre aqueles irmãos. Talvez, por ter sofrido dura perseguição, enquanto pregava o evangelho naquela cidade, tivesse pensado que o trabalho não frutificaria (3.5). Contudo, o trabalho missionário do apóstolo foi bem-sucedido e a Igreja cresceu. Dessa forma, a epístola acaba sendo um misto das duas coisas (gratidão e exortação) com o foco sobre a volta de Cristo.

O apóstolo relata que havia dado instruções àqueles irmãos por ocasião da sua visita (2.2;

4.2). Assim, eles já estavam inteirados sobre a questão da parousia. Aliás, parece que o sabiam

com muita precisão, pois estavam até questionando quem iria se encontrar primeiro com o

Senhor, os mortos ou os crentes vivos (4.15). Restava a dúvida de quando o tão esperado dia se manifestaria. Esta era uma dúvida legítima, pois se tratava de uma data esperada até pelo povo israelita na época vétero-testamentária (veja detalhes no excurso “O Dia do Senhor”). Mas, por que o apóstolo repete algo que eles já sabiam muito bem (v.2)?

A tradição daqueles que testemunharam o ministério de Jesus na Terra (principalmente os

apóstolos) dizia que este mesmo ensino foi dito pela própria boca do Senhor (Mt 24.42-44; Lc 12.39-40). Bruce afirma que: “Paulo não faz muito mais do que repetir as palavras de Jesus 45 , de

que ela se daria em momento inesperado, ‘como ladrão de noite’. A ordem para o povo de Deus, portanto é: vigiemos e sejamos sóbrios” 46 . Esse fator de surpresa com relação ao Dia do Senhor é reforçado no verso seguinte (v.3). Paulo introduz novas metáforas que “ecoam passagens do A.T” 47 (Ez 13.10; Jr 6.14; Mq 3.5). Contudo devemos primeiro perguntar: a quem o apóstolo se refere quando diz “há paz e segurança”? A resposta indica um grupo de pessoas, graças ao verbo legwsin 48 . Essas pessoas poderiam ser os incrédulos (mundo pecaminoso) 49 ou a humanidade de modo geral. Assim, como

45 A ilustração do ladrão de noite ocorre em Mt 24.43, Lc 12.39, 2Pe 3.10 e Ap 3.3.

46 BRUCE, F.F. Paulo o apóstolo da graça: sua vida, cartas e teologia. São Paulo: Shedd Publicações, 2003, pg.298 e

299.

47 MARSHAL, op.cit. pg. 162.

48 3ª pessoa do plural do presente do subjuntivo, na voz ativa.

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na época de Paulo, ainda hoje existem pessoas que “até mesmo ridicularizam a própria idéia da volta de Cristo” (cf. 2Pe 3.1-10) 50 ou estão “dormindo” em relação às verdades espirituais. Esse grupo, que diz paz e segurança, “faz vir à mente passagens do AT tais como Amós 5.18; Mq. 3.1-11; Ez 13.10, as quais descrevem o termo como um falso sentimento” 51 . “Falam da atividade de falsos profetas que asseguravam ao povo que nada tinham a temer a despeito da podridão moral que caracterizava a sociedade” 52 . Alexander comenta sobre Ez 13.10:

Era justamente o caso de serem (os profetas) mal condutores e cometerem pequenos erros. Isso, de qualquer forma, ia contra a perspectiva de Deus. Porque, na falha deles de falar a verdade, eles tinham falhado em preparar Israel para o tempo de juízo, trazendo destruição sobre o povo e a terra…” 53 . (ALEXANDER, 1978).

Essa advertência de Paulo (vs.3) tinha como consequência a destruição. Uma das características do Dia do Senhor é justamente o juízo 54 . Que para os incrédulos representa ser completa e irremediavelmente destruído pela ira de Deus, talvez pela separação dEle (2Ts 1.9) 55 . Outro fato apresentado por Paulo é que esse juízo uma vez começado não há como escapar dele, conforme a metáfora do parto. “A subitaneidade e inexorabilidade do dia é o que Paulo está destacando. Uma vez começado o trabalho de parto, não há meios de fazê-lo parar. Essa também é uma expressão comum no AT (a metáfora do “parto” – cf. Sl 48.6; Is 13.8; 21.17-18; Jr 6.24; 22.23; Mq 4.9) e é provável que este sentido que predomina em Mc 13.8. Logo, o Dia do Senhor terá um caráter de julgamento, para os despreparados.

49 MOODY, op.cit. pg., 234; compartilham dessa opnião, MARSHAL (op.cit., pg.163); e, BARBAGLIO (op.cit., pg.

100).

50 HENDRIKSEN, op.cit., pg.181.

51 MOODY, op.cit., pg. 234.

52 MARSHAL, op.cit. pg. 162 e 163.

53 ALEXANDER, Ralph. Ezekiel. Chicago: Moody Press, 1978, pg. 46. Tradução do autor. No original: “ It was just a case of being misled and of making a small mistake. This, however, was not God’s perspective. Because of their failure to speak the truth, they had failde to prepare Israel for the time of judment, bringing destruction upon the people and the land…”

54 veja mais no excurso “O Dia do Senhor”, pgs. 18-20.

55 MOODY, op.cit. pg. 234.

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5.3. Excurso 1 – O Dia do Senhor

5.3.1. Introdução:

Ao olharmos a Bíblia sob um ponto de vista devocional-escatológico 56 , vemos 7 “grandes dias” mencionados. Primeiro o Dia da criação (Gn 1); depois o Dia do nascimento de Jesus (Lc 1 e Mt 1); o Dia da morte de Jesus (Mt 27; Lc 23; Mc 15; João 19); O Dia da ressurreição (Mt 28); o Dia da ascenção de Jesus (Lc 24; At 1); o Dia da parousia (o Dia do Senhor); enfim, o Dia do “novo céu e da nova terra” (Ap 21). Essa é uma forma linear 57 de ver a história bíblica e situar o “Dia do Senhor” nela. Mas, para termos uma compreensão mais ampla desse termo, precisamos analisá-lo à luz tanto dos textos do Antigo como do Novo Testamento. Logo, vemos que é um tema com uma vasta abrangência nas Escrituras Sagradas 58 .

5.3.2. No Antigo Testamento:

Se de fato o livro do profeta Obadias foi escrito cerca de 845 a.C. 59 então, provavelmente, ele foi o primeiro a formalizar a expressão “dia de Yahweh” 60 . Graças à sua eleição como “povo de Deus”, os israelitas tinham a tendência de pensar que eram os justos e que o Senhor os vingaria de todos os males causados pelos seus vizinhos, que tinham uma vida moral e religiosa

56 ARANTES, João. A escatologia de Sofonias. Anápolis: Palestra realizada na convenção espiritual da MEAR- centro norte, agosto de 2005. Segundo o preletor uma leitura devocional-escatológica da Bíblia é aquela onde o leitor bíblico tem em vista a obra redentora de Jesus.

57 REVISTA ULTIMATO. Viçosa: fevereiro, 2002, ano 35, n.274, pg.50.

58 Este é um tema amplamente abordado na Bíblia (trechos como: Is 2.12; 13.6, 9; Ez 13.5; 30.3; Jl 1.15; 2.1, 11, 31; 3.14; Am 5.18 (duas vezes), 20; Ob 15; Sf 1.7, 14 (duas vezes); Zc 14.1; Ml 4.5; At 2.20; I Ts 5.2; II Ts 2.2; II Pe 3.10. Além desses, as expressões aquele dia, o dia ou o grande dia aparecem mais de 75 vezes no Antigo testamento). Estranha-se, portanto, comentários como o de John Davis que afirma, “o Dia do Senhor (como o último dia escatológico) aparece apenas uma vez no Novo Testamento (Ap 1.10), sendo que as outras ocorrências dizem

Dicionário da Bíblia. Tradução J.R. Carvalho Braga. São

Paulo: Hagnos, 2002, pgs. 157 e 158). Essa opnião vai contra o resultado desse trabalho exegético como demonstramos no decorrer do Excurso.

59 LaSor (LASOR, William. Introdução ao Antigo Testamento. Tradução Lucy Yamakami. São Paulo: Vida Nova, 1999, pg. 264, 403 e 407) vai discordar dessa datação e coloca: “datas de 889 a 312 a.C. têm sido apresentadas e defendidas por vários estudiosos para a forma escrita final da profecia… Assim, parece provável um ano não muito posterior a 586 a.C.” nesse caso, o primeiro profeta a usar o termo seria Joel, 835-796 ou após o exílio em 515 a.C. ou também Amós, datado por ele em 760 a.C. No caso, Cabretree vai defender Amós como sendo o primeiro a utilizar o termo.

respeito apenas a dias da semana” (DAVIS, John D

60 BACHELLER, William Jonh Jr. A Theology of Obadiah. Dallas, 1978. A Thesis (Master of Theology) presented to the Faculty of the Department of Semitic Languages and Old Testamente Exegesis - Dallas Thological Seminary, pg. 44.

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fora dos parâmetros da lei mosaica. Neste dia de julgamento a maldade das nações cairá sobre a cabeça delas, mas para os da casa de Jacó haverá livramento (Ob 15 e 17) 61 . Ou seja, esse dia tem o seu lado negativo e também um positivo. Logo, é acima de tudo, o dia do julgamento de Yahweh (Am 5.18-20; Is 13.6-16; Jl 1.15); mas também traz salvação (Ob 15.21; Zc 14) 62 . Originalmente, o “Dia de Yahweh” era um dia de alegria (cf. O pressuposto em Am 5:18, 20; cf. Zc 14:7). Os profetas, reinterpretaram esta idéia popular de salvação, como um dia de julgamento 63 não só para as nações inimigas, mas também para a casa de Israel 64 . Ainda pensando no caráter de juízo desse dia, poderíamos traçar as seguintes características: Um abalo da Terra (Is 2.10-22; 13.13; 24.16-20; Jr 25.27-33; Jl 3.16; Ag 2.6-7); Ii, cólera, indignação, e fúria (Is 13.13; 26.20; 30.27;34.2; 63.3; Jr 25.15; Dn 8.19; 11.36; Sf 1.14-18; 3.8); julgamento (Is 26.9); destruição (Is 24.3, 12; 34.2; Jr 25.18; Jl 1.12; Sf 1.15; Ml 4.1); punição (Is 26.21; 27.1); vingança e recompensa (Is 34.8; Ob 15,16); trevas (Jl 2.1-11; Am 5.16-20; Sf 1.15; Ez 30.3); angústia (Jr 30.7; Dn 12.1; Sf 1.15) 65 . Embora seja difícil rastrear as origens do tema 66 , não cabe dúvida de que os israelitas do século VIII a.C. 67 , esperavam que o Senhor se manifestasse de forma grandiosa para exaltar o seu povo e colocá-lo à testa das nações. Isto aconteceria no “dia do Senhor” 68 . Contudo, parece que apesar desse senso comum popular, muitos profetas vão se levantar profetizando contra as maldades da própria nação, como é o caso de Amós, e, colocando-as dentre todos os ímpios a serem julgados no “dia do Senhor” (Am 3; Is 2. 10). Não pode haver esperança nenhuma para os

61 CABRETREE, A.R. Teologia do Velho Testamento. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1960, pg. 227.

62 MARSHALL, Howard I. I e II Tessalonicenses introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1993, pg. 161.

63 COENEN, op.cit., pg. 1799.

64 DOUGLAS, J.D. (Ed) O novo dicionário da Bíblia. Tradução João Bentes. São Paulo: Vida Nova, 1995, pg. 416.

65 PENTECOST, J. Dwight. Thy kingdom come. Illinois: Victor Books, 1990, pgs. 229 e 230.

66 BACHELLER (BACHELLER, op.cit. pgs. 45 e 46.) sugere que existem três argumentos maiores sobre a origem de yôm YHWH: “o primeiro defendido por homens como Pedersen (Israel: Its Life and culture. London: Geoffrey Cumberlege, 1940), Mowinkel ( The Psalms in Israel’s Worship. Nashville: Abingdon Press, 1962), e Cerny (The Day of Yahweh and Some Relevant Problems. Prague, 1948) sugerem que o termo é uma derivação de um culto real festivo. Uma segunda teoria, exposta por Eichrodt e Von Rad (Old Testamente Theology. Translated by D.M.G. Stalker. New York: Haper and Brothers, 1962) diz que a concepção é derivada de uma instituição da guerra santa. Uma terceira teoria proposta por Stuart (The sovereing’s Day of Conquest.Bulletin of the American Schools of Oriental Research n.221, 1976) sugere que pelo menos alguns aspectos de um dia soberano para a nação com decisivas intervenções militares podem ser encontradas num contexto não israelita.” (tradução do autor).

