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OBRAS POETICAS

D:K

BOCAGE

-

VOLIDIE VII

Dramas traduzidos

\

.

PORTO

lMPRBNBA PORTUGUF!ZA- JIDlTORA

1876

EUPhEIIIA

ou

O 'l'RIUMPHO DA RELIGIÃO

Jlv.t:R_

DRAMA

DE

D"ARNAUD

\

'1'ltAI>UZIDO EM VEHSOS POR'fUGUBZJ-:8

Aetm•es

EuPHEMIA •••••••••••••••••••••••

Religiosa.

TnE6TIMO

.

Religioso.

A CoNDESSA DE ÜRcÉ.

 

SoPHIA ••••••••••••••••••••••••••

Religiosa.

•• u~IA CRIADA DO CoNVENTO.

CECILIA •

:--•.•

•.•

••.•.•

Relig(o.Ya.

·.

A acena é no Convento de***

ADVERTENCIA PRELI~HNAR

DO

TR.ADUCTOR

I

O cunho original d'esta peça, excellente com- posição de Mr. d'Arnaud, me animou a traduzil-a para a dedicar ás almas sensíveis. Uma lucta vi- gorosa entre a religião e o amor, é a acção d'este drama. Os episodios que a adornam, tr:tvados des- tramente com ella, dão uma perfeita ideia dos ta- lentos do auctor, e do vast,o conhecimento, que teve do coração humano. O contraste de caracte- res, essencial ás producções theatraes, está aqui sustentado com magisterio: o que poderá observar o leitor instruido. Eerigosos e terríveis embates com que os sentidos assaltam à razão, apuram (por assim dizer) as celestes verdades, que adoramos; e estes embates necessariamente se haviam de em- pregar na presente obra, lustrando ~rmito mais com elles o triumpho glorioso da relig1ão: Atten- tem os espíritos conhecedores de si mesmos, e de uma das primeiras artes, que a scena é o quadro moral do homem, que ali sem rebuço cumpre ex- hibir seus defeitos, suas paixões, seus crimes, ou

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OBRAS DE BOCAGE

suas virtudes, e pintai-o ainda mais como é, que , como devera ser; finalmente (eu o repito) o es- plendor do vencimento consiste nas difficuldades, que o disputaram, e a verosimilhança padeceria na

obra que publico, se a victori~t da religião contra

a natureza fosse menos ardua. Em quanto á versificação, a do original é har- moniosa, accommodada ao assumpto, branda, ou energics, segundo o gráo e qualidade da paixão que exprime. Estremei-me o que pude em imitai-a,

e em evitar os gallicismos, de que abunda grande parte das nossas tradum;ões, e que nos enxovalham

o fertil e magestoso idioma, só indigente e inculto

na opinião das pessoas, que o estudaram mal. Cui- dei egualmente em conservar na dicção toda a fi- delidade possível, excepto nos logares onde os ge- nios das duas línguas discordam muito; então,

apoderado do pensamento do auctor, tractei de o representar a meu modo, conformando-me n'isto a? sabido, mas pouco executado preceito de Hora-

Cio:·

Neo ve1·bum verbo curabis reddere fidus Infetpres, etc.

'

.

.

Resta-me advertir ao leitor, que os

certas suspensões, ou pausas, naturaes na expres- são de grandes affectos, e que no uso d'estes pon-

indicam

tos sigo fielmente a Mr. d'Arnaud.

EUPHEliiA, OU O TRIUliPIIO DA RELIGIÃO

ACTO I

Ergue-se o panno. A ecP,na representa urna cella esca~­ samente guarnecida. A esquerda, pouco distante da pP.rede, está uma tumba, ao pé da qual se vê nn•a alampada accêza. Do m<·smo lado, mais .para a bocca do Theatro, ha um genuflexorio, e n'clle um crucifixo com uma caveira aos pés. Sobre o genuflexorio estão 'varios livros de devoção. Algumas cadeiras escondem um pouco a tumba ás pessoas, que entram na cella. Começa a romper a manhã.

SCENA I

EUPHEMIA (1)

Que! N'este leito funebre, que banham 1\iinhas lagrimas tristes, n'este leito,

Onde velam commigo a dôr, e o susto, Onde a meus olhos o meu fim se off'rece,

I

(1) Com uma das mãos sobre a tumba, na acção de quem se levanta.

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OBRAS DE BOCAGE

Onde o meu coração de dia em dia Se deve ir ensaiando para a morte; No féretro, que espera o meu cadaver, Ouso ainda nutrir memorias f\ernas!

Que digo! Um louco amor, que os céos condemnam! Oh Deus! Não has de tu livrar-me d'este

lnstincto criminoso (1)?

Com lagri.m~s, com ais aqui prostrada Implora o teu soccorro, a graça tua:

O vento a teu sabor zune, e se acalma,

As ondas amontôas, e as desfazes, Teu sôpro accende o raio, o raio apaga, Da terra a face mudas, em querendo,

E não mudas, Senhor, e a ti não chamas

Uma alma, que te foge, e te é traidora? Não volves em bonança a tempestade, Que os sentidos me offusca, e desordena? Ah! Sufioca estes frageis sentimentos,

Esta paixão, meu crime, e tua offensa; Fere, compunge um coração rebelde, Que inda soffre prisões além d'aquellas, Que cingiu para sempre em teus altares • Se a desamrr,ra. o céo, que é a virtude?

A minhà em vão reclama os seus deveres.'

Para vencer Euphemia, oh Deus supremQ,

A tua esposa

(I) Deixa a tumba, e corr6 a prostrar-se ante o ge- nnflt>xorio.

DRAMAS TRADUZIDOS

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De todo o teu poder tu necessitas (1). Escuta minhas preces, vê meu pranto,

Manda-me o puro amor, e a paz celeste, Cessem minhas angustias, meus per:jurios, Triumpha, reina só n'esta alma affiicta.

E tu (2), que todos com pavor contemplam,

Que lição me não dás em teu silencio! Sim, tu és meu retrato! Eis, eis as graças

Com que intento encantar ! Sou pó ! Sou isto!

E inda me atrevo a amar! Oh céos! Eu morro (3).

SCENA II

SOPHIA, EUPHEMIA

EUPHEMIA (4)

Então, querida irmã, piedosa amiga,

O sagrado ministro, em cuja hocca

A Verdade nos falla, e nos .inspira,

Virá manter-me a languida virtude, Domar um coração, que ao céo resiste, Unir ao seu dever minha alma indccil?

(1) Prostra-se ainda mais, chorando amargamente. (2) Pega com ambas as mãos na caveira. (3) Inclinada para o chão, com extr!)ma agonia. (4) Levantando-sr. arrebatadamente, e indo para So-

phia.

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OBRAS DE BOCAGE

SOI'HIA

Não poderá tardar; ficou Cecilia

Uom ordem de chamal-o, e conduzil-o. .M:as que perturbação, m~s que cegueira Tomou posse de ti? Como conseptes Debaix9, d'esse véo, querida Euphemia,

O veneno mortal de um amor louco,

De um desgraçado amor sem esperança? Apezar da razão, do c€o, que offendes, Te inflamma o que é cinza? A morte

EUPHEMIA

A morte

Não lhe pôde roubar minha temura:

Vive em meu coração, vive, e mil vezes

A Deus, ao mesmo Deus, n'elle o prefiro.

Não pertendo córar o enorme excesso Do meu crime fatal; mais do que nunca Amor a sua victima atormenta:

Das trévas contra mim se vale, se arma, Té no leito da morte me persegue.

Depondo n'ell~ o pezo de meas males,

Ia

cerrantfo os olhos lacrimosos;

O

espírito, caído entre amarguras,

No .somno do sepulchro se ensaiava:

Que sonho! Que espectaculo terriYel

Me as3ombrou a agitada phantasia!

DRAMAS TRADUZIDOS

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Á luz e~cassa de funerea tocha

Cevava minhas ancias, meus remorsos Por entre mansoléos, espectros, larvas:

Eis scintilla qm reb.mpago, e se esconde Na longa escuridade, eis ouço um grito Funebre, pavoroso,- a terra brama,

E horrida bocca de repente abrindo,

Solta um phantasma, ·envolto em negras vestes;

Na dextra lhe reluz buido ferro:

A mim corre, os cabellos se me herriçarn,

Chega, arrosta commigo, e reconheço Sinval, competidor do Omnipotente, Sinval, que da minha alma expulsar devo, Que sempre mais e mais a

, «Vem, segue (elle me diz) segue, acompanha o teu primeiro esposo; em vão resistes:

As aras de um Deus soffrego, e zeloso Privilegio não tem para conter-me.» N'isto me afferra, e subito me raoga Co'as sacrílegas mãos o véo sagrado

A meu pranto, a meus gritos insensível,

Por entre ondas de sangue, e montes de ossos, De sepulchro em sepulchro elle me 1trrasta,

N '

d'

um

e es quas1 . morta me arremessa: •

,

li

Cáio,- some-me o ferro nas entranhas, Eis que fuzila o raio, e nos abraza.

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OBRAS DE BOCAGE

-

SOPHIA

Essas vãs illusões, que géra o somno, A noute as traz comsigo, a noute as .leva. Tu mesma, tu preparas o veneno, Que exacerba o teu mal, tu mesma aguças

A frecha, que se encrava no teu peito.

Irmã, não é assim que se trlumpha; Desterra essas lembranças perigosas.

EUPHEMIA

Como hei de d.e~terral-as? Ah ! Que o fogo,

O furor das paixões tu não conheces !

Não sabes, cara irmã, qual é o encanto, Qual a força de amor, e os seus estragos.