67 Quanto ao aparecimento do termo em escritos proféticos no séc. VIII a.C. concordam Cabretree (op.cit., pg. 227), Tenney (op.cit., pg. 47), LaSor (op.cit., pg. 407), Bacheller (op.cit., pg. 44) e Sicre (SICRE, 1996, et seq.).

68 SICRE, José Luis. Profetismo em Israel. Rio de Janeiro: Vozes, 1996, pg. 355. A mesma opnião é compartilhada por CABTREE, “O povo de Israel pensava que o Dia do Senhor significava o estabelecimento do seu governo benéico sobre o povo escolhido” (CABTREE, op.cit., pg. 228) e também por DOUGLAS, “Para o povo, significa o dia quando Yahweh haveria de intervir a fim de colocar Israel como testa das nações.” (DOUGLAS, op.cit., pg.

416).

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ímpios de Israel no Dia do Senhor: “Será como se um homem fugisse de diante dum leão, e lhe saísse ao encontro um urso; ou como se entrasse em casa, e encostasse a mão à parede e o mordesse uma cobra” (Am 5:19). “O dia do Senhor envolveria a derrota dos poderes do mal, bem como o julgamento sobre o pecado dos homens. Quando viesse o dia do Senhor, então haveria justiça.” 69 “A idéia geral é que Deus se manifesta de modo especial no julgamento, na salvação, no governo sobre todas as coisas, na sua majestade, nos eventos da natureza e nos principais acontecimentos da historia da humanidade.” 70 . Logo, o “Dia de Yahweh é o dia de vingança esperado ansiosamente, em especial pelos oprimidos Ele virá para consertar todos os erros, punindo os maus e premiando os justos” 71 .

5.3.3. O Reino

Visto a definição e características do “dia de Yahweh”, podemos questionar, qual o objetivo desse dia? Ou melhor, qual a expectativa judaica para depois desse dia? O Reino de Yahweh sobre Israel começou com a obediência de Abrão, aceitando a ordem divina de mudar para Canaã (Gn 12) 72 . E, conseqüentemente, a promessa de uma terra (Gn 15. 18) e de uma nação (Gn 15.5). Assim, após a saída do povo descendente de Abraão do Egito, Yahweh é reconhecido como rei de Israel por direito de redenção (Ex 15.18) 73 e o povo marcha para a conquista da promessa. Com o estabelecimento do Reino de Davi e a composição do livro dos Salmos, vemos as seguintes referências a Deus:

Yahweh é ao mesmo tempo o Rei de Israel e o Rei das nações. Como Rei de Israel ele dá vitórias à nação (Sl 47, 48), Ele entra em Jerusalém para fixar Sua residência (Sl 24), Ele salva (74:12), defende o órfão (10:18) e ma a justiça (99:4). Mas Yahweh também é um “grande Rei sobre a terra” (47:3), tornou-se “soberano sobre as nações” (47:9). (COENEN, 2000) 74 .

Contudo, essa idéia do reinado divino sobre a nação não era unânime. Assim, vemos no livro de Samuel que o povo rejeitou o Senhor como rei e pediu um dentre eles (1Sm 8.7). Alguns, foram fiéis e homens tementes a Yahweh (como Davi), outros foram rebeldes à vontade de Deus.

69 Erickson, Millard J. – Opções Contemporâneas na Escatologia – Vida Nova, 1982, pág. 27

70 Champlin, R. N. – Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia – Hagnos, 2001, Vol II, pag. 440

71 LASOR, op.cit., pg. 456.

72 COENEN, op.cit., vol. 2, pg. 2027.

73 Ibid., pg. 2027.

74 Ibid., pg. 2028.

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Então, “os profetas do VIII século receberam a incubência de anunciar o fim do Reino de Israel” 75 . Realmente a idéia de um Reino divino estaria no fim se não fosse por causa de duas promessas. A feita a Abrão, já mencionada, e, a feita a Davi (2Sm 7.16) 76 .

É interessante levar em conta que a promessa de Natã, mantida durante séculos e renovada em momentos trágicos por Ageu e Zacarias, vai cedendo o lugar ao anúncio de algo mais importante: o Reinado de Deus. Este tema aparece com força cada vez maior na época pós-exílica…” (SICRE, 1996) 77 .

Esse desejo de um reinado divino, onde há a justiça e o amor governando sobre todos, era o desejo partilhado dos profetas, já cansados de muitos reis rebeldes ao Senhor. “Então, os profetas tanto anunciaram o juízo de Deus sobre Israel, como anunciaram uma palavra de esperança e salvação” 78 . As promessas messiânicas reivindicaram o Reino de Deus que nos últimos dias 79 será estabelecido em Jerusalém por seu Filho, cujo domínio se estenderá até os quatro cantos da terra 80 . “Obadias sabia que Deus iria estabelecer Sua teocracia, se não no presente Israel, então na nova Israel, a qual Ele vai constituir de um remanescente; mas Seu Reino está chegando e Ele vai revelá-lo em Israel”. 81 Apesar dos cativeiros, guerras e infidelidade do povo, haveria sempre um remanescente 82 de Jacó (Is 4; Mq 4,5) e um levantamento da casa caída de Davi (Is 55.3). Portanto, vemos que o maravilhoso plano salvífico do Pai é de estabelecer um Reino soberano, iniciado em Abrão, e ainda hoje está em andamento. Assim, as profecias com relação ao “Dia de Yahweh” são acima de tudo, uma palavra de esperança e consolo para os fiéis remanescentes. Porém, não deixa de ter o sentido de juízo para aqueles que se corromperam. Esse

75 Ibid., pg. 2029.

76 Essa maravilhosa promessa feita a Davi “teu trono será estabelecido para sempre” começa a mostrar ao povo de Israel o plano de redenção de Yahweh (um Reino dos céus); através de Jesus Cristo, o descendente prometido ao rei, “então farei levantar depois de ti um dentre a tua descendência” (2Sm 7.12; Mt 1). O Reino prometido, teve início com o advento da Sua primeira vinda, (Mt 3.17).

77 SICRE, op.cit., pg. 494.

78 COENEN, op.cit., pg. 2029.

79 Entendemos como “últimos dias” a era da Igreja cristã, ou seja, nossos dias atuais. Foi a visão (Is 2.1) que o profeta teve como palavra de consolo áquela geração corrupta, mas que ainda guardava um remanescente. Com o advento do nascimento do Emanuel, foi instaurado esses “últimos dias”, onde teve início o Reino de Deus, porém ainda não houve a instauração plena desse Reino aqui na terra. Ela somente acontecerá com o advento da segunda vinda do Senhor, quando se findará os “últimos dias” e viveremos plenamente no novo céu e nova terra, a concretização completa das professias e promessas vétero-testamentárias.

80 Conforme visto em (Is 2.2-4; 9.6; 11.1,2; 32.1-8; 33.17-22; Mq 4.1-8; 5.2-5; Os 1.10-11; 3.5; 14.4-7; Am 9.11-15; Jr 23.5-8; 31, 33; Ez 34.11-31; 36.1-38; 37.1-28).

81 VRIEZEN apud BACHELLER (op.cit., pg. 53).

82 Este é um tema presente em muitas passagens do Antigo Testamento, indicando que Deus sempre mantinha para Si no meio da nação, pessoas que continuavam fiéis a Ele.

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Reino divino foi iniciado com o ministério de Jesus Cristo na Palestina (Mt 3.2, 4.17). O Reino de Deus é o domínio redentor de Deus, ativo dinamicamente, visando estabelecer seu governo entre os homens, e que este Reino, que aparecerá como um ato apocalíptico na consumação dos tempos, já entrou para a história humana na pessoa e missão de Jesus com a finalidade de sobrepujar o mal, de libertar os homens do seu poder e propiciar-lhes a participação das bênçãos da soberania de Deus sobre suas vidas no presente 83 . Contudo, a concretização do Reino ocorrerá por ocasião da parousia, que é o alvo final, o último desfecho que coroa toda a obra de Jesus Cristo 84 (cf. 1Co 15.24-28) . Nas palavras do apóstolo Paulo: “quando todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então também o mesmo Filho se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos”(1C0 15.28).

5.3.4. A Mensagem Profética

Resta-nos ainda uma análise sobre a profecia vétero-testamentária, a relação entre presente e futuro. Vemos que a mensagem profética tinha um caráter para a época presente do profeta e do povo, mas também um caráter futurístico. Segundo Lasor: “em geral, há duas concepções simplistas de profecia, uma que enfatiza a predição e outra que apresenta a mensagem conforme se aplicava à situção da época” 85 . Assim, devemos evitar a tentação de pensar que a profecia é a “história escrita de antemão”, sem nenhuma implicação presente. Um estudo cuidadoso dos profetas e de sua mensagem revela que estão profundamente envolvidos na vida e na morte da própria nação (Is 6.1). Dessa forma, “a única perspectiva que interessa ao profeta é esta: a relação entre o presente e o plano de Deus” 86 . Logo, “Deus nunca está interessado no presente simplesmente pelo presente, Ele sempre está cumprindo Seu plano para a humanidade” 87 . Sobre o aspecto futurístico, podemos inferir que “o profeta fala de algo que faz sentido para o ouvinte” 88 . Ou seja, ele “apresenta uma mensagem para objetivos específicos na história

83 LADD, George eldon. Teologia do Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1985, pg. 127. 84 BOOR, op.cit., pg. 249.

85 LASOR, op.cit., pg. 246.

86 SICRE, op.cit. pg. 413.

87 LASOR, op.cit. pg. 247.

88 Ibid., pg. 247.

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posterior de Israel” 89 . Mas, os profetas falam também de um futuro longínquo, de algo que acontecerá “nos últimos dias” (Is 2.2). Assim, temos vários aspectos dessa visão do futuro:

Em primeiro lugar, trata-se de um futuro intra-histórico, não é algo que cai fora da história. Em segundo lugar, o que caracteriza o futuro é a justiça e a paz, entre indivíduos e nações. O futuro caracterizar-se-á também por uma relação correta com Deus, um conversão do coração e uma nova intimidade com Ele (Os 2.16-22). Por último, o futuro aparece como obra de Deus. (SICRE, 2002) 90 .

Analisando a profecia de Joel vemos que, “a cena dos gafanhotos e seus desastrosos resultados levam Joel a referir-se também ao dia de Yahweh (Jl 1.15)” 91 . Assim,

a referência ao dia de Yahweh é proclamada primeiro em termos da invasão de gafanhotos (um desastre natural) que ocorreu no tempo do profeta, depois em termos de uma terrível invasão por um inimigo poderoso (nação inimiga) e também, a frase “o dia de Yahweh” refere-se aos eventos que ocorrerão depois do julgamento do exílio. (GRONINGEN , 2003) 92 .