SOPHIA

Tens-me por insensível, e te enganas:

Tal não sou, mas quiz dar-me áquelle Objecto~ Que só deve occupar nossos desejos. Tu mereces \Ifgenua confiança; Contempla no que vou manifestar-te Quanto devo ao favor da Providencia! Ás vezes a illustrar o exemplo basta, Minha alma folga de se abrir comtigo. Para a terna paixão nasci propensa,

DRA}.fAS 'l'RADUZIDOS

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E sempre de a nutrir fui cuidadosa:

Tudo o que me ceraava, me attrafa, Prendendo-me a vontade em doces laços Proxima áquella edade em que se admira

Dos transportes, que sente, a alma inquieta, Ia Amor signalar dentro em meu peito Seu domínio funesto. Eis abro os olhos, Vejo minhas irmãs, a quem deviam Lisonjear do mundo os vãos prazeres, Uma em profundas magoas submergida, Carpindo o esposo, que aos priineiros dia:> Do seu consorcio lhe expirou nos braços:

Outra, quasi a morrer, misera amante, Perdida por um vil, e abandonada; Meu pae, tornado aos seus no fim da guerra, De improviso caír na sepultura,

E o seu mais caro amigo entre cadeias,

Opprimido com subita desgraça. D'este quadro terrivel passo os olhos

Para todo o univen;~. Observo os grandes, Os senhores do mundo, e n'elles vejo Como nos mais o dissabor, o enjôo; Angustias sobré o throno até diviso, •

E a purpura dos reis banhada em pra~to.'

Parece que esta imagem deveria Abafar o mimoso sentimento, Que respirava em mim; porém debalde Minha razão se oppunha, murmurando,

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OBRAS DE BOCAGE

Á precisão de amar, á voz, que solta,

E com que persuade a Natureza.

111eu coração mavioso me traía; Não luctei mais, cedi, firmei o errante

Dese;jo irresoluto. Era preciso

Encher, fartar de amor toda a minha alma,

E para objecto d'elle·um Deus escolho.

Desde então se desfez na minha ideia, Q11al sombra fugitiva, o mundo todo; DPsdenhei-lhe as promessas cavillosas,

E apczar da esperança lisonjeira

Das grandezas, dos bens, contra a vontade

De meus parentes, para o clau~tro corro. Deus acolhe o meu voto, em Deus consigo Tndo quanto appeteço, elle me inflamJna, EUe só é bastante a meus transportes; Senhor dos corações, e dos desejos,

Só elle os satisfaz; o amante, o esposo

N'elle só procurei. De dia em dia o meu férvido amor se apura, e cresce. Este amor, que não pende da fortuna, Não receia o destino, o fim d'aquelles, Que esv,aeCfil'O capricho, O te.mpo, amorte. Não, não amo um vulgar, profano objecto, Que ou deixa de agradar, ou muda, ou morre:

Enlevo-me n'um Deus, e se me abraza O espirito immortal de amor eterno. Ah! Gosa, amada irmã, gosa commigo

DRAJ\IAS TRADUZIDOS

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D'esta ineffavel gloria: Deus sómente Deve reinar no coração de Euphemia•

.EUPHEMIA

Com lagrimas lhe peço; que me arranque Lembranças, ao dever, e á honra oppostas. Meu Deus l Este milagre é impossível! Tudo me está na idéa afigurando Uma inflexível mãe, surda a meus rogos, Negando ás minhas lagrimas piedade, Que, cega, injusta, idolatra de um filho, Pare.:Je contra mim cruel madrasta, -

Que, sumindo n'um claustro os meus desgostos, Saborêa o prazer, prazer terrível De separar dons coraçÕes amantes,

Ah I Foi tyranna •.•

Em quanto o meu amor

Porém é minha mãe, sempre hei de amai-a .•• Inda que de Sinval deu causa á morte

Esta imagem me ancêa, e me horrorisa I Eu propria completei meu sacrificio,

Eu propria me curvei a um jugo eterno,

A uma lei

Oh céos I E qrlPo ero.,

Perdendo o meu Sinval, perder o mundo?

E inda repulso um Deus! Inda lamento·

A prisão, que me liga! Ah I Não, não posso '

Sinval

Com tantas

eu torna, cruel, torna ao sepulchro,

I.

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OBRAS DE BOCAGE

~u me roubas meus

A habitação da morte. Ah! Deixa ao menos Para Deus o meu pranto, os meus remorsos.

eu te sigo

SOPHIA (1)

Amiga! Irmã! Convf.m, que dissimules Essa perturbaçã9.

·

EUPHEMIA

Como é possível, Se cresce a cada instante?

SCENA III

EUPHEJ.fiA, SOPIIIA, CECILIA

Teme

(2).

SOPIIIA

Abi vem Cecilia,

EUPHE~HA

Embora 'a seus olhos appareça,

(1) Apertando-a nos braços. (2) Para Euphemia.

Dl~Al\IAS TI:ADTJZIDOS

HJ

E aos de todo o universo o meu Jelirio, Meus males, minhas lagrimas, meu crime Saibam todos, Sinval, que por, ti morro.

CECILIA (J)

Hn.\Vc~e\ttevereis o sacerdote De um Deus castigador, que, fatigado De ameaçar em vão, já Ee prepara A cerrar-vos das graças o thesouro. Esposa desleal do esposo eterno, Tf·ndes por cima a cholera celeste. Vossa rebellião, damnoso exemplo P;tra nossas i~mãs, ante os altares Ergue a pedra de P8candalo:Eia, a dura Pertinacia eNpiae. Se com suspiros Xiío reclmnaes_ o ~mor de nm Deus piedoso, i:')e com vivo remorso, e dôr sincera _ As aras não banlme~. de amargo pranto, 'l'rermii, não espereis mais r1ue um severo. Impiacavel juiz, pr(•mpto á seuten~·a, .A que se oppôz, téqui sua bondade; , l':to lhe soffre a ju::,l.iç·a o pcrJoar-vos,• -Nüo vos póde aL:wher; eu yejo,. eu vejo

' ~··u braç-o vingarlor lançar-fe ao raio, ]•} :t vot:sos pés abri rem-~e.os infPrnos:

(. 1)

En'Í tom sewro para Enphe'llía.

*

tO

OBRA~ DE BOCAGl<:

Vós caís, vós caís n'esses abysmos

De desesperação

de horror

80PHIA (2)·

de raiva

Que dizes, furiosa? Esse retrato Não é, não é de um Deus: tyranno o pin~f; Qualldo faltou nas aras a piedade? Vae, minha irmã, com supplicas humildes, (3) Do mais terno dos paes lançar-te ás plantas; Leva-lhe um coração brando, amoroso, Que saberá por elle inda opprimir-se, PaQ.ecer, e inflammar-se; extingue, apaga Essa inutil paixão, que os céos prohibem; Não cedas a victoria a teus sentidos; Lucta, e vence a rebelde humanidade, Que obsta á gloria immortal de wbmetteres

A vontade á razão; suffoca os gritos

Da ciosa, indignada natureza;

V ôa ao

Elle do céo te chama, te exp'rimenta, Presta as aza.o:; da fé aos teus esforços.

Da graç~ v~ncedora o puro fogo

A tua alma penetre: ah! Mui sensível

teu Deus,, e dá-lhe a sua esposa.

(1)

(1) Eupht>mia se· perturba a estas palavras. (2) Com indignação pll,ra Cecilia. (3) Para Euphemia em tom aíi"ectuoso,'e abraça~do-a.

DiL.UIAI:' TRAIJPZIDOK_

:H

O ~enhor a creou, pam negar-te

A santa inspiração do amor eterno,

Que, enlevado no céo, desdenha o mundo:

Se alguma vez nos fere, ama-nos sempre.

Anjo exterminador, anjo terrivel Não temas no ministro, que te envia; Anjo consolador acharás n'elle, Teu pranto enxugará com mão piedosa:

A religião sincera é indulgente. (1) Ha quem possa formar diversa idéa De um Deus, que mais que tuJo amar devemos?

SCENA IV

SOPHLA, CECILIA

SOPHIA

Desculpae-lhe um transporte inevitavel; Vossa virtude, austera em demasia, Aterrou ,cégamente a triste Euphemia.

O ameaço, o rigor são proprios do e1ro,

Reina a brandura na mõ"ral, que é santa:'

O amor a inspira sempre, o medo nunca,

(1) Euphemia se retira na maior affiicção.

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OBRAS DE BOÇAGE

CECILIA

Minha cólera eguala o meu espanto. Corno! Em vez de ajudar-me um pio enfado, " Quando a causa do céo zelar devieis, Lisonjeaes paixões escandalosas! Quereis que Euphemia, indigna de chamnr-se Nossa irmã, seu perdão de Deus espere, De Deus, que ultraja!

flOPHIA

Ah! Sempre esses rigores Haveis de alimentar :n'alma severa! Fundareis sempre a gloria na aspereza! Pensae, pensae melhor. Cumpre de novo Dizer-vos o que dieta, o que suggere Um sentimento innato? A Divindade Não póde ser cruel, nunca se esquiva Das lagrimas, que sólt,a a dôr sincera. Que é, que vale o poder se não perdôa? Aquelle, que•remJu a humanidade, Não veheu por ingratos o seu sangue? Que é culpada a seus pés confessa Euphemia:

Elle se dignará de auxiliai-a, Enviando-lhe gra~a ao fragil peito. Sustentemos o arbusto, que vacilla

DRAMAS TRADUZIDOS

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Em termos de cair, sim, consolemos Nossa irmã, lamentando-lhe a frag,ue;a.

_,

-.

CECILIA

A fraqueza! Oh meu Deus, que a ímpia esquece, Em que delictos cairá teu raio, Se o podér evitar crime tão feio! Desde que Euphemia proferiu seus votos Nunca um ídolo vão lhe saíu d'alma:

Da cinza resurgindo, elle accrescenta De momento em momento o seu dominio. Que! Depois de dez annos de queixumes, De suspiros, de lagrimas, ainda Arde, cega-de amor, por frios_ ossos! Nos mostra uma alma, cada vez inais presa,

Mais criminosa!

loi

SOPHIA (1)

vós nunca amastes.

CECILIA

I

J

Em laços v~rgonhosos eu captiva! · Eu amar! Só a Deus.

(1) Depois d'uma grande pausa.

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OBRAS DE .BOCAGE

SCENA V

SOPHIA, CECILIA, uma CRIADA (1)

CRIADÀ (2)

Com muita instancia Uma mulher incognita em-segredo •

V os quer fallar

CECILIA (3)

Que qualidade inculca?

-SOPHIA

Seja quem for, devemos attendêl-a.

CRIADA

Tem um ar nobre, um ar affectuoso, Que lhe adóça a tristeza, e que interéssa; Julgo-a dign:t de dó: talvez desastres •.•

.

(1) No original é uma leiga do convento. (2) A ambas. (3) Com vivacidade•

.,

DRAllAS TRADUZTDvS

25

, SOPHIA (1)

Entre.

CECILIA (2)

Que, minha irmã! Tanto importuno, Tanto jndigente!

SOPHIA (3)

Venha, não me ouvistes? (4)

SOENA VI

SOPHIA, CECILIA

SOPHIA

(5)

Tão dura condic;ão me affiip;e, e assombra. Imaginaes cumprir co'a lei divina, E á commiseração negaes o peito?

(1) Em tom rápido (2) Para Sophia. (3) Para a criada, alteando a voz. (4) Vai-se a criada. (5) Em tom sentido.

OTIHAS DE BOC.-\GE

A vossa devoção feroz, e agreste Sementes de odio, e cólera attribue A um Deus de paz, de amor, e de clemencia! Não gostareis o jubilo ineffavel De amar, e soccorrer os infelices, Çhqrando, e consolando-vos com elles:

E isto, oh religião pura, e querida,

A tua mansidão, e o teu caracter? Nunca amastes, irmã, já vol:-o disse, Debaixo de cilício, que vos punge,

Se azeda, se enraivece ó vosso zelo. Se tivesseis amado (ah!) sentiríeis De uma graça mais doce os attractivos.

O Deus dos beneficios incen!l_âmos:

Foi seu amor, não foi sua justiça Quem o levou por nós á cruz, á morte.

CECILIA

Cuidaes, talvez, que o céo d~'vós se serve Para me alumiar, para dictar-me As suas justas leis? Sei praticai-as; Mas eu vejo um tropel de mendicantes Rodear es~3asylo, e perturbar-nos, Associando aos canticos divinos Seu pranto, seus queixumes. Os altares ImpOem obrigações, que em todo o tempo Foram, são-respeitadas. Por ve;o.tura

DRA]<fAS TI:AD"UZIDOS

27

Não devemos orar? Se vos lembrasseis

De

SOPHIA

· Façamos o bem, depois oremos.

SCENA VII

A CONDESSA DE ORCÉ, SOPHJA, CECILIA, A CRIADA

CONDESSA (1)

Uma triste mulher desconhecida, Quasi affogada em lagrimas, se atreve

A

vir manifestar-vos os seus males •

Ide-vol! (3).

SOPHIA

(2)

(1) A condessa manifesta a sua indigencia por um vestido preto dos mais ordinarios, no qual se vê todavia o asseio decente, que conservam sempre 'Os i:.tfelices, que tiveram um nascimento honrado, ou uma boa edu- cação. Cecilia olha para ella com indifferença desde- nhosa, e Sophia com uma attenção compassiva. ' {2) Para Sophia, e Cecilia:

(3} Vivamente para a criada, que sáe.

:28

OBRAS DE TIÓCAGE

SCENA VIII

SOPHIA, A CONDESSA, CECILIA

CONDESSA (1)

Sem ninguem, destituída De todos os soccorros, e cançada De soffrer uma vida lastimosa, De -ver olhos crueis, ou desdenhosos Fitar-!)e em mim, pensei que nos altares Encontraria o mavioso affecto Das almas consagradas á virtude:

Aquella compaixão .•• que o'mundo ignora.

SOPHIA

Assentae-vos, senhora. (2)

CECILIA

. As nossas prect>!i (3)

'

Chamttm Deus a favor dos desgraçados;

(1) Continuando. · _ (2) Para a condessa eom ternura, e ella se assent!t. (3) Fdamente.

·r

DRAMAH 'fHADUZIDOS

29

· l\Ias o nosso mosteiro, apenas livre De uma -divida immensa, está gravado

Dos soccorros, que presta aos indigentes.

A caridade

CONDESSA (1)

Oh céosi A que mais póde

Chegar minha desgraça I E vós; senhora, Tambem sois contra, mim I Não, não imploro

A terna caridade, eú peço

a morte. (2)

_ Que novo golpe, oh Deu_s I

SOPTIIA (3)

Ah que fizestes,

Cruel? Ide-vos, ide-vos; com isso

Lhe dobrastes a dôr

(4) Eia, deixae-nos. (5)

(1) Chorando. (2) Chorando mais. (3) Com enfado para Cecilia. (4) Cecilia fica ainda. (fl) Cecilia vae-se raivosa.

r

ao

Senhora

OBRAS DF. BOCAGE

A

SCENA IX

CONDESSA, SOPHIA

SOPHIA (1)

CONDlíSSA

esta a lei officiosa, (2) A religião suave, e compa!!siva! Onde hei de, justos céos! achar piedade!

SOPHIA

Onde? Em meu coraç-ão. Crede, senhora, Que junto ás atas é que chora, e geme

. Sem custo, sem violencia a humanidade; - Não julgueis que Cecilia a desconhece. (3) Desculpae-a. Seu culto grave, e triste Como que faz brazão da austeridade:

Mas ha de

SeÚ1 cvmqdseração ver-vos, e ouvir-vosr

Sim, quem póde

(1) Assentando-se junto da

a mão.

,.

condessa, a.pertr.ndo-lhe

(2) Soluçando, sem reparar n.J que lhe diz Sophia.

· (3)

A Condessa olha, vê r1ne Cecilia se retirou, e con-

templa Sr.phia com ternura.

DRAMAS TRADUZIDOS

31

CONDESSA

J<Ju não venho, senhora, supplicar-vos

Dádiva pia, nem cubrir de Ollprobrio J[eus ultimos instantes: porque a morte

sinto avisinhar-se •

Parará teu rigor nas minhas cinzas? ~ei de que modo as vidas se abreviam,

Sei como se acabava meu tormento, . Minha affronta, mas não: Deus, que me pune, Deus só é qne tem jus á minha vida,

E só devf'm seus golpes arrancar-m'a.

Cumpre humilhar-me ao vingador flagello,

Engulir devag~r todo o ven~no

Da desgraça cruel, que me pcrsPgue, Soffrer minha miserrima existencia, Fazer mais,-:- sufiocar até o orgulho De um naséimento·illustre. En n'outro tempo Tive bens, e grandezas: oin_fortunio Desfez esses phantasmas

E quem me-rPduziu a este

Perdoae-me

Oh Deus immenso:

(1)

•. uma angustia inexplicavel

l'l1e pertmba, me opprime. '

(Póde obrigar a tanto a desventura!)

Eu vinha

1\Ie amparasseis a languida velhice',

oh céos!

~u vinha

que expressão! Vinha rogar-vos

(1) Chora.

32

E que, adoçando as minhas amarguras,,

Qnizesseis admittir-me

(1) por cri_ada.

SOPHIA. (2)

Que dizeis! Vós servir-me! Ah! Não, senhora; :Mereceis outro genero de abrigo, Vós sereis a set·vida. Por livrar-vos Do estado, em que vos vejo, eu déra a vida.

A

amizade, a ternura hão de enxugar-vos

O

pru"llto, que Terteis. Vossas desgraças

Qne feroz coração não moveriam ?

CONDESS,I\ ( 3)

Ah! Quanto me obrigaes! Porém não dcYo

Acceitar Yos!'a offerta; hei de, senhora, Abater-me, servir, morrer, mas nunca Ha de o meu infortunio envergonhar-me.

A altivez d'alma as dadivas offendem,

Stja ql1al \ôr a mão, de que provenham.

(1) Soluçando. (2) Cbm as lagrimas nos olhos. (3) Abraçando-a.

DRAMAS TRADUZIDOS

33

Eu morro.•., e quem me faz mais dura a morte

(1) um filho ••• que o peito me traspassa.

É

SOPHIA (2)

Um filho! Oh monstro! Ha genio tão rebelde Ás leis do sangue, ás leis da natureza?

CONDESSA

Sim, da minha desgraça é causa um filho, Um filho, alimentado no meu peito.· Apenas veiu ao mundo empreguei n'elle Todos os meus desvelos, e caricias, Do terno amor de mãe toda a fraqueza; Sacrifiquei-lhe o gosto, a dignidade,

E até o esposo, o pae, e os outros filhos.

Pela vida do ingrato eu déra, eu déra 1\iil vidas, se as tivesse, e nos seus braços

Morrêra consolada; era só elle

O que eu via no mundo, o que adorava .••

Perdendo seus irmãos, e o meu consorte, Favoreci-lhe o jus, que lhe deixaram, Só nos seus interesses embebida; •

Que digo! Até cedi de meus direitos,

{1) Chorando. (2) Dando um grito.

34

OBRAS DE BOCAGE

E apoz o coração dei-lhe as riqt~ezas,

Sem excepção, e sem reserva alguma. Não pedi, nem queria em premio d'isto :Mais que a consolação de estar com elle, De exhalar o meu ultííno suspiro Junto de um filho amado. Eu sim lhe achava·

Signaes, e propensões d'alma corrupta, Ornados com gentil physionomia; Mas de enganar-me, e de os não crer folgava:

Tanto o materno amor nos allucina! Cega! Não reparei que ia meu filho

A mocidade em vícios estr!lgando,

Que aos excessos mais vís, e vergonhosos; J-untava o da avareza, e crueldade, Que era um ímpio, um ingrato: emfim, casou-se-

Communimente uma esposa influe, e cria N'um genio duro aquella suavidade, Que é origem do ·amor, e da virtlide; Mas peor que elle a esposa de meu filho Atiçou contra mim seu odio incrível. Este filho, que enchi de beneficios, Me carregou de injurias, e desprezos:

Uniu insulto amargo a atroz offensa,

Das lag'rimàs, de que elle era o motivo,

Os olhos affastou, e ultimamente {1)

Me expelliu do solar, onde habitaram

(1) .A Condessa 'Chora cvm mais força.