Portanto, observando as profecias e a maneira como se deram, podemos acrescentar ainda mais o significado do “dia de Yahweh”, não apenas no sentido escatológico, mas também de julgamento para a época do profeta. São intervenções de Yahweh na história “para punir o pecado, chegou ao seu climax. Esse castigo poderá vir por meio de uma invasão (Am 5.6; Is 13; Ez 13.5), ou através de um desastre natural, tal como uma invasão de gafanhotos (Jl 1 e 2)” 93 . Fatos tais que além de advertir o povo a se voltar ao Senhor, prepara-os para a conversão e arrependimento de pecados 94 . Logo, quando chegar “o dia do Senhor”, mencionado por Paulo (1Ts 5.2), “haverá crentes verdadeiramente arrependidos que serão salvos (Jl 2.28-32)” 95 .

5.3.5. NOVO TESTAMENTO

Observando as referências vétero-testamentárias, podemos inferir que a expectativa judaica sobre aquele Dia traz semelhanças e diferenças da perspectiva neo-testamentária, principalmente, pelo fato dos primeiros cristãos terem sido judeus. De fato, “muitos judeus acreditavam que os seguidores de Jesus eram apenas outra seita do judaísmo” 96 . Isso, porque, “os primeiros cristãos formavam uma comunidade estreitamente unida em Jerusalém após o dia de

89 ELLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. Tradução de Emma anders de souza Lima. São Paulo: Ed. Vida.1991, pg. 209.

90 SICRE, op.cit. pgs. 414 e 415.

91 GRONINGEN, Gerard van. Revelação Messiânica no no Antigo Testamento. Tradução Cláudio Wagner. São Paulo: Ed. Cultura Cristã, 2003, pg. 428.

92 Ibid. pgs., 428 e 429.

93 DOUGLAS, op.cit., pg. 416.

94 GRONINGEN, pg. 428.

95 DOUGLAS, op.cit., pg. 417.

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Pentecoste e esperavam que Cristo voltasse muito em breve” 97 . Outro fato dessa origem judaica do cristianismo era que o próprio Jesus terreno era judeu. “Os evangelistas escrevem continuamente sobre nosso Senhor como o “filho de Davi”, ou seja, descendente remoto dos reis que haviam sido a glória do Povo Escolhido” 98 . Ou seja, “o cristianismo surgiu como movimento dentro da comunidade judaica na terra de Israel, seu fundador foi um judeu, assim como seus discípulos” 99 . Logo, há uma inevitável relação entre a visão dos dois testamentos.

“O Velho Testamento concebe Deus obrando na história, para completar seus propósitos de redenção; mas também busca um dia da visitação divina, quando Deus virá em juízo e salvação, para estabelecer seu Reino. No Novo Testamento, esta teofania divina é cumprida na vinda de Cristo; e para estabelecer o Reino”. (LADD, 1985) 100 .

96 PACKER, J.I., TENNEY, Merril C. O Mundo do Novo Testamento. São Paulo: Ed. Vida, 2003, pg. 141.

97 Ibid., pg. 141.

98 DANIEL, Rops H. A vida diária nos tempos de Jesus. São Paulo: Vida Nova, 1983, pg. 263.

99 BRUCE, F.F. Paulo o apóstolo da graça: sua vida, cartas e teologia. São Paulo: Shedd Publicações, 2003,

pg.13.

100 LADD, op.cit., pg. 515.

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5.3.6. A Questão da Iminência

Assim como os profetas criam na iminência do “dia de Yaweh” 101 , os cristãos antigos “esperavam que Cristo voltassse em breve” 102 . Berkhof afirma:

Acha-se apoio para a doutrina da iminência da volta de Cristo nas declarações bíblicas de que Cristo virá “dentro de pouco tempo”, Hb 10.37; ou “sem demora” Ap 22.7; nas exortações para que vigiemos e esperemos por Sua vinda, Mt 24.42; 25.13; Ap 16.15; e no fato de que a Escritura condena a pessoa que diz, “Meu Senhor demora-se, Mt 24.48. (BERKHOF, 2001) 103 .

Os próprios irmãos tessalonicenses parecem ter esperado a volta do Senhor ainda naquela geração 104 . Na sua primeira carta àquela Igreja, Paulo, “escreveu com fervorosa antecipação, admoestando os tessalonicenses a viverem uma atitude de expectativa daquele dia” 105 (1Ts 5.1- 11). Assim, eles ficaram com tanta expectativa que “alguns clamavam ter revelações de Deus ou uma palavra especial de Paulo, indicando que o fim estava sobre eles” 106 . A solução de Paulo, seria a segunda carta aos tessalonicenses, informando que, “antes que venha o fim, aparecerá um governador mau (homem da iniquidade)” (2Ts 2.3,4) 107 . Outro fato que pode ter alarmado os irmãos contemporâneos de Paulo é uma confusão acerca das profecias de Jesus (Mc 13.14), reafirmadas por Paulo (2Ts 2.4) e João (Ap. 13) acerca do “abominável”.

No ano 40 d.C. pareceu, por um breve período, que esse Anticristo esperado tinha dado a cara. O imperador Gaio, que levava sua divindade muito a sério,… e deu ordens para que sua estátua fosse levantada no templo de Jerusalém. A Judéia e o mundo judaico em geral ficaram apavorados… Os cristãos judeus estavam tão preocupados como todos os seus conterrâneos. Alguns recordaram algumas palavras de Jesus (Mc 13.14). (BRUCE, 2003) 108 .

Apesar do imperador Gaio não ter levado a êxito seus planos, o fato parece ter causado a impressão que o “fim” tinha chegado. Porém, hoje, quase dois mil anos após a morte e ressurreição do Senhor Jesus, será que a Sua vinda ainda é aguardada como iminente? Sim, principalmente por algumas religiões como a organização “Torre de Vigia” dos “Testemunhas de Jeová” e os Adventistas do Sétimo Dia. Os quais chegaram a marcar datas

101 Conforme exposto na subseção “a mensagem profética” parágrafos acima.

102 PACKER, op.cit., pg. 144.

103 BERKHOF, op.cit., pg. 642.

104 Conforme exposto no comentário do verso 1 (sobre a questão do “tempo”).

105 LADD, op.cit., pg. 516.

106 Ibid., pg. 516.

107 Ibid., pg. 517.

108 BRUCE, op.cit. pgs. 222, 223.

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distintas para a volta de Cristo, mas foram frustrados. Uma postura mais séria e bíblica têm os que defendem o pré-tribulacionismo. Erickson afirma que: “Particularmente os que defendem uma vinda de Cristo pré-tribulacional, para os santos, crêem que a volta pode ocorrer a qualquer momento” 109 . Outros colocam que os eventos preditos como antecedentes da vinda do Senhor, ainda não se cumpriram, e só depois dessas evidências é que poderíamos dizer que ela é iminente 110 . Há também uma linha teológica que defende que ainda na Igreja primitiva, “a demora no aparecimento de Cristo levou os homens a duvidar que o dia realmente acabaria chegando. Nesta situação, Tg 5.7-8 conclama à paciência” 111 . Ainda,

Em 2Pe 1.16 e 3.4 e segs., os crentes recebem a exortação no sentido de continuarem a esperar a parousia a despeito do fato que, até agora, nada aconteceu… Mais tarde, na medida em que o tempo foi-se passando, sem ter ocorrido a parousia, esta avançava sempre mais para o futuro, do ponto de vista, até finalmente correr o risco de ser totalmente abandonada como artigo de fé. Onde se ressaltam a presença de Cristo e a experiência presente da salvação (e.g. Gl 2.20) . (COENEN, 2000) 112 .

Contudo, contrariando essa posição, Schoeps argumenta que, “Paulo esperava pela parousia dentro de quarenta anos, no máximo (segundo uma tradição rabínica acerca do Messias)” 113 . Ou, que Paulo “acreditava que o mundo inteiro tinha que ser evangelizado antes da parousia, e ele própio era o missionário-chefe, desempenhando sua missão junto aos gentios” 114 . Então quando isso acontecesse, o “homem do pecado” apareceria e viria o fim. Assim, o “fervor missionário” do apóstolo indicaria que ele mesmo pensasse terminar a tarefa de “evangelizar o mundo”. Dessa forma, podemos inferir apenas que a segunda vinda do Senhor Jesus não deve ser tratada como iminente, até que pelo menos os sinais tenham se cumprido. Porém, “isso não significa que não caiba falar em iminência. Mas, iminente é mais o complexo de eventos adjacentes à segunda vinda… o fato de dizer “vigiai!” não entra em conflito com uma demora a fim de que se permita a concretização de certos eventos” 115 . Nesse sentido, o texto de 1Ts 5.1-11,

109 ERICKSON, Millard. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1990, pg. 501. (Apesar de que o próprio Erickson acredita que “as declarações de Jesus não significavam que a segunda vinda seria iminente”).

110 Como é o caso de Louis Berkhof, Lothar Coenen e Colin Brown, Millard Erickson e George Eldon Ladd.

111 COENEN, op.cit. pg. 1812.

112 COENEN, op.cit., pgs. 1811, 1812.

113 SCHOEPS, H.J. Paul (1961, pg.101) apud LADD, op.cit., pg. 516.

114 CULLMANN, O. Christ and Time (1964, pg. 164) apud LADD, op.cit. pg. 517.

115 ERICKSON, op.cit. pg. 502.

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não ressalta a iminência, mas a qualidade repentina e inesperada desse evento. Logo, “não estamos em trevas” e temos os sinais, então, “vigiemos e sejamos sóbrios” 116 .

5.3.7. A Questão da Parousia

Uma das diferenças entre o termo “dia do Senhor” no AT e o NT, é que a palavra “Senhor”, ao invés de se referir a Yahweh passa a se referir a pessoa de Jesus Cristo e ao advento da sua segunda vinda. Assim, uma das palavras gregas usada no NT para se referir a volta do Senhor é a parousia 117 . Logo, está intimamente relacionada com o “dia do Senhor”, pois é nesse dia que ela se dará.

Parousia pode significar tanto “presença” (Fp 2.12) como “vinda” (1Co 16.17; 2Co 7.7).

A palavra foi usada num sentido semitécnico da visita de pessoas de alta classe,

especialmente de reis e imperadores visitando uma província. Desde sua ascensão, Cristo é retratado sentado à mão direita de Deus no céu. Ele visitará a terra novamente, em presença pessoal (ver At 1.1), no fim dos tempos (ver Mt 24.3), em poder e glória (Mt 24.27), para ressuscitar os mortos em Cristo (1Co 15.23), para reunir seu povo para si (2Ts 2.1), e destruir o mal (2Ts 2.8). (LADD, 1985) 118 .

“O termo é helenístico. Quanto ao seu conteúdo essencial, porém, deriva do pensamento vétero-testamentário, judaico e cristão primitivo. A passagem mais antiga no NT que fala da parousia é 1Ts 4.15” 119 . Com relação ao caráter da vinda, “essa vinda será pessoal, visível e gloriosa” 120 . Entretanto, “a teologia dispensacional divide o retorno de Cristo em duas partes: uma vinda secreta, antes da grande tribulação da Igreja, e uma aparição gloriosa no fim da tribulação” 121 . Posição contrária é a de muitos teólogos como Packer que afirma que:

A idéia de que o arrebatamento os leva para fora deste mundo por um período antes de

Cristo aparecer uma terceira vez para uma segunda “segunda vinda” tem sido amplamente defendida, mas falta-lhe apoio escriturístico… O NT especifica muito do que sucederá entre as duas vindas de Cristo, mas, afora a queda de Jerusalém em 70 d.C. (Lc 21.20,24), as predições sugerem processos e não eventos isolados identificáveis… (PACKER, 1998) 122 .

116 1Ts 5.4,6.

117 Conforme, LADD (op.cit., pg. 513); BERKHOF (op.cit., pg. 641); COENEN (op.cit. pg. 1809), dentre outros. COENEN traz em seu dicionário as seguintes traduções: “presença”, “aparecimento”, “vinda”, “advento” (op.cit. pg.

1809).

118 LADD, op.cit., pg. 513.

119 COENEN, op.cit. pg. 1811.

120 HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Pg. 960. Ainda sobre o caráter, Berkhof e Erickson em seus trabalhos sistemáticos, acrescentam as características, física e e inesperada.

121 LADD, op.cit., pg. 514.

122 PACKER, J.I. Teologia concisa; síntese dos fundamentos históricos da fé cristã. Campinas: Luz para o Caminho, 1998, pg.230.

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Além disso, Berkhof acredita que:

Esta elaboração da segunda vinda (em dois momentos distintos) é muito conveniente para os dispencionalistas, visto que os habilita a defender a idéia de que a vinda do Senhor é iminente, mas não tem base na Escritura e traz implicações antibiblicas. (BERKHOF, 2001) 123 .

Apesar desse ser um assunto que pede um estudo mais pormenorizado e amplo em termos

bíblicos, pelo menos no texto de 1Ts 5.1-11 não encontramos embasamento suficiente para uma divisão da “segunda vinda” em dois momentos. Outra questão que se relaciona com a parousia é a “Ceia do Senhor” (1Co 11.26). “Através do reunir diário para a cumunhão da mesa … anterior à parousia, e através da confissão de Jesus como seu Senhor, os discípulos representam perante Deus o trabalho de salvação iniciado e oram por sua consumação” 124 . Essa é a tensão experimentada pela Igreja. “Ela já está no Reino de Cristo (Cl 1.13), mas espera pelo Reino de Deus (1Co 15.50). A presente ambigüidade da nova vida em Cristo requer o retorno de Cristo, para completar a obra da redenção, já iniciada” 125 . Nesse aspecto, a ceia representa, o advento da primeira vinda de Cristo

e sua obra redentora; a continuidade dessa obra “convocando a Igreja ao cumprimento de sua

missão”; e “exorta seus participantes à espera do Senhor glorificado que virá consumar Sua obra

e o plano de Deus” 126 . Logo, se não houver a parousia, significa também que Cristo não

ressuscitou, e, como disse Paulo, “e se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e

também é vã a vossa fé.”(1Co 15.14).

123 BERKHOF, op.cit., pg. 641.

124 JEREMIAS, J. apud COENEN, op.cit. pg. 335.

125 LADD, op.cit. pg., 510.

126 COENEN, op.cit. pg. 335.

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5.4. Versos 4 e 5 :

“Mas vós…” a conjunção coordenativa, vem mostrar o contraste entre a situação do grupo mencionado no verso anterior e a Igreja. Os que estão desprevinidos e aqueles que aguardam. Há uma mudança de foco, agora começa uma perspectiva positiva. No verso anterior foi dado um veredicto trágico, “repentina destruição”, “um dito de Jesus que expressava tanto a imprevisão quanto o caráter de julgamento inescapável do dia do Senhor” 127 . “Mas”, esse acontecimento não é para a Igreja cristã. O motivo? A Igreja não está nas trevas mas sim na luz 128 .

Nesse ponto, Paulo vai se valer de um tema teológico presente tanto na cultura judaica como na grega, a antítese entre luz e trevas 129 . O apóstolo se refere a questão da paternidade dos irmãos de Tessalônica ao chamá-los de filhos da luz. Como tais, eles tinham os benefícios, herdariam a salvação (vs. 9), mas também os deveres, na postura religiosa, ética e social (vs. 6-8). Logo, Paulo lembra aos tessalonicenses de sua origem (sobre o novo nascimento) e o objetivo final (aguardar a volta de Cristo, o grande dia escatológico). O dia naturalmente se refere ao “dia da volta de Cristo para o juízo” 130 . Nessa primeira carta aos tessalonicenses temos sete menções de Paulo ao “dia do Senhor” (1.10; 2.19; 3.13; 4.15; 5.2; 5.4; 5.23). A segunda vinda do Senhor Jesus Cristo é, portanto, a verdade que Paulo está apresentando 131 àqueles irmãos. Apesar de Paulo já ter ensinado sobre o assunto por ocasião de sua visita missionária, eles precisavam de mais orientações. “Alguns estavam tão empolgados com o ensino da volta de Cristo, que passaram a negligenciar os deveres diários (4. 10-12)” 132 . Contudo, a idéia de que Paulo quer passar é a de servir (2Ts 3.10) e esperar (Tt 2.13). “Então, enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6.10). Dessa forma, a idéia de um dia de juízo, por ocasião da volta do Senhor, “corrobora nossas obrigações morais e espirituais” 133 (1Ts 3.13; 4.1; 4.9-10). Logo, viver agradando a Deus, em

127 MARSHAL, op.cit. pg. 163 e 164.

128 Veja um estudo mais detalhado sobre esse tema no excurso 2, pg. 32.

129 COENEN, op.cit., pg. 702.

130 HENDRIKSEN, op.cit., pg. 182. Assunto abordado anteriormente no Excurso “O Dia do Senhor”, pg. 17-27.

131 MEARS, Henrietta C. Estudo Panorâmico da Bíblia. Flórida: Ed Vida, 1982, pg. 465.

132 Ibid.

133 CERFANAUX, Lucien. O cristão na teologia de Paulo. São Paulo: Ed. Teológica, 2003.

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santidade, pureza e amor, esperando o grande dia chegar, pois procedendo assim, ele “agarrará apenas os incrédulos, desapercebidos” 134 . Jesus disse aos discípulos que a sua vinda seria como a de um ladrão 135 à noite (Mt 24.36,42; Mc 13.32-37; Lc 12.40; 21.25-35; Ap 3.3). Paulo vai reafirmar essa idéia dando uma personificação ao “dia”. Ele “pegará”, “tomará posse”, “agarrará”, num tempo indefinido, caracterizado pelo aoristo ativo de katalambánw 136 , como faz o ladrão. Mas, essa forma inesperada e violenta do “dia do Senhor” será uma consequência apenas para aqueles que estão em “trevas” (cf. Ap 3.3). Uma relação feita pelo uso raro da conjunção ína, dessa vez introduzindo uma oração subordinativa consecutiva 137 , usada com o subjuntivo para expressar resultado 138 . Isto reforça a idéia de que a vinda do Senhor será inesperada para os “filhos das trevas” e cheia de perigo para eles 139 , assim como faz o ladrão ao desavisado dono de casa. “Contudo, a vinda do Senhor perde o caráter de assalto para a igreja vigilante” 140 . Por isso, a grande diferença entre esses dois grupos, “fihos da luz” e “filhos das trevas” deveria ser levada em consideração pelos tessalonicenses quando o assunto é o “dia do Senhor”. Logo, essa reflexão traz implicações para o passado (no modo como se tornaram filhos), presente (no modo de vida cotidiana) e futura (na espera do salvador).

134 HENDRIKSEN, op.cit., pg. 182.

135 Sobre essa metáfora, alguns comentadores sugerem que o ladrão é o sujeito ativo da ação e portanto refere-se ao “dia”, ou seja, o significado é que “para que aquele dia os apanhe como faz o ladrão ao dono da casa, com o fim de roubar-lhe seus bens” (cf. Hendriksen e Marshall). Ao contrário, outros comentadores, colocam o “dia” como aquele que surpreende o ladrão, ou seja, o significado é que “para que aquele dia os apanhe como um ladrão é apanhado” (cf. FRAME apud HENDRIKSEN, op.cit., pg. 183; WESTCOTT E HORT apud CHAMPLIN, op.cit., pg. 211). Champlin, em seu comentário, fica com as duas opções: “Devemos observar a dupla metáfora no texto, temos nela o dia de Cristo encarado em seu aspecto de subtaneidade, de acontecimentos inesperado; mas também pode haver ali alusão àqueles que serão supreendidos em suas dúbias atividades”. (CHAMPLIN, op.cit., pg. 211).

136 RIENECKER, op.cit., pg. 445.

137 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Fundamentos para exegese do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2002, pg., 72.

138 RIENECKER, op.cit., pg. 445.

139 Ibid., pg., 445.

140 POHL, Adolf. Apocalipse de João I. Tradução Werner Fuchs. Curitiba: Ed. Evangélica Esperança, 2001, pg.130.

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5.5. EXCURSO 2 – A Luz e As Trevas

O tema “luz e trevas” é um tema teológico bem antigo e presente nas Escrituras Sagradas. Como veremos adiante, a utilização paulina não estava distante dos demais significados de seus antepassados. Assim, vemos a ocorrência dessa antítese tanto no AT, quanto nos evangelhos (Gn 1.4; Jó 17.12; 18.18; 26.10; 29.3; 38.19; Sl 112.4; Ec 2.13; Is 5.20; 45.7; 58.10; 59.9; Mt 6.23; Lc 11.35; João 1.5; 3.19; 8.12; 12.35; 12.46; Rm 2.19; 1Co 4.5; 2Co 6.14; 1Ts 5.5; 1Jo 1.5; 1Jo 2.19) 141 . Já no primeiro capítulo da Bíblia aparece esse tema (Gn 1.1-5). Deus chama à existência

a luz (v.3), onde havia trevas. Há um certo interesse em logo fazer essa distinção, em separar uma

coisa da outra. São opostos entre si, embora não iguais em força. “A luz é mais forte que a

escuridão; as trevas não podem prevalecer contra ela” 142 . Assim, a verdade que as Escrituras

querem ensinar vai além do sentido matafísico dos termos em questão. Dessa forma, como no

mundo grego, trevas, na Bíblia, vai representar, a gama total daquilo que é danoso ou maligno,

no sentido da ameaça contra a vida, daquilo que é ruim para mim, bem como mal moral, ou falta,

símbolo da limitação, restrição ou aflição” 143 e até morte 144 . Como oposto, a luz representa a

vida, salvação, glória e o próprio Deus 145 . Logo, uma análise mais detalhada desses termos nos

leva a uma melhor compreensão da metáfora que o apóstolo Paulo sugere em I Tessalonicenses.

141 Essa não é uma lista exaustiva de ocorrências, ela visa apenas exemplificar. Nos textos relacionados aparecem os dois termos (luz e trevas) no mesmo verso. Muitos outros poderiam ser citados (e serão no decorrer do estudo), principalmente se procurarmos por ocorrências isoladas dessas expressões.

142 BRUCE, F.F. João introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1999, pg. 39.

143 COENEN, op.cit., pg. 702.

144 Concordo com Boor, que afirma, “também nós associamos a palavra “morte” à idéia da noite mortal”. Parece que a morte leva às trevas, como se fosse um fechar dos olhos, onde não vemos mais nada, talvez esse seja um “senso comum” no Brasil. Isso demonstra que ainda hoje, essa é uma figura forte, com muito significado, e que deixa a palavra do apóstolo Paulo ainda mais atual. (BOOR, Werner. Evangelho de João. Tradução de Werner Fuchs. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2002, vol.1, pg. 34).