DRAMAS THADUZIDOS

35

Meus honrados avós, e onde eu nascêra. Arrojei-me a seus pés, gritei, chorando:

«Oh filho, filho meu! Vossa mãe triste Prostrada a vosso~ pés, não vos implora Mais do que um beneficio, tinico premio D'este amor, que por vós fez mil extremos. Em Lreve a morte acabará meus males:

No leito de meus páes soffrei que expire.» Não me tittende o cruel, e eu continúo:

«Vó:;, que gerei; nutri com o meu sangue, Quereis, filho, que morra em desamparo! Dei-vos tudo o que tinha, unicamente '

Possuo

Vós tereis filhos: desejar devia Ah! Nunca, nunca, ingrato, vos imitem.»

Então a esposa, mais feroz ainda, 1\Ie expulsa d'um logar, que eu tanto amava, Logar, onde, attruídos da saudade, 0:> olhos moribundos me ficavam. Céos! E sobrevivi a horror tamanho! .N'esta consternaç>ão busco urna amiga:

Diz que me não conhece. Emfim, vagando • Quasi sem tino já, por toda a parte,

um

coração que a dôr consome.

Chego

onde espero achar :1 ~ort~.

~<.;OPHTA

' Não) vós niio rno1:rereis; em mi111, e cm. ouha O céo vos deparou duas amirras

*

"'

36

OBRAS DE BOCAGE

Para vos consolar. • . mas continuam Vossos ais, vossas lagrimas ainda,

E com mais força as faces vos i nundam!

CONDESSA

Ah! Não devem ter fim senão co'a vida. Vós sabeis os meus males, vêde agora

O meu crime, e depois julgae se posso

Ao sentimento, ás lagrimas pôr termo.

Este filho, por quem padeço tanto, •

Teve uma irm&

SOPHIA (1)

Fallae.

CONDESSA

Que a Natureza Ornou d'aquellas gra~-as, que enfeitiçam Ainda mais os corações que os olhos. Tu a formaste, oh Deus, para agradar-me,

E eu ne'guel-lhe o carinho, amando-me ella.

Ah! Cada vez mais terna, e mais humilde,

Parecia em silencio perdoar-me,

(1) Appressadamente, e com mais attenção afu. '1.

DRA.i.\fAS 'l'RADUZIDO::l

37

E ignorar que um irmão tinha ganhado '·

De sua injusta mãe todos os mimos. Um mancebo modesto, e virtuoso, Egualna qualidade a minha filha, A viu, a amou, e foi por ella amado. J;tdiu-m'a por esposa: eu, insensível As lagrimas da trffite, a sacrifico A seu irmão, desvio o .seu amante, .Encerro-a n'um mosteiro, insto com ella Para cingir-lhe um laço, tão diff'rente Dos ternos laços de feliz consorcio. ·

SOPHIA

Successo

(1)

CONDESSA

Para obrigai-a ao voto Fiz com que falsas novas se lhe dessem Sobre a morte do amante, e confinnei-lh'a. Caíu sem côr, sem voz com este golpe; Eis acode a animal-a uma parenta, E já quasi mortal do claustro a tira. Morre pouco depois esta parenta,

E da misera

filha ignoro a sorte •

(1) Perturbada, á parte.

38

OBRAS DE BOCAGE

Ah ! sem duvida jaz na sepultura

E eu a sacrifiquei a um filho ingrato ! Eu, desgraçada !

SOPHIA

Resistir não

(1)

E quanto mais vos ouço .•

H a perto de dez annos .•.

Aqui, senhora,

CONDESSA

Q.ue!

, De dez annos

SOPHIA(

(2)

Tenho a mais fiel, mais terna amiga; Da mãe, que muito amou, foi pouco amada.

(\

Da mãe !

f

CONDESSA

Continuae.

(1) Ainda mais turbada. (2) Inquieta.

DRAMAS TRADUZIDOS

39

SOPHIA

Os seus desastres (1)

, -Ella lh'os motivou. Teve esta filha Um destino infeliz, qual teve a vossa; Ella sabe attender aos desgraçados:

Muitas vezes aqui lhes dá soccorro; Seu meigo coração ha de amimar-vos, E lamentar comvosco as vossas penas. (2) Senhora, haveis de vel-a, haveis de amal-a.

I

CONDESSA (3)

I

Será possivel. •. Céos! Não sei que sinto

No

Oh Deus, oh summo Deus I Permittirias Que no auge do infortunio

guiae, guiae-me a ella. ·

(1) Rapidamente. {2) Ergue-se apressadamente. (8) Erguendo-se com egual presteza.

40

• SCENA X

EUPHEMIA, SOPHIA e a CONDESSA

.SOPHIA (1)

Vinde, vinde,. Minha querida irmã, nos vossos braços Afagar uma illustre desgraçada.

Constança!

q

CECILIA (2)

EUPHEMIA (3)

· Minha mãe!. •.

SOPHIA

Que escuto I Sua mãe I

Oh Providencia!

(1) Dando o braço á Condessa, e vendo entrar Euphe-- · (2) Dando um grito, e desmaiando sobre a cadeira. (3) Lançando-se-lhe aos pés. ·

mia.

DRAMAS TRADUZIDOS

CONDESSA

41.

· Céos ! Minha filha (1)

_Consagrada aos altares para sempre !

E eu fui a que formei seu laço eterno !

Este véo; este véo ha de accusar-me Continuamente •. : ah I Dize-me o motivo .•. E inda me dás de amor signae~ tão doces ! (2) Filha, o maior esforço· é perdoar-me.

EUPHEMIA

Abraço minha mãe, ou isto é sonho ?.••

CONDESSA

l.

Não é sonho, não é, tens nos teus braços

A tua infeliz mãe.

EUPHEMIA

Sua desgraça (3) Dóbra a minha ternura. Mas quem pôde Forjar esta mudança deploravel?

'

(1) Tomando a si, cheia de espanto e de dôr. (2) Abraçando-a, e chorando.

"(3) Levanta-se.

r

I

.

1

42

OBRAS DE BOCAGE

Teu irmão.

>

CONDESSA

EUPHEMIA

' Meu irmão!

(,

:.

:

.,

( CONDESSA: .

Sim, esse objecto De uma predilecção desasisada, Por quem abominei minha familia,

·

Por

quem

te conduzi ao sacrificio. (1)

 

'

EUPHEMIA

Só sinto os vossos males. (2)

CONDESSA

. Já na pósse De todos os meus bens, o deshumano, Surdo ás vozes do sangue, e aos meus clamores, (Eu de e~ual tyrannia usei comtigo) Espancou sua mãé, nem quiz mais vel-a. Irados contra mim os céos estavam, '

(1) Peg~~dona mão de Euphemia, e chorando.

DRAMAS TRADUZIDOS

43

Pensa o que eu soffreria em tal extremo.

A Condessa de Orcé, que a dignidade,

A riqueza, a lisonja, e mil prestígios

Cegáram longo tempo, emfim, cercada Dos horrores, que seguem a indigencia, sem. oonsolação, já sem abrigo,

~ até j:í. sem a minima esperança, Victima da cruel necessidade,

(~uasi em ancias.de morte, veiu, oh filha,

A este asylo, franco á desventura,

Pedir que a recebessem

'

,.

por criada.

EUPHEMIA (1)

"';

Mal posso

não, mãe querida, (2)

Não chegareis a tanto abatimento:

Para ser menos duro o vosso estado, Bu soffrerei por vós minha importuna (3) Amargurada vida, e desde agora Não cuidarei senão de consolar-vos, De vos vingar de um filho. Eu posso. • . aquella Parenta, que do claustro semiviva Me tirou nos seus braços, e sómente

{1) Cahindo nos braços de sua mãe, e depois d'uma longa pausa. (2) Arrebatada, e chorando. (3) Com fervor.

.r

44

OBRAS DE BOCAGE

]\{~viu n'este Jogar fazer um voto, Que eu occultar queria a vós, e ao mundo, Aquelle coração tão generoso

Me deixou alguns bens .•. (1) Eu

Além d'este soccorro diminuto, Tenho o lavor de minhas mãos, senhora. Sacrificarei tudo, e morreria ·

Mil vezes, cara mãe, para mostrar-vos

O meu constante amor .••

vol-os cêdo.

CONDESSA (2)

E amas-me ainda. Oh filha! E não te lembras

'

EUPHEMIA

Ah ! Tractemos Só de vós. Aqui tendes outra filha: (3) Ella é digna de nós,· ella é sensivel,

E go~ta d~ prestar aos desditosos;

Vere1s sua ternura, e seus desvelos.

l

(1) Rapidamente. , (2) Abraçando-a. (3) Apontando para Sophia.

DRAMAS 'l.'RADUZIDOS

45

CONDESSA

do seu coração recebi provas (1) De sincera piedade, e agradecida .•• (2)

SOPHIA (3)

Não maifil que um sentimento infructuoso Encontrastes em mim. Se eu ser-vos util Podesse, graças mil ao céo rendêra, Que vos eleve :,tmparar. D'elle é que nascem O socego, a ventura: elle só póde Soccorrer, levantar os abatidos; Mas eu talvez aqui vos sou molesta .•• (4)

CONDESSA (5)

Não, ficae; Nós teríamos segredos Para vós ? Publicae suas virtudes, (6) 1\feu arrependimento, a clôr, e o pranto, Que o remorso me custa; -os beneficias De uma filha, a quem eu

(1) Com voz terna. (2) Dando a mão a Sophia. (3) Para a Condessa. (4) Dá alguns passos para se retirar. (5) Levantando-se. (6) lHostrando a filha.

46

OBRAS DE BOCAGE

EUPHEliHA (1)

Com esse excesso Vós é que me obrigues. Nós poderemos

Viver, e chorar juntas

C.tra mãe, cerrareis meus olhos tristes.

mas em breve,

CONDESSA

·l

Tu é que has de fechar os meus, oh filha.

EUPHEII:IIA

Não pensêmos senão em confortar-vos. Vamos (2).

CONDESSA (3)

Que vejo, oh Deus!

SOPHIA

.

Todas as noutes (4)

Nos manda a nossa lei, que descancemos

N'esse leito da morte. Um terror pio

.

(

(1) Abraçando-a. (2) Dá-lhe a mão. (3) Vendo a tumba, e recuando assnstada. (4) Para a Condessa.

DRA~IAS TRADUZiDOS

47

N'elle nos acompanha, e nos presenta O fim, que para nós está guardado.

J<!UPHEMJA (1)

Sim, oh mãe, o meu thálamo é aquelle. (2) Logo vos contarei meus males todos. Não me desampareis. (3) Acabem hoje Estas agitações, que me atormentam. Accelerae o instante em que a minha alma ,Deve ser consolada, e soccorrida Por esse anjo de paz, que o céo lhe manda.

'

(1) Dando um gemido. (2) A Condessa :-t estas ultimas palavras chora, olha com ternma para a filha, e cae-lhe nos braços. Euphe- mia, depois d'uma grande pausa, diz a sua mãe:

(3) Para Sophia.

ACTO II

Ergue-se o panno, vê-se uma capella, um altar a um lado, e um perist~ljo, ou columnata no fundo do theatro.

SCENA I

EUPHEMIA e SOPHIA (1)

SOPHIA

Oh tu, cuja grandeza testificam Os altos beneficios, que semêas, Tu, cuja graça os corações conquista, Oh Deus! Oh páe benigno! Tem piedade Da minha triste amiga, ouve meus rogos, Desce ao peito de Euphemia, substitue Áquelle ardor profano a pura chamma De tua santa fé, teu amor santo; Presta-lhe armas, senhor, contra os sentidos! Desprezarás as lagrimas, as preces, , 1 Que a teus pés derramamos? .Ah! Foi Mito • D~ Euphemia o coração para ad?rar-te,

(1) Ambas prostradas, uma defronte do altar, a outra a um dos lados.

'

50

OBRAS DE BOCAGE

Para se encher de t.i. Deu;; poderoso, Que a desesperação, que a dôr lhe observas, Acóde, acóde' á misera, e triumphe · -r3:

o remorso, que n'alma lhe murmura.· • _SJ a

EUPHEMIA

Asylo do infortunio, altar sagrado De um Deus consolador, unico apoio, Onde, já sem pacieneia, e·j~ sem forças, Do pezo de meus males me allivio, (1)

Eu te abraço, eu te off'réÇitestes remorsos, Em soluços, e em lngrimas ,nutridos.

A minha affiicta mãe quiz occultal-as, (2)

?!'Ias um pranto saudoso em cuja origem

Tanto me enlevo

Quer correr, quer correr, e os suffocados 11\ Suspiros no peito me não cabem. r :U

A meu pezar consome-me um incendio .,~

'oh céos !

detido ha muito

o

{(

Criminoso; amo, adoro um vão phantasma: P ·

Elle a paixão sacrílega me excita,

Que esperança não tem com que se alente; Elle, em logar de um Deus, dá leis n'esta alma,

E, se'mprê vencedor, surge da terra · '

Para assaltar-me, oh céo

! Para assaltar-te.''

(1) Abraça com transporte o angulo do altar. (2) Para :Sophia.

DRAl\IAS TRADUZIDOS

51

Trago em meu cor~\ção todo o veneno, Todo o fogo de amor, trago os sentidos Em continuo tumulto, c não difl~renço Quacs são os sentimentos, que me régem. Como que dou3 espiritos oppostos

Luctando dentro em mÍI}l, me despedaçam.

Oh minha. religião l

Para ti! lUas tu devf's dominar-me;

O meu estado, a honra, os céos o querem:

R o mais frouxo

Tudo, emfim, me condemna, oppõe-se tudo_

A' paixão, que por ti, Sinval, me inflamma.

A esposa de um· mortal deve guardar· lhe

Fé sem limites; e de um Deus a

Justos céos! De mim propria me horroriso

E ainua o seu ministro em meu soccorro

Não chega! Oh Deus, que offendo, oh Deus, que imploro (2:

Tn, que hoje minha mãé me restituíste, Ah! Completa, senhor, teus beneficios,

Ou

Negarás, Deus eterno, ás minhas cinzas

(1)

manda que eu no tumu1o repouse.

O socego, que em vida obter não posso? (3)

:àlinha

(4)

(I)

Olhando para a colnmnata.

(2)

Prostra-se mais profundamente.

(3)

Vcndo que entra a Condessa.

(4)

A' parte e sobresaltada, Sophia se retira.

*

52

OBRAS n:g llOCAGE

SCENA II

EUPHEMI.A e a CONDESSA

EUPHEMIA (1)

A que vindes?

CONDESSA

A teus braços (2)

A ter parte nas mágoas, que te affiigem,

Que mitigar

É verdade, evitar tua presença. Olhar ao bemfeitor confunde, e acanha; Mas eu te amo, Comtança, eu te amo tanto, Que saudosa procuro os teus affagos,

E

ah! Eu devia,

gémes? Tua sorte

EUPHEMIA

A minha sorte I

É suavb, é feliz porque a meus braços

O céo vos conduziu. Não foi por falta

(1) Ergue-se perturbada

(2) Abraçando-a.

DHA:ITAI:l 1'RADUZIDOI:l

53

De amor, que me escondi aos vossos olhos

Eu não fujo de

Vim a este Jogar

Ante Deus

• (1)

não, mãe querida •••

Eu lhQ implorava

vim de mim !

humilhar-II?e 1 •

(2)

ai

Desfallece-te a v~z

CONDESSA

! Voltas os olhos

Para occultar-me as lagrimas, que vertes I

EUPHEMIA (3)

.

1

Ah! Se eu pudesse, oh mãe, n'esta corrente (4.) Expellir minha dôr, meu mal, e a vida! sem mando ~ razão, tentou debalde No peito ancioso refrear-me o pranto; Debalde me esforcei para encubrir-vos Um triste coração, que não sómente Nas lagrimas, nos ais se manifesta, 1\Ias até no silencio. Constrangido De intoleraveis penas, vai mostrar-voe O seu estado, a chaga, que o devora,

J

(I) Inquieta.

(2) Pronuncia estas ultimas palavras com voz desfal- lecida.

(3) Como transportada. pela affiicção, caindo nos bra- ços da mãe, e banhada em lagrimas.

;u

•,

(4) Depois de grande pausa:

54

OBRAS DE BOCAGE

E que, em vez de curai-a, o tempo aggrava •.•

A multidão vereis dos meus

Minha mãe, recordae a origem d'elles,

E deveis perceber-me .•.

tormentos

CONDESSA

.Que! Renovas Idéas tão terríveis? Hei de, oh filha, Hei de avivar um quadro, que tomára

Apagar com meu pranto, e cpm meu sangue! Querida bemfeitora, ah! Longe, longe Essa imagem cruel: n'ella con.siste

O meu castigo, e tu me perdoaste.

EUPHEMIA (1)

Vós, senhora, é que haveis. de conceder-me Um perdão, que prostrada vos imploro. Eu, commettendp involuntario crime, . Eu sou quem vos offende. Sim, guardemos Inviolavel silencio nos meus 'males. Um D~us, llm Deus, ·qu~rége os nossos fados, Me encaminhou, sem duvida, aos altares. Fallemos só do amor com que desejo Contentar minha mãe, só da ventura. · >

1

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(1) Beijando-lhe amão.

DJ!AMAS TRADUZIDOS

55

Do prazer, que eu teria em ç~msolar-vos;

Fallemos

(1) não, não posso reprimir-me,

Não sei co1;1ter o ardor, que mt~ impacifi)nta; n

Fallemos

d'esse objeeto •

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Minha_p~~turbação vol-o noAl~a

Que phrenesil Q~,Ie.angustia!

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Despotic9 senhor de u~ ~qr;1ção, i

Cada vez mais~. Ill1.\ ~e,

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(1)

Enternece-se-lhe mais a voz

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(2)

Depois de um long" silenci •

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56

(nmAS DE BOCAGE

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CONDESSA

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Que fiz, céosl E ainda, filha, te possue, Te inflamma essa paixão?

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EUPHEMIA. {1)

.

'

· 1

Mais do que nunca;

E o socego, o dever lhe sacrifico. ·

Digo-o carpindo a vossós pés, morrendo,

E attestando este Deus, que me abandona, (2)

Que 'me vê cada dia atribulada Vir de rôjo ao altar •. ~ e não me escuta I.••

Dez annos de combate~ doloroso~,c

De lagrimas, de preces, o cilício,'"

Chegado ao coração, tinto em meu sangue;

O terror, que commigo se reclina

No féretro medonho; o tep1po a morte,

A morte, que destróe, que absorve tudo,

Desarraigar não podem da minha alma

A violenta paixão com que· deliro.

Uma sombra, teimosa em perseguir-me, Vontade, e 'pensamentos me arrebata, .

A sombra Ae Sinval ••. Eis o

:

àttenta.do .• '/ 0 ' ~

Oh céo I Tu :ouves' isto~ e não

troveja~I· ,\ 7 JJ.-,

(1)

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(2}

Apontando para:· o altar. ··

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DRA~IAS 'fRADTTZIDOS

57

Eis o objecto em que occup'o a noute, e o dia, ·Eis o Deus, a quem &irvo, a quem adoro,

A quem consagre.:> incensos nos altares!

Por cinzas sou rebelde ásleis·do Eterno.:.

Q ue diO"o miseravel! Ah Deus vingador, perdôa.

Toda a minha razão me desampara. (1)

Ah mãe ! Elle morreu? Que negra sina

Nosso amor

Da morte do infeliz !

meu destino

.•

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I

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Perdôa

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1 os:r

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! A graça tua . ; . L

J

Eu fui a causa

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CONDESSA (2)

Oh minha filha I

·

•·

·

Quanto a meus proprios olhos sou culpada! 0

Tua mãe

Eu cavei esse abysmo ·em que tu jazes! Eu te entranhei no peito esses tormentos,

Esse fogo sacrílego, os remorsos,

A funesta paixão, que te consome I (3)

Toda a tua virtude, oh filha, exerce

Co'a criminosa mãe. Se acaso ainda ,ol

Fosse vivo Si~val.'

tua mãe foi teu verdugo!