145 Cf. Comentado em análise posterior, pg. 32.

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2.1. As Trevas

Trevas é um termo largamente empregado em toda a Palavra de Deus 146 . Tanto no seu sentido literal como figurado (mais usado). Assim, aqueles que se encontram “envoltos nas trevas da noite espiritual são “filhos das trevas” ou “filhos da noite” 147 . A relação metafórica que traz com a realidade da vida espiritual é perfeita e foi utilizada nos ensinos do próprio Senhor Jesus e também do apóstolo Paulo. Assim, estava presente na própria tradição cristã dizer que os convertidos ao Evangelho faziam parte da “luz” e os demais, estavam nas “trevas”, pois não conseguiam ver a verdade do senhorio de Cristo. Era, então, preciso crer e seguir a Jesus (João 8.12; 12.46), pois o próprio Senhor resolveu os “chamar das trevas para a Sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). Dessa forma, o termo já era usado metaforicamente no AT, sempre com o sentido negativo com vista aqueles que estão longe de Deus. Quando alguém se separa de Deus mediante a desobediência permanece nas trevas (Sl 107:10-11). A pessoa que andar pelo vale de profundas trevas não precisa temer (Sl 23.4; 112.4; Is 50.10; Mq 7.8). Isto porque as próprias trevas não são escuras para Deus (Sl 139.11-12) nem para aqueles que se deixam guiar por Ele (Is 42.7, 16;

49.9).

Há no entanto, aqueles que se escondem da luz de Deus (Is 19.15). Os profetas, portanto, proclamam que o Dia de Yahweh não será aquilo que o povo espera, um dia de alegria para Israel, mas sim, um dia de trevas e de calamidade (Jl 2.2, 10; Am 5.20; 8.9), a não ser que Israel se arrependa no último momento (Jl 2.12 e segs.) 148 . (COENEN, 2000).

Para Paulo, “os crentes antes viviam nas trevas” (Ef 5.8). Mas, assim como aconteceu com ele, um encontro com o Senhor Jesus (At 9.3), que é a Luz (Jo 12.46), os fizeram enxergar a “luz do evangelho da glória de Cristo” (2Co 4.4). Agora, esses “iluminados” deveriam viver de maneira digna da vocação (Ef 4.1) e abandonar as práticas das trevas. Pois, “Que comunhão pode haver entre a luz e as trevas?” (2Co 6.14). Logo, os que vivem em trevas, não poderão de forma alguma entrar no Reino dos Céus, e serão condenados no “dia do Senhor”.

146 e havia trevas…” essa é a informação dada no segundo versículo da Bíblia (Gn 1.2), dando-nos a entender que essa é uma realidade que não pode ser ignorada. Contudo, vemos nesses primeiros versos, que Deus é soberano sobre elas, com apenas uma palavra de ordem “haja luz”, dissipou-as. Esse tema vai ainda ser muito citado tanto no AT, quanto no NT (pelo menos uma centena de vezes, segundo a “Online Bible”). “…e chamou as trevas de noite…”(Gn 1.5) os termos usados nem sempre são os mesmos, como é o caso de 1Ts 5.4-5. Os substantivos skotei e nukto$, trazem o mesmo significado, usados juntos para dar uma ênfase ao tema.

147 MACKINTOSH, C.H. Estudos sobre o livro do Gênesis. Lisboa: Sociedade Astória, pg.9.

148 COENEN, op.cit., pg. 702.

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2.2. A Luz

O substantivo photos, que indica uma filiação dos tessalonicenses com a luz é sinônimo de phos. Vemos assim, que há no AT referências freqüentes à luz como tipo de atributo de Deus:

a luz é Seu manto (Sl 104.2). Diz-se especificamente que é o Seu rosto a origem da luz que dEle procede (Sl 4.6; 44.3; 89.15) 149 . O Deus único e soberano cria a luz e as trevas (Gn 1.3 e segs; Is 45.7; Jr 31.35; Sir 43.1 e segs.). Sendo que Ele é Senhor também das trevas, pode transformar as próprias trevas em luz (Sl 139.11-12). Logo, Ele poderia transmitir essa luz aos homens à medida que eles tivessem comunhão com o Senhor 150 tornando-se, de certa forma, filhos da luz. Contudo, o seu significado não se limita apenas a isso. Para o homem, a luz de Yahweh significa a salvação (Sl 27.1). Mesmo durante a sua vida terrestre, no entanto, o homem piedoso desfruta da luz dos viventes (Sl 112.4; 56.13). Sua vida deve ser vivida na luz, i.é, em obediência concreta aos mandamentos de Deus. Assim como o “pilar de fogo marcava a rota de Israel na ocasião do seu êxodo do Egito (Ex 13.21-22), assim também a lei mostra como o homem deve andar na luz, i.é, como deve viver um israelita piedoso (cf. Is 2.5). Aquele que anda na luz pode se tornar, ele mesmo, uma luz para os outros. Esta perspectiva missionária é marcada por uma esperança de alcance mundial, pois a verdade de Yahweh sairá como “luz para as nações” (Is 51.4) 151 . No NT foi João quem mais usou essa figura 152 . Ele retrata Jesus Cristo como a luz que irrompe no meio da escuridão do mundo 153 . A luz e a vida vinculam-se entre si; Cristo é o único remédio para os homens, que por sua própria natureza estão nas trevas. Daí a injunção: “Crede na luz, para que vos torneis filhos da luz” (Jo 12.36). No Evangelho segundo João Jesus é descrito como a luz do mundo. Ele é apresentado como a fonte da iluminação dos homens enquanto dos assuntos espirituais e da salvação eterna dos filhos de Deus 154 .

149 COENEN, pg. 1223.

150 Num sentido literal, temos o caso de Moisés (Ex 34.29), mas, o sentido mais usado é o metafórico.

151 COENEN, op.cit., pg. 1224.

152 Dezesseis ocorrências da palavra luz no evangelho de João : 1.4; 1.5; 1.7; 1.8; 1.9; 3.19-21; 5.35; 8.12; 9.5; 11.9,10; 12.35; 12.36; 12.46;

153 “No prólogo do evangelho, o Logos é a luz que, vinda ao mundo, fornece iluminação para todos, a luz que brilha no meio das trevas e não é derrotada por elas (1.4-9)”. BRUCE, F.F. João introdução e comentário. São Paulo:

Vida Nova, 1999, pg. 232. 154 HENDRIKSEN, Guillermo. Evangelio Segun Juan. Michigan: Sucomision literatura cristiana de la Iglesia Cristiana Reformada, 1981, pg.306.

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Seguir a luz, ou seja a Cristo, significa confiar nEle, obedecê-lo e por gratidão guardar os

seus mandamentos. O homem deve seguir a direção da luz: não se permite traçar seu próprio curso através do deserto desta vida. No deserto os antepassados haviam seguido a coluna de luz.

O simbolismo da festa dos tabernáculos recordava desta luz que os antepassados haviam tido

como guia. Os que haviam seguido e não haviam se rebelado contra a sua direção alcançaram Canaã. Os outros morreram no deserto. Assim é este caso, os verdadeiros seguidores não só não andaram nas trevas da ignorância moral e espiritual, mas alcançaram a terra da luz. E muito mais, têm a luz em si mesmos. Apesar dessa ser uma das figuras de linguagem e pensamento mais características de

João, a antítese luz-trevas não é confinada apenas aos seus escritos 155 . Essa também é uma idéia bem presente nos escritos paulinos 156 . Onde ele fala de homens aos quais o deus deste mundo cegou “para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus” (2Co 4.4). Por meio dEle, participamos “da herança dos santos na luz” (Cl 1.12). Aqueles que antes estavam nas trevas tornaram-se, por sua vez, como crentes, “filhos da luz”, e agora são “luz no Senhor” (Ef 5.8; 1Ts 5.5; Lc 16.8). Neste mundo, o cristão vive sua vida, por assim dizer, entre Deus e Satanás. Este último pode até se disfarçar “em anjo de luz” (2Co 11.14). É por isso que os cristãos devem vestir-se da “armadura da luz” (Rm 13.12). Somente aquele que combateu o bom combate nesta armadura não precisa temer o dia em que o “Pai das luzes” (Tg 1.7) trará à luz aquilo que está oculto (1Co 4.5). Pois aqueles que recebem a “luz” se tornam “filhos da luz” 157 (1Ts 5.5), e não é pego de surpresa por ocasião da volta de Cristo. Outro evangelista que apresenta a mesma idéia é Mateus. Aqui, porém, a personificação

da luz se relaciona mais em termos éticos do que doutrinários 158 . No Sermão do Monte (Mt 5.14-

16) a principal função da luz é “desfazer as trevas.” Entretanto no verso 16, Jesus deixa claro que essa luz está relacionada com as boas-obras: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.”

155 BRUCE, op.cit., pg.232.

156 Veja Rm 13.12; Ef 5.8; Cl 1.12; 1Ts 5.4ss.

157 Filhos da luz – “um exemplo da característica hebraica de chamar de “filho” a pessoa que tem as qualidades éticas descretas. A mesma expressão ocorre em João 12.36 (hyioi photos); em Ef 5.8 outra palavra é usada para ‘filhos’ (tekna photos), mas hão há diferença no sentido”. (BRUCE, op.cit., pg. 233).

158 Stott defende essa idéia, “descreve (sobre o sermão do monte) como ficam a vida e a comunidade humana quando se colocam sob o governo da graça de Deus… não há um parágrafo do sermão do Monte em que não se trace este contraste entre o padrão cristão e o não-cristão”. (STOTT, Jonh. A mensagem do Sermão do Monte – contracultura cristã. São Paulo: ABU editora, 2003, pg. 5.)

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Stott nos lembra : “É bom lembrar-se de que crer, confessar e ensinar a verdade (evangelizar) também fazem parte das boas obras, … também do amor, além da fé” 159 . Tomando as idéias joaninas e paulinas juntamente com aquela presente no Sermão do Monte, temos uma visão mais completa. Vemos que aqueles que são transformados em filhos da luz não apenas são transformados no sentido de conhecerem a “verdade”, mas evidenciam a qualidade de suas vidas e ações aos outros que não estão na luz, e assim podem comunicá-la. Essa idéia, que também estava presente no AT, nos leva a uma conclusão missionária. A luz foi comunicada pelo próprio Senhor e somente brilhará na obediência e prática das verdades do evangelho 160 . Assim, com o advento da segunda vinda de Cristo e a concretização do seu Reino, apenas aqueles que viveram na luz desfrutarão dele. Pois, em Jerusalém já não haverá sol, lua nem luz criada, “pois a glória de Deus é a sua luz e o Cordeiro é a sua lâmpada. As nações andarão mediante a sua luz, e os reis da Terra lhe trazem a sua glória” (Ap 21. 23-24). Logo, esse tema teológico, presente na Bíblia, se torna muito atual, considerando a cultura pós-moderna em que vivemos (mística e individualista) 161 , onde precisamos de luzeiros apontando para o único caminho, Jesus; “rejeitemos, pois, as obras das trevas, e vistamo-nos das armas da luz.” (Rm

13.12b).

159 STOTT, op.cit., pg. 53.

160 Essa verdade também está presente no texto de Is 2.1-5.

161 Sayão ainda apresenta outras características além das duas citadas: pluralismo, irracionalismo, determinismo, alienação erótica, consumismo e cinismo.(SAYÃO, Luiz. Cabeças feitas. São Paulo: Hagnos, 2001, pgs. 41-49).