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(1) Transportada.

(2) Chorando e apertando Euphemia nos bra os~I) ·

(3) Tendo-a chegada ao peito.

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58

,ODRAS DE BOCAGE

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1. • . ~i~y.al!

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EUPHEMIA,

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JP

Se fosse vivo ! (1) . Oh quão feliz eu me chamára!

I

I

L

Quão leve por ta! preço 1p.e se;ria

Este j'qgq perp~tuo, que m

e

opprime} ,

i)

1

m ·

CONDESSA 11 ,.

'r

!}

.o

n

Poderei suavisar tua amarg~r!l, . ·

1,

1

Minha filha! Ouve

todos os meus crimes.

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'

.

. EUPHEMIA

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Ser~ viv~·Sim;al! (2)

!

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11.

I

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CONDESSA

 
 

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(l.

J

. 11 Eu desejava

. m qv.e ,aos altares

Apressar o om t

Fosses ligada ·pelo sacro,~pto,

E

Para

Te fe:tiu, oo aterrou; fingi a morte

do

mundo, e ~e ,mim te .separasses. sempre; um rumor sub!to 1 ,~ f~!~o

(1) ~mtom rapid~.

(2) Arrebatada.

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"'

D~AJIIAS TRADUZIDOS

59

EUPHEJIHA

Sinval, Sinval é vivo!

1J

I

CONDESs'A

(' .,

o:o!I

Assim o ermo,

' l .1:

r,

(

'J9lJI

EUPHEMIA

r

'

Ah que o meu coração não é bastante

A

Céo! Nos meus dias teu rigor se farte Quanto me consolaes ! Sinval respira !•.

Deus! Seja elle .feliz

Mas .•• amava-me tanto, ,e a~andono!l-ID;e?:

os

vive!

. vive 1

.

mo17a eu mil vezes! (1)

·~dn

'(,

·• ,t)

CONDESSA

-''-

Inda te não

.

qne vou dizer-te I

.m

rr

EUPHEliiA

T"'

Deixou de amar-me? Se assim é, calatl-m'<J

Por quem ~ois. (2)

o·~

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J , 1 onL

,') -JTim

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ui"" ~r

(1) Depois de estar calada um pouco. (2) Rapidamente. ·

~

60 OBRAS DE BOCAGE

CONDESSA

Não, Sinval te idolatrava. É forçoso dizer-te o que eu quizera Occultar a mim mesma ! O que estimula Meus remorsos !

EUPHEMIA

\.1.

•·

Cf>NDESSA

(

J~

I

Que noyo golpe Te vae dar tua rp.ãe! Si:1val, que morto Julgaste, acreditou por minha industria Que morrêras tambem.

A

L

"P

EUPHEMIA

l'( '11

{

'

'u

f,J

Deus! Que mais queres ?

-'

(

l

,

CONDESSA

I

.'1

1'

De amor, e de affiicção desesp-erado, Fugiu, sumiu-se, e d'elle se não sabe

(l'l!f

Í

i<)(J l(

H

(

'

('.

DRAliAS TRADUZIDOS

61

EUPHEl\UA

Sinval·é morto, é morto. Eu exp'rimento Quanto custa perder o que mais se ama. Nem ouso duvidar, é morto, é morto .••

Mas porque hei de nutrir tão negra idéa? Sinval, Sinval, talvez, menos sensível Ao annuncio cruel da minha mort.e Do que eu fui ao rumor fatal da sua,

Resistir

Capaz de amar como eu quem ha no mundo? Que disse! Póde ser que já captivo ' ·

De outro

Que horror! Oh céos! Faltava-me o ciume!

E em zelos:t paixão tambem me abrazo I Aonde me arrebata um amor cego, Que tudo sacrifica a seus furores!

deplóro o meu mal n'este momento

Ah! Nada, senão tu, Sinval, me importe; Vin•, e morra Constança. Em te esqueceres .Qe mim não és ditoso? Eu quereria As minhas afRicções associar-te! Ai de mim! Que, indecisa em meus desejos, ·

Sem valor, sem razão, sem alvedrio, • Sempre mais infeliz, mais criminosa, Não di~tingo, não sei se antes quizera . Morto a Sinval, que vivo, e de mim longe • Não, uão pos~o domar a atroz suspeita.

e consolar-sé.

nos braços de uma esposa

62

OBRAS DE BOCAGE

Vêde minha pab:ão, minha loucura; Imaginastes dar-me algum co:pforto,

E augmentastes; senhora, o meu martyrio.

Todos os fógos, os venenos todos Me abrazam; me devoram, me consomem;

Phrenética mo aparto dos altàres, Onde jurei soffrer meu jugo eterno; Off'reço o peito á setta; 'que o traspassa, Desesperado amor é quem me inspira

Ancêa-me este véo Ultrajo um Deus

'o esposo ultrajo, temé.ndo-lhe o castigo.

I.

SOENA~III

.As mesmas, CECILIA

CECILIA (1)

O

ministro, em quem brilha um zelo santo,

O

orgão do

céo, Theótimo~ o prudente

'chegou? (2)

U) A Eupl1emia. (2) Com ardor.

EUPHEl\IJA

DRAlliAS TRADUZIDOS

CECILIA

 

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,

Brevemente ha.de fallar-vos.

 
 

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EUPHEMJA

 

l

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Ah! Se elle me toruasse'o meu socego l (1) Suspiro pelo vêr, e por ouvil-o, . Por descobrir-lhe esta alrna, por mostrar-Jhe 1\Icus desgostos, ·meus

· .I

il

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il.B•

CECILIA

_f.) .9bl

Dizei antes Delictos, attentados, que mui tarde Costuma Deus punir, mas não perdôa.

EUPHEMIA

Ai l Sempre haveis de armar-lhe a mão piedosa?

.

.

o

CECILIA

"

Eu antes que Theótimo vos- veja '

Preciso de fallar-lhe. Ide, e lembrae-vos De que o céo já se enfadi! de soffrer-vos,

E talvez um momento, um ·só momento

(1) Do mesmo modo.

OBRAS DE BOCAGE

Tenhaes para expiar a horrenda culpa. Quando for tempo mandarei chamar-vos.

EUPHEMIA (1)

Ah minha irmã!

CECILIA (2)

Privae-vos d'esse nome. Minhas irmãs o meu exemplo seguem, E a mão do Omnipotente as àbençôa. Ide. (3)

SCENA IV

CECILIA

Oh Deus vingador! Castiga o crime, Fogo dos céos a victima consuma:

Pedem tua justiça, e tua gloria Que, apezar da clemencia, a dês á morte. Para te conhecerem, vibra, espalha

(1) Em tom mavioso. (2} Com soberba, e indignação. (3) Euphemia, cheia de affiiç.ão, é conduzida por sua mãe, que a leva entre os braços.

DRAMAS TRADUZIDOS

65

.A chamma de teus raios ·sobre a terra, Em logar de saudavel, doce orvalho. Pouco te manife§tas na indulgencia:

)

Reconhece-se um Deus pelos castigos.

Euphemia attráe o .anathema

Deve-se á tua altíssima grandeza Ingenua adoração, pura homenagem, E eu, prostrada ante as aras, a que desces, Submissa ás tuas leis, te sirvo, e temo.

horroroso,

SCENA V

.1

THEÓTI 10, (1) CECILIA

CECILIA ( 2)

Perdoae-me, senhor, se eu interrompo O vosso respeitavel ministerio Chamando-vos aqui, quando os altares.

(1) Tem um ar contemplativo, e traz a cabeça intei- ramente occulta com o habito. (2) Caminhando pm·a Theótimo, e inclinando a cabeça.

5

66

OBRAS DE BOOAGE

THE6TIMO

O primeiro dever é sermos uteis:

Pia mão, de que o proximo careça, Deve pôr o thuribulo de parte. Que me quereis?

'1.

CECILIA

Segundo a vossa fama •••

THE6TIMO

Meus ouvidos não andam costumados

A estylo similhante. Esses obsequios,

Essas adulações são para o mundo,

Que o seu orgulho vão mantém com ellas.

A verdade é quem deve dirigir-nos,

Os meios de enganar não nos pertencem. Não tenho mais do que um desejo esteril De valer aos mortaes, já vol-o disse. Que motivo a chamar-me vos obriga?

CECILIA

Minha alma, submettida a. seus deveres, Fiel, temente a Deus, não é que invoca O vosso auxilio: quem precisa d'elle

DRAMAS TRADUZIDOS

67

É uma nossa irmã, que, presa ao mundo, Vergonhosa paixão conter não póde,'

leva um feio ~escandalo aos altares,

Que

Que espalha o máo exemplo, a rebeldia

De um coração, indocil a seus'votos,

Que arde n'um fogo, que apagar. devêra, Obedecendo aos céos, emfim. • . que morre

De um louco amor

THE6TIMO (1)

É digna de piedade!

CECILIA

•Desejára, senhor, que vós com ella U sasseis do terror, e do ameaço ' Em nome de um Deus justo, e de vingança; Çne oppozesseis a cholera divina

A

sua paixão cega, e lhe mostrasseis

O

raio accezo já, o inferno aberto

THE6TIMO

Antes lhe mostrarei, para attraíl-a, Um Deus digno de amor, que nos perdôa.

(1) Com um suspiro.

*

68

OBRAS DE BOCAGE

CECILIA

E julgaes esse methodo seguro?

THEÓTIMO (1)

Confiae-vos n'uma alma •

Ha de, co'a. protecÇão do Omnipotente, Co'a luz do céo reconduzir "áo jugo

Vossa irmã desgraçada, e lamentavel. Ena espero.

que, sensível,

SCENA VI

THEÓTIMO

Que orgulho! Que dureza l Na sua devoção bravia, amarga Elia imagina um Deus, que rigoroso Lhe troveja na boca ! E não veremos Jámais um doce vinculo enlaçar-te, Divina rdigião, co'a natureza? Sempre em nome do Eterno hão de haver odios? •.• Oh n1iseros humanos!

(1) Com alguma pausa.