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Versos 6- 8 -

Nos versos que se seguem, há uma mudança de linguagem por parte do autor 162 , principalmente indicada pela troca do modo verbal 163 . Essa substituição do indicativo pelo subjuntivo hortatório 164 , nos sugere uma ordem ou exortação de Paulo 165 . Seria quase uma pormenorização de uma faceta do problema levantado. Agora, não na forma de uma afirmação esclarecedora, mas de uma possibilidade exortativa. O apóstolo esclareceu acerca da impossibilidade de datação do “Dia do Senhor” e mostrou aos tessalonicenses qual era a “essência” deles (filhos da luz), agora, vai discorrer sobre a consequência disso e como eles deveriam reagir no seu dia-a-dia. Logo, há uma mudança de quando para o que fazer enquanto aguardam a parousia. Dessa forma, “o que começou como resposta a uma pergunta passa suavemente para exortação” 166 . Assim, sendo filhos da luz, segue-se que devem viver como filhos da luz 167 . Uma questão ético-social da vida religiosa e de fé. Desde que a pergunta acerca da data da parusia não pôde ser respondida mediante o fornecimento de informações, o que importa é a prontidão para um evento que pode ocorrer a qualquer tempo. Paulo conclama-os a “serem o que são”. Para o apóstolo, o fazer é consequência do ser 168 . Como declara Fisher, “sou um servo de Cristo… tudo mais no meu ministério flui desta convicção fundamental” 169 . Logo, uma vida sóbria e vigilante seriam conseqüencias naturais dos que são filhos da luz. Entretanto, olhemos para a beleza e riqueza das metáforas usadas por Paulo. Essas três palavras, dormir, vigiar e ser sóbrio (ou ser prudente) vão nos mostrar como viver de modo digno da luz. Assim, dormir (cf. Mc 13.36; Ef 5.14) significa viver como se nunca houvesse de

162 Além da mudança de linguagem, observamos também uma mudança de tom na argumentação, graças a presença de ara (portanto, então, consequentemente, pois) no início da frase. “Paulo a usa para introduzir um novo estágio no argumento” (cf. RIENECKER, op.cit., pg. 445).

163 Conforme vemos a mudança dos verbos esmen (5.5), no indicativo, para kayeudwmen (5.6) no subjuntivo.

164 Barbaglio coloca que “é típica de Paulo a passagem do indicativo para o imperativo (discordando da análise verbal de Friberg em seu Novo Testamento Analítico), ou seja, da indicação do dado objetivo da nova situação dos fiéis para a ênfase sobre seu conseqüente compromisso no nível da ação” (BARBAGLIO, op.cit., pg. 101). Apesar da discrepância sobre a análise do tempo verbal, achamos acertada sua colocação.

165 PINTO, op.cit., pg. 31. Rienecker acrescenta a observação de que o verbo vem junto com o adv. de negação para fazer uma proibição (RIENECKER, op.cit., pg. 445).

166 MARSHALL, op.cit., pg. 165.

167 BARBAGLIO, op.cit., pg. 101.

168 Conforme vemos nos textos: Rm 1.1; Gl 1.10; Cl 4.12; Tt 1.1.

169 FISHER, David. O pastor do século 21. São Paulo: Vida, 1999, pg. 34.

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vir um dia de juízo, uma “ignorância proposital ante a verdade da parousia” 170 . Obviamente que dormir está sendo usado num sentido diferente de 4.13-15, onde se refere à morte física 171 . Pressupõe-se a existência de relaxamento espiritual e moral 172 . Seria um sono moral (cf. Ef 5.14). Na epístola aos Efésios, Paulo discorrendo sobre o “fruto da luz” (assim como em 1Ts 5.4- 5) conclui, naturalmente, se referindo àqueles que passaram das trevas para a luz, como os que despertaram. Ele compara aquele que está em trevas com aquele que dorme. Stott coloca, “A conversão é nada menos do que despertarmo-nos do sono, ressuscitarmos dentre os mortos, e sermos trazido das trevas para a luz de Cristo” 173 . Contudo, ao olharmos o texto de Mc 13.34-36, o alerta é dado a um dos funcionários da casa (como p.ex. o porteiro). Nesse caso, um servo que deveria estar trabalhando e não o faz pode ser pêgo de surpresa na volta do Senhor. Então, temos aqui uma questão: aquele que dorme é aquele que ainda não se converteu, ou aquele cristão que não faz o que deveria fazer? Ao analizarmoso contexto, vemos que Paulo está citando dois grupos distintos, os cristãos (ele se inclui ao utilizar a 1ª pessoa do plural) e os “demais” indicado pelo pronome loipoi. Essa expressão que significa “o resto”, igualmente usada em 1Ts 4.13, equivalente a “os que estão de fora", em 1Ts 4.12 indicando “todos os incrédulos”, aqueles que continuam não pertencendo à família de Deus. Esses são os que dormem 174 . Porém, ao exortar para que não façamos como “os demais”, Paulo dá a entender que existe essa possibilidade. Talvez, seja por essa causa que o apóstolo chama a atenção dos tessalonicenses para quem eles “são” (vs. 5.5). Portanto, é lamentável quando um cristão se mostra sonolento, dormindo na sua vida espiritual, “tornando-se morno e indiferente para com as verdades e ordenanças do evangelho, da causa de Deus, dos interesses da religião e da glória de Cristo… e não se preocupam com os seus próprios pecados” 175 . Ser vigilante entra em contraste direto com aqueles que dormem. O tempo presente pode indicar que isso deva ser um hábito cristão 176 . Significa viver uma vida santificada, consciente da vinda do “dia de juízo”. Pressupões-se precaução espiritual e moral. O indivíduo vigilante tem sua lâmpada acesa e seus lombos “cingidos”, e é nessa condição que ele aguarda a volta do

170 CHAMPLIN, op.cit., pg. 211. 171 MARSHALL, op.cit., pg. 166.

172 HENDRIKSEN, op.cit., pg. 184. Concorda com essa opnião Moody (MOODY, op.cit., pg. 235).

173 STOTT, John. A mensagem de Efésios – A nova sociedade de Deus. São Paulo: ABU editora. 2001, pg.150.

174 Opnião compartilhada de Marshall (op.cit., pg. 166) e John Gil apud Champlin, op.cit., pg. 211.

175 CHAMPLIN, op.cit., pg. 211.

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Noivo 177 . O retrato talvez seja o do atalaia que deve conservar-se despertado a fim de não deixar desapercebida a aproximação do inimigo. A vigilância cristã inclui estar pronto para a parusia seja lá quando ocorrer, de modo que não pegue o crente desprevenido, vivendo o tipo de vida que o desqualifique de compartilhar da revelação final da salvação 178 . A outra expressão, Ser sóbrio (ou ser prudente), é um dos requisitos para ser vigilante (cf. 1Pe 5.8). O verbo refere-se literalmente ao “oposto de ficar bêbado”. Contudo, parece que Paulo se refere não tanto a ausência da bebedeira, mas da “rígida disciplina de toda um vida bem equilibrada” 179 (cf. 1Pe 1.15). Significa estar cheio de ardor moral e espiritual; não viver sobreeexcitados, por um lado, nem indiferentes, por outro, porém calma, firme e racionalmente (cf. 1Pe 4.7), fazendo seus deveres e cumprindo seu ministéiro (2Tm 4.5). A pessoa sóbria vive de maneira profunda e moderada. “Uma sobriedade espiritual evita qualquer tipo de excesso que sufocaria a sensibilidade à revelação e ao propósito de Deus” 180 . Então, o apóstolo vai lembrá-los de que o sono e a embriaguez estão associados com a noite e não com o dia (vs.7). “São estados que pertencem à situação da qual os cristãos já foram libertos” 181 . Os irmãos de Tessalônica não estão em trevas, mas em luz (ver comentário dos versos 4-5). Não são da noite, mas do dia. Seguindo esse raciocínio, noite deve ser entendida aqui como uma metáfora. Contudo, “não devemos forçá-la demasiadamente como, por exemplo, ao argumentar que o sono é uma atividade boa e necessária para a humanidade duarante a noite”. Dessa forma, noite “envolve trevas, encorajando as obras malignas das trevas” 182 . Paulo está pensando na noite simplesmente como a antítese espiritual da vinda da luz simbolizada pelo dia. Logo, a noite seria o momento apropriado para realizar coisas não convenientes aos filhos da luz.

176 Ibid.

177 HENDRIKSEN, op.cit., pg. 184.

178 MARSHALL, op.cit., pg. 166.

179 MOODY, op.cit., pg. 235. Champlin acrescenta que “a palavra usada, nepho, primariamente significa ‘estar alguém em estado de não embriaguez’, embora também fosse palavra usada de forma geral com o sentido de ‘bem equilibrado’, ‘autocontrolado’, ‘sério’ ” (CHAMPLIN, op.cit.pg. 212). Uma interpretação mais acertada é a de Moody, e vemos que Paulo usa o sentido último da palavra colocado por Champlin. Apesar de que, Champlin vai defender também uma interpretação literal do termo e colocar que “Paulo conclamava os crentes para abandonarem de vez seus antigos hábitos pagãos (no caso a bebedeira)”. Vemos que isso entra em contraste com a colocação do apóstolo em 1Ts 1.6-10, onde ele elogia a postura dos irmãos. Talvez, melhor seria colocar que a intenção do apóstolo era combater a maneira errônea com que eles aguardavam o Senhor, deixando até mesmo de trabalhar (veja comentário do verso 4-5), uma forma exagerada (um excesso) da fé de que o Senhor estava às portas.

180 MARSHALL, op.cit., pg. 166.

181 MARSHALL, op.cit., pg. 166.

182 CHAMPLIN, op.cit. pg. 212.

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Dando continuidade a mesma idéia, Paulo quer então dar uma ênfase na exortação antes de acrescentar um novo pensamento correlato (vs.8). Em contradição com aqueles que são da “noite”, os do “dia” devem ser diferentes. Novamente aqui a questão do “ser”. O apóstolo usa o particípio para qualificar os cristãos como “do dia” 183 . Por terem essa qualificação é que devem praticar a sobriedade. Como diz Champlin, “a conduta do cristão deve ser tal que suporte a luz do dia, não tendo necessidade da cobertura da noite” 184 . Para resumir o pensamento de Paulo, Barbaglio, sugere a seguinte concatenação: “de um lado, luz-dia-estado de vigília-consciência lúcida; de outro, trevas-noite-sono-entorpecimento da consciência pela embriaguez” 185 . Logo, não tem como o cristão ser duas coisas ao mesmo tempo; não há como ser “do dia” e praticar “atos da noite”. Relacionado a essa idéia, Paulo traz um novo pensamento. Novas “figuras” aparecem na continuidade da exortação do apóstolo, o capacete e a couraça. Esses dois elementos característicos dos soldados trazem consigo as virtudes 186 da fé, amor e salvação. Eles deveriam se “vestir” 187 , o que geralmente é entendido com referência a um ato que coincide com a adoção de uma atitude sóbria. Voltemos aqui à questão do ser “vigilante”. Segundo Robertson, “a idéia de vigilância traz à mente a figura de uma sentinela, em guarda armada, o que explicaria o surgimento repentino dessas peças defensivas da armadura” 188 . O novo pensamento é que são espiritualmente como soldados que precisam usar a armadura apropriada para a batalha na qual estão empenhados 189 . Observamos que em 1Ts 1.3 são citadas as mesmas virtudes das quais Paulo recomenda que eles “vistam”. Será que Paulo entra em contradição, já que os elogiou por apresentarem essas características (1.3) e agora exorta para que eles busquem as mesmas como se as tivessem perdido? A intenção do apóstolo é lembrar que essa é uma característica dos “filhos da luz”. É como se ele estivesse dizendo que esse é um hábito do cristão (ele se inclui ao usar o plural da 1ª pessoa). Aqueles três elementos também são conhecidos como “a tríade cristã” 190 , “a trindade das

183 PINTO, op.cit., pg. 95.

184 CHAMPLIN, op.cit, pg. 212.

185 BARBAGLIO, op.cit., pg. 101. (cf. A passagem paralela de Rm 13, 11.14).

186 MOODY, op.cit., pg. 235.

187 A mesma idéia aparece nos textos de Rm 13.11-14; Gl 3.27; Ef 2.24; 6.13; Cl 3.10,12. Pode-se referir ao batismo, entendido como envento no qual o fiel reveste-se do homem novo (como defendem, Marshall, Barbaglio e Laub) ou como uma atitude para proteção,mesmo depois do batismo (cf. Moody, Hendriksen e Champlin).