DRAMAS TRADUZIDOS

69

SCENA VII

THEÓTIMO, SOPHIA

THE6TIMO

O céo mesmo Se dispõe, minha irmã, para escutar-vos, Para dar lenitivo á!l vossas penas.

SOPHIA (1)

Sei a minha fraqueza, ou o meu nada; Dos celestes soccorros necessito:

O humano coração sempre anda em guerra. Conheço muito bem, que estamos sempre Em risco de caír pela cegueira '

Com que

Mas a desgraça de uma irmã' que chóro, É o objecto, que a vós, senhor me guia:

Ella requer, gemendo, o vosso auxilio, Ah I Vêde se abrandaes seu duro estado:

Contínua languidez lhe gasta a vida. Vmho implorar-vos a favor da triste, ' Digna de amar um Deus, que vê seu pranto. Um coração, sensível por extremo,

a nossos. sentidos nos prendemos:

(1) Com modestia.

70

OBRAS DE BOCAGE

Deu motivo a seu mal, aps seu desastres. Vós é que podereis esclarecer-lhe

O espirito enlutado, e consolal·a,

;Erguendo-lhe a vontade, o pensamento

Áquelle,

Ao Deus, que satisfaz nossos desejos. Dignae-vos por quem sois de afiançar-lhe

A clemencia dos céos, e perdoae-me

Se temeraria toco a luz sagrada· Com que vindes piedoso illuminar-nos:

Mas

Facilmente ao terror

que merece ~s nossos cultos,

eu de minha irm~.conheço o genio;

i'

THEÓTIMO

Que se esperance No Deus, a cujo am r tão docemente.

Chamaes os corações. Eis a lingu~~.gem Da pura religião. f.Juanto borrorisa

O impio zelo de espírito intractavel,

Que, não podendo arp.ar um Deus benigno, Sempre contra os mortaes o finge armado!

DM,!IL S Tl\ADU:l;I

OS

SCENA VIII

EUPHEMIA, (1) THEÓTIMO, SOPHIA

SOPHIA (2)

Eil-a. (3) Não, não temaes, querida amiga, Vinde, o céó condoído vos .protege, Sua graça efficaz,por vós espera: · Abri-lhe o coração. Já possuímos ! Este consolador sancto, e piedoso; (4) m

Eu vos deixo com elle

Exerce o teu poder: n'este triumpho Interessa, meu Det;~s, a gloria tua.

(5) Oh Páe supremo I

·'

u.

.(

r

I

'

.•

(I

(1) Traz o vé~ caído no rosto, e vem and~ndoçom te- • (2) A Theótimo, mostrando-lhe Euphemia. (3) Caminha para Euphemia, dá-lhe a mão, e movem

mor.

ambas

alguns passos pelo theatro.

l

)

(4) Conduzindo-a para Theótimo.

l

 

·

(5)

Retirando--se. r

!

l

72.

OBRAS DE BOCAGE

SCENA IX

THEÓT.IMO, EUPHF}MIA (1)

THEÓTIMO

(

Chegae, prezada irmã. Que vos sossóbra? Meu gosto; meu dever é confortar-vos, \· Ter parte em vosso mal, dar-lhe remedio. As humanas paixões quem não conhece ? Ah ! Quem é tão feliz, que não sentisse J ámais as amargósas consequencias .

D'esses

prazer 1 es vãos, que nos illudem?

r

'1

uJ

JJ

 

• EUPHEMIA (2)

Ai!

THEÓTIMO

valor, minha irmã, communicae-me Vossas tribulações, fallae sem susto. Mais de uma esposa do Senhor, mais .de uma, Como vós suspiraes tem suspirado.

Está comvosco uma alma. c9mpassiva; '

Sentae~vos.'

tT

1

uf

~

(.

lf

(1) Euphemia mostra-se perturbada, está ainda long&" de Theótimo, e tem sempre o véo caído. (2) Dando alguns passos, e levando o len9o aos olhos.

t

DRAMAS TRADUZIDOS

73

EUPHEMIA (1)

Ai de mim ! Não sei por onde Tendes á vista

Eterno,

Hei de

, Uma infeliz mulher, que ora se humilha "~"' A' face dos altares, ora os foge; Que oppõe laço profano ao sacro jugo; l l Que anda sempre comsigo em viva guerra, ~ Obrigada, attraída, já da cul2a, J l do arrependimento;· em vão luctanuo Co'uma paixão viole~ta; o véo no rosto

No peito.•. o amor

Uma esposa sacrilega do

'

(2)

THEÓTIMO (3)

)

J

'-

u

O amor. • • é necessario (4)

Vencêl-o .•.

EUPHEMIA

Porém como?

q

I

H

(1) Pára um instante, e senta-se depois; The6tjmo faz

o mesmo. As

Euphemia dá um grande 11uspiro, e fica alguns momentos calada.

suas cadeiras estão em alguma distancia.

(2)

Diz estas palavras em. voz

Perturbado.

baixa.

t

1

(3)

·

\

(4) Socega-se.

 

ç:

74

· OBRAS DE BOCA~E

THEÓTIMO ,'T

É neceSBario (1) Um divorcio total co'a natureza;.,

,

0

Os nossos corações a Deus competem. Das sagradas verdades p;rescindam s

Um momento, valf:!ndo

Do que a luz da razão nos apresenta. Examinemos, pois, as conseque:q.c;ias . Da paixão, que produz tantas desgraçàs, Do amor, que nos cohvida ao precipic~o, Cubrindo-o de mil flores: ah ! Que esperam Os tristes corações a amor eptr;egues? O interesse, o perjurio, ou o capricho

Nos privam do que amamos

Ardemos em reciproca ternura, '

Eis a

nos

sómente

'

e se acaso (2)

(que dôr !) a cruel morte

. Nos rouba para sempre aquelle objecto, Que os nossos pensamentos encantava;

Ellu surda

Irmã, sómente a Deus amar devemos. (3)

insensível a gemidos

EUPHEMIA

u ,Elle•me Ütlla pela vo.ss·a boca:

Mas não podeis

., saber do amor qual seja

{f) Continuando.:

(2) Embaraça-se-lhe aqui a voz.

(3) Depois de uma grande pausa, e S,ITebatadamente.

ohJ

DRAMAS TRADUZIDOS

75

THEÓTIMO (1)

)

'r

,)

r

Sei

No santo domicilio da virtude Conservaes esse affEilcto perigoso ?

A amisade vos ouve: abri com ella

O vosso coração.

(2) fallae, minha irmã: E ha quanto tempo (3) ·

r,J

EUPHE,l\1IA (4)

Minha alma anciosa Alimenta este fogo ha dez -annos.

THEÓTIMO (5)

Ha dez annos !

• ,

f()

EUPHEMIA

Meu amor se augmenta Com meus dias. Em vão para vencei-o Uno todas as armas; em vão clamo Pelo favor do Altissimo; em vão régo

(1) Vivamente

(2) Torna em ai.

(3) Mudando de tom. (4) Com voz languida. (5) Com um suspiro.

.

f!

r

.J

t,

76

OBRAS DE BOCAGE'

Com lagrimas Beu te~plo, s~usaltares,

E o leito funeral, d'onde commigo

Se ergue o crime, e o remorso: ao snnctuario, Ao proprio sauctuario me acompanha Este amor implacavell Mesmo agora, Agora a vossos pés mais do que nnnca Me desatina, e sinto repassado Todo o meu coração d'este veneno. Pouco mais de tres lustros contaria (Ai de mim I) quando amei, e fni amada;

E quem, quem me off'recia a mão de esposo?

Quem jurava a meus pés amor tão puro,

Tão fiel, tão

O melhor dos mortaes: n'elle brilhavam

Todos os dons do céo, da natureza:

Virtuoso, gentil, amavel, digno

,

Até de adoração

O mais perfeito,

.•

THE6TIMO (1)

· Ah l Moderae-vo!'!,

Minha irmã; que dizeis! Escandecido

O

vosso

l'

,.

EUPHE!IHA.

Sempre está cheio D'esta imagem fatal. Eu desejára·

.J· .

(J

(1) Vivamente.

.

)

DRAMAS TRADUZIDOS

77

Oh Deus eterno l A meu pezar te ultrajo .•• As tochas do hymenêo já se accendiam, Formavam-se no altar os laços puros, Que haviam de ligar-nos para sempre:

Quanqo mão

Subito os despedaça, e com violencia Levando ao summo gráo minha agonia, Nos divide, e n'um claustro me sepulta. Saio, emfim, d'este carcere, mas tórno Pouco depois a elle, e para nunca, Nunca jámais apparecer no mundo, Para avivar na solidão o incendio D'um infeliz amor desesperado, Para morrer tragada, e consumida De negros, melancholicos furores. Tinham-me dito (oh céos !) que o dôce objecto ·

De meus ternqs suspiros era Elle vive, elle gosa a luz do dia, A luz, que brevemente ha de faltar-me. Devia esta noticia dar-me allivio, minha dôr não tem remedio,

Não tem

que venero,

• ·posso morrer, porém vencer-me,

Desterrar da minha alma estas memorias,

Effeitos de indomavel sympathia, ' '

Detestar o meu crime .•. ah! Não, 'Dão posso

Amo cada vez mais. (1)

(1) Chorando, e com a cabeça inclinada sobre as mãos,

que tem juntas.

-

78

OBRAS DE BOCAGE

THEÓTIMO

Oh desgraçada! Que piedad-e me inspira a vossa angustia! Ah! Devo-a lamentar. Se vós soubesseis

Perturbado eu tambem

Dentro em meu coração cáe esse pranto.

Sim, eu choro comvosco: á minha custa

Aprendi a carpir essas desgraças •

Triste lembrança, ainda me persegues !

Ia perdendo o acordo, irmã

Suster a compaixão, que vos desculpa.

A voz do meu sagrado ministerio

Com lastima vos mostra o precipício

dentro em minha alma,

E eu devo

A

que proxima estaes. Arrancae d'alma

O

perQicioso amor, cujos transportes

(Ainda os mais suaves) são furores.