188 ROBERTSON apud HENDRIKSEN, op.cit., pg. 186.

189 MARSHALL, op.cit., pg. 167.

190 Ibid.

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virtudes” 191 , “a santa tríada” 192 e ainda, “a tríade sintetizadora da existência cristã” 193 . Isto indica que não é algo que acontece apenas num momento isolado, mas que acompanha aqueles que são “filhos da luz” até a volta do Senhor. Dessa forma, não um simples revestir-se de equipagem ética; a armadura necessária para não se deixar supreender pela vinda de Cristo significa atitudes mais cristãs. Despertos e lúcidos estão, na realidade, todos os que crêem, amam e esperam. Assim, a e o amor são as qualidades essenciais que o cristão deve demonstrar com relação a Deus e os homens 194 , e a esperança da salvação final é a garantia que o capacita a perseverar a despeito de todas dificuldades (cf. comentário do verso 9). Logo, essas virtudes, protegem o crente da complacência e desespero que caracterizam os filhos da noite 195 , até que o Senhor venha.

191 MOODY, op.cit., pg. 235.

192 CHAMPLIN, op.cit., pg. 212.

193 BARBAGLIO, op.cit., pg. 101.

194 MARSHALL, op.cit., pg. 168. Sobre esses dois elementos, Barbaglio vai argumentar que fazem parte de uma defensiva onde, “a melhor defensiva é o ataque. O testemunho espontâneo e agressivo de fé em Deus e amor por Deus em Cristo protégé o crente dos hábitos dissolutos do mundo” (BARBAGLIO, op.cit., pg. 187).

195 MOODY, op.cit., pg. 235.

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Versos 9 e 10 –

Nesses versos, Paulo vai “alargar” o pensamento que vinha desenvolvendo. Com a idéia da salvação em mente, ele “toma por certo que o cristão tem o direito de usar o capacete que é a esperança da salvação, porque, conforme agora passa a explicar, Deus…nos destinou… para alcançar a salvação” 196 . “As declarações de Paulo acerca do alvo de sua atividade missionária estão em harmonia com este conceito. Ele dedicava suas intenções ao levar as novas da salvação para todos quanto possível” (Rm 1.15; 11.14; 1Co 9.22; 10.33; 1Ts 2.16) 197 . O missionário Paulo, que buscava sempre salvação a tantos judeus e gentios quanto possível mediante a pregação do evangelho, havia tido êxito em sua campanha em Tessalônica (1Ts 2:1 e 13). Havia ensinado sobre a salvação, e eles creram. “Já em 1.4 lhes lembrara de que Deus os elegera, e em 3.3 referira-se à experiência da aflição deles que fazia parte do destino que lhes fora determinado dentro do plano de Deus”. “Podemos ver quão forte era a consciência que Paulo tinha do relacionamento íntimo entre a salvação presente e futura. O próprio fato de já estarmos salvos faz com que a expectativa da salvação escatológica final seja uma realidade ainda maior” 198 . Já fomos salvos ao aceitar Jesus Cristo como Senhor e Salvador, porém, ainda não desfrutamos de todos os benefícios do Reino dos Céus. Assim, faz mais sentido a idéia do verso anterior sobre a “esperança da salvação”, como tendo um sentido escatológico. Uma pergunta pertinente, pouco respondida nos dias atuais, é “do que os crentes são salvos?” A mais dolorosa de todas as facetas 199 que essa resposta poderia trazer seria “da ira de Deus”, um fato escatológico. O apóstolo diz que esse não é o plano de Deus para os cristãos, mas, os “chama para seu Reino e glória” (2.12). O destino que o Senhor planejou foi a salvação. São as duas faces do Dia do Senhor (ver Excurso 1), uma negativa (sob o aspecto da ira de Deus pelo pecado) e outra positiva (trazendo salvação para os justos). “Nessa salvação final, escatológica, a primeira preocupação é a libertação da ira divina vindoura, e a segunda parte é a outorgada da glória divina” (Rm 5.9; 1Co 3.15; 5.5; 1Ts 1.10; 5.9) 200 . Assim, vemos que a salvação do homem começa em Jesus (no presente) e também termina nEle (no futuro).

O fato de que Deus destinou os cristão tessalonicenses para obterem a salvação final (o

196 MARSHALL, op.cit., pg. 168.

197 COENEN, op.cit. pg. 2010.

198 SCHNEIDER, acrescenta que em suas Epístolas principais endereçadas as igrejas específicas, Paulo emprega swzw e swthria exclusivamente para a atividade salvífica de Deus. (SCHNEIDER apud COENEN, op.cit. pg. 2010). Apesar de que esse tema é de ampla aplicação. Segundo Packer, “é uma palavra que expressa a idéia de resgate do perigo e da miséria para um estado de segurança” (PACKER, op.cit., pg. 138).

199 Packer apresenta, resumidamente, outros aspectos da salvação: “do domínio do pecado e do poder da morte (Rm 1.18; 3.9; 5.21); de sua natural condição de serem dominados pelo mundo, pela carne e pelo Diabo (Jo 8.23,24; Rm 8.7,8; 1Jo 5.19); dos temores causados por uma vida pecaminosa (Rm 8.15; 2Tm 1.7; Hb 2.14,15) e dos muitos hábitos viciosos que são parte dela (Ef 4.17-24; 1Ts 4.3-8; Tt 2.11-3.6)” (PACKER, op.cit., pg. 138).

200 COENEN, op.cit., pg. 2010.

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estado futuro da salvação em contraste com a condenação no último juízo está em mira:

Rm 13.11; Fp 1.28; cf. Rm 5.9-10) é a base para seu viver na esperança, confiantes que não sofrerão decepção. A obtenção da salvação ocorre mediante nosso Senhor Jesus Cristo; depende daquilo que Ele já faz, e não de qualquer coisa que possamos fazer. Desde o início até o fim, a salvação depende do ato de Deus em Jesus (MARSHALL, 1993) 201 .

Essa salvação futura nos traz um problema, precisa ser alcançada. O verbo peripoíesin (alcançar) traduz uma frase substancial grega: “para a posse de”, que deve ser compreendida

ativamente no sentido de “para adquirir a salvação”. “Mais comumente, a palavra significa ‘possessão’ ou a coisa possuída 202 (Ef 1.14; 1Pe 2.9), mas este sentido é inapropriado aqui 203 . Paulo não diz simplesmente que “Deus nos destinou para a salvação” porque quer ressaltar a necessidade dos cristãos desempenharem seu papel no recebimento da salvação” 204 . Sobre esse papel do cristão poderíamos dizer, “nossa salvação compreende, primeiramente, Cristo morrendo por nós e, em segundo lugar, cristo vivendo em nós (Jo 15.4; 17.26; Cl 1.27) e nós vivendo em Cristo, unidos com Ele em sua morte e vida ressurreta” 205 . Nas palavras do apóstolo, “andeis de modo digno da vocação com que fostes chamados” (Ef 4.1). O NT propõe duas facetas da salvação humana. A primeira que depende exclusivamente

do Pai (Ef 2.8), e a partir desse momento (na segunda), o “salvo” teria de desenvolvê-la 206 (2Pe

3.18). Assim, “todo o cristão tem uma responsabilidade de aumentar seu conhecimento sobre

Jesus (2Pe 1.5)” 207 . Contudo, a nossa tendência é justamente oposta. Dick Lucas afirma, “é

impossivel de se permanecer parado (em relação a vida espiritual) como um cristão, pois todos

nós temos uma tendência interna de empurrar Jesus Cristo para fora de nossas mentes” 208 . Por

isso, “as exortações de Paulo à vigilância não fariam sentido se a vigilância fosse o produto

dalguma causação dentro do crente da parte de Deus, ou se não houvesse possibilidade alguma de

desobedecer a exortação” 209 . Logo, é justa a exortação paulina, e de fato, pertinente mesmo

àqueles que já estão salvos, mas ainda precisam alcançá-la (num sentido escatológico), através

da vigilância, amor, fé e esperança, até que de fato se concretize.

201 MARSHALL, op.cit. pg., 168 e 169.

202 Rienecker e Rogers vão concordar com essa análise, (RIENECKER, op.cit., pg. 445).

203 Hendriksen vai discordar dessa tradução, colocando obtenção como melhor idéia para o texto : “Como este substantivo (peripoíhsi$, que às vezes significa possessão, Ef 1.14; 1Pe 2.9;) é claramente usado no sentido ativoem 2Ts 2.14 (cf. Hb 10.39), e como tanto lá como aqui ele ocorre num contexto de exortações, não vejo boas razões para afastar-se da tradução favorecida pela maioria das versões” (HENDRIKSEN, op.cit., pg. 188). A mesma tradução traz o NT Interlinear da SBB, apesar dela não o fazer no texto da ARA.

204 MARSHAL, op.cit., pg. 168.

205 PARCKER, op.cit., pg. 139.

206 Concordam Marshall, Coenen, Hendriksen, Moody, Stott e Packer. 207 LUCAS, Dick; GREEN, Christopher. The Message of 2Peter e Jude. England: Inter-Varsity Press, 1995,

pg.156.

208 Ibid.

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A garantia da concretização da nossa esperança é justamente a morte (vs. 10) do nosso

Senhor Jesus (Rm 5.9-12). Pois, “foi por seu sangue derramado em uma morte sacrificial na cruz, que nós fomos justificados, e foi quando éramos inimigos de Deus que nós fomos reconciliados com Ele” 210 . Assim, “foi a morte, que teve o efeito de um sacrifício expiatório do pecado”, que nos livra da ira vindoura. Paulo não está preocupado com o modo deste acontecimento, mas, sim, com a esperança que resulta de um conhecimento de que Jesus morreu por nós 211 . Esse ato sacrificial demonstra o maior e mais intenso amor jamais visto em toda a história da humanidade.

O apóstolo não cita aqui diretamente o fato da ressurreição. Mas, implicitamente, notamos

uma menção dela, “vivamos …com Ele”. Esse desejo do Senhor, expressado pelas palavras de Paulo, nos tranquiliza e consola. Dessa forma, mesmo que vivos (i.é., vigiando), ou mortos (i.é., dormindo) teremos a companhia do Senhor 212 . Assim, juntamente com a idéia de que o Senhor nos ama inigualavelmente, a ponto de se sacrificar pela nossa salvação, temos a de que ainda hoje, Ele quer ter comunhão. Logo, a vontade de Deus e o sacrifício de Jesus é para que tenham a comunhão Divina no presente, e a salvação futura.

209 MARSHALL, op.cit. pg. 169.

210 STOTT, Romanos, op.cit., pg. 171.

211 MARSHALL, op.cit., pg. 169.

212 Sobre a explicação dessa metáfora, Hendriksen vai dizer: Os que estão acordados são aqueles que estão vivos, os sobreviventes, os que, de acordo com 4.15, “ficarem até a vinda do Senhor”. E os que estão dormindo são os mortos, os que já partiram, os que, de acordo com 4.15, “adormeceram” (ou seja, em ou através de Jesus Cristo)” (HENDRIKSEN, op.cit., pg. 189). Contudo, não achamos argumento textual suficiente para fazer a mesma relação.