É crime muitas vezes, é fraqueza

Quasi sempre, e é em vós um at.tentado Contra o céo. Minha irmã, já vol-o disse:

Deus só deve attraír nossas vontades, Reinar, viver em nós, desvanecer-nos Estas çhimfras, e illusões do mundo:

Em Deus, sómente em Deus, é que se funda

O

puro amor, e a sã felicidade

E

vós, vós sua esposa, á face d'elle

Perjura conservaes profanos laços!

DRAMAS TRADUZIDOS

79

O

sacrario, onde jaz, onde re":pousa, (1)

E

este claustro, esse véo, tudo, emfim tudo,

Como que quer fallàr para accusar-vos; Tudo a vossa ignomínia, e vosso pranto Conduz ao tribunal de um Deus zeloso:

Elle -contas VOS pede/ ergue a balança, · 1 I

Péza os favores seus, vossas fraquezas, Desatinos, traições: ah ! Que resposta Lhe darei!?

.

EUPHEMIA (2)

Espe~ae, santo ministro. Que me cumpre fazer para applacal-o? Dizei, dizei, gue eu me resigno a tudo.

THEÓTIMO

Esquecer esse objecto •.• (3)

EUPHEMIA

Ah! esque,cêl-ç!

(1) Aponta para o altar. (2) Perturbada. (3) Euternecido.

80

OBRAS DE BOCAGE

.

THE6TIMO •

Consumir o ~inimo vestígio De uma imagem tão cara, e tão. noeiva Ao vosso coração; n'uma palavra, Remover, desterrar tudo o que póde Nutrir essa paixão peccaminosa, Fazer-vos mais difficil o triumpho.

EUPHEMIA

Do mundo, e dos sentidos ~ffastada, Ao pé do meu sepulchro, em ais desfeita,

Sem offe;nd~r o céo guardar não

De um amor infeliz os teste unhos ?

posso

TIJE6TIMO (1)

A mínima lembrança é um delicto.

EUPHEMIA (2)

Pois não quero enganar ao Deus, que me ouve.

Sim, cruel~

arrancae-me o coração. (3)

(1) Em tom compaasivo. (2) Com fervor, e intrepidez. (3) Leva a mão ao peito.

·'

DRAMAS TRADUZIDOS

81

Eis est~smonumentos f: . da mais viva, 1 Da mais doce ternura, eia ,estas cartas, (1) Ainda humedecidas de meu pranto,

n 1 .' 1 '

'

0

,,_

Guardadas atégora

.

:

.

.no· meu peito, .

E unico allivio de um amor funesto

É preciso (ái de mim!) q~~ eu p~rcatl!-do,

É

rreciso· apurar' o 'meu tormento~ (2)

ih '

'

I

Tomae-as, mas debalde as sacrifico, Que no meu coração' as trago' escriptas .••

Ah! Morrerei de as dar .•.

A minha morte, oh céo, ha àe ·ahrãndar·to) t

Lêde, lêde, e julgae se amar devia .•. (3)

Não respondeis!

Ai ! Tem no rosto a pallidez da morte !• Deus, castigal-o-has tu por apiedar-se Das minhas affiicções? E' necessario (5)

mas não importa:

Fallae~ senhor

minha alma

(4)

,

~

eu morro. (7)

J•

.

·-: '

.•

Soccorrel-o

(6) Sinval! Não posso

.

J

nm

,'I

IÍq

J,

(1} Tíra do peito um maço de cartas. (2) Dando-lhe as cartús.

•I

IT

n.

{3) .Em quante clla diz e~~es nltimos ver~oJ, Théótimo olha para as cartas, e desma1a sobre a cadeua. (4) Levanta o véo.

. (6) 'rheótimo tem agora a cabeç.a intr.irAmõnte fóra <lo habito.

(5} Corre para elle.

-~

~

(o:.)

t

(7) Vai

_

tambem cair <le~maiada sohre a c:tdeira. ,c.

6

)

82

_OBRAS DE BOCAGE rr

• THE6Tili!O ( 1)

(

Tórno a ver o meu bem l Qonstança é viva !

Eu estou a seus pés I

Se escandalise o céo: meu juramento, Minha pr,isão, meus votos se quebraram.

Oh santa religião l

~~l::)ora, embora (2)

não te attendo•

. EUPHEMIA (3)

Sinval

,

t

.

Es tu !

(4)

) THE6TIMO ( 5)

'-'(

1

.Sim, minha amada, Sim, sou eu que te adoro, eu, que ha dez annos, Coqsumido de amor, e do tristeza, Não deixei de carpir-te um só momento; Sou eu, sou eu, meu bem, que ao menos quero A teus pés expirar.

(1) Tornando a si pouco a pouco, abre emfim os olhos, volta-oa paru Euphemia, .e corre arrebatadamente a lan- çar-se a seus pés, pegando-lhe na mão, que banha de

lagrimas. f 2) Com furor. 3) Recobrando os sentidos.

:

4) Elia recáe no mesmo desfnllecimento.

(5) Ainda a seus pés.

DR~\MAS TRADUZIDOS

83

EUPHEMIA (1)

I

"

Ai triste! Aonde

Nos reúne o destino ! Bem podermos

Dispôr de

Jtforreremos juntos.

li

THE6TIMO

Não, tu não morrerás, não, vive

Para v~·-me adorar tuas virtudes,

Teus encantos

nve

EUPHEMIA

Que dizes, desgraçado? Que insania ! Treme, e vê quem nos separa.

THE6Tilh0 (2)

Tornaremos a unir-nos, tornaremo~. (3) Sem me esquecer de ti, fui captivar-me. Triste, e falsa noticia acreditando, Sim proferi no altar um voto acerbo; Porém o meu primeiro juramento,

.

\

(1) Olhando em roda. (2) Erguendo-se arrebatadamente. (3) Em tom accelerado.

*

84

oBRAS DF. BOCAGE

Dos juramentos m~us o mais sagrado

Foi adorar-te sempre

e hei de cumpril-o.

EUPHEMIA (l)

Amarmo-nos! ardermos n'um profano, Abominoso amor, que os céos affronta! Que intentas?

THEÓTHIO (2)

Inda ser mais cri~i~oso; Romper todos os laços, que me opprimem; Remir um coração, que te pertence; Excitar-te a sair de um férreo jugo; A deixar n'este carcere penoso Gemer tuas irmãs, essas escravas; Arrancar-te d'aqui, cruzur os mares; Correr, se fôr preciso, ao fim do mundo; Buscar algum remoto, e!'curo sitio, Um rochedo escarpado, ou ~rma gmta, Onde,· Jesopprimindo os meus desejos, Contente tj,e te amar, e todo entregue Ao terno, ao deleitoso sentimento, Que enfeitiça a minha alma, eu possa, eu possa

(1) Erguendo-se. (2) Com todo o fnror da paixrio.

DRAMAS TRADUZIDOS

85

Dar-te, á fa9e dos céos, a mão de esposo. (1) Sim, apropria verdade é que ha de unir-nos:

O suave hymenêo foi a primeira

Precisão, que sentiu a N&tureza.· Ella nos prestará seus beneficias,

E para conservarmos nossos dias

Não nos ha de, meu bem, ser necessario Solicitar a languida piedade; Soberbos corações em paz deixemos Gosar de uma riqueza insultadora. Viviremos, Constança, viviremos Isemptos da baixeza, e da penuria. Amo; espera de mim todo o possível. Nenhum estado é vil para quem pensa:

A villeza consiste só no crime.

}linhas

minhas lagrimas o seio

Da terra abrandarão, que, a ti propici!\, Ha de corresponder aos meus suore!'.

O

nosso protector, o Eterno, o justo,

O

amigo, o páe de todos, as primicias

Terá dos nossos simplices trabalhos.

Cada vez mais fieis, mais fervorosos, Mais felices, mais ternos, louvaremos , [ Um Numen bemfeitor. Os nossos filhos Hão de este puro obsequio repetir-lhe:

A amai-o como páe lhe ensina~emos.

(1} Com vivacidade.

86

OBRAS DE BOCAGE

Confiemo-nos, pois, no sacros~ncto Senhor dos corações, senhor de tudo, Que alimentou sem duvida até'gora Um iunoceute a~or. Antes que o mundo Sentisse a conjugal necessid:;tde :Minha alma por destino era tua. Oh Deus! Ouso attestar tua grandeza (1)

Sobre este

Eis a esposa a quem amo, a quem me entregam,

1\fe ligam para sempre o céo, e a honra, Vem, (3) segue-me.

mesmo altar (2). ,~is,·eu o juro,

.

r

Não, quem falla é

J,;l

EUPHEMIA (4)

I

I

É Theôtimo quem falia?

l

t,

THEÓTUiO

11

;

o a,mor furioso.

1

~UfHE IA

Que roê propõe!!?

'

'-'-

lf

I

(1) Depois de estar calado um pouco. (2) Põe uma das mãos sobre o altar, e com a outra péga na de Euphemia. (3) Para Euphemia. (4) Parando.

DRAMAS TRADUZIDOS

.THE6TIMO

o bem, e ~gosto de ambos. '

;

i)

l

ú

HUPHEMIA

(

I

"

)

(\

Dize a ignominia. Ah! Eu, que desespero, · ' ' Que deliro, que morro de ternura,··· IJl' ' Eu é que hei de salvar tua virtude De uma indigna fraqueza; desvi:1r-te . , De horrivel precipício, a que caminhas, 1 •

E recordar-te as leis, as leis

Que infringes? Sáe d'aqui. (1)

sagraaas,.

.•du.

~

v

THE6TIMO (2)

(.~) l1;~i:

,T

Ouve-me, escuta •

EUPHEMIA''

p

Âh! Vae-te, não te attendo. (3)

,•)

THEÓTIMO ( 4)

Ü

Has de uttenàer-me

(1) Dá alguns passos pà:da~siJ'retirar.

(2)

Seguindo-a.'

"

"

(3) Desviando-se.

·'

{4) Seguindo-a.

 

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·'. ,r,n (t)

.r ~)

11'

88

OBRAS DE BOCAGE

EUPHEMI,A.

Vae, parte, foge •

Voto, escripto no céo, queres que abj