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Verso 11 –

Paulo chega a conclusão 213 dessa perícope de sua epístola fechando com “chave de ouro”. Visto todas as reflexões sobre o “Dia do Senhor” e tudo que isso implicaria para os tessalonicenses, nos deparamos com uma sugestão do apóstolo, consolai-vos 214 (ou encorajai-vos; animai-vos). Apesar de usar um termo com significado mais largo 215 , dado o conteúdo da mensagem, a conclusão não poderia ser outra. “O sentido de consolar, que tem a conotação de conversa amistosa tanto quanto exortação, se acha em vários escritos do NT” 216 . Com um olhar mais amplo, Boor trata o termo:

Paulo emprega a palavra parakaleite, que também encontramos na LXX (Septuaginta), em passagens tão significativas como Is 40.1; 49.13; 51.3; 61.2; 66.10.13. Esse termo não designa em primeira linha uma influência lenitiva sobre nosso estado de ânimo. Pelo contrário, em todas as passagens referidas fica explícito como a “consolação” de Deus sempre é sua ação poderosa e redentora. Deus consola seu povo mudando seu destino e conduzindo-o do cativeiro e da miséria à liberdade e nova vida. É esse sentido presente no AT que o apóstolo deve estar evocando ao empregar o termo “consolar”. (BOOR, 2004) 217 .

Esse termo, traz uma forte idéia de que o apóstolo estava confiante de que os tessalonicenses não serão apanhados de imprevisto pela parousia. Também o deixa a vontade para adicionar a ordem de que eles deveriam edificar uns aos outros. Edificar 218 é uma metáfora para produzir crescimento e estabilidade espirituais, e está associada com o quadro da Igreja como edifício. Talvez essa seja “uma expressão favorita de Paulo para a promoção do crescimento e maturidade espirituais” 219 (Rm 15.20; 1Co 3.8; 8.1; 10.23; 14.3-5; 12, 17, 26; Ef 2.21; 4.12, 16, 29; 2Co 10.8; 12.19; 13.10; 1Pe 2.5,7). Esse “mandamento de mutualidade” mostra que o crente não se edifica a si mesmo, mas sim, é edificado pelo encorajamento doutros crentes. Logo, a palavra do apóstolo acerca de quando se daria o Dia foi mais uma palavra de

213 O termo grego (uma conjunção inferencial) dió, que significa “portanto, por isso, por esta razão” aponta para uma conclusão (cf. GRINGRICH, op.cit., pg. 57).

214 Concordam com essa tradução Marshall, Coenen além dos tradutores do NT Interlinear da SBB.

215 Parakale µ pode empregar o significado de exortar, advertir, consolar, repreender (COENEN, op.cit., pg. 765).

216 BRAUMANN apud COENEN, op.cit., 769.

217 BOOR, Werner de. Carta aos Coríntios. Tradução de Werner Fuchs. Curitiba: Ed. Evangélica Esperança, 2004, pg. 308.

218 Oikodomeite literalmente significa erigir, contruir (cf. GRINGRICH, op.cit., pg. 144). Tem o sentido de ajudar-se mutuamente na vida de fé (como sugere Meier - por informação verbal)

219 MOODY, op.cit., pg. 235.

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exortação e consolo para aqueles irmãos, pois o apóstolo estava tranquilo quanto a eleição deles 220 , e eles deveriam fazer o mesmo consolando e edificando uns aos outros.

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6. Reflexões Teológicas –

Em 1Ts 5.1-11, o apóstolo aborda um tema muito pertinente, não somente à Igreja de Tessalônica, mas também aos crentes da Igreja atual. Como aqueles irmãos, nós já fomos doutrinados acerca da volta de Jesus (ou pelo menos deveríamos ter sido). Porém, diferentemente deles, que aguardavam esse dia como iminente, hoje, parece que a Igreja se esquece dele. Dessa forma, o “quando” de Paulo continua sendo válido, porém de maneira inversa. Os destinatários originais estavam tão afoitos e certos da iminência da parousia que passaram a negligenciar os deveres diários 221 (cf. 4.1). Nos dias atuais, a Igreja cristã acha o Dia do Senhor algo muito longiqüo, e por isso, passou a se preocupar apenas com a vida cotidiana esquecendo-se da vida futura. Um erro até mais grave do que o daqueles irmãos da Macedônia. Cuidar apenas dos “negócios desse mundo” sem uma perspectiva da eternidade foi igualmente condenado por Jesus (cf. Mt 24.38), pois Sua vinda será de forma repentina. Logo, a Igreja atual assemelha-se aos tessalonicenses por estar num extremo, em relação à expectativa da vinda do Senhor, e difere-se, por estar no extremo oposto. Dessa forma, não é essencial saber o “tempo” ou a “época” em que se dará o Dia do Senhor. Mas, o importante é lembrar que será em momento inesperado, o que traz sérias implicações na nossa vida diária. Com o “foco” da nossa vida em Jesus Cristo, não iremos deixar de trabalhar, nem ficaremos presos numa perspectiva mundana e sermos pegos de surpresa. Contudo, poderíamos inferir que uma das causas desse “esquecimento” é a própria “demora” da chegada do Dia do Senhor. Assim, os cristãos que a esperavam como “iminente”, viram sua geração passar sem presenciar esse acontecimento. Na modernidade também aqueles que tentaram fazer uma datação do Dia acabaram por serem ridicularizados. Todas essas coisas levariam a um descrédito acerca da volta do Senhor. Porém essas não são justificativas válidas, visto que a própria Palavra do Senhor nos exorta à paciência (1Ts 1.3; Tg 5.7-8; 2Pe 1.16). E também temos os sinais que acompanhariam essa data. Mesmo que seja iminente, ou nem tanto, a admoestação neo-testamentária é de “esperar com paciência, disciplina e confiança (fé). Por isso o apóstolo nos adverte ao caráter de juízo (cf. 5.3) que terá o Dia do Senhor. O que é atestado pelas profecias vétero e neo-testamentárias. Na verdade, esse dia terá duas nuances distintas, de julgamento (aos incrédulos) e de alegria (aos crentes). Pois nesse dia é que os cristãos terão a concretização plena da sua salvação. Com a concretização total do Reino de Deus, todos os salvos, redimidos pelo sangue de Cristo, viverão eternamente nessa nova “pátria

221 MEARS, op.cit., pg. 460.

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celestial” 222 . Aos demais, será um dia de condenação. Dessa forma, Paulo divide a humanidade em dois grupos distintos, os cristãos que estão vigilantes e os demais (cf. 5.6), os “filhos da luz” e os “filhos das trevas”. Paulo vai além do sentido óbvio de que a luz dissipa as trevas (ignorância). Ele mostra que aquele que é fiho da luz, tem responsabilidades na sua vida social e espiritual. Paulo quer dizer que o crente pode perder a salvação? Não, Paulo está apenas ensinando como o crente deve aguardar a volta do seu Senhor. Se ele não estiver vivendo corretamente pode ser pego de surpresa. A consequência disso? Infelizmente o texto não nos fala (não podemos ir além do texto). O texto é mais uma conclamação a “ser filhos da luz” do que uma advertência sobre consequências. A questão é a da essência do cristão, ou seja, o “ser”, para Paulo, obviamente implica no “fazer”. Assim, os “filhos do dia”, devem agir como tais. A compreenção dessa verdade é fundamental para a Igreja brasileira atual. Apesar de presenciarmos um grande crescimento do número de cristãos, notamos que pouca diferença isso tem feito na sociedade. Há uma deficiência no “ser”. O que é estranho ao pensamento de Paulo, pois para ele, “não pode haver comunhão entre trevas e luz” (2Co 6.14), o cristão atual ou há de ser uma coisa ou outra. Uma vida cristã sóbria e autêntica está sendo clamada pelo texto bíblico, cabe aos cristãos concretizá-lo. Vemos que a vontade do Senhor é que tenhamos comunhão com Ele (5.9-11), tanto no presente, quanto no futuro (no Reino), o cristão deve buscar essa comunhão no seu dia-a-dia. Logo, vivendo dessa maneira, não importa o dia da volta do Senhor, qualquer que for, a pessoa estará pronta. Portanto, esse texto da epístola aos tessalonicenses exorta a Igreja de hoje a esperar pelo Dia do Senhor, como “filhos da luz”, vivendo com sobriedade, amor, fé e esperança da salvação. Esperar é ser motivado pelo alvo que há na frente, o “aguardar” é este movimento em direção do alvo. Demonstra seu caráter vivo pela perseverança que emprega enquanto aguarda, ao suportar com paciência a tensão entre o “agora”, enquanto andamos (no presente tempo), pela fé e o nosso modo futuro de vida. Este esperar é uma coisa ativa, pois acarreta uma vida vitoriosa (embora possa ser dolorosa). Aqueles que esperam, são consolados e confiantes (2Co 5.8; 1Ts 4.18). Logo, prossigamos para o nosso alvo, que é a salvação (1Ts 5.9) aguardando confiantes o Dia do Senhor.

222 A vida presente em Cristo, necessita do retorno do próprio Senhor, para completar a obra da redenção já iniciada.

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7. Conclusão

O autor, Paulo, se mostra um verdadeiro “pai”, devido a sua preocupação, carinho, zêlo e cuidados com a vida espiritual daquela Igreja (1 Ts 2.22). A Igreja de Tessalônica tinha uma compreensão errada sobre a Vinda do Senhor, apesar disso, lá tinha crentes fiéis e tementes ao Senhor que davam bom testemunho de sua fé (1Ts 1.4-8). O conteúdo de sua mensagem (particularmente no texto de 5. 1-11) revela a impossibilidade de datação do Dia do Senhor, porém traz algumas características daquele evento 223 e como deve ser a postura dos cristãos enquanto aguardam a parousia (vigiando em sobriedade e esperando com fé e amor a salvação com palavras de consolo e edificação mutuamente). O que traz implicações para a Igreja cristã atual 224 . Portanto, graças aos resultados apresentados, podemos nos dar por satisfeitos pelo resultado dessa exegese. Contudo, parece que ainda mais poderia ser extraído de um texto tão “rico”, principalmente através de uma análise maior de seus textos correlatos. Acredito que essa é uma tensão do exegeta bíblico, quanto mais ele busca uma profundidade no estudo do texto muito mais aparece pela frente a ser explorado. Logo, um trabalho gratificante primeiramente para a vida espiritual pessoal do autor e relevante para a Igreja de Cristo de nossos dias.

223 Um dia de grande “destruição” (vs. 3) para os que estão em “trevas” e de salavação (vs. 9) para os “filhos da luz”. 224 Analisadas nas Reflexões Teológicas, pg. 45 e 46.

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8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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8.6. DISSERTAÇÕES, MONOGRAFIAS E TESES

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8.7. SOFTWARES

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SBB. Biblia On Line. Versão 3.0.1. 2004.

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9. ANEXO 1 – mapas de Tessalônica

Fig. 1 225 – IGREJAS DO NOVO TESTAMENTO.

Fig. 1 2 2 5 – IGREJAS DO NOVO TESTAMENTO. Fig. 2 - 2º VIAGEM MISSIONÁRIA

Fig. 2 - 2º VIAGEM MISSIONÁRIA DE PAULO 226

Fig. 2 - 2º VIAGEM MISSIONÁRIA DE PAULO 2 2 6 2 2 5 CÉZAR, Éber

225 CÉZAR, Éber M. Lenz. História e Geografia Bíblica. São Paulo: Ed. Candeia, 2001, cd rom. 226 Biblia On Line. Versão 3.0. SBB, 2004